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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MELODIA SOMBRIA / Christine Feehan
MELODIA SOMBRIA / Christine Feehan

 

 

                                                                                                                                   

  

 

 

 

 

Dayan, o cantor, dos Trovadores Escuros, luta agora mais que nunca contra sua fera interior. Quando toda sua família encontrou satisfação em um companheiro, ele continua sozinho, cantando a essa outra metade de sua alma, para que venha salvá-lo. E é sua música que finalmente atrai Corinne, numa noite, a num bar onde o famoso cantor e violonista está se apresentando.

Imediatamente Dayan reconhece sua companheira, mas a condição física da mesma, impedirá sua união imediata, enquanto os assassinos da sociedade humana de caçadores de vampiros os perseguem.

 

 

 

 

A necessidade se arrastava atravessando seu corpo e pulsava com ritmo em sua mente. A música rugia e bramava, enchendo o enorme bar. Uma melodia estranha e tão escura e atraente como ele. As notas eram arrancadas das profundezas de sua alma, surgindo através de seus dedos até o violão embalado entre seus braços como se embala uma mulher. A música era uma das poucas coisas que o lembravam que estava vivo e que não era um dos não–mortos.

Podia sentir os olhares, embora nunca elevava a vista. Podia ouvir a respiração da multidão, o ar movendo-se através dos pulmões com a força de um tornado. Ouvia o fluxo vazante do sangue nas veias, chamando-o, tentado seus sentidos até que seu desejo fosse uma obsessão tão escura e implacável, como a sombra que atravessava sua alma.

Murmúrios. Centenas de conversas. Segredos. Palavras entrelinhas. As coisas que se sussurram nos bares sob o amparo da música. Ele ouvia cada palavra claramente, enquanto permanecia sentado sobre o palco, com a jovem e entusiasta banda com quem estava tocando. Ouvia os sussurros das mulheres que discutiam sobre ele. Dayan. Violonista principal de Los Trovadores Escuros. Todas queriam se deitar com ele por razões equivocadas e ele as queria, por razões que as teriam aterrorizado.

A canção terminou e a multidão rugiu, saltando, aplaudindo e gritando com aprovação. Dayan olhou para o homem que esperava na barra. Cullen Tucker levantou um copo de água para ele, com uma sobrancelha arqueada. - O que estamos fazendo aqui? - Dayan leu a expressão claramente, leu a mente do homem. O que estavam fazendo ali? O que o levara a entrar neste bar, pegar seu violão e tocar para a multidão? Sua atuação só atrairia atenção indesejada para eles. Não era seguro. Estavam sendo perseguidos, embora Dayan não tivesse escolha. Precisava estar neste bar. Estava esperando por algo... Por alguém.

Os dedos de Dayan encontravam outro ritmo. Escuro. Caprichoso. A melodia o pegou, exigindo ser liberada. Sua voz tranqüilizou a multidão, chamando, seduzindo, tentando.

Chamou-a. Exigiu-a. Seu amor. Sua companheira. Sua outra metade. Chamava-a, para que ela o completasse. Para que ela lhe desse as emoções que se desvaneceram de sua alma, deixando uma concha vazia que crescia cada vez mais escura. Uma criatura que vivia entre as sombras, vulnerável à fera que espreitava.

- Salve-me. Venha a mim. - As palavras deixaram sem fôlego à multidão espectadora, enchendo de lágrimas os olhos das mulheres.

Elas cjegaram para mais perto do palco, sem ser consciente do que faziam. Sem serem conscientes do poder de sua voz, de seus olhos. Estavam hipnotizadas, seduzidas. Atraídas. Ele lançou seu feitiço, um perigoso predador entre presas fáceis. - Salve-me. Por favor, me salve. - Sua música espalhou-se sobre elas, introduziu-se pelos poros, penetrando até o cérebro, fazendo-as levantarem os olhares para ele, completamente enfeitiçadas. A fome se elevou, em resposta a seus sentidos intensificados. Manteve os olhos fechados, bloqueando a visão da multidão, perdendo-se em sua canção para ela. A única mulher que podia lhe salvar. Onde estava?

A porta se abriu, deixando que a brisa noturna irrompesse o bar, dispersando o aroma de tantos corpos apertados num espaço tão pequeno. Foi o som do batimento de um coração, que o fez elevar a cabeça. Era um coração débil e irregular, que pulsava muito rápido, esforçando-se muito. Dayan levantou o olhar e literalmente perdeu a capacidade de respirar.

Ela estava ali. Ela simplesmente estava ali.

Arderam-lhe os pulmões enquanto procurava por ar. Seu coração começou a igualar o estranho ritmo do dela.

Dayan obrigou o ar entrar em seu corpo. Primeiro uma vez, depois outra. Os membros da banda o olhavam, desconcertados. Seus dedos começaram uma melodia que nunca antes havia tocado, uma que sempre estava ali, encerrada em seu coração. Foi ligeiramente consciente de que a banda o segurava, seguindo sua liderança, mas não prestou atenção aos outros. Não podia afastar o olhar dela, enquanto sua companheira falava com vários conhecidos.

O que estava errado em seu coração? Seus olhos negros a percorreram possessivamente, marcando-a, reclamando-a. Era pequena e curvilínea, com abundante cabelo escuro e olhos enormes. Observou a forma em que ela se movia, estudando o balanço de seus quadris. Para Dayan, ela era incrivelmente formosa. E era humana. Sabia que era possível que alguém de sua raça, um Cárpato, tivesse uma companheira humana, mas nunca imaginara que sua outra metade seria.

Ela parou por um momento, para fitá-lo com surpresa. Seu olhar colidiu com o dele, durante o mais breve instante. A boca perfeita formou um redondo “oh!”, ao lhe reconhecer. Ela balançou a cabeça para a loira alta que a acompanhava. A outra mulher riu e a abraçou, abrindo a multidão para as duas, até um reservado em um canto escuro do clube. Ele ouviu o suave murmúrio de sua voz e uma vez mais seu mundo mudou. Onde antes o clube era visível para ele, em sombras de cinza, agora era brilhantemente vivo, com vívidas e deslumbrantes cores.

As emoções se amontoavam em seu interior com rapidez e força, tantas que não podia diferenciá-las. Só pôde se sentar ali, imóvel com os dedos relampejando sobre seu amado violão. Sentia-a. Assombrou-o de tal forma, que foi consciente das lágrimas que ardiam em seus olhos. Dayan estava quase paralisado pelos diferentes estímulos que o bombardeavam. Música. Fome. Cores. Luxúria. Era um vulcão, calor fundido, acrescentado à estranha sensação. E havia ciúmes. Escuros e perigosos. Compreendeu que não gostava de ver os homens que se reuniam ao redor das duas mulheres, inclinando-se para falar com ela.

Imediatamente a idéia provocou o afloramento da fera em seu interior e ele teve que aplacá-la. Era muito perigoso neste estado. A música emanava dele, através dele, em selvagens emoções que quase o afogavam; estava cegado por uma multidão de cores. Respirou fundo, lutando por controlar e vencer.

O que estava errado no coração dela?

Manteve a cabeça inclinada sobre seu violão, mas seus inexpressivos olhos negros seguiam fixos em sua presa, a única mulher que o importava. Tocou para ela, vertendo seu coração para ela, permitindo que a beleza de sua música lhe falasse. Queria que ela visse o poeta nele, não ao predador. Não a escuridão. Todo o momento enquanto tocava, escutava a conversa que ela mantinha, escutando o som de sua voz.

– Não posso acreditar que seja realmente ele, Lisa. É Dayan, dos Trovadores Escuros. É virtualmente um deus entre os músicos. Nunca ouvi ninguém tocar como ele. O que ele está fazendo com esta banda? – Essa era sua voz. Voz suave e feminina, que falava em tom reverente, tamborilando o ritmo com os dedos sobre a mesa, seguindo o som de seu violão.

Lisa se inclinou para que ambas pudessem ouvir-se sobre o ruído do bar.

– Ouvi dizer que ele está de férias e perto daqui. Suponho que só se deixou sair por aqui esta noite, Corinne. Sei o quanto você adora sua música e quis te fazer uma surpresa.

Corinne. Esse era seu nome. Até seu nome soava como música, na mente de Dayan. Escutava as escondidas, para aprender quanto pudesse. Ela estava ouvindo sua música, seu corpo respondia a ela com naturalidade, mas não o estava olhando com um rapto de adoração como as outras mulheres do bar. Como ele teria gostado.

– Mas como soube? Ele não é simplesmente um qualquer, Lisa. É um gênio quando toca. Como soube que estaria aqui esta noite?

– Bruce... Lembra-se de Bruce, Corinne... Trabalha para meu fotógrafo. Bruce sabe que você é uma grande fã de sua música. Ele saiu para tomar uns goles e me chamou para dizer que um membro dos Trovadores Escuros estava tocando aqui esta noite. Bruce disse que aquele homem que está na barra é supostamente amigo do violonista e que viaja com os Trovadores Escuros. – Lisa assinalou Cullen. – Todo mundo espera que isso signifique que os Trovadores estão procurando novos lugares para tocar.

– Eles preferem os clubes pequenos e íntimos, mas quem teria pensado que tocariam alguma vez aqui? – Disse Corinne. Seu olhar se desviou até Dayan e os olhos de ambos se encontraram. Apressadamente ela afastou o olhar.

O impacto o sacudiu. Seus dedos quase perderam o ritmo e seu estômago se contraiu.

– Realmente é assim famoso? – Perguntou Lisa, sorrindo para Corinne.

– É absolutamente famoso, sua inculta. – A risada de Corinne foi carinhosa e zombeteira. – Sua banda não tem contrato com nenhuma gravadora. Alguns tentam gravar sua música quando vão aos concertos. Valem uma grande fortuna.

– Você tem um velho disco e várias fitas, não é? – Perguntou Lisa.

A cor se estendeu pela face de Corinne.

– Ssh! Pelo amor de Deus, Lisa! Essas fitas são do mercado negro. E se alguém te escuta? – Havia culpa em sua voz. – A banda viaja e toca quase sempre em lugares pequenos, como antigos trovadores. Provavelmente foi assim que acabaram com o nome.

Lisa inclinou o queixo para a banda.

- Ele está olhando para cá. Juro a você, Rina. Acredito que ele se fixou em nós.

– Está muito bom. Não tinha nem idéia. – Corinne fora do tipo de mulher que caíam aos pés dos homens no ato, fossem atores, músicos ou atletas. Não era seu estilo. Era muito prática. Mas Dayan parecia à escultura de um deus grego. Era alto e robusto, dava a impressão de grande força e poder, sem músculos avultados. Seu cabelo era muito longo, mas bem cuidado e brilhante e sempre preso para trás, na nuca. Mas foi sua face que captou e reteve a atenção de Corinne. Podia ter sido cinzelada em mármore. Era a face de um homem capaz de grande sensualidade ou grande crueldade. Não podia tirar a impressão de perigo da cabeça, quando olhava.

Sua boca era formosa, como era a forma de seu queixo, com essa débil sombra azulada de barba... Sempre gostara disso em um homem... Mas eram seus olhos que a enfeitiçavam. Cometeu o engano de fitá-lo diretamente. Seus olhos eram formosos, com forma de olhos de gato, escuros e misteriosos. Vazios, embora cheios de milhares de segredos. Sentiu-se quase empurrada para o interior de seu olhar, apanhada para sempre.

Não podia afastar a vista dele. Estava hipnotizada.

A palavra chegou a ela, vinda de nenhuma parte. Estava definitivamente hipnotizada por ele. A cabeça permanecia inclinada sobre o violão, mas o olhar continuava fixo em sua face. Lisa, com seus olhares lânguidos, atraía facilmente a atenção e se sentia cômoda com ela. Corinne não podia respirar quando o olhar dele se centrava nela. Seus dedos se fecharam, as longas unhas se enterraram profundamente nas mãos. Seu coração sofreu um sobressalto e a respiração pareceu faltar em seus pulmões.

– Nunca tinha ouvido ninguém tocar assim. – Estava com a boca tão seca, que quase não pôde pronunciar as palavras.

– Pois ele pode sentar em meu quarto e tocar até que eu durma, a cada noite. – Disse Lisa.

A cor se arrastou pelo pescoço de Corinne até chegar a sua face ante o pensamento deste homem em seu quarto. Que tocasse o violão, não era o que tinha em mente. A imagem que lhe veio à cabeça era chocante. Nunca havia pensado assim com ninguém. Nem sequer com John. Não só parecia desleal, mas também era totalmente impróprio dela. De repente teve muito medo. Quis correr como uma menina e encontrar um lugar onde se esconder desses olhos hipnotizadores e o estranho efeito que pareciam ter sobre ela. Ele a assustava, verdadeiramente a assustava. Possivelmente era sua música, tão intensa, tão faminta, como seus olhos.

– Corinne! – Lisa pronunciou seu nome agudamente, rompendo o feitiço. – Está bem? Precisa de sua medicação? Você trouxe seu remédio, não é? – Ela já havia pegado a bolsa de Corinne e estava revolvendo em seu interior, precipitadamente. Havia medo em sua voz.

– Estou bem, Lisa. – Disse Corinne. – Acredito que meu herói me roubou o fôlego durante um minuto. Ele é potente. Desejaria que tocasse novamente. – Ela obrigou-se a sorrir.

– Oh! – Disse Lisa, sonhadoramente. – Ele tem uma voz sexy.

– Tranqüilo, meu coração. – Brincou Corinne, segurando o seio, dramaticamente. Isso fez Lisa sorrir, limpando o medo repentino de seus olhos, como Corinne sabia que faria.

Com sua audição superior, Dayan pôde ouvir cada palavra. Diferenciou as conversas facilmente, descartando-as em sua mente, mas não a dela. Corinne. A outra mulher a tinha chamado de Corinne. Embora se alegrava em saber que conseguira roubar-lhe o fôlego. Estava ocupado avaliando a situação. Medicação. Que medicação? Que mal havia com seu coração? Era importante encontrar a resposta.

Dayan dirigiu sua atenção para Cullen. - Vá até aquele reservado e ouça a conversa das duas mulheres. - Trouxe com força, fazendo de suas palavras, uma ordem. Não gostava de utilizar Cullen... Não ia ele utilizar alguém a quem gostava... E agora que podia uma vez mais experimentar emoções, podia sentir a amizade que tinha com o humano. Mas precisava de um emissário, alguém que atuasse com rapidez antes que Corinne escapulisse. Podia ler seu medo facilmente e não podia permitir que ela fugisse.

Cullen voltou à cabeça e divisou à bonita loira. Para sua surpresa reconheceu sua face. Lisa Wentworth. Era uma modelo que via com freqüência nas capas das revistas. Normalmente, nunca teria tido o sangue-frio de falar com ela, mas por alguma razão, encontrou-se cobrindo a distância entre eles. Apaixonara-se uma só vez em sua vida e tinha perdido sua prometida. Após isso, nunca havia voltado a olhar realmente para outra mulher. Não pôde evitar fixar-se em Lisa Wentworth. Não era só o fato de que fosse formosa, era algo que brilhava profundamente em seu interior.

– Seria uma honra convidá-las a beber comigo, não importa o que estejam bebendo. – Disse, como saudação. – Meu nome é Cullen Tucker. – Desejou ter feito uma entrada que o diferenciasse de todos os homens que cravavam seus olhos nela, mas não tentava atrair uma mulher, há anos.

– Lisa Wentworth. – Lisa estendeu sua mão e lhe lançou um breve sorriso, enquanto Corinne parecia retroceder entre as sombras. Sua face estava ligeiramente escondida, o cabelo caindo como um sedoso escudo. – Esta é Corinne. Corinne Wentworth.

Cullen arqueou uma sobrancelha interrogante. Não se pareciam em nada, embora pensou que as duas eram formosas.

– O que vocês gostariam de tomar?

– Só bebemos água. – Ofereceu Lisa, comum sorriso coquete que curvava sua boca. – Permitirei que nos traga água, se prometer se sentar conosco.

– Voltarei em seguida. – Comentou Cullen, bastante feliz de que Lisa não estivesse olhando para Dayan, com o olhar que reconhecia em tantas mulheres. Tinha aprendido, viajando com a banda, que a poucas, importava como eram os membros da banda, só que eram famosos.

– O que está fazendo, Lisa? – Gemeu Corinne. – Está louca? Você nunca liga para os homens. No que está pensando? Não me diga que está utilizando-o para conhecer o violonista.

– É claro que não. Não sei... É que há algo nele. É bonito. Não me olhe como se eu fosse algo para se ter pendurado do braço, para se pavonear. Acaba cansando. Importa-se muito se ele falar conosco? Você pode olhar mais para Dayan, enquanto ele toca. – Havia uma nota esperançada na voz de Lisa.

Corinne respirou fundo. Não estava sendo justa com Lisa. Lisa precisava se divertir. Ela estava cuidando de Corinne fazia meses. Cuidadosamente, afastou sua mão trêmula da vista colocando-a no colo.

– Suponho que isso, eu posso fazer. Mas não vou continuar olhando-o. Só ouvi-lo tocar é divino.

Os olhos de Lisa estavam pousados no homem da barra, examinando-o com interesse. Seus ombros eram largos. Gostava da forma em que a olhava diretamente nos olhos. Não, havia algo mais nele. Algo que havia tocado seu coração. Não podia definir ou explicar a Corinne, mas ele parecia um homem que levava o peso do mundo sobre seus ombros e não tinha ninguém que aliviasse essa carga. A pura verdade era que gostava de olhar para ele.

– Eu fico com Cullen. – Disse Lisa, meio séria. E você pode ficar com o violonista.

Corinne lançou um sorriso risonho.

– Ele é muito bom para ser certo. Homens como esse, rompem corações por onde quer que andem. Têm essa qualidade perigosa porque realmente são meninos maus. As mulheres pensam que podem mudá-los, mas a verdade é, que são maus e não há nada a fazer com isso. Se for uma mulher inteligente, e sou, só olha e fantasia. Não se aproxima deles ou acaba queimando os dedos. Contento-me em ouvi-lo tocar.

Cullen abriu passo através de bar abarrotado, de retorno ao reservado onde as duas mulheres continuavam sentadas. Não tinha idéia do que estavam dizendo. A loira fazia com que seu coração estremecesse de terror. Não era possível que agora estivesse começando a se interessar por uma mulher, não com uma horda de assassinos seguindo seus passos. Muito cuidadosamente, colocou uma garrafa de água diante de cada uma delas.

Lisa lhe sorriu e se moveu, permitindo que Cullen se sentasse a seu lado. O bar estava abarrotado e o ruído era grande. Mas ela queria ouvir cada palavra que este homem dissesse. Corinne se moveu ligeiramente para dar a Lisa um pouco mais de privacidade. Lisa merecia encontrar um bom homem. Alguém. Ela precisaria de alguém, logo.

A música continuava, mas Corinne notou em que momento Dayan deixou de tocar. A beleza e claridade abandonaram a música, deixando um grupo que tocava bem e compensava a falta de gênio, com entusiasmo. Não pôde evitar e lançou um rápido e furtivo olhar para ele, por baixo de suas pálpebras. Ele estava levantando-se. Um casual e quase preguiçoso movimento que a fez se lembrar de um enorme felino, estirando-se. Foi cuidadoso com seu violão, colocando-o contra a parede mais afastada e fora do alcance de qualquer fã de dedos ligeiros ou de vândalos. Durante um breve momento ele examinou a multidão, a maior parte dos quais o olhavam com absorta adoração. Uma piscada do que podia ter sido impaciência, cruzou sua face.

Voltou à cabeça e a olhou diretamente para ela. Instantaneamente, ela sentiu o peso de seu olhar. Intenso. Faminto. O coração de Corinne pareceu deixar de pulsar. Ele estava olhando-a... Não a seu amigo e nem a Lisa, mas olhava diretamente para ela. Seus olhos se encontraram e imediatamente ela pôde sentir o empurrão hipnotizador. Um feitiço, um encantamento. Dayan se inclinou e disse algo ao violonista e depois saiu do palco. Sobre a multidão, seu negro olhar manteve-a cativa. Corinne não podia afastar a vista.

Seu coração pulsava enlouquecido e o ar se negava a entrar em seus pulmões. Só podia fitá-lo indefesa, vendo como ele atravessava o aposento, até chegar a seu lado. Estranhamente, ninguém falou com ele, nenhuma só mulher da multidão. Todos se moveram rapidamente para lhe abrir caminho, enquanto ele se aproximava dela, sem interferências. Deteve-se ante o reservado, seu olhar negro vendo só a ela. De perto, ele era mais intimidante que enquanto cruzava o bar. O poder era parte dele. Era ele. E era mais que sexy, era escuramente sensual. E aterrador, também.

A banda tocava uma canção lenta e sonhadora e Dayan estendeu a mão e capturou a dela.

– Preciso que dance comigo. – Disse assim, diretamente, sem embelezamentos, sem se preocupar se, por acaso ela parecia vulnerável. Precisava tocá-la, sustentá-la entre seus braços. Precisava saber se ela era real e não um produto de sua imaginação.     Corinne não podia ter resistido a ele, por nenhuma razão. Deixou-o levá-la, com deliciosa gentileza até prendê-la em seus braços, perto de seu corpo. Ela pousou a palma da mão sobre o forte coração dele. Imediatamente pôde senti-lo pulsar, sentir seu corpo sólido e musculoso. Seu próprio coração pulsava loucamente e ela se sentia estranha. Em outro mundo. Um mundo de sonhos. Flutuando. Ele era mais alto, mas encaixavam a perfeição, como se ela fosse feita para ele.

A escura cabeça se inclinou para ela.

– Respire. – Ele sussurrou a palavra contra sua pele e todo seu corpo voltou para a vida. Simplesmente assim. Cada terminação nervosa. Cada célula. Seu hálito era quente e seus braços incrivelmente fortes. Ele abraçava-a, quase que meigamente. Era uma espécie de magia e ela soube instintivamente, que ele também sentia.

Por um momento Corinne fechou os olhos e se deixou levar. Seus corpos se moviam uníssonos, em ritmo perfeito, como se dançassem juntos durante todas as suas vidas. Como se estivessem fazendo amor. Corinne mordeu o lábio. Era a coisa mais íntima que estava fazendo em toda sua vida, embora já fosse casada. Ele parecia estar em todas partes, rodeando-a com seu corpo duro e suas mãos gentis. Era algo curioso o que acontecia. Seu coração, normalmente errático, lutava para igualar cada batimento do coração dele. Advertiu-a, porque cada detalhe era importante. Quis levar este momento com ela, para o resto de sua vida.

A música percorria Dayan fazendo com que todo ele se convertesse em música. A mulher em seus braços era parte dele. Sabia no mais fundo de sua alma. Era ela, a única. Podia sentir a luta de seu coração e sentia o corpo feminino impresso contra sua forma masculina. Mas a situação era mais complicada do que tinha imaginado a princípio. Ela era a única mulher para ele, mas havia um terceiro coração pulsando. Podia ouvi-lo claramente, enquanto a abraçava. Podia sentir a vida nela, o pequeno montículo sob a roupa solta que vestia.

Levou a mão dela sob o queixo e a abraçou mais, enquanto examinava este descobrimento. Ela estava grávida. O filho de outro homem. Uma criança humana. Por um momento sua mente foi um caos, uma selvagem mistura de ciúmes, raiva e medo, coisas que nunca havia experimentado antes. Respirou profundamente e se concentrou no mais importante. Se desse a ela seu sangue, possivelmente a curaria de seu problema de coração, mas o que faria algo semelhante a um bebê? Podia ler facilmente o medo e a tristeza dela. Moveu-se com ela, o corpo duro, uma dor urgente, sua mente um amálgama de pensamentos, seu coração e sua alma verdadeiramente em paz pela primeira vez em sua existência, mesmo enquanto seu cérebro trabalhava para encontrar uma solução para um problema tão único.

A canção terminou, e relutantemente, ele a deixou abandonar seus braços, retendo a posse de sua mão, para que ela não pudesse fugir.

– Meu nome é Dayan.

Corinne assentiu com a cabeça, quase temendo falar. Ele a conduzia de volta à segurança do reservado. Movia-se facilmente através da multidão, mantendo-a a salvo sob seu ombro. Dayan lhe dava a ilusão de segurança, tomando grande cuidado em que ninguém se chocasse com ela, descuidadamente.

– E você vai me dizer seu nome? – Perguntou ele, com voz aveludada, sedução em si mesma. O som dessa voz provocou o desejo de ouvi-lo cantar outra vez.

– Corinne, Corinne Wentworth. – Não o olhou. Doía, ela era belíssimo. E sexy. Essa escura, perigosa sensualidade da qual não queria afastar-se. Estavam perto do reservado, da segurança. Permitiu-se a si mesma, respirar de novo.

– Quando nascerá seu bebê, Corinne? – Perguntou ele, sua voz foi um fio gentil.

Nunca tinha ouvido uma voz como essa. Hipnótica. Uma voz de quarto. Sussurrada sobre sua pele, que ardeu.

Suas palavras a detiveram no ato e ela olhou rápida e culposamente para Lisa, temendo que ela pudesse de algum modo, tê-las ouvido. Por um momento se sentiu desesperada. Lisa tinha a cabeça perto da de Cullen Tucker e ria de algo que ele dizia. Dayan se inclinou, seu corpo defendendo o dela protetoramente, separando-a efetivamente da multidão. Ocorreu-lhe, que ele era uma espécie de celebridade e a multidão deveria estar clamando por conhecê-lo, empurrando-se para frente, em busca de seu autógrafo, mas por alguma razão ninguém se aproximava dele. Sequer as mulheres.

– Corinne. – Ele fazia alguma coisa com seu nome. O fazia soar exótico, com seu estranho sotaque. – Está muito pálida. Quer que procure a sua amiga e a tire para tomar o ar? Há muita gente neste lugar.

– Ela não sabe. – Corinne resmungou a verdade e depois se horrorizou de tê-lo feito. Que havia nele? Tinha dançado com um desconhecido, fundida com ele de forma que pareciam tão íntimos, como amantes. Normalmente era uma pessoa reservada! Corinne sentia o desejo urgente de lhe contar os detalhes mais pessoais de sua vida.

Dayan mudou de direção imediatamente, deslizando-se através da multidão, uma vez mais para a porta, levando-a com ele sem nenhum esforço. Ela queria lhe acompanhar. Corinne não podia entender esse impulso irracional. O ar frio deveria lhe ter esclarecido cabeça, mas ele aproximou seu corpo do dela, fazendo em pedaços a pouca compostura que lhe restava. Não podia pensar com claridade, tendo-o tão perto.

Dayan a conduziu até as sombras. Tudo nele exigia que a reclamasse como dele. Desejava-a, precisava dela e seu corpo ardia em chamas. Ela estava olhando-o com seus enormes olhos verdes e ele estava quase perdido. Soube que estaria perdido para sempre.

– Bem... Está voltando sua cor. Sua amiga parece preocupar-se muito com você. Não posso imaginar por que não se alegraria pelo bebê.

Corinne levantou uma mão para afastar o cabelo do rosto.

– Não deveria ter te dado uma falsa impressão. Lisa se alegraria do bebê, por um monte de razões. É que eu... – Sua voz s desvaneceu, relutante em revelar alguns detalhes de sua vida pessoal. – É complicado. – Repentinamente, inexplicavelmente, sentiu-se empurrada a lhe contar tudo sobre si mesma. Ele estava olhando-a e seus olhos eram tão... Famintos. Solitários. Não sabia o que era, mas esses olhos eram impossíveis de resistir.

A faziam sentir-se como se tivesse sido abandonada. Seus olhos não piscavam, simplesmente a observavam. Completamente centrado nela. Por momentos, poderia ter jurado que havia uma chama vermelha titilando em suas profundezas.

– Terá que deixar de me olhar assim. – As palavras abandonaram sua garganta, antes de poder censurá-las e de repente, ela se encontrou sorrindo. Era uma mulher adulta e normalmente muito lógica. Ele certamente se estava levando uma falsa impressão de como era.

O sorriso de Dayan foi lento e muito sexy. Fez com que seu caprichoso coração bater forte novamente. Um lento ardor queimava em algum lugar no fundo de seu estômago.

– Estou te olhando de alguma forma em especial? – A voz dele roçou contra sua pele, esquentando, tentando. Corinne inclinou a cabeça para um lado e estudou seus traços perfeitamente masculinos.

– Sabe muito bem que sim. Tem esse presumido olhar masculino. Não posso pensar claramente quando me olha assim.

– Como estou olhando? – Perguntou ele, lentamente, gentilmente, com uma nota de ternura que se arrastou até tocar o coração dela.

“Como um leopardo faminto a ponto atacar”. O pensamento chegou inesperado. O sorriso subiu até os olhos dele como se pudesse lhe ler sua mente, fazendo-a ruborizar-se.

– Não importa. Só deixe-o. – Estendeu a mão como se pudesse lhe manter longe dela.

– Ia me contar sobre seu bebê. – “E o pai do bebê. Não queremos lhe deixar fora desta conversa. Você quer me contar. Desavergonhadamente, ele a” trouxe “, precisava saber. O homem estava morto. Dayan podia sentir. Via na persistente tristeza dos olhos dela. Outro homem a tinha importado o suficiente, para trazer seu filho ao mundo. Quem era o homem?”.

Capturou sua mão estendida, sua mão esquerda, encontrou o círculo de ouro, o símbolo do matrimônio humano, a marca que proclamava que ela pertencia a outro homem.

A idéia provocou a perigosa agressividade de sua espécie e Dayan lutou para controlar à fera. Não poderia se arriscar e assustá-la. Seu polegar esfregou o anel quase que ausentemente, numa gentil carícia, persistente e insistente. Ele levou a ponta dos dedos dela aos lábios. Tudo acontecia, enquanto seu negro olhar se concentrava completamente nela, diretamente nos olhos. O olhar era hipnótico. Estranhamente alvoroçada, a respiração de Corinne ficou presa na garganta, quando os dentes dele mordiscaram seus dedos, com boca macia e úmida. Os dentes tiraram gentilmente a aliança de casamento. A sensação era tão erótica, que ela estremeceu. Olhou-o durante um longo momento, completamente fascinada, antes de lembrar de liberar a mão.

– Me conte sobre seu bebê, carinho. – Ordenou ele, em voz baixa, quase ronronando.        Dayan tocou sua mente gentilmente, com grande cuidado. Ela lutava contra a compulsão de lhe contar o que queria saber, mas ela era humana e ele um antigo, de uma longa linhagem de homens dominantes. Era muito forte para que ela resistisse. Corinne pressionou uma mão protetoramente sobre o bebê. O vento soprou rua abaixo, levando folhas e lixo, em redemoinhos. Sem ser consciente disso, Corinne se moveu mais, para o escudo que julgava ser o corpo dele.

– Cresci com a Lisa e seu irmão John. –Ela deixou de falar bruscamente, sua garganta se fechou ao dizer o nome.

John. O nome o atravessou como uma faca. A forma em que ela o tinha pronunciado e a dor que se refletia em seus olhos, dizendo o quanto o homem havia significado para ela. John. Dayan nunca tinha gostado desse nome. Não queria ouvir nada mais; não queria ouvir como soava a voz dela, quando pronunciava o odiado nome.

Corinne deu voltas em sua aliança, nervosamente.

– Nós três tivemos uma infância difícil, mas éramos mais unidos que a maioria. John e eu somos... Diferentes. – Ela lançou um rápido olhar para ele, por baixo de suas pálpebras escuras. Não queria explicar a ele, o que significava essa palavra. Não o conhecia, não sabia por que parecia confiar nele, quando era um perfeito desconhecido para ela. Não sabia por que seu corpo parecia conhecê-lo e desejá-lo. Corinne afugentou seus caprichosos pensamentos, concentrando-se completamente no que poderia lhe contar... Ou não contar.

Dayan examinou a mente dela, desejando uma explicação de "diferente". Captou uma imagem precipitadamente censurada. Telequinesia. Ela podia mover objetos com a mente. É obvio, ela era psíquica. Tinha que ser psíquica se era sua autêntica companheira. Dayan não tinha forma de lhe explicar exatamente o que era um companheiro. Como podia lhe dizer que era de outra espécie? Que vivia sobre a terra há mais ou menos mil anos? E que necessitava sangue para sobreviver? Viu como os dedos de Corinne voltavam para a pequena aliança de ouro. A cada toque, a cada carícia, seu estômago se apertava mais, até formar um nó. Tentou obrigar seu negro olhar a voltar para a face dela, mas aquele pequeno movimento traiçoeiro, o fascinava. Corinne encolheu os ombros.

– Para resumir a história, John e eu nos casamos e o mataram faz poucos meses. Eu nem sequer sabia que estava grávida. Não contei nada a Lisa porque... Bem... – Ela pensou, procurando as palavras apropriadas.

Isso atraiu o escuro olhar de volta a seu rosto. Ela sentiu o impacto dos mesmos, até os ossos. As mãos dele cobriram as suas, terminando com o nervoso jogo de seus dedos sobre o anel. Seu coração deu um salto, numa curiosa sensação que a alarmou. Os olhos negros dele nunca abandonavam sua face. Nem uma vez. E ele ainda não havia piscado. Sentia-se como se estivesse caindo nos estranhos e hipnóticos olhos. Que diferença havia se ele pensasse que ela era um feixe de nervos? Ela não estava pedindo sua simpatia, nem a queria. Não contava sua história para provocar simpatia. Por que então estava lhe contando sua história? Corinne elevou o queixo e o olhou quase desafiante.

– Tenho um problema de coração. – Agora, ele poderia fugir correndo como um coelho e ela se alegraria muito. Ele era uma complicação, uma fantasia, o pior tipo de "“menino mau”", e ela não queria se separar dele.

Dayan tocou a mente dela novamente e captou a imagem de hospitais, máquinas e exames intermináveis. Sua petição em uma lista de espera para um coração. Médico atrás de médico sacudindo as cabeças. Ela era extremamente alérgica e sangrava facilmente, muito. Os especialistas se assombravam de que ela vivesse tanto. Dayan colocou o dedo na boca, pensativamente, seus olhos intensos continuavam sobre a face dela.

– Então ter seu bebê é um perigo e Lisa não gostaria disso.

Corinne deixou escapar o ar de seus pulmões, quase sem notar que o prendia. Era quase um alívio poder contar a alguém.

– Não, Lisa não gostará. Vai se assustar muito. – Corinne havia esperado até que não houvesse mais possibilidades de que Lisa pudesse tentar convencê-la a não ter o bebê. Queria um filho. Sua pequenina. Depois de sua morte, depois da morte de John, sua filha viveria e respiraria, correria e jogaria e com sorte, levaria uma vida perfeitamente normal. Corinne tinha fé absoluta em que Lisa apreciaria e amaria seu bebê. Afastou as mãos dele para colocá-las protetoramente sobre ventre ainda pequeno, onde descansava sua filha.

– Você está muito magra. De quanto tempo está? – Mesmo enquanto as palavras saíam de sua boca, maravilhou-se de poder pronunciá-las. Nem em sonhos havia pensado em fazer uma pergunta semelhante. O calor floresceu e se estendeu por todo o seu corpo. Uma sensação de posse. Estranhamente, sentia-se como se já tivesse uma família.

– Os médicos estão um pouco preocupados, mas ela tem um bom aspecto. Cresce bem. Disseram-me que é uma menina. Eu estou de seis meses.

A respiração de Dayan se elevou com preocupação. Estava muito pequenininha!

– Os médicos também estão informados de seu problema de coração? Vêem esta gravidez como de risco? Muito perigosa? – Sua voz foi gentil como sempre, embora teve um enorme efeito sobre ela, que a fez estremecer. Ele soava quase como se estivesse repreendendo-a, de alguma forma e avaliando o que ia fazer a respeito da situação.        Corinne se sentiu empurrada a lhe responder, embora não era isso o que desejava.

– Meu coração estava com problemas, trabalhando só para mim, nunca para uma criança. – ela concedeu, relutante. Seus dedos uma vez mais encontraram o círculo de ouro e começaram a lhe dar voltas, um hábito nervoso que traía sua confusão interna.        Dayan assentiu com a cabeça apesar de que todo seu corpo se entrou em protesto, contra essa pequena ação.

– E seu marido. – Ele forçou as palavras apesar do fato de que elas queriam lhe fechar a garganta. – Por que o mataram? – Não pôde se conter, estendeu a mão e capturou a dela, colocando a palma contra seu peito, sobre seu coração, evitando efetivamente que ela continuasse tocando o anel.

O olhar de Corinne voou para ele. A eletricidade arqueou entre eles. O ar faiscou cheio de carga. Ela achava difícil pensar, com aqueles olhos negros hipnotizando-a e seu toque destroçando seus sentidos. Discutir o assassinato de seu marido com ele deveria ser impossível, mas notou que as palavras saíram atropeladamente.

– A polícia não deu com um assalto. Os assassinos nem sequer levaram sua carteira.

– Mas você tem uma suspeita. – Declarou ele.

Corinne sentiu o mesmo desejo de confessar cada detalhe. Normalmente, confiava em Lisa e em ninguém mais, mas não tinha contado nenhuma palavra a Lisa sobre o bebê ou de suas suspeitas sobre a morte de John. Por que então estava contando a um desconhecido, todos osseus segredos?

– John podia fazer coisas que não se consideram normais. Por volta de um ano atrás, foi à universidade e falou com alguém sobre seu talento. Após isso, ele foi a um centro onde sua habilidade psíquica era colocada à prova. O Centro Morrison, para Desenvolvimento Psíquico. John acreditou que poderia ajudar às pessoas de algum modo, utilizando seu talento único. Quase imediatamente depois de sua entrevista no centro, contou-me que achava que alguém estava seguindo-o. – Ela retirou sua mão. – Dificilmente gostará de ouvir isto.

- Ao contrário. Estou extremamente interessado. Tudo o que concerne a você, me interessa.

 

– Corinne! – Lisa saiu para o exterior do clube, com Cullen sob seus calcanhares. Estava obviamente nervosa e a formosa face traía sua ansiedade. – Rina, está doente? Sinto tanto, deveria ter prestado mais atenção. – Ela segurava a bolsa de Corinne protetoramente contra seu peito.

– Estou perfeitamente bem, Lisa. – Respondeu Corinne imediatamente e afastou-se de Dayan, mas de algum modo ele se moveu também, com uma ondulação de poder, de forma que protegia o corpo dela contra o vento que se elevava. Corinne levantou o olhar para os cinzelados traços e se encontrou outra vez com o coração na garganta. O que havia nele? Como podia lhe roubar tão facilmente o fôlego e a prudência com só um olhar? Um movimento?

– Só estávamos conversando longe do barulho. – Respondeu Dayan, sorrindo prazerosamente, com seus dentes muito brancos, evidenciados na escuridão. Ele passou a mão descuidadamente pelo brilhante cabelo de ébano, arrumando-o e acabou por despenteá-lo ainda mais. As mechas caíam de qualquer maneira sobre a testa, mas parecia mais atraente que nunca.

As duas mulheres trocaram um rápido olhar e depois ergueram para cima, em completa afinidade, enquanto Corinne afogava um gemido. Como podia um homem ser real, ter esse aspecto e agir como ele? Corinne gesticulou sem palavras "“menino mau”" para a Lisa, fazendo-a rir.

Lisa se inclinou aproximando-se para sussurrar.

– Só você poderia olhar um homem muito sexy para estar sobre a terra e reduzir o incrível e atraente, a um "“menino mau”".

Corinne se sentiu uma fraude. Lisa não acreditava que Corinne fosse, o mínimo, suscetível à escura sensualidade de Dayan. Mas ela era mais que suscetível. Estava enfeitiçada. Corinne estava sob a magia de um feiticeiro. Durante um breve momento, se perguntou se sua canção ou sua voz podia tê-la hipnotizada, de algum modo.

Dayan se estendeu e tirou casualmente a bolsa de Corinne das mãos de Lisa, depois a entregou a Corinne. Os pensamentos dela poderiam tê-lo divertido, se seu coração não estivesse gaguejando novamente, uma questão que o incomodava imensamente. Como podia curá-la, sem fazer mal a sua filha? Seus olhos se moveram possessivamente sobre a face de Corinne, enquanto notava como ela tirava um pequeno frasco da bolsa e engolia uma diminuta pílula. Com o mesmo poder fácil que sempre exibia, sujeitou a mão nua de Corinne e a levantou para inspecioná-la.

– Por que não leva um bracelete médico? Em caso de emergência, ele indicaria aos desconhecidos como te ajudar.

Lisa ergueu sua cabeça loira.

– Enfim! Alguém com um pouco de senso comum, ao contrário que Rina. Ela nunca ouve a ninguém.

Um leve e sensual sorriso, mudou os cantos dos lábios de Dayan que se inclinou para Corinne, de forma que sua respiração removesse as mechas do cabelo das têmporas dela.

– Não ouve os outros?

– Sou perfeitamente capaz de tomar minhas próprias decisões. – Informou-lhe Corinne, com voz fracamente arrogante, quando tudo o que queria fazer era tocar esses lábios, com a ponta dos dedos. Sua presença lhe roubava o fôlego. E o sentido comum.

– Até agora. – Corrigiu Dayan, com infinita gentileza. Sua voz foi bem suave e como o veludo, acariciou sensualmente a pele de Corinne, fazendo-a estremecer. Elevou a mão perfeitamente moldada dela, esfregando a ponta dos dedos contra a própria boca.

O coração de Corinne gaguejou, seu corpo sentiu e por um momento, só pôde fitá-lo, perdida em sua magia. Arrancou seu olhar do dele, retirando a mão com os dedos encolhidos, segurando sua maciez.

Cullen olhava Dayan em completo estado de choque. Acampara com o grupo durante várias semanas durante a excursão dos Trovadores Escuros, mas nunca tinha visto Dayan exibir o mínimo gesto de interesse por nenhuma mulher. Agora sua linguagem corporal indicava a gritos, que ele se sentia protetor e até possessivo, com Corinne. Havia algo mais. Havia algo nos olhos de Dayan, que não estavam ali, antes. Um indício de algo perigoso. Cullen tinha assegurado a Lisa que sua irmã estava perfeitamente segura com Dayan, mas já não estava tão claro.

– Possivelmente seria melhor que resguardássemos às damas do vento. – Disse Dayan. – Cullen, leve-as até seu carro e eu recolherei meu violão. – Sua voz roçou a pele de Corinne uma vez mais, como se fossem dedos.

Ela estremeceu em reação. Em seguida, ele a arrastava para o amparo de seus braços.

– Deveria ter notado que aqui fora estava muito frio para você. Ele disse amorosamente, desculpando-se, com a respiração contra a nuca de Corinne. Seu corpo era quente e duro contra a acetinada suavidade da pele fria dela. – Fui muito egoísta, te querendo só para mim.

Ele olhou para Lisa e inesperadamente ela se encontrou conduzinde Cullen até seu pequeno carro esportivo, perguntando-se por que repentinamente era tão importante resguardar Corinne do vento. Dayan a seguiu, em posse de Corinne, acomodando-a cuidadosamente no assento dianteiro.

– Onde podemos nos encontrar para conversarmos numa atmosfera mais tranqüila? - Perguntou ele, em voz baixa, mas seus olhos negros repentinamente estavam sobre a face de Lisa. Lisa piscou e resmungou sua direção, algo que normalmente nunca faria. Corinne a olhou com horror. Lisa fechou a boca com a mão sentindo-se culpada e notando como Dayan se estendia casualmente e grampeava o cinto de segurança de Corinne.

Duro e com músculos definidos, seu corpo roçou o de Corinne. Ele cheirava a especiarias e bosques selvagens. Totalmente masculino. Diminuía o carro. Seu queixo esfregou contra o cabelo de Corinne.

– Não sou um assassino, embora seja bom saber que vocês têm algum instinto de preservação.

Fechou a porta ante a expressão emocionada de Corinne. O sorriso arrogante de “menino mau” era muito mais evidente.

Lisa baixou a cabeça para o volante.

– Não fale nada, Corinne. Não sei no que estava pensando, dando nosso endereço a ele. Ele é simplesmente... Não sei... Não pude pensar com prudência durante um segundo, com aqueles olhos me olhando como se pudesse ver diretamente minha alma! Sinto muito. Não acredita que ele seja um louco, acredita?

– Acredito que as loucas somos nós. – Era um alívio estar longe da potente companhia de Dayan. Ele fazia com que Corinne se sentisse fora de controle. Girando loucamente, selvagem e sexy. Desejosa. – Ele já nos assinalou que não era um assassino. São palavras reconfortantes, a menos que os assassinos façam esse mesmo tipo de declarações, para mulheres desconhecidas.

Elas desataram em risadas, dissipando a maior parte da tensão do carro. Corinne notou que podia respirar novamente, pensar novamente, quando Lisa colocou o carro na estrada e tocando a buzina lançou-se corajosamente no intenso tráfico.

– Você está interessada em Cullen? Porque ele certamente está interessado em você. – Corinne esfregou as palmas das mãos pelos braços, no ponto exato onde os braços de Dayan a havia sustenido. Estranhamente, ainda podia lhe sentir perto. Podia cheirar sua fragrância sobre ela, e era curiosamente reconfortante.

– Seriamente! Acredito que Cullen é genial. – Admitiu Lisa. – Já sabe como odeio ser uma mão decorativa do braço de um homem. Ele não me faz sentir assim, absolutamente, nenhuma só vez. É agradável, Rina. Muito agradável. E quando notei que você havia saído, ele foi tão doce, me assegurando que Dayan não era um playboy que corria atrás de mulheres. Na verdade, cedi ao pânico. Já não me sinto cômoda quando está fora de minha vista. – Ela lançou a Corinne, um rápido e travesso sorriso, enquanto rodava passando os seguintes sinais de stop e por pouco não saía para a sarjeta. – Me senti como se você tinha dois anos e tivesse medo de deixar sua mamãe. Cullen é bonito, embora não de forma infantil. – Atirou da manga de Corinne. – E o que foi isso?

– E você, como foi?

Corinne tentou fingir-se inocente, mas um rubor avançou lentamente por pescoço até seu rosto.

– Sabe exatamente o que quero dizer. – Acusou Lisa, com olhos sorridentes.

– OH! – Corinne passou as mãos pelo cabelo brilhante e o levantou deixando o pescoço à mostra. O gesto foi curiosamente sexy. – Foi abrasador.

Lisa deixou escapar um assobio.

– Abrasador? Não só ardente?

Corinne sacudiu a cabeça solenemente.

– Absolutamente e totalmente abrasador. Esse homem é letal e não deveria permiti-lo viver em lugar algum, perto de população feminina.

– Aleluia! Sou uma crente. Sempre é imune aos homens! Se este pode lhe abrasar, definitivamente deveriam encerrá-lo em alguma parte.

– Em alguma parte onde ainda pudéssemos continuar olhando para ele. – Sugeriu Corinne, com um pequeno sorriso curvando sua boca. Uma covinha intrigante apareceu brevemente e depois desapareceu, deixando Lisa perguntando-se aonde ela tinha ido.

– Você gosta dele. – Declarou Lisa. Sabia que era super protetora com Corinne. Mas Corinne era terrivelmente vulnerável. Um homem como Dayan podia derrubá-la facilmente. Qualquer pessoa que olhasse podia notar que ele era um homem perigoso. Uma estrela de rock, um músico. A metade da população feminina o perseguia. Mas havia algo na forma em que olhava para Corinne, que...

– Gostar dele? – Corinne repetiu as palavras pensativamente. – Não acredito que seja um homem que inspiraria uma palavra tão insípida, como gostar. Senti-me segura estando com ele, mas ameaçada, ao mesmo tempo. Não tem sentido. Fiz e disse coisas que eram completamente alheias a meu caráter. O que é realmente estranho, Lisa, é que me senti como se o conhecesse sempre, como se eu tivesse que estar com ele. – Ela respirou fundo e fez uma confissão apressada. – E não posso fitá-lo, sem desejar ir para a cama com ele. Ao princípio pensei que era porque adoro sua música. Desde que topei com esse velho LP, empenhei-me em colecionar tudo o que podia sobre os Trovadores Escuros. Já sabe, a armadilha do ídolo em que ocasionalmente caem as mulheres, quando o músico parece ser uma divindade. Mas acredito que ele é mais que uma chama e eu uma pequena traça voando muito perto. Chamam a isso, de química. Química explosiva e natural.

– Sério? – Definitivamente, havia interesse na voz de Lisa. Ela arqueou uma sobrancelha, inquisitiva. – Fale tudo, Corinne. Estamos falando de sexo?

– Você já viu. Ele exala sexo. Nunca havia conhecido a ninguém que se parecesse nem remotamente com ele. Simplesmente não pensava que eu fosse do tipo sexy. Já falamos disso, lembra-se?

Lisa assentiu solenemente, dobrando outra esquina, quase tocando um carro estacionado, por poucos centímetros. Corinne já estava acostumada à forma dela dirigir e sequer fez uma careta. Uma buzina soou para elas e Lisa lançou um sorriso alvoroçado e saudou alegremente ,enquanto cortava o caminho do motorista, para voltar a virar.

– Pensava que tinha sido por ser sua primeira vez. – Respondeu Lisa, cuidadosamente. – O começo teu com John. Você passou um mau momento. – Corinne sempre tinha sido honesta com Lisa, sobre sua vida com John. Tudo tinha sido cômodo entre eles, exceto no quarto. Corinne se culpava. Ela acreditava que simplesmente, o sexo não era seu forte.

– Provavelmente foi mais uma questão de química. Acredite-me, entre esse homem e eu há algum tipo de atração. Não estou segura de confiar em mim mesma em uma casa a sós com ele. – Admitiu Corinne, em voz alta, surpreendida pela flagrante resposta de seu corpo. – Possivelmente você tenha topado com alguém de seu tipo, entre a multidão, Lisa. Para mim, esta é uma experiência absolutamente nova e muito incômoda. Ele poderia destroçar uma mulher em milhares de pedaços. – Corinne suspirou e se jogou o cabelo para trás. – Faz-me sentir culpada, por John. – Ela fez sua pequena confissão.

Lisa franziu o cenho, sobriamente.

– Não seja tola, Rina. John odiaria ver você assim. Amava-o como um louco, mas nós sabíamos que você não o queria do mesmo modo. Fez-lhe feliz, sabe que sim, e por isso lhe agradeço do fundo de meu coração. Sempre esteve ali, para nós dois.

– Eu queria John.   – Disse Corinne.

– Sei que o queria. Não quis dizer que não. Ele não vai voltar e gostaria que você fosse feliz. Sabe que gostaria. – Lisa estacionou o carro no caminho da entrada de sua casa. Sua aparência normalmente elegante e até exótica, a ajudara a conseguir dinheiro para comprar uma formosa casa num bairro caríssimo. As duas mulheres deleitavam-se às vezes, simplesmente olhando a casa. – É obvio, não sei se ele aprovaria ao Mister Sex appeal. Do que estiveram falando todo esse tempo, sozinhos e na escuridão? – Brincou Lisa.

– De bebês. – Balbuciou Corinne, desejando confessar tudo. Como havia contado a um desconhecido antes que a sua adorada cunhada?

Algo na voz de Corinne advertiu Lisa, que este não seria um assunto divertido. Lisa ficou muito quieta, seus dedos se congelaram ao redor das chaves do carro, enquanto a outra mão se fechava ao redor do volante.

– Perdoe-me, acreditei que você havia dito bebês. Por que estaria discutindo com ele, sobre bebês? Espero que tenha lhe dito, que crianças está fora de questão. – Havia um afiado desafio na voz de Lisa. No momento, ela examinava a figura de Corinne, sob o jeans e uma blusa folgada.

Corinne afastou o olhar, dos olhos acusadores.

– Eu não sabia, Lisa. Juro a você que não sabia. Na manhã que mataram John, nós fizemos amor. Depois que o assassinassem, tudo foi tão terrível que não pensei nisso durante meses. Depois notei que anormalmente estava cansada. Muito mais que o normal. Passava assim todo o dia e simplesmente não me ocorreu que estivesse grávida. Mas depois quando estive muito doente, fui ao médico. Lembra-se que tive que passar um tempo na cama?

– Está grávida! Você está grávida, agora mesmo? – Lisa ergueu a blusa de Corinne, para inspecionar seu ventre. – Teria que estar de seis meses e não parece! – Foi uma acusação, uma súplica. Mas ela notou o pequeno volume, sobre o antes plano ventre de Corinne.

Corinne segurou a mão de Lisa entre as suas.

– Vamos, Lisa! Podemos passar por isso juntas, como temos feito sempre.

Lisa sacudia a cabeça negando e as lágrimas banhavam seus olhos.

– Você não pode ter um bebê. Os médicos disseram que não podia. Foi ao controle de natalidade. Lembra-se de quando ficou tão irritada porque lhe disseram que seria uma sentença de morte para você, ter um bebê. John jurou que nunca permitiria que se arriscasse. Ele jurou-me. Fiz com que ele me jurasse isso.

– Tive que deixar o controle de natalidade há alguns meses. Tomávamos precauções e sempre fomos cuidadosos. – Nos últimos meses antes de sua morte, John tinha começado a se queixar de ter que utilizar camisinhas. - A pílula fazia com que Corinne ficasse doente, então restava a cirurgia. Ele odiava a idéia, porque era perigosa. John estava começando a se impacientar por causa das carências dela. Corinne não o culpava. Ele desejava que ela sentisse por ele, o mesmo ele sentia por ela. Como podia explicar o quanto se sentia culpada por não se sentir fisicamente atraída por John, como ele precisava? Amava-o... Sabia que o queria. Queria-o demais, mas nunca tinha desejado o lado físico de sua relação, tanto como ele. E naquela manhã havia colocado todo empenho, por John.

– Isso foi totalmente irresponsável por parte dos dois. – Soltou Lisa. – Eu disse ao John que ele devia se operar, mas ele não quis porque... – interrompeu-se.

– Porque pensava que poderia ter filhos algum dia, com alguma outra mulher, depois de que eu morresse. – Terminou Corinne por ela. – Eu queria que ele fosse feliz.

Os dedos de Lisa se apertaram ao redor dos de Corinne, desesperadamente.

– O que podemos fazer? Podemos nos liberar disso?

– Tome fôlego, Lisa. – Aconselhou amavelmente, Corinne. – Este bebê não é “isso”. Estamos falando de uma criança. Uma parte do John.

– Não me importa de quem é parte. Este bebê está te matando.

– John e eu temos uma filha, Lisa. É uma menina que vive, respira, dá patadas e se move, uma pequena menina. – Gentilmente, ela tentou guiar a mão de Lisa até o pequeno vulto de seu ventre.

Lisa lhe arrebatou a mão com força e abriu a porta do carro. Saiu e a fechou-a com força, uma boa medida de seu humor. Corinne suspirou e saiu do veículo, subindo até a casa. Enquanto Lisa colocava a chave na fechadura, Corinne a deteve com uma mão amável sobre o ombro.

– Sei que está irritada, Lisa. Deveria lhe ter isso dito, quando o médico confirmou, mas não estava segura de que seguraria o bebê. Depois do horror da morte de John, não queria que você sofresse comigo. Foi um pesadelo, um terrível pesadelo. Do que servia deixar que se preocupasse ainda mais? John estava morto e eu já estava grávida e nós duas sabemos que minhas possibilidades de levar isto a bom termo são escassas. Não queria que você se preocupasse.

Lisa voltou-se e seus olhos azuis refletiam uma mistura de culpa, medo e raiva.

– Não quis me contar o que sabia todo o tempo. Não pode ter este bebê porque morrerá se tentar. Morrerá, Corinne. Essa é a palavra pequena. Sempre foi. Pensava que você havia aceitado o fato de que nunca teria um filho. Você é tudo para mim. Minha família, a única que tenho. Lutamos para conseguir a vida que temos, os três, mas quando finalmente conseguimos, alguém mata John e agora você está planejando morrer e me deixar totalmente sozinha!

Corinne a envolveu em seus braços, até que a rigidez desapareceu e Lisa se abraçou a ela.

– Não estou planejando morrer, Lisa, Se acontecer, não estará sozinha, teria uma parte do John e uma parte de mim contigo.

– Não quero uma parte ninguém, Corinne. Quero você. Não posso fazer isto... Não perderei você também. Eu não sou como você. Não sou forte e valente e não quero ser. – Ela disse, inflexivelmente, depois soltou uma praga em voz baixa, quando faróis iluminaram-nas, durante um momento e o motor de um carro foi desligado. – Agora não posso agir com normalidade. Quero que todo mundo vá embora, para poder chorar a vontade.

No momento em que Dayan deteve o carro e inalou a noite, soube que algo estava errado. Era bem consciente da desarmonia entre as duas mulheres, pois podia ler facilmente seus pensamentos. Queria confortar Corinne, sabia que ela lutava para conter as lágrimas, mas as duas estavam em perigo. Mesmo enquanto lia seus pensamentos em busca de informação, esquadrinhava a região e sua mente procurava ameaças ocultas. Com o coração na garganta, deslizou-se para as duas mulheres, numa velocidade sobrenatural, enquanto elas se afastavam dele, tentando entrar. Sua mão chegou primeiro, bloqueando efetivamente a entrada de Lisa. Quando Dayan segurou a porta fechando-a de repente, Corinne ofegou e trouxe Lisa para longe da casa, atravessando o gramado, de volta ao carro.

– Estava aberta, Lisa. A porta não estava fechada, absolutamente! – Havia pânico na voz de Corinne. Vivia temendo que alguém as vigiasse, desde que o corpo do John foi encontrado em um pequeno parque perto de sua casa.

– Provavelmente esqueceu de fechá-la. – Aventurou Lisa, mas sua voz tremia.

Corinne sacudiu a cabeça e seus olhos se cruzaram com os de Dayan, sobre a cabeça de Lisa.

– Fechei a porta. Sei que sim. Temos que chamar à polícia. – Queria que ele acreditasse.        Dayan já estava empurrando às duas mulheres para Cullen. Assentiu com a cabeça como se estivesse de acordo, com suas mãos gentis sobre os braços de Corinne, movendo-se sobre a pele dela, esquentando-a, oferecendo um certo conforto.

– Vá com Cullen. Eu me ocuparei de tudo. – Havia dois homens humanos esperando dentro na casa. – Cullen leve-as para nossa casa, onde nos hospedamos. Eu irei assim que possa.

A autoridade em sua voz dizia que ela era um homem acostumado a ser obedecido. Lisa se deslizou imediatamente para o interior do carro, com o semblante pálido. Corinne se plantou a sua frente, como ele sabia que faria.

Ela elevou o queixo para ele, seus olhos verdes brilhando.

– Eu acredito que não! Você também vai entrar no carro, Dayan. No que está pensando? Meu marido foi assassinado. Não pensa que é muita coincidência que alguém tenha entrado em nossa casa? Você vai vir conosco! – Corinne segurou seu braço. Dayan sorriu, com o coração derretido.

– Obrigado, Corinne. – Ele emoldurou-lhe o rosto com as mãos e seu olhar negro mantendo cativo, o dela. – Você irá com Cullen e esperará por mim e não chamará as autoridades. – ele beijou-lhe o alto da cabeça, no mais breve dos contatos e depois sorriu com confiança, enquanto a acomodava gentilmente dentro do carro.

– Dayan, por favor, venha conosco. Tenho um mau pressentimento sobre isto. – Protestou ela.

– Tudo estará bem, Corinne. Não sou fácil de matar. – Ele inclinou-se sobre o assento de forma protetora e lhe prendeu ao cinto de segurança. – Seu coração pulsa de forma muito irregular. – Sussurrou-lhe junto ao ouvido, sua boca contra a pele dela. – Ouça o ritmo do meu. – Ele levou uma das mãos dela, ao coração.

Por um momento Corinne não pôde respirar e depois ouviu o som do coração dele. Imediatamente seu próprio coração pareceu esforçar-se para seguir sua liderança. Era impossível, mas bom. Corinne podia mover objetos, simplesmente se desejasse, então acreditava no impossível. Com Dayan, tudo parecia natural. Sentiu a vibração de eletricidade, quando os dedos dele roçaram sua cabeça, antes de fechar a porta do carro. Látegos de relâmpago dançavam em seu sangue. Ele fazia tudo simples e eficientemente, sem pressa e com completa confiança. Era impossível não fazer o que ele dizia, quando parecia o ter tudo sob controle e ser mais que invencível. Corinne não pôde afastar o olhar até que o carro saiu.

No momento em que aqueles olhos negros deixaram de estar pousados nela, Corinne cobriu o rosto com as mãos.

– Não deveríamos ter lhe deixado assim. Não sei por que atuo de forma tão alheia a meu caráter com ele. Cullen, temos que voltar e ajudá-lo. Se houver alguém em nossa casa, poderiam lhe mal ou pior.

Cullen sorriu, com gosto.

– Guarde sua simpatia para quem esteja dentro da casa. Não será Dayan quem cairá.

– Estou falando sério. – Disse Corinne. – Pode haver vários homens com armas.

– Acredite-me, isso não importará. Não lhe farão mal. – Cullen falava com absoluta convicção.

– Ele é um músico, um poeta doce e amável. – Protestou Corinne, pensando na beleza das palavras dele, na ternura de seu sorriso.

Cullen sorriu novamente.

– Ele é muito mais que isso, Corinne. Não se preocupe por ele. Realmente, ele tem um talento natural para cuidar de si mesmo.

Dayan observou o carro, até que as luzes traseiras desapareceram ao dobrar a esquina. Corinne temia por sua segurança. Lia facilmente em sua mente. Ouviu-a protestar com sua aguda audição. Isso o reconfortou como nada havia feito até então. Depois voltou a cabeça lentamente, para olhar a casa. Enquanto se voltava, toda sua conduta mudou. Não ficou nada do homem elegante. Imediatamente pareceu o que realmente ele era. Um escuro e perigoso predador desencapando suas garras e espreitando sua presa. Começou a se mover na escuridão... Seu lar, seu mundo. Tinha tudo de sua parte. Podia ver facilmente na noite mais escura, mover-se tão silenciosamente como o vento, podia cheirar sua presa tão habilmente como o lobo, e comandar os céus e à própria terra.

Dayan deslizou rodeando a casa sem esforço algum e saltou a cerca de dois metros de altura. Enquanto fazia isso, mudou de forma, aterrissando silenciosamente sobre quatro patas em vez dos dois pés. O leopardo passeou maciamente sobre suas patas grandes e acolchoadas. A grama apenas se moveu, enquanto rodeava a parte traseira da casa. No alpendre traseiro brilhava uma luz sob a porta. Entre as sombras do alpendre, o enorme felino brilhou tenuemente, sua pelagem pintalgada ficou quase iridescente durante um breve momento, depois simplesmente se dissolveu, como se nunca tivesse estado ali.

O vapor se introduziu através da fresta da porta, fluindo tão veloz e silenciosamente como uma dose letal de monóxido de carbono. Dayan entrou no interior da casa e parou durante um momento, enquanto o vapor voltava até a transparência uma vez mais, para voltar a formar o enorme corpo musculoso do ardiloso e silencioso felino.

Dayan passeou pela pequena casa, até a escuridão da cozinha. Soube imediatamente onde estavam os caçadores à espreita. Pôde cheirá-los, um amálgama de medo e excitação. Eles estavam esperando há algum tempo, armados e preparados. Glândulas sudoríparas excretavam seu pestilento mau cheiro, mas indevidamente a espera os cansara e eles estavam intranqüilos e com cãibras, em suas posições. Quando os faróis do carro anunciaram a chegada das duas mulheres, o ciclo havia recomeçado. Medo excitação e adrenalina. E depois a terrível desilusão.

Eles removiam-se em suas posições, inseguros sobre o que fazer. Suas ordens eram claras. Esperar até que as mulheres chegassem e pegá-las rápida e silenciosamente. Dayan lia tão claramente em suas mentes, como cheirava o suor em seus corpos. Nenhum dos dois notou o enorme leopardo, enquanto este levava a cabo sua lenta e paciente aproximação, em imperceptível silêncio.

O felino avançou atrevidamente até o centro do espaçoso aposento, sem tentar utilizar a mobília para se cobrir. Esta espécie de jogo do gato e o rato era tão velho como a vida do predador. Os olhos do leopardo permaneciam fixos em suas presas. Um olhar penetrante e acerado que assinalava que a morte os espreitava. Esses olhos sustentavam toda a astúcia e inteligência de um grande caçador. Não eram os olhos amarelos de um leopardo, mas um feroz olhar negro, vazio de tudo, exceto de intenção letal.

O leopardo se escondeu, com a barriga no assoalho e os músculos incrivelmente controlados, enquanto começava a espreitar aos homens. Centímetro a centímetro. Em completo silêncio. Não se ouviu sequer o sussurro de pele roçando o tapete imaculado, enquanto o felino alcançava a sua presa. Havia um homem apoiado contra a parede, suspirando, removendo-se inquieto, aliviando seus músculos duros. Ele tinha uma arma na mão direita e a comprovava continuamente, acariciando o gatilho ausentemente com os dedos e limpando a testa, onde gotas de suor se acumulavam. Esperar era coisa difícil e ele não possuía a paciência ou a quietude do felino.

Nunca soube que tinha passado de caçador a presa. Sentiu o impacto do pesado corpo que o lançou contra a parede. Sentiu o roçar dos pelos e cheirou a selvagem fragrância da morte. Atravessaram-lhe adagas, onde as afiadas garras do pesado felino o agarraram, enquanto os longos e afiados dentes perfuravam sua garganta. Durante um momento o homem olhou diretamente aos olhos do felino, encontrou e sustentou o olhar enquanto sua garganta era esmagada. O conhecimento de sua própria morte havia chegado muito tarde para detê-la. Esses olhos encerravam uma selvagem inteligência e eram hipnotizadores, compelidores. Enquanto morria, lembrou-se de todos os eventos que o conduziram a este momento. Era um dos homens que tinha espreitado e assassinado John Wentworth. Um dos homens de segurança do Centro Morrison, de Investigação Psíquica.

Dayan baixou sua presa até o chão, respirando profundamente, mantendo à fera sob controle. Dentro do corpo do leopardo, sua própria fome era duplamente difícil de conter. Afastou-se rapidamente da tentação, caminhando silenciosamente até o vestíbulo com suas patas acolchoadas. Corinne tinha razão. Os seqüestradores foram a eles, porque John tinha ido ao centro. O que o marido dela havia contado, provocara seu interesse em Corinne e Lisa.

Uma vez mais completamente controlada a fera que vibrava em seu interior, Dayan começou a espreitar o outro seqüestrador.

Ele estava do outro lado, ignorando o destino de seu companheiro. Duas vezes levantou um canto da cortina e olhou para fora, para a escura noite. O leopardo podia lhe cheirar, ouvir seus suspiros, seus movimentos mudando de posição, enquanto seu peso oscilava constantemente de um pé para outro, tentando aliviar os músculos entorpecidos e manter-se alerta. Este homem também acariciava sua arma, fantasiando com o que faria às duas mulheres quando elas estivessem em suas mãos.

O leopardo se adiantou até que ficou a vários pés de sua presa antes de se congelar em posição, fundo sobre o tapete, onde permaneceu perfeitamente imóvel e seus olhos fixos sem piscar, sobre a presa. O homem se voltou e olhou diretamente para o leopardo sem vê-lo, sem ser consciente dele, absolutamente. Dayan esperou com toda a paciência de mil anos de caça. Para ele, o círculo da vida era interminável e tinha todo o tempo do mundo. Observou desapaixonadamente como o intruso voltava para sua posição, sem ver o corpo de seu companheiro ou o perigo para si mesmo.

O leopardo se adiantou centímetro a centímetro, uma vez mais sem sequer um sussurro de movimento que lhe traísse. Espreitara por incontáveis vezes e derrotado seus inimigos. Os implacáveis olhos negros nunca abandonaram seu objetivo. Quando ele esteve a uma distância suficiente, preparou-se para o ataque, observando, esperando a oportunidade perfeita. Golpeou com força, pela garganta, para a morte rápida e desta vez mudou de forma enquanto, inclinando a cabeça para beber enquanto tomava p homem inconsciente.

Em seguida, a rajada de adrenalina no sangue, aditivo como qualquer droga, o golpeou com força e uma bola de fogo que atravessou seu sistema. Estava faminto e bebeu profundamente, a fera se elevava, lutando por sua supremacia. Dayan sustentou tranqüilamente o peso do homem entre suas mãos enormemente fortes e deliberadamente pensou em Corinne. Ela o ancorou e o manteve a salvo. Ela estava ali, para assegurar que ele não cruzara a linha para converter-se na mesma coisa que este homem estava caçando. O vampiro. O não–morto. Dayan era um homem dos Cárpatos, tão velho como o tempo, um dos antigos que caminhavam pela terra, em busca de sua companheira. Sem ela cedo ou tarde se viam obrigados a procurar o amanhecer ou escolher perder sua alma e converter-se em vampiro.

O sangue corria por seu sistema, revivendo suas células, músculos e tecidos, enchendo seu corpo e lhe dando impulso. Tudo nele exigia mais, exigia que se alimentasse enquanto a força vital abandonava o corpo. Corinne. Pronunciou o nome dela em sua mente procurando forças para resistir a feroz investida. Uma brisa fresca pareceu abrir passo até sua pele ardente. Corinne. Podia ver sua face... Memorizara cada centímetro dela. A suave pele que suplicava por seu toque. Os olhos verde musgo, de cor tão estranha como ela. A luz de seu interior, irradiando. Corinne. Sentiu-a dentro dele e isso foi suficiente. Fechou as marcas com sua saliva curadora, permitindo que o homem morresse por própria conta. Sua fera exigiu durante um momento, opondo-se a ele, desejando mais, desejando engolir, mas Dayan ignorou os terríveis sussurros de poder e se concentrou em Corinne.

Em sua boca. Na intrigante covinha que aparecia quando ela sorria. A forma em que seus lábios se curvavam num sorriso. Ela era extremamente bela. Percorreu com o olhar a espaçosa casa. A casa de Corinne. Inalou a fragrância dela enquanto percorria os cômodos. A casa tinha teto alto, muita madeira e estava bem limpa. Instintivamente soube que Corinne era a que se ocupava da casa. No quarto de Lisa havia roupa sobre o chão e atiradas sobre as cadeiras. Lápis de lábios e cosméticos sobre uma penteadeira. Um enorme e reluzente espelho pendurado na parede. O aposento tinha a fragrância de Lisa e duas fotos. Uma era de Corinne. A outra de um homem jovem. Alto. Sorridente. Loiro como Lisa. Tinha que ser John.

Dayan estudou por longo tempo, o homem. Podia ver a Lisa nele. Seus olhos eram inteligentes e o sorriso, autêntico. Desejou encontrar algo que não gostasse, algum demônio escondido, mas ele parecia genuíno. Dayan saiu do quarto e vagou pela casa formando uma impressão dos que viviam ali. Um grande aposento na região principal, continha um piano e uma bateria. Deteve-se durante um momento, inalando a fragrância de Corinne. Isto era parte de seu domínio e ele soube que ela tocava o piano com freqüência. Depois de ter inspecionado tudo cuidadosamente, ele se permitiu a entrar no quarto de Corinne. Vários instrumentos antigos estavam pendurados na parede.

O quarto era decorado em cores suaves e estava limpo e ordenado. A cama com várias de almofadas em cima. A roupa dela estava dobrada nas gavetas ou penduradas no guarda roupas. Havia livros por toda parte. Livros de todo tipo. Havia toda uma seção dedicada aos felinos selvagens. Dayan se encontrou sorrindo enquanto levantava um, particularmente grosso, sobre leopardos. As fotos eram excelentes. Seus dedos tocaram o rosto que emoldurava a capa. Livros sobre o tempo e o oceano estavam empilhados no lado esquerdo da cama. Os grossos volumes dedicados à história da música estavam pelo chão junto a um equipamento de música, de alta tecnologia.

Na parede havia posters autografados de vários artistas. Um teclado colocado a um canto do quarto. Havia um violão elétrico apoiado contra a parede e um instrumento acústico belamente elaborado, numa caixa acolchoada com a tampa aberta. O suporte dos CDs estava cheio de discos que englobavam todo tipo de música imaginável. Havia fitas encaixadas em outra caixa e discos em uma terceira. Examinando por cima as fitas, surpreendeu-se ao encontrar várias delas, marcadas "Trovadores Escuros".

Procurando mais a fundo, encontrou discos estranhos e gravações piratas de diversos artistas.

Sobre a cama jazia um bloco de notas, cheios de letras de canções, escritas com uma letra pequena e fresca. A caligrafia dela. Olhou a assinatura e seus olhos se abriram. Um lento sorriso suavizou a linha de sua boca. C.J. Wentworth. O nome era respeitado nos círculos musicais. Não tinha nem idéia de que C.J. Wentworth fosse uma jovenzinha. Sua jovenzinha, Corinne. Folheou o caderno. As palavras eram formosas e lhe tocaram o coração.

Já não pôde mais esperar para voltar para ela. Sua presença estava em todas as partes nesta casa e seu aroma o envolvia num abraço. Inalou profundamente, tomando a fragrância profundamente nos pulmões. Dayan divisou uma foto de Lisa e Corinne, juntas. Corinne levantava o olhar para a Lisa enquanto uma cascata de água caía sobre as duas. A ponta de seu polegar acariciou sua face sorridente. O sol havia banhado-a num raio de luz, um halo circundante. Ela era tão formosa que lhe roubava a capacidade de respirar. Fazia mal ficar olhando para ela ali. Havia momentos nos quais uma mão gigante parecia estar espremendo seu coração. Perguntava-se, se era porque o coração dela trabalhava tão terrivelmente, ou porque ela era tão bonita, que fazia mal olhá-la.

Suas emoções eram difíceis de diferenciar. Queria ser tudo para ela, até o ar que respirava. Preocupava-lhe a logística de seu amparo. Se a unisse a ele com o ritual, como cada fibra de seu ser exigia que fizesse, estariam unidos para sempre. Ela não seria capaz de resistir à separação durante as horas diurnas e se ele permanecesse sobre terra, cedo ou tarde perderia sua grande força, que necessitava para protegê-la. Durante o dia, se não ficasse seguro clandestinamente estaria indefeso e vulnerável ante seus inimigos.

Dayan se sentou na beira da cama e sua mão percorreu ausentemente a colcha, com incomum ternura. Emitiu uma chamada, procurando informação. Estava longe dos seus, mas Darius era forte e sua conexão era poderosa, quase desde o começo de seus tempos juntos. Tinham um vínculo de sangue, inquebrável pelo tempo e a distância. Darius era parte de sua família e responderia por seu próprio vínculo privado, mente a mente.

- Darius, preciso de você.

Dayan tinha aprendido paciência, centenas de anos antes. A paciência do leopardo na caça, a paciência do oceano desgastando as rochas. Sentou-se tranqüilamente, sua mente repassando os eventos do dia, para que Darius pudesse ler seu problema claramente. Pôde sentir a conexão entre eles e o poder de Darius encheu sua mente. Inesperadamente, sentiu uma crescente emoção por este homem que fora tão parte de sua vida. Dayan possuía só lembranças de sua atenção, para resistir durante centenas de anos, pois tinha perdido sua capacidade de sentir, bem cedo. Embora soubesse que a música enchia sua alma, lhe recordando que ainda continuava vivo e que era uma sorte reter este dom de valor incalculável, quando tantos outros haviam perdido tudo.

- Alegramo-nos por seu descobrimento, Dayan.

A voz o reconfortou e deu a Dayan uma sensação de bem-estar, um sentido de família. Darius tinha liderado seu pequeno grupo, infalivelmente, através dos anos de guerra e caça de vampiros. Mantivera-os unidos, dera-lhes um propósito, protegendo-os e ensinando a sobreviver nesses primeiros anos.

- Desari e Tempest não podem esperar para conhecer sua companheira.

- Devo consultar um curador. A necessidade é grande e a situação complicada. Ela está grávida.

- Acharemos o melhor que nossa gente pode oferecer e os levaremos a você, tão rapidamente como possível. Começaremos a viajar imediatamente.

- Temos inimigos aqui. A sociedade encontrou minha companheira ou possivelmente temos um novo inimigo. Alguém do Centro Morrison, uma organização para a investigação psíquica, tentou seqüestrá-la. Utilizavam armas e violência em suas mentes. Venham com cuidado, Darius e cuide de que os outros o tenham também.

- Já enviei mensagens aos outros. Chegaremos em alguns dias, Dayan.

- Agradeço-te sua preocupação, Darius. Nem sequer sei se nosso inimigo é seu inimigo, mas encontrarei uma forma de manter Corinne a salvo. Se algo me acontecer...

- Ela sempre estará sob meu amparo e sob o amparo de sua família. Ocupe-se de mantê-la com vida até que chegue o curador. - Era uma ordem. - Não perderemos a nenhum dos dois, Dayan. - A voz falava com confiança extrema.

Com um pequeno suspiro, Dayan voltou sua atenção ao problema que tinha nas mãos. Tinha que tirar os corpos dos intrusos da casa de Corinne. O leopardo tinha esmagado as gargantas dos dois homens, estrangulando-os em vez de rasgá-los. Restava pouco sangue onde marcas foram feitas, pois tomara cuidado em não manchar o tapete. Não queria sinais de que os dois homens entraram na casa.

Dayan levantou os corpos facilmente, colocando-os no ombro e saindo para pátio traseiro. A noite estava terminando e ele tinha muito o que fazer. Lançou-se no ar, mudando de forma enquanto subia, levando os homens com ele. Enquanto voava pelo céu, acumulava nuvens escuras para se cobrir de qualquer possível observador. Moveu-se veloz, numa forma escura atravessando os céus com sua carga.

Dayan, como todos os de sua raça era extraordinariamente forte e o peso morto dos dois corpos não significava nada para ele. Desfrutava da noite, dos sons, das canções e da beleza de tudo isso. Envolvia-o em sua música. As estrelas reluziam como diamantes, um brilhante desdobramento e sob ele, as árvores balançavam com o vento. Na escuridão, as folhas pareciam de prata reluzente. Sobrevoou um pequeno lago, com superfície brilhando como cristal. O mundo nunca lhe parecera tão formoso. Vivia há tanto tempo sem cores, que Dayan achava tudo em sua volta, belíssimo. Queria abranger tudo, voltar à cabeça para poder observar tudo.

Longe da cidade, encontrou o que estava procurando. Um profundo bosque. Dayan desceu e suas asas se dissolveram enquanto voltava a sua própria forma. Com um ondeio da mão, abriu a terra e fez flutuar os dois corpos para o interior do profundo abismo, atirando as armas esmagadas sobre os restos mortais. No alto, construiu uma tormenta, acumulando nuvens negras que formaram redemoinhos no ar sobre ele fazendo que se arqueasse o relâmpago e veias de branca e ardente energia saltaram de nuvem em nuvem. Os látegos dançantes foram dirigidos ao interior da abertura na terra, de forma que os corpos foram rapidamente incinerados. Ninguém encontraria a campa. Com um ondeio da mão, a terra voltou a se fechar sobre as cinzas. O vento pulverizou folhas e ramos sobre a campa, para que parecesse ser perturbada há anos.

Dayan dispersou a tempestade e com a forma de uma coruja, voou veloz para a casa onde Cullen esperava com Corinne e Lisa. Estava ansioso para voltar para ela, para estar em sua companhia, para confirmar que ela era real e não um produto de sua imaginação.

 

Corinne estava sentada, enroscada em uma poltrona macia, com os pés encolhidos sob ela e a cabeça descansando sobre um braço. O cabelo lhe caía em cascata como uma sedosa cortina, envolvendo seu rosto. Estava sentada na escuridão, esperando-o e seu coração tamborilava a um ritmo acelerado. Ela tremia por dentro.

Lisa e Cullen ficaram conversando tranqüilamente durante um tempo, no pequeno quarto junto ao vestíbulo, antes que Lisa finalmente adormecesse. Cullen estava perto de Lisa, com o braço colocado protetoramente em volta da cintura da mulher.

Corinne esperou acordada, com o medo palpitando nela, como o coraçãp batendo feito um tambor, de tão irregular. Não fazia idéia de como chegara a estar tão ligada a um completo desconhecido. Cada célula de seu corpo precisava saber que não havia lhe passado nada. Podia se lembrar cada detalhe do rosto dele e de cada expressão fugaz. sentia-se sozinha e assustada sem ele e isso era totalmente alheio a seu caráter. Não estava segura do que fazer. Era ela a que sempre se ocupada dos detalhes do dia a dia. Assegurava-se de que Lisa estivesse onde deveria estar e que os negócios de John fossem bem administrados. Não se pendurava em altos e bonitos desconhecidos, nos bares, certamente não de um famoso. Escrevia canções para muitos músicos famosos, mas nunca tinha acontecido de se deixar impressionar por algum deles.

Não ouvia nada mais que o batimento de seu próprio coração, mas quando levantou o olhar, Dayan se erguia sobre ela, alto, forte e vivo. O ar entrou precipitadamente em seus pulmões e ela pôde respirar novamente. Corinne sentiu um inesperado e completamente inaceitável desejo de acariciar os ângulos daquele rosto, com a ponta dos dedos. Precisava tocá-lo, assegurar-se de que ele estava ileso. Um pequeno sorriso subiu a sua boca.

– Estava preocupada.

Dayan se inclinou para pousar sua mão sobre a acetinada pele da face dela. O estômago de Corinne deu uma curiosa contração. E o tato dele lhe provocava um estranho desejo de querer mais.

– Não havia necessidade, Corinne, mas obrigado por sua preocupação. – Ele pronunciou seu nome como uma carícia.

Ela sacudiu a cabeça, surpreendida por sua reação ante ele. Ele era afrontosamente letal. Ninguém a cuidara como ele. Seus olhos eram intensos e insondáveis, escuros, perigosos e misteriosos, percorrendo-a possessivamente, famintos. Poderia alguém rechaçar tal desejo? Tal intensa necessidade?

– Eu deveria ter chamado à polícia. – Confessou ela, num pequeno sussurro. – Não sei por que escutei Cullen. Nunca escuto ninguém,quando sei que não estão sendo lógicos, mas foi tão inflexível.

– Menos mal que não o fez. – Disse Dayan, com tranqüilidade.

Ela levantou o olhar para ele, sob as pálpebras.

– Você não é um criminoso, certo? Essa parece ser a única explicação para que Cullen agisse assim.

Novamente ele sorriu e uma lenta e sexy curva acentuou a linha sensual de sua boca. Depois ele abaixou-se junto à cadeira, de forma que sua cabeça ficou ao mesmo nível da dela.

– Pareço um criminoso, para você? – Sua voz sustentava essa estranha magia, sussurrando sobre sua pele até fazê-la estremecer, mas em seu íntimo, uma chama começava a arder apaixonadamente e pulverizava calor líquido, como lava fundida, através de seu corpo.

– Mesmo que você não seja, deveria ser totalmente proibido por lei. – Resmungou ela, antes de poder censurar suas palavras.

Os negros, negros olhos brilharam, francamente divertidos.

– Levarei isso como um elogio. Você não me disse se gostou de minha atuação.

Ela levantou a cabeça, deixando cair seu cabelo sobre o ombro, num gesto puramente feminino, completamente sexy.

– Sabe muito bem que você é fenomenal e eu não tenho que lhe dizer isso. Todo mundo o diz. Aliás, todas devem dizer.

– Mas a opinião de todo mundo não conta para mim. Só a sua. – Ele falava a sério, como se ela fosse a única mulher em seu mundo. Os profundos olhos negros não abandonavam sua face. Sequer piscavam.

Corinne quis afastar o olhar, temendo que ele fosse capaz de hipnotizá-la, mas em vez disso, se sentiu cair nas profundezas desses olhos. Eram formosos, não se pareciam com nenhum outro que já tivesse visto. E estavam empurrando-a, a responder. Tinha que lhe responder porque era necessário para ele. Ele a fazia sentir-se assim.

– Você toca maravilhosamente bem. Ainda não tinha ouvido nada igual. Quero te ouvir cantar outra vez.

– E você é C.J. Wentworth. Não deixou escapar nenhuma palavra a respeito da famosa C.J. que eracapaz de deixar famoso qualquer cantor, com suas canções.

Corinne enrubeceu e durante um momento, Dayan fez tudo o que pôde para não se inclinar e tomar sua boca. Ela parecia tímida, mas tão tentadora, que ele sentiu necessidade de aproximá-la e abrigá-la contra seu coração.

Corinne encolheu os ombros, modestamente.

– Tive sorte com minhas canções, mas não são nada comparadas com as que você e Desari compõem. Sua música e suas letras ficam na mente.

– Tem gravações de nossas excursões. – Acusou ele, mas um débil sorriso se insinuava em seus olhos.

Ela lançou um pequeno e descarado sorriso.

– Não foram doadas, de qualquer forma. Tive que pagar uma fortuna por elas. O estranho é que faz alguns anos encontrei um disco. A banda se chamava os Trovadores Escuros, mas a gravação era de 1920. – Ela estudou-lhe o rosto, traço a traço. Era uma formosa máscara, que não deixava entrever nenhum de seus pensamentos. – A maior parte dos negociantes sabem que adoro os discos antigos e que estou disposta a pagar por eles. Quando um deles me vendeu esse disco, me obcequei com a música. Era diferente, incrivelmente formosa, quase imaginária. Deveria ouvi-lo, Dayan. Quando ouvi pela primeira vez o nome de sua banda, pensei que poderia haver alguma conexão e tinha que ouvir sua música. Levou-me muito tempo e uma grande soma de dinheiro adquirir as fitas, no mercado negro. Sei que não são a mesma banda, mas lhe juro, as similaridades são assombrosas. A música é diferente, é claro, de uma época diferente, mas o estilo e a forma de tocar é como a sua. Ouvi o disco diversas vezes e juraria que os músicos são os mesmos. Sabe como se pode ouvir alguma música e saber quem está tocando e como soa? – As palavras saíram dela por causa da excitação. E estavam falando de músico para músico.

Ele passou as mãos pelos cabelos, mas seu olhar intrigado estava sobre o rosto dela, bebendo dela. Devorando-a com os olhos. Essa gravação havia sido um engano. Não ocorrera a eles, na época, que a tecnologia algum dia fosse capaz de identificar um indivíduo pela voz. Felizmente, produziram-se poucos discos. Eles se ocuparam, com calma, de rastrear e destruir cada cópia. Obviamente, não tiveram êxito total.

– Bem, já o ouviu? Utiliza seu nome deliberadamente? – Exigiu Corinne, pois o mistério dava voltas em sua mente. – Tem que ouvir esse disco, Dayan. estudei música toda minha vida e tenho um grande ouvido. Juraria que é você o violonista principal.

– Isso é porque sou eu. – Respondeu ele honestamente, permitindo que um sorriso travesso iluminasse as escuras profundezas de seus olhos.

Corinne piscou para ele.

– Então está querendo me dizer que tem pelo menos cem anos. Está muito bem conservado, Dayan.

– Obrigado. – Ele inclinou-se ligeiramente, pela cintura, com a curiosa elegância do Velho Mundo, que o pegava.

– De nada. Embora que, se você está pensando numa relação, temo que esteja fora de questão. Não posso sair com um homem que tem cem anos.

O sorriso dele se ampliou, até que os dentes brancos brilharam para ela, deixando-a sem fôlego. Ele estendeu uma mão, para colocar uma mecha de cabelo dela, atrás da orelha e as pontas de seus dedos atrasaram contra a pele, numa ligeira carícia.

– Quando olho para você, não posso respirar. – Admitiu ele, seriamente, lhe derretendo o coração. – É... Formosa.

Corinne respirou fundo, tentando com força, não permitir que uma cor selvagem subisse por seu pescoço até o rosto. Alguém tinha que ser sensato. Tentou não fitá-lo, para poder pensar mais claramente.

– Dayan, estou grávida.

– Deveria estar maior. – Disse ele amavelmente, mas era uma clara reprimenda. – Agora terei que acrescentar isso a minha crescente lista de coisas pelas quais me preocupar no que concerne a você. – Ele estendeu a mão com preguiçosa facilidade e capturou uma mecha do cabelo de Corinne, flutuando-o entre os dedos, como se não pudesse se conter.

– O bebê está perfeitamente bem. – Disse ela à defensiva, tentando desesperadamente não deixar se afetar pela intimidade de seu toque.

– O disse o médico sobre sua saúde?

Corinne tentou baixar a cabeça, mas a mão de Dayan lhe segurou o queixo e seus olhos negros capturaram seu olhar, negando-se a renunciar a seu controle.

– Me responda, carinho.

Era estranho, mas podia sentir a voz dele acariciando sua mente, empurrando-a, a responder. Queria contar tudo a ele, apesar de sua natural inclinação em manter certas partes de sua vida, privado. Encolheu os ombros.

–Os médicos têm uma forma de fazer com que tudo pareça pior do que é. Mas vamos conversar sobre o que encontrou em nossa casa.

Dayan se moveu. Uma ameaçadora ondulação de músculos que fez com que o coração dela batesse na garganta uma vez mais, embora ele só se colocara em pé, estirando-se como um enorme felino, antes de estender as mãos para ela. Levantou-a facilmente, como se ela não pesasse mais que uma criança e deslizou através de vestíbulo até um quarto.Corinne fechou os olhos com força durante um momento, sua mão se arrastou até o pescoço dele.

– O que está fazendo?

– Se vamos conversar, céu, acredito que será melhor que esteja bem acomodada. Não negarei que tenho em mente, fazer amor com você à noite toda, mas sou totalmente consciente de sua gravidez e as dificuldades que apresenta, assim prometo ser cuidadoso. – Havia um ligeiro rastro de humor em sua voz, como se ele soubesse que só em pronunciar as palavras, em admitir seu desejo por ela, enviaria um calor que percorreria todo o corpo de Corinne. Como se soubesse que seu desejo era contagioso.

Dayan a colocou no meio de uma cama de enorme e se inclinou sobre ela, com seus olhos negros percorrendo seu rosto, intensamente. A da mão dela trouxe seu amplo peito com alarme, num esforço por lhe conter. Os olhos de Corinne eram enormes em sua face, apreensivos. As palavras rituais pulsavam na cabeça de Dayan e seu corpo se esticava pela necessidade de uni-la a ele. Ela era sua companheira, seu lugar era a seu lado e precisava dela, desesperadamente. Estivera sozinho por tanto tempo, por tantos séculos. Ela estava ali, a sua frente. Na mesma casa e no mesmo quarto que ele. Corinne. Sua Corinne.

Ela ficou bem quieta, como um pequeno animal preso pelo olhar de um predador, temerosa de se mover. Não podia afastar o olhar daqueles olhos negros, da intensidade e da terrível necessidade nua. Quis abraçá-lo, fazer com que desvanecesse esse duro e solitário olhar, para sempre. Sua mão, a pequena barreira entre eles, tremeu quando ela levantou o olhar, hipnotizada pela vulnerabilidade dele, quando parecia tão invencível.

– Dayan. – Sussurrou seu nome... Num suave suspiro ou um convite? Se ela não soubesse, como poderia ele saber?

Dayan pegou sua a mão, levando-a a maciez de seus lábios.

– Não há nada a temer, Corinne. Nunca faria nada que pudesse fazer mal a você ou a sua menina. Não posso evitar te desejar, mas até que seja seguro, acredito que nós teremos que sofrer.

Ela se encontrou sorrindo, enquanto se movia para permitir que ele deitasse a seu lado. por que confiava nele, tão rapidamente, que não podia imaginar, mas não importava. Gostava de estar junto dele, sentia-se reconfortada com sua presença. Ele era sólido, quente e seus braços fortes, quando a puxaram para ele, encaixando-a na curva de seu corpo. Estremeceu, mais pela proximidade do homem, que pelo ar noturno e fresco, mas gostou da forma em que instantaneamente ele pegou uma colcha para cobri-los, apesar de que sabia que ele não estava com frio.

– Vai me contar o que encontrou em nossa casa?

– E você vai acreditar em mim? – Ele formulou a pergunta tranqüilamente, mas ela pôde senti-lo esperando a resposta, na escuridão.

– Você se esquece que meu marido foi assassinado. Sei que havia alguém na casa. – Respondeu Corinne, firmemente. – Eu senti.

Ele fez uma careta involuntária, ante a palavra marido. John. Seu marido, John. Dayan tinha que se sobrepor a essa doentia sensação que tinha, a cada vez que ela o mencionava. John tinha sido parte de sua vida durante muitos anos, primeiro como amigo da infância, depois como marido. Uma parte dela o amava, sempre o amaria. Pegou uma mecha de cabelo dela e levou os sedosos fios à face, inalando a fragrância que era tão única, como ela.

– Havia dois homens na casa. Tinham armas e ordens de seqüestrar vocês duas.

Os grandes olhos de lhe percorreram o rosto.

– Por que?

– Ha alguns meses, nossa banda recebeu notícia de que estávamos numa lista de objetivos. Foi então quando conheci Cullen. Ele arriscou sua vida para nos advertir. Há uma sociedade, um grupo de fanáticos que acreditam em vampiros.

Corinne levantou a cabeça do travesseiro, para fitá-lo, com surpresa.

– Tem que estar brincando. Vampiros? Hoje em dia e nesta época? E o que tem isso a ver comigo? Ou com você?

– Você disse que foi diferente, que John tinha ido falar com alguém sobre suas diferenças. Esse é o tipo de coisas que essa gente procura. No momento em que ele colocou um pé no Centro Morrison, encontraram-na. Em que forma você é diferente, Corinne?

Sua voz parecia mágica na escuridão, suave veludo acariciando sua pele e sua mente. Adorava o som de sua voz, seu sotaque interessante, que não podia identificar ddea onde. A forma em que ele dizia ou retorcia certas palavras fazendo com que soassem numa mistura do Velho Mundo e do moderno.

– Posso mover coisas sem tocá-las. – De algum modo era mais fácil fazer a confissão no quarto escuro, com o corpo dele tão perto e com a mão descansando sobre o coração daquele homem. Esperou sua reação, sua brincadeira, sua surpresa. Esperou que ele se levantasse e tranqüilamente se separasse dela. Corinne não notava, mas seu coração se tornou louco, pulsando irregularmente novamente, enquanto esperava que Dayan respondesse.

Dayan capturou a mão que repousava sobre seu coração, levando-a à boca, de forma que seu hálito percorresse a pele dela, quente e tranqüilizador.

– É um dom assombroso o que tem. Também eu posso fazer a mesma coisa.

Corinne voltou à cabeça, a fim de ver os olhos negros.

– Seriamente? Nunca conheci ninguém mais que pudesse. É genial. Lisa não gosta que eu faça, mas não posso me conter. John sabia das coisas. Como quando o telefone ia tocar ou quem chamaria. Nunca tinha conhecido ninguém mais que pudesse mover objetos.

– Posso fazer outras coisas também. – Disse ele, brandamente, enquanto seus dentes mordiscavam os dedos finos, num ritmo reconfortante que fez com que seu coração se tranqüilizasse igualasse o firme padrão do de Dayan.

Lágrimas de alívio arderam nos olhos de Corinne. Enfim, alguém que poderia entendê-la. Lisa fingia que Corinne era como todos os outros. Já possuíam traumas suficiente em suas vidas, sem precisar acrescentar outras cargas.

– Pode ler as mentes, também?

Dayan assentiu solenemente.

– Sim. Não tenho que tocar à pessoa para ler seus pensamentos. Foi um tremendo alívio saber que me achava atraente, porque você me deixou sem fôlego.

Um lento sorriso curvou a boca de Corinne.

– Isso é armadilha. Seriamente, você pode ler minha mente?

– Agora mesmo está tentando manter sua mente totalmente em branco e se pergunta se haver alguma forma de que possa censurar seus mais... Ah... Como poderia dizer, delicadamente?

Corinne explodiu em gargalhadas. O som foi incitante, na privacidade do quarto. Dayan fechou os olhos, numa tentativa de se controlar. Seu corpo ardia de desejo, uma dor dura e urgente. O corpo dela era suave e tentador contra o seu, suas curvas encaixavam nos duros ângulos de seu próprio corpo. Encaixavam-se, à perfeição. Ele sentia-se dolorido de desejo e solidão. Em seu interior a fera lutava para se liberar, lutando contra as restrições que Dayan havia se imposto. Ele fez questão de se lembrar que primeiro e sempre em sua vida, estava a saúde e bem-estar dela. Permitiu que seu aroma e o som dela se espalhasse sobre ele, que penetrasse dentro dele, através dele, para que a sensação o centrasse e o equilibrasse.

Ainda não estavam unidos, mas ela estava dentro dele, lhe dando o precioso dom da cor e da emoção. Ela estava ali, viva e real, uma verdade que não podia assimilar. Corinne. Seu nome era uma luz na terrível escuridão de sua alma. Brilhando só para ele. Conduzindo-o para bem longe do caminho em que tantos outros de sua raça haviam desaparecido, para toda a eternidade. Corinne. Respirou seu nome e acalmou seu corpo, com o conhecimento de que ela estava a seu lado.

– Não vamos por aí. – Disse Corinne, com o riso ainda em sua voz. – Como soube essa gente, que você tem dons? E por que pensariam que são vampiros? – Era bem mais seguro manter a conversa longe da forma enfeitiçada em que se sentia em sua companhia.

– Acredito que há muitas razões. Nosso estilo de vida, viajando de país em país, parece estranho a muitos. O nome de nossa banda pode ter contribuído a criar a suspeita da sociedade. Temos dois leopardos domesticados que viajam conosco. Dormimos durante o dia e trabalhamos a noite. De certa forma, tudo parece indicar que somos vampiros. Tentaram nos matar disparando contra o palco, quando estávamos atuando. – Na escuridão, Dayan encolheu os ombros. – Cullen pertencia à sociedade.

– Cullen? – Corinne repetiu o nome alarmada e surpreendida de que Dayan pudesse falar tão casualmente. Lisa estava sozinha com Cullen, adormecida e muito vulnerável.

Dayan tocou sua mente gentilmente e sua mão lhe percorreu o rosto.

– Acalme-se, céu. Cullen arriscou sua vida para nos advertir. Esses assassinos querem encontrá-lo, mais que a nós. Estou com ele para lhe proteger. Minha família tem uma grande dívida com ele. Graças a você, posso sentir amizade novamente, inclusive afeição, onde antes só havia uma dívida de honra. Já me deu bem mais, do que nunca saberá.

– Não entendo tudo isso de vampiros. Por que a polícia não prende essa gente? – Corinne estava ignorando deliberadamente, suas estranhas referências a ela. Não entendia sua atração por ele, à forma em que precisava estar com ele, quando nunca havia precisado de ninguém em sua vida. Sentia-se segura com Dayan, mas ao mesmo tempo, ameaçada de alguma forma elementar e muito excitante.

– Este grupo opera do mesmo modo que uma organização terrorista. Golpear e fugir, manter-se em segredo. Somente os mais graduados da organização, sabem quem pertence a ela. Ninguém confia em ninguém. Alguns dos menos graduados, não têm nem idéia de que eles seguem matando. Sei que parece extravagante, mas infelizmente a sociedade é muito real. Temos que nos proteger o tempo todo. Se essa gente se fixou em você e Lisa, precisam de amparo também. Não irão parar, até te fazer mal. De algum jeito, temos que encontrar uma forma de convencer Lisa de que estão realmente em perigo. Ela resistirá à verdade, porque não quer que mais nada mude em sua vida.

– Para Lisa foi bem mais duro, que para John ou para mim. Quando éramos muito jovens, seu pai começou a sair com minha mãe. Era principalmente uma relação de bêbados. Nós não sabíamos então, mas seu pai quando bebia era extremamente violento. Para resumir a história, seu pai matou minha mãe. Lisa entrou quando ele a estava agredindo com uma barra de ferro. Depois ele derrubou Lisa, pô-lhe uma bolsa na cabeça, jogou-a no porta-malas do carro com o corpo de minha mãe e as ensopou com gasolina. John soube... Ele sempre sabia das coisas e nós dois conseguimos liberar Lisa, sem que seu pai se desse conta. – Corinne abrira o porta-malas, utilizando seu dom único. – Lisa, John e eu permanecemos juntos. Vivíamos principalmente nas ruas, cuidando de nós mesmos. – Disse ela, apressadamente, num pequeno arrebatamento, não querendo atrasar-se nos penosos detalhes de sua infância. Nunca falava desses tempos, nunca revelava detalhes de sua vida anterior a ninguém, mas não podia evitar dar a Dayan, tudo o que lhe pedisse.

Dayan entrelaçou seus dedos com os de Corinne, totalmente consciente da dor que pulsava nela, o horror dessas lembranças.

– Depois do assassinato, Lisa ficou tão mal que não falou durante dias. Sentava-me com ela durante horas e a balançava e ela se segurava em mim, quando começava a chorar. John era nossa fortaleza. Ele roubava comida para nós e nos manteve a salvo quando crescemos. Finalmente, acabamos trabalhando de garçons. Lisa foi descoberta por uma grande agencia de modelos. Depois disso, não tivemos que nos preocupar de ter um teto sobre nossas cabeças. E eu já fazia dinheiro escrevendo canções, assim ingressei num conservatório de música. John teve muito êxito como decorador de exteriores. Vivíamos como uma família.

Ele tocou sua mente gentilmente, não desejando bancar o intrometido, quando ela estava revelando lembranças dolorosas, mas queria "ver" os detalhes. A vida dela havia sido difícil e ele pôde captar claramente sua lealdade e amor por John e Lisa. Juntos, formaram uma família e cuidavam uns dos outros, num mundo enlouquecido. Virtualmente, se criaram em meio a um ambiente duro e conseguiram continuar bons e sensíveis apesar de todas as probabilidades contra.

– Lisa não é diferente, do mesmo modo que você. – Declarou ele, a mão enredando nos cabelos dela.

– Estávamos aterrorizados pelo pai de Lisa. Só Deus sabe o que ele teria feito ao saber de meu dom ou o que John fazia. Lisa ainda tem medo e prefere não falar de nossas diferenças. – Sem perceber, Corinne se aconchegou a ele. – Por que essa gente se fixou em Lisa? Ninguém poderia pensar que é má.

– Não importam os raciocínios deles, temos que protegê-la. Procurei-a por muito tempo, Corinne. Sei que aceitou sua morte como inevitável, porque os médicos humanos a convenceram de que não há esperança, mas não vai ser assim. Você vai sair desta e passar sua vida comigo. – Seu polegar esfregava a palma da mão dela. Uma carícia que penetrava Corinne até os ossos.

– Você disse médicos humanos. Existem médicos de outra classe? – Ela estava tentando brincar com ele, porque ele parecia muito intenso.

– Quero tentar alguma coisa. Eu não sou realmente curador, mas posso te ajudar, ao menos durante um curto tempo, se me permite. – Disse Dayan, sabendo que estava entrando num território novo para ele, que estava medindo seu caminho cuidadosamente. Mas a saúde dela era tão frágil, que ele queria ajudar de qualquer forma que pudesse.

– O que quer dizer? Como curar pela fé? – Corinne tentou não soar cética, mas estavam falando de vampiros, fanáticos religiosos e outras coisas altamente improváveis. Ainda assim, a ela não importava a estranha conversa, pois estava gostando de estar ali, deitada na escuridão, junto a ele, sussurrando.

– Faça por mim.

Ali estava essa qualidade mágica em sua voz, que sempre a fazia desejar fazer algo por ele. Como poderia alguém resistir a ele?

– Me diga o que tenho que fazer.

– Só fique quieta e me deixe tentar. Tenho que abandonar meu corpo e entrar no seu. Normalmente isto é trabalho de um curador, não alguém como eu. Enviei mensagens aos melhores dos nossos, mas até que chegue o curador, estou seguro de que posso te ajudar.

E Corinne acreditou. Não sabia por que acreditava que ele podia fazer o que assegurava... Era absurdo, sabia... Mas podia ver sua confiança e acreditava. Era estranho que ele pudesse ler seu pensamento, mas não a incomodava muito, certamente não como se fosse qualquer outro que assegurasse poder fazer tal coisa. Deitou-se e ficou perfeitamente quieta, esperando, sem protestar, para ver o que ele faria.

Junto a ela, Dayan ficou imóvel, nem um só músculo se movia. Mesmo sua respiração pareceu cessar. Corinne sentiu uma calma estranha em seu interior, crescendo, movendo-se, pulverizando-se. Ouviu um longínquo canto. As palavras estavam em outro idioma, serenas e formosas, tanto que relaxou completamente. A voz era masculina, definitivamente a de Dayan, mas estava em sua mente, não pronunciada em voz alta. Ele possuía uma voz belíssima.

Dayan examinou o coração expandido, cuidadosamente e depois se voltou para o bebê. Um diminuto ser, uma menina. Era formosa, completamente formada e consciente de sua intrusão. Tranqüilizou o bebê imediatamente, enviando ondas de serenidade, que a envolveram como um manto. Ela possuía as mesmas habilidades de sua mãe, possivelmente mais fortes. Embora extremamente pequena, o bebê era perfeitamente formado e precisava maturar para sair ao mundo exterior. Deixou à menina com ânimo e voltou para sua missão primária. O coração de Corinne estava definitivamente esgotado.

Ele não era curador e não tinha as habilidades necessárias para reparar seu coração. Poderia lhe dar seu sangue para ajudar a fortalecê-la, mas não tinha idéia do que isso faria à menina. Teve que tocar a mente da menina, reconhecê-la como pessoa, pois sabia que Corinne realmente a amava. Não podia se arriscar a danificar o bebê, não a menos que o tempo de Corinne terminasse. Ainda cantarolando suavemente o ancestral canto curador, Dayan fez o que pôde para escorar o fraco e esforçado coração.

Corinne soube o momento exato em que ele saiu de seu corpo. A calma acabou, e ela sentiu a falta de sua presença, instantaneamente. Voltou à cabeça para fitá-lo, ligeiramente aturdida. Possivelmente, ele era um feiticeiro de magia negra, pois ela estava totalmente enfeitiçada por ele, completamente sob seu feitiço. Quando o negro olhar encontrou a dela, viu a fome ali, um terrível e doloroso desejo, um vazio que somente ela podia preencher. Corinne sentiu, embora se precaveu de que a intensidade das emoções dois dois, tinha pouco sentido.

– Acabo de te conhecer. – Disse num sussurro, com os olhos verdes examinando seu rosto.Dayan uniu suas mãos de novo, posando a dela sobre seu próprio coração.

– Procurei você por todo mundo, Corinne. Procurei através do tempo e distâncias que não pode nem imaginar. Você é única. É minha outra metade. Minha companheira. – A voz era gentil, sussurrando sobre ela, como a suavidade do veludo.

Corinne estremeceu, mas avançou para mais perto do amparo de seu corpo forte, sem se dar conta do que fazia.

– Eu gosto dessa palavra. Companheira. É mágica. Como se quisesse dizer que somos um só. – Seus olhos se abriram de repente, enormes. – Posso respirar mais facilmente, Dayan, realmente posso! O que fez? – Ela estava experimentando o estranho fenômeno novamente. Seu coração pulsava no ritmo exato do de Dayan. – Ouve isso? Ouve nossos corações?

– Somos um para o outro, metades do mesmo tudo. – Informou ele gentilmente, sabendo que ela não   entenderia. E ele falasva literalmente eela pensaria que era figuradamente. – Você é a outra metade de minha alma, a luz de minha escuridão. Eu levo a outra metade de seu coração. Pertencemos um ao outro, Corinne.

Ela adorava a forma em que ele pronunciava seu nome. Um preguiçoso arrastar, seu estranho sotaque modificava o som das vogais. Era intrigantemente sexy.

– Que estranho, eu nunca acreditei no amor à primeira vista. É fantasia, mas concederei. Não posso decidir se é a forma em que toca violão ou o som de sua voz que me faz perder o pouco de bom senso que tenho. O que você acha que é?

– Alguma coisa me fez entrar no bar esta noite. – Respondeu ele, amorosamente e seus dentes mordiscavam o polegar da mão dela. Ela podia sentir cada pequena mordida correr por todo seu corpo, até a ponta dos pés. – Imaginei você. É minha fantasia tornada realidade.

Ela sorriu maciamente. O som era como música nos ouvidos de Dayan, uma melodia que sequer seu violão podia igualar.

– Uma fantasia completa, inclusive com um bebê a caminho, um coração avariado e assassinos me procurando. Eu diria que você precisa sonhar novamente, Dayan. Não fez muito bom trabalho. – E ela queria ser realmente o que ele tinha sonhado, desejava ser o que ele precisava.

– Você é a única que necessito.

Ele era tão seguro, tão intenso. Não havia rastro de sorriso em seus olhos negros, mas esse estranho olhar fez Corinne se lembrar de um predador. Ele parecia perigoso. Mudou de assunto, bruscamente. Sua relação não podia chegar a lugar algum, então, o que adiantava especular?

– Como viu os dois homens que estavam em nossa casa, sem que eles o vissem?

Dayan levantou o tronco, apoiando um cotovelo sobre a cama para poder descansar a cabeça na palma da mão e baixar o olhar para ela. Podia vê-la claramente na escuridão. Era uma criatura da noite e seus olhos enxergavam tudo. Com seu olhar enfocado no rosto dela, que ignorante em sua inocência do que ele era, pelo que era capaz era formosa, estendida a seu lado.

– Precisava de informação. – Replicou ele, amavelmente, tocando os lábios dela, com a ponta de um de seus dedos, porque não pôde se conter.

– Isso não é uma resposta. – Disse-lhe ela firmemente. – Não evite a questão.

– Não quero que tenha medo, Corinne. Eu não sou sempre o mais gentil dos homens. Esses dois estavam esperando para atacar você e sua amiga. Um deles tinha participado do assassinato de seu marido. Se for a mesma organização que tentou varrer toda minha família numa noite, eles teriam matado às duas. Estão perseguinde Cullen, cujo único pecado foi nos advertir. Não me sinto particularmente amável com esses indivíduos.

– Enfrentou-os. – Conjeturou ela. O que era o que ele não estava dizendo? Certamente não podia ter enfrentado a dois homens armados sozinho e tê-los superado. – Estava armado? – Ela odiava armas. Armas eram frios e metálicos instrumentos de morte.

Os amplos ombros de Dayan se encolheram, casualmente.

– Não preciso de uma arma para matar. – Disse ele, honestamente. – Não preciso de uma arma, por nenhuma razão, absolutamente.

Corinne deixou escapar o ar dos pulmões, lentamente.

– Alegra-me ouvir isso.

Ele sabia que Corinne dizia assim, porque não tinha idéia do que era ele. Um predador, perigoso e poderoso. Não precisava de uma arma, se comandava a terra e o céu. Podia cobrir a terra de fogo ou fazer com que se movesse sob seus pés. Com sua voz podia roubar os outros à vontade. Era um homem dos Cárpatos, um caçador de vampiros e sua força era enorme. A habilidade de mudar de forma era um de seus muitos dons. Pertencia a uma espécie em exinção, uma raça de homens condenados a vagar pela terra, interminavelmente, em busca da luz que completasse sua escuridão. Vagavam atrás da única mulher que era sua outra metade. Sem essa mulher perdiam sua habilidade de sentir e de ver cores, de forma que habitavam num mundo escuro e sombrio, tendo como companhia, lembranças de honra para evitar escolher o caminho do vampiro.

Os insidiosos sussurros de poder estavam sempre ao lado deles, chamando-os, espreitando-os numa escura fera repleta de ânsia de sangue e da necessidade de matar para sentir a momentânea investida do poder. Com o passar dos séculos, a escura mancha crescia, se estendia e enchia os homens, até que não restava mais esperança, somente a fome escura e perigosa. Durante os primeiros séculos, Dayan tinha suprimido à fera com sua música e a poesia que amava, mas sua luta incrementou nos últimos duzentos anos.

– Recentemente houve uma mudança em nossas vidas. Você conhece todos os membros da banda, não é?

– Desari, é claro... A cantora. Conheço Barack, Sindyl e você. – Corinne tocou o braço dele, sentindo sua tristeza.

– E Darius, o cabeça de nossa família e guarda-costas. A mudança foi boa para meus irmãos e irmãs, mas não para mim. Primeiro chegou Julian e reclamou Desari como sua companheira. Depois Darius encontrou Tempest. Barack reclamou Syndil, e eu fiquei sozinho. Senti-me asilado, Corinne. Não posso explicar o quanto foi difícil. O quanto me senti sozinho. – A visão de todos eles, tão felizes juntos, havia lhe deixado terrivelmente sozinho. Era um inferno estar sem eles, também. Passaram juntos, todos os séculos de suas vidas, mas ele já não podia continuar com eles. A visão, os sons e os aromas dos casais faziam com que sua solidão se tornasse ainda mais intolerável.

E ele era diferente. Era um perigo para eles, tanto para as mulheres como para os homens. Via a forma cautelosa em que Syndil sempre o olhava, pois ela havia sido atacada por um dos seus. Por Savon, depois de que ele se converteu em vampiro. Darius destruíra o vampiro, mas tudo era ainda muito presente.

Dayan sabia que os outros estavam preocupados com ele e isso o perturbava, a ele que não sentia nada, absolutamente. Só solidão. Sempre e para sempre sozinho. Não tinha medo de Darius e seu poder, como deveria ter tido. Era o segundo ao comando de Darius. Darius sentia uma tremenda lealdade para com ele e haviam intercambiado sangue em mais de uma ocasião, quando um ou outro estava ferido. Isso os capacitava para se comunicar em particular, mas também os capacitava para rastrear o um ao outro à vontade, sem importar a magnitude da distância.

– Não está sozinho, Dayan. Nunca pense isso. – Sussurrou Corinne, lamentando-se por ele. Sentia e podia ouvir a nota de solidão de sua voz e desejava desesperadamente lhe reconfortar. Dayan levou os dedos de Corinne à boca uma vez mais, beijando-os gentilmente em vez de abracá-la contra ele, como queria. Ela tinha mudado sua vida para sempre. Agora podia voltar a estar com sua família, sem se preocupar, sem a ameaça de que pudesse se converter em vampiro e ter que ser caçado e destruído. Nunca teria que ler em suas mentes sua preocupação por ele, sentir sua pena e pesar, seus medos. Podia sentir o amor que professava a todos, em vez de só se lembrar.

Corinne fazia tudo isso em somente estar no mundo, para que ele a encontrasse. Todos os longos séculos de espera valiam a pena. Toda a solidão, todo o terrível vazio.

Corinne enchia novamente de esperança. Ninguém estaria completamente a salvo até que ela estivesse unida a ele, até que o ritual fosse completado, mas Dayan podia respirar mais facilmente. Havia encontrado-a, afinal. Sua Corinne. Salvaria-lhe e com ele, a qualquer para pessoa a quem ele tivesse representado um perigo.

– Desejaria poder ler sua mente. – Brincou, Corinne. – Está muito calado e nunca responde diretamente as minhas perguntas. O que aconteceu com nossa conversa, sobre esses homens em minha casa? Parecia-me muito importante.

– Era? – A voz era um sussurro perfeito. – Eu acho que você é a coisa mais importante de minha vida. É difícil manter a mente fixa em algo mais, mas já que é tão importante para você, tentarei.

Ele estava olhando-a, como se fosse a mulher mais bonita do mundo. Esse olhar negro vagando por sua face, possessivo, faminto e dolorido de desejo... Com mais tortura interior, do que ela supunha. Ele estava olhando-a, como um homem olha à mulher com a que quer passar toda à noite, fazendo amor.

– Eternamente fazendo amor. – Corrigiu ele, provando realmente, que podia ler seu pensamento.Os olhos de Corinne se abriram, com surpresa. O rubor se espalhou por pescoço, colorindo sua face. Compreendeu o embaraço que podia ser, ter Dayan lendo sua mente. Pensava muito nele. Pensava em cada detalhe de sua aparência... Em seu cabelo longo e espesso, tão brilhante como o ônix. Em seus olhos negros, tão intensos e necessitados, em sua boca perfeitamente cinzelada, moldada e formada como uma sensual obra de arte. Meio sorrindo, envergonhada por não poder controlar seus caprichosos pensamentos, Corinne cobriu os olhos com a mão, bloqueando sua visão.

– Não faça isso, céu. – Repreendeu ele, brandamente. – Nunca faça isso. Não me alegraria saber que você não me achasse atraente.

– Você é muito atraente. – Confessou ela. – Não é real. Não tenho esta aula de sensações, precisamente todos os dias.

Os dentes perfeitamente brancos relampejaram para ela.

– Isso é um alívio.

– Agora você ri de mim. – Ela tratou de afogar um bocejo que surgia. – Quase amanheceu e não chegamos a nada. Chamou à polícia? É seguro voltar para casa?

Dayan sacudiu a cabeça.

– Só para pegar alguns objetos pessoais, mas não podem ficar lá. Quando esses dois homens não voltarem com o que foi solicitado, enviarão outros. O primeiro lugar que procurarão, será sua casa.

– Não chamou à polícia, não é?

– Por que iria fazer isso? A polícia não pode fazer nada com respeito a essa gente. Não podem tocá-los.

– O que fez com os dois homens de minha casa? Por que não voltarão?

– Eles estavam com ordens de te matar, céu. Não esperaria que eu os deixasse partir. – Declarou ele. – Foi bastante justo... Eles tinham armas.

Ela enredou os dedos entre a sedosa massa do cabelo escuro, porque desejava fazer isso, desde o primeiro momento em que pousou seus olhos sobre ele.

– Isso não tem sentido, Dayan. Responda-me, mas não de forma que possa entender algo. Estou cansada. – Suas largas pálpebras caíam continuamente apesar de seus esforços para manter-se acordada. – Estou muito cansada para tirar algo claro, de suas frases cheias de reticências. Mas não se preocupe, sou bastante boa em coisas como esta, quando estou completamente acordada.

Dayan afastou, com uma carícia o cabelo da testa dela. Seus dedos se atrasaram numa carícia gentil.

– Durma, Corinne. Estará a salvo aqui e terminaremos esta conversa quando não estiver tão cansada. O bebê precisa dormir também. Uma garotinha. – Havia o mais leve dos "empurrões" em sua voz, uma compulsão oculta para lhe provocar o desejo de dormir.

Ela sorriu.

– Correto, uma menina. Como soube? – Corinne suprimiu mais um bocejo.

- Quando tentava te curar, comprovei, para me assegurar que ela estava bem. É linda e já muito consciente de você. – Dayan baixou a cabeça, seu olhar ardente percorrendo o rosto querido, até cair sobre sua boca. Moveu-se, para acariciar seu pescoço, descansando sobre sua pulsação.

Envergonhada outra vez, pelo calor que se estendia por seu corpo, Corinne tentou afastar o olhar. A mão de Dayan lhe envolveu a garganta.

– Quero que me deseje. Agora, neste momento. – Ele inclinou a cabeça escura para a dela, lentamente, implacavelmente. Seu olhar negro fascinando-a fazendo com que não pudesse respirar. As pálpebras de Corinne revoaram com antecipação, seus lábios se separaram ligeiramente. Ele, estava sem nenhuma pressa que o momento terminasse, estava inalando a fragrância dela, mantendo-a perto dele, seu corpo inclinado possessivamente sobre ela. Podia o corpo, suave e disposto, podia sentir cada curva pressionada comodamente contra a dureza de sua própria forma e saboreou as diferenças entre homem e mulher. Podia sentir o próprio sangue, quente, e se permitiu o luxo.

Corinne viu a expressão dos olhos dele mudar de negra e sensual posse, a um olhar estranho e quase predador. Chamas vermelhas pareceram dançar nas profundezas e ele lhe pareceu ferozmente faminto e ao mesmo tempo ameaçador. Antes de poder reagir, antes de poder pensar em se proteger, os lábios de Dayan encontraram os seus e o tempo pareceu parar.

Sua boca foi gentil, inclusive terna, em contraste direto com a força de seus braços e os poderosos músculos de seu corpo. Uma sacudida elétrica a atravessou, atravessou a ele e milhares de diminutas línguas de fogo começou a lamber cada polegada da pele de Corinne. Eram tantas as sensações, que ela só podia segurar-se nele, sua boca cobrando vida por vontade própria, igualando a fome dele, enquanto ele se alimentava dela. O beijo longo e narcotizante a fez sentir como se a cama estivesse dando voltas fora de controle, sob ela e seu corpo já não lhe pertencesse. Estava alagada de ardente fogo, cheia de doloroso desejo. Deixou escapar um pequeno som de protesto, mas suas mãos envolveram as costas largas, para mante-lo abraçado a ela.

Nada, nunca sua vida a preparara para semelhante tempestade de desejo. Tinha que tê-lo nesse momento. Queria que ele a possuísse para sempre. Seu corpo parecia vazio sem ele, cada célula clamava por ele. Se não estivesse grávida, se não houvesse risco, teria aceitado-o, completamente.

Ele estava em todas partes a sua volta, bloqueando a vista do quarto, do mundo, estreitando sua visão até que ele existiu, com sua boca perfeita tomando a dela, suas mãos movendo-se sobre ela em gentil exploração. Corinne fechou os olhos quando ele aprofundou o beijo, enquanto com a mão lhe emoldurava o seio, empurrando de um lado o decote da blusa, para explorar a vulnerável linha de sua garganta.

Sua boca vagou até a os cantos da boca dela, movendo-se ao longo da curva do queixo para a suave garganta. Ele murmurou algo tranqüilizador para acalmá-la, como se ela pudesse lutar, como se ela quisesse lutar.

Em algum nível de seu cérebro Corinne protestava por seu comportamento, mas não podia se mover, não podia elevar as pálpebras e a autoconservacão não parecia ser tão importante nesse momento. Sentiu a língua dele deslizar-se sobre sua pulsação, as mãos fortes que a arrastavam ainda mais perto. Seu corpo se enrijeceu e pulsou de desejo, de antecipação. Os dentes mordiscaram gentilmente, incitando sobre o ponto latente, enchendo a de ardente líquido, em resposta. Sentiu a sensação de que poderia se afogar, mas não podia se mover, de tão hipnotizada que estava pelo feitiço de magia negra.

O calor ardente e branco a atravessou num prazer tão intenso, que raiava a dor. Durante um momento não pôde diferenciá-los. Depois foi à deriva por um mundo de sonhos enquanto Dayan era indulgente som sua fome erótica e sua boca movia sobre a pulsação, alimentando-se dela até que Corinne pensou que poderia morrer de prazer. Levantou os braços para embalar a cabeça morena, mantendo a boca contra sua pele.

Dayan ouviu o batimento de seu coração, bombeando em sua mente, rugindo como a fera de seu interior que tentava se liberar. As palavras rituais pulsavam em seu cérebro, enchendo sua mente, seu coração e alma, enquanto bebia. Seu sangue era doce e intoxicante e o prazer o percorria como um fogo selvagem. Feroz, ardente. O rugido aumentou, até que seu corpo ardeu em chamas, urgente, exigente, doloroso em sua necessidade. Sussurrou o nome dela como o talismã que era e forçou-se a respirar, a apegar-se a prudência, a lutar contra a fera e suas demandas. Acariciou com a língua as duas diminutas marcas, fechando-as com o agente curador de sua saliva, descansando a testa contra a dela enquanto lutava para se controlar, totalmente.

Corinne se sentia dormente, embora seu corpo ardesse, cheio de uma fome dolorosa que reduzia sua mente a imagens eróticas que bailavam. Não queria que ele a deixasse assim, seu corpo palpitava e chorava pelo dele, mas não podia reunir a energia suficiente para mover os braços. Sentia-os pesados como chumbo, deslizando-se longe dele para pender inúteis sobre o lençol a seu lado.

Quando conseguiu elevar as pálpebras, pôde observar os olhos dele. Esses olhos que a observavam com um terrível desejo, com uma terrível necessidade. Sua garganta engoliu com força e as lágrimas ardiam em seus olhos. Queria apagar esse olhar do rosto dele para sempre. Parecia tão sozinho. Tão terrivelmente só e com essa desolação gravada nas linhas de sua face, esse vazio em seus olhos.

Corinne fez um esforço supremo para levantar a mão, para que seus dedos pudessem acariciar a forma da boca dele. - Não pareça tão triste, Dayan. Não vou a parte alguma. – Só conseguiu dizer as palavras em sua mente, porque estava muito cansava para pronunciá-las. Suas pálpebras já desciam.

Dayan lhe capturou a mão e levou os dedos aos lábios, uma labareda de surpresa atravessando-o. Ainda não tinha lhe dado seu sangue, mas a conexão entre eles era muito forte! - Nunca permitirei que escape de mim, Corinn. Nem através da morte. Não permitirei que aconteça nenhum dano.

Corinne levou esse último pensamento com ela, enquanto sucumbia às demandas do sono. Dayan lhe estudou durante um longo tempo, enquanto o sol começava a subir no céu. Sustentou-lhe a mão e simplesmente a respirou, memorizando as linhas de sua face, para levá-la com ele, para a terra. Murmurou uma suave ordem para ela e relutantemente a deixou, enquanto o sol manchava a escuridão e o céu se tornava cinza prateado.

 

– Rina, acorde. – Lisa estava inclinada sobre a cama e sacudia Corinne, repetidamente. Seus grandes olhos azuis mostravam preocupação, enquanto fitava Cullen, bastante indefesa. – Não posso despertá-la. Não posso acreditar que foi dormir ontem à noite e ainda dorme quase a maior parte do dia. Simplesmente a deixo a cargo de tudo, quando é tão frágil.

– Não se preocupe. – Consolou-a, Cullen, enquanto olhava Corinne. Dayan havia voltado à noite passada e provavelmente tinha trabalhado em curá-la. - Só precisa dormir. Olhe, Liza. Seu pulso é forte.

– Quero que ela desperte. – Lisa estava à beira das lágrimas. Corinne, enterrada entre mantos de névoa, reconheceu a voz de Lisa e soube por causa da longa experiência, que Lisa estava muito nervosa. Não era habitual em Corinne responder à chamada, lutando para alcançar a superfície, quando o que queria realmente era dormir. Seu coração começou a pulsar, alarmado. O que estava acontecendo? Sentia o corpo pesado e não queria despertar. Sua mente deu voltas à questão, na tentativa de ver algum sentido. Corinne se concentrou em sua mão, em seus dedos e em cada músculo do corpo. Era estranho sentir-se tão desconectada de seu próprio corpo.

Lisa ofegou e baixou, segurando a mão de Corinne.

– Ela moveu os dedos, Cullen. Acredito que está despertando. Rina, vamos garota, acorde. – Animou.

Corinne ouviu a voz bem mais claramente, enquanto outra capa de névoa parecia elevar-se entre ela e o mundo. Lutou para elevar as pálpebras. Abriria os olhos. Obrigou-se a se concentrar com força, recorrendo a cada grama de poder que pôde reunir. Era estranho, mas estava segura de que algo estava advertindo-a, lhe ordenando que permanecesse adormecida. Isso a fez sentir-se ainda mais decidida a despertar.

– Isso, Corinne, vamos! Sei que pode. Sente-se doente? – Lisa se inclinou sobre ela, sacudindo-a pelos ombros, gentilmente. – Por favor, acorde, está-me assustando.

Corinne fez um esforço supremo, suas pálpebras revoaram vários segundos, antes que conseguisse elevá-las, levantando o olhar para o rosto ansioso de Lisa. Corinne se obrigou a sorrir, quando o que queria era enroscar-se em uma bola sob as mantas.

– Estive acordada a noite toda. Só quero dormir.

– Você nunca dorme assim. Não conseguia despertar. Não tomou pílulas para dormir ou algo assim, tomou?

– É obvio que não. Estou grávida. Eu nunca faria isso. – As palavras de Corinne eram sonolentas e difíceis de entender. Várias vezes, suas pálpebras caíram e ela se voltou de lado, escondendo-se entre os travesseiros. – Só estou cansada, Lisa.

– Rina! – Ordenou Lisa, agudamente. – Não se atreva a voltar a dormir ou juro que te levarei a um hospital. – Havia autêntico alarme na voz de Lisa.

Corinne suspirou, brandamente.

– Estou acordada, prometo. Estou acordada.

– Viu Dayan ontem à noite? – Com grande determinação, Lisa se sentou na beirada da cama, retendo a mão de Corinne. Não estava segura de que queria ver Dayan em volta de Corinne. Corinne parecia frágil, pálida e mais vulnerável do que Lisa já vira, nem mesmo depois da morte de John. Queria pegar Corinne e ir para casa. De repente, estava com muito medo de Dayan. Ele parecia ter um poder místico sobre Corinne ou que outra coisa poderia explicar seu comportamento? Corinne nunca se deixava impressionar pelos homens, por fama, dinheiro ou boa aparência. Corinne era sempre a rocha, a voz lógica da razão. Dayan era muito bonito e tinha muito talento para ser confiável. Ele era muito rico, um estrangeiro e muito encantador com as mulheres.

Tinha que admitir que Dayan não possuía má reputação com as mulheres. Nem sequer os jornais sensacionalistas haviam sido capazes de vasculhar sua vida sexual. Suas aparições públicas não eram programadas ou lhe dava publicidade e a maior parte dos jornalistas que haviam tentado conseguir entrevistas e fotos, haviam escrito artigos sobre o quanto era frustrante averiguar fatos certos sobre ele. Corinne havia lido cada artigo que caía em suas mãos, já que era uma autêntica fã dele e tinha compartilhado essa informação com ela. Agora Lisa desejava voltar atrás e mudar o fato de que tinha sido ela que levara Corinne ao bar.

Lisa franziu o cenho. Mas Cullen estava ali. Realmente pensava que Cullen era um homem excepcional, para nada perigoso ou misterioso, não do tipo que roubava o coração de uma mulher e a deixava fria.

– O que aconteceu, carinho? – Murmurou Corinne. Sua voz estava sonolenta e muito sexy.

Lisa nunca havia notado isso em Corinne antes. Não pensava em Corinne, como uma mulher sexy. Baixou o olhar para o rosto liso de Corinne, olhando-a realmente. Ela estava com os olhos fechados e ela parecia serena, suas pálpebras, adornada por cílios espessos eram escuras meias luas sobre sua face. Seu cabelo sedoso e abundante se estendia em volta dela como um halo. Parecia inocente em seu repouso, mas Lisa estava notando o quanto ela era bonita, era quase como se estivesse vendo Corinne pela primeira vez. Estava vendo Corinne, como Dayan a via.

– Quero ir para casa. Assustou-me, Rina, quando não pôde despertar. Quero ir contigo e ver seu médico. Quero ouvir seu prognóstico sobre sua gravidez. – Disse Lisa, tão firmemente como pôde.

– Estou muito cansada, Lisa. – Disse Corinne, sonolenta. – Deixe-me dormir algumas horas mais e depois decidiremos o que fazer. – ele puxou os lençóis até seu queixo.

Lisa olhou para Cullen.

– Ela nunca dorme durante o dia. Corinne deve estar doente e seriamente, Cullen. Possivelmente deveríamos levá-la a um hospital.

Corinne acordou o suficiente para olhar fixamente para Lisa.

– Não estou doente... É verdade. Respiro com mais facilidade que o normal. Fiquei acordada até tarde, quase a noite toda, isso é tudo. Que horas são?

– Quase as seis e meia.

Corinne gemeu.

– Por que desperta então? Só um lunático se levanta tão cedo. Acredito que fui para a cama, às seis.

– São seis horas da tarde. – Enfatizou Lisa. – Você esteve na cama o dia todo. – Não admitiu que ela também havia dormido quase a maior parte do dia, ao lado de Cullen, no outro quarto. Lisa só queria ir para casa e fechar a porta. Fechá-la para o mundo inteiro.

As pálpebras de Corinne revoaram com surpresa. Obrigou-se a se centrar, piscando enquanto percorria com o olhar, o aposento pouco familiar.

– Não posso acreditar que seja tão tarde. – Passando uma mão por seu cabelo, ela olhou para Cullen. – Lisa se preocupa interminavelmente por mim, mas é sério, estou perfeitamente bem. Não sei por que dormi tanto. – Ainda esta exausta e seus braços e pernas, pesados. Tudo o que queria era voltar a dormir.

Cullen lhe sorriu.

– Lisa se assustou quando não pôde te despertar. Você gostaria de comer ou beber alguma coisa? Poderia te preparar em chá ou um café. – Ofereceu.

– Ele faz um chá maravilhoso. – Confirmou Lisa. – Rina adora chá, não é Rina?

– Isso seria maravilhoso. – Concordou, Corinne. Lisa estava olhande Cullen, com o coração nos olhos, algo que Corinne nunca tinha visto antes. Não lhe faria mal beber uma xícara de chá para agradá-la. – Onde está Dayan? – Tentou soar casual, mas não deveria ter tocado no nome dele, porque Lisa a olhou fixamente e Corinne não pôde evitar se ruborizar.

– Justo onde quer que fosse ontem à noite? – Disse Lisa, quande Cullen saiu do quarto. - Não acredita que já tem problemas suficientes, sem te enredar com uma estrela do rock?

– Ele não toca exatamente rock, Lisa. – Respondeu Corinne, travesamente.

Lisa franziu o cenho em reprimenda.

– Não brinque com isto, Corinne. Não é divertido. Sabe muito bem que sempre foi avessa em estar na mira do público. O que pensa que vai acontecer se começar a andar por aí com esse homem? Os jornais sensacionalistas adoram pessoas como ele. Esqueça-lhe.

Corinne se estirou e pegou gentilmente a mão de Lisa.

– Isto não tem nada a ver com Dayan, absolutamente. Certo? Não vou morrer, Lisa. Não o farei. Sou uma lutadora, você sabe. Este bebê vai ser parte de nós... Das duas, nossa família. Não vai me perder.

Imediatamente, as lágrimas banhavam os olhos azuis de Lisa. Seus dedos se fecharam convulsivamente ao redor dos de Corinne, como se sua garra pudesse de algum modo conter a morte.

– Sempre subestima sua força, Rin. Até John dizia isso. Eu também quero o bebê, mas não assim. Não quero ficar totalmente sozinha. Não poderia suportar. Já perdi John. – Ela apoiou a cabeça no colo de Corinne, em busca de conforto. Pela primeira vez, pôde sentir o bebê ali, entre elas. Moveu a cabeça e colocou uma mão sobre o pequeno montículo. – Ela está se movendo. – Disse Lisa, maravilhada.

– Está dando chutes. – Confirmou Corinne, acariciando o cabelo de Lisa. – Uma garotinha, Lisa. Estará bem, verá. Sei que posso fazer isto. Desejo muito este bebê.

– Sinto muito, Rina, não queria ser tão horrível sobre o bebê. Na verdade, eu também a quero. Quero me entusiasmar. Será a única coisa que restou de John, mas também te quero. Não posso suportar pensar em que aconteça algo de errado. Estou segura de que Dayan é uma pessoa realmente agradável. Cullen diz que é. E não tem reputação de mulherengo. Não queria insinuar isso. Não sei por que estive dizendo todas essas loucuras. – Lisa gemeu as palavras, envergonhada de si mesmo.

– Sei disso, Lisa. – Cantarolou tranquilizadoramente, Corinne. – Você tem medo de me perder. Mas já te disse que não vou a lugar algum. Você só tem que acreditar que tudo sairá bem. É natural. Depois do que aconteceu a John, você tem medo de perder sua família, mas isso não acontecerá. Sou muito forte. Sinto-me melhor hoje, do que estive em anos.

Lisa se ergueu lentamente, respirando fundo e oferecendo a Corinne, um sorriso.

– Então realmente havia alguém em casa ontem à noite? Cullen não disse nem que sim e nem que não. – Ela olhou para a porta e baixou a voz. – Acredito que é um pouco estranho que não queria chamar à polícia ou voltar para ajudar a seu amigo, não acha?

Corinne se apoiou contra a cabeceira. Estava começando a avivar-se. – Dayan me falou disso ontem à noite, Lisa. Acredita que nós duas estamos em perigo, por causa das mesmas pessoas que matou John.

Lisa ficou calada durante um momento.

– Você sabe mais sobre a morte de John do que parece, não? – Ela baixou o olhar para suas mãos. – Nunca me contou isso, porque eu nunca perguntei. Sou um pouco covarde.

– Você não é covarde. – Negou Corinne amavelmente, refreando-se para não sorrir. – É uma mulher bonita e jovem que sofreu um grande trauma em sua infância. John e eu tínhamos o hábito de tentar te proteger.

– Temos a mesma idade. – Assinalou, Lisa. – Mas é você que sempre cuida dos detalhes de nossas vidas. Você teve que lutar com o mesmo trauma que eu e tem seu problema de coração. John pode ter sido meu irmão, mas era seu marido. Nós o amávamos, nós o perdemos. Por que sou tão medrosa a respeito da vida? Por que tenho tanto medo de ouvir algo que possa me incomodar? Por isso não me contou o que sabia sobre John e por isso não me disse nada sobre o bebê. Tinha medo de que eu desmoronasse. – Ela baixou o olhar para as mãos. – Eu teria desmoronado.

– Lisa. – Corinne pronunciou seu nome, amorosamente. – Está sendo muito dura contigo mesma. Sempre se preocupa por mim e se ocupa de todos os trabalhos que acredita que são extenuantes para mim. Trabalhamos juntas como uma equipe, sempre fomos. Não te contei minhas suspeitas sobre a morte de John, porque isso é exatamente o que são, suspeitas. John e eu somos... – Ela procurou a palavra correta. - Diferentes.

Lisa baixou a cabeça e sacudiu-a, envergonhada.

– Nunca quis ouvir falar disso. Nem uma vez. Era porque... – sua voz se apagou.

– Sentia medo. – Terminou Corinne, por ela.

Lisa negou com a cabeça inflexivelmente.

– Fazia com que me sentisse deixada de lado. Criavam um vínculo entre vocês do qual eu não fazia parte. Estávamos sempre juntos. Queria que John te amasse porque tinha medo de que alguém chegasse e a separasse de nós. Fui eu que te propus que se casasse com John, lembra-se? Você lhe disse que não muitas vezes, mas eu chorei e supliquei e fui tão infantil. Tinha medo de que não continuássemos juntos. Estive perdida por um bom tempo, sentindo que não podia respirar. Como me sinto agora. Tudo é aterrador. John está morto e sei que seu coração está esgotado. Já a vi lutar em busca de ar e tomar mais medicamento. Agora vai ter um bebê e pela primeira vez, realmente está interessada por alguém. – A última frase foi quase uma acusação.

Corinne podia sentir a dor de Lisa. Seu mundo estava mudando em volta delas, rapidamente e era aterrador pensar em todos os perigos que enfrentavam. Não podia culpar Lisa por estar assustada ou por querer que as coisas fossem como haviam sido, sempre.

– Queria muito a John, Lisa... Não pense que não, nem por um momento. Possivelmente não era um amor romântico e apaixonado, mas o queria profundamente e nunca negarei o que tínhamos, juntos. Não quero que acredite que me obrigou a casar com o John. Estou entusiasmada com o bebê, mas também estou nervosa. E conhecer Dayan foi inesperado, não sei o que sinto por ele. Não sei por que respondo a ele como faço. – Respirou fundo e admitiu. – Dá medo, Lisa. Eu também tenho medo.

Lisa engoliu com força e reuniu sua coragem.

– Me diga que acredita no que acontece... Por que alguém quereria matar John...

– John foi à universidade para falar com um professor sobre seu talento. – Corinne olhou diretamente nos olhos de Lisa. – Sabe do que estou falando... Sua habilidade em saber certas coisas antes que ocorressem. – Ela tomou a mão de Lisa entre as suas. – Assim foi como conseguimos te salvar. John sabia que você estava em perigo e eu fui capaz de abrir o porta-malas do carro. – Corinne fechou os olhos, recordando ter encontrado o corpo maltratado de sua mãe estendido junto ao de Lisa. Seu coração bateu forte e ela obrigou sua mente a afastar os fantasmas das lembranças. – A universidade o enviou ao Centro Morrison, que faz investigação psíquica. John sentia que devíamos utilizar nossos talentos, para ajudar outras pessoas.        – Por causa de mim, porque me salvaram a vida. – Disse Lisa, brandamente.

– Pensou que poderíamos salvar a outros. – Confirmou Corinne, amavelmente. – Algumas semanas depois, disse-me que pensava que alguém o estava seguindo. Tornou-se sigiloso. Você viu as mudanças nele. Naquela manhã, ele saiu para se encontrar com alguém. Estava nervoso, alterado e não dizia por que. Não sei se tinha começado a trabalhar com eles e os descobriu fazendo algo ilegal. Você conhecia John. Dayan suspeita que essa gente que matou John é parte de uma organização que crê fanaticamente, na existência de vampiros.

Os lábios de Lisa se separaram, numa exclamação e seus olhos azuis se abriram, tomados pela surpresa.

– Não posso acreditar nessa tolice. Esse homem está louco. Vampiros! Pelo amor de Deus, Corinne! Ele deve ser um doente mental!

– Dayan tem razão. – Disse Cullen enquanto entrava, trazendo duas xícaras de líquido fumegante. – Eu pertenci à organização durante um tempo. Eles investigam tudo o que parecer ser diferente. A maioria das pessoas são adolescentes, que adoram tudo o que é gótico e gostam de fingir que acreditam em vampiros. Acreditam que é um jogo e diversão, mas a informação que proporcionam com freqüência, determina quem é investigado. Os cabeças da Organização levam muito a sério e matam a tudo o que acreditam que seja um vampiro. Fazem-no à maneira de um ritual. Uma estaca atravessando o coração, decapitação... Tudo. Eles são fanáticos e assassinos.

Lisa cravou os olhos nele, com horror.

– Uniu-se a um grupo tão estúpido? Ppor que faria algo assim?

– Acredito que os vampiros existem. – Admitiu, Cullen. – Vi um deles, uma certa vez. – Ele manteve o olhar fixo em Lisa, esperando surpresa e condenação. Esperando ter perdido sua oportunidade com ela.

Corinne e Lisa se olharam. De repente foram bem conscientes de que estavam sozinhas e numa casa com alguém a quem não conheciam muito bem. E este homem provavelmente estava muito doente. A noite passada, quando Dayan havia falado disso, Corinne tinha pensado que fazia sentido, mas agora, tudo parecia uma loucura.

Cullen ofereceu a cada uma delas, uma xícara de chá.

– Não me olhem assim. Sei o que estão pensando, mas não estou louco. Houve um tempo em que pensei que estava perdendo a cabeça. Há muitos anos, eu estava comprometido e minha noiva e eu saímos para jantar. Naquela época havia um assassino solto na cidade. Ele se fixava em mulheres e seus corpos apareciam sempre drenados de sangue. Minha noiva foi assassinada nessa noite, eu fui testemunha. Eu o vi, mordê-la no pescoço e lhe drenar todo o sangue. Vi com meus próprios olhos. Teria me matado também, mas algo o interrompeu. – El tamborilou com os dedos na palma da mão. – Eu o vi, matá-la. Ninguém acreditou em mim. Não estava bêbado e nem usava drogas, mas a polícia me encerrou numa instituição mental em vez de me ouvir. O pessoal da organização me ouviram. Infelizmente, minha raiva e terror me converteram num membro do círculo interno do grupo. – Ele tentou não soar amargurado, mas mesmo depois de tanto tempo ainda sentia a mesma dor daquele momento. Olhou diretamente para Lisa. – Juro-lhe, não estou louco. Vi um monstro. Eu o vi.

No rosto dele, outra vez estava o olhar totalmente vulnerável, muito triste. Lisa quis chorar. Havia uma autentico dor em seu peito. Fez tudo o que pôde por não correr para ele e lhe confortar. Não sabia o que ele teria visto naquela horrível noite, mas certamente ele acreditava que tinha visto um vampiro.

– Sei que não está louco, Cullen. – Disse ela, baixinho.

Cullen a olhou fixamente durante um longo tempo e depois começou a piscar rapidamente, lutando com alguma forte emoção. Quando ele afastou o olhar, Lisa viu o brilho de lágrimas em seus olhos e um grande nó em sua garganta ameaçou sofocá-la.

Alegrou-se em não ter expressado impulsivamente uma condenação. Fosse o que fosse que ele vira naquela noite, o mudara por toda a vida. Lisa entendia sobre assassinato e trauma.

Olhou apreensivamente para Corinne para ver que ela a observava pensativamente. Sem nenhuma razão, absolutamente, Lisa se encontrou ruborizando-se.

– O que?

– Não me venha com "que". – Corinne tomou um gole de chá. – Hum... Perfeito, Cullen, obrigado. Acredito que me fez reviver. Juro que estava com tanto sono, que não acreditava que pudesse me levantar. – Sua mão se subiu, para cobrir um ponto em seu pescoço, sobre seu pulso onde sentiu súbitamente um calor, como se a boca de Dayan se movesse sobre sua pele.

– Está segura de que não deveríamos te levar a médico, para ficarmos seguros? – Perguntou Lisa, ansiosamente.

– Acredite ou não. – Disse Cullen. – Algumas vezes me levanto dessa forma em meio da tarde. Realmente tenho que voltar a dormir. Acredito que quando você se enreda com músicos, começa a ficar em pé a maior parte da noite e então começa a dormir todo o dia, como um morcego. Vejo Dayan acordado toda à noite, só tocando o violão. Quando ele toca, não posso partir e simplesmente fico ouvindo-o. Ordeno a mim mesmo que vá para cama, mas depois não consigo. Já vi uma casa superlotada ficar toda à noite, mesmo quando ninguém estava mais bebendo. Simplesmente não vão embora, até que ele deixe de tocar.

– A noite passada, – disse Corinne, – ninguém se aproximou de Dayan quando ele desceu do palco e estávamos dançando. A multidão simplesmente abriu e o permitiu passar. Ninguém lhe pediu um autógrafo, ninguém tentou falar com ele, nenhuma das garotas se aproximou para flertar com ele. Quando saímos, nenhuma só pessoa tentou detê-lo. Explique-me isso.

– Também eu notei. – Disse Lisa. – Estava segura de que se lançariam sobre ele, mas ninguém se aproximou.

Cullen se encolheu de ombros.

– Assim é Dayan. Não posso explicar, mas vejo com freqüência. Ficam esperando para conhecê-lo, falam dele no bar e na pista de baile. Ouço as mulheres. Flertam descaradamente enquanto ele está no palco, mas quando ele deixa o violão, quando pára de tocar, sempre acontece o mesmo. Olhe à audiência uma vez e sai do palco. Ninguém tenta se aproximar. Honestamente, acredito que ele tem uma espécie de olhar, que atemoriza a todo mundo. A mim, ele assusta muito, quando me olha de uma certa maneira. Também me perguntei se ele é um psíquico ou simplesmente adverte a todo mundo que o deixe em paz. – Olhou para Lisa. – Queria conhecê-lo? – Cullen parecia estar contendo o fôlego, esperando por sua resposta. – Por isso foi ao bar à noite passada?

Lisa sacudiu a cabeça.

– Queria surpreender Corinne. Ela adora a música dele e sempre estava falando dos Trovadores Escuros. Um amigo me disse que Dayan estava tocando no bar.

Cullen arqueou uma sobrancelha.

– Um amigo?

Lisa sorriu.

– Bruce, um colega de trabalho. Brinquei sobre conhecer Dayan, mas uma vez no bar, tudo o que pude pensar foi em... – Ela se interrompeu, a cor se elevou firmemente em sua face.

Corinne a acotovelou em brincadeira. Lisa olhou ferozmente para sua xícara de chá, fazendo gestos a Corinne para que se calasse. Corinne lhe sorriu zombeteiramente. Cullen olhou as duas e um lento sorriso se estendeu por sua face.

Corinne abriu a boca para zombar de Lisa mais um pouco, mas as palavras se desvaneceram em sua mente. Desapareceu tudo, exceto o reconhecimento da presença de Dayan. Podia sentir o ardente peso de seu olhar. Voltou à cabeça lentamente, sabendo que ele estava em pé na soleira da porta. Um momento antes, não havia ninguém e no seguinte, estava cheia com sua poderosa forma. Ele simplesmente estava em de pé e em completo silêncio. Seu faminto olhar fixo no rosto de Corinne.

Uma vez mais seu coração acelerou, fechando-se de repente. Ela passou a mão pelo cabelo despenteado. Ele parecia imaculado. Elegante. Perigoso. Tão sexy que lhe roubava o fôlego. Encontrou-se olhando indefesa para ele. Ele estava simplesmente bebendo-a, pois seus olhos negros nunca a abandonavam, intensos. Famintos. Ele era tudo o que ela se lembrava, da noite anterior. Toda sua resolução saiu voando pela janela. Como podia alguém ter esse aspecto e não ser um mítico deus Grego?

Um lento sorriso curvou a boca de Dayan, enfatizando sua sensual magia negra. - Estou lendo sua mente.

Sua voz roçou as paredes de sua mente, cariciosa e íntima. Pura tentação.

Durante um momento Corinne só pôde fitá-lo, indefensamente, um estremecimento percorreu todo seu corpo. A ilusão de estar sozinha com ele e seus fortes braços envolvendo-a, era tão forte, que por um momento esqueceu que Cullen e Lisa estavam a seu lado.

– Deixe. – A voz não era a sua, mas um flagrante convite.

Lisa a olhou, boquiaberta e Cullen limpou a garganta, galantemente, atraindo a atenção de Corinne. Os dentes brancos de Dayan brilharam para ela. – Está se metendo em problemas.

Ele estava brincando com ela, a magia saltava em seus insondáveis olhos.

– Presunçoso. – Disse Corinne, em brincadeira.

Lisa compartilhou um olhar assombrado com Cullen e ergueu os ombros. Dayan não havia dito nenhuma só palavra, mas Corinne e ele estavam definitivamente se comunicando de forma muito íntima. Lisa tentou não se sentir à parte, tentou não se sentir ferida pelo carinho que via nos olhos de Corinne, quando ela fitava Dayan. Tentou não ficar totalmente surpreendida. Corinne nunca olhava a ninguém, como estava olhando para o músico.

Dayan deslizou até o interior do aposento, casual e silencioso. Letal. Havia algo atemorizante nele, que nenhum deles podia definir. Ele emanava perigo. Era selvagem e indomável, embora elegante e cortês. Corinne lhe sorriu e uma covinha apareceu nos cantos de sua boca. Observou-o atravessar o quarto sem esforço, seu corpo era tão perfeitamente coordenado, que parecia pura poesia.

Dayan se inclinou e segurou a mão dela, levando-a a boca.

– Dormiu bem? – Seus dentes mordiscaram os dedos dela, tentando-a.

Ele sabia que ela havia dormido profundamente, Corinne compreendeu instintivamente. Estudou seus traços esculpidos.

– Você deveria saber. – Foi pela metade, uma sugestão, mas ela estava começando a se sentir ligeiramente alarmada. Dayan podia de algum modo, forçar sua vontade? Ou sua reação para com ele? Ela tinha um forte talento. Se ela podia fazer coisas incomuns, por que não poderia também, Dayan?

A diversão crepitou no fundo dos olhos negros.

- É obvio que posso fazer essas coisas. Mas não preciso ou desejo forçar sua reação a mim. Que bem haveria nisso? É minha autêntica companheira, a luz de minha escuridão. Seria uma abominação forçar sua concordância.

Os olhos ela brilharam para ele, sem rastro de diversão. - Deixe de falar em minha mente e fale em voz alta. É muito desconcertante. – Ela tentou pensar as palavras, visualizá-las em sua mente e lançá-las para ele, pelo mesmo vínculo mental que ele tinha utilizado.

- Este método de comunicação é tão natural para mim, como respirar, mas falarei em voz alta se insistir. - Dayan parecia mais divertido que nunca.

– Boa noite, Lisa. Confio em que tenha dormido bem. Corinne parece descansada. – Sua voz foi suave e incrivelmente gentil.

Lisa tentou não olhá-lo fixamente. Ele estava reclamando Corinne. Deixando que todos eles conhecessem suas intenções. Sua posse estava na forma em que sustentava a mão de Corinne, na forma em que a olhava, na postura protetora de sua mente. Muito masculina. Territorial. A palavra abriu passo em sua mente, sem ser convidada. Havia algo nele em que não confiava de tudo. Ele era indomável.

Deixou escapar a respiração e recorreu a Cullen ,em busca de amparo.

Cullen sorriu alentadoramente para ela, enquanto falava com seu amigo.

– É cedo para você, Dayan. Nós acabamos de nos levantar há pouco.

Corinne moveu sua mão, num movimento sutil desenhado para tirar sua mão da de Dayan, que simplesmente se apoiou nela, com sua poderosa forma inclinada sobre ela.

– Não está bebendo seu chá, céu. O chá de Cullen é muito bom.

As sobrancelhas de Cullen se arquearam.

– Realmente muito bom.

Lisa se arrastou para mais perto de Cullen, deslizando-se fora da cama, para deixar a Dayan lugar para se sentar.

– Rina me contou que você encontrou dois homens em nossa casa ontem à noite. Estamos realmente em perigo?

– Temo isso, Lisa. – Respondeu Dayan, tranqüilamente. – Mas não se preocupe. Cullen e eu somos bastante capazes de proteger a ti e a Corinne. – Ele percorreu com o olhar o pequeno quarto. – Mas prefiro que mudemos para um lugar mais fácil de defender.

– O que quer dizer, defendendo? – Perguntou Lisa, perspsicasmente e olhou para Corinne. – Minha irmã está grávida. Não posso ficar viajando por todo o país. – disse, esperando lhe surpreender.

– Sou bem consciente da gravidez de Corinne. – Replicou Dayan, gentilmente. – Não se preocupe, Lisa. Dou minha palavra de honra a você, que sempre colocarei a saúde e felicidade de Corinne sobre a minha. Nunca permitirei que nada lhe faça mal. – Seus olhos negros descansaram sobre Cullen. – Tenho família. A banda está dispersa neste momento, mas os chamei e estão a caminho para se encontrarem conosco. Contactei com Darius ontem à noite e ele nos envia a um de nossos maiores curadores. Acredito que deveríamos nos mover para eles. – Se olhar estava fixo nos olhos de Cullen, mas não houve "empurrão" para que ele aprovasse seu plano. Ele estava sendo cortês, no momento.

Cullen pegou a mão de Lisa.

– Darius e os outros irmãos, fariam o impossível para que nenhum mal sobreviesse a você ou a Corinne. Estou de acordo com Dayan. Acredito que deveríamos partir.

Lisa retirou sua mão.

– Eu trabalho. Amanhã tenho uma sessão de fotos com um dos fotógrafos mais importantes do país. Assinei um contrato com uma companhia de cosméticos, para fazer comerciais. Pode que para você não seja um grande contrato, mas eu levo meus negócios a sério. Essas pessoas contam comigo. Não posso errar com eles. E Corinne precisa estar perto de seus próprios médicos, que entendem seu caso. – Ela olhou para Corinne. – Quero ir à polícia, Rina. Não podemos deixar que ninguém mais controle nossas vidas ou nos assuste, para abandonar tudo aquilo pelo qual trabalhamos. Nós não vimos ninguém em nossa casa. Nem sequer estou segura de que houvesse alguém lá. E você?

Era a primeira vez que Corinne tinha visto Lisa se impor sobre alguma coisa. Obviamente, sentia bem a sério o que dizia. Corinne acreditava que tinha havia alguém em sua casa, esperando para fazer mal a elas. Acreditava que essas mesmas pessoas haviam assassinado John. Percorreu Dayan com o olhar. Sua expressão não havia mudado, mas havia algo nele que a fez parar. Havia uma impressão de ameaça. De falta de clemência. Um desumano rictus em sua boca, algo em seus olhos possivelmente, mas não podia colocar seus dedos, no que era. Estremeceu, inesperadamente. Foi essa ameaça, mais que tudo, o que a fez se opor a Lisa.

– Com toda sinceridade, Lisa, acredito sim que havia alguém em casa e estou segura de que estávamos em perigo. Mas se quer dirigir esta situação indo à polícia, então é o que faremos. – Corinne estudou Dayan cuidadosamente, enquanto dava sua réplica.

Os olhos negros deslizaram sobre o rosto dela, depois descansaram ali, pensativamente. Corinne elevou o queixo, desafiante. Ele não era nada para ela. O que poderia fazer?

A diversão crepitou no fundo dos olhos de Dayan enquanto ele lia seus pensamentos. - Eu o sou tudo para você, céu. Saberá com o tempo e é muito, o que posso fazer, se houver necessidade. - As palavras tocaram brandamente, numa carícia aveludada, envolvendo-a.

– Isso é exatamente o que acredito que deveríamos fazer. – Disse Lisa, olhando triunfante para Dayan. Se ele pensasse por um minuto, que ela ia permitir que ele chegasse e tomasse o controle da vida de Corinne, só porque era um músico bonito, ia ter uma grande surpresa.

Dayan encolheu os ombros, num preguiçoso ondear de músculos. Deliberadamente, protegera Lisa dos hipnotizadores efeitos que ele tinha sobre os humanos, agora pensava que poderia ter feito um trabalho muito bom. Posta em guarda, por seu instinto de amparo e seu medo de perder Corinne, Lisa estava reagindo com categórica hostilidade para ele. Corinne amava Lisa e a considerava sua família. Dayan não podia ter Lisa contra.

– Lisa... – Ele pronunciou seu nome, gentilmente, brandamente, atraindo sua atenção. Havia algo hipnótico em sua voz, algo impossível de ignorar.

– Dayan. – Cullen emitiu um protesto.

Lisa não podia afastar seu olhar, dos negros olhos exigentes. Estavam vazios, insondáveis. Ele podia se ver caindo neles. Por que sentia medo dele? Dayan queria o melhor para ela, de coração. Protegeria Corinne com sua própria vida e a protegeria também. Era sincero, completamente sincero. Por que havia duvidado dele? Tudo o que ele dizia era verdade. Estavam em terrível perigo e tinham que partir com ele.

Súbitamente furiosa, Corinne tentou sair de Dayan, para tocar o ombro de Lisa. Tinha o pressentimento de que os ameaçadores olhos negros estavam operarando magia negra, com ela. Era um malvado feiticeiro empenhado em sair-se melhor. Dayan a conteve facilmente num movimento casual de seu corpo, que quase não foi movimento absolutamente. Envolveu com seu braço, os esbeltos ombros dela e a trouxe contra seu peito.

– Pense no que ia fazer, céu. Saltar da cama e sair correndo? Seus dias de correr se acabaram. – Seus lábios descansavam contra a nuca de Corinne, seu hálito brincava com as mechas do cabelo e causavam um terremoto em algum lugar dentro dela.

Corinne se obrigou a se inclinar para frente e longe dele. Sabia que ele tinha utilizado seus dons psíquicos para influenciar Lisa. Estava furiosa por ele fazê-lo. Sabia que Cullen notara também, embora simplesmente ficara estudando sua reação.

– Deixe-a, Dayan. Quero que a deixe. – Ela resistiu o desejo de atirar seu chá, nele. – Acredito que deveríamos chamar à polícia, Lisa. Absolutamente. Em também não quero ficar aqui. – E não queria. Quem era Dayan de qualquer modo? Ninguém para ela.

- Tudo para você. - Repetiu ele, com voz calma, tranqüila, enquanto lhe roçava a mente. De repente ele soltou seus braços, relaxando-os e uma vez mais, ela se sentiu abandonada. Isso a incomodou mais que nunca. Dayan a ajudou a ficar em pé, seus olhos sorriam, enquanto ela afastava suas mãos, de um golpe.

Corinne quase gemeu em voz alta. Tomou fôlego, decidida a proteger Lisa de qualquer que fosse o feitiço de magia negra sob o qual Dayan a tinha colocado. A palma da mão dele deslizou gentilmente sobre sua boca e ele a trouxe contra seu corpo.

– Deixe que eles esclareçam isto juntos. Quero falar contigo. – Ele respirou as palavras contra a nuca dela, enquanto a fazia atravessar o quarto. Seu corpo ardente e duro, contra o dela.

No momento em que eles saíram para o ar fresco da noite, Corinne se afastou repentinamente dele, depois se voltou para fitá-lo.

– Não tinha nenhum direito de fazer isto. E nem sequer tente se fazer de inocente.

Ele não parecia nada arrependido, quando seu olhar possessivo vagou sobre cada centímetro da pele dela.

– Você é mais formosa do que lembrava, de ontem à noite. Quando despertei, achei que tinha sonhado. Minha fantasia noturna.

Sua voz era hipnotizadora, tão formosa que Corinne se encontrou desejando que ele continuasse falando. Desejou que ele tivesse com seu violão nas mãos ,para poder lhe ouver cantar. Ninguém nunca antes, a tinha chamado de fantasia noturna. Estava segura de que não era formosa, mas ele a fazia sentir-se formosa. Durante um momento só pôde ficar ali, olhando para ele, presa em seu feitiço. Corinne mordeu o lábio inferior com força, para despertar.

– Deve ter sido poeta em outra vida. Ou um gigolô. Fique aí mesmo, Dayan. Não vou me deixar apanhar.

– Não queria que sua amiga se sentisse falsamente atraída por mim. – Disse ele tranqüilamente, sem embelezamentos, embora modestamente, quase humildemente. – Algumas vezes as mulheres acreditam que me desejam, porque atuo sobre um palco. Admitirei, que atuo sobre elas para afastá-las de mim. Possivelmente, fiz um pouco muito forte, no caso de Lisa.

Corinne estava atônita, por que lhe disse a verdade. Quando ele a olhava com esses olhos negros e o cabelo revolto sobre a testa, tudo o que podia pensar era em beijá-lo.

– Fez com que ela quisesse ficar com Cullen? – Perguntou.

– Eu não faria tal coisa. – Um sorriso travesso suavizou os cantos de sua boca. – Enviei Cullen a sua mesa. No momento em que você entrou, soube que era você a outra metade de meu coração.

Corinne elevou o queixo para ele.

– Está usando sua influencia sobre mim?

– Assim espero. Desejo-a. Preciso de você em minha vida. Não estou utilizando controle mental sobre você, mas estou tentando ser muito encantador. Está funcionando?

Ele podia derreter o coração de uma mulher, a seis passos.

– Não. – Disse ela, firmemente, mas por dentro estava ardendo em fogo lento. – Não quero sua influencia sobre Lisa. Faz-me sentir incômoda.

– Sei que a ama, Corinne. – Disse ele, brandamente. – Tudo o que é tua família é minha família. Não faria nada que lhe fizesse mal ou subtraísse importância a seu valor. Protegerei-a como se fosse minha própria irmã.

Corinne respirou fundo e se obrigou a afastar o olhar dele. Olhando fixamente a crescente escuridão, tamborilou um nervoso ritmo com o pé nu.

– Não pode se sentir assim por mim, tão rapidamente, Dayan. A verdade é que não vou viver muito. Não estou dizendo isso para que se compadeça de mim. É um fato. Eu aceito, mas Lisa não. Tem que ser prático, Dayan. Já é bastante duro fingir com Lisa todo o tempo... Sinto-me como se tivesse que protegê-la da verdade. Não quero estar assim contigo, também. – Sem nenhuma razão, ela sentiu lágrimas ardendo em seus olhos. Não por si mesma... Ela estava além dos sonhos... Mas por ele, por essa absoluta solidão que ocasionalmente vislumbrava no fundo de seus olhos.

Dayan lhe segurou o queixo firmemente entre os dedos, obrigando-a a enfrentar seus brilhantes olhos negros, que ardiam com tanta intensidade.

– Você não vai morrer, céu. Não permitirei tal coisa. Faça-se à idéia de viver neste mundo, porque compartilhará sua vida comigo. Não permitirei nada menos.

– Você não entende, Dayan. – Replicou ela, gentilmente. – Os médicos...

– São humanos. – Interrompeu ele. – E estão equivocados. Estou de acordo em que tomemos precauções até que um de nossos curadores possa te examinar, mas você não morrerá. Está perfeitamente claro? Entenda-me Corinne e me obedeça.

Ela encontrou-se sorrindo, ante a arrogância, apesar da gravidade de sua conversa.

– Dayan, simplesmente não pode ordenar a alguém que viva. Tenho um problema gravíssimo de coração, há anos. E estou grávida. Meu coração não vai durar para sempre.

Seu olhar negro agüentou diretamente o dela, até que Corinne se sentiu como se ele estivesse tomando posse dela, forçando sua concordância, de algum modo.

– Me obedecerá. – Havia absoluta autoridade em sua voz.

O sorriso decaiu nos lábios de Corinne, fazendo com que sua intrigante covinha simplesmente desvanecesse.

– Prometo fazer o que puder, Dayan. – Ela respondeu, solenemente.

Dayan se inclinou para a dela e sua boca roçou o alto de sua cabeça.

– Sempre é melhor ver as coisas a minha maneira, céu. – Disse ele, com grande satisfação.

 

Corinne se afastou de Dayan, numa delicada retirada. O mais ligeiro dos contatos com ele, enviava um arrepio de antecipação, por todo seu corpo, convertendo-a em montanha russa.

– Você é um pouco arrogante, mas duvido que eu seja a primeira pessoa a lhe dizer isso. – Corinne olhou-o sobre o ombro, zombeteira e incitantemente, sem notar que estava com o coração nos olhos.

O ar abandonou os pulmões de Dayan, que deslizou atrás dela, um enorme gato selvagem, espreitando a sua presa. Silencioso. Intenso. Seu olhar fixo sobre o rosto dela enquanto a via retroceder. Corinne esqueceu que estavam num alpendre e deu um passo para fora da plataforma, sem notar. De algum modo, Dayan conseguiu segurá-la. Ela piscou e em seguida, ele estava embalando-a na segurança de seus braços.

– Felizmente para você, posso estar à altura de minha reputação. Olhe onde pisa na próxima vez. – Deliberadamente, ele lhe mostrou os dentes imaculadamente brancos, num enorme sorriso, ante o transe de Corinne.

Ela arqueou uma sobrancelha, tentando parecer arrogante, ainda em seus braços.

– Como fez isso? Como pôde se mover tão rápido para me segurar?

– Sou um superhomem. – Confessou ele, sobriamente. – Nunca lhe disse isso, porque temia que você não gostasse de homens que usassem capa. A minha é bem tradicional, mas agradável, de todos os modos.

Ela gargalhou e teve que se firmar nos ombros dele, temendo sair de seus braços.

– Já que você gostaria que eu acreditasse que é um superhomem, quero ver essa capa tão importante. Não pode ser um superhomem que usa capa. – Corinne gostava de estar em seus braços. Adorava estar em seus braços. Ele era bastante forte, embora surpreendentemente gentil. Podia dizer as coisas mais escandalosas, com o rosto sério e inocentes olhos negros. Fitou-o por baixo de suas pálpebras. – Também precisa usar uma roupa de malha, para ser um superhomem. Malhas, azul elétrico.

Uma sobrancelha negra se arqueou, eloqüentemente.

– Malha? – Ele repetiu a palavra como se ela não estivesse em seu vocabulário. – Malhas azuis?

Ela tentou se manter séria, mas não podia deixar de rir e seu coração estava começando a doer. Um peso duro e doloroso a pressionava, extraindo o ar de seus pulmões, fazendo-a desejar não ofegar em busca de ar. Corinne afastou o olhar dele, não queria que ele visse sua luta. Assombrava-a poder sentir-se tão feliz, poder esquecer tudo tão completamente, em sua companhia. Seu corpo teve que lembrá-la, que se cansava rapidamente. Corinne piscou para conter as lágrimas e enterrou o rosto contra o ombro dele.

Dayan permaneceu em silêncio, permitindo que seu coração encontrasse o ritmo irregular do dela e lentamente o guiasse à normalidade. Limpou sua mente de desespero, encontrando um centro calmo e estendendo-se através do tempo e do espaço, tal e como podiam os homens de sua raça.

- Darius. Minha necessidade de um curador aumenta. Não acredito que ela tenha muito tempo.

Passou um momento, um batimento de coração, em que prevaleceu o silêncio.

A voz amável de Darius fluiu em sua mente, encheu-o de convicção. - Dois de nossos maiores curadores estão viajando para as Cascatas. Se encontrarão lá, com vocês. Não falharemos, Dayan. – Dayan extraiu as indicações, diretamente da mente de Darius, que os conduziriam a uma casa segura, de propriedade de um dos maiores curadores entre a gente dos Cárpatos. A casa era de Gregori e sua esposa, Savannah, filha de seu Príncipe.

- Obrigado por sua rapidez. Tudo vai bem por aí?

- Sim. As mulheres estão ansiosas por ver sua companheira.

Dayan encontrou conforto na voz e nas palavras de Darius. Ao longo de sua longa vida, Dayan nunca soube que Darius fracassara ao levar a cabo uma tarefa. Se ele desse sua palavra sobre algo, cumpria-a. Eram família. Haviam viajado juntos durante quase mil anos. Saber que sua família estava se mobilizando rapidamente, aproximando-se para ajudá-lo a salvar sua companheira, deu-lhe uma confiança acrescentada ao feito de que podia fazer. Encontrariam uma forma de salvá-la. Se fosse possível, também o bebê, mas era imperativo que salvassem Corinne. Sem ela, Dayan não poderia continuar. Não queria enfrentar a escuridão e o vazio. Aonde ela fosse, ele escolheria estar a seu lado, protegê-la e guardar-se, na próxima vida.

Foi só há poucos minutos depois de estar respirando normalmente, que Corinne compreendeu que seus corações estavam pulsando no mesmo ritmo. Mantendo a cabeça apoiada sobre o ombro dele, olhou para cima, com seus grandes olhos verdes.

– Onde você está? Ficou tão sério de repente!

– Estava "conversando" com meu irmão.

– Ele também é telepata? – Corinne elevou a cabeça, para fitá-lo atentamente. – Deixe-me, Dayan. Sou capaz de caminhar sem romper o pescoço. Deve ter sido maravilhoso crescer com alguém que compartilhava seu talento.

Dayan encolheu os ombros, numa preguiçosa ondulação de músculos.

– Nunca pensei nisso. Todos nós somos telepatas. Toda a família. – Relutantemente, ele a desceu ao chão.

– É genético, então? – Corinne pressionou suas mãos sobre o bebê, protetoramente, súbitamente temerosa por ela. Sua vida tinha sido, muitas vezes difícil, por causa de seus dons especiais. Sabia que não estaria perto para proteger e confortar sua filha, nos momentos difíceis.

As mãos de Dayan lhe emolduraram o rosto.

– Chamo os Trovadores de minha família, porque estamos juntos desde crianças, mas somente Darius e Desari são realmente irmãos. Syndil, Barack e eu estamos aparentados do mesmo modo que você e Lisa. Os laços são mais fortes que o sangue.

– É obvio, os membros de sua banda. Todos eles têm nomes interessantes.

Dayan sorriu, brejeiro.

– Esqueci a pequena fanática que é. Você inflou meu ego para sempre.

– Sou uma fanática séria. – Repetiu ela, seus olhos começaram a arder, com um fogo oculto. Ela jogou a cabeça para trás e os reflexos de seu cabelo atraíram a luz quando voltaram para frente, automaticamente. – Terei que te fazer saber que não sou fanática por você, mas por sua música. Há uma diferença, você sabe. Não me entenda errado... – Ela elevou uma mão para detê-lo, quando notou que ele avançava resolvido para ela. Encontrou-se sorrindo novamente, notando como os olhos dele cintilavam para ela. – Converteu-me em sua fã. Claro que sim. Vou olhar para você com adoração, na próxima vez que tocar. – Ela bateu as pálpebras, incitantemente. – Posso agir como uma pequena groupie se seu ego precisar de estímulo.

– Sinto-me adulado. – Disse ele, segurando a pequena mão, na sua. – Venha, conte-me o que sabe sobre nossa banda.

Ela sorriu.

– Você toca violão, igual a Barack. Syndil toca os tambores e qualquer outro instrumento. Desari é a cantora principal e tem uma voz maravilhosa. Você canta sozinho quando está de bom humor ou se requer uma canção, em particular. Minha hipótese é que, vocês dois escrevem as letras de suas canções. – Corinne sorriu-lhe. – E sua música é impressionante, embora haja alguns poucos, que estão acima de voces. – Ela baixou o olhar para as unhas. – Lendas, você sabe.

As sobrancelhas dele se arquearam.

– Quem? Nomeie uma lenda dessas.

– Em que categoria? Eu gosto do rock and roll.

– Rock and roll? – Havia um ligeiro tom de mofa em sua voz. – A quem você consideraria uma lenda do rock and roll? Vá com cuidado, sua reputação está em jogo.

– De que ano estamos falando aqui? Nos anos cinqüenta havia muito a escolher. Se for bancar o tolo, com o rock and roll moderno, podemos ir aos extremos e falar de blues ou jazz. Certamente admitirá que há lendas no blues e no jazz.

– Concederei esse ponto a você, mas não pode começar a procurar nos anos cinqüenta. As origens do rock and roll começaram muito antes dos anos cinqüenta. Já ouviu a música tribal e os ritmos da África?

Corinne sorriu abertamente, com uma sobrancelha elevada.

– Certamente não me está colocando a prova, acreditando que não conheço a história da música. Esse não é o ponto. Honestamente crê que não há lendas entre os anos cinqüenta e os sessenta?

– Possivelmente, os Trovadores Escuros. – Filosofou ele e seus olhos negros sorriam maliciosamente dela.

– Perdoe, senhor Lenda, mas e Louis Armstrong? Não cometa o engano de enrugar o nariz para ele. Muddy Waters, pelo amor de Deus e BB King, ele é impressionante. Simplesmente tem essa presença. E Stevie Ray Vaughn. Poderia nomeiar alguns outros.

– Você tem que acreditar que só eu sou uma lenda.

Ele brincava com ela, mas quando inclinou a cabeça para o pequeno rosto apaixonado, seu olhar encontrou os lábios dela e seu coração quase parou. Fechou a pequena separação entre eles, tomando sua boca, tomando seu ar e lhe dando ar. A terra deixou de se mover, para ele. O mundo se dissolveu e só restou Corinne em sua mente, em seus braços. Seus olhos arderam de um modo estranho, seu corpo se endureceu como uma rocha e seu estômago deu um curioso sobressalto. Seu coração quase se derreteu. Havia algo no beijo dela. Paixão e fogo. Deliciosa ternura. Uma promessa. Dayan elevou a cabeça antes que fosse muito tarde para voltar atrás.

Corinne piscou para ele, claramente aturdida

– Como faz?

– Você e eu somos companheiros...

– Companheiros? – Repetiu Corinne. A palavra era formosa e implicava algo permanente e vinculante. Ele se perguntou se era a interpretação de alguma palavra do idioma nativo dele. Ouvira ele utilizar a palavra, várias vezes antes.

Os olhos negros se moveram sobre o rosto dela, num estudo sério e intenso. Seu olhar era pensativo. Incrivelmente sexy.

– Companheiros. – Afirmou ele. – Casados, mas mais que isso. Casados com um compromisso eterno.

– É um bonito conceito, Dayan, mas não crê que a maior parte das pessoas estarão casados para sempre? – Os olhos dele a faziam lembrar os de um grande felino, da capa de um dos livros de sua coleção. Havia uma ardente intensidade nele, quando a olhava. Em seu interior havia uma necessidade em resposta, clamando só por ele.

Suas mãos capturaram as dela, puxou-a gentilmente, até que o pequeno corpo ficou pressionado contra ele.

– Você é minha companheira, Corinne. Reconheci-a no momento em que pousei meus olhos em você. Sei que é a luz de minha escuridão, que sua alma é a outra metade da minha. Cada um dos membros de minha família encontrou um companheiro. Barack e Syndel parecem ser um para o outro. O companheiro de Desari é Julian. Darius tem a Tempest e eu estou assombrado por haver encontrado você. Não possuía mais nenhuma esperança de que existisse.

Corinne baixou a cabeça. Dayan acreditava em cada palavra que dizia. Apenas se conheciam, mas ele estava tão seguro. Quase a fazia acreditar que possuíam um futuro, juntos. Ela era mais realista, pois sabia que seu coração estava se deteriorando. Dayan havia ralentizado o inevitável, com o que havia feito a noite anterior, mas ela sabia que seu coração não resistiria mais, depois do nascimento de sua filha. Sentia-se realmente cansada, seu coração trabalhava com dificuldade e seus pulmões se esforçavam para funcionar.

– Eu gosto de todos os nomes de vocês. – Disse ela, decidida a mudar de assunto. – São nomes artísticos ou reais?

Dayan sorriu, sem humor.

– Mudamos muitas coisas, em nós mesmos, mas sempre mantemos os nomes que nos deram ao nascer.

Misteriosos segredos estavam capturados sob os extraordinários olhos. Olhos antigos, olhos de quem já vira de tudo. Havia uma força tranqüila em seus traços esculpidos. Num momento, ela parecia bastante jovem e no seguinte, velho e cansado. Seu corpo podia estar imóvel, nada revelava que ele estava respirando, mas quando decidia se mover era tão rápido, que se piscasse, perdia seu movimento. Dayan. Ele enchia sua mente, como ninguém havia feito antes. Proporcionava-lhe sonhos, que ela não se atrevia a ter. Corinne tocou seu rosto com os dedos, a dor por ele fluiu até afligi-la. Havia pensado em adverti-lo, permitir que ele tomasse sua própria decisão no que se referisse a sua relação, mas Dayan estava lhe rompendo o coração.

– Não faça isto, Dayan. Não construa seus sonhos em torno de mim. Tenho tanto medo por você. Merece ser feliz. Quero que seja feliz. Não seja como Lisa. Ela deseja um milagre. – A ponta de seu dedo acariciou o desenho dos lábios perfeitos. – Não quero te causar dor. Seriamente não.

– Eu acredito em milagres, Corinne. Encontrei-a. Viajei pelo mundo durante mais anos dos que possivelmente possa conceber e nem uma vez esperei algo semelhante. Mas você é real. Atravessou diretamente a porta daquele bar. Veio para mim, quando eu estava seguro de que meu tempo se esgotara. Sei que existem os milagres. Cada um de nossos homens que encontra sua companheira, sabe que os milagres existem. Já discutimos isto antes, mas você se nega a ouver. Não vai morrer. Quero que acredite nisso, Corinne. Começe a acreditar.

Corinne suspirou brandamente e afastou o olhar da faminta intensidade dos olhos dele. Ele podia convencer a qualquer pessoa, com esse olhar compelidor. Ela queria que a convencessem a acreditar que podia ter uma oportunidade, de ter um futuro com sua filha e com um homem que a apaixonava. A idéia chegou inesperadamente e em seguida, fechou de repente a porta para ela. Não conhecia Dayan, absolutamente. Ele ainda teria o mesmo sentimento em um mês? Em dois? Desejaria-a, Dayan, depois de um mês ou dois? Não sabia absolutamente nada dele, exceto que era um músico que vagava de cidade em cidade com sua banda.

- Um músico brilhante. Uma lenda da música. –

Dayan corrigiu seus pensamentos e suas sobrancelhas negras se arquearam, quando ela tentou convencer a si mesma de que não o desejava.

– Não se equivoque, Corinne. Sabe mais de mim, que possa imaginar. Sabe que não persigo mulheres, que sou protetor. Deve saber que sou honesto e de confiança.

– O último Boy Scout, que lê os pensamentos do resto das pessoas. – Repreendeu ela, enquanto se perguntava por que não a envergonhava, que ele soubesse o que estava pensando. Arqueou uma sobrancelha para ele, de brincadeira. – As mulheres grávidas com freqüência têm fantasias sexuais, assim não se encha de ilusões.

– Estou interessado nas fantasias sexuais de só uma mulher grávida. É natural que se sinta sexualmente atraída por mim, Corinne. Se não fosse assim, seria difícil a união entre nós. Mas é minha autêntica companheira e tenho intenção de reclamá-la, para sempre. Acredito que o sexo deveria ter um lugar em nossa relação. – Ele sorriu para ela – Um lugar muito importante. Assim é como se supõe que deve ser.

Ela não resistiu e sorriu, mesmo que relutantemente.

– Soas tão seguro, tão prático, como se nenhum dos obstáculos importasse.

– Não importam. Devemos estar juntos, assim é como tem que ser. Você também sente, Corinne. Eu sei. Temos uma oportunidade. Se você aceitar que devemos ficar juntos, então encontraremos a forma de que assim seja.

Ela afastou o olhar, da intensidade dos olhos brilhantes.

– Acredito que realmente você deveria ser um poeta, Dayan. Acredita no romance. A vida real não é necessariamente um reflexo de poesia. Todos morremos, alguns antes que os outros. Meu corpo se cansa mais rapidamente do que deveria. Nasci assim e sempre soube que aconteceria. De acordo com os médicos, não deveria ter vivido além de meus quatorze anos. Sou mais afortunada que muitos que nasceram como eu. Essa é a realidade. – Provocava-lhe dor de cabeça, Dayan ficar negando-se a aceitar a seriedade de sua enfermidade.

Dayan lhe deu uma pequena sacudida, sem poder se conter.

– Eu gostaria de te contar algo sobre a realidade de minha vida, Corinne. O que experimentei sem você, mas não está preparada para uma confissão semelhante. Enquanto isso, acredito que devemos falar de Lisa e Cullen e começar nossa viagem esta noite. Temos uma grande distancia a percorrer.

Corinne sacudiu a cabeça.

– Não podemos viajar assim, Dayan. Temos uma vida pela que trabalhamos duro. A profissão de Lisa exige que esteja disponível quando precisarem dela.

Os olhos negros de Dayan passearam sobre a face de Corinne, pensativos, sombrios, com um indício de ameaça, que ela achou desconcertante. Havia algo indefinido nele, que não podia nomear e a assustava.

- Não tenha medo. Nunca deve ter medo de mim. Nunca poderia te fazer mal, Corinne. Farei tudo o que esteja em meu poder para cuidar de seu amparo. E meus poderes são consideráveis.

Ele havia usado o sistema bem mais íntimo de comunicação, entre os companheiros, quase que automaticamente. O braço de Dayan rodeou seus ombros, sustentando-a bem perto à luz da lua. Ela era frágil, delicada e de ossos pequenos. Inesperadamente, o medo o golpeou, com uma espécie de fúria impotente. Precisava urgentemente de um curador e de encontrar uma forma de conduzi-la amavelmente na direção que ele queria que fosse. Se fosse necessário, utilizaria sua habilidade telepática para persuadi-la, mas ia contra seu código de honra influir em sua própria companheira, desta maneira.

– É a forma em que me olha algumas vezes, Dayan. – Disse Corinne, com uma pequena risada, brincando com si mesma. – Você pode parecer muito intimidante quando quer. – Sorriu-lhe, seus dedos alisaram os lábios sensualmente esculpidos. – Como agora, quando não se está saindo com as suas.

Os olhos negros dele arderam sobre a face dela.

– Eu sempre me saio com as minhas, carinho, quando se trata de protegê-la. Não acredito que haja uma discussão racional que você possa ganhar sobre isto. A Lisa não importará muito seu trabalho, se você estiver morta. Você é capaz de escrever canções em qualquer parte. Também sei que está muito mais assustada do que se deixa notar e está de acordo comigo, em que devemos proteger Lisa, apesar de sua negativa a aceitar a gravidade da situação.

Corinne lhe lançou um olhar de advertência.

– Eu não gosto que leia minha mente.

– Logo você lerá a minha. – Respondeu ele, sem censurar seus pensamentos.        Corinne arqueou uma sobrancelha para ele.

– Supõe-se que de repente, simplesmente adquirirei a habilidade de me comunicar telepaticamente com você?

Dayan encolheu os ombros.

– Teremos que ver isso, Corinne. – Sua mão moveu sobre os braços dela, para esquentá-la. – Está se esfriando aqui fora.

– Mesmo assim é lindo. Odeio estar dentro de casa a noite. O céu sempre parece tão incrível. – Corinne sorriu, sonhadoramente. – É obvio, também me sinto assim durante o dia. Adoro olhar as nuvens. Lisa dirige como uma maníaca, mas diz que eu sou pior, porque não posso afastar os olhos do céu. – Ela levantou o olhar para ele. – Não quero perder nada, sabe? O mundo é um lugar tão bonito. Quero ver tudo o que posso. – Ele caminhou um pouco mais, até passar do pavimento. – De onde você é? Tem sotaque, mas não posso localizar de onde.

– Viajei muito através dos anos, não sei se minha forma de falar reflete algum desses lugares. Falo vários idiomas. Mas nasci nas Montanhas dos Cárpatos, na Europa e passei a maior parte de meus anos de juventude, na África.

– Que interessante. O que faziam seus pais?

– Era um menino quando os mataram. Darius nos criou todos os membros da banda. Éramos todos ainda crianças e crescemos um pouco selvagens. – Dayan sorriu-lhe e seus dentes brilharam na escuridão. – Acredito que ainda somos um pouco selvagens.

Corinne se permitiu entrelaçar seus dedos com os dela, embora não estava segura do por que. Uma parte dela queria ser realista e forte, enquanto que outra, seu lado traidor, sussurrava tentando-a. Sussurrando que deveria desfrutar de sua companhia enquanto pudesse.

– Então Darius é bem mais velho que você?

– Darius é um indivíduo extraordinário. Tinha seis anos quando nossos pais foram assassinados. Ele nos manteve com vida. – Ondeou uma mão, um movimento gracioso enquanto descartava o passado. – Faz muito.

Corinne estendeu uma mão para lhe esfregar o queixo.

– Parece tão triste, Dayan. Não pode ter sido a tanto tempo. Sua infância foi difícil?

– Foi uma aventura, Corinne. Diferença da tua. Lembre-se que todos somos telepáticos e utilizávamos nossas diferenças. Foi uma época selvagem, divertida e muito excitante. Conte-me de sua infância. Conheço partes e retalhos de suas lembranças, mas você fechou a maior parte dela atrás de uma pesada porta e não desejo abri-la sem sua permissão.

Caminharam juntos, sem pressa. Dayan parecia deslizar junto a ela, sem fazer ruído. Se não houvesse sentido a segurança do grande corpo, roçando o seu e sua mão fechada em volta de seus dedos, não sentiria que ele estava a seu lado. De certa forma era reconfortante, mas também estranho sentir um poder tão cru e sigiloso nele.

– Não se parece com nenhuma outra pessoa que conheço. – Disse Corinne, tranqüila, intuitivamente. Houve um pequeno silêncio, a duração de várias batidas de seu coração.

– Procedo de uma linhagem ancestral. – Admitiu ele, tranquilamente. – Possuo dons. Dons especiais que me foram concedidos.

Ela sorriu, na escuridão.

– Me alegro muito que tenhamos nos conhecido, Dayan. Há algo maravilhoso e formoso em você. Quando estou contigo sinto como se pudesse durar para sempre. As palavras de suas canções e as belezas de sua música são excepcionais. Adoro o som de sua voz, falando ou cantando.

Ele levou a mão de Corinne ao peito, para que ela pudesse sentir como seu coração pulsava com força sob a pele, mesmo através de sua camisa.

Ela podia sentir o calor da pele dele, a chamada de seu corpo masculino, enquanto os músculos se moviam sutilmente. Sobre a cabeça dela, Dayan sorriu, seu sorriso ligeiramente matreiro.

– Está tentando deliberadamente conduzir a conversa, para longe de sua infância. – Ele ficou secretamente feliz pela sinceridade que detectou na mente dela. Não colocara compulsão sobre ela, nada realçava seus sentimentos para ele. Estava relaxando ante o fato de saber que ela era sua autêntica companheira, embora ainda não a unira a ele, com as palavras rituais. Temia que forçá-la a uma separação, durante as horas diurnas, pudesse ser muito para seu extenuado coração.

– Por que iria querer ouvir uma história aborrecida numa noite tão bela? – Corinne manteve a cabeça baixa, não queria erguer seu olhar, para olhos que viam tanto.

– Quero saber tudo de você, Corinne. – Ele disse baixinho, com voz de pura magia, na escuridão da noite.

Como podia alguém negar a beleza dessa voz? Corinne respirou fundo e deixou as palavras fluírem.

– As más lembranças são de minha mãe bebendo. Realmente não posso recordar-me de vê-la fazendo outra coisa. Sempre havia homens e casas horríveis, nas quais vivíamos. Eram mal ventiladas e quentes. Eu passava todo meu tempo ouvindo música. Saía às escondidas e encontrava lugares onde houvisse música ao vivo. – Lançou-lhe um rápido sorriso. – Era uma vantagem ser pequena... Eu ia a toda parte e utilizava a telequinesia, assim podia abrir fechaduras e portas bem pesadas.

Ele passou a mão pelo cabelo dela, numa pequena carícia. Tinha que tocá-la. Podia sentir as emoções que acompanhavam suas lembranças.

– Vivia para a música. Sonhava-a e ouvia noite e dia em minha mente. Mantia-me lúcida quando estava sozinha. Equilibrava meu mundo. Era para onde podia escapar. E depois, conheci John, Lisa e a seu pai.

Havia tal tristeza em sua voz, que Dayan a abraçou gentilmente, protetoramente. Seu corpo defendia o dela, da escuridão da noite.

– Agradeço que tivesse John e Lisa. –John salvara a vida de Lisa e protegido Corinne. Fazia tudo o que podia para criar uma família para elas.

Dayan o agradecia. Agradecia a qualquer pessoa que estivesse ali para ela quando ele não podia.

– Não se apaixone por mim, Dayan. – Murmurou ela, suavemente, suplicando. Estava lutando por ele, desejando que entendesse que não podia sentir algo tão forte por ela. Já era bastante ruim, por Lisa e não suportaria que também Dayan contasse com ela e depois a perdesse. A mão dele segurou seu queixo, inclinando sua cabeça, para que seus olhos encontrassem o olhar firme.

– Conheço-a melhor do que ninguém te conheceu, Corinne. Como poderia não te amar quando vejo sua mente e seu coração? Você é tudo para mim. Sei que não pode entender e que para você não tem sentido, mas para mim... Um ermitão que não tem a ninguém que o ame, ninguém que afugente seus demônios... É um milagre.

– Isso é o que sou para você? – Corinne sorriu, a idéia era formosa a seus olhos. – Realmente afugento seus demônios?

Sem se apressar, prazerosamente, ele inclinou sua cabeça e tomou posse de seus lábios. Foi gentil. Não havia mais que gentileza em Dayan, quando ele a tocava, uma gentileza que contestava sua enorme força física. Mas seus lábios eram pura magia, abrindo a porta para um mundo que ela nunca soubera que existia, antes que ele entrasse em sua vida. Sua boca era tão ardente, dominando a dela, que terra moveu sob seus pés, fazendo-a segurar-se nele, em busca de apoio. Ele a ergueu, apertando-a contra o corpo duro, mas a sustentou com deliciosa ternura, infinita ternura. Sua boca era pura magia.

Dayan levou Corinne a outro mundo, um mundo de paixão e fantasias exóticas. Um mundo que nunca atreveu a imaginar. Ela podia afugentar os demônios dele, mas ele era para ela, era diferente. Irreal. Um deus mítico. Uma lenda. Um herói. Sorriu feliz, contra os lábios dele. Cada vez que olhava seus olhos negros, tão intensos e famintos, derretia-se por dentro.

- Estou lendo seus pensamentos.

A voz acariciou intimamente a mente dela.

– Pois pare. – Corinne saiu de seus braços, a única coisa certa que fazer, com seu coração palpitando e seu corpo convertendo-se em fogo líquido. – Temos que parar, Dayan. Sabe o que estamos fazendo. – Seu coração não ia suportar muito mais. Já estava trabalhando muito duro.

Ele descansou a testa, contra a dela, respirando pesadamente, tentando se recuperar.

– Sinto muito, carinho. Pense em algo mundano para mim.

Ela sorriu, mordiscando os cantos da boca dele.

– Lisa e eu precisamos de roupa. Temos que ir para nossa casa e pegar roupa suficiente para alguns dias, até que essa gente perca o interesse em nós.

A mão de Dayan se fechou lentamente na nuca dela. Seus rastros digitais foram como uma marca sobre a pele dela. Podia sentir todo o caminho, até os dedos de seus pés. E ela estava derretendo-se novamente, desfazendo-se por dentro. Seu coração sobressaltando-se, perigosamente.

Ele se endireitou lentamente e seus olhos negros fixaram-se no formoso rosto.

– Essa gente não perderá o interesse em vocês, carinho. Não podem voltar para casa. Eu pegarei as coisas que Lisa e você precisam e trarei para cá. Faça-me uma lista. – Sua voz era baixa, um sussurro parecido a caricia do veludo, sobre pele.

Corinne fechou os olhos para fugir dele. A cada fôlego que tomava, inalava sua essência masculina. Selvagem..

– Não pode revolver nossas vidas, Dayan. Não seria certo. Uma de nós irá com você.

Ele sacudiu a cabeça lentamente. Não piscou. Tudo o que fazia, fazia com um fluido poder, um ondular de pura energia, impossível de ignorar.

– Para te manter a salvo, Corinne, posso fazer isso. – Ele disse suave e pacientemente. – Essas pessoas dispararam no palco onde Desari estava cantando. Ela é uma mulher formosa e vibrante, única no mundo, mas estavam dispostos a matá-la, a silenciar sua voz para sempre. Eles feriram Desari, Barack e a mim mesmo. Tivemos sorte de que Julian estivesse com Darius, para nos salvar. Não estou disposto me arriscar com sua vida. Ou a vida de sua filha.

– Disse que esses homens já foram. Não enviarão outros tão rapidamente. Precisamos de nossas coisas, Dayan. Um dia teremos que voltar. E Lisa é famosa... Qualquer um pode encontrá-la. – Corinne pensou por alguns segundos e então continuou. - Poderíamos contratar guarda-costas.

Os traços dele permaneceram inexpressivos, mas ficou completamente imóvel, algo profundo dentro dele rugia silenciosamente, proferindo uma imediata negativa. Por um momento, Corinne pensou que tinha visto chamas vermelhas titilando nos olhos negros. O ar ficou preso em sua garganta. Deu um passo para trás, mas a mão dele ainda rodeava sua nuca, ancorando-a a ele.

– O que está acontecendo, Dayan?

O sorriso dele demorou em chegar, seus dentes eram muito brancos.

– O que vê em mim, que a assusta, carinho?

– Não sei... Às vezes parece ser algo mais que você. Sei que não tem sentido, mas pode parecer muito intimidante. – Ela jogou o cabelo para trás, um pequeno estremecimento percorreu seu corpo. – Vamos voltar?

– Não quero que tenha medo de mim, Corinne. Compreendo a forma inesperada em que nos conhecemos e unimos. Não procurava algo assim, mas aconteceu. Não podemos fingir ou voltar atrás. – Seu polegar movia sobre a pele dela, numa pequena carícia, como uma pluma, mas tão erótica que ela estremecia sob seu toque.

– Eu estava falando de voltar para nossa casa. – Esclareceu Corinne, tentando mover-se para sair. Ele estaria utilizando sua telepatia mental única, para "empurrá-la" na direção que ele queria que tomasse?

Dayan sacudiu a cabeça, tristemente.

– Acreditei que já tínhamos esclarecido isso, carinho. Sou um ermitão, um poeta, um músico. Sou um homem que vagou pela terra em busca de uma mulher. Sei que essa mulher é você. Se eu influenciar sua decisão a meu favor utilizando a telepatia, nossa relação não duraria. O que quero contigo, quero para toda a eternidade.

Corinne se voltou, afastando-se dele, de seus olhares ameaçadores e a ardorosa intensidade de seus olhos negros. Ele precisava de alguém que o amasse. Que Deus a ajudasse, pois ela queria ser essa mulher. Pelo menos uma vez em sua vida queria que fosse real.

Dayan estendeu a mão e tomou da dela, precisando de seu pequeno corpo, para aproximá-la de seu amparo. Simplesmente caminhou junto a ela na noite, desfrutando do momento, agradecendo-a por poder sentir, saborear. Agradecendo que ela estivesse em seu mundo.

– Cada linha de cada canção, cada nota que toquei foi escrita para você, tocada para você. A outra metade de minha alma, de meu coração. Com a esperança de que você estivesse em alguma parte em meu mundo e a ouvisse. – Em sua débil condição, Dayan não se atrevia a lhe revelar a verdade, do que era ele. Sabia que o curador encontraria uma forma de lhe salvar a vida. Não havia outro resultado possível. Preocupava-lhe muito que não houvesse como salvar o bebê. Ele era uma sombra na mente dela, conectado a ela. Sabia que Corinne estava disposta a trocar sua vida pela da filha. Ele não estava. Era seu companheiro. Era seu dever jurado velar por sua saúde.

Corinne piscou para conter as lágrimas, ante a absoluta sinceridade da voz dele.

– Não pode me dizer coisas como essa, Dayan. – Se ele continuasse, estaria perdida e a igual a ele. Como poderia resistir?

Dayan sorriu, apertando os dedos ao redor dos de Corinne. Com cada passo que dava a seu lado, sentia que o calor se elevava entre eles, sentia a forma em que ela se envolvia em volta de seu coração. Era as pequenas coisas, como sentir sua mão tão pequena, entrelaçada com a dele. Sua respiração. A fragrância dela. A forma em que sorria. Adorava a forma em que ela sorria, a forma em que se movia. A forma em que lutava tão desesperadamente para lhe proteger da possível perda.

No fundo de seu coração Dayan estava aprendendo o que era o autêntico terror. A idéia de perdê-la ia além de sua imaginação. Nunca tinha experimentado o medo em sua vida adulta. Mesmo durante as batalhas com os vampiros, não experimentara nem rastro de sentimento, ao longo dos séculos, para lhe proporcionar experiência na hora de manipular uma emoção tão intensa. Terror. Saboreou a palavra. Poderia confrontar a perda de sua companheira, sem sequer ter vivido com ela, sem ter tido tempo de amá-la e uni-la a ele? Dayan sabia que não. Sua vida havia sido vazia e árida, tão erma e fria, que tinha perdido a habilidade de criar canções, de sentir a música em seu interior. Mas agora, com Corinne perto dele, canções, palavras e notas gotejavam de sua alma, suplicando para serem ouvidas.

Ela era seu mundo. Cores, excitação e bela poesia. Não a perderia para a morte. Agora sabia de onde tinha vindo sua habilidade de tocar, de criar. Ela era a metade de sua alma. Ele ficara com uma pequena parte de sua luz, quando estavam separados, para que encontrassem seu caminho de volta até ela. Sentia as canções nela, a música. Estava na forma em que ela caminhava, a forma em que fluía através da casa, sua figura pequena e esbelta, equilibrada. Ela estava no giro de sua mente e na forma em que seu sorriso iluminava tudo.

Havia algo em Corinne, algo que atraíra seu olhar, imediatamente. Lisa era formosa, alta, loira e obviamente, uma modelo. Seu rosto estava nas capas das revistas. A luz de Corinne irradiava de seu interior. Só observá-la fazia Dayan sorrir. Quando tocava sua mente para compartilhar seus pensamentos, encontrava-a pensando nos outros, em como se sentiam, do que precisavam. Era feliz, apesar de ter perdido a alguém a quem amava e acreditava que ela mesma ia morrer logo. Corinne vivia cada momento que lhe brindava, decidida a ver a beleza a seu redor, mesmo enquanto se obrigava a enfrentar a realidade.

Dayan achava interessante a forma em que sua mente trabalhava, de forma desinteressada. Com freqüência utilizava a telequinesia, sem notar. Olhava fixamente um objeto que precisava ao outro lado do aposento e começava a atraí-lo para ela. Ele poderia sentir a diferença imediatamente no cérebro dela, uma maciez, a reconstrução da imagem e a concentração. A imagem sempre era clara e cristalina e então ela lembrava que não estava sozinha e deixava escapar um pequeno suspiro.

– O que? – Ela estava sorrindo e sua intrigante covinha o fascinava. Não conseguiu ter outra atitude, que se inclinar e beijá-la.

A excitação tomou o corpo de Corinne ante o toque da boca dele, contra sua pele.

– Tem que deixar de fazer isso. – Disse-lhe, sem muita convicção.

– Eu acredito que deveria praticar com tanta freqüência, como possível. – Replicou ele, rechaçando sua idéia imediatamente. – Não tenho muita experiência e devo me assegurar de não fracassar como amante. Depois, quero te fazer feliz.

Sua voz acariciante, um sussurro que roçou sua pele. Corinne levantou o rosto para ele e seus enormes olhos dançavam.

– Sabe muito bem que não precisa de nenhuma prática. E me faz muito feliz. – Ela estendeu a mão para o queixo dele, num gentil toque de seus dedos. – Me conte sobre sua vida.

– Sou um músico errante. Essa é a verdade, céu... Um poeta que encontrou seu coração perdido. Estive muito tempo sem você. – Não eram simplesmente as palavras que dizia, era a forma das dizer, com fome nos olhos.

– Você adora cantar?

– Isso é o que sou. – Replicou ele, pensativamente. – Quando pego meu violão, é uma parte de mim, como meus braços. As notas e as palavras estão em algum lugar em meu interior e fluem. Nasci com esta habilidade, um grande dom que me outorgaram.

Sua humildade a surpreendia, porque normalmente ele era muito seguro de si mesmo, tanto que beirava a arrogância. Mas não quando se tratava de seu extraordinário talento.

Por muito que estivesse desfrutando passeando com o Dayan, ela estava realmente exausta. Era consciente da forma em que seu coração parecia se esforçar para manter o ritmo exato do dele. Sorriu-lhe, enquanto ele se inclinava para pegá-la sem esforço, em seus braços.

– Realmente pode ler a mente, certo? – O som de sua voz foi mais incitante, que gostaria.

– Sim.

– Tem que estar tocando à pessoa?

– Não. Nem sempre te estava tocando quando lia sua mente. E nunca toquei em Lisa. É fácil ler os pensamentos dos mortais. – Disse ele, casualmente, tão cômodo na presença dela, que Corinne não pensou em censurar suas palavras. No curto tempo que passavam juntos, já pensava neles como companheiros de uma vida, em vez de duas entidades separadas. Os braços de Corinne estavam fechados ao redor de seu pescoço, enquanto ele a carregava através da noite, de volta para a casa onde se hospedava com Cullen.

– Mortais? Isso implica toda classe de coisas, Dayan. Por que utilizaria uma palavra como mortais? Você não é mortal?

 

Houve um longo silencio no qual Dayan escutou os sons da noite, o murmúrio do vento que sussurrava seus segredos.

– Algumas vezes, carinho, é melhor não perguntar muito sobre coisas que podia não querer saber. Utilizei a palavra mortal quando outra poderia ter tido uma melhor escolha. Não somos todos mortais e imortais ao mesmo tempo? Se morresse, deixaria para trás uma parte de você nesta terra, mas continuaria sua vida em algum outro lugar.

– Você acredita nisso?

– Categoricamente. – Respondeu Dayan, solenemente, sabendo que ela precisava de tranqüilidade. Durante um breve momento deixou de caminhar para esconder o rosto na maciez de seu pescoço, inalando sua essência. – Vá aonde vá, Corinne, nunca estará sozinha. Eu sempre estarei contigo.

Em seguida, a fragrância dela e sua realidade, se elevou para sobressaltá-lo e ele se encontrou lutando contra seu demônio interior. Elevou-se com força, veloz e furiosamente, as presas explodiram em sua boca. O homem dos Cárpatos exigia que completasse o ritual e a unisse a ele. Ela era sua salvadora. A guardiã de sua alma. Luz. Cores. Sem ela, restava somente uma existência vazia e erma, que nunca poderia voltar. Nunca mais a suportaria. O pulso dela batia sob sua boca, sua força vital fluía com uma escura riqueza, que ele desejava ardentemente, que precisava. Chamas vermelhas titilaram e dançaram em seus olhos negros, enquanto lutava contra a fera.

Sentindo o perigo, Corinne ficou quieta, seus braços envolveram a cabeça dele. Era consciente de sua luta interna, embora não entendesse nada. O corpo dele tremeu durante um momento e ela sentiu que sua boca se movia eróticamente, sobre sua pele. Seus dedos acariciavam o cabelo sedoso, com agitação. O que era o que ele precisava dela? Sexo?

- Não! - A palavra brilhou em sua mente, enfaticamente. A voz dele era gentil. -Não só sexo, meu amo. Preciso fazer amor com você, à noite toda. Preciso nos unir para toda a eternidade. Não sei como te contar as coisas, para que possa entender, mas é tão necessário para mim, como respirar. - Havia tanta intimidade na forma em que ele lhe falava, na ternura de sua voz, tanto como na forma em que podia se comunicar, mente a mente. – Preciso tanto de você, Corinne. – Ele suspirou contra sua pulsação, com seu hálito quente e íntimo.

Tanto. Havia algo muito perigoso nele... Podia sentir em sua enorme força, na forma possessiva em que ele a abraçava... Mas sua necessidade era tão grande, que não podia pensar com claridade, não podia pensar em lhe mentir, nem sequer para se preservar. A resposta brilhou em sua mente, na mente dele. Quero ser o que você precisa.

Não houve palavras pronunciadas em voz alta, mas Dayan ouviu como ela o aceitava. Ela aceitava suas diferenças, sua selvagem e indomável natureza. Ressoou na mente e no coração dela. Murmurou seu nome com a ternura que o invadia, seu talismã sagrado que o trazia de volta, longe do perigoso precipício. Os sussurros de loucura que ela não tinha esperança de entender.

A boca de Dayan se moveu sobre seu pescoço, tocou-lhe a orelha brevemente, enquanto ambos pareciam se afogar em calor. Podia sentir como o corpo dela se moldava ao dele, disposto, incitante e tentador. Ela se movia intranqüila entre seus braços e o corpo dele reagiu com o ardente ressurgir do sangue, criando uma dor que não desapareceria.

Dayan fechou os olhos e se permitiu o luxo de sentir. Sua boca moveu pela garganta dela, até o queixo, mordiscando ligeiramente antes de pousar sobre a boca. Ali estava a sensação de que a terra se movia sob seus pés, pois ela estremeceu, afastando-se dele até que restou Corinne. Sentiu cada sensação... A acetinada suavidade da pele dela, como sua mente enchia a dela com seu faminto desejo, com as eróticas imagens e o sempre crescente fogo de seu sangue.

Sua boca era um refúgio sedoso no qual estava perdido. Rugia-lhe o sangue nos ouvidos. Dayan a abraçou firmemente, possessivamente. Corinne era seu único refúgio, após mil anos de absoluta solidão. Levantou a cabeça para que sua boca pudesse vagar deixando uma chama de calor e luz sobre a pele, de volta a irresistível pulsação. Uma chamada tão velha como o tempo. Podia ouvir sua voz, um suave murmúrio, um sussurro que ordenava com suavidade e o sangue de Corinne se apressou, esquentando-se em resposta. Ele acariciou-lhe a pele com a língua, seus dentes mordiscaram gentilmente, tentadoramente, eróticamente e então ela gemeu, quando um relâmpago candente se arqueou atravessando-a, golpeando seu sangue e fazendo-a arder. Moveu a boca contra ela e a sustentou firmemente, encaixando-a contra ele quase como se estivessem fazendo amor.

Era como um sonho, confuso e irreal, sensual e erótico. Não se parecia com nada que conhecia. Corinne se sentia débil, incapaz de se mover, embora não quisesse. Envolveu amorosamente a cabeça dele e suas mãos se enterraram na riqueza dos cabelos negros, oferecendo-se para a boca ardente e ansiosa. Fechou os olhos, a ilusão de estar fazendo o amor era tão real que quase podia sentir como ele a tocava intimamente. Tinha sua voz na cabeça e de algum modo sentia seu desejo, a fome nele, seu intenso prazer. Não queria que ele parasse, jamais. Deixou que seus dedos escapassem do cabelo dele e caíssem inertes.

Seguidamente, Dayan elevou a cabeça, rompendo a conexão entre eles. Curiosamente, Corinne sentia um calor líquido ao longo de seu pescoço até seu seio. Não abriu os olhos para examinar a causa, não queria romper o feitiço mágico de calor e desejo. Ele baixou a boca para seguir o rastro líquido, fazendo com que seu corpo inteiro respondesse, esticando-se de prazer. Corinne sorriu, ele podia fazê-la sentir tanto, sem se esforçar.

– Deixei minha marca em você. - Foi um sussurro que se moveu atravessando o corpo dela, com o mesmo calor que havia em seu sangue. – Não pude evitar. – Ele mordiscou e tentou-a, até que obedientemente ela abriu os lábios para ele. Corinne sentiu um gosto acobreado, quando deslizou sua língua na dele, reclamando-a como própria. Antes que ela pudesse pensar em alguma coisa, ele havia tomado posse de sua alma, de seu corpo, de forma que ela já não pôde pensar como uma mulher, mas sim como uma chama viva, de necessidade e fome.

A mão dele subira para acariciar demoradamente seu seio, com o polegar provocando seu mamilo através do tecido da blusa. Chamas invadiram sua corrente sangüínea. A boca de Dayan abandonou a dela, seus dentes lhe mordiscaram o queixo, descendo até seu pescoço e ao longo de sua vulnerável garganta que se arqueava para ele. Um suave gemido escapou de sua garganta, quando a boca dele se aproximou do decote da blusa.

– Temos que parar. – Disse Corinne, suavemente, sem convencer a nenhum dos dois.

Seu coração estava trabalhando muito. Isso, mais que nada, fez com que Dayan recuperasse o controle total, de mãos da fera que lutava pela supremacia. Desejava tanto reclamá-la, uni-la a ele. Desejava assegurar sua vida através do intercâmbio de sangue, não simplesmente saborear a essência do que seria dele. Precisava dela, mas mais importante ainda, ela precisava dele.

– Tem razão, céu. – Disse ele, com profundo arrependimento. – Siga o ritmo de minha respiração, para permitir seu coração descansar.

Ela relaxou entre seus braços, com os olhos fechados, com o corpo ardente, mas sentia que não poderia se mover, nem para salvar sua vida. Estava inexplicavelmente, cansada, drenada.

– Preciso pegar algumas coisas de minha casa. Remédios. Coisas importantes. Se realmente não podemos voltar lá durante algum tempo, precisaremos de roupa.

– Faça uma lista. – Sugeriu ele, novamente. Ele estava caminhando através da noite, com ela em seus braços e a embalavam sem esforço. Foi silencioso enquanto a levava nos braços para a casa que compartilhava com Cullen. De vez em quando inclinava a cabeça e lhe roçava a cabeça com um beijo.

– Não posso fazer uma lista, Dayan. Algumas coisas são privadas. Lisa poderia me deixar pegar suas coisas, mas nunca permitiria que você, mexesse em suas gavetas pessoais.

– Então comprarei roupas para vocês. E maquiagem ou qualquer outra coisa que estimem ser necessárias. – Não havia impaciência em sua voz, mas uma humilde diversão, como se coisas mundanas como roupa e maquiagem não fossem de importância para ele.

Corinne se esforçou para abrir os olhos e atravessá-lo com um olhar vermelho vivo.

– Não preciso que me compre roupa. Pelo menos estou disposta a levar você comigo em casa. Acredito que isso é uma concessão.

Ele deteve-se durante um momento, estudando os traços delicados dela.

– Na verdade, você não quer voltar para a casa. – Declarou ele. Sua voz foi um suave chamariz.

Corinne fez um esforço supremo e se segurou à nuca dele.

– Pare de usar essa voz, Dayan, porque eu vou. É importante. Se quiser vir comigo, pode, mas não vai utilizar sua voz para me persuadir de outra coisa. Em qualquer caso, sei que me protegerá.

– Está me saindo muito arrogante. – Comentou ele, com grande admiração. – Certamente estou muito impressionado. – Não pôde evitar a sensação que as palavras dela produziam. Corinne confiava nele sabendo ou não.

– Beijar você é suficiente para debilitar uma mulher, Dayan. – Disse ela, exasperada consigo mesma. – Já é bastante ruim estar aqui, como uma heroína do século dezessete. Como num sonho.

Ele beijou sua testa.

– Sonhas impressionantemente.

Chegaram a casa em sem prestar atenção, Corinne ondeou uma mão para abrir a porta. Ele sorriu em seu ouvido.

– Isso foi muito impressionante. Não acredito que o faça diante de muita gente. Está começando a se sentir cômoda em minha presença.

– Bom, não se encha de ilusões. Não é você absolutamente. É sua voz. Eu gosto de te ouvir falar, mesmo que seja um monte de tolices e retórica de macho.

Ele inclinou a cabeça e encontrou sua boca, facilmente, infalivelmente, como se fosse à coisa mais natural e necessária do mundo. E fez com que o tempo se detivesse, nesse breve momento.

– Sou eu. – Disse ele complacentemente, enquanto atravessava a porta com ela. – E eu nunca solto retórica de macho.

Lisa e Cullen afastaram-se precipitadamente, quando eles entraram. Olharam-se com pequenos sorrisos culpados. O formoso rosto de Lisa estava carmesim. Ela pareceu alarmada ao ver Corinne nos braços de Dayan.

– Você está bem? – Perguntou rapidamente.

– Inteiramente. – Tranqüilizou-a, Dayan. – Nunca permitiria que nada lhe fizesse mal. – Ele estava olhando diretamente nos olhos de Lisa, e como sempre, ela se rendeu. – Corinne insiste em que vocês precisam de roupa e maquiagem de sua casa.

Lisa assentiu solenemente.

– Justamente estava dizendo a Cullen, que preciso de umas poucas coisas. Devemos ir esta noite antes que esses homens voltem.

– Não acredito que seja seguro, Lisa. – Replicou Dayan gentilmente, ainda sustentando seu olhar. – Acredito que deveriam ficar aqui com o Cullen enquanto eu vou e pego o que precisam.

– Comigo. – Corinne se recuperou o suficiente, para dizer. – Pode me dar sua lista, Lisa. – Ela jogou para trás, o cabelo que encobria sua face. – Eu também vou, então o que você precisar, posso pegar para você.

– É seguro? – Perguntou Cullen ansiosamente, olhando para Dayan.

– Não. É claro que não é seguro. – Respondeu Dayan e suas palavras eram uma clara reprimenda. – Estou seguro de que a casa está sendo vigiada. Ir lá é uma completa loucura. Já deveríamos estar que na estrada. É imperativo que nos encontremos com os curadores logo que seja possível. É o único modo de assegurar que o coração de Corinne recupere suas ,forças.

– Que curador? – Perguntou Lisa com uma nota de temor na voz. – Não quero Corinne perto de um curandeiro. Estou falando sério, Dayan. Ela já teve loucos, o suficiente em sua vida.

Os olhos de Dayan permaneceram firmes sobre o rosto de Lisa.

– Ela não atraiu essas pessoas para sua vida, Lisa. – Disse ele, tranqüilamente.

Os olhos de Lisa se encheram de lágrimas.

– Não quis dizer isso.

Corinne empurrou com força o peito de Dayan, estava furiosa.

– É obvio que não quis dizer isso, Lisa, ninguém pensaria. O que quer que façamos, carinho? Diga-me e o faremos.

Dayan foi tão amável como sempre, sua expressão nunca mudou, enquanto continuava olhando diretamente nos olhos de Lisa.

– Sinto ter te causado dor, Lisa. Quer ver Corinne bem, eu sei. Alegro-me em trazer o que precisa e te garanto que nenhum curandeiro tocará Corinne. Começaremos a ser amigos, começando por confiar um no outro. – Sua voz era absolutamente formosa, uma suave melodia de palavras, numa cadência pura e perfeitamente modulada que todos se esforçaram para ouvir.

Corinne segurou o rosto de Dayan entre suas pequenas mãos e o virou, para que ele a olhasse.

– Está fazendo algo que eu não gosto. – Pronunciou cada palavra claramente. – Não volte a fazer isso.

– Pode vir comigo a sua casa. – Disse ele gentilmente, sorrindo, parecendo mais bonito do que ela queria admitir. Podia privá-la da habilidade de respirar. Assombrava-a, o quanto ele podia afetá-la.

– Desça me.

– Pode se manter em pé sem minha ajuda? – Perguntou Dayan, brincando, sussurrando as palavras contra seu ouvido.

– É claro que sim. – Mentiu ela. – E que fique claro, Lisa. Eu vou permitir que ele vá a casa comigo.

Lisa e Cullen estalaram em gargalhadas.

– É o que parece. – Disse Lisa.

A casa estava escura e repulsiva, emitindo a mente de Corinne, uma estranha vibração de maldade. Enquanto olhava incertamente para sua casa, ela estremeceu.

– Dayan? – Sussurrou seu nome, súbitamente muito assustada.

Logo, ele se inclinou mais e seus braços se deslizaram por seus ombros.

– Não se preocupe, céu. Não permitirei que te acontecça nada. Nunca.

– Algo está errado, Dayan, posso sentir. Vamos embora daqui. Possivelmente, a polícia deveria vir conosco.

– A polícia nunca deterá este grupo.

– Não me importa se podem detê-los ou não. Acredito que a questão é que não nos façam mal agora. Se pedirmos, eles entrarão na casa conosco. – Suplicou-lhe, Corinne. Enquanto o fitava, encontrou-se tocando sua mente. Leu a resolução. Dayan estava decidido, despreocupado do perigo, completamente crédulo em si mesmo. Corinne suspirou.

– Você vai entrar, não é?

– É obvio que sim. Lisa e você precisam de roupa.

Ela o segurou pelo braço.

– Dayan, esqueça. Podemos comprar roupa. Nada vale a pena que o machuquem. Eu não gosto da sensação que a casa está me dando. Acredito que há alguém aí dentro ou estão nos observando.

Ele se inclinou para beijar a boca irresistível.

– Acredito que está absolutamente certa. A casa está sendo vigiada. Mas está perfeitamente a salvo aqui.

– Não vou esperar aqui enquanto você entra sozinho. Se insistir em ser teimoso, eu insistirei também. Posso fazer coisas extraordinárias, Dayan. Sei que seria de alguma ajuda.

Não ia permitir que ele entrasse sozinho.

Dayan sorriu, seus dentes estavam muito brancos na escuridão, lhe dando a aparência de um predador. Não sabia por que a imagem veio a sua mente, mas estremeceu. Ocasionalmente, captava lapsos na mente dele, de um predador selvagem. Coisas estranhas, como leopardos e aves noturnas. Imagens que se misturavam à névoa e garoa, de relâmpagos e ferozes tempestades. Tudo estava em sua mente, misturado com o que e quem ele era.

Havia imagens de um Dayan menino com outras crianças, correndo livres na selva, mas junto a ele haviam leopardos. Guardiões de aparência selvagem que pareciam estar lhe vigiando. Não estava segura de se estava captando retalhos de suas lembranças reais ou uma confusão de lembranças e imagens de fantasia. Era um mundo escuro, pouco adequado para o poeta que pensava que ele era. Nessas visões, ele era um escuro predador correndo com os felinos da selva, em busca de uma presa.

Corinne afastou as imagens para examiná-las. Era consciente de que Dayan não era exatamente o que parecia. Dayan era um forte psíquico com um talento enorme. Não tinha nem idéia do que era capaz.

– Já está divagando outra vez, céu. – Ele soava divertido– Está se assustando sem nenhuma razão. Que idéia! Fique aqui enquanto comprovo que a casa não está ocupada.

– Está? – Ela se mostrava curiosa, sobre como ele podia saber, a uma distância tão grande.

– Não há ninguém na casa, mas há um homem esperando no pátio, fora de nossa visão. Posso ler seus pensamentos. Há outro na porta de atrás. Está assobiando. Um terceiro homem está fumando um cigarro do outro lado da rua, três casas abaixo da tua. Se observar atentamente poderá ver a incandescência do cigarro, sob o alpendre. – Ele sorriu outra vez, desta vez com humor. – Ele está imaginando uma cena. Temo que não posso permitir que seus retorcidos sonhos se convertam em realidade.

– Pode ler seus pensamentos a esta distância? – Corinne acreditava. Sabia que ele dizia a verdade. Uma parte de sua mente lutava para encaixar as peças do quebra-cabeça, mas faltavam muitas ainda. Confiava em Dayan, mas na verdade, não conhecia. Tinha a sensação de que vivessem juntos toda uma vida, como se pertencessem um ao outro, embora acabasse de conhecê-lo.

Corinne mordeu ansiosamente, o lábio inferior.

– Você sempre parece tão amável, Dayan, mas me dá a impressão de ser muito perigoso. Pode ser bastante intimidante... Sabe? – Ela estava tentando rir de sua apreensão, mas percebia a violência nele, algo que bulia sob a superfície.

Ele a abraçou, trazendo-a para mais perto de seu corpo.

– Todos os homens são capazes de violência, céu. Se souber que alguém amado está sendo ameaçado. Os homens dos Cárpatos nascem protetores. É uma qualidade impressa em nós ainda no nascimento. Foi assim desde o começo dos tempos. Sua segurança e saúde é minha preocupação número um.

Por que tudo o que ele dizia parecia ser tão racional quando não era? Era a cadência hipnótica de sua voz? A notável beleza? A necessidade e a fome irradiavam dele quando estava perto dela? Corinne sabia que quando estava com ele, se sentia como se sempre o tivesse conhecido, como se seu lugar fosse sempre com ele. Estendeu a mão e lhe tocou o queixo, com seus acariciadores dedos.

– Posso mover objetos me concentrando neles. Sei que posso ser de ajuda.

Ele segurou sua mão, levando-a aos lábios.

– Tem um tremendo talento, carinho e te agradeço a oferta, mas me assegurarei de que não há perigo antes que saia deste carro. É de suprema importância para mim.

Corinne teve que afastar o olhar de seus olhos hipnotizadores. Podia cair nesses olhos e ficar presa ali para sempre, se não tomasse muito cuidado. Fora do carro, o vento estava se levantando, trazendo fios de névoa, que se elevavam do asfalto em longas caudas, formando em uma espessa neblina, enquanto se acumulava sobre a rua. Chegou rápida, como se chegasse do oceano, cheirando a salitre e algas marinhas. Corinne obrigou seu olhar a afastar-se do de Dayan, para estudar a rua.

– Olhe isso, Dayan. Alguma vez viu levantar uma névoa tão rápida ou tão espessa? – De certa forma era bastante arrepiante. Sabia que não poderiam conduzir o carro com semelhante tempo, ninguém podia ver nada. A própria névoa parecia estranha, como se extravagantes formas e sombras se movessem em seu interior. Podia ouvir um ruído, um sussurro contínuo de vozes, no meio da névoa.

– Está tremendo, Corinne. Não tema a névoa. É só o que é, névoa. Posso me mover com segurança pelos arredores sem ser detectado. – Dayan falou tranqüilamente, como sempre fazia, mas havia algo perturbador em sua observação casual. Como se a espessa névoa fosse coisa de todos os dias. Como se ele pudesse comandar a névoa.

Corinne levantou o rosto para ele, com os olhos muito grandes para sua face. Havia perguntas em seu olhar fascinado e respostas no olhar dele. O olhar sem piscar de um grande felino da selva. De um predador antes de atacar a sua presa. Corinne se moveu, numa sutil retirada feminina, mas Dayan simplesmente a sujeitou com mais força. O coração dela palpitava de novo erraticamente, ruidoso no silêncio da noite coberta de névoa.

– Corinne. – Ele sussurrou seu nome. Ou tinha pensado, fazendo que o som roçasse como asas de mariposa em sua mente? Seu tom era sexy. Tentador. Íntimo. Podia derretê-la, com a forma em que pronunciava seu nome. Ele colocou a palma da mão de Corinne sobre seu coração, cobrindo-a com a dela. – Carinho, ouça o som de meu coração falando ao teu. Deve aprender a relaxar e respirar. A respiração é essencial em sua vida, já sabe.

Ela inalou e seu coração já estava seguindo o forte padrão do dele. Pensou nisso, na forma que ele expressava as coisas. Essencial em sua vida. Seus olhos se elevaram, para poder estudar sua face. Fisicamente, ele era bonito, sensual e muito masculino.

– Não é essencial em sua vida?

Durante um breve momento, o humor brilhou nos olhos dele, fugazmente e depois, seus olhos ficaram profundos e insondáveis. Ocultando mil segredos.

– Algumas vezes é extremamente essencial. Como agora. Quando olho para você, rouba-me o fôlego. Simplesmente acontece. Quase não posso recuperar o fôlego.

Corinne se encontrou sorrindo, apesar de sua resolução de não fazê-lo. Ele era tão descarado, fazendo-a se sentir formosa quando estava grávida.

– Eu não notei que esse fenômeno tão peculiar. Terei que prestar mais atenção.

– Então não deve ter notado tampouco que minhas pernas enfraquecem. – Na escuridão, a névoa capturava o carro e os estranhos sussurros insidiosos. Corinne agradecia a sólida forma de Dayan e a risada que estava provocando. – Acredito que voce inventa essas coisas só para me fazer rir e esqueçer esses homens que esperam na escuridão, para te fazer mal. – Ela estava deslizando os dedos pelo braço dele, ausentemente. – Quero ir com você.

Sua mente era uma sombra na dela. Não tinha medo por si mesma, estava com medo por ele. Estava decidida a lhe acompanhar.

– Carinho. – Ele sussurrou a palavra contra sua pulsação, contra sua pele nua, convertendo seu sangue em lava fundida, espessa e ardente, atravessando-a com urgentes demandas. Ela era tudo para ele. Luz e risos, serenidade e poesia e... Seria sexo ardente. Tinha classe e era doce, elegante, encaixe e noites iluminadas com velas. Era a força e a frescura das espumosas cascatas, dos bosques escuros. Havia uma selvageria no fundo dela, que surgia a primeiro plano, quando estava com ele. Uma selvageria que igualava a sua. Suspeitava que isso a surpreendia, porque não sabia que existisse. Mas devia tê-la, pois estava em sua música, nas canções que escrevia para que os outros cantassem. Dayan a atraiu mais, de forma que seus corações pulsassem no mesmo ritmo, o coração dela igualando o batimento firme de seu coração.

– Ficará neste carro, meu amor, onde a névoa a protegerá e a manterá a salvo. Estes humanos não podem me fazer mal. Assegurarei-me que partam.        Corinne reconheceu o "empurrão" que havia em sua voz, a urgência para obedecer era quase impossível de ignorar. Tanto como a irritava e intrigava-a, essa qualidade hipnotizadora de seu tom. Antes que pudesse pensar, a boca de Dayan estava cobrindo a sua, afastando todo pensamento de seu cérebro e substituindo por pura sensação. Depois, ele saiu, deslizando-se velozmente para fora do carro, deixando-a ali sentada, despojada.

Corinne ergueu as pernas encima do banco e dordeu uma unha. Dayan. Ele tinha se infiltrado sob sua pele, enredando-se em volta de seu coração, gotejando em sua alma de forma que não podia deixar de pensar nele. Não podia deixar de desejar estar com ele. Havia algo diferente nele. Cada vez que pensava que se aproximava da resposta, ele distraía-a. E fazia simplesmente, casualmente e sem esforço.

Olhou pela janela e viu a espessa névoa. Não podia ver nada mais e a falta de referências visuais lhe produziu a ilusão de estar flutuando no céu, agasalhada por nuvens ondulantes. Nada tinha a capacidade de comandar o céu, o tempo. Então por que acreditava que Dayan havia atraído a misteriosa névoa? Não era natural. Ouvira o sussurro de vozes, visto as formas sombrias se movendo. Era aterrador, mas ele tinha saído sem nenhum medo, como se soubesse que ela não sofreria mal algum.

Por que ele utilizava termos tão estranhos? Corinne pensava, enquanto batia no queixo, com o dedo indicador. Mortais. Ele utilizara essa palavra, como se fosse natural e significasse alguma coisa. Havia dito que os humanos não poderiam lhe fazer mal. Como se ele não fosse humano. Corinne sacudiu a cabeça, tentando afastar a idéia.

É obvio que Dayan era humano. Que mais poderia ser? Um animal? Certamente havia uma qualidade animal na forma em que ele se movia. Era como um grande felino selvagem. Havia algo em seus olhos, na forma em que se movia seu corpo. No que estava pensando? Uma mítica pessoa-gato? Corinne deixou escapar o ar, lentamente. Era muito louco estar sentada na escuridão permitindo que sua imaginação corresse livremente, enquanto Dayan estava lá fora e rodeado de assassinos. Ele não acreditava precisar de ajuda, mas ela sabia que podia lhe ajudar se fosse preciso. Resolutamente, estendeu a mão para o trinco da porta do carro. Sua mão tremeu e ela se encontrou detendo o gesto, a meio caminho e começou a suar. Tudo nela exigia que ficasse no carro.

Cuidadosamente, Corinne pressionou as mãos sobre seu bebê. Estava passando por algo importante e simplesmente não podia entender tudo. Dayan era diferente, tinha um tremendo poder, mas era bem mais que isso. Pequenas coisas que não faziam sentido. Coisas que ninguém mais parecia notar sobre ele. Coisas que ela via quando suas mentes estavam fundidas. Ao princípio só ouvia sua voz, mas cada vez mais, pequenos detalhes abriam passo a sua mente. Estranhas imagens. Feitos. Imagens vívidas e detalhadas de história, de lapsos de tempo muito antigos. As imagens eram imprecisas, mas estavam ali, em sua mente.

Dayan se afastou tranqüilamente do carro, com a névoa cobrindo-o, lhe envolvendo firmemente em seus fios. Tocou a mente de Corinne uma vez mais, sorrindo para si mesmo, pela forma em que ela estava trabalhando para descobrir a verdade. Corinne. Seu coração e alma. Seu ar. Corinne havia tocado coisas em sua mente, cada vez que ele se fundia completamente com ela. Seu passado. Guerras e desenvolvimento de nações. Detalhe vívidas gravuras em sua memória. Façanhas de força. Vários períodos de tempo. Era parte do que tinha formado seu caráter. Sua família. Darius. Os vampiros atacando sua unidade familiar por causa das duas mulheres. Concertos. Milhares de concertos. Alguns, como trovadores vagabundos, outros em estádios de futebol. Carruagens puxadas por cavalos e automóveis antigos. Cada lembrança sombreada pela escuridão da noite. Criaturas da noite. Seu mundo.

Dayan colocou a mão sobre o teto do carro, sobre a cabeça dela, sabendo que era completamente invisível, sabendo que ela se preocupava com ele. Que estava tentando resistir a sua suave ordem sussurrada, que lhe exigia obediência. Derreteu seu coração, saber que estivesse tão decidida a lhe proteger, quando ela mesma era tão pequena e delicada e sua saúde tão frágil. Seu amor por ela, crescendo a cada momento que passava em sua companhia, estava-se convertendo em algo belíssimo.

Baixou o olhar até sua mão, mantendo a imagem da mudança em primeiro plano, em sua mente. Sua mão deformou, curvou-se e saíram garras onde antes eram suas unhas, ondeou uma pelagem sobre sua pele e se afastou do carro, enquanto a transformação acontecia. Estendeu-se para ela, abraçando-a, celebrando a completa liberdade. A criatura tinha estado ali na mente dela, compartilhando seus pensamentos. Pessoas–gato. Gostava disso. Ela tinha captado imagens de seu mundo, das caças utilizando o corpo de um grande felino para prover-se de alimento. Dentro do corpo compacto e robusto do leopardo, Dayan sorriu. Ela estava mais perto da verdade do que supunha e ele se sentia inexplicavelmente orgulhoso dela, por isso.

Silenciosamente, o magnífico felino se moveu sobre as grandes patas, através da rua coberta de névoa. Caminhou, confiando em sua incrível audição e visão noturna. Deu ordem ao fantástico reino noturno. A noite era seu reino indiscutível. Dayan utilizou o corpo do leopardo para "ver" os objetos a sua volta. Sabia exatamente onde estava sua presa. Dentro do corpo do leopardo, aproximou-se mais do objeto da caça. Seus músculos ondearam como cordas robustas sob sua fluida pele quando se aproximou.        O homem esmagou seu cigarro sob a bota e voltou a colocar sua escopeta sobre o colo. A névoa estava lhe deixando nervoso. Era espessa e tornava-se impossível ver através dela, mas podia jurar que haviam figuras movendo-se nela. Inclinou-se para fora, ouvindo tão atentamente como pôde, procurado qualquer som de algo que se aproximasse. Ficou nervoso. Um pequeno tremor começou em seu interior e se propagou através de seu corpo.

Não havia nada lá fora, nada que pudesse ver, nada que pudesse ouvir, mas ele se sentia ameaçado. Espreitado. Nervosamente, saiu do alpendre, agradecendo que os proprietários estivessem fora durante alguns dias. Tinha sido bastante fácil inteirar-se de que o casal estava de férias. Esta propriedade era o ponto de observação perfeito para manter vigiada a casa Wentworth. Começou a andar de um lado a outro. Nunca veria o felino se aproximar dele, nem seu corpo abaixado sobre o chão, arrastando-se para frente, centímetro a centímetro. Silencioso. Mortal. Olhos dilatados fixos em sua presa. Nada fez o homem suspeitar, que um inimigo muito mais poderoso que ele estava a escassos centímetros de distância. Quando veio o ataque, foi rápido e explosivo. O animal estava sobre ele, com sua força enorme, suas garras rasgando e perfurando sua garganta, em completo silêncio.

O leopardo saltou sobre o teto da casa, levando o cadáver com ele. Escondeu sua presa sob uma janela com uma aguda inclinação do beiral em forma do A. Dayan teve que lutar com os instintos do grande felino faminto por sua presa, tornando mais difícil derrotar a escuridão que crescia e se estendia em seu interior. Conseguiu, pois agora tinha Corinne em sua vida, sentia-se forte novamente. Tinha a alguém por quem viver, alguém a quem amar. Alguém que fazia com que tudo valesse a pena. Dayan respirou fundo e dirigiu ao leopardo de volta para a rua.

O felino saltou facilmente até o chão, movendo-se velozmente através da espessa névoa, para a residência Wentworth. Um homem esperava na parte de trás, que Corinne voltasse para casa. Possuía uma pistola e uma faca e ordens de levá-la ao laboratório ou matá-la. O felino pôde sentir o cheiro do homem, através da espessa névoa. Um segundo homem estava na soleira, com as mesmas ordens e a mesma determinação.

Estavam bem alertas, até temerosos. Dois de seus amigos desapareceram sem deixar rastro. A sociedade queria respostas rápidas.

O leopardo se moveu com a mesma tranqüila confiança, o mesmo silêncio com que espreitarara a outra presa. A grade de ferro foi atravessada com um salto fácil, e o animal aterrissou brandamente sobre suas patas. A névoa se movia em pequenos farrapos e depois começando a se espessar, como se tivesse vida própria. Roçou contra as pernas do homem do pátio. Este olhou a seu redor, procurado algo vivo que pudesse ter lhe tocado.

Com um juramento, passeou de um lado a outro do gramado, olhando os pés. A névoa se moveu como uma serpente gigante, envolvendo-o. Voltou-se para olhar a casa, quando notou o incomum fenômeno. Com o coração palpitando, sua mão atravessou-a. Seu alívio foi imediato.

– Mike? – Chamou seu companheiro, súbitamente desejando sair da opressiva névoa. Era espessa demais e ele se sentia como se não pudesse respirar adequadamente.

Mike, na soleira da porta, ouviu a chamada amortecida e se voltou, tentando ver através da espessa neblina.

– Drake? – Acreditou ter visto uma figura alta e pálida que se movia na névoa, mas era vaga e sombreada e não se parecia absolutamente à constituição de seu companheiro. Apertando o olhar, inclinou-se mais para a espessa e opressiva forma, seguro de que agora havia mais de uma figura se movendo. Levantou a arma, tentando apontar para as amorfas e transparentes figuras.

Era um animal e não uma pessoa, decidiu ele, baixando a arma. Estava ouvindo mas a estranha névoa amortecia os sons fazendo com que se sentisse separado do resto do mundo. Definitivamente não era humano. As formas dentro do branco véu pareciam enormes felinos. Quando cravava os olhos nelas, desconcertado pelo estranho fenômeno, os felinos pareciam lhe devolver o olhar, fixando seus brilhantes olhos sobre ele. Olhos vermelhos. Olhos que ondulavam e pareciam estranhos e ameaçadores, em meio da névoa. Para se tranqüilizar, Mike reafirmou a mão sobre a pistola enquanto retrocedia para esmagar seu corpo contra a parede, fazendo-se tão pequeno como foi possível.

Se era uma ilusão, por que havia um felino avançando, emergindo da névoa, olhando fixa e ferozmente para ele? Nós de pesados músculos ondeando-se em uma pelagem pintada, com a cabeça baixa, mas sem afastar nunca os olhos de sua presa. Mike tentou atirar, seus dedos avançavam sobre o gatilho numa desesperada tentativa de matar a forma, mas sua mão parecia paralisada. A arma não disparou. Nada sortia efeito.        Estava paralisado olhando intensamente para os olhos de chamas vermelhas, quando algo lhe golpeou com força no peito e ele tossiu. Foi o último som que fez. O leopardo era tão forte que quando o atacou, esmagou o peito do homem, enquanto as afiadas garras atravessavam sua garganta procurando sua morte. O leopardo arrastou o corpo do homem até o pátio, para o outro humano.

Drake estava lutando para abrir espaço entre a névoa para onde Mike estava esperando. Farrapos dessa coisa pareciam envolvê-lo, deixando-o como se fosse uma múmia. Acreditava que podia sentir os fios roçando aqui e ali, contra seu corpo, mas quando tentou afastá-los, suas mãos se afundavam completamente na névoa.

– Mike? – Encontrou-se sussurrando, movendo os pés cuidadosamente, cautelosamente, medindo seu caminho através da grama. Estava procurando a alvenaria que assinalaria que estava perto da casa. A ponta de sua bota bateu em algo sólido. Não parecia tijolo. Cuidadosamente, mediu o objeto com a bota. Uma sensação doentia começou no fundo de seu estômago.

– Mike? – Sussurrou novamente, enquanto se abaixava para apalpá-lo com as mãos.        O ar explodiu em seus pulmões. Era Mike. Drake ofegou em voz alta, voltando-se em todas direções, com a arma na mão e os olhos selvagens enquanto procurava seu inimigo. Com a mão livre examinou o corpo, procurando a pulsação. Sua mão baixou sobre uma espessa pelagem. Inalou agudamente e sua mão moveu por própria vontade sobre a forma de um crânio. Depois os bigodes, a boca aberta e os afiados caninos. Drake tentou gritar, mas o felino já se lançava, enterrando os dentes profundamente em sua garganta desprotegida, antes que pudesse adverti-lo. Um som rouco e profundo, depois a morte.

Dayan mudou de forma imediatamente, pegando o homem em seus braços, colocando a arma no bolso de sua calça, enquanto recolhia o segundo corpo. Deu dois saltos, com os homens sobre seus ombros. Seu peso não era nada para ele enquanto sobrevoava o céu, sob a cobertura da espessa névoa. Recolheu o terceiro corpo do teto e uma vez mais se dirigiu para o bosque, algumas milhas para fora da cidade.

Levou poucos minutos para se dispor dos corpos, do mesmo modo que tinha feito com os outros dois. Incinerou-os com um raio antes de enterrá-los profundamente e pulverizar vegetação sobre o lugar, para que parecesse não ter sido perturbado. As armas foram sepultadas na terra, com as cinzas. Depois Dayan retornou a Corinne, saindo silenciosamente da névoa, junto ao carro.

 

- Estou aqui contigo, carinho.

Dayan fez o tranqüilizador anúncio antes de tocar a maçaneta da porta do carro, temendo sobressaltá-la. Era uma sombra na mente dela, sabia que ela realmente estava com medo e se preocupava com sua segurança. A névoa era opressiva para ela. Podia sentir quão incômoda ela estava, sentia que o bebê a chutava com força, mas seu coração e pulmões estavam se esforçando. Enviou seu amor à mente dela, forte e intensa, a tranqüilidade dele estava em plena forma.

Corinne se precipitou para a porta, enquanto ele a abria. Em seguida, lançou-se em seus braços, sem se preocupar com o que ele pudesse pensar.

– Estava tão preocupada com você.

Ele a abraçou com força, saboreando a sensação do frágil corpo contra o seu.

– Respire, carinho. Dá-me um susto de morte quando seu coração tenta funcionar com tanta força. Nunca estive em nenhum perigo. Nunca. Tem que me ouvir. – Ele baixou o rosto contra o pescoço suave dela, inalando sua fragrância, respirando profundamente, fazendo que os pulmões dela seguisse o padrão firme dos dele.

Corinne esfregou o rosto contra o peito amplo.

- Nunca sei exatamente o que é realmente importante ou o que é pura tolice. – Admitiu em tom de brincadeira, tentando desesperadamente aliviar a tensão, quando na verdade queria chorar de alívio.

Dayans sorriu, agradando-a.

– Você é muito boa para meu ego. Todos os outros me obedecem e acredito que você também deveria.

Ela se afastou contra vontade, de seus braços e olhou a seu redor, com surpresa, ante a rapidez que se desintegrava o banco de névoa. Estava-se afastando e desaparecendo como se nunca havia estado ali.

– É a mim quem todo mundo ouve, Dayan. – Assinalou ela, sua mente dando voltas ao peculiar fenômeno.

Dayan entrelaçou seus dedos aos dela, para atrai-la de volta a ele. Manteve-a firmemente apertada sob seu ombro, enquanto caminhavam para a casa.

– E certamente é a mim a quem todos obedecem. – Ela encaixava perfeitamente, sua pequena forma movendo-se contra a dele, suave e feminina, lembrando-lhe continuamente, as maravilhosas diferenças entre eles.

Corinne levantou o olhar, estudando seus traços, depois baixou a cabeça para ocultar sua expressão. Os olhos dele sustentavam amor e carinho enquanto a fitavam, mas implacáveis quando olhava ao longe. Ele parecia mais animal que humano. Até seus movimentos, fluídicos mas poderosos, pareciam desumanos. Ela lutava para entender exatamente o que havia nele que achava tão intimidante.

Seu coração, em lugar de igualar o ritmo do dele, estava palpitando maus duro e rápido. Ela estava com a boca seca.

– Dayan.

– Por que tem medo de mim, quando a trato tão gentilmente? – Sua voz era consoladora e tranqüila. Nunca soava molesto ou irritado. Dayan tomou as chaves da porta principal de sua mão e a abriu.

Corinne pensou longo tempo antes de responder.

Exatamente o que a assustava em Dayan? Olhou à mistura de ângulos e planos de sua face. A forte linha de seu queixo. Sua boca esculpida.

– Não acredito que eu seja, na realidade. – Ela pensou em voz alta. – Há algo diferente em você, Dayan... Algo perigoso. Mas não para mim. Não acredito que a ameaça esteja dirigida a mim. – Seu queixo seguiu alto. – Sempre detestei a forma em que todos queriam me dizer o que fazer com minha vida por causa de minha saúde. Tenho um bom cérebro e posso pensar por mim mesma. Se você escolher passar seu tempo comigo e quer cuidar de mim, conhecendo completamente as repercussões que pode haver e o que provavelmente me acontecerá, então que assim seja. É sua escolha, Dayan. – Levantou as mãos e colocou-as no rosto dele. – Só quero que saiba que se importar muito, a morte pode ser muito dolorosa para que fica para trás.

– Isso deteria você, Corinne? – Perguntou ele, tranqüilamente, mas seu olhar escuro vagando pensativamente sobre o rosto dela. – Se fosse eu, que tivesse mal, você se afastaria de mim?

Um lento sorriso curvou a boca dela, iluminou sua face e dissipou a preocupação oculta em seus olhos.

– Eu amo a vida, Dayan. Acredito em vivê-la. Nunca deixaria passar o amor ou o riso ou o conhecimento, por temer à dor. Seria um pequeno preço a pagar por sua companhia. Mas, eu conheci a dor e experimentei coisas que os outros não. Aprendi o valor do amor e do riso.

Dayan girou a cabeça ligeiramente, enquanto seu olhar permanecia fixo no rosto dela, devorando-a. Beijou-lhe a mão, levando um dedo a sua boca.

Em seguida, o corpo dela se esticou. Ele a fazia sentir-se formosa, sexy e muito desejada.

– O que acredita que está fazendo? – Enfrentou-o, com o coração nos olhos e seus seios se elevando, com antecipação.

A língua dele fez uma lenta e sedosa carícia ao longo de seu dedo, depois relutantemente, ele a soltou.

– Te seduzindo. – Admitiu Dayan, sem remorso. Inclinou a cabeça para encontrar sua boca, beijando-a num beijo longo e lento com o qual queria expressar o que não parecia ser capaz de expressar com palavras. Poeta ou não, não havia palavras para dizer quanto ela significava para ele. Nem palavras para dizer que a seguiria a qualquer parte. Que ela era para ele, sua vida.

– Você se expressa muito bem. – Corinne sussurrou as palavras na boca dele, em sua alma.

Dayan se arrepirou e seus braços a aprisionaram firmemente a ele. Não houvera intercâmbio de sangue. Mas ela estava lendo sua mente. Deslizando-se como uma sombra, com habilidade e facilidade, chegando aonde somente os de sangue Carpato poderiam ir. Ela tinha aprendido muito? Seu coração não estava se esforçando mais que o normal. Cuidadosamente tocou sua mente. Corinne sequer notara o que tinha feito.

Ela se afastou numa pequena e delicada retirada, que o fez sorrir enquanto abria seus braços para permiti-la escapar.

– O que te atrai tanto na música? – Perguntou Dayan, estudando as revistas de música sobre a mesinha do café.

– A música me leva a todos esses lugares onde meu corpo nunca me permitirá ir. – Disse Corinne, olhando-o quase que timidamente. Seu sorriso suave fez os joelhos de Dayan tremerem. – Sou capaz de sentir a sensação de saltar de um avião ou nadar sob o oceano, selecionando a peça correta. Não importa onde esteja, ou o difícil que seja respirar, se posso ouvir música, saberei que tudo está bem. – Seu sorriso era coibido. – Provavelmente é tolice, mas você é forte e livre. Eu sou uma prisioneira neste corpo. Meu coração, minha alma e meu cérebro desejam coisas que nunca experimentarei, então utilizo a música para alçar meus vôos.

Dayan não disse nada. Não podia falar. O nó de sua garganta estava bloqueando sua capacidade de respirar. Era a forma em que ela vivia sua vida. Corinne aceitava o que lhe havia tocado e vivia completamente, apesar de suas limitações. Abraçava a vida. Saboreava-a. Experimentava-a. Podia imaginá-la voando como um pássaro no céu, equilibrando-se através das copas das árvores. Ele sempre teria que permanecer perto dela, observando-a ou Corinne iria até as estrelas.

– Não lamente por mim, Dayan. – Disse ela, com suavidade. - Fui incrivelmente afortunada. Entesouro cada dia que tenho. – Ela voltou-se para olhar sua casa. – A vida me deu muitas coisas, algumas inesperadas. Venha comigo, olhe isto, Lisa é uma cretina absoluta, quando se trata de instrumentos de música, então não gosta, mas você sim. – Ela pegou-o pela mão. – Sei que sim.

Foi com ela porque não havia outra escolha. Poderia segui-la até o fim do mundo. Ela levou-o pelo do vestíbulo até o piano, expondo rapidamente as teclas de marfim.

– Ouça isso. Ouve o som. – Suas mãos deslizaram sobre as teclas, revoando e colocando-se para tocar uma sonata que ele reconheceu imediatamente. O som era formoso e as notas autênticas. Dayan observou como os dedos dela deslizavam sobre as teclas. Corinne tocava sem esforço, com um certo abandono, perdendo-se completamente na música. Tocava da mesma forma que vivia a vida. Como amava a ele. Apaixonadamente, com toda sua alma. Entregando-se livremente, generosamente. Uma fusão completa de seu corpo, alma e coração.

Corinne era formosa. Sua cabeça inclinada sobre as teclas, com os olhos fechados, o cabelo despenteado e revolto ao redor de sua face, sua expressão de concentração e enfeitiçado rapto. Dayan se estendeu em volta dela, com as mãos sobre o piano, de forma que seus braços criaram uma parede efetiva. Inclinou-se para saborear a tentação da nuca de Corinne. Sua fragrância natural o atraía, atacando seus sentidos fazendo com que não pudesse pensar mais que em Corinne. Em sua pele suave e seu corpo incitante. Na paixão nela, a magia.

       Os dedos de Corinne se imobilizaram sobre o piano e ela girou entre seus braços, elevando-se para encontrar o calor de sua boca. Encontrou fogo e chamas. Uma explosão de luz solar e uma destrutiva necessidade, mais exigente que a vida. Alimentaram-se um do outro, devorando um ao outro, incapazes de se aproximar, o suficiente. A boca dele era quente e exigente. a dela sedosa e insistente. Ela perdeu-se a nessa boca, em seu sabor masculino. Ele não podia conseguir o suficiente, alimentando-se dela, tomando a doçura que ela o oferecia, como um homem morto de fome.

Corinne deslizou as mãos sob a camisa dele, as mãos de Dayan tiravam a blusa dela. O fogo era explosivo, o calor infernal. Não havia pensamento racional, só a sensação de pele, de suave cetim e os firmes, definidos e duros músculos dele.       Dayan mudou a de posição, seu joelho trouxe-o entre as pernas dela, de forma que ela ficasse sobre sua coxa. Deixou escapar um suave som, uma nota afinada de fome, abrindo passo até sua alma. O tom perfurou o coração de Corinne, invadiu sua mente fazendo-a lhe envolver a cabeça com os braços, oferecendo-lhe tudo. Desejando ser o que ele necessitasse. Ele puxou a camisa fora de seu caminho, tudo enquanto os lábios estreitamente unidos executavam uma dança de sedução.

Sua língua acariciava e tentava, dançava com a dela. Seus dentes lhe mordiscavam os lábios, os cantos da boca, estabelecendo-se sobre sua covinha. Seus lábios vagaram sobre a pele, descendo pelo pescoço e garganta, deixando chamas a seu passo. Ele levantou a cabeça. Inalando. Bêbado da essência dela, profundamente arraigada em seus pulmões. Seus olhos deslizaram sobre ela.

Descansaram sobre o seio firme, de pele acetinada e tentador.

O soutien era de renda rosa escuro e encaixava amorosamente os seios cheios, acentuados pela gravidez. Corinne ouviu a respiração trabalhosa dele, enquanto lentamente ele inclinava a cabeça para ela. O cabelo negro e longo deslizou sobre a pele de seus ombros, roçando-a como uma sedosa carícia. Suas mãos eram incrivelmente gentis acolhendo os seios dela, para dar melhor acesso a eles. Sua língua dançou eroticamente sobre o mamilo. Ondas intensas, sensações inéditas a invadiram, sacudindo-a, quando a boca, quente e úmida, fechou-se ao redor da carne dolorida. As pernas de Corinne se dobraram sob ela, que se recostou contra o piano e as teclas reclamaram e tocaram uma nota discordante. Crepitaram relâmpagos em sua corrente sangüínea, correndo por todo o seu interior, tomado pelo desejo.

Seu corpo se esticou e umedeceu. Corinne fechou os olhos e se abandonou ao puro êxtase da sensação que ele evocava com sua boca. Com suas mãos.

Uma pequena nota discordante invadiu a consciência de Dayan. Um sussurro de problemas. A respiração dela era difícil, o coração dela se esforçava para acompanhá-lo. Rapidamente, Dayan levantou a cabeça e enterrou o rosto no ombro de Corinne. As mãos dela ainda exploravam suas costas, conduzindo-o ao limite da loucura. Num atmo, ele segurou-a pelas mãos, a fim de imobilizá-la. Quando conseguiu voltar a respirar, quando se sentiu seguro, levantou a cabeça para fitá-la. Ela estava linda, com sua boca marcada pelos beijos, seus olhos grandes e deslumbrantes, mostravam todas as suas sensações. Dayan quase se desfez.

– Seu coração e o bebê, carinho. – Recordou-lhe, ele. – Mais alguns minutos e não seriamos capazes de parar. Não quero que se esforce inesperadamente. Sua segurança e a do bebê estão primeiro lugar. Fui egoísta, me perdoe. Na verdade, não pensava com claridade.

Sua voz foi uma aliança de notas fantásticas, tão formosas que atraiu lágrimas aos olhos de Corinne. Ele envolveu-a num casulo de segurança, numa escura melodia de amor e desejo sensual.

– Não há nada a perdoar, Dayan. Foi mútuo. Eu te desejo tanto como você a mim. Obrigado por ser forte o suficientemente, por nós dois. – Suas mãos desceram protetoramente para cobrir seu bebê e ela sorriu-lhe. – Na realidade, eu tampouco estava pensando com claridade e se me conhecesse realmente, saberia o estranho que é isso para mim.

Os olhos dele vagaram sobre sua face, intensos, famintos e... Liquefeitos.

– Você é meu mundo, minha alma, Corinne. Não me conhece, porque não pode fundir sua mente a minha, mas eu posso ler seus pensamentos e suas lembranças. Eu a conheço como nenhum outro poderia. Não preciso de dias, semanas ou meses para te conhecer. Só preciso tocar sua mente para saber como é. Sei o quanto que o bebê significa para você. Seremos bem mais cuidadosos, a partir de agora.

Com carinho, ele baixou sua blusa, cobrindo os seios inchados e chamativos. Corinne rodeou o pescoço dele com os braços e se inclinou sobre seu corpo, permitindo que ele tomasse seu peso.

– Sinto muito, Dayan. Não pretendia que as coisas fossem fugir do controle. Terei mais cuidado. – Ela deslizou a mão pelo peito dele, desceu-a e colocou na frente da calça jeans dele. – Não quero te deixar assim. – Ela podia sentir o vulto de sua ereção, pesada de desejo.O corpo dele estremeceu de excitação, de antecipação endurecendo-se mais e seu sangue se espessou. Dayan respirou fundo, tranqüilizador.

– Quer dizer da mesma forma que eu deixo você? Dolorida e incompleta? Sei que seremos um só, Corinne. Quando eu for capaz de cuidar de suas necesitades, sei que se ocupará das minhas. – Ele pousou um beijo na da têmpora dela. – Estamos juntos nisso.

Ela afastou-se, para fitar seus olhos.

Você está falando sério, não é?

Dayan assentiu.

– Não sou um santo, Corinne e você está me olhando com estrelas nos olhos. Quero te devorar agora mesmo. Acredito que o mais seguro será que pergarmos suas coisas e as de Lisa e voltar para onde não possamos ficar sozinhos.

Corinne se apoiou nele, pressionando um beijo contra a dos cantos da boca dele.

– Odeio lhe dizer isso mas minhas coisas estão no quarto. – Ela provocou-o e se afastou, sabendo que estava perfeitamente a salvo com ele. Suas pernas não estavam de tudo firmes, mas ela conseguiu caminhar sem cair. Ele a seguiu até o interior do quarto, observando-a com seus olhos escuros e intensos. Ela sentiu o peso de seu olhar enquanto percorria o aposento, o que não fez acalmou sua própria tempestade de desejo. Resolutamente reuniu suas coisas sem voltar a olhar para ele. Dayan roubava-lhe o sentido comum e pelo bem dos dois, tinha que ser responsável. Corinne passou ao quarto de Lisa, detendo-se durante um momento para colocar a mão sobre o bebê. Dayan havia protegido-as.

– Ela está acordada? – Perguntou Dayan, brandamente, convertendo a pergunta em algo pecaminosamente íntimo.

Corinne assentiu, temendo fitá-lo, temendo perder-se na terrível fome dele. Em sua alma de poeta. Dayan se moveu atrás dela, tão silencioso como um felino e a envolveu com seus braços, sua mão descansou sobre a pequena protuberância do ventre dela. Inclinou a cabeça até que sua boca ficou perigosamente perto do frenético batimento do coração.

– Ela é muito forte. É um autêntico milagre. Em todo mundo, as pessoas têm bebês, mas não apreciam o milagre que é. Possivelmente, se não tivessem mulheres ou bebês, entenderiam que é um tesouro. Como eu entesouro a você, como entesouro sua filhinha.

Corinne fechou os olhos e permitiu que as palavras dele atravessassem sua mente. Como ele podia lhe dizer coisas tão belas? Como podiam suas palavras serem sempre tão perfeitas? Por que o havia encontrado agora, quando restava tão pouco tempo? Por um momento, se inclinou contra sua força dura e inalou sua essência selvagem e indomável, tão agradecida da enorme força, suas palavras de poeta e a forma em que a fazia sentir que sua filha era também parte dele. Totalmente aceita. Sem reservas.

– Quero que se sinta assim. – Disse ele, com ternura, mas provocantemente. - Porque é a pura verdade.

– Você é a tentação personificada. – Rebateu-lhe Corinne, mas sua voz demonstrou seu prazer e ela cobriu a mão morena, com a sua. – Poderia ter qualquer mulher, Dayan. Porquê está comigo? – Seu coração se lamentava por ele. Não queria que ele saísse ferido.

– Só existe você. Não posso ver nenhuma outra, jamais. – Respondeu ele, completamente seguro. – Você é tudo.

Corinne se afastou dele gentilmente, mas com pesar.

– E se eu não me sinto do mesmo modo? O que faria então? – Havia tanto interesse, como humor, em sua voz.

Ele se estendeu rodeando-a, para recolher as duas malas que estavam no assoalho.

– Esquece que leio mentes. Se verdadeiramente não me desejasse, então é obvio teria que aceitar, mas você é minha companheira. Não há engano. Vejo cores. Sinto emoções. Você me olhou e significou minha existência. Você me devolveu o olhar.

Corinne sorriu então... Não podia evitar. A alegria era imensa.

– Definitivamente olhei, não posso negar. E quero estar contigo. Conheci John toda minha vida. Amei-o, mas não podia lhe dar paixão, não podia lhe entregar minha alma. Você me viu e tudo em mim te deseja, desejo ser tudo o que você precisa.

Dayan sacudiu a cabeça. Corinne estava confusa pela intensidade de suas emoções, pela pura química entre eles. Não queria que ela se sentisse culpada por não ter compartilhado sua paixão com seu marido.

– Eu sou seu companheiro, você nasceu para mim. Conhecemos um ao outro. Reconhecemo-nos, porque devemos estar juntos. Você amava John como um querido amigo, mas seu lugar é a meu lado. Os companheiros não mentem um ao outro. Estou te dizendo a verdade.

Ela se estendeu para tocar seu queixo, seus dedos acariciando gentilmente.

– Obrigado, Dayan. – Disse Corinne e antes que intensa emoção que os envolvia, tomasse outro rumo, ela olhou ao redor. – Acredito que temos tudo.

Ele tomou pegou as malas e se assegurou que a casa estivesse bem fechada, antes de segui-la pelo caminho ladrilhado e cruzando a extensa grama imaculada. Corinne parou de repente, levantando o olhar para a abundância de estrelas no alto. As estrelas que não podia ver antes.

– Não são formosas?

Dayan assentiu e continuou caminhando para o carro. Corinne estava muito pálida e ele podia ouvir sua respiração trabalhosa. Ela agia como se tudo fosse normal, como se fosse forte, mas ele começava a se alarmar novamente. Queria pegá-la nos braços e voar, cruzando com ela o céu noturno, levá-la até o curador mais próximo, para exigir que a curasse.

– Precisa entrar no carro, carinho. – Aconselhou brandamente.

Ela assentiu, odiando a debilidade que evitava que desfrutasse de um prazer tão simples. Faróis a apanharam num foco brilhante, quando um carro dobrou a esquina e se dirigiu veloz e diretamente para ela. Corinne ficou congelada. Seu coração gaguejou e seu bebê chutou seu ventre, quando uma rajada de adrenalina fluiu pelo corpo de sua mãe.

Dayan deixou cair às malas e se moveu com velocidade sobrenatural. Abraçou-a e saltou sobre o carro veloz, tomando o ar. Lá embaixo, o motorista estava dando a volta, recuando e seus ocupantes gritavam, excitados. Ele podia vê-los claramente e a fúria ardeu dentro de sua alma. Não queria mais humanos ameaçando Corinne. Um grunhido baixo retumbou fundo em sua garganta e ele se inclinou sobre o sedoso cabelo dela, com intenção de lhe sussurrar uma ordem. Corinne segurou o braço de Dayan, enquanto atravessassem o céu às pressas. Ele já não corria. Estava segura de que seus pés não tocavam o chão. Ninguém podia se mover tão rápido. Ninguém. Sentia a maciez da respiração dele contra seu ouvido, sentiu-o fundir-se a sua mente, em ondas onda de tranqüilidade, de amor e compromisso.

– Não me diga que esqueça isto, Dayan. – Cortou-o, agudamente. –Não me ordene esquecer, Dayan. Ainda não. Deixe-me vê-lo.

Ela estava vendo-o, pela primeira vez. Antes, eram retalhos, pistas tentadoras, mas não podia encaixar as peças. Agora ele estava compartilhando sua mente e ela via lembranças, imagens. Dayan em diferentes períodos de tempo. Suas lembranças não tinham sentido para ela, mas sabia que eram reais e não tiradas de livros de história. Eram bem detalhadas, muito vívidas. E ela a tinha salvado do carro, saltando no ar. Potencialmente voando com ela.

- Seu coração deve igualar o batimento do meu. Ouça, Corinne, porque não a perderei. Respire comigo e não se assuste.

– Não tenho medo de você. – Sussurrou ela, em voz alta. - Não tenho medo de você. - Não queria que ele utilizasse sua habilidade telepática para privá-la desta lembrança. Estava enxergando a razão pela qual Dayan estava tão sozinho, tão absolutamente só no mundo, quando todos se sentiam atraídos para ele? Ele era completamente diferente.

Dayan a levou para a segurança dos telhados, colocando-a amavelmente no refúgio de uma janela arredondada. Olhou para o céu e imediatamente as nuvens começaram a formar redemoinhos no alto e acumulando-se, rápidas e furiosas. O espesso banco de névoa estava voltando, com o tempo instável.

Corinne observou cada movimento dele cuidadosamente, notando que sua expressão era exatamente a mesma, mas nas profundezas de seus olhos, ardia uma chama vermelha. De vingança.

– Vai enfrentar eles, não é?

– Quero que se concentre em seu coração, Corinne. – Foi uma ordem, entregue com sua voz aveludada. – É preciso que seu coração esteja estável. Ouça e sinta o meu. – Ele levou a palma da mão dela a seu peito, sobre seu coração. – Sente o ritmo? Pode controlá-lo, até certo ponto.

– Como pôde se mover tão rápido? – Perguntou ela, de olhos enormes, tomados pela surpresa. Corinne tinha sido fisicamente fraca toda sua vida e as habilidades de Dayan lhe pareciam maravilhosas.

– Conversaremos logo, carinho. Tenho alguns detalhes menores a atender agora.

Ela estendeu a mão e segurou-o.

– Tome cuidado, Dayan. Existe algo que se chama ser muito crédulo.

Ele inclinou a cabeça para lhe roçar a testa com um beijo. E se foi. Corinne piscou e Dayan havia desaparecido. Ela encolheu os joelhos, respirando lenta e profundamente, concentrando-se em seu coração, como ele ordenara. Permitiu-se o luxo de pertencer a ele, de saber que ela a desejava. Só a ela.

O que era ele? Quem era Dayan?

Dayan sentiu o enorme poder percorrendo sua mente, enquanto se dissolvia em gotas de neblina. Movendo-se através das capas de névoa, para o carro que rugia pelas das ruas. Um raio golpeou a terra diretamente no caminho do carro. O veículo deu uma inclinada brusca que fez dançar sua traseira, antes de seguir sua corrida. Caiu granizo do céu. Pedras de gelo, do tamanho de bolas de golfe, caíram sobre o teto do carro com tanta força, que o amassou. A visibilidade ficou eliminada pela espessa névoa e o grosso gelo. O motorista pisou de repente nos freios e o carro deslizou até parar. Imediatamente a mortífera névoa invadiu o veículo, entrando pelas janelas e enchendo os espaços vazios, até que trouxe para fora, todo o ar.

Dentro, a névoa era uma mistura peculiar, um rastro vaporoso de sombreada cor que deixava uma impressão de grande ameaça. O motorista procurou a maçaneta da porta, mas já era tarde. A névoa serpenteava em volta de sua garganta, como a cauda de uma serpente. A neblina estranhamente colorida se apertou firmemente, até que o motorista se sentiu estrangulado. Sua respiração ofegante, sua pele se tornando cinza, depois azul, até que ele viu sua sentença.

Os dois homens do assento de atrás procuraram simultaneamente as portas. A névoa parecia viva, fibrosa, com tentáculos que se estendiam para envolvê-los, deslizando ao redor deles, como nós corrediços. Lutaram freneticamente, mas seus esforços provocaram que os laços de névoa os apertassem mais firmemente, até que ficaram asfixiados, procurando rasgar as caudas que rodeavam suas gargantas. Suas mãos simplesmente atravessaram a névoa como se fosse neblina e nada mais. Morreram silenciosamente, sem oportunidade de gritar pedindo ajuda.

Dayan conduziu o veículo através da espessa névoa, utilizando seu peculiar radar para manter a nuvem que o cobria, enquanto afastava o carro da vizinhança de Corinne. Estes homens seriam encontrados, mas suas mortes desconcertariam a qualquer legista. Dayan não deixara marcas sobre nenhum deles. Os três pareciam ter se afogado até morrer ou estrangulados, de algum modo, mas não havia drogas em seus sistemas, nem marcas ou evidências de assassinato. Dayan estava cansado de ser açoitado e os membros da sociedade haviam ido muito longe desta vez. Estavam decididos a capturar ou matar Corinne e Lisa. Dayan não podia permitir que a sociedade ameaçasse sua companheira. Deixando os homens mortos em seu carro, a umas poucas quadras da casa de Corinne, estava enviando uma mensagem alta e clara aos membros da sociedade. Continuariam as perseguições, por sua própria conta e risco. Corinne e Lisa estavam sob seu amparo e ele destruiria a qualquer pessoa que as ameaçasse.

As negras nuvens no alto foram dissipadas pelos farrapos de névoa. Corinne se recostou sobre o teto, estudando as formações das nuvens, os relâmpagos arqueando-se de uma negra clareira a outra. Era um formoso desdobramento, mas também aterrador, porque parecia tão intenso e pessoal. Como Dayan. Tudo nele era intenso. Sempre estava exteriormente calmo, tranqüilo inclusive, mas ela sentia muito mais sob a superfície. Formando redemoinhos como as negras nuvens que havia sobre sua cabeça.

Tão rápido como foi, Dayan voltou, elevando-se sobre ela, alto e poderoso. Corinne piscou, em assombro total. Fechou os olhos quando ele se estendeu para ela. Alto, elegante e poderoso. Essa mesma ferocidade estava nele, obstinada a ele, junto a uma ameaça letal. Era algo que não podia definir.

– Disse a você que mantivesse estável seu ritmo cardíaco. – Ele saudou-a, a ameaça ainda era forte em sua voz. Levantou-a nos braços, embalando-a contra seu peito, fazendo com que seu coração começasse imediatamente a se sintonizar com o dele. E disse que não tinha medo de mim, carinho, mas seu pulso está acelerado.

– Você apareceu de um nada. – Disse ela à defensiva, batendo em seu ombro, com o punho fechado. – Sou humana e você sabe. – Levantando o olhar para ele, firmemente ela perguntou. - Você é humano, Dayan?

Ele inclinou a cabeça e sorriu, seus dentes muito brancos na noite.

– Você que acredita? – As palavras foram sussurradas suavemente contra a garganta dela, contra sua pulsação. – Pareço humano? – Sua voz era uma tentação.

Corinne sabia que era melhor não ouvir, era muito fácil deixar se distrair pela pura tentação dessa voz. Suas mãos por vontade própria, encontraram a abundância dos cabelos dele e emaranharam-se nos sedosos fios.

– Como faz tudo tão facilmente? – Perguntou ela, sabendo que seus olhos revelariam seus sentimentos, se ele não pudesse ler sua mente. Adorava estar com ele, adorava tudo nele. Desejava apagar esse olhar, das profundezas de seus olhos para sempre. O vazio. A solidão. – Estou começando a acreditar que você é mau para meu coração, Dayan. Pode derreter uma mulher a vinte passos. Pode... E faz com que mude o tempo.

A boca de Dayan continuava explorando sua garganta.

– Seriamente? Devo ser muito bom. Espero que semelhante feito ganhe sua eterna admiração. – Ele soava ligeiramente distraído, como se fosse mais importante descobrir a suavidade de sua pele, que manter uma conversa. – Está muito cansada, Corinne. Deveríamos sair para nos encontrar com os curadores esta noite, mas acredito que precise descansar. Você teve excitação suficiente por uma noite.

Sua cabeça descansava sobre o ombro dele. Estava cansada, agora mais que nunca. Enquanto ele a levava em braços, movia-se com tanta fluidez, que ela sentiu como se estivesse flutuando.

– Eu adoro dançar com você. – Murmurou sem abrir os olhos, desfrutando da brisa que soprava em sua face. – Eu adoro a forma em que se move.

– Então estou fazendo progressos, depois de tudo. – Ele a provocou.

Dayan flutuou com ela até o chão, com facilidade. Sua mente completamente fundida a dela, para poder controlar as impressões do que estava acontecendo, ofuscando as lembranças, um pouco de uma vez, até que lentamente desvanecesse. Gostaria de poder revelar o que ele era, quem era. Queria que Corinne o aceitasse, mas sabia que seu corpo era frágil e seu coração se debilitava cada vez mais. Não podia se arriscar ainda. Antes que ela averiguasse a verdade, queria que o curador lhe assegurasse que seu coração resistiria à surpresa. Enquanto lançava um nebuloso véu sobre os surpreendentes eventos da noite, acentuou diferentes lembranças. Marcou em sua mente, seus beijos, a resposta dela. Recuperando as malas, assegurou-se de que ela prendesse o cinto de segurança antes de sair.

Corinne se sentia tranqüila no assento junto a ele, surpreendida do quanto estava cansada. A tensão nervosa da gravidez estava começando a se notar. Dayan conduzia cuidadosamente através das ruas, com seus dedos entrelaçados com os dela.

– Não é estranho? – Filosofou, ela. – Se alguém não tivesse informado a Lisa de que você estava tocando nesse bar, nunca teríamos nos conhecido.

– Eu teria te encontrado. – Foi a declaração de um fato, tranqüilamente entregue.

Corinne guardou silêncio durante o resto do caminho, até a casa. Sua mente estava agradavelmente em branco. Estava cansada e estranhamente feliz, somente em estar em sua companhia. Minutos antes, farejara a selvageria nele, mas agora sentia sua tranqüilidade, uma calma absoluta que gotejava nas profundezas de sua alma. Dayan parecia feliz, conduzindo através da noite, cantarolando baixinho. A melodia, ela não conhecia, mas era belíssima.

Lisa estava esperando no pequeno balcão, tentando que não parecesse estar preocupada. Observou ansiosamente, enquanto Dayan ajudava Corinne a sair do carro. Ele a teria levado em braços, mas Corinne era bem consciente de que havia olhos sobre eles.

- Está te comportando como uma tola. - As palavras acariciaram sua mente, meigamente. - A quem importa o que penses?

Corinne convocou sua coragem, para lhe responder em sua mente. A pura intimidade da comunicação a deleitava. - Não quero que ela pense que não me sinto bem.

- Você não se sente bem. - Assinalou ele, agradavelmente.

Corinne levantou o olhar para ele, com uma veloz reprimenda antes de sorrir para Lisa. Sobre a cabeça dela, Dayan se encontrou sorrindo. Esta era sua Corinne. Doce e atrevida ao mesmo tempo.

– Sente-se bem? – Perguntou Lisa, com olhos ansiosos.

– É obvio. Estou só um pouco cansada. – Admitiu, Corinne. – Acredito que me deitarei logo. O que faz ainda acordada?

– Estava te esperando. – Lisa olhou para Dayan e afastou o olhar. Não estava segura de colocar sua confiava nele, quando estava a seu lado, e sentia desconfiança quando o tinha fora da vista. Ele fazia com que Corinne atuasse de forma alheia a seu caráter. Corinne nunca tinha cuidadoso tão atentamente os homens, nem sequer quando era solteira. Corinne era prática e séria. Não era do tipo que se pendurava numa estrela de rock. Lisa tentou não olhar o homem.

Dayan sentia simpatia por ela. Lisa estava irritada consigo mesma, por ser ciumenta. Não queria que Corinne olhasse para Dayan com estrelas nos olhos. Não queria que Corinne olhasse a ninguém assim. Não estava disposta que sua relação com o Corinne mudasse de forma nenhuma, mas não gostava de muito desta possessividade.

– Quase amanheçe. – Disse Corinne, amavelmente. – Deveria estar na cama, Lisa e não se preocupando por mim.

– Então não houve problemas. – Disse Cullen, envolvendo seu braço em volta dos ombros de Lisa, numa amostra de apoio.

– Bem... – Corinne pareceu confusa, um liguero esgar apareceu em seu rosto. Olhou para Dayan em busca de ajuda, enquanto nervosamente afastava uma mecha de cabelo, do rosto dele.

Dayan deslizou imediatamente em sua mente, com maciez e tranqüilidade. Ela ficou desconcertada e desorientada durante um momento, incapaz de dizer exatamente o que tinha acontecido. Estava procurando suas lembranças e estas eram uma amálgama.

– Nada de que não pudéssemos dirigir. – Respondeu ele facilmente, honestamente. Suas mãos se colocaram nos quadris de Corinne, ancorando-a a ele. – Se soubéssemos que estava preocupada, Lisa, teríamos chamado.

– É obvio que estava preocupada. – Disse Lisa desafiante, elevando o queixo.

Corinne se recostou pesadamente contra Dayan, a fraqueza a tomou.

– Lisa. – Disse tranqüilamente, recorrendo à força de sua relação.

Em seguida, Lisa se aproximou e pegou a mão de Corinne.

– Estou começando outra vez uma briga... Não quero que adoeça.

Dayan indicou a mala de Lisa, com o queixo.

– Ela cuidou em pegar tudo de sua lista. – Ele estava empurrando ao Corinne para o quarto onde ela havia dormido a noite anterior.

Corinne sabia que Lisa estava preocupada com ela, mas não tinha a energia suficiente para tranqüilizá-la. Tudo o que queria fazer era deitar-se e fechar os olhos. Sentia o corpo pesado e cada passo era como atravessar areias movediças.

Lisa estudou cada movimento de Dayan... A forma em que sustentava Corinne tão gentilmente, a forma em que seus olhos se moviam sobre o rosto de Corinne, meigamente, mas possessivamente. Lisa soltou um suave suspiro e se aproximou de Cullen. Ele respondeu apertando seu abraço e ela lhe sorriu bastante triste. Seu mundo estava mudando e Lisa não era alguém que se adaptasse facilmente as mudanças. Corinne parecia muito cansada e frágil. E Lisa sempre se assustava em vê-la assim. Sua fragilidade ressaltava, pelo fato de que o coração de Corinne enfraquecia.

– Não posso suportar que lhe aconteça nada. – Sussurrou Lisa, a Cullen. – Realmente não poderia.

Dayan, com sua audição superior, ouviu a confissão sussurrada. Sabia exatamente como se ela sentia e podia simpatizar com ela. Ele tampouco podia suportar a idéia de que algo acontecesse a Corinne. Inclinou-se, para beijar a cabeça dela, mas não podia deixar Lisa se sentindo tão nervosa. Voltou o olhar, para sustentar o ansioso olhar dela. Demorou alguns segundos, mas foi suficiente. Enviou-lhe ondas de tranqüilidade, empurrando-se no interior de sua mente, para poder implantar uma sensação de calma.

Corinne demorou para preparar sua cama. Dayan havia pegado seu violão e ela se viajou, quando ele começou a tocar. A música parecia viva, uma parte da harmonia da terra e o céu, uma balada de sonho. Ao princípio sua voz era tão suave, que ela quese não pôde captar a letra. Apressou-se em sair do banho, para entrar no quarto e assim poder ouvir cada palavra. Sua voz era mística, formosa e sonhadora. Levantou o olhar para ele e o mundo pareceu deixar de existir, imobilizando-se para que o momento ficasse preso em sua memória para sempre.

- Você me deixa sem fôlego.

Pensou as palavras para ele, não desejando interromper a canção, não desejando perder nenhuma só palavra da música. Era uma canção de solidão, de um homem, de um vagabundo, um trovador procurando algo no tempo, século após séculos, procurando uma mulher que pudesse lhe amar.

A boca sensual se curvou num sorriso e seu olhar vagou sobre ela, antes que as pálpebras dela baixassem e a mão dele sobre o violão. Seus dedos moviam rápidos enquanto tocavam a fantastica melodia. Ele cantou sobre uma sombra escura que se estendia lentamente sobre sua alma, uma mancha que seria impossível de erradicar, uma vez sobre ele. Uma poderosa fera que rugia continuamente para se liberar em seu interior. O tempo passava e ele não encontrava sua mulher, cores e emoções desapareciam, junto com toda esperança, lhe deixando somente seu violão e as palavras de suas canções.

Era uma melodia que trouxe lágrimas aos olhos de Corinne. Enrodilhou-se sobre a cama, estudando intensamente o rosto dele enquanto tocava. A luz incomodava seus olhos e casualmente moveu a mão para apagá-la. Tudo o que importava em seu mundo era Dayan e sua perfeita voz cantando essa canção formosa. Teve o súbito desejo de sustentá-lo de estar em seus braços, de ser a mulher que ele procurara tão desesperadamente.

A música mudou sutilmente, introduzindo uma veia auspiciosa, uma que se elevou a um alegre crescente. Ela encontrou-se a sorrindo na escuridão, com os olhos fixos no rosto dele. Dayan era um artista, um poeta sem par. Adorava ver sua expressão enquanto tocava, enquanto sua alma se vertia na música. As pálpebras de Corinne baixaram. Ela estava muito cansada. E Dayan estava ali com ela, sólido e real, impossivelmente forte e sadio. Por um momento o violão se silenciou, quando Dayan se estendeu a seu lado, com o instrumento sobre seu peito.

Ela sorriu.

– Vai tocar até que eu durma?

– Com certeza. – Ela ouviu o sorriso na resposta, em sua voz. – Que tenha doces sonhos, carinho. Sonhe conosco. – Seus dedos uma vez mais deslizaram sobre as cordas, produzindo uma suave balada.

Ela estava sonhando. Sonhando acordada. Sonhando adormecida. Sabia que era maravilhoso estar com ele, enquanto se evadia em sua música. Dayan fazia sentir-se viva e muito feminina. Podia até mesmo fingir ser sadia. Em meio a seu sonho, farrapos de névoa começaram a serpentear lentamente entre as estrelas. Franziu o cenho, sentiu que Dayan esfregava o dedo indicador gentilmente sobre sua testa.

– Durma, carinho. Quero que durma todo o dia até o pôr-do-sol. – Roçou-a com beijo, afastando sua expressão. – Entendeu-me, carinho? Durma profundamente, até que eu te chame para que desperte.

Ela estava mais adormecida, que acordada.

– Já me está dando ordens outra vez, não é?

– Sim e espero que me obedeça. – O som de seu violão enchia o aposento, enchendo o coração e a alma de Corinne. – Sabe que é minha vida, sabia? Diga-me que dormirá.

– Quero estar em sua vida. – Ela estava quase dormindo, nem estava segura do que estava dizendo.

– Você está definitivamente em minha vida.

Ela ficou calada um longo momento, Dayan pensou que ela estava adormecida. Deitado a seu lado, seus dedos moviam amorosamente sobre o violão, seu corpo perto do dela. Desejou que este momento durasse para sempre. Corinne estava junto dele, onde devia estar. A luz começava a perfurar a escuridão, convertendo a negra escuridão em cinza. Estendido ali, com ela, saboreou a sensação de tê-la a seu lado, sentindo falta do som de sua voz, de seu riso, da forma em que seus olhos dançavam quando brincava dele. A forma em que o olhava como se fosse o único homem em seu mundo. Corinne. Sabia que os poetas escreviam sobre isso. Sabia por que sua alma clamava por ela. Sabia por que havia esperado séculos, por ela.

– Dayan. – Ela murmurou seu nome semiadormecida. – Você é humano?

Sobressaltado, ele a olhou. Os olhos de Corinne estavam fechados e ela respirava como se estivesse adormecida. Ele havia coberto suas lembranças com um véu, sem apagá-las completamente, porque queria que ela soubesse a verdade logo. Não queria que fosse uma completa surpresa para ela. Ela não podia se arriscar com esse tipo de surpresa, com seu coração tão prejudicado. Queria que ela tivesse lembranças as quais recorrer, quando as necessitasse, mas sua ordem deveria ter evitado que ela fizesse essa pergunta.

Examinou os pensamentos dela. Corinne vagava dentro e fora da consciencia, num formoso sonho. Não estava com medo. Dayan relaxou e um lento sorriso curvou sua boca. Ela estava se aproximando da verdade. Estava perto de aceitá-lo. – Durma, carinho, enquanto eu te visito em sonhos. - E visitaria. Não podia suportar estar longe dela, nem quando dormiam. Veria-se obrigado a procurar refúgio na terra, quando o sol se elevasse, mas não se atrevia a protegê-la com as salvaguardas normais. Se ela tentasse abandonar a casa, apesar das medidas preventivas, o esforço poderia causar problemas a seu débil coração. Como fosse, ele tinha medo de que ela se afastasse muito dele e começasse a sentir os efeitos da separação de seu companheiro.

Embora não tivesse pronunciado as palavras rituais para ela, ele e Corinne já estavam unidos em coração e mente.

Ele inclinou-se uma vez mais para beijá-la, precisava tocá-la, desejava permanecer com ela, apesar do perigo para si mesmo. Sabia que era impossível ficar, mas isso não evitava que desejasse estar com ela. - Durma até que eu me eleve, Corinne. Durma a salvo. - Murmurou a ordem, suavemente, precisando encontrar uma forma de protegê-la, enquanto ele dormia. Quando ficou satisfeito de que ele tivesse lhe obedecido, deitou tranqüilamente, liberando sua mente, procurando seus congêneres. - Darius. Nossa necessidade de um curador cresce a cada momento que passa. Ela está muito mais fraca esta noite. Não sei quanto mais poderá agüentar.- produziu-se um silêncio e logo Darius estava ali. Forte. Tranqüilizador. Calmo como sempre. – Se una a ela. Entrelaçaremo-nos a vocês... Julian, Desari, Tempest e eu. Você trabalhe e nós o abasteceremos com toda ajuda possível, para mantê-la até que possamos nos reunir. - Dayan respirou lentamente. Deveria ter compreendido que Darius pensaria em termos de fortaleza familiar. Sua família estava ali para ele, Dayan, como sempre. Estavam ombro a ombro com ele, na luta pela sobrevivência de sua companheira e seu bebê, uma menina. Estendeu-se em busca da união, abraçando sua família e deixando seu corpo físico, para tentar uma vez mais a cura. Desta vez com ajuda.

 

Desari, cantor principal dos Trovadores Escuros, tamborilava um ritmo enervante com as unhas sobre o tabuleiro da mesa, enquanto olhava a seu irmão.

– A companheira de Dayan não agüentará muito mais, Darius. Desta situação, eu não gosto absolutamente. Dayan não pode reclamar sua companheira e nem ajudá-la, enquanto estiver grávida. – O que diz Gregori, Darius?

Julian rodeou a cintura de Desari, inclinando-se para roçar as têmporas de sua companheira, com beijo breve e tranqüilizador.

– Gregori e Shea são realmente muito bons, Desari. Eles farão alguma coisa para ajudar Dayan. Gregori é impressionante quando trabalha e é seu irmão, é de sua linhagem. Sabe o quanto poderoso que lhe faz isso. Foi uma lástima que Gregori e Savannah não pudessem ir ao casamento do Lucian. Topar com o vampiro os atrasou, e agora esta notícia cortará sua reunião com Lucian, abruptamente.

– Não estou seguro de que alcancem Dayan a tempo. Barack e Syndil voltam das Montanhas dos Cárpatos. Essa é uma grande distancia, Julian. – Desari, claramente preocupada, mordeu o lábio inferior.

– Trazem com eles a Shea e seu companheiro, Jacques, irmão do Príncipe e um Cárpato muito poderoso. Está acostumada a confiar em sua família nestas questões, mas na verdade, há muitos outros congêneres, parentes, que virão em nossa ajuda.

Darius encolheu seus ombros ,enquanto olhava a sua irmã, seu olhar era, firme e tranqüilo.

– Não podemos fazer outra coisa que ajudar ao Dayan até que cheguem. Gregori e sua companheira estarão aqui logo e nós viajaremos juntos para alcançar Dayan e a mulher que se unirá a nossa família. Dayan não outra escolha que mantê-la com vida, e assim o fará.

Julian assentiu.

– Tanto Gregori como Shea pressentem que é muito arriscado para Dayan fazer um intercâmbio de sangue com ela, enquanto houver um bebê em seu útero. Dayan diz que é uma menina e uma forte psíquica. Isso ajudará, mas até que cheguem os curadores para ajudar o bebê, não nos atrevemos a nos arriscar em interferir.

Desari franziu o cenho.

– Se o coração da companheira de Dayan falir, perderemos os três.

O braço do Julian se apertou em volta dela.

– Dayan não permitirá tal coisa. O coração de sua companheira é muito fraco, mas deveríamos ser capazes de mantê-la com vida, com nossa energia combinada, até que os curadores estejam em posição de ajudá-la e à menina. – Seu olhar encontrou os olhos de Darius sobre a cabeça de sua companheira. A situação era grave. Barack e Syndil se apressavam em voltar, trazendo com eles a Shea Dubrinsky, companheira de Jacques. Ela era uma Cárpato extraordinária. Uma médica, uma investigadora, uma curadora de grande talento. Com eles viajava um homem humano. Um amigo da raça dos Cárpatos, Gary Jansen que ajudava Shea em sua investigação para encontrar uma forma de manter com vida as crianças dos Cárpatos, durante o crucial primeiro ano de vida. Gregori tinha enviado informação para diante, pedindo amparo para o humano, a todos os Cárpatos. Os membros da banda não conheciam Gary, mas a palavra de Gregori seria obedecida sem questionar, dentro do mundo Cárpato.

– Quase amanheceu. – Murmurou, Darius. – Mas é necessário que continuemos um par de horas mais ao amparo de uma tempestade.

– Dissemos que nos encontraríamos com eles aqui. – Protestou, Tempest. – E este acampamento está isolado. É um bom lugar para ir a terra.

Darius esfregou o nariz, pensativamente enquanto sorria a sua companheira. Tempest estava de pé com as mãos nos quadris, lhe oferecendo essa pequena reprimenda, que sempre o fazia desejar levá-la a algum lugar escondido e beijá-la.

– Barack e Syndil estão a caminho, céu. Apanharão-nos na casa das Cascatas. Temos que viajar rápido se formos alcançar Dayan rapidamente.

Tempest inclinou a cabeça, com seu cabelo chamejante lançando brilhos à luz da lua.

– Não dissemos que nos encontraríamos com Barack e Syndil, Darius! Encontraremo com o Gregori e Savannah aqui. Está querendo partir porque seu irmão mais velho está chegando e você está nervoso em encontrar com ele. Julian te contou muitas histórias do Escuro e provavelmente você tem pesadelos com ele. – Possivelmente Darius não os tivesse, mas Tempest sim. E não podia evitar zombar de seu marido, cada vez que tinha oportunidade. Estavam juntos a poucas semanas, e ele ainda lhe roubava o fôlego, só com uma olhada sensual, de seus formosos olhos. Tinha o pressentimento de que sempre seria assim.

Tempest estava muito presumida para seu gosto. Darius lhe lançou uma advertência, com uma sobrancelha ligeiramente arqueada.

– Nervoso? Não tenho experiência com tal coisa. Ouvi sim, muitas histórias sobre o escuro, o homem do saco que os adultos inventaram para assustar as crianças. As histórias são impressionantes, mas não há dúvida de que é um simples homem.

A mão sobre de Julian se elevou.

– Um simples homem? – Um sorriso sombrio se manifestou em sua face. – Ouvi descreverem Gregori de muitas formas, mas um simples homem não é uma delas.

Desari estendeu a mão para seu irmão.

– Darius, acha estranho pensar que temos três irmãos mais velhos, depois de todo este tempo? Primeiro conhecemos Lucian e Gabriel, os gêmeos escuros das lendas que você nos contava quando éramos crianças. E agora Gregori, o escuro curador. Assombra-me que estejam vivos. Lucian e Gabriel são maravilhosos. Estou ansiosa para conhecer o Gregori.

– Nunca os conhecemos. – Assinalou, Darius. – Lucian e Gabriel desapareceram a muito, sua existência não era mais que um mito. E Gregori era todo-poderoso, com muitas responsabilidades. Você era um bebê e eu só estava com seis anos quando nos perdemos. Ele já era um homem adulto que havia deixado para trás sua aprendizagem, crescido em estatura e força. Duvido que pensasse muito em nós. – Novamente, ele encolheu os ombros, descuidadamente. Ele certamente pensara em seu irmão naqueles dias, há tanto tempo. Ele havia sido seu herói, tinha ouvido cada história impressionante e tentado decifrá-la quando estava sozinho.

Tempest deslizou uma mão na dele, um silencioso gesto de amor. Tocou a mente de seu companheiro e notou que ele estava simplesmente relatando os fatos, como os tinha visto. Não estava fazendo nenhum julgamento. Darius passara muito tempo sem emoções, até que ela entrara em sua vida e ele possuía uma vontade de ferro e tremenda disciplina. Inclinou-se contra ele e se elevou para encontrar seus lábios. Sua aparente falta de emoção ainda a intimidava às vezes. Ela estava medindo seu caminho no modo de vida dos Cárpatos, ainda se esforçando em ser parte de uma família, quando sempre fora uma solitária.

Dairus respondeu da forma em que sempre fazia, com um beijo ardente e possessivo. Tempest se perdeu nele, instantaneamente disposta, rodeando o pescoço dele, com os braços.

– Penso muito em você. – Assinalou.

– Temo por Dayan, Tempest. Este problema é difícil. Honestamente não sei se podemos salvar sua companheira. – Com o Tempest, permitiria que a dúvida se envolvesse. Com ela, podia ser vulnerável e mostrar seu tremendo amor por sua família. – Se fosse você... – Ele interrompeu-se, suas vísceras retorcendo-se em protesto.

– Não sou eu. – Assinalou, Tempest. – Estou saudável e forte. E não falhará a Dayan. Esteve para ele através dos séculos e sempre será a rocha em que ele se apóie agora.

Corinne se mexeu, aconchegando-se mais perto da suavidade. Sabia quem estava deitado a seu lado e não se incomodou em abrir os olhos.

– Dayan, você não está dormindo. Posso dizer por sua respiração. Diga-me, o que está errado.

Dayan se mexeu. A voz dela era, sexy, despertando seu corpo quando estava mais que relaxado.

– Era você que tinha que dormir até a próxima sublevação. – Disse ele, literalmente. Havia lhe dado uma ordem.

Corinne esfregou o rosto contra o peito dele e sorriu.

– Tem que admitir que expressou a ordem, mas muito fraca. Tinha que dormir a salvo, até que se elevasse. O que significa isso, exatamente? – Ela bocejou, sonolenta, e cobriu a boca, cortesmente. – Nem sequer dormiu e esteve aí toda a noite olhando o teto, isso não significa que obedeci? Ou significa que tinha que permanecer adormecida até que realmente o levantasse da cama?

Dayan se encontrou sorrindo para teto. Estivera deitado ali, junto com ela, simplesmente desfrutando de estar no mesmo lugar que ela, assombrado pela beleza da noite. Fora da casa podia ouvir as criaturas noturnas se movendo. O vento estava soprando entre as árvores e ele se sentia vitalmente vivo.

– Para sua informação, não estava olhando para o teto. Estava olhando para você. Ele se inclinou e lhe beijou os cantos da boca, sorrindo. – Pequena bruxa. Como conseguiu despertar, quando era para dormir?

– Essa foi uma ordem frouxa, Dayan. – Assinalou ela, elevando suas pálpebras para que seus olhos verdes pudessem sorrir para ele, na escuridão. – Sério. Eu ouvi você ordenar, senti o empurrão e me permiti sucumbir a ele, mas todo o tempo estive pensando que não obedeceria necessariamente.

– Frouxa? Não foi frouxa! Foi cuidadosa por causa de você... er... De sua condição. Estava me mostrando sensível. Sou contra energicamente, por sua utilização da palavra frouxa. Foi firme mas gentil.

Ela colocou a cabeça sobre seu ombro.

– Subestimou-me. Admita. Está tão acostumado que as pessoas façam o que quer, que não te ocorreu que eu pudesse resistir.

Ele arqueou uma sobrancelha.

– Fez de propósito.

– Bom, é claro. Não pode ir simplesmente por aí tentando obrigar às pessoas a fazer o que quer.

Dayan entrelaçou os dedos detrás da cabeça.

– Lisa mostra uma incomum resistência a minha persuasão.

– Porque Lisa não é como o resto de nós. A sua própria forma, também ela é diferente. – Explicou Corinne. – É inerente e boa e acredito que está dotada de algum tipo de amparo. Lisa dará um jeito para resolver sua relação contigo, por si mesma. – Corinne traçou os lábios dele com o dedo. – É bastante desumano às vezes, certo?

A língua de Dayan deslizou pelo dedo dela.

– Permaneço sobre o palco noite após noite, rodeado de pessoas que não me conhece. Tenho necessidade de espaço. Não lhes faço mal, simplesmente peço consideração.

Corinne sorriu.

– Eu peço consideração para Lisa. Dê-lhe tempo. Acabará por te aceitar. Ela quer que eu seja feliz. Se for feliz, alegrará-se de minha escolha.

– Sou eu sua escolha, Corinne? – Dayan mordiscou o dedo ela e seus dentes brincavam, enviando diminutas chamas sobre sua pele.

– Você é tão arrogante, como cruel.

– Também pode acrescentar que sou um ladrão, à longa lista de meus pecados, já que está fazendo um inventário deles. – Ele deslizou uma mão dentro da gaveta do criado e tirou um pequeno bloco de notas. – Não podia deixar as canções de C.J. Wentworth para trás. Deixou este tesouro colocado no meio de sua cama.

Corinne teve que afastar os olhos, do olhar hipnotizadora. Ele era um milagre, um gênio com a música e estava elogiando seu trabalho. Sabia que estava resplandecente. Como não estar? Elogiar sua música era um dos mais altos cumprimentos que Dayan podia lhe ter feito.

– Tola... – A voz dele era terna e ele elevou a cabeça para beijar sua boca, gentilmente. – Deve saber que espero algumas para nossa banda. É capaz de tocar vários instrumentos e suas letras são maravilhosas.

– Não estou nem perto de ser uma lenda, como voces. – Disse ela. – Mas obrigado por tanta adulação.

– Estive aqui deitado a seu lado, lendo suas formosas letras. Observava-a dormir, Corinne e me perguntava o que tinha feito em minha vida para merecê-la.

Uma onda de amor se estendeu em seu interior, ante as palavras dele, brandamente pronunciadas.

– Escrevi sobre o que havia em meu coração, sobre todas as coisas que me importam na vida. Todas as coisas que encontramos. Há tanta beleza a nosso redor, Dayan. Todo mundo tem que enfrentar os problemas de todos os dias. Finanças, enfermidade, inclusive morte, amar a alguém que não nos corresponde. – Ela brincou com o anel em seu dado. – Mas ainda podemos viver a vida, ver a beleza em toda parte, a nosso volta. Está aí para que a tomemos. Isso é o que tento mostrar em minha música. Esperança em meio à dor. Alegria no meio da dor. Experimentar a vida... Não vê-la passar ao longe.

Dayan se aproximou e gentilmente tomou sua mão, como tributo.

– Nunca tinha conhecido ninguém que vivesse a vida com tanta plenitude como você, Corinne. E realmente me mostrou tais maravilhas. Olho algo pequeno, como as folhas sobre as árvores e as acho mais formosas, que nunca imaginei.

– As folhas brilham como prata à luz da lua. – Disse ela. – Com freqüência me sento na parte de trás de minha casa e estudo a forma em que a brisa as faz cintilar na noite, quando sai à lua. – Ela se recostou trêmula, aconchegando-se mais a ele, como se falar em estar fora, a fizesse sentir frio. – Está frio aqui.

Corinne moveu a mão para o armário. As portas se abriram e uma pesada colcha saiu dele. Ondeou como um tapete mágico, enquanto flutuava atravessando o quarto e se estendeu sobre eles.

Não estava frio, mas o corpo dela não regulava sua temperatura apropiadamente. Dayan suprimiu a pressão que brilhava tenuemente em sua mente. Obrigou-se a sorrir.

– Está alardeando, Corinne. Acredito que teria de estar dormindo e recuperando suas forças, mas em vez disso, estas ondeando as mãos por aí e fazendo dançar mantas pelo ar.

O fôlego dela esquentou seu pescoço. Quente. Intrigante. Tentador. Ela sorria muito e o som era jubiloso na quietude do quarto. Súbitamente o sorriso de Dayan foi real.

– Quando era muito jovem, costumava me imaginar voando num tapete mágico. Não me atrevia a fazer voar tapetes, pois tinha medo que eles me pegassem.

– E o que fez em troca? – Perguntou ele.

– Ler, é obvio. Tudo o que caía em minhas mãos. Os livros podiam me levar a todos os lugares que nunca podia ir por mim mesma. – Ela acariciou a covinha do queixo dele. – Tenho lido tantos livros, ficção, não–ficção, enciclopédias, tudo o que caía em minhas mãos. E tinha a música.

– Como conseguiu aprender a tocar, especialmente se viveu nas ruas uma boa parte de sua vida? – Ela mudou-a de posição, envolvendo seus braços firmemente em volta dela curvando seu corpo protetoramente atrás do dela encaixando-os

A risada de Corinne foi como a chuva sobre o teto.

– Havia um pequeno clube, um bar onde as bandas tocavam todo o tempo. As fechaduras não eram nada para nós e com freqüência dormíamos num quartinho nos fundos. Os instrumentos ficavam ali, todo o tempo. Observava à banda tocar e depois praticava até que podia tocar o instrumento esquecido, como a pessoa do palco. Tenho a sorte de ter um bom ouvido e posso recordar a música facilmente. O piano era mais fácil para mim, porque podia observar os dedos do pianista e ver como se tocava uma peça em particular. .

– Sabe que é verdadeiramente estranha uma coisa assim, Corinne?

Ela sorriu.

– Foram muitas horas de prática.

Dayan deslizou as mãos pelo torso até o ventre de Corinne.

– Ela está se movendo. As duas precisam dormir. Eu as guardarei.

Corinne sentiu que seu ventre se sobressaltava, quando ele colocou sua mão sobre o bebê, com gesto protetor. Instintivamente soube que isso era o que ele estava fazendo. Sentia-se perto dele, conectada a ele, contente de estar deitada a seu lado e ouvendo o som de sua voz e sentindo o calor de seu corpo. Era uma das coisas que contava como formosas no mundo. Uma das coisas que agradecia ter conhecido.

 

– Darius... – Os olhos cinzas de Gregori arderam sobre seu irmão. – Você é Darius. Ouvi falar muito de suas aventuras e sobre o milagre de manter com vida a tantas crianças, incluído duas de nossas mulheres. – Ele estreitou o braço de Darius, sobre o cotovelo, na saudação formal de um guerreiro a outro. Gregori emanava poder em cada poro. Tinha o cabelo longo e negro como Darius e uma constituição mais robusta e musculosa que a maioria dos homens dos Cárpatos. Seus olhos eram da cor da prata fundida e quando descansaram sobre seu irmão, que não via em séculos, um afeto brilhava em suas profundezas.

Olhando-o, Darius não soube o que dizer. Tinha lembranças daquele homem, encerradas em sua mente, colocadas cuidadosamente onde nunca desapareceriam. Sempre se sentira orgulhoso de ser irmão de Gregori. Nos primeiros dias, quando a vida era dura e Darius lutava para proteger as outras crianças, recorria constantemente a essas lembranças, de seu legendário irmão. Forjara a vontade de ferro que possuía hoje, comparando-se a seu irmão, fingindo que Gregori o observava, julgando suas ações. Como um menino, perdido em terra selvagem com outras crianças, que cuidar, Darius se esforçara em estar à altura da imagem legendária de seus irmãos. Os gêmeos era um mito, os maiores caçadores de vampiros conhecidos por sua gente. Gregori havia sido bem mais real para ele.

Gregori suportou o olhar firme de seu irmão.

– Darius, ninguém poderia estar mais orgulhoso das coisas que conseguiu, que eu. Foi certamente milagroso que salvasse as duas meninas e guiasse Barack e Dayan através dos longos séculos de escuridão. Agradeço-o por ter trazido de volta, minha irmã. – Ele voltou à cabeça para olhar Desari. Ela era alta e esguia, com a voz comparável a de um anjo. – Um autêntico presente para o mundo.

Desari foi para seus braços, com lágrimas brilhando nos olhos escuros.

– Honra-me conhecê-lo, enfim.

– A honra é minha, Desari. – Gregori a abraçou longa e firmemente, antes de voltar para o guerreiro alto e dourado que esperava, para saudá-lo. Gregori se aproximou de sua companheira, colocando-a diante dele, seus braços afiançados em redor dela. – Apresento-lhes minha companheira, Savannah. Savannah, esta é minha irmã Desari e meu irmão Darius. – Havia orgulho em sua voz.

– E você deve conhecer Julian. – Desari segurou as mãos de seu companheiro. – Ele conhece bem a você.

Savannah sorriu ante a expressão de Gregori.

– Posso ver que terei que insistir em conversar com você, Julian.

Julian beijou Desari na face e riu, quando Gregori a afastou firmemente de Julian.

– Pode permanecer longe dele. – Gregori virou-se para seu irmão, com o olhar de aço. – Como permitiu que nossa irmã se associasse a este bárbaro?

As sobrancelhas de Darius se elevaram.

– Sim, agora joga em mim a culpa de seu desvario. O que o possuiu para que o enviasse a nós? Sua falta de previsão me assombra, meu irmão. Ele se aproveitou da situação, como bem pode notar. Faço-o responsável por isso.

Julian sorriu zombeteiramente, para os dois irmãos.

– Foi uma sorte que eu estivesse perto, para guardar às mulheres de nossa raça, enquanto voces dois perseguiam vampiros, tentando moldar suas habilidades. No fim, não tive outra escolha, que ficar e guardar o que nos é mais querido. Pode assegurar que minha relação com Desari me converte oficialmente em seu irmão. – Julian sorriu complacentemente, para eles.

– E eu achei que o tinha colocado na linha. – Admitiu Gregori com um profundo suspiro. – Mas vejo que é impossível. Ele nunca obedeceu uma só lei.

– Enviou-me, para se liberar dele. – Darius fingiu seriedade, pois aprendera a respeitar Julian, por sua forma de ser independente e ele era bem-vindo em sua família.

Gregori se aproximou para estreitar o braço de Julian, numa saudação guerreira de respeito.

– Agradeço tudo o que tem feito por minha família, Julian. Na verdade agradeço que seja você o companheiro de minha irmã.

Julian sorriu abertamente.

– Estou mais que contente com o trabalho.

– Confio que seu irmão Aidan esteja bem e agora saiba por que escolheste ficar afastado dele. – Havia um fio sutil na voz de Gregori. – Você devia ter falado com Mikhail ou comigo, nós teríamos te ajudado em sua batalha com o vampiro. Você era uma criança, Julian, com a percepção de culpa e responsabilidade de um menino. Mikhail e eu estamos orgulhosos das escolhas que tem feito, para proteger nossa gente e seu irmão. Falou com o Aidan. – Foi mais uma declaração, que uma pergunta.

Julian sorriu, timidamente.

– Levei Desari a conhecer Aidan e sua companheira Alexandria. Teve muito o que dizer sobre minha forma de lhe proteger. Obviamente, ele ficou mais tempo contigo, do que eu acreditava a princípio. Ele está bem com sua companheira.

– Esta é Tempest. – Disse Darius, apresentando sua companheira ruiva, para ele. – Não faz muito que entrou para nosso mundo.

Desari mudou de posição imediatamente, para permanecer perto da mulher de seu irmão. Julian também se aproximou, para protegê-la. A família a rodeava, para aliviar os medos de seu membro mais recente.

– Tempest tem grande valor. Sem ela, não teríamos mais Darius. Nossa família lhe deve muito.

– Bem-vinda a nossa família, irmãzinha. – Disse Gregori. – Obrigado pela vida de meu irmão. Não poderíamos perder alguém tão valioso.

Tempest sorriu timidamente, agradecendo a adesão de Desari e Julian. Apoiou-se contra Darius enquanto tentava não se sentir intimidada pela aura de poder que emanava de Gregori ou seus peculiares olhos escrutinadores.

– É um prazer conhecer o restante da família de Darius. Falamos de você freqüentemente e esperávamos sua visita.

Savannah se inclinou para beijá-la, na face.

– Sei que tudo isto deve ser novo para você e possivelmente um pouco assustador, mas posso notar que é bem amada.

– Desari e Syndil me acolheram como uma irmã. Dayan, Barack e Julian são como protetores irmãos mais velhos. – Tempest sorriu amorosamente para Darius. – E Darius faz com que tudo valha a pena. Não estou assustada, só um pouco temerosa. E quero ter filhos algum dia, então ponho minha fé em você, Gregori, para resolver o tremendo problema que enfrentamos.

– Prometo fazer o melhor que posso. – Gregori, inclinou a cabeça. – Com tantos de nós trabalhando, esperamos encontrar respostas rapidamente. Gary Jansen esteve investigando em diferentes linhagens, tentando averiguar com quanta freqüência nasce normalmente uma menina em casais dos Cárpatos. Por isso, parece, que com a exceção de poucas linhagens, a maioria das crianças nascem com cinqüenta ou cem anos de separação. A linhagem de Savannah é uma exceção, por seu lado materno da família. Sarantha, a irmã de Mikhail, teve quatro filhos em pouco tempo um do outro, três homens e uma mulher. E minha mãe também teve a voces dois, Desari e Darius, quase juntos. Embora Desari seja a única mulher que sobreviveu em nossa linhagem. – Gregori sorriu a seu irmão. – Graças a Darius. Devemos muito a você.

– Há tão poucas de nós. – Disse Desari, tristemente.

– Mas nossas filas estão crescendo e descobrimos que os antigos estão espalhados pelo mundo. – Replicou Gregori, gentilmente. – Gabriel e Lucian ainda vivem. Vivem e encontraram suas companheiras. A companheira de Gabriel, Francesca, enviou uma de suas colchas curadoras para Corinne. Nós teríamos gostado de fazer uma visita mais longa antes de voltar para as Montanhas dos Cárpatos.

Desari se aproximou, para unir sua mão com a de seu companheiro.

– Julian me contou a triste historia de tais heróis. Foi um privilégio conhecê-los.

– São autênticos antigos. Mikhail espera que possam ajudar Shea e Gary em sua investigação sobre a alta taxa de mortalidade de nossas crianças. – Disse, Gregori. – passei muito tempo procurado a resposta para este problema, mas ainda não tive êxito em derrotar nosso pior inimigo.

– O fato de que tenhamos meninas. – Suspirou, Savannah. – E a dificuldade em manter vivas nossas crianças, durante o primeiro ano. Resolveremos o mistério. Já não está sozinho, Gregori. Tem Shea e Gary e agora Francesca. Encontraremos a resposta, e teremos os filhos que deseja.

– Gêmeos. – Sugeriu, Julian. – Dois pequenos selvagens, com seu pai perseguindo-os a todo o momento. – Ele parecia feliz, com a idéia.

Gregori mostrou seus dentes brancos para Julian, do outro lado da mesa.

– Vejo que está se divertindo muito as minhas custas, Julian, mas lembre-se que o conheço há muitos anos. Desari, minha irmã, vamos ter que conversar.

Julian gargalhou.

– Quereria que falasse com ela, Gregori. Tem talentos surpreendentes, como Darius e eu descobrimos. – Ele beijou sua esposa. – Suponho que não gostaria de cantar, para converter seu irmão num tronco de árvore, por mim.

Uma das sobrancelhas de Gregori se arqueou, um hábito que compartilhava com Darius, apesar da larga separação entre eles.

– Desari pode utilizar sua voz de semelhante maneira?

Desari sorriu, ruborizando-se.

– É obvio que não. Ele está exagerando. Utilizo minha voz para consolar e curar os outros, para lhes trazer alegria.

– Ou repreender seus irmãos mais velhos e companheiros, quando fazem coisas com as quais ela não está de acordo. – Falou Darius, prazerosamente.

Quando o olhar prateado de Gregori descansou sobre ela, pensativamente, Desari suspirou.

– Ta... concordo. É verdade que uma vez a utilizei para prendê-los. – Ela sorriu conspiratoriamente, às outras mulheres. – Com a idade, seus dons também se apresentarão e serão úteis de forma que não imaginam.

Gregori atraiu Savannah para mais perto.

– Vou te levar de volta para nosso país, onde nunca ouvirá esse tipo de tolices femininas.

Ela ficou nas pontas dos pés, para beijar ligeiramente, os lábios dele.

– Minha mãe vive lá e pelo que me lembro, você diz que meu pai lhe permite andar por aí, criando caos e desconcerto a sua passagem.

– Eu gostaria de conhecer sua mãe. – Disse Desari. Ela segurou o braço de seu irmão. – Vamos planejar uma excursão pela Europa. Podemos ir para a casa, para as montanhas. Seria divertido. Barack e Syndil desejavam ficar lá e estou segura de que Dayan quereria levar sua Corinne para conhecer todo mundo.

– Primeiro devemos nos ocupar de que Dayan venha conosco. – Lembrou-lhe, Darius.

– A situação parece grave. – Comentou Gregori.

Darius assentiu.

– Dayan está preocupado e com boas razões. Nunca tinha pensado em enfrentar um problema semelhante. Ele não pode converter sua companheira com um bebê no ventre. Mas o coração de Corinne está esgotado e sobrecarregado. Duvido que ela resista até que o bebê tenha maturado o suficiente para nascer e estou seguro de que falhará durante o parto.

– Quanto tempo acredita que agüentará seu coração? – Gregori franziu o cenho, suas sobrancelhas escuras se acomodaram, numa linha de preocupação. – Examinaste-a através de seu vínculo com ele. Pressente que temos tempo suficiente?

– Honestamente, não sei. – Admitiu, Darius. Sentindo que as emoções tinham suas inconvenientes, como havia descoberto. Queria Dayan como um irmão. Podia sentir a dor de Dayan, sua perpétua dor e Darius precisava mais que tudo, aliviar o sofrimento de seu irmão.

Gregori permitiu que o ar escapasse de seus pulmões, num longo suspiro. Pensara que Darius e Desari estavam perdidos para ele, para sempre. A alegria do descobrimento, o afeto que lhe demonstravam eram puros, mas sentir que pudesse falhar com eles, quando mais precisavam era verdadeiramente aterrador.

Lendo sua mente, Savannah estendeu a mão para consolar Gregori, esfregando um dedo sobre as rugas que formaram em sua testa.

– Você a salvará, sei que sim, Gregori. – Ela podia sentir a magnitude das emoções que o tomavam, enquanto olhava os irmãos que acreditara perdidos para ele, para sempre.

Os braços de Gregori envolveram a cintura estreita, uma vez mais, ajustando-a sob seu ombro.

– Não posso imaginar o que está sentindo este homem com sua companheira tão ameaçada. – Seu olhar deslizou sobre Savannah. – Poucas ameaças que me afetariam, mas semelhante perigo para você, me deixaria decididamente louco.

Um lento sorriso curvou os lábios dela e seus olhos cintilaram como pedras preciosas. Ela estava disposta a lhe proporcionar risos, para aliviar suas inéditas e belíssimas emoções. Era seu companheiro estava a seus cuidados, por mais que ele pensasse que era justamente o contrário.

– Decididamente louco? Eu adoro a forma em que você expõe as coisas. Essa é uma declaração comedida. Se me apertar o dedo do pé, perde a cabeça.

As sobrancelhas de Darius se elevaram e Julian gemeu, com um sorriso patente no rosto.

– Eu gostaria de ver isso, Savannah. O Escuro perdendo a cabeça é uma imagem que saborearei durante muito tempo. – Julian trocou um sorriso com Darius. – Parece-me lembrar, Darius, que com freqüência ele ensinava Mikhail sobre como uma companheira devia obedecer a seu amo.

Savannah deu meio volta para atravessar Gregori, com um olhar digno de sua linhagem.

– Amo? Obedecer a seu amo?

Os olhos cinzas deslizaram sobre Julian, mortalmente, brilhando com uma promessa de represálias.

– Certamente eu nunca utilizei a palavra "amo".

– Acredito, Savannah, que Gregori foi bastante severo com seu pai em várias ocasiões, pela muita liberdade que ele permitia a Raven. – Informou-a, Julian. – E na realidade, estou seguro de que a palavra "amo" foi utilizada mais de uma vez. Sei que "obedecer" foi, tenho certeza. – Ele inclinou a cabeça para um lado. – Você poderia falar com sua irmã, Gregori... Ela ainda não captou o conceito de obediência.

Desari fez uma careta.

– Não deixe que ele a engane, Savannah. Julian e eu temos uma autêntica sociedade. Ele gosta de se queixar, mas funcionamos bastante bem.

Savannah sorriu para Gregori.

– Isso me dá esperanças, então. Só terei que desenvolver meus poderes, mais um pouco.

– E então o que? – Gregori a segurou pelos ombros e lhe deu uma pequena sacudida. – Só a idéia de você, com mais poder do que já tem, me aterroriza. Não posso imaginar o que poderia mais fazer.

– Ajudá-lo, é claro. – Savannah se encostou ao ombro musculoso.

– Temos muito de que conversar. – Disse, Darius. – E pouco tempo para as visitas. Sinto a ansiedade de Dayan agora, mesmo através da distância. Pensei que poderíamos continuar nossa viagem pelo amanhecer e nos aproximar mais deles, embora esta seja uma zona segura, para passar o dia profundamente na terra.

– Se una a Dayan, Darius e eu me unirei contigo. Desejo examiná-la e ver o que enfrentaremos. – Decidiu, Gregori. – Com todos nós apoiando, devemos ser fortes o suficientemente, para permitir um exame.

Darius assentiu e se estendeu uma vez mais através do tempo e do espaço.

- Dayan. O Escuro chegou. É forte e capaz e deseja "ver" contra o que enfrentamos. Sinto sua ansiedade. Aconteceu mais alguma coisa, que causa seu temor?

Dayan baixou o olhar para Corinne. Ela estava meio acordada, meio dormindo, flutuando em alguma parte, em um estado de sonolência.

- Ela está intranqüila esta noite, mesmo depois de nossa sessão de cura, Darius. E seu corpo é incapaz de regular sua temperatura, apropiadamente. Sinto que ela se afasta deste mundo e se aproxima do seguinte.

- Una-se a ela, permita que ele veja o que acontece.

Darius manteve sua voz tranqüila e segura. Mais que tudo, Dayan tinha que acreditar que podiam manter Corinne viva.

Houve uma ligeira dúvida.

- Confia neste homem?

- Ele é meu irmão e companheiro de Savannah, filha do Príncipe. - Darius enviou tranqüilidade. - Eu estou contigo, Dayan. Gregori viajou de muito longe, para nos ajudar. - Darius utilizou deliberadamente o plural, lembrando a Dayan que eram uma família, que estavam juntos em tudo. Dayan tinha todos os instintos de um homem dos Cárpatos, de proteger a sua companheira. Gregori era um desconhecido para ele e por conseguinte suspeito.

- Então não posso fazer mais que lhe agradecer. Os braços de Dayan envolveram ao Corinne. Havia diminutas linhas brancas ao redor da boca dela, marcas que ele achou alarmantes. Dayan comunicou o preocupante detalhe a Darius, enquanto se liberava de seu corpo. Converteu-se em luz e energia, um espírito curador desejando levar a cabo um ato caridoso, entregando-se a si mesmo completamente nesse momento, para ser tudo o que Corinne precisasse.

Dayan sentiu Darius com ele. Familiar. Forte. Resistente. Daríus tinha uma forma de se comunicar, de prover completa confiança. Sempre tinha sido assim, desde que Dayan podia se lembrar. Darius tinha sido mãe e pai para ele, irmão maior, melhor amigo, líder. Dayan agradecia que ele agora estivesse ali. Darius não parecia duvidar que salvariam Corinne. Salvá-la era necessário. Era um fato. Dayan extraiu esperanças do pragmatismo de Darius.

A força que emanava dos Cárpatos combinados era vasta. Dayan sentiu o poder quando se fundiram a ele. Sentiu o Escuro se mover através dele, vendo o que ele via, a enormidade de sua tarefa.

- O coração se deteriora rapidamente. É necessário ralentizar-lo até que possamos os alcançar. - A voz calma fez Dayan lembrar Darius. Exsudava a mesma confiança. - Vou fazer as reparações que puder. Ela deve ser introduzida em nosso mundo, logo. A menina mostra uma surpreendente saúde. A maior parte de oxigênio e os nutrientes vão para seu pequeno corpo. É, certamente é uma forte psíquica. Não devemos perder a nenhuma delas.

Dayan sentiu o calor e o poder, quando o curador começou a trabalhar, movendo-se cuidadosamente ao redor do coração de Corinne. Trabalhando para conseguir que o sangue fluísse com mais força, levando o precioso oxigênio através do pequeno corpo.

- Isto é tudo que posso fazer por ela a esta distância. Envie-a para dormir. Mesmo enquanto viajam, tente mantê-la adormecida, mas cuide em não forçar seu coração com nenhuma compulsão com a qual ela possa lutar. Ela dispõe de fortes barreiras. Encontrarei-os logo, Dayan, nos ocuparemos de que sua companheira sobreviva, se houver alguma forma de obtê-lo.

- Agradeço-lhe. - Replicou Dayan formalmente, enquanto voltava para seu corpo e sentia a retirada dos outros. Utilizar semelhante energia à tão longa distância não era fácil. Sabia que sua família e o curador procurariam a terra rejuvenescedora, como ele devia fazer também. Junto a ele, Corinne estremeceu, atraindo sua atenção.

– Por que me sinto tão diferente? – Perguntou Corinne, levantando o olhar para Dayan. Seus olhos estavam claros e ela respirava mais facilmente. As pequenas linhas brancas de tensão ao redor de sua boca haviam desaparecido.

O alívio que Dayan sentiu foi imenso. Deitado junto a ela, tremeu com esperança, com alegria.

– O curador está perto. Ele uniu-se a Darius e aos outros ,para te dar mais força. Foi ele quem trabalhou em seu coração.

Corinne guardou silêncio um momento, surpreendida pelo quanto que acreditava nele. Nos estranhos costumes de sua família. Sentia-se melhor, cada vez que Dayan utilizava suas habilidades telepáticas para ajudá-la. Não podia negar que o que ele estava fazendo, funcionava.

– Agora quero que durma, Corinne. – Disse, Dayan. – O amanhecer está chegando e você precisa descansar. Eu também dormirei. O descanso permitirá seu corpo curar bem mais.

– Estou cansada. – Concordou ela e depois sorriu para ele. – Embora suspeite que você está utilizando seu dom, para me dar um empurrão nessa direção.

– Se eu fizer. – Disse Dayan, sem se comprometer. – Será pequeno. – ele trouxe-a mais ainda, para a força de seus braços. – Eu adoro te abraçar, Corinne e estar deitado a seu lado. O bebê está tranqüilo agora... Sente-a? Antes estava dando chutes, mas agora dormiu, segura em seu pequeno mundo.

– Eu adoro sua voz quando fala dela. – A voz de Corinne era suave, sonolenta, como se sua consciencia desvanecesse no sonho.

– Você adora minha voz todo o tempo. – Replicou Dayan com ar satisfeito, roçando um beijo em sua têmpora. – Durma agora, meu amor. Desperte quando eu te chamar.

 

– Corinne. – A voz penetrou nas profundezas de sua mente, arrastando-a, de volta a um sombreado mundo de sonho. Alguém estava sacudindo seu ombro e exigia que despertasse imediatamente. Levou alguns minutos, antes que o desespero da voz penetrasse as sombras. O alarme se estendeu e obrigou a suas pálpebras a se elevarem.

– Cullen, o que aconteceu? O que está errado? – Seu coração martelava no peito e havia uma forte pressão em seu peito. – É Lisa?

– Ela não está. Despertei e ela não estava! Deixou uma nota para você. - Cullen estava mostrando um pedaço de papel.

Corinne pegou o bilhete, seus dedos tremiam ligeiramente, fechados ao redor do o papel, de cor lavanda. Não precisava da nota para saber onde estava Lisa. Conhecia Lisa, sabia como pensava. Ela havia se programado para se levantar cedo e devia ter pensado no contrato que havia assinado e se convenceu de que não havia perigo algum em sair. Não queria que houvesse perigo, então para ela era bastante simples, descartá-lo. Assim era Lisa. O mundo era um lugar onde ela mudava o que não gostava. Se ela acreditava que uma pessoa tinha que ser cortes e amável, simplesmente imaginava que era. Quando outra mulher não gostava dela, por causa de sua aparência, Lisa se sentia ferida e fazia tudo o que estava em seu poder, para que mudasse de opinião, com respeito a ela.

Zangada consigo mesma por não ter previsto esta possibilidade, Corinne jogou as cobertas para trás e olhou para seu roupão de banho. Este se moveu por conta própria, saindo do cabide que estava atrás da porta, para dançar atravessando o quarto, até sua mão. Não notou o que fazia, enquanto deslizava entre as dobras do tecido e passeava intranquilamente pelo quarto.

– O que foi isso? – Perguntou Cullen.

Corinne levantou o olhar e o fixou, com surpresa.

– O que? – A palavra lhe escapou antes de compreender o que havia feito. É obvio que Lisa não tinha explicado nada sobre ela. Lisa não queria que Corinne fosse diferente dos outros. Encolheu os ombros, com fingida despreocupação. – É só uma coisinha que posso fazer, nada de especial. Saia daqui para que eu possa me vestir. Sei aonde Lisa foi e a trarei de volta.

– A sessão fotográfica. – Supôs Cullen, com desgosto. –Acreditei que tinha cancelado. – Ela passou a mão pelo cabelo. – Ela é tão indefesa, por que não me contou isso? Sabia que eu acreditava que estava em perigo. Deveria ter me ouvido.

– Ouviu-o, Cullen, só que não fez conta. Descobrirá que Lisa diz coisas para te apaziguar, porque não gosta de discussões e é pior, no final você faz exatamente o que ela quer. – Disse Corinne, tirando sua roupa da mala e apressando-se para o banho.

– Sabia que era perigoso... – Disse Cullen, tentando convencer-se. – Talvez não tenha ido, possivelmente mudou de idéia.

Corinne vestiu rapidamente seu jeans, gritando através da porta do banheiro.

– Não, não mudou, Cullen. Fingiu acreditar, porque isso era o que todos nós queríamos ouvir e Lisa não acredita em preocupar as pessoas. Estou-lhe dizendo, Lisa não discute. É minha culpa. Deveria saber que ela faria isto. Não se preocupe, trarei-a de volta. – Ela estava vestindo a blusa tão rapidamente como era capaz, alisando o tecido, sua mão atrasando um momentinho, sobre seu bebê. Olhou para seu relógio. Eram as quatro e meia da tarde. Como é que havia voltado a dormir o dia todo? Utilizando água fria, Corinne lavou o rosto, para esclarecer seu cérebro. Era estranho, mas estava mais cansada do que pensava. Seu coração estava falhando outra vez? Bruscamente, afastou os pensamentos sobre sua mortalidade e se concentrou no problema que tinha nas mãos. Lisa estava em perigo e nada mais importava nesse momento.

Correndo descalça, de volta ao quarto, prendeu o cabelo para trás de qualquer forma e o prendeu num de rabo-de-cavalo.

– Onde estão meus sapatos? – Enquanto fazia a pergunta em voz alta, concentrou-se e os atraiu a ela. Os sapatos encontraram seu caminho, saindo debaixo da cama, para suas mãos. Cullen a olhou com assombro. Ignorando-lhe, Corinne se sentou na cama e calçou-os. – Deixe de me olhar, Cullen. – Ordenou. – Eu não sabia onde estavam os malditos sapatos. Lisa deve ter chamado um táxi. Teremos que utilizar seu carro, o meu está em casa. Onde está o seu?

– Aí fora, na rua. Não o traga até aqui. – Respondeu ele, secamente.

Os vívidos olhos verdes de Corinne titilaram sobre ele, depois começaram a querer sorrir, apesar da gravidade da situação.

– Pergunto-me se poderia. Onde está Dayan? – Ele estava com ela, quando adormecera. Lembrava-se com toda claridade.

Cullen limpou a garganta.

– É cedo para ele, mas saberá onde fomos, quando despertar. Sempre sabe. – Ele tentou ser tranqüilizador.

As mãos de Corinne se imobilizaram ao redor da alça de sua bolsa.

– Por que não o chamou? – Havia algo na conduta de Cullen que a fez desconfiar, mas o que era, não sabia.

– Ele não ficou aqui ontem à noite. depois de que você dormiu, ele saiu. Gosta de privacidade. – Acrescentou Cullen, um pouco incerto.

– É estranho, quando ele é tão rápido invadindo a minha. – Murmurou Corinne, dirigindo-se decididamente para a porta. – Venha, se for vir. Quero me assegurar de que Lisa está a salvo.

– Irei e direi umas quantas coisas a Lisa, quando a vir. – Acrescentou Cullen, mantendo a porta aberta para Corinne.

– Não adianta nada ficar louco com Lisa. – Aconselhou Corinne, enquanto sentava no banco do passageiro. – Ela não vê as coisas como o resto das pessoas. Gritar não funciona com ela, só a agonia. Não quero que lhe façam mal, Cullen.

– Não é isso o que estamos tentando evitar? – Perguntou ele, entre dentes.

– Não é disso do que estou falando. Lisa é muito vulnerável. Estou segura de que ela falou da morte de seu irmão.

– Por isso exatamente, que deveria ter levado isto com seriedade. – Assinalou ele. – É muito confiada.

– Não há nada mau nisso, Cullen. – Disse Corinne, amavelmente. – Isso é o que faz de Lisa, Lisa. É confiada e genuinamente doce e boa. – Ela estudou os traços decididos dele. – Nunca a vi com um homem, como contigo. Fala muito, mas na realidade nunca se apaixonou por ninguém. Não faça nada que possa machucá-la.

Cullen sorriu, inesperadamente.

– Acredito que ela está planejando ter exatamente esta mesma conversa com Dayan, sobre você.

Corinne jogou a cabeça para trás, seu cabelo balançou contra a janela, com uma pequena chicotada.

– Eu sou capaz de cuidar de mim mesma. Lisa, por outro lado, não. – Seus olhos brilharam para ele, em advertência.

– Ouvi-a, Corinne. – Admitiu Cullen, com um pequeno sorriso. – Eu não sou do tipo playboy. Não posso acreditar que ela se fixou em mim. E essa mesma gente que matou seu marido você atrás de mim. Sei como são. Nunca teria atuado mostrando meus sentimentos, se ela já não estivesse em perigo. No mesmo minuto que a conheci, senti-me atraído por ela. Não fazia idéia de que ela pudesse interessar-se tanto, em alguém como eu. – Ele dirigia rápido, mas sabiamente. Depois da forma selvagem que Lisa dirigia, Corinne gostava de sua habilidade. – Poderia me apaixonar facilmente por Lisa, se me permitisse passar algum tempo com ela. Nos últimos anos, nunca olhei para uma mulher desse modo. – Havia um pesar silenciado. – Nunca pensei que pudesse... Não outra vez.

– Como é Dayan? – Perguntou Corinne.

Cullen mostrou estudada despreocupação.

– Dayan é uma lei em si mesmo. Ninguém pode predizer o que ele pode fazer. É um gênio com um instrumento musical e sua voz é formosa. É excessivamente leal, mas não um homem com o qual alguém gostaria de enfrentar. Não sei como descrever Dayan. Mas nunca o tinha visto assim com outra mulher. O que ele sente por você é genuíno. Não é um mulherengo.

– Por que estou ouvindo um mas em alguma parte? – Peguntou Corinne, astutamente.

– Eu não disse "mas" – Negou ele.

– Tem reservas a respeito de Dayan. – Sugeriu, Corinne. – Quais?

Cullen a olhou soberbamente, concentrado em deixar seu vago desassossego, em palavras. Finalmente, sacudindo a cabeça.

– Só é diferente. Perigoso, possivelmente, não sei como explicar isso Toda a banda é diferente. Darius é um homem temerário e sério. Dayan é só diferente. Não sei de que outro modo explicar. Toda a família... – Ele interrompeu-se, impotentemente. Não havia palavras adequadas para descrever à família de Dayan.

– Perigoso para mim? Ele não é o tipo de homem que faz mal a uma mulher. – Corinne acreditava, com o coração e a alma, com cada fibra de seu ser. – O que não me está contando, Cullen? Tem algo a ver com meu coração? Ou a gravidez? Ou tem algo a ver com o desaparecimento de Dayan, cada vez que estou acordada?

Cullen olhou para o rosto decidido dela.

– Corinne, ele não quer estar com ninguém mais. Se acreditar que ele tem alguma outra escondida, em alguma parte, equivoca-se. Eu não me preocuparia muito por seu problema de coração, inclusive tentei tranqüilizar Lisa, porque ela tem muito medo. Mas a família de Dayan pode operar milagres.

– Nunca imaginei Dayan com uma mulher, é tão protetor... – Corinne interrompeu-se, sacudindo a cabeça. – Mas o vi antes, junto aos membros da banda.   - Deveria conhecer Darius. Realmente, é um homem assustador, mas com Tempest age de forma completamente distinta, como faz Dayan com você.

Exasperada com ele, Corinne olhou pela janela, para o trânsito. Estava claro. Cullen estava preocupado Dayan, por alguma coisa e não contaria a ela. Possivelmente, não tinha nada a ver com Dayan e tudo com ela. Cullen não queria que seu amigo se prendesse a alguém como ela. Ela estava grávida. Tinha um problema de coração e movia objetos a seu redor, com a mente.

A cada milha que passava, ela se sentia mais cansada, mais esgotada, seu coração trabalhava com tanta força que estava difícil respirar. E pensava em Dayan. Preocupava-se com ele, quando deveria estar se preocupando com Lisa. E se Dayan tivesse voltado a sua casa outra vez e alguém fizera alguma coisa com ele? Possivelmente estava ferido em alguma parte, precisando de sua ajuda e ela ignorava.

– Dayan não voltaria para minha casa ontem à noite, não é? – Havia uma pequena apreensão em sua voz, que não pôde evitar.

Cullen sacudiu a cabeça, negando.

–Não tinha necessidade. Levou-a com ele para pegar as coisas que Lisa e você queriam. Surpreendeu-me que o fizesse, por certo. Teria apostado até meu último dólar, que ele a ataria em nossa casa, para mantê-la a salvo. Como fez para enredá-lo?

– É um homem muito razoável. – Corinne sentia que enquanto o carro estava afastando-a dele, seu coração trabalhava mais duro.

– Está seguro de que ele não voltou para a casa? Encontramos problemas... Dayan, não lhe disse? – Corinne tentou soar tranqüila, com respeito ao assunto.

Cullen a atravessou com olhos especulativos.

– Não, não disse nenhuma só palavra. Que tipo de problemas?

Corinne esfregou a têmpora palpitante. Seu estômago estava se revolvendo. E o terrível medo aumentava a cada milha que passava.

– Coisas... Um peculiar banco de névoa. Havia alguém na casa. Dayan entrou na névoa e depois entramos na casa. Havia um carro... – Ela interrompeu-se e tentou extrair a lembrança de seu cérebro nebuloso. – Não posso pensar... Sinto-me doente.

– Tem o remédio que deveria tomar? – Cullen estava preocupado por sua cor. Corinne estava mortalmente pálida.

Eles estavam se aproximando do enorme parque onde Lisa estava fazendo a sessão de fotos. A sua esquerda, Cullen podia ver os veículos da multidão concentrada. Uma zona estava marcada por os laços, para os câmaras e o pessoal. Corinne levou ambas as mãos protetoramente sobre estômago. Estava se sentindo muito doente, esforçando-se para parecer que estava respirando normalmente.

– Corinne! – Disse Cullen, agudamente. – Onde está seu remédio?

Ela mostrou sua bolsa. O coração pulsava com força, erraticamente. O bebê se movia alarmado. Cullen pegou duas pílulas, colocou-as na palma de sua mão, muito assustado por ela. Não deveria levado-a com ele.

- Corinne. - A voz era suave, mas firme, em sua cabeça. - O que está errado com seu coração? Deve acalmá-lo.

Só a voz de Dayan conseguiu acalmá-la. Onde estava ele? O fato de que pudesse alcançá-la, a tranqüilizava fazendo-a saber que ele estava vivo e bem. Corinne tomou o remédio e fez um esforço para respirar ritmicamente.

- Agora estou bem, Dayan.

- Não está onde a deixei. - Era uma clara reprimenda. - Onde está?

– Corinne? – Perguntou Cullen, ansiosamente. – Não deveria ter te trazido. Se acontecer alguma coisa a você, Lisa e Dayan me matarão.

Era estranho levar duas conversas, ao mesmo tempo.

– Não vai acontecer nada, Cullen. Olhe, estou bem melhor.- Estamos atrás de Lisa. Foi para um parque onde estão fotografando-a.

- Não! Não é seguro. Não posso estar com você agora. Abandone esse lugar imediatamente! – Foi uma ordem clara, entregue tensamente com um duro "empurrão".

Ela queria obedecer. Precisava obedecer mais que tudo no mundo. Tudo nela exigia que fizesse o que ele dizia, mas precisava encontrar Lisa. Por mais que com todo seu coração e alma precisava cumprir essa ordem, não podia voltar sem Lisa. - Não te zangue, Dayan. Voltarei para casa, com Lisa a salvo, conosco. Cullen também está aqui.

Dayan jazia impotente sob a terra, esperneando de raiva. Com apreensão que se convertia em terror. Não se atrevia a dar a ordem com muita mais força. Corinne tinha uma forte vontade e se opunha a ele. Sua lealdade para Lisa exigia que colocasse a salvo sua cunhada. Dayan sabia que seu coração não sobreviveria a uma luta contra ele. Ficou como uma sombra na mente dela. O tempo até o pôr-do-sol parecia avançar com agonizante lentidão.

– Talvez estaria melhor no carro, Corinne. – Disse Cullen, ansiosamente. Dayan estava trabalhando nele, empurrando-se na mente de Cullen, para que ele sentisse que era de suprema importância proteger Corinne. – Não levará muito tempo, chamá-la.

– Nunca passaria pela segurança. – Replicou Corinne, abrindo resolutamente a porta e saiu, antes que seu corpo relutante se negasse a fazer o que lhe pedia.

Cullen saiu do carro a toda velocidade rodeando-o, para segurá-la pelo braço. Ela caminhou resolutamente pelo caminho que cortava o interior do parque. Na área dos laços, saudou o agente de segurança mais próximo e lhe lançou um sorriso.

– Frank! Não sabia que trabalhava hoje ou teria vindo antes. O que Lisa está fazendo?

O homem uniformizado sorriu para ela.

– Chegou minha mulher favorita. Estava desolado sem você. Já sabe o que Lisa está fazendo. Não poderia cometer um engano, nem que quisesse. – aEle diantou-se e soltou o fecho da segurança, para deixá-la passar.

Dentro da mente de Corinne, Dayan ficou súbitamente imóvel. Não estava preparado para onda de adrenalina que tomou todo seu corpo. Não estava preparado para o fluxo negro de ciúme, ante as palavras do desconhecido ou o óbvio afeto de Corinne para ele. Ela era muito atraente e não parecia compreender que os homens genuinamente a admiravam ou desejavam. Dayan tinha começado a se ressentir pelas horas mortas do dia, nas quais seu corpo precisava rejuvenescer. Mesmo em seu sono, quando jazia como morto, sentia falta de Corinne. Precisava dela. Desejando-a, como uma droga em seu sangue.

– Este é Cullen, Frank. Contratei-o como guarda-costas pessoal de Lisa. Recebemos estranhas chamadas telefônicas e fiquei muito paranóica com a morte de John. Sei que me comporto como uma tola, mas simplesmente não quero me arriscar com a Lisa.

Corinne estava fitando Frank, com seus vívidos olhos verdes e o guarda de segurança estava se derretendo no lugar. Cullen podia notar e Dayan podia vê-lo também. Dentro dele, a fera rugia de fúria, terrível. Lava ardente bulia em sua corrente sangüínea, mesmo enquanto seu corpo estava paralisado, preso sob a terra. Requereu-lhe uma tremenda quantidade de controle, para evitar utilizar Corinne ou Cullen para vingar-se do guarda.

O homem desejava Corinne, mas Dayan não podia culpá-lo, na realidade.

– Deveria advertir a minha gente, Corinne? – Perguntou Frank, seus olhos azuis preocupados. – Espera problemas? – O assassinato de John havia surpreendido a todos. John adorava sua irmã e vinha com freqüência assistir suas sessões de fotos. Lisa era diferente da maioria das outras modelos, que nunca falavam com o pessoal de segurança. John e Corinne quase sempre iam às sessões de Lisa e se esforçavam em falar com todo mundo. Os três eram infalivelmente corteses, quentes e amigáveis. Lembravam o nome de todo mundo e perguntavam por suas famílias.

Corinne olhou para Cullen, com uma pergunta nos olhos. Ele assentiu, seu olhar percorreu lentamente o lugar. Havia uma grande multidão observando a sessão e uma grande multidão, para ele era um pesadelo.

Corinne sorriu para Frank.

– Só lhes peça que procurem alguém diferente... Não sei, tudo o que pareça levar uma arma.

Frank assentiutomando o controle. Em seguida falou por seu rádio e assinalou Corinne e Cullen para o grupo que estava perto da filmagem. Cullen se inclinou para sussurrar no ouvido de Corinne.

– Estão aqui em alguma parte. Sei que estão.

O ar ficou preso na garganta de Corinne. Ela olhou a seu redor, desesperada para encontrar Lisa. A voz de Dayan, tão tranqüila como sempre, roçou sua mente.

- O que houve, carinho?

- Cullen diz que Lisa está em perigo, que; esses homens devem estar aqui.

- Isso significa que também você está em perigo, Corinne.

Dayan estava contendo a respiração e contando os minutos, os segundos, até que fosse seguro para ele, elevar-se. Era um Cárpato, não um vampiro e podia elevar-se antes do pôr-do-sol, mas não agora. Não quando o sol reduzira sua enorme força e poder, a nada. Esperou, conservando a pouca energia que pudesse ter, para poder ajudar Corinne, se fosse necessário.

Corinne atravessou a grama acidentada, para o lugar onde estavam enfocadas as luzes, no meio do parque arborizado. Uma pequena cascata espumosa caía com rapidez num profundo charco escavado na rocha. Cresciam samambaias em cada greta que rodeava a piscina. Lisa estava em pé junto ao charco, em meio da vegetação, parecia magra, fresca e formosa. Corinne quis chorar, estava tão orgulhosa dela. Lisa era uma profissional e muito agradecida pelo trabalho e o dinheiro que este reportava para ela e sua família. Era fácil trabalhar com Lisa, por que seguia todas as indicações cuidadosamente e o câmara a adorava. Ela tornou-se muito popular entre os fotógrafos e clientes, pelas mesmas razões.

Cullen a fitou, assombrado de que ela tivesse dedicado algo mais que um olhar casual. Não se parecia com jovem tímida e vulnerável que ele sabia que era. Lisa parecia uma deusa. Era sedutora ante da câmara, então se voltou para sorrir com facilidade para o fotógrafo, brincando com o maquiador, com a cabeleireira. Quando notou a presença de Cullen, sua face se iluminou antes de saudá-lo. Por um momento, ele esqueceu que tinha ido a uma missão de resgate.

– Mantenha sua mente no trabalho. – Repreendeu-o, Corinne. – Pense que é seu guarda-costas. Não se intime com a cliente.

Cullen sorriu timidamente e colocou seu corpo diante do de Corinne, enquanto seu olhar percorria à multidão, procurando rostos familiares. Ele estava nos primeiros postos na lista de objetivos da sociedade, marcado como traidor pela organização. Em alguma parte na multidão havia homens com armas... Estava seguro disso.

– Você deveria voltar para carro. – Disse a Corinne.

– Você nunca tiraria Lisa daqui, até que isto termine. – Corinne estava caminhando cuidadosamente através do emaranhado de cabos, para a Lisa. Saudou o fotógrafo, que conhecia. – Pode lhe dar um descanso? Preciso falar com Lisa. – Manteve em alto um dedo, indicando uma conversa rápida.

O fotógrafo assentiu.

– Não podemos decidir se ela tem melhor aspecto de pé ou sentada. Lisa pode com as duas coisas.

– Os mosquitos estão comendoá, viva. – Gritou a cabeleireira, enquanto retocava o cabelo reluzente de Lisa, matando depois um inseto que havia aterrissado em seu próprio braço. – Honestamente, Matt, estas localizações selvagens são perigosas.

– Só mais um momento, Lisa. – Gritou em resposta, o fotógrafo. – Perderemos esta bonita luz, de outra forma.

Corinne quase tinha alcançado Lisa, quando levantou o olhar e viu um homem oculto sobre ela, entre as rochas. Por um momento pensou que ele era parte do cenário, um modelo, antes de registrar que era baixo e gordinho e nada bonito. Quando ele se virou, os raios do sol se refletiram sobre algo que estava em sua mão. Com o coração na garganta, Corinne se lançou sobre Lisa, pegando-a pela cintura e correu para trás entre os arbustos.

– Cullen! – Gritou, aterrorizada.

Elas caíram pesadamente, numa mistura de braços e pernas. Corinne não se importou, pois estava concentrada no objeto na mão de homem, notando-o em sua mente, decidida a desviar sua pontaria. Realmente sentia a intensidade no homem, enquanto lutava pelo controle. Pela extremidade do olho, notou às pessoas correrem para elas e mais dois homens entre as rochas. Nada importava exceto cobrir Lisa e evitar que o homem disparasse em Cullen. Ouvira Dayan gritar uma advertência e sentiu como ele se retirava de sua mente. Ele lhe proporcionava apoio emocional e doía saber que ele a deixasse agora, quando mais estava medo, quando não queria estar sozinha.

Profundamente na terra, Dayan tremeu de medo por ela, rugindo contra sua incapacidade para liberar-se da terrível paralisia que capturava sua raça durante as horas diurnas. Fundiu-se com Cullen "vendo" através de seus olhos. Os guardas de segurança corriam em todas as direções, as pessoas gritavam e Cullen estava tentando chegar as duas mulheres. Estava com a vista em sua meta, entre a multidão selvagem. Dayan respirou fundo, para controlar o próprio pânico. Obrigou Cullen a parar e olhar longamente em volta, para dar Dayan, uma visão clara do que estava acontecendo.

Primeiro se ocupou do homem que lutava com Corinne pela posse da arma. Em vez de pegar à arma, Dayan foi a garganta do homem, fechando suas vias respiratórias, de forma que ele não pudesse pensar em disparar em ninguém. O homem deixou cair à arma e esta tamborilou, caindo entre as rochas. Ele segurou a garganta, tentando lutar com as mãos invisíveis que o estrangulavam. Somente quando o assaltante caiu das rochas Dayan, utilizando os olhos de Cullen, varreu a multidão em busca de outras possíveis ameaça.

Um homem arrastava Corinne para trás, para longe das rochas e para baixo das árvores, fora da vista dos agentes de segurança. Os guardas convergiam sobre Lisa, que estava imóvel no chão. Dois homens estavam gritando e a cena estava se convertendo rapidamente num caos. Dayan obrigou Cullen a seguir para Corinne ,apesar do humano querer ir para Lisa, que estava claramente soluçando, tentando passar pelo pessoal de segurança, para chegar até Corinne.

Dayan pensava no homem que sujeitava sua companheira. Não permitiu nada mais em sua mente. Olhou diretamente para braço do homem que rodeava a garganta dela, e fez uma chave estranguladora. No momento, os músculos do braço do homem começaram a inchar. Ele gritou e soltou o pescoço de Corinne, para empurrá-la pelas costas, quando ela tentou fugir dele. Justo ante os olhos de Dayan, ela caiu com força, suas mãos tentando proteger ao bebê do chão pedregoso.

Amaldiçoando eloqüentemente, em sua língua ancestral, Dayan utilizou a última onda de poder, para baixar a terra, para que o assaltante de Corinne caísse com força e sua cabeça batesse numa rocha proeminente. Imediatamente desabaram mais rochas, desalojadas pelo pequeno terremoto. A princípio lentamente, depois caíram em dezenas, golpeando a cabeça do homem e seu peito, deixando-o parcialmente enterrado.

Isso era tudo o que Dayan podia fazer até que a terra renovasse sua força e o sol começasse a decair. Lançou um último olhar para Corinne, que jazia pequena e frágil entre o pó, seguidamente rompeu o vínculo com Cullen e seu espírito retrocedeu a seu lugar de descanso, onde seu corpo realmente estava paralisado.

Cullen voltou para olhar a Lisa, que estava lutando com os guardas de segurança.

– Corinne! Cullen, corra até Corinne. Que alguém chame uma ambulância. – As lágrimas eram abundantes e desciam pelo rosto de Lisa.

Cullen estava correndo para o corpo de Corinne, quando algo o golpeou com força por trás. Tirou-lhe o fôlego, deixando-o ofegante, em busca de ar. Registrou o agudo grito de Lisa, às pessoas lançando-se ao chão. Não ouvira o disparo. Nem estava seguro do que tinha acontecido, na realidade, mas quando tentou continuar para frente para alcançar Corinne, suas pernas amoleceram e ele se viu sentando-se bruscamente na grama.

– Cullen! – Lisa tentou se liberar, antes que um guarda de segurança a atirasse ao chão e a cobrisse com seu corpo.

Foi Frank quem apontou sua arma cuidadosamente, com mão firme, enquanto o atirador continuava correndo para Corinne. Frank gritou-lhe uma advertência, alta e clara, esperando que o homem parasse. Mas ele voltou e disparou, num só movimento. A bala se incrustou na árvore junto à cabeça de Frank. Sem se sobressaltar, ele apertou o gatilho. Notou que ele sussurrava.

– Não. Não atire.

O atirador ficou quieto, olhando com desilusão para Frank, sua arma caindo num estranho e lento movimento da mão. Baixou a vista para a mancha vermelha que se estendia por seu peito e depois a Frank ,antes de cair de joelhos e depois de barriga para baixo, entre as rochas e a grama.

Durante um momento houve só ruído de soluços e depois as pessoas começaram lentamente a olhar uns para os outros, compreendendo que a violência havia terminado tão rapidamente como começara. Frank manteve sua arma apontada firmemente sobre o desconhecido que lhe tinha disparado, enquanto se aproximava lentamente para ele. Podiam ouvir as sirenes se aproximando, com rapidez. Frank olhou ansiosamente para Corinne. Ela estava muito quieta, de barriga para baixo entre as rochas.

Minutos depois, Lisa subia numa ambulância com Corinne, segurando a bolsa desta, com lágrimas correndo por sua face. Cullen estava sendo embarcado em outra ambulância. Lisa pressionou uma mão contra a boca, para evitar gritar.

– Eu fiz isto. – Sussurrou a Corinne.

Corinne estava tão pálida que parecia cinza. Em volta de seus lábios havia uma distinta cor azul que a horrorizava.

– Está grávida. – Disse desnecesariamente, aos paramédicos. – E tem um problema de coração.

Uma máscara de oxigênio cobria o rosto de Corinne. Ela parecia pequena e indefesa, mais vulnerável e frágil. Como se já tivesse se afastado de Lisa. Lisa segurou firmemente em sua mão, desejando prender-se a ela, para evitar que Corinne fosse para longe.

– Ela vai se recuperar?

A ambulância avançava com grande velocidade e os paramédicos falavam pelo seu rádio, apontando coisas no relatório de Corinne. Nenhum deles olhava diretamente para Lisa e ninguém respondeu a sua pergunta. Ela tocou o estômago de Corinne, o bebê. O bebê de John e Corinne. Não queria perder nenhuma das duas. E se acontecesse o pior e o coração de Corinne parasse, Lisa queria que essa diminuta parte dela vivesse.

– É muito cedo para ti, pequena. – Cantarolou, brandamente. – Muito cedo.

No hospital, Lisa foi conduzida para fora da sala de emergência. Observava impotente, como introduziam apressadamente Cullen em um cubículo junto ao Corinne. Uma mulher polícial chegou depois de um momento, para falar com ela, mas ninguém disse nada sobre Corinne ou Cullen. A sala de espera encheu de pessoas conhecidas. Seu fotógrafo, seu agente Frank, estavam entre eles. A única pessoa que ela procurava, que esperava, em que sabia que poderia se apoiar, a pessoa que mais temia, não chegava.

Dayan.

Nunca mais seria capaz de fitar seus olhos. Por que não os ouvira? Lisa não queria que tudo fosse verdade. Os assassinatos não eram algo que acontecia às pessoas normais. Ela e Corinne haviam terminado com esse mundo. Trabalharam com vontade e escreveram uma nova vida. Uma que não incluía o assassinato. Sentou-se, desejando chorar para sempre.

Dayan estava sob a terra contando os minutos, até que pudesse se elevar sem perigo. Explodiu da terra, arrojando pó como um gêiser, enquanto saltava para o céu, mudando de forma. O sol estava baixo e ele não se pôs. A luz machucava seus olhos fazendo-os arder e lacrimejar. Ou talvez não fosse o sol. Dayan não sabia com segurança, enquanto voava veloz atravessando o céu, para o hospital onde ela estava.

Seu mundo. Sua vida. A melhor parte dele estava morrendo num hospital. Ele sabia. Sentia. Mantinha sua mente firmemente fundida a dela, para que ela não tivesse possibilidade de liberar seu espírito do corpo moribundo. – Resista. - Ordenou com cada fibra de seu ser, empenhando toda sua vontade para assegurar sua obediência.

- Estou tão cansada.

- Descansa então, mas não te parta

- Ouço que estão falando. Não acreditam que possam salvar meu bebê.

Havia dor em sua mente, em seu coração. Uma terrível debilidade como se ela tivesse se rendido aos médicos, como se já não pudesse continuar lutando contra as tremendas probabilidades.

- Não me deixe sozinho! - Gritou ele. Foi uma súplica. Uma ordem.- Ninguém precisa de você, como eu. Não volte a me deixar sozinho, nunca mais.

- Dayan. Você é forte. Muito forte. Haverá outra para você.

Mesmo em sua hora mais escura, ela pensava nele. Não em Cullen ou Lisa. Em sua mente, eles estavam juntos. Seu futuro. Sua felicidade.

Dayan envolveu seu espírito decaído, atando-a firmemente a ele.

- Nunca haverá outra para mim. Nunca. Se sobreviver a sua perda e continuar por toda a eternidade, já não serei eu, mas algo horrendo, uma abominação. Um perverso monstro. Não me converterei numa criatura semelhante. Escolherei segui-la até a próxima vida. Somos um só, Corinne. Um. Não há Dayan sem Corinne. Não tem outra escolha, que viver. Viva por sua filha que leva em seu seio. Viva por mim. Por nossos filhos ainda não nascidos. Por Lisa. Não a soltarei. Nem agora e nem nunca.

Ele estava agora bem mais perto, movendo-se velozmente enquanto o sol se afundava no horizonte. As cores salpicavam o céu de um vermelho sangue e o vento estava começando a se levantar em sinal ameaçador. Dayan já não era mais o poeta, o homem amável que Corinne conhecia. Era um homem dos Cárpatos em plena forma e algo estava ameaçando a sua companheira.

Invisível, passou por doutores e enfermeiras, deixando uma brisa fria a seu passo. Passou por Lisa, no quarto onde Cullen jazia pálido, enfaixado e ainda inconsciente. Dayan lançou a seu amigo um rápido olhar, tentando avaliar o dano, enquanto se apressava para Corinne. Sem ela, não poderia ajudar Cullen nem a ninguém mais. Seu primeiro pensamento, sua primeira obrigação era Corinne.

Ela estava sobre a cama, rodeada de tubos e fios. Estava muito pálida, quase transparente. A pesar do oxigênio havia uma faixa azulada em volta de seus lábios. Corinne parecia pequena e magra sob a colcha. Parecia uma menina, uma boneca de cera. Lutava duramente por cada respiração. Havia cabos que conectavam seu coração até uma máquina e de seu abdômen a outra. Dayan permaneceu em pé olhando-a, com o coração na garganta. Ela parecia tão frágil, que tinha medo de tocá-la.

Sentiu um movimento familiar em sua mente. Calma. Tranqüilidade. Confiança total.

- Dayan? Estamos bem perto. Traga-a até os curadores. Estamos nos reunindo. - Era Darius. Seu amigo. Sua família. Sempre se podia contar com Darius.

Dayan se permitiu respirar.

- Cullen precisa de vocês. Não tenho tempo de lhe atender. Prenderei Corinne a mim, todo o tempo que serei capaz, mas não devo perdê-la. Escolheria seguir seu caminho em seguida. Não me uni a ela e não houve intercâmbio de sangue, então não tenho o controle necessário para uma luta semelhante.

- Não terá que fazê-lo, Dayan. Não permitirei que ela se afaste de ti. - Como sempre, Darius se mostrava absolutamente crédulo. - Enviarei ajuda a Cullen. Barack e Syndil irão até ele. Conhece-os e não se preocupará. Agora vêem a nós. Traga sua companheira para que juntos possamos salvar sua vida.

Dayan se ajoelhou junto à cama e tomou a mão de Corinne. Durante um momento, a mão ficou frouxamente na palma da sua, mas então os dedos dela se fecharam ao redor dos seus. Ele notou que ela tentava abrir os olhos.

– Dayan. – Havia um sorriso em sua voz. – Acho que estava sonhando com você, ou de verdade estávamos conversando? – Sua voz era tão baixa e débil, que nunca a teria ouvido, se não tivesse uma audição tão aguda.

– Não sabia que fosse consciente do quanto a amo. – Ele pronunciou as palavras contra sua têmpora, seus lábios lhe roçando o pulso, meigamente. –Os médicos conversaram com você?

– Não têm que falar comigo, Dayan. Sei que estou morrendo. – Seus olhos se encheram de lágrimas. – Não quero perder o bebê. Quero que ela viva.

– Confia em mim, Corinne? Realmente, você confia em mim?

Ela fechou os olhos novamente, como se fosse muito difícil mantê-los abertos.

– Sim, é claro.

– Não, carinho. Você tem que saber o que diz. Confia em mim com sua vida? Com a vida de seu bebê? – Animou-a a abrir os olhos.

Ela piscou para ele.

– Sei o que estou dizendo.

– Vou tirá-la daqui.

– Não deixarão. – Ela fechou os olhos outra vez. Somente respirar era uma luta. Conversar era muito difícil.

– Não podem me deter.

Dayan estudou os cabos que corriam em todas as direções durante alguns minutos, depois a tirou cuidadosamente deles. Produziu os mesmos ritmos nos monitores, simplesmente fazendo que seu cérebro trabalhasse neles. Levantou-a cuidadosamente entre os braços e saiu atrevidamente para o vestíbulo, com ela. Moveu-se facilmente entre os humanos, defendendo Corinne e a si mesmo de seus olhos, enquanto abria passo saindo do hospital, para o interior da noite.

Já estava mais escuro e nuvens de tempestade começavam a se formar sobre suas cabeças. Em seus braços Corinne estremeceu, incapaz de manter a temperatura de seu corpo. Dayan automaticamente o fez por ela, mantendo suas mentes unidas, respirando por ela, ajudando seu desfalecido coração. Deu dois passos e saltou no ar sujeitando sua leve carga, perto de seu coração.

 

Corinne ouviu o murmúrio de uma voz. Fraca. Longínqua. Adorava essa voz, a forma em que ela acariciava seu nome, convertendo-o em algo pecaminosamente íntimo. Dayan a estava chamando. Estava sonhando, mas era um formoso sonho. Lutou para abrir os olhos. Estava rodeada de vozes, que penetravam em seu coração e sua alma. Notas de música. O som da água. Foi consciente de estar deitada confortavelmente sobre algo que não era uma cama. Parecia uma grande laje de pedra, mas não a sentia dura. Elevou as pálpebras e olhou para o teto de uma caverna.

Estava numa caverna de cristal!

Corinne olhou a seu redor, com surpresa. Tudo era belo, um mundo de cristal e vapor, com a luz ondeante de mil velas. O ar estava com um aroma que nunca tinha sentido antes, mas o inalou, na tentativa leválo profundamente a seus pulmões. Era consolador e ela se sentia tranqüila neste lugar. Sentia-se irreal. Sabia que estava sonhando novamente, mas se um lugar semelhante não podia existir realmente, Corinne agradecia poder visitá-lo em seus sonhos.

Observou as sombras dançantes titilando sobre as paredes da caverna. O vapor se elevava prazerosamente, formando sombras interessantes. Era difícil enfocar a atenção em algo e Corinne permitiu que seu olhar vagasse ao redor da grande câmara. Parecia estar numa cidade subterrânea de algum tipo. Havia muitas entradas e grandes espaços abertos, pelos quais podia ver, quase como se a caverna tivesse uma rede de túneis e câmaras que desciam e também se elevavam sobre o lugar no qual ela descansava. A câmara em que estava parecia muito grande e havia um charco de água fumegante a sua esquerda. Quando olhou mais de perto, pôde ver que estava numa série de cavernas subterrâneas, com tetos enormes como catedrais e o vapor se movia através de um labirinto de túneis. Estalactites formavam enormes obras de arte esculturais, enfeitando o teto. Era deslumbrante vê-las. Parecia um faiscante mundo de pedras preciosas de várias cores.

Levou alguns momentos para compreender que não estava sozinha. Havia várias pessoas na grande câmara, com ela. Todas estavam a sua volta e cantarolavam num idioma estrangeiro. Era uma belíssima melodia, misteriosa, um ritual sagrado de algum tipo. Os homens eram muito bonitos, seus rostos sóbrios e intensos e as mulheres, todas eram formosas além de toda descrição. O canto enchia a câmara subterrânea com o ritmo da própria terra, fazendo com que Corinne começasse a senti-lo em suas veias. Corria através dela como um rio, fluindo e refluindo com o ciclo vital.

O ritual não a alarmou. De fato, sentia-se muito segura deitada ali, os observando. Estudou cada um deles procurando algum sinal que os fizessem familiares. Os homens eram exóticamente bonitos. Possuíam o cabelo longo e corpos devastadores. Todos eles eram intimidantes ao olhá-los, mas estranhamente, não estava assustada. Parecia-se com Dayan, como se pudessem ser estreitamente aparentados. Todos eles estavam cantarolando e suas vozes eram formosas.

Corinne voltou sua atenção às mulheres. Três delas tinham cabelo longo e escuro, flutuando quase até suas cinturas, enquanto que a quarta tinha cabelos vermelhos, belíssimos, parecia fogo puro. Todas eram graciosas em seus movimentos. Corinne se encontrou observando-as cantar, admirando a forma em que se moviam, seus gestos e vozes, sua graça pouco comum. O padrão de suas mãos e o balanço de seus corpos eram hipnóticos à vista.

Depois de um tempo, tomou ciência da mão que sustentava a sua, firmemente. Cuidadosamente, porque era problemático, virou a cabeça. Para seu assombro, Dayan estava a seu lado, com os dedos firmemente entrelaçados com os dela. Estava cantarolando as mesmas palavras estrangeiras que os outros. Como o sonho que era, achou-o estranho e ainda assim, completamente formoso. Teria morrido? Sentia que estava profundamente no interior da terra, possivelmente perto do centro da terra. Era quente, com vapor elevando-se de vários charcos de água, mas espumosas cascatas caíam pelas paredes de frio gelo.

Corinne estava segura de que não tinha morrido, porque lhe pulsava terrivelmente a cabeça onde batera nas rochas, ao cair. Sentia o corpo machucado, batido e estava terrivelmente cansada. Era difícil respirar. Podia sentir seu coração pulsando em seu peito. Estava definitivamente viva.

Dayan se inclinou para roçar um beijo em sua testa e seu hálito morno foi como um bálsamo curador para os arranhões e machucados.

– Esta é minha família, minha gente, Corinne. Não quero que tenha medo. Podem acontecer coisas estranhas aqui, mas um de nossos maiores curadores tentará te fortalecer e salvar seu bebê. Eu estarei contigo a cada passado do caminho.

Os olhos dela percorreram seu rosto.

– Parece tão preocupado, Dayan. – Sua voz foi suave e amorosa, ao mesmo tempo em que indefesa.

Arderam lágrimas nos olhos dele, em sua garganta. Ele estava respirando por ela, regulando seu coração, mantendo-a viva tão efetivamente, como tinham feito as máquinas humanas. Ele inclinou-se para poder olhar diretamente em seu olhos.

– Quero que viva, Corinne. Entende-me? Preciso que viva por mim.

Ela assentiu, lágrimas repentinas invadiram seus olhos. Queria ser seu mundo, o ar que ele respirava. Queria ouvir o som de sua formosa voz durante o resto de sua vida. Notou como os olhos dele foram do vazio ermo ao súbito desejo, por ela. Seu corpo estava desvanecendo-se lentamente e ela sabia que a fé dele em seus curadores ficaria em nada. Era muito tarde para ela.

O canto continuou a sua volta e Corinne voltou para seu estado de sonolencia. Não lhe importava se nada fosse real, concentrou-se na beleza do que lhe envolvia e a sinfonia de vozes que mantinha o medo, a raia. Acima de tudo, não queria pensar em sua filha. Tinha falhado em dar a sua filha o tempo necessário para crescer.

– Carinho. – A voz de Dayan se fez ouvir novamente, captando sua atenção.

Corinne observou como uma mulher alta e esbelta, com longos cabelos negros, se aproximava dela. A mulher sorriu, tranquilizadoramente.

– Corinne, irmã. – Ela tocou a mão de Corinne, com dedos gentis. – Sou Desari, companheira de Julian, irmã de Dayan e agora sua. – Sua voz era musical e consoladora. Uma cura em si mesmo. – Temos conosco um de nossos maiores curadores. – ela voltou-se para gesticular para um homem de penetrantes olhos prateados.

Corinne viu como o homem se deslizava até seu lado. Era mais musculoso que os outros homens, com longo cabelo negro azulado. O poder emanava dele. Ele sorriu para ela, suavizando a marca cruel de sua boca. Segurou em sua mão.

– Estamos esperando Shea, que está bem versada no cuidado de nossas crianças. Por favor permita que meu irmão Darius e eu façamos o que pudermos, para atrasar a chegada da menina até que a viagem da Shea se complete.

Durante um momento Corinne só pôde olhar fixamente para ele, tomada por seu puro poder. Como Dayan, Gregori parecia acreditar que podia ter, de algum modo, êxito naquilo no que todos os médicos haviam fracassado.

Desari gesticulou novamente e um segundo homem se aproximou. Parecia-se muito com Gregori, só que com olhos negros, que pareciam adequados para sua aparência escura.

– Meu irmão Darius, agora seu irmão. Ele assistirá Gregori, nesta tentativa.

Darius se inclinou, num gesto cortês, depois levou os dedos mortos de Corinne, aos lábios.

– Bem-vinda a nossa família, minha irmãzinha. Pedimos sua permissão para tentar te curar.

Dayan levou a pequena mão de Corinne, aos lábios.

– Por favor, carinho. Sei que isto é estranho para você, mas por mim, por favor tente o que lhe pedem. Shea e Jacques ainda não chegaram e devemos atrasar o nascimento até que eles estejam aqui. Sem ela, as oportunidades de salvar o bebê serão bem menores.

Corinne levantou o olhar para Dayan e instantaneamente ficou perdida no negro abismo de seus olhos. Ele parecia tão vulnerável, seus sentimentos por ela, extremos e desprotegidos, escritos em cada linha de sua face. Dayan se inclinou mais.

– Preciso que faça isto, Corinne. Por favor confie em mim, pequena. Faça por mim. – Suas palavras foram sussurradas intimamente para ela, sua necessidade era tão grande, que lhe trouxe lágrimas aos olhos.

Corinne assentiu e permitiu que Gregori tomasse sua mão esquerda. Como podia alguma vez, negar alguma coisa a ele, quando a olhava assim? Sua mão direita permaneceu firmemente na de Dayan. Não queria estar só com seu corpo desfalecido e com desconhecidos de olhos firmes e muito poder.

Gregori fechou os olhos e se enviou para dentro do corpo estendido e fraco, ante ele. O coração humano dela era quase imprestável. Era Dayan que supria o poder para manter os órgãos de Corinne funcionando, Gregori moveu-se, para examinar ao bebê. Era uma menina e estava consciente. Ainda imatura, para nascer. Gregori tranqüilizou Corinne e saiu rapidamente, uma vez mais.

- Há pouco tempo. Sem Dayan ajudando-a teria morrido e o bebê com ela. Darius, o bebê é uma menina linda, forte psíquica. Não podemos nos permitir perder nenhuma das duas. - Gregori falou com seu irmão, mas utilizou o vínculo mental comum a todos os Cárpatos, para que todos os pressente entendessem a tremenda necessidade. - Eu trabalharei na mulher, já que é imperativo que ela viva, para as duas. Você cuida da menina.

- Só tenho feito algo semelhante com o Desari quando era um bebê, nunca com um feto no útero. Darius se levantou junto ao Gregori e olhou uma vez ao Dayan. Farei o que terei que fazer.

- Ela precisará de seu sangue, Dayan e não deve lutar contra a transferência. Não tem forças para esbanjar, então se assegure de que o aceite, voluntariamente. Darius comprovará o bebê, para determinar se seu corpo pode aceitar nosso sangue. Não pode converter a sua companheira enquanto a menina residir nela. A menina não sobreviveria a uma transformação tão difícil. Neste momento, tampouco conseguiria, Corinne. - Gregori estava em seu elemento, sua voz se mostrava confiada, enquanto dava instruções.

Dayan ergueu Corinne, para poder sentá-la, embalando-a em seu colo. Inclinou a cabeça para a dela, encerrando-os num mundo privado.

– O que te ofereço é a vida, Corinne. Para nós dois. – Sua respiração removeu os cabelos dela, lançando-os sobre os ombros. Ela sentiu como os lábios dele viajavam sobre sua pele nua e seus dentes mordiscaram gentilmente, seu pulso irregular. Ele murmurou algo suave em seu idioma estrangeiro.

Corinne se sentiu deslizar no interior de seu mundo de sonho. Com os braços de Dayan rodeando-a e seu corpo tão perto do dele, sentia-se a salvo e protegida. Então um relâmpago branco a atravessou, algo entre o prazer e a dor. Ficou passivamente no cristalino mundo de sonhos e música. As chamas titilaram captando reflexos sobre as paredes dos charcos de água, reflexos que dançavam e hipnotizavam, diminutas chamas de cor laranja e ouro.

Sentiu a presença do curador, mais uma vez. Sentiu uma peculiar calma, como se outro espírito compartilhasse seu corpo, igual a quando Dayan havia tentado curá-la. Era estranhamente reconfortante. Com a outra presença, seu coração parecia esforçar-se menos. Estava cansada, mesmo assim... ainda estava muito cansada. Era muito difícil manter os olhos abertos, embora gostasse de observar a beleza da câmara e as pessoas que haviam nela.

Dayan fechou as diminutas marcas, depois de tomar sangue suficiente para um intercâmbio ritual. Mudou Corinne de posição em seus braços, enquanto abria a camisa, com a outra mão.

– Faça isto por nós, meu amor. – Ordenou ele, amavelmente, utilizando um tom que descartava sua livre vontade, que assegurava que ela faria o que ordenava. Uma unha se alongou e Dayan abriu seu peito com uma veloz navalhada e pressionou Corinne contra ele. – Beba, Corinne. Ofereço minha vida pela tua. Ofereço minha vida pela tua e a de nossa filha.

Corinne estava bastante horrorizada. Seu formoso sonho havia dado uma virada tão distorcida. Não podia obrigar seus olhos a se abrirem, então não podia olhar a seu redor e ficar entre os braços de Dayan, sugando o quente líquido. Em seu sonho, podia mostrar-se analítica sobre o assunto. Nada disto era real de qualquer modo. Estava entre os braços de Dayan, pertencendo-o e ele havia tomado seu sangue primeiro, depois lhe entregava o seu, como se isto pudesse fazê-la mais forte e fisicamente capaz. Tudo se encaixava de modo estranho, como se os caçadores de vampiros acreditassem que ela fosse um vampiro. Era particularmente estranho, o fato de que parecesse ter importância, que tomasse o sangue dele.

Gregori movia-se para seu esforçado coração, procurando formas de controlar o mal. Sem o bebê, Dayan poderia dar a Corinne o sangue necessário para sobreviver, mas essa opção não era viável até que o bebê nascesse. Gregori observou como o sangue curativo se espalhava no frágil corpo de Corinne. Seguidamente, seus órgãos famintos ficaram tomados pelo bálsamo curador. Enquanto o espírito de Darius permanecia alerta, monitorando o bebê, Gregori continuou trabalhando no maltratado coração, reparando meticulosamente a válvula danificada, utilizando o sangue que fluía livremente em sua paciente. Não era o mesmo que tratar umferimento. Este mal era causado por uma enfermidade que agira gradualmente, insidiosamente, esgotando o coração. A seu favor ela tinha o poderoso sangue de Dayan fluindo em seu interior, junto a sua vontade de ferro, seu coração e alma e seu total e incondicional amor.

Darius revoou perto do bebê, apaziguando-a, oferecendo tranqüilidade e ânimo. Quando o sangue do antigo fluiu no pequeno corpo, a transformação começou. Sua audição seria superior, seu aspecto mais realçado, seu corpo mais forte. Corinne só podia se beneficiar com o sangue, mas o bebê não estava totalmente formado. A mudança de seus órgãos seria perigosa para a menina. Quando o bebê começou a se assustar, desconcertada pelas estranhas sensações, Darius a encheu de calma e se estendeu para estabelecer um vínculo telepático com ela. Contou-lhe histórias de seu mundo, da necessidade em que se encontravam os Cárpatos, do quanto ela seia apreciada por sua gente, do importante que era que suportasse o que estava acontecendo e pediu que ela ficasse com sua mãe, que tanto a amava.

A pequena quantidade de sangue que Corinne tinha bebido estava agora circulando através do corpo da menina. Daria fundira-se com o bebê e sentiu a rajada como uma bola de fogo.

- Alto! - Ordenou ele, agudamente.

Dayan inseriu imediatamente sua mão no peito, a fim de deter gentilmente a alimentação de Corinne. Sussurrou-lhe a ordem, estudando sua face ansiosamente. Corinne ficou atônita quando um desconhecido alto e loiro e de olhos dourados, se inclinou e fechou a profunda abertura do peito de Dayan com sua língua, depois, manteve uma mão sobre o ombro de Dayan, num gesto que disse muito a Corinne.

– Você é Julian, o companheiro de Desari? – Ela sobressaltou-os, com sua pergunta.

O homem se inclinou ligeiramente, com seus olhos dourados sobre o rosto dela.

– Certamente sou Julian, companheiro de Desari e irmão por afinidade, de Dayan. É um prazer te conhecer, Corinne. Tínhamos a esperança e rezávamos para que Dayan a encontrasse.

– É real, então? Tudo isto é real? – Ela estava olhando para ele, porque parecia muito mais acessível que os outros homens.

Ele sorriu e seus dentes era muito brancos, muito retos.

– Quer que seja?

Corinne reforçou o aperto sobre a mão de Dayan. Ele era sua realidade. Em seu corpo, o bebê estava movendo quase violentamente. Ela pressionou uma mão sobre o ventre, protetoramente.

– Ela não gosta disto, Dayan. Acredito que seria melhor que estivesse sonhando.

Gregori e Dayan olharam apreensivamente para Darius. Ele estava ainda completamente fundido com ao bebê. Sua concentração parecia total. Dayan se inclinou, aproximando-se de Corinne.

– Conheço Darius. Sua vontade é de ferro. Não há forma de que ele permita que nosso bebê se deslize para longe de nós. – Dayan mordiscou gentil e insistentemente os dedos dela, para manter sua atenção concentrada nele. – Me conte o que está sentindo, carinho. Sua cor é ligeiramente melhor. – Ele ainda estava fundido com ela, ajudando-a a regular seu coração e pulmões, temendo permiti-la tentar por própria conta. – Como se sente?

Mais que tudo, Corinne ela temia por seu bebê. Levou-lhe um momento, respirar profundamente e deter o pânico, antes que voltasse a se sentir completa. Sentia-se melhor, pois não precisava se esforçar para respirar. Ainda se sentia fraca e desejava dormir.

– Dayan... – Pronunciou o nome dele muito, olhando a seu redor uma vez mais. Ainda estava ainda na câmara subterrânea e ainda havia pessoas a seu redor. – Estou acordada? Não pareço poder sentir a diferença e estou assustada.

– Neste mesmo está desperta, Corinne. Alguns membros de minha família estão aqui conosco. – Disse Dayan com terna tranqüilidade.

Ela examinou seu peito. Sua camisa estava imaculada, desabotoada, mas seu peito musculoso estava impecável, sem uma só mancha. Não havia nenhuma marca onde ela se alimentara. Nem rastro de sangue. Por alguma razão, isso lhe proporcionou a distração que precisava para sua paz mental. Claramente estava misturando seus extravagantes sonhos, com a realidade.

– Onde está Lisa.

– No hospital com Cullen. Lembra-se do que aconteceu?

– Havia um homem nas rochas sobre Lisa. Estava armado. Derrubei-a e lutei com ele... – Corinne interrompeu-se, olhando os desconhecidos. Baixou a voz. – Você sabe... À minha estranha forma. Tudo está confuso depois disso. Lembro-me que caí e tentei proteger o bebê. – Ela acariciou cuidadosamente, a marca avantajada e os arranhões de sua testa.

Dayan fez uma careta. Já estavam formando hematomas escuros em sua pele pálida. Gregori estivera muito ocupado, para curar os ferimentos superficiais de Corinne, mas a Dayan incomodava que ela se sentisse incômoda. Podia sentir que lhe doía a cabeça, pulsando e palpitando, embora ela não se queixasse. As perguntas dançavam em sua mente. Dayan lhe deu as respostas.

– Dispararam em Cullen, carinho. Ele está vivo e Barack e Syndil estão a caminho do hospital, para ajudá-lo. Eles se ocuparão dele. Syndil está bem versada na cura e tem dons especiais. Cullen conhece Barack e Syndil e Lisa sentirá medo, porque sabe que são membros de nossa banda. Permitirá a entrada deles no quarto. – Dayan não acrescentou que a permissão de Lisa tinha pouca importância, quando eles podiam caminhar sem serem vistos, em qualquer momento. Barack e Syndil eram Carpatos em plena forma, capazes de controlar as mentes dos humanos que os rodeavam, se fosse necessário.

– Ele está muito mal? – Havia um tremor na voz de Corinne e Dayan a atraiu para ele, protetoramente.

– Carinho, não há necessidade de se preocupar com o Cullen. Se estivesse com problemas, eu saberia. Sou telepático, recorda? Barack e Syndil podem se comunicar facilmente comigo. Informariam instantaneamente se não pudessem dirigir a situação e pediriam que Darius ou Gregori, fosse ao hospital em seguida. – Dayan assinalou o homem de penetrantes olhos prateados e a pequena mulher de cabelo escuro. – Gregori e Savannah viajaram desde Novo Orleáns para estarem conosco. Devemos muito a eles.

Corinne esfregou a testa mais uma vez. Agradecia a preocupação de todo mundo, mas desejava que todos fossem para casa. Estava cansada e havia muitos deles. Queria dormir e seu bebê ainda chutava violentamente. Nenhum dos outros parecia notar que aquele, quem chamavam de Darius, parecia estar numa espécie de transe.

Fechou os olhos e descansou a cabeça contra o ombro de Dayan.

– Obrigada, a todos vocês. – Murmurou, tão atentamente como uma menina, com voz sonolenta e débil.

Dayan olhou apreensivamente para Gregori, que assentiu para ele, tranquilizadoramente.

- É bom que ela durma, Dayan. Posso curá-la um momento mais e Darius pode trabalhar com o bebê, mas ela precisa descansar mais que tudo. As curas não agüentarão para sempre. São temporárias. Não posso lhe dar um novo coração. Ajude-a a dormir.

No hospital, Lisa estava sentada com a cabeça descansando junto a Cullen. Havia chorado tanto, até estar segura de que não restavam mais lágrimas. Os médicos haviam dito que Corinne estava morrendo. Era só uma questão de tempo. Disseram que deixariam o bebê em seu corpo agonizante, o tempo que fosse possível, mas havia pouca esperança de que o bebê sobrevivesse, uma vez nascido. Depois disseram que não sabiam se Cullen viveria ou morreria. Era questão de esperar. Ele estava em má forma e a bala tinha perfurado um pulmão e destruira tudo a seu passo. Não sabiam como ainda agüentava. Como se não fosse suficiente, houvera uma terrível comoção no quarto de Corinne, por parte do pessoal do hospital. Agentes de segurança e finalmente a polícia que circulavam em massa. Quinze minutos depois, quando Lisa esperava ouvir que Corinne havia morrido, disseram-lhe que ela havia desaparecido.

Não tinha como Corinne levantar e sair do hospital. Todos estavam de acordo nisso e ninguém fôra visto perto de seu quarto. Quando os monitores marcaram a famosa falha cardíaca, a enfermeira se apressou a entrar e descobriu que a paciente havia desaparecido. Lisa temia que os homens tentaram matá-las, pudessem ter levado Corinne, de alguma maneira.

Era culpa dela. Teimara em ir à sessão fotográfica, apesar de ser avisada que estava em perigo. Corinne atravessara o parque, lançando-se sobre ela, protegendo-a, sem pensar em seu próprio coração e as conseqüências para ela e o bebê. - Tentaram me matar! - Lisa tentou digerir a informação. Realmente alguém desejava sua morte. Os homens estavam armados e teriam disparado nela, se Corinne e Cullen não tivessem aparecido para salvá-la.

Lisa levantou a cabeça e olhou para Cullen. Ela parecia tão pálido e havia bandagens por toda parte. Ela mentira, dizendo que ele era seu noivo, para poder ficar a seu lado. Uma vez que desaparecimento de Corinne se confirmara, o pessoal so hospital deixou-a estritamente sozinha, postando guardas na porta do quarto de Cullen. Obviamente, ninguém sabia o que lhe dizer. Lisa não sabia o que fazer. John e Corinne sempre se ocuparam dos detalhes de suas vidas.

Ela colocou a mão um a boca, mordendo-a com força, para evitar gritar. Ela era responsável por este desastre. Se tivesse ouvido-os, Corinne e o bebê ainda estariam a salvo e Cullen não estaria a ponto de morrer.

– Ele não morrerá. – Disse uma suave voz feminina, atrás dela. – Não se alarme... Sou Syndil e este é Barack.

Alarmada, Lisa se voltou, quase caindo da cadeira. Não tinha ouvido nada e o guarda de segurança não escoltara ninguém para o interior do quarto. Mas duas pessoas estavam em pé, ante a porta. Seu coração palpitou alarmado e Lisa começou a gritar pedindo ajuda. Levou um momento para reconhecer os nomes. Barack e Syndil, da banda dos Trovadores, amigos de Dayan.

– Como entraram aqui? – Sussurrou, Lisa. Não entendia nada do que estava acontecendo.

– Cullen é nosso amigo há muito tempo. Arriscou sua vida para nos advertir quando estávamos em perigo. Nunca permitiríamos que morresse. – Disse-lhe, Barack, sorrindo gentilmente, olhando-a diretamente nos olhos. – Você deve ser Lisa, a irmã de Corinne. Dayan nos falou muito de você.

Lisa explodiu em lágrimas.

–Corinne desapareceu.

Syndil rodeou os ombros de Lisa, enchendo-a de conforto.

– Corinne está bem, Lisa. Aqui ela estava morrendo. Dayan não podia permitir semelhante coisa. Gregori, um de nossos maiores curadores, veio de Nova Orleáns somente para ajudá-los. Estão decididos que Corinne e o bebê vivam. – Ela apertou os ombros de Lisa amavelmente, com tranqüilidade e depois atravessou a curta distância, até Cullen. Imediatamente mudou sua expressão. – Barack, ele está tão pálido! Há muito mal a reparar! – Syndil tocou o ombro de Cullen, com dedos gentis. – É duro vê-lo deste jeito.

– Não estará assim por muito tempo. – Respondeu Barack, com confiança.

Lisa se ergueu em toda sua estatura.

– Falem-me de Corinne. Onde ela está? Dayan não tinha direito a levar minha irmã do hospital quando estava tão mortalmente doente. Não tinha direito. – Pela primeira vez em sua vida, Lisa não ia se esconder da verdade, não importava quão dolorosa pudesse ser.

Barack voltou a olhá-la.

– Lisa. – Sua voz foi suave, mas compelidora – Conhece o Dayan, sabe que ele ama Corinne e deseja que ela viva. Dayan precisa que ela viva. Ele levou-a, junto à única gente que tem possibilidade de salvá-la. Você queria que ele a salvasse, não é?

Lisa piscou rapidamente e encontrou-se assentindo, perguntando-se por que estava tão irritada. É obvio que Dayan tinha que cuidar de Corinne. Todos podiam ver que ele estava louco por ela. Depois, moveu-se para permanecer junto à cama, tratando de alcançar a mão de Cullen.

– Sente-se aqui e permaneça perto dele enquanto trabalhamos. – Convidou Syndil, brandamente. – Ninguém virá nos incomodar.

– Corinne vai estar realmente bem? Está com Dayan? – Lisa se sentou na cadeira porque o alívio foi tão imenso, que suas pernas trêmulas ameaçavam desfalecer.

– Gregori tem reputação de ser o melhor do mundo. – A voz de Syndil era melódica, fácil de ouvir. – E continuou. – Dayan está com Corinne e não abandonará seu lado.

– Onde? Preciso vê-la.

Barack estendeu a mão e a segurou pelo queixo, inclinando sua cabeça, para obrigá-la a levantar o olhar.

– Logo estará com ela, Lisa. Agora, seu lugar é com Cullen. Ele precisa de você aqui. Sabe que Corinne está nas melhores mãos, mas Cullen está sozinho. Precisa de cuidados. Embora não seja capaz de viajar, deverá ser transladado para uma casa segura, que Syndil e eu protegeremos. Você cuidará dele até que possa ir até Corinne e Dayan. Isso é o que quer e se tranqüilizará sobre a saúde de Corinne, confiando em que Dayan a informará de seus progressos. Dayan deve permanecer com Corinne. É o lugar que lhe corresponde. – A voz de Barack era atemorizante, hipnótica. Lisa se sentia como se estivesse caindo nos olhos escuros.

Barack falava com perfeito sentido para ela. Precisava ficar com o Cullen. Ela era responsável por seu ferimento e não havia ninguém mais que se ocupasse dele. O lugar de Dayan era definitivamente, com Corinne.

– Vou te ensinar um canto curador, Lisa. – Disse Syndil, brandamente. Ajudará-nos a auxiliar Cullen. As palavras estão numa linguagem ancestral e são lindas. Ouça o padrão de nossas palavras e as repita com Barack. Ouvirá minha voz elevando-se com as suas, mas eu me concentrarei em curar Cullen. Tenho um pequeno talento nesta área... Certamente não como Gregori, mas acredito que posso fazer algum bem.      - Por favor, empreste-nos sua voz.

Syndil soava muito amável, seu tom tão puro e agradável ao ouvido, que Lisa poderia ouvi-la para sempre.

Barack pegou várias velas de sua mochila e as acendeu, enchendo o quarto de um perfume tranqüilizador. Lisa se inclinou aproximando-se de Cullen. Era estranho, mas podia ouvir a voz de Syndil cantarolando suavemente em sua cabeça. Estava segura de que Syndil não estava falando em voz alta, mas ouvia as palavras claramente e começou a segui-la, a princípio por si mesma, depois em união com Barack, quando ele começou a cantarolar em voz alta. Lisa seguiu seu exemplo, repetindo as belas palavras. Era difícil seguir a pronúncia exata, mas Lisa estava decidida a tentar. Estava com o estranho pressentimento de que Syndil realmente podia ajudar Cullen.

Syndil fechou os olhos, concentrando-se totalmente no humano que estava tão imóvel sobre a cama. Ao princípio as imagens fluíram. Cullen sorrindo. Passeando pelo bosque com eles, conversando e sorrindo. Cullen protegendo ela e Desari quando alguém seqüestrara à companheira de Darius. Cullen ganhara a admiração de toda a banda. Estava sob seu amparo. Syndil respirou fundo enviando-se fora de seu corpo e entrando no que estava ferido.

O ferimento era terrível. A bala ricocheteara através do corpo de Cullen, causando tremendos danos. Syndil começou o delicado trabalho de reparação, de dentro para fora. Os médicos haviam feito um trabalho milagroso, mas Cullen estava com problemas, mas Syndil era meticulosa. Barack dirigiria o pessoal do hospital, para longe do quarto, enquanto ela trabalhava. Se qualquer homem da sociedade, tentasse entrar no hospital para matar Cullen, Barack saberia.

Syndil manteve toda sua atenção concentrada em reparar os órgãos de Cullen. Era um trabalho dolorosamente lento.

Exausta e cambaleante, de cansaço, saiu do corpo de Cullen, de volta ao seu. Barack imediatamente a segurou pela cintura.

– Estou orgulhoso de você, Syndil. Realmente lhe trouxeste de volta.

- Ele precisa de sangue, Barack. Apesar de toda a ajuda que lhe proporcionei, ainda está em perigo. Nosso sangue asseguraria sua recuperação.

Syndil estava encurvada pelo cansaço

-      Também você precisa de sangue. As palavras de Barack foram um convite sussurrado.

Lisa ficou em pé de um salto e trouxe Syndil até a cadeira.

– Ele viverá? – Perguntou, quase disposta a acreditar num milagre. Barack e Syndil inspiravam confiança, quando ela precisava aferrar-se à esperança, desesperadamente.

Syndil estendeu o braço e pegou sua mão.

– Não entregaremos Cullen para o outro mundo ainda, Lisa. Ele merece ser feliz, e há muito que não conhece tal coisa. Você se preocupa muito por ele. – Declarou.

Lisa assentiu, mesmo enquanto enquanto considerava os riscos.

– Acabo de conhecê-lo. Mas ele é diferente. Realmente desfruto de sua companhia. E ele estava tentando me salvar. – Confessou num pequeno impulso.

– Aqui ele não está a salvo, Lisa. – Disse-lhe Barack, cuidadosamente. – Já deve ter compreendido isso. Os homens que querem matar você e a sua irmã querem Cullen também. O guarda de segurança colocado a sua porta é inexperiente. Se Cullen permanecer aqui, a sociedade tentará lhe matar. O guarda de segurança, Cullen e possivelmente você, morrerão. Cullen não tem outra família. Nossa banda é sua família. Nós gostaríamos que viesse conosco para um lugar que sabemos ser seguro. Devemos levar Cullen, para lhe protege-lo. Não estaremos com ele todo o tempo e ele precisará que alguém o ajude enquanto se cure.

Os dedos de Lisa se fecharam. Não sabia o que fazer, em quem confiar. Dayan havia dito o mesmo sobre Corinne e tinha tido razão.

– Tudo isto começou quando entramos nesse bar. – Acusou ela, imprudentemente.

Syndil a olhou diretamente. Sua voz foi amável mas muito firme.

– Sabe que isso não é verdade, Lisa. Seu irmão foi assassinado por esses mesmos homens. Só porque não deseja que algo seja verdade, não muda a realidade. Deve viver no mundo real, Lisa, não num de ilusão. Você está em perigo, igual a Cullen. Não a obrigarei a nos acompanhar, mas vamos proteger Cullen. Estou lhe pedindo que confie em nós por própria vontade.

- Tomarei seu sangue e insistirei em que obedeça. - Barack estava irritado com a mulher. Era ridiculamente teimosa.

- Ela é escolha de Cullen. Por respeito a ele e à companheira de Dayan, não podemos fazer tal coisa.

Barack disse sua opinião.

– Foi sua negativa a aceitar a realidade que começou esta crise. Poderíamos ter perdide Cullen e Corinne. Queria que lhe disparassem? Se for, conseguiu.

- Barack! - Syndil sussurrou uma reprimenda. - O que está fazendo?

- Acredito que deveríamos nos ocupar da segurança de Cullen e apagar de sua mente esta mulher infantil. Tem bom aspecto, mas é sem substância?

A mão de Cullen se moveu, seus dedos procuraram os de Lisa.

– Por isso me lembro, Barack. – Sussurrou, ele. – Não faz muito, você mesmo queria disparar em mim. Pareço inspirar essa reação nas pessoas. O que me aconteceu?

Syndil se inclinou aproximando-se dele, suas mãos gentis acariciaram o cabelo dele, jogando-o para trás, afastando-o da testa. Lisa estava chorando, silenciosamente.

– Dispararam em você, quando protegia Corinne e Lisa. Como sempre bancando o herói. – Respondeu-lhe Syndil.

– Ainda tentando se pavonear diante das mulheres bonitas. – Disse Barack, sorrindo afetuosamente para Cullen.

O olhar de Cullen procurou o de Lisa, mas ela evitou seus olhos baixando a cabeça, mesmo enquanto se segurava à mão dele.

– Nunca sdoube apreciar uma mulher, até que eu te mostrei suas boas qualidades, Barack.

– Não tente me colocar em confusões, por causa de meu anterior comportamento, Cullen. – Disse Barack, mantendo o tom ligeiro apesar de sua preocupação. Cullen estava quase cinza. Barack olhou ansiosamente para Syndil.

Sua companheira lhe sorriu, tranquilizadoramente.

– É certo, Cullen. – Disse Syndil. – Tenho boa memória e foi você o que me fez sentir que podia viver novamente. Deve descansar e fazer o que lhe dizemos.

– Quero que cuidem de Lisa. – Cullen estava olhando para Lisa, com amor nos olhos.

Barack limpou a garganta, mas se deteve rapidamente, quande Syndil o olhou fixamente.

– Lisa, não chore. – Disse Cullen, brandamente. – Rompe meu coração, vê-la assim.

– Ele tem razão... Foi minha culpa. Fui à sessão de fotos porque não queria acreditar que havia um problema. E agora você está ferido e Corinne também.

– Corinne? – Cullen voltou à cabeça, para olhar Barack. – Onde está Corinne?

– Está com Dayan. – Disse Barack tranquilizadoramente, inclinando-se para olhar os olhos de Cullen, cheios de dor. – Tem que descansar e se curar, Cullen. Dayan cuidará de Corinne e nos ocuparemos de que Lisa esteja a salvo. Tem minha palavra.

– Lisa está sob seu amparo. – Insistiu, Cullen.

Barack suspirou, brandamente.

– É obvio, Cullen, ela está sob nosso amparo. Dou-te minha palavra. Agora volte a dormir e deixe de me dar ordens diante de Syndil. Ela gosta muito.

Cullen fechou os olhos obedientemente em resposta à sugestão hipnótica na voz de Barack, imediatamente Syndil se inclinou perto de Lisa, olhando-a diretamente nos olhos.

- Deve fazer o guarda de segurança te escoltar até a lanchonete do hospital, enquanto a enfermeira mantém um olho sobre no quarto. É urgente que consiga algo para beber, imediatamente.

Syndil se sentia fraca por causa do exaustivo trabalho de reparar os terríveis ferimentos de Cullen. Precisava se alimentar e Cullen precisava do sangue ancestral de Barack, para completar o processo de cura. Não podiam dar-lhe o sangue e depois permitir que o hospital pegasse amostras. Cullen teria que ser transladado para onde pudessem vigiar sua saúde apropiadamente e lhe proteger.

Lisa se inclinou sobre Cullen para beijá-lo, antes de se voltar, obedecendo a compulsão hipnótica que Syndil utilizara com ela.

 

Corinne ouviu primeiro a música suave e doce. Perfeita. Era tão maravilhosa, que trazia lágrimas a seus olhos. A voz que cantava era transportada num rouco sopro de sensualidade e efusivo amor. Soube quem era e se encontrou sorrindo.

– Dayan. – Sussurrou seu nome, suavemente.

A música continuou, mas sentiu o leve movimento da cama em que estava deitada.

– Corinne. Pensei que dormiria para sempre. Quero que saiba que me subtraiu centenas de anos de vida. Não posso tomar outro susto como esse. A próxima vez que te enviar para dormir, espero encontrá-la onde deixei.

A boca dela se curvou num sorriso, mas não abriu os olhos.

– Você está agindo como se tentasse me dar ordens. – ela soava divertida, sonolenta e incrivelmente sexy.

Instantaneamente, o sangue de Dayan se converteu em lava fundida, um lento ardor que consumiu seu corpo e envolveu seu coração em chamas. Cprinne parecia-lhe tão formosa, tranqüilamente sob as mantas, com o cabelo estendido em volta de sua face, que não podia evitar tocá-la. Dayan colocou seu violão cuidadosamente junto à cama e se inclinou para beijar a irresistivelmente e luxuriosa boca.

– Eu ordeno e você obedece. Assim é que deve ser. – Sua voz era uma sedução.

– Seriamente? – O sorriso de Corinne se ampliou, para revelar sua intrigante covinha. – Não tinha ouvido isso. Sempre pensei que era justamente o contrário.

– Deve ter falado com as pessoas erradas.

As pálpebras de Corinne revoaram e com um pequeno esforço, ela tentou abrir os olhos. Levantou a mão até os lábios dele e tocou as linhas de tensão, com um dedo gentil.

– Realmente você tem medo por mim. Não era minha intenção preocupá-lo.

Ele pegou a mão dela e a levou aos lábios, beijando a palma, antes de colocá-la sobre o coração.

– Fez mais que me preocupar, carinho. Você se lembra do que aconteceu?

– Vagamente, como um sonho. Não estou segura de que lembro de tudo, que me contou você ou que sonhei. Lisa e Cullen estão bem?

– Acredito que estão a salvo. – Esperava que fosse verdade. Syndil e Barack não havia tocado sua mente com notícias, boas ou más.

Ela olhou fixamente para os olhos dele, tentando ler seus pensamentos.

– Preciso saber que Lisa está viva e bem e que Cullen não está muito ferido.

– Não sei os detalhes de sua condição, mas sei que Lisa está protegida e não ocorrerá nada a ela. Posso te prometer isso.

Corinne assentiu, aceitando o mundo dele.

– Meu bebê está vivo. – Disse amorosamente e seu tom fez com que o coração de Dayan batesse forte no peito. – Posso sentir ela se mover.

Dayan lhe sorriu, mas a expressão de seus olhos era séria.

– Ela vai ficar onde deve, até que seja forte o suficientemente, para sobreviver por sua própria conta.

– Alguém já te disse o quanto você é bonito? – Perguntou ela. – Porque é, sabe. Incrivelmente bonito. Mas mais que isso, você é muito doce.

Dayan gemeu, ruidosamente.

– Não diga isso, Corinne. Isso é a pior coisa que uma mulher pode dizer a um homem. Sexy, masculino, viril. Posso pensar num milhão de adjetivos que eu gostaria, mas "doce" não é um deles.

– Não há nada errado em ser doce, Dayan. – Disse-lhe Corinne. Sua voz soava longínqua a seus próprios ouvidos, mas outros sons pareciam muito altos. Insetos noturnos. O vento lá fora sacudindo os ramos das árvores. – Conte-me o que aconteceu.

– Deliberadamente, você ignorou minha ordem de dormir e foi com o idiota de meu amigo Cullen, procurar a Lisa. – Ele cuspiu cada palavra entre seus dentes brancos, fazendo Corinne se lembrar de um lobo.

– Não tinha intenção de chamar Cullen, seu bobo. – respondeu ela, amavelmente, mas sem deixar se intimidar o mínimo, por sua feroz expressão.

– Cullen sabia que estava nos primeiros postos da lista da sociedade e saiu desprotegido e o que é pior, levou-a com ele. Não considero isso muito sensato por sua parte. Portanto o termo "bobo" poderia aplicar a ele. – Seu tom era severo.

Corinne esfregou as linhas de tensão do atraente rosto dele.

– É obvio que foi sensato. O que outra coisa podia fazer? Lisa saíra e se não a tivessemos seguido, a teriam matado. – Assinalou ela.

– Cullen levou-a com ele. – Era um engano que Dayan considerava imperdoável. Fora essas circunstâncias, Dayan acreditava que estava sendo extraordinariamente pormenorizado sobre a questão.

Ela abriu a boca para replicar, mas havia uma expressão inominável nos olhos dele, algo selvagem e indomável, primitivo.

– Aposto que alguém já lhe disse que você é muito intimidante. – Corinne brincou com dele, tentando aliviar a tensão. – Não é que eu me sinta intimidada por você, mas posso ver que outras pessoas poderiam.

– Seria melhor para você que me achasse intimidante. – Não poderia ser severo com ela, não importava o quanto tentasse. Corrine era pequena e frágil, incrivelmente formosa, com sua doce e compassiva natureza brilhando em seus olhos. Ele estava perdido. Era suficiente para levá-lo a loucura.

– Você acredita? – Corinne não parecia intimidada, mas divertida. Havia círculos escuros sob seus olhos e hematomas em sua frente, mas seus olhos estavam cheios de riso. – Não estou de todo segura de que fosse bom para você. Acha que não notei a indevida adulação que todas essas fãs lhe dedicam.

Uma sobrancelha negra se arqueou

– Indevida adulação? Mereço totalmente essa adulação. Acostume-se, mulher. Noite após noite enquanto esteja no palco, você terá que se sentar perto e me compartilhar com meus fãs. Não há necessidade de sentir ciume, Corinne. Eu verei só você, enquanto toco.

– Comediante. – Corinne pensou em se sentar, mas descartou a idéia. – Não tenho intenção de me sentar perto durante suas apresentações. Algumas particulares serão suficientes para mim. E não tenho um neurônio ciumento em meu cérebro. Não teremos que nos preocupar com infantilismos como esse.

Dayan colocou um dedo sobre a testa e mostrou-se pensativo.

– Infantilismos? Esse é um termo forte. Duro. Muito duro. – Ela estava sorrindo outra vez. O sorriso que podia iluminar o mundo. Dayan não conseguiu se conter e tomou seus lábios, com urgência.

O tempo parou, pois não pôde encontrar disciplina para fazer um movimento tenro e gentil.

Dayan precisava se alimentar de sua boca, perder-se em sua doçura só por uns momentos. Manteve seu corpo sob um rígido controle e lentamente, relutantemente levantou a cabeça.

– Por favor não volte a fazer isso. – Sua voz era uma arma aveludada e ele a utilizava desavergonhadamente. Brevemente, descansou sua testa contra a dela. – Encontrei-a. Em meio a minha escuridão, onde não havia esperanças para mim, onde lutava e batalhava contra o monstro a cada segundo de cada noite. Você veio para mim. Você me salvou, Corinne. Não pode me abandonar agora. Não posso voltar para uma vida de solidão. Ninguém pode me pedir isso, sequer você. Como posso fazer que você entenda? Não posso voltar atrás. Deve insistir em viver, se não por você e o bebê, viva por mim. Ame-me. Ame a mim, Corinne.

Uma vez mais, as lágrimas brilharam nos grandes olhos verdes.

– Dayan. – Corinne sussurrou seu nome, desespera, mas amorosamente. – Não acha que eu prometeria, se pudesse? Quero-o mais que tudo... Mas só humana e não posso fazer o impossível. – Seus dedos se enredaram nos cabelos escuros e espessos, dele. – Tive um estranho sonho no qual seus curadores vinham para mim e tentavam me ajudar. Sei que os médicos dizem que me estou morrendo... Ouvi-os falando com Lisa. Ouvi-a chorar. Mas ainda estou viva e também minha filha. Conte-me.

– Gregori fez o que pôde para reparar seu coração, Corinne, mas a melhora é temporária, para dar ao bebê uma oportunidade de crescer. Darius diz que a menina é forte e quer viver. Temos isso a nosso favor. É um equilíbrio delicado, esperar até que ela seja bem, para sobreviver sem você. Gregori quer algumas poucas semanas mais para ela. Está trabalhando com seu coração para nos dar esse tempo.

– Então não foi todo um sonho. –Corinne tomou a cabeça dele entre as mãos e a levantou, para que ele fosse obrigado a olhá-la. – O que é, Dayan? Era uma parte do sonho ou você estava ali também, ajudando de algum modo?

Pela primeira vez, o negro olhar se separou do dela. Ele se sentou, endireitando o corpo e arrumou os cobertores em volta dela.

– Amo você, Corinne, – Disse ele, cheio de ternura. - Amo-a mais que a tudo ou todos, nesta terra. Tem que saber disso.

– Olhe para mim... – Corinne tomou as mãos dele e levou-as a boca, seu hálito quente, contra a pele dele. – Dayan, me olhe, por favor.

Ele suspirou, ela pôde ouvir e sentir com que força lhe palpitava o coração. Sua reação não era normal e ela sabia que isso era significativo, de algum modo.

– O que é que acredita que não posso amar em você? Porque é o que sinto. Você está me entregando uma parte de você, mas não quer que o conheça de tudo. Sinto-me conectada a você. Fortemente conectada. Somos duas metades. Fui casada, Dayan. Sei o que supõe que sente. Amava John, mas não do mesmo modo. Com você, eu sinto tudo e muito mais intenso. Poderia te ouvir falar para sempre. Ou simplesmente me sentar a seu lado silenciosamente, sem palavras. Seria suficiente para mim. Quero estar contigo, mas não sei quem você é. Diz que pode me amar porque me conhece através de minha mente. Eu não tenho essa vantagem. Para te conhecer, te conhecer realmente, você tem que falar comigo. Há uma parte de você, fechada a mim. Não confia em que eu me importe o suficiente para tanto?

– Você não confia em si mesma. Posso ver em sua mente, Corinne. Vejo-a lutar com as dúvidas. Acredita que tudo aconteceu muito rápido. Que é simplesmente química, puramente sexual. Ou porque está grávida e precisa de alguém. Dá a si mesma muitas razões, muitas desculpas para seus sentimentos por mim. Não diz a você mesma que me ama.

Os olhos dela procuraram seu negro olhar. Havia dor neles, nas escuras profundezas. Ele estava ferido e isso a incomodava.

– Dayan, provavelmente sempre tiveste a habilidade em ler mentes, é uma segunda natureza para você, mas para alguém que não é telepático é incômodo. Estou acostumada a censurar meus pensamentos, escolhendo como quero me apresentar a mim mesma ou ao mundo. Você pode ver o interior de minha mente, mas por alguma estranha razão, isso não me incomoda. Se fosse de algum outro, incluindo John ou Lisa, me horrorizaria que alguém pudesse ler meus pensamentos. Isso deveria te dizer alguma coisa.

– Você crê que diz alguma coisa, Corinne. Sabe por que se sente assim. É minha companheira, a mulher que sustenta a luz e compaixão, guardando esses tesouros para mim. É minha âncora em meu mundo de escuridão e violência, de ermo vazio. É a outra metade de minha alma. A melhor parte dela. Sei que preciso muito mais de você, que você nunca precisaria de mim . Sei essas coisas. Você não aceita o que sente porque não confia nisso. Não confia completamente em mim.

– Como pode dizer isso, Dayan? Estou aqui com você, em vez de estar num hospital. Acabo de te conhecer e aconteceram as coisas mais estranhas, mas ainda estou contigo.

Ele sorriu, brandamente.

– Recordo-te que não teve realmente escolha na questão. Tomei-a nos braços e te tirei do hospital. Não estava em condições de discutir comigo.

– Essa não é a questão. – Ela estava tentando com empenho encontrar a energia para se sentar. – Não sou o tipo de pessoa que simplesmente se larga com alguém... Essa é a questão. Obviamente, sinto algo forte por você. – Ela apertou a colcha, com dedos intranqüilos. – O curador acredita que meu coração agüentará por agora, não?

–Estudei atentamente suas lembranças, Corinne. Você foi a muitos médicos. Há pouca esperança. – Respondeu ele, cautelosamente.

– Então sabe que não há possibilidade de que eu sobreviva, Dayan. – Disse ela, tranqüilamente. – Não quero que pense que estou escolhendo te abandonar. Não tenho escolha.

– Tem uma escolha. – Replicou ele, brandamente. Mas sabia que não estava lhe contando a verdade e afastou o olhar dela, incapaz de contar uma mentira e olhá-la nos olhos. Ela não tinha escolha, porque ele não lhe permitiria morrer.

– Não me está olhando, Dayan. – Disse ela, amorosamente. – É um caminho de duas direções. Se não me contar a verdade, não espere que confie em você, implicitamente. Não tem que me esconder nada. Se o curador disse que meu coração está falhando, isso não é exatamente novo para mim.

Dayan lhe tocou a mente com maciez e tranqüilidade.

– Seu coração está falhando. Mas tenho intenção de que viva. – Disse ele rigorosamente, sem embelezamentos.

A palma da mão de Corinne lhe emoldurou o rosto, estudando sua expressão cuidadosamente.

– Vejo o que está em sua mente. Não sei como, mas posso ler seus pensamentos. Você acredita que de algum modo, milagrosamente, me salvará, inclusive se o bebê não estiver preparado para nascer, quando meu coração falhar. Não sei como crê que pode levar a cabo um milagre semelhante, mas Dayan, se houver uma oportunidade para o bebê, é nisso que tenho que me concentrar. Terá que salvá-la.

– O curador faz o que pode por ela, Corinne, mas não me peça que escolha a vida da menina sobre a tua, porque não o farei. – Desta vez, ele olhou diretamente em seus olhos, desejando que ela soubesse que falava a sério.

– Dayan. – Corinne repreendeu-o, brandamente. – O bebê está em primeiro lugar. Se tiver que fazer uma escolha entre a vida de minha filha ou a minha, instruirei os curadores que a salvem. Se não puder me fazer essa promessa, então terá que me devolver ao hospital e a Lisa, onde eles seguirão minhas instruções.

Dayan sacudiu a cabeça.

– No hospital não podem fazer nada por você. Gregori acredita que há uma boa probabilidade de salvar a ambas. Estamos esperando Shea, que é nossa perita em crianças. Não a levarei de volta ao hospital. Seria uma sentença de morte.

– Então me prometa que vai colocar a vida do bebê, à minha. – Falou Corinne, seriamente. Com olhos bem abertos e fixos nos dele.

Os dedos dele se apertaram em torno dos dela.

– Você é minha vida, Corinne, meu mundo. Tenho intenção de que ambas vivam. Você e o bebê.

– Então me conte o que fizeram os curadores. – Ela estava revolvendo-se ligeiramente, com toda a intenção de se sentar.

– O que está fazendo? – Dayan tocou sua mente gentilmente, entendendo que ela queria ver se podia sentar-se, antes de tentar caminhar até o banheiro.

– Estou me sentando. – Disse ela, tentando soar casual, quando na verdade estava começando a suar pelo esforço e tremendo de medo pelo bebê. – Não mude de assunto. O que fizeram os curadores? É importante para mim, Dayan, por várias razões. Tenho que sentir que tenho o controle. Quero saber o que acontece com minha vida, para poder planejar as coisas. Eu gosto de fazer planos. Sou muito organizada.

As sobrancelhas dele se elevaram.

– Fazer planos? Organizada? Não havia notado. Isso muda tudo, é obvio. – Ele estendeu-se e casualmente a levantou, mudando de posição, sustentando-a mais perto dele, enquanto ela segurava seus ombros. Ele sorriu e sua selvagem essência envolveu-a. – Deixo-a sem fôlego, admita.

Corinne tentou acalmar o batimento de seu coração. Estranhamente, quando pensava conscientemente, parecia como se seu coração realmente seguisse suas instruções. Tornava-se consciente de tudo então. Do som dos corações de ambos, as misturas e o fluxo vazante do sangue de seus corpos. O batimento do coração do bebê. Estava ouvindo o batimento do coração do bebê! Com os olhos totalmente abertos, olhou para Dayan, com acusação no olhar.

– Não pode contar isto como uma legítima falta de ar. Está acontecendo algo estranho. Você não sabe de nada disso, certo?

Dayan parecia completamente inocente. Inclinou a cabeça para pousar um beijo no alto da cabeça dela, porque não pôde resistir.

– Do que me está acusando agora, carinho?

Ela lançou sua expressão mais arrogante.

– Vou me levantar. – Anunciou ela.

Ele olhou-a, observando com bastante mordacidade, como ela estava presa e segurança entre seus fortes braços. - Enormemente fortes. Enormemente. Sentiu-o?

Corinne explodiu em gargalhadas.

– É obvio que senti. Por sorte para você, não o percebo como uma ameaça. Enormemente forte. Você está me parecendo um adolescente. – Corinne tentou ignorar a forma em que ele fazia bater seu coração, somente com um olhar candente dos olhos negros. – E por que estou desejando replicar em minha mente? Estou me tornando telepática? Essa habilidade me pegou misteriosamente?

– Tudo o que corresponda a mim, te pega. Está louca por mim.

– Está tentando me fazer lavagem cerebral. – Acusou ela, tentando não rir. Estava se aproveitando porque o achava muito atraente. – Realmente tenho que me levantar, Dayan. Tenho que ir...

– Não tem forças para caminhar até o banheiro. – Dayan podia ler a determinação na mente dela. Levantou-se com um movimento fluidico, levando-a com ele, atravessando o quarto.

Corinne passou o braço em volta do pescoço dele.

– Onde estou exatamente? – Ela olhava a sua volta, cuidadosamente. Não era uma caverna. O quarto era bem espaçoso, com tetos altos e formosas paredes. A mobília era cara e ornamentada. Estudou a quarto com temor. – Onde estou, Dayan? – Perguntou novamente.

– Em minha casa. Sou o grande lobo mau que te raptou. – Gentilmente, ele a colocou em pé, rodeando-a com seus braços, sujeitando-a cuidadosamente. – Está tremendo, carinho. É porque sou um homem e não pode se conter, ou porque está muito fraca para se sustentar?

– Boa tentativa. – Observou ela e assinalou a porta. – Fora!

Dayan pensou. Estava brincando com ela, mas sabia que seu corpo estava fraco.

– Deve me chamar imediatamente, se precisar de ajuda. Não terá que me chamar em voz alta... Pensar será suficiente.

– Vá! – Disse Corinne, enfaticamente. – E fique fora de minha mente. Quero privacidade, Dayan. Já é suficientemente humilhante que tenha que me levar ao banheiro, como um bebê. Sou uma mulher independente e com completa confiança sempre.

Resmungando, Dayan cedeu a suas demandas, deixando-a só e chegando até fechar a porta. Fora começou a passear de um lado a outro, com inquieta energia.

– O curador disse que você precisava de descanso absoluto.

- Dayan!

Ela gemeu e sorriu.

– Não está fazendo.

– Mantenho vigília. Faço guarda.

Corinne se negava a continuar sorrindo e não ia lhe dar a satisfação de replicar. Estudou fixamente sua face pálida no espelho, meio surpreendida por seu reflexo. Parecia diferente. Sentia-se diferente.

– Cumpro com meu dever. Cuidando de minha companheira. - Dayan tentou soar irritado e ultrajado.

Corinne sacudiu a cabeça e uma risada borbulhante surgiu, apesar de sua resolução de lhe ignorar. No banheiro havia de tudo e ela aproveitou a vantagem. Escovou os dentes, mas era difícil se manterem pé e precisava se apoiar contra a pia. Surpreendeu-se do quanto estava fraca. Suas pernas pareciam de borracha, mas respirava muito mais facilmente.

–Está certo, Corinne. Fui tão paciente como pude nestas circunstâncias. Sinto sua debilidade e você ainda insiste em ser tão teimosa. Vou entrar.

- Quero escovar o cabelo. – Ela não enviou a mensagem de volta, compreendeu que se comunicara com ele, telepáticamente. Naturalmente.

Dayan abriu a porta e a pegou nos braços e seus olhos negros a percorreram ansiosamente, enquanto a inspecionava.

– Não ceda ao pânico só porque fez algo totalmente natural. Sou seu companheiro... É obvio que pode falar comigo. Não é a primeira vez.

Corinne agradeceu a dura força dele, descansando a cabeça sobre seu ombro.

– Havia uma diferença, Dayan. Você lia meus pensamentos. Eu os dirigia a você em resposta, já que você lia o que eu tinha em mente. Desta vez te enviei meus pensamentos, minhas palavras. Há uma grande diferencia.

– Por que deveria se alarmar? – Perguntou ele curiosamente, colocando-a cuidadosamente de volta na cama. Sua mão descansou sobre o ventre dela, enquanto o bebê se movia. Sorriu. – Nota? Ela está feliz e sadia. E agora reconhece minha voz. Gosta de me ouvir cantar para ela. – Seus olhos baixaram para ocultar a expressão de seus olhos. Suas palavras foram uma indecisa oferta de amor, convertendo um homem aparentemente invencível,em vulnerável. O coração dela se derreteu novamente. Corinne estendeu os braços para lhe capturar, para baixar sua cabeça até a dela e assim poder encontrar a boca escultural, com a própria. Não pôde se conter e simplesmente relaxou, permitiu que o mundo e todos seus problemas desvanecessem, até que restou Dayan. Dayan com seus ombros largos, com seus braços fortes e os lábios perfeitos. Não havia forma de pensar quando Dayan a beijava, só sentia. Puro sentimento. Ele a levava a outro mundo onde não havia limites, onde o tempo e o espaço não significavam nada.

Seu corpo estalava a vida, derretendo-se e amoldando-se perfeitamente ao dele. Não cuidou seu amalucado coração, à forma em que este seguia sozinho, porque ele estava perto. Nada a assustava quando ele a estava beijando. Sentia-se forte, sua outra metade. sentia-se como se esse fosse seu lugar. Corinne não queria parar, jamais. Foi o bebê, chutando fortemente, empurrando Dayan diretamente através da pele de Corinne, que os fez se separassem, sorrindo ante a surpresa.

– É forte, não é? – Disse Corinne, brandamente, sem ocultar a expressão de seus olhos. Estava cansada de tentar ser prática. Dayan era o homem mais maravilhoso que conhecia e queria estar com ele. Agora mais que nunca. Ele a fazia sentir-se bela e amada, mesmo em meio a sua gravidez. A fazia sentir-se como se fosse a única mulher do mundo, quando estava com o cabelo despenteado e vestia uma camisa de homem para dormir.

– Sabe que é formosa, Corinne. – Disse ele, levando a mão dela aos lábios. – Pode tocar minha mente e ver o que sinto por você.

Ela inclinou a cabeça, para fitá-lo.

– Sei que posso, mas não estou segura de que queira ser. O que vou encontrar lá?

Os olhos negros brilharam com fome. Flagrante. Pura e crua. Uma terrível necessidade. Corinne se ruborizou e sacudiu a cabeça.

– Quando despertei, não estava cantando ao bebê uma canção de ninar. Era uma canção para mim também, não é?

– Cada canção que escrevo é para você. – Dayan se inclinou para mais perto dela. – Devo chamar Gregori e Darius até nós. Queriam saber em que minuto você abriria os olhos. – Seu sorriso não mostrava arrependimentos. – Não temos que contar tudo.

– Que horas são? – Corinne estava percorrendo o formoso quarto, com o olhar. – E onde estou? Ao menos deveria saber isso se por acaso alguém pergunta.

Ele era uma sombra em sua mente e estalou em gargalhadas, ante seus escandalosos pensamentos.

– É obvio que ainda está no planeta Terra. Não sou um alienígena.

Ela encolheu os ombros.

– Só estava comprovando... Nunca se sabe. E é um pouco estranho. Toda a banda está aqui? – Ela tentou ser casual.

Ele colocou-lhe o cabelo atrás da orelha. Corinne estava apreensiva.

– É um pouco medrosa, Corinne. Não havia notado.

– Não sou. – Negou ela indignadamente e depois o olhou fixamente. – Está fazendo de novo. Cada vez que te faço uma pergunta, você muda de assunto.

A sobrancelha dele se arqueou.

– Mudar de assunto? Não tenho idéia do que está falando.

– Dayan. – Seus dedos de apertaram ao redor dos dele. – Onde estou?

– Esta casa pertence a Gregori e Savannah. Não vivem aqui há mais de um ano. De fato, está vazia a maior parte do tempo. Ofereceram-na generosamente para sua recuperação. – Percorreu o quarto com o olhar. – Eu estou na estrada a maior parte do tempo, viajando. Para mim é uma experiência única permanecer num lugar como este.

– Quer dizer um lar?

Ele sacudiu a cabeça, estudando-a, cuidadosamente.

– Lar é qualquer lugar onde nós estejamos. Na estrada viajando, enquanto você, eu e o bebê estejamos juntos, será um lar.

– Então já tem tudo planejado.

Dayan assentiu, ainda estudando atentamente sua reação, monitorando seus pensamentos.

– Acabará gostando dos outros e a vida que levamos. É uma boa vida e conhecemos muitos lugares interessantes. – Lhe ocorreu, que poderia ver as coisas de forma distinta. Haveria cores, risos e beleza. Ele era diferente agora. Poderia ver a beleza enquanto viajavam atravessando cada cidade, cada país. Ela havia lhe proporcionado esse presente de valor incalculável. Nunca mais seu mundo seria de sombras e escuridão.

– É agradável que seja tão otimista, Dayan. – Replicou ela, cautelosamente. Não tinha sentido discutir com ele quando estava empenhado em acreditar que ela poderia sobreviver ao nascimento do bebê. A última coisa que queria era desiludi-lo do fato de que ela não tinha futuro. Queria que Dayan lhe prometesse que seus curadores salvariam seu bebê se ele tivesse que fazer uma escolha.

Dayan negou com a cabeça enquanto lia seu pensamento. Ela viveria. Moveria céus e terra, mas ela viveria.

– Convoquei ao Darius e Gregori. – Queria prepará-la para suas visitas, sabendo que ela acharia difícil estar com desconhecidos. Corinne havia levado uma vida solitária em meio às pessoas. Era muito reservada com os que não pertenciam a sua família. – Darius é minha família, Corinne... Um homem que que conheço e por quem daria a vida. Confio nele e em seu bom julgamento.

Os pequenos dentes de Corinne morderam nervosamente seu lábio.

– Sinto-me melhor que há muito tempo, Dayan. Não acredito que seja necessário que os veja agora, não acha?

– Sabe que sim. Devem monitorar o bebê e seu coração cuidadosamente.

– Farão de forma semelhante como faria um médico?

Desari chegou atravessando a porta, a primeira. Era uma mulher alta e formosa que irradiava luz e conforto. Tinha um ar tranqüilo e consolador e parecia flutuar mais que caminhar. Corinne a reconheceu em seguida, de seu estranho sonho.

– Lembra-se de alguma coisa? – Perguntou Desari amavelmente, em resposta a sua pergunta. Sua voz era suave, macia e compelidora, como a de Dayan. Não havia desafios em Desari. Ela era paz em si mesma.

– Não estou segura do que foi real e o que sonhei. – Corinne encontrou-se respondendo honestamente. – Não entendo por que me sinto muito melhor, quando os médicos disseram que estava morrendo e nada podia me salvar.

– Há alguns de nós que nasceram com a habilidade de se separar do corpo físico e usar sua energia para sanar os problemas dentro do corpo dos doentes ou feridos. Curamos de dentro para fora. Não se fazem cortes no corpo, nem suturas. A cura se faz com luz e energia. – Respondeu Desari, com sinceridade. – Darius tem esse dom, igual a Gregori. Todos nós o temos, em pequenas medidas, mas eles são bem poderosos.

Corinne deu voltas à informação, em sua mente. Soava amalucado, um pouco tirado de uma história de ficção, mas restava o fato de que os médicos haviam perdido a esperança com ela e conjeturavam que havia de estar morta. Seus dedos permaneceram entrelaçados com os de Dayan, em busca de apoio.

– Sinto-me bem melhor.

O sorriso de Desari foi luminoso. Seu cabelo negro estava recolhido em uma grossa trança que chegava até sua cintura. Ela atirou-a descuidadamente sobre o ombro. Parecia tão equilibrada, tão formosa e sadia. Ela parecia tão viva, que Corinne se sentiu próxima às lágrimas. Ela nunca teria tão bom aspecto, nem em um milhão de anos e a seu lado estava Dayan, o perfeito espécime masculino.

- Não pode haver outra mulher para mim, carinho. - A voz dele sussurrou intimamente em sua mente, em suave reprimenda. Dayan encheu-a com seus sentimentos, tudo de uma vez. Sentiu seu doloroso amor, tão forte que nada poderia interpor-se entre eles, nem sequer a morte. Desejo físico, um fogo raivoso em seu sangue e uma necessidade de uni-los por toda a eternidade. - É a mulher mais formosa que já vi. Não vejo outra.

Havia algo fortemente erótico em falar com Dayan em sua mente. Era privado e pecaminosamente íntimo. Corinne se ruborizou sem razão alguma. Estava tão feliz pela resposta dele em seus pensamentos, que não notou que dois homens haviam entrado no quarto.

Gregori pigarreou atentamente, inclinando a cabeça para ela.

– Espero que se sinta melhor, Corinne.

Os dedos de Corinne se fecharam ao redor dos de Dayan.

– Estou sim. Muito obrigado. – Ela ruborizou-se, ao notar que soava como uma menina agradecendo um adulto.

– O que fizemos é temporário, Corinne. – Os olhos prateados do curador brilharam para ela. – Concedo-te a cortesia de te dizer a verdade. A enfermidade progrediu além de nossas habilidades de cura. Tratarei-a com tanta freqüência como é necessário, para assegurar que sua filha tenha tempo de crescer forte. Precisa de poucas semanas mais. Cada dia e cada hora conta para ela. Deve permanecer na cama, descansar e não forçar seu coração. Não tema o nascimento, pois não temos intenção de que se supere. – Gregori sorriu, seu ânimo. – Darius está comigo e sei que pode parecer bastante intimidante. Não quero que suas maneiras a assustem. É meu irmão caçula e se ele grunhir para você, ocuparei-me de fazê-lo se comportar como deve um irmão menor.

Corinne piscou. Levou alguns segundos para compreender que o predador de olhos prateados estava brincando com ela. Zombando de seu irmão. Olhou para Darius. Sua boca se sacudiu, mas fechou-a para não sorrir.

– Estou segura de que ouviu isso, Darius. Aproveitarei a vantagem, se me grunhir.

Apesar de seu aspecto zombador, Corinne ainda segurava com força a mão de Dayan quando Darius se ergueu sobre ela. Como seu irmão maior Gregori, Darius irradiava um poder que parecia encher o quarto inteiro. O enorme poder de Dayan era forte, mas sutil. Gregori e Darius eram inteiramente diferentes. Um pouco mais baixos que Dayan, carregavam a maior parte de seu peso em seus ombros largos e braços musculosos. Os dois estavam com o cabelo preso por uma tira de couro, na nuca. Enquanto Gregori tinha uns peculiares olhos prateados, os olhos de Darius eram tão negros como o carvão. Ambos pareciam muito perigosos. Corinne não podia acreditar que atreveu a brincar com eles.

– Boa noite, minha irmãzinha. –Disse Darius, cortesmente. – Alegra-me ver que despertou. Estava começando a me preocupar, algo que prefiro não fazer. Fará bem recordá-lo.

Corinne se encontrou sorrindo.

– Obrigado por me avisar. Suponho que não o delatarei. Provavelmente ele só quer uma desculpa para se meter contigo.

– Provavelmente. Tem uma certa reputação... Um mito, sabe como é... Mas gosta que as pessoas acreditem que é o homem do saco. Não permita que seu severo semblante a engane. Como está se comportando sua filha?

Corinne sorriu.

– Chutando bastante forte.

– Essa é a resposta que eu desejava ouvir. Deu um bom susto em seu companheiro. Não volte a fazer isso. – Ele decretou, como se todo mundo o obedecesse. Corinne suspeitou que provavelmente o faziam.

– Está respirando mais facilmente esta noite? – Perguntou, Gregori.

Corinne estudou o rosto de Gregori. Havia um parentesco definitivo entre Desari, Gregori e Darius. - Gregori é o companheiro da Savannha Dubrinsky. Reconhece o nome?- Dayan queria lhe lembrar que Gregori estava comprometido. Devia muito ao curador, mas não podia deixar de chamar atenção, de que ela pudesse achá-lo atraente.

- É obvio que sei. Savannah Dubrinsky é uma maga famosa. Em qualquer caso, você é o único homem que acho remotamente atraente. - Reconfortou-lhe Corinne, secretamente divertida. Pensava que ele era o homem mais bonito, mais encantador e romântico do mundo. Como era possível que se preocupasse que ela pudesse olhar para algum outro? - É muito tolo. - Não lhe ocorreu o quanto lera facilmente a ansiedade dele.

– Vou comprovar como está o bebê. – Disse Gregori, atraindo deliberadamente a atenção de volta a ele. – Ela é forte e quer viver. Tem estranhos talentos, muitos mais que você. É muito valiosa para nossa gente.

– Deve salvá-la, não importa o custo. – Corinne não olhou Dayan. Sentia a força de vontade no curador, sua completa determinação de salvar sua filha.

Os olhos prateados de Gregori brilharam durante um momento, como mercúrio fundido e depois sacudiu a cabeça.

– Não haverá troca de vida, Corinne. Tem um companheiro. Não perderemos nenhum dos dois. Cada casal é necessário. Os dois e seu bebê serão salvos. Dayan não permitirá outra coisa. Deve acreditar nele, completamente. Sua filha é muito consciente de você e já está unida a você. Não gostaria de trocar sua vida pela tua. Não podemos perder você e a ela, tampouco. Não haverá intercâmbio.

Corinne o estudou atentamente. Ele estava respirando profundamente, regularmente, depois pareceu entrar em transe. O mesmo transe que havia observado em seu estranho sonho. Levantou o olhar para Dayan.

- Estive realmente nessa caverna, verdade?

Ele suspirou, audivelmente. - Realmente quer que responda, carinho?

– Corinne. – Disse Darius, tranqüilamente. – Seu coração está começando a acelerar rapidamente. Respire e mantenha-se sob controle. Deve ser consciente de seu ritmo cardíaco e quando começar a acelerar, você precisa relaxar e se concentrar para normalizá-lo. É capaz de fazê-lo. Deve começar acreditando que é capaz.

Corinne obedeceu imediatamente, suspeitando que havia uma compulsão oculta na ordem brandamente pronunciada.

- Não se esquive desta vez, Dayan. Estive nessa caverna. – Ela manteve os olhos fixos nos de Dayan.

Os olhos negros dele se tornaram mais agressivos, prendendo o olhar de Corinne no seu, escuro e misterioso, de forma que ela não pudesse deixar de fitá-lo, quisesse ou não.

- Não desejo te alarmar, carinho. Cada vez que falamos do que sou ou o que está acontecendo, seu coração dá um salto. Se estiver segura de que quer saber a verdade e está preparada para aceitá-la, lhe oferecerei, encantado.

Ela elevou o queixo, decididamente.

- Eu sempre quero a verdade de você, Dayan. Sem isso entre nós, não temos absolutament nada.e

- Estou de acordo contigo. – Ele tomou fôlego, contou até dez e o deixou escapar lentamente. Cuidou de ser uma sombra em sua mente, preparado para apagar qualquer revelação que pudesse ser muito difícil para que ela a aceitasse.

- A caverna em que estava, está profundamente sob a superfície da terra, sob a montanha formada de fogo e gelo. É um lugar de pode, e necessitávamos de um lugar semelhante para levar a cabo o ritual curador. As velas são feitas com ervas e componentes conhecidos por promover a cura através do aroma. O ritual curador foi conduzido por dois curadores, suas companheiras e minha família. Foi uma grande reunião. Enquanto a atendíamos, outros dois membros de minha família, Syndil e Barack, apressaram-se em ajudar Cullen.

 

– Venha aqui, meu amor. – Disse Barack, docemente, deslizando-se para sua companheira enquanto dava a ordem. Envolveu-a em seus braços. – Está caindo de cansaço e deve se alimentar.

– Cullen precisa de sangue rapidamente, Barack, ou não poderá superar. Não sou uma autêntica curadora como Darius e Gregori. Nunca tentei uma cura semelhante, antes. – Syndil descansou a cabeça sobre seu peito, sua fadiga a alcançou. – Não sei se fiz tudo por ele. Meu dom é curar a terra, não humanos ou Cárpatos. Deve lhe dar sangue.

– Você está antes que Cullen, Syndil. – Disse Barack, gentilmente, sua voz um convite. Sob o ouvido de Syndil o coração dele pulsava firmemente e ela podia ouvir a chamada de seu sangue, o fluxo e vazante da essência de sua vida. Rodeou-lhe o pescoço com os braços e se moveu contra ele, inquieta e necessitada.

Syndil pronunciou seu nome amorosamente, enquanto começava a desabotoar lentamente sua camisa. Seus dedos percorreram os salientes músculos de seu peito. Sentiu como o corpo dele enrijecia em resposta, com antecipação. Como sempre, ela surpreendeu-se novamente com o maravilhoso mistério de sua união. Barack. Seu companheiro. Conhecera-o durante toda sua longa existência, embora não havia conhecido as maravilhas de uma autêntica união, até recentemente. O simples ato de se alimentar já não era somente isso. Era erótico e a enchia de prazer ede necessidades, mais além da fome que podia lhe saciar. Esfregou o nariz contra o peito dele, sorrindo quando as mãos de Barack lhe seguraram os cabelos e seu corpo se moveu agressivamente contra o dela. Olhou seu peito, brincando com a língua sobre a pulsação saltitante, permitindo o movimento de seus incisivos sobre ele.

Barack gemeu e a trouxe firmemente contra ele, mantendo-a perto, enquanto ela se alimentava. De perigo em perigo, com Cullen nos primeiros postos da lista de objetivos da sociedade, Barack ainda sentia a sacudida da urgente necessidade que o assaltava. Syndil foi cuidadosa, ele podia sentir a fome nela, aguda e feroz, mas ela tomou o suficiente para se manter, para que Barack pudesse dar a Cullen, o sangue necessário. Depois disso, Barack sempre teria uma conexão com Cullen e Cullen com o Barack, mas não tinham escolha. Se o mortal iria sobreviver, precisava do sangue curador para ajudar a reparar os órgãos danificados. Sindyl, cuidadosamente fechou as pequenas incisões, com o agente curador de sua saliva e levantou a cabeça, com olhos adormecidos e sonolentos. Barack inclinou a cabeça, para encontrar seus lábios, beijando-a longamente.

– Estou muito orgulhoso de voce, Syndil. – Disse ele, delicadamente.

– Ele é valente. – Replicou, Syndil. – E um bom amigo e arriscou sua vida muitas vezes. Desejaria que Gregori ou Darius tivesse vindo fazer esta cura.

– Você a fez, muito bem. – Barack soltou-a contra vontade e a sentou na beirada da cama. – Darei meu sangue a ele, Syndil e depois devemos tirá-los daqui. Não permita que a mulher lhe de nenhum problema. Tome o controle dela, imediatamente. Sem se arriscar.

Syndil acariciou o cabelo de Barack, como se ele fosse um simples jovem, em vez do homem enormemente forte que era.

– Pare um pouco de se irritar com a mulher, Barack. Não tocou sua mente?

– Quem gostaria, exceto para lhe dar ordens?

– Ela ficou terrivelmente traumatizada. Não vê as coisas tementes, porque sua mente não permite. Simplesmente, ela protege a si mesma. É a única forma em que sua mente poderia permanecer sã. Lisa depende de Corinne e se apega a ela, como a uma tábua de salvação. Corinne é bem mais forte e deve ter compreendido a tempos. Ela protege Lisa do mundo exterior e Lisa sabe que não pode prescindir dela. Estudei o interior de sua mente.

Barack baixou a cabeça, envergonhado.

– Não a mereço. Nunca a mereci.

– Certíssimo. – Disse Syndi,l complacentemente. – Mas acredito que ficarei contigo de todos os modos. – Observou-o, enquanto ele inclinava e tomava Cullen em seus braços. Observando a expressão de sua face, o coração bateu forte. Barack sentia um forte afeto pelo humano, algo que poucos de sua raça experiementara. Era necessário manter sempre uma distância com os humanos, assim ninguém encontrava evidência da existência de sua espécie. Isto estava se tornando mais difícil, com os computadores, a informática e as viagens que faziam o mundo bem menor.

Barack murmurou o ritual do canto curador, enquanto obrigava seu sangue a entrar no interior de Cullen. Só uma pequena quantidade ajudaria na cura de seu corpo. Segundo suas leis não deveriam fazer isto. Deveriam deixar que morresse de forma natural, mas Darius governava sua família e para eles era uma autoridade mais alta que o Príncipe dos Cárpatos. Fora Darius que havia decretado que Cullen devia ser salvo se fosse possível. Para Barack e Syndil, isso significava que podiam utilizar qualquer recurso a seu alcance.

Syndil acariciou o rosto de Cullen, com dedos gentis.

– Alegra-me que seja ele quem encontrou Lisa. Cuidará sempre dela e apreciará sua bondade, onde outro homem poderia ver somente sua debilidade.

Os olhos negros de Barack se fixaram sobre sua face.

– Desculpei-me por meu engano.

Ela sorriu.

– Foi um comentário leve, Barack, mas me alegra que sinta remorsos por prejulgar a escolha de Cullen tão duramente, antes de tocar a mente dela para ver se era digna dele. Ela o amará e será fiel. Desejará só agradá-lo e lhe fazer feliz. Fazem um bom casal. Ele precisa sentir-se amado, Barack.

Barack deteve o fluxo de sangue que emanava de sua mão, com um casual toque de sua língua.

– Estou seguro de que tenha razão, Syndil. – Ele tocou a mente de Cullen, para assegurar-se de que estava respirando com facilidade, de que seu corpo aceitara a pequena quantidade de sangue e a utilizava para curar as terríveis feridas. – Devemos tirá-lo daqui rapidamente, Syndil. Em casa é seguro e podemos protegê-lo melhor. Chame Lisa de volta.

Syndil deu um passo para a porta fechada, então parou bruscamente, seu olhar alarmado procurou o de Barack.

– Estão aqui. Vieram por Cullen. Deveríamos saber que se moveriam rapidamente para eliminá-lo. Consideram-lhe uma ameaça e um traidor. É obvio que queiram terminar o trabalho.

Barack podia sentir as vibrações de violência no ar, aproximando-se do quarto.

– Quatro. – Disse tensamente. Syndil poderia recolher os pensamentos de violência, tão facilmente como ele. – Eu pegarei Cullen, enquanto você afasta Lisa do perigo. Chame-me, se precisar de minha ajuda. – Ele já estava pegando Cullen facilmente nos braços, criando a ilusão de que ele permanecia deitado, indefeso e imóvel na cama.

Syndil soltou uma feminina tosse de diversão. Era uma antiga, capaz de caminhar invisível entre humanos e evitar que Lisa fosse vista de igual modo. Dissolveu-se instantaneamente em neblina e saiu do quarto, enquanto os quatros assassinos humanos abriam a porta. Permaneceram à distância da cama, apontando as armas para corpo inerte que percebiam ali. O som das armas foi surdo, como um suave assobio que ninguém ouviria além da porta. Barack se ocultou ainda mais, dirigindo os guardas de segurança e as enfermeiras, para longe do lugar, para manter os humanos tão a salvo como fosse possível.

Num canto, com o Cullen em seus braços, ele observou como os assassinos disparavam repetidamente para a cama. Nenhum deles o viu. – Ele ocultara sua presença, mas podiam sentir a incomum frieza que permeava o quarto. Um dos membros da sociedade se adiantou para comprovar o corpo, enquanto os outros observavam. Barack deslizou passando a seu lado. Ouviu os gritos de consternação e furiosa frustração por terem sido tão facilmente enganados e porque uma vez mais Cullen escapara da vingança.

Apressando-se em descer pelo longo vestíbulo e afastando-se dos assassinos, Barack advertiu Darius, do complô. – Eles estão aqui. - Comunicou simplesmente. Com Darius, não era preciso rodeios. Darius protegia o que era dele e considerava Cullen parte de sua extensa família. Darius acudiria a toda pressa e traria justiça aos assassinos.

Não havia necessidade de que Barack informasse a Syndil do que estava acontecendo, já que era sempre uma sombra na mente dela. Foi consciente de que ela tomava o controle de Lisa e defendia as duas de olhos curiosos, enquanto saiam do hospital. Syndil colocara Lisa em um transe hipnótico, para trasportar-la de forma mais rápida possível, através do ar, como Barack estava fazendo com Cullen. Os dois humanos seriam levados a uma casa segura no interior das montanhas, onde poderiam protegê-los adequadamente.

Corinne se sentou em sua cama avaliando Dayan, firmemente. Os curadores estavam cantarolando brandamente, podia ouvi-los em sua mente. A atmosfera era consoladora, tranqüila até, mas Corinne estava ao beira de um descobrimento. No que estava pensando? Que Dayan não era humano? Que não era deste mundo? O que, então? Um alienígena? Afastou o cabelo da face, enquanto estudava os hipnóticos traços de Dayan. Importava tanto que fosse de uma forma ou outra? Como a levara a uma caverna profunda, no interior da terra e tomado parte de um exótico ritual curador que realmente funcionara? Era tudo real, ou só parte? Afastou a idéia de um intercâmbio de sangue, de sua mente.

Entrelaçou seus dedos com aos dele.

–Dayan, conte-me toda a verdade sobre você. Preciso saber. Quem é você?

O canto curador parou abruptamente, quando ela pronunciou as palavras. Desari olhou fixamente para Darius.

– Provavelmente possamos voltar num um momento mais conveniente, Corinne. – Ofereceu Desari, gentilmente. Depois, sorriu docemente para o curador. – Gregori, seria um inconveniente voltar em momento mais oportuno?

Gregori arqueou uma sobrancelha para sua irmã e suspirou ruidosamente.

– Acredito que seria melhor. Pois bem, voltaremos mais tarde.

Darius advertiu Dayan silenciosamente.

- Tenha cuidado, Dayan. Não deve alterá-la de nenhum modo. Gregori monitorará seu coração à distância e eu vigiarei à menina. Ela precisa de respostas e acredito que será mais receptiva, com as que você as dê.

Corinne observou como os três Cárpatos abandonavam a quarto e tranqüilamente fechavam a porta atrás deles, deixando-a só com Dayan. Ele ficou em pé abruptamente, inquietamente.

Corinne olhou-o, com seus olhos grandes e limpos.

– Acredito que já seja hora de que me conte quem é, Dayan. Começe pelo princípio. Onde estão seus pais?

– Estão mortos. Assassinados, como foi sua mãe. – Respondeu ele, rigorosamente. Dayan passeou intranqüilo pelo quarto, deslizando uma mão sobre o longo cabelo, deixando-o revolto, a conseqüência de seus dedos medeadores. De repente se baixou e pegou seu amado violão, sujeitando-o perto de seu corpo, como um talismã.

Corinne sorriu a si mesma. Seu violão. Estava começando a compreender que ele o precisava entre seus braços, quando estava nervoso e agora, ele estava nervoso. Era aficcionado em fazer perguntas a ela e invadir sua mente para conseguir conhecê-la, mas não gostava que essa mesma tática fosse ao contrário. Nunca o vira tão nervoso.

– Dayan. – Ela pronunciou seu nome, gentilmente e bateu na cama a seu lado. – Você parece um leopardo enjaulado num zoológico, passeando de um lado para outro. – Não acrescentou que ele lhe lambrava um menino obstinado em sua manta favorita. – É tão ruim assim confiar em mim?

Ele a olhou, seus olhos negros pensativos e caprichosos.

– E se não puder me aceitar como sou, Corinne? O que acontecerá se te assusto com a verdade e seu coração falhar?

– Crê que sou tão débil, Dayan? – Perguntou ela, amavelmente. – Meu corpo é frágil… e aprendi a aceitá-lo… Mas eu não sou uma pessoa fraca. Nunca fui. – Ela estendeu uma mão para ele. – Deixa de passear e sente-se comigo.

Dayan permaneceu em pé durante um longo momento, com o violão cruzado contra o peito e eus olhos refletindo a confusão interna. Lentamente, resignadamente, ele atravessou o quarto, para sentar-se cuidadosamente sobre a cama a seu lado. Envolveu a pequena mão dela com a sua.

– Meu coração não poderia suportar seu rechaço, carinho. Nem por um momento. Está segura de que quer ter esta conversa agora?

– Estou segura, Dayan. Creio que seus sentimentos por mim são muito fortes. Bem, eu amei John antes. – Ela pronunciou o nome de seu marido e observou silenciosamente a careta involuntária de Dayan. – Não se sinta assim sobre ele, Dayan. Era um homem admirável e merecia algo melhor que uma mulher que não o amava como deveria. Sei o quanto já é forte meus sentimentos por você. Tento dizer a mim mesma que a atração é puramente sexual, mas penso em você... Em suas expressões, na forma em que sorri, como volta à cabeça para me olhar. Tudo. Até as tolices que o deixam tão infantil às vezes. Encontro-me pensando que são traços cativantes. Isso não se deve tudo à química.

Ele suspirou.

– Não vou perguntar o que considera infantil.

Ela sorriu.

– Não, não perguntará. Você vai me falar sobre sua infância. Sobre você, assim poderei conhecê-lo.

Ele levou os dedos de Corinne à boca, desejando… Não, precisando… Da tranqüilidade de estar perto dela.

– Cresci com Darius, Desari, Barack, Synidl e outro chamado Savon. Éramos crianças, sem nenhum adulto que nos guiasse. Foi Darius quem tomou a responsabilidade. Ele estava com seis anos e já mostrava sinais de grande poder e força de vontade. Foi Darius quem assumiu a maior parte dos riscos por nós.

Seus dentes mordiscavam ansiosamente a ponta dos dedos dela, mas ele parecia não ser ciente disso. Corinne o avaliou, firmemente.

– Como conseguiram escapar, um grupo de criançãs como esse, dos serviços sociais? Como se arrumaram para comer e dormir?

– Estávamos separados de nossa gente que acreditava que havíamos sido assassinados junto com nossos pais. Houve um naufrágio e terminamos na África. Foi onde crescemos. Nossa banda viaja com leopardos, nós os criamos. Na verdade, aprendemos bastante com os animais. Foi uma época difícil, mas também muito estimulante.

Os pequenos dentes de Corinne arranharam o lábio inferior. Acreditava nele, mas parecia impossível que seis crianças pudessem sobreviver sozinhos na África. O continente era selvagem e indomável. Algo nela reconhecia a verdade da simples explicação dele, embora soubesse que havia muito mais que não estava contando.

– Dayan, – Disse ela, delicadamente, atraindo seu escuro olhar para o dela. – Ou confia em mim ou não. Tem que se decidir.

– E se digo a você que não sou humano? – Dayan perguntou, seus dentes morderam com mais força os dedos dela. – E se digo que meus pais morreram durante as guerras turcas? Assustaria-se com isso e se afastaria de mim?

O coração de Corinne se acelerou durante um momento e a alegrou a distração, feliz de ser capaz de se concentrar em ralentizá-lo, dando-se a si mesmo tempo para pensar. Suspeitara que havia algo não de todo humano em Dayan, mas ouvi-lo confirmar era algo totalmente distinto. As guerras turcas? Era o que ele queria dizer?

– Esperaria que não fosse tão covarde, Dayan. Tem algo mais a me contar? Porque que você me atrai, é amável, compassivo e incrivelmente maravilhoso. – Ela sentia-se assim, e estava tentando animá-lo, dando a si mesmo o tempo que ele precisava para assimilar a informação que lhe proporcionava.

Ele afastou o olhar, incapaz de enfrentar sua condenação.

– Quero ser amável e compassivo, Corinne, mas na realidade sou um predador. – Disse ele, com pesar. – Você é todo o lado bom e correto que há dentro de mim.

Corinne sacudiu a cabeça, negando.

– Você é muito mais que um predador, Dayan. É um poeta sem igual. As palavras que derramam de sua alma, a música incomparável que faz... Isso é você. O outro é parte de sua natureza, possivelmente só uma pequena parte. Não pode dizer essas coisas... As formosas palavras que me diz, sem senti-las profundamente em seu interior.

Ele abriu a mão, estudando sua linha da vida durante um momento antes de pressionar um beijo na palma.

– Senti muitas coisas em minha juventude, a música, parecia que eu era a música. Ouvia-a em todas partes, na terra no céu, nas árvores e nos animais. Ouvia-a e sabia que era meu mundo. Lentamente ela desapareceu. Aterrorizou-me compreender que ia perder a emoção, então comecei a escrever canções, centenas de canções, milhares de canções. Elas brotavam, brotavam as notas e as palavras e eu as mantinha na memória. Ao longo dos anos, essas lembranças foram o que me mantiveram através da escuridão. Já não podia sentir a emoção das palavras ou da música, mas tinha as lembranças para me sustentar. Podia tocar paoa os que sentiam a alegria do amor e do riso e jogava mão de suas emoções, para acreditar o que eu precisava.

Estudou o rosto dela, os olhos negros vagaram à deriva sobre ela possessivamente, amorosamente, com tanta fome e necessidade que Corinne pôde sentir seu corpo derretendo-se sob seu escrutínio.

– Possivelmente não possa entender, até que seja capaz de fundir sua mente completamente, a minha. Conheci a desolação absoluta, um vazio negro e ermo. Sem minha música, sem minha alma, vaguei pela terra sem entender o que era, sem estar disposto a aceitar quem era. Quem sou.

Ela tocou o rosto másculo, com dedos gentis.

– O que sei é que é um homem com talentos excepcionais. Captei imagens ocasionais das coisas das quais fala. - Ela não fingiu. - Mas isso não me diz quem é.

Os lábios perfeitamente cinzelados de Dayan se curvaram num sorriso sedutor e deliberadamente, ele atraiu um dos dedos dela à boca úmida.

– Acredita que sou um alienígena, de outro planeta? – Havia um tom zombeteiro em sua voz.

Corinne se achou sorrindo, timidamente.

– Poderia ser.

– Sou um Cárpato. Somos tão velhos como o tempo e condenados a vagar pela terra, até que escolhamos abandonar nossas vidas. Nossos homens são predadores mortais e escuros. A fera é forte em nosso interior e cresce até o momento em que encontramos nossas companheiras, para nos ancorar ao mundo da luz.

Corinne sabia que ele estava contando algo de grande importância, mas ela, na verdade não o entendia.

– Nunca havia ouvido o termo Cárpatos. Se me lembro de minhas aulas de geografia, há uma cadeia de montanhas, na Rumania e Transilvania... As Montanhas dos Cárpatos. – Sua voz se apagou, enquanto o significado dessa região a golpeava. Lembrava-se vividamente, do estranho giro que tomara seu sonho na caverna a qual ele a levara. Ficou em silencio durante um momento, reunindo coragem. – Você me deu seu sangue? – Perguntou-o, sem estar segura de se queria que ele respondesse.

– Quer mesmo saber a verdade?

Ela encolheu os ombros, num delicado movimento feminino.

– Quero a verdade, Dayan, embora não estou segura de poder confrontá-la. Não estava sonhando na caverna, não é? Tudo aconteceu exatamente como me lembro. Toda aquela gente estava ali para te ajudar a salvar minha vida. E você me deu seu sangue. Por que? Por que fez isso por mim? – Ela tentou analisar, temendo que se demorasse muito no assunto, ficaria doente. Engoliu com força. – Por que sentiu que era necessário?

– Para salvar sua vida e a vida do bebê. – Dayan estudou seu expressivo rosto, cuidadosamente. Erauma sombra em sua mente, lendo seus pensamentos. Ouviu seu coração e sua respiração, em busca de sinais de extremo nervosismo.

Corinne se sentou bem quieta, permitindo que seu coração seguisse o batimento do coração mais forte e mais estável, do dele. Assentiu, sem compreender completamente mas sabendo que estava aproximando-se da verdade. Se o sangue dele podia salvar sua filha, então tudo valia a pena para ela. Reuniu coragem, estudando o rosto dele, intensamente.

– Você é um vampiro, Dayan? – Sentia-se ridícula fazendo semelhante pergunta, mas nunca o vira a luz do sol. Além disso, era muito hipnotizador. E se o seu estranho sonho havia sido real, ele lhe dera seu sangue, de uma forma nada ortodoxa.

Dayan desejou sorrir ante os pensamentos dela. Corinne lutava por entender, conduzindo-se na direção certa, enquanto ao mesmo tempo, se negava a acreditar em suas conclusões. Gostava da idéia de que eoe o achasse muito... O que fosse. Era também consciente de que afastara de sua mente, a imagem real da doação de sangue.

Acariciou-lhe a mão, gentilmente, consoladoramente.

– Não sou um vampiro, carinho, mas compartilhamos alguns traços. Um vampiro é o não–morto, um homem dos Cárpatos que escolheu entregar sua alma pelo prazer momentâneo de sentir o poder da morte. É enganoso e traiçoeiro. Completamente perverso. Os Cárpatos caçam e destroem os vampiros. É necessário para a preservação de mortais e imortais.

Ela o olhou fixamente, com seus enormes olhos verdes. Sua mente estava em branco. Só o olhava fixamente. Cuidadosamente, limpou a garganta, ganhando tempo. Ele acreditava em cada palavra que estava dizendo. Ou Dayan estava contando toda a verdade ou estava completamente louco. Respirou fundo e depois deixou o ar de seus pulmões, escapar lentamente.

– Obviamente, não sei o que dizer. – Sua voz era neutra.

Dayan se inclinou para beijar o alto de sua cabeça.

– Não está louca, carinho. E eu tampouco. Pense nisso. Como pode ouvir, o que não deveria ser capaz de ouvir?

Corinne continuou olhando-o, parecia muito jovem e vulnerável. Estava com uma cor pálida, quase cinzenta e estava ficando difícil respirar.

Automaticamente, Dayan o fez por ela, ocupando-se da tarefa, dirigindo seus pulmões para administrar o ar.

– Me dando seu sangue, me fez como você? – Sua voz foi baixa, um simples fio de voz.

Dayan rodeou os ombros finos, com o braço.

– Não precisávamos ter esta conversa agora, meu amor. Se não se sente preparada, apagarei suas lembranças e voltaremos a tentar em outra hora.

As sobrancelhas dela se arquearam.

– Pode fazer isso? Apagar minhas lembranças? – Subitamente, olhou com fixidez. – Já fez, não?

Dayan a fitou, sem remorso.

– Parcialmente. Rabisquei-os um pouco, para que não se assustasse, mas deixei-os acessíveis, se por acaso mostrasse vontade de encaixar as peças do quebra-cabeça.

Por um momento ela o fitou em completo silêncio, mas depois estalou em gargalhadas.

– Isto é realmente uma loucura, sabe! Porque acredito em você e é muito extravagante para se expressar com palavras.

– Não posso te mentir, Corinne. Você agora possui a habilidade, através de nosso intercâmbio de sangue, de estudar minhas lembranças, de entrar em minha mente e comprovar se estou contando a verdade. É minha companheira. Não tentaria te enganar por nenhum motivo.

– E ser sua companheira significa...? – inquiriu ela, brandamente, lutando para compreender.

– Para um homem dos Cárpatos, há uma única possibilidade de viver de verdade. Perdemos nossos sentimentos muito cêdo. Temos as lembranças das emoções para nos manter e temos a habilidade de tocar aos outros, de forma que podemos compartilhar seus sentimentos, mas depois de séculos de solidão e desolação é difícil manter a ilusão de que a vida tem significado. O sussurro do poder nos chama continuamente, uma mancha escura que se estende sobre nossas almas. Alguns cedem e procuram eterno descanso, outros escolhem a escuridão e se convertem em coisas de lenda... Em vampiros.

– Se tudo isto é verdade, como posso ser sua outra metade se eu não sou Cárpato? – ela não estava segura de querer saber a resposta. Sentia-se como se fosse sua outra metade. Sentia-se como se pertencesse a ele. Cada momento que passava em sua companhia só fazia que a sensação fosse mais forte. Não sabia nada dele, mas se sentia como se soubesse de tudo. Mas se acreditasse no que ele estava contando, também teria que acreditar nos legendários vampiros.

– Você tem habilidade psíquica. Mulheres humanas que têm habilidades paranormai,s com freqüência parecem capazes de se unirem conosco… Pelo menos isso é o que disseram. Syndil e Barack são companheiros. O companheiro de Desari, Julian, é Cárpato. Mas Darius encontrou uma mulher humana. Seu nome é Tempest e chegou a nós, através de um anúncio que Desari colocou no jornal, procurando um mecânico que viajasse com nossa banda. Desari incrustou uma compulsão no anúncio com a esperança que atrairia à pessoa certa a nós e Tempest respondeu.

– Ela ainda é humana?

Dayan levou os dedos dela a boca, mordiscando-os gentilmente, meigamente.

– Tempest escolheu salvar a vida de Darius e para fazê-lo, quis entrar completamente em nosso mundo. Foi escolha dela, Corinne. Darius não queria nem sequer que discutíssemos com ela a possibilidade de que o fizesse, porque não queria correr nenhum risco com sua vida.

– Risco? – Repetiu ela. De repente estava muito cansada e desejava o familiar consolo de Lisa. Ou John.

Dayan se sobressaltou, visivelmente. Sabia que era natural para ela, tão natural como seria para ele pensar em Desari ou Syndil. Passara várias vidas com elas e as amava profundamente. Embora o incomodasse que Corinne desejasse o consolo da companhia de outro homem, ou os braços de outro homem. Sabia que queria o bebe, pois já sentia um forte vínculo com ela. E se tivesse êxito em salvar a vida de Corinne, seria seu sangue que correria pelas veias da menina.

O coração de Dayan acelerou, ante a idéia de ter seu filho no corpo dela. Emoldurou-lhe o rosto com as mãos.

– Houve enganos… Mulheres humanas que não eram autênticas companheiras, enlouqueceram. Darius não queria arriscar-se a uma tragédia semelhante, com sua mulher.

– E o que me diz? Diz que me deste seu sangue. Está disposto a arriscar minha vida?

Dayan a beijou, porque precisava beijá-la. Não podia notar e sentir seu desassossego, seu medo crescente, sem precisar reconfortá-la de algum modo. No momento em que sua boca tocou a dela, ligeiramente, solo um leve toque, seu corpo se enrijeceu ardentemente e seu sangue se converteu em lava fundida. Seus dedos deslizaram em volta do rosto dela, para lhe acariciar o cabelo, mantendo-a imóvel para sua exploração.

Corinne respondeu imediatamente, devolvendo o beijo sem titubear, a eletricidade faiscou entre eles, forte como sempre. Seu corpo pareceu fundir-se com o dele em total aceitação. Fez ela se sentir instantaneamente abrigada por ele, protegida.

– Nunca me arriscaria com sua vida, Corinne. – Ele sussurrou ferozmente contra os lábios dela. – Como pode pensar isso? Você é minha vida. Minha prudência. Minha música. Sem você, não há nada. Conheci essa existência e não voltarei para ela. Acredito que meu sangue pode salvar sua vida. Isso foi o que permitiu que Gregori te curasse tão extensamente como fez.

– Mas as reconstruções não agüentarão. – Adivinhou ela, docemente, aconchegando-se mais em seus braços. Estava muito cansada e sabia que precisava voltar a dormir, mas queria estar tão perto dele, como fosse possível.

– Não, carinho, não muito. Esperamos que o tempo suficiente para dar uma oportunidade ao bebê. Essa é a maior complicação. – Ele escolheu as palavras muito cuidadosamente.

– Se meu coração não durar, por que está tão seguro de que pode salvar minha vida? – Ela murmurou as palavras, sem se preocupar realmente com a resposta. Se ele podia salvar a vida de sua filha, estaria mais que agradecida. Tudo valeria a pena, cada mau momento de sua vida.

– Meu sangue transformaria seus órgãos internos, te convertendo em uma dos nossos. Essa é minha intenção, Corinne. Sei que é minha autêntica companheira e sei que funcionará. Não há duvida em minha mente.

Ela levantou a cabeça, empurrando o peito dele para colocar espaço entre eles e poder olhar os olhos escuros.

– Me fazer como você?

Seu coração pulou um batimento, mas seguiu firmemente. Estava simplesmente estudando-a, quase como se estivesse observando a cena, a uma grande distancia. Dayan segurou sua mão, precisando pegar nela, temendo súbitamente que o vazio na mente dela fosse uma negativa a suas intenções.

– É a única forma, Corinne, que salvaria sua vida. Se você viver, eu vivo. Não temos outra escolha. Gregori diz que seu coração não tem remédio e só pode esperar mantê-lo funcionando, até que o bebê nasça.

Corinne acariciou o rosto dele e seu firme olhar não desviou dos olhos dele.

– Deveria ter pensado em me perguntar se eu poderia querer. Acredito em conversar e certamente acredito que uma decisão tão grande deveria ser tomada por mim, não para mim.

Dayan assentiu.

– Não mentirei, Corinne. Pensei em discuti o assunto contigo e desprezei a idéia. Agora, está muito fraca e seu coração está esticado ao máximo. Teria que lhe explicar isso tudo...

– Como está fazendo agora... – Assinalou ela, solenemente.

– Estou tentando me explicar. – Concedeu, ele. – Mas estou controlando seu coração atentamente, me assegurando de que a informação não é muito assustadora. Não é todo o dia, que se ouve falar em outra espécie de pessoas.

– É isso é você, Dayan?

Dayan assentiu lentamente, seu olhar negro sustentando a dela, sua mente firmemente na dela para captar cada pensamento que passava por seu cérebro.

– Sim. Somos tão velhos como o tempo e vivemos longas vidas. Nosso sangue é diferente e temos muitos dons. Podemos correr com os animais, voar com os pássaros, nos converter em névoa quando é necessário. Mas há um preço para esses dons. Herdaria essas habilidades, mas também pagaria o mesmo preço.

– E qual é...?

– O sol nos faz mal. Nossos corpos se tornam pesados, paralisados pela luz do dia. Aquele de nós, que não escolhemos perder nossas almas, pode se mover no começo da manhã ou no princípio da noite, enquanto que o não–morto. O vampiro está preso sob a terra, mas somos vulneráveis na tarde. Há alguns que nos caçam há essa hora.

Corinne se recostou entre os travesseiros, pálida e pequena. Roubou-lhe o fôlego, com um sorriso angélico.

– Não pareça tão ansioso, Dayan. – Aconselhou ela, brandamente. – Estou tendo mais problema em acreditar nisto, que em aceitá-lo para mim. Nunca fui capaz de correr como as outras crianças. Agora estou presa a esta cama, tão fraca que não posso ter meu próprio bebê sem ajuda. É você que mantém pulsando meu coração. – Suas largas pálpebras se abaixaram, duas espessas meias luas contra sua pele branca. – Estou presa a esta cama, tão certamente como você diz que está preso a terra. A idéia de correr com os animais e voar com os pássaros é muito atraente para mim. E na verdade já estão me perseguindo. Lembre-se, alguém matou John e fez outra tentativa contra mim. Embora a ameaça seja aterradora, não posso fingir que não aconteceu.

O alívio se espalhou por ele, através dele, deixando-o fragilizado.

Corinne sorriu levemente, sem abrir os olhos.

– Não se sinta tão seguro de si mesmo, Dayan. Não decidi se é um autêntico louco e se devo correr pedindo ajuda. Estou muito cansada para pensar agora, então, você está relativamente a salvo no momento.

– Ao menos está me dando uma oportunidade, Corinne e não posso pedir mais. Se for necessário, posso apagar suas lembranças permanentemente.

– Não pode fazer isso, Dayan. Quero te conhecer antes de me comprometer a viver sua vida. Conheci John quando tinha onze anos. Pensava que o conhecia bem, mas a verdade é que não.

Dayan passou a mão pela seda de seu cabelo, numa carícia consoladora, que pretendia lhe aliviar a tensão.

– Conhecia-o. Ele não te conhecia.

Corinne sentiu lágrimas fluindo de alguma parte. John. Nunca deveria ter se casado com ele, nunca deveria ter prometido o que sabia que não poderia lhe dar. Amara John, mas não como deveria. Não como ele se merecia.

– Não chore, pequena, parte-me o coração. – Sussurrou ele, brandamente, inclinando-se para terminar com suas lágrimas. Em seguida, pegou o violão. Seus dedos começaram a se mover sobre as cordas, como se estivesse sob feitiço. Sua oferenda. Seu conforto para ela. Uma corrente que surgia do mais fundo de sua alma.

Dayan tocou e sua voz encheu a mente dela de amor e felicidade, com sonhos de uma vida juntos, com fantasias de correr através dos bosques com a forma de gato montês, de voar pelo do ar como uma águia, ser livre e feliz. De lençóis de seda e luz de velas. De crianças brincando sob a luz da lua, cantando com ele, sua música.

De vida. Dayan estava lhe oferecendo sua vida.

 

Lisa elevou a cabeça e estudou cuidadosamente o quarto. Seu coração estava palpitando ruidosamente e ela sentia a boca seca. Não fazia idéia de onde estava ou como chegara ali. Seu último pensamento coerente foi conseguir algo para beber, na lanchonete do hospital. Definitivamente, não estava no hospital.

Cullen estava sobre uma cama de tamanho gigante e sua pele estava com uma cor amena. Acima de tudo, Lisa o achou mais bonito que antes. Tocou-lhe o rosto, numa emoção inominável que se elevou aguda e rápida. Apenas o conhecia, mas já parecia lhe significar tanto. E isso a assustava, como se assustava com tudo. A própria vida a assustava. Lisa sabia que não havia estabilidade real, a pessoa que amava, a pessoa que pensava que conhecia, podia se converter em monstro, ante seus olhos e conspirar para te destruir.

Não tinha nenhum direito a misturar-se na vida deste homem. Ele era muito bom, uma rocha firme, alguém capaz de tentar protegê-la contra assassinos. Ela estava quebrada emocionalmente e nunca poderia se refazer, de tudo. Enquanto Corinne havia crescido forte e aceitara sua vida, aprendendo a encontrar beleza e bondade no mundo, Lisa pensava em sombras. Vivia assustada o tempo todo. Não importava quão duro tentasse sobrepor-se a suas falhas, sabia que nunca poderia enfrentar o mundo sozinha. Onde estava Corinne? Onde estava seu irmão? Não podia continuar sozinha.

- Mas não está sozinha.

Lisa se voltou, olhando para todos os lados. O quarto estava vazio. Ela era a única que estava ali. E não tinha falado em voz alta. Lisa se voltou novamente para a cama. Cullen estava de olhos fechados, mas sua mão estava se movendo lentamente, para encontrar os dedos dela. Imediatamente entrelaçou seus dedos aos dele.

– Graças a Deus, Cullen, estive tão preocupada.

Um débil sorriso mudou os lábios dele.

– Deveria lamentar haver te preocupado. – Sua voz era baixa, mas forte. – Mas a verdade é que me alegro de er importante o bastante, para que se preocupe.

– Graças a Deus que está acordado. – Disse ela, decididamente. – Não sei onde está Corinne e não estamos no hospital. Seus amigos chegaram e nos tiraram de lá. Disseram que essa gente tentaria te matar se ficávamos lá. Acreditei que nos levariam aonde estivessem Dayan e Corinne, mas... – Olhou a seu redor, bastante indefensamente. – Não sei, possivelmente estão aqui, acabo de despertar. Não estou segura de como chegamos aqui.

As pálpebras de Cullen se agitaram, enquanto tentava abrir os olhos, para lhe ver o rosto. Ela soava desamparada e perdida e quis abraçá-la.

– Barack e Syndil da banda vieram, lembra-se? Estive falando com eles. Acredito que também ouvi Darius.

– Não conheço nenhum Darius. Não posso me lembrar de ter ouvido esse nome antes.

– Darius é o irmão de nosso cantor principal. Ele se encarrega da segurança da banda. Quando Darius está por perto, não tem que se preocupar por nada. Se ele deu a ordem de nos transladar, Corinne e a mim para um lugar seguro, assim o fariam.

– Eu conheci Barack e Syndil. Foram muito agradáveis, especialmente Syndil – Disse Lisa. – Estive tão assustada, Cullen. Os médicos disseram que você não poderia sobreviver após esta noite e disseram que Corinne e o bebê estavam morrendo. E depois, Corinne simplesmente desapareceu sem deixar rastro. – Lisa tentou com todas suas forças, manter os gemidos fora de sua voz, mas eles estavam ali, de toda forma e ela odiou.

Cullen tentou abrir os olhos. Inalou profundamente o perfume dela. Lisa era tão bela, que fazia mal olhá-la. Ela tentava ser forte, ser algo que não era e se criticava.

– Tudo está bem, Lisa. Prometo que não vou morrer. Barack me deu seu sangue.

Ela piscou, sem expressão, sem compreender o que ele estava dizendo.

– Precisou de uma transfusão e ele lhe proporcionou? Ouvi o Syndil dizer que você precisava de sangue, mas a lembrança é vaga. – Lisa notou que suas lembranças dos membros da banda eram nebulosas. Não podia formar uma impressão clara de nenhum deles, embora acabasse de estar com eles. Ela esfregou têmporas, que pulsavam.

Cullen pegou sua mão, para conseguir sua atenção.

– Nada disso importa, Lisa. Deixe que os outros se ocupem de tudo. – Sorriu-lhe. – Alegra-me que esteja aqui comigo. Sei que preferiria estar com Corinne, mas preciso de você aqui. Dayan é um bom homem... Nunca permitiria que acontecesse nada a ela.

– Onde ele estava? Por que você estava com o Corinne, em vez de Dayan? – Lisa tentou manter o tom acusador fora de sua voz. Uma grande parte dela, desgostava Dayan, tremendamente… A menos que ele estivesse diretamente diante dela. Então, não sabia por que, mas era como se toda sua opinião sobre ele mudasse. Nada disso fazia sentido para ela. Lisa passou uma mão pelo cabelo e pareceu aturdida. – Estou bem confusa a respeito de Dayan.

Cullen pensou no quanto ela parecia formosa.

– Dayan é bom para Corinne. Conheço-o, Lisa. Se você não aceita minha opinião, pelo menos confie em mim neste caso. Conheço-o… sei como é. Nunca trairia uma amizade e é o mais próximo a uma família que tenho. A banda me acolheu quando não tinha mais ninguém. Todos os que amei estavam mortos, não tinha mais futuro. Eles fizeram caso omisso do fato de que eu ajudara ativamente a caçá-los. Permitiram-me viajar com eles, para meu amparo. Não só me ofereceram amparo e amizade, mas me aceitaram como parte de sua família e me fizeram sentir parte dela. Bem poucas pessoas teriam sido tão amáveis com um completo desconhecido.

Lisa se sentou, estranhamente feliz em companhia de Cullen. Sentia-se em paz quando estava com ele. Houve uma suave batida na porta e Lisa se voltou rapidamente quando Syndil a abria e lhe sorria.

– Bem, você está acordado. Está-se sentindo bem?

Lisa se encontrou sorrindo, não podia evitar. Syndil era uma mulher tranqüila e atraente e Lisa não podia imaginá-la, sem que fosse honesta e doce.

– Ele está razoavelmente bem. – Respondeu, acariciando o cabelo de Cullen, para mantê-lo fora de seus olhos. – Acredito que está com a cor melhor e sua voz é forte. – Ela voltou-se para Cullen. – Dói algum lugar?

Lisa soava ansiosa e Cullen sorriu, apertando sua mão sobre dela.

– Surpreendentemente me sinto bastante bem. Mas não desejo repetir a experiência. Foi bastante arrepiante.

Lisa e Syndil trocaram um olhar muito feminino.

– Esteve inconsciente a maior parte do tempo. – Assinalou, Lisa. – Nós estávamos aterrorizados por você.

– Vou mostrar a casa para Lisa. – Disse Syndil a Cullen, com sua voz amável. – Enquanto Barack vai dar uma olhad em você. Quer te explicar umas coisas. – ela pegou o braço de Lisa, firmemente. – Venha comigo. Mostrarei onde possa encontrar tudo. Se houver algo que precise, por favor diga imediatamente. – Enquanto Syndil conduzia Lisa, inclinou-se para ela, com um sussurro conspiratorio. – É óbvio que Cullen prefere sua companhia a de nenhum outro.

Lisa sorriu para Syndil, sem sentir o ar fresco que a roçou, quando Barack deslizou invisível a seu lado, para chegar ao lado de Cullen. Barack esperou até que a porta estivesse fechada e pôde ouvir Syndil falando com Lisa sobre a comida na cozinha, antes de se materializar junto a Cullen.

Cullen o observou ,com olhos pacientes.

– Sabia que estava aí. Deu-me seu sangue, não é?

Barack o olhou, de maneira casual.

– Já sabe o que as mulheres sentem por você. Não podia fazer outra coisa que salvar sua pele inútil ou apanharia durante séculos.

– Darius? – Cullen pronunciou o nome do amigo, serenamente.

Barack sorriu.

– Não quero estar em lugar quando ele colocar os olhos em você. Não é que fale muito, mas o olhar que ele lançar, quando quase consegue que o matem, faz com que deseje que seu inimigo não tivesse falhado. Darius não está muito contente que você se tenha colocado em posição semelhante. E, é obvio, Dayan também.

Cullen gemeu, ruidosamente.

– Não quero nem pensar em Dayan. Como está Corinne?

Barack suspirou.

– Não viverá muito se Dayan não lhe der seu sangue e atrai-la completamente a nosso mundo. Mas existe a complicação da menina. Dizem que ela é como Corinne e não queremos perdê-la, tampouco. Estão tentando. – ele olhou para a porta. – Temos muito que falar e pouco tempo para tanto. Lisa está ansiosa para voltar a estar em sua companhia.

– É muito duro com ela, Barack. – Disse Cullen.

–Syndil me disse. – Respondeu, ele. – Sabe que agora é diferente. Está conectado a mim para sempre. Pode me tocar quando desejar, pois há um atalho aberto em nossas mentes. O vínculo de sangue entre nós permanecerá durante toda sua vida. Sabe que nós estamos separados do tempo, mas obscurecemos suas lembranças a maior parte das vezes, para que não corresse perigo. Agora é diferente. Sempre será uma ameaça para nossa espécie. Se seu sangue for examinado, colocaria-nos em perigo.

Cullen assentiu com a cabeça, seus olhos firmes sobre o rosto de Barack. Já havia pensado muito nisso. soubera no momento em que despertara. Sua audição era bem mais aguda. Era noite e mesmo assim ele podia ver claramente na escuridão. Sentia-se diferente, mais forte e saudável, apesar dos terríveis ferimentos. Também era consciente de que seu corpo estava se curando, a uma velocidade fenomenal.

Cullen estivera viajando com os membros da banda durante algum tempo. Aprendera a aceitar o fato de que algumas vezes sabia quem eram eles e outras vezes sua lembrança deles era nebulosa e não podia conjurar uma imagem de sua aparência. Em algum nível de sua mente, sabia que era necessário para proteger à banda de qualquer outro humano que procurasse informação sobre eles. E era necessário para proteger-se a si mesmo de qualquer vampiro que pudesse extrair a informação de sua mente. Enquanto viajasse com a banda, era provável que algum dia encontrasse um. Sabia que tudo isso havia mudado para ele, quando Barack doara seu sangue.

– Está sob o amparo da família. – Disse Barack, moderadamente. – E Darius quer que saiba que sempre estará. Mas não podemos desfazer o que parece. Temos decisões que tomar. Tomamos a escolha de salvar sua vida e o sangue foi livremente oferecido por causa de sua posição dentro de nossa família, mas só você pode tomar o resto das decisões. Respeitaremos o que decidir.

Cullen assentiu, entendendo mais do que Barack supunha. Quando suas lembranças deles eram claras, recordava cada detalhe e aprendera muito sobre sua espécie. Estavam-lhe oferecendo uma escolha e ele agradecia que o tivessem consultado.

– Não é uma decisão que possa fazer sem analisar Cullen. – Aconselhou, Barack. – Deve saber que sempre serei capaz de ler sua mente, seja que escolha o conhecimento total ou que apaguem suas lembranças. Saberei se nos trai com qualquer pessoa, incluindo sua futura mulher. Vejo claramente em sua mente. Deseja que Lisa seja sua, mas ela nunca será capaz de aceitar nossa espécie, como o que somos. Sempre deve nos ver como humanos. Não poderia aceitar as diferenças de Corinne e seria incapaz de viver com o conhecimento. Se nos escolher como sua família, nunca poderá lhe revelar o que somos. Você é uma pessoa que valoriza a honra e a integridade. Deseja uma relação completa com sua esposa. Ela sempre estará em nossas vidas, porque ama Corinne e Corinne a ama. Para Corinne, Lisa é sua família, como você é para nós. Mas terá que ocultar este conhecimento de Lisa, para sempre. Temos companheiras. Entendemos o vínculo entre homem e mulher. Se escolher que apaguemos suas lembranças de nós, entenderemos. Lembre-se que nós ainda sentiremos o mesmo por você e permanecerá sob nosso amparo. Depende de você.

Cullen sorriu, seus dentes muito brancos.

– Vocês são minha família.

– Como será Lisa.

– Exatamente. Como será Corinne. Lisa a quer como uma irmã. Minha esposa estará conectada a voces durante o resto de sua vida. Se escolho esquecer, então não poderei lhe oferecer meu amparo e ajudar a protegê-la das coisas que não pode aceitar. Sei como é Lisa. Ela precisa de um ambiente protegido, alguém disposto a defendê-la das coisas que não pode aceitar. Eu quero ser essa pessoa. Eu. Nunca pensei que poderia me sentir vivo outra vez. Você sabe da força, Barack, mas não sabe o que é para alguém lutar como ela tem feito, para viver num mundo com gente capaz de fazer coisas monstruosas que não pode entender. Você tem em ti, a capacidade de matar se for necessário. Ela é incapaz de gritar a alguém. Faz-lhe mal, que as pessoas levantem a voz uns aos outros. Você crê que isso é uma fraqueza. Eu a olho e vejo alguém muito bom para viver num mundo como este. Quero protegê-la. Quero a oportunidade de que ela me ame.

– Nós a amaremos e aceitaremos que a escolha para compartilhar sua vida. Perdoe-me, Cullen… Trabalharei em minhas falhas. Syndil me assinalou este mesmo defeito e não tenho intenção de continuar com este comportamento, se posso evitar. Conseguirei chegar a conhecer a Lisa e sempre a protegerei. Pode contar com isso.

– Obrigado. – Disse Cullen, silenciosamente. – Reterei minhas lembranças e trabalharei no amparo de nossa família, como você, Dayan, Julian e Dairus fazem sempre. Não quero esquecer nada. Nem o bom nem o mau. Vocês são tudo o que tenho.

– Então, que assim seja. – Barack apertou fortemente a mão de Cullen durante um momento, depois retrocedeu. – Enviei sua resposta a Dairus e os outros. Se precisar, siga o atalho em sua mente e poderá falar comigo. – Sorriu. – E é claro, pode fazer o mesmo com Darius.

Cullen o olhou fixamente durante um momento, pensando nisso. Deveria saber que Darius havia tomado seu sangue para abrir um canal a sua mente. Darius sempre protegia sua família. Era sua natureza.

– Vá embora. Prefiro olhar para Lisa. Mas diga a Dayan que rezamos por Corinne e o bebê.

Corinne dormiu, com estranhas imagens entrando e saindo rapidamente de seus sonhos. Quando despertava algumas vezes, os curadores estavam no quarto com ela, mas a maior parte do tempo só estava Dayan. Havia vezes nas quais ele estava deitado junto a ela. Com freqüência, sentado tranqüilamente segurando sua mão e a olhando amorosamente. Outras vezes despertava ao som de sua música, uma consoladora harmonia de voz e violão. Tentou umas vezes sobrepor-se a terrível letargia que parecia ter invadido seu corpo, mas era muito problemático e ela fechava os olhos com a imagem de Dayan em sua mente e coração. Estranhamente, já não tinha medo, nem por ela, nem por seu bebê.

Não fazia idéia de quanto tempo havia se passado, antes que conseguisse despertar realmente. Ficou quieta tranqüilamente fazendo inventário de seu corpo. Corinne podia ouvir como pulsava seu coração, como o de sua filha. Moveu as mãos protetoramente sobre o bebê e murmurou docemente para ela, perguntando-se podia ouvi-la. Enquanto falava com sua filha, estudou o formoso quarto. Estava cheio de obras de arte, até as molduras dos tetos altos. O quarto era enorme e as cores leves e elegantes. As molduras pareciam estranhos e formosos hieróglifos. Alguns símbolos lhe resultavam consoladores, enquanto outros faziam seu coração acelerar se os olhasse por mais tempo.

Sua mão moveu sobre a grossa colcha que a cobria. Também era uma obra de arte, uma formosa mistura de cores com símbolos similares, tecidos nela. Cada caráter era amplo e claro e a superfície lisa, ao tato. Notara que seus dedos procuravam continuamente os diferentes símbolos e os traçavam cuidadosamente, várias vezes.

Sentia Dayan junto a ela, simplesmente deitado tranqüilamente e seu corpo envolvendo protetoramente o dela. Corinne girou a cabeça para lhe encontrar observando-a, seu olhar era amoroso. Havia tanta ternura, tanta emoção neles, que lhe roubava o fôlego. Sorriu e sua boca curvou, enquanto levava uma mão para lhe tocar o rosto, com dedos gentis.

– Olá. – Disse ela, cheia de amor. – Está esperando há muito tempo?

– Várias sublevações. – Respondeu ele, honestamente, mudando de posição para poder se levantar apoiado em um cotovelo, para estudar melhor sua face.

– O que está fazendo? – Perguntou ela, ligeiramente envergonhada pelo atento escrutínio. Ele estava observando-a, sem piscar.

– Memorizando sua face. – Respondeu ele e seu olhar vagou sobre cada centímetro dos traços clássicos de Corinne. – Quero fechar os olhos e ser ainda capaz de vê-la. Estava acostumado a agradecer às horas diurnas como um alívio, dos sempre pressente sussurros da escuridão, mas agora me irrito com essas horas, porque não posso estar contigo. Quero falar com você, estar a seu lado, te olhar, estender a mão e te tocar, saber que é real e não um produto de minha imaginação. – ele acariciou a curva dos lábios de Corinne. – Já não quero dormir porque não posso te levar comigo.

– Tem que dormir longe de mim? – Perguntou ela, percorrendo com a mão o braço dele, precisava tocá-lo quase tanto como ele precisava tocá-la.

Ele inclinou-se para roçar um beijo terno em sua face.

– Quando durmo é como se estivesse morto. Detenho meu coração e pulmões e não respiro. Nossa espécie não tem que procurar a terra para dormir e muitos dos nossos não o fazem, mas dormem em câmaras clandestinamente onde estão relativamente a salvo dos caçadores humanos e dos acidentes. A maior parte de nós procura o sono rejuvenescedor da terra, porque é mais seguro e mais natural para nós. Eu preferiria estar a seu lado sempre, mas seria incômodo para você despertar e me encontrar como morto.

– Não se estivesse esperando algo semelhante. Por que está tão nervoso, Dayan? – ela passou os dedos pelo cabelo dele. – Estou começando a ser capaz de ler sua mente e você está atravessando um mau momento. Se algo for ruim, simplesmente me diga.

– Tudo está indo como os curadores haviam predito, com sua saúde. – Respondeu ele, vagamente, mas seu olhar se separou dela.

Corinne fechou os dedos em volta da mão dele.

– O que aconteceu?

Ele elevou os ombros casualmente. Muito casualmente.

– Há um ritual entre companheiros. É necessário para nos unir. Até que estejamos formalmente unidos, eu ainda sou um ligeiro risco para os outros. Não há nada a fazer, Corinne, até que sua saúde seja melhor. É incômodo só para mim. – A fera lutava pela supremacia em seu interior. Sentia-a crescer mais forte a cada sublevação. Precisava dela mais que nunca, para ancorá-lo. Precisava de sua alma unida a dele, de seu coração para lhe completar, de seu corpo como refúgio seguro.

– Que ritual? – Perguntou ela, curiosamente. – E não encolha seus ombros e ou se esquive. Se formarmos um casal, você tem que me dar a confiança que insiste em ter de mim.

Ele suspirou.

– Está sendo muito dura comigo, Corinne. Estou perdendo meu encanto? – Dayan tentou brincar, aliviar uma situação escura.

– Não acredito que possa ser pior. – Corinne reconfortou-o, com um sorriso de resposta. – Mas quero estar bem segura de que estamos juntos nisto. É importante para mim, Dayan. Não quero fazer algo indevido e me arriscar a te fazer mal. Tudo aconteceu muito rápido. Sou alguém que tem que pensar muito bem nas coisas antes de tomar decisões. E você está pedindo que eu aceite várias coisas, tendo fé.,

– Podemos proceder de mundos diferentes, Corinne, mas sabe que pertencemos um ao outro.

– Talvez. – Concordou ela, sem se comprometer. – Me fale do ritual.

Ele rodeou sua cintura com o braço e se inclinou para beijá-la novamente, mas desta vez se atrasou no simples prazer, saboreando o momento.

– Quando um homem dos Cárpatos reconhece sua companheira, recita as palavras rituais para uni-la a ele. As palavras estão impressas nele desde antes de nascer. Parece-se muito a um matrimônio humano mas é permanente. Uma vez pronunciadas, as palavras unem aos dois, coração, alma e mente. Ela não pode escapar dele. Não podem se separar após. Devem tocar um ao outro com freqüência, utilizando um toque mental O.... – Ele pensou, procurando a palavra certa. – Não sei... Mas precisam estar um com o outro ou podem se sentir muito incômodos.

– Ele simplesmente diz umas poucas palavras e ela o pertence? – Ela o trouxe contra seu peito com sua pequena mão, olhando-o. – Isso não me soa muito justo.

– Vamos, Corinne. – Sua voz foi suave como o veludo e profundamente sensual. – Não fui eu que criei o ritual. Têm milhares de anos de antigüidade. Não posso fazer outra coisa que o que meu coração e minha alma demandam.

– Pronunciou as palavras para mim?

Ele sacudiu a cabeça e seu cabelo negro azulado lhe caiu em volta do rosto moreno.

– Não posso enquanto estiver tão doente. Não sei se seu coração seria capaz de suportar uma separação, durante as horas nas quais devo dormir.

– Mas se é difícil para você, porque não nos uniu? – Seus pequenos dentes brancos morderam o lábio inferior, enquanto ela lutava para entender o que ele dizia,

Palavras como sublevações e rituais pertenciam ao mundo dele, não ao dela. Ela era muito prática. Quando ele começou a rir, Corinne franziu o cenho, tentando parecer severa.

– Está lendo minha mente novamente, não é?

Dayan encolheu o ombro, esse intrigante ondeio de músculos, sob sua camisa imaculada

– Naturalmente. Sou seu companheiro.

– Como mantém sua roupa tão perfeita? E seu cabelo? Por que não tem mau hálito pela manhã? – Inconscientemente, Corinne colocou uma mão sobre a própria boca. Como ele podia parecer perfeitamente sexy e tentador, quando ela estava desarrumada e se parecia muito a uma baleia?

Dayan realmente gargalhou, não pôde evitar. A imagem que Corinne fazia de si mesma estava tão longe da realidade, que chegava a ser ridícula. Não podia imaginar o corpo suave e curvilíneo de Corinne, parecendo a uma baleia. Estendeu-se de costas na cama, com ela a seu lado. Corinne era real, viva e seu coração ainda estava pulsando. Gargalhou. Era um momento perfeito no tempo.

Ela começou a rir também, porque ele era tão tolo e sua alegria evidente. Corinne lhe esmurrou o peito, com força.

– Deixe de rir de mim.

– Não posso evitar, carinho. Uma baleia? Não posso dizer que está grávida. Essa não é uma boa analogia absolutamente. – Ele colocou a mão sobre seu ventre. – E eu gosto de sua desarrumação. – ele segurou o rosto liso entre as mãos e trouxe os lábios dela, até os dele.

A terra pareceu mover sob a cama, um curioso efeito ondeante que provocou látegos de relâmpago que se arquearam pelo quarto. O ar vibrou com fome e necessidade. Ele levantou a cabeça contra a vontade e olhou fixamente os olhos verdes.

– Amo-a como é, Corinne. Agora, nesta cama, enquanto não podemos fazer amor e há uma criança crescendo em seu interior. Amo-a com seu cabelo alvoroçado e esse olhar ligeiramente confuso em seu lindo rosto. – ele colocou suas mãos a cada lado da cabeça dela, aprisionando-a contra a cama. – Adoro como me olha, como se quisesse cuidar de mim, embora seja eu o homem.

Ela tocou com a ponta dos dedos, a boca perfeitamente cinzelada.

– Podemos cuidar um do outro. – Sua voz foi suave e tentadora. Uma tentação que Dayan achou impossível de resistir.

Morria de amor por ela.

Ele inclinou a cabeça lentamente para que ela o visse chegar, seu negro olhar era ardente e faminto e cheio de terrível necessidade.

Corinne envolveu sua cabeça com os braços esbeltos e encontrou-o, faminta. Ele era calor e luz, uma sinfonia de música que iluminou sua alma. Fez que o coração de Corinne pulsasse rapidamente e seu espírito voasse sobre as nuvens. Não havia ninguém mais para ela, fosse humano ou de outra espécie. Só existia Dayan com sua alma de poeta, com seus olhos famintos e sua boca dominante. Seu duro corpo masculino e suas mãos perfeitas que se moviam sobre o corpo dela com o mesmo talento que se moviam sobre seu violão.

Foi Dayan o que se afastou primeiro, colocando vários centímetros entre eles, mas respirando pesadamente.

– Seu coração está acelerado.

A boca dela se curvou lentamente, seus olhos dançaram.

– É o seu, não o meu. – Não era estritamente verdade, pois os corações pulsavam juntos, em ritmo desacompasado.

– Os curadores virão aqui e nos darão um sermão. – Sussurrou Dayan, olhando para a porta.

Corinne lhe acariciou o cabelo, desfrutando do luxo de tocar os sedosos fios alvoroçados.

– E o que farão se nos pegarem? – Perguntou, sorrindo - – Surpreender-se?

– Me ordenarem que saia. – Disse ele, gravemente. – Dariam-me um sermão sobre o quanto irresponsável e egoísta que sou. E sou. Deveria ser mais cuidadoso contigo, todo o tempo, não cair na tentação cada vez que me sorri. – Ele franziu o cenho quando a trouxe ao peito. – O que está fazendo?

– Quero me levantar. Tenho que ir ao banheiro. Notei que não é algo que sua espécie faça muito. – Ela estava brincando, mas o sorriso desvaneceu, quando ele continuou olhando-a seriamente. Corinne ergueu a mão. – Nem sequer mencione. Não quero saber. Simplesmente sai de meu caminho e deixa que uma simples mortal faça o que tem que fazer.

– Meu amor. – As palavras escaparam num sussurro, suave veludo e pareceram brilhar no ar entre eles. – Não posso permitir que ande por aí. Os curadores disseram repouso absoluto na cama. Devo insistir em que obedeça.

– Não falaram em ir ao banheiro. Lembro-me que me levou nos braços a última vez, mas não será preciso. – Quando ele se negou a sair, ela suspirou pesadamente e mudou de tática. – Está bem, me leve nos braços novamente. Mas isto é grave e temo que está se convertendo num hábito.

Dayan a levantou facilmente, embalando-a em seus braços.

– Não vejo por que. Ocorrem-lhe as coisas mais estranhas.

– Eu gostaria de estar em sua cabeça de vez em quando e ver que há por aí – Ela o desafiou.

Dayan a colocou cuidadosamente junto a grande lavabo de mármore.

– Pode ler minha mente quando quiser, carinho. Minha mente está sempre fundida a tua. Permaneço como uma sombra, para poder encontrar todas as coisas fascinantes que tenta esconder do mundo. – Sorriu-lhe zombeteiramente. – Só que é muito medrosa para olhar realmente em minha mente e ver que pensamentos espreitam ali.

Ela permaneceu em pé, segurando o lavabo de mármore, fitando-o.

–– Fora! Não pode pensar em ficar aí.

– Não posso te deixar sozinha. – Disse ele, tranqüilamente.

– Estou falando sério, Dayan. Saia neste mesmo instante e sem discussão. Fora! – Corinne foi firme.

Dayan pareceu indefeso durante um momento, depois encolheu de ombros, seu gesto caracteristico e saiu, decidindo que o velho ditado “A discrição era a melhor parte da coragem" encerrava uma verdade.

A porta se fechou com um golpe seco atrás dele e uma saudação da mão de Corinne.

– Se assegure de que sua mente vá contigo. – Gritou ela, depois notou que estava sorrindo porque podia ondear a mão para portas e torneiras e colocar em movimento sua escova de dentes e isso não incomodava a Dayan, absolutamente.

- Não sei por que acredita que minha mente não iria comigo e ficaria contigo, ao mesmo tempo.

A voz roçou as paredes da mente de Corinne, como o roçar das asas de uma mariposa, enviando ondas de ternura, através de seu corpo.

Pela primeira vez em muito tempo, Corinne compreendeu que era verdadeiramente feliz. No banheiro, apoiada contra a pia, tentando fazer algo com seu selvagem cabelo estava perfeitamente feliz. Uma vez que teve liberado seu cabelo da grossa trança, sentiu-se muito cansada para arrumá-lo. Compreendeu que estava muito cansada para levantar os braços e recolhê-lo. Suspirou.

O que aconteceu? - Havia ansiedade na voz de Dayan.

Corinne não replicou, sabia que não, suspirou de novo, mas foi suficiente para ele entrar rapidamente, pegando-a nos braços, como se fosse de preciosa porcelana. O cabelo de Corinne caiu em todas direções, desdobrando-se sobre os ombros dele e prendendo-se sobre a escura sombra de seu queixo.

– Simplesmente não pode se manter afastado, não é? – Perguntou ela, secretamente agradecida de que ele tivesse deslocado para resgatá-la.

– Sabia que precisava que a resgatassem. – Disse ele com grande satisfação.

– Estava pensando num resgate? Essa era a palavra que tinha em mente? – Sacudiu a cabeça enquanto se acomodava sobre a cama. – Não acredito que resgate fora à palavra precisa. Não posso me imaginar utilizando uma palavra como essa.

– Oh! Foi um resgate, sem dúvida. – Não ia deixar que ela escapasse tão facilmente, nem quando seus olhos verdes brilharam de risos e sua intrigante covinha era bem mais que evidente. Adorava essa covinha. Sabia que poderia passar horas a olhá-la e não se cansar.

Dayan tirou a escova da mão de Corinne.

– É assombroso o que os homens de minha raça se vêem abrigados a fazer.

Corinne ondeou a mão para o centro do quarto.

– Vá para lá e faça alguma coisa. Vamos, faça!

– Alguma coisa? – Repetiu ele enquanto se dirigia obedientemente para o meio do quarto. – Que tipo de coisa? – Soava cauteloso.

– Não sei exatamente, mas faça alguma coisa genial. O que você gosta de fazer? – Ela estava olhando-o sob as pálpebras.

Dayan sorriu subitamente, como um menino travesso.

– Algo genial?

– Claro. Realmente grande.

As sobrancelhas dele se arquearam.

– Se lhe mostrar, o que você vai me ensinar?

– Isso soa a um desafio. – Disse ,Corinne. – Não posso resistir a um desafio.

– Então você primeiro. – Ele cruzou os braços contra o peito, avaliando-a. – Se eu for primeiro é bastante provável que você desmaie de surpresa.

– Eu!Desmaiar! Não sou das que desmaiem. Nada que possa fazer me assustaria tanto

– Agora sim, há algo que posso fazer. – Replicou ele, arrogante.

Corinne se encontrou olhando fixamente para Dayan, quase hipnotizada por seu feitiço. Ele tinha tecido sua escura melodia tão completamente, tão perfeitamente, que não tinha notado que ela estava imersa em sua música, em sua alma. Para encobrir sua reação à pura intimidade de uma mente fundida, Corinne obrigou seus caprichosos pensamentos a se manter sob controle e concentrados. Logo, a escova da mão de Dayan se liberou e moveu através do ar para reassumir a tarefa de domar o cabelo selvagem de Corinne. Com intensa concentração dividiu-os em três partes, utilizando o poder de sua mente e teceu-o numa grossa trança. Um elástico saiu dançando do banheiro a sua chamada e se apressou para completar o trabalho.

Corinne o olhou, um rastro de apreensão manchou a perfeição de sua alegria.

– Bem? – ela olhou-o como uma menina, insegura. Se sentia orgulho ou medo.

Deliberadamente, Dayan lhe sorriu. Um zombador sorriso masculino, de pura competição.

– Observe isto. – Ele estendeu os braços, seus olhos intensamente fixos sobre o rosto dela, sua mente completamente fundida a dela, no caso dela se assustar, pela mudança que ia acontecer. Ondeou uma pelagem ao longo de seu braço, se contorceu e brotaram músculos.

Corinne observou com assombro como o homem lentamente mudava de forma até se converter num grande leopardo macho, que permanecia no centro do quarto, olhando-a sem piscar. Por um momento ela o olhou, quase congelada no lugar, mas então o felino se moveu, seus poderosos músculos se ondearam enquanto deslizava silenciosamente para ela. Corinne reconheceu-o! Sabia que era Dayan. Tinha a mesma fluída graça e poder, os mesmos olhos famintos que a devoravam. Seu ritmo cardíaco se acelerou, mas não de medo. Assombro e fascinação, sim. Nunca medo. Não quando era Dayan.

O leopardo se esfregou contra Corinne, para que ela enterrasse a mão na lustrosa pelagem, assombrada ante a textura, ante a alegria de estar tão perto de algo que pertencia à selva. Ela riu em voz alta, enquanto acariciava a cabeça do animal com a ponta dos dedos. Durante um instante esfregou o rosto no grosso pescoço do leopardo, adorando a sensação da pelagem contra sua pele. Era exótico, um estranho privilégio estar tão perto de um animal selvagem. O leopardo se esfregou contra suas costas, seus olhos a olhavam fixamente, hipnotizando-a, apanhando-a em suas indomáveis profundezas. Dayan. Seu Dayan. Conheceria-o em qualquer parte, em qualquer forma.

Sem advertência, uma escura sombra pareceu arrastar-se lentamente pelo quarto, invadindo o ar como um pestilento azeite espesso. Corinne ficou congelada no lugar, todo seu corpo ficou perfeitamente imóvel. Sentiu a tranqüilizadora presença de Dayan em sua mente. Observou com horror, como a sombra parecia tomar forma na parede mais afastada. Uma figura grotesca encurvada, uma figura esquelética e com longos e ossudos dedos, que pareciam terminar em garras como navalhas. Seu coração acelerou alarmado e instantaneamente o corpo de Dayan se colocou solidamente diante dela. Sentiu que os outros se uniam também a ela, unindo suas mentes. Desari, uma influência tranqüilizadora e calmante e Gregori e Darius poderosos e sentiu-o, mortais.

Todos eles protegendo-a, defendendo a da rasteira sombra. Era completamente perversa. Uma espessa e oleosa presença indagando, procurando, perseguindo alguma coisa. Corinne soube que a mísera coisa a perseguia. Sentou-se muito tranqüila, mantendo sua mente firmemente ancorada na prudência e na calma dos outros. Surpreendentemente, seu coração permaneceu firme, pulsando ao mesmo ritmo que o de Dayan, enquanto seus pulmões respiravam junto aos dele.

Foi Dayan quem mais a surpreendeu. Seu poeta, tão amável e gentil, tão atento e amoroso, converteu-se súbitamente em algo completamente diferente. Sentiu o contraste primeiro em sua mente. Estava tão sintonizada com ele, que reconheceu a mudança imediatamente. Chegou veloz, com naturalidade e ela compreendeu que essas qualidades eram tão parte dele como sua música ou suas formosas palavras. Ele era escuro e perigoso, um predador silencioso e mortífero, uma máquina de matar. Desumano. Sem remorso. Cruel. O completo oposto a seu poeta. A ardilosa e implacável fera que ele chamava a si mesmo. Seria inquebrável na caça.

E não se deteria até que tivesse destruído sua presa.

Corinne sentiu Desari com mais força que nunca, tranqüila, consoladora, reconfortando-a, sussurrando brandamente em sua mente. As palavras eram quase indistinguíveis, mas Corinne sabia que ela estava ajudando a entender como dirigir à criatura que era Dayan, realmente. Sentiu a momentânea onda, quando o intruso se estendeu para ela, na intenção de alcançá-la. Ela estava segura e protegida dentro das paredes do casulo em que os outros a tinham envolvido. Não havia possibilidade de que o escuro horror a encontrasse, mas tocou os três homens dos Cárpatos.

Ela sentiu. Sentiu a surpresa, a retirada. A coisa gritou. Um horrendo som que estava em sua mente, através dos Cárpatos que ouviam, um agudo som de cólera, de ódio e de medo. Corinne levou poucos segundos compreender que a criatura só podia detectar os homens. As mulheres estavam tão profundamente fundidas a eles, que a fera só podia detectar o poder dos homens. A criatura instantaneamente se retirou, fugindo com furtiva rapidez.

Corinne piscou para Dayan, apenas capaz de compreender sua transformação, de poeta a predador. A mão dele lhe acariciou o rosto e o cabelo, incrivelmente gentil. Dayan pareceu atrasar-se durante um momento, embora seu corpo estava reluzindo, era quase transparente.

Corinne observou-o, com o coração na garganta, como ele se dissolvia ante seus olhos. Em seu lugar havia gotas de neblina. A neblina fluiu através do quarto e saiu pela porta.

Assim, simplesmente, Dayan saiu. Do quarto, de sua mente. Gregori e Darius também haviam desaparecido de sua mente comum, deixando somente Desari, que abriu a porta do quarto, deslizando-se até ela, com um sorriso alentador.

– Não está assustada, está? – Sua voz estava cheia de beleza.

 

– Tudo foi muito rápido para compreender realmente o que estava acontecendo. – Respondeu Corinne, honestamente e insegura de como se sentir. Passou o olhar de Desari às outras duas mulheres atrás dela. Estavam sorrindo tranquilizadoramente, mas na soleira da porta. Corinne saudou-as, convidando-as a entrar.

– Acredito que estamos sob assédio. – Desari tomou a mão de Corinne, para reconfortá-la e ao mesmo tempo lhe comprovar a pulsação. – Não há necessidade de se assustar. Meu irmão Darius e Gregori são dois dos melhores caçadores que temos. Estão procurando o maligno, junto com Dayan, para destruir o que é uma ameaça para humanos e imortais. – Ela falava tranqüilamente, como se caçar monstros malignos fosse coisa de todos os dias. – Naturalmente se ocuparão de que Dayan volte ileso. Depois, estávamos lutando por salvar a você e sua filha. Não perderemos Dayan por causa deste maligno.

Corinne estudou cuidadosamente o rosto da outra mulher. Podia ver sua bondade, compaixão e uma luz que brilhava nas profundezas de sua alma. Parecia tranqüila, mesmo depois de se sentir enfrentada por semelhante ser maligno.

– Sentia-me horrível. – Admitiu Corinne, em voz baixa. – E isso que Dayan me defendeu de algum modo, da experiência.

– Era um vampiro. – A mulher mais baixa, de cabelos negros como a noite, respondeu tranqüilamente, estendendo-se em busca de um copo de água cristalina. – Beba a água. Sou Savannah, a companheira de Gregori. Sei que soa absurdo e algo que não pode ser real, mas lhe asseguro que os vampiros existem e procuram ativamente mulheres que tenham habilidades psíquicas. Especialmente mulheres não reclamadas.

– Você é Savannah Dubrinsky, a maga! Vi sua atuação em Seattle há poucos meses. Você é maravilhosa. – Corinne sorveu a água, para dar tempo a sua mente, de compreender a situação. – Essa coisa estava me procurando, não é?

Desari a olhou, com tranquilidade.

– De certo modo. Você o atraiu aqui, embora não saiba quem é. Quando indagou, encontrou somente os caçadores. Não será um problema, porque o destruirão.

– Se tudo isto for certo. – Exigiu, Corinne. – Por que antes nenhum tentou me encontrar? – Por mais que parecesse impossível para Desari mentir, Corinne não queria que sua explicação fosse certa. Possivelmente tinha sido melhor viver sem saber nada disto.

A ruiva lhe sorriu.

– Sou Tempest e me acredite, Corinne. Sei o quanto pode parecer confuso. Eu a vi procurando seus sapatos, um dia desses... – Ela continuou revelando que podia ler os pensamentos de Corinne. – Bem... Você teria perdido a grande aventura que é a vida e teria perdido de conhecer Dayan. O que é mais importante, finalmente teria escolhido utilizar seu dom e a e onda de poder teria revelado sua presença ao não–morto. Ele teria a encontrado.

– Já utilizei meu talento antes. – Afirmou, Corinne.

– Possivelmente, mas em coisas pequenas... Pequenas ondas de poder que não chamariam a atenção do não–morto, a menos que estivesse realmente perto dele. Teria se tornado mais fácil para você utilizar seus talentos. Qualquer onda de poder deixa rastros. Podemos nos encontrar uns aos outros através dessas ondas e também pode o não–morto. – Declarou Desari, tranqüilamente, como se estivesse falando do tempo.

– Por outra parte, tudo isto poderia ser um estranho pesadelo da qual não acerto despertar. – Sugeriu Corinne, com um ligeiro sorriso. – Ainda assim Dayan vale a pena. Eu adoro ouvi-lo. Diz-me as coisas mais bonitas. Tem uma voz bela e uma alma, mais ainda. Sempre me faz sentir como se fosse a única mulher em seu mundo.

– Para ele, você é a única. – Explicou, Desari. – E verdadeiramente, Corinne. Como poderiam não se apaixonar por você Olhe-se... A forma em que aceita seus problemas físicos e ainda mantém unida sua família, a forma em que aceitou a informação que Dayan te proporcionou. Não pode ser fácil para você, mas trabalha em ouvir, acreditar e compreender o que ele diz. Quem mais lhe daria essa aula de aceitação? Após de séculos em estar sozinho, sem sua outra metade, finalmente ele está em casa e você o aprecia. Você é sua casa. Não outra. Você.

– Não acredito que ele tenha aceitado meus problemas físicos. – Disse Corinne, envergonhada pelas palavras da mulher.

– Porque luta por você? – Tempest sorriu, serenamente. - Achará que isso é algo no qual os homens desta espécie são excepcionalmente bons.

Savannah assentiu.

– Dayan está lutando por sua vida e a vida de sua filha. Na realidade, ele luta também por sua própria vida. Sem você ele não é nada. Dayan existiu num mundo ermo e vazio... Não escolherá continuar sem você. Se viajar para o próximo mundo, ele a acompanhará como é seu direito, como homem dos Cárpatos.

– Estou muito cansada. – Confessou Corinne, sua mão foi protetoramente cobrir seu bebê. – Tento esconder-lhe mas ele sempre parece saber.

Desari penteou para trás o cabelo de Corinne, com dedos amáveis.

– Ele é seu companheiro. É obvio que sabe. Conheci Dayan toda minha vida. Alegra-me tanto que tenha te encontrado. Contou-nos que você é C.J. Wentworth, a escritora de canções. Agrada-me muito, dar as boas vindas a nossa família.

Corinne se recostou, para trás, entre os travesseiros.

– Eu me alegro de que ele lhes tenha a todos voces. – Ela queria Dayan. Queria passar cada momento que restava com ele. Podia sentir como sua força se desvanecia, lenta, mas certamente. – O que tem meu bebê? – Ela olhou para Savannah e depois Tempest. – Sei que eles devem ter contado a verdade a vocês.

Foi Savannah quem respondeu.

– Seu coração não agüentará. Mais uma sublevação e faremos outro ritual curador. Nossa meta agora é dar a sua filha umas poucas horas mais, ou dias, tanto tempo como pudermos. Gregori diz que ela será forte e essa é a metade da batalha. É como você, uma verdadeira psíquica e por conseguinte de soma importância para nossa raça.

– Utilizam o termo sublevação porque é na noite, não na manhã, quando se levantam. – Adivinhou, Corinne. – Acreditam que podem salvá-la?

– Estamos esperando que Shea chegue. Jacques, seu companheiro, insiste em descansar antes de completar a viagem. Shea está grávida e ele é muito protetor. – Informou, Savannah. – Minha mãe enviou notícias. Shea avançou muito na investigação dos problemas para manter vivas, as nossas crianças. Ela é um recurso tremendo para todos nós.

– Não posso acreditar que viaje de tão longe, quando está grávida. – Disse Desari ligeiramente, surpreendida. – Corinne, temos problemas para ter filhos. Nossa raça está à beira da extinção. Julian espera que logo possamos dar uma criança a nossa gente.

– O interessante é. – Disse, Savannah. – Que Gary Jansen, um amigo humano, um investigador, traçou as linhagens as famílias nas quais nasceram meninos com menos de cinqüenta ou cem anos de diferença. Só há um par deles. Sarantha, a mãe de Mikhail, provém de uma dessas linhagens, igual a Gregori. Gary e Shea acreditam que a infrequencia das concepções é uma forma natural de controle de natalidade. Desari, você é descendente de uma das linhas. Por isso sabemos, eu sou a única, da outra.

Tempest intercambiou um longo olhar com o Desari.

– Está tentando ficar grávida? – Perguntou, Tempest. – Darius e eu acabamos de nos encontrar um ao outro. Não pensei em ter filhos ainda.

Savannah riu.

– Na verdade, Gregori e eu há poucas semanas. E eu adoraria lhe dar filhos gêmeos. Montes de problemas para que ele os persiga e cuide deles, em vez de mim. Não ficaremos aqui, temos intenção de voltar para as Montanhas dos Cárpatos, onde formaremos nosso lar. Uma vez estabelecidos, estou segura de que tentaremos ter um filho. Jacques e Shea viajarão conosco. Todos temos intenção de voar primeiro Paris para visitar os irmãos mais velhos de Gregori, Gabriel e Lucian. Lucian acaba de casar-se, mas infelizmente, Gregori e eu perdemos o casamento, por causa de circunstâncias imprevistas.

– É perigoso para Shea viajar? – Corinne não queria pensar em que outra mulher pusesse em perigo seu filho, por causa dela.

– Jacques nunca permitiria que Shea fizesse nada perigoso. – Assinalou Savannah. – É Mister Protetor, no que a ela concerne.

Tempest e Desari explodiram em gargalhadas.

– E Gregori não é contigo?

Corinne franziu o cenho.

– Onde estão Lisa e Cullen? Estão bem? Lisa deve estar muito assustada.

O sorriso desvaneceu do rosto de Desari. Ela ficou em silencio durante um momento antes de responder, obviamente conferenciando com alguém mais.

– Lisa e Cullen estão relativamente a salvo onde estão. Barack e Syndil estão com eles. Julian, meu companheiro, foi em sua ajuda e afastou imediatamente toda ameaça. Estão sob seu amparo. Ele tem um pouco de reputação, em questões de segurança. – Desari expôs os fatos, tão delicadamente como foi possível, para não perturbar o delicado equilíbrio de Corinne.

Corinne empalideceu.

– Pensava que essa gente estava tentando matar a mim. Lisa ainda está em perigo?

– A sociedade procura qualquer pessoa com habilidades paranormais, mas seus membros não parecem ser capazes de distinguir muito bem, esses traços. Como Lisa é membro de sua família, também a colocaram na lista. Cullen já estava nela e esteve há algum tempo. Depois que Dayan a trouxe, fizetam outro atentado contra a vida de Cullen no hospital. É obvio, Barack e Syndil estavam lá, então Lisa e Cullen estão ilesos. Foram levaram para um lugar mais fácil de proteger.

– Por que não os trouxeram para cá? Lisa se assusta com facilidade. Isto deve ser terrível para ela. Preciso estar com ela. – Disse Corinne imediatamente, afastando a colcha.

Desari estendeu a mão gentil, sobre a de Corinne.

– Não está pensando com claridade, Corinne. Seu primeiro dever é para com sua filha e sua própria saúde. Pode se sentir melhor, mas a melhora é definitivamente temporária. Não pode se mover e fazer com que seu coração trabalhe mais que o necessário. Não faria nenhum bem a Lisa, Cullen ou a nenhum outro, que você morresse. – Ela inclinou-se mais, para que seus olhos escuros pudessem olhar diretamente os olhos de Corinne. – Não é, Corinne?

Corinne piscou afastando a ilusão de que experimentava uma queda livre.

– Sei que quero Lisa e ela deve estar muito assustada. Cullen viverá?

Desari assentiu. Corinne tinha um amparo mental extremamente forte para uma humana. Dayan havia dito que requeria mais força que o normal, defender a mente dela ou persuadi-la. Desari não queria exercer nenhuma pressão que pudesse alarmá-la. – Cullen suportou ferimentos tremendos, mas Barack doou sangue para ele, o qual é algo que não fazemos tão facilmente. Cullen não pode ser completamente convertido. Ele e Barack estarão conectados um ao outro durante o resto da vida de Cullen. Temos um grande afeto por ele e Darius não permitiria que morresse, quando estava em nosso poder lhe salvar. Lisa está ajudando a cuidar dele. Acredito que será bom para ela fazer-se responsável pela saúde de Cullen.

Corinne estava estudando o rosto de Desari.

– Porque acredita que estou morrendo.

Desari sacudiu a cabeça, decisivamente.

– Porque Dayan não tem mais escolha que te trazer completamente a nosso mundo e Lisa não pode te seguir aqui. Continuarão sendo boas amigas, mas já não poderá se ocupar de sua vida por ela. – Desari falou tão gentilmente, como foi possível, mas sua seriedade se mostrava em seus olhos escuros e expressivos.

Corinne apertou a manta em sua mão, seus dedos percorreram nervosamente os estranhos símbolos costurados na mesma.

– Completamente a seu mundo. – Ela repetiu a frase.

– O mundo de Dayan. – Recordou-lhe Desari, gentilmente. –Mantenha isso, em primeiro plano em sua mente. Estará em seu mundo.

– E o bebê? – Corinne finalmente deu voz à pergunta que tinha sido incapaz sequer de considerar. Estava aterrorizada por seu bebê.

Desari lhe sorriu, alentadoramente.

– Está forte o suficientemente ,para a verdade, Corinne? Porque tem que saber se quiser a verdade quando a pede.

Corinne notou que traçar os estranhos símbolos da colcha era consolador. Ajudava a evitar sua mente de gritar de medo. – Meu bebê vai viver e ficar bem?

– Estamos fazendo tudo o que está em nosso poder para que isso aconteça. O sangue de Dayan, que acreditam que salvará sua vida e te converterá, também converterá o bebê se lhe dermos o sangue enquanto estiver grávida. Isso nos apresenta alguns problemas e é um novo território que nunca antes percorremos. – A voz de Desari era fantasticamente formosa e tranqüila. – Estou sendo completamente honesta com você. Não temos as respostas que busca. Isto nunca havia acontecido antes, ao menos não que eu saiba. Certamente, não aconteceu a Gregori e ele é curador reconhecido de nossa gente.

Os dedos de Corinne encontraram o seguinte símbolo na colcha e o traçou, a caráter.

– Estou tentando entender o que me está dizendo. Se Dayan não me der seu sangue, é certo que morrerei. Está dizendo que isso é um fato.

Desari assentiu, solenemente.

– Só estamos atrasando o inevitável. Ele já teria completado a conversão se não estivesse grávida.

Corinne ouviu seu coração acelerado e levou um momento ralentizando-o.

– Como seria? Como completaria a conversão?

O olhar de desari manteve o seu, cativo, quase como se estivesse compartilhando seu valor.

– Deve haver três intercâmbios de sangue. Cada intercâmbio de sangue a introduz um passo mais em nosso mundo. E é obvio, como é sua companheira, Dayan completará o ritual e a fará completamente dele.

– E acreditam que isso salvará minha vida? – Perguntou Corinne duvidosamente, estudando o rosto de Desari. Dayan acreditava porque tinha que acreditar… Não tinha outra escolha ou ficaria louco… Mas Desari não tinha laços com ela. – Realmente o acredita, Desari?

Desari suspirou, suavemente.

– Acredito que as probabilidades estão a seu favor se tudo for bem e ajustamos o tempo perfeitamente. Sabe tão bem como eu, que seu coração está em má forma. Inclusive com o forte sangue de Dayan reformando seus órgãos internos, terá que ter a força necessária para atravessar a conversão. Gregori acredita que podemos conseguir e seu que ele é capaz de grandes milagres.

– É capaz de grandes milagres, Corinne. – Afirmou, Savannah.

Corinne sorriu, tristemente.

– Ainda assim, pelo bem do bebê, devo estar perto de Lisa. Se me acontecer alguma coisa, ela deve criá-la. Será o único parente do bebê.

Desari estava sacudindo a cabeça.

– Quande Dayan lhe der seu sangue, o sangue passará através da placenta para o bebê. A menina terá seu sangue, o código genético de Dayan, não o de seu anterior marido. A menina será eventualmente um dos nossos.

Corinne ficou em silêncio, ouvendo os sons da casa, o vento fora da janela, os ramos oscilando e dançando. Podia ouvir sua própria respiração e o batimento do coração da menina, pulsando em seu interior.

– Ele já me deu seu sangue. O que isso fará ao bebê? – Ela estava lutando desesperadamente, para entender.

– Corinne... – Começou Desari, amavelmente.

Corinne sacudiu a cabeça.

– Não quero que me trate como uma menina. Simplesmente me diga claramente. Que acontecerá a meu bebê?

– Sua filha nunca sobreviveria ao parto. – Disse, Desari. – Seu coração era apenas capaz de funcionar para você, muito menos para as duas. Sem o sangue de Dayan, ambas teriam morrido e essa é a verdade. Ela já leva o código genético de Dayan, mas não está completamente em nosso mundo. Darius a monitorou junto com Gregori, durante a transfusão. Quando se converteu em muito para o bebê, a transfusão parou, para permitir que seu corpo se ajustasse. – Deliberadamente, ela utilizou o termo humano transfusão, para tranqüilizar Corinne.

– Pensava que um humano não podia ser convertido a menos que ele ou ela tivesse um companheiro. – Corinne se sentia intumescida, presa, repentinamente cedendo ao pânico por causa das repercussões de sua decisão. Uma coisa era tomar semelhante decisão para si mesma, escolher o mundo de Dayan, mas era algo totalmente diferente, tomá-la para sua filha. Onde estava Dayan? Seu guia, sua prudência. - Onde está? - Estendeu-se através do tempo e do espaço, para ele. Seus dedos seguravam à colcha, coisa estranha que achava tão reconfortante.

- Estou aqui, meu amor, sempre contigo, uma sombra em sua mente. Caço o malvado, para fazer nosso mundo seguro, mas nunca me afasto de você ou de nossa filha. Voltarei ileso não acabemos com o que é mister. Enfrentaremos o que te assusta juntos, como deve ser. Unir nossos dois mundos não é tão difícil quando sentimos como fazemos. Nosso amor por nossa filha nos ajudará em nossas escolhas. - Sua voz era uma mistura de calor e de luz. Música e melodia, tão belas que lhe tocou o coração. Sentia-se forte e real e uma parte dela.

– Sua filha tem um forte talento psíquico, possivelmente mais forte que o teu. – Disse, Desari. – Pode ser convertida sem perigo para sua prudência, mas há outras complicações. Isto não é algo que façamos sem pensar, Corinne.

Corinne podia sentir inesperadas lágrimas chegando.

– Sinto-me como se vocês estivessem me dando pequenas peças de um quebra-cabeça, uma ou duas de cada vez e a imagem é tão assustadora que não posso compreendê-la. Que outras complicações?

– Nossa espécie tem problemas para ter bebês, particularmente meninas. Poucos de nós concebemos meninas e quando as concebemos não podemos levar a gravidez até o fim. Mesmo depois de que nasçem, nossos bebês com freqüência não sobrevivem ao primeiro ano. É uma tragédia terrível e contribuiu para o declive de nossa raça. Por causa de que devemos te dar sangue para salvar sua vida, o bebê receberá o mesmo sangue...

– Não! – Corinne foi inflexível. – Sua vida é mais importante que a minha. Ela tem que estar primeiro lugar em cada decisão. Sei que Dayan não quer isso, mas é minha decisão, não dela. Não quero lhe dar a vida só para perdê-la porque egoístamente desejo viver. Seria melhor me arriscar a dar a luz agora e deixar que os médicos fizessem o que pudessem. Fazem milagres com os bebês prematuros. Você mesma disse que era forte.

Desari sacudiu a cabeça.

– Ela não teria sobrevivido, se desse a luz na noite que Dayan a tirou do hospital. Requereu toda a força e poder de Gregori, para mantê-la com vida. Agora é muito tarde para voltar-se atrás. Ela tem o sangue de Dayan em seu sistema. Agora precisa de nós, para sobreviver. Um médico humano nunca poderia salvar sua vida.

Corinne retorceu os dedos sob a manta, com agitação.

– Sinto-me indefesa. – Confessou, às mulheres. – Sempre fui eu que se ocupou dos problemas de nossas vidas e agora não posso ajudar a minha própria filha, quando mais ela precisa.

Desari sacudiu a cabeça.

– Está muito equivocada, Corinne. Agora mais que nunca é você quem deve ter a força para levá-la adiante. Já está vigiando seu próprio coração e tentando regulá-lo.

– Sinto Dayan comigo quando tenho problemas. É ele quem regula meu ritmo cardíaco e introduz o ar em meus pulmões. – Corrigiu, Corinne. – Sei que ele está aí.

– É obvio... Ele é seu companheiro. – Disse Desari complacentemente. – Mas ele não pode te salvar se você não estiver disposta a ser salva. Está utilizando sua própria vontade e esta é considerável. – ela mostrou a colcha. – Vejo-a, como esta colcha. Francesca, a companheira de Gabriel a fez para você. É uma grande curadora que vive em Paris. Quando teve notícia de que estava grávida e precisava de ajuda, ela fez a colcha especialmente para você. É uma colcha curadora.Junto com os símbolos de cura, ela utilizou outros para ajudar em seu amparo se o inimigo a... Encontra.

– É tão linda. – Disse Corinne, honestamente. – Não quero deixá-la. Espero ter a oportunidade de lhe agradecer um presente tão único.

Desari lhe apertou sua mão.

– Eu gostaria de te examinar e renovar o processo de cura, se for possível. Lembra o que se sente? Savannah e Tempest me emprestarão sua força e lhe faremos sentir ao menos mais confortável. Recoste-se e começaremos.

Dayan, cruzou velozmente o ar, com a aparência de um longo rastro de gotas, muito similar a um cometa movendo-se rapidamente através do céu noturno. Gregori e Darius estavam dos dois lados dele, formidáveis caçadores, mas como era a companheira de Dayan que tinha sido ameaçada era ele quem devia salvá-la. Sentia à fera elevando-se dentro dele, lutando pela supremacia. Gregori, renomado por suas tempestades, gerou uma feroz borrasca e nuvens escuras se formaram velozmente para cobrir seu vôo através do céu noturno, em perseguição do vampiro.

O relâmpago ziguezagueou, arqueando-se de nuvem em nuvem, intenso e ameaçador. Matizes de profundo púrpura e negro rabiscaram o céu fazendo com que as estrelas ficassem lentamente apagadas. O trovão reverberou através do vale, ressoando, arauto de uma tempestade de grande magnitude. Por debaixo, enquanto os três caçadores atravessavam a grande velocidade o céu turvado, as criaturas selvagens sentindo os perigosos predadores, encontraram proteção apressadamente e permaneceram quietas. Os cães domésticos uivaram de medo e se esconderam quando as sombras escuras passaram.

- Dayan. - A voz de Gregori era compelidora, uma suave ordem. - A fera é forte em seu interior. Lembre-se que está em dobro perigo. Sua companheira está presa a você. Não há âncora que te mantenha no bom caminho. A violência provocará o afloramento da fera. É tempo de tomar cuidado, não erre. Junto com sua vida, sua alma está em perigo mortal.

Dayan pôde ouvir a pureza da voz de Gregori e a mesma se espalhou através da vermelha neblina de raiva de sua mente. Durante um momento pôde ver e ouvir claramente novamente, mas então a idéia do vampiro procurando Corinne, ameaçando-a, consumiu-o outra vez e ele continuou sua veloz perseguição para o inimigo.

Darius e Gregori voavam dos lados de Dayan mantendo facilmente o passo, com os sentidos desdobrados para esquadrinhar em busca de armadilhas ocultas. O vampiro não estava tentando cobrir sua retirada. Sabiam por longos séculos de experiência que se estivesse tentado evadi-los seriamente, teria arrojado mais de um chamariz.

Dayan era consciente das intenções do vampiro e não se importava. Possuía tremenda confiança em sua própria força e habilidade. Embora não se considerase um caçador do não–morto, acompanhara Darius, com freqüência, em semelhantes caças. Era sua companheira a ameaçada agora e o código de honra de sua gente ditava que era responsabilidade de Dayan, ao igual a seu direito, terminar com a ameaça.

Súbitamente uma chuva ácida chegou das nuvens tormentosas, assaltando os caçadores em vôo. Magras nervuras de luz prateada começaram a cair através do voar negro que formava redemoinhos. Quase impossíveis de ver, as gotas ardiam com um cáustico ácido, chamuscando a pele. Os fios como dardos venenosos se dirigiam para os caçadores. Eles sabiam que a mortífera chuva era uma tática dilatória do fugidio vampiro.

Imediatamente Gregori se elevou sobre Dayan, protegendo-o, instintivamente. Enquanto Gregori tomava a posição mais alta, Darius enviou uma alaranjada onda de energia, vaporizando as lascas de ácido antes que pudessem alcançar seus objetivos.

Dayan pôde captar uma olhada do vampiro através das nuvens, atravessando rapidamente o céu. Dobrou sua velocidade, lançando-se diretamente como uma flecha para o vampiro em fuga. Ele era um dos protegidos de Darius, aprendera com ele. Dayan acreditava em ser direto, levando a luta ao inimigo. Sentia a presença do maligno, a oleosa substância que ele deixava atrás de si, deixando o ar saturado com o mau cheiro do não–morto. Dayan lançou uma onda de vibrações, uma alta freqüência que ensurdeceu os céus e golpeou o demônio em fuga, das nuvens.

Adiante, viram a figura lutando para mudar de forma, surgindo as asas. Estava perigosamente perto do solo e no último momento possível, o vampiro levou a cabo uma proeza atlética e deu a volta, aterrissando sobre seus pés como um gato. Logo, tratou de encobrir sua presença dos caçadores e dos mortais ocupavam a região.

- Dayan! - A imperiosa advertência de Darius foi aguda- É uma armadilha. Comprove-a.

Dayan havia feito automaticamente, enquanto se lançava atrás do vampiro. Havia quatro humanos numa pequena cabana, todos homens. Todos fanáticos. O mau cheiro da sociedade se colava a eles. Dayan sabia que não tinham relação com o não–morto. O vampiro simplesmente os estava utilizando como outra tática dilatória. Dayan confiava totalmente em Darius e Gregori. Suas reputações eram legendárias. Não tinha que olhar para ver se estavam atrás dele. Sabia que estavam ali e confiava em que eles se ocupassem dos humanos.

– Acredito que queria se apresentar. – Disse Dayan suavemente ao vampiro. Sua era voz pura e melodiosa, o som enchia cada átomo de espaço a seu redor, embora ela não tinha levantado a voz. – Voltará e me enfrentará, vampiro. Estou bastante disposto a aceitar seu desafio.

O vampiro estremeceu ante o esforço de se liberar do som dessa voz. Era feita de douradas melodias, de verdade e honestidade. Era horrorosa para a criatura, então ele pressionou as mãos com força contra os ouvidos, tentando bloquear o som. Virou-se lentamente, com as mãos apertadas sobre a cabeça, seu corpo cambaleando ligeiramente. Enquanto se voltava, abriu a boca para falar. Um negro enxame de insetos irrompeu dela, rodeando-o. O ar se espessou com eles, tantos que pareciam uma parede sólida, escurecendo durante um segundo breve a visão, de Dayan do não–morto.

Ele estava avançando rapidamente, bloqueando facilmente os molestos e venenosos insetos afastando-os de seu corpo, com uma poderosa corrente de ar que produziu com um ondeio da mão. Continuou movendo-se rapidamente, um borrão enquanto deslizava através da nuvem de escudos viventes. Dayan compreendeu imediatamente que o vampiro utilizara os insetos para fugir uma vez mais. Tinha desaparecido como se nunca houvesse estado ali, deixando atrás dele um espaço vazio no ar. Vazio.

Depois dele, Dayan ouviu os gritos dos humanos, a ruidosa descarga de uma arma. O ar vibrou podendo, a raiva da tempestade, embora nada importava mais que a perseguição de sua presa... O vampiro que tinha ameaçado sua companheira. Utilizou o vazio para rastrear o não–morto. O vampiro estava mudando sua forma, mas Dayan não se deixou enganar. O mau cheiro de sua presa era horrível e a terra se sacudiu. Perto, uma árvore enorme explodiu em uma feroz conflagração. Saltaram faíscas da vegetação. Uma parede de chamas saltou para Dayan, sólidas e vermelhas, de um brilhante vivo. sem considerá-lo, seu antagonista rugiu diretamente para ele.

No momento, Dayan se revolveu rapidamente, uma capa de úmida neblina o envolveu enquanto corria através do fogo com velocidade sobrenatural. Ouviu o gemido da névoa enquanto esta evaporava, mas já havia atravessado a parede e estava do outro lado e o seguiu implacavelmente. Não olhou para trás, pois sabia que Darius e Gregori se ocupariam dos inimigos e o seguiriam.

A tempestade era feroz, uma formada massa de pesadas nuvens negras em ebulição. Arqueou-se um relâmpago e houve um rápido aumento de carga elétrica ao longo da terra. Golpearam raios do céu, o som foi ensurdecedor.

Uma sombra escura estava diante, fugindo para o interior escurecido de uma alameda. Dayan tomou ar, mudando de forma, numa aerodinâmica ave de presa correndo através da massa de ramos para alcançar o não–morto antes que ele conseguisse alcançar sua guarida. Chegou de acima, deixando cair do turbulento céu tão rápido que o vampiro não teve advertência. O grande corpo do pássaro golpeou a criatura noturna fazendo-a perder o equilíbrio, afiadas garras arranhando viciosamente fazendo com que o sangue corrupto salpicasse o tapete de vegetação, murchando-a ao contato.

Grunhindo, o vampiro cambaleou, rasgando cegamente o céu a seu redor, tentando destruir seu inimigo. Sua cabeça ondeou de um lado a outro como um réptil. Era um ser horrendo e depravado decidido a viver a todo custo. Tentou desesperadamente recuperar o equilibro, suas coordenadas procurando em céu e terra a seu atacante.

Dayan se movia tão rápido que era um borrão, um camaleão confundindo-se com as árvores, uma vez mais em forma humana. Investiu diretamente à abominação, a fúria da morte surgindo no calor da batalha. Saltaram chamas nas profundezas de seus olhos negros como o carvão e todo vestígio do poeta desapareceu, deixando à fera no ardor da batalha. Seu punho afundou no peito do vampiro, uma frágil barreira, diretamente ao enegrecido e murcho coração. A velha luxúria da fera estava sobre ele. O desejo de matar era uma neblina vermelha que nublava seu julgamento e sua honra, chamando-o implacavelmente. Mais, sempre exigia mais, nunca satisfeita, nunca satisfeito.

Corinne ouviu a voz suave do reconhecido líder dos Trovadores Escuros, Darius. Um sussurro de pureza, suave e perfeito, limpando e curando como uma chuva fresca.   - Corinne. Dayan precisa de você. Deve convocá-lo de volta a você. Nenhum outro pode lhe salvar agora. Alimentarei sua força com a minha. Chame-o a seu lado. Deve fazê-lo agora.

Sua voz era calma, tranqüila, mas ela soube imediatamente que havia uma terrível urgência. Não perdeu tempo em perguntar. Estava tão sintonizada com Dayan, que no momento em que se estendeu em busca de sua mente, sentiu o frenesi aniquilador, a implacável garra da fera.

Corinne ficou quieta, respirando instintivamente. Concentrou seus pensamentos em Dayan, bloqueando todo o resto a seu redor. O quarto se desvaneceu, as restrições de sua condição física desvaneceram, até sua consciência de Darius. Só restou Dayan em sua mente. Seu Dayan. Alto, doce e amoroso. Generoso. Entregue. Fechou os olhos até que quase pôde cheirar sua essência, a bosque. - Dayan. - Deliberadamente utilizou seu nome. Chamando o homem. Procurando o intelecto. - Dayan, volte para mim.

Em seguida, ele estava a seu lado, profundamente unido de forma que ela esteve no calor de sua batalha com o aroma de sangue e a luxúria da morte dominando seu cérebro. Corinne ficou quieta um momento, ligeiramente surpreendida de presenciar realmente o lado violento dele que sempre tinha pressentido. Corinne permaneceu completamente concentrada. Sem saber como utilizar seu próprio talento, criando uma onda de poder. Este era simplesmente o outro lado de Dayan. Seu Dayan.- Volta para mim. Abandone esse lugar e volte para mim. – Ela colocou toda sua energia em sua chamada, mas isso não importava. Dayan era tudo o que importava para ela.

Sentiu a terrível luta. Algo mais estava lutando para se apoderar dele. Algo sombrio, não tangível, mas não obstante, muito poderoso. Sentiu a escura mancha estendendo-se como uma enfermidade através dele, o triunfo da maldade quando ameaçou lhe consumir. A princípio, Corinne acreditou que ele estava encetado em combate mortal com o vampiro. Seu adversário era mau e ávido e queria Dayan. Então compreendeu que o vampiro estava morrendo. Esta outra força com a que ela lutava queria a alma de Dayan, queria lhe converter na mesma coisa que ele caçava e destruía. Entendeu pouco, mas instintivamente caiu na conta de que uma força mental fluía de Darius para ela. Regulou sua própria respiração, trabalhando em regular a de Dayan. A adrenalina bombeava através de seu corpo, misturando-se com o selvagem frenesi do predador, até que ele foi mais animal que homem. Uma ardilosa e feroz criatura da noite.

- Você é Dayan, um músico sem igual, um poeta com palavras que me roubam o coração. É meu companheiro, meu coração e minha alma. Volte para mim, Dayan. Abandone esse lugar. Abandone essa pobre e desafortunada aberração. Rogo a Deus que encontre um lugar melhor. Não pode fazer nada mais por ele. Volte para casa comigo.

Corinne falou do fundo de seu coração, dizendo cada palavra, sentindo cada palavra. Ele estava tão enraizado em seu coração, tão profundamente enterrado em sua alma, que não sabia onde terminava ele e ondecomeçava ela.

Durante um momento, a razão e o julgamento brilharam no cérebro de Dayan, uma neblina prateada atravessou a mortal neblina vermelha. - Corinne? - Sua voz foi distante, um som longínquo, rapidamente afogado por um bramido de fúria.

Corinne permaneceu tranqüila, enviando ondas de amor e tranqüilidade para Dayan. Darius estava com ela, guiando-a a uma grande distancia. Em algum nível foi consciente de que ele a dirigia, mas a maior parte de suas ações eram instintivas. Este era Dayan, sua outra metade e estava fora na escura noite, em algum lugar com relâmpagos e trovões golpeando a terra a seu redor, uma cortina de fundo apropriada para a turbulência de sua mente. Estavam tão unidos que ela podia sentir os selvagens ventos, o terrível vértice de violência, formando um tornado, forte e destrutivo, decidido afastar para o lado o homem e deixar surgir à fera.

- Dayan, venha para mim. Abandone esse lugar e venha para mim. O bebê está descansando tranqüilamente e estou muito cansada. Preciso de você aqui, onde pertence.

Ela estava cansada. O vínculo mental era difícil, mesmo com a força que Darius infundia. Seu corpo estava esgotado e cansado. Um som estava começando a se impor entre a violência da mente de Dayan. Era débil, irregular, um suave retumbar como um tambor distante. O código era estranho e errático. Um batimento do coração. Uma falha.

Corinne sentiu Dayan se mover dentro de sua mente. Um suave gemido, um gemido de desespero. - Corinne! - Seu nome foi um sussurro na voz aveludada. Fechou os olhos, segura de que ele viria. A fera nunca poderia tê-lo quando ela precisava dele. Nada evitaria que ele fosse a ela. Sentia a força de sua determinação, sabia que ele lutava pela supremacia, enjaulando à fera em seu interior. Corinne lhe deixou com isso. Respirar era agora um esforço, seus pulmões trabalhavam com dificuldade.

Sentiu Desari a seu lado, lhe sustentando a mão, murmurando um cântico. Sentiu a energia curadora das três mulheres. Foi um quente formigamento que percorreu seu corpo, Desari estava tranqüila, como sempre serena, embora Corinne sentia o alarme. Não importava, nada importava. Dayan estava em caminho e ela sabia que de algum modo, ele arrumaria tudo. Desejava ouvir o som de sua voz.

Corinne foi à deriva em um mundo de sonho. Ouviu a música dele, as palavras formosas e poéticas que emergiam de sua alma enquanto expressava sua necessidade de amor. Sua necessidade de Corinne. Comente de Corinne. Acreditava nele. Ele podia fazer coisas que outros não podiam e voltaria para ela, da escura e terrível luta que liberava por sua alma. Tinha fé.

– Fé absoluta. – Murmurou as palavras em voz alta, mas sua voz foi muito baixa, para a aguda audição que tinha adquirido recentemente. Dayan. O nome dele era sua força, a âncora que evitava que se afastasse à deriva, do mundo real.

- Corinne.

A voz dele sussurrou através de sua mente, enchendo seu coração e pulmões, tornando por um momento, mais fácil o ato de respirar. Suas pálpebras revoaram quando tentou se assegurar às outras mulheres que ainda estava viva. Suas pálpebras eram mais pesadas do que se lembrava. Com muito esforço elevou-as e se obrigou a sorrir.

- Sabia que você viria. Apresse-se, Dayan. Não sei por que estou tão cansada. - Corinne estava segura de ter pensado as palavras claramente em sua mente, mas pareciam rabiscadas, juntando-se como finos grãos de areia. Sua mão livre se moveu lentamente sobre a colcha, procurando algo que precisava.

Desari ergueu a colcha para cima, para que em símbolo em particular ficasse sob os dedos em movimento de Corinne. Seguidamente, a mão de Corinne se fechou em torno dele, tranqüila uma vez mais.

Dayan atravessou o céu mais rápido do que se movera em sua vida. Corinne se afastava. Podia senti-la deslizando-se para longe dele, movendo-se numa direção que não ia permitir ela tomar. Um vapor escuro surgiu quando explodiu das nuvens, uma nervura verde azulada contra o turvo negro dos céus. A névoa se formou largos fiapos a longo da terra e começou a se acumular ao redor das árvores e casas.

Dairus manteve o passo, concentrando-se na menina, cujo apego à vida era tão frágil que ele estava muito preocupado. Gregori estava tentando sujeitar Corinne à terra, concentrando-se em seu coração moribundo. A quantidade de energia que ela tinha utilizado para evitar que Dayan sucumbisse à luxúria da morte, tinha sido mais do que seu débil coração podia suportar. Corinne estava lutando, mas não tinha medo... Simplesmente confiava em Dayan, sabia que ele estaria ali para ela como ela estivera para ele.

Dayan não pôde encontrar recriminação na mente dela, nem assombro ante o conhecimento de seu lado mais escuro. Ela estava tão disposta a lhe aceitar como sempre.

Enquanto atravessava o céu noturno com o rugido da tempestade refletindo sua tortura interior, recompôs-se, preparando-se para a cerimônia que se apressava. Não tinha escolha. Tinha que uni-la a ele pelo bem dos dois. Tinha que lhe dar seu sangue curador. O bebê estava em perigo e Dayan, mais que ninguém, sabia que perder sua filha era algo que Corinne nunca aceitaria. Trocaria sua vida pela do bebê.

Dayan reluziu até uma sombra sólida, inclinando-se sobre o Corinne enquanto o fazia, sua mão grande engolindo a dela enquanto a levava a boca. As pálpebras de Corinne não se elevaram, mas sua suave boca se curvou.

- Eu sabia que viria.

 

Eles estavam se reunindo. Dayan envolveu Corinne na colcha que ela tanto gostou, para transportá-la até a caverna de cura. Sustentou-a com facilidade, pois seu peso não era mais que o de uma menina, para ele. Sustentou com cuidado, seu mais prezado tesouro no mundo, protegendo seu corpo dos elementos, enquanto atravessava às pressas o céu noturno.

Corinne esfregou o rosto contra o ombro dele, aconchegando-se, uma vez mais se sentindo conectada a ele num estranho mundo de sonho. O vento soprava com força, golpeando seu corpo enquanto voavam pelo ar, mas era bom em vez de assuatador. Ela sentia-se perfeitamente a salvo, perfeitamente protegida entre os braços de Dayan, mesmo viajando a um passo tão rápido e de uma forma tão extraordinária. Elevou o rosto para o céu, observando os matizes púrpura que cruzavam as formadas nuvens negras. Era incrivelmente formoso e ela encontrou lágrimas ardendo em seus olhos. Este era o mundo de Dayan, um lugar mágico. A noite era dela e podia voar como uma águia ou correr através do bosque tão rápido como um lobo. Corinne nunca tinha sido capaz de correr em toda sua vida. Este era seu momento, seu último momento para voar.

Dayan, lendo seus pensamentos, piscou para conter as lágrimas que ameaçavam ardendo em seus olhos e lhe engasgava a garganta.

- Não é assim, amor. Teremos uma eternidade.

Enquanto aceleravam através da tempestade decrescente, Darius e Gregori permaneciam muito perto de Dayan e Corinne. O companheiro de Desari, Julian, estava também de caminho da caverna, ainda à distância. Havia sido designado como homem da limpeza e se encarregou apagar toda a evidência da destruição do vampiro e os membros humanos da sociedade que este utilizara, para tentar afastar os caçadores, de seu rastro.

Corinne se alegrava de descansar entre os braços de Dayan. Sabia que os outros estavam chegando, alguns em casais, outros sozinhos. Estava ganhando rapidamente os atributos da gente de Dayan. Sua audição era mais que aguda. Podia ver claramente na noite. Seu talento era a telequinesia, mas agora sentia as coisas muito mais profundamente. Sabia que a gente dos Cárpatos estavam se reunindo para ajudar Dayan a salvar sua vida e a vida de sua filha. Os curadores estavam se preparando para um parto prematuro, possivelmente para uma tentativa de se ocupar da menina, se Corinne não sobrevivesse. Não estava segura se estava recebendo a informação de Dayan ou estava tão conectada aos curadores que estava lendo suas mentes por si mesma.

Dayan deslizou atravessando a caverna de cura, segurando Corinne perto dele. Pareciam estar flutuando, ligeiros como plumas, desconectados do chão. Surgiram luzes, centenas delas, velas e velas que fizeram que as chamas titilassem e dançassem sobre as paredes da caverna. Era belíssimo. Os cristais multicoloridos. Alguns, altas torres, outros em filas de colunas, brilhando como fogos. As pedras refletiam as cores e as chamas, amplificando-as e gerando réplicas por toda a câmara, acrescentando o brilho. As velas produziam a estranha e tranqüilizadora fragrância que Corinne recordou de antes. A combinação de essências insistia a uma pacífica tranqüilidade a tudo o que podia tomá-la, em seus pulmões. Sentia o poder do lugar atravessando seu corpo, igual à combinação de força dos curadores.

Corinne fez um esforço para olhar a seu redor, desejando ver estas pessoas que haviam viajado longas distâncias. Alguns deles, atravessando oceanos, para ajudarem no esforço de salvar sua vida e a de sua filha. Reconheceu alguns, de sua primeira excursão à caverna, mas agora havia mais. Em sua mente podia ouvir o suave cantarolar das vozes, não só das pessoas da caverna, mas também dos Cárpatos desconhecidos, de longe. Sabia por Dayan, que este era um esforço bem combinado por parte dos curadores, que estavam decididos a não perdê-la, em favor da morte. Decididos a não perder Dayan. Nem tampouco a perder a seu bebê.

Corinne sentia-se agradecida a todos eles, mas parecia como se tudo estivesse acontecendo à outra pessoa. Observava tudo como se estivesse flutuando sobra a cena, em vez de ser o centro dela. Havia homens decididos a salvá-la por mais raciocínio, que a simples simpatia. Era uma mulher de grande talento psíquico, que tinha provado ser capaz de conceber uma filha de extraordinário talento psíquico. Sua filha era já apreciada para esta gente, um tesouro que guardariam e protegeriam se algo acontecesse a ela. Sentia que seria assim. Lia em suas mentes, fundidos como estavam todos.

Voltou sua atenção para Dayan. Ele estava pálido, havia rugas profundamente gravadas em seu rosto. Seus olhos vagaram sobre o rosto amado num estudo pensativo e sensual, que lhe derreteu o coração. Dayan parecia solitário, descarnado e vulnerável. Corinne levantou a mão e tocou seu rosto.

– Não pareça tão triste, Dayan. – Disse, delicadamente. – Você voltou... Isso é tudo o que importa.

– Não deveria ter te deixado, nunca. Havia outros caçadores que poderiam ter matado o vampiro. Deveria ter sido forte para me impor a minha natureza.

Ele estava expondo mais que sua culpa a ela. Dayan estava expondo seu coração e sua alma. Estendendo-os a ela, sem se preocupar que ela visse sua vulnerabilidade nua, sua dor e seu medo.

– Você é minha vida, Corinne. É tudo para mim. Quero que lute. Não só pelo bebê, mas por nós. Deve saber que está lutando pela vida de nós dois. Mantenha esse conhecimento em seu coração, mente e alma, enquanto se une para mim e a minha gente, para preservar sua vida. A vida de todos nós.

Corinne sorriu, um lento e amoroso sorriso.

– Não tenho medo, Dayan, e não quero que você o tenha, tampouco.

Ele inclinou sua cabeça para fechar os centímetros que os separavam, sem se importar que houvessem ali, tantas testemunhas. Sua boca encontrou a dela, gentilmente, meigamente, numa escura melodia de incomensurável amor. Levantou a cabeça lentamente, resolutamente. O coração de Corinne estava agora lutando por cada pulsar. Todos podiam ouvi-lo, apesar do ruído da água gotejando na caverna, apesar do cântico dos antigos unindo-se de longínquos países.

Gregori se colocou ao lado direito de Corinne, tomando a pequena e pálida mão na sua. Darius se aproximou pela esquerda, colocando sua mão gentilmente sobre o pequeno montículo em seu abdômen. Por toda a caverna, os Cárpatos se estenderam uns para os outros, unindo-se física e mentalmente. Julian e Desari permaneciam em pé junto a Dayan e descansavam suas mãos em firme consolo, sobre os ombros dele.

- Não podemos nos arriscar que se repitas os eventos desta noite. - Aconselhou Darius. – Você deve uni-la a ti, dando-lhe seu sangue. É preciso, Dayan.

- Não arriscarei sua vida. Ela não sobreviveria a uma separação em seu frágil estado. - Dayan foi inflexível.

- Então deve permanecer com ela todo o tempo, acordado ou dormido. Não noto que ela tenha muito medo. É melhor se arriscar que ela conheça nossas debilidades, que a outro encontro com a fera. - Havia um ultimato, um decreto. Darius tinha liderado seu grupo de Carpatos, sem medo através de longos séculos. Confiavam em sua sabedoria e habilidades. Sua palavra raramente era questionada.

Corinne sabia que o homem que Dayan se referia como seu irmão, estava falando telepáticamente com ele.

– Posso sentir que ele está preocupado com você, Dayan. Seja o que for, o que quer que faça, por favor faça-o. – Ela sussurrou as palavras contra a garganta dele.

– Não quero que sofra mais por minha culpa.

Corinne sorriu embora suas pálpebras estivessem fechadas.

– Nunca sofri por sua culpa. Que idéia! Meu coração está falhando desde dia que nasci. Você não tem nada a ver com isso.

– Está segura, Corinne? Não há como voltar atrás, depois. Cada passo que dê, você mais se aproxima de meu mundo.

– Nunca estive mais segura. Seja qual for o mundo ao qual pertence, Dayan, também é o meu.

Houve um momento de imobilidade na caverna. Uma espera. Corinne soube em que momento, Darius e Gregori se fundiram a ela. Gregori viajou através de seu corpo, para sua filha. – Quero você, Dayan. – Ela sussurrou as palavras para ele, desejando que ele soubesse, desejando que compreendesse que se as coisas não saíam como todos pretendiam. Ela a amara incondicionalmente, aceitara-a incondicionalmente, mesmo que nunca teve a oportunidade de consumar seu amor.

Dayan lhe beijou a testa, as pálpebras e depois sua boca vagou até a dela. Tomou posse dos lábios, com uma fome elementar, com pura e dolorosa necessidade, fazendo tremer a terra para os dois.

– Reclamo-te como minha companheira. – Sussurrou ele, com voz trêmula e cheia de amor, contra os lábios dela, no meio do ancestral canto curador. Sua boca deslizou pelo pescoço, leve como uma pluma, sensual, um sussurrar de cetim e seda. – Pertenço a você. Ofereço-te minha vida. Dou-te meu amparo, minha lealdade, meu coração, minha alma e meu corpo.

Uma dor ardente atravessou o corpo de Corinne, dando passo instantaneamente a um prazer puro que arqueou através dela, através dos dois. Corinne se sentia inesperadamente sensual. Seu corpo ardia com calor e necessidade. Tentou permanecer acordada, não desmaiar, desejando experimentar a beleza do que estava acontecendo, desejando unir sua força, a de todos outros que lutavam por sua vida, mas se encontrou relaxada sob, a conexão. Sentiu o toque da língua dele, sobre as pequenas marcas em seu pescoço.

A boca de Dayan movia gentilmente ao longo de sua garganta, subindo até o canto de seus lábios.

– Do mesmo modo tomo em mim os teus. Sua vida,sua felicidade e seu bem-estar serão apreciados e colocados sobre meus, sempre. – Com sua nova consciência, Corinne sentiu quando Dayan foi além, distanciando-se do que estava acontecendo. Como num sonho, observou que uma unha dele se alongava e ele cortou o peito, abrindo o músculo e pressionou a boca dela para ele, de forma que seu sangue corresse dentro dela.

Corinne ficou atônita de se encontrar bebendo quase que vorazmente, atônita de saber que não sentia a mínima repulsão. Uma força pareceu entrar em torrentes em seu corpo, uma riqueza que não se parecia com nada que conhecesse. Sentiu o poder dele, sentiu a forma ávida em que suas células, tecidos e órgãos, absorviam o dom da vida que ele estava compartilhando com ela.

Dayan a segurava com deliciosa ternura, olhando-a como se ela fosse a mulher mais bela do mundo. Como se ela fosse um tesouro sem preço, que ele estava guardando. Corinne sentiu lágrimas em seus olhos e sua garganta ardendo. Dayan ela lindo e estava torturado. Sua face estava esculpida por linhas de preocupação e dor, que ela tinha colocado ali.

– É minha companheira e está unida a mim, para toda a eternidade e sempre aos meus cuidados. – Ele sussurrou as últimas palavras do ritual, unindo-os através da cerimônia Cárpato, tão velha como o tempo. As palavras estavam impressas nele e em todos os outros homens, antes que nascessem. Cada homem tinha a extraordinária habilidade de unir-se a sua companheira por toda a eternidade.

Corinne o sentiu imediatamente. Sua alma, seu coração e sua mente, estenderam-se para ele. Era como se mil fios os unissem formando um vínculo inquebrável. Estava sendo mais consciente com o que acontecia dentro de seu corpo. Gregori estava trabalhando com força para reparar o mal em seu desintegrado coração, enquanto Darius estava controlando o bebê, em busca de problemas potenciais, causados pela riqueza do sangue introduzido em seu corpo. Dentro de Corinne, os e células estava mudando de forma e o mesmo acontecia a sua filha.

Corinne soube em que momento a riqueza e o poder se converteram em muito, para o bebê. Ouviu seu próprio protesto, fez o esforço de se mover afastando-se de Dayan mesmo enquanto Darius lhe dava a ordem de parar. Foi Julian quem fechou a ferida do peito de Dayan, com sua saliva curadora. Durante um momento, Corinne temeu pensar ou respirar, envolta na consoladora manta e os fortes braços de Dayan. Seu bebê estava lutando para sobreviver. O sangue estava mudando o diminuto corpo rapidamente e era incômodo. Atemorizava o bebê. Corinne ouviu o Darius sussurrar à sua filha, enviando imagens, mais que palavras belas e tranqüilas. Ele enviava consoladoras imagens a sua menina.

A menina era consciente que as mudanças tomavam lugar rapidamente em seu corpo. Corinne acrescentou sua voz a de Darius, para reconfortar sua filha. Dayan se uniu a ela, fundindo-os, oferecendo seu amor, amparo e compromisso, para o bebê. Então Gregori se uniu a eles. Corinne ficou atônita com o poder e força que emanava de Gregori, a habilidade que ele utilizava para evitar que o bebê abandonasse o incômodo refúgio no qual habitava. O corpo de sua filha estava quente e suas vísceras ardiam. Gregori a consolou e proveu um refrescante bálsamo para a retorcida dor.

Corinne piscou rapidamente quando as lágrimas molharam rosto. – Ela está sofrendo por minha culpa, pelo que fiz! - O pranto era dilacerador para seu coração. – Faz mal a ela, posso sentir que lhe faz mal!

Seguidamente, seu ritmo cardíaco tornou-se irregular, soando ruidoso e acidentado, na caverna. Desari rodeou Dayan, para apertar a mão de Corinne.

– Corinne. – Desari falou em voz alta para que o som de sua voz fosse uma âncora de tranqüilidade. – O sangue de Dayan é a única coisa que mantém você e o bebê com vida. A conversão é difícil para o corpo e é dolorosa. Darius está fazendo o que pode para minimizar a dor do bebê e nós acrescentamos nossa força a dele, mas não podemos fazer tudo. Seu corpo é diminuto e mesmo pequena quantidade de sangue causará dor a ela. Você precisa da conversão. As reparações de seu coração não agüentarão mais que um dia ou dois, possivelmente horas. A menina nascerá e devemos estar preparados para isso. Damos-lhe o tempo que você possa oferecer. Com este sangue, com seu corpo mudando, esperamos que seu coração e pulmões maturem o suficiente para resistir no mundo exterior. É um risco que nenhum de nós se alegra em fazer, mas se estima necessário.

Dayan se inclinou e seus olhos escuros moviam amorosamente sobre o rosto de Corinne.

– Não pode ceder agora ao pânico, meu amor. Escolhemos um caminho e estamos já embarcados nele. Faremos a viagem, juntos. Ela crescerá forte... Confie em Darius. Ele é nossa família. Nossa família, a família de nosso bebê. E coloque sua fé em Gregori. Ele é um grande curador e fará todo o possível para proteger nossa menina. Nem Darius nem seu irmão perdem as batalhas em que escolheram se comprometer.

Corinne se lembrou de respirar oxigênio para o bebê ou possivelmente foi um dos outros que a lembrou. Era consciente das mentes unidas, um vínculo ligeiramente diferente do que utilizava exclusivamente com Dayan. O seu era privado, aparentemente íntimo e sensual. Este era diferente, mas ainda assim confortável e compassivo. Embalada como estava nos braços de Dayan, sentia-se defendida e apreciada pela família e amigos dele.

Estava exausta e não queria se sentir assim. Todos estavam tentando ajudá-la, Gregori e Darius estavam gastando tremenda energia por sua causa. Queria sentir-se melhor por todos eles, mas seu coração perdia o ritmo e uma estranha letargia estava se estendendo através de seu corpo. Deixando-a débil e incapaz de fazer mais que ficar nos braços de Dayan, respirando tão lenta e firmemente como era capaz.

Desari olhou apreensivamente, o rosto de Darius. Ele estava exausto e pálido, por causa da luta pela vida da menina. Gregori sacudiu a cabeça.

– Uma sublevação, possivelmente duas, como muito. A menina se beneficiará de cada hora que possamos ganhar para ela. – Ele colocou sua mão sobre a de Corinne. – É uma lutadora, como você. Aceita o que está lhe ocorrendo, tomando exemplo de você. Sei que é difícil... Tudo é novo e completamente estranho para você... Mas está indo muito bem. Não perderemos sua filha. Ela está disposta a lutar conosco e isso é mais que meia batalha.

– Obrigado. – Corinne obrigou sua voz a se expressar em voz alta, um diminuto e aflautado sussurro, mas Gregori a ouviu claramente. Ela rendeu-se então, fechando os olhos e aconchegando-se mais perto da calma e da força do corpo de Dayan.

– Ela já não pode regular seu calor corporal. – Disse Dayan ansiosamente, a Gregori. – Por que não está respondendo ao sangue e a sua cura?

– Ela respondeu, Dayan. – Replicou Gregori, tranqüilamente. – Seu coração ainda pulsa apesar do fato de que se desintegra a grande velocidade. Ela está utilizando toda sua energia só em viver. Quando já não puder continuar com sua força de vontade, nossa força a manterá, então deverá convertê-la imediatamente. Devemos estar preparados. Seja rápido. Reze para que ocorra durante nossa hora mais forte, não quando o sol estiver em seu ponto alto.

Dayan empalideceu, visivelmente.

– Isso não pode acontecer.

– A menina é consciente do perigo. – Disse Darius, brandamente. Sua voz, uma mistura perfeita de poder e calma. – Ela colocará todo seu empenho em agüentar durante nossa hora mais débil. Entende e lutará para agüentar.

– Eu não preciso completamente de poder nesse momento e ajudarei a evitar que o parto comece antes do tempo, mas não posso fazer nada se o coração de Corinne falhar. – Disse, Gregori.

– Então a converterei agora. – Disse Dayan, seus olhos negros titilaram com as chamas refletidas nos cristais. Um vento frio pareceu soprar através da enorme caverna fazendo com que as luzes das velas oscilassem, crescendo e dançando num louco frenesi.

A pequena mão de Corinne revoou, encontrando a boca de Dayan, a ponta de seus dedos moveram gentilmente sobre seus traços perfeitamente cinzelados, num gesto de terna recriminação.

- Prometeu-me, Dayan. Mantenha sua palavra.

Ele pressionou um beijo em sua mão e sustentou-a firmemente, como se pudesse encadeá-la a terra, com ele.

- Não posso fazer mais que honrá-la.

– Corinne. – A voz de Savannah foi suave. – Shea é uma grande curadora. Antes que chegasse a nós, era cirurgiã e humana, como você mesma. Lembras-se? Falamos dela. Chamei-a, ele está vindo para nós, velozmente. Será de grande ajuda com seu bebê. Entende-me?

Corinne assentiu.

– Entendo o que tenta me dizer. Agüentarei até que ela chegue. Se proporcionar uma melhor possibilidade a meu bebê, farei o que for.

– Shea é uma mulher excepcional. – Assentiu, Gregori. – Ela investigou muito este problema em particular e é esperançador que tenha encontrado formas de ajudar nossas crianças enquanto crescem.

– Corinne está muito cansada. – Disse Dayan, brandamente. – Agradeço a todos por sua ajuda.

Corinne esteve ciente do movimento no interior da câmara, em atividade, enquanto preparavam uma cama para ela. Não havia intenção de devolvê-la à superfície, à casa que originalmente haviam preparado para ela. Permaneceria com Dayan, profundamente no interior do mundo de cristal, até que seu coração cessasse de prover sua vida.

Dayan a manteve perto dele, enquanto murmurava seu agradecimento às vagas e sombreadas figuras que saíam da câmara. Corinne estava feliz em seus braços, sentindo sua sólida forma, agradecendo a força nele. A câmara estava cheia de uma fragrância que parecia envolvê-la em tranqüilidade e serenidade, deixando-a em paz, livre para desfrutar o que pudesse neste estranho mundo subterrâneo.

Darius se inclinou para descansar sua mão nos cabelos de Corinne.

– Bem-vinda à família, irmãzinha. Alegramo-nos de que tenha sido encontrada. – Sua mão se afastou e moveu silenciosamente, levando com ele a sensação de seu enorme poder.

Tempest se inclinou para beijar seu rosto.

– Sei que éforte, Corinne. Seja bem-vinda. – Ela tomou a mão estendida de Darius e o seguiu.

Desari e Julian roçaram um beijo de ânimo em sua testa, trocando algumas palavras com Dayan e também saíram.

Gregori e sua companheira Savannah foram os últimos a sair. Asseguraram a Dayan que estariam por perto, se por acaso eles precisassem.

– Estamos sozinhos. – Murmurou Dayan brandamente e colocou Corinne confortavelmente na cama. O som da cascata deveria ser ruidoso, mas Corinne já havia aprendido a silenciar sua audição deixando uma coisa a menos, que Dayan precisava fazer por ela. Ele arrumou as dobras da colcha em volta de seu corpo. – Depois que nasçer o bebê, você se curará completamente e eu vou passar noites intermináveis fazendo amor com você. Meu cabelo ainda tem cor? Espero me elevar com o cabelo branco depois de todos estes sustos.

Ela sorriu e sua mão se enredou entre o longo canelo negro.

– Adoro seu cabelo como está. Não enbranquecerão por minha culpa. Quem de nós foi o tolo que saiu para lutar com o malvado dragão? – O que aconteceu? Ela estava muito cançada para utilizar sua voz, então deslizou para a intimidade da fusão de mentes. – Precisava de uma aventura? O cavalheiro branco desafiando o fogo com a água?

Ele sorriu enquanto se estirava junto a ela e uma vez mais a abraçava, aproximando-a dele.

- Você confunde suas histórias.

Seus dedos dele deslizaram sobre o amado rosto, acariciando cada delicado osso, cada curva clássica.

- Isto é tão formoso. - Os olhos de Corinne estavam fechados e sua voz era sonolenta e satisfeita. - Sabia que seria assim. Estava acostumada a sonhar, explorando novos mundos. Queria nadar no oceano e ver os recifes de coral. Deste-me tanto em tão pouco tempo, Dayan. Obrigado. Eu voei pelo céu como um pássaro. Fui capaz de conhecer esta caverna e ver cristais e pedras preciosas. - Um sorriso nasceu em seus lábios. - Conheci a alguns músicos muito famosos... O sonho de minha vida.

Dayan fechou os olhos firmemente, sentindo uma mão que lhe espremia o coração. Seu peito doía, de terror. Ela deslizava abandonando sua fusão mental e estava utilizando a voz, sem ser inteiramente consciente disso.

– Amo-a, Corinne. – Murmurou em voz alta.

- Eu também te amo. Mostre-me como é para você, Daya. Poder correr e voar e sentir tão maravilhosa liberdade. – Corinne sentia a terrível dor dele e instintivamente tentou aliviar sua carga. Com esforço, seus dedos se elevaram e ela tocou gentilmente o cabelo dele, animando-o a levá-la com ele na incrível viagem através do tempo e o espaço.

– Não posso te levar agora. – Disse ele, tentando soar sereno, desejando dar o que ela quisesse, desejando poder embalá-la em seus braços e voar atravessando o céu noturno. – O tempo está esfriando e se aproxima uma tempestade. Não seria seguro.

– Onde está sua imaginação esta noite, Dayan? Onde está meu poeta? Cante para mim e me permita ver suas lembranças. Quero as mais selvagens, correr e saltar, coisas que nunca poderia atrever a imaginar, por mim mesma. Compartilhe isso comigo. – Ela não abriu os olhos para fitá-lo, mas ele a sentiu em seu interior, profundamente onde mais importava.

Dayan se inclinou mais perto, colocando suas mãos sobre a filha dela, a filha de deles e a filha do John, para incluí-la, para lhe mostrar seu mundo noturno. Sentiu o bebê mover em resposta e sorriu. Corinne deslizou sua mão sobre a de Dayan, entrelaçando seus dedos nos maiores dele. Dayan bloqueou seu medo, seu terror de perder as duas para a morte e fundiu sua mente completamente a de Corinne.

Ela deixou que as lembranças entrassem em seu interior, enchendo-a, de forma que pôde sentir o poder atravessá-la enquanto ele mudava de forma. A pelagem ondeando sobre sua pele, seus músculos convertendo-se em robustas cordas e estendendo-se sobre seu corpo. Fundiram-se profundamente dentro do corpo do leopardo. O felino passeou lentamente, confidencialmente pela selva, movendo-se através da densa vegetação, quase prazerosamente.

Era assombroso! Podia sentir o vento arrepiando o couro do leopardo, cheirar as fragrâncias do ar; sabia tudo o que acontecia a seu redor, através das pontas de seus bigodes.

- É como um radar!

Dayan se alegrou do deleite dela. O leopardo saltou casualmente do solo, para o ramo de uma árvore, a seis pés de altura. Foi um movimento fácil e nada esforçado, de puro músculo, similar a um casual encolhimento dos ombros. Tudo o seu redor era densa selva, as enormes folhas e folhagens como espadas se estendiam para o céu. No alto as copas das árvores balançavam com a brisa, permitindo que raios de luz lançassem sombras dançarinas sobre o chão. Corinne estava assombrada da aguda inteligência do leopardo. Ao princípio pensou que era porque Dayan estava ocupando o enorme corpo do felino, mas depois compreendeu que a mente dele permanecia profundamente escondida, enquanto o animal se movia e caçava.

- Você e o leopardo coexistem neste corpo.

- Isto é uma lembrança de minha infância. Eu precisava aprender. Os leopardos são verdadeiramente criaturas assombrosas. São velozes e inteligentes, cautelosos e sempre difíceis de detectar. Eles se adaptam bem, a ambientes dos mais variados, da junta ao deserto. Nós exploramos vários hábitats para ganhar mais conhecimento. Os animais proporcionaram tremendos conhecimentos a nosso mundo.

Corinne achou o tema fascinante e estava muito impressionada pela profunda avaliação e respeito que ele sentia pelos animais.

- Mostre-me mais.

Desta vez o terreno era completamente diferente. O leopardo parecia diferente. Tinha uma pelagem mais longa e enormes manchas. Corinne o examinou cuidadosamente.

- Parece um leopardo da neve, mas não exatamente.

- Esta espécie se chama leopardo Amur. É chamada assim pelo rio que flui entre a Rússia e China. Encontramo-os numa estreita cadeia montanhosa, ao longo das fronteiras da Russia, Coréia do Norte e China. São belos, mas a caça é escassa e eles estão muito pressionados pela ameaça de extinção, igual a nossa espécie.

Em seguida, ele sentiu uma onda de tristeza, que pareceu unir-se à sua. Estavam tão profundamente fundidos, que não podia dizer onde terminava ela e começava ele. Era uma intimidade a que não estava acostumado, mas se sentia bem. Agora tinha um lar e seu nome era Corinne. Ela era seu mundo, o ar que respirava. Não podia suportar que ela ficasse triste, mesmo por um pouco tão importante como uma espécie que estava desaparecendo.

Dayan chamou suas lembranças, voltando para o leopardo que se movia implacavelmente, com um só propósito em mente, sua presa. Seus olhos estavam enfocados, atentos e desumanos. Corinne podia sentir a selvageria alagando-a, alagando Dayan.

Dayan sentiu que Corinne respirava profunda e excitadamente. O bebê saltou sob a palma de sua mão. Logo, Corinne se estendeu para a menina, tranquilizadoramente. Imediatamente Dayan acrescentou seu próprio esforço. A felicidade de sua mãe acrescentada ao consolo de Dayan, permitiu o bebê aceitar as novas impressões mais facilmente.

Ele mudou novamente a lembrança, atraindo algo menos aterrador. Os simples mecanismos da vida diária de um felino. O leopardo estendido sobre o ramo de uma árvore e permanecendo ali um longo tempo, comprovando o vento em busca da riqueza de informação que este repartiria. Estirar-se prazerosamente e saltar para o chão. Passeando sobre as silenciosas patas, movendo-se através da selva, de volta ao pequeno arroio onde poderia beber. Por toda parte havia rastros de criaturas menores, afastando-se a toda pressa do perigo, enquanto o felino viajava velozmente através da densa vegetação. Começou a correr, numa rajada de velocidade e poder, movendo-se veloz, pelo puro prazer. Era a lembrança de Dayan, sua alegria da infância ao ocupar o corpo do leopardo e Corinne agradeceu compartilhá-la.

Ele a levou dessa selva de tanto tempo atrás, a um concerto de hoje em dia, um grande lugar cheio de pessoas conversando e sorrindo. As luzes baixaram e produziu um súbito silêncio de espectativa. Os Trovadores Escuros, renomados por sua música, pela beleza de suas letras e seu fenomenal talento com os instrumentos, se apresentariam. De repente a banda saiu do panco e a multidão rugiu, elevando-se, saltando e aplaudindo efusivamente.

- É incrivelmente bonito.

Havia orgulho nos pensamentos dela, prazer. Um prazer bastante possessivo que fez Dayan se sentir incrivelmente feliz.

Os dedos de Dayan acariciaram os lábios dela.

– Minha pequena grupie. – Ele brincou e inclinou a cabeça para reclamar seus lábios. Não podia se conter. Desejava a sensação de ter sua boca. Foi tenro, mas ferozmente possessivo, com dolorida necessidade.

Corinne respondeu com a mesma ternura, sua única forma de expressar o crescente amor por este homem solitário e selvagem. Deslizou seus braços ao redor do pescoço dele. Um tremendo esforço, quando seu corpo estava tão cansado.

Imediatamente Dayan sentiu sua debilidade e lentamente, rompeu o contato para beijar seu queixo, a linha de sua suave e vulnerável garganta. Sentia-se dolorido de amor por ela, sentia essa mesma dor nela. Podia ler cada pensamento dela, ver facilmente suas lembranças. Estivera sozinho durante séculos, rodeado de pessoas que somente lembrava amar. Ela havia mudado seu mundo, lhe dando tanto.

Corinne lhe aceitava como era. Estava ganhando acesso a suas lembranças e pensamentos através da contínua união de suas mentes e agora o ritual de união e seu vínculo de sangue, mas a aceitação dela ia além disso. Sentia-a, viu sua aceitação não porque fossem companheiros, masapoiada num profundo amor e compromisso para com ele. Corinne tinha fé nele e em seu julgamento. Sentia bondade nele e a abraçaça. Amava o poeta nele, a forma em que se expressava em sua música e suas letras. Aceitava seu lado mais escuro, sabia que era sua natureza, parte de quem era. Acreditava nele e em quem era. No que era.

– Quero que durma, meu amor. – Murmurou ele, brandamente, sua boca viajando ao longo de sua delicada clavícula. – Posso sentir que está cansada. Simplesmente durma. Dará a seu corpo uma oportunidade de descansar. Eu permanecerei aqui a seu lado.

Os esbeltos braços deslizaram, abandonando o pescoço de Dayan para cairem fracamente sobre a colcha. A boca errante estava lhe roubando a habilidade de pensar corretamente. Se fechasse os olhos, ardentes lágrimas brotavam à vida, enredando-se em seus olhos. Lamentava-se por ele, por seu terrível dor. Ele não queria dormir. Assustava-se que ao se levantar, ela pudesse estar perdida para ele. Sua acostumada calma estava totalmente destroçada Corinne reconheceu, com sua nova consciência, que se estava se tornando cada vez mais, como Dayan, dotada com realçadas habilidades.

- Está a salvo aqui comigo? – Ela estava lhe consolando, tentando confortá-lo.

Dayan lhe segurou a mão, levando-a aos lábios. Os dentes fortes mordiscaram com extrema gentileza, a ponta dos dedos dela. Corinne estava enlouquecendo-o.

– Estamos clandestinamente. Não sempre dormi sob uma manta de nutriente terra. Permanecerei seu lado. Se despertar antes do pôr-do-sol, não se assuste. Meu corpo terá a aparência mortal, mas estará simplesmente rejuvenescendo. É um estado natural para os Cárpatos, Corinne. Não quero que se alarme.

Ela sorriu, tranqüilizando-o. Tudo em Dayan era extraordinário. Mágico. Podia acreditar nele, até o fato de que despertasse do que poderia parecer um estado de morte. havia descoberto as imagens na mente dele. Os Cárpatos descansavam num estado muito parecido à animação suspensa. Sentia as boas vindas, da terra curadora, como sentia ele, como um estado natural, no qual poderia ser verdadeiramente, com a terra e o céu.

– Não me assustarei, Dayan. Esperarei que reapareça como o Belo Adormecido. – Sua voz era tão fraca, que era apenas discernida para o ouvido humano, mas Dayan podia ouvi-la sem problemas. Havia um sorriso nessa voz. – Se o beijar, você despertará?

– Se precisar de mim, Corinne. – Sabia que ela estava brincando com ele, mas respondeu solenemente. – Ouvirei-a. – Deliberadamente, entrelaçou seus dedos aos dela, sujeitando o corpo dela perto do dele. – Sempre a ouvirei me chamar.

- Sei que sim. Já não tenho medo, Dayan. Não tenho. O que tem que acontecer, acontecerá. Fizemos o que estava a nosso alcance, para nos preparar para isto. Sobreviva e consigamos o final feliz ou não. Quero desfrutar de meu tempo com voce cada minuto, cada segundo. Por favor não tenha tanto medo por mim.

Ele podia sentir como o próprio coração palpitava perdendo o ritmo de medo em seu peito. Respirou fundo, levando a essência dela, a seus pulmões, entrando num sereno e tranqüilo estado mental. Permitiu que fluísse nele, através dele, sabendo que o que ela dizia era verdade.

– Não temo viajar para outro mundo. Se você estiver lá, é aonde ambos iremos. Espero permanecer neste tempo e lugar, para compartilhar a beleza deste mundo contigo. Desejo ser capaz de sentir amor uma vez mais por minha família e criar a nossos filhos aqui, antes de continuar nossa viagem. Mas se não é o que tem que ser, que assim seja.

Corinne se aquietou junto a ele, derivando num estado de semi–sonho. O bebê se moveu em seu interior sob a macia mão de Dayan. Estavam os três, estreitamente conectados. Dayan sentia essa conexão, fortemente e Corinne se encontrou sorrindo, relaxada e totalmente feliz. Ele a tinha concedido um tesouro além de qualquer preço. Amara-a como era. Com seu coração desintegrando-se e o filho de outro homem em seu ventre. Amava-a com seu estranho talento e suas maneiras machistas. Aceitara quem e o que era. Nem mais nem menos. Ninguém podia pedir mais.

Queria ouvir sua música, vagar à deriva até seus sonhos sobre ele, com o som de suas canções nos ouvidos. Dayan sentiu seu desejo na mente, percorreu a caverna com o olhar, súbitamente consciente de que não estava com seu prezado instrumento e que não havia pensado em levar violão. Sempre o tinha nas mãos, mas agora, quando mais precisava, ele não estava à vista.

Havia um rastro de riso na mente de Corinne, como se ela sentisse o pânico que o embargava.

- Pequena.- Dayan sorriu, relaxando-se na tranquilidade de sua companhia.

- Não posso tocar sem meu violão.

- Não te liberará tão facilmente. Cante para nós... Para o bebê e para mim. Não precisa de seu instrumento para cantar. – Corinne soava incrivelmente presumida, zombeteira e feliz.

Dayan aperou-a firmemente contra ele, de forma que a cabeça dela se encaixasse comodamente em seu ombro. Só podia agradá-la. Sua formosa voz estava cheia de amor, a letra emanava dele como ouro fundido.

Corinne adormeceu, com um pequeno sorriso curvando sua boca. Sob sua mão, a menina se aconchegou e dormiu com sua mãe.

 

Corinne despertou. Seu corpo se retorcia de dor. Ouviu o suave eco do lamento do bebê e se assustou. O momento do parto se apresentava. Foi esse pequeno e desamparado lamento em sua mente, que a manteve tranqüila. Respirou fundo, para dar a sua filha o precioso oxigênio.

– Tudo estará bem, pequena. – Cantarolou, carinhosamente. – Esperávamos que isto ocorresse.

Estava muito escuro na caverna. Somente a água brilhando como prata, proporcionava uma fraca iluminação, um reflexo de um respiradouro, no alto, mas Corinne podia ver tão claramente como se fosse dia. Fez um cuidadoso inventário de seu corpo, excitada, temerosa, mas decidida. Tentou não notar que seu coração estava pulsando com muita força e trabalhava fortemente.

Não queria pensar em morrer ou assustar-se por isso. Conhecera o verdadeiro amor, completamente, totalmente. Sem reservas. E fôra amada da mesma forma. Quantos podiam ter tanto? E sabia que triunfaria nesta, a mais importante, mais monumental tarefa de sua vida. Deixaria um legado de beleza e maravilha. Um tesouro para o mundo. Sua filha. Fechou os olhos e respirou profundamente, concentrando-se. Podia fazer isto. Sempre podia fazer o que se requeria dela. Mais que tudo em sua vida, este era seu momento mais importante.

Dar a vida a sua filha.

– Podemos dar conta, pequena. – Sussurrou, cheia de amor e coragem. – Juntas, nós duas, podemos. – Muitas outras mulheres a tinham precedido e haveria milhões após ela, mas este era seu momento e não falharia a sua filha.

Corinne girou a cabeça lentamente para olhar Dayan. Ele estava junto a ela absolutamente imóvel. Estava muito pálido, não havia sublevação e queda discernível de seu peito. Sua pele, normalmente quente ao tato, estava fria como a pedra. Dayan estava como morto. Ela encontrou o longo, escuro e sedoso cabelo e enredou os dedos neles, para se conectar. Precisava dele, sólido e real a seu lado. Dormido ou acordado, ele tranqüilizava-a com sua presença. O sol ainda não havia entrado, mas instintivamente soube que o momento estava perto. Era estranho não ter Dayan como uma sombra em sua mente. Sempre estava ali, que agora dava como certo, embora não havia compreendido até o momento, que se sentia tão conectada a ele, sempre. Quanto a importava.

- Meu amor, está acontecendo. - Seus dedos se apertaram entre os cabelos dele. Corinne sustentou os sedosos fios contra sua face. - Acredito que estamos preparados, tão preparados como pode estar alguém. Quero-o muito. Escute-me, Dayan. Eu o amo.

A contração começou novamente numa longa e zangada onda que pareceu elevar-se, fazendo-a respirar levianamente, concentrando-se no ar que movia por pulmões, até seu bebê. A menina estava incômoda e assustada. Algo a apertava para baixo, pressionando-a para que se movesse, mas ela não queria que acontecesse ainda.

O instinto tomou o controle de mãe e filha que começaram a trabalhar juntas. Corinne ordenou a seu corpo, que começasse a relaxar, a se tranqüilizar, respirando entre as incômodas contrações, tudo enquanto consolava seu bebê, com a mente. Ficou atônita, ao notar que podia tocar a mente de sua filha, de que o bebê fosse tão inteligente e consciente, a tão pouca idade. O bebê a advertia, antes que Corinne sentisse o princípio de uma contração, capacitando-a para tomar uma profunda e tranqüilizadora respiração e suportar cada uma delas. Desejou poder se levantar e caminhar, sabendo que isso aceleraria o processo, mas não atrevia a se arriscar. Apesar de sua determinação em não ceder ao pânico, Corinne notou que o medo a tomava, enquanto as contrações aumentavam e uma pesada pedra pareceu assentar-se sobre seu peito.

Soube em que instante Dayan despertou. Estava ali em sua mente, mesmo enquanto atraía sua primeira respiração, enquanto o som de seu coração enchia a câmara com seu tranqüilizador e firme batimento. Sua rocha, sua âncora. Dayan despertara. Respirou seu nome, inalou sua essência. É obvio que ele viria a ela, em seu momento de necessidade.

As mãos dele percorreram seu rosto, num gesto amoroso e terno.

Corinne podia sentir seu amor por ela, derramando de seu coração e sua alma, até os dela.

– Nunca estará sozinha meu amor, nunca mais. Aconteça o que acontecer aqui esta noite, eu estarei contigo.

– Me alegro de que esteja comigo. Desejaria que Lisa também, mas sei que ela passaria um mau momento, enfrentando tudo. Não poderia me apoiar tanto nela. Isso a faz sentir tão culpada, mas ela não compreende que me dá tantos outros presentes. Não preciso me apoiar nela para amá-la. – O ar ficou preso em sua garganta, quando a seguinte contração começou a elevar-se.

– É hora. – Declarou ele, com suavidade. Sua voz era suave. Seus olhos negros encontraram os verdes dela e instantaneamente ela caiu através do tempo e do espaço, para um profundo poço insondável. Dayan mudou de posição enquanto a mantinha presa em seu hipnótico olhar. - O momento chegou. O bebê está chegand e seu coração está falhando. Precisamos dos curadores, agora. – Ele enviou a chamada na noite, sabendo que os outros estavam em algum lugar próximo, dormindo sob a terra, na rede de túneis subterrâneos e câmaras. Sua chamada despertaria-os, instantaneamente.

Dayan a manteve na armadilha de seu olhar, afastando a dor da experiência do parto, para dar um descanso a seu coração. Podia ouvi-lo, o terrível batimento, o arauto do desastre. O corpo dela já estava esgotado e só estava começando.

– Já não posso sentir as contrações. – Sussurrou ela. – Acredito que tenho que ajudar ao bebê através disto, Dayan. Se não puder sentir o que está acontecendo, como posso ajudá-la?

– Simplesmente estou bloqueando a dor como fazem com freqüência os mortais com os medicamentos, quando as mulheres estão em trabalho de parto. Você sentirá as contrações sem o desconforto. – Ele estava exteriormente calmo, tranqüilo dentro de sua mente, onde ela estava certamente fundida a ele. Profundamente em seu interior onde ela não podia ver, uma mão lhe espremia o coração.

– Não há necessidade de submeter a seu coração a uma tensão desnecessária, se posso evitar. – Tentou soar seguro. O momento da contração estava passando e Dayan a trouxe para seus braços, sensível à necessidade dela de mudar de posição.

Corinne estava dedicando cada grama de vontade, para manter seu coração em funcionamento, mas o parto estava esgotando sua energia rapidamente. Dayan enterrou o rosto entre as sedosas mechas do cabelo dela, escondendo-se ali durante um momento enquanto se obrigava a afastar seus próprios temores.

– Desejaria poder fazer alguma coisa por você, Corinne. – Murmurou ele, suavemente.

Ela inclinou a cabeça para beijá-lo.

– Lisa é frágil, Dayan. É minha família e a quero muito. – Corinne achou difícil deixar de respirar, o suficiente para poder falar.

Dayan a sustentou em seus braços, como se assim pudesse evitar que ela viajasse para outro mundo.

– Ssh, carinho. Ocuparei-me de que Lisa seja protegida e amada por toda sua vida. Não precisa se preocupar por ela.

Mas e se não poder, Dayan? Quem dirá a ela? Como chegará até aqui para estar com o bebê e contigo? Cullen...

– Cullen está bem no momento, descansando comodamente e com Lisa lhe segurando a mão. – Tranqüilizou-a rapidamente. – Syndil e Barack estão protegendo-os e se assegurando de que não lhes venha nenhum mal. Posso tocar suas mentes, a qualquer momento, igual a você. Se enviar seus medos a nossos congêneres, eles a tranqüilizarão como eu faço. Syndil sabe que você está em trabalho de parto. Ela está nos comprovando como eu os comprovo.

- Não deixe que ela diga a Lisa que alguma coisa está errada. Se me acontecer... Vá ver Lisa você mesmo, Dayan. Deve ser você a dizer a ela..

– Quero que permaneça tranqüila, carinho. Conserve sua energia. Seu trabalho é se manter com vida, dar a luz a nossa menina. Não se preocupe por algo que pode que não acontecerá nunca e certamente não por Lisa, que está perfeitamente a salvo.

A seguinte contração se estendeu através de seu corpo, muito mais intensa que a anterior. Seu coração estalou com um violento e frenético palpitar. Era impossível respirar. Uma pedra estava esmagando seu peito e em seu interior, o bebê estava muito quieto. O pânico a alagou enquanto lutava por respirar. Sabia que Dayan estava ajudando, mas ele não podia encher de ar seus pulmões.

Gregori se materializou no interior do quarto. Em um momento, não havia ninguém junto à cama e imediatamente no seguinte, ele estava ali, invencível. Seu sorriso parecia tranqüilizador, mas Corinne estava começando a conhecê-lo através de suas contínuas fusões mentais. Havia preocupação em sua mente. Darius se erguia sobre ela também, uma figura maior que a vida e tão poderoso que parecia indestrutível. Uma mulher emergiu do que parecia o ar, transparente a princípio, depois bem real. Era pequena e tinha cabelos vermelhos. Dava a impressão de total competência. Foi ela que se inclinou perto e colocou sua mão sobre o abdômen de Corinne, com uma ligeira concentração.

– Esta é Shea, Corinne. – Disse Gregori. – Confie em seu julgamento como nós fazemos. – Gregori tomou a mão dela. – Nossa gente está se congregando onde quer que estejam neste momento e acrescentarão também sua ajuda. Conseguiremos.

Corinne fixou seus olhos em Dayan. – Salve meu bebê. - Foi uma súplica desesperada. - Algo está errado, posso sentir.

– Corinne. – A voz de Shea era amável, mas muito firme. – Vou me ocupar do bebê imediatamente. Você está com problemas e precisamos tirá-la agora. – Ela levantou o olhar para Dayan. - Deve completar o ritual, enquanto isso, Dayan. Faça-a entrar completamente para nosso mundo e esperaremos que seu corpo passe através da conversão, rápido o suficientemente, para salvar sua vida. Gregori e Darius lhe ajudarão. Julian permanecerá aqui para proporcionar seu sangue, igual a Jacques. - Enquanto falava com Dayan, ela já estava preparando Corinne, cortando destramente sua roupa, sem nenhuma necessidade de luz. Sua mente estava dirigindo Darius e Gregori, sem ter que utilizar palavras, enquanto trabalhavam juntos, como uma máquina bem lubrificada.

Dayan mudou outra vez de posição, seus braços rodeando Corinne. A cabeça dela descansava sobre seu peito. Shea era rápida e eficiente, uma cirurgiã hábil e uma curadora Cárpato. Estava claro para o Corinne, que Shea sabia o que estava fazendo. Ela não sentiu dor; estavam trabalhando em equipe para evitar a dor. Sentiu estranhas sensações, enquanto Shea levava a cabo o procedimento de emergência, abrindo seu ventre para permitir o acesso ao bebê.

Corinne se sentia desconectada de todo o procedimento. Estava flutuando num mundo de sonho, sem saber com segurança se era real ou estava sonhando. Viu a mulher ruiva cortando-a. Viu Dayan lhe esfregando o pescoço com o nariz, sua boca vagando sobre sua pulsação e seus dentes afundando-se em sua pele. Nada disso a alarmou. Gregori havia se concentrado, saindo de seu corpo para se converter em luz e energia, enchendo o corpo de Corinne, para ralentizar o processo da morte e acelerar a conversão.

Corinne ouviu vozes cantarolando em uma língua ancestral. Notou o pequeno redemoinho de atividade, enquanto os outros cercavam à menina dentro de uma espécie de encubadora, de energia. Dayan levantou a cabeça e sua face era uma máscara de tortura. Isso a afetou, quando nada mais parecia fazê-lo. Lamentava por ele, por seu pesar. Ele parecia mais velho e havia linhas esculpidas profundamente em seus escuros traços sensuais. Viu-o fazer um pequeno corte no peito, sobre o coração e sentiu-o pressioná-la contra ele, sujeitando-a perto, murmurando uma ordem de que ela tomasse o que ele oferecia, para que ambos sobrevivessem.

E viu-se, tentando obedecer a sua ordem. Seus movimentos eram débeis, de forma que Dayan teve que lhe segurar a cabeça contra ele, acariciando sua garganta para que engolisse o líquido da vida. Ao mesmo tempo, viu Shea tirar o bebê, um vulto diminuto. Seus auxiliadores se moviam mais rápido agora, cortando o cordão umbilical e trabalhando sobre o bebê, Darius em primeiro plano. Ele se inclinou sobre o bebê, seus gestos eram protetores e ternos.

Corinne sentiu as lágrimas em sua face. Felicidade. Sua filha estava viva e entre um círculo de pessoas que a amariam e cuidariam dela. À deriva, Corinne estava tão cansada que somente queria fechar os olhos e dormir. Dormir um longo tempo. Uma eternidade, possivelmente. Pareceu-lhe que estivesse cansada uma sua vida.

- Não! - A ordem foi aguda. - Não termina aqui, Corinne. Eu proíbo que durma. - A voz era imperiosa e autoritária. Seguiu-a para interior de seus sonhos e a sacudiu, arrancando-a de seu estado de dormência. Ela encontrou-se entre os braços de Dayan e sua boca pressionada contra o peito dele, um quente líquido descia por sua garganta.

- É suficiente! - Gregori advertiu Dayan antes que Corinne pudesse compreender totalmente o que estava acontecendo e cedesse ao pânico ou sentisse repulsão e lutasse. - Não pode haver resistência de sua parte. Ela não é o suficientemente forte para sobreviver, se resistir.

Dayan permitiu imediatamente que Julian fechasse o corte de seu peito e abraçou Corinne, bloqueando sua mente a ela. Ela estava deprimindo-se... Podia sentir como seu espírito se afastava dele, embora sua partida não era uma escolha consciente. Ela parecia incapaz de reunir forças, para seguir lutando, mesmo com o sangue ancestral, mesmo com os Cárpatos enchendo-a com sua força de vontade, seu corpo debilitado.

Dayan descansou a cabeça sobre a dela. Haviam esperado muito. O frágil corpo mortal lutara tanto como fora capaz, permanecendo somente para dar vida a outro. Agora a força vital escapava. Ela já não sentia o sangue atravessando seu corpo. Seu frágil coração ainda estava bombeando, porque Gregori estava obrigando o órgão prejudicado a trabalhar, mas Corinne parecia muito longe para ser chamada de volta.

Dayan sentiu aos outros a sua volta... Sua gente, sua família. O canto ganhou volume. Ouviu o suave lamento aflito do bebê, enquanto Shea trabalhava com ela. Inalou a fragrância das ervas curadoras. Durante um momento se permitiu o último luxo de tomar tudo em seu interior. A beleza da câmara, o fluxo de lembranças de sua vida, mudar de forma, voar, desafiar à própria terra, enquanto ganhava conhecimento. Permitiu-se lembrar de sua amada música, tão parte dele. Adorava tudo, mas a mulher que estava em seus braços era tudo. Nada mais importava.

Sem ela, não haveria cor, nem luz e nem música, em seu coração ou sua alma.

Dayan inclinou a cabeça para lhe roçar as pálpebras, os cantos dos lábios.

- Quero-a, Corinne. Não irá sozinha para um mundo desconhecido. Estou com você.

Seguidamente, houve um ruidoso protesto. Agudo e exigente. De todos eles. De sua família. Da distância, ouviu os gritos de alarme de Barack e Syndil. Ouviu o eco de Cullen, que devia ter captado a objeção na mente de Barack. Ouviu a negação de Julian e o murmúrio de Desari. Tempest o chamou. Gregori e Savannah acrescentaram seus protestos. Mas era Darius a quem Dayan seguira toda sua vida, somente ante a Darius, ele respondia.

E foi Darius quem lhe deu a ordem .

- Você não a seguirá. Salve-a.

Sua voz era incrivelmente suave, mas Darius nunca tinha necessidade de levantar a voz para ser obedecido.

- Ela não deseja continuar, Darius. Não posso exirgir mais nada. Ela quer e tenho que permitir descansar.

A mão de Darius se apoiou com força sobre o ombro de Dayan, conectando-os fisicamente.

- Pode ser seu companheiro depois, cedendo a todos seus desejos, mas agora não. É um Cárpato, Dayan. Nós abraçamos a vida. Se apegamos a ela. Resistimos. Não liberará a ela ou a você mesmo, deste mundo.

- Ela tem direito a tomar sua própria decisão.

Se ele tinha o direito de tomar sua própria decisão e Corinne merecia o mesmo respeito. Era a última coisa que podia lhe dar.

- Esta não é sua escolha, Dayan! - Insistiu Darius. - Nunca teve escolha. A morte era inevitável e ela sabia e a aceitava. Está cansada e esgotada, mas esta não é sua escolha. Ela se apegou a você, aceita-o, sabendo o que é. Não resistiu cada vez que lhe ofereceu introduzi-la em nosso mundo. Você não estava lhe ocultando o conhecimento, ela sempre soube a algum nível. Sua escolha seria a vida, você e sua filha. Ela não pode tomar essa decisão, então você deve tomá-la, por ela. Não compreende o cansaço e esgotamento em que está você mesmo, em quanta energia utilizou para mantê-la com vida e dar à menina uma oportunidade. Não está pensando com claridade, Dayan. Não irá com ela. Permanecerá conosco e lhe imporá sua vontade, evitando esta tragédia.

- Era uma ordem que exigia ser obedecida.

Darius se abaixou de repente e olhou Dayan nos olhos.

– Se alguma vez confiaste em mim, se alguma vez acreditou em meu julgamento, siga-me agora.

Dayan sentiu a força de seu líder, o homem a quem chamava de irmão, fluindo em seu interior e assentiu. Um lento e sombrio sorriso suavizou sua boca. Havia passado tanto tempo desde que conhecera a emoção de estar rodeado por sua família e agora seu orgulho e amor por eles era assustador. Voltou-se para dentro, avançando decidido e velozmente, capturando a fraca e vacilante luz que se afastava tão rapidamente dele. Rodeou o espírito de Corinne e sua vontade era potente, Uma âncora que a manteve em seu mundo.

- Corinne. Reconheça-me.

Sentiu a resposta dela. Fraca e vacilante. Mas o reconhecia. É claro que o reconhecia. Reconheceria-o em qualquer sítio. No que estivera pensando? Corinne o amava. Ela se segurava à vida. Podia aceitar as dificuldades que a vida lhe tinha imposto, mas encontrava alegria em tudo, na beleza do mundo que a rodeava. Queria criar sua filha, queria ver a felicidade de Lisa e Cullen.

Corinne queria uma vida com ele.

Dayan a manteve obstinada a ele. Seu espírito estava começando a afastar-se dele, afastando-se de seu corpo prejudicado. Viu Gregori e Darius trabalhando, dois pontos de luz, massageando e estimulando o coração dela. Sabia que Gregori ordenava que se proporcionasse mais sangue e foi Jacques, o irmão do Príncipe, que proporcionou a Corinne. Dayan viu como os dois curadores trabalhavam furiosamente, para pulverizar o sangue pelos órgãos do corpo de Corinne, com a esperança de acelerar a conversão. Ambos estavam exaustos em manter a experiência extracorporal, mas nenhum vacilava em sua tarefa.

- Estou cansada. Deixe-me dormir um pouco.

Foram essas pequenas palavras que o convenceram. Ela queria dormir, não morrer. Não o sonho eterno.

- Ainda não, meu amor. Isto não terminou ainda. Tem algumas coisas a mais. Somente uma e te permitirei dormir tanto quanto quiser. Una-se a mim, funda sua mente a minha, para que possa te manter a salvo, enquanto atravessa completamente a meu mundo.

A primeira onda de dor foi surpreendente. Ele a sentiu como fogo correndo através da corrente sangüínea dela. O corpo de Corinne se contorceu, ficando rígido nos os braços de Dayan. Ele não podia acreditar a força do impulso, uma bola de fogo a consumia. Corinne gritou e o som surgiu forte de sua garganta, ruidoso na quietude da câmara, fazendo ressoar pela ventilação, até o céu noturno.

- Oh!Deus, ela não pode sobreviver a isto. Não quero que seus últimos momentos sejam tão dolorosos.

As palavras surgiram dele, enquanto pequenas gotas de sangue gotejavam ao longo de sua face. Ele não podia evitar a dor. Havia embotado-a, mas era algo que nenhum deles podia impedir completamente.

- Deve sobreviver.

Darius era implacável em sua resolução.

Dayan respirou profundamente, permitindo que a dor o banhasse e lhe atravessasse antes de voltar sua completa atenção para dentro, para esse frágil espírito aconchegado tão fracamente dentro dos muros que ele construíra. Corinne o deixou atônito. Não tinha medo. Ela aceitava a conversão como fizera com o parto, mesmo estando fraca e incapaz de ajudá-lo a reunir forças para a batalha que atravessava.

A seguinte onda de fogo ardeu através dos órgãos internos dela, com um assalto tão severo que ela quase caiu dos braços de Dayan. Não houve aumento gradual. Os curadores estavam forçando a conversão para acomodá-la a seu desintegrado coração, que teria falhado bem antes, se os dois curadores tivessem cessado seu trabalho.

Dayan sustentou a cabeça de Corinne enquanto ela se sentia violentamente doente. Ela estava muito fraca para se mover. Ele colocou grande cuidado em evitar que ela inalasse, desejando que expelisse toda toxina daninha de seu corpo. Encontrou-se apertando os dentes contra as ondas de terrível dor que atravessavam o corpo dela. No fundo de sua mente sentia que o espírito dela desfalecia, a luz titilando. - Não! - Apegou-se a ela, empenhando cada átomo de sua vontade, para evitar que a luz se extinguisse. Haviam chegado longe. A morte não podia levar-lhe. Não agora.

O canto era um murmúrio contínuo em sua mente e ele soube que estava ajudando no processo, mas precisava de algo mais. Dayan ´precisava de algo que a atraíra a ele. O bebê estava calado, lutando sua própria batalha pela vida, com a ajuda de Shea. Chegou a ele então. A única coisa que podia lhe dar e que sabia que ela adorava. Sua música. Começou a cantar. Sussurrante a princípio. Uma melodia de escuro e perigoso amor. Uma balada de necessidade. Da desesperada luta de um homem por uma mulher que amava acima de tudo.

Desari se uniu a ele, com sua voz formosa e musical, um dom dos céus. Cantou com ele, ajudando-o a utilizar sua voz para afastar Corinne das garras da morte. As notas saltaram no ar, prata e ouro, notas preciosas dançando como brilhos de luz solar, na câmara escurecida.

Ele sentiu então a resposta de Corinne. Débil, mas estava ali. Ela se segurava ao som de suas vozes, permitindo que a melodia a afastasse do terrível ardor de seu corpo, seu sistema livrando-se das toxinas humanas. A perda de controle, a sensação de indefesa que a faziam incapaz de se mover, enquanto seu corpo se dobrava e retorcia de dor.

Ela encadeou-se a essas notas, o presente que ele oferecia e flutuou sobre o fogo, segurando-se à vida. Corinne segurava-se em Dayan, sua sólida âncora.

Ele ficou prostrado por sua completa confiança e fé nele. Não fazia idéia se colocaria sua vida tão completamente nas mãos de outro ser. Sentia-se impressionado, humilde e agradecido. Lágrimas de sangue gotejaram sobre o dorso de sua mão, mas sua voz não vacilou enquanto cantava para ela.

A ordalía parecia durar uma eternidade e suas recém encontradas emoções eram cruas. Mas cantou com seu coração e sua alma. Sua voz a envolveu e elevou-se sobre a terrível dor e a manteve firmemente ancorada a ele.

- Agora, Dayan. - Havia alivio na voz de Darius. - Envie-a para dormir e poderemos completar a cura.

Dayan levou poucos segundos para compreender o que Darius queria dizer. Os curadores utilizaram seu sangue e o precioso sangue da linhagem do Príncipe, para converter o desfalecido coração humano de Corinne, num resistente coração Cárpato. O perigo havia passado. Não podia compreender que pudesse ser assim. Sentia-se como se tivesse lutado dez mil batalhas, como se tivesse estado lutando uma eternidade.

Emitiu a ordem de dormir, forte e exigente, instantânea. Corinne obedeceu e em seu fraco estado, foi fácil para ele enviá-la ao sono dos Carpatos. Dayan deixou escapar um suspiro de alívio. Ao menos ela estava além da dor. Levantou o olhar e seus ombros se encurvaram. Estava completamente desfalecido. Tinha dado a Corinne, uma grande quantidade de sangue, não tinha se alimentado, nem dormido na terra rejuvenescedora. Cada grama de sua energia fôra utilizada para manter em funcionamento o coração e os pulmões de Corinne, para uni-la a ele. As emoções que suportara, drenaram suas forças. Estava perigosamente fraco e pálido. Percorreu com o olhar a câmara, procurando os outros que lhe tinham devotado tanto, que tinham devotado tanto a Corinne. Shea estava trabalhando com o bebê e ele se encontrou sorrindo. Um lento sorriso, que substituiu sua fadiga com amor. Sua filha. Corinne podia pensar que sua filha era de John e ele a entendia, mas na realidade, a menina levava o sangue de Dayan em seu corpo. Enquanto Darius e Gregori continuavam trabalhando em curar Corinne, ele estudou o bebê.

– Ela viverá? – Perguntou a Shea.

A mulher ruiva o olhou.

– Ela é muito forte e quer viver. Corinne, Gregori, Darius e você fizeram um bom trabalho em lhe insuflar uma forte vontade. Terá pais amorosos e preocupados. Acredito que será melhor que fique aqui durante umas semanas para dar a seu corpo, tempo para se ajustar ao mundo exterior, mas ela está bastante bem.

– Poucos bebês sobrevivem ao primeiro ano. – A dor o atravessou, ante a idéia de perder à menina, pois já sentia-se ferozmente protetor com ela.

– Assim é. – Admitiu, Shea, – Mas tenho feito tremendos avanços na investigação e acredito que posso mantê-la viva. A dieta é importante. O corpo de uma criança dos Cárpatos é diferente do adulto. Já não podemos cuidar deles como fazem os humanos, e eles precisam de uma mistura de nutrientes. Nosso sangue é muito rico para eles. Por isso era importante que o bebê não fosse convertido antes de nascer. Simplesmente é muito pequena para sobreviver a tanto.