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Meu Diário de Guerra / William Somerset Maugham
Meu Diário de Guerra / William Somerset Maugham

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Meu Diário de Guerra

 

 “MEU DIÁRIO DE GUERRA” não é propriamente obra autobiográfica. Abrange os acontecimentos de alguns meses apenas, e só aqueles acontecimentos que afetaram o autor.

Verão de 1939. Somerset Maugham achava-se na sua propriedade do Midi, numa colina de Cap Ferrat, promontório que avança afoitamente pelo Mediterrâneo adentro, entre Nice e Monte Carlo. Neste recanto pitoresco, diante do largo mar azul, viveu Somerset Maugham um dos períodos mais agudamente definidos de sua existência, período sensacional, para sempre único, e sobretudo, como se verá, trágico. Nesta sua propriedade, na sua casa pintada de branco por fora e por dentro, enfeitada de livros, quadros e todos os vários objetos que colecionara durante suas viagens, o autor de “Servidão Humana” sonhava passar o resto de sua vida e exalar seu último suspiro na cama que havia em seu quarto. Muitas vezes fechava os olhos e cruzava os braços para imaginar como devia ficar quando morresse.

Mas, eis que estala a guerra, súbita, brutal, mergulhando o mundo num mar de sangue e chamas. Terminou abruptamente o suave e poético sossego daquela casa branquinha na colina de Cap Ferrat. Somerset Maugham, mais uma vez, se põe a caminho, reencetando sua peregrinação. Retoma da pena e dedica seu gênio à presente luta desesperada pelos direitos de uma humanidade livre.

“MEU DIÁRIO DE GUERRA” que, desde logo, se tornou um dos livros mais procurados de Somerset Maugham e terá o mesmo acolhimento da parte dos seus inúmeros admiradores brasileiros, é a expressão plástica de uma luta onímoda e sem tréguas por um futuro melhor.

 

Sou de opinião que é sempre bom dizer-se ao leitor no começo de uma narrativa o que ele vai ouvir. Começarei, pois, dizendo que este livro não é um relato de grandes acontecimentos, mas de coisas pequeninas que me aconteceram nos primeiros quinze meses da guerra. Já há mais de dois anos que as grandes potências da Europa estão empenhadas numa luta terrível, uma dúzia de pequenas nações foram invadidas e a França derrotada: são assuntos tratados por todos os jornais e a história os registrará. Mas a vida prossegue. Os homens continuam a comer três vezes por dia, a amar, a casar-se e a morrer de morte natural. Acredito entretanto que não há uma só pessoa, pelo menos na Europa, cuja existência não tenha sido afetada de vários modos pela catástrofe que caiu sobre nós; e porque — até onde posso estar informado — ninguém haja pensado que valia a pena tomar nota destas coisinhas de nenhuma consequência na corrente dos grandes aconteci mentos, mas importantes para as pessoas às quais elas afetam, pensei que podia ser interessante passar para o papel, antes que eu os esquecesse, os incidentes, triviais em si mesmo, mas que mudaram todo o curso da minha vida. Esta narrativa é estritamente pessoal — de outra maneira ela não teria razão de ser — mas peço ao leitor que acredite que ninguém é mais consciente do que eu de quão pouco valho neste momento em que o futuro do mundo pode muito bem estar em jogo.

Eu estava passando o verão de 1939 na minha propriedade do Midi. A casa branca, quadrada, ficava na encosta de uma colina em Cap Ferrat; promontório que avança seu nariz afoitamente pelo Mediterrâneo adentro, entre Nice e Monte Cano. De minhas janelas descortinava-se o largo mar azul. Eu comprara a “vila” havia doze anos, quando cansei de vagar pelo mundo, e comprei-a barato porque era, tão feia que quem a olhasse pensava logo que não havia outra coisa a fazer senão derrubá-la e construir uma nova no seu lugar. Tinha um grande jardim abandonado, e, para a Riviera, onde as terras eram muito caras, havia bastante terreno dos lados. A casa tinha sido construída no começo do século por um Bispo católico aposentado que passara toda a sua vida trabalhando na Algenia, e que a construíra seguindo o estilo das casas do norte da África, com um pátio no centro. Colocou uma cúpula mourisca no teto, fez as janelas em forma de ferradura e uma arcada mourisca abrindo para o “living room”. Depois teve a infeliz ideia de uma pérgola estilo renascença na parte da frente. Ocorreu-me que toda aquela falta de senso era apenas madeira e gesso e podia desaparecer dando lugar a uma casa simples com um teto chato. Comprei-a, fiz as modificações que quis, pintei tudo de branco por fora e por dentro enfeitei-a com meus livros, meus quadros e todos os vários objetos que colecionei durante as minhas viagens. Eu estava disposto a passar ali o resto da minha vida e a exalar meu último suspiro na cama que havia no meu quarto. Muitas vezes fechava os olhos e cruzava os braços para imaginar como eu devia ficar quando morresse.

Não contava com a tentação exercida por um grande jardim abandonado e uma colina. Até então nunca tivera um jardim meu e eu não sabia que quanto mais jardins a gente tem mais deseja ter, e quanto mais a gente faz, mais coisa aparece para fazer. No jardim existiam pinheiros, laranjeiras mimosas e aloés e uma touceira de timo selvagem e de roseira silvestre. Naquelas paragens os jardineiros são baratos — ganham pouco mais de um dólar por dia — e tudo dá quando se planta e rega. Plantei adelfas e camélias, bem como toda espécie de roseiras, e trouxe mesmo umas mudas de abacateiros da Califórnia. Não deram frutos durante os sete primeiros anos, mas quando parti, já estava colhendo anualmente trezentos ou quatrocentos abacates e vinha gente de todas as partes para vê-los, pois eram os primeiros que davam na Europa. Mas o grande luxo na Biviera era a grama, que não supor ta o longo calor do verão, e por isso deve ser arrancada no fim de cada primavera para ser replantada no outono seguinte. É uma coisa complicada e custosa, mas o verde novo e fresco, que logo ficava tenro e brilhante, emocionava tanto como a expressão dos olhos de uma jovem no seu primeiro baile. Fiz gramados de cada lado do passeio que levava à minha porta por baixo dos pinheiros até o fim do jardim. Plantei laranjeiras no quintal onde costumávamos jantar nas noites de verão. Mais para cima, do lado da colina, mandei construir uma piscina, no estilo do século dezoito, e encontrei em Florença uma mascara de mármore feita por Bernini, por onde jorra a água. Tinha uma caverna natural no fundo para que os banhistas se abrigassem, no caso do sol estar muito forte, e, de cada lado, coloquei dois vasos de metal que podiam muito bem ter pertencido a Madame Pompadour. Dali meus olhos abrangiam o Mediterrâneo, Nice à direita e lá longe, muito longe a nobre massa dos Estéreis.

Assim eram minha casa e meu jardim. O cume da minha colina era propriedade militar. Havia um posto de sinais semafóricos bem no alto e canhões para protegê-lo. Mais ou me nos na época do inquieto período que precedeu o acordo de Munique estive envolvido num curioso incidente. Recebi, um dia, a comunicação de que um grupo de oficiais de marinha, que estava sendo esperado de Toulon, desejava que eu marcasse uma hora para discutir um assunto comigo. Eu não tinha noção do que pretendiam, mas respondi que teria imenso prazer em recebê-los na hora que mais lhes conviesse. Na manhã seguinte pararam dois automóveis na minha porta e uma meia dúzia de cavalheiros de meia idade foram introduzidos no “living room”. Estavam fardados e ostentavam a rosette da Legião de Honra nas lapelas; três deles tinham longas barbas. Pelos bordados doirados que traziam nas mangas percebi que eram altas patentes. Um era almirante. Senta-. ram-se com solenidade e um deles, depois de temperar a garganta, começou a explicar a razão da visita. Parecia que eles desejavam que eu lhes cedesse uma faixa do meu terreno para colocação de um canhão lá no alto da colina. Evidentemente esperavam que eu apresentasse objeções a tal desejo, pois um outro logo se meteu na conversa explicando que isto não viria em absoluto interferir com os meus interesses mas aumenta ria a amenidade da minha propriedade, e, mais de que isso, acrescentou ele com ar pilhérico, se a guerra estourasse não podia deixar de ser uma fonte de satisfação para mim ter um grande canhão, do tipo mais moderno, para atirar. contra os navios italianos como se fosse do meu próprio quintal. Penso que o almirante julgou tal leviandade fora de propósito, pois interrompeu seu companheiro para dizer que eu era bem conhecido como amigo da França, que a França e a Grã-Bretanha estavam unidas numa aliança indissolúvel e que era inconcebível para ele que eu pudesse procurar dificultar um plano de urgente necessidade para a segurança do Estado. Eu não quisera interromper aqueles cavalheiros antes (sempre me senti um tanto intimidado pelas pessoas fardadas, e, a fim de sentir-me à vontade, tive que despi-los na minha imaginação e vê-los nos seus trajes civis) mas agora, tomando a pa lavra, disse que era inteiramente desnecessária qualquer discussão, pois eu me sentia feliz por poder atender ao desejo do Estado de utilizar o pedaço de terra que me pertencia, principalmente naquela situação. Um murmúrio de aprovação saiu daquelas seis gargantas, e, tanto o almirante como o primeiro porta-voz, que era um técnico de artilharia, expressaram seu louvor ao meu patriotismo.

A isto acrescentaram algumas palavras bem pensadas sobre o espírito público tão invariavelmente demonstrado pelos meus compatriotas. A conduta dos meus visitantes, que até então havia sido cortês mas fria, agora quase se tornava efusiva; houve uns tantos sussurros, mas não me foi possível deixar de ouvir um dos oficiais barbados dizer ao outro que eu era um fino cavalheiro e que oxalá os franceses fossem tão agradáveis para tratar de assuntos daquela natureza. Em seguida voltamos ao negocio. Tomando a palavra pela primeira vez um dos oficiais pronunciou um longo discurso cheio de belas frases, dessas que saem com facilidade dos lábios de um francês culto - frisou que o valor da terra na Riviera havia diminuído nos anos recentes, e, num caso de guerra, ainda cairia mais, que o pedaço que eles desejavam não tinha a menor utilidade para mim e que eles apenas necessitavam de tantos metros por tantos metros e quando o trabalho estivesse termina do nem eu mesmo saberia o que estava ali. Enquanto isto seis pares de olhos me observavam atentamente. Por fim, o oficial me perguntou abruptamente quanto eu queria por aquele pedaço de terra desvalorizada, insignificante, inútil parcela de uma propriedade.

— Nada — respondi eu.

Nunca vi tanta consternação como nos rostos daqueles bravos.

— Mas, dissestes que não ofereceis qualquer objeção para que colocássemos uma base de artilharia na vossa propriedade.

— Não faço a menor objeção. Terei o máximo prazer em vos ceder o pedaço de terra que precisardes e nada exijo em troca.

— Estamos prontos a pagar um preço razoável.

— Sim, sei disto — respondi — mas já vivo há vários anos neste país e tenho recebido muitos favores do povo francês. Jamais poderia pensar em pedir pagamento por uma faixa de terra de que precisais para a defesa do vosso país.

Houve um silêncio. Embora meus interlocutores me encarassem observei que se entreolhavam sub-repticiamente. A atmosfera que já estava agradável, tornou-se glacial. Então, alguém disse:

Apreciamos muitíssimo a vossa generosidade.

O almirante hesitou por um instante e depois se levantou.

— Vou comunicar ao Ministério esta oferta, que reflete o vosso espírito público. Oportunamente lhe comunicaremos a nossa resolução.

Todos me apertaram a mão muito polidamente e saíram.

Eu não podia deixar de sentir que, embora sendo, por profissão, homens do mar, estavam completamente tontos. Dois dias depois recebi de Toulon uma carta oficial muito protocolar agradecendo-me a cortesia com que recebera a delegação e declarando que, melhor estudado o assunto, ficara resolvido não colocar o canhão na minha propriedade.

 

Depois de passar algumas semanas em Londres, voltei para casa a meados de Julho. Trouxe meu sobrinho comigo; minha filha e meu genro deviam chegar dentro de quinze dias. Amigos deles e meus viriam passar conosco uma temporada e eu esperava ter a casa cheia de visitantes que se sucederiam até o fim de Setembro. Nessa época pretendia voltar a Londres por um mês antes de seguir para a Índia, onde planejava passar o inverno. Eu já passara lá um inverno, dois. anos antes, e achará aquela terra maravilhosa muito excitante para minha imaginação. Estava ansioso por voltar. Nunca me foi possível escrever alguma coisa antes de ter um sólido e amplo dossiê de informações, um dossiê capaz de estimular minha perspicácia. Esperava, nessa segunda visita, conseguir dar forma à multidão de impressões que havia recebido e completar o esboço literário que estava vagamente traçado na minha imaginação. Resolvi não realizar qualquer trabalho antes de ir para a Índia, mas apenas divertir-me com as ideias que vagavam no meu pensamento e procurar conhecer mais intima- mente as personagens que iriam participar da minha narrativa. Esta parte da atividade dó novelista é deliciosa; não dá nenhum trabalho, nem encerra a menor responsabilidade. O exercício fácil, invisível, da faculdade criadora enche-o de satisfação. O mundo da sua invenção é tão real que torna monótona e sombria a vida objetiva e dificilmente então pode ser levada a sério. Este seu mundo é tão significativo e tão abundante que ele tende a adiar indefinidamente o dia em que, to mando, da pena e do papel, começa a escrever permitindo clue o seu mundo íntimo se perca no mundo indiferente e comum de todos. Eu já antegozava um verso delicioso, entre meus hospedes e aquelas pessoas agradáveis, sem nome até então, que na minha mente inquieta riam e amavam, faziam comentários sobre a eternidade e discutiam o significado da vida.

 

Penso que todos nós nos divertimos bastante. A vida que levávamos era simples e fazíamos quase a mesma coisa todos os dias. Como sou madrugador tomava meu “breakfast” às oito horas, mas o resto do grupo descia em horas diferentes metido em pijamas e peignoirs. Quando por fim todos se aprontavam, seguíamos de automóvel para Villefranche, onde o iate estava ancorado, e íamos até à pequena baía que ficava do outro lado de Cap Ferrat. Ali tomávamos banho de mar e de sol até ficarmos famintos como lobos. Levávamos alguma comida conosco, mas Pino, nosso marinheiro, que era italiano, cozinhava um grande prato de macarrão para aguçar ainda mais o nosso apetite. Bebíamos um vinho levemente tinto, chamado vin rosé, do qual eu havia comprado um barril num vilarejo nas montanhas. Depois divagávamos e dormíamos até que pudéssemos tomar banho outra vez, e após o chá voltávamos para jogar tennis. Jantávamos no terraço entre as laranjeiras e quando a lua estava cheia sobre o mar, espargindo seu brilho sobre a água calma numa grande faixa de luz branca, o cenário era tão encantador que chegávamos a conter a respiração. Quando havia uma pausa nas conversas e nos risos ouvia-se nitidamente o coaxar de centenas de pequenas rãs e sapos escondidos entre os unos lá embaixo no jardim. Depois do jantar, Liza, Vincent e seus amigos tomavam o carro e iam a Monte Cano dançar.

Como era natural, falávamos bastante sobre a possibilidade da guerra; tudo, porém parecia-nos remoto. Um banqueiro francês amigo meu chegara de Paris para passar alguns dias conosco. Pelas exigências do seu “métier” tinha ligações comerciais com a Alemanha e estava em intimo contacto com o Quai D’Orsay. Disse-nos que os homens de negocio da Alemanha eram favoráveis à paz, pois a guerra seria ruinosa para todos eles. Afinal das contas, tinha havido uma ameaça em Setembro de 1938, a França mobilizou e a guerra não veio; houve outra ameaça em março de 1939, nova mobilização e a guerra outra vez foi evitada. Assegurou-nos que a mesma coisa aconteceria desta vez e todos nós estávamos mais que dispostos a lhe dar credito. Mas agora acrescentou, haveria uma diferença: Hitler não queria a guerra. Se tivéssemos sido mais firmes em Munique o Fuehrer teria cedido; se os governos francês e inglês tivessem tomado posição quando da marcha sobre Praga ele teria recuado. Enganou-nos duas vezes, mas agora n o enganaremos. E quando perceber que estamos resolvidos a tudo ele abandonará a ideia, como teria abandonado antes se houvéssemos agido assim. Como prova da sua confiança o meu amigo nos disse que acabara de comprar um grande numero de ações de uma companhia polonesa de petróleo.

O banqueiro foi embora e um outro convidado veio ocupar o seu quarto. Continuamos a tomar banho de mar e a jogar tênis. O tempo estava adorável. A lua nova apareceu uma tarde quando ainda não estava bem escuro, pálida foice de luz num céu também pálido. Nós a saudamos três vezes e três vezes sacudimos o dinheiro que tínhamos nos bolsos. A lua cresceu. Aqueles dias pacíficos passaram, um atrás do outro, e depois se acabaram. Uma vez vi um copeiro carregando uma pilha imensa de pratos, escorregar repentinamente e to dos os pratos caírem no chão com grande estrepito. A situação política desandou com o mesmo efeito inesperado e surpreendente. Parecia que Hitler ia mesmo tentar outra vez o seu “bluff”, e, não restava a menor duvida, estávamos prontos para fazer-lhe frente. O rádio transmitiu notícias inquietantes, o “Daily Mail” de Paris, chegado com um dia de atraso, dizia ser crítica a situação e o jornal local, que era pró-Itália, estava frenético. Em seguida o prefeito da minha cidade, St. Jean, avisou-me que a ordem de mobilização seria afixada no outro dia. Na manhã seguinte a cozinheira veio à sala de jantar e me comunicou que sua auxiliar, uma jovem italiana, desaparecera durante a noite com todos os seus pertences. Meu genro, Vincent, ia tomar parte no torneio de tênues em Monte Carlo, que devia começar alguns dias mais tarde, e foi até lá treinar uma hora com um instrutor profissional. Pouco de pois, enquanto fumava meu cachimbo, Francesco, meu em pregado, entrou com o rosto muito pálido e disse que queria voltar para a Itália aquela tarde. Sua mulher estava em pé, na soleira da porta, para fazer com que ele insistisse no caso de qualquer tentativa da minha parte para dissuadi-lo deste propósito.

Era uma mulher de gênio muito mau, magra, amarela e muito antipática. Uns quinze dias antes ela provocara uma terrível cena porque estava com ciúmes de uma empregada. Frisei-lhe que a empregada tinha cinqüenta anos, uns vinte anos mais que seu marido, mas ela me disse que isto nada tinha a ver com o caso, apenas acentuava a baixeza de Nina, a empregada, e fazia mais vergonha a traição daquele homem que ela desposara e que era pai de seu filho. Ela mantinha-se de pé, trêmula e pálida, enquanto praguejava assegurando que ele não ficaria mais um d mais uma hora sequer, naquele antro de iniquidades que era a minha casa. A italiana cuidava da lavanderia e ajudava na arrumação dos quartos enquanto Francesco, seu marido, era um excelente empregado que es tava comigo havia vários anos, não me sendo possível dispensar qualquer um deles quando tinha a casa cheia de hospedes. Disse tudo o que pude para acalmá-la, mas nada deu resultado. Fui obrigado a fazer um apelo a que não havia ainda recorrido. Alguns anos antes, quando ela estava na cidade esperando uma criança, Francesco entrou na sala onde eu lia e disse-me que sua esposa viera visitá-lo e que estava agora acometida das dores do parto. Perguntou-me se eu podia emprestar o carro para levá-la à cidade. Como isto me parecesse uma imprudência, coloquei-a imediatamente numa cama e mandei buscar um médico. O menino nasceu uma hora depois e ela ficou em minha casa até que estivesse em situação de trabalhar. Eu costumava ir vê-la. Ela continuava deitada, com o seu rosto sem formosura tão miraculosamente transformado que parecia o de uma macilenta Madonna. Junto dela a pobre criancinha, que não podia sequer mover uma perna, de tão apertada nos cueiros lembrava os bebês da antiga pintura italiana. Lembrei-lhe então tal incidente e disse-lhe que, como eu não a desamparara naquela ocasião, ela não podia abandonar-me ago ra. Ela começou a chorar e depois se voltando para o marido:

— Seu patife, vai comportar-se bem? — gritou ela.

Ele quase não podia falar, tão aterrorizado estava.

— Juro por Deus — respondeu benzendo-se.

— Vamos, então. Pode ficar.

Ordenou peremptoriamente que ele a acompanhasse e saíram da sala, mas, na porta, Francesco voltou-se para mim e piscou o olho. Suspeitei, então, que a minha calorosa defesa da sua virtude talvez não fosse de todo justificada e fiquei imaginando se devia dizer à empregada que precisava resistir às solicitações de homens vinte anos mais moços que ela.

Mas, desta vez, nada havia a fazer e concordei que eles se fossem. De volta de Monte Cano, Vincent disse-me que todos estavam partindo o mais depressa possível Não havia mais uma vaga no Trem Azul. Os automóveis entupidos de bagagem já estavam formando longas filas nas estradas. Eu havia dito aos meus hospedes que não haveria perigo até que os senegaleses, as tropas negras, aparecessem nas estradas; Vincent contou que já os vira guardando a ponte da estrada de ferro na entrada de Cap Ferrat, certamente chegados em caminhões durante a noite. Resolvemos que ele e Liza deviam partir e ambos subiram para fazer as arrumações. Fui até a garage a fim de providenciar o reabastecimento do carro e o chofer me disse que a sua classe tinha sido convocada e que ele teria de partir no dia seguinte para se apresentar no seu regimento. Era mais ou menos meio dia e os jardineiros estavam subindo para o almoço. François, o jardineiro chefe, era um homem de meia idade que combatera na última guerra e não estava atingido pela mobilização, mas um dos sub-jardineiros (os outros três eram italianos) tinha de ir. Ele estava preocupado porque casara fazia pouco tempo e não sabia como a esposa e o garotinho — que nasceria breve — iriam viver com oito francos por dia, que era quanto o governo concedia às esposas dos soldados. Eu lhe disse que daria o suficiente para que a sua gente não passasse dificuldades e ele foi, todo satisfeito comer o seu pão com salsicha.

Quando voltei para casa encontrei Gerald, meu amigo e secretário, que chegara de Villefranche. Disse que havia uma grande atividade no porto. Os Chasseurs Aipins, os bravos e fortes homenzinhos que naquela sua marcha rápida percorrem quarenta milhas por dia, haviam seguido para a fronteira deixando em seu lugar um regimento de senegaleses. O capitão do porto lhe comunicara haver recebido uma ordem de Toulon para que todos os iates particulares deixassem o porto dentro de vinte e quatro horas. Resolvemos levar o Sara para Cassis, onde existiam algumas enseadas numa das quais ele ficaria garantido.

Na agitação da manhã esqueci-me de que havia convidado para almoçar um jovem escritor inglês e sua esposa, que se achavam num hotel em St. Jean. Eles chegaram, muito alegres e despreocupados; estavam gozando férias e a dias que não liam um jornal. Viram os senegaleses na estrada e acharam-nos muito pitorescos. Quando eu lhes disse que a guerra podia estourar a qualquer minuto, não acreditaram. Era apenas uma ameaça como as duas outras anteriores e acharam que seriam uns loucos se voltassem para Londres, perdendo o resto daquela adorável estação de banhos. Frisei com alguma aspereza que eles se sentiriam muito mais loucos se tivessem o automóvel requisitado, e, com os trens reservados para tropas, ficassem sem poder partir durante semanas. Isto os as sustou um pouco. Finalmente convenci-os de que fariam me melhor partindo naquela mesma tarde para Paris.

 

Uma hora depois minha casa, que estivera tão cheia e tão alegre, estava deserta. Gerald e eu fomos até Nice fazer algumas provisões. Tinha havido uma invasão nas vendas e não sobrava grande coisa, mas assim mesmo ainda pudemos conseguir uma dúzia de latas de sardinhas e um suprimento de sopa enlatada, carne salgada, língua e presunto que davam, no mínimo, para umas duas semanas. Compramos ainda vários pacotes de macarrão, arroz e uma saca de batatas. Armazenamos tudo isto no iate. Quando voltávamos para casa, encontramos Ernest, meu copeiro, um suíço, que tinha ido a Nice de motocicleta para ver o seu cônsul que lhe assegurou estar a Suíça mobilizando também e que ele receberia dentro em pouco instruções para voltar. O chofer partiria na manhã seguinte depois de nos deixar em Vilie Franche, onde íamos embarcar. A cozinheira e a arrumadeira que ainda restava, Nina, a tentadora, estavam em lagrimas. Como eram ambas italianas, perguntei-lhes se queriam também voltar para sua terra. Estavam comigo havia muitos anos e não tinham para onde ir, de forma que preferiram ficar; mas, estavam receosas, pois meu jardineiro chefe tinha anunciado que pretendia cortar o pescoço de todos os italianos dos arredores logo que eu virasse as costas. Com um suspiro fui vê-lo para informar-lhe que se os italianos na minha propriedade não fossem tratados como eram quando eu estava lá, ele e eu estaríamos imediatamente de relações cortadas. Ele ficou feroz e quando nos separamos nossas relações estavam tensas.

Pode parecer que mencionei um número enorme de em pregados, mas a casa era grande e os empregados na França trabalham menos que na Inglaterra, embora façam coisas que seus colegas ingleses nunca consentiriam em fazer. Não é exa gero tão grande ter-se um lacaio, pois ele tanto faz os trabalhos de uma arrumadeira como o seu próprio; e um copeiro na França não é como um copeiro na Inglaterra que abre a porta, serve a mesa, e vigia para que os outros empregados executem os trabalhos que lhes cabem. Na França, além de tudo o que um copeiro inglês faz, ele se encarrega do andar térreo, varre, limpa e encera, os soalhos de parquet. Além disso os salários são modestos. Eu que sem duvida pagava melhor do que qualquer dos meus vizinhos, dava ao meu copeiro, na base de câmbio comum, vinte e cinco dólares por mês e ao outro empregado vinte. Descobri, de ha muito, que o único meio de viver num país estrangeiro com conforto é conformar- se a pagar um pouco mais que qualquer nativo por tudo e aceitar um certo grau de ladroeira com um dar de ombros. Na França, as cozinheiras têm o direito tácito de aumentar cinco por cento em tudo que compram no mercado. E se ela não chega a dobrar o preço podemos considerar-nos um patrão feliz de uma mulher honesta.

Eu tinha então vários empregados. Algumas vezes aborrecia-me a ideia de que nada menos de treze pessoas passavam a vida provendo o necessário para o conforto de um velho. É verdade que eu lhes pagava com dinheiro ganho por mim e lhes propiciava uma vida que de outra maneira dificilmente teriam. Mas a minha consciência de quando em vez me atormentava. Eu sabia que me sentiria igualmente feliz com uma casa pequena e uns dois empregados para cuidarem de mim. Agora, quando as ameaças de guerra espalhavam sete dos meus servidores, ainda me restavam duas empregadas e quatro jardineiros. Não podia dispensá-los, pois passariam fome.

Falei talvez de uma maneira imponente demais sobre o meu iate, que, na verdade, não tinha nada de grandioso. O Sara era um velho barco de pesca, de quarenta e cinco toneladas, com dois mastros, no qual, pouco tempo antes, colocáramos um Diesel auxiliar. Tornamos o Sara tão confortável quanto possível; havia um salão no qual duas pessoas podiam dormir, uma cabine, com beliche e um corredor, onde se achava uma outra tarimba. Havia ainda um quarto de banho, uma banheira em que cabia bem quem não tivesse mais de quatro pés de altura, uma cozinha onde cabiam duas pessoas, um refrigerador, um rádio e alojamento para a tripulação. A tripulação era constituída por Pino, um marinheiro de Capri, um amigo seu chamado Giuseppe, da mesma ilha, e um rapazola francês, moço de bordo e antigo jardineiro, mas que fora despedido porque nunca fazia coisa alguma. Ele também não fazia nada no Sara, mas era educado, cortês e engraçado. Não sei se o leitor notou que a maioria da gente a que me referi era italiana. Conta-se que existem duzentos e cinquenta mil entre Ventimiglia, na fronteira italiana, e Marselha. Os franceses não gostam deles e não toleram sua presença. Mas são melhores trabalhadores que os franceses. O povo que lhes dá emprego atesta que são leais, inteligentes e industriosos. Eles pro curavam a França porque o trabalho era mais difícil de encontrar e pessimamente remunerado na Itália. Uma coisa os estados totalitários nunca fizeram, apesar de todas as suas atraentes promessas: aumentar o bem estar do trabalhador.

 

Quando partimos estava um dia encantador, com bem pouco vento e um sol radiante, de modo que, logo que saímos do porto vesti minha roupa de banho e fui tomar banho de sol. Gozava aquela tranquilidade depois de alguns dias de aza fama. Eu não sabia o quê aconteceria à minha casa. Não tinha medo que os italianos conseguissem êxito irrompendo através das fortificações francesas; elas eram muito fortes, e, no nosso trajeto até Villefranche, aquela manhã, passáramos por vários caminhões carregados de soldados que subiam para reforçar as guarnições. Todos sabiam que o Exército Francês era invencível, e Jean, meu chofer, afirmava que estariam em Roma dentro de seis semanas. Eu presumia que os franceses contariam com muitas tropas quando se completasse a mobilização e parecia-me bem possível que requisitassem minha casa. Era uma perspectiva que me deixava um tanto apreensivo, pois sabia, por experiência da última guerra, que quando militares, oficiais ou soldados, ocupam uma casa, o resultado é uma boa dose de prejuízos. Eles não se contentam em levar tudo o que lhes agrada, mas sempre estão prontos para brincadeiras de mau gosto. Uma das suas diversões favoritas é disparar revólveres para atingir personagens ou alvos nos quadros. Uma pessoa das minhas relações, que tinha a sessenta milhas de Paris um castelo que foi destruído na última guerra, quando o reconstruiu, colocou na entrada uma placa com a seguinte inscrição: “Este castelo foi bombardeado pelos ale mães, saqueado pelos franceses e incendiado pelos ingleses”. Mas, eu não estava, propenso a pensamentos tristes, e, assim que saímos mar a fora me joguei na água defronte de Nice para dar uns mergulhos e nadar um pouco. Não estávamos apressados, pois não pretendíamos ir naquele dia alem de St. Maxime, onde tinha amigos com es quais, se os encontrasse, esperava jantar.

O vento refrescou a medida que o dia avançava e assim nos foi possível viajar. Eu lia, dormia e fumava. Havia uma sensação de excitamento produzida pela noção de estar saindo da zona de perigo e de levar o iate a uma enseada a coberto de qualquer surpresa. A bandeira de listas e estrelas tremulava na popa, o que era uma garantia. Chegamos a Ste. Maxi me quase à noite e jogamos ferros bem defronte da casa do meu amigo. Saltamos para o batelão e fomos remando para o local de desembarque. O Sara trazia a bandeira americana porque pertencia a Gerald, cidadão americano. O amigo que pretendíamos visitar era proprietário e diretor de um jornal semanal de grande circulação e contávamos por isso obter notícias de boa fonte e fresquinhas da crise. Por pouco não o encontrávamos, pois ele e a esposa estavam de partida para Paris, de automóvel. Mas, com a nossa chegada resolveram dar-nos jantar e adiar a partida para a manhã seguinte.

Meu amigo, a quem chamarei Bouche, era um corso, homem de cabeça calva, gordo, redondo, rosto raspado no qual belos olhos negros brilhavam inteligentemente, possuidor de um riso largo, alegre e muito frequente. Nunca fez outro exercício senão dar tiros com seu revólver numa garrafa boiando na água, e por isso tinha um corpanzil flácido. Fôra deputado, mas sua eleição lhe custou tanto — três milhões de francos, mais ou menos uns cem mil dólares — que quando vieram as eleições seguintes ele desistiu. Fizeram uma tentativa para tirar-lhe a cadeira por meio do suborno e da corrupção, mas com a mesma sagacidade e humor com que enfrentou as acusações articuladas contra ele, conseguiu fazer a Câmara reconhecer seu mandato. Com o dinheiro da mulher que era rica, começou o jornal que em pouco tempo passou a constituir um sucesso. Era um jornalista sem escrúpulos, mas brilhante. As secções artísticas e literárias eram muito bem feitas. Publicava excelentes traduções de minhas novelas e meus contos. Mas seu sucesso não era devido a isto. Senão aos seus destemperados ataques pessoais contra os Maçons, Judeus, Comunistas, Socialistas e Radicais. Tinha uma violência caracteristicamente cor sa; nunca perdoava um inimigo, mas por outro lado era um amigo leal e dedicado. Há vinte anos que o conhecia intimamente e não tenho ideia de o ter visto vacilar quando eu precisava do seu auxílio para mim ou para alguém mais. Era generoso, e, se eu alguma vez tivesse necessidade de dinheiro tenho absoluta certeza que colocaria à minha disposição qualquer soma. Sua hospitalidade era pródiga. Possuía uma impudência cínica que eu não podia senão achar fascinante. Na época das sanções adotou uma política violentamente pró-Itália; seus inimigos diziam que ele estava recebendo grandes somas do governo italiano mas agora tenho poucas dúvidas sobre a veracidade de tal acusação. No momento hesitara em acreditar porque seu jornal estava ganhando tanto dinheiro que eu pensava não precisasse de mais. Apesar de saber agora que estava errado, ainda me sinto inclinado a pensar que ele aceitou as subvenções italianas (e provavelmente insistiu para que estas fossem bem polpudas) para apoiar uma política em que ele, honestamente, acreditava. Parecer-lhe-ia de certo natural ser muito bem pago por uma coisa que ele faria de graça. No decorrer da campanha atacou a Inglaterra ferozmente, tão ferozmente que meu governo pensou em endereçar um protesto ao governo da França. Ocorreu-lhe (e com muita razão) que eu poderia ficar ofendido com tão desabridos ataques e mandou-me uma carta para que eu não me preocupasse mui to com o caso, pois se tratava apenas de política e logo que as coisas retomassem a calma rotineira escreveria um outro artigo dizendo que a Grã Bretanha era mesmo grande e que os ingleses eram os melhores companheiros do mundo. Em certa fase, um ministro do governo foi forçado a suicidar-se por causa dos seus ataques. Isto deu lugar a uma certa reação por parte do publico e houve uma revolta geral contra a conduta do meu amigo. Mas aceitou o caso e suas consequências como uma questão toda pessoal e com o máximo de frieza.

— Suicidar-se não faz parte do jogo político — disse-me ele com o seu riso largo e contagioso. Significa uma injusta vantagem numa controvérsia política.

— O caso não afetou a circulação do jornal? perguntei.

— Apenas por uma semana ou duas — respondeu-me, levantando os ombros. Depois, piscando os olhos: — Vou começar uma serie de artigos de primeira classe na próxima se mana e as coisas voltarão ao normal com toda a facilidade.

Era um gangster que tinha um código de honra de gângsteres e a coragem dos gângsteres. Na última guerra fôra aviador. Quando estava na Câmara dos Deputados bateu-se num duelo, e, sendo exímio atirador, feriu o adversário no braço, como anunciara previamente. Divertia-se muito às custas dos seus companheiros da Câmara, que desde o caso do duelo passaram a dispensar-lhe uma deferência tímida. Nas complicações de 6 de fevereiro de 1934, o Ministro do Interior ordenou a sua prisão, mas o meu amigo deu-lhe um telefonema dizendo onde podia ser encontrado e acrescentando que tinha doze dos seus amigos corsos consigo, todos bem armados, e que não se entregaria sem resistência Ninguém apareceu para prendê-lo. Devo acrescentar, para completar a minha descrição de tão estranho personagem, que se tratava de um católico praticante, muito devoto, um pai afetuoso e inteligente, um marido respeitador e um filho obediente. Identificou-se de tal maneira com o seu desprezível jornal que o sucesso do mesmo constituía também um triunfo pessoal; seu único objetivo era andar para frente e para conseguir isto estava disposto a não se deter em coisa alguma. Gostava do poder que o seu jornal lhe dava e sentia um malicioso prazer com as lisonjas que lhe faziam, sabendo perfeitamente que toda aquela gente, nas suas costas, não tinha uma só palavra boa sobre a sua pessoa. Sentia prazer em ir a certas casas onde sabia que era recebido apenas porque era temido, e desprezava sempre os bajuladores que o cortejavam. Tinha muita presença de espírito, era muito irônico e um admirável contador de anedotas alegres e livres. Penso que viverei ainda o suficiente para vê-lo, defronte de uma parede de prisão, numa manhã fria, ser morto por um pelotão de fuzilamento. Pergunto a mim mesmo se o atenderia caso ele apelasse para mim nesse momento. Estou convencido de que se eu estivesse numa situação similar ele movimentaria o céu e a terra para salvar-me.

Passando um olhar retrospectivo e lembrando-me de Freud, tenho a impressão de que o prazer de Bouche ao ver- me e o adiamento da sua partida quando tinha tudo pronto para iniciar a jornada, foram motivados por uma subconsciente má vontade de voltar a Paris e enfrentar as dificuldades da situação. Enquanto esperávamos pelo jantar tomando cocktails — inovação americana que ele adotara com um grande entusiasmo — disse-me que considerava a guerra como uma coisa inevitável e já tomara todas as providências numa cidade provinciana para imprimir o seu jornal longe do bombardeio de Paris, que ele esperava para logo depois do rompimento das hostilidades. A ideia da guerra o exasperava e o fato da Grã Bretanha e da França entrarem no conflito por causa da Polônia, parecia-lhe grotesco -

— Por que vamos nos incomodar por causa da Polônia? perguntou-me. — Os poloneses sempre foram um povo sem valor e os russos os teriam esmagado há anos se os franceses não tivessem tido a ideia idiota de mandar Weygand para os tirar do embrulho em que se haviam metido.

Lembrei-me que nós tínhamos assumido o compromisso de ajudá-los.

— Que é um compromisso? — perguntou. É um acordo no qual as duas partes apõem as suas assinaturas para afirmar que, no momento da assinatura, é do seu mutuo interesse, em igualdade de condições, aceitar certas clausulas. Mas, quando as condições se modificam e não mais interessa às partes aderir a tais clausulas, cessa a validade do compromisso.

Esta é a maneira pela qual os homens fazem negócios e não há razão para que os Estados se conduzam de maneira diferente.

O jantar foi anunciado e bebemos champagne rosé, que está para o champagne comum como uma pêra para um abricot. Partimos cedo, pois o vento estava refrescando. Passamos a noite no pequeno porto de Ste. Maxime e na madrugada levantamos ferro e continuamos a nossa jornada.

 

O céu estava sem nuvens, mas soprava uma brisa forte e a pequena embarcação dava corcovos como um poldro à primeira vez que se coloca uma rédea na sua boca. Não podíamos ir costeando porque a passagem entre o continente e as ilhas que ficam defronte de Hyères já estava minada e proibida à navegação. Seguimos para mar aberto aos sopros do vento que foi aumentando pelo dia afora à medida que a maré subia. Via de regra o “mistral” morre com o sol, mas naquele dia continuava a soprar com violência sempre crescente. Caiu a noite. As luzes nas ilhas estavam apagadas e tínhamos que nos orientar pelos instrumentos. A intervalos eu saía para fumar e conversar um pouco no deque com Pino que estava no leme.

Pino mediava entre trinta e cinco e quarenta anos, era um homem de estatura baixa mas muito forte, com o rosto chato cheio de rugas, uma boca larga e olhos penetrantes que piscavam sempre. Era um excelente marinheiro, que, viajando desde menino no Mediterrâneo conhecia-lhe todos os segredos e traições. Homem de poucas palavras, mas de uma maravilhosa eloquência de gestos, com um balançar de cabeça, um dar de ombros, uma volta de cotovelo, um ondulado de mão podia conduzir uma conversa, lúcida, sensível, humorística, tão clara e tão viva como as que a maioria dos homens expressa em palavras. Perguntei-lhe o que tencionava fazer se a Itália entrasse na guerra.

— Nada — respondeu silenciosamente.

— Mas, se isto se der, você será internado.

— Que tem isto? — perguntou com um gesto. E falando: — Eu acho que é melhor ser internado na França do que lutar na Itália.

— Não quer lutar?

— Quem gosta de lutar? Não serão os italianos

— Você não gosta muito dos alemães, não é? — perguntei.

— Porcos — respondeu.

A madrugada não abrandou o vento. Mesmo o comandante de um grande transatlântico que nunca reconhece tratar-se de mais de meio temporal quando o seu navio balança como um pedaço de cortiça concordaria que estava fazendo mau tempo; as águas verdes do mar lavavam o tombadilho, e, lá embaixo, todos os móveis estavam dançando. Era preciso agarrar a xícara de café com uma mão enquanto se tentava passar manteiga no pão com a outra. Mas o Sara era um barco de altomar e enfrentava valentemente as ondas; estávamos seguros, mas não se podia dizer que tivéssemos conforto. Por isso resolvemos procurar um abrigo. Examinando as cartas de navegação, descobrimos o que parecia ser uma pequena baia a sotavento e achamos que era melhor rumar para lá. Modificamos nosso curso e, com o vento pela popa, navegamos mais ligeiro. Viajamos três ou quatro horas mais naquele mar encapelado e depois, contornando uma saliência rochosa, encontramo-nos em águas tão paradas como as de um lago. A enseada era cercada por verdes colinas; no topo de um deles ha via uma fortaleza. Entre os pinheiros que desciam pelas encostas até ás conchinhas da praia escondiam-se casinholas baixas. Depois de fazermos a barba e tomarmos um banho, desembarcamos e compramos pão e jornais numa venda. Encontramos um pescador que acabara de fisgar um belo peixe que logo compramos. Era difícil encontrar lugar mais belo e mais isolado. Estávamos tentados a passar o dia ali dormindo, pois nenhum de nós tinha podido conciliar o sono na noite anterior, tomando banho de mar, jogando paciência e lendo.

Nossas refeições tinham sido bem precárias enquanto lutava mos com o mau tempo e era magnífico ter-se um grande pra to de spaghetti para almoçar e um peixe fresco para o jantar.

Ficamos lá dois dias. Parecia um lugar infinitamente re moto. Era um lugar ideal para dois amantes que desejassem ocultar ao mundo o seu amor. Ninguém pensaria em pro curá-los ali. Paz. Eu nunca conheci um lugar em que a paz parecesse tanto fazer parte da atmosfera. O ar era leve e quente, o mar tranquilo e límpido, a noite serena e estrelada. Não se escutava ali nenhum barulho; as únicas pessoas que vimos, além de dois ou três pescadores, foram uns russos que viviam numa choupana de pescadores. À noite o silêncio e tão intenso que, não fossem os incansáveis holofotes do forte nos julgaríamos sozinhos no mundo imaterial do pensamento abstrato.

Mas não nos podíamos demorar. Devíamos passar por Toulon, e se antes disso a guerra fosse declarada, era bem possível que tivéssemos de voltar; assim, muito cedo, na terceira manhã, partimos. Ainda havia mar grosso e tivemos que lutar um bom par de horas para vencer o vento e conseguirmos passar pelo banco de areia que um redemoinho denunciava. Chegamos à vista de Toulon conservando-nos bem afastados da costa com medo das minas. Uma lancha saiu às pressas para nos observar, mas a bandeira americana que tremulava soprada pela brisa eliminou de certo todas as suspeitas, pois a lancha mudou de rumo sem mesmo nos saudar. É preciso ter-se um temperamento especial para gostar de ser sacudido, horas a fio, numa embarcação. Eu não possuo tal tempera mento. Não sabíamos com exatidão, para onde nos dirigíamos. Sabíamos apenas que as enseadas que buscávamos ficavam além de Cassis, e os mapas mostravam vários lugares ao longo da costa, no nosso caminho que também pareciam oferecer ancoradouro seguro. Podíamos ver com os binóculos peque nos portos na praia que pareciam alegres e acolhedores cá do mar, e o Mediterranean Pilot — utilíssimo livro publicado pelo Almirantado Britânico, que é indispensável a todas as pessoas que não têm o bom senso de permanecer em terra firme — declarava que Bandol tinha um bom porto. Não encontrei motivos que nos impedissem de ir para lá e quando chegamos à altura de J3andol propus que rumássemos para terra. Meu companheiro e Pino deram-me a compreender que para homens do mar como eles a coisa mais agradável era vagar num mar tempestuoso e repetiam que o bom e velho barco podia suportar coisa muito pior do que aquilo! não havia ele atravessado já duas vezes o Atlântico? Se isto é verdade, devia ter sido uma viagem infernal, mas embora eu mesmo sempre afirmasse tal coisa nunca lhe dei inteiro credito. Finalmente aceitaram minha sugestão com mais alegria do que eu podia esperar. Duas horas depois entravamos no porto, protegidos de um lado por umas colinas baixas e do outro por uma ponta de terra na qual tinha sido construído um forte quebra-mar defronte do cais. Lá encontramos ancorados muitos iates, navios e lanchas, de forma que tivemos dificuldade em achar um lugar vago onde pudéssemos amarrar o Sara.

 

Eu nunca tinha estado em Bandol. É uma praia de banhos, mas não um lugar chique como Cannes ou Antibes, nem alegre como St. Tropez, onde as jovens artistas, (e também as que. não são jovens), inglesas e americanas, vão no verão, vestir-se com cores alegres, usar chapéus enormes e ficar sentadas horas inteiras nos clubes noturnos mal ventilados, com a inofensiva ilusão de estarem fazendo vida boêmia. Bandol não é chique nem artística; parece-me que a única pessoa de destaque que já veraneou lá foi Mistinguette, cujas pernas — disse-me com orgulho o barbeiro — estavam seguradas em um milhão de francos. Mas era um lugarzinho muito bonito. Os iates superlotados, grandes e pequenos, davam ao porto um aspecto agradável e movimentado. Sob as árvores da esplanada, os habitantes costumavam passear à noite. Havia um quarteirão de lojas defronte do porto e cafés onde as pessoas se sentavam ao ar livre para beber.

Ali outra vez nos instalamos para esperar os aconteci mentos. Antes de partirmos da Inglaterra eu havia falado a uma ou duas pessoas influentes sobre a possibilidade de me tornar útil se a guerra estourasse. Durante a última guerra estive no Inteiligence Service até que uma tuberculose que contraíra na Suíça se agravou de tal modo pela carência de ali mentos na Rússia, que, não prestando mais para coisa alguma, tive que me recolher a um sanatório no Norte da Escócia.

Granjeara assim uma boa dose de experiência e esperava ago ra fazer dela o melhor uso possível. Minha segunda providência fôra entrar em contato com o Ministério de Informações. Resolvi viajar para a Inglaterra logo que me fosse possível. No momento todos os três estavam sendo utilizados no transporte de tropas e os serviços ordinários estavam suspensos.

Os dias se passavam. Eu me levantava cedo pela manhã e ia ao cáis, atravessando a esplanada, para comprar os jornais que acabavam de chegar de Marselha. Já, o moço de bordo, trazia pão fresco do padeiro para o meu café com leite; depois de fumar meu cachimbo, barbeava-me, tomava banho e ia até o mercado. Tínhamos resolvido poupar nossos alimentos enlatados para o caso de haver falta de viveres e assim comprávamos todas as provisões frescas que podíamos. O mercado muito movimentado e barulhento, ficava numa praça sombreada de plátanos e os raios de sol que se filtravam através das folhas traçavam no chão lindos desenhos de luz. As mulheres dos granjeiros ficavam atrás dos mostradores onde empilhavam às vegetais, as frutas, as flores e os queijos que traziam todas as manhãs. A exposição de frutas — uvas, pêssegos, melões, figos, ameixas, abricots, peras — constituía um espetáculo tão alegre e rico que dava prazer ao olhar. Como os veranistas quase todos já tinham ido embora, os preços caíram rapidamente, mas mesmo assim ainda era preciso chegar cedo se quiséssemos ser bem servidos; e precisávamos também ser sabidos, pois a mulher do granjeiro com seu sorriso amistoso e seu rosto onde transparecia a honestidade tiraria toda a vantagem possível da sua experiência. Mas a minha também era bem grande. Quando uma daquelas mulheres me garantia que nunca venderia a um inglês e aliado — e portanto com os melhores títulos — um queijo cuja integridade não pudesse garantir sob palavra de honra, e eu depois descobria que estava mofado; quando uma outra me vendia um melão duro co mo uma pedra depois de jurar pela cabeça de sua mãe que eu voltaria no dia seguinte para dizer-lhe que nunca tinha comido um melão tão bom na vida — minha fé na natureza humana

ficava seriamente abalada. Mas aprendi muito. Meu pior engano foi no espinafre. Éramos cinco pessoas para comer e eu comprei tamanha quantidade que quase enchi a bolsa que levava; fiquei mortificado, porém, ao ver que depois de cozido aquilo tudo murchou ficando uma quantidade quase insuficiente para duas pessoas. De ovos frescos havia grande falta. Era preciso comprar dois aqui, três mais adiante. Depois ha via o problema da carne. Havia apenas um açougue que ficava tão cheio que tínhamos de esperar a vez de sermos atendidos. A carne de boi que aparecia era reservada para os militares, que não comiam outra, mas havia fartura de carneiro e porco. Pino não comia carneiro, que ele chamava de refugo, e quando eu comprava carneiro, porque não encontrara outra coisa, ficava com um ar de mártir e dizia que pão com queijo era o suficiente para gente como ele. Eu comprava galinhas com medo, pois nunca podia dizer se depois de morta a depenada criatura era nova e tenra ou velha e dura. Tentava fingir que sabia o que estava fazendo apertando o peito da galinha com os dedos, mas a pele fria e viscosa me causava arrepios.

A hora em que terminava minhas compras no mercado chegava o trem que trazia os jornais ingleses de quatro ou cinco dias passados, mas que eu lia com ansiedade. A Grã Bretanha estava se aprontando para lutar. Ao meio dia a estação de Marselha dava as últimas notícias. As coisas estavam ficando negras, mas os alemães ainda não tinham iniciado a marcha; ainda havia esperança. Depois era a hora do cocktail. O refrigerador do Sara nunca trabalhou bem e estaríamos rogando pragas se não houvesse em Badol um geleiro que trazia todas as manhãs uma grande barra de gelo. Seguia-se o al moço no deque debaixo do toldo, e um cochilo. Quando eu despertava arriava o bote e remava até à boca do porto para to mar um banho em água limpa. Mais tarde tomava chá e vagava pelas ruas apreciando os homens a jogar “boule”. É uma espécie de “pelota”, passatempo favorito dos franceses. Assisti dez ou doze partidas disputadas na esplanada; os joga dores mais consagrados eram sempre cercados por um grupo de espectadores. As apostas consistiam numa rodada de drinques. Jogavam com grande atenção, dando-se conselhos uns aos outros. Ninguém diria que o país estava à beira de um terrível desastre, quando alguém aparecia com um jornal, cor riam logo todos para o quiosque a fim de obter a folha da noite antes que acabasse. As notícias de rádio vinham às sete horas. Depois era de novo hora do cocktail e o jantar. O jantar no deque, numa noite tranquila, era delicioso. Nas embarcações que estavam atracadas aos lados do Sara o pessoal jantava também e o facho de luz que vinha do lampião destacava da escuridão encantadora cenas intimas. O iate que estava mais próximo de nós era um pouco menor que o Sara. Seus proprietários se achavam em Paris e o marinheiro trouxera consigo a esposa e o filho. A família formava um grupo doméstico quando se sentavam no deque para tomar suas frugais refeições. Depois do jantar eu jogava paciência; em seguida punha-me a ler na cama uma história de detetive que acabava antes de dormir.

Estávamos em Bandol havia quase uma semana quando Gerald, que tinha ido a terra por qualquer motivo voltou para bordo dizendo que os alemães tinham invadido a Polônia. Eu estava tomando banho de sol no deque quando ele leu o “Daily Telegraph”.

— Está bem, disse eu.

— Não, está mal — respondeu ele — Significa a guerra.

— Eu sei.

Era um alivio, depois daqueles ansiosos dias de espera, ver o assunto resolvido. Naturalmente eu sabia que a guerra seria terrível. Sabia que as cidades seriam bombardeadas, que muitos homens seriam mortos, que os países que entrassem na luta ficariam arruinados. Mas eu tinha fé no Exército Francês e na Esquadra Britânica. Achava que os aliados venceriam, e que, de qualquer forma, não poderiam ser derrotados.

Fui ao correio telegrafar à pessoa de quem falei acima a fim de lembrar-lhe que estava pronto para fazer qualquer coisa, mesmo modesta, que me fosse designada. Disseram-me que os telegramas tinham que ser censurados pelo prefeito e que de qualquer maneira as mensagens particulares estavam sujeitas a uma demora não especificada.

 

A declaração de guerra trouxe várias pequenas modificações na nossa vida a bordo. Foi ordenado um “black-out” e tivemos que pintar de azul escuro as vigias. Se uma pequena réstia de luz aparecia no nosso iate éramos severamente admoestados pelos guardas do cais que gritavam para que as encobríssemos. Não podíamos mais jantar no deque; tínhamos que comer em baixo, com as vigias e as portas cuidadosamente fechadas. Giuseppe, o segundo marinheiro, ficou nervosíssimo e insistiu que ia voltar para a Itália. Alguns dias depois o moço de bordo apresentou-me uma carta de sua mãe intimando-o a voltar para casa imediatamente. Isto nos deixava sós com o imperturbável Pino, de forma que tínhamos que trabalhar bastante. Gerald que é um bom cozinheiro encarregou-se da alimentação, eu fazia as camas, varria e fazia arrumações, enquanto Pino cuidava do deque, do motor e lavava o que era necessário. Os jornais ingleses deixaram de vir e quando eu vol tava das compras no mercado, ao invés de lê-los, debulhava vagens ou descascava batatas. A burocracia estava em grande azafama e emitia ordens regulando a posição dos estrangeiros. Tínhamos que tirar fotografias e encher fórmulas que eram assinadas pelo prefeito. Estávamos proibidos de deixar o Departamento do Var e só podíamos ir a Toulon ou Marselha munidos de um salvo-conduto, que levava no mínimo três dias para se tirar. O cassino foi transformado em hospital. Os homens iam partindo todos os dias. O marinheiro do barco vizinho do nosso despachou a esposa e o filhinho e seguiu para Toulon para embarcar num destróier. Havia a um rapaz magro na barbearia. Os bares e os cafés perderam seus empregados e dentro em pouco não havia senão mulheres, meninos e velhos em Bandol. Os rapazes e os velhos continuavam a jogar boule. Nada tão triste como uma praia de veraneio de pois que acaba a estação. Bandol, que a princípio me parecera um lugarzinho alegre e agradável assumia agora um aspecto melancólico. Mas aquela melancolia não era apenas a normal do inverno; havia nela alguma coisa peculiar e estranhamente deprimente; era como se um vento de morte houvesse passado sobre a cidade deixando medrosos e atônitos os poucos que ficaram vivos.

O povo do Midi gosta muito de contar vantagens; todas as pessoas que se encontrava só falavam nas derrotas que estavam sendo impostas ao Eixo, mas os rapazes estavam satisfeitos porque eram jovens demais para lutar e os velhos diziam que já bastava o que tinham lutado na última guerra. Percebia-se resignação mas muito pouco entusiasmo. Em geral estavam todos irritados com os poloneses porque não apresentavam resistência maior.

 

Um dia fui procurado por um jovem inglês vindo de Sanary, que não fica muito distante de Bandol e onde se haviam estabelecido pintores e escritores. Lion Feuchtwanger vivia lá, e, em certa época, também Aldous Huxley. O jovem apresentou-se e disse que tinha vindo pedir-me um conselho sobre o que devia fazer. Já morava em Sanary havia alguns anos.

— É dificílimo chegar à Inglaterra agora — disse ele os trens estão superlotados.

Havia apenas um trem de passageiros por dia para Paris, e existiam verdadeiros oceanos de gente que se agitavam em to das as estações e se encapelavam quando o trem entrava na gare. O povo se comprimia de tal forma nos carros que ninguém podia mover-se. Ia gente sentada no chão e entupindo os corredores. Ouvi casos de viajantes que esperaram três dias numa estação para conseguir entrar no trem. A jornada, que normalmente levava quatorze horas durava quase trinta, e muitos passageiros tinham de fazer todo o trajeto de pé. Os carros restaurantes tinham sido suspensos; se alguém quisesse alimentar-se tinha que levar comida consigo. Havia uma pres sa nervosa de sair, embora não existisse razão para isto, pois era inconcebível que os italianos pudessem irromper repentinamente sem haver sequer declarado guerra; mas todos estavam tomados pelo pânico de voltar para suas casas.

— Não sei o que iria fazer se voltasse para a Inglaterra — disse-me o jovem.

Eu bem percebia a razão daquela visita: o rapaz queria que eu lhe dissesse que o melhor que tinha a fazer era ficar tranquilamente onde estava. Ele era de idade militar. Mas sempre me pareceu que quem está fora dessa idade não se encontra numa posição muito confortável para dizer a outro que vá e que lute.

— Não estou certo de que o Senhor achará muito agradável ficar aqui. Como vê, todos os homens validos estão mobiliza dos neste país. Suponho que ninguém o verá com bons olhos.

— Alguns já se mostraram bem indelicados comigo No café aonde geralmente vou todos me olham hostilmente, mas isso não me importa. A única coisa que me preocupa é saber se poderei ganhar algum dinheiro.

Ocorreu-me que ele me procurava para pedir dinheiro emprestado, mas fiz-lhe uma injustiça.

— Como sabe, é muito provável que esta guerra demore muito. Por certo não gostará de ficar quatro ou cinco anos em Sanary, não é?.

— Tanto faz. Já me acostumei com o lugar. Prefiro isso a lutar. Se eu for para a Inglaterra, o Senhor acha que serei incorporado ao Exército?

— Não sei. Não suponho que façam isto logo Que ida de tem?

— Se eu tivesse a certeza de conseguir uma colocação no Ministério de Informações ou coisa parecida, não me importaria de voltar Mas não vou combater Nada me induzira a lutar. Sou um covarde.

Nunca tinha ouvido alguém dizer tal coisa. Aquilo me chocou sobremodo e eu não sabia o que dizer.

— Não quero ser um covarde. Mas sou. Nada posso fazer. O rapaz possuía belos olhos que tinham agora uma singular expressão que eu não podia apreender. Sentia que de via dizer alguma coisa.

— Neste caso, penso que não será muito útil como soldado.

— Eu não seria de nenhuma utilidade.

Parecia-me que nada mais havia a dizer.

— Que tal um Martini seco? perguntei.

— Isso não se recusa — respondeu com seu sorriso atraente.

Voltou alguns dias depois. Parecia que os exilados alemães que viviam em Riviera haviam sido internados. Todos os que moravam nas cercanias foram levados para Toulon e albergados numa garage vazia, onde tinham que dormir no chão; havia uma deficiência de água, a alimentação era es cassa, e, embora de inicio tivessem permissão para receber alimentos de fora, este privilégio foi logo suspenso; não podiam escrever nem receber cartas e recebiam visitas durante alguns minutos sob vigilância de um guarda. Estavam encurralados como gado e ainda tinham que suportar a má vontade dos homens encarregados de guardá-los. Meu visitante estava pro fundamente indignado pelo tratamento dispensado a pessoas que haviam fugido dos seus países para escapar aos campos de concentração nazistas, mas eu não podia me associar à sua indignação. Era sabido que existiam agentes nazistas entre os refugiados e constituía uma impudência deixar aqueles homens em liberdade com a simples garantia da sua palavra. Era lastimável que sofressem tal desconforto, mas seu internamento teve que ser efetuado às pressas e as autoridades se viram obrigadas a colocá-los no único lugar disponível no mo mento. Era certo, entretanto que não estavam sujeitos a maus tratos. Aquela gente encontrara segurança na França e desfrutara da hospitalidade da Nação; parecia-me agora que era a sua vez de demonstrar gratidão aceitando com equanimidade a desgraça que caíra sobre todos. O momento era critico e eu não achava que houvesse razão para ressentimentos em relação aos franceses, se, para a segurança do Estado era preciso tratá-los como possíveis inimigos. A chuva, nós o sabemos, cai sobre os justo e injustos igualmente.

Tais reflexões, porém, eram demasiado sutis para impressionar meu amigo, como os seus sentimentos humanitários estavam ofendidos, atacou com veemência a estupidez, a arbitrariedade e a brutalidade dos franceses. Entre os presos estava Lion Feuchtwanger, autor de “O Judeus Süss”. Meu jovem amigo trazia uma carta de sua esposa perguntando se eu podia fazer alguma coisa para que ele fosse solto. Feucht wanger era um homem de mais de cinquenta anos e inimigo tão violento dos nazistas, que lhe foi cancelada a nacionalidade alemã. Parecia absurdo prendê-lo. Acontecia que eu mantinha ligeiras relações com Jean Giraudoux, um dos mais destacados escritores da França, que era também funcionário do Qua D’Orsay, achando-se no momento na chefia do Bureau de Informações, em Paris. Mandei-lhe um 1ongo telegrama e logo depois uma carta na qual eu expunha o caso de Feucht wanger e frisava o perigo de estar perseguindo refugiados alemães que, depois da guerra, voltariam à sua pátria, onde, com certeza, teriam grande influência na opinião publica. Não sei se minha intervenção teve algum efeito, mas pouco depois soube que Feuchtwanger estava solto.

As semanas se arrastavam. O tempo mudara. Os banhos de mar deixaram de ser um prazer para se tornar apenas um exercício espiritual. Ao invés de remar até à barra do porto eu me contentava com mergulhar no deque do “Sara” e com umas rápidas braçadas dentro d’água. Bandol tinha o ar per plexo e odiento de uma atriz que se sente abandonada pelo público. O “bartender” do bar onde eu costumava tomar um drinque de quando em vez, veio a bordo uma noite para se despedir pois ia partir naquela madrugada.

— Está satisfeito por ir? perguntei-lhe.

— Pelo menos não estou aborrecido. Os negócios vão mal e eu não irei lutar. Tenho trinta e seis anos e com toda certeza conseguirei um trabalho fácil onde nada tenha a fazer.

Um dia era inteiramente igual ao outro. A vida se tornava intolerável. Resolvemos voltar para casa. Descobrimos, porém, que segundo os novos regulamentos em vigor, precisaríamos de semanas para obter as necessárias licenças a fim de deixar Bandol, passar pela zona militar vigilantemente guardada de Toulon e ir de um departamento para outro. Havia policias na estação de Bandol que examinavam os papéis antes da partida dos passageiros em Toulon e em Nice a polícia entrava no trem e se os papéis não estivessem em ordem, a pessoa era logo levada para o posto policial. Parecia-nos que nada havia a fazer; mas, pensando melhor, resolvemos ir, pois não podíamos mais suportar a vida ali. Decidimos-nos, pois, a correr o risco. Diz uma velha história que, frustrado o plano de um prisioneiro que passara anos cavando um túnel para fugir, o homem tentou forçar a porta do seu cubículo, torceu a maçaneta, a porta se abriu e ele saiu para a rua Foi isto, mais ou menos, o que nos aconteceu. Deixando o iate sob a guarda de um marinheiro do lugar tomamos um táxi barulhento e dissemos ao chofer que queríamos ir para Cap Ferrat. À saída de Bandol havia uma guarda de reservistas de meia idade com aspecto singular nos seus uniformes mal ajustados, que nos olharam mas não nos detiveram; seguimos de automóvel para Toulon e nem na entrada nem na saída a guarda tomou conhecimento da nossa presença; passamos sem obstáculos e sem empecilhos de um departamento para outro, o que era estritamente proibido, e chegamos em casa com a noite. Apesar de todos os severos regulamentos a coisa foi fácil assim.

 

Como as duas empregadas que eu deixara em casa não tivessem sido avisadas da nossa volta, não encontramos ninguém à chegada. No “living room” não havia flores; seu aspecto era desanimador e tristemente hostil. É estranho — como uma casa pode rapidamente perder suas características de hospitalidade; os móveis, os quadros, os próprios livros já tinham um ar de coisas sem dono, como se esperassem com indiferença serem distribuídas pelo martelo do leiloeiro. Enquanto a cozinheira providenciava uma refeição ligeira, fui passar os olhos por uma pilha de cartas, revistas e livros chegados durante a minha ausência. Entre as cartas encontrei uma do Ministério das Informações dizendo que meu nome tinha sido sugerido ao Ministro, que foi de opinião que meus serviços seriam úteis, do modo que me pedia para ficar à disposição do Ministério e não aceitar qualquer outro trabalho sem lhe dar noticia. Isto me levantou o moral, pois parecia que finalmente eu ia ter alguma coisa para fazer. Prossegui na leitura da correspondência, repentinamente houve um reboliço na sala e Erda saltou para meu colo. Suponho que ela estava fora, ocupada em negócios particulares, e que só então descobrira que eu havia voltado.

Em redor da casa existiam vários cães nunca menos de quatro, mas quando uma nova ninhada aparecia e até que os cachorrinhos crescessem a ponto de poderem ser dados, muitas vezes chegavam a ser dez. Esta série tivera início há alguns anos com uma elegante jovem trigueira chamada Elsa, segundo a provocante heroína de Lohengrin e todos os seus descendentes receberam nomes wagnerianos. Elsa era agora viúva e já devia estar acomodada; mas apesar da sua decadência as chamas da mocidade ainda a abrasavam como infelizmente quase sempre acontece com as fêmeas da espécie humana, quando a idade lhes murcha os encantos. Em certas ocasiões era difícil fazer-lhe ver que havendo produzido tão grande descendência, bem merecia umas férias. Tantos filhos e netos tivera ela que já era uma dificuldade encontrar nomes apropriados e o de Erda foi posto, por não ser possível encontrar-se outro. Erda era preta e cor de canela, muito pequenina, com uma bela cabeça, mas herdara o corpo atarracado do pai que pertencera a um arcediago, e cuja figura, apesar de seu inatacável “pedigree”, adquirira, graças à ligação com a Igreja da Inglaterra, uma solene impassibilidade. Erda fazia parte de uma barrigada de seis. Por motivos conhecidos dela mesma, desde tenra idade me tomara como de exclusiva propriedade sua. Ficava sentidíssima quando eu dedicava qualquer atenção aos outros cachorros e se eu insistia levava alguns dias sem sequer me olhar. Fazia questão de dormir na minha cama, não nos pés como ordinariamente os cachorros bem comportados fazem, mas, para grande inconveniência minha, no meio da cama, e eram baldadas as minhas amigáveis censuras. Estava convencida de que aquele lugar lhe pertencia de direito. Seguia-me como uma sombra. Quando tinha três meses de idade desceu comigo ao banho de mar. Saltei de uma pedra e ela, pensando com certeza que eu me ia afogar, saltou também para salvar-me. Mas tratava-se de um elemento com o qual ela nunca tivera contacto antes e ficou com medo; tentou sair da água, mas a pedra era muito íngreme e ela não pôde subir; quando cheguei a apanhá-la, embora em pânico, lutava com valentia. Tive um pouco de dificuldade para colocá-la em terra firme. Depois disto ela sempre vinha comigo ate metade do caminho, mas quando via qual era minha intenção, parava e latia para mim uma ou duas vezes advertindo-me do perigo e voltando para casa tão ligeiro quanto podia. Seu raciocínio era claro: se este idiota for e se afogar, pelo menos eu não quero assistir tal coisa.

Quando Erda via as malas e os sacos trazidos para baixo e com que eu ia viajar, começava a vagar pela casa tristonha e rabugenta; mas quando eu voltava sua alegria era tumultuosa. Saltava como uma louca pela sala, pulava e deixava-se cair de costas até ficar com o couro vermelho; depois, de repente, voltava-lhe a razão, começava a pensar que eu tinha sido muito mau deixando-a e recomeçava os soluços. Era um espetáculo realmente comovedor e eu me sentia um bruto e um egoísta. Ela nunca amou outra pessoa senão a mim. Em épocas apropriadas proporcionou-se-lhe casamentos com maridos de rara beleza e da mais aristocrática linhagem, mas, invariavelmente, ela fazia frente às investidas com tão violenta hostilidade que mesmo os mais ardentes conquistadores se sentiam desanimados. Acreditar que seus gostos eram vulgares e que ela não teria ficado indiferente aos galanteios de um namorado vira-lata, seria fazer-lhe uma injustiça. Mastins, schnauzers, alsacianos, poodles, fox-terriers, os desprezou a todos, e como a grande filha de Henrique VIII, a Rainha Virgem, levou uma vida celibatária.

 

Cap Ferrat nunca foi tão densamente habitada como a maioria das outras partes da Riviera. Quase tudo aquilo, nu ma certa época, pertenceu a Leopoldo 1, Rei dos Belgas. De pois da morte do monarca a propriedade foi dividida em lotes iguais e eu comprei cerca de doze acres. Uma parte considerável do cabo ainda era agreste como a maior parte da região antes dos ingleses descobrirem que se tratava de um dos melhores climas da Europa. Agora aquilo estava deserto. Quase todas as vilas estavam fechadas e podia-se andar uma hora sem enxergar vivalma. Uma vez encontrei um jovem que conhecia desde menino quando ainda era um apanhador de bolas nas quadras de tênis do Beaulieu Hotel. Chamava-se Nino e levava uma vida precária, realizando pequenas tarefas nos arredores do porto em Viliefranche. Isto não impediu que ele se casasse e tivesse um casal de filhos. Era um jovem magro, pálido e de andar lânguido. Perguntei-lhe o que estava fazendo e ele respondeu que nada, pois não se conseguia trabalho em parte alguma. Fiquei admirado por não estar ainda convocado. Disse-me que fora rejeitado; tomara muitos remédios e comera o menos possível a fim de ficar num estado físico tal que os médicos do exercito o declarassem incapaz para o serviço militar tinha que andar com cuidado, pois poderiam querer examiná-lo outra vez e ele não queria correr tal risco.

— Espero que eles me declarem tuberculoso — disse-me.

— Preferia ser tuberculoso a defender a sua pátria? — perguntei.

— Toda a vida.

— Mesmo seu melhor amigo não poderia chamá-lo de patriota, não é?

— Patriotismo — que pilheria! (Quelle blague!). Patriotismo é para os ricos.

Desde minha partida que se vinha processando uma certa atividade militar no cabo. Numa extremidade da estrada que passava abaixo da minha casa havia agora um pequeno acampamento com uma bateria antiaérea. Canhões escondidos entre as árvores foram colocados nos penhascos. Havia outra bateria no campo de futebol perto da casa do Duque de Connaught, que havia sido cercada com arame farpado. quase defronte havia um interessante café frequentado pelos marinheiros do posto semafórico no alto da minha colina, e pelos soldados de folga. Jogavam “belotte” e dançavam à noite com gramofone. Era o único local na cidade onde havia um pouco de animação e de quando em vez eu ia até lá. Conhecia alguns marinheiros, pois o meu jardim lhes oferecia um atalho para a estrada, e vários soldados, porque eles descobriram que quando havia falta de vinho, uma duas garrafas, via de regra, podiam ser encontradas em minha casa. Não faziam segredo do fato de se sentirem satisfeitos por estarem destacados num lugar onde não havia possibilidade de luta. Os marinheiros eram muito francos.

— No final das contas, esta não é a nossa guerra — diziam eles — é a guerra dos ricos. Nada tem a ver conosco.

Julguei que se tratasse apenas do aborrecimento natural de homens que foram retirados dos seus afazeres normais e não liguei muita atenção a tal opinião. Eu estava errado. Lembro-me que disse alguma coisa sobre os tratados que a França e a Inglaterra haviam assinado com a Polônia, mas minhas observações foram recebidas com pilherias.

— Quem se importa com tratados? Hitler não é tão louco a ponto de dar-lhes importância. Quando não atendem aos seus interesses, os ignora.

O marinheiro que disse isto, entretanto, fê-lo de forma demasiadamente rude para que eu possa traduzir suas palavras com exatidão. Aconteceu que no momento estava presente um sargento que na vida civil era alfaiate.

— Mas há a honra da França que devemos levar em consideração.

O marinheiro respondeu com a, palavra mais porca em uso nas conversações francesas. Os outros riram, O marinhei ro prosseguiu:

— Há apenas uma guerra para a qual estou preparado para lutar, e nesta lutarei de verdade. É a guerra do pobre contra o rico, que virá qualquer dia destes.

 

Enquanto isto eu prosseguia no trabalho que tinha em mão. Como meu coração não pedia que eu escrevesse ficção e esperando a qualquer momento ordem de convocação da Inglaterra, empenhava-me em preparar uma antologia. Era uma tarefa mecânica e pouco interessante, mas que me fazia esquecer a guerra. O campo de golfe, do outro lado de Nice, ainda estava aberto, mas havia soldados acampados lá e parecia-me um tanto indecente ir jogar sob os olhos de homens que estavam em armas constrangidamente; por isso limitei meus exercícios a longas e solitárias caminhadas. Verificando que a carta do Ministério de Informações levara três semanas para chegar até minha casa, sugeri na minha resposta que as instruções deviam ser mandadas pelo telefone ou pelo telégrafo. Nenhum particular tinha permissão para usar o tele fone interurbano mas eu sabia que um órgão governamental podia fazê-lo. Pareceu-me entretanto que este meio de comunicações não era no momento conhecido no Ministério, pois varias semanas se passaram antes que chegasse a resposta da minha carta. Nesta eu era solicitado a escrever uma série de artigos sobre a França em tempo de guerra e sobre o esforço de guerra da França; pediram-me também para fazer as investigações que pudesse sobre a atitude dos franceses para com os seus aliados britânicos. Quanto a este ponto, pelo que eu já conhecia, sabia que não podia dizer muita coisa agradável. Pouco tempo antes Mr. Hore-Belisha, então Secretário da Guerra, tinha pronunciado um discurso no qual se congratulava por ter desembarcado 150 mil soldados britânicos na França sem qualquer contratempo. Os franceses tinham a impressão de que já estavam no continente pelo menos 300 mil ingleses, de sorte que a declaração de Mr. Hore-Belisha os encheu de pesar. Fui solicitado a mandar um relatório sobre o estado de espírito na França; eu podia apenas, naturalmente, falar da região que me era conhecida, mas no meu relatório opinei que o que eu dizia do meu distrito podia ser verdade também para o resto da França. Os franceses estavam desgostosos ainda por outras razões: pensavam que os ingleses não estavam levando a guerra muito a sério e exasperava-os a ideia de que enquanto todos os homens entre vinte e quarenta e cinco anos estavam mobilizados na França, a Inglaterra apenas estava treinando jovens de vinte e poucos anos. A guerra tinha apenas poucas semanas de iniciada, mas já os maldizentes espalhavam que os ingleses estavam dispostos a lutar até o último francês

Não fiz muito gosto na tarefa que foi confiada, pois eu mantinha a esperança de ser solicitado para alguma coisa que não exigisse escrever, mas não tendo jeito a dar comecei a to mar minhas providências. Era impossível tentar escrever os artigos sugeridos sem ter muito mais informações do que eu possuía. Felizmente eu contava com um amigo intimo no Bureau d’Informations em Paris. Telegrafei-lhe pedindo auxílio. Era um homem dinâmico. Logo que recebeu meu tele grama chamou-me ao telefone e disse-me que se eu pudesse ir a Paris ele me forneceria todo o material necessitado. Na manhã seguinte lá estava eu. Costumava hospedar-me no Hotel de France et Choiseul, uma casa muito agradável, mobiliada com móveis antiquíssimos, ainda do Primeiro Império, e do qual eu gostava muito porque tinha a atmosfera de uma novela de Balzac. Mas, mobilizados seus diretores e a maioria do pessoal encontrei-o fechado. Fui então para o Hotel Vendome, que ficava ao lado. Na mesma tarde meu amigo levou-me ao Hotel Continental que havia sido requisitado para o Bureau d’Informations. Aquilo parecia uma coelheira com a imensidão de gente que lá trabalhava. Fui apresentado a vários ex-embaixadores e a professores, muito importantes e ocupados, mas senti-me deslocado naquele ambiente e fiquei admirado de ver ali vários jovens da nobreza que estariam muito melhor na linha de frente. O francês sempre teve um grande e louvável respeito pelas letras; Jean Giraudoux, o chefe do Bureau, que era diplomata além de destacado literato, de via ser um excelente elemento para organizar a censura e disseminar notícias pelas mãos de escritores eminentes. Demonstrou-se, porém, um fracasso. Os franceses gostam de frases bonitas e os intelectuais que foram designados para falar pelo radio prodigalizaram ao povo frases bonitas com fartura; não compreenderam que o momento não era para eles e com as suas sentenças bem equilibradas e frivolidades retóricas conseguiram apenas cacetear o público. Na verdade, o único ora dor eficiente foi o Primeiro Ministro Daladier que dizia as coisas tão clara e sinceramente que conquistou grande admiração no povo da França. Ao seu talento deve ser creditado sua continuação no governo até muito tempo depois de estar cabalmente demonstrado que não era homem para tão importante posto. Um dos defeitos da forma democrática de governo é ser o dom da oratória elemento quase decisivo para a ascensão ao poder de homens cujo caráter não está à altura do cargo que querem exercer. Durante o almoço contou-me meu amigo que o Bureau ia aos, trancos e barrancos. Que toda aquela horda de funcionários vagava sem direção, pois Jean Giraudoux, embora amável, bondoso e inteligente n tinha nenhuma capacidade de organização. Apesar dos esforços emprega dos para substituí-lo, conseguirá desorganizar até então todos os complôs contra ele. Pouca gente sabia o que tinha a fazer e ninguém conseguia obter alguma coisa. O Bureau era um celeiro de intrigas. Ninguém se sentia seguro; pois tinha a certeza de que havia sempre quem quisesse tornar o seu lugar para si mesmo ou para algum amigo. Os elementos mais ativos e eficientes eram logo prejudicados nos seus esforços pelos colegas invejosos. Os pistolões eram soberanos.

No que me diz respeito, entretanto, devo declarar que tudo foi feito para facilitar a minha missão. Meu amigo era dono de uma loquacidade barulhenta e persuasiva e havia prepara do o terreno. Fui apresentado às pessoas que me podiam ser úteis, que quando eu explicava meu objetivo, logo me ofereciam todo o auxilio possível. O general “attaché” ao Bureau telefonou para o general comandante de Nancy e tudo foi acertado para que no dia seguinte eu seguisse para lá de trem especial e para que um oficial se encarregasse de mim e me mostrasse o que eu desejava ver. Meu amigo levou-me depois para um outro departamento no mesmo edifício a fim de marcarmos um encontro com Dautry, o Ministro dos Armamentos, às nove horas da manhã seguinte. Eu me sentia satisfeito por estar finalmente trabalhando e grato por encontrar auxílio tão prestimoso. Talvez não seja falta de modéstia da minha parte acrescentar que tudo me era assim facilitado não somente porque os artigos que me propunha escrever seriam úteis, mas também porque meu nome era bem conhecido na França onde todos liam e gostavam dos meus livros. A posição do escritor na França é muito diferente da do inglês. Na França, ele é respeitado e suas opiniões muito consideradas, enquanto que na Inglaterra ele é olhado com suspeita e pouca importância se dá ao que ele diz. Na Inglaterra guardamos a nossa estima para os políticos e os homens de ação. Temos uma instintiva desconfiança das ideias.

 

Naquela noite, depois de um bom dia de trabalho, jantei com meu dinâmico amigo e uma dupla de jornalistas inteligentes e equilibrados. Meus convidados eram conversadores e eu prestei-lhes muita atenção. Eles achavam que Daladier já não demoraria muito como chefe do governo, mas não sabiam dizer com certeza quem seria o seu substituto. Chegara-se à conclusão que ele era incapaz de tomar decisões. Quando tinha de fazer qualquer coisa, hesitava e protelava a solução na vã esperança de que os próprios acontecimentos se encarregariam de resolver o assunto. Soube então que Gamelin, o comandante em chefe, se preocupava mais com a política do que com a vitória e só continuava no posto, malgrado as intrigas dos generais rivais, exclusivamente graças à sua amizade pessoal com Daladier. Soube mais que o Exército e o povo tinham confiança no General Georges, chefe do estado maior de Gamelin, mas que os dois generais apenas se falavam. Quando consegui oportunidade lancei na conversa o assunto que era de meu interesse, isto é, como os franceses viam o esforço britânico e como a população e o exército estavam se dando com as Forças Expedicionárias Britânicas (B. E. F). Antes de regressar a casa tive que fazer muitas vezes estas perguntas às quais obtive quase sempre as mesmas respostas. Darei aqui o resultado do inquérito que posteriormente apresentei num relatório secreto. A impressão que colhi foi de que havia uma queixa generalizada. contra o despreparo do apoio inglês e contra a conduta das tropas britânicas. Dizia-se que aquela cordialidade que os ingleses procuravam demonstrar com os seus aliados era mais produto da política do que mesmo da amizade. Os franceses estavam chocados com a fleuma dos ingleses e os censuravam por desenharem caricaturas nos trens que os levavam através da França. Era com um certo azedume que comentavam o bom humor que fazia os “tommies” entoar canções populares, conquanto marchavam e não compreendiam a paixão do soldado britânico pelos jogos. O francês, com exceção dos que tiveram alguma influência anglo-saxônica, consideram os jogos como puerilidades. Que os soldados ingleses jogassem futebol quando estavam para se resolver os destinos do mundo, parecia-lhes um indício de frivolidade absurda. Tive que explicar muitas e muitas vezes que se devia aceita soldado britânico tal qual era.

— Ele está disposto a morrer por vós, mas há de morrer com uma pilhéria, possivelmente bem pobre, nos lábios — dizia eu.

Os americanos pensam que os ingleses não têm senso de humor. Estão errados; acontece apenas que o nosso senso de humor é diferente. É pronto, mas muitas vezes tão vulgar que se torna difícil dar um exemplo. Gosto de contar o caso de um jovem estudante que estava dirigindo um ônibus durante a greve geral. Quando parou o veículo viu-se cercado por uma multidão que o insultava querendo espancá-lo. Uma mulher gritou: “Miserável bastardo!". Ao que ele respondeu, com um sorriso: “Mas, Mamãe, o que está fazendo aqui?”. O povo compreendeu a insinuação, deu gargalhadas, e deixou-o em paz.

A propósito devo contar um incidente que deu lugar a uma justa explosão de má vontade na França. Os franceses perguntavam onde se achavam as tropas britânicas e várias pessoas, inclusive eu, faziam pressão junto ao “War Office” para que deixasse os habitantes de Paris verem os regimentos que rumavam para o front. O processo normal seria chegarem até Paris, vindo do porto de desembarque, atravessarem a cidade no mesmo trem, depois seguirem para seu destino. Sugeri que seria muito mais animador para a população se, ao invés disto, elas desfilassem pelas ruas de Paris. As autoridades não aprovaram o plano porque os soldados ao entrarem nos trens, tiravam seus cintos e túnicas, ficando à vontade, e seria uma complicação fazer com que se arrumassem outra vez para um desfile. Mas estas objeções foram, por fim, vencidas e um belo dia os “Weish Guards” marcharam pelos "boulevards" rumo aos Champs Elysées, mas executando o “Lambeth Walk”. Isto chocou profundamente a população que não podia compreender como homens que iam para a linha de frente marchavam ao som de airosa música de dança.

Mas o principal motivo de mal-estar entre as tropas inglesas e francesas era o fato dos ingleses ganharem mais; os soldados britânicos podiam permitir-se o supérfluo, enquanto os franceses deviam se restringir ao necessário e as jovens mostravam-se mais inclinadas a ser amáveis com os homens que tinham dinheiro para gastar com elas. Outra causa de aborrecimento era que os franceses tinham que voltar aos seus acampamentos meia hora depois das oito, ao passo que os ingleses podiam ficar nos cafés até às nove e meia. Quando os soldados franceses tinham que se retirar, os ingleses faziam pilherias sem má intenção, mas que não agradavam a quem as tinha de suportar. Os ingleses ficavam muito alegres na sua última hora de folga e terminavam sempre as noites quebrando todas as garrafas dos cafés, de modo que quando os franceses vinham tomar os aperitivos no dia seguinte nada havia para beber. Comentava-se desfavoravelmente o alcoolismo no Exército britânico, tanto entre os oficiais como entre os soldados; oficiais franceses convidados a jantar no rancho britânico ficavam chocados ao verem seus camaradas ébrios depois do jantar e exasperavam-se quando os viam no dia seguinte perfeitamente alertas, olhos vivos; faces rosadas, tão frescos como as folhas verdes na primavera. Por outro lado, os civis, tanto nas cidades como no campo, gostavam mais dos soldados ingleses, nas cidades porque eles gastavam o dinheiro livremente e no campo porque estavam sempre dispostos a dar uma ajuda nos trabalhos agrícolas.

Diante disto havia um grande trabalho a ser feito no sentido de amenizar os ânimos entre a B. E. F. e os franceses. Simples funcionário sem autoridade, cabia-me apenas apontar o que estava errado e fazer sugestões para os consertos.

Na manhã seguinte fui ver Raoul Dautry, Ministro dos Armamentos. Deparei com um homem pequeno, forte e ativo, um tanto estrábico e que já havia elaborado um plano para minha visita a varias fábricas. Monsieur Dautry não era político senão engenheiro, e adquirira grande reputação reorganizando as estradas de ferro do país que estavam num estado lamentável; era honesto, muito trabalhador e possuía muita iniciativa. Foi o único membro do governo cujo nome continuou sem mácula depois do colapso da França. O plano que me propôs exigia no mínimo um mês para ser levado a efeito e eu não dispunha de tanto tempo; como sempre acontece na guerra, nada se resolve às pressas, mas exigem-se sempre resultados imediatos. A fim de obter dados sobre os assuntos que me interessavam eu necessitava pelo menos de três meses e no entanto só me eram dados trinta dias. É difícil para um leigo como eu ignorante de tais coisas, escrever um artigo legível sobre armamentos.

Só conseguiria isto obtendo boa quantidade de material que me facilitasse a escolha, mas não podia levar mais de uma semana tal coleta. Expliquei isto ao Ministro; despedi-me afirmando que o avisaria logo que voltasse do “front”.

 

Naquela mesma tarde fui para Nancy. Hospedei-me no hotel perto da estação, pois estava fechado o famoso hotel da Praça Estanislas uma das mais belas da Europa, construída por Stanislas Leckezynski, que ao perder a coroa da Polônia recebera Lorraine como compensação. Sua filha desposou o donjuanesco Louis XV que disse, depois do seu falecimento: “Ela nunca me deu um momento de tristeza, a não ser o da sua morte”. Mas disse a coisa em forma de epigrama. A praça, com o grande palácio de um lado, com seus portões dourados e sua elegante estatuaria exemplo perfeito da arquitetura rococó, tinha agora sua beleza oculta pelos sacos de areia amontoados. Quando entrei no meu modesto alojamento um guapo e jovem oficial aprese e disse-me que recebera ordens para ficar à minha disposição. Fomos a um café vizinho, sentamo-nos numa mesa de tampo de mármore e pedimos uns drinques. O oficial era bretão, arquiteto na vida civil, e falava inglês admiravelmente bem. Foi por esta razão que o general, não sabendo que eu falava francês, lhe dera aquela missão. Achei-o inteligente, culto e amável. Expliquei- lhe o que eu desejava ver e pedi-lhe suas sugestões. Depois de traçar nosso programa para uns dois dias começamos a conversar sobre assuntos diversos. Eu me interessava menos por saber o que estava acontecendo nas linhas de batalha — os correspondentes de guerra ocupavam-se disso — do que por investigar as condições de vida no exército, a forma pela qual os camponeses reagiam em face da guerra e até onde a propaganda alemã afetava as tropas. Como eu dissesse ao oficial que queria jantar, levou-me ele a um restaurante cheio de oficiais, uns em pequenos grupos, outros sós com a esposa ou a amante. Durante o jantar contou-me um caso comovente. Ao realizar um reconhecimento sobre postos avançados alemães um avião inglês fôra atingido e viera cair na terra de ninguém, entre as duas linhas de frente. Alguns soldados franceses conseguiram chegar até lá e encontraram o piloto sem sentidos, mas vivo, e os dois outros membros da tripulação mortos. O piloto, que estava gravemente ferido, foi para um hospital em Nancy. Quando recuperou os sentidos, a primeira coisa que perguntou foi o que havia acontecido à sua tripulação. Ouvindo do médico que todos haviam morrido, sentou-se na cama e levando a mão até a cabeça enrolada em ataduras fez uma continência e disse: — Não faz mal, foi pela Inglaterra!

No dia seguinte iniciei minha viagem. Fui ao acampa mento do General de Lattre, homem muito distinto, com belas maneiras, muito elegante no seu bem cortado uniforme, com quem conversei um pouco. Convidou-me para jantar a fim de podermos falar mais longamente e seguimos para Strasburg onde devíamos almoçar com o Prefeito. Segui de automóvel com um capitão que fôra destacado para acompanhar-me em Strasburg. Era um homem de cerca de trinta e cinco anos, novelista de certa reputação na vida civil, e conseguira tal em prego por ser amigo pessoal de Daladier, o Premier. Mais tarde alguém me contou, não sei se dizendo a verdade, que era ele quem fazia os discursos de Daladier. Enquanto estávamos no automóvel, como sempre acontece quando se reúnem escritores, falamos de livros. Aviões inimigos nos sobrevoavam a pouca altura e notei que meu companheiro os olhava com certa apreensão. Strasburg tinha sido evacuada; as ruas estavam vazias, as lojas fechadas e havia uma quietude de morte naquela cidade ordinariamente tão movimentada. O miado de gatos abandonados e famintos cortava o silêncio como um pedaço de seda rasgada em dois repentinamente. As sirenas, naquela melancólica cidade, eram estranhamente sinistras. Meu guia olhou-me rápida e embaraçadamente e perguntou: “Não será melhor correr?” Eu não sabia o que fazer, mas imaginando que ele explodiria se eu recusasse, aceitei a sugestão e saímos a correr pela rua da maneira menos digna possível até que atingimos um abrigo. Chegamos um tanto ofegantes e eu me perguntei se o meu capitão tinha se julgado tão idiota como eu quando, alguns minutos depois, uma mulher veio andando alegre e despreocupada, evidentemente sem nenhuma pressa de chegar ao abrigo.

Fiquei conhecendo muito bem aquele homem durante os três dias que estive sob seus cuidados. Disse-me que com sua influência podia facilmente conseguir uma designação para Paris, mas insistira para vir para a linha de frente e contou-me como achou impossível ver homens mortos sem se horrorizar. Disse que seus camaradas garantiram-lhe que ele se acostumaria. Na guerra, diziam eles, a morte não tinha significação, se um seu amigo é morto, é como se tivesse sido transferido para um outro setor. Faz parte do jogo e a gente deve aceitar como uma cartada ruim numa partida de bridge. Ele me perguntou se eu já vira cadáveres. Respondi-lhe que havia estado na França no começo da última guerra e narrei-lhe um incidente que me causou grande impressão. Depois de uma pequena batalha — já não me lembro onde, na qual se verificaram mais de mil baixas topei justamente ao lado do hospital, com uma pilha de cadáveres amontoados uns sobre os outros como carneiros mortos e nem sequer tive a impressão que eram homens, mas sim que eram coisas. Depois notei algo que me chocou particularmente: a pequenez das suas mãos; eram todos soldados comuns, e, entretanto, suas mãos tinham as características que erroneamente chamamos de aristocráticas; num instante ocorreu-me que de certo estavam tão pequeninas porque não tinham mais sangue. Perguntei ao capitão se também havia feito a mesma observação, mas ele respondeu que não era capaz de olhar um morto, porque se horrorizava.

Acredito que ele ficasse satisfeito ao livrar-se de mim; nunca deixou de olhar ansiosamente para cima para observar os aviões, que nos sobrevoavam e não podia acostumar-se com o troar dos canhões; embora ele prestimosamente me levasse onde entendi de ir era evidente que esteve todo o tempo nervosismo. Não tenho pretensões a jactar-me de coragem; o fato é que não havia qualquer perigo para nós senão na fantasia do meu amigo. Tive oportunidade, mais tarde, de ler várias novelas suas. Eram encantadoras e sentimentais, com um encantamento lírico pela região rural onde nasceu e foi criado o autor, um delicado senso de humor e uma apaixonada simpatia pelos camponeses, que conhecia tão bem. Eram mais ternas do que fortes. Ele me interessava e gostei da sua companhia. Como eu bem imaginava conseguira ser mandado para o front por patriotismo e num assomo de heroísmo, mas como muitas vezes acontece com os escritores, nunca pude compreender quão grande é o abismo entre o fato e a ficção. Penso que ele apenas estava aterrorizado, com aquele medo que força um homem a uma loquacidade vergonhosa, aterrorizado pelos aviões, pelos canhões, por todos os perigos que sua imaginação lhe podia apresentar; e, entretanto, talvez por medo do que seus amigos e camaradas de farda pudessem dizer, talvez por medo de sua própria opinião sobre si mesmo, não empregava a influência, que, indubitavelmente, o transportaria a um lugar seguro.

Durante os dias seguintes andei por toda parte; visitei a Linha Maginot e fui a uma casamata. O oficial comandante disse-me que podia resistir durante seis meses no caso de um cerco; para mim foi um grande choque ler nos jornais, tem pos depois, que aquela mesma fortaleza havia sido capturada ao fim de quatro dias de ataque. Num Quartel General onde passei a noite vários oficiais vieram até meu quarto com uma garrafa de “mirabelle”, depois do jantar, e discutimos a situação. Fiquei impressionado pela vivacidade e inteligência de todos. Pareciam ansiosos pelo dia em que se defrontassem com os alemães e confiavam que poderiam estraçalhá-los. Uma noite jantei com o General Prételat, a quem cabia o comando de todas as forças daquele setor. Tinha a reputação de ser um dos mais hábeis generais no exercito e não era possível conviver um instante com ele sem reconhecer que se tratava de um homem de caráter. Morava numa vila requisitada nos arredores de Nancy. O jantar correu sob rígida disciplina. Seu estado-maior sentou-se à mesa conosco — suponho que éramos doze ao todo — mas ninguém abriu a boca senão para comer e a conversa se processou inteiramente entre o general e eu. Ele falava com uma fluente vivacidade e sem meias pa lavras. Estava inteiramente confiante. Frequentemente trocava os regimentos nos postos avançados, para que, durante este período de espera, pudesse acostumá-los, por turnos, com a guerra atual. Nas escaramuças que constantemente tinham lugar experimentou a satisfação de ver que o soldado francês vinha descobrindo que, homem por homem, ele estava à altura do alemão. Sua principal dificuldade residia no fato de estarem as tropas ansiosas para atacar e não lhe era fácil convencer os seus homens que deviam ter paciência até que chegasse a primavera e os alemães fossem obrigados a avançar. Então eles os aniquilariam. Naturalmente havia sempre um problema a ser enfrentado: existem oitenta milhões de alemães e apenas quarenta milhões de franceses; os alemães tinham cento e vinte divisões contra noventa francesas. Os ingleses deviam estar prontos para colocar em campo cerca de trinta divisões, creio que cerca de quatrocentos e 1ncoenta mil homens, mais ou menos, o que os ingleses tinham na França, quando esta sofreu seu colapso. O general prosseguiu dizendo que a França perdera muitos homens na última guerra e não podia sofrer tão grandes perdas outra vez. Tinha que andar com muita cautela. Não me ocorreu naquele momento que deve ser muito difícil ganhar uma guerra quando não se está preparado para sacrificar homens Falou dos termos de paz que a França imporia à Alemanha derrotada. Era a terceira vez em cem anos que a França tinha que repelir as hordas alemãs e todos os franceses haviam resolvido que esta seria a última. Naturalmente, o único plano razoável era matar vinte milhões de alemães, mas como isto era impossível, outros meios deviam ser escolhidos para garantir a segurança da França. Desta vez, disse o general, eles não permitiriam que lhes roubassem os frutos da vitória como acontecera na última guerra, por intermédio de Wilson e Lloyd George. A Alemanha devia ser dividida uma vez mais em vários pequenos países e o Reno serviria de fronteira com França. Frisei que isto viria colocar sob o domínio da França vários milhões de alemães que, naturalmente, se mostrariam rebeldes e descontentes; a intranquilidade que predominou na Alsacia-Lorena depois que a República Francesa reconquistou tais províncias, era uma demonstração de como era difícil assimilar uma população estrangeira. O general balançou os ombros. Com certeza se houvesse um grande número de franceses naquela província os alemães poderiam ser afastados, mas não havia gente, suficiente nem mesmo para povoar a França e assim a única coisa que restava era conservar fortes guarnições nas cabeças de ponte do Reno e mantê-las pela força.

Depois do jantar, perguntei ao general se podíamos conversar alguns minutos em particular e ele levou-me para seu gabinete. Percebi durante os movimentados dias que passei com aquelas forças que o que mais as preocupava era não ver os soldados britânicos. Sabiam que mais para o norte os ingleses se achavam encarregados de um pequeno sector, nunca puseram os olhos sobre eles e estavam desconfiados. Soube também que as baterias antiaéreas francesas eram inadequadas e que não possuíam raio de alcance suficiente para terem eficiência contra os aviões alemães. Imaginei que seria um bom plano colocar algumas baterias inglesas em determinadas posições no meio das tropas francesas, de modo que oficiais e soldados ficassem se conhecendo melhor e os aviões alemães tivessem alguma coisa a temer. Pensei que o efeito moral podia ser grande, mas antes de formular a sugestão em meu relatório, quis conhecer sua opinião sobre o modo como os franceses receberiam tal oferta. O general ficou tão satisfeito com a minha ideia que me perguntou se eu me importava que ele transmitisse a notícia aos seus companheiros; chamou os outros oficiais e eles também receberam a minha pro posta com grandes demonstrações de entusiasmo. Nunca, porém foi levada a efeito. Deram-me a entender que as dificuldades para fornecer comida, bebida e cigarros aos soldados britânicos, como eles estavam acostumados, tornavam o plano impossível.

Outra coisa que me chamou a atenção foi que os soldados pareciam vagar o dia inteiro sem nada ter que fazer. Mostravam-se preocupados com as cartas que recebiam de casa, narrando que suas fazendolas e suas lojas estavam abandonadas e quase arruinadas em virtude da ausência dos donos. Não jogavam outra coisa que não fosse o “belotte”, um jogo de cartas para duas, três ou quatro pessoas e que só posso descrever como uma variação do “euchre”. É o jogo favorito das classes trabalhadoras e da pequena burguesia francesa. Jogavam durante horas seguidas. Bem alimentados, recebiam ainda uma ração de vinho em cada refeição. Na sua inatividade tinham bastante tempo para pensar na propaganda alemã. Ferdonnet, o traidor de Stuttgart, dizia-lhes todos os dias que eles iam se sacrificar para salvar as fortunas dos capitalistas e que enquanto eles estavam nas linhas de frente, os soldados britânicos, na retaguarda, divertiam-se com as suas esposas De quando em vez o soldado francês teria razão de pensar que isto era verdade, e era fácil concluir, por um caso isolado, que a acusação era real. Mais ou menos na época em que estive com os exércitos da Alsacia, os alemães jogaram sobre as linhas francesas um boletim chamado “Banho de sangue”, em que apareciam quatro fotografias: a primeira mos trava um soldado francês e um inglês na beira de uma piscina de sangue; a segunda mostrava-os prontos para o mergulho; na terceira o francês mergulhava enquanto o inglês ficava firme na beira da piscina; na quarta, aparecia o francês coberto de sangue até o pescoço, enquanto o inglês se ia embora com um sorriso. Esta propaganda teve grande eficiência. A única resposta a isto eram as lapides em muitas catedrais francesas em memória de um milhão de soldados da Inglaterra e dos Domínios que jaziam enterrados na França depois da última guerra.

Mas, apesar da propaganda inteligente e da inatividade estarem solapando o moral dos franceses, parti do “front” com a impressão de que, quando chegasse o momento de travar ba talhas, aqueles exércitos, com brilhantes e decididos oficiais no comando, com certeza se bateriam corajosamente.

 

Na minha última noite, em Nancy tive uma experiência bastante curiosa. Entre os correspondentes de guerra que estavam hospedados no hotel encontrei um a quem eu conhecia havia muitos anos. Não era um correspondente de guerra regular, mas tinha sido mandado pelo seu jornal para escrever uma série de artigos especiais. Eu o chamarei George Potter. Quando ainda moço escrevera uma novela que tive ocasião de ler. Era evidentemente autobiográfica, mas demonstrava uma certa capacidade de observação, um jovial encanto e uma certa delicadeza de sentimentos alem de graciosamente escrita com um agradável senso de elegância. Parecia-me uma vocação promissora. Estive com ele. Mostrou-se modesto sobre o seu livro. Achei-o um moço atraente, bem humorado e com uma conversa agradável. Soube que era extremamente pobre e que teve que ganhar a vida para se manter desde que deixou a escola secundaria, aos dezesseis anos. Convidei-o para ir até Riviera e ficar comigo, prometendo-lhe todo o tempo necessário para que escrevesse a sua segunda novela, trabalho em que já se achava empenhado. Foi um hospede que sempre me deixou à vontade. Era um magnífico companheiro para uma partida de tênis ou de bridge. Tinha imensa vitalidade. Suas maneiras não eram lá muito boas, mas eu punha isto à ta da exuberância da sua mocidade e não me importava Era um átimo conversador às vezes mesmo brilhante, e não importava quão cacetes fossem as pessoas que tínhamos para jantar ou almoçar — e muitas vezes somos obrigados a receber pessoas muitíssimo cacetes — mantinha-as distraídas e agradava sem se esforçar muito. Impressionava-me a sua capacidade de insinuação. É muito fácil ficar-se preguiçoso na Riviera; especialmente no verão, os banhos de mar, as conversas, as partidas de tênis e de bridge, as festas, enchiam os dias, mas não de trabalho; todas as noites, entretanto houvesse o que houvesse, ele desaparecia durante um par de horas para escrever um artigo; eram esses artigos escritos principalmente para jornais femininos, que lhe garantiam a precária existência. Fiquei chocado com os dois ou três que li mas suponho que era aquilo justamente que o diretor desejava, e eu sabia muito bem como é duro para um um jovem escritor que necessita de atender a certos fins, escrever sensaborias para satisfação do pi

Alguns anos mais tarde ouvi dizer que fôra confiada a George Potter uma página de mundanismo num pasquim de enorme circulação. Foi um sucesso colossal. Ele escrevia sentimentalismos vulgares, cheios de esnobismo, de moral frágil e alardeada religiosidade; mas o público gostava. George Potter tornou-se o jornalista mais conhecido da Inglaterra. Sua popularidade entre as jovens manicuras, estenografas e caixeirinhas de lojas era imensa e tinha uma correspondência tão grande que o jornal precisou contratar gente nova. Dizia-se que a circulação aumentava para oitenta mil exemplares por dia. No devido tempo outro jornal com uma circulação ainda maior conseguiu atraí-lo para seu serviço e ele tornou-se então provavelmente o jornalista mais bem pago da. Inglaterra. Tinha pouco mais de trinta anos.

Depois da sua ascensão à notoriedade poucas vezes o vi, e acho que já fazia três anos que não lhe punha os olhos em cima. Os jornalistas em Nancy tinham sua sala de refeições particular. Embora conhecesse alguns deles, achei que não devia intrometer-me e fui jantar sozinho no salão comum. Na noite a que me refiro enquanto eu ainda estava jantando, fiquei um tanto surpreso ao receber um recado de Georges Potter dizendo que gostaria de ver-me; respondi-lhe que dentro de meia hora poderia ver-me no quarto. Quando entrou, apertamo-nos a mão e ele se sentou na única cadeira existente. Eu sentei-me na cama.

— Muito obrigado por consentir que eu viesse vê-lo disse-me.

— Sinto grande prazer em vê-lo — respondi delicadamente.

— Tenho uma coisa que desejo muito lhe perguntar e talvez não se apresente outra oportunidade.

— De que se trata?

Por que deixou de me procurar? — inqueriu.

Olhei para ele e vi que seus olhos estavam ansiosos.

— Ignoro que tenha feito tal coisa — respondi sorrindo.

— Sim, evitou-me. Está mais do que claro. Nunca o vejo, agora. Quando lhe escrevi perguntando se podia ir vê-lo, apresentou desculpas para afastar-me. Quando o convido para almoçar, recusa o meu convite. Nunca mais me convidou para ir à Riviera passar uma temporada. Que lhe fiz eu ?

— Você nada me fez, George — respondi brandamente.

— Deve ter havido alguma coisa.

Garanti-lhe que nada havia, mas ele insistiu. Para meu maior embaraço começou a fazer referências à sua gratidão pelo auxilio que lhe dei no início da sua carreira; disse-me que aprendera muito comigo e que tinha minha amizade numa alta conta. Falou em tais termos da estima e do respeito que tinha por mim que chegou a embaraçar-me. Recordou quantas vezes me havia citado nas suas crônicas com apreço e admiração.

—Nunca deixei passar uma oportunidade de fazer publicidade sua — alegou ele.

Lembro-me como me arrepiava ao ler as suas lisonjeadas referências. Mas não desejando ferir sua suscetibilidade, protestei que se vivíamos agora afastados era devido mais à marcha dos acontecimentos do que mesmo por qualquer deliberada intenção da minha parte. Estávamos sempre muito

ocupados e eu passava a maior parte do ano na França. Eu não conhecia a espécie de gente que ele conhecia em Londres, uma grande cidade, e era muito natural que só esporádica mente nos encontrássemos. Mas George sempre tinha resposta às minhas alegações delicadas, e insistiu de tal modo que, por fim, me exasperou.

— Bem, se insiste dir-lhe-ei a verdade, embora preferisse não a revelar.

— Quero ouvi-la — replicou ele.

— Pois bem. Estou horrorizado com as bobagens que você escreve. Acho aquilo uma baboseira ignóbil.

George fitou-me com ar e espanto.

— Quer dizer que foi por isso que se afastou de mim?

— Sim.

Mas, não pode fazer uma distinção entre o escritor e o que ele escreve?

— Não. Não posso ter intimidade com alguém cujos escritos desprezo.

— Mas é do que o meu público gosta. Meus leitores devoram tudo aquilo.

— Sei disto. Você escreve com toda a sinceridade, não é? Naturalmente. Sou absolutamente sincero — respondeu ele.

— Estou convencido disto. Não acredito que uma pessoa possa alcançar o imenso sucesso que você obteve se não escrevesse com sinceridade. Estou certo de que você sincero. Se não o fosse, se escrevesse aquelas tolices apenas porque sabia que os leitores gostavam e ria-se deles, eu não o admitiria como uma pessoa admirável mas isso me proporcionaria ao menos uma cínica diversão. Eu o julgaria um bandido, mas rir-me-ia como rio do presidiário que foge empregando o velho truque do prisioneiro espanhol. Mas, o que é trágico é que você escreve diretamente do coração; e por isso vai ao coração dos seus leitores. No seu caso é certo que o homem e o escritor são um e o mesmo.

Eu não queria insistir neste ponto. Ele era inteligente demais para não me compreender. Vi que ele estava abatido e procurei desviar seus pensamentos para outra direção.

No final das contas que lhe pode interessar o que uma pessoa isolada pensa sobre você? Você é um sucesso e ganha muito dinheiro. Muita gente o adora e você tem multidões de amigos sem precisar de mim.

— Sei que tenho. É difícil encontrar uma duquesa na Inglaterra que não me leia. As pessoas mais destacadas do país vivem ansiosas para que eu aceite os convites que me fazem. Fingem-se de zangados quando escrevo sobre as festas a que sou convidado, mas posso afirmar-lhe que se tivesse outra coisa para escrever e não fizesse menção à festa ficariam furiosos.

Então porque se preocupa comigo? Um entre tantos.

George ficou silencioso. Notei que estava emocionado e fiquei com pena de lhe haver causado aquele desprazer.

— Você não entenderia — disse ele por fim, abafadamente.

Eu entendia perfeitamente. Sabia que sua vaidade era tão colossal que se sentia irritado com as minhas restrições à admiração que ele exigia e recebia de um número sem conta de fãs.

— Agora me dê licença, pois tenho que mudar de roupa para sair às sete horas — disse eu.

O rapaz despediu-se. Devo acrescentar que o seu artigo sobre a visita à linha de frente era tão agradável aos franceses que foi traduzido e publicado em numerosos jornais. Desde então ele fez muitas coisas aventurosas em busca de repetições daquele sucesso, com uma coragem temerária insistia em correr riscos tais que seu diretor, que não queria perder tão valioso colaborador, lhe deu ordens para voltar. Estou convencido de que ele enfrentava o perigo sem desfalecimento, com a displicência desdenhosa que o caracterizava e, muito provavelmente, com sorriso irônico nos lábios. Mas os artigos que escreveu sobre estas experiências de arrepiar cabelos são tão vergonhosos quanto os outros.

 

Passei a semana seguinte visitando fábricas de munições. Todos pareciam estar trabalhando muitíssimo; o esforço era tal, sete dias por semana, que perguntei a Monsieu Dautry, o Ministro, se ele tinha a certeza de que gente de carne e osso podia resistir. Respondeu-me que não havia outro remédio. Agora penso que aquilo era um erro. Pode-se trabalhar doze horas por dia, sete dias por semana, durante um período curto, mas quando o processo passa de mês a mês a quantidade e a qualidade de trabalho são reduzidos e a exaustão dos trabalhadores afeta grandemente o seu moral. Infelizmente mui tos operários técnicos estavam mobilizados, dando guarda em pontes ou varrendo chão de quartel quando teriam sido muito mais úteis nas fábricas. Perguntei se podia falar livremente aos operários e a permissão me foi concedida com grande cordialidade. Mas acompanhavam-me em toda parte dois engenheiros, um militar e um naval, que explicavam o que não alcançava uma pessoa dos meus limitados conhecimentos. Ambos seguiam meus passos, como cães de fila. Eu parecia um gangster entre dois policiais. Os diretores das varias fábricas se mostraram muito atenciosos para comigo, mas quando eu parava, flanqueado pelos dois rapazes, para falar com um operário, não seria tão louco para pensar que ele me diria o que os oficiais não gostariam que eu ouvisse. Disseram-me, entre tanto, duas ou três coisas que eu não esperava. Numa fábrica escutei o diretor contar a um dos meus companheiros que sessenta por cento dos seus homens haviam sido presos por sabotagem ou propaganda comunista. Em outra ocasião, ouvi um diretor dizer que eu faria bem não indo a tais e tais fábricas porque o ambiente era muito mau e uma vez fui solicitado a não me dirigir indiscriminadamente a qualquer operário. Ficou-me a impressão de que um imenso esforço estava sendo feito para remediar a lamentável deficiência nos armamentos franceses e que a maioria dos trabalhadores colaborava no mesmo com toda a sua força, mas havia uma minoria cuja importância eu desconhecia, que se achava descontente ou pior que isso. Descobri não me ser possível conseguir respostas que satisfizessem minhas perguntas diretas. Tive a sensação — mais do que a prova — que um grande número de operárias tinha medo de que os patrões estivessem se valendo da guerra para cercear-lhe os privilégios que haviam conquistado quando o governo socialista esteve no poder. E eu tinha razões para saber que aquele erro não estava sendo controlado.

 

Em seguimento à minha tarefa, visitei os distritos no sudoeste da França, para onde tinham sido evacuados os habitantes da zona perigosa da Alsacia-Lorena. Quando regressei a Paris depois disso fui ao Bureau de Informações e disse que se eu tivesse de escrever um artigo sobre a propaganda alemã o material colhido era admirável, mas como não era este o objetivo cia minha viagem não sabia o que ia fazer. Meus interlocutores baixaram a olharam para a ponta dos sa patos e responderam que reconheciam não ser a situação mui to boa. Aquela gente infeliz era mesmo desgraçada; havia sido arrancada de seus lares com um aviso prévio de duas horas, com ordem de levar consigo apenas o que pudesse carregar. Em carros de boi viajaram três dias ou mais, no calor do dia, no frio da noite, até chegarem a Poitiers e Angoulême, onde foram distribuídos pelo campo. Alguns caíram gravemente doentes no caminho e não poucos morreram. Disseram-lhes que tudo o que tinham a fazer era fechar suas portas, que as tropas se encarregariam de guardar suas casas; podiam ficar tranquilos, pois tudo o que deixassem ficaria garantido. Foi com grande consternação que souberam, algumas semanas de pois, que suas casas tinham sido saqueadas pelos soldados encarregados da vigilância das mesmas. O prefeito de uma cidade, obrigado a voltar para trás por negócios ligados ao cargo que ocupava, contou-me que encontrou sua casa devastada; da sua grande biblioteca não restava um só livro, e como era preciso mais de um caminhão para levá-los, ele concluía que oficiais também haviam tomado parte no saque; sua prataria desaparecera assim como as roupas de cama e mesa e os quadros haviam sido arrancados das molduras. Não era sem razão que os refugiados eram incensados. Muitos deles queriam voltar para salvar o que ainda restava, mas as autoridades francesas, que não os queriam deixar ver o que acontecera, negavam-lhes licenças.

Os refugiados estavam miseravelmente alojados. Os proprietários ricos e a próspera burguesia se recusavam a dar- lhes abrigo, e os prefeitos das varias comunas não se mostravam propensos a requisitar as casas dessa gente tão pouco generosa por medo de perder os seus votos na próxima eleição. Camille Chautemps, o ministro encarregado desse setor, estava ocupado demais, era excessivamente tímido ou demasiada mente indiferente para assumir uma atitude decidida. Os evacuados eram alojados em alpendres quase em rumas onde dificilmente se albergaria um porco, em choupanas com a cobertura esburacada, em estábulos, em fábricas abandonadas, em fazendas arruinadas. E em tudo isto havia excesso de gente, muitas vezes duas ou três famílias num só quarto, sem conveniências sanitárias, sem água, que só existia num poço distante trezentas jardas e sem um lugar para cozinhar a menos que armassem fogão primitivo. Sofriam com o frio, pois tinham fugido apenas com as roupas de verão, e, gastos os sapatos, foram forçados a caminhar nas estradas lamacentas com chinelos de feltro. Não podiam comprar madeira para abrigar suas residências da chuva, ou fazer enxergões para não dormirem no soalho duro, porque os comerciantes estavam escondendo a madeira na esperança de obter melhores preços, pois a guerra aumentara a procura. Os que tinham colchões eram felizardos. Vi muitos dormindo em cima de palhas.

Tudo isto era um monstruoso exemplo da inépcia, insensibilidade ao sofrimento alheio e grosso egoísmo. Demonstrava, além disso, completa carência de elementar senso comum por parte do governo, pois o povo da Alsacia-Lorena não se mostrava satisfeito com a administração francesa, e o desamparo, o desnecessário sofrimento que lhe eram impostos aumentava seu azedume. Ouvi mais de um dizer: “Se é assim que os franceses vão nos tratar, preferimos os alemães”. Eu estava resolvido a não escrever coisa alguma que não fosse a expressão da verdade, mas seria causar um escândalo inútil revelar os fatos que presenciei e nada adiantaria colocar tudo aquilo no meu artigo. Tratei pois por alto da sua miséria e falei principalmente da engenhosidade que demonstravam para tornar suas vidas mais toleráveis, seu asseio e ordem que se esforçavam por manter naquela indescritível miséria, as excelentes refeições que preparavam nos seus fogões improvisados, a bondade de uns para com os outros e a brava determinação com que tiravam o melhor partido daquela intolerável situação. Voltei de lá com uma grande admiração por aquela gente tenaz, industriosa, honesta e bem-humorada.

Durante minha visita aos refugiados tive duas pequenas experiências que, por diferentes razões, ficaram gravadas na minha memória. Uma noite, depois de ter andado o dia todo de automóvel, de um lugar para outro, fui levado para jantar num “chateau” no meio de uma floresta, que pertencia a um barão francês com um nome gascão altissonante. Sua esposa era americana. Tinha dois filhos muito silenciosos que janta ram conosco sob os cuidados de uma governante inglesa também muito silenciosa. Nas paredes da sala de jantar viam- se quadros com retratos dos antepassados do barão. Viviam a algumas milhas da cidade mais próxima e raramente iam a Paris. O barão se ocupava com a administração das suas florestas e, sua esposa americana estava sempre absorvida por obras de caridade. O cenário daquele velho castelo cercado de um emaranhado de árvores e tão afastado do mundo, com, as quatro grandes estradas que o ligavam ao norte, oeste, sul e leste, era indicadíssimo para uma novela de Balzac, e a vida que os dois levavam lá, raramente vendo outras pessoas alem dos camponeses e dos trabalhadores da floresta, era ativa, mas estranhamente isolada. O barão era um homem fino, muito bem disposto, com uns quarenta anos; tinha sido ferido na última guerra e embora não tivesse sido ainda convocado, achava que podia sê-lo a qualquer momento. Perguntei-lhe o que seria feito de suas florestas em tal hipótese.

— Oh! posso ir descansado deixando-as entregues aos cuidados de minha senhora que conhece o assunto tanto quanto eu.

Ela era uma mulher de aparência agradável, baixotinha e gorda, nos últimos degraus da casa dos trinta. Era natural de algum Estado no Middle-West, mas seus vestidos, o modo de pentear os cabelos e a atitude eram bem franceses. Fiquei maravilhado pela adaptabilidade da mulher americana que se pode integrar tão bem nos hábitos de uma terra estranha. Na sala de estar, sobre a mesa, viam-se dois ou três números do “Atlantic Monthly”, e não tenho duvida que ela os lia, pois existiam muitos livros por perto e a conversa demonstrava que ambos eram pessoas cultas. Mas tive a impressão de que aquelas leituras não lhes causavam nostalgia. O par era feliz e estava satisfeito com os filhos. Sna vida era um pequeno idílio com a graça triste de um conto de fadas. E agora, algumas vezes, fico a pensar se a invasão os terá poupado e se vivem ainda no seu castelo, com a imensa floresta em torno, ou se rudes soldados alemães instalaram-se lá e estão derrubando as árvores, a torto e a direito, aquelas árvores que eles planta ram com carinho e que amavam com uma singular e divertida ternura. A lua cheia derramava sua luz, quando eu parti de automóvel, sobre a estrada que cortava a floresta, tornando-a branca como neve. Pequeninos animais espantados pelos holofotes do carro saltavam no caminho procurando abrigo na sombra. Tive a impressão de que estava saindo do Castelo da Bela Adormecida.

Minha segunda aventura foi engraçada. Eu percorria o país de automóvel, em companhia de uma senhora que com algumas caridosas americanas e inglesas vinham trabalhando muito para aliviar um pouco os sofrimentos dos refugiados; à tardinha frisei que devia procurar um quarto em algum hotel para passar a noite.

— Não precisa se incomodar com isto — disse-me ela. — Tenho uns primos afastados nesta parte do país que terão prazer em hospedá-lo. É gente provinciana, muito simples mas muito asseada, que lhe dará um bom jantar.

— Mas, isto será muita bondade — disse eu.

Ela não mencionou o nome deles e não me ocorreu perguntar. Deduzi do que ela disse que se tratava de gente pobre que vivia muito modestamente, de forma que fiquei surpreso quando, à noitinha, nosso carro entrou numa cidade e parou defronte de uma casa que, mesmo na escuridão, me pareceu imponente. Fomos recebidos por um homem baixo, gordo, com um rosto vermelho e muito simpático. Estava vestido de escuro, com uma roupa um tanto desajeitada e parecia o burguês francês típico. Levou-me para um quarto quente e confortavelmente mobiliado, e senti grande satisfação ao ver que havia também um quarto de banho. Disse-me que o jantar seria servido às sete e trinta. Tomei um banho, e, como es tava muito cansado, dei um cochilo. Na hora marcada desci para o andar térreo e me dirigi para uma sala de estar onde numa lareira alguns toros crepitavam. O dono da casa ofereceu-me uma taça de sherry. Mergulhei numa poltrona.

Encontrou uma garrafa de “brandy” no seu quarto? perguntou-me.

— Não reparei.

— Sempre conservo uma garrafa de “brandy” em todos os quartos da casa, mesmo no quarto das crianças. Elas nunca tocam na garrafa, mas gosto de saber que as mesmas estão nos seus postos.

Achei aquilo um hábito esquisito, mas nada disse. Nesta altura, a senhora que dirigira o meu carro durante o dia entrou com uma pessoa magra e morena, a quem fui apresentado. Era a irmã do dono da casa, mas não gravei o seu no me. Pela conversa deduzi que o dono da casa era solteirão e que ela com as duas filhas, estando o marido mobilizado, passava ali aquele tempo de guerra. Fomos jantar e encontrei à nossa espera duas mocinhas, mais ou menos de quatorze e quinze anos, com uma empertigada governante. Também nos esperavam um garçom e uma empregada. Meu hospedeiro disse:

— Abri para si meu último “magnum de claret”, um Chateau Larose de 1874.

Eu nunca tinha visto um “magnum de claret” e fiquei impressionado. Era delicioso. Para um “parente pobre” achei que o dono da casa estava agindo muito bem. A comida era excelente, verdadeira cozinha do campo francês, copiosa, um tanto pesada, muito rica, mas extremamente suculenta. Um dos pratos estava tão bom que fui obrigado a acentuá-lo.

— Estou muito satisfeito que tenha gostado. Tudo nesta casa é cozinhado com “brandy” — disse ele.

Comecei a pensar que estava numa casa muito estranha e fiquei desejando saber quem era aquela criatura tão hospitaleira. Terminado o jantar e o café, o garçom trouxe grandes taças e uma imensa garrafa de “brandy”. Eu me dera muito bem com o claret e como estava entre estranhos achei que andava bem avisado não bebendo mais álcool, e assim quando me ofereceram recusei.

— O que? — gritou meu hospedeiro jogando-se para trás na cadeira — veio passar uma noite na casa de Martell e recusa-se a tomar uma taça de “brandy”?

Eu jantara na casa do maior comerciante de conhaque do mundo.

— E fique sabendo que este brandy não é encontrado no mercado. É feito especialmente para meu consumo.

Depois disso tive que abandonar minha discrição. O resto da noite passou voando enquanto ele me contava a romântica história da descoberta do brandy e os dois séculos de história da sua firma. Parti no dia seguinte com um cordial convite para voltar quando a guerra terminasse.

 

Cabia-me agora estudar o trabalho das mulheres na França durante a guerra, e depois os efeitos do conflito sobre os sentimentos religiosos do povo francês. Os artigos que escrevi sobre estes assuntos foram largamente publicados, de sorte que não necessito fazer mais referências aos mesmos. Terminei minha inspeção com uma visita à esquadra francesa em Toulon. Minha descrição do que eu vi não encontrou inteira aprovação dos oficiais da Marinha francesa. Fiquei sentido, pois eles me fizeram uma acolhida muito cordial e gostei da sua hospitalidade. Mas não me era possível deixar de frisar o desalinho dos marinheiros o que constituía um destacado contraste com o absoluto asseio característico dos navios ingleses e americanos, e fiquei também impressionado com a falta de disciplina. Na esquadra britânica as ordens são obedecidas sem qualquer vacilação. Durante o curto tempo que passei num couraçado ouvi uma pequena discussão entre o co mandante e um dos seus oficiais subalternos, antes que este cumprisse a ordem recebida, não sem que entretanto o comandante se irritasse. Mas, o que realmente aborreceu os oficiais que leram o meu artigo foram certas observações minhas sobre a sua atitude em relação à convocação. Tinha certeza que todos eram inteligentes e conscientes, mas tive a impressão de que iam para bordo como quem vai para o escritório, com a ideia de que no fim do dia voltariam para casa; por isso arrisquei a opinião que os oficiais de marinha da França não se faziam ao mar por nenhuma solicitação profunda, romântica, mas que adotaram tal profissão depois de pesar os prós e contras, como poderiam ter seguido a advocacia ou a medicina. Era mais um meio de vida do que uma vocação. A família é o centro da vida, do francês e pareceu-me que o real e apaixonado interesse daqueles homens não era o seu navio, mas o lar em Brest ou Toulon, onde suas esposas e filhos os esperavam. Acho que os acontecimentos demonstraram que a minha opinião não estava longe da verdade.

 

Fui para casa pouco antes do Natal e comecei, imediata mente, a escrever meus artigos. Não possuo o dom jornalístico de escrever as histórias ainda sob o calor da ação, e o cansaço daqueles dias movimentados não me permitia escrever à noite. Acho esta espécie de trabalho mais difícil que fazer obras de ficção. Sinto-me atordoado com os fatos que tenho de narrar e preciso de tempo e reflexão para pô-los em ordem. Li num jornal inglês os artigos escritos por um correspondente que esteve fazendo mais ou menos a mesma viagem que realizei, e, embora os achasse superficiais e algumas vezes pouco exatos, não podia deixar de admirar a sua habilidade em apreender os pontos salientes produzindo aquela coluna de leitura agradável e impressionante. Eu suava sangue sobre estas pequeninas obras. A maior parte do meu material era cacete e eu queria torná-lo interessante; queria também ser sincero, e entretanto via-me obrigado a deixar muita verdade por ser dita; alem disso, no meu próprio interesse devia escrevê-las tão bem quanto possível. Embora fossem artigos de jornal que estariam esquecidos no dia seguinte, eu não consentiria em mandar alguma coisa escrita de maneira descuidada e deselegante. Decididamente sou um péssimo jornalista.

Enquanto escrevia meus artigos um jovem aviador francês chegou de um aeródromo vizinho. Estava desapontado. Contou-me que no campo em que ele se achava destacado haviam chegado alguns aviões para serem experimentados e que um certo número de notas de mil francos encontraram caminho fácil dos bolsos do agente do fabricante para os das pessoas que estavam encarregadas dos testes de sorte que todos os aparelhos foram aceitos. Uma outra história deste jaez me deixou desanimado. Parecia que a França encomendara aos Estados Unidos uma remessa de quinhentos aviões por mês, mas acontecia que uma pequena parte essencial do mecanismo ainda era feita. pelo modelo de um fabricante francês que possuía a patente e ele exigia um pagamento de mil dólares por avião. Isto queria dizer que os fabricantes americanos tinham que aceitar uma perda na transação de forma que a entrega foi suspensa. Ouvi a continuação deste caso algum tempo de pois. Dois dias antes da queda de Paris este fabricante francês cabografou para a firma americana dizendo que podia usar a parte patenteada mediante o pagamento de cinquenta dólares por avião.

Quando terminei meus artigos despachei-os e parti para Inglaterra, de onde tive aviso que outro trabalho me aguardava. A viagem de Paris a Londres por trem que normalmente levava sete horas era, naquela época, intolerável: quem a fizesse em dezessete horas tinha muita sorte. Às vezes acontecia tomar-se um navio e passar lá a noite toda, quando ha via notícia de um submarino no Canal; eu conhecia duas ou três pessoas que esperaram em Boulogne nada menos de três dias. Nunca tinha tomado um avião, pois me parecia um risco desnecessário quando não tinha pressa em chegar ao meu destino, mas de ha muito já havia resolvido que não hesitaria diante de um caso de urgência.

Pela primeira vez resolvi, pois, viajar pelo ar. Mas o tempo estava tão mau quando cheguei a Paris que os aviões não estavam trafegando; na Inglaterra tinham se registradas enchentes e a maioria dos aeródromos estavam debaixo d’água. Aproveitei-me deste contratempo para ver meus amigos e durante a minha estada recebi uma proposta interessante. No fim da última guerra ficou claro que nenhum plano definitivo para um tratado de paz havia sido traçado e este teve que ser improvisado, baseado em dados inadequados. Os franceses não que riam ser apanhados desprevenidos outra vez e uma pequena comissão tinha sido formada, para esse fim sob a presidência de um hábil diplomata que já demonstrara sua capacidade em tal mister na redação do estatuto para a Alsacia-Lorena, quando tais províncias foram devolvidas à França, por força do Tratado de Versailles. Sugeriu-se que na referida comissão devia haver um representante do Ministério do Exterior da França, um do exército, um do Ministério do Exterior da Inglaterra e outro das forças armadas britânicas. Fui convidado para trabalhar com a comissão. Isto envolveria o estudo dos tratados passados, a começar pelo de Westphalia em 1648, o estudo etnográfico das populações visando eliminar as dificuldades das minorias estrangeiras e frequentes idas a Genebra para consultar documentos e pessoas. A tarefa me parecia útil mas excessivamente entediante, e como eu nada poderia fazer sem a necessária autorização apresentei a ideia ao Ministro na Embaixada da Grã Bretanha; este a julgou tão importante que a transmitiu ao “Foreign Office”. A resposta um tanto seca que veio de Londres teve o efeito de deixar claro que o governo de Sua Majestade não queria perder tempo resolvendo o que devia ser feito com a pele do lobo antes do lobo ser morto.

Achei os meus amigos franceses confiantes como sempre na capacidade do Exército Francês de esmagar o ataque ale mão quando, por fim este fosse tentado. Não fosse por isso eu teria ficado ainda mais preocupado com as notícias que me chegavam da tendência pró-nazista das conversas nos salões. A aristocracia odiava o regime republicano e não se dava o trabalho de esconder sua convicção de que estaria mais bem servida sob o domínio de Hitler do que com um governo socialista como o de Leon Bium. Uma grande dama foi intimada por Sarraut, Ministro do Interior, e avisada de que seria presa se não controlasse a língua. A alta burguesia declarava que a França ficaria arruinada se a guerra durasse muito tempo e se tivesse que levar ainda três ou quatro anos a Grã Bretanha devia estar preparada para pagar a orquestra. As licenças eram freqüentes durante aquele período de inação e fiquei chocado ao ouvir que alguns dos oficiais mais jovens quando vinham a Paris diziam abertamente que a guerra era um grande aborrecimento e um desperdício de tempo e que talvez não houvesse grande prejuízo se Hitler tomasse a França, a organizasse e deixasse que todos vivessem em paz e tranqüilidade. Ouvi dizer que Gamelin, o comandante em chefe, e Georges, seu chefe de estado maior, não estavam em boas relações e que Daladier era inteiramente hostil a Reynaud, que fazia intrigas contra ele para conseguir o posto de primeiro ministro. Houve um caso que achei divertido. O Presidente, Monsieur Lebrun, resolveu visitar Strasburgo, e sua projetada viagem foi mantida em segredo. Apenas as principais personagens do seu grupo de auxiliares diretos tinham conhecimento da viagem e mesmo a escolta da polícia que devia acompanhá-lo à estação só foi avisada no último momento. Ele chegou e foi levado para as margens do Reno. Quando atingiu um ponto de onde podia divisar os alemães do outro lado, os nazistas levantaram um grande cartaz que dizia o seguinte: “Saudamos o Presidente Lebrun” e uma banda de música executou a “Marsellaise”.

O tempo continuava mau, mas era necessário levar à Inglaterra a mala diplomática da Embaixada com importantes despachos, de forma que fui avisado que devia estar pronto para embarcar a qualquer momento. Eu ia viajar num aparelho da R.A.F. Duas vezes fui ao aeroporto de Le Bourget e tive que voltar a Paris. Uma vez esperei no avião meia hora, antes do piloto anunciar que não podia levantar vôo. Da terceira vez ele disse: “Bem, vou levantar vôo, mas não tenho a certeza de poder descer”. O avião era pequeno e me pareceu muito franzino. As circunstancias não eram ideais para um primeiro vôo. Voávamos baixo para não sermos tomados por inimigos e sobre o Canal podíamos viajar a mais de uma centena de pés acima d’água. Eu sabia que para atravessar o Canal precisaríamos apenas de um quarto de hora e fiquei surpreso quando constatei que o prazo passara sem que houvesse ainda sinal de terra; principiamos a andar de um lado para outro no mar e comecei a pensar que o piloto havia mudado de ideia e estávamos seguindo para os Estados Unidos. Depois de cerca de uma hora sobrevoávamos a Inglaterra. Demos uma volta sobre um aeródromo, mas o piloto, penso eu, recebeu uma mensagem dizendo que não podia descer ali, e fomos descer num campo militar em Sussex. Estava cheio de aviões. Deram-me alguma coisa para beber e tomei um caminhão que ia para a cidade mais próxima. Era domingo; não havia trem senão dentro de duas ou três horas, e assim mesmo um trem muito vagaroso, de forma que aluguei um automóvel, e, de pois de modificar meu itinerário Sumas duas vezes, pois as enchentes tinham deixado as estradas intransitáveis, cheguei a Londres com frio e faminto, mas ainda em tempo para um jantar tardio no Café Royal.

 

Fui convidado para dois coquetéis no dia seguinte. Era a minha primeira visita à Inglaterra depois da guerra e eu não estava preparado para o espírito que parecia predominar. Naturalmente todos faziam ou tentavam fazer uma espécie qual quer de trabalho de guerra, mas tive a impressão de que muito menos do que a energia total do país estava sendo aproveitada para a guerra. À medida que o tempo passava, que eu via e conversava com gente da alta e da baixa sociedade, essa impressão criava raízes, mas quando medrosamente tentava expressá-la, eu era intempestivamente combatido. Estive com membros do gabinete e lideres da imprensa em almoços e jantares, quando me mostrava admirado por terem eles tempo para as atividades sociais, respondiam-me que tinham de comer em alguma parte. Os restaurantes estavam cheios, e, ao almoço, no Ritz, via-se todo mundo conhecido; os teatros tinham ótimas casas. O blecaute era muito mais severo em Londres que em Paris e escutava-se muita queixa de que o mesmo estava prejudicando o comércio e as amenidades da vida. Felizmente os chofers de táxis adquiriram uma grande habilidade em dirigir nas ruas escuras e o prejuízo dos donos dos “night clubs” foi menor do que se esperava.

Havia muitos murmúrios em torno do nome de Mr. Chamberlain. Ouvi muitas pessoas dizerem que ele estava ficando tão convencido que não queria conselhos de ninguém.

O país, disseram-me, estava sendo dirigido por ele, com Sir John Simon e Sir Samuel Hoare, e o Parlamento se tornara uma quantidade neglicenciável. Qualquer indício de insubordinação era implacavelmente abafado pelo Capitão Margesson, chefe de polícia. Os jornais mais importantes apoiavam cegamente o Primeiro Ministro. Espíritos rebeldes na Câmara dos Comuns, como grande parte da opinião publica e do Partido Trabalhista, eram de opinião que se quiséssemos vencer a guerra, tornava-se necessário um esforço muito maior do que aquele de que era capaz o gabinete. Mas ninguém descobria o meio de convencer Mr. Chaniberlain, fortemente entrincheirado como se achava, de que devia ceder o posto a um líder mais vigoroso. Acreditava-se que só mesmo um desastre em terra ou no mar o tiraria do governo. Isto era trágico.

Durante esse período frequentemente estive em contato com vários membros do governo Chamberlain. Lembro-me de um jantar em que todos continuamos sentados na sala de jantar, depois das mulheres terem saído. Os três ministros presentes falavam muito interessantemente sobre as vantagens da educação clássica e dois deles demonstraram tal conhecimento do grego antigo que me deixaram cheio de admiração. Nunca estive com Mr. Chamberlain, mas conheci sua senhora numa grande recepção para qual foram convidados os membros do corpo diplomático e do governo. A aparência da Senhora Chamberlain lembrava a de uma Marquesa Francesa do “ancient régime”, e, ao mesmo tempo, muito estranhamente, a Rainha Branca em “Alice”. Deu-me bondosamente a entender que com habilidade e aplicação eu iria longe como escritor; tinha lido um dos meus livros, “The Summing Up”, e muito amavelmente pediu-me que fosse tomar chá com ela um dia, em Downing Street para que ela pudesse me dizer mais por miúdo o que pensava do livro; mas eu era acanhado demais para ir.

Hoje Mr. Chamberlain está morto e na ocasião da sua morte a imprensa escreveu longos elogios sobre o seu caráter. Foram exagerados. Era um homem de habilidade medíocre que atingiu uma posição eminente porque o partido a que pertencia tinha resolutamente evitado que homens de talento sais sem da obscuridade, de sorte que quando um Premier teve que ser escolhido não havia ninguém de destaque para escolher. Sua vaidade era grande. Cercava-se de homens que ele pudesse manejar, isto é, de homens que sempre diziam sim, e não obstante o desejo da nação, não consentiu, antes de ser forçado a isto, em admitir no seu gabinete homens que não lhe eram subservientes embora cheios de qualidades. Quando se tornou evidente, no início da guerra, que um governo nacional era necessário e quando foi cientificado de que os lideres trabalhistas não colaborariam sob sua direção, Chamberlain deve ria ter sido suficientemente patriota para se afastar do poder. Mas era tão vaidoso que continuou a julgar-se capaz de realizar a missão que lhe fôra confiada; e, como todos sabem, foi preciso o desastre que estava previsto para forçá-lo a pedir de missão. Penso que ele passará à história como um homem, sem dúvida alguma sincero e honesto, mas embriagado pela presunção e pela vaidade que sempre punha seu partido antes da pátria, que pela sua inépcia e teimosia trouxe à beira da ruma.

Quando cheguei em Londres, um novo ministro da informação havia sido nomeado. O antigo ministro, Lord MacMillan, juiz de nomeada, pedira demissão devido às criticas do público e da imprensa, e Sir John Reith, bem conhecido por que fôra durante vários anos diretor geral da British Broadcasting Corporation (B.B.C.), ocupou seu lugar. Respondendo a uma carta sua sobre os meus artigos eu lhe dissera que os franceses ouviam o seu próprio rádio com desconfiança, mas estavam muito inclinados a crer no que ouviam da Inglaterra, e aventurei-me a sugerir que essa confiança devia ser mantida. Para isso parecia-me necessário ser franco com o público e respeitar os fatos. Pensei que meu zelo podia ser mal recebido, mas Sir John Reith respondeu-me muito cortesmente que era da mesma opinião e que tinha intenção de fazer aquilo que concordava ser não apenas certo, mas inteligente. Sir John Reith tinha fama de ser um grande organizador, mas ríspido, dominador e puritano, e seus subordinados na BBC irritavam-se com o que consideravam seus métodos tirânicos e sua interferência em suas vidas particulares. Parecia o homem indicado para pôr ordem no Ministério da Informação, que estava com gente demais, pessoas que não sabiam o que fazer e que tratavam mal os jornalistas que delas dependiam para suas notícias. Fiquei imediatamente impressionado pela sua maneira comercial de conduzir as coisas; marcou para ver-me ao meio dia, um dia depois da minha chegada à Inglaterra, e quando me dirigi para a portaria para me fazer anunciar, justamente quando o relógio batia doze horas, ouvi um continuo perguntar se eu já tinha chegado. O relógio mal acabava de bater quando fui introduzido no gabinete do Ministro.

Eu já conhecia ligeiramente Sir John Reith. Achei-o num estado de grande agitação, pois naquele dia ele ia à Câmara dos Comuns tomar posse de sua cadeira e pronunciar o seu primeiro discurso, como deputado e como ministro, diante daquele temível corpo representativo. Era suficientemente inteligente para saber que todos eles estavam ansiosos para alvejá-lo se pudessem. Eu só podia pensar como agradaria aos seus subalternos da BBC ver aquele homem grande, ditatorial, com seu rosto ríspido, perante o qual todos tremiam, cheio de apreensão com a prova que tinha diante de si. Durante nossa palestra discutimos qual o melhor emprego para os meus serviços, e em seguida, tendo que ir para Westminster, chamou o diretor de um dos departamentos e colocou-me sob sua direção.

 

Durante os três meses que passei na Inglaterra fiz varias visitas ao Ministério da Informação onde havia tanta boa vontade como no Bureau de Paris e quase a mesma dose de confusão e cujo pessoal constituía a mais estranha das misturas. Toda espécie de gente tinha conseguido colocação ali: novelistas, advogados, técnicos de arte, agentes de publicidade, nobres, agentes literários, mulheres cujas habilidades nunca descobri. Alguns procuravam trabalho lá porque queriam fazer alguma coisa para ajudar o esforço de guerra, outros por que a guerra os privara dos meios de ganhar a vida. A profissão mais escassamente representada, parece-me, era a de jornalista. Os jornalistas são os inimigos naturais do gênero humano. Como suponho ser usual em todas as, repartições do governo também ali havia muita intriga e cada qual tinha que andar de olho bem aberto para prevenir as manobras do colega que lhe cobiçava o lugar. Qualquer um podia ser despedido de uma hora para outra e este sentimento de insegurança diminuía muito a eficiência individual. Os mais sabidos, tentando mostrar-se necessários, escreviam resmas de papel que os destinatários jogavam nas cestas sem ler sequer; os mais astutos, tendo descoberto que o melhor meio de não errar é nunca fazer coisa alguma, opunham-se sistematicamente a toda sugestão que lhes era feita. Um destacado chefe de departamento conseguiu desta maneira manter-se no posto (e conservar um salário encantador) por mais de um ano. O Ministério estava, além de tudo, prejudicado no seu trabalho, que era dar notícias ao público, pela dificuldade de obter informações. No Departamento da Guerra, no Almirantado e na Força Aérea, ninguém compreendia que o público tinha o direito de saber o que estava acontecendo; vetavam-se as notícias, e negava-se, licença para a publicação de fotografias. Resultava daí que a imprensa estrangeira era obrigada a transcrever as informações detalhadas mas inexatas fornecidas pela Alemanha.

Como meus artigos atraíssem uma grande atenção ficou resolvida a sua publicação em panfletos que seriam vendidos a seis pence. O folheto, foi um sucesso para surpresa de todos e minha também. Em dois dias a primeira edição de quarenta mil estava esgotada e dentro de um mês cem mil copias foram vendidas. Enquanto isso, eu procurava alguma coisa para fazer. Todos no Ministério achavam que meus serviços deviam ser utilizados, mas ninguém sugeria uma formula eficiente. Eu era como um cachorro de circo de cujas exibições o povo provavelmente gostaria, mas que, por algum motivo, não se encontrava jeito para incluir no programa. Achei a espera enfadonha e como meu estado de espírito não estava para escrever contos, procurei minorar minha impaciência com um es tudo sobre o estilo de Edmund Burke. Li seus principais trabalhos e varias das suas biografias. Seu caráter variável, com alternativas de nobreza e pequenez, sua vaidade, sua irrascibilidade e seu encanto, foram de enorme interesse para mim. Pensei em escrever um ensaio sobre o homem e sua obra, mas era um empreendimento grande demais para o momento. Contentei-me com a composição de um pequeno trabalho sobre o modo como Burke manejava a língua inglesa. Depois, algum espírito brilhante no Ministério da Informação teve a ideia de que eu devia escrever uma série de artigos sobre a Inglaterra, similares ao que escrevera sobre a França. Não recebi a ideia com muito agrado porque significava uma re petição do que já havia feito antes, mas eu estava disposto a fazer tudo que me pedissem, e o encargo pelo menos, trazia a vantagem de me levar a conhecer partes da Inglaterra que eu não conhecia e me dava a oportunidade de encontrar patrícios meus de um tipo com o qual eu nunca entrava em contato. Não foi tão fácil como em França conseguir as varias permissões que se faziam mister. Lá eu era um escritor inglês de renome a quem todas as facilidades deviam ser concedidas; na Inglaterra eu era apenas um destes insuportáveis autores que andam se metendo com a vida dos outros. A primeira tarefa que me coube foi escrever um artigo sobre o que se chamava a pequena esquadra; chalupas, caça-minas, navios faróis, as pequenas embarcações cujas tripulações estavam prestando úteis e arriscados serviços nas costas da Inglaterra; com razão sentia-se que a atenção do público seria despertada para os homens que, dia a dia, obscuramente, arriscavam suas vidas pela pátria. Sou muito temeroso do mar, mas um bom marinheiro, e embora muito provavelmente sentisse medo, eu sabia que não enjoaria e aceitei a aventura. Infelizmente, justamente quando foram completados entendimentos e eu devia seguir para o porto onde iria embarcar numa chalupa, os alemães invadiram a Noruega e todo o cenário se modificou. As autoridades militares e navais estavam ocupadas demais para se incomodarem com um civil que queria material para uma série de artigos.

Finalmente fui mandado à França de onde devia escrever mais artigos para um jornal ilustrado com uma imensa circulação, e ao mesmo tempo. mandar relatórios particulares sobre assuntos cujo conhecimento interessava ao governo mas dos quais não havia necessidade de informar o público. Minhas relações na França com um grande número de pessoas conhecidas e a facilidade que tinha de fazer novas ligações autorizavam-me a crer que eu me sairia bem neste útil trabalho. Voltei a Paris pelos ares, desta vez num grande avião de passageiros; mas, ainda não havia uma semana que eu lá estava quando os alemães invadiram a Bélgica e a Holanda e o plano ficou reduzido a nada.

 

Voltei para casa. Esperava que as coisas se resolvessem em poucas semanas e pretendia depois regressar a Paris e trabalhar. A Riviera estava tranqüila e o tempo magnífico. Tivemos permissão para trazer o Sara de volta ao seu velho abrigo em Villefrance. Não tínhamos porém licença para tirá-lo de lá, mas costumávamos descer e almoçar a bordo e tomarmos banho de mar, saltando da ponta da proa. Numa parte do jardim que nunca tivera grande utilidade resolvi fazer canteiros de bulbos. Como os jardineiros pouco tivessem a fazer, botei-os para trabalhar nisso. Meus olhos estavam deslumbrados com a variedade de cores que eu antevia, quando acompanhava os progressos do serviço. Havia um homem em Antibes que vendia bulbos; fui vê-lo e discutimos meu plano. Naturalmente, não lhe era possível conseguir tulipas da Holanda naquele ano, mas podia arranjar-me íris e narcisos de várias espécies. Por outro lado eu tinha também vários bulbos espalhados pelo jardim e pretendia transplantá-los. Encomendei vinte mil bulbos que deviam ser entregues em setembro.

As notícias não eram muito boas, mas eu não temia nada; vira o Exército Francês com os meus próprios olhos, sabia com que tropas magníficas ele contava, e quão patrióticos, corajosos e inteligentes eram seus oficiais. O rompimento das linhas em Sedan causava desapontamento e confusão, mas quando Gamelin foi demitido e Weygand assumiu o seu posto, pensei que tudo seria recolocado no caminho certo. Meus amigos em Paris escreveram-me dizendo que as coisas estavam sérias, mas que não havia razão para alarme; a vitória era certa. O correio começou a chegar irregularmente e da Inglaterra os jornais vinham com grande abraso, quando vinham. A capitulação do Exército Belga, o perigo que a Força Expedicionária Britânica tinha de enfrentar na sua retirada para o mar e sua fuga de Dunquerque com a perda de seus canhões e equipamento foram abalos tremendos, mas que não destruíram a nossa confiança; tínhamos fé em Weygand e estávamos certos de que ele controlaria tudo. Percebi pela primeira vez que Paris não seria defendida ao receber uma carta da Embaixada Britânica remetendo-me vários jornais que estavam guardados lá para mim. Depois veio a fuga do governo para Tour. O Exército Alemão entrou em Paris. Nenhuma notícia vinha mais da Inglaterra ou do Norte da França, mas o rádio continuava a dizer-nos que Weygand estava fazendo a retirada de acordo com um plano e quando julgasse o momento azado desfecharia sua contra-ofensiva e expulsaria os invasores. Acreditamos. Pensamos que ele faria uma nova frente no Aisne, no Somme, no Loire. O governo fugiu para Bordeus. Ainda assim ninguém se alarmava; todos estavam convencidos de que o Exército Francês era invencível. Quando ouvi no rádio que o governo estava realizando reuniões do gabinete quase que continuamente percebi que a situação era desesperadora. Disse então aos meus amigos: “Creio que a França vai pedir um armistício”. Todos riram de mim.

O fim chegou com uma rapidez assustadora. Reynaud pediu demissão e Petain se tornou chefe do governo. Foi nu ma fresca e radiosa manhã que ouvimos pelo rádio o grave e confrangedor discurso que o velho marechal fez à nação francesa nó qual declarou ao povo que a paz era necessária. O mar, o mar vazio, estava calmo e azul. Lagrimas encheram os nossos olhos e correram pelas nossas faces. Fui até a casa do jardineiro para dar-lhe a terrível notícia. Ele e a mulher estavam tomando café numa pequena mesa redonda coberta com um oleado de quadros. Cada qual tinha uma xícara de café com leite e uma fatia de pão e num prato havia uma porção de manteiga, noutro algumas frutas. O jardineiro empurrou a sua xícara e chorando escondeu o rosto. Sua esposa, uma mulher gorda, muito simples, com uns quarenta e cinco anos, chorava alto, as lagrimas rolando pelo rosto.

— Que vergonha! — murmurou — Que vergonha!

O jardineiro levantou o rosto transfigurado pelo pesar.

— Que vergonha! disse suspirando. Depois cerrou os punhos e gritou: — Fomos traídos! Fomos vendidos!

Josephine soluçava convulsamente.

— Pobre França! — murmurou.

Esperei que se acalmassem e depois fiz algumas sugestões que a situação exigia. Pelo que sabíamos, os italianos podiam chegar a qualquer momento. François, como todos os franceses da Riviera, sempre e mostrara muito contra eles e tive que lhe falar rispidamente duas ou três vezes devido ao seu comportamento para com os italianos empregados na minha propriedade. O homem não poupava palavras. Os italianos nada respondiam quando ele atacava sua pátria e lhes dizia que se dependesse dele mandaria fuzilar todos os italianos que viviam na costa; mas notei o ar de raiva que havia nos seus olhares e pensei que François correria grandes riscos se um exército italiano ocupasse aquela zona. Disse-lhe para seguir no seu carro, com a mulher, para uma pequena propriedade que tinha nas montanhas e esperar lá os acontecimentos, quando os jardineiros-ajudantes que viviam na aldeia subiram para o trabalho diário, como de costume, fiquei lá enquanto François lhes dava instruções para regar os canteiros enquanto estivesse fora e providenciassem para que tivéssemos legumes em casa. Em seguida, com o carro cheio de todas as coisas que pretendia salvar, partiram os dois.

Mas eu tinha que pensar em mim. Parecia-me muito provável que os italianos ocupariam a Riviera e internariam os súditos britânicos. Goebbels falara pelo rádio sobre um livro meu chamado Ashenden, sobre minhas experiências durante a última guerra no qual tornei os fatos tão dramáticos quanto necessários para meu propósito de produzir um trabalho de ficção, mas o propagandista alemão considerou-os verdades cruas e atacou violentamente os métodos de espionagem ingleses, e indiretamente a mim mesmo; de modo que pensei que estaria melhor nas mãos dos italianos do que dos compatriotas de Goebbels mas mesmo a entrada para um campo de concentração ou de internamento italiano não era uma possibilidade que se pudesse olhar com prazer. Segui de automóvel até o consulado britânico, em Nice, onde encontrei uma verdadeira multidão desejosa de obter informações. O cônsul geral, um homem grande, muito manso e atencioso, sem grande energia, apesar da multidão que o cercava conservava-se calmo. Com voz preguiçosa e arrastada disse-nos que esperava a qualquer momento notícias da Embaixada Inglesa que seguira para Bordéus com o governo francês, sobre as medi das que deviam ser tomadas para a saída dos súditos ingleses da França.

Voltei para Cap Ferrat e esperei toda a tarde por uma mensagem do consulado. Nada veio e todas as vezes que tentei comunicar-me para lá a linha telefônica estava ocupada. Ansioso e cansado de esperar voltei a Nice. O cônsul me disse então que acabara de receber uma ordem da embaixada para que todos os súditos britânicos partissem. Dois navios que tinham acabado de desembarcar seu carregamento de carvão em Marselha e estavam de partida para Bône, na Argélia, para apanhar um carregamento de minérios de ferro, haviam sido requisitados e se achavam em Cannes. Devíamos estar no cais às oito horas da manhã seguinte, levando apenas uma valise, um cobertor e provisão para três dias de viagem. Havia submarinos italianos no Mediterrâneo e à minha pergunta sobre se seriamos escoltados respondeu o cônsul que não tinha certeza. De qualquer maneira, era esta a última chance de sair da França e se os súditos ingleses não se valessem da mesma, o governo lavava as mãos quanto a eles. Os cargueiros eram de menos de quatro mil toneladas, mas esperava-se que em Oran, para onde íamos em primeiro lugar, ou em Gibraltar, o Almirantado nos mandasse passar para um navio de passageiros. O cônsul pediu-me para procurar os súditos britânicos que moravam perto de mim e dar-lhe as instruções necessárias e eu parti para Cap Ferrat.

Alguns precisaram de uma boa dose de argumentos para se convencerem. Não gostavam de pensar em deixar as suas casas e um ou dois, que estavam estabelecidos na Riviera ha via muito tempo e não tinham ligações na Inglaterra, não sabiam para onde ir quando lá chegassem. Outros reclamavam ante o perigo da jornada. Quando me interrogavam abrupta- mente sobre o que pensava das probabilidades de chegarmos à Inglaterra sem contratempos, eu era obrigado a dizer que acreditava termos cinquenta por cento de chance; mas frisava também que os que ficassem correriam o risco do internamento com a impossibilidade de conseguir dinheiro e a carência de víveres. Deixei que decidissem por si mesmos se valia a pena enfrentar o risco e fui para casa. Embora eu procurasse apresentar o assunto com equanimidade quando falava com aquelas pessoas, parece-me que fiz pesar um tanto a minha opinião de que era melhor para todos a partida. Mas, dentro de mim mesmo, achava-me indeciso. Eu estava resolvido a não me deixar internar, pois estava velho demais para passar por tal experiência e preferia matar-me do que morrer aos poucos num campo de concentração. Por outro lado era bem possível que os italianos permitissem ficar na minha vila, embora sem liberdade para usar o telefone ou comunicar-me com meus amigos; podia ser até que eu ficasse limitado à minha propriedade. A guerra seria longa agora (naturalmente eu não sabia que o mundo exterior estava prevendo a derrota da Inglaterra para dentro de algumas semanas; a possibilidade de tal coisa nunca me ocorreu) e eu não me achava preparado para suportar o aborrecimento de uma existência inútil talvez por três ou quatro anos. Preferiria antes deixar um mundo que não me desse alegria de viver.

As atividades do dia me haviam fatigado; quando dei uma volta pelo meu jardim que, se eu fosse embora, com toda probabilidade não tornaria mais a ver, perguntei a mim mesmo se valia a pena realizar tal jornada. Desde a vez em que quase me afoguei em Bornéo fiquei com um desarrazoado me do de morrer afogado: desarrazoado, digo eu, porque naquela ocasião achava-me tão exausto pelo esforço que fiz para manter-me na tona que eu desejava apenas morrer para descansar. Não senti medo. Durante minha longa vida eu havia feito tudo o que desejara e nos poucos anos que me restavam tinha apenas na minha frente o decréscimo gradativo das minhas forças e da minha capacidade de divertir-me; imaginei então se valia a pena fazer mais um esforço ou se não seria melhor deixar a coisa correr naturalmente. No andar superior, à cabeceira da cama, eu tinha um tubo de pílulas que ajudavam o sono e que eu sabia me dariam o alívio que eu buscava. Mas, por outro lado apresentava-se uma boa chance de me salvar e eu sabia que minha morte causaria muita pena a uma ou duas pessoas que me queriam bem. Ainda tinha alguns livros para escrever e eu não queria perder os últimos anos de vida, quando podia sentar-me para descançar depois de terminar uma longa tarefa, e, pela primeira vez, sem escrúpulos de consciência, dar-me ao luxo do descanso. Acrescia a isto que eu já havia suportado muitas dores na sida e que para afogar-me não levaria mais de um minuto ou dois. Resolvi que valia a pena enfrentar o risco.

 

Jantamos apressadamente discutindo nossos planos. Ficou resolvido que Gerald, cidadão americano, deveria permanecer a fim de tentar salvar as melhores coisas na minha casa. Embora eu não possuísse nada de grande valor, tinha muitos objetos aos quais criara amor devido ao longo convívio e que estavam ligados em minha mente à lembrança de dias felizes em algum país longínquo e às recordações da minha jovem tude, a que o tempo emprestara tinta romântica, ou simples mente a algum curioso incidente responsável pela sua aquisição. Havia peças do mobiliário e objetos de arte que eu me sentia impelido a levar comigo, mas que eram grandes demais para o transporte; e afinal de contas, embora eu me sentisse muito ligado a eles, não eram insubstituíveis. Por outro lado eu possuía uma coleção de quadros que, uma vez espalhados, nunca mais seriam reunidos. Durante a última parte do século dezoito e nos primeiros anos do século dezenove foi moda na Inglaterra terem-se retratos pintados dos atores favoritos em cenas das peças em que os mesmos apareciam. Muitos artistas se encarregaram de tais pinturas, mas os principais foram Zoffany, pintor de origem veneziana, e um holandês chamado DeWilde. Comprei um desses quadros ha mais de trinta anos, porque eu era dramaturgo e o retrato muito bom, e em segui da, sem ter feito tal propósito inicialmente, comecei a colecioná-los. Na época em que os adquiri ninguém lhes dava muita importância, de forma que cada um me custou uma libra ou trinta shillings, e o melhor quadro teatral de Zoffany dezenove libras. Este último pertencera a Henry Irving e durante muitos anos esteve pendurado na sala verde do Lyceum Theatre. Embora os preços fossem caindo aos poucos, continuei a comprar os quadros que apareciam no mercado e acabei possuindo cerca de quarenta deles e igual número de aquarelas. Havia uma excelente coleção destas pinturas no Garrick Club de Londres, mas a minha era a melhor que havia em mãos de particulares. Era impossível tentar salvar tantos quadros, mas escolhi os melhores, cerca de doze, e pedi a Gerald que os co locasse em lugar seguro.

Eu já trabalhara muito na antologia a que me referi em páginas anteriores e aborrecia-me pensar que todo aquele trabalho seria desperdiçado, mas o volume era demasiado grande para que eu o levasse comigo. Não me importei muito, pois o trabalho, embora entediante, podia ser feito outra vez; por outro lado, se eu perdesse as notas que tornei durante a minha viagem à Índia nunca mais poderia escrever um livrinho sobre as minhas experiências, conforme projetei; havia também vários livros de notas soltas que venho tomando, de maneira desordenada, desde que completei dezoito anos. Algum tempo antes eu aproveitara a vantagem de algumas semanas de descanso para fazer uma seleção das que me pareciam apresentar algum interesse para os meus leitores e as reduzi a dois volumes grossos, datilografados, que algum dia espero dar à publicidade, e destruíra os livrinhos de notas, de forma que se eu perdesse aquele material datilografado jamais poderia reconstituir o trabalho. Estas e as notas sobre a Índia, Gerald prometeu-me levar para o iate onde a bandeira americana lhes serviria de proteção. Eu não sabia que os cônsules americanos tinham recebido instruções do Departamento de Estado notificando-os de que não deviam interferir caso a propriedade americana fosse saqueada ou danificada.

Subi ao meu gabinete de trabalho para reunir estes papéis e tive um aperto no coração quando olhei pela última vez para a mesa onde, durante anos, passara tantas horas de feliz atividade; olhei pela última vez para o Gauguin que comprei ha via muito tempo em Tahiti, numa cabana nativa, no meio da mata e lancei um último olhar às estantes que tomavam as paredes do aposento. Estavam cheias de livros. Elas pareciam silenciosamente queixosas por eu as abandonar. Fiquei um momento sem saber o que escolher para ler na viagem. Tinha muito pouco tempo a perder. Apanhei “Julgamento e morte de Sócrates”, de Platão, “Esmond”, de Thackeray e “Villette”, de Charlotte Bronte. As duas novelas eram longas — sua leitura tomaria bastante tempo — e havia muito que não as lia.

Meu gabinete de trabalho dava para o terraço. Saí, tranquei a porta, e olhei pela última vez a sombra escura do Mediterrâneo que ficava lá em baixo, defronte da minha casa; depois desci para meu quarto de dormir, a fim de arrumar as malas. Era difícil resolver o que podia ainda colocar na parte da valise que estava disponível; parecia-me que podia comprar roupas brancas em qualquer lugar, mas os ternos teriam de ser feitos, o que tomava tempo, de forma que levei roupas internas apenas para a duração da viagem, e enchi o resto de ternos. Fiquei sentido por deixar uma bela casaca novinha, mas pensei que jamais teria ocasião de usá-la outra vez; hesitei um pouco quanto ao meu “dinner jacket”, porém acabei levando-o. Quando fui para a cozinha a fim de providenciar sobre as provisões, a cozinheira e Nina, a empregada amorosa, estavam debulhadas em lagrimas. Como a viagem havia sido resolvida repentinamente, não havia em casa nada que me pudesse ser útil. Assim mesmo, ainda encontrei umas seis latas de sardinha e três ou quatro de “corned beef”. Uma das pessoas a quem eu transmitira as instruções do cônsul fôra um velho médico inglês que vivia com a esposa numa pequena casa em St. Jean; quando fui vê-lo ele me disse que com açúcar uma pessoa podia viver muito tempo, de modo que coloquei na cesta três pacotes de duas libras de açúcar, uma libra de chá, uns dois pacotes de macarrão, um vidro de marmelada e um pão. Gerald perguntou-me se eu não queria uma garrafa de gim ou de uísque, mas respondi que não havia necessidade. Como eu tinha pouca pratica não me ocorreu levar um abridor de latas, um prato, uma faca e um garfo, um copo, um guardanapo ou uma toalha. Fechei a cesta sem nenhuma destas coisas altamente necessárias.

Já pronto para a viagem, achei prudente ir para Cannes naquela noite mesmo, pois na manhã seguinte a polícia podia resolver fechar a estrada; ademais eu não queria passar mais uma noite de agonia naquela casa. Foram tão pequenos os preparativos da partida que Erda, a minha cadela, não se apercebeu que alguma coisa de anormal estava em andamento: passou no jardim a maior parte da noite caçando os gatos estranhos; ao dar instruções para que ela fosse morta se a casa tivesse de ser abandonada, senti um frio na garganta. Segui mos silenciosos no automóvel. Sentia-me infeliz. De vez em quando uma lanterna balançava na escuridão fazia-nos parar e nossos papéis eram examinados por um grupo de soldados que guardava a estrada. Numa destas paradas um sargento nos perguntou se poderíamos fazer lugar para uma inglesa que devia também embarcar na manhã seguinte e que não tinha meios de chegar até Cannes. Naturalmente respondemos que faríamos isto com prazer e entrou no. nosso carro uma moça com um saco às costas e um cachorro. Ofereci-lhe um cigarro e quando risquei o fósforo tive oportunidade de olhá-la. Era uma mulher forte, jovem, com bonito rosto emoldurado de cabelos louros e revoltos. Estava num estado de triste apreensão. Era filha de pai inglês, já falecido, e de mãe holandesa, que ela deixara numa casinha onde viviam em Cannes; fazia apenas uma hora que fôra notificada de que os súditos ingleses deviam partir. Eu lhe disse que achava muito difícil ela conseguir levar o seu cachorrinho para bordo.

— Não irei sem ele — respondeu-me resolutamente.

Perguntei-lhe porque ia partir e ela me disse que estava noiva de um jovem holandês, e que, se ficasse, poderia passar anos sem vê-lo, mas não sabia onde ele se encontrava; tencionava também ir a Java onde possuía parentes. Quando nos aproximávamos de Cannes perguntei-lhe para que hotel pretendia ir e ela respondeu que pretendia passar a noite na praia. Pensei que talvez ela não tivesse meios para tomar um quarto no hotel e perguntei-lhe se tinha dinheiro. Respondeu-me rispidamente:

— Tenho o suficiente. Pode deixar-me em qualquer parte do cais.

Quando chegamos ela saltou sem mesmo dizer “good night” e desapareceu na escuridão do blecaute. Depois disto só tornei a vê-la a bordo. Como conseguira levar o cachorro, um dos oficiais teve que lhe ceder seu camarote. Andava acima e abaixo no tombadilho com o seu único vestido, um sulco de tristeza e desconforto bem visível no rosto. Não trouxera alimentos; os outros passageiros tiveram que lhe dar comida; não trazia dinheiro; foi preciso provê-la também disso. Ela recebia tudo aquilo com visível constrangimento: Foi informada que seu cachorro teria de ir para quarentena quando chegasse na Inglaterra e que ela teria que pagar dez shillings por semana para a alimentação do mesmo.

— Como poderei pagar dez shillings por semana? — dizia ela, dando uma gargalhada.

Algumas mulheres que sentiram pena dela se cotizaram para lhe dar o dinheiro necessário à manutenção do cachorro. A moça aceitou a dádiva com constrangimento. Nunca vi uma jovem conseguir tanta coisa à custa de uma história triste e de maneiras pouco graciosas.

Causava estranha sensação encontrar o Carlton Hotel, o mais frequentado de Cannes, brilhantemente iluminado e cheio de gente, em traje de baile, alguns já meio transtornados pelas bebidas, mas todos com um ar de alegria histérica que tinha alguma coisa de sinistro. Havia gente de todas as nacionalidades. Alguns tinham resolvido ficar, outros estavam ansiosos por partir logo que fosse possível. Circulavam boatos horrorosos. Dizia-se que os alemães entrariam na cidade dentro de quarenta e oito horas. Na manhã seguinte fui para o cáis. Os dois cargueiros que deviam nos levar estavam ancorados no porto.

 

Havia já no cáis uma verdadeira multidão que aumentava de hora em hora; quando por fim embarcamos, eram nada menos de trezentas pessoas. A Riviera não é apenas uma região ensolarada para gente sombria. Os grã-finos, cujos retratos o leitor tem visto nos jornais ilustrados e cujos feitos os escritores de frivolidades contam com detalhes, não vieram este ano e os que vieram já de ha muito procuraram lugar mais seguro. Havia gente de todas as classes misturada no denso tropel que esperava passar pela alfândega porque os franceses, mesmo naquele momento de crise, não abriam mão dos regulamentos, tivemos que passar diante da clássica mulherona metida num macacão que marcava nossas bagagens com giz. Havia no cáis alguns doentes trazidos. em macas diretamente do hospital que coitados tiveram que ser levados de novo ninguém sabe para onde, pois era impossível levá-los nos navios e cuidar deles. Havia um grande número de gente velha, soldados reformados, civis, hindus e suas esposas, que de pois de muitos anos a serviço do seu país se haviam estabelecido na Riviera onde o clima era ameno e a vida barata. Havia também muitos comerciantes que mereciam piedade ainda mais que os outros pois abandonavam negócios florescentes e prósperos e agora rumavam para a Inglaterra deixando metade de uma vida de trabalho para trás. Havia ainda velhas governantes, professores de inglês, chofers, garçons e também alguns jovens operários que vinham executando trabalhos de engenharia para o governo francês e cujo chefe se reacusara a vir, pois o trabalho estaria pronto dentro de alguns dias e ele não podia ficar com o remorso de deixá-lo inacabado.

Levei quatro horas para chegar a bordo mas muitos não o conseguiram senão à tarde. Uma pobre mulher morreu de insolação enquanto esperava. Os dois navios que iam nos levar eram o Saltersgate e o Ashcrest, um dos quais deslocava quatro mil toneladas e o outro pouco menos. As tripulações passaram dois dias tentando limpá-los mas o pó do carvão ainda fazia crosta nos tombadilhos e em todos os buracos e fendas. Dissera-me para ir para a primeira coberta; o porão de baixo devia servir-me de dormitório até que chegássemos a Gibraltar. Partimos à noite e chegamos a Marselha no dia seguinte. Nessa noite dormi no tombadilho, mas de madrugada senti muito frio e daí por diante dormi no porão. No tombadilho de ferro — e portanto duríssimo — deitei-me sobre meu cobertor e meu capote, mas isto pouco adiantou; eu dormia de um lado até que era despertado pela dormência das pernas. Trocava de lado, para ser acordado logo depois pela dormência da outra perna; depois me deitava de costas, mas não podia dormir em tal posição. No porão éramos setenta e oito. Uma escada nos conduzia até lá em baixo e não me animava muito pensar que se houvesse um acidente poucos poderiam escapar. No nosso navio, o Saltersgate, estavam quinhentos refugiados e no Ashcrest, oitocentos. Quando chegamos a Marselha recebemos instruções das autoridades francesas para nos unirmos a um comboio francês e depois de passarmos um dia inteiro na amurada do navio, proibidos de saltar, seguimos para Oran.

As condições a bordo eram tais que passamos mais de dois dias para encontrar nossos pertences. Uma senhora quando entrou a bordo disse a um oficial que desejava seguir em primeira classe e outra chamou um “steward” (havia apenas um) e perguntou-lhe onde era o deque de jogos.

— Em todo o navio, Madame — respondeu ele.

Uma terceira, quando descobriu que a água que bebíamos vinha de uma bomba do navio, frisou com horror que nunca em sua vida bebera água estagnada. Mas estas foram exceções. A maioria procurava melhorar a situação e fazia tudo para se sentir o mais confortável possível naquele ambiente de absoluto desconforto. No princípio houve alguma desordem, mas nós britânicos somos um tanto práticos e logo colocamos as coisas em ordem. Guardas foram escolhidos para cada porão a fim de manter a ordem, impedir que alguém fumasse lá em baixo ou depois de apagadas as luzes, e que o local fosse mantido razoavelmente limpo. Como tínhamos pouca água potável, foram fixadas horas para o seu consumo. Mas havia mui to pouca água disponível para a limpeza e era preciso ter estômago forte para lavar-se numa água ensaboada onde cinquenta pessoas já se tinham lavado; mas não havia outro jeito, pois as mãos, o rosto, a roupa ficavam pretas com o pó de carvão. A maior parte dos homens conseguia fazer a barba e as mulheres conservavam pelo menos o rosto limpo com o auxílio de cremes e loções dos quais pareciam ter um estoque inesgotável. Mas nada podíamos quanto às mãos, que estavam cinzentas de sujo; e não adiantava pôr uma camisa limpa, que duas horas depois tinha o aspecto de usada por mais de uma semana. Desistimos da luta e não mudávamos de roupa.

Alguns dos refugiados, desprevenidos de dinheiro, não puderam comprar víveres; outros não haviam recebido instruções para trazer alimentos, de forma que aqueles que trouxeram provisões foram solicitados a não se servir da dispensa do navio. Mas ninguém tinha comida suficiente para a longa viagem que íamos fazer, de sorte que depois de três dias todos entrávamos na fila para receber as rações. Acho que passávamos a maior parte do dia nestas “bichas” exaustivas, sob um sol quente, no tombadilho de ferro que ainda tornava o calor mais intolerável. Depois os viveres tornaram-se mais escassos, e por fim ficamos reduzidos a um pedacinho de carne de conserva e quatro biscoitos doces ou um pedaço de pão preto por dia. Não era para quem esperava quase uma hora. Estávamos famintos. Ouvi uma senhora dizer sentidamente:

— Enquanto eu viver nunca mais farei outra cura de emagrecimento.

Era esquisito ver aquelas mulheres na fila, cada qual com um prato vazio nas mãos bem tratadas, os dedos cheios de anéis e um colar de pérolas no pescoço: todas eram obrigadas a usar suas joias porque não tinham onde guardá-las. Havia grande procura de garrafas vazias para guardarmos nossas rações de água ou de chá e um vidro de geléia vazio e era uma preciosidade que servia tanto como copo quanto como receptáculo para comida. Aprendi a tomar banho muito bem com uma pinta d’água no fundo de um balde, mas como eu possuía apenas uma toalha que uma bondosa senhora me emprestara no fim da semana a mesma estava negra como o azeviche.

Já disse acima que um dos meus vizinhos na Côte d’Azur era um médico aposentado que também se achava a bordo. Sabíamos que os italianos tinham alguns submarinos em ação e não éramos tão idiotas para pensar que se eles pudessem enviar um torpedo contra nós deixariam passar tal oportunidade. Tínhamos um vigia no cesto da gávea noite e dia, bem como um canhão e um artilheiro, de alma jovial que aspirava por uma chance de acertar um tiro num submarino italiano. Os botes salva-vidas eram suficientes apenas para a tripulação normal que era de trinta e oito homens; não existiam balsas nem salva-vidas. Era evidente que se fôssemos torpedeados quase todos os quinhentos refugiados morreriam afogados. Achei que seria inútil tentar, salvar-me num caso destes, de forma que tratei de indagar do meu amigo médico qual era o meio de morrer mais rapidamente.

— Não lute — disse ele — Abra bem a boca e deixe que a água entre a vontade; em menos de um minuto estará completamente inconsciente.

Resolvi-me a fazer isto. Pensei que podia suportar qual quer coisa durante um minuto. Depois de três dias no mar sem vermos coisa alguma a não ser grupos ocasionais de mar sumos, foram assinalados submarinos e um destróier da escolta jogou algumas bombas de profundidade. Os passageiros todos acorreram mais interessados do que alarmados. Depois de tudo acabado, vi uma senhora passar com um embrulho de roupa molhada. Perguntei-lhe o que tinha acontecido.

— Bem — respondeu jocosamente — aproveitei a confusão para um pouco d’água e lavar estas roupas que estavam imundas.

O destróier inspecionou as redondezas durante uma hora, mas não houve novo indicio da presença de submarinos. O outro navio nosso companheiro o Ashcrest foi menos feliz. Teve um desarranjo no motor e foi obrigado a voltar a um porto francês onde conseguiu algumas provisões; mas, reparado o motor, teve que partir sem proteção. Avistou um submarino italiano bem próximo, mas como já se achasse em águas territoriais da Espanha, o comandante proibiu o artilheiro de fazer fogo. O comandante do submarino não teve tais escrúpulos. Fez fogo. O artilheiro respondeu e o submarino desapareceu. Os passageiros tiveram ordem de descer e quando o Ashcrest largou uma cortina de fumaça eles pensaram que o navio estava incendiando, pois o fumo enchia os porões. Todos, porém, permaneceram calmos.

 

À medida que passavam aqueles dias sem fim, aumentava a nossa tensão nervosa. Certa manhã um homenzinho, um chofer, repentinamente começou a gritar palavras desconexas dando a impressão de que ia se jogar no mar. Seu rosto estava lívidos e os olhos arregalados. Dois ou três homens conseguiram dominá-lo levá-lo para a cabine de um dos oficiais onde turmas de voluntários se revezavam para vigiá-lo. Na mesma tarde vi uma senhora que eu conhecia ligeiramente dar sinais de grande agitação. Tentei acalmá-la. Ela começou a tremer toda, a olhar fixamente o céu procurando aviões inimigos e logo em seguida, com um grito caiu no tombadilho. Quatro pessoas mais perderam o controle. Uma delas, um homem entre quarenta e cinquenta anos, ex-oficial, penso perdeu a razão porque se viu súbita e bruscamente privado do álcool. Era inteiramente inofensivo e costumava andar de um lado para outro com umas roupas fantásticas que conseguiu. Um dia cobriu o peito de condecorações confeccionadas com pedaços de papel e com uma sombrinha na mão à guisa de bastão de comando, passou revista ao seu regimento. Dirigindo-se para um grupo espantado que estava senta do na amurada disse:

— Esses botões não estão polidos. Isto é um absurdo.

E virando-se para um oficial imaginário numa voz tonitruante e ríspida perguntou onde andava com a cabeça deixando de ver que aqueles homens não se apresentavam decentemente. Outra vez, enrolado em lençóis, andou como se fosse um sheik árabe, orgulhosamente, sobre as muralhas da sua cidadela; perscrutava o deserto procurando descobrir hordas inimigas e gritava com soberba: — Que venham todos!... Outra ocasião entendeu que devia ser o pajem das senhoras e quando alguma mulher se levantava ele prontamente apanhava a cesta do tricô, e insistindo para atendê-las com uma cortesia antiquada, arranjava as almofadas da cadeira onde a senhora ia sentar-se. Era, talvez, o homem mais feliz de bordo, pois vivia num mundo de ilusões. Foi um dia triste para ele quando chegamos a Gibraltar e ele pôde conseguir uma garrafa de uísque; voltou inteiramente a si, voltou ao que era, reentrou no triste mundo da realidade.

Penso, porém que a pessoa mais estranha a bordo era uma que ficaria grandemente admirada se alguém lhe dissesse que era esquisita: o copeiro de um vizinho meu em Cap Ferrat, que eu convencera a vir comigo. Era um homem grisalho, alto, de aspecto digno, com um rosto comprido e magro e maneiras que eram a um só tempo afáveis e distantes. Como eu era amigo de sua patroa ele se sentia na obrigação de me dedicar tanta atenção como se eu estivesse em casa dela; ao amanhecer trazia-me uma chávena de chá, escovava as minhas roupas embora eu me mostrasse inteiramente indiferente a tal coisa, e lustrava-me os sapatos. Embora nos sentássemos no deque para fazer nossas refeições, ele nos servia como se fôra num jantar de cerimônia. Nada o perturbava. Na tarde em que tivemos o perigo do submarino, a que me referi faz pouco, dirigiu-se à sua patroa, que estava ao meu lado tentando descobrir o periscópio, e disse:

— A senhora quer o chá agora ou quer esperar até que termine toda esta confusão?

Suas roupas ficaram tão sujas quanto as nossas, suas unhas estavam negras, mas ele mantinha um ar de asseio. Tentei fazer com que me dissesse o que pensava de tudo aquilo, mas ele conhecia muito bem o seu lugar para querer conversar comigo.

— Há muita gente engraçada, sir — foi o máximo que consegui que ele dissesse. Não é a espécie de gente que estamos acostumados a receber.

Eu não sabia onde ele dormia, mas quando, curioso, lhe perguntei se estava conseguindo o suficiente para comer, ele me deixou perceber com a sua maneira muito polida que tal coisa não era da minha conta.

— Não estou me queixando, sir.

Não sei se lhe ocorreu que todas as noites corríamos o risco de acordar no fundo do mar. Nunca, quer por palavras, quer por uma transformação de expressão, deixou escapar sequer um indicio de que o que estava acontecendo era alguma coisa inesperada numa casa bem regulada. Permaneceu até o fim calmo e imperturbável, atencioso mas não obsequioso, agradável, bem humorado, ligeiramente sarcástico e muito correto.

Havia a bordo uma senhora idosa, para mais de oitenta anos, que não quisera deixar a sua casinha, mas que foi convencida pela filha e pelo genro, com os quais morava. A pobre não estava em estado de viajar. Fôra cruel mandá-la embora e era evidente que sua filha e seu genro consideraram a oportunidade como uma dádiva de Deus para se livrarem dela. O choque e o cansaço venceram-na. Ficou aparvalhada e passava horas e horas enrolando o fino cabelo branco com seus trêmulos dedos até que finalmente percebemos que ela estava morrendo. A enfermaria do navio tinha três leitos. Uma das camas tinha sido dada a um jovem vitima da paralisia infantil que não podia subir nem descer a escada que levava ao porão. Um ou dois dias antes da viagem ele se casara com uma perfeita, bondosa e prestimosa jovem que fôra sua enfermeira. A velha foi levada para a enfermaria e os recém-casados ficaram cuidando dela. Nunca duas pessoas passaram lua de mel mais atribulada. Eles dividiram o camarote com ela até que a pobre senhora morresse. Os marinheiros fizeram-lhe de um saco uma mortalha e a velha foi atirada ao ma à meia noite. Um padre presidiu a parte religiosa dos funerais e a noiva e o noivo fizeram o velório. Todo o combóio parou durante um minuto enquanto aqueles pobres restos eram jogados ao mar não, como o leitor pode pensar, em sinal de respeito pela morta, pois no momento não havia tempo para tal coisa: parou com receio que o pobre cadáver se embaraçasse numa hélice.

Depois de estarmos cinco dias no mar fomos avisados que desembarcaríamos em Oran, na Argélia, onde aguardaríamos instruções de Gibraltar. Esperávamos que um outro navio mais confortável nos recolhesse. O comandante do Saltersgate estava com evidente má vontade de nos levar. Os passageiros achavam-se exaustos e de alguns mais velhos mal se podia dizer que ainda viviam. Parecia impossível que eles aguentassem mais tempo. Mal a idosa viúva fôra removida do leito da enfermaria, substituira-a uma outra que estava morrendo de câncer e lá estava ela, uma mulher de traços delicados e distintos, silenciosa e sem queixas. Seu único desejo era morrer na Inglaterra.

A situação a bordo era terrível. A comida era insuficiente e intragável, e as acomodações sanitárias para uma tripulação de trinta e oito homens deviam servir agora para mais de quinhentos.

Ainda conservávamos algum bom humor graças ao pensamento de que nossas preocupações cedo estariam terminadas; mas ficamos desanimados quando chegamos no porto e soubemos que não poderíamos desembarcar. Naquela manhã haviam chegado as notícias da capitulação da França e as autoridades esperavam a qualquer momento receber instruções para deter o navio e talvez internar os refugiados. Foram momentos de grande ansiedade. O dia se passou em entrevistas algo acaloradas entre o comandante do navio e o vice-cônsul em Nice, a quem estávamos entregues, de um lado, e as autoridades francesas de outro. Finalmente nosso comandante conseguiu, por intermédio da sua própria estação de rádio, entender-se com Gibraltar e tivemos ordem de conseguir os víveres que fosse possível e partir imediatamente. Infelizmente, como era domingo, a maioria das casas comerciais estava fechada, mas ele saiu num táxi com o despenseiro de bordo e comprou quinhentas libras de pão, todas as frutas que encontrou, cigarros e fósforos. De tudo isto estávamos sentindo grande necessidade. Naquela noite partia para Gibraltar um comboio francês; nosso navio se juntou aos outros e chegamos na terça-feira pela manhã.

Desta vez pensamos que nossas atribulações terminariam mesmo.

Fizemos planos de ir para hotéis e descansar, tomar um banho e comer alguma coisa substancial. Já pensávamos em não voltar a olhar mais aquele navio. Comunicaram-nos, porém, que não podíamos ir a terra. Muitos não aguentaram mais e era doloroso ver o seu desespero. As mulheres choravam. Mas havia razão para isso. Estávamos desnutridos; durante uma semana dormíamos pouco e sem nenhum conforto. Penso que bem poucos podiam descansar à noite ante o pensamento de um torpedo a qualquer momento. Mas o que mais contribuía para esbandalhar nossos nervos não era a falta de conforto, a falta de alimento ou de sono e o perigo, mas a sujeira. Estávamos imundos e aquilo era intolerável. Um oficial de marinha veio até o navio e nos dirigiu algumas palavras. Explicou que como milhares de refugiados já tinham chega do, não havia acomodações para nós em Gibraltar, que as atividades da Quinta Coluna davam muitos cuidados e que Gibraltar era uma fortaleza da qual a maior parte da população civil já havia sido evacuada; finalmente, que o governo faria o que fosse possível para aliviar nossas necessidades, e que devíamos tomar o melhor partido daquilo tudo. Mas a pior de todas as notícias foi que devíamos voltar à Inglaterra no mesmo navio em que nos achávamos. O comandante e o vice-cônsul que tiveram permissão para descer à terra, apresentaram as nossas lamurientas queixas às autoridades, O resultado foi que as crianças, os doentes e as pessoas de setenta anos para cima puderam desembarcar. Isto nos deixou reduzidos a apenas duzentos e oitenta. Em seguida tivemos um pouco de sorte: veio uma ordem permitindo que passássemos algumas horas em terra, em turmas de cinquenta. Gastamos nosso tempo tomando banho — penso que nenhum de nós já haviam tomado banho tão agradável antes — comprando ali mentos, cobertas e colchões, baldes, bebidas e fumo. Foram realizadas obras no navio no sentido de tornar as instalações sanitárias mais adequadas. Construíram-se balsas e fizeram-se provisões.

Ficamos em Gibraltar três dias. Descendo no último bote que foi a terra, não achei mais colchões para comprar, mas adquiri um acolchoado que fazia o mesmo efeito. Comprei latas de sardinhas, biscoitos e tempero para tornar a carne de lata mais agradável ao paladar, frutas enlatadas, umas duas garrafas de uísque e uma garrafa de rum. Havia então mais espaço no navio. Mudei-me do porão e preparei minha cama debaixo do castelo de proa, perto da dispensa de bordo. Havia um cheiro muito ativo, pois os viveres eram guardados lá, mas achei duas tábuas, coloquei-as lado a lado sobre três cestas e fiz uma cama que, sem dúvida alguma, era muito mais confortável que as chapas de ferro do tombadilho. Meu companheiro, um australiano muito engenhoso, fez um balde com uma lata velha de geléia que de manhã servia como bacia para lavar o rosto e à tarde como sopeira. A sopa era a nossa alimentação mais constante desde que partimos de Gibraltar. Conseguimos uma vassoura e ele nos fez um apanha dor de cisco com a tampa de uma lata de biscoito, de forma que podíamos conservar os nossos aposentos mais ou menos limpos. A este homem devo ter passado o resto de minha viagem muito bem. Ele era de pequena estatura e econômico, com um rosto fino e cheio de rugas e uns belos olhos. Na última guerra fôra oficial, mas antes e depois disso tinha tido uma dezena de ocupações; fôra vagabundo, taberneiro, tosquiador de ovelhas, engenheiro e jornalista. Havendo economizado algum dinheiro, (não tenho noção como) comprou uma casa. Dizia ter cinquenta anos, mas penso que tinha muito mais. Voltava agora para a Inglaterra com cinco libras esterlinas no bolso para recomeçar a vida. Sabia fazer de tudo e não havia pedaço de madeira, de saco ou de barbante em que ele não encontrasse logo uma utilidade. Era imensamente bondoso: não havia porta na nossa pequena cabine, embora ele houvesse arranjado uma cortina com um saco velho para nos proteger melhor contra o vento que esfriava muito pela manhã à medida que avançávamos para o Norte; certa madrugada quando acordei vi que ele colocara sobre mim o seu cobertor e estava deitado de costas, fumando cigarros, pois o frio não o deixava dormir.

 

Viajávamos num comboio escoltados por um destróier e uma chalupa. Como me supunha uma criatura sensata, informavam-me quando eram avistados submarinos ou quando havia ameaça de um raide aéreo; disseram-me também que seria um milagre que as máquinas do nosso navio agüentassem a viagem e que se houvesse alguma avaria seríamos deixados fora do comboio Pediram-me que guardasse tão “agradáveis” notícias para mim, mas, para falar a verdade, eu preferiria não ter sabido tais coisas. Com exceção disto, tudo o mais correu de maneira bem agradável.

Depois do “breakfast”, que consistia de uma fatia de pão velho com marmelada e uma xícara de chá, fumava meu cachimbo e lia. Há muitos anos tenho o hábito de começar o dia com alguma leitura séria e eu não via porque quebrar tal hábito a bordo do Saltersgate, de forma que todas as manhãs passava uma hora ou mais com o meu Platão. Não era a primeira vez que lia os diálogos que contam o julgamento e a morte de Sócrates, mas nunca os achei tão comovedores. As circunstâncias, o perigo em que estávamos, lhes davam um significado peculiar. Durante a tarde eu lia uma novela e jogava paciência. Havia quarenta anos que não lia Esmond e já a havia esquecido completamente. Tinha a impressão que se tratava de um livro frio, cacete; mas, depois de lê-lo nova mente achei-o bem escrito e interessante. Possuía uma nobreza de espírito e uma coragem que me pareceram muito apropriadas ao momento. Gostei de Villette também; é ingênua e encantadora. Apesar do excessivo emprego das coincidências, gostei do estilo ameno e derramado do romance. A diretora da escola e o irascível professorzinho talvez sejam uns tanto absurdos, mas são admiravelmente vividos. Depois do jantar,. às sete horas, eu contava casos a todos que me quisessem ou vir. No princípio contei as histórias que havia armazenado na minha memória e que tinha ideia de algum dia publicar, mas cheguei ao fim e tive que descrever minhas próprias experiências. Aqui vai uma delas, os meus ouvintes acharam divertida.

Eu estava em Munique num verão para assistir a um festival de Wagner; no mesmo hotel que eu, achava-se também uma jovem de nome Gladys com quem me encontrara várias vezes em Londres. Apesar de moça era pessoa de muito respeito, e fiquei surpreso ao vê-la em companhia de dois homens de aspecto muito duvidoso e de uma mulher ainda pior. Eu não a conhecia bem e não gostava muito dela, de forma que quando a vi com tais companheiros, limitei-me a cumprimentá-la de longe com uma ligeira inclinação de cabeça. Fiquei surpreso ao receber dela um bilhete, uma hora mais tarde, pedindo-me para ir encontrá-la no hall. Quando fui vê-la, disse-me que se encontrava numa complicação. Unira-se àquele grupo sem conhecer os seus componentes senão superficialmente; durante a viagem de Londres a Munique ela descobriu que a mulher tinha uma ligação com um dos homens e que ela fôra convidada para distrair o outro. Ele tratou logo de esclarecer a maneira pela qual queria divertir-se e quando ela recusou todos ficaram irritados e lhe perguntaram para que então viera. Eu vira apenas de relance os seus amigos, mas foi o suficiente para convencer-me que a pergunta deles era muito natural. Quando lhe sugeri que devia deixá-los, ela me disse que estava como convidada deles e que não tinha para onde ir até que pudesse encontrar sua mãe, que chegaria em Baden-Baden dentro de cinco dias. Tinha apenas dinheiro suficiente para chegar até lá.

— Mas pensava então que pessoas que mal a conhecem iam pagar sua passagem e suas despesas num hotel apenas pelo prazer da sua conversa? — perguntei-lhe.

— Porque não? — respondeu-me — Sempre fui considerada uma boa prosa.

Olhei para ela com um ar de repreensão. É sempre uma boa coisa a fazer quando o que temos a dizer é desagradável.

— Estou numa situação terrível — prosseguiu ela — Os homens estão indignados comigo e Amy apenas me fala para dizer-me que sou uma pedante e uma desmancha prazeres.

Ela começou a morder o lencinho e tive a impressão de que ia chorar.

— Não sei o que possa fazer no caso. Gostaria que eu fosse falar com eles?

Não me agradava essa ideia mas era-me impossível improvisar outra coisa.

— Isto não adiantaria coisa alguma. Estão irritados comigo. Estou absolutamente desesperada.

— Então, que quer que eu faça?

— Posso ficar em sua companhia estes poucos dias?

Dei uma fria recepção à ideia. Eu tinha muitas coisas a fazer e já vinha antegozando umas pequenas férias sozinho. Alem disso não me lisonjeava muito que ela pensasse que eu era assim tão seguro.

— Seria uma imensa bondade da sua parte. Eu não lhe causaria nenhum aborrecimento e poderíamos ter alguns momentos agradáveis juntos — acrescentou ela.

— Seria encantador — disse eu.

Naquela tarde fomos dar um passeio no Jardim Inglês. Eu era então um dramaturgo famoso e Gladys conversou longamente, fez quase uma conferência sobre a técnica do drama. Comprei-lhe uma cadeira na ópera; nos intervalos minha companheira discursou sobre as teorias estéticas de Wagner e explicou-me com detalhes o emprego que ele fazia dos motivos musicais para ilustrar o caráter da peça. No dia seguinte como não houvesse espetáculo na ópera, partimos para uma excursão. Pela manhã ela me fez um circunstanciado resumo da história da Baviera; à tarde explicou-me como se devia escrever uma novela e ilustrou suas declarações com uma aguda análise dos méritos de Tolstói, Turgenev e Dostoievski. Certa manhã fomos visitar uma galeria de quadros, e, com lucidez, embora sem delongas, ela demonstrou que Rembrandt era um artista maior que Murillo. Disse-me que eu devia admirar Albrecht Dürer. Compreendi então porque ela era considera da uma boa prosa.

Almoçamos juntos e jantamos juntos durante alguns dias e sua fonte de informações nunca secou um instante. Quando uma ou duas vezes cruzamos com sua amiga Amy e seus dois companheiros, eles nos olharam com expressão pouco amável. Por fim fui levar Gladys à estação.

— O senhor foi simplesmente maravilhoso para mim — disse-me ela — Salvou-me a vida.

Voltei cansado para o hotel. Resolvi que nunca mais sairia em socorro de uma donzela em apuros. E mantive essa resolução.

 

Finalmente chegamos às praias abençoadas da Inglaterra. Passáramos vinte dias no navio sem sequer tirar a roupa do corpo. Do começo ao fim da travessia com poucas exceções, este grande grupo de refugiados se portou com frieza e coragem. As distinções sociais cedo desapareceram no navio. Nos sa comum imundice se encarregou disto. Havia um certo número de pessoas cujo egoísmo era incomensurável: entravam duas, vezes na fila de rações a fim de ver se conseguiam dupla porção do nosso reduzido racionamento. Quando estávamos chegando em Oran, pensando que deixaríamos o navio, fizemos uma subscrição para gratificar a tripulação; quando ficou pa tente que não teríamos tal sorte, uma senhora se dirigiu ao garçom e pediu-lhe uma dupla ração de sopa naquela noite.

— Tenho receio de não poder atendê-la, Madame — respondeu ele.

— Penso que devia poder — disse ela irritadamente.

— Quando me apresentaram a lista hoje pela manhã, assinei cem francos.

— Sinto muito, Madame, mas não posso. Mas não quero que pense que contribuiu inutilmente para a gratificação. — dizendo isto meteu a mão no bolso, tirou uma nota e entregou-lhe:

— Deixe-me que lhe devolva seus cem francos.

Mas estes assim eram poucos. Na maioria eram surpreendentemente altruístas e se esforçavam por se ajudar mutua mente. Senhoras que traziam custosos cremes de beleza cediam-nos às companheiras que estavam em falta. Partilhávamos toalhas, sabonete e tudo mais que pudéssemos. Parecia-me que os egoístas ficavam mais egoístas e os altruístas mais altruístas, mas sou forçado a acrescentar que os egoístas levavam vantagem. Não quero terminar esta parte da minha narrativa sem prestar um tributo de gratidão à tripulação que trabalhou ardorosamente para tornar nossa sorte mais tolerável, aos oficiais que cederam seus camarotes aos velhos e doentes, e ao comandante, Capitão Stubbs, a cuja coragem, habilidade e firmeza devemos o termos chegado à pátria sãos e salvos.

 

Era agradável estar outra vez na Inglaterra. Fui para Londres e tomei um quarto no Dorchester. Estava cansado e sujo. Foi um, prazer tomar um banho, vestir roupas limpas, comer bem e dormir numa cama. Descobri, para meu espanto, que meus amigos estavam ansiosos a meu respeito; não me fôra possível informá-los das minhas peripécias e correu o boato de que eu havia sido capturado pelos alemães. O povo parecia estar com vontade de saber como fugi, de maneira que fiz uma exposição pelo rádio, e, em consequência, fui inunda do por uma infinidade de cartas de pessoas que tinham amigos e parentes na França e que desejavam notícias deles. Algumas eram patéticas e foi grande dor para mim ter de respondê-las sem dizer nada que pudesse servir de alívio aos missivistas.

A primeira coisa que me chocou no meu regresso à Inglaterra foi o otimismo que reinava em toda parte. Tive uma prova disto no momento mesmo em que entrei a bordo do Saltersgate. A tripulação era composta de decididos homens de Glasgow cujas faces estavam tão negras de pó de carvão como suas roupas. Falavam com um acento tão forte que era difícil para um inglês entendê-los, mas não havia maneira de nos enganarmos quanto ao sentido do que diziam. Eram amáveis, dispostos e andavam sempre de bom humor. Viajavam desde que a guerra em mares perigosos e não se importavam com bombas e torpedos. Sua confiança era contagiosa e se perguntávamos a um deles o que pensava sobre a França, logo vinha a resposta com uma alegre brincadeira:

— Não interessa; podemos dar conta dos “jerries” sozinhos.

Em Liverpool, as autoridades que foram a bordo, os car regadores que levaram nossas bagagens, o povo nas ruas, os garçons nos restaurantes, notava-se o mesmo espírito de fé. Receio de invasão? Nem sombra disto.

— Nós os esmagaremos. Levará tempo, com certeza, mas não temos dúvidas de que podemos derrotá-los.

Encontrei o mesmo espírito em Londres e no interior, onde o milho nos campos estava começando a ficar dourado e as maçãs já curvavam os galhos das macieiras. Embora o colapso da França fosse um rude golpe e Hitler estivesse anunciando que assinaria o tratado de paz em Londres no dia 15 de Agosto, ficara esplendidamente claro que o povo da Inglaterra não estava desanimado. Era, sem dúvida alguma, uma Inglaterra bem diferente daquela que eu deixara algumas se manas antes. Estava mais decidida, mais enérgica e mais zangada. Winston Churchill havia inspirado confiança à nação com sua força firme e resoluta. Não havia mais meia coragem. Falei com muita gente, de civis a generais, de lavra dores a latifundiários; a mulheres pobres e ricas, a emprega dos e a financistas: encontrei em toda parte a mesma compreensão da gravidade da situação, a mesma resolução de continuar a luta até à vitória e a mesma presteza em dar todo o esforço necessário para alcançá-la. O povo inglês compreendera, por fim, que estava lutando pela sua própria existência e para defender sua liberdade estava disposto a qualquer sacrifício. Naquela hora sombria sua coragem foi formidável.

As únicas pessoas que não me pareceram modificadas foram as autoridades do Foreign Office. Encontrei vários funcionários em ocasiões diversas, em jantares, e fiquei espantado pela maneira despreocupada e irônica com que falavam da situação. Tinha-se a impressão de que a guerra era um jogo de xadrez; se o adversário fazia um movimento que punha em perigo a rainha, naturalmente a pessoa tratava de contrabalançar a jogada não sem admirar aquela hábil estratégia; e se no fim o adversário vence, não faz mal pois no final das contas era apenas um jogo, um jogo bem interessante mas que não tinha maior importância; da próxima vez talvez fosse derrotado. Tive a impressão de que eles levavam uma vida tão diferente da vida dos outros seres humanos, que eram incapazes de tomar em consideração as coisas sérias. Tenho esperança que depois da guerra o serviço diplomático e o serviço consular serão combinados e que antes daqueles cavalheiros se tornarem adidos em embaixadas e funcionários em Downing Street servirão por alguns anos em consulados, de modo a entrar em contacto com o comum dos mortais e a adquirir conhecimentos de primeira mão tanto da natureza humana como das condições sob as quais os homens vivem. Isto, por certo, servirá para adverti-los de que são feitos da mesma argila que nós outros.

Eu estava ansioso para voltar a trabalhar, mas não havia outro serviço para mim senão escrever artigos. A fim de obter material para os artigos que a ocasião pedia, eu tinha que me avistar com muitos homens sob cujo controle estava a direção da guerra, entre eles Sir Alan Brooke, comandante em chefe das “Home Forces” Encontrei um homem robusto, de altura mediana, com cabelos grisalhos, um nariz grosso e arqueado, debaixo do qual se via uma linha de bigode preto, mãos fortes e cabeludas. Deu-me a impressão de força física, o que me chamou a atenção, pois ele tinha um rosto inteligente e sensível. Parecia mais um cientista que um soldado; se ele se sentasse junto a mim num ônibus, mesmo com uniforme, eu o tomaria por um professor de física na Universidade de Londres. Sua voz era estridente. Falava bem, fluentemente e com decisão. Creio que ninguém poderia passar uma hora com ele sem chegar à conclusão de que se tratava de um homem capaz, resoluto e calmo.

Depois do que vi na França, onde a queda do moral na população — penso eu — tanto contribuiu para o lamentável colapso, eu estava ansioso para saber se a minha impressão do estado de espírito dos ingleses seria confirmada por alguém com melhores oportunidades de julgar do que eu. A primeira pergunta que formulei ao comandante Brooke foi, pois, o que pensava ele do moral do povo em geral. Disse-me que não o podia elogiar demasiadamente e como exemplo mencionou os “Home Guards”. São voluntários, funcionários civis embora muitos deles servissem na ativa na última guerra — que foram convocados para fazer frente aos paraquedistas e às tentativas de sabotagem, para proteger pontes, estradas de ferro e docas, e, de um modo geral, ser úteis num caso de invasão. A grande maioria era composta de trabalhadores que eram solicitados a cumprir aquelas tarefas depois das suas horas de trabalho normal. A resposta ao apelo foi tão grande que se tornou preciso mandar parar a aceitação de voluntários, uma vez que era impossível equipar imediatamente tanta gente.

Do moral da nação era natural passássemos a falar do moral do exército. Penso que ninguém seria capaz de ouvir a voz forte e convencida do general, quando falava das tropas que com andara na França, sem partilhar da confiança que depositava nelas. Nada desmoraliza mais os soldados que manter uma posição, talvez com consideráveis perdas, e depois receber ordem para retirar-se porque o apoio dos flancos fracas sou. Quando tomam uma nova posição, pensam logo: “Que adianta? Porque vamos perder mais um bocado de companheiros na defesa desta posição, quando teremos de recuar outra vez?” Foi isto que aconteceu seguidamente na Flandres, quando o exército belga capitulou e os franceses, no outro flanco, abandonaram a luta. As tropas britânicas conservaram todas as posições com absoluta determinação. Não admirava que o general se mostrasse orgulhoso delas. Mais tarde, quando retirava seu exército para o mar, encontrou tropas francesas que haviam abandonado as armas e marchavam, trôpegas e vencidas, não mais um exército, mas uma ralé, ao longo das estradas belgas. Uma cena destas devia chocar os ingleses; mas todos continuaram a marchar decididamente. Uma das vantagens de uma raça tão pouco imaginativa ou tão sem emoções, tão estúpida ou tão impassível, é que ela não reage a impressões desta ordem porque não se sabe como. O fato é que as tropas britânicas na França nunca foram força das a se retirar por pressão no seu setor, mas simplesmente pela retirada dos seus aliados que defendiam os flancos. Vol taram para a Inglaterra trazendo apenas a roupa do corpo, cansadas e famintas — mas cheias como sempre da vontade de lutar.

Ocorreu-me que uma das causas da derrota da França foi ter sido o exército deixado durante um longo inverno em absoluta inatividade de modo que as tropas ficaram aborrecidas e descontentes. Eu disse ao general Brooke que se os alemães não invadissem a Inglaterra naquele verão, as grandes forças que transformaram as ilhas britânicas numa fortaleza fica riam numa situação similar àquela que teve tão infeliz efeito sobre as tropas francesas. Ele me lembrou que o comando britânico já enfrentara esse problema no inverno anterior e o resolvera dando aos homens alguns trabalhos, mantendo-os treinados e concedendo-lhes pequenos períodos de licença a intervalos frequentes. Ponderei que o soldado de hoje é mais bem educado que o de há vinte e cinco anos passados, e que se acostumou a empregar tanto o cérebro como as mãos.

Certamente — disse, ele — Mas não se esqueça que o treinamento do soldado moderno é muito diferente do de uma ge ração atrás. Este último aprendia apenas a atirar e a fazer exercícios; o exercício é necessário, mas nada é mais confrangedor, especialmente para um homem educado, que estas eternas marchas no pátio do quartel. O soldado moderno é um técnico que tem de aprender muitas coisas. Isto mantém o seu cérebro ativo e seu interesse bem vivo.

Estava suficientemente claro que o Estado Maior achava-se bem inteirado da necessidade de intensificar toda espécie de atividades para que os homens estivessem ocupados e se sentissem felizes.

 

Como sabemos, foi a superioridade aérea dos alemães que permitiu suas vitórias sobre os países que escravizaram. Naturalmente estávamos produzindo aviões, mas seria em número suficiente? Estaríamos comprando bastante aviões nos Estados Unidos? Julgando que um artigo sobre o assunto era coisa oportuna, resolvi descobrir por mim mesmo o que fosse possível sobre a produção de aviões Achei que não havia necessidade de preocupar-me com os aviadores. Sua ousadia, seu sangue frio e sua presença de espírito, sua indiferença ante os perigos, sua resistência, já haviam sido demonstrados em centenas de batalhas e elogiados pela imprensa do mundo inteiro Eu mesmo conhecia vários membros da R.A.F. e quando contemplava sua mocidade sentia o coração oprimido pensando que enfrentavam tão terríveis riscos. Alguns tinham rostos tão macios que logo se deduzia que recentemente haviam incluído um aparelho “gilete” no seu equipamento; entretanto estavam tão despreocupados, tão alegres, descuidados mas confiantes da sua capacidade, meninos na aparência mas homens pela competência, com cabeças velhas em ombros jovens, que não bastava a gente sentir-se orgulhoso deles; na sua presença eu era tomado de uma grande humildade.

Conheci um deles mais de perto; era um pouco mais velho que os outros — vinte e quatro anos — garboso apesar de um tanto atarracado, sem mais de 1,65m (exatamente a altura boa para um piloto, dizia ele), com um olhar despreocupado nos seus claros olhos azuis. Quase quebrara o pescoço num desastre logo no começo da guerra, mas depois de algumas semanas no hospital e de uma pequena licença voltou ao trabalho outra vez. Veio ver-me logo depois que voltou da França contando tristes histórias a propósito da maneira como os franceses, depois da capitulação, tentaram evitar que os aviões britânicos levantassem vôo, como se recusaram a lhes fornecer gasolina e óleo e como espalharam caminhões pelo campo para evitar que os que estavam abastecidos partissem — histórias amargas e vergonhosas, mas que não adiantava rememorar. Pouco antes tivera um encontro com dois apare lhos alemães, um dos quais derrubou; um tiro feliz atravessou o tanque de óleo do inimigo cujo aparelho estava tão próximo que o óleo veio esguichar sobre seu próprio aparelho, impedindo-lhe completamente a visão através do parabrisa. Para voltar à base, teve de se orientar olhando para trás, por cima do ombro.

— Todos os meus companheiros se interessaram muito pelo caso logo que desci. Um técnico examinou o óleo e disse que os alemães estavam usando combustível de péssima qualidade, que nós não empregaríamos sequer em caminhões.

Perguntei-lhe se não se amedrontara.

— Nunca fiquei amedrontado num combate; a coisa é excitante demais para isto.

Pensou um instante e prosseguiu:

— Mas, vou contar-lhe um caso em que realmente me assustei. Foi numa ocasião em que fui fazer um reconhecimento sozinho. Quando a gente está nos ares sozinho horas a fio — santo Deus, meus joelhos chegaram a tremer — tem-se a impressão de que só nós existimos no mundo e o céu parece ainda maior. Não havia nada a temer, mas não sei porque senti uma coisa esquisita.

— O infinito — sugeri.

Era uma alma jovial, cheia de entusiasmo. Estava então muito lamuriento porque obtivera uma licença de apenas dois dias. Acarinhava muitos planos para o futuro. Depois que vencesse a guerra pretendia comprar um iate de quarenta pés de comprimento e viajar com um amigo pelos mares do sul.

— Não custa quase nada viver lá, não é?

— Não muito — respondi.

Nunca mais o vi. Talvez a estas horas ele saiba que afinal de contas não há nada de aterrador no infinito.

Não era preciso, portanto preocupar-me com os combatentes. Mas escrevi a Lord Beaverbrook, então Ministro da Produção Aérea, pedindo-lhe uma entrevista. Fazia pouco que este Ministério havia sido criado e eu desejava saber alguma coisa do que Lord Beaverbrook, com a sua grande capacidade e dinamismo, estava realizando. Trata-se de um homem que tem conseguido êxito na maioria das coisas a que se dedica. É um otimista, com um bom conceito otimista sobre si mesmo, mas é um homem de recursos. Possui uma energia ilimitada e diz-se com muita razão que quando se confia a Beaverbrook uma tarefa ele obtém os resultados antes mesmo que seque a tinta do decreto de nomeação. Pela volta do correio recebi uma resposta à minha carta dizendo que o ministro n marcava entrevistas, mas que teria prazer em receber-me a qualquer momento. Lord Beaverbrook estava ocupado quando cheguei, mas fui imediatamente introduzido no seu gabinete onde ainda estava seu visitante, que aliás não demorou a sair. Ocorreu-me que a entrada de um novo visitante era uma maneira muito inteligente de lembrar ao anterior que estava demorando demasiadamente.

Low, o caricaturista australiano, tornou a fisionomia de Lord Beaverbrook tão conhecida do público inglês que, cada vez que a gente o vê, precisa fazer um esforço para se ajustar à sua fisionomia. Ele não é aquela criatura de feições de gnomo, com o riso satânico inventado por Low; ele não é pequeno e é forte, calvo, com o rosto enrugado por sulcos acentuados; carrancudo quando não sorri, mas seu sorriso pode ser muito agradável. Estava muito sério quando mandou que eu me sentasse numa cadeira ao lado da sua secretaria e, cruzando os braços, fixou-me com olhos duros sob as sobrancelhas salientes.

— Que deseja de mim? — perguntou.

Esta pergunta abrupta seria desconcertante se eu não soubesse a resposta. Pedi-lhe para, em primeiro lugar, dizer me a proporção numérica entre os aviões ingleses e os ale mães.

— Como posso saber? — respondeu. — Não sei quantos aviões os alemães têm; cada perito que consulto me fornece um número diferente. Mas de uma coisa tenho certeza: possuímos um número suficiente para fazer face a qualquer ataque.

— Essas notícias são muito animadoras — disse eu — E quando espera atingir ao máximo de produção?

— Nunca. Não haverá limite para o máximo. O céu é nosso limite — respondeu-me.

Acabei, no final das contas, não escrevendo o artigo que pretendia, porque o oficial do Ministério do Ar, com quem es tava em ligação para me conceder as facilidades, foi logo dizendo que me deixaria ver tudo o que eu quisesse com uma condição: ele colaboraria comigo nos artigos. Infelizmente, não sei escrever em colaboração. Na vida privada, creio eu, ele trabalhava com uma fábrica de automóveis.

 

Outro homem com quem estive naquela época foi A. V. Alexander, a quem Winston Churchill, ao formar o seu governo, convidara para ocupar no Almirantado o cargo que ele mesmo deixara vago. Alexander, que durante vários anos foi um dos mais respeitados lideres do Partido Trabalhista, era comerciante além de político. Era ele a alma da Co-operative Wholesale Association, e o espantoso êxito que obtivera no desenvolvimento de um empreendimento de tão grande valor para os trabalhadores, é uma prova suficiente da sua capacidade. Já desempenhara com sucesso as funções de Primeiro Lord do Almirantado durante o governo trabalhista; quando reassumiu o posto entrou para um lugar que já conhecia de sobra. É um homem forte, robusto, um tanto queixudo — o que ainda aumenta a expressão enérgica do seu rosto — com um nariz curto e agressivo, olhos vivos e perscrutadores por traz de óculos de tartaruga e o cabelo grisalho cortado rente. Suas maneiras são calmas, mas decididas. Não perde tempo em palavreados, entra imediatamente no tópico principal, falando com a fluência de um homem acostumado a se dirigir ao público.

Havia grandes mapas nas paredes do majestoso salão onde conversei com o Primeiro Lord do Almirantado que se levantava de vez em quando para mostrar neles um ou outro ponto. Apontou-me a imensa costa que a Alemanha tem a de fender e que começando no extremo norte da Noruega vai até à fronteira espanhola da França. E estávamos construindo navios ingleses muito ativamente. O queixo de Lord Alexander se projetou ainda mais firmemente quando ele me disse que a esquadra britânica estava pronta para qualquer eventualidade.

Sabendo que vivi muito tempo na França onde tinha boas relações, ele me falou sobre o ataque da esquadra inglesa aos navios franceses em Oran.

— Não lhe posso dizer quanto senti ao ter necessidade de tomar tal resolução, mas o que podíamos fazer? Possuímos no momento catorze navios capitâneas, os alemães dois ou três e os italianos seis. Os franceses tinham nove. Some três, mais seis e mais nove. Se deixassemos os navios franceses caírem em mãos do inimigo, a supremacia dos navios pesados estaria com o inimigo e nossos comboios nos oceanos ficariam sujei tos à destruição por forças de superfície. Tínhamos que tomar aquela decisão. Não podíamos fazer outra coisa. O povo francês ainda não teve oportunidade de conhecer os termos de rendição que oferecemos à sua esquadra, que não podiam ter sido mais razoáveis nem mais honrosos.

Olhou para mim repentinamente e acrescentou:

— O Senhor vai para os Estados Unidos, não vai?

— Penso que sim — respondi.

— Bem, que segurança poderia haver para o comércio da América se a força da nossa principal frota fosse suplantada? Estamos travando uma batalha que é tanto nossa quanto da América. Enquanto a esquadra britânica estiver de pé, a América estará garantida. Fico a pensar o que seria dela se a nossa esquadra fosse destruída.

 

Pouco depois de chegar em Londres encontrei Monsieur Corbin que até o colapso do seu país fôra embaixador da França junto à Corte de St. James e que depois de pedir demissão, esperava no Hotel Dorchester que o seu navio partisse para a América do Sul. Eu o conhecia havia algum tempo e varias vezes almoçara com ele. Era um homem frio, distante e severo; dava a impressão de que qualquer demonstração mais amistosa o encheria de dificuldades. Encontrei-o ao sair do elevador. Apertei-lhe a mão e ele me felicitou por ter conseguido chegar à Inglaterra. Nunca o tinha visto antes senão como convidado de honra de uma festa ou como cortês anfitrião no esplendor da sua própria embaixada. Via agora diante de mim um homem pálido, gasto e alquebrado, curvado sob a humilhação da sua pátria; parecia vinte anos mais velho; fiquei tão chocado que não encontrei nada para lhe dizer; pensei que o mortificaria ouvir-me expressar meus senti mentos sobre o que era para ele uma tragédia, e que seria mi- pertinente apresentar meus pêsames por um desastre em que o conforto nada adiantava. Fiquei mudo diante dele olhando-o estupidamente e senti um alivio quando ele entrou no eleva dor.

Como tive oportunidade de dizer, passei seis semanas no fim do ano de 1939 fazendo viagens na França com o fito de colher fatos para um pequeno livro que devia mostrar aos patrícios o grande esforço que a França estava fazendo para se preparar para a guerra, com que boa vontade os operários estavam trabalhando para fornecimento do material ia dispensável à vitória, e com eram eficientes seu Exército e sua Marinha. Em meu livro não escrevi coisa alguma que não visse com os meus próprios olhos. Relatei as minhas impressões tão honestamente quanto possível.

Lançando agora um olhar retrospectivo, vejo que alguns incidentes ocasionais deviam ter levantado minhas suspeitas, como as palhas soltas mostram em que direção sopra o vento, e muito senti não lhes ter dado atenção. Fiquei tão desconcertado pela minha falta de penetração que quando voltei à Inglaterra fiz questão de perguntar a um certo número de pessoas que se achavam em condições de conhecer fatos que não estavam ao meu alcance, se haviam previsto o completo e terrível desmoronamento da França. Descobri então que o mesmo fôra uma grande surpresa para eles tanto quanto para mim, pois como eu não acreditavam que a grande nação francesa, com seu vigoroso e patriótico exército resistiria menos que os poloneses; nunca pensaram na possibilidade dos franceses entregarem a sua capital sem luta e faltarem aos seus solenes e repetidos compromissos.

Não gastaria meu tempo nem o do leitor, a esta altura, expondo como me proponho fazer agora, as razões porque, até onde me é dado saber, a França foi levada a uma vergonhosa capitulação, se eu não estivesse convencido que a enumeração dessas razões pode ser de grande utilidade para os povos dos Estados Unidos e da Grã Bretanha. Os erros, os defeitos de temperamento e de caráter que causaram a derrota da França não são peculiar e essencialmente franceses; são humanos e todos nós, de diferentes maneiras, estamos sujeitos a eles. Apenas evitando tais erros e nos guardando contra tais defeitos podemos esperar fugir do acabrunhante desastre que se alastrou sobre a nação francesa.

Devo pedir ao leitor que me perdoe se repito aqui muita coisa que já ficou dita implicitamente, mas o assunto me parece suficientemente importante para ser exposto categoricamente. Devo pedir-lhe também que acredite que possuo autoridade suficiente para afirmar tudo o que vou dizer. Não diria levianamente coisas que não estão de acordo com o que escrevi no livro a que já me referi. Eu amo a França, onde tenho muitos amigos de quem só tenho recebido gentilezas e onde tenho sido muito considerado. Muito do que sou devo-o à arte francesa, à literatura francesa e à civilização francesa. É com pesar e sem rancor que conto esta história de confusão, de egoísmo, pusilanimidade e falta de fé.

É notório que os franceses sempre discutiram muito entre si sobre questões políticas e sociais, mas sempre que o país estava em perigo, colocavam todas as disputas de lado e apresentavam ao inimigo uma frente unida. Assim diziam ser também desta vez, mas não era verdade. A unidade, que existia nos círculos parlamentares, era apenas superficial; por baixo, as animosidades semeadas pelo governo de Bium agiam ferozmente. No gabinete havia uma ignóbil luta pelas posições e quando o esforço de todos devia ser empregado em preparar a França para a luta, os ministros se apunhalavam pelas costas. Dissolvido o Partido Comunista seus deputados foram presos ou obrigados a fugir sem que se considerasse o efeito que esta medida teria sobre os operários.

Até que o governo de Blum trouxesse as reformas que em outros países já ha muito estavam em execução, a situação do trabalhador na França era muito má. Poucos empregadores dedicavam alguma atenção ao bem estar dos empregados. Num dos grandes “magasins” de Paris um dos primeiros pedidos dos empregados foi que se instalassem lavatórios separa dos para homens e mulheres. As horas de trabalho eram excessivas e os empregados insuficientemente pagos para poderem levar uma vida decente. Para dar uma ideia do estado de espírito das classes endinheiradas, contarei uma conversa que tive com um banqueiro amigo meu, homem justo e generoso. Uma tarde fui a um comício comunista no Père Lachaise, o grande cemitério de Paris, e notei que em todas as bandeiras estavam escritas três palavras: “Paz, Trabalho e Bem Estar”. Encontrei-me com o meu amigo naquela noite e disse-lhe co mo eu achava estranho que cento e cinquenta anos depois da Revolução, as classes trabalhistas da França ainda estivessem fazendo esta exigência mínima.

— Não é pedir muito, disse eu.

Ele ficou zangadíssimo.

— Paz, com certeza, e trabalho naturalmente; mas bem estar, não — isto está fora de discussão. Não podem esperar tal coisa.

Não me parece necessário nenhum comentário. É fato que o governo de Blum avançou demais e muito rapidamente. A semana de quarenta horas era impraticável na França; as classes endinheiradas ficaram amedrontadas e trataram de empregar às pressas seu dinheiro no estrangeiro; o franco caiu e com ele o governo. Os que estavam bem de vida suspiraram aliviados, mas as classes trabalhadoras ficaram enraivecidas. Desde então os ricaços andavam horrorizados com medo do comunismo. Quando a guerra estourou, foi este o espectro que viram diante de si. O alto comércio tinha intimas ligações com a Alemanha, e na aristocracia e na prospera burguesia muitos que admiravam os ditadores porque pensavam que eles haviam salvo seus países do horror do comunismo russo não faziam segredo das suas convicções. Diziam abertamente que se tivessem de escolher entre a vitória da Alemanha e o bolchevismo, que eles previam como resultado da guerra, prefeririam a vitória alemã. Pensavam estupidamente que os vencedores os deixariam na posse de suas fortunas, que uma revolução comunista certamente arrebataria.

Quanto ao Exército, era considerado o melhor da Europa e o Estado Maior era tido unanimemente como tendo conseguido o mais alto grau de eficiência. Estudemos em primeiro lugar os homens. Durante aquele longo inverno de inação morreu o espírito de cruzada que ardia neles quando da mobilização. Preocupavam-se com as cartas de casa contando que as plantações estavam morrendo por falta de braços para trabalhar, que as lojas não estavam fazendo dinheiro e que os negócios iam à falência e à ruína. Porque não podiam eles voltar para casa ao invés de ficarem ali sentados por trás da Linha Maginot sem fazer nada. Quando a luta começou de verdade já estavam sem entusiasmo. Entretanto todos teriam lutado, ainda assim se estivessem bem comandados. Mas não estavam. Uma grande modificação se processara na França. As generalizações devem sempre ser qualificadas; apresso-me pois em dizer que entre os franceses existiam muitos milhares de homens da mais alta integridade, imbuídos de um profundo senso de dignidade humana, orgulhosos da pátria e prontos a sacrificar suas vidas pela grandeza da França, mas não eram suficientes. A democracia depende em última análise da virtude dos indivíduos e uma democracia corrupta tem que fracassar. Quem não esteve na França demoradamente não pode ter uma ideia de com estava disseminada a corrupção em todas as classes da população. Havia uma decadência moral geral, uma louca sede de prazeres e um cínico desdém pela honra. Muitos jovens oficiais estavam contaminados. Iam para casa ou a Paris gozar as licenças, e perguntavam-se porque estavam combatendo; eles tanto poderiam estar bem sob o governo de Hitler como sob outro governo qualquer; só queriam viver calmamente e tratar dos seus próprios interesses; Hitler os deixaria ter isto, portanto que lhes importavam a marinha e o império? A França era uma grande nação cujo espírito ninguém podia conquistar. Ela seria sempre a França mesmo sob o domínio alemão. Naturalmente foram muitos os atos de heroísmo e inúmeros oficiais morreram cumprindo o seu dever, mas há casos terríveis de tropas abandonadas pelos superiores que fugiram comodamente em automóveis, e de oficiais que deixaram seus homens defenderem-se sozinhos enquanto eles tratavam de socorrer suas esposas e filhos nos distritos que os alemães poderiam ocupar de um momento para outro. É sabido que milhões de refugiados não só dificultaram a movimentação das tropas, mas levaram o desânimo à população em geral; não preciso apontar isto como uma das causas que contribuíram para a quebra do moral da França.

Apesar da sua reconhecida incompetência, Gamela foi conservado no comando supremo porque sabia rezar o rosário político. O povo francês tinha confiança no Estado Maior, que infelizmente era composto de homens já demasiado idosos, que nada haviam aprendido depois da última guerra e que eram cegamente complacentes consigo mesmos. Recusaram-se a aprender a lição do ataque à Polônia. Na linha de frente encontrei generais que me declararam que a Polônia fôra derrotada por não seguir o conselho do Estado Maior da França. Disseram-me que esperavam apenas que os alemães atacassem a Linha Maginot e estavam certos que os esmagariam. Quando ficou demonstrada a inutilidade da Linha Maginot não sabiam o que fazer. Nada foi feito para ensinar aos soldados como enfrentar as divisões mecanizadas da Alemanha, embora os oficiais poloneses que conseguiram escapar para a França se tivessem esforçado desesperadamente para fazer aproveitar ao Estado Maior a lição que tinham aprendido com a mais dura experiência; mas os oficiais franceses desprezavam os poloneses e na sua obstinada arrogância não quiseram ouvi-los. Não admira, pois, que os soldados fossem tomados de pânico e não apresentassem resistência. Foch dissera: “Se a França estiver em perigo, chamem Weygand”. Quando o general Weygand foi chamado para sustar o desastre, e a situação e disse a Reynaud que não havia esperanças. Reynaud contou isto a um amigo meu e acrescentou:

— Que posso fazer quando o meu comandante em chefe é um derrotista?

Weygand fôra um brilhante oficial de Estado Maior. Tinha uma grande reputação e, receoso de destruí-la, não quis correr certos riscos. Ele é vaidoso, ambicioso, apaixonado e autoritário. Depois da sua reforma no posto de comandante em chefe na idade limite (ele tem mais de setenta anos), parece ter-se contaminado nos salões de Paris pelo medo do comunismo que dominava aqueles ambientes. Católico ardoroso, mostrava-se profundamente preocupado com a degenerescência dos seus concidadãos. Concebeu uma crença mística de que a França só podia ser regenerada passando por uma grande provação, quando sobreveio a catástrofe, sua crença cristalizou-se no seguinte: a França pecou e deve sofrer. Isto pode bem ser verdade, mas não é certamente o estado de espírito que estimulará um comandante em chefe a buscar a vitória. Quando ele perdeu a esperança da vitória empregou todas as suas energias para ficar com o controle do exército de modo que pudesse manter a ordem social.

Não preciso dizer coisa alguma de Pétain. É um homem velho, cansado, teimoso, arrogante e, por natureza, derrotista. Suas inclinações sempre foram fascistas. Todos os que tiveram contato com ele na capitulação acharam-no incapaz de uma decisão. Nem tenho necessidade de tratar também dos fatores menores que demonstraram a incompetência do Estado Maior — a burocracia, por exemplo, que dificultou os esforços dos oficiais dinâmicos. Um deles contou-me que um importante documento que viu pronto para lhe ser entregue num gabinete que ficava defronte da sala em que trabalhava, levou uma semana para chegar ao seu destino. Era uma distância de dez metros... Não preciso de falar na falta de armamentos nas posições onde eram mais necessários. Eu mesmo visitei as fábricas onde estavam sendo fabricados tanques em quantidades que me pareceram grandes. Onde estariam eles quando foram precisos para fazer frente ao ataque alemão? Muitos estavam guardados nos arredores das grandes fábricas. Por que? Há apenas uma resposta plausível: para esmagar os operários se tentassem uma revolta.

Tratemos agora dos políticos cuja lamentável e confusa história é feita de egoísmo, deslealdade, irresolução, medo e desonestidade. Ministros, que haviam sido demitidos intrigavam os seus substitutos; os membros do gabinete desconfiavam uns dos outros; Mandel, o mais hábil de todos eles, nunca teve uma chance porque era judeu. Ex-ministros mantinham confabulações traiçoeiras com o inimigo. Mulheres exerciam uma devastadora influência, diz-se mesmo que Madame De Portes, amante de Reynaud, tentava entrar nas reuniões do gabinete; diz uma história que parece autêntica que numa dessas ocasiões, quando ela insistia violentamente para chegar junto de Reynaud o oficial de guarda teve que a conter à força; conta-se também que quando o embaixador britânico estava tentando convencer Reynaud para manter o seu país fiel aos compromissos assumidos com a Grã-Bretanha, ela irrompeu da porta e gritou:

— Ne cédez pas, ne cédez pas!

Foi Madame de Portes quem induziu Reynaud a colocar no seu gabinete o desastroso Baudoin que foi feito Ministro do Exterior. Trata-se de um banqueiro, um neocatólico, com as mesmas ideias de Weygand sobre a reconstrução moral da sociedade, mas nunca encontrei uma só pessoa que acreditasse na sua sinceridade. Nas suas conversações com o Embaixador Britânico e com os Ministros Poloneses (pois deve ser lembra do que a França assinou os mesmos solenes tratados com a Polônia e com a Grã-Bretanha de que não faria paz em separado com a Alemanha) ele provou ser grosseiramente mentiroso. Não deixou mesmo o representante polonês ver os termos do armistício que estavam na mesa diante dele; e embora o gabinete já tivesse resolvido aceitá-los, disse-lhes que os mesmos seriam rejeitados e que o governo iria para a África continuar a guerra de lá.

Mas, que adianta prosseguir nesta tortuosa história de homens aterrorizados e de pouca visão, que colocavam seus interesses particulares acima do bem estar de sua pátria? Sua causa já estava perdida quando, em vez de dinamitá-las, preferiram deixar para os inimigos as pontes e as fábricas que custavam dinheiro. Sua causa já estava perdida quando preferiram entregar Paris sem um tiro a vê-la destruída, como os poloneses tiveram a coragem de fazer com Varsóvia. Depois o pânico tomou conta da nação, como acontecera com o Exército e ninguém lhe pôde mais pôr cobro. Foi o fracasso moral que levou ao fracasso material.

Pode-se resumir em poucas palavras a causa do colapso da França: o Estado Maior foi incompetente; os oficiais vaidosos, mal instruídos sobre a guerra moderna e sem energia; os soldados mal satisfeitos e desanimados. O povo em geral, mantido na ignorância de tudo que devia ser do seu conhecimento, tinha profunda desconfiança do governo e nunca se convenceu de que a guerra era um assunto que lhe interessava de perto; as classes conservadoras tinham mais medo do bolchevismo que da dominação alemã e seu único pensamento era segurar seu dinheiro nos bolsos; o governo era inepto, corrupto, e em parte desleal. Foi um milagre a derrota da França? Milagre seria ela não ser derrotada.

Desta vez não havia um Clemenceau, ou um Foch para realizar o milagre. Mas, estará a França conquistada? O Exército foi derrotado, mas a grande massa do povo compreende o que aconteceu, ou se ainda não compreendeu, sentirá o que é viver sob o tacão da bota alemã. E não poderá então fazer alguma coisa para se libertar? Acredito que sim. O povo francês é orgulhoso e bravo. Só posso pensar que quando ele se refizer do desespero causado pela vergonhosa humilhação, surgirão no seu seio grandes líderes e homens decididos seguirão seus passos.

Não posso crer que o francês se submeta tranquilamente à escravidão que os nazistas vitoriosos tentarão impor. Todos nós que amamos a França não devemos perder a esperança. A escoria será afastada. Há milhares e milhares de homens na França que tem integridade, patriotismo e coragem, o bastante, penso eu, para, no momento azado, derrubar o invasor e restaurar a França uma vez mais no seu verdadeiro lugar na comunidade das nações.

Não é por prazer que estou narrando o que me pareceu ser a causa da queda de um grande país. Quais as lições que podem ser tiradas desta trágica história? A maioria delas são tão claras que não precisam ser enunciadas, mas sobre uma devo insistir: se uma nação valorizar alguma coisa mais que a liberdade, ela perderá a liberdade; e a ironia disto é que se for o dinheiro ou o conforto que ela valoriza, mais os perderá também. E quando uma nação tem de lutar pela sua liberdade, só pode esperar a vitória se tiver honestidade, coragem, lealdade, visão larga e espírito de sacrifício. Se não possuir tais qualidades, ela terá de se queixar apenas de si mesma, se perder a liberdade.

 

No meu regresso à Inglaterra fui muito bem recebido pelos meus amigos que frequentemente me convidavam para almoçar e para jantar. Logo percebi que dois assuntos lhes estavam despertando ansiedade. Um era a incompetência de certo general. Como todos sabemos, uma das desvantagens da forma democrática de governo é que quando um homem está comodamente encastelado num posto para o qual não tem aptidões, só mesmo por obra do demo se o pode tirar de lá; mas, embora tome tempo, pode ser feito. Efetivamente algum tempo depois este general era relegado a uma posição obscura e substituído por pessoa mais apta.

O outro assunto era a Quinta Coluna. Que se falasse muito disto era natural, pois a impressão — precisamente aquela que busca a propaganda alemã — é que ela estava invisívelmente ativa em toda parte. A Quinta Coluna visa à propagação do medo, do desanimo, desconfiança mutua e confusão. A tendência natural do público é acreditar em qualquer boato alarmante e quando se ouve um boato é difícil resistir à tentação de passá-lo adiante lhe acrescentando alguma coisa original. O povo é sábio quando adiciona uma pitada de sal ao que houve e ao que lê. Mas a Quinta Coluna é formidável e posto que contribuiu tanto para a queda da Polônia, da Noruega, dos Países Baixos e da França, o leitor talvez tenha paciência comigo enquanto lhe conto o que então aprendi sobre os seus objetivos e métodos.

Examinei um certo número de relatórios secretos que tratavam da Quinta Coluna e tive a felicidade de conhecer alguns homens cujo trabalho é vigiar suas atividades na Inglaterra e dar os necessários passos para neutralizar a sua ação. Não posso citar nomes; posso apenas dizer que na aparência exterior eles não lembram os agentes secretos dos romances policiais. Ninguém imaginará ao vê-los que eles tem alguma coisa a ver com a ocupação que tem. Um deles era um indivíduo alto, magro, cabeça pequena, tão preciso nas maneiras que bem podia ser tomado por um professor de matemática; um outro, era gordo, cabelo grisalho, fisionomia envelhecida e com roupas velhas e surradas; era insinuante, tinha o riso alegre e uma voz macia. Não sei por quem eu tomaria se o encontrasse na rua: um vendedor de motores, talvez, ou um plantador de chá aposentado.

O propósito da Quinta Coluna é auxiliar as tropas por meio de atividades civis na retaguarda das linhas inimigas. Até certo ponto este sempre foi um método de guerra, mas nunca foi usado com tanta esperteza e sucesso como pelos ale mães no conflito atual. Os alemães foram suficientemente inteligentes para adaptarem seus métodos às condições especiais de cada país. Antes de ser iniciada a invasão, preparava-se a opinião pública, coligiam-se informações e praticavam-se atos de sabotagem, providências essas que em numerosos casos, foram facilitadas pela fantástica negligência das autoridades: na Noruega, por exemplo, oficiais alemães da Lufthansa, sob alegação de que desejavam investigar as possibilidades de uma nova linha aérea, tiveram permissão para inspecionar os aeroportos três semanas antes da invasão. Meios altamente engenhosos foram ideados para a transmissão de informações. Na Bélgica, pregavam-se nas paredes cartazes anunciando artigos de uso popular com mapas e informações úteis do outro lado. Instruções foram publicadas por meio de anúncios em código nos jornais diários; na Iugoslávia anúncios publicados nos jornais pró-nazismo e aparentemente destinados à propaganda de viagem de férias davam informações detalhadas sobre as facilidades de acomodação, abastecimento de água e os meios de transporte.

Uma vez efetuada a invasão, a Quinta Coluna desempenhava um papel mais decisivo. Buscava criar a confusão fazendo circular falsas notícias por meio de folhetos, mensagens telefônicas e da palavra falada. Tentava capturar importantes pontos, aeroportos, edifícios públicos, estações radiotelegráficas, estações do correio e da policia. Na Holanda, civis alemães fizeram fogo contra as tropas holandesas das janelas e dos telhados das casas. Um outro importante ramo do seu trabalho era guiar as forças armadas do invasor o que implicava naturalmente um perfeito conhecimento local. Aviões e navios podem ser guiados pelo rádio ou por muitas espécies de sinais diurnos ou noturnos.

A esta altura devo interromper minha narrativa para contar um pequeno incidente que chegou ao meu conhecimento. Há uma pequena ilha num estuário britânico que guarda as proximidades de uma importante cidade e onde estão acantonados alguns homens para repelir qualquer tentativa de desembarque. Constantemente sob bombardeio, levam uma vida isolada. A Associação Cristã de Moços instalou ali uma cantina, onde os homens pudessem tomar chá e café, onde pudessem sentar-se, conversar e escrever cartas; para auxiliar o trabalho da cantina foi mandado para lá um padre inglês. Era um homem culto de aparência muito fina e respeitável, mas muito brincalhão, e tornou-se logo popular entre os soldados dando-lhes cigarros e bombons; interessava-se por tudo que os preocupava e estava sempre disposto a ouvi-los falar sobre seus campos de treinamento ou quando lhe contavam onde estavam estacionados seus companheiros e para onde esperavam ser mandados. Quando, à noite, a cantina era fechada, ele gostava de fumar seu cachimbo; quem poderia culpá-lo por isso? Como fizesse calor lá dentro ele puxava as cortinas e abria a janela; acendia seu cachimbo com um isqueiro — que mantinha a chama acesa por um espaço de tempo considerável. Disseram-lhe que aquilo talvez fosse perigoso, mas ele alegava que devia tomar um pouco de ar depois de tantas horas numa atmosfera de estufa, e era absurdo pensar que pudesse haver algum risco em acender um isqueiro. Meia hora depois houve um "raid" aéreo. Bem podia ter sido uma coincidência. Mas, quando a mesma coisa aconteceu a segunda e a terceira vez, chamou a atenção; o padre foi interrogado e depois, para grande indignação sua, foi preso enquanto se dava uma busca no quarto. Seu interesse pelos soldados levara-o a tomar nota de muita coisa que eles contavam. Foi levado outra vez para seu quarto com uma sentinela na porta; passou a noite andando de um lado para outro e na manhã seguinte foi levado de automóvel com uma escolta. Desta maneira a cantina perdeu os serviços do afável, generoso e simpático padre; os homens não se importaram muito; o que eles sentiram mais foi não terem podido linchá-lo.

 

Não há necessidade de exagerar o poder da Quinta Coluna na Grã Bretanha; é tolice ceder terreno à psicose da espionagem mas seria idiotice não dar importância a um perigo que a experiência de outros países tem demonstrado ser muito real. Existem três espécies de Quinta Coluna na Grã Bretanha: súditos britânicos, estrangeiros inimigos e neutros. O caso dos neutros não apresenta dificuldades, pois podem ser logo de portados e os estrangeiros inimigos podem ser internados. Grande número deles já está internado o que causou inúmeros protestos. Muitos eram antifascistas, antinazistas e judeus que haviam fugido para a Inglaterra a fim de escapar aos campos de concentração dos seus próprios países e olhavam a derrota do Eixo como a única esperança de regressar aos seus lares. Muitos eram homens de destaque que estavam dispostos a colocar seus talentos a serviço do país que lhes dera asilo. Muitos ainda eram homens do mais elevado caráter cujos sofrimentos nas mãos dos adversários tornava impossível crer que pudessem tomar parte em atividades favoráveis aos inimigos. A imprensa advogou a causa deles com veemência e exerceu todos os poderes de ataque contra a burocracia que tratava com tanta dureza aquela gente infeliz. Parecia uma coisa incrível prender pessoas que tinham confiado na hospitalidade de um povo livre. Possivelmente mais tarde aquela gente voltaria aos seus países e seria lamentável que levassem ódio no coração por terem sofrido castigos imerecidos nas mãos de quem eles julgavam seus amigos. Por outro lado, havia a lição, dos países conquistados onde refugiados alemães ostensivamente contrários a Hitler mais tarde foram descobertos como ativos agentes nazistas. Era sabido que existiam muitos espiões entre os refugiados, muitas vezes até judeus. Estamos em guerra e seria uma negligência criminosa não tomar todas as precauções possíveis. A agitação contra o internamento indiscriminado dos estrangeiros do Eixo, feliz mente para o bom nome da Grã-Bretanha, deu frutos: todos os que estavam na Classe C (considerados acima de qualquer suspeita) foram postos em liberdade. Mas milhares continuaram detidos; e muitos deles, talvez a maioria da Classe B (os considerados duvidosos pelos tribunais), são honestamente contrários ao nazismo e leais amigos da Inglaterra. São merecedores de toda simpatia. Uma classe mais difícil de tratar é a constituída pelos súditos britânicos — alemães ou italianos naturalizados e ingleses natos. Por um Ato do Parlamento recentemente aprovado, se houver base suficiente para suspeita de atividade de traição o indivíduo pode ser preso e conservado preso sem julgamento, mas tem o direito de apelação. No momento em que escrevo já foram detidas cerca de mil e duzentas pessoas. A maioria apelou, mas foram atendidos três ou quatro casos apenas. Como a Justiça britânica sempre é simpática ao acusado, o Ministério do Interior teve boas razões para o passo dado. O tratamento dispensado aos detidos não é dos piores. No principio eles ficavam na prisão em Brixton ou Wandsworth, mas mais tarde foram mandados para um campo militar sob controle do Ministério do Interior. Usam suas próprias roupas e só trabalham se quiserem; podem ler jornais, receber visitas, escrever e receber cartas. O livro de Stefan Lorant “Eu fui prisioneiro de Hitler” mostra como é diferente o tratamento dispensado pelos nazistas aos suspeitos políticos sob custódia preventiva.

Os agentes da Quinta Coluna podem ser homens, mulheres ou mesmo crianças. Os franceses prenderam uma menina de doze anos que estava fazendo sinais por trás da chaminé para dar aos atiradores alemães a posição dos franceses. Disfarçavam-se em padres, enfermeiras, policiais, condutores de bonde, escoteiros, ferroviários ou chofers de táxi. Podem envergar uniformes do Exército, da Marinha ou da Força Aérea britânicos. Antes da invasão da Holanda, os alemães compraram uniformes holandeses em grandes quantidades e passaram-nos pela fronteira com o auxílio de nazistas holandeses. Mais tarde tiveram muita utilidade. Certa ocasião uma lancha torpedeira britânica foi alvejada de terra por soldados com uniformes holandeses a quem o comandante da embarcação convidara momentos antes a fugir; de outra feita um quinta colunista disfarçado em policial holandês disse a um grupo isolado de soldados holandeses que seus companheiros estavam na esquina e quando os mesmo dobraram a rua depararam com tropas alemães que tinham organizado uma barricada na estrada, e que os trucidaram. Outro “truque” muito usado era colocar uma mulher alemã à beira da estrada pedindo condução aos caminhões que passassem; o chofer, querendo ser atencioso parava o veículo e era atacado de emboscada por tropas alemãs que matavam o motorista e tomavam conta do veículo. São astúcias de guerra que devem ser aceitas como parte do terrível jogo; mas os alemães têm empregado métodos que repugnariam mesmo aos estômagos mais duros: depois da invasão da Holanda, por exemplo, quinta colunistas em trajes civis desfilaram pelas ruas cantando hinos patrióticos holandeses e quando se agrupavam grande massas populares, dispersavam-nas a metralhadora. Se encontravam um oficial holandês, saudavam-no e depois matavam-no pelas costas.

É um consolo pensar que algumas vezes as nefandas artes dos nazistas não dão resultado. Reuni disto três exemplos. O comandante holandês de uma certa base naval descobriu que dois homens vestidos com uniformes de marinheiro tinham se introduzido no estaleiro. Reunida a guarnição, e não tendo sido encontrados ele preveniu aos seus homens que no dia seguinte não deviam saudar os oficiais quando passassem por eles. Os dois únicos que desobedeceram a esta ordem eram justamente os dois procurados. Em outro caso descobriram-se sinais luminosos dados à noite por quintacolunistas aos aviões alemães com o objetivo de avisar que os paraquedistas podiam descer. Certa noite um navio holandês que estava patrulhando a costa, ao ouvir o barulho dos motores de um avião inimigo, emitiu os mesmos sinais. Logo os paraquedistas foram joga dos e caíram no mar. Em Lodz, na Polônia, os quintacolunistas quando ouvissem pelo rádio de Breslau: “Os camaradas do Dr. Eichholz, para o trabalho”, deviam fazer voar trilhos e pontes da estrada de ferro e tentar tomar o correio e a central telefônica. Além de revólveres, mecanismos de relógio para bombas, mechas e detonadores, tinham também latas de alimentos de duplo fundo com carne ou legumes na parte de cima e dinamite por baixo. A ordem final devia ser mandada pelos líderes, por telegrama. A mensagem combinada era: “Mamãe morreu, prepara coroas”. Pareceu estranho às autoridades polonesas que tantas pessoas diferentes recebessem tão triste mensagem ao mesmo tempo e com a mesma tocante in junção. Isto certamente demonstrava pobreza de invenção. Vinte e quatro cidadãos foram presos e o que lhes aconteceu o relatório não conta.

 

Não é da minha conta dizer ao povo dos Estados Unidos os riscos que corre em virtude das atividades da Quinta Coluna neste país. Ele é bastante competente para cuidar de si mesmo e um estrangeiro aqui anda bem tratando do que lhe compete. Mas, no final das contas, se a gente vê que um homem vai levar seu automóvel por uma ponte arrebentada seria justificável detê-lo e adverti-lo do perigo. Pode ser que ao invés de fazer uma volta maior, ele prefira correr o risco e se saia bem; então ele nos chamará de bobos medrosos; mas, vale a pena arriscar a advertência. Os interesses dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha estão agora tão intimamente entrelaçados que nenhum cidadão de qualquer um desses países pode permanecer indiferente à situação do outro. Pode ser que a ideia de união agora seja um sonho impraticável, mas há a união de uma língua comum, uma cultura comum, uma moralidade comum que não depende do consentimento dos povos interessados, mas que é absoluta e inevitável como a terra comum que habitamos e o ar comum que respiramos.

Não tenho a menor dúvida que grande número de alemães e italianos que se estabeleceram neste país lhe são leais; muitos deixaram os seus lares na Europa porque a situação lá era intolerável; muitos fugiram de uma odienta tirania e pela liberdade que encontraram outra vez e pelas maravilhosas oportunidades que os americanos lhes deram, sentem-se felizes de partilhar também das suas atribulações; mas, poderão eles esquecer inteiramente a terra de seus antepassados? Suponha mos que o leitor americano, como exilado político, tenha fixado residência na Romênia há vários anos e se encontre satisfeito lá, e os Estados Unidos venham a tomar parte numa guerra cuja razão ninguém pode indicar claramente. — Não despertará no seu coração algum velho sentimento que o fará esquecer todos os erros cometidos pela pátria e o levará a desejar, apesar de tudo, a vitória do seu país? Sei que isto se daria comigo. Serão os laços comuns entre ele e o povo do seu próprio sangue tão fracos que possam ser cortados com tanta facilidade? E depois disto imbuído desta mentalidade ele tomará todas as medidas que se fizerem necessárias para auxiliar a pátria no momento do perigo.

E é preciso não esquecer que os alemães são impiedosos. Quando fazem ameaças, eles as cumprem logo que podem. Ninguém deve esperar piedade da parte deles. Que faria o leitor se fosse um imigrante alemão, tendo pai e mãe ainda na Alemanha, e um agente da Gestapo (não pense que eles não existem no seu país: há-os às dezenas) o procurasse dizendo que se fizer isto ou aquilo para dificultar o rearmamento dos Estados Unidos, seus pais receberão alimentos com fartura, mas que se recusar, eles serão mandados para um campo de concentração? Tem a certeza de que teria coragem bastante para deixar de fazer o que lhe pedirem? Devemos tomar a natureza humana como ela é. É melhor evitar a tentação do que esperar resistir-lhe. Ser forte quando nosso senti mento de humanidade, quando nossos afetos estão em jogo, é pedir mais do que a maioria dos homens é capaz. Não posso acusar no meu coração aqueles que cedem ante tais ameaças: compadeço-me deles. Mas quando a segurança de uma nação está em jogo, penso que é de elementar prudência admitir como possível a fragilidade humana.

Também não devemos esquecer que os alemães são muito capazes. Eles não têm grandes dotes de improvisação, mas são sistemáticos e enxergam longe. Eles não esperam, para fazer seus planos, como nós outros britânicos, que surja a necessidade de agir. Deixam bem pouco a depender da chance. Vou contar um caso verdadeiro que é bem ilustrativo do método com que eles se preparam para todas as eventualidades: há um aeródromo numa determinada parte da Inglaterra que desde o início da guerra tem sido repetidamente bombardeado. Ninguém atinava como os alemães haviam localizado o aeródromo, pois se trata de um lugar retirado e muito bem camuflado, praticamente invisível do ar. Entretanto os alemães o descobriram sem dificuldade e jogaram suas bombas com uma absoluta precisão. Um dos deveres da Home Guard é familiarizar-se com o terreno do distrito em que trabalha. Um dia dois guardas puseram-se a explorar uma grande propriedade, a uma ou duas milhas do referido aeroporto, desalugada havia vários anos; encontraram um grande celeiro e um vasto parque onde a grama já estava mais alta que o joelho. Mas os guardas perceberam que em certos pontos a grama era mais curta do que nos outros lugares. Acharam isto estranho e continuando a exploração descobriram, que uma faixa de terra larga e reta tinha sido cultivada no meio do capim, e que esse trecho cultivado tinha uma forma muito esquisita. Graças às investigações que foram feitas soube-se que três anos antes um grupo de plantadores de bulbos holandeses tinha alugado o parque deserto a fim de tentar a plantação de tulipas na Inglaterra. Parece que a experiência fracassou, pois pouco antes da guerra os holandeses abandonaram a plantação e regressaram à Holanda. A casa abandonada podia ser vista de grande distância do ar e naquele pedaço de terra onde os honestos horticultores holandeses haviam plantado suas flores aparecia entre a grama alta uma grande seta apontando para o aeródromo. A razão porque os alemães conseguiam jogar bombas cota tamanha exatidão estava agora nítida para a mais curta inteligência. Pode parecer estranho que nenhum piloto inglês tenha tido sua atenção despertada para a seta, mas o fato é que nenhum notou e penso que a mesma só pode ser vista por quem a procura.

Aqui está mais outro caso que chegou ao meu conhecimento. Um casal sem filhos — desejoso, suponho eu, de aumentar suas modestas rendas — alugou um quarto, no verão, a um menino alemão que desejava aprender inglês. Era um garoto encantador e os dois ficaram querendo bem a ele. Sua visita fôra um sucesso completo, de forma que se repetiu vários anos. O casal inglês passou a estimá-lo como a um filho e o rapaz lhes parecia muito dedicado. Quando a guerra estourou ele tinha dezesseis anos. Foi com verdadeiro peso no coração que os dois ingleses o levaram à estação quando seguiu para a Alemanha. Querendo dar-lhe um presente de despedida, compraram coisas de que um rapaz de dezesseis anos pode gostar gravatas, lenços e um cachecol — e entregaram-lhe o embrulho na estação. A mulher beijou-o com lágrimas nos olhos e o rapaz parecia e também com o coração despedaçado por deixá-los. Logo que o trem se movimentou, porém, ele jogou o embrulho na cabeça do homem, e, inclinando-se na janela, cuspiu no rosto da mulher.

Os alemães são uma gente estranha.

 

Como me parecesse que eu nada podia fazer na Inglaterra, resolvi ir para os Estados Unidos. Mas isto não é coisa que se possa fazer sem dificuldade nos dias de hoje. Primeiro eu tinha que conseguir meu “visa” americano, e para isto precisava provar que tinha negócios lá. Não sei se os cidadãos americanos estão informados da suspeita com que seus cônsules olham um estrangeiro que deseja visitar seu pais. Um vez disse a verdade quando fui inquirido sobre o motivo da minha viagem; disse que ia ver amigos e divertir-me. O cônsul informou-me que isto não era suficiente e que eu devia conseguir uma carta do meu editor declarando que era necessária a minha ida à Nova York para combinar a publicação de um livro. O estrangeiro pôde vir para os Estados Unidos ganhar dinheiro, mas não apenas para gastá-lo. Parece-me uma injustificada modéstia por parte das autoridades do Departamento de Estado supor que um estrangeiro não deseja visitar os Estados Unidos por prazer. Mas, desta segunda vez minhas razões foram suficientemente boas e obtive o “visa” com facilidade. Antes contudo do “Passport Office” dar-me permissão de saída tive que obter permissão do Ministério das Informações, o qual olha os autores com certa suspeita, e depois disto do Ministério do Tesouro.

O bombardeio de Londres começou. Como esta narrativa não tem pretensões históricas, nada direi sobre isto; contento-me em referir os distúrbios que causou na vida de um particular como eu. Os “raides” diurnos não causavam grandes inconvenientes. O povo não saía propositadamente para as ruas quando os aviões estavam jogando bombas, mas quem estava na rua pouca atenção ligava aos aviões. No princípio, as repartições do governo fechavam quando as sirenas tocavam e o pessoal corria para o abrigo, mas isto atrapalhava o trabalho de tal modo que foram dadas instruções para que todos continuassem nos seus postos apesar dos “raides”. As grandes casas fechavam as portas, mas as menores continuavam seus negócios. No começo os abrigos eram muito procurados, mas mais tarde a frequência foi gradativamente diminuindo e uma vez encontrei um deles vazio. A população de Londres cedo se acostumou com os “raides”, de forma que as ruas continuaram cheias como de costume e as mulheres iam fazer suas compras despreocupadamente. Quando os “raides” se sucediam com muita frequência era difícil dizer se a sirena ouvida era de advertência ou de “tudo livre”. Eu tinha um quarto no último andar do hotel Dorchester e uma tarde achava-me deitado lendo. A sirena tocou e eu ouvi o barulho de aviões. Estava pensando se não seria prudente descer para o andar térreo, quando uma mulher me chamou ao telefone. Não tinha nada de particular para dizer, mas, sentindo-se só, teve vontade de conversar. Não achei o momento apropriado para tal coisa e creio que fui lacônico demais para com ela, mas já observei que quando uma mulher pega um receptor na mão tem grande dificuldade em colocá-lo novamente no gancho. Apesar das minhas respostas breves e secas, minha amiga falou despreocupadamente vários assuntos. Por fim disse irritada:

— Não posso imaginar o que está acontecendo com o diabo deste telefone. Não consigo ouvir o que você diz. Que barulho é este?

— Talvez, seja o barulho dos aviões que estão fazendo um “raide” sobre a cidade — respondi calmamente.

É “raide”, é? Pensei que fosse o sinal de “tudo acabado”. Você está vendo os aviões?

— Estou.

— Oh! Onde estão eles?

— Bem, para dizer a verdade, eles estão exatamente sobre a minha cabeça — respondi.

Neste momento os canhões antiaéreos do Hyde Park iniciaram um terrível fogo de barragem. Houve um silêncio do outro lado do fio e depois uma voz sumida disse:

— Talvez seja melhor eu desligar.

— Talvez, é.

— Chamarei mais tarde — disse ela resolutamente.

Depois os alemães começaram os “raides” noturnos. Penso que o primeiro foi num sábado no princípio de setembro. Em seguida passaram a vir com regularidade à tardinha, e ficavam até madrugada. Nas duas primeiras noites dormi no meu quarto, no décimo segundo andar; mas o barulho, das baterias antiaéreas, que ficavam a uns 100 metros, só faltava arrebentar-me o tímpano, e quando uma bomba caiu nos arredores, o hotel se balançou como um cachorro que sai do mar, de for ma que o sono foi difícil botei meu orgulho no bolso e desci para o abrigo. A primeira noite dormi sobre três cadeiras mas não achei o “leito” muito cômodo, e, não vendo razão para não procurar minha comodidade comprei um colchão. Levei-o para o abrigo e coloquei-o num lugar conveniente. Mudei de roupa no meu quarto, vesti o pijama, apanhei uns dois travesseiros e o edredom e desci. Depois das minhas três semanas no dique de ferro do Salteragate, aquilo era altoluxo e eu dormi como uma criança. De quando em vez acordava-me o troar dos canhões de Hyde Park, mas era um barulho que me enchia de confiança e imediatamente conciliava o sono outra vez. O “tudo limpo” soava entre cinco e seis da manhã. Havia então uma movimentação geral do povo que se levantava; eu acordava e ia para a cozinha, que era ao lado do abrigo, para conseguir café com o cozinheiro; ele dava as notícias da noite e depois de uma pequena conversa eu ia para o meu quarto, subia na cama e dormia até à hora do “breakfast”.

 

No princípio, a vida social de Londres não se modificou muito. Fui então a um jantar que guardei na minha memória como uma das mais singulares experiências que já tive. Eu estava numa daquelas antigas e pequenas casas em Westminster que durante os últimos anos se tornaram tão procuradas já pelos lindos “panneaux” das suas paredes e pelas suas chaminés, já porque eram tranquilas e próximas das casas do Parlamento. Éramos dez convidados; depois do jantar fomos para o salão no andar superior, onde a dona da casa nos havia preparado uma surpresa. Devido à situação, havia muita penúria entre músicos e para dar-lhes algum dinheiro pessoas de boa vontade sempre os contratavam. Um pianista, um violoncelista e um violinista iam tocar para nós. Sentamo-nos à vontade nas poltronas e mal iniciavam uma sonata de Hayden, a sirena cortou o silêncio da noite; poucos instantes depois os canhões antiaéreos começaram a atirar, bem nas proximidades, de modo que tivemos a impressão que os aparelhos alemães não estavam muito longe; mas os músicos continuaram, nenhum deles tomou conhecimento daquele barulho infernal do lado de fora, e quando terminaram batemos palmas como se nada tivesse perturbado o enlevo de tão encantadora música. Embora o canhoneio continuasse, os músicos executaram outra peça. Passamos uma noitada deliciosa e como o “raide” continuava e não podíamos ficar ali indefinidamente, cada qual tomou seu rumo.

Era difícil conseguir um táxi à noite nos bairros afastados, e era imprudente andar pelas ruas, não por causa das bombas que pudessem cair, mas por causa dos estilhaços dos nossos canhões antiaéreos. Algumas pessoas saiam com capacetes de metal. Um homem que jantara comigo em Dorchester, no seu regresso à casa viu uma bomba cair a cinquenta metros de distância, em Piccadilly. Jogou-se no chão e disse-me depois:

— Foi uma sorte não estar chovendo. Eu teria estragado minha roupa.

Sobrevindo um “raide”, muita gente passava a noite onde jantava e o hall do Dorchester estava cheio de pessoas à espera do sinal de “tudo limpo”, de madrugada; algumas haviam jantado no hotel, outros vinham de casas próximas procurar refúgio e outros eram hóspedes que preferiam o hall ao abrigo do hotel. Havia algumas entretanto, que não cediam à situação. Pouca gente vestia trajes de noite, mas um casal conhecido meu — um homem velho e muito distinto, que fizera uma brilhante carreira a serviço do Estado, e sua esposa — vestia-se todas as noites coma se nada de anormal estivesse acontecendo. Os dois costumavam frequentemente ir jantar com amigos no Dorchester, e, mais ou menos às dez horas, estivesse o “raide” no auge, chamavam um táxi e voltavam tranquilamente para casa. Tomei parte num destes jantares e a senhora me repreendeu por me apresentar com traje de passeio.

— Não vejo razão, apenas porque está havendo um "raide" aéreo, para um cavalheiro não se vestir como um cavalheiro.

Numa ocasião, uma velha amiga minha, mulher muito espirituosa, veio jantar comigo. Conversamos até tarde e depois ela me disse:

— Você parece cansado; vou para casa.

O “raide” era terrivelmente violento aquela noite, de modo que eu lhe disse que não poderia sair.

— Nunca ouvi tamanha falta de senso. Chame um táxi. Nunca dou atenção aos “raides” — respondeu ela.

Fiz o que ela pediu. Na manhã seguinte fui acordado com uma carta sua, escrita a lápis. Dizia-me que no caminho de casa ela chegará à conclusão de que não era muito seguro para o chofer voltar, de forma que o mandou entrar e conversaram a noite toda. Achou-o um homem interessante e agradável. Era por seu intermédio que ela me mandava aquele bilhete logo que o “tudo limpo” permitiu a saída do inesperado hóspede.

No princípio houve muita queixa entre os pobres, pois as bombas caíam mais nos seus bairros, e eles perguntavam:

— Por que Hitler não bombardeia o West End?

Naquele momento os pobres eram quem mais sofria. A gente rica, que morava em casas bem construídas, estava segura nas suas adegas; mesmo que uma, bomba lhe caísse em cima, tinha uma boa chance de escapar com ferimentos leves. Só mesmo uma bomba direta quebrava as janelas, porém no mais todas as probabilidades eram de causar poucos danos. As extensas fileiras de casas em que habita a maior parte da classe operária, são de construção precaríssima. Não oferecem nenhuma proteção e uma bomba que cai no meio da estrada facilmente torna inabitável a rua inteira. Milhares de pessoas ficaram sem teto e perderam tudo o que possuíam. E estas não tinham contas nos bancos que lhes permitissem ir para um hotel e que garantissem novo equipamento; não tinham amigos no campo com os quais pudessem ficar enquanto estudavam a situação. Suportavam o perigo a que estavam expostos com coragem e a falta de conforto com bom humor. Conheci uma pobre mulher em Bermondsay, que morava numa casa de apartamentos construída pelo Conselho da Cidade em substituição dos cortiços. Era viúva e devido ao casamento dos dois filhos, à evacuação para o interior do país de um menino e o alistamento do seu primogênito, os cômodos eram grandes demais para ela; mas a senhora se mostrava sem vontade de abandoná-los depois de haver esperado tantos anos para consegui-los. Um belo dia uma bomba esfacelou a casa. Pois à pobre senhora só ouvi este comentário:

— Bem, realmente eu não podia mais pagar o aluguel; teria que me mudar para um apartamento menor e não poderia levar todos os meus móveis. Talvez os boches tenham feito bem destruindo tudo. Só assim não tenho que pagar guarda-móveis.

Uma manhã, um porteiro da noite no Dorchester foi para casa tomar café; enquanto comia disse para sua esposa:

— Não acha bom fechar a janela, querida? Está um pouco fria a manhã.

Ela começou a rir amarelo:

— Já não temos janela — respondeu. — Esqueci-me de lhe contar que fomos bombardeados a noite passada.

Ele deu uma gargalhada.

Mas finalmente chegou a vez do West End; os pavimentos na Bond Street e outras ruas adjacentes ficaram cheios de pedaços de vidros. Um amigo meu que residia no Albany, antigo e romântico edifício onde Byron certa feita morou, foi jogado da cama ao soalho pela detonação de uma bomba. A Burlington Arcade, onde há trinta anos os rapazes elegantes compravam suas camisas e gravatas, ficou reduzida a escombros. Era triste andar-se pelas ruas do século XVIII de Mayfair e ver um grande buraco onde existia uma belíssima casa antiga, e algumas vezes uma cômoda precariamente equilibrada num fragmento de quarto de dormir, ou um casaco balançando num cabide. O povo encarava a perda das suas posses com singular serenidade. Certa manhã uma mulher cuja casa fôra bombardeada deixou o apartamento e veio para o Dorchester. Perdera todos os móveis e todas as roupas, mas estava muito bem disposta, bem humorada e encarava o incidente como uma brincadeira. Mas quando se sentou para to mar café e lhe disseram que não havia leite, ficou furiosa. Foi a gota d’água que fez transbordar o cálice:

— Minha casa foi bombardeada, perdi tudo que possuía no mundo e agora não tenho leite. Se este país não está indo para o inferno, para onde está indo o inferno? — gritou ela.

O povo, tanto quanto possível, continuava a vida da melhor maneira. Homens cuja casas tinham sido bombardeadas durante a noite, na manhã seguinte iam para o trabalho como de costume. Tive que ir ao Banco da Inglaterra exatamente depois do prédio ter sido atingido por uma bomba em cheio. Todos os vidros haviam sido partidos e alguns gabinetes e salas estavam numa absoluta desordem, mas o movimento comercial prosseguia; e o maior inconveniente foi que alguns empregados tiveram que mudar de sala e levava tempo arranjar novos escritórios. Um amigo meu que vive em Maida Vale tinha um vendeiro que todas as manhãs às 10 horas batia à sua porta para saber o que queriam. A vendinha era atendi da pelo vendeiro e sua mulher, por seu filho com a esposa e por uma filha solteira. Todos moravam na venda. A filha era uma jovem muito viva e inteligente e um dia disse para a família reunida:

— Penso que é um grande erro morarmos juntos Um dia nossa casa pode ser atingida por uma bomba, morreremos todos, o negócio fica parado e os fregueses prejudicados. Acho que devíamos nos separar.

A ideia pareceu boa, de forma que o filho e a esposa tomaram um quarto numa rua próxima, a filha foi morar em outro quarto, enquanto o pai e a mãe continuaram a morar na venda. Alguns dias depois a casa foi bombardeada. Os pais foram retirados das rumas, felizmente não muito feridos e levados para um hospital. Então o jovem e sua irmã trataram de dar providências. O principal era não deixar de atender os fregueses; dirigiram-se, pois, a outro vendeiro que morava umas duas ou três ruas mais adiante e pediram-lhe licença para continuarem trabalhando na venda dele. O homem concordou, e naquela manhã exatamente às 10 horas, o jovem bateu na porta do apartamento do meu amigo como de costume para saber o que queria; como se nada houvesse acontecido.

Muita gente saiu de Londres, mas, embora não tendo negócios na cidade, muitos ficaram pelo prazer de acompanhar de perto os acontecimentos e pela excitação do risco. De um modo geral há agora muito menos medo dos “raides” do que na outra guerra. Há raiva. Soube de um homem no East End que foi visto de pé sobre um cadáver, no auge de um violento ataque, sacudindo furiosamente os punhos cerrados para um avião que sobrevoava o local. Mas na maioria prevalecia uma espécie de fatalismo que fazia crer ao povo que se uma bomba estava destinada a cair sobre uma pessoa, cairia mesmo sem que se pudesse evitar. Mas, por outro lado, havia também a curiosa impressão de que as bombas só podiam atingir os outros, não a nós mesmos. Não diferiam os sentimentos entre homens e mulheres. Conheci um homem, sujeito grande, desajeitado e fanfarrão, cujos nervos estavam muito tensos; não podia dormir, não podia trabalhar; quando começava um raide ficava paralisado pelo terror, e permanecia sentado horas e horas no abrigo lendo histórias de detetive. Por fim teve que ir para um lugar afastado no campo. Durante a última guerra estivera na França; certa ocasião uma bomba caiu no edifício em que se achava e todos os que lá estavam com exceção dele, morreram. Conheci mulheres que estavam completamente fora de si, mas que não abandonaram Londres para não se separarem dos esposos ou dos filhos. Seu amor era maior que o medo. Mas estas pessoas nervosas constituem exceção. Na sua grande maioria os londrinos andam bem dispostos, gostam de viver nestes tempos de agitação, e riem-se dos outros e de si mesmos. Uma senhora idosa escreveu-me depois que deixei a Inglaterra: “Não sei se os ‘raides’ estão ficando menos perigosos ou se estou me acostumando a eles; o fato é que já não perturbam mais o meu sono à noite. Na verdade, eu os acho menos cacetes que meus genros”.

 

Um dia fui a Woolwich. Pelo caminho as sirenas começaram a tocar mas, como de costume, ninguém lhes deu maior importância: os transeuntes continuaram a caminhar, o tráfego prosseguiu; aqui e ali alguém chegava às portas das casas e olhava para o céu procurando avistar algum avião; algumas casas comerciais cerraram as portas e foi só! Chegamos no grande arsenal justamente quando soava o sinal de “tudo limpo” pouco antes do almoço. Não era para ver os trabalhos que eu lá estava. Fui assistir a um espetáculo que teria lugar numa das cantinas durante o almoço dos operários.

Já lá estavam esperando duas jovens vestidas iguais com trajes vistosos e baratos, um comediante, um pianista e um homem que tocava violino e guitarra. A troupe era da espécie das que percorrem as praias inglesas durante o verão. Tocam ao ar livre quando o tempo está bom, debaixo de telheiros quando faz frio; e um mau verão é um desastre para tais artistas. A gente fica a imaginar o que fazem no inverno. Deve ser difícil para eles conseguirem contratos mesmo nas casas de “vaudeville” do interior; talvez as jovens obtenham algum trabalho nas semanas próximas do natal no teatro de pantomima; porque, mesmo com toda a boa vontade possível, o espectador tem de reconhecer que os espetáculos são muitos sem graça.

Uma das duas moças do grupo tinha menos de trinta anos e era bastante interessante, mas a outra era uma mulher de meia idade, cheia de rugas por debaixo da pintura, com traços muito duros e cabelos oxigenados. O comediante, homem de mais de cinquenta anos, contou-me que eu filho fôra ferido durante a retirada de Dunkerque. Aquele pequeno grupo teria inspirado compaixão não fosse o bom humor e a satisfação e até mesmo o orgulho com que trabalhava.

Os operários foram chegando. Tomaram seus lugares nas longas mesas, cada qual com um prato de comida que lhes fôra entregue pelos empregados no balcão do restaurante e enquanto comiam preparavam-se para ter uns momentos de distração. A maior parte era constituída de mulheres e muitas traziam consigo seu tricô; os homens que se apressaram em almoçar para melhor ouvir o “show” estavam de pé, em grupos, dos lados e no fundo. Eles tiveram um bom almoço variado e barato: Sei disto porque depois também comi: um “beefsteak”, panqueca de legumes e uma xícara de café. O espetáculo durou vinte minutos. Começou como de costume por uma canção em que toda a companhia tomou parte; depois o cômico, colocando um chapéu de coco para mostrar que era engraçado, fez a sua parte; a mais jovem das duas mulheres tocou concertina; em seguida a mais velha, cheia de rugas e pintura, começou a cantar. Tinha pouca voz, estava resfriada, mas possuía grande vitalidade. A assistência foi se entusiasmando e dentro em pouco estava cantando com ela. Num minuto deixou de ser um espetáculo do grupo para se tornar uma cantoria geral. Era o que a assistência queria e o resto do tempo todos passaram a cantar coros e estribilhos de velhas canções. O espetáculo terminou e os artistas saíram apressadamente para outra cantina para dar novo espetáculo. Davam quatro em vinte e quatro horas, dois para as turmas de dia e dois para as turmas de noite. Cada cantina tinha um espetáculo uma vez por semana, mas o êxito foi tamanho que se estava providenciando a fim de realizá-los mais frequentemente.

Não sei quem teve a ideia de iniciar estes pequenos espetáculos para distrair o pessoal das fábricas, mas quando a apresentaram a Ernest Bevin, Ministro do Trabalho, ele percebeu logo o seu valor e pô-la imediatamente em execução. Por sugestão dele é que fui pessoalmente constatar a entusiástica aceitação que tivera o plano. Ernest Bevin é um homem notável. Não parece inglês. É um homem largo, com um rosto grande e gordo, uma pele queimada, olhos escuros e brilhantes; não fosse a irregularidade de seus traços passaria por italiano. Tem uma voz bonita, e expressa-se com vigor. Seu egoísmo é agressivo e a primeira pessoa do singular é, indubitavelmente, a palavra a que recorre com mais frequência nas suas palestras. Eu, por minha parte não me ofusco com a presunção dos outros; nunca me pareceu que a modéstia fosse qualidade característica dos políticos em geral e não estou mesmo certo de que tenha muito valor; um homem que atingiu uma posição de responsabilidade só pode agir eficientemente se confia no seu próprio julgamento e nas suas decisões; esta confiança ele só pode adquirir se tiver uma boa opinião de si mesmo Não acho pois desvantagem que Ernest Bevin se tenha em tão boa conta.

O ministro fez uma carreira brilhante. Nasceu em Bristol, filho de operários, e, começando a trabalhar aos onze anos, teve entre muitas ocupações a de estivador. Quando estourou a guerra ele era secretário geral da “União Geral de Transportes e Trabalhadores” e membro do “Trade Union Council”. Satisfeito com o grande poder que lhe dava a sua posição, sempre recusou os convites para o Parlamento. Sua influência entre os trabalhadores era enorme. Só quando Winston Churchill teve a feliz ideia de convidá-lo para Ministro do Trabalho é que aceitou uma cadeira na Câmara dos Comuns. Embora alguns dos seus companheiros ficassem chocados, sem dúvida alguma, com certas das suas idiossincrasias, todos ficaram impressionados pela sua sinceridade, patriotismo, eloquência e energia. Ernest Bevin convenceu os sindicatos trabalhistas a aceitarem as medidas necessárias para uma utilização eficiente do trabalho o que, partindo de outro homem qualquer, podia muito bem ter sido recusado ou talvez nem sequer considerado. São coisas significativas porque indicam uma voluntária renúncia dos operários a direitos que conquistaram no curso de uma longa luta e aos quais eles emprestam um enorme valor. Mas, não se pense que o Ministério do Trabalho só se preocupa com o aumento do trabalho para a produção de material de guerra. Os serviços sociais não somente foram mantidos como ampliados. Há ainda uma coisa curiosa a frisar sobre este Ministério: criado em 1917 em substituição do “Board of Trade”, suas atividades, embora úteis, tinham uma finalidade limitada; mas a guerra lhe deu um enorme incremento e foi preciso contratar grande número de funcionários. Hoje o Ministério tem uma espinha dorsal de funcionários civis já muito familiarizados com o serviço, mas a grande maioria dos empregados é composta de amadores com qualificações especiais.

Os funcionários públicos da Grã Bretanha são um corpo de homens muito inteligentes, escrupulosamente honestos e altamente conscienciosos, mas escravos da rotina. Não acho que seja injusto declarar que eles têm uma hostilidade instintiva para o esforço construtor. Adquiriram uma capacidade sem precedentes para criar dificuldades. Têm horror à responsabilidade e descobriram que a maneira mais segura de não cometer erros é não fazer coisa alguma. O infeliz que é forçado a tratar com eles fica inclinado a pensar que os mesmos não se consideram servidores do público, mas os chefes de uma máquina. Adquiriram ultimamente um poder quase absoluto e exercem-no, certamente com invariável cortesia, mas com inteira determinação. Vou dar um exemplo frisante para mostrar o que é a nossa burocracia e que parece incrível; mas alguém que me merece confiança contou-me o caso e garantiu-me que era verdadeiro. Quando um general no Ministério da Guerra precisa de um automóvel para uma missão oficial tem que encher cinco cópias de um pedido que deve ser assinado por um oficial do mesmo posto; o pedido vai então para um funcionário civil que, se não estiver de acordo, pode recusá-lo.

O Ministério do Trabalho goza da vantagem de terem muitos dos seus funcionários passado anos em contacto com a indústria, com seus problemas e dificuldades, o que os torna menos alheios à vida real que os seus colegas dos outros ministérios. Colaboram de boa vontade com trabalhadores, com os seus conhecimentos especializados que desempenham papel preponderante na organização. O resultado é flexibilidade, boa vontade em experimentar ideias promissoras e o encorajamento da iniciativa particular.

 

Os operários consentiram em sacrificarem muitas das suas liberdades, cuja conquista tão caro lhes custou. Trabalham com perigo de vida e muitas horas por dia; abriram mão do descanso dominical e das férias de verão. Quando a vitória for conquistada eles quererão a sua recompensa e todas as pessoas de senso concordarão que eles fazem jus a isto. Mas qual será essa recompensa? É muito provável que a Eleição Geral que então se realizará leve uma grande maioria trabalhista para a Câmara dos Comuns. O operário terá poder. Como o usará ele?

Não sou profeta nem político e minhas opiniões não tem valor; o mais que posso fazer é dizer ao leitor o que penso serem as ideias dos vários homens com quem conversei, trabalhadores especializados nas fábricas, capatazes e lideres trabalhistas. Estes líderes operários não são jovens e impetuosos revolucionários; são homens de idade madura que demonstraram sua capacidade conduzindo com êxito grandes empreendimentos — tais com a sociedade conhecida como “The Coops”, ou dirigindo os negócios dos sindicatos dos quais são presidentes ou secretários. Estão unidos pelo desejo de melhorar as condições das classes trabalhistas, de lhes assegurar trabalho, descanso, e uma segurança para o fim da vida. No “Woolwich Arsenal” conversei com um homem inteligente e simpático, encarregado de zelar pelo conforto dos operários, de resolver as suas dificuldades e conciliar todos os mal entendidos. Perguntei-lhe como os operários aceitavam a prorrogação de horas de trabalho, a perda das férias e a redução de suas liberdades. — Com boa vontade, disse-me, pois compreendem que isso é inevitável; é surpreendente que entre estes milhares de homens haja tão poucas complicações; todos estão dedicados a uma cruzada: — vencer a guerra.

“Mas quando a guerra terminar — acrescentou — eles quererão que suas liberdades sejam restauradas; e se não forem atendidos causarão perturbações. E há muita coisa que eles desejarão modificar”.

Quando perguntei a Alexander, o Primeiro Lord do Almirantado, que espécie de Inglaterra ele previa para depois da guerra, respondeu-me apenas com uma frase: “um país onde haverá trabalho para todos, e onde não existirá nem gente muito rica, nem gente muito pobre”.

São homens que raciocinam, estes a quem falei, e nada vi nas suas ideias que pudesse causar medo a uma pessoa sensata. Eles preveem uma grande prosperidade imediatamente de pois desta guerra, como depois da anterior, mas tem absoluta certeza de que, como também aconteceu da outra vez, ela será seguida por uma queda cujo desastroso efeito, lucrando com a experiência do passado, se esforçam por evitar. Naturalmente na Inglaterra todos nós ficaremos bem pobres; haverá grandes débitos a saldar e pouco dinheiro para atender às necessidades. O Ministério do Trabalho prevê que durante alguns anos, com certeza terão de continuar as horas suplementares de trabalho, e antes da situação estar estabilizada o ideal das quarenta horas semanais não poderá ser seriamente reconsiderado. A intenção dos trabalhadores é introduzir medidas que transferirão as primeiras necessidades da vida da propriedade privada para a propriedade do Estado. Desejam eles que o comércio da nação seja feito em benefício da comunidade mais do que para lucro do particular. Isto significa revolução, mas tenho a impressão que será uma resolução unanimemente bem aceita. Achei as classes proprietárias profundamente cônscias da generosidade, da acessibilidade e da coragem demonstrada pelos trabalhadores; por mais dolorosos que possam ser os sacrifícios a que sejam chamadas, estão preparadas a fazê-los a fim de facilitar às classes operárias o bem estar que merecem plenamente. Ouvi proprietários de grandes casas reconhecerem que o tempo deles já passou. Aceitavam com resignação e mesmo com entusiasmo as modificações que previam para as suas vidas.

 

Quando voltei à Inglaterra encontrei todos trabalhando ardorosamente. Os incompetentes, os egoístas, os bajuladores, os tímidos se haviam retirado à obscuridade, algumas vezes com todas as honras, de onde nunca deviam ter saído. O país estava unido como, penso eu, nunca estivera antes. Cheguei à conclusão que a crise estava destruindo os preconceitos de classe que constituíam um dos males da vida inglesa. Eu tinha alguns amigos em Bermondsay, que é uma das partes mais pobres de Londres; os jovens desse bairro que foram convocados com grande surpresa, gostaram da vida de soldados. Tinham melhores camas e melhor alimento do que em casa; o exercício regular ao ar livre melhorava sua saúde, e quando vinham em casa com seus uniformes, faziam sucesso entre as moças, o que aumentava de muito a sua satisfação de servir à pátria. Mais de uma mãe disse-me sobre seu filho: “Céus, isto fez dele um homem!”. Apresentando a coisa da maneira mais jeitosa possível, perguntei a dois ou três deles como iam se dando com os homens que não pertenciam às classes operárias.

— Oh, são muito bons. São como todos os outros — responderam-me.

Estive com vários destes homens que fazem parte do que nos Estados Unidos se chama de classe privilegiada, que estavam servindo na tropa; também eles gostavam daquela vida. Estavam em pé de igualdade com o açougueiro, o padeiro, os fabricantes de velas; dormiam com eles, comiam com eles, trabalhavam com eles, jogavam com eles e gostavam de tudo isto. Foram eles, estou absolutamente certo, que mais trabalharam para derrubar as barreiras que impediam o nivelamento. É um erro pensar-se que o sujeito que está bem na vida (pelo menos na Inglaterra) é que procura isolar-se dos que lhe são socialmente inferiores; pelo contrário, é o pobre que tem mais forte o sentimento de distinção de classe, é ele que olha para os membros da classe mais educada ou mais opulenta com desconfiança. É esta desconfiança que rapazes de origem nobre procuram, com seu bom humor e seu bom senso, fazer desaparecer. Conheci vários deles que se sentiam tão felizes na tropa que já se mostravam inclinados a atender ao desejo de seus oficiais comandantes no sentido de se inscreverem para promoção.

Os ingleses viviam sob a impressão de que eram benquistos no exterior, porque tinham dinheiro para gastar e eram bons camaradas, porque gostavam de viajar e porque ficavam a vontade onde quer que se encontrassem, julgavam-se populares. Foi um choque para eles descobrirem, no curso da guerra, que aquilo era uma ilusão. Confesso que eles possuem muito boas qualidades, mas não são muito conversadores e são uns tanto retraídos. É engraçadíssimo vê-los num país estrangeiro tentando se insinuar e conseguindo apenas desentender-se com os nativos. Com razão somos acusados de esnobismo, o que é talvez o nosso maior defeito. É de crer que ele seja peculiar ao caráter inglês, pois não existe apenas nas classes elevada e média, mas também e muito forte nas classes trabalhadoras. A esposa de um operário especializado hesitará em ter relações de amizade com a mulher de um operário comum, conheço uma jovem bonita e muito interessante de Bermondsay que era olhada de cima pela família do marido, um tipógrafo só porque viera de uma rua considerada inferior, embora aos meus olhos não houvesse nenhuma diferença entre a miserável fileira de casas onde morava a família do marido e o quarteirão onde residia a sua própria família. E entre as duas mediava apenas uma milha.

O esnobismo dos ricos tem sido certamente aguçado pelo exclusivismo da sua educação. A escola pública — que nos Estados Unidos chamam de escola particular — durante mais de um século foi um traço característico da vida inglesa, e muita gente boa é de opinião que as melhores qualidades do inglês são devidas à sua influência. Acredita-se erroneamente, penso eu haver o Duque de Weffington declarado que a batalha de Waterloo foi ganha nos campos esportivos de Eton. É evidente que agora muitos pais não podem mais pagar as grandes somas necessárias para educar um filho — nestas caríssimas escolas, que só poderão sobreviver se tornarem à sua primitiva finalidade, isto é, se voltarem a ser escolas públicas nas quais os ricos (se os houver) e os pobres possam receber a mesma educação. Elas desviaram-se do seu fim e penso que será um grande bem transformá-las, como os líderes trabalhistas desejam, em escolas do tipo dos liceus da França e dos ginásios da Alemanha.

Quando todos forem educados juntos, ricos e pobres, aristocratas e plebeus, o preconceito de classes, que, é o grande obstáculo no caminho da mútua compreensão, por certo desaparecerá. Quaisquer que sejam suas origens, meninos na mesma escola, fazendo os mesmos deveres, brincando os mesmos jogos, são iguais; e penso eu, é justo esperar que quando eles crescerem, quaisquer que sejam as suas condições de vida posterior, preservarão o senso da igualdade essencial de todos os homens, que aprenderam inconscientemente na escola. E pode ser também que quando o inglês desta classe particular, ao invés de estudar sozinho em casa, passar seus anos mais impressionáveis na escola com meninos de todas as espécies, certamente perderá aquele acanhamento que da a quem não o conhece uma falsa impressão de presunção. Então, ele granjeará com mais facilidade a boa vontade que suas ótimas qualidades merecem.

 

A esta altura meus papéis já estavam em ordem e eu esperava apenas que me dessem um lugar no avião para Lisboa. Parti de Londres uma tarde, seguindo de trem para Bristol; na manhã seguinte, muito cedo, fui de automóvel para o aeroporto. Era num avião terrestre que eu tinha de viajar; perguntei ao piloto o que aconteceria se fossemos forçados a uma descida.

— Será muita falta de sorte — respondeu ele.

Voamos para o mar com as cortinas fechadas e acompanhados até meio caminho pelos "Spitfires"; seis horas depois chegávamos a Lisboa. Levávamos muitas inalas postais e poucos passageiros. Mas eu raramente vou a alguma parte sem encontrar alguém que, por qualquer razão, excita minha curiosidade; desta vez entre os companheiros de viagem ia um americano de quem me fiz amigo. Era um homem moço inculto, forte, grande e desajeitado com uma expressão ingênua no rosto largo de olhos claros e sinceros sob os cabelos rebeldes. Usava roupas mal feitas e largas e um chapéu amassado. Disse-me que ele, com um certo número de outros americanos — quarenta, se bem me lembro — estava estudando medicina na Universidade de Glasgow; a guerra o atingiu justamente quando fazia os exames finais e desde então esperava algum meio de voltar aos Estados Unidos. Perguntei-lhe porque, com tantas universidades na América do Norte, os americanos iam estudar em Glasgow; respondeu-me que só quem tem dinheiro e influência podia conseguir inscrever-se numa boa escola de medicina nos Estados Unidos. Isto me pareceu um tanto estranho, tratando-se de um país tão rico e democrático, mas não vi razão para duvidar da sua afirmativa. Descobri depois que ele nunca estivera no continente, não falava uma palavra de outra língua que não fosse o inglês, e que não tinha dinheiro, com exceção de alguns dólares americanos. Como eu sabia que Lisboa estava cheia de refugiados, havia tomado a precaução de passar um telegrama pedindo quarto no hotel; meu companheiro não fizera nenhum plano; não sabia para onde ia e não tinha noção de como se arranjaria. Nunca vi ninguém mais despreocupado. Achei que não devia deixá-lo entregue a si mesmo numa cidade desconhecida, de modo que quando saltamos eu lhe sugeri que viesse para o meu hotel, onde, se não conseguisse quarto, podia pelo menos dormir um pouco num sofá ou em duas cadeiras no meu quarto. Lá chegados, porém, para meu desapontamento, fui informado de que não havia quarto para mim. Entramos novamente no táxi e o motorista, que para felicidade nossa entendia espanhol, pois eu não sei falar português, iniciou uma verdadeira peregrinação pelos hotéis principais da cidade. Todos estavam repletos. Depois de rodarmos durante duas horas, encontramos finalmente um quarto com duas camas numa pensão muito pouco asseada; os lençóis me encheram logo de mal estar e a comida era execrável. Mas a diária era muito barata, o que constituía uma vantagem para nós dois, pois eu tivera permissão para sair da Inglaterra apenas com dez libras, e com a verdadeira multidão de gente que queria conseguir lugar no “clipper” ou ir por mar para os Estados Unidos não podíamos prever o tempo de demora em Lisboa. Era uma curiosa experiência ser atirado em tão intimas relações com uma pessoa inteiramente estranha. O rapaz era amistoso e estava-me muito grato por eu me preocupar com ele. Andávamos juntos noite e dia. Passamos longas horas na delegacia de polícia numa fila onde se misturavam poloneses, franceses, alemães, belgas, tchecos e russos, para exame dos nossos passaportes, pois as autoridades portuguesas criavam muitas dificuldades aos estrangeiros; durante a semana que passei em Lisboa acho que perdi pelo menos doze horas de aborrecida espera num departamento e noutro para obter permissão para ficar e permissão para sair. Nunca soube o nome do meu novo amigo. Acho que nunca encontrei um membro das profissões liberais tão mal informado. Não havia assunto, com exceção naturalmente dos dele, em que não fosse abismadoramente ignorante. Eu não podia imaginar como iria ele fazer frente à vida dura e cheia de concorrência dos Estados Unidos; acho que ele não tinha nem sequer o senso necessário para sair da chuva. Por fim, num instante de irritação, eu lhe disse:

— Meu pobre rapaz, você não sabe nada sobre coisa alguma.

Ele me respondeu com um sorriso vagaroso, acanhado, mas atraente:

— Eu sei disso. Comecei a trabalhar como menino de recados aos 12 anos e nunca tive tempo para aprender coisa alguma.

Senti-me muito mal e desejei não ter feito aquela observação. A enumeração das varias ocupações que teve a fim de poder educar-se era triste e comovedora. Fiquei imaginando se não seria possível organizar-se uma sociedade onde os rapazes pobres que tivessem ambição e capacidade pudessem adquirir a instrução para sua profissão preferida sem tão horrível e mortal dreno nas suas energias. Sem dúvida alguma aquele rapaz conhecia Medicina — pelo menos o suficiente para conseguir o diploma que tão orgulhosamente me exibiu — mas, não sabia mais nada. Não tinha um traço de cultura. Não tinha coisa alguma que uma educação verdadeira pode dar. Durante aqueles anos de dupla lida — para a aquisição de conhecimentos técnicos e para ganhar a vida — a mocidade, com os seus encantos e promessas, passara entre os seus dedos e agora, com quase trinta anos, tinha a mentalidade informe de um rapaz de dezesseis anos. Perguntei a mim mesmo se lhe seria possível chegar a ser mais que um médico vulgar com tão lamentável ignorância do mundo. Ele me parecia uma destas pessoas destinadas ao fracasso e da qual perguntamos a que propósito teria nascido. Ele não tinha sequer autocomplacência que faz os estúpidos aceitarem sua mediocridade com unção; tinha, ao contrário, uma encantadora modéstia. Era uma figura trágica. Entretanto, eu nada tinha a ver com isto. Quarenta e oito horas depois ele conseguiu um colchão num navio que partia para Nova York e, na sua maneira desajeitada e rústica, despregou-se da minha vida. Se o encontrar amanhã na rua não o reconhecerei.

 

Passei uma semana em Lisboa. Procurei ver alguns monumentos mas não me foi possível realizar excursões, pois era obrigado a economizar as poucas libras que possuía. Embarquei no “Clipper”, uma manhã as nove e meia e saltei em Nova York no dia seguinte, pouco depois de uma hora. Tinha três dólares no bolso. Chamei um táxi velho.

 

                                                                              William Somerset Maugham

 

 

                      

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