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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MATEM O MENSAGEIRO / Tami Hoag
MATEM O MENSAGEIRO / Tami Hoag

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MATEM O MENSAGEIRO

 

Trânsito de Los Angeles.

Hora de ponta.

Hora de ponta há mais de quatro horas. Todos os habitantes da cidade a quererem chegar a casa antes que o céu rebentasse como uma bexiga cheia e a chuva desabasse. A cidade sentia a pressão dum céu plúmbeo desde a manhã, e as gargantas de cimento por entre os arranha-céus da baixa mal deixavam passar uma agoirenta luz crepuscular. O ar pesado e cheio de expectativa.

Pernas como pistões. Dedos a apertar os punhos do guiador. Pontas dos dedos dormentes. Olhos postos no intervalo entre um Jaguar e um camião da FedEx. Quadricípites a arder. Barrigas das pernas como pedras. Sabor de escape. Olhos secos e a arder atrás duns óculos de natação. Um saco cheio de projectos metidos em cilindros de cartão pendurado às costas.

O emissor-receptor preso à coxa como um revólver soltava ruídos estáticos e a voz rouca de Eta Fitzgerald, a expedidora. Não sabia o nome verdadeiro dela. Chamavam-lhe Eta porque era o que lhe ouviam todo o dia, todos os dias: ETA? ETA dezasseis? Sede para Jotacê. ETA? Onde é que estás, querido?

Tinha três minutos para chegar ao escritório do empreiteiro no décimo sétimo andar dum prédio ainda a uns quarteirões de distância. E o porteiro era um idiota. Fechava a porta às seis em ponto, sem compreensão por alguém que quisesse entrar. Era um tipo capaz de voltar as costas à própria mãe, se tivesse uma, mas Jotacê duvidava. Parecia mais uma coisa nascida da terra. Um cogumelo humano.
Transferir o peso para a direita. Contornar o Jaguar.

Apanhou com o toque da buzina em cheio quando acelerou para deixar uns centímetros entre a roda traseira da bicicleta e o pára-choques dianteiro do carro. Mesmo à sua frente, o semáforo ficara amarelo, mas o camião da FedEx estava a passar o cruzamento. Aproximando-se pela direita, Jotacê estendeu a mão e agarrou-se a ele, deixando-se levar.

Era especialista naquilo. Se o tipo atrás do volante visse e não estivesse pelos ajustes, um estafeta podia transformar-se em insecto esborrachado no pára-brisas num instante. Mas os motoristas daqueles camiões eram geralmente porreiros. Simpáticos. De estafeta para estafeta. Eram todos elos de ligação entre pessoas que se estavam nas tintas para quem eles eram, a não ser que se atrasassem com uma entrega.

O prédio estava à vista. Jotacê olhou para trás, largou o camião e passou para a faixa da direita, ao som doutra buzina. Inclinou-se para subir o passeio diante duma boca de incêndio e atrás dum Cadillac parado num lugar de estacionamento proibido. A porta do lugar ao lado do condutor abriu-se quando a bicicleta ia no ar.

Merda.

Jotacê virou a roda toda para a direita e torceu as ancas enquanto a bicicleta aterrava. A velhota que se apeava do Cadillac deu um grito e caiu para trás, sentando-se de novo no banco. A roda da frente da bicicleta tocou no passeio sem problema.

Jotacê manteve o equilíbrio, qual carraça no lombo dum cão. Tocou no travão com pouco mais do que a sua imaginação, apenas o suficiente para evitar o caos.

Nada de pânico. O pânico mata. Frio como o gelo, J. C. De aço. Concentração. Calma.

Manteve os olhos no alvo. Viu o idiota do segurança aproximar-se da porta, com as chaves na mão.

Merda!

Pânico. Não perante a ameaça de se magoar, mas sim de lhe fecharem a porta na cara. O cliente não queria saber se mandara a encomenda demasiado tarde ou se o estafeta quase fora morto pela porta dum Cadillac. Se o volume não fosse entregue, estava tramado.

Largou a bicicleta no chão a três metros da porta, sabendo que podia ter desaparecido quando saísse do prédio, mas não havia tempo para a trancar. Deu um salto para a porta, tropeçou e caiu que nem uma pedra, com os braços e as pernas a abanar. Os tubos de cartão com os projectos saltaram do saco e rolaram pelo passeio.

Não tinha tempo para ver os estragos nem admitir e catalogar as dores.

Levantou-se a custo, cambaleante, tentando apanhar os tubos, completamente desequilibrado. O anormal do porteiro olhava para ele do outro lado do vidro. Uma cara cinzenta, com a expressão azeda de censura. Fechou a porta à chave e afastou-se.

- Eh! - gritou Jotacê caindo de encontro ao vidro. Eh! Espere aí!

O homem fingiu não ouvir. Filho da mãe. Faltava um minuto para as seis e o tipo só pensava em fazer-se à auto-estrada e desandar para Pomona ou para o vale ou para outro subúrbio nojento onde passava as noites. Não ia ficar ali três minutos a mais para receber uma encomenda. O poder para se afastar era provavelmente o único que alguma vez possuíra em toda a sua miserável vida.

- Parvalhão! - gritou Jotacê. Teve vontade de dar um pontapé na porta mas, com a sua sorte, o raio da coisa partia-se e ainda ia parar à cadeia. Não que não lhe soubesse bem o descanso e três refeições por dia. Na vida de Jotacê Damon, descanso não era opção.

Equilibrando os tubos de cartão num braço, levantou a bicicleta do passeio e voltou a montá-la. A entrada do estacionamento do prédio ficava numa rua lateral. A cancela estava para baixo, mas assim que um carro entrasse conseguiria esgueirar-se. Se houvesse um Deus no céu - do que duvidava, excepto em momentos de grande aperto - ainda estava alguém no escritório do empreiteiro no décimo sétimo andar. Com sorte, era Lori, a recepcionista, uma loira gira que costumava dar-lhe uma tablete Snickers da reserva na gaveta inferior da secretária. Não comia desde o pequeno-almoço - um pãozinho de leite da véspera e um chocolate roubado numa loja.

Parou à porta da garagem, suficientemente afastado para não despertar a atenção de alguém que se aproximasse. Aprendera havia muito a passar debaixo do radar, a ser invisível, furtivo e desembaraçado, técnicas de sobrevivência dum rapaz da rua.

O rádio fez um barulho semelhante ao do velcro a separar-se.

- Dezasseis? Estás aí? Sede para Jotacê. Sede para Jotacê. Então, Mascarilha, onde é que estás? Tenho aqui o Caroço a chatear-me a cabeça.

”Caroço” era o termo que Eta usava para se referir a um cliente. O empreiteiro estava ao telefone a gritar com ela.

- Estou no elevador - respondeu Jotacê. Ligou e desligou o rádio duas vezes. - Estou a perder o contacto, sede.

Um Chrysler verde cor de ranho com mau aspecto surgiu da garagem, com o idiota do porteiro ao volante. Jotacê fez-lhe um gesto ordinário e desceu a rampa a toda a velocidade.

O empregado coreano na cabina da entrada mal olhou para ele, e Jotacê esgueirou-se dando a volta ao braço descido. Foi direito ao elevador e saltou da bicicleta no momento em que a porta se abriu, deixando sair um grupo de profissionais bem vestidos, libertos dos seus cubículos por esse dia. Uma mulher com um capacete de cabelo loiro e uma gabardina com estampado de leopardo mirou-o como se ele fosse caca de cão e apertou a carteira de marca de encontro a si, desviando-se ao passar.

- Que tal vai isso? - perguntou Jotacê, forçando um sorriso.

A mulher fungou e afastou-se a toda a pressa. As pessoas aperaltadas dos escritórios tinham tendência para encarar os estafetas de bicicleta com desconfiança. Eram rebeldes, guerreiros de rua, cidadãos de segunda com farpelas estranhas, que invadiam o respeitável e ordenado mundo dos negócios. A maioria dos estafetas que Jotacê conhecia tinha o corpo coberto de tatuagens e mais furos de piercings do que um passador. Eram cartazes ambulantes duma vida marginal, exsudando individualismo por todos os poros.

Jotacê não era assim. Usava o que arranjava por pouco ou nada em organizações de caridade - calções largos e camisolas com as mangas cortadas, por cima de calções de ciclista e outras camisolas de mangas compridas. O cabelo espetado saía pelas aberturas do capacete e os óculos de natação dava-lhe um aspecto de extraterrestre.

Puxou os óculos para baixo e esfregou os olhos enquanto impelia a bicicleta para o elevador e carregava no dezassete. Sentiu o próprio cheiro: suor velho e fumo de escapes. Entregara vinte e três encomendas nesse dia e a imundície da cidade agarrara-se a ele como uma película. Esfolara o joelho no passeio lá fora, e tinha sangue a escorrer pela canela nua e a ensopar o canhão da meia cinzenta enrolada no tornozelo.

Quando finalmente conseguisse chegar a casa e tomar duche, o dia sair-lhe-ia de cima como uma camada de lama, e voltaria a ser um rapaz branco e loiro. Passaria um bocado com o irmãozito Tyler e depois ia agarrar-se aos livros até adormecer. Logo a seguir seriam cinco e meia da manhã e começaria outro dia com ele a deitar pazadas de gelo nos recipientes da peixaria, por baixo da casa deles em Chinatown.

A minha vida é uma trampa.

Só reconhecia o facto de vez em quando. De que valia matutar sobre o assunto? Não fazia tenções de ficar onde estava no esquema geral das coisas. Esse era o pensamento em que devia concentrar-se: mudança, melhoria, futuro.

Tinha um futuro e Tyler também. Isso garantira ele, e assim ia continuar. E o futuro dos dois seria mil vezes melhor do que aquilo que a vida lhes dera até então. Era apenas questão de tempo, concentração e vontade.

O elevador parou com um toque de campainha e a porta abriu-se. O escritório do empreiteiro ficava ao fundo à esquerda, na Suíte 1701. Empreiteiro Especializado. Lori, a recepcionista gira, desaparecera, juntamente com a hipótese da oferta dum Snickers. E o Sr. ”Empreiteiro Especializado”, de pé junto da secretária dela, gritava ao telefone. Calou-se abruptamente e bateu com o auscultador quando Jotacê entrou com os tubos dos projectos.

- Porra, até que enfim! - berrou o ”Especializado”.

- A minha mãe tem oitenta anos e chegava cá mais depressa com o andarilho!

- Desculpe - respondeu Jotacê, estendendo-lhe o papel para assinar, sem qualquer explicação. Sabia por experiência que não valia a pena. O que interessava ao Sr. ”Empreiteiro Especializado” era que já tinha os projectos e podia continuar com os seus negócios.

O ”Especializado” arrancou-lhe o documento da mão, rabiscou uma assinatura e devolveu-lho com maus modos. Sem um agradecimento, uma gorjeta, qualquer coisa. Lori, a recepcionista, talvez reparasse no joelho esfolado e lhe desse um penso rápido, juntamente com alguma compreensão e a tablete Snickers. Para ele, era uma fantasia. Pelo menos na sua imaginária vida social podia levar uma rapariga a jantar num sítio decente.

De volta à rua, comunicou com a sede para confirmar a entrega. Chegaria lá daí a quinze minutos e depois passaria meia hora a conferir os recibos das entregas com a lista de Eta. Às sete e um quarto podia estar no duche.

- Dezasseis à sede. Jotacê à sede. Entrega feita no ”Chato Especializado”.

- Recebido, meu anjo. Ainda vais para o céu. - Não acredito no céu.

- Querido, tens de acreditar num mundo melhor do que este!

- Claro, chama-se Malibu. E eu vou ter lá uma casa quando for rico e famoso.

- E nessa altura pões-me por conta. E eu vou tratar-te bem, borracho.

Eta pesava mais de noventa quilos, usava as unhas roxas com sete centímetros de comprimento e tinha uma cabeça de Medusa cheia de tranças.

- Tens de ir para a bicha atrás da Claire Danes e da Liv Tyler!

- Querido, eu como essas brancas lingrinhas ao pequeno-almoço e palito os dentes com os ossos delas!

- Estás a meter-me medo, Eta.

- Ainda bem. Se não, como é que posso abusar e dizer-te que tens mais uma entrega?

O gemido saiu-lhe das profundezas da alma.

- Nem penses. Esta noite, não. Chama outro.

- Não há outro. Tens de ser tu, Mascarilha, e és o melhor, miúdo.

Deu-lhe as moradas tanto do expedidor como do destinatário e disse-lhe que podia gastar a gorjeta que ia receber num anel de diamantes para ela.

Jotacê ficou sentado na bicicleta debaixo da luz de segurança ao lado da entrada da garagem, a olhar para o papel onde escrevera os nomes e as moradas e a pensar na única coisa de verdadeiro valor que alguém alguma vez lhe dera, um ditado: É melhor ter sorte do que ser bom.

Enquanto dobrava o papel, começou a chover.

O televisor estava ligado na estante atulhada do outro lado da sala, enquanto Lenny Lowell preparava a encomenda para o estafeta. O escritório era um oásis de luz ambarina numa fileira de janelas escuras - um ginásio de ioga, um gabinete dum vidente, um salão de manicura frequentado por prostitutas. Em frente, mas um pouco mais para baixo, a agência de cauções ainda estava aberta e, mais abaixo ainda, uma estação de serviço iluminava a noite com mais luzes do que o pátio duma prisão.

O empregado da estação de serviço já devia estar trancado na sua casota como um vitelo por detrás do plexiglas à prova de bala. Mas nessa noite não ia haver muitos crimes e nem o empregado da estação nem o da agência de cauções tinham com que se preocupar. Estava a chover. Em Los Angeles nem os criminosos trabalham à chuva.

Na televisão, uma morena boazona falava do último crime do século. Continuava a escolha do júri para o julgamento do actor Rob Cole, acusado do brutal homicídio da mulher, Tricia.

Lenny via aquilo com um olho e ouvia a notícia com um ouvido. Só a sua inveja estava totalmente atenta. Cole contratara Martin Gorman, cuja lista de clientes parecia o ”Quem É Quem” dos mais famosos indivíduos problemáticos de Hollywood. A lista dele, Lenny, era uma espécie de ”Quem É Quem” dos bandidos mais conhecidos da polícia de Los Angeles.

Não que não se safasse. O mundo estava cheio de reincidentes com demasiada massa para um defensor oficioso e demasiada estupidez para não se deixar apanhar. Lenny possuía uma florescente clientela. E as suas actividades extracurriculares haviam-lhe proporcionado um Cadillac novo e um bilhete para o Taiti. Apesar disso, sempre ambicionara ocupar o lugar de destaque de advogados como Martin Gorman, Johnnie Cochran e Robert Shapiro. Só nunca conseguira descobrir maneira de lá chegar que não envolvesse talento e ligações sociais.

Uma fotografia de Tricia Crowne-Cole encheu o ecrã do televisor. Não era especialmente atraente, antes gorducha e desenxabida, com o cabelo castanho demasiado comprido para uma mulher da idade dela. (Devia estar com cinquenta e tal - bastante mais velha do que o marido, se ele tinha realmente os quarenta que afirmava.) E usava uns óculos que lhe davam um aspecto de bibliotecária solteirona.

Seria de pensar que a filha dum multimilionário pudesse ter utilizado algum do seu dinheiro para se arranjar melhor. Sobretudo naquela cidade, onde as mulheres tinham os números dos cirurgiões plásticos e dos costureiros favoritos na memória dos telemóveis. Toda aquela massa podia transformar a insignificância numa beleza do caraças.

Era difícil para uma pessoa normal imaginar por que motivo alguém havia de querer matá-la. Dedicara a vida a gerir a fundação filantrópica do pai. Não havia doença que Norman Crowne não tentasse curar, causa social liberal que não apoiasse ou arte extravagante de que não fosse mecenas através de Tricia... a consciência social do pai.

Era impossível para o comum dos mortais imaginar como podia alguém tê-la assassinado tão brutalmente, estrangulando-a e depois esmagando-lhe a cara com uma escultura do tamanho duma bola de bólingue. Mas Lenny não correspondia ao comum dos mortais. Estava farto de ouvir histórias e sabia perfeitamente do que as pessoas eram capazes, do que a inveja e o ódio podia levá-las a fazer.

Corria o boato de que Tricia, farta das infidelidades e contínuos dramas de Cole, se preparava para acabar com a mama do marido. Cole dera cabo da carreira com caprichos, estupidez e fraco talento. O dinheiro desaparecera, primeiro o dele todo e depois bastante do dela, grande parte pelo nariz acima. Muito fora parar a clínicas de reabilitação... como donativos, constava. Rob Cole não possuía carácter suficiente para sair do desastre nem bom senso para manter as suas fraquezas em privado.

Era o cliente feito à medida para Leonard Lowell, lamentava Lenny. Podia ficar famoso safando Rob Cole famoso mesmo entre os que não tinham cadastro. Mas Rob Cole era a dor de cabeça de Martin Gorman. Lenny tinha mais que fazer.

Ouviu a campainha da porta, anunciando a chegada do estafeta. Deu a volta à secretária, com uma olhadela para os folhetos que lhe dera a agente de viagens do primeiro andar, e pensou se conseguiria engatá-la para ir com ele. As Caimãs e uma gaja boazona. O paraíso.

Jotacê tocou segunda vez, apesar de ver Lenny Lowell a sair do escritório para atravessar o cubículo escuro ocupado durante o dia pela secretária dele - uma mulher com uma cabeleira loira que parecia algodão-doce e óculos de olhos de gato, que toda a gente tratava por ”Boneca”. Lenny era como uma personagem dum filme antigo em que todos os homens usavam chapéu e fatos largos e toda a gente fumava cigarros e falava depressa.

Jotacê já estivera ali muitas vezes. Grande parte das entregas eram de e para advogados dum género ou doutro para grande aborrecimento dos estafetas. Os advogados eram conhecidos pela sua forretice e mau feitio. Na anual Festa de Acção de Graças - ”Acção de Desgraças” -, os estafetas tinham sempre uma pinhata em forma do advogado que menos lhes agradara nesse ano. E faziam-na extradura para todos terem oportunidade de lhe bater várias vezes.

Jotacê colaborava na brincadeira e guardava para consigo o facto de tentar alinhar um dia com os detestados. Crescendo como crescera, vira a lei prejudicar muita gente, sobretudo crianças. Queria aproveitar isso a seu favor - dar uma volta à sua vida e, de preferência, à de outros também. Mas frequentava apenas duas cadeiras por semestre, de maneira que a maior parte dos seus colegas estafetas já devia estar morta e bem morta quando se formasse. Se alguma vez fosse imortalizado em forma de pinhata, seriam desconhecidos a desfazê-lo à pancada.

Entretanto, esforçava-se sempre por conversar com os advogados, tentando produzir boa impressão e apanhar qualquer coisa sobre a profissão e as pessoas que a formavam. Estendia a rede, trabalhava para o dia em que pudesse precisar dum emprego, duma recomendação ou dum conselho sobre a carreira.

Lowell abriu a porta com um sorriso pouco natural estampado na cara comprida, de cavalo.

- Nem chuva, nem nevoeiro, nem a escuridão da noite - declamou ele. Estivera a beber. Jotacê sentiu o cheiro do uísque sobreposto ao da água-de-colónia manhosa.

- Olá, Lenny - disse ele, entrando. - Está a chover, pá.

- Por isso é que te pagam uma data de massa, miúdo.

- Pois sim. Estou rico - respondeu Jotacê, resistindo à tentação de se sacudir como um cão molhado. - Só faço isto porque é excitante.

- Tu tens uma vida simples - declarou o advogado, dirigindo-se para o escritório. - E isso é uma grande coisa.

- É mesmo porreira. Podes crer, Lenny, que preferia guiar o teu Cadillac novo do que andar na minha bicicleta. Principalmente esta noite. Detesto a chuva, pá!

Lowell acenou com a sua grande mão ossuda.

- Na! Nunca chove no Sul da Califórnia. A não ser no caso dum desgraçado como o Rob Cole. Aí, apanha-se com uma data de merda na cabeça.

Jotacê deu uma olhadela pelo escritório cheio de livros, documentos e pastas. Junto a um trofeu de bólingue de 1974, havia duas molduras com fotografias em cima da secretária - uma dum cavalo de corrida no círculo dos premiados, com flores em volta do pescoço, e outra duma bela rapariga de cabelo escuro comprido e um sorriso confiante - a filha de Lenny, Abby, estudante de Direito, dissera-lhe ele.

- O Gorman safa-o - disse Jotacê, pegando no trofeu de bólingue para ler a inscrição: SEGUNDO LUGAR POR EQUIPAS, HOLLYWOOD, 1974. Não era difícil imaginar Lenny com uma daquelas camisolas de jogador de bólingue dos anos 50 e o cabelo penteado para trás com brilhantina. - Ele é bom. Melhor do que bom.

- É melhor ter sorte do que ser bom, miúdo - retorquiu Lowell. - O Martin está a apostar contra a casa num jogo combinado. O dinheiro fala, lembra-te disso.

- Lembrava-me, se tivesse algum. - Jotacê colocou o trofeu no seu lugar e coçou um braço por baixo do impermeável de plástico barato. Comprara meia dúzia deles numa loja de preço único porque os vendiam dobrados do tamanho duma carteira de homem e não ocupavam espaço dentro do saco de estafeta. Cada um raramente aguentava mais do que uma tempestade, mas era provável que os seis lhe durassem para aquele Inverno.

- Toma lá pela maçada, miúdo - disse Lowell, estendendo-lhe uma nota de vinte. - E não o gastes todo duma vez.

Jotacê teve vontade de ver a nota contra a luz.

- É verdadeira - acrescentou Lowell com uma risada. - O último especialista em papel que defendi foi para San Quentin em mil novecentos e oitenta e sete. O dinheiro falso agora é todo com a máfía russa e não quero saber disso. São uns estupores que fazem o Hannibal Lecter parecer um tipo maldisposto com um problema alimentar. Ergueu o copo, num brinde a si próprio. - Longa vida. A minha. Queres um gole, miúdo?

- Não, obrigado, eu não bebo.

- És sempre aquele que guia?

- É isso, mais ou menos.

Sempre aquele que fizera de adulto, desde que se lembrava, mas não o disse a Leonard Lowell. Nunca falava da sua vida. Abaixo do radar. Quanto menos as pessoas soubessem, menos curiosas se mostrariam e menos estariam interessadas em ”ajudar”. Uns vinte dólares extras eram a única espécie de ajuda que Jotacê queria.

- Obrigado, Lenny. Agradeço muito.

- Eu sei, miúdo. Diz à tua mãe que criou um bom filho.

- Digo, sim.

Não diria. A mãe morrera seis anos antes. E ele criara-se mais ou menos sozinho, assim como ao irmão.

Lowell entregou-lhe um pequeno envelope almofadado. Depois, pendurou um cigarro nos lábios e procurou o isqueiro no bolso, com o cigarro a abanar para baixo e para cima conforme falava. - Obrigado por me fazeres este recado, miúdo. Tens a morada?

Jotacê repetiu-a de memória.

- Não o deixes molhar-se - recomendou Lowell, soprando fumo para o tecto encardido.

- Vou protegê-lo com a própria vida!

 

Famosas últimas palavras, concluiria Jotacê mais tarde, ao recordar aquela noite. Mas não pensou no assunto ao sair para a chuva e abrir o cadeado da bicicleta.

Em vez de meter o envelope no saco, enfiou-o debaixo da camisola, entalando-a no cós dos calções de ciclista. Quente e seco.

Montou a bicicleta sob o letreiro luminoso de VIDENTE, CONSULTAS e começou a pedalar, com as pernas pesadas, dores nas costas e os dedos gelados a escorregarem nos punhos molhados do guiador. O peso do corpo passava de pedal a pedal, com a bicicleta a inclinar-se dum lado para o outro, até que o movimento para a frente ao adquirir velocidade e as dores se diluíram num torpor familiar.

Uma última entrega.

Teria de deixar a papelada para de manhã. Largava o envelope, ia para casa e metia-se debaixo do duche. Tentou imaginar-se com a água quente a cair-lhe nas costas, a desfazer os nós dos músculos, o vapor a tirar-lhe do nariz o mau cheiro da cidade e a acalmar os pulmões todo o dia a aspirar o fumo dos escapes. Imaginou a sopa de Madame Chen e o colchão com lençóis lavados, tentando ignorar a chuva fria que lhe fustigava a cara e lavava a gordura do pavimento.

Distraído, pedalava em piloto automático. Depois da estação, virar à direita. Dois quarteirões e virar à esquerda. As ruas laterais estavam vazias e escuras. Àquela hora da noite, ninguém se demorava por ali. As lojas - um vidraceiro, uma loja de ar condicionado, um marceneiro, uma oficina de bate-chapa - nos sujos edifícios baixos de tectos planos fechavam todas às seis.

Podia ter pensado que era estranho levar para ali um envelope dum advogado, se o advogado não fosse Lenny Lowell e os seus clientes não passassem de criminosos de meia-tigela.

Foi verificando os números das portas, sempre que a iluminação lho permitia. Era na primeira à direita no quarteirão seguinte. Mas a primeira à direita no quarteirão seguinte não existia; era um espaço vazio.

Jotacê continuou, conferiu o número do prédio seguinte, às escuras, apenas iluminado pela luz de segurança por cima da porta.

A apreensão provocou-lhe um arrepio como se uma unha lhe tocasse na nuca. Voltou para trás e pedalou lentamente pelo lote vazio.

Acenderam-se uns faróis, cegando-o por um segundo.

Que raio de entrega era aquela? Drogas? Suborno? Fosse o que fosse, não era para ele. Só um doido ia meter-se naquilo e pedir uma assinatura num papel.

Começou a ficar irritado. Irritado e assustado. Mandarem-no ir a um lote vazio a horas mortas, porra. Porra para aquilo e porra para Lenny Lowell. Ele que metesse o envelope no cu.

Jotacê ergueu-se nos pedais e começou a acelerar.

O carro pareceu saltar em frente, com o motor a roncar que nem um animal, e veio direito a ele.

Por uma fracção de segundo, Jotacê não foi capaz de se mexer. Mas depois desatou a pedalar com toda a força, os pneus da bicicleta a derrapar na rua molhada. Se fosse a direito, o carro apanhava-o como um gato apanha um rato. Em vez disso, virou para a esquerda, com a roda traseira a deslizar de lado no pavimento escorregadio. Apoiou um pé no chão para não cair e conseguiu aguentar-se. Então, avançou para o carro.

Sentindo o coração na garganta, guinou para a direita, quase demasiado tarde, e enfiou pelo lote vazio, ultrapassando o carro, grande e escuro. Ouviu o ranger de metal no Pavimento. O carro falhara a curva, fazendo um pião. Os Pneus chiaram na rua molhada.

Jotacê dirigiu-se para uma viela o mais depressa que pôde, rezando para que tivesse saída. Na baixa, era como uma ratazana das ruas. Conhecia todos os esgotos, todos os contentores de lixo, todas as rachas nas paredes que podiam dar-lhe um atalho, uma fuga, um abrigo, um esconderijo. Mas ali era vulnerável, um coelho apanhado num descampado. Uma presa.

O carro vinha atrás dele. O predador. Os faróis levantaram-se e baixaram na escuridão quando conseguiu subir o passeio.

Jotacê já tivera carros atrás dele no trânsito - malta nova a armar aos cucos, homens com mau feitio chateados por ele lhes ter cortado o caminho ou apanhado boleia numa subida ou por lhes ter tocado num retrovisor. Imbecis a querer marcar posição, a tentar assustá-lo. Mas nunca fora apanhado numa armadilha nem perseguido.

Se conseguisse chegar ao fim da viela antes de o carro lá entrar e o iluminar com os faróis, as probabilidades de escapar eram de cinquenta por cento, mas o fim da viela parecia estar a quinze quilómetros de distância.

E era demasiado tarde.

Os máximos tocaram-lhe nas costas, quais patas a quererem marcá-lo, e o carro avançou, ruidoso como um comboio, derrubando caixotes de lixo como se fossem pinos de bólingue.

Merda, merda, merda.

A sorte acabava-se-lhe mais depressa do que a viela. Não conseguia fugir ao carro, não podia voltar para trás e escapar. À esquerda, prédios encostados uns aos outros, contentores, caixas e tralha deitada fora: uma corrida de obstáculos. À direita, uma vedação metálica encimada por arame farpado. Atrás dele, o anjo da morte.

Jotacê estendeu o braço e conseguiu tirar o cadeado do saco. O pára-choques atingiu-lhe a roda de trás e quase o fez cair para cima do carro. Encostando-se o mais possível ao gradeamento, tocou nos travões e ficou ligeiramente recuado em relação ao pára-choques do carro.

Então, com a mão esquerda fez girar o pesado cadeado e atingiu o pára-brisas com toda a força. A explosão produziu uma teia de rachas no vidro, mas o carro guinou para cima dele e atirou-o contra o gradeamento. Jotacê voltou-se e agarrou-se com as duas mãos, sentindo a bicicleta ser-lhe arrancada. A biqueira do sapato do pé direito ficou presa ao pedal e ele sentiu o corpo puxado para o lado quando o carro empurrou a bicicleta para a frente.

O gradeamento começou a cortar-lhe os dedos, e a bicicleta continuava a tentar arrastá-lo. Parecia que os braços iam ser arrancados do corpo e o pé do tornozelo, mas de repente ficou livre e caiu.

Aterrou de costas no asfalto rachado, rebolou e conseguiu pôr-se de joelhos, com os olhos no carro que, nesse momento, passava por cima da bicicleta, desfeita para sempre.

O seu único meio de transporte e de subsistência. Destruído.

Estava sozinho e a pé. Ainda por cima, um dos pés sem sapato. Levantou-se, com uma forte dor no tornozelo, e correu em direcção aos prédios antes que o carro conseguisse parar completamente.

A voz do seu instinto de sobrevivência parecia gritar-lhe: Vai, vai, vai!!!

Era jovem, rápido e estava altamente motivado. Fez pontaria a um muro baixo que vedava o espaço entre dois edifícios. Quando lá chegasse, saltava por cima e desaparecia. Com o tornozelo magoado ou não, podia perfeitamente ganhar a corrida ao imbecil que guiava o carro.

Mas não a uma bala.

O tiro atingiu o contentor de lixo a trinta centímetros para a esquerda de Jotacê quase no momento em que ouviu o disparo.

Porra!

Tinha de saltar o muro. Tinha mesmo. De saltar por cima dele e correr como o diabo.

Começou a ouvir ruído de passos atrás de si.

O segundo tiro atingiu outro contentor de lixo, dessa vez à direita.

Ouviu um homem gritar:

- Porra!

Demasiado perto. Demasiado perto.

Jotacê atirou-se ao muro, mas foi puxado para trás pelo saco a tiracolo.

Caiu de encontro ao homem e ambos acabaram por tombar de costas. O corpo do predador amorteceu a queda a Jotacê e ele conseguiu pôr-se de pé, tentando libertar-se. Mas o homem não soltava o saco.

- Meu esturporzinho de merda!

Jotacê atirou um cotovelo para trás e atingiu com força uma parte qualquer da cara do homem. Um osso estalou quase com tanto barulho como o dos tiros e, por uma fracção de segundo, o filho da mãe soltou o saco e desatou a praguejar. Jotacê encolheu-se, puxou o saco e atirou-se de novo ao muro.

O predador agarrou as costas do impermeável com uma mão e atacou-o com a outra. O plástico barato rasgou-se como um lenço de papel molhado e a coronha da arma atingiu o capacete de Jotacê. Viu estrelas brilhantes diante dos olhos, mas continuou a fugir.

Saltar o muro! Saltar o muro!

Bateu contra ele, trepou e passou para o outro lado, caindo de qualquer maneira. No chão, rebolou na lama, por entre lixo e água.

O espaço entre os prédios estava escuro como breu e apenas se via no fim do túnel o fraco brilho dum distante candeeiro de rua. Correu em direcção a ele, sem esperar realmente alcançá-lo, mas antes sentir a pancada e o ardor duma bala a atravessar-lhe as costas, a rasgar-lhe o corpo e a desfazer órgãos e vasos sanguíneos. O mais provável era estar morto antes de cair no chão.

Mas continuou a correr.

E a bala não chegou.

Saiu da viela, virou à esquerda e continuou a correr ao longo dos prédios às escuras, saltando por cima de arbustos e muretes. Ao aterrar do outro lado duma fileira de arbustos, o tornozelo lesionado deu de si e Jotacê caiu, raspando as palmas das mãos no cascalho, ao tentar amortecer a queda. Esperava ouvir passos aproximarem-se a correr e outro tiro na sua direcção, mas isso não aconteceu.

Ofegante e tonto, levantou-se e percorreu com dificuldade a estreita passagem entre dois prédios. Parou e caiu contra a áspera parede de cimento, com vontade de vomitar, mas receoso de que o som atraísse o predador e lhe provocasse a morte.

Dobrado em dois, fez uma concha com as mãos sobre a boca e tentou respirar mais devagar. O coração parecia prestes a estoirar através da caixa torácica e cair no chão, saltando e torcendo-se como um peixe que vai dar à areia. Tinha a cabeça a andar à roda e a sensação de que o cérebro girava numa retrete, pronto a ser chupado pelo esgoto.

Ai, meu Deus. Ai, meu Deus.

O Deus em que ele não acreditava.

Alguém está a tentar matar-me.

Jesus Cristo.

Tremia violentamente, de repente cheio de frio, de repente consciente da chuva invernosa a cair-lhe em cima, a ensopar-lhe a roupa. Tinha uma dor latejante no tornozelo, e outra mais aguda no pé. Tacteou por cima da meia molhada e arrancou um pedaço de vidro. Pôs-se de cócoras e agarrou os joelhos com os braços, encostando-se à parede.

O rádio ainda estava preso à coxa. Podia tentar ligar para a sede, mas Eta já devia estar em casa com os filhos. Se tivesse um telemóvel, podia chamar os chuis. Mas um telefone desses estava para além das suas posses, e não confiava na polícia. Aliás, só mesmo nele próprio é que confiava. Fora sempre assim.

As tonturas foram substituídas por uma fraqueza, rescaldo da sobrecarga de adrenalina. Tentou ouvir qualquer coisa para além da própria respiração e das pulsações que lhe ecoavam nos ouvidos. Procurou escutar sons de perseguição, e depois pensar no que devia fazer.

O melhor era ficar onde estava, fora da vista e com um caminho para fugir, se o seu atacante o descobrisse. A não ser que fossem dois... atacantes, no plural. Um em cada extremo do túnel, e estava tramado.

Pensou em Tyler, que devia interrogar-se sobre o que lhe teria acontecido. Não que estivesse sozinho num sítio qualquer, à espera. Tyler nunca estava sozinho. Um miúdo branco e esperto que vivia em Chinatown e falava fluentemente mandarim dava nas vistas. Tyler era uma novidade, as pessoas gostavam dele, ao mesmo tempo que ficavam intrigadas. Os Chen tratavam-no como uma espécie de menino de oiro que lhes fora enviado para dar sorte.

No entanto, a única verdadeira família que os irmãos Damon possuíam era um ao outro. E esse laço familiar com Tyler era a coisa mais forte que Jotacê alguma vez conhecera. Era para isso que vivia, era essa a motivação por detrás de tudo o que fazia e de todos os seus objectivos.

Tenho de me pirar daqui.

Ouviu passos, mas não percebia donde vinham. Da viela? Da rua? Fez-se o mais pequeno que pôde, uma compacta bola humana encostada à parede do prédio, contando as pancadas do coração enquanto esperava.

Um vulto escuro parou à esquina do lado da rua, com os braços ligeiramente afastados do corpo, parecendo hesitar e olhando para um lado e para o outro. A falta de luz não lhe permitia ver mais do que um vulto, sem cara e sem cor.

Jotacê carregou na barriga com a mão, por cima do envelope que enfiara debaixo da camisola. Em que raio o teria metido Lenny?

O vulto escuro no fim do túnel voltou-se e começou a andar na direcção donde viera.

Jotacê continuou à espera, a contar em silêncio, até decidir que o predador não voltava. Então, foi-se esgueirando ao longo da parede, por cima de lixo, poças de água e vidros partidos. Espreitou, mas um contentor de lixo bloqueava-lhe a visão. Distinguiu apenas um farolim traseiro, a brilhar como um maldoso olho vermelho na escuridão dentro da viela.

A bicicleta estava toda amachucada, caída algures atrás do carro. Jotacê ainda esperava que tivesse conserto, sendo talvez apenas uma roda empenada. Isso conseguia ele arranjar. Conseguia arranjar uma data de estragos. Mas se a estrutura estivesse danificada, então era outra história.

Parecia-lhe ouvir Mojo a dizer-lhe que a bicicleta estava amaldiçoada. Mojo, o alto jamaicano lingrinhas com tranças até ao cu e uns óculos escuros, tipo ceguinho. Mojo teria aí uns trinta anos, um velho entre os estafetas. Um xamã para alguns. Ia ter muito que dizer a respeito daquela bicicleta.

Jotacê herdara-a, por assim dizer. Ou seja, mais ninguém a quis quando ficou vaga de repente dois anos antes. O seu antigo dono, um tipo que se intitulava ”rei” e trabalhava de noite como stripper imitando Elvis, descontrolara-se no trânsito e acabara debaixo do rodado dum camião do lixo. A bicicleta sobrevivera, mas o rei não.

Os estafetas eram uma raça supersticiosa. O ”rei” morrera praticamente no trabalho. Ninguém queria a bicicleta dum tipo, se ele morresse a trabalhar. Estivera nas traseiras da sede durante uma semana, à espera de ser reclamada por algum parente do ”rei”, mas afinal ele não tinha família, ou pelo menos estavam-se todos nas tintas para ele.

Jotacê não acreditava em superstições. Acreditava que as pessoas faziam a sua própria sorte. O ”rei” enfiara-se debaixo das rodas porque andava a maior parte do tempo cheio de comprimidos e agia sem discernimento. Jotacê acreditava em concentração e energia. Olhara para a bicicleta e vira um forte quadro Cannondale, duas boas rodas e um selim almofadado. Viu-se a encurtar o tempo das entregas, a fazer mais voltas e a ganhar mais dinheiro. Pôs de lado todos os avisos, largou a trampa que usava junto dum posto de venda do LA Times para alguém que quisesse roubá-la, e foi para casa na Cannondale.

O motor do carro acelerou e o farolim desapareceu da vista. O predador ia para casa, acabado um dia estafante de tentar matar pessoas, pensou Jotacê. Os arrepios faziam-no tremer de frio por causa da chuva, mas também de alívio. Dessa vez pensou que ia vomitar, e vomitou mesmo.

Uns faróis iluminaram a rua, de passagem. Era o predador, com o grande carro a roncar. Ao longe soaram sirenes.

Jotacê voltou ao sítio onde jazia a sua montada, com a roda de trás sem conserto possível. Se fosse um cavalo, alguém lhe daria um tiro para acabar com o sofrimento, mas era uma bicicleta, e o quadro continuava intacto. Milagre de Deus, como diria John, o pregador. Nos tempos livres entre as voltas, o pregador parava na esquina da Quarta com a Flower, diante do Hotel Bonaventure, e recitava a Bíblia para todos os que tivessem a pouca sorte de passar por ele.

Jotacê não acreditava em milagres. Tivera sorte. Dupla sorte, já que estava vivo.

Olhou em volta, à procura do saco, mas não o viu. Com certeza levado pelo predador como trofeu ou prémio de consolação. Ou talvez pensasse que cumprira a sua verdadeira missão. Alguém queria fosse o que fosse que estava no raio do envelope de Lenny Lowell, bem preso à barriga de Jotacê pelos calções de ciclista.

O que quer que fosse, ele ia descobrir, e Lenny havia de lhas pagar.

Pegou na bicicleta, inclinou-a, apoiada apenas na roda dianteira, e começou a andar.

 

- Não pises os miolos - avisou Kev Parker.

Kev Parker, quarenta e três anos, detective de segunda, chutado para um dos departamentos menores, para terminar a carreira em desgraça e no esquecimento.

Renee Ruiz, a sua última estagiária, olhou para os sapatos de camurça com padrão de leopardo, com o salto de agulha enfiado num bocado de matéria cinzenta esponjosa esparrinhada a alguma distância do corpo.

- Credo, Parker! Por que razão não me avisaste? guinchou ela.

- Foi o que eu fiz agora mesmo.

- Podia ter dado cabo da porra do sapato!

- Ah, sim? Bom, a porra do teu sapato é o menor dos teus problemas. E, já que estavas escondida atrás duma porta quando distribuíram o bom senso, digo-te mais uma vez: Não uses saltos desses no trabalho. É suposto seres detective e não prostituta.

Ruiz semicerrou os olhos e lançou-lhe uma torrente de palavrões em espanhol. Parker ficou na mesma.

- Aprendeste isso com a tua mãe? - perguntou ele, voltando a atenção para o corpo no chão do escritório.

A estagiária Ruiz afastou-se da sujidade e tentou colocar-se diante de Parker.

- Tens de me tratar com respeito, Parker! - disse ela.

- E trato - respondeu ele, sem uma olhadela sequer na direcção da rapariga. O cadáver era alvo da sua total atenção. Quem quer que tivesse morto o tipo gostava do que fazia. - Quando tu o mereceres - acrescentou.

Outra vez o espanhol.

Parker ocupava-se de estagiários havia quase quatro anos, e aquela estava no primeiro lugar da sua lista de merda. Não tinha problemas com mulheres, nem com hispânicos, mas sim com atitudes, e a de Renee Ruiz não lhe agradava, parecendo sair do seu belo traseiro tipo Jennifer Lopez. Talvez fosse diferente se não usasse uma saia tão apertada. Parker estava a trabalhar com ela havia menos duma semana e já lhe apetecia estrangulá-la e atirar o corpo para os depósitos de alcatrão de La Brea.

- Estás a prestar atenção a isto? - perguntou ele, impaciente. - Para o caso de não teres reparado, temos aqui um homicídio. Está um tipo morto no chão, com a cabeça rebentada que nem uma couve-flor podre. O que devias estar a fazer, em vez de me chateares com os teus sapatos?

Ruiz ficou amuada. Era uma brasa, com um corpo capaz de transformar qualquer homem normal vivo num idiota a babar-se. A boca de lábios carnudos era sensual e ela desenhava-lhe os contornos com um tom mais escuro do que o do batom brilhante que usava. Visual ”mexicano de centro comercial”, como lhe chamava o detective Kray.

Kray, outro membro da Brigada de Homicídios, tinha problemas com as mulheres e com hispânicos, pretos, judeus e qualquer outro grupo étnico que não fosse o dele, um nabo do cu-de-judas da Luisiana, estúpido, racista e pacóvio - que era como Parker descrevia Kray.

- Onde é que está o teu bloco? - perguntou Parker.

- Tens de apontar tudo, absolutamente tudo. Devias ter começado a escrever no momento em que recebeste a chamada. A que horas a recebeste, quem te disse o quê, a que horas enfiaste o cu nessa saia e calçaste esses sapatos ridículos. A que horas chegaste ao local do crime, com quem falaste primeiro, o que viste quando passaste a porta da rua e o que observaste quando entraste nesta sala. A posição do corpo, a localização da arma do crime, a maneira como os miolos se espalharam, a que distância foram parar os pedaços e se o tipo tinha ou não a braguilha aberta. Tudo o que estivesse à vista. Porque, se deixas alguma coisa de fora, garanto-te que um estupor dum advogado de defesa te apanha no tribunal e te faz perguntas exactamente sobre esse pormenor aparentemente insignificante e depois desfaz o trabalho da acusação como quem desmancha uma camisola de malha. As duas piores palavras que eu conheço, miúda, são dúvida razoável.

Parker recusava-se a chamar-lhe ”detective” Ruiz, mesmo quando ela mostrava o distintivo. Não era sua igual, o que fazia questão de lhe recordar todos os dias do período de estágio, de modo subtil e não tão subtil. Não controlava uma data de coisas no seu trabalho, mas pelo menos durante aquela parceria com Ruiz teria a ilusão de a controlar.

- E mede as distâncias - continuou. - Se encontrares um caroço no tapete, quero saber exactamente onde ele estava em relação ao corpo. Escreves a medida certa no teu bloco pessoal e a medida aproximada no que levas para o tribunal. Se tens a medida certa num documento oficial e ela difere um milímetro sequer da dos técnicos, o advogado de defesa nunca mais te larga.

Ruiz começou de novo a refilar.

- Tu é que és o chefe. O caso é teu. Porque não fazes o trabalho chato, Parker?

- E faço - declarou Parker. - Podes ter a certeza de que não confio em ti. Mas tu também o fazes, porque, quando aparecer outra vítima e fores tu a encarregada do caso, pelo menos pode parecer que sabes o que estás a fazer.

Olhou em volta para a sala atulhada de porcarias e de técnicos sabichões. Um dos agentes que haviam respondido à chamada estava especado à porta, a tomar nota de todas as pessoas que entravam no local do crime. O outro - mais velho, pesado e a ficar careca - encontrava-se do outro lado da sala, a mostrar a um dos sabichões qualquer coisa que achava que podia ser uma prova importante. Jimmy Chewalski. Era bom tipo, Jimmy. Falava de mais, mas era bom chui. Toda a gente lhe chamava Jimmy Chew.

Ruiz olhava através dos técnicos e dos agentes fardados, como se não os visse. Desde que passara no exame para detective, considerava-se acima deles. Pouco importava o facto de ela própria ter deixado a farda muito pouco tempo antes: actualmente era uma princesa entre a humilde criadagem. Para Ruiz, Jimmy Chew não era mais do que um zé-ninguém.

Parker aproximou-se do colega, deixando Ruiz resolver como havia de se baixar e procurar provas sem mostrar o rabo a toda a gente.

- Onde é que está o homem do médico legista, Jimmy?

- perguntou, dando a volta ao corpo com cuidado para não pisar os papéis espalhados no chão. A primeira dança era do investigador do Gabinete Médico-Legal e ninguém podia sequer examinar o conteúdo das algibeiras do morto enquanto ele não acabasse o seu trabalho.

- Talvez ainda demore - respondeu Chewalski. E não é homem, é mulher. Está a ajudar num homicídio-suicídio.

- O Nicholson?

- É. Um tipo matou a mulher e dois filhos porque a mulher comprou umas batatas fritas duma marca que não lhe agradou. E depois meteu-se na casa de banho e ferrou um tiro na cabeça. Disseram-me que aquilo estava de tal maneira que os detectives tiveram de levar chapéus de chuva para entrar lá. A maior parte da cara do tipo acabou no tecto. E, como toda a gente sabe, o que vai para cima tem de vir para baixo. Parece que o Kray apanhou com um olho em cheio na cabeça.

Parker soltou uma gargalhada abafada.

- Foi pena ele não ter podido apanhar alguma da matéria cinzenta. Pelo menos ficava com meio cérebro.

Chew sorriu.

- É realmente uma besta - comentou. Parker prestou de novo atenção ao cadáver.

- Então... e qual é a história aqui?

- Bom, Kev, aqui, temos estendido no chão um duvidoso membro da advocacia, que decerto ninguém chorará.

- Ora, Jimmy, lá porque o homem foi um imbecil, sem alma nem moral, não quer dizer que merecesse ser assassinado!

- Com licença, quem é que manda aqui?

Parker virou a cabeça e viu uma morena bonita duns vinte e tal anos, com uma elegante gabardina Burberry, parada a um metro deles, perto da porta das traseiras.

- Sou eu, o detective Parker. E a senhora é?

Sem um sorriso, a rapariga olhou directamente para ele com uns olhos escuros cheios de firmeza; depois, desviou o olhar para o agente Chewalski.

- Abby Lowell. O imbecil sem alma nem moral, o duvidoso membro da advocacia morto aí no chão é o meu pai, Leonard Lowell.

Jimmy Chew emitiu um som rouco como se acabasse de ser empalado. Parker aguentou-se com apenas um leve tremor em volta dos olhos. Tirou o chapéu e estendeu a mão a Abby Lowell. A rapariga olhou para ela como se achasse que ele nunca a lavava depois de ir à casa de banho.

- Os meus pêsames pela sua perda, Miss Lowell disse Parker. - E lamento que tenha ouvido os nossos comentários.

- Mas não o facto de os terem feito? - perguntou ela, erguendo as sobrancelhas perfeitas.

- Não foi pessoal. Com certeza que não se admira por ser essa a opinião dos polícias sobre os advogados de defesa de criminosos.

- Realmente não - disse ela. Tinha uma voz forte e ligeiramente rouca, que devia ser-lhe útil numa sala de tribunal. O olhar arrasador não vacilou. Ainda não vira o corpo do pai. Parker calculou que mantivesse o queixo erguido para evitar vê-lo. - Eu também frequento Direito. Aconselho-os a começarem a pensar em novos termos desagradáveis para me descrever.

- Garanto-lhe que tratamos todos os homicídios da mesma maneira, Miss Lowell. Seja quem for a vítima.

- Isso não inspira muita confiança, detective.

- Tenho uma percentagem de oitenta e seis em casos bem-sucedidos.

- E que aconteceu aos outros catorze por cento?

Ainda estou a trabalhar neles e vou continuar até ficarem resolvidos, por muito tempo que leve. Nem que os criminosos sejam uns velhinhos corcovados e eu tenha de ir atrás deles agarrado a um andarilho - respondeu Parker.

Não há um tipo dos homicídios melhor do que eu nesta cidade.

- Então, porque não estás a trabalhar connosco, Parker?

Bradley Kyle, detective de segunda da Brigada de Roubos e Homicídios, a menina bonita da polícia de Los Angeles, bastião de gajos importantes e imbecis arrogantes. Parker sabia-o de fonte certa, por ter sido um deles, e nunca existira um idiota mais arrogante e convencido no Centro Parker. Nesse tempo, costumava dizer que o edifício tinha esse nome por causa dele. Estava destinado a ser uma estrela. A recordação fervilhava dentro de si actualmente como um problema de azia, ardente e amarga.

Parker olhou para Kyle de sobrolho franzido, vendo-o aproximar-se.

- Que é isto? Uma festa? E como é que o teu nome apareceu na lista de convidados, Bradley? Ou estás só a visitar os pobres?

Kyle não fez caso e começou a observar o local do crime. O companheiro, um tipo grande sem pescoço, cabelo loiro ralo e óculos de aros de tartaruga, não abriu a boca enquanto tomava notas. Parker ficou a olhar para eles um momento, com o estômago a contrair-se. À Brigada de Roubos e Homicídios não aparecia assim num assassínio só por curiosidade. Apenas trabalhavam nos casos importantes, como o de O. J., Robert Blake ou Rob Cole - a celebridade em assassínios du jour.

- Não mijes no meu local do crime, Bradley - declarou Parker, insistindo no nome próprio do outro, por saber que ele o detestava. Preferia que o tratassem por Kyle ou, na pior das hipóteses, Brad. Bradley era nome de decorador de interiores ou cabeleireiro, pouco adequado a um detective duro.

- Quem disse que é teu? - perguntou Kyle, com uma olhadela na sua direcção.

- É a minha zona, a minha chamada, o meu crime declarou Parker, avançando para o detective mais novo.

Kyle ignorou-o e pôs-se de cócoras para observar a aparente arma do crime - um velho trofeu de bólingue, coberto de sangue e decorado com cabelo e um pedaço do couro cabeludo de Lenny Lowell.

Kyle ia a caminho do topo nos Roubos e Homicídios enquanto Parker começava a ser afastado. Actualmente encontrava-se no auge da carreira, e pavoneava-se sempre que podia, o que acontecia com demasiada frequência.

Era um tipo bem-parecido, com uma boa cara para a televisão e um bronzeado tão perfeito que parecia pintado à pistola. Tinha uma constituição atlética, mas a atirar para o magro, o que o aborrecia. Fazia questão de dizer a toda a gente que media um metro e setenta e nove. Parker, com uns milímetros a menos do que um metro e oitenta, calculava que o outro não ultrapassasse um metro e setenta e pouco.

Parker acocorou-se ao lado dele.

- O que estás a fazer aqui? - perguntou. - Queres dizer que vais tomar conta disto? Porquê? Nem chega aos jornais! Os clientes do tipo eram uns miseráveis e uns manhosos.

Kyle fez de conta que não o ouvira e levantou-se. Ruiz estava a centímetros dele. Com aqueles ridículos saltos, olhava-o directamente nos olhos.

- Detective Kyle, sou a detective Renee Ruiz e quero trabalhar consigo - disse ela com voz de chamada erótica, estendendo-lhe a mão.

Disse aquilo no tom que poderia utilizar para dizer: ”Quero-o dentro de mim”, pensou Parker, o que aliás não pretendia averiguar. Ergueu-se também e lançou um olhar mortífero à colega.

- Estagiária Ruiz, já acabou de fazer o diagrama do local do crime?

Ela soltou um suspiro petulante na direcção de Parker e depois deitou um olhar sensual a Kyle e afastou-se como uma mulher que sabe que um tipo está a olhar-lhe para o traseiro.

- Esquece, Kyle - disse Parker. - Ela transforma-te em picadinho. Além disso, é demasiado alta para ti.

- Dão-me licença, cavalheiros? - Abby Lowell aproximou-se deles. - Se me permitem interromper o vosso joguinho para estabelecerem quem tem o pirilau maior... Estendeu a mão a Kyle com ar profissional. - Abby Lowell. A vítima é... era meu pai.

- Lamento a sua perda, Miss Lowell.

- O senhor é da Brigada de Roubos e Homicídios disse ela. - Estou a reconhecê-los dos noticiários.

- Sou - respondeu Kyle, satisfeito como um actorzeco de segunda categoria que julga que vão pedir-lhe um autógrafo.

Parker pensou que Abby Lowell acrescentasse: ”Graças a Deus que está aqui.” Em vez disso, a rapariga olhou Kyle nos olhos e perguntou:

- Por que motivo está aqui?

- Perdão? - exclamou Kyle, imperturbável.

- Vá lá, detective. Toda a vida fui testemunha da carreira do meu pai, e os clientes dele e respectivos crimes deviam estar bem abaixo do seu radar. O que pensa que aconteceu aqui? Sabe alguma coisa que eu desconheço?

- Foi assassinado um homem. Somos da Brigada de Homicídios. E a senhora? Sabe alguma coisa que eu não saiba? O que acha que aconteceu aqui?

Abby Lowell observou a confusão como se o fizesse pela primeira vez desde que entrara na sala: processos espalhados por todo o lado, a cadeira caída, possivelmente devido a uma luta ou a uma busca depois do crime.

Parker olhou atentamente para ela, pensando que muita coisa fervia debaixo duma fina fachada de calma. Percebeu-o nos olhos da rapariga e num ligeiro tremor de lábios. Medo, choque, uma luta para controlar as emoções. Mantinha os braços cruzados com força, para evitar que as mãos lhe tremessem. E tinha muito cuidado em não olhar para o chão diante de si.

- Não sei - respondeu ela baixinho. - Talvez um cliente descontente, ou um parente duma vítima num caso ganho por ele. Ou talvez alguém quisesse uma coisa que ele não desejava entregar.

O olhar da rapariga poisou num armário do outro lado da secretária do pai. Lá dentro, um cofre preto do feitio dum cubo tinha a porta aberta.

- Ele guardava dinheiro naquele cofre.

- Examinaste o cofre, Parker? - perguntou Kyle em tom de manda-chuva.

Parker virou-se para Jimmy Chew.

- Viste o cofre quando chegaste, Jimmy?

- Claro, detective Parker - respondeu Chew, com falso formalismo, sem uma olhadela sequer na direcção de Kyle. - Quando o meu colega e eu chegámos cá, às dezanove e catorze minutos, cercámos o local e chamámos a Brigada de Homicídios. Ao examinar a sala, o meu colega viu que o cofre estava aberto e que parecia conter apenas documentos, que não examinámos.

- Nenhum dinheiro? - perguntou Parker.

- Não, senhor. Nenhum dinheiro. Pelo menos, à vista.

- Sei que havia dinheiro - disse Abby Lowell, num tom decisivo. - Uma data de clientes do Lenny preferia pagar-lhe em dinheiro.

- Olha que surpresa... - resmungou Jimmy Chew, recuando.

- Ele nunca tinha menos de cinco mil dólares no cofre, geralmente mais até. Dentro dum saco do banco.

- O seu pai estava com problemas com algum dos clientes? - perguntou Kyle.

- Não falava comigo sobre os clientes, detective Kyle. Até os advogados mais duvidosos têm a sua ética.

- Não quis insinuar nada, Miss Lowell. E peço desculpa em nome da brigada se alguém aqui lhe deu essa impressão. Tenho a certeza de que o seu pai possuía ética profissional.

Provavelmente num frasco dentro dum armário, ao lado dos picles e dalguma lata de salmão com dez anos, para nunca ser aberto, pensou Parker. Vira Lenny Lowell em acção no tribunal. Com falta de escrúpulos e ética, Lowell impugnaria o depoimento da própria mãe, se isso lhe garantisse uma absolvição.

- Precisamos de consultar o arquivo de clientes - disse Kyle.

- Claro, assim que alguém modifique a Constituição

- respondeu Abby Lowell. - Essa informação é confidencial.

- Então, uma lista dos clientes.

- Eu ainda sou estudante, mas não sou estúpida. A não ser que um juiz me diga que sou obrigada a isso, o senhor não leva seja o que for de confidencial deste escritório.

O rubor começou a surgir do colarinho branco de Kyle.

- Quer que a gente resolva o homicídio do seu pai? Ou existe alguma razão para preferir que não?

- Claro que quero que o resolva - explodiu ela. Mas também sei que agora preciso de tomar conta dos clientes do meu pai e do que for melhor para este escritório. Se eu começo a entregar informações confidenciais, como herdeira dele posso ser processada, comprometer casos em andamento e ainda ser afastada da profissão que escolhi. Não quero ser expulsa da ordem antes de me formar, detective Kyle. Isto tem de ser feito segundo as regras.

- Não precisa de se comprometer, Miss Lowell. Nomes e moradas não são confidenciais - declarou Parker calmamente, desviando-lhe a atenção de Kyle. - E não é necessário consultarmos o ficheiro do seu pai. Os registos criminais dos clientes dele estão à nossa disposição. Quando foi a última vez que falou com o seu pai?

Achava preferível tentar cativar Abby Lowell para o seu lado do que intimidá-la e tê-la como adversária. Não se tratava duma mulherzinha fraca e histérica, aterrorizada com a polícia, como Kyle pretendia. A rapariga já mostrara qual era a sua posição e tudo indicava que estava decidida a enfrentá-los.

Passou uma mão ligeiramente trémula pela testa e deixou escapar um pequeno suspiro, fazendo transparecer uma ténue falha na armadura.

- Falei com ele por volta das seis e meia. Tínhamos combinado encontrar-nos para jantar. Eu cheguei mais cedo, bebi um copo e liguei para ele. Disse-me que talvez se atrasasse - explicou ela, com a voz embargada e os olhos escuros a encherem-se de lágrimas. Piscou-os e continuou: E acrescentou que estava à espera dum estafeta que vinha buscar uma coisa para entregar.

- Disse o que era? - Não.

- Parece-me um bocado tarde para chamar um estafeta.

- Provavelmente qualquer coisa para um cliente disse ela encolhendo os ombros.

- Sabe que empresa costumava usar?

- A que fizesse a entrega mais depressa e fosse mais barata.

- Se conseguirmos descobrir qual era, a sede há-de ter a morada do destinatário, talvez até uma descrição da encomenda e o nome do estafeta - disse Parker. - Alguém sabe se ele chegou a vir cá?

- Não. Já lhe disse que ele estava à espera quando falámos.

Parker olhou para o cofre, de testa franzida.

- Isso era uma estupidez - declarou Abby, lendo-lhe o pensamento. - É como você diz: a sede sabe quem ele é.

O que podia perfeitamente não ser verdade, pensou Parker. Os estafetas não eram famosos por serem do tipo estável e com família. Tinham tendência para a solidão e a excentricidade, levando uma vida de ”chapa ganha, chapa gasta”. Pela maneira como rodavam pelas ruas da baixa a toda a velocidade - à doida, sem medo de morrer ou ficar aleijados, sem consideração por si próprios ou outra pessoa qualquer - não era difícil imaginar que um deles estivesse agarrado a alguma coisa.

Portanto, um estafeta drogado a precisar de dinheiro vai buscar uma encomenda, deita uma olhadela ao cofre aberto de Lowell, decide elevar o seu estatuto social, mata Lowell, rouba o dinheiro e desaparece na noite, nunca mais sendo visto. O tipo podia ir num autocarro para Las Vegas enquanto eles estavam ali a discutir o assunto.

- Não me compete tirar conclusões, Miss Lowell. Tenho de considerar todas as possibilidades.

- Quem é que chamou o Cento e Doze? - perguntou ele, voltando-se de novo para Jimmy Chew.

- O sempre popular cidadão anónimo.

- Há por aqui alguma coisa aberta ou habitada?

- Não numa noite como esta. Há uma estação de serviço e uma agência de cauções do outro lado da rua, mais para baixo. E uma lavandaria permanente.

- Vão ver se alguém na lavandaria sabe alguma coisa.

- Já fechou.

- Então não disseste que era permanente?

- Mas está a chover - respondeu Chew, incrédulo. Eu e o Stevie passámos por lá por volta das seis e um quarto e estava fechada a sete chaves. Além disso, deixaram de estar abertos vinte e quatro horas por dia, depois de a empregada da noite ter sido assaltada e violada há seis ou sete meses.

Kyle fez um sorriso trocista.

- Grande bairro este em que estás a trabalhar, Parker!

- Assassinos são assassinos, seja qual for o bairro em que a gente trabalhe, Bradley - respondeu Parker. A única diferença é que não se aparece na televisão por causa dos crimes daqui.

Voltou-se para Abby Lowell.

- Como é que foi avisada da morte do seu pai, Miss Lowell?

Ela olhou para ele como quem pensa que estão a pregar-lhe uma partida.

- Um dos agentes ligou para mim.

Parker olhou para Chew, que levantou as mãos num gesto negativo, e depois para o colega, que abanou a cabeça.

- Alguém lhe ligou, e foi para o telemóvel - disse Parker.

Os olhos de Abby Lowell saltaram dum homem para outro, inseguros.

- Sim. Porquê?

- E que foi que lhe disseram?

- Que o meu pai tinha sido assassinado e se eu podia vir ao escritório dele. Porquê?

- Posso ver o seu telemóvel?

- Não estou a perceber - disse ela, hesitante, tirando

o telefone duma algibeira da gabardina.

- A polícia de Los Angeles nunca lhe diria uma coisa dessas pelo telefone, Miss Lowell - explicou Parker. um agente ou um detective teria ido a sua casa dar-lhe a notícia.

Os olhos da rapariga abriram-se muito ao compreender. Está a dizer que eu falei ao telefone com o assassino do meu pai?

”A que horas recebeu a chamada?

- Talvez há uns vinte minutos.

- Tem um registo de chamadas nessa coisa? - perguntou Parker, acenando na direcção do telemóvel apertado na mão dela.

- Tenho. - Carregou num botão e no mostrador apareceu uma lista. Tinha a mão a tremer. - Não conheço o número.

- E não reconheceu a voz?

- Não, claro que não.

- Dá-me licença? - perguntou Parker, estendendo a mão.

Abby Lowell entregou-lhe o telemóvel, retirando a mão o mais depressa que pôde, como se acabasse de perceber que segurava um réptil vivo. Parker verificou o número e carregou no botão para ligar de volta. Ouviu tocar, sem obter resposta.

- Ai, meu Deus! - suspirou a filha de Lenny Lowell, tapando a boca com a mão e tentando afastar as lágrimas.

Parker voltou-se para Chew.

- Descobre-me o dono da lavandaria e pergunta quem esteve de serviço e a que horas fecharam. Quero essa pessoa encontrada. Aliás, quero saber se havia alguma pessoa nas proximidades deste escritório entre as seis e meia e as sete e um quarto. Se uma ratazana passou pela porta das traseiras e alguém a viu, eu quero saber.

- Entendido, chefe - respondeu Chew, devolvendo o sorriso trocista de Kyle, enquanto se dirigia ao colega.

Parker aproximou-se da secretária da vítima. O velho ficheiro de moradas estava fechado. Abriu-o com o bico duma caneta e depois falou com a técnica das impressões digitais.

- Quero todas as impressões que consigas encontrar nesta coisa, por dentro e por fora. De todos os malditos cartões, com prioridade para este.

O de Abby Lowell. Sob o nome, viam-se o número do telefone de casa, o do telemóvel e a morada.

- Isso, vai fazendo o nosso trabalho, Parker - observou Kyle friamente, aproximando-se da secretária. - Não te instales demasiado, porque basta uma palavra lá de cima e estás fora.

Parker olhou para ele fixamente durante um segundo, até que uma nova voz exclamou da recepção:

- Por favor, Parker, diz-me que o teu morto teve um ataque de coração. Preciso dum simples ”causas naturais” para poder ir para casa. Está a chover.

Diane Nicholson, investigadora do Gabinete Médico-Legal do Condado de Los Angeles, quarenta e dois anos; não aturava merdas e levava as coisas até ao fim, atitude que lhe granjeara o medo e o respeito de chuis por toda a cidade. Ninguém brincava com um local de crime que lhe pertencesse.

Parou mesmo à entrada da porta do escritório de Lowell e olhou para o corpo do advogado.

- Que chatice! - exclamou, mais desapontada do que horrorizada. Poucas coisas a chocavam.

Olhou inexpressivamente para Parker, e depois para Kyle, parecendo ficar ofendida por o ver.

- O Parker é que ficou com este caso - anunciou. E até eu ouvir alguma coisa em contrário da parte de alguém mais importante do que você, Bradley, é com ele que eu falo.

Não esperou por uma resposta. O que ele pudesse ter para dizer não lhe interessava. Trabalhava para o médico legista e, apesar de este poder saltar com o ladrar dos importantes do Centro Parker, a ela nada a atingia.

Enfiou um par de luvas de borracha e ajoelhou-se para examinar o corpo.

Dos bolsos das calças de Lenny Lowell saíram quarenta e três cêntimos, uma pastilha elástica e um cartão de apostas duma corrida de cavalos em Santa Anita, desbotado e plastificado.

- Era para lhe dar sorte...

A voz anteriormente tão forte e voluntariosa mal se ouviu. Parker olhou para Abby Lowell e viu-lhe os olhos cheios de lágrimas pregados no pequeno cartão vermelho nas mãos de Diane Nicholson. Dessa vez, não tentou reprimir as lágrimas, que transbordaram e começaram a cair-lhe Pela cara, gota após gota. A pele da rapariga era muito branca, quase translúcida, como a melhor porcelana. Parker Pensou que ela talvez fosse desmaiar e afastou Kyle para se aProximar dela.

- O bilhete... trazia-o consigo para lhe dar sorte - disse ela, tentando forçar um sorriso sardónico, mas com a boca a tremer.

Parker tocou-lhe suavemente num braço.

- Tem alguma amiga com quem possa ficar, Miss Lowell? Eu mando um agente levá-la de carro. Amanhã, ligo para si e marcamos uma hora para ir à esquadra e falar mais sobre o seu pai.

Abby Lowell afastou o braço com brusquidão, sem olhar para ele, de olhos postos no chão, nos sapatos do pai.

- Não finja que se preocupa comigo, detective - disse ela em tom amargo. - Não quero a sua compaixão fingida. Eu vou para casa no meu carro.

Ninguém abriu a boca enquanto ela se afastava rapidamente até sair pela porta das traseiras.

Nicholson quebrou o silêncio, enfiando o bilhete da sorte de Lenny Lowell num envelope, não fosse ele vir a ser importante mais tarde.

- Acho que ele devia ter aproveitado a sorte enquanto podia.

Jotacê voltou ao bairro de Lenny Lowell por vielas entre os edifícios, evitando os candeeiros e os espaços abertos, com o coração acelerado de cada vez que um carro lhe surgia no campo de visão. Não tinha maneira de saber para onde fora o predador ou se o filho da mãe estava a um quarteirão dali, estacionado junto ao passeio, a vasculhar o saco de estafeta, à procura do envelope alvo do ataque... e a descobrir que não estava lá, que não acabara o trabalhinho.

Parecia-lhe um trabalho hercúleo acarretar a bicicleta toda amolgada para território conhecido. Tentou equilibrá-la com o peso do corpo, servindo-se dela ao mesmo tempo como muleta. O tornozelo magoado estava em fogo e a crescer. Pelo menos, recuperara a bota, mas o inchaço não o deixava atá-la como devia ser. Se fosse uma gazela, como naqueles programas que Tyler via a toda a hora no Canal Discovery, o próximo leão apanhava-o.

Chegou à estação de serviço, saindo da viela, encostou a bicicleta às traseiras do edifício e espreitou para a ilha de luzes fluorescentes das bombas de gasolina. Ninguém a abastecer-se. Andavam poucos carros na rua, e esses pareciam decididos a chegar ao seu destino com o que tinham nos depósitos.

Continuava a chover. Jotacê tremia de frio e medo, de adrenalina e cansaço. Sentia-se fraco, prestes a desmaiar e ansioso, tudo ao mesmo tempo. Ainda faltava muito para chegar a casa. Assim que encontrasse um telefone a funcionar” ligava para os Chen e pedia que chamassem Tyler. Não avia telefone nas três divisões dos Damon por cima da peixaria. Jotacê não tinha dinheiro para isso, nem a quem telefonar regularmente.

Desejou que tal não fosse verdade nessa noite. Era uma excelente ocasião para ligar a um amigo e pedir-lhe boleia. Mas não tinha amigos, só conhecidos e achava melhor não arrastar ninguém para o sarilho em que estava metido. Instintivamente, pensava em termos de isolamento, tentando que as outras pessoas lhe complicassem o menos possível a vida. Podia perfeitamente ter passado sem o raio do Lenny Lowell nessa noite.

Sentiu o estômago contrair-se e ouviu o barulho que fazia. Precisava de lá meter qualquer coisa, precisava de combustível para o que o resto da noite pudesse trazer. Com a gorjeta de vinte dólares de Lowell podia comprar um refrigerante e uma tablete. Ao contrário duma data de estafetas, Jotacê nunca guardava dinheiro ou qualquer coisa de valor pessoal no saco. Sabia perfeitamente que a qualquer momento podia ser assaltado.

Um telheiro protegia da chuva. No cubículo, um tipo escuro de turbante cor de laranja estava sentado atrás do vidro à prova de bala. Sobressaltou-se com o aparecimento súbito de Jotacê, pegou no microfone e declarou com um perfeito sotaque britânico:

- A polícia está a um quarteirão daqui.

Como se a tivesse chamado, prevendo um assalto.

- Um Snickers e um sumo de limão - pediu Jotacê tirando duas notas húmidas e amarrotadas do bolso e colocando-as no tabuleiro de pagamento.

- Não tenho mais de cinquenta dólares na caixa continuou o homem, numa voz que soava fina e distante através do altifalante de má qualidade. Ao mesmo tempo, apontou para um aviso entre outros colados no vidro. A exposição aos vapores da gasolina podia causar defeitos de nascença. Os cigarros causavam cancro, mas, se uma pessoa não se importasse e os quisesse, as estações de serviço pediam um documento de identidade, conforme a lei. O empregado da noite não tinha mais de cinquenta dólares na caixa.

- E tenho uma arma.

Tirou uma enorme pistola de debaixo do balcão coberto de tralha e apontou-a à cara de Jotacê, ao mesmo tempo que agarrava nos dois dólares com a outra mão.

Este vidro não é à prova de bala? - perguntou Jotacê.

O empregado fez cara de poucos amigos.

É. Não podes dar-me um tiro.

Não tenho arma - disse Jotacê. - E você, se tentar atingir-me, vai ver que o vidro trava a bala e talvez até a faça voltar para trás para a sua cara. Nunca pensou nisso?

Abriu bem as mãos e mostrou-as ao homem.

- De qualquer maneira, não estou a assaltá-lo. Só quero um Snickers e um sumo de limão. Vá lá, pá, está a chover.

Pelo canto do olho, Jotacê avistou a luz vermelha intermitente no tejadilho dum carro da polícia e sentiu o coração bater mais depressa. O carro estava parado. Tal como os outros estacionados em volta do mesmo local.

- Que é que se passa ali em baixo?

Talvez Lenny tivesse chamado os chuis quando vira que a encomenda não era entregue. Talvez o envelope estivesse atafulhado de dinheiro e toda a gente pensasse que o estafeta fugira com ele. Talvez até houvesse já um aviso para o apanharem, enquanto ele estava ali a tentar comprar uma tablete e um tipo de turbante cor de laranja lhe apontava uma arma.

O homem poisou a arma no balcão, como quem poisa um cigarro num cinzeiro.

- Mataram um tipo - respondeu ele. - Ouvi no rádio da polícia.

Jotacê sentiu o sangue fugir-lhe da cabeça.

- Quem? - perguntou, ainda a olhar para o aglomerado de veículos do outro lado da rua, no quarteirão seguinte.

- Talvez tu - respondeu o homem.

Jotacê olhou para ele com uma estranha sensação. Talvez tivesse sido assassinado. Se calhar, estava morto. Se calhar, não se safara. Se calhar, a bala do predador atravessara-o, e aquele surrealismo em que se encontrava era o além. Aquele tipo era o porteiro...

Talvez sejas tu o assassino - continuou o homem, com uma gargalhada, como se três minutos antes não pensasse que ele estava ali para o assaltar.

Quem é que morreu? - perguntou Jotacê. O tremor que atribuía em parte à fome estava a aumentar, mas já não Se lembrava da barriga vazia.

- Eles não dizem nomes, só códigos - explicou o homem. - Códigos e moradas.

Repetiu a morada em voz alta, e Jotacê moveu os lábios como um boneco de ventríloquo, formando as palavras e os números sem produzir qualquer som.

Era a morada de Lenny Lowell. E no escritório não estava outra pessoa a não ser Lenny.

Perguntou a si próprio se o advogado teria sido assassinado antes ou depois de o tipo ter tentado atropelá-lo, a ele. As duas hipóteses eram válidas, se o assassino andasse atrás do envelope enfiado no cós dos calções de ciclista. E Lenny também podia ter despachado o homem. Sim, podia ter acontecido. Se o advogado não estivesse demasiado bêbedo para andar a direito, quanto mais disparar uma arma e acertar em alguém.

Um carro da polícia desceu lentamente a rua e enfiou para a estação de serviço. Jotacê conteve a vontade de fugir. Com as mãos a tremer, pegou no seu jantar manhoso, meteu a tablete num bolso, abriu o refrigerante e bebeu metade dum trago.

Os chuis pararam a uns três metros do edifício, e o do banco ao lado do condutor apeou-se, um tipo pesadão coberto por uma capa para a chuva.

- Olá, Habib - exclamou o chui, num tom de voz demasiado jovial para o tempo que fazia. - Que raio de noite, hein?!

- Jimmy Chew! - respondeu Habib, com o rosto rasgado por um largo sorriso. Um dos dentes da frente era cinzento e debruado a oiro. - Está a chover! Não valia a pena eu ter saído de Londres!

- Está a chover pra caraças! - concordou o chui com uma gargalhada. - Preciso do costume, Habib - disse ele, tirando a carteira de algures debaixo da capa. Com a cabeça baixa e água a cair em cascata da carapuça, extraiu duas notas da carteira e deitou uma olhadela a Jotacê. - Diabo de noite - insistiu ele.

- É - concordou Jotacê. - Chuva do caraças.

- Tens o carro avariado, miúdo?

- Mais ou menos - respondeu ele, levando a lata de refrigerante à boca, numa tentativa de parecer descontraído, mas com a mão a tremer e percebendo que o chui dava por

isso.

- Que é que te aconteceu à cara?

- Que é que tem a cara?

- Exageraste a fazer a barba - disse Chew, apontando para o queixo do rapaz.

Jotacê levou a mão à cara e encolheu-se ao tocar no ponto do queixo que esfolara na queda enquanto corria para salvar a vida. E também tinha os nós dos dedos feridos.

- Caí - respondeu.

- Que andavas tu a fazer?

- Nada. A tratar da minha vida.

- Tens onde dormir, miúdo? O padre Mike na Missão da Meia-Noite pode dar-te uma refeição quente e uma cama seca.

O chui confundira-o com um sem-abrigo, um rapaz da rua sem ter para onde ir. Provavelmente, pensava que se prostituía ou vendia droga para sobreviver, e que algum chulo ou traficante lhe batera. Devia ser essa a impressão que causava, pensou Jotacê, molhado, roto e patético.

- Eu estou bem - disse ele.

- Tens nome?

- John Jameson. - A mentira saiu-lhe dos lábios sem hesitação.

- Trazes identificação?

- Aqui não. Vai multar-me por comprar uma gasosa?

- Que idade tens?

- Vinte e um.

Sabia que o chui não acreditava nele, que achava que estava a tentar passar por adulto. Compacto e magro, semPre parecera mais novo do que era. Molhado e quase andrajoso, ali parado como um cão vadio, devia parecer ainda mais novo.

- Que é que andas aqui a fazer numa noite como esta? - insistiu o chui. - Sem casaco nem chapéu...

- Estava com fome e não pensei que estivesse a chover tanto.

- Moras por aqui?

- Moro. - Deu-lhe uma morada a dois quarteirões dali e ficou à espera que o chui o desmascarasse.

- Vieste cá por causa do crime, Jimmy Chew? - perguntou Habib no mesmo tom agradável com que poderia perguntar se o amigo vinha para uma festa. - Ouvi a notícia no vosso rádio.

Chew respondeu-lhe com outra pergunta.

- Deste por alguma coisa esta tarde, Habib? Por volta das seis e meia ou sete?

Habib franziu os lábios e abanou a cabeça, enquanto colocava na gaveta uma tablete grande e duas latas de Coca-Cola para o polícia.

- Carros a passar. Nenhuma perseguição ou fuga. Um bocado mais cedo, passou aí um desgraçado numa bicicleta. Imagina!

- A que horas?

- Mais ou menos à hora que disseste, mas não olhei para o relógio. Estou a trabalhar no meu argumento - disse ele, indicando uma confusão de páginas dactilografadas em cima do balcão. A arma desaparecera.

- E vinha de que direcção? - perguntou Chew.

- Da mesma que tu. Passou por aqui e voltou para a direita naquela esquina.

- Qual era o aspecto dele?

- O dum desgraçado a andar de bicicleta à chuva respondeu Habib, encolhendo os ombros. - Não prestei atenção. Por amor de Deus, quem é que era capaz de ir de bicicleta cometer um crime?

- Estamos à procura de alguém que pudesse andar pelas redondezas e visse alguma coisa. Sabes como estas coisas são - disse o chui num tom descontraído, incluindo o empregado da estação de serviço no processo policial, como se Habib fosse um auxiliar dele. Depois, dirigiu-se a Jotacê.

- E tu? Andavas por aqui por volta das seis e meia, sete?

- Não tenho relógio. E não vi.

- Não viste um tipo a andar de bicicleta?

- Quem é que é tão estúpido que ande de bicicleta com esta chuva?

- Um estafeta, por exemplo. Conheces algum?

- Porque é que havia de conhecer?

- Eles costumam parar por ali debaixo da ponte - disse Chew. - Pensei que talvez já os tivesses encontrado.

- Só me preocupo com a minha vida - respondeu Jotacê, tentando encobrir o medo com bravata. - Posso ir-me embora ou estou preso?

- Há algum motivo para estares?

- Há, pois. Assaltei a Casa da Moeda - disse Jotacê.

- Parei aqui só para matar saudades. Posso ir-me embora? Está a chover pra caraças.

O chui pensou por um momento, que pareceu meia hora, e Jotacê manteve o olhar perturbado mas desafiador fixo nos olhos de Jimmy Chew.

- Já vais - disse o polícia.

Jotacê viu-o ir até ao carro e pensou se não seria melhor desatar a correr. Os chuis provavelmente iam pensar que ele era um sem-abrigo que não queria chatices. Ou talvez Chew achasse que a mão a tremer era sinal de que estava drogado e trazia alguma coisa no bolso para fumar ou vender.

Se o chui decidisse revistá-lo à procura de droga, ia encontrar um envelope com a morada duma vítima de homicídio no remetente.

Jotacê contraiu os músculos da barriga das pernas e das coxas e firmou bem os pés, esperando que o tornozelo lesionado aguentasse uma corrida.

O chui enfiou a cabeça no carro, disse umas palavras ao colega e voltou com qualquer coisa na mão.

Jotacê baixou o centro de gravidade uns centímetros, preparado para dar meia volta e desatar a correr.

- Toma, miúdo.

Chew atirou-lhe o que trazia na mão, e Jotacê apanhou-o por reflexo. Quando viu o que era, quase teve vontade de rir. Um impermeável azul descartável para a chuva, duma loja de preço fixo.

- Mais vale tarde do que nunca - disse o chui. - Se Precisares, arranjas roupa seca na missão.

- Claro. Obrigado - balbuciou Jotacê.

- Tens a certeza de que não queres uma boleia? A gente pode deixar-te...

- Não. Está tudo bem. Mas obrigado.

- Como queiras - disse Chew, encolhendo os ombros. Jotacê percebeu que o polícia não acreditava nas suas palavras mas que também o achava pouco importante para se preocupar com ele. - Habib, apita se souberes alguma coisa!

- É o primeiro a saber, agente - respondeu o empregado num tom deliciado.

Talvez pensasse que ia ouvir alguma coisa que solucionaria o caso. O assassino podia confessar enquanto pagava a gasolina. Então, escreveria um argumento sobre isso e até podia ser a estrela do filme ou, pelo menos, ver o seu nome no genérico. Los Angeles. Toda a gente queria pertencer ao mundo do espectáculo.

O carro-patrulha recuou para a rua e virou para a direita na esquina. Jotacê ficou a olhar para ele. Amachucou a lata do refrigerante, deitou-a para o lixo e, com um descontraído ”Adeus” para Habib, afastou-se como quem não tem uma única preocupação neste mundo.

A cinco quarteirões dali, ainda estava com os joelhos a tremer.

- Que estafermo!

Parker entrou no quarto, nu, com um copo de vinho em cada mão. Um belo tinto do Peru. Praticamente não tocava em bebidas mais fortes nos últimos tempos. Mas nos dois meses a seguir à sua transferência da Brigada de Roubos e Homicídios emborcara álcool suficiente para um barco navegar. Então, um dia, acordou, disse basta e trocou a bebida por tai chi.

- Foi alguma coisa que eu disse?

A mulher na cama não desviou os olhos do televisor. A cara dela ostentava uma expressão de asco.

- É o Rob Cole, aquele nojo. Espero que apanhe com a agulha. E, depois de morto, espero que a gente possa desenterrá-lo e matá-lo outra vez.

- É disso que eu gosto em ti, Diane. Transbordante de bondade humana.

Entregou-lhe um copo, poisou o dele na mesa-de-cabeceira e enfiou-se na cama.

Ele e Diane Nicholson tinham o que ambos consideravam uma relação perfeita. Gostavam um do outro, respeitavam-se, eram dois animais na cama e nenhum deles via qualquer interesse em ser outra coisa senão amigos.

Parker, porque não percebia para que servia o casamento. Nunca vira um que desse resultado. Os pais haviam passado quarenta e cinco anos numa guerra fria, a maioria dos chuis que conhecia já se divorciara pelo menos uma vez. E ele próprio nunca tivera uma relação romântica que não falhasse, principalmente por causa do que fazia.

Diane tinha as suas razões, mas não lhe confiara nenhuma delas. Sabia que fora casada com um empresário que morrera com um ataque de coração uns anos antes mas, quando falava dele, o que acontecia muito raramente, não demonstrava emoção, como se se tratasse dum mero conhecido ou dum sapato. Não do grande amor da sua vida.

Fosse quem fosse que a desiludira quanto ao amor eterno, era posterior ao casamento. Curioso por natureza e vocação, Parker vasculhara, à procura duma resposta, quando começaram a dar-se, quase um ano antes. Nada encontrara. Ninguém sabia com quem Diane andara depois de o marido morrer, mas pensavam que existira alguém e que a coisa acabara mal.

Parker calculava que o tipo fosse casado ou um idiota do Gabinete Médico-Legal ou as duas coisas. Mas acabou por abandonar o mistério por resolver, decidindo que, se ela fora tão cuidadosa, tão discreta que nem os amigos sabiam, não era da sua conta. Ela tinha direito aos seus segredos.

também ele gostava de ter os seus segredos. Sempre pensara que quanto menos soubessem sobre ele melhor. Saber era poder, e podia ser utilizado contra si. Aprendera a lição da pior maneira, e agora mantinha a sua vida pessoal exactamente assim: pessoal. Ninguém na polícia de Los Angeles precisava de saber com quem andava ou o que fazia nos tempos livres.

Ela ignorou a piada sobre a bondade humana.

- Este tipo merece ser enfiado numa banheira cheia de ácido!

Estavam a ver as notícias da CNN. Havia televisores pela casa toda e, às vezes, ligava-os todos ao mesmo tempo, de modo a poder andar de divisão em divisão sem perder pitada.

Era tarde, mas Parker precisava sempre de algum tempo para se descontrair depois dum homicídio. Os agentes fardados nada tinham conseguido a bater de porta em porta nas imediações do escritório de Lowell, porque as lojas estavam fechadas e não encontraram vivalma. Se assim não fosse, teria sido obrigado a trabalhar toda a noite. Portanto, fechara o local e fora até à esquadra para começar a tratar da papelada, obrigando Renee Ruiz a acompanhá-lo em vez de ir atrás de Bradley Kyle como uma gata com o cio. De lá, fora para casa de Diane.

- Um bidão de duzentos litros com cento e cinquenta de ácido - disse ele com toda a calma. - Guarda-se o bidão na cave e deixa-se para o proprietário seguinte, que o deixa para outro.

A maioria das mulheres ficaria provavelmente espantada por ele pensar numa coisa daquelas, mas Diane limitou-se a acenar distraidamente com a cabeça.

A notícia na televisão era sobre a escolha do júri para o julgamento do caso Cole e uma recapitulação de toda a horrível trapalhada - desde a descoberta do corpo de Tricia Crowne-Cole, passando pelo enterro, com Norman Crowne a soluçar sobre o caixão fechado da filha e o filho debruçado sobre ele a tentar consolá-lo, e voltando atrás, ao casamento dela com Rob Cole. Mostraram uma fotografia incongruente: Cole posando como um modelo de Armani, e Tricia com ar duma irmã mais velha e sem graça deixada no altar. O que teria sido bem melhor.

- Olha para este palhaço - disse Diane quando mostraram algumas imagens de Cole como estrela da sua série televisiva de pouco êxito intitulada Bomb Squad. A achar que era alguém!

- E era.

- Na cabeça dele. Aliás, o tipo dá ideia de só pensar nele.

Com Diane, não havia zonas cinzentas. E Rob Cole era uma espécie de interruptor que soltava as opiniões dela. Trabalhara no local do crime mais de um ano antes e, desde então, as conversas com Parker eram sempre do mesmo género. De cada vez que alguma nova fase da jurisprudência fazia o nome de Cole aparecer de novo nos cabeçalhos dos jornais ou nas notícias da televisão, Diane ressuscitava a sua raiva e indignação.

- Uma vez encontrei-o numa festa, sabes? - disse ela.

- Tão bem como se tivesse estado lá - retorquiu Parker secamente. Devia ter ouvido aquilo mais de cem vezes desde o crime. Era como se a menção do nome de Cole lhe apagasse a memória recente. - Ele meteu-se contigo.

- Disse-me que estava a pensar numa nova série e que eu talvez pudesse ajudá-lo com o trabalho de pesquisa. A personagem principal ia ser um investigador do Gabinete Médico-Legal com alguma coisa de detective particular. Que treta!

- Queria era saltar-te para a cueca - disse Parker.

- E a mulher a menos de três metros de distância - continuou ela, enojada. - Como se só me visse a mim, o maroto, o rapazinho encantador, com o seu grande sorriso...

- O tipo que todos os gajos querem ser e que todas as mulheres querem levar para casa - comentou Parker.

- É um idiota.

- Calculo então que ainda não te tenhas inscrito no grupo ”Liberdade para Rob Cole” - observou Parker, começando a massajar-lhe a nuca. Os músculos estavam tensos como arames bem esticados.

- As pessoas são idiotas - resmungou Diane, de sobrolho carregado.

Parker passou um braço à volta dela. Diane suspirou e encostou-lhe a cabeça ao ombro.

- Isso nem se discute - murmurou ele. - Por mais nojento e culpado que um criminoso possa ser, há sempre gente que não acredita.

- É o que eu digo. E são essas pessoas que não podem fugir de participar num júri. O Cole vai acabar por ser o Ted Bundy do novo milénio e ainda arranja uma mulher estúpida que nem uma porta que vai testemunhar e casa com ele no meio do julgamento.

Parker estava-se nas tintas para Rob Cole. Los Angeles era o género de cidade onde era preciso dar nas vistas, e, para além de ser acusado dum crime de morte, Cole nada fizera de importante na última década. As produções na televisão tinham ido pelo cano abaixo umas atrás das outras. Os papéis principais começaram a transformar-se em aparições esporádicas cada vez menos importantes em episódios televisivos e em filmes para esquecer.

Parker começou a prestar atenção a imagens de Cole a ser levado para o Centro Parker por um autêntico destacamento policial de vedetas, com Bradley Kyle e o seu compincha Moose entre eles. Cole, encarnado e de olhos esbugalhados de fiaria envergava uma das suas habituais camisas estilo anos 50; e os rapazes da Brigada de Roubos e Homicídios engravatados e com óculos espelhados a esconder-lhes os olhos. Todos com o guarda-roupa certo e a desempenhar perfeitamente os seus papéis.

- Porque é que o Kyle e o ”Hulk” estavam lá hoje? perguntou Diane.

- Não sei. Não fui eu que os convidou - respondeu Parker encolhendo os ombros, como se não se importasse.

- Achas que o tipo que morreu estava ligado a alguma coisa importante?

- Os Lenny Lowells deste mundo são os Lenny Lowells deste mundo precisamente por não serem capazes de se agarrar a alguma coisa importante, nem que tropecem e caiam em cima dela.

- Mas olha que ele tropeçou e caiu em cima de alguma coisa. E essa coisa deu cabo dele. E devia cheirar bem mal, para os rapazes do Centro Parker andarem por ali a farejar.

- O caso é meu, até o meu superior me dizer o contrário - declarou Parker. - Nessa altura afasto-me.

Diane soltou uma gargalhada rouca e sensual que lhe agitou os ombros.

- Aldrabão! A tua vontade era correr com o Bradley dali, como um tigre a proteger a presa.

- Bom, realmente detesto o gajo.

- E tens toda a razão. É um imbecil. também não o gramo. Aliás, toda a gente o detesta. Aposto que até a mãe o detestava dentro da barriga - disse ela. - Mas isso é o que menos interessa. Só não percebo qual é o interesse da Brigada de Roubos e Homicídios na morte dum insignificante advogado como aquele.

- Não sei - respondeu Parker, enquanto o locutor Passava da história de Cole para outra sobre a súbita moda de camisas ao estilo dos anos 50 em Los Angeles. - Mas vou descobrir. Assim que amanhecer, vou à procura do tal estafeta.

A Chinatown de Los Angeles não é como a Chinatown de São Francisco. Não tem bonitos eléctricos, as lojas que vendem recordações baratas e carteiras de marca a preços reduzidos são em menor número e estão longe de constituir a maior parte das transacções.

A Chinatown de Los Angeles foi o primeiro bairro chinês americano moderno a pertencer e a ser planeado pelos próprios chineses, e alberga actualmente mais de quinze mil pessoas de ascendência asiática. Nos últimos anos, começou a atrair artistas e jovens profissionais de todas as raças e transformou-se num sítio da moda para viver.

A Chinatown de Los Angeles é uma espécie de florescente mistura avant-garde de gente que lá vive e trabalha. As ruas são ladeadas por talhos com patos já depenados pendurados nas montras, peixarias onde os peixeiros empunham facas afiadas como navalhas, e lojas que vendem ervas e curas medicinais utilizadas pelos Chineses há milhares de anos. As tabuletas estão escritas em chinês e a língua principal falada é a chinesa numa multitude de dialectos. Mas, ao lado do comércio tradicional chinês, há modernas galerias de arte, butiques e escolas de ioga.

Jotacê tinha-se mudado com Tyler para Chinatown depois da morte da mãe. Com os seus magros haveres enfiados em sacos surripiados das traseiras duma carrinha estacionada atrás dum restaurante, foi só apanhar um autocarro. Todas as noites, quando voltava para Chinatown, Jotacê recordava o dia em que trouxera o irmão pela mão, passando sob o chamado Arco da Piedade Filial, para um sítio onde ninguém viria à procura deles.

Alicia Damon morrera sem identificação no Hospital do Bom Samaritano, Jotacê sabia isso porque fora ele próprio a levá-la às Urgências, no carro ”emprestado” por um vizinho drogado, demasiado passado para perceber que o miúdo magricela do lado lhe levava a chave.

A mãe não dera o nome ou a morada no hospital e não permitira que Jotacê parecesse estar com ela ou chamasse as atenções de qualquer maneira. E também não o deixara dizer como se chamava ou onde viviam.

Alicia não confiava em gente que detivesse qualquer posição de autoridade e receava sobretudo o pessoal dos Serviços Sociais, que tinha o poder de lhe tirar os filhos. Apouca correspondência que recebiam era dirigida para uma caixa postal e nunca para qualquer dos miseráveis apartamentos onde viviam. Não tinham telefone. Jotacê fora inscrito na escola oficial com o nome de John Charles Jameson. Viviam do pouco que Alicia conseguia com trabalhos domésticos pagos em dinheiro e do cheque da Segurança Social que chegava todos os meses em nome de Allison Jennings.

Não tinham amigos. Jotacê nunca levara amigos da escola para casa. Não conhecia o pai, nem sequer de fotografias. Quando era garotinho, costumava perguntar porquê, mas deixara de o fazer aos seis anos, porque a mãe ficava tão perturbada que ia para o outro quarto e chorava.

Fazia uma ideia de quem podia ser o pai de Tyler - um empregado de bar duma espelunca onde a mãe trabalhara durante pouco tempo. Vira o tipo algumas vezes, quando seguia a mãe disfarçadamente até ao emprego, com medo de ficar sozinho no quarto alugado onde moravam nessa altura. Vira-os duas vezes pela montra, aos beijos, depois de toda a gente se ter ido embora do bar. Mas depois, de repente, os Damon agarraram na tralha e mudaram-se para outra zona da cidade. Uns meses mais tarde nascia Tyler. Jotacê nunca mais vira o empregado do bar.

Sempre que pedia uma explicação sobre aquela maneira de viver, a mãe respondia apenas: O cuidado nunca é de mais.

Jotacê acreditava piamente nela. Quando morreu, não reclamou o corpo da mãe, porque as pessoas haviam de fazer perguntas, e as perguntas nunca eram uma coisa boa. Na altura, com treze anos, já sabia, sem precisar que lho dissessem, que os Serviços Sociais cairiam sobre eles que nem falcões, colocando-os em lares e provavelmente nem sequer juntos.

Fosse como fosse, não havia dinheiro para um enterro. Além disso, a mãe que ele e o irmão conheciam já não existia. O cadáver nada tinha a ver com o que ela fora e nunca mais voltaria a ser. Portanto, o corpo fora enviado para o necrotério e armazenado junto dos outros cerca de trezentos homens e mulheres sem identificação que lá entravam todos os anos e ficavam à espera, em vão, que alguém se lembrasse deles e se preocupasse o suficiente para os procurar.

Com pequenas velas grossas, provenientes da igreja católica a três quarteirões do apartamento deles, e flores murchas do mercado coreano ao fundo da rua, Jotacê e Tyler prestaram a sua homenagem à mãe. Armaram uma espécie de pequeno altar na sala em volta duma fotografia de Alicia, tirada quando ela era mais nova, em melhores tempos.

Tyler descobrira a fotografia dentro duma caixa forrada de pano, que Jotacê sempre conhecera. Muitas vezes lhe mexera depois de a mãe sair, mas não com ela em casa. Uma caixa de recordações, sem histórias, sem explicações. Fotografias de pessoas que Jotacê não conhecia, tiradas em sítios que nunca vira. Segredos que seriam sempre segredos.

Jotacê pronunciara umas palavras, e depois ele e Tyler enumeraram as qualidades da mãe que cada um mais apreciara e de que mais sentiriam a falta. Despediram-se dela e apagaram as velas. Então, Jotacê abraçara o irmãozito com força, e choraram os dois, Jotacê o mais silenciosamente possível, porque só podiam contar com ele e precisava de ser forte.

Alicia costumava dizer-lhe que não devia preocupar-se se alguma coisa lhe acontecesse e que, no caso duma tragédia, tinha de ligar para um número que o obrigou a aprender de cor e falar com uma pessoa chamada Alli. Mas, quando Jotacê ligou duma cabina, disseram-lhe que o número já não estava atribuído. Portanto, nada de Alli e muito com que se preocupar.

No dia seguinte, foi à procura doutro sítio para morarem. Teve a ideia de Chinatown por vários motivos. Primeiro, porque queria que Tyler crescesse num sítio onde não precisasse de se preocupar com algum drogado que lhe desse uma pancada na cabeça para lhe roubar uns cêntimos ou o levasse para o vender a um pedófilo em troca duma dose. Depois, porque a comunidade era tão ecléctica que ninguém iria estranhar a sua presença. E, finalmente, porque calculava que, se conseguisse instalar-se com o irmão entre os chineses, não precisava de se ralar mais com a hipótese de alguém os denunciar aos Serviços Sociais. Os chineses governavam a comunidade à sua maneira, desencorajando intrusões do mundo exterior. Família era mais do que uma palavra definida pelo município de Los Angeles. A dificuldade estava em ser aceite.

Jotacê percorrera as ruas para um lado e para o outro, à procura dum emprego na zona e recebendo sempre respostas negativas. Ninguém o queria, ninguém confiava nele, e a maioria dava-o a entender sem falar uma palavra de inglês.

No fim do terceiro dia sem êxito, quando já estava prestes a desistir, Tyler arrastara-o para uma peixaria para ver os peixes vivos num tanque na montra.

Como era seu costume, o garoto dirigira-se imediatamente à pessoa que parecia mais capaz de ter as respostas e desatou a fazer perguntas sobre os peixes - donde vinham, que idade tinham, de que espécie eram, se eram machos ou fêmeas, de que se alimentavam e quantas vezes era preciso limpar o tanque.

A pessoa escolhida fora uma minúscula chinesa com porte de rainha, bem vestida e com o cabelo preto preso num carrapito. Devia ter uns cinquenta e poucos anos e parecia capaz de equilibrar uma taça de champanhe no alto da cabeça e dar a volta ao quarteirão sem entornar uma gota.

Ouviu as perguntas infindáveis de Tyler com uma sobrancelha erguida e depois pegou-lhe na mão, levou-o até ao tanque e respondeu pacientemente a todas. Tyler absorveu as explicações como uma esponja, como se nunca tiVesse ouvido alguma coisa tão fascinante. Olhava para a Mulher com os olhos muito abertos e uma expressão maravilhada, e ela derreteu-se toda.

Tyler produzia esse efeito nas pessoas. Alguma coisa nele dava uma impressão de sabedoria e inocência ao mesmo tempo. Uma alma antiga, denominou-o Madame Chen. Dera-lhe de jantar no pequeno restaurante ao lado da peixaria, onde todos os empregados se esforçavam por lhe agradar enquanto ela se lhes dirigia num tom autoritário em chinês.

Interrogara Jotacê sobre a família, ele fora o mais vago possível. No entanto, contara-lhe da morte da mãe e que não havia mais parentes. Admitira que estavam com medo de ser colocados em lares, separados, e de nunca mais se verem. Tyler seria certamente adoptado, por ser novinho, mas um adolescente como ele era uma coisa muito diferente.

Madame Chen considerara todas as questões enquanto beberricava o seu chá. Ficou calada durante tanto tempo que Jotacê teve a certeza de que ia dizer-lhe que se pirassem. Mas, quando finalmente falou, olhou para os olhos dum e doutro e declarou:

- A família é tudo.

Aquela frase ecoava na cabeça de Jotacê ao percorrer a coxear as vielas de Chinatown àquela hora da noite. Sentia-se quase sempre desligado de quase tudo, era um estranho, um solitário. Não confiava, não fazia confidências, não tinha expectativas. Fora criado a não confiar, vira muitos motivos para não o fazer, portanto não confiava.

Mas gostava dos Chen e sentia uma profunda gratidão para com eles. Apreciava a companhia dos outros estafetas, embora achasse que não podia chamar-lhes amigos. Eram conhecidos, formavam um círculo de pessoas em volta dele e do irmão, estavam ligados a ele por ténues fios fáceis de quebrar, se necessário.

Alguém tentara matá-lo. A polícia queria interrogá-lo pelo menos, ou até acusá-lo pelo assassínio de Lenny Lowell. Não podia partilhar aquele peso. Confiar em alguém significava arriscar demasiado. E por que motivo haveria alguma das pessoas que conhecia de arriscar-se por causa dele?

Jotacê já via o fraco círculo à sua volta desfazer-se, afastando de si as pessoas da sua vida, quais partículas dum meteoro entrando na atmosfera da Terra. Ficou admirado ao perceber quanto esses conhecidos significavam para si. Nunca se sentira tão tristemente só desde os dias a seguir à morte da mãe.

A família é tudo.

A sua única família era um garoto de dez anos, e Jotacê faria tudo para que aquele perigo não chegasse a ele.

Conseguira voltar a Chinatown sem levantar suspeitas, a não ser de alguns sem-abrigo acampados em caixas de cartão nas vielas por onde passava. Mas no dia seguinte os chuis iam investigar as agências para localizar o estafeta que fora buscar uma encomenda ao escritório de Lowell. Ia tornar-se o alvo de todas as suspeitas. Tanto quanto sabia, a pessoa que queria matá-lo ia também dar a volta pelas agências, tentando obter um nome e uma morada que lhe permitisse apanhar a encomenda que ainda levava escondida junto ao corpo, debaixo da roupa.

Quem andasse à sua procura ia ter bastante trabalho para o encontrar. A morada que dera na agência quando fora procurar trabalho não era a da casa onde morava com o irmão. Essa não dava ele. Pagavam-lhe em dinheiro por debaixo da mesa - prática não invulgar entre as agências mais duvidosas no negócio dos estafetas. Ser pago em dinheiro significava que nenhuma parte ia parar ao governo; portanto, o governo não sabia que ele existia. E a agência não precisava de lhe garantir um seguro de vida ou outra coisa qualquer.

À primeira vista, a coisa era arriscada. Se sofresse um acidente de trabalho, não tinha direito a cuidados médicos. E os acidentes eram inevitáveis. As estatísticas mostravam que o ciclista devia contar, em média, com um acidente grave de três mil em três mil quilómetros. Jotacê calculava percorrer essa distância mais ou menos em dois meses. Mas assim ganhava mais - mais cinquenta por cento - e, se a agência fizesse tudo legalmente, talvez tivesse a conta do hospital paga uma vez mas não encontrasse o emprego à esPera quando saísse de lá. A empresa considerá-lo-ia um risco e despedia-o.

Ninguém conseguia descobri-lo através de contas de Serviços, porque pagava a água e a electricidade aos Chen em dinheiro, bem como a ligação à televisão por cabo. A renda era paga com trabalho, às pazadas de gelo para os tanques na peixaria. Nunca levava pessoas para casa, não era suficientemente íntimo de alguém para isso. Era raro andar com uma rapariga. As poucas com quem saíra quase nada sabiam dele e muito menos onde morava. Fiel ao treino recebido desde tenra idade, não deixava rasto que pudesse levar alguém até si e ao irmão.

Mesmo sabendo como era difícil alguém encontrá-lo, Jotacê hesitava em ir para casa. Apesar do facto de não ter dado com os chuis ou voltado a ver o carro do predador, não conseguia afastar a sensação de que alguém o vigiava, o seguia. Um mal omnisciente a flutuar sobre a cidade debaixo das pesadas nuvens. Ou talvez fosse apenas a hipotermia a começar a fazê-lo tremer, quando abriu a porta das traseiras da peixaria e trepou a escada até ao minúsculo apartamento.

Ouviu vozes ao aproximar-se da porta, vozes masculinas, vozes zangadas. Susteve a respiração, encostou a orelha à porta e tentou decifrar a conversa através da pulsação acelerada nos ouvidos. As vozes calaram-se. O coração bateu-lhe com mais força. Então, uma voz mais potente gritou que comprassem um carro na Auto Cerritos.

Nós poupamos mais, por isso o cliente também poupa mais! Auto Cerritos.

Jotacê respirou de alívio e abriu a porta de casa.

A única luz vinha da televisão ao canto da sala, espalhando cores pelo pequeno espaço e por cima dos dois corpos no colchão: Tyler, adormecido, com a cabeça e um braço quase a cair da almofada e as pernas abertas; e o velhote a quem Tyler chamava avô Chen sentado muito direito, com a cabeça para trás, a boca aberta e os braços para os lados com as palmas para cima, uma imagem dum santo atormentado pedindo a Deus que o poupasse.

Jotacê dirigiu-se ao irmão, puxou-o para cima da almofada e tapou-o com um cobertor que caíra para o chão. Tyler nem se mexeu e não abriu os olhos. O avô Chen emitiu uma espécie de gritinho e acordou de repente, levantando os braços em frente da cara num gesto defensivo.

- Está tudo bem. Sou eu - segredou Jotacê.

O velhote baixou os braços e olhou para ele com o sobrolho franzido, ralhando com ele em chinês, língua que Jotacê ainda não conseguia dominar após seis anos a viver em Chinatown. Sabia dizer bom dia e obrigado e era tudo. Mas não precisava de compreender o avô Chen para saber que era muito tarde e que o irmão se preocupara por sua causa. O velhote continuou a disparar palavras que nem uma metralhadora, apontando para o relógio no pulso e para Tyler e ameaçando Jotacê com um dedo espetado.

Jotacê levantou as mãos, como quem se rende.

- Desculpe. Aconteceu uma coisa e cheguei tarde, bem sei. Desculpe.

O avô Chen nem parou para respirar. Indignado, encostou o polegar e o mindinho à cara e fez o sinal de falar ao telefone.

- Eu tentei ligar - disse Jotacê, como se ganhasse alguma coisa em explicar. Em cinquenta anos a viver nos Estados Unidos, o velhote nunca tentara aprender a língua, torcendo o nariz à ideia, como se achasse indigno falar inglês com pessoas demasiado ignorantes para aprender chinês. - Estava impedido - continuou Jotacê, também por mímica.

O avô Chen emitiu um som de enfado e sacudiu as mãos na direcção dele, como se quisesse enxotá-lo da sala.

Tyler acordou nessa altura, a esfregar os olhos, e viu o irmão.

- Chegaste muito tarde mesmo.

- Bem sei, miúdo, e peço desculpa. Tentei ligar a Madame Chen, mas o número estava impedido.

- Era o avô Chen no computador, à procura de meninas chinesas na Internet.

Jotacê deitou um olhar reprovador ao velhote, que adoptara a fria e impenetrável expressão dum Buda de pedra.

- Não te quero a ver pornografia - disse Jotacê ao irmão.

Tyler revirou os olhos.

- Não estavam nuas, nem nada disso. Ele quer encomendar uma noiva.

- Tem cento e doze anos! Para que quer ele uma noiva de encomenda?

- Tem noventa e sete - emendou Tyler -, segundo a maneira chinesa de contar os aniversários, porque o dia do nascimento é considerado o do primeiro aniversário. E se for como nós contamos, até só tem noventa e seis!

Jotacê ouviu pacientemente a lição. Tentava nunca perder a paciência com o irmão. Tyler era espertíssimo, mas muito sensível quanto à aprovação ou não de Jotacê.

- Seja como for, é uma antiguidade - declarou Jotacê.

- Para que quer uma noiva jovem?

- Tecnicamente não é uma antiguidade, porque ainda não tem cem anos. Quanto à noiva... - Tyler encolheu os ombros. - Ele diz que, se ela morrer, morreu.

O garoto olhou para o velhote a seu lado e proferiu qualquer coisa em chinês. O avô Chen respondeu e desataram a rir os dois.

O velhote despenteou Tyler num gesto carinhoso, bateu com as mãos nas coxas e levantou-se do colchão. Era da altura de Jotacê, direito que nem um fuso, quase esquelético. A cara era encovada como a duma cabeça mirrada, e a pele transparente como papel crepe molhado, um mapa de estradas de veias azuis logo abaixo da superfície. Olhou fixamente para a cara de Jotacê, com a testa franzida, e apontou para os arranhões e nódoas negras, dizendo qualquer coisa em tom sério, demasiado baixo para Tyler ouvir. Preocupado, pensou Jotacê. Desaprovador. O avô Chen pensava e estava certo - que o que o fizera atrasar-se tanto não podia ter sido coisa boa.

O velhote despediu-se de Tyler e saiu.

Tyler acendeu o candeeiro de mesa e observou atentamente o irmão mais velho.

- Que foi que aconteceu à tua cara?

- Tive um acidente.

Sentou-se num banco chinês de madeira e descalçou as botas, com cuidado para não puxar muito pelo pé direito. Sentia o tornozelo a latejar.

- Que género de acidente? Quero saber exactamente o que aconteceu.

Aquilo não era novo. Tyler queria ser capaz de ver todos os aspectos do trabalho do irmão, até ao mais ínfimo pormenor. Mas sentia-se particularmente obcecado com qualquer acidente que Jotacê - ou algum dos estafetas pudesse ter. Jotacê não quis contar-lhe. Cometera o erro uma vez, mas descobrira que o garoto se preocupava tanto que ficava doente, imaginando todas as horríveis possibilidades, remoendo e receando o dia em que ele saísse e nunca mais voltasse.

- Caí, mais nada - disse ele, esquivando-se ao olhar demasiado sério de Tyler. - Uma velhota deu-me com a porta do Cadillac, e eu torci um pé e fiquei com uns arranhões. Amolguei uma roda da bicicleta e tive de vir para casa a pé.

Era a versão resumida da história. E Tyler sabia. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas.

- Pensei que não voltavas. Mesmo.

Ignorando o facto de estar ensopado, Jotacê aproximou-se do colchão e sentou-se ao lado do irmão, virado para ele.

- Eu volto sempre, miúdo. Por ti.

Uma lágrima escapou-se da pálpebra inferior, passando por cima das pestanas e escorrendo pela cara.

- Isso era o que a mãe dizia - replicou o garoto. E não era verdade. Acontecem coisas que uma pessoa não controla. É o carma.

Fechou os olhos com toda a força e recitou de cor o que lera no dicionário que estudava todas as noites:

- Carma é a força gerada pelas acções duma pessoa Para perpetuar a transmigração e, nas suas consequências Atiças, para determinar o seu destino na existência seguinte.

Jotacê teve vontade de dizer que aquilo era tudo uma grande treta, que nada tinha significado e que não havia ”existência seguinte”. Mas sabia que era importante para Tiler acreditar em alguma coisa, procurar a lógica num fundo ilógico, de maneira que repetiu a sua piada habitual: enquanto estás distraído com isso, sais do passeio e és atropelado por um autocarro. Olha, pá, o que eu posso controlar é o facto de gostar muito de ti e de estar sempre a teu lado, nem que tenha de andar de gatas em cima de Vidros para chegar cá.

Agarrou o garoto e deu-lhe um grande abraço. Tyler estava a ficar na idade em que os rapazes pensam que um homem de verdade não precisa de abraços, e o facto de sentir que ainda precisava envergonhava-o. Mas cedeu e encostou a cabeça ao pescoço de Jotacê para ouvir o bater do coração do irmão.

Jotacê ficou abraçado a ele durante alguns momentos, a pensar no que o carma lhe reservaria por esconder a verdade a Tyler. Naquela noite, mais do que noutra qualquer, estava plenamente consciente da sua mortalidade. A morte viera ter com ele e tentara sugá-lo para um remoinho escuro onde não conseguia controlar fosse o que fosse, à excepção da sua vontade de sair dele com vida. Mesmo com o irmão encostado a si, sentia a pressão da encomenda de Lenny Lowell debaixo da camisola.

De manhã, ia ter de dar algumas explicações, mas naquele momento não. Só queria tomar um duche quente e dormir. O mundo não ia estar mais prometedor nessa altura, mas ele teria mais força para o enfrentar.

Depois de Tyler estar na cama e a dormir, Jotacê dirigiu-se à diminuta casa de banho e viu-se ao espelho por cima do pequeno lavatório, sob a luz do aplique espetado na parede como uma verruga luminosa.

Estava realmente com muito mau aspecto: a cara pálida e tensa, apenas tingida nos círculos negros sob os olhos, numa mancha de lama na face e nas inflamadas escoriações do queixo. Tinha o lábio inferior rachado, com o golpe desenhado a sangue coagulado. Não admirava que o chui, Jimmy Chew, o tivesse tomado por um sem-abrigo.

Lavou as mãos, encolhendo-se com o ardor do sabonete na pele ferida das palmas e das pontas dos dedos. Depois, ensaboou a cara, sentindo a mesma dor, e lavou-a chapinhando com bastante água fria, enquanto continha a respiração durante um segundo. Endireitou-se e tirou cuidadosamente a camisola molhada e a outra de mangas curtas que usava por baixo. Doíam-lhe os ombros, as costas e o peito. Praticamente não havia uma parte do corpo que não estivesse dorida, a latejar, a deitar sangue ou pisada.

A encomenda de Lenny Lowell continuava enfiada no cós das apertadas calças de ciclista. O envelope almofadado, embora húmido, não parecia ter sorrido muito. Tirou-o das calças e ficou a mirá-lo, virando-o dum lado e do outro. Começou a tremer. Em circunstâncias normais, nunca abriria uma encomenda dum cliente, fosse ela o que fosse. Rocco, o chefe da agência, despedia-o num ápice. Mas de momento quase lhe apetecia dar uma gargalhada. Havia problemas mais graves do que o chefe.

Sentou-se e foi levantando uma ponta do envelope até conseguir enfiar um dedo e abri-lo.

Não encontrou um bilhete, nem um grosso molho de notas. Entre dois pedaços de cartão, descobriu um envelope com negativos fotográficos. Tirou-os do envelope e colocou uma das tiras contra a luz. Viu duas pessoas a trocar qualquer coisa ou a apertar as mãos. Não conseguiu perceber bem.

E alguém estava disposto a matar por aquilo.

Chantagem.

E eu no meio dela.

Sem ter para onde se virar. Não podia ir ter com os chuis, porque não confiava neles. Mesmo que lhes entregasse os negativos, continuava a ser um alvo para o predador, que não se arriscaria a ficar na dúvida se ele, Jotacê, sabia ou não alguma coisa. O tipo não podia saber se ele olhara ou não para os negativos ou até se os teria mandado revelar ou entregado aos chuis. Era uma ponta solta que um assassino não ia deixar pendurada.

Se aquilo era o carma, o carma era uma trampa.

Não ia ficar à espera. Nunca se sentira vítima. A mãe não lho permitia, nem a ele nem a si própria. As merdas aconteciam e ele lidava com elas e andava para a frente. Era preciso encarar aquela situação da mesma maneira. Era sempre esse o caminho a seguir, em frente.

As merdas aconteciam. E ele estava metido numa até ao Pescoço. A única coisa a fazer era começar a nadar.

Jotacê desceu lentamente a escada em peúgas, com as botas presas uma à outra pelos atacadores e penduradas ao pescoço. Ao todo, dormira talvez uma hora e meia. Estava a começar a adormecer de novo por volta das quatro, quando o irmão se enfiou na cama com ele e lhe confessou baixinho que tinha medo. Jotacê acalmou-o e disse-lhe que dormisse.

Tyler era ainda suficientemente criança para acreditar naquilo que lhe convinha. Jotacê não se lembrava de alguma vez ter sido tão novinho. Nunca tivera o luxo duma protecção. Alicia podia ter desejado protegê-lo, mas sempre achara que era melhor não o fazer. Em vez disso, dera-lhe o melhor presente ao seu alcance: capacidade de sobrevivência.

Costumava dizer-lhe que não perdesse tempo valioso a entrar em pânico. De nada servia, nada se ganhava com isso. No entanto, fora em parte o pânico - e as dores a manter-lhe o cérebro a girar como um hámster numa roda durante as poucas preciosas horas em que podia ter dormido. Às quatro e meia, esgueirou-se da cama para o chão, de gatas, tentando perceber onde lhe doía mais.

O tornozelo estava inchado e com pouca mobilidade. Ligara-o com sacos de gelo durante a noite, para tentar fazer diminuir o inchaço, na esperança de conseguir andar e de não ter os ligamentos mais danificados do que pensava. Muito lentamente, apoiou uma mão no banquinho chinês, respirou fundo e lá se levantou.

Até um agitado dia normal de trabalho podia surgir na manhã seguinte como uma terrível ressaca, com dores nas costas, tendões de Aquiles repuxados, nódoas negras, golpes e arranhões, os pulmões a ressentir-se do fumo dos escapes, olhos a arder e dedos rígidos como se ainda estivessem agarrados ao guiador da bicicleta.

Não se sentia pior do que depois de qualquer dia difícil com um acidente, excepto pela ideia de que alguém queria matá-lo.

Foi à casa de banho, tomou um rápido duche frio para aclarar a cabeça latejante, e depois ligou o tornozelo o mais apertado que lhe pareceu correcto. Continuava bastante inchado, mas conseguia apoiar-se nele, e isso é que interessava.

No fundo da escada, sentou-se e enfiou a custo a bota, apertando os dentes com o esforço. Ficou com a testa coberta de suor. Ouviu a carrinha do gelo junto à grande porta do depósito. Era o primeiro sinal da manhã em Chinatown e na maior parte doutros bairros habitados por minorias étnicas que Jotacê conhecia: entregas aos pequenos merceeiros familiares, aos talhos, aos restaurantes. Uma vez por semana, o talho em frente recebia grades de galinhas e patos vivos, o que aumentava o volume do toque de alvorada. Jotacê achava o barulho e a rotina reconfortantes, como imaginava que se sentiria se tivesse nascido numa família grande.

O ruído duma corrente, o trabalhar do motor que erguia a porta de ferro. A voz do sobrinho de Madame Chen, Chi, a dar ordens ao terceiro primo Boo Zhu. O raspar de metal em cimento quando Boo Zhu saltava lá para baixo a arrastar consigo a pá.

Jotacê inspirou o ar húmido e a cheirar a peixe e foi trabalhar. Não disse a Chi que estava lesionado. E Chi não lhe fez perguntas. Chi, que dirigia o trabalho diário da peixaria, não gostava dele e era contra a decisão da tia de acolher os irmãos Damon. Em seis anos, não mudara de opinião.

Jotacê não se ralava com Chi. Fazia o seu trabalho e não lhe dava motivo de queixa, a não ser o facto de não ser chinês e não falar chinês, coisa que Chi achava intolerável, apesar de ter nascido em Pasadena e falar inglês tão bem como qualquer pessoa.

Madame Chen declarara firmemente a Chi que ser bilingue não era um requisito essencial à tarefa de mudar gelo à pazada dum sítio para outro. Boo Zhu, que tinha vinte e sete anos e era atrasado mental, falava mal qualquer das línguas e fazia o mesmo trabalho sem problemas.

A chuva caía numa espessa cortina gelada, mas Jotacê suava que nem um cavalo. Além disso, sentia-se agoniado e tinha fortes dores no tornozelo a cada pazada de gelo. Um quarto de hora depois de ter começado a trabalhar, Madame Chen apareceu, um vulto minúsculo abafado por uma gabardina com cinto, com um enorme guarda-chuva aos quadrados na mão. Disse que queria falar com ele no escritório, o que provocou um olhar sinistro de Chi.

- O meu sogro contou-me que estás magoado - disse ela, fechando o guarda-chuva e entrando primeiro no espaço cheio de tralha.

- Eu estou bem, Madame Chen.

Com a testa franzida, ela olhou para cima, observando-lhe a cara - molhada, pálida, arranhada, com nódoas negras.

- Bem? Tu não estás bem.

- Foi só um desastre com a bicicleta. Ser estafeta às vezes tem os seus perigos. A senhora sabe.

- Eu sei é que nunca chegas a casa tão tarde como ontem. Estás metido em algum sarilho?

- Sarilho? Porque pergunta isso? Já me aconteceu, não é uma coisa nova...

- Não gosto de respostas que não são respostas, Jotacê. De mãos nas ancas, ele desviou o olhar, fixando-o num calendário dum banco local que desejava a todos um feliz Ano Novo chinês. Madame Chen ligou o pequeno aquecedor debaixo da secretária e o aparelho começou a fazer um zumbido e a deitar um quente cheiro eléctrico irritante. Pensou por instantes no que ia dizer. Ela provavelmente merecia ouvir a verdade, nem que fosse só por uma questão de respeito, mas não queria envolver os Chen naquela trapalhada. Se ele próprio não percebia bem o que se passava... Ninguém podia segui-lo até àquela morada, portanto não parecia haver motivo para a alarmar.

Uma verdade não leva tanto tempo a contar - insistiu a senhora firmemente. - Só uma invenção precisa de tanta reflexão.

Jotacê suspirou.

Fui fazer uma entrega ontem, já tarde, e quase que fui atropelado. Dei uma grande queda.

- E chamaste a polícia para apresentar queixa, e foi por isso que chegaste a casa tão tarde - disse ela, evidentemente sem acreditar que as coisas se tivessem passado assim.

- Não. Estava escuro e aconteceu tudo muito depressa. Nem consegui ver a matrícula do carro.

- Então, foste ao hospital, para um médico te ver. Jotacê tornou a desviar o olhar, mais por irritação do que para disfarçar. Madame Chen era a única pessoa, além da sua própria mãe, a quem não conseguia mentir com êxito. Era capaz de aldrabar qualquer outra pessoa, de a fazer acreditar no que quisesse. Porque mais ninguém se interessava o suficiente no que ele pudesse dizer. Não passava dum estafeta, dum mensageiro, e as pessoas ouviam o que queriam ouvir, o que era mais fácil de aceitar.

- Vim a pé para casa - disse ele. - Levei mais tempo porque estava longe e fiquei com a bicicleta estragada.

Madame Chen disse qualquer coisa em chinês que provavelmente não seria própria duma senhora.

- Não chamaste um táxi?

- Os táxis custam dinheiro.

- E não me telefonaste? - perguntou ela, ofendida.

- Eu tentei, mas o número estava impedido.

- Não tens respeito - continuou ela, pondo as mãos nas ancas com toda a força. - Há seis anos que me preocupo contigo, e tu não tens respeito por mim.

- Isso não é verdade - protestou Jotacê. - Respeito-a muito, Madame Chen. Mas não quero preocupá-la.

Ela soprou entre dentes que nem uma cobra e abanou um dedo na direcção de Jotacê.

- Agora ficaste como o Boo Zhu? Com pedras dentro da cabeça? Ou pensas que eu sou como o Boo Zhu?

- Não, senhora.

- És como família para mim, Jotacê - disse ela baixinho.

Ele sentiu um ardor por trás dos olhos. Nunca permitira a si próprio desejar uma coisa daquelas, não para além do vago sentido de comunidade em que pensara anteriormente. A família dele era o irmão.

- Lamento.

- Teres-me ofendido ou eu considerar-te família? A boca do rapaz exibiu um sorriso contrafeito.

- As duas coisas, acho eu. Não gosto de ser um peso para a senhora.

Ela abanou a cabeça com ar pesaroso.

- Já eras velho dentro da barriga da tua mãe. Não como o teu irmão, mas como um homem que viu de mais.

Não era a primeira vez que Madame Chen fazia aquele comentário, e ele nunca respondia. Não valia a pena afirmar o que era óbvio.

- Tenho de ir, Madame Chen. Preciso de tratar dumas coisas, de mandar arranjar a bicicleta.

- E como vais até lá? Num tapete mágico?

Jotacê não respondeu. Ela tirou umas chaves dum prego na parede e disse:

- Leva o meu carro. E não digas que não podes. Leva-o.

- Sim, senhora. Obrigado.

Madame Chen tinha um Mini Cooper preto com o tejadilho de abrir e pintado de creme. Jotacê enfiou cuidadosamente a bicicleta dentro do carro e esgueirou-se para o trânsito matinal. O carro constituía uma espécie de disfarce, porque o assassino não andava à procura dum Mini Cooper.

O truque ia ser entrar e sair do escritório da agência sem ser visto por alguém que vigiasse o prédio. Precisava de chegar junto de Eta antes dos chuis.

 

- Aqui tem a merda do seu trabalho - declarou Ruiz, atirando uma folha de papel para cima da secretária de Parker. O papel flutuou e poisou suavemente numa pilha de pastas, estragando o grande gesto de desafio.

Parker deitou-lhe uma olhadela. Uma lista de empresas de estafetas dentro dum raio de oito quilómetros do escritório de Lenny Lowell. Não devia ter precisado de mais de três minutos para sacar aquilo no computador.

- Tens consciência de que ”trabalhar bem em conjunto” faz parte da tua avaliação, não tens? - perguntou ele, levantando-se e dirigindo-se à máquina de café.

Eram seis e quarenta e três da manhã e mal tivera duas horas de sono. Estavam outros dois detectives na sala. Yamoto e Kray tinham ficado com o caso de aniquilação duma família que Nicholson cobrira antes de aparecer no escritório de Lowell. Assassínios múltiplos e um suicídio. Trabalho para uma noite inteira só para tratar da papelada.

Yamoto, outro estagiário, estava a escrever relatórios num moderno computador portátil que trouxera com ele. Era arrumado, delicado, profissional e usava fatos melhores do que a média. Kray não merecia um estagiário como ele.

Kray, com a cabeça apoiada na secretária, profundamente adormecido, babava-se para cima duma circular verde berrante que lembrava a toda a gente que ainda não era demasiado tarde para se inscreverem no seminário de controlo do stresse: ”A Vida e a Morte Não Precisam de Vos Matar”.

Parker voltou para a cadeira e sentou-se.

- Tens de aprender a fechar esse mau génio à chave, querida - disse ele, muito sério. - Que é que vai acontecer quando tiveres apanhado um assassino ascoroso e ele começar a mandar vir? Chama-te nomes piores do que os que tu já sabes, sugere que lhe deixes fazer oitenta e três espécies de actos anormais no teu corpo nu. Precisas de obter uma confissão do gajo e desatas a chamar-lhe cabrão ou coisa e tal? Isso não é aceitável.

- Eu não fazia uma coisa dessas - disse ela, amuada.

- Acabaste de o fazer comigo.

- Mas não és um suspeito.

- Não, sou o teu superior, coisa que tens de respeitar, quer queiras quer não. Neste trabalho, vais ter sempre um chefe, e muitos deles hão-de fazer-me parecer uma maravilha. Com um bocado de sorte, vais ter de responder perante vários imbecis desde este momento até precisares de esticar a pele da cara pela primeira vez.

Levantou-se e despejou o resto do café. Dois goles eram suficientes para pôr a trabalhar o motor dum camião.

- Ter fogo nas veias é bom. Usa-o enquanto o tiveres. Mas, se não aprendes a controlá-lo, não duras neste emprego. A raiva, só por si, não te ajuda. Baralha-te as ideias, faz irritar pessoas de quem precisas e chatear quem não deves.

- Fala a voz da experiência - observou ela.

- Exactamente - concordou Parker em tom calmo. Estás a aprender com um especialista.

Sentia-se com cem anos, a maior parte dos quais passados a subir montanhas a correr, emproado e seguro de si, e depois a deslizar por elas com a cara no chão.

Parker enfiou a gabardina cinzento-escura, um modelo Armani da clássica gabardina com cinto e uma recente extravagância da sua outra vida. Levantou a gola e pegou no velho chapéu de feltro que possuía desde que fora promovido a detective. Um detective usara-o antes dele, e outro antes desse, desde os anos 30. Os bons velhos tempos em que Los Angeles ainda era uma cidade fronteiriça e os direitos Miranda não estavam ainda na mente dos tribunais. Os tempos em que os chuis esperavam os bandidos à saída do avião de Nova Iorque ou Chicago, lhes davam uma tareia e os mandavam de volta para o sítio de onde tinham vindo.

- Vá lá - disse ele a Ruiz. - Vamos começar com estas empresas de estafetas, primeiro com as que ficam mais perto do escritório do Lowell, e continuamos até encontrares quem recebeu a chamada.

- Não podemos fazer isso pelo telefone? - choramingou ela. - Está a chover!

Parker explodiu.

- Se queres resolver mistérios pelo telefone, vai trabalhar na Linha Aberta dos Médiuns Amigos!

Ela fez-lhe um gesto ordinário. Uma senhora.

A primeira empresa que procuraram deixara de existir. Seis dias antes, segundo uma mendiga acampada na entrada do prédio. Parker agradeceu-lhe, deu-lhe um cartão-de-visita e vinte dólares.

- Para que foi aquilo? - perguntou Ruiz assim que voltaram para o carro. - Uma maluca duma vadia! Credo, e o cheiro dela?

- Nos albergues não oferecem banhos de vapor e aromaterapia. Além disso, a mulher não é maluca. Está lúcida, pelo menos hoje. Quem sabe o que pode ver, vivendo ali? Se uns cobres puderem convencê-la a falar mais connosco... - Parker deitou uma olhadela de lado a Ruiz e perguntou: - Há quanto tempo estás na polícia?

- Cinco anos.

- E em cinco anos ainda não aprendeste qualquer coisa?

- Talvez eu seja só forreta - respondeu ela, controlando o mau génio.

- Nem falo nisso. É demasiado simples.

- Quero dizer que não tenho dinheiro para espalhar entre os sem-abrigo...

- Pois. Estragavam-te o orçamento para os sapatos.

- Se podes distribuir dinheiro a torto e a direito... Parker olhou para ela de sobrolho franzido.

- Vinte dólares? Não vou exactamente ser obrigado a deixar de comer bifes. Investir numa pessoa como aquela é como apostar umas massas nas corridas de cavalos. Talvez perca, mas talvez ganhe uma boa maquia. Não tinhas informadores no bando que estavas a investigar?

- Não era comigo. Só trabalhei infiltrada... e nada de piadas - avisou ela.

- Não disse uma palavra - respondeu Parker, com as sobrancelhas erguidas.

- E não me fales de sapatos. Os que trazes devem custar mais de seiscentos dólares. Não conheço outro chui que use sapatos desse preço.

- Excepto tu.

- Isso é diferente.

- Como? Aposto que tens os armários cheios de Manolos e Jimmy Choos. Não te vi usar o mesmo par duas vezes numa semana. Enquanto eu tenho talvez uns cinco pares de sapatos.

- E eu talvez tenha um amigo que gosta de me comprar coisas bonitas: roupa, sapatos...

- Tens um amigo? Ela não mordeu o isco.

- Talvez tenhas também uma amiga dessas - disse ela, maliciosa. - Talvez possuas talentos ocultos. Então, Parker? És o querido duma dama rica? Foi assim que arranjaste o Jag com que andas aos fins-de-semana? Se és assim tão bom, talvez valha a pena olhar para ti duas vezes.

- Que é que tu sabes do meu carro?

- Ouvi uns boatos - respondeu ela, encolhendo os ombros.

Parker olhou para ela e depois para a rua quando o semáforo ficou verde.

- Não me parece boa ideia um chui aceitar presentes caros. Nunca se sabe. Essa pessoa especial pode vir a meter-se em algum sarilho com a lei, e a precisar dum grande favor. E mesmo que não se unte a palma das mãos de alguém para a ajudar, aparece sempre quem repare que usamos um Rolex de oiro oferecido pela tal pessoa, e lixam-nos. Comportamento impróprio, suborno... Num ápice, temos o Serviço de Assuntos Internos a chatear-nos.

- Quem não fez algo errado, nada tem que esconder comentou Ruiz.

- Toda a gente tem alguma coisa que esconder, minha querida.

- Sim? E tu? O que tens a esconder, Parker?

Se eu te dissesse, não escondia. Nunca se deve revelar um receio ou uma fraqueza, querida. Na primeira ocasião e quando menos esperamos, atiram-nos com isso à cara.

Continuaram em silêncio durante um momento, com o carro a seguir devagar pela rua no trânsito matinal. Advogados e mais advogados, contabilistas, banqueiros e mais banqueiros a caminho do trabalho nos altos edifícios da baixa. Mercedes, BMWs e Porsches. O carro deles era um vulgar modelo de questionável antiguidade. A Brigada de Roubos e Homicídios viajava melhor, porque tinha de fazer boa figura na televisão. No departamento de Parker, a principal particularidade exigida aos veículos era não atrair gatunos de automóveis.

Na segunda firma de estafetas - ”Correios de Confiança” - um fulano bem-parecido, impecável e com óculos modernos, Rayne Carson, soletrou o próprio nome para assegurar o crédito devido em qualquer futuro relatório. Informou-os de que Leonard Lowell constava da sua lista de clientes sem categoria e até se recusara a pagar uma conta de diversos serviços. Já não era cliente da empresa.

- Dá para acreditar que, na maioria, os tipos na lista são advogados? - confiou ele a Parker, apontando para o papel colado à parede por detrás da secretária.

- As únicas dívidas que os advogados querem ver pagas são as das horas de trabalho deles - concordou Parker, em tom compreensivo.

O telefone tocou e Rayne Carson ergueu um dedo e, com ar de quem pede desculpa, carregou num botão e atendeu a chamada, ouvindo o interlocutor pelos seus auscultadores sem fios, de caneta na mão, pronto a escrever num bloco diante de si.

Parecia um recepcionista dum restaurante da moda em Hollywood, pensou Parker. Mas os tempos estavam difíceis e as profissões com boas gorjetas eram preenchidas por escritores e actores desempregados, vítimas da loucura dos reality shows da televisão.

Ruiz olhou para Parker, revirou os olhos e soltou o seu grande suspiro de aborrecimento.

- Acho que ele quer convidá-lo para sair - disse ela entre dentes.

Carson fez o gesto de ”conversa, conversa, conversa” com a mão e depois apontou para Parker e disse, sem som:

- Belo chapéu.

- Toda a gente me quer, querida - comentou Parker em segredo a Ruiz com sotaque de Bogart. - É o preço de ser assim.

- Eu não quero.

Rayne Carson terminou a chamada com um tom ríspido:

- Tenho de desligar, Joel. A polícia precisa de falar comigo sobre um assunto muito importante... Não, não é sobre ti. Mas posso alterar isso.

Desligou e pediu desculpa a Parker.

- O meu agente... ou coisa parecida. Sou perfeito para um novo reality show gay que a Fox está a preparar, e este palhaço nem consegue que me prendam.

- Nós conseguimos - disse Ruiz delicadamente.

- É capaz de me pôr no programa Os Mais Procurados na América? São dois dias a reconstituir um crime horrível qualquer, e sempre é mais uma coisa para o currículo.

- Talvez noutra altura - disse Parker. - Faz alguma ideia de que outra empresa de estafetas o Lowell podia utilizar, com a má fama que tinha?

- Uma das mais pequenas. Desesperada e pouco recomendável. Barata e manhosa.

- Tal como?

- ”Rapidíssimos, voar em primeira”... A Expresso-Estafetas.

 

Eta Fitzgerald era uma criatura de hábitos. Todas as manhãs às seis menos um quarto despejava no lava-loiça o resto do café que fazia para acordar, dava um beijo à sua velha mãe e fazia-se à estrada.

Vivia com a mãe e quatro filhos numa casa incaracterística num simpático bairro de trabalhadores, sob uma das mais utilizadas rotas de jactos do aeroporto de Los Angeles. A família Fitzgerald mudara-se de Nova Orleães para ali oito anos antes, durante um período de crescimento económico, interrompido por falências e ameaças terroristas que deram um rude golpe na indústria aeronáutica. O marido, Roy, mecânico de aviões, arranjara emprego na Delta e nunca faltara um dia ao trabalho em seis anos, até que uma plataforma ruiu enquanto ele trabalhava num 747, provocando-lhe uma queda mortal.

Às seis menos um quarto, Eta punha-se na baixa num instante. Uma hora depois, a viagem demoraria o dobro do tempo. E a um quarto para as oito, uma fila compacta de carros deslocar-se-ia tão lentamente que ela podia ler o LA Times de fio a pavio antes de chegar ao seu destino.

A primeira paragem na baixa era sempre no café da esquina da Quinta com a Flower, onde se sentava para tomar um segundo café e comer uma gordurenta sanduíche de ovo e salsicha, cheia de calorias e entupidora de artérias. A maior parte das vezes encontrava alguns dos seus estafetas a abastecer-se para o dia. Ocasionalmente, conversava com eles, actualizando-se quanto à sua vida longe das bicicletas. Outros dias, limitava-se a observá-los.

Podia ter arranjado um emprego em que ganhasse melhor. Trabalhara como expedidora no Departamento da Polícia de Nova Orleães e, durante dois anos, numa companhia particular de ambulâncias em Encino. Mas ficara farta de situações ”entre a vida e a morte”, e não precisava de ganhar milhões. O seguro e a pensão do marido davam para cuidar bem da família, e Eta gostava de trabalhar na Expresso. Os estafetas eram personagens estranhas e interessantes, uma malta de garotos e homens feitos que nunca tinham sido capazes de escolher outro caminho a não ser o menos utilizado. Era uma espécie de família e Eta a mãe galinha.

Mojo levantou a mão para mostrar que a vira. Estava junto da mesa do canto, com um pé em cima do banco, inclinado para a frente e a contar a dois estafetas doutra empresa uma das fantásticas histórias que constituíam o seu passado. Era um tipo com ar desvairado, aquele Mojo, com um penteado à rastafári, tipo Bob Marley, a pele preta bem esticada sobre uma alta e ossuda constituição e sempre vestido com camadas de trapos, como um sem-abrigo. E, quando esbugalhava os olhos, parecia louco.

Mojo era conhecido por ter lançado pragas a motoristas de táxi que não o deixavam passar - e uma vez quase fora parar à cadeia por perseguir um deles até uma tasca, onde o agarrou pelo colarinho e desatou a rogar pragas e a sacudir o colar feito com ossos de galinha e Deus sabe que mais na cara do homem.

Era o número de Mojo, o truque que impedia as pessoas de olharem mais atentamente para ele. Eta sabia que o nome verdadeiro dele era Maurice, que lia poesia e que tocava saxofone em certas noites num clube de jazz na zona ocidental de Los Angeles.

Deu um golinho no café e olhou em volta, à procura de alguns outros dos seus ”filhos”. Gemma, uma rapariga ruiva de calças de ciclista e uma colorida camisola justa, bebia uma Coca-Cola gigante por uma palhinha e folheava a LA Weekly. Interrompera a faculdade por um ano para ganhar umas massas e conhecer a vida urbana.

Pela montra, Eta viu John, o pregador, a andar dum lado para o outro no passeio, já embalado na sua lengalenga diária.

Mojo gostava de fazer de louco. John, a pregar, era um artigo genuíno, e lá conseguia transmitir a sua mensagem. Intervenção divina, supunha Eta. Conseguia trabalhar, desde que tomasse os remédios. Se deixava de os tomar, desaparecia semanas a fio. O patrão, Rocco, não o despedia porque era tio dele ou coisa assim, e a família queria saber por onde ele andava.

Eta foi arrumar o tabuleiro e saiu de novo para a obscuridade matinal. John avançou para ela, agitando a gasta Bíblia e chamando:

- Irmã! Irmã!

- Não me venhas para cá com essas tretas! - avisou Eta, levantando a mão. - Sou uma cristã fiel a Deus e que vai à igreja, John Remko.

Ele parou e inclinou a cabeça para o lado, suficientemente lúcido para se acalmar.

- Eta! Eta, minha rainha africana!

- Eu sou a rainha cá do sítio - vociferou ela -, e o melhor que tens a fazer é tomar as gotas, querido, e desandar para a sede.

Dirigiu-se para a carrinha a abanar a cabeça e a resmungar.

- Como é que aquele rapaz ainda não morreu no trânsito é que eu não percebo...

Alçou-se até ao banco da carrinha e estendeu o braço para colocar a chave na ignição. Uma mão tapou-lhe a boca, antes de poder perceber donde vinha.

- Não grites.

”Uma gaita é que não grito”, pensou ela, tentando atirar-se para a frente para obrigar o homem a soltá-la. Olhou para o retrovisor. Queria vê-lo, para poder dizer aos chuis como ele era antes de lhe dar cabo das ventas.

- Sou eu.

A mão afastou-se, e a tensão abandonou-a num suspiro.

- Bolas, que me pregaste um susto! - explodiu ela, ainda a olhar para ele pelo retrovisor.

- Desculpa - disse Jotacê. - Eu sabia que ias reagir e se gritasses, podias chamar a atenção de alguém... como um chui.

Eta virou-se para trás, com ar ameaçador, para o rapaz encolhido atrás das costas do banco dela. Rapaz... Dizia que tinha vinte e um anos, mas ela não acreditava e não conseguia olhar para a carita dele e chamar-lhe outra coisa senão rapaz.

- E por que motivo não queres tu os chuis a olhar para ti? - perguntou Eta, reparando nos arranhões e nódoas negras da cara dele. - Em que foi que te meteste, Mascarilha?

- Alguém quis passar-me a ferro no alcatrão durante aquela última entrega ontem à noite.

- As pessoas cá da terra ficam malucas quando chove.

- Viste alguma coisa nas notícias acerca do advogado Lenny Lowell?

- Não fico acordada para ver as notícias. Nunca há uma que não seja má. Quem é o Lenny Quê?

- Caroço - respondeu Jotacê. - A minha última corrida. O advogado.

- Ah, sim. E então?

- Está aqui - disse Jotacê, atirando uma parte do Times para o banco da frente. - Mataram-no ontem à noite. Depois de eu ir lá.

Eta ficou a olhar para ele. Aquele garoto era tão capaz de matar alguém como a mãe dela de se levantar e desatar a dançar. Mas estava com medo dos chuis, e alguém tinha morrido.

- Os chuis andam à minha procura - disse ele. - Eu posso ter sido a última pessoa a ver o tipo vivo... excepto aquela que o matou.

- Então, conta-lhes o que sabes.

- Nem pó! Não vou ter com os chuis. Estive naquele escritório ontem à noite, toquei em coisas. Estão lá as minhas impressões digitais. Apanham-me, conferem as impressões... E é canja para eles. Não.

- Mas, filho, se alguém tentou matar-te - começou Eta num tom calmo e sensato.

Jotacê parecia não crer no que ouvia.

- E achas que acreditavam em mim? Não tenho provas nem testemunhas.

- Já olhaste para um espelho hoje, filho?

- Mais uma razão para me considerarem suspeito. Houve luta. Eta, tens de ajudar. Os chuis vão aparecer na Expresso mais cedo ou mais tarde e hão-de fazer uma data de perguntas.

- Queres que eu minta à polícia? - perguntou ela, de testa franzida. - Isso não é bom, filho. Se nada tens a esconder, então não escondas. Conheci uma data de chuis na minha vida e uma data de detectives dos homicídios. Quando farejam alguma coisa, vão atrás dela. E, quanto mais lhes dificultares o trabalho, mais eles te tramam a vida.

- Por favor, Eta. Não precisas de lhes mentir. Só... só de os empatar.

O garoto tinha os olhos mais límpidos e azuis que ela alguma vez vira. E a única coisa que observava neles era medo.

Ele estendeu a mão e poisou-a no braço de Eta, insistindo:

- Diz-lhes só que não sabes nada de mim.

”E não sei”, pensou ela. Nos dois anos de contacto, nada soubera da vida dele, se tinha família, onde morava ou o que fazia fora do trabalho. Continuava um mistério. Não era anti-social; era calado. Não era introvertido; era observador. Se namorava alguém, ninguém na Expresso sabia. Ria-se com as anedotas, possuía um sorriso capaz de encher os cinemas, mas a maior parte do tempo a expressão dos seus olhos era... receosa. Não chegava a ser desconfiada, mas também não era convidativa.

Eta suspirou.

- Que vais fazer, Jotacê? Vais fugir?

- Não sei - disse ele.

- Essa resposta não presta, rapaz. Se foges, garanto-te que te deitam as culpas. E depois? Vais fugir o resto da tua vida?

Ele fechou os olhos, respirou fundo, o que o fez contrair-se de dor.

- Depois penso nisso. Tem de ser. Só preciso de algum tempo.

Eta abanou a cabeça, com ar triste.

- Nunca deixas as pessoas ajudarem-te - observou ela.

- Estou a pedir-te que me ajudes agora. Por favor.

- De que é que precisas? Dum sítio para ficar?

- Não, obrigado, Eta. - Desviou o olhar, embaraçado.

- Se pudesses adiantar-me umas massas... Tu sabes que eu pago.

- Sei? Que sei eu de ti? - disse ela, pondo o carro a trabalhar. - Mas tenho dinheiro no cofre do escritório.

- Não posso ir lá.

- Podes deixar ficar esse teu físico escanzelado onde está, que eu arrumo o carro nas traseiras e trago-te o dinheiro.

- E se os chuis estão a vigiar o prédio?

- Quem pensas tu que eu sou? Filho, o que sabes dos chuis já eu esqueci há muito tempo!

Ou, pelo menos, gostava de pensar que sim. De repente, sentiu vontade de lhe fazer perguntas sobre tudo aquilo que não sabia dele, mas calculava que não ia obter respostas.

- Querido, o tal advogado que morreu: ele não era um tipo graúdo. Não tratava dos assuntos da máfía lá naquele escritório manhoso... Não valia o dinheiro que ia custar aos contribuintes vigiar todas as empresas de estafetas de Los Angeles. Primeiro, têm de descobrir quem foi lá buscar a encomenda. A não ser que o homem fosse do género arrumadinho, com apontamentos de quem fez o quê, quando e porquê. Pareceu-te ser assim?

Jotacê abanou a cabeça.

- Então, deita-te aí no chão e fica quieto até eu dizer.

- És a melhor, Eta.

- Podes ter a certeza - resmungou ela, arrancando. Vocês não apreciam a menina Eta. Arriscando o seu coirão preto por vocês todos. Não sei o que fariam sem mim.

 

Expresso-Estafetas. Logotipo elegante. Com aspecto dos anos 40. Todo em maiúsculas inclinadas para a direita e com uma série de linhas horizontais estendendo-se para a esquerda dando uma sugestão de movimento rápido. A tabuleta custara provavelmente mais do que um mês de renda da baiuca onde estava pendurada.

A casa fora em tempos um restaurante indiano e ainda cheirava como tal, notou Parker assim que entraram. O velho fantasma azedo do caril entranhara-se no azulão das paredes e no tecto doirado. Ruiz franziu o nariz e olhou para Parker como se a culpa fosse dele.

- Bem-vindos à nossa casa - disse o tipo que lhes abriu a porta, recuando para os deixar entrar. Era um homem magro e alto com os olhos negros e brilhantes dum fanático.

Um rapaz com três anéis no nariz e um moicano azul fumava um cigarro a uma pequena mesa junto da montra. Depois duma olhadela furtiva na direcção de Parker e Ruiz, pôs uns óculos prateados abaulados, levantou-se e saiu ao mesmo tempo que eles avançavam.

- Todas as visitas são bem-vindas e todos os pecadores redimidos - disse-lhes o homem. Levantou uma sobrancelha com ar reprovador perante o sutiã de renda encarnada que espreitava do casaco escuro do fato de Ruiz. - Conhece a história da mulher de Heber?

Parker olhou em volta. A parede dum longo e estreito corredor estava forrada com painéis de falsa madeira semeada de grampos, servindo de placar de anúncios de peças teatrais e propaganda política. REVOLTA CONTRA AS MÁQUINAS

GUERRA CONTRA A CULTURA AUTOMÓVEL. Um prospecto anunciava uma corrida de estafetas que tivera lugar dois meses antes. Um cartaz recrutava dadores de sangue por dinheiro. Fotografias mostravam diversos estafetas em festas, sobre as bicicletas ou na palhaçada. Bilhetes rabiscados à mão em pedaços de papel anunciavam coisas para vender. Alguém andava à procura dum companheiro de quarto que não fumasse. Outra pessoa ia viver para a Holanda, onde a erva é legal e o sexo livre. Adeusinho, parvalhões!” Parker mostrou o distintivo ao guia espiritual.

- Queremos falar com o vosso expedidor.

O homem sorriu e indicou-lhes um cubículo com a parte superior em acrílico muito riscado, onde uma mulher gorda com a cabeça coberta de tranças seguras para trás com um lenço colorido e um telefone preso entre o ombro e a orelha tomava notas com uma mão e pegava num microfone com a outra.

- Eta, rainha africana - exclamou ele. A voz da mulher trovejou de repente:

- John Remko! Põe-me esse teu cu já na bicicleta. Tens um serviço. Leva este impresso e pira-te!

De testa franzida, o homem aproximou-se da pequena janela recortada no acrílico.

- Miss Eta, que linguagem...!

A mulher olhou para ele com os olhos esbugalhados.

- Tu não me respondas, pregador! Não és filho do tio do meu primo. Desaparece daqui ou deixas já de ser parente seja de quem for, porque dou cabo de ti!

John, o pregador, pegou no papel e desapareceu pelo corredor escuro, qual espectro.

Parker aproximou-se da janela, mas a mulher não olhou para ele, ocupada a prender o apontamento num quadro magnético. Cada íman tinha um nome: MOJO, jc, GEMMA, SLIDE. Prendeu-o com o que dizia JOHNP.

- Se precisas de trabalho, filho, preenche o questionário amarelo. Se tens trabalho para nós, preenche a parte superior do impresso - disse ela, estendendo a mão para o telefone, que tocava. - Se queres outra coisa, daqui não levas nada. - Depois, vociferou para o auscultador: - Expresso-Estafetas!

Que é que queres, filho? - A pergunta era dirigida a Parker. Este introduziu a mão pela janela e mostrou-lhe o distintivo.

- Detective Parker e detective Ruiz. Precisamos duns minutos do seu tempo, minha senhora. Temos algumas perguntas a fazer-lhe.

A expedidora olhou para o distintivo, não para Parker, enquanto escutava o que lhe diziam ao telefone.

- Bom, tenhas o que tiveres, Todd queridinho, o melhor é morreres disso. Já me falta um estafeta... A andar com pneumonia? Não preciso de ti a andar; preciso de ti em cima duma bicicleta. - Ouviu durante um momento, bufou ofendida e continuou: - Tu não gostas de mim, e pronto.

Bateu com o auscultador no descanso, fez girar o banco alto e enfrentou Parker com um olhar imperioso.

- Não tenho tempo para ti, olhos azuis. Só me trazes sarilhos, estou mesmo a ver. Um homem bem vestido e de chapéu só pode trazer sarilhos. Vais custar-me tempo e dinheiro.

Parker tirou o chapéu, sorriu e abriu a gabardina.

- Gosta do fato? É Canali.

- Gostava mais à distância. E também do que vais perguntar, querido. Isto não é o escritório duma revista qualquer. Estou a trabalhar a sério.

- Mandou um estafeta ao escritório dum tal Leonard Lowell, ontem por volta das seis e meia da tarde?

- Nós fechamos às seis - declarou ela, de queixo espetado e sem pestanejar.

- Óptimo - retorquiu Parker, com um esboço de sorriso. - Posso deixar o meu tempo livre para o resto do dia. É claro que vão ter de ir à esquadra. Quantos são eles? A minha colega manda vir uma carrinha.

A sua némesis semicerrou os olhos. - Como é que chama a essas notas que prende no quadro? - perguntou Parker.

- Folhas.

- Cada serviço vai para uma folha, a folha fica no quadro com o nome do estafeta que se encarrega dele. É assim que funciona, não é?

- Queres o meu lugar? - perguntou ela. - Ou preferes outro tipo de trabalho e que eu te treine? Podes ficar com este, e eu passo a tratar das unhas e a ver a Oprah e o Dr. Phil todos os dias.

As unhas dela, muito compridas, pareciam garras de urso pintadas com um verniz roxo metálico e rosas mais claras desenhadas por cima.

- Só quero que me responda a uma pergunta muito simples, minha senhora, mais nada. Pode responder-me ou podemos pegar em todas as folhas de ontem, levá-las para a esquadra e vê-las uma por uma. E quanto aos impressos? Calculo que confira as duas coisas ao fim do dia. também podemos levá-los... e deixá-la continuar o seu trabalho.

- Ou pode arranjar uma porra dum mandado - vociferou Eta, agarrando o microfone quando o altifalante começou a emitir ruídos. - Dez-nove? Dez-nove, JP? Que raio queres dizer com estares perdido? Saíste daqui há dois minutos, como é que podes estar perdido? Estás é perdido dentro da tua cabeça. Olha para o raio do nome da rua.

O estafeta respondeu e Eta rebolou os olhos.

- Mal atravessaste o raio da rua! Por amor de Deus, John Remko, se não tomas os remédios, quem tos enfia pela boca abaixo sou eu! Dá meia volta e desaparece antes que o Caroço me dê cabo do canastro.

Ruiz resolveu meter o nariz na confusão.

- A gente pode arranjar um mandado - disse ela agressivamente. - Podemos dificultar-lhe a vida. Sabe o que significa a palavra obstrução!

Eta olhou para ela como quem olha para uma criança impertinente.

- Claro que sei - afirmou ela, arrastando as palavras.

- Para isso o melhor é comprares alguma coisa na farmácia, querida. Há uma já no próximo quarteirão.

Ruiz corou.

- Querida, fui expedidora do Departamento de Polícia de Nova Orleães durante oito anos. Não me metes medo.

O telefone tocou de novo e ela deitou-lhe a mão.

- Expresso-Estafetas. Que é que queres, querido? Parker olhou para Ruiz, erguendo um canto da boca.

- Ela é de força!

Ruiz estava de trombas, zangada e ofendida por ter sido alvo duma piada.

- Não insistas - segredou Parker. - Precisamos dela do nosso lado. Com uma mulher, a delicadeza é sempre preferível a força.

- Como se tu soubesses - resmungou Ruiz. - Foste o primeiro a ameaçá-la.

- Mas fi-lo com delicadeza e com um sorriso encantador.

A expedidora passou do telefone para o microfone, enquanto rabiscava a encomenda.

- Sede para oito, sede para oito. Gemma, estás aí, querida?

A estafeta respondeu e foi despachada para ir buscar uma encomenda ao escritório dum advogado na baixa e levá-la a outro advogado no edifício federal em Los Angeles Street. A folha foi afixada no quadro com o íman GEMMA.

- Há uma coisa que me intriga - disse Parker, apoiando os cotovelos no balcão. - Ainda não perguntou por que motivo queremos saber se mandou um estafeta ao escritório do tal advogado.

- Não é da minha conta.

- Assassinaram um homem nessa morada ontem à noite. E a filha disse-nos que ele estava à espera dum estafeta. Pensamos que talvez ele possa dizer-nos alguma coisa que seja relevante para o caso.

- Que o Senhor tenha piedade da sua alma - disse Eta com um suspiro.

- Da vítima ou do estafeta? - perguntou Ruiz.

- Está a fazer-me ficar desconfiado, sabe? - declarou Parker em tom casual e com um olhar de baixo para cima, íntimo, como se se conhecessem de longa data e esse olhar tivesse dado resultado no passado. - A mostrar-se tão difícil. Faz-me pensar que tem alguma coisa a esconder.

A mulher desviou os olhos, como quem pensa, pesando os prós e os contras, talvez percebendo que fizera mal em tomar aquela atitude.

- A gente descobre duma maneira ou doutra - frisou Parker. - E era melhor para todos se fosse duma maneira amigável. Não vai querer uma cena de mandados, levar metade das suas coisas e todos os estafetas daqui para fora. Se assim for, Miss...

- Fitzgerald. Não, não quero.

- Depois, tinha de explicar ao seu patrão por que motivo o fazia perder um dia de trabalho, as suas fichas eram confiscadas e a polícia queria verificar as fichas e as folhas dos ordenados dos empregados. - Abanou a cabeça com ar triste e acrescentou: - Isso não ia ser bom para si.

A mulher ficou a olhar para ele, possivelmente a pensar se valeria a pena desafiá-lo.

- Eu conheço esta rapaziada - disse ela. - Tem lá a sua maneira de ver as coisas, mas não são maus.

- Só precisamos de lhe fazer umas perguntas. Se ele não procedeu mal, não tem com que se preocupar.

Eta Fitzgerald desviou de novo o olhar e suspirou, como um balão que se esvaziasse, reconhecendo a sua derrota. O telefone tocou, ela atendeu e pediu delicadamente que não desligassem.

- Foi uma chamada tardia - disse ela por fim, com os olhos postos no balcão.

- Onde está o impresso que acompanha a encomenda?

- Ainda está com o estafeta. Ele não voltou cá, porque estava a chover, e eu tive de ir para casa por causa dos meus filhos.

- E hoje ele está a trabalhar?

- Ainda não apareceu.

- Porquê?

Ela fez uma cara irritada.

- Não sei! Não sou mãe dele. Alguns destes rapazes aparecem e desaparecem. E alguns têm outros trabalhos além deste. Não faço ideia.

Parker tirou o bloco do bolso interior do casaco.

- Como é que ele se chama? - perguntou.

- J.C.

- São as iniciais de quê?

- De nada. Jotacê é como lhe chamamos - declarou ela, imperturbável. - Jotacê, número dezasseis.

- Onde é que ele mora?

- Não faço ideia.

- Deve dizer alguma coisa na ficha dele.

Não tem ficha.

- Trabalhador independente - disse Parker. - Sem ficha, sem seguro, nada.

- Exactamente.

- Com um bocado de sorte, até é pago em dinheiro.

- Isso não é comigo - protestou Êta.

- Queres que peça o mandado? - perguntou Ruiz, dirigindo-se a Parker e já com o telemóvel na mão.

Parker fez-lhe sinal para esperar. A sua atenção concentrava-se na expedidora.

- Mas têm o telefone dele.

- Não, não temos.

Ruiz fungou e começou a marcar um número.

- Ele não tem! Não sei nenhum número. Parker fez uma expressão de dúvida.

- Nunca ligou para cá? Para dizer que se encontrava doente, pedir alguma coisa ou dizer que estava atrasado?

- Liga sempre pelo rádio. Não tenho qualquer número de telefone do rapaz.

Ruiz falou ao telemóvel:

- Detective Renee Ruiz da polícia de Los Angeles. Preciso de falar com o procurador assistente Langfield por causa dum mandado.

- Talvez tenha por aqui uma morada - admitiu a expedidora, de má vontade.

O telefone da mulher parecia uma máquina de jogos, com luzes a piscar duma chamada em espera e outra a entrar. Ela pegou no auscultador, carregou num botão e disse:

- Tem de voltar a ligar, querido. Estou a ser incomodada pela polícia.

Vasculhou uma gaveta dum ficheiro a um canto do cubículo e tirou de lá o que parecia ser uma pasta vazia.

- É só uma dessas caixas postais - disse ela entregando a pasta. - E não posso dizer outra coisa, nem que me torturem.

Parker ergueu as sobrancelhas.

- Espero não ter de chegar a tanto. Pode dizer-me como ele é?

- É branco, loiro e de olhos azuis.

Há alguma fotografia dele naquela parede? - perguntou Parker, indicando o painel.

- Não, senhor.

- Muito obrigado pela sua cooperação, Miss Fitzgerald. É uma cidadã às direitas.

Eta Fitzgerald olhou para ele carrancuda e pegou de novo no auscultador, sem lhe ligar mais importância. Parker abriu a pasta e olhou para a única folha que continha - uma candidatura a emprego - à procura de qualquer informação pertinente.

NOME: J. C. Damon.

Fechou a pasta e entregou-a a Ruiz. Em vez de se dirigir à porta da rua, seguiu pelo corredor em direcção às traseiras do escritório com cheiro a restaurante indiano. A expedidora afastou o auscultador da cabeça e gritou:

- Onde pensa que vai?

Parker disse-lhe adeus com a mão.

- Nós saímos sozinhos, Miss Fitzgerald. Não se preocupe. Temos o carro nas traseiras.

Deitou uma olhadela para o que devia ter sido uma pequena sala de jantar privada e fora transformada num escritório para os executivos da Expresso. Nenhum deles chegara ainda ao trabalho. E, pelo estado da sala, podia avaliar-se a precariedade do negócio. Duas velhas secretárias cobertas de papelada e um imundo cinzeiro verde-garrafa numa mesa baixa diante dum sofá que parecia ter sido encontrado à beira da estrada constituíam o mobiliário.

Um pouco adiante, o que fora em tempos um vestiário era um espaço escuro cheio de ficheiros.

Parker empurrou a porta da cozinha, onde a conversa e o fumo de cigarro pairavam no ar, juntamente com o leve cheiro de erva. O rapaz com o moicano azul estava numa mesa com tampo de aço inoxidável e ficou de repente imóvel, como um pequeno animal descoberto por um predador que o mataria se ele se mexesse. Um tipo com ar de rastafári e aspecto desvairado, encostado a um lava-loiça, fumava um cigarro, sem parecer admirado ou alarmado com a entrada de dois chuis.

- Podemos ajudá-los? - perguntou ele. Jamaicano.

- Algum dos senhores conhece o J. C. Damon?

O índio ficou calado. O rastafári deu uma fumaça no cigarro e perguntou:

O Jotacê? Claro.

- Viu-o por aqui hoje?

- Não, hoje não.

Parker observou lentamente a cozinha, o local ocupado pelos estafetas. Viu duas bicicletas maltratadas encostadas a uma parede. O balcão exibia uma boa colecção de peças, garrafas de cerveja e latas de refrigerantes. Os electrodomésticos tinham desaparecido, à excepção dum imundo frigorífico GE, em tempos branco. No lugar do fogão, estava um sofá verde puído; perto da porta das traseiras havia uma mesa com cadeiras desirmanadas e um monte de papelada em cima, bem como um tampão de automóvel que servia de cinzeiro.

- Sabe onde ele mora?

- Pra que precisas dele, meu? - perguntou o rastafári, abanando a cabeça.

Parker encolheu os ombros.

- Pode ter visto uma coisa que aconteceu ontem à noite. Nenhuma reacção.

Ruiz deu um passo na direcção do índio.

- E tu? Que tens para nos contar?

- Eu não sei nada de ninguém - respondeu o rapaz, decidindo armar-se em esperto. Não podendo fugir nem esconder-se, observou: - Sutiã giro!

Ruiz fechou melhor o casaco.

- Ele trabalha aqui. Como é que não o conheces, meu espertalhão?

- Não disse que não o conhecia. Só disse que não sabia dele.

- E sabias se eu te atirasse contra a parede e encontrasse droga num dos teus bolsos?

O índio franziu a testa, e Parker revirou os olhos e abanou a cabeça.

- Desculpa lá a minha colega. Ela ferve em pouca água.

Ruiz interrompeu-o com um olhar.

- Estamos a perder tempo. Que queres fazer? Ficamos Por aqui e fumamos um charro com eles?

- Isso era contra o regulamento - respondeu Parker com toda a calma.

Ruiz chamou-lhe ”cagalhão” em espanhol. O rastafári expeliu o fumo pelo nariz.

- A gente chama Mascarilha ao Jotacê - disse ele.

- Porquê? - perguntou Parker. - Anda de máscara? Traz uma bala de prata? Ou vive com um índio?

- Porque gosta de estar sozinho.

- Nenhum homem é uma ilha.

O estafeta desencostou-se do lava-loiça. Por baixo da sua espectacular cabeleira de tranças e torcidos dum castanho-acinzentado, estava um corpo forte como uma árvore. Os músculos das coxas, envoltos em tecido elástico, pareciam ter sido esculpidos por um autêntico mestre. Aproximou-se do tampão que fazia de cinzeiro, com os protectores dos sapatos de ciclista a tinir no chão de cimento.

- Ele é - declarou.

Parker tirou a carteira do bolso, exibindo um molho de notas enquanto pescava um cartão-de-visita que atirou para cima da mesa, na direcção do índio.

- Se souberes dele, diz-lhe que me telefone. Guardou a carteira e saiu para a rua, quase derrubado por Ruiz que queria colocar-se diante dele.

- Que porra foi aquela? - perguntou ela em voz baixa mas num tom cáustico.

- O quê?

- Podias ter seguido a minha deixa, quando falei nas drogas. Podíamos ter vergado aquele estupor.

Parker olhou para duas bicicletas presas com correntes a um contador de gás.

- Pois podia, mas não é assim que quero fazer as coisas. O caso é meu, tu é que me apoias. Quando o caso for teu, deixo-te irritar todas as pessoas que quiseres.

O beco era semelhante a qualquer beco da baixa, estreito, escuro, um sujo vale entre edifícios de tijolo. A tira de céu por cima era da cor da fuligem, e os poucos lugares para estacionar estavam apinhados de carrinhas de entregas encostadas umas às outras como cavalos à chuva.

- E a tua maneira de fazer as coisas é subornar toda a gente? - perguntou Ruiz.

- Não sei de que está a falar, Miss Ruiz. Não houve dinheiro a passar duma mão para outra.

Uma pequena carrinha azul-escura entre a parede e um latão do lixo exibia uma placa na janela traseira: ORGULHOSA MÃE DUM ALUNO DO QUADRO DE HONRA. O Caito de Eta Fitzgerald.

-A ideia de dinheiro disponível fica no ar – disse Parker, dando a volta à carrinha. - Não é comigo, que não fiz qualquer oferta. Mas nunca se sabe. O índio talvez pensasse que eu estava a oferecer alguma coisa, e isso pode fazer com que nos conte o que não fazia tenções de contar.

Mas Ruiz não queria ficar calma. Parker achava que ela gostava de estar zangada. A raiva era o combustível para a energia dela, e talvez também a fizesse sentir-se maior e mais forte.

- E depois? - insistiu ela. - Ele arrisca-se a contar alguma coisa e tu dás-lhe a banhada?

- Ele conta-me alguma coisa e eu salvo-o de ti. Quem me dera que alguém fizesse o mesmo por mim.

Espreitou pela janela da carrinha e viu a habitual tralha duma família com filhos. Um capacete, bonecos de super-heróis e uma Barbie preta. Garrafas de água que deviam rolar dum lado para o outro com o carro em movimento.

- Seja como for, que andas a fazer com tanto dinheiro?

- perguntou Ruiz, zangada.

- Não sabes quanto dinheiro trago comigo. Posso ter aqui vinte dólares em notas de um. Além disso, não é da tua conta.

Ela decidiu amuar e cruzar os braços, empurrando o peito para cima, com a renda encarnada à mostra.

- Andamos à procura de quê? Parker encolheu os ombros.

- Gosto de me localizar.

- Vamos mas é procurar o tipo. Estou a ficar gelada.

- Sessenta por cento do teu calor corporal escapa-te Pelo alto da cabeça.

- Cala a boca!

Ele começou a afastar-se da carrinha, mas depois olhou Para trás. Alguma coisa lhe chamara a atenção. Franziu a testa e voltou a entrar no prédio, com Renee Ruiz atrás dele como um cachorrinho.

Eta Fitzgerald, mais uma vez a fazer malabarismos com o microfone e o auscultador, ficou imóvel ao vê-los aproximarem-se.

- Que foi agora? São piores que as melgas. Porque é que não vão cirandar noutro sítio qualquer?

Parker fez-lhe um grande sorriso e colocou uma mão no peito.

- Não está contente por me ver? Sinto-me desfeito!

- De desfazer alguma coisa gostava eu. Vá lá, despache-se. É pior do que uma criança.

- É o seu carro - disse ele. - Não se importa de chegar ali fora connosco por um instante?

A mulher ficou cinzenta. Desligou o microfone e poisou o auscultador do telefone.

- O meu carro? O que aconteceu ao meu carro? Parker fez-lhe sinal para o seguir e voltou para trás. Lá fora, o nevoeiro adensara-se e a chuva caía de novo.

Parker ajustou o chapéu e dirigiu-se à traseira da carrinha. A expedidora seguiu-o com relutância, ofegante como se acabasse de fazer uma corrida.

- É este farolim - disse Parker, apontando. - Está partido. Não é um grande estrago, mas... Num dia como este, vão mandá-la parar.

Eta Fitzgerald ficou a olhar para a traseira da carrinha, com uma repentina expressão aborrecida.

- Não eu, claro - continuou Parker. - Já não me deixam passar multas. Só queria avisá-la.

- Obrigada, detective - disse ela baixinho. - Agradeço-lhe muito.

Parker ergueu o chapéu.

- Estamos cá para servir.

 

Jotacê estava a vigiar do outro lado do beco, dentro duma caixa de cartão molhada deixada atrás duma loja de móveis italiana. As partículas de esferovite da embalagem agarravam-se a ele como pulgas.

O banco traseiro de Eta era demasiado arriscado. Sentira-se preso, vulnerável. Não servia. Precisava de espaço, dum sítio onde estivesse em vantagem e donde pudesse rugir. Assim que ela entrara, ele abandonara o carro. A caixa deixada do outro lado do beco, junto ao carro de entregas da loja de móveis, estando esta ainda fechada durante mais duas horas, era segura de momento.

Eta tinha prometido voltar logo com o dinheiro, mas, meio minuto depois de ela entrar, aparecera John, o pregador, que prendera a bicicleta ao latão do lixo e entrara. A seguir, viu Mojo, e logo atrás o tipo a quem chamavam ”loja de ferragens” por causa dos piercings. Provavelmente, estavam ansiosos por regressar a casa, e chegavam ali mais cedo para despachar a papelada do dia anterior antes de começar o trabalho desse dia.

E nada de Eta.

Ela só precisava de meter a massa num envelope e levá-la até à carrinha. Não viu sinal de Rocco, o patrão, nem do seu compincha, Vlad, que parecia limitar-se a fumar o dia todo, falar ao telefone com outros russos e dar tacadas em bolas de golfe dentro do escritório. Rocco aparecia geralmente por volta das nove, e Vlad lá para o meio-dia, quase sempre de ressaca.

Então, Eta, então!

Jotacê encolheu-se dentro do casacão da tropa que usava e olhou para a folha de jornal que tentara mostrar a Eta dentro da carrinha. Leu a notícia pela centésima vez. A partida violenta de Lenny Lowell deste mundo fora reduzida a duas curtas colunas enterradas nas profundezas do The Times. Dizia que o advogado fora encontrado pela filha Abigail (uma estudante de Direito de vinte e três anos), morto à pancada no seu escritório. Ia ser autopsiado e a polícia estava a seguir todas as pistas.

Abby Lowell. A bonita morena da fotografia na secretária de Lenny. Estudante de Direito. Jotacê perguntou a si próprio se ela teria visto alguma coisa. Talvez o assassino a rugir da cena do crime. Talvez soubesse quem podia querer o pai morto e por que motivo. Ou talvez até soubesse quem eram as pessoas nos negativos.

A porta das traseiras da Expresso abriu-se e apareceram duas pessoas. Primeiro um homem: altura mediana, gabardina cara e um chapéu como um detective num filme dos anos 40. Sam Spade. Philip Marlowe. Com uma mulher franzina de fato preto e qualquer coisa encarnada a aparecer no decote. Chateada. Hispânica... e ignorada por Marlowe.

Chuis. Pelo menos o gajo era - apesar de estar demasiadamente bem vestido. Jotacê tinha um sexto sentido para chuis. Andavam de certa maneira, moviam-se de certa maneira. E os olhos deles nunca paravam de espiolhar o território quando se lhes deparava uma nova situação. Absorviam tudo o que os rodeava, para o caso de precisarem de recordar pormenores mais tarde.

Aquele deu a volta à carrinha de Eta, devagar, a espreitar pelas janelas. Jotacê estremeceu e ficou com pele de galinha. A mulher parecia mais interessada em resmungar com o gajo do que em investigar a carrinha. Nenhum deles tentou abrir as portas, e depois voltaram para dentro.

Jotacê teve um arrepio. Por que diabo estariam os chuis interessados na carrinha de Eta, a não ser que alguém lhes dissesse que o deviam fazer? Ela aconselhara-o a que fosse à polícia. Se calhar, tomara a decisão por ele.

Disse para consigo que não podia sentir-se desapontado, porque na realidade nunca esperara fosse o que fosse de alguém. Mas a verdade é que se sentia desapontado. As pessoas nunca cumpriam o que prometiam. Ou faziam tenções jisso no momento em que faziam a promessa, mas não sob pressão. Era como a letra miúda num contrato: Salvo perante a ocorrência de circunstâncias atenuantes.

Eta tratava os estafetas como se fosse uma segunda mãe, rabugenta mas com bom coração. Mas porque haveria de se arriscar com os chuis por causa dele? Tinha a sua própria vida, os seus filhos verdadeiros. E ele não fazia parte da família. Ou talvez ela fosse o género de mãe que fazia coisas ”para o bem dos filhos”, o que dava quase sempre mau resultado.

Jotacê disse para consigo que fora estúpido em pedir-lhe ajuda, que mentisse por ele. Envolver outras pessoas significava perder o controlo absoluto da situação. Mas vira uma maneira rápida de deitar a mão a uns duzentos dólares, dinheiro que podia utilizar para manter a bola baixa durante uns tempos, se fosse preciso. Não queria tirar dinheiro do ”banco”, que nem sequer era um banco, mas um cofre à prova de fogo escondido num respiradouro da casa de banho. O dinheiro era para o irmão poder viver, no caso de lhe acontecer alguma coisa.

E alguma coisa acontecera. Estava na altura de sair dali.

Escondido pelo carro da loja de móveis, Jotacê gatinhou para fora da caixa de cartão. Levantou a gola do casaco, abaulou os ombros e, com o jornal em cima da cabeça, começou a andar. Tentou não coxear e não mostrar que estava com pressa, como se não tivesse onde ir e não quisesse correr. Foi seguindo de olhos postos no chão. E agora, Jotacê?

Os negativos continuavam no envelope dentro da camisa, seguros com uma ligadura elástica. Precisava de arranjar um sítio para esconder aquilo, um sítio fora do alcance do irmão e dos Chen. Obviamente, era valioso para alguém e podia ser usado como moeda de troca, como um seguro se as coisas piorassem ainda mais. Precisava de encontrar um sítio seguro e neutro. Um sítio público. E precisava de falar com Abby Lowell.

Ao fundo do beco, apareceu um carro a andar muito devagar. Talvez os dois chuis.

Um carro escuro. Com o pára-brisas rachado.

O medo atingiu Jotacê na barriga e percorreu-lhe as veias como mercúrio. Rápido, tóxico. Quis olhar, dar rosto ao seu perseguidor, humanizar o monstro. Ver que, à luz do dia, o tipo era apenas um pequeno homem incapaz que não constituía uma verdadeira ameaça. Mas claro que nada disso era verdade. O homem queria uma coisa que ele, Jotacê, tinha em seu poder e, ainda que lha desse, o tipo provavelmente matava-o à mesma por saber demasiado - embora na realidade nada soubesse.

O carro abrandou ao aproximar-se e Jotacê sentiu o peito apertar-se-lhe. Estava do lado do condutor. O tipo seria capaz de o reconhecer? Imagens da noite anterior passaram-lhe diante dos olhos: ele na bicicleta, atirando o cadeado contra o pára-brisas. Não se lembrava da cara do condutor. Lembrar-se-ia ele da sua? Levava o capacete e os óculos... Deitou uma olhadela de esguelha quando o carro ficou ao seu lado.

Uma cabeça como um bloco quadrado de pedra, olhos pequenos e cruéis, cabelo curto em escova. A pele do tipo era pálida com um tom azulado da barba. Tinha um penso rápido na cana do nariz e um sinal preto na nuca, mais do género dum tumor do que um sinal, do tamanho duma borracha de lápis.

O carro passou por ele como uma pantera na selva, silencioso, esguio, sinistro.

Jotacê continuou a andar, resistindo à vontade de olhar para trás. Sentia as pernas moles como gelatina.

O indivíduo andava a vigiar o escritório da Expresso. Claro que sabia onde ele trabalhava. Ficara com o saco dele. Outro relâmpago de memória: ser agarrado e puxado para trás pela alça do saco. Lá dentro, pouco ou nada a bomba da bicicleta, um pneu sobressalente, dois impressos em branco... com o nome e a morada da Expresso a encarnado no topo.

A seguir, o indivíduo ia tentar descobrir onde ele morava, tal como os chuis. Mas nenhum deles conseguiria, pensou. A única morada que tinham era a da velha caixa postal. E a única morada que os tipos da caixa postal conheciam era a dum antigo apartamento onde vivera com a mãe ainda antes do nascimento do irmão. Ninguém conseguiria encontrá-lo.

Mas os tubarões andavam na água, em movimento,

à caça.

Dois chuis e um assassino.

”Nunca quis ser popular”, pensou Jotacê enquanto atravessava a rua. Uma posição proeminente acarretava demasiados problemas.

Arriscou-se a deitar uma olhadela para trás. Os farolins vermelhos do carro brilhavam ao fundo do beco.

Jotacê acelerou o passo, com a dor a latejar no tornozelo de cada vez que o pé tocava no chão. Não podia dar-se ao luxo de a sentir ou de parar para ficar bom. Precisava de concentrar toda a sua energia para sobreviver.

E precisava de encontrar Abby Lowell.

 

- Qual é a tua opinião? - perguntou Parker com o carro já no meio no trânsito.

- Estou contente por não ter um emprego de merda como aquele - disse Ruiz, vendo o penteado no espelho nas costas da pala do carro. Estava todo frisado por causa da humidade. - Então, agora sabemos onde trabalha o suspeito. Mas ele não aparece lá tão cedo. Sabemos onde recebe o correio, mas não sabemos onde mora. Não temos grande coisa.

Parker fez o ruído duma campainha que toca para a resposta incorrecta:

- Errado. Primeiro que tudo, podemos obter as impressões digitais dele no papel com que concorreu ao emprego. E sabemos o nome dele, ou pelo menos o nome por que o conhecem. Se tiver cadastro, encontramo-lo. Procuramos algum delito anterior. É provável que exista. É metido consigo, pagam-lhe em dinheiro, a correspondência vai para uma caixa postal, não há morada nem telefone. Funciona como alguém que não é honesto.

- Talvez seja um sem-abrigo - comentou Ruiz. E se não tiver cadastro?

- Se conseguirmos uma impressão digital nítida e se ela coincidir com alguma da arma do crime, já temos qualquer coisa. Além disso, a expedidora sabe mais do que diz.

- Pois, mas não o diz.

- Ela tem consciência, não gosta de infringir regras, mas protege os seus estafetas. São como uma família, com ela a fazer de mãe. Vamos dar-lhe um tempinho para pensar no assunto, e depois voltamos ao ataque. Acho que ela quer tomar a atitude certa.

- E eu acho que é uma filha da mãe - resmungou Ruiz.

- Não podes levar as coisas tão a peito. Se procedes assim, perdes a perspectiva. És um bom polícia mau, Ruiz

disse ele. - Tens boas ferramentas, mas precisas de aprender a não atirar com a caixa toda à cabeça de cada testemunha ou criminoso que encontras.

Pelo canto do olho viu que ela olhava para ele, sem saber como interpretar o que escutava. Irritava-se com as sugestões que ouvia e não confiava nos cumprimentos. Excelente. Precisava de a manter confusa. Ela tinha de aprender a compreender as pessoas e a adaptar-se. Devia tê-lo percebido no primeiro dia em que vestira a farda.

- Credo, pareço um professor - resmungou ele.

- E és. Dizem.

Parker não respondeu. Estava a ficar aborrecido. Durante a maior parte do tempo, procurava concentrar-se nos seus objectivos no departamento. Não pensava em si como professor, e estava à espera duma oportunidade para deixar de o ser.

Podia ter desistido. Não precisava do dinheiro nem das chatices. O seu outro trabalho pagara-lhe as dívidas e comprara-lhe o Jaguar e o guarda-roupa. Mas era demasiado teimoso para desistir. E, de cada vez que se interessava por um caso e sentia o velho ímpeto da adrenalina, lembrava-se de quanto gostava do que fazia. Era suficientemente antiquado para se orgulhar do distintivo e do serviço público que prestava.

E, de cada vez que surgia um caso e sentia o tal velho ímpeto da adrenalina, lembrava-se de continuar a pensar que esse podia ser o caso que tudo modificaria. Podia ser o caso em que ele se afirmasse, se redimisse, recuperasse o respeito dos seus pares e dos seus inimigos.

Porém, se aquele fosse o género de caso com potencial para dar a volta à sua carreira, o mais certo era a Brigada de Roubos e Homicídios imiscuir-se e tirar-lho.

Entrou no minúsculo parque de estacionamento dum pequeno centro comercial com diversas lojas de comida: Noah’s Bagels, Jamba Juice, Starbucks. O condutor escolhia a estação de rádio e o pendura o restaurante. Parker preferia geralmente um refúgio de chuis para o pequeno-almoço, não por apreciar muitos chuis juntos, mas porque gostava de escutar as conversas, de perceber qual era o ambiente nas ruas e de apanhar um ou outro boato que pudesse vir a ser útil. Ruiz escolheu o Starbucks. Demorava imenso tempo a pedir o que queria e, se as coisas não vinham exactamente como queria, mandava tudo para trás, umas vezes com uma cena e outras fazendo olhinhos ao tipo que a atendia. Esquizofrénica, a rapariga.

Parker entrou no Jamba Juice e pediu um batido cheio de proteínas. Depois foi ter ao Starbucks e instalou-se numa mesa ao fundo, donde se via bem a porta. Sentou-se na cadeira do canto e pegou numa secção do Times deixada por um cliente anterior.

Continuava a pensar no facto de a Brigada de Roubos e Homicídios ter aparecido a farejar o local do crime. Algum motivo havia. Eram tipos de primeira página que trabalhavam em casos de primeira página. Lenny Lowell não aparecera na primeira página. O Times provavelmente nem ia gastar tinta com ele.

- Queres manter a linha? - perguntou Ruiz, juntando-se a ele.

Parker continuou a olhar para o jornal.

- O meu corpo é um templo, filha. Vem adorá-lo. Não vira nem falara com alguém no local do crime que se parecesse com um repórter, e ele era o detective nomeado...

...mas ali estava, umas frases num canto inferior duma página do lado esquerdo ao lado dum anúncio de pneus. ADVOGADO ENCONTRADO MORTO.

Leonard Lowell, vítima de aparente homicídio, encontrado pela própria filha, Abigail Lowell (vinte e três anos, estudante de Direito), espancado até à morte no seu escritório, coisa e tal e coisa e tal.

Parker susteve a respiração um instante, tentando recordar a noite anterior. Abby Lowell a chegar ao local, cuidadosamente controlada. Jimmy Chew dissera que a chamada fora feita por um cidadão anónimo. Abby Lowell que recebera um telefonema dum detective a avisá-la da morte do pai enquanto ela o esperava num restaurante.

Era muito cedo para ligar para o tal restaurante e verificar o álibi dela. A notícia era dada pelo ”repórter de serviço”.

Ruiz não lhe ligava importância, ocupada em dar golinhos no café semidescafeinado com baunilha e dois adoçantes, um azul e outro rosa, e em fazer olhinhos ao matulão atrás do balcão.

- Ruiz - chamou Parker, debruçando-se por cima da mesa e dando um estalido com os dedos. - Descobriste em que nome está o telefone que te dei? O número da lista de chamadas do telemóvel da Abby Lowell.

- Ainda não.

- Trata disso. Agora.

Ela começou a refilar, mas Parker estendeu-lhe o jornal e indicou-lhe a notícia. Levantou-se, tirou o telemóvel do bolso e começou a percorrer a agenda enquanto saía para o frio pela porta lateral.

- Kelly. - Andi Kelly, repórter do The Times. Um foguete numa pequena embalagem de cabelo ruivo. Persistente, irónica e apreciadora de uísque de malte. - Andi. Kev

Parker.

Seguiu-se um silêncio pesado. Imaginou a confusão e depois o reconhecimento na voz.

- Ena! - disse ela por fim. - Eu conhecia um Kev

Parker.

- No tempo em que eu dava uma boa notícia - retorquiu Parker secamente. - Agora nunca me ligas e nunca escreves. Sinto-me tão usado...

- Tens outro número de telefone e não sei onde moras. Pensava que tinhas ido viver para uma comunidade no Idaho com o Mark Fuhrman. Que te aconteceu? Não estavam de acordo com os teus hábitos de fumador, bebedor, mulherengo e tipo arrogante?

- Arrependi-me, desisti de tudo isso e entrei em reclusão.

- Não acredito! O fixe do Kev Parker? Daqui a bocado estás a dizer-me que fazes ioga.

- Tai chi.

- Estou tramada. Para onde foram todos os ícones?

- Este desfez-se há uns tempos.

- É, eu li nos jornais - respondeu ela em tom sério.

Nada como ser queimado em público para arranjar amigos e influenciar as pessoas. O arrogante Parker da Brigada de Roubos e Homicídios fora enxovalhado por um igualmente arrogante advogado de defesa num notório julgamento por homicídio.

O caso da acusação era bom, não à prova de água mas bom, sólido. Tinham reunido um monte de provas circunstanciais contra um rico estudante de Medicina acusado do brutal assassínio duma jovem estudante.

Parker era o segundo detective da equipa enviada para o local do crime, o segundo na investigação. Com uma reputação de desbocado, de se arriscar a não cumprir as regras, gostando de ser o alvo das atenções, era no entanto um excelente detective. Foi a isso que se agarrou durante o julgamento enquanto a equipa de caros advogados da defesa lhe destruía o carácter com semiverdades, factos irrelevantes e descaradas mentiras. Impugnaram a sua integridade, acusaram-no de alterar as provas. Não puderam prová-lo, mas não foi necessário. As pessoas estão sempre ansiosas por acreditar no pior.

Anthony Giradello, o ajudante do promotor público decidido a fazer carreira com aquele caso, percebera que Parker lhe afundava o navio, e tomou a cruel e certa atitude de qualquer pessoa nessa posição: pegou no seu próprio açoite e juntou-se à flagelação.

Giradello fizera o possível para separar o seu caso de Parker, para diminuir o papel de Parker na investigação. Claro que Parker era um idiota, mas era um idiota sem importância que pouco tivera a ver com a investigação ou com a reunião e tratamento de provas. A liberal imprensa de LA juntara-se ao frenesi, sempre disposta a destruir um polícia no cumprimento do dever.

Andi Kelly fora a única voz a erguer-se contra a turba, afirmando que a defesa estava a utilizar a gasta mas eficaz estratégia do ”quando o resto falha, culpa-se um chui”. Um joguinho criado para desviar as atenções de esmagadoras provas forenses, para deixar uma semente de dúvida no espírito do júri. Bastava-lhes provar que Parker era uma espécie de trapaceiro, que nunca pensaria duas vezes quanto a forjar provas, que possuía um preconceito racial ou socioeconómico contra o acusado. Um jurado, e pronto.

Conseguiram convencer os doze. E um assassino saiu em liberdade.

O que se seguiu foi muito feio. O gabinete do procurador exerceu pressão para que Parker fosse despedido, interessado em continuar a desviar as atenções do facto de terem perdido e de um assassino ter saído em liberdade. O chefe da polícia, que odiava o procurador e tinha medo do sindicato da polícia, recusara-se a despedir Parker, apesar de todos os superiores do departamento o quererem dali para fora. Pintaram-no como um problema, imprevisível e insubordinado. Os olhos do público estavam sobre ele, um ponto negro num departamento que não aguentaria outro escândalo.

A única entrevista concedida por Parker durante tudo aquilo fora a Andi Kelly.

- Então como vai isso, Kev? - perguntou ela.

- Mais velho, mais sensato, como toda a gente - disse Parker, andando lentamente no passeio para trás e para diante.

- Sabes alguma coisa do caso Cole?

- Deves saber mais do que eu. Tu é que estás todos os dias no tribunal. Eu agora não passo dum peão, sabes. A treinar a nova safra de lobinhos - disse Parker. - Segundo me dizem, de fonte segura, o Cole é um idiota.

- E isso é novidade? Esborrachou a cabeça da mulher com uma escultura que vale três quartos dum milhão de dólares!

- E meteu-se com uma amiga minha com a mulher mesmo ao lado.

- Toda a gente sabe que ele a atraiçoava. O Robbie não tem esperteza para ser completamente discreto, apesar de todos os esforços. Com tudo o que a Tricia Crowne aturou àquele palhaço, custa a crer que não lhe tenha aplicado um par de cornos há anos - disse Kelly, com um grande suspiro. - Bom, se não me trazes uma notícia em primeira mão, Parker, vai para o diabo.

- Essa é forte. Agora que estou na mó de baixo, a viver na sarjeta e a comer dos caixotes do lixo, não és capaz de fazer um favor a um velho amigo?

- Se és realmente um velho amigo, porque não me impediste de casar com o Goran?

- Casaste com um tipo chamado Goran?

- Exactamente - disse ela. - Mas deixa lá. Consegui divorciar-me dele também sem a tua ajuda. Que queres então, velho amigo?

- Pouca coisa - disse Parker. - Estou a trabalhar num homicídio. Aconteceu ontem à noite. Vêm duas linhas no Times de hoje, e tenho curiosidade em saber quem as escreveu. És capaz de descobrir?

- Porquê? - Como todo o bom repórter, Kelly farejava sempre uma história. Se fosse um perdigueiro, naquele momento estaria já à caça.

- Pareceu-me estranho - respondeu Parker em tom casual. - Ninguém falou comigo. Estive no local metade da noite e não vi lá repórteres.

- Provavelmente algum que estava de serviço e viu no computador. Quem é a vítima?

- Um advogado de defesa sem importância. Admira-me que o Times gastasse espaço com ele.

- E?

- E o quê?

- E por que motivo te importas que viesse no jornal se o tipo era um zé-ninguém? - perguntou Kelly.

- Porque se enganaram em alguns pormenores.

- E?

Parker suspirou e passou a mão pela cara.

- Credo, não me lembrava de que eras tão chata.

- Bom, sempre fui.

- Admira-me que a tua mãe não te metesse num saco e te afogasse quando tinhas dois anos.

- Acho que tentou - disse Kelly. - Ainda tenho problemas por causa disso.

- Querida, ganho-te em problemas a qualquer altura do campeonato.

- Pronto, agora estás a fazer-me sentir inferior.

- Porque foi que eu liguei para ti? - perguntou Parker, exasperado.

- Porque queres alguma coisa e achas que eu me vendo por uma boa história.

- És repórter, não és?

O que nos traz à minha última pergunta. Que te importam duas frases escondidas no Times!

Parker deitou uma olhadela para o Starbucks. Ruiz continuava ao telefone, mas estava a apontar qualquer coisa. Considerou a hipótese de contar a Kelly que a Brigada de Roubos e Homicídios havia aparecido não oficialmente no local do crime, mas pôs a ideia de parte. Preferia utilizar as cartas uma de cada vez.

- Olha, Andi, por enquanto ainda não sei bem do que se trata. Mas tenho uma sensação estranha. Talvez seja porque não me deixam sair muito da jaula.

- Continuas assim, ha?

- É. Irónico, não achas? Queriam ver-se livres de mim porque achavam que eu era um mau polícia, de maneira que me condenaram a treinar novos detectives.

- Coisas da vida - observou Kelly. - Mas olha que existe algum método nesse disparate. Se fosses outro, mandavam-te para uma esquadra onde ias trabalhar com homicídios relacionados com droga e corpos abandonados, mas sabiam que conseguias resultados fantásticos. A melhor maneira de te obrigarem a desistir é com um trabalho monótono que te chateia.

- Pois, mas enganaram-se - disse Parker. - Que me dizes, então? Fazes uns telefonemazitos?

- E se isto der alguma coisa...?

- Tenho o teu número, e pago-te uma garrafa do teu uísque de malte preferido.

- Eu ligo para ti assim que houver novidades.

- Obrigado.

Parker guardou o telefone no bolso e voltou para o café.

- O número é dum telemóvel pré-pago impossível de identificar - declarou Ruiz.

- O brinquedo favorito de todo o criminoso - disse Parker. Não havia passador de droga, membro de bando ou assassino na cidade que não tivesse um. O número era vendido com o telefone, sem documentação, sem facturas possíveis de localizar. Agarrou no jornal e dirigiu-se à porta.

- Vamos embora.

- Com quem estiveste a falar? - perguntou Ruiz quando entraram no carro.

- Com uma pessoa amiga, para lhe pedir um favor. Quero saber quem escreveu esta notícia.

- Por estar errada?

- Porque talvez não esteja. Se a filha encontrou o corpo...

- É suspeita!

- Seja como for, temos de pensar que sim. A maior parte das vítimas de homicídio é morta por pessoas conhecidas. Temos sempre de considerar a família.

- Mas ela tem um álibi.

- Quero que investigues isso ainda hoje. Vais precisar de falar com o chefe de mesa do Cicada. Vê se ela esteve realmente lá, a que horas saiu, o que levava vestido, se falou com alguém, se utilizou o telefone do restaurante e se esteve ausente da mesa durante algum tempo.

- Mas, se foi ela quem encontrou o corpo, como é que o repórter descobriu e nós não?

- É precisamente o que eu pergunto - respondeu Parker, ligando o motor. - Até pode ter sido só um falhanço. Algum subalterno do Times que apanhou a chamada no monitor e depois sacou os pormenores a um dos jeitosos da recolha de provas num bar qualquer. Quem sabe? Metade do que vem publicado nos jornais é treta. A gente pode contar uma história, palavra por palavra, a um repórter e, mesmo assim, ele conta-a ao contrário.

- E tu sabes isso por experiência - comentou Ruiz. Parker deitou-lhe uma olhadela.

- Filha, podia escrever um livro. Mas neste momento temos coisa melhor a fazer.

 

Segundo a mulher paquistanesa encarregada das caixas postais nos últimos três anos, a Caixa 501 pertencia a uma mulher chamada Allison Jennings, que não conhecia. Fora alugada em 1994 e era paga por um vale postal deixado na caixa uma vez por ano. Eram factos que constavam do processo, e a letra no vale era todos os anos diferente. Parecia que uma data de gente usava aquelas caixas postais como degrau para coisas melhores.

Ocupavam um espaço fundo e estreito entre uma loja libanesa de comida e uma vidente que anunciava uma promoção de leituras de taro. As caixas formavam um corredor desde a porta até um balcão ao fundo, com prateleiras atulhadas de embalagens de cartão, envelopes almofadados, rolos de fita-cola, plástico de bolhas e gigantescos sacos de partículas de esferovite.

Lá de trás, não era fácil ver tudo até às caixas, mesmo que alguém quisesse prestar atenção ao que se passava. Provavelmente, a grande maioria dos utilizadores entrava e saía em total anonimato. Desde que pagassem a horas, ninguém queria saber quem eles eram.

A gerente que alugara a Caixa 501 a Allison Jennings fizera uma cópia da carta de condução da mulher e agrafara-a ao documento de aluguer, conforme mandavam as regras. A carta era do Massachusetts e a fotografia um mero borrão preto... Parker mandou-a fazer cópias de ambas as folhas e saiu com Ruiz em direcção ao carro estacionado numa zona de cargas e descargas.

Meteram-se no carro e Parker ficou a olhar para a montra da vidente. Em luzes cor de alfazema lia-se: ”Madame Natalia, Vidente das Estrelas.” Aceitava cartões Visa e MasterCard.

- Queres ir lá? - perguntou Ruiz. - Talvez ela consiga ver o teu futuro.

- Por que diabo vai alguém a uma vidente num sítio merdoso como aquele? Se a Madame Natalia consegue ver o futuro, porque não ganhou ainda a lotaria?

- Talvez não seja esse o destino dela.

Parker arrancou, antes que lhe saísse da boca que as pessoas fazem o seu próprio destino, o que não lhe daria uma boa imagem. Preferiu calar-se. Sabia que tinha provocado a sua queda em desgraça na Brigada de Roubos e Homicídios por ser demasiado convencido, arrogante e exibicionista. E também fora sua a escolha de ficar onde estava agora, numa espécie de desvio sem saída. Decidira igualmente que seria capaz de dar provas de novo e de acabar vencedor. Mas, segundo a lógica de Ruiz, talvez não fosse esse o seu destino.

Ruiz ligou para pedir informações sobre Allison Jennings. Quem podia saber? Talvez a mulher fosse uma fugitiva.

A morada que ela dera para alugar a caixa postal correspondia a um prédio de tijolo num bairro duvidoso da baixa, onde tudo, incluindo os moradores, evidenciava décadas de desleixo. Homens e mulheres sem-abrigo povoavam as ruas, esgravatando os caixotes do lixo e dormindo na entrada dos prédios. Defronte da morada de Allison Jennings, um maluco com uma parca em tempos branca andava dum lado para o outro no passeio, a gritar insultos para os homens das obras que se ocupavam do edifício.

Estava em curso uma completa remodelação para a recente invasão urbana de gente nova que queria andar na berra. O cartaz anunciava apartamentos de luxo com duas, três e quatro assoalhadas na zona mais moderna e interessante de Los Angeles. A pintura do projecto acabado não mostrava o sem-abrigo aos gritos.

- Estes tipos estarão doidos? - perguntou Ruiz. - Ninguém com o juízo todo vai querer mudar-se para aqui! Só há casas de crack e esquizofrénicos sem-abrigo.

- Espera até porem um Starbucks ali na esquina disse Parker. - Lá se vai o bairro. Trazem para cá os citadinos, e daí a pouco o preço das substâncias ilícitas sobe em flecha. O consumidor médio deixa de poder viver aqui. É uma tragédia social.

- Achas que a mulher ainda anda por aí?

- Sei lá - retorquiu Parker, encolhendo os ombros. Preencheu a ficha há dez anos. Até pode ter morrido. Talvez o miúdo, o tal Damon, lhe subalugasse a caixa ou ficasse com ela. Ele tem de andar por aqui, se ainda a usa.

”Por aqui” era um território muito vasto. A esquadra central cobria uns sete quilómetros quadrados da baixa de Los Angeles, incluindo Chinatown, Little Tokyo, a zona financeira, as das jóias e da moda, bem como o centro governamental. Era muito terreno e muita gente.

Parker estacionou no parque da esquadra e voltou-se para a colega.

- Primeiro, levas a inscrição do Damon aos peritos. Vê se eles encontram alguma coisa que corresponda ao que tiraram da arma do crime. Depois liga para Massachusetts. A seguir, tenta encontrar alguma Allison Jennings local, e vai para o computador a ver se descobres crimes semelhantes ao do Lowell cá em Los Angeles durante os últimos dois anos. E liga para a companhia dos telefones para pormenores da utilização da Expresso-Estafetas.

- Mais alguma coisa, patrão? - perguntou Ruiz, com ar perturbado.

- Começa já com os telefonemas. Talvez o miúdo não tenha telefone, mas também pode ter. E arranja-me o registo das chamadas do escritório e da casa do Lowell.

- E que fazes tu enquanto eu trato dessa merda toda?

- Vou falar com a Abby Lowell para descobrir como é que conseguiu ter o nome no jornal. Ela vai gostar mais de falar comigo do que contigo.

- Como é que tens tanta certeza disso?

- Porque eu sou eu, miúda - declarou ele com o famoso sorriso Kev Parker.

Finalmente livre de Ruiz, Parker dirigiu-se ao escritório de Lenny Lowell. Queria andar pelo local do crime e pela rua à luz do dia, sem ser perturbado por polícias fardados e criminalistas, uma estagiária e os gorilas da Brigada de Roubos e Homicídios. Achava que podia concentrar-se dum modo macabramente calmo andando pelo sítio onde uma vítima morrera.

Não tinha certeza de acreditar em fantasmas, mas acreditava em almas. Acreditava na essência do que formava um ser, na energia que definia uma pessoa como estando viva. Por vezes, ao caminhar por um desses locais sozinho, parecia-lhe que conseguia sentir essa energia a pairar à sua volta. Outras vezes, nada, o vazio total.

Na sua vida primitiva de manda-chuva de detectives da Brigada de Roubos e Homicídios, nunca prestara atenção a tais ideias, demasiado cheio de si para sentir alguma coisa a respeito de alguém à sua volta, vivo ou morto. Uma coisa boa ganhara com a perda: a qualidade de estar atento, de sair de si próprio e ver um quadro mais nítido do que o rodeava. Aquela zona da cidade não era mais atraente à luz do dia do que à noite e à chuva. Até era menos, na realidade. À crua luz duma manhã cinzenta, a idade, a imundice e o desgaste eram impossíveis de esconder.

O pequeno centro comercial de dois andares onde ficava o escritório de Lowell parecia ter sido construído nos anos

  1. Anguloso, telhado plano, painéis metálicos desbotados

- verde, rosa e amarelo de vomitado. Janelas de alumínio. Do outro lado da rua, via-se uma lavandaria que dizia estar aberta vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana, uma construção baixa, sem qualquer estilo perceptível.

Os melhores advogados defensores da escumalha rica tinham escritórios em Beverly Hills ou em Century City, onde o mundo era belo. Ali, a parte inferior da cadeia alimentar pendurava as suas tabuletas. Embora lhe parecesse que o velho Lenny não se saía mal de todo.

O Cadillac do advogado fora rebocado das traseiras e levado para revistar. O carro era novo, mas fora vandalizado. A residência de Lowell situava-se num condomínio num dos novos locais da moda perto do Centro Staples. Coisa cara para um tipo cujos clientes utilizavam a porta giratória da agência de cauções.

Parker não percebia por que razão o assassino se arriscara a quebrar os vidros do Cadillac, se só queria roubar o dinheiro do cofre.

Teria sido um acto de raiva e vingança? Um antigo cliente ou um parente dum cliente que não conseguira safar-se e culpava Lowell? Seria o motivo a vingança e o dinheiro um mero bónus? Ou andaria o assassino atrás de alguma coisa que não encontrara no escritório? Se assim fosse, o caso era muito mais complicado. Além do dinheiro no cofre, que poderia um tipo como Lenny Lowell ter pelo qual valesse a pena matar?

Parker quebrou a fita que selava o local do crime e entrou pela porta das traseiras do escritório. O cheiro de fumo velho de cigarro estava agarrado aos painéis a imitar madeira e fora absorvido pelas placas do tecto falso, dando-lhes um tom amarelado. A alcatifa era rasa e utilitária, duma cor escolhida para esconder a sujidade.

À esquerda, havia uma casa de banho. Os peritos tinham-na percorrido, à procura de impressões digitais, retirando cabelos do lavatório, mas sem encontrar vestígios de sangue. O assassino, se tivesse ficado com marcas de sangue de Lenny Lowell, fora suficientemente esperto para não tentar lavar-se ali.

O escritório era a seguir. Um espaço decente, agora atravancado de papel, resíduos de pó para impressões digitais e pedaços de fita-cola a marcar pontos da alcatifa. O sangue do advogado fizera uma mancha pouco visível. As gavetas estavam todas tiradas para fora dos arquivadores e da secretária.

- Está a invadir o local dum crime - disse Parker.

Abby Lowell, sentada à secretária do pai, teve um sobressalto e bateu com um joelho no móvel ao tentar levantar-se e recuar.

- Ai, meu Deus! Ai, meu Deus, que susto me pregou!

- ralhou ela, com uma mão espalmada no peito, como se quisesse evitar que o coração saltasse para fora.

- Tenho de lhe perguntar o que está a fazer aqui, Miss Lowell - continuou Parker, sentando-se em frente dela. O braço da cadeira estava salpicado de sangue. - Nós selamos os locais dos crimes por algum motivo.

- E tratam dos enterros? - perguntou ela, recompondo-se, muito direita na sua camisola de caxemira. - Sabe onde é que o meu pai guardava a apólice de seguro? Telefona o senhor para a companhia? E o testamento? Tenho a certeza de que fez um, mas não sei onde está. Como tambem não sei se queria ser enterrado ou cremado. Vai ajudar-me com estas coisas, detective Parker? Parker abanou a cabeça.

- Não, não vou. Mas, se me tivesse chamado, encontrava-me consigo aqui e ajudava-a a procurar. Assim, saberia em que coisas tocava e que objectos mudava de sítio. Saberia se tinha tirado de cá alguma coisa sem ser o testamento ou o seguro do seu pai.

- Está a acusar-me? - perguntou ela, endireitando-se mais ainda e erguendo uma elegante sobrancelha escura.

- Não, estou só a falar. É assim que funciona um local onde foi cometido um crime, Miss Lowell. Não posso importar-me com o facto de a vítima ser seu pai, como também não posso importar-me com o seu direito a entrar neste escritório. A minha função é muito clara para mim. No segundo em que o seu pai deixou de respirar, ele tornou-se responsabilidade minha. Eu tornei-me o seu protector.

- Que pena que o senhor não estivesse aqui para o proteger de ser assassinado. E quando digo ”o senhor” não me refiro a si pessoalmente. Refiro-me à polícia de Los Angeles.

- Não podemos prever quando e onde um crime vai ser cometido - respondeu Parker. - Se assim fosse, ficava sem emprego. E, francamente, a senhora leva-nos vantagem quanto a ser capaz de proteger o seu pai. Conhecia-lhe os hábitos, os amigos e provavelmente os inimigos. Talvez soubesse mesmo que ele estava metido em alguma coisa que podia fazer com que o matassem.

A rapariga olhou para ele, incrédula.

- Então agora está a dizer que eu é que tenho culpa de um assassino ter arrombado a porta do escritório do meu pai para o matar? O senhor é incrível! Até que ponto pode ser insensível?

- Não vai querer saber - declarou Parker. Tirou o chapéu e cruzou as pernas, instalando-se melhor. - também a senhora não pareceu muito sensível ontem à noite, se não se importa que lho diga, e provavelmente importa-se. Entrou numa sala com o seu pai a posar para o grande esboço de giz e parecia mais perturbada pelo facto de os seus planos para jantar terem sido estragados.

- Por que motivo diz isso? Porque não desatei a chorar? Porque não fiquei histérica? - perguntou ela. - Não sou do tipo histérico, detective. E o meu choro é privado.

Não faz a mais pequena ideia de como era o meu relacionamento com o meu pai.

- Então explique-me, quer? Eram chegados, a senhora e o seu pai?

- À nossa maneira.

- E que maneira era essa?

A rapariga suspirou, olhou para o lado e voltou a fitá-lo. O relacionamento, como muitos outros, era mais complicado do que queria tentar explicar - ou mais complicado do que calculava que ele pudesse entender.

- Éramos amigos. O Lenny não era grande pai. Nunca estava por perto. Enganava a minha mãe. Bebia de mais. A ideia dele de tempo precioso comigo quando eu era criança consistia em arrastar-me para as corridas de cavalos ou para um bar de corretores de apostas e depois esquecia-se imediatamente da minha presença. Os meus pais divorciaram-se quando eu tinha nove anos.

- E porque não o odiava?

- Porque era o único pai que tinha. E porque, apesar de todos os seus defeitos, não era mau tipo. Só não conseguia corresponder às expectativas.

Incomodada por estar a ser observada de perto, levantou-se da cadeira do pai e começou a andar lentamente para trás e para diante em frente das estantes, de braços cruzados e observando as poucas coisas que não haviam sido atiradas para o chão. Era elegante e bela como um modelo, com a sua camisola cor de safira e saia a condizer, calçada com um par de elegantes botas negras.

- Estive zangada com ele durante muito tempo quando saiu de casa. Sobretudo por ter ficado presa à minha mãe.

- Mas perdoou-lhe.

- Nós... como que nos descobrimos um ao outro quando fui para a faculdade. Conseguíamos conversar. Eu queria ser advogada, e ele começou a interessar-se por mim.

- Tornaram-se amigos - concluiu Parker. - E por isso é que o trata por Lenny em vez de pai.

Ela desviou de novo os olhos, por não querer que ele a visse ter uma reacção emocional à recordação do pai. Mas estava presente: um leve brilho de lágrimas nos olhos escuros, um endurecimento dos maxilares. Autênticos nervos de aço, pensou Parker.

Calculou que talvez fosse aquilo que uma garotinha aprendia a fazer quando o pai estava ocupado a calcular quem ia ganhar a sexta corrida em Santa Anita. E o que uma garotinha fazia quando se via metida entre pais em guerra, o que fizera quando o pai se fora embora e quando ele reaparecera na sua vida. Manter o controlo. Suprimir as reacções. Conseguia sobreviver a qualquer desafio se não deixasse as coisas furarem-lhe a armadura.

- Conhecia os amigos do seu pai? - perguntou Parker em tom calmo. - E os inimigos? Ou se estava metido em alguma coisa perigosa?

Ela pareceu rir-se para dentro. Alguma piada privada que não estava interessada em partilhar com ele.

- O Lenny andava sempre à procura de esquemas. Talvez tivesse encontrado finalmente um. Mas se estava envolvido em coisas perigosas... eu não sei. Nunca me disse. Falávamos sobre os meus estudos, sobre ele querer que eu trabalhasse com ele quando me formasse. E íamos às corridas.

A voz dela denotou tensão na última frase. O relacionamento com o pai descrevera um círculo completo, da segunda vez como companheiros e ele prestando-lhe a atenção que ela desejara em criança. Desejara com tanta força que seguira a profissão do pai para lhe agradar - conscientemente ou não.

Parker ficou calado um momento, passando os olhos pelos objectos em cima da secretária sem os ver. Abby Lowell continuou o seu lento passeio. Queria ir-se embora, supôs Parker. Nem mesmo as pessoas inocentes querem a companhia dos chuis, e ele não podia saber até que ponto ela era inocente ou não.

- Vai encarregar-se do enterro? - perguntou. - Ele não tinha mais família?

- Um irmão no distrito de Nova Iorque e uma filha do primeiro casamento, a Ann. Não a vejo há sete anos. Acho que se mudou para Boston. Ah, e três ex-mulheres. Mas nenhuma delas atravessava a rua para lhe cuspir no cadáver.

Você é a única do grupo que lhe perdoou.

Ela não comentou nem deu a entender que o tivesse ouvido. Pegou numa carteira de cabedal preto que estava no chão e colocou-a em cima da secretária. Condizia com as botas.

- Importa-se que eu fume, detective? - perguntou, já a tirar um cigarro dum maço.

Ele deixou-a levá-lo à boca, com o isqueiro em posição,

antes de dizer:

- Importo-me, sim.

Ela deitou-lhe um olhar erguendo as sobrancelhas e acendeu à mesma o cigarro. Depois, expeliu uma baforada de fumo em direcção ao tecto manchado de nicotina.

- Perguntei por perguntar - disse ela. Encostou-se à secretária. O perfil era perfeito, parecia saído dum desenho do princípio do movimento art déco, com as suas longas e graciosas linhas subtilmente curvas. A pele dir-se-ia de porcelana, e o cabelo caía-lhe para trás como uma escura cascata. Parecia nada ter ido buscar ao pai quanto ao aspecto. Parker pensou para consigo se a outra filha teria tido tanta sorte, e se aquela estaria a tentar distraí-lo.

- Falou com alguém ontem à noite depois de sair daqui, Miss Lowell?

- Não. Fui para casa.

- Não telefonou à sua mãe? Para lhe dizer que o ex-marido morreu.

- A minha mãe faleceu há cinco anos. Cancro.

- Lamento - disse Parker automaticamente. - Não telefonou a uma amiga? A um namorado?

Ela suspirou, impaciente, apagou o cigarro e retomou o passeio.

- Onde quer chegar, detective? Se tem uma pergunta, faça-a. Não temos de estar aqui com joguinhos sobre a minha vida pessoal. Tenho coisas a tratar, e uma aula às onze. Podemos andar para a frente com isto?

Parker franziu a testa.

- Uma aula? Não tira um dia de luto, um dia para tentar habituar-se à ideia de que o seu pai foi assassinado há menos de vinte e quatro horas?

- O meu pai está morto. Isso eu não posso modificar.

- Acelerou o passo. - Foi assassinado. É uma ideia a que não consigo habituar-me. Não sei como alguém pôde fazê-lo. Que me adianta ficar em casa em pijama a pensar que a vida não tem significado? - perguntou ela. - Posso parecer-lhe fria, detective Parker, mas estou a lidar com a situação da única maneira que faz sentido para mim: seguindo em frente, fazendo o que tem de ser feito, porque ninguém o vai fazer por mim.

- Lidar com a situação primeiro, ir-se abaixo depois comentou Parker, erguendo-se da cadeira manchada de sangue e colocando-se onde ela estivera, encostado à ponta da secretária. - Sou polícia há quase vinte anos, Miss Lowell, e sei que os sobreviventes lidam com o desgosto à sua maneira. Uma vez tive um caso... - continuou ele. - Uma mulher assassinada para lhe roubarem o carro. O casaco ficou preso à porta quando o criminoso a empurrou para fora. Foi arrastada durante quase um quarteirão, uma coisa horrível. O marido era um pintor com algum êxito. A maneira de lidar com a situação, para ele, de lutar contra o desgosto e a culpa e toda essa coisa, foi trancar-se no estúdio e pintar. Pintou durante trinta e seis horas, sem parar, sem dormir e sem comer. Durante três dias, enraiveceu-se naquele estúdio, atirou com pincéis, com tinta, com latas, com tudo a que pôde deitar mão. Gritou, berrou e chorou todo o tempo, até que o assistente dele me chamou, com medo do que pudesse acontecer-lhe, preocupado com a ideia de ele se matar.

”Por fim, as coisas acalmaram. O tipo saiu do estúdio, sem abrir a boca, tomou duche e deitou-se. O assistente e eu entrámos no estúdio para ver o que tinha estado a fazer durante aquele tempo todo. Pintara cerca duma dúzia de telas grandes, um trabalho incrível, brilhante, muito para além do que fizera antes. Pollock teria chorado se visse aquilo. Estavam ali todas as emoções que o haviam dilacerado, um desgosto esmagador, uma raiva nua e crua.

”Quando o tipo acordou, voltou para o estúdio e destruiu as telas todas. Disse que eram um assunto seu e não se destinavam a ser vistas por outros. Enterrou a mulher e continuou com a sua vida.

Abby Lowell estava a olhar fixamente para ele, tentando descobrir como devia reagir, o que devia pensar, que espécie de truque podia aquilo ser.

Parker abriu as mãos para os lados.

- Toda a gente lida com isso como pode - declarou ele.

- Então, porque estava você a julgar-me?

- Não estava. Preciso é de saber o porquê de tudo, Miss Lowell. É o meu trabalho. Por exemplo, preciso de saber por que motivo diziam esta manhã no Times que você, uma estudante de Direito de vinte e três anos, é que descobriu o corpo do seu pai.

Houve um lampejo nos olhos dela, qualquer coisa na cara que logo desapareceu. Não foi raiva. Surpresa, talvez. Depois, retomou a expressão neutra.

- Não sei. Não é verdade. Você sabe que não é verdade - disse ela em tom defensivo. - Eu recebi o telefonema no restaurante. E não conheço repórteres. Aliás, mesmo que conhecesse, não falava com eles.

- E não falou com outra pessoa depois de sair deste escritório ontem à noite?

- Já lhe disse que não - repetiu ela, irritada. Depois olhou para o relógio e meteu a mão na carteira.

- E antes? Telefonou a alguém do restaurante ou do seu carro a caminho daqui? A uma amiga, a uma pessoa de família?

- Não. E tenho a certeza de que pode obter o registo das chamadas do meu telemóvel, se não acredita. - Pôs a carteira ao ombro e olhou para a porta da frente. - Preciso de ir - disse ela bruscamente. - Tenho uma reunião numa funerária às onze.

- Pensei que tinha uma aula.

Os olhos escuros denotaram aborrecimento.

- A aula é à uma. Enganei-me. Tenho muito que fazer, detective. Sabe como falar comigo, se precisar de mais alguma coisa.

- Pois sei.

Ela passou por ele, e Parker agarrou-a suavemente por um braço.

- Não quer saber quando pode levantar o corpo do seu pai da morgue? Tenho a certeza de que o homem da funerária vai precisar dessa informação.

Abby Lowell olhou-o nos olhos.

- O corpo dele só pode ser levantado depois da autópsia. Disseram-me que pode levar vários dias, mesmo uma semana. Quero ter as coisas organizadas, para poder ver tudo terminado o mais depressa possível.

Parker soltou-a. A rapariga evidenciava a calma de quem faz dupla com um atirador de facas, teve de reconhecer. Pensou se estaria ali algo mais do que uma rapariga solitária a tentar proteger-se.

Ficou a olhar para a secretária, enquanto matutava. Ela saíra de mãos a abanar, sem sinal de ter encontrado o que fora ali procurar: o testamento, a apólice de seguro do pai.

Saiu e aproximou-se do carro para ir buscar a Polaroid, voltando a entrar no escritório. Tirou fotografias do tampo da secretária, dos arquivadores abertos, do chão em volta da secretária. Depois, levantou cuidadosamente um comprido envelope de plástico duma gaveta da secretária semiaberta. Em letras douradas, lia-se no envelope: BANCO NACIONAL. Estava vazio, mas via-se a marca deixada por uma pequena chave na janela do envelope. Cofre bancário.

Parker instalou-se na grande cadeira de Lenny Lowell e olhou em volta, tentando imaginar o que o advogado via quando observava os seus domínios. Em que teria focado a atenção. A fotografia de Abby estava tombada na secretária. Olhou para o chão junto à cadeira. Duas brochuras de viagens semiescondidas debaixo da secretária. Parker tirou-as de lá com a ponta do sapato.

PERCA-SE NO PARAÍSO. ILHAS CAIMÃS.

- Bom, Lenny - disse ele para a sala vazia. - Espero que estejas agora noutro paraíso, mas calculo que tenhas ido para onde vão todos os da tua laia. também espero que tenhas levado protector solar.

 

Jotacê levou a bicicleta a uma oficina em Korea Town, onde não conhecia vivalma e ninguém o conhecia.

- Tenho uma bicicleta para arranjar.

O tipo atrás do balcão estava ocupado a ver um programa no televisor pendurado quase junto ao tecto, e mal deitou uma olhadela a Jotacê, dizendo:

- Três dias.

- Não. Preciso dela hoje. É uma emergência. O tipo continuou a olhar para o televisor.

- Três dias.

- O senhor não está a perceber - insistiu Jotacê, tentando meter-se no campo de visão do homem. - Eu preciso da bicicleta. Sou estafeta e preciso dela para trabalhar.

- Três dias.

O tipo continuava sem olhar para ele. De repente, apontou para o televisor e desatou a falar em coreano. Martin Gorman, advogado das estrelas, estava diante duma mesa cheia de microfones a dar uma conferência de imprensa. Na parte inferior do televisor, lia-se: ”Tricia Crowne-Cole: Morte duma debutante”. Pela fotografia da mulher no canto inferior esquerdo, dir-se-ia que fora uma debutante durante a Administração Kennedy.

Jotacê suspirou, aclarou a garganta e pensou em ir-se embora, mas não podia passar o dia à procura doutra oficina de bicicletas.

- Eu pago mais - disse ele. - E em dinheiro. Dou-lhe mais vinte dólares.

O homem voltou-se para ele.

- Vinte agora - disse. - Volta daqui a duas horas. Custou-lhe dar o dinheiro, mas não podia hesitar. Lá se ia a gorjeta de Lenny. Trazia mais algum dinheiro no bolso. Pensou em Eta e no adiantamento, com uma sensação estranha. Desilusão, incerteza. Não queria acreditar que ela tivesse falado com os chuis. A família era tudo para ela, e considerava os estafetas como família.

- Eu espero - disse Jotacê.

O homem fez uma careta, mas Jotacê levantou os vinte dólares, mantendo-os fora do alcance dele.

- Por vinte, quero que a arranje agora.

O homem resmungou qualquer coisa entre dentes, mas assentiu com a cabeça. Jotacê baixou o braço e ele arrancou-lhe a nota da mão, tão depressa que o rapaz teve vontade de verificar se ainda tinha os dedos todos.

O tipo que arranjava as bicicletas numa divisão nas traseiras usava uma barbicha e um lenço encarnado atado à cabeça. Parecia um pirata. As mãos estavam pretas de óleo. O recepcionista disse-lhe secamente que parasse o que estava a fazer e arranjasse a bicicleta de Jotacê.

- Cliente muito importante - disse ele, voltando para os seus assuntos importantes.

O mecânico olhou para Jotacê.

- Quanto é que lhe deste, meu?

- Porquê? também queres sacar algum? - perguntou.

- Eu sou estafeta, por amor de Deus! Terei ar de quem nada em dinheiro?

- Não, não quero dinheiro teu - disse o mecânico.

- Quero é dele.

Havia doze Lowells na lista telefónica. Três com nomes a começar com A: Alyce, Adam e A. L. Lowell. Abby Lowell era estudante na Faculdade de Direito do Sudoeste, situada no Bulevar Wilshire, a cerca de três quilómetros da baixa. Presumindo que a filha de Lenny vivesse perto da faculdade e que tivesse telefone fixo, A. L. Lowell parecia uma boa hipótese.

Jotacê colocou a rejuvenescida bicicleta na parte de trás do Mini e dirigiu-se para lá. O rádio estava no assento do lado, com o seu crepitar reconfortante, como se não estivesse completamente só, mas sim rodeado de amigos. Mas, na realidade, não tinha amigos, apenas conhecidos. E estava mesmo só, com um raio.

Sentia a cabeça a latejar, bem como o tornozelo. Parou numa loja de conveniência e comprou um cachorro-quente, um burrito de queijo, uma garrafa de refrigerante de limão e Uns comprimidos para as dores. Combustível para o motor. Aproveitou para surripiar dois pequenos chocolates. Não gostava de roubar, mas a sua primeira obrigação era sobreviver. Essa lei anulava uma pequena contravenção.

Comeu no carro, com cuidado para não entornar a bebida - Madame Chen era muito cuidadosa com o Mini e tentou decidir o que faria se encontrasse Abby Lowell em casa. Batia à porta e dizia: ”Olá, eu sou o tipo que os chuis pensam que matou o seu pai”? Não. Quem havia de dizer que era? Um cliente de Lenny? Um repórter à procura duma história?

Gostou da última hipótese. Os clientes de Lenny eram criminosos. Porque havia ela de abrir a porta a um deles? Mas um jovem repórter em busca da verdade... Se ela não lhe desse com a porta na cara, talvez conseguisse fazer algumas perguntas e obter algumas respostas. Ela provavelmente dava uma espreitadela pelo óculo e chamava o 112. Devia estar com ar de doido ou de tipo perigoso ou as duas coisas, com a barba dum dia e a cara toda deitada abaixo. Alguém no seu perfeito juízo iria abrir-lhe a porta?

- Sede a dezasseis. Sede a dezasseis. Onde estás tu, Mascarilha?

Foi apanhado de surpresa e quase deu um salto. Eta.

- Sede a dezasseis. Tenho uma chamada para ti. Dezasseis, estás a receber?

Olhou para o rádio, mas não lhe tocou, com o espírito a trabalhar em acelerado. Estariam os chuis ao pé dela, a tentar obrigá-la a atraí-lo?

- Sede a dezasseis. Tenho Caroço, filho. Nunca deixes o Caroço à espera.

Estaria ela a referir-se a um cliente? Ou a dinheiro? Dinheiro era um bom isco. Jotacê pensou nos dois chuis no beco. No tipo de chapéu e na chica curvilínea. Não tinha a certeza se ela também era chui, mas o do chapéu era. Dos homicídios, provavelmente.

Jotacê lembrou a si próprio que, lá por saberem onde ele estava, não queria dizer que o encontrassem. Se as coisas piorassem, podia sempre agarrar no irmão e desaparecer. Mas isso seria sempre a última coisa a fazer. A ideia de desenraizar Tyler, de o arrancar à única casa verdadeira que o garoto conhecera, de o tirar daquela família que o fazia sentir-se seguro e amado, magoava-o profundamente. Mas que outra coisa poderia fazer?

A resposta pesava-lhe no estômago como uma pedra, mais do que o burrito que tinha comido. Não queria pensar naquilo. A mãe não o educara para desistir, para fugir. Tyler era a sua única família e Jotacê nunca o abandonaria.

  1. L. Lowell vivia num prédio rectangular de dois andares com alguns pormenores de tipo espanhol na fachada, construído na década de vinte ou trinta, quando as pessoas possuíam estilo. O bairro era uma estranha mistura de malta fixe de Hollywood, yuppies chiques de Hancock Park e classe trabalhadora de Wilshire na mó de baixo. Dependendo da rua, a zona era perigosa, calma, familiar ou um sítio onde era possível encontrar prostituição transexual.

Jotacê passou lentamente diante do prédio, à procura de sinais de vida.

Pelo tamanho do prédio e pela configuração das janelas da frente e do lado, calculou que houvesse quatro apartamentos, dois em baixo e dois em cima, sem porteiro fardado.

Estacionou o Mini à esquina do outro lado da rua, onde ficava com a vantagem de ver a entrada principal sem suspeitarem de que estava a vigiar o edifício. Deixou-se estar dentro do carro, à espera.

O dia continuava frio, húmido e triste. Ninguém queria andar na rua. Com todas aquelas árvores nas ruas e de sentinela nos pátios, a luz era difusa como no interior duma floresta. Enormes árvores frondosas formavam um dossel por cima da rua diante do prédio de A. L. Lowell.

Era o género de bairro onde Jotacê sempre imaginara que teria crescido se a sua vida tivesse sido normal. As pessoas ali conheciam-se provavelmente umas às outras, paravam e cavaqueavam nos passeios enquanto passeavam os cães ou empurravam carrinhos de bebé. Ninguém ali vivia num sítio com um nome, recebia a correspondência noutro lugar com outro nome, ou agarrava na tralha e se mudava a meio da noite.

Uma mulher idosa e amarrecada saiu do prédio de Lowell com um alto caniche branco. Ambos usavam chapéus de plástico transparente para a chuva atados debaixo do queixo. Avançaram pelo passeio a passo de caracol, com o cão a largar cagalhotos atrás de si enquanto caminhava, como se fosse um cavalo. A mulher não pareceu reparar, e nem podia curvar-se para apanhar a porcaria, se reparasse. O par atravessou a rua, aproximando-se de Jotacê.

Levaram uma eternidade a passar pelo Mini Cooper, com Jotacê a olhar pelo retrovisor até a mulher e o cão, ainda a deixar cair caca enquanto andava, estarem bem distantes. Talvez o trilho de cagalhotos fosse necessário para encontrarem o caminho para casa. Como um rasto de migalhas de pão.

Era tempo de fazer qualquer coisa, com ou sem plano. Saiu do carro e avançou com ar natural até ao prédio, como quem vai fazer uma visita, sem razão para parecer nervoso ou misterioso.

Ao lado de cada campainha estava o nome do respectivo morador, o que não interessava porque a velhota não empurrara a porta com força suficiente para ela voltar a fechar-se. Jotacê verificou os números dos apartamentos e entrou.

Uma escada central conduzia ao primeiro andar, com uma porta de cada lado do patamar. Jotacê aproximou-se primeiro da porta do vizinho, escutando para ver se estava alguém em casa. O único som era um pássaro a grasnar sozinho.

Jotacê bateu levemente na porta do apartamento de Lowell umas duas vezes, sem obter resposta. Olhou para trás e depois experimentou o puxador, à espera de encontrar a porta fechada, mas não. Abriu-se com toda a facilidade. Tornou a olhar por cima do ombro, entrou, agarrou o puxador com a manga da camisola e fechou a porta atrás de si. O apartamento parecia ter sofrido um terramoto de enorme magnitude. Tudo o que estivera em prateleiras ou gavetas encontrava-se no chão, e as cadeiras de pernas para o ar. Alguém rasgara os estofos dum sofá e dum cadeirão, puxando o enchimento para fora. Viu caixas de cereais abertas e o seu conteúdo espalhado no chão.

Jotacê observou tudo aquilo tão minuciosamente que quase se esqueceu de respirar. Alguém andara à procura de alguma coisa. Seria do que ele trazia colado à barriga?

Mesmo tentando andar com cuidado, esborrachou qualquer coisa com a bota quando passou pela porta da cozinha. A pequena casa de banho estava no mesmo estado, e alguém pegara num batom encarnado e escrevera no espelho:

À PRÓXIMA MORRES.

- Que grande merda! - disse ele baixinho. - Isto é uma porra dum filme. Estou a viver uma porra dum filme.

Mas naquele filme as balas eram verdadeiras, os maus também, e as pessoas morriam mesmo.

Respirava rapidamente e estava a começar a suar. Fechou os olhos durante uns segundos, tentando recompor-se e pensar no que devia fazer.

Precisava de sair dali. Chegou a pensar em procurar a filha de Lenny para a avisar. Mas como havia de a encontrar? Sentando-se no átrio da faculdade, à espera que ela aparecesse? Ou no carro até ela voltar para casa e correr para ela dizendo-lhe que andava alguém a tentar encontrá-la para a matar? Provavelmente ia julgar que esse alguém era ele.

Tapou os olhos com as mãos e esfregou a testa para aliviar a tensão.

A pancada nas costas foi tão inesperada que precisou dum segundo para registar o que acontecia. O corpo tombou-lhe para a frente e bateu no lavatório com a virilha e no espelho com a cabeça. Com estrelas de todas as cores diante dos olhos, tentou fazer força para trás. O assaltante agarrou-o pelo cabelo e bateu-lhe com a cabeça de encontro ao armário dos remédios várias vezes. Ouviu o espelho rachar e sentiu um estilhaço cortar-lhe a cara.

Talvez aquela fosse a parte do filme em que a surpresa era a sua morte. O pensamento idiota passou-lhe pela cabeça quando o assaltante o deixou cair. Bateu no lavatório com o queixo com a força dum martelo, e depois ficou no chão, à espera de apanhar pontapés, pelo menos, ou um tiro no pior dos casos, hesitando entre querer lutar e mergulhar na inconsciência, embora sem ter realmente a hipótese de escolher.

Jotacê não soube quanto tempo esteve deitado, entre cá e lá. Gradualmente, recuperou a vista. O chão era um mar de velhos mosaicos octogonais brancos com as juntas sujas. Viu a silhueta da antiga banheira branca e, mais perto, a base do pé do lavatório, bem como marcas ferrugentas de água que escorria da parede e serpenteava por ali abaixo.

Tens de te levantar, Jotacê. Tens de sair daqui.

Não conseguia passar a mensagem do cérebro para o corpo.

Lentamente, foi-se apercebendo de qualquer coisa molhada sob a cara. Ergueu-se até ficar de gatas e viu a poça de sangue onde estivera a sua cara. Com a cabeça a andar à roda e os braços e as pernas como borracha e a tremer, agarrou-se à borda do lavatório e endireitou-se a custo.

Tinha dores na boca e no queixo como se alguém o tivesse atingido com um cacete. O sangue escorria, bem vermelho, para dentro do lavatório. O que viu no espelho quebrado foi uma imagem dum filme de terror. A face e o sobrolho do lado direito estavam inchados de bater contra a porta do armário, a face cortada e a sangrar, bem como o nariz. Parte do batom da mensagem no espelho espalhara-se-lhe na cara como pintura de guerra.

Com cuidado, apalpou o nariz, para ver se estaria partido. Do lado esquerdo do queixo viu um alto que começava a ficar roxo, por causa de ter batido no lavatório. Com dores, apalpou o maxilar, para ver se estava partido. Tinha o lábio cortado e uma falha num dente.

A casa estava silenciosa, e Jotacê esperava que quem o atacara se tivesse ido embora, em vez de estar à espera que ele recuperasse os sentidos para lhe bater de novo.

Sentindo-se ainda fraco e trémulo, abriu as torneiras, lavou a cara e as mãos, pegou numa toalha, enxugou-se e depois limpou também o lavatório. Curvou-se para retirar com a toalha o sangue do chão, mas ficou de joelhos com uma tontura. Lá conseguiu endireitar-se de novo, mas permaneceu sentado no chão, com as costas apoiadas na banheira.

Precisava de sair dali. Queria fazê-lo lenta e casualmente, para não chamar as atenções, mas com a cara naquele estado isso não aconteceria, se alguém se aproximasse, passasse por ele na rua ou o visse duma janela a entrar no Mini e a afastar-se dali.

A porta do apartamento abriu-se e fechou-se. Jotacê endireitou-se mais, tentando escutar. Seria uma pessoa a sair ou a entrar?

Ficou à espera duma exclamação de surpresa, mas não a ouviu. Se Abby Lowell tivesse entrado e deparado com o estado lamentável da sua casa violada, teria certamente emitido algum som de espanto. Talvez até voltasse a sair para pedir ajuda a um vizinho. Ou chamar os chuis.

Ouviu alguém a andar lentamente pela sala, como que a tentar entender o que se passava ou a encontrar alguma coisa. E objectos a serem deslocados.

Talvez o indivíduo tivesse entrado em pânico com a chegada de Jotacê, pirando-se sem o que fora ali procurar. Talvez agora voltasse para a vir buscar. Talvez com uma arma.

Uma arma. Precisava duma arma.

Viu um comprido triângulo de vidro pendurado do espelho quebrado. Embrulhou a mão com a toalha ensanguentada e arrancou-o. Depois escondeu-se atrás da porta da casa de banho e ficou à espera.

Talvez um vizinho tivesse já chamado os chuis e viessem duas fardas a avançar na sua direcção empunhando as armas.

O vidro quebrado proporcionou-lhe uma imagem distorcida e surrealista da pessoa que entrava cuidadosamente um olho aqui, um nariz ali, um quadro de Picasso ao vivo.

Jotacê largou o vidro, fechou a porta com um pontapé e agarrou Abby Lowell, tapando-lhe a boca com a mão para a impedir de gritar. Ela tentou atingi-lo com um cotovelo e deu pontapés para trás, batendo-lhe com um salto numa canela. Jotacê apertou-a mais e continou a tapar-lhe a boca com a palma da mão enquanto ela tentava morder-lhe. Era forte, atlética e determinada. Jotacê empurrou-a para a frente, como o assaltante fizera com ele, encurralando-a contra o lavatório.

- Não grite - ordenou ele baixinho, com a boca a tocar-lhe na orelha. - Não estou aqui para lhe fazer mal. Quero ajudar. Eu conhecia o seu pai. Ele era bom tipo.

Ela via-o no espelho, com os olhos castanhos redondos de medo e desconfiança.

- Vim cá à sua procura, para falar consigo - explicou Jotacê. - Alguém tinha revirado a sua casa de pernas para o ar. E depois deu-me uma tareia e foi-se embora.

Apoiou o queixo no ombro dela e viu-se no espelho. Com o inchaço, as nódoas negras e o sangue, parecia saído dum filme de terror. Abby Lowell desviou a atenção dele para o recado no espelho. As palavras estavam ligeiramente esborratadas, mas a mensagem era perfeitamente clara.

À PRÓXIMA MORRES.

- Não fui eu que escrevi isso - disse Jotacê. - E não consegui ver o tipo que o escreveu, mas juro que não fui eu.

Ela estava quieta nos braços dele, e o rapaz abrandou a pressão.

- Não vai gritar? - perguntou ele. - Eu tiro a mão, se prometer que não grita.

Ela assentiu com a cabeça. Lentamente, Jotacê tirou-lhe a mão da boca. A rapariga não gritou nem se mexeu. Ele soltou-a e recuou ligeiramente para ela não ficar presa contra o lavatório, mas podia agarrá-la de novo se fosse preciso.

- Quem é você? - perguntou ela, ainda a olhar para ele no espelho quebrado.

- Eu conhecia o seu pai.

- Como? Era cliente dele?

- De vez em quando fazia uns trabalhos para ele.

- Que espécie de trabalhos?

- Isso não tem importância.

- Para mim, tem - disse ela. - Como é que sei que não o matou? Como é que sei que não fez isto à minha casa?

- E depois bati em mim próprio até ficar neste estado? - perguntou Jotacê. - Como é que consegui isso?

- Talvez fosse o Lenny, antes de você o matar.

- E ainda continuo a sangrar? Talvez, se fosse hemofílico.

- Como é que eu sei que não o matou? - perguntou ela de novo. - E agora veio cá matar-me.

- Porque havia de querer que morresse? Por que razão alguém quereria que você morresse?

- Não sei. Num minuto a minha vida era normal e no minuto seguinte o meu pai está morto, sou interrogada por detectives, tenho de tratar do enterro e agora isto - disse ela com os olhos a encherem-se de lágrimas. Tapou a boca com a mão e tentou sufocar as emoções que ameaçavam dominá-la.

- Eu sei, eu sei - murmurou Jotacê.

Ela virou-se para ele. Estavam tão perto como amantes a compartilhar um segredo. Ele sentia o perfume dela, leve e almiscarado.

- Sabe o que lhe aconteceu? - perguntou Abby.

- Sei que o mataram - respondeu Jotacê. - Li no jornal que foi você quem encontrou o corpo dele.

- Isso não é verdade. Não sei como essa notícia apareceu.

- Pareciam saber bastante sobre si.

A rapariga desviou os olhos, incomodada com a ideia.

- Eu não estava lá. Só depois...

- Então não viu alguém a sair?

- Não. A polícia estava lá quando eu cheguei. Porque quer você saber isso? Tem alguma ideia de quem o matou?

Jotacê abanou a cabeça, embora lhe parecesse ver ainda o carro escuro a deslizar a seu lado e a cara sem expressão do tipo atrás do volante.

- Não. E você?

- Disseram-me que foi um assalto.

- Então e aqui? - perguntou ele. - Um qualquer assaltante mata o seu pai, e depois vem à sua procura para a roubar e deixar-lhe uma ameaça de morte no espelho? É um pouco exagerado. Cá para mim, alguém andou aqui à procura de alguma coisa. Sabe de quê?

- Não consigo imaginar - respondeu ela, observando-o como se fosse um jogador de póquer. - Você sabe?

- Faltava alguma coisa do escritório do Lenny?

- Dinheiro. Mas não sei quanto. Só sei que havia dinheiro no cofre. Ele estava à espera dum estafeta ontem à noite, e a polícia acha que foi o estafeta. Que matou o Lenny, roubou o dinheiro e fugiu da cidade.

- Pois a mim, não me parece que o assassino tenha fugido da cidade - retorquiu Jotacê.

- Talvez não fosse ele a fazer isto. Podia ser só um gatuno.

- E porque havia um gatuno de escrever aquilo no seu espelho? - perguntou o rapaz. - À PRÓXIMA MORRES. Olhe que era uma coincidência realmente espantosa, se, na noite a seguir ao homicídio do seu pai, um outro assassino a escolhesse para sua próxima vítima.

Abby Lowell tapou a cara com as mãos, tentando desfazer a tensão que sentia. Fê-las deslizar até ao pescoço e depois inclinou a cabeça para trás e suspirou.

- Preciso de me sentar.

Jotacê deixou-a passar e sentar-se na beira da banheira. Sentou-se também, embora lhe apetecesse mais deitar-se. Sentia a cabeça como se lhe tivessem batido vezes sem conta com um pedaço de cano. Levou a mão à cara para ver se ainda estava a sangrar.

- Quem é você? - perguntou de novo a rapariga. Porque veio aqui? Eu não o conheço, e você não é do tipo com quem o Lenny tinha negócios. Mesmo que fosse, porque veio à minha procura? Que tem você a ver com tudo isto?

Jotacê observou-a durante um momento. Estava sentada com as costas direitas e as pernas cruzadas, elegante e senhoril. Como raio teria Lenny conseguido produzir uma filha assim? Talvez fosse adoptada.

- Ainda não respondeu às minhas perguntas - insistiu ela.

Inclinou a cabeça, com o cabelo a tombar para o lado como um cortinado. Puxou-o para trás e olhou para Jotacê, de baixo para cima. Sensual.

- Se sabe alguma coisa sobre a morte do Lenny, devia ir à polícia - disse ela. - Fale com o detective Parker. E se sabe alguma coisa sobre o assaltante da minha casa, também devia ir à polícia. Olhe, pode ligar daqui. Ou faço eu a chamada - propôs ela.

Jotacê desviou o olhar. Ela estava a encurralá-lo, mas manteve-se calmo.

- Não estou interessado em falar com a polícia.

- É. Não me pareceu.

- Sabe em que estava o seu pai envolvido?

- Não sabia que estava envolvido em alguma coisa.

- Pois alguém acha que sim - disse Jotacê, olhando Para o espelho. - Alguém acha que, se não conseguiu o que queria do seu pai, foi porque você o tem.

- Porque não quer falar com a polícia? - insistiu ela.

- Se não está metido em qualquer coisa, se não sabe a razão disto tudo, porque me faz tantas perguntas?

- Tenho cá as minhas razões.

- É porque sabe alguma coisa - continuou ela, levantando-se. Estava a começar a ficar zangada. Deu dois passos para um lado e depois para o outro. - E, se sabe, é porque está metido nisto.

- Alguém tentou matar-me ontem à noite - disse Jotacê, levantando-se também, ele próprio já irritado. - É o que eu sei. Ia fazer um recado ao seu pai e alguém tentou matar-me. Depois, quando voltei para perguntar ao Lenny em que porra é que ele me tinha metido, descobri que estava morto. Portanto, acho que tenho o direito de me interessar, ou não?

- É você... é ele, não é? O estafeta? - perguntou ela. Num ápice, estava fora da porta, fechando-a atrás de si.

Jotacê deu um salto, abriu a porta com um encontrão e correu atrás dela.

A rapariga pegou num telemóvel a caminho da porta da rua, mas tropeçou nuns livros atirados para o chão durante o assalto.

Jotacê saltou e atirou-se ao chão, caindo em cima dela. A rapariga gritou por socorro e voltou-se o suficiente para o atacar com o telefone. Deu-lhe uma forte pancada no sobrolho direito, fazendo-lhe ver estrelas. Evitando uma segunda pancada, ele tentou tirar-lhe o telefone da mão.

- Que diabo, pare de lutar! - resmungou ele. - Não quero magoá-la.

- Que raio se passa aí? - perguntou uma voz masculina do lado de fora do apartamento.

Abby ia gritar outra vez, a pedir socorro, mas Jotacê tapou-lhe a boca com a mão. Ouviram passos na escada.

- Miss Lowell? Está tudo bem?

Ela voltou a cabeça para o lado e mordeu-lhe um dedo com toda a força. Jotacê arrancou a mão e ela gritou ”Não!” antes que ele pudesse tapar-lhe a boca outra vez.

Lá fora, um homem gritou para outra pessoa qualquer:

- Liga para o Cento e Doze!

- Merda!

Jotacê saiu de cima dela e correu para a porta.

Raios partam, raios partam, raios partam isto!

Um homem mais velho, com o cabelo branco ralo e as sobrancelhas espetadas, deu um salto para trás, assustado. Trazia uma grande chave-inglesa na mão.

Jotacê passou por ele de raspão e desceu a escada tão depressa que se admirou por não se ter estampado. A mulher do caniche estava com a cabeça fora duma porta ao fundo da escada, de olhos muito abertos e boca escancarada.

Jotacê patinou à roda da base da escada e correu para a porta das traseiras, sentindo os pés a escorregar no velho chão polido, sempre de olhos postos na porta dupla e no pátio do outro lado.

Atingiu a porta a correr e saiu como uma bala. O pequeno pátio tinha flores e arbustos, e um muro de mais de dois metros de altura a toda a volta.

Não penses. Faz qualquer coisa. Não penses. Faz qualquer coisa.

Agarrou num banco de madeira e arrastou-se até ao muro.

Recuou, respirou fundo...

E o tipo com a chave-inglesa saiu de casa a gritar.

Jotacê alcançou o banco a correr e pulou.

Agarrou-se ao topo do muro e passou para o outro lado.

Não conseguiu evitar um grito quando tocou no chão com os pés e a dor lhe explodiu no tornozelo e pela perna acima, como vidro a estilhaçar.

Não pares, não pares, não pares.

Com os dentes cerrados, conseguiu erguer-se e começar a andar, coxeando fortemente. Tinha de se pirar dali. Não podia esconder-se, porque a polícia ia aparecer com cães. E logo a seguir com um helicóptero.

Para o outro lado da rua e pelo beco. Por entre as casas. Atravessar outra rua e percorrer outro beco, até poder voltar Para trás, para o Mini. Se estivesse com a bicicleta em vez do carro, era só saltar para cima dela e desaparecer por ruas secundárias e becos, que nem um relâmpago. Ninguém o apanhava.

Sentia a cabeça a latejar e não ouvia bem. Não ouvia sirenes, apenas o barulho dos próprios pés a bater no chão e

o ruído do ar a entrar e a sair dos seus pulmões.

Estava a ver o carro. Meteu a mão no bolso e tirou a chave, por pouco não a deixando cair.

Incapaz de parar, bateu no Mini e precisou de recuar para abrir a porta. Atirou-se para o banco, tonto e agoniado, tentando enfiar a chave na ignição.

Nesse momento, ouviu uma sirene ao longe. O motor pegou e ele meteu a mudança e começou a descrever uma curva em U no meio da rua. Uma buzina tocou e pneus chiaram. O nariz duma carrinha deu um toque no Mini, atirando a traseira do carro para o lado, com os pneus a patinar.

E depois seguiu em frente. Curva para a direita, curva para a esquerda, curva para a direita, curva para a esquerda, sempre em frente.

Abrandou assim que se atreveu. Não queria deixar um rasto de gente a queixar-se para os chuis seguirem.

Ia chegar um carro ao prédio de Abby Lowell, com a consequente confusão e excitação. Levava tempo a explicar tudo aquilo. Talvez não andasse ainda um helicóptero por perto. Se aparecesse um, estava lixado.

Continuou na mesma direcção, a velocidade normal, como uma pessoa normal numa situação normal. Ao volante, tremia e suava, com o coração ainda acelerado. A garganta contraía-se-lhe de cada vez que avistava um carro da polícia. Não podia ter feito mais merda do que fizera. Que estava ele a pensar, que Abby Lowell lhe oferecesse uma bebida e se sentassem para discutir calmamente a situação? O pai fora morto. E, por mais inocente que afirmasse ser, ela tinha de saber alguma coisa. Por que outro motivo deixaria um assassino uma ameaça de morte no espelho? À PRÓXIMA MORRES.

À PRÓXIMA, como se Lenny tivesse sido apenas um aviso ou a primeira coisa duma lista.

Jotacê levou a mão à barriga e sentiu o envelope. Pensou qual teria sido a reacção dela, se lhe dissesse que tinha aquilo com ele.

Afastando esses pensamentos por um segundo, Jotacê olhou para um lado e para o outro. Conduzira para norte e leste, norte e leste, até Silverlake, a cerca de oito quilómetros da baixa.

Silverlake fora um local na berra nas décadas de vinte e trinta, quando as estrelas do cinema mudo e os magnatas construíram casas e estúdios na zona. As colinas acima do reservatório estavam cheias de casas dessa época, agora remodeladas para tipos modernos, virados para as artes e cheios de massa.

Jotacê encontrou um lugar para estacionar junto ao reservatório. Saiu do carro para se mexer e tentar concentrar-se. Foi ver a traseira do Mini e praguejou baixinho. A preciosidade de Madame Chen já não estava impecável. Metade da protecção dum farolim desaparecera na rua onde a carrinha lhe batera, e logo abaixo viu arranhões e marcas de tinta clara.

E agora?

Agora, era procurado por homicídio e assalto, invasão de domicílio e vandalismo. E por roubar sabia-se lá quanto do cofre de Lenny Lowell.

Tentou reviver os poucos minutos passados no escritório do advogado na noite anterior. Lembrava-se de pensar que estava tudo desarrumado. Olhara em volta, vira o televisor, tocara no trofeu de bólingue de Lenny e deixara lá um belo conjunto de impressões digitais. Mas não se lembrava de ver um cofre aberto.

Voltou para o carro e bebeu um pouco do refrigerante que comprara na loja de conveniência para empurrar três comprimidos de analgésico. Precisava de manter as energias e de tentar fazer diminuir as dores, para poder pensar. O cérebro era o que o mantinha vivo e nas ruas todos os dias, a capacidade de ver dois pulos para diante, embora concentrando-se no momento.

Todos os dias arriscava a vida nas ruas como estafeta. Arriscar-se por si e porem-lhe a vida em risco eram duas coisas completamente diferentes. Conhecia os riscos e conhecia as suas capacidades. Se se metesse debaixo dum autocarro, o autocarro é que o matava, não os passageiros. Se cometesse um erro, sofria as consequências.

Naquela confusão, nada parecia estar a ser controlado Por ele. Fora atirado para o meio dela como quem é sugado Por um tornado. A única coisa que podia controlar era a sua mente e, no fim de contas, isso era a única coisa capaz de o salvar.

Muito gostava ele de saber contra o que lutava... contra quem lutava. Vinha-lhe facilmente à ideia o trombalazana do carro escuro. Mas, quando pensava no ataque à casa de Abby Lowell, ficava a zero. Tentou imaginar coisas que não tinha visto, olhar para o espelho e ver o tipo atrás de si, mas a coisa não se passara assim.

Que raio está a acontecer e porque tenho eu de estar metido nisto?

Sorte ou azar. Se não se tivesse atrasado, teria ido para casa como noutra noite qualquer, e Eta diria a Lenny que ele não podia fazer-lhe o recado. A morte do advogado seria uma história escondida no jornal, com ele, Jotacê, sem lhe prestar atenção, como a maior parte dos habitantes de Los Angeles. Ninguém pestanejava diante dum vulgaríssimo homicídio. Aconteciam todos os dias. Era preciso existir um chamariz, qualquer coisa exótica, perversa e/ou uma celebridade.

Jotacê perguntou a si próprio se as pessoas nos negativos que trazia colados à barriga seriam famosas. Alguma celebridade a ser subornada por causa dum comportamento sexual anormal. O género de história gasta que constituía o lado desagradável de Los Angeles. Cidade de anjos, cidade de porcaria, conforme quem olhasse para ela e para que parte.

O reservatório era cinzento, metálico, reflectindo as pesadas nuvens por cima dele, mas brilhando onde o sol baixo lhe tocava com os raios. O céu para poente estava da cor de lava, com o roxo do crepúsculo a matizá-lo. Desapareceria tudo daí a pouco no oceano, e a escuridão cobriria a cidade com o seu manto. Poderia então ir para casa e talvez trepar a escada à socapa, fugindo ao olhar de Madame Chen.

Queria ir para casa, estar em casa, ficar em casa, ou enfiar os livros no saco e apanhar o comboio para Pasadena para ir às aulas de Ciências Sociais na faculdade. Queria fazer qualquer coisa normal. Queria ajudar o irmão em algum projecto da escola, ver televisão, fazer pipocas. Se calhar, era isso que ia fazer, pensou, enviava o envelope de Lenny à rapariga, arranjava outro emprego e começava tudo de novo, fingindo que nada daquilo acontecera.

Quando se sentou ao volante e estendeu a mão para a chave, o rádio no banco ao lado emitiu uns estalidos e depois a voz de Eta Fitzgerald exclamou:

- Sede a dezasseis, sede a dezasseis, onde estás tu, filho? Jotacê estendeu a mão e tocou no rádio e no botão, mas não carregou nele. Não se atreveu.

- Sede a dezasseis, onde estás tu, Mascarilha? Tens de vir pra casa, prà tua mãe, querido. E já. Ouviste? Ainda tenho aqui o caroço para ti. Estás a ouvir?

- Estou na quinta dimensão, Eta - murmurou ele. E vou para casa.

- A história da Abby Lowell sobre o restaurante confere - anunciou Ruiz quando Parker se aproximou do edifício, vindo do parque de estacionamento. Estava parada à porta, a fumar, abrigando-se da chuva que começara a cair em grossos pingos lentos.

- Que mais é que descobriste lá?

- Que têm uma maravilhosa salada de pêra cozida.

- E que tal a carta de vinhos?

- Isso não sei, mas tenho um encontro marcado com um criado que é um borracho - disse ela, no gozo. - Vai ser o próximo Brad Pitt.

- Não vão todos? Falaste com o chefe de mesa da noite passada?

- Falei. Disse que ela parecia impaciente, sempre a olhar para o relógio.

- Mas estava perturbada? A chorar? Parecia abalada?

- Só disse impaciente. Tinham muito trabalho.

- E o criado que a serviu? Ela abanou a cabeça.

- Não chegou a ter mesa. O chefe acompanhou-a ao bar, e o empregado diz que tomou vodca com água tónica. Dois tipos tentaram meter-se com ela, mas ela não estava interessada. O homem viu-a falar ao telemóvel duas vezes. Deixou uma boa gorjeta, mas ele não a viu sair.

Parker franziu a testa, olhando para o céu cada vez mais escuro.

- Quero o registo das chamadas dela, do fixo e do telemóvel.

Achas que teve alguma coisa a ver com o caso? - perguntou Ruiz, admirada.

- Apanhei-a esta manhã no escritório do pai. Disse que estava à procura da apólice de seguro e do testamento.

- Isso é ser fria, não criminosa.

- Violou um local de crime selado - continuou Parker. - E não levou uma apólice de seguro quando se foi embora. Levou documentos e a chave dum cofre do Banco Nacional. Foi lá direitinha e tentou aceder ao cofre do pai.

- Não a deixaram entrar?

- Fez o chorinho ao gerente, mas não tinha autorização do pai, de maneira que lhe disseram que precisava de fazer um requerimento e apresentar uma ordem do tribunal. Miss Lowell não ficou contente.

- E a ti, deixaram-te entrar? - perguntou Ruiz.

- Teremos uma ordem do tribunal amanhã logo de manhã - disse Parker, bocejando e encaminhando-se para a porta. - Preciso de tomar qualquer coisa.

- Falei com Massachusetts - disse Ruiz, a caminho do gabinete. - A carta de condução supostamente da Allison Jennings é duma mulher que vive em Boston.

- Ficaste com o número do telefone?

- Melhor ainda - disse Ruiz, ufana. - Já liguei para ela. Diz que não faz ideia de como a carta veio parar aqui. Roubaram-lhe a carteira com a carta de condução lá dentro há muito tempo. Talvez fosse assim.

Entraram no gabinete. Parker pendurou a gabardina e foi direito à máquina de café. Encheu a chávena e encostou-se ao armário. O café sabia três vezes pior do que de manhã.

- Pelos vistos, não paraste enquanto estive fora - comentou ele. - Estou impressionado.

Ruiz olhou para ele como quem está à espera duma piada desagradável.

- Eu digo coisas simpáticas de vez em quando - esclareceu Parker. - Quando as pessoas as merecem.

Ruiz pareceu não acreditar, mas não fez comentários. Encostou-se à secretária, cruzando os braços e empurrando

o sutiã de renda encarnada e o seu conteúdo para cima, até ficarem à vista.

- Ainda não me deram notícias da inscrição do tal Damon. Mas tenho os pormenores da Expresso e da vítima: chamadas de casa e do escritório.

Parker olhou para ela com os olhos semicerrados.

- Quem é você? E o que fez a Miss Ruiz? Ela fez-lhe um gesto ordinário e continuou:

- O número na lista das chamadas recebidas do telemóvel da Abby Lowell? O Leonard Lowell ligou para ele ontem do escritório às cinco e vinte e dois. A chamada durou um minuto e doze segundos.

Parker franziu a testa e pensou no assunto. Às cinco da tarde, Lenny Lowell ligara para um número privado dum telemóvel. Pouco mais duma hora depois, outra pessoa utilizara esse mesmo telemóvel para avisar Abby Lowell de que o pai tinha morrido.

Como podia aquilo estar ligado ao estafeta? Não podia. O advogado falara para a Expresso a pedir o serviço.

Mesmo que o telefone fosse do rapaz, nada daquilo fazia sentido. Porque havia o advogado de falar com ele directamente e depois combinar o serviço com a empresa?

E depois? O rapaz aparecia, matava o advogado, pegava na encomenda e no dinheiro do cofre, virava o escritório de patas para o ar à procura de qualquer coisa, partia um vidro do carro de Lowell à saída, e a seguir ligava para uma mulher que não conhecia para lhe dizer que o pai tinha morrido?

- Isto não me convence - resmungou Parker, dando a volta às secretárias até chegar à sua cadeira. Sentou-se, bocejou e esfregou a cara com as mãos. Precisava de se recompor. O turno podia ter acabado, mas o dia ainda não.

Os primeiros dois dias duma investigação de homicídio eram cruciais. As pistas arrefeciam rapidamente, as testemunhas começavam a perder pormenores das suas recordações e os criminosos escapuliam-se para os seus buracos. Para não falar do facto de, na maior parte das vezes, três dias serem o máximo de tempo que podiam dedicar a um caso antes de lhes aparecer outro cadáver e serem obrigados a ocupar-se dele devido ao facto de os dois primeiros dias serem cruciais... Sempre à roda, numa espécie de carrossel.

O tempo para eles era um luxo a que não podiam aspirar. A polícia de Los Angeles tem cerca de nove mil agentes para uma cidade de três milhões e quatrocentos mil habitantes, enquanto a de Nova Iorque dispõe de trinta e oito mil para apenas um pouco mais do dobro da população.

- Que foi? - exclamou Ruiz. - Cá para mim parece bastante claro.

- Por isso é que sou o número dois e tu não. A maior parte dos homicídios é fácil. Um tipo mata outro porque o segundo tem uma coisa que o primeiro quer. Dinheiro, drogas, uma mulher, um blusão de cabedal, uma sanduíche de presunto. Um tipo mata a mulher ou a namorada porque ela anda a deitar-se com outro tipo ou porque queimou a carne assada ou porque ele é um simples cretino desequilibrado mental. E com as mulheres é a mesma coisa. Geralmente simples. Matam alguém que conhecem por terem ciúmes. Às vezes por ciúmes misturados com ganância, mas principalmente por ciúmes.

Parker abanou a cabeça e continuou:

- Neste caso há alguma coisa errada. É enviado um estafeta ao acaso. Entra no escritório do Lowell, vê dinheiro a sair do cofre, mata-o, rouba o dinheiro e ataca o carro do homem. O Lowell não o chamou antes dizendo-lhe que aparecesse para lhe roubar o dinheiro e lhe esmagar a cabeça. E, se foi um crime de oportunidade - continuou -, o estafeta não ia perder tempo a procurar o número do telemóvel da filha do homem e a ligar para ela fingindo que era um chui e mandando-a ao escritório do pai. Para quê? - O telefone em cima da secretária de Parker tocou e ele levantou bruscamente o auscultador. - Parker.

- Kev, é a Joan Spooner do laboratório de peritagem. Parker exibiu o sorriso especial, apesar de ela não poder vê-lo.

- Diz-me qualquer coisa que eu queira ouvir, Joanie. Que é que tens para mim, além do teu coração?

- Um marido - respondeu ela secamente.

- Um pedicuro - comentou Parker em tom enjoado. Um tipo que chega a casa a cheirar aos pés doutras pessoas. Quando podias ter-me a mim. Uma data de mulheres matavam para ficar comigo.

- Pois é. Chamam-se assassinas - disse ela. - Que tristeza teres de as algemar para elas irem a algum lado contigo!

- Há quem goste disso - ronronou ele ao telefone. Não digas mal sem experimentares, Joanie.

Do outro lado da secretária, Ruiz revirou os olhos.

- Já chega, cavalheiro. Coloque as duas mãos em cima da secretária e preste atenção. Tenho uma possível identificação para as impressões digitais do homicida do Lowell. Não é segura para uma sala de tribunal, mas é alguma coisa para começar. Tenho um polegar e parte dum dedo médio na arma do crime e parte dum polegar na ficha de emprego.

- São iguais?

- Em tribunal, teria de dizer ”possivelmente” quanto ao polegar e um advogado de defesa comia-me ao almoço. Cá entre nós e o candeeiro da esquina, acho que é provavelmente a mesma pessoa.

- Adoro-te, Joanie!

- Isso é o que tu dizes, Kevin. Ainda um dia vais ter de o provar ou de ficar calado para sempre.

- Cuidado com o que desejas, boneca. Agradeceu-lhe e desligou.

Ruiz tentou que ele lhe prestasse atenção.

- Então, Romeu, que foi que ela disse?

Parker mordiscou o polegar durante um momento, a olhar para longe e a pensar.

- Provável igualdade num polegar na arma do crime e na ficha do rapaz.

- É o nosso homem. Parker abanou a cabeça.

- Vamos fazer de advogado do diabo. Se fosses a advogada desse Damon, como é que fazias buracos na prova das impressões digitais?

Ruiz suspirou.

- Dizia que concordava com o facto de ele ter estado no escritório do advogado, por ter ido lá buscar uma encomenda. E tocou num trofeu de bólingue. E então?

- Exactamente. E em que parte da arma do crime estão localizadas as impressões digitais? Para dar cabo da cabeça do homem, ele pegou no trofeu de cabeça para baixo. A base de mármore é que provocou os ferimentos. As fotografias já vieram?

- Não.

- Liga para lá antes de irem todos para casa como gente normal. Tens de falar com o tipo que tirou as impressões da arma do crime. E eu preciso de fotografias da parte de trás da secretária e de toda a área à volta dela.

- E eu sou o quê? Tua secretária? - resmungou Ruiz.

- O meu turno já acabou e estou esfomeada.

Parker atirou-lhe um rolo de pastilhas de mentol.

- Quando estás comigo, não há turnos para resolver um homicídio, filha. Come uma pastilha, que ficas óptima. Vais ver como a roupa te assenta melhor.

O telefone tocou outra vez e ele pegou no auscultador.

- Parker.

- Detective Parker? - perguntou uma voz velada e ligeiramente trémula. - É a Àbby Lowell. Assaltaram a minha casa. Foi o tal estafeta. E eu pensei que o senhor devia saber.

- Vou já para aí.

Desligou o telefone e levantou-se.

- Vai-me buscar as fotografias imediatamente - ordenou ele a Ruiz, dirigindo-se ao bengaleiro e vestindo a gabardina. - E trata de arranjar os registos das chamadas da Expresso. Precisamos de tudo o que pudermos conseguir a respeito do Damon. A Abby Lowell diz que ele lhe assaltou a casa.

- E aonde vais agora? - choramingou Ruiz.

- Acudir à menina desamparada - respondeu ele, agitando as sobrancelhas para baixo e para cima, antes de pôr o chapéu.

 

Abby Lowell morava fora da jurisdição da esquadra central, de maneira que Parker foi obrigado a exibir o distintivo perante os agentes fardados no átrio do edifício. Um deles assentiu com a cabeça e deixou-o entrar. O outro estava a falar com um tipo velhote e barrigudo que discursava quanto à deterioração da grande nação a que pertenciam.

Um par de detectives da esquadra da zona ocidental, Divisão de Hollywood, estava de pé na sala de Abby Lowell, a olhar em volta como se estudassem a maneira de a redecorar. Estava tudo espalhado por todo o lado. A sala fora remexida como uma salada. Um tipo das impressões digitais que Parker conhecia espalhava pó.

- Bela festa - comentou Parker. - Importam-se que me junte a vocês?

O mais velho dos dois chuis de Hollywood, um tipo de cabeça quadrada com o cabelo cortado à fuzileiro, revirou o lábio como um cão prestes a rosnar.

- Que estás aqui a fazer, Parker? Pensava que te tinham posto a passar multas de estacionamento.

- A tua vítima chamou-me. Parece que não conseguiram impressioná-la com a vossa presença autoritária.

- Volta para a tua toca, Parker. Isto é nosso. Depois mandamos-te uma cópia do relatório.

Parker revirou também o lábio e deu um passo em frente.

- Pensas que preciso da porcaria do teu relatório? Arranja a papelada que quiseres e depois vai atrás duns bandidos de lojas de conveniência ou assustar miúdas com pretensões a estrelas que fazem biscates de costas. Efectuem tudo o que quiserem aqui - disse ele, apontando com um dedo em redor da sala. - Mas isto faz parte do meu homicídio espertalhão. Não consegues mijar mais alto do que eu.

O sempre encantador detective Parker.

Abby Lowell estava à porta da sala que comunicava com o resto da casa, com um ombro encostado à parede. Continuava com a mesma roupa azul cor de safira que trazia de manhã, mas enfiara um velho casaco de malha cinzento, que apertava à volta do corpo. Tinha o cabelo despenteado e a pintura dos olhos esborratada, como se tivesse estado a chorar.

Parker aproximou-se.

- Você está bem?

Ela esboçou um ligeiro sorriso, com os cantos da boca a tremer. Baixou os olhos e prendeu uma madeixa de cabelo atrás da orelha com uma mão trémula.

- Ele não me matou, portanto estou melhor do que o último Lowell com quem se cruzou.

- Onde é que guarda as bebidas? - perguntou Parker.

- No frigorífico. Grey Goose. Pode servir-se.

- Não é o meu veneno - disse ele, passando por cima dos destroços do assalto, a caminho da cozinha. Encontrou um copo, deitou vodca e uns cubos de gelo e entregou-lhe a bebida. - Há quanto tempo é que isto aconteceu?

Ela bebeu uns golinhos, com a anca encostada à bancada.

- Há umas duas horas, calculo eu. Só percebi que não é na sua zona quando eles apareceram. Não queriam que eu o chamasse.

- Não se preocupe com eles. Fez muito bem. Além disso, eu sou como os lobos. Tenho um grande território. Que foi que aconteceu?

- Cheguei a casa, entrei e vi isto neste estado. Fui à casa de banho e ele agarrou-me.

- Estava armado? Ela abanou a cabeça.

- Como é ele? Alto, baixo, preto, branco...?

- Não é tão alto como você. Loiro. Novo. Branco. Parecia ter andado à pancada ou coisa assim.

- Preciso que vá ver o nosso desenhador de retratos robôs logo de manhã - disse Parker. - Como é que soube que era o estafeta?

- Ele não queria dizer quem era, mas disse que conhecia o meu pai e que costumava fazer trabalhos para ele. Então, percebi quem era.

- Que queria ele? Porque veio ter consigo?

- Não sei. E não quis descobrir. Tive a certeza de que ia matar-me. Fugi e ele apanhou-me quase ao pé da porta...

Os olhos escuros encheram-se de lágrimas. Ela encostou-se à bancada e tapou a cara com uma mão. Parker ficou a observá-la um momento e depois afastou-se e percorreu o corredor. A casa de banho era à esquerda, pequena, com um conjunto de banheira/duche, uma sanita e um lavatório de pé. O espelho do armário dos remédios por cima do lavatório estava partido e faltavam-lhe bocados.

Parker agachou-se e observou uma mancha pálida cor de ferrugem num mosaico. Sangue, calculou. Parte tinha escorrido para as junções, manchando-as também de escuro.

Ergueu-se e leu a inscrição encarnada no espelho do armário: À PRÓXIMA MORRES.

Porque queria o estafeta matar Abby Lowell, se a morte do pai e o roubo do dinheiro do cofre tivesse sido um crime ocasional? Não queria. O culpado do homicídio e do assalto à casa da rapariga só podia ter um motivo complicado, o que, parecia a Parker, excluía imediatamente o estafeta.

Abby apareceu no espelho quebrado, numa imagem fragmentada, como se estivesse dentro dum caleidoscópio gigante.

- O tipo andava à procura de quê? - perguntou Parker, voltando-se para ela.

- Não sei.

- A sua casa fica revirada de pernas para o ar, ameaçam matá-la, e não sabe por que motivo?

- Não, não sei - repetiu ela. - Se o Lenny andava a armar alguma, não me incluiu nela.

Parker levantou uma sobrancelha e insistiu:

- Palavra? Então não é estranho que pouco tempo antes de ser assassinado fizesse uma chamada para o próprio assassino? E que, depois de ele morrer, o assassino telefonasse a si, para lhe dar a notícia? Acho isso tudo muito estranho. Porque se acharia o Lenny no direito de dar o seu número de telefone e a sua morada ao criminoso?

A rapariga já não parecia ter vontade de chorar. Mostrava-se furiosa, com os olhos quase pretos. Não estava a gostar do facto de ele não se mostrar tão compreensivo como ela queria que fosse.

- Talvez os tenha arranjado lá no escritório.

- Mas porquê? Porque veio ele aterrorizá-la, se você não pode dar-lhe o que ele quer?

- Não devia ser preciso lembrar-lhe, detective, que a vítima aqui sou eu.

- Porque não me falou do cofre particular do seu pai?

- perguntou ele bruscamente.

Ela ficou sem respiração, de boca aberta.

- Este assassino anda à procura de qualquer coisa... Procurou no escritório do seu pai e procurou aqui... Qualquer coisa que eu vou encontrar nesse cofre quando o abrir amanhã, não vou?

- Não sei de que está a falar. Continuo sem saber onde estão o testamento e a apólice de seguro. Pensei que podiam estar no banco.

- Eu depois digo-lhe - prometeu Parker. - Não tenho qualquer problema. Assim que receber a ordem do tribunal, sou eu que encontro o brinde na embalagem de cereais.

Ela não lhe respondeu, mas também não pareceu ficar nervosa. Se o testamento do advogado estivesse no cofre, provavelmente não continha um parágrafo a começar assim: Em caso de morte violenta, a minha filha esteve metida no assunto.

- também acho estranho você não ter incluído uma ida ao banco na sua lista de motivos para se afastar de mim esta manhã - insistiu Parker.

- Eu não estava a tentar fugir de si. Tenho é muito que fazer.

- Com certeza, Miss Lowell. E que tal foi a sua aula, a propósito?

-Não fui.

- Era uma aula de quê? Não me lembro.

- Eu não lhe disse.

- Então, aproveite agora.

- Que diferença faz, se não fui? - respondeu ela com uma expressão irritada.

- E qual é a funerária?

- Ainda não decidi.

- Mas foi a uma, hoje, não foi? Depois do banco, antes de vir para casa?

A rapariga respirou fundo e atacou:

- Se não se importa, detective, preciso de me deitar. Na verdade, não me sinto capaz de ser interrogada esta noite.

- Talvez fosse melhor ficar com uma amiga - sugeriu Parker.

- Vou para um hotel - respondeu ela secamente. Parker parou demasiado perto dela, inclinando-se para a porta.

- Durma bem - ronronou ele, olhando-a nos olhos, suficientemente perto para poder beijá-la. - Ligue, se precisar de mim.

- Não é provável - disse ela, sem estremecer, sem pestanejar. Uma verdadeira jogadora de póquer...

Parker saiu da casa de banho e seguiu pelo corredor até à porta da rua. O agente com cabelo de fuzileiro estava lá a falar pelo telemóvel. Parker dirigiu-se ao detective mais novo, ainda a tomar apontamentos.

- Alguém viu o tipo a sair daqui? O agente tentou olhar para o colega.

- Podes responder-me agora, rapaz, ou eu posso pôr o meu chefe a chatear o teu, e temos todos um dia desgraçado. Não quero fazer isso - continuou Parker como que a desculpar-se. - Isto não é contra ti, rapaz, mas estou a tratar dum homicídio e não tenho muito tempo a perder.

Um grande suspiro. Uma olhadela para o lado.

- Um dos vizinhos apanhou parte duma matrícula - disse o rapaz em voz baixa. - Dum Mini Cooper verde-escuro ou preto.

- Um Mini Cooper? - exclamou Parker, espantado.

- Que raio de bandido é que guia um Mini Cooper?

Um encolher de ombros, uma cabeça à banda. O rapaz procurou nos seus apontamentos e esclareceu:

- Apanhou um toque duma carrinha ao fazer uma curva em U no meio da rua, e ficou sem um bocado do aro dum farolim e com a chapa riscada.

E o condutor? Conseguiu vê-lo bem?

Nem por isso. Só sabe que era branco e novo. Foi tudo muito rápido.

Tens um cartão?

O jovem detective tirou um cartão do bolso e entregou-o a Parker. Joel Coen.

Obrigado, Joel - disse Parker, apontando o número do rapaz num canto. - Se descobrir alguma coisa, não me esqueço de ti.

Enfiou o cartão no bolso e foi à procura do tipo das impressões digitais para lhe dizer que andavam à procura de impressões que coincidissem com as encontradas no local do homicídio de Lowell. Mandou-o falar com Joanie.

O tipo com cabelo de fuzileiro desligou o telefone no momento em que Parker saiu. Este cumprimentou-o com o chapéu, dizendo em tom sarcástico:

Obrigado pela hospitalidade, fuzileiro. Eu telefono assim que resolver o caso.

 

Eta suspirou, trancando a porta por dentro. As portas de ferro já estavam descidas. Aquilo era mesmo um forte. Se assim não fosse, rebentavam as janelas e haveria vadios, bêbedos e malucos por todo o lado. Mas, naquela noite, teve mais a sensação de estar dentro duma prisão.

Aliás, estivera presa todo o dia, tentando apenas de vez em quando apanhar o Mascarilha. Mas não teria feito grande diferença se tentasse encontrá-lo de vinte em vinte minutos. Das duas uma: ou não tinha o rádio com ele ou não queria responder por ter medo de alguma armadilha.

Quase tivera um ataque de coração quando Parker lhe pedira que fosse até às traseiras. Qualquer coisa acerca da carrinha. Mas Jotacê não estava lá. E por onde andava, não sabia. Estava preocupada, não fosse ele pensar que fora ela a chamar a polícia, se por acaso os tivesse visto. Saíra de novo assim que Parker e a boazona da colega desapareceram, mas sem ver sinal do rapaz.

E depois, o estúpido do Rocco começou a embirrar com ela: que nem pensasse em ajudar um fugitivo, porque não podia ter um criminoso associado à sua empresa.

Eta respondeu-lhe que metade da sua maldita família era de criminosos e que uma casa como aquela não podia estar à espera de arranjar como empregados meninos do coro ou escuteiros. Como se ele alguma vez se incomodasse com as pessoas que o rodeavam, dissera ela com um revirar de olhos na direcção do amigo dele, Vlad, que batia bolas de golfe com a cinza do cigarro a cair para o tapete.

Rocco venderia a irmã por meia dúzia de cêntimos, se achasse que isso o livrava dum sarilho. Não queria chatices com a polícia de Los Angeles e a palavra lealdade era-lhe totalmente desconhecida.

- Fuinha desgraçado e sem préstimo- murmurou Eta, enquanto arrumava o escritório, despejando cinzeiros e deitando fora latas e garrafas de cerveja. - Deviam tê-lo metido num saco e deitado para um buraco.

Assim que a segunda leva de chuis aparecera - um empertigado menino bonito da Brigada de Roubos e Homicídios e o seu colega mudo - Rocco acompanhara-os tão de perto e com tanta eficiência que eles deviam ter sentido o odor da horrorosa água-de-colónia em que se enfrascava todos os dias. Não sabia patavina de J. C. Damon ou fosse de quem fosse que trabalhava para ele, mas apressara-se a dizer mal dele à mesma. Os detectives queriam Jotacê, portanto ele devia ter feito o que eles diziam, e Rocco sempre tivera um mau palpite a respeito do rapaz.

Eta duvidava que ele conseguisse identificá-lo entre vários rapazes.

Rocco ordenara a Eta que lhes contasse tudo o que sabia, mas ela limitou-se a olhar para ele como se o achasse estúpido - e era - e afastou-se. Até saber mais alguma coisa sobre a situação, a pouca informação que possuía ficava exactamente onde estava.

- O homem está a precisar que lhe vão às fuças - resmungou ela, dirigindo-se para as traseiras. Quando se preparava para apagar a luz no seu cubículo, o telefone tocou. Tudo o que sabia sobre Jotacê era que uma vez estava a fazer compras em Chinatown e o vira do outro lado da rua com um garoto de oito ou nove anos. Provavelmente andavam a passear. Vira-os entrar numa peixaria mas, quando lhe falou no assunto na segunda-feira seguinte, ele negara ter lá estado. Devia ser outra pessoa, dissera o rapaz. Mas Eta sabia que não.

Só atendeu o telefone porque pensou que podia ser ele.

- Expresso-Estafetas - anunciou ela. - De que é que precisa, filho? Estamos fechados.

- Daqui é o detective Davis, minha senhora. Preciso de lhe fazer umas perguntas.

Eta fez má cara para o telefone, como se o homem pudesse vê-la.

- Vocês não falam uns com os outros? E eu pago impostos para quê? Para andarem por aí às voltas a fazer as mesmas perguntas vezes sem conta, como uma data de atrasados mentais?

- Não, minha senhora. Queira desculpar, mas são só umas perguntinhas acerca dum dos seus estafetas, J. Damon.

- Eu sei - disse ela, aborrecida. - Veja lá se se põe em dia. Quem é você? O número três? Tenho mais que fazer do que falar consigo, filho. Tenho crianças em casa que precisam de mim, e vou desligar.

Bateu com o auscultador no descanso, olhando para o rádio. Ia tentar uma última vez.

- Sede a dezasseis. Onde estás tu, Mascarilha? Tens de voltar prà mamã, querido. Depressinha. Topas? Ainda tenho aqui o caroço para ti. Percebes?

Silêncio. Nem sequer estalidos. Nada de nada. Não fazia ideia se ele teria sequer o aparelho consigo. Perguntou a si própria onde andaria e o que estaria a fazer. Tentou imaginá-lo num sítio qualquer, em segurança, mas só conseguia vê-lo sozinho.

Eta apagou as luzes. A caminho da cozinha, vestiu a gabardina. Era bastante tarde. Se Jotacê quisesse ligar já o teria feito. Apesar disso, levava o rádio com ela.

O beco estava escuro como breu e começara de novo a chover. A luz por cima da porta estava apagada, como acontecia sempre que chovia. Da última vez, dissera a Rocco que chamasse um electricista, mas é claro que ele não chamou. Ia esperar até que um circuito provocasse um incêndio e o prédio ardesse por completo.

Eta abanou a cabeça perante a inutilidade de pensar que Rocco pudesse criar juízo. Pescou as chaves de dentro do saco.

E, nesse instante, uma luz incidiu na sua cara, cegando-a.

- Detective Davis, minha senhora - disse uma voz de homem.

”Isto não bate certo”, pensou Eta. Se ele estivesse ali fora, por que razão não teria entrado para falar com ela? Para quê telefonar?

- Preciso mesmo duma morada.

Eta esquivou-se para o lado, com uma estranha sensação a apoderar-se dela. Queria sair dali.

- Que morada? - perguntou, continuando a esgueirar-se para a carrinha.

- Do seu estafeta Damon.

- Não sei quantas vezes vou ter de dizer isto - protestou Eta, dando mais um passo. - Não tenho a morada do rapaz, e também não tenho um número de telefone. Não sei onde ele mora. Nada!

A luz aproximou-se mais e o homem também.

- Vá lá. Ele já trabalha aqui há uns tempos, não trabalha? Como é que não sabe alguma coisa dele? Não pode dizer isso.

- Posso e digo. O que não posso é dizer-lhe coisas que não sei.

A fuga dela terminou junto à traseira da carrinha, com as chaves na mão.

A luz aproximou-se ainda mais. Não tinha para onde ir.

- Quer resolver isto à força? - perguntou o homem.

- Não quero resolver isto, ponto final - disse Eta. Se conseguisse entrar e fechar as portas... Ajeitou a argola das chaves.

- Estou-me nas tintas para o que tu queres, cabra vociferou o homem, atirando-se a ela.

Eta levantou o braço e apertou o botão do minipulverizador que trazia na argola das chaves, calculando onde estavam os olhos do seu atacante e dando um berro ao mesmo tempo.

O homem guinchou e desatou a dizer palavrões. A luz da lanterna ficou apontada para cima e depois para baixo, passando de raspão pela cabeça de Eta e atingindo-a num ombro.

Gritou e deu um pontapé às cegas, acertando-lhe numa perna.

- Puta de merda!

O homem cuspiu as palavras e agarrou-a por uma mão-cheia de tranças, no momento em que Eta tentava fugir, Pensando que podia fazê-la parar e puxá-la para trás. Mas Eta era pesada e isso, pela primeira vez, jogava a seu favor.

Manteve o impulso e continuou em frente. O homem praguejou e saltou-lhe para as costas, para a deitar ao chão, enquanto a lanterna lhe caía das mãos, com o feixe de luz a incidir para cima e para baixo e depois rente ao chão.

Eta sentiu um joelho falhar e caiu, sacudindo o homem. Tentou pôr-se de pé, mas estava em desequilíbrio e bateu na carrinha. Precisava de voltar a tentar.

O homem atirou-se a ela, fazendo-a bater de novo na carrinha. Eta estendeu as mãos e arranhou-lhe a cara, o que o fez gritar. Então, ele deu-lhe um murro e depois encostou o corpo ao dela, entalando-a de encontro ao veículo. Eta sentiu uma lâmina no pescoço.

- Fale! - exigiu ele, em voz baixa, com uma respiração ruidosa e um cheiro acre a cigarros e cerveja.

- Não sei - disse Eta, por sua vez com a voz irreconhecível para si própria, trémula, apavorada. Começou a chorar, pensando nos filhos. Àquela hora, a mãe já os devia ter sentado à mesa para jantar, e Jamal com certeza estava a pedir que o deixasse ficar a pé até mais tarde e Kylie a falar sem parar sobre o que acontecera na escola nesse dia.

- Queres viver, cabra?

- Quero - sussurrou ela.

- Onde é que ele está? Responde e vais para casa para a tua família.

Eta tremia. Ia morrer por guardar um segredo de que nada sabia.

A faca acariciou-lhe o pescoço.

- Dá-me uma resposta e vais para casa para os teus filhos. Se for verdade, não volto à tua procura... ou deles.

Eta não sabia a verdade, de maneira que lhe deu a única resposta possível.

- Já o vi em Chinatown.

- Em Chinatown.

Respirou fundo, para lhe responder mas, quando tentou falar, as palavras não lhe saíram da boca, só uns estranhos sons molhados. O homem recuou, apanhou a lanterna e apontou-a para ela. Eta levou a mão ao pescoço e sentiu a vida a escorrer-lhe por entre os dedos. Ficou com a mão vermelha.

Horrorizada, quis gritar, mas não foi capaz. Queria pedir socorro, mas não conseguia controlar a língua. Precisava de tossir, mas era impossível respirar. Estava a afogar-se no

próprio sangue.

Cambaleou para diante, as pernas dobraram-se-lhe e acabou por cair desamparada no chão molhado e oleoso.

Pensou no marido... e foi ter com ele.

 

Diane Nicholson bebeu um pequeno gole do champanhe de má qualidade e deitou uma olhadela pela elegante sala com ar aborrecido. O Hotel Península de Beverly Hills era o epítome da classe e da riqueza, dois requisitos para assistir a uma angariação de fundos para o procurador distrital de Los Angeles. Mas muito pouco do mundo político impressionava Diane. O brilho esbatera-se muito tempo antes. O marido passara uma dúzia de anos envolvido na vida política da cidade, o segundo grande amor de Joseph. O primeiro era o trabalho, o amor que o tornara um homem rico. Diane figurara algures mais abaixo na lista - a seguir ao golfe e ao barco. Durante os últimos dois anos do casamento, o máximo que se viam era em actos sociais como aquele. E, mesmo nesses, fora apenas um acessório a seu lado, como um par de botões de punho de brilhantes.

No enterro, todos os amigos dele lhe apresentaram condolências, comentando que ela ia sentir-lhe muito a falta. Mas eles viam-no mais do que ela. A ausência de Joseph da sua vida era uma ausência ansiosa em que se perguntava que teria de errado para o homem que era suposto amá-la preferir jogar golfe a estar com ela.

Casara com ela pelo seu potencial como objecto social. Era uma mulher com excelente aspecto, vestia bem, estava bem informada e sabia falar. Mas a carreira dela embaraçava-o, e Diane recusara-se a abandoná-la. Depois, quanto mais tenso se tornara o relacionamento, mais ela se agarrara à sua vida profissional, com medo de deixar a única coisa segura, já que o amor do marido o não era.

Era preferível ter amado e perdido, como se dizia. Que treta! Aprendera a lição da maneira mais dura por duas vezes.

Actualmente, consentia em deixar-se arrastar para aquelas funções porque gostava de ouvir as conversas e porque aparecendo com alguém desencorajava os casamenteiros. Além disso, concordava em aparecer ali com a condição de o seu acompanhante a levar a jantar depois.

O seu acompanhante era Jeff Gauthier, quarenta e seis anos, bonito, advogado e solteirão empedernido. Era amigo dela havia anos e anos. Depois da morte de Joseph, Jeff convencera-a a tornarem-se acompanhantes um do outro para aquelas ocasiões. Jeff achava que era má ideia levar uma mulher com quem andava para aquelas coisas. Não tanto para poupar a namorada do mês como para não prejudicar a sua imagem apresentando-se com namoradas diferentes.

- Vou pedir o prato mais caro da lista - ameaçou ela, inclinando-se para ele e roubando um cogumelo recheado da bandeja dum criado que passava. - E sobremesa.

- Como sempre.

- Até sou capaz de pedir uma sobremesa extra para levar para casa.

- Só temos de ficar aqui o tempo suficiente para me verem com três pessoas importantes.

- Eu conto?

- Tu és notável, não importante.

- Por acaso, até prefiro. - Aquela gente nunca soubera bem como classificá-la. Casada com alguém com tanto êxito como Joseph e, no entanto, a tocar em corpos todos os dias.

Observou a multidão. Os suspeitos do costume. O procurador-geral Steinman e a mulher, o presidente da Câmara e a mulher, o procurador assistente Giradello e o seu ego, as vedetas habituais de Los Angeles que viviam para aquilo, fotógrafos e repórteres de jornais, equipas da televisão local à procura de material para o último telejornal. Podiam ter poupado o trabalho e passar fotografias e filmagens da última recepção em que aquela gente se juntara. Eram todas iguais.

- Vou dar uma nota de vinte a um dos criados para ele começar a fazer girar pratos numa varinha - disse ela.

- Porque é que não trepas para uma mesa e nos cantas qualquer coisa? - sugeriu Jeff, conduzindo-a na direcção dum importante empreiteiro.

Reunião e saudação. Duas máquinas fotográficas dispararam. Diane sorriu e cumprimentou a mulher do empreiteiro pelo alfinete de peito antigo que usava.

- É verdade que vendeu a sua casa de Palisades perguntou a mulher.

- Não queria uma casa tão grande - respondeu Diane.

- Estou a tentar simplificar a minha vida.

A mulher teria ostentado uma expressão de espanto, se não fosse o botox na testa.

- A Barbra Sirha disse-me que lhe parecia que você tinha comprado casa em Brentwood.

- Na zona ocidental de Los Angeles. - Um código postal muito menos impressionante do que Brentwood ou Pacific Palisades, com todas as suas estrelas. Diane percebeu que a mulher estava com vontade de lhe perguntar se perdera o juízo.

Os olhares passavam como navios na noite enquanto as pessoas procuravam mais alguém importante a quem se dirigir a seguir.

E então essa pessoa entrou na sala.

Norman Crowne era de altura média e constituição esguia, com cabelo grisalho e uma barba bem aparada. Nada de especial à primeira vista para um homem com aquele tipo de poder. As pessoas esperavam que ele fosse uma figura imponente, alto, de ombros largos e com uma voz tonitruante. Nada disso se lhe aplicava, o que não o impedia de possuir uma aura de poder que o precedia por entre a multidão.

Atrás dele vinham o filho, Phillip, e um par de guarda-costas que pareciam saídos directamente dos serviços secretos. Os quatro de fatos escuros e boas gravatas. A multidão abriu-se diante deles como se fossem realeza e o Crowne mais velho dirigiu-se directamente para o procurador distrital, estendendo-lhe a mão.

O filho, produto do malfadado segundo casamento de Crowne, voltou-se para Giradello e foi saudado cordialmente. Eram da mesma idade, ambos formados na mesma faculdade, mas Phillip nascera Crowne, com todas as oportunidades e privilégios inerentes. Começara a trabalhar para o pai e ocupava uma confortável posição nas Empresas Crowne. Giradello fora criado numa terrinha perto de Modesto, filho de produtores de fruta, e esmifrara-se para aproveitar todas as oportunidades, subindo a pulso até ao gabinete do procurador distrital.

- Uma grande família feliz - murmurou Diane junto à lapela de Jeff, deslocando-se os dois por entre a multidão, à procura da segunda pessoa importante da noite.

É preciso descaramento. O julgamento do assassino da filha está quase a começar, e o Norman Crowne está praticamente a colocar dinheiro em cima da mesa do procurador distrital diante de todos os órgãos de comunicação social de Los Angeles.

Jeff encolheu os ombros.

- E então? Não existe conflito de interesses. O Giradello não precisa de ser subornado para se atirar a matar neste caso. Ele está com tanta vontade de condenar o Rob Cole que mal consegue disfarçar. O Cole é o O. J. dele, e não vai falhar. Para não falar de utilizar este julgamento para fazer esquecer o caso que o teu amigo Parker lhe lixou.

- O Parker foi o bode expiatório. O Giradello não fez o trabalho de casa, e esse julgamento foi a sua primeira grande lição de ”dinheiro a comprar a justiça”. Este vai ser a segunda - declarou Diane. - Então tu achas que o cidadão médio na América vai olhar para esta imagem amanhã e dizer que o Norman Crowne está a comprar uma condenação? Que vão fazer testes mais caros às provas, que vão chamar mais testemunhas especializadas, que vão fazer um esforço maior para pregar o Rob Cole a uma cruz do que para condenar um bandido que matou cinco ou seis pessoas noutra zona da cidade?

- Bom... francamente, tanto me faz - observou Jeff. - E não vejo como te interessa, já agora. Por tua vontade, espetavam a cabeça do Cole num pau e davam os restos do homem aos cães no canil municipal. Qual é o teu problema com a influência do Crowne?

- Nenhum. Estou-me nas tintas. Só não quero que haja motivo para meterem recurso.

- A justiceira! - exclamou Jeff com um risinho e guiando-a na direcção dum dos maiores apoiantes do procurador distrital, apresentador dum programa de televisão politicamente tão voltado para a direita que até já devia ter caído do planeta. - Cá está a Diane que eu conheço e adoro.

- Não vou ser simpática com aquele fanático - disse ela entre dentes.

- Olha que tu, para uma namorada a fingir, estás a dar-me muito trabalho...

- A qualidade nunca é barata.

Jeff apresentou-a ao homem, mas Diane limitou-se a fazer-lhe um aceno de cabeça com um sorriso amarelo e voltou-lhes as costas para observar o clã Crowne, ao qual se juntara a filha de Tricia, do primeiro casamento.

Caroline Crowne tinha apenas vinte e um anos, era baixa e um tanto gorducha, como a mãe fora, mas a rapariga melhorara a sua aparência muito mais do que a mãe em toda a sua vida. Embalada em conservadoras etiquetas de estilistas e equilibrada num par de Manolos, usava o cabelo dum ruivo-escuro cortada à altura do queixo. O seu aspecto era o duma jovem executiva, e constava que se inseria lentamente no papel da mãe junto da Fundação Crowne para obras de caridade.

Pouco tempo depois do homicídio de Tricia, os tablóides sugeriram a possibilidade de existir qualquer coisa sórdida entre Caroline Crowne e o padrasto, mas os boatos foram esmagados como uma lesma no passeio, e a neta de Norman Crowne deixou de interessar aos meios de comunicação.

Que quantidade de cabeçalhos originaria um caso entre Caroline Crowne e Rob Cole! A pobre Tricia morta para deixar o caminho livre a um romance escaldante entre a própria filha e o nojento sacana do marido. Caroline com dezanove anos quando a mãe morreu, mal tendo atingido a maioridade.

Diane não tinha grande dificuldade em imaginar a situação.

- Só mais um e piramo-nos - prometeu Jeff entre dentes, sorrindo e erguendo o copo para alguém à sua direita.

- Já sinto o gosto do jantar - disse Diane, deixando-se conduzir para junto do procurador distrital.

Pelo canto do olho, viu uma porta abrir-se, a dois metros, dois metros e meio. Bradley Kyle e o colega entraram com ar de miúdos mandados ao gabinete do reitor e dirigiram-se também ao procurador distrital e ao seu adjunto no grupo completado por Norman e Phillip Crowne.

Giradello voltou-se e olhou para os detectives, de testa franzida.

Diane deu um passo na direcção deles, e viu Giradello desculpar-se e encaminhar-se para os detectives. Ouvir as conversas era afinal o verdadeiro motivo para a presença dela em reuniões daquele género.

Jeff interrompeu-a por um instante, apresentando-a ao adjunto do procurador, o que já acontecera pelo menos cinquenta vezes. Diane sorriu, apertou a mão ao homem e desligou, dirigindo o olhar para a direita.

A conversa era tensa, com Giradello de mau humor e Bradley Kyle a abrir as mãos voltadas para fora como quem pergunta: ”Que quer que eu faça?” Só conseguia ouvir uma palavra aqui e outra ali: fez, quê, impossível, saber. Alguém devia ter feito alguma coisa, mas não a fizera.

Kyle e o colega constituíam a segunda equipa a ocupar-se do homicídio de Tricia Crowne. Assim que o julgamento começasse, seriam chamados para rever tudo, desenterrar e aperfeiçoar apontamentos e recordações, para puxar os mais pequenos fios que pudessem soltar-se.

O advogado de Rob Cole, Martin Gorman, devia saber tudo a respeito deles - quem eram dentro e fora do trabalho, se alguma vez haviam feito um comentário depreciativo sobre Rob Cole ou actores em geral, ou sobre idiotas demasiado bonitos que usavam camisas desportivas fosse em que circunstâncias fosse. O mais provável era Gorman ter espiões ali mesmo, a observar todos os movimentos de Giradello, à procura de qualquer coisa que lhe desse uma vantagem, lhe proporcionasse uma abertura ou pelo menos lhe evitasse surpresas.

Um julgamento tão importante como aquele era uma partida de xadrez com camadas e camadas de estratégia. As peças estavam a ser colocadas em posição, e Giradello alinhava o seu exército. Pelos vistos, alguém devia ter feito qualquer coisa, mas não conseguira. Diane perguntou a si Própria que coisa seria essa.

Steinman fez um comentário, Jeff deu uma gargalhada delicada e Diane sorriu e acenou com a cabeça.

Uma palavra, uma praga, um resmungo, um nome que não reconheceu... e outro que sim.

 

Quando Parker voltou para a esquadra, há muito que Renee Ruiz fora para casa. Queria ficar chateado, mas não conseguiu. Era importante ter uma vida para além do trabalho, para uma pessoa manter a lucidez no trabalho. Essa era uma lição que ele aprendera à sua custa, demasiado absorvido com a ideia de se tornar uma estrela na Brigada de Roubos e Homicídios para perceber que o comboio podia descarrilar. Quando isso aconteceu, ficara sem saber o que fazer e mesmo quem era. Investira tudo na carreira.

Seria bom poder ir para casa, tomar um duche, ouvir um disco de jazz, beber um copo de vinho e mandar vir uma sopa e um bife do restaurante habitual. Tinha um relatório para ler e notas para tomar. E dormir também lhe parecia boa ideia.

A cama dele era óptima, e a vista do quarto, com as luzes de Chinatown, muito agradável para quando não queria ou conseguia dormir. Ficava a olhar lá para fora e perdia por completo a noção do tempo perante aquele quadro abstracto das ruas quatro andares abaixo. Achava as cores calmantes, ou talvez fosse a justaposição de vibrantes luzes e sons das ruas e a escuridão silenciosa à sua volta no seu refúgio, no seu casulo.

Mas não ia para casa tão cedo. Havia imensas coisas que precisava de saber, e depressa. O instinto apurava-se cada vez mais em relação àquele caso. As peculiaridades do assalto à casa de Abby Lowell - e da própria Abby Lowell

- deixavam-no com a pulga atrás da orelha.

A rapariga era um poço de contradições. Tão depressa toda simpática como fria, vulnerável, dura, vítima, suspeita, todas essas palavras se lhe aplicavam. Uma ova é que não sabia de que andava o assaltante à procura. Ela também andava.

A morte de Lenny Lowell não fora um acto ocasional.

E que raio podia um estafeta enviado ao acaso saber acerca da misteriosa coisa aparentemente em poder do advogado e pela qual valia a pena matar? O dinheiro desaparecido do cofre - se realmente lá estivera algum, já que só tinham o testemunho de Abby Lowell quanto a isso - não passara dum brinde para o assassino.

Um simples assalto não mandava o gatuno a casa da filha da vítima para lha revistar e ameaçar matá-la. O instinto de Parker dizia-lhe que as palavras rabiscadas no espelho da casa de banho da rapariga continham um ”se não”. À próxima morres... se não encontro o que procuro. O que sugeria que o assaltante achava que Abby Lowell sabia o que era.

E por que motivo teria partido o espelho? Ou melhor, como teria sido partido? Acontecera depois da mensagem ser escrita. Abby Lowell não exibia qualquer marca nem mencionara uma luta na casa de banho ou alguém a sangrar.

Dissera que o tipo afirmava conhecer o pai e já ter feito alguns trabalhos para ele. Que quereria isso dizer? Uma espécie de manual de etiqueta para assassinos? Olá, aqui estão as minhas referências, a minha ligação a si. Portanto, desculpe, mas agora vou matá-la. Que grande treta!

E depois o tipo vai-se embora num Mini Cooper.

Parker recordou que o velho Volkswagen fora o carro preferido dos assassinos em série na década de setenta. Carrinho simpático e nada ameaçador. Como podia alguém que conduzisse um Carocha ser má pessoa? Ted Bundy guiara um Carocha.

Parker introduziu os dados parciais da matrícula relacionada com o assalto a casa de Abby Lowell no computador e ficou à espera do resultado, impaciente. Fez uma chávena de chá e começou a andar dum lado para o outro enquanto ele abria. O estagiário de Kray, Yamoto, estava à secretária, concentrado num relatório. Ruiz estaria provavelmente a dançar a salsa com o velhinho rico que lhe comprava os Manolo Blahniks.

Era do género de casar por dinheiro, e Parker perguntou a si próprio porque não o fizera ainda. Se calhar, achava que tinha mais probabilidades de pescar um peixe graúdo se subisse mais uns degraus na carreira, até crimes mais importantes. Tornar-se famosa e começar a dar-se com tipos da política e de Hollywood e pimba: marido rico.

Num impulso, pegou no telefone e marcou o número dum velho amigo da Brigada de Homicídios doutra esquadra.

- Metheny - disse uma voz rouca e brusca do outro lado.

- Olá, Matusalém, tudo em ordem por aí?

- Kev Parker. Julgava que tinhas morrido.

- Bom, houve alturas em que quase o desejei - admitiu Parker.

- Não deixes os filhos da mãe deitarem-te abaixo rosnou Metheny que nem um buldogue.

- Mandei tatuar isso na pila. Como é que sabes?

- Contou-me a tua irmã! Parker soltou uma gargalhada.

- Meu filho da mãe... - Uns mil anos antes, ele e Metheny haviam sido companheiros, no tempo em que Parker fazia o que podia para chegar à Brigada de Roubos e Homicídios. Mas Metheny sempre fora seu amigo. - Tens alguns contactos entre a malta que trata dos bandos latinos aí para os teus lados?

- Claro. Porquê?

- Tenho uma estagiária que andou por aí e gostava de saber que tal era?

- Estás a tentar chegar-lhe à cabeça ou às cuecas?

- A cabeça já me mete medo suficiente. Chama-se Ruiz, Renee Ruiz.

- Vou ver o que consigo descobrir.

Trocaram mais umas piadas e desligaram. Parker voltou a atenção para os resultados da busca de matrículas.

Dos Mini Coopers registados no estado da Califórnia, na área de Los Angeles, dezassete eram possíveis combinações das letras e algarismos que introduzira. Desses, sete eram verdes e cinco pretos. Nenhum estava em nome de J. C. Damon e nenhum fora dado como roubado.

Os detectives a tratar do assalto a casa de Abby Lowell deviam andar também à procura do carro, embora Parker duvidasse que o fizessem ainda nesse dia. O caso, para eles, era um simples assalto com arrombamento, sem violência real- Não estariam suficientemente excitados para horas extraordinárias - a não ser que quisessem chateá-lo.

Não queria deixá-los ir à caça primeiro. Podiam ser bons no que faziam e descobrir a coisa sem dificuldade. No entanto, estava convencido de que o mais provável seria avançarem para os possuidores de Mini Coopers como uma manada galopante, deixando Damon de sobreaviso. Não podia arriscar-se a perder o seu suspeito por causa da estupidez e das parvoíces territoriais.

Tirou um mapa da cidade da gaveta da secretária e abriu-o em cima da mesa de Ruiz. Depois, pegou num roteiro e começou a localizar as moradas dos donos de Mini Coopers. Marcou-as no mapa. Nenhuma ficava nas imediações da caixa postal alugada a Allison Jennings e actualmente utilizada por J. C. Damon.

Começando a percorrer as moradas a partir da caixa postal, descobriu que um dos proprietários vivia na zona de Miracle Mile, não longe da casa de Abby Lowell. O carro estava registado em nome de Punjhar, Rajhid. Outro numa morada em Westwood, perto da universidade. E outro em nome de Chen, Lu, em Chinatown - a caminho da sua própria casa.

Observou cuidadosamente as doze moradas marcadas a tinta encarnada no mapa. A qual daqueles carros teria Damon acesso? Onde raio vivia ele? Porquê tanto segredo? Não possuía cadastro. Se tivesse com outro nome, quem poderia sabê-lo? Se usasse um nome falso, só seria descoberto se o prendessem ou as suas impressões digitais aparecessem no local dum crime. Tinham as impressões parciais da arma do crime, mas não eram suficientes para descobrir a quem pertenciam.

Talvez o rapaz fosse mesmo um criminoso. Ou andasse escondido de alguém. Fosse qual fosse o motivo de tanto secretismo, Damon andava pelas ruas no Mini Cooper doutra pessoa. E, se não era ele o assassino de Lenny Lowell, Porque teria ido atrás da filha dele? E como saberia ele alguma coisa sobre o que toda a gente queria encontrar tão desesperadamente?
E porque teria a Brigada de Roubos e Homicídios aparecido naquele local?

Parker enterrou a cabeça nas mãos e esfregou a cara o couro cabeludo e os músculos tensos na nuca. Estava à precisar de apanhar ar e de encontrar respostas. Vestiu o casaco e saiu, à procura de ambas as coisas.

A hora de ponta começara duas horas antes e as ruas estavam cheias de carros. As pessoas pareciam com tanta pressa de chegar a algum sítio que não chegavam a lado algum. Saíram alguns retardatários da esquadra, dirigindo-se aos respectivos carros. O turno mudara bastante tempo antes e o dia de trabalho terminara. Daí a pouco anoitecia.

Parker aproximou-se do carro e entrou. Era o seu cavalo de trabalho, um Chrysler Sebríng descapotável com cinco anos. Ia nele para o trabalho e para os locais dos crimes quando estava de serviço. Nas folgas utilizava o Jag antigo verde-garrafa, a sua bela, atraente e secreta paixão. Sorriu, ao pensar nele, mas depois o sorriso desvaneceu-se-lhe lembrando-se de Ruiz a fazer perguntas sobre o carro. Ouvira uns boatos...

Pescou o telemóvel do bolso do casaco, marcou o número de Andi Kelly e perguntou:

- Que tens feito por mim ultimamente, beleza?

- Credo, és mesmo chato! Tenho outras prioridades, sabes? Está na hora do aperitivo, e tenho um encontro com um tipo de dezassete anos.

- Continuas a emborcar uísque, ha?

- E como é que sabes que não se trata mesmo dum jovem?

- Porque és demasiado inteligente para mo contares, se fosse. Com dezassete, ainda é menor, e tu bem o sabes.

- Além de que seria uma coisa nojenta - declarou ela. - Teria idade para ser mãe dele. Isso é muito Denii Moore para meu gosto. Nunca me interessei por garotos, só por homens - terminou ela, a ronronar.

Parker aclarou a garganta.

- Então? Tens alguma coisa para mim?

- A minha memória não é grande coisa antes do jantar - disse ela. - Vai ter comigo ao Morton, na zona ocidental de Hollywood, e és tu que pagas.

 

Jotacê estacionou o carro de Madame Chen no estreito espaço reservado para ela atrás do escritório e limpou o interior com toalhetes húmidos, tentando apagar qualquer sinal da sua presença atrás do volante, incluindo impressões digitais nos estofos. Depois, ficou parado ao lado do carro durante uma data de tempo, sem saber o que fazer a seguir.

Um espesso nevoeiro vindo do oceano cobria todos os recantos da cidade, como um filtro leitoso a esbater as linhas dos edifícios e a coar a luz amarela que brilhava nas janelas. Sentia-se como uma personagem dum sonho, pronto a desaparecer num piscar de olhos, sem que alguém se lembrasse bem dele.

Talvez devesse fazer isso mesmo - desaparecer por completo. Alicia fá-lo-ia: malas prontas sem uma palavra e porta fora a meio da noite, surgindo depois noutra zona da cidade, com novos nomes e sem qualquer explicação.

Muitas vezes perguntara a si próprio qual seria o motivo. Quando era da idade do irmão, inventara toda a espécie de histórias sobre a mãe, sempre com ela como heroína. Protegia os filhos de algum tipo de perigo... À medida que fora crescendo e aprendendo coisas sobre a vida e sobre a rua, interrogava-se sobre a hipótese de Alicia andar a fugir da polícia.

Por que motivo, não conseguia imaginar. A mãe fora sempre uma pessoa calma e bondosa, que o fizera chorar ao apanhá-lo a roubar numa loja dizendo-lhe apenas que estava muito desapontada.

”Talvez ela fosse como eu”, pensou ele nesse instante, ”no sítio errado no momento errado.”

- Porque não vens para a luz, Jotacê?

Madame Chen apareceu, como que por magia, sob a fraca luz por cima da porta do escritório.

- Tenho muito em que pensar - disse Jotacê.

- E são pensamentos pesados que nem pedras.

- Desculpe ter trazido o seu carro tão tarde, Madame Chen.

- Onde foste mandar consertar a bicicleta? À Lua? Jotacê abriu a boca para responder, mas a voz prendeu-se-lhe na garganta como uma bola de massa. Tornou a lembrar-se do dia em que a mãe o apanhara a roubar.

- Preciso de falar consigo sobre uma coisa importante, em particular - disse ele por fim.

Ela assentiu com a cabeça e voltou para dentro. O rapaz seguiu-a, de cabeça baixa. A mulher fez-lhe sinal em direcção a uma cadeira de costas direitas junto da secretária e ficou virada para o outro lado enquanto preparava duas chávenas de chá com água da sempre presente chaleira eléctrica precariamente empoleirada no parapeito da janela por cima da secretária coberta de papéis.

- Não há telefones na Lua, calculo eu - disse ela em tom natural. - Os homens da Lua têm família que se preocupe com eles.

- Estou numa situação difícil, Madame Chen - disse Jotacê.

- Estás metido num sarilho - corrigiu ela, voltando-se para ele, incapaz de esconder a sua reacção. Estava muito pálida, com a pequena boca formando um O de choque.

Ele tentara limpar-se com uns guardanapos de papel e uma garrafa de água que comprara numa máquina junto duma loja mexicana em Los Feliz, mas a água não apagava golpes e nódoas negras nem inchaços. Sabia que parecia alguém saído dum combate de boxe.

Madame Chen disse qualquer coisa em chinês, em voz baixa e assustada. Tinha a mão a tremer quando poisou uma chávena num pequeno espaço livre de papéis. Sentou-se, e Jotacê viu-a recompor-se e tentar encontrar uma estratégia para uma situação completamente alheia à sua experiência.

- Conta-me - pediu ela. - Conta-me tudo.

Jotacê tentou respirar fundo, mas o corpo pediu-lhe que não o fizesse. Dera voltas à cabeça a tentar decidir o que havia de contar e o que devia deixar de fora, o que seria mais seguro para ela e para o irmão.

É possível que lhe contem umas coisas a meu respeito disse ele. - Coisas más. Mas quero que saiba que não são verdade.

Ela levantou uma sobrancelha.

- Pensas tão pouco da minha lealdade que precisas de me dizer isso? Tu és como um filho para mim.

Mesmo que o filho estivesse a viver uma vida secreta sob meia dúzia de nomes falsos, que fosse procurado por assalto e assassínio, que andasse alguém a tentar matá-lo.

Madame Chen não tinha filhos. Se calhar era por isso que se agarrava a ele, pensou Jotacê. Por não possuir termo de comparação.

- O advogado a quem fui fazer um recado ontem à noite foi assassinado depois de eu ter estado no escritório dele. E a polícia anda à minha procura.

- Ora! São doidos! Tu nunca serias capaz de matar um homem! - exclamou ela enfaticamente, ofendida com a ideia. - Tu não o mataste, e eles não podem meter-te na cadeia por uma coisa que não fizeste. Vou chamar o meu advogado e resolve-se tudo.

- Não é assim tão simples, Madame Chen. Eles provavelmente têm as minhas impressões digitais do escritório.

- E fui apanhado na casa asssaltada da filha da vítima, acrescentou mentalmente. Falei com ela. E ela pode identificar-me e dizer que a ataquei...

- Porque há-de a polícia pensar que mataste o homem?

- perguntou ela, mais calma. - Que motivo podias ter para fazer uma coisa tão terrível?

- Não sei. Talvez ele tenha sido roubado ou coisa parecida.

- Uma pessoa inocente nada tem que esconder. Precisas de ir à polícia e contar o que sabes.

Jotacê começou a abanar a cabeça a meio da última frase dela.

- Não. Se tiverem alguma prova, se puderem arranjar facilmente uma acusação contra mim, fazem-no.

- Mas tu não és culpado...

- Mas pareço.

Ela suspirou e estendeu a mão para o telefone.

- Deixa-me chamar o advogado...

- Não! - Jotacê levantou-se dum salto e repôs o auscultador no descanso com mais força do que desejava. Por um segundo, Madame Chen ficou a olhar para ele como se nunca o tivesse visto.

- Não posso ir à polícia - disse ele baixinho, tornando a sentar-se. - Por favor, tente compreender. Não posso arriscar-me.

Começou a esfregar a cara com uma mão, encolhendo-se quando tocou no golpe feito pelo pedaço de espelho do armário de Abby Lowell. Provavelmente precisava de pontos, mas isso não ia acontecer.

- Se for à polícia, está tudo acabado - disse ele.

- A tua vida não acaba...

- Vou para a cadeia. E, mesmo que me safe, vou para a cadeia primeiro. São precisos meses até os casos irem a tribunal. E que acontece ao Tyler? Se os Serviços Sociais o descobrem, levam-no e entregam-no a alguma família...

- Eu nunca permitiria uma coisa dessas! - exclamou Madame Chen, zangada por ele considerar a possibilidade.

- O lugar do Tyler é connosco. A casa dele é aqui.

- Mas eles não iam ser da mesma opinião. Levam-no e nunca mais mo devolvem.

- Não há necessidade duma família de acolhimento.

- Isso não lhes interessa - declarou Jotacê amargamente, com os avisos da mãe gravados na mente, junto das histórias que ouvira nas ruas e lera nos jornais. - Só querem saber de regras e regulamentos e de leis feitas por pessoas que nunca têm de lidar com elas. Olham para a gente e vêem alguém que não está dentro do sistema, que não preencheu os documentos deles. Olham para a gente e dizem que uma mulher chinesa não tem nada a ver com um garoto branco órfão que não está nos registos deles.

- Estás a exagerar...

- Não, não estou - respondeu Jotacê, zangado. - Entregam-no a pessoas que recebem miúdos só por causa do cheque, e nem sequer nos dizem onde ele está. Até podem perdê-lo... Acontece, sabe? Meu Deus, se calhar, até a senhora pode estar metida num sarilho por tê-lo aqui. Pode ser multada ou acusada de alguma coisa. E depois?

- Deixa-me falar com o advogado.

Jotacê tornou a abanar a cabeça com força, com mais medo de perder o irmão para o sistema do que estivera de ser morto na casa de banho de Abby Lowell.

- Não posso arriscar-me - repetiu ele. - Não quero. Quero é que ele esteja seguro. Prefiro deixá-lo aqui consigo, onde ficar melhor, mas levo-o comigo se for preciso. Levo-o e desaparecemos. Agora, esta noite.

- Estás a dizer disparates! - exclamou Madame Chen.

- Não podes levá-lo! E não podem ir-se embora!

- Mas também não podemos ficar! - ripostou Jotacê, com a voz a tremer. Tentou recompor-se, baixar a voz e falar num tom racional. - Não posso ficar aqui, e não posso voltar enquanto isto não acabar. Não quero colocá-la em perigo, Madame Chen, nem ao seu sogro. E muito menos o Tyler, mas não posso deixá-lo com a preocupação de não o encontrar quando voltar.

Ficaram os dois calados durante um momento. Jotacê não conseguia olhar para aquela mulher que tinha sido bondosa ao ponto de recolher os irmãos Damon, dando-lhe um lar e tratando Tyler como família. Tratando-o a ele como família. Preferia não lhe ter contado. Devia ter seguido o seu instinto, agarrando no irmão no meio da noite e desaparecendo.

Deus, que trapalhada... Estava tramado duma maneira ou doutra.

Se fosse à polícia e o prendessem, a notícia viria nos jornais. Os repórteres quereriam saber mais. E, se descobrissem Tyler e os Chen, o assassino podia encontrar Tyler e os Chen.

Mesmo que se livrasse da prova ou a devolvesse de qualquer maneira, ou até se a entregasse a Abby Lowell, teria visto os negativos. Embora nada significassem para ele, tê-los-ia visto, e o assassino não ia querer deixar uma ponta solta que podia vir a enforcá-lo. Não ia deixar testemunhas.

- Lamento muito estar a metê-la nisto - disse ele baixinho, sofrendo mas não devido às pancadas recebidas. Quem me dera não ter de lhe contar, mas não vejo outra maneira. Se alguém vier à minha procura... a polícia... a senhora merece saber o motivo. Devo-lhe isso, pelo menos Aliás, devo-lhe muito mais...

Uma pancada brusca avisou-os um segundo antes de Chi abrir a porta do escritório e meter a cabeça lá dentro com um olhar duro para Jotacê.

- Que foi que te aconteceu? - perguntou ele bruscamente.

Jotacê baixou as pálpebras, pensando se Chi teria estado muito tempo encostado à porta.

- Caí - disse ele.

- Não deste cabo do carro da minha tia? Desapareceu durante tanto tempo que pensei que o tinham roubado. Já estava para chamar a polícia.

Jotacê não respondeu. Não gostava de Chi nem confiava nele. Aquelas demonstrações de amizade pela tia, de preocupação com as coisas dela, não passavam de aparência. Chi faria sempre o que melhor conviesse a Chi, e julgava-se em primeiro lugar para herdar o negócio.

Olhou para Madame Chen e disse qualquer coisa em chinês.

A cara da senhora parecia de ferro e as costas dela ficaram muito direitas.

- Se tens alguma coisa a dizer, fala inglês. Tem mais respeito. Não sejas malcriado diante de mim.

Os olhos de Chi pareciam escuras e frias pedras quando olhou para Jotacê, sem pedir desculpa.

- Só queria saber se vou ter ajuda de manhã ou se fico outra vez em apuros porque algumas pessoas não são de confiança.

- Se queres falar comigo, talvez seja melhor irmos lá para fora, Chi - propôs Jotacê, levantando-se.

- Não me parece que estejas capaz - respondeu Chi, erguendo um canto da boca, trocista.

- Só o Chi é que vai sair daqui - declarou Madame Chen com firmeza, olhando fixamente para o sobrinho. - Se ainda não foste para casa por um motivo tão insignificante, é porque dás pouco valor ao teu tempo.

Chi continuava a olhar para Jotacê.

- Não, tia. Até empreguei muito bem o meu tempo.

Jotacê ficou calado enquanto ele saía. Nunca abriria a boca contra ele diante de Madame Chen, mas o comentário final de Chi deixou-o com uma terrível sensação no estômago.

- Não deve ser fácil localizarem-me aqui - disse ele baixinho. A não ser que Chi desse à língua ou alguém tivesse tomado nota da matrícula do Mini Cooper ao afastar-se de casa de Abby Lowell. - Nunca dei esta morada, mas é melhor a senhora estar preparada para o caso de a polícia aparecer.

- O que vais fazer? - perguntou Madame Chen. Se pensam que mataste o advogado e te comportas como culpado, como é que vão procurar outra pessoa? Vão andar só atrás de ti e o verdadeiro culpado fica à solta.

Jotacê enterrou a cabeça nas mãos e olhou para as botas. A cabeça parecia estalar e o tornozelo não parava de latejar. Sentia o inchaço a aumentar dentro da bota. No estômago, a náusea misturava-se com a fome.

- É isso que tu queres? - insistiu a senhora. - Que essa pessoa malvada fique livre para fazer mais mal?

Apetecia-lhe dizer que tanto lhe fazia desde que o deixasse de fora e que o irmão não corresse perigo, mas sabia que não era isso que Madame Chen queria ouvir. E sabia que as coisas não podiam ser assim, por muito que o quisesse.

- Não, não é isso que quero. Mas preciso de pensar antes de... Eu hei-de ver... Hei-de ver, mas preciso de tempo.

- Se a polícia aparecer, não lhes conto coisa alguma prometeu Madame Chen baixinho, em tom triste.

Jotacê ergueu os olhos para ela.

- Não concordo com o que estás a fazer, Jotacê - continuou ela. - Mas a minha lealdade é para contigo, como a tua seria para comigo. E eu sei que não cometeste o crime.

Era uma das poucas pessoas verdadeiramente boas que Jotacê alguma vez conhecera, e estava a colocá-la na impossível posição de ter de mentir por ele. Provavelmente até em perigo. E tudo por ter atendido um último pedido na noite mais estuporada do ano. Um favor a Eta. Uns cobres para ajudar a manter-se e ao irmão.

Parecia-lhe ouvir ainda Lenny Lowell a dizer: É melhor ter sorte do que ser bom, miúdo.

 

Tyler conhecia cada centímetro do prédio, desde o buraco secreto no tecto da casa de banho do andar deles, onde Jotacê escondia coisas, até à plataforma das descargas lá em baixo, aos armazéns, aos armários, ao espaço sob o aparador ao fundo da sala de descanso dos empregados, onde Jotacê às vezes se escondia para escutar as conversas de Chi e dos outros.

Era pequeno para a idade, o que o ajudava nos esforços para passar despercebido. Ajudaria ainda mais se tivesse cabelo preto e não se destacasse como um pato amarelo entre os chineses. Uma vez, quando tinha oito anos, comprara uma embalagem de Clairol em promoção na drogaria e pintara o cabelo.

A operação foi muito mais complicada e suja do que esperava e, no fim, ficou com a cabeça preta, as orelhas pretas, o pescoço preto e as mãos pretas - porque as luvas de plástico incluídas na embalagem eram demasiado grandes para ele e estavam sempre a cair. Ficou com tinta preta na testa, numa bochecha e na ponta do nariz.

Jotacê comentara que, para um miúdo esperto como era, fazia coisas bastante estúpidas, e Tyler fora obrigado a passar algumas horas a esfregar a casa de banho com detergente. E depois também ele levara uma boa esfregadela.

Aquilo só desapareceu ao fim de semanas. Os colegas da escola eram quase todos chineses e não pararam de fazer troça até que o cabelo cresceu o suficiente para poder cortar-se a parte tingida. E lá voltou ele a parecer o pato amarelo.

Depois disso, quando queria passar despercebido, vestia uma camisola preta desbotada com capuz. Fora do irmão sabia-se lá de quando e a quem pertencera antes. Estava macia de tanto ser lavada e a cor, na opinião de Tyler, devia ser a dum fantasma, como nevoeiro sobre a escuridão. As mangas, muito compridas, davam para esconder as mãos até à ponta dos dedos, e o capuz engolia-lhe praticamente a cara.

Passar despercebido era uma habilidade aperfeiçoada por Tyler desde tenra idade. O irmão sempre quisera protegê-lo de tudo, como se ele fosse um bebé ou coisa parecida. Mas Tyler queria sempre saber tudo o que se passava à sua volta. Saber era poder. Saber diminuía as hipóteses de surpresas desagradáveis. Homem prevenido valia por dois. Tyler acreditava nessas coisas todas. Era um garotinho, demasiado pequeno para controlar o seu mundo pela força física, mas possuía um Q. I. de 168. Fizera toda a espécie de testes na Internet, testes verdadeiros, não do género estúpido e inventado, O cérebro era a sua arma e quanto mais conseguisse aprender - através de livros, observação e experiências - mais forte se tornaria. Talvez nunca chegasse a ser capaz de enfrentar alguém como Chi, mas seria sempre superior a ele em esperteza.

Manteve-se escondido no capuz enquanto entreabria a porta do armário das vassouras no corredor a seguir ao escritório de Madame Chen e descobriu Chi com a orelha encostada à porta, a escutar o que se passava lá dentro. Nunca gostara dele. Parecia sempre tenso e maldisposto. O avô Chen dizia que ele engolira sementes de inveja quando era pequeno e que as raízes estavam enroladas por dentro dele e nada conseguiria arrancá-las de lá.

O irmão chegara a casa tarde. Outra vez. Estivera à espreita dele na janelinha da casa de banho e vira-o chegar no carro, depois parado que nem uma estátua ao lado do carro, como se estivesse a decidir o que havia de fazer a seguir. Assim que o vira dirigir-se para o escritório de Madame Chen, agarrara na sua capa secreta de invisibilidade e apressara-se a descer a escada só com meias, como um rato, para se enfiar no armário das vassouras.

Sabia que havia algum problema e que era pior do que uma queda da bicicleta. Percebera-o assim que o irmão abrira a boca na noite anterior. Sentira-o tenso e nunca o olhara directamente nos olhos ao dizer que tinha tido um acidente e mais nada.

Tyler possuía uma sensibilidade especial para coisas dessas. Como passava muito tempo a observar as pessoas, a ouvi-las e a estudá-las sem que elas dessem por isso, desenvolvera um estranho sentido que lhe permitia saber quem falava verdade ou não. No caso do irmão, na véspera, percebera que mentia, mas o medo não o deixou insistir.

O avô Chen dizia que as mentiras podiam ser mais perigosas do que as víboras, e Tyler acreditava nele.

Mas, naquele momento, encolhido no armário das vassouras que partilhava parte duma parede com o escritório de Madame Chen, pensou se a verdade não seria igualmente perigosa.

A polícia pensava que Jotacê assassinara um tipo! Os olhos de Tyler encheram-se de lágrimas e as ideias atropelaram-se-lhe na cabeça ao ouvir as coisas que o irmão dizia sobre ir para a cadeia e os Serviços Sociais irem buscá-lo para o entregar a uma família de acolhimento.

Não queria deixar a sua casa nem a escola onde Madame Chen o matriculara, um pequeno colégio particular onde ninguém parecia achar estranha a aparição duma senhora chinesa nas suas reuniões de pais e professores. Começou a sentir dores de estômago perante a ideia de ser obrigado a deixar Madame Chen e o avô Chen, obrigado a ir viver com desconhecidos.

Os desconhecidos não saberiam como ele era, do que ele gostava de comer ou de fazer. Os desconhecidos não saberiam que, apesar do seu Q. I. de 168, ainda era uma criança que por vezes tinha medo de coisas estúpidas como o escuro ou um pesadelo. Como é que desconhecidos podiam compreender essas coisas?

Talvez fossem boas pessoas, com boas intenções Madame Chen e o avô haviam sido desconhecidos em tempos, recordou ele - mas também podiam não ser. De qualquer maneira, bons ou maus, não seriam família.

Tyler mal se lembrava da mãe. Quando pensava nela, imaginava o som da sua voz, o toque das suas mãos, o cheiro da sua pele. No entanto, por mais específicas que fossem essas recordações, não estava certo de não as ter fabricado inconscientemente. Sabia que isso podia acontecer, que o cérebro por vezes preenchia as lacunas entre os acontecimentos reais com coisas que podiam ter sucedido ou a pessoa desejava que tivessem acontecido.

Tyler desejava uma data de coisas: que a mãe não tivesse morrido, que pudessem viver todos numa casa - uma casa como as das famílias da televisão - ele, o irmão e a mãe. E desejava que tivessem um pai. Mas não tinham.

E, naquele instante, desejou do fundo do coração que o irmão não estivesse com problemas, a correr o risco de se ir embora para nunca mais voltar.

Tyler enroscou-se numa pequena bola, com os braços à volta das pernas e a cara encostada aos joelhos, e fechou os olhos com toda a força, lutando contra as lágrimas escaldantes.

Não lhe adiantava chorar, por muita vontade que tivesse. Precisava de pensar e de arranjar o máximo de informação para depois estudar a situação e ver o que havia de fazer e como ajudar o irmão. Era para isso que servia um Q. I. de 168.

Mas, mesmo sabendo isso, continuava a ser apenas um garoto e nunca tivera tanto medo em toda a sua vida.

 

Para uma mulher do tamanho dum duende, o apetite de Andi Kelly parecia desafiar as leis da natureza. Comia como um lobo, como quem seria capaz de morder a mão dum criado desprevenido que tentasse levar-lhe o prato antes de ela ter acabado toda a comida.

Parker olhava para ela, assombrado. Los Angeles era uma cidade onde comer comida verdadeira era quase impensável no caso das mulheres. Metade das que ele conhecia chegaria ao Morton e pediria uma salada de endívias e meia dúzia de camarões, para depois ir vomitar tudo logo a seguir.

Mas a verdade era que Kelly não obedecia a um tipo qualquer. Na limitada experiência de Parker com ela, parecia ser quem era vinte e quatro horas por dia e sete dias por semana. Sem desculpas, subterfúgios ou joguinhos. Dizia o que queria dizer, fazia o que queria fazer, usava o que queria usar. Era uma lufada de ar fresco perfumado de canela - notara-lhe o perfume quando o cumprimentara com um beijo. Saudara-o como se ele fosse um bom e velho amigo e se tivessem visto dois dias antes, sentara-se e começara a falar.

Parker estava a ficar demasiado contraído para comer muito. A tensão nervosa que sentia dentro de si durante uma investigação daquele género - um caso que lhe despertara o interesse, o intrigava e o desafiava - provocava-lhe uma agitação tal que não queria parar de se mexer, nem para comer nem para dormir. Ainda não chegara a esse ponto, mas já estava a reconhecer os sintomas, como os subtis avisos dum terramoto.

De maneira que o tal rapaz, o Caldrovics, diz que ouviu qualquer coisa sobre o teu caso - proferiu Kelly entre garfadas dum bife de primeira qualidade.

- Ouviu a quem? - perguntou ele, fazendo rodar o copo de vinho.

Ela rolou os olhos e continuou:

- Estás a brincar, não? Estes diabinhos já nascem prontos a cortar-te o pescoço para te beber o sangue e depois passar por cima do teu cadáver a caminho do estrelato.

Ele não me diz.

- Obriga-o à pancada - sugeriu Parker, muito sério.

- Que pensas tu que eu sou? Um chui?

- Então dizes tu que estás velha e com um pé para a cova?

Kelly rosnou-lhe e cortou outro pedaço do suculento bife.

- Sou demasiado má para morrer. Bem sei que pareço amorosa e que toda a gente comenta que sou simpática e delicada, mas tenho um lado negro - informou ela, apontando para ele com a faca. - É claro que viro o estafermo do avesso e palito os dentes com os ossos dele, se ganhar alguma coisa com isso. - Fez uma pausa, com um olhar significativo para Parker. - É bom que ganhe!

- Não és a única à procura de alguma coisa neste caso

- confessou calmamente Parker, deitando uma olhadela casual em volta.

Escondido na zona chique de Hollywood, o Restaurante Morton queria fazer reviver os dias do velho encanto hollywoodesco e constituía o local ideal para negócios e encontros de gente poderosa. Sobretudo para a malta da pesada, a geração que nunca deixara de comer carne vermelha. Tinham todos mesa reservada para diante da segunda palmeira, donde podiam ver e ser vistos.

Olhando em volta, Parker perguntou a si próprio se alguém que ouvisse a conversa dele com Kelly não pensaria que se tratava do enredo dum filme.

- A filha do Lowell está a esconder-me qualquer coisa

- disse ele. - Hoje assaltaram-lhe a casa, deixaram tudo de pernas para o ar e ameaçaram matá-la. Quer dizer, diz ela que foi um assalto.

- Diz ela? - perguntou Kelly, com uma sobrancelha erguida.

- Atacaram-na. Mas não me pareceu muito magoada.

- Não sabes que é politicamente incorrecto duvidar da vítima?

- A minha vítima é o Lenny Lowell, que está morto e estendido numa pedra na morgue. Tanto quanto sei, até pode ter sido a filha a mandá-lo apagar. Ela anda à procura de qualquer coisa para além do testamento do pai e mentiu-me a esse respeito. Seja quem for que lhe revistou a casa, andava à procura duma coisa concreta, mas ela diz que não sabe o que é. Se esteve no local do homicídio antes de mim, preciso de saber. Por isso é que quero uma explicação do teu amiguinho do Daily Planet.

Kelly recostou-se e admirou a poça de sangue e gordura no prato. Limpou a boca com o guardanapo e respirou fundo.

- Pois olha, Kev, o rapaz diz que apanhou a chamada no rádio...

- Treta. Ele não esteve lá. Se apanhou a chamada, porque não apareceu? Não falou comigo. E ninguém me falou num repórter.

- Bom, ele diz que falou com alguém que sabia o que se passava e que depois confirmou com outra pessoa do gabinete do procurador.

- Quem da polícia? E quem do gabinete do procurador? - exigiu Parker, como se Kelly tivesse dado instruções por escrito ao tal rapaz.

- Então, não queiras matar o mensageiro - protestou ela, deitando a mão ao copo para beber o resto do uísque.

- Pediste-me que descobrisse o que pudesse e eu estou a dizer-te o que descobri. Falei mesmo com o patrão.

Parker suspirou, franziu o sobrolho e pensou no que acabava de ouvir.

- E ele acha bem o rapaz não revelar a origem das notícias sobre uma história tão complicada?

- Um jornalista? Estamos todos bem embrulhados na capa da Primeira Emenda, ou já te esqueceste da tua dose de ”não revelação das fontes”? Ninguém foi obrigado a dizer-te onde arranjou a lama para te enxovalhar.

- É obstrução - protestou Parker. - Isto é uma investigação criminal e se o idiota tem alguma informação, se falou com alguém...

- Talvez possas tu pregar-lhe um cagaço - sugeriu Kelly. Tens mais força do que eu. Comigo, pensa que estou a tentar lixá-lo, a roubar-lhe a história. Mas tu podes, ora, eu sei lá, bater-lhe com a pistola ou coisa parecida. Ameaçá-lo de que o prendes por uma infracção de trânsito e lhe perdes a ficha até ele conhecer intimamente os companheiros de cela.

- E estou eu a pagar-te um bife no Morton para tu me contares tudo o que tens para me dizer em nome dele declarou Parker.

- Foi isso que me pediste. Pensa na coisa como boa vontade que te trará lucros no futuro - sugeriu Kelly com um doce sorriso. Os olhos dela eram dum espantoso tom de azul, e o cabelo da cor dum setter irlandês, com aspecto de ter sido cortado por ela com uma tesoura com lâminas em ziguezague. Estava curto e espetado para todos os lados, mas ficava-lhe bem.

Parker abanou a cabeça, sorrindo.

- És uma encomenda, Andi.

- Do paraíso - murmurou ela em tom dramático, agitando as sobrancelhas para baixo e para cima.

- Como é que a história chegou ao jornal? - perguntou ele.

- Foi um dia chato. Precisavam de encher a página. O Caldrovics arranjou-lhes cinco centímetros de tinta.

Parker sentiu o bíper vibrar no cinto. Tirou-o e olhou para o número. Era o do telemóvel de Diane.

- Desculpa - pediu ele, levantando-se. - Tenho de ligar para uma pessoa muito mais importante do que tu.

Kelly revirou os olhos.

- Estás é a tentar cravar-me com a conta!

Parker não fez caso e saiu do restaurante para telefonar.

Um frio nevoeiro prateado salpicado de sal parecia cobrir a cidade. Parker sentiu-se envolvido nele assim que chegou à rua e desejou ter levado a gabardina.

Diane atendeu antes de terminar o primeiro toque.

- Interrompi-te um encontro escaldante? - perguntou ela.

- Não exactamente.

- Onde é que estás?

- No Morton. E tu?

- No Península. Angariação de fundos para o procurador distrital. Acabo de ouvir o teu nome numa conversa

- Sim? E depois, voltaram todos a cabeça para o lado e cuspiram para o chão?

- Foi o Giradello - continuou ela. - E o Bradlev Kyle.

Parker ficou calado. Tudo pareceu congelado à sua volta durante uns segundos, enquanto tentava processar o significado da informação.

- Kev? Estás aí?

- Estou, estou aqui. Qual era o assunto?

- Só apanhei umas palavras. Fiquei com a impressão de que o Kyle devia ter feito qualquer coisa que não fez.

- E o meu nome estava no meio disso?

- Primeiro, ouvi um nome que não reconheci. O teu surgiu mais tarde.

- O primeiro nome... lembras-te de qual era?

- Não sei. Não tinha qualquer significado para mim.

- Tenta - pediu Parker, sustendo a respiração e ficando à espera.

Diane cantarolou entre dentes, procurando na memória.

- Acho que começava por D. Desmond? Devon, talvez? Parker sentiu-se percorrido por uma torrente de calor

súbito. ”Damon.”

 

Parker voltou para dentro do restaurante, fazendo sinal a um criado de que queria a conta e dirigindo-se para a mesa.

- Vamos embora - disse ele a Kelly. Tirou o cartão de crédito e entregou-o ao criado, pegou na gabardina e começou a vesti-la.

Kelly olhou para ele.

- Sem sobremesa? Que belo convite!

- Desculpa - disse Parker. - Sabes, eu também não sou do género de quem a tua mãe havia de gostar.

Kelly revirou os olhos e levantou-se.

- Gostava, pois. Para ela. Mas qual é a pressa, afinal? Parker observou rapidamente as mesas. O criado voltou

com o cartão de crédito e ele acrescentou uma generosa gorjeta e rabiscou a assinatura no papel. Não abriu a boca até chegarem à rua.

- Tenho um advogado manhoso morto, um tipo com quem só os entes mais chegados deviam importar-se - explicou ele ao entrarem no parque de estacionamento. Porque achas tu que a Brigada de Roubos e Homicídios e o Tony Giradello estão interessados nele?

Kelly respirou fundo, como se tivesse uma resposta, mas não saiu uma palavra. Parker teve a sensação de ouvir as engrenagens dentro da cabeça dela a moverem-se como no interior dum relógio suíço.

- Não deviam - disse ela por fim. - E tu estás a dizer-me que estão?

- Apareceram dois tipos da brigada ontem à noite no local do crime: o Kyle e o parceiro. A armarem-se em importantes.

- Mas não ficaram com o caso? Parker abanou a cabeça.

- Não. Estraguei-lhes a jogada e recuaram, o que não percebo. Que diabo foram lá fazer, se não era para me roubarem o caso? E estavam lá, fresquinhos que nem duas alfaces, não à bruta, como é habitual neles.

O costume era o local dum homicídio ficar vedado, com os detectives da esquadra da zona a iniciar a investigação. Depois, se o caso fosse suficientemente importante ou difícil e a Brigada de Roubos e Homicídios decidisse ocupar-se dele, apareciam e açambarcavam tudo com conferência de imprensa e muito barulho.

- Não houve fanfarra - continuou Parker. - Nem trompetas, avisos ou imprensa, sem ser esse palhaço do Caldrovics...

- Que não diz quem foram os informadores numa história de nada sobre um advogado de merda.

- E agora dizem-me que os mesmos gajos da Brigada de Roubos e Homicídios foram prestar contas ao Giradello no meio duma angariação de fundos esta noite.

Kelly encolheu os ombros.

- Isso podia ser por outro motivo qualquer. Estão a preparar-se para o julgamento do Cole. Lá porque estás paranóico...

- Então, porque foi que mencionaram o meu nome no meio da conversa?

Kelly olhou para ele como quem acha que perdeu qualquer coisa no meio da conversa.

- Tu não estiveste na investigação do homicídio da Tricia Cole.

- Pois não. Nem qualquer outro tipo médio como eu. O corpo foi encontrado pela filha, que chamou o Nornian Crowne. E o manda-chuva do Crowne ligou directamente para o chefe. Por sua vez, o chefe mandou para lá a Brigada de Roubos e Homicídios.

- Eu sei - disse Kelly. - Eu estava lá. A história era minha, é minha. Então, por que diabo estava o Giradello a falar de ti com os chuis da brigada?

- O único denominador comum entre eu e o Bradley Kyle é o Lenny Lowell - esclareceu Parker, omitindo cuidadosamente o facto de o nome do seu principal suspeito ter surgido também na conversa.

Uma coisa era agitar uma cenoura diante de Kelly, mas dar-lhe toda a loja era outra bem diferente. Parker não estava disposto a comprometer o caso. Como polícia, havia muito que nutria um saudável ódio pelos repórteres. Mas gostava de Kelly, estava em dívida para com ela e não se importava de a instigar contra Bradley Kyle ou Tony Giradello. A seu ver, era um acordo mutuamente vantajoso.

- Mas porque estará o Giradello interessado no teu cadáver?

- Essa é a pergunta que vale sessenta e quatro mil dólares, Andi - respondeu Parker, tirando o talão de estacionamento do carro do bolso e voltando-se para o empregado.

- Porque não a fazes a alguém que tenha a resposta?

Kelly entregou também o seu talão.

- Eu depois conto-te - prometeu.

- Simbiose, minha amiga - disse Parker. - Entretanto, vamos perguntar ao teu querido Jimmy Olsen se o Bradley Kyle é um amigo secreto dele.

Kelly arregalou os olhos.

- Vamos?

- Bom, eu não conheço o tipo, e tu conheces.

- Mas não é meu filho, por amor de Deus. Como é que eu sei onde ele está?

- És repórter de investigação. Onde é que investigavas se andasses à procura de jovens repórteres idiotas?

Um grande suspiro. O Chrysler de Parker aproximou-se.

- Talvez consiga o número dum bíper.

- E talvez consigas melhor do que isso - disse Parker, enquanto o carro dela parava atrás do seu. - Onde é que os macaquinhos se juntam actualmente para beber e bater no peito?

Dirigiram-se cada um para o respectivo carro.

- Se o matares, quero o exclusivo! - disse Kelly.

O único grupo de pessoas que Parker conhecia capaz de beber tanto como os chuis era o dos escritores, toda a espécie de escritores. De argumentos cinematográficos, romancistas, repórteres. O bebedouro mais próximo era onde os animais se reuniam para comungar e lamentar-se. Por mais solitários que fossem por natureza, tinham em comum as tensões e paranóias próprias do seu trabalho. E, fosse qual fosse a profissão, o sofrimento aprecia consistentemente companhia.

O bar onde Kelly o conduziu situava-se na baixa, provavelmente pouco diferente do que fora nos anos 30. Mas nessa época o ar devia ser branco de fumo e a clientela maioritariamente masculina. No novo milénio, era proibido fumar praticamente em toda a parte em Los Angeles, e as mulheres entravam onde lhes apetecia.

Kelly dirigiu-se para dois bancos num dos extremos do balcão, que lhes permitia ficarem afastados da multidão mas com vista para toda a sala e para a porta.

- No tempo em que o teu chapéu estava na moda, isto encontrava-se cheio de jornalistas de charuto na boca disse ela. - Agora que é moda outra vez ouvir o Frank Sinatra e beber cocktails, está a deitar por fora com jovens profissionais à procura de parceiros sexuais.

- Pois é, este mundo está mesmo decadente - comentou Parker. Mandou vir água tónica com limão, mas Kelly pediu o melhor uísque que tivessem e levantou uma sobrancelha, perguntando:

- Continuas a pagar, não é? Conto isto como parte do teu convite.

- Eu não te convidei.

- Queres qualquer coisa de mim e pagaste-me o jantar na esperança de o conseguires - lembrou ela. - Foi um convite.

- Mas não inclui sexo.

- Credo, rejeitas-me logo de caras! - exclamou ela, fingindo-se indignada. - És um bruto. Pelo menos, a maior parte dos tipos com quem saio é demasiado cobarde para o fazer desta maneira. O que não é mau.

- Estás na mesma, Ândi - disse Parker com uma gargalhada. - Sabes, já quase não me lembrava. Durante todo aquele sarilho com o homicídio da estudante, foste a única pessoa que conseguiu fazer-me rir.

- Não sei bem como hei-de interpretar isso...

- Como um cumprimento. - Voltou-se para ela, sério, e continuou: - Foste muito decente comigo, e acho que nunca to agradeci.

Ela corou ligeiramente, desviou o olhar e deu um golinho no uísque, apanhando uma gota dos lábios com a ponta da língua.

- O meu trabalho é dizer a verdade - afirmou ela. Não devia ser preciso levar palmadinhas nas costas por fazer o que está certo.

- Pois sim, mas... Tu deste a cara numa altura em que isso não era popular, e eu fiquei-te grato.

Kelly encolheu os ombros, mas Parker sabia que ela fora alvo de censuras na altura dos acontecimentos.

- Não estou a ver o Caldrovics - disse ela. - Mas aquele grupo na quarta mesa é do género dele. Obnóxios, jovem e esfomeados - comentou ela, enojada. - Tenho calças de ganga tão velhas como eles.

- Mas tu não és velha - troçou Parker. - Se tu és, eu também sou, coisa que me recuso a aceitar.

- Para ti é fácil. Um tipo atraente é um tipo atraente até ficar incontinente e ter de usar uma corneta na orelha para ouvir. Olha para o Sean Connery. Tem mais pêlos a sair das orelhas do que na cabeça, e as mulheres continuam a ter fantasias com ele. Mas uma rapariga chega aos quarenta e picos nesta cidade e é afastada da manada.

- Estás à espera de cumprimentos, Kelly?

- Não, estou a deitar-te a rede - declarou ela com cara de poucos amigos. - És burro, ou quê? Treinar estagiários teve o mesmo efeito em ti do que uma lobotomia frontal?

- Tu estás um espanto - afirmou Parker. - Não envelheceste um dia. Tens a pele luminosa e um cu fantástico com essas calças. Que tal?

Ela fingiu fazer beicinho.

- Tocaste nas teclas certas, mas podias ter melhor nota em sinceridade.

- Tenho falta de prática.

- Custa-me a crer.

- Já te disse que agora sou um tipo caseiro - insistiu ele. - Então, conta-me lá acerca do Goran.

- Não há grande coisa para contar.

- Casaste com o tipo.

- Pareceu boa ideia na altura - disse ela, baixando os olhos para o copo, à espera que Parker deixasse cair o assunto, mas ele ficou à espera, e ela acabou por dizer, piscando primeiro os olhos: - Pensei que era o amor da minha vida, mas afinal não fui a única a pensar isso. Encolheu os ombros e fez uma careta, que não chegou bem aos olhos. - C’est la vie. E quem é que precisa disso, não é? Não vejo aliança no teu dedo.

- Pois não. Ainda estou a apreciar a alegria de ser eu próprio.

- Lá está ele - exclamou Kelly, com um aceno de cabeça para o fundo da sala. - O Caldrovics. Devia estar no lavabo. Cabelo oleoso, barbicha mal aparada, com aspecto de sem-abrigo.

- Já vi - respondeu Parker, descendo do banco.

- E, por amor de Deus, faz o que quiseres, mas não menciones o meu nome! - pediu ela.

Parker colocou umas notas no balcão para pagar a conta e depois atravessou a sala por entre os yuppies com cio, e passou por dois velhos buldogues a discutir a política do Presidente quanto ao Médio Oriente. Nenhum dos compinchas de Caldrovics deu pela sua chegada à mesa, demasiado preocupados com eles próprios e com uma história que Caldrovics estava a contar, de pé junto da mesa e de costas para Parker.

O detective colocou-lhe a mão no ombro.

- Mister Caldrovics?

A expressão do homem foi de desagradável surpresa misturada com desconfiança. Teria uns vinte e quatro, vinte e cinco anos, ainda com acne. Dir-se-ia que a situação lhe recordava episódios de ser enviado ao gabinete do reitor.

- Gostava de lhe dar uma palavrinha, se faz favor - disse Parker, mostrando-lhe discretamente o distintivo escondido na palma da mão.

Antes que o resto da mesa pudesse ficar interessado, Parker começou a afastar-se, ainda com a mão firme na base da nuca do rapaz.

- De que se trata? - perguntou Caldrovics, arrastando os pés.

Do seu dever cívico - declarou Parker. - Quer cumprir o seu dever cívico, não quer?

- Bom...:

- Desculpe, não sei o seu primeiro nome.

- Danny.

- Posso tratá-lo por Danny? - perguntou Parker, encaminhando-o para o vestíbulo das traseiras. - Eu sou o detective Parker, Kev Parker, da polícia de Los Angeles, Divisão Central, Homicídios.

- Homicídios?

- Sim. Quando uma pessoa mata outra, isso chama-se

homicídio.

- Eu sei o que significa.

Saíram pela porta das traseiras para um beco onde dois empregados fumavam com ar aborrecido.

- Vamos andar um bocado, Danny - propôs Parker.

- Não é uma zona muito segura.

- Ora, não se preocupe. Eu estou armado - disse Parker, endurecendo o tom de voz a cada palavra que pronunciava. - Até trago duas armas, na realidade. E você, Danny, está armado?

- Não, merda!

- Não faz mal. Tenho a certeza de que nunca há-de precisar.

Caldrovics tentou meter os travões.

- Onde é que vamos?

- Só até ali - respondeu Parker, com um ligeiro empurrão para junto dum latão do lixo, onde ficavam escondidos dos dois empregados do bar. - Acho que um pouco de privacidade é uma boa ideia. Não gosto de pessoas a escutar conversas alheias. Sabe? Como os repórteres. Nunca apanham os factos como deve ser, pois não, Danny?

Tirou a arma do coldre no cinto e deu um pontapé no latão do lixo, com um som que parecia um gongo.

- Todos daí para fora!

Caldrovics deu um salto para trás, de olhos esbugalhados.

- Merda, homem! O que está a fazer?

- Malditos drogados - queixou-se Parker. - Andam sempre por estes becos como ratazanas no lixo. E cortam o Pescoço a um tipo por uns cêntimos.

A luz de segurança das traseiras dos prédios possuía a espantosa claridade duma lua cheia. Parker via a expressão do rapaz, mas ele não via a sua, protegida pela aba do chapéu.

- Preciso de lhe fazer umas perguntas, Danny - começou ele. - Sobre aquela notícia que você publicou no jornal desta manhã sobre o homicídio de Mister Leonard Lowell.

Caldrovics deu um passo para trás, em direcção ao latão do lixo.

- Eu sou o investigador principal do caso - continuou o detective. - O que significa que tudo tem de passar por mim. Qualquer pessoa que tenha alguma coisa a ver ou a dizer sobre o caso tem de vir ter comigo.

- Eu não tenho...

- É o procedimento, Danny, e exijo sempre que se cumpra o procedimento.

- Não foi isso que eu ouvi - resmungou Caldrovics.

- Perdão? - exclamou Parker, dando um passo em frente, com ar agressivo. - Que foi que você disse?

- Nada.

- Está a ver se me chateia?

- Não.

- Então é só estúpido. É isso?

Caldrovics recuou mais um passo, mas Parker encurtou de novo a distância.

- É tão estúpido que está aqui diante de mim a faltar-me ao respeito?

- Eu não sou obrigado a aturar estas merdas, Parker disse o rapaz. - Só fiz o meu trabalho...

- Não me impressiona, Danny. Começou mesmo com o pé esquerdo.

- Você não pode perseguir-me desta maneira - protestou Caldrovics.

- E que vai você fazer? Queixa de mim? - perguntou Parker, com uma gargalhada. - Acha que eu me ralo com o que alguém pensa de mim? Ou que alguém se rala com o que você disser sem o testemunho doutra pessoa?

Estavam tão perto que sentiam a respiração um do outro. Caldrovics, nervoso, mas tentando não o demonstrar.

- O que tem aí nos bolsos, Danny? - perguntou Parker. - Um gravador?

- Não.

Parker enfiou a mão no bolso esquerdo do casaco camuflado do rapaz e depois no direito. Tirou de lá um gravador de microcassetes.

- Não é inteligente mentir-me, Danny - disse o detective, desligando o gravador. - A minha paciência está neste momento do tamanho duma pestana. Tenho um crime que me cheira a ostras com uma semana, e você tem informações que me fazem falta. E agora está a mentir-me.

- Eu não sei quem foi que matou o tipo!

- Não? Pois parece saber coisas que nós não sabemos. Como é isso? Se calhar, foi você que o matou.

- Você é uma porra dum tarado! Por que raio havia eu de o matar? Nunca o vi em toda a vida!

- Por dinheiro, por uma história, porque ele tinha fotografias suas a fazer coisas feias com rapazinhos...

- Isto é uma merda - declarou Caldrovics, tentando fugir a Parker. O detective empurrou-o contra o latão do lixo.

- Ei! Está a agredir-me! - protestou o repórter.

- E você a resistir à prisão - respondeu Parker, agarrando-o com as duas mãos, voltando-o para a frente e encostando-o com força ao latão. - Danny Caldrovics, está

preso.

- Porquê? - perguntou o rapaz, enquanto o detective lhe puxava os braços para trás, um de cada vez, e lhe colocava as algemas.

- Já penso em qualquer coisa no carro.

- Eu não entro num carro consigo, Parker. Parker afastou-o do latão à força.

- O que se passa, Danny? Sou um agente da autoridade. A tua mãe não te ensinou que o polícia é teu amigo?

- Que raio se passa aqui? - perguntou Andi Kelly, aparecendo por detrás do latão e parando de repente, ao ver Caldrovics algemado e Parker a empurrá-lo para o beco.

- Kelly? - exclamou Caldrovics, olhando para ela, espantado.

- Vi-te sair pelas traseiras com ele e não me pareceu bem - disse ela.

- Não te metas, Kelly! - explodiu Parker. - Que diabo estás a fazer aqui fora? À procura duma notícia?

- E que estás tu a fazer, Parker? Que se passa contigo?

- Aqui o teu amiguinho está preso, por esconder informações sobre um homicídio. O que o torna cúmplice depois do facto, se não antes.

Caldrovics voltou-se para ele.

- Já lhe disse que não tive nada a ver com um crime!

- E é suposto eu acreditar? És um aldrabão, Caldrovics, isso está provado. E também sei que estás a esconder informações.

- Nunca ouviste falar da Constituição, Parker? - perguntou Kelly com sarcasmo. - Da Primeira Emenda?

- Vocês metem-me nojo - disse Parker. - Usam isso como se fosse um acessório de moda. Estão-se nas tintas com o que acontece às pessoas, desde que consigam o que querem. Na realidade, quanto pior, melhor, porque um crime por solucionar lhes dá mais cabeçalhos do que um caso fechado.

- Não vais conseguir que essas acusações peguem declarou Kelly.

- Talvez não, mas talvez aqui o Danny pense duas vezes em cooperar depois de passar uma noite numa cela com uma data de drogados e passadores.

- Você não pode fazer uma coisa dessas - disse Caldrovics, com ar de troça.

- Posso e faço, seu fuinha - afirmou Parker, começando a empurrá-lo de novo para o beco.

Caldrovics olhou para Kelly.

- Por amor de Deus! Vai chamar alguém!

Kelly olhava de Caldrovics para Parker e deste para o repórter, com os olhos muito abertos.

- Espera, espera, espera! - exclamou ela, erguendo as mãos, como para os impedir de se afastarem.

- Não tenho tempo para isto, Kelly - explodiu Parker.

- Estamos a falar dum assassino que ainda não acabou de matar gente. Hoje atacou a filha da vítima, graças ao anormal do teu amiguinho aqui, que teve a amabilidade de pôr o nome dela no jornal!

Caldrovics começou de novo a tentar defender-se.

- Ele já podia conhecê-la...

Parker deu-lhe um puxão pelas algemas.

- Está calado, Danny! Não quero ouvir mais uma desculpa a sair da tua boca. Fizeste o que fizeste; primeiro porta-te como um homenzinho e assume a responsabilidade.

- O que é que precisas que ele te conte, Parker? perguntou Kelly.

- Onde é que arranjou a informação e quem foi que lhe disse que a filha encontrou o corpo.

Kelly voltou-se para o rapaz.

- Não foi ele que te disse? Se ele é que está à frente do caso, como é que não o soubeste por ele?

- Eu não sou obrigado a dar-te explicações, Kelly. Kelly avançou, ameaçadora, e deu-lhe um pontapé numa canela.

- Serás parvo? Estou aqui a tentar salvar o teu estúpido coiro miserável, e tu dás-me uma resposta torta?

- É um autêntico anormal - declarou Parker.

- também acho - concordou Andi Kelly, abanando a cabeça e voltando-se como quem faz tenção de se afastar.

- Faz o que quiseres com ele, Parker. É demasiado estúpido para viver. E eu nem sequer estive aqui.

- Kelly! Credo! Por amor de Deus! - exclamou Caldrovics.

Ela voltou-se para ele e abriu os braços com as palmas das mãos viradas para fora.

- Tu tens informações sobre um homicídio, Caldrovics. E ele só quer saber quem foi que tas deu. Se és tão burro que não utilizaste os canais competentes num crime como este... não duras muito como repórter. Porque não falaste com o Parker no local? Ele dava-te pormenores. Porque não foste ter com ele?

O rapaz não respondeu imediatamente. Estava a pesar as opções, pensou Parker. À procura do mal menor. Por fim, deu um grande suspiro e declarou:

- Eu não estive lá, está bem? Apanhei a notícia no scâner. Porra, estava a chover, pá. Por que raio havia eu de ir apanhar chuva e ficar por ali até alguém me dizer que o tipo no chão com a cabeça aberta estava morto?

- E como soubeste que ele tinha a cabeça aberta? - perguntou Parker. - Isso não foi divulgado. E porque disseste que a filha tinha encontrado o corpo?

Caldrovics desviou o olhar.

- Inventaste, Danny? É isso que gostas de fazer, escrever ficção? Andas a fingir que trabalhas num jornal até conseguires vender o grande argumento para um filme? Era uma noite calma, de maneira que decidiste enfeitá-la para te divertires?

- Porque havia eu de fazer uma coisa dessas?

- Porque podes.

- Nem sequer foste lá? - perguntou Kelly, espantada.

- Que história é essa? Mas é o teu trabalho, ir ao local e contar o que aconteceu. Daqui a pouco como é que é? Só escreves a história depois de a veres na televisão?

- Eu falei com um chui - disse o rapaz, amuado. Qual é o problema?

- É um problema bem grande - explicou Parker -, porque não foi comigo. É um problema bem grande porque, tanto quanto sei, não falaste com alguém que eu conheça e tenha estado no local do crime. É um problema bem grande porque publicaste uma informação que é nova para mim, e eu quero saber donde ela saiu. Qual chui?

Mais uma vez o grande debate interior. Parker não sentia ganas de dar umas boas estaladas a um tipo havia muito, muito tempo.

- É da Brigada de Roubos e Homicídios. Porque não havia eu de acreditar no que ele me disse?

Parker teve a sensação de apanhar uma pancada no alto da cabeça com toda a força e duma crescente pressão no pescoço e por detrás dos olhos.

- O Kyle, filho da mãe.

- Qual Kyle? O tipo com quem eu falei chama-se Davis.

- Quem é o Davis? - perguntou o detective, voltando-se para Kelly. Ela dedicava-se sobretudo a casos importantes e provavelmente conhecia aquele pessoal melhor do que ele.

- Não conheço - disse Kelly, encolhendo os ombros. Parker voltou-se para Caldrovics.

- Como é que conheces o tipo?

- Daí. Conheci-o num bar talvez há uma semana. Pode tirar-me isto? Mal sinto as mãos.

- Ele identificou-se? - perguntou Parker, abrindo-lhe as algemas.

- Claro. Eu perguntei-lhe como era trabalhar na equipa principal e ele falou-me duns casos antigos.

- Tens o telefone dele?

- Aqui não.

O telemóvel de Parker tocou nesse momento. Era Ruiz.

- Já te disse uma centena de vezes que não vou para a cama contigo, Ruiz.

Ela não se riu porque não possuía sentido de humor, mas não teve qualquer outra reacção, e Parker sentiu uma espécie de formigueiro anunciador de desgraça.

- Chamaram-me agora mesmo - disse ela.

- Vou ter contigo. Qual é a morada?

- Expresso-Estafetas.

 

- Raios partam isto - exclamou Parker, com um profundo suspiro, sentindo as forças escaparem-se-lhe. Raios partam isto - repetiu ele entre dentes.

Um projector do carro de Chewalski iluminava a cena com uma brilhante luz branca, qual palco de representação avant-garde.

Eta Fitzgerald jazia no pavimento rachado e molhado nas traseiras da Expresso-Estafetas. Ou seja, o corpo dela jazia ali. Desaparecera a sensação da grande personalidade que Parker conhecera nessa manhã. A força já não existia. O que ele via era apenas uma casca, uma carcaça. Agachou-se junto do corpo e viu que a garganta fora cortada dum lado ao outro.

- Que grande mulher! - comentou Jimmy Chew.

- Pára - disse Parker baixinho. - Pára com isso.

- Conheces, Kev?

- Conhecia, sim, Jimmy.

O que era um problema. Uma das primeiras coisas que martelava na cabeça dos seus estagiários era não se ligarem emocionalmente às vítimas. Era o caminho certo para a loucura. Não podiam tornar cada caso pessoal. Era demasiado duro, demasiado destrutivo. Mas era mais fácil dizer do que fazer, quando se conhecera a vítima antes do crime.

- Ai, desculpa - disse Chew. - É tua amiga?

- Não, mas podia ter sido, noutra altura e noutro sítio - respondeu Parker.

- Não tem identificação com ela, nem a carteira. Tenho a certeza de que o dinheiro dela anda agora aí pela cidade, a comprar cocaína e broches a cinquenta dólares. Encontrámos umas chaves perto do corpo. São daquele carro, que está em nome de Evangeline Fitzgerald.

- Eta - corrigiu Parker. - Ela usava o nome de Eta. Era a expedidora daqui. A Ruiz e eu falámos com ela esta manhã.

- O tal estafeta, o de ontem à noite, trabalhava aqui?

- Sim.

- Acho que é o nosso gajo, ha? O advogado. A expedidora. O traço de união é ele.

Parker não respondeu, mas não estava de acordo. Por que motivo teria Damon esperado pelo fim do dia para a matar? Devia saber que os chuis iam direitinhos aos serviços de estafetas. E o mal estaria feito antes do fim do dia de trabalho... se Eta resolvesse dar alguma informação. Se Damon quisesse calá-la, tê-la-ia morto antes de ela chegar à empresa à saída, ao fim do dia.

Talvez tivesse voltado para a assaltar, mas Parker também duvidava disso. Porque havia ele de se arriscar a voltar ali? Tanto quanto sabia, o prédio podia estar a ser vigiado. Além disso, era suposto ter uma grande quantidade de dinheiro do cofre de Lenny Lowell. Para que quereria o conteúdo da carteira da mulher?

- Ela tem família, filhos - lamentou ele.

- Eh, os únicos que merecem isto estão geralmente na outra ponta da faca, é uma coisa que já descobri há muito tempo - comentou Jimmy Chew.

Parker ergueu-se e olhou à sua volta.

- Onde está a Ruiz? Ela é que recebeu a chamada.

- Ainda não chegou. Provavelmente, está a afiar as garras. Tens ali uma bela peça, Kev.

- Não tenho de gostar deles, Jimmy - respondeu Parker, afastando-se. - Só preciso de lhes ensinar alguma coisa.

- Pois. Boa sorte!

- Alguma coisa para a imprensa, detectives? - perguntou Kelly atrás da fita amarela.

Parker enfiou as mãos nos bolsos do sobretudo e aproximou-se.

- O caso não é meu.

- E o detective a quem pertence?

- Ainda não chegou. - Parker olhou em volta, para ter a certeza de que Jimmy Chew não os ouvia. - Onde está o Caldrovics?

- Não veio. É capaz de estar a fazer queixa de ti às autoridades - respondeu Kelly, encolhendo os ombros.

- A única marca que pode ter é a do teu pontapé disse Parker. - E, a propósito, obrigado pela ajuda.

- Ele estava a pedi-las, e de nada. Tenho todo o prazer em cumprir o meu dever cívico ajudando um polícia.

- Eu bem tentei meter essa ideia na cabeça do Caldrovics, mas ele não estava receptivo.

Kelly fez-lhe uma careta.

- Esta rapaziada de agora... É só eu, eu, eu. - Mal parou para respirar. - Então, o que tens para mim, Parker? Um belo furo?

- A vítima era a expedidora da Expresso-Estafetas. Aparente roubo. A carteira desapareceu.

Kelly apressou-se a tomar notas.

- Tem nome?

- Só depois de avisarmos a família.

Parker inspirou o ar húmido a cheirar a lixo e deixou-o sair, pensando na família de Eta, em como iam receber a notícia e como viveriam sem aquela mulher. Não podia deixar Ruiz dar-lhes a má notícia. Já estava a ouvi-la: De maneira que... morreu. Portanto, recomponham-se.

- Kev? - Kelly olhava para ele com uma expressão preocupada.

- O Lenny Lowell estava à espera dum estafeta ontem à noite. O estafeta era da Expresso-Estafetas. E ninguém o viu desde essa altura.

O que não era exactamente verdade, mas Kelly não precisava de ouvir todos os pormenores e ele ainda não tinha a certeza do suposto encontro de Abby Lowell com Damon.

- A Ruiz e eu viemos aqui esta manhã para tentar obter informações, sem êxito. O nome é capaz de ser falso e a morada que eles têm não é duma casa de habitação.

- O estafeta é o vosso suspeito? Dos dois crimes?

- Digamos que é uma pessoa que nos interessa.

Um carro a grande velocidade apareceu no beco e parou de repente a dez centímetros do pára-choques traseiro do carro de Chewalski. Abriu-se a porta do condutor e Ruiz apeou-se, envolta em cabedal preto da cabeça aos pés.

- Onde é que andaste? - explodiu Parker. - À fazer um biscate de dominadora? Ligaste para mim há meia hora.

- Pronto, desculpa. Eu não vivo num andar todo chique na baixa. Vivo nos subúrbios.

- Porque será que isso não me surpreende? - resmungou Kelly, de maneira que só Parker a ouviu.

- O trânsito está péssimo - continuou Ruiz. - Um idiota qualquer deixou cair uma mesa de casa de jantar dum camião. E depois...

Parker levantou a mão.

- Basta! Já cá estás. Não precisas de nos atormentar mais. Olha, esta é a Andi Kelly - disse o detective, indicando a repórter com um gesto de cabeça. - Trabalha no Times.

- E que está ela a fazer aqui? - perguntou Ruiz, com ar ofendido.

- Repórter, crime, história. Percebeu?

- Minhas senhoras, nada de brigas no local do crime

- disse Parker. - O caso é teu, Ruiz. Tu é que decides o que queres que os jornais saibam, mas tenta lembrar-te de que têm alguma utilidade. Neste caso, quero que me comuniques tudo primeiro, porque o crime pode estar relacionado com o meu de ontem à noite. Portanto, precisamos de estar de acordo. Sabes quem é a vítima?

- A expedidora.

O pessoal da recolha de provas estava a chegar. Um dos investigadores começou a andar à volta do corpo de Eta Fitzgerald, como se não conseguisse decidir por onde começar.

- O local do crime é teu - disse Parker. - Toma conta dele, não faças asneiras e tenta não criar mais do que três ou quatro inimigos. Lembra-te de que estou de olho em ti. Metes a pata na poça uma vez e vais passar multas de estacionamento.

Ruiz deu um piparote num ombro e afastou-se dele.

- Credo! - comentou Kelly. - Há mesmo alguém na central que não te grama.

- Querida, toda a gente na central me detesta - respondeu Parker, levantando a gola do sobretudo e enterrando mais o chapéu na cabeça. - Eu ligo-te.

Começou a dirigir-se para o local do crime.

- Ouve lá, Parker - chamou Kelly. Ele olhou por cima do ombro. - É verdade que moras num andar todo chique na baixa?

- Boa noite, Andi - respondeu ele, continuando a andar.

O investigador fazia o seu trabalho, tirando à vítima qualquer resto de dignidade, cortando-lhe a roupa para procurar ferimentos, marcas, nódoas negras, lividez.

- Há quando tempo morreu, Stan? - perguntou Parker.

- Duas ou três horas.

O homem gemeu e fez força para voltar o corpo de Eta Fitzgerald. Mais de noventa quilos de peso literalmente morto. Quando conseguiu, caiu sentado no chão e viu que o pescoço havia sido cortado quase até à espinha. As costas assentaram no pavimento e a cabeça quase não seguiu o corpo.

Ruiz encolheu-se e resmungou:

- Madre de Dios...

Ficou branca como a cal e recuou um passo. Parker estendeu a mão para a amparar.

- É o teu primeiro pescoço cortado? Ela assentiu com a cabeça.

- Estás a sentir-te mal, miúda?

Ela voltou a assentir com a cabeça, e Parker virou-a para o outro lado, dizendo:

- Não vomites em cima das provas.

Aquilo era a morte no seu aspecto mais brutal. Parker conhecia bastantes veteranos calejados que deitavam fora o jantar por causa duma garganta cortada ou duma mutilação. Não era motivo para vergonha. Era uma coisa horrível de ver. O facto de ele se ter endurecido e aguentar espectáculos daqueles fazia-o interrogar-se sobre o significado de tal proeza. Seria por ter aprendido a seguir o seu próprio conselho de não tornar os casos pessoais. Por, com o tempo, ter desenvolvido a valiosa habilidade de desligar a vítima em vida da vítima cadáver.

Mesmo assim, aquela abalou-o mais do que habitualmente. Horas antes, ouvira um comentário mordaz atrás doutros saídos daquela enorme mulher cheia de vida. E agora não havia voz, apenas uma lição de anatomia sobre o interior do pescoço humano.

Os bordos da grande ferida estavam voltados para fora como um delicado remate de renda, revelando uma data de tecido adiposo dum amarelo vivo, o tecido onde se armazenava a gordura. Parecia gordura de galinha fluorescente sob a crua iluminação branca.

Não havia muito sangue sobre ou à volta da ferida. Grande parte dela devia ter descido pela traqueia, agora parcialmente exposta, para os pulmões, afogando-a. A carótida devia ter esguichado como um gêiser. Se não tivessem sido lavados pelos aguaceiros intermitentes, os investigadores teriam encontrado salpicos a dois metros ou mais do corpo. Grande parte do sangue fizera uma poça debaixo dela, ensopando-lhe a roupa até lhe manchar o peito escondendo parcialmente uma pequena tatuagem dum coração com um halo de chamas mesmo acima do seio esquerdo.

Todo aquele sangue e, dependendo da posição do assassino, ele podia ter-se afastado dali sem uma gota a marcá-lo.

Ruiz voltou com uma expressão que parecia desafiar Parker a dizer uma gracinha.

- Puseste agentes fardados a verificar os outros prédios? - perguntou ele. - Alguém pode ter visto alguma coisa.

Ela assentiu com a cabeça.

- Quem foi que comunicou?

- Não sei.

- Jimmy? - perguntou ele, voltando-se para Chewalski.

- Um dos nossos belos cidadãos - disse ele, fazendo-lhes sinal para o seguirem pelo beco.

Ao aproximarem-se da zona de cargas duma loja de móveis chamada Fiorenza, uma figura escura e encolhida emergiu duma grande caixa de cartão, tornando-se um negro alto e magro com cabelo grisalho comprido e camadas de roupa em farrapos. O odor precedeu-o. Cheirava como se tivesse estado muito tempo dentro dum esgoto.

- Detectives, este é o Obidia Jones. Obi, apresento-te os detectives Parker e Ruiz.

- Encontrei aquela pobre mulher! - disse Jones apontando para a outra ponta do beco. - Quis ajudar, mas não consegui voltá-la. Como vêem, ela é dum tamanho paquidérmico. Pobre criatura, chamei-a e tornei a chamar, mas ela estava mesmo morta.

- E foi você que telefonou para a polícia? - perguntou Ruiz, duvidando.

- Não se paga para ligar para o Cento e Doze. De vez em quando ligo. Há um telefone ali à esquina.

- Viu o que se passou, Mister Jones? - perguntou Ruiz.

- Não, senhora, não vi. Estava maldisposto no momento do acto horrível. Acho que estou a consumir demasiada fibra na minha dieta.

- Eu não precisava de saber isso - disse Ruiz.

O velhote olhou para ela com os olhitos apertados, aproximando a cara da dela.

- Acho que é capaz de estar com falta de fibras. Talvez isso explique a sua expressão. - Olhou para Parker como que a pedir uma segunda opinião.

- Se fosse tão simples como isso... - comentou o detective. - Como é que encontrou a mulher morta, Mister Jones?

- Voltei para a minha habitação e vi-a ali deitada quando o carro se afastou.

- Que carro?

- Um grande carro preto.

- E por acaso viu quem guiava esse carro? - perguntou Parker.

- Dessa vez, não.

Ruiz esfregou a testa e perguntou:

- Que quer o senhor dizer com isso?

- Ah, eu já o tinha visto - respondeu Jones, no tom mais natural deste mundo. - Ele apareceu por aí antes.

- É capaz de o reconhecer, se o vir outra vez? - perguntou Parker.

- Parece um cão, um pit bull - declarou Jones. - Cabeça quadrada e olhinhos pequeninos. Sem dúvida escumalha branca...

- Precisamos que veja umas fotografias - disse Parker.

- Na sua esquadra? - inquiriu Jones, levantando uma sobrancelha grossa.

- Sim.

- Esta noite, com este frio e chuva aqui fora? - quis saber o homem.

- Se não se importa.

- Não me importo muito - respondeu o velhote. E comem piza lá?

- Claro.

- Posso levar os meus sacos comigo? Todos os meus pertences estão dentro destes sacos.

- Com certeza - disse Parker. - Aqui a detective Ruiz transporta-lhos no carro dela.

Jones olhou para ela.

- Talvez tenha ali alguns alimentos fibrosos para si. Pode servir-se à vontade.

- Pois, óptimo - respondeu Ruiz, olhando furiosa para Parker. - E o detective Parker leva-o no carro dele.

- Não - disse ele. - Tenho a certeza de que Mister Jones prefere ser conduzido no veículo policial oficial. O agente Chewalski até pode ligar as luzes e tudo.

- Isso é que era classe - comentou Jones. - Realmente.

- Vamos lá levar os teus sacos, Obi - disse Chewalski -, e metê-los no porta-bagagem da detective.

Ruiz levantou os olhos para Parker e pronunciou sem som:

- Odeio-te. Parker não fez caso.

- Ainda outra coisa, Mister Jones. Por volta da hora do crime, viu por ali alguém de bicicleta?

- Não, senhor. Todos os rapazes das bicicletas se tinham ido embora muito antes.

- E um carrito preto pequeno?

- Não, senhor. Carro grande. Comprido e preto como o da própria morte.

- Obrigado.

- És mesmo um parvalhão - disse-lhe Ruiz, enquanto voltavam para o local do crime.

- Considera isto a tua penitência - respondeu Parker.

- Por ter chegado atrasada?

- Por seres como és.

 

A casa estava escura e silenciosa, iluminada apenas pela claridade branca que aparecia e desaparecia de cada vez que as nuvens carregadas de chuva deslizavam à frente da Lua. Jotacê andava dum lado para o outro no pequeno espaço, como um animal enjaulado consciente de que os inimigos podiam estar a aproximar-se cada vez mais.

Tyler observara-o com atenção quando ele entrara, com o olhar sombrio e a boca anormalmente calada. Não fizera perguntas sobre os novos arranhões e nódoas negras. Jotacê achava que talvez devesse ter contado alguma coisa ao irmão, mas não o fizera e Tyler não perguntara, preferindo deitar-lhe olhares acusadores. A tensão dentro de casa parecia electricidade estática a aumentar até que as respectivas cabeleiras ficassem em pé. Por fim, às dez horas, Tyler deitara-se sem uma palavra.

Jotacê tentou libertar-se dos sentimentos de culpa. Nunca faria fosse o que fosse para colocar o irmão em perigo. Isso era o mais importante. Os receios e sentimentos do garoto tinham de ficar em segundo lugar. Ensaiou aquelas frases mentalmente para quando acordasse o irmãozinho e lhe dissesse que se ia embora.

Arrumou as coisas rapidamente. Uma muda de roupa e pouco mais enfiado numa mochila. Continuava sem ter um plano, mas sabia o essencial: não podia ficar ali. Havia de arranjar alguma coisa, como sempre. Fora criado para pensar num ápice. Precisava de não pensar em si próprio como numa presa perseguida por cães, mas sim duma posição de força.

Tinha em seu poder o que o assassino queria e, se valia a pena matar por aquilo, com certeza que também era valioso para outra pessoa qualquer. Abby Lowell era a chave para a resposta. Não acreditava que ela não soubesse o que se passava. Se assim fosse, qual o motivo para a busca em casa dela e para o aviso no espelho? À próxima morres. Era com certeza para a obrigar a fazer qualquer coisa. De que serviria ameaçá-la, se ela não soubesse o que se passava?

Precisava de a atrair de qualquer maneira, obrigá-la a encontrar-se com ele em terreno neutro, algures com bastantes sítios por onde fugir e donde pudesse ver o perigo a aproximar-se. Dizia-lhe que tinha os negativos e perguntava-lhe o que significavam para ela. E quanto valiam.

Jotacê perguntou a si próprio que teria ela contado à polícia. Mencionara um detective em particular. Parker. Seria o tipo de chapéu atrás da Expresso-Estafetas? E que saberia esse Parker, a que conclusão teria chegado e que teria Eta contado?

Continuava sem acreditar que ela o traísse. Queria entrar em contacto com ela, falar com ela. Queria garantias.

- Vais-te embora.

Tyler estava à porta do quarto, com o seu pijama de Homem-Aranha e o cabelo loiro espetado para todos os lados.

- Vais-te embora e nem sequer me dizias.

- Isso não é verdade - garantiu Jotacê. - Não me ia embora sem te dizer.

- Tu disseste que nunca te ias embora.

- Eu disse que voltava sempre - corrigiu Jotacê. E volto.

Tyler abanava a cabeça, com os olhos marejados de lágrimas.

- Estás com um problema. também não ias dizer-me isso, mas eu sei.

- Que é que tu sabes?

- Tratas-me como se eu fosse um bebé, como se fosse estúpido e não conseguisse perceber as coisas por mim próprio. Como... como...

- Que é que tu sabes? - repetiu Jotacê.

- Vais-te embora. Podias levar-me contigo, mas não levas, e eu não posso dar a minha opinião porque tu achas que eu não devo saber o que se passa!

- Não podes ir comigo, Tyler. Preciso de resolver uns problemas e preciso de me mover com rapidez.

- Podíamos ir os dois - insistiu Tyler. - Podíamos ir para um sítio onde ninguém nos conhecesse, como quando a mãe morreu.

- Não é assim tão simples - disse Jotacê.

- Porque vais prà cadeia?

- Quê? - exclamou Jotacê, deixando-se cair no colchão. Tyler parou directamente diante dele, com uma expressão de fúria contida e manchas encarnadas na cara pálida.

- Não mintas - disse o garoto. - Não finjas que não o disseste, porque eu ouvi-te!

Jotacê não perdeu tempo a perguntar ao irmão se estivera a escutar a conversa dele com Madame Chen. Era óbvio que sim, o que, aliás, não devia surpreendê-lo. Era hábito de Tyler aparecer onde não devia e saber coisas que não eram da sua conta.

- Não vou para a cadeia. Só disse isso a Madame Chen para a assustar - garantiu Jotacê. - Ela quer que vá à polícia ou que fale com um advogado, mas eu não quero, e preciso de ter a certeza de que ela não o faz por mim.

- Para os Serviços Sociais não virem buscar-me para me entregar a uma família de acolhimento.

- Exactamente, pá - confirmou Jotacê, poisando a mão no ombro do irmãozito. - Não quero que corras riscos. Isso nunca faria. Compreendes?

Os olhos do garoto brilhavam, cheios de lágrimas, quando ele assentiu com a cabeça.

- Nós tomamos conta um do outro, não é, sócio?

- Então, devias deixar-me ajudar-te, mas não deixas. Jotacê abanou a cabeça.

- É complicado. Preciso de descobrir o que está realmente a passar-se. - Soltou uma risadinha cansada e despenteou ainda mais o cabelo do irmão. - Se se tratasse de geometria ou ciências naturais, contava-te tudo, Ty. Mas não é. É muito mais sério.

- Mataram um homem qualquer - disse Tyler baixinho.

- Sim.

- E se te matam também?

- Eu não deixo que isso aconteça - disse Jotacê, sabendo que era uma promessa vã. E Tyler também o sabia Apesar disso, Jotacê garantiu: - Eu volto sempre.

Uma e depois outra lágrima escorreram pela carita do garoto. A expressão dos seus olhos era muito mais velha do que ele. Uma profunda, profunda tristeza, ainda mais dilacerante com a cansada resignação da experiência passada. Naquele momento, Jotacê pensou que a alma de Tyler devia ter cem anos ou mais e que ele vivera de desapontamento em desapontamento.

- Se morreres, não podes voltar - murmurou Tyler. Jotacê puxou o garoto para si e abraçou-o com toda a força, também com os olhos a arder devido às lágrimas.

- Eu adoro-te, meu homenzinho. E volto. Só por tua causa.

- Prometes? - perguntou Tyler, com a voz abafada pelo ombro do irmão.

- Prometo - segredou Jotacê, com a garganta a doer-lhe e fazendo a promessa que não sabia se podia cumprir. Era como se uma pedra bicuda não lhe passasse para baixo nem para cima, provocando-lhe aquela dor e mal o deixando falar.

Choraram os dois um bocado e depois ficaram sentados ao lado um do outro, com o tempo a estender-se, sem significado, pela noite escura. Então, Jotacê suspirou e levantou-se, afastando o irmãozito de si.

- Tenho de ir, pá.

- Espera - pediu Tyler. Correu para o quarto antes que o irmão pudesse dizer alguma coisa e voltou segundos depois com o par de walkie-talkies que Jotacê lhe dera pelo Natal.

- Leva um - disse ele. - As pilhas são novas. Assim podes ligar para mim e eu para ti.

Jotacê aceitou o pequeno rádio.

- Posso estar demasiado longe. Mas ligo-te quando puder.

Enfiou o casacão da tropa e guardou o rádio num bolso. Tyler acompanhou-o até à porta.

- Não te metas em sarilhos - recomendou Jotacê. E obedece a Madame Chen. Percebes?

Tyler assentiu com a cabeça.

Jotacê estava à espera que ele lhe dissesse que tomasse cuidado, mas isso não aconteceu. Nem disse adeus. Não

abriu a boca.

Jotacê tocou no cabelo do irmão pela última vez, voltou-se e desceu a escada.

Chinatown estava silenciosa, com as ruas a brilhar como gelo negro sob a luz dos candeeiros. Jotacê subiu para a bicicleta e começou a percorrer lentamente o beco, um pé a exercer pressão para baixo, e depois o outro, numa cansativa subida para nenhum sítio. A bicicleta balançava para um lado e para o outro a cada pedalada, até que o movimento se transformou em energia que o empurrou para diante. Voltou à direita no fim do beco e dirigiu-se para a baixa, onde as luzes nas janelas dos altos edifícios brilhavam como colunas de estrelas.

No momento em que Jotacê descrevia outra curva, um Chrysler Sebring com cinco anos fazia o mesmo a alguns quarteirões de distância. Um grande portão de ferro deslizou sob as ordens dum comando electrónico e o carro entrou e estacionou no seu lugar ao lado dum antigo armazém de têxteis recuperado e convertido em chiques apartamentos.

Noutro quarteirão, um longo carro preto com um pára-brisas novinho virou a esquina e deslizou por uma rua molhada, passando em frente duma lavandaria e da Peixaria Chen.

Parker entrou no seu apartamento, deixou cair as chaves no estreito altar chinês de nogueira preta que servia de consola na entrada com chão de ardósia. Não olhou para o espelho. Não precisava de olhar para saber que o dia lhe pesava como uma capa de chumbo. Nem energia tinha para sentir raiva ou tristeza, apenas uma espécie de entorpecimento.

A suave claridade dos pequenos focos de halogéneo sobre os quadros conduziu-o até ao quarto e à casa de banho. Abriu a torneira de banho de vapor, despiu o fato e pô-lo em cima duma cadeira.

No dia seguinte a roupa ia para a lavandaria. A ideia de a vestir outra vez depois de ter estado naquele beco a olhar para o corpo de Eta Fitzgerald era totalmente inaceitável. Apesar de a cena não ter sido verdadeiramente grotesca, como encontrar um cadáver deixado numa sala aquecida durante dias, o cheiro da morte parecia tê-lo impregnado, a ideia da morte de Eta estava ligada a ele.

O vapor e a água quente levaram consigo parte do cheiro, do peso, e aliviaram-lhe os músculos, aquecendo-o tanto por fora como por dentro.

As luzes das mesas-de-cabeceira estavam acesas, com fraca intensidade - parte do elaborado sistema electrónico que um amigo o convencera a instalar. Luzes, música, temperatura ambiente - tudo ligado a um sistema computorizado, de maneira que ele nunca chegasse a uma casa fria e escura.

A mulher a dormir na sua cama era outra história. Entrara ali de livre vontade, abrira a porta e instalara-se.

Parker sentou-se à beira da cama e ficou a olhar para ela, simultaneamente satisfeito, admirado e espantado.

Diane piscou os olhos, abriu-os e olhou para ele.

- Surpresa! - disse ela baixinho.

- Estou mesmo surpreendido - disse Parker, tocando-lhe no cabelo. - E a que devo eu o prazer?

Ela esfregou a cara com as mãos e endireitou-se, encostada às almofadas.

- Estava a precisar de afastar o odor da vida mundana. Então, resolvi procurar uma brasa dum tipo metrossexual.

Parker sorriu.

- Bom, querida, sou o príncipe do metrossexual chique. Tenho um roupeiro cheio de fatos Armani, um armário cheio de produtos para tratar da pele. Sou capaz de fazer um jantar para quatro sem ingredientes congelados, sei escolher um bom vinho e não sou gay... não que isso tenha alguma coisa de errado.

- Eu sabia que tinha vindo ao sítio certo. Sentou-se mais direita e espreguiçou-se, sem qualquer tipo de vergonha ou exibicionismo quanto ao seu estado de nudez. Isso fazia parte do encanto de Diane, a ausência de falsos pudores. Era uma mulher forte, atraente e perfeitamente à vontade com o próprio corpo.

- Foste chamado? - perguntou ela.

- Fui. O primeiro homicídio da Ruiz.

- Deus te ajude. Não gosto dela.

- Ninguém gosta dela.

- Ela não é uma mulher cá das nossas.

- O que é que isso quer dizer? Diane revirou os olhos.

- Homens! Nunca percebem. Quer dizer que não podes virar-lhe as costas. Não podes confiar nela, contar com ela. Quer dizer que é a tua melhor amiga se achar que ganha alguma coisa com isso e que, se achar que não, se volta contra ti que nem uma cobra.

- Acho que já explicaste o suficiente - disse Parker.

- Óptimo. Então não terás uma surpresa - retorquiu ela. - Apanhou um caso fácil?

Parker abanou a cabeça.

- Nem por isso. É possível que esteja ligado ao do Lowell, de ontem à noite.

- Palavra? Como? - perguntou ela, de testa franzida.

- A vítima é a expedidora da empresa de estafetas que o Lowell chamou ao fim da tarde. Parece que anda alguém atrás de alguma coisa, e a ficar chateado por não a encontrar.

- E a Brigada de Roubos e Homicídios apareceu outra vez?

- Não. Deviam estar demasiado ocupados a confraternizar na tua zona da cidade - respondeu Parker. - Quanto tempo ficaram na festa?

- O que te disse. Trocaram umas palavras com o Giradello e saíram. O tal nome significa alguma coisa para ti?

- Damon é o apelido do estafeta que enviaram ao escritório do Lowell a noite passada.

- Julgava que o caso Lowell fosse um roubo.

- Não acredito nisso - disse Parker. - Talvez o assassino tenha roubado o dinheiro do cofre do homem, mas não foi lá para isso. Tudo indica que julga que o estafeta ficou com aquilo que ele procurava.

- Não achas que tenha sido o estafeta?

- Não. Não me convence. Acho que o estafeta é apenas o coelho. E eu quero é o cão que anda atrás dele. - O semblante de Parker ficou sombrio, e ele exclamou: - Esse é que eu quero mesmo.

Ficaram os dois calados um momento, com as respectivas engrenagens a trabalhar.

- O Lowell chama um estafeta para ir buscar qualquer coisa - murmurou Diane. - O estafeta sai com o pacote...

- Calculamos nós.

- Alguém mata o Lowell e agora alguém ligado ao estafeta. O estafeta ainda tem o pacote e o assassino anda atrás do pacote.

- Cheira-me a chantagem - comentou Parker.

- Hum... - fez Diane, absorta.

Parker sempre pensara que ela daria um excelente detective. Era um desperdício dedicar-se a escarafunchar em cadáveres todos os dias. Mas ela gostava desse aspecto. Fora criminalista na Divisão de Investigação Científica durante muito tempo, antes de mudar para a área de Medicina Legal. Por vezes, falava em voltar a estudar para se formar em Patologia Médica.

Suspirou e estendeu o braço, colocando a mão na curva entre o pescoço e o ombro de Parker.

- Anda para a cama - pediu ela baixinho. - É tarde. De manhã podes voltar a ser o melhor detective do mundo.

Ele abanou a cabeça.

- Não me parece que possa ser o melhor seja no que for - disse ele, enfiando-se na cama.

- Contento-me com ter-te encostado a mim. também não tenho energia para muito mais.

- Isso pode ser - declarou Parker, já a adormecer enquanto se encostava a ela e lhe beijava o cabelo.

 

A manhã era um suave e doce sonho no horizonte a leste de Los Angeles. Estreitas faixas de azul-forte, tangerina e rosa à espera de florescer. O sistema climatérico que trouxera a chuva desaparecera, deixando o ar lavado de fresco e a promessa de céus dum azul em tecnicólor.

No telhado do armazém reconvertido, um homem movia-se lentamente nos passos elegantes e concentrados do tai chi. O ”grou branco a abrir as asas”, a ”serpente a deslizar para baixo”, a ”agulha no fundo do mar”. Concentrado na respiração, nos movimentos e na calma interior, o bafo escapava-se-lhe em delicadas nuvens que se dissipavam na atmosfera.

Noutro telhado para ocidente, um velho e uma criança moviam-se em uníssono, lado a lado, as suas energias individuais tocando-se, as mentes completamente separadas. Meditação em movimento. Braços estendidos lentamente, passo em frente também lentamente, peso para trás. Zuo xashi duli, shuangfeng guaner, duojuan gong. Uma posição conduzindo a outra e a outra. Uma dança em câmara lenta.

Debaixo dum viaduto da auto-estrada na baixa de Los Angeles, Jotacê encolhia-se dentro dum cobertor térmico, com o casacão da tropa por cima para esconder o material prateado de que aquele era feito. O cobertor parecia uma grande folha de alumínio, mas mantinha-lhe o calor do corpo e dobrava-se até ficar do tamanho duma sanduíche.

Dormitara durante umas duas horas, mas não podia dizer que tinha dormido. Feito numa bola para se manter quente e chamar o mínimo de atenção sobre si, parecia-lhe que o corpo estava congelado naquela posição. Começou a levantar-se lentamente, com a sensação de que as articulações se desfaziam.

A um quarteirão dali, os estafetas deviam estar a chegar para tomar café no Cari. Estava capaz de vender a alma por uma chávena de café quente. A Missão da Meia-Noite na esquina da Quarta com a Los Angeles servia um pequeno-almoço completo a quem aparecesse.

Talvez fosse até lá mais tarde. Queria falar com Mojo, saber o que as pessoas diziam, o que se passava na Expresso, o que Eta podia ter contado aos chuis. Daí a umas horas, o espaço debaixo do viaduto ia ficar cheio de estafetas à espera de serviços. Arrumavam a sua variedade de bicicletas e empoleiravam-se nas grades como um bando de corvos, para conversar sobre tudo, desde dietas vegetarianas ao Arnold Schwarzenegger.

De todos os estafetas, Mojo era o que Jotacê mais respeitava e em quem quase confiava. Dava a impressão dum rastafári maluco, com as suas feitiçarias e superstições, mas Jotacê sabia que a loucura dele era mais como a duma raposa do que como a de John, o pregador. Mojo sobrevivia como estafeta havia uma data de anos, e ninguém conseguia uma coisa dessas só com sorte. Além disso, de vez em quando, retirava a máscara e permitia uma visão de quem se escondia realmente atrás dela - um homem inteligente com um invejável sentido de calma no seu âmago.

Mojo contar-lhe-ia o que se passava. Se ele conseguisse apanhá-lo sozinho.

Jotacê dobrou o cobertor térmico e guardou-o na mochila. Foi urinar atrás dum pilar, colocou a mochila às costas, trepou para a bicicleta e dirigiu-se ao café de Cari. Não havia trânsito. A cidade estava ainda a acordar, a espreguiçar-se e a bocejar.

Era a hora do dia que Jotacê preferia, quando podia respirar fundo o ar limpo, quando ainda tinha a cabeça livre do barulho e do fumo dos escapes, dos milhares de perguntas e respostas que passam pela mente dum estafeta enquanto ele evita o trânsito, os peões e toma decisões instantâneas quanto ao caminho mais curto para a sua recolha ou entrega. Àquela hora da manhã ainda era possível tentar ser eficiente. Geralmente.

Arrumou a bicicleta ao lado do café, correndo o risco de a deixar solta, para poder fugir rapidamente se fosse preciso. Não podia entrar. Em vez disso, atravessou a avenida e ficou parado na esquina, com a gola levantada em volta da cara, os ombros erguidos, de mãos nos bolsos e boné enterrado até aos olhos, com um aspecto idêntico ao de tantos outros tipos naquelas ruas da baixa. Ninguém olharia para ele, muito menos duas vezes.

Os primeiros dois estafetas a aparecer eram de outra empresa... que os obrigava a usar camisolas e casacos com o emblema da casa. Jotacê conhecia tipos que tinham recusado um ordenado melhor simplesmente por não estarem dispostos a perder a sua individualidade. Ele, Jotacê, ter-se-ia disfarçado de macaco por um ordenado melhor, mas as empresas com uniformes não pagavam aos estafetas por baixo do balcão.

Esteve ali uns dez minutos antes de ver Mojo a descer a Quinta. Apesar de o Sol ainda não se ter realmente levantado, trazia já os seus óculos à Ray Charles. Os tornozelos e as canelas ostentavam a habitual fita elástica verde vivo a prender as calças roxas, e o tronco exibia várias camadas de camisolas esfarrapadas. Parecia um bailarino na mó de baixo.

Jotacê começou a atravessar a rua quando Mojo parou no passeio à entrada do beco.

- Olá, pá, podes dar-me... - começou ele.

- Não tenho nada para ti, meu - declarou Mojo, desmontando da bicicleta ainda mal parada. - Para ti só tenho boas intenções.

Jotacê tirou a cabeça para fora da gola do casaco, esperando que Mojo o reconhecesse. Olhou em volta para se assegurar de que não havia mais gente na rua.

- Sou eu, Mojo, o Jotacê.

Mojo parou instantaneamente e ficou a olhar para ele com os olhos muito abertos. Empurrou os óculos escuros para o alto da cabeça e continuou a olhar. Mas não sorriu.

- Mascarilha - disse ele por fim. - Estás com ar de quem andou a fugir com o rabo ao diabo, mas foi apanhado.

- É. Foi uma coisa parecida.

- Ontem vieram uns polícias à tua procura. Dois conjuntos diferentes. Primeiro, um perguntou-me se eu te conhecia. E eu disse-lhe que ninguém conhecia o Mascarilha

- E a Eta? Que foi que ela lhes disse?

- Que também não te conhecia - respondeu ele, com o rosto magro e triste dum antigo quadro de Cristo na cruz... se Cristo usasse penteado de rastafári. - E olha que, para um tipo que ninguém conhece, és um homem muito popular; Jotacê.

- E complicado.

- Não, não me parece. Ou mataste ou não mataste um homem.

Jotacê olhou-o de frente.

- Não matei. Porque havia de matar?

- O grande motivador é geralmente o dinheiro - respondeu Mojo, sem pestanejar.

- Se eu tivesse dinheiro, não estava agora aqui. Estava num avião a caminho da América do Sul.

Deitou uma olhadela nervosa para o fim da rua, à espera de que alguém saísse do café e o visse.

- Preciso de falar com a Eta, mas não posso voltar à Expresso e não tenho o número do telemóvel dela.

- Não existem telefones onde a Eta está, meu - disse Mojo.

Jotacê sentiu uma estranha tensão nas costas perante a expressão de Mojo. Reparou que trazia os olhos inchados e avermelhados, como se tivesse estado a chorar.

- Que é que queres dizer com isso?

- Passei pela base agora, e o beco é um autêntico emaranhado de fita amarela. Andava um polícia dentro das linhas.

Jotacê sentiu o género de frio que nada tem a ver com o tempo, o género de frio que vem de dentro.

- Não - exclamou ele, abanando a cabeça. - Não.

- Então, eu disse-lhe: ”Trabalho aqui, meu.” E ele respondeu: ”Hoje não, rasta.” - Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e a voz embargou-se-lhe. - ”Cortaram o pescoço a uma senhora aqui ontem à noite.”

Jotacê deu um passo atrás, voltou-se para um lado e depois para o outro, como que a querer fugir daquele momento, fugir das horríveis imagens que lhe surgiram no cérebro como nódoas de sangue num pano.

- Não foi ela.

- Estava lá o carro dela, e ela não ia para casa sem ele.

- Talvez não pegasse. Talvez tenha chamado um táxi.

Mojo limitou-se a olhar para ele, enquanto Jotacê andava à volta, num círculo. Mentalmente, estava a gritar por socorro, como num sonho, sem que pudessem ouvi-lo. Sentia uma enorme pressão dentro da cabeça, contra os tímpanos, contra a parte traseira dos olhos. Apertou o crânio com as mãos, como se pretendesse impedi-lo de estoirar e as imagens e os pensamentos de se espalharem. Quase não conseguia respirar.

A Eta. Ela não podia estar morta. Era horrível de mais. Demasiadas opiniões, demasiada fanfarronada, demasiadas bocas, demasiado tudo. A culpa envolveu-o por ter pensado que ela podia tê-lo traído. Deus do céu, estava morta, com o pescoço cortado.

Parecia-lhe ver o carro preto a deslizar pelo beco nessa manhã, com o assassino ao volante, a cabeça quadrada, os olhinhos escuros, o sinal na nuca. Sentia o terror de ser reconhecido. Mas o carro deslizara por ele como a sombra da morte, sem que o tipo lhe concedesse um olhar.

- O bairro é mau - disse Mojo. - Aconteceram coisas más. Ou talvez tu saibas alguma coisa que nós não sabemos.

Jotacê mal o ouvia. Eta não morrera por trabalharem num bairro mau. Morrera por causa dele. Não percebia como o peso dessa certeza não o esmagava naquele instante.

Passara a maior parte da vida a manter as pessoas à distância para se proteger, mas essas pessoas estavam agora em perigo - ou mortas - por causa dele. A ironia tinha o sabor do fel.

- Sabes alguma coisa que nós desconhecemos, Mascarilha?

Jotacê abanou a cabeça.

- Não. Quem me dera saber, mas não sei.

- Então porque andas a fugir? Não mataste o homem. Não mataste a Eta...

- Meu Deus, não!

- Então andas a fugir de quê?

- Olha, Mojo, estou metido no meio duma coisa que não entendo. Os chuis adoravam meter-me o coiro na cadeia e pronto, mas isso não vai acontecer. Não fiz nada de mal.

- Mas andas à procura de ajuda, não andas? - perguntou Mojo, levantando as sobrancelhas. - Foi por isso que vieste aqui falar comigo? Querias que a Eta te ajudasse e agora ela está morta. Não me parece bom negócio.

- Não sabes se ela morreu por culpa minha - protestou Jotacê. ”Eu sei que sim, mas tu não.” - Pode ter sido atacada por algum drogado que quis roubar-lhe a carteira.

- Achas que sim, Jotacê?

Não, não achava. Mas não o disse. Não valia a pena. Mojo já formara a sua opinião. Era engraçado como ainda podia sentir-se desapontado quando sabia perfeitamente que nada podia esperar de alguém.

- Não preciso de ti - disse Jotacê. - E com certeza que não queria o que aconteceu!

Começou a dirigir-se para a bicicleta. Mas Mojo meteu-se-lhe à frente.

- Onde é que vais?

Jotacê não respondeu e tentou desviar-se dele. Mojo tapou-lhe o caminho e obrigou-o a recuar um passo empurrando-o com uma mão num ombro.

Jotacê empurrou-o também.

- Não quero tornar-te meu cúmplice, Mojo. Não te preocupes comigo. Eu sei tratar de mim.

- Não estou preocupado contigo, mas sim com a Eta. Com o que lhe aconteceu. A polícia foi à tua procura e agora ela está morta. Acho que devias falar com eles.

- Passo - disse Jotacê, enfiando o capacete, colocando o pé esquerdo no pedal e passando a perna direita por cima da bicicleta, que começou a deslizar lentamente para a frente.

- Não te importas que lhe tenham cortado o pescoço?

- perguntou Mojo, falando mais alto e num tom mais zangado. Montou também a bicicleta e colocou-se ao lado de Jotacê. Saíram do passeio e atravessaram a Flower. - Alguém tem de pagar por isso!

- Mas não vou ser eu - disse Jotacê, acelerando. Não sei quem foi que a matou, e não posso ir à polícia.

Manteve os olhos postos na rua, para Mojo não perceber que mentia. Sabia perfeitamente quem matara Eta. Se fosse à polícia, podia ajudar a fazer um retrato robô, descrevendo o assassino até ao sinal na nuca. O tipo provavelmente tinha um cadastro com mais dum quilómetro e o focinho dele estava com certeza no livro dos cadastrados. Podia apontá-lo num segundo, como podia identificá-lo numa formação em linha.

O problema era que, se fosse à polícia, o enfiavam numa cela e não iam querer ouvir uma palavra do que tinha para dizer. Andavam atrás dele pela morte do advogado e ele não possuía álibi para a hora do crime, pelo menos algum que pudesse ser corroborado por alguém sem ser o tipo que tentara matá-lo. E também o queriam pelo assalto a casa de Abby Lowell. Essa não teria qualquer problema em identificá-lo. E agora Eta. Não sabia a que horas morrera, portanto ignorava se teria álibi. Mas sabia que a única coisa que os três possuíam em comum - além do assassino -

era ele.

- Tu não queres ir - disse Mojo, zangado, mantendo-se ao lado de Jotacê. - A Eta morreu. Tem família, filhos...

- E eu não, de maneira que não faz diferença se for parar à prisão - disse Jotacê, olhando para ele. Endireitou-se, largou o guiador e pôs os óculos de natação que trazia ao pescoço.

- Só te importas contigo.

- Tu não sabes peva sobre mim, Mojo. E não sabes peva do que se passa. Portanto, não te metas!

Jotacê levantou-se nos pedais e acelerou, pretendendo afastar-se de Mojo e da culpa que ele tentava impor-lhe. Queria afastar a imagem de Eta Fitzgerald com a garganta cortada e a vida a escapar-se-lhe para o pavimento sujo e oleoso nas traseiras da Expresso. Queria deixar de pensar no que teriam sido os últimos momentos, os derradeiros pensamentos dela.

A bicicleta abanava com força para um lado e para o outro enquanto ele pedalava. O novo pneu de trás agarrava-se bem à estrada e impelia-o para a frente. Virou à direita na Figueroa, onde o trânsito estava a aumentar, com camiões de entregas e pessoas a chegar cedo dos arredores como todos os dias, na esperança de evitar o congestionamento nas estradas.

O cheiro dos escapes e os sons de travões a chiar e dos motores a gasóleo eram familiares, normais. Como era a sensação de velocidade debaixo dele. Se nada mais na sua vida era normal, pelo menos havia o pequeno conforto de estar no seu elemento; a sentir, a ver, a ouvir e a cheirar coisas que compreendia.

Olhou para trás para ver se Mojo se decidira a desistir, mas o outro estafeta aproximava-se pela esquerda. Jotacê deu um toque nos travões e virou para a direita na Quarta, exactamente onde o seu dia começara. Já estavam a juntar-se estafetas debaixo do viaduto. Ficaram-lhe na retina como uma mancha de cores, ao passar por eles a toda a velocidade.

Mojo continuava à sua esquerda, com uma expressão sombria. Fez-lhe sinal para parar, mas Jotacê respondeu-lhe com um gesto obsceno e desatou a pedalar mais depressa ainda. Era uns dez anos mais novo do que Mojo, mas estava magoado e exausto, enquanto o outro se mostrava determinado. Mojo, a seu lado, pegou na corrente do cadeado e estendeu-a na direcção de Jotacê, tentando enfiá-la entre os raios da roda dianteira da bicicleta ao mesmo tempo que o empurrava para o passeio.

Jotacê guinou para a direita e saltou para cima do passeio, provocando uma buzinadela dum carro. As pessoas que iam no passeio saltaram para o lado, insultando-o. Deu um toque no braço de um tipo com um copo da Starbucks na mão, e o café foi pelos ares como um repuxo.

Mojo continuava na rua, um pouco à sua frente, de olhos postos no cruzamento seguinte.

O cérebro de Jotacê registou um milhão de minúsculos cálculos, como os dados num computador - velocidade, trajectória, ângulos e obstáculos.

O processo foi interrompido pelo som agudo duma sirene. Um carro da polícia aproximava-se de Mojo, com as luzes a girar, e uma voz gritou:

- Polícia de Los Angeles! Vocês nas bicicletas! Parem!

Na esquina da Quarta com a Hill, Mojo virou bruscamente para a direita, metendo-se à frente de Jotacê, que se viu obrigado a torcer a roda dianteira para a esquerda. A luz na Quarta ficara amarela e o cruzamento estava quase livre.

A bicicleta de Jotacê saltou do passeio, falhando por pouco a roda traseira de Mojo. Pelo ar, Jotacê ajeitou o seu peso e virou a bicicleta.

O carro dos chuis estava na esquina, a virar para a direita na faixa exterior, metendo-se à frente de um camião. A roda traseira da bicicleta de Jotacê aterrou logo a seguir ao farol do lado esquerdo do carro. Ouviu-se um estrondo e o carro dos chuis saltou para a frente, atingido por trás.

Jotacê aguentou o salto, atacou os pedais e enfiou a bicicleta pelo trânsito de sentido único que vinha da Hill.

Ouviu um coro de buzinas e os pneus a chiar no pavimento. Percorreu as duas faixas como um fio a atravessar o buraco duma agulha, rasando retrovisores e pára-choques. Os motoristas gritaram-lhe obscenidades, e ele rezou para que nenhum deles abrisse uma porta.

Continuou a pedalar, virando à direita e à esquerda, seguindo por becos, sempre em movimento. Nem um míssil podia segui-lo. Era um dos estafetas mais rápidos da cidade. Estava no seu elemento e nem precisava de pensar. Limitava-se a pedalar, queimando a adrenalina, suando o medo que lhe fazia tremer os braços e lhe palpitava no peito.

Estupor do Mojo, a persegui-lo. Caraças. Um movimento mal calculado e podiam ter acabado os dois no hospital ou na morgue. Ele, Jotacê, podia ter ido parar à cadeia, apanhado por circular de modo perigoso ou por outro motivo mais sério, conforme a disposição do chui. E, passados uns minutos ou uma hora, descobriam que ele era o tipo de quem todos os chuis da cidade andavam à procura - se Mojo não lhes facilitasse a informação primeiro.

É o que acontece quando se confia em alguém, Jotacê.

Então e o que acontecia a outras pessoas quando ele se aproximava delas? Tornou a pensar em Eta e apeteceu-lhe vomitar.

Passando uma luz verde, Jotacê leu o nome da rua. Era para rir, se tivesse forças para isso. Hope Street. Rua da Esperança.

Parou na Praça do Centro Musical, rodeada por um trio de casas de espectáculos: o Fórum Mark Taper, o Teatro Ahmanson e o Pavilhão Dorothy Chandler, onde se entregavam os Óscares, antes de Hollywood os reclamar para si.

A praça estava deserta, com tudo fechado. Jotacê arrumou a bicicleta e sentou-se num banco, tentando libertar-se da tensão acumulada no corpo. Ficou a olhar para a subida e descida dos inúmeros repuxos em volta da escultura chamada Paz na Terra, procurando pôr as ideias em ordem.

A escultura era supostamente famosa, mas a Jotacê parecia um amontoado de pessoas a tentar erguer uma alcachofra gigante onde uma pomba aterrara de bico. A única coisa em que conseguia pensar ao olhar para aquilo era que o homem que a criara não vivia no mesmo mundo que ele ou no mesmo mundo em que Eta Fitzgerald vivera.

A escultura era intemporal, uma coisa sem vida que viveria para sempre, uma coisa desprovida de emoções mas destinada a provocá-las. Ficaria ali para sempre, a não ser que surgisse um ataque nuclear ou um grande terramoto.

Jotacê não conseguia imaginar que alguém se importasse com a presença daquilo, mas ali ia ficar. Entretanto, as pessoas iam e vinham, viviam e morriam, os anos passavam e algumas seriam choradas e outras nem sequer seriam lembradas.

Tentou imaginar o que Eta teria a dizer sobre a Paz na Terra, mas não conseguia ouvir a voz dela, nunca mais ouviria a voz dela. A única coisa que conseguiu fazer foi enfiar a cabeça nas mãos e chorar a sua perda.

 

A Peixaria Chen ficava a cinco minutos da casa de Parker. Segundo a Direcção-Geral de Viação, um dos Mini Coopers que podia ter fugido do assalto a casa de Abby Lowell pertencia àquela morada. Parker parou em frente da peixaria e dirigiu-se primeiro à porta principal, verificando que ainda não abrira. Mas, na entrada para entregas, estavam dois homens a descarregar gelo picado para as caixas que refrescariam as entregas do dia.

Parker exibiu o distintivo.

- Desculpem, meus senhores. Estou à procura de Lu Chen.

Os homens endireitaram-se imediatamente, um com os olhos muito abertos de medo e o outro com os olhos semicerrados de desconfiança. O primeiro possuía as feições de alguém com síndroma de Down. Parker dirigiu-se ao outro.

- Sou o detective Parker, da polícia de Los Angeles. Há aqui alguém chamado Lu Chen?

- Porquê? Parker sorriu.

- A resposta à minha pergunta era sim ou não. A não ser que o seu nome seja Lu Chen.

- Lu Chen é a minha tia.

- E o senhor é?

- Chi.

- Só Chi? - perguntou Parker. - Como a Cher? Ou o Prince?

O mesmo olhar de aço. Ausência total de sentido de humor.

- A sua tia está?

Chi espetou a pá na pilha de gelo, evidenciando um problema de controlo de mau génio.

- Vou ver se ela está no escritório.

- E eu vou consigo - declarou Parker. O tipo pareceu ofendido com a ideia. Que diabo de feitio para um tipo que ganhava a vida às pazadas de gelo picado.

Chi subiu para a plataforma das cargas e parou com as mãos nas ancas, a olhar fixamente para Parker. Não devia ter posto o fato Hugo Boss, pensou o detective, mas paciência. O desafio estava lançado.

Trepou para a plataforma e sacudiu-se, tentando não fazer uma careta ao ver uma mancha escura na frente do casaco. O seu guia com cara de poucos amigos voltou-se e conduziu-o pelo armazém e depois por um estreito corredor até uma porta onde se lia ESCRITÓRIO.

Chi bateu.

- Tia? - chamou. - Está aqui um detective para falar consigo.

A porta abriu-se e uma mulher pequena de calças pretas e casaco de fazenda vermelha olhou para eles, com uma expressão tão feroz como a do sobrinho, mas dum modo mais forte do que petulante.

- Detective Parker, minha senhora - disse Parker, mostrando-lhe a identificação. - Se pudesse conceder-me uns instantes, tenho umas perguntas a fazer-lhe.

- A respeito de quê, posso saber?

- Do seu carro, minha senhora. É proprietária dum Mini Cooper de dois mil e dois?

- Sou.

O sobrinho emitiu um sopro de contrariedade, e a tia olhou para ele.

- Vai-te embora, se fazes favor - ordenou. - Sei que tens trabalho para fazer.

- Mais do que habitualmente - respondeu ele. - Por falta de pessoal.

- Então, vai-te embora - insistiu ela, e o sobrinho voltou-lhes as costas e afastou-se. Ela dirigiu-se a Parker e perguntou: - Quer um chá, detective?

- Não, obrigado. São só umas perguntas. O carro está aqui?

- Claro. Costumo arrumá-lo nas traseiras.

- Importa-se que lhe dê uma vista de olhos?

- Claro que não. O que se passa? - perguntou ela, conduzindo-o até ao beco nas traseiras.

Parker deu a volta ao carro andando lentamente.

- Quando foi a última vez que o utilizou? A mulher pensou um instante.

- Há três dias. Fui a um almoço de caridade no Barneys em Beverly Hills. E depois choveu.

- Ontem não andou com ele?

- Não.

- Alguém se serviu dele? Talvez o seu sobrinho?

- Que eu saiba, não. Estive aqui todo o dia, e o Chi também. Além disso, ele tem carro.

- Alguém tem acesso às chaves?

A mulher começou a parecer preocupada.

- Estão penduradas no escritório. O que se passa, detective? Eu infringi alguma regra de trânsito? Não estou a perceber.

- Um carro que corresponde à descrição do seu foi visto a abandonar o local de um crime ontem. Um assalto a uma casa.

- Que horror! Mas garanto-lhe que não foi o meu carro, porque estava aqui.

Parker franziu os lábios e ergueu as sobrancelhas.

- Uma testemunha copiou parte da matrícula, e coincide com a do seu carro.

- Como com muitas outras, com certeza.

Era uma pessoa calma, foi obrigado a reconhecer. Aproximou-se da traseira do carro e deu uma pancadinha com o bloco-notas no farolim partido.

- Quando o carro se afastou do local, foi abalroado por uma carrinha e um farolim ficou partido.

- Que coincidência! Aconteceu a mesma coisa ao meu durante o tal almoço. Descobri o estrago quando me vinha embora.

- E que foi que lhe disse o guarda do estacionamento?

- Não havia.

-Fez queixa à polícia?

- Para quê? Para terem pena de mim? – perguntou ela, de sobrancelha erguida. - Da minha experiência, a polícia não se interessa por coisas insignificantes.

- E a sua companhia de seguros?

- Por tão pouco? Só se fosse parva é que ia dar à companhia de seguros um pretexto para me aumentar o prémio.

Parker sorriu e abanou a cabeça.

- A senhora deve ser de respeito num campo de ténis, Miss Chen.

- Pode tratar-me por Madame Chen - disse ela, com as costas muito direitas. Parker duvidava que ela chegasse a um metro e meio de altura, mas a verdade é que olhava de alto para ele. - E não faço ideia do que está a falar.

- Peço desculpa, Madame Chen - disse Parker, com uma respeitosa pequena inclinação de cabeça. - É que a senhora parece ter resposta para tudo.

- E porque não teria?

Parker tocou nos arranhões na carroçaria, de resto impecável.

- A carrinha que bateu no carro que fugiu do local do crime era prateada, e o carro que bateu no seu também.

- É uma cor que está na moda.

- O que é interessante nas pinturas dos carros é que podem ser identificadas - continuou Parker. - Por exemplo, a pintura prateada da Ford não é igual à pintura prateada da BMW nem da Toyota. É quimicamente única.

- Que interessante!

- Conhece um tal J. C. Damon? - perguntou Parker. Ela não reagiu à brusca mudança de assunto, e Parker não percebeu que era coisa de génio ou erro de cálculo. Supunha que uma reacção exagerada era capaz de ser mais reveladora.

- Como é que eu havia de conhecer essa pessoa? - perguntou ela.

- É um estafeta de bicicleta duma firma chamada Expresso-Estafetas. Anda pelos vinte anos, é alourado e bem-parecido.

- Nunca precisei dum estafeta.

- Mas não foi isso que eu perguntei - corrigiu Parker. Nenhuma reacção.

- J. C. Damon era a pessoa que guiava o carro que abandonou o local do crime.

- Pareço-lhe o tipo de pessoa que se dá com criminosos, detective?

- Não, minha senhora. Mas mais uma vez conseguiu não responder à minha pergunta.

Parker tentava imaginar que possíveis ligações teria aquela digna flor de lótus de aço com um rapazola como Damon, um solitário que vivia à margem da sociedade. Não pareciam existir e, no entanto, sentia-se capaz de apostar que sim. O carro estava ali, com demasiados indícios comuns para serem coincidências, e o que Madame Chen dizia era pouco.

Parker encostou-se ao carro e continuou:

- Cá entre nós, não tenho bem a certeza de que o rapaz seja criminoso - disse ele. - Pensou que talvez estivesse no sítio errado no momento errado, e agora vê-se metido até ao pescoço num grande sarilho, sem saber como sair dele. São coisas que acontecem.

- Está a falar como um assistente social - comentou Madame Chen. - O seu trabalho não é efectuar prisões?

- Não estou interessado em prender pessoas inocentes. O meu trabalho é descobrir a verdade, e acho que ele talvez pudesse ajudar-me - afirmou Parker. - E eu a ele.

Ela desviou o olhar do dele pela primeira vez durante a conversa, com uma expressão pensativa.

- Tenho a certeza de que um rapaz numa situação dessas deve ter dificuldade em confiar... sobretudo na polícia.

- Sim, penso que sim - concordou Parker. - Um jovem com antecedentes felizes não chega a uma situação deste tipo. A vida é dura para mais pessoas do que se calcula. Mas um rapaz que tenha alguém na sua vida que possa estender-lhe a mão... Bom, isso pode fazer uma grande diferença.

Uma pequena ruga de preocupação marcou a testa da senhora. Parker calculava que devia andar pelos sessenta anos, mas tinha uma pele que parecia de porcelana.

Meteu a mão no bolso do casaco e tirou de lá um cartão-de-visita.

- Se, por qualquer motivo, precisar de falar comigo, minha senhora, esteja à vontade... a qualquer hora do dia ou da noite - disse ele, entregando-lhe o cartão. - Entretanto, receio ter de ficar com o seu carro.

Zangada, Madame Chen mostrou-se de novo muito hirta e exclamou:

- Isso é uma violência! Já lhe disse que o meu carro não sai daqui há três dias!

- Pois disse - admitiu Parker. - Mas a verdade é que eu não acredito. O carro corresponde à descrição, a matrícula coincide, bem como os estragos. Parece que temos três factos contra si, Madame Chen. Vou mandar um reboque para levar o seu carro, que será hóspede da polícia de Los Angeles até lhe fazermos os testes necessários.

- Vou chamar o meu advogado.

- Tem esse direito - disse Parker. - Mas devo dizer-lhe também que, se os resultados dos exames forem como eu penso, é muito possível que a senhora venha a ser acusada de cumplicidade.

- Isso é ridículo!

- Estou só a avisá-la. Não depende de mim, e eu não gostava que isso acontecesse, Madame Chen. A senhora dá-me a impressão de ser uma pessoa que toma as suas responsabilidades muito a sério.

- Ainda bem que tem essa opinião de mim, enquanto me trata como uma vulgar criminosa - explodiu ela, voltando-lhe as costas e dirigindo-se ao escritório.

- A senhora nada tem de vulgar, Madame Chen - declarou Parker. - Mas já agora, minha senhora, o parque de estacionamento do Barneys sempre teve empregado.

Ela deitou-lhe um olhar capaz de derreter um homem mais fraco.

- Sou frequentador - disse Parker, sorrindo.

Sem se impressionar, ela afastou-se rapidamente e entrou no prédio.

Parker suspirou e olhou em volta. A família Chen tinha ali um belo negócio, certinho, tudo do melhor. Comprara lá camarões uma vez para um jantar íntimo com Diane. Excelente qualidade.

Talvez repetisse a dose depois do caso resolvido.

Deixara Diane a dormir na sua cama, com uma laranja na outra almofada e um bilhete a dizer: Pequeno-almoço na cama. Depois ligo. K.

Fora agradável adormecer com ela nos braços e acordar com ela ao lado. Parecia boa ideia fazer aquilo mais vezes. Não que estivesse interessado numa coisa mais permanente ou legalmente assumida. Nenhum deles o desejava. Regras e regulamentos alteravam as perspectivas e a confiança num relacionamento, e não para melhor, tanto quanto sabia. Mas, à medida que se habituava mais à sua vida fora do emprego e ao reconstruído Kev Parker, a estabilidade, a normalidade e a concentração tornavam-se mais atraentes.

Tirou o telemóvel do bolso e ligou para a esquadra pedindo um carro para guardar o Mini Cooper até conseguir o mandado.

Enquanto esperava, olhou para os prédios do outro lado do beco. Bastantes janelas a darem para as instalações dos Chen, com provavelmente mais do que alguns pares de olhos a observarem-no naquele momento. Assim que o carro da polícia chegasse, a notícia correria por todo o bairro de Chinatown, pelo menos, entre os chineses.

Se quisesse interrogar os vizinhos, talvez encontrasse algum que tivesse reparado na ausência do Mini Cooper ou até o houvesse visto a partir ou voltar. Mas não fazia tenções disso. Não queria Madame Chen como inimiga ou a considerá-lo como tal a ele. Não havia necessidade de arejar os assuntos dela entre os vizinhos dando origem a boatos.

A sensação de estar vigiado era cada vez maior. Não de cima mas de frente. Observou a plataforma das descargas, o outro lado do beco, e deteve-se numa pilha de estrados de madeira nas traseiras do prédio a seguir.

Enfiou as mãos nos bolsos e começou a andar - não em direcção aos estrados mas em frente, para onde grandes ramos de lírios-roxos e girassóis amarelos estavam a ser entregues pela porta das traseiras duma florista.

Percorreu o beco, com os estrados dentro da sua visão periférica. Quando acabou de passar por eles, olhou para trás.

Um pequeno vulto mudou de posição para continuar a observá-lo, enfiado entre os estrados e a parede do prédio.

Parker voltou-se e olhou a direito para o pequeno observador. Um garoto, talvez com oito ou nove anos. Com uma camisola preta desbotada, uns nove tamanhos acima do dele, a carita a espreitar de dentro do capuz, com uns olhos azuis que se abriram muito ao cruzarem os olhares.

- Olá, miúdo...

O garoto fugiu dum salto antes de as palavras saírem completamente da boca de Parker, dando início à perseguição. Rápido que nem um coelho, esgueirou-se para fora do beco, procurando esconder-se atrás dum latão do lixo. Parker correu atrás dele, travou quando o garoto descreveu uma curva de cento e oitenta graus e deslizou uns três metros antes de conseguir mudar de direcção.

- Pára, miúdo! Polícia! - gritou ele, voltando a correr para o beco, com a gravata a esvoaçar por cima do ombro.

O rapazito virou para a esquerda, para um estacionamento no meio dum U de prédios. Sem saída que Parker pudesse ver, a não ser entrando na porta das traseiras do prédio do meio, e a porta estava fechada.

Os carros estacionados encostavam as frentes às traseiras uns dos outros. Parker foi andando atrás dos veículos, com a respiração acelerada. Levou as mãos à cintura e franziu a testa ao verificar que estava a suar. A camisa, ainda com os vincos da lavandaria, vestida havia menos de duas horas, ia voltar para lá.

De repente, avistou uma cabeleira loira e umas calças de ganga, quando o garoto se meteu a correr entre um Mazda verde e um Saturn branco, agachando-se até ficar de metade do seu tamanho já pequeno.

- Pronto, miúdo, sai lá daí e eu prometo que não te prendo - declarou Parker. - Nada de algemas nem de coronhadas...

Ouviu-se o barulho de solas na gravilha do chão e uma perna vestida de ganga desaparecera debaixo dum Volvo.

Parker deixou-se ficar atrás dos carros, a andar lentamente dum lado para o outro.

- Só quero fazer-te umas perguntas - disse o detective. - Podíamos começar pelo motivo pelo qual fugiste desta maneira, mas eu deixo passar essa. É um brinde. Para o futuro, lembra-te de que, se corres, os chuis vão atrás de ti. Somos como os cães, sabes?

Seguiu os sons rastejantes até à outra ponta do estacionamento. Baixou-se e espreitou por baixo dum BMWX5 branco com a matrícula 2GD4U. Uns grandes olhos azuis olhavam para ele por cima dum pequeno nariz enfarruscado.

- Kev Parker - disse ele, estendendo o distintivo para o miúdo ver. - Polícia de Los Angeles. E tu és...?

- Eu tenho o direito de ficar calado.

- Pois tens, mas não estás preso. Há algum motivo para eu te prender?

- Tudo o que eu disser pode ser e será utilizado contra mim.

- Que idade tens? - perguntou Parker.

O garoto pensou durante um momento, pesando os prós e os contras da resposta.

- Dez - acabou por dizer.

- Moras por aqui?

- Não pode obrigar-me a falar consigo - disse o garoto. - Sei muito bem quais são os meus direitos contra a auto-incriminação segundo a Quinta Emenda da Constituição.

- Um erudito legal. Estou impressionado. Como disseste tu que te chamas?

- Não disse. E não vale a pena tentar enganar-me, porque eu vejo séries policiais a toda a hora.

- Ah, então topas-nos.

- Até devo ser muito mais esperto do que vocês. E não digo isto para o fazer sentir-se inferior - declarou ele com sinceridade. - Mas eu tenho um quociente de inteligência de cento e sessenta e oito, o que fica muito acima da média.

Parker deu uma gargalhada.

- Tu és de mais, miúdo! Porque não sais daí e me explicas o teorema de Pitágoras?

- Num triângulo rectângulo, a área do quadrado que tem como lado a hipotenusa é igual à soma das áreas dos quadrados que têm como lados cada um dos catetos - disse o garoto, fechando os olhos sempre que pronunciava uma palavra mais difícil. - Das doutrinas e teorias de Pitágoras e dos pitagóricos, que desenvolveram alguns dos princípios básicos da matemática e da astronomia, originaram a doutrina da harmonia das esferas e acreditavam na me-tem-psi-co-se, a eterna ocorrência repetida das coisas, e no significado místico dos números.

Parker limitou-se a olhar para ele.

- Eu leio muito - disse o garoto.

- Acho que sim. Sai lá daí, génio - propôs Parker, estendendo a mão. - Tenho o sangue todo a subir-me à cabeça. Sai daí antes que eu tenha uma congestão.

O miúdo saiu de debaixo do carro como um caranguejo, levantou-se e tentou em vão sacudir a roupa. As mangas da camisola eram pelo menos quinze centímetros mais compridas do que os braços. O capuz caíra para trás, deixando à mostra uma cabeleira loira.

- Na realidade, não me considero um génio - confessou ele com modéstia. - Só sei uma data de coisas.

- Porque não estás na escola? - perguntou Parker. Já sabes tudo e por isso deixaram-te sair?

O miúdo puxou a manga para trás e olhou para um relógio tão grande para o pulso dele que parecia um prato de sopa.

- São só sete e meia.

- A rua escola deve ser perto daqui, ha? O garoto franziu a testa.

- E tu moras neste bairro, se não, estavas mais preocupado com as horas - concluiu Parker. - És observador e inteligente. Aposto que sabes imenso sobre o que se passa por aqui.

Um encolher dum ombro só. A biqueira dum sapato no pavimento. Os olhos no chão.

- Ficas abaixo do radar - continuou Parker. - Podes esconder-te, ver e ouvir coisas. E ninguém dá por isso.

O outro ombro encolhido.

- Então, porque estavas a espiar-me?

- Não sei.

- Porque sim? Estás a treinar-te para coscuvilheiro para um dia espreitar as miúdas?

A carita franziu-se, contrariada.

- Porque havia de querer fazer uma coisa dessas? As miúdas são esquisitas.

- Certo. Então talvez queiras ser espião. É isso?

- também não. Só tenho uma curiosidade in-sa-ciá-vel.

- Nada de mal nisso - concordou Parker. - Conheces os Chen? Da peixaria?

O miúdo encolheu

Os dois ombros.

- E conheces um tipo chamado J. C. Damon? Um estafeta de bicicleta.

Os olhos abriram-se um pouco mais.

- Tem algum problema?

- Mais ou menos. Eu preciso de falar com ele. Acho que é capaz de ter alguma informação que pode ajudar-me numa importante investigação.

- De quê? Um homicídio ou coisa assim?

- Um caso em que estou a trabalhar - disse Parker,

- Penso que ele pode ter visto alguma coisa.

- E porque não vai ele falar consigo, se é só isso?

- Porque tem medo. É como tu, foge de mim, porque julga que eu sou o inimigo. E não sou.

Parker sentia as engrenagens a moverem-se na cabeça do garoto. Via que estava curioso embora fingisse que não.

- Eu não sou mau - continuou o detective. - Sabes, há pessoas que culpam primeiro e fazem as perguntas depois. E podem andar chuis como esses à procura do tal Damon. Era muito melhor para ele vir ter comigo antes de os outros o apanharem.

- Que é que lhe fazem? Parker encolheu os ombros.

- Não sei. Não tenho autoridade sobre eles. Se pensam que ele é culpado, quem sabe o que pode acontecer...

O miúdo engoliu em seco, como se tivesse uma pedra na garganta. Cabelo loiro, olhos azuis, bem-parecido. Tal e qual como Parker descrevera Damon a Madame Chen. E aquele andava por ali, nas traseiras da peixaria, a espreitar, à escuta. O interesse do detective agora ia para além da desculpa da curiosidade insaciável do garoto.

- Podem dar-lhe um tiro? - perguntou ele. Parker tornou a encolher os ombros.

- Às vezes acontecem coisas más. Não estou a dizer que sim, mas...

Tirou um cartão-de-visita do bolso e estendeu-o ao garoto. Este arrancou-lho da mão como se estivesse à espera de sentir umas algemas no pulso. Um dos tais truques dos chuis que ele conhecia de ginjeira. Olhou para o cartão, olhou para Parker por debaixo das sobrancelhas e depois enfiou o cartão no bolso da frente da camisola.

- Se vires o tal Damon por aí... - começou Parker Nesse momento, um carro da polícia apareceu ao fundo do beco e parou junto à peixaria. Um agente fardado apeou-se e chamou:

- Detective Parker?

Parker começou a levantar a mão, e o miúdo desapareceu imediatamente.

- Merda! - exclamou Parker, correndo atrás dele.

O garoto metera-se de novo no U formado pelos prédios. Sem saída, pensou Parker. Havia apenas um estreito espaço entre dois dos prédios, por onde entrava um raio de sol, fino como uma lâmina de barbear. O miúdo deu a volta à fila da frente de carros, com Parker a tentar cortar-lhe o caminho, com um salto que o fez deslizar de rabo no capo do motor dum Ford Taurus. Estendeu o braço para apanhar o miúdo, mas desequilibrou-se e acabou por cair com um joelho no chão.

O miúdo nem abrandou ao chegar aos prédios e meteu-se pela fenda, exactamente à medida do seu corpo franzino.

Parker praguejou, voltou-se de lado, prendeu a respiração e começou a esgueirar-se, com teias de aranha a tocarem-lhe na cara e os tijolos das paredes a arrepelarem-lhe o fato. O miúdo chegou ao outro lado e desapareceu antes de ele conseguir avançar três metros.

- Detective? - chamou de novo o agente fardado, do estacionamento.

Parker apareceu, trombudo, a tirar teias de aranha da frente do casaco.

- Posso ajudá-lo em alguma coisa?

- Podes - respondeu Parker, irritado. - Telefona ao Hugo Boss e diz-lhe que peço desculpa.

 

Ruiz estava sentada à secretária, com a cabeça apoiada na mão e uma expressão que era um misto de cansaço, aborrecimento, irritação e esperança que se desvanecia. Instalara a sua fedorenta testemunha na cadeira de Parker, à secretária de Parker, disposta a sofrer aquele odor em nome da vingança.

Obidia Jones parecia ter dormido perfeitamente numa cela. Comera um jantar tardio do Domino e um pequeno-almoço de café e um pastel do Starbucks. Passara revista aos livros de fotos como quem folheia uma revista, com ocasionais comentários sempre que via alguém conhecido.

- Pessoalmente, prefiro um pequeno-almoço mais substancial - disse ele, dando uma dentada no pastel. Uma coisa que se agarre mais às costelas. Uma coisa que represente todos os quatro principais grupos de alimentos. Um belo pequeno-almoço de burritos.

Ruiz revirou os olhos.

Kray passou por ela com uma expressão azeda. - Não podes levar isso para outro sítio, Ruiz? Porque temos nós de aguentar esse fedor horroroso?

Ruiz olhou para ele.

- Passas tanto tempo com a cabeça enfiada no cu que julgava que já estavas habituado ao cheiro.

Yamoto, de pé, junto da máquina de café, disfarçou uma gargalhada e fingiu não ver o olhar de serpente que o colega lhe deitou.

- Cabra - resmungou Kray entre dentes.

- Diz isso um bocadinho mais alto - desafiou-o Ruiz.

- Para eu poder apresentar uma queixa contra ti. Fazes outro tratamento para apurar a sensibilidade. Quantas vezes seriam, com essa?

Kray fez uma careta, imitando-a como se fosse uma criança de cinco anos.

Parker entrou na sala, deu três passos e recuou com o cheiro. Quando viu Jones instalado na sua cadeira, deitou um olhar feroz a Ruiz.

Ela sorriu como um gato guloso e exclamou:

- Touché!

- Acho que encontrei o carro - disse ele, sem fazer caso. - Só preciso de arranjar o mandado. Com alguma sorte, temos as impressões digitais à hora do almoço.

- Onde é que ele está? - perguntou Ruiz.

- Em Chinatown. Por enquanto não faz sentido, mas há-de fazer, sinto-o.

A expectativa era como a energia dada pelo café, e fazia-o mover-se mais depressa, falar mais depressa e pensar mais depressa. Sentia uma excitação crescente, quase melhor do que sexo.

- Adoro quando tudo começa a fazer sentido - disse ele. Dera um pulo a casa depois da Peixaria Chen, para mudar de fato. E não ia sentar o rabo na sua cadeira. Dirigiu-se à secretária de Kray e pegou no telefone sem pedir, como se Kray não estivesse ali mesmo.

- Que tal vai isso, Mister Jones? - perguntou Parker, enquanto esperava que o atendessem.

- Estou muito contente. São todos muito ”magnimoniosos” com a vossa hospitalidade.

- Miss Ruiz está a tratá-lo bem?

- Foi muito amável. Trouxe-me café.

- Temos de apontar isso na agenda - declarou Parker.

- Ela nunca é assim amável para mim.

- Deve ser da tua água-de-colónia - resmungou Kray.

- Eu não preciso de água-de-colónia - disse Parker.

- Cheiro como uma manhã de Primavera. Mas tu podias mudar essa horrível camisa, engraçadinho. Há quantos dias suas dentro disso? Yamoto, há quantos dias traz ele esta camisa?

- Demasiados.

De trombas, Kray estendeu a mão e tentou arrancar-lhe o auscultador.

- Larga-me o raio do telefone, Parker!

- Vai-te lixar... Não! Não é contigo, querida! - Deu um safanão numa das pilhas de documentos de Kray, atirando tudo para o chão e pronunciou a palavra ”imbecil”, sem som, voltado para ele. - É o Kev Parker. E daí, é a espantosamente encantadora Mavis Graves?

Mavis Graves era uma mulher de sessenta e três anos com uns braços do tamanho de presuntos, mas qualquer senhora gosta dum cumprimento.

- Mavis, querida, preciso de falar com o Langfield por causa dum mandado. Ele já chegou?

Começou a ouvir a voz de Stevie Wonder no telefone. My Cherie Amour.

Parker apontou um dedo a Ruiz.

- Já chegou o papel do tribunal para o cofre do Lowell no banco?

- Ainda não.

- Langfield. De que é que precisas, Parker?

- Dum mandado de busca para um carro que acho que foi usado para fugir dum assalto.

- Achas?

- Um carro cuja descrição confere foi utilizado numa fuga. Tenho uma matrícula parcial e um estrago recente num farolim. O carro que fugiu do local foi atingido por uma carrinha e ficou com um farolim partido.

- Onde está o carro? Encontraste-o abandonado?

- Não. Está em Chinatown. É duma senhora toda chateada que não está muito disposta a cooperar comigo.

- E que diz ela sobre o carro?

- Que não foi utilizado ontem e que o farolim ficou partido num estacionamento em Beverly Hills.

- Tens um suspeito? Ela é suspeita?

- A mulher não é suspeita, mas acho que sabe mais do que diz. Se conseguir obter impressões digitais que coloquem o meu suspeito dentro do carro...

- Quer dizer que andas à pesca.

- E aquele carro.

- Em Los Angeles não existem mais carros que condigam com a descrição?

Parker soltou um suspiro.

- De que lado estás tu, Langfield?

- Do meu. Não te dou um mandado que só podes justificar depois da busca. As provas nunca seriam admitidas por um juiz. Consegues relacionar o teu suspeito com essa mulher?

- Ainda não.

- Então, estás a zero.

- Tenho o carro, o estrago no carro, a matrícula parcial...

- Zero. Com o que tens, nem podes ficar sentado a olhar para o carro.

- Bom, obrigado por me estragares a festa - respondeu Parker esfregando a testa. - Podias ajudar-me, Langfield. O juiz Weitz assinava...

- O juiz Weitz está senil e eu não violo a lei por tua causa, Parker. És o autêntico exemplo do que acontece quando os chuis fazem desvios. Não vou colaborar...

Parker atirou o auscultador para cima da secretária de Kray, com Langfield ainda a pregar.

- Cretino - resmungou Parker, afastando-se e tentando acalmar-se. Não podia perder de vista o seu objectivo. Voltou para trás e tornou a pegar no auscultador. - Há marcas de tinta nos estragos do carro. Se eu conseguir provar que a tinta é da carrinha que lhe bateu...

- Resolves um acidente de trânsito e não tens motivo para entrar no carro.

- Isso é treta! O carro estava a abandonar o local dum crime!

- Faz as coisas precipitadamente, e tudo o que encontrares que pudesse levar ao teu suspeito vai ser recusado, porque a busca foi ilegal. Queres que mais um se safe porque tu...

Parker atirou de novo com o auscultador, mas dessa vez saiu mesmo da sala. Foi à casa de banho dos homens, lavou a cara e depois colocou os pulsos debaixo da torneira da água fria.

Olhou para o espelho, mas não perguntou à sua imagem quanto tempo ia ser obrigado a pagar pelo crime de arrogância. Não valia a pena pensar outra vez que fora escolhido como bode expiatório e que isso não era justo.

Nunca procurava desculpas. O que acontecera, acontecera. Mesmo que os outros o não fizessem, ele tinha de deixar aquilo no passado e responsabilizar-se pelo seu presente. Havia de arranjar maneira de apanhar o carro. Não podia perder tempo e energia a sentir-se zangado por as coisas não serem fáceis.

Quando voltou para a sala, o auscultador do telefone de Kray continuava fora do descanso, a tocar Isn’t She Lovely.

O comandante Fuentes saiu do gabinete e fez sinal com um dedo.

- Kev? Podes vir aqui?

Parker seguiu-o e fechou a porta atrás de si.

- Não fui eu. Não é meu. E juro que ela tinha dezanove anos.

Fuentes, que era bom tipo e possuía um sentido de humor fácil, não se riu. Quando ficava assim sério, os olhos dele, pretos e tristonhos, pareciam suportar todas as desgraças do mundo.

- Estás com ar de quem vai dizer-me que tenho seis semanas de vida - comentou Parker.

- Recebi uma chamada há bocadinho. A Brigada de Roubos e Homicídios vai ficar com o teu caso.

Parker abanou a cabeça. A raiva pareceu começar a ferver-lhe nos pés e a trepar por ele acima. Aquilo era pior do que dizerem-lhe que lhe restavam seis semanas de vida. Em seis semanas, pelo menos podia tentar salvar-se. Estava a perder o seu caso nesse dia, nesse momento, não daí a seis semanas. O primeiro caso que lhe aparecia nos últimos anos que lhe cheirava a coisa importante, o género de caso em que um detective se regalava - ou com o qual se libertava do purgatório.

- Não, o Lowell, não - disse ele.

- Tenho as mãos atadas, Kev.

- Deram alguma explicação? - Estava a imaginar a cena que Diane lhe descrevera ao telefone. Bradley Kyle e o sócio, Moose Roddick, com Tony Giradello, em confidências.

- O comandante Florek disse-me que acham que talvez tenha ligação com outra coisa que já está com eles.

Acabo de ouvir o teu nome numa conversa...

- Só disse isso - continuou Fuentes. - Sabes tão bem como eu que não precisam dum motivo. Ele podia ter dito ”porque o céu é azul”, e eu era obrigado a aceitar. Lamento, Kev.

Não, agora não, pensou Parker. Não quando estava tudo logo abaixo da superfície e só precisava de escavar mais um bocadinho, durante mais um tempo.

- Podes fingir que ainda não tivemos esta conversa sugeriu.

- Kev...

- Eu não estou cá. Não me viste. Não consegues contactar-me pelo rádio e o meu telemóvel não funciona.

- Kev, não vais solucionar o caso nas próximas três horas, pois não?

Parker ficou calado.

- Eles querem tudo o que tiveres - disse Fuentes. Reúne o material e leva-o ao Centro Parker.

- Não.

- Kev...

- Não vou fazer isso. Não vou lá. Se o Bradley Kyle quer este caso, o estuporzinho que venha cá buscá-lo. Eu não vou lá como um, como um...

Parker tapou a boca com a mão, calando-se antes de perder por completo o controlo. Respirou fundo. Olhou para Fuentes, como que a incitá-lo a dizer o que queria ouvir, mas o chefe limitou-se a olhar para ele com uma expressão demasiado próxima da piedade.

- Não me viste - disse Parker em voz baixa. - Nós não falámos um com o outro.

- Não posso empatá-los durante muito tempo.

- Eu sei - disse Parker com um aceno de cabeça. Faz o que puderes. Eu agradeço, meu comandante.

- Sai daqui - exclamou Fuentes, sentando-se atrás da secretária. Pôs os óculos no nariz adunco e estendeu a mão para um monte de papelada. - Não te vi e não falámos um com o outro.

Parker saiu do gabinete de Fuentes, fechando a porta atrás de si. Ruiz observava-o que nem um falcão. Bom instinto, quando se dispunha a utilizá-lo, pensou Parker.

Ela ficara com o homicídio de Eta Fitzgerald, homicídio ligado ao advogado. De qualquer maneira, continuaria ligado ao caso que lhe interessava, e Bradley Kyle não se livraria dele com tanta facilidade.

Ruiz levantou-se e foi ter com ele.

- Já chegou o papel do tribunal. O que é que se passa?

- perguntou ela em voz baixa.

- A Brigada de Roubos e Homicídios vai ficar com o Lowell.

- Porquê?

- Porque podem.

Parker sentia a cabeça como se estivesse cheia de abelhas. Precisava duma estratégia, de andar depressa, de provocar uma oportunidade. Em relação ao caso, restavam-lhe apenas umas horas de vida.

- O que vais fazer? - perguntou Ruiz.

Antes de Parker poder formular uma resposta, Obidia Jones deu um grito, excitado.

- É ele! Cá está o homem que procura, aqui mesmo!

- disse o velhote, batendo com a ponta dum longo indicador esquelético numa fotografia no livro diante de si.

Parker e Ruiz foram os dois ter com ele, Ruiz apertando o nariz com dois dedos.

- Quem é que tem aí, Mister Jones? - perguntou Parker.

O velhote fez deslizar o dedo de cima da cara, revelando exactamente o que lhes dissera antes: uma cabeça como um bloco de pedra, com olhos pequeninos e maldosos e a sombra escura duma barba feita várias horas antes. Eddie

Boyd Davis.

- Mas trazia um penso por cima do nariz - disse Jones. - Como se alguém lho tivesse partido.

- Mister Jones, o senhor é um excelente cidadão declarou Parker. - Acho que Miss Ruiz devia dar-lhe uma beijoca na boca.

Jones pareceu ficar escandalizado e esperançado ao mesmo tempo.

- Mas é contra o regulamento - disse Ruiz. Parker olhou de novo para a cara do homem que matara Eta Fitzgerald a sangue-frio. Foi a sua vez de tamborilar sobre a fotografia. Depois, dirigiu-se a Ruiz, falando baixo:

- Descobre-me tudo o que puderes sobre este cão. Quero saber se há alguma ligação com o Lenny Lowell. E, se o Bradley Kyle aparecer por cá, não sabes, não me viste.

- Quem me dera - resmungou ela.

Mas o pensamento de Parker já estava longe dali.

- És um amor - disse ele, com uma palmadinha na cara dela.

Abriu duas gavetas, tirou de lá uma pasta, juntou-lhe uns papéis dum cesto em cima da secretária, recolhendo tudo o que estava relacionado com o homicídio de Lowell, relatórios, esboços do local do crime, polaróides, excepto os seus apontamentos pessoais. Enfiou aquilo tudo numa caixa de plástico que guardava debaixo da secretária precisamente para aquele fim e depois aproximou-se da secretária da rapariga para utilizar o telefone.

- Não vais ver-me sair daqui com aquela pasta - disse ele, marcando o número da esquadra de Hollywood. Está bem?

- Está - respondeu ela, embora com alguma hesitação.

- O caso é teu também - disse Parker. - Lowell e Fitzgerald: quem fica com um fica com o outro. É isso que tu queres?

- São os da Brigada de Roubos e Homicídios. Eles fazem o que querem e não podes impedi-los.

Parker olhou para ela com uma expressão dura.

- Entregas-me ao Bradley Kyle e arranjas um inimigo que vais desejar não ter.

- Credo, já disse que está bem - concedeu ela de má vontade. - Não te ponhas com ameaças.

- Que é que fazes? - troçou ele. - Chamas o Departamento dos Assuntos Internos?

- Vai-te lixar, Parker. Só quero que não me metas nisso. Era mulher para o vender sem hesitar, pensou Parker,

lembrando-se da previsão de Diane. Vendia-o a Kyle porque Kyle podia fazer com que reparassem nela dentro da Brigada de Roubos e Homicídios.

- Polícia de Los Angeles. Divisão de Hollywood. Com quem deseja falar?

Parker não respondeu e desligou. Estendeu a mão e pegou num dicionário, colocando-o em cima do mata-borrão

- A tua lição para hoje - disse ele. - Procura a palavra parceiro: Depois ligo para ti.

Agarrou na caixa de plástico e saiu da sala. Daí a pouco saía também do edifício. Restavam-lhe apenas algumas horas de vida e não podia perder um minuto.

 

Parker ligou para Joel Coen do carro a caminho da agência do Banco Nacional onde se encontrava o cofre particular de Lenny Lowell.

Coen atendeu ao segundo toque. Ainda era suficientemente jovem para se mostrar zeloso.

- Joel, é o Kev Parker. Tenho uma coisa para ti sobre o assalto ao Lowell, mas precisas de andar depressa, percebes?

- O que é?

- Tenho o carro da fuga. Está parado nas traseiras duma peixaria em Chinatown. É um Mini Cooper preto, com o farolim esquerdo partido, e uma matrícula parcial coincidente.

- Credo, como é que arranjaste isso tão depressa?

- Sou hiperactivo. Sabes de que cor era a carrinha?

- Prateada.

- Exactamente. Não consegui arranjar um mandado... circunstâncias atenuantes... mas tu não tens problemas. Liga para o gabinete do procurador distrital e certifica-te de que não falas com o Langfield. Quando conseguirem as impressões digitais, tens de garantir que vão parar às mãos da Joanie. Diz-lhe que fui eu que te mandei lá e que tem de procurar iguais às do meu homicida.

- Entendido.

- E despacha-te, Joel. Vem aí uma tempestade de merda. Se a Brigada de Roubos e Homicídios ouve falar do carro, ele desaparece e o teu caso também.

- Os da Brigada de Roubos e Homicídios? Porque haviam eles de...?

- Não perguntes. Quanto menos souberes, melhor. Pira-te para Chinatown. Tenho lá um piquete a tomar conta do carro.

Deu a morada a Coen e desligou no momento em que avistou o banco. Quase à espera de ver Bradley Kyle e o parceiro à porta, Parker estacionou e entrou no banco, com a ordem do tribunal na mão.

O gerente examinou minuciosamente o documento e depois conduziu-o ao andar inferior, aos cofres particulares. O de Lowell era do tamanho maior. Colocaram-no em cima duma comprida mesa de nogueira numa sala privada. Parker calçou umas luvas de borracha, respirou fundo e levantou o tampo.

Dinheirinho fresco e verde. Maços e maços de notas de cem dólares. Parker tirou-os da caixa e colocou-os em cima da mesa. Vinte e cinco mil dólares. E, debaixo do dinheiro, no fundo da caixa, um pequeno envelope contendo um único negativo fotográfico e um talão de depósito bancário com uns números rabiscados nas costas.

- Ora o nojento filho da mãe - murmurou Parker. Não precisava de saber de quem era a fotografia para perceber do que se tratava. Chantagem.

Voltara-se contra um dos próprios clientes. Só podia ser isso. Lowell colocara alguém contra uma parede e empurrara. O que explicava o andar num condomínio caro, o Caddilac novo e aquele dinheiro.

Levantou o negativo contra a luz e viu duas pessoas fotografadas de longe. Possivelmente a trocar um aperto de mão ou outra coisa qualquer. Era impossível ter a certeza. A primeira linha de algarismos escritos no talão de depósito parecia formar um número de telefone do estrangeiro. A linha a seguir podia ser o número duma conta, pensou, e lembrou-se de ter encontrado o prospecto de viagem no chão do escritório de Lenny Lowell. As ilhas Caimãs. Um sítio encantador para visitar - ou para esconder dinheiro numa conta secreta.

Parker voltou a meter o negativo e o talão no envelope. Pediu um saco ao gerente para guardar o dinheiro, marcou-o como prova e colocou tudo num saco de papel que levara consigo.

A viagem no elevador para o rés-do-chão foi feita em silêncio. Se o gerente do banco estava intrigado com o que se passava, não o deu a entender. O mais provável era já ter visto chuis tirar coisas mais estranhas do que dinheiro de caixas de clientes. O próprio Parker abrira uma vez a caixa do cofre particular dum suspeito de homicídio e encontrara uma colecção de dedos mumificados.

A porta do elevador abriu-se, emoldurando um retrato vivo de Abby Lowell sentada num banco de mármore, à espera. Possuía um guarda-roupa e pêras para uma estudante de Direito. Fato de saia e casaco de pêlo de camelo com a saia travada e o casaco justo tipo anos 40, com um cinto estreito de crocodilo castanho. Sapatos a condizer, e carteira também. Talvez valesse a pena ser filha dum chantagista.

Num elegante movimento, ergueu-se do banco no instante em que Parker saía do elevador. Olhou directamente para ele, com uma expressão calma embora mostrando uma dureza subjacente que devia acagaçar os tipos da idade dela.

- Encontrou os documentos do meu pai?

- E muito bom dia para si, Miss Lowell. Estou a ver que sobreviveu à noite. Belo fato. Pradal

Ela não respondeu, mas começou a andar ao lado dele, a caminho da porta.

- Encontrou os documentos do meu pai? - tornou a perguntar.

- Por assim dizer.

- Que significa isso?

- Nem o testamento nem a apólice de seguro estavam no cofre - esclareceu Parker, pondo os óculos escuros sem se deter. Os saltos dos sapatos de crocodilo da rapariga batiam um ritmo staccato no chão de pedra.

- Então, o que é isso que leva aí no saco?

- Provas.

- Provas de quê? O meu pai foi a vítima.

- O seu pai morreu - disse o detective. - Tudo o que eu possa encontrar que aponte para o motivo da sua morte ou para quem o matou constitui prova, quanto a mim. Não se preocupe. Há-de acabar por receber tudo... a não ser que se descubra que foi você quem o matou.

A rapariga inspirou como quem vai falar, mas arrependeu-se. Estava com uma expressão frustrada.

- O que se passa, Miss Lowell? Não consegue arranjar maneira de fazer a pergunta sem se incriminar?

As portas abriram-se diante deles, que saíram para a sombra dum toldo. A manhã estava já duma claridade que cegava. - Não aprecio insinuações - disse ela, furiosa. - Eu gostava do Lenny.

- Mas foi você mesma que disse que ele não era grande coisa como pai - lembrou Parker. - Que, quando era pequena, ele a levava atrás como quem leva um bocado de papel higiénico preso ao sapato. Isso deve tê-la magoado. As garotinhas adoram os pais e querem ser amadas por eles.

- Não preciso de ser psicanalisada por si - explodiu ela. - Já pago bastante a outra pessoa para o fazer.

- Realmente, tem uns gostos muito ao estilo de Beverly Hills, Miss Lowell - comentou Parker. - A maior parte dos estudantes que conheço tem orçamentos muito limitados. Era o Lenny que pagava a conta do seu estilo de vida? Nunca imaginaria que ele ganhasse tanto dinheiro a defender as pessoas que defendia. Tinha outra fonte de rendimentos?

- Eu tenho o meu dinheiro - disse ela. - Era da minha mãe. Não que seja da sua conta.

- Então talvez fosse você a manter o estilo de vida dele - sugeriu Parker. - Um andar na baixa, o Caddie

novo...

- E quem é que paga o seu estilo de vida, detective?

- perguntou ela, incisiva. - Sapatos Gucci, fato Canali... Nunca imaginei que ganhasse tanto como funcionário público.

Parker acusou o toque com um aceno de cabeça.

- Touché, Miss Lowell.

- Aceita subornos? - perguntou ela. - Aldraba os casos? Ou saca dinheiro a passadores de droga?

- Não, mas acho que o seu pai estava a fazer chantagem com alguém - respondeu ele abruptamente. - Acabo de tirar vinte e cinco mil dólares do cofre particular dele.

Se não ficou chocada, era uma excelente actriz, pensou Parker. Os olhos castanhos abriram-se muito e alguma da cor fugiu-lhe das faces. Desviou o olhar, tentando recompor-se, e depois tirou um par de óculos de sol Dior da carteira.

- Donde acha que veio este dinheiro todo? - perguntou o detective.

Começou a dirigir-se para o carro, cujas portas abriu com o controlo remoto. Não falou no negativo, só para ver se ela perguntava se estava mais alguma coisa no cofre. Mas, se queria saber, era demasiado esperta para o dar a entender.

Parker deitou-lhe uma olhadela.

- Tem alguma ideia?

- Não.

- Está muito enganada se julga que sou parvo, Miss Lowell. - Guardou o saco de papel na mala do carro e fechou-a. - O seu pai foi assassinado e o assassino telefonou-lhe para o seu telemóvel para lhe dar a notícia. Depois, assalta-lhe a casa, revira tudo e ameaça matá-la, mas a senhora garante que não sabe de que anda ele à procura. Está desesperada para apanhar o cofre particular do seu pai, e então eu encontro lá vinte e cinco mil dele e diz-me que não sabe de que se trata. Talvez julgue que me deixaram cair de cabeça no chão quando eu era pequeno!

Ela não encontrou resposta. Levou a mão elegantemente tratada aos lábios, como parecia fazer sempre que alguma coisa se tornava demasiado difícil para ela. O outro braço serviu para lhe amparar o estômago.

Num gesto de apoio, de conforto, pensou Parker. Era coisa que provavelmente aprendera a fazer em pequena, sentada ao lado do pai distraído nas corridas de cavalos. Fosse qual fosse a sua opinião dela, sentia pena da criança solitária que devia ter sido.

A rapariga voltou-se, num lento semicírculo, sem saber para onde ir. Não podia fugir, não podia esconder-se.

- Com quem é que ele fazia chantagem? - perguntou Parker.

- Não acredito que fizesse - respondeu ela, mas sem olhar para o detective.

- Conhece um tipo chamado Eddie Boyd Davis?

Ela abanou a cabeça, lutando contra as lágrimas, travando uma espécie de batalha interior que Parker não conseguia identificar.

- Se sabe alguma coisa acerca deste assunto, chegou o momento, Abby - insistiu Parker. - Trate de salvar-se antes que seja tarde de mais. O seu pai desapareceu e o assassino tem-na a si na mira. Não vale a pena morrer por um saco de dinheiro.

Os ombros dela subiram e desceram, com um profundo suspiro, e a rapariga pareceu recompor-se.

- Não pago impostos para você me servir e me proteger? - perguntou ela. - É suposto evitar que me matem.

- Não posso lutar contra uma coisa que desconheço,

Abby.

- O que é que não sabe? - perguntou ela, impaciente e frustrada. - Porque não consegue encontrar o tal estafeta?

- Não me parece que o estafeta tenha alguma coisa a ver com isto - declarou o detective.

- Ele atacou-me!

- Isso não tem pés nem cabeça.

- Está a chamar-me mentirosa?

- Se ele tivesse morto o seu pai por causa do dinheiro no cofre, porque havia de continuar por aqui e ir visitá-la?

- perguntou Parker.

- Não sei! Talvez seja tarado e nos tenha marcado, ao Lenny e a mim.

- Isso só acontece nos filmes, querida - afirmou Parker. - O rapaz foi ao escritório do seu pai por acaso. Acho que foi uma questão de estar no sítio errado à hora errada.

Mesmo através dos óculos de sol, viu que ela estava lívida.

- Ah, estou a perceber - disse ela bruscamente. Foi à minha casa e atacou-me, mas não passa dum espectador inocente? E eu sou o quê? A maquiavélica femme fatale? Olhe que para fantasia...! Belo papel que você me deu no seu filme negro.

- É assim que funciona - respondeu Parker. - Eu vejo a coisa desta maneira: o Lenny andava a chantagear alguém e foi morto por isso. E, sim, acho que você está metida na coisa até ao seu lindo queixinho.

- Dava-lhe um estalo, se não pensasse que me prendia logo a seguir - disse ela.

- Não vale a pena, Miss Lowell. Se não abre o jogo, vou ter muitos mais motivos para a prender.

Ela abanou a cabeça e afastou o olhar.

- Não consigo acreditar que isto esteja a acontecer.

- Não? Bom, a verdade é que parece não ter ficado muito surpreendida pelo facto de alguém ter desfeito a cabeça do seu pai. Diria mesmo que tem uma maneira muito estranha de ver as coisas, se pensa que eu sou o seu pior problema.

Nesse momento, ela deu-lhe um estalo com toda a força. Parker sentiu a cara a arder e um zumbido no ouvido. O detective sacudiu a cabeça.

- Bom, realmente foi como se eu lhe desse autorização para fazer isso.

Os lábios dela formaram uma linha que exprimia aversão.

- Estou farta de si, detective Parker.

Deu meia volta como um soldado e marchou dali para fora, com a carteira de crocodilo apertada debaixo do braço. O carro dela estava estacionado a pouca distância; um BMW Série 3 azul, descapotável. Novo. Antes de entrar, voltou-se para ele.

- O seu chefe vai ter notícias minhas.

- Tenho a certeza de que vai adorar.

Parker ficou a vê-la tirar o carro e a afastar-se, com a prioridade de fazer com que o retirassem do caso.

- Lamento, miúda - resmungou ele, sentando-se ao volante do Sebring. - Houve quem pensasse nisso primeiro.

 

Parker dirigiu-se ao portão do estúdio da Paramount e acenou ao segurança.

- Prazer em vê-lo, Mister Parker.

- Igualmente, BUI.

- Vem falar com Mister Conners?

- Hoje não. Preciso de falar com o Chuck Ito. Ele está à minha espera.

O guarda tomou nota e fez-lhe sinal que entrasse.

O gabinete de Chuck Ito ficava num edifício nas traseiras das instalações. Trabalhava na indústria cinematográfica, mas o seu passatempo era a fotografia, e juntara todos os melhores e mais recentes apetrechos ali no gabinete, incluindo-os como despesas profissionais na declaração de impostos.

- Olha o que o gato trouxe na boca! - foi o cumprimento de Ito. Parker conhecia-o ia para cinco anos, e a recepção era sempre a mesma.

- O meu fato fica ofendido com o subentendido desse comentário - disse Parker.

- Como? Ele só fala italiano - respondeu Ito. - Portanto, não sabe se eu estou a insultá-lo ou não.

Olhou para o relógio e fez uma careta.

- Temos de tratar disto rapidamente, Kev. Tenho uma reunião daqui a dez minutos que é muito mais importante do que tu.

Parker pareceu perturbado.

- Quem é que é mais importante do que eu?

- Mais ou menos toda a gente.

- Isso é duro de ouvir.

Parker deixou-se cair numa cadeira e atirou com o envelope do cofre particular de Lenny Lowell para cima da secretária.

Ito pegou nele.

- O que me trazes aqui, Kev? Alguma coisa que me faça ir preso? - Tirou de lá o negativo e colocou-o contra a luz. - Quem são?

- Eu dizia-te, mas depois tinha de te matar.

- Então, tem alguma coisa a ver com a tua vida secreta como mulher?

- Vou deixar passar isso, em atenção ao tempo - declarou Parker. - Arreio-te depois. Preciso disso revelado o mais depressa possível.

Ito olhou para ele como se o achasse estúpido.

- Vai ao centro comercial. Eles fazem isto numa hora.

- Ou um fedelho que ganha o ordenado mínimo dá cabo dele por acaso. É uma prova num caso de homicídio.

- Então, porque não o levas aos laboratórios da polícia?

- Estás a brincar, não? Era uma sorte se o recebesse no Natal, quando muito. Acho que só têm um funcionário e devias ver o tipo de equipamento que usam.

Era uma mistura de verdade e exagero. O público em geral tem sido levado a pensar que todos os laboratórios criminais do país são iguais aos da série CSI, quando na realidade nenhum é. A grande maioria tem falta de pessoal e de fundos e está sobrecarregado. Em Los Angeles, o laboratório ficou famoso por tornar provas de ADN o assunto falado em todo o mundo durante o julgamento de O. J. Simpson, mas tem três pessoas a tratar das provas de ADN, e a maior parte das vezes o que descobrem só surge muito depois do fim dum julgamento.

Além disso, Parker não podia contar a Ito que não devia exactamente estar na posse daquela prova. Se conseguisse que lhe revelassem aquilo, veria com quem estava a lidar e ficaria bem à frente dos tipos da Brigada de Roubos e Homicídios. Por isso não marcara e guardara o negativo no banco. Queria ter primeiro a fotografia, e então já podia constituí-lo prova, e ninguém saberia.

- Preciso disso o mais depressa possível.

- O mais depressa possível para mim, hoje, vai ser do tipo lá mais para a noite. À hora do jantar. Posso mandar um dos meus assistentes...

- Não. Não posso ter uma data de gente a mexer nesta coisa.

- Posso ir para a cadeia por causa disto, não posso? -

perguntou Ito.

Parker fez uma careta

- Para a cadeia? Não... Para os trabalhos forçados, talvez. Tens cadastro?

- Que amigo me saíste - disse Ito, fingindo-se aborrecido.

Parker levantou-se e dirigiu-se para a porta.

- Não há problema, mas não digas a ninguém que o tens - salientou o detective, como despedida, com um aceno casual. - Se te apanharem com ele, não te conheço.

Chantagem. Parker deu voltas à palavra mentalmente, ao volante do carro de volta para a baixa. Se Eddie Davis fosse realmente uma das pessoas na fotografia, isso dava-lhe um forte motivo para matar Lowell. Se os dois tivessem estado metidos em alguma coisa juntos, um podia ter-se voltado contra o outro por ganância. Mais um bom motivo.

Fosse como fosse, Davis andava atrás do negativo. Por isso revistara o escritório de Lenny e lhe rebentara as janelas do carro. Teria feito o mesmo em casa do advogado, se ele não vivesse num prédio com segurança. Provavelmente, fora também Davis o assaltante da casa de Abby Lowell. O negativo explicava provavelmente o subentendido da mensagem rabiscada com batom no espelho da casa de banho da rapariga. À PRÓXIMA MORRES... Se não me entregas o negativo.

Mas devia haver mais do que um. Parker calculava que o do cofre particular era uma espécie de seguro, uma coisa a que o advogado podia agarrar-se, se fosse preciso. E Parker estava com um palpite de que a pessoa que os detinha era J. C. Damon, provavelmente sem fazer ideia do que eram.

O telefone tocou, interrompendo-lhe os pensamentos.

- Parker.

- Bom, como tu não tens amigos, liguei a um dos meus - disse Andi Kelly. - Não há nenhum Davis na Brigada de Roubos e Homicídios.

- Eu sei.

- Como é que sabes? - Pareceu ofendida por não ser a grande notícia que imaginava.

- Porque sou melhor do que tu, miúda. Kelly deu uma gargalhada.

- Que disparate!

- Sei, porque uma testemunha identificou o Davis esta manhã nas fotografias dos cadastrados.

- Foi ele que matou a mulher ontem à noite?

- O caso não é meu - respondeu Parker. - Tens de falar com a Ruiz.

- Não gosto dela.

- Ninguém gosta dela - declarou Parker. - É malcriada, desagradável e porta-se como uma fedelha. Além de que não é uma mulher cá das nossas.

- Como é que sabes o que isso é? Os homens nunca percebem.

- Estou em contacto com o meu lado feminino - explicou Parker.

- Ela vende-te por um cêntimo e ainda dá troco - disse Kelly.

- Bom, existe definitivamente alguma verdade nisso

- resmungou Parker, pensando se Ruiz não estaria nesse momento a vendê-lo a Bradley Kyle, descrevendo em pormenor cada papel que ele trouxera consigo.

- Tu é que estás a conduzir o estágio dela - insistiu Kelly. - Tira-lhe o caso. Fica com ele. O que te importa se ela te odiar?

- Já odeia.

- Estás a ver?

- Pronto - anuiu Parker, resignado. Kelly parecia um terrier Jack Russel. Quando queria uma coisa, não largava a presa. Agarrava uma história com os dentes e não a soltava, acontecesse o que acontecesse. - Sim, gosto do Davis para o crime de ontem à noite.

- Por que motivo?

- Ainda estou a trabalhar nisso - respondeu Parker.

Mas aposto que foi à Expresso-Estafetas para se informar quanto ao tal estafeta.

- O estafeta. E ele não era ”uma pessoa que nos interessa” ontem à noite?

- Continua a ser uma pessoa que nos interessa. Mas não o considero suspeito. Preciso de falar com ele, antes que os da Brigada de Roubos e Homicídios se metam e estraguem tudo. Eles ficaram com caso do Lowell.

- Estás a brincar. Porque haviam de se interessar?

- É o que estou a tentar descobrir.

- E contas-me quando descobrires?

- És a única camarada que tenho nisto, Andi - disse ele em tom sério. - Só há maus espíritos à minha volta. Não me faças pensar que estás a utilizar-me como um gigolô barato.

- Sabes bem que não, Kev - retorquiu ela. - Nada em ti é barato. Eu diria que te topo de costas, mas preferia a frente. E gosto bastante da ideia de fazeres de gigolô.

- Minha grande desavergonhada!

- Pois. Sabes que estou quase nos quarenta, e não tenho tempo a perder. E depois, alguma vez te deixei ficar mal?

Parker ignorou a oportunidade para continuar com os subentendidos.

- Não, nunca - reconheceu ele, com um suspiro. O comandante da Brigada de Roubos e Homicídios disse ao meu chefe que acham que o homicídio do Lowell pode estar relacionado com um caso em que estão a trabalhar.

Kelly ficou calada tempo suficiente para Parker pensar que talvez a chamada tivesse caído.

- E cá voltamos nós à conversa do Bradley Kyle e do Moose Roddick com o Tony Giradello, com o teu nome no meio da conversa - disse ela por fim.

- Exactamente - anuiu Parker. - Estou a ver daqui um esquema de chantagem, Andi.

- Quem contra quem e para quê?

- Ainda não sei, mas já morreram duas pessoas. E há um único caso do Bradley Kyle com uma parada tão alta.

- O da Tricia Crowne-Cole.

 

Jotacê prendeu a bicicleta a um parquímetro e entrou no bar. Era pequeno, escuro e húmido, com redes de pesca, bóias e coletes de salvação pregados às paredes. Tresandava a cerveja e cigarros, desafiando descaradamente as leis antitabaco do estado. Uma mesa de frequentadores habituais sentia-se à vontade para olhar desaprovadoramente para qualquer recém-chegado. Seguiram Jotacê com os olhos da porta até ao balcão.

O rapaz manteve a cabeça baixa e sentou-se num banco na ponta mais afastada. Pediu um hambúrguer e uma água com gás, ignorando a necessidade que sentia duma bebida forte para atenuar o seu sofrimento físico e emocional.

O televisor pendurado do tecto na outra ponta do balcão estava ligado para um noticiário sobre os tribunais, focando o julgamento do caso Cole. Martin Gorman fazia uma declaração dum pódio adornado com um ramo de microfones. Interromperam-no para mostrar o assistente do procurador distrital, Giradello, a fazer exactamente a mesma coisa num local diferente.

A defesa apresentara uma moção para excluir qualquer menção do passado de Rob Cole - drogas, dinheiro, mulheres - com base no facto de as provas irem criar preconceitos no júri. Giradello argumentava que o passado de Cole devia ser admitido como prova para estabelecer um padrão de comportamento. O juiz decidiu a favor da acusação, um rude golpe para Gorman. Este queixou-se do facto de Norman Crowne tentar comprar a justiça e, com mais força ainda, de parecer estar a consegui-lo.

Trouxeram-lhe o hambúrguer e Jotacê deu-lhe uma dentada, com os olhos postos no televisor. A decisão devia ter sido a favor da defesa, pensou. O valor probatório da prova não se sobrepunha à natureza preconceituosa dos factos do passado de Cole.

Se Cole era um falhado devido às drogas, ao dinheiro e às mulheres, que tinha isso? Nenhuma dessas coisas apontava para um criminoso violento. Nunca tentara assassinar fosse quem fosse. A imprensa nunca mencionara violência física de Cole contra a mulher. E não existia qualquer padrão de comportamento violento. Jotacê calculou que, se ele alguma vez tivesse tocado com um dedo em Tricia, o pai dela teria caído sobre ele como uma tonelada de tijolos, e os mexericos ter-se-iam espalhado por Los Angeles como um incêndio florestal.

Mas a decisão fora favorável à acusação e, se isso era um indicador de como ia decorrer o resto do julgamento, Martin Gorman estaria em dificuldades.

Aliás, Gorman provavelmente estava certo. Norman Crowne exercia uma influência tremenda na política de Los Angeles e os seus bolsos eram praticamente sem fundo.

Jotacê relembrou a noite em que fora buscar a encomenda de Lenny Lowell. Estavam a fazer um relatório na televisão sobre o caso Cole, e o advogado comentara: ”O Martin está a apostar num jogo com o resultado combinado. O dinheiro fala. Lembra-te disso.”

Perguntou a si próprio se Lenny sabia aquelas coisas por ter informações internas sobre o caso ou por ser um fala-barato que gostava de dar a entender que era mais importante do que alguma vez seria na realidade. Talvez pelos dois motivos.

De certeza sabia alguma coisa sobre alguém. As pessoas no negativo que trazia colado à barriga. E isso, o que os negativos significavam, possuía muito valor para essa pessoa, se não, não valia a pena chantageá-lo ou chantageá-la.

Os advogados como Lowell não defendiam clientes importantes, nada de celebridades ou milionários. Portanto, se não estava a defender as pessoas nos negativos, como saberia o motivo para a chantagem?

A única escolha óbvia era alguém, um cliente, ter-lhe contado alguma coisa, colocando-o numa posição que lhe permitira agir.

As imagens voltaram a mostrar Giradello. Era um filho da mãe com aspecto duro, de alguém que não convinha contrariar. Se Rob Cole possuísse uma célula cerebral na cabeça, devia utilizá-la para descobrir maneira de evitar o assistente do procurador distrital. Fazendo um acordo, enforcando-se na cela, ou qualquer coisa.

Giradello não desferia golpes no tribunal. Atacava logo a matar. Ia fazer picadinho de Rob Cole, talvez até lançar a sua carreira política a partir do cadáver ensanguentado de Rob Cole. Se conseguisse tramar Cole, ganharia a eterna gratidão de Norman Crowne.

Crowne e o filho foram convidados a comentar a decisão do juiz. O velhote mostrou-se calmo e digno. O filho, Phillip, emocional, radiante com a decisão, melancólico a respeito da irmã, depois furioso com Cole e novamente melancólico. A exibição pareceu estranha a Jotacê, que pensou se o Crowne mais novo estaria drogado.

- Eu acho que deviam deixar o Rob Cole em paz disse uma das clientes habituais do bar, uma loira oxigenada com um corpete muito justo que lhe acentuava os pneus de gordura em volta da cintura.

- Tu queres é foder com ele, Adele! - exclamou um indivíduo a ficar careca e que usava um tipo de roupa há tanto tempo que estava a ficar outra vez na moda.

- E depois? Ele é muito mais giro do que tu!

- E muitíssimo mais do que tu. Ouvi dizer que é paneleiro. Seja como for, estou mas é farto destas celebridades que acham que ficam sempre impunes, até dum homicídio. Oxalá lhe fritem o coirão.

- Já não fazem isso, meu anormal. Agora é a pica. Injecção letal.

- É demasiado fácil. Quando atavam um gajo à velha fritadeira é que era. Aí sim, sabia que as dores iam ser a sério.

- Isso é uma crueldade e já não se usa.

- Quero lá saber. O estupor está ali sentado porque matou a filha ou a mulher ou seja lá quem for. Porque havemos de lhe facilitar as coisas?

Jotacê desligou da conversa. Estava-se nas tintas para Rob Cole. O tipo era um falhado. Mau actor e usava umas ridículas camisas desportivas.

Acabou o hambúrguer, desceu do banco e foi à procura dum telefone público na rua. Meteu as moedas e marcou o número de Abby Lowell. A rapariga atendeu ao terceiro toque.

- Está?

- Miss Lowell. Conheceu-me ontem aí em sua casa. Silêncio. Depois:

- Sim?

- Tenho uma coisa que acho que pode interessar-lhe. Um envelope com uns negativos.

- Não sei de que está falar.

- Vamos deixar-nos de joguinhos - propôs Jotacê. Eu tenho os negativos com que o seu pai estava a fazer chantagem.

Ela ficou calada, mas o silêncio parecia carregado.

- Eu não os quero - continuou Jotacê. - Só me têm arranjado sarilhos.

- O que o leva a pensar que eu os quero? - perguntou ela.

- Talvez não queira. Talvez seja melhor entregá-los à polícia. Silêncio.

- Valem dinheiro para alguém, e eu estou a dar-lhe a primeira oportunidade.

Outro longo silêncio. Por fim:

- Quanto?

- Dez mil.

- Isso é uma data de dinheiro.

- Não, não é. Mas eu quero ver-me livre disto e é o meu preço.

Jotacê ficou à espera.

- Onde e quando?

- Vá ter comigo a Pershing Square às cinco e um quarto. E vá sozinha.

Jotacê desligou o telefone e ficou parado no mesmo sítio, com o olhar perdido. O sol iluminava a vida diária naquela parte insignificante da cidade. Os carros passavam. As pessoas andavam para baixo e para cima. Cartazes nas montras anunciavam saldos em duas línguas.

Acabava de armar o cenário para cometer uma extorsão.

Se Abby Lowell estivesse metida na chantagem, pagava para recuperar os negativos e comprar-lhe o silêncio. Se ele mexesse bem os cordelinhos, podia apanhar-lhe o dinheiro

- uma compensação para a família de Eta e talvez um pequeno seguro para si e para Tyler no caso de terem de sair da cidade. Podia pôr os chuis atrás de Abby; através dela, podiam apanhar o assassino e estava tudo acabado. Esperava ele.

Só precisava dum bocadinho de sorte.

A voz de Lenny Lowell ecoava-lhe no cérebro: É melhor ter sorte do que ser bom, miúdo.

 

Tyler foi a correr direito à Peixaria Chen assim que se livrou de Parker. Encontrou Madame Chen no escritório, a chorar silenciosamente. Ao ver a cara dele a espreitar da porta, limpou os olhos com um lenço de papel e endireitou-se. Tyler nunca a vira chorar. Ficou ainda com mais medo do que antes.

- Que foi que aconteceu? - perguntou ele, entrando lentamente.

- Eu estou bem, ratinho. Um momento de fraqueza só serve para vermos como somos realmente fortes.

- O Jotacê foi-se embora - disse o garoto.

- Eu sei, falámos um grande bocado ontem à noite. Tyler não lhe disse que tinha ouvido a maior parte da conversa, escondido no armário das vassouras. Sabia que ela não ia achar bem.

- Pedi-lhe que não fosse - disse Madame Chen. Mas ele acha que é melhor assim. Quer proteger-nos, resolvendo o problema sozinho.

- Não gosto disso - declarou Tyler, empoleirando-se na cadeira junto da secretária, com os joelhos apertados de encontro ao peito. - E se ele nunca mais volta?

- Volta para te vir buscar.

- Não, se lhe acontecer alguma coisa, se o matarem ou for para a cadeia ou assim...

- Isso é verdade - concordou ela. - Mas as coisas más podem acontecer em qualquer sítio, e ninguém as controla. Só podemos rezar para que não aconteçam.

- Não acredito em rezas - disse Tyler. - Já rezei uma data de vezes e nunca aconteceu o que eu pedi. Acho que Deus não estava a ouvir.

- Então, precisamos de ter pensamentos positivos.

disse Madame Chen. - De nos concentrar, colocar o nosso chi numa bola e mantê-la mesmo no centro de nós. Talvez consigamos uma luz tão brilhante que guie o Jotacê de volta para nós.

Tyler ficou a pensar naquilo. Sentia-se mais à vontade com a ideia da energia positiva do chi. Estudara aquilo na Internet e discutira o assunto com o avô Chen. Parecia uma coisa muito mais tangível, lógica e científica do que acreditar num homem invisível que vivia nas nuvens e nunca respondia às rezas de Tyler. O chi estava dentro dele e podia controlá-lo. Achava irónico o azedo sobrinho da Madame Chen chamar-se Chi, quando nada tinha de positivo.

As forças de energia negativa deste mundo é que assustavam Tyler. Ninguém conseguia controlar a energia dos outros, sobretudo um garoto. Mesmo com um Q.I. de cento e sessenta e oito.

- Em que estás a pensar, ratinho?

Tyler olhou para ela um momento, tentando decidir o que queria dizer. Os sentimentos eram tantos a girar dentro dele que não sabia como controlá-los ao mesmo tempo. Se tentasse encurralar o medo pelo irmão, o receio dos Serviços Sociais vinha ao de cima. Se tentasse dominar a raiva que sentia contra o irmão por o ter abandonado, surgia com mais força o pavor da incerteza quanto ao seu futuro.

Por fim, limitou-se a dizer numa vozita trémula:

- Estou com medo.

E, logo a seguir, sentiu-se irritado consigo próprio por ser tão bebé.

- Eu sei - disse Madame Chen. - também estou assustada. Temos de aguentar isto tudo juntos. O teu irmão é um bom rapaz, tem bom coração, é sincero e valente. Ele vai fazer o que estiver certo e depois volta para casa, para ficar connosco. É a única coisa em que temos de acreditar, Tyler. Preocuparmo-nos com coisas que ainda não aconteceram é gastar energia desnecessariamente.

- Sim, senhora - respondeu o garoto, perguntando a si próprio como havia de fazer aquilo. Havia um jardinzito no terraço do prédio, obra do avô Chen. Era onde ele e o avô Chen praticavam tai chi todas as manhãs. Talvez, pensou Tyler, pudesse ir até lá e o avô Chen se sentasse com ele e meditassem os dois.

Ouviu-se uma pancada na porta do escritório, e Chi enfiou a sua feia cabeça na sala sem ser convidado. Tyler pensou que podia ter estado à escuta, como ele fizera na noite anterior. Madame Chen deitou-lhe o seu olhar mais severo.

- Eu sei que a tua mãe te ensinou boas maneiras, Chi. Que fizeste tu com elas? Deitaste-as fora com as cabeças dos peixes? Não devia precisar de ralhar contigo como se fosses uma criança, quando és um homem feito. Nunca se abre uma porta enquanto não nos mandam entrar!

- Desculpe, tia - pediu ele sem remorsos. - Estão ali mais uns detectives que querem falar consigo.

- Diz-lhes que vou já.

- Na realidade, estão aqui mesmo atrás de mim. Madame Chen continuou a olhar para o sobrinho com uma expressão severa e disse em chinês:

- As vezes penso que és uma maçã cheia de bicho, Chi.

A porta abriu-se toda nesse momento, e Chi foi empurrado para dentro do escritório por dois homens. Um era grande e ameaçador, com o cabelo cortado à escovinha e óculos de aros pretos. O outro tinha o aspecto dum vulgar homem de negócios, excepto quanto ao casaco, de ombros demasiado largos, como se pertencesse a um homem mais corpulento.

Tyler não gostou do olhar do segundo. Apetecia-lhe saltar da cadeira e pirar-se do escritório para desaparecer num dos seus habituais esconderijos. Mas, assim que deslizou da cadeira e começou a esgueirar-se para a porta, o homem maior tapou-lhe o caminho.

- Mistress Chen... - começou o outro.

- Pode tratar-me por Madame Chen - disse ela em tom gelado, levantando-se.

- Madame Chen - tentou o homem outra vez. - Sou o detective Kyle e este é o meu parceiro, detective Roddick. Somos da Brigada de Roubos e Homicídios da Polícia de Los Angeles. Gostávamos de lhe fazer umas perguntas acerca do seu carro.

- Outro por causa do carro - comentou Chi. Kyle voltou-se imediatamente para ele.

- Outro?

Madame Chen deitou um olhar sombrio ao sobrinho.

- Já podes ir, Chi.

Ele tentou arvorar um ar importante, como se tivesse a certeza de não apanhar uma descompostura diante dos homens.

- Só pensei que podia...

- Sai. Já - disse ela com firmeza. Depois, em chinês, acrescentou que ele era um espinho cravado nela e que, se não mudasse de atitude, arrancava o espinho e via-se livre dele.

A expressão de Chi endureceu, e ele saiu do escritório com ar humilhado e raivoso. Tyler tentou mais uma vez escapar, mas o tipo grande tornou a barrar-lhe o caminho.

- E tu, quem és? - perguntou o detective Kyle.

- Eu não sou obrigado a falar consigo - declarou Tyler. - Sou uma criança.

- Só perguntei o teu nome. Há algum motivo para pensares que arranjas problemas se falares comigo?

- Não, senhor, mas não gosto de si, mais nada.

- Tyler! - exclamou Madame Chen. - Não fales assim com as pessoas! Que má criação!

- Estava só a dizer a verdade.

- Dizer a verdade é uma boa ideia, jovem - disse Kyle num tom falso e condescendente. - Então, quem és tu?

Tyler dirigiu-lhe o seu olhar mais casmurro.

- É meu filho - declarou Madame Chen.

Os chuis olharam para ela, depois para o garoto e de novo para ela.

- Adoptivo - acrescentou.

Os detectives fitaram outra vez Tyler. Com os olhos muito abertos e inocentes, o garoto desatou a exprimir a sua opinião dos dois detectives em puro mandarim.

Os detectives ficaram a olhar para ele, espantados, e depois olharam um para o outro, enquanto Madame Chen tentava não se rir do que ele dizia. Mas a reprimenda em chinês perdeu toda a sua força, e Tyler começou às risadinhas.

- Vai-te embora, Tyler - pediu ela. - Os senhores precisam de falar comigo.

Livre, saiu do escritório e quase chocou com Chi, claramente à escuta outra vez.

Tyler ergueu os olhos para a cara azeda do homem.

- Precisas de alguma coisa, Chi? - perguntou. Posso ir dizer a Madame Chen que estás à espera dela.

- Porque não te preocupas com as tuas coisas e me deixas em paz? - disse o outro em voz baixa. - Tenho mais direito a estar aqui do que tu.

- Hoje não - explicou Tyler. - És só um sobrinho. E eu sou o filho adoptivo de Madame Chen. Não ouviste o que ela disse?

- Não te habitues à ideia - avisou Chi. - Talvez não falte muito para te ires embora daqui. O teu irmão é um criminoso. E, quando ele for para a cadeia, as pessoas dos Serviços Sociais vêm cá buscar-te. Isso te garanto eu.

O pior pesadelo de Tyler. O medo e a raiva ferveram-lhe dentro da cabeça e chegaram-lhe à garganta. Apeteceu-lhe chorar e gritar. Em vez disso, recuou um passo e deu um pontapé numa canela de Chi com toda a força.

Chi soltou um grito de dor e depois desatou a praguejar, agarrando Tyler pelos ombros com os dedos grossos.

Tyler gritou o mais alto que pôde:

- Não me faças mal! Não me batas!

A porta do escritório abriu-se de rompante e os dois chuis saíram no momento em que Chi começava a abaná-lo. Madame Chen gritou:

- Que se passa contigo, Chi? Larga-o imediatamente! Os chuis não lhe deram alternativa. O maior agarrou Chi e puxou-o para trás, e Kyle segurou Tyler e afastou-o na direcção oposta.

Tyler deixou-se cair no chão, enrolado numa bola, a soluçar.

O chui grande atirou Chi de cara contra a parede, algemou-o e começou a revistá-lo à procura de armas.

Madame Chen baixou-se junto de Tyler e tentou confortá-lo em chinês. O garoto endireitou-se e deixou-se abraçar, fingindo tremer de medo, aos soluços como se tentasse parar de chorar.

Madame Chen perguntou-lhe se estava magoado, mas ele fez que não com a cabeça.

O chui mais corpulento começou a ler os direitos a Chi enquando Madame Chen olhava para ele, zangada, e lhe dizia claramente que o achava uma vergonha para a família. Pelas costas da senhora, Tyler fez-lhe uma careta e deitou-lhe a língua de fora.

- Eu não lhe toquei! - protestou Chi. - O merdoso é que me deu um pontapé!

Madame Chen aproximou-se dele, agarrou-o por uma orelha e torceu-lha, sempre a gritar com ele em chinês. Tyler nunca a vira tão zangada.

- Minha senhora, nós tratamos disto - disse o detective Kyle, tentando delicadamente afastá-la de Chi. - Nós tratamos dele.

- Óptimo! - exclamou ela, ainda a olhar para Chi, furiosa. - Talvez ele aprenda alguma coisa na prisão. Uma profissão, por exemplo, para quando sair de lá.

- A senhora está sempre do lado deles e contra mim!

- gritou Chi. - Eu é que sou família! Sou do seu sangue! E mereço...

Furiosa, Madame Chen interrompeu-o, atacando-o num chinês ainda mais rápido e violento. Os detectives olharam um para o outro, frustrados pela sua incapacidade de compreender a troca de palavras. O que se chamava Kyle olhou para Tyler.

- Podes dizer-nos o que estão a dizer? Que queria ele significar com aquilo de ”estar sempre do lado deles e contra mim”?

- O Chi às vezes fica paranóico e a delirar - esclareceu Tyler, a esfregar o ombro dorido. - Pode procurar as palavras no meu dicionário, se não sabe o que querem dizer.

- Sei, sim - respondeu Kyle. - Mas por que motivo sabes tu essas coisas?

- Porque sou inteligente e tenho um desejo in-sa-ci-á-vel de aprender coisas novas.

Kyle ficou sem saber o que havia de dizer. Decidiu mudar de assunto.

- Estás magoado? Precisas de ir ao hospital? Tyler abanou a cabeça.

- Isto já aconteceu outras vezes? Ele costuma magoar-te?

- Não. E também não me magoou desta vez.

- Podes contar-me - insistiu Kyle no mesmo tom condescendente que utilizara antes. - E não precisas de te preocupar com ele, porque nunca mais te magoa.

- Vai metê-lo na prisão? - perguntou Tyler, directo.

- Acho que não devia, porque ele é que dirige a peixaria e precisa de estar cá.

- Veremos - disse Kyle. - Neste momento, vai mesmo para a cadeia.

- Ele é um mentiroso e um intriguista - continuou Tyler. - Deve ficar já a saber isso. Não pode acreditar numa única palavra dita por ele.

Uma coisa era meter Chi em sarilhos, e outra era mandá-lo para a cadeia. Quem sabia o que ele seria capaz de dizer à polícia?

- Ele realmente não me magoou. E eu dei-lhe um pontapé primeiro.

- Porque fizeste isso, filho? - perguntou Kyle.

O garoto abespinhou-se ligeiramente com a palavra ”filho”.

- Porque ele diz coisas desagradáveis só para ferir os sentimentos das pessoas.

- Feriu-te os sentimentos? Que disse ele?

- Que tem mais direito a estar aqui do que eu porque sou adoptado. Mas não me parece que seja preciso metê-lo na cadeia por isso.

- Maltratar uma criança é um crime - declarou Kyle, como se Tyler fosse atrasado mental. - Temos de o levar. E provavelmente vem cá alguém dos Serviços Sociais para falar contigo.

Tyler olhou para Madame Chen com os olhos muito abertos.

- Não há necessidade disso - interveio ela, dirigindo-se ao detective.

- Minha senhora, se uma criança se encontra em perigo no seu meio...

- Ele não está em perigo. O Chi dirige a peixaria e pouco ou nada lida com o Tyler. O que aconteceu hoje nunca aconteceu antes nem volta a acontecer. Não tenho qualquer interesse em apresentar queixa.

- Nem é preciso, minha senhora. O Estado ocupa-se dos direitos das crianças.

- Eu ocupo-me dos meus direitos e dos direitos da minha família - disse Madame Chen com firmeza. - Não preciso da sua ajuda nem a desejo. O que aconteceu foi uma aberração. Rivalidade familiar, se quiser. Não passa duma questão de família, e não há necessidade de sobrecarregar o sistema judicial com uma discussão que acabou em cinco segundos. Não é com certeza com coisas deste género que o senhor ocupa a sua agenda. Tive a impressão de que só se interessa por casos importantes, como homicídios. Não tem homicídios para resolver?

- Bom, tenho, sim, minha senhora - gaguejou Kyle.

- Presumo que não veio cá para prender o meu sobrinho.

- Não, minha senhora.

- Então, já chega - declarou Madame Chen. - Está a custar-me dinheiro e a fazer-nos perder tempo a todos. Se prendesse todas as pessoas que falam com uma criança em tom desagradável, as prisões estavam a abarrotar.

Kyle e Roddick olharam um para o outro.

- Estamos a perder tempo - insistiu Madame Chen, impaciente.

Roddick parecia esperar um sinal do parceiro, mas Kyle limitou-se a encolher os ombros e a abanar a cabeça.

- Pronto, a senhora tem razão. Tivemos todos uma reacção exagerada.

Afinal, o caso de Chi ia dar mais trabalho do que merecia. O polícia corpulento abriu-lhe as algemas e ele esfregou os pulsos, de testa franzida. Madame Chen mandou-o regressar ao trabalho, se queria voltar a cair nas suas boas graças.

- E por que razão vieram cá os senhores detectives? perguntou ela.

- Temos motivos para pensar que o seu carro foi utilizado para cometer um crime, e gostávamos de lhe dar uma vista de olhos.

Madame Chen deitou-lhes um olhar perturbado.

- Agora percebo como desperdiçam os meus impostos. O detective que veio cá antes já revistou o carro. Eu expliquei-lhe que os estragos foram feitos num estacionamento, mas ele insistiu em levá-lo à mesma. Depois, vieram mais polícias e rebocaram-no. E agora aqui estou eu, uma pessoa de idade, sem transporte.

- Que outro detective é que esteve cá? - perguntou Kyle.

- O detective Parker - disse ela. - E o carro já não está aqui. O melhor é perguntarem-lhe para onde o levou.

Kyle percorreu o corredor rapidamente e espreitou lá para fora. Não havia sinal dum Mini Cooper.

- O detective Parker pareceu-me muito simpático continuou Madame Chen. - Delicado, competente, muito bem vestido. Fiquei zangada por me levar o carro, mas estava a fazer o seu trabalho. Nada tenho a esconder - acrescentou, puxando Tyler mais para si, com o braço por cima dos ombros do garoto.

Kyle não fez caso dela. Apertava os maxilares e não parecia feliz.

- Por acaso conhece um rapaz chamado J. C. Damon?

- Porque havia de conhecer? - perguntou Madame Chen sem pestanejar.

- Talvez o tenha visto pelos arredores. Vinte e poucos, cabelo loiro, olhos azuis. Trabalha como estafeta e usa uma bicicleta.

- Sou uma pessoa muito ocupada e passo a maior parte do meu tempo no escritório.

Nada do que dizia era exactamente mentira, nem exactamente verdade. Tyler continuou a seu lado, inocente como um cordeirinho.

- E tu, filho? - perguntou Kyle.

- O senhor não devia falar comigo nesse tom condescendente, sabe? - disse Tyler delicadamente. - E até pode ficar embaraçado, porque eu possuo um Q.I. de cento e sessenta e oito.

Os chuis olharam de novo um para o outro

- Obrigado pelo seu tempo, minha senhora - disse Kyle. - Podemos voltar cá quando o seu carro for revistado para procurar provas.

Deitou uma longa olhadela a Tyler, aos olhos azuis e ao cabelo loiro. O garoto susteve a respiração. Mas os detectives começaram a andar em direcção à porta.

Boo Zhu apareceu de repente à beira da plataforma das descargas. Parecia o Humpty Dumpty, sempre achara Tyler. O sol vivo obrigava-o a fechar os olhos como uma toupeira. Virou-se para um lado e depois para o outro.

- Eu conheço! Eu conheço! - gritou ele, excitado, com a grossa língua a sair da boca. - Eu conheço o Jotacê!

 

Parker deixou o Sebring numa zona de estacionamento proibido diante do restaurante e entrou. A sala estava tão pouco iluminada que por um instante julgou ter ficado cego. Depois, os olhos ajustaram-se e descobriu Diane, numa mesa de canto, a olhar para o relógio. O restaurante ficava na parte dianteira dum clube nocturno que estivera na moda na época do grupo de Sinatra. Nunca fora redecorado, e a maioria da clientela na sala principal tinha o cabelo branco com tom azulado.

Mais ou menos uma vez por mês, Diane encontrava-se ali com ele para almoçarem. A comida era decente, era um sítio sossegado, e ninguém das respectivas profissões o frequentava. Ambos preferiam manter a sua vida particular privada. Aqueles almoços mensais eram pequenos oásis no caos das suas vidas diárias, um agradável descanso.

Parker deu-lhe um beijo na cara e pediu desculpa por a ter feito esperar.

- Já mandei vir - disse ela, apontando para a salada no lugar dele. - O costume.

- Perfeito. Obrigado. - Sentou-se, deu um grande suspiro e tentou pôr o motor em ponto morto. Ainda o sentia acelerado. As coisas estavam mesmo a acontecer e o tempo a escassear.

- Tive um dia infernal, até agora - disse ele, passando a informá-la das últimas manobras do ”Império do Mal”: a Brigada de Roubos e Homicídios.

- Eles não te dão uma oportunidade, Kev - observou ela, a debicar na salada diante de si.

- Pois não. E queres saber uma coisa? Que se lixem. Eu arranjo as minhas próprias oportunidades. Se conseguir manter-me à frente deles um dia ou coisa...

- Achas que estás assim tão perto de resolver o caso?

- perguntou ela, apoiando os cotovelos na mesa e encostando a cabeça a uma mão, com ar fatigado.

Parker inclinou-se por cima da mesa.

- Sentes-te bem?

Ela animou-se como se o seu volume de energia tivesse aumentado subitamente, e a boca curvou-se-lhe dum lado.

- Estou cansada, por causa de toda aquela confraternização social e espionagem de ontem à noite por tua causa. E nem sequer ganhei um orgasmo de agradecimento pelo meu trabalho.

- Eu compenso-te.

- Pois, pois, pois... Isso é o que dizem todos... - respondeu ela com um pequeno sorriso cínico.

- Pois, mas eu tenho a mercadoria para cumprir, filha

- declarou Parker no seu tom mais sedutor. Uma das senhoras de cabelo azulado, na mesa atrás de Diane, inclinou-se para escutar melhor a conversa. Parker cruzou o olhar com ela e piscou-lhe o olho.

Diane abanou a cabeça.

- Tu não tens vergonha.

- Pois não. Não ficas contente? - perguntou Parker, com um grande sorriso.

- Claro que sim. - Espetou um pedacinho de frango e perguntou: - Já descobriste quem é que um tipo como o Lenny Lowell podia conhecer que valesse a pena chantagear?

- Ainda não, mas estou lá perto - disse ele, com o polegar e o indicador praticamente juntos. - E fiquei com o processo, de maneira que o Kyle e o Roddick ainda levam um bom bocado a apanhar-me.

- Deve ter mesmo a ver com uma coisa importante, para eles se preocuparem tanto contigo.

- O chefe deles disse ao meu que o caso está relacionado com um que eles têm entre mãos. Ainda não consegui juntar as pontas, mas só me vem um nome à cabeça: Tricia Crowne-Cole.

Diane endireitou-se na cadeira.

- O quê? O Rob Cole matou a mulher - disse ela com firmeza. - Como é que uma coisa pode ter a ver com a outra? Estás a sonhar?

- Alguém tem andado a pagar uma data de dinheiro a alguém para guardar um segredo.

- Tu nem sequer tens a certeza disso.

- Por acaso até tenho.

- O Rob Cole matou a mulher - disse ela de novo. Tu não estiveste lá, Kevin. Não viste o que ele lhe fez. Foi uma coisa pessoal, odiosa...

- Ela tinha outras pessoas na sua vida. A filha, que talvez andasse a foder com o marido dela. O irmão, que era obrigado a viver à sombra da sua irmã perfeita...

Diane começou a contar os seus argumentos nas pontas dos dedos:

- O Rob Cole é que foi acusado, está a ser julgado, não tem álibi e tem muitos motivos...

- O Tony Giradello era capaz de conseguir que acusassem uma panqueca, se quisesse...

- Por amor de Deus, Parker! O Giradello nunca andaria em frente com um julgamento desta importância, se não conseguisse manter a acusação. Ainda não se limpou do último fiasco. O júri vai estar reunido daqui a uma semana, e ele cruzou cada t e pôs os pontos em cada i, fez todos os testes e arranjou todas as testemunhas especializadas.

- Bom, é verdade que tem tido bastante ajuda por parte do Norman Crowne, não tem?

- E agora estás maluco com a ideia duma conspiração! Que estiveste tu a fumar?

- Vá lá, Diane, tu própria disseste que parecia que o Crowne andava a comprar a justiça. Quem nos garante que não anda a comprar também silêncio?

- A Tricia era a menina dos seus olhos - disse Diane.

- Não podia amá-la mais. Portanto, nunca ia pagar para proteger uma pessoa implicada na morte dela.

- Nem se essa pessoa fosse a própria neta? - perguntou Parker. - Sabes tão bem como eu que as pessoas fazem coisas inacreditáveis em nome do amor.

- Sei, sim. Sei perfeitamente. Mas estás muito enganado neste caso. Estás a ver coisas que não existem. O Rob Cole matou a mulher.

- Bom, esta noite já vamos ter a certeza - disse Parker. - Roubei um negativo do cofre particular do Lenny Lowell, onde ele tinha escondido também uma data de massa. Está a ser revelado agora mesmo, e não me parece que fosse uma fotografia da filha em bebé. - Olhou para o relógio e fez uma careta. Mal tocara na salada, mas a fome não era importante naquele momento. A fome física fora engolida pela fome de terminar a caçada. A satisfação bastar-lhe-ia durante dias. - Tenho de ir - disse ele, tirando dinheiro da carteira. - Por muito que adore ver-te toda irritada, temos de acabar a discussão noutra altura.

Diane empurrou o prato da salada para diante e amuou.

- Meu Deus, és linda quando estás chateada - comentou Parker, levantando-se. Baixou-se e deu-lhe um beijo na cara. - Olha, talvez eu esteja completamente enganado...

- E estás.

- Bem sei que adoras odiar o Robbie, querida, mas lembra-te do que se diz nas corridas de cavalos: só os trouxas apostam no favorito.

Ela limitou-se a olhar para ele, com as sobrancelhas carregadas.

- Não estou contra ti - comentou ele. - Estou é a meu favor. Se isto der certo, ganho. Odeias mais o Rob Cole do que me amas a mim?

A expressão dela suavizou-se e surgiu mesmo um sorriso contrariado.

- Ponho uns dólares em ti, meu optimista.

- Não vais arrepender-te.

- Veremos.

- Tens de trabalhar logo? - perguntou ele. - Talvez fosse melhor telefonares a dizer que não vais. Devias descansar.

- Não vou, mas preciso de tratar dumas coisas. Tenho de ir ao banco...

- Eu ligo para ti - disse Parker, afastando-se. - Kev?

Diane levantou-se e abraçou-o, segredando:

- Desculpa.

Ele deu um passo para trás e sorriu.

- És uma pessoa de paixões. Não tens de que pedir desculpa.

Os maravilhosos olhos azuis cor de gelo brilhavam com lágrimas, pouco vulgares nela.

- Eu amo-te mesmo, sabes?

Parker não podia ter ficado mais admirado se ela lhe batesse com um martelo. Sorriu e disse uma gracinha por estar tão espantado que não sabia que outra coisa fazer.

- Ai, Miss Nicholson, olhe como eu fiquei tonto! disse ele, fazendo tremer as pestanas.

Ela sorriu, abanou a cabeça e mandou-o embora por gestos.

- Sai daqui, meu pateta.

Diane Nicholson amava-o. Não sabia bem como interpretar aquilo. Amava-o como amigo? Já sabia. Amava-o com... amor? Que raio de altura para lhe dizer uma coisa assim, pensou Parker, embora sem rancor. Talvez o seu carma estivesse finalmente a dar a volta.

Se conseguisse deslindar aquele caso com grande notoriedade, seria o senhor do mundo.

Ligou para Joanie e deixou-lhe recado, pedindo-lhe que procurasse o nome e a morada de Eddie Davis na agenda tirada do escritório de Lowell e enviada para o departamento dela para procurar impressões digitais; insistiu na necessidade de rapidez e pediu-lhe que lhe desse a resposta para o telemóvel.

Mandara Ruiz investigar Davis, mas não estava a ver-se a ligar para ela para perguntar se já conseguira alguma informação. Kyle e Roddick já deviam ter andado por lá, portanto o ninho de vespas já estava bem remexido e não duvidava que ela estivesse literalmente a trepar por Bradley Kyle acima.

Parou o carro no pedaço de terra batida que servia de estacionamento para uma pequena tasca mexicana numa zona poeirenta e semi-industrial da cidade perto do rio Los Angeles. Dan Metheny almoçara ali todos os dias durante o tempo em que fora seu parceiro. Era evidente que não vira motivo para mudar o hábito naqueles anos todos.

Instalara-se a uma das mesas de piquenique à sombra duma placa de chapa ondulada, com um prato de gordura e colesterol diante de si. Olhou para Parker através dos óculos de sol espelhados. Parker estava convencido de não lhe ter visto os olhos mais do que duas vezes.

- Ena! - exclamou o velhote. - Vieste cá mostrar à malta vulgar como deve vestir-se?

Metheny estava na profissão havia cerca de cento e doze anos ou pelo menos assim parecia. Um homem grande, peitudo e preto (termo empregado pelo próprio Metheny), que comia demasiada carne vermelha, bebia demasiado uísque e fumava dois maços de tabaco por dia. A tensão provocada por trabalhar naquela zona devia ter dado cabo dele, mas lá se ia aguentando. Demasiado vil para morrer.

- Eu sou a malta vulgar - respondeu Parker, sentando-se em frente dele.

- Filho, nunca houve qualquer coisa de vulgar em ti. Por isso é que toda a gente te detesta.

- Ora, é bom saber isso.

- Que se lixem - resmungou Metheny. - Quanto mais acima, mais solitário.

- Isso não sei. Tenho passado o tempo uns degraus mais abaixo, com os macacos nos degraus superiores a cagarem-me em cima.

- Pára de teres pena de ti próprio. O Giradello punha-te de serviço aos parquímetros, se pudesse. Mas continuas detective. E pareces um raio duma estrela de cinema. Não tens de que te queixar.

- Os tipos da Brigada de Roubos e Homicídios acabam de me sacar um caso, e tenho uma estagiária que preferia espetar-me um salto fininho nas costas a ter de olhar para mim.

- Aquela miúda, a Ruiz? - perguntou Metheny com a boca cheia de enchilada.

- É.

- Fiz por aí umas perguntas a uns tipos que eu conheço ligados a bandos latinos, e nunca ouviram falar dela. Mas talvez se tenham esquecido.

Parker abanou a cabeça.

- Podes crer que aquela não passa despercebida. Eles lembravam-se.

- Viste a ficha pessoal dela?

- Parece normal. Tentei falar com o último supervisor dela, mas disseram-me que o gajo morreu. Provavelmente foi ela que lhe arrancou o coração e o comeu enquanto o homem lhe sangrava aos pés.

Metheny ficou calado um momento, a pensar, com todas as feições do seu rosto de buldogue penduradas, acentuadas pelo espesso bigode grisalho à Fu Manchu.

- Não estou a gostar disso, pá - disse ele por fim. Conheces o Alex Navarro? Ele sabe tudo o que se passa nos bandos latinos. Se ele não conhece a miúda, é porque ela nunca andou por aí.

- Então, quem raio é ela? - perguntou Parker. E porque é que anda agarrada a mim?

Estava a sentir-se cada vez mais encurralado. Os tipos da brigada a tirarem-lhe o caso, e Ruiz de repente a não ser quem ele julgava que era.

- Podia usar um nome diferente - sugeriu Metheny.

- Sabes como é essa malta que trabalha infiltrada. Mergulham mesmo nos papéis que desempenham - disse ele com certa dose de desdém.

Metheny era um chui à moda antiga da escola do ”ou vai ou racha”. Para ele, tudo era preto ou branco, tipos bons e tipos maus. Ia para a rua armado com a lei e umas nove armas não aprovadas escondidas, um guerreiro pela justiça.

- Pode ser - concedeu Parker, contrariado, sem acreditar.

- Desmascara-lhe o jogo, pá.

- É.

Era a única coisa a fazer. Parker sabia que não podia confiar nela. Então, o melhor seria descobrir o motivo, ou seja, quantos inimigos tinha realmente.

Já estranhara a oportunidade. Ruiz aparecera uns dias antes do homicídio de Lowell, e agora estava a vendê-lo à Brigada de Roubos e Homicídios, com estes a ficarem com o caso. Mas... mesmo partindo do princípio de que soubesse da chantagem, como podia alguém saber que Lenny Lowell i ia ser assassinado?

Começava a não gostar das possíveis explicações. Tentou convencer-se de que estava a ser paranóico e a ver conspirações onde elas não existiam. Só o assassino podia ter previsto a morte do advogado e ninguém podia saber quem estaria de serviço para ficar com o caso.

Metheny observava-o, apreciando o processo mental e as subtis mudanças de expressão do ex-parceiro.

- Coincidências são coisas que não existem, pá - declarou por fim o velhote. - Não quando metem os gajos da Brigada de Roubos e Homicídios. Os tipos não se agitam por nada.

- Mas não faz sentido a Ruiz estar ligada a eles - disse Parker. - Para que precisavam dela, quando podiam ficar com o caso em qualquer altura?

- Então, o que é que faz sentido? - perguntou Metheny. - Em tempos, conheci um gajo que esculpia troncos de árvores gigantes com uma serra articulada. Fazia coisas porreiras. Havia uma dum alce, que parecia mesmo um raio dum alce. Quase se sentia o cheiro do bicho. Perguntei-lhe como é que fazia aquilo e ele explicou-me: ”Começo com um grande bocado de tronco e tiro tudo o que não é parecido com um alce.” Se tirares tudo o que não pode ser nessa trapalhada, chegas à verdade. Se a Ruiz não é quem diz ser, então quem é? Se não é uma espécie de espia da brigada, o que fica?

Uma sensação desagradável percorreu o corpo de Parker. Andava com Renee Ruiz havia meia dúzia de dias, e esta irritava-o de tal maneira que nem prestara grande atenção ao que ela podia ser, para além duma autêntica praga. Mas ela sabia da existência do Jag e do andar chique, comentara mais do que uma vez o preço do guarda-roupa dele e da facilidade com que gastava dinheiro.

- O que é que fica? - insistiu Metheny.

As palavras deixaram um gosto amargo na boca de Parker.

- O Departamento dos Assuntos Internos.

 

- Eu conheço o Jotacê! - repetiu Boo Zhu, com os olhinhos minúsculos a brilhar de excitação. Ria e roncava. Tinha o ranho a cair do nariz e, em vez de se assoar, limpava-o com a língua anormalmente comprida. - Jotacê Dê! Jotacê Dê! - gritou ele, olhando com orgulho para Chi, especado na plataforma mas tentando parecer que nada tivera a ver com as palavras de Boo Zhu.

O detective Kyle virou-se para Madame Chen, à entrada da outra parte do edifício. À luz viva, a senhora parecia tão pálida como a parede pintada de branco atrás de si.

- Quem é este? - perguntou ele.

- O filho dum primo - respondeu Madame Chen, atravessando o pequeno estacionamento. - Tem problemas, como pode ver.

- Como é que te chamas? - perguntou Kyle, olhando para ele.

- Boo Zhu! Boo Zhu conhece!

- Conheces o J. C. Damon? - perguntou Kyle. Boo Zhu começou a dançar com a graça dum urso, fora de si com o orgulho de ser o único a possuir a resposta àquela pergunta.

- O Boo Zhu gosta de agradar - disse Madame Chen.

- Quer dizer que não sabe o que diz?

- Sabe que lhe dá prazer quando diz uma coisa que acha que o senhor quer ouvir. - Deitou um olhar furioso a Chi. - Se lhe perguntar, ele diz-lhe que conhece o Presidente.

- Jotacê Té! Jotacê Té, senhora! - disse Boo Zhu, apontando com um dedo gordo e curto para a porta do escritório. - Sim, senhora? Sim?

Tyler recuou da porta, com o coração a bater tão depressa que julgou que desmaiava. Deixou-se cair cuidadosamente de joelhos e gatinhou ao longo da parede até à janela aberta. Então, levantou a cabeça lentamente até poder espreitar por cima do parapeito.

- Acalma-te, Boo Zhu - pediu Madame Chen.

- Eu bom rapaz!

- Muito bom - disse Kyle. - Sabes a resposta, não sabes?

- Por favor, detective - interveio Madame Chen. Ele tem o cérebro duma criança. Não percebe.

- Quem é o Té... ou o Dê? - insistiu Kyle.

- Té! Jotacê Té! - exclamou Boo Zhu. Té?

- Té! Jotacê!

- J. C. Damon?

Boo Zhu começou com uma cantilena e a dançar, a euforia a anular tudo o mais.

- E você? Conhece o J. C. Damon? - perguntou Kyle, dirigindo-se a Chi.

Os olhos de Tyler encheram-se de lágrimas. Estava com tanto medo que pensou que ia molhar as calças como um bebé.

- Se ainda não sabem - continuou Kyle -, o J. C. Damon está a ser procurado para ser interrogado em relação a um homicídio, entre outros crimes. Se estão a protegê-lo, estão a encobrir um criminoso. E se ele utilizou o seu carro para cometer um crime, pode ser acusada de cumplicidade. - Isto dirigido a Madame Chen.

Chi olhou para a tia. Quando falou, fê-lo em chinês.

- Não pode arriscar-se e ao negócio, tia. Mentir à polícia é um crime grave.

- Como é trair a família - respondeu Madame Chen.

- Ele não é família.

- Se me traíres, Chi, se fizeres isso, não te conheço, não te conheço.

- Podemos ir até à esquadra, e eu arranjo um intérprete

- disse Kyle. - Se eu achar que estão a esconder informações, podem ser presos como testemunhas materiais.

Madame Chen passou ao ataque.

- Acha que sou parva, detective Kyle? Eu sou uma mulher inteligente em duas línguas. O senhor é um fanfarrão só numa. Vou chamar o meu advogado, que por acaso trata dos meus assuntos particulares e profissionais, incluindo os do meu sobrinho.

- Não pode impedir o seu sobrinho de falar connosco

- disse Kyle, voltando-se de novo para Chi. - Conhece o J. C. Damon?

Chi olhou para a tia. Tyler susteve a respiração.

- Eu rendo-me à sabedoria da minha tia - declarou Chi, curvando a cabeça com humildade. - Como matriarca da nossa família, ela é que sabe. É vontade sua consultarmos o nosso advogado.

Kyle olhou então para Boo Zhu, ainda encerrado no seu pequeno mundo, a cantarolar e a dançar.

- Boo Zhu? Conheces o J. C. Damon?

- Isto é um abuso! - exclamou Madame Chen. - Pare com isto imediatamente.

- Sim - disse Boo Zhu, mas o seu sorriso orgulhoso desfez-se assim que olhou para Madame Chen. - Té irmão? Sim, senhora?

Kyle ignorou Madame Chen.

- O Tyler é irmão do Jotacê?

Boo Zhu olhou para Madame Chen, com a cara às manchas vermelhas, começando a preocupar-se com a hipótese de estar a fazer alguma coisa errada.

- Sim, senhora. Sim?

- Onde está o miúdo? - perguntou Kyle ao parceiro.

- Foi lá para dentro.

- Quero-o aqui fora. Já.

O detective corpulento dirigiu-se ao escritório.

Tyler deu um salto que nem um coelho. Na televisão, os chuis faziam todo o tipo de coisas que não deviam fazer. Jotacê estava sempre a dizer-lhe que não se podia confiar neles. E que só podia confiar na família. A vida, tal como a conhecia, dependia disso.

Como uma bala, percorreu o corredor e subiu a escada. A correr, agarrou na mochila e no walkie-talkie que o irmão lhe dera.

Sempre a correr, saiu de casa e subiu a escada para o terraço. O jardim estava vazio. O avô Chen devia ter ido encontrar-se com os amigos para os seus mexericos diários.

Tyler rastejou até à beira do terraço e olhou para a rua. Ninguém. Só Boo Zhu, sentado na plataforma das entregas, a balançar as pernas e a chorar.

Tyler teve pena dele. Não duvidava um segundo sequer que Chi o tivesse instigado, dizendo-lhe que iam ficar todos muito contentes e orgulhosos dele se contasse à polícia que conhecia Jotacê. E agora, Boo Zhu estava assustado, por não entender por que motivo as pessoas não estavam encantadas com a sua revelação. Nem o motivo do abandono de Chi.

Com o coração a bater-lhe de encontro às costelas como um martelo, Tyler tentou ouvir passos ou vozes na escada ou dentro de casa. Talvez ainda andassem à procura dele lá em baixo. Podia esperar. Contar a partir de cem, talvez. Quando os ouvisse a aproximarem-se do terraço, descia.

Passou a mão pela cara, para limpar as lágrimas que o pânico lhe fizera vir aos olhos.

Cem, noventa e nove, noventa e oito...

E se não os ouvisse chegar? Sentia a pulsação nos ouvidos.

Noventa e sete, noventa e seis, noventa e cinco...

Podiam prendê-lo como testemunha material? Na cadeia?

Noventa e quatro, noventa e três...

Ou chamavam os Serviços Sociais imediatamente?

Noventa e dois...

Se lhe tirassem o walkie-talkie, não podia contactar Jotacê.

Noventa e um.

Se os Serviços Sociais o levassem, o irmão nunca seria capaz de o encontrar. Nunca.

Com as lágrimas a surgirem com mais força, Tyler afastou-se da beira do terraço, correu para o outro lado do prédio e começou a descer a escada de incêndio. O ferro estava enferrujado e algumas das ligações ao prédio soltas. Aguentava o peso de Tyler porque ele era leve, mas rangia e abanava, e o garoto esperava que ninguém a ouvisse.

Movia os pés o mais depressa que podia. Era rápido, mas estava assustado e o medo provoca erros. Bateu com a biqueira de borracha dos ténis e tropeçou, agarrando-se ao corrimão, arranhando os nós dos dedos e dando uma forte pancada num cotovelo antes de conseguir segurar-se outra vez.

O último lanço da escada de incêndio era uma espécie de escada de mão a uns quatro metros do solo para evitar que as pessoas subissem. Tyler agarrou-o com as duas mãos e tentou descê-lo, mas não tinha força e a escada não se moveu.

Sem parar para pensar no perigo, trepou para o outro lado da escada de mão, com o solo bem longe lá em baixo. Se tivesse tempo para olhar, ficava com medo. Pendurou-se com as duas mãos acima da cabeça e desatou a saltar para cima e para baixo num degrau. Sentiu a escada descer uns centímetros, mais uns, e depois descer completamente tão depressa que o deixou ficar sem respiração. Parou abruptamente, e o garoto não foi capaz de continuar agarrado.

Caiu mais ou menos de dois metros de altura, batendo com o traseiro no chão, deixando sair o ar com um forte sopro.

Rebolou até ficar de gatas, levantou-se e encostou-se à parede para recuperar o equilíbrio.

Os chuis estavam de novo dentro de casa, portanto o beco era a sua única maneira de fugir. Se virasse para a direita, estava na rua num instante, mas podia dar de caras com um carro da polícia. Fora de lá que surgira o primeiro carro. Se virasse para a esquerda, teria de passar diante da plataforma das descargas a correr... mas podia encontrar o detective Kyle ou Chi...

Virou para a esquerda e foi-se esgueirando junto às traseiras do prédio, espreitando com cuidado assim que chegou à esquina. Ninguém à vista, a não ser Boo Zhu, ainda mergulhado na sua infelicidade. Tyler respirou fundo três vezes e desatou a correr a toda a velocidade. Escondeu-se atrás da pilha de estrados de madeira onde o outro detective o encontrara. O detective Parker.

Perguntou a si próprio por que motivo Kyle e Roddick teriam vindo fazer as mesmas perguntas. Nem sequer sabiam que o Mini Cooper fora levado dali. Se calhar, não eram polícias verdadeiros. Podiam ser malvados. Até os assassinos do fulano que Jotacê fora acusado de matar.

Fossem quem fossem, Tyler não gostava deles. Parker parecera-lhe bom tipo, apesar de ser polícia. Mas Kyle era mesmo o que Madame Chen lhe chamara: um fanfarrão.

Encostado à parede como uma carraça, Tyler foi-se aproximando do estacionamento onde Parker o apanhara. Fez o mesmo caminho pelo estreito espaço entre os dois prédios onde o detective o perdera, com a mochila a raspar nas paredes.

Na abertura para o passeio, Tyler acocorou-se e olhou para trás, na direcção da peixaria. Viu pessoas a andar para um lado e para o outro da rua, mas ninguém reparou nele, meio escondido por um cartaz escrito a giz anunciando as especialidades dim sum do dia.

Viu Kyle e Roddick saírem para o passeio, obrigando as pessoas a desviar-se como um rio em volta de pedras. Estavam a discutir qualquer coisa, gesticulando. Kyle puxou dum telemóvel e começou a falar com alguém. Entretanto, Roddick colocou as mãos nas ancas, voltou-se e olhou directamente - pareceu-lhe - na sua direcção.

Tyler susteve a respiração. Uma mulher magra, com cabelo preto comprido e óculos de sol de estrela de cinema aproximava-se passeando um gordo pug pela trela. Os olhos esbugalhados do animal localizaram Tyler e pareceram ficar ainda mais saídos. As garras dele rasparam as pedras do passeio, com a força que fazia na trela, a ladrar e a tentar puxar a dona para junto do anúncio de dim sum.

A mulher franziu a testa e deu um puxão na trela.

- Não, Orsonl

Roddick continuava a olhar naquela direcção.

Orson, o pug, continuou a ladrar. Tyler tentou mandá-lo calar e, nesse momento, a mulher magra descobriu-o e deu um salto para trás, surpreendida. Tyler olhou para ela com uma expressão implorante e um dedo encostado aos lábios.

Roddick deu dois passos, Kyle disse qualquer coisa e enfiou de novo o telemóvel no bolso. Dirigiram-se a um carro estacionado junto a uma boca de incêndio e entraram.

A mulher do Orson, o pug, considerou Tyler sem importância e seguiu o seu caminho. Orson tentou ficar para trás, mas foi obrigado a submeter-se à trela e andar em frente. Os detectives meteram-se no trânsito sem olhar para aquele sítio:- Tyler expeliu finalmente o ar dos pulmões com toda a força. A cabeça andava-lhe à roda e via pintas diante dos olhos. Encostou-se a uma das paredes, pensando se o coração levaria muito tempo a bater mais devagar.

Poisou a mochila e tirou o walkie-talkie da bolsa exterior.

- Escuteiro a Comando. Escuteiro a Comando. Escutas?

Nada.

- Escuteiro a Comando. Estás aí, Comando?

Silêncio.

Tyler apertou o rádio contra a cara e fechou os olhos. A excitação da urgência desapareceu, substituída por um escuro e oleoso tipo de medo, um medo que lhe provocou dores de estômago e o fez desejar não ser demasiado crescido para se aninhar num colo quentinho com uns braços fortes e protectores à sua volta.

A segurança que sentia com os Chen desaparecera. Num ápice, a casa e a família haviam sido descobertas e ameaçadas. A única outra segurança que alguma vez conhecera era junto do irmão. De repente, perdera as duas. Nunca se sentira tão sozinho em toda a vida. Olhou para a rua, onde toda a gente continuava o seu dia, sem reparar que estava só e assustado e que talvez nada voltasse a ser igual para ele.

Porque é que eu sou eu, em vez daquele fulano a entregar encomendas ali em frente? Porque é que eu sou eu, em vez daquela mulher a empurrar o carrinho das compras? Porque é que eu sou eu, em vez daquele homem a sair do carro?

Punha o irmão doido quando fazia perguntas daquele género. Porque é que eu sou eu, em vez doutra pessoa qualquer? Porque era aquela a sua vida? Sem mãe, sem pai. Porque era a família que conhecia a família doutra pessoa?

Jotacê costumava dizer-lhe que não fazia sentido pensar em coisas daquelas, mas Tyler interrogava-se na mesma. Algumas perguntas não tinham respostas, segundo o irmão. A vida era o que era, e a única coisa que podiam fazer era vivê-la o melhor possível.

Limpou o nariz à manga e piscou os olhos para fazer parar as lágrimas. Acreditava no irmão e ia tentar fazer o que Jotacê faria. Não era altura para lágrimas. Precisava das ideias claras para utilizar o cérebro. Não fazia sentido possuir um Q.I. de cento e sessenta e oito se não o utilizasse quando mais precisava.

Portanto, cerrou os olhos e imaginou-se a fechar os seus receios numa caixa e a enterrar a caixa bem dentro de si. Precisava de pensar como um herói, em vez de esperar por algum que podia nunca aparecer.

 

- Já tenho a informação sobre o Davis - disse Ruiz assim que Parker se sentou à secretária. - Além dalgumas transgressões menores por posse de droga, tem uma longa história de assaltos com duas condenações.

- Quer pagar as dívidas das drogas com o dinheiro que saca à porrada aos outros gajos que não pagam - especulou Parker.

- Saiu da cadeia há cerca de dois anos - continuou Ruiz. - E o advogado do último julgamento foi o Leonard

Lowell.

- E a última morada conhecida? - perguntou Parker.

- Comprou recentemente uma casa na zona de Hollywood. Teve de comunicar a mudança ao funcionário da liberdade condicional.

- E, se eu for até lá, sou recebido pelo Bradley Kyle?

- indagou Parker, a olhar fixamente para a parceira, à espera duma resposta. Ruiz suspirou e desviou o olhar.

- Que queres tu que eu diga, Parker? A Brigada de Roubos e Homicídios pode tirar o que quiser...

- Incluindo a minha parceira?

- Que quer isso dizer?

- Que eu acho que o teu programa de trabalho não coincide com o meu.

Parker levantou-se e começou a andar dum lado para o outro, tentando gastar alguma da fúria que sentia.

- Não vou mentir por ti aos tipos da Brigada de Roubos e Homicídios - declarou Ruiz. - Que é que fizeste alguma vez por mim? Tenho de pensar na minha carreira.

- E que carreira é essa?

Ela olhou para ele, parecendo confusa e frustrada, à mistura possivelmente com um bocadinho de receio no olhar.

- Queres trabalhar nos Homicídios? - perguntou Parker, sempre a andar para trás e para diante, com as mãos na cintura e os ombros tensos. - Ou isto é só uma visita de estudo para ti?

Dois detectives do outro lado da sala voltaram-se para observar a discussão, e Ruiz olhou para eles.

- Se tens alguma coisa a dizer-me, Parker, acho que devíamos ir para uma das salas de interrogatórios.

- Ficaste pudica de repente? Mostras o rego do peito a toda a gente, mas não queres que saibam a quem devem o prazer!

- Estás mas é tarado! - exclamou ela, pondo-se de pé. - Estás drogado?

- Conheces um tal Alex Navarro? Silêncio.

- Isso quer dizer que não - continuou Parker. O Alex Navarro é o homem que trata dos gangues latinos.

- Ah, pois - gaguejou ela. - Mas eu estava numa posição tão abaixo disso que não tinha contacto com ele.

- O Alex Navarro pode dizer o nome de cada membro de cada gangue de Los Angeles. Se lhe perguntares quem foi morto em Junho há cinco anos, ele responde-te à pergunta com todos os pormenores do caso até à marca de roupa interior da vítima no momento em que caiu. E o Navarro não tem qualquer recordação da agente Renee Ruiz a trabalhar com a Unidade dos Gangues.

- E depois? - desafiou ela. Parker pensou que pelo menos tinha cojones. - Não trabalhei com ele. Qual é o grande problema?

- És tu, senhora de uma ambição desmedida, que não perde oportunidade para confraternizar com a figura de autoridade mais próxima. Nunca te fizeste ao patrão dos patrões da tua unidade de infiltrados?

- Estás a chamar-me prostituta?

- Isso seria um cumprimento - explodiu Parker. - Estou a chamar-te mentirosa.

- Vai-te lixar, Parker!

- Estou a chamar-te ratazana! - gritou Parker. Quem te colocou aqui?

- Que é que tu tens? E por que razão estás a fazer isto?

- Porque estou chateado - explicou ele, aproximando a cara da dela. Como facto a favor dela, a rapariga não recuou. - Não gosto que brinquem comigo. Que foi que deste ao Bradley Kyle quando ele veio cá?

- Meu cretino do caraças, porque hei-de eu contar-te alguma coisa?

- O que foi que lhe deste?

- Tudo o que tu não levaste contigo - admitiu ela.

- Contaste-lhes do Davis e deste-lhes a morada?

- Não tive outra hipótese.

- Temos sempre outra hipótese, Ruiz. Podias ter-lhes dito que eu tinha levado tudo. E podias ter deixado de fora a informação sobre a morada do Davis.

- Eles ficaram com o caso! - disse ela, frustrada. Não percebes? Já não é teu, Parker. Que diferença faz se eu lhes dei a informação agora e não mais tarde? Eles acabavam sempre por ficar com ela.

Fuentes meteu a cabeça de fora do seu gabinete.

- Que diabo se passa aí?

- Ele é doido! - disse Ruiz, traduzindo depois para espanhol, para o caso de Fuentes não ter percebido a primeira versão.

- No meu gabinete, os dois, já! - exclamou o chefe.

- Tenho de sair - declarou Parker. - Tenho que fazer.

- Aqui, Kev. Estou a falar a sério.

Parker parou, pesando os prós e os contras. Fuentes nada faria se ele continuasse a andar. Mas, se o fizesse, Ruiz teria tempo para se recompor. E ele queria acabar com aquilo. Nesse instante.

Entraram no gabinete de Fuentes, Ruiz para um lado e Parker deixando-se ficar junto da porta. Não esperou que o chefe falasse. Enfrentou-o e perguntou:

- Donde é que ela veio? Quem a colocou aqui?

- Não sejas paranóico - disse Fuentes.

- Ele está completamente doido - afirmou Ruiz, cruzando os braços com força sob os seios.

Parker atirou as mãos ao ar e descreveu um pequeno círculo com o corpo.

- Porque é que ninguém responde ao raio da pergunta?

- Ela veio da Unidade dos Gangues...

- Não me aldrabe! - berrou Parker. - Sei perfeitamente que nunca esteve lá!

- Se não gostas das respostas às tuas perguntas, pára de as fazer - recomendou Fuentes, ligeiramente calmo de mais. - É como é, Kev.

- Certo. É como é - repetiu ele, acenando com a cabeça. - Eu sei que ela está a mentir, portanto posso presumir que consigo se passa a mesma coisa.

Fuentes nem sequer negou.

- Ela é a tua estagiária. Que diferença faz donde veio? A tua função é treiná-la.

- Faz diferença se não for esse o motivo da presença dela aqui - explicou Parker. - Qual é o teu papel, Ruiz? Toupeira dos Roubos e Homicídios? Ratazana dos Assuntos Internos? Podes escolher o roedor.

Mais uma vez ninguém lhe respondeu. Ruiz e Fuentes trocaram um olhar que demonstrava perfeitamente saberem qualquer coisa que Parker desconhecia. Este ficou a olhar para eles, espantado por ainda estar à espera de alguma coisa de alguém, pelo menos do chefe. Devia ter aprendido a lição. Pensava que sim, mas talvez se tivesse limitado a conformar-se e, agora que finalmente apanhara um caso em que podia dar provas de si, a insensibilidade começava a desvanecer-se.

- Que se lixe - disse ele, voltando-se para a porta.

- Onde é que julgas que vais, Parker?

- Tenho que fazer.

- Estás fora do caso Lowell - declarou Fuentes. E tens de entregar tudo aos tipos da Brigada de Roubos e Homicídios antes que eles fiquem realmente chateados e decidam acusar-te de obstrução.

- Podem fazer o que quiserem - disse Parker. Desconheço as razões deles para ficarem com isto, mas estou a começar a juntar as peças e não gosto do quadro que está a aparecer. Não vou entregar-lhes as rédeas e desaparecer no horizonte.

- Podes perder a carreira com isto, Kev - avisou Fuentes. - Afasta-te deles.

- Não me importo - respondeu Parker, com a mão no puxador da porta. - Despeça-me, se quiser, para não apanhar com as culpas. Pode ficar com o meu lugar, mas o caso é meu e vou ficar com ele até ao fim, nem que seja como vulgar cidadão.

- Kev...

- Olhe, sabe o que pode fazer? Diga aos chefões que eu finalmente endoideci de todo. Assim, passo os próximos seis meses com um dos ”psis” do departamento a examinar-me a cabeça. Safa-se perfeitamente, se eu estiver tarado dos miolos.

Fuentes olhou para ele e suspirou.

- Eu não sou teu inimigo, Kev - disse ele por fim.

- Tens de aprender quando deves afastar-te duma coisa qualquer.

Parker voltou-se para Ruiz.

- E tu, não tens um comentário de chica-esperta? Não vais dizer-me que isto fica na minha ficha? Seja quem for que manda em ti vai ficar muito desapontado contigo.

Ela não teve resposta, o que constituiu o momento mais revelador que ele já passara com ela.

- Belo papel, a propósito - continuou Parker. - Deste-me a volta por completo. Nunca pensei que fosses uma ratazana.

- Não sabes o que estás a dizer - respondeu Ruiz em tom impaciente.

- Pelo contrário - disse Parker. - Sou uma autoridade na maneira como lixar Kev Parker. Tenho anos de experiência... Vou-me embora. E, se não houver trabalho para mim quando voltar, c’est la vie. Deus sabe que não é pelo dinheiro que o faço.

- Então é por quê? - perguntou Ruiz.

- É disso que se trata? - indagou Parker, com uma gargalhada desprovida de humor. - Como é que o Parker pode ter um Jag? Como é que o Parker comprou um andar em Chinatown? Como é que o Parker pode usar fatos de marca?

- Como é? - perguntou ela, directa e sem pedir desculpa. - Como é que manténs esse estilo de vida com o ordenado de detective?

- Não mantenho - disse ele. - E o resto da resposta não é da conta seja de quem for.

- E, se arranjas o dinheiro...

- Vocês são incríveis. - Olhou fixamente para ela, incrédulo, a abanar a cabeça. - Fui um polícia dos melhores durante mais de metade da minha vida. Venho para aqui todos os dias, trabalho nos meus casos a cento e dez por cento, treino merdosos como tu para chegarem aonde eu devia estar há meia década... E tens a lata de me investigar porque não compro os meus fatos num armazém manhoso?

- Não tenho de te pedir desculpa por fazer o meu trabalho - disse Ruiz, aproximando a cara da dele. - Nos últimos três anos, pagaste duas hipotecas... a tua e a dos teus pais; compraste um andar num prédio de luxo em Chinatown; começaste a usar roupa de marca e guias um Jaguar quando estás de folga.

”Não estás a fazer isso com o que a polícia de Los Angeles te paga - continuou ela. - Como é que não pensaste que os Assuntos Internos iam interessar-se por ti?

Parker sentiu a cara ficar quente.

- Têm alguma queixa contra mim? - perguntou ele.

- Alguma coisa mesmo?

- Por acaso, temos - disse ela. - Temos-te a lixar um julgamento por homicídio em que um réu rico se safou sem uma repreensão sequer. E os teus rendimentos parecem ter começado a aumentar desde essa altura. Precisas dum lápis para unir os pontos, Parker?

- Isto é positivamente inacreditável - murmurou Parker. - Os Assuntos Internos têm estado todo este tempo a vigiar-me. O Giradello não conseguiu ver-se completamente livre de mim, não conseguiu obrigar-me a sair, de maneira que vocês estão a entrar pela porta das traseiras para o ajudar! Por que motivo não me chamaram para me espremer

- continuou ele. - Mas sei perfeitamente como trabalham. Perseguem primeiro e fazem as perguntas depois.

- Terias sido mais cooperante do que estás a ser? - perguntou Fuentes.

- Não. Nunca procedi mal. Nunca fiz uma coisa ilegal. E o que faço com o meu tempo livre é comigo. Passei demasiados anos só com este trabalho, e que foi que consegui? Que me esmagassem e me deitassem por terra.

- Se estavas tão contrariado, porque não te despediste?

- perguntou Ruiz.

Parker abanou a cabeça e acabou por apertá-la nas mãos como se fosse um coco prestes a estalar, tal era a frustração que sentia perante tanta estupidez tacanha.

- Pensaste antes de abrir a boca? - perguntou ele, espantado por haver pessoas tão obtusas. - Contrariado? Eu adoro o meu trabalho! Não percebes? Porque havia de ficar aqui se o detestasse e alguém me proporcionava um rendimento com seis algarismos? Porque não vos mandaria lixar a todos?

Ruiz limitou-se a olhar para ele, tentando manter um ar superior e convencido, sem o conseguir.

- Se ainda não perceberam por que razão continuo com a polícia de Los Angeles, sabendo o que vocês sabem sobre mim, sabendo o que te contou seja quem for que te mandou para cá, nunca hás-de perceber.

Em tempos, a sua resposta teria sido muito diferente. Na época em que tudo girava à sua volta e à volta da sua imagem, bem como do número de casos que deslindava num mês... Quando todos os louros lhe haviam sido retirados e fora forçado a olhar bem para si próprio, começara a perceber aos poucos que a sua carreira era uma coisa diferente, uma coisa mais profunda e com maior significado, mais satisfatória a um nível diferente.

- E tu, Ruiz, porque fazes o teu trabalho? - perguntou ele em voz baixa. - Pelo poder? O controlo? A excitação de subir os degraus? Digo-te já que não é suficiente. Se o teu único objectivo é o prémio, que é que supões que te acontece depois de o agarrares? Qual é o significado para ti? O que vês quando olhas para trás? O que é que tens?

- Uma carreira - disse ela.

- Nada, nada é o que tens - retorquiu Parker. - Olha para dentro de ti. Nada. Eu sei.

Olhou para Fuentes, que não conseguia encará-lo.

A cumprir as suas funções, pensou Parker com amargura. A panaceia para todos aqueles que não sabiam como justificar as suas acções.

- Vou tirar o resto do dia.

Ninguém tentou impedi-lo de sair porta fora.

 

A casa onde Eddie Davis vivia na zona de Hollywood parecia um edifício que um profissional de pornografia podia alugar para fazer filmes para adultos. Estilo anos 70, ligeiramente deteriorada, com o telhado plano, janelas trapezoidais e estores verticais verde-claros. Um sólido portão dava para o pátio das traseiras, onde Parker sabia que ia encontrar uma piscina em forma de rim, uma grande banheira de água quente e um bar. A ”Casa dos Engates” de Eddie Davis.

Não era um bairro de categoria. Não havia mansões nem grandes celebridades nas imediações, mas provavelmente um ou outro argumentista mediano, um episódico realizador de televisão ou dois. Apesar disso, era possivelmente de longe a casa mais luxuosa em que Davis vivera em toda a sua miserável vida. Só precisava das actrizes pornográficas dentro da banheira de água quente para se sentir no céu dos porcos. Era bom ver que investia inteligentemente o seu dinheiro de chantagem.

Parker ficou sentado no carro um pouco adiante, num ponto ligeiramente elevado, donde observou a casa de Davis, à procura de sinais de vida. Entretanto, esperava que o seu contacto na companhia dos telefones o atendesse, e ouvia a voz de James Earl Jones a tentar vender-lhe a ideia duma engenhoca qualquer.

- Parti. Em que posso ajudar?

- Só o som da tua voz é um bálsamo para a minha alma, querida.

Ouviu o sorriso na voz dela.

- Kev Parker. Se conseguisses engarrafar esse encanto, ficavas com um produto fantástico.

- Pois, uma colónia barata - disse Parker. - Estou a trabalhar nisso nos tempos livres. Olha, Patti, preciso dum favor. Podes mandar-me um faxe com os pormenores dum possível mestre do crime?

Deu-lhe o nome e a morada de Davis, bem como o número do seu faxe de casa.

- Tens o mandado para isto?

- Não exactamente.

- Kevin...

- Mas tenho bilhetes para o jogo dos Lakers contra os Spurs da próxima sexta-feira.

- Bancada central?

- Os melhores. Vais sentir o cheiro do hálito do Jack Nicholson.

- Nunca foi uma das minhas prioridades, sabes?

- Mas vais ser invejada por todos os fãs dos Lakers.

- Não sei - disse ela. - Tu sabes que eu não devia...

- Ninguém sabe, miúda. Nada disto vai a tribunal. Só preciso duma ajudinha - insistiu Parker. - E o teu maridinho não merece sair uma noite com a sua garota favorita?

- Até pode ter um milhão delas - respondeu Patti. Dei-lhe com os pés. Mas o meu filho ficava encantado.

- Estão à tua disposição. Quer dizer, são teus de qualquer maneira - explicou ele, magnânimo. - Leva o teu filho e diverte-te. E lamento que as coisas não tenham corrido bem no teu casamento.

- Sabes, acho que talvez até tenham - respondeu ela, embora num tom menos alegre. - Toda a gente me diz que estou melhor sem ele.

- Pois, e toda a gente podia passar por isso em teu lugar. Para saberem como estás a gostar.

- Como se tu soubesses.

- Aprendi com as experiências dos meus amigos. Deixou o silêncio prolongar-se, à espera que Patti falasse.

- Diz-me que o mandado vem a caminho - pediu ela com um suspiro.

- O mandado vai a caminho. Liga-me se ele se perder entretanto - avisou Parker. - Podes ir buscar os bilhetes ao Will Call. Deixo-os em teu nome.

Em casa de Davis, não havia actividade. Nenhum jardineiro nas traseiras, nenhuma mulher-a-dias com o carro estacionado à entrada. Eddie podia estar a descansar do seu último homicídio, supôs Parker, revivendo a raiva por Eta e pelos filhos dela.

Uma morte absolutamente sem sentido, que ia alterar as vidas de muitas pessoas e não para melhor. Entretanto, Eddie Davis estava deitado na cama, a coçar os tomates, ou a comer no Fat Burger, ou a fazer o que um anormal como ele fazia para passar o tempo. Sentado a tirar macacos do nariz, tentando decidir se devia escolher uma conta-poupança ou um belo negócio de cocaína.

Parker deixou o carro deslizar, passou a casa de Davis e estacionou, voltando para trás a pé. Através dos vidros sujos da porta da garagem, viu uma colecção de velhas motocicletas, a maioria em vários estados de má conservação, e uma Kawasaki Ninja ZX12R encarnada, no vinha em folha. Uma atraente máquina de grande cilindrada. Outro sinal da nova prosperidade de Eddie. Mas não avistou qualquer carro preto.

Empoleirado num enorme vaso de barro cheio de plantas mortas, Parker espreitou por cima do portão do pátio. Lá estava a piscina em forma de rim. O bar. E a pirosa banheira de água quente. Viu ainda um feio chow-chow alaranjado que parecia ter sarna. O cão levantou-se, deu uns passos e sentou-se a olhar para Parker. Depois, virou a cabeça para trás e começou a morder o pêlo junto a uma das peladas.

Parker desceu e dirigiu-se à porta da frente, para espreitar por um dos painéis de vidro laterais. A imprescindível mobília de filme pornográfico - cabedal preto, sofá baixo, almofadas espalhadas pelo chão da sala em volta duma mesa com aspecto marroquino feita duma gigantesca bandeja de latão martelado coberta de latas de cerveja, caixas de piza e sacos vazios de Doritos. A outra única peça de mobiliário na sala era uma grande e fálica televisão preta ladeada por enormes altifalantes.

Portas de correr para o exterior pertenciam provavelmente ao quarto principal, na parte sul da casa. Parker empoleirou-se noutro grande vaso de plantas mortas para espreitar lá para dentro, e o chow-chow apareceu e tornou a sentar-se a olhar para ele. Os olhos do cão eram dois pontos escuros e inexpressivos na grande cabeça, olhos de assassino, pensou Parker. O estupor provavelmente arrancava-lhe a perna, se ele a passasse para o lado de lá.

- Ei! Que porra é esta?

Parker saltou para o chão. Eddie Davis estava a olhar para ele de dentro dum Lincoln preto parado junto ao passeio, com olhos iguais aos do cão, e com o aspecto de quem acabava de sair duma cena de pancadaria num jogo de hóquei - um penso na cana do nariz, um olho inchado e vermelho, arranhões na cara.

- Sou o Steve - disse Parker, sorridente. - És o Eddie? Venho da parte do Rick.

- Qual Rick?

- Tu sabes. O Rick da coisa da praia. Ele disse-me que talvez tivesses uma mota para vender. Uma Kawasaki, talvez de noventa e oito ou noventa e nove? Se é verdade, tenho aqui a massa a queimar-me o bolso. E estou com um tesão pela mota que nem calculas!

- Porque é que estás a espreitar por cima do meu muro?

- Pensei que estivesses na piscina.

Davis parecia indeciso entre a ganância e a precaução.

- Olha, se queres que volte noutra altura... - propôs Parker, abrindo as mãos. - Mas tens de esperar até ao fim da próxima semana, porque tenho de sair da cidade para tratar dumas coisas. Só pensei que podia apanhar-te de passagem...

Davis olhou para ele mais um momento.

- Tu é que sabes - disse Parker.

- Abre aí o casaco.

- Quê?

- Abre o casaco.

Para ver se estava armado. Para ver se era polícia. Parker abriu o casaco.

- Credo, se me dizes que pareço um polícia, o meu alfaiate mata-se!

Davis não reagiu. O sentido de humor também era igual ao do cão. Meteu a marcha atrás, recuou e parou.

Parker aproximou-se, com os sentidos mais alerta a cada passo que dava,.sempre a observar o que o rodeava, o carro, a matrícula, um autocolante no canto inferior direito da janela de trás. Avaliou a linguagem corporal de Davis quando ele se apeou - tenso, vigilante e certamente armado de pistola ou faca, a faca que utilizara para cortar o pescoço de Eta Fitzgerald.

As casas da rua não ficavam muito perto umas das outras, mas o suficiente para Parker achar que ele não ia arriscar-se a matá-lo ali mesmo em pleno dia.

- Não conheço Rick nenhum - declarou Davis. O olho esquerdo estava praticamente fechado de tão inchado, e lacrimejava. Limpou-o com um lenço sujo.

- O Rick Dreyer, de Venice Beach - esclareceu Parker. - O tipo com os braços e as pernas todos tatuados. Tu sabes. O que faz as pinturas fantásticas. É um génio com uma pistola de tinta.

- Já ouvi falar dele - disse o outro, semicerrando o olho bom.

Parker encolheu os ombros.

- Talvez seja amigo dum amigo, ou coisa parecida. Davis pensou no assunto. As engrenagens do cérebro dele pareciam trabalhar à velocidade da erva a crescer.

- O Stench conhece-o.

Parker abriu de novo o casaco e pôs as mãos na cintura.

- Seja como for. Olha, Eddie, eu tenho de apanhar um avião - disse Parker com um grande sorriso tipo ”sou teu compincha” -, de maneira que...

Davis carregou no botão do comando para abrir a porta da garagem e ela começou a fazê-lo ruidosamente. Fez sinal com a cabeça convidando Parker a entrar. O detective colocou-se ligeiramente de lado, procurando mantê-lo à vista. O tipo não era alto, mas possuía um físico que parecia um frigorífico.

- Então, quanto é que queres aqui pela beldade? perguntou Parker.

- Oito mil.

- Porra!

Parker parou de repente, e Davis avançou mais dois passos antes de se virar. O sol atingiu-o na cara e ele fechou os olhos.

Parker tirou a arma do coldre preso na parte de trás do cinto e, agitando os dois braços, atingiu Davis com toda a força na cara.

A cabeça de Davis saltou para a direita, com o sangue a jorrar do nariz previamente partido. O homem cambaleou para trás, tropeçou e caiu de rabo no chão, abrindo os braços e acabando por bater também com a cabeça.

A raiva e a adrenalina ajudaram Parker a passar por cima dele, baixar-se e encostar-lhe a arma à cara.

- Eddie Davis, estás preso pela morte da Eta Fitzgerald. Uma palavra da porra dessa boca para fora e dou cabo de ti à porrada. Tens direito a um advogado, mas também o mataste, por isso, tens uma sorte de merda. Percebeste?

Davis gemeu, virou-se de lado, a tossir, e cuspiu uma golfada de sangue.

- Foda-se!

Parker deu-lhe um pontapé nas costelas, e Davis emitiu o som dum ninja num filme de terceira categoria.

- Isto é pelo palavrão - explicou Parker. - A Eta era uma mulher decente e que ia à igreja.

- Quem diabo é essa Eta? - Parecia o Marlon Brando em O Padrinho.

- A mãe de quatro filhos e único sustento da família que tu cortaste num beco ontem à noite como um saco de lixo, pela única razão de seres um merdoso miserável como ser humano. Vira-te para lá. A cara no chão.

Davis gemeu, voltando-se com a ajuda dos cotovelos e dos joelhos, e Parker pôs-lhe um pé no traseiro e empurrou-o para baixo.

- Que é que se passa aí?

Parker olhou para o lado. Um velhote sem camisa, que parecia uma morsa, estava parado à beira do passeio, de bermudas e sentado num carrinho de golfe.

- Assunto da poli...

A respiração de Parker foi expelida subitamente com uma forte pancada nas costas. Com a dor, o corpo torceu-se e fê-lo tropeçar nas pernas de Davis e cair, batendo com um joelho no chão de cimento.

Davis rebolou para o lado, pôs-se de pé e bateu-lhe de novo nas costas com o dobro da força. O detective caiu para cima duma motocicleta e esta para cima de outra ainda, como peças de dominó.

Parker empurrou a moto e escorregou para o chão, evitando por milímetros o tubo de escape que Davis apanhara e que atingiu um pára-choques em vez da cabeça do detective.

A arma de Parker desaparecera entre as peças de motas espalhadas no chão. Não havia tempo para a procurar, de maneira que rebolou e ficou agachado.

Davis tentou outro forte golpe com o tubo de escape, mas falhou. Parecia uma gárgula, com a cara contorcida, inchada, a sangrar e a boca a espumar. Os olhos, no entanto, mantinham a mesma expressão que anteriormente: uma calma de morte.

Avançou para Parker, levantando o tubo acima da cabeça. Parker fugiu para trás, até à parte dianteira do Lincoln e rolou para a direita quando Davis baixou o tubo com toda a força, atingindo o capo e amolgando-o.

O velhote, imóvel no carrinho, estava de boca aberta.

Davis atirou o tubo em direcção a Parker, meteu-se no carro e ligou o motor. Os pneus chiaram e o Lincoln deu um salto para trás, atingindo a frente do carrinho de golfe e fazendo-o girar como um pião.

Parker correu para dentro da garagem, encontrou a arma e saiu outra vez a correr. O velhote caíra do carrinho e estava a tentar levantar-se. O carrinho, entretanto, rolava pela rua abaixo.

A coxear e a praguejar, Parker cerrou os dentes e correu para o carro. Com uma mão, agarrou um poste que segurava o toldo do carrinho de golfe e saltou para dentro, para o sítio onde era costume transportar os tacos.

O carrinho desceu a rua inclinada a toda a velocidade. Parker conseguiu saltar dele a menos de cinco metros do seu Sebring e foi bater-lhe com toda a força.

- Porra, porra, porra! - gritou ele, atirando a arma para o banco do lado e metendo a chave na ignição.

O Lincoln de Davis estava quase a desaparecer, derrapando numa curva.

Parker arrancou e desceu a rua a toda a velocidade, com o carrinho de golfe a dançar à sua frente. Virou o volante para a esquerda, sentindo o carro a derrapar para um lado e para o outro, até que arrancou a caixa do correio duma casa e depois um vaso de gerânios.

Quando saiu da curva, o carro de Davis desaparecera. A estrada bifurcava-se como braços dum rio, e Parker não avistou um Lincoln preto em nenhum deles.

Encostou e ligou para a esquadra de Hollywood com a descrição do carro e de Eddie Davis, avisando de que estava armado e era perigoso.

Eddie Davis. Tão perto e agora desaparecido, em fuga. Parker não fazia ideia para onde se dirigia. Vermes como ele tinham buracos em toda a parte. Podia esconder-se num deles, e sabia-se lá quando voltava a sair.

Agora tinha conhecimento de que os chuis andavam atrás dele e talvez tentasse fugir. Mas não possuía os negativos e era óbvio que estava disposto a arriscar tudo para os apanhar.

Os negativos podiam atraí-lo a uma armadilha, e ele não sabia que Parker estava de posse do que Lenny Lowell escondera.

Parker tentou falar com Ito para saber se já revelara o negativo que Lowell guardara como seguro, mas respondeu-lhe o gravador. Deixou uma mensagem para ele lhe ligar o mais depressa possível e desligou.

Precisava de saber o que - ou quem - ia enfrentar. Homem avisado valia por dois. O relógio marcava o tempo que lhe restava para fechar o caso de Lenny Lowell e abrir uma nova lata de vermes. Aquele caso estava a tornar-se uma obra-prima. Era irónico, pensou Parker: se tivesse razão quanto ao alvo do esquema de chantagem do advogado e o próprio motivo da chantagem, o mais provável era aquele ser o seu último caso. Numa cidade movida pela fama e pelo poder, a mensagem seria algo que ninguém queria que fosse entregue: a verdade.

 

O acampamento de jornalistas em frente do tribunal parecia uma espécie de campo de refugiados do mundo da técnica. Luzes em postes, geradores, cabos a serpentear em todas as direcções, tipos de calções largos carregando câmaras de vídeo com as iniciais de redes de televisão, tipos do som com auscultadores, talentos do microfone, todos bem vestidos do pescoço à cintura. Daí para baixo: calções largos, sandálias ou sapatos de ténis.

As carrinhas de reportagem formavam o seu próprio parque de estacionamento. Antenas parabólicas erguiam-se como estranhas flores gigantes viradas para o sol. Havia vendedores de bebidas frescas e café, sanduíches e burritos, gelados e sorvetes de fruta, camisas desportivas e camisolas com ”Libertem Rob Cole” escrito à frente.

Os jornalistas da imprensa eram os coiotes do grupo, à solta, livres de cabos, sem necessidade de pintura na cara ou luzes. Os fotógrafos, com múltiplas câmaras penduradas ao pescoço e bonés de pala virados ao contrário, procuravam o ângulo que ainda não fora utilizado. Os repórteres empoleiravam-se por aqui e por ali, a fumar e a falar do trabalho.

Parker marcou o número de Andi Kelly ao aproximar-se do local.

- Andi Kelly.

- Parece que estamos em mil novecentos e noventa e quatro - queixou-se Parker. - Não aparecem novidades desde o O. J.? Não há um assunto mais excitante para as notícias?

- As celebridades ligadas a crimes estão outra vez na moda, Parker. Reality show ao vivo. Está na berra.

- E a seguir? O regresso do David Lee Roth e dos conjuntos cabeludos?

- O mundo está perdido mesmo. Onde é que estás?

- Entre o tipo que vende DVDs de candonga da série televisiva do Cole e a carrinha das notícias do Canal Quatro. E tu?

- À beira dum ataque de nervos.

- Vai ter comigo ao pé do tipo dos cafés.

- Pagas tu.

- Alguma vez foste tu a pegar na conta?

- Não.

Parker pagou um expresso duplo para ele e um batido de caramelo com chantili para Kelly.

- Tens o metabolismo dum mosquito - comentou ele.

- É porreiro. O que estás a fazer aqui?

- A falar contigo - disse ele, mas sempre a espiolhar a multidão, com o radar a funcionar à procura dum sinal de Kyle ou Roddick. Fez um gesto com a cabeça para longe daquela loucura.

- Vem dar uma volta comigo. Não perdes grande coisa, pois não?

Ela gesticulou na direcção do tribunal e revirou os olhos.

- O Cole está lá dentro, a tentar parecer inconsolável para o júri. Brilhante, com certeza. Vai poder exibir toda a sua variada representação no campo das emoções, de A a B.

Deram uns passos, afastando-se do circo, e voltaram-se para o observar de longe.

- Estás com um ar um bocado afanado, Kev - disse Kelly.

- Tive um dia infernal.

- E ainda não acabou - lembrou ela. - Já deste de caras com os teus amigos da Brigada de Roubos e Homicídios?

- Não vou dar-lhes essa satisfação - respondeu ele, sempre à procura com o olhar. Estava numa de caçador, com as ideias e o pulso acelerados, a pressão arterial a subir.

Incapaz de ficar quieto, mudava o peso duma perna para a outra, como se precisasse desse ligeiro escape para não estoirar.

- Não tenho bom perder - disse ele. - Peguei em tudo o que tinha do caso e vim-me embora. Provavelmente, tenho um mandado de captura neste mesmo instante.

- E quem foi que te bateu? - perguntou Kelly.

- Ha?

- A minha aguçada capacidade no campo da investigação diz-me que alguém se portou mal no recreio. - Inclinou-se e puxou-lhe a perna das calças no sítio em que caíra sobre o joelho na garagem de Davis. Uma nódoa de gordura e um pequeno rasgão triangular marcavam o local. As duas pernas das calças estavam sujas de pó que quase escondia o caro tecido de riscas.

Parker abriu muito os olhos, como se reparasse naquilo pela primeira vez.

- Ah, o filho da... Vou processar aquele estupor do Davis assim que o apanhar! Isto é Canaz!

- És burro ou não és? Quem é que se lembrava de ir de fato de marca para uma luta de cães?

- Eu sou detective. Nunca ando à pancada - disse Parker, mais danificado do que o tubo de escape que Davis utilizara para lhe bater.

- Hoje andaste, pelos vistos.

- Além de que o que eu visto é o meu disfarce. Ninguém pensa que sou um chui.

- Então os teus fatos servem para descontar no IRS?

- O meu contabilista diz que não.

- Isso é chato - declarou Kelly, encolhendo os ombros. - Então que foi que aconteceu?

- O Eddie Davis apanhou-me a andar à volta da casa dele. Aproveitei a oportunidade para o prender. E depois ele aproveitou a oportunidade para tentar matar-me. Anda à solta, com a polícia toda à procura dele. Já sabes alguma coisa interessante sobre o tipo?

- No pouco tempo desde que me pediste informações?

- Olha, até agora o que sei é isto: é um criminoso de meia-tigela com a mania das grandezas - disse Parker. Até há muito pouco tempo, tinha um advogado de meia-tigela chamado Lenny Lowell.

- Que surpresa!

Parker deu outra rápida olhadela em volta, movendo apenas os olhos. Um tipo forte, com uma camisa amarrotada, estava talvez ligeiramente perto de mais, a acender um cigarro. Parker foi ter com ele e identificou-se.

- Olhe, amigo, ponha-se a andar daqui. O tipo não se mostrou pelos ajustes.

- Estou a fumar um cigarro. Meta-se na sua vida. Parker aproximou a cara da do homem.

- Não, não é assim que as coisas funcionam. Você é que vai meter-se na sua vida, ali - disse ele, apontando na direcção do tribunal.

Kelly colocou-se diante dele e tentou fazê-lo recuar.

- Kevin - chamou ela, olhando para o fumador por cima do ombro. - Desculpe, ele começou a usar o penso antitabaco a semana passada.

Parker virou-lhe as costas e afastou-se, com Kelly atrás dele.

- Isto é só uma ideia - disse ela -, mas talvez pudesses fazer baixar a testosterona um bocadinho.

Parker não fez caso.

- A minha amiga que ouviu o meu nome na tal conversa entre o Giradello e o Kyle estava numa angariação de fundos para o procurador distrital. E o convidado especial da noite era o Norman Crowne - disse ele.

Kelly franziu a testa, tentando juntar as peças todas.

- Um advogado de meia-tigela como o Lowell... um criminoso barato como o Davis... São menos do que formigas no mundo de alguém como o Norman Crowne.

- Acho que o Lowell e o Davis andavam a fazer chantagem com alguém - explicou Parker. - Possivelmente, o Eddie fartou-se de dividir com o outro. Mas como é que um selvagem como o Eddie Davis, que só serve para bater nas pessoas, se lembra duma coisa como chantagem?

- Sessenta e dois por cento dos relacionamentos começam no local de trabalho - observou ela. Mas depois pareceu perceber. - Ai, meu Deus! Tu achas que alguém contratou o Davis para matar a Tricia Cole.

- E que esse alguém pode ter sido o Rob Cole - continuou Parker. - Até ele não seria estúpido ao ponto de estar dentro de casa quando a polícia lá chegou. Estava noutro sítio qualquer a arranjar um álibi.

Kelly tentou digerir a ideia. Parker começou a andar dum lado para o outro, com o cérebro a cem à hora. Uma fila de carros pretos estacionados junto ao passeio, com polícias de mota à frente e atrás, a intervalos regulares, esperavam a saída dos manda-chuvas do edifício do tribunal. Três limusinas, dois Lincolns e um Cadillac Escalade com vidros escuros.

Parker tomou nota dos pormenores quase distraidamente, apenas para manter as ideias concentradas numa coisa inócua enquanto respirava fundo e guardava as energias por um instante. Passou pelos mesmos três carros duas vezes, até que parou de repente. Primeiro, nem percebeu o motivo. Mas, depois, voltou para trás e passou outra vez pelo último carro.

- O que é? - perguntou Kelly, aproximando-se.

No canto inferior direito da janela de trás havia um pequeno autocolante redondo, roxo, com um símbolo dourado e um número. Um autocolante de estacionamento para um parque duma empresa. Recordou a cena: aproximava-se do Lincoln preto, a fazer exactamente o que fizera instantes antes, a observar pequenos pormenores, arquivando-os cuidadosamente no cérebro, mas com as ideias concentradas no mais importante: Eddie Davis. Lembrava-se do azul-forte do céu, do verde da relva, do carro preto, da matrícula e do pequeno autocolante no canto inferior da janela de trás. Não era maior do que uma pequena moeda.

A respiração de Parker começou a ficar mais rápida, e ele sentiu-se estranhamente leve ao baixar os olhos para a janela das traseiras.

 

O primeiro pensamento de Parker foi egoísta: ”A minha carreira acabou.”

- O Eddie Davis anda com um Lincoln preto deste modelo - disse ele em voz baixa.

- Tu estás doido, Parker - declarou Kelly. - É impossível um assassino contratado andar por aí ao volante dum carro das Empresas Crowne!

Mas Parker já estava a marcar um número do telemóvel. Quando começou a falar, percebeu que tremia e teve de apertar o telefone de encontro à orelha para o manter seguro. Parecia-lhe ouvir um relógio a fazer tiquetaque enquanto esperava pela informação que pediu.

Entretanto, Kelly abanava a cabeça e resmungava para consigo:

- Não consigo entender isto. Como é que funciona?

- As Empresas Crowne comunicaram o roubo de dois Lincolns pretos deste modelo nos últimos dezoito meses disse Parker, guardando o telemóvel.

- Então, o Davis roubou um. Parker deitou-lhe um olhar.

- O Eddie Davis vai na rua uma noite, decide roubar um carro, e o carro que rouba por acaso é um Lincoln das Empresas Crowne. Quais são as hipóteses disto?

- Bom, se pões as coisas dessa maneira... - começou Kelly, de testa franzida.

- Estás dentro desta história desde o primeiro dia salientou Parker. - Se tivesses de escolher um suspeito sem ser o Rob Cole, quem é que escolhias?

Ela pensou no assunto durante um momento, olhando em volta à procura de espiões.

- Bom, há a adorável Caroline, que encontrou o corpo da mãe. O relacionamento dela com o Rob não era realmente de pai e filha. Pareciam mais colegas de escola. É claro que o atraso mental do Robbie aí duns dezassete anos talvez lhe fizesse considerar isso normal.

”Depois, há o Phillip, irmão da Tricia. Suponho que viver à sombra da Santa Tricia devia ser obra. Ela era a menina do pai, e o Phillip... ficava sempre mais ou menos para trás.

”Ele jantou com a Tricia no Patina na noite em que ela foi assassinada. Uma sala inteira cheia de gente viu os dois aparentemente numa grande discussão. Ele diz que ela falou em divorciar-se do Cole, e que ia ligar para o advogado na semana seguinte. Como não falou nisso a outra pessoa, só temos a palavra do Phillip.

Fez uma pausa e olhou para longe com uma careta, como se estivesse a tentar decidir se havia de lhe contar uma coisa ou não.

- O melhor é contares - disse Parker. - Eu sei que tens mais qualquer coisa dentro dessa cabeça, e não me apetece ter de recorrer à tortura.

- Que espécie de tortura? - perguntou ela, com um olhar provocante.

- A pior. Ela suspirou.

- Está bem - anuiu. - Uma vez ouvi um comentário, no começo desta porcaria, sobre a Tricia ter acusado o irmão de roubar duma das fundações de beneficência.

- Quem te disse isso?

- A prima duma mulher cuja filha da governanta do tio por afinidade da irmã do marido costumava trabalhar no escritório das Empresas Crowne. Uma coisa deste género. Saquei a história, mas nunca consegui confirmá-la. O Phillip tem álibi para a hora do homicídio, mas se o encomendou a alguém...

- Podia ter pago ao Davis com um Lincoln - especulou Parker. - Depois precisava de dar contas do carro e comunicou o roubo.

- Mas estás a esquecer-te duma coisa, Kev!

- O quê?

- Quem a matou foi o Rob Cole. Ele estava lá em casa, inconsciente com uma bebedeira, quando o corpo da Tricia foi encontrado. Não tem álibi e é conhecido pelo mau génio. Se ela queria ver-se livre dele, aí tens o motivo para ele querer ver-se livre dela.

A primeira limusina começou a andar lentamente, com um dos polícias de mota à frente com as luzes a piscar.

- Devem estar a sair - disse Kelly.

Começou a aproximar-se do tribunal, quase a correr, com Parker na sua peugada, que sentia o joelho a latejar.

A zona dos jornalistas agitava-se, excitada, com suportes de luzes a serem deslocados, cabos puxados e ordens gritadas em inglês, espanhol e japonês.

Ironicamente, Cole possuía uma multidão de admiradores no Japão, apesar das imagens dum Rob Cole bêbedo a insultar pessoas de diferentes etnias - incluindo os japoneses - enquanto era escoltado para fora dum clube de Hollywood, que apareciam regularmente em noticiários por todo o mundo.

Andi esgueirou-se por entre as pessoas, com a vantagem do seu tamanho, até chegar às últimas e impenetráveis filas formadas pelos talentos das cadeias de televisão. Parker foi atrás dela, erguendo o distintivo e dizendo às pessoas que se afastassem, na sua voz autoritária e séria de polícia. Encontrou Kelly porque a cabeça dela saltou de repente entre dois homens de ombros largos e voltou a desaparecer. Estava a pular para cima e para baixo, tentando ver a entrada principal do tribunal.

Avistou Parker e disse-lhe:

- Baixa-te!

- O quê?

- Baixa-te! Quero empoleirar-me nos teus ombros.

- E se eu não quiser?

- Não sejas maricas, Parker. Despacha-te!

Ele ajudou-a a trepar, mesmo no instante em que as portas se abriam e aparecia a primeira pessoa da procissão: Norman Crowne, seguido da sua corte de advogados, assistentes e guarda-costas.

Crowne comparecera regularmente no tribunal durante as inúmeras sessões preliminares. Mesmo naquelas em que ninguém do seu grupo podia entrar, lá estava Norman Crowne no edifício do tribunal, evidenciando o seu apoio à filha adorada.

Parker vira-o em entrevistas na televisão: um homem calmo e digno, cujo sofrimento era quase palpável. Era atroz vê-lo a responder às perguntas e a falar sobre Tricia. Nenhuma da sua emoção era forçada ou teatral. Pelo contrário, era crua e nua, apesar de ele ser claramente um homem muito privado, que se sentia desconfortável a tentar manter um manto de orgulho demasiado pequeno a cobrir a pior das feridas.

Era simplesmente impossível imaginá-lo com alguma ligação a uma pessoa como Eddie Davis ou a ser vítima de chantagem por parte de um energúmeno como Lenny Lo-well.

Pelo seu braço vinha a neta, Caroline, com um fatinho severo cujo casaco tentava diminuir-lhe a figura anafada. Parker sabia o suficiente sobre psicologia humana para perceber que a ideia de Caroline se apaixonar pelo padrasto não era tão disparatada como podia parecer.

O pai biológico de Caroline, segundo constava, um homem de índole violenta, saíra da vida dela muito cedo, deixando-a com um vazio onde devia estar um pai e com uma ideia confusa do que constituía um bom relacionamento. Depois, na sua adolescência, quando as raparigas lutam com as hormonas e o início da sua sexualidade, surgira Rob Cole para salvar a pobre Tricia da sua solidão.

Ignorara a insignificância do seu aspecto e a sua personalidade tímida, com a mira nos milhares de milhões atrás dela. Mas fora um convincente Príncipe Encantado e toda a gente o adorava. A vida era um conto de fadas.

Não era difícil imaginar Caroline a cair também no conto de fadas ou a arranjar uma paixoneta pelo padrasto. Afinal, naquela época, ele era um autêntico galã.

Os psicólogos afirmam que as raparigas estão sempre em competição com as mães pela atenção do querido paizinho. E quando o querido paizinho se revelava uma personalidade fraca, narcisista e amoral, estavam reunidos os elementos para um belo sarilho.

Dois passos atrás de Caroline e do avô, vinha o filho de Norman Crowne. Phillip. O enfezado da ninhada. Enquanto o velho era de constituição ligeira, o filho podia considerar-se escanzelado, pálido e com cabelo fino e claro, sem cor definida.

Era vice-presidente das Empresas Crowne, responsável pela contagem dos clipes, ou coisa semelhante. Norman continuava a ser o comandante, o homem com o nome nos jornais. Talvez por isso Phillip fosse tão pálido: passara toda a sua vida à sombra do pai.

O irmão de Tricia Crowne expressara mais raiva do que dor com o homicídio da irmã. A ideia de que Tricia fora assassinada ofendia-o moralmente. A ideia de que Rob Cole a assassinara ofendia-o ainda mais. Vendo Cole como ele era, Phillip Crowne nunca o encarara com agrado como marido de Tricia. Odiava Cole, o réu.

Era difícil imaginar algum dos Crowne conhecendo sequer uma pessoa como Eddie Davis.

Parker viu o grupo todo a descer a escadaria, com dois ajudantes de xerife conduzindo-os até ao carro.

Mister Crowne não faz comentários neste momento.

O meu avô está muito cansado.

O meu pai e todos nós consideramos a decisão do juiz esta manhã um triunfo da justiça.

Ainda não estavam todos dentro da limusina quando a atenção da multidão se voltou para o edifício do tribunal. Os Crowne, com as suas opiniões e sentimentos, passaram momentaneamente a velhas notícias. Rob Cole e a comitiva acabavam de fazer a sua aparição.

O advogado de Cole, Martin Gorman, era um homem forte com cabelo ruivo e uma expressão tipo Popeye. Muito mais alto do que o seu cliente, colocara-lhe uma mão num ombro, como se quisesse guiá-lo ou protegê-lo.

A sócia de Gorman, Janet Brown, era baixa e gorducha, com ar apagado e uma estranha parecença com a vítima. Como tal, era um membro estratégico da equipa de Gorman. Se uma mulher como Janet Brown acreditava em Rob Cole e o defendia contra acusações de ter assassinado brutalmente a mulher, poderia ele ser realmente um homem mau?

Pelo preço certo, Janet Brown teria defendido Calígula.

E depois? O próprio Rob Cole. Um belo sorriso com uma data de nada por trás.

Cole era o género de tipo a quem Parker deitava uma olhadela é pensava: ”Que parvalhão!” Diane não era a única pessoa a ver isso. Parker reconhecia-o instantaneamente, e só não deixava que Diane percebesse porque achava a animosidade dela contra o homem divertida e intrigante ao mesmo tempo. Mas Parker conhecia o animal. Ele próprio fora um Rob Cole em tempos, só mais novo e muito mais bem-parecido.

A diferença era que um anormal de trinta e picos ainda podia armar-se em arrogante. Ainda teria tempo para evoluir para melhor. Mas um anormal de cinquenta e picos já ultrapassara a data de validade quanto a evoluir. Rob Cole continuaria a usar as camisas desportivas dos anos 50 quando tivesse setenta e cinco, e a gabar-se perante os colegas do lar de reformados de que aquilo era a sua marca registada que o público ainda adorava. O maior e constante papel da sua vida era fazer de Rob Cole.

Cole desempenhava o papel todos os dias da sua vida. Cada dia era uma ópera em três actos, com ele a fazer de protagonista.

Nesse dia, para os jornalistas, envergava a sua personagem de bom tipo injustamente acusado. Nobre e estóico. Lábios cerrados, expressão séria e cabeça erguida. O cabelo grisalho cortado curto. Os óculos escuros abaulados, elegantes mas sóbrios.

A maior parte das pessoas não procura um nível mais profundo quando olha para os Rob Coles deste mundo. A fachada era o auge do espectáculo, e não passavam daí. A vantagem e a desvantagem de ter um rosto bonito. As pessoas não queriam mais do que acreditar no aspecto e, como não se preocupavam em saber se havia mais alguma coisa atrás dele, o rosto começou também a acreditar que não valia a pena preocupar-se com isso. Felizmente Rob possuía o rosto, ou não teria coisa alguma.

Gorman vestira-o para o potencial júri com um impecável e conservador fato cinzento-escuro, camisa da mesma cor e gravata de riscas. Um estilo forte mas sóbrio, mostrando respeito pelo tribunal e pela gravidade das acusações contra ele. Ninguém veria as camisas desportivas nem as calças de ganga justas até o veredicto ser uma notícia passada. E, de preferência, nem nessa altura.

Muita gente poderosa queria que o novo estilo de Rob Cole fosse a farda de prisioneiro. O mal era que Parker tinha a desagradável sensação de que, embora Rob Cole fosse um parvalhão, a única coisa que ele não era - por muitas que fossem as pessoas a desejá-lo - era culpado.

O telemóvel de Parker tocou quando Cole e o seu grupo passaram por ele. Andi continuava às suas cavalitas, voltando-se e tentando virá-lo com os joelhos, como se ele fosse um elefante indiano. O detective mudou de posição e tirou o telefone do bolso.

- Parker.

- Parker, sou eu, a Ruiz. Onde é que estás? Numa manifestação?

- Mais ou menos - gritou Parker, tapando o outro ouvido com um dedo. - Que é que queres? Além da minha cabeça numa bandeja.

- Estava só a fazer o meu trabalho.

- É. Acho que o doutor Mengele disse a mesma coisa.

- O teu estafeta ligou.

- O quê?

- Eu disse que o estafeta...

- Não, eu ouvi. Mas como sabes que era ele?

- Porque disse que se chamava J. C. Damon.

- E?

- Quer que estejas em Pershing Square às cinco e vinte e cinco.

- Espera aí.

Parker estendeu o braço e deu umas palmadinhas em Kelly.

- Acabou a boleia.

Ela passou uma perna por cima da cabeça dele e escorregou-lhe pelas costas, com um toque no traseiro, dirigindo-se então ao seu colega fotógrafo. Parker afastou-se da multidão.

- O J. C. Damon ligou para ti e pediu-te que me dissesses que fosse a Pershing Square às cinco e vinte cinco – repetiu ele. - Achas que sou parvo, Ruiz? Como me pregaste a partida e eu enfiei o barrete, achas que devo ser estúpido.

- Não é uma armadilha.

- Pois. E tu és virgem. Tens mais alguma coisa para me impingir?

- Olha, vai-te lixar, Parker - disse ela. - Talvez eu me sentisse culpada durante dois segundos e pensasse em fazer uma coisa decente. O tipo ligou e perguntou por ti, disse que a Abby Lowell tinha falado no teu nome. Se não queres, vai-te lixar e eu chamo a Brigada de Roubos e Homicídios.

- E ainda não contaste nada disto ao Bradley Kyle?

- Sabes que mais? Porreiro - disse ela, chateada. Como não vais acreditar no que eu te disser, faz o que quiseres.

E desligou.

Parker enfiou o telemóvel de novo no bolso e ficou parado a ver o último dos carros pretos afastar-se. Os repórteres de televisão já estavam a ocupar novamente os seus lugares com o tribunal como pano de fundo, para fazer as gravações para o noticiário das cinco.

Era parvo se confiasse em Ruiz. A Brigada de Roubos e Homicídios tinha ficado com o caso, e ela pessoalmente dera-lhes os restos deixados por ele. Dera-lhes a morada de Davis. Era uma ratazana de primeira categoria. Era impossível acreditar numa palavra dela. Bradley Kyle estava provavelmente a seu lado durante aquele telefonema.

Andi afastou-se da gente das notícias e veio ter com ele por cima da relva.

- Pronto, para mim já chega - disse ela. - Vamos até um sítio romântico para tu me contares como é que um dos filantropos mais amados de Los Angeles está ligado a um maníaco homicida.

- Fica para outro dia.

- Mais uma vez a rejeição! - disse ela, revirando os olhos. - Onde é que vais? Andas com outra jornalista?

- Vou até Pershing Square.

- Que é que há lá para além de passadores de droga?

- Um circo - respondeu Parker, começando a dirigir-se para o carro. - Devias trazer um fotógrafo. Até é capaz de haver palhaços.

 

Pershing Square é um oásis de verde no meio da baixa de Los Angeles, um tabuleiro de xadrez do melhor e do pior. Do outro lado de Olive Street ficava a grande dama de luxo dos anos 20: o Hotel Millennium Biltmore, onde senhoras de casacos de malha e colares de pérolas tomavam chá e os bailes de debutantes não eram coisa do passado. A um quarteirão para o outro lado, desempregados com olhos esfomeados vagueavam nas imediações dos multibancos protegidos por grossas grades, e mulheres hispânicas que só visitavam Beverly Hills por entradas de serviço empurravam carrinhos de bebé e faziam compras em lojas de roupa barata onde ninguém falava inglês. A cinco quarteirões de distância, distribuía-se justiça em tribunais federais e regionais, mas ali um louco sem-abrigo cagava atrás da estátua do general Pershing.

O parque fora desenhado em rectângulos de relva separados por faixas de cimento e largos degraus dum nível para o seguinte. Umas estruturas cúbicas de cores vivas com ar de casamatas escondiam as escadas rolantes para o parque de estacionamento subterrâneo. No meio de tudo aquilo, erguia-se um campanário de cimento roxo com quase quarenta metros de altura.

Durante a época de Natal, instalava-se um recinto para patinagem no gelo numa extremidade do parque. Só em Los Angeles: as pessoas a fazer patinagem artística com uma temperatura de vinte e três graus centígrados com palmeiras como pano de fundo! O recinto fora retirado um mês antes.

Jotacê sempre achara aquele sítio demasiado planificado, de linhas muito horizontais e com demasiado cimento pelo meio. As esculturas eram fixes, não como as estátuas tradicionais, umas enormes esferas cor de ferrugem empoleiradas aqui e ali em pedestais de cimento.

Mas a melhor coisa de Pershing Square era ser um espaço tão aberto. Do seu ponto alto, Jotacê via a maior parte do parque, as pessoas a andarem dum lado para o outro ou a vadiarem. Via os seguranças que apareciam periodicamente do parque de estacionamento subterrâneo para olhar em volta e regressavam para baixo para verificar se algum vadio tentava utilizar as casas de banho destinadas aos clientes pagantes. Perante a solução encontrada pelos vadios para se aliviarem, parecia uma política a rever.

O dia de trabalho terminara para as pessoas de fato completo que desciam das torres da baixa para se dirigir de carro para casa, no vale da zona ocidental, em Pasadena ou em Orange County. A baixa era actualmente o sítio na moda para viver, mas Jotacê não via assim tantos candidatos a conviver com a população indígena, os sem-abrigo, ou a passear com os filhos diante dos drogados que paravam em Pershing Square.

A três metros e meio dele, dois tipos negociavam um saquinho de qualquer coisa. Um drogado com cabelo verde-lima estava sentado num banco do parque em frente dele. Perto da fonte de cimento, um grupo de adolescentes jogava com uma bola de trapos. Uma equipa de cinema filmara ali todo o dia e estava nesse momento a instalar as luzes para continuar a filmar de noite.

Pouco passava das cinco. O Sol desaparecera por detrás dos altos edifícios. Só as pessoas na zona oeste ainda tinham a luz do dia. Pershing Square mergulhara no entardecer artificial do centro da cidade - nem dia nem noite. As luzes acabavam de se acender.

Jotacê escondera a bicicleta entre dois carros das filmagens estacionados do outro lado do parque, na Quinta. Andava por ali desde as três da tarde, de olhos bem abertos para alguém que lhe parecesse um chui a entrar no parque, para os carros que passavam por causa do tipo que o tentara matar e à espera que Abby Lowell aparecesse. Percorrera todo o parque, localizando pontos de vantagem e planeando caminhos de fuga.

Calculava que ela aparecesse. Se estivesse, como ele pensava, envolvida no caso de chantagem, viria sozinha. Não ia querer a polícia a olhar para ela, e o assassino ameaçara matá-la; portanto, não podiam ser cúmplices. Se trazia ou não o dinheiro era outra história.

O esquema estava todo na oportunidade. Oportunidade, planeamento, pensar seriamente... e sorte. Tomara um cuidado triplo com os outros factores, visto aquela não o ter contemplado até ali.

Por essa altura, o irmão devia estar preocupado com ele. Jotacê sabia que Tyler já o tinha provavelmente tentado contactar pelo walkie-talkie umas cem vezes. Ao pensar no irmão, sentiu uma tristeza terrível. Mesmo que aquele esquema desse resultado, Jotacê não sabia se ia sair dele incólume, se os chuis não iam continuar a interessar-se por ele, descobrindo depois a existência de Tyler. O instinto dizia-lhe que iam ter de fugir, os dois.

A ideia de arrancar o irmão aos Chen fê-lo sentir-se fisicamente doente. Tyler estava decerto melhor com eles do que com ele, a viver como um criminoso perseguido, mas Jotacê não podia abandoná-lo. Prometera à mãe tomar conta do irmãozito, velar pela sua segurança e nunca deixar que fosse apanhado pelas redes dos Serviços Sociais. Eram família. Jotacê era a única pessoa de família de Tyler, tanto quanto sabia. Não contava com o empregado de bar que possivelmente seria seu pai. Doador de esperma não qualificava um homem como família.

Mas Jotacê perguntava a si próprio se os motivos para querer cumprir a sua promessa a Alicia não seriam mais para si do que para Tyler. O irmão era tudo o que possuía, a sua âncora, o seu único escape do isolamento emocional. Por causa de Tyler, tinha os Chen. Por causa de Tyler, tinha objectivos e esperança num futuro melhor. Sem Tyler, ficaria à deriva, sem qualquer ligação.

Jotacê sentia o coração no estômago, a pulsar e a absorver ácidos como uma esponja. Pôs de lado qualquer pensamento acerca da injustiça das suas vidas e do facto de já terem passado por mais do que o que lhes competia. Não valia a pena pensar nisso, nem havia tempo. Abby Lowell acabava de aparecer, saída do estacionamento subterrâneo...

Trocara o perfeito fato Prada do banco por umas calças beges e botas da mesma cor, uma camisola preta de gola alta e um colete acolchoado dum verde muito pálido. A rapariga tinha estilo.

Parker observou-a através dos binóculos a andar em direcção à extremidade do parque do lado da Quinta, onde o rapaz de cabelo verde-lima continuava sentado no banco. Levava uma carteira Louis Vuitton e um pequeno saco de náilon.

Parker estava instalado num quarto primorosamente decorado no quinto andar do Biltmore, com vista para Olive Street. Pershing Square estendia-se diante de si, o campo de um jogo em que ele não planeava entrar.

Não acreditava em Ruiz com a disparatada história do telefonema de Damon. E o facto de ela e os seus compinchas da Brigada de Roubos e Homicídios não conseguirem arranjar um esquema mais viável do que aquele era um triste testemunho em relação à qualidade dessa reunião de cérebros.

Parker estava convencido de que Abby Lowell fora ter com os tipos da Brigada de Roubos e Homicídios, decidindo eles armar aquela pequena encenação para o seduzir, para o apanhar e afastar do caminho. Se Damon aparecesse realmente e Bradley o soubesse, nunca teriam convidado Kev Parker para a festa.

Quanto ao que Miss Lowell pudesse ter metido na manga, não estava bem certo. Ela encontrava-se envolvida naquilo até aos belos e enormes olhos castanhos, disso não restava a menor dúvida. Mas Eddie Davis era a força bruta e, segundo constava, ameaçara matá-la.

Os chantagistas pretendiam duas coisas: dinheiro e poder. Não era uma actividade de grupo. Quantas mais pessoas metidas no assunto, mais diluído ficava o poder e mais oportunidades havia para erros de algum tipo.

Do outro lado da rua, Abby Lowell olhou para o tipo com o cabelo verde-lima e decidiu sentar-se na outra ponta do banco, com o saco de náilon ao colo.

O pagamento, pensou Parker. Era assim que estava organizado, fazendo parecer que ela fora ali para pagar a Damon em troca dos negativos.

Observou o perímetro do parque com os binóculos, à procura de Kyle ou Roddick. Depois, inclinou os binóculos para cima, na direcção dos telhados. Hábito. Pensou onde se teria metido Kelly. Provavelmente estava lá em baixo, no Smeraldi, a comer um bolo de creme e a observar a praça pela montra, à espera do início da acção.

Uma equipa de cinema preparava o equipamento para uma filmagem nocturna, iluminando as esculturas por detrás para lhes dar um ar misterioso ou assustador, conforme o argumento. Iam passar ali metade da noite para gravar uma cena. Levava um tempo imenso a colocar as câmaras de modo a satisfazer o director de fotografia. Depois, dependendo do realizador e do orçamento, levava um tempo imenso a filmar a cena. Iam ensaiar, falar sobre ela, ensaiar, falar mais um bocado. Filmavam-na duma maneira, depois doutra, depois faziam grandes planos. Estimulante, a indústria cinematográfica. Como ver pessoas a dormir.

Parker deslocou os binóculos pelos carros do equipamento estacionados na Quinta. Nada parecia fora do normal.

No parque, Abby continuava à espera sentada no banco, tensa. Deitava olhares de poucos amigos ao tipo do cabelo verde, mas ele estava drogado e parecia catatónico.

Cinco e dez.

No muro baixo perto das estátuas, estava sentado um tipo com um casacão da tropa, um boné preto enterrado até aos olhos, de cabeça baixa. Por um instante, pareceu tão distante como o drogado do banco, mas depois voltou a cabeça para o lado, em direcção a Abby Lowell. Parker apercebeu-se da cara iluminada por um segundo. Branco, novo e vencido.

Damon.

Parker nunca vira o rapaz, mas sentiu em todas as fibras do seu ser que era J. C. Damon. Havia uma tensão na maneira como o rapaz se sentava ali, tentando parecer descontraído, deitando olhadelas furtivas e ansiosas ao banco do parque e depois voltando a esquadrinhar todo o seu campo de visão.

Parker descreveu uma linha de Damon para Abby Lowell, e continuou até à zona atrás dela, um grande semicírculo com um raio de cerca de seis metros, à procura de chuis. Alargou o campo de visão a fim de incluir a zona directamente em frente de Damon. Não havia sinais de Kyle ou Roddick, nem de alguém que Parker conhecesse.

Cinco e doze.

Tornou a passar os binóculos pelo sítio onde Abby Lowell se instalara e pelo muro onde o rapaz que julgava ser Damon estava sentado. Dum para o outro e para trás de novo.

Parker deixou pender os binóculos pendurados ao pescoço, deu meia volta e saiu do quarto. Encontrou a escada e correu por ela abaixo, seguindo então em passo acelerado até ao átrio que dava para Olive Street.

O trânsito engarrafado desde o semáforo da Quinta obrigou-o a passar por entre os carros para atravessar. Deu um murro no capo dum Volvo quando o condutor lhe tocou a buzina.

Cinco e catorze.

Quando chegou ao parque, viu que Damon descera do muro e avançava em direcção a Abby Lowell. O rapaz com o cabelo verde levantou-se e voltou-se para ela também.

Parker acelerou. O tipo de cabelo verde não fazia parte da equação. Viu-o aproximar-se dela de mão estendida.

Damon continuava a avançar.

Abby Lowell pôs-se de pé.

Na sua visão periférica, Parker apanhou alguém a mover-se na praça, vindo das escadas rolantes do estacionamento subterrâneo. Volumosa gabardina com cinto, ligeiramente comprida de mais, com a gola levantada.

Bradley Kyle.

Parker hesitou.

Ouviu um motor de uma motocicleta a acelerar ali perto. O ruído pareceu aumentar, a cena ficou estática um instante na cabeça de Parker.

Então, alguém deu um grito, e rebentou o pandemónio.

 

Jotacê não ligou ao rapaz do cabelo verde, que parecia apenas um mendigo. Além disso, era uma pequena diversão. Abby olhava para ele, preocupada e aborrecida.

O coração de Jotacê batia acelerado. Estender-lhe o envelope, agarrar no saco e desatar a correr. Meteu a mão dentro da camisa e começou a arrancar a fita que lhe colava o envelope à barriga.

Registou na mente um barulho semelhante ao de uma serra eléctrica. Depois um grito. E depois pareceu acontecer tudo ao mesmo tempo.

- Alto! Polícia!

Não sabia donde viera o grito. Estendeu os braços para os lados. Os olhos de Abby Lowell pareciam estarrecidos. O rapaz do cabelo verde apontava uma arma.

- No chão! No chão!

A motocicleta vinha direita a eles, do lado de Olive Street, a toda a velocidade.

Jotacê não teve tempo para respirar ou mesmo pensar que o chui do cabelo verde ia dar-lhe um tiro. Saltou para Abby, atirando-a para cima do banco.

Jotacê caiu de lado por cima dela, precisamente no momento em que a motocicleta atingia o chui do cabelo verde, e o sangue explodiu em todas as direcções.

As pessoas desataram a correr e a gritar.

Ouviu tiros. Não sabia quem disparava nem contra quem.

Jotacê conseguiu fazer força com os pés, de olhos postos na motocicleta. Mota encarnada, máscara preta, capacete.

O condutor dera uma volta de cento e oitenta graus, quase a roçar o chão, e atirou-a contra Jotacê como um míssil. Ele saltou por cima do banco e desatou a correr com toda a força.

Parker também começara a correr no instante em que vira a mota. Uma Kawasaki Ninja ZX12R encarnada. Eddie Davis. Devia ter voltado a casa antes de os chuis de Hollywood lá chegarem, para largar o Lincoln e pegar na mota. A mota que acelerava em direcção a Damon e Abby Lowell e ao rapaz do cabelo verde, este de costas para o perigo que se aproximava.

Parker correu mais depressa e abriu a boca para gritar, mas nunca chegou a ouvir o som. A mota atingiu o tipo de cabelo verde. Uma cena de pesadelo de um corpo torcido e sangue por todo o lado.

Davis travou e derrapou para dar a volta à mota, numa curva de cento e oitenta graus. Endireitou-se e acelerou ao máximo.

As pessoas gritavam. A equipa de filmagem espalhou-se, alguns a correr para a mota e outros para a rua, com os braços no ar.

Parker puxou da arma.

À sua direita, Bradley Kyle levava a arma na mão e disparava.

Damon saltou para o outro lado do banco do parque.

Abby Lowell tentou fazer o mesmo.

Davis passou, a acelerar.

Parker disparou. PUM! PUM! PUM!

A mota virou para a direita e foi atrás de Damon.

Jotacê ouviu-a chegar. Correu para a Quinta, vazia. O trânsito fora desviado por causa da equipa de cinema. Os carros das filmagens pareciam estar a mais dum quilómetro dali. Viu gente junto deles, a olhar para ele. Nada podiam fazer.

Desviou-se para a direita, para poder olhar para trás sem abrandar. O farol cegou-o. Demasiado perto.

Mais quatro passos até aos carros.

Três passos.

Sentia-se como se não se movesse, sem poder respirar.

Dois passos.

Enfiou por entre os carros, guinou para a esquerda, quase derrotado. Aos tropeções, aos tropeções, aos tropeções para a frente. A força de vontade fê-lo endireitar-se.

Se conseguisse manter-se escondido pelos carros, se conseguisse chegar ao outro lado da rua antes da mota...

Empoleirou-se na bicicleta e pôs os pés nos pedais; desatou a pedalar, descendo a Quinta até à Olive, passando o cruzamento por entre buzinadelas e faróis apontados para ele, só por sorte não acabando esborrachado contra um pára-brisas. Saltou para cima do passeio.

Olhando por cima do ombro, Jotacê viu a mota avançar pelo outro lado da rua. Ia chegar ao cruzamento antes de Jotacê.

O semáforo da Olive com a Quarta ficou vermelho, mas o cruzamento estava livre A mota bateu na beira do passeio, entrou na Quarta e guinchou numa curva para a esquerda.

Pedalando com toda a força, as coxas de Jotacê pareciam prestes a rebentar. Desejou maior velocidade, mas não conseguia. A mota atravessou o cruzamento com as buzinas a soar quando os carros foram obrigados a abrir-lhe caminho na rua de sentido único.

Jotacê deu a curva para a esquerda, perto dos parquímetros para não ficar preso contra os prédios se a mota subisse o passeio. Via o seu perseguidor a abrir caminho por entre os carros, à sua frente, tentando atravessar.

Voltando novamente à esquerda, Jotacê atravessou uma praceta com um repuxo e parou. À sua frente, estava a escadaria de Bunker Hill. Uma escadaria dupla com uma cascata entre os dois lados. Descia como um penhasco até à Quinta, onde o trânsito formava agora um engarrafamento, com sirenes a apitar.

Jotacê olhou para o fundo. Era a morte ou a salvação. Engoliu em seco. As buzinas continuavam a soar atrás dele. Ouviu a mota a aproximar-se.

Olhou para trás uma vez, viu o farol em direcção a si, voltou-se para a descida diante dele, respirou fundo e saltou.

Várias pessoas correram em socorro do tipo de cabelo verde. Kyle passou por ele a correr, perseguindo a mota e Damon. Parker aproximou-se de Abby Lowell. A rapariga estava deitada sobre o banco do parque, como se se tivesse virado para ver o espectáculo.

- Miss Lowell? Está bem? - perguntou ele, sobrepondo-se ao barulho das pessoas aos gritos e das sirenes a uivar.

O colete verde-claro estava manchado de sangue. Fora atingida. Parker apoiou um joelho no banco, inclinou-se para ela e cuidadosamente tirou-lhe o longo cabelo da cara para poder vê-la.

Os olhos castanhos que olharam para ele estavam desvairados de medo, e a respiração dela silvava como a dum asmático.

- Não posso mexer-me! Não posso mexer-me! Ai, meu Deus! Ai, meu Deus!

Parker não tentou movê-la para ver se a bala havia saído. Ela podia sangrar até à morte diante dele, mas, se a virasse e um osso ou um fragmento de bala se deslocasse para onde não devia, ela ficava tetraplégica. Era um diabo duma escolha.

- Temos aqui uma ambulância em dois minutos prometeu Parker, colocando-lhe dois dedos no pescoço. O coração batia como um cavalo a galope. - Que foi que sentiu? Foi atingida pelas costas?

- No ombro, sim. Nas costas. Duas vezes. Foram tiros? Ai, meu Deus, foram tiros?

- Foram.

- Ai, meu Deus!

Desatou a soluçar, histérica. Não havia sinal da mulher estóica e controlada que tentara lidar valentemente com o facto de o pai assassinado jazer morto a seus pés.

- Porque veio aqui? - perguntou Parker, tirando um lenço limpo do bolso e apalpando-lhe cuidadosamente o peito, à procura de buracos de saída de bala. - Quem é que fez a combinação?

Ela chorava tanto que se engasgava e quase sufocava.

- Quem foi que lhe disse que viesse aqui? - insistiu Parker, olhando para o lenço, agora ensanguentado.

- Foi ele! - disse ela, com um soluço. - Ai, meu Deus, vou morrer!

- Não vai morrer - disse Parker calmamente. - Estão aqui os paramédicos e já tratam de si.

A equipa da ambulância correra para o tipo de cabelo verde caído no chão e estavam a tentar reanimá-lo, mas ele jazia como um boneco desarticulado, de olhos abertos para o além.

- Olhem! - gritou Parker. - Tenho aqui ferimentos de bala! A sangrar!

Um dos paramédicos ergueu o olhar e reconheceu-o.

- Vamos já!

Parker voltou-se de novo para Abby.

- Quem foi que lhe ligou? E quem foi que ligou para o Davis?

Ela não dava qualquer importância ao que Parker queria saber.

De qualquer maneira, tanto fazia. Ele ficara chocado ao ver Damon aparecer, e pensou se o rapaz teria mesmo tentado falar com ele. E qual o significado disso, se fosse verdade.

Esperava ter oportunidade de o descobrir.

A bicicleta de Jotacê saltava e derrapava nos degraus de pedra. Demasiado rápido, ele tocou nos travões, guinou ligeiramente para um lado, tentando controlar a descida.

Déjà vu. Sonhara com aquilo centenas de vezes. Descontrolado, aos saltos numa descida, com o equilíbrio a rolar-lhe na cabeça. Não sabia se ia de cabeça para cima ou para baixo, e sentia a náusea a chegar-lhe à garganta.

A bicicleta batia nos degraus, com as traseiras a ameaçar saltar por cima do guiador. Jotacê tentou fazer uma correcção, mudando o peso do corpo, mas a bicicleta saltou-lhe das mãos e fez sozinha os últimos quinze degraus até cair no passeio. Jotacê rebolou atrás dela, tentando agarrar-se a qualquer coisa que lhe amortecesse a queda.

Aterrou de traseiro e olhou imediatamente na direcção do repuxo na Quarta. A mota estava parada lá em cima. Nesse exacto momento, o tarado que a montava tomou uma decisão e a luz do farol dirigiu-se para baixo.

Tarado.

Jotacê pegou na bicicleta, montou-a e dirigiu-se à Quinta, fazendo a curva da Figueroa a toda a velocidade e voltando depçis para o Hotel Bonaventure. Espreitou por cima do ombro. Nada de mota.

Então perdeu-se no mesmo sítio onde começara o dia, por debaixo do emaranhado de pontes que ligam a baixa à auto-estrada do porto. No sítio onde, três dias antes, estivera com os outros estafetas à espera de chamadas das expedidoras, todos a queixarem-se de que ia chover.

O seu perseguidor - se sobrevivesse à descida até à Quinta - pensaria que Jotacê virara numa ou noutra rua. Não ia pensar em procurar ali. Esperava ele.

Jotacê escondeu a bicicleta e a si próprio atrás dum enorme pilar de cimento, fora da vista da rua. Tirou a mochila e deixou-a cair no chão, tirou o casaco e fez-lhe o mesmo, porque estava com tanto calor que pensou que ia vomitar. A camisa estava encharcada de suor, do género que tresanda a medo. Tremia como se tivesse paludismo e as pernas deram de si e fizeram-no cair de joelhos.

”Uma merda como esta só acontece nos filmes”, pensou ele, inclinando-se para diante até ficar enrolado como uma bola.

Que porra! Que porra! Mas que porra era aquela que acabava de lhe acontecer?

As imagens passavam-lhe diante dos olhos. Ia ter pesadelos para o resto da vida. O pedinte com o cabelo verde. Os chuis, as armas. O tipo da mota.

Quem diabo era ele? O assassino? Trocara o carrão por uma mota? Já metia medo suficiente dentro dum carro, mas com o capacete de motociclista e a forma exagerada da mota de desporto era um demónio do inferno da época de Matrix.

Como é que sabia que devia ir ali? E os chuis? Não fazia sentido para Jotacê o facto de Abby Lowell ter avisado um ou os outros. Por que motivo o faria? Ela estava metida na coisa, fosse ela qual fosse.

Jotacê tentara ligar para o detective que ela lhe dissera estar encarregado do caso, Parker. Mas não o apanhara e, mesmo que a mulher com quem falara tivesse agido imediatamente, era impossível colocarem gente no parque. O tipo do cabelo verde estava lá uma hora antes de Jotacê fazer o telefonema.

Abby Lowell atraiçoara-o, pensando que fazia com que o prendessem e ela ficava livre. Portanto, devia ter falado com Parker na véspera, provavelmente logo a seguir à conversa com ele. Mas, se fora ela a provocar a armadilha, teria de se afastar sem os negativos, e os negativos eram o que toda a gente queria apanhar. Ora, os negativos continuavam dentro do envelope, colados à barriga de Jotacê.

Além disso, mesmo que ela tivesse chamado os chuis, isso não explicava o assassino, no caso de ter sido ele o seu perseguidor.

Que diabo podia fazer agora?

As pulsações já não eram tão rápidas e a respiração também estava normal. Sentia frio, com o suor a secar-lhe na pele ao frio ar da noite. Queria não pensar, não ter de pensar. A luz era esquisita ali debaixo da ponte, escura mas salpicada pelo brilho difuso dos candeeiros da rua lá em cima, como luar filtrado por entre uma floresta de betão. O zumbido dos pneus na estrada por cima dele era uma espécie de ruído branco a infiltrar-se-lhe no cérebro exausto.

Pôs-se de joelhos, enfiou o casaco e estendeu a mão para a mochila, para tirar o cobertor térmico. Quando o desdobrou, caiu de lá o walkie-talkie.

Jotacê apanhou-o, ligou-o e encostou-o à cara, mas não carregou no botão de chamada.

A voz dele transmitiria o medo que sentia, o medo atravessaria o espaço até ao ouvido de Tyler, assustando-o de morte. Já era suficientemente mau ele não saber o que o irmão mais velho andava a fazer, quanto mais saber o que estava a fazer. E o pior de tudo seria perceber que estava com medo.

De qualquer maneira, que podia ele dizer ao garoto? Não sabia o que devia fazer. Andava gente a tentar matá-lo. Para cada lado que se voltasse, tornava-se ainda mais enredado no sarilho, como se esbarrasse com um arbusto espinhoso.

”Não tenho um único plano”, pensou. Sentia-se vazio, como se fosse apenas uma casca e, se alguém lhe desse um pontapé, a casca rebentava num milhão de pedacinhos e ele deixava de existir.

- Escuteiro para Comando. Escuteiro para Comando. Fala, Comando. Escutas?

O walkie-talkie dava estalidos, e a voz soava junto à cabeça de Jotacê. Nem sequer deu um salto. Era como se a voz do irmão tivesse aparecido pela força da sua mente.

- Comando, escutas? Fala, Jotacê! Aparece.

Ouvia a preocupação, a incerteza na voz do irmão. Mas não respondeu. Não conseguia. Que podia ele dizer a Tyler depois de dar cabo da vida dos dois daquela maneira?

Limitou-se a fechar os olhos com toda a força e a murmurar:

- Desculpa. Peço muita, muita desculpa.

 

Tyler guardou o rádio na mochila e tentou não desatar a chorar. Pensou que talvez pudesse comer uma barra de cereais para se distrair. De qualquer maneira, eram horas de jantar. Mas a ideia de comer agoniava-o, de maneira que não o fez.

Voltou para dentro da Biblioteca Municipal, a sua base de operações para a maior parte do dia. De certo modo, sentia-se mais calmo dentro daquele grande, sólido e belo edifício cheio de coisas que amava, livros. Todo aquele conhecimento e sabedoria, mistério e aventura à sua volta, ao seu dispor pelo simples preço de ler palavras.

Mas começava a sentir-se realmente cansado, e ainda não arranjara um plano que não envolvesse superpoderes, como os do Homem-Aranha. E duvidava que algum livro daquele edifício pudesse dizer-lhe o que devia fazer. Continuava a pensar que, se ao menos conseguisse falar com o irmão... Mas Jotacê não respondera a uma única chamada sua em todo o dia, o que o preocupava.

Por que motivo teria o irmão o trabalho de levar consigo o rádio se não era para o usar? E não atendia por estar fora de alcance ou por falta de pilhas? Ou seria porque não podia? E, se não podia, seria por estar preso ou num hospital com um tiro ou por ter morrido?

Se calhar, tinha-se ido embora - saíra de Los Angeles para o México ou outro sítio qualquer - e Tyler nunca mais o veria. Tal e qual como quando a mãe morrera. Ela saíra porta fora com Jotacê para ir ao hospital e nunca mais voltara. Sem um adeus, um ”adoro-te” ou ”vou ter saudades tuas”. Limitara-se a desaparecer.

A mesma horrível sensação de vazio vinda de dentro, como uma boca gigantesca a abrir-se para o engolir. Tyler encolheu as pernas no banco e agarrou os joelhos apertados de encontro ao corpo, com os olhos a encherem-se-lhe de lágrimas.

Jotacê costumava dizer que ele estava sempre a procurar sarilhos, mas não era verdade, pensou Tyler. Se assim fosse, de certeza que os devolvia a quem quer que fosse que os tivesse arranjado.

Pensara que, se fosse aos sítios onde os estafetas costumavam parar, talvez encontrasse Jotacê.

O irmão nunca lhe contava o que se passava, mas ele resolvera um dia procurar na Internet tudo o que pudesse encontrar sobre os estafetas de bicicleta que trabalhavam na baixa. Ficara a saber que cerca de cem estafetas trabalhavam para mais ou menos quinze empresas. E que o preço base era o que o cliente pagava por cada entrega. Sabia ainda a diferença entre os que ficavam com o imposto retido do salário e os trabalhadores independentes.

Tyler sabia que havia certos sítios onde os estafetas se reuniam entre as corridas. De maneira que fora até à estação de Spring Street, em Chinatown, apanhara o comboio da Linha Dourada até à Union Station, mudara para a Linha Vermelha, apeara-se em Pershing Square e fora a pé pela Quinta até à esquina da Quinta com a Flower.

Num dos passeios, viu estafetas parados em frente da biblioteca, mas nenhum deles era Jotacê. Entrou no Cari, o café do outro lado da rua, e viu uma data de gente com ar estranho - um tipo careca com a cabeça toda tatuada, góticos cheios de piercings por todo o lado, cabelo verde, cabelo cor-de-rosa, penteados rastafári - mas nada de Jotacê.

Na esquina da Quarta com a Flower, andou dum lado para o outro diante do Hotel Bonaventure, observando de longe os estafetas que paravam debaixo do viaduto, mas teve medo de ir perguntar-lhes se tinham visto o irmão medo por ele, porque eram um bocado assustadores, e medo de dizer a coisa errada à pessoa errada e arranjar um sarilho ainda maior ao irmão. Essa pessoa podia denunciá-lo aos chuis ou coisa parecida.

Se Jotacê estivesse ali a olhar para o hotel, de certeza que teria visto Tyler a andar dum lado para o outro. Mas ninguém o chamou, excepto um porteiro do hotel, desconfiado. Tyler pirara-se dali num instante.

Tornara a percorrer vezes sem conta os sítios onde os estafetas se juntavam, de cada vez pensando que ia encontrar o irmão, mas isso nunca aconteceu. Fartara-se de tentar apanhá-lo no rádio, mas nada. E agora estava a ficar escuro e tinha medo de voltar para a Quarta.

A baixa era movimentada durante o dia mas, assim que todas as pessoas dos escritórios iam para casa, só ficavam nas ruas as que metiam medo - tarados, drogados, tipos à procura de sarilhos. Não era sítio para um garoto andar sozinho.

Madame Chen devia estar preocupada por causa dele, de certeza, preocupadíssima. A ideia fê-lo sentir-se realmente culpado e mau. Esteve mesmo para ligar para ela duas vezes, mas não sabia bem o que havia de dizer-lhe. E continuava sem saber. Como também não sabia o que ia fazer.

Preocupava-o a hipótese de os chuis terem colocado escutas nos telefones dos Chen e de, se ele ligasse para lá, serem capazes de o encontrar. Já antes disso se preocupava com a possibilidade de os Chen serem presos por esconder um fugitivo ou coisa parecida. E talvez a peixaria estivesse a ser vigiada e os chuis o vissem se ele tentasse voltar para casa.

Tyler sentou-se num banco perto dos lavabos. A biblioteca fechava às oito. Supunha que pudesse passar ali a noite, se arranjasse um bom esconderijo. Mas, se ficasse preso dentro do edifício, não conseguia utilizar o rádio. E Jotacê podia tentar falar com ele. Além disso, Tyler mal imaginava como devia ser assustador ficar ali com as luzes todas apagadas, quando toda a gente saísse.

Estava exactamente no princípio outra vez: sozinho e assustado.

Meteu as mãos nos bolsos da camisola e encontrou o cartão-de-visita que o detective Parker lhe dera. Não lhe parecera ser mau tipo, e até era engraçado, duma maneira fixe. Dissera-l