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MITOS & LENDAS ESCANDINAVAS
MITOS & LENDAS ESCANDINAVAS

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MITOS & LENDAS ESCANDINAVAS

 

DEUSES, GIGANTES & ANÕES

Em certos mitos e lendas, os deuses são imortais e vivem eternamente. Isso não sucede com os deuses escandinavos. Eles podem ser mortos. Com efeito, os mitos e lendas escandinavas predizem que um dia todos os deuses serão mortos numa terrível batalha contra os gigantes chamada Ragnarok. Indicamos em seguida algumas das personagens que encontrarão neste livro.

 

Muitas têm mais do que uma mulher ou marido.

 

ÓDIN Chefe de todos os deuses. Tem só um olho, o seu trono é o Hlidskialf e possui dois conselheiros: os corvos Hugin e Munin. É um guerreiro valente, marido de Friga e pai de muitos dos deuses.

 

FRIGA Esposa de Ódin e mãe da maior parte dos filhos dele. O seu favorito é o simpático Balder. É a mais poderosa deusa de Asgard.

 

TOR Deus do trovão. Percorre os céus num carro puxado por cabras. Possui o martelo Mjollnir e o cinto Meginjardir. Tem mau génio, mas é amigo dos humanos. Um deus popular entre o povo escandinavo.

 

TYR Deus da guerra. O mais bravo de todos os deuses, além de ser honesto e honrado. Famoso por ter apenas uma mão. Se quiserem saber como perdeu a outra, leiam «Tyr e as Mandíbulas de Fenris» (página 19).

 

BALDER Deus da luz. O mais belo de todos os deuses e o filho favorito de Friga.

 

HODER Irmão gémeo de Balder. É cego. As profecias dizem que, após a terrível batalha de Ragnarok, ele e Balder nascerão de novo.

 

LOKI Mestre dos embusteiros, meio gigante e meio deus, amigo de Ódin e de Tor, e assassino de Balder. Por vezes muito engraçado, mas capaz de ser muito cruel.

 

HEL Deusa da morte, filha de Loki.

 

A metade inferior do seu corpo é como um cadáver, com os ossos à mostra e a carne pútrida.

 

FREY Deus do Verão, cujo carro é puxado por um enorme javali.

 

FREIA Deusa da beleza. O seu carro é puxado por dois grandes gatos.

 

KVASIR Considerado o mais sensato de todos os deuses de Asgard.

 

HOENIR Nalgumas histórias acerca dos primeiros deuses, diz-se que ele era irmão de Ódin. Noutras, essa honra cabe a Vê e Vili.

 

AEGIR Deus do mar, marido de Ran. Senhor do  mundo sob as ondas onde os marinheiros afogados passam os seus dias.

 

RAN Deusa do mar, que puxa os marinheiros dos seus barcos com uma grande rede, arrastando-os para debaixo de água.

 

HEIMDALL O deus que guarda Bifrost, a ponte do arco-íris que une a casa dos deuses aos outros mundos.

 

UTGARD-LOKI Gigante rei de Utgard, em Jotunheim. Muito esperto e habilidoso. Certa vez, disfarçou-se para passar por um gigante chamado Skrymir para dar uma lição a Tor.

 

HREIDMAR Um rei anão com três filhos, Otter, Fafnir e Regin. Sequestrou Ódin para que este lhe desse um tesouro.

 

FAFNIR Filho de Hreidmar. Matou o pai para se apoderar dos seus tesouros, exilou o irmão Regin e depois transformou-se num dragão.

 

HYRROKKIN Uma giganta terrível que monta um lobo enorme, utilizando serpentes como rédeas.

 

SKIRNIR Um corajoso e fiel servo do deus Frey.

 

A era dos Viquingues foi desde cerca do ano 700 ao ano 1070. Esta é uma pedra rúnica. Os caracteres esculpidos chamam-se runas e são a primeira forma de escrita da antiga língua escandinava.

 

 

TOR NA TERRA DOS GIGANTES

Um poderoso carro de guerra corria através do céu nocturno puxado por duas enormes cabras com uns olhos que brilhavam maldosamente e grandes chifres retorcidos. Os seus cascos faziam estalar o ar em volta delas, lançando centelhas luminosas e enchiam a escuridão com o som do trovão. Segurava as rédeas um deus com os cabelos e a barba hirsutos e um olhar selvagem: um deus guerreiro. Era Tor, o deus do trovão.

 

Certa vez Tor visitou um local chamado Utgard, na terra dos gigantes. Com ele ia o seu amigo Loki, meio gigante, meio deus, e duas crianças servas, Thialfi e sua irmã Roskva.

 

Tor levava o seu Meginjardir em volta da cintura, um espesso cinto que duplicava a sua força, já sobre-humana. Preso a esse cinto levava o seu gigantesco martelo de arremesso chamado Mjollnir, um martelo mágico que voltava sempre às suas mãos depois de ter atingido e morto um inimigo. Mesmo um toque de raspão desse martelo significava uma morte certa.

 

Quando Tor e o grupo que o acompanhava entraram na vasta sala • dos gigantes, estes riram-se. Chamaram-lhe «pequeno» e «insignificante» e troçaram dele.

 

- Silêncio! - gritou Tor, erguendo o seu martelo acima da cabeça.

 

- Mesmo que eu fosse um simples viajante não esperaria ser tratado desta maneira. Onde está o vosso respeito?

 

- Respeito? - gritou Utgard-Loki, rei dos gigantes; e a sua voz ecoou pela imensa sala. - O respeito tem de ser conquistado – disse ele, rindo. - Se tu ou os que te seguem conseguirem derrotar os meus gigantes num simples desafio, então respeitá-los-emos.

 

- Muito bem - retorquiu Tor, ocultando o sorriso sob a barba densa. Aceitamos. - Sabia que poderia derrotar os gigantes sem qualquer dificuldade.

 

O amigo de Tor, Loki, abriu caminho para a frente do grupo.

 

- Desafio seja quem for a comer mais do que eu! - gritou. Sabia que iria vencer, pois havia apenas uma coisa que apreciava mais do que pregar partidas, e isso era comer.

 

- Um excelente desafio! - gritou o rei gigante. - Preparemo-nos. Em breve foi posta uma enorme mesa cheia de pratos de uma ponta à outra. Loki sentou-se numa extremidade. Na outra estava um gigante de aspecto estranho, vestido de cor de laranja flamejante, chamado Logi.

 

A um aceno do rei gigante, a competição começou. Tanto Loki como Logi comiam o mais depressa que podiam, avançando ao longo da mesa. Quando se encontraram a meio, Loki tinha já comido toda a carne, legumes e frutos da sua metade da mesa. Quem poderia vencê-lo?

 

Mas o gigante, Logi, venceu-o... pois comera tanto como ele e ainda mais. Comera todos os ossos e até os pratos em que a comida fora servida. O grupo de Tor falhara a primeira prova.

 

Em seguida, o rapaz servo de Tor, o pequeno Thialfi, concordou em disputar urna corrida com um rapaz gigante chamado Hugi, na imensa sala empedrada. Thialfi e Hugi colocaram-se lado a lado. Tor atirou a cabeça para trás e gritou:

 

- Partida!

 

Thialfi lançou-se para a frente com todas as suas forças, mas ouviu os gigantes a aplaudirem como se alguém tivesse chegado já à parede oposta.

 

E assim sucedera. Com grande assombro, o rapaz viu que Hugi já atingira a meta e estava a ser levado em ombros pelos gigantes, que festejavam.

 

Exausto e derrotado, Thialfi voltou para junto do amo.

 

- Fizeste o melhor que pudeste - disse Tor. - Só temos de os vencer num dos desafios e agora é a minha vez.

 

Voltou-se para o rei dos gigantes que se encontrava recostado no seu grande trono de madeira, claramente satisfeito com o que se estava a passar.

 

- Que desafio fazes tu, pequeno deus do trovão? - perguntou com uma curta gargalhada.

 

- Desafio-te a beber - disse Tor com os olhos a brilharem de fúria pela maneira como os gigantes estavam a tratá-lo. - Veremos quem é capaz de beber mais chifres com vinho.

 

- O nosso vinho é muito forte - disse o rei. - Vejamos quem é capaz de beber maior número de chifres com água. - Bateu as palmas com as suas enormes mãos e um grande chifre foi trazido para a sala. – Começa tu- disse o rei.

 

Tor levou a ponta do chifre aos lábios e começou a beber. Bebeu... bebeu, mas por mais que bebesse não conseguiu esgotar a água. Teve de admitir a derrota.

 

- Se não consegues esvaziar um simples chifre, não haverá competição disse o rei gigante com um encolher de ombros. - Talvez devas tentar algo mais simples, como pegar no meu gato, que dorme junto do lume, e colocá-lo sobre os meus joelhos. - O rosto de Tor ficou vermelho de cólera. - Bem... isso será demasiado difícil para ti - troçou o gigante.

 

Tor correu para a lareira junto da qual o gato dormia.

 

- É estranho - sussurrou Roskva ao ouvido do irmão. - Tenho a certeza de que aquele gato não estava ali há um momento atrás.

 

Tor inclinou-se para o gato e tentou erguê-lo com uma mão... depois com as duas... em seguida com os dois braços. Não foi sequer capaz de erguer uma das patas do gato adormecido sobre a pedra quente.

 

Tor não podia acreditar no que lhe estava a suceder. Era um herói, um deus. As pessoas de Midgard ficavam junto do lume até altas horas da noite a contar histórias sobre a sua força incrível e as suas espantosas aventuras. Que estava a passar-se? Desde que chegara a Utgard que as coisas lhe corriam mal.

 

- Estou farto dos teus fracassos - disse o rei dos gigantes com um suspiro. - Que graça tem uma competição quando as forças dos dois lados são tão desiguais?

 

Então proponho-te um último desafio - disse Tor quase com um rugido. - Desafio qualquer um de vocês para um combate. Não importa quem seja. O mais alto ou o mais forte..

 

- Sim, sim, sim! - disse o rei desdenhosamente. - Vou dar-te um adversário à tua altura. Elli?

 

Detrás da cadeira do rei saiu uma velha: não era gigante, mas apenas uma mulher de aspecto vulgar, velha, de costas encurvadas e pele enrugada.

 

- Aqui tens o teu adversário, Tor - disse o rei.

 

- Esperas que eu lute contra ela? - murmurou Tor.

 

- Falas em respeito mas não mostras nenhum - respondeu o gigante, zangado. - Esta é a minha velha ama. Criou-me como se eu fosse seu próprio filho. E merecedora de tudo.

 

- Muito bem - disse Tor dirigindo-se para o meio da sala com a mulher velha, rodeado por um círculo de espectadores.

 

- Que o combate comece! - gritou Loki.

 

Apesar da sua idade, Elli era extremamente forte. Ao princípio, Thor dominou, obrigando-a a dobrar-se... mas passado um bocado, embora ofegante e gemendo, a mulher fê-lo ficar de joelhos.

 

- Basta! - gritou o rei gigante. - Acabou o combate. A minha velha ama venceu!

 

Tor sentia-se envergonhado. Ele e o seu grupo haviam sido repetidamente vencidos. Não tinham ganho um único desafio, nem conseguido obter o respeito dos gigantes. O rei conduziu-o até aos portões do seu reino.

 

- Agora que vão partir, posso contar-te a verdade do que se passou disse o rei. - O adversário que Loki enfrentou para saber quem comia mais era realmente o Fogo, e nada tem a fome do fogo, que come tudo o que se encontra no seu caminho. - Loki soltou uma exclamação de assombro. Quanto a Hugi, o adversário de Thialfi na corrida, não era nenhum rapaz gigante, mas sim o próprio Pensamento, e nada é mais rápido do que um pensamento. Nem o mais rápido corredor do mundo poderia tê-lo vencido.

 

- Os olhos de Thialfi abriram-se de assombro. - Quanto ao chifre pelo qual bebeste água, a outra extremidade estava no Oceano, logo não conseguiste esvaziá-lo - disse o gigante. - Mas bebeste muito, Tor, e criaste o fluxo e refluxo do mar. Por isso agora temos as marés.

 

- E o gato? - quis saber Roskva.

 

O gato indefeso que Tor não conseguiu erguer era o filho de Loki, Jormungand, transformado por magia - confessou o rei. - É a serpente gigantesca que dá a volta à Terra, por isso Tor não o conseguiu erguer.

 

- E Elli, a tua velha ama? - perguntou Tor.

 

- Ela personifica a Velhice - disse o rei. - E a velhice acaba sempre por vencer-nos.

 

- Porque nos fizeste isto? - perguntou numa voz mais baixa e comedida da que usara antes.

 

- Porque no caminho para Utgard, na noite em que dormiste numa luva de gigante abandonada, julgando que era uma cavalariça, mostraste desrespeito por um gigante adormecido, batendo-lhe com o teu martelo para ele deixar de ressonar - lembrou-lhe o rei. - Esse gigante era eu e teria morrido com a forte pancada do Mjollnir se não estivesse protegido pela magia. Agora deixa o meu reino e não voltes nunca.

 

Então Tor partiu com Loki, Thialfi e Roskva, orgulhoso por terem competido tão bem contra o Fogo, o Pensamento, o Oceano, Jormungand e a Velhice, mas sabendo também que lhe fora dada uma valiosa lição.

 

Tor continuou a obter muitas vitórias e continua a viajar no seu carro através dos céus, criando tempestades para onde quer que vá. É lembrado e honrado e na língua inglesa deu o seu nome à quinta-feira, Thursday, que significa Dia de Tor... mas agora tem maior respeito pelos gigantes, que são governados por um rei muito sensato e astuto.

 

 

A MALDIÇÃO DO ANEL DE ANDVARI

Esta história abrange muitas gerações. Começa com três deuses disfarçados de seres humanos vulgares, e com uma lontra que não é lontra. Termina com um jovem herói e um dragão que em tempos foi um anão. Que terá reunido todas essas pessoas estranhas e animais?

 

Um tesouro e um anel amaldiçoado.

 

Certo dia, Ódin, chefe dos deuses, e seu irmão Hoenir caminhavam ao longo da margem de um rio acompanhados por Loki. Pararam para observar urna lontra que apanhava habilmente um salmão na água.

 

- Aquele animal é um bom caçador - disse Hoenir -, e apanhou um belo peixe.

 

- E fez-me lembrar que estou cheio de fome - disse Ódin.

 

- Façamos então que o caçador passe a ser a caça - gritou Loki atirando uma pedra à lontra e matando-a imediatamente. Ódin fez uma fogueira e, enquanto Hoenir cozinhava o grande salmão que ficara preso entre as barbatanas da lontra, Loki ia esfolando este animal.

 

Nessa altura apareceu um anão. Vinha obviamente zangado com qualquer coisa porque vociferava de tal maneira que nenhum deles conseguiu entender as palavras que dizia. Depois começou a ranger os dentes e a saltar com uma fúria terrível.

 

- Acalma-te, homenzinho - disse Ódin, pondo amigavelmente uma mão sobre os ombros do anão.

 

Isso fez com que o anão se mostrasse ainda mais zangado.

 

- Homenzinho? - gritou. - Homenzinho? Eu sou o rei Hreidmar!

 

- Queres partilhar a nossa refeição, majestade? - perguntou Hoenir.

 

- Não como com assassinos! - bradou o rei anão. Loki ergueu-se de um salto, com a faca com que estava a esfolar a lontra a brilhar-lhe na mão à luz do Sol. Mas Ódin deteve-o.

 

- Vê a quem chamas assassino - disse calmamente. - Sabes quem eu sou?

 

- Até podias ser o chefe dos deuses que eu não me importava - gritou Hreidmar. - Não deixam de ser assassinos. Mandei um dos meus filhos apanhar esse peixe para o meu jantar. Como eu, ele pode mudar de forma...

 

- ...e transformou-se numa lontra? - perguntou Hoenir, compreendendo, horrorizado, o que se passara. Loki matara e esfolara um príncipe anão!

 

Nesse momento apareceram outros dois anões brandindo armas. Eram outros dois filhos de Hreidmar, Fafnir e Regin. As armas deles eram mágicas e podiam fazer muito mal aos deuses.

 

- Vocês os três serão mortos por aquilo que fizeram! - gritou o rei.

 

- Espera - disse Ódin. - A morte do teu filho foi um engano terrível. Não há maneira de podermos compensar-te por esse terrível acidente?

 

Os olhos de Hreidmar brilharam ao ouvir a palavra «compensar». Pensou por um momento e depois declarou:

 

- Deixá-los-ei vivos se encherem a pele da lontra com ouro e depois a enterrarem num monte de tesouros capazes de a cobrir de ponta a ponta!

 

- De boa vontade o faremos - disse Ódin, mas enquanto falava reparou que a pele da lontra se ia tornando cada vez maior. Havia no ar a magia dos anões e seriam necessárias grandes quantidades de riquezas para cumprirem o prometido.

 

Deixando Ódin e Hoenir como reféns, Loki partiu em busca do ouro. Em breve chegou a uma curva do rio e encontrou uma catarata... e viu outro anão. Loki reconheceu nele o rei Andvari, que tinha fama de possuir um fabuloso tesouro escondido algures.

 

Como se a sorte quisesse ajudar Loki, Andvari saltou da margem e transformou-se numa bonita truta antes de mergulhar nas águas.

 

Rápido como um relâmpago, Loki pegou numa rede que pedira emprestada à deusa Ran - a rede que ela utilizava para puxar os marinheiros afogados para os seus túmulos aquáticos debaixo das ondas - e lançou-a à água apanhando o furioso Andvari entre as suas malhas.

 

- Solta-me - gritou Andvari, que voltara à sua forma habitual de anão. Mas por mais que ele se debatesse não conseguia libertar-se da rede da deusa. Finalmente concordou em dar a Loki um saco cheio de tesouros em troca da sua liberdade. O anão levou-o então ao sítio onde o seu ouro estava escondido. Havia ali tanto que Loki e Andvari ficaram banhados numa luz dourada.

 

Quando Loki viu o fabuloso tesouro do anão, não se satisfez com um só saco. Quis tudo... até à última moeda, chegando a exigir o anel que Andvari tinha em volta de um dos braços.

 

- Se fosse eu, não o levava - disse o anão.

 

- Mas não és, e eu decidi levá-lo! - replicou Loki, com um sorriso.

 

- Dar-te-á pouca sorte, aviso-te - disse Andvari que se sentia doente ao pensar que ia perder todo o seu ouro. Mas Loki tirou-lhe o anel e guardou-o para si... sem se aperceber de que o astuto anão o amaldiçoara antes de lho entregar.

 

Utilizando toda a sua força e habilidade, Loki dirigiu-se para Hreidmar com o tesouro. Ódin e Hoenir ficaram satisfeitos com o regresso de Loki, mas Hreidmar ficou ainda mais feliz. Talvez fosse por ver todo aquele ouro, que sorria de orelha a orelha.

 

Loki começou então a encher a grande pele de lontra com o tesouro, enterrando-a depois, direita e coberta de ouro de um extremo ao outro.

 

Em breve isso ficou feito e Hreidmar saltava alegremente para baixo e para cima, de um modo muito desagradável.

 

Estava prestes a soltar Ódin e Hoenir quando reparou que faltava alguma coisa.

 

- Esperem! - gritou.

 

- O que é? - perguntou Loki, certo de ter cumprido a sua parte do combinado.

 

O acordo era que cobrisses toda a pele da lontra com ouro, sem deixar nada de fora. .

 

- E foi o que fiz - retorquiu Loki.

 

- Então o que é isto? - perguntou o rei anão, apontando para o montão de ouro.

 

Loki aproximou-se e viu a ponta de um dos bigodes da lontra num dos lados.

 

- Tenho exactamente o que é preciso para tapar isso - disse apressadamente, colocando o anel amaldiçoado de Andvari sobre a ponta do bigode.

 

Então, Ódin, Hoenir e Loki ficaram livres e seguiram o seu caminho.

 

A história não termina aqui para o rei Hreidmar e os seus filhos. A maldição do anel estava já a tecer a sua malévola magia. Abriu caminho até ao cérebro de Fafnir, fazendo-o ter inveja da fortuna acabada de adquirir pelo pai.

 

Em breve desejou que o ouro fosse seu... de tal modo que uma noite matou o pai enquanto ele dormia.

 

- Agora o ouro é meu! - murmurou Fafnir na escuridão. - Não o partilharei com ninguém.

 

Nessa altura apareceu Regin, bocejando.        

 

- O que se passa, irmão? - perguntou. Depois viu o pai morto aos pés de Fafnir e um brilho de loucura nos olhos deste. Voltou-se e fugiu, para não mais voltar à terra dos anões.

 

Mesmo depois de Regin se ter ido embora, Fafnir continuou a preocupar-se com a segurança do seu tesouro. E se Loki voltasse, ou qualquer outra pessoa soubesse da existência daquelas riquezas incalculáveis? Teria de as guardar para sempre. Então, Fafnir transformou-se num dragão e deitou-se sobre o grande monte de ouro.

 

O tempo foi passando e, exilado entre os humanos, o irmão Regin ensinou às pessoas muitos truques e maneiras de viver dos anões. Mostrou-lhes como manusear os metais para com eles fazerem armas e utensílios, como prender um boi à charrua e como construir casas.

 

Regin teve um filho que cresceu forte e formoso. O seu nome era Sigurd. Teve conhecimento da história do seu malévolo tio, Fafnir, que fizera com que seu pai fosse viver longe dos seus, e viajou para a terra dos anões para o procurar.

 

Durante a viagem, Sigurd encontrou um estranho que lhe deu uma informação muito importante. Contou ao jovem herói que Fafnir tomara a forma de um dragão e que vivia noite e dia deitado em cima do seu tesouro, guardando-o com tal ferocidade que ninguém tentava aproximar-se dele para lhe fazer mal. A única altura em que ele abandonava o seu posto era quando ia beber água ao rio.

 

Com essa importante informação a respeito do dragão, Sigurd cavou uma trincheira perto do rio e escondeu-se lá. Quando Fafnir, na sua forma de dragão, sentiu sede, deslizou para fora da pilha de ouro e dirigiu-se para a água... passando com o seu corpo escamoso por cima da trincheira onde Sigurd esperava.

 

Sigurd empunhou então a sua espada e, com todas as suas forças, enterrou a lâmina no peito do pérfido tio, rasgando-o e matando-o.

 

O exílio do pai de Sigurd e a morte de seu avô, o rei Hreidmar, tinham sido vingados... e a maldição do anel de Andvari fizera mais uma vítima.

 

 

TYR E AS MANDÍBULAS DE FENRIS

Há muito, muito tempo, antes de as histórias que lhes estou a contar estarem sequer nas mentes dos que podiam ver o futuro, o astucioso Loki, meio deus e meio gigante, casou secretamente com a terrível giganta Angurboda. Tiveram três filhos: uma serpente ondulante, uma deusa horrenda, cujo corpo estava metade vivo e metade cadáver, e um enorme lobo.

 

Loki tentou manter os seus três filhos em segredo, ocultando-os longe de todos. Sabia bem que Ódin, o chefe dos deuses com um só olho, podia ver tudo do seu trono.

 

O que Ódin viu perturbou-o imenso. Sentia-se horrorizado com a prole de Loki e por ver como cada um deles se tornava cada vez maior e mais poderoso. Era provável que viessem a tornar-se uma ameaça para os próprios deuses.

 

Ódin seguiu Loki e os seus filhos até uma caverna, e agarrou a serpente, fazendo-a girar em volta da sua cabeça, até que ela lhe escapou e caiu no oceano. Aí, a serpente tornou-se tão grande que rodeou a Terra inteira e mordeu a sua própria cauda. É Jormungand, a serpente gigantesca que ainda lá vive.

 

Quanto à horrorosa deusa semiputrefacta, Ódin atirou-a para o Niflheim, onde ela passou a ser a dona do reino dos mortos, nesse local horrendo que agora tem o nome dela: Hel.

 

Ficou então o terceiro filho, o lobo chamado Fenris.

 

Ódin esperava que, se tratasse Fenris com bondade e respeito, este poderia vir a ser leal para com os deuses.

 

Levou Fenris para Asgard, mas ficou perturbado ao ver que quase todos os deuses e deusas tinham medo do animal, embora ele fosse ainda um bebé.

 

Havia apenas um deus que parecia não ter receio do grande lobo. Esse deus era Tyr, o deus da guerra. Era ele que dava de comer a Fenris todos os dias. Não sabia o que era o medo e era bondoso para com aquela extraordinária criatura.

 

À medida que o lobo se tornava cada vez maior, Ódin reuniu o conselho dos deuses e deusas para decidir o que havia de ser feito.

 

- Segundo as profecias, será esta criatura que te destruirá, Ódin - disse um dos deuses. - O melhor é matá-lo antes que isso aconteça.

 

- As profecias não podem ser alteradas - protestou outro.

 

- Não podemos matar Fenris, porque foste tu que o trouxeste para Asgard e isso seria errado - disse Tyr a Ódin.

 

- Concordo - respondeu o chefe de todos os deuses. - Então o que se deve fazer?

 

Por fim, decidiram que Fenris devia ser preso com uma grande corrente, de modo que não pudesse ter liberdade para causar mal. Uma corrente normal não serviria, por isso arranjaram uma especial, famosa pela sua força, chamada Laeding.

 

O problema era como prender Fenris com ela. Ele nunca consentiria em deixar-se prender. Por isso sugeriram ao lobo que se tratava de um jogo.

 

- Sabes que nos orgulhamos por sermos fortes - disse um dos deuses.

- Tens agora uma oportunidade de mostrares a tua força. Vamos prender-te com esta corrente para ver quanto tempo levarás a libertar-te.

 

Sem saber que se tratava de uma corrente especial, Fenris concordou e foi preso à Laeding. Logo a seguir, o enorme lobo libertou-se. Limitou-se a fazer com que os seus músculos ficassem tensos e partiu todos os elos da corrente: uma chuva de pedaços de metal quebrados caiu no solo.

 

Fingindo ficarem encantados com a maneira como ele provara ter uma força incrível, os deuses elogiaram Fenris e retiraram-se, preocupados com o seu fracasso.

 

Mais tarde, voltaram com uma corrente ainda mais forte, conhecida por Dromi, e utilizaram o mesmo truque para prender Fenris.

 

Pareceu ter decorrido apenas um momento até o enorme lobo ficar outra vez livre.

 

Foi então que os deuses se aperceberam de uma coisa que lhes devia ter ocorrido desde o início. Só a mais extraordinária corrente seria capaz de prender Fenris. Aquele animal era filho de uma giganta e de Loki, que era meio deus e meio gigante.

 

Ódin mandou então chamar Skirnir, fiel servo de Frey, deus do Verão.

 

- Quero que vás rapidamente à terra dos anões e que visites as cavernas subterrâneas dos melhores artesãos - disse. - Pede-lhes que fabriquem a corrente ou corda mais forte que lhes seja possível e que a envolvam na mais poderosa magia.

 

- E que lhes oferecerei em troca? - perguntou o servo, sabendo bem a importância da sua visita à terra dos anões e conhecendo o amor que eles tinham por ouro.

 

- Diz-lhes que é para prender Fenris e eles não quererão qualquer pagamento. Saberão como isso é vital para mim - disse Ódin, com o seu único olho fixo em Skirnir. - Compreendes?

 

- Compreendo - respondeu Skirnir baixando a cabeça, e partiu.

 

Logo que chegou à terra dos anões, Skirnir perguntou pelos mais hábeis artesãos capazes de fazerem uma corda mágica que ninguém, por mais forte que fosse, pudesse quebrar.

 

- Para a fazer, preciso da mais forte magia, incluindo cinco ingredientes muito especiais - respondeu um anão, cujo nome continua ainda hoje em dia a ser um segredo. - Preciso do som da pata de um gato a tocar no solo, de barbas de mulher, da raiz da montanha, da voz do peixe e do cuspo do pássaro.

 

Claro que vocês acham que as pisadas dos gatos são silenciosas, que as mulheres não têm barba, que as montanhas não têm raízes, que os peixes não têm voz e que os pássaros não cospem, e têm razão. Como os anões tiraram todos esses ingredientes do mundo dos humanos há muito, muito tempo, para fabricarem a corda Gleipnir, tais coisas deixaram de existir.

 

Quando Skirnir regressou a Asgard com a corda, alguns dos deuses não se mostraram impressionados. Gleipnir era tão suave e macia como uma fita de seda. Como poderia prender Fenris?

 

Mas Ódin confiou na magia e levou a corda ao lobo.

 

- Deixa que te amarremos uma terceira vez para ver se consegues soltar-te - disse. Fenris olhou para a corda, que parecia uma fita, com desconfiança.

 

- Não - disse por fim. .

 

- Não? - surpreendeu-se Ódin. - Porquê?

 

- Porque se for uma corda vulgar, como parece, não terei qualquer orgulho em me libertar dela - disse Fenris. - Se, pelo contrário, for uma corda mágica, tecida com artimanha, então poderei não ser capaz de me libertar. Porque hei-de cair voluntariamente numa armadilha?

 

Claro que Ódin não ia mentir e negar que se tratava de uma armadilha, uma vez que era exactamente disso que se tratava.

 

- Ouve - disse. - Se não conseguires libertar-te de uma corda que mais parece uma fita, não representarás qualquer ameaça para mini e nesse caso libertar-te-ei.

 

- Isso pode ser verdade - replicou Fenris -, mas reparo que tens o cuidado de não me dizer quando me libertarás. - E continuou: - Aceito este jogo, mas com uma condição. Um de vocês mete a mão na minha boca enquanto me prendem com a corda... isso provará a nossa mútua confiança. Eu confiarei em que vocês não estão a enganar-me e que me libertarão se eu não o conseguir. E vocês confiarão em que eu não morderei a não ser... Fenris fez uma pausa e passou a língua sobre os dentes afiados como punhais.

- ...a não ser que me atraiçoem.

 

Fez-se silêncio. Ódin olhou para os deuses, um a um, esperando que algum deles aceitasse o desafio.

 

Tyr deu um passo em frente, enquanto os outros o olhavam em silêncio, alguns agarrados aos pedaços das fortes correntes que Fenris quebrara com tanta facilidade. Tyr meteu uma das mãos na boca do animal do qual cuidara desde o dia em que ele chegara a Asgard, ainda bebé.

 

Depois, os deuses prenderam Fenris com a corda mágica Gleipnir.

 

Quanto mais força o enorme lobo fazia para se libertar, mais os elos da corda mágica se apertavam, até que ele mal conseguia mexer-se.

 

Talvez por apertar os músculos das mandíbulas para fazer força para se libertar, ou talvez por se sentir traído pelo único deus que fora bondoso para com ele, a verdade é que Fenris fechou os dentes, cortando a mão a Tyr.

 

O lobo abriu então a boca e uivou com tal raiva que um dos deuses aproveitou a altura para lhe meter uma espada entre as mandíbulas, a fim de lhe manter a boca aberta.

 

E foi assim que Fenris ficou preso, com a boca toda aberta, da qual jorrou saliva, que se transformou na torrente fumegante de um rio. O atormentado animal permanecerá assim até à batalha final, Ragnarok, no fim dos tempos, quando poderá vingar-se daqueles que o fizeram cair na armadilha.

 

E é também por isso que Tyr, o deus da guerra, tem só uma mão. Alguns dizem que é um sinal de que um verdadeiro guerreiro só pode lutar de um lado numa batalha. Outros dizem que é por a espada ter apenas um gume. Mas muitos acreditam que Tyr provou ser um deus valente e leal, que ajudou os outros deuses numa tarefa difícil, mas que foi também verdadeiro com Fenris, um dos três temíveis filhos do astucioso Loki.

 

 

O DEUS QUE AMAVA UMA GIGANTA

Odin, o chefe de todos os deuses, tem um trono magnífico, esculpido de uma árvore gigantesca. Tão importante e poderoso é esse trono que tem um nome especial, Hlidskialf, e só Ódin e sua mulher podem sentar-se nele. Desse trono mágico, eles vêem tudo o que se passa em todos os nove mundos...

 

Certo dia Frey, o deus do Verão, foi encontrar o trono vazio. Odin andava por fora, numa das suas fantásticas aventuras, e não se encontravam por ali quaisquer deuses. Frey não conseguiu resistir a subir para Hlidskialf... só para saber qual era a sensação de estar ali sentado.

 

Mal se tinha sentado, os seus olhos viram uma luz que cintilava ao longe e que o hipnotizou. Depois a luz tomou outra forma, com braços, pernas e um cabelo ondeante de uma beleza tão radiante que Frey ficou assombrado. Era a figura mágica de Gerda, uma giganta glacial. Frey ficou imediatamente apaixonado.

 

Agora nada mais importava para Frey. Não conseguia comer, nem dormir. Pensava constantemente na bela giganta.

 

Mas como poderia fazer com que ela o amasse?

 

Não se atrevia a contar aos outros deuses o que sentia, porque eles não sabiam que ele se sentara no trono de Odin. Mas o seu fiel servo Skirnir em breve descobriu o seu segredo.

 

- Quero que vás à terra dos gigantes e convenças Gerda de que eu a amo e quero casar com ela - disse Frey.
Skirnir sabia bem como a sua missão era perigosa e como seria pouco provável que tivesse êxito. Pediu então a Frey que lhe emprestasse a sua espada mágica, que podia voar pelo ar e atacar o inimigo logo que fosse tirada da bainha. Também lhe pediu o seu magnífico cavalo, Blodughofi, que de nada tinha medo.

 

Frey cedeu-lhe ambos de boa vontade. Entregou também a Skirnir onze maçãs douradas que conservariam Gerda eternamente jovem, se ela as quisesse comer. Além disso, entregou-lhe uma pulseira para dar de presente a Gerda. Mas essa pulseira não era um aro de ouro vulgar. Tratava-se de Draupnir, a pulseira mágica de Ódin. Skirnir não se atreveu a perguntar como é que Frey a tinha em seu poder.

 

Skirnir partiu então para a sua missão. Levou um dia e uma noite a chegar à terra dos gigantes, cavalgando por montes e florestas. Parou apenas uma vez para apanhar um bordão de madeira, mágico, que encontrou caído no solo.

 

Quando a sua viagem terminou, encontrou-se perante uma enorme casa rodeada por chamas vermelhas de um encantamento, que a protegiam de visitantes inesperados. Dos dois lados da entrada, estavam os dois mastins mais ferozes que Skirnir alguma vez vira.

 

Mas o cavalo de Frey não tinha medo das chamas nem dos cães, e conduziu Skirnir para dentro do palácio. Então Skirnir disse à giganta qual era a sua missão, e falou-lhe do amor que Frey tinha por ela.

 

A giganta glacial não ficou impressionada com o pedido de casamento.

 

Skirnir ofereceu-lhe então as onze maçãs de ouro.

 

- Porque havia eu de querer ficar jovem para sempre, enquanto aqueles que eu amo envelhecem à minha volta? - respondeu ela.

 

Skirnir mostrou-lhe então o aro de ouro que Ódin usava no braço.

 

- Para que me serve isso? - perguntou ela. - Ódin pode ser poderoso para os deuses e para os humanos, mas como gigante seria muito pequeno. Eu não poderia usar esse anel nem mesmo no meu dedo mindinho.

 

Skirnir não desistia facilmente. Apontou para a espada de Frey.

 

- Esta espada é mágica - disse. - Se eu a tirar da bainha ela voará até ao teu pescoço e cortar-te-á a cabeça.

 

Gerda riu.


- E de que servirá isso? Frey ficará sem esposa e o meu pai far-te-á em pedaços, começando por te arrancar os braços.

 

Relutantemente, Skirnir recorreu à sua última esperança, uma terrível maldição. Pegou no bordão de madeira que encontrara durante a viagem.

 

- Se não casares com Frey, lançar-te-ei uma maldição - gritou. A sua voz ecoou pela vasta sala. - Uma maldição que te fará estar sempre com fome, mas que fará também com que tudo quanto comas te saiba a sal... uma maldição que te fará ficar à entrada do mundo dos mortos, vendo os tormentos deles... uma maldição que te tornará velha e feia...

 

- Chega! - gritou Gerda. - Esse Frey de que falas deve desejar muito casar comigo. Diz-lhe que serei sua mulher - concordou com um suspiro. Irei ter com ele passados nove dias e nove noites. Agora vai.

 

Skirnir regressou triunfante para junto de Frey.

 

- Que notícias me trazes? - gritou o deus do Verão, cambaleando ao encontro dele, com o coração pesado e a sensação de um fracasso quase certo, pois via que o seu criado viajava sozinho.

 

- Gerda concordou em ser tua mulher - disse Skirnir -, mas tens de esperar nove dias e nove noites até ela vir ter contigo.

 

Embora encantado com as notícias trazidas por Skirnir, os nove dias e nove noites foram um tormento para Frey. Foram como os nove meses de Inverno, frios e escuros, parecendo não mais acabar.

 

Chegou, por fim, o dia em que Gerda deixou o palácio de seu pai, Gymir, e foi ter com Frey, vendo-o pela primeira vez... e o impossível sucedeu. Quando a giganta glacial viu os olhos do deus doente de amor, apaixonou-se também por ele.

 

- Frey - disse ela, com uma voz que parecia gelo a estalar. - Perdoo as tuas ameaças e subornos. Fiquemos juntos para sempre.

 

£ ainda estão juntos e estarão até Ragnarok, a batalha final, no fim dos tempos. A beleza mágica de Gerda pode ser vista hoje na aurora boreal: as estranhas luzes em movimento que surgem nos céus por cima do Pólo Norte.

 

Só alguém muito louco ou muito valente se atreveria a roubar o martelo de Tor, Mjollnir, mas foi exactamente isso que aconteceu. A história do modo como Tor e Loki o recuperaram é por vezes muito engraçada, mas o fim não dá vontade de rir.

 

Uma manhã, Tor acordou com uma grande dor de cabeça e sentou-se, esfregando os olhos. Sabia que algo estava mal, mesmo antes de levar a mão ao cinto e dar por falta do seu martelo mágico. Sentira que Mjollnir não estava a seu lado.

 

Com um rugido de raiva, chamou o seu amigo Loki, que dormia ao pé da lareira. Se o desaparecimento de Mjollnir tivesse sido uma brincadeira, o seu autor seria Loki. Mas Loki protestou, dizendo que nada sabia acerca do paradeiro do martelo. Então onde estaria ele?

 

Tor começou a andar para trás e para diante na sala, e o som dos seus passos troava pelos céus. Quando ele se zangava, as pessoas de Midgard ficavam logo a saber, porque os trovões e os raios rasgavam os céus em volta dos ouvidos delas.

 

- Talvez o tenhas deixado nalgum sítio - sugeriu Loki.

 

- O QUÊ? - berrou Tor.

 

- Era apenas uma sugestão - disse Loki, embora tivesse de admitir que era uma tolice. Provavelmente só havia uma coisa que Tor amava mais do que o seu martelo: a sua mulher, a deusa Sif.

 

- Alguém o roubou! - gritou Tor, com o rosto tão vermelho de cólera que estava quase da cor da barba. - Tens de me ajudar a encontrá-lo!

 

Loki não esperou que Tor lho dissesse segunda vez. Quando Tor se zangava, o melhor era fazer o que ele dizia.

 

Loki achou que precisava de descobrir qual a maneira mais rápida de encontrar Mjollnir. Uma delas seria sentar-se no trono de Ódin para ver o mundo inteiro, mas não era tão tolo que fosse arriscar-se a fazê-lo.

 

Depois pensou em pedir emprestado a Frey o seu longo barco capaz de voar através dos céus. Esse barco era suficientemente grande para nele caberem todos os deuses e deusas, mas uma vez dobrado ficava suficientemente pequeno para se poder meter num bolso. Mas Loki decidiu não o pedir, pois o ladrão poderia ver a sombra do longo barco reflectida no solo, em baixo, e esconder Mjollnir.

 

Loki precisava de um meio rápido de viajar através dos nove mundos sem ser reconhecido, nem atrair as atenções. Teve então uma excelente ideia. Foi falar com Freia, a deusa da beleza. Ela tinha um enorme manto de falcão que muitas vezes usava para voar disfarçada. Era exactamente aquilo de que Loki necessitava e, devido à importância da sua missão, Freia concordou em lho emprestar.

 

Passado um bocado, Loki ouviu no vento que um gigante chamado Thrym roubara Mjollnir e o enterrara nas profundezas da terra, onde ninguém o encontraria. Loki informou-se e veio a saber que Thrym não era um gigante guerreiro, mas sim um gigante vulgar que estava perdidamente apaixonado por Freia. Com efeito, Thrym só revelaria onde estava Mjollnir se a linda deusa concordasse em casar com ele.

 

Quando Loki contou a Tor o que descobrira, o deus ficou encantado. A solução era simples: Freia devia casar com o gigante para que ele pudesse reaver a sua preciosa arma. Tor e Loki foram ter com Freia.

 

- Sabes como Mjollnir é importante, não só para mim, mas também para todos os deuses - insistiu Tor. - Essa arma poderosa protegeu a honra de Asgard em muitas ocasiões.

 

- Sei isso - replicou Freia, com uma expressão desconfiada no seu belo rosto, pois sabia que Tor queria qualquer coisa. - Foi por isso que emprestei o meu manto de falcão ao teu astuto amigo. Achas que, se assim não fosse, eu lho emprestaria?

 

- Acho que não - disse solenemente Tor.


- Sinto-me feliz por poder dizer que sei quem roubou o meu martelo, e porquê - continuou Tor. - Foi um gigante chamado Thrym.

 

- Que para gigante é bastante simpático - acrescentou Loki, olhando para o colar que a deusa da beleza trazia em volta do pescoço. Tentara uma vez roubá-lo, mas não conseguira.

 

- Um tipo esplêndido, com efeito - concordou Tor. - É um gigante sabedor e apreciador da tua grande beleza. Thrym deseja casar contigo, Freia.

 

- E pensamos ambos que é uma excelente ideia - disse Loki, tentando ajudar.

 

- Querem então que eu case com o gigante que roubou Mjollnir? perguntou Freia olhando para Tor e depois para Loki.

 

Tor disse que sim com a cabeça.

 

- Não te interessa que esse Thrym possa ser um dragão, o mais feio dos anões, ou um cobarde ranhoso. Só te importa que eu case com ele para recuperares o teu precioso martelo, não é?

 

- Bem... - murmurou Tor.

 

- Bem...-balbuciou Loki.

 

Freia explodiu de raiva. Estava tão zangada que até Tor, o grande deus do trovão, ficou abalado com fúria dela. Agradeceu a Freia ela ter emprestado o seu manto de falcão; depois, ele e Loki saíram com mais pressa do que a que o seu orgulho lhes permitiria.


Tor e Loki decidiram então que teriam de usar a astúcia para que Thrym lhes devolvesse o martelo. Mas a questão era saber como.

 

Foi Heimdall quem arranjou uma solução. Heimdall era o deus que tinha por tarefa guardar Bifrost, a ponte de arco-íris que liga Asgard, a terra dos deuses, aos outros mundos.

 

Heimdall e Tor não se viam muitas vezes, porque Tor não tinha autorização para atravessar Bifrost. As suas passadas eram demasiado atroadoras e o seu carro puxado por cabras demasiado selvagem para atravessar Bifrost sem causar danos. Tinha de passar por um caminho diferente.

 

Loki e Heimdall, pelo contrário, conheciam-se muito bem. Heimdall apanhara Loki a tentar roubar o colar de Freia e os dois eram ainda inimigos. As profecias diziam que, na batalha que se daria no fim do mundo, Loki e Heimdall se matariam um ao outro.

 

Heimdall sugeriu que Tor se vestisse como Freia e que Loki se vestisse como uma acompanhante, uma criada viajando com ela.

 

A ideia desagradou a Tor, mas como não conseguiu arranjar outra melhor, concordou relutantemente em a experimentar. Com os seus estranhos disfarces, Tor e Loki dirigiram-se para o palácio de Thrym.

 

Nessa noite, a magia devia ser forte, pois apesar da sua barba ruiva, da sua voz atroadora e dos músculos fortes, o gigante Thrym tomou-o pela bela Freia. O gigante ficou tão encantado quando a viu chegar, que imediatamente mandou servir um banquete nupcial.

 

Durante o banquete, Thrym ficou chocado com o apetite da sua futura esposa. Tor esqueceu-se de que devia comportar-se como uma deusa. Comeu um boi inteiro, uma grande travessa com salmão e bebeu dois barris de cerveja.

 

Loki teve de agir depressa antes que o seu anfitrião ficasse desconfiado. Apressou-se a explicar que Freia ficara tão excitada com a perspectiva de conhecer e de casar com Thrym que durante dias não conseguira comer coisa alguma.

 

- Agora que estão juntos, ela está a desforrar-se disso - acrescentou. Mas as coisas iam de mal a pior. Thrym tentou beijar Tor... Não é de surpreender que Tor lhe lançasse um olhar terrível.

 

- Que fiz eu para te ofender, minha bela? - perguntou Thrym. Por momentos, suspeitou que algo estava errado.


Tor fazia o possível por se conter e não fazer Thrym em bocados antes de ele lhe ter revelado onde estava o martelo, e esse esforço tornava-o mudo. Mais uma vez, o sagaz Loki foi em seu auxílio.

 

- Sem dúvida reparaste no olhar ardente da minha senhora - disse ele. Thrym fez um sinal afirmativo.

 

- Pois bem, é um olhar que poucos homens ou gigantes terão visto. É o olhar duma deusa apaixonada, verdadeiramente a arder de paixão... - E Loki acrescentou rapidamente: - Freia está simplesmente encantada por estar tão perto de ti.

 

As palavras de Loki produziram o efeito desejado. Encantado com o que acabava de ouvir, Thrym ergueu-se e pediu silêncio.

 

- Gigantes, amigos e amigas - disse eloquentemente. - Sou hoje o homem mais feliz dos nove mundos. Amo a deusa Freia, aqui presente. Inclinou a cabeça na direcção de Tor, que mordia a língua para evitar dizer qualquer coisa. - E ela está, por sua vez, apaixonada por mini.

 

Os convidados aplaudiram e foi então que Thrym cometeu um erro... Tirou o martelo de Tor do seu esconderijo para impressionar a noiva. Antes que o gigante pudesse perceber o que se estava a passar, Mjollnir foi-lhe arrancado das mãos pela «deusa» que momentos antes fora a sua futura mulher. Mas não se tratava da deusa. Como pudera ser tão cego?

 

Thrym olhou com horror para a barba flamejante, o grande corpo musculoso e para os olhos a brilharem de raiva. Era o próprio Tor!

 

Deve ter sido esse o último pensamento do gigante ladrão antes de o martelo de Tor lhe cair sobre a cabeça com um ruído de ossos esmagados. Então Tor e Loki voltaram-se para os outros convidados e mataram-nos a todos.

 

Desde então, Mjollnir mantém-se nas mãos de Tor, seu legítimo dono, para ser usado na defesa da honra dos deuses e atacar quando o mau génio de Tor se faz sentir.

 

 

O TRUQUE QUE MATOU UM DEUS     

Balder era o mais belo dos deuses. O cabelo dele brilhava corno a luz do Sol e levava a bondade, a felicidade e a sabedoria para onde quer que fosse... até começar a sofrer de pesadelos e a ter medo da morte.

 

Odin e Friga tinham muitos filhos, mas Balder era o preferido de Friga. Balder tinha um irmão gémeo, Hoder, que era cego e, estranhamente, de quem Friga menos gostava.

 

Quando soube dos pesadelos e do receio da morte que atormentavam Balder, Friga decidiu fazer tudo quanto pudesse para o proteger do mal. Percorreu o mundo fazendo com que cada animal, pedra, planta, água e doença prometessem não fazer mal a Balder.

 

Falou com as aves no ar, com os insectos, com as folhas das árvores... e tal era o seu poder como esposa do poderoso Ódin que todos prometeram não causar sequer um arranhão ao seu filho preferido.

 

Todos, excepto um raminho de visco pelo qual Friga passou ao regressar a casa. Exausta da longa viagem, Friga olhou de relance para a pequena planta pensando que mal é que aquele raminho de visco poderia causar a um deus. Achando que a resposta era que não poderia fazer mal algum, seguiu o seu caminho sem lhe pedir que prometesse não molestar Balder.

 

Em breve, correu a notícia de que Balder era indestrutível: que nada poderia magoá-lo ou sequer arranhá-lo, e muito menos matá-lo. E tornou-se um passatempo regular para os outros deuses atirarem coisas a Balder, num local chamado Gladsheim.


Em vez de percorrerem os céus, ou de lutarem com os gigantes, os deuses juntavam-se para atirarem todo o género de coisas a Balder. Machados, flechas, facas e rochas: tudo resvalava sem lhe tocar.

 

Os deuses tinham escolhido Gladsheim para essas brincadeiras porque era um lugar de paz. Isso mostrava que as armas eram arremessadas por brincadeira e não a sério. Balder tornou-se ainda mais popular e deixou de ter pesadelos.

 

De cada vez que era atirado um objecto que não lhe tocava, Balder atirava a cabeça para trás e ria, tão divertido como todos os outros.

 

Certa vez Tor foi a Gladsheim com um enorme rochedo, tão pesado que tinha dificuldade em o levantar... e ele era o mais forte de todos os deuses. Deu um passo em frente e, com um grito, deixou cair a rocha sobre a cabeça de Balder.

 

Se tocasse na cabeça de Balder, a rocha tê-la-ia desfeito, mas cumpriu a promessa feita a Friga e rolou indo cair no solo, junto de Balder, com um estrondo terrível. Tor atirou a cabeça para trás e juntou as suas gargalhadas às de Balder. Era na verdade uma brincadeira divertida!

 

Agora, Balder era ainda mais atraente do que dantes, se isso era possível.

 

O astucioso amigo de Tor, Loki, não achava graça. Estava habituado a ser ele o centro das atenções e sentia inveja de Balder... Por isso planeou a sua queda.

 

- Mas como hei-de lutar com alguém que é indestrutível? - disse para consigo.

 

Se alguém conhecia a resposta a essa pergunta, esse alguém devia ser Friga.

 

Loki disfarçou-se de velha e foi visitar a deusa. Friga não o reconheceu e recebeu-o amistosamente.

 

Quando Loki lhe falou de Balder e de como nada parecia feri-lo, Friga sentiu-se feliz por falar do seu filho preferido. Contou à desconhecida como viajara por todos os cantos do mundo para obter a promessa de que nada lhe faria mal.

 

À medida que o dia ia passando, Friga ia-se tornando cada vez mais faladora. O disfarçado Loki depressa ficou a saber aquilo de que precisava. Friga confidenciou-lhe que apenas um arbusto de visco que crescia a oeste do Valhala nada prometera, o que significava que havia qualquer coisa que poderia, possivelmente, ser capaz de fazer mal a Balder.

 

- Mas como poderia um ramo de visco fazer tal coisa? - exclamou ela, rindo.

 

- Como, na verdade? - concordou Loki.

 

Loki foi à procura do ramo de visco. Quando o descobriu, percebeu que devia ter crescido desde a altura em que Friga o vira. Era agora suficientemente comprido para com ele fazer uma arma útil.

 

Loki arrancou rapidamente as folhas e as bagas e ficou com um caule delgado e fino cuja extremidade ele afiou. Em seguida, voltou para junto dos deuses que se divertiam a atirar coisas a Balder. Nunca se cansavam disso. Era tão divertido ver mesmo a mais pesada das rochas e o mais afiado dos machados saltarem para longe dele sem lhe tocarem! Que lhe poderiam atirar mais?

 

Nesse dia Tor lançou-lhe o seu martelo Mjollnir. Era uma arma que todos receavam. Ninguém sobrevivera depois de ser atingido por ele. Contavam-se histórias sobre um gigante adormecido, chamado Skrymir, ter sido em tempos atingido por Mjollnir e pensar que as pancadas suaves que sentira fossem apenas folhas a cair; mas nesse caso a magia funcionara. Skrymir era, na realidade, o rei gigante Utgard-Loki, e os golpes destinados à cabeça dele eram suficientemente profundos para criarem vales nos montes invisíveis que se interpunham entre a cabeça dele e o martelo de Tor.

 

Mjollnir saltou para se afastar de Balder e foi cair no solo. A assistência aplaudiu, soltando gargalhadas. Entre os deuses estava sentado o irmão gémeo de Balder, o cego Hoder. Embora tomasse parte nas conversas e risse com os outros deuses, não podia divertir-se a ver os objectos serem repelidos pelo corpo do Balder. Loki abriu caminho por entre os deuses e entregou a Hoder, que se encontrava sentado, o comprido e afiado arbusto de visco.

 

- Toma, Hoder - disse. - Podes não ser capaz de ver o resultado, mas podes pelo menos lançar um objecto, como toda a gente. Apoia-te no meu braço para te guiar e atira este pau a Balder.

 

- Obrigado, Loki - disse Hoder.

 

Julgando estar simplesmente a tomar parte num jogo inofensivo, Hoder deixou que Loki guiasse o seu braço e lançou a seta de visco.

 

Como o visco não fizera a promessa feita por todas as outras coisas no mundo, a flecha não se afastou de Balder. A ponta aguçada rasgou a roupa, penetrou-lhe no coração e matou-o.

 

Houve um silêncio de assombro, seguido pelo som de objectos a serem atirados ao solo.

 

- Foste tu que atiraste a seta ao teu irmão gémeo? - perguntou um dos deuses.

 

- Sim, fui eu - declarou Hoder com um sorriso de satisfação. Não fazia ideia do terrível acontecimento que ocorrera. - Tenho a certeza de que Balder não estava à espera disso.

 

- Então não o negas? - perguntou a mulher de Balder, a deusa Nanna.

 

- Claro que não - disse Hoder. - Fui eu que a atirei... - Depois percebeu que havia uma grande angústia na voz de Nanna. - Porquê? Que se passa?

 

- O que se passa é que Balder está morto, e a flecha que o matou foi lançada por ti - disse tristemente Tor.

 

Horrorizado, Hoder explicou o que se passara.

 

- Eu queria tomar parte no jogo e Loki deu-me a flecha e ajudou-me a fazer pontaria. Mais nada... Eu não queria... - A sua voz extinguiu-se.

 

Ao ouvirem o nome de Loki, um grupo de deuses agarrou-o quando ele tentava afastar-se do local onde cometera o seu horrendo crime sem dar nas vistas.

 

- Mesmo sendo teu amigo devia matar-te imediatamente, Loki - disse Tor, pondo-se à frente dele. - Mas Gladsheim é um local de paz, por isso não haverá aqui mais mortes, hoje.

 

Os deuses largaram Loki, que se afastou rapidamente. Sabia que fora longe de mais e que nada havia a fazer agora. Nenhum dos deuses lhe perdoaria o que fizera.

 

Loki saiu de Gladsheim sabendo que a vida nunca mais voltaria a ser o que fora.

 

Enquanto Nanna chorava sobre o corpo do marido morto, com a flecha de visco ainda enterrada no coração, os outros deuses baixaram tristemente as cabeças, pois a lei era bem clara.

 

Embora soubessem que Hoder fora enganado por Loki, a mão do primeiro é que lançara a flecha que matara o deus do Sol e da felicidade. Segundo a lei dos deuses, isso significava que Hoder teria de ser punido, e a sua punição seria a morte.

 

A morte chegou para Hoder. Algum tempo depois, Ódin teve outro filho, Vali. A mãe dessa criança era Rind, uma fria deusa da terra do gelo. Segundo a profecia, Vali vingaria a morte de Balder.

 

Logo que nasceu, Vali começou imediatamente a crescer perante os olhos atónitos da mãe e da parteira. As duas viram com horror o bebé indefeso transformar-se num feroz guerreiro em poucos minutos. Era o homem cuja única missão na vida era realizar a profecia.

           

Na noite em que nasceu, Vali dirigiu-se a Asgard, para a casa de seu pai. Aí matou o seu meio-irmão Hoder, que fora enganado por Loki para matar Balder, seu irmão gémeo. E que arma usou Vali? Uma simples flecha. Alguns dizem que foi feita de um arbusto de visco.

 

Mas que sucedeu a Loki? Quem possa pensar que ele escapou ileso enquanto o inocente Balder morreu, ou quem esteja a imaginar o que terá feito Friga ao saber da morte do seu filho preferido, terá de ter paciência, pois há mais coisas para contar...

 

 

O DESTINO DE BALDER E A QUEDA DE LOKI

O corpo de Balder encontrava-se num grande barco, Ringhorn, e os seus belos objectos pessoais foram colocados em volta dele para a viagem para a vida seguinte. Os deuses encontravam-se à beira da água, com Ódin à frente, com os seus dois corvos, Hugin e Munin, nos ombros, e a sua capa azul ondulando ao vento.

 

Ao lado de Ódin estavam as Valquírias, as lindas mulheres que levavam os guerreiros que morriam em combate para o glorioso Valhala. Como morrera devido ao truque de Loki, essa honra era negada a Balder. Iria começar a sua vida seguinte no Hei, para onde iam aqueles que morriam de doenças, de acidentes, ou de velhice, um local sem honra.

 

Tor andava para trás e para diante na margem, pouco tranquilo com as filas de gigantes que se encontravam ali perto, para prestarem as suas homenagens ao deus morto. Entre esses gigantes viam-se o rei Utgard-Loki, que outrora enganara Tor, e Gerda, mulher de Frey.

 

Ódin avançou, tirou do braço a sua pulseira mágica, Draupnir, e colocou-a no barco. A partir desse dia ela teria um novo poder: de nove em nove noites, verteria lágrimas de ouro pela perda do filho preferido de Ódin, e essas lágrimas transformar-se-iam em oito pulseiras de ouro, cada uma com o tamanho e peso da original.

 

Nessa altura, chegou a giganta Hyrrokkin montada sobre um enorme lobo, servindo-se de duas víboras ondeantes como rédeas. Ao deixar a sua montada, a giganta pediu a alguém para a segurar.

 

Quatro guerreiros vestidos com peles de ursos avançaram rapidamente.

 

Eram guerreiros brutais que nada receavam, que combatiam uns contra os outros com pedregulhos e árvores, como se não tivessem mais nada para lutar.

 

Mas não conseguiram dominar o lobo de Hyrrokkin e ela teve de ir acalmá-lo.

 

A giganta empurrou então Ringhorn para a água. O barco funerário era tão pesado e o ruído que fez ao entrar na água foi tão forte que foi ouvido nos nove mundos, incluindo Niflheim. Hei, a horrenda filha de Loki, ouviu esse ruído e percebeu que Balder, morto por culpa do pai dela, ia a caminho.

 

Antes de o navio se afastar, à luz do crepúsculo, Tor foi a bordo. Ergueu o seu martelo para o céu e gritou as palavras que garantiriam que a viagem de Balder se faria em segurança.

 

Depois baixou o martelo e tocou com ele na pilha funerária feita de madeira seca sobre a qual se encontrava o corpo de Balder. Houve uma chuva de faúlhas. As chamas começaram a lamber o corpo morto e em breve se transformou numa cortina de chamas cor de laranja. Nesse momento, no dia mais triste da história de Asgard, a mulher de Balder, Nanna, não suportou o desgosto e morreu. O corpo dela foi também colocado na pira.

 

Embora o cadáver de Balder se dirigisse para Hei, a deusa Friga esperava ainda ser capaz de salvar o seu filho preferido. Pedira um voluntário que fosse a Niflheim e suplicasse à horrorosa Hei para satisfazer o único desejo de Friga que só ela podia realizar: fazer Balder regressar ao mundo dos vivos.

 

Foi Hermod, mensageiro dos deuses, quem aceitou essa missão. Para apressar a viagem, montou o cavalo de Ódin, com oito pernas, chamado Sleipnir. Teve de atravessar o Gioll, o rio dos mortos, passando sobre uma ponte chamada Giollar, a qual até essa altura nunca fora usada por alguém vivo.

 

Do outro lado, Hermod chegou à entrada de Niflheim, onde foi detido pela odiosa guarda-portão Modgurd.

 

- Ontem passou por aqui todo um exército de mortos e não fizeram tanto barulho como tu! - disse ela. - O que quer dizer que tu estás vivo e nada tens que fazer neste sítio. Que queres?

 

- Vim falar com Hei - explicou. - Para lhe suplicar que reenvie Balder e Nanna para o reino dos vivos.
- Então tens de te apressar - informou Modgurd. - Eles já estão com Hei.

 

Hermod cavalgou velozmente e chegou ao enorme palácio de Hei, onde encontrou Balder e Nanna. Estavam sentados a uma grande mesa.

 

- Nos nove mundos toda a gente chora a morte de Balder - começou a dizer. - Era amado por todos. Não estará certo que lhe devolvas a vida?

 

- Não tenho a certeza de que os mundos o chorem tanto como dizes disse Hei, com o seu corpo podre oculto debaixo da capa. - Se fizeres com que tudo, todos os seres, vivos ou mortos, chorem a morte de Balder, então deixá-los-ei ir a ambos. De outro modo, terão de ficar.

 

Foi essa a mensagem que Hermod levou para Asgard, juntamente com a pulseira de Ódin, Draupnir, que Balder quisera que ele levasse. Ao saber dessa notícia, Friga enviou mensagens para todos os cantos dos mundos, dizendo que deviam chorar a morte do seu filho preferido.

 

Em breve, o som dos soluços enchia os ares. A relva chorava gotas de orvalho. As rochas choravam estalactites. A neve chorava pedacinhos de gelo. Lágrimas de seiva escorriam ao longo das árvores.

 

Até Hei chorou por saber que fora seu pai o causador da morte de Balder e que por isso seria punido. Todos choraram.

 

Todos, excepto uma giganta chamada Thok. Quando um dos mensageiros de Friga a encontrou e lhe disse qual era a sua missão, ela disse:

 

- O filho preferido de Friga nunca fez nada de bom enquanto esteve vivo. Não chorarei por ele. Que fique em Hei, que é onde deve estar.

 

Quando isto se soube não houve qualquer possibilidade de Hei libertar Balder. Mas o pior é que a giganta malévola não era nenhuma giganta, mas sim o malvado Loki disfarçado.

 

Não contente por ter enganado Hoder, levando-o a matar o seu irmão gémeo, Loki negava a Balder uma segunda vida. Não admira que ele tivesse fugido para Midgard, o mundo dos humanos, para se esconder dos deuses. Construiu uma casa no cimo de uma montanha. Tinha uma porta em cada uma das paredes, de modo que pudesse ver em todas as direcções e fugir se visse alguém aproximar-se.

 

Loki escolheu um sítio perto de uma queda-d’água, passando a maior parte do tempo disfarçado de salmão, metido no rio.

 

Em breve, começou a preocupar-se, pois Ódin podia estar sentado no seu trono, Hlidskialf, e vê-lo transformar-se num salmão, ficando a conhecer o seu paradeiro. Nesses tempos, as pessoas apanhavam peixe com as mãos, ou com um gancho ou lança... mas Loki lembrava-se da rede com que apanhara Andvari, aquela que a deusa Ran usava para capturar os marinheiros afogados. E se Ódin enviasse um dos deuses para o apanhar com essa rede?

 

Loki decidiu preparar-se. Faria a sua própria rede, transformar-se-ia num salmão e treinar-se-ia a escapar dela. Desse modo, se um dia tivesse de enfrentar a rede de Ran, saberia como proceder. Correu para casa, arranjou um pedaço de fio forte, sentou-se em frente do lume e começou a fazer uma rede.

 

Sucedeu que nessa mesma manhã Ódin estivera sentado no trono, olhando para os nove mundos, e os seus olhos haviam sido atraídos para Midgard e para uma casa de aspecto estranho... com Loki lá dentro.

 

Ódin ergueu-se de um salto e chamou Tor devido à sua força, e Kvasir pela sua sensatez. Iriam os três procurar Loki e pôr fim às suas traições.

 

Entretanto, Loki, sentado em sua casa e trabalhando na rede, viu pela porta aberta que os três deuses se aproximavam. Quando os viu, atirou a rede meia feita para o lume e saiu a correr por outra porta, no lado oposto da casa.

 

Quase se atirou da montanha abaixo; os seus pés mal tocavam no solo pedregoso enquanto ele corria para a queda-d’água. Quando lá chegou, mergulhou na água gelada, transformou-se num salmão e escondeu-se atrás de uma rocha, no leito do rio.

 

Quando os três deuses entraram em casa de Loki, este há muito que não se encontrava ali, mas o sensato Kvasir dirigiu-se para a lareira. Viu que esta fora recentemente acesa e que alguém atirara algo para as chamas. Apagou-as com os pés e tirou de lá um objecto.

 

- Isto parece-se muito com a rede da deusa Ran - disse para os outros com urna expressão perplexa.

 

- Mas Ran nunca viria para terra e nunca acenderia uma fogueira murmurou Ódin.

 

- Que estranho.

 

- Deixemos isso - disse Tor, impaciente. - Onde está Loki?

 

- Calculo que esteja perto - respondeu Kvasir. - Este pedaço de rede foi atirado recentemente ao lume e, olhem... - Inclinou-se e apanhou um novelo de fio. - Esta rede estava a ser feita... não era uma rede completa.

 

- Para que quereria Loki uma rede? - trovejou Tor. Não queria ficar ali a raciocinar. Queria apanhar Loki e acabar com ele.

 

- E isso! - exclamou subitamente Kvasir. - Loki devia estar a pôr à prova as suas defesas contra nós.

 

- E porque havíamos de lhe atirar uma rede? - perguntou Ódin.

 

- Porque ele se transformou num peixe! - disse Kvasir. - Deve ter ido para o rio, transformar-se em peixe.

 

- O aldrabão que muda de forma! - resmungou Tor. Os três deuses começaram então a fazer uma rede de pesca com o fio que Loki ali deixara.

 

Logo que a rede ficou acabada, os três deuses seguiram ao longo do caminho da montanha, lançaram a rede à água e dragaram o leito do rio. Mas a rede não chegava bem ao fundo e, como Loki estava escondido atrás de uma pedra, a rede voltou à superfície vazia.

 

- Temos de colocar pesos no fundo da rede - lembrou o astuto Kvasir.

 

- Desse modo dragaremos o leito do rio e traremos para cima quem quer que lá se esconda!

 

Prenderam então pesos à rede e dragaram o rio uma segunda vez. No último momento, Loki saltou da água, sobre a rede, subindo a queda-d’água, como os salmões ainda hoje fazem.

 

Tor observava. Tinha a certeza de que o salmão que vira escapar-se era o fugidio Loki... Viu o peixe saltar de novo da queda-d’água para o rio. Da próxima vez apanhá-lo-iam!

 

Ódin e Kvasir meteram a rede na água pela terceira vez. Loki tentou usar de novo o mesmo truque. Quando a rede se aproximou dele, deu um grande salto que o pôs fora da água... indo cair nos braços de Tor, que o apanhou mesmo acima da cauda.

 

De volta à sua forma habitual, Loki foi arrastado, debatendo-se, e levado para uma caverna nas profundezas da montanha.

 

- Agora vais pagar pelos teus truques cruéis e pela morte dos meus dois filhos! - gritou Ódin, cuja voz ecoava no escuro. - Mandei chamar dois dos teus filhos para se juntarem a nós.

 

- O que queres deles? - perguntou Loki, tentando livrar-se das mãos de Tor.

 

- Verás - respondeu lugubremente Ódin.

 

Daí a pouco chegaram os dois filhos de Loki - nenhum deles era Fenris, o lobo, nem Jormungand, a serpente, nem Hei, a deusa da morte -, mas os dois filhos de Loki e de sua esposa, a deusa Sigyn.

 

- Eles não te fizeram qualquer mal - pediu Loki. - Deixa-os ir. Ódin não respondeu, mas tocou num dos filhos de Loki, que se chamava

 

Vali. Este transformou-se imediatamente num lobo que se atirou ao irmão, Narve, fazendo-o em bocados diante do pai. Ódin tirou então as entranhas a Narve e teceu uma corda. Com ela, ele, Kvasir e Tor amarraram Loki a três enormes rochedos.

 

Em seguida, Ódin transformou essa corda em ferro.

 

- Skadi! - gritou para dentro da caverna, e uma enorme giganta da montanha saiu da escuridão, segurando nas mãos uma monstruosa serpente.

 

Sem uma palavra, a giganta prendeu a serpente por cima da cabeça de Loki.


Logo que ficou presa, a serpente deixou cair dos seus colmilhos uma gota de veneno ardente sobre o rosto de Loki. Este gritou de dor.

 

- Ficarás aqui até ao fim do mundo - disse Ódin e, apesar de todas as coisas terríveis que Loki fizera, havia uma certa tristeza na voz do chefe de todos os deuses.

 

Tor fitou-o.

 

- Os teus feitos serão conhecidos para sempre, Loki. Serão contadas histórias sobre a tua malvadez durante mil anos...

 

- E estarás sempre aqui, à mercê do veneno da serpente - acrescentou Kvasir.

 

Quando os três deuses se preparavam para abandonar a caverna, apareceu Sigyn, a mulher de Loki, com uma grande taça nas mãos, que ergueu acima da cabeça dele, para receber o veneno caído das presas da serpente.

 

Sempre que a tigela estava cheia, Sigyn afastava-a para a despejar. Quando, nesse breve momento, uma gota caía sobre a face de Loki, ele gritava tão alto e contorcia-se de tal modo com dores que os seus gritos ecoavam debaixo do solo, provocando tremores de terra.

 

Loki continua ali até Ragnarok, a batalha final. Então, segundo afirmam aqueles que são capazes de ler o futuro, Loki será libertado e erguer-se-á juntamente com seu filho, o lobo Fenris, para combater ao lado dos gigantes contra os deuses de Asgard.

                                                                                          

 

                      

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