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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MINHA QUERIDA CORSÁRIA / Heinz G. Konsalik
MINHA QUERIDA CORSÁRIA / Heinz G. Konsalik

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

 

 

 

Sentara-se numa das plataformas formada por bancos de corais, dois metros acima do nível do mar, e observava as canas de pesca. À sua volta, o azul-turquesa da água brilhava de uma forma tão clara que podia distinguir o fundo arenoso do mar a cerca de quinze metros de profundidade. Cardumes de peixes cintilantes giravam à volta das bóias das canas, dançando numa roda.

 

Tinha-se posto à vontade. Trazia apenas um calção de banho vermelho justo, e um chapéu de palha entrançada de aba larga, desfiado nas orlas; semelhante aos chapéus-de-sol que os nativos das Caraíbas costumam usar. Como único luxo trouxera uma almofada baixinha, sobre a qual estava sentado.

 

Fazia todos os possíveis para que os pequenos peixes coloridos não mordessem o isco, ora batendo palmas ora atirando pedrinhas à água, para os afugentar. Esperava por peixes maiores, que o cheiro a sangue dos iscos carne fresca acabaria por atrair; barracudas velozes como flechas ou tubarões de olhos arregalados, traiçoeiros e sanguinários.

 

Eles viriam. Sabia-o. Já tinha feito aquele jogo várias vezes; sentia um enorme prazer em lutar com um desses peixes enérgicos e sair vencedor.

 

De um modo geral, gostava de pescar, embora ligasse pouco a pratos de peixe. Na realidade, viviam naquele lugar exemplares de quase todas as espécies; o mar e a fertilidade
das muitas centenas de atóis, a que ali se dava o nome de cays, ofereciam às pessoas o pão de cada dia... No entanto, a maior parte das vezes, quando apanhava os peixes, atirava-os de volta ao mar e gritava: ”Que idiota! Cair num truque destes! Ora, se eu te quisesse mesmo comer!”

 

Só os tubarões é que ele matava. Dobrasse-se uma das suas canas com tanta força como se tivesse sido esticada pela corda de um arco, e a sua cara tornava-se logo rígida e crispada. E a luta, que mal começara, era tão impiedosa e a morte do tubarão tão terrível como os desígnios do grande peixe que tinha investido.

 

Junto à margem arenosa e plana da ilha de coral, balançava o pequeno bote com um nome inscrito em letras douradas: Annette II. O Annette I, um belo barco branco a motor, estava ancorado a cerca de duas milhas de distância, na ilha principal do desabitado recife Glover. O iate de luxo Annette I tinha uma sala e camarotes confortáveis, uma cozinha totalmente automática, duas pontes de comando, dois camarotes para a tripulação, um grande convés coberto com tábuas de mogno alaranjadas, um bar e, acima de tudo, um motor tão potente que o mundo inteiro se abria à sua frente e não havia mar a temer.

 

O recife Glover era constituído por um grupo oblongo com cerca de quarenta ilhas de corais, manchas verdes no mar, paraísos minúsculos com praias brancas como a neve e palmeiras vergadas pelo vento, mangues em expansão e a indescritível beleza de uma paisagem ainda não desbravada pelo homem, nem a funcionar como aldeamento de férias com praias para milionários, empreendimento turístico, ou esconderijo para industriais americanos acompanhados pelas suas secretárias.

 

Ali, havia um pedaço de terra que não fazia ainda parte dos prospectos das agências de turismo ou de viagens. Uma referência secreta para aqueles que mais por acaso já ali tinham estado, provavelmente devido a uma escala em Belize. À excepção de um par de ruínas maias, na parte continental das outrora Honduras Britânicas, hoje em dia denominada Belize, não havia muito para oferecer para
além do segundo recife mais comprido do planeta Terra, composto por corais com milhões de anos a chamada Grande Barreira das Caraíbas. Para norte havia alguns atóis, onde já existiam hotéis, pousadas simples, a que se dava o nome de lodges.

 

Provavelmente os iates de alto mar pertencentes a americanos, para quem descer as Caraíbas de ilha em ilha constituía quase como que uma espécie de desporto, já tinham ancorado no grupo Turneffe ou nos atóis Hicks e San Pedro. Também já por lá teriam desembarcado alguns turistas corajosos, tentando imitar Robinson Crusoe durante umas semanas.

 

Porém, ali no Sul, no recife Glover, com a extensão do mar de lucatão à frente, a mudar permanentemente de cor, com graduações que iam do azul-escuro ao verde-claro, e que ao pôr do Sol brilhava como ouro ondulante... ali, estava-se sozinho.

 

Sozinho, com as canas de pesca, os tubarões e a felicidade de se sentir um homem livre.

 

O pescador solitário sabia que o barco estava a ser bem tratado. O seu timoneiro, Juan Noales, pequeno, robusto, esperto como uma raposa, com uma grande intuição em relação aos bancos de areia, reagindo melhor do que qualquer sonda, um tipo que conhecia as ilhas das Caraíbas como a palma das suas mãos e eram aos milhares andava à volta da casa das máquinas, a olear o veio de transmissão.

 

Vou no pequeno dissera o pescador, referindo-se ao bote, para lá do atol, ver o que consigo pescar.

 

Juan Noales acenara com a cabeça, examinando o chefe pelo canto do olho, e perguntara:

 

Tubarão, siri

 

Claro.

 

Leva também o arpão?

 

Naturalmente.

 

E o machado?

 

Também, Juan. E o punhal comprido, a espingarda de cano curto com cartuchos e um revólver... Esqueci-me de alguma coisa?
Não, sir. Juan Noales espreitara para lá do recife de corais mais afastado, aquele que demarcava o limite do recife Glover. ”Sim, ali”, pensou ele, ”deve haver tubarões. Ali, as águas são mais profundas. É ali que o mar começa a ser livre. Ele sabe onde os pode encontrar, os sacanas. O seu ódio não tem limites...”

 

Tenha cuidado, sir recomendara Noales, esfregando as mãos morenas nas calças de ganga puídas. Era, como a maior parte dos caribes, um mestiço. Latejava nele sangue espanhol e africano, misturado com a herança índia, no qual até mesmo algum sangue holandês se podia ter introduzido furtivamente.

 

”O meu bisavô chamava-se Jan de Haarlog”, fazia ele questão de contar orgulhosamente. ”Pesava cocos numa quinta. Depois de pagar o salário semanal, levava sempre a minha avó com ele para a cama. Na altura ela era ainda uma escrava. Uma mestiça...”

 

Eu tenho cuidado, Juan, tu sabe-lo respondera o chefe.

 

Pois sim, mas não quando se trata de tubarões.

 

Ainda quero viver pelo menos uns quarenta anos, Juan!

 

Então ainda temos muito tempo à nossa frente, sir.

 

Gostaria de acreditar nisso.

 

Foi assim que partiu para o banco de corais, onde se encontrava naquele momento sentado em cima da sua almofada, à espera dos tubarões.

 

O isco com sangue bóia agora na água, as pesadas canas de pesca estão bem fixas nas fendas dos corais. Vê o tubarão aproximar-se. A água está tão límpida que parece que o fundo do mar se encontra apenas um palmo abaixo da tona da água.

 

E quando ele vem, o grande peixe sanguinário, já ele o avistara ao longe: primeiro como uma sombra, depois, em toda a sua imensa, enérgica e horripilante beleza.

 

Estava preparado. Respirava calmamente e olhava para o mar, que brilhava, verde, embatendo no horizonte azul, limpo de nuvens.

Estivera quase meia hora assim sentado, pensando no que ficara para trás uma vida que contava já quarenta e cinco anos. Tudo começara na Alemanha, mais precisamente em Wuppertal. Tivera três momentos altos na sua existência: a descoberta de um material sintético com a dureza de uma chapa de aço cromado mas com um quarto do peso, o auge das suas investigações como químico diplomado; o casamento com Lúcia Hammerfeldt, que considerava ainda a mulher mais bonita da sua vida; e, terceiro, o nascimento da sua filha Annette. Tudo o resto fora a evolução de uma vida normal, ainda por cima bem-sucedida, até ao dia em que dissera a Lúcia: ”Este ano fazemos férias na Jamaica.”

 

Ergueu ligeiramente a cabeça, empurrou o chapéu de palha desfiada para o pescoço e curvou-se. O seu corpo musculado, exercitado até ao mais pequeno músculo num jogo diário com o mar e com o vento, distendeu-se.

 

Rente ao isco, perto da cana três, uma sombra prateada atravessava o mar a toda a velocidade. Estava ainda muito longe para a reconhecer definitivamente, mas ele sabia: aquilo não era nenhuma barracuda, aquilo era um tubarão! Devagar, esticou a mão em direcção à cana e agarrou o pau liso e flexível.

 

O peixe deu um salto em arco para trás e girou à volta do isco. A seguir virou-se, nadou imediatamente em direcção ao pescador, ficou parado na água e deitou-lhe um olhar zangado e traiçoeiro através do mar, transparente como vidro. Olhos frios, matadores.

 

”Anda”, pensou o homem. ”Anda cá, meu espertalhão! Tenta lá morder! Carne fresca e sangrenta da boa! Já tremes de sofreguidão. Atira-te à carne, engole-a... e a seguir apanho-te! O fio de náilon não o mordes tu... e a seguir tiro-te da água e decepo-te a cabeça com o machado. Maldito, danado tubarão...”

 

Então, o tubarão mergulhou para longe, nadou desenhando o movimento de um arco elegante, como se tivesse ensaiado para um bailado aquático, e depois regressou. A sua mandíbula assustadora, com dentes brilhantes triangulares, abriu-se, mal se lançou ao isco.
No instante em que o homem agarrou a cana com as duas mãos, ouviu uma voz calma mas firme atrás de si:

 

Continue sentado, mister, Não se volte! Sentiu o cano de uma pistola automática apontado exactamente entre as omoplatas. Se primo o dedo, transformo-o num passador. E o que é que faço com um passador? Agora, vamos lá levantar os braços obedientemente e juntar as mãos atrás da nuca. O procedimento clássico... Com certeza que o conhece, mister.

 

O pescador deixou-se estar sentado imóvel, com as duas mãos ainda agarradas à cana de pesca e encostou-se contra o banco de corais. O tubarão mordera o anzol de três pontas que se tinha prendido ao céu da boca. O fio dava esticões, e a cana vergava-se...

 

Tinha começado o combate mortal. Tubarão contra homem. Voracidade contra ódio.

 

Oiça lá, olhe que tenho um tubarão preso à cana! explicou o homem. E que exemplar! Falava inglês, como o desconhecido atrás de si, aquele inglês esquisito que se fala nas Caraíbas. Uma mistura de inglês de preto, com expressões índias e um som hispano-francês.

 

Estou mais interessado na pescaria que tenho para fazer consigo, mister Faça o que lhe digo e verá que nada lhe acontece. A propósito, relativamente ao seu barco, o Annette I, pode ficar descansado. Já tratámos de tudo. O seu timoneiro é um rapaz prudente; em vez de se defender, ofereceu-nos uísque. Largue isso! Vamos lá a levantar os braços, mister.

 

O homem largou a cana, resignado. O enorme tubarão arrancou-a de um golpe da amarração dos corais, lançou-a ao mar e desapareceu com ela rapidamente dali para fora. O seu rasto permaneceu visível através da água límpida, durante algum tempo.

 

O pescador levantou-se, ergueu os braços e cruzou as mãos na nuca. Duas mãos rápidas, grandes e, para seu espanto, brancas, apalparam-no, tiraram-lhe a pistola do cinto e lançaram-na para longe, juntamente com os cartuchos. O machado também voou.

 

Já pode olhar para mim, mister disse o estrangeiro. O pescador voltou-se.

 

Atrás de si encontrava-se um homem com quase dois metros de altura, um colosso de carne com uma cabeça coberta de cabelos vermelhos por todo o lado. Por entre esses cabelos vermelhos distinguiam-se apenas uns olhos verdes, um nariz grosso e uma grande boca. O homem vestia uma espécie de uniforme de marinheiro: calças azuis, camisa branca e sapatos brancos. Na camisa sobressaíam galões com três faixas douradas. Estava aberta desde o seu largo peito até à cintura, de onde brotavam também cabelos vermelhos, fartos como um matagal.

 

Meu Deus, um irlandês! exclamou o pescador.

 

O que é que queres dizer com ”meu Deus”? Ha?

 

Nas Caraíbas, nos atóis de Belize, um irlandês ladrão... Deve mesmo dizer-se: ”Meu Deus.” É que não tem lá assim muita lógica.

 

Chamo-me McDonald, Jim McDonald. Timoneiro.

 

Ah! E com uma pistola automática.

 

É a minha segunda profissão. Americano?

 

Quem? Eu?

 

Quem é que havia de ser? O tubarão, talvez?

 

Acerca do tubarão, temos de ter uma conversa, Jim.

 

Timoneiro! gritou McDonald. A mim, tratam-me por timoneiro. Faço questão.

 

Muito bem, então, timoneiro! Com as mãos ainda cruzadas atrás da nuca, o pescador olhou para o mar. O tubarão tinha desaparecido com a cana... Estaria neste momento a lutar algures com o pau e o fio, a triturar a cana, a cortar finalmente o fio com os dentes... mas o anzol tinha ficado dentro dele. ”Morre para aí”, pensava furioso. ”Morre para aí, monstro...”

 

Gostava de ter retirado o tubarão e tê-lo morto à pancada disse ele, e tornou a virar-se para o irlandês. Estava tão atarefado com a besta que nem o senti chegar.

 

Voltou-se para trás. Do outro lado do atol balançava-se um barco largo e de fundo chato, um esquife daqueles que só se usam nos mares do Sul.

 

Uma vela pequena tinha-o trazido silenciosamente para a ilha de corais.

 

Esta é a minha especialidade. Chegamos mudos e saímos calados. E quando alguém nos vê, conseguimos sempre escapar.

 

Conseguimos? Você é uma equipa, timoneiro?

 

Inglês?

 

Eu? Não.

 

Holandês!

 

Alemão.

 

Já tinha pensado nisso, mas não disse nada, com receio de fazer figura de parvo. Um alemão com um barco particular destes no mar das Caraíbas... E espanta-se então com um irlandês, mister? O nome Annette...

 

A minha filha.

 

Mas não estava no bote.

 

Ficou em casa à espera do pai...

 

E agora depende do pai voltar para casa, ou não! exclamou McDonald com azedume. Se o impedir...

 

Dei-lhe algum motivo para o suspeitar, timoneiro?

 

O irlandês examinava o pescador. Só uns pequenos movimentos da sua floresta de cabelos davam a entender que franzia as sobrancelhas.

 

Acha então que isto é uma piada? resmungou ele. Vá, vamos lá embora!

 

Vai continuar a velejar?

 

Vou levar a sua casca de noz a reboque gritou o irlandês. E você vem para bordo comigo.

 

Como queira, timoneiro. Posso ir baixando as mãos?

 

Não!

 

Desceram a praia e subiram para o Annette II do pescador. McDonald deixou os outros remar à volta do recife de coral, em direcção ao seu esquife.

 

Para mim é um enigma aquilo que pretendem disse o pescador, assim que chegou à outra praia. Não há dúvida de que tenho um belo barco, mas deve andar, inutilmente, à procura de jóias ou de um cofre cheio de dólares.

 

Tipos com barcos destes não costumam andar pelas esquinas de chapéu estendido.

 

Dito isto, o irlandês içou a pequena vela, e afastaram-se do banco de corais.

 

Soprava apenas um vento fraco, que os empurrava devagarinho. Mas eles tinham tempo. Tudo o que habitava aquelas ilhas isoladas, independente de horários, e se orientava apenas pelo Sol, pela Lua e pelo movimento dos mares, tinha tempo...

 

Assim que dobraram finalmente o atol, a ilha surgiu no seu campo de visão, em cuja baía o Annette II estava ancorado. O pescador apercebeu-se de que perto do seu iate se encontrava um outro barco. Era inferior ao seu, comprido, um casco bojudo e uma estrutura imponente, com uma tonelagem bem maior do que a do Annette I, laçado de um branco da cor da neve... Um barco que se diria ser capaz de se elevar da água a toda a velocidade como um peixe-voador...

 

Isto não é um barco com o qual se parte para a pesca à noite? perguntou o pescador.

 

O irlandês acenou com a cabeça e virou o Annette II em direcção aos dois barcos.

 

O melhor barco que alguma vez tive entre mãos. E você o que é que faz, mister”?

 

Como é que devo interpretar essa pergunta?

 

De que é que você vive, com os diabos?

 

De nada.

 

Não trabalha mesmo em nada?

 

Pouco. Umas vezes na pesca, outras no jardim. Deito algumas árvores abaixo, de vez em quando jogo golfe, tudo por puro divertimento.

 

Valha-me Satanás! É assim tão rico?

 

Tão pobre, meu caro. O pescador fez um movimento mais largo com o braço. Como o irlandês resmungou, voltou a juntar rapidamente as mãos atrás da nuca.

 

Continua ainda tudo muito enigmático para mim, timoneiro. Mas, se você é quem eu penso, nomeadamente um desses novos piratas das Caraíbas, que segue os modelos usuais, abalroando e pilhando iates de milionários americanos, tal como faziam os corsários antigamente... então, meu caro Jim, apanhou-me em cheio.

 

Tenha calma!

 

Eu não possuo nenhum galeão carregado de ouro como aqueles que Sir Walter Raleigh saqueava aos espanhóis há umas centenas de anos atrás nestas águas, sendo depois condecorado por Sua Majestade britânica! Eu sou um mero engenheiro químico alemão, que fez uma vez uma descoberta quente e que vive agora à conta dela. Simples, de bem com a vida, longe da barafunda a que se dá o nome de civilização!

 

Isso é para você contar depois ao chefe... McDonald examinava o pescador com os olhos a piscar.

 

O seu esquife deslizava agora na baía em forma de meia-lua, com uma praia de areia branca reluzente. Na amurada do iate estrangeiro, em cuja proa se podia ler o nome Altun Ha, estavam encostadas duas figuras em uniforme de marinheiro, de um branco imaculado.

 

No tombadilho da popa do Annette I, Juan Noales acabava de servir um cocktail de frutas em copos estreitos e compridos. Estirados numas cadeiras brancas de vime, por baixo da cobertura, dois homens em uniforme branco espreguiçavam-se ao mesmo tempo. Um deles tinha uns galões dourados, iguaizinhos aos de Jim McDonald.

 

Ah! O chefe! exclamou o pescador. E todos de uniforme branco! Pertencerão por acaso a uma empresa de luxo?

 

Nunca a ninguém por nós capturado lhe passou alguma vez pela cabeça que fôssemos bandidos ordinários! Jim, o gigante vermelho, ria a bandeiras despregadas.

 

As senhoras recebem, inclusivamente, um beija-mão à despedida.

 

Que consolador! E os senhores?

 

Dirigiram-se para o Altun Ha, ao qual encostaram a escada de mogno do Annette I, que estava pendurada. O pescador examinava espantado o barco estrangeiro. Não eram só as estruturas das pesadas metralhadoras instaladas lateralmente que o assustavam, mas sobretudo, o canhão dissimulado de sete centímetros e meio, montado na coberta da proa. O cano apontava precisamente para o Annette, a postos para um disparo directo.

 

Que absurdo! gritava o pescador. É por isso que vocês são inatingíveis. Daí a vossa velocidade...

 

Depois de dispararmos o canhão, o convés vai ficar tão liso como o vosso. Ninguém percebe como é que gastamos o nosso dinheiro.

 

Por isso um nome de barco tirado da língua maia: Altun Ha, a bandeira de Belize, os vossos uniformes elegantes... uma encenação perfeita, Jim!

 

... timoneiro!

 

O pescador apoiou o pé esquerdo na escada do seu iate e, quando ia para apoiar o outro pé, escorregou. Pelo menos foi o que pareceu... De qualquer modo, o esquife levou um forte empurrão, tendo-se afastado imediatamente alguns metros da escada de madeira.

 

Jim praguejava estrondosamente. O pescador subiu a escada de madeira até ao cimo e entrou no barco. Os dois piratas levantaram-se das cadeiras de vime e fizeram um cumprimento militar. Um deles, provavelmente o chefe, era um rapaz frágil, ainda bastante novo, de meia estatura e com uma cintura muito estreita. Dentro do seu uniforme branco de capitão, fazia lembrar um modelo de uma revista de moda para festas elegantes. O outro pirata era um pouco maior, tinha uma barba preta e um pormenor deselegante trazia uma pistola à cintura.

 

O pescador apercebeu-se de tudo no intervalo de um segundo, pois, mal pisara o convés, já Juan Noales tinha atirado a bandeja com os copos esguios à cabeça do barbudo. O pescador lançou-se de um salto para cima do suposto ”chefe”.

 

A surpresa não foi totalmente bem-sucedida.

 

Enquanto o barbudo, meio cego por causa do cocktail de frutas que fora arremessado à sua cara, berrava, tentando agarrar a pistola, o chefe dos piratas reagia como um animal que estivera à espreita. Atirou-se para o lado, não acertou no pescador, roçando-lhe só no ombro, e estatelou-se nas tábuas do iate.

 

Mas já Juan empunhava um punhal que tinha sacado do punho, e fazia pontaria ao chefe.

 

O jovem rapaz conseguiu escapar com elegância da sua mira, mas desta vez o punhal foi mais rápido do que o homem. Acertou-lhe no ombro direito, enfíou-se lá e ficou espetado no músculo acima do peito. Sem qualquer queixume o rapaz arrancou o punhal do corpo, mas, antes que tivesse conseguido atirá-lo de volta, já o barbudo tinha a pistola na mão, que apontava para Juan e para o pescador.

 

Todos para aqui! berrava ele. O chefe está ferido. Os idiotas estão a defender-se!

 

Era realmente idiota estarem a defender-se.

 

Jim atirou-se, bamboleante, também para bordo, mesmo a tempo de agarrar o chefe, que começava a vacilar. Agarrou-o como a uma criança e apertou-o contra si, fixando o pescador e Juan Noales com um olhar feroz.

 

Eu mato-vos dizia ele em surdina, ato-vos com uma corda por baixo do barco, até morrerem afogados!

 

Arrastou o capitão, que estava de joelhos, para a escada de madeira e berrou em direcção ao iate dos piratas, para que estes o fossem ajudar.

 

Não lhes toque! disse ainda o capitão, quando o desciam com cuidado pela escada abaixo. Quero-os vivos!

 

O casaco branco do uniforme tingira-se de vermelho no ombro direito e a mancha de sangue alastrava rapidamente. O jovem pirata comprimiu a ferida profunda com as mãos e cerrou os dentes.

 

Os dois aqui para o pé de mim! Não! O alemão sozinho! De seguida desmaiou. O pessoal levou-o com cuidado para o Altun Ha, para debaixo do convés.

 

Se sabem rezar, é melhor que o façam! aconselhou o barbudo. Com a pistola dominava ainda Juan e o pescador. Vocês nem imaginam o que vos espera!

 

Tiveram uma pequena amostra quando Jim McDonald apareceu novamente no convés do Annette I. Dirigiu-se a Juan e pregou-lhe uma bofetada tão grande que o pequeno timoneiro voou por sobre o tombadilho, estatelando-se na sala. Virou-se depois para o pescador:

 

Venha comigo! ordenou. Há uns tempos atrás teriam servido de repasto a tubarões!

 

O pescador esboçou um sorriso sarcástico.

 

Jim...

 

... timoneiro! berrou McDonald.

 

Timoneiro, repito: o que vocês aqui fizeram foi um erro. Sem dúvida para me capturarem! Vocês abalroam tudo o que vos passa pela frente?

 

Só barcos como o seu! Vamos, acompanhem-me! Seja você quem for, há-de valer seguramente alguns dólares! Nunca fizemos um mau negócio, até agora! E quando vendermos o seu barco...

 

Vender? E com que é que eu regresso?

 

Regressa? Jim fitou o pescador, completamente estupefacto. Oiça lá, ainda acredita que vai regressar, depois de terem ferido o chefe? Tomava-os por casmurros, mas não por imbecis.

O Altun Ha era um navio pirata perfeito, construído num dos grandes estaleiros americanos especializados em luxos extravagantes. À primeira vista, não passava de um iate de luxo equipado com radar e rádio de alto mar, tombadilho e uma sala, muito maior, mas de qualidade inferior ao do Annette I. O pescador mal conseguia estar de pé, pois o espaço acima da sua cabeça era de apenas três centímetros. Jim tinha de encolher a peluda cabeça vermelha ou, então, mantê-la curvada.

 

Em compensação, era de longe o iate particular mais elegantemente decorado que o pescador vira. ”Uma decoração”, presumiu ele, ”sobre a qual paira a imaginação de uma mulher caprichosa.” Podia reconhecê-lo em pormenores, como, por exemplo, nas orquídeas dispostas dentro de uma jarra de cristal. Qual o homem, e sobretudo qual o capitão pirata, que enfeitaria uma mesa com uma jarra de orquídeas?

 

Os negócios correm bem? inquiriu o pescador. O barco é fabuloso. A única coisa que me incomoda é o canhão e as metralhadoras.

 

Cada profissão com a sua ferramenta.

 

Lá isso é verdade!

 

O capitão quer falar consigo.

 

Já queremos qualquer coisa em comum. O pescador voltou a esboçar um sorriso sarcástico. Qual é a potência do motor?

 

Isso não é da sua conta, mister.

 

Jim McDonald apontou para uma porta ao fundo da sala. Provavelmente dava para a ponte de comando.

 

Vou contar-lhe uma coisa: andamos fugidos de todas as canhoneiras da marinha e patrulhas costeiras. Não lê os jornais?

 

Alguns. Deixei de me interessar pelas mentiras que os políticos pregam uns aos outros.

 

Também não ouve rádio?

 

Só música. Especialmente ópera e concertos. E a frequência marítima normal.

 

Essa agora! Então nunca ouviu falar no Fantasma das Caraíbas1?

 

Não. É você? E presumo que me vá capturar. Há piadas que são deveras trágicas.

 

Era verdade. Por detrás da sala, a bombordo, ficava o camarote do capitão. Não se tratava da ponte de comando, mas sim de um quarto comprido e amplo, com uma cama francesa, armários com espelhos e cortinas que tapavam as duas vigias rectangulares. Um aroma de perfume acre pairava no ar.

 

”Temos então uma mulher a bordo”, pensou o pescador. Aquilo rompia com a velha tradição pirata: homens a bordo, mulheres em terra. Era assim que costumava ser. Levar uma mulher a bordo era o mesmo que transportar o diabo.

 

O capitão estava sentado na cama, amparado por várias almofadas nas costas. Vestia ainda o casaco do uniforme, só que, por baixo do casaco, na zona do músculo do peito onde a faca se espetara, tinha uma compressa a proteger aquela zona do corpo. E, numa atitude estranha, mantinha o boné na cabeça. Perto de si, sobre a cama, encontravam-se alguns papéis. O pescador reconheceu o seu diário de bordo, documentos pessoais e blocos de apontamentos.

 

McDonald deu um encontrão tão forte ao pescador que este voou até aos pés da cama. A seguir resmungou qualquer coisa incompreensível e saiu do camarote. O jovem chefe pirata agarrou no passaporte do pescador e deitou-lhe uma olhadela.

 

Doutor Rainherr A sua voz soou bastante clara. Para homem, bastante acriançada até, mas o seu tom demonstrava possuir uma grande energia e força de vontade. Doutor Andreas Rainherr, nascido em Wuppertal. Quarenta e cinco anos de idade. Profissão: químico.

 

Engenheiro químico, Mister...

 

Tolkins...

 

Mister Tolkins.

 

Vive em Cayman Brac...

 

Sim.

 

Um alemão? Porquê exactamente nas ilhas Caimãs?

 

Porque será que vivem alemães na Gronelândia ou na Terra do Fogo? Há gostos para tudo. Andreas Rainherr observava o jovem capitão. Estava com um ar pálido. A perda de sangue certamente o enfraquecera.

 

Tolkins interpretou o olhar perscrutador de outra forma. Abanou a cabeça.

 

É inútil tentar atacar-me. Lá fora estão os meus homens, que podem liquidar o seu timoneiro Juan Noales de um momento para o outro. É isso que pretende?

 

Tolkins recostou-se nas almofadas.

 

Antes de decidir o que fazer consigo continuou, hesitante, gostaria de o conhecer melhor.

 

Parece-me uma boa ideia! Podíamos conversar um bocadinho acerca dos seus antepassados, por exemplo. As Caraíbas já foram célebres e tinham fama de ser a região com os corsários mais bem organizados do mundo. Só no mar Amarelo é que existiu concorrência a sério entre os piratas chineses. Presumo que queira continuar esta tradição com outros meios. O facto de ter escolhido Belize como poiso, leva-me a pensar que segue o exemplo do famoso Sir Walter Raleigh, que, depois de levar os seus saques a bom termo, procurava abrigo nos atóis da Grande Barreira, perto de Belize. Uma zona diabólica, para quem não conhece bem os escolhos. Calcula-se que se encontrem espalhados no fundo do mar cerca de trezentos barcos, todos vítimas dos recifes e de ventos desnorteados. Milhões enterrados na areia... Isso não o seduz? Porque é que assalta os vivos, quando existem tantas riquezas legadas pelos mortos?

 

Tolkins olhava para o Dr. Rainherr em silêncio. Os seus bonitos lábios em forma de coração esboçaram um sorriso trocista.

 

Você gosta de falar, não gosta? perguntou ele.

 

Julguei que tivesse de o entreter, Fantasma das Caraíbas...

 

Não tem medo?

 

Não. O que posso perder? A vida? Meu Deus, a vida é bela, é estupenda, todos os dias uma aventura, mesmo existindo apenas uma minoria que já percebeu que a vida só tem simplesmente de ser vivida... Mas também não tenho medo de a perder. Mais cedo ou mais tarde perdemo-la todos, inclusivamente você, Tolkins. Pode perseguir quem quiser e fugir no seu barco veloz... mas não pode fugir ao juízo final. Acho graça ouvir as pessoas dizerem que levam a vida a sério, quando, no fim, a única coisa que lhes resta, é uma mortalha aberta nas costas.

 

Você foi a primeira pessoa que se defendeu da nossa pirataria.

 

Ai sim? E os outros?

 

Se tivesse visto o nosso armamento, teria levantado imediatamente os braços. Teria entregue os seus dólares e brilhantes e ter-nos-íamos despedido como pessoas de negócios. É espantoso, ou simplesmente uma loucura, a quantidade de dinheiro que esses americanos transportam nos iates. E as jóias das mulheres. Uma completa loucura. Eu nunca transportaria tais valores num barco particular.

 

Você não pensa como uma mulher, Tolkins. Conheço mulheres que usam biquinis com fivelas de brilhantes. O Dr. Rainherr olhou para a compressa que cobria o peito de Tolkins. Tingira-se de cor-de-rosa. Continua a sangrar. Não há ninguém a bordo que seja especialista em feridas?

 

Não.

 

Não existem, portanto, piratas perfeitos.

 

Temos uma boa farmácia a bordo, que pertence ao equipamento básico do iate. Mas nunca foi necessário utilizá-la. No máximo, precisámos de um penso rápido ou de um par de ligaduras de gaze. Como já lhe disse, nunca houve ninguém que se tivesse defendido.

 

Onde está a farmácia?

 

No quarto ao lado.

 

Se os seus heróis me deixarem lá entrar, talvez o possa ajudar.

 

Enquanto vai debitando nomes que ninguém consegue pronunciar? Você, um químico?

 

Há informações que não constam no meu passaporte, Mister Tolkins: antes do curso de química estudei medicina durante seis semestres. Houve algumas coisas que retive. Em Cayman Brac trato camponeses, pescadores e, sobretudo, operários que trabalham nas conservas de tartarugas em lata. Os dois médicos de Brac estão-me eternamente reconhecidos... São dois fantásticos jogadores de xadrez, que não gostam de ser incomodados. Posso ir agora, sem qualquer impedimento, à farmácia?

 

Pode respondeu Tolkins acenando com a cabeça. Estava pálido e com um ar bastante miserável. O Jim está de vigia lá em cima. Estamos sozinhos aqui em baixo.

 

”Com a tua mulher invisível, a bordo”, pensou Andreas Rainherr. ”Algures sentada num dos outros camarotes, à espera de saber o que me vai acontecer. Uma lady, que gosta de orquídeas e usa um perfume acre. Um perfume com odor de moscadeira. Noz-moscada, a especiaria do mar das Caraíbas.

 

Rainherr abandonou o quarto e dirigiu-se ao camarote contíguo onde encontrou uma espécie de biblioteca, em estilo inglês, com móveis de mogno e cadeiras antigas com assentos de cabedal verde. Tudo muito bem arranjado, com muito bom gosto e... muito caro. Um pirata de luxo, continuou Andreas Rainherr, pensativo. Uma variante completamente nova dentro das conhecidas extravagâncias dos corsários.

 

O armário da farmácia estava incrustado na parede. Rainherr encontrou tudo aquilo de que precisava: tintura de iodo, álcool puro, água oxigenada, algodão, ampolas de analgésicos, seringas, e até frascos com uma mistura de soro. Além do equipamento necessário para uma perfusão.

 

Verificou os prazos, concluindo que ainda tinham um ano inteiro de validade, e embrulhou tudo numa toalha de seda que cobria uma mesinha.

 

Lamento disse Rainherr, quando regressou ao quarto, mas tive de trazer a toalha. Se tivesse uma camisa teria rasgado um pedaço, à boa maneira antiga. Mas nestas condições... prosseguiu apontando para o peito. Estava em tronco nu, vestindo apenas o calção de banho justo. O velho chapéu de palha esfarrapado ficara no convés do seu iate.

 

Encontrou alguma coisa? perguntou Tolkins.

 

Tudo o que é necessário. Tem dores?

 

Tenho. Pode começar. O que é que tenho de tomar, ou fazer?

 

Por enquanto, nada. Agora sou eu quem o vai tratar. Espalhou tudo em cima da cama e começou a montar o equipamento para a perfusão: os médicos dão-lhe, irreverentemente, o nome de garrote.

 

Tenciona mesmo tratar-me? inquiriu Tolkins. A sua voz descera de tom.

 

Tenciono. Dispa esse maldito uniforme de uma vez por todas, e liberte o seu tronco, de forma a que eu possa chegar à ferida. Não são necessários sinais exteriores hierárquicos de chefe ou de capitão. Você agora é meu paciente. Fora com os trapos.

 

Saia, doutor Rainherr reclamou Tolkins. A sua voz tinha descido ainda mais de tom. ”Um tom quente, uma voz grave, semelhante ao som de um arco a roçar um violoncelo”, pensou Rainherr. Eu trato disto sozinho, se me disser como se faz...

 

Sozinho? Aplicar uma perfusão? Injecções? Tratar a ferida? Garanto-lhe que o punhal do Juan não era anti-séptico. Pode contrair uma septicemia. Já ouviu falar em tétano, ou em erisipela? Quer que lhe explique o que é...?

 

Saia lá daqui! Quero tentar sozinho.

 

Não seja teimoso! O Dr. Rainherr tinha o equipamento montado. Preparou o tubo para a perfusão e ajustou-o ao frasco. Quer que lhe traga um espelho? Está com um ar péssimo. Para dizer a verdade, devia deixá-lo morrer... destino de pirata!

 

E porque não o faz?

 

Porque sou um imbecil, que acredita na fraternidade entre os homens. Você quis roubar-me, por isso é que ficou ferido. Eu ajudo-o a sobreviver, mas para isso tem de me deixar trabalhar. Entendidos?

 

A patrulha costeira anda toda no meu encalço.

 

Você é mais rápido, Tolkins. E provavelmente conhece mais de cem esconderijos, não?

 

É verdade! Mesmo assim... Saia. De uma vez por todas!

 

Andreas Rainherr aproximou-se da beira da cama e debruçou-se ligeiramente para a frente. Dir-se-ia que Tolkins tremia... Os seus olhos esbugalhavam-se e as pupilas castanho-escuras, quase pretas, emanavam um brilho pouco natural.

 

Subitamente, Tolkins fez a última coisa com que Rainherr contava: tapou o peito com ambas as mãos.

 

Tolkins, não se ponha assim! ordenou Rainherr, irritado. Lá fora você é o pirata mais temido, o terror das Caraíbas, perseguido por doze estados, segundo o Jim me contou com orgulho, e aqui na cama comporta-se de uma forma ridícula. A propósito: você toma alguma droga?

 

Eu o quê...? retorquiu Tolkins numa voz débil.

 

Se toma alguma droga! Estupefacientes!

 

Não, porquê?

 

Os seus olhos, brilhantes e esbugalhados...

 

Desapareça de uma vez por todas! exclamou Tolkins, exaltado. Como um cão prestes a abocanhar de raiva, gritou arreganhando os dentes: Rua!

 

Quer continuar, incondicionalmente, a sangrar?

 

Trata-se do meu sangue.

 

Que parvoíce! Andreas Rainherr fez um gesto repentino com a mão. Tentou apanhar a mão do capitão, mas este agarrou-se à compressa e ao casaco do uniforme e mordeu o braço de Rainherr.

 

Isto não pode ser verdade! replicou este, sentando-se exausto na beira da cama. Você não tem noção do estado de saúde em que se encontra. Não está com certeza à espera que a ferida cicatrize de um momento para o outro e se cure por si própria. Vai ter febre, e a seguir uma septicemia. Vai criar pus... O Juan está sempre a servir-se do punhal e nunca o esterilizou antes de lho ter espetado no peito. Além disso, parto do princípio que a lady continua a contar consigo...

 

Que lady, perguntou Tolkins quase sem voz.

 

Escusa de brincar comigo às escondidas! Há uma lady a bordo.

 

Não!

 

Está uma jarra de cristal com orquídeas na sala...

 

Eu gosto de orquídeas.

 

E um cheiro a perfume no ar.

 

O meu after-shave...

 

Tolkins, eu sou um velho conhecedor de mulheres. Com quarenta e cinco anos farejo a presença de uma mulher com o instinto de um animal.

 

A sério? A sua cabeça descaiu ainda mais. Sentia-se cada vez mais fraco. Doutor Andreas Rainherr, o homem que colecciona mulheres como quem colecciona selos. Faz gala disso, não?

 

Engana-se! Vivo retirado em Cayman Brac, sozinho com a minha filha Annette. Ainda temos de conversar acerca disso... sobre a avaliação errada que fez da minha pessoa, ao ter capturado o meu barco. Não sou ”pesca grossa”. Admito que possuo uma bela casa em Cayman Brac. O meu iate não passa de um hobby que me leva o dinheiro todo. Do que é que vivo? Dos pacientes que me mandam. Fiz em tempos uma descoberta, no âmbito das matérias sintéticas e, desde então, só tenho mandriado. Uma vida sem sentido, é o que pensa a maior parte das pessoas. Se lhe contasse como é que cheguei a esta situação.

 

-Terá oportunidade de o fazer, doutor Rainherr. -Não me parece, se não se deixar tratar imediatamente.

 

- O que é então necessário fazer?

 

Remediar a perda de sangue. A perfusão.

 

Muito bem! Tolkins estendeu o braço esquerdo. Pode começar. Tenho boas veias. Não precisa de procurar muito.

 

Que disparate, Tolkins. Vou deixar correr nas veias o substituto plasmático, que voltará depois a sair. Primeiro tenho de tratar a ferida: limpá-la, observá-la, perceber o seu grau de profundidade. Antes de mais nada, preciso de saber se a clavícula foi atingida pois, tanto quanto me consigo lembrar, o punhal espetou-se mesmo por baixo da clavícula. A seguir, os antibióticos... tudo isto em simultâneo com o soro, pois é através dele que a força regressa ao corpo. Se o golpe se inflamar, ainda pode vir a ter alguns dias agitados pela frente. Portanto, vamos lá: tronco despido!

 

O Dr. Rainherr enfiou a agulha no tubo, colocou a braçadeira de forma a poder regular a velocidade a que o soro corria, e encheu uma seringa com penicilina. Uma ampola enorme. Uma injecção de antibiótico. Tolkins rangeu os dentes, as dores aumentavam e alastravam-se pelo corpo todo. Nos seus grandes olhos, quase negros, entrevia-se pânico.

 

Porque se defenderam? perguntava ele agora numa voz apagada. O barco tinha sido capturado, vocês são só dois e nós temos metralhadoras e um canhão. Foi um verdadeiro disparate da vossa parte!

 

Nunca desisto sem me defender, Tolkins. Quem me quiser tratar do cabedal, tem de saber curti-lo. Além disso o meu cabedal é-me muito precioso! E, se o perder, no mínimo quero ter o prazer de saber que quem estiver comigo não ficará por cá.

 

E esse... sou eu...

 

Talvez, se continuar a tagarelar.

 

Sabe o que lhe acontece se eu morrer, a si e ao seu timoneiro?

 

Naturalmente que sei. É por isso que me interessa tanto que continue vivo. Não estou a ajudá-lo unicamente por compaixão de bom samaritano. Repasto de tubarão, dizia o seu McDonald. Se soubesse como odeio tubarões!

 

Eu também sou um tubarão.

 

Se encararmos isso poeticamente... por mim, tudo bem! Se lhe causa orgulho, considere-se um tubarão à vontade. Na realidade, não passa de um ladrãozeco que assalta iates de americanos ou de outros milionários, os saqueia e que a seguir foge deles no seu barco superveloz. Mas já não vivemos no século dezasseis, quando os piratas eram promovidos a heróis e depois condecorados. Você não vai ser condecorado, Tolkins. Na melhor das hipóteses, leva apenas quinze anos de cadeia.

 

O Dr. Rainherr examinava o braço estendido, cuja manga do uniforme Tolkins enrolara para cima. Um braço surpreendentemente delicado. Tinha mãos de rapaz, mas os dedos eram mais longos que os de uma criança. Unhas arranjadas, compridas e limadas...

 

Você é vaidoso, não é? inquiriu Rainherr. É narcisista... apaixonado por si próprio? Quantos homens é que já matou?

 

Nenhum respondeu Tolkins já sem forças. As dores tornavam-se cada vez mais fortes. Era como se o seu corpo estivesse em chamas.

 

E a sua tripulação?

 

Também nenhum. Garanto-lhe! Nada de violência, nada de mortos... é este o meu lema.

 

Pirataria humanista... uma nova moda! O Robin dos Bosques dos mares!

 

Aplicou um garrote no braço de Tolkins, procurou uma veia saliente e espetou a agulha do soro obliquamente. Como medida de controlo retirou um pouco de sangue e a seguir espetou a agulha já bem colocada na peça que unia o tubo do soro. Este começou a correr lentamente para o sangue.

 

Pronto exclamou Rainherr, satisfeito. Isto vai dar-lhe novas forças. Força de pirata! Tolkins, tenho de o manter em boa forma, para quando for para a prisão. E agora, a ferida...

 

O Dr. Rainherr inclinou-se para a frente. Com o líquido a entrar nas veias e o corpo sacudido pelas dores, Tolkins estava ainda muito fraco para se defender. Fechou os olhos quando Rainherr lhe tirou o casaco de capitão dos ombros.

 

E o boné também! ordenou o médico com um ar trocista. Ou será que se deita sempre com o boné de capitão, Tolkins?

 

Arrancou-lho da cabeça... e uma farta cabeleira negra tombou imediatamente sobre os ombros do ferido, uma cortina de madeixas sedosas, que tinham estado presas por baixo do boné. Rainherr fitava, mudo, aquela cabeça totalmente diferente... A cabeça de uma bela mulher encostada às almofadas, de cara pálida, com os lábios apertados, as narinas a vibrar e as pálpebras cerradas e a tremer. A sua mão direita que assentava ainda frouxa no seu peito descaiu lentamente, afundando-se na cama.

 

Ainda enlouqueço! proferiu Rainherr, paralisado. Examinou novamente as unhas compridas e limadas dos dedos, o braço delgado, os seus longos cabelos negros, e continuou a olhar em volta. A camisa, por baixo da jaqueta do uniforme estava rasgada devido à gaze que fora colocada na ferida. Mas, no lado direito, sobressaía a curva de um seio de mulher.

 

Continue pediu Tolkins. Senão rebento com dores.

 

O Dr. Rainherr levantou a compressa. Teve de arrancar de um golpe a última camada que ficara agarrada à pele. Os dentes de Tolkins rangiam. O punhal de Juan tinha-se introduzido por cima do peito. A ferida abrira-se e sangrava novamente com mais força. Mais abaixo, com o sangue a escorrer, salientava-se um peito firme e bonito.

 

O Fantasma das Caraíbas... murmurava Rainherr, tocando ao de leve no sangue que escorria do peito. Uma mulher! Quem é você?

 

Mary-Anne Tolkins...

 

Mary-Anne... Um nome que soa a maresia.

 

A ferida é grave? A sua voz mal se ouvia. Vou continuar a viver, doutor Rainherr?

 

Certamente. Mas vou ter de coser a ferida. Vai ficar com uma cicatriz, mesmo acima do peito, que irá enfeitiçar todos os homens e que será beijada como uma relíquia. A cicatriz do peito da corsária! Todos aqueles que a beijarem sentirão esse momento como a maior experiência das suas vidas.

 

Oh, só me apetece matá-lo... matá-lo... matá-lo... soluçava ela baixinho. Seu arrogante! Juro que o matarei...

 

É precisamente por isso que farei tudo para que continue viva, Mary-Anne. Agora, cerre os dentes. Preciso de limpar a ferida antes de começar a cosê-la. Vai doer bastante... Ou prefere tomar um anestésico? Vi que havia éter no armário de primeiros socorros. Mas um pirata a sério aguenta isto com uma perna às costas e ainda canta aquela canção sobre Jo, o pirata zarolho.

 

Odeio-o! gemeu Tolkins. Tenho-lhe um ódio de morte. Tenho-lhe tanto ódio como aquele que você tem aos tubarões...

 

Não devia dizer uma coisa dessas, Mary-Anne.

 

Rainherr começou a limpar a ferida. Ela cerrou os dentes. O estremecer do seu corpo fez com que o seu peito abanasse ligeiramente.

 

Um ódio desses não tem cura! Agora, atenção que vou pôr tintura de iodo. Vai arder terrivelmente.

 

Tolkins suspirou e, quando a tintura de iodo lhe queimou a carne, soltou um gemido. A mão direita, que se mantinha livre, agarrara-se de repente aos cabelos de Rainherr.

 

Eu quero continuar a viver, Andreas... balbuciou. A sonoridade da sua voz era abafada pelas dores. Salve-me! Por favor, Andreas...

 

Era uma mulher corajosa. Aquela primeira fraqueza perante o medo da morte, embora causada por dores insuportáveis, foi também a última.

 

Largou os cabelos do Dr. Rainherr, voltou a recostar-se nas almofadas e murmurou com os dentes cerrados:

 

Perdoe-me!

 

O quê, Mary-Anne?

 

Colocou algumas camadas de gaze sobre a ferida limpa e olhou de soslaio para o soro. O líquido estava a correr.

 

Perdoo-lhe, por me ter tratado por Andreas?

 

Pronunciou-o na perfeição. Foi muito bonito. Disse-o maravilhosamente bem: Andreas...

 

Que disparate! Apesar das dores exasperantes, esforçou-se por lhe lançar um olhar fulminante. Os seus olhos castanho-escuros faiscavam de raiva, mas eram, na opinião de Andreas, simplesmente maravilhosos. Continue!

 

Tenho de verificar novamente na farmácia de bordo se existe material para coser.

 

Existe com certeza! Disseram-me que o material era completo.

 

Isso é o que dizem todos os vendedores. Rainherr levantou-se e limpou os dedos sujos de sangue na compressa.

 

Nunca se preocupou com a farmácia? perguntou ele.

 

Não.

 

Nunca lhe passou pela cabeça que as suas piratarias poderiam um dia falhar?

 

Nunca! Onde quer que apareçamos, a surpresa é sempre demasiado grande. Você foi o único que se defendeu, como já fiz questão de lhe dizer.

 

Quantos iates é que já saqueou?

 

Já lhes perdi a conta.

 

Agora, preste atenção! Com um ar trocista, o Dr. Andreas Rainherr fez uma pequena vénia. Existiram em tempos umas corsárias famosas. A que tinha pior fama era uma chinesa... mas eu acho que você ultrapassou as suas colegas. Relativamente ao valor dos saques, claro. As piratas dos séculos passados eram mulheres cruéis. Mais cruéis do que os homens. Impiedosas. Fuzilavam e decapitavam, estrangulavam e esquartejavam, enforcavam e afogavam. Nada disto era concretizado de uma forma normal, mas temperado com requintes de grande crueldade. Primeiro... de certa forma como introdução... procedia-se à castração...

 

Pois eu gostaria de experimentar tudo isso em si, de uma só vez declarou ela, zangada.

 

Mary-Anne, você iria arrepender-se. Agora vou buscar, caso haja, material para coser.

 

Saiu e fechou a porta atrás de si, devagar. No final do passadiço que dava para o convés deparou-se com o gigantesco vulto de Jim McDonald. Sobre o seu ombro espreitava curiosa a cara do barbudo.

 

Como é que ela está? gritou Jim numa voz rouca. Porque é que não nos dá ordens para irmos a todo o gás para casa?

 

É melhor perguntar-lho directamente, timoneiro! O seu estado de saúde? Foi necessário estancar-lhe urgentemente o sangue. É uma rapariga extremamente teimosa.

 

Mas agora está tudo bem, mister!

 

Ainda não. Tenho de coser a ferida.

 

Eu mato o seu timoneiro, siri rosnou o barbudo.

 

Faça como quiser. Mas se acontecer alguma coisa ao Juan, a sua formosa lady também acaba a dançar na prancha. Fique a saber, jovem: eu não tenho nada a perder! Vocês capturaram a pessoa errada. Têm de se habituar à ideia.

 

Retirou-se para a biblioteca e procurou material para suturar no armário de primeiros socorros.

 

Encontrou uma caixa cromada de seringas com várias agulhas, todas dentro de sacos de plástico esterilizados e fechados no vácuo. Havia inclusivamente uma caixa com fio de seda e categute, no compartimento de ”cirurgia”.

 

Pegou em tudo e voltou para o quarto.

 

Mary-Anne Tolkins estava sentada encostada à almofada, pálida, com as pálpebras fechadas mas, assim que sentiu a porta, voltou a abrir os olhos. Tudo menos mostrar fraqueza.

 

Encontrou alguma coisa, doutor Rainherr?

 

Andreas soa muito melhor.

 

Poisou a pequena caixa cromada e voltou a sentar-se à beira da cama.

 

Aconteceu uma coisa rara. Você não foi enganada. A farmácia está completa! Reparei inclusivamente que existe uma secção de cirurgia, uma para medicina geral, outra para otorrinolaringologia, e foram tão conscienciosos que até pensaram na ginecologia. Mary-Anne, tem a bordo diversas raspadeiras e fórceps. Pode efectuar um parto no seu barco pirata. Está preparada para tudo!

 

Você é o tipo mais asqueroso que eu jamais conheci! sibilou ela. Diz disparates atrás de disparates e provavelmente ainda julga que aquilo que diz tem alguma graça.

 

Não acha invulgar existirem fórceps a bordo de um barco pirata? Para mim é uma novidade.

 

E material para coser? gritou ela subitamente numa voz límpida.

 

Naturalmente, também. Aproximou-se dela, retirou a compressa da ferida e reparou que o algodão tinha ajudado. A seguir voltou a limpar o seu lindo peito com álcool, ao mesmo tempo que lhe piscava o olho.

 

Voltara a fechar os olhos. As suas narinas estavam dilatadas e os cantos da boca vibravam ligeiramente. ”Uma pirata não deixa de ser uma mulher”, pensou ele. ”Pelo menos, nalguns casos. E, quando uma pirata é uma mulher apaixonada com desejos reprimidos e recalcados, torna-se particularmente difícil, em determinadas alturas, manter uma atitude neutra.”

 

Despendeu algum tempo com a limpeza do peito. Tapou a ferida com o algodão embebido em água oxigenada e reconheceu ser o primeiro homem que poderia beijar aquela cicatriz.

 

Quando é que se decide finalmente a começar? perguntou ela entre dentes, com impaciência.

 

Já comecei...

 

Refere-se à sutura?

 

Eu pertenço à escola antiga, em que nos ensinavam que para suturar uma ferida, era necessário limpar primeiro o campo de acção da operação. As teorias modernas são precisamente o oposto... preferem cirurgiões que nem sequer limpam o sangue e que acham que o ar cura todos os males. Não usam ligaduras, limpam superficialmente as feridas com antibiótico e, depois, aguardam. Outros, tapam apenas a ferida ou fecham-na com agrafos. Eu sou apologista de uma limpeza bem feita.

 

Afastou o pacho de algodão e abriu a caixa cromada com o material de sutura.

 

Você fala, fala...

 

Mas a verdade é que o seu peito está finalmente reluzente e desinfectado... em todo o seu esplendor!

 

Apetece-me dar-lhe um bofetão! É mesmo o que me apetece fazer! proferiu Mary-Anne numa voz fria.

 

Olhe, olhe... Com uma pinça, o Dr. Rainherr puxou uma agulha curva, finíssima. Até temos agulha de sutura! Fantástico.

 

O que quer dizer com isso?

 

Estes instrumentos cosem tão bem, que em breve a sua cicatriz não passará de um traço muito fino. Um traço branco, pequeno e fino, quase invisível... a menos que nos aproximemos muito do seu peito.

 

Ela fez menção de lhe bater. Com efeito... a sua mão direita, a que estava livre, ergueu-se de repente, mas o Dr. Rainherr foi igualmente rápido e agarrou-lha, antes que lhe tocasse.

 

Você é nojento! desabafou ela. Nojento e repugnante.

 

Eu sei, Mary-Anne.

 

Continuou a agarrar-lhe na mão, puxou-a para si e beijou-a com força. A seguir, largou-a abruptamente e aproximou a cabeça.

 

Se lhe dá assim tanto prazer, bata!

 

Enfiou a linha na agulha e esperou que ela erguesse novamente a mão. Mas não o fez, deixando-a descair, fechada.

 

Posso pôr um bocadinho de éter? perguntou ele em voz baixa. Muito pouco, mesmo. Só um cheirinho...

 

Cosa-me isso de uma vez por todas, com os diabos! Não sou nenhuma cobarde.

 

Pois não, eu sei. Você é o Fantasma das Caraíbas e, como tal, tem de se mostrar corajosa. Debruçou-se novamente para a frente. Mary-Anne, segure o peito com a mão direita. Meu Deus, não comece novamente a tremer. Você tem um excelente peito. Firme; não precisa de ser amparado mas tem algum peso, e pode repuxar a ferida por cima e abri-la na base. A sutura deve ficar o mais imperceptível possível... para cicatrizar bem. Se não, não adianta.

 

Como se costuma dizer, tenho a carne rija. Colocou a mão direita sob o peito direito e ergueu-o um pouco.

 

A primeira picadela foi desagradável, mas pouco dolorosa, tal como imaginara. As dores anteriores que sentira pelo corpo todo tinham sido muito piores. Poisou a cabeça na almofada, fechou os olhos e começou a contar as picadelas.

 

A agulha picou quatro vezes a base do seu peito. A lâmina de Juan era larga, um punhal que, segundo Rainherr, utilizava como ferramenta para tudo. Quatro picadelas... Não se mexeu, não emitiu nenhum som, mas seguia cada movimento da mão de Rainherr.

 

Aquilo que agora sentia era, apesar das dores, uma sensação estranha, quase agradável. Apercebia-se exactamente das pontas dos dedos a passarem sobre a ferida, a controlarem a sutura, a voltarem a roçar o seu peito... e a apoiarem-se finalmente sobre a sua mão.

 

Agora, se não se importa, deixe-se escorregar um pouco para a frente, para ficar totalmente deitada. Meu Deus, há quanto tempo é que estou a coser? Só não quero que a costura abra novamente, se o peito a repuxar. Não queria ligá-la.

 

Não? perguntou ela numa voz sumida.

 

Só colocar uma compressa de gaze esterilizada por cima. O que equivale a dizer que tem de permanecer deitada e quieta. E agora vamos lá a escorregar para a posição horizontal, grande corsária.

 

Você é um imbecil! respondeu com rispidez.

 

Eu sei.

 

Deitou-se com cuidado, totalmente apoiada nas costas e ficou decepcionada quando o Dr. Rainherr retirou a mão de debaixo do seu peito. Observava através das pálpebras semicerradas o modo como ele cobria a ferida suturada com a gaze, colando por cima o adesivo.

 

Vai ter de procurar expressões novas na sua caixa de palavrões, quando lhe comunicar que vou começar a despi-la.

 

Gritarei por socorro, se o fizer disse ela numa voz firme.

 

Vai continuar deitada dentro desse disparatado uniforme de almirante?

 

Vou! Esticou as pernas, o que lhe dificultou bastante o movimento de despir as calças brancas. Eu dispo-me sozinha.

 

A ferida pode voltar a rebentar.

 

Espero até deixar de correr esse risco.

 

O que acontecerá no momento em que voltar a vestir as calças! Mary-Anne, eu não sou nenhum libertino que pretenda saltar para cima de si, assim que a vir despida. Já vi mulheres nuas suficientes... na praia, no mar, à sombra de palmeiras, estiradas em cadeiras, em cima de colchões...

 

E na cama!

 

Foi o que quis dar a entender quando falei discretamente em colchões. Mas, se prefere, na cama também!

 

Você é tal e qual aquilo que parece!

 

Obrigado. Aceito o que disse como um cumprimento. E agora, deixe-me despi-la.

 

Nunca!

 

Chamo o Jim e o barbudo, para o fazerem?

 

Não se atreveriam.

 

Mary-Anne! Colocou a mão sobre o joelho coberto. O seu gesto percorreu-a como um choque eléctrico, mas conteve-se, afastando-o com a mão direita. Arrependeu-se imediatamente...

 

”Põe as tuas mãos novamente em cima de mim”, pensou ela. ”Fá-lo, estúpido! Eu sei que é uma loucura... Mas as tuas mãos são mais eficazes do que qualquer remédio para as dores ou contra o medo...”

 

Agora vou dar-lhe uma injecção de penicilina... Vai ficar encharcada em antibióticos. Como estamos de coração?

 

A pergunta foi tão inesperada que o seu corpo estremeceu. Fitou-o espantada. Lentamente, voltou a esticar as pernas.

 

Como?

 

Refiro-me à circulação. Não perguntei se estava apaixonada. Isso não me interessa nada.

 

Nada, mesmo?

 

Absolutamente nada. Uma mulher como você... uma corsária que saqueia iates de milionários... se não tem namorado, é porque é completamente anormal! Só o facto de ser pirata já é um absurdo...

 

Porquê? Uma mulher não pode ser corsária? O que é que isso tem de tão extraordinário?

 

Todas as mulheres piratas das histórias conhecidas de corsários sofriam de um desequilíbrio psíquico. Uma experiência traumática que nunca conseguiram esquecer e que foram compensando, praticando actos bárbaros e impiedosos, com um ódio incontido. Um acontecimento qualquer que as impediu de levar uma vida normal. A ganância pelo dinheiro e pela riqueza nunca foi, aliás, para estas piratas, determinante... em comparação com a dos seus colegas do sexo masculino que só pensavam em ouro e em pedras preciosas. Não, as mulheres deste ofício foram, através de actos de ódio ou de vingança, o terror dos mares!

 

Terá, por acaso, estudado piratologia? perguntou ela com um ar trocista. ”Porque é que retrais a mão”, pensava ela. ”Porque é que não me agarras novamente? Como é que te posso sentir...”

 

Algo parecido. Andreas Rainherr arrumou os utensílios e colocou tudo numa mesinha-de-cabeceira acoplada à cama. Tenho uma casa perto de Cayman Brac, como sabe. Ao princípio, tinha todo o tempo para me entreter com a minha nova pátria, as Caraíbas, bem como com a sua história. O que seria desta parcela mágica de terra, que consegue realmente envolver e encantar uma pessoa como se possuísse braços mágicos, se não fosse a pirataria dos séculos passados? Repare, neste mar... Falava agora num tom entusiasmado. Neste mar navegavam antigamente os galeões espanhóis a abarrotar de tesouros, outrora pertencentes aos Maias e Astecas, Inças e Toltecas, depois de serem submetidos.

 

”À volta desses transportes de ouro, flutuavam bandeiras pretas e uivavam tufões. Aquilo que escapava aos piratas, que sobrevivia às tempestades ou que não se espatifava contra os atóis ou recifes de corais, era suficiente para fazer de Espanha a terra mais rica de todos os tempos. Depois, houve uns séculos de sossego. A América Central e o Norte da América do Sul tinham sido saqueados, já não restavam tesouros. Os piratas morriam, até certo ponto, à fome. E, agora, voltaram os anos de ouro. Os mares fervilham com iates particulares... das Baamas a Trindade, da Florida aos grandes recifes perto de Belize. Há dinheiro a nadar por todo o lado... Um homem de negócios sem iate particular, não é homem de negócios que se preze. A venda de iates está em franca ascensão. Repare que os piratas andam novamente por aí. E, juntamente com eles, uma mulher particularmente bonita... Mary-Anne, porque é que leva esta vida? Não condiz consigo.

 

Tem razão. Afinal, sou antes o seu assaltante aprisionado.

 

O Dr. Rainherr ergueu-se da cama.

 

A ferida está tratada, está tudo a correr bem. Vamos aguardar e ver como reage o seu lindo corpo.

 

Não está nada a correr tudo bem! gritou ela, ao mesmo tempo que pensava: ”Fica, por favor, fica.”

 

Olhava-o com os seus enormes olhos castanho-escuros, como se estivesse a enxotar um animal intrometido. Só agora se apercebia de que estava despido até à cintura, ao calção de banho vermelho. Era um homem ginasticado, grande e musculado, de cabelos castanhos ondulados, mas já com alguns fios brancos. As suas fontes, de cabelos espessos, já estavam grisalhas. Quando se ria, formavam-se umas rugazinhas nos cantos dos olhos e duas rugas mais pronunciadas na testa. A sua cara era de um castanho bronzeado... Não era uma cara bonita, não era nenhuma beldade, daqueles homens que por ali havia às centenas nas Caraíbas, herdeiros ricos ou self-made men ainda mais ricos, que de dois em dois anos rejuvenesciam um pouco por meio de tratamentos com células novas, ou que ficavam com a ilusão de terem rejuvenescido...

 

Não, aquele homem não era assim. Ali estava ele à sua frente, no seu calção de banho justo, com as mãos na cintura, fitando-a, como se fosse ele o pirata vitorioso, e não o contrário.

 

Um homem a quem não se era indiferente, que deixava, por cada mulher que passava, um sentimento nostálgico secreto. Um homem em quem se ficava a pensar e a repensar.

 

O que é que não corre bem? perguntava agora o Dr. Rainherr.

 

O soro...

 

O líquido vai ter de correr durante mais meia hora. Depois volto para colocar um novo frasco.

 

Volta? Onde é que vai agora?

 

Ao meu barco, se me deixar. Gostaria de me vestir! Vai ficar espantada quando me vir fardado de capitão. Também tenho um uniforme. Calças de ganga e uma camisa, sobre a qual um fabricante perspicaz imprimiu o desenho de uma ilha com palmeiras.

 

Vai vestir-se, não é? Mas queria despir-me.

 

É a vida, Mary-Anne. Raramente somos estimulados pelos mesmos sentimentos.

 

Poupe-me ao seu maldito sarcasmo. Tenho frio.

 

Está a ver? Tem frio, com vinte e oito graus de calor. Mary-Anne, não grite agora. Vou despi-la e deitá-la como deve ser.

 

Agarrou-lhe nas pernas e ela não se mexeu. Descalçou-lhe o sapato esquerdo, o direito... sapatos de pele branca, com solas de borracha estriadas, que proporcionavam um bom equilíbrio no convés. A seguir despiu-lhe as meias brancas e pegou no seu pé esquerdo com as duas mãos.

 

As pessoas com pés pequenos e graciosos não deviam andar por aí a assaltar o próximo disse ele pausadamente.

 

Você é um burro, Andreas.

 

Obrigado por me ter voltado a chamar Andreas... Debruçou-se para a frente e desapertou-lhe o cinto das calças do uniforme. ”É agora que me vai bater”, pensou. ”Sinto-o. Está a distender os músculos.” Preparou-se para o efeito, e decidiu não se defender.

 

O fecho de correr. Puxou-o para baixo e esperou pela sua mão fechada. Mas Mary-Anne permaneceu deitada sem se mexer. Reparou como os músculos da barriga se iam descontraindo, embora os das coxas permanecessem rijos como uma tábua.

 

Agarrou nas pernas das calças e puxou-as. Para seu espanto, ela não voltou a defender-se. Por baixo das calças, usava apenas umas cuecas reduzidas e elegantes. Viu pela primeira vez o seu corpo inteiro... o ventre, as ancas, as coxas, as pernas esguias... a pele bronzeada coberta de um tom lustroso que parecia de seda.

 

Chega disse ele numa voz sumida. Estendeu um lençol e um cobertor de lã sobre aquele corpo elegante, e sentiu-se como se, num gesto ciumento, estivesse a cobrir aquela mulher sublime, de forma a que só ele a pudesse ver.

 

A propósito, a sensação de frio deve-se à circulação. Teve uma quebra de tensão bastante forte. Não admira, com o sangue que perdeu. Mas isso já vai passar.

 

Já me sinto melhor murmurou ela.

 

Volto daqui a meia hora.

 

Mary-Anne acenou com a cabeça. Andreas encaminhou-se para a porta e preparava-se para sair quando ela voltou a falar.

 

Para que fique claro, doutor Rainherr, eu não tenho namorado.

 

Podia ter combinado essa confissão com o nome Andreas respondeu ele. E abandonou o camarote.

 

A tripulação estava toda à espera do Dr. Rainherr no convés do Altun Ha. À frente encontrava-se Jim McDonald, cuja floresta de cabelos a brilhar ao sol parecia ter sido mergulhada numa lata de tinta vermelha.

 

Andreas Rainherr contou sete membros da tripulação... Mary-Anne Tolkins tinha inclusivamente um maquinista ao seu serviço. Os negócios deviam estar a correr bem. Pelos vistos, a pirataria compensava.

 

Daqui a pouco irá adormecer anunciou ele, antes que McDonald conseguisse perguntar alguma coisa. A ferida está suturada, vai ter algumas dores suportáveis... e, caso não surjam complicações, poderá voltar à ponte de comando dentro de uma semana.

 

Óptimo. McDonald dirigiu-se para o Dr. Rainherr com a manápula estendida. Você é o único a bordo que me pode tratar por Jim, sem correr o risco de ficar com a cana do nariz partida.

 

Obrigado, Jim.

 

Trocaram um aperto de mão, e Rainherr concluiu que aquela manifestação de afecto por pouco não tinha resultado numa contusão.

 

O capitão disse alguma coisa? perguntou o timoneiro.

 

O suficiente.

 

Referia-me a nós. Permanecemos nos atóis ou regressamos ao nosso porto?

 

Ainda não decidiu.

 

O Dr. Rainherr olhou em direcção ao seu barco. Tinham amarrado Juan Noales numa das cadeiras de vime por baixo do tombadilho, como se tivessem intenções de o despachar juntamente com as cadeiras.

 

Temos aqui um problema, pessoal.

 

Como assim?

 

Vocês mudaram de táctica: são tão rápidos como o vaivém de um raio. Agora têm de nos aguentar, ao meu barco e a mim...

 

O barco não constitui problema retorquiu McDonald, prazenteiro. Um tiro certeiro no bojo... e desaparece!

 

Não o aconselho a ninguém, Jim. Posso ficar terrivelmente irritado.

 

Ora! Você sozinho contra nós, sir?

 

Não se esqueça de uma coisa, Jim: o seu capitão está dependente da minha ajuda.

 

Isso é um assunto que o capitão terá de decidir sozinho.

 

Aguardemos, então. Posso ir ao meu barco? Gostava de vestir qualquer coisa.

 

Okay. Jim sorriu com um ar trocista. Mas não se esforce a pedir ajuda. Já inutilizámos o seu rádio.

 

Jim, você é um tipo cauteloso e valente... mas, neste caso, está a ser idiota. Nunca me passou pela cabeça alertar a guarda costeira.

 

Riu-se quando viu a cara perplexa de McDonald e passou para o seu barco.

 

Veja se consegue perceber, Jim! Eu fico com vocês de livre vontade.

 

O Dr. Rainherr começou por desamarrar Juan Noales, que não conseguia perceber por que motivo o seu chefe ainda estava vivo e por que razão se mostrava tão contente, contrariamente ao que acontece com as pessoas que são agredidas.

 

Deram cabo do rádio, chefe! informou ele furioso. E na casa das máquinas destruíram completamente o sistema eléctrico. Estamos impossibilitados de fazer qualquer tipo de manobra.

 

Isso é bom, Juan retorquiu o Dr. Rainherr, bem-disposto.

 

Noales fitou o chefe, como se este se tivesse transformado num monstro alienado.

 

Bom? gaguejou Juan. Ficarmos aqui a secar sem conseguirmos deslocar-nos? Abandonam-nos aqui e transformamo-nos em múmias.

 

Não tenhas medo, Juan. Tudo se comporá E, sobretudo, nada de pressas!

 

Eu nunca tinha tido medo, chefe...

 

Eu sei. E só por causa do arremesso do teu punhal, vou mandar construir uma casa em Cayman Brac, só para ti...

 

Chefe...

 

Vou vestir-me, e tu vais para a cozinha preparar uma refeição.

 

Uma refeição? Noales olhou para Rainherr, perplexo. Fazer o quê?

 

Um banquete! A tua especialidade: guisado de porco com pimenta-verde. E champanhe fresco.

 

Champanhe?

 

Quando o Sol se puser, trazes isso tudo para ali.

 

Não estou a perceber nada, chefe exclamou Juan, dando um pontapé ao cadeirão onde estivera amarrado. Eles são bandidos! Sei muito bem quem eles são! Procurados por todas as Caraíbas. Um dos milionários americanos assaltado por eles oferece uma recompensa de quinhentos mil dólares a quem os apanhar, chefe! É o que podemos ganhar.

 

Se tivermos sorte, Juan, vamos ganhar ainda mais. Andreas Rainherr desceu para a sua cabina. Juan seguiu-o como um cão inquieto.

 

Temos de ter sorte, rapaz! O meu smoking branco está em condições?

 

O seu... o seu smoking, chefe? Aqui?

 

Acho que vou sentir uma alegria tão grande quando o vestir, como não sinto há muito tempo. Compreendes?

 

Não, chefe. Nada!

 

Óptimo, eu próprio também já não me compreendo...

 

Precisamente meia hora depois, o Dr. Rainherr voltou a trepar pela escada do barco e a entrar no Altun Ha. Vestira as suas velhas calças de ganga puídas e a camisa com a ilha de palmeiras impressa, de um mau gosto impressionante.

 

No Annette I, Juan Noales engomava a camisa do smoking e escovava as calças pretas. A seguir, correu para a cozinha, para controlar o guisado.

 

Jim sentara-se sob a ponte de comando, à sombra, a fumar um cachimbo. Parecia uma floresta vermelha a fumegar.

 

Alguma novidade? perguntou Rainherr.

 

Nada. Estamos preocupados. Ela não se ouve. Quando bati à porta gritou: ”Deixem-me em paz, seus idiotas!” Foi então que percebemos que estava melhor. No entanto... nada de ordens, nada de nada. Este silêncio põe-me nervoso.

 

E isto dito por um profissional! Rainherr ria-se, ao mesmo tempo que dava umas palmadas no ombro de Jim. Parece-me que vamos ficar por cá mais uns dias.

 

Aqui? Nos atóis? Enlouqueceu?

 

De férias, Jim. Nadar, pescar, preguiçar... porque não?

 

Temos uma empresa, sir, que não pode estar parada. Não percebe? E se não regressarmos exactamente na altura em que combinámos, o Fernando vai-se embora. E nesse caso, que Deus tenha piedade de nós! O Fernando baixa-lhe logo a febre.

 

O Dr. Rainherr franziu as sobrancelhas. Um nome novo, e masculino! Isso incomodava-o.

 

Quem é esse Fernando?

 

Fernando Dalques. Ela não lhe falou nele?

 

Não! O Dr. Rainherr sentiu de repente um caroço entalado entre as cordas da garganta e a língua. Porque é que ela não lhe falara nele? ”Não tenho namorado”, gritara-lhe ainda meia hora antes. Teria mentido?

 

Quem é esse Dalques?

 

O sócio, sir.

 

Ah... Sócio... O caroço no pescoço aumentara de volume, dificultando-lhe a respiração.

 

”Mas por que razão não há de existir um Fernando na vida dela”, pensou. ”Porque me hei de preocupar tanto com a sua existência? Doutor Andreas Rainherr, será que és assim tão imbecil ao ponto de acreditar que uma mulher como a Mary-Anne tenha esperado este tempo todo por ti?”

 

Sócio de negócios, sir... afirmou Jim, como se tivesse adivinhado os pensamentos de Rainherr. E sorriu com um ar atrevido, soprando nuvens de fumo pelo cachimbo. Fez uma pausa e continuou: Isto é privado, se me faço entender... siri O nosso capitão não pode saber desta nossa conversa. Quando ela nos alistou, exactamente há quatro anos, tinha o barco metade do tamanho deste iate novo, o seu discurso era o seguinte: ”Como vêem, sou uma rapariga! Esqueçam-no. Quem acredita que se lida com uma mulher da mesma maneira que se lida com um homem engana-se. Qual de vocês é o mais forte?” Jim sorriu novamente. Oh, recordo-me de cada palavra, sir. Foi um dia que nunca esquecerei. O homem mais forte era eu, naturalmente. E, feito parvo, dei um passo em frente e disse: ”Eu!” E sabe o que ela respondeu? ”Muito bem. Chega-te então aqui e tenta violar-me!” Na altura, pensei estar a ouvir mal. Mas depois atirei-me a ela, pois sorria para mim como a Juana do bar de Kingston. Sir... de repente estava deitado de costas como um besouro que tivesse sido sacudido para o chão. Andei quatro dias inteiros com o braço magoado, e o meu ombro direito ficou com um alto. Foi tudo muito rápido... um lance para o lado e, a seguir, um golpe de caraté suficientemente doseado, se não, ter-me-ia dado cabo da omoplata. E isto com aquelas mãos pequenas e delicadas. A certa altura, éramos três... e, depois de um novo reajuste, o outro camarada voou também pelos ares. Isto fazia praticamente parte do contrato de emprego. Sir, nós temos todos uma óptima opinião acerca do nosso capitão.

 

Foi um bom discurso, Jim. Rainherr deu umas palmadas nos largos ombros de McDonald. Um destes dias podemos festejá-lo com uma garrafa de rum! Você ajudou-me muito!

 

Eu? A si, sir?

 

McDonald olhou para Rainherr sem perceber nada, enquanto este subia as escadas que conduziam aos camarotes. A seguir voltou a encher o cachimbo, expeliu umas nuvens compactas de fumo em direcção ao céu resplandecente de fim de tarde e entregou-se aos seus pensamentos. Chegou à conclusão de que, pela primeira vez na sua carreira de pirata, esta captura fora um fracasso.

 

Merda! desabafou em voz alta. Esta não vai o capitão aceitar...

 

Andreas Rainherr não se deu ao trabalho de bater à porta do camarote e esperar por um ”Entre!” Entrou, simplesmente, e encontrou Mary-Anne deitada, tal como a tinha deixado.

 

O frasco de soro estava quase vazio e já se viam resultados. A pele de Mary-Anne adquirira novamente um tom rosado... aquele castanho macilento que chegara a ficar cinzento desaparecera. Mantinha o braço esquerdo obedientemente estendido e, na mão direita, segurava um pequeno bloco que estava a ler quando Rainherr entrou. Atirou-o para o lado e fitou-o com olhos faiscantes. Rainherr reconheceu o seu diário, que ela trouxera certamente do seu Annette I.

 

Lá por vestir umas calças e uma camisa semelhantes às dos garotos da rua, não deveria portar-se tão mal. Bate-se à porta quando se entra no quarto de uma senhora comentou, zangada. Além disso, chegou muito tarde. Ameia hora já passou há muito tempo.

 

Sete minutos apenas, lady.

 

Exijo pontualidade absoluta.

 

À sua tripulação... com certeza! É absolutamente justo. Mas, em primeiro lugar, sou seu prisioneiro, em segundo lugar, seu médico e, em terceiro lugar... sou o seu futuro grande problema. Tudo isto implica que usufruo de privilégios. Como vai a sua saúde, Fantasma das Caraíbas?

 

Miserável! rangeu ela entre dentes. A sua raiva não era fingida. Acho que tenho febre.

 

Não me parece, com a injecção de penicilina que lhe dei! Apalpou-lhe a testa e sentiu-a fresca, acetinada e seca. Nem uma gota de suor. Vamos ao frasco do soro. Logo à noite vai comer como deve ser e depois fazer uma longa soneca. Amanhã vai voltar a ver o mundo cor-de-rosa...

 

O doutor Rainherr enrolou a braçadeira ao tubo e desprendeu o frasco vazio.

 

Os peixinhos coloridos fazem rodas na água, e o vento sussurra às palmeiras...

 

Cale-se de uma vez por todas, ou mando o Jim matá-lo! ordenou Mary-Anne em voz baixa. Fá-lo-ia de imediato, acredite! A sua mão direita cerrou-se. Falar comigo como quem fala com um maluco...

 

Em primeiro lugar, vamos mudar o soro, depois o Jim pode vir para me matar. Garanto-lhe uma coisa: o novo líquido vai ser muito bem recebido. Continua com dores na ferida?

 

Continuo!

 

Mentira! Injectei-lhe uma ampola de analgésico, que vai fazer efeito até amanhã de manhãzinha.

 

Mas eu reajo de maneira diferente.

 

Colocou o novo frasco com o soro e voltou a abrir a braçadeira.

 

Quando esta porção tiver entrado toda no seu corpo, Mary-Anne, vai-se sentir tão forte como a Pentesileia. Sabe quem era essa senhora? Pentesileia era a rainha mítica das amazonas. Segundo Homero, que escreveu a história, era muito bonita, altiva, destemida, corajosa e temida. O seu exército de mulheres, as amazonas, possuíam apenas um defeito estético: amputavam o seio direito, de forma a poder esticar mais o arco e controlar melhor a pontaria. Eram mulheres assassinas! Apesar disso, Pentesileia reagiu de um modo muito feminino, quando se encontrou com o heróico Aquiles. Ou seja, apaixonou-se por ele! Este foi o seu primeiro, maior e último erro, pois Aquiles matou-a.

 

Rainherr controlava o soro; a solução de glucose corria regularmente na veia.

 

Mas que conversa disparatada vem a ser essa, senhor professor? perguntou Mary-Anne, irritada.

 

Há qualquer coisa que me tranquiliza quando a comparo a Pentesileia: em primeiro lugar, não se apaixonou por mim, e em segundo lugar, ainda tem os dois seios...

 

Chamo o Jim, se não parar com os disparates de uma vez por todas sibilou ela. Tremia de raiva por baixo do cobertor de lã. ”O seu temperamento é vulcânico; para se conseguir estar nos seus braços, deve ser preciso morrer primeiro, estar meio morto”, pensou Andreas. ”Deve arranhar e morder como um animal...”

 

Pegou no bloco que ela afastara quando entrou e folheou-o.

 

Uma leitura interessante, não? perguntou.

 

O seu diário?

 

Sim.

 

Está cheio de nomes de mulheres.

 

Sim, uma lista enorme.

 

É a sua única ocupação?

 

Mais ou menos.

 

E o que pensa a sua filha disto?

 

Conhece-as a todas...

 

Como pai parece-me ser um inútil! Que idade tem a sua filha?

 

Dezasseis...

 

Dezasseis anos... e tem de enfrentar um harém nojento! Disse-o como se estivesse a cuspir as palavras.

 

Rainherr poisou novamente o diário na cama. Mary-Anne pegou-o de repente com a mão direita que tinha livre e atirou-o contra a parede, ao mesmo tempo que gritava:

 

Não conspurque a minha cama com as suas mulheres. Prostitutazinhas baratas. Até o preço escreveu à frente dos seus nomes!

 

Exactamente. O Dr. Rainherr sentou-se na beira da cama, mas de modo a que Mary-Anne não conseguisse chegar-lhe com a mão activa. Tamborilava agora com os dedos no colchão.

 

Não admito que ofenda dessa maneira estas mulheres trabalhadoras...

 

Também são trabalhadoras? Você é o sujeito mais imoral que... A sua voz fraquejou de raiva.

 

Isso dito por uma pirata...

 

Ao pé de si sou um anjo!

 

Seja! Aparentemente é um anjo, ninguém duvida. No entanto, as mulheres que figuram no meu diário ganham a vida honestamente: são operárias numa pequena fábrica de conservas de peixe que me pertence. E os números à frente dos nomes correspondem aos seus salários.

 

Pensei que não tivesse dinheiro.

 

A fábrica de conservas de peixe foi uma herança. Bebi uns copos várias vezes com o proprietário anterior e ficámos amigos. Quando ele morreu, de repente, e o seu testamento foi aberto, tinha-me legado a fábrica! Mary-Anne, escusa de fazer cálculos para tentar saber quanto dinheiro é que valho de resgate! Nenhum! A fábrica apenas dá para pagar as despesas; só a mantenho por causa das operárias, caso contrário, morreriam de fome. Cayman Brac é apenas uma pequena parcela deste mundo, onde se podem encontrar todas as coisas boas e más da vida terrena.

 

Eu conheço as Caimãs retorquiu Mary-Anne mais sossegada. A explicação de Rainherr acalmara-a manifestamente e o seu olhar tornara-se mais meigo. Riu-se inclusivamente quando ele lhe tapou o corpo com o cobertor.

 

Mas eu não conheço o Fernando Dalques. Tinha esta frase atravessada, que disparou como uma seta.

 

Um homem bonito! Natural da Guatemala! Cinco anos mais novo que você... Riu com mais vontade, quando reparou como os músculos da sua cara se mexiam e se retraíam. Irá conhecê-lo em breve.

 

Duvido retorquiu ele num tom de voz circunspecto.

 

Estive a pensar, e partimos depois de amanhã para Belize. O seu barco vai ficar aqui atracado. De qualquer modo, ainda não está em condições de ser manobrado. Em Belize, decidirei o que fazer consigo. Se calhar até é o Fernando quem o vai matar. Além disso, será incapaz de sentir o mais ínfimo arrependimento.

 

Esquece-se do meu timoneiro, Mary-Anne.

 

Levamo-lo também connosco.

 

Não abuse, Pentesileia...

 

Apetece-me cuspir-lhe! gritou ela. Realmente, não existe no mundo pessoa mais irritante do que você. Tem mesmo de continuar aqui especado?

 

Andreas voltou-se.

 

Para dizer a verdade, não. A solução está a fazer efeito. Não tem febre mas, em compensação, também não tem papas na língua; não tem dores mas, em compensação, tem maus pensamentos. Sim, tem razão, sou de facto desnecessário. Até logo, Mary-Anne...

 

Dirigiu-se para a porta, mas a voz autoritária de Mary-Anne, a voz que se costumava ouvir vinda do seu barco, deteve-o.

 

Até logo, quando?

 

Volto ao pôr do Sol. ”Pôr do Sol, quando é que morres...” Era uma lengalenga bastante macabra da minha juventude...

 

Vá-se embora de uma vez por todas! Vá para o diabo! Fico enjoada só de o ouvir!

 

O Dr. Rainerr foi-se embora. Mary-Anne ouviu-o assobiar alegremente enquanto subia as escadas. O barbudo estava de cócoras em cima do rolo de corda, farejando em direcção ao Annette I, donde vinha um delicioso cheiro a assado.

 

O que é que estão a preparar no vosso barco? perguntou Rainherr de passagem.

 

O Jim disse que era sopa de legumes, de conserva.

 

Vida dura, a dos piratas! Se se derem bem com o Juan, nos próximos dias vão poder comer melhor do que no Hotel Fort George, em Belize. O meu timoneiro é um génio na cozinha! A sua pescada embrulhada em folha de prata é uma maravilha. Mas, como se costuma dizer, têm de se comportar como bons amigos.

 

Trepou para o barco e desceu à cozinha. Juan Noales estava a enfeitar a sobremesa: um semifrio com leite de coco, rum e fruta.

 

O champanhe está fresco, chefe disse Juan a rir. Já tive, por quatro vezes, visitas lá de cima. Parecem abelhas, atraídas pelo cheiro. Dei o nosso guisado a provar! ao McDonald... Devia ter assistido! Parecia um bácoro a grunhir; a seguir desapareceu a correr como se eu tivesse posto veneno na comida!

 

Acho que vai ser um sucesso total, Juan.

 

O Dr. Rainherr abriu o frigorífico e contemplou pensativo as garrafas de champanhe.

 

Os tempos mudaram, Juan. Já nem os piratas são o que eram...

Quem nunca assistiu a um pôr de Sol nas Caraíbas não sabe o aperto no coração que tão inexplicável beleza pode causar. É como se o céu estivesse a arder, como se o infinito fosse um mar de fogo... A água parece ouro derretido, reduzido a brasas pelo efeito do sol moribundo.

 

Durante um período de tempo muito curto, esta beleza arrebatadora muda continuamente de cor, até o mar se tornar novamente violeta e azul, verde-escuro e, finalmente, de um azul quase negro... A seguir, quando o céu estrelado começa a brilhar, o raio luminoso emitido pela Lua parece uma faca a recortar o mar.

 

Juan Noales serviu a refeição na sala. Trouxera tudo: loiça, talheres de prata, taças de champanhe... e até uma toalha de mesa. Entre os dois pratos colocara um arranjo de corais verdes e vermelhos a enfeitar a mesa.

 

Jim McDonald escancarou a boca assim que Andreas Rainherr apareceu de smoking branco a bordo do Altun Ha, seguido de Juan vestido com um uniforme de criado. Os outros membros da tripulação contemplavam também sem fala o desfile dos seus prisioneiros.

 

Enquanto Juan acabava de pôr a mesa, Rainherr entrara novamente no camarote de Mary-Anne. Tal como Jim e os outros, fitou-o, incrédula e embaraçada.

 

-Mas o que é que lhe aconteceu? inquiriu ela.

 

O Dr. Rainherr debruçou-se sobre o seu braço esquerdo, retirou a agulha da solução da veia com um único gesto e colocou um adesivo sobre a picadela. A seguir, apalpou-lhe a testa. Continuava fresca: nada de febre! Puxou o cobertor para trás e examinou a ligadura. Estava seca; a sutura tinha-se aguentado.

 

Não tenho direito a uma resposta? perguntou Mary-Anne agressivamente.

 

Foi uma rapariga corajosa. A sutura aguentou-se. Agora, fora da cama, mas com cuidado! Não se balance.

 

Enlouqueceu de vez?

 

Endireitou-se cuidadosamente e passou as pernas para fora da cama. Permaneceu sentada durante um momento, despida da cintura para cima, vestida apenas com umas reduzidas cuecas. De repente, tomou consciência da sua nudez e puxou o cobertor sobre si.

 

Tem mais alguma coisa para vestir além do uniforme de capitão? inquiriu Rainherr.

 

Porquê? E o quê?

 

Qualquer coisa elegante! Um vestido, por exemplo. Talvez um vestido de noite.

 

Eu assalto barcos, não danço com as vítimas! exclamou num tom enfático. Um vestido de noite!

 

Então, vista qualquer coisa que lhe faça recordar que é uma mulher nova e bonita. Vai ser servida uma refeição na sala... Venho buscá-la dentro de vinte minutos. Acha que vai ter tempo para se maquilhar...?

 

Estou bastante ferida, seu imbecil! gritou ela.

 

A punhalada não foi grave.

 

Você próprio disse que eu estava em perigo de vida... Hesitou e fitou-o com os lábios trémulos. Era tudo mentira?

 

Umas horas de tratamento do melhor, como aquele que lhe ofereci, podem fazer milagres! E o milagre aconteceu: pode vestir-se e vir jantar comigo.

 

Cuspo-lhe cada garfada na cara! ameaçou. Juro-lhe.

 

Uma maneira diferente de se estar à mesa. Porque não? O Dr. Rainherr, no seu elegante smoking branco, sem dúvida o tipo de pessoa cujo pulso acelerava quando via uma mulher, fez uma pequena vénia a Mary-Anne, praticamente despida. Dentro de vinte minutos, então, belo Fantasma das Caraíbas.

 

Nunca!

 

Rainherr não respondeu e abandonou o camarote.

 

Juan encontrava-se na sala a acabar de enfeitar a mesa. Tinha colocado o champanhe num refrigerador cheio de gelo. Olhou para o chefe com um olhar inquiridor.

 

Dentro de exactamente vinte minutos serves a sopa ordenou Rainherr. Que tal a loiça de cozinha aqui a bordo?

 

Primitiva, sir. Para um iate de luxo como este! Não se compara com a nossa. Trouxe a comida, para a aquecer e terminar aqui. O Jim está prostrado à frente dos tachos, prestes a chorar. Prometi-lhe apurar a sopa de legumes, o que o animou.

 

Portanto, Juan... dentro de exactamente vinte minutos! O Dr. Rainherr olhou para o relógio pendurado numa parede da sala. Sentou-se numa das cadeiras de couro, fumou um cigarro e pôs-se a pensar em Mary-Anne. ”O que irá ela fazer?”, perguntava a si próprio. ”Virá mesmo, ou estará a medir forças? Porá um vestido ou aparecerá vestida de capitão, à homem?”

 

Dois minutos antes da hora indicada abriu o champanhe e encheu as taças. Virara-se de costas para a entrada da cabina, por cuja porta ela iria aparecer.

 

Exactamente vinte minutos depois, ouviu a porta bater atrás de si. Pegou nos dois copos de champanhe e voltou-se devagar.

 

Mary-Anne encontrava-se ali.

 

Soltara os longos cabelos negros sobre os ombros, pintara-se ligeiramente e trazia um vestido cinzento-prateado justo, que realçava cada curva do seu corpo belo e perfeito. O decote redondo era tão pronunciado que mal tapava a ferida.

 

Foi uma entrada grandiosa, que deixou Rainherr ofegante. Queria pronunciar qualquer coisa como ”fantástico”, mas só conseguiu engolir rapidamente em seco. Teria soado a falso.

 

Sem fala, dirigiu-se àquela bela mulher e estendeu-lhe o copo de champanhe.

 

O que é isto? perguntou ela. A sua voz soava como a voz de uma criança.

 

Champanhe. Amande Cios de mil novecentos e sessenta e sete!

 

Segurou no copo e ficou extremamente irritada por a mão começar ligeiramente a tremer-lhe.

 

Coitado disse ela, tentando controlar-se, a passear-se com champanhe pelas Caraíbas! Em smoking branco! Parece-me que fiz uma excelente pescaria!

 

É como vê, minha corsária preferida. Acenou-lhe com a cabeça. Ergamos os copos e brindemos à excelente ideia que teve em me matar!

 

Bebo ao seu fim! sibilou ela.

 

Brindaram. As taças tiniram, e Mary-Anne esvaziou o copo de um trago.

 

Juan entrou silenciosamente na sala no seu uniforme de criado com a bandeja com as taças de sopa. Mary-Anne olhou para ele como se estivesse a olhar para um fantasma.

 

Mas o que vem a ser isto?

 

Já não reconhece o Juan? O lançador de punhais? Ou refere-se à sopa? É sopa de tartaruga, preparada com tartaruga fresca, xerez velho e um tempero especial. Ou seja, segredo da casa... perdão, do barco. Deixe-se surpreender.

 

E você também.

 

Mary-Anne sentou-se à mesa. Rainherr puxou-lhe devidamente a cadeira e foi sentar-se no seu lugar. Juan tornou a encher as taças de champanhe.

 

Comuniquei no rádio que partimos amanhã cedo e que chegamos por volta do meio-dia a Belize informou ela delicadamente. O Fernando Dalques espera-o com ansiedade...

 

Inclinou-se sobre a sopa de tartaruga e cheirou-a.

 

A sua última refeição, Andreas... Estava uma bela noite, se é que se pode falar em beleza nestas circunstâncias. As artes culinárias de Juan eram uma verdadeira especialidade, da qual toda a tripulação do Altun Ha se aproveitou, pois Juan tinha cozinhado uma quantidade maior do que aquela que duas pessoas podiam consumir.

 

Os piratas abancaram rapidamente com os seus prisioneiros nos compartimentos da tripulação, na melhor das disposições. Conversavam e contavam experiências das suas viagens, em comparação com as quais um romance selvagem de piratas não passava de uma leitura para crianças...

 

Apesar de não terem champanhe, acompanharam o excelente manjar com vinho tinto e, mais tarde, com rum puro, que McDonald ”comprara” pessoalmente na Jamaica.

 

Mary-Anne comeu pouco. A perda de sangue deixara-a bastante enfraquecida. Sentia um cansaço extremo, devido aos poderosos antibióticos, mas não o quis dar a entender. Aguentou-se bem, mesmo quando teve a sensação de que as suas pálpebras estavam muito pesadas. Brindou com Andreas Rainherr e, quando este se levantou de um salto e abriu a segunda garrafa de champanhe que se encontrava no frigorífico, colocou de repente o copo na mesa.

 

Sabe, por acaso, o perigo que corre? perguntou ela. Na sua voz tranquila vibrou um tom de angústia.

 

Só sei que estou a jantar com uma mulher maravilhosa, e que este jantar está a saber-me muito melhor do que qualquer refeição no mais luxuoso hotel de Acapulco.

 

E essa mulher maravilhosa precisa de pensar seriamente no que lhe vai suceder, Andreas.

 

Já lhe tinha sugerido que me matasse depois da refeição, Mary-Anne!

 

Não diga um disparate desses!

 

Posso então continuar a viver?

 

Não posso decidir sozinha.

 

Ah! O terrível Fernando Dalques...

 

A bordo e no mar, sou eu o comandante. Mas, em terra, ele também tem opinião.

 

Então, deixemo-nos ficar a bordo, no mar! Podemos fingir que somos uma espécie de navio fantasma moderno...

 

Não pode ser. Se amanhã não chegar a Belize, o Fernando Dalques alerta a guarda costeira.

 

Precisamente! A polícia marítima virá socorrer os piratas!

 

Sou uma mulher respeitada em Belize. Eu e o Fernando Dalques dirigimos um negócio de exportação que tem corrido muito bem.

 

Ou seja: a mercadoria roubada é vendida de uma forma totalmente legal.

 

O Dr. Rainherr encheu novamente os copos. Mary-Anne fazia um esforço cada vez maior para manter as pálpebras abertas.

 

Não! disse ela indelicadamente. A nossa empresa é séria.

 

Assim o peixe não vem à rede! Rainherr fez um brinde. Está constantemente a surpreender-me. Olhou para ela com um ar pensativo. Se estiver cansada, basta dizer. Acompanho-a à cama!

 

Eu não estou cansada! respondeu Mary-Anne Tolkins, irritada.

 

De acordo com a minha experiência, está tão enfraquecida que deve estar ansiosa por se deixar escorregar para debaixo da mesa e adormecer instantaneamente! Mas não... Pretende estar tão viçosa como um coral em águas límpidas.

 

Claro! gritou ela.

 

Já percebi. Andreas esvaziou o copo, e Mary-Anne não tocou mais no seu. Sentiu que se bebesse mais um copo... rolaria mesmo para debaixo da mesa. A mistura do antibiótico com o álcool caía como chumbo nas veias.

 

Reconheço que fiz um disparate confessou ela. Nunca realizara nenhum assalto nos atóis e, até certo ponto, nem à frente da porta de minha casa. Sempre os fiz muito longe. A maior parte das vezes, em regiões ao Sul das Baamas, perto das ilhas Turks e Caicos e à volta do grande grupo das ilhas Virgens e das de Sotavento.

 

Uma terra fértil assentiu Rainherr sorrindo, impressionado. É precisamente por aí que se passeiam os milionários mais rentáveis. Deu com certeza colheitas bastante valiosas, Mary-Anne.

 

Claro que deu! A sua voz devia ter soado dura, à pirata, mas o cansaço abafava qualquer nota mais aguda. Assim que avistei o seu barco, não consegui resistir. Devia estar louca quando dei ordens para o assaltarem.

 

Já disse isso uma vez! Foi o destino, Mary-Anne...

 

E agora tenho de o aturar!

 

É de facto um problema. Mas o Fernando pode solucioná-lo.

 

De certeza.

 

E... isso preocupa-a?

 

Que parvoíce! Encostou-se para trás e fechou os olhos. ”Que sensação maravilhosa”, pensou, ”não ter dores e poder dormir. Dormir... e saber que ele está aqui e que toma conta de mim, este maldito, convencido e arrogante doutor Andreas Rainherr. Quando é que já alguma vez um homem tomou conta de mim sem me cobrar nada em troca?”

 

Estava a pensar que podíamos deixar o seu iate aqui ancorado.

 

Combinado.

 

E o seu Juan fica a bordo.

 

Não o posso obrigar.

 

Só durante uns dias. Quando vir como as coisas evoluem em Belize, levamos oficialmente o seu barco para o porto, como se estivesse avariado. Infelizmente, temos de o danificar um pouco por fora, por causa das aparências.

 

Por amor a si, escavo buracos no casco e passo a chamar ao meu barco Queijo Suíço.

 

Mary-Anne levantou-se de um salto, derrubou a cadeira e fitou-o com um olhar furioso.

 

Não se consegue ter uma conversa razoável consigo berrou. Que desperdício de palavras. Por que raio me preocupo com o seu destino?

 

É algo que também me espanta. O Dr. Rainherr serviu-se de mais champanhe. Estava mesmo com sede. Isso vai contra todos os hábitos dos piratas. Para fora! Corta-se o pescoço, e pronto! As suas célebres e históricas colegas eram, quanto a isso, mais rigorosas. Saúde, Mary-Anne.

 

Oxalá sufoque com o champanhe! explodiu ela. Amanhã sentir-se-á feliz, quando lhe começarem a atirar água à cabeça. O Fernando conhece todo o tipo de torturas índias.

 

Acredito. Mas hoje ainda é hoje, e eu gosto mais de viver o presente do que o futuro. Deito para trás das costas os acontecimentos do passado, e não volto a olhar para trás.

 

Aproximou-se da mesa e amparou-a. A sua fraqueza aumentara visivelmente, tendo de se agarrar com as duas mãos à borda da mesa. Não queria, de modo algum, admitir o seu estado de debilidade.

 

Levo-a ao camarote ofereceu-se ele.

 

Consigo ir sozinha.

 

E se ficar de gatas? Mary-Anne, não seja teimosa!

 

Provavelmente, vai querer despir-me...

 

Exactamente! Mas calma, não expluda já. O seu corpo não me é desconhecido e, além disso, quero observar novamente a ferida. Venha...

 

Ela cerrou os dentes, apoiou-se nele e abandonou a sala. Após as primeiras duas passadas, teve de se encostar bem, pois as pernas já não a aguentavam. Rainherr arrastou-a rapidamente até ao camarote, ergueu-a e sentou-a na cama.

 

O fecho de correr é atrás murmurou ela.

 

Eu sei. Não é a primeira mulher que dispo!

 

Acredito piamente...

 

Ele despiu-a. Não trazia nada por baixo do vestido, a não ser novamente umas reduzidas cuecas. O seu peito não precisava de sutiã. Com os olhos semicerrados observou Rainherr, que retirara a farmácia portátil da mesinha-de-cabeceira e a abrira. Tinha as pernas bem juntas, não com medo que ele se aproveitasse da situação, mas sim para disfarçar as tremuras no interior das suas coxas e também porque não lhas queria mostrar.

 

O Dr. Rainherr retirou o adesivo e a gaze. Examinou a ferida suturada. Estava com bom aspecto. Nenhuma vermelhidão alarmante, nenhuma tumefacção, nenhum indício de infecção. Tocou levemente com o indicador na sutura, e bastou este ligeiro contacto da sua mão para Mary-Anne sentir um arrepio percorrer-lhe o corpo. Os seus dentes morderam o lábio inferior quando pegou no estetoscópio e a auscultou... o pulmão por baixo do golpe, o coração. Tinha de tactear à roda do peito, o que implicou um grande controlo da sua parte para não soltar um suspiro.

 

Está tudo bem? perguntou ela numa voz cava.

 

Tudo! A ferida está a sarar bem. O provérbio antigo confirma-se de novo: os gatos têm sete vidas!

 

Bem como o outro provérbio: burro és, burro serás!

 

Chega de provérbios! Guardou a farmácia portátil e levantou-se da cama. Posso ficar aqui de vigia?

 

Ainda consigo dormir sozinha!

 

Foi só uma sugestão...

 

Onde é que vai dormir, afinal?

 

A bordo do meu barco. Não tenha medo, não fujo. Pode ficar descansada que amanhã tomamos o pequeno-almoço juntos...

 

Voltou a tapá-la como se estivesse a tapar uma criança, debruçou-se sobre ela e deu-lhe um beijo na testa.

 

”Na testa, macaco arrogante”, pensou ela. ”A minha boca não está igualmente próxima? Tratas-me como se fosse uma criancinha de tranças compridas! És um estupor, Andreas, um estupor...”

 

Boa noite murmurou ela.

 

Boa noite, Mary-Anne.

 

Encaminhou-se para a porta e tornou a voltar-se.

 

Você é a corsária mais maravilhosa de toda a história da pirataria! Este dia modificou a minha vida para sempre...

 

Apesar de todo o cansaço e estado de debilidade permaneceu acordada ainda durante um bocado, a escutar os múltiplos barulhos a bordo.

 

Na sala, Juan e os membros da tripulação arrumavam a mesa do banquete. Ouviu passos no convés e Andreas Rainherr falar com Jim McDonald. A seguir os barulhos diluíram-se, e fez-se silêncio a bordo. O mar batia com preguiça na amurada do barco, fazendo-o balançar ligeiramente.

 

”Senta-te no teu bote, Andreas, no teu pequeno bote e tenta alcançar os atóis povoados mais próximos. Vais conseguir... as cabanas mais próximas estão apenas a dezassete milhas de distância. Na ponta mais a sul do grupo Turneffe existem inclusive algumas habitações. Provavelmente já sabes...? Porque é que não foges? Andreas, não conheces o Fernando! A tua presença equivale para ele a um toque de clarim a chamar à carga! Não tens hipóteses nenhumas contra ele! Mete-te no teu bote, por favor... Vai-te embora daqui, quando amanhã de madrugada o Sol começar a brilhar...”

 

Porém, ao mesmo tempo Mary-Anne desejava que ele ficasse e que passasse por uma prova de força com Fernando Dalques. ”Quando chegarmos a Belize”, pensava ela, ”já estou suficientemente forte. O Fernando não é o chefe... sou eu! O Fernando é meu sócio, mas a firma pertence-me!”

 

”A firma!” Que estranha lhe soava aquela expressão...

 

Deslizou para fora da cama e caminhou lentamente até às vigias tapadas. Abriu uma das cortinas. Tinha finalmente vista sobre o iate de Rainherr, que balançava às escuras sobre a fraca ondulação. Nem sequer uma luz de presença acesa, como mandava a lei. Mas também, para quê? Ali nos atóis, entre os mortíferos recifes de corais, ninguém navegava durante a noite.

 

Ficou imóvel em pé, perto da vigia, até quase não sentir as pernas, deixando-se cair em cima da cama. Assim que se deitou, adormeceu instantaneamente... mas levou os seus pensamentos consigo, para o mundo dos sonhos: ”Andreas, foge... temo por ti...”

 

Não houve qualquer tipo de discussão: o Dr. Andreas Rainherr ficou, como é óbvio, a bordo do seu iate, mesmo depois de Juan Noales ter sonhado acordado com uma proposta idêntica à de Mary-Anne.

 

Chefe, nós temos um bote, podemos chegar facilmente ao grupo Turneffe. Está a levantar-se um vento favorável, içamos a pequena vela de traquete... Antes da alvorada, chegamos às habitações.

 

Eu sei, Juan, mas vamos ficar! respondeu Rainherr. Permaneceu sentado ainda durante um bocado na sala, preparou um uísque com muito gelo e pôs-se a pensar no futuro, coisa que nunca mais tinha querido fazer. Juan, que era mais o seu fiel amigo do que um simples timoneiro, sentara-se pensativo à sua frente a beber um sumo de fruta.

 

Os tipos além contaram-me tudo. Não são inofensivos, como nós. Nem sequer usam luvas quando assaltam um barco, chefe. E esse Fernando Dalques, que se encontra em terra, deve ser um canalha da pior espécie!

 

É por isso que gostava de o conhecer, Juan.

 

Ele tem-nos na mão, chefe.

 

Como é que sabes?

 

Somos seus prisioneiros...

 

Mas de pistola no bolso.

 

Eles vão querer revistar-nos. E se nos voltarmos a defender, disparam o canhão, até nos afundarmos.

 

Quem te disse isso?

 

O McDonald.

 

E, mesmo assim, deste-lhe da nossa sopa, Juan?

 

Ele também está muito triste com a evolução dos acontecimentos. Ele gosta de si, chefe!

 

Que comovente!

 

Mas tem de cumprir ordens. A disciplina a bordo é dura. A lady tem uma tripulação difícil de dirigir.

 

Pois, com a ajuda de judo e de caraté!

 

Ela é linda, chefe. Juan sorria discretamente.

 

O vestido que trazia há pouco...

 

Vai para o camarote dormir, Juan! A ti, não te acontecerá nada. Manténs-te a bordo e daqui a três ou quatro dias és oficialmente rebocado, como proprietário de um barco avariado. Está tudo tratado.

 

Não o vou deixar sozinho, chefe! O senhor sabe-o! Juan Noales levantou-se. Ficara muito sério.

 

Prometi a Miss Annette... sim, jurei sobre a Bíblia, que jamais o deixaria sozinho.

 

Annette! Com dezasseis anos, loira como a mãe mas um pouco mais desajeitada dentro das calças de ganga desfiadas, camisolas e T-shirts, pernas compridas, cabelos soltos pelo pescoço...

 

E o Mr. Ben sempre atrás dela. Em Cayman Brac era conhecida por Cabelos de Ouro. Como os nativos a gostavam de tratar. E Mr. Ben era o seu melhor defensor. Enquanto caminhasse junto dela, estava livre de qualquer aborrecimento. Até os marinheiros mais rudes se desviavam do caminho de Mr. Ben...

 

Mr. Ben era um pastor-alemão. Annette, a sua filha. Pois era, obrigara Juan a jurar sobre a Bíblia. Era típico dela. Juan entrara em conflito, não apenas com a sua consciência, como também com Deus.

 

Não me vai suceder nada, Juan! disse Rainherr, esvaziando o copo de uísque. Acenou com a cabeça quando Juan pegou novamente na garrafa. Podes permanecer tranquilamente a bordo.

 

Acha que é porque a lady... o ama?

 

Que disparate estás para aí a dizer!

 

Ela ama-o, chefe. Ali, a bordo, os homens andam muito preocupados! Nunca tinham visto o capitão em vestido de noite! E quando o senhor não está por perto, trata a tripulação com o dobro da rispidez! Antes de termos sido aprisionados, atirou o barbudo com um simples golpe de judo contra a casa do leme, com tanta força, que esta até estalou. Só por este lhe ter dito: ”Caramba, isto é que é uma mulher perfeita!”

 

O Dr. Rainherr aproximou-se da ampla janela da sala e olhou em direcção ao iate pirata. Estava tudo às escuras, inclusivamente as luzes de presença. Apesar da sua condição de ajudante de corsário, McDonald era um timoneiro íntegro.

 

Fazemos tudo o que a lady pirata mandar informou Rainherr pausadamente. A vida é composta por estradas rectas e estradas sinuosas... Neste momento, estamos a atravessar uma maldita de uma curva, Juan. Mas todas as estradas vão dar a Roma. E eu estou preparado.

 

Receio por si, chefe.

 

Também eu. O Dr. Rainherr afastou-se da janela.

- Mas o meu receio é outro...

 

Pelo nascer do Sol vieram dois homens da tripulação de piratas a bordo do Annette I.

 

Se julgavam que iriam surpreender dorminhocos, enganavam-se. Rainherr e Juan estavam levantados há muito tempo e prontos para partir. Tinham verificado o armazém de víveres e de bebidas e concluído que Juan poderia sobreviver durante quatro semanas, a bordo do Annette I, se não o rebocassem, como prometido. Durante esse período de tempo, Juan podia ir buscar ajuda com o bote ou, inclusivamente, reparar os estragos causados na casa das máquinas e fugir sozinho.

 

Nesse caso, vou eu para Belize, chefe! dissera ele. E depois, se nos quiserem passar a perna, ponho-os na ordem. Essa ”empresa” vai abrir falência!

 

Mary-Anne aguardava os seus ”prisioneiros” no Altun Ha. Vestira de novo o uniforme de capitão e prendera os cabelos por baixo do boné branco de comandante, enfeitado com galões dourados. Parecia outra vez um rapazinho para quem a vida era uma aventura.

 

Encontrava-se na ponte, ao lado do timoneiro McDonald. Os potentes motores trabalhavam em ponto morto e o radar girava no mastro. As metralhadoras e o canhão estavam escondidos por baixo do convés, cujas tábuas reluziam de asseio. Só quem trabalhasse com Mary-Anne é que podia saber o que se passava por detrás das estanques escotilhas do convés.

 

Mary-Anne tinha um microfone de rádio na mão; com a outra fazia sinais a Rainherr para que este fosse ter com ela à ponte.

 

Venha cá, Andreas gritou com modos autoritários. Tenho o Fernando em linha. Não o quer cumprimentar?

 

Já que ele insiste. Rainherr subiu para a ponte e acenou a McDonald. O timoneiro estava ao leme com um ar bastante carrancudo, sem perceber por que razão os dois prisioneiros não tinham seguido o conselho que ele dera ao seu amigo Juan: escaparem-se de noite para as ilhas Turneffe. Pressentia o que iria passar-se no dia seguinte em Belize, com Fernando. E o pressentimento não era nada bom...

 

Ele sabe a sorte que tem?

 

Acabei de lhe contar. Mary-Anne estendeu-lhe o microfone. O Fernando fala num mau inglês, como todas as pessoas em Belize, mas vai acabar por o compreender.

 

Também falo espanhol, lady. Rainherr pegou no microfone e soprou lá para dentro. Percebeu, Don Fernando? perguntou ele.

 

O seu espanhol era, de facto, perfeito. Tinha inclusivamente o som do dialecto das Caraíbas.

 

Sim! ressoou a voz de Dalques no microfone. Nada mais. Aquele sim tivera o efeito de um murro no estômago.

 

Chamo-me Andreas Rainherr, fui capturado pela sua sócia em consequência de um desvario e chego a Belize, a sua casa, hoje durante o dia. Já agora: gosta de champanhe? Posso levar-lhe uma garrafa? Pergunto isto, pois há muita gente que, a seguir a beber uma taça de champanhe, arrota com toda a força...

 

McDonald ficara lívido e Mary-Anne teve de se segurar ao leme. Andreas Rainherr acabara de proferir a sua sentença de morte. Ninguém falava assim com Fernando!

 

A resposta fez-se ouvir prontamente do altifalante.

 

Mary... chamou Dalques com voz firme. Pescaste um louco? Atira-o borda fora! Porque é que ele não vai beber champanhe com os tubarões?

 

Os tubarões são abstémios! Não sabia, Don Fernando?

 

Porque é que ainda está vivo? gritava agora Dalques.

 

Ouvi dizer que faz parte dos seus princípios não deixar mortos para trás, mas sim bolsas vazias. Aqui a bordo ainda não nos acostumámos à ideia da morte, apesar da presença das metralhadoras e de um canhão de sete centímetros e meio.

 

Onde está o Jim?

 

Aqui! gritou McDonald. Os seus olhos saltavam das órbitas, no meio daquela floresta de cabelos vermelhos, fazendo lembrar um palhaço num número de circo.

 

É assim tão difícil atirar alguém pela borda fora?

 

Neste caso, já é respondeu McDonald, enquanto o Dr. Rainherr lhe estendia o microfone. O senhor não está a par da situação a bordo, Don Fernando.

 

Mary, o que é que se passa convosco? A voz de Fernando soava inquieta e precipitada. Percebera que as coisas não corriam bem, que estavam diferentes. Pressentia qualquer coisa estranha.

 

O Dr. Rainherr parecia um repórter, estendendo o microfone à frente da sua linda boca em forma de coração.

 

Vamos partir agora, Fernando disse Mary-Anne numa voz ríspida. Chegamos ao porto por volta do meio-dia. Vou seguir directamente pelos recifes.

 

Isso é perigoso de mais, Mary! ouviu-se Dalques dizer.

 

Precisamente! Quero ver-me livre deste tipo o mais depressa possível! Terminado.

 

Não esperou por mais perguntas de Fernando, tendo desligado imediatamente o rádio. A pequena lâmpada de chamada continuava a piscar, sinal que Dalques voltara a ligar... mas Mary-Anne não lhe prestou mais atenção.

 

Não ligues! disse ela a McDonald. E agora, rota directa. A todo o gás!

 

A todo o gás?

 

Porque não?

 

Através dos recifes?

 

A todo o gás!

 

McDonald abanava a cabeça e olhava para Rainherr, suplicante.

 

Que o diabo abençoe o barco e lhe dê asas!

 

Com a sonda, o radar e o novo sonar, que só os barcos de guerra possuem, o Altun Ha deslizava veloz como uma flecha através dos atóis, em direcção a Belize. Quando partiram, Juan acenava do convés do Annette I com o seu velho chapéu de palha.

 

Mary-Anne olhava para o Dr. Rainherr com um ar reprovador. Trazia novamente a sua horrorosa camisa com a ilha de palmeiras, calças de ganga brancas, mas limpas, uns sapatos resistentes e, na cabeça, novamente o chapéu de palha de aba larga desfiado. Não trouxera nenhuma mala, nem saco de lona; era óbvio que eram aquelas as suas únicas roupas.

 

Não podia ter vestido uma roupa mais apresentável? perguntou Mary-Anne com maldade.

 

Não me parece nada original morrer de smoking branco. Quando o Fernando me matar, prefiro morrer nesta velha farda.

 

Mary-Anne cerrou os dentes e abandonou a ponte. Rainherr seguiu-a até à sala, onde estava posta uma mesa para duas pessoas.

 

Já tomou o pequeno-almoço? perguntou ela.

 

Não. Já tínhamos falado nisso, meu magnífico Fantasma das Caraíbas.

 

Se volta a repetir esse nome, aplico-lhe um golpe de caraté que nunca mais voltará a ter apetite para o pequeno-almoço.

 

A partir deste momento sou novamente um simples rapazinho obediente.

 

Sentou-se à mesa. O barbudo entrou, serviu o café e deitou um olhar conspirador a Rainherr.

 

Como é que se sente a minha paciente? Não me refiro à corsária, claro perguntou Rainherr.

 

Bem! A ferida está bem. Estive a observá-la ao espelho. Não precisa de se incomodar mais com ela.

 

Que pena. É que toda esta atmosfera em volta da ferida deu origem a uma admiração eterna...

 

Com açúcar?

 

Exactamente.

 

Quanto açúcar põe no café? gritou Mary-Anne, furiosa.

 

Duas colheres, por favor. Mas não quero natas. Sentou-se direito e olhou de relance para a mesa. Estava posta com simplicidade, mas apresentando aquilo que o Altun Ha tinha de melhor para oferecer.

 

Um momento nitidamente burguês opinou Rainherr, sarcástico. O café da manhã em família! Com pão branco, manteiga, marmelada, mel e salame fumado. Nada como um bom pequeno-almoço para nos deixar em forma o resto do dia.

 

Por que razão não fugiu durante a noite? perguntou Mary-Anne de repente. Agarrou na taça de café com as duas mãos, como se fizesse tanto frio que precisasse de as aquecer.

 

Já tínhamos falado acerca do pequeno-almoço. Cumpro sempre aquilo que prometo.

 

Trata-se da sua vida, ainda não percebeu? Encontramo-nos numa situação de excepção. Pela primeira vez na vida, fizemos prisioneiros. Pela primeira vez na vida, um estranho entrou no nosso barco. Pela primeira vez...

 

... alguém sabe que os grandes piratas dos tempos actuais são comandados por uma mulher! concluiu Rainherr.

 

Sim!

 

E isso é tão grave, que vou ter de morrer! Mary-Anne, eu compreendo-a. Não lhes resta alternativa, se quiserem prosseguir com a vossa carreira. Se tiverem a generosidade de me libertar, quem é que lhe garante que eu não vou invadir o mundo com entrevistas, com títulos do tipo: ”A minha relação com uma corsária!” Posso ganhar muito dinheiro com isso, sobretudo nos Estados Unidos e na Alemanha.

 

Você já percebeu observou ela numa voz longínqua. A sua situação é desesperante.

 

Não duvido. Mas, como qualquer condenado a quem é concedido um último desejo antes de morrer, escolho passar as últimas horas da minha vida consigo!

 

E a mim, ninguém me pergunta nada?

 

Pergunto eu. Quer ca...

 

Não! exclamou ela em voz alta. Não! Assim que acabar o pequeno-almoço, voltará a ser tratado como um prisioneiro.

 

E levado para uma cela escura ao lado da casa das máquinas...

 

Espere e logo verá! Levantou-se de um salto sem ter comido nem bebido nada e saiu da sala.

 

Fechou-se no camarote, atirou-se para cima da cama e começou a bater com os punhos no colchão.

 

Monstro! gritou ela para as almofadas. Monstro maldito! Porque é que te conheci? Precisamente a ti...

 

O barbudo começou a arrumar as coisas devagarinho, aparentemente para ganhar tempo.

 

O Altun Ha sulcou o mar das Caraíbas, navegando de um lado para o outro, através dos perigosos recifes. McDonald era um timoneiro experiente, um génio do leme, mas eriçavam-se-lhe os cabelos vermelhos cor de fogo, quando a sonda e o sonar detectavam bancos de coral aguçados... mesmo por baixo do casco, por vezes apenas a um palmo de distância das duas hélices do barco... O iate navegava a todo o gás pela superfície lisa da água, como que suspenso sobre o mar. Residia ali um dos mistérios acerca da impotência dos barcos de guarda costeira, das patrulhas da polícia marítima e sobretudo dos barcos de guerra da marinha dos países à volta das Caraíbas errarem, desamparados, de um lado para o outro, quando os iates dos milionários pediam ajuda. O Fantasma das Caraíbas era mesmo difícil de apanhar. Escondia-se atrás dos recifes, por entre os inacessíveis bancos de areia, escapando-se furtivamente durante a noite, através dos baixios.

 

Posso dar-lhe um conselho, siri perguntou o barbudo enquanto levantava o último talher, não havendo já mais nada para arrumar.

 

Se valer a pena.

 

Talvez. Temos de entrar muito devagar no porto de Belize. Seria conveniente desembarcar.

 

Você está maluco? Não. Você é que está!

 

O vosso Fernando deve ser um verdadeiro demónio! Mas afinal o que é que se passa? Até agora, tinha uma opinião completamente diferente dos piratas. Enganaram-se todos na profissão? Vocês comportam-se como professores de uma escola religiosa...

 

- O senhor é que sabe, sir resmungou o barbudo, abandonando a sala com um ar determinado. Para ele o assunto estava resolvido. Foi-se pôr ao lado de McDonald na ponte, a olhar para a água.

 

Então? perguntou Jim. O que é que ele diz?

 

Que fica.

 

É o cão mais teimoso que jamais conheci.

 

Apaixonou-se pelo capitão.

 

Estás a contar-me isso a mim? Foi o pior que podia ter acontecido...

 

Quem entra no porto de Belize, não deve pensar que está a chegar a uma cidade razoavelmente moderna com um ritmo de vida correspondente. Com quarenta e cinco mil habitantes, a chamada Belize City é a capital do Estado de Belize, outrora denominado Honduras Britânicas. Em 1964, Belize tornou-se um país independente e um Estado membro da Commonwealth. A bandeira britânica fora arriada e os funcionários regressaram exultantes à velha Inglaterra, deixando para trás, em Belize, um futuro incerto. Desde então, os denominados tempos modernos passaram praticamente ao lado daquela magnífica parcela de terra.

 

É provável que tenha sido melhor assim, uma vez que os habitantes de Belize viviam mais felizes do que todos aqueles que tinham sido invadidos pelo turismo e que deixaram de ter a sua própria praia, com hotéis apalaçados a crescer por todo o lado, elevando-se em direcção ao céu, e os aviões a jacto cuspindo diariamente veraneantes barulhentos. Um passeio no rio de Belize através da densa floresta virgem seria para estes turistas uma experiência bastante excitante. As ruínas das grandiosas cidades maias de Altun Ha e de Xunantunich são conhecidas apenas por arqueólogos...

 

Quem aqui vive, contenta-se com o simples facto de estar vivo... e ninguém aspira a mais do que isso. É assim que se passam os dias em Belize, que deixou de ser capital, depois de uma violenta onda, provocada por um tufão, ter arrasado em 1961, mais de um terço da cidade.

 

Para os habitantes de Belize foi um golpe bastante forte. No entanto, com a sua perseverança construíram uma nova capital, oitenta quilómetros para o interior do país, à qual deram o nome romântico de Belmopan, a sua característica mais bonita. Tornou-se uma cidade de funcionários públicos, um complexo administrativo, habitada por um total de quatro mil pessoas, empenhadas em trazer algum dinheiro ao erário público de Belize, através da exportação de cana-de-açúcar, citrinos e madeira de mogno.

 

Este pedaço de terra, ignorado pelo resto do mundo, possuía nessa altura tudo o que era necessário para se tornar uma atracção turística de primeira classe. Os habitantes de Belize têm feito tudo para que as agências de viagens internacionais e os seus incansáveis espiões mundiais não tenham ainda descoberto aqui um novo paraíso comercializável.

 

É simplesmente grandioso aquilo que a natureza de Belize tem para oferecer: o segundo maior recife de corais do mundo, com quilómetros de extensão, despovoado, praias de areia branca verdadeiramente paradisíacas, durante todo o ano uma temperatura de água entre os vinte e cinco e os vinte e oito graus, ideal para se tomar banho, atóis e recifes com uma tão grande variedade de peixes que os pescadores quase não têm tempo para mudar o isco... Além de um céu que nos faz ter sonhos durante o dia como aqueles que temos durante a noite quando nos deitamos debaixo das palmeiras e o vento, o mar e o céu formam uma unidade perfeita.

 

Entre os recifes de corais encontram-se inúmeros destroços de navios naufragados: galeões espanhóis, fragatas britânicas com as bandeiras ainda içadas até ao topo dos mastros e caravelas, galeras e couraçados de três andares... todos cheios de tesouros, encalhados por tufões, afundados por piratas, rasgados por recifes de corais... Um eldorado também para mergulhadores e pesquisadores de tesouros, não fossem os eternos guardas: os tubarões e as barracudas.

 

Mas Belize não pretende tornar-se uma atracção turística. Até se conseguir chegar a alguns hotéis existentes em terra firme e aos atóis maiores, está-se por conta própria. Quem fizer questão de ir para o interior do país, pode fazê-lo com um barco antigo, atravessando os rios através de uma floresta virgem impraticável, ou utilizando as poucas estradas que têm uma particularidade: desaparecem depois de uma chuvada.

 

Para quê abrir esta terra a estrangeiros quando se pode ser feliz assim? O que vem a ser a pobreza? E a riqueza? Pode-se comer até fartar... Isso não chega? Quem leva uma vida paradisíaca também pensa necessariamente de uma forma paradisíaca...

 

A cidade de Belize, a antiga capital, já tem outra vez quarenta e cinco mil habitantes. A maior parte das pessoas vive em casas de madeira simples, sobre estacas, pois nunca se sabe quando vem uma grande onda. Todos os anos se anunciam tufões... pode voltar a passar um por Belize e arrastar a cidade pela água...

 

Existem algumas casas sólidas. Sobretudo bancos. Como poderia ser de outra maneira? Algumas casas de comércio, escritórios e edifícios de habitação de novos-ricos, armazéns e um estádio para eventos políticos e desportivos.

 

Ligeiramente fora da cidade, junto à floresta virgem ou onde esta ainda não foi destruída, existem algumas vivendas, construídas em estilo colonial inglês ou espanhol, palacetes brancos com jardins gigantescos. Em Belize há ainda locais onde podemos abandonar-nos à sublime sensação de sermos a única pessoa existente nesta parcela de terra.

 

Fernando Dalques estava parado no molhe do porto quando o Altun Ha, abrindo sulcos através da água salobra, parou no Cais III. Um dos marinheiros atirou o cabo de amarração para o outro lado, para um estivador que o enrolou fixando-o bem ao cabeço. A seguir empurrou o iate, cujos flancos ficaram protegidos por uma fiada de sacos brancos de areia dispostos no paredão. McDonald fez um sinal com a mão, mas Dalques não retribuiu o cumprimento.

 

Já aí vem! disse o barbudo a Jim. Fico tão feliz quando estou longe daquela cara. Mais quatro ou seis semanas no mar... isso é que era! E depois, os bolsos cheios de dólares, e rumo aos bordéis do Haiti!

 

O Altun Ha atracou numa baía lateral. A azáfama normal de porto decorria na baía principal, onde os navios de carga eram carregados para exportação em Belize, mas também onde descarregavam máquinas, medicamentos e electrodomésticos provenientes da América e de Inglaterra. E, inclusivamente, carros e camiões... Sinais esporádicos de um futuro optimista, no qual se incluía o melhoramento das estradas de Belize.

 

No Cais III, a vida decorria calmamente. Exceptuando alguns trabalhadores, só Fernando Dalques se encontrava no cais: impossível passar despercebido.

 

De estatura média, magro, de cabelo preto, com um elegante bigode, na cabeça um panamá quase branco, e nos pés uns sapatos em pele, de duas cores, castanho e branco.

 

O seu fato bege-claro, um excelente trabalho de alfaiate, não fora de certeza confeccionado em Belize. Ali estava ele em terra, de pé, sem dúvida uma elegante figura, à espera que a escada de portaló do Altun Ha fosse empurrada.

 

Mary-Anne e o Dr. Rainherr estavam na sala e observavam Fernando através da janela.

 

É ele! disse ela.

 

Como podem verificar, tremo de medo.

 

É uma besta.

 

Mas não muito grande...

 

Uma pantera negra; apesar da sua estatura média é o animal mais impiedoso que conheço.

 

Já vi panteras negras serem domadas por homens insignificantes.

 

O Fernando não é domável.

 

Mas é seu sócio, não é? Como é que se dá com ele?

 

Muito bem. Ele gosta de mim.

 

Ah, bom!

 

Não é recíproco, Andreas. Nunca disse que gostava dele, embora ele tenha esperança de isso vir a acontecer.

 

Um homem cheio de sorte, ter essa esperança!

 

Vamos para o convés! ordenou ela rudemente. As suas máximas enjoam-me.

 

Eu também tenho de ir?

 

Claro.

 

Sem grilhetas? Desde quando os piratas entregam os prisioneiros sem estarem acorrentados?

 

Tenho vontade de o esbofetear exclamou Mary-Anne com modos pouco femininos. Vamos! Vá você à frente!

 

Boa! Isto é que são boas maneiras. No mínimo! Enfrentemos então a pantera negra de Belize!

 

Fernando Dalques espreguiçava-se quando o Dr. Rainerr e Mary-Anne Tolkins apareceram no convés e se dirigiram à escada de portaló. Dalques foi ao encontro de Mary-Anne com os braços abertos, abraçou-a e beijou-a nas faces.

 

Fico sempre contente quando regressas disse ele em espanhol. O meu coração rejuvenesce quando te vejo.

 

É costume tirar-se o chapéu quando se cumprimenta uma senhora exclamou o Dr. Rainherr com prazer.

 

Fernando largou Mary-Anne e voltou-se lentamente para Rainherr. Parecia uma filmagem em câmara lenta, mas tão lenta, que dava a sensação de se estar a assistir a uma situação manifestamente perigosa. Os olhos negros de Fernando reluziam, e os pontos pretos nas pupilas eram de uma frieza impiedosa.

 

Lamento informá-lo, mas a Mary-Anne trata dos negócios do mar e eu dos de terra! declarou ele. Soava a uma apresentação prosaica entre dois novos sócios de negócios.

 

Deviam trocar de papéis, Senhor Dalques.

 

Podemos conversar acerca disso.

 

O ar do mar é saudável. Um encanto...

 

Em breve teremos ocasião de verificar esse encanto. A primeira troca de galhardetes.

 

Ficaram frente a frente, Rainherr mais alto que Dalques quase dois palmos, mais largo, mais forte, mais ginasticado. Poder-se-ia pensar que tinha mais hipóteses contra Fernando. Mas uma ratazana também é muito mais pequena do que um homem e atreve-se a atacá-lo.

 

Dava a sensação que Fernando Dalques ia ter um dia em cheio. Deixou o Dr. Rainherr ali especado, como se fosse um dos caixotes que por ali estavam no cais e voltou-se novamente para Mary-Anne.

 

Jim McDonald e o barbudo vinham de bordo e desviaram-se do grupo quando se dirigiram com os documentos do barco para o capitão do porto.

 

Mesmo que Belize fosse uma cidade ignorada pelo resto do mundo, a burocracia importada de Inglaterra funcionava sem complicações, sobretudo naquilo que dizia respeito ao porto. Uma vez que o iate Altun Ha não estava registado como barco de recreio ou de apoio a veraneantes devido às suas dimensões, pertencendo o seu registo de propriedade à Lloyd Internacional, as chegadas e partidas tinham de ser comunicadas à capitania do porto. Só podia atracar após validação por parte das entidades oficiais.

 

Em Belize, um carimbo oficial continuava a ser a coisa mais importante e a benevolência de um funcionário público a garantia de uma vida sossegada. Sabe-se, através de escrituras antigas que os Maias e os Incas já possuíam funcionários. Diz-se o mesmo dos Astecas e de o Egipto antigo ter sido governado por uma grande hierarquia de funcionários. E o que é que se passou com Adão, o primeiro homem? Há brincalhões que asseveram que se tornou funcionário público e que tomava conta do Paraíso.

 

Passados todos estes anos, fiz pela primeira vez uma asneira disse Mary-Anne.

 

No cais do porto principal chiava uma barca velha que carregava um cargueiro alemão com barris de melaço de cana-de-açúcar. Camiões acarretavam tábuas de mogno para o porto. Chegavam troncos, trazidos das impenetráveis florestas virgens no interior de Belize por tractores e camiões e transportados através dos rios em grandes jangadas: material do melhor transformado em contraplacado na Europa ou nos Estados Unidos.

 

Aquele porto era a única porta de Belize para o mundo, a partir do qual se podia visitar as discretas riquezas do país. O pequeno aeródromo era completamente descabido, uma vez que não tinha sido construído de modo algum para o tráfego aéreo internacional. Quem se quisesse deslocar de avião para Belize teria de vir de helicóptero a partir da Guatemala ou do México, raramente de Cuba ou da Jamaica. Um avião a jacto da Florida com poucas possibilidades de aterragem ou de descolagem constituía uma aventura muito pouco excitante. O helicóptero aterrava uma vez por mês, de forma a que o seu proprietário, um tal Mr. David Sylverstone, pudesse apertar a mão a Fernando Dalques. Sylverstone dedicava-se em Tampa a um negócio de importação e exportação de ”artesanato local e de peles de animais tropicais”.

 

Aprendemos sempre com as asneiras que fazemos disse Fernando com um ar sábio, colocando o braço à volta dos ombros de Mary-Anne.

 

Rainherr observara esse gesto com a testa franzida. Entendia aquele tipo de atitude como: ”Estou no meu direito.”

 

O Jim contou-me tudo através do rádio. Presumo que tenha sido um erro não terem afundado imediatamente o barco desse alemão!

 

É que está preso por um arpéu! disse Rainherr num tom irónico.

 

Alguém falou consigo? rosnou-lhe imediatamente Fernando Dalques. E já agora, uma informação: se vir algures um polícia... por exemplo, ali atrás estão dois... e tiver a intenção de dar o alarme ou procurar ajuda... é inútil!

 

Porque você aqui compra tudo. Isso já eu percebi.

 

Eu protejo as famílias. Os ordenados dos polícias são miseráveis.

 

Que criatura generosa! Gostaria um dia de o abraçar! É raro encontrar benfeitores como você num mundo tão corrupto como este! Estou comovido, Don Fernando.

 

Tenho a impressão de que desconhece totalmente a situação em que se encontra.

 

De maneira nenhuma! Encontro-me em solo do Belize pela primeira vez na vida e acho isto tudo absolutamente romântico. Já conheço a Grande Barreira, os atóis, as praias fantásticas com as suas águas limpas e transparentes. Um dos últimos ditosos países que se isolaram do capitalismo internacional.

 

Fernando Dalques virou-se ligeiramente para Mary-Anne.

 

Trouxeste um louco para aqui? perguntou desconfiado.

 

Ele salvou-me a vida.

 

Bom, digamos que prestou alguns primeiros socorros. Vamos mostrar imediatamente a ferida ao doutor Ynares. Dalques voltou-se para o Dr. Rainherr e apontou para um enorme carro de luxo americano estacionado à sombra de um armazém.

 

Vamos!

 

Com todo o gosto. Não tenho nada contra tomarmos uma bebida fresca.

 

Siga à minha frente.

 

Faça favor. Imagine que fujo para a Guatemala, pelo rio, montado num crocodilo. Aceito que sou um prisioneiro. Terá oportunidade de ver a aquisição que fez!

 

Cale-se, Andreas! exclamou Mary-Anne, desta vez em inglês. Porque é que o quer enfurecer?

 

Porque é exactamente o tipo de pessoa que apetece maltratar ininterruptamente, seja onde for!

 

Rainherr dirigiu-se para o carro e passou a mão sobre a pintura cinzenta metalizada. Fernando entrou e premiu um botão fazendo o tecto desaparecer algures pela comprida carroçaria adentro. Estofos em couro vermelho brilhavam com a luz do Sol. Premiu outro botão, e uma música para dançar começou a sair de quatro colunas ocultas.

 

Parece que a navegação dá lucros; o automóvel convence-me! comentou Rainherr. Don Fernando, o senhor descobriu a pólvora. Na realidade não se percebe como é que a pirataria pode ter caído no esquecimento durante tantos séculos.

 

Sentou-se no assento de trás, enquanto Dalques e Mary-Anne se sentavam à frente.

 

A resposta é simples. Fernando arrancou a grande velocidade, deixando para trás a zona do porto. Mal se ouvia o motor: doze cilindros que trabalhavam quase silenciosamente. Desde a Segunda Guerra Mundial, nunca se viu tanta riqueza ostentada publicamente. É quase inacreditável aquilo que os milionários do Norte e do Sul da América arrastam consigo nos seus iates. A minha colega assaltou uma vez um iate mexicano com três milhões de dólares em divisas e quatro milhões em jóias.

 

Assim, vive-se bem! Cuidado...

 

Rainherr inclinou-se e acariciou carinhosamente a nuca de Mary-Anne. Ela encolheu os ombros e cerrou os dentes. A sua cara felizmente que Dalques, devido à condução não estava a olhar para o lado ficou tensa, mas irradiava uma satisfação interior. Só quando Rainherr deixou escorregar a mão sobre os seus ombros e costas é que se debruçou para a frente, de forma a que ele não lhe pudesse tocar sem passar despercebido.

 

O Dr. Rainherr viu pouco da cidade de Belize. Fernando deu a volta à cidade por uma estrada ampliada que fora inclusivamente alcatroada, tendo chegado ao bairro de vivendas, junto ao rio de Belize, outrora floresta virgem e transformado em paisagem de parque natural. Os compridos bangalós brancos quase desapareciam sob a abundância de arbustos e de árvores em flor.

 

Você é boa pessoa! comentou Rainherr. Dalques estremeceu.

 

O que quer dizer com isso?

 

Construir casas destas para as famílias pobres dos polícias! É aqui que moram os funcionários, não é?

 

Fernando engoliu esta nova provocação, curvou numa estrada lateral e parou à frente de uma vivenda de estilo colonial espanhol. O luxo exterior dava a entender como seria por dentro. Um empregado nativo vestido de libré branca, uma mistura de negro, espanhol, índio e um bocadinho de chinês saiu precipitadamente de casa assim que Dalques tocou a buzina. Calçava luvas brancas e deteve-se debaixo da majestosa coluna do portão.

 

Este é o homem que vai liquidá-lo anunciou Fernando delicadamente a Rainherr, depois de ter travado. O Pedro Luba conhece bem esta região.

 

Antigamente os carrascos usavam luvas pretas...

 

- Ele já vai trocá-las por sua causa!

 

Dalques ajudou Mary-Anne a sair do carro e acenou com a cabeça a Pedro Luba. Este dirigiu-se para a segunda porta, junto à qual Reinherr estava sentado.

 

Meu jovem rapaz comentou Rainherr em alemão, estás dez centímetros longe de mais. És corajoso, verdade seja dita, mas és burro se pensas que um simples aceno de cabeça do teu Fernando Dalques me provoca arrepios na coluna.

 

Pedro Luba olhou perplexo para Rainherr... Não conhecia aquele tipo de linguagem. Mas sabia o que tinha de fazer, mesmo sendo a primeira vez que um intruso aparecia lá em casa... demais a mais trazido pessoalmente pelo chefe. Abriu bruscamente a porta do carro, ficando de repente ao alcance dos braços de Rainherr.

 

Foi tudo muito rápido. Pedro parecia uma bola branca a voar pelos ares por cima do carro. Foi aterrar no outro lado, estatelando-se na estrada de saibro. Infelizmente caiu tão mal que, quando voltou a si, estava estendido, como que paralisado, com os olhos completamente esbugalhados.

 

Mary-Anne soltou um grito... Vá-se lá saber se de medo ou de reconhecimento.

 

Infelizmente a libré vai ter de ser lavada disse Rainherr calmamente, descendo do carro. Ora! Não se mexa. Don Fernando, devia ir buscar o seu doutor Ynares.

 

Dalques exibia de repente um estilete na mão. A sua cara muito meridional, que até ali permanecera razoavelmente amável, parecia agora o focinho de uma ratazana. Onde fora desencantar o estilete? Rainherr considerou aquilo um trabalho de mestre, reagir assim tão de repente, do nada.

 

Com a faca, não! gritou Mary-Anne. Já me chega de facas!

 

É verdade, Don Fernando concordou Rainherr. Miss Tolkins ficou alérgica ao tinir das facas. Presumo que tenha um cozinheiro em casa! Durante os próximos dias, só o devia deixar preparar cozinhados que possam ser comidos sem faca.

 

Rainherr passou por Mary-Anne encaminhando-se para o portão e olhou com curiosidade para o gigantesco átrio por detrás da ampla porta de madeira, protegida com um gradeamento. A porta estava esculpida com ricos motivos índios. Só a porta era um tesouro artístico que valia uma pequena fortuna. Um átrio digno de um rei.

 

Fernando Dalques não se preocupava nem com Pedro Luba, que se levantara a gemer apoiando-se no carro, nem com o automóvel. Empurrou o Dr. Rainherr para o lado e entrou em casa passando-lhe à frente.

 

Um malcriadão! praguejou Rainherr em espanhol. É costume deixar passar as senhoras à frente! Agarrou Mary-Anne galantemente pelo braço. Permita-me, lady.

 

Apetecia-me esfaqueá-lo sibilou Mary-Anne sem prestar atenção ao braço. Desapareça daqui, seu macaco presunçoso!

 

Para onde? Você desviou-me para aqui, foi este o segundo grande erro. De facto devia ter permitido que me atirassem aos tubarões. Pelo que tenho aprendido aqui, cada vez me convenço mais de que é uma grande burra. Tem tanto de bonita, Mary-Anne, quanto tem de ruim.

 

Espero que nunca se esqueça daquilo que disse replicou ela numa voz ríspida. Vamos lá, entre para dentro de casa!

 

Houve uma época em que Andreas Rainherr admirava as pessoas que possuíam uma casa. Desejara ter uma como a que o seu director possuía nas belas florestas dos países montanhosos. Conhecera o mundo dos milionários quando começara a ganhar muito dinheiro com a sua patente, e a fazer o que queria..

 

Na Florida, em Las Vegas, em Nova Jérsia, em Holly wood e em Los Angeles, nas montanhas da Califórnia, nas Baamas, nas Bermudas e no arquipélago das índias Ocidentais, conhecera casas que ultrapassavam todas as dimensões. Casas onde não se vivia, mas residia.

 

O que aquele Fernando Dalques ou quem quer que fosse construíra ali excedera certamente algumas casas de sonho de Beverly Hills. Não se tratava apenas da conjulgação da grandeza com o luxo, mas sobretudo da pureza de estilo, pensada até ao mais ínfimo pormenor.

 

Aquilo que entre os milionários americanos degenerava facilmente em superpiroso, tinha-se tornado ali, nos limites da floresta virgem de Belize, o exemplo da cultura maia antiga e da grandezza espanhola, sem contudo se ter esquecido que no século xx se vivia, com todas as vantagens, de um conforto mecanizado.

 

Por exemplo, a enorme janela de correr que dava para o terraço e para o jardim descia silenciosamente pelo chão adentro, o aparelho de ar condicionado providenciava a temperatura adequada aos quartos, e a gigantesca piscina podia ficar tapada com uma cobertura amovível, cujas janelas laterais emergiam do chão, formando em pouquíssimo tempo uma piscina coberta. Era algo que o Dr. Rainherr nunca vira.

 

Dalques indicava a casa... não para impressionar, mas porque, segundo ele, vinha aí chuva. Aproximavam-se nuvens escuras vindas da Guatemala, que se avistavam sobre a floresta virgem.

 

Vamos sentar-nos na sala das orquídeas ordenou ele passando novamente à frente.

 

Chegaram a uma grande divisão, quase toda construída em vidro, como uma estufa. Em grandes vasos de barro, de longos troncos mortos pendiam do tecto as mais belas orquídeas regadas artificialmente com água recolhida da chuva. Pairava no ar um perfume pesado e atordoante. Diz-se que as orquídeas são a essência da beleza, mas que não têm cheiro. Nesse caso, Dalques devia ter plantado espécies cujo aroma, como tudo naquela casa, excedia todos os aromas de flores.

 

Mandou vir chuva? perguntou Dalques virando-se para o Dr. Rainherr, enquanto se sentavam em confortáveis cadeiras de vime com grandes almofadas.

 

Neste magnífico jardim encantado podia... beber-se champanhe! interrompeu Mary-Anne. Você e o seu champanhe!

 

Fernando olhou de um para o outro, até que Rainherr decidiu esclarecer.

 

Estivemos a beber champanhe no Altun Ha, Miss Tolkins e eu. Para festejar o seu ligeiro ferimento.

 

A ferida! Fernando levantou-se de um salto. Vou chamar imediatamente o doutor Ynares.

 

Não por causa da Mary-Anne... O seu Pedro está mais necessitado. Relativamente a Miss Tolkins, só se vai notar uma finíssima cicatriz, mesmo acima do seu peito encantador.

 

Fernando abandonou a sala em silêncio.

 

Oxalá ele o envenene já! proferiu Mary-Anne furiosa. Também lhe quer contar que me viu nua?

 

Se ele estiver interessado...

 

O Dr. Andreas Rainherr não foi envenenado, nem apunhalado.

 

Parecia uma coisa de loucos. Dalques, Mary-Anne e o Dr. Rainherr sentaram-se como bons amigos, beberam refrescos com gelo enriquecidos com rum e falaram sobre os problemas do mundo e da pirataria em particular. Fernando era um autêntico vigarista, tão certo como dois e dois serem quatro...

 

Acredito que tudo o que disse seja verdade, senhor Rainherr disse Dalques finalmente. O seu capital é o seu barco, tem uma casa em Cayman Brac, vive de uma pensão que lhe é garantida devido a uma descoberta que fez e, de resto, não exige nada da vida, a não ser que o deixem em paz.

 

Compreendeu perfeitamente, Don Fernando respondeu Rainherr com delicadeza.

 

Mas todos temos um preço. Você também! Avaliemo-lo por baixo: quinhentos mil dólares!

 

Rainherr riu-se.

 

E quem é que os vai pagar?

 

A sua filha.

 

A Annette? A cara de Rainherr ficara séria de repente. Deixe a rapariga fora dos seus planos, Don Fernando!

 

Ah! É esse o seu ponto vulnerável.

 

Seja! Mas... repare que até agora, seja onde for que tenha estado, liguei todas as tardes para Cayman Brac, do meu barco. Tenho um bom rádio e mantive-me sempre em comunicação com a minha filha, através de uma frequência de ondas curtas. Ultimamente não o tenho feito. Conhecendo a Annette como conheço, há muito tempo que alertou a polícia de Caimão. Nos dois últimos dias o mar das Caraíbas esteve liso como um lençol... Não posso ter morrido numa tempestade.

 

Cayman Brac fica longe.

 

Não tão longe quanto isso. Na Grande Caimão estão estacionadas duas vedetas rápidas. Quando elas partirem...

 

Quem é que se vai lembrar de Belize?

 

A última comunicação que fiz foi para dizer que estava a pescar nos atóis. A sul do recife Glover. Rainherr sorria ironicamente. O terceiro erro, Mary-Anne: se me procurarem, vão encontrar o meu barco e o Juan Noales. Para que entenda, Don Fernando: a pessoa referida é o meu timoneiro!

 

Como é possível uma tal asneira? gritou Dalques, levantando-se de um pulo. Onde é que deixaste os miolos? Vou mandar zarpar imediatamente e afundar esse barco, percebeste bem, Mary-Anne?

 

Vais mandar zarpar? Tu? Pela primeira vez Rainherr percebeu, com uma satisfação íntima, a relação entre Mary-Anne e Don Fernando. Estava secretamente deliciado.

 

Mary-Anne deixara-se ficar sentada, mas fincara os pés no chão, e os seus grandes olhos negros arregalaram-se bruscamente de raiva. Era novidade para ele... Durante todas as desavenças e discussões, o Dr. Rainherr nunca se apercebera de que ela piscava os olhos, como se quisesse visar alguém.

 

O mar é o meu território! E eu sou a única a decidir o que fazer com o barco!

 

Que vale quinhentos mil dólares! E que a filha vai pagar! gritou Fernando.

 

E depois?

 

Ele sabe de mais, viu de mais... O que é que nos resta?

 

Dalques andava nervoso de um lado para o outro. Parou com as costas voltadas para o Dr. Rainherr.

 

Somos homens de negócios! Não podemos fazer asneiras.

 

Estou a perceber. Rainherr anuiu com a cabeça. Embora seja uma pessoa insuperável, a Mary-Anne levou a firma a uma situação precária. No entanto, a minha morte não só não lhe servirá absolutamente para nada, como também não irá receber quinhentos mil dólares por mim. Não os tenho, pura e simplesmente, e nenhum banco nas ilhas Caimãs os vai emprestar para me libertar das garras de piratas. Não seria um bom negócio para esses banqueiros. Os seus lucros estão isentos de impostos; dinheiro sujo do mundo inteiro, que estes bancos aplicam nos mercados internacionais. Mas um resgate por mim? Nunca!

 

Todavia, reconhece que representa um grave problema para a nossa empresa?

 

Sempre insisti nisso. Com uma reserva...

 

Que é...?

 

A Mary-Anne! Prometi esquecer tudo... por amor à Mary-Anne!

 

E quem me garante isso?

 

A minha presença. Ontem à noite tive oportunidades suficientes para fugir. No entanto... onde é que me encontro agora? Em Belize! Sou um prisioneiro voluntário. E pretende extorquir-me quinhentos mil dólares? Don Fernando, que espécie de procedimento comercial é esse? Mesmo sendo um vigarista, presumo que prevaleça em si o caballero espanhol.

 

Este homem é completamente maluco! gritou Fernando, estupefacto. Não pode continuar vivo!

 

Tem de se decidir de uma vez por todas. O Dr. Rainherr levantou-se. Vou passear um bocadinho e contemplar o fausto do seu jardim. Quando voltar, espero que já saiba finalmente se me vai matar. Tenho de me preparar psicologicamente...

 

Deixou o perplexo Fernando especado, abandonou a sala das orquídeas passando por uma das portas envidraçadas e foi passear para lá da piscina emoldurada a mármore.

 

Parou, meditativo, como se estivesse a pensar se havia de despir a roupa e saltar para dentro daquela água transparente.

 

Ele vai continuar a viver! disse Mary-Anne, decidida.

 

Isso é impossível...

 

Nós tínhamos combinado: nada de mortos! Disso eu não abdico!

 

Adoras esses malditos heróis alemães, não é?

 

Não! Vamos pô-lo à prova.

 

Como?

 

Daqui a pouco vai ter oportunidade de comunicar com a filha através do nosso rádio. Estou ansiosa por saber o que irá dizer.

 

Também eu! Fernando Dalques tamborilou no cinto das calças, onde enfiara o estilete. Vou ficar de olho nele.

 

E eu em ti... Fixou novamente Fernando com os olhos semicerrados. Aquilo em que te tornaste deves-mo a mim.

 

E quem é que evitou que te tornasses na puta mais bonita do porto de Cartagena?

 

Não precisamos de nos insultar, Fernando!

 

Claro! Trouxeste esse Rainherr contigo! Nós temos uma empresa, Mary-Anne, que nos tornou milionários e que corre sem problemas... até agora! Perdeste o juízo?

 

Ele salvou-me a vida, já to tinha dito.

 

E vai destruir a nossa empresa!

 

Foi a única pessoa a defender-se de um assalto! Maldito, eu não consigo matar... Por isso, vai continuar vivo! Tive de o trazer, para o ter sob controlo.

 

Mas como é que o queres controlar? Fernando riu-se quase histericamente. Vai passear para o jardim e prepara-se psicologicamente para morrer! Já se ouviu assim uma coisa?

 

Olharam os dois por acaso para a piscina e ficaram paralisados. Sem que Andreas Rainherr visse, Pedro Luba saiu furtivamente dos arbustos. Nas suas mãos espreitava um fino cabo de aço.

 

Uma morte instantânea e silenciosa... moderna, requintada. Antigamente os índios utilizavam finas cordas de cipó para o efeito.

 

Há pessoas cujo faro para o perigo é muito apurado.

 

É algo que não se consegue explicar; como aquelas pessoas que prevêem o futuro ou possuem o dom de irem buscar factos aos séculos passados através de uma visão interior.

 

É um pressentimento que não especifica o tipo de perigo... é apenas uma sensação incómoda de que vai acontecer alguma coisa!

 

Andreas Rainherr pertencia ao tipo de pessoas que pressentem o perigo. Fora por isso que no dia anterior ficara tão espantado consigo próprio, pois não tivera essa sensação quando o timoneiro Jim se aproximara sorrateiramente. A culpa tinha sido do tubarão, concluiria ele mais tarde. O tubarão à frente da sua cana de pesca... ”O ódio mortal ao tubarão abafa em mim todos os outros pressentimentos”, pensou ele. ”Quando vejo um tubarão, fico sozinho com ele, no mundo...”

 

No jardim dos piratas, não viu nenhum tubarão na água transparente da piscina, embora Pedro Luba rastejasse como um gato na sua direcção. O cabo de aço cintilou com a luz do Sol e o seu reflexo aumentou rapidamente.

 

”Mais dois metros”, pensou Rainherr. ”Ainda mais um metro. Deve estar neste momento a levantar a mão com o cabo de aço... agora deve estar mesmo atrás de mim.”

 

Deu um salto para o lado, ao mesmo tempo que levantava a mão. Apanhou no ar o braço esquerdo de Pedro, que estalou como madeira seca a quebrar. Luba ainda conseguiu saltar para a frente com a cara retorcida... O seu instinto de sobrevivência fê-lo esquecer as dores.

 

Rainherr bateu-lhe novamente. Queria encontrar a carótida de Pedro, mas Luba voltou-se no ar como um gato e Andreas só conseguiu agarrar os seus ombros... O golpe atirara com Pedro de novo para o chão. Com uma rapidez sem igual, Luba lançou o cabo de aço ao pescoço de Rainherr, puxando-o para si de um só golpe.

 

Tinha sido a sua última demonstração.

 

Um tiro soou do terraço e, como que empurrado por um enorme punho nas costas, Luba cambaleou para a frente, aterrando à altura dos joelhos de Rainherr. Da sua boca saiu uma golfada de sangue que salpicou as calças de Rainherr. Luba rolou sobre a borda de mármore da piscina e caiu na água transparente. Uma poça vermelha alastrou-se à sua volta.

 

Mary-Anne e Fernando acorreram vindos de casa. Ela foi mais rápida do que ele. Corria a passos largos sobre a relva, gritando incessantemente por um nome:

 

Andreas! Andreas! Andreas!

 

Segurava a pistola, que lhe caiu da mão quando chegou à piscina, deslizando na laje de mármore.

 

Com um último grito atirou-se para o Dr. Rainherr e abraçou-o.

 

Matei! gritou ela, encostando a cara contra o seu peito. Matei uma pessoa! Pela primeira vez! Mas tu estás vivo... estás vivo... estás vivo...

 

A seguir desatou a chorar convulsivamente, aninhada nos seus braços.

 

Fernando Dalques chegara à piscina e fitava o cadáver de Pedro.

 

Temos de mudar a água... disse num tom de voz insensível e esfregar meticulosamente os azulejos.

 

Era tudo o que tinha a dizer a esse respeito. A seguir, aproximou-se do Dr. Rainherr.

 

Não me vai acreditar, mas posso garantir-lhe que o Pedro desta vez não agiu mandado por mim.

 

Custa-me a acreditar, confesso.

 

Tratou-se exclusivamente de uma vingança pessoal.

 

Mas que lhe daria muito jeito.

 

Isso é outra conversa. Fernando apanhou o revólver da laje de mármore e enfiou-o no cinto.

 

O Dr. Rainherr abanou a cabeça.

 

Porque é que não dispara?

 

Podia acertar na Mary-Anne. Ela agarrou-se a si como a um escudo. Além disso, chegámos a um acordo: primeiro vamos buscar o seu barco, e mais tarde continuamos com as negociações. Amanhã cedo trazemos o seu timoneiro.

 

É um gesto muito simpático da sua parte. O Dr. Rainherr sorriu delicadamente. Mas vai ser complicado: outra testemunha ocular! Seria mais simples levar-me de volta para o meu barco e ajudar-me para que o possamos reparar provisoriamente, de forma a podermos chegar às Caimãs. Mantenho a promessa de não falar acerca de nada.

 

Mary-Anne tinha-se acalmado. Desviando o olhar da piscina com a água tingida de sangue, voltou para casa, levando Rainherr consigo pela mão. Só quando chegou ao terraço é que conseguiu voltar a falar. Deixou-se cair em cima de uma cadeira e evitou olhar para o jardim.

 

Chegaram dois jardineiros, também nativos que, tal como a maior parte dos habitantes de Belize, eram uma mistura de vários povos e cores. Despiram-se e saltaram nus para dentro da piscina, para retirar o cadáver de Luba. Deitaram-no na borda de mármore, pegaram-lhe pelos ombros e pelas pernas e levaram-no dali.

 

Desvendou-se então o enigma disse Rainherr, bem-disposto. Mary-Anne, acabou de provar que tem uma excelente pontaria! Um tiro tão certeiro a esta distância... Não faria melhor.

 

Peço-lhe que não continue... balbuciou ela, fitando-o com olhos esbugalhados de pavor.

 

Com um talento destes, não existe nada que a impeça de ampliar a empresa! Podia, por exemplo, efectuar assaltos de surpresa, disparando com tiros de canhão...

 

Fernando, dá-me outra vez o revólver! pediu Mary-Anne com firmeza. Não aguento mais este tipo... Levantou-se de um salto, antes que Fernando tivesse tempo de tirar o revólver do cinto das calças e correu para dentro de casa.

 

Julgava que você não passasse de um atrevido exclamou Dalques abanando a cabeça. Mas vejo que é um perfeito idiota. Ainda quer falar com a sua filha?

 

Como? Rainherr ficou tão surpreendido com a pergunta que não conseguiu responder de imediato.

Podia entrar em comunicação com ela, através do rádio de nossa casa. Fernando sorriu outra vez com despeito, o que reforçou ainda mais a sua expressão de ratazana. Dispomos das mais recentes tecnologias. Se me quiser acompanhar...

 

Atravessaram a enorme casa, e só naquele momento é que Rainherr se apercebeu de que esta se organizava em várias alas: a parte habitável propriamente dita, que se assemelhava mais a um antigo castelo espanhol, uma ala comprida de escritórios e uma ala com as cavalariças, os quartos dos criados e uma garagem para os enormes carros e camiões.

 

Está espantado? perguntou Fernando num tom ligeiro.

 

Sem dúvida. Não sabia que a pirataria tinha necessidade de uma gestão destas. É uma indústria muito completa.

 

Então já percebeu, Senhor Rainherr. Dedicamo-nos à exportação de artesanato local e de peles de animais, sobretudo de crocodilos e jibóias.

 

A Mary-Anne já me tinha contado. Pensei que fosse um disfarce, na pior das hipóteses para a obtenção de lucros adicionais...

 

Tão bom, que até temos um assessor jurídico, um advogado para tratar das relações comerciais. A nossa empresa possui uma excelente reputação. Abastecemos o mundo inteiro a partir de Tampa, na Florida, onde está estabelecido Mister Sylverstone. Também encontra pele de crocodilo da nossa, na sua terra, na Alemanha. A indústria do couro em Offenbach e em Pirmasens é exportada por nós.

 

E porquê então a maldita pirataria?

 

Que pergunta! No seu país não existem também problemas suficientes com várias espécies de actividades?

 

Isso é incontestável e evidente!

 

O Dr. Rainherr acenou com a cabeça. Chegaram a uma grande divisão, a abarrotar de material técnico. Um gigantesco equipamento de rádio ocupava metade da parede frontal. Um telex e a matraquear... Num grande ecrã podia verse a imagem de uma parte do porto principal de Belize.

 

A nossa televisão de controlo do porto esclareceu Fernando, orgulhoso. Estamos neste momento a carregar peles para serem transportadas para a Grã-Bretanha. Os rapazes vão duas vezes por mês à floresta virgem buscar as presas. Mais tarde são curtidas e preparadas em fábricas de curtume próprias, um tratamento conhecido na indústria do couro.

 

Dalques fazia sinais com a mão. Os dois empregados de batas brancas e asseadas abandonaram o recinto.

 

Como pode ver, a nossa empresa em Belize é muito respeitável. Mantemos excelentes relações com o governo.

 

E ninguém suspeita do que fazem com o vosso Altun Ha O iate de luxo de uma senhora rica, que goza a vida...

 

Dalques parou à frente do rádio e apontou para o aparelho.

 

Agora que já sabe tudo e já viu tudo, só lhe resta uma alternativa, doutor Rainherr: colaborar ou morrer!

 

Deu um passo para trás e sorriu novamente.

 

Pode conversar com a sua filha o tempo que quiser!
Quando Andreas Rainherr se encontrou sozinho na sala do rádio sentou-se à frente do aparelho e hesitou.

 

Perto de si, o ecrã de televisão de vidro opaco mudava constantemente de imagem... As câmaras automáticas no porto rodavam para cá e para lá, transmitindo sempre novos planos. Durante algum tempo, Rainherr viu Jim McDonald e o barbudo sentados em frente de uma modesta taberna no cais, a beber qualquer coisa forte. Ao seu colo estavam sentadas duas bonitas nativas muito novas.

 

”Seja em que parte do mundo for”, pensou Rainherr, ”os portos são todos iguais. E, onde há um porto, há putas.” Observou com satisfação a imagem do timoneiro no ecrã, a maneira como segurava a rapariga pela blusa e a agarrava com toda a força. A rapariga ria. Na sua cara castanho-amarelada reluziam uns dentes brancos. Uma vez que só eram transmitidas imagens, e não se ouvia nenhum som, Rainherr não conseguia perceber a gritaria de Jim. Deviam ser comentários muito pouco próprios, pois o marinheiro barbudo engasgara-se com o riso e curvara-se devido à tosse.

 

”Annette”, pensou Rainherr. ”Devo contar-lhe a verdade? Devo deixá-la actuar: polícia, marinha das Caimãs, vedetas rápidas de busca nos atóis? Amanhã cedo, quando o Altun Ha partisse para ir buscar o Juan e o Annette, já as vedetas rápidas estariam há muito no recife Glover. Perante esta surpresa o iate da Mary-Anne já não poderia escapar, os lançadores de canhões de grande alcance fariam todo o trabalho e mandariam o Altun Ha pelos ares.

 

Mary-Anne e Fernando esperavam numa divisão contígua, à frente de outro ecrã mais pequeno que transmitia de uma câmara escondida na sala do rádio. Microfones e altifalantes transmitiam todos os sons.

 

Viram como Rainherr hesitava e como agarrava devagar nos auscultadores. Não devia saber que tinham instalado um amplificador que transmitia a sua conversa para a divisão do lado.

 

Porque estará a hesitar? perguntava Mary-Anne baixinho, embora ninguém os pudesse ouvir.

 

Quer pregar-nos uma armadilha e não sabe bem como respondeu Fernando. Ah! Agora está a sintonizar a frequência das ondas curtas.

 

No altifalante ressoou o típico e horroroso barulho estridente de uma ligação, um apito que soava a um grito agudo. Rainherr encontrou finalmente a sua frequência de onda e ficou espantado com a clareza e a nitidez do seu apelo. Já antes ficara espantado com os poderes do éter... Houve algumas interferências de sinais de rádio de barcos de guerra e da polícia. Com aquele moderno equipamento de rádio, o Fantasma das Caraíbas obtinha a informação exacta de cada movimento do inimigo.

 

Andreas Rainherr olhou para o relógio. Não era a hora a que costumava ligar para casa, mas, se Annette estivesse preocupada, estaria com certeza perto do rádio.

 

Cá está... um estalido e um apito agudo assim que Rainherr sintonizou a frequência de ondas correcta. A seguir o barulho desapareceu e ouviu-se uma voz nítida de rapariga ressoar nos auscultadores de Rainherr e, ao lado, nos altifalantes.

 

Aqui AR Um. AR Um. Paizinho, és tu? Paizinho...

 

Sou eu, minha querida. Rainherr respirou fundo. Como é que estás?

 

Meu Deus, como é que tu estás? Porque é que não deste notícias? Estou aqui sentada há dezanove horas... Paizinho, onde é que te encontras? Estava à espera que anoitecesse para dar o alerta.

 

Boa! disse Fernando na sala do lado. Havia de ser bonito se fôssemos buscar o iate!

 

Paizinho... passa-se alguma coisa? Continuas nos atóis?

 

Sim, minha pequenina. Houve qualquer coisa no rádio que deixou de funcionar, mas o Juan voltou a arranjá-lo. Agora, está tudo bem. Ando por aqui à pesca. Os recifes de corais fervilham de peixes.

 

E quando é que voltas para casa, paizinho?

 

Em breve...

 

Isto é um erro resmungou Fernando Dalques.

 

Não podes dizer em que dia, paizinho?

 

Ainda não.

 

O Dr. Rainherr tossiu ligeiramente. Voltava a ter a sensação embora só ele se encontrasse naquela enorme divisão de não estar sozinho. ”Eles estão a ouvir”, pensou. ”Se não o fizessem, seriam amadores.”

 

Avistei aqui um tubarão pequeno exclamou ele enfaticamente. ”Uma besta assassina! Estou à espera que volte. Este, tenho de o apanhar!”

 

Paizinho, tem cuidado contigo. Já chega o que...

 

Annette engoliu o resto da frase, não era necessário estar sempre a falar no mesmo. De qualquer modo esse momento continuava muito presente, tanto para o pai como para a filha...

 

Se ele for demasiado grande para ti, deixa-o nadar. Por favor, paizinho...

 

Este tubarão julga-se forte e grande... mas eu dou cabo dele! Está agora muito próximo...

 

Estás a vê-lo, paizinho?

 

Ele está a ver-me! Quer armar-se em esperto, mas é um imbecil!

 

Percebes? Está a falar de ti comentou Mary-Anne, que se encontrava ao lado de Fernando. Sabe perfeitamente que estamos a escutar.

 

Não tenhas medo, pequenina sossegou ele a filha, desta vez numa voz tão terna como a que Mary-Anne desejaria para si. Não me vai acontecer nada. As informações meteorológicas são optimistas, o mar está liso. O que é que tens feito, minha pequenina?

 

Tenho estado à tua espera, paizinho.

 

E mais? Alguma novidade?

 

Na fábrica de conservas contrataram mais dez mulheres. As encomendas chegaram bem.

 

Isso é uma boa notícia. Annette, querida, volto a ligar-te amanhã. Não te preocupes comigo! Eu estou bem, melhor do que nunca... Beijinhos!

 

Beijinhos, paizinho...

 

Rainherr desligou o aparelho e retirou os auscultadores da cabeça. McDonald desaparecera do ecrã com a sua pega de porto. Por cima do bar havia três quartos exíguos com as cortinas corridas.

 

Ele tem uma fábrica de conservas! retorquiu Fernando entre dentes, com azedume. O rapaz já vale um milhão de dólares! Olhou de esguelha para Mary-Anne. Sabias disto?

 

Sabia. Encostou-se à parede e passou o olhar por Fernando. Parecia fixar o infinito. Sente-se melhor que nunca... Está feliz... disse ela em voz baixa.

 

Sabias da fábrica de conservas? berrou ele. E disseste-me que ele não tinha nada?

 

Se lhe tocas, disparo outra vez! afirmou Mary-Anne com muita calma. Já percebi que é fácil protegê-lo. Olhou com um ar quase absorto para Fernando e acenou repetidamente com a cabeça. É assim mesmo, Fernando. Quem lhe tocar, não sobrevive. Quase que acredito que Deus me perdoará...

 

Ao que parece, vamos ter desavenças entre nós... A sua voz soou um pouco áspera. Depois de tantos anos de êxitos em conjunto...

 

Se é o que tu queres...

 

E tudo por causa de um homem!

 

Por causa de um homem! Mary-Anne respirou fundo. Não entendes?

 

-Não. Há seis anos que me esforço por te... - Provavelmente é isso, Fernando. Ele não se esforça. Eu é que tenho de me esforçar.

 

A pequena mulher aranha, que explora a sua vítima. Ela encolheu os ombros.

 

Sabia que não te ocorreria uma comparação melhor.. Empurrou-o para o lado e retirou-se do aposento.

 

Fernando Dalques retorceu o seu bigode à Menjou, passou a mão várias vezes pelos caracóis negros e dirigiu-se para a sala do lado.

 

O Dr. Rainherr estava à janela a olhar em direcção a uma espécie de pátio onde dois camiões estavam a ser carregados. Empilhadoras acarretavam caixotes de um armazém. Nas tampas estavam impressos os nomes dos países destinatários... países do mundo inteiro, inclusivamente Sydney.

 

Existem assim tantos artesãos em Belize? perguntou mal ouviu Fernando entrar. Não se voltou.

 

Aquilo é bourbon americano. Não é uísque! Podemos exportá-lo por metade do preço.

 

E os direitos de importação? Fernando sorriu, compassivo.

 

O transbordo da mercadoria será feito no alto mar. O que se passar a seguir não interessa.

 

Um armazém de venda de aguardente por atacado, portanto! Você tem cada ideia, rapaz... O Dr. Rainherr afastou-se da janela. Então? Agradou-lhe a conversa que tive com a minha filha?

 

Bastante. Fernando retorceu a cara. ”O homem não se deixa apanhar.” Porque é que mentiu?

 

Eu menti? Sinto-me extraordinariamente bem! E, relativamente ao tubarão...

 

Eu apanho-o, senhor interveio Fernando com maus modos. Mesmo que a Mary-Anne tenha resolvido de rePente fazer o papel de ama. Quando um tubarão escapa à cana, acaba sempre por voltar atrás, até conseguir abocanhar.

 

O que é que vão fazer com o Pedro Luba?

 

Pedro Luba? Fernando olhou espantado para Rainherr. Quem é esse? Conhece um Pedro Luba, é? Algum colega seu?

 

Bom, já percebi! Não existe nenhuma repartição de recenseamento em Belize...

 

Quem é que se interessa pelos hábitos de pessoas que vivem na selva e na floresta virgem, doutor? Tão depressa vêm como se vão embora. Faz algum sentido tentarmos compreendê-los?

 

Andreas Rainherr acenou com a cabeça, calado. Tinha compreendido.

 

Se restasse ainda alguma esperança de vida, estaria com certeza nas mãos de Mary-Anne. De Fernando Dalques não havia nada a esperar, a não ser a morte.

 

Por enquanto, decorria tudo como nos contos de fadas: o Dr. Rainherr foi instalado no palácio branco colonial, tendo-lhe sido atribuída uma ala de quartos com um terraço e uma pequena piscina privativa.

 

Tinham posto ao seu serviço um negro com aspecto de campeão de pesos-pesados: fora efectivamente campeão de boxe de todas as categorias, em Belize. Só abandonara o ringue porque lhe faltara um empresário competente.

 

Fernando Dalques veio ao fim da tarde saber se o seu hóspede estava satisfeito.

 

Tenho boas notícias. Informámo-nos em Cayman Brac: você vale dois milhões limpos.

 

E chama a isso boas notícias?

 

Se a sua filha enviar esta quantia de uma maneira ainda a combinar, você passa a ser um homem livre, doutor.

 

Mente, Fernando! Eu sei de mais.

 

E vai manter-se calado, porque ama a Mary-Anne. Esses dois milhões... são um negócio meu!

 

E a Mary-Anne está a par disso?

 

Naturalmente.

 

E concorda...

 

O seu campo de acção é o mar. Neste momento, ela está em terra, doutor. E aqui em terra quem manda sou eu!

 

Onde está ela agora?

 

No escritório.

 

Ela tem mesmo um escritório? perguntou Rainherr, espantado. E gere a pirataria como se se tratasse de uma sociedade comercial? Quando descobrirem toda a papelada...

 

Quem é que a vai encontrar? Porventura a justiça de Belize? Dalques riu com malícia. Teriam de ter informações bem fundamentadas, e mesmo assim ninguém daqui iria acreditar que Miss Tolkins é uma pirata. Venha daí ver a empresa.

 

Era espantoso.

 

O mercado das peles e o artesanato local eram negócios perfeitamente normais... Mas as jóias roubadas e os outros objectos de valor, como os quadros, os tapetes e tantas outras peças saqueadas, provindas dos iates de milionários, já tinham a ver com negócios escuros, à escala internacional.

 

O Dr. Emano Casillas, o ”assessor jurídico”, foi apresentado a Rainherr. O velho advogado, um cavalheiro de aspecto cuidado, de cabelos brancos e boas maneiras espanholas, cumprimentou Rainherr com alguma reserva.

 

Já fora informado de que Miss Tolkins trouxera um hóspede que podia fazer explodir o negócio como uma bomba. Na opinião do Dr. Casillas, o erro que Mary-Anne cometera era irreparável. A não ser que se fizesse constar que esse tal Dr. Rainherr tivesse sido vítima de um acidente lamentável ao deslizar pelo rio. Havia velhos crocodilos raivosos, que já tinham virado barcos leves por várias vezes. Nunca ninguém conseguira resgatar os tripulantes das margens do rio, cujos cadáveres irreconhecíveis ficavam para ali, abandonados.

 

Mary-Anne encontrava-se no seu escritório à frente de um enorme mapa de parede com o mar das Caraíbas. Segurava umas folhas de telexe numa mão, e com a outra demarcava ilhas com alfinetes de cabeça vermelha.

 

Andreas Rainherr leu o nome das ilhas: São Bartolomeu, Anguilla, Nevis, St. Kitts e Ginger. As restantes zonas já tinham alfinetes verdes espetados.

 

Mary-Anne acenou satisfeita a Rainherr, enquanto espetava um alfinete em Nevis e dobrava as folhas do telexe.

 

A nossa filial enviou informações novas explicou Dalques. Os alfinetes vermelhos demarcam as posições dos iates americanos que tencionam ficar mais do que uma semana... Os alfinetes verdes assinalam os iates britânicos e de outras nacionalidades que cruzam esta zona do mar, que mudam de posição, mas que vão ficando por ali. Se calhar também por lá está algum iate alemão, quem sabe? Mais vítimas...

 

Chamemos-lhes antes... clientes! acrescentou Dalques ironicamente. Amanhã bem cedo vamos buscar o seu barco e regressamos a Belize. Acabamos de reparar o Altun Ha e partimos ainda durante a noite, rumo às ilhas Virgens britânicas.

 

É verdade, Mary-Anne? perguntou Rainherr numa voz sumida.

 

Sim. Uma empresa como a nossa está dependente da conjuntura do mercado. Apontou para as novas cabeças de alfinetes. Aqui raramente se concentram grandes iates. O Luís informou-nos de que estão lá dois barcos com uma empresa inteira de milionários da Florida. Tipo árvores de Natal com jóias penduradas.

 

Quem é o Luís?

 

O gerente da nossa filial explicou Dalques arreganhando os dentes. Agora não me pergunte onde fica essa filial, pois nunca o virá a saber! O Luís é, de todos os nossos empregados, aquele que desempenha a função mais importante: as sugestões chegam todas ao seu telex! Podemos contar sempre com ele. Além disso, é quem dirige a base de abastecimento quando a Mary-Anne se ausenta durante algumas semanas.

 

Impressionante!

 

Andreas Rainherr aproximou-se do mapa de parede das Caraíbas. Era um trabalho cartográfico de mestre. Estavam assinaladas todas as depressões e bancos de areia, todas as baías e línguas de areia e, principalmente, todos os potenciais esconderijos para onde o veloz Altun Ha poderia escapar dos seus perseguidores. Eram normalmente águas calmas entre os recifes, onde não entrava nenhum barco normal.

 

para o iate de Mary-Anne não constituía qualquer tipo de problema: era como um peixe-voador.

 

Um pequeno estado-maior.

 

A base do nosso êxito, Andreas.

 

Está tudo muito bem organizado... mas... E o roubo?! Juridicamente falando, um assalto, talvez com alguns ferimentos graves. Está bem formulado, doutor Casillas?

 

O ”assessor jurídico” olhou de Dalques para Mary-Anne, como que à procura de ajuda, pois não estava habituado a apreciações daquele tipo acerca da empresa.

 

Juridicamente falando, tem razão proferiu, hesitante.

 

Gangsterismo perfeccionista!

 

Se é assim que vê as coisas, Andreas. Mary-Anne afastou-se do mapa e levou os papéis para uma trituradora de papel. Meteu-os lá dentro. Caíram num saco de plástico transformados em tiras finas, ficando ilegíveis para sempre.

 

Aquilo que fazemos é apenas uma transformação dos bens em excesso. Retiramos, por assim dizer, os lucros. Quem for assaltado por mim esquece com facilidade os prejuízos causados.

 

Não é extraordinária, a Mary-Anne? perguntou Fernando, entusiástico. É esta a filosofia do futuro!

 

Naturalmente que também se pode abordar o problema da pirataria de uma perspectiva filosófico-socialista.

 

Andreas Rainherr sentou-se na poltrona atrás da secretária, na realidade, o posto de chefia de Mary-Anne.

 

Nesse caso, os lucros, se lhes quisermos chamar assim, devem ser distribuídos pelos pobres. Já lhe tinha até Perguntado se você não seria o Robin dos Bosques dos mares. Mas não! Não é! A riqueza ”retirada” volta de novo Para si, exclusivamente como riqueza. Vocês os dois... não estejam para aí com conversas de políticos em ano de eleições! Não passam de meros bandidos! Imbusteiros... e dos mais modernos, com rádio, telex e sonar!

 

Você constitui um verdadeiro problema declarou o Dr. Casillas, muito sério.

 

Para si também, doutor?

 

Como jurista, consigo ver com mais clareza o enorme erro que fizeram, não só em não o terem assassinado... por exemplo, à porta de casa... como também em o terem deixado viver e arrastado para aqui!

 

Que diacho! Sim, eu sei gritou Mary-Anne. Eu pressenti-o. Mas já não posso fazer nada.

 

Claro que não, se amanhã retirar os alfinetes vermelhos e recomeçar a assaltar outros barcos.

 

Quer que entre para um convento? gritou Mary-Anne, sarcástica. Eu tenho... tal como você!... uma empresa, responsabilidades. Dependem de nós trinta e quatro famílias, que ficaram de um momento para o outro sem trabalho. Os pobres mais pobres de Belize. Quando comecei, não tinha muito dinheiro na algibeira. Mas consegui construir o meu negócio com aquilo que tinha!

 

E o senhor, Don Fernando?

 

Eu possuía um capital inicial um pouco maior. Ainda assim, fui um carteirista bem-sucedido...

 

Fernando Dalques sorriu ironicamente. Quanto mais o Dr. Rainherr ouvia, mais evidente se lhe tornava que iria desaparecer. São uma realidade... as necessidades urgentes...

 

A sua franqueza deixa-me pensativo exclamou Rainherr por fim. Já decidiram o que vão fazer comigo?

 

Infelizmente, irá fazer parte daqueles que desaparecem nas Caraíbas.

 

Ah!

 

Irão acreditar. Não é só no triângulo das Bermudas que desaparecem barcos e aviões! Também acontecem fenómenos desses no mar das Caraíbas. O Dr. Casillas decidira finalmente o futuro do Dr. Rainherr. É a maneira mais elegante. Não queremos matá-lo, por isso, resta-nos o desaparecimento. Ainda pode contactar a sua filha uma última vez, através do rádio, onde lhe comunicará que está de regresso da viagem às ilhas Caimãs... e depois desaparece no mar, sem deixar vestígios. Parece-me perfeitamente verosímil.

 

Do seu ponto de vista, doutor Casillas.

 

O Dr. Rainherr virou-se para Mary-Anne, que se encontrava imóvel à frente do mapa sem se meter na conversa. Viu uma expressão de desespero estampada na sua cara.

 

Estou a pensar na minha filha Annette... O senhor por acaso tem filhos, doutor?

 

Seis respondeu Casillas orgulhoso. Quatro rapazes e duas raparigas.

 

Como é que elas se sentiriam se lhes comunicassem que o pai tinha desaparecido no mar...?

 

Não pode utilizar esse tipo de argumentação! berrou o Dr. Casillas. Você é uma espécie de presa, cujo futuro nos cabe a nós decidir!

 

Perdão! O Dr. Rainherr fez um gesto largo com a mão. Então, façam-no, meus senhores. Desconheço os planos da lady pirata.

 

Levantou-se e olhou para baixo. As suas calças ainda estavam vermelhas do sangue de Pedro Luba.

 

Posso pedir a alguém que me arranje outra roupa? Não é que seja muito sensível, mas incomoda-me o sangue de um estranho nas minhas calças.

 

Trazemos-lhe umas calças do seu ”ajudante”, até irmos buscar o seu barco respondeu Dalques.

 

Do meu campeão negro de boxe?

 

Assim de repente, não consigo arranjar nada melhor...

 

Não me importo de andar por aí em calção de banho. Afinal de contas, foi assim que a minha querida corsária me conheceu!

 

Façam o que lhes apetecer com ele! gritou Mary-Anne, furiosa. Passou ao lado de Rainherr e, ao passar, sacudiu os seus longos cabelos negros, acertando-lhe na cara. Não quero voltar a vê-lo...

 

Foi bem explícita! O Dr. Casillas esperou que a porta se fechasse atrás de si. Sendo assim, porque é que lhe salvou a vida e matou o Pedro?

 

Uma boa pergunta, doutor! Também o Dr. Rainherr fitava a porta fechada. As mulheres e os gatos têm uma coisa em comum: são imprevisíveis...

 

O Dr. Rainherr ficou durante três dias na sua sumptuosa prisão. Podia mover-se à vontade, nadava com frequência na sua pequena piscina, era enternecedoramente servido pelo ex-pugilista negro e podia, inclusive, ler os jornais de Belize. Veio a saber, para sua surpresa, que até nessa região esquecida do mundo as desavenças políticas dominavam a vida de todos os dias.

 

Não obstante, as pessoas de Belize eram pessoas amigáveis, por natureza. Pessoas, a quem o sol dourara a alma. Em qualquer parte das Caraíbas, o mais importante é o prazer de viver: cantar, dançar e amar estão em primeiro lugar, a seguir vem o rum, e só então aquilo que tem a ver com o conceito de trabalho.

 

Depois de os turistas terem descoberto que o mar das Caraíbas era um paraíso navegável, o turismo tornou-se um considerável ramo de negócios. Seja em Granada ou em Santa Lúcia, na Jamaica ou em Aruba, em Santa Cruz ou em Guadalupe, na Martinica ou em Antigua... Quem é que consegue enumerar todas as magníficas ilhas? Por toda a parte, crescem hotéis de luxo em direcção ao céu azul e os banhistas atiram-se à água azul-turquesa, protegida dos tubarões com fortes redes de aço esticadas até ao fundo do mar. Por toda a parte, quando a noite cai, o ar morno da noite enche-se com o som dos combos e de orquestras de baile, e por toda a parte pares abraçados embalam-se à volta das piscinas iluminadas por dentro, envolvidos pelo perfume adocicado dos hibiscos em flor.

 

Começa ali um novo mundo dos sentidos, um mundo que se tem de pagar com dólares ou marcos alemães, um novo rio de ouro no mar das Caraíbas... de certa forma uma cura tardia para o roubo, que fez deste povo, durante os séculos anteriores, um dos mais pobres do mundo.

 

Em Belize, sem dúvida que tudo isto fazia ainda parte do futuro...

 

Ainda se lá sonha tranquilamente, e quem se hospeda no Hotel Fort George, em Belize, são os verdadeiros individualistas. Os turistas, principalmente os americanos, começam a ser atraídos para pequenos hotéis perto das desenterradas cidades maias, das praias de San Pedro e dos atóis. São locais dispersos, cuja convivência consiste em beber rum ou planteur, onde os entusiásticos pescadores desportivos vão buscar peixe ao mar, tal como os camponeses da Europa antiga faziam com as batatas do campo; onde os corajosos mergulhadores desportivos deslizam até aos galeões afundados, para trazer para terra moedas ou canos de canhões cobertos de conchas e, sobretudo, onde milionários envelhecidos se entretém com jovens raparigas... cheios de uma bem-aventurada ilusão de que rejuvenescem, mesmo que isso lhes custe uma data de dólares.

 

É assim que decorre um dia normal no Belize e nas suas ilhas. Ninguém quer vir a sofrer de tuberculose, mas também ninguém pratica esforços excessivos, considerados aqui um autêntico veneno... Vive-se o dia-a-dia com um espírito radiante e, no máximo, lamentam-se os camaradas da Jamaica que ganham muito dinheiro, mas que, em contrapartida, têm de estar sempre prontos para os estrangeiros, tanto de dia como de noite.

 

Também o Dr. Rainherr tinha sido, por enquanto, deixado em paz. Não voltara a ver nem Fernando, nem o Dr. Casillas: também não morria de saudades. Aquilo que o inquietava era o facto de Mary-Anne nunca mais se ter deixado avistar.

 

Estaria novamente a caminho das ilhas das Caraíbas no seu iate pirata, pronta a assaltar milionários? Continuaria a levar aquele tipo de vida?

 

”Porque não?”, pensou Rainherr. ”Será que és tão burro ao ponto de acreditar que só tu é que podes fazer com que uma mulher como a Mary-Anne abdique do seu negócio de milhões?”

 

Ao terceiro dia teve uma visita.

 

O seu timoneiro Juan Noales entrou no quarto e quase se atirou de contentamento ao pescoço do chefe. Estava com bom aspecto, sem qualquer ferimento, vestia o seu

 

1 Ponche tropical à base de rum, sumo de frutos e leite de coco (N da T)

 

uniforme branco de marujo... Tinham-no, portanto, tratado bem.

 

O barco está em condições informou ele, ao mesmo tempo que se sentava perto de Rainherr, enquanto o pugilista negro limpava a piscina no terraço com um aspirador subaquático. Consegui pôr o motor a navegar, e já podemos fugir. Até o rádio funciona. Desmontei os transístores e os circuitos de ligação dos walkie-talkies e tentei montá-los no rádio. E funcionou! A ligação ouve-se mais baixinho, mas está perceptível.

 

Ligaste à Annette? perguntou Rainherr.

 

Sim, chefe. Mal começou a funcionar. Miss Annette foi muito corajosa...

 

Meu Deus! Contaste-lhe tudo?

 

Claro.

 

E como é que ela reagiu?

 

Miss Annette respondeu que já tinha falado consigo. ”O meu pai mentiu-me”, disse ela, ”mas lá terá as suas razões.”

 

Fantástico! Uma miúda como deve ser! declarou Rainherr, orgulhoso. Espero que não tenha avisado a polícia ou a marinha?

 

Não, ainda não.

 

O que é que isso quer dizer?

 

Está à espera de mais notícias.

 

Contaste-lhe que o comandante dos piratas é uma mulher?

 

Não, chefe. Juan fez um sorriso de orelha a orelha. Sabia que ela não iria gostar.

 

Juan, vou mandar construir uma casa só para ti, especialmente bonita, em Cayman Brac!

 

Obrigado, sir. Bebeu o ponche de rum que Rainherr preparara e observou o campeão de boxe a limpar a piscina. Estou há dois dias nesta casa e não os deixei em paz enquanto não me trouxeram até junto de si, chefe.

 

Viste por acaso Miss Tolkins?

 

Não.

 

E o McDonald?

 

Foi buscar-me. Arrastou-me consigo, e desde essa altura que estou cá em casa.

 

Sabes se o Altun Ha voltou a partir?

 

Não. Mas nós podemos partir, chefe. Já examinei todas as imediações, pois deixaram-me andar livremente por todo o lado. Eles continuam a pensar que o nosso Annette Um é uma carcaça. Depois de pormos este bebé gigante preto a dormir, é só saltar por cima do muro e chegar à garagem. Estão lá sempre dois jipes prontos para sair. Em vinte minutos chegamos no porto. Deixei tudo no barco preparado de forma a podermos pô-lo imediatamente a trabalhar, e partir!

 

Eles apanham-nos com o seu iate veloz e bombardeiam-nos com o canhão de bordo. Desta vez fazem-no, com toda a certeza.

 

Não, se a Mary-Anne tiver novamente o comando do barco. E o Jim também não dispara. Disse-me que já estava farto. Quer ser um marinheiro honesto. Além disso, já ganhou dinheiro suficiente para comprar um barco a prestações e fazer carregamentos legais.

 

Juan esvaziou o copo com o ponche, e acenou com a cabeça ao criado negro.

 

Chefe, temos a grande oportunidade das nossas vidas! Esse advogado foi para o México. O Fernando Dalques está na capital de Belmopan a subornar novos empregados... Podíamos fugir, chefe!

 

E onde está Miss Tolkins?

 

Não faço ideia, sir. Não tem estado visível.

 

É isso!

 

Rainherr andava inquieto de um lado para o outro na grande sala, atravessada pela luz do Sol. Ali próximo, na selva, soavam centenas de trinados de pássaros e guinchos de lémures, que avisavam a floresta inteira quando um barco matraqueava pelo rio de Belize acima ou as canoas dos nativos eram silenciosamente impelidas por remadores.

 

Estou preocupado, Juan.

 

Miss Annette também, sir.

 

Juan seguiu com o olhar o chefe irrequieto.

 

Percebia-o bem: o amor é mais forte do que qualquer prisão de aço. Mas naquele caso, o mais importante era manter o sangue-frio.

 

Nunca mais voltaremos normalmente a Cayman Brac, chefe!

 

Pois não...

 

E Miss Annette?

 

Tens razão, Juan. Tive três dias para pensar em tudo. Conheces a história do Pigmalião?

 

Não, chefe.

 

Mas conheces o My Fair Lady!

 

Sim, chefe. A jovem florista, que tinha um professor que a queria transformar numa dama perfeita.

 

E saiu-se bem, Juan. Há pessoas que nunca se saem bem. Penso que não sirvo para ”professor Higgins”.

 

Nem Miss Tolkins negoceia com flores, sir.

 

És um rapazito esperto, Juan! Esqueçamos por agora o complexo de Pigmalião. Onde estão os jipes?

 

Mesmo por detrás do muro, chefe! Juan esfregou as mãos. Como é que levamos o gigante preto às costas? Noales levantou a perna direita. Tenho um pequeno revólver no tacão oco da minha bota, sir... Basta uma rotação...

 

Nada de mortos, Juan! O lançamento do teu punhal já nos trouxe complicações suficientes. Tem de ser um golpe, com o qual um pugilista não conte... e ao qual sobreviva.

 

Um golpe na nuca...

 

Pescoço partido, Juan!

 

Temos que lhe partir qualquer coisa. Rainherr suspirou baixinho.

 

”Onde se terá metido Mary-Anne”, pensou. ”Porque não apareceu durante três dias? Primeiro atira-se a mim e chora e grita: Estás vivo, estás vivo, estás vivo... e depois diz friamente: façam o que lhes apetecer com ele. E falava a sério... Caso contrário, já há muito tempo que teria vindo ter comigo...

 

Johnny! chamou Rainherr.

 

O gigante negro voltou-se, deixando cair a vara à qual estava presa uma mangueira de aspiração.

 

Sir

 

Já não há gelo no frigorífico.

 

Vou buscar uma cuvete à cozinha, sir...

 

Sem suspeitar de nada, entrou em casa, passando pelo Dr. Rainherr, que se encontrava no terraço. Era tão grande que Rainherr teve de se pôr nas pontas dos pés para lhe acertar no sítio certo do pescoço.

 

O golpe, rápido como um raio, refreado no último instante, foi certeiro.

 

Com olhos de espanto o gigante cambaleou e caiu de joelhos sacudindo a cabeça, enquanto Juan, completamente desesperado, lhe aplicou dois murros directos no queixo, que não pareciam ter surtido qualquer efeito... A seguir Johnny agachou-se a gemer e caiu imóvel no chão.

 

Traz-me uísque gritou Rainherr. Depressa, os reflexos ainda estão a reagir.

 

Juan tirou uma garrafa quase cheia da garrafeira e enfiou-a na boca de Johnny. Bastou o reflexo de um gole; o gigante preto bebeu o uísque sem interrupção até esvaziar a garrafa e cair completamente anestesiado no chão. Para rematar, Juan deu-lhe mais um murro, mesmo na ponta do queixo.

 

E agora, vamos embora, chefe! berrou enquanto corria em direcção ao muro. São ainda alguns três metros de altura! Tem de levantar as pernas como se fossem de elástico!

 

Juan, seu burro, não sabes que eu sou um velho pára-quedista? Conheço alguma coisa de embates...

 

Correram para o terraço, saltaram sobre a crista do muro, que tinha apenas dois metros de altura, e lançaram-se no abismo.

 

Por baixo deles, talvez uns quatro metros para o lado, encontrava-se um velho jipe estacionado.

 

Aterraram com êxito no chão, correram para o todo-o-terreno e aproveitaram o desleixo do condutor que deixara a chave da ignição na fechadura. Com o motor a começar a roncar conduziram por ali abaixo a toda a velocidade por uma estrada estreita, a única que ligava a cercania daquela floresta virgem à cidade e ao porto de Belize.

 

Correu tudo bem! berrou Juan tentando sobrepor-se ao barulho do motor. Chefe, quando chegarmos ao porto, está no papo!

 

A estrada prolongava-se um bocadinho mais do que Rainherr imaginara. O bairro de vivendas ficava mais longe da cidade do que aquilo de que se recordava, numa parte do rio com baías e bancos de areia, onde costumavam ancorar os barcos dos ricos. Eram iates de fundo chato com pouco calado, bem construídos, nos quais se podia subir o rio de Belize e penetrar nas profundezas da floresta virgem e nas montanhas maias.

 

Depois de uma curva prolongada surgiu de repente, à sua frente, a cidade de estacas. Avistaram o mar, as instalações portuárias, distinguiram os velhos guindastes, os armazéns e a praia limitada pelos poucos hotéis existentes. Na segunda baía que dobraram, reinava um silêncio de dia feriado. Só se encontravam dois barcos um ao lado do outro, sem sinal de vida a bordo.

 

O Annette gritou Juan, entusiasmado.

 

E o Altun Ha acrescentou Rainherr, desacelerando. Ela não partiu.

 

Deixaram o jipe à entrada do último armazém e correram para os barcos. As escadas de portaló tinham sido retiradas dos dois iates. No entanto, nada se mexia no barco de Mary-Anne quando Rainherr e Juan encostaram no molhe e se aproximaram do Annette

 

Antes que Juan conseguisse subir para o barco, Rainherr deteve-o, agarrando-o pelas calças.

 

O Altun Ha está sem tripulação, Juan!

 

Daqui ninguém leva nada...

 

Consegues pilotar o iate, Juan?

 

Eu manejo qualquer barco, chefe... Olhou fixamente para o Dr. Rainherr e engoliu de repente em seco, como se estivesse a sentir um caroço entalado na garganta. Quer partir no barco pirata, chefe?

 

Assim ninguém nos apanha...

 

Mas... Minha Nossa Senhora, e se nos apanharem?

 

Nesse caso terão de vir até Cayman Brac, o que nunca ousarão!

 

Chefe, tenho um pressentimento estúpido!

 

Eu não! E nessas coisas, costumo confiar em mim! Vamos embora, Juan.

 

E o nosso barco, chefe?

 

Não achas que foi uma boa troca?

 

Com um canhão amovível e duas metralhadoras a bordo?

 

Isso é para atirarmos borda fora, em pleno mar das Caraíbas! Embora! Para cima!

 

Correram pelo passadiço do Altun Ha e dali esgueiraram-se em bicos de pés para o convés. Enquanto Juan foi à ponte e verificou, abanando a cabeça, que as chaves se encontravam todas na ignição, Rainherr espreitou para dentro da sala, da cozinha e dos aposentos de Jim McDonald. Vazio. Tudo vazio! O barco mais bonito e mais rápido das Caraíbas estava nas suas mãos.

 

Rainherr regressou ao convés e olhou para cima, para Juan, que se encontrava na ponte de comando.

 

Está tudo bem contigo? gritou ele.

 

Tudo, chefe! Um desleixo destes devia ser imediatamente punido!

 

Andreas Rainherr soltou as amarras, os potentes motores arrancaram e o Altun Ha afastou-se devagar do molhe para a água livre do porto. Virou de rumo quase no mesmo lugar e partiu em direcção à saída do Cais II.

 

No emissor radiofónico, perto de Juan, piscava a pequena lâmpada de chamada.

 

A capitania do porto! Juan pegou no microfone. O que é que se passa? perguntou com um ar indiferente.

 

Isso é o que nós gostaríamos de saber! Partirem assim sem avisar! Isso são maneiras?

 

Pedimos desculpa, mas teve de ser. Vamos só à pesca, aos atóis. Alguém precisa de um espadarte para coçar o fundo das costas?

 

Vem-me cá tu coçar...

 

No regresso, meu rapaz! Já tomei nota, para não me esquecer!

 

Juan pousou os auscultadores. Na capitania riram-se, sem desconfiar de nada.

 

Alcançaram o mar alto a meio gás, e prosseguiram a toda a velocidade. Era como se o iate se elevasse, ficando suspenso sobre a água.

 

Belize ficara para trás, uma cidade que parecia ter saído de um livro ilustrado amarelecido pelo tempo.

 

Perdoa-me, Mary-Anne... Andreas pensava alto. Encostou-se à amurada do navio e olhou para trás, para a costa que se tornava rapidamente cada vez mais pequena.

 

Juan ligara o sonar, pois o mar começara a ficar traiçoeiro. Os picos das grandes barreiras de recifes cresciam como lanças das profundezas do mar.

 

”Percebe-se”, pensou Rainherr, ”porque é que os espanhóis dos séculos anteriores odiavam e evitavam esta costa. Era aqui que os rapinantes espreitavam os piratas que conheciam o fundo do mar como a palma das suas mãos. E quando apanhavam, saqueavam ou afundavam os barcos dourados espanhóis, fugiam por entre os atóis, onde se escondiam, em segurança.”

 

Juan era um timoneiro formidável, o melhor, segundo Rainherr; aquele que ninguém contestava, a não ser McDonald, que se considerava a si próprio imbatível.

 

Vou tomar a rota directa para as ilhas Caimãs, sir gritou Juan da ponte. Os depósitos de combustível estão atestados.

 

Então temos mais do que o suficiente exclamou Rainherr, mas Juan não o conseguia ouvir. O mar marulhava à sua volta e os potentes motores roncavam magnifícamente. Uma nuvem de espuma branca escumava pelas hélices acima, tapando-lhes a vista.

 

O Dr. Rainherr passeava satisfeito pelo magnífico barco, espreitou para os oito camarotes, cada qual com a sua entrada e onde a tripulação costumava acomodar-se, com excepção de Jim McDonald que dormia na proa.

 

Estava tudo arrumado. Tudo limpo. Reinava por toda a parte uma organização quase militar.

 

A costa de Belize era agora apenas uma linha ténue no horizonte. Em compensação navegavam por entre os recifes de corais; Juan teve de diminuir a velocidade e ir tacteando através das passagens de água. Algumas ilhas pequenas e outras maiores emergiam da água, cobertas de palmeiras e de mangues, de florestas de hibiscos e bananas selvagens, fetos gigantes e plantações de cana-de-açúcar, que tinham crescido espontaneamente.

 

Três horas depois passaram por um grande atol povoado. Pescadores locais secavam os peixes que tinham enfiado em longas cordas compridas. Mulheres lavavam roupa na margem dos corais, procurando retirar a sujidade dos tecidos, batendo-lhes com paus arredondados. Um bando de miúdos de pele morena, todos nus, vociferava aos gritos nas águas pouco profundas, para onde nenhum tubarão se desviava do seu rumo. Alguns barcos, pirogas com pequenas velas entrançadas, oscilavam de um lado para o outro, entre os atóis habitados.

 

Os nativos eram, como toda a gente ali, pessoas delicadas e amigáveis: filhos do Sol! Acenavam em direcção ao iate branco.

 

Esta grande barreira de recifes de coral das Caraíbas é e será sempre uma zona demoníaca! comentou Juan ao leme, observando a água, transparente como vidro e lançando uma espreitadela ao sinal do sonar. Rezo três ave-marias e coloco uma grande vela em Cayman Brac, se escaparmos daqui sem um arranhão. A zona mais perigosa ainda está para vir! Apontou para a carta de navegação que estava aberta em cima da mesa, ao lado da ponte de comando. Os atóis do Norte. Isto é um labirinto! Temos de nos montar praticamente em cima dos corais... Mas havemos de conseguir, chefe!

 

Nesse caso, será melhor rezares quatro ave-marias, Juan! Rainherr abrangeu com a vista a fantástica paisagem de mar e penhascos de corais. Azul-turquesa a cor do mar, branco-dourado a cor das praias...

 

Existirem maravilhas destas na Terra... proferia ele em voz baixa. Aqui, apetece-nos ser imortais.

 

Mais tarde, depois de terem passado as ilhas habitadas, chegaram a águas mais abertas... Águas mais abertas queria dizer que as passagens através dos recifes se tinham tornado um pouco mais largas, semelhantes a estradas de água, serpenteando os corais; uma corrida de esqui aquático para barcos... era o que o equipamento do Altun Ha inspirava a Rainherr.

 

Levantou as escotilhas e viu, mais abaixo, montado numa plataforma de aço, o canhão. Algures encontrava-se o interruptor, que permitia que se transportasse o canhão até ao convés num monta-cargas.

 

Quando Rainherr, de barriga para baixo, se debruçou mais na escotilha, reparou que a parede traseira da ”câmara do canhão” se assemelhava a uma adega, cujas garrafas amadureciam emparedadas dentro de tubos. Só que, neste caso, não se tratava de garrafas de vinho com muitos anos. Nesses tubos de aço repousavam as granadas.

 

Rainherr levantou-se de novo e foi ter com Juan à ponte de comando.

 

Isto é um barco normal de guerra, mas pequeno disse Andreas Rainherr. Com as duas pesadas metralhadoras e este canhão, os piratas podem perfeitamente travar uma batalha naval. Sobretudo, porque são mais corajosos do que os barcos-patrulha oficiais. De facto, nunca pertenci à marinha, mas, tanto quanto consigo perceber, este barco pode transformar-se em segundos num barco de guerra. Estamos, inclusivamente, preparados para um tiroteio!

 

Encostou-se à parede da casa do leme e olhou para as centenas de pequenos atóis.

 

E vai uma mulher descobrir uma coisa destas e, inclusivamente, controlá-la!

 

Sem dúvida... uma mulher maravilhosa, chefe! ripostou Juan manobrando o iate mais para a frente, através de bancos de areia e recifes perigosos.

 

Simplesmente, não entendo! Quem comanda um barco destes, quem se dedica a uma pirataria tão perfeita, só o consegue através de actos de crueldade e de uma grande insensibilidade. A história dos flibusteiros é disso prova: a bandeira preta com a caveira era o seu símbolo. Onde quer que aparecessem, a morte estava sempre presente. Mas a Mary-Anne não consegue matar, não consegue ver sangue, deixou-nos viver. Matar esse tal Pedro para me salvar a vida, para ela, foi como se o mundo tivesse desabado! Simplesmente, não entendo.

 

Mas tem sucesso, chefe.

 

A Mary-Anne não é o exemplo perfeito de uma criminosa.

 

Não se comporta como tal.

 

A seguir, Juan Noales fez uma observação naturalmente instintiva. Algo em que Rainherr já há muito tempo tinha pensado:

 

Acho que ela esconde qualquer coisa, chefe! Não sei como o hei-de exprimir... qualquer coisa de ordem psíquica. Miss Tolkins, em tempos, deve ter sido vítima de um golpe muito duro... Ela não é aquilo que aparenta ser.

 

Juan, és um rapazito esperto.

 

O Dr. Rainherr agarrou no rádio, que era melhor do que o do seu Annette I, e sintonizou a frequência de onda de Cayman Brac.

 

Annette respondeu imediatamente. Parecia ter estado à espera da chamada.

 

Paizinho, onde estás? perguntou ela em voz alta. Apesar de estar longe, a sua voz revelava uma grande preocupação.

 

Estou bem, pequenina respondeu Rainherr.

 

A sério?

 

Não te preocupes, pequena. Consegues ouvir o roncar do motor e a água a bater no costado? Estamos a navegar através dos magníficos atóis, rumo a casa!

 

Estás de volta, paizinho?

 

Parecia um grito de entusiasmo. Rainherr olhou de relance para Juan, que esboçava um riso de orelha a orelha.

 

Bem-disposto e com saúde, pequena. E quando estiver novamente perto de ti, tenciono dormir alguma coisa durante dois dias... e, a seguir, partir contigo para as ilhas Virgens britânicas e holandesas.

 

Essas ainda não conheço, paizinho!

 

Ora vês? Eu também não. Até já, pequena.

 

Volta-me a ligar hoje, paizinho...

 

Está bem, querida.

 

Ligou o rádio e escutou ao pormenor as informações acerca do tempo. Tentou descobrir o truque do Altun Ha e conseguiu penetrar no rádio da polícia e no da marinha. Não diziam nada de emocionante. O Fantasma das Caraíbas não fazia parte do repertório das notícias...

 

Andreas Rainherr desligou tudo e levantou de repente a cabeça. Farejou o ar e deu um toque a Juan.

 

Não te cheira a nada? perguntou.

 

Cheira. Mas pensei que estivesse enganado, chefe. O nariz de Juan mexia-se como um focinho. Porco assado com piripiri, ao que parece, sir...

 

Que estranho! Donde poderá vir esse cheiro?

 

Estamos no meio dos atóis mais ermos, chefe. Daí não pode vir.

 

Juan!

 

Sim, chefe?

 

Diz-me a verdade, trouxeste o McDonald às escondidas?

 

Juro que não, sir

 

O Dr. Rainherr foi buscar uma pistola à gaveta da mesa dos mapas, carregou-a e atravessou a ponte a correr. Precipitou-se pela entrada da sala e ficou colado ao chão no umbral daquelas luxuosas divisões.

 

A mesa estava posta para duas pessoas. Num castiçal de três braços ardiam três longas velas violetas. Copos de cristal cintilavam. Uma garrafa de bordéus autêntico estava desarrolhada ao lado do castiçal. A porta da cozinha estava aberta... e perto do fogão, de avental, encontrava-se Mary-Anne Tolkins. Como se fosse a coisa mais natural do mundo, olhou para Rainherr e apontou com uma colher para a sala.

 

Já se pode sentar, Andreas, a comida fica pronta dentro de cinco minutos. Falta só engrossar o molho... Gosta dele muito picante?

 

Mary-Anne... murmurou Rainherr. Maldita! Grande monstro...

 

Pensou mesmo que o deixava fugir sozinho? Entrou na sala, exibindo na mão a colher de plástico amarelo com que tinha estado a mexer o molho de piripiri. Estava à frente de Andreas Rainherr. O cabelo solto caía-lhe sobre os ombros. O vestido, por baixo do avental, era bastante decotado; o adesivo que tapava a sutura estava à vista.

 

Não queria mais nada! Escapar-se às escondidas e deixar a sua paciente sozinha! Isso faz parte da ética médica?

 

Mary-Anne... disse Rainherr, nervoso. Meu Deus, eu amo-a!

 

Puxou-a para si e beijou-a. Mary-Anne não se defendeu. Retribuiu o beijo, entreabrindo os lábios. Só precisava de manter a colher amarela afastada, pois pingava restos de molho...

 

Se o molho se queimar, a culpa é toda tua advertiu ela, enquanto retomavam o fôlego, depois de um beijo prolongado. Até aqui tem corrido tudo muito bem. Vais ficar espantado quando perceberes como sou uma boa cozinheira... quando quero, claro! E hoje quero mesmo...

 

Apesar da deliciosa apresentação da comida, Mary-Anne e Andreas mal comeram ou beberam. Engoliram com esforço algumas garfadas e olhavam um para o outro, em silêncio. Ainda sentiam o beijo nos lábios, mas, após o primeiro êxtase da surpresa, que fora simultaneamente uma declaração, instalou-se uma atmosfera angustiante à sua volta.

 

A realidade começou a sobrepor-se à ilusão. Não se pode fugir sem mais nem menos, deixar andar as coisas como um adolescente apaixonado, e esperar que tudo corra bem, quando a outra pessoa se chama Mary-Anne Tolkins e é uma pirata procurada por catorze estados.

 

E agora? antecipou-se Andreas Rainherr.

 

Sim, e agora? Olhou-o com os seus enormes olhos negros, como uma criança raptada que não compreende o mundo dos adultos.

 

O Fantasma das Caraíbas devia ter pensado no assunto...

 

Se voltas a repetir isso, esgatanho-te a cara! exclamou ela. Mas notava-se uma certa tristeza na sua voz. Não fazia ideia que fosses fugir...

 

Ah! Agora era o Dr. Rainherr que estava perplexo. E eu que pensei...

 

Pensaste que eu tinha ensaiado tudo?

 

Sim.

 

Enganas-te! Discuti com o Fernando e foi por isso que vim para o barco, para não ter de discutir mais com ele. De repente, vi-te a ti e ao Juan no armazém, a correr para o nosso barco. Depois partiram...

 

E porque não accionaste a sirene assim que nos viste chegar? Porque é que te escondeste, não fizeste absolutamente nada e só no mar é que começaste a fazer o que nenhuma corsária do teu calibre faria: cozinhar para nós, como se fosses apenas a mulher de um marinheiro.

 

Isso foi outro erro...

 

Para mim, continua a ser um mistério como é que uma corsária que comete tantos erros pode ser tão bem-sucedida.

 

Antes era diferente. Nada disto me acontecia.

 

O que queres dizer com antes?

 

Antes de ter conhecido um tipo asqueroso como tu.

 

Isso soa-me a declaração de amor, Mary.

 

O Fernando queria mandar matar-te. Foi por isso que vim para o barco.

 

Para não teres mais nada a ver com isso? Uma pequena avestruz que enfia a cabeça na areia.

 

Não! Disse ao Fernando que, se te matasse, se podia esconder no último recanto da terra... Descobri-lo-ia, e entregá-lo-ia a pessoas capazes de tudo, só por dinheiro. Ele percebeu. Foi-se embora para a capital, de raiva.

 

Provavelmente para procurar reforços no mercado índio. Vivem uns nas florestas virgens que aceitam arrancar a pele do corpo a quem quer que seja, por duzentos dólares de Belize.. Isso parece-me mesmo muito desagradável comentou Rainherr, sarcástico. E onde se enfiou a tua tripulação, com o Jim à cabeça? Continuam nos bordéis de Belize?

 

A tripulação devia chegar a bordo hoje à noite. Mary-Anne bebeu um gole de vinho tinto. A mão que segurava o copo tremia ligeiramente. Com munições e armas...

 

Que vocês aliás ainda contrabandeiam. É a área de negócios do Fernando. Eu sei.

 

E agora o barco foi-se embora...

 

É verdade.

 

O McDonald vai dar o alarme por teres fugido; o Casillas não vai ter mãos a medir. Por um lado vai mandar a polícia à nossa procura, e por outro lado vai impedir que inspeccionem o meu barco...

 

...e vão encontrar as metralhadoras, o canhão e as granadas. Mary-Anne, tu arranjaste uma grande confusão!

 

Tu! Só tu! berrou ela, levantando-se de um salto.

 

Quem é que me capturou?

 

É sempre a mesma cantiga...

 

Mas que fica no ouvido: na sequência de um rapto, o amor... Soa a música celestial...

 

Pode passar a ser a nossa música fúnebre, Andres...

 

Nunca me tinham chamado Andres...

 

Então, é bom que seja eu a primeira.

 

Olhou para ele, furiosa. Quando se irritava, a sua beleza ultrapassava tudo o que se podia imaginar.

 

Como te chamavam então as outras mulheres?

 

Que mulheres?

 

Todas as que tiveste...

 

Deus do céu! A paleta estende-se do tesouro mais simples à estrela mais ardente!

 

Idiota!

 

Idiota porquê?

 

Estrela mais ardente...

 

Essa era uma índia meiga do lucatão, cor de café com leite...

 

E como lhe chamavas?

 

Mãozinhas de Veludo...

 

Só um homem com a tua avançada idade é que pode ser assim tão idiota!

 

Obrigado. Andreas Rainherr levantou-se. Posso levar agora a comida ao Juan, à ponte?

 

Perguntas-me isso a mim?

 

És tu o comandante!

 

Assim? De repente?

 

Isto é um iate, ou não? Nunca pretendi minimizar as tuas competências.

 

Mas quiseste roubar o meu barco...

 

Só quis salvar uma vida. Exactamente aquilo que tinhas em mente. Mas fomos por dois caminhos diferentes e, inevitavelmente, encontrámo-nos. Mary-Anne, não podemos fugir ao destino!

 

Que destino?

 

Nós amamo-nos...

 

Só porque deixei que me beijasses, sem te ter espetado uma faca nas costas?

 

Tinhas a colher amarela na mão replicou Rainherr com ternura. Não me parece que uma colher com restos de molho seja um utensílio próprio para matar.

 

Mas bom para bater nessa cara presumida! gritou ela. Leva a comida ao Juan e desaparece! E não voltes a tocar em mim.

 

Vou tentar resistir.

 

Rainherr arranjou um tabuleiro com carne assada, batatas, salada, molho, um pepino grosso, e juntou-lhe um talher. Parou na escada que dava para o convés e voltou-se. Mary-Anne continuava de pé, apoiada nas costas da cadeira. A sua beleza selvagem comoveu-o profundamente. ”É realmente única”, pensou Rainherr. ”O mundo está cheio de mulheres bonitas, especialmente aqui nas Caraíbas. Para onde quer que um homem olhe, o coração bate imediatamente com mais força! Mas uma mulher como a Mary-Anne só se encontra uma vez na vida. Uma pirata! Segundo os velhos que apanham orquídeas, as flores mais bonitas são as que florescem nos pântanos...”

 

Vão procurar-nos? perguntou Rainherr recuando mais um bocadinho com o tabuleiro.

 

É evidente! O Fernando não se vai deixar ficar parado. Vou dizer-te uma coisa que pelos vistos não sabes: devido à má qualidade das estradas e aos rios que atravessam a floresta, o avião é um dos meios de transporte mais importantes de Belize. Há uma série de táxis aéreos de um e dois motores. Também existem helicópteros. O Fernando pode mobilizar uma esquadra de busca inteira!

 

Nesse caso, aproveitemos as poucas horas que nos restam!

 

O Dr. Rainherr foi até ao convés, subiu para a casa do leme e pousou o tabuleiro em cima da mesa dos mapas, ao lado de Juan Noales.

 

Venho substituir-te disse ele. O assado está delicioso.

 

Juan sorriu e começou a comer. Mas imediatamente após a primeira dentada observou:

 

Falta-lhe um bocadinho de salsa! E também não tem rosmaninho. O molho de piripiri está forte de mais...

 

Desce e diz-lhe isso a ela! Mas duvido que esteja neste momento com disposição para ter uma conversa sobre a arte de cozinhar.

 

Então, Miss Tolkins está a bordo?

 

Não te faças de inocente, mentiroso de uma figa. Rainherr olhou para o sinal do sonar, pois voltavam a entrar numa região de atóis com depressões. O mar tornara-se tão pouco profundo que se podiam ver os bancos de corais, quase ao alcance da mão, a brilhar através da água azul-esverdeada. Cardumes de peixes cintilantes fervilhavam à volta do barco... Parecia que o criador tinha despejado um enorme saco cheio de ouro e de pedras preciosas de todas as cores.

 

Desde quando sabes que a Mary-Anne está a bordo?

 

Cheirou-me a legumes cozinhados. Muito mais cedo, antes de lhe ter cheirado a assado. Tenho um nariz apurado, chefe. O Jim... teria vindo ao convés.

 

Também a Miss Tolkins! Ei-la...

 

Mary-Anne estava no convés. Mudara rapidamente de roupa e surgia agora num fato de banho dourado que lhe cobria o corpo como se fosse uma segunda pele. O cabelo solto envolvia-a como um longo véu esfarrapado, soprado pela brisa do mar.

 

Juan suspirou baixinho e continuou a comer. O Dr. Rainherr, ao leme, olhava para ele.

 

Está assim tão má a comida? perguntou com ironia. Suspiras como um coração amolecido!

 

Não sou apenas timoneiro e cozinheiro... Sou também um homem! O chefe está de parabéns! Juan cortou o pepino de conserva às fatias. Observou como Mary-Anne passara para a proa pela ponte de comando, deitando-se ao sol num colchão de turco branco. Que corpo fantástico, em dourado e preto...

 

Se tivesse de servir uma Miss Rainherr, seria igualmente feliz, chefe!

 

Não regulas bem, Juan!

 

Rainherr pilotou o barco com precisão por entre os proeminentes recifes à tona de água.

 

Se nos encontrarmos frente a frente prosseguiu ele, dilaceramo-nos um ao outro.

 

Essa é a mais elevada forma de amor, sir.

 

Juan, o filósofo! E a Annette, o que dirá ela?

 

Vai opor-se.

 

De certeza. A cara de Rainherr tornara-se extraordinariamente dura e crispada. Não consegue esquecer a mãe. Eu também não conseguiria...

 

Nem mesmo agora, chefe?

 

Cala a boca!

 

Os mortos não deviam reprimir os vivos, sir.

 

Se continuas a debitar a tua sapiência, voas borda fora. Aquilo que te faz dizer loucuras, a adoradora do Sol que estás a ver na proa, é uma pirata! Uma criminosa, aos olhos da lei! E nós, não tarda muito, acabamos por nos encontrar numa situação complicada!

 

No mar alto consegue fugir-se de tudo, chefe.

 

Não de um avião ou de um helicóptero! Rainherr afastou-se do leme. Já acabaste de comer? Assume tu de novo o comando, Juan.

 

Está bem, sir. Mas a partir de amanhã sou eu quem cozinha novamente.

 

Se existir amanhã para nós...

 

Desceu para o convés pela escada e juntou-se a Mary-Anne. Ela piscou-lhe os olhos, mas não mudou de posição. Tinha descido as alças do fato de banho... o seu belo peito estava quase despido.

 

Ainda apanhas uma insolação observou Rainherr, agachando-se a seu lado.

 

Disseste que o ar era um excelente remédio. Estou a tratar a minha ferida. Além disso, estou habituada ao sol. Cresci com ele. Cruzou as mãos atrás do pescoço e olhou em direcção ao mar. Para onde estamos a ir? perguntou.

 

Para Cayman Brac...

 

Não.

 

Não, porquê?

 

Quero que vás para San Pedro, para o atol de Ambergris. Em Ambergris consegue viver-se bem. É o único sítio de Belize onde já é quase possível ser-se mundano. Tem um bonito porto, muitos iates de luxo americanos, mergulhadores desportivos, um hotel com bar e discoteca, um pequeno campo de golfe, campos de ténis...

 

E isso seduz-te? É exactamente esse tipo de coisas que tento evitar!

 

De vez em quando gosto de levar uma vida social. E além disso o Fernando vai procurar-nos por toda a parte, não só no atol de Ambergris. Não nos imagina capazes de nos estendermos ao sol, na praia de San Pedro.

 

É uma opinião. Muito bem, levemos então uma vida social mundana. Mudemos de rota para San Pedro.

 

Além do mais, a fronteira com o lucatão fica muito próxima. Podes ir visitar a Mãozinhas de Veludo, a tua índia meiga!

 

É uma ideia. Debruçou-se sobre ela e beijou-a. Pouco lhe importava que Juan assistisse. Quando duas pessoas se beijam, não têm necessariamente de o fazer às escondidas.

 

És uma mulher capaz de destroçar o coração de um homem vulnerável disse Andreas mais tarde.

 

Nunca procuraria um homem vulnerável.

 

O que fazias antes de te teres tornado corsária?

 

Tem de ser? Fechou os olhos. A sua cara tornara-se terna e serena; lembrava um retrato espanhol antigo. Que dia é hoje?

 

Rainherr olhou para o calendário do relógio de pulso.

 

Dia vinte e três de Maio.

 

Recomecemos as nossas vidas hoje, Andres. No dia vinte e três de Maio! Segurou a mão com que ele lhe acariciava o corpo. Concordas? Não existe passado... Começamos hoje. Tu também! Acabaram-se as perguntas...

 

Não pode ser, Mary-Anne.

 

Porquê?

 

Por causa da Annette.

 

Pois claro, a tua filha...

 

Não posso contar-lhe que caíste do céu, mesmo que pareça ter sido o caso.

 

Lembrou-se de Juan, com o rádio arranjado. Já há muito tempo que podia ter informado Annette que tinham sido assaltados por piratas e que se encontravam numa verdadeira e estranha prisão.

 

Tens de a conhecer.

 

Tenho?

 

Sim, pois vou regressar a Cayman Brac. Tenho lá compromissos, a minha casa, a minha gente... Cayman Brac é a minha nova pátria.

 

Nada disso é possível disse ela em voz baixa. Olhou-o fixamente. Aquele olhar quase que o desmotivava.

 

”Sou um rapaz forte e louco, claro”, pensou. ”Até agora, agarrei sempre a vida com ambas as mãos e moldei-a segundo a minha vontade. Mas esta mulher consegue deitar tudo abaixo com um único olhar... Já não sinto o coração no peito mas sim uma espécie de esfera flamejante. Tudo arde em mim...”

 

- Porque é que não é possível? perguntou ele, hesitante.

 

Roubaste o meu barco, mas, infelizmente, com o comandante a bordo. Agora tornaste-te um pirata, tal como eu...

 

Foi um puro instinto de sobrevivência!

 

E quem é que quer saber disso? Sorriu. Os seus lábios vermelhos em forma de coração abriram-se como uma rosa em flor que pressente o orvalho. Contemplou-a, fascinado.

 

Vamos levar uma vida livre e fantástica, Andres. Os mares do Sul serão nossos! O céu, o mar, o barco e nós... É o suficiente para nos sentirmos no paraíso! E, de vez em quando, alguém a oferecer-nos o dinheiro que tem a mais.

 

Enlouqueceste, Mary-Anne murmurou Rainherr. Nós os dois... piratas?

 

De outra forma nunca poderíamos ficar juntos...

 

Esqueces-te de uma coisa, Mary-Anne. A tua nova vida começa hoje, no dia vinte e três de Maio.

 

Seria muito bom vivermos como num conto de fadas...

 

Sentou-se e puxou novamente as alças do fato de banho para os ombros. O vento favorável acariciava-lhe os cabelos, soprando-os sobre a cabeça de Rainherr.

 

Nunca será possível apresentares-me à Annette.

 

Porque não?

 

”É incrível”, pensou ele, ”como a intuição de uma mulher pode ser tão apurada e lógica. Não conhece a Annette; no entanto, sabe perfeitamente como reagiria se se encontrassem frente a frente. Seria como duas panteras negras que se cruzassem na selva à caça da mesma presa...”

 

Mary-Anne levantou-se qual Vénus de ouro resplandecente, e subiu para a ponte. Juan fitava-a, perplexo, enquanto ela subia as escadas que davam para a casa do leme.

 

Vou voltar a assumir o comando do barco afirmou determinada. Juan abanou a cabeça.

 

Ninguém me deu ordens nesse sentido.

 

Sou eu que ordeno! O barco pertence-me! Ou quer voar borda fora, Juan?

 

Nesse caso terão de voar duas pessoas, Miss Tolkins.

 

Ela sabe tanto de judo como um mestre de cinturão negro! gritou Rainherr para cima. Não te envolvas em discussões, Juan. Se for necessário, ela recorre aos seus conhecimentos de caraté. Devolve-lhe o leme!

 

Juan recuou, restituindo-lhe o governo do iate. Com um gesto brusco, Mary-Anne atirou o tabuleiro que estava em cima da mesa de mapas com os pratos e as terrinas vazias pela janela, borda fora, e estudou a distância que ficara para trás, que Rainherr marcara conscienciosamente na carta hidrográfica. A seguir ligou o radar e alongou o lábio inferior.

 

Juan, calcule a rota para San Pedro, no atol de Ambergris. A rota directa!

 

Outra vez por entre o labirinto? perguntou Juan, assustado. Já estou pelos cabelos com esta viagem.

 

Quem está ao leme agora sou eu! informou Mary-Anne em voz alta. Se tiver medo, Juan... a casa de banho é a terceira porta em baixo, à esquerda!

 

Juan subiu para o convés mal-humorado e colocou-se ao lado do Dr. Rainherr. Apoiaram-se sobre a amurada de aço e observavam, com uma sensação de nervos no estômago, como o Altun Ha passava pelo meio dos recifes, navegando por entre os estreitíssimos canais de água, por entre as ilhas de corais inabitadas.

 

Tem mesmo o diabo no corpo! disse Juan, apreensivo.

 

E há dois minutos atrás cantavas hinos.

 

Desisto. É exactamente o seu tipo de mulher, chefe.

 

Com uma velocidade que roçava o delírio, o iate lançou-se por entre a Grande Barreira. Rainherr olhava para a água verde reluzente. A sua cara tornara-se séria, com os lábios bem apertados um contra o outro. Junto ao barco, a estibordo, lado a lado, escoltavam-nos dois tubarões.

 

Pareciam estar a brincar. Os seus corpos semelhantes a torpedos pulavam elegantemente para cima e para baixo, cortando o mar com as barbatanas dorsais de três bicos.

Não é difícil imaginar o rol de palavrões que Fernando Dalques deixou escapar quando regressou de Belmopan e encontrou a casa num grande alvoroço.

 

O criado negro, e campeão de boxe, estava deitado numa gigantesca cama de madeira, expressamente construída para ele. Dormia e tresandava horrivelmente a uísque.

 

O Dr. Ynares o já aqui referido médico particular de Fernando um velho enrugado de setenta anos que nos últimos anos trabalhava mais por moto próprio do que por erudição médica e que, surpreendentemente, provara ter mais sucesso com a antiquíssima medicina índia do que com a farmacêutica moderna, estava sentado na cama de madeira, tentando inutilmente explicar ao Dr. Casillas que Johnny não se encontrava em estado de prestar esclarecimentos.

 

O que aconteceu aqui? berrou Fernando, enquanto se precipitava para dentro do quarto. Este filho bastardo de uma puta preta! Como é possível que um touro destes tenha...

 

Não berre assim, Fernando! replicou o Dr. Ynares, tranquilamente. Como médico de Belize, trato qualquer pessoa que se encontre numa situação difícil. O que se faz quando alguém lhe bate inesperadamente na nuca com um golpe de mão? Ou, quando depois de estar meio atordoado, lhe enfiam com a ajuda de um funil, uma garrafa cheia de uísque pela goela abaixo? Para agravar ainda mais as coisas, acresce-se o seu uísque destilado clandestinamente, essa porcaria que, para dizer a verdade, deve corroer as paredes do estômago depois de se ter bebido três copos! Não pode repreender o Johnny. Se sobreviveu a tudo isto, foi só por ser muito resistente.

 

Mas o Rainherr foi-se embora! gritou Dalques.

 

Disso não há dúvida! O Dr. Casillas ainda tinha a outra novidade na manga, como um jogador profissional que esconde o às. O doutor Rainherr e o seu timoneiro Juan Noales partiram a toda a velocidade no Altun Ha

 

Deviam encobrir o Sol com estrume gritou Fernando, fora de si.

 

O Dr. Ynares olhou para ele, pasmado.

 

Que frase magnífica! Diria mesmo, poética!

 

Desde quando é que sabe, Casillas, que eles partiram de barco?

 

Há meia hora. O McDonald ligou do porto. Está a arranjar o iate do Rainherr, para ir atrás dele.

 

Nunca o conseguirá!

 

Se existe alguém capaz disso é o Jim. Convocou toda a tripulação que andava pelos bordéis. Estão a trabalhar como loucos.

 

E a Mary-Anne?

 

O Dr. Casillas hesitou em responder, mas não podia poupar Fernando a toda a verdade.

 

Está no barco, com o Rainherr!

 

O quê? gritou Fernando ainda mais alto. Ela está...

 

Deviam encobrir o Sol... insistiu o Dr. Ynares. E também a Lua e as estrelas...

 

Vou imediatamente avisar a polícia e a guarda costeira. Vou mandar os aviões a hélice da marinha levantar voo! Eu próprio sobrevoarei os atóis num bimotor. A mim não me escapam eles!

 

Já pensei em tudo isso, Fernando. O Dr. Casillas, como jurista, tinha uma perspectiva diferente. Não podemos contar com nenhuma ajuda oficial.

 

E porque não? rosnou Dalques. Estava tão nervoso que teve um ataque de tosse, logo após ter proferido aquelas palavras.

 

Por causa do canhão a bordo.

 

Tem razão, Casillas. Fernando Dalques cuspiu, sentindo-se logo mais lúcido. Vou fretar um aparelho e procurar sozinho.

 

É possível que Miss Tolkins se encontre numa situação... digamos, que de... euforia sexual opinou o Dr. Ynares. Por favor, não comece outra vez a berrar, Fernando. Como médico, já presenciei situações extraordinárias. A Mary-Anne é uma mulher, ou não? E esse Rainherr é um homem, ou não? E, quando dois representantes do seu sexo, tão completos, tropeçam um no outro, é como se um tufão assolasse o mar. As senhoras sucumbem todas.

 

Quando avistar o barco dela do ar e descer, calculo que Miss Tolkins não hesite em abatê-lo com uma das metralhadoras!

 

Nunca! Ela não mata!

 

Veja o Pedro Luba...

 

Isso foi... em legítima defesa!

 

De quem? Do doutor Rainherr! Quando você surgir no céu, Fernando, o fogo disparado pelas metralhadoras também vai ser em legítima defesa.

 

Tanto faz! Vou tentar.

 

Fernando Dalques correu para o telefone e marcou o número de uma empresa de fretagem de aviões na cidade de Belize.

 

Quando estiver a altura suficiente gritou ele, quero saber para onde planeiam ir! Onde vão ancorar... Já vou ter a possibilidade de saber onde os vou apanhar.

 

Não foi possível dissuadi-lo daquele plano delirante. Na agência de fretagem reservou um Cessna bimotor com flutuadores em vez de trem de aterragem, para poder amarar com o avião em qualquer lado. Fernando conhecia demasiadamente bem a sua sócia para adivinhar que se iria manter na água, o único sítio onde se julgava inatingível e segura. Julgava conhecer muito bem Mary-Anne, o coitado. Mas é frequente as mulheres modificarem-se quando estão apaixonadas. Com isso não contara Fernando.

 

McDonald ligou do porto. Estava muito nervoso.

 

Talvez seja fácil, chefe! berrou ele pelo telefone.

 

De facto, o tal Juan colocou o barco em condições em pouco tempo! Só falta agora um turbogerador para o segundo motor, e a seguir podemos partir.

 

E o tempo de montagem?

 

Duas horas, chefe!

 

Mantemo-nos em comunicação, Jim! Vou sobrevoar os atóis com um Cessna. E quando tiver avistado o Altun Ha, chamo-te, e vens imediatamente. Relativamente a acções posteriores, tudo através do rádio!

 

Okay, chefe.

 

Em que direcção achas que foram?

 

Aposto que para as ilhas Caimãs, sir. Há muito que saíram dos atóis e navegam em mar aberto.

 

Eu tenho um hidroavião.

 

Isso é bom, sir. Acho que não têm hipótese...

 

Absolutamente nenhuma, Jim!

 

O Dr. Ynares que continuava a tratar o queixoso Johnny, esperando pelo efeito da injecção, desistira, juntamente com o Dr. Casillas, de impedir Dalques de partir no avião.

 

O método mais simples de lavar o estômago de Johnny, infelizmente, não obtivera êxito. Era impossível enfiar um tubo até ao estômago daquele rapaz. Até à cavidade bocal foi o máximo que o doutor conseguiu avançar com o tubo de borracha, não mais, pois Johnny vomitou com tanta força que Ynares desistiu após a terceira tentativa.

 

Com baixos honorários disse o médico, e ainda me vomitam em cima. O rapaz vai levar uma injecção que o vai obrigar a deitar tudo cá para fora!

 

O Dr. Ynares ficou à espera.

 

Subitamente começou a ouvir-se uma agitação na sala ao lado. O operador de rádio da ”empresa de importação e exportação de peles e artesanato” estava à porta.

 

Tenho o Altun Ha na linha! gritou ele, nervoso. Tenho-a na linha! Miss Tolkins respondeu. Quer falar

 

consigo, Don Fernando...

 

Dalques voltou-se sobre si próprio como um acrobata e precipitou-se para a divisão ao lado. O operador de rádio já tinha o amplificador montado e efectuado a ligação aos altifalantes.

 

Lá para fora! berrou Fernando.

 

O operador de rádio encolheu a cabeça, fechando atrás de si a porta à prova de som. Fernando encontrava-se sozinho com a voz de Mary-Anne, que ressoava com nitidez através da sala. Como o intercomunicador também estava ligado, não havia interferências.

 

Onde estás? perguntou Fernando com voz rouca.

 

No meu barco.

 

Isso já eu sei! Em que posição?

 

Não tens nada a ver com isso.

 

Enlouqueceste, Mary-Anne?

 

Sim!

 

O Rainherr...

 

Amo-o. Chega-te? Amo-o!

 

Em primeiro lugar... Fernando rangia os dentes. O que devia dizer em primeiro lugar? E por causa disso sacrificas a nossa empresa?

 

Cedo-te todo o negócio em terra, Fernando.

 

Que generosa! Sabes perfeitamente que só nos traz dez por cento das transacções que fazemos! O negócio principal é e continuará a ser fazer dinheiro...

 

Nós passaremos a fazer isso sozinhos.

 

Nós? Dalques engoliu em seco. A sua traqueia comprimira-se de repente. Repete o que disseste!

 

Sim, nós! O Andreas, o Juan e eu.

 

Isso é mentira! O Rainherr nunca faria tal coisa! Um homem como ele... um pirata das Caraíbas!

 

Fernando deixara-se cair numa cadeira e fitava a parede com os múltiplos equipamentos de radiodifusão. A ligação estava boa, como se Mary-Anne se encontrasse sentada numa cadeira à sua frente. Como tudo aquilo funcionava, continuava a ser para ele um mistério. Bem como aquela televisão... Sons e imagens pairavam invisíveis no ar... Quem podia compreender uma coisa dessas, mesmo sendo explicado de uma forma simples, através de raios e frequências? Era qualquer coisa de extraordinário.

 

Estejam onde estiverem... hei-de encontrá-los! dizia Dalques agora eriçado.

 

Não acredito! ouviu-se uma voz, vinda prontamente do éter.

 

Eu... Ficara novamente mais desperto. Eu aluguei um bimor Cessna.

 

Apetece-te ser alvejado?

 

Exactamente o que o Dr. Casillas previra! Fernando sabia que não podia evitar as metralhadoras e, inclusivamente, o canhão. Ela era a mulher mais extraordinária que se podia imaginar à face da terra.

 

Óptimo. Então vou agir de outra maneira. Esticou completamente as pernas. Mas como? Ansiava por um ponche de rum com gengibre. Uma bebida infernal, que sempre lhe causara um efeito bastante estimulante.

 

Vou localizar-vos de uma altitude segura e, a seguir, ponho a marinha no vosso encalço. Sei que estão no alto mar, rumo às ilhas Caimãs. Não vão conseguir fugir quando os cercarmos! Mary-Anne, desiste!

 

Ouviu-se um risinho vindo da aparelhagem.

 

Não me parece! A sua voz não soava de modo algum irritada, nem tão-pouco amedrontada. Tu sabes que te encontras no mesmo barco que eu, mesmo estando agora em terra.

 

Não tens provas...

 

Então, vai espreitar o cofre-forte, Fernando. Dalques encolheu as pernas e deixou-se escorregar na poltrona. Não precisava de se levantar e abrir o cofre-forte do escritório... Se Mary-Anne o dizia, era de acreditar. Iria ter tempo de sobra para olhar para os compartimentos vazios onde costumavam esconder todos os documentos.

 

Contabilidade meticulosamente elaborada pela pirata Tolkins e o seu sócio Fernando Dalques:

 

Lista das vítimas; nome dos cúmplices e compradores, à cabeça Mr. David Sylverstone de Tampa, na Florida; transacções efectuadas; ”filial” dirigida por Luís de Vegas, um antigo presidiário banjo, de certeza com um nome totalmente diferente. Um homem que ele, Dalques, contratara.

 

Agora, estava tudo nas mãos dela... A melhor protecção contra todas as perseguições, de facto!

 

Maldita, velhaca, espertalhona, canalha! praguejou Fernando em voz alta. Até hoje, nunca percebera porque tinhas juntado tudo aquilo.

 

Obrigada. Ouviu novamente o seu riso límpido. Quem trabalha com um vigarista da tua laia tem de se proteger. A propósito: procuras inutilmente na direcção das ilhas Caimãs. Eu encontro-me a caminho da minha juventude.

 

Estás a ir para a Colômbia? Vais atracar em Cartagena?,

 

Sim. Suponho que não queiras que te vejam por lá. Não pretendo esconder nada ao Rainherr...

 

Vai ficar surpreendido! Ha Ha! Dalques ria com azedume.

 

Quando é que eu nasci? perguntou ela. Fernando cravou os olhos no altifalante. Tu? No dia dezassete de Outubro... respondeu, espantado.

 

Enganas-te! No dia vinte e três de Maio! É isso que muda e apaga tudo!

 

Enlouqueceste de vez, Mary! gritou Dalques. O que significa esse disparate?

 

A minha felicidade! A minha inexplicável e infinita felicidade... infinita como o mar e o céu lá em cima!

 

A sua voz tornara-se mais suave. Dalques esticou o pescoço para a frente.

 

Fernando, peço-te... Estás a ouvir-me? Peço-te... Deixa-nos em paz! É tudo o que tenho para dizer...

 

Ouviu-se um estampido. Como se a ligação tivesse sido cortada.

 

Fernando Dalques deu um salto e cerrou os punhos.

 

Mary! gritou. Mary! Não te deixes convencer! Ouve-me! Tu não passas de uma aventura para esse Rainherr! Ele é normal de mais para ti! Um homem como ele não pode comprometer-se com uma pirata! Pensa bem na incompatibilidade! Muito bem, estás apaixonada por ele, e ele por ti... Mas quanto tempo vai isso durar? O tempo de terem prazer em ir para a cama um com o outro... E depois? Depois tudo passa. Um homem como esse Rainherr não leva uma pirata para casa! Não sejas parva, Mary-Anne. Queres sacrificar tudo o que construímos ao longo destes anos por causa de um par de dias ou semanas? Mary... diz qualquer coisa...

 

Mas ela permanecia calada. O que Dalques, no seu desespero, atirara pela boca fora ressoara apenas contra as paredes da sala do rádio. Mary-Anne Tolkins tinha-se tornado inacessível. Algures lá fora, no mar das Caraíbas, caminhava ao encontro da sua grande ilusão.

 

Fernando Dalques voltara para a sala do lado de cabeça baixa. Cheirava terrivelmente mal...

 

A injecção do Dr. Ynares produzira finalmente efeito... o negro Johnny tinha-se esvaziado. O Dr. Casillas recuara bastante até ter alcançado a janela, agora aberta de par em par, que dava para o jardim. Fernando também recuou para trás, horrorizado quando entrou no quarto.

 

Como é que uma pessoa pode tresandar desta maneira! dizia ele ofegante, apressando-se ajuntar-se ao médico que se encontrava à janela.

 

Se o limpasse por dentro, Don Fernando, até os pássaros cairiam das árvores! respondeu o Dr. Ynares tranquilamente. Uma intoxicação com álcool é coisa que o Johnny não voltará a consentir.

 

Temos de mudar de planos, Casillas sugeriu Dalques ao mesmo tempo que esticava a cabeça para fora da janela. Miss Tolkins enlouqueceu, tem os documentos todos do cofre-forte a bordo, quer levar consigo o doutor Rainherr para a terra da sua juventude, e agora diz que nasceu no dia vinte e três de Maio...

 

Isso é agora, Don Fernando!

 

Precisamente! Uma vida nova! Dalques riu-se com uma voz cavernosa. Quer ser, juntamente com o Rainherr e o Juan, o novo terror das Caraíbas e privar-nos de milhões...

 

E esse alemão concorda? inquiriu Casillas, incrédulo. Eu é que nunca confiaria numa coisa dessas. Nada disso condiz com ele!

 

Um par de coxas de mulher são mais eficazes do que qualquer operação ao cérebro! gritou o Dr. Ynares, que se encontrava entre os dois.

 

Isso é o que ele diz! Dalques batia com os punhos um contra o outro. Casillas, como é do ponto de vista jurídico? Temos duas contas da empresa no banco. Uma em meu nome e outra no de Miss Tolkins. Quem tem direito às contas?

 

De acordo com o contrato entre os sócios em questão, os sobreviventes.

 

Tem mesmo a certeza?

 

Cem por cento...

 

Então, também tenho a certeza de que o Altun Ha vai ser afundado dentro dos próximos dias.

 

Por quem?

 

Por mim!

 

Dalques limpou o suor da cara. Lá fora fazia calor. A floresta virgem fumegava após alguns dias de chuvas diárias, breves, mas torrenciais.

 

Vou levar três projécteis comigo, no Cessna. Já fornecemos cem deles à Nicarágua. Afastou-se da janela e um pressentimento de triunfo fê-lo suportar o mau cheiro da sala. Senhores... não vai haver nem sobreviventes nem barco pirata! Dentro de uma hora vou começar.

 

À mesma hora a que Fernando descolava do Cais III a bordo do Cessna com três projécteis, rumo a um céu límpido, Rainherr e Mary-Anne já tinham atravessado os atóis Hicks, encontrando-se agora em mar aberto, a caminho de Ambergris.

 

Juan encontrava-se novamente ao leme, depois de Rainherr ter delineado a rota, o que provocou um ataque de riso a Mary-Anne.

 

Este percurso faço-o eu de olhos vendados! exclamou ela..

 

Rainherr não percebera nada da sua conversa com Fernando. Estava na ponte ao lado de Juan, enquanto Mary-Anne preparava o chá.

 

Fernando Dalques sobrevoou primeiro os atóis e os recifes à frente de Belize, movido pelo pressentimento obscuro de que Mary-Anne lhe poderia ter mentido, só para o desviar.

 

Quando detectava um iate branco a motor e descia mais baixo, enganava-se sempre. Ou eram barcos de turistas americanos ou de excursões, uma indústria que quase não havia em Belize e que se tinha especializado em levar os visitantes, a maior parte americanos, ingleses e alemães, para os arquipélagos, onde as pessoas pagavam para poderem ver tudo aquilo que pretendiam: jardins fantásticos de corais, cardumes de peixes cintilantes, palmeiras de cocos vergadas pelo vento, praias brancas como a neve, barracudas rasgando a água... e tubarões.

 

Alguns pescadores já se tinham especializado na pesca ao tubarão só para turistas: tiravam-se os peixes assassinos para fora com canas de pesca muito resistentes e, por precaução, antes de os colocar a bordo enfiava-se-lhes um arpão. Depois, tiravam-se as fotografias da praxe... só com o tubarão, ou em grupo: Friedrich Lehmann nas Caraíbas, ao lado de um tubarão morto pelas suas próprias mãos: ”Um campeão de bólingue, vencedor do ladrão das Caraíbas!”

 

Fernando não parava de praguejar, subia mais alto e continuava a procurar. A seguir mudou de rumo e voltou para trás, em direcção à Colômbia. Pelos seus cálculos, o Altun Ha ainda não devia estar longe, no máximo, no golfo das Honduras, próximo das ilhas da Baía.

 

Não sabia que tinha virado precisamente para o raio de visibilidade do Altun Ha. Mais uns minutos de voo e poderia disparar os seus projécteis...

 

Tinha um único plano em vista: uma batalha impiedosa!

 

Jim McDonald só precisara efectivamente de duas horas Para reparar o barco e pôr os dois motores do Annette I a funcionar. A título de experiência, deu umas voltas à doca.

 

De facto, não havia comparação possível entre o equipamento do iate de Rainherr e o do Altun Ha; no que dizia respeito às salas e à cozinha, estava até um nível acima... mas relativamente à velocidade e à manuzeabilidade era inferior, tal como todos os barcos que já experimentara. Mesmo as pretensas vedetas rápidas, motivo de tanto orgulho da marinha, perdiam velocidade quando o Altun Ha desenvolvia a sua força máxima e flutuava sobre o mar.

 

A única coisa que poderia constituir uma ameaça para ele eram os barcos com meias-asas da Marinha americana, na Florida... Mas, à cautela, ninguém penetrava nessa região para assaltar iates.

 

Quando um daqueles barcos da guarda costeira estacionava nas Baamas, desistia-se imediatamente do arquipélago e só se visitava os escolhos do Sul, as ilhas Turks e Caicos. Mas tudo isto apenas em ”caso de necessidade”, quando Luís de Vegas não comunicava a existência de objectos lucrativos nas ilhas Virgens ou nas Pequenas Antilhas.

 

Um barco fraco! resmungou McDonald, assim que voltaram a atracar no cais. Mas, pelo menos, temos qualquer coisa flutuante a nadar por baixo de nós.

 

A reparação do Annette I ficou rapidamente concluída. Nos armazéns havia material suficiente que já fora declarado como ”peças de arte” e selado pelos funcionários aduaneiros que tinham sempre à disposição uma mão aberta, evitando-se assim todos os outros controlos!

 

Um selo oficial é considerado tabu... é assim em qualquer parte do mundo.

 

O Dr. Casillas controlou pessoalmente a escolha da carga... Ia dando baixa do material nas listagens, controlando tudo meticulosamente. Por exemplo: duzentas esculturas em madeira, dos índios mapra (máscaras, figuras de dançarinos, ídolos). O que o caixote continha na realidade eram pistolas automáticas e, inclusivamente, cartuchos, cheios de balas. Ou: cem carapaças de tartaruga, tamanho III. Conteúdo real: granadas de mão e uma pequena bazuca. As munições correspondentes estavam noutro caixote, onde se podia ler em grandes letras pretas: peles de cobra e de dorso de crocodilo, tamanho I. Artigos grandes e compridos... ou cinquenta bazucas.

 

Já chega! gritou McDonald, que assumira o comando. Quando o chefe lançar os três projécteis, já não vamos precisar deles. Não queremos provocar uma batalha naval...

 

Com Miss Tolkins, tudo é possível respondeu o Dr. Casillas apreensivo. Ou tu julgas, Jim, que ela se entrega sem se defender?

 

Com bombas lançadas do ar?

 

Aquele doutor Rainherr continua lá.

 

Não têm qualquer hipótese...

 

Quando o Fernando os surpreender no mar sozinhos! Se forem tão requintados ao ponto de navegarem ao abrigo do vento provocado pelos navios de carga do tráfego marítimo internacional, Dalques não vai poder fazer rigorosamente nada! Não pode atacar um comboio de carga! Não estamos em guerra.

 

Malditos! Não tinha pensado nisso! McDonald esgravatava a sua floresta de cabelos vermelhos. Será que o chefe também pensou nisso?

 

Não! Disse-lho há dez minutos pelo rádio.

 

E o que é que ele respondeu?

 

”Primeiro quero encontrá-los, depois tenho tempo para pensar. Vão acabar por ficar sozinhos. Não vão ficar cem anos colados atrás de outros barcos!”

 

Maldito! Deve estar muito chateado! observou Jim. Não pode ser só por causa do dinheiro.

 

Não. Ele sempre quis ficar com Miss Tolkins, mas ela começou logo a berrar, mal ele fez menção a esse assunto. E de repente, aparece um doutor Rainherr, e a Mary-Anne comporta-se como uma menina de escola!

 

O Dr. Casillas guardou a lista e empurrou o chapéu de palha mais para a testa. O sol da tarde ardia outra vez com toda a força, até se tornar vermelho-dourado e mergulhar no mar.

 

Que pirata maravilhosa e temerária esta Miss Tolkins! Nunca perdeu... Casillas acompanhou estas palavras com um suspiro.

 

Nunca! concordou McDonald, orgulhoso.

 

E, de repente, rende-se a esse alemão! Há com certeza algum motivo para ninguém gostar deles, seja onde for! Onde quer que apareçam, arranjam confusão!

 

Estamos quase a partir. Jim McDonald transpôs o passadiço e estendeu a mão ao Dr. Casillas. Então, em direcção à Colômbia? Louco!

 

Don Fernando anda à procura na costa que vai das Honduras até às Baías. Mais longe não podem estar.

 

Na rota comercial, portanto comentou Jim com maus modos. Como calculámos.

 

Melhor para ti, Jim. Se se colarem atrás de um cargueiro, não precisam de utilizar a sua velocidade. Nessa altura podes aproximar-te deles à vontade.

 

Vou tentar o meu melhor, sir

 

McDonald fez um cumprimento à militar, o que, com aquela sua floresta de cabelos vermelhos, lhe dava um ar um pouco cómico, e entrou para bordo. Um marinheiro soltou os cabos e o Annette I deslizou lentamente para fora do cais da cidade de Belize. Navegou obedientemente para trás dos recifes e dos atóis ao longo da costa, em direcção às Honduras.

 

Na altura da despedida, McDonald agitou três vezes a bandeira e accionou levemente a sirene. Ordenara a toda a tripulação que se juntasse no salão do Dr. Rainherr, e só deixou os motores parar quando já não conseguia ver a costa de Belize.

 

Os piratas estavam todos descontraídos nos sofás, contudo, tal como Jim McDonald, com os impecáveis e imaculados uniformes brancos de marinheiro, como miss Tolkins estabelecera. Corsários com uma imagem de cadetes da marinha.

 

Era um truque em que caíam sempre todos aqueles que eram assaltados. Acreditavam tratar-se de um barco militar, até lhes começarem a tirar as carteiras, as jóias e a exigirem a abertura do cofre-forte. Um jornal americano chamou-lhe uma vez ”A pirataria mais perfeita e elegante de todos os tempos.”

 

Rapazes... anunciou McDonald enquanto mexia nos seus cabelos cor de fogo. Conhecemos todos a nossa missão. Vamos ter de afundar o nosso magnífico iate, juntamente com o nosso capitão! Para isso, cada um de nós receberá dez mil dólares de recompensa. Levantou a voz e firmou os seus enormes braços na cintura. Quem estiver disposto a mandar ao fundo o nosso magnífico barco e a matar o nosso capitão e receber dez mil dólares de recompensa, que se levante!

 

Os homens do Altun Ha olharam-se de relance e começaram rapidamente a fazer contas de cabeça. Dez mil dólares era uma data de dinheiro, mas também era muito desagradável ser atirado borda fora, aos tubarões, que ainda há pouco seguiam na rota de navegação o rasto do cargueiro, atrás de restos de comida.

 

Portanto, ninguém se levantou. Ficaram a olhar para McDonald com um ar cândido. ”E agora, timoneiro?”, pareciam eles querer perguntar. ”Devemos porventura tornar-nos independentes desse pobre barco de recreio?”

 

Rapazes recomeçou Jim. Vejo que estão a ponderar no assunto. Todos nós precisamos de dez mil dólares, mas quem é capaz de matar o nosso capitão? Quem é que seria capaz de atirar sobre o capitão ou lançar uma mina?

 

No ar encontra-se Don Fernando a circular com as suas bombas! lembrou o barbudo.

 

Eu sei! gritou Jim. E foi por isso que decidi entrar em comunicação com o nosso capitão e ouvir aquilo que tem a propor. Aqui no mar, é ela a nossa chefe! Podia ouvir-se a respiração de McDonald. Eu só vos queria dizer isto, para não me virem chatear mais tarde. Vou procurar chegar ao nosso bonito barco.

 

Voltou-se, dirigiu-se para o rádio e sintonizou a frequência de ondas do Altun Ha. Os marinheiros pareciam bonecos sentados nas cadeiras, com os olhos cravados no sinal de transmissão do painel de comando. A tensão era tão grande, que estremeceram todos quando o barbudo espirrou de repente.

 

Perdão! Estava qualquer coisa a fazer-me comichão no nariz.

 

Idiota! McDonald tinha sintonizado a frequência. Agarrou no microfone de mão e ligou os altifalantes.. HA Um! gritou ele. HA Um! Aqui McDonald. HA Um! HA Um...

 

O altifalante calou-se. A tensão tornara-se tão insuportável que alguns marinheiros acendiam os cigarros com as mãos trémulas.

 

No Altun Ha, onde Juan Noales se encontrava ao leme, em direcção ao atol de Ambergris, o sinal vermelho acendeu-se no painel de comando. Alguém estava a contactá-los. Podia ser perigoso. Juan ligou para a sala onde Mary-Anne e Andreas Rainherr se tentavam conter, permanecendo calados um em frente do outro, com a mesa do chá entre eles. Tinham tido novamente uma discussão em torno do tema ”futuro”.

 

Vê se compreendes, Andres... dissera ela. Não existe retorno para mim. Eu sou uma criminosa...

 

Tu és... é uma palerma! respondera ele.

 

Durante quatro anos, fiz com que o mar das Caraíbas se tornasse um lugar inseguro...

 

E quem é que sabe disso?

 

Tu e eu!

 

Então!

 

E a minha tripulação, o Fernando, o Casillas, o Luís de Vegas... uma série de gente.

 

Só para conservarem a sua liberdade, não hão-de querer ver os seus coletes manchados de sangue.

 

Sim, mas tu! Sempre que olhares para mim, irás dizer para ti próprio: ela foi uma pirata!

 

Quando olhar para ti, hei-de pensar sempre: uma mulher como estas já não existe...

 

Isso é verdade! Mas no sentido negativo...

 

Foi neste ambiente que lhes chegou a informação da ponte.

 

Miss Tolkins, estamos a ser contactados pelo rádio. Mary-Anne olhou para Rainherr com um olhar quase de triunfo.

 

Estás a ouvir? Só o meu pessoal é que conhece a frequência.

 

Não respondas! avisou Rainherr em tom convincente. Finge que não estás aqui.

 

Juan, eu respondo aqui em baixo! gritou ela para a ponte. Mantemos a rota.

 

Okay, Miss Tolkins.

 

Levantou-se, encaminhou-se para o rádio do piso inferior e puxou algumas alavancas. De repente, a voz de McDonald ressoou pela sala, grave e alta.

 

HA Um! Respondam! HA Um! HA Um...

 

O que é que se passa, Jim? perguntou Mary-Anne calmamente.

 

Ouviu-se um grito de júbilo saído do altifalante.

 

Rapazes! Conseguimos apanhá-la! Durante uns momentos o altifalante só emitiu ruídos de fundo.

 

A tripulação aplaudiu. A seguir, novamente a voz de Johnny.

 

Capitão, somos nós. Estamos no mar. Navegamos ao longo da costa das Honduras rumo às ilhas da Baía. Onde é que se meteu?

 

Isso era o que tu gostarias de saber, não era, Jim? perguntou Mary-Anne com ironia.

 

Sim, capitão.

 

Em que barco estão a navegar?

 

No Annette, do doutor.

 

O meu barco! gritou Rainherr. Jim, seu estupor...

 

Bom dia, doutor! Na voz de McDonald quase se sentia um sinal de emoção. Ainda bem que está com o capitão. Quem é que está ao leme? O Juan? Que bom! Arranjei novamente o seu barquito. Levou um grupo gerador de energia novo, um rádio e palamenta completa a bordo! O barco anda bem, inclusivamente em águas agitadas, mas, em comparação com aquilo a que estamos habituados, é muito preguiçoso!

 

O que é que queres, Jim? perguntou Mary-Anne Tolkins. Podem procurar onde quiserem que não nos vão encontrar!

 

Don Fernando está no ar, com um bimotor Cessna com flutuadores.

 

Eu sei.

 

Mas o que não sabe, capitão, é que ele tem três projécteis a bordo. Autodirigíveis. Apanham-na onde quer que esteja...

 

Tens razão observou Rainherr em voz baixa.. Mas só uma pergunta, Jim: porque é que estás a contar-nos isso tudo?

 

Queremos ir ter consigo, sir. A tripulação está toda de acordo. Não permitimos que destruam o nosso magnífico barco e que afundem o nosso capitão. Chegámos a um acordo: vamos todos renunciar aos dez mil dólares de recompensa! Não é verdade, rapazes?

 

Um ”sim, capitão” ensurdecedor ressoou do altifalante. Mary-Anne voltara-se para Rainherr. Os seus olhos brilhavam, como se retivesse as lágrimas a custo.

 

São os meus rapazes disse ela, comovida. E devo-os afugentar?

 

Pode ser tudo um truque de mau gosto sussurrou Rainherr. Deixa-os continuar a procurar na direcção oposta.

 

Ouve, Jim! chamou Mary-Anne. Isto agora é uma ordem! Vocês vão continuar próximo das ilhas de Baía e esperar por novas ordens. E caso isso demore seis semanas ou meio ano... podem abastecer-se lá.

 

Capitão, mas nós queremos ir ter consigo! reclamou McDonald desesperado. Porque é que havemos de andar à volta das ilhas? Além disso, Don Fernando de certeza que não vai ficar meio ano no ar! Pode avistá-la a qualquer instante! Se estiver perto de nós, capitão, venha depressa ter connosco. Por favor...

 

McDonald transmitiu a posição exacta do Annette I. Estava muito longe do Altun Ha.

 

Jim, vais voltar a ter notícias nossas disse Mary-Anne. E quando o Fernando te localizar, transmite-lhe o seguinte: vou informar a aviação militar das Honduras de que um hidroavião, modelo Cessna, sobrevoa a rota da morte com três projécteis a bordo. O Fernando pode, quanto a mim, arriscar-se a um combate aéreo. Mas nunca nos encontrará!

 

Desligou o rádio e sentou-se num tamborete de couro.

 

Satisfeito, senhor doutor Rainherr?

 

Vai chamar a força aérea das Honduras?

 

Sim.

 

Podem disparar sobre ele.

 

Sim, ele merece-o. Ele quer matar-te! A ti e a mim! Três projécteis autodirigíveis! É inútil fugir-lhe, se nos descobrir. Não olhes assim para mim, Andreas: se quisermos sobreviver, temos de nos desembaraçar dele.

 

Deixou descair a cabeça e apertou a cara com as mãos.

 

E tudo isto só porque te capturei e te defendeste. Não podias ter reagido como todos os outros que capturámos? És o único culpado...

 

”É difícil de compreender uma lógica tão deliciosamente feminina”, pensou Andreas Rainherr.

 

Fernando Dalques praguejava com todos os palavrões que aprendera nos tempos passados nos bairros pobres da Colômbia. Os indicadores de combustível apontavam para a ”reserva”. Tinha de regressar a terra e descobrir onde ficava o aeródromo de La Ceiba nas Honduras, para se abastecer.

 

Anunciou a sua chegada através da rádio, pediu autorização para aterrar, aguardou e mudou de rumo em direcção às ilhas da Baía.

 

Viu uma série de iates ancorados na baía, inclusivamente nas águas pouco profundas dos recifes de corais... Baixou ainda mais de altitude, sobrevoou as pequenas ilhas com as suas praias e não avistou nenhum barco parecido com o seu Altun Ha. A seguir tinha de regressar rapidamente, e aterrar com as últimas gotas de combustível em La Ceiba.

 

O abastecimento efectuou-se depressa. Amarou na baía ao lado de um petroleiro, a mangueira foi içada para cima e enquanto o combustível escorria para dentro dos tanques, Dalques tentava encontrar o Altun Ha com o seu rádio.

 

Mas ninguém respondia do barco.

 

Após frequentes tentativas desligou o aparelho e riu com amargura. ”Ela não me escapa”, pensou. ”Ela não pode refugiar-se numa vida burguesa. Que ideia! Sair da sarjeta de Cartagena para ficar com um inventor alemão! Onde é que deixou a sua inteligência? O seu olhar prosaico? O seu charme que todos admiravam, a sua visão lúcida acerca da vida? E sobretudo... o seu espírito para os negócios? Aquilo que dissera uns anos antes, quando descobriu o esconderijo por trás do grande recife, a partir do qual organizaram ambos as suas grandiosas carreiras de piratas?

 

Já comi suficiente peixe podre dissera ela. Agora, quero descobrir a que sabem as ostras e o caviar! Não quero voltar a dormir em colchões de palha rasgados, mas sim numa cama dourada!

 

Conseguira tudo isso. Na vivenda junto ao rio de Belize tinha uma cama com um dossel adornado com tule... só provara ostras uma vez, tendo-se admirado que os ricos deste mundo fossem tão fanáticos por aquelas ”coisas moles”...

 

Era uma mulher especial, aquela Mary-Anne... uma serpente humana que mudava constantemente de pele e surgia sempre revestida de um novo brilho.

 

”Agora vem a fase burguesa”, pensou Fernando. ”Uma fase perigosa... pois julga estar, pela primeira vez na vida, verdadeiramente apaixonada. Desta vez não se trata de nenhuma mudança de pele, para completar a sua paleta colorida. Podia-se falar-lhe de muita coisa... mas nunca de homens.”

 

O Dr. Casillas observara uma vez que Mary-Anne só era mulher no aspecto físico, e que, em relação aos seus sentimentos, era completamente neutra. Devia faltar-lhe alguma hormona. A seguir capturou aquele Dr. Rainherr, e a hormona em falta explodiu como um vulcão!

 

Os tanques estavam atestados. Dalques pagou com dólares americanos, esperou que o petroleiro se distanciasse o suficiente para deslizar para fora da baía nos flutuadores do seu Cessna, mar adentro, e levantar voo.

 

Tinha acabado de descolar, numa elevação suave, quando chegou uma comunicação anónima feita por telex à base militar da força aérea das Honduras, no campo de aviaÇão de La Lima.

 

Um tal coronel Benito Marcos, que comandava a base, fitava estupefacto o pedaço de papel, sobre o qual o radiotelegrafista escrevera a seguinte mensagem:

 

”Em território nacional das Honduras, no circuito das ilhas da Baía, encontra-se no ar um bimotor Cessna, registado sob a bandeira de Belize. A bordo do Cessna encontram-se três projécteis, que servirão supostamente para afundar um barco privado. O piloto está determinado, encontrando-se ao que parece numa situação de alteração mental. Atenção, Honduras! Este tipo de projécteis podem ser também utilizados num combate aéreo, através de um sistema magnético, e atingir os alvos através de ordens emitidas pelo rádio. Fim.”

 

Isto é incrível! comentou o coronel Marcos, pedindo para estabelecer imediatamente comunicação com o Ministério da Defesa, ao mesmo tempo que ligava o alarme de nível I. Seis caças da força aérea das Honduras rolavam pela pista de descolagem.

 

De onde veio a comunicação?

 

Sem indicação, senhor coronel! respondeu o radiotelegrafista. Chegou, simplesmente! Os pedidos de informação ficaram sem resposta. A emissão foi interrompida logo a seguir à transmissão.

 

E se não passar de uma enorme brincadeira de mau gosto?

 

Estabeleceram ligação com o Ministério da Defesa.

 

O coronel Marcos transmitiu a comunicação e informou que os seis caças estavam prontos a descolar.

 

No Ministério da Defesa de Tegucigalpa estavam todos muito cautelosos.

 

Deixem descolar a esquadrilha, mas não entrem logo em acção! Vamo-nos informar em Belize, se existe realmente algum avião com essa descrição. Quando o vosso pessoal tiver efectivamente apanhado o Cessna, devem manter-se em voo de escolta, até receberem novas ordens.

 

O governo da pequena capital de Belmopan em Belize despertou também da sua confortável rotina. Durante uns momentos sentiu-se um ambiente de política internacional nos aposentos oficiais... mas a tensão sucumbiu rapidamente.

 

O governo de Belize anunciou que segundo os registos existiam muitos hidroaviões com aquelas características, vinte e cinco dos quais eram propriedade do governo, sendo os restantes máquinas particulares de agências de fretagem, sobretudo colocados ao serviço do turismo. Que um avião desses pudesse ter projécteis a bordo era algo que soava a boato.

 

Não pode ser! telegrafavam laconicamente de Belize. Caíram numa brincadeira.

 

Nas Honduras tomou-se conhecimento desta notícia com satisfação. O coronel Marcos da base da força aérea de La Lima enviou de facto os seus seis caças para o ar, mas sem ordem de ataque. Uma manobra repentina! Alvo: um Cessna bimotor com as insígnias de Belize...

 

Fernando Dalques voltou a ter sorte.

 

Como entretanto escurecera, voltou para Belize e aterrou no Cais III da cidade de Belize, com os faróis de aterragem acesos. Atrás de si dissipava-se um céu vermelho cor de sangue, dando subitamente lugar a uma noite totalmente azul, envolta num magnífico céu estrelado.

 

O Dr. Casillas estava no porto à espera de Dalques, dentro do enorme carro americano. Fernando deixou-se cair, mal-humorado, no assento em couro.

 

Nada! exclamou

 

A famosa agulha no palheiro.

 

Podia poupar-me aos seus malditos provérbios, Casillas! Quais são as notícias acerca do McDonald?

 

Nada...

 

O que é que isso quer dizer?

 

O mesmo que o seu nada. Partiu e não deu mais notícias.

 

Nenhuma informação acerca da sua posição?

 

Até agora, nada. Parece-me uma atitude prudente.

 

Em que sentido?

 

Quando a Mary-Anne escutar a comunicação pelo rádio, vai ficar a saber exactamente onde o McDonald se encontra.

 

Tens razão.

 

Fernando permaneceu durante um minuto a olhar calado Para o admirável e límpido céu estrelado.

 

Vá-se embora, Casillas. Amanhã cedo, pela alvorada, volto a descolar.

 

E se estiver a procurar numa direcção totalmente errada, Don Fernando? Se estiverem os dois a caminho das ilhas Caimãs?

 

Também já ponderei essa hipótese.

 

Dalques pegou numa caixa de cartão que se encontrava no porta-luvas, donde tirou um cigarro fino e comprido. Acendeu-o displicentemente e com os lábios esticados para a frente soprou o fumo em direcção ao tecto do carro.

 

Amanhã, atesto as máquinas até à última gota e voo até às Caimãs.

 

Não me parece que seja um sítio seguro, Don Fernando. Pode correr mal para si. Existe uma base aérea britânica na Grande Caimã.

 

Tenho de os apanhar primeiro. Em mar aberto, no meio do mar de lucatão. Nem que tenha de viajar de noite e de dia... eles devem estar muito ao largo...

 

Dalques aspirou, satisfeito, o seu cigarro.

 

Casillas, você teve uma excelente ideia.

 

Encontravam-se os três na ponte quando se aproximaram da costa do atol de Ambergris. Na praia, entre as palmeiras, e com o pôr de Sol, os hotéis passavam do branco ao dourado.

 

Barcos da agência de fretagem regressavam da zona dos tubarões; por entre os jardins de corais, os pequenos barcos ainda molengavam com os seus chãos em vidro, através dos quais se podia, sem sair do lugar, lançar um olhar fascinado ao fundo do mar. Dali, avistavam-se as excêntricas e luxuriantes florestas de corais, os cardumes de peixes coloridos e os despojos de barcos naufragados, que devido aos turistas tinham sido desenterrados do fundo do mar e dispostos como cenário. ”Estão a ver, era assim, antigamente...”

 

Barcos dourados, navios de flibusteiros, fragatas destruídas por enormes tempestades... tudo lá em baixo. Despertavam-se séculos de existência por um dólar de entrada.-

 

Vamos viver para os alojamentos de Ambergris disse Mary-Anne. Os quartos já estão reservados.

 

Isso não terá sido imprudente da tua parte? inquiriu Andreas.

 

As reservas foram feitas no nome de Tabora.

 

E se pedirem um passaporte?

 

Receberão um.

 

Que interessante! Terás por acaso um arquivo de identificação a bordo? Também das vítimas de piratas? Como é que eu me chamo, afinal?

 

Tabora, também. Riu-se para ele com um ar um pouco trocista. Peço desculpa por seres mais velho no passaporte. És meu pai...

 

Assumirei respeitosamente o meu papel, filhinha. E o Juan?

 

O meu irmão Bernardo.

 

Um exemplo de uma família típica! Existe mais algum Tabora?

 

Mary-Anne hesitou um pouco. Depois, respondeu:

 

Sim. Ainda há uma irmã, dois irmãos, uma mãe...

 

Devia ser uma excursão familiar. E calculo que a família Tabora tenha sido toda capturada!

 

Um dia explico-te retorquiu Mary-Anne, taciturna.

 

E as fotografias dos passaportes? Os outros Taboras eram parecidos comigo e com o Juan? Que coincidência!

 

O meu passaporte é suficiente... Depois, mostro-to. Passaram, a velocidade moderada ao longo dos portos de San Pedro e ancoraram na baía privada dos hotéis. Como o Altun Ha era uma embarcação de fundo chato, podia aproximar-se da praia. O barco privativo do hotel, que aliás transportava os hóspedes dos iates particulares para terra, tinha de atracar no pontão. Com o barco a remos do Altun Ha eram só mais dez metros até chegarem à praia, cuja areia era branca como a neve.

 

Os chapéus-de-sol, feitos de folhas de palmeira, ciciavam ao vento, as cadeiras articuladas já estavam dobradas, e as longas cadeiras de repouso de madeira branca estavam a ser empilhadas naquele momento. Criados negros arrumavam os estrados coloridos por baixo de um telhado.

 

Ligeiramente afastado da praia, o clube já abrira para a noite. Candeeiros às cores balançavam, um grupo de palmeiras altas tinha sido iluminado por projectores, mesas e cadeiras estavam dispostas à volta de um lago artificial. Atravessando uma ponte ia-se dar a uma ilha com uma pista de dança, no meio do mar.

 

Ainda só tinham chegado alguns hóspedes e os músicos do combo afinavam os instrumentos e controlavam através de tossidelas e de assobios o som dos altifalantes e dos microfones.

 

Na sala de jantar do hotel, sob os lustres resplandecentes, empregados de mesa serviam em smokings brancos. Ostentavam um ar mais elegante do que os hóspedes de uma excursão americana, com os seus habituais fatos coloridos excêntricos e vestidos de mau gosto.

 

Na recepção do hotel, no enorme átrio refrescado com o aparelho de ar condicionado, o gerente do hotel acolheu os novos hóspedes, confirmando que os quartos estavam prontos. Com vista para o mar, varanda, algumas cadeiras de repouso e toldos articuláveis... Como desejado!

 

Mary-Anne acenou com a cabeça, com aquela altivez cordial que deixava todos os gerentes dos hotéis prostrados de joelhos. Colocou o passaporte no balcão da recepção: um passaporte colombiano, como Rainherr imaginara.

 

Se nos quiser registar respondeu, lacónica. Este senhor é o meu pai, e este rapaz o meu irmão...

 

Mas, senhorita O gerente devolveu o passaporte sem olhar para ele. Estamos em San Pedro, não estamos em Sampetersburgo!

 

Também se chamou Leninegrado corrigiu Rainherr, com os mesmos modos altivos com que Mary-Anne falara. Quando lá estive nessa altura, só recebi o meu passaporte, depois de ter partido... seis dias depois! Agora, chama-se de novo Sampetersburgo.

 

Escandaloso!

 

O gerente do hotel adiantou-se em direcção ao elevador. Nunca tinha tido hóspedes que tivessem estado em Leninegrado ou Sampetersburgo. Aquela história devia ser um trocadilho espirituoso.

 

Não se importam que vá à frente?

 

Faça favor.

 

No terceiro andar foram-lhes atribuídos três quartos com vista para o mar... mobilados em estilo espanhol, com um toque da Grã-Bretanha. As gravuras com os barcos à vela em molduras de mogno penduradas nas paredes eram restos dos tempos britânicos.

 

Ficaram sozinhos e encontraram-se nas varandas, separadas umas das outras por balaustradas baixas.

 

Como é que te chamas? perguntou o Dr. Rainherr a Juan.

 

Bernardo Tabora.

 

Boa, Juan! E eu, querida corsária?

 

César Tabora.

 

Precisamente César! Porquê?

 

Porque era o nome do meu pai. Não o posso mudar.

 

Espero que não haja nenhum Bruto na vossa família.

 

Porquê Bruto?

 

Era como se chamava o bom amigo de César, aquele que o assassinou.

 

Chamava-se Vargas! disse Mary-Anne numa voz dura.

 

Nesse caso, os livros de história terão de ser imediatamente revistos.

 

Mary-Anne não respondeu. Voltou para o quarto, fechando a porta da varanda com estrondo. Juan encolheu os ombros.

 

O que posso fazer, chefe? Não consigo mexer-me neste círculo apertado.

 

Tenta, Juan!

 

O Dr. Rainherr sorriu e apontou em direcção ao mar, para as pistas de dança. Os primeiros pares já estavam a dançar o samba. Americanas já não muito novas, sentadas sozinhas à mesa, esperavam por nativos dispostos a jogos de sedução. Nesse aspecto, a gerência do hotel preocupava-se com a gente nova.

 

Lá em baixo, safas-te, meu rapaz. Tenta! As raparigas que chegam atrasadas agradecem qualquer amabilidade. Diverte-te!

 

Sem dinheiro, chefe?

 

Vai andando para o átrio. Vou pedir dinheiro emprestado à nossa pirata!

 

Uma hora mais tarde já as coisas estavam diferentes.

 

Comeram um jantar leve; Juan tinha dólares suficientes para poder olhar para o decote generoso de uma turista loira oxigenada vestida a condizer, com quem ficou agradavelmente ocupado até à manhã seguinte.

 

Mary-Anne e Andreas foram passear para a praia, deixando para trás a confusão mundana e a música do combo que estava excessivamente alta. À sua volta o céu estrelado dos trópicos, a seus pés as ondas do mar que batiam na praia, desfazendo-se. Uma brisa murmurava, soprando as grandes folhas das palmeiras; os seus passos rangiam delicadamente sobre os grãos finos de areia branca.

 

Pararam junto a uma velha barca de pesca puxada para terra, já bastante apodrecida, que durante o dia era utilizada com gosto como cenário de fotografia.

 

Aqui? perguntou Mary-Anne em voz baixa. Sentara-se na borda da velha barca, remexendo a areia com os pés. O mar rolava para perto deles, em ondas uniformes, longas e suaves. Andreas acenou com a cabeça e encostou-se à barca, a seu lado. Porque é que não dizes que as piratas também podem ser românticas? acrescentou ela.

 

Não quero voltar a discutir contigo. Depois de dez minutos de conversa, começamos logo a afiar as navalhas.

 

Não te agrada estar aqui?

 

Aqui, sim. Ali em cima, não. Odeio estes paraísos comerciais. Ajustados à beleza da civilização e vendidos a peso de ouro.

 

Preferias ser um Robinson Crusoe?

 

Já o sou! A minha casa fica em Cayman Brac, longe da confusão. Posso passear nu à vontade, sem que apareçam logo cem vizinhos a espreitar-me através da cerca.

 

Gostas de te passear nu?

 

Às vezes.

 

Quando?

 

Quando penso que este mundo é tão belo como o último dia da criação. Sorriu, sonhador. Uma coisa destas dita por um homem de quarenta e cinco anos! Um homem a caminho dos cinquenta.

 

Eu acho bonito, Andres.

 

Desabotoou o vestido, deixou-o escorregar pelos ombros e voltou a sentar-se, nua, na borda da barca. O seu corpo brilhava com o reflexo da luz das estrelas e da rebentação branca das ondas. O adesivo que tapava a sutura feita por Rainherr continuava colado sobre o peito direito.

 

O vento está muito quente... Os seus longos cabelos agitavam-se sobre os ombros. Consegues senti-lo?

 

Ligeiramente, sim.

 

Tirou a camisa por cima da cabeça, desapertou o cinto e despiu as calças, atirando tudo para cima da barca. Despido como ela, expôs-se ao vento e abriu os braços. Os músculos do seu corpo sobressaíam, acompanhando os movimentos, consoante ele se virava e distendia.

 

Mary-Anne contemplava-o com a cabeça ligeiramente inclinada. Sorriu quando se aproximou.

 

Preciso de falar contigo disse ela.

 

Por favor, isso não! Está tudo tão calmo, tão bonito, tão... abençoado. Por que razão havemos de discutir, precisamente agora?

 

Eu sei que estás prestes a beijar-me continuou ela. Eu sei que estás prestes a abraçar-me e a deitar-te comigo na areia e que finalmente, finalmente iremos fazer amor. Eu também o quero, desejo-o, os meus nervos ressentir-se-ão se não o fizermos agora! Andres...

 

Afastou-o com as mãos, no momento em que ele a ia agarrar e puxar para si. O seu corpo reluzente dava mostras de grande tensão.

 

Não digas agora que me amas...

 

Meu Deus, não me apetece dizer outra coisa! Nunca gostei tanto de nenhuma mulher! Já não consigo imaginar-me a viver sem ti...

 

Sem saberes quem sou?

 

Nasceste no dia vinte e três de Maio...

 

A grande mentira romântica, que deveria encobrir tudo! Julgas que alguém consegue viver com uma mentira?

 

Nós conseguimos, Mary-Anne. Nós conseguimos! Não existe amor tão forte como o nosso...

 

Sorriu com tristeza e encolheu as suas pernas esguias. Como uma ninfa elegante e frágil, saída do mar, sentou-se na borda da barca. O brilho das estrelas reflectia-se na sua nudez.

 

Mary-Anne... repetiu ela. A sua voz soava agora como a de uma criança. Para começar, Andres, eu não me chamo Mary-Anne. Chamo-me Juana Tabora, e sou de Santa Ana, uma aldeia muito pequena, situada nas montanhas de Cordova, na Colômbia. Sou a única da minha família que... pai, mãe, irmãos, irmãs... foram todos mortos, exterminados, assassinados... por termos descoberto petróleo na nossa propriedade...

 

Andreas Rainherr calara-se. O que podia dizer depois de uma confissão tão terrível? Sentiu-se idiota, ridículo e incapaz, na sua nudez. O romantismo da imensidão nocturna do céu, das estrelas e do mar transformara-se num silêncio ameaçador. Afastou-se ligeiramente de Mary-Anne e sentou-se na borda da barca apodrecida, observando em silêncio a espuma branca da rebentação a ser projectada para o topo dos bancos de corais.

 

Com as duas mãos agarrou nos longos cabelos compridos que flutuavam ao vento, e tapou o seu magnífico corpo que parecia ter sido percorrido por um arrepio de frio, como se o estivesse a tapar com um véu preto.

 

Não dizes nada, Andres? perguntou ela baixinho.

 

O que queres que diga?

 

Cravou as unhas no costado da barca apodrecida.

 

Porque é que me dizes isso precisamente agora... aqui... neste momento em que sabemos que pertencemos um ao outro!

 

É tudo uma loucura tão grande. Apaixonares-te por uma pirata, sem saberes quem ela é... E eu, apaixonar-me por um homem quinze anos mais velho, que assaltei com intenção de roubar. Tudo isto é uma grande loucura!

 

Mas eu amo-te, a ti... não aquilo que és, ou foste, ou fizeste. Combinámos que iríamos apagar esse passado.

 

Isso não passa de uma teoria demasiado simples, Andres. Sabes tão bem como eu que o passado não se pode rasurar... Somos o produto do nosso passado.

 

Deixou-se escorregar para trás, naquela barca sem assentos. Deitou-se no chão e cruzou os braços atrás da nuca. Na luz difusa da noite, o seu corpo lustroso adquirira um brilho mate.

 

Rainherr hesitou... Finalmente deixou-se escorregar também pelo costado da barca, até ficar deitado no chão, ao lado de Mary-Anne. Estavam um pouco apertados, tão juntos um do outro que eram obrigados a ficar corpo contra corpo, calor contra calor, sentindo o desejo em cada poro dos seus corpos. O mínimo contacto provocava uma batida mais rápida e penosa nos seus corações. Por fim começaram a tocar o corpo um do outro com as mãos...

 

Obrigada disse ela de repente.

 

Ele levantou ligeiramente a cabeça e olhou para o seu rosto contente e descontraído.

 

Obrigada, porquê?

 

Por não me teres possuído. Qualquer homem o teria feito.

 

Eu também... irrompeu ele.

 

E porque não me tomas agora de assalto?

 

Justamente por causa dessas palavras. Porque neste momento o sentirias como um assalto, como uma violação desejada, que nos deixa felizes, mas onde reconhecemos alguma violência.

 

Amo-te, por causa disso... segredou-lhe Mary-Anne. Oh, como eu te amo! Queres que te conte?

 

Conta...

 

Nunca tinha dito a um homem: amo-te!

 

Isso foi porque o exprimiste de uma maneira diferente.

 

Só houve um homem, a ter havido algum, que eu suportei, mas que tive de expulsar do meu quarto com um chicote. Um chicote de verdade, com fitas de cabedal. E ele nem se defendeu. Foi em Cartagena.

 

Em Espanha?

 

Não, na Colômbia. Uma cidade portuária, com um aeródromo. Vêem-se por lá marujos vindos de todas as partes do mundo, a maior parte deles alistados em barcos aventureiros, com más condições de navegabilidade. Também por lá se vêem magalas e marinheiros, e sobretudo corjas de existências falhadas que partem do interior do país, das zonas montanhosas de Bolívar e de Cordova em direcção à costa, para esbanjarem o produto dos seus saques. Trazem pepitas de ouro, safiras baratas, sementes de orquídeas, peles de feras, cabeças de índios encolhidas... Não há nada em Cartagena que não se negoceie. Vinham todos ter comigo. Colocavam as pedras preciosas ou a pele de um jaguar sobre a mesa e diziam: vá lá, boneca, não te faças rogada. Blusa para cima e calças para baixo... Vales bem a mercadoria!

 

Tens de me contar tudo isso? perguntou Rainherr, embaraçado.

 

Sim, tenho.

 

Debruçou-se sobre ele e beijou-lhe o peito. Encostou a cabeça e voltou a cobri-lo com o cabelo, como se fosse um pano desfiado. A sua mão direita estava parada, como que protegida, entre as suas coxas. Ele não se mexia... Desejava que a sensação que o percorria naquele momento ardesse nele eternamente, para nunca mais a esquecer.

 

Como se explica a alguém que uma rapariga como eu se tenha tornado pirata? Raspou os pequenos dentes afiados na pele dele e continuou a falar. Não queria voltar a gostar de um homem, não queria gostar mesmo de nenhum! Para mim um homem não passava de um objecto que devia ser roubado, sim, que devia ser roubado!

 

Respirou fundo. Rainherr sentiu os seus seios a distenderem-se com o fôlego e a encostarem-se firmes contra ele.

 

Foi há onze anos prosseguiu ela de repente numa voz mais dura. Tinha dezoito anos, acabados de fazer. Naquele dia, e de certa forma como prenda de aniversário, o meu pai descobriu no nosso terreno... petróleo!

 

O lavrador e proprietário independente César Tabora era um homem maciço, conhecido em Santa Anna, a pequena aldeia nas montanhas de Cordova, próxima do rio San Jorge, pelas suas botas altas. Costumava andar com uma camisa em pura lã de ovelha, aberta até à cintura, tecida pela sua mulher. Por vezes, nos dias de chuva mais frescos vestia um longo poncho com riscas coloridas e um chapéu de palha de abas largas, ao qual atava uma fita com motivos índios.

 

Não que César Taborda tivesse sangue índio a correr-lhe nas veias... Era um espanhol, descendente de conquistadores, sem dúvida de um estrato social não muito elevado; um lavrador genuíno. O seu antepassado, que chegara à Colômbia num enorme veleiro armado, juntamente com a prosperidade dos reis hispano-católicos, tinha-se tornado, segundo lera num manuscrito do livro de família, um soldado.

 

Um rapaz forte com armadura e elmo, alabarda e mosquete com gatilho de pederneira, trazido como subcomandante para a Colômbia. Os reis em Madrid recompensaram-no com um belo quinhão de terra, que ele pôde explorar Para si. Havia terra suficiente... terra desabitada... Que vivessem lá índios, não incomodava ninguém, pois, do ponto de vista dos espanhóis, um índio não era uma pessoa.

 

O antepassado de César escolheu um local nas montanhas de Cordova, nas proximidades do rio San Jorge, não Por ser particularmente fértil, mas pelo ar da montanha ser benéfico, tanto para ele como para a sua mulher, Juanita, que também tinha sido trazida de Espanha.

 

Fundou, juntamente com a sua família, a aldeia de Santa Anna, onde cultivaram café, bananas e ananás, batata-doce e cana-de-açúcar, cacau e milho. Arrotearam as florestas, desviaram a água das áreas pantanosas para os novos campos, abriram canais... e exterminaram os índios que os estorvavam.

 

Para a mentalidade da época, eram considerados católicos trabalhadores... e eram-no, atendendo ao tratamento que era dado aos nativos.

 

Foi assim que Santa Anna, e sobretudo as propriedades dos Taboras se transformaram no decorrer do século, nas ricas povoações da Colômbia.

 

César Tabora, o último de uma geração de pioneiros, que morava numa bela casa, amava fervorosamente a sua Carmencita e tinha cinco filhos bem criados duas filhas e três filhos que, à semelhança do pai, só viviam para a terra descobriu casualmente num belo dia, num vale nas montanhas, propriedade sua, uma gruta.

 

Esta gruta não constava nos registos do seu velho antepassado. Provavelmente fora negociada nas montanhas centenas de anos atrás, pelos índios.

 

Um dia, César Tabora arrancou com um escopro e um martelo pedaços de pedra dessa gruta e trouxe-as para a luz do Sol. O seu filho Bernardo, que o acompanhava, foi o primeiro a reconhecê-las.

 

Maria, misericordiosa! gritou ele, entusiasmado. Pai, temos uma mina de esmeraldas no nosso terreno! Pai! Esmeraldas! Vamos ser a família mais rica da Colômbia!

 

César fez a única coisa acertada: mandou analisar a sua descoberta na capital, Bogotá. Ou seja, ele, o seu filho Bernardo e a sua filha Juana acompanharam a descoberta e aguardaram, numa sala do Instituto Nacional de Pedras Preciosas, que o geólogo chegasse com as pedras.

 

São esmeraldas confirmou o homem de bata branca, mas não são de excelente qualidade. Têm demasiadas inclusões e são muito baças. Mas, ainda assim... partidas e polidas, podem ser vendidas como mercadoria de segunda no mercado e render alguma coisa. Parabéns...

 

Verificou-se que o bom homem de Bogotá, o geólogo do Instituto Nacional, tinha mentido.

 

Se as esmeraldas fossem de facto de baixa qualidade, não teria feito sentido que três semanas mais tarde tivessem aterrado em Santa Anna dois helicópteros, com três geólogos, geofísicos e químicos a bordo, que foram ao encontro de César Tabora na sua casa nas montanhas.

 

César, que era um homem hospitaleiro, recebeu aqueles hóspedes intrusos. Organizou uma pequena festa de Verão, onde os seus camponeses exibiram danças populares antigas, tendo-se proporcionado uma boa charutada e uns copos de uma aguardente de milho bastante forte.

 

As esmeraldas são então mais valiosas, senhores disse ele. O vosso cortejo comprova-o. O que pretendem?

 

Gostaríamos de fazer algumas prospecções na sua gruta, Don César respondeu um dos cavalheiros que se tinha apresentado como geólogo diplomado. Só com interesse científico! Por um lado, geológico, por outro lado, histórico, pois, quando se trata de uma gruta índia antiga, o aspecto etnológico também tem muito interesse.

 

Para mim, não! retorquiu César. Nem geológico, nem etnológico. A mim só me interessa o capital que está engastado naquelas rochas. Só o capital. E esse, vou buscá-lo às montanhas! Aquela terra pertence-me.

 

Ninguém contestou.

 

Após cinco dias de negociações, boa comida, visita à terra arroteada dos Taboras a mina de esmeraldas ficara de parte e de medições secretas, das quais nem César nem os filhos se deram conta, os geólogos voltaram a levantar voo nos seus helicópteros, transportando documentos nas suas pastas que iriam modificar profundamente e para sempre a vida dos Taboras.

 

No Centro de Investigação Geológica de Bogotá comProvou-se, através de testes efectuados às formações geológicas e medições nas regiões vizinhas, que a mina de esmeraldas situada nos distantes vales rochosos não era de modo algum aquilo que os Taboras possuíam de mais valioso.

 

Se as medições estivessem todas correctas, aquela família estava estabelecida sobre um gigantesco mar de petróleo, situado a cerca de setecentos e cinquenta metros de profundidade da superfície da Terra.

 

Uma zona de petróleo totalmente desconhecida com alguns milhões de toneladas de petróleo em rama que, como se sabe, tem mais chumbo do que o petróleo árabe, mas, apesar disso, um manancial por enquanto incalculável, uma inestimável riqueza, tanto para a nação da Colômbia, como para os Taboras.

 

O presente que o velho soldado recebera no tempo dos reis católicos espanhóis transformara-se agora, uns séculos mais tarde, num património de milhões.

 

Esmeraldas e petróleo em rama nas mãos de uma família... os Taboras.

 

Era inevitável: o governo enviou uma brigada, para serem efectuados testes de perfuração.

 

César Tabora recusou-se, bateu-se pelos seus direitos de homem livre e de proprietário de terras, barricou a região era, ainda por cima, a sua melhor plantação de café, que queriam perfurar e armou-se, a si e aos seus filhos. Distribuiu inclusivamente armas pelos seus empregados índios e muniu a sua mulher Carmencita e as suas filhas Juana e Reja com armas de fogo.

 

Colocou patrulhas a vigiar a zona, e anunciou que disparariam sem aviso prévio, caso alguém atravessasse ou saltasse por cima da cerca de rede. As perfurações diziam unicamente respeito à família Tabora.

 

Se alguém descobrisse alguma coisa, nessa altura, poder-se-ia negociar. Foram finalmente criadas leis inabaláveis relativas à descoberta de petróleo na Colômbia e à distribuição dos lucros entre os proprietários das terras e o Estado. Existiam já exemplos suficientes que comprovavam que a Colômbia pertencia ao grupo de países detentores de petróleo e que era um dos seus principais exportadores.

 

César Tabora era um homem inteligente, um homem duro toda a gente em Santa Anna e agora também em Bogotá o sabia. Além disso, a lei estava do seu lado.

 

O que naturalmente não se pôde evitar foi a notícia que se espalhou por todo o país acerca da espantosa e repentina riqueza da família Tabora. Esmeraldas e petróleo juntos numa parcela de terreno! Era uma bênção de Deus.

 

Imprensa, rádio e televisão caíam de avião nas terras altas de Cordova ou martirizavam-se nas estradas estreitas e esburacadas das montanhas, em direcção à aldeia de Santa Anna, que de um momento para o outro passara a andar na boca de toda a gente. Em vão!

 

César Tabora, irritado com as perfurações clandestinas, como se o tivessem violado, expulsou os repórteres todos da sua terra e recusou-se a entrevistas, recebendo apenas os representantes do governo e a Sociedade do Monopólio do Petróleo Nacional, para acertar os preliminares.

 

Antes de entrarem em sua casa, estes homens eram meticulosamente revistados pelos três filhos de Tabora. Despiam-se na casa de banho e a roupa era-lhes devolvida depois de um controlo rigoroso... um procedimento humilhante, mas muito eficaz. Nenhum dos cavalheiros era conhecedor de truques, pelo que uma novidade... as negociações eram tratadas honestamente.

 

César Tabora chegou a acordo com o governo.

 

Os testes de perfuração deveriam ser efectuados sob sua vigilância, tendo-se estipulado um bom preço por cada barril de petróleo extraído. Rapidamente se começou a ouvir dizer por toda a parte que se os magnatas do petróleo, Getty ou Gulbenkian, se estabelecessem dentro de alguns anos perto dos Taboras, pareceriam anões a seu lado.

 

Isto, porque nenhum deles tinha uma mina de esmeraldas da qual se extraíam pedras preciosas puras, de um verde resplandecente, e cujas cores eram assinaladas na respectiva bolsa com a designação de ”cor número 2” por conseguinte, um verde-esmeralda de uma beleza rara.

 

Quatro dias antes do décimo oitavo aniversário de Juana Jorrou do poço, primeiro, gás, a seguir lama suja e, por fim, ”ouro preto”: petróleo bruto!

 

A família Tabora podia começar a preparar-se para ser uma das famílias mais ricas do planeta.

 

O aniversário de Juana transformou-se numa daquelas festas a que Cordova inteira nunca assistira. Em memória dos seus antepassados andaluzes, César Tabora organizou torneios com cavaleiros vestidos em uniformes históricos. À noite mandou acender alguns contentores que continham o primeiro petróleo retirado do seu poço, como símbolo do fogo da alegria! Tresandava que se fartava, mas para toda a gente em Santa Anna, aquilo cheirava a perfume de flores. Eram milhões que estavam a ser saudados...

 

Precisamente vinte e três dias após o aniversário de Juana e da festa da alegria parou, à frente da casa dos Taboras, um compridíssimo Cadillac preto, todo coberto de poeira. Não era de Bogotá, aliás, tinha uma matrícula dos Estados Unidos, de Houston, no Texas.

 

Desceu do carro um senhor vestido com um elegante fato cinzento cor de rato feito por medida e com um chapéu de palha na cabeça, que perguntou se podia falar com César Tabora. Eram cerca das onze horas da manhã, e os empregados dos Taboras encontravam-se lá fora, no campo. Pois viesse ou não aí riqueza, o trabalho prosseguia.

 

Em casa só se encontravam a Dona Carmencita, as senhoritas Juana e Reja, o filho mais velho Bernardo, uma cozinheira, um criado um descendente de índios com uma pinga de sangue africano e o próprio Don César, que estava no seu escritório a estudar as análises, feitas em Bogotá, ao seu petróleo. Surpreendentemente, provara-se que continha menos chumbo, ao contrário do que fora convencionado. O enxofre estava também nos limites... O petróleo dos Taboras era só dois níveis de qualidade inferior ao petróleo da Arábia Saudita! Quem teria imaginado...

 

Mas no Texas, em Houston, já toda a gente sabia.

 

O senhor elegante do fato feito por medida e do Cadilac apresentou o seu cartão à porta. Muito distinto debruado a dourado.

 

Raimondo Vargas.

 

Nem mais. Também não era necessários mais, pois nunca ninguém soube quem era Raimondo Vargas. O carro extravagante não era significativo, visto qualquer pessoa poder alugar um carro daqueles.

 

À semelhança de todos os visitantes, Vargas passou também pelo controlo de Bernardo, um dos filhos dos Taboras. Suportou-o, e a seguir sentou-se frente ao maciço César, no escritório. O velho juntara os papéis e arrumava-os num dossiê. Não conseguia imaginar o que pretenderia dele um homem chamado Raimondo Vargas, proveniente do Texas e que distribuía cartões debruados a dourado.

 

Vargas colocou a sua pasta sobre os joelhos, abriu-a e retirou uma capa com documentos.

 

Empurrou-a para César e a seguir colocou as duas mãos sobre a tampa da secretária.

 

Com um olhar de conhecedor, César reparou que Vargas usava anéis grossos em ambas as mãos, mais precisamente em quatro dedos. Brilhantes e uma safira transparente, muito bonita.

 

Vamos directamente aos negócios! disse Vargas com energia.

 

Falava num espanhol fluente, com a musicalidade dos italianos.

 

Negócios? perguntou César. Eu não tenho negócios consigo.

 

Ainda não, sem dúvida. Sou natural da Sicília.

 

E o que é que eu tenho a ver com isso?

 

Mas venho do Texas.

 

Há pessoas que não têm sorte nenhuma na vida... comentou César com um ar trocista. ”O homem é um louco”, pensou. ”Como é que o Bernardo o deixou passar?”

 

Venho da parte de uma das maiores empresas do mundo, que tem um enorme interesse na sua jazida de petróleo e nas suas esmeraldas.

 

Para mim é como se estivesse morto! interrompeu Tabora. Podia ter poupado as despesas da viagem.

 

Por favor, não pronuncie a palavra ”morto” com tanta leviandade, Don César comentou Raimondo Vargas. A minha empresa oferece-lhe, no seu próprio interesse, um trespasse de cem milhões de dólares.

 

Isso é uma autêntica anedota!

 

Em três prestações. A primeira na altura da assinatura do contrato, a segunda no início da extracção completa, a terceira um ano depois.

 

Uma completa loucura!

 

Foi o que eu disse quando propuseram os cem milhões. Vargas sorriu amigavelmente. Julgo que cinquenta milhões seriam suficientes.

 

Levante-se, pegue nos seus documentos, guarde-os na pasta e ponha-se daqui para fora! exclamou César friamente. O meu filho pode indicar-lhe uma excelente clínica psiquiátrica em Bogotá. Parece-me que está a precisar de uma.

 

Raimondo Vargas fez o que César lhe ordenou. Levantou-se, retirou a capa com os documentos da mesa e, em vez de os guardar, abriu a tampa da pasta.

 

Lá dentro estava uma pistola com silenciador e, antes que César Tabora conseguisse dar o alarme, já estava a olhar para a abertura do disparo mortal. A mira apontava exactamente entre os seus olhos.

 

A minha organização prosseguiu Raimondo Vargas ainda amigavelmente não faz transacções empresariais, sem primeiro se informar acerca do seu sócio. Decididamente, devemos saber se estamos a lidar com uma pessoa íntegra. O senhor pertence à categoria de sócios, Don César, que nós apreciamos. É uma pessoa franca, séria, corajosa, amigo do seu amigo... e com uma vida familiar regular. Quer que recapitule? Não tem irmãos, nem irmãs e, finalmente, nenhum parente emigrado. A sua família de cá é composta pela sua esposa, pelos seus três filhos e pelas suas duas filhas, que se chamam Juana e Reja. Esqueci-me de alguém?

 

Não! rosnou Tabora. Claro que sim, de mim!

 

Você tem sentido de humor, Don César. A situação jurídica é de tal forma... já estávamos à espera de uma situação jurídica irrepreensível... que com o seu falecimento, a sua mulher e os seus cinco filhos serão os herdeiros. E quanto mais esta família diminuir, mais herdam aqueles que sobram. Não sobrando nenhum... pura teoria... não haverá herdeiros disponíveis, revertendo tudo a favor do Estado. Não seria uma desgraça?

 

Vargas moveu o dedo, assim que César fez um movimento.

 

Quietinho, Don César. Nada de barulhos, nada de movimentos.

 

Atirou novamente o documento para cima da mesa.

 

Ainda tem bons olhos. Por favor, leia o que aí está escrito. Que tal? Um passaporte com o nome de Amerigo Tabora. O seu irmão do Panamá...

 

Eu não tenho nenhum irmão... arfou Tabora.

 

Claro que tem! Está aqui o passaporte dele! Não é falsificado, é um passaporte totalmente válido. Emitido pelo Arquivo de Identificação do Panamá.

 

Com a sua fotografia, Vargas!

 

Exacto. Oficialmente sou seu irmão e único herdeiro. Como vê, o mundo está cheio de curiosidades, surpresas e impossibilidades que se podem tornar possíveis. No entanto, uma das maiores surpresas que um homem pode testemunhar é a sua morte repentina. Buenos dias, Don César.

 

A pistola com o silenciador emitiu um estalido muito fraco, um ligeiro ruído.

 

César Tabora sentiu apenas uma pancada desagradável na testa... Quando caiu para trás da sua secretária, já estava morto. A bala deixara um buraco, exactamente entre os olhos.

 

Raimondo Vargas arrumou o dossiê na pasta, fechou-a sem pressas, tirou o cartão-de-visita de cima da mesa, enfiou o passaporte com o nome de Amerigo Tabora no bolso interior do fato cinzento feito à medida, e abandonou o escritório de César.

 

Manteve a pistola com silenciador na mão direita.

 

Encontrou Bernardo, o filho mais velho da família, no átrio da casa. Vargas levantou a arma em silêncio e disparou. Bernardo agarrou-se ao coração, a gemer, e caiu no chão de mármore.

 

Também não sentiu a queda. Quando Vargas disparava, a morte acontecia numa fracção de segundo. Era por isso que os seus cartões-de-visita eram debruados a dourado nessa matéria, era rei.

 

Vargas percorreu a casa toda com uma grande calma.

 

Abateu o criado índio na altura em que este regava as flores no jardim de Inverno envidraçado, a cozinheira Dominga no fogão, enquanto mexia o molho do assado, a filha mais nova, Reja, no piano de cauda, quando ensaiava uma sonata de Mozart e não acertava com os fás sustenidos, e por último a dona da casa, Dona Carmencita, que estava sentada no salão a bordar uma magnífica colcha em croché.

 

Depois de ter despachado aquele trabalho, Vargas tomou a liberdade de se servir da garrafeira da casa de uma bebida que muito o animava: rum com um pouco de angostura.

 

A seguir sentou-se ao volante do seu Cadillac e arrancou em direcção aos campos dos Taboras. A sua organização trabalhava bem. Conhecia, através de fotografias, toda a família Tabora, tendo fixado todas as caras ao pormenor.

 

Encontrou o segundo filho, Giulmielmo, em Maissilo, e disparou-lhe um tiro na nuca, tão certeiro que este nem sequer percebeu que ia morrer...

 

Encontrou o terceiro filho, Pietrino, na plantação de bananas. Conversou com ele sobre destruição de parasitas e disparou a pistola quando Pietrino lhe disse de mau humor que tinha mais que fazer do que falar de disparates. À semelhança do pai, levou um tiro entre os olhos.

 

E o silenciador continuava a fazer só um pequeno ruído. Ninguém ouvia nada.

 

Faltava Juana, a filha de dezoito anos. Não se encontrava em casa. Nos campos também não. Os trabalhadores índios, a quem Vargas perguntara, não a viam desde manhã. Também não devia estar longe... O seu jipe, que usava sempre, estava estacionado à frente da porta de casa. Vargas reparara nisso.

 

Raimondo Vargas começou a suar, pois o tempo escasseava. Tinha corrido tudo como a organização planeara. Mais tarde, depois da morte de Juana talvez seis semanas depois, durante as quais procurariam herdeiros oficiais surgiria o irmão Amerigo Tabora, vindo do Panamá, para receber o espólio.

 

Que raio! Onde se teria metido a tal Juana?

 

Percorreu novamente a casa toda, onde agora só havia mortos espalhados, desde a cave até ao sótão. Juana continuava desaparecida.

 

Vargas corria de um lado para o outro a praguejar. Nenhum elemento da família Tabora deveria sobreviver. Não só todo o plano desabaria, como Raimondo Vargas poderia ver a sua pistola certeira apontada contra si próprio. A falta de profissionalismo é sempre, em grandes operações, motivo de liquidação.

 

Os preparativos da ”empresa” tinham sido tão perfeitos, mas acabaram por se esquecer de uma coisa: uma planta exacta da casa dos Taboras! De facto tinham fotocopiado a planta, só que, no decorrer dos últimos anos, a família renovara a casa e as modificações não constavam dos documentos.

 

Existia, por exemplo, uma conduta de esgoto nova, que César tinha mandado construir depois de se ter verificado que por vezes, depois das chuvadas tropicais torrenciais, as caves ficavam alagadas, pois a água não escoava.

 

Este novo canal conduzia a água da chuva para um vale muito fundo, indo encher um rio.

 

Era neste poço, agora seco, que Juana Tabora se encontrava agachada, à espera.

 

Enquanto Vargas disparava lá em cima contra a sua mãe Carmencita, encontrara a cozinheira e, a seguir, no átrio, o irmão Bernardo, igualmente morto, deduzindo que alguém se preparava para os exterminar a todos.

 

Dar o alarme? Seria absurdo; não havia ninguém nas Proximidades que pudesse ajudar.

 

Juana fugira então para o poço de escoamento onde ficou agachada durante algum tempo. Quando teve a certeza de que não a seguiam, rastejou em direcção à saída até chegar à saliência do penhasco, donde partia a conduta de betão e por onde o caudal do rio desaguava durante as cheias, dez metros abaixo.

 

Permaneceu ali até à noite.

 

Em Santa Anna já há muito que tinham dado o alarme, pois os empregados haviam encontrado Pietrino alvejado na plantação de bananas, o outro irmão em Maissilo e, quando quiseram comunicar as mortes ao velho César, depararam-se com uma terrível cena macabra.

 

Os helicópteros aterraram novamente em Santa Ana, desta vez, com a polícia de Monteria. O resultado das investigações foi impressionante: a família Tabora fora toda exterminada. Realmente ainda não tinham encontrado a filha Juana, mas era certo e sabido que o assassino ou os assassinos tinham trabalhado na perfeição.

 

Os empregados, que nutriam uma grande admiração por Don César, apresentaram imediatamente um móbil para o crime: eram assassinos do Estado! O Estado queria apropriar-se das jazidas de petróleo e das esmeraldas.

 

Ouviram-se protestos revoltados, a polícia foi ameaçada, os trabalhadores reuniram-se. Quando encontraram o Cadillac abandonado na estrada para Bogotá, a situação tornou-se evidente para todos: uma morte organizada, dissimulada! O Estado queria facturar sozinho os lucros obtidos com o petróleo!

 

A vida de Raimondo Vargas corria grande perigo. Precisava de encontrar Juana.

 

Enquanto se escondia na conduta do esgoto, Juana desconfiava que o assassino desconhecido, de quem sabia apenas que se chamava Vargas Bernardo tinha-lho dito quando ele estava com o pai no escritório a procurava, como quem procura o animal selvagem mais raro ao cimo da Terra.

 

Também era evidente que a polícia não a podia proteger. Quem poderia saber quem tinha pago ao assassino?

 

À semelhança dos revoltosos, também Juana Tabora pensava o mesmo, nesta altura: por detrás daquilo tudo encontrava-se o Estado. Para não perder milhões, para eles fazia sentido o extermínio de uma família.

 

Não abandonou esta ideia durante dias e semanas, pois tanto a polícia como as forças militares não se davam ao incómodo de ir atrás do assassino. Tinham o seu automóvel, mas sem impressões digitais. O carro fora adquirido em Houston, no Texas, portanto do outro lado, nos Estados Unidos!

 

Como e onde o poderiam procurar?

 

Apesar disso, não era nenhum gangster que disparara à sua volta, na esperança de encontrar dinheiro suficiente em casa dos Taboras. Nesse caso, porque teria morto os filhos em Maissilo e na plantação de bananas? Não havia explicação.

 

Mas de uma coisa estava Juana certa: se aparecesse agora, declarando-se a única sobrevivente do massacre, teria hipóteses de sobreviver, no máximo vinte e quatro horas! Quem quer que tivesse exterminado a família Tabora, desde a casa até aos campos, tinha com certeza em vista objectivos maiores do que o simples roubo!

 

Juana deixou-se estar durante dois dias e duas noites no rochedo, dentro da conduta de betão que dava para o caudal do rio. Depois de terem retirado os mortos, rastejou com cautela para casa, que se podia ver do exterior, e abriu a gaveta secreta da secretária do pai que ela tão bem conhecia, tirou a chave do cofre-forte e esvaziou-o. Não era muito... trinta e cinco mil pesos colombianos.

 

Don César não gostava de ter dinheiro em casa apesar do cofre-forte. Preferia pagar com cheques. Só aos fins de semana é que entrava dinheiro em casa para pagar o salário dos trabalhadores... Nessa altura estava sempre um polícia armado no escritório onde eram efectuados os pagamentos.

 

Juana voltou a esperar dois dias e duas noites na conduta, até saltar para o rio que passava em baixo no vale, atravessar a montanha por trilhos tortuosos e chegar à pequena cidade de Caucassia.

 

Na estrada de Cartagena, uma das poucas que vão da Colômbia até aos portos da costa das Caraíbas, apanhou um camião que transportava arroz para a costa.

 

O condutor, um mestiço, não queria receber dinheiro Pelo transporte. Pediu somente, como remuneração do seu favor, para apalpar os seios de Juana.

 

Se calhar gostamos, e podemos continuar! disse ele, sorridente. Podemos sempre desviar-nos para a floresta, minha querida.

 

Era a primeira vez que Juana se deixava tocar por um homem. Permitiu que o camionista lhe apalpasse os seios, mas, assim que este fez menção de lhe deitar a mão à saia, enfiou-lhe um murro no nariz com o seu pequeno punho.

 

Pronto, está bem! resmungou o mestiço. De qualquer forma, és demasiado magra para o meu gosto! Gosto de sentir qualquer coisa na mão. Contigo, só dá para a ponta dos dedos. E o resto? Querida, eu seria capaz de rebentar contigo. Fica descansada, pequena. Deixo-te em Cartagena... mas se pensas que vais fazer fortuna por lá, convém que engordes primeiro meio quilo. No bordel do porto os marinheiros gostam de ver carne, não esqueletos!

 

Em Cartagena, Juana encontrou alojamento na casa de uma tal Madame Palmar.

 

Madame Palmar não dirigia nenhum bordel. Era, antes pelo contrário, desenhadora, gravadora e proprietária de um salão de tatuagens. Chamava-se a si própria, cheia de orgulho, ”artista”, pois, além das tatuagens padronizadas, criava os seus próprios desenhos, que gravava depois na pele.

 

Não havia pedido de tatuagem que Madame Palmar não satisfizesse. Só se recusava a gravar obscenidades explícitas, não por serem obscenas, mas porque nunca mais podiam ser removidas. E um marinheiro de barbas brancas com uma porcaria daquelas no peito ou no braço, sem a poder esconder, tornava-se ridículo.

 

Juana recebeu na casa de Madame Palmar um quartinho nas águas-furtadas do salão. Foi por mero acaso, pois Juana estava parada à frente da montra a contemplar as fotografias publicitárias, quando Madame Palmar saiu da loja e a abordou.

 

Gostava que lhe fizesse um desenho pequenino? perguntou amavelmente. Uma pombinha na nádega direita e um colibri com uma cauda muito comprida por baixo do umbigo... Os rapazes adoram! Entre! Tatuada, sempre pode levar o dobro do preço!

 

Juana não foi tatuada, mas Madame Palmar alugou-lhe, por compaixão o quartinho no sótão.

 

E como é que te vais sustentar? perguntou ela mais tarde. Quero dizer, quando se acabarem os trinta e cinco mil? Podia ensinar-te a arte da tatuagem. Posso vir a precisar de uma assistente. E ficas a conhecer melhor os rapazes! A maioria pensa que só porque uma mulher lhes arranha a pele, podem pôr tudo em cima da mesa! É por isso que tenho sempre uma pequena agulha eléctrica preparada. Tique! Já está. Parecem guerreiros maias a dançar à volta do quarto!

 

Juana não tinha por onde escolher.

 

Instalou-se no quarto minúsculo, onde havia uma cama, um armário e uma cadeira; observou Madame Palmar a tatuar, aprendeu por si própria, e experimentou alguns desenhos extravagantes até adquirir prática para gravar desenhos maiores sobre a pele.

 

Era aliás surpreendente como é que tantos homens, e sobretudo tantas mulheres, modificavam o seu corpo para sempre com as tatuagens. Se um cliente quisesse passar a vias de facto com Juana, lá vinha Madame Palmar com a sua agulha eléctrica especial...

 

Um dia chegaram dois homens ao salão que foram atendidos por Juana, uma vez que Madame Palmar estava ocupada com a execução artística de uma criação sua na barriga de um primeiro oficial.

 

Um deles, sem dúvida marujo, com um aspecto elegante mas fútil, de bigode, confessou sem hesitar que vivia do roubo de carteiras e que aquilo que mais desejava fazer era uma tatuagem do deus grego Hermes no antebraço esquerdo.

 

Hermes, meu lindo explicou Juana, não era apenas o deus dos comerciantes, era também o deus dos ladrões!

 

Eu sou supersticioso. Acredito que o caduceu de Hermes no braço me concederá faculdades imbatíveis para apanhar a carteira do próximo!

 

Mais tarde, quando Juana lhe gravava o desenho na pele, apresentou-se casualmente: Fernando Dalques...

 

Fernando ficou muito satisfeito com o trabalho, prometeu voltar e convidou Juana para um jantar de peixe.

 

Como se chama, bela senhorita quis saber.

 

E, pela primeira vez, impulsivamente, Juana pronunciou um nome que nunca ouvira antes, mas que lhe agradou logo: Mary-Anne Tolkins.

 

Americana? admirou-se Dalques, contente com o caduceu de Hermes.

 

Da Califórnia. Próximo da fronteira com o México.

 

É então por isso que fala tão bem espanhol! Volto de certeza amanhã, para irmos jantar peixe.

 

Na cabina do lado, um homem gigantesco levantara-se da cadeira. Já se tinha posto em tronco nu e sorria para Juana de orelha a orelha. Tudo nele era vermelho: o cabelo, a barba, os pêlos do peito e das costas, a pele, os pêlos dos braços, que pareciam mastros de um barco... resumindo, um monstro de homem, coberto de lã vermelha.

 

Chamo-me Jim McDonald apresentou-se o gigante delicadamente. Segundo-oficial do Stavanger. É um barco norueguês, mas eu sou irlandês. Sou diplomado em grandes viagens! Não quero que seja uma informação que conste só nos meus papéis, mas sim que toda a gente veja. Miss, tatue-me nas costas um bocadinho de mar em que o sol se esteja a pôr! Acha que consegue?

 

Sim respondeu Juana. Eu própria o esboçarei.

 

Fez um bonito desenho. Madame Palmar subiu e admirou-o. Elogiou a combinação do azul com o laranja, principalmente por ter ficado cercado por um tapete vermelho cor de fogo. Na zona em que o desenho do mar foi tatuado, Juana teve de rapar os pêlos.

 

McDonald virou-se para o espelho, gritou de alegria pelo excelente trabalho e fez uma promessa que nunca quebrou ao longo da vida:

 

Miss Sempre que precisar de mim, seja para o que for e se eu estiver nas proximidades, chame-me! Farei por si tudo o que quiser!

 

Meio ano mais tarde, Madame Palmar comunicou a Juana:

 

Minha pequena, estou a ficar com artrite nas mãos. Sinto-o. As articulações ardem-me e por vezes estalam, e a sensibilidade na ponta dos dedos está a diminuir. Se não conseguir mais... ficas com a loja? Cedo-ta, em troca de uma pensão. Como artista, posso continuar activa e criar desenhos novos para ti...

 

Não sei respondeu Juana, pensativa.

 

O que queres tu então, rapariga?

 

Um passaporte com o nome de Mary-Anne Tolkins.

 

Para quê?

 

Há uma coisa que gostaria de fazer. E, para isso, preciso desse passaporte. Consegue arranjar-mo?

 

Madame Palmar consegue tudo! Mas uma coisa dessas, para parecer autêntica, custa cerca de mil dólares!

 

Eu poupei-os.

 

Dez dias mais tarde, Madame Palmar regressou de casa de uns amigos, como ela explicara, e atirou um passaporte para cima da mesa. Com a fotografia de Juana e selos autênticos: tudo impecável!

 

Nascia Mary-Anne Tolkins.

 

Continuavam deitados um ao lado do outro na velha barca de pesca apodrecida a saborear a felicidade de sentirem os seus corpos.

 

A cabeça de Mary-Anne permanecia encostada ao seu peito e os seios comprimiam-se contra ele. De vez em quando um arrepio percorria os seus corpos...

 

A seguir Rainherr esticou uma perna sobre as de Mary-Anne, e a sua mão escorregou para a parte interior das suas coxas, para que estas a aquecessem. Colocou o braço sobre as suas costas, afastou-lhe os cabelos negros e inalou o aroma à sua volta.

 

Por detrás da floresta de palmeiras do hotel, a Lua tinha avançado toda e enviava raios prateados sobre o mar que se agitava com indolência por entre os recifes. Mais longe, onde as ondas rebentavam, o mar espumava como se estivesse a ser cozinhada prata numa caldeira.

 

Era uma noite que se tivesse de ser pintada teria dado origem a uma pintura kitsch. Mas afinal porquê? Porque é que o homem faz questão em ver o mundo de uma forma insípida, quando a natureza se representa a si própria todos os dias de maneira diferente? Será por não suportar que a natureza seja diferente daquilo que ele entende?

 

Mary-Anne Tolkins repetia Rainherr carinhosamente. Com o passaporte, veio a pirata...

 

Não!

 

A sua voz já não era uma voz meiga. Beijou-o na boca, voltou a deitar a cabeça contra o seu peito e fitou o luar e o extraordinário e longínquo céu estrelado.

 

Fiquei durante três anos no salão de Madame Palmar. Ganhava bem... Dividíamos os lucros. A seguir aconteceu uma coisa que veio mudar tudo.

 

Um homem disse ele. Apaixonaste-te por um homem?

 

Não!

 

Levantou a cabeça. Os seus olhos eram de uma cor negra, resplandecente.

 

Encontrei o assassino da minha família: Raimondo Vargas!

 

Era uma situação estúpida, ou antes, mortalmente perigosa, aquela em que Vargas se encontrava quando, uma semana depois do sucedido, a única sobrevivente dos Taboras, a filha mais velha, Juana, ainda não tinha sido encontrada.

 

Com efeito, a polícia e o exército continuaram a procurar o assassino. Os investigadores chegaram à conclusão lógica de que o bárbaro assassino desconhecido, a ”morte silenciosa”, como lhe chamavam os empregados índios, também tinha morto e enterrado a filha algures nas montanhas, numa gruta ou num desfiladeiro. Só por casualidade é que o cadáver seria descoberto e, nessa altura, saber-se-ia exactamente se o caso Tabora poderia ser definitivamente encerrado.

 

O Ministério Público em Monteria suspendeu as investigações e arquivou o processo Tabora como ”um caso ainda não resolvido”, num compartimento do armário de processos. Havia uma certeza secreta de que o desaparecimento de Juana Tabora nunca seria esclarecido.

 

Já desaparecera tanta gente na Colômbia... nos pântanos, na costa, nas savanas, nas inacessíveis terras altas, nas florestas virgens, nos furos para captação de água de Orenoco, em regiões que só se conhecia de avião e cujo impenetrável inferno verde nenhum europeu conseguira ainda alcançar. Também acontecia grupos de geólogos abrirem lentamente caminho nas zonas húmidas e quentes, e esbarrarem com estirpes de índios a viver como na Idade da Pedra.

 

Havia ainda bastantes mistérios por deslindar naquela terra... Ali estava a pouca importância que se dava ao desaparecimento da filha de dezoito anos de um lavrador.

 

Porém para Raimondo Vargas, tratava-se de uma questão de sobrevivência!

 

A sua ”empresa” precisava de um relatório final para se apossar da ”herança”. Os documentos e o passaporte já estavam preparados: Raimondo Vargas encontrava-se no limiar de uma enorme riqueza, com o nome de Amerigo Tabora, irmão mais novo de César Tabora. Mesmo que não passasse de um testa-de-ferro e os milhões afluíssem dos poços de petróleo da ”empresa” a firma de esmeraldas daria uma boa receita de alguns milhões. Vargas teria uma participação de três por cento, em virtude do seu trabalho.

 

Três por cento não é o mundo inteiro, mas se realmente existiam alguns milhões de toneladas de petróleo armazenados por baixo das propriedades dos Taboras, e se recebesse três cêntimos por cada dólar, tudo somado chegaria aos milhões.

 

Vargas repetiu o cálculo, sentiu vertigens e decidiu arriscar uma dança na corda bamba.

 

Ligou para Houston, no Texas:

 

Tudo okayl Podemos enviar um ramo de flores à tia Anna. Ela já está boa.

 

Para a ”central”, isto significava que fora concluído um negócio de rara grandeza.

 

Dali para a frente, ficaria quieto, a ”observar o mercado”. Vargas alugou um quarto com outro nome na capital de Bogotá e aguardou. O processo seguiu os trâmites normais.

 

Embora os vários departamentos oficiais tivessem ficado muito satisfeitos por já não haver mais Taboras e os campos de petróleo, juntamente com as esmeraldas, poderem finalmente ficar para o Estado da Colômbia... tinham de agir de acordo com as regras.

 

No diário oficial do governo e nos jornais mais importantes do país foi colocado um anúncio pedindo que se apresentassem hipotéticos parentes e herdeiros de Dom César Tabora ou da Senora Carmencita, cujo nome de solteira era Laconda.

 

Com uma pressa suspeita, apresentaram-se três homens e duas mulheres.

 

Foram interrogados em Bogotá pela polícia secreta, o que levou imediatamente dois dos homens e uma das mulheres a confessarem que tinham mentido. Mesmo assim, um dos outros homens e a mulher insistiram durante bastante tempo serem parentes de César Tabora, até ter ficado provado que se chamavam Tabora, mas que não provinham da Andaluzia, e que tinham as partidas que a vida prega! procurado o nome numa lista e o haviam adoptado. A mulher, isto é, os seus pais, eram emigrantes polacos e, segundo ela, um colombiano jamais conseguiria pronunciar o nome Koszceszwiszce.

 

As pessoas referidas foram presas e espancadas por terem querido enganar o tribunal... e a dúvida que restava acerca de César Tabora ter ainda parentes foi afastada.

 

Decorridas seis semanas, Raimondo Vargas parou o seu Chrysler novo com matrícula do Texas à porta do Ministério Público de Bogotá e colocou em cima da mesa um passaporte, bem como mais papéis oficiais e documentos autenticados pelo notário.

 

Contou que tinha sabido casualmente, através de um jornal já atrasado, em Houston, que o seu querido irmão mais velho César tinha sido vítima de um monstruoso assassinato e juntamente com ele, por assim dizer, toda a querida família Tabora.

 

Eu sou o último Tabora! soluçava. Levantou-se exaltado da cadeira e olhou à volta com um olhar selvagem, quase de louco e perguntou:

 

Onde estão os assassinos? berrou ele. Porque é que ainda não os apanharam? Mas que raio de polícia é esta? Arranco-lhes a pele às tiras, quando os apanhar!

 

Em Bogotá, as pessoas compreenderam aquela dor pungente. Reconheciam que era vergonhoso não existirem vestígios daquelas mortes, preferindo não falar acerca do assunto.

 

Em qualquer dos casos, andaram atrás de Amerigo Tabora durante mais seis semanas, por dez ministérios e repartições diferentes, do Ministério Público para o Ministério do Interior, dali para o Ministério da Economia, da Secção do Petróleo para a Polícia Criminal, e dos Serviços Secretos para o Centro de Saúde.

 

Não restavam dúvidas: os papéis eram autênticos.

 

Três notários e um pároco de Las Vegas verificaram, após consultas aos registos paroquiais e às certidões de nascimento, que o pai de César, António Tabora, durante uma visita a Las Vegas, nos Estados Unidos, tivera uma criança de Lilly, um modelo de revistas, tendo assumido a paternidade da criança.

 

Em Santa Anna, nas montanhas de Cordova, nunca se chegou a saber oficialmente nada acerca desse reconhecimento e adopção secretos, pois o estróina de António Tabora tinha um medo de morte da sua mulher Ephtemia.

 

Finalmente foi tudo publicado, com muitos selos imponentemente autenticados. E, na Colômbia, nunca se duvida de um selo oficial.

 

Furiosos, reconheceram Amerigo Tabora como único herdeiro, que conseguiu, através de discussões tenazes, que se realizasse com ele o mesmo contrato que fora realizado com César Tabora.

 

Para a ”empresa”, que se mantivera sempre na retaguarda, era o negócio perfeito. E, assim, Raimondo Vargas começou com os seus três por cento uma nova vida de playboy...

 

Comprou um iate a motor, alugou uma vivenda na costa das Caraíbas e trocava de namorada todas as semanas. Como governador da ”empresa”, vivia como um rei.

 

Só havia uma coisa que não lhe saía da cabeça: o que aconteceria se Juana Tabora aparecesse? Se contasse a verdade à imprensa, não haveria pistola com silenciador que lhe valesse...

 

Mas Juana calou-se.

 

No salão de Madame Palmar, aprendia a fundo a arte de tatuar e não lia os jornais diários. À noite, quando já estava demasiado cansada para ainda se pôr a ouvir rádio, ia muitas vezes ao cinema para não ter que pensar no que sucedera nas montanhas nem no espectáculo dos diversos corpos nus dos homens que diariamente se deitavam na sua mesa de tatuagens.

 

Também não tinha lido nem ouvido falar no anúncio que fora publicado acerca de hipotéticos sobreviventes da família Tabora; nem ela, nem Madame Palmar, cuja ”animação” começava logo pela manhã com muito rum e pouco chá e acabava à noite com um ponche de rum que arrumaria qualquer marinheiro.

 

Artistas como eu... costumava ela dizer a Juana que criam desenhos para as diferentes partes do corpo dos homens, precisam de muita força interior. É o rum que me dá essa força! Conheces Balzac? Não? Um romancista francês. Só conseguia escrever uma frase depois de trinta conhaques... Imagina! Para mim, o traseiro de um homem só se transforma numa obra de arte quando o rum começa a fornecer ao meu sangue o fogo necessário...

 

Só assim é que foi possível que o prazo de reclamação tivesse terminado e que Amerigo Tabora, aliás Raimondo Vargas, o assassino, se apropriasse da avultada herança.

 

Mary-Anne Tolkins doravante será este o nome utilizado, pois Juana Tabora já não existia tinha vinte e dois anos de idade quando o destino a golpeou pela terceira vez.

 

Não foram golpes atrás uns dos outros, como é costume, mas sim todos ao mesmo tempo. Este era um golpe, por assim dizer, com o triplo da força.

 

Amerigo Tabora acabara de chegar de uma viagem de recreio com as suas companheiras de folguedo ao porto de Cartagena: tinha sempre três a bordo do seu iate de luxo Para, como bom anfitrião, ter variedade suficiente para apresentar aos seus convidados do sexo masculino.

 

Não viera pelo facto o porto de transbordo ser interessante para a exportação de bens, antes pelo contrário, não lhe reconhecia qualquer espécie de atractivo, mas sim porque tinha de mandar arranjar uma hélice.

 

Na oficina disseram-lhe que o arranjo devia demorar cerca de três dias. Ou seja: três dias de passeio em terra para os marinheiros e três dias nos bares para Amerigo e os seus convidados!

 

E também três dias de descanso para as raparigas a bordo, que finalmente podiam dormir bem, pois os convidados de Tabora iriam colocar os bordéis de Cartagena no lugar.

 

No barco de Amerigo havia um grumete chamado José. Um rapazinho a quem ainda não tinham crescido pêlos no corpo, e que era motivo de discussões permanentes entre os camaradas a bordo. Alguns desses rapagões chamavam-lhe ”banana mole”, outros manifestavam sérias dúvidas quanto à sua masculinidade, mesmo andando ele, tal como os outros, a exibir os seus atributos pelo quarto.

 

José, farto daqueles gracejos, informou-se no porto de Cartagena e aterrou no salão de Madame Palmar.

 

A senhora era de tarde encontrava-se no andar de cima a dormir no quarto, e a curtir uma grande bebedeira, pois tatuara de manhã uma nova obra de arte no peito de um marinheiro sueco que lhe agradara tanto, que só lhe levara metade do preço. Quem diria que o rum, combinado com trabalho artístico e acrobacia erótica pusesse uma senhora com a provecta idade de Madame Palmar num sono tão profundo?

 

Portanto, o jovem e tímido José foi aconselhar-se com Mary-Anne. Escolheu, entre os desenhos existentes, uma inocente âncora com uma cobra enrolada à volta e esticou o antebraço.

 

Não vai doer avisou Mary-Anne. Nem te vais aperceber de nada. Só uma impressão. Fazemos isto com agulhas eléctricas das mais modernas e com anestesia local. Em que barco estás?

 

No Lutezia.

 

E a quem pertence?

 

A um tipo podre de rico. Amerigo Tabora... Mary-Anne cravou os olhos na agulha de tatuar, que zumbia baixinho entre os seus dedos. De repente começou a sentir cada impulso da corrente a passar no cabo cromado.

 

Tabora...? perguntou pausadamente. Amerigo?

 

Conhece-o, senhorita!

 

Nunca ouvi falar.

 

Um magnata do petróleo e das esmeraldas. Não consegue gastar o dinheiro que ganha num dia. O seu petróleo jorra da terra, algures nas montanhas...

 

Algures nas montanhas... repetiu Mary-Anne numa voz sumida. Tem graça. Dá cá o braço, José... não vai doer. Mesmo nada! Há coisas que doem muito mais...

 

Colocou a agulha de forma a esboçar o contorno da âncora naquela pele jovem.

 

Onde está o barco?

 

No Cais Dois. Está com problemas na hélice. Vamos ficar por três dias.

 

Três dias. E Don Amerigo?

 

Era-lhe tremendamente penoso tratar o assassino da sua família por ”Don”.

 

Vai andar de bar em bar, claro! O que havia de fazer? O rapazinho sorriu, envergonhado. Quando não está com uma rapariga, embebeda-se ou ouve discos e cassetes, principalmente musicais americanos.

 

José observava a agulha eléctrica a espetar-se com o pigmento na pele. A âncora a azul, a cobra à volta, verde.

 

Está a ficar muito bonito, senhorita. Faz isto muito bem.

 

Na mesma tarde, apareceram no salão de Madame Palmar mais dois velhos clientes, concluindo-se assim de uma vez o triplo destino: Fernando Dalques fazia a sua visita para convidar novamente Mary-Anne para um jantar de peixe.

 

Estava muito contente: conseguira roubar um porta-moedas com mil duzentos e quarenta e cinco dólares do bolso das calças de uma turista americana, e trocara-os logo Por divisas colombianas. Durante um curto período de temPO, estava rico e podia convidar a sua querida e silenciosa Mary-Anne.

 

Quase imediatamente a seguir a Dalques, surgiu Jim McDonald no salão para apertar a mão a Mary-Anne e lhe contar que o ”pôr de Sol no mar” das suas costas tinha sido motivo de admiração em todo o lado.

 

As mulheres ficam malucas! gritava ele com a sua estrondosa voz de baixo. A sua chefe tinha razão! Quando lhes mostro o meu pôr de Sol atrás, as saias levantam-se-lhes sozinhas à frente!

 

Mary-Anne olhou pensativa para as suas visitas, em silêncio. Estavam sentados um ao lado do outro... um gigante vermelho com uma floresta na cara, e um homem de meia estatura, magro e elegante, que podia ser tudo... desde gigolô até subdirector de um banco privado.

 

Os dois homens observaram-se mutuamente cheios de desconfiança, pois estavam os dois aparentemente apaixonados por Mary-Anne, mandando-se reciprocamente para o inferno.

 

Vocês são meus amigos disse Mary-Anne de repente.

 

Jim e Fernando estremeceram e gritaram em coro:

 

Tu sabe-lo bem, Mary-Anne!

 

Os meus melhores amigos...

 

Sempre! berrou Jim primeiro.

 

Deponho o meu coração a teus pés! acrescentou Fernando poeticamente em espanhol.

 

Esse coraçãozinho de rato! gritou McDonald com arrogância. Um homem à tua disposição, darling, que levanta cinquenta quilos ao mesmo tempo que assobia a melodia A Ponte do Rio Kwai.

 

Não preciso de vocês nem do vosso coração, nem da vossa força... mas sim da vossa coragem!

 

Está disponível em todas as formas! berrou Jim.

 

E com que finalidade? perguntou Fernando galantemente.

 

Está um barco atracado no Cais Dois, o Lutezia. Estão-lhe a arranjar uma hélice. O barco pertence a um tal Amerigo Tabora...

 

Pronunciou o nome e espantou-se por a sua voz não ter vacilado.

 

Os dois homens olharam-se de relance e pestanejaram. ”De que se tratará? O que é que nós temos a ver com a hélice do barco?”

 

Queres que roube a hélice? perguntou finalmente Dalques, uma vez que Mary-Anne se calara.

 

O barco vai ficar três dias na doca... continuou Mary-Anne pausadamente, ao mesmo tempo que olhava em direcção à estrada que ia dar ao porto. Uma travessa estreita e barulhenta. Tabernas e bordéis, porta sim, porta não...

 

”Podíamos ser uma das famílias mais ricas e felizes da América do Sul”, pensou ela. ”Um único homem conseguiu dar cabo de tudo. Se eu for agora à polícia, quatro anos depois... rir-se-iam na minha cara! E, antes que consiga apresentar provas, o Raimondo Vargas mata-me também a mim.”

 

Vai ficar aqui durante três dias... repetiu ela, com tanta calma que começou a ter receio da sua própria voz e da sua frieza interior. Quero que o Amerigo Tabora não volte a pôr os pés no barco decorridos esses três dias. Olhou de frente para Dalques e para McDonald e reparou que tinham ficado francamente espantados. Quero que matem o Amerigo Tabora num desses três dias.

 

Mais nada? perguntou finalmente Jim numa voz rude, esgravatando a sua floresta de cabelos vermelhos.

 

É tudo? perguntou também Fernando, com algum azedume na voz.

 

Sim, é tudo! respondeu Mary-Anne.

 

E porquê?

 

Não é fácil de explicar...

 

Roubou-te a virgindade? gritou Jim.

 

Pior do que isso, Jim... Esboçou um sorriso.

 

Eu não sou um assassino disse Fernando Dalques numa voz séria. Gosto de deitar a mão a carteiras e a saias, mas matar...

 

E eu, até agora, a única coisa que matei foram peixes, ovelhas, porcos... ou seja, animais.

 

Este homem vale menos do que um animal. O que é que vocês fazem com os percevejos?

 

Eu esmago-os! gritou McDonald a rir.

 

Então, trata de fazer isso mesmo. O Amerigo Tabora não chega a ser um percevejo. Levantou-se e dirigiu-se para a porta. Ficaram os dois a olhar para ela. Pensem nisso! Sou uma pessoa como deve ser, perguntem a quem quiserem.

 

Quando ia a sair, voltou-se mais uma vez para trás.

 

Não terão problemas de consciência, se o fizerem! Isto não é um crime e vocês não são assassinos! Apenas vão permitir que se aplique finalmente uma justiça esquecida. É tudo...

 

A porta fechou-se.

 

Fernando Dalques e Jim McDonald ficaram sentados sozinhos na sala de espera do salão. Estavam fixados ao chão de linóleo, respiravam um pouco mais alto do que o costume e pensavam na situação.

 

Cais Dois... desabafou finalmente Fernando.

 

Amerigo Tabora é como ele se chama. Jim apertava as suas enormes mãos uma contra a outra.

 

Eu não o faço. Sou um carteirista honrado! exclamou Fernando. Matar é uma especialidade. Vamos.

 

Sim, vamos. McDonald estacou à porta. Nem me quero habituar a essas coisas...

 

Dois dias mais tarde o corpo do milionário Tabora foi encontrado na sarjeta de uma viela mal-afamada, por volta das quatro horas, por duas prostitutas que regressavam de um serviço a uns clientes particulares. Raimondo Vargas estava deitado na lama, como um cão morto, abandonado e sarnento.

 

A polícia e o médico legista concluíram que levara uma pancada na cabeça. A caixa craniana estava tão metida para dentro, e a pancada fora tão forte, que Amerigo Tabora estava cheio de esquírolas. Mal sentira o seu falecimento... um estalido no cérebro e, a seguir, uma noite eterna.

 

O local da descoberta fora também o local do crime, pois tinham encontrado sangue na sarjeta, juntamente com massa encefálica que saíra para fora.

 

O efeito do acontecimento foi naturalmente estrondoso, não apenas em Cartagena, como em toda a Colômbia. Sobretudo no Texas, mais precisamente em Houston, onde Amerigo era conhecido como o único herdeiro da enorme fortuna; como a ”empresa” facturava clandestinamente nos bastidores, voltou tudo a reverter para o Estado da Colômbia... os poços de petróleo e a mina de esmeraldas.

 

Definitivamente, não existiam mais herdeiros: os Taboras tinham sido extintos.

 

Mais tarde teve-se conhecimento de que um grupo financeiro no Texas fizera um contrato com Amerigo Tabora, mas o grosso do negócio pertencia praticamente todo ao Estado da Colômbia. Os texanos dispunham apenas de uma margem de dez por cento.

 

Também não valia a pena que a ”empresa” de Houston despendesse dez milhões de dólares com o esclarecimento da morte de Amerigo Tabora leia-se Raimondo Vargas a quantia mais elevada jamais oferecida no mundo do crime americano.

 

Não havia assassino. Nem um halo, nem uma sombra... Foi como se uma força desconhecida tivesse destruído a caixa craniana de Dom Americo.

 

Mary-Anne também nunca chegou a saber quem tinha morto Vargas.

 

Fernando Dalques apareceu no ”salão” três dias depois do acontecimento de Cartagena e jurou não ter sido ele. Afirmou que, em primeiro lugar, não batia assim em ninguém, em segundo lugar, que era mais pequeno do que Tabora, não chegando por isso à caixa craniana, e, em terceiro lugar, como sempre afirmara, que não conseguia matar.

 

Jim McDonald apareceu também, bem-disposto, como se nada se tivesse passado. Atreveu-se, no entanto, a afirmar:

 

Alguém se nos antecipou em relação àquele percevejo de sarjeta! E deve ter utilizado um martelo bem pesado para lhe ter achatado o crânio daquela maneira! Mary-Anne, não olhes para mim com esse ar crítico. Não fui eu! Tenho um álibi de ferro para esse dia e para essa noite! Estava a fazer a vigília nocturna no meu barco. Fui visto, no mínimo, por dez membros da tripulação, inclusivamente pelo segundo-oficial! Não há por onde pegar!

 

Nunca se veio portanto a saber quem é que assassinara Tabora... O que interessava era que ele estava morto e que o massacre das montanhas de Santa Anna fora vingado, embora o governo, por falta de assassino, não tenha sabido agir como devia.

 

Mas havia, sem dúvida, qualquer coisa digna de reparo.

 

Meio ano mais tarde, quando já ninguém se lembrava de Amerigo Tabora e a Madame Palmar caía cada vez mais em decadência, surgiram novamente, como se tivesse sido combinado, Fernando Dalques e Jim McDonald.

 

Sim, a senhora era uma vítima da arte de tatuar e do consumo de rum, que para ela funcionava como um estimulante. Permanecia agora mais tempo na cama do que no andar de baixo na mesa de tatuar, fumava, fantasiava, balbuciava, levava indiscriminadamente rapazes para a cama e eram já evidentes todos os sinais do início de uma paralisia. Quando começou a fase depressiva, já ela roera as almofadas do sofá de tanta aflição...

 

Mary-Anne dirigia agora sozinha o negócio.

 

Providenciava a comida, o rum e se possível rapazes que não se importassem de prestar um serviço depois de serem tatuados. E depositava no banco cada peso, cada dólar, cada libra inglesa, cada marco alemão, cada florim holandês e tudo aquilo que viesse.

 

Mary-Anne aceitava qualquer divisa, inclusivamente ienes japoneses e os vermelhos renminbi yuan chineses... No banco de Cartagena, onde era muito conhecida, era tudo convertido em dólares americanos.

 

Madame Palmar encontrava-se numa situação que a consumia de minuto para minuto e que a incapacitava para o negócio. Quando tinha o seu ponche de rum, bifes ou peixe-espada assado, que curiosamente comia com muito gosto, e quando sentia de vez em quando o corpo de um rapaz, explicava abertamente a Mary-Anne:

 

O negócio pode... Continua tu com tudo! Estou gasta, eu sei. Tenho espelhos. Já não o posso evitar! Rapariga, mantém sempre a cabeça erguida e as pernas bem juntas... És o tipo de pessoa que pode ir longe, se fizeres o que te digo. Comigo, teria de ser ao contrário...

 

Ali estavam os dois novamente, Fernando e Jim. Sentaram-se como dois irmãos no vestíbulo do salão, trancaram-se por dentro e, quando apareciam clientes que queriam ser tatuados, gritavam através da porta:

 

Dêem descanso à vossa pele, hoje estamos fechados! Só abrimos para trabalhos especiais!

 

O que vem a ser isto? perguntou Mary-Anne, que descia do quarto de Madame Palmar. Enlouqueceram? Como é que ficaram assim de repente?

 

É o seguinte começou McDonald com um ar importante, colocando um saco de lona em cima da mesa. Existe a possibilidade de comprar um barco em Barranquilla. Um barco magnífico! declarava Fernando Dalques. Já o visitámos. Um iate a motor com camarotes à frente, camarotes privativos e um porão de ré. Pode levar seis homens.

 

E... o que é que eu tenho a ver com o barco?

 

Estão ali sete mil dólares disse McDonald.

 

Onde é que arranjaste o dinheiro?

 

Encontrei. Jim olhou para um canto do quarto. Há dias de sorte, e os sinistrados às vezes trazem muito dinheiro nos bolsos.

 

Amerigo Tabora exclamou Mary-Anne em voz baixa.

 

Não conheço. Jim aproximou-se da janela. Para todos os efeitos, são sete mil dólares.

 

Fernando Dalques, elegante como sempre, puxou da sua pasta em pele de crocodilo e colocou um envelope volumoso em cima da mesa.

 

São exactamente trinta e quatro mil duzentos e sessenta e sete dólares e dezassete cêntimos. Não havia mais a bordo do Lutezia. Isto é... não encontrei mais... também não tinha muito tempo para procurar no estaleiro...

 

Quem matou Amerigo Tabora? perguntou Mary-Anne numa voz ríspida.

 

Darling, não se trata de uma morte... trata-se de querermos comprar um barco. Um barco a sério, Mary-Anne! Custa cento e trinta mil dólares. E nós temos quarenta e um mil duzentos e sessenta e sete dólares e dezassete cêntimos. Faltam cerca de noventa mil dólares!

 

E acham que os tenho?

 

Uma parte, de certeza...

 

E o resto?

 

Pedimos emprestado.

 

A quem?

 

Aos vagabundos ricos que navegam pelas Caraíbas!

 

Por outras palavras: pirataria?

 

Eu chamar-lhe-ia recolha de ”bens em excesso”. Uns têm a mais, nós temos a menos... A igualdade social sai na lotaria! Foi Fernando Dalques quem inventou esta máxima.

 

McDonald, que tinha um pensamento lento, olhava para ele, espantado.

 

O barco é rápido prosseguiu Fernando. Se trabalharmos durante um ano e tivermos sorte, mais tarde poderemos construir num estaleiro um barco especial que seja imbatível. Quanto dinheiro tens no banco, Mary-Anne?

 

Aproximadamente quarenta e três mil.

 

A coisa está a correr bem! gritou McDonald. Com duas ou três voltas, fazemos num instante os quarenta e sete mil dólares! Compramos o barco em Barranquilla...

 

E o negócio aqui?

 

Pertence-te?

 

Não, mas vou herdá-lo... Mary-Anne interrompeu-se.

 

”Vou herdá-lo”, pensou. ”Por causa de uma herança morreu a minha família toda. Não quero voltar a herdar mais nada... Quero conquistar tudo sozinha! Exterminaram os Taboras... A riqueza que nos pertence está a ser facturada pelo Estado! Estes dois biltres têm razão, quanto mais não seja, de um ponto de vista burguês: se os outros facturam, nós também podemos facturar! As grandes quantias de dinheiro estão nas estradas... nos mares, sobretudo nas Caraíbas e nas Baamas...

 

Mary-Anne Tolkins, até aos dezoito anos acreditaste nas pessoas, no seu afecto, na sua bondade, na sua moral, na sua ética. Acreditaste naquilo que o teu pai sempre te ensinou: o ser humano é bom. E enquanto for bom, será sempre respeitado...

 

Foi um ensinamento falso, um ensinamento errado! O Raimondo Vargas demonstrou-o, e os anos que passei em casa de Madame Palmar também o demonstraram! O ser humano nunca é bom... é apenas um camaleão que se adapta ao seu meio ambiente. A humanidade é um erro da natureza! Será condenável enganar um aldrabão?”

 

Vou pensar no assunto disse a Jim e a Fernando. Voltem daqui a dois dias. Agora, levem o dinheiro.

 

Vamos depositá-lo na tua conta explicou McDonald com um ar ingénuo. Lá estará seguro.

 

Passados três dias, encontraram-se todos na grande cidade portuária de Barranquilla. Visitaram o barco e pagaram um sinal de três quartos do preço.

 

Prometeram que poriam o quarto restante em cima da mesa num prazo de três meses. Mary-Anne Tolkins ficou registada como proprietária, empresária em Cartagena, dona do Salão Artístico Elvira Palmar, tatuagens de todo o tipo.

 

Jim McDonald, que já se despedira previamente, podia começar de imediato a trabalhar no barco. Experimentaram-no na breve viagem de regresso, navegando ao longo da costa até Cartagena...

 

O barco deslizava bem na água, balançava pouco contra as ondas, era surpreendentemente manejável e possuía uma quilha revestida de aço, pois o proprietário anterior, um rapaz extravagante, costumava fazer exóticas viagens através do gelo flutuante do Árctico.

 

Com este barco podemos abalroar, sem corrermos perigo, os iates que não obedecerem! berrou McDonald, entusiasmado. Darling, o mar das Caraíbas vai assistir ao renascer dos bons velhos tempos da pirataria!

 

Falta, contudo, esclarecer uma coisa explicou Mary-Anne. Estava com ambos na ponte de comando e olhou em direcção ao mar. O capitão sou eu!

 

Rapariga, percebes tanto de viagens no mar como um elefante percebe de tango! Jim chorava de tanto rir. A nossa pequena, capitão!

 

Vais ensinar-me tudo, Jim exclamou Mary-Anne, séria. Vem comigo para baixo, para o convés.

 

McDonald deixou o leme no piloto automático e desceu. Fernando já se encontrava na parte de baixo. Mary-Anne encostou-se à amurada do barco. Os seus cabelos negros esvoaçavam ao vento.

 

A nossa bandeira de pirata! exclamou Jim, contente. Darling, quando tivermos de mostrar a bandeira, hasteamos-te a ti no mastro!

 

Há um ano começou Mary-Anne com muita calma, chegou um cliente ao salão que queria tatuar uma faixa preta à volta da cintura.

 

E andar sem calças? gritou Jim, rindo a bandeiras despregadas.

 

Não. Era um homem orgulhoso! Cinturão negro, e queria andar sempre com ele. Era mestre de todos os níveis de judo e de karaté. Um japonês. Madame Palmar tatuou-lhe o cinto na barriga... e ele ensinou-me karaté e judo. É assim...

 

Fernando voou de repente pelos ares, indo aterrar no convés. McDonald já só conseguiu ver uma sombra preta, pois recebeu um golpe no estômago e outro nos ombros e caiu de joelhos, a gemer. O mar dançava à sua frente e mudava constantemente de cor. Levou alguns minutos até conseguir aguentar-se novamente nas pernas, embora vacilante.

 

Okayl disse Jim respirando com dificuldade. Fernando ficou estendido no convés, paralisado de espanto.

 

Já percebemos tudo. Partimos agora para casa, capitão?

 

Nessa altura já a Lua os iluminava. A sua imensa luz inundou a barca de pesca e cobriu de prata os seus corpos nus.

 

Mary-Anne deitara metade do corpo sobre o de Andreas, e sentiam ambos o palpitar dos seus corações. Os seios firmes estavam apoiados nas suas costelas... Retirara as mãos de entre as suas coxas e empurrara a perna contra as dele.

 

O vento que soprava do mar era quente e trazia o cheiro pútrido dos pântanos. O mar rumorejava ao longe contra os bancos de coral. Uma vez por outra ouviam-se os ramos das palmeiras a estalar. Macacos ou pássaros, que só acordavam à noite, baloiçavam-se nas largas folhas.

 

Beijou-o e voltou a beijá-lo, vezes sem conta... na boca, nos olhos, no nariz, na curva do pescoço, por detrás das orelhas, no tronco...

 

Voltara a deitar-se quieta sobre ele e brincava com os caracóis do seu peito. Rainherr abraçara-a com um braço e passava com a mão pelas saliências suaves da sua coluna, num movimento descendente, até chegar ao local onde as suas coxas, macias como o veludo, começavam a ganhar forma.

 

Era uma sensação de felicidade. Como se as estrelas cantassem.

 

Foi assim que nasceu a pirata Mary-Anne... disse ele, pensativo, quando ela se calou.

 

Conseguimos o resto da quantia precisamente depois de duas viagens de assaltos, e pagámos logo. O meu lema de negócio sempre foi: nunca enganar o sócio!

 

Nunca? perguntou ele baixinho

 

Nunca! Nunca! Já alguma vez te menti, Andres? Contei-te tudo.

 

O que aconteceu a Madame Palmar?

 

Teve de assumir novamente a direcção do salão e morreu em delírio dois anos depois. Nunca passou necessidades... Tratei dela como se fosse minha mãe, e enterrei-a como uma princesa! Coloquei um anjo branco de mármore na sua campa. Uns idiotas quaisquer desenharam mais tarde umas tatuagens por cima...

 

Teve vontade de rir, mas conteve-se a tempo.

 

E depois o vosso negócio floresceu? perguntou ele.

 

Sim. Passados dois anos era versada em todas as habilidades masculinas relacionadas com o mar. Encomendámos o Altun Ha, o melhor, o mais rápido e o mais bonito barco das Caraíbas.

 

Com um canhão e duas metralhadoras! O Fantasma das Caraíbas.

 

Sim. E o Fernando Dalques ficou em terra. Para disfarçar, fundámos a empresa de exportação de artesanato e de peles, contratámos um advogado respeitável para assessor jurídico da nossa firma...

 

O doutor Casillas.

 

Sim.

 

Que vocês tornaram corrupto...

 

Teve de ser. Dalques tirou a carta de avião, a empresa cresceu cada vez mais; foi melhorando até à perfeição...

 

Apercebi-me disso em vossa casa. Os ”peixes graúdos” são denunciados através do rádio... pelos espiões da empresa!

 

E agora o Fernando Dalques está no ar, com três projécteis, para nos aniquilar. Seria o fim da Mary-Anne Tolkins. A morte está sempre presente! Chame-me eu Juana Tabora ou Mary-Anne Tolkins... afinal, como é que me hei-de chamar?

 

Juana Rainherr... segredou-lhe ele. Abraçou-lhe a cabeça e puxou-a até à altura dos seus olhos.

 

As suas pupilas negras brilhavam com o luar.

 

Agrada-te o nome?

 

Porque não disseste antes: Juana Marte... Juana Mercúrio... Juana Urano. Estas plantas estão tão longe como Rainherr.

 

Mas nós estamos juntos! Nós sentimo-nos. Nós abraçamo-nos. Aprendemos a conhecer os nossos corpos com as nossas mãos. Nós somos um, Juana...

 

Hoje à noite! E amanhã?

 

Sempre...

 

O Fernando Dalques vai apanhar-me com os seus projécteis, eu sei.

 

Ai isso é que ele não vai. Vamos partir o mais rapidamente possível para Cayman Brac. Lá estarás completamente a salvo.

 

Mas é lá que está a tua filha...

 

Levo-te até casa e digo: Annette, apresento-te a minha nova mulher!

 

Vais mesmo fazer isso, Andres?

 

Não penso noutra coisa.

 

É bom, por uma vez na vida, ser-se feliz como num sonho... disse ela em voz baixa. Porque é que a seguir vem sempre o cruel despertar?

 

Deitou de repente o corpo todo sobre o dele, arrepelou-lhe os cabelos com os dedos, beijou-o e mordeu-o simultaneamente nos lábios e, quando ele a possuiu, soltou um grito tão cristalino que chegou ao céu estrelado.

 

Deixa-me morrer, Andres... proferiu nessa noite. Por favor, deixa-me morrer.

 

Começou a implorar, assim que o corpo dele se comprimiu contra o seu ventre, no chão do barco!

 

Faz qualquer coisa! Podes estrangular-me, mas, por favor, deixa-me morrer! Não quero enfrentar o terrível amanhã... a medonha claridade... o maldito sol! Não quero voltar a ver um novo dia, em que tudo será diferente... Tenho tanto medo desse novo dia...

 

Esse novo dia começou com Juan Noales a chegar ao hotel, vindo do barco e a acenar com um papel.

 

No dia anterior tinha aproveitado a oportunidade para se entreter com uma turista de meia-idade sedenta de amor. Tirou partido do romantismo da Lua das Caraíbas e do céu estrelado incrivelmente bonito e foi passear com ela para a praia. Avistara de longe o seu senhor e Mary-Anne junto à barca de pesca.

 

Ali não se passa nada, darling dissera. Mas sei de um sítio onde ninguém nos incomodará: o nosso barco!

 

E quando os outros regressarem? chilreou a já não muito nova rapariga, com um ar cândido.

 

O chefe de certeza que não vem para bordo hoje! Temos o barco todo por nossa conta.

 

Foi o suficiente para lhe arrancar um gemido penetrante dos lábios, e ficar até de madrugada com aquela beldade chamada Lily nos braços.

 

Precipitou-se para a sala do rádio. O sinal de chamada piscava no enorme equipamento e, como ninguém respondera ainda, o sinal acústico fora automaticamente accionado.

 

Juan Noales, um bocadinho cansado, pois Lily mostrara ser persistente, esfomeada e sedenta em matéria de amor, deixou-se cair no banco de apoio do rádio, colocou os auscultadores sobre o cabelo eriçado e baixou as alavancas.

 

Aqui Altun Ha disse Juan a bocejar. Cheirou o seu corpo bronzeado, os seus poros estavam impregnados com o perfume de Lily. ”Vou já nadar para o mar e tirar este cheiro”, pensou. ”Não posso aparecer assim ao pé do chefe. Maria Dolores, mas que perfume tão doce! Nauseabundo! Altun Ha repetiu ele, voltando a bocejar para o microfone.

 

Onde é que vocês estão? gritou alguém do lado de lá. Porque é que ninguém nos ouve? Andámos aqui às voltas nas redondezas à vossa procura. Com os diabos, onde é que se esconderam?

 

O Jim McDonald! Juan sorriu e encostou-se para trás.

 

Se soubesses onde estou disse ele, bem-disposto. Meu caro Jim, nem um vidente adivinharia! Nós estamos bem. Optimamente, diria eu.

 

Até o Fernando vos apanhar com os projécteis!

 

Ele não vai encontrar-nos, Jim. E se pensas que com um truque desses...

 

Mas que truque? perguntou-lhe McDonald com um berro. Ainda dou em maluco...

 

E porquê?

 

Queremos ir ter com vocês, idiota!

 

Exactamente o que eu imaginara. Quando souberem a nossa posição, ligam para o vosso amigo Fernando, e depois é que vão ser elas! Nem pensar, Jim! Ficamos por nossa conta!

 

Ouve-me lá agora, seu boca de sapo respondeu Jim. A sua voz soou muito séria e... o que Juan verificou com surpresa... também muito sincera. Sou um marinheiro irlandês honesto, ou não?

 

Que pergunta disparatada, Jim respondeu Juan. Quem trabalha como pirata durante anos e ainda se considera uma pessoa honesta...

 

Quero afastar-me da pirataria, sua noz oca! gritou McDonald, desesperado. Decidimos todos acabar com o Fernando Dalques. Só queremos juntar-nos a vocês, ao nosso querido capitão Mary-Anne!

 

Como? Querem ficar com o dinheiro dela?

 

Fizemos todos umas poupanças... E se não puder ser de outra forma, rebentamos com o convés! Não compreendes? Não queremos mais nada, a não ser voltar a estar com a Mary-Anne; aceitamos qualquer trabalho.

 

Isso é precisamente o vosso truque, Jim! retorquiu Juan. És um dos melhores timoneiros do mundo e queres rebentar com o convés? Há qualquer coisa que não bate certo! Em todo o caso, não te digo qual é a nossa posição. Mas vou dizer ao meu chefe que ligaste.

 

Espera! Não desligues, seu chato berrou McDonald. Escreve o que te vou dizer. E, a seguir, entregas a mensagem ao capitão. Tens um papel e um lápis contigo?

 

Tenho.

 

Era a mensagem de Jim McDonald que Juan levava para o hotel.

 

Mary-Anne Tolkins e o Dr. Rainherr encontravam-se na esplanada coberta a tomar o pequeno-almoço. Tinham-se sentado um pouco afastados dos turistas americanos que conversavam em voz alta, em mesas juntas, e contavam as aventuras por que tinham passado, um dia antes, no interior de Belize.

 

Um dos grupos visitara a antiga cidade inca de Lubaantun e o outro dera um passeio de barco através da selva, pelo rio de Belize. Um texano gordo vira como os nativos caçavam um javali e o abatiam. Na sua aflição, o animal fugira para o rio. A água turva começara de repente a fervilhar, um montão de peixes precipitara-se sobre o javali, centenas de dentes afiados brilhavam e uma grande mancha de sangue, donde surgiam constantemente os peixes de olhos bugalhudos com a terrível dentadura, começara a alastrar...

 

Uns escassos minutos depois, o esqueleto do javali já completamente roído passou a boiar pelo barco dos turistas.

 

Piranhas...

 

O homem do Texas, que contava excitado esta aventura aos turistas visitantes da cidade inca, não se conseguia acalmar.

 

Mas o mais incrível gritava ele é que as crianças nativas tomaram banho no rio, e não foram devoradas! Devem transpirar um pivete que afugenta estes peixes vorazes!

 

Juan Noales ficou parado a uma distância de um metro da mesa do Dr. Rainherr. Comportava-se agora como um verdadeiro criado, obrigado a interromper, embora sabendo que ninguém o chamara.

 

O que tens aí, Juan? perguntou Rainherr.

 

Juan olhou para Mary-Anne Tolkins, que estava surpreendentemente diferente. Tinha um aspecto muito mais feminino, mais meigo, mais feliz. Trazia um vestido de algodão justo, muito simples, branco com pintinhas azuis, que realçava a beleza do seu corpo, cobrindo cada forma ao mesmo tempo que as deixava adivinhar.

 

Uma mensagem do McDonald informou Juan erguendo o papel no ar. Não é para si, chefe, é para a lady...

 

Jim? A cara de Mary-Anne ficara outra vez mais séria. A felicidade que brilhava vinda do seu interior dissipara-se. Como é que o Jim pôde...

 

Através do rádio, milady respondeu Juan com a prontidão de um criado. Recebi-a hoje de manhã.

 

Estiveste no barco? perguntou Rainherr, admirado.

 

Toda a noite, chefe...

 

Juan permaneceu hirto como o aço, só os cantos dos olhos é que sorriam com malandrice.

 

Tinhas um quarto de hotel...

 

Mas eu gosto do romantismo de uma noite no mar, dentro de um barco a baloiçar, sir...

 

Ah! Rainherr disfarçava o riso. Como se chamava então o romantismo?

 

Lily, sir. Do Wyoming, nos Estados Unidos.

 

E onde está ela agora?

 

No quarto dela, sir.

 

E tu achas que não fizeste nada de errado?

 

Não, sir Juan Noales não se mexia.

 

Ela viu o canhão? As metralhadoras?

 

Sir, a senhora mostrou ter interesse por outras coisas, não por armas. Pode ficar completamente descansado.

 

Voltaremos mais tarde ao assunto, Juan.

 

Com certeza, sir.

 

Juan entregou o papel a Mary-Anne, que estalava os dedos impacientemente.

 

Leio? perguntou, depois de ter passado uma vista de olhos à mensagem de McDonald.

 

Por favor...

 

”Querido capitão” leu Mary-Anne em voz alta. ”Após deliberação unânime de todos os membros da tripulação devo informá-la que estamos determinados a não obedecer a mais nenhuma ordem vinda de Don Fernando, mas sim a obedecer-lhe a si. Estamos voluntariamente à sua disposição e gostaríamos que nos aceitasse de volta. Concordamos com tudo o que pretender fazer e para onde quiser ir! Isto não é nenhum truque para ficarmos a saber a sua posição actual; só lhe pedimos que nos dê um sinal, para irmos ter imediatamente consigo a bordo. Sentimos muito a sua falta... Se quiser casar com o doutor Rainherr, pedimos-lhe desde já que nos aceite ao seu serviço. Fazemos tudo, conseguimos fazer tudo, temos todos duas mãos cheias de força. Pode fazer sempre uso de nós. Honestamente: habituámo-nos de tal forma a si, que não nos imaginamos a alistar noutra parte nem a não voltarmos a vê-la. Por favor, dê-nos uma resposta. O seu fiel timoneiro, Jim McDonald.”

 

Mary-Anne deixou escorregar o papel das mãos. A sua voz deixou escapar um som de insegurança nas suas últimas frases; uma ligeira e comovida hesitação.

 

Olhou para o Dr. Rainherr, que passou as mãos sobre os seus cabelos soltos. O sol pálido da manhã conferiu-lhes um tal brilho que fazia lembrar os fios de um véu fabricado com a melhor seda.

 

Acho que está a falar a sério afirmou ela. Rainherr pegou no papel e leu o texto outra vez. Mostrava-se indeciso.

 

E de repente surge sobre nós o Fernando e abate-nos aos dois... comentou, duvidoso.

 

O McDonald é um homem sem maldade. Mary-Anne tirou-lhe o papel da mão, pegou-lhe fogo

 

com o isqueiro que estava ao lado dos cigarros de Rainherr e deixou a mensagem arder. Esmagou as cinzas com as mãos e deixou-as escorregar para o cinzeiro.

 

A decisão és tu que a tens de tomar, Andres.

 

Trata-se da tua vida, Juana... do teu barco!

 

Não! Ontem... sim, mas, quando hoje de manhã o Sol nasceu, estava um barco abandonado lá fora. Pertencera em tempos a uma certa Mary-Anne Tolkins, mas essa desapareceu de repente. Fica com o barco... Já não pertence a ninguém!

 

Um barco com um canhão dissimulado e metralhadoras! E uma tripulação que se dedicou durante mais de sete anos à pirata mais temida das Caraíbas.

 

O Dr. Rainherr olhou para Juan Noales o criado surdo que se pusera de parte, à espera de instruções.

 

A seguir voltou-se e olhou para o pequeno porto do hotel, onde estava ancorado o elegante Altun Ha, ao lado de outros iates britânicos, americanos e holandeses. Ninguém podia ver o que é que se escondia por debaixo do seu casco aerodinâmico, branco como a neve.

 

Vocês estão a pôr-me uma batata quente nas mãos! observou Rainherr, hesitante. Saí de casa para conhecer os grandes recifes e a riqueza da sua fauna marítima, e regresso a Cayman Brac com uma tripulação completa de flibusteiros.

 

Eu estava com medo do novo dia... disse Mary-Anne em surdina. E agora, aqui está ele, e o medo já tem forma!

 

Até que ponto é que se pode confiar no McDonald?

 

Posso dizer uma coisa, sir

 

Juan Noales, três passos afastado, olhava por cima das suas cabeças. Um bom criado não deve aperceber-se dos sentimentos dos seus patrões quando não é manifestamente convidado a participar.

 

Se for importante, Juan...

 

O Jim gemeu quando me ditou a última frase. Mesmo para o microfone. Ele está a falar a sério, sir.

 

Suponhamos que lhe dizemos onde é que nos pode descobrir, ou onde nos podemos encontrar... O Fernando pode interceptar a conversa?

 

Se estiver na nossa frequência de onda, evidentemente.

 

Mary-Anne inclinou a cabeça para trás e fechou os olhos. ”Vou fazê-lo”, pensou Rainherr. ”Não vou desistir novamente desta mulher. Desde hoje à noite que percebi que a vida tem novamente um sentido... um sentido pelo qual vale a pena lutar, seja com que meios for.”

 

Até suspeito prosseguiu Mary-Anne que o Fernando ou o Casillas se sentam alternadamente à frente da rádio para escutar a nossa frequência. ”Um dia, acabarão por comunicar”... é o que eles pensam! E, pouco tempo depois: Tive uma ideia... mas tu é que decides, Andres.

 

Que ideia, Juana?

 

Desde a noite anterior que ele a tratava por Juana ou seja, pelo seu nome verdadeiro. Primeiro ela chorara e dissera:

 

Ela foi exterminada, desapareceu na floresta das montanhas de Cordova. E a Mary-Anne também já não existe... Andres, eu não tenho nome...

 

E ele beijara-a e voltara a beijá-la e retorquira:

 

Repete comigo... repete comigo, muito devagar, como se estivesses a aprender a falar de novo: Eu chamo-me Juana Rainherr... Juana Rainherr... Juana Rainherr...

 

Ela repetira... mas só uma vez.

 

Depois agarrara-se novamente a ele e sacudira a cabeça.

 

É impossível. Tu podes amar-me, sim, e toda a felicidade desta Terra se concentrará nas nossas mãos e lábios... mas isso não, isso não, Andres: nunca vamos poder ficar juntos! Uma pirata procurada por todos os estados das Caraíbas...

 

E ele dissera-lhe aquilo que já lhe tinha dito tantas vezes naquela noite:

 

Vamos apagar isso tudo. Encontraremos um caminho que tranquilizará as nossas consciências. Embora devêssemos perguntar-nos por que razão é que temos de nos preocupar com a moral, num mundo onde já não existem escrúpulos...

 

Vou mandar o Jim e a tripulação para Sabá disse. O Fernando não vai, de certeza, voar para lá.

 

Também acho. O Dr. Rainherr olhou para Juana com um ar bastante aparvalhado. Sabá? O que é que o Jim e a tripulação vão fazer para o Próximo Oriente?

 

Ela esboçou um sorriso complacente e poisou a mão sobre o seu braço.

 

Sabá é uma pequena ilha do arquipélago das Antilhas Holandesas... Uma ilha rochosa que é um autêntico castelo inconquistável!

 

E o que é que tu tens a ver com Sabá, Juana?

 

Isso é outra história, uma nova história, Andres. Sorriu com alguma tristeza. Como podes ver, estou cheia de passado. Vais ter dificuldade em apagar tudo.

 

Hei-de conseguir, Juana!

 

Andreas Rainherr deitou uma olhadela a Juan, que estava ali de pé, como se fosse uma coluna.

 

Juan, pára de fazer de criado de Gloucester! Volta a ser sensato, põe o barco em condições de partir, despede-te da tua Lily... e vamos embora!

 

Para Sabá, siri

 

Primeiro para casa! Para Cayman Brac.

 

Para a tua filha Annette. Juana levantou-se. Ficava elegante e frágil com aquele vestido... com o uniforme de capitão parecia muito mais forte. Tenho tanto medo. Quando ela vier a saber quem eu sou...

 

Não precisamos de lho dizer.

 

Queres mentir à tua filha?

 

Juan já se fora embora e corria pelo caminho de saibro em direcção ao porto do hotel. Pareceu-lhe desnecessário despedir-se de Lily. De certeza que ainda estava a dormir no seu quarto no hotel, depois de ter passado toda a noite fora. Além disso, aquelas despedidas abruptas eram sempre muito complicadas, e Lily era o tipo de turista que dava umas férias de três semanas à sua consciência moral e que depois desse período de tempo se voltava a sentar durante um ano no banco fronteiro da igreja, como modelo de virtude, a acenar com a cabeça às palavras de advertência do pregador. Provavelmente até seria membro de uma das muitas associações de mulheres dos Estados Unidos, que estabeleceram como objectivo combater a imoralidade.

 

Omitir não é mentir disse Andreas.

 

Não ousas então dizer-lhe que sou uma pirata? Deu a volta à mesa e pôs os braços à volta dos seus ombros.

 

Vamos pagar o quarto e fazer as malas.

 

Nós íamos ficar três semanas, Andres!

 

Parecia um grito reprimido. Apertou-lhe de repente o braço, as unhas dos seus dedos pareciam pontas de ferro a espetarem-se na carne. Doía.

 

Por favor, vamos ficar aqui estas três semanas, vamos aproveitar este tempo juntos. Eu sei, Andres... Eu sei muito bem... Depois nada acontecerá! O grande vazio! Mas três semanas de felicidade contigo... é como se fosse uma vida inteira. Encostou a cabeça aos seus ombros e disse decidida: Eu não vou para Cayman Brac.

 

E quem é que disse há pouco: ”Decide tu...”?

 

Tinha-me esquecido da tua filha. Sê sincero, Andres, tu próprio não tens bons pressentimentos...

 

Não vai ser fácil, admito. Mas ainda sou eu quem decide sobre a minha vida!

 

Levou-a consigo. Pagaram três semanas pelo quarto que tinham reservado, pois o director do hotel afirmara que tão depressa não o conseguiria alugar a outros hóspedes... No caso de San Pedro deveria ter razão, pois só se desviavam para ali pessoas solitárias ou pequenos grupos de estudantes, nos quais se incluía a Lily de Juan.

 

Juan estava à espera deles no barco, na sua roupa habitual, calças de marinheiro e uma T-shirt. Na cabeça trazia um chapéu de linho amarrotado para se proteger do sol abrasador.

 

Tenho a nossa Annette I na linha! informou ele. O McDonald está sentado na nossa sala de rádio, paralisado com a emoção. Sabe onde estão os rapazes? Andam à deriva à frente das Honduras, perto dos atóis de Caratasca.

 

Isso é uma boa notícia. Juana encostou-se à amurada do Altun Ha e olhou demoradamente para Rainherr. O Fernando acreditou nas minhas falsas indicações. Relativamente a ele estamos seguros. Fez um gesto largo com a mão. Andres... o teu barco! Faz o que te apetecer comigo...

 

A comunicação com Jim McDonald correu bem. Rainherr ligara o altifalante. As palavras de Jim ressoavam pelo quarto.

 

Finalmente! A sua potente voz de baixo quase se esganiçou de contentamento. Sir, é tão bom ouvi-lo! Mas, para falar com franqueza, preferia ouvir a voz do meu capitão. Ela está por perto?

 

Está ao meu lado, Jim.

 

Rainherr virou o altifalante um bocadinho para baixo. O chão começou a vibrar por baixo dos seus pés. Um barulho forte e abafado inundou o iate.

 

Ah! gritou Jim McDonald. Estão a partir. Sir, estou a ouvir os nossos motores! Deus do céu, já sinto as lágrimas nos olhos! Onde é que se meteu, sir?

 

Estou perto; mas o capitão quer dizer uma coisa. Rainherr passou o microfone a Juana que respirou fundo, sentando-se no banco de apoio.

 

Timoneiro... disse ela, alto.

 

Capitão! gritou Jim. Rapazes, ela está aqui! Ela está a falar! Rapazes, ela está a falar connosco... Calou-se de repente.

 

”Está mesmo a gemer de alegria”, pensou Rainherr. ”Um touro como o Jim a choramingar como uma criança.”

 

Estão todos na sala?

 

Todos! Era a voz do barbudo pois, aparentemente, Jim ainda não se sentia capaz de continuar a falar. Fazia um esforço para voltar a encontrar o seu equilíbrio psicológico. Estamos aqui todos e conseguimos ouvi-la muito bem, capitão.

 

Tenho uma ordem para vocês! disse Juana com aquela voz firme que usava sempre a bordo do seu iate.

 

Pode dar as ordens que quiser. Era novamente a voz de baixo de McDonald. Não há nada que não possamos fazer.

 

Então partam imediatamente para Sabá!

 

Para Sabá?

 

Penso não haver mais perguntas, Jim?

 

A senhora é que manda, capitão. Vamos partir para Sabá. Mas não sei quanto tempo poderá demorar com este barco. Só o arranjámos provisoriamente. Sir, também está a ouvir, não está? O seu barco é sólido e de boa qualidade um autêntico barco de milionário! Mas, para aquilo que pretendemos, não passa de um eu frouxo! Perdão, capitão, saiu-me. Vou ver o que consigo fazer com a máquina e se podemos partir nela para Sabá. Seria melhor combinarmos um sítio para nos encontrarmos e, nessa altura, o Altun Ha levava-nos a reboque...

 

Rainherr abanou a cabeça quando Juana se virou para ele com um olhar interrogativo.

 

Vão sozinhos para Sabá! disse em tom de comando. Pode ser que esbarremos com vocês... em qualquer parte e em qualquer altura. Provavelmente chegamos lá primeiro...

 

De certeza, capitão! A voz de McDonald vibrou novamente. Seria capaz de devorar uma barra de ferro, de felicidade! Vou ver o que consigo espremer aqui dos motores. Já estão a navegar a todo o gás, estão a ouvir...

 

Sim, estamos!

 

Juana olhou para o grande relógio eléctrico, instalado na parede. Eram onze horas e vinte minutos, hora local.

 

Vou repetir, Jim: vocês apanham a rota directa para Sabá. Vamos ter de fazer alguns desvios. Seja como for, voltamos a ver-nos.

 

Vai ser um dos dias mais bonitos da minha vida, capitão afirmou McDonald, comovido. Juro, seria capaz de saltar pelo mar, como um peixe-voador... se não fossem os malditos tubarões!

A ligação foi interrompida. Fernando Dalques colocou a alavanca do equipamento na posição ”zero” e virou-se para o Dr. Casillas. Estavam sentados na sala de rádio do palácio colonial perto do rio de Belize e tinham como Juana previra ouvido e gravado toda a conversa numa fita magnética.

 

Que patife! dizia Fernando. Precisamente o Jim! Apanha-nos de costas e vai a correr ter com a Mary-Anne! Era de quem eu menos esperava que isso acontecesse. O que nós passámos juntos!

 

Acendeu um cigarro e contemplou pensativo o seu ”assessor jurídico”.

 

Casillas, você sempre esteve na mó de cima... Teve pais que cuidaram bem de si, boas escolas, estudos em Direito, doutor da justiça, nunca passou fome, nunca sentiu o medo a assaltá-lo: ”Onde é que vais dormir amanhã?” Nunca experimentou a sensação: ”És uma ratazana e serás tratado como tal!” Só que agora, meu caro, agora você já não é mais que nós...

 

E sabe muito bem porquê! retorquiu o Dr. Casillas com um ar sombrio. Tem de estar sempre a trazer isso à baila?

 

Só queria que ficasse bem claro: o Jim é um porco, que começa a cheirar mal. E um animal daqueles deve ser abatido.

 

Agora, além do doutor Rainherr, quer exterminar a tripulação inteira com os projécteis?

 

O Dr. Casillas, verificou com alívio que Fernando Dalques regressara a Belize sem ter sido bem-sucedido. As recomendações haviam sido todas inúteis. Teve conhecimento das operações da aviação militar das Honduras através de um amigo que vivia na capital, Belmopan, e conseguiu saber que o Cessna de Fernando não tinha sido inspeccionado no aeródromo de Belize. Uma segunda vez, não seria possível...

 

”Pode explodir-se de ódio”, pensava Casillas, ”mas nunca se deve perder a razão.” E Fernando estava mesmo a atingir o limiar.

 

Vou voar para Sabá! afirmou Fernando numa voz abafada.

 

Com os projécteis?

 

Sem os projécteis, evidentemente, seu idiota! Tenho de aterrar entre a Jamaica e Porto Rico e atestar o depósito. Será que posso, com os projécteis debaixo da fuselagem? Mas já estarei em Sabá, quando os dois chegarem. E quando o Altun Ha e o Annette I estiverem a navegar harmoniosamente ao lado um do outro, faço uma descida em voo picado e coloco duas bombinhas nas respectivas casas do leme! O Luís tem dois caixotes delas no armazém...

 

Se o Luís estiver de acordo, Don Fernando!

 

Tem de estar!

 

E se ele também tender mais para o lado de Miss Tolkins, e não para o seu? Quem iria pensar uma coisa dessas do McDonald, tal como você próprio verificou? O que se passou entre Sabá e o porto de Belize foi da responsabilidade de Miss Tolkins. Podia ter corrido mal, Don Fernando...

 

É o que vai acontecer, não tarda nada!

 

Dalques tornou a voltar-se para o rádio e sintonizou a frequência de onda da emissora de Sabá. Mas ninguém respondeu. Fernando tentou contactar com o ”gerente da filial” durante quase meia hora e, simultaneamente, obter informações acerca da zona do arquipélago das Antilhas.

 

Fernando levantou-se a praguejar e desistiu.

 

Você fica no aparelho, Casillas! ordenou ele. - Vou voltar a descolar e continuar a procurar. Já sabemos onde se encontra o Annette... próximo dos atóis de Caratasca. E a Mary-Anne a dizer que estava muito perto! Com os diabos, temos de a encontrar. Nesta zona, o mar parece-se com uma mesa vazia, sobre cuja superfície qualquer grão de poeira é facilmente identificável!

 

Por favor, voe sem os projécteis, Don Fernando implorou Casillas numa entoação de voz que parecia estar a pedir pela própria vida.

 

Aqui? Não! Dalques deu um murro contra a parede. Se o combustível der para chegar até lá, levo-os comigo.

 

A força aérea, tanto das Honduras como da Guatemala, já foi alertada prosseguiu Casillas. Só ontem é que consegui saber, através de um adiantamento em dinheiro, que você tinha aterrado sem controlo aéreo. Isso de certeza que não vai acontecer uma segunda vez. Quantas vezes vou ter ainda de lho dizer? Tem de dar cabo da empresa toda? Quer começar do princípio?

 

O que quer que eu faça? gritou Fernando. Não me venha com as suas sentenças sábias, seu imbecil! Eu vou salvar a empresa!

 

Com bombas? Você é igual aos políticos, Don Fernando: quer preservar a paz, ao mesmo tempo que se arma.

 

Começo a percebê-los melhor retorquiu Dalques, insensível. Faça o que eu lhe digo, Casillas, é para isso que lhe pagam. Mantenha-se no rádio e apanhe o Luís de Vegas. E diga-lhe que parto amanhã para Sabá. Não, não lhe diga isso! Informe-o só que Miss Tolkins nos traiu e que a empresa corre perigo, bem como ele próprio. Se quiser continuar a viver tão bem como até aqui, tem de confiar em mim. Diga-lho de forma bem clara; não me parece que a Mary-Anne lhe possa fazer uma oferta melhor.

 

Dirigiu-se para a porta com passos apressados e parou de repente, como se desconfiando que a maçaneta da porta estivesse carregada com uma corrente de alta tensão.

 

Como é, Casillas? A força aérea das Honduras e da Guatemala já estão de prevenção?

 

Eles sabem com certeza...

 

Quem é que lhes forneceu informações?

 

Suspeito do McDonald. Ou da própria Miss Tolkins, depois de este a ter avisado acerca da carga de projécteis.

 

O Dr. Casillas teve um rasgo de esperança relativamente a uma situação que considerara manifestamente perdida. Don Fernando, você vai pôr-se a caminho com um Cessna... mas a força aérea vai apanhá-lo com caças! É o mesmo que atacar uma armadura com uma moca!

 

Eu sei...

 

Eles controlam todos os aviões deste espaço aéreo!

 

ousou dizer o Dr. Casillas, sem no entanto conseguir apresentar provas disso.

 

Mas Dalques também não as pediu.

 

Muito bem resmungou ele. Vou voar sem projécteis. Basta-me detectá-los. Uma coisa é certa: nunca chegarão a Sabá!

 

O Altun Ha navegou ininterruptamente.

 

Durante o dia punham as duas máquinas a navegar no máximo, e durante a noite diminuíam a velocidade e deslizavam sobre o extraordinariamente calmo mar das Caraíbas, a uma velocidade normal.

 

Rainherr e Juan iam-se revezando. Tiveram inclusivamente uma discussão por causa disso, observada por Juana com toda a atenção, pois, para ela, Juan era o subalterno perfeito do seu patrão. Só quando estavam sozinhos é que a máscara caía... Nessa ocasião, o Dr. Rainherr continuava a ser o ”chefe”, mas Juan sentia-se tão intimamente ligado a ele que falava mais do que era costume.

 

Rainherr gostava tanto desse tipo de dedicação como de estar em posição de igualdade.

 

Sempre odiara mesmo enquanto estivera ao serviço da indústria como investigador-chefe de uma grande companhia em Wuppertal e participara na direcção os que aplaudiam os superiores e faziam sentir aos subalternos os pequenos universos existentes entre eles.

 

Em linguagem popular, chamava-se a esse tipo de pessoa ”engraxador” lambe para cima e pisa para baixo, e o Dr. Rainherr sempre fora um ser humano que nunca tivera medo dos seus superiores, ou complexo de chefe.

 

Por duas vezes deram-lho explicitamente a perceber... Naquela altura, em Wuppertal, quando era o químico-chefe da companhia, um membro da direcção, o Dr. Matternhage, dissera-lhe:

 

Meu caro doutor Rainherr, você é o único homem da companhia, devido às suas qualificações, com capacidade para preencher a vaga de membro científico da direcção. Os membros da direcção reuniram-se durante bastante tempo e... as opiniões foram unânimes. No entanto, decidimos nomear o doutor Meinberg para o cargo de direcção. E... sabe porquê?

 

Porque limparia o nariz ao presidente da empresa, se o pingo... respondeu Andreas Rainherr.

 

Está a ver? Essa frase caracteriza realmente tudo aquilo que nos impediu de o eleger para o cargo de direcção. O senhor é demasiado rude, demasiado frontal, demasiado sincero. Não é... suficientemente adulador!

 

Já percebi que nesta empresa é indispensável uma pele de cobra! respondeu Rainherr. Fiz as minhas descobertas, paguem-me uma boa quantia e uma percentagem anual sobre a patente, que eu fujo àquilo que você considera ser um ambiente indispensável à vida. Vou para qualquer parte, onde possa viver como um ser humano.

 

Você é... estamos sozinhos, Rainherr... se me permite, um idiota! retorquiu o tal Dr. Matternhage. A carreira que tem pela frente! Repare no que está a deitar fora, apenas para provar que não precisa, caso seja necessário, de calar o bico! Além disso, é tão simples encontrar uma solução de compromisso.

 

Para mim, não. Sou apologista das coisas feitas às claras.

 

Assim não chegará longe na escala hierárquica da nossa sociedade.

 

Mais um motivo para me rir da escala hierárquica...

 

A segunda conversa em Wuppertal decorrera de um modo mais formal. A direcção reuniu-se para despedir o Dr Rainherr O químico-chefe, que com a sua descoberta tinha elevado a empresa a uma solitária posição de topo no mercado mundial.

 

O Dr Hanssen, o presidente que era tratado na companhia por ”senhor director-geral”, elogiou novamente o esforço do Dr Rainherr e explicou que a empresa estava em condições de ocupar uma posição de destaque na indústria do plástico, graças à descoberta do Dr. Rainherr, com quem ninguém iria conseguir concorrer nas próximas décadas As patentes internacionais tinham salvaguardado possíveis cópias

 

A direcção autorizou que fosse atribuída ao Dr Rainherr uma pensão vitalícia extremamente elevada devido ao seu êxito, bem como uma caução equivalente

 

Na ocasião, o Dr. Rainherr ouviu calmamente o laudatório e respondeu sucintamente

 

Meus senhores dissera ele, se partirmos do princípio de que o nosso planeta sobreviverá aos próximos séculos sem entretanto o terem destruído, quer dizer que proporcionarei lucros de milhões a esta empresa Se satisfazem hoje o meu pedido e me deixam partir com uma caução e um bónus anual que, comparativamente com as hipóteses que a companhia terá de sobreviver, é categoricamente abaixo de ridículo, esse gesto não poderá ser visto como uma generosidade da parte da direcção da companhia, mas sim como um negócio sensacional E um negócio destes não é para ser fechado com palavras bonitas. Agradeço-lhes, meus senhores, que me tenham colocado numa situação que me permite viver como sempre quis. Nunca exigi mais do que isso. Sei que sou uma pessoa com uma personalidade singular. É por esse motivo que apelo às vossas nobres consciências que me libertem

 

Este discurso de despedida, gravado e mais tarde registado em acta de direcção, tornou-se um documento clássico contra a hierarquia empresarial e económica, tão adorada na companhia.

 

A actual relação entre Juan e Rainherr era diferente da que existe habitualmente entre o timoneiro e o proprietário de um iate.

 

Eu fico com o serviço nocturno, chefe! dissera Juan. Assim, pode ficar alternadamente com Miss Tolkins, durante o dia.

 

Existem aí dois equívocos, Juan respondera Rainherr. Em primeiro lugar, Miss Tolkins chama-se agora Juana Tabora... e, em segundo lugar, fazemos o serviço da noite alternadamente.

 

Como resultado das discussões em volta deste tema, Juan ficou definitivamente sozinho à noite e Juana e Andreas com duas noites inteiras só para eles.

 

Noites de um amor tão intenso que as estrelas pareciam soltar-se do céu... mas havia momentos em que Juana repousava nos braços de Rainherr e dizia:

 

Eu sinto-o... os meus pressentimentos nunca me enganaram. Vai ser diferente, vai ser tudo diferente quando chegarmos a Cayman Brac! Ela vai obrigar-te a tomar uma decisão. Por uma ou por...

 

A Annette? Não o fará.

 

Podes ser um bom pai, mas não percebes nada de filhas. Têm sempre ciúmes das mulheres por quem os pais se interessam. Sei disso. Quando uma vez o meu pai deu uma palmada amigável a uma empregada nossa... vi por acaso, porque me encontrava no jardim... tive vontade de a matar! Porque é que a Annette há-de ser diferente? És o seu único amor...

 

Por enquanto! Até ela conhecer um homem.

 

E ela tem alguma possibilidade de o fazer, em Cayman Brac?

 

Poucas...

 

E dizes tu que a Annette não é problema? Arrastou-se até ele e aqueceu-se contra o seu corpo nu. Quando é que chegamos a Cayman Brac?

 

Amanhã, por volta do meio-dia...

 

Então, esta é a nossa última noite, Andres.

 

Juana, não digas uma coisa dessas! A nossa vida acaba de começar...

 

Ela abanou a cabeça sem dizer palavra.

 

Abandonou-se a ele em silêncio, com os dentes a ranger, enlaçada nos seus braços, alternando uma ferocidade delirante com uma submissão afectuosa. Os prodígios inexplicáveis e indizíveis do amor.

 

Com efeito, por volta do meio-dia, surgiu Cayman Brac à sua frente. Longa e estreita, uma agulha no meio do mar.

 

Desceram a costa até à ponta ocidental e a seguir viraram numa baía formada por rochas. Rainherr estava ao leme, enquanto na amurada da proa Juan Noales acenava com ambas as mãos.

 

Acima da baía e da praia, num molhe que entrava no mar e onde iam acostar, avistava-se uma casa branca de dois andares, construída numa grande plataforma no recife. Tinha um terraço suspenso por colunas e arcos redondos, e os jardins também haviam sido organizados como terraços. Viam-se pequenas plataformas laterais com palmeiras e sítios para uma pessoa se sentar, muros baixinhos com telhas vermelhas e uma piscina no recife, cheia com água do mar.

 

Uma pequena residência. O poiso de um homem livre.

 

É aqui? perguntou Juana. Estava ao lado de Rainherr na casa do leme e contemplava através da vidraça a baía e a casa que parecia ter saído de um conto de fadas.

 

Sim, é aqui respondeu Andreas, não acrescentando mais nada.

 

E convenceste-me que eras um homem pobre...

 

Isso não é verdade. Eu só disse à pirata Mary-Anne que tinha feito uma má pescaria. Mas essa Mary-Anne desapareceu de repente. A ti, Juana Tabora, apenas te disse que iríamos ser felizes.

 

Apontou para os locais dos recifes suavemente iluminados pelo sol, para os jardins floridos e para os terraços. O movimento da sua mão era abrangente, de orgulho.

 

É este o teu novo mundo, Juana. A decisão agora é tua!

 

Acenou com a cabeça e ficou muito quieta, enquanto Andreas pilotava o Altun Ha em direcção ao molhe. Um homem num uniforme de marinheiro estava à espera e pegou na amarra que Juan lhe atirou.

 

Este é o Jack apresentou Rainherr. Conhecedor de todos os mares. Agora, é meu jardineiro.

 

Um grande cão-pastor castanho-claro desceu as escadas que levavam à praia e correu pelo molhe a ladrar.

 

E este é o Mister Ben. Meu Deus... Pôs o braço à volta dos ombros de Juana e puxou-a para si. Conseguimos, Juana! Conseguimos! Começou a nossa nova vida!

 

Ela acenou com a cabeça em silêncio, olhando para a figura que descia as escadas a saltitar com à-vontade, atrás do cão. O cabelo loiro comprido até aos ombros esvoaçava, brilhando com a luz do Sol. A rapariga vestia uns minicalções azul-claros e uma T-shirt branca muito simples com a inscrição: i LIKE PAPA. Era alta e esguia e tinha um andar desajeitado, com qualquer coisa de inacabado, que surge com frequência nas raparigas de dezasseis anos.

 

Parou a meio das longas escadas, colocou a mão direita sobre os olhos para se proteger do sol e olhou em direcção ao iate.

 

Um barco estranho.

 

Por que razão Mr. Ben se comportava de uma forma tão insensata, como quando o dono regressava a casa?

 

O cão saltava a uivar pelo molhe acima, impedindo o velho Jack de amarrar o cabo ao cabeço. A rapariga reconheceu Juan que acenava na proa e baixou a mão com que protegia os olhos.

 

E então aquela é a... disse Juana baixinho.

 

Sim, aquela é a Annette.

 

Uma bonita rapariga...

 

Uma fotocópia da mãe, em nova.

 

Não me vai aceitar, Andres...

 

É o que veremos!

 

Agarrou-a pela mão e puxou-a para fora da casa do leme. Lá fora, frente à amurada colocou o braço por cima de Juana e puxou-a para si. Com um movimento repentino voltou-a e beijou-a. A surpresa durou apenas um segundo, pois ela afastou-o com os punhos.

 

És louco! exclamou, ofegante. Andres, isso foi o maior erro desta chegada. Ela já me odeia, mesmo antes de me conhecer...

 

Annette descia devagar as escadas que iam dar à praia. Apertava os lábios um contra o outro. Parou no último degrau e com ambas as mãos atirou o longo cabelo para os ombros.

 

Ela parou... observou Rainherr, sério. Quando eu regressava, costumava correr na minha direcção ao desafio com Mister Ben. Quase que me derrubavam...

 

Largou Juana e esperou que empurrassem a escada de portaló até ao molhe e que Juan saltasse para terra.

 

Vem disse ele estendendo a mão a Juana. Vem para a tua nova vida. Quero ver quem é que nos vai impedir...

 

Não seria melhor ires ter primeiro com a tua filha e explicares-lhe?

 

Não! Puxou-a para a escada e colocou-lhe novamente os braços por cima dos ombros. Isto é um assunto que diz respeito aos dois...

 

Os cumprimentos, mesmo quando corteses ou, precisamente, por serem corteses podem magoar profundamente. Um primeiro encontro, um primeiro olhar ou aperto de mão podem erguer muros, abrir bruscamente abismos.

 

As pessoas podem abraçar-se e perceber instantaneamente: ”Não vais gostar desta pessoa! A sua presença provoca-me náuseas.” Sorrir, sorrir, seria a fórmula... mas esse sorriso no canto dos lábios é gelado, é glacial, nunca irá derreter. A polidez de um glaciar, por assim dizer.

 

Depois de Andreas Rainherr e Juana Tabora terem chegado a terra e Mister Ben, sem preconceitos, ter saltado para cima do dono e quase o ter derrubado, uivando de contentamento, como se sentisse a felicidade como uma dor, Annette aproximou-se finalmente.

 

Saiu da sombra das escadas do penhasco e chamou numa voz límpida:

 

Ben. Aqui! Sentado, Ben.

 

O cão agachou-se, piscou os olhos a Rainherr, não sendo capaz de se decidir.

 

Ficas agora aqui ordenou Rainherr em voz baixa, coçando-o entre as orelhas. Já cá estou outra vez... e tão depressa não me vou embora...

 

Não estejas tão seguro disso, Andres.

 

Juana estava ao lado de Rainherr e olhava para Annette. Esta começou a dirigir-se lentamente em direcção ao casal, caminhando de repente com movimentos um pouco mais desajeitados e com os olhos a piscar. Talvez por estar virada contra o sol e não usar óculos escuros.

 

O facto de o cão não a escutar foi o segundo golpe, pensou Juana que observava tudo atentamente.

 

É minha filha.

 

Cujo pai regressa com uma mulher a quem beija à frente de toda a gente.

 

Sou apologista de se fazerem as coisas às claras, Juana.

 

Oh, Andres! Que expressão! Às claras! Como é que na minha vida as coisas se podem fazer às claras?

 

Começámos hoje, Juana. Não, começou há muito tempo. Na realidade, no momento em que capturaste o meu barco.

 

Volto a repetir, foi a maior parvoíce da minha vida! O meu instinto deve ter-me abandonado por completo.

 

Podemos ver as coisas de outra maneira: o destino presenteou-te finalmente com cartas à mostra, sinceras e certas.

 

Largou Mr. Ben e foi ter com Annette. Juana ficou apenas dois passos atrás, mas o suficiente para Andreas não a conseguir puxar para si.

 

Ficaram frente a frente, a filha e o pai, e abraçaram-se.

 

É tão bom estares de volta, paizinho disse Annette. Soava como sempre. A alegria de não estar sozinha era sincera. Desta vez ficaste muito tempo fora...

 

Beijou-o nas faces, ao mesmo tempo que olhava para lá de Juana, para o bonito e reluzente barco.

 

Compraste um barco novo?

 

Não, pertence à senhora Tabora. Rainherr voltou-se e apresentou-as: Esta é a minha filha Annette, Juana. E virando-se para Annette: Ficaria muito contente se te entendesses bem com a Juana.

 

Claro.

 

Annette estendeu a mão a Juana, mas estremeceu ligeiramente, quando esta lha apertou. Annette não evitou o cumprimento, mas manteve a mão mole quando Juana a agarrou. Trocaram um olhar perscrutador entre as duas, durante dois, três segundos...

 

”Os seus olhos são claros como um glaciar”, pensou Juana. ”O fundo é azul transparente... mas frio.”

 

E Annette pensava: ”Os seus olhos são negros como o seu cabelo. Tão brilhantes que parecem polidos. Olhos que dizem: sabemos ambas como somos bonitas. Olhos de quem quer sair sempre vencedor...”

 

Se o meu pai a trouxe, seja bem-vinda. Tudo o que o paizinho faz, é bem feito...

 

A barreira fora deitada abaixo. Juana largou a mão de Annette. O braço baloiçou, como se tivesse sido empurrado para trás das costas.

 

Onde está o nosso barco? perguntou Annette.

 

Está a arranjar. Como vês, o Juan também veio. Rainherr colocou ostensivamente a mão na anca de Juana. Daqui a uma ou duas semanas vamos buscá-lo... ou, se calhar, nunca mais. A oficina é que o decidirá.

 

Encalhaste num recife, paizinho?

 

Não. O motor parou. A cambota, algumas chumaceiras... Provavelmente naveguei com muita velocidade.

 

E o motor pode ser... substituído? Olhou para o Altun Ha. Nós também tínhamos um barco muito bonito, paizinho, o nosso Annette I E subitamente, de uma rajada, perguntou a Juana: Quer vender o seu iate?

 

Talvez. O seu pai mostrou-se interessado. Foi por isso que insistiu em fazer esta viagem, para o testar...

 

A conversa ameaçou esmorecer. Subiram em silêncio a escada de pedra até ao terraço das flores, enquanto Juan e o velho Jack começavam a descarregar alguns caixotes.

 

Juana encontrava-se no terraço principal e olhava com curiosidade à sua volta. A casa, construída no penhasco, à semelhança de um ninho, estava organizada em múltiplas alas, com átrios e colunas em pedra. Uma enorme sala de estar avançava para o jardim, com uma piscina com água do mar transparente, filtrada e bombeada para cima por uma central elevatória. Juana sentia-se no meio de uma obra arquitectónica de mestre. A casa era de uma beleza como raramente vira.

 

Parece um sonho! dissera ela mais tarde.

 

Mas um sonho com uma longa história... Andreas Rainherr riu-se e saiu para o enorme terraço

 

descoberto. Carregou num botão. Ouviu-se um ligeiro zumbido, uma das paredes girou e da rocha saiu um enorme bar com uma pilha de garrafas e um armário em vidro.

 

Uma brincadeira minha explicou Andreas. Em casa há mais destas surpresas tecnológicas. Como, por exemplo, a nossa aparelhagem estereofónica, orientada para todos os quartos. Ou uma mesa completamente posta, que sobe automaticamente da cozinha para a sala de jantar, no primeiro andar.

 

Tirou um copo misturador do bar e começou a preparar uma bebida com sumo de laranja, rum, angostura e champanhe.

 

Estas ideias bizarras surgem quando estamos cá em cima sozinhos e dizemos para nós próprios: ainda não és suficientemente velho para ficares apenas a contemplar o mar e fazeres uma retrospecção da tua vida. Tens de fazer qualquer coisa de novo!

 

O paizinho exagera. Annette sentara-se numa cadeira funda de vime com almofadões coloridos e olhava de baixo para Juana, delicada mas reservadamente. Apontou para uma cadeira do outro lado da mesa redonda... uma separação explícita.

 

Por favor, sente-se, Senhora Tabora. O paizinho é muito distraído! Dirige uma fábrica de conservas de peixe em Stake Bay, uma quinta de tartarugas em Spot Bay, e possui ainda uma pequena fábrica em Creck, que confecciona artigos de tartaruga. Fazem-se trabalhos muito bonitos com a carapaça.

 

Eu sei.

 

Juana pegou no copo estreito e comprido que Rainherr lhe estendeu. Sentiu-se reconfortada quando a frescura do gelo triturado transbordou para os seus dedos. Sentia a mão a arder... o corpo todo a arder...

 

Sou dona de uma empresa de exportação de peles em Belize, de artesanato local e também de carapaças de tartaruga.

 

Então, de certa forma, é colega do paizinho?

 

De certa forma...

 

Fizeram um brinde e beberam. A bebida preparada por Andreas era muito fresca e estimulante. Naquele momento, sentiu-se como um jovem despreocupado. Apoiou-se na balaustrada do terraço e deixou o olhar deslizar pela casa no penhasco.

 

As ilhas Caimãs foram descobertas em mil quinhentos e três, por Colombo explicou. O fulano descobriu, até certo ponto, todas as Caraíbas, ilha atrás de ilha, e deve ter ficado admirado que a sua índia, que ele julgara ter encontrado, se compusesse de tantas ilhotas. Aliás, chamou às ilhas Caimãs ”Las Tortugas”, devido à enorme quantidade de tartarugas que aqui encontrou. Só mais tarde é que os Ingleses introduziram o nome de Caimãs, pois confundiram os lagartos grandes aqui existentes com crocodilos. Ergueu o copo e brindou a Juana. À aula de apresentação!

 

Cujo primeiro capítulo vai ser sobre piratas disse Annette.

 

Juana estremeceu como se tivesse recebido uma chicotada. Os seus olhos negros dilataram-se. Encostou o copo esguio à cara, de forma a que não reparassem nos seus lábios trémulos.

 

Annette encostou-se para trás.

 

Quando o paizinho começa a contar histórias de piratas, é como se ressuscitasse o passado. E a verdade é que ele percebe alguma coisa de pirataria...

 

Claro... disse Juana numa voz sumida.

 

Nos séculos dezassete e dezoito, as ilhas Caimãs foram o reduto de todos os piratas das Caraíbas. Em inúmeras grutas nas ilhas, que não voltaram a ser descobertas, ainda devem estar depositados inexplicáveis tesouros. Estão tão bem escondidos que, até agora, todas as operações de busca foram mal-sucedidas. Também procurei em vão, durante dois anos.

 

Aqui?

 

Sim, aqui onde nos encontramos agora sentados, onde construí a minha casa. Quando vim pela primeira vez a Cayman Brac à procura de um sítio para viver, houve um coronel britânico que me disse: ”Se anda à procura de uma coisa que ninguém tem, e possui o dinheiro necessário para a recuperação, conheço um sítio que faria inveja a qualquer um. Trata-se de um esconderijo com vestígios de uma aldeia de piratas, de mil seiscentos e oitenta e nove. Já lá estive. A data está gravada no antigo portão de entrada.”

 

Andreas Rainherr fez um movimento abrangente com a mão.

 

Aqui era a baía e a plataforma. O governador de Georgetown em Cayman Brac chamava-me crazy german: vendeu-me o ninho no penhasco e desejou-me melhor sorte que a do último proprietário: pendurou-se no mastro do seu barco de corsário, antes de arder juntamente com ele no mar alto. A seguir, comecei a ampliar a construção, pedaço a pedaço, terraço atrás de terraço. Encontrámos uma grande quantidade de grutas onde os piratas tinham depositado os seus saques... mas só havia armas enferrujadas e peças de roupa bolorentas... Encontrámos também aquilo a que chamamos prisão... Na altura também sequestravam pessoas, só que lhe davam outro nome. Era uma gruta no penhasco com um buraco gradeado, a fazer de janela. Um espesso alçapão impedia a passagem para uma cova para onde atiravam os presos ou concorrentes indesejáveis. Quem aterrava lá em baixo, no calabouço, tinha poucas hipóteses de voltar a subir. Encontrámos as ossadas de quarenta e quatro pessoas! Um médico e eu juntámo-las e levámos os esqueletos para o Serviço de Patologia do Hospital de Georgetown. Havia inclusivamente mulheres lá em baixo, seis.

 

Nessa altura, a mãezinha ainda era viva... observou Annette.

 

Parecia ter sido uma observação inocente, apenas um complemento às explicações de Rainherr, no entanto, era um sinal de desafio: ”Estás sentada no lugar que pertencia à minha mãe. Tudo isto foi ela e o paizinho que construíram. Ela está morta, mas está sempre connosco! Nunca irás conseguir suplantá-la, por mais bonita que sejas! O paizinho gosta de ti, não é? Beijou-te na amurada, para que eu visse. És a sua namorada, ninguém pode levar isso a mal. Afinal, a mãezinha já morreu há muito tempo... Mas és a primeira mulher que ele trouxe para casa... Certamente teve muitas mulheres nos braços ao longo dos últimos anos, mas nunca as vi, nunca as conheci, nunca falei com elas. Mas a ti, trouxe-te para nossa casa... Olha bem para mim, Juana Tabora. Nunca irás suplantar a mãezinha...”

 

Trabalhámos durante quatro anos na construção desta casa continuou Rainherr, imperturbável. Quando ficou pronta, convidámos o governador. Andou pela casa toda, viu tudo, e a seguir, com os seus modos fleumáticos britânicos disse: ”É espantoso, as obras que pessoas na sua situação conseguem realizar! Parabéns, sir. Agora, não comece outra vez com as suas tradições de pirata.” Era uma brincadeira, claro. No ano seguinte comprei a fábrica de conservas de peixe a meias com um inglês, e, mais tarde, a fábrica de tratamento de tartarugas.

 

Rainherr calou-se abruptamente. Esvaziou o copo e poisou-o com firmeza sobre a balaustrada de pedra.

 

Pouco tempo depois, a minha mulher morreu afirmou numa voz grave.

 

O paizinho amava muito a mãezinha... acrescentou Annette à frase de Rainherr, aparentemente com inocência.

 

Acredito. Juana apertou o copo com força entre as mãos. Ajudar a construir uma casa destas... deve ter sido uma mulher magnífica e corajosa.

 

Era doce e calma e tão loira como eu prosseguiu Annette com um ar sonhador. Ninguém a julgava capaz de apoiar as ideias do paizinho. Mas ela fazia tudo o que ele queria. Ela amava-o... apaixonadamente. Ocorreu-me, quando o paizinho mencionou o coronel, ele ter-lhe dito uma vez: ”Mistress Rainherr, tenho de lho dizer: o seu amor por este homem extravagante é, para mim, um prodígio!” Eu estava ao lado da mãezinha, e na altura não compreendi o que ele queria dizer com aquilo. Hoje... hoje percebo.

 

Cruzou as pernas esguias e espreguiçou-se nas almofadas da cadeira de vime.

 

Nunca voltará a existir uma mulher que seja feliz aqui no penhasco dos piratas, com o paizinho, o mar, o sol, o céu e a solidão.

 

Mas você é-o, Annette... disse Juana baixinho.

 

Sim. Mas eu sou igual à minha mãe.

 

A guerra fora declarada. Juana e Andreas perceberam-no logo e fizeram um esforço para não trocarem olhares. Rainherr desencostou-se da balaustrada e levou os copos de volta para o bar.

 

Annette disse ele, esforçando-se por falar num tom neutro. Não te importas de mostrar o quarto à senhora Tabora?

 

Com todo o gosto, paizinho. Levantou-se de um salto da cadeira de vime. Na ala este ou na ala oeste? Virou-se para Juana. Todas as alas da casa têm a sua história. Na zona a este, encontrámos os esqueletos, na zona a oeste, as grutas dos piratas.

 

Nos quartos da ala oeste! disse Rainherr e, numa atitude completamente absurda, começou a separar os copos do bar. Alinhou-os uns ao lado dos outros como soldados numa parada.

 

São os quartos mais bonitos acrescentou. Têm terraços privados, com uma escada que dá directamente para a piscina.

 

Esperou que Juana abandonasse a sala descoberta e fosse atrás de Annette. Juan apareceu no terraço, carregando uma enorme mala de metal aos ombros. Continha os haveres pessoais de Juana: vestidos, roupa interior, sapatos e cosméticos. Tinha emalado tudo na viagem de San Pedro Para Cayman Brac.

 

Há guerra, chefe? perguntou Juan, sério.

 

Sim! respondeu Rainherr sem parecer ter sido surpreendido. Nunca tinha visto a Annette assim. Parece uma pessoa totalmente diferente! Sorri... e transpira gelo.

 

Quem vai ganhar, chefe?

 

Eu! Ainda não sou nenhum velho que se preocupe apenas com conservas de peixes e carapaças de tartaruga.

 

Para onde levo a mala, sir?

 

Para a ala oeste.

 

Justamente... Rainherr interrompeu-o.

 

O que é que queres, Juan? Neste sítio, para onde quer que se vá, está-se sempre a encalhar nos piratas. Encostou-se ao bar e olhou em direcção à baía, para o mar e para o branco resplandecente do Altun Ha. Talvez construa uma casa na ponta oeste.

 

E esta aqui?

 

Vendo-a.

 

Os piratas também causaram grandes estragos na ponta oeste...

 

Meu Deus... então vamos mas é embora daqui! Para Aruba, ou Martinica, Granada ou Santa Lúcia. Na Jamaica também se consegue viver maravilhosamente bem! O mundo é tão grande, Juan!

 

Não acredito, sir, que Miss Annette desista desta casa... retorquiu Juan com um ar muito sério.

 

Colocou devidamente a mala de metal aos ombros e dirigiu-se à ala oeste. Andreas Rainherr seguia-o com o olhar e acenava com a cabeça. ”O Juan tem razão”, pensava. ”Amo uma das mulheres mais bonitas ao cimo da Terra... mas também amo a Annette, a única coisa que conservei da Lúcia. Como se resolve um conflito destes?”

 

Naquele momento, Rainherr não sabia.

Os grandes quartos da ala oeste da casa eram agradavelmente frescos. Tinham sido decorados em estilo colonial britânico, eram muito femininos, com cortinados com folhos, tapetes claros, e aquele poder de imaginação difícil de explicar, que os colonialistas ingleses tinham exportado da índia para o mundo inteiro: a minuciosa e antiquíssima cultura de leste, combinada com a frescura própria dos Britânicos, para quem a sua casa é o seu castelo.

 

Uma ampla porta de vidro dava passagem para o terraço onde floria o hibisco e pequenos enxertos de palmeiras balançavam ao vento. A escada que dava para a piscina tinha um corrimão de ferro, laçado de branco. Um trabalho artístico em ferro forjado, que combinava bem com as flores e com a construção apoiada em colunas.

 

Annette abriu a porta de vidro e encostou-se ao caixilho de metal.

 

Juana afastou o cabelo da testa com as duas mãos. ”Vai começar o primeiro combate”, pensava ela. ”Estamos sozinhas... Fará algum sentido lutar? Tenho de lutar em todas as frentes... contra o meu passado, contra o presente, que se chama Annette, contra um futuro completamente incerto, que não passa de uma ameaça enquanto o Fernando nos perseguir e, como se não bastasse, contra a sombra de uma mãe todo-poderosa. Meu Deus, não vou conseguir! Eu só quero amar e ser amada e, finalmente, finalmente ter sossego e ser uma mulher como as outras. Será que é pedir muito da vida?”

 

O meu pai ama-a? perguntou Annette de súbito. Nas últimas horas não tinham falado de outra coisa.

 

Juana acenou com a cabeça. ”Não vou fugir à pergunta”, pensou. ”Nunca, em toda a confusão que foi a minha vida, fui uma cobarde. Se tem de ser assim, que seja: ainda não me esqueci da pirata que fui! Juntamente com o Jim, a primeira a abalroar um barco estrangeiro...”

 

Sim respondeu ela objectivamente.

 

Passou para o outro lado da porta de vidro e encostou-se, como Annette, contra o caixilho de metal. Separavam-nas três metros de calor abrasador. O perfume do hibisco era de um doce atordoante.

 

E então? Annette olhou de frente para Juana. Deve estar à espera que rebente num choro enternecido. Finalmente, o paizinho voltou a ter uma mulher! Finalmente uma mulher a sério nesta casa...

 

Estava à espera que me rejeitasse. Com a sua idade e na sua situação teria feito exactamente o mesmo com o meu pai. As filhas são tão...

 

Julga que gosto do meu pai de uma forma tão egoísta que não permita, de boa vontade, que ande com outra mulher?

 

Julgo.

 

Não há, no mundo inteiro, mulher que consiga substituir a minha mãe...

 

Ninguém substitui uma mãe. A boca de Juana adquirira uma expressão rígida, a memória de Fernando Vargas despertara de repente. Posso avaliar isso melhor do que você.

 

Não me parece. Annette apontou para o terraço. Venha comigo ali para fora, quero mostrar-lhe uma coisa. Saiu, e Juana seguiu-a até ao começo das escadas. Annette parou e estendeu o braço.

 

Daqui consegue ver-se perfeitamente. O seu barco está ali. A cerca de vinte metros de distância do molhe. Para a esquerda, o mar começa a ficar mais verde.

 

Estou a ver. Deve haver um recife de corais.

 

Exacto. A água na baía é pouco profunda, por isso que o pai construiu o molhe, de modo a poder ancorar com profundidade suficiente. Além, no banco de corais em direcção à praia, a água é tão lisa que chamávamos, a essa zona, a nossa piscina. Nessa altura ainda não tínhamos piscina em casa. A mamã era uma boa nadadora... movia-se no mar como um peixe dourado. Uma manhã... nadava de preferência quando o Sol da manhã enviava para o mar os primeiros raios oblíquos... bom, uma manhã, estava ela lá fora, entre os corais e a praia, quando de repente começou a gritar... Gritava com tanta força que se ouvia cá em cima. Corremos para o terraço. Reconhecemos de imediato a barbatana dorsal triangular. Cá de cima avistava-se nitidamente o seu longo corpo cinzento-prateado, a reluzir. Via-se inclusivamente o peixe a escancarar a mandíbula e a virar-se de lado, para se lançar sobre a minha mãe. Vimos as assustadoras filas de dentes a fecharem-se e a coxa da mamã transformar-se numa imagem sangrenta composta por farrapos de carne e ossos despedaçados. E ela gritava... gritava e continuava a nadar... com uma perna, e o papá gritava também... Nunca ouvi ninguém gritar assim... precipitando-se pela escada abaixo, em direcção à baía. Não dá para entender o que se passou, pois um tubarão nunca se desloca para águas tão pouco profundas. Falta-lhe profundidade para caçar, para utilizar a sua velocidade e agilidade. Os tubarões sentem-se prisioneiros quando nadam em águas assim... mas este pouco se importava. Virou-se novamente de lado e voltou a investir contra a minha mãe. E nós aqui parados, a assistir a tudo sem podermos ajudar. Consegue perceber a dimensão do horror daquele momento? Tivemos de assistir àquilo tudo impotentes, ao tubarão a rasgar cruelmente amãezinha. Poupo-lhe os pormenores. O braço direito e a mão direita com a aliança apareceram mais tarde a flutuar junto à costa. Desde então, o paizinho traz sempre o anel consigo, e julgo que seria necessário decepar-lhe o dedo para o separar desse anel...

 

Annette respirou fundo e voltou-se de costas para o mar.

 

Desde então, o meu pai mata todos os tubarões que lhe aparecem à frente. Quando vai para fora para pescar com o barco, como costuma dizer, já sabemos: vai novamente à caça do assassino da minha mãe. Nunca esquecerá aquela morte bárbara, tal como nunca esquecerá a mãezinha. Não sei se o pai gostou de alguma mulher nos últimos anos... Nunca dei por isso nem nunca falámos nesse assunto. Não temos esse tipo de conversa. A única mulher que continua entre nós é a mãezinha...

 

Voltou para a sala, para o consolo da frescura resultante de um silencioso aparelho de ar condicionado e deixou-se cair num sofá. Juana permaneceu parada junto da porta de vidro.

 

E de repente o paizinho regressa de uma das suas caçadas ao tubarão e traz uma mulher com ele! Você, Juana! E essa mulher diz: ”O seu pai ama-me, e eu amo o seu pai!” Acredita realmente que pode substituir a mãezinha... ou fazer com que ele a esqueça? Eu nunca a aceitarei, Juana...

 

Consegue ser tão cruel ao ponto de não permitir que o seu pai seja novamente feliz? Ele já conseguiu distanciar-se um pouco dessa terrível experiência...

 

Por causa de si!

 

Por causa do nosso amor...

 

Conseguiu afastar a mãezinha do seu coração? Com esses olhos pretos e essa cabeça de gata quer destruir agora a minha mãe pela segunda vez?

 

Annette levantou-se de um salto do sofá.

 

Odeio-a! gritou. A sua voz adquirira, com aquela explosão da sua emoção mais profunda, um tom estridente e infantil. Você é como o tubarão... o maldito tubarão... quer devorar a minha mãe!

 

Annette... por favor, ouça-me... proferiu Juana hesitante.

 

Não quero ouvir falar mais em si! Annette correu para a porta e escancarou-a. Chocou com Juan, que acabara de chegar à porta com a mala de metal aos ombros.

 

Ah! A nova mulher já se instalou! Tão depressa, tão fácil, não foi? Annette andava às voltas. Os seus olhos azuis faiscavam. Gostava que estivesse aqui alguém que a matasse! disse, respirando com dificuldade.

 

Não seria novidade para mim. Juana sorriu com amargura. Ainda é tão nova, Annette. Além da terrível morte da sua mãe, ainda não conhece as atrocidades da vida. Será que a vida do seu pai tem de ficar reduzida ao anel de ouro da sua mão direita? Quer fazer dele uma segunda vítima desse tubarão? Uma vítima psicológica? O seu pai ainda não é velho, Annette... é um homem maravilhoso...

 

Vai ter oportunidade de o conhecer melhor! retorquiu Annette cheia de ódio. Só sei que você está a matar a minha mãe pela segunda vez...

 

Juan estava ainda parado ao pé da porta, com a mala aos ombros, quando Annette passou por ele a correr, em direcção à ala principal. Deitou um olhar indeciso a Juana que andava de um lado para o outro no quarto, com os

 

Onde é que posso pôr a mala, milady! perguntou ele delicadamente. Juana andava às voltas, como se tivesse sido espezinhada.

 

Vamos voltar para o barco gritou.

 

Já se rendeu?

 

Nunca lutei contra mortos!

 

Vamos poisar primeiro a mala aqui aconselhou Juan com prudência. Retirou o peso de cima dos ombros e colocou-o no chão. Quem toma as decisões nesta casa é o chefe...

 

Não havia decisões a tomar.

 

Andreas Rainherr estava à espera da filha na grande sala de estar. Assim que Annette entrou, percebeu logo pelos seus olhos e pela atitude, que seria desnecessário estar com muito palavreado e muitas explicações. Juana tinha razão: a sua filha não estava pronta a admitir uma nova mulher ao lado do pai.

 

Não digas nada! disse Rainherr, dando início à breve discussão. Basta olhar para ti, para perceber o que aconteceu... Não, agora és tu quem me vai ouvir!

 

Desde a morte de Lúcia que pai e filha não se falavam naquele tom. A terrível experiência que tinham vivido juntos aproximara-os tanto que teria sido impensável, até àquele momento, haver uma discussão entre eles. Subitamente abrira-se uma fissura...

 

”Porque é que tem de ser assim”, pensava ele. Quando Annette começava a ter idade para olhar para o que se passava à sua volta, para perceber o que acontecera, nunca perguntara nada ao pai. Mas já devia saber que nos últimos anos houvera uma vez por outra uma mulher com quem o pai ficara.

 

Uma vez... aqueles catorze dias no hotel da estação balnear de West Bay na ilha grande das Caimãs. Era uma turista americana que na realidade, queria visitar destroços de barcos afundados no fundo do mar, perto das ilhas Caimãs. Trezentos e trinta e cinco barcos, que no decorrer de três séculos tinham naufragado ali, navegando à deriva devido às tempestades e encalhando nos recifes, ou que tinham sido espatifados contra os rochedos por se terem enganado na rota, constituíam, hoje em dia, uma atracção turística de primeira categoria. Mas, em lugar de ir ”em busca do tesouro”, como prometia o colorido prospecto da agência de viagens, a partir do terceiro dia de férias Miss Laurice passou o tempo com Rainherr na cama, depois de o ter conhecido casualmente na praia do hotel.

 

Esta fora apenas uma entre muitas... E Annette nunca comentara nada. Só agora, com Juana, é que caíra de repente em si.

 

Julgo disse Rainherr, sério, como adulto e teu pai, não ser necessário pedir-te autorização para assuntos que me dizem respeito a mim, em primeiro lugar.

 

Não precisas de continuar a falar, pai! Annette estava parada no meio da sala, alta, magra, muito loira... um anjinho vingativo, mas apesar disso desnorteado, mais próximo do choro do que da irritação. Eu sei tudo...

 

Então, tu sabes tudo? Soava um pouco ridículo. Afinal, o que é que tu sabes, meu pintainho?

 

Vocês amam-se!

 

E isso é algum crime?

 

Se a mãezinha pudesse ver...

 

Se ela pudesse ver, diria: ”Andreas, depois destes anos de solidão, desejo que sejas muito feliz com a Juana, se ela te fizer a ti feliz...” E a Juana faz-me feliz.

 

E como é que vai ser daqui para a frente?

 

Caso com ela.

 

Nunca... nunca a tratarei por mãe!

 

Basta que a trates por Juana e sejas sua amiga.

 

Amiga? Odeio-a!

 

Isso é um absurdo.

 

Andreas Rainherr pegou na garrafa de conhaque que estava perto de si, sobre uma mesa baixa. Já tinha bebido três copos... ”Que diabo! É difícil admitir que no fundo se tem medo da própria filha”, pensou. ”Medo desta alternativa, que não devia existir: a filha ou a nova mulher!” Mas uma coisa era possível, devia ser possível: a filha e a nova mulher. Era por isso que tinha agora de lutar...

 

Porque é que odeias a Juana? perguntou depois de esvaziar o quarto copo. Annette olhou para ele, taciturna. Só a conheces há uma hora...

 

E chega!

 

Uma resposta típica e grosseira, que condiz bem com a tua idade!

 

Ou se gosta de uma pessoa à primeira vista... ou não se gosta mesmo nada! explodiu Annette. Foste tu quem inventou esta máxima...

 

Não fui eu quem a inventou... A vida é assim!

 

Então, não gosto mesmo nada dela.

 

Sem qualquer motivo...

 

Tem de existir um motivo para as aversões?

 

Não. Mas não se deve fazer nada... isto também é um dito antigo... sem se pensar muito bem, e um ”sim” ou um ”não” deve ser sempre bem fundamentado.

 

Não tenho mais nada para te dizer, paizinho... Annette respirou fundo. A sua voz vacilava. Se te casares com ela, pai, manda-me para Wuppertal, para casa da tia Irmgard.

 

Estás completamente doida! exclamou Rainherr numa voz enrouquecida.

 

Sei exactamente aquilo que quero. Vou tentar fazer o exame de acesso à universidade e estudar biologia. Foste tu próprio quem me ensinou a ser independente. Já estou a fazer-me ao caminho...

 

Rainherr levantou-se de um salto e interrompeu-a.

 

Não vou continuar a ouvir disparates disse em voz alta. Exijo que tu, que queres ser uma pessoa adulta, respeites e toleres a vida privada do teu pai. É o mínimo! Reflecte calmamente se achas que podes tratar assim o teu pai, de quem tanto gostas.

 

Continuas a ser sempre meu pai... mesmo com... essa mulher!

 

Que simpática! Rainherr levou a garrafa de conhaque para um armário de parede e colocou-a lá dentro. De acordo com os desejos da minha filha, como deverá ser daqui para a frente?

 

Tens mesmo de casar com ela?

 

Não! Eu quero casar com ela.

 

Já tiveste algumas namoradas...

 

Ah! A filhinha quebra o silêncio! Viu e calou. Porquê até agora?

 

Todas essas mulheres não passaram de experiências, compreendo. Mas esta mulher... é perigosa!

 

A filha com grande experiência de vida! Não sejas ridícula, Annette!

 

Até agora nenhuma mulher conseguiu expulsar a mãezinha do teu coração, mas esta conseguiu.

 

Agradece a Deus! Sabes, Annette, eu amei muito a tua mãe. E também acreditei sempre que um amor assim só acontecia uma vez na vida. Mas enganei-me, meu pintainho... Como tudo no mundo, também o homem está sujeito a transformações contínuas. Quando me casar com a Juana, ela passa a ser o grande amor de uma vida amadurecida. Entretanto, houve uma geração inteira que passou, Annette. Entretanto, houve experiências, houve o maldito tubarão, que mudou tudo. E todos os seres humanos são finitos. O infinito está muito longe de nós... Percebes o que quero dizer com isto?

 

Sim, paizinho. Annette acenou com a cabeça. Mas vê lá se percebes também que me é impossível ter essa mulher bonita e maravilhosa sempre à minha volta. Simplesmente, não consigo...

 

Baixou a cabeça, tapou o rosto com as mãos trémulas e saiu a correr.

Na noite seguinte Rainherr viu Juan atravessar furtivamente o terraço atrás de Juana com a pesada mala de metal aos ombros, e os dois a esforçarem-se por não fazerem barulho. Dirigiram-se em bicos de pés para os degraus e começaram a descer a enorme escadaria do penhasco, em direcção à baía.

 

Rainherr estava sentado no escuro, a pensar. Tinha pressentido algo semelhante. Depois de um jantar de poucas palavras, Juana despedira-se dele com um beijo fugidio.

 

Estou mesmo cansada dissera.

 

Pensei que íamos ficar aqui um bocadinho sentados... nós os três... respondeu ele.

 

Annette levantara-se repentinamente e fora a primeira a sair.

 

Até amanhã, querido despedira-se Juana, saindo com um sorriso triste nos lábios. Era um sorriso que dava a entender a Rainherr: não existe amanhã para nós...

 

Rainherr aguardou que Juana e Juan desaparecessem na escuridão, vestiu o casaco e agarrou no saco de lona que tinha preparado e colocado perto de si.

 

Cinco minutos mais tarde descia também carregado as escadas em direcção à baía, e aguardava na sombra que Juan e Juana entrassem a bordo do Altun Ha.

 

Colocou novamente o saco de lona aos ombros e começou a caminhar pela beira-mar, até alcançar o molhe. Chegara mesmo a tempo... Juan apareceu no convés e preparava-se para recolher a escada de portaló. Quando reconheceu o chefe com o saco de lona, ficou imóvel.

 

Não queriam mais nada disse Rainherr, sibilante.

 

Rasparem-se sem mais nem menos, e deixarem o velho sozinho para trás! Ainda havemos de ter uma conversa acerca desta partida, Juan Noales!

 

Milady suplicou tanto, sir... não podia dizer que não murmurou Juan.

 

Não te faças de criado obediente, imbecil! Rainherr subiu para o barco e acenou a Juan com a cabeça. Pronto, já podes partir! Para onde queriam ir?

 

Não sei, chefe. Miss Tolkins só me disse para irmos embora daqui.

 

Muito bem! Então, vamos! Embora daqui! Estou ansioso por saber o que ela tenciona fazer. Fico contigo na ponte de comando.

 

Juan recolheu a escada e Rainherr ajudou-o a desamarrar as cordas. A seguir arredaram-se do molhe, aproveitaram o balanço da corrente e puseram o motor a trabalhar. Afastaram-se muito devagarinho da baía. Andreas Rainherr estava na proa, encostado à balaustrada a olhar em direcção à sua casa. Estava tudo às escuras. Annette dormia.

 

O que é que ela está a fazer? perguntou, quando foi ter com Juan à pequena ponte de comando.

 

Miss Tabora?

 

Quem havia de ser, meu palerma?

 

Está sentada lá em baixo na sala a chorar.

 

Como é que sabes?

 

Quando o motor arrancou, telefonou para a ponte. ”Não faças tanto barulho”, disse. E a seguir só se ouviam soluços...

 

O Altun Ha saiu com cautela da baía e passou pelo recife de corais em direcção ao mar alto. Uma Lua pálida prateava o mar. Parecia um postal ilustrado. Uma ilha rochosa, um imenso céu estrelado, uma Lua espectacular que iluminava o mar, um barco branco sobre um mar prateado... Se alguém pintasse um quadro assim, seria ridicularizado!

 

Quando já ninguém podia ouvi-los da baía, Juan pôs o segundo motor a trabalhar. O intercomunicador começou imediatamente a piscar. Rainherr abanou a cabeça quando Juan olhou para ele com um olhar interrogador.

 

Sim, Miss Tabora? perguntou Juan servilmente. Daqui fala da ponte, o timoneiro Juan.

 

Porquê os dois motores? Já estamos suficientemente longe?

 

Se olhar através da janela, miss, pode verificar.

 

Não consigo olhar para trás, Juan. A sua voz vacilou. Se quiser, já pode tirar o bote para fora de bordo e voltar para trás. Eu assumo o comando do barco sozinha...

 

Isso é impossível, Miss Tabora. Não pode comandar este barco sozinha.

 

Tenho a minha patente de capitão!

 

Mesmo assim, fico consigo! O barco é demasiado grande para uma só pessoa...

 

Mister Rainherr nunca lho vai perdoar, Juan.

 

A si também não, miss Tabora. Juan tossiu ligeiramente. Que rumo devo tomar?

 

Para já, directamente para este. A seguir podemos calcular com precisão a rota que iremos tomar.

 

O nosso destino, capitão?

 

Sabá...

 

Okay. Sabá! Entendido!

 

Juan desligou o intercomunicador. Rainherr encostou-se ao sonar. Estava desligado, pois tinham chegado a águas profundas, onde já não era necessário determinar a posição do barco.

 

Ouviu, chefe? perguntou Juan. Vamos para Sabá.

 

Sempre quis ir a Sabá.

 

O Dr. Rainherr estendeu a mão para o armário e procurou as cartas hidrográficas necessárias. A lâmpada de néon por cima da mesa inundava as folhas com uma luz clara.

 

Sabá. Uma pequena ilha rochosa que fazia parte do grupo das Antilhas Holandesas.

 

Uma ilha rochosa, em comparação com a qual, Cayman Brac parecia decididamente uma ilha enorme. Na carta estava bem perceptível: um pedaço de terra que parecia ser constituída apenas da orla de uma cratera e de uma cratera donde se elevava em forma de cone, um vulcão extinto, com seiscentos e dez metros de altura. A parte principal colada à orla da cratera chama-se o pico; numa plataforma da ilha vulcânica tinham construído um aeródromo minúsculo, onde só podiam aterrar aviões a hélice.

 

Sabá. O último mistério da pirata Mary-Anne Tolkins. E o seu último refúgio.

 

Máquina a toda a velocidade ordenou Rainherr.

 

Juan accionou a alavanca. No interior do Altun Ha, roncavam os pesados motores, que permitiam que o barco se afastasse dos outros a grande velocidade.

 

Muito bem! E agora vou lá a baixo mostrar à senhora que não se foge de mim tão facilmente!

 

Rainherr ficou parado no último degrau da escada a observar Juana.

 

Estava sentada na sala, virada de costas para as grandes janelas, com uma garrafa de conhaque à frente. O copo, um grande cálice, estava por metade. Parecia já ter dado um grande gole pois, de acordo com a humidade no interior do copo, já estivera, no mínimo, três quartos cheio. Do sítio onde se encontrava, não conseguia ver a passagem da ponte de comando, e os ruídos eram todos abafados pelo barulho dos motores.

Juana já não estava a chorar; um ligeiro tremor percorria de vez em quando o seu corpo. Puxara o cabelo todo para trás num carrapito. O seu rosto, que Rainherr observava agora de perfil, parecia mais pequeno e infantil. ”Alguém”, pensou ele, ”que se vira para dentro, para fugir de si própria.”

 

Juana segurou o cálice de conhaque com as mãos a tremer e levou-o aos lábios.

 

Uma bebedeira não resolve os problemas! disse Andreas em voz alta.

 

Juana voltou-se para trás soltando um grito estridente. O copo escorregou-lhe da mão e estilhaçou-se no meio do chão. Fitava-o como se estivesse a ver um fantasma, esticando os braços na sua direcção para o afugentar.

 

Rainherr aproximou-se. Inclinou-se, apanhou os cacos de vidro e colocou-os sobre a mesa num grande cinzeiro.

 

Sou mesmo eu disse ele. Acalma-te, querida, não estás com nenhum delirium tremens, nem a ver nenhum fantasma. Não podes ter bebido tanto...

 

És louco, Andreas balbuciou Juana. És conpletamente louco!

 

Isso não é novidade.

 

Sentou-se a seu lado no banco almofadado e puxou-lhe os braços para baixo, que ainda estavam esticados para o afugentar.

 

Parece-me ser a combinação perfeita: uma corsária e um louco amam-se e iniciam a fuga para o desconhecido! Se isto não é um argumento, não sei o que é... Hollywood pagaria no mínimo um milhão por ele.

 

Riu-se para Juana, que ainda se defendia com unhas e dentes.

 

Não te faço mal, querida. Nunca te violarei, embora te devesse dar umas boas palmadas no rabo, como se faz a uma criança. Mas como tenho pena de ti...

 

O que fazes aqui? perguntou ela numa voz mais firme.

 

”Ah!”, pensou ele, contente. ”A velha Mary-Anne Tolkins surge novamente! Não se rende.”

 

Este é o meu barco!

 

Com o meu timoneiro a bordo!

 

Mas voluntário! Não posso sair no meu barco quando me apetece?

 

Depende.

 

O que queres dizer com isso?

 

Atracaste no meu molhe, foste hóspede na minha casa, pus-te tudo aquilo que possuía a teus pés... Eras, a partir de ontem, senhora da ponta ocidental da baía. Não se larga tudo sem mais nem menos, numa noite de nevoeiro...

 

Não há nevoeiro. Está um luar luminoso.

 

Querida! Ria-se novamente. Vejo que a ironia não é o teu forte!

 

Sou uma pessoa livre!

 

A sério? Encostou-se para trás. Até ontem pensei... sim, teria jurado sobre a Bíblia... que pertencíamos um ao outro, para sempre...

 

Houve muita coisa que mudou, Andres...

 

Em ti? Então, diz-mo abertamente. Se os teus argumentos forem aceitáveis, salto borda fora e volto a nado para casa.

 

Fitou-o, horrorizada.

 

Isso nem parece teu! Saltar para um mar cheio de tubarões!

 

E isso preocupa-te? Vá, o que tens a dizer? O que é que mudou?

 

É um interrogatório?

 

Levantou-se precipitadamente, dirigiu-se a um armário de parede para se servir de um segundo cálice de conhaque. Rainherr puxou a garrafa para si. Juana acenou com a cabeça e encolheu agressivamente os ombros.

 

Tenho mais garrafas a bordo.

 

Atiro-as todas contra a parede, se as fores buscar! Atitudes de corsária!

 

Só se eu deixar! Andres, presta atenção! Quiseste voltar a fazer de mim uma Juana Tabora, mas reconheço que é preferível continuar a ser a Mary-Anne Tolkins!

 

Então, faça favor, Mary-Anne! Cruzou as pernas, tirou a rolha e bebeu directamente da garrafa. Com um arroto bem pronunciado, que Juana acompanhou com um olhar embaraçado, voltou a poisar a garrafa, com força, em cima da mesa.

 

Está bem assim, Mary-Anne? É assim que se comporta um pirata? Não sei, só conheço os modos da tua estirpe através dos romances de aventuras, deves saber melhor do que eu! O Fantasma das Caraíbas. Vá lá, estou sempre pronto a aprender. Alguém que desiste de se civilizar e instruir não vai longe. Mas ainda pretendo viver mais uns tempos. Dás-me aulas acerca do comportamento dos piratas? O que devo fazer agora? Arrotar depois de beber... já fiz! Devo cuspir para o chão e largar talvez uns palavrões dos fortes...?

 

Fitou-o desconcertada e encostou-se ao armário de parede, como se fosse o seu único apoio.

 

Que modos de falar são esses? perguntou ela em voz baixa. O que se passa contigo, Andres?

 

Nada! Encontro-me num famoso iate de piratas com um canhão e duas metralhadoras a bordo, a caminho da ilha de Sabá. Presumo que não vá encontrar lá a rainha do Sabá, mas sim...

 

Rainherr inclinou-se para a frente. Os olhos de Juana estavam esbugalhados. À espera que ele desse um salto e se lançasse sobre ela. O que é que havia de fazer...

 

Que comparação tão absurda! Uma história bíblica moderna! Antigamente dizia-se que a rainha do Sabá fora a amante secreta do rei Salomão. Devemos muitos dos seus ditos sábios a esse grande amor. Rainherr bateu com a palma da mão na testa. Como é que eu não percebi logo! Uma repetição fatal: Mary-Anne, a rainha do Sabá, parte para o seu reino com o seu Salomão!

 

Andreas recostou-se para trás, satisfeito. Reparou, com prazer, que Juana começara a tremer de raiva.

 

Podias passar a chamar-me, a partir deste momento, Salomão. Ou um nome mais moderno... Salli ou Lomo talvez soe um pouco mórbido...

 

Apetece-me partir-te todo! disse Juana impassível. És e continuarás a ser um monstro! Quis afastar-se do armário de parede, mas Rainherr colocou-se rapidamente a seu lado e agarrou-a com mãos de ferro.

 

Onde vais? perguntou ele.

 

Ligar para a ponte. O Juan tem de voltar imediatamente para trás e levar-te de volta para Cayman Brac.

 

Não!

 

Aqui quem manda sou eu!

 

Ai, ai, capitão Mary-Anne. Rainherr soltou a mão. Mas que vaivém disparatado vem a ser este? Já decidi: voltamos a ser piratas! O que devo fazer, querida corsária? Onde é que tens a pala preta?

 

Que disparates estás para aí a dizer outra vez?

 

Nas ilustrações dos livros de piratas, os malfeitores usam uma pala a tapar um olho. Os diabos zarolhos dos mares! Eu quero ter estilo, Mary-Anne. Não temos uma pala na farmácia de bordo? Eu lembro-me de que...

 

Juan! berrou Mary-Anne numa voz estridente. Virou-se de um pulo e puxou o cabo do microfone da ponte para si. A toda a velocidade de volta para Cayman Brac! Entendido?

 

Entendido! respondeu Juan sem demonstrar surpresa na voz.

 

Rainherr pegou no microfone.

 

Juan, alterar rota. Em direcção a Sabá. Entendido?

 

Entendido, sir.

 

Este barco é meu! gritou Juana.

 

Ouviste, Juan? De quem é este barco?

 

Nosso, sir.

 

Rainherr voltou a pendurar o cabo do microfone no gancho e abanou a cabeça.

 

Porque será que é impossível termos uma conversa razoável?

 

Tu pertences à tua filha! disse ela, apertando os punhos um contra o outro. Já o percebi, não podemos voltar atrás.

 

Nenhum de nós deve pensar em voltar atrás, mas sim em seguir em frente! Esqueceste-te completamente disso, Juana?

 

Devemos esquecer as ilusões.

 

Ilusões? Sou algum ser inventado?

 

Para mim... és! Quando fugi hoje à noite de tua casa, a Juana Tabora morreu pela segunda vez. E definitivamente! Com uma Mary-Anne Tolkins, não vais conseguir começar nada de novo. Entre ela e ti, existe um mundo!

 

Mundo? Uma pequena fissura! Hoje em dia enviam-se pessoas para a Lua e tiram-se fotografias com uma sonda em Marte e em Vénus! E tu achas que duas pessoas que se amam não se deparam com obstáculos? Seria absurdo!

 

Se descobrem quem eu era...

 

Sempre a velha preocupação idiota. Ninguém vai descobrir!

 

Passou por ele em direcção à mesa, sentou-se no sofá almofadado e agarrou na garrafa.

 

Também vou beber pelo gargalo disse ela, pensativa.

 

Embebeda-te à vontade!

 

Olhou para ela. ”Não te vou deixar fugir”, pensava ele. ”Vou lutar por ti com todos os meios que estiverem ao meu alcance, e contra todas as resistências! Isto já não é tara de Pigmalião, nem uma missão altruísta contra uma pirata que não quer voltar a... É simplesmente um amor profundo por alguém que sei que me pertence. Uma mulher sem a qual a minha futura vida seria miserável...”

 

Embebeda-te, até caíres! Nos livros antigos está escrito que antes do assalto se dava rum a beber aos piratas, para os aquecer. Meio bêbedos, tornavam-se mais destemidos... Sobretudo mais atrevidos! Mas, para isso, tu não precisas de nenhum conhaque...

 

Começou a ficar ligeiramente mais pálida e crispou as mãos. Sabia que ele estava a fazer alusão à noite na barca apodrecida, na praia de San Pedro. Essa noite, essa única noite, em que vivera pela primeira vez unicamente com os sentidos. Uma paixão avassaladora nos braços daquele homem que a tinha possuído e que era tão inacessível.

 

Sabes que me podes desafiar até à morte? perguntou ela com um ar apático. O que queres fazer em Sabá?

 

Viver contigo, nada mais.

 

Em Sabá? Impossível.

 

Porquê? Não vivem pessoas nessa ilha? Informei-me: Sabá deve ter conservado totalmente a atmosfera dos holandeses de outrora. Bottom parece-se com uma cidadezinha holandesa, com jardins à volta das casas, estradas limpas e mulheres que bordam lindas toalhas de renda, de acordo com a tradição holandesa. Os homens são pescadores e construtores de barcos. Um local de idílio... resgatado aos séculos passados. Porque é que eu não posso lá viver? Contigo?

 

Tens uma filha! gritou Juana desesperada.

 

Há dezasseis anos!

 

Ela precisa de ti, do pai!

 

Eu não vivo noutro planeta. Estarei sempre à sua disposição... sempre. Ela nunca teve preocupações, cresceu como uma flor de estufa, bem tratada por toda a gente; até agora, só conheceu o lado bom da vida, até à terrível experiência que teve com a mãe...

 

Que nunca irá esquecer! A mãe tornou-se uma santa para ela, e qualquer pessoa que chegue e tente mudar a imagem de lugar será odiada de morte. Sim, a Annette tem-me um ódio... de morte!

 

Eu sei. Ela foi bem explícita.

 

E, apesar disso, vieste para o meu barco?

 

Disse à Annette: quando cresceres, irás perceber. Ela irá compreender!

 

Julgas que vai ser assim tão simples?

 

No fundo, Juana, a vida é simples, não é nada complicada. As pessoas é que fazem dela um drama universal ou uma comédia à sua medida. O primeiro impulso do ser humano é oferecer resistência à solução de problemas simples; faz parte da sua natureza. Haveria políticos se assim não fosse? Quanto mais complicada tornarem a convivência entre as pessoas, mais a sério se levam a eles próprios! É isso que me enoja... Perdoa-me, querida... Mas é por isso que gostaria que voltássemos à nossa simples fórmula antiga, e que é a seguinte: amo-te!

 

Meu Deus, eu também te amo! disse ela em voz alta. Mas não posso consentir que desistas da Annette por causa disso. Eu sei o que custa estar assim tão... tremendamente sozinha!

 

Um dia, ela virá ter connosco.

 

Um dia! E nesse intervalo de tempo, ela pode ir-se abaixo psiquicamente.

 

É provável que se torne uma pessoa mais prudente. Penso que a Annette tem tendência para compreender as pessoas. Parece-se exteriormente com a mãe, mas é tão racional como eu.

 

Ah, tu és racional? Inclinou a cabeça e mordeu o lábio inferior. O que irá ela fazer, quando perceber que partimos?

 

Primeiro, nada. Rainherr olhou, pensativo, através da ampla janela, para o mar iluminado pelo luar nocturno. Estava quase tão liso como um espelho. Era a bonança, que os primeiros navegadores tanto temiam. Temiam-na tanto como temiam a tempestade. Foi durante uma calmaria de uma semana que Colombo, e a descoberta da América, quase naufragou. Nada! Ela é teimosa, como o pai. Irá pensar: o velho vai voltar a ser sensato.

 

E vai?

 

Penso que nos últimos anos nunca fui tão sensato como agora. Amo-te... e vou começar uma nova etapa, a mais bonita da minha vida.

 

Os pais vêem normalmente os filhos de uma maneira totalmente diferente daquilo que eles são na realidade. Também Andreas se enganava em relação à filha.

 

Annette era, tal como o pai, uma madrugadora. Antes do pequeno-almoço costumava sempre nadar meia hora na grande piscina de água salgada, a seguir tomava um duche, vestia-se e ia passear para o jardim com Mr. Ben.

 

A cozinheira nativa preparava entretanto o chá e cozia pãezinhos quentes. O jovem criado, um mulato, punha a mesa no terraço das colunas... Parecia uma cerimónia matinal encenada.

 

Quando Rainherr não estava em casa por ter ido para uma das suas caçadas solitárias impelidas pela vingança, nas quais só Juan Noales estava autorizado a acompanhá-lo, Annette ligava para a fábrica do pai a seguir a ter tomado o pequeno-almoço. Falava com o chefe de serviço e assentava sempre num grosso bloco de apontamentos todas as novidades, números, informações, reclamações e pedidos. Quando o pai voltava, só precisava de passar uma vista de olhos pelos apontamentos de Annette e ficar informado acerca de tudo, para voltar de novo aos negócios.

 

És o melhor procurador do mundo! dissera-lhe o Dr. Rainherr uma vez. Quase acredito que os meus gerentes têm mais medo de ti do que de mim!

 

Mas nessa manhã passou-se tudo de maneira diferente.

 

Annette acordou muito mais tarde do que era costume. Durante a noite estivera muito tempo acordada a pensar no pai e em Juana Tabora. Passada a primeira resistência primária, depois de ter lutado desesperadamente pela memória da sua querida mãe, depois daquelas decepções todas à sua volta, encontrara finalmente a calma suficiente, não só para seguir os seus impulsos, como também para usar a cabeça. Aquilo que Rainherr entendia por ”ser racional” adquirira novamente para Annette uma importância primordial, ao longo das últimas horas de vigília.

 

A mãe estava morta, fora dilacerada por um tubarão, mesmo à sua frente. A partir de então tornara-se omnipresente naquela casa... Mas era uma imagem que começava lentamente a desvanecer-se. Já reparara algumas vezes que o pai se desligava intimamente daquela sepultura que acabava por ser a casa toda... Não era só para se vingar dos tubarões, mas também para ir até às Caimãs, à Jamaica ou ao México, onde não era permanentemente controlado pelo sentimento de velório da sua filha Annette, fazer amor com outra mulher. Aventuras fugazes de um homem que era justamente um homem e que não tinha de dar contas a ninguém; que não queria ter pesos na consciência, pois o amor que se sente por uma filha é totalmente diferente daquele que se sente por um corpo vivo, quente e vibrante.

 

Ao princípio, o reconhecimento desta realidade foi assustador para Annette. A imagem do pai ideal tinha sido abalada e deixado cicatrizes... mas era mais humana. Como acontece com todas as filhas que deixam de ser crianças e principiam a compreender melhor a vida, começou por achar repugnante, nojento mesmo, imaginar o pai com outra mulher na cama em situações que estimulavam ainda mais a sua fantasia. Imagens de cenas orgásticas vinham-lhe à cabeça... Era simplesmente incompreensível que o pai pudesse fazer uma coisa daquelas.

 

Só mais tarde é que sossegara.

 

Rainherr, cego, como todos os pais no que diz respeito às filhas, não reparara que vivia já há quatro meses em Spot Bay, uma das pequenas povoações de Cayman Brac, um estudante britânico de oceanografia que estava apaixonado por Annette.

 

Fora o seu primeiro grande amor. Quando Leslie Carper, de Brighton, regressou a Inglaterra, deixou para trás uma Annette triste, mas amadurecida. Compreendia agora melhor o pai. O seu corpo tinha vivido uma nova faceta, essencial à sua vida.

 

É claro que este facto não veio alterar em nada a atitude que tinha relativamente à memória da mãe, que continuava a ser um assunto sagrado. Tolerava as saídas do pai, mas assim que este trouxe uma nova mulher para casa, que iria ocupar o lugar da mãe, as garras de defesa saltaram todas para fora.

 

Foi uma noite longa e desassossegada. Mr. Ben rosnou baixinho algumas vezes, como se tivesse ouvido qualquer coisa lá fora, mas voltou a deitar-se quieto aos pés da cama, em cima do seu cobertor, com a cabeça deitada nas patas dianteiras. Piscou os olhos a Annette, quando ela se debruçou da cama.

 

O que achas desta mulher? perguntara ela a Mr. Ben. No fundo, és um traidor, Ben, Saltaste-lhe para cima e cumprimentaste-a, como se ela já fizesse parte da casa! O que pensaste nessa altura?

 

É sabido que os cães falam com o corpo todo. Mr. Ben espetou as orelhas para cima e abanou a cauda. Estava a querer dizer que estava de acordo.

 

Traidor! repetira Annette. És igual aos homens: uma mulher bonita dá-lhes logo a volta à cabeça!

 

”Amanhã vou voltar a falar com o paizinho e com a Juana”, pensava ela ”antes que a fadiga vença. Não se pode decidir logo no primeiro dia, acerca de uma vida inteira. Nisso o pai tem razão. Como sempre. Ele ama essa mulher, quer casar com ela... e trata-se da sua vida! Quando quiser levar a minha própria vida, será que também vou fazer sempre o que o pai diz, o que o paizinho aconselha, o que sabe melhor do que eu?

 

Penso que as pessoas devem continuar a viver a sua própria vida e fazerem aquilo que julgam ser o mais certo e o melhor para elas. Contei ao pai acerca do Leslie? Contei-lhe o que se passou entre nós? Enganei o paizinho, se formos por esse caminho. Ele pensa que sou uma ignorante. Mas foi tão sincero: ter trazido a Juana e ter-ma apresentado. Podia ter-se casado em Belize e tê-la trazido para aqui, na qualidade de sua nova mulher! Mas não... perguntou-me primeiro!

 

Querido paizinho e amigo, amanhã vamos... amanhã vamos ter uma conversa mais racional... mais inteligente... Boa noite, paizinho. Então, boa noite também para si, Miss Juana...”

 

De manhã, quando se encaminhava para a piscina com Mr. Ben, o seu olhar recaiu em primeiro lugar sobre o molhe vazio.

 

O magnífico barco tinha-se ido embora. Annette ficou parada a tremer. Mr. Ben também parecia ter sentido a diferença. Esticou o pescoço e soltou um gemido.

 

Bichinho inteligente proferiu Annette, como se estivesse afónica. A sua voz quase não se ouvia. Meu Deus, Ben, o que fomos fazer...

 

Não se conteve em chamar pelo pai. Voltou a correr para casa, escancarou a porta do quarto de Rainherr e viu que a cama não fora desfeita. Podia poupar a ida à ala oeste... pois iria deparar-se com o mesmo vazio acusatório...

 

Nessa manhã Annette não foi nadar, nem levou Mr. Ben a passear aos jardins do terraço. Não bebeu chá nem comeu os pãezinhos frescos cozidos no forno. O criado, chamado Angelo, esperara em vão pela sua jovem patroa.

 

Annette sentou-se ao telefone Q aguardou, até finalmente conseguir falar com o governador das ilhas Caimãs, em Georgetown, após várias ligações de um lado para o outro.

 

O Dr. Rainherr era seu amigo. Há anos que os dois homens se encontravam em Georgetown ou em Cayman Brac, para jogar xadrez, póquer ou... como competia a um velho oficial das antigas colónias... falar dos magníficos tempos do Império Britânico.

 

Annette tratava-o por ”tio Howard”. Para ela, ele fazia parte da família.

 

O governador alegrou-se quando ouviu Annette ao telefone.

 

Olá! exclamou ele. O Andreas regressou finalmente? My little girl... chama-o depressa ao telefone! O descarado do rapaz esteve muito tempo fora. O que é que lhe passa pela cabeça, para deixar os velhos amigos sozinhos durante tanto tempo? Onde é que se meteu o teu pai, Annette?

 

Partiu... respondeu ela sucintamente.

 

Partiu, como? O governador, Sir Howard Betford, levantou-se da mesa. Annette ouviu o barulho. Ainda não voltou?

 

Chegou ontem, tio Howard...

 

Então! Chama-o lá!

 

Mas já se foi outra vez embora!

 

Estarei a ouvir bem, Annette? Foi-se outra vez embora?

 

Foi. Na mesma noite.

 

Enlouqueceu? Sir Betford hesitou e perguntou cordialmente: Annette, passa-se alguma coisa?

 

Annette reagiu impulsivamente à pergunta com uma notícia que, uma vez pronunciada, já não podia desfazer.

 

Sim! disse ela numa voz firme. O paizinho foi raptado!

 

Ele o quê? gritou Betford. Annette, explica-me isso tudo como deve ser!

 

O meu pai chegou ontem num barco estrangeiro, tio Howard contou Annette. Disse que o nosso barco estava a arranjar, em Belize. O Juan pilotou outro barco, que pertence a uma tal Miss Juana Tabora. O pai até disse que o queria comprar. Miss Tabora também estava a bordo... não sei se havia mais alguém. Não entrei no barco, porque... porque não queria aceitar essa tal Miss Tabora. E... de repente, durante a noite... o barco, o paizinho e o Juan desapareceram sem deixar rasto! É por isso que estou a ligar, tio Howard.

 

Temo pelo meu pai! Ele nunca entraria de livre vontade nesse barco...

 

Sir Betford respirava com dificuldade; carregou nuns botões dispostos sobre a secretária e marcou uma reunião com os seus colaboradores.

 

Não te aflijas, my little girl consolou-a ele. Vamos já tratar disso! O que pudermos fazer, fá-lo-emos em pouco tempo! As Caraíbas são tão selvagens, que facilmente os teremos sob controlo! Annette, o barco tinha nome?

 

Tinha, e um nome bastante estranho. Chamava-se Altun Ha.

 

Esse nome vem da língua maia. E a bandeira? Annette pensou: ”Que bandeira?” Susteve a respiração, como se estivesse a perguntar a si própria.

 

Não tinha bandeira, tio Howard. De certeza... O barco não tinha nenhuma bandeira içada. Só agora reparo nisso... mas lembro-me exactamente...

 

Isso é uma chatice! gritou Sir Betford.

 

Durante o telefonema recebera a primeira notícia da manhã. O seu oficial às ordens passou-lha por cima da mesa e Sir Betford colocou o monóculo. Ali estava a notícia mais espectacular:

 

”O Fantasma das Caraíbas voltou a atacar. Iates de milionários assaltados e totalmente saqueados a oeste da Nicarágua, nos bancos Serrana. Não há mortos. Piratas procedem com novos meios. Utilizam um gás de ataque, que não é perigoso, só anestesia. Saque do arrojado assalto: cerca de quatro milhões de dólares, de acordo com declarações do proprietário, Mr. Swastburry da Jamaica. Não deixaram rasto. Quando os hóspedes acordaram, meio atordoados, já o iate dos piratas desaparecera há muito tempo.”

 

Sir Betford empurrou as notícias para o lado e deixou escorregar o monóculo.

 

Quem é que podia adivinhar que Jim McDonald, durante a sua viagem para Sabá, tivesse efectuado, de passagem, alguns negócios privados com o barco de Rainherr, o Annette I, aproveitando a oportunidade da viagem? Estavam há muito tempo naquele negócio para passar distraidamente ao lado de iates de milionários. Um homem como McDonald, marinheiro e pirata, não aguentaria tal coisa...

 

Vou dar imediatamente o alarme, little girl tranquilizou-a Sir Betford ao telefone, quando os seus colaboradores mais próximos começaram a entrar uns a seguir aos outros para se reunirem à volta da mesa do governador. Fizeste muito bem, em teres telefonado ao teu tio Howard! Uma atitude dessas não condiz com o teu pai! Deve haver alguma coisa escondida por detrás disso tudo! Não te preocupes, minha pequena... O tio Howard vai tratar disso...

 

E tratou!

 

Logo após o telefonema entrou em acção uma espécie de brigada, que dramatizou todos os acontecimentos. Aquilo que não passava de uma fuga para o amor transformara-se num grande acontecimento diplomático e militar.

 

Sir Betford começou por fazer um apelo pelo rádio: ”Procura-se o iate a motor Altun Ha. Existem suspeitas de rapto. Quem vir este barco, é favor avisar imediatamente o Governo das Caimãs. Todos os barcos de Sua Majestade britânica estão notificados a não o deixar prosseguir viagem.”

 

A seguir teve início um jogo diplomático: um requerimento aos serviços administrativos. Pergunta: Em que estado fora registado o Altun Ha

 

Decorrida uma hora, já Sir Betford tinha a resposta: o barco fora inscrito em Belize e pertencia a um tal Don Fernando Dalques. Um abastado proprietário de uma empresa de exportação de peles e artesanato local.

 

Juana Tabora era, em contrapartida, totalmente desconhecida. Meia hora depois chegou de Belize um telex. Don Fernando Dalques participara o roubo do seu iate. Altun Hal Assinava: Dr. Casillas, assessor jurídico da referida empresa de exportação.

 

Isto é caça grossa! comentou Sir Betford com os seus colaboradores. Um iate roubado raptou o meu amigo doutor Rainherr! Chega a casa com esse iate e volta a desaparecer na mesma noite! Meus senhores, já lhes disse uma série de vezes, e vocês riram-se, mas, hoje em dia, continua a ser possível acontecerem coisas nas Caraíbas que não acontecem em nenhuma outra parte do mundo! Vivemos num mar que, se não fossem essas aventuras, já estaria seco! Deixem os pequenos barcos à vela da marinha partir! O Altun Ha não nos vai escapar!

 

Nas horas seguintes, não houve mais nenhuma notícia emocionante entre o México e as Baamas, Cuba e as Antilhas, a Venezuela e o Haiti. O apelo das Caimãs acerca de um barco roubado com um homem raptado a bordo, chamado Andreas Rainherr, abafava todas as outras notícias.

 

Tanto Fernando Dalques, que continuava à procura do Annette I e de Jim McDonald, como o próprio McDonald ouviram o apelo no rádio.

 

Naturalmente que o Altun Ha também captara o toque de caça... Juana e Rainherr estavam sentados à frente do rádio a escutar a voz do locutor. Por cima, na ponte de comando, Juan ligara também o aparelho.

 

A tua filha Annette... disse Juana, quando a descrição pormenorizada do barco era já conhecida em todas as Caraíbas. É o fim, Andres...

 

Agora é que tudo começa! Rainherr desligou o rádio. Vou aceitar o desafio!

 

Seria mais simples comunicar com Georgetown s contar a verdade.

 

A verdade? O Fernando participou o roubo do barco. Sabe-se que existe uma Juana Tabora a bordo, mas ela não existe. Tu tens um passaporte em nome de Mary-Anne Tolkins! Se apanharem o barco, descobrem um canhão e duas metralhadoras de dois canos a bordo... Como vais explicar isso?

 

Digo que sim, que estamos perdidos, Andres! 250
Juana encostou-se para trás e fechou os olhos. A tua filha destruiu-nos. Fê-lo admiravelmente bem. Por causa de um receio infantil...

 

Aceito o desafio! repetiu Rainherr em voz alta. Sentou-se à frente do rádio e sintonizou a frequência de ondas do Annette I. Depois de múltiplas chamadas, ouviu-se a voz potente do barbudo... muito ao longe. Tinha de se manejar o amplificador para se perceber alguma coisa.

 

Aqui Rainherr! chamou Andreas. Traz o Jim cá para baixo!

 

Com os diabos, onde estão? gritou o barbudo. Já ouviram...? Andam à vossa caça, como se andassem atrás de um tubarão-branco...

 

Onde está o Jim? gritou Rainherr novamente.

 

Um momento!

 

Durou um escasso minuto até a voz de baixo de McDonald ressoar no altifalante.

 

Doutor! Onde está o nosso capitão?

 

Ao meu lado. Agora, oiça bem, Jim...

 

Não, oiça você primeiro, e muito bem, capitão! Fizemos uma excelente pescaria nos bancos Serrana! Quatro milhões de dólares líquidos em divisas e jóias! Assim, de passagem. Utilizámos um tal gás cinco pela primeira vez. Tinha-o comigo, por acaso. Funciona às mil maravilhas! As pessoas caem como moscas, mas três horas depois estão novamente bem-dispostas. Sem sequelas! Não é um sucesso, capitão? Se isto continua assim, chegamos ao fim com o barco cheio de dólares e de tarecos velhos!