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MORTE NA MESOPOTÂNIA / Agatha Christie
MORTE NA MESOPOTÂNIA / Agatha Christie

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MORTE NA MESOPOTÂNIA

 

Preâmbulo do Dr. Giles Reilly

Os fatos cuja crônica se inclui nesta narração ocorreu faz uns quatro anos. Determinadas circunstâncias tornam necessárias, em minha opinião, que se fizesse público um relato íntegro dos acontecimentos. Tem circulado os rumores mais absurdos e ridículos dizendo que se suprimiram provas importantes para o caso e outras tolices desta ordem. Tais interpretações deturpadas da realidade apareceram, principalmente, na imprensa americana.

Por razões óbvias não era aconselhável que o relato não fosse da autoria de nenhum participante da pluma de expedição arqueológica, já que era natural supor que tivesse certos prejuízos sobre a questão.

Em conseqüência, sugeri à senhorita Amy Leatheran que se encarregasse daquele trabalho, pois era a pessoa, no meu entender, mais indicada para isso. Possui uma seriedade  profissional a toda prova, sem se deixar influenciar pela sua ligação anterior com a Expedição da Universidade de Pittstow ao Iraque, além disso, era uma testemunha ocular observadora e inteligente.

Não foi tarefa fácil convencer à senhorita Leatheran. Tenho que confessar que persuadi-la foi uma das dificuldades mais árduas com que me deparei ao longo de minha carreira. E até quando teve o trabalho terminado demonstrou uma curiosa resistência a me deixar ler o manuscrito. Descobri que isso, em parte, era devido, a certas observações críticas que tinha feito relacionadas com minha filha Sheila. Resolvi logo o problema, assegurando-lhe que, já que os filhos se atreviam na atualidade a criticar abertamente a seus pais na imprensa, os pais ficam simplesmente encantados quando os filhos recebem sua parcela de descompostura! Outra objeção, apoiada em uma modéstia extrema a respeito de seu estilo literário. Expressou o desejo de que eu "corrigisse os erros de gramática e tudo o mais". Eu, pelo contrário, me recusei a mudar a mínima palavra. O estilo da senhorita Leatheran é, ao meu ver, vigoroso, pessoal e inteiramente apropriado. Se em algum caso chama Hercule Poirot de "Poirot" num parágrafo, e no seguinte parágrafo o trata de "senhor Poirot", tal variedade é, ao mesmo tempo,  interessante e sugestiva. Se em determinados momentos se preocupa, por assim dizer, em "manter as boas maneiras", (e as enfermeiras de hospital  sempre são defensoras cerradas da etiqueta). Mas, entretanto, em outros momentos seu interesse pelo que está contando é o de um simples ser humano; esquece-se então por completo da touca e dos punhos engomados.

A única coisa que fiz foi tomar a liberdade de escrever uma introdução com a ajuda de uma carta amavelmente cedida por uma amiga da senhorita Leatheran. Visa fornecer uma espécie de ilustração — isto é, traçar o retrato, em linhas gerais, da narradora.

 

                    

 

No saguão do Tigre Palace Hotel em Bagdá uma enfermeira de hospital estava escrevendo uma carta. Sua caneta deslizava velozmente sobre o papel.

"... Bom; acredito que isto é, em resumo, tudo o que tenho que para lhe contar. Confesso que foi ótimo conhecer um pouco de mundo, embora para mim não há nada como a Inglaterra. Não pode imaginar a”sujeira" e a "confusão" que reina aqui no em Bagdá, você precisaria ver para crer. Não tem nada de romântico, como a gente imagina depois de ler As mil e uma noites. As bordas do rio são bonitas, certamente; mas a cidade é horrorosa. Não há nenhuma loja que possa considerar-se como tal. O major Kelsey me levou a dar uma volta pelos bazares, e não nego que são curiosos. Mas neles não há mais que bugigangas e um estrondo terrível, produzido pelas panelas de cobre, que ocasiona, a qualquer um, uma dor de cabeça insuportável. Já sabe que eu não gosto de usar utensílios de cobre, a não ser que me assegure de que estão completamente limpos. Precisa-se tomar muito cuidado com o azinhavre que se cria no cobre.

Mais tarde escreverei, contando se deu certo o emprego de que me falou o doutor Reilly. Ele disse que o tal americano se encontra agora em Bagdá e talvez viesse procurar-me hoje à tarde. É pra sua mulher. O doutor Reilly diz que "tem fantasias". Não acrescentou mais nada, e naturalmente, meu bem, a gente sabe o que isso geralmente significa (só espero que não sofra de delirium tremens!). Como ia contando, o doutor Reilly não acrescentou nada mais, mas me olhou de uma forma... bom, já sabe a que me refiro. O tal de doutor Leidner é arqueólogo e está fazendo umas escavações no deserto para algum  museu americano.

Bem, querida, termino aqui. Aquilo que você me contou a respeito do pequeno Stubbins, achei simplesmente uma bomba!. O que diz a diretora?

Nada mais por agora.

"Tua sempre,

Amy Leatheran

 

Colocou a carta em um envelope e o endereçou-o à Irmã Curshaw, Hospital de São Christopher, Londres.

Quando fechava a tampa da caneta, um funcionário indígena se aproximou.

— Um cavalheiro, o doutor Leidner, deseja vê-la.

A enfermeira Leatheran virou a cabeça e avistou um homem de estatura mediana, ombros ligeiramente caídos; tinha barba castanha e olhos de expressão doce e cansada.

O doutor Leidner, por sua parte, contemplou a uma mulher de uns trinta e dois anos, de porte elegante e seguro. Seu rosto refletia um caráter agradável e bem-humorado, seus olhos azuis eram doces e meio saltados, e possuía uma lustrosa cabeleira castanha. Tinha o aspecto, conforme pensou ele, que se ajustava a uma enfermeira especializada em casos nervosos: alegre, robusta, perspicaz e prática.

A enfermeira Leatheran, na sua opinião, serviria para o caso.

 

Apresentando Amy Leatheran

Não pretendo ser escritora nem conhecer os segredos da literatura. Faço isto simplesmente porque o doutor Reilly me pediu, e é coisa sabida que quando o doutor Reilly pede que se faça alguma coisa, não há maneira de recusar.

— Mas, doutor — disse-lhe; — não sou escritora nem entendo nada disso.

— Tolices — retrucou. — Escreva como se fossem anotações sobre um caso clínico, se quiser.

Pensando bem, é possível encara-los por esse prisma.

O doutor Reilly prosseguiu me dizendo que era necessário que se publicasse uma descrição simples, sem rebuços, do assunto ocorrido no Tell Yarimjah.

— Se for escrita por uma das partes interessadas, ninguém há de acreditar. Diriam que, de um modo ou doutro, os fatos estão destorcidos.

E, naturalmente, também era verdade. Embora tivesse participado de tudo e, no entanto, podia me considerar como uma estranha, por assim dizer.

— E por que o senhor não escreve, doutor? — perguntei.

— Não estava presente quando aconteceu e você sim. Além disso — acrescentou dando um suspiro, — minha filha não me deixaria.

A forma em que se deixava dominar por aquela menina era algo verdadeiramente vergonhoso. Estava a ponto de dizer-lhe isso, quando vi uma expressão maliciosa em seus olhos. Isso é o mau do doutor Reilly. Nunca se sabe se está brincando ou o que. Sempre dizia as coisas com o mesmo jeitão lento e melancólico; mas a metade das vezes se nota em suas palavras certa ironia.

— Bom — disse sem muita confiança. — Talvez eu possa.

— Claro que poderá.

— O que não sei é como começar.

— Para isso existe um bom sistema infalível. Comece pelo princípio e siga adiante até o final e depois pare.

—Mas...  Nem sequer sei com segurança onde e como começou — repliquei.

— Olhe, enfermeira, a dificuldade de começar não vai ser nada comparada com a de saber quando terminar. Ao menos isso é o que me acontece, toda vez que tenho de fazer discurso. Alguém precisa puxar-me pela ponta do fraque, me obrigando a sentar à força..

— Ah, o senhor está brincando, doutor?

— Não posso lhe falar mais a sério. E bem, o que me diz?

Outra coisa me preocupava. Depois de vacilar uns momentos, desabafei:

— Sabe, doutor, eu acho que sou propensa. Temo que algumas vezes... meus comentários sejam muito "pessoais".

— Mas, Por Deus, mulher! quanto mais "pessoais" sejam, muito melhor! É uma historia sobre seres humanos... e não sobre manequins. Personalize, mostre suas preferências, seja fofoqueira... faça o que bem entender! Escreva-o a sua maneira. A gente sempre pode cortar os trechos injuriosos posteriormente antes de publicá-lo. Adiante. Não perca tempo. Você é uma mulher sensata e estou seguro de que nos proporcionará uma descrição fiel e judiciosa do assunto todo.

Assim ficou a coisa, e lhe prometi que me esforçaria ao máximo.

E aqui estou, pronta para começar. Só que, como expliquei ao doutor, é difícil resolver exatamente por onde principiar...

Suponho que deverei dizer algo a respeito de mim. Tenho trinta e dois anos, e me chamo Amy Leatheran. Realizei minha aprendizagem no hospital St. Christopher e logo passei dois anos na maternidade como parteira. Trabalhei também. Um bocado de tempo, particularmente e estive quatro anos na Casa de Saúde de Miss Bendix, no Devonshire Place. Fui ao Iraque acompanhando a uma senhora chamada Kelsey. Cuidei dela quando nasceu sua filha. Ela e o  marido estavam de viagem marcada para Bagdá e já tinham contratado uma enfermeira-pediatra que morava há dois anos naquela cidade em casa de uma família de amigos, cujos filhos retornavam a Inglaterra para estudar e a babá tinha acertado com a senhora Kelsey que entraria a seu serviço quando os meninos partissem. A senhora Kelsey estava ainda debilitada e se preocupava em fazer uma viagem tão longa com uma criança ainda de colo, por isso o Major Kelsey providenciou para que eu a acompanhasse e cuidasse dela e da menina. Minha passagem de volta correria por conta do casal, a menos que encontrássemos  alguém que necessitasse os serviços de uma enfermeira para fazer a viagem de retorno à Inglaterra. Não acredito que seja necessário descrever os Kelsey. O nenê era um encanto e a senhora tinha um caráter muito agradável, embora era das que se inquietam por tudo. Gostei imensamente da viagem. Nunca tinha feito uma travessia tão larga por mar.

O doutor Reilly vinha no mesmo navio. Era um homem de cabelos negros e cara comprida, que dizia as coisas mais divertidas com uma voz baixa e triste. Acredito de que se divertia à minha custa, fazendo as afirmações mais extravagantes só para testar o limite da minha credulidade. Trabalhava como médico cirurgião em um lugar chamado Hassanieh — a um dia e meio de viagem desde o Bagdá.

Eu já me achava há uma semana, mais ou menos, em Bagdá, quando o encontrei e me perguntou a data em que eu deixaria o serviço dos Kelsey. Repliquei-lhe que era curioso que me dissesse aquilo, pois se dava o caso de que o filhos dos Wright, os amigos dos Kelsey a que antes me referi, voltavam para a Inglaterra antes da data prevista e sua enfermeira ficava livre para partir imediatamente.

Confessou-me então que já estava ciente desse fato, e que por isso me tinha perguntado isso.

— Para falar com franqueza, enfermeira, possivelmente lhe possa oferecer um emprego.

— Algum doente?

Contraiu o rosto como se refletisse.

— Não posso dizer que seja, precisamente, um doente. Só se trata de uma senhora que tem... digamos... "fantasias".

— OH! - exclamei.

(A gente, de modo geral, sabe perfeitamente o que significa tal coisa... bebida ou drogas!)

O doutor Reilly não entrou em detalhes. Foi discretíssimo.

— Sim — disse. — Trata-se da senhora Leidner. É a esposa de um americano... mas natural da Suécia, para ser exato. É diretor de uma grande firma americana de  escavações por conta de uma universidade de seu país.

E me explicou que a expedição estava escavando no lugar que tinha ocupado uma grande cidade assíria; algo assim como Nínive. A sede em que viviam os que compunham a expedição não estava realmente muito longe de Hassanieh, mas se achava em um descampado e o doutor Leidner andava há certo tempo preocupado com a saúde de sua esposa.

— Não se mostrou propriamente explícito a respeito disso, mas parece que a senhora tem repetidos acessos de angústia nervosa.

— Ela fica sozinha com os indígenas durante todo o dia? — perguntei.

— Oh, não, há uma porção de gente por lá... uns sete ou oito. Não creio que  jamais fique sozinha na casa. Mas, pelo visto, não há dúvida de que ela criou uma espécie de estado mórbido. Leidner leva sobre si toda responsabilidade do trabalho e, além disso, como está muito apaixonado por sua mulher, e se impressiona de ver o estado em que ela se encontra. Ele achou que estaria muito mais tranqüilo se soubesse que uma pessoa responsável e com experiência no assunto, estivesse tomando conta dela.

— E o que diz a própria senhora Leidner?

O doutor Reilly respondeu gravemente.

— A senhora Leidner é uma pessoa encantadora. Raramente persiste em uma opinião durante mais de dois dias consecutivos. Mas, de modo geral, concorda com a idéia de seu marido. — E acrescentou: — É uma mulher estranha. É afetada em extremo e, conforme acredito, uma mentirosa de marca maior... mas Leidner parece estar convencido de que alguma coisa a assustou terrivelmente.

— O que foi que ela lhe contou, doutor?

— Não foi ela quem veio para ver-me. Não lhe agrado... por várias razões. Foi Leidner quem me propôs o plano. Bem, enfermeira, o que lhe parece à idéia? Conheceria um pouco o país antes de voltar para casa... Continuarão as escavações durante mais dois meses. E a escavação é um trabalho muito interessante.

Depois de uns instantes de hesitação, durante os quais refletia sobre o assunto, respondi:

— Bom. Acredito que não custa nada experimentar.

— Esplêndido — disse o doutor Reilly, levantando-se. — Leidner está agora em Bagdá. Vou pedir que venha procura-la para combinar tudo direitinho.

Naquela mesma tarde o doutor Leidner veio ao hotel. Era um homem de média idade, de gestos nervosos e vacilantes. Havia uma espécie de delicadeza, bondade e até mesmo desamparo em sua atitude. Mostrava-se, pelo visto, parecia estar muito apaixonado por sua esposa; mas foi muito pouco vago a respeito do mal que a afligia.

— Sabe como é... — disse, manuseando-a barba de uma forma que, conforme pude ver mais tarde, era característico nele. — Minha esposa se encontra realmente num estado de uma grande excitação nervosa. Estou... muito preocupado com ela.

— Ela goza de boa saúde física? — perguntei.

— Sim... oh, sim. Isso acredito. Eu diria que seu estado físico não tem nada que ver com a questão. Mas ela... bem... imagina coisas, compreende?

— Que tipo de coisas?

Mas ele, contudo, se esquivou da resposta, limitando-se a murmurar desconcertado:

— Fica toda inquieta por coisas sem importância. Em realidade, não encontro fundamento algum para seus temores.

— Temores do quê, doutor Leidner?

— Oh, apenas... angústia nervosa, sabe como é... — respondeu, vago.

Sou capaz de apostar, pensei, que é viciada em drogas. E ele não se deu conta ainda. Como uma porção de maridos, que quebra a cabeça para atinar por que a esposa anda irritadiça e mudando de disposição a cada momento.

Perguntei-lhe se a senhora Leidner aprovava a idéia de meus serviços. Seu rosto se iluminou.

— Sim. Até me admirei. Levei a maior surpresa. Disse que era uma boa idéia e que se sentiria muito mais segura.

Achei estranha a expressão: "Mais segura." Que palavras estranhas para serem usadas naquela ocasião. Comecei a suspeitar de que o caso da senhora Leidner era assunto apropriado para um alienista. O homem prosseguiu, com uma espécie de desejo juvenil.

— Estou seguro de que você se entenderá muito bem com ela. É uma mulher verdadeiramente encantadora — sorriu com candura. — Acredita que você lhe servirá de grande alívio. Foi o que eu também pensei no primeiro instante que a vi. Se me permite dizê-lo, dá impressão de ser tão esplendidamente saudável e cheia de sensatez. Estou seguro de que é a pessoa indicada para a Louise.

— Bem; não custa tentar, doutor Leidner — repliquei eu alegremente. — Espero pelo menos poder ser útil a sua senhora. Quem sabe ela anda nervosa por causa  dos árabes e a gente de cor?

— Oh, meu Deus, não — sacudiu a cabeça, achando graça da idéia. — A minha mulher gosta muito dos árabes... sabe apreciar sua simplicidade e seu senso de humor. Esta é a segunda vez que vem comigo, pois faz menos de dois anos que nos casamos, e já fala bastante bem o árabe.

Guardei silêncio durante uns momentos e logo fiz uma nova tentativa.

— Não dá para o senhor me explicar melhor o que assusta a sua esposa, doutor Leidner? — perguntei.

O homem vacilou e depois respondeu lentamente:

— Espero... acredito... que ela mesma lhe explique.

E isso foi tudo o que pude conseguir dele.

 

Falatórios

Combinou-se que eu seguiria para Tell Yarimjah na semana seguinte. A senhora Kelsey estava-se acomodando em sua nova casa do Alwiyah, e me alegrei de poder ajudá-la em algo.

Durante aqueles dias tive ocasião de ouvir uma ou dois alusões à expedição do Leidner. Um amigo da senhora Kelsey, um jovem militar, franziu os lábios surpreso e exclamou:

— A "adorável" Louise! Então essa é a última dela! — virou-se para mim: —   Sabe, enfermeira, ela sempre foi conhecida como a "adorável" Louise. Fomos nós que lhe demos o apelido.

— É tão bonita assim? — perguntei.

— A julgar pela opinião que faz de si mesma... Ela acredita que o é!

— Ora John, deixe de maldade — interveio à senhora Kelsey. —Você sabe que não é só ela que pensa assim. Muita gente sucumbiu a seus encantos.

— Talvez você tenha razão. Já está meio madura, mas ainda tem certa atração.

            — Você ficou completamente derrubado — comentou a senhora Kelsey, rindo.

O militar corou e admitiu, um pouco envergonhado:

— Bem, há algo nela que atrai. Quanto a Leidner, venera o próprio chão que ela pisa... e todo o resto da expedição tem que venerá-la também. É uma coisa que se espera deles.

— Quantos são ao todo? — perguntei.

— Muitos e de todas classes e nacionalidades, enfermeira — replicou o jovem alegremente. — Um arquiteto inglês, um padre francês de Cartago... que é o que trabalha decifrando as inscrições, as tabuletas e coisas parecidas, sabe. Depois tem a senhorita Johnson. Também é inglesa e uma espécie de pau-pra-toda-obra, remenda todos os cacarecos que desenterram. Um homenzinho gordinho que faz as fotografias... é americano. E os Mercado. Só Deus sabe de que nacionalidade são... "dagos"  de alguma espécie! Ela até que não é velha... uma criatura com jeito sorrateiro... e, ah!... como odeia a "adorável" Louise! Depois temos dois rapazes que completam o grupo. Formam uma coleção bastante estranha, mas agradável em seu conjunto... não lhe parece, Pennyman?

Dirigiu-se a um homem de bastante idade, que estava sentado pensativo, enquanto girava um pince-nez entre os dedos.

O velho pareceu sobressaltar-se e levantou os olhos.

— Sim... sim... muito agradáveis mesmo. Quer dizer, considerando-os individualmente. Certamente, Mercado parece um sujeito bastante estranho...

— Ele tem uma barba tão estranha! — comentou a senhora Kelsey. — É uma dessas barbas bem ralas, tão estranhas... tão singulares...

O major Pennyman prosseguiu adiante sem fazer caso  da interrupção:

— Os dois jovens são agradáveis. O americano é um pouco calado e o inglês

fala até demais. É curioso, pois em geral acontece o contrário. O próprio Leidner é pra lá de agradável... um homem modesto e nada presunçoso. Sim, individualmente são gente agradável... pra convivência. Mas de qualquer forma, e talvez sejam minhas imaginações, a última vez que fui lá me deu a impressão de que algo não ia bem entre eles. Não sei o que foi exatamente... mas ninguém parecia ser o mesmo. notava-se certa tensão na atmosfera. Talvez vocês me entendam melhor se eu disser que todo mundo alcançavam a manteiga na mesa com excesso de cortesia.

Um tanto ruborizada, pois eu não gosto de manifestar minhas próprias opiniões, lembrei:

— Quando a gente se vê obrigada a conviver por força durante muito tempo, sempre acaba dando nos nervos de todos. Sei por minha experiência própria em hospitais.

— É verdade — disse o maior Kelsey. — Mas a temporada mal começou,  e ainda não houve tempo suficiente para que se produza uma coisa assim.

— O ambiente de uma expedição se parece a uma miniatura da nossa vida aqui — opinou o major Pennyman. — Com suas panelinhas, rivalidades e invejas.

— Ao que consta, este ano há uma porção de gente nova — disse o major Kelsey.

— Vejamos — o jovem militar começou a contar nos dedos. — O jovem Coleman e Reiter são novos. Emmott já esteve aqui no ano passado e os Mercado também. O padre Lavigny é a primeira vez que vem. Veio substituir o doutor Byrd, que este ano está doente. Carey, certamente, é dos veteranos. Veio desde que começou a escavação, faz cinco anos. A senhorita Johnson é quase tão veterana quanto ele.

— Sempre pensei que todos se dessem muito bem em Tell Yarimjah — observou o major Kelsey. — Parecia uma família bem unida... o que é realmente surpreendente quando se tem em conta a fraqueza da natureza humana. Estou seguro de que a enfermeira Leatheran concorda comigo.

— Pois não digo que não! — repliquei. — Já presenciei cada brigas em hospitais cujo motivo não pôde ser coisa mais mínima que uma disputa sobre uma bule de chá...

— Sim, a gente tende a ser mesquinho em qualquer comunidade onde haja um contato muito direto entre seus componentes — observou o major Pennyman. — Mesmo assim, acredito que deve haver algo anormal neste caso. Leidner é um homem tão delicado, tão modesto, com tato realmente excepcional. Sempre conseguiu manter o contentamento e as boas relações mútuas na expedição. Entretanto, o outro dia, notei aquela sensação de tensão.

A senhora Kelsey riu.

— E você não percebe a explicação? Ora, é óbvia!...

— O que quer dizer?

— A senhora Leidner, certamente!

— Vamos, Mary — disse seu marido — É uma mulher encantadora, das que não brigam com ninguém.

— Eu não digo que brigue. Ela é a causa das brigas.

— De que forma? E por quê?

— Por quê? Pois porque está aborrecida. Ela não é arqueóloga, a não ser a mulher de um deles. Aborrece-se privada de quaisquer divertimento e por isso inventa seus próprios dramas. Diverte-se provocando os outros.

— Mary, você não sabe absolutamente nada. Pare de imaginar coisas.

— Claro que estou imaginando! Mas você vai ver como tenho razão. A "adorável" Louise não se parece em nada a Mona Lisa! Talvez ela não queira causar prejuízos, porém gosta de ver sangue .

— Só vive pra Leidner.

— Não digo o contrário. Nem estou sugerindo que existam intrigas vulgares. Mas essa mulher é uma "allumeuse".

— Vocês são tão boazinhas umas com as outras — ironizou o major Kelsey.

— Eu sei. Somos umas gatas, na opinião dos homens. Mas quando se trata de nosso próprio sexo, em geral acertamos.

— Contudo — disse o major Pennyman, pensativo, — mesmo admitindo que as suposições da senhora Kelsey, não sejam injustas creio que não explicam por completo aquela curiosa sensação de tensão... aquela tensão parecida com a que se experimenta antes de uma tormenta. Deu-me a nítida sensação de que o temporal ia desabar de um momento para outro.

— Não assuste a enfermeira — disse à senhora Kelsey —Ela vai pra lá daqui a três dias e desse jeito perderá o ânimo.

— Não se alarme. Não me assusta — respondi, rindo.

Mas apesar disso, pensei muito tempo no que ouvira. Lembrei-me da forma tão peculiar que o doutor Leidner tinha empregado para pronunciar a expressão "mais segura". Seria o temor secreto de sua esposa, talvez desconhecido, que estava contagiando o resto da comitiva? Ou era uma tensão verdadeira (ou, possivelmente de causa desconhecida) que reagia sobre os nervos da senhora Leidner?

Procurei em um dicionário o significado da palavra "allumeuse" que tinha sido usada pela senhora Kelsey, mas não consegui entender seu sentido.

"Bom — pensei — o remédio é esperar para ver o que acontece."

 

 Minha chegada em Hassanieh

Três dias depois saí do Bagdá.

Senti em deixar à senhora Kelsey e o nenê, que estava um encanto e crescia esplendidamente, aumentando de peso toda semana, como convinha. O major Kelsey me acompanhou à estação, demorando-se até o último minuto. Na semana seguinte, eu chegaria a Kirkuk, onde encontraria alguém a me esperar.

Dormi muito mal. Nunca durmo bem quando viajo de trem e aquela noite sonhei muito.

No outro dia, porém, quando olhei pela janela, vi que havia amanhecido um dia esplêndido. Senti-me interessada e curiosa a respeito das pessoas que ia conhecer.

Parada na plataforma me detive indecisa, olhando ao meu redor. Então vi um jovem que vinha na minha direção. Tinha o rosto redondo e rosado. Tenho que confessar, que em toda a minha vida, jamais tinha visto alguém que se parecesse tanto com um dos jovens personagens criado pelo senhor P. G. Wodehouse em seus livros.

— Olá, olá, olá! — disse — É você a enfermeira Leatheran? Bom, quero dizer que deve ser você... é óbvio. Há! Há! Meu nome é Coleman. O doutor Leidner mandou- me esperá-la. Como está se sentindo? Viagem abominável, hem? Então não sei como são trens! Bem, já está aqui... tomou o café da manhã? É esta a sua bagagem? Puxa, você é um bocado modesta, não? A senhora Leidner tem quatro malas e um baú, sem contar uma chapeleira, um almofadão de pele e outras muitas coisas. Estou falando muito? Venha tomar o velho ônibus.

Do lado de fora, à nossa espera, havia um veículo que mais tarde soube que chamavam de camioneta. Lembrava um misto de furgão, caminhão de carga e simples automóvel. Mr. Coleman me ajudou a entrar, explicando que seria aconselhável sentar ao lado do motorista para sentir menos solavancos.

Solavancos! É de admirar que a geringonça inteira não se desfizesse em pedaços! E que estrada!... não passava de uma espécie de trilha, sulcada de buracos. E depois ainda falam das glórias do Oriente! Só de lembrar nossas esplêndidas rodovias, dava saudade da Inglaterra.

O senhor Coleman, curvado para frente no banco de trás, passou o tempo todo gritando em meus ouvidos.

— A trilha está em ótimas condições — berrou, logo após termos sido jogados do assento, quase batendo a cabeça no teto do carro.

E, a julgar pelas aparências, falava com a máxima seriedade.

— É muito bom... estimula o fígado — anunciou. — Você deve saber disso, enfermeira.

— Um fígado estimulado não me vai adiantar de nada se eu ficar com a cabeça rachada — retruquei, cáustica.

— Precisava ver como isso fica depois que chover! As derrapagens são fabulosas! A maior parte do tempo a gente viaja de lado.

Preferi não comentar.

Por fim tivemos de atravessar o rio, o que foi feito na barca mais doida que se possa imaginar. A meu ver, só por milagre alcançamos a outra margem mas todo mundo parecia encarar a façanha com a maior naturalidade.

Levamos cerca de quatro horas para chegar aa Hassanieh,  que, para minha surpresa, era uma localidade bastante grande. Parecia muito bonita, também, vista assim do outro lado do rio — toda branca, uma visão de conto de fadas, cheia de minaretes. Mas depois de cruzar a ponte e entrar na cidade, a coisa mudavas um pouco de figura. O fedor era incrível, e tudo estava periclitante, caindo em ruínas, com lodo e confusão por toda parte.

O senhor Coleman me levou a casa do doutor Reilly, onde, conforme me disse, me esperavam para comer.

O doutor Reilly esteve tão amável como de costume. Sua casa tinha um aspecto ótimo; dispunha de um banheiro e tudo estava limpo e reluzente. Tomei um banho delicioso e quando tornei a vestir o uniforme e desci ao andar térreo, já me sentia muito melhor.

O almoço estava servido e sentamos à mesa, enquanto o médico desculpava-se  da ausência de sua filha, que conforme disse, sempre chegava atrasada.

Acabávamos de tomar um prato muito delicioso de ovos avinagrados, quando entrou uma jovem e o doutor Reilly a apresentou:

— Enfermeira, esta é minha filha Sheila.

Apertou-me a mão, dizendo que esperava que tivesse feito uma boa viagem. Logo tirou o chapéu, acenou friamente com cabeça para o senhor Coleman e sentou-se.

— Então, Bill, como vão as coisas? — perguntou.

Ele se pôs a falar não sei que festa que ia haver no clube eu aproveitei para examina-la melhor.

Confesso que não me agradou muito. Era fria demais para o meu gosto. Tipo um tanto seco, apesar de bonita. Cabelo preto e olhos azuis — com o rosto meio pálido e a costumeira boca pintada. Tinha um jeito calmo e sarcástico de falar que me aborrecia um pouco. Fazia lembrar uma principiante que certa vez orientei — boa trabalhadora, reconheço, mas cujos modos sempre me irritaram.

Fiquei com a impressão de que o senhor Coleman estava caído por ela. De vez em quando gaguejava e sua palestra se tornara ligeiramente mais imbecil do que antes, se possível! Parecia um cachorro grande e idiota, sacudindo o rabo para fazer festa à dona.

Depois do almoço, o Dr. Reilly foi para o hospital, o Sr. Coleman precisava comprar umas coisas na cidade e a senhorita Reilly perguntou se eu queria dar um passeio ou preferia ficar em casa. Disse que o Sr. Coleman estaria de volta para me buscar dentro de uma hora, mais ou menos.

— Há algo para se ver? — indaguei.

— Há uns recantos pitorescos — informou. — Só que não sei se lhe interessariam. São extremamente sujos.

A maneira com que disse isso me exasperou. Nunca fui capaz de achar que o aspecto pitoresco desculpe a sujeira.

Afinal levou-me ao clube, que era bastante simpático, dominando o rio, e onde havia jornais e revistas inglesas.

Quando voltamos para casa, o Sr. Coleman ainda não tinha chegado. Então sentamos e conversamos um pouco. De certo modo, não foi fácil.

Ela me perguntou se eu já entrara em contato com a senhora Leidner.

— Não — respondi. — Apenas com o marido.

— Oh — exclamou. — Como imagina que ela seja?

Conservei-me calada. Ela continuou:

— Gosto muito do Dr. Leidner. Todo mundo gosta, aliás.

O que equivale a dizer, pensei, que antipatizava com a esposa.

Mantive a mesma mudez. Então ela me perguntou abruptamente:

— O que é que ela tem? O Dr. Leidner não lhe contou?

Eu não queria começar com mexericos sobre uma paciente antes mesmo de conhece-la, por isso respondi de forma evasiva:

— Ouvi dizer que está um pouco enfraquecida e necessita de cuidados.

Soltou uma risada — que me soou malévola — seca e abrupta.

— Santo Deus — disse. — Será que nove pessoas pra cuidar dela não bastam?

— Suponho que todas vivam ocupadas — retruquei.

— Ocupadas? Claro que sim. Mas Louise recebe tratamento prioritário... ela se encarrega disso, não tenha receio.

É, disse comigo mesma. Você não gosta dela.

— Em todo caso — prosseguiu a senhorita Reilly, — não sei o que ela quer com uma enfermeira profissional. Eu julgava que a assistência leiga estivesse mais de acordo com sua linha; não alguém que lhe ponha o termômetro na boca, tome o pulso e devolva-lhe o sentido da realidade.

Bom, confesso que fiquei curiosa.

— Acha então que ela não está doente? - perguntei

— Evidente que não! A mulher é mais forte que um touro. “Coitada da Louise, não dormiu nada.” “Está com cada olheira.” Pudera... pintadas a lápis azul! Tudo para chamar atenção, para botar todo mundo a seus pés, fazendo estardalhaço por causa dela!

Não deixava de ter certa lógica, claro. Já encontrei (como qualquer enfermeira) muitos casos de hipocondríacos que se divertem em manter a família inteira dançando a sua disposição. E vá um médico ou uma enfermeira dizer: — “Você não sofre de coisíssima nenhuma!” para ver o que acontece. Em primeiro lugar, não acreditam. E ficam tomados de uma indignação tão grande que até parece verdadeira.

Naturalmente, era possível que a senhora Leidner fosse um caso desse gênero. O marido, é lógico, seria o primeiro a cair na esparrela. Em matéria de doença, como já tive oportunidade de constatar, os maridos são uma raça de crédulos. No entanto, mesmo assim, não encaixava lá muito bem com o que eu ouvira dizer. Não combinava, por exemplo, com aquela expressão mais segura.

Engraçado como se gravara, por assim dizer, em minha memória.

Refletindo sobre isso, perguntei:

— A senhora Leidner é nervosa? Anda inquieta, por exemplo, por viver longe da civilização?

— Por que haveria de andar? Deus do céu, moram dez pessoas naquela casa! E também têm guardas... por causa das antiguidades. Oh, não, ela não é nervosa... ao menos...

Pareceu surpreendida por alguma idéia e parou — continuando lentamente ao cabo de poucos instantes:

— Que engraçado você perguntar isso.

— Por quê?

— O Tenente Jervis e eu fomos até lá outro dia. Era de manhã. Quase todo mundo estava nas escavações. Ela escrevia uma carta e creio que não nos ouviu chegar. O garoto encarregado de anunciar as visitas, para variar, não se achava por perto, e nos encaminhamos diretamente à varanda. Aparentemente ela enxergou a sombra do Tenente Jervis contra a parede... e soltou um berro! Pediu desculpas, lógico. Disse que julgou que fosse um desconhecido. O que é um pouco esquisito. Isto é, ainda que se tratasse de um desconhecido, pra que tanto pânico?

Acenei com a cabeça, pensativa.

A senhorita Reilly calou-se; depois, de repente, desabafou:

— Sei lá o que há com eles este ano. Todo mundo parece andar com os nervos em ponto de bala. Johnson anda tão carrancuda que nem sequer abre a boca. David para pra não falar. Bill, naturalmente, foi vacinado com agulha de vitrola, e de certo modo a tagarelice dele só serve pra piorar a situação. Carey faz uma cara que a gente diria que algo está por acontecer a qualquer hora. E todos se olham como se... como se... Oh, não sei, mas é esquisito.

Era estranho, pensei, que duas pessoas tão diferentes como a senhorita Reilly e o Major Pennyman tivessem experimentado a mesma sensação.

Foi então que o senhor Coleman entrou, tomado do maior alvoroço. Alvoroço é bem o termo. Se viesse de língua de fora e súbito mostrasse um rabo para sacudir, ninguém se admiraria.

— Olá, olá, olá — disse. — Sem sombra de dúvida, sou o melhor sujeito pra fazer compras neste mundo. Já mostrou à enfermeira as belezas da cidade?

— Ela não se impressionou — replicou a senhorita Reilly, sarcástica.

— Pudera — concordou o senhor Coleman com ardor. — Um lugarejo de última classe, caindo aos pedaços!

 — Você não se entusiasma por coisas pitorescas ou antigas, não é, Bill? Não sei pó que se tornou arqueólogo.

— Não me jogue a culpa. O culpado é o meu tutor, todo metido a erudito... membro do conselho da universidade... passa o tempo inteirinho de chinelos, no meio de livros... vocês conhecem o gênero. Levou um choque danado com um pupilo que nem eu.

— Acho que você foi tremendamente burro em se dedicar à força a uma profissão que não lhe interessa — declarou a moça com rispidez.

— A força não, Sheila. À força não. O velho perguntou se eu tinha alguma profissão em vista; respondi que não e ele então arranjou uma temporada aqui para mim.

— Mas não é possível que você não tenha a mínima idéia do que gostaria de fazer! Tem de ter!

— Claro que tenho. Minha idéia é não trabalhar de jeito nenhum. O que eu gostaria de fazer é dispor de dinheiro à beca e me dedicar às corridas de automobilismo.

— Que absurdo! — protestou a senhorita Reilly.

Parecia irritada mesmo.

— Oh, eu compreendo que isso é totalmente impossível — concordou o senhor Coleman todo alegre. — Portanto, já que preciso fazer alguma coisa, pouco me interessa o que seja, desde que não fique dando duro o dia inteiro num escritório. A idéia de correr mundo até que me seduziu. “Lá me vou eu”, disse, e cá estou.

— Só imagino como você deve ser competente!

— Pois se engana. Posso levantar-me nas escavações e gritar “Y’Allah” junto com o resto da turma! E já que tocou no assunto, não sou tão ruim assim no desenho. Imitar caligrafia sempre foi minha especialidade no colégio. Podia ter sido um falsificador de primeira ordem. Paciência, talvez ainda haja oportunidade. Se meu Rolls-Royce salpicar você de lama em algum ponto de ônibus, você saberá que optei pelo crime.

— Não acha que já é tempo de se mexer em vez de ficar aí falando feito uma matraca? — retrucou a senhorita Reilly friamente.

— Como somos hospitaleiros, hem, enfermeira?

— Tenho certeza de que a senhorita Leatheran está ansiosa pra se acomodar.

— Você tem sempre certeza de tudo — replicou o senhor Coleman com um sorriso.

E não se enganava, pensei. Cadelinha presumida.

— Talvez fosse melhor a gente ir andando, senhor Coleman — sugeri secamente.

— Tem razão, enfermeira.

Apertei a mão da senhorita Reilly, agradeci-lhe e fomos embora.

— A Sheila é bonita pra burro — disse o senhor Coleman. — Mas passa o tempo todo bronqueando com a gente.

O carro saiu da cidade e finalmente enveredou por uma espécie de senda entre plantações verdes. Era cheia de raízes e os solavancos recomeçaram.

Ao cabo de meia hora, mais ou menos, o senhor Coleman apontou para uma elevação à margem do rio à nossa frente,

— Tell Yarimjah — anunciou.

Pude enxergar figurinhas pretas caminhando de um lado para outro que nem formigas.

Enquanto eu observava, de repente todas começaram a descer correndo a elevação.

— Hora de largar — informou o senhor Coleman. — Terminou o serviço. Paramos uma hora antes do pôr-do-sol.

A sede da expedição ficava um pouco afastada da margem.

O motorista fez uma curva e entrou, batendo numa arcada estreita demais. Tínhamos chegado.

O prédio era uma construção ao redor de um pátio. A princípio ocupava apenas a ala sul, com um punhado de dependências secundárias na parte leste. A expedição completara a construção nos dois outros lados. Como mais tarde a planta da casa terá interesse especial, tracei um esboço aproximado.

Todas as peças comunicavam com o pátio, a exemplo da maioria das janelas — com exceção da ala sul primitiva, onde abriam também para o campo lá fora. Estas últimas, porém, tinham grades. No canto sudoeste havia uma escada para o terraço que, revestido do parapeito, cobria toda a ala sul, mais alta do que as outras três.

Segui o senhor Coleman ao longo da parte leste do pátio, passando por uma grande varanda ao ar livre que ocupava o centro da ala sul. Ele abriu uma porta lateral e entramos numa sala onde várias pessoas se achavam sentadas em torno de uma mesa, tomando chá.

— Oba, pessoal! — saudou o senhor Coleman. — Cá está Florence Nightingale.

A mulher que ocupava a cabeceira da mesa se levantou e me veio acolher.

Via-me, pela primeira vez, diante de Louise Leidner.

 

Tell Yarimjah

Não era nada do que eu havia imaginado! Para começar, tinha o cabelo louro. Não era sueca, que nem o marido, mas a julgar pelas aparências, até que podia ser. Possuía aquela alvura nórdica que não se encontra com muita freqüência. Não devia ser moça. Entre os trinta e quarenta, eu diria. O rosto era um pouco macilento e já havia fios grisalhos naquela cabeça dourada. Os olhos, porém, eram lindíssimos. Foram os únicos olhos que encontrei até hoje que pude afirmar que fossem realmente lilases. Eram enormes, com ligeiras sombras por baixo. Magérrima e de aspecto frágil, se eu disser que causava a impressão de extremo cansaço e, ao mesmo tempo, intensa vivacidade, talvez pareça incongruência — mas foi essa a sensação que senti. Percebi, também, que ali estava uma dama da cabeça aos pés. O que sempre significa algo — mesmo hoje em dia.

Estendeu a mão para mim e sorriu. Falava baixo, com delicadeza e leve sotaque americano.

— Estou tão contente com sua vinda, enfermeira. Não quer tomar chá? Ou prefere antes ver seu quarto?

Aceitei o chá e ela me apresentou às pessoas em volta da mesa.

— Esta é a senhorita Johnson... e o senhor Reiter, senhora Mercado, senhor Emmott. O Padre Lavigny. Meu marido não demora a chegar. Sente-se aqui, entre o Padre Lavigny e a senhorita Johnson.

Fiz como pedia e a senhorita Johnson começou a falar comigo, perguntando sobre a viagem e assim por diante.

Simpatizei com ela. Lembrava uma superintendente dos meus tempos de principiante, que nós todas admirávamos e para quem tínhamos prazer em trabalhar com afinco.

Pelos meus cálculos, devia andar perto de cinqüenta anos, de aparência francamente masculina, o cabelo grisalho cortado bem curto. Apesar de meio grossa e abrupta, a voz era agradável. Tinha a cara feia, tosca, um nariz arrebitado quase cômico, que costumava esfregar irritada quando alguma coisa a aborrecia ou desconcertava. Vestia um costume de mescla, acentuando ainda mais o aspecto varonil. Terminou dizendo que nascera em Yorkshire.

O Padre Lavigny me pareceu um pouco assustador. Alto, de vasta barba preta, usava pince-nez. Eu ouvira a senhora Kelsey comentar que ali havia um monge francês, e então percebi que trajava hábito, de tecido de lã branco. Fiquei bastante admirada, pois sempre imaginei que depois de entrar para o mosteiro não se saísse nunca mais.

A senhora Leidner falava-lhe quase só em francês mas ele se dirigiu a mim num inglês até aceitável. Notei que tinha o olhar arguto, observador, que analisava tudo rapidamente.

Os outros três se achavam à minha frente, o senhor Reiter, um rapaz forte, de óculos e basta cabeleira loura ondulada, tinha olhos azuis muito redondos. Acho que em criança devia ter sido uma graça, da qual hoje, porém, nada restava! De fato, lembrava mais um porquinho. O rapaz usava o cabelo à escovinha. De cara afunilada, meio engraçada, possuía bela dentadura e ficava muito atraente quando sorria. Entretanto falava pouco, limitando-se a sacudir a cabeça ou responder por monossílabos quando se dirigiam a ele. Tal como o senhor Reiter, era americano. Por último, havia à senhora Mercado. Não pude vê-la direito, porque cada vez que tentava faze-lo eu a surpreendia me encarando, numa espécie de curiosidade embaraçosa, para usar de um eufemismo. Do jeito que procedia, dir-se-ia que as enfermeiras de hospital constituíssem uma fauna de animais exóticos. Que criatura mal-educada!

Bastante moça — não teria mais de vinte e cinco anos, — de tez morena e ar sorrateiro, se é que me faço entender, era, de certo modo, até bonita, mas tendendo para o que mamãe costumava chamar “sobre o amulatado”. Estava com um suéter espalhafatoso, combinando com a cor das unhas. Tinha rosto estreito, lembrando um pássaro, ávido, de olhos grandes e boca de lábios finos, desconfiados

O chá — uma ótima mistura, bem forte — era excelente, nada parecido com a infusão que a senhora Kelsey sempre fazia e que representara um autêntico flagelo para mim.

Havia torradas, geléia, um prato de pãezinhos açucarados e fatias de bolo. O senhor Emmot, cheio de solicitude, foi-me alcançando tudo. Apesar de sua discrição, sempre dava mostras de notar quando meu prato ficava vazio.

Por fim o senhor Coleman voltou, fazendo o rebuliço de costume, ocupando o lugar ao lado da senhorita Johnson. Não parecia haver nenhum problema com os nervos dele. Falava sem parar.

Lá pelas tantas a senhora Leidner deu um suspiro e lançou-lhe um olhar irritado mas que não surtiu o mínimo efeito. Como tampouco o fato de que a senhora Mercado, alvo de maior parte de sua conversação, estivesse excessivamente interessada em me observar para que lhe pudesse dar mais que respostas maquinais.

No momento em que terminávamos, o Dr. Leidner e o senhor Mercado chegaram das escavações.

O primeiro me cumprimentou com a delicadeza habitual. Reparei que seus olhos procuraram logo, ansiosos, o rosto da esposa, parecendo aliviados com o que viram. Depois se sentou na outra ponta da mesa, e o senhor Mercado ocupou o lugar deixado vago pela senhor Leidner. Era alto, magro, taciturno, bastante mais velho que a cara-metade, de tez pálida e com uma barba rala, esquisita, pouco estética. Fiquei contente com sua chegada, pois assim a esposa parou de me encarar, transferindo a atenção para ele, observando-o com uma espécie de inquietude que achei um tanto bizarra. O senhor Mercado mexeu o chá, distraído, e não pronunciou uma só palavra. Nem sequer tocou na fatia de bolo que tinha no prato.

Sobrava ainda um lugar, e finalmente a porta se abriu e entrou um homem.

No momento em que vi Richard Carey, achei que era um dos homens mais bonitos que havia visto em toda a minha vida — e no entanto duvido que fosse realmente assim. Dizer que um homem é bonito e, ao mesmo tempo, dizer que se parece com uma caveira implica em cair em flagrante contradição, e contudo era fato. A cabeça dava impressão de ter a pele excepcionalmente esticada sobre os ossos — mas eram ossos perfeitos. O contorno descarnado do queixo, fronte e testa apresentava um delineamento tão nítido que lembrava uma estátua de bronze. Nesse semblante magro e tisnado de sol brilhavam os dois olhos mais intensamente azuis que jamais encontrei. Devia ter cerca de um metro e oitenta de altura e, segundo calculo, pouco menos de quarenta anos.

— Este é o senhor Carey — disse o Dr. Leidner, — o nosso arquiteto, enfermeira.

Ele murmurou qualquer coisa numa voz inglesa, simpática e inaudível, e sentou do lado da senhora Mercado.

— Receio que o chá esteja um pouco frio, senhor Carey — avisou à senhora Leidner.

— Oh, não tem importância, senhora Leidner — retrucou ele. — A culpa é minha por chegar tarde. Eu queria terminar de traçar aqueles muros.

— Geléia, senhor Carey? — ofereceu a senhora Mercado.

O senhor Reiter alcançou as torradas.

Então me lembrei da frase do major Pennyman. “Talvez vocês me entendam melhor se eu disser que todo mundo alcançava a manteiga na mesa com excesso de delicadeza.”

Sim, aquilo era um pouco esquisito. Com um quê de cerimonioso. Dir-se-ia uma reunião de estranhos — não de pessoas que se conheciam — algumas até de longa data.

 

A primeira noite

            Depois do chá, a senhora Leidner me levou ao quarto que me fora reservado.

Talvez seja melhor eu fazer aqui uma breve descrição da disposição da casa. Muito simples, pode ser perfeitamente compreendida com uma rápida consulta à planta que tracei.

A ampla varanda descoberta possuía, de cada lado, uma porta que comunicava com as duas salas principais. A da direita, onde tínhamos tomado chá, servia para refeições. A da esquerda, réplica exata da anterior e usada como living, funcionava também como uma espécie de oficina sem caráter oficial — isto é, fazia-se ali certa quantidade de desenho (diverso do estritamente arquitetônico) e guardavam-se objetos de cerâmica mais delicados, para restauração posterior. Por lá se entrava no depósito de antiguidades, recanto dos achados das escavações, espalhados por prateleiras, escaninhos e em cima de longos bancos e mesas. A única saída era pelo living.

Do outro lado do depósito de antiguidades achava-se o dormitório da senhora Leidner, cuja porta, porém, comunicava diretamente com o pátio interno. A exemplo das demais dependências dessa ala do prédio, tinha duas janelas gradeadas que abriam para o campo cultivado, lá fora. Contíguo ao quarto da senhora Leidner, mas sem nenhum meio de comunicação direto, ficava o quarto do doutor Leidner, o primeiro da parte leste da construção. A seguir vinha o meu. Depois, pela ordem, os da senhorita Johnson, do senhor e senhora Mercado, até chegar, finalmente, nos dois pretensos banheiros.

(Quando usei, certa vez, o termo na presença do Dr. Reilly, ele caiu na risada, dizendo que banheiro para ser digno do nome tinha que ser de fato banheiro! Seja como for, depois que a gente se acostuma com torneiras e encanamentos civilizados, parece estranho chamar dois cubículos com chão de barro e tinas de zinco, aonde a água é trazida em latas de querosene, de banheiros!)

Esse lado todo do prédio constituía uma ampliação, feita pelo Dr. Leidner, da planta árabe primitiva. Os dormitórios eram todos idênticos, cada um com porta e janela que davam para o pátio.

Na ala norte situavam-se a sala de desenho, o laboratório e o departamento de fotografias.

Para voltar à varanda, a disposição das peças do lado oposto era praticamente a mesma. Havia a sala de refeições, ligando com o escritório, onde se conservavam os arquivos e procedia-se a catalogação e datilografia. Ao Padre Lavigny coubera o maior dormitório, correspondente ao ocupado pela senhor Leidner, usava-o para decifrar — não sei bem se é assim que se diz — as placas.

No canto sudoeste ficava a escada que conduzia ao terraço. Na ala oeste vinham, primeiro a cozinha, depois quatro quartos pequenos, destinados aos solteiros: Carey, Reiter e Coleman.

Na extremidade noroeste localizava-se o departamento fotográfico, com quarto escuro ao lado. Vizinho e contíguo à única via de acesso — a arcada alta por onde tínhamos entrado — estava o laboratório. No exterior achavam-se as dependências dos empregados indígenas, a casa de guarda dos soldados e cocheiras etc., para os animais. A sala  de desenho, à direita da arcada, ocupava o resto da ala norte.

Descrevo minuciosamente a distribuição das peças para não ser obrigada a repetir tudo mais tarde.

Como ia dizendo, a senhora Leidner se incumbiu de me mostrar o caminho, deixando-me, finalmente, em meu quarto, fazendo votos para que me encontrasse à vontade e com tudo de que precisasse.

O quarto, embora sucinto, continha os móveis essenciais: cama, cômoda, lavatório e cadeira.

— Os garotos trarão água quente antes do almoço e do jantar... e pela manhã, naturalmente. A qualquer outra hora que quiser, basta sair no pátio, bater palmas e, quando um deles aparecer, pedir “Jib mai’ har”. Acha que se vai lembrar?

Eu disse que achava que sim, repetindo a frase de maneira meio titubeante.

— Isso mesmo. E grite com força. Os árabes nunca entendem nada do que a gente fala num tom inglês normal.

— Que coisa engraçada, as línguas — comentei. — Parece incrível que haja uma porção, tão diferentes.

A senhora Leidner sorriu.

— Há uma igreja na Palestina onde se vê o Padre-Nosso escrito em... acho que noventa... idiomas diferentes.

— Puxa! — exclamei. — Preciso escrever pra contar isso pra minha tia. Ela vai achar fantástico.

A senhora Leidner ajeitou distraidamente a jarra na bacia e mudou um pouco a posição da saboneteira.

— Tomara que se sinta contente aqui — disse. — E não se entedie muito.

— Em geral isso não me acontece — tranqüilizei-a. — A vida não é suficientemente longa pra tanto.

Não respondeu. Continuou a brincar com o lavatório, como se estivesse no mundo da lua.

De repente fixou os olhos azul-turquesa em meu rosto.

— O que foi exatamente que meu marido lhe disse, enfermeira?

Ora, uma pergunta desse gênero quase sempre obtém o mesmo tipo de resposta.

— Eu entendi que a senhora estava um pouco abatida e tudo o mais, senhora Leidner — repliquei, desenvolta. — E que apenas necessitava de alguém que cuidasse de si, livrando-a de preocupações.

Ela baixou devagar a cabeça, pensativa.

— É — disse. — É... acho que está muito bem.

Havia naquilo qualquer coisa de enigmático, mas não seria eu quem havia de insistir com perguntas. Preferi acrescentar:

— Espero que me deixe ajuda-la em tudo que tiver pra fazer em casa. Não gosto de ficar ociosa.

Sorriu um pouco.

— Obrigada, enfermeira.

Depois sentou na cama e, um pouco para minha surpresa, começou a me interrogar com bastante firmeza. Digo um pouco para minha surpresa porque, desde o primeiro instante em que a vi, tive certeza de que a senhora Leidner era uma dama. E uma dama, eu sabia por experiência, raramente mostra curiosidade pelos problemas íntimos alheios.

A senhora Leidner, porém, parecia ansiosa em conhecer tudo o que se relacionasse comigo. Onde e há quanto tempo estudara. O que me tinha levado ao Oriente. Como se explicava que o Dr. Reilly me houvesse recomendado. Chegou a perguntar se já estivera na América ou se possuía qualquer tipo de relações naquele país. Mais tarde percebi o significado de uma ou duas questões que me colocou e que na hora me pareceram totalmente descabidas.

Depois, repentinamente, mudou de conduta. Sorriu — um sorriso cálido, radiante — e declarou, da maneira mais cativante, que estava muito contente com minha vinda e que tinha certeza de que eu seria um consolo para ela.

Ergueu-se da cama e convidou:

— Não quer subir ao terraço pra ver o crepúsculo? Há esta hora em geral é uma beleza.

Acedi de bom grado.

Ao sairmos do quarto, perguntou:

— Havia muita gente no trem de Bagdá? Algum homem?

Respondi que não reparara em ninguém de modo especial. Na noite anterior encontrara dois franceses no carro-restaurante. E uma comitiva de três sujeitos que, segundo deduzi pela conversa, tinha qualquer coisa a ver com o oleoduto.

Acenou com a cabeça, deixando escapar um som quase imperceptível, semelhante a um leve suspiro de alívio.

Subimos juntas ao terraço.

A senhora Mercado estava lá, sentada no parapeito, enquanto o Dr. Leidner, debruçado, examinava uma porção de pedras e cerâmicas partidas, dispostas em fila. Havia peças grandes que ele chamava de mós, e pilões, celtes e machados, e outros pedaços de olaria recobertos de desenhos esquisitos, uma quantidade como eu jamais tinha visto reunida de uma só vez.

— Venham pra cá — gritou à senhora Mercado. — Não é mesmo bonito demais?

O crepúsculo, sem dúvida, era belo. À distância, Hassanieh lembrava uma terra de sonho com o sol poente ao fundo, e o Tigre deslizando entre as largas margens parecia mais uma visão do que a realidade.

— Não é uma maravilha, Eric? — exclamou à senhora Leidner.

O doutor levantou os olhos distraídos e murmurou:

— Sim, de fato, de fato.

E com esse comentário, perfunctório, continuou separando os cacos.

A senhora Leidner sorriu.

— Os arqueólogos vêem apenas o que está debaixo dos seus pés. O céu e o firmamento pra eles não existem.

A senhora Mercado abafou um risinho.

— Oh, são tão esquisitos... você vai ver, enfermeira — fez uma pausa e depois acrescentou: — Estamos todos tão contentes com sua vinda. Andávamos preocupadíssimos por causa de nossa querida senhora Leidner, não é mesmo, Louise?

— Verdade? Não percebi entusiasmo em sua voz.

— Oh, sim. Ela esteve de fato bem mal, enfermeira. Tudo quanto foi espécie de pânico e fantasias. Sabe, quando me dizem de alguém, “É apenas nervos”, sempre respondo: — “Mas o que pode ser pior?” São os que temos de mais vital, não é?

Olha essas garras, pensei com meus botões.

— Pois não precisam preocupar-se mais comigo, Marie. A enfermeira vai cuidar de mim — retrucou à senhora Leidner, sarcástica.

— Naturalmente que vou — afirmei, toda alegre.

— Então estou certa de que tudo vai melhorar — disse à senhora Mercado. — Todos nós achamos que devia procurar um médico ou fazer alguma coisa. Seus nervos ficaram realmente em pedaços, não foi, minha cara Louise?

— A tal ponto que parece que acabou afetando os de vocês — respondeu à senhora Leidner. — Não há outro assunto mais interessante pra falar do que os meus malditos achaques?

Verifiquei então que a senhora Leidner era o tipo de pessoa que facilmente cria inimizades. Havia uma acidez glacial em seu tom (não que eu a censurasse por isso) que provocou rubor nas faces um tanto lívidas da senhora Mercado. Tentou gaguejar qualquer coisa mas a senhora Leidner já se levantara e fora se reunir ao marido no outro lado do terraço. Duvido que ele tivesse ouvido seus passos antes que ela colocasse a mão em seu ombro; aí ergueu logo o rosto, revelando afeição e uma espécie de interrogação ansiosa na fisionomia.

A senhora Leidner acenou de leve a cabeça. Depois, de braços dados, caminharam até o parapeito e finalmente desceram a escada lado a lado.

— Como ele cuida dela, não é? — comentou a senhora Mercado.

— É — concordei. Dá gosto ver.

Ela ficou me olhando de um jeito esquisito, com certa avidez, de soslaio.

— Na sua opinião, o que é mesmo que ela tem, hem, enfermeira? — indagou, abaixando um pouco a voz.

— Oh, não creio que seja nada de grave — respondi, muito animada. — Apenas anda meio cansada, no máximo.

Os olhos dela, tal como na hora do chá, não se desviavam de mim.

— Você trata de doentes mentais? — perguntou abruptamente.

— Oh, não, Santo Deus! — exclamei. — O que levou a senhora a pensar nisso?

Conservou-se calada um instante e depois disse:

— Sabe até que ponto ela andou esquisita? O Dr. Leidner não lhe contou?

Não suporto falatórios sobre os meus casos. Aliás, por experiência, sei que geralmente é muito difícil descobrir a verdade através de parentes, e até descobri-la trabalha-se quase sempre no escuro, sem adiantar nada. Claro, quando há um médico no meio as coisas mudam de figura. Ele dá as instruções necessárias. Mas nesse caso não havia nada disso. O Dr. Reilly não fora consultado em caráter profissional. E eu não tinha a firme certeza de que o Dr. Leidner me tivesse revelado tudo o que sabia. Muitas vezes o instinto conjugal ensina a ser reticente — atitude sempre elogiável num marido. Mas mesmo assim, quanto mais eu soubesse, mais segura estaria sobre a linha a adotar. A Sra. Mercado (que logo classifiquei de gata totalmente rancorosa) estava, era óbvio, louca de vontade de falar. E, para ser franca, tanto sob o aspecto humano como profissional, eu queria ouvir o que ela tinha a dizer. Creio que minha curiosidade pode ser considerada, até certo ponto, natural.

— Pelo que entendi, a Sra. Leidner não se tem portado de modo muito normal ultimamente, não é? — perguntei.

A Sra. Mercado soltou uma risada antipática.

— Normal? Pois sim. Deixou-nos mortos de medo. Uma noite eram dedos batendo na janela do quarto dela. Depois foi uma mão, que não tinha braço. Mas quando chegou a um rosto amarelo, comprimido contra a vidraça... e então ela se aproximou correndo, pra ver quem era, e não havia mais ninguém... olhe, eu lhe garanto, o negócio ficou um pouco tétrico demais.

— Talvez alguém quisesse pregar-lhe uma peça — sugeri.

— Que nada, pura imaginação. E três dias atrás, na hora do jantar, começaram a disparar tiros na aldeia... a mais de um quilômetro de distância... pois ela deu um pulo e se pôs a gritar... todos se apavoraram. E quanto ao Dr. Leidner, correu pra ela e se comportou de forma ridícula. “Não foi nada, meu bem, não é absolutamente nada”, repetia a cada instante. Eu acho, sabe, enfermeira, que os homens às vezes estimulam as mulheres a ter essas fantasias histéricas. Pena, porque é uma coisa prejudicial. Não deviam alimentar ilusões.

— Quando são ilusões — frisei, mordaz.

— Que mais podiam ser?

Não retruquei porque não sabia o que dizer. Era um negócio engraçado. Os tiros e os gritos pareciam bastante naturais — para alguém que andasse nervoso, bem entendido. Porém essa história esquisita de um rosto e uma mão fantasmagóricos já era diferente. Tive a impressão de que só restavam duas alternativas — ou a Sra. Leidner inventara tudo (tal como a criança que se exibe contando mentiras sobre o que nunca aconteceu só para se transformar no centro das atrações) ou então, como eu tinha sugerido, tratava-se de um trote deliberado que lhe queriam pregar. O tipo do troço, raciocinei, que um rapaz cheio de vitalidade mas sem imaginação, assim como o Sr. Coleman, seria capaz de achar muito engraçado. Decidi observa-lo cuidadosamente. Os pacientes nervosos levam sustos tremendos por causa de brincadeiras idiotas.

— Ela tem um ar tão romântico, não lhe parece, enfermeira? — disse a Sra. Mercado, me olhando de esguelha. — A espécie de mulher pra quem acontecem coisas.

— Já lhe aconteceram muitas? – perguntei.

— Bom, o primeiro marido morreu na guerra, quando tinha apenas vinte anos. Acho isso tão patético e romântico, não concorda?

— É uma maneira de dourar a realidade — respondi, irônica.

— Oh, enfermeira. Que comentário mais surpreendente!

Era fato mesmo. A quantidade de mulheres que a gente ouve dizer: “Se Donald... Arthur (ou seja lá o nome que for) ... ao menos estivesse vivo”. Às vezes acho que se ele estivesse, seria, na pior das hipóteses, um marido já idoso, barrigudo, prosaico e resmungão.

Começava a escurecer e propus que descêssemos. A Sra. Mercado concordou, perguntando se eu não gostaria de conhecer o laboratório.

— Meu marido deve estar lá, trabalhando.

Respondi que gostaria muitíssimo e dirigimo-nos para lá. Embora a luz estivesse acesa, não havia ninguém. A Sra. Mercado me mostrou alguns aparelhos e ornamentos de cobre que estavam sendo restaurados, além de uns ossos recobertos de cera.

— Onde será que anda o Joseph?

Olhou na sala de desenho. Carey estava trabalhando e mal levantou a cabeça quando entramos. Fiquei surpresa com a extraordinária tensão de sua fisionomia. De repente me ocorreu: Este homem está no limite de suas forças. Dentro em breve  qualquer coisa vai estourar. E me lembrei de que alguém mais havia observado também essa mesma intensidade.

Ao sairmos de novo, virei a cabeça pela última vez para olha-lo. Estava curvado em cima do papel, os lábios bem cerrados, acentuando aquela semelhança de “caveira” sugerida pela estrutura óssea. Talvez fosse imaginação, mas achei-o parecido com um cavaleiro medieval pronto para entrar na liça e sabendo que vai ser morto.

E mais uma vez senti que poder de atração extraordinário e praticamente inconsciente se irradiava dele.

Encontramos o Sr. Mercado no living. Explicava a idéia de um novo processo qualquer a senhora Leidner. Ela estava sentada numa tosca cadeira de pau, bordando flores em sedas finas e novamente me surpreendi com seu aspecto estranho, frágil e etéreo. Lembrava mais um personagem de certo conto de fadas do que uma criatura de carne e osso.

— Oh, cá está você, Joseph — exclamou à senhora Mercado naquela voz estridente. — Pensei que estivesse no laboratório,

De susto, ele deu um pulo, todo confuso, como se a entrada da esposa tivesse rompido um encantamento.

— Eu... eu preciso ir agora. Estou no meio de... no meio de... — gaguejou, e sem concluir a frase, virou-se para a porta.

— Veja se termina de me contar tudo outra hora — disse à senhora Leidner com aquela voz doce, carregada de sotaque. — Estava muito interessante.

Ergueu os olhos para nós, sorrindo delicadamente, mas de maneira distante, e concentrou a atenção no bordado. Passados alguns instantes, avisou:

— Ali há alguns livros, enfermeira. A seleção até que é boa. Busque um e sente-se aqui.

Fui à estante. A senhora Mercado demorou-se ainda um pouco e depois, subitamente, foi-se embora. Observei seu rosto ao passar por mim e não gostei do aspecto que tinha. Parecia louca de raiva.

Sem querer, lembrei certas coisas que a senhora Kelsey dissera e insinuara a respeito da senhora Leidner. Não me agradava aceita-las como verdade porque simpatizava com a senhora Leidner, mas, ainda assim, fiquei imaginando se não teriam, talvez, algum fundamento.

Longe de eu supor que fosse exclusivamente culpa sua, no entanto era inegável que nem a bondosa, porém feia senhorita Johnson, nem aquela pequena fera vulgar, a senhora Mercado, podiam comparar-se com ela em matéria de beleza ou atração. E, afinal de contas, os homens continuam sendo os mesmos em qualquer parte do mundo. Numa profissão como a minha a gente não tarda a perceber isso.

Mercado era um pobre diabo, e não creio que a senhora Leidner realmente fizesse o menor caso de sua admiração — o que já não sucedia com a esposa. Se eu não estava enganada, ela sentia um ciúme atroz, e não hesitaria em tirar desforra da senhora Leidner na primeira ocasião que se apresentasse.

Olhei para a senhora Leidner, sentada ali a tecer suas lindas flores, tão remota, distraída e indiferente. Achei que, fosse como fosse, devia preveni-la. Talvez não soubesse como o ciúme e o ódio podem ser idiotas, insensatos e violentos — e como basta uma ninharia para pô-los em ebulição.

E então pensei: Amy Leatheran, como você é boba. A senhora Leidner não é nenhuma criança. No mínimo já está perto dos quarenta e decerto conhece a vida melhor do que ninguém.

Mas, não sei por que, tive impressão de que talvez não conhecesse.

Possuía aquele aspecto invulnerável tão estranho.

Comecei a imaginar o tipo de vida que teria levado. Sabia que casara com o Dr. Leidner há apenas dois anos. E, segundo a senhora Mercado, o primeiro marido morrera quase vinte anos antes.

Fui-me sentar perto dela com um livro e, ao cabo de algum tempo, saí para lavar as mãos para o jantar. A refeição foi ótima — à base de um caril muito bem preparado. Todo mundo se recolheu cedo, o que me fez dar graças a Deus, pois estava exausta.

O Dr. Leidner me acompanhou até o quarto para verificar se não faltava nada.

Despediu-se com um cordial aperto de mão, declarando com veemência:

— Ela gostou de você, enfermeira. Simpatizou logo. Estou contentíssimo. Creio que agora tudo correrá bem.

Seu entusiasmo era quase infantil.

Eu também achava que a senhora Leidner havia simpatizado comigo e estava contente com isso.

Porém não compartilhava completamente da segurança dele. Parecia-me, de certo modo, que ali havia mais coisas do que ele supunha.

Havia algo — que eu não conseguia entender. Mas que pairava no ar.

Apesar da cama ser confortável, não dormi direito. Sonhei demais.

As palavras de um poema de Keats, que eu aprendera quando criança, me passavam sem cessar pela cabeça. Não podia lembra-las com exatidão, o que era irritante. Sempre detestara aquele poema porque fora obrigada a decora-lo à força. Porém, seja como for, ao acordar no escuro, percebi nele, pela primeira vez, uma espécie de beleza.

“Oh, diz o que te aflige, cavaleiro armado, solitário e — como era mesmo? — palidamente errante...” Percebi, pela primeira vez, na imaginação, o semblante do cavaleiro — que era o do senhor Carey, — um rosto triste, intenso, de bronze, como o daqueles pobres rapazes que lembra ter visto quando pequena. Durante a guerra. E senti pena dele — e depois tornei a adormecer e vi que a Belle Dame sans Merci era a senhora Leidner, montada de lado a cavalo, com o bordado de flores nas mãos — e aí o cavalo tropeçou e por toda à parte se espalharam ossos envoltos em cera. Acordei arrepiada tremendo da cabeça aos pés e dizendo que caril nunca me fizera bem à noite.

 

O homem diante da janela

Acho melhor avisar desde já que não haverá nenhuma cor local nesta história. Não conheço nada de arqueologia, nem tampouco pretendo aprender. Andar remexendo em pessoas e lugares enterrados e liquidados para sempre não tem o menor sentido para mim. O senhor Carey costumava dizer que eu não possuía temperamento de arqueólogo e não há dúvida de que tinha toda a razão.

Na primeira manhã de minha chegada, o sr. Carey perguntou se eu queria ir ver o palácio que ele estava — planejando, creio que foi o que ele disse, embora eu não compreenda como é que se pode planejar uma coisa que existiu há uma porção de séculos! Bem, respondi que gostaria sim, e para confessar a verdade, estava até entusiasmada com a idéia. Parece que o tal palácio tinha quase três mil anos. Fiquei imaginando como seriam os palácios naquela época e se teriam qualquer semelhança com as fotografias que havia visto da decoração do túmulo de Tutankhamen. Embora pareça incrível, a única coisa que tinha para ver era lama! Muros de barro imundo, de meio metro de altura — e mais nada. O sr. Carey me levou de um lado para outro, contando coisas — como aqui ficava o grande pátio, ali alguns aposentos e um andar superior e diversos outros quartos que davam para o pátio central. E tudo o que me ocorria era: Mas como é que ele sabe? Só que, naturalmente, era bem educada demais para perguntar em voz alta. Olha, vou-lhes dizer, foi uma decepção! A escavação toda, para mim, não passava de barro — nada de mármore, ouro ou qualquer coisa bonita — a casa de minha tia em Cricklewood, como ruína, era muito mais imponente! E aqueles antigos assírios, ou seja lá o nome que tinham, intitulavam-se reis. Depois de me mostrar seu velho “palácio”, o sr. Carey entregou-me aos cuidados do Padre Lavigny, que mostrou o resto da elevação. Eu estava com certo receio do Padre Lavigny, por ser monge, estrangeiro, com aquela voz grossa e tudo o mais, mas ele foi extremamente gentil — embora um tanto vago. Às vezes sentia a impressão de que tudo aquilo não era muito mais real para ele do que para mim.

Depois a senhora Leidner explicou. Disse que o Padre Lavigny estava apenas interessado em “documentos escritos” — foram essas as palavras. Aquela gente escrevia tudo na argila, uns caracteres esquisitos, de aspecto pagão aliás, mas bastante compreensíveis. Havia até placas de aula — a lição do professor de um lado e os esforços do aluno no verso. Confesso que me despertaram bastante interesse — parecia uma coisa tão humana, não sei se me faço entender.

O Padre Lavigny passeou pelas obras a meu lado, mostrando o local dos templos, palácios e casas residências, além de um ponto que disse que servira de antigo cemitério arcádico. Falava de um jeito engraçado, espasmódico, limitando-se a um fiapo de informação e logo mudando de assunto.

— Que estranho à senhora ter vindo pra cá — comentou. — A senhora Leidner está, então, realmente doente?

— Doente propriamente não — respondi, por cautela.

— Ela é uma mulher esquisita — insistiu, — Uma mulher perigosa, a meu ver.

— Ora, que quer dizer com isso? — perguntei. — Perigosa? Em que sentido?

Sacudiu a cabeça, pensativo.

— Acho que é desalmada — respondeu. — Sim, acho que pode ser completamente cruel.

— Desculpe-me — protestei, — mas me parece que o senhor está falando bobagem.

Ele sacudiu a cabeça.

— Não conhece as mulheres tão bem quanto eu — afirmou.

Que tipo de comentário curioso para um monge, pensei. Mas é claro que devia ter escutado cobras e lagartos no confessionário. Apesar de que isso me deixava meio intrigada, pois não tinha certeza se são os monges que ouvem confissões ou apenas os padres. Suponho que fosse um monge, com aquela longa túnica de lã — varrendo a sujeira – de rosário e tudo!

— É, ela sabe ser cruel — repetiu, pensativo. — Estou absolutamente certo disso. E no entanto... apesar de tão insensível... que nem uma pedra, que nem um mármore... no entanto sente medo. Do que é que ela tem medo?

Eis aí, pensei cá comigo, o que todos nós gostaríamos de saber!

Pelo menos era possível que o marido soubesse, porém creio que mais ninguém.

De repente me encarou com aqueles brilhantes olhos pretos.

— Notou alguma coisa de estranho aqui? Ou tudo lhe parece normal?

— Bem, normal não — respondi, depois de ponderar um pouco. — É bastante confortável sob o ponto de vista de organização... mas a sensação não é muito cômoda.

— A mim, me deixa mal à vontade. Tenho a impressão — subitamente seu aspecto estrangeiro se intensificou — de que se prepara alguma coisa. O próprio Dr. Leidner anda diferente. Há algo que também o preocupa.

— A saúde da esposa?

— Talvez. Mas não é só isso. Existe... como direi?... uma inquietação pairando no ar.

  O termo não podia ser mais adequado. Sim: uma inquietação.

A conversa parou por aí mesmo, devido à aproximação do Dr. Leidner. Queria mostrar-me uma sepultura de criança recém-descoberta. Foi meio patético — os ossinhos — um que outro vaso e umas pequenas nódoas que o Dr. Leidner explicou que eram um colar de contas.

Os operários é que me fizeram rir. Nunca se viu um tal bando de espantalhos — todos de saias compridas, esfarrapadas, com a cabeça amarrada como se tivessem dor de dente. E a cada instante, à medida que andavam de um lado para outro carregando cestas de terra, punham-se a cantar — ao menos suponho que fosse isso que pensavam estar fazendo — uma espécie de cântico esquisito e monótono que quando a gente pensava que tinha terminado recomeçava tudo de novo. Reparei que a maioria estava com os olhos em petição de miséria — cheios de pus, e alguns já quase cegos. Estava mesmo refletindo na vida desgraçada que levavam quando ouvi o Dr. Leidner comentar:

— Formam um grupo esplêndido de homens, não acha?

Então pensei como o mundo era estranho e como duas pessoas diferentes podem ver a mesma coisa de uma forma diametralmente oposta. Creio que não me expressei bem, mas acho que dá para entender o que eu quero dizer.

Pouco depois, o Dr. Leidner anunciou que ia até em casa para tomar sua xícara de chá do meio da manhã. Então voltamos juntos e ele foi explicando coisas. Quando era ele quem explicava, tudo ganhava um aspecto completamente diverso. Eu praticamente enxergava o que ele descrevia — como havia sido outrora — as ruas e casas, e me mostrou os fornos em que faziam pães, dizendo que os árabes continuavam usando o mesmo tipo atualmente.

Chegamos a casa e encontramos à senhora Leidner acordada. Estava com melhor aparência, menos magra e fatigada. O chá foi servido sem demora e o Dr. Leidner contou-lhe o que havia sucedido nas escavações durante aquela manhã. Depois regressou ao trabalho e a senhora Leidner perguntou se eu não queria ver alguns dos achados feitos até então. Respondi naturalmente que sim, e ela me levou ao depósito de antiguidades. Havia uma porção de coisas espalhadas pelos cantos — a maior parte dando a impressão de serem vasos quebrados — ou então outros, já restaurados e colados. Tudo aquilo, a meu ver, podia ser jogado no lixo.

— Puxa — comentei, — que lástima que estejam todos quebrados, não é? Vale realmente a pena guarda-los?

A senhora Leidner sorriu de leve.

— Não deixe Eric ouvir o que você disse — aconselhou. — Os vasos são tudo o que lhe interessa, e alguns destes aqui são antiqüíssimos... talvez tenham mais de sete mil anos.

E explicou como certos exemplares provinham de um corte profundissimo na elevação, bem perto do fundo e como, há dezenas de séculos, tinham sido quebrados e consertados com betume, provando que as pessoas naquela época prezavam tanto suas coisas quanto hoje em dia.

— E agora — acrescentou, — vou-lhe mostrar algo mais emocionante.

Retirou uma caixa da prateleira. Continha uma bela adaga de ouro com cabo de pedras azul-marinho.

Soltei uma exclamação de deslumbramento.

A senhora Leidner achou graça.

— É, todo mundo gosta de ouro! Menos o meu marido.

— Por que o Dr. Leidner não gosta?

— Bem, em primeiro lugar porque custa caro. Tem de se pagar aos operários que o encontram o peso do objeto em ouro.

— Nossa! — exclamei. — Mas por quê?

— Ah, é o costume. Por outro lado, impede que roubem. Compreende? Se de fato roubassem, não seria pelo valor arqueológico, mas pelo valor intrínseco. Mandariam derrete-lo. Assim, facilitamos a honestidade deles.

Desceu outra bandeja e me mostrou uma taça de ouro, para bebida, realmente linda, que tinha um desenho de cabeças de carneiro.

Soltei outra exclamação.

— Sim, é bonita, não é? Veio do túmulo de um príncipe. Encontramos diversas sepulturas reais, mas a maioria havia sido saqueada. Esta taça foi o nosso maior achado. É uma das mais artísticas já descobertas em todo o mundo. Acádico primitivo. Incomparável.

Súbito, de cenho franzido, a senhora Leidner aproximou a taça dos olhos e arranhou-a delicadamente com a unha.

— Que surpreendente! É cera mesmo. Alguém deve ter andado por aqui com uma vela.

Arrancou a pequena lasca e repôs a taça no lugar.

Depois mostrou umas figurinhas em terracote que só vendo mesmo — na maioria, verdadeiras obscenidades. Que mentalidade sórdida tinham esses povos antigos, francamente.

Quando voltamos à varanda, encontramos à senhora Mercado pintando as unhas. Estendia as mãos para frente, admirando o efeito. Pensei comigo mesma que seria difícil imaginar qualquer coisa mais hedionda do que aquele tom vermelho-laranja.

A senhora Leidner trouxera do depósito de antiguidade um pratinho muito delicado, partido em vários pedaços, e agora procurava reconstituí-lo. Observei-a certo tempo e terminei me oferecendo para ajuda-la.

— Ótimo, lá dentro há uma porção.

Foi buscar uma boa quantidade de cerâmicas quebradas e pusemos mãos à obra. Peguei logo prática e recebi elogios pela minha habilidade. Suponho que a maior parte das enfermeiras possui dedos destros.

— Como todo mundo trabalha — comentou a senhora Mercado. — Fico me sentindo uma perfeita inútil. E é claro que sou.

— Por que não havia de ser, se lhe agrada? — retrucou a senhora Leidner, num tom de absoluto descaso.

Ao meio-dia almoçamos. Mais tarde o Dr. Leidner e o sr. Mercado limparam algumas cerâmicas, derramando por cima uma solução de ácido clorídrico. Um vaso ficou com uma cor linda de ameixa e outro revelou um desenho com chifres de touros. Era realmente qualquer coisa de mágico. Toda aquela lama ressequida que lavando não se conseguia tirar virava, por assim dizer, espuma e se evaporava.

O sr. Carey e o Sr. Coleman foram para as escavações e o sr.  Reiter se dirigiu ao departamento de fotografias.

— O que é que você vai ficar fazendo, Louise? — perguntou o Dr. Leidner. — Por que não descansa um pouco?

Deduzi que a senhora Leidner costumava fazer a sesta todas às tardes.

— Vou descansar uma hora, mais ou menos. Depois talvez saia pra dar um passeio.

— Ótimo. A enfermeira irá junto, não é?

— Evidente — respondi eu.

— Não, não — protestou à senhora Leidner. — Gosto de andar sozinha. A enfermeira na deve sentir-se obrigada a me acompanhar por toda à parte.

— Oh, mas eu gostaria de ir — insisti.

— Não, realmente, prefiro que fique — mostrou-se firme, quase peremptória. — Preciso ficar só de vez em quando. É-me necessário.

Não continuei insistindo, lógico. Mas ao me recolher também para dormir um pouco, achei estranho que a senhora Leidner, com seus terrores nervosos, fizesse tanta questão de passear desacompanhada, sem qualquer proteção.

Ao deixar meu quarto, às três e meia, encontrei o pátio deserto, com exceção de um garoto que lavava cerâmicas numa grande banheira de cobre e o sr. Emmott, que separava as peças, classificando-as. Pretendia aproximar-me deles quando a senhora Leidner surgiu à entrada da passagem em arco. Parecia mais animada do que nunca. Seus olhos brilhavam e dir-se-ia que estivesse inspirada, quase alegre.

O Dr. Leidner saiu do laboratório e foi ao seu encontro. Mostrava-lhe um prato enorme, decorado com chifres de touros.

— As camadas pré-históricas estão sendo extraordinariamente férteis — disse ele. — Por enquanto a temporada tem sido boa. Descobrir aquele túmulo logo no início foi um autentico golpe de sorte. A única pessoa que pode ter queixas é o Padre Lavigny. Até agora se encontraram pouquíssimas placas.

— E parece que mesmo essas não progrediram muito — comentou a senhora Leidner com ironia. — Talvez ele seja ótimo para decifrar epígrafes, mas em matéria de preguiça não tem igual. Passa as tardes inteiras dormindo.

— Byrd está fazendo falta — disse o Dr. Leidner. — Esse homem me dá impressão de ser heterodoxo... embora eu, naturalmente, não tenha competência pra julga. Porém, uma ou outra das traduções que fez me pareceram surpreendentes, pra dizer o mínimo. Mal posso acreditar, por exemplo, que ele esteja certo sobre a inscrição daquele bloco de pedra, e no entanto deve ter razão.

Depois do chá, a senhora Leidner me convidou para um passeio à beira-rio. Julguei que talvez receasse que sua recusa em me deixar acompanha-la no começo da tarde me houvesse magoado.

Aceitei prontamente, pois queria mostrar-lhe que não era dada a suscetibilidades.

Fazia uma tarde esplêndida. Passamos por uma senda entre os campos de cevada e, mais tarde, sob árvores frutíferas carregadas de flores. Finalmente saímos às margens do Tigre. Logo à nossa esquerda ficavam as escavações, com os operários entoando aquele incrível cântico monótono. Um pouco à direita havia uma grande roda hidráulica rangendo de modo infernal. A princípio buliu com meus nervos. Mas no fim cheguei até a gostar, produzindo um estranho efeito balsâmico em mim. Do outro lado da roda, via-se a aldeia de onde provinha a maioria dos operários.

— Não acha bonito? — perguntou a senhora Leidner.

— É muito calmo — concordei. — Parece-me tão engraçado estar aqui, longe de tudo.

— Longe de tudo — repetiu. Sim. Aqui, pelo menos, a gente pode sentir uma certa segurança, talvez.

Olhei bruscamente para ela mas acho que falava mais para si mesma do que comigo, e não creio que tivesse percebido como aquelas palavras haviam sido reveladoras.

Refizemos o caminho de casa.

De repente a senhora Leidner apertou o meu braço com tanta força que quase dei um berro.

— Quem é aquele lá, enfermeira? O que é que ele está fazendo?

A pouca distância à nossa frente, no ponto exato em que a senda se aproximava da casa da expedição, estava parado um homem. Trajava roupas ocidentais e dava impressão de estar na ponta dos pés, tentando espiar por uma das janelas.

Enquanto observávamos, ele se virou, notou que estávamos olhando, e no mesmo instante começou a caminhar pela senda, em nossa direção. Senti a senhora Leidner apertar com mais força ainda.

— Enfermeira — murmurou. — Enfermeira...

— Não é nada, meu bem, não é nada — afirmei para tranqüiliza-la.

O homem passou por nós e seguiu adiante. Era iraquiano, e assim que o enxergou de perto, a senhora Leidner soltou o braço com um suspiro.

— É apenas um iraquiano, afinal — disse ela.

Prosseguimos adiante. Quando passamos pelas janelas, levantei os olhos. Não só tinham grades como eram muito altas para permitir que alguém enxergasse o interior, uma vez que o nível do solo ali ficava mais baixo que o do pátio interno.

— Deve ter sido mera curiosidade — opinei.

A senhora Leidner acenou com a cabeça.

— Decerto. Mas por um instante pensei...

Interrompeu a frase.

Pensou o quê? — disse comigo mesma. — Isso é o que eu queria saber. O que foi que você pensou?

De uma coisa, porém, eu agora tinha certeza — A senhora Leidner sentia medo de uma determinada pessoa de carne e osso.

 

Alarme noturno

É meio difícil saber exatamente o que anotar na semana subseqüente à minha chegada a Tell Yarimjah.

Recapitulando os acontecimentos segundo minha perspectiva de conhecimento atual, percebo uma série de pequenos sinais e indicações que comprovam o quanto estive cega na época.

No entanto, para contar a história como convém, creio que devo procurar reconstituir o ponto de vista que eu de fato tinha — confuso, apreensivo, e cada vez mais consciente de algo errado.

Pois uma coisa era certa: aquela sensação esquisita de tensão e constrangimento não era imaginária. Era real. O próprio Bill Coleman, o insensível, comentou.

— Este lugar já está me irritando — escutei-o dizer. — Esse pessoal é sempre assim tão mal-humorado?

Foi para David Emmot, o outro assistente, que ele falou. Eu gostava bastante do sr. Emmot; tinha certeza de que seu jeito taciturno não era nada hostil. Havia qualquer coisa nele que parecia muito resoluta e tranqüilizadora no meio de uma atmosfera em que a gente ficava insegura sobre o que todos andavam sentindo ou pensando.

— Não — respondeu o sr. Coleman. — No ano passado não foi assim.

Porém não se mostrou mais explícito, nem disse mais nada.

— Não posso compreender o que está havendo — continuou o sr. Coleman, num tom magoado.

Emmot encolheu os ombros, sem retrucar.

Tive uma conversa bastante instrutiva com a senhorita Johnson. Simpatizava muitíssimo com ela. Era competente, prática e inteligente. Não havia a menor dúvida de que simplesmente idolatrava o Dr. Leidner.

Na ocasião a que me refiro, ela me contou e história da vida dele desde a mocidade. Conhecia cada lugar que ele tinha cavado, bem como o resultado das escavações. Eu seria capaz de jurar que ela sabia de cor todas as conferências que ele já pronunciara. Disse-me que o considerava o maior arqueólogo vivo em sua especialidade.

— E é tão modesto. Um verdadeiro altruísta. Não sabe o significado da palavra “vaidade”. Só um homem verdadeiramente grande pode ser tão simples assim.

— Mas um pouco caladão, não lhe parece?

— Antes não era assim — respondeu a srta. Johnson prontamente. — Foi só depois que...

Calou-se abruptamente.

— Depois que... — insisti.

— Ora — a srta. Johnson sacudiu os ombros num gesto característico. — Agora muita coisa mudou.

Não repliquei. Esperava que ela fosse continuar — o que fez — precedendo suas observações com uma risadinha que se diria destinada a lhes diminuir a importância.

— Acho que sou uma velha carcaça conservadora. Às vezes tenho a impressão de que a mulher de um arqueólogo não está realmente interessada, não devia acompanhar uma expedição. Em geral provoca atritos.

— A senhora Mercado? — insinuei.

— Oh! Ela! — a senhorita Johnson eliminou a sugestão. — Estava me referindo a senhora Leidner. É uma mulher de fato encantadora... compreende-se perfeitamente por que o Dr. Leidner caiu por ela... pra usar um termo de gíria. Sou forçada a reconhecer que está deslocada aqui. Ela... transtorna tudo.

Portanto a srta. Johnson concordava com a senhora Kelsey que a senhora Leidner era a responsável pela atmosfera de tensão. Mas então como se explicavam suas angústias nervosas?

— Transtorna ele — frisou a srta. Johnson com ardor. — Claro que eu sou... bem, igual a um velho cão fiel, mas ciumento. Não exclusivamente no trabalho... em vez de andar às voltas com os medos ridículos da esposa! Se ela fica nervosa ao viajar pra regiões remotas, faria melhor em permanecer na América. Não tenho paciência com gente que vai pra um lugar e depois passa o tempo todo se queixando.

Aí, receando talvez que houvesse falado mais do que devia,explicou:

— Admiro-a muitíssimo, lógico. É uma criatura linda e, quando quer, sabe ser encantadora.

E assim encerrou-se o assunto.

Era a velha história de sempre — toda vez que as mulheres se vêem forçadas a um convívio prolongado, é fatal que se manifestem ciúmes. Senhorita Johnson, evidentemente, não gostava da esposa de seu chefe (o que talvez fosse natural) e, a menos que eu estivesse enganada, a sra. Mercado positivamente odiava-a.

Outra pessoa que não simpatizava com a senhora Leidner era Sheila Reilly. Surgiu três vezes nas escavações, a primeira de carro e duas a cavalo junto com um rapaz — quero dizer, em dois cavalos, claro. Eu continuava achando que ela tinha um fraco por Emmot, o jovem americano caladão. Quando o encontrava trabalhando na elevação, demorava-se em palestra com ele e também achei que ele gostava dela.

Um dia, de modo bastante leviano a meu ver, a senhora Leidner comentou o fato na hora do almoço.

— Aquela tal de Reilly não dá trégua ao David — disse, com uma risadinha. — Pobre David, ela persegue você até nas escavações! Como essas moças são tolas!

O senhor Emmot não retrucou, mas seu rosto, apesar de bronzeado, ficou meio vermelho. Levantou os olhos e encarou à senhora Leidner com uma expressão esquisita — um olhar direto, firme, que continha uma espécie de desafio.

Ela sorriu discretamente e virou o rosto para o outro lado.

Ouvi o Padre Lavigny murmurar qualquer coisa, porém quando lhe perguntei o que tinha dito, limitou-se a sacudir a cabeça, sem repetir o comentário.

Na mesma tarde, o sr. Coleman me confessou:

— Pra falar com franqueza, a princípio não gostei nem um pouco da senhora Leidner. Toda vez que eu abria a boca, ela caía em cima da minha garganta. Mas agora comecei a compreende-la melhor. É uma das mulheres mais bondosas que já conheci. Quando se vê, a gente está-lhe contando tudo quanto é enrascada em que se meteu até hoje. Ela anda de implicância com Sheila Reilly, eu sei, mas é que Sheila foi tremendamente grosseira em várias ocasiões. É o que Sheila tem de pior... não possui a mínima educação. É um temperamento de fogo!

Quanto a isso eu acreditava piamente. O Dr. Reilly a estragara com mimos.

— Claro que tinha de ficar um tanto convencida, sendo a única moça nos arredores. Mas não é desculpa pra tratar a senhora Leidner como se fosse sua tia-avó. A senhora Leidner não é propriamente criança mas é uma mulher bonita como o diabo. Até parece uma daquelas fadas que surgem no meio de clarões nos pântanos e arrastam a gente atrás delas. — Acrescentou, mordaz: — Sheila não seria capaz de arrastar ninguém. Só quer bronquear com o camarada.

Lembro apenas dois outros incidentes de certa importância.

O primeiro ocorreu quando fui buscar um pouco de acetona no laboratório para os meus dedos, viscosos de tanto consertar cerâmicas. Encontrei o sr. Mercado num canto, sentado com a cabeça entre os braços, e supus que estivesse adormecido. Apanhei a garrafa que queria e dei o fora.

Naquela noite, para minha completa surpresa, a sra. Mercado me abordou.

— Você não tirou uma garrafa de acetona do laboratório?

— Tirei, sim — respondi.

— Você sabe perfeitamente que sempre há uma garrafinha guardada no depósito de antiguidades.

Falava num tom de verdadeira fúria.

— Ah é? Não sabia, não.

— Sabia, sim! Você estava querendo apenas bisbilhotar. Pensa que não conheço as enfermeiras de hospital?

Fiquei olhando para ela.

— Não tenho a menor idéia do que a senhora pretende insinuar, sra. Mercado — retruquei, com toda a dignidade. — Tenho certeza de que não ando espionando ninguém.

— Oh, não! Claro que não. Pensa que não sei o que você veio fazer aqui?

Francamente, por alguns instantes cheguei a imaginar que ela estivesse bêbada. Afastei-me sem dizer mais nada. Mas achei tudo muito estranho.

O outro incidente foi quase insignificante. Eu estava tentando atrair um filhotinho de cachorro com um pedaço de pão. Mas ele era muito arisco, como todos os cães árabes — e parecia convencido de que minhas intenções não eram nada boas. Escapuliu — e eu fui atrás — passando pelo arco de entrada até chegar ao canto da casa. Fiz a volta com tamanha rapidez que, antes que percebesse, esbarrei no Padre Lavigny e outro homem, parados lado a lado — e no mesmo instante notei que era o tal sujeito que a senhora Leidner e eu havíamos encontrado naquele dia, procurando espiar pela janela.

Pedi desculpas e o Padre Lavigny sorriu. Depois de despedir-se do iraquiano, voltou para casa comigo.

— Sabe — disse ele, — estou muito envergonhado. Sou um estudioso das línguas orientais e nenhum dos operários consegue entender o que eu falo! É humilhante, não acha? Estava praticando meu árabe com aquele camarada, que é uma pessoa que mora na cidade, pra ver se tinha feito algum progresso... mas não tive muito êxito. Leidner diz que o meu árabe é puro demais.

Foi apenas isso. Ocorreu-me, porém, que era estranho que o mesmo indivíduo continuasse rondando a casa.

Naquela noite levamos um susto.

Deviam ser umas duas da madrugada. Tenho o sono leve, requisito praticamente obrigatório para uma enfermeira. Acordei e sentei na cama na hora em que a porta se abriu.

— Enfermeira, enfermeira!

Era a voz da senhora Leidner, baixa e premente.

Risquei um fósforo e ascendi à vela.

Ela estava parada na porta, com um roupão azul. Parecia petrificada de terror.

— Tem alguém... alguém... no quarto pegado ao meu. Eu ouvi... quando arranharam a parede.

Saltei da cama e me aproximei dela.

— Não foi nada — disse. — Eu estou aqui. Não precisa ter medo, meu bem.

— Chame o Eric — cochichou.

Assenti, saindo às pressas e batendo na porta dele. Num instante veio ter conosco. A senhora Leidner estava sentada em minha cama, com dificuldade para respirar normalmente.

— Eu ouvi — repetiu. — Eu ouvi... um arranhão na parede.

— Alguém no depósito de antiguidades? — exclamou o Dr. Leidner.

Saiu logo correndo — e então percebi, num relâmpago como ambos haviam reagido de modo diferente. O medo da senhora Leidner era puramente pessoal, ao passo que o do marido se concentrava nos valiosos tesouros.

— O depósito de antiguidades! — repetiu a senhora Leidner. — Lógico! Que burrice minha.

E pondo-se em pé e arrumando o roupão, pediu-me para acompanha-la. Todos os vestígios de medo, pânico haviam desaparecido.

Ao chegar no depósito de antiguidades, encontramos o Dr. Leidner e o Padre Lavigny. O último também escutara um ruído, levantando-se a fim de investigar, e acreditava ter visto uma luz no depósito. Demorara em calçar os chinelos, procurar uma lanterna e quando finalmente chegou não viu ninguém. A porta, além do mais, estava devidamente trancada, como sempre acontecia à noite.

Enquanto verificava se não faltava nada, surgira o Dr. Leidner.

Foi só o que se descobriu. A passagem de entrada, pelo arco, estava trancada. Os guardas juraram que ninguém podia ter penetrado na casa pelo lado de fora, mas como provavelmente tivessem ferrado logo no sono, isso não provava coisa nenhuma. Não havia indício nem rastro de intrusos e nada fora roubado.

Era possível que o que alarmara a senhora Leidner fosse o barulho provocado pelo Padre Lavigny ao tirar as caixas das prateleiras para verificar se tudo estava em ordem.

Em compensação o monge tinha certeza de que: ((a) escutara alguém passando pela sua janela e (b) vira uma luz bruxuleante, talvez de uma lanterna, no depósito de antiguidades.

Ninguém mais escutou ou viu coisa alguma.

O incidente é precioso para a minha narrativa porque precipitou o desabafo que a senhora Leidner teve comigo no dia seguinte. 

 

A história da Senhora Leidner

Tínhamos acabado de almoçar. A senhora Leidner foi para seu quarto, como de costume, para descansar. Instalei-a na cama com uma pilha de travesseiros, entreguei-lhe o livro e já ia saindo quando ela me chamou de volta.

— Não vá, enfermeira. Tenho uma coisa pra lhe dizer.

Tornei a entrar no quarto.

— Feche a porta.

Obedeci.

Ela se levantou e começou a andar de um lado para outro. Percebi que estava prestes a decidir qualquer coisa e não quis interrompe-la. Era óbvio que enfrentava uma grande indecisão no espírito.

Por fim pareceu reunir o ânimo necessário. Virou-se para mim e pediu, abruptamente:

— Sente-se.

Sentei bem quieta ao lado da mesa.

Ela começou, nervosa:

— Você deve estar intrigada com o que eu lhe quero falar, não?

Apenas acenei com a cabeça, sem dizer nada.

— Resolvi contar-lhe tudo! Tenho de contar pra alguém, senão enlouqueço.

— Olhe — retruquei. — Eu acho até que seria bom. Não é fácil saber como agir quando se guarda segredo.

Parou de caminhar inquieta e me encarou.

— Sabe do que eu tenho medo?

— De um homem — respondi.

Sim... mas não perguntei de quem... eu disse do quê.

Tenho medo de ser assassinada! — exclamou.

Pronto, agora tudo se esclarecia. Eu é que não ia demonstrar nenhuma solicitude especial. Já bastava o estado quase histérico em que se achava.

— Meu Deus! — exclamei. — Então é isso, é?

Aí ela se pôs a rir. Riu até não poder mais — e as lágrimas lhe escorriam pelo rosto.

— O jeito com que você disse isso! — repetia, ofegante. — O jeito com que você disse isso...

— Ora, por favor — insisti. — Acalme-se.

Falei com energia. Empurrei-a até uma cadeira, me dirigi ao lavatório, apanhei uma esponja úmida e molhei-lhe a testa e os pulsos.

— Chega de tolice — ordenei. — Agora conte tudo com calma e juízo.

Foi o suficiente. Sentou-se direito e falou em voz normal.

— Você é uma jóia, enfermeira. Deixou-me com a sensação de que tinha seis anos. Vou contar-lhe.

— Isso mesmo. Não se afobe que há tempo de sobra.

Começou a falar, lenta e ponderadamente.

— Quando eu tinha vinte anos casei com um rapaz que trabalhava num de nossos departamentos públicos. Foi em 1918.

— Eu sei. A sra. Mercado me disse. Ele morreu na guerra.

A senhora Leidner, porém, sacudiu a cabeça.

— É o que ela pensa. É o que todo mundo pensa. A verdade é bem diferente. Eu era toda patriota, entusiasta, enfermeira, cheia de idealismo. Depois de alguns meses de casada, descobri por uma circunstância completamente imprevista... que meu marido fazia espionagem pros alemães. Soube que as informações que fornecera tinham sido causa direta do afundamento de um transporte americano, com a perda de centenas de vidas. Ignoro como teria procedido a maioria das pessoas, mas vou contar-lhe o que fiz. Procurei imediatamente meu pai, que era membro do Ministério da Guerra, e confessei-lhe a verdade. Frederick foi morto na guerra... porém na América... fuzilado como espião.

— Oh, meu Deus! Que horror!

— Sim. Foi horrível. Ele era tão bom, aliás... tão delicado. E durante todo o tempo... Mas nem hesitei. Talvez estivesse errada.

— É difícil julgar. Tenho certeza de que não sei o que outra pessoa faria em seu lugar.

— O que lhe estou contando nunca transpirou do âmbito dos departamentos públicos. Oficialmente, meu marido partira pra frente de batalha e morrera. Como viúva de guerra, recebi muitas provas de solidariedade e atenções.

Havia amargura em sua voz, e eu assenti, compreensiva.

— Recebi várias propostas de casamento, mas sempre as recusei. O choque que sofrera tinha sido grande demais. Achei que jamais poderia confiar novamente em alguém.

— Sim, imagino como não deve ter-se sentido.

— E depois me apaixonei por um certo rapaz. Eu titubeava. Uma coisa incrível então acontece! Recebi uma carta anônima... de Frederick... dizendo que se algum dia eu casasse com outro homem, ele me mataria!

— De Frederick? De seu falecido esposo?

— É. A princípio, naturalmente, julguei que estava louca ou sonhando. Afinal falei com meu pai. Ele me revelou a verdade. Meu marido, em suma, não tinha sido fuzilado. Fugira... embora a fuga não lhe adiantasse de nada. Poucas semanas mais tarde morria num desastre de trem. Encontraram o corpo entre as vítimas. Meu pai fizera tudo pra que eu não soubesse da fuga, e uma vez que o homem, de todos os modos, acabara morrendo mesmo, não vira motivo para me contar qualquer coisa até então. Mas a carta recebida por mim abria possibilidades inteiramente novas. Quem sabe meu marido não continuava vivo? Meu pai investigou o assunto com o máximo cuidado e terminou declarando que,  tanto quanto era humanamente possível ter certeza, o cadáver que fora enterrado como sendo Frederick era de fato o dele. Tinha ficado um pouco desfigurado, por isso não se podia garantir com absoluta e irrefutável convicção, porém reiterava a crença solene de que Frederick estava morto e que a tal carta não passava de um trote cruel e malévolo. A mesma coisa tornou a suceder várias vezes. Quando eu aparentemente andava em termos íntimos com algum homem, recebia uma carta ameaçadora.

— Com a caligrafia de seu marido?

— Isso é difícil de afirmar — respondeu lentamente. — Eu não tinha cartas dele. Precisava guiar-me pela memória.

— Nunca houve alguma alusão ou palavras especiais que fossem usadas e que pudessem dar-lhe uma certeza?

— Não. Havia determinadas expressões íntimas... apelidos, por exemplo... entre nós... se uma delas tivesse sido usada ou citada, então eu estaria absolutamente certa.

— Sim — concordei pensativa. — É curioso. Dá impressão de que não era seu marido. Mas quem mais poderia ser?

— Existe uma possibilidade. Frederick tinha um irmão menor... um menino de dez ou doze anos na época do nosso casamento. Idolatrava Frederick, que gostava muito dele. Não sei o que aconteceu com o garoto. Chamava-se William. Acho provável que, adorando o irmão como adorava, tivesse crescido me considerando diretamente responsável pela sua morte. Sempre sentiu ciúmes de mim e talvez inventasse esse plano como forma de castigo.

— É possível — admiti. — As crianças guardam uma lembrança assombrosa dos choques que levam.

— Eu sei. Esse menino podia ter dedicado sua vida à vingança.

— Continue, por favor.

— Não há muito mais coisa a dizer. Conheci Eric há três anos. Não pretendia casar nunca mais. Eric me fez mudar de idéia. Fiquei esperando outra carta ameaçadora até o dia do nosso casamento. Não chegou nenhuma. Fosse lá quem fosse o remetente, pensei eu, devia ter morrido ou então se cansara daquela cruel diversão. Dois dias depois do casamento, recebi isto.

Puxando uma pequena maleta de cima da mesa, abriu-a com a chave, tirou uma carta e entregou-ma.

A tinta estava levemente desbotada. Vinha escrita numa letra meio feminina, deitada para frente.

Você desobedeceu. Agora não pode escapar. Só deve ser esposa de Frederick Bosner! Você terá de morrer.

— Fiquei assustada... mas não tanto quanto das outras vezes. Estar ao lado de Eric me deixava segura. Depois, um mês mais tarde, recebi uma segunda ameaça.

Não esqueci! Estou fazendo meus planos. Você terá de morrer. Por que desobedeceu?

— Seu marido sabe disso?

— Ele sabe que fui ameaçada — respondeu à senhora Leidner vagarosamente. — Mostrei-lhe ambas as cartas quando recebi a segunda. Sentia-se inclinado a crer que tudo não passava de brincadeira de mau gosto. Pensou, também, que podia ser alguém que quisesse fazer chantagem, pretendendo que meu marido estivesse vivo.

Parou um instante e depois prosseguiu.

— Poucos dias depois da chegada da segunda carta, escapamos por um triz de morrer asfixiados. Alguém entrou em nosso apartamento enquanto dormíamos e abriu o gás. Felizmente eu acordei e senti o cheiro a tempo. Então perdi a cabeça. Contei a Eric como vinha sendo perseguida há anos e disse-lhe que tinha certeza de que esse débil mental, fosse lá quem fosse, tencionava de fato me matar. Creio que pela primeira vez realmente acreditei que era Frederick. Sempre dissimulara qualquer coisa de desumano por trás de sua delicadeza. Tenho a impressão de que Eric ficou menos alarmado do que eu. Ele queria dar parte à Polícia. Naturalmente nem quis ouvir falar nisso. No fim concordamos que eu viria pra cá, junto com ele, e que seria mais acertado que eu não voltasse pra América no verão, que passaria em Londres e Paris. Levamos nosso plano a cabo e tudo correu bem. Eu estava certa de que agora tudo ficaria em ordem. Afinal de contas, tínhamos posto metade do globo terrestre entre nós e o meu inimigo. Foi então... há pouco mais de três semanas... que recebi uma carta... com selo do Iraque.

Entregou-me uma terceira carta.

Pensou que podia fugir? Engana-se. Sendo falsa comigo, você não ficará viva. Eu sempre lhe disse isso. A morte se aproxima.

— E há uma semana atrás... isto! Aqui no quarto, em cima da mesa. Nem sequer remetida pelo correio.

Apanhei a folha de papel que me estendia. Continha apenas uma palavra rabiscada a lápis.

Cheguei.

Ela me olhou fixamente.

— Está vendo? Compreendeu? Ele vai me matar. Talvez seja Frederick... ou o pequeno William... mas ele vai me matar.

Levantara a voz, em sobressalto. Segurei-a pelos pulsos.

— Ora... vamos — admoestei. — Não se entregue. Cuidaremos da senhora. Não tem aí um pouco de sal amoníaco?

Ela acenou na direção do lavatório e eu lhe apliquei uma boa dose.

— Pronto, melhorou — comentei, enquanto suas faces recobravam a cor.

— Sim, agora já me sinto melhor. Mas, oh, enfermeira, compreende por que estou neste estado? Quando vi aquele sujeito espiando pela minha janela, pensei: É ele! Até de você, quando chegou, fiquei desconfiada. Julguei que talvez fosse um homem disfarçado...

— Que idéia!

— Oh, eu sei que parece absurdo. Porém podia talvez estar de combinação com ele... e não ser enfermeira de hospital coisa nenhuma.

— Mas que loucura!

— Sim, talvez. Só que loucuras não mais me intimidam.

Ocorreu-me uma idéia súbita.

— A senhora reconheceria seu marido, suponho? — perguntei.

— Não garanto. Já faz mais de quinze anos. Pode ser que não lhe reconhecesse a fisionomia.

E teve um frêmito.

— Uma noite enxerguei-a ... porém estava morta. Ouvi um toque-toque na janela. E depois vi um rosto, o rosto de um morto, horrendo e sorrindo atrás da vidraça. Comecei a gritar sem parar. E eles disseram que não havia ninguém lá fora!

Lembrei-me da história da sra. Mercado.

— A senhora na acha — perguntei, hesitante, — que talvez houvesse sonhado?

— Tenho certeza de que não!

Eu não estava tão segura assim. Era o tipo de pesadelo bastante plausível naquelas circunstâncias e que facilmente podia ser confundido com uma ocorrência real. Em todo caso, jamais contradigo um paciente. Acalmei a senhora Leidner da melhor maneira possível, frisando que se algum estranho surgisse nas cercanias, sem dúvida ficaríamos sabendo.

Deixei-a, a meu ver, mais tranqüila e saí à procura do Dr. Leidner. Contei-lhe a conversa que tivéramos.

— Ainda bem que ela lhe falou — foi seu simples comentário. — Já andava tremendamente preocupado. Eu estava certo de que todos os tais rostos e batidas na vidraça tinham sido pura imaginação da parte dela. Não sabia mais o que fazer. Qual é a sua opinião sobre tudo?

Não entendi muito bem o tom de sua voz, porém respondi com suficiente presteza.

— É possível que as tais cartas não passem de brincadeira de muito mau gosto — declarei.

— Sim, é bem provável. Mas que havemos de fazer? Estão deixando Louise quase louca. Já não sei o que pensar.

Nem eu, tampouco. Ocorreu-me a hipótese de que podia haver alguma mulher metida no meio. As cartas tinham um toque feminino. Estava cogitando, um tanto inconscientemente, da sra. Mercado.

Suponhamos que, por acaso, se cientificasse dos fatos a respeito do primeiro matrimônio da senhora Leidner. Talvez satisfizesse o próprio rancor aterrorizando a outra mulher.

Não me agradava muito sugerir essa hipótese ao Dr. Leidner. É sempre difícil prever como as pessoas encaram certos problemas.

— Ora, paciência — retruquei com ar animado, — a gente deve ser otimista. Acho que, só de falar no assunto, a senhora Leidner já se sente sossegada. Sempre ajuda, sabe? Recalcar é que excita os nervos.

— Estou contentíssimo que ela lhe tenha contado tudo — repetiu. — É bom sinal. Mostra que gosta e se fia da senhora. Quase quebrei a cabeça de tanto procurar a melhor solução pro caso.

Estava com uma pergunta na ponta da língua para lhe fazer: por que não fizera uma discreta insinuação à Polícia local? Mais tarde, porém, dei graças a Deus por ter ficado calada.

O que aconteceu foi o seguinte: No outro dia o sr. Coleman partiu pra Hassanieh para buscar o pagamento dos operários. Levava também toda a nossa correspondência para despachar por via aérea.

As cartas, depois de subscritas, eram depositadas numa caixa de madeira no peitoril da janela da sala de refeições. A última coisa que o sr. Coleman fez naquela noite foi retira-las da caixa, separando-as em maços e prendendo-os com elásticos.

De repente soltou um grito.

— Que é? — perguntei.

Estendeu-me um envelope sorrindo.

— A nossa Linda Louise... ela está ficando realmente biruta. Endereçou uma carta pra laguem na Rua Quarenta e Dois, Paris, França. Creio que não está certo, não acha? Quer fazer-me o favor de ir perguntar-lhe o que significa isso? Ela acaba de se recolher.

Peguei o envelope e corri à procura da senhora Leidner. Ela corrigiu o endereço.

Era a primeira vez que eu via sua caligrafia e fiquei pensando, distraída, onde é que já tinha visto aquela letra antes, pois me era, sem dúvida, bastante familiar. Foi só lá pelo meio da noite que de repente lembrei. Exceto por ser maior e mais irregular, parecia-se extraordinariamente com a que estava escrita nas cartas anônimas.

Como relâmpagos, novas idéias me passaram pela cabeça. Seria possível que a própria senhora Leidner houvesse escrito aquelas cartas? E que o Dr. Leidner desconfiasse do fato?

 

Sábado de tarde

A senhora Leidner contou sua história na sexta-feira. No sábado pela manhã pairava uma leve sensação de anticlímax no ar.

A senhora Leidner, sobretudo, parecia disposta a se portar de modo muito seco comigo, evitando, um tanto ostensivamente, qualquer possibilidade de tête-à-tête. Ora, isso não me surpreendia! Quantas vezes não aconteceu coisa semelhante. Senhoras que revelam segredos às enfermeiras num acesso súbito de confiança e depois se sentem contrafeitas e arrependidas! É típico da natureza humana.

Tive o maior cuidado em não insinuar nem lembrar nada do que me confiara. Mantive, de propósito, a conversa no terreno mais banal possível.

O sr. Coleman seguira para Hassanieh de manhã cedo, dirigindo pessoalmente a camioneta e levando a correspondência dentro de uma mochila. Recebera também uma outra incumbência dos membros da expedição. Era dia de pagamento dos operários e tinha de ir ao banco retirar o dinheiro em troco miúdo. Tudo isso exigiria bastante tempo e só contava regressar lá pelo fim da tarde. Fiquei um pouco desconfiada de que talvez almoçasse em companhia de Sheila Reilly.

Nesses dias de pagamento geralmente trabalhavam nas escavações somente até às três e meia, hora em que começava a distribuição dos salários.

Abdullah, o garotinho encarregado de lavar as cerâmicas achava-se, como de costume, no meio do pátio e continuava, também como de costume, a entoar aquele estranho cântico nasalado. O Dr. Leidner e o sr. Emmot iam dedicar-se a um serviço qualquer nas cerâmicas antes que o sr. Coleman voltasse, e o sr. Carey se dirigira às escavações.

A senhora Leidner recolheu-se a seu quarto para descansar. Ajudei-a, como sempre, a se acomodar e depois fui para meu quarto, levando um livro comigo, pois não sentia sono. Faltavam então quinze para a uma e passei duas horas extremamente agradáveis. Estava lendo Morte no Hospital — uma história de fato empolgante — embora não me parecesse que o escritor entendia grande coisa do funcionamento de uma casa de saúde! Eu, em todo caso, jamais encontrei nenhuma igual àquela! Deu-me realmente vontade de lhe escrever para que corrigisse certas coisas erradas.

Quando finalmente larguei o livro (a assassina fora à copeira ruiva, de quem eu nem sequer suspeitara!) e consultei o meu relógio de pulso, verifiquei assombrada que já faltavam vinte para as três!

Levantei-me, endireitei o uniforme e saí para o pátio.

Abdullah ainda estava lá, esfregando e sempre a cantar aquele cântico deprimente, e David Emmot, parado a seu lado, escolhia os vasos limpos, colocando os quebrados em caixas destinadas a futuros consertos. Enquanto eu me dirigia para eles, o Dr. Leidner vinha descendo do terraço.

— À tarde até que não foi ruim — anunciou, animado. — Fiz um pouco de limpeza lá em cima. Louise vai ficar contente. Ultimamente anda se queixando de que não há espaço pra caminhar. Vou-lhe dar as boas novas.

Foi até a porta do quarto da esposa, bateu e entrou.

Creio que demorou mais ou menos um minuto e meio para sair novamente. Eu, por acaso, estava olhando para aquele lado. Parecia uma espécie de pesadelo. Ele entrara todo disposto, alegre. Agora surgia feito bêbado — cambaleante e com uma incrível expressão de estupor no rosto.

— Enfermeira... — chamou, numa voz rouca, esquisita. — Enfermeira...

Percebi logo que sucedera algo errado e corri para ele. Tinha um aspecto horrível — a fisionomia toda cinzenta e retorcida, e vi que ia desmaiar a qualquer momento.

— Minha mulher... — balbuciou. — Minha mulher... Oh, meu Deus!

Entrei no quarto imediatamente. E então perdi o fôlego.

A senhora Leidner jazia amontoada como uma trouxa horrenda ao pé da cama.

Inclinei-me para ela. Estava bem morta — devia ter morrido há uma hora, no mínimo. O modo como morrera era perfeitamente óbvio — uma violenta pancada na testa, logo acima da têmpora direita. Decerto se levantar da cama e fora agredida no mesmo instante, caindo onde se encontrava.

Não toquei nela mais que o estritamente necessário.

Olhei em torno do quarto para ver se havia qualquer coisa que fornecesse uma pista, mas nada parecia fora do lugar ou em desordem. As janelas estavam fechadas e trancadas, e não havia nenhum recanto para o assassino se esconder. Evidentemente já escapara há muito tempo.

Saí, fechando a porta atrás de mim.

O Dr. Leidner, a essa altura, tinha desmaiado por completo. David Emmot, a seu lado, virou o rosto pálido, inquisitivo, para mim.

Em rápidas palavras em voz baixa, contei-lhe o que acontecera.

Conforme sempre me parecera, ele era uma pessoa admirável para se confiar em caso de calamidade. Ficou perfeitamente calmo e senhor de si. Arregalou os olhos azuis mas além disso não demonstrou o menor sinal de pânico.

Refletiu um segundo e depois disse:

— Acho que devemos comunicar à Polícia o mais depressa possível. Bill já deve estar chegando. Que faremos com Leidner?

— Ajude-me a leva-lo pro quarto dele.

Concordou com a cabeça.

— Seria bom trancar antes esta porta — sugeriu.

Passou a chave na fechadura, tirou-a e me entregou.

— Creio que é melhor que você guarde, enfermeira. Agora vamos.

Levantamos juntos o Dr. Leidner e o transportamos para seu quarto, deitando-o na cama. O sr. Emmot saiu em busca de conhaque. Voltou acompanhado da senhorita Johnson.

Embora tivesse o rosto tenso e ansioso, conservou-se serena e competente, e fiquei satisfeita em deixar o Dr. Leidner entregue a seus cuidados.

Corri ao pátio. A camioneta vinha entrando naquele momento. Tenho a impressão de que todos levaram um choque ao avistar as faces coradas e risonhas de Bill ao saltar do veículo com seu habitual: — “Olá, olá, olá! Cá está o tutu.” — E continuou, todo alegre: — “Não houve assalto na estrada...”

De repente cortou a frase.

— Ué, aconteceu alguma coisa? O que é que há com vocês? Até parece que um gato comeu o canário de estimação de alguém.

— A senhora Leidner está morta... assassinada — explicou o sr. Emmot laconicamente.

— Quê? — o rosto jovial de Bill se modificou de maneira ridícula. Ficou com os olhos parados, saltando das órbitas. — a velha Leidner morta! Você está brincando.

— Morta? — Era um grito brusco. Virei-me e deparei com a senhora Mercado às minhas costas. — Você disse que a senhora Leidner foi assassinada?

— Sim — respondi. — Assassinada.

— Não! — exclamou. — Oh, não! Não posso acreditar. Talvez tenha cometido suicídio.

— Suicidas não dão pancadas na própria cabeça — afirmei, sarcástica. — Não há dúvida de que foi crime, senhora Mercado.

Ela sentou bruscamente num caixote.

— Oh, mas que coisa horrível — disse, — horrível.

Claro que era. Não precisávamos que ela declarasse isso! Fiquei imaginando se talvez não estaria sentindo um pouco de remorso pelos sentimentos cruéis que alimentara contra a morta, e todas as coisas rancorosas que falara.

Após alguns instantes perguntou meio ofegante:

— O que é que vocês pretendem fazer?

O sr. Emmot começou a dar instruções naquele seu modo sereno.

— Bill, seria bom você voltar para Hassanieh o mais depressa possível. Não sei direito as providencias que se deve tomar. É melhor consultar o Capitão Maitland, que é o encarregado da Polícia local, acho eu. Primeiro chame o Dr. Reilly. Ele decerto sabe o que se tem de fazer.

O sr. Coleman assentiu. Perdera por completo o ar brincalhão. Parecia apenas jovem e assustado. Sem pronunciar uma palavra, saltou dentro da camioneta e partiu.

— Creio que devíamos dar uma busca — opinou o sr. Emmot, com uma voz um tanto insegura.

E chamou:

Ibrahim!

Na’am.

O copeiro veio correndo. O sr. Emmot falou-lhe em árabe. Passou-se um veemente diálogo entre ambos. O garoto parecia negar enfaticamente qualquer coisa.

— Diz ele que não esteve ninguém aqui hoje à tarde — explicou o sr. Emmot finalmente, num tom de perplexidade. — Nenhuma espécie de estranho. Suponho que o sujeito entrou sorrateiramente, sem ser visto por eles.

— Naturalmente que sim — apoiou à senhora Mercado. — Esgueirou-se cá pra dentro quando os garotos não estavam olhando.

— É — fez o sr. Emmot.

Uma leve hesitação em sua voz me obrigou a olha-lo interrogativamente.

Virou-se e falou com Abdullah, o menino das cerâmicas, fazendo-lhe uma pergunta, finda a qual o garoto replicou vigorosamente.

A perplexidade da testa franzida do sr. Emmot aumentou ainda mais.

— Não compreendo — murmurou entre dentes. — Simplesmente não compreendo.

Porém não me disse o quê.

 

Um negócio esquisito

Limito-me, na medida do possível, a narrar apenas minha parte pessoal na história. Passo por alto os acontecimentos das duas horas seguintes, a chegada do Capitão Maitland, da Polícia e do Dr. Reilly. Houve um bocado de confusão generalizada, interrogatórios, tudo coisa de rotina, imagino.

Na minha opinião, começou-se a chegar ao ponto crucial da questão lá pelas cinco horas, quando o Dr. Reilly me pediu para ir falar com ele no escritório.

Fechou a porta, ocupou a cadeira do Dr. Leidner, convidando-me a sentar à sua frente, e entrou logo no assunto:

— Muito bem, enfermeira, vamos aos fatos. Há qualquer coisa esquisita pra burro nesse negócio.

Ajeitei os punhos e fiquei olhando para ele, na expectativa.

Tirou uma agenda do bolso.

— Isto é só pro meu controle pessoal. Agora, que horas eram exatamente quando o Dr. Leidner encontrou o cadáver da esposa?

— Eu diria que faltava precisamente um quarto pras três — respondi.

— Como é que você sabe?

— Ora, vi no relógio quando levantei. Eram vinte pras três.

— Mostre-me o relógio.

Tirei-o do pulso e entreguei-lhe.

— Está certíssimo. Perfeito. Bom, isso está resolvido. Agora você calculou há quanto tempo ela já estaria morta?

— Ah, francamente, doutor — retruquei, — não me atrevo a determinar.

— Não seja tão profissional. Quero ver se o cálculo combina com o  meu.

— Olhe, eu diria que devia estar morta no mínimo há uma hora.

— Exato. Examinei o cadáver às quatro e meia, e me sinto inclinado a fixar a hora da morte entre uma e quinze e uma e quarenta e cinco. Digamos, a uma e meia, mais ou menos. Por aí.

Parou, pensativo, tamborilando os dedos em cima da mesa.

— Esquisito pra burro, esse negócio — disse. — Será que você não me podia dizer... estava descansando, não é? Não ouviu nada?

— A uma e meia? Não, doutor. Não ouvi coisa nenhuma, nem a uma e meia, nem a qualquer outra hora. Fiquei deitada na cama desde um quarto pra uma até vinte pras duas e não ouvi nada, exceto aquela lengalenga que o garoto árabe faz e, de vez em quando, o sr. Emmot gritando pro Dr. Leidner lá em cima no terraço.

— O garoto árabe... sim.

Franziu a testa.

Nesse instante a porta se abriu e o Dr. Leidner entrou, acompanhado do Capitão Maitland. O chefe de polícia era um homenzinho impertinente com olhos cinzentos perspicazes.

O Dr. Reilly se levantou e conduziu o Dr. Leidner à cadeira que sempre ocupava.

— Sente-se, meu velho. Quer bom que você veio. Vamos precisar de seu auxílio. Há qualquer coisa muito esquisita nesse negócio.

O Dr. Leidner abaixou a cabeça.

— Eu sei — olhou para mim. — Minha mulher contou tudo pra Enfermeira Leatheran. Não podemos guardar segredos numa circunstância dessas, enfermeira, portanto faça o favor de descrever ao Capitão Maitland e ao Dr. Reilly exatamente o que se passou ontem entre a senhora e minha mulher.

Reproduzi a conversa quase literalmente.

O Capitão Maitland, de quando em quando, soltava uma exclamação. Quando terminei, virou-se para o Dr. Leidner.

— E isso é verdade, Leidner... hã?

— Cada palavra que a Enfermeira Leatheran lhes contou é exata.

— Que história extraordinária — disse o Dr. Reilly. — Podia mostrar-nos as tais cartas?

— Não tenho dúvida de que devem estar entre os pertences de minha mulher.

— Ela tirou-as da maleta em cima da mesa — lembrei.

— Então provavelmente estão lá.

Virou-se para o Capitão Maitland e o seu rosto, habitualmente afável, mostrou-se duro e severo.

— Fica fora de toda cogitação abafar esta história, Capitão Maitland. A única coisa indispensável é prender e punir esse homem.

— O senhor acredita realmente que tenha sido o primeiro marido da senhora Leidner? — perguntei.

— Acha que não, enfermeira? — retrucou o Capitão Maitland.

— Bem, me parece duvidoso — opinei, hesitante.

— De qualquer forma — insistiu o Dr. Leidner, — trata-se de um assassino... e lunático perigoso, ainda por cima. Ele precisa ser encontrado, Capitão Maitland. Precisa. Não deve ser difícil.

— Talvez seja mais difícil do que você pensa, hem, Maitland? — comentou o Dr. Reilly vagarosamente.

O chefe de polícia confiou o bigode sem responder.

De repente tive um sobressalto.

— Desculpem-me — falei, — mas há uma coisa que talvez eu deva mencionar.

Contei a história do iraquiano que tínhamos surpreendido tentando espiar pela janela, e como eu voltara a encontra-lo dois dias atrás, rondando o local com o pretexto de interrogar o Padre Lavigny.

— Ótimo — disse o Capitão Maitland, vamos tomar nota disso. Já é algo pra Polícia se basear. O homem pode ter alguma relação com o caso.

— Provavelmente pago pra servir de espião — sugeri. — Pra verificar se não havia perigo à vista.

O Dr. Reilly esfregou o nariz num gesto preocupado.

— Aí é que está — disse. Suponhamos que houvesse... há?

Olhei perplexa para ele.

O Capitão Maitland virou-se para o Dr. Leidner.

— ouça bem o que vou dizer-lhe, Leidner. Isto é uma recapitulação dos fatos apurados até agora. Depois do almoço, que foi servido ao meio-dia e terminou quando faltavam vinte e cinco pra uma, sua esposa, acompanhada pela Enfermeira Leatheran, se recolheu ao quarto, onde ficou confortavelmente instalada. Você subiu ao terraço, passando lá as duas horas seguintes, confere?

— Sim.

— Durante esse tempo todo, você não desceu nem uma vez do terraço?

— Não.

— Alguém foi procurar você lá em cima?

— Sim, Emmot me procurou várias vezes. Andou de um lado pro outro, entre mim e o garoto que estava lavando as cerâmicas aqui embaixo.

— E em nenhum momento você se lembrou de olhar pro pátio?

— Uma ou duas vezes... mas só pra perguntar alguma coisa a Emmot.

— Nessas ocasiões o garoto estava sempre sentado no mesmo lugar, lavando as cerâmicas?

— Estava.

— Qual foi o período de tempo mais longo em que Emmot esteve com você, ausente do pátio?

O Dr. Leidner refletiu um pouco.

— É difícil dizer... dez minutos, talvez. Eu, pessoalmente, diria dois ou três minutos, mas sei por experiência que o meu sentido de tempo não é muito bom quando estou concentrado no que faço.

O Capitão Maitland olhou para o Dr. Reilly, que sacudiu afirmativamente a cabeça.

— É melhor tocar logo no assunto — disse.

O Capitão Maitland tirou uma pequena agenda do bolso e abriu-ª

— Escute, Leidner, vou ler pra você exatamente o que cada membro da sua expedição esteve fazendo entre uma e duas horas de hoje à tarde.

— Mas decerto...

— Espere. Você já vai perceber aonde eu quero chegar. Primeiro o senhor e a senhora Mercado. O sr. Mercado diz que ficou trabalhando no laboratório. A senhora Mercado diz que ficou no quarto, lavando a cabeça. A senhorita Johnson diz que ficou no living, tirando impressões de cilindros de lacre. O sr. Reiter diz que ficou no quarto escuro, revelando chapas. O Padre Lavigny diz que ficou trabalhando em seu quarto. Quanto aos dois membros restantes da expedição, Carey e Coleman, o primeiro estava lá nas escavações e Coleman em Hassanieh. Agora os criados. O cozinheiro... que é indiano... ficou sentado do lado de fora da arcada, conversando com os guardas e depenando duas galinhas. Ibrahium e Mansur, os copeiros, reuniram-se a ele à uma e quinze, mais ou menos. Ambos permaneceram lá, rindo e falando até às duas e meia... quando sua esposa já estava morta.

O Dr. Leidner inclinou-se para frente.

— Não entendo... você me deixa intrigado. Que está querendo provar?

— Há outros meios de acesso ao quarto de sua esposa além da porta que comunica com o pátio?

— Não. Tem duas janelas, mas são fortemente gradeadas... e, além do mais, creio que estavam fechadas.

Olhou para mim com ar interrogativo.

— Fechadas e trancadas por dentro — confirmei prontamente.

— Seja como for — retrucou o Capitão Maitland. — Ainda que estivessem abertas, ninguém poderia ter entrado ou saído do quarto ali. Meus colegas e eu já nos certificamos disso. O mesmo acontece com todas as outras janelas que dão para o lado de fora. Todas possuem grades de ferro em excelentes condições. Para ir ao quarto de sua esposa, um desconhecido precisaria passar pelo arco que dá acesso ao pátio. Mas os guardas, o cozinheiro e os copeiros garantiram que ninguém fez isso.

O Dr. Leidner saltou em pé.

— O que você quer dizer? O que você quer dizer?

— Acalme-se, homem — pediu o Dr. Reilly em voz baixa. Sei que é um choque, porém tem de ser enfrentado. O assassino não veio do lado de fora... portanto deve ter vindo de dentro. Tudo indica que a senhora Leidner foi assassinada por um membro da própria expedição.

 

 “Eu não acreditei...”

— Não, não!

O Dr. Leidner se levantou de um salto e pôs-se a andar de um lado para outro, todo agitado.

— O que você diz é impossível, Reilly. Absolutamente impossível. Um de nós? Ora, não há um só membro da expedição que não fosse afeiçoado a Louise!

Uma pequena expressão esquisita repuxou os cantos da boca do Dr. Reilly. Naquelas circunstancias era-lhe difícil falar qualquer coisa, mas se algum dia o silencio de um homem foi eloqüente foi bem o dele nesse instante.

— Totalmente impossível — reiterou o Dr. Leidner. — Não havia quem não gostasse dela. Louise possuía um encanto maravilhoso. Cativava a todos.

O Dr. Reilly tossiu.

— Desculpe-me, Leidner, mas afinal de contas essa é apenas a sua opinião. Se algum membro da expedição antipatizasse com sua esposa naturalmente não riria apregoar o fato a você.

O Dr. Leidner fez uma cara angustiada.

— É verdade... tem razão. Mas mesmo assim, Reilly, acho que está enganado. Tenho certeza de que todo mundo gostava muito de Louise.

Manteve-se calado um instante e depois explodiu.

— Essa sua idéia é nefanda. É... é francamente incrível.

— Você não pode negar a evidencia dos... hum... fatos — declarou o Capitão Maitland.

— Fatos? Fatos? Mentiras pregadas por um cozinheiro indiano e dois copeiros árabes. Você sabe tão bem quanto eu como essa gente é, Reilly; e você também, Maitland. A verdade não tem o menor sentido pra eles. Dizem o que se quer que eles digam por uma mera questão de cortesia.

— Nesse caso — replicou o Dr. Reilly, irônico, — estão dizendo o que não queremos que digam. Aliás, conheço os hábitos desta casa razoavelmente bem. Logo do outro lado do portão existe uma espécie de clube social. Toda a vez que vim cá de tarde, sempre encontrei a maior parte da criadagem lá. É o lugar natural pra eles estarem.

— Mesmo assim creio que você exagera suas suposições. Que impediria que esse homem... esse demônio... tivesse entrado aqui antes e se escondido nalgum canto?

— Concordo que não é de todo impossível — respondeu o Dr. Reilly. — Suponhamos que um desconhecido conseguisse, de fato, entrar sem ser pressentido. Teria de permanecer escondido até o momento oportuno (e certamente não no quarto da senhora Leidner, onde não há esconderijos) e correr o risco de ser visto entrando e saindo... com Emmot e o garoto no pátio durante a maior parte do tempo.

— O garoto. Tinha-me esquecido dele — exclamou o Dr. Leidner. — É um pirralho muito vivo. Mas com certeza, Maitland, ele deve ter visto o assassino entrar no quarto de minha mulher.

— Já verificamos isso. O garoto esteve lavando cerâmicas a tarde inteira, a não ser num determinado momento. Lá pela uma e meia, mais ou menos... Emmot não se lembra com muita exatidão... foi quando subiu ao terraço e ficou cerca de dez minutos com você... não foi?

— Sim. Eu não saberia dizer a hora exata, mas deve estar certo.

— Muito bem. Ora, durante esses dez minutos, o garoto, aproveitando a oportunidade pra vadiar, correu lá fora e se reuniu aos outros companheiros na frente do portão pra conversar. Quando Emmot desceu, deu pela ausência dele e chamou-o, irritado, perguntando-lhe o que significava aquele abandono do serviço. No meu entender, sua esposa deve ter sido assassinada durante esses dez minutos.

Com um gemido, o Dr. Leidner sentou e cobriu o rosto com as mãos.

O Dr. Reilly tomou a palavra, num tom calmo e casual.

— A hora combina com o que apurei — disse. — Ela estava há cerca de três horas quando a examinei. A única dúvida é... quem teria sido?

Houve um silencio. O Dr. Leidner endireitou o corpo na cadeira e passou a mão na testa.

— Reconheço a evidencia do seu raciocínio, Reilly — declarou em voz baixa. — Realmente até parece o que se chamaria de “um serviço interno”. Eu, porém, estou convencido de que há um engano num ponto qualquer. A explicação é plausível mas deve conter uma falha. Pra começar, você está supondo que tenha ocorrido uma coincidência assombrosa.

  — Que estranho você usar essa palavra — observou o Dr. Reilly.

Sem prestar a mínima atenção, o Dr. Leidner prosseguiu.

— Minha mulher recebe cartas de ameaça. Possui motivo pra temer certa pessoa. Depois é... morta. E você me pede para acreditar que foi assassinada... não por aquela pessoa... mas por alguém completamente diferente! Eu digo que isso é ridículo.

— É... parece sim — concordou o Dr. Reilly, pensativo. Olhou para o Capitão Maitland. — Coincidência... hã? O que é que você acha, Maitland? Está a favor da idéia? Vamos explicar pro Leidner?

O Capitão Maitland fez um aceno.

— Pode falar — limitou-se a responder.

— Já ouviu falar num homem chamado Hercule Poirot, Leidner?

O Dr. Leidner olhou perplexo para ele.

— Creio que sim — respondeu vagarosamente. — Uma vez ouvi um tal de Senhor Van Aldin se referir a ele nos termos mais elogiosos. Um detetive particular, não é?

— Exato.

— Mas decerto ele vive em Londres, portanto como nos poderá ajudar?

— Vive em Londres, de fato — disse o Dr. Reilly, — e aqui é que entra a coincidência. Ele agora não está em Londres mas na Síria, e efetivamente passará amanhã por Hassanieh, a caminho de Bagdá!

— Quem lhe contou?

— Jean Berat, o cônsul francês. Jantou conosco ontem à noite e esteve falando sobre ele. Parece que esteve deslindando um escândalo militar na Síria. Vai passar por aqui pra visitar Bagdá, regressando depois a Londres pela Síria. Que tal a coincidência?

O Dr. Leidner hesitou um instante e olhou humildemente para o Capitão Maitland.

— O que é que o senhor acha, Capitão Maitland?

— Receberia auxílio de bom grado — respondeu Maitland prontamente. — Meus colegas são bons elementos pra vasculhar o interior do país e investigar atritos entre família árabes, mas francamente, Leidner, este negócio de sua esposa me parece um pouco fora do meu gênero. A coisa toda está com um ar abominavelmente suspeito. Sinto-me mais do que disposto a deixar o sujeito examinar o caso.

— Sugere que eu devo apelar ao tal Pirot pra nos ajudar? — perguntou o Dr. Leidner. — E suponhamos que ele recuse?

— Não recusará — afirmou o Dr. Reilly.

— Como pode ter certeza?

— Porque também sou um profissional. Se me aparecesse um caso realmente intrincado, digamos de... meningite cerebrospinal e me convidassem a dar uma opinião, eu não saberia recusar. Não se trata de um crime banal, Leidner.

— Não — admitiu o Dr. Leidner, os lábios subitamente retorcidos de dor.

— Reilly, você quer encarregar-se então de procurar o tal Hercule Poirot em meu nome?

— Pois não.

O Dr. Leidner fez um gesto de agradecimento.

— Mesmo agora — acrescentou, a caro custo, — não consigo imaginar... que Louise esteja de fato morta.

Não pude suportar mais.

— Oh, Dr. Leidner — explodi. — Eu… eu nem sei dizer o quanto eu sinto tudo o que aconteceu. Fracassei de uma forma tão miserável em cumprir com meu dever. Tinha obrigação de zelar pela senhora Leidner... protege-la de qualquer perigo.

O Dr. Leidner sacudiu gravemente a cabeça.

— Não, não, enfermeira, você nada tem a se recriminar — declarou lentamente. — Sou eu, que Deus me perdoe, que tenho a culpa. Eu não acreditei... o tempo todo, não acreditei... nem sequer sonhei por um instante que houvesse algum perigo verdadeiro — levantou-se, o rosto contraído. — Deixei que ela fosse morta. Sim, deixei que fosse morta... sem acreditar...

E saiu cambaleando da sala.

O Dr. Reilly olhou para mim.

— Sinto-me culpado também — disse. — Pensei que a boa senhora estivesse brincando com os nervos dele.

— Eu tampouco levei realmente a sério — confessei.

Todos nós três estávamos errados — reconheceu o Dr. Reilly solenemente.

Pelo jeito sim — afirmou o Capitão Maitland.

 

A chegada de Hercule Poirot

Creio que jamais esquecerei minha primeira visão de Hercule Poirot. É claro que mais tarde me acostumei com ele; mas para começar, foi um choque, e acho que todos os outros devem ter sentido a mesma coisa!

Não sei o que havia imaginado — algo meio parecido com Sherlock Holmes — alto e magro, de fisionomia perspicaz e inteligente. Sabia, naturalmente, que era estrangeiro mas não esperava que fosse tanto assim, se é que me faço entender.

Ao vê-lo, dava vontade de rir! Dir-se-ia que tivesse saído de um palco ou de um filme. Para começar, não tinha mais de metro e meio de altura, na min há opinião — um homenzinho gordo, esquisito, bastante velho, com um bigode enorme e a cabeça feito um ovo. O protótipo do cabeleireiro das peças cômicas!

E esse era o homem que ia descobrir o assassino da senhora Leidner!

Suponho que parte do meu desagrado no mínimo se estampava na minha cara, porque ele quase imediatamente me perguntou, piscando o olho de modo esquisito:

— Julga que não sou o homem indicado, ma soeur? Lembre-se de que só com o tempo é que a gente tem o direito de opinar.

Só a experiência comprova, imagino que fosse o que ele queria dizer.

Ora, é um ditado bastante certo mas não posso afirmar que me infundisse muita confiança!

O Dr. Reilly trouxe-o de carro no domingo, logo após o almoça, e sua primeira medida foi marcar uma entrevista coletiva com todos os membros da expedição.

A reunião foi na sala de refeições, em torno da mesa. O sr. Poirot ocupou a cabeceira, ladeado pelo Dr. Leidner e pelo Dr. Reilly.

Quando estávamos todos sentados, o Dr. Leidner pigarreou e começou a falar com aquela voz delicada, vacilante.

— Creio que posso dizer que os presentes já conhecem o sr. Hercule Poirot de nome. Ele estava passando  hoje por Hassanieh e teve a suma gentileza de interromper a viagem pra nos prestar auxílio. Tenho certeza de que a Polícia iraquiana e o Capitão Maitland estão fazendo o máximo possível mas... há circunstâncias no caso — atrapalhou-se, lançando um olhar de apelo ao Dr. Reilly, — que parece que talvez apresentem dificuldades.

— Não está tudo evidente e à tona dágua, não? — perguntou o homenzinho na ponta da mesa. Ora, nem sequer sabia falar direito!

— Oh, ele precisa ser descoberto! — bradou a senhora Mercado. — Seria insuportável se ele ficasse impune!

Notei que os olhos do estrangeiro baixinho pousaram nela de uma maneira avaliatória.

— Ele? Quem é ele, madame? — perguntou.

— Mas o assassino, certamente.

— Ah! O assassino! — exclamou Hércules Poirot.

Falava como se o criminoso não tivesse a menor importante.

Todos olharam fixamente para ele. Examinou um rosto após outro.

— É provável, acho eu — observou, — que nenhum dos presentes tenha entrado  antes contato direto com um caso de assassinato, não?

Houve um murmúrio geral de assentimento.

Hércules Poirot sorriu.

— É claro, portanto, que não compreendem o ABC da situação. Há aborrecimentos! Sim, há uma porção de aborrecimentos. Pra começar, há suspeitas.

— Suspeitas?

Foi a senhorita Johnson quem estranhara. O senhor Poirot olhou pensativamente para ela. Tive a impressão de que a contemplou com aprovação. Parecia estar pensando: "Eis aí uma pessoa sensata e inteligente".

— Sim, mademoiselle — disse. — Suspeitas! Vamos deixar de cerimônias. Todos os que vivem nesta casa são suspeitos. O cozinheiro, os criados, o copeiro, o menino que lava a cerâmica... sim, e também todos os da expedição.

A senhora Mercado se levantou de repente, com o rosto agitado.

— Como ousa? Como se atreve a dizer uma coisa assim? Isto é odioso... intolerável. Doutor Leidner, como fica aí sentado e deixa que este homem... que este homem...?

— Por favor, procure ficar calma, Marie — aconselhou o Dr. Leidner, aborrecido.

O senhor Mercado também se levantou. Tremiam-lhe as mãos e tinha os olhos injetados em sangue.

— Estou de acordo com minha mulher. Isto é um ultraje... um insulto...

— Não, não — replicou o senhor Poirot . — Não estou insultando ninguém. Peço apenas que examinem os fatos. Numa casa onde se cometeu um crime cada morador incorre numa certa parcela de suspeita. Eu lhes pergunto: qual é a prova que existe de que o assassino seja uma pessoa estranha?

— Claro que veio de fora! — exclamou a senhora Mercado. — Está pra lá de evidente! Ora... — deteve-se e logo prosseguiu mais lentamente, — Qualquer outra coisa seria incrível.

— Não há dúvida de que tem razão, madame — disse Poirot com uma reverência. — Vou explicar-lhes apenas de que modo o assunto deve ser tratado. Primeiro me certifico do fato de que todas as pessoas presentes nesta sala são inocentes. Depois procuro o assassino em outra parte.

— Não acha provável que então já será tarde demais? — perguntou brandamente o  Padre Lavigny.

— A tartaruga, mon père, alcançou à lebre.

O Padre Lavigny encolheu os ombros.

— Estamos em suas mãos — disse com resignação. — Procure convencer-se tão logo quanto possível de nossa inocência nessa história terrível.

— O mais rápido que eu puder. Tinha a obrigação de esclarecer a situação, para que ninguém se ofendesse com a impertinência de certas pergunta que terei de fazer. Talvez, mon père, a Igreja queira dar o bom exemplo?

— Faça as perguntas que quiser — respondeu o Padre Lavigny, em tom solene.

— É a primeira vez que vem para cá  nesta expedição?

— Sim.

— Quando chegou?

— Amanhã faz três semanas. Quer dizer, no vinte e dois de fevereiro.

— De onde procedia?

— Da ordem dos Pères Blanches, em Cartago.

— Obrigado, mon père. Tinha tido ocasião de conhecer a senhora Leidner antes de  vir aqui?

— Não. Nunca a tinha visto essa senhora antes de encontra-la aqui.

— Poderia me dizer o que é que estava fazendo no momento em que ocorreu a tragédia?

— Estava decifrando umas placas de caracteres cuneiformes no meu quarto.

Reparei que Poirot tinha ao lado do cotovelo uma plana esquemática do prédio.

— É o que fica no canto sudoeste, correspondente ao da senhora Leidner no lado oposto?

— Sim.

— A que horas o senhor foi pro seu quarto?

— Imediatamente depois de almoçar. Eu diria que era às vinte pra uma, mais ou menos.

— E permaneceu lá até... quando?

— Até pouco antes das três. Ouvi a camioneta entrar no pátio... e que logo depois voltava a sair. Fiquei intrigado e fui ver o que acontecia.

— Durante todo esse tempo, saiu alguma vez de sua habitação?

— Não, nenhuma só vez.

— Ouviu ou viu algo que pudesse ter relação com o crime?

— Não.

— Seu quarto tem janelas que  comuniquem com o pátio?

— Não, suas duas janelas dão pro campo.

— Ouviu alguma coisa dos movimentos no pátio?

— Não muito bem. Ouvi que o senhor Emmott passava pelo meu quarto e subia ao terraço. Fez isso uma ou duas vezes.

— Não se recorda da hora?

— Não. Temo que não. Estava concentrado no trabalho, compreende?

Houve uma pausa e logo Poirot disse:

— Pode contar ou nos sugerir alguma coisa que pudesse esclarecer um pouco este assunto? Por exemplo, notou algo nos dias que precederam ao assassinato?

O Padre Lavigny pareceu ligeiramente contrafeito. Lançou um olhar interrogativo ao doutor Leidner.

— Essa pergunta é um pouco delicada, monsieur — disse, por fim, gravemente. — Já que faz questão se saber, devo confessar com franqueza que, em minha opinião, a senhora Leidner andava nitidamente  com medo de alguém ou de alguma coisa. Qualquer desconhecido a punha nervosa. Imagino que houvesse motivo pra esse nervosismo dela... Ela não confiava em mim.

Poirot pigarreou e consultou certas anotações de sua carteira que segurava na mão.

— Duas noites atrás, pelo que vejo, ocorreu pânico por causa de um intento de roubo.

O Padre Lavigny respondeu afirmativamente. Contou de novo que tinha visto uma luz no depósito de antiguidades, assim como a infrutífera busca posterior.

— O senhor acredita que alguém entrou ilicitamente nas dependências da casa nessa ocasião?

— Não sei o que pensar — replicou com franqueza o Padre Lavigny. — Não dei pela falta de nada e tudo estava em ordem. Talvez tivesse sido um dos criados...

— Ou um dos da expedição.

— Sim, isso. Mas nesse caso não haveria motivo pra que essa pessoa negasse o fato.

— Mas também, podia ter sido um desconhecido?

— Suponho que sim.

— Admitindo um estranho tivesse entrado nas dependências da casa, poderia ele esconder-se durante dia e meio com pleno êxito?

Dirigiu esta pergunta ao Padre Lavigny e ao doutor Leidner. Os dois refletiram antes de responder.

— Acho praticamente impossível — respondeu o doutor Leidner com certa relutância — Não vejo onde poderia esconder-se, o que lhe parece, Padre Lavigny?

— Não... não... eu tampouco sei.

 

Ambos se mostravam relutantes em descartar a sugestão.

Poirot se dirigiu à senhorita Johnson.

— E você, mademoiselle? Acha tal hipótese plausível?

Após considerar um instante, a senhorita Johnson sacudiu a cabeça.

— Não — respondeu ela. — Não acredito. Onde poderia esconder-se? Todos os dormitórios estão ocupados e, além disso, têm bem poucos móveis. A câmara escura, a sala de desenho e o laboratório foram usados no dia seguinte, como aliás todas as salas deste lado. Não há armários nem desvãos. A menos que os empregados estivessem de conluio...

— Isso é possível, mas improvável — disse Poirot.

Virou-se de novo para o Padre Lavigny.

— Há mais uma coisa ainda. Faz poucos dias a enfermeira Leatheran, aqui presente,  viu o senhor falando com um homem lá fora. Ela já havia notado anteriormente o mesmo homem tentando espiar por uma janela do exterior. Até parece que ele andava rondando o local de propósito.

— Isso é possível, certamente — replicou o Padre Lavigny, pensativo.

— Foi o senhor que tomou a iniciativa, ou foi ele quem puxou conversa?

O monge meditou por uns instantes e depois respondeu:

— Acredito... sim, estou seguro, que foi ele.

— O que foi que ele disse?

O Padre Lavigny fez um esforço de memória.

— Acredito que me perguntou algo sobre se era esta a casa ocupada pela expedição americana. E logo fez um comentário sobre o número de gente que empregam os americanos. Na realidade, não lhe cheguei a entender tudo, mas fiz o possível para manter a conversação com objetivo de praticar o meu árabe. Pensei que, talvez, tratando-se de um homem que vivia na cidade, me entenderia melhor que do que os  trabalhadores  das escavações.

— Conversaram sobre algum outro assunto?

— Tudo o que posso recordar é que comentei que Hassanieh era uma cidade grande cidade..., e depois concordamos que Bagdá o era maior... Depois me perguntou se eu era  armênio ou sírio católico... algo nesse gênero.

Poirot assentiu.

— Pode descrevê-lo?

O Padre Lavigny franziu a testa de novo.

— Era bastante baixo — disse por fim. — e de constituição atarracada. Tinha um estrabismo bem flagrante e pele clara.

Poirot se dirigiu para mim.

— Esta de acordo com a descrição que faria dele? — perguntou-me.

— Não exatamente — repliquei, meio hesitante. — Eu diria que era alto, e não baixo, e de pele bem morena. Pareceu-me que era magro e não notei estrabismo nenhum.

Hércules Poirot deu de ombros com gesto de desespero.

— É sempre assim! Se vocês fossem da polícia veriam como tenho razão! A descrição do mesmo homem, feita por duas pessoas diferentes... não coincide nunca. Todos os detalhes se contradizem.

— Estou completamente seguro do estrabismo — insistiu o Padre Lavigny. — Talvez a enfermeira Leatheran tenha razão quanto ao resto. E a propósito, quando disse pele clara, significava clara pra um iraquiano. Suponho que a enfermeira a chamaria de escura.

— Muito escura — disse eu obstinadamente. — De uma cor de sujeira amarelo-escura.

Vi o doutor Reilly morder os lábios e sorrir. Poirot levantou ambas as mãos.

— Passons! — disse. — Este desconhecido perambulando por aí, talvez seja importante... ou talvez não. Seja como for, devemos encontrá-lo. Continuemos o interrogatório.

Hesitou uns momentos, analisando os rostos virados para ele ao redor da mesa. Logo fez um rápido aceno, escolheu ao senhor Reiter.

— Vamos, meu amigo — disse. — Nos conte o que fez ontem pela tarde.

— Eu? — perguntou.

— Sim, você. Para começar, como se chama e quantos anos tem?

— Meu nome é Carl Reiter e tenho vinte e oito anos.

— Americano?

— Sim. Sou de Chicago.

— É esta sua primeira expedição?

— Sim. Estou encarregado das fotografias.

— Ah, sim! E ontem à tarde, como empregou seu tempo?

— Bem... praticamente não saí da câmara escura.

— Praticamente... hem?

— Sim. Primeiro revelei umas chapas. Depois fiquei arrumando vários objetos para fotografá-los.

— Fora da casa?

— Não, no estudo fotográfico.

— Comunica-se este com a câmara escura?

— Sim.

— E portanto nunca saiu de lá?

— Não.

— Notou alguma coisa quando foi pro pátio?

O jovem sacudiu a cabeça.

— Não notei nada — explicou. — Estava ocupado. Ouvi o carro voltar e assim  que pude deixar o que estava fazendo, saí pra ver se tinha alguma carta para mim. Foi então que... fiquei sabendo.

— A que hora começou seu trabalho no estúdio?

— Às dez pra uma.

— Conhecia à senhora Leidner antes de ingressar nesta expedição?

O rapaz voltou a sacudir a cabeça.

— Não, senhor. Encontrei-a pela primeira vez ao chegar aqui.

— Pode recordar algo... algum incidente... por pequeno que seja... que nos pudesse ajudar?

Carl Reiter moveu negativamente a cabeça.

— Acredito que não sei nada absolutamente, senhor — disse com acento desolado.

— Senhor Emmott?

David Emmott falou clara e concisamente, com voz agradável e suave, de sotaque americano.

— Estive trabalhando no pátio desde quinze pra uma até um quarto pras três... controlando o menino Abdullah, que lavava as peças de cerâmica e, enquanto eu ia classificando, de vez em quando, subia ao terraço para ajudar ao doutor Leidner.

— Quantas vezes esteve lá?

— Quatro, creio.

— Por quanto tempo?

— Em geral dois minutos... não mais.  Mas numa ocasião, depois que fiquei trabalhando cerca de mais de uma hora, me demorei uns bons dez minutos... discutindo o que se devia guardar ou jogar fora.

— E pelo que vejo, quando desceu verificou que o garoto havia abandonado seu posto?

— Sim. Chamei-o, irritado, e ele reapareceu na passagem da arcada. Tinha saído pra conversar com os outros.

— Foi a única vez que o menino abandonou o trabalho?

— Bem, mandei-o uma ou duas vezes levar cerâmicas ao terraço.

— Creio que nem preciso perguntar, senhor Emmott, se viu alguém entrar ou sair do quarto da senhora Leidner durante esse tempo? — disse Poirot gravemente.

O jovem se apressou a responder:

— Não vi absolutamente ninguém. Nem sequer entrou ninguém no pátio durante as duas horas que estive trabalhando.

— E, segundo julga, era uma e meia quando o senhor e o garoto se ausentaram, deixando o pátio deserto?

— Não pôde ser nem muito antes, nem muito depois. Certamente, não posso assegurá-lo com exatidão.

Poirot se dirigiu ao doutor Reilly.

— Isso coincide com seu cálculo da hora da morte, doutor?

— Coincide — afirmou o médico.

O senhor Poirot cofiou os bastos bigodes retorcidos.

— Acredito que podemos assegurar — disse com ar solene — que a senhora Leidner foi assassinada durante esses dez minutos.

 

Um de nós?

Houve uma curta pausa — e uma onda de horror pareceu flutuar em torno da mesa.

Creio que foi nesse momento que acreditei pela primeira vez que a teoria do doutor Reilly era correta.

"Senti" que o assassino estava ali. Sentado conosco... ouvindo. Um de nós...

Talvez a senhora Mercado teve a mesma impressão, porque de repente soltou um  grito curto e agudo.

— Não posso evitar — soluçou. — Eu... é tão horrível...

— Ânimo, Marie — disse seu marido.

E olhou-nos como pedindo desculpas.

— Ela é muito impressionável. Tem uma sensibilidade delicadíssima.

— Eu... eu gostava tanto... de Louise — choramingou a senhora Mercado.

Não sei se algo do que pensei naquele momento transpareceu em meu rosto, mas imediatamente notei que o senhor Poirot me olhava e de que um leve sorriso em seus lábios.

Dirigi-lhe um olhar frio e ele recomeçou logo o interrogatório.

— Me diga, madame — disse, — o que fez você ontem pela tarde?

— Fiquei lavando o meu cabelo — soluçou a senhora Mercado. — Parece espantoso não ter sabido de nada. Eu estava tão contente e estive muito ocupada com o que fazia.

— Permaneceu em seu quarto?

— Sim.

— Não saiu de lá?

— Não. Até ouvir o carro no pátio. Então saí e soube do que tinha passado. OH, foi horroroso!

— Admirou-se?

A senhora Mercado parou de chorar e seus olhos se abriram com expressão ressentida.

— O que é que o senhor quer dizer, monsieur Poirot? Está insinuando...?

— Insinuando o quê, madame? A senhora acaba de nos dizer o quanto gostava da senhora Leidner. Ela podia, talvez lhe ter feito alguma confidência.

— Ah...! Já compreendi. Não, a querida Louise não me contou  nada... nada

definido, quero dizer. Claro que notei que estava terrivelmente preocupada e nervosa. E houve aquelas estranhas ocorrências... as mãos batendo na janela e tudo

o mais.

— Imaginações, lembro que a senhora falou — intervim, incapaz de guardar silêncio.

Alegrei-me ao ver que, momentaneamente, a deixara  desconcertada.

Mais uma vez, senti o olhar divertido do senhor Poirot virar-se em minha direção.

Ele recapitulou a situação de um jeito sistemático.

— Em resumo, madame: a senhora estava lavando o cabelo... Não ouviu nem viu nada. Há alguma coisa que, em sua opinião, possa nos auxiliar na investigação?

A senhora Mercado não se deteve pensar.

— Não, não há nenhuma, seriamente. Isto é um mistério indecifrável! Mas eu diria que não há dúvida... de espécie alguma, de que o assassino foi um estranho. Ora, é evidente.

Poirot se voltou para o senhor Mercado.

— E o senhor, monsieur, o que acha?

O senhor Mercado pareceu sobressaltar-se. Puxou a barba distraidamente.

— Deve ter sido. Deve ter sido — disse. — E entretanto, como é possível que alguém desejasse sua morte? Era uma pessoa tão doce... tão amável... — sacudiu a cabeça. — Quem a matou, seja lá quem for, só pode ser um monstro... sim, um monstro.

— E de que forma passou ontem a tarde, monsieur?

— Eu? — disse o senhor Mercado ficou de olhos fixos e vago.

— Esteve no laboratório, Joseph — insinuou-lhe sua mulher.

— Ah, sim! Ali estive... isso. Meu trabalho de costume.

— A que horas você entrou no laboratório?

O senhor Mercado olhou de novo interrogativamente a sua mulher.

— Faltavam dez pra uma, Joseph — disse esta.

— Sim. Às dez pra uma.

— Saiu alguma vez ao pátio?

— Não... creio que não — meditou um momento. — Não, tenho certeza de que não.

— Como soube do assassinato?

— Minha mulher veio contar-me. Foi terrível... chocante. Quase não o pude acreditar. Mesmo agora mal consigo acreditar que seja verdade — de repente começou a tremer. — É horrível... horrível...

A senhora Mercado se dirigiu rapidamente junto a seu marido.

— Sim, sim, Joseph; todos sentimos o mesmo. Mas não nos devemos entregar. Torna tudo muito penoso pro coitado do doutor Leidner.

Vi um espasmo de dor passar pelo rosto do doutor Leidner, e imaginei que aquela atmosfera sentimental não era fácil para ele. Lançou um tímido olhar de apelo a Poirot. A reação de Poirot foi imediata.

— Senhorita Johnson? — invocou.

— Receio ter pouquíssimo a lhe dizer. — respondeu ela. Sua voz de mulher culta e refinada produziu um efeito calmante depois da aguda voz da senhora Mercado. — Estive trabalhando no living... tomando impressões dos cilindros de lacres em plasticina.

— E não ouviu nem viu nada?

— Não.

Poirot lhe dirigiu um rápido olhar. Seu ouvido tinha captado a mesma coisa que o meu... uma ligeira indecisão.

— Tem certeza, mademoiselle? Não existe algo de que recorde vagamente?

— Não... realmente não...

— Algo que vislumbrou, digamos, com o rabo do olho, praticamente sem se dar conta?

— Não; certamente que não — replicou ela com acento firme.

— Então, algo que ouviu. Sim, qualquer coisa de que não está bem segura se ouviu ou não?

A senhorita Johnson soltou uma curta risada nervosa e irritada.

— O senhor está-me forçando demais, monsieur Poirot. Assim vou acabar dizendo coisas, que possivelmente, sejam minhas imaginações.

Então houve algo que... digamos... imaginou?

A senhorita Johnson respondeu lentamente, como se pesasse cada palavra de maneira bem marcante:

— Imaginei... depois... que houve um momento durante a tarde em que ouvi um grito muito fraco... Quer dizer, atreveria-me a assegurar que ouvi um grito. Todas as janelas da sala de estar estavam abertas e se ouvia claramente o ruído que produziam vários lavradores nas plantações de cevada. Mas não vê que... depois... me passou pela cabeça a idéia de que era... de que se tratava da voz da senhora Leidner. Isso me deixou bastante triste. Porque se eu tivesse corrido em seguida e tivesse ido ao seu quarto... bom, quem sabe? Talvez tivesse chegado a tempo...

O doutor Reilly interveio com voz autoritária.

— Vamos, não comece com essas idéias — disse. — Não tenho nenhuma dúvida de que a senhora Leidner foi derrubada logo que o assassino entrou em seu quarto, e que aquele golpe a matou. Não a golpearam pela segunda vez. De outra forma tivesse tido tempo de gritar por socorro e armar verdadeiro alvoroço.

— Não obstante, poderia ter surpreendido o assassino — insistiu a senhorita Johnson.

— Que hora eram, mademoiselle? — perguntou Poirot. — Por volta da uma e meia?

A senhorita Johnson levantou a cabeça e declarou:

— Sim... deve ter sido mais ou menos a essa hora — disse ela depois de refletir um momento.

— Tal coisa encaixaria na questão — comentou Poirot, pensativamente. Produziu-se um silêncio momentâneo. — Não ouviu mais nada...? O ruído ao abrir e fechar uma porta, por exemplo?

A senhorita Johnson sacudiu a cabeça.

            — Não, não lembro de nada nesse gênero.

— Suponho que você estaria sentada ante uma mesa. Em que direção olhava? Para o pátio, o armazém, o alpendre ou o campo?

— Estava olhando para o pátio.

— Você podia ver, de onde estava, o menino que lavava as cerâmicas?

— Claro, embora tinha que levantar a vista para isso. Mas, certamente, estava muito concentrada no que fazia. Toda minha atenção se centrava em meu trabalho.

— Se alguém passasse diante da janela do pátio, entretanto, teria percebido?

— Sim. Estou segura de que sim.

— E ninguém o fez?

— Não.

— E se alguém tivesse passado pelo centro do pátio, você teria visto também?

— Acredito que... provavelmente, não. A não ser que, como disse antes, tivesse levantado a cabeça e tivesse olhado pela janela.

— Não reparou quando o garoto Abdullah deixou o trabalho e foi-se reunir com os demais criados?

— Não.

— Dez minutos — murmurou Poirot. — Esses fatais dez minutos.

Fez-se momentâneo silêncio.

— Sabe, monsieur Poirot, creio que, sem querer, estou lhe pondo sobre uma pista falsa. Pensando bem, não acredito que de onde estava, pudesse ouvir qualquer grito proveniente do quarto da senhora Leidner. O depósito de antiguidades fica situado entre ela e eu... e ao que consta as janelas de seu quarto estavam fechadas.

— De qualquer forma, não se torture, mademoiselle — disse Poirot, solícito. — De fato não tem muita importância.

— Não, certamente que não. Compreendo-o. Mas o caso é que para mim tem, porque estou segura de que podia ter feito algo.

— Não te atormente, minha cara Anne — disse afetuosamente o doutor Leidner. — Você precisa ser sensata. O que ouviu foi provavelmente  algum árabe gritando com outro no campo.

A senhorita Johnson corou ligeiramente diante da amabilidade de seu tom. Até vi que lhe brotavam umas lágrimas. Voltou a cabeça e falou mais asperamente ainda que de costume.

— Possivelmente foi isso. É o que sempre acontece depois de uma tragédia como esta... começa-se a imaginar coisas que nunca ocorreram.

Poirot estava consultando de novo seu livro de notas.

— Não acredito que haja muito a mais a dizer sobre isto, Senhor Carey?

Richard Carey falou lentamente, de uma maneira mecânica e insípida.

— Parece-me que não posso acrescentar nada que lhe sirva de ajuda. Estive de plantão nas escavações. Foi lá que recebi a notícia.

— E não sabe ou lembra qualquer detalhe significativo ocorrido nos dias que precederam ao assassinato?

— Não, absolutamente nada.

— Senhor Coleman?

— Não tenho nada que ver com isto — disse o jovem, com um tom na voz que se notava como uma ligeira sombra de pesar. — Fui a Hassanieh ontem de manhã buscar dinheiro para pagar aos operários. Quando voltei, Emmott me contou o que tinha acontecido e saí, outra vez, com a camioneta e fui procurar à polícia e ao doutor Reilly.

— E antes disso?

— Bem, as coisas andavam um tanto tensas... mas isso o senhor  já sabe. Houve o pânico do depósito de antiguidades, e antes disso, um ou dois incidentes anteriores... mãos e rostos na janela... o senhor se lembra, não é? — dirigiu-se ao doutor Leidner, quem inclinou a cabeça em mudo assentimento. — Eu acho, entende, que terminará descobrindo que um fulano qualquer penetrou mesmo sorrateiramente na casa. Deve ter sido algum miserável muito esperto.

Poirot contemplou-o em silêncio durante um momento.

— Você é inglês, senhor Coleman? — perguntou por fim.

— Sou sim, senhor. Bem inglês. Marca registrada. Autêntico e garantido.

— É a primeira vez que toma parte em uma expedição?

— Exatamente.

— E se interessa apaixonadamente por arqueologia?

Essa descrição de si mesmo pareceu causar certo embaraço ao senhor Coleman. Corou um pouco e lançou um olhar de soslaio ao doutor Leidner, como se fosse um colegial peralta.

— Certamente... é muito interessante — gaguejou. — Quero dizer... que não sou  precisamente um camarada intelectual ...

Interrompeu a frase, sem jeito e Poirot não quis insistir mais.

Bateu pensativo na mesa com a ponta do lápis que tinha na mão e endireitou o tinteiro que tinha a sua frente.

— Pelo visto, então — disse, — isso é tudo o que podemos apurar de momento. Se algum de vocês se recordar de algo que lhe tenha escapado à memória agora, não hesite em vir comunicar-me. Acredito que agora seria conveniente eu trocar umas palavras a sós com o doutor Leidner e com o doutor Reilly.

Era o sinal para encerrar a reunião. Levantamo-nos e fomos para a porta. Mas quando estava a ponto de sair, ouvi que me chamavam.

— Possivelmente a enfermeira Leatheran terá a amabilidade de ficar — acrescentou Poirot. — Acredito que sua ajuda nos pode valer de algo.

Voltei para a mesa e me sentei.

 

Poirot faz uma sugestão

O doutor Reilly permaneceu de pé. Quando todos se retiraram, fechou cuidadosamente a porta. Logo dirigindo um olhar indagador a Poirot, e  fechou também  a janela que dava ao pátio. As outras já estavam fechadas. Depois, tomou assento de novo ante a mesa.

— Bien! — disse Poirot. — Estamos agora a sós, sem ser importunados.  Podemos falar com liberdade. Nós ouvimos o que os membros da expedição têm a dizer sobre o caso... Mas sim, ma soeur, qual foi a idéia que lhe ocorreu?

Fiquei bem vermelha. Não há que negar que aquele homenzinho esquisito tinha olho vivo. Surpreendera o pensamento que me ocorrera — suponho que meu rosto demonstrou bem às claras o que eu estava pensando.

— OH! não é nada... — respondi, hesitante.

— Vamos, enfermeira — disse o doutor Reilly. — Não deixe o especialista esperando.

— Não é nada, palavra — apressei-me a repetir. – Só que me ocorreu que se alguém sabe ou suspeita algo, não seria fácil tocar no assunto na frente de todo mundo... ou melhor, diante o doutor Leidner.

Para minha completa surpresa, monsieur Poirot afirmou vigorosamente com a cabeça.

— Precisamente, precisamente. É muito justo o que acaba de dizer. Mas me explicarei. Essa pequena reunião que tivemos agora... tinha um propósito. Na Inglaterra, antes das corridas, exibem-se os cavalos, não é? Eles passam diante do palanque oficial para que todos tenham uma oportunidade de vê-los e avalia-los. Foi esse o propósito da minha pequena reunião. Se me permite utilizar uma frase esportiva, direi que dava uma olhada aos possíveis competidores.

O doutor Leidner exclamou violentamente:

— Não acredito, nem por um momento, que algum dos membros de minha expedição esteja complicado neste crime!

Logo, voltando-se para mim, disse com tom autoritário:

— Enfermeira, ficaria muito grato se contasse a monsieur Poirot, sem mais demora, exatamente o que se passou entre minha mulher e você há dois dias.

Premida desse modo, comecei imediatamente minha história, tentando, na medida do possível, reproduzir literalmente as palavras e frases usadas pela senhora Leidner.

Quando terminei, monsieur Poirot disse:

— Muito bem. Muito bem. A senhora tem idéias claras e ordenadas. Vai-me ser de grande ajuda aqui.

Virou-se para o doutor Leidner.

— Você tem essas cartas?

— Trouxe-as junto. Julguei que havia de querer vê-las em primeiro lugar.

Poirot tomou-as, leu e examinou-as com todo o cuidado. Fiquei um pouco desiludida ao ver que não as polvilhava com pós-brancos, nem as esquadrinhava com a lupa, ou coisa parecida. Mas me lembrei de que era um homem de avançada idade e de que seus métodos tinham que ser antiquados, limitou-se a lê-las como qualquer pessoa o teria feito.

Uma vez lidas, deixou-as sobre a mesa e pigarreou.

— E agora — disse, — procuremos colocar os fatos em ordem. A primeira destas cartas foi recebida por sua esposa pouco depois de casar-se com você na América. Havia recebido outras, mas ela as destruiu. À primeira carta seguiu-se  uma segunda. Pouco tempo depois de receber esta última, você e sua esposa se livraram, por pouco, de morrer asfixiados por causa de um escapamento de gás. O senhor então veio pro estrangeiro e durante quase dois anos não chegaram mais cartas. Mas começaram outra vez a receber no começo desta temporada de escavações... o que quer dizer, no período compreendido pelas três últimas semanas. Confere?

— Exatamente.

— Sua esposa demonstrou vários sintomas de pânico e, depois de consultar o doutor Reilly, o senhor contratou à enfermeira Leatheran, aqui presente, para que lhe fizesse companhia e acalmar seus temores?

— Sim.

— Ocorreram certos incidentes... tais como mãos batendo na janela; um rosto fantasmagórico... e ruídos no depósito de antiguidades. Não presenciou nenhum desses fenômenos pessoalmente?

— Não.

— De fato, ninguém testemunhou nada, exceto a senhora Leidner.

— O Padre Lavigny viu uma luz no depósito de antiguidades.

— Sim. Não o esqueci. — guardou silêncio durante uns instantes e logo disse:  — Sua esposa fez testamento?

— Não acredito.

— Por que?

— Não valia a pena, segundo seu ponto de vista.

— Não é uma mulher rica?

— Sim, enquanto vivesse. Seu pai lhe deixou uma considerável quantidade de dinheiro em fundo de garantia. Ela não podia mexer no capital. Ao morrer, este devia passar a seus filhos, se os tivesse... e, na falta de herdeiros, seria doado ao museu do Pittstow.

Poirot tamborilou com os dedos sobre a mesa, com ar pensativo.

— Então, acredito que podemos eliminar um motivo do caso — disse. — Compreendem? É a primeira coisa eu que procuro. Quem se beneficia com a morte da vítima? Neste caso é um museu. Se tivesse sido de outra forma; se a senhora Leidner tivesse morrido intestada, mas proprietária de uma considerável fortuna, imagino que seria interessante, pois terei que elucidar quem herdava o dinheiro, se você ou o primeiro marido. Mas então haveria outra dificuldade: o ex-marido teria que ter ressuscitado para poder reclamar a herança e isso implicaria no risco de ser preso, embora seja difícil imaginar que a pena de morte fosse aplicada tanto tempo depois da guerra. Em todo caso, não há necessidade de formular essas conjeturas. Como disse antes, primeiro verifico a questão do dinheiro. A seguir, passo sempre a suspeitar do marido ou da mulher da vítima! Nesse caso, antes de mais nada, ficou provado que o senhor não se aproximou do quarto de sua esposa ontem à tarde e, em segundo lugar, só perde, em vez de ganhar, com a morte dela; em terceiro lugar...

Fez uma pausa.

— O que? — perguntou o doutor Leidner.

— Em terceiro lugar — prosseguiu lentamente Poirot. — Sei distinguir um amor profundo quando o vejo diante de mim. Acredito, doutor Leidner, que o amor que sentia por sua esposa era o principal objeto de sua vida. Era assim, não é?

O arqueólogo respondeu simplesmente:

— Sim.

Poirot assentiu.

— Portanto — declarou, vamos adiante.

— Apoiado! Passemos ao que interessa — exclamou o doutor Reilly com certa impaciência na voz.

Poirot lhe dirigiu um olhar de desaprovação.

— Não perca a paciência, meu amigo. Num caso como este, deve-se abordar tudo com método e ordem. Essa é, realmente, a regra que sigo em todos os assuntos de que me encarrego. Tendo eliminado certas possibilidades, aproximamo-nos agora de um ponto importantíssimo. É vital, como vocês dizem... que todas as cartas sejam postas sobre a mesa... Não deve esconder nada.

— De acordo — disse o doutor Reilly.

— Por isso exijo que me digam toda a verdade — prosseguiu Poirot.

O doutor Leidner o olhou surpreso.

— Asseguro-lhe, monsieur Poirot, que não escondi coisa alguma. Contei-lhe tudo o que sei. Não guardei a mínima reserva.

— Tout de même, não me contou tudo.

— Sim, o disse. Não acredito que falte nenhum detalhe.

Parecia estar angustiado.

Poirot sacudiu lentamente a cabeça.

— Não — replicou. — O senhor não me contou, por exemplo, por que instalou a enfermeira Leatheran nesta casa.

O doutor Leidner ficou completamente atônito.

— Mas eu já expliquei isso. Está claro. O nervosismo de minha mulher... seus temores...

Poirot inclinou-se para a frente. Devagar e enfaticamente moveu um dedo de um lado para outro.

— Não, não, não. Há algo nisso que não está claro. Sim; sua esposa corre perigo... foi ameaçada de morte; perfeitamente. E procura você... não à polícia... nem sequer a um detetive particular... mas a uma enfermeira. Isto não tem sentido algum!

— Eu... eu... — o doutor Leidner se deteve. O rubor subiu a suas bochechas. — Pensei que... 

Parou por completo.

— Agora estamos chegamos perto — animou Poirot. — O que foi que pensou?

O arqueólogo ficou silencioso. Parecia mortificado e relutante.

— O senhor veja — o tom do Poirot tornou-se sedutor e suplicante. — Tudo o que me contou soa verdadeiro, exceto isto. Por que uma enfermeira? Existe uma resposta... sim. De fato, só pode haver uma resposta. O senhor mesmo não acreditou que sua esposa estivesse correndo perigo algum.

E então, dando um grito, o doutor Leidner se desfez.

— Valha-me Deus! — gemeu. — Não acreditei... não acreditei...não.

Poirot o contemplou com a mesma atenção que um gato dispensa ao buraco por onde se meteu um camundongo; preparado para saltar sobre ele no momento em que apareça de novo.

— O que foi que pensou, então? — perguntou.

— Não sei. Não sei...

— Sim, sabe. Sabe perfeitamente. Talvez eu possa ajudá-lo... com uma hipótese. Doutor Leidner, o senhor suspeitou de que essas cartas foram escritas por sua própria mulher?

Não havia a menor necessidade de que ele respondesse. A verdade encerrada na hipótese de Poirot era flagrante. O gesto de horror com que o doutor Leidner levantou uma mão, como pedindo misericórdia, dispensava palavras.

Dei um profundo suspiro. Então eu tinha razão na minha conjetura mal formada! Recordei o curioso tom de voz do doutor Leidner quando me perguntava a minha opinião sobre tudo aquilo. Fiz um gesto afirmativo com a cabeça, lenta e pensativamente, até que me dei conta de que Poirot me estava olhando.

— A senhora também suspeitou, enfermeira?

— A idéia passou pelo meu pensamento — confirmei, sincera.

— Por que razão?

Expliquei a semelhança da caligrafia com a carta que o senhor Coleman me mostrara.

Poirot se voltou para o arqueólogo.

— Tinha também notado essa semelhança?

O doutor Leidner inclinou a cabeça.

— Tinha, sim. A escritura era mais pequena e retorcida, não grande e ampla como a de Louise; mas algumas letras tinham o mesmo risco. Vou mostrar-lhe.

Tirou várias cartas do bolso interior da jaqueta e finalmente escolheu uma folha que entregou ao Poirot. Era parte de uma carta que sua esposa  lhe escrevera. Poirot a comparou cuidadosamente com as cartas anônimas.

— Sim — murmurou. — Sim. Há alguns pontos de semelhança... uma curiosa forma de fazer os "s" e um "e" muito pessoal. Não sou perito em quirografia... e não posso assegurar nada, embora nunca encontrei a dois especialistas no assunto que coincidissem em uma opinião; mas pelo menos posso dizer que a semelhança entre os dois tipos de letra é muito grande. Parece extremamente provável que todas tivessem sido escritas pela mesma pessoa. Mas não temos a certeza disso. Devemos ter em conta todas as contingências.

Reclinou-se na cadeira e disse pensativamente:

— Há três possibilidades: primeira, que a semelhança das caligrafias seja pura coincidência. Segunda, que estas cartas ameaçadoras fossem escritas pela própria senhora Leidner com um propósito que desconhecemos. E terceira, que fossem escritas por alguém que, deliberadamente, copiou a letra dela. Por que? Parece que não tem sentido? Uma destas três possibilidades tem que ser a correta.

Refletiu durante uns momentos e logo, voltando-se para o doutor Leidner, e reassumindo as maneiras bruscas, perguntou:

— Quando a possibilidade de que sua própria esposa fosse a autora destas cartas lhe ocorreu pela primeira vez, que teoria o senhor formou sobre as causas?

O doutor Leidner sacudiu a cabeça.

— Desprezei a idéia logo que me ocorreu. Pareceu-me monstruosa.

— Não procurou nenhuma explicação?

— Bem — hesitou. — fiquei pensando se de tanto se preocupar e remoer o passado não teria, talvez, afetado ligeiramente o juízo de minha mulher. Pensei que, possivelmente, tivesse escrito ela mesma as cartas sem estar consciente do que fazia. É possível, não? — acrescentou, dirigindo-se ao doutor Reilly.

O médico franziu os lábios.

— O cérebro humano é capaz de quase tudo — replicou evasivamente.

Depois dirigiu um olhar fulminante a Poirot, que, em obediência ao sinal, abandonou aquele tema.

— As cartas são um ponto interessante do caso — explicou. — Mas devemos nos concentrar no assunto, considerando-o como um tudo. Em minha opinião, existem três soluções possíveis.

— Três?

— Sim. Solução número um; a mais simples. O ex-marido de sua esposa continua vivo. Primeiro a ameaça e depois passa a executar o que ameaçou. Se aceitarmos esta solução, o problema é descobrir como pôde entrar ou sair da casa sem ser visto. Solução número dois. A senhora Leidner, por motivos particulares (e que provavelmente seriam explicadas mais facilmente por um médico do que por um leigo), escreve cartas ameaçadoras a si mesma. O incidente do escapamento de gás é encenada por ela (lembre-se, foi ela quem despertou, dizendo que sentira cheiro de gás). Mas se a própria senhora Leidner escreveu essas cartas, não corria nenhum perigo proveniente do suposto autor das mesmas. Precisamos, portanto, procurar o assassino em outro lugar. Devemos buscá-lo entre os componentes da expedição. Sim — frisou em resposta a um murmúrio de protesto do doutor Leidner,  — é a única solução lógica. Para satisfazer um ressentimento pessoal, um deles a matou. Tal pessoa, posso garantir, estava provavelmente ciente das cartas... ou, em todo caso, sabia que a senhora Leidner temia ou fingia temer a alguém. Este fato, na opinião do assassino, tornava-lhe a execução do crime praticamente impune. Estava convencido de que se atribuiria a um desconhecido misterioso... o autor das cartas ameaçadoras. Uma variante dessa solução é que o próprio assassino escrevesse as cartas, conhecendo o passado da senhora Leidner. Mas em tal caso, não fica clara a razão de por que teve que imitar a letra dela, uma vez que, pelo que se pode deduzir, ser-lhe-ia  mais proveitoso para ele que as cartas parecessem escritas por um estranho. A terceira solução é, para mim, a mais interessante. Sugiro nela que as cartas são autênticas. Que foram escritas pelo primeiro marido da senhora Leidner, ou pelo irmão menor; e que efetivamente faz parte desta expedição.

 

Os suspeitos

O doutor Leidner se levantou de um salto.

— Impossível! Completamente impossível! Essa idéia é absurda!

O senhor Poirot o olhou, imperturbável, e não disse nada.

— O senhor pensa, por acaso, que se o ex-marido de minha mulher fizesse parte da expedição, ela não o reconheceria?

— Exatamente. Reflita um pouco sobre os fatos. Faz mais de quinze anos, seu esposa viveu alguns meses com esse homem. Ela o reconheceria se o encontrasse de novo depois de tanto tempo? Acredito que não. O rosto dele, a constituição teriam mudado... Sua voz, talvez nem tanto; mas esse é um detalhe de que ele se encarregaria. E lembre-se de que ela não esperava que estivesse entre os que conviviam em sua própria casa. Imaginava como um estranho. Não; não acredito que o reconhecesse. E existe uma segunda possibilidade. O irmão caçula... o menino daquela época agora é adulto, tão afeiçoado com o Frederick. Sim, devemos contar com ele. Ela reconheceria um garoto de dez ou doze anos num homem próximo dos trinta? Sim, existe o jovem William Bosner a ser considerado.Lembrem-se de que, em sua opinião, seu irmão não era traidor, a não ser um patriota, um mártir de seu país, Alemanha. Para ele, a traidora é a senhora Leidner... um monstro de maldade que foi capaz de enviar à morte a seu próprio marido. Um menino pode sentir grande devoção por quem ele considera como um herói, e uma mente jovem pode facilmente ficar obcecada por uma idéia, até o extremo de persistir nela muitos anos depois.

— Isso é verdade — comentou o doutor Reilly. — A crença popular de que os meninos esquecem com facilidade não é exata. Muitas pessoas que ao chegar à velhice retêm ainda imbuída na mente uma idéia que ficou ali gravada quando eram meninos.

— Bem — seguiu Poirot. — Temos duas possibilidades. Frederick Bosner, um homem que agora estaria mais ou menos com cinqüenta anos; e William Bosner, cuja idade deve andar perto dos trinta. Examinemos aos componentes da expedição sob esses dois pontos de vista.

— Isso é fantástico! — murmurou o doutor Leidner. — Minha própria equipe! Os membros de minha própria expedição!

— E por isso considerados insuspeitos — replicou Poirot secamente. — Um ponto de vista muito sutil. Começons. Quem não poderia, definitivamente, ser Frederick nem William?

— As mulheres.

— Naturalmente. A senhorita Johnson e a senhora Mercado ficam eliminadas. Quem mais?

— Carey. Ele e eu trabalhamos juntos há muitos anos, antes de que eu conhecesse  Louise...

— E, além disso, sua idade não coincide. Eu diria que tem uns trinta e oito anos; muito jovem para ser Frederick e muito velho para tratar-se do William. Quanto a outros, tanto o Padre Lavigny como o senhor Mercado podem ser Frederick Bosner.

— Mas, meu caro senhor — exclamou o senhor Leidner com a voz num tom que se misturava a irritação com o regozijo, — o Padre Lavigny é famoso em todo mundo como um dos melhores epigrafistas, e Mercado trabalhou durante muitos anos em um desconhecido museu de Nova Iorque. É impossível que qualquer um dos dois seja o homem que o senhor supõe!

Poirot acenou delicadamente com a mão.

— Impossível... impossível... Não conheço essa palavra! O impossível é, precisamente, o que investigo mais a fundo. Mas, por enquanto, continuemos. Quem mais sobra? Carl Reiter, um jovem de nome alemão. E David Emmott...

— Já me acompanhou durante duas temporadas, lembre-se.

— Esse jovem possui o dom da paciência. Se cometesse algum crime, pode estar seguro de que não seria depressa e correndo. Tudo seria muito bem preparado.

O doutor Leidner fez um gesto de desespero.

— E, finalmente, William Coleman — continuou Poirot.

— É inglês.

— Porquoi pas? A senhora Leidner não disse que o moço desapareceu da América e nunca mais foi achado? Podia facilmente ter sido criado na Inglaterra.

— O senhor encontra respostas para tudo — disse o arqueólogo.

Minha mente estava então trabalhando a toda pressão. Desde o início, a conduta do senhor Coleman tinha-me parecido mais própria de uma novela de P. G. Wodehouse do que  de um jovem de carne e osso. Estaria realmente interpretando aquele papel durante todo o tempo?

Poirot tomou notas em sua caderneta.

— Procedamos com ordem e método — disse. —Por conta do Frederick temos dois nomes: o Padre Lavigny e o senhor Mercado. E pelo William, os do Coleman, Emmott e Reiter.

— Vejamos agora o aspecto oposto da questão... meios e oportunidade.

Qual dos membros da expedição possuía os meios e a oportunidade de cometer o crime? Carey estava nas escavações. Coleman tinha ido ao Hassanieh, e o senhor esteve no terraço. Restam o Padre Lavigny, ao senhor Mercado, e sua esposa, a  David Emmott, ao Carl Reiter, à senhorita Johnson e à enfermeira Leatheran.

— OH! — exclamei, dando um salto em minha cadeira.

O senhor Poirot me fitou com  o olhar brilhante.

— Sim, sinto muito, ma soeur, mas teremos que inclui-la. Ter-lhe-ia sido muito fácil entrar no quarto da senhora Leidner e matá-la enquanto o pátio esteve deserto. A senhora é bem forte e musculosa, e ela não desconfiaria de nada até o momento de receber o golpe que a abateu.

Fiquei tão transtornada que não pude proferir nenhuma palavra. Notei que o doutor Reilly me olhava com expressão divertida.

— Caso interessante de uma enfermeira que assassinava a seus pacientes um após o outro — murmurou.

Dirigi-lhe um olhar fulminante.

O pensamento do doutor Leidner tomara rumo diverso.

— Emmott não, monsieur Poirot — objetou. — Não pode incluí-lo. Estava comigo naquele terraço, lembre-se, durante aqueles dez minutos.

— Não posso excluí-lo, apesar disso. Podia ter decido ao pátio, dirigindo-se diretamente ao dormitório da senhora Leidner, matá-la e logo depois chamado o empregado de volta. Ou podia ter cometido o crime numa das ocasiões em que enviou o menino lá no terraço.

O doutor Leidner sacudiu a cabeça e murmurou:

— Que pesadelo! Isto... é fantástico.

Para minha grande surpresa, Poirot concordou nisso.

— Sim. É verdade. Trata-se de um crime fantástico. Não é freqüente encontrar um desse tipo. Em geral, os homicídios são muito sórdidos... muito simples. Mas este é um caso extraordinário. Suspeito, doutor Leidner, que sua esposa foi uma mulher extraordinária.

Acertara na cabeça  do prego com tal precisão que me fez sobressaltar.

— É  verdade, enfermeira? — perguntou-me.

O doutor Leidner disse com voz pausada:

— Conte lhe como Louise era, enfermeira. Você pode ser imparcial a respeito dela.

Falei com toda franqueza.

— Era encantadora — declarei. — Não se podia deixar de admirá-la e querer fazer algo por ela. Nunca conheci ninguém semelhante.

— Obrigado! — atalhou o doutor Leidner e sorriu para mim.

— É um testemunho valioso, vindo de uma pessoa estranha – disse Poirot cortesmente. — Bem, prossigamos. Temos sete nomes sob cabeçalho  “meios e oportunidade”. A enfermeira Leatheran, a senhorita Johnson, a senhora Mercado e seu marido, o senhor Reiter, o senhor Emmott e o Padre Lavigny.

Voltou a pigarrear. Observei que os estrangeiros são capazes dos ruídos mais extravagantes.

— Vamos supor, de momento, que nossa terceira teoria esteja correta. Quer dizer, que o assassino seja Frederick ou William Bosner, e que um dos dois faça parte da equipe da expedição. Comparando ambas listas podemos reduzir o número de suspeitos pra quatro. O Padre Lavigny, o senhor Mercado, Carl Reiter e David Emmott.

— O Padre Lavigny é inadmissível — insistiu o doutor Leidner, — Pertence aos Pères Blancs de Cartago.

— E sua barba é autentica — acrescentei.

— Ma soeur — disse Poirot, — um assassino de primeira classe nunca utiliza barbas postiças.

— Como sabe que o assassino é de primeira ordem? — perguntei obstinadamente.

— Porque do contrário a verdade me seria óbvia neste instante... e ela não é.

Convencido, pensei comigo mesma.

— Seja como for — retorqui, voltando à barba, — deve ter levado muito tempo pra crescer.

— Essa é uma observação de caráter prático — replicou Poirot.

O doutor Leidner interveio com tom de desprezo e zangado.

— Tudo isto é ridículo... absolutamente ridículo. Tanto ele como Mercado são pessoas famosas. Há anos que são bem conhecidas.

Poirot se voltou para ele.

— O senhor não compreendeu bem a questão. Não considerou um ponto importante. Se Frederick Bosner não morreu... o que esteve fazendo durante todos esses anos? Deve ter adotado um nome falso. Seguido alguma carreira.

— Como Pères Blancs? — perguntou o doutor Reilly, cético.

— Sim, admito que parece um pouco fantástico — respondeu Poirot. —Mas não podemos desprezar a hipótese. Além disso, existem outras possibilidades.

— Os rapazes? — disse Reilly. — Se quer saber minha opinião, a julgar pelas aparências, só existe um suspeito que é um pouco plausível.

— E qual é?

— O jovem Carl Reiter. Na realidade, não há nenhuma prova contra ele; mas examine bem  e terá de reconhecer certas coisas... Tem a idade apropriada; sua mãe é de origem alemã; é o primeiro ano que vem e teve oportunidade de cometer o crime. Bastava-lhe apenas abandonar o posto no departamento fotográfico, cruzar o pátio fazer a sórdida façanha e voltar correndo, que nem coelho, enquanto não havia perigo à vista. Se uma pessoa entrasse por acaso na sal enquanto estivesse ausente, sempre podia dizer mais tarde que estava na câmara escura. Não digo que seja o homem que busca, mas se tem que suspeitar de alguém, digo-lhe que esse é o mais indicado.

Monsieur Poirot não mostrou grande entusiasmo. Assentiu solenemente, mas com ar de dúvida.

— Sim — disse. — É o mais indicado, mas talvez não seja tão simples assim. — Logo acrescentou: — Não digamos mais nada, por agora. Eu gostaria, se possível, dar uma olhada no quarto onde se cometeu o crime.

— Certamente — disse o doutor Leidner, enquanto remexeu nos bolsos e depois olhou para o doutor Reilly.

— Parece-me que o capitão Maitland  levou a chave — observou.

— Maitland deixou comigo — disse Reilly. — Ele teve de ir investigar um caso ocorrido em uma aldeia curda.

Tirou a chave.

O doutor Leidner titubeou.

— Não se importam... se eu não...? Talvez, a enfermeira...

— Certamente. Naturalmente — disse Poirot. — Compreendo perfeitamente. Nunca foi meu propósito lhe causar um dor desnecessária. Teria a amabilidade de me acompanhar, ma soeur?

— Claro que sim — respondi.

 

A mancha ao pé do lavatório

O corpo da senhora Leidner tinha sido transladado para Hassanieh, para ser procedida a autópsia, mas de resto o quarto ficou tal como estava no momento do crime. Continha tão poucas coisas que a polícia não levara  muito pouco tempo em suas investigações.

Entrando, à direita, estava a cama. Frente à porta, havia um par  janelas gradeadas que davam ao campo, e entre elas havia uma mesa de carvalho com duas gavetas, que servia à senhora Leidner de penteadeira. Na parede da esquerda via-se uma fileira cabides com vários vestidos pendurados, protegidos com capas de algodão, e uma cômoda de pinho. À esquerda da porta ficava o lavatório. O centro do quarto era ocupado por uma mesa de carvalho, de tamanho bastante grande, sobre a qual se via um tinteiro, uma pasta e uma pequena maleta. Nesta última a senhora Leidner guardava as cartas anônimas. As cortinas das janelas, de tiras curtas de fazenda indígena, eram brancas, listradas de laranja. O chão era de pedra e sobre ele se achavam distribuídas vários tapetes de pele de cabra. Três deles, de pequeno tamanho, eram marrons com listras brancas e estavam colocadas frente às janelas e do lavatório. A terceira, maior, de melhor qualidade, era branco com listras marrons e estava situada entre a cama e a mesa de escrever.

Não havia armários nem grandes cortinados... nada na realidade, onde alguém pudesse esconder-se. A cama de ferro era comum, com uma colcha de algodão estampado. O único traço de luxo em todo o dormitório eram três travesseiros feitos de pluma mais macia e encapelada. Só a senhora Leidner tinha travesseiros semelhantes.

Em breves e secas palavras, o doutor Reilly explicou onde se encontrou o corpo da vítima — amontoado sobre o tapete, ao lado da cama.

Para ilustrar a descrição, fez sinal para que eu me aproximasse.

— Se não lhe importar, enfermeira? — disse.

Não sou fricoteira. Agachei-me no chão e assim mais ou menos a posição do cadáver da senhora Leidner quando o encontramos.

— Leidner levantou a cabeça dela quando a encontrou — explicou o médico. — Porém interroguei-o minuciosamente e é óbvio que não chegou a muda-la de posição.

— Parece bastante claro — comentou Poirot. — Ela estava deitada na cama, dormindo ou descansando... Alguém abriu a porta; ela olhou ao visitante, levantou-se...

— E ele desfere o golpe — terminou o médico. — O golpe a deixou inconsciente e a morte sobreveio pouco depois. Como sabe...

Explicou em términos técnicos a característica da lesão.

— Então, não houve derramamento de sangue? — perguntou Poirot.

— Não. O sangue se espalhou inteiramente, dentro do cérebro.

— Eh bien — seguiu o detetive, — tudo parece claro... exceto num ponto. Se o homem que entrou era um estranho, por que a senhora Leidner não gritou em seguida, pedindo auxílio? Se gritasse, teria sido ouvida. Tanto pela enfermeira Leatheran, como por Emmott e ou pelo garoto.

— Isso tem fácil explicação — replicou secamente o doutor Reilly. —Porque não foi um estranho.

Poirot assentiu.

— Sim — disse, pensativo. — Talvez ficasse surpresa de ver a pessoa... mas não teve medo. Depois, ao ser agredida, talvez houvesse emitido um ligeiro grito sufocado... mas muito tarde.

— O grito que ouviu a senhorita Johnson?

— Sim... quer dizer, se o ouviu. Mas, de modo geral, duvido. As paredes de barro são grossas e as janelas estavam fechadas.

Aproximou-se da cama.

— A senhora deixou-a realmente deitada? — perguntou-me.

Expliquei exatamente o que eu tinha feito.

— Queria dormir, ou tinha a intenção de ler?

— Dei-lhe dois livros... uma novela e um livro de memórias. Geralmente lia um pouco e depois, às vezes, pegava num sono que nunca demorava muito.

— E ela mostrou... como direi?... a disposição habitual?

Refleti.

— Sim. Parecia absolutamente normal e bem disposta — respondi. — Um tanto esquiva, talvez, mas eu atribui às confidências que me fizera no dia anterior. Isso às vezes deixa as pessoas meio constrangidas.

Os olhos do Poirot brilharam.

— Ah, sim! É certo. Conheço isso muito bem.

Passou a vista pelo ambiente.

— E quando entrou aqui, depois do crime, encontrou tudo do mesmo jeito anterior?

Olhei também a meu redor.

— Sim. Assim acredito. Não me lembro de ter visto nada fora do lugar.

— Não havia vestígio da arma com que a golpearam?

— Não.

Poirot olhou ao doutor Reilly.

— O que foi, em sua opinião?

O médico se apressou a responder.

— Qualquer coisa bem pesada, de bom tamanho e sem arestas nem cantos. Eu diria que a base redonda de uma estátua, ou um pouco parecido. Repare que não estou sugerindo que fosse isso precisamente. Deve ser uma coisa dessa forma. O golpe foi desferido com grande força.

— Por um braço musculoso? Por um homem?

— Sim... A menos que...

— A menos... o que?

O doutor Reilly respondeu lentamente:

— É possível que a senhora Leidner estivesse ajoelhada... em cujo caso, o golpe sendo desferido de acima com um objeto pesado, não se necessitava muita força para isso.

— Ajoelhada! — murmurou Poirot. — É uma idéia.

— É apenas uma idéia, note bem — apressou-se a indicar o médico. —Não há absolutamente nada para comprova-la.

— Mas é possível.

— Sim. E afinal, em vista das  circunstâncias, nem tão fantástica assim. De medo, talvez se  ajoelhasse pedindo graça, em lugar de gritar, quando seu instinto avisou que era tarde demais... para isso; que ninguém acudiria a tempo de salvá-la.

— Sim — disse Poirot, pensativo. — É uma idéia.

Para mim, aquela era uma idéia bastante fraca. Não podia imaginar à senhora

Leidner ajoelhada perante ninguém.

Poirot começou a caminhar lentamente pelo quarto. Abriu as janelas, experimentou a resistência das grades e enfiou a cabeça nelas, para assegurar-se de que não havia meio de passar também os ombros.

— As janelas estavam fechadas quando vocês a encontraram — disse.  — Estavam assim quando a senhora a deixou às quinze pra uma?

— Sim. Sempre se fecham pelas tardes. Não têm cortinas de gaze, como no living e na sala de refeições. Ficam fechadas para que não entrem moscas.

— De qualquer forma ninguém pôde entrar por elas — murmurou Poirot. — E as paredes são sólidas ao máximo... de tijolos crus. Tampouco há alçapões que dêem ao terraço, nem clarabóias. Só há um meio de entrar neste quarto... e é a porta. E a ela só se pode chegar pelo pátio. E só existe uma entrada para o pátio... através da arcada. E do lado fora da arcada estavam  cinco pessoas e todas contam a mesma história. Não acredito que nenhuma delas minta. Não, não mintam. Não as subornaram para que calem. O assassino estava aqui...

Não disse nada. Tive a mesma sensação de momentos antes, quando estávamos todos sentados ao redor da mesa.

Poirot perambulou sem pressa pelo quarto. Pegou uma fotografia que havia sobre a cômoda. Era de um homem idoso de cavanhaque branco. Olhou inquisitivamente para mim.

— É uma fotografia do pai da senhora Leidner — esclareci. — Foi ela que me disse.

Tornou a deixar a fotografia e deu uma olhada aos objetos que havia sobre a penteadeira. — Todos de tartaruga comum — simples, mas de boa qualidade. Logo inspecionou uns livros que havia em uma prateleira, enquanto lia em voz alta seu títulos:

— Quem eram os gregos?, Introdução à relatividade, A vida de lady Hester Stanhope, O Trem de Crewe, A volta de Matusalém, Linda Condon. Sim, eles nos revelam algo, talvez . A senhora Leidner não era atrasada. Tinha inteligência.

— OH! Era uma mulher inteligentíssima — afirmei logo. — Instruída e inteirada de muitas coisas. Não tinha nada de vulgar.

Sorriu ao me olhar.

— Já me tinha dado conta disso — repôs.

Passou adiante. Deteve-se uns instantes diante do lavatório, onde havia uma grande quantidade de frascos e cremes de beleza.

Depois, de repente, ajoelhou-se e examinou o tapete.

O doutor Reilly e eu nos aproximamos rapidamente a ele. Estava examinando uma pequena mancha marrom escura, que quase não se distinguia sobre na cor do tapete. Em realidade, só se via em um ponto onde me sobressaía sobre uma das listras brancas.

— O que é que o senhor acha, doutor? — perguntou ele.   — É sangue?

O doutor Reilly se ajoelhou junto ao Poirot.

— Pode ser — opinou. — Posso verificar, se quiser.

— Por favor.

O senhor Poirot examinou a jarra de água e a bacia. A jarra estava em pé, ao lado do lavatório. A bacia estava vazia, mas ali junto do lavatório havia uma lata velha de querosene cheia de água suja.

O detetive se voltou para mim.

— Lembra-se, enfermeira? Esta jarra se encontrava fora ou dentro da bacia quando a senhora deixou à senhora Leidner às quinze pra uma?

— Não estou segura — repliquei, após certa hesitação. — Dentro, creio eu. 

— Ah!...

— Mas, o senhor compreende — apressei-me a acrescentar, — digo isso porque geralmente estava. Os garotos deixam nessa posição depois do almoço. Apenas acho  que se não estivesse eu teria reparado. 

Ele assentiu, compreensivo.

— Sim, compreendo-o. É por causa de seu treinamento hospitalar. Se tudo não estivesse exatamente no mesmo lugar, a senhora teria, quase inconscientemente, procurado arrumar. E depois do assassinato, estava tudo como agora?

Sacudi a cabeça.

— Na hora não reparei — afirmei. — Só pensei em verificar se havia qualquer recanto onde alguém pudesse estar escondido. E olhei também se por acaso o assassino tinha deixado algo que constituíra uma pista.

— É sangue mesmo — disse então o doutor Reilly, levantando-se. — Tem alguma importância?

Poirot franziu a testa, perplexo. Ergueu as mãos para o alto, num gesto petulante.

— Não o posso dizer. Como poderia fazê-lo? Talvez não tenha nenhum significado.    Se eu quisesse, podia dizer que o assassino tocou nela... que havia sangue nas mãos dele... muito pouco, mas sempre sangue...e por isso veio até aqui e lavou-as. Sim, é provável que se tivesse passado assim. Mas não posso tirar conclusões precipitadas e afirmar que  foi o que aconteceu. Esta mancha talvez não tenha a mínima importância.

— Teria corrido pouquíssimo sangue — comentou o médico indeciso.  — Não o suficiente pra jorrar ou algo parecido. Apenas gotejado de leve do ferimento. Claro que se ele começasse a perfura-lo...

Estremeci-me. Imaginei uma cena repugnante. A visão de alguém, talvez aquele simpático rapaz com carinha de porco, encarregado das fotografias, derrubando uma mulher tão linda com uma pancada e depois se curvando sobre ela, calcando o dedo na ferida, numa pavorosa maneira exultante, com uma  expressão de maldade, ou possivelmente ... de ferocidade e loucura...

O doutor Reilly se deu conta de meu estremecimento.

— O que foi, enfermeira? — perguntou.

— Nada... apenas um arrepio — repliquei. —De medo de estar caminhando sobre meu próprio túmulo.

O senhor Poirot deu a volta e me olhou.

— Eu sei do que a senhora necessita — observou. — Assim que terminarmos aqui e eu voltar  com o doutor para Hassanieh, a senhora irá conosco. A enfermeira Leatheran está convidada pro chá, não é, doutor?

— Com todo o prazer.

— OH, não, doutor! — protestei. — Não posso nem pensar em fazer uma coisa dessas.

Monsieur Poirot me deu um tapinha amistoso no ombro, bem inglês, sem nada de estrangeiro.

— Ma soeur, a senhora fará o que lhe dissermos — anunciou. —Aliás, só tenho a lucrar com isso. Há uma série de coisas que preciso discutir, e não posso fazê-lo aqui, onde se deve manter certo respeito. O nosso bom doutor Leidner idolatrava a sua esposa e está completamente seguro... oh, tão seguro... de que todo mundo sentia o mesmo para ela. O que na minha opinião, não seria próprio da natureza humana! Não, nós queremos discutir sobre a senhora Leidner sem... como é que vocês dizem?... ah, sim...! sem  luvas de pelica? Então está resolvido. Quando terminarmos aqui, levaremos a senhora junto conosco pra Hassanieh.

— Eu creio — disse, hesitante, — que, de qualquer modo, devia ir-me embora. É um tanto embaraçoso.

— Não faça nada durante uns dois dias — disse o doutor Reilly. — Seja como for, não  pode ir antes do enterro.

— Sim, está bem  — repliquei. — E suponha,os que eu também seja assassinada, doutor?

Falei isso em tom de brincadeira. O doutor Reilly interpretou da mesma maneira. Penso, até que estava com algum comentário divertido na ponta da língua.

Mas, para meu assombro,  monsieur Poirot ficou como que pregado no soalho e bateu com as mãos na cabeça.

— Ah! E se isso fosse possível... — murmurou. — É um perigo... sim, um grande perigo... E o que se pode fazer? Como impedirei que isso aconteça?

— Por favor, monsieur Poirot — exclamei. — Só estava brincando. Quem pode desejar minha morte, eu gostaria de saber?

— Sua morte... ou a de outra pessoa — respondeu, de um jeito que não me agradou, nada. Positivamente tétrico.

— Mas, por que? — insisti.

Olhou-me fixamente então.

— Eu brinco, mademoiselle, e acho graça. — disse. — Certas coisas, porém, não têm nada de engraçado. Já aprendi muitas em minha profissão. E uma delas, a mais terrível, é esta:

O crime é um hábito...

 

Chá em casa do Dr. Reilly

Antes de partir, Poirot deu uma volta ao redor da casa e as dependências anexas. Também fez algumas perguntas em segunda mão aos empregados — quer dizer, o doutor Reilly traduziu as perguntas e as respostas do inglês à árabe e vice-versa.

Relacionavam-se, principalmente, com a aparição do desconhecido que a senhora Leidner e eu tínhamos visto espiando pela janela, e com quem o Padre Lavigny estivera conversando no dia seguinte.

— Acha realmente que esse indivíduo teve algo a ver com o crime? — perguntou o doutor Reilly, enquanto sacolejávamos no carro, a caminho de Hassanieh.

— Eu gosto de reunir todas as informações possíveis — foi a resposta do Poirot.

E  de fato, isso descrevia seus métodos muito bem. Mais tarde descobri que não havia nada — nenhum fragmento ínfimo de falatório insignificante — que não lhe interessasse. De modo geral os homens, não são tão bisbilhoteiros assim.

Devo confessar que adorei a xícara de chá, que tomei quando chegamos a casa do doutor Reilly. M. Poirot, segundo percebi, pôs cinco torrões de açúcar na sua.

Mexendo o chá com a colherinha com cuidado, disse:

— E agora podemos conversar, não é mesmo? E chegar a uma conclusão sobre quem seria capaz de ter cometido o crime.

— Lavigny, Mercado, Emmott ou Reiter? — perguntou o médico.

— Não, não... essa é a teoria número três. Quero me concentrar agora no número dois... deixando de lado toda a questão de um marido ou a um cunhado misteriosos vindos do passado. Vamos discutir simplesmente quais são os membros da expedição que dispunham dos meios e oportunidade de assassinar à senhora Leidner, e quem teria sido capaz de fazer isso.

— Pensei que não houvesse levado essa teoria muito a sério.

— De modo algum. Mas é que eu tenho certos escrúpulos — disse Poirot,  em tom censura. — Como iria discutir, na presença do doutor Leidner, os motivos  capazes de provocar o assassinato da sua esposa por um membro da expedição? Seria uma verdadeira indelicadeza. Tive de manter a ilusão de que sua esposa era adorável, e de que todos gostavam muito dela. Mas naturalmente nunca foi assim. Agora podemos ser cruéis e impessoais, e dizer o que pensamos. Não precisamos mais levar em conta os sentimentos alheios. E é nisso que a enfermeira Leatheran vai ajudar-nos. Estou seguro de que é uma ótima observadora.

— OH! Quanto a isso não garanto — protestei.

O doutor Reilly me ofereceu um prato de pãezinhos quentes. — Para que recupere as forças — disse — Estão excelentes.

— Agora vamos — começou Poirot com tom amistoso e de confiança. — A senhora vai dizer-me, ma soeur, exatamente o que cada membro da expedição achava da senhora Leidner.

— Só estive ali uma semana, monsieur Poirot — desculpei-me.

— É o suficiente para uma pessoa da sua inteligência. Uma enfermeira apreende rápido as coisas. Tira suas conclusões e se  guia por elas. Ande, vamos começar. O Padre Lavigny, por exemplo?

— Olhe, no caso dele eu realmente não sei o que dizer. Ele e a senhora Leidner pareciam gostar de conversar juntos. Mas geralmente falavam em francês, que eu não entendo direito, apesar de ter aprendido quando criança, na escola. Acredito que, a maior parte das vezes, falavam de livros.

— Eram, por assim dizer, muito dados... é?

— Bem, sim, creio que se pode dizer que eram. Mas, mesmo assim, eu acho que o Padre Lavigny sentia-se confuso com ela e... bem... quase aborrecido por causa disso, se é que o senhor me entende.

E contei-lhe a conversa que havíamos tido nas escavações naquele  primeiro dia, quando ele chamara à senhora Leidner de "mulher perigosa".

— Que coisa mais interessante — disse monsieur Poirot. — E ela... que impressão julga que tivesse dele?

— É também muito difícil de dizer. Não era fácil saber o que a senhora Leidner pensava dos outros. Às vezes, calculo, ele deixava ela confusa.  Lembro de tê-la ouvido falar a seu marido que ele não se parecia com nenhum padre que já tivesse conhecido.

— Podem encomendar a forca pro Padre Lavigny — disse o doutor Reilly em tom de pilhéria.

— Meu caro amigo — observou Poirot. — Não tem, por acaso, algum doente à sua espera? Não quero por nada deste mundo desvia-lo de seus deveres profissionais.

— Tenho um hospital cheio deles — replicou o médico.

E dizendo que para bom entendedor meia palavra basta,levantou-se e foi embora rindo.

— Assim está melhor — disse Poirot. — Agora podemos manter uma conversa interessante tête-à-tête. Mas não pare de comer por minha causa.

Alcançou-me um prato de sanduíches e ofereceu uma segunda xícara de chá. Realmente tinha maneiras extremamente encantadoras e atenciosas.

— E agora, continuemos com suas impressões. Quem, a seu ver, não gostava da senhora Leidner?

— Olhe, trata-se de uma opinião pessoal e não quero que ninguém fique sabendo que eu falei isso.

— Naturalmente que não.

— Pois, em minha opinião, a senhora Mercado praticamente a odiava!

— Ah! E o senhor Mercado?

— Sentia certa admiração para ela. Creio que nenhuma mulher, com exceção da esposa, jamais se interessou por ele. E a senhora Leidner possuía uma maneira muito cativante de se interessar pelos outros e pelas coisas que ele contava. Tenho a impressão de que isso subiu um pouco à cabeça ao pobre homem.

— E a senhora Mercado não estava muito satisfeita por isso, verdade?

— Ficou simplesmente morta de ciúmes...  é a pura verdade. Precisa-se tomar muita cautela quando há um casal por perto, não há que negar. Podia contar-lhe certas coisas surpreendentes. Não faz idéia das coisas extraordinárias que às mulheres metem na cabeça quando se trata de seus maridos.

— Não duvido de que é verdade o que você diz. Com que então a senhora Mercado sentia ciúmes? E odiava à senhora Leidner?

— Vi um olhar que lhe deu que até parecia que estivesse com vontade de mata-la... puxa, credo! — estanquei. — Francamente, monsieur Poirot, eu  não queria dizer que... Não quis dar a entender, nem por um momento...

— Não, não. Compreendo perfeitamente. A frase lhe escapou. É uma frase muito oportuna. E a senhora Leidner estava preocupada com essa animosidade da senhora Mercado?

— Olhe... — respondi, refletindo um pouco. — de fato, não creio que lhe preocupasse, de jeito nenhum. Para falar a verdade, nem mesmo sei se chegou a perceber. Uma vez pensei em lhe dar a entender... mas terminei desistindo. Em boca fechada não entra mosca. É o que sempre digo.

— E tem toda a razão. Pode dar-me alguns exemplos da maneira da senhora Mercado demonstrar os seus sentimentos?

Contei-lhe nossa conversa no terraço.

— Quer dizer que ela mencionou o primeiro matrimônio da senhora Leidner — comentou Poirot, pensativo.  — Não se lembra se... ao mencioná-lo... ela olhou pra senhora como se estivesse tentando ver se já ouvira uma versão diferente?

— Crê que talvez  soubesse a verdade sobre o caso?

— É uma possibilidade. Podia ter escrito as tais cartas... e arranjado a mão que batesse na janela e todo o resto.

— Também me ocorreu mais ou menos a mesma idéia. Parecia-me o tipo de vingança mesquinha que lhe seria bem própria.

— Sim. Um traço de maldade, eu diria. Mas dificilmente o temperamento necessário pra um brutal assassinato a sangue frio a não ser, claro, que... — Fez uma pausa e logo acrescentou: — É estranho, aquela coisa curiosa que ela disse: "Pensa que não sei o que você veio fazer aqui." O que queria dizer com isso?

— Não tenho a mínima idéia — repliquei com franqueza.

— Ela julgava que a senhora tivesse vindo por algum motivo oculto, além do manifesto. Qual seria? E por que estaria tão interessada no assunto? Esquisito, também, o jeito com que disse que ela lhe ficou olhando enquanto tomavam o chá no dia de sua chegada.

— Ora, ela não é uma mulher de classe, monsieur Poirot — expliquei, toda afetada.

— Isso, ma soeur, pode ser uma desculpa, mas não é uma explicação.

Por um instante fiquei em dúvida sobre o que ele queria dizer com aquilo. Mas não me deu muito tempo para pensar. Logo perguntou:

— E outros participantes da expedição?

Meditei durante uns instantes.

— Não acredito que à senhorita Johnson simpatizasse com a senhora Leidner. Porém sempre foi completamente franca e honesta a respeito. Era a primeira a confessar que tinha prevenção contra ela. O senhor compreende, sendo extremamente devotada ao doutor Leidner, com quem tinha trabalhado muitos anos. E é evidente que  o matrimônio altera as coisas... não há como negar.

— Sim — disse Poirot . — E segundo o ponto de vista da senhorita Johnson, seria um casamento inconveniente. O que já não aconteceria se o doutor Leidner casasse com ela.

— De fato — apoiei. — Mas os homens são mesmo assim. Apenas uma minoria sabe o que lhe convém. E não se pode realmente culpar o doutor Leidner. A pobre senhorita Johnson não tem grandes atrativos. E a senhora Leidner era formosa de verdade... não muito jovem, certamente... mas, oh! Gostaria que a tivesse conhecido. Possuía algo especial... lembro que o senhor Coleman que ela era nem um troço que atrai a gente aos pântanos. Não foi uma maneira muito elegante de descrevê-la, porém... oh, paciência... o senhor vai rir de mim, mas havia qualquer coisa nela que era... bem... sobrenatural.

— Podia enfeitiçar às pessoas... Sim, compreendo — disse Poirot.

— Depois, não creio tampouco que ela e o senhor Carey se entendessem lá muito bem — prossegui. — Tenho a impressão de que ele também sentia ciúmes, como a senhorita Johnson. Andava sempre muito empertigado com à senhora Leidner, que retribuía da mesma maneira. Sabe como é... na mesa alcançava-lhe coisas, cheia de mesuras, tratando-o de senhor Carey, com excesso de formalidade. Ele era velho amigo de seu marido, lógico, e certas mulheres não suportam às antigas amizades dos maridos. Não gostam de pensar que alguém os conheceu muito antes que elas... não sei, é um modo um tanto de explicar uma situação dessas...

— Compreendo perfeitamente. E os três jovens? Coleman, a senhora diz, era propenso a se mostrar poético a respeito dela.

Não pude evitar uma gargalhada.

— Era gozado, monsieur Poirot — disse eu.  Ele é um jovem tão prosaico.

— E os outros dois?

— Não conheço o senhor Emmot muito bem. Anda sempre tão quieto, quase nunca abre a boca. A senhora Leidner foi sempre muito amável com ele. Sabe como é... camarada... chamava-o de David, mexendo com ele por causa da senhorita Reilly e coisas parecidas.

—Ah, é? E ele gostava disso?

— Não sei, não — disse, hesitante. — Ficava só olhando para ela. De um jeito até cômico. Não dava pra saber o que estava pensando.

— E o senhor Reiter?

— Nem sempre era gentil com ele — disse eu, devagar. — Acho que a irritava. Ela costumava dirigir-lhe alguns sarcasmos.

— E ele, se incomodava?

— Ficava todo corado, pobrezinho. Claro que ela não pretendia ser grosseira.

Foi então que, de repente, ao sentir certa pena do rapaz, me ocorreu que se assemelhava muito a um assassino de sangue frio, e que estivera representado um papel o tempo todo.

— OH, monsieur Poirot! — exclamei. — O que é que o senhor julga que realmente aconteceu?

Ele sacudiu lentamente a cabeça, de um jeito pensativo.

— Diga-me uma coisa — perguntou. — A senhora não tem medo de voltar lá esta noite?

— OH, não! — respondi. — Naturalmente, eu me lembro do que o senhor disse, mas quem pensaria em me matar?

— Creio que  ninguém — respondeu devagar. — Foi em parte por isso que fiquei tão curioso em ouvir tudo o que a senhora podia me contar. Não, eu acho... tenho certeza... que não corre nenhum perigo.

— Se alguém me tivesse dito em Bagdá... — comecei e parei.

— Soube de algum boato a respeito dos Leidner e sua expedição antes de chegar aqui? — perguntou.

Contei-lhe sobre o apelido que lhe tinham posto na senhora Leidner e, até certo ponto, os comentários da senhorita Kelsey a seu respeito.

Quando eu estava na metade de meu relato a porta se abriu e a senhorita Reilly entrou. Tinha estado jogando tênis e trazia a raquete na mão.

Deduzi que Poirot já a encontrara ao chegar em Hassanieh.

Ela me cumprimentou com aquele modo habitual e pegou um sanduíche.

— Então, monsieur Poirot — disse, — Como está-se saindo com o nosso mistério local?

— Não muito depressa, mademoiselle.

— Pelo que vejo, salvou a enfermeira do naufrágio.

— A enfermeira Leatheran esteve-me prestando informações valiosas sobre os vários membros da expedição.Ao mesmo tempo fiquei sabendo de uma porção de coisas... a respeito da vítima. E a vítima, mademoiselle, em geral fornece a pista do mistério.

— O senhor é muito perspicaz, monsieur Poirot — disse a senhorita Reilly. — Não resta dúvida de que se uma mulher algum dia mereceu ser assassinada, essa mulher era a senhora Leidner!

— Senhorita Reilly! — exclamei, escandalizada.

Ela soltou uma gargalhada, rápida e maldosa.

— Ah! — disse. — Bem que me parecia que o senhor ainda não ouviu toda a verdade. Creio que a enfermeira Leatheran, como  tanta gente, foi lograda. Sabe, monsieur Poirot, eu até espero que este caso não lhe traga êxito. Eu gostaria mesmo que o assassino de Louise Leidner ficasse impune. Pra ser sincera, não me incomodaria se tivesse de liquidá-la eu mesma.

Senti-me simplesmente revoltada com a garota. Monsieur Poirot, é preciso que se diga, não se deu por achado. Limitou-se a fazer uma reverência e declarar, com a máxima simpatia:

— Espero, então, que tenha um álibi para ontem à tarde?

Houve um momento de silêncio e a raquete da senhorita Reilly caiu ao chão. Não se preocupou em apanhá-la. Negligente e descuidada, como todas as de seu tipo!

— Naturalmente. Estive jogando tênis no clube — disse com voz débil, como se o faltasse o fôlego. — Mas seriamente, monsieur Poirot, gostaria de saber se conhece de fato alguma coisa a respeito da senhora Leidner e do gênero de mulher que ela era?

O detetive se inclinou com aquela graciosa reverência.

—  Mademoiselle há de me informar — disse.

Depois de hesitar por um momento,  a senhorita Reilly começou a falar com uma insensibilidade e uma falta de decoro que me deram náuseas.

— Há uma convenção que proíbe a gente de falar mal dos mortos. Acho ridículo. A verdade é sempre a verdade. De modo geral, é melhor fechar a boca e não falar mau dos vivos. Pode-se até prejudica-las.  Os mortos não correm esse risco. Mas o dano que causaram às vezes perdura após a morte. Não é uma citação de Shakespeare, mas podia ser! A enfermeira não lhe contou sobre a atmosfera  estranha que havia em Tell Yarimjah? Não lhe disse como  todos andavam inquietos? E como se entreolhavam uns aos outros como se fossem inimigos? Tudo por obra da Louise Leidner. Há três anos, quando eu não passava de uma criança, era a turma mais feliz e alegre que se possa imaginar. Ainda na temporada passada, viviam na mais perfeita harmonia. Desta vez, porém, caiu uma praga em cima deles... e por culpa dela. Era o tipo da criatura que não pode ver ninguém contente.! Existem mulheres assim, e ela era dessa classe. Sempre querendo destruir. Só pra se divertir... pela sensação de poder... ou talvez só por ser próprio de sua natureza. E era, além disso, uma dessas mulheres que tem que agarrar a todo macho a seu alcance!

— Senhorita Reilly! — exclamei, — não acho que isso seja verdade. Sei perfeitamente que não é.

Ela continuou sem dar a mínima confiança.

— Não se contentava com a adoração de seu marido. Precisava fazer de bobo aquele idiota pernilongo do Mercado. Depois passou a perseguir Bill. Bill é um sujeito sensato mas já estava ficando todo tonto e atrapalhado. Carl Reiter, ela se  divertia em atormentar. Foi fácil. É um rapaz sensível. E com David ela pintou o diabo. David era um adversário à altura, porque sabe defender-se. Sentiu o encanto que ela possuía... mas nem quis saber de nada. Acho que foi porque teve juízo suficiente para perceber que ela, na realidade, não estava nem um pouco interessada. E é por isso que eu a odeio tanto. Não era sensual. Não queria ter casos. Era apenas uma experiência desalmada da parte dela e o prazer de provocar as pessoas, lançando umas contra as outras.  Dedicava-se a isso também. Era o tipo da mulher que nunca brigou com ninguém em sua vida... mas sempre vive rodeada de brigas! Ela as propiciava. Era uma espécie de Yago feminino. Precisava ter dramas à sua volta. Só que  não queria ver-se envolvida pessoalmente. Fica sempre de fora, para mexer os pauzinhos... apreciando. OH! Será que o senhor compreende o que eu quero dizer?

— Compreendo, possivelmente mais do que mademoiselle imagina, — disse Poirot.

Não pude atinar com o tom de sua voz. Não parecia indignado. Dir-se-ia... oh, sei lá, não posso explicá-lo.

Sheila Reilly, pelo jeito, pareceu entendê-lo, pois se ruborizou.

— Pense o que quiser — replicou. — Mas tenho razão a respeito dela. Era uma mulher espertalhona, sentia-se entediada e fazia experiências... com a gente... como muita gente faz com produtos químicos. Se divertia em brincar com os sentimentos da pobre senhorita Johnson, vendo-a se defender como podia e se controlar como a boa alma que é. Gostava de incomodar à pequena Mercado, até transformá-la numa fúria incandescente. Gostava de me ferir nos pontos sensíveis... e sempre conseguia, todas as vezes.Gostava de descobrir coisas sobre as pessoas e  tortura-las com isso. Oh, não me refiro a chantagens baratas... me refiro a deixar apenas que soubessem que ela sabia... e na incerteza do que ela tencionava fazer a respeito.  Meu deus! Aquela mulher era uma artista. Os métodos que usava não tinham nada de grosseiros!

— E seu marido? — perguntou Poirot.

— Ela nunca quis magoá-lo — respondeu lentamente a senhorita Reilly. — Sempre se mostrou muito carinhosa com ele. Ele é um encanto... perdido em seu próprio mundo...  suas escavações e teorias. E a idolatrava, julgando-a a perfeição personificada. Isso podia aborrecer certas mulheres. Mas não a ela. Em certo sentido, ele vivia numa felicidade ilusória... e que entretanto não o era, pois para ele sua mulher era tal como a imaginava. Embora seja difícil conciliar isso com...

Interrompeu a frase.

— Prossiga, mademoiselle — disse Poirot.

Ela se virou subitamente para mim.

— Que foi que você lhe disse sobre Richard Carey?

— Sobre Richard Carey? — repeti assombrada.

— Sobre ela e Carey.

— Bom — respondi, — eu disse que não se entendiam muito bem...

Para minha surpresa, ela teve um ataque de riso.

— Não se entendiam bem! Sua tola! Ele estava perdidamente apaixonado por ela. E está ficando em frangalhos... porque adora Leidner, também. Há anos que é amigo dele. Isso para ela é o que bastava, certamente. Tratou de se meter entre os dois. Mas mesmo assim tive a impressão...

— Eh bien?

A moça franziu a testa, absorta em seus pensamentos.

— Tive a impressão de que desta vez ela fora longe demais... que não só ferira, como também ficara ferida! Carey é bonito. Bonito como o diabo. Ela era um monstro de frieza... mas creio que talvez a perdesse com ele.

— Isso que acaba de dizer é uma calúnia! — exclamei. —Ora, eles mal se falavam!

— OH! Seriamente? — voltou-se para mim. — Você sabe grande coisa mesmo. Em casa se tratavam de "senhor" e "senhora", mas costumavam encontrar-se do lado de fora. Ela percorria a senda até o rio, e ele abandonava as escavações durante uma hora, em média. Se encontravam entre as árvores frutíferas. Uma ocasião vi quando se despediu dela, voltando a passos largos pro trabalho, e ela ficou olhando para ele. Creio que me portei como uma víbora. Estava de binóculos, usei-os e examinei a cara da Louise. Se querem saber minha opinião, acredito que estava profundamente interessada em Richard Carey...

De repente parou e olhou para Poirot.

— Desculpe eu me intrometer em seu caso — disse, com um sorriso repentino, meio forçado, — mas julguei que o senhor gostaria de conhecer  exatamente a cor local.

E retirou-se da sala.

— Monsieur Poirot! — exclamei. — Eu não acredito numa só palavra de tudo isso!

Ele olhou para mim, sorriu e disse (de um jeito esquisitíssimo, a meu ver):

— Não pode negar, enfermeira, que a senhorita Reilly lançou uma certa... luz sobre o caso.

 

Uma nova desconfiança

Naquele momento não foi possível continuar a conversa porque o doutor Reilly entrou gracejando, dizendo que acabara de liquidar o mais irritante de seus pacientes.

Ele e monsieur Poirot se dedicaram, então, a uma discussão mais ou menos clínica da psicologia e do estado mental de uma pessoa que se dedica a escrever cartas anônimas. O médico citou vários casos que conhecera no curso de sua profissão, e monsieur Poirot contou algumas historias de sua própria experiência.

— Não é tão simples quanto parece — concluiu. — Existe o desejo de poder e, freqüentemente, um forte complexo de inferioridade.

O doutor Reilly concordou.

— É por isso que via de regra se descobre que o autor de cartas anônimas é a última pessoa de quem se desconfia. Algum pobre diabo sossegado, inofensivo, aparentemente incapaz de matar uma barata... cheio de docilidade e resignação cristã por fora... e fervendo com toda a fúria do inferno em seu interior.

Poirot observou pensativamente.

— Você diria que a senhora Leidner tinha certa tendência a demonstrar complexo de inferioridade?

O doutor Reilly limpou o cachimbo reprimindo o riso. 

— Seria a última mulher deste mundo que eu descreveria desse jeito. Nada de recalques com ela. Vida, vida e mais vida... isso é o que ela desejava... e  conseguia, aliás!

— Considera possível, psicologicamente falando, que ela escrevesse as tais cartas?

— Sim. Acredito. Mas se escreveu, foi levada pelo seu instinto de dramatizar sua própria vida. A senhora Leidner era um pouco artista de cinema na vida privada! Tinha de ser o centro das atrações... ficar em evidência. Pela lei dos contrastes, casou-se com o Leidner, que é praticamente o sujeito mais retraído e modesto que eu conheço. Ele a adorava...  mas ser adorada ao pé da lareira não lhe bastava. Precisava também ser a heroína perseguida.

— Em resumo — disse Poirot sorrindo, — você não concorda com a teoria do Leidner de que ela escreveu as cartas e logo se esqueceu de havê-lo feito.

— Não, não concordo. Não rejeitei a idéia na frente dele. Como é que q gente vai dizer pra um homem que acaba de perder a esposa que tanto amava que ela era uma exibicionista descarada e que o deixou quase louco de angustia só pra satisfazer seu gosto pela tragédia? Pra ser franco, não seria aconselhável revelar a nenhum marido a respeito da esposa! Por incrível que pareça, eu confiaria à maioria das mulheres toda a verdade a respeito de seus marido. As mulheres são capazes de aceitar que um homem seja canalha, viciado em narcóticos, incorrigível mentiroso e rematado patife, sem pestanejar e sem qualquer espécie de prejuízo na afeição que sentem pelo animal. As mulheres são maravilhosas realistas.

— Sinceramente, doutor Reilly, qual é sua opinião exata sobre a senhora Leidner?

O médico recostou-se na cadeira e tirou uma lenta baforada do cachimbo.

— Sinceramente?... É difícil dizê-lo. Não a conheci suficientemente  bem. Ela possuía encantos... grande quantidade deles. Inteligência, simpatia... Que mais? Não possuía nenhum vício desagradável. Não era sensual, nem preguiçosa ou especialmente vaidosa. Sempre me pareceu que fosse, embora eu não disponha de provas disso, era uma mentirosa consumada. O que não sei, e eu gostaria de saber, é se mentia pra si mesma ou só para os outros. Tenho certa queda pelos mentirosos. A mulher que não mente é uma mulher sem imaginação e sem piedade. Não creio que fosse realmente uma caçadora de homens... apenas gostava do esporte de derruba-los  com "seu arco e suas flechas”. Se tocar nesse assunto com minha filha...

— Já tivemos o prazer — replicou Poirot sorrindo ligeiramente.

— Hum...! — resmungou o doutor Reilly. — Ela não perdeu tempo! Só calculo como meteu a faca sem dó nem piedade! A nova geração não tem respeito algum aos mortos. É uma lástima que sejam tão pedantes. Condena a "velha moralidade" e depois procura estabelecer um código ético muito mais duro e inflexível. Se a senhora Leidner tivesse tido meia dúzia de aventuras, Sheila provavelmente tê-la-ia aprovado por “viver plenamente a vida”... ou “obedecer aos instintos do sangue". O que ela não se deu conta é de que a senhora Leidner se ajustava a um tipo determinado... a seu próprio tipo. O gato quando brinca com o camundongo, obedece a um instinto do sangue! A natureza é assim mesmo. Os homens não são meninos que precisem de amparo e proteção. Têm de encontrar mulheres felinas... e mulheres que mais parecem cachorrinhas fiéis, do gênero eu-te-adoro-até-a-morte, e mulheres implicantes que se assemelham a pássaros ou galinhas que vivem a dar bicadas... de tudo o que é espécie! A vida é um campo de batalha... não é um piquenique! Eu gostaria que Sheila fosse o suficientemente sincera para descer de seu alto pedestal e admitir que odiava à senhora Leidner por motivos pura e exclusivamente pessoais. Sheila é, por assim dizer, a única garota jovem deste lugar e naturalmente presume que não devia ter concorrência no meio da rapaziada. Lógico que se aborrece quando uma mulher, que na opinião dela é de meia-idade e já foi casada duas vezes, entra em cena e a derrota em seu próprio terreno. Sheila é boa menina saudável e razoavelmente bonita e atraente ao sexo oposto, tal como deve ser. Mas a senhora Leidner era algo fora do comum nesse sentido. Ela simplesmente possuía aquele tipo de magia calamitosa que pinta o diabo com os outros... uma espécie de Belle Dame sans Merci.

Dei um pulo na cadeira. Que coincidência ele dizer isso?

— Sua filha... estarei sendo indiscreto?... não terá, talvez, uma  tendresse por um dos rapazes que moram lá?

— Oh! Não acredito. Já teve Emmott e Coleman como parceiros de baile, o que era de esperar. Não sei se liga mais pra um do que pro outro. Há dois camaradas jovens das Forças Aéreas, também. Suponho que, por enquanto tudo o que cair na rede é peixe. Não, eu acho que o que a deixa furiosa é a idade ousando desafiar à juventude! Ela não conhece o mundo tão bem quanto eu. É quando se chega a minha idade que realmente se aprecia uma pele de adolescente e um olhar límpido e um corpo jovem, de carnes sólidas. Mas uma mulher de mais de trinta anos sabe escutar com toda atenção embevecida e entremear de pequenos elogios que mostram a quem fala o magnífico sujeito que ele é...  poucos jovens resistem a uma coisa dessas! Sheila é uma garota bonita... mas Louise Leidner era uma verdadeira beleza. Olhos gloriosos  e aquela assombrosa alvura dourada. Sim; era uma maravilha de mulher.

Sim, pensei comigo mesma, ele tem razão. A beleza é uma coisa maravilhosa. Ela tinha sido bela. Não era o gênero de beleza que provoca ciúmes — a gente apenas levava o impacto e ficava admirado. Naquele  primeiro dia que a vi, senti que seria capaz de fazer tudo pela senhora Leidner.

Mesmo assim, à noite, ao regressar de carro para Tell Yarimjah (o doutor Reilly me forçara a ficar para o jantar), recordei uma ou duas coisas que me deixaram um pouco contrafeita. Na hora eu não acreditara numa só palavra do desabafo de Sheila Reilly. Atribuíra a puro despeito e malícia.

Mas agora, de repente, me lembrava do jeito que a senhora Leidner insistira em ir passear sozinha aquela tarde, recusando terminantemente a minha companhia. Não pude deixar de imaginar se talvez, afinal de contas, não fora se encontrar com o senhor Carey. E, naturalmente, era um pouco esquisito, de fato, o modo tão formal com que os dois se tratavam. Quase todos os outros se chamavam pelos nomes de batismo.

Lembrei-me de que ele parecia nunca olhar para ela. Talvez fosse porque não gostava dela... ou podia ser muito bem o contrário.

Dei uma pequena sacudida em mim mesma. Lá estava eu imaginando e fantasiando tudo o que é espécie de coisas — só por causa das explosões despeitadas de uma garota. Isso prova o quanto pode ser cruel e perigoso andar aí falando desse jeito.

A senhora Leidner não tinha, de modo algum, sido assim...

Claro que não gostava de Sheila Reilly. Mostrara-se, realmente... quase felina a respeito dela naquele dia com o senhor Emmott à hora do almoço.

Engraçado, o jeito com que ele olhava para ela. O tipo do jeito que não se podia, de modo nenhum, adivinhar o que estava pensando. Aliás, adivinhar os pensamentos do senhor Emmott era praticamente impossível. Vivia sempre tão calado. Porém muito simpático. Uma pessoa boa, digna de confiança.

Agora, o senhor Coleman era um perfeito idiota, como nunca vi igual!

Estava pensando nisso quando chegamos à casa. Eram apenas nove horas e a porta já estava fechada e gradeada.

Ybrahim veio correndo com a chave para me abrir a porta.

Nós todos nos recolhíamos cedo em Tell Yarimjah. Não vi nenhuma luz acesa no living. A sala de desenho estava iluminada e o escritório do doutor Leidner também mas quase todas as outras janelas estavam escuras. Todo mundo decerto fora dormir mais cedo ainda que de costume.

Quando passei junto à sala de desenho, ao me dirigir para meu quarto, olhei pela janela. O senhor Carey, em mangas de camisa, trabalhava em sua planta.

Deu-me a impressão de que estava muito doente. Parecia cansado e esgotado. Aquilo me produziu uma súbita angústia. Não sei o que havia com o senhor Carey — não era o que ele dizia, pois raramente abria a boca para falar — e mesmo assim sobre os assuntos mais triviais, nem tampouco o que fazia, que não representava muito — mas, no entanto, simplesmente não se podia deixar de reparar nele, e tudo a seu respeito parecia importar mais do que se se tratasse de outra pessoa qualquer.Ele era marcante, se é que entendem o que eu quero dizer.

Ele virou a cabeça e me viu. Tirou o cachimbo da boca e me disse:

— Como é enfermeira, já voltou de Hassanieh?

— Sim, senhor Carey. Está trabalhando até muito tarde? Parece que todos já se deitaram.

— Achei melhor adiantar o trabalho — explicou. — Ando um pouco atrasado. E amanhã tenho que estar nas escavações. Começamos outra vez o trabalho.

— Já? — perguntei surpreendida.

Olhou para mim de uma maneira estranha.

— Creio que é o melhor. Sugeri ao Leidner. Ele vai passar quase todo o dia em Hassanieh, providenciando coisas. Mas o resto da equipe continuará  aqui. A senhora sabe, não é muito fácil ficar sentados, olhando um pro outros, como as coisas andam.

Nesse ponto tinha toda a razão, lógico. Especialmente no estado nervosos e apreensivo em que os membros da expedição se encontravam.

— Bom, naturalmente, de certo modo o senhor tem razão — respondi. — A gente se distrai quando tem o que fazer.

O enterro, eu sabia, estava marcado para dois dias depois.

Ele tornou a se debruçar sobre a planta. Não sei por que mas meu coração simplesmente se apiedou dele. Fiquei certa de que ele não conseguiria dormir nada naquela noite.

— Quer tomar um sonífero, senhor Carey? — perguntei, depois de hesitar um pouco.

Sacudiu a cabeça enquanto sorria.

— Vou continuar, enfermeira. Os soníferos deixam a gente mal acostumados.

— Então boa noite, senhor Carey. — Se há alguma coisa que eu possa fazer...

— Não creio. Muito obrigado, enfermeira. Boa noite.

— Não sabe quanto o sinto — exclamei, suponho que um tanto impulsivamente demais.

— Sente-o? — perguntou ele surpreso.

— Por... por todos. É tudo tão horrível... especialmente para você.

— Para mim? Por que para mim?

— Pois... pois porque era um velho amigo dos dois.

— Sou um velho amigo do Leidner, mas por ela eu não sentia nenhuma amizade especial.

Falava como se na realidade antipatizasse com a senhora Leidner. Desejei que a senhorita Reilly tivesse ouvido aquilo.

— Bem,  boa noite — disse eu, apressando-me a rumar para meu dormitório.

Andei de um lado para outro antes de tirar a roupa. Lavei alguns lenços e um par de luvas de couro e escrevi um pouco em meu diário. Olhei rapidamente para fora da porta antes de começar realmente a me preparar para dormir. As luzes da sala de desenho e da ala sul do edifício continuavam acesas.

Imaginei que o doutor Leidner ainda estivesse acordado, trabalhando em seu escritório. Fiquei pensando se não devia ir dar-lhe boa noite. Hesitei —não queria parecer intrometida. Talvez estivesse ocupado e não quisesse ser importunado. Por fim, contudo, uma espécie de inquietação me arrastou por diante. Afinal de contas, não havia mal nenhum nisso. Desejaria-lhe boa noite, perguntando  se não precisava de alguma coisa, e viria embora. 

Mas o doutor Leidner não estava ali. A luz continuava acesa mas não havia ninguém, com exceção da senhorita Johnson, com a cabeça apoiada sobre a mesa e chorava como se o seu coração fosse arrebentar.

Levei um verdadeiro susto. Era uma mulher tão tranqüila, com tanto autodomínio. Dava pena vê-la.

— Mas o que houve, meu bem? — exclamei, abraçando-a e acariciando-a de leve. — Ora, ora, isso assim não pode ser... Você não deve ficar aqui, chorando sozinha.

Não me respondeu e eu senti o estremecimento dos soluços que a sacudiam com violência.

— Vamos, não faça assim, minha querida... Procure controlar-se. Vou fazer  uma xícara de chá bem quente pra você.

Levantou a cabeça e disse:

— Não, não. Não é preciso, enfermeira. Estou me portando feito boba.

— O que foi que a afligiu, meu bem? — perguntei.

Não respondeu imediatamente. Depois disse:

— Tudo é tão horrível...!

— Vamos, não pense nisso — recomendei. — O que passou, passou, não tem mais remédio. É inútil condenar-se agora.

A mulher endireitou o corpo e começou a arrumar o cabelo.

— Estou fazendo papel de idiota — desculpou-se com aquela voz rouca. — Andei limpando e arrumando o escritório. Pensei que era preferível fazer alguma coisa. E então... lembrei-me de tudo...

— Sim, sim — apressei-me a replicar. — Eu sei. Tudo o que você necessita é uma xícara de chá bem forte e uma bolsa de água quente na cama.

E sem dar ouvido a seus protestos, providenciei tudo.

— Obrigado, enfermeira — agradeceu, já instalada na cama, enquanto tomava o chá e na eu enfiava a bolsa de água quente entre as cobertas. — Você é uma mulher de bons sentimentos — acrescentou. — Não é sempre que costumo fazer papel de boba. 

— OH! Qualquer pessoa está exposta a fazer o mesmo numa ocasião como esta, ainda mais depois de tudo o que aconteceu. A tensão, o choque e a Polícia por todos os lados... Eu mesma estou nervosa...

— Você disse uma coisa que é bem verdade — retrucou hesitante, num tom meio esquisito. — O que passou, passou, e não pode ser remediado, — ficou calada um instante e depois acrescentou, de um modo bastante estranho ao meu ver: — Ela nunca foi boa!

Ora, eu é que não me ia meter a discutir. Sempre considerei perfeitamente natural que a senhorita Johnson e a senhora Leidner não fossem uma com a cara da outra.

Me pus a imaginar se, quem sabe, a senhorita Johnson não tivera uma secreta sensação de alegria com a morte da senhora Leidner e agora se envergonhava por ter tal pensamento.

— Vamos, trate de dormir e não se preocupe mais com isso — aconselhei.

Só juntei umas coisas, procurando deixar o quarto em ordem. Meias sobre o encosto da cadeira, casaco e saia num cabide. Havia uma bolinha de papel amarrotado no chão que devia ter caído de algum bolso.

Eu estava apenas alisando-a para ver se podia jogar fora sem problema, quando a senhorita Johnson me pregou um susto.

— Me dê isso aí!

Obedeci —um pouco sem jeito. Tinha gritado de modo tão peremptório. Arrancou — literalmente arrancou — o papel das minhas mãos e depois segurou-o na chama da vela até que queimasse e se reduzisse a cinzas.

Como disse, levei um susto — e fiquei simplesmente olhando para ela.

Não tive tempo de ver o que tinha escrito no papel, — ela o arrancou com tamanha rapidez. Mas, por incrível que pareça, enquanto ardia, encrespou-se na minha direção e apenas vi que continha palavras escrita a tinta.

Foi só quando deitei que compreendi por que haviam parecido mais ou menos familiares.

Era a mesma caligrafia que vi nas cartas anônimas.

Seria por isso que produziu uma crise de remorso na senhorita Johnson? Era ela que tinha escrito as cartas anônimas?

 

Senhorita Johnson, Senhora Mercado, Senhor Reiter

Não me importo de confessar que a idéia me causou um verdadeiro choque. Jamais pensara em ligar a senhorita Johnson com as cartas. A senhora Mercado, talvez. Mas a senhorita Johnson era uma verdadeira dama, tão cheia de autodomínio e sensatez.

Porém refleti, recordando a conversa que escutara aquela noite entre M. Poirot e o Dr. Reilly, que isso bem podia ser o motivo.

Se fosse a senhorita Johnson quem escrevera as cartas, muita coisa ficava explicada. Note-se que não supus por um instante que ela tivesse algo a ver com o crime. Mas percebi que sua antipatia pela senhora Leidner talvez a levasse a sucumbir à tentação de, bem... meter medo nela — para usar uma expressão vulgar.

Podia alimentar a esperança de afastar, de susto, a senhora Leidner das escavações.

Só que depois que a senhora Leidner fora assassinada a senhorita Johnson sentira terríveis crises de remorso — em primeiro lugar pela artimanha cruel a que recorrera e também, talvez, por compreender que as tais cartas estavam funcionando como excelente escudo para o verdadeiro criminoso. Não é de admirar que ficasse tão literalmente arrasada. Eu tinha certeza de que, no fundo, era uma pessoa decente. E assim se explicava, ademais, por que se apegara com tanta veemência à minha consolação de “o que passou, passou, e não pode se remediado”.

E finalmente aquela declaração enigmática — autentica justificação de si mesma — “ela nunca foi boa!”

O problema era, que atitude devia eu adotar?

Revirei-me de um lado para outro durante um bom tempo e afinal resolvi comunicar tudo a M. Poirot na primeira oportunidade.

Ele apareceu no dia seguinte mas não encontrei ocasião de lhe falar propriamente a sós.

Tivemos apenas um minuto de total isolamento e antes que eu pudesse concentrar-me para saber como tocar no assunto, ele se aproximou de mim e começou a murmurar instruções no meu ouvido.

— Eu vou falar com a senhorita Johnson... e com os outros, talvez, no living. A chave do quarto da senhora Leidner ainda está com a senhora?

— Está — respondí.

— Très bien. Vá até lá, feche a porta por dentro e dê um grito... não um berro... um grito. Compreende o que quero dizer, não? De susto... quero que exprima surpresa... não terror desvairado. Quanto ao pretexto, caso for ouvida... deixo por sua conta... o dedo do pé pisado ou o que bem entender.

Nesse momento a senhorita Johnson apareceu no pátio e não houve mais tempo para nada.

Compreendi perfeitamente o que M. Poirot pretendia. Assim que ele e a senhorita Johnson foram para o living, dirigi-me ao quarto da senhora Leidner e, abrindo a porta com a chave, entrei e tornei a fecha-la.

Não posso negar que me senti meio idiota, ali parada num quarto vazio e dando um grito sem o menor motivo. Além do mais, não era tão simples saber exatamente com que força devia gritar. Soltei um “Oh” bastante alto e depois experimentei um pouco mais alto ainda e um pouco mais baixo.

Então saí novamente e preparei minha desculpa de pé pisado (machucado, suponho que fosse o que ele queria dizer!).

Mas logo vi que não precisaria de nenhum pretexto. Poirot e a senhorita Johnson conversavam seriamente juntos e era evidente que não se verificara a menor interrupção.

Bom, pensei, o problema ficou resolvido. Ou a senhorita Johnson imaginou ter ouvido o tal grito ou então foi qualquer coisa bem diferente.

Não me agradou a idéia de interrompe-los. Havia uma cadeira preguiçosa na varanda e aproveitei para sentar. As vozes de ambos chegavam aos meus ouvidos.

— A situação é delicada, compreende? — dizia Poirot. — O Dr. Leidner... evidentemente adorava a esposa...

— Idolatrava — afirmou a senhorita Johnson.

— Ele me diz, naturalmente, que todos os auxiliares gostavam muito dela! Quanto a eles, que podem dizer? Claro, repetem a mesma coisa. Por cortesia, por decoro. Pode ser até que seja verdade! Mas também pode ser que não! E eu estou convencido, mademoiselle, que a chave do enigma reside numa total compreensão do caráter da senhora Leidner. Se eu conseguisse obter a opinião... a opinião sincera... de cada membro do grupo, eu poderia, do conjunto, traçar um quadro. Pra falar com franqueza, é por isso que vim cá hoje. Sabia que o Dr. Leidner estaria em Hassanieh. Assim me fica mais fácil ter uma entrevista aqui com cada um de vocês por sua vez, pra ver se me ajudam.

— Está tudo muito bem — começou a senhorita Johnson e parou.

— Não me venha com lugares-comuns ingleses — implorou Poirot. — Não vá dizer que é desonesto ou sujo que não se fala senão bem dos mortos... que... enfim... existe uma coisa chamada lealdade! A lealdade, em matéria de crime, é uma pestilência. Muitas vezes esconde a verdade.

— Não devo nenhuma lealdade especial a senhora Leidner — retrucou a senhorita Johnson friamente. Havia de fato um tom áspero e acidulado em sua voz. — Já o Dr. Leidner é assunto diferente. E, afinal de contas, ela era a mulher dele.

— Justo... justo. Percebo que não quer falar mal da esposa de seu chefe. Mas não se trata de uma questão de preito de admiração. É uma questão de morte súbita e misteriosa. Se devo acreditar que foi um anjo martirizado que assassinaram, a minha tarefa não resulta mais fácil.

— Eu, com toda a certeza, não a chamaria de anjo — afirmou a senhorita Johnson, e o tom acidulado ficou ainda mais flagrante.

— Diga-me, francamente, sua opinião sobre a senhora Leidner... como mulher.

— Hum! Pra começar, M. Poirot, vou deixa-lo de sobreaviso. Sou suspeita. Sinto... todos nós sentíamos... devoção pelo Dr. Leidner. E, imagino, quando a senhora Leidner apareceu, ficamos com ciúmes. Ressentíamo-nos contra as exigências que ela fazia sobre o tempo e a atenção dele. A devoção que demonstrava por ela nos irritava. Estou sendo sincera, M. Poirot, o que não me é muito agradável. A presença dela aqui me indignava... sim, é fato, embora, naturalmente, procurei sempre disfarçar. Fazia diferença pra nós, compreende?

— Nós? Nós quem?

— O senhor Carey e eu. Éramos os dois veteranos, sabe? E não gostávamos muito da nova situação. Suponho que seja normal, embora talvez fosse um tanto mesquinho de nossa parte. Mas realmente fazia diferença.

— Que espécie de diferença?

— Oh, em tudo. Antigamente nos divertíamos tanto. Brincava-se o tempo todo, entende? Brincadeiras um pouco tolas, que nem as pessoas fazem quando trabalham juntas. O Dr. Leidner vivia tão alegre... parecia um menino.

— E quando a senhora Leidner chegou, tudo isso mudou?

— Bom, não digo que fosse culpa dela. O ano passado até que nem foi tão ruim assim. E por favor, M. Poirot, acredite que não era nada que ela fizesse. Sempre se mostrou perfeita comigo... simplesmente perfeita. É por isso que às vezes me sentia envergonhada. Ela não tinha culpa se certas coisinhas que dizia e fazia pareciam ferir-me num ponto fraco. Ninguém realmente podia ser mais simpática do que ela era.

— Mas apesar disso as coisas mudaram nesta temporada? Havia uma atmosfera diferente?

— Oh, completamente. De fato, não sei o que foi. Tudo parecia andar mal... não com o serviço... conosco, quero dizer... com nossos temperamentos e nossos nervos. Todo mundo irritado. Quase a espécie de sensação que a gente tem quando uma tempestade se aproxima.

— E atribui isso à influencia da senhora Leidner?

— Ora, nunca foi assim antes da chegada dela — respondeu a senhorita Johnson friamente. — Oh! Eu sou uma gralha velha, intratável e queixosa. Conservadora... gostando que as coisas fiquem sempre no mesmo. O senhor não deve realmente dar muita importância ao que digo, senhor Poirot.

— Como descreveria o caráter e temperamento da senhora Leidner?

A senhorita Johnson hesitou um instante. Depois, escolhendo as palavras, disse:

— Bom, claro que era temperamental. Oscilava muito. Uma hora afável com as pessoas e no dia seguinte talvez nem falasse com elas. Era muito gentil, creio. Cheia de atenções com os outros. Apesar disso, via-se que ela fora tremendamente mimada desde criança. Aceitava a submissão do Dr. Leidner como perfeitamente normal. E acho que nunca avaliou bem o homem verdadeiramente notável... excepcional... com quem casou. Isso às vezes me aborrecia. E ela, evidentemente, andava sempre impaciente e nervosa. As coisas que vivia imaginando e a agitação em que ficava! Dei graças a Deus quando o Dr. Leidner trouxe a Enfermeira Leatheran pra cá. Era demais pra ele ter de arcar com o trabalho e os medos da esposa.

— Qual a sua opinião pessoal sobre as tais carta anônimas que ela recebeu?

Não pude evitar. Curvei-me para frente na cadeira até que consegui enxergar o perfil da senhorita Johnson virado para Poirot ao responder as perguntas.

Parecia perfeitamente calma e senhora de si.

— Creio que alguém na América tinha rancor dela e estava procurando assusta-la ou incomodá-la.

— Pas plus serieux que ça?

— Essa é a minha opinião. O senhor sabe, ela era uma mulher muito bonita, e podia facilmente ter criado inimigos. Acho que as tais cartas foram escritas por alguma mulher vingativa. A senhora Leidner, tendo um temperamento nervoso, levou-as a sério.

— Quanto a isso não há dúvida — concordou Poirot. — Mas lembre-se... a última delas chegou em mãos.

— Bom, eu suponho que isso podia ser conseguido se alguém se resolvesse a tanto. As mulheres não medem esforços pra saciar o ódio, senhor Poirot.

De fato á assim, pensei comigo mesma!

— Talvez mademoiselle tenha razão. Como diz, a senhora Leidner era bonita. A propósito, conhece a senhorita Reilly, a filha do médico?

— Sheila Reilly? Sim, naturalmente.

Poirot adotou um tom muito confidencial, indiscreto.

— Ouvi um boato (claro que não quero perguntar ao médico) que havia uma tendresse entre ela e um dos membros do grupo do Dr; Leidner. Sabe se tem fundamento?

A senhorita Johnson pareceu achar um pouco de graça.

— Oh, os jovens Coleman e David Emmot gostavam de freqüentar bailes. Consta que houve certa rivalidade pra ver quem seria o par dela numa determinada festa no clube. Em geral, os dois rapazes iam ao clube nas noites de sábado. Mas não sei se houve qualquer incentivo da parte dela. É a única criatura moça na localidade, compreende? E assim se tornou praticamente a bela cobiçada. É também a favorita dos bailes da Força Aérea.

— De modo que acha que não tem o mínimo fundamento?

— Bom... não sei — a senhorita Johnson    ficou pensativa. — Verdade que costuma vir pra estes lados bastante seguido. Lá em cima nas escavações e tudo o mais. De fato, a senhora Leidner estava mexendo com David Emmot por causa disso outro dia... dizendo que a pequena andava atrás dele. O que me pareceu um comentário meio felino, e não creio que ele tenha gostado. Sim, Sheila aparecia bastante aqui. Enxerguei-a cavalgando rumo às escavações naquela tarde fatídica — acenou com a cabeça em direção à janela aberta. Porém nem David Emmot, nem Coleman ficaram de plantão naquele dia. Quem estava era Richard Carey. Sim, talvez ande atraída por um dos rapazes... mas é uma moça tão moderna e pouco sentimental que a gente não sabe até que ponto se pode leva-la a sério. Estou certa de que não sei qual deles que é. Bill é ótimo, e muito menos tolo do que finge ser. David Emmot é um encanto... com uma série de qualidades. É um tipo quieto, profundo.

Depois fitou Poirot intrigada e perguntou:

— Mas que relação tem isso com o crime, M. Poirot?

O detetive jogou as mãos para o alto num gesto bem francês.

— Mademoiselle me faz corar — disse. — Me desmascara como mero bisbilhoteiro. Mas, que quer, sinto sempre interesse pelos casos amorosos de gente moça.

— Sim — concordou a senhorita Johnson com leve suspiro. — É lindo quando um verdadeiro amor não encontra obstáculos pela frente.

Poirot deu um suspiro como resposta. Fiquei a imaginar se a senhorita Johnson não estaria pensando em algum caso de amor que tivera na mocidade. E se M. Poirot não teria uma esposa, e não se comportava do jeito que sempre se ouve falar que é típico dos estrangeiros, com amantes e coisas por esse estilo. Seu aspecto era tão cômico que seria difícil imagina-lo em tal papel.

— Sheila Reilly tem muita personalidade — disse a senhorita Johnson. — É moça rude mas possui bom caráter.

— Confio na palavra de mademoiselle — retrucou Poirot.

Ergueu-se e perguntou:

Há algum outro membro da equipe de momento na casa?

— Marie Mercado deve andar por aí. Os homens todos estão hoje nas escavações. Acho que queriam sair deste ambiente. Não os recrimino. Se quiser ir até lá...

Veio até a varanda e disse, toda sorridente para mim:

— A Enfermeira Leatheran não se importa de leva-lo, não é mesmo?

— Mas, certamente, senhorita Johnson — repliquei.

— Almoçará conosco, monsieur Poirot?

— Encantado, mademoiselle!

A senhorita Johnson tornou a entrar no living, onde estava ocupada em catalogar algumas peças.

— A senhora Mercado está no terraço — informei. — Não quer falar com ela antes?

— Acho que tanto faz. Vamos lá em cima.

Quando subíamos pela escada, murmurei:

— Fiz o que o senhor me pediu. Escutou alguma coisa?

— Absolutamente nada.

— Em todo caso já serve para tirar um peso da consciência da senhorita Johnson — observei. — Anda preocupada porque podia ter feito qualquer coisa na hora.

A senhora Mercado estava sentada no parapeito, com a cabeça inclinada e tão concentrada em seus pensamentos que nem percebeu nossa aproximação  até que Poirot se deteve na sua frente e deu-lhe bom dia.

Então levantou os olhos surpreendida.

Achei que tinha cara de doente nessa manhã, com seu pequeno rosto contraído e murcho, e fundas olheiras.

— Encore moi — disse Poirot. — Hoje venho com uma finalidade especial.

E prosseguiu exatamente da mesma maneira que tinha feito com a senhorita Johnson, explicando como lhe era necessário obter o verdadeiro retrato da senhora Leidner.

A senhora Mercado, entretanto, não foi tão sincera como a senhorita Johnson. Desmanchou-se em louvores repugnantes que, estou bem segura,  distavam muito de seus verdadeiros sentimentos.

— A cara, cara Louise! É tão difícil explica-la pra alguém que não a conheceu. Era uma criatura tão exótica. Muito diferente de outros. Tenho a certeza que a enfermeira também notou isso, não? Uma mártir dos nervos e cheia de fantasias, mas a gente suportava estas coisas que ela fazia que não suportaria de ninguém mais. E era tão querida por todos nós, não era, enfermeira? E tão humilde consigo mesma... quero dizer, não sabia nada de arqueologia e, entretanto, tinha tanto interesse em aprender. Sempre interrogando a meu marido sobre os processos químicos para tratamento dos objetos metálicos, e ajudava à senhora Johnson a consertar as cerâmicas. Oh, éramos todos tão afeiçoados a ela.

— Então não é verdade, madame, o que ouvi dizer, que reinava aqui uma certa tensão... uma atmosfera de constrangimento?

A senhora Mercado arregalou os opacos olhos pretos.

— OH! Quem pôde dizer-lhe uma coisa dessas? A enfermeira? O doutor Leidner? Estou certa de que ele jamais seria capaz de notar coisa alguma, coitado.

E me lançou um olhar positivamente hostil.

Poirot sorriu, despreocupado.

— Tenho meus espiões particulares, madame — declarou, todo alegre, e por um instante vi as pálpebras dela tremerem e pestanejarem.

— Não acha — perguntou a senhora Mercado com grande doçura, — que depois de um acontecimento dessa espécie, todo mundo sempre finge saber uma porção de coisas que nunca houve? Sabe como é... tensão, atmosfera, uma “sensação de que algo estava para acontecer”? Creio que as pessoas simplesmente inventam essas coisas posteriormente.

— Tem muita razão no que acaba de dizer, madame — concordou Poirot.

— E realmente não é verdade! Éramos uma família completamente unida aqui.

— Essa mulher é uma das maiores mentirosas que eu já vi — afirmei indignada, depois que monsieur Poirot e eu saímos da casa e caminhávamos pelo caminho que conduzia as escavações. — Tenho certeza de que simplesmente detestava à senhora Leidner!

— Não é do tipo de pessoa de que se pode esperar que diga a verdade - concordou Poirot.

— Foi uma perda de  tempo conversar com ela — exclamei.

— Não de tudo... não de tudo. Se uma pessoa disser mentiras com os lábios, algumas vezes expressa a verdade com os olhos. De que tem medo a nossa pequena senhora Mercado? Percebi medo no olhar dela. Sim... decididamente ela está com medo de alguma coisa. É muito interessante.

— Tenho que lhe dizer algo, monsieur Poirot — anunciei.

E lhe contei o que passou quando retornei para casa, na noite anterior, e da  minha convicção de que a senhorita Johnson era a autora das cartas anônimas.

— Quer dizer que ela também é uma mentirosa! — exclamei. —O jeito calmo com que respondeu ao senhor esta manhã, quando lhe perguntou por essas cartas!

— Sim — disse Poirot. — Aquilo foi interessante. Porque ela revelou que sabia tudo a respeito delas. Até agora não tinham sido mencionadas na presença da equipe. Claro, é bem possível que o doutor Leidner lhe falasse nelas ontem. Os dois são velhos amigos... Mas se ele não falou... bom... então é curioso e interessante... não é mesmo?

Meu respeito por ele aumentou. Era inteligente a maneira com que usara aquele artifício para forçá-la a mencionar aquelas cartas.

— Pretende pressiona-la por causa disso? —  perguntei.

Pareceu surpreender-se ante minha idéia.

— Não, não,  de maneira alguma. Sempre é imprudente alardear o que se sabe. Até o último momento o guardo tudo aqui dentro — bateu na testa. —No instante preciso... dou o bote... como uma pantera... e, mon Dieu..! Como ficam consternados!

Não pude evitar o riso ao imaginar o pequeno monsieur Poirot desempenhando o papel de pantera.

Chegamos às escavações. A primeira pessoa que encontramos foi ao senhor Reiter, que estava fotografando umas paredes.

Sou da opinião de que os operários incumbidos das escavações simplesmente descobriam paredes onde queriam. Pelo menos era a impressão que dava. O senhor Carey me explicou que se podia notar logo a diferença com uma picareta, e tentou mostrar-me — mas não percebi. Quando o homem que escavava dizia “Libn” — tijolo de barro — para mim aquilo não passava de puro  barro seco.

O senhor Reiter terminou de bater as fotografias e entregou a câmara e as chapas ao seu auxiliar, pedindo-lhe que as levasse de volta para a casa.

Poirot lhe fez uma que outra pergunta sobre exposições e rolos de filmes e assim por diante, que ele respondeu com toda a presteza. Parecia satisfeito de ser questionado sobre seu trabalho.

Estava justamente se desculpando por ter de nos deixar quando Poirot se lançou de novo à sua fórmula clássica. Para falar a verdade, não era propriamente uma fórmula clássica porque variava um pouco de cada vez, conforme a pessoa a quem se dirigisse. Só que eu não vou descreve-la todas as vezes. Com pessoas sensatas, como a senhorita Johnson ia direto ao assunto, ao passo que com outros precisava fazer um pouco mais de rodeios. Mas ao final sempre chegava no mesmo ponto.

— Sim, sim, percebo o que o senhor quer dizer — respondeu o senhor Reiter. — Porém, de fato, não vejo como lhe possa ajudar. Sou novo aqui nesta temporada e nunca conversei muito com a senhora Leidner. Sinto muito, mas realmente nada lhe posso adiantar.

Havia qualquer coisa meio rígida e estrangeira em sua maneira de falar, embora, naturalmente, não tivesse nenhum sotaque — exceto americano, bem entendido.

— Não pode, ao menos, me informar se simpatizava com a senhora Leidner ou não? — disse Poirot, com um sorriso.

O senhor Reiter se ruborizou e balbuciou:

— Era uma pessoa encantadora... verdadeiramente encantadora. Era intelectual. Tinha muita inteligência... sim.

— Bien! O senhor gostava dela. E ela, gostava do senhor?

O jovem se ruborizou ainda mais.

— Oh, eu... eu não sei se ela ligava muito para mim. E fui desastrado mais de uma vez. Sempre tinha azar quando tentava fazer alguma coisa pra ela. Creio que a irritava com minha falta de jeito. Nunca foi por querer... eu teria feito tudo...

Poirot se apiedou das atrapalhações dele.

— Perfeitamente... perfeitamente. Passemos a outro assunto. Havia uma atmosfera de alegria na casa?

— Como?

— Vocês todos eram muito unidos? Riam e conversavam juntos?

— Não... não era bem assim. Havia uma certa... reserva — fez uma pausa, lutando consigo mesmo, e depois acrescentou: — O senhor vê,  não sou muito bom pro convívio em sociedade. Sou desajeitado e tímido. O doutor Leidner sempre foi amável comigo. Mas... é estúpido da minha parte... não posso vencer minha timidez. Sempre digo a coisa errada. Derramo as jarras de água. Não tenho sorte.

Parecia, realmente, uma criança grande e desajeitada.

— Todos nós nos comportamos assim quando somos jovens — consolou Poirot, sorrindo. — A pose, o savoir-faire, vêm com o tempo.

Depois, com uma palavra de adeus, seguimos adiante.

— Ou esse rapaz é extremamente ingênuo, ma soeur, ou um ator absolutamente extraordinário.

Não respondi. Fiquei, mais uma vez, tomada pela fantástica noção de que uma daquelas pessoas era um assassino perigoso e desalmado. Seja como for, nessa linda e calma manhã ensolarada, parecia até impossível uma coisa assim.

 

Senhor Mercado, Richard Carey

— Vejo que eles trabalham em dois lugares diferentes — observou Poirot detendo-se.

O senhor Reiter tinha estado fotografando uma área afastada da escavação principal. A pouca distância de nós, um segundo enxame de homens vinha e voltava com cestas de terra de um lado a outro.

— É o que chamam o "corte profundo" — expliquei. — Não encontram grande coisa ali, a não ser cacos de cerâmica desprezíveis. Mas o doutor Leidner sempre diz que é muito interessante, e portanto, suponho que deve ser.

— Vamos até lá.

Caminhamos juntos lentamente, pois o sol esquentava.

O senhor Mercado dava ordens aos trabalhadores. Nós o vimos lá embaixo, conversando com o capataz, um velho que lembrava uma tartaruga, que usava um paletó de mescla por cima de uma saia comprida de algodão listrado.

Era difícil descer até eles, pois só havia um pequeno caminho, a maneira de escada, e os homens que conduziam terra desciam e subiam por ela constantemente. Pareciam ser cegos como morcegos, e não lhes ocorreu afastar-se para nos deixar passar.

Enquanto eu seguia Poirot, em nosso caminho de descida, ele de repente me perguntou por cima do ombro.

— O senhor Mercado é canhoto ou destro?

Ora, já se viu pergunta mais extravagante!

Refleti um momento.

— Destro — respondi num tom decidido.

Poirot não se deu o trabalho de explicar o motivo de sua pergunta. Simplesmente continuou descendo e eu fui atrás.

O senhor Mercado pareceu alegrar-se ao nos ver. Seu rosto comprido  e melancólico se iluminou.

Monsieur Poirot demonstrou um interesse pela arqueologia que estou segura não tinha nada de verdadeiro; mas o senhor Mercado se apressou a satisfazer plenamente seu  curiosidade.

Explicou que já haviam atingido doze níveis nos cortes de ocupação residencial

— Agora estamos decididamente no quarto milênio — disse com entusiasmo.

Sempre pensei que um milênio era coisa do futuro... época em que tudo daria certo.

O senhor Mercado apontou para faixas de cinzas Como sua mão tremia! Fiquei imaginando se talvez não sofria de malária.(), explicando como a cerâmica mudava de caráter, e sobre túmulos — como tinham encontrado um nível praticamente formado só por sepulturas de crianças — pobrezinhas — e sobre posição e orientação curvada, que parecia indicar a maneira como os ossos estavam colocados.

Foi então que, repentinamente, no momento exato em se inclinava para apanhar uma espécie de faca de pedra num canto, ao lado de uma série de vasos, deu um pulo no ar com um berro violento.

Girou nos calcanhares, deparando comigo e Poirot olhando assombrados para ele.

Apertou a mão contra o braço esquerdo.

— Alguma coisa me picou... como se uma agulha incandescente. 

Imediatamente Poirot pareceu animado por uma súbita energia:

— Depressa, mon cher, vejamos o que é. Enfermeira Leatheran!

Aproximei-me logo.

Ele pegou o braço do senhor Mercado e enrolou habilmente a manga  da camisa cáqui até o ombro.

— Aqui — apontou o senhor Mercado.

A uns dez centímetros abaixo do ombro via-se uma minúscula picada de onde começava a emanar sangue.

— É curioso — disse Poirot, espiando dentro da manga enrolada. — Não vejo nada. Talvez foi uma formiga?

— É bom passar um pouco de iodo — aconselhei.  

Sempre levo um bastão de iodo comigo. Tirei-a e apliquei um pouco na ferida. Mas fiz isso um pouco distraída, pois minha atenção se fixara em algo bem diferente. O braço do senhor Mercado, desde o pulso até o cotovelo, estava todo marcado por pequeninas picadas. Eu sabia perfeitamente bem do que tratava-se. Eram marcas de uma agulha hipodérmica.

O senhor Mercado baixou de novo  a manga e recomeçou suas explicações. M. Poirot escutava, mas não procurou puxar a conversa para o assunto dos Leidners. De fato não perguntou absolutamente nada sobre o tema.

Finalmente nos despedimos dele e tornamos a subir outra vez pelo caminho.

— Foi bem dada, não achou? — perguntou meu acompanhante.

— Dada? — estranhei.

Monsieur Poirot tirou qualquer coisa que tinha presa na parte interior da lapela do paletó e a contemplou com carinho. Para minha surpresa, vi que era uma agulha de cerzir, comprida e pontuda, com uma gota de cera de lacre transformando-a em alfinete.

— Monsieur Poirot! — exclamei. — Foi o senhor?

— Sim... eu fui o inseto que picou ao senhor Mercado. E apliquei muito bem, não lhe pareceu? A senhora nem viu.

Realmente.Eu nem notei. E estou certa de que o senhor Mercado não suspeitou de nada. Decerto agira com uma rapidez de relâmpago.

— Mas por quê, monsieur Poirot? — perguntei.

Respondeu-me com outra pergunta.

— Não reparou nada, ma soeur?

Assenti lentamente com a cabeça.

— Sinais de uma agulha hipodérmica — respondi.

— Portanto, agora sabemos algo a respeito do senhor Mercado — replicou Poirot. — Eu suspeitava... porém não sabia. É sempre necessário assegurar-se das coisas.

E não se importa com os métodos que usa!, pensei mas não falei.

De repente, Poirot bateu a mão no bolso.

— Diabo, deixei cair meu lenço lá embaixo. Tinha o alfinete escondido nele.

— Eu vou buscar pro senhor — disse eu e voltei correndo para as escavações.

A essa altura, sabem, tinha a sensação de que monsieur Poirot e eu éramos o médico e a enfermeira que tratavam de um caso. Pelo menos, parecia uma operação cirúrgica, da qual  fosse ele  o cirurgião. Talvez não fique bem confessar uma coisa dessas, mas de um modo estranho eu estava começando a me divertir.

Lembro-me que, logo depois que concluí meu período de treinamento, atendi um caso numa residência particular onde foi necessária uma operação cirúrgica urgente, e o marido da paciente era maníaco a respeito de casas de saúde. Recusou-se terminantemente a levar a esposa para o hospital. Disse que teria de ser feita lá mesmo.

Ora, para mim, naturalmente, foi ótimo! Ninguém para se intrometer no meio! Tomei conta de tudo. Claro, fiquei tremendamente nervosa. — Pensei em todas as coisas concebíveis que o cirurgião podia precisar e mesmo assim estava com receio de ter esquecido de algo. Com os médicos nunca se sabe. Às vezes pedem verdadeiros absurdos! Mas tudo correu às mil maravilhas. Eu tinha tudo à mão, à medida que ele pedia, e depois que a operação terminou chegou até a dizer que eu havia feito um trabalho de primeira — o tipo da coisa que a maioria dos médicos nem se preocupa em fazer! O clínico geral também foi muito simpático. E fiz tudo sozinha!

A paciente se curou, aliás,  assim todo mundo ficou contente.

Pois agora eu sentia mais ou menos a mesma impressão. De certo modo, monsieur Poirot me lembrava aquele cirurgião. Também era baixinho. Um homenzinho feio, com cara de macaco, mas um operador maravilhosos. Sabia instintivamente o lugar exato em que devia cortar. Já encontrei uma porção de cirurgiões e sei a grande diferença que existe

Gradualmente ia crescendo minha confiança em monsieur Poirot. Achei que ele, também,  sabia exatamente o que estava fazendo. E comecei a sentir que tinha o dever  ajudá-lo — ficando com o fórceps e as pinças de prontidão para o momento em que precisasse. Por isso é que me parecia tão natural sair correndo à procura do seu lenço, quanto seria juntar uma toalha que o médico tivesse deixado cair uma toalha ao chão.

Depois de localizar o lenço e regressar, a princípio não encontrei monsieur Poirot. Olhei a meu redor e por fim avistei-o. Estava sentado, um pouco mais afastado da elevação, falando com o senhor Carey. O ajudante indígena do arquiteto tinha parado a poucos passos, levando na mão uma grande régua graduada; mas nesse exato momento o senhor Carey lhe disse algo e o árabe se afastou. Pelo visto, interrompera provisoriamente o seu trabalho.

Gostaria de deixar bem claro o que aconteceu a seguir. Vocês vêem, eu não tinha muita certeza do que monsieur Poirot queria que eu fizesse ou não. Quero dizer, ele podia ter-me mandado buscar o lenço com o claro propósito de que eu não estivesse por ali.

De novo me deu a impressão de que se tratava de uma operação cirúrgica. A gente precisa tomar cuidado para entregar ao cirurgião exatamente o que ele necessita e não o que ele não quer. Eu digo, suponhamos que lhe entregasse o fórceps das artérias no momento errado, e me atrasasse na hora certa! Graças a Deus, conheço perfeitamente bem meu trabalho na sala de cirurgia. Não estou exposta a cometer erros ali. Mas nessa história eu era, de fato, a mais bisonha das principiantes. E por isso tinha de tomar todo cuidado para não cometer os erros mais estúpidos.

Claro que nem por um momento imaginei que monsieur Poirot não quisesse que  eu escutasse o que ele e o senhor Carey conversavam. Ele, porém, era capaz de ter pensado que conseguiria melhores informações do senhor Carey se eu não estivesse presente.

Agora não quero que ninguém suponha que sou o tipo da mulher que anda por aí bisbilhotando conversas íntimas. Não faria semelhante coisa. Nunca na vida. Por mais que eu me sentisse tentada. 

E o que eu quero dizer, em resumo, é que se tivesse sido uma conversa confidencial, jamais cogitaria de fazer o que, para dizer a verdade, terminei fazendo.

Do meu ponto de vista, eu me achava numa posição privilegiada. Afinal de contas, ouve-se muita coisa quando uma pessoa recupera os sentidos, após a anestesia. O paciente não haveria de gostar que a gente ouvissem — e geralmente não tem a mínima idéia de que foi ouvido — mas o fato é que se ouve mesmo.  Simplesmente fingi que o senhor Carey era o paciente. Ele nada teria a perder se não viesse a saber. E se vocês pensam que foi mera  curiosidade minha, pois olha, admito que foi... Não queria deixar de ouvir aquilo por nada deste mundo.

Tudo isso é apenas para explicar o fato de que desviei para um lado e tomei um caminho por trás do grande monte de entulho até ficar bem perto de onde se encontravam, porém oculta pelo ângulo do monte. E se alguém disser que cometi uma indiscrição, peço apenas licença para discordar. Nada deve ser escondido da enfermeira encarregada do caso. Embora, como é lógico, o médico quem determina o que precisa ser feito.

É evidente que não sei qual fora a maneira de monsieur Poirot abordar o assunto com o senhor Carey; mas quando cheguei a meu esconderijo ele fazia pontaria bem no centro do alvo, por assim dizer.

—  Ninguém compreende melhor que eu a devoção que sentia o doutor Leidner por seu esposa — estava dizendo. — Só que muitas vezes dá-se o caso de que a gente aprende mais sobre uma pessoa por intermédio dos seus inimigos, em lugar de fazê-lo com seus amigos.

— O senhor insinua que os defeitos sejam mais importantes que as virtudes? — perguntou o senhor Carey com tom seco e irônico.

—Indiscutivelmente... quando se trata de assassinato. Talvez pareça estranho, mas nunca soube de ninguém que tivesse sido assassinado por ter um caráter muito perfeito. E no entanto a perfeição é, fora de dúvida, uma coisa muito irritante.

— Creio que dificilmente seria a pessoa indicada para lhe ajudar — disse o senhor Carey. — Para ser totalmente sincero, a senhora Leidner e eu não nos dávamos muito bem. Não quero dizer com isso que fôssemos inimigos; mas tampouco fomos amigos. Ela sentia-se, talvez, um pouco enciumada de minha antiga amizade com seu marido. Eu, por minha parte, apesar de muito admira-la e achar que era uma mulher extremamente bonita, andava meio ressentido com a influência que exercia sobre o Leidner. Como conseqüência disso, nos mostrávamos bastante corteses um com o outro, mas sem maiores intimidades.

— Admiravelmente explicado — disse Poirot.

Mal podia enxergar suas cabeças, porém percebi que a do senhor Carey se virou bruscamente, como se qualquer coisa no tom imparcial de monsieur Poirot lhe causasse uma impressão desfavorável.

O detetive prosseguiu:

— O senhor Leidner não ficou preocupado ao ver que o senhor e sua esposa não se entendessem melhor?

Carey hesitou um momento antes de responder.

— Francamente... não tenho certeza. Ele nunca disse nada sobre isso. Sempre tive esperança de que não notasse. Vivia muito concentrado em seu trabalho, compreende?

— Quer dizer que a verdade, segundo o senhor, é que realmente não simpatizava com a senhora Leidner.

Carey se encolheu de ombros.

— Eu provavelmente simpatizaria se não fosse casada com o Leidner.

Riu como se achasse graça da sua própria declaração.

Poirot pôs-se a arrumar uma pilha de cacos de cerâmica. Com voz distraída disse:

— Conversei hoje de manhã com a senhorita Johnson. Ela admitiu que tinha prevenção contra a senhora Leidner e não gostava muito dela, apesar  de que se apressou em frisar que a senhora Leidner sempre fora muito amável com ela.

— O que é a pura verdade, a meu ver — observou Carey.

— Foi o que pensei. Depois tive uma conversa com a senhora Mercado. Ela me contou minuciosamente como tinha sido dedicada  à senhora Leidner e o quanto a admirava.

O arquiteto não respondeu e, depois de aguardar uns instantes, Poirot prosseguiu:

— Mas nisso... eu não acreditei! Aí então venho procurá-lo e o que me contou...bom, novamente... não acredito...

Carey se ergueu. Pude ouvir seu tom colérico ao falar.

— Francamente, não posso impedir suas crenças...ou descrenças, monsieur Poirot. Contei-lhe a verdade e, no que me diz respeito, acredite o que bem entender.

Poirot não se zangou. Pelo contrário, parecia especialmente humilde e deprimido.

— É culpa minha se acredito...ou não? Tenho ouvido apurado, sabe? E depois... correm tantos boatos por aí... os rumores pairando no ar. A gente escuta... e talvez... fica sabendo de alguma coisa! Sim, boatos é o que não faltam...

Carey se levantou de um salto. Podia ver nitidamente uma pequena veia latejando em  sua têmpora. Tinha um aspecto magnífico! Tão elegante e bronzeado — com aquele queixo esplêndido, firme  e quadrado. Não me admiro que as mulheres se apaixonassem  por esse homem.

— Que boatos? — perguntou com furioso.

Poirot olhou-lhe de soslaio.

— Talvez adivinhe.O tipo de boato habitual... a respeito do senhor e da senhora Leidner.

— Que mentalidade monstruosa as pessoas têm!

— N'est-ce pas? São que nem cachorros. Por mais fundo que se enterre um dissabor, sempre aparece alguém pra desenterra-lo outra vez.

— E o senhor acredita em boatos?

— Desejo saber... a verdade — disse Hércules Poirot gravemente.

— Duvido que acreditasse se soubesse qual é.

E Carey soltou uma gargalhada grosseira.

— Experimente pra ver — provocou Poirot, olhando-o nos olhos.

— Pois então ouça! Quer saber a verdade! Eu odiava a Louise Leidner... essa é que é a verdade! Eu a odiava-a com uma fúria infernal com toda minha alma!

 

David Emmott, Padre Lavigny e uma descoberta

Virando abruptamente as costas Carey se afastou.

Poirot ficou sentado, acompanhando-o com o olhar.

— Sim...  compreendo — murmurou afinal. E sem virar a cabeça, acrescentou em voz ligeiramente mais alta: — Fique ainda um pouco onde está, enfermeira... Caso ele olhe pra trás. Pronto, pode vir. Trouxe o meu lenço? Muito obrigado, é muito amável.

Não comentou absolutamente nada sobre o fato de eu ter ficado escutando — e como soube que eu estava ali, não posso imaginar. Não olhara nem uma vez naquela direção. Fiquei meio aliviada com sua falta de comentários. Quero dizer, eu não sentia o menor remorso pelo que havia feito, mas seria um pouco embaraçoso explicar-lhe aquilo. Portanto achei ótimo que aparentemente não quisesse explicações.

— O senhor crê que ele a odiasse, monsieur Poirot? — perguntei.

Assentindo lentamente com a cabeça e com uma expressão estranha no rosto, Poirot replicou:

— Sim... acredito que a odiava.

Depois levantou-se rapidamente e dirigiu-se ao ponto onde os homens trabalhavam no alto da elevação. Fui atrás. A princípio só vimos operários árabes; mas por fim encontramos ao senhor Emmott deitado de bruços, soprando areia de um esqueleto que acabava de ser descoberto.

Sorriu com aquele seu jeito simpático e sério quando nos viu.

— Vieram dar uma olhada? — perguntou. — Fico pronto num minuto. Sentou no chão, pegou o canivete e começou a raspar delicadamente a terra que envolvia os ossos, parando de vez em quando para lançar mão de um fole ou do seu próprio sopro para tirar o pó que se produzia. Método muito insalubre, esse último procedimento, a meu ver

— Vai pegar tudo o que é espécie de micróbios nojentos na boca, senhor Emmott — protestei.

— Micróbios nojentos são minha dieta cotidiana, enfermeira — replicou com seriedade. — Os micróbios não fazem nenhum mal ao arqueólogo... ficam simplesmente desanimados de tanto tentar. 

Raspou um pouco mais ao redor de um fêmur e logo falou com um capataz que tinha ao lado, indicando exatamente o que queria que fizesse.

— Pronto — disse, levantando-se. — Está tudo preparado para que Reiter fotografar depois do almoço. Negócio bem bonito ela trazia consigo.

Mostrou-nos uma pequena tigela de cobre coberta de azinhavre e alguns broches. E uma porção de coisas douradas e azuis que lhe tinham servido de colar de contas.

Os ossos e demais objetos foram escovados e limpos com um canivete e deixados numa posição propícia às fotografias.

— Quem é ela? — perguntou Poirot, assinalando os ossos.

— Do primeiro milênio. Uma senhora de certa posição, talvez. O crânio me parece meio esquisito... preciso pedir pro Mercado verificar. Parece-me que a morte se deu com um golpe que recebeu na cabeça.

— Uma senhora Leidner de cerca de dois mil anos atrás? — disse o detetive.

— Possivelmente — replicou o senhor Emmott.

Bill Coleman estava fazendo qualquer coisa com uma picareta na fachada de um muro de barro.

David Emmott gritou algo para ele que não consegui entender e depois começou a mostra tudo a monsieur Poirot.

Depois de encerrada a excursão explanatória, Emmott consultou o relógio de pulso.

— Vamos largar o serviço dentro de dez minutos — avisou. — Quer voltar a pé pra casa?

— Excelente idéia — respondeu Poirot.

Caminhamos lentamente pelo desgastado caminho.

— Calculo que estejam todos contentes por estarem trabalhando de novo — comentou  Poirot.

— Sim, foi a melhor solução — replicou Emmott muito sério. — Não era nada fácil andar vadiando pela casa e puxar conversa com os outros.

— Sabendo todo o tempo que um de vocês era assassino.

Emmott não respondeu, nem fez gesto algum de desaprovação. Eu sabia agora que ele desconfiara da verdade desde o começo, quando interrogou os criados.

Decorridos alguns instantes, perguntou em voz baixa:

— Chegou a alguma conclusão, monsieur Poirot?

O detetive replicou:

— O senhor me ajudará a chegar?

— Mas naturalmente!

Poirot o olhou fixamente e disse:

— O pivô do caso é a senhora Leidner. Quero saber tudo a respeito dela.

David Emmott perguntou hesitante:

— O que entende o senhor por saber "tudo a respeito dela"?

— Não me refiro à procedência ou nome que tinha em solteira. Nem ao formato de rosto, nem a cor de seus olhos. Eu me refiro a ela... a ela mesma.

— Acha que interessa ao caso?

— Tenho absoluta certeza.

Emmott guardou silêncio durante uns instantes e logo acrescentou:

— Talvez o senhor tenha razão — concordou, por fim.

— E é nisso que pode me ajudar. Pode contar-me a espécie de mulher que ela era.

— Seriamente? Eu mesmo muitas vezes fiquei imaginando.

— E não chegou a uma decisão sobre o assunto? 

— Creio que no fim cheguei!

— Eh bien?

Mas o senhor Emmott ficou em silêncio durante certo tempo. Depois perguntou:

— O que é que a enfermeira achava dela? — Consta que as mulheres são bastante rápidas pra analisar as outras, e as enfermeiras têm vasta experiência de tipos.

Mesmo que eu quisesse responder, Poirot não me deu a mínima oportunidade. Falou logo:

— O que quero saber é a opinião que um homem tinha dela.

Emmott sorriu de leve.

— Tenho a impressão de que não faria grande diferença..

 Depois de uma pausa prosseguiu.

— Não era jovem, mas acho que foi, praticamente, a mulher mais bonita que jamais encontrei.

— Não se pode dizer que isso seja uma resposta, senhor Emmott.

Mas não está muito longe de se, monsieur Poirot.

— Uma vez, quando era garoto, li um conto de fadas. Uma história nórdica sobre a Rainha da Neve e o Pequeno Kay. Creio que a senhora Leidner foi um pouco assim... sempre deixando o Pequeno Kay embasbacado.

— Ah, é um conto de Hans Andersen, não é mesmo? E havia uma menina também. A Pequena Gerda, não era esse o nome dela?

— É possível. Não me lembro direito.

— Não pode adiantar mais alguma coisa, senhor Emmott?

David Emmott sacudiu a cabeça.

— Nem sequer sei se a descrevi como devia. Não era fácil de entender. Fazia uma coisa diabólica um dia e uma realmente ótima no outro. Acho, porém, que o senhor acertou em cheio quando disse que ela é o pivô do caso. Foi o que ela sempre quis ser... o centro de tudo. E o gostava de dominar às pessoas... quero dizer, não se contentava apenas com que lhe alcançassem torradas e manteiga de amendoim; exigia que a gente virasse o espírito e a alma pelo avesso para que ela  pudesse saciar a curiosidade.

— E se alguém lhe negava essa satisfação? — perguntou Poirot.

— Então era capaz de virar uma fera!

Vi seus lábios se cerrarem resolutamente e o queixo se imobilizar.

— Senhor Emmott, suponho que o senhor não se importaria de manifestar uma simples opinião, sem compromisso, a respeito de quem foi que a matou?

— Não sei — replicou o jovem. — Realmente não tenho a menor idéia. Agora, se eu fosse Carl... Carl Reiter, quero dizer... bem que me arriscaria a assassiná-la. Ela se portou como uma verdadeira peste com ele. Mas está claro que a culpa foi dele, por ser tão terrivelmente suscetível. Até dá vontade de lhe dar um chute nas pernas.

— E a senhora Leidner deu... um chute nas pernas dele?? — inquiriu Poirot.

Emmott de repente sorriu.

— Não. Umas boas estocadas com uma agulha de bordar... era esse o método dela. Ele era irritante,lógico. Igualzinho a uma criança chorona e medrosa. Mas uma agulha é uma arma dolorosa.

Dirigi um olhar ao Poirot e me pareceu ver um ligeiro tremor em seus lábios.

—Porém não crê realmente que Carl Reiter a tenha matado? — perguntou.

— Não. Não creio que se deva matar uma mulher só porque faz a gente de palhaço sistematicamente, durante cada refeição.

Poirot sacudiu a cabeça com ar pensativo.

A descrição do senhor Emmott, naturalmente, tornava à senhora Leidner quase desumana. Podia-se dizer algo em seu favor, também.

Tinha havido qualquer coisa profundamente exasperante na atitude do senhor Reiter. Ele se sobressaltava quando ela lhe dirigia a palavra, e se portava feito idiota, oferecendo-lhe, por exemplo a geléia, sem parar, quando sabia perfeitamente que ela não gostava. Até eu me senti tentada a ser meio brusca com ele.

Os homens não compreendem como seus  maneirismos podem enervar as mulheres, a tal ponto que a gente só sente vontade de ser ríspida.

Julguei que devia encontrar ocasião de explicar isso ao senhor Poirot.

A essa altura já tínhamos chegado à casa e o senhor Emmott perguntou se Poirot não queria lavar as mãos e levou-o até seu quarto.

Atravessei rapidamente o pátio e entrei em meu quarto.

Tornei a sair quase ao mesmo tempo em que eles e nós todos rumávamos para sala de refeições quando o Padre Lavigny abriu a porta de seu dormitório e convidou Poirot a entrar.

O senhor Emmott se aproximou e entramos os dois juntos na sala de refeições. A senhorita Johnson e a senhora Mercado já se achavam ali. E após alguns minutos chegaram o senhor Mercado, o senhor Reiter e Bill Coleman.

Estávamos sentados à mesa e o senhor Mercado pendia ao criado árabe para que avisasse ao Padre Lavigny  que o almoço seria servido, quando fomos surpreendidos por um leve grito abafado.

Calculo que nossos nervos ainda andassem muito tranqüilos, porque o susto foi geral e a senhorita Johnson disse, empalidecendo:

— O que foi isso? O que aconteceu?

A senhora Mercado a olhou fixamente e depois perguntou:

— Minha querida, o que é que você tem? — perguntou. — É algum barulho lá fora nos campos.

Naquele momento Poirot e o Padre Lavigny entraram na sala.

— Até pensamos que alguém tinha-se ferido — observou a senhorita Johnson.

— Mil perdões, mademoiselle — exclamou Poirot. — A culpa foi minha. O Padre Lavigny estava-me mostrando umas placas, eu levei uma para perto da janela para vê-la melhor... e, ma foi, sem olhar aonde ia e tropecei. A dor foi muito intensa que tive de gritar.

— Julgávamos que fosse outro assassinato — troçou a senhora Mercado.

— Marie! — exclamou seu marido. Seu tom era de recriminação.

Ela avermelhou mordendo os lábios.

A senhorita Johnson desviou rapidamente o assunto para as escavações, querendo saber que objetos interessantes tinham sido descobertos durante  aquela manhã. A conversa até o fim do almoço se manteve num plano rigorosamente arqueológico.

Creio que todos julgaram que era a melhor solução.

Depois que tomamos café, passamos ao living. Mais tarde os homens, com exceção do Padre Lavigny, partiram de novo para  às escavações.

O Padre Lavigny levou Poirot ao depósito de antiguidades e eu o acompanhei. Agora eu já começava a conhecer tudo razoavelmente bem e senti uma espécie de orgulho, — quase como se fosse uma propriedade minha — quando o Padre Lavigny tirou a taça de ouro e ouvi a exclamação de admiração e prazer de Poirot.

— Que esplêndida obra de arte! Que obra-prima!

O Padre Lavigny concordou, animado, e pôs-se a enumerar as qualidades da taça com verdadeiro entusiasmo e um profundo conhecimento.

— Hoje ela não tem gotas de cera — observei.

— Cera? — perguntou Poirot, me olhando.

— Cera? — repetiu o religioso.

Expliquei minha observação.

— Ah!, je comprends — disse o Padre Lavigny. — Sim, sim; cera de vela.

Aquilo conduziu a conversação para o tema do visitante noturno. Esquecendo-se de minha presença, os dois homens começaram a falar em francês e terminei deixando-os, voltando ao living.

A senhora Mercado cerzia os meias três-quartos de seu marido e a senhorita Johnson lia um livro. Era coisa estranha nela. Geralmente parecia ter algum trabalho para fazer.

Dentro em pouco o Padre Lavigny e Poirot apareceram, o primeiro retirando-se logo, alegando excesso de serviço. Poirot sentou em nossa companhia.

— Um homem muito interessante — comentou, perguntando se o Padre Lavigny tivera grande quantidade de trabalho para fazer  até então.

A senhorita Johnson explicou que as placas andavam escassa e que tinha havia muito poucos blocos com inscrições ou cilindros de lacre. O Padre Lavigny, no entanto, também ajudava nas escavações e estava aprendendo rapidamente o árabe coloquial.

Isso levou a conversa para os cilíndricos de lacre, e por fim a senhorita Johnson buscou num armário umas folhas de impressões obtidas ao faze-los rolar em cima de uma camada de plasticina.

Percebei, enquanto nos debruçávamos para admirar os engenhosos desenhos, que decerto era nisso que estivera trabalhando na tarde fatídica em que assassinaram à senhora Leidner.

Durante nossos comentários, notei que Poirot enrolava e amassava uma bolinha de plasticina entre seus dedos.

— Mademoiselle usa muita plasticina? — perguntou.

— Bastante. Este ano parece  que gastamos uma quantidade regular... embora eu não posso entender de que maneira. Mas metade do estoque, que tínhamos já foi utilizada.

— Onde a guardam, mademoiselle?

— Aqui... neste armário.

Ao colocar de novo a folha de impressões no lugar, mostrou-lhe uma prateleira com rolos de plasticina, Durofix, cola fotográfica e outros artigos de papelaria.

Poirot abaixou-se.

- E isto?... O que é isso, mademoiselle?

Enfiara a mão até o fundo do armário e tirou um estranho e enrugado objeto.

Ao endireitá-lo, verificamos que era uma espécie de máscara, com os  olhos e boca tinham sido pintados grosseiramente com tinta indiana. O conjunto estava melado grotescamente com plasticina.

— Que coisa mais extraordinária — exclamou a senhorita Johnson. — Nunca vi isso antes. Como veio parar aqui? E o que é?

— Como veio parar aqui?... bom... qualquer esconderijo sempre serve, e presumo que este armário não seria vasculhado antes do  final da temporada. E agora, quanto ao que é... acho que também não é difícil de explicar. Aqui temos o rosto que a senhora Leidner descreveu. O rosto fantasmagórico visto de noite, fora da janela, como se dançasse no ar.

A senhora Mercado soltou um gritinho estridente.

A senhorita Johnson tinha empalidecido subitamente até os lábios.

— Então, não era imaginação — murmurou. — Era um truque... um truque maldoso! Mas, quem o fez?

— Sim — exclamou a senhora Mercado. — Quem teria feito uma coisa tão maldosa assim?

Poirot não procurou responder. Estava com a fisionomia duríssima enquanto se dirigia ao quarto contíguo, voltando com uma caixa de papelão vazia na mão e guardando a máscara amassada dentro dela.

— A polícia precisa ver isto — explicou.

— É terrível! — disse a senhorita Johnson em voz baixa. — Horrível!

— O senhor acha que tudo está escondidas por aqui? — exclamou a senhora Mercado naquele tom estridente. — Acha que talvez a arma... o porrete com que a mataram...  ainda manchada de sangue... talvez...? OH! Estou assustada... muito assustada.

A senhorita Johnson a agarrou rápida, bruscamente, pelo ombro.

— Fique quieta! — ordenou furiosamente. — Aí vem o doutor Leidner. Não devemos afligi-lo.

De fato, naquele momento o carro entrava no pátio. O doutor Leidner desceu dele e veio diretamente até a porta do living. Tinha o rosto marcado por rugas de cansaço e aparentava o dobro da idade que eu lhe daria três dias antes. Com voz tranqüila anunciou:

— O enterro será amanhã às onze horas. O major Deane fará a encomendação.

A senhora Mercado balbuciou  uma desculpa qualquer e depois escapuliu da sala.

O arqueólogo perguntou à senhorita Johnson:

— Você irá, Anne?

— Claro que nos todos iremos, meu caro. —  ela lhe respondeu. — Sem dúvida nenhuma.

Embora se limitasse a essas palavras, seu rosto decerto exprimia o que a língua se revelara impotente para transmitir, porque a fisionomia dele se iluminou de afeição e momentâneo alívio.

— Querida Anne — disse ele. — Você tem sido um consolo e uma ajuda maravilhosa pra mim. Minha cara e velha amiga.

Pôs a mão no braço dela, e vi a vermelhidão cobrir-lhe as faces, enquanto murmurava, mais rouca do que nunca:

— Ora, não me custa nada .

Mas divisei um rápido brilho em seu olhar e compreendi que, por um momento, Anne Johnson tinha sido uma mulher completamente feliz.

Outra idéia me passou por meu pensamento como um raio. Talvez dentro de pouco, com o correr do tempo, e contando com a simpatia que sentia para seu velho amigo, uma situação nova e feliz talvez viesse a se concretizar.

Não que eu seja realmente casamenteira e certamente seria até indecoroso pensar numa coisa dessas antes do enterro. Mas, em última análise,  seria uma ótima solução. O doutor Leidner gostava muito dela, e não havia dúvida que ela lhe era completamente dedicada, e se sentiria perfeitamente feliz em consagrar-lh o resto de sua vida. Isso é, se pudesse suportar a contínua lembrança das perfeições da Louise. Mas as mulheres, no entanto, são capazes de arcar com um bocado de coisas depois de conseguirem o que desejam.

O doutor Leidner então cumprimentou Poirot, perguntando-lhe se efetuara algum progresso.

A senhorita Johnson parada atrás do arqueólogo olhou intensamente para a caixa que Poirot trazia na mão, enquanto sacudia a cabeça. Compreendi que lhe implorava para não tocar no assunto da máscara. Tenho certeza de achava que o pobre doutor Leidner já tinha suportado muitos emoções naquele dia.

Poirot atendeu o pedido.

Depois, com palavras vagas, despediu-se.

— Estas coisas andam lentamente, monsieur — disse.

Acompanhei-o até seu carro.

Havia meia dúzia de perguntas que gostaria de fazer, mas não sei por que, quando ele se virou e me olhou, não me atrevi a dizer nada. Era o mesmo que  perguntar a um cirurgião se julgava que tinha feito uma boa operação. Restringi-me a ficar ali parada, aguardando humildemente as instruções.

Para a minha completa surpresa, ele recomendou:

— Cuide-se bem, minha filha. — E logo acrescentou: — Eu só queria saber se é conveniente que permaneça aqui...

— Tenho de falar com o doutor Leidner sobre a minha partida — observei. —  Mas achei que devia esperar primeiro pelo enterro.

Ele assentiu, aprovando minha determinação.

— Enquanto isso — advertiu-me, — trate de não descobrir muitas coisas. Não quero que se mostre excessivamente esperta, me compreende? — E acrescentou, sorrindo: — Compete-lhe segurar os ferros enquanto faço  a operação.

Não era engraçado que fosse lembrar de dizer justamente isso?

Aí então comentou, da maneira mais descabida:

— Homem muito interessante, esse tal Padre Lavigny.

— Me parece estranho que um monge seja arqueólogo — opinei.

— Ah, sim! A senhora é protestante. Eu sou um bom católico. Conheço alguma coisa sobre os sacerdotes e monges de minha religião.

Franziu a testa, aparentemente hesitando e afinal disse:

—Lembre-se de que ele é o bastante inteligente para virá-la pelo avesso  se assim o desejar.

Se tencionava me prevenir contra tagarelices, achei a advertência perfeitamente dispensável.

Aquilo me incomodou, e embora não quisesse lhe fazer nenhuma das perguntas que realmente me interessava conhecer, não vi razão alguma que me impedisse de lhe dizer algo.

— Perdoe, senhor Poirot — observei. — Mas a gente diz machuquei o pé, e não pisei.

— Ah! Obrigado, ma soeur.

— De nada. Mas é só pra empregar a expressão correta.

— Eu lembrarei — afirmou, de um modo que para ele era até submisso. 

E entrou no carro e foi embora, enquanto eu voltava lentamente pelo meio do pátio, refletindo sobre uma infinidade de coisas.

Sobre as marcas de injeção  no braço do senhor Mercado, e na espécie de droga em que seria viciado. E sobre aquela horrível máscara besuntada de amarela. E como era esquisito que Poirot e a senhorita Johnson não tivessem ouvido meu grito aquela manhã no living, ao passo que todos nós tínhamos escutado Poirot  com perfeita nitidez na sala de refeições à hora do almoço —e no entanto os quartos do Padre Lavigny e a da senhora Leidner ficavam praticamente à mesma distância do living e da sala de refeições, respectivamente.

E depois senti certa satisfação por ter ensinado ao "doutor" Poirot uma expressão correta!

Mesmo que fosse um grande detetive, teria de compreender que não sabia tudo!

 

Uma experiência mediúnica

O enterro, na minha opinião, foi uma cerimônia muito comovente. Além de nós, toda a população inglesa de Hassanieh compareceu. Até Sheila Reilly esteve presente, aparentando calma e discrição num costume preto. Eu esperava que estivesse sentindo um pouco de remorso pela série de coisas indelicadas que dissera.

Quando voltamos para casa, acompanhei o Dr. Leidner ao escritório e abordei o assunto de minha partida. Mostrou-se muito amável, agradecendo pelo que eu havia feito (Feito! Eu fora menos que inútil) e insistindo para que aceitasse uma semana de salário extra.

Protestei, porque realmente achava que não fizera nada para merece-la.

— De fato, Dr. Leidner, preferia até não receber salário nenhum. Contento-me apenas com o reembolso das despesas de viagem.

Mas ele nem quis saber.

— O senhor vê — disse eu, — eu não me julgo merecedora, Dr. Leidner. Quero dizer, eu... eu fracassei, ora. Ela... minha vinda não a salvou.

— Deixe dessa idéia, enfermeira — falou, sério. — Afinal não contratei a senhora como detetive de saias. Nunca sonhei que a vida de minha mulher corresse perigo. Estava convencido de que era somente puros nervos e que ela se metera numa confusão mental meio bizarra. A senhora fez tudo o que era possível fazer. Ela gostava e confiava na senhora. E eu acho que durante os últimos dias ela se sentiu mais feliz e segura por causa de sua presença aqui. Não tem nada que se recriminar.

Sua voz tremia um pouco e percebi o que estava pensando. Era ele quem devia se considerar culpado, por não ter levado a sério os receios da senhora Leidner.

— Dr. Leidner — perguntei, curiosa, — o senhor nunca chegou a uma conclusão sobre as tais cartas anônimas?

— Não sei o que pensar — respondeu com um suspiro. — E M. Poirot, chegou a alguma?

— Até ontem, não — afirmei, conseguindo, com bastante habilidade, me manter entre a verdade e a ficção. A rigor ele de fato não chegara, antes de eu lhe contar sobre o incidente com a senhorita Johnson.

Fiquei tentada a sugerir qualquer coisa nesse sentido ao Dr. Leidner, só para observar sua reação. Na satisfação de vê-lo junto da senhorita Johnson na véspera, a sua afeição e confiança nela, esquecera tudo sobre as cartas. Mesmo agora, me sentia um tanto mesquinha por trazer o assunto à baila. Ainda que ela as tivesse escrito, sofrera o diabo com a morte da senhora Leidner. Entretanto eu queria realmente verificar se essa possibilidade passara, algum dia, pela idéia do Dr. Leidner.

— Cartas anônimas geralmente são obra de mulher — insinuei.

Precisava ver como ele se portaria.

— No mínimo tem razão — concordou com um suspiro. — Mas a senhora parece esquecer, enfermeira, que essas podem ser autênticas. É possível que fossem realmente escritas por Frederick Bosner.

— Não esqueci, não — retruquei. — Mas não sei por que, não consigo aceitar essa explicação.

— Eu aceito. Esse negócio dele ser um dos membros da expedição é rematada tolice. Não passa de uma hipótese engenhosa de M. Poirot. Creio que a verdade é muito mais simples. O homem está louco, claro. Anda rondando o local... talvez com uma espécie de disfarce. E de um jeito ou doutro, entrou aqui naquela tarde fatídica. Os empregados podem estar mentindo... sabe-se lá se não foram subornados?

— É possível — respondi, num tom de dúvida.

O Dr. Leidner continuou, sem o menor traço de irritação.

— Pouco importa que M. Poirot suspeite dos membros de minha expedição. Estou absolutamente certo de que nenhum deles teve qualquer relação com o crime! Trabalho com eles. Eu os conheço!

Parou de repente. Depois perguntou:

— É essa a sua experiência, enfermeira? Que as carta anônimas são geralmente escritas por mulheres?

— Nem sempre se dá o caso — repliquei. — Mas há um certo tipo de ressentimento feminino que encontra alívio dessa maneira.

— Suponho que esteja pensando na senhora Mercado? — sugeriu. E logo sacudiu a cabeça. — Ainda que fosse bastante maldosa pra querer magoar Louise, dificilmente disporia dos conhecimentos necessários — opinou.

Lembrei-me das primeiras cartas na maleta.

Se a senhora Leidner tivesse esquecido de trancá-las e a senhora Mercado ficasse um dia sozinha, perambulando pela casa, poderia, com a maior facilidade, tê-las encontrado e lido. Os homens, pelo visto, nunca pensam nas possibilidades mais simples!

— E além dela, só existe a senhorita Johnson — disse eu, observando-º

— Isso seria absolutamente ridículo!

O leve sorriso com que frisou o comentário não admitia discussões. A idéia da senhorita Johnson ser a autora das cartas jamais lhe passara pela cabeça! Hesitei somente um instante — porém não retruquei. Ninguém gosta de denunciar uma companheira, e eu, ademais, testemunhara o remorso autêntico e tocante da senhorita Johnson. Águas passadas não movem moinhos. Por que expor o Dr. Leidner a uma nova desilusão depois de tantos incômodos?

Combinou-se que eu partiria no dia seguinte, e providenciei, por intermédio do Dr. Reilly, para ficar um ou dois dias com a superintendente do hospital enquanto fazia os preparativos para regressar à Inglaterra via Bagdá ou diretamente, via Nissibin, por carro e trem.

O Dr. Leidner foi bastante gentil para dizer que gostaria de que eu escolhesse uma lembrança entre os pertences da esposa.

— Oh, não, sinceramente, Dr. Leidner — objetei. — Não posso. É muita bondade sua.

Ele insistiu.

— Mas eu quero que leve alguma coisa. E Louise, tenho certeza, também gostaria.

Depois sugeriu que eu ficasse com o conjunto de toalete de tartaruga!

— Oh, não, D. Leidner! É um conjunto muito valioso, puxa. Realmente, não posso.

— Ela não tinha irmãs, sabe... nenhum parente que queira essas coisas. Não existe mais ninguém pra guardá-las.

Imaginei perfeitamente que não quisesse que caíssem nas pequenas mãos gananciosas da senhora Mercado. E não julgava que pretendesse oferece-las a senhorita Johnson.

Prosseguiu, todo cortês.

— Pense bem no caso. Por falar nisso, fiquei com a chave da caixa de jóias de Louise. Talvez encontre ali alguma coisa que prefira. E eu lhe agradeceria muito se pudesse arrumar... todas... todas as roupas dela. Tenho a impressão que Reilly é capaz de descobrir serventia pra elas entre as famílias pobres européias de Hassanieh.

Senti-me contentíssima de poder fazer isso por ele, e exprimi minha boa vontade.

Tratei logo de pôr mãos à obra.

A senhora Leidner possuíra apenas um guarda-roupa simples e não demorei a separar e arrumar tudo em duas malas. Todos os seus documentos estavam na pequena maleta. A caixa de jóias continha um punhado de adornos despretensiosos — anel de pérolas, broche de brilhantes, discreto solar de pérolas, e um ou dois modestos broches de ouro do tipo de alfinete de segurança e um colar de contas graúdas de âmbar.

Eu, naturalmente, não ia ficar com as pérolas nem os brilhantes, mas hesitei um pouco entre as contas de âmbar e o conjunto de toucador. No fim, não vi por que não levar esse último. Era uma lembrança gentil do Dr. Leidner, e estava certa de que não havia nela nenhuma espécie de paternalismo. Aceitaria com o mesmo espírito com que me fora ofertada, sem falso orgulho. Afinal, eu tinha gostado dela.

Bom, ficou tudo pronto e resolvido. As malas fechadas, a caixa de jóias novamente trancada e deixada de lado, para entregar ao Dr. Leidner junto com o retrato do pai da senhora Leidner e outras pequenas miudezas íntimas.

O quarto, quando terminei, parecia pobre e desolado depois de despojado de seus atavios. Não havia mais nada para eu fazer — e no entanto, não sei por que motivo, relutava em deixa-lo. Até me dava a impressão de que restava qualquer coisa a fazer ali — qualquer coisa que eu devia verificar — ou qualquer coisa que eu devia ter visto.

Não sou supersticiosa, mas me veio de fato a idéia de que o espírito da senhora Leidner estivesse talvez pairando no quarto, tentando entrar em contato comigo.

Lembro-me de que uma vez, no hospital, uma das enfermeiras nossa colega arranjou uma prancheta de sessão espírita, que realmente escreveu certas coisas bem extraordinárias.

Talvez, embora jamais tenha-me ocorrido semelhante possibilidade, eu possua qualidades mediúnicas.

É como digo, às vezes a gente se vê impelida a imaginar tudo quanto é espécie de asneira.

Andei à toa, nervosa, pelo quarto, mexendo aqui e ali. Mas naturalmente não havia nada, a não ser móveis vazios. Não encontrei coisa alguma escondida atrás ou no fundo de gavetas. Não podia esperar por nada desse tipo.

Por fim (até parece loucura, mas, como digo, a gente se vê impelida) fiz uma coisa meio esquisita.

Deitei-me na cama e fechei os olhos.

Procurei, deliberadamente, esquecer quem e o que eu era. Tentei voltar em espírito àquela tarde fatídica. Esforcei-me em ser a senhora Leidner, deitada ali, descansando, tranqüila e sem desconfiar de nada.

É fantástico como a gente pode transformar-se.

Sou uma criatura prosaica, perfeitamente normal — sem absolutamente nada de bicho do outro mundo, porém confesso que depois de ficar cerca de cinco minutos ali deitada comecei a me sentir mal-assombrada.

Não ofereci a mínima resistência. De propósito, estimulei aquela sensação.

— Sou a senhor Leidner — repetia em pensamento. — Sou a senhora Leidner. Estou aqui deitada... quase adormecida. Não demora... daqui a pouquinho... a porta vai-se abrir.

Continuei pensando nisso — como se estivesse hipnotizando a mim mesma.

— Agora é quase uma e meia... está bem na hora... A porta vai-se abrir... a porta vai-se abrir... Vou ver quem entra...

Mantive os olhos pregados na porta. Dentro em pouco iria abrir-se. Havia de vê-la abrir-se. Havia de vê-la se abrindo. E veria a pessoa que a abrira.

Eu devia estar extenuada aquela tarde para imaginar que poderia solucionar o mistério desse jeito.

Mas de fato pensei que fosse. Uma espécie de arrepio me passou pela espinha. Imobilizando-me as pernas. Pareciam dormentes — paralisadas.

— Você está entrando em transe — disse. — E nesse transe você verá...

E mais uma vez me punha a repetir monotonamente:

— A porta vai-se abrir ... a porta vai-se abrir ...

A sensação gélida, entorpecente, se tornava cada vez mais intensa.

E aí então, lentamente, vi que a porta começava a se abrir.

Foi horrível.

Jamais, antes ou depois, passei por experiência tão horripilante.

Fiquei estarrecida — totalmente gelada. Não podia mover-me. Juro por tudo quanto é mais sagrado que não me pude mover.

 Aquela porta se abrindo devagar..

Sem o menor ruído... silenciosamente...

Num instante eu veria...

Lentamente... lentamente... cada vez mais aberta.

Era Bill Coleman entrou sem ruído.

Deve ter levado o maior susto de sua vida!

Saltei da cama com um grito de pavor e me arremessei ao outro lado do quarto.

Ele ficou parado, feito uma pedra, o rosto rosado de palerma ainda mais róseo, a boca muito aberta numa expressão de assombro.

— Olá, olá, olá! — disse. — O que foi que houve, enfermeira?

Com um estremecimento, voltei para a realidade.

— Deus santo, senhor Coleman! — exclamei. —Que susto me deu!

— Sinto muito, desculpe — pediu, com um sorriso fugaz.

Percebi então que trazia um ramo de rainúnculos de cor escarlate na mão. Eram umas flores muito bonitinhas que cresciam a esmo nas margens do Tell. A senhora Leidner as apreciava muito.

Ele corou e ficou bem vermelho quando explicou:

— A gente não encontra nenhuma flor ou troço parecido em  Hassanieh. Parecia até feio não haver flores no túmulo. Lembrei-me de dar um pulo aqui e botar um pequeno buquê naquela espécie de vaso que ela sempre usava com flores em cima da mesa. Só para mostrar que não fora esquecida... verdade? Já sei que é um pouco extravagante, mas... bom... tal era minha intenção.

Achei muito delicado da parte dele. Estava todo cor-de-rosa de tão encabulado, que nem os ingleses  ficam quando fazem um gesto sentimental. Pareceu-me uma idéia extremamente bonita. 

— Pois acho ótima a idéia, muito delicada, senhor Coleman — declarei.

E apanhando o pequeno vaso, enchi-o com um pouco d’água e pusemos ali as flores.

O senhor Coleman subiu muito em meu conceito com esse gesto... Provou que tinha coração e bons sentimentos.

Fiquei muito agradecida por não me perguntar o que me levara a soltar aquele grito. Me sentiria uma idiota se tivesse de explicar.

Pro futuro seja mais sensata, mulher, aconselhei a mim mesma endireitando os punhos e alisando o avental. Você não foi talhada pra esse negócio mediúnico.

Corri de um lado a outro, arrumando minhas coisas e fiquei ocupada durante o resto do dia.

O Padre Lavigny teve a gentileza de manifestar grande pesar pela minha partida, dizendo que minha boa disposição e sensatez tinham prestado um auxilio inestimável a todos Sensatez! Ainda bem que ignorava o comportamento idiota que eu tivera no quarto  da senhora Leidner.

— Não vimos a monsieur Poirot — observou ele.

Contei-lhe que o detetive dissera que ia ficar o dia inteiro entretido em passar telegramas.

O Padre Lavigny arqueou as sobrancelhas.

— Telegramas? Para a América?

— Creio que sim. Ele disse que eram “Para todo mundo!”, mas acho que era exagero de estrangeiro.

E aí então avermelhei um pouco, me lembrando que o próprio Padre Lavigny também era estrangeiro. Mas não pareceu ofender-se, limitando-se a rir de um jeito simpático e perguntando se não havia nenhuma notícia do sujeito estrábico.

Respondi-lhe que não sabia, o que não deixava de ser verdade.

O Padre Lavigny tornou a me interrogar sobre a ocasião em que a senhora Leidner e eu tínhamos visto o tal sujeito e como ele parecia estar na ponta dos pés, espiando pela janela.

— Não resta dúvida de que sentia interesse irresistível pela senhora Leidner — disse pensativamente. — Às vezes penso se aquele homem não seria provavelmente algum europeu, disfarçado de  iraquiano?

A idéia era nova e ponderei-a cuidadosamente. Fiara-me que fosse indígena,  mas está claro que, pensava bem, eu me baseara mais no corte de suas roupas e na cor amarelado de sua pele.

O Padre Lavigny comunicou sua intenção de ir lá fora, até o local onde a senhora Leidner e eu havíamos visto o homem parado.

— Nunca se sabe, talvez tivesse deixado cair alguma coisa. Nos romances policiais o criminoso sempre deixa.

— Vai ver que na vida real os assassinos são mais cuidadosos — retruquei. 

Peguei umas meias que acabara de cerzir e coloquei-as encima da mesa do living, para que os homens separassem ao volta do trabalho, e depois, como não houvesse praticamente mais nada a fazer, subi ao terraço.

A senhorita Johnson estava lá, mas não me ouviu meus passos. Cheguei bem perto antes que notasse minha presença.

Muito antes, porém, percebi que havia alguma coisa de completamente anormal. 

Ela se achava parada no meio do terraço, olhando fixo para a frente, com uma expressão de terror no rosto. Como se tivesse visto algo absolutamente incrível.

Não dá para descrever o impacto que senti. E note-se que eu a vira presa da maior aflição na outra noite; mas isso agora era totalmente diferente.

— Meu bem, — exclamei, apressando-me em alcança-la, — o que foi que aconteceu?

Ela virou a cabeça e ficou me olhando... — quase como se não me enxergasse. 

— O que acontece? —  insisti.

Fez uma espécie de careta esquisita — dir-se-ia que tentava engolir e a garganta estivesse seca demais. 

— Acabei de ver uma coisa — respondeu com a voz rouca.

— O que foi que você viu? Conte. Que podia ser? Você parece exausta.

Procurou refazer-se mas ainda continuava com um aspecto positivamente assustador.

— Vi como alguém pode entrar na casa pelo lado de fora... — respondeu, sempre com aquela mesma voz pavorosamente abafada, — sem que ninguém jamais percebesse.

Segui a direção do seu olhar, porém não enxerguei nada.

O senhor Reiter se encontrava parado à porta do departamento de fotografias, e o Padre Lavigny ia justamente cruzando o pátio... — mas era só.

Virei de frente, intrigada, e dei com os olhos dela pregados nos meus, com uma expressão estranhíssima.

— Francamente — disse eu, — não entendo o que você quer dizer. Não quer explicar?

Ela, no entanto, sacudiu a cabeça.

— Agora não. Depois. Nós devíamos ter percebido. OH, sim! Nós devíamos ter percebido!

— Mas por que não explica...

Tornou, porém, a sacudir a cabeça. 

— Primeiro tenho de refletir um pouco.

E me empurrando para o lado, desceu a escada aos tropeções.

Não fui atrás porque era óbvio que não queria que eu fosse. Preferi sentar no parapeito, tentando decifrar aquele enigma. Mas não obtive nenhum resultado.  Existia somente uma via de acesso ao pátio — pela arcada. Um pouco mais além, podia ver o garoto da água com seu cavalo e o cozinheiro indiano conversando com ele. Ninguém podia ter passado por eles e entrado sem ser pressentido.

Sacudi, perplexa, a cabeça e tornei a descer a escada.

 

O crime é um hábito

Naquela noite todos se recolheram cedo. A senhorita Johnson apareceu à hora do jantar, comportando-se mais ou menos da forma  de costume. Tinha, entretanto, uma espécie de olhar esgazeado e por uma ou duas vezes quase não conseguiu entender o que os outros lhe falavam.

Sob certo aspecto, o jantar não transcorreu de maneira  satisfatória. É natural, pode-se dizer, que isso aconteça numa casa onde se realizou um enterro no mesmo dia. Contudo, sei a que me refiro.

Nossas refeições, ultimamente, se efetuavam em absoluto ou relativo silêncio, porem mesmo assim sempre num ambiente de franca camaradagem. Havia um  sentimento de comiseração pela dor do Dr. Leidner e uma sensação análoga a que experimentaríamos se fossemos tripulantes do mesmo barco.

Mas nessa noite eu me lembrei da primeira refeição que fizera ali — quando a senhora Mercado me observara e se registrara aquela estranha  impressão de que podia ocorrer algo iminente.

Tinha sentido a mesma coisa — só que muito mais intensa — quando nos reuníramos em torno da mesa e Poirot ocupara a cabeceira.

Desta vez eu estava sentindo isso mais do que nunca. Todo mundo se achava tenso —  nervos — sobre brasa. Se alguém deixasse cair alguma coisa no chão, tenho certeza de que se ouviria um grito.

Como estava dizendo, todos se recolheram logo em seguida. Fui para a cama quase que imediatamente. A última coisa que escutei antes de pegar no sono foi a voz da senhora Mercado dando boa noite à senhorita Johnson, bem diante de  minha porta.

Adormeci rapidamente — extenuada de tantas atividades, sobretudo com minha ridícula experiência no quarto da senhora Leidner. Tive um sono pesado e  sem sonhar durante várias horas.

Quando consegui acordar, me sobressaltei  com a sensação de uma catástrofe indefinível. Um barulho qualquer me despertara e me sentei na cama, à escuta, até ouvi-lo claramente.

Era uma espécie de gemido horripilante — torturado, estrangulado e agonizante.

Num abrir e fechar de olhos acendi a vela e saltei da cama. Peguei também uma lanterna, caso o pavio se apagasse. Fui até a porta e fiquei escutando. Sabia que o gemido não vinha de muito longe. Fez-se ouvir novamente — no quarto contíguo ao meu — o da senhorita Johnson.

Entrei correndo. A senhorita Johnson caída na cama; retorcia o seu corpo todo em agonia. Ao largar a vela e me inclinar sobre ela, seus lábios se  entreabriram, tentando falar — mas só emitiram um terrível sussurro rouco. Percebi que os cantos da boca e a pele do queixo estavam corroídos por uma espécie de queimaduras esbranquiçadas.

Os olhos dela se fixaram num copo emborcado no chão, evidentemente onde tombara de sua mão. O tapete claro tinha uma mancha escarlate naquele lugar. Apanhei o copo e passei o dedo pelo seu interior; retirando logo a mão com brusca exclamação. Depois examinei por dentro a boca da pobre mulher.

Não restava a menor duvida sobre o que acontecera. De um jeito ou doutro, propositadamente ou não, ela ingerira certa quantidade de ácido corrosivo —  oxálico e clorídrico, suspeitava eu.

Saí depressa em busca do doutor Leidner, que acordou os outros, e fizemos tudo o que podíamos para salvá-la, mas durante todo o tempo eu estava com a terrível sensação de que não adiantaria nada. Experimentamos uma forte solução de carbonato de soda — completada com azeite de oliva. Para aliviar a dor, apliquei-lhe uma injeção de sulfato de morfina.

David Emmott foi buscar o doutor Reilly em Hassanieh, mas antes que chegassem sobreveio o desenlace.

Não vou entrar em detalhes. O envenenamento com uma forte dose de ácido clorídrico(que foi o que se constatou depois)  produz uma das mortes mais dolorosas que se conhecem.

Quando me debrucei para lhe aplicar a injeção, ela fez um esforço sobre-humano para falar mas só logrou emitir um horrível murmúrio estrangulado.

— A janela... — disse. — Enfermeira... a janela...

Mas foi só — não pôde continuar a frase. Desfaleceu por completo.

Jamais esquecerei essa noite. A chegada do doutor Reilly. A chegada do capitão Maitland. E finalmente, quando já amanhecia, a do Hércules Poirot.

Ele me tomou delicadamente pelo braço e me conduziu à sala de refeições, onde me obrigou a sentar e beber uma xícara de chá bem forte.

Pronto, mon enfant — disse, — agora sim. A senhora está exausta.

Desatei a chorar.

— Que horrível! — solucei. — Até parece um pesadelo. Que sofrimento horroroso! E seus olhos...! OH, monsieur Poirot!... seus olhos..!

Ele me um bateu de leve no ombro. Uma mulher não se teria mostrado mais compreensiva.

— Sim, sim... não pense mais nisso. A senhora fez o que possível.

— Foi um ácido corrosivo.

— Uma forte solução de ácido clorídrico.

— O que eles usam nos vasos?

— Sim. A senhorita Johnson provavelmente, o bebeu antes de estar completamente acordada. Isto é... a menos que o tomasse de propósito .

— OH, monsieur Poirot! Que idéia mais horrível!

— Afinal de contas, é uma possibilidade. Que lhe parece?

Pensei um momento e depois sacudi categoricamente a cabeça.

— Não acredito. Não, não acredito, de maneira alguma. — Hesitei e então expliquei: Acho que ela descobriu alguma coisa ontem à tarde.

— Que foi que a senhora disse? Ela descobriu alguma coisa?

Repeti a estranha conversa que nós duas tivéramos.

Poirot deixou escapar um assobiosinho.

— La pauvre femme! — exclamou. — Ela disse que precisava refletir sobre o assunto... hã? Foi quando assinou a própria sentença de morte. Se ao menos  tivesse falado... logo... naquela hora.

— Conte-me outra vez as palavras exatas dela — pediu. 

Eu repeti.

—Ela viu como  alguém poderia entrar pelo lado de fora da casa sem que nenhum de vocês percebesse? Venha, ma soeur, vamos até o terraço pra senhora me mostrar exatamente onde a senhorita Johnson estava parada.

Subimos ao terraço e indiquei a Poirot o lugar exato da posição da senhorita Johnson.

— Assim? — perguntou Poirot. — Agora, o que vejo? Metade do pátio... a arcada... e as portas da sala de desenho, do departamento fotográfico e do laboratório. Havia alguém no pátio?

— O Padre Lavigny se dirigia à arcada e o senhor Reiter estava parado à porta do departamento de fotografias.

— No entanto não percebo, de jeito nenhum,  como alguém possa entrar pelo lado de fora sem que nenhum de vocês saiba... Mas ela percebeu...

Finalmente desistiu, sacudindo a cabeça.

— Sacré nom d'un chien... va! O que foi que ela viu?

O sol começava a nascer. O céu oriental inteiro era uma orgia de cores: rosa, amarelo e cinza pálido, orvalhado.

— Que aurora maravilhosa — exclamou Poirot, num sussurro.

À nossa esquerda o rio serpenteava a  perder de vista, e o Tell se recortava imponente, numa cor dourada. Ao sul viam-se as árvores floridas e as plantações sossegadas. A roda hidráulica gemia a distância — um som fraco, irreal. Ao norte estavam os delicados minaretes e a alvura frágil, apinhada de Hassanieh. Tudo de uma beleza incrível.

Foi então que, ao meu lado, ouvi Poirot soltar um longo e profundo suspiro.

— Tolo que eu fui — murmurou. — Quando a verdade está tão clara... tão clara.

 

Suicídio ou crime?

Não tive tempo de perguntar a Poirot o que ele queria dizer com aquilo, pois o capitão Maitland começou a chamar, pedindo que descêssemos.

Corremos escada abaixo.

— Olhe aqui, Poirot — disse ele. — Surgiu outra complicação. O tal monge sumiu.

— O Padre Lavigny?

— Sim. Ninguém reparou até há pouco. Aí então alguém se deu conta de que ele  era o único membro da expedição que não andava por aqui, e fomos até o quarto. A cama não tinha sido usada e não havia rastro dele.

Tudo parecia um pesadelo. Primeiro a morte da senhorita Johnson e agora o desaparecimento do Padre Lavigny.

Os criados foram chamados e questionados, mas não puderam esclarecer nada. Ele havia sido visto pela última vez por volta das oito da noite anterior. Depois dissera que ia sair para dar um passeio antes de deitar.

 Ninguém o vira regressar do tal passeio.

A porta da arcada tinha sido fechada e trancada as nove horas, como sempre. Nenhum criado, entretanto, se lembrava de tê-la destrancado de manhã. Cada um dos dois copeiros pensava que o outro com certeza abrira.

Teria o Padre Lavigny chegado a voltar para  casa na véspera? Quem sabe se durante o seu primeiro passeio não descobrira alguma coisa de caráter suspeito e saíra mais tarde para investiga-la, sucumbindo talvez como a terceira vítima?

O capitão girou nos calcanhares quando o doutor Reilly surgiu com o senhor Mercado na retaguarda.

— Olá, Reilly. Apurou algo?

— Sim. O ácido é proveniente daqui do laboratório mesmo. Estive comparando as quantidades com Mercado. É ácido clorídrico sim.

— Do laboratório... verdade? Estava fechado a chave?

O senhor Mercado sacudiu a cabeça. Tinha as mãos trêmulas e repuxava os músculos do rosto. Parecia um farrapo humano.

— Nunca foi preciso — balbuciou. — O senhor vê... atualmente... usamos a toda hora. Eu... ninguém jamais sonhou...

— Não fica trancado de noite? 

— Fica... todas as peças ficam. Deixam-se as chaves penduradas logo atrás da porta do living.

— Portanto, se alguém tirasse a chave de lá, podia levar tudo. 

— Sim.

— E é uma chave perfeitamente comum, imagino?

— Sim.

— Não há nada que indique que ela mesma tivesse apanhado o ácido no  laboratório? — perguntou o capitão Maitland.

— Não foi ela quem tirou — afirmei, categoricamente, em voz alta.

Senti um aperto de advertência no braço. Poirot se achava junto a mim.

E depois aconteceu uma coisa espantosa.

Espantosa, propriamente, não — apenas a incongruência, a tornou pior do que realmente era.

Entrou um carro no pátio e de seu interior saltou um sujeito baixinho. Usava capacete contra o sol e impermeável grosso.

Encaminhou-se diretamente ao doutor Leidner, que estava parado junto do doutor Reilly, e apertou-lhe efusivamente a mão.

— Vous, voilà… mon cher — exclamou. — Que prazer revê-lo. Passei por aqui no sábado de tarde... a caminho dos italianos em Fugima. Fui às escavações mas não encontrei nenhum europeu por lá e, infelizmente, não sei falar de árabe. Não deu tempo para vir até a casa. Hoje de manhã saí de Fugima às cinco... duas horas aqui com você... e depois pego o comboio. Eh bien, como vai indo a temporada?

Foi espantoso.

A voz eufórica, os modos casuais, toda a sanidade amena de um mundo cotidiano, que agora ficara perdido na distância. Ele simplesmente chegara naquele alvoroço, não sabendo nada e não notando nada — cheio de cordial afabilidade.

Não admira que o doutor Leidner ficasse inarticulado, boquiaberto e olhasse, em mudo apelo, para o doutor Reilly.

O médico se mostrou à altura da ocasião.

Levou o homenzinho (que era um arqueólogo francês, chamado Verrier, que escavava nas ilhas gregas, soube mais tarde) para um lado e explicou-lhe a situação.

Verrier ficou horrorizado. Também passara os últimos dias hospedado numa expedição italiana, longe da civilização, e não soubera das notícias. 

Desmanchou-se em condolências e desculpas, aproximou-se finalmente do doutor Leidner e apertando-lhe calorosamente ambas as mãos.

— Que tragédia! Meu Deus, que tragédia! Não tenho palavras. Mon pauvre collègue.

E sacudindo a cabeça num derradeiro esforço baldado para manifestar seus sentimentos, o homenzinho entrou no carro e partiu.

Como disse, essa momentânea introdução de um elemento burlesco na tragédia parecia realmente mais hedionda do que tudo que a precedera.

— Agora — disse o doutor Reilly, com firmeza, — vamos tomar o café. Sim, eu insisto nisso. Venha, Leidner, você precisa comer alguma coisa.

Pobre doutor Leidner! Estava destroçado. Acompanhou-nos à mesa, onde se registrou um silêncio fúnebre. Creio que o café quente e os ovos fritos fizeram bem a todos nós, apesar de que ninguém sentia realmente fome. O doutor Leidner tomou uma xícara de café e permaneceu sentado, brincando com o pão. Tinha o rosto cinzento, marcado pela dor e as preocupações.

Terminado o café da manhã, o capitão Maitland passou aos fatos.

Expliquei como acordara, escutando um ruído estranho, e fora ao quarto da senhorita Johnson.

— Diz que encontrou um copo caído no chão?

— Sim, ela decerto deixou cair depois de ter bebido.

— Estava quebrado?

— Não, tinha caído em cima do tapete. (Creio que o ácido arruinou o tapete, por falar nisso.) Apanhei  o copo e coloquei-o de novo sobre a mesa.

— Ainda bem que nos contou isso. Só há dois tipos de impressões  digitais nele, e uma certamente pertence à senhorita Johnson e a outra deve ser sua.

Manteve-se um instante calado e depois pediu:

— Continue, por favor.

Descrevi minuciosamente o que sucedera e os métodos a que recorrera, olhando um tanto ansiosa para o doutor Reilly, em busca de apoio. Ele concordou com um aceno de cabeça.

— A senhora tentou tudo o que podia possivelmente ter adiantado de alguma coisa — afirmou.

E embora eu tivesse certeza de que havia procedido assim, senti um alivio ao ver minha crença confirmada.

— Sabia com exatidão o que ela tomara? — perguntou o capitão.

— Não... porém percebi, evidente, que era um ácido corrosivo.

— Na sua opinião, enfermeira, a senhorita Johnson ingeriu de propósito esse negócio? — a pergunta tinha um tom solene.

— OH, não! — exclamei. — Nunca pensei em tal coisa!

Não sei por que estava com tanta certeza. Creio que, em parte, por causa dos palpites de monsieur Poirot. Aquela frase, “o crime é um hábito”, se gravara no meu espírito. E depois a gente não acredita com tanta facilidade que alguém vá cometer suicídio de um modo tão terrivelmente doloroso assim. 

Foi o que eu falei, e o capitão Maitland, assentiu, pensativo.

— Concordo que não é o que a gente escolheria — disse ele. — Mas se uma pessoa se achasse presa de grande inquietação e esse negócio à mão, podia ser usado por esse motivo. 

— Ela se achava presa de grande inquietação? — retruquei, com ar de dúvida.

— A senhora Mercado diz que sim. Disse que a senhorita Johnson parecia muito mudada durante o jantar de ontem à noite... que custava a responder qualquer coisa que lhe falassem. A senhora Mercado tem absoluta certeza de que a senhorita Johnson estava tremendamente inquieta por causa de alguma coisa e que a idéia do suicídio já lhe ocorrera.

— Pois eu não acredito em nada disso — afirmei bruscamente.

“A senhora Mercado, ah é! Sorrateira gata malvada!”

— Então o que é que a senhora acha?

— Acho que foi assassinada — afirmei teimosamente.

A próxima pergunta veio rápida. Até parecia que eu estava na sala da superintendente.

— Por que motivo?

— Creio que é, positivamente, a hipótese mais provável.

— Isso é apenas a sua opinião pessoal. Havia alguma razão pra que a senhorita Johnson fosse assassinada?

— Queira desculpar mas havia. Ela descobrira alguma coisa.

— Descobrira alguma coisa? O quê?

Repeti palavra por palavra, a nossa conversa no terraço.

— Ela recusou a lhe dizer que descoberta era?

— Sim. Disse que necessitava de tempo para refletir.

— Mas ficou muito excitada com isso?

— Sim, ficou.

— Uma maneira de entrar pelo lado de fora – o capitão Maitland procurou a solução para aquilo, de testa franzida. — A senhora não faz a mínima idéia do que ela queria dizer?

—A mínima. Já pensei de tudo quanto foi jeito, sem conseguir encontrar a menor explicação.

— O que é que o senhor acha, monsieur Poirot? — perguntou o capitão.

— Acho que o motivo provável está aí mesmo.

— Para o assassinato?

— Sim.

O capitão Maitland franziu i cenho.

— Ela não pôde falar antes de morrer?

— Pôde. Conseguiu articular apenas duas palavras.

— Quais foram?

— "A janela..."

— A janela? — repetiu o capitão. — A senhora entendeu o que significava?

Sacudi a cabeça.

— Quantas janelas têm o quarto da senhorita Johnson?

— Somente uma.

— Dando pro pátio?

— Sim.

— Estava aberta ou fechada? Aberta, ao que me lembro. Mas talvez um de vocês a abriu?

— Não. Esteve aberta o tempo todo. Fiquei imaginando...

Calei de repente.

— Continue, enfermeira.

— Examinei a janela, claro, mas não pude ver nada de anormal. Fiquei imaginando se, quem sabe, alguém não trocou os copos por ali.

— Trocou os copos?

— Sim. Não vê, a senhorita Johnson sempre levava um copo de água pro quarto na hora de dormir. Creio que alguém deve ter trocado o copo, substituindo-o por outro que continha ácido.

— O que é que o senhor  diz, Dr. Reilly?

— Se for assassinato, essa é provavelmente a maneira que usaram  — opinou prontamente o médico. — Nenhum ser humano normal, com razoável capacidade de observação, tomaria um copo de ácido pensando que fosse água... se estivesse de plena posse de suas faculdades conscientes. Mas se alguém tem o costume de beber água no meio da noite,essa pessoa poderia facilmente estender o braço, encontrar o copo no lugar de sempre e, estremunhada, virar de um gole a quantidade suficiente pra que seja fatal, antes de perceber o que fez.

O capitão Maitland refletiu um instante.

— Terei de voltar pra dar uma olhada naquela janela. A que distância ela fica da cabeceira da cama?

Calculei mentalmente.

— Espichando-se bem, dá pra alcançar a mesinha da cabeceira.

— A mesa onde ficava o copo de água?

— Sim.

— A porta estava trancada?

— Não.

— Portanto, seja lá quem fosse. podia ter entrado ali e feito à substituição. 

— Certamente.

—  Desse modo o risco seria maior — interveio o doutor Reilly. — Uma pessoa que está dormindo profundamente muitas vezes acorda com o elo ruído de um passo. Se a mesinha podia ser alcançada da janela, seria a maneira  mais segura.

— Não estou pensando somente no copo — replicou o capitão, distraído.

Saindo daquele torpor, dirigiu-se a mim outra vez.

— Na sua opinião,  quando a pobre senhora sentiu que ia morrer ela ficou ansiosa pra lhe dizer que  alguém substituiu a água pelo ácido através da janela aberta? Não lhe parece que o nome da pessoa viria mais a calhar?

— Talvez não soubesse o nome — observei.

— Não era mais provável que tentasse indicar o que havia descoberto na véspera? 

— Quando a gente está morrendo, Maitland, — interveio o doutor Reilly, — nem sempre conserva o senso das proporções. Um determinado fato pode perfeitamente obcecar o espírito. Que uma mão criminosa passasse pela janela talvez fosse o fato predominante pra ela nesse momento. Talvez lhe parecesse importante comunicar isso aos outros. Na minha opinião, ela não estava longe da verdade, também. Era importante. Provavelmente percebeu logo que julgariam que se tratasse de suicídio. Se pudesse recuperar o domínio da língua, decerto diria: — "Não foi suicídio. Não tomei o veneno de propósito. Alguém deve ter colocado o copo perto de minha cama, através da janela".

O capitão Maitland tamborilou com seus dedos sobre a mesa e não respondeu. Por fim declarou:

— Existem sem dúvida duas maneiras de encarar o caso.  Ou é suicídio, ou é crime. O que o senhor acha, doutor Leidner?

O Doutor Leidner guardou silencio um instante e finalmente respondeu, tranqüila e terminantemente:

— Crime. Anne Johnson não era a espécie de mulher que se  suicidaria.

— De acordo — concedeu o capitão Maitland. — Não no curso normal das coisas. Mas talvez surgissem circunstâncias em que seria um gesto perfeitamente natural.

— Em que circunstâncias?

O capitão curvou-se sobre um embrulho que, eu já notara anteriormente, tinha colocado ao lado de sua cadeira. Trouxe-o para cima da mesa com certo esforço.

— Tem uma coisa aqui que nenhum de vocês sabe — disse. — Nós encontramos isso debaixo da cama em que dormia a senhorita Johnson.

Desatou o nó e depois abriu o pacote, revelando uma grande e pesada pedra de moinho de mão ou trituradora.

Em si, nada significava — havia mais ou menos uma dúzia, descoberta durante as escavações.

O que atraiu nossa atenção sobre aquele exemplar foi uma mancha escura, sem brilho,  e um fragmento de algo que parecia cabelo humano.

— É um trabalho pra você, Reilly — disse Maitland. — Mas creio que  não resta mais dúvida que foi este o instrumento com que mataram à senhora Leidner.

 

A próxima vai ser eu

Foi horrível. O doutor Leidner parecia que ia desmaiar e eu também senti certa náusea.

O doutor Reilly examinou a pedra com prazer profissional.

— Nenhuma impressão digital, no mínimo? — sugeriu

— Nenhuma.

O médico tirou um par de fórceps da maleta e investigou delicadamente a pedra bruta.

— Hum... um fragmento de tecido humano... e cabelo... cabelo bem loiro. Este é o veredicto extra-oficial. Naturalmente, terei de fazer um exame apropriado, verificar o grupo sanguíneo etc... Mas não resta muitas dúvidas. Encontrada debaixo da cama da senhorita Johnson?Ora, vejam... quer dizer, então, que a idéia era essa... Ela cometeu o assassinato e depois, que Deus a perdoe, sentiu remorso e acabou com tudo. É uma hipótese... uma bonita hipótese.

O doutor Leidner só sacudia, desamparado, a cabeça.

— Anne, não... não Anne... — murmurou.

— Não sei onde ela escondeu esta pedra, pra começar — disse o capitão. — Todos os quartos foram revistados depois do primeiro assassinato.

De repente me ocorreu uma idéia e pensei, no armário de artigos de papelaria, porém não ousei falar. 

— Seja lá onde fosse,  ficou insatisfeita com o esconderijo, e levou a pedra a seu próprio dormitório, que fora revistado como todos os restantes. Ou talvez tenha feito isso depois de se resolver a cometer suicídio.

— Não acredito — disse em voz alta.

E de fato não podia acreditar que aquela simpática e bondosa  senhorita Johnson tivesse esmigalhado os miolos da senhora Leidner. Simplesmente não conseguia visualizar a cena! E no entanto realmente encaixava com certas coisas — seu ataque de choro aquela noite, por exemplo.Afinal de contas, eu mesma achara que era “remorso”, — só não julguei que fosse por qualquer outra coisa senão o mais insignificantes dos crimes.

— Não sei o que pensar — continuou o Capitão Maitland. — Há também o desaparecimento do padre francês pra ser esclarecido. Meus auxiliares estão lá fora, dando busca, na hipótese que tenha levado uma pancada na cabeça e caído nalgum valo de irrigação propício.

— OH! Agora me lembro... — comecei a dizer.

Todos me olharam com ar de expectativa.

— Foi ontem pela tarde — continuei. — Ele me andara interrogando sobre o homem estrábico que olhava pela janela o outro dia. Perguntou o lugar exato em que ele ficara parado na senda e depois disse que ia sair pra dar uma olhada. Comentou até que nos romances policiais o criminoso sempre esquecia uma pista oportuna.

— Diabos me levem se os meus criminosos fazem isso — retrucou o capitão Maitland. — Então era atrás disso que ele andava, é? Por Deus, será que encontrou de fato alguma coisa? É um pouco de coincidência se tanto ele como a senhorita Johnson descobriram uma pista sobre a identidade do assassino praticamente ao mesmo tempo. E acrescentou, irritado: — Sujeito estrábico? Um homem vesgo? Nessa história de estrabismo tem gato escondido. Não sei por que cargas dágua os meus ajudantes não conseguem pegá-lo.

— Vai ver que é porque não é estrábico — opinou Poirot calmamente.

— Acha que fingiu? Não sabia que se podia fingir uma coisa dessas. 

— Um estrabismo pode ser muito útil, — limitou-se a retrucar Poirot.

— Pode coisa nenhuma! Daria não sei quê pra saber onde se meteu esse indivíduo, estrábico ou não!

— Quer um palpite? — perguntou Poirot. — Já cruzou a fronteira Síria.

— Prevenimos Tell Kotchek e Abul Kemal... todos os postos da fronteira, pra dizer a verdade.

— Imagino que tomasse o caminho das montanhas. O que os caminhões às vezes tomam quando passam carregados de contrabando.

O capitão Maitland resmungou.

— Então não seria melhor telegrafarmos a Deir ez Zor?

— Foi o que fiz ontem... prevenindo que cuidassem de um carro com dois homens cujos passaportes estão na mais perfeita ordem. 

O capitão agraciou-o com um olhar de assombro.

— Foi o que fez,é? Dois homens... verdade?

Poirot assentiu.

— Há dois homens neste caso.

— Tenho a impressão, monsieur Poirot, de que o senhor anda com uma série de trunfos escondidos.

O detetive sacudiu a cabeça.

— Não — disse. — Sinceramente. Só hoje de manhã compreendi a verdade, quando assistia ao nascer do sol. Um nascer do sol muito bonito, por sinal.

Não creio que nenhum de nós tivesse percebido a presença da senhora Mercado na sala. Decerto entrara furtivamente enquanto contemplávamos aquela horrível pedra grande manchada de sangue.

De repente, porém sem o menor aviso, ela se pôs a fazer um barulho que lembrava um porco ao ser degolado.

— OH, Meu Deus! — exclamou. — Já entendi tudo. Agora compreendo tudo. Foi o Padre Lavigny. Ele é louco... é um fanático religioso. Acha que as mulheres são pecaminosas. Está matando todas elas. Primeiro a senhora Leidner... depois, a senhorita Johnson. E a próxima vai ser eu...!

Com um berro de desespero, atirou-se ao outro lado da sala e se agarrou desesperada ao paletó do doutor Reilly.

— Eu não vou ficar aqui, está ouvindo! Não quero ficar aqui nem mais um dia. Isto é perigoso. Há perigo em tudo quanto é canto. Ele está escondido em algum lugar... esperando a hora. Vai saltar sobre mim!

Abriu a boca de novo e recomeçou o berreiro.

Corri para junto do Dr. Reilly, que a prendera pelos pulsos. Apliquei-lhe um sonoro par de boas bofetadas e, com a ajuda do médico, forcei-a a sentar em uma cadeira.

— Ninguém vai matá-la — falei. —Nós não deixaremos. Sente aqui e comporte-se direito. 

Parou de gritar. Fechou a boca e ficou ali sentada, olhando para mim de olhos arregalados, feito boba.

Depois houve outra interrupção. A porta se abriu e Sheila Reilly entrou.

Estava pálida e séria. Encaminhou-se diretamente para o Poirot.

— Passei de manhã cedo pelo correio, monsieur Poirot — disse ela. — Havia um telegrama para o senhor... por isso resolvi trazer logo.

— Muito obrigado, mademoiselle.

Tomou o telegrama de suas mãos e abriu-o, enquanto ela observava a reação.

Não moveu nenhum músculo facial. Leu o telegrama, alisou o papel, dobrou-o cuidadosamente e guardou-o no bolso.

A senhora Mercado não despregara as vista dele.

— É... da América? — perguntou com voz estrangulada:

O detetive sacudiu a cabeça.

— Não, madame — replicou. — É de Tunis.

Ela fitou-o fixamente um instante como se não entendesse e, depois, com um profundo suspiro, recostou-se no seu assento.

— O Padre Lavigny — disse ela. — Eu sabia. Sempre achei que havia algo esquisito a respeito dele.  Uma vez me disse umas coisas... Suponho que está louco... — Fez uma pausa e logo acrescentou : Vou ficar calada. Mas tenho de ir embora deste lugar. Joseph e eu podemos ir dormir na Casa de Repouso.

— Calma, madame — disse Poirot. — Já explicarei tudo.

O capitão Maitland estava olhando para ele com ar de curiosidade.

— Crê que encontrou definitivamente a explicação deste caso? — perguntou.

Poirot fez uma reverência.

Foi uma reverência teatral em extremo. Tenho a impressão de que o capitão Maitland se irritou um bocado com aquilo.

— Pois então desembuche logo, homem!— vociferou

Mas isso não estava de acordo com o estilo de Hercule Poirot. Vi com nitidez, que pretendia fazer uma verdadeira encenação. Fiquei imaginando se realmente sabia a verdade, ou se não estaria apenas tentando de exibir. 

Ele se virou para o doutor Reilly.

— Quer ter a bondade de mandar chamar a outros, Dr. Reilly? — rogou.

O médico, todo prestativo, deu um pulo e saiu correndo. Em questões de poucos minutos, os demais membros da expedição começaram a entrar em fila na sala. Primeiro Reiter e Emmott; depois Bill Coleman; logo Richard Carey, e por último o senhor Mercado.

O coitado parecia literalmente nas últimas. Suponho que estivesse morto de medo de levar uma severa repreensão por seu descuido em deixar produtos químicos perigosos ao alcance de qualquer um.

Todo mundo sentou ao redor da mesa, de um modo bastante semelhante ao dia da chegada de monsieur Poirot. Tanto Bill Coleman como David Emmott meio que hesitaram antes de sentar, olharam rapidamente para Sheila Reilly. Ela ficou em pé de costas para ambos, olhando pela janela.

— Quer uma cadeira, Sheila? — disse Bill.

— Por que não senta? — convidou David Emmott com sua voz simpática, carregada de sotaque. 

Ela então se virou. Demorando-se um instante em fitá-los. Cada um deles indicava uma cadeira, empurrando-a para frente. Fiquei a imaginar qual que ela aceitaria.

No fim não aceitou nem uma nem outra.

— Vou ficar aqui — disse com brutalidade.

E sentou na beira de uma mesa vizinha à janela.

— Isto é — acrescentou, — se ao capitão Maitland não se importar com minha presença.

Não tenho muita certeza do que o capitão Maitland teria dito, pois Poirot se antecipou.

— Fique, por favor, mademoiselle. Realmente, é indispensável que fique.

A garota levantou as sobrancelhas.

— Indispensável?

— Foi a palavra que usei, mademoiselle. Terei de lhe fazer algumas perguntas.

Suas sobrancelhas se arquearam novamente, mas não disse mais nada. Virou o rosto para a janela, como se estivesse determinada a ignorar o que se passava na sala.

— E agora — disse o capitão Maitland, — vamos ver se sabemos a verdade!

Falava com certa impaciência. Era essencialmente um homem de ação. Naquele momento exato, tive certeza de que ansiava por estar lá fora, fazendo coisas —  dirigindo a busca do cadáver do Padre Lavigny, ou senão enviando patrulhas para captura-lo e prende-lo. 

Fitava Poirot com uma expressão que tinha qualquer coisa de aversão: — Se este miserável tem algo a dizer, por que não diz de uma vez.

Eu podia ver as palavras na ponta de sua língua.

Poirot lançou um demorado olhar de apreciação a  todos nós e depois se levantou.

Sei lá o que eu esperava que dissesse — qualquer coisa dramática, no mínimo. Era bem o estilo dele.

Mas certamente não imaginava que fosse começar por uma frase árabe.

No entanto foi o que aconteceu. Pronunciou as palavras devagar, com a máxima solenemente... — e de uma forma totalmente religiosa, se é que me faço entender.

— “Bismillahi ar rahman ar rahim”.

E depois traduziu para nós:

— “Em nome do Alá, o Clemente, o Compadecido”.

 

O começo de uma viagem

 “BISMILLAH AR RAHMAN AR RAHIM”. Essa é a frase que os árabes usam antes de começar uma viagem. Eh bien, nós também vamos começar uma. Uma viagem ao passado. Aos estranhos recônditos da alma humana.

Não creio que até aquele momento eu jamais houvesse experimentado o tão famoso “fascínio do Oriente”. A impressão que me dera, francamente, era de bagunça por toda à parte. Mas de repente, com as palavras de M. Poirot, uma espécie de visão esquisita parecia avolumar-se diante de meus olhos. Pensei em palavras como Samarkand e Ispahan — e em mercadores de barbas longas — e camelos ajoelhados — e carregadores cambaleantes, transportando fardos enormes às costas, presos por uma corda em volta da testa — e mulheres com o cabelo tingido de henê e tatuagens no rosto, agachadas às margens do Tigre lavando roupa, e ouvi seus cânticos, estranhos lamentos e o gemido distante da roda hidráulica.

Eram, na maior parte, coisas que eu tinha visto e ouvido sem achar muita graça. Agora, porem, não sei como, pareciam diferente — que nem um pedaço de pano velho e antiquado que se põe na luz e de repente o colorido maravilhoso de um bordado antigo.

Depois olhei em torno da sala em que nos encontrávamos e tive a curiosa sensação de que M. Poirot acertara em cheio — estávamos todos começando uma viagem. Podíamos naquela ocasião estar juntos, mas iríamos tomar rumos completamente opostos.

E fitei cada um como se, por assim dizer, o estivesse vendo pela primeira — e pela última vez — o que parece tolice, embora fosse exatamente assim que eu me sentia.

O senhor Mercado retorcia os dedos, nervoso — seus estranhos olhos claros, com as pupilas dilatadas, não se desviavam de Poirot. A senhora Mercado fitava o marido. Tinha um olhar bizarro, vigilante, como o de um tigre, pronto para dar o bote. O Dr. Leidner parecia ter encolhido de uma maneira incrível. Esse último golpe simplesmente o deixara arrasado. Podia-se quase dizer que não se encontrava absolutamente na sala. Estava noutro lugar, longínquo, inexpugnável. O senhor Coleman encarava Poirot de frente. Tinha a boca ligeiramente entreaberta e os olhos protuberantes. Dava impressão de ser quase idiota. O senhor Emmott contemplava a ponta dos sapatos e não pude ver direito o seu rosto. O senhor Reiter ficara perplexo. Espichara o lábio inferior com ar de amuado, o que o tornava, mais do que nunca, semelhante a um porquinho simpático e limpo. A senhorita Reilly não tirava os olhos da janela. Não sei o que estaria pensando ou sentindo. Depois me virei para o senhor Carey e, de certo modo, me deu um aperto no coração e tive de mudar de direção. Lá estávamos, todos nós. E, por um motivo qualquer, fiquei certa de que, depois que M. Poirot encerrasse a reunião, partiríamos todos para lugares totalmente diferentes.

Era uma sensação esquisita.

A voz de Poirot prosseguiu calmamente. Assemelhava-se a um rio correndo tranqüilo entre as margens, rumo ao mar.

 — Desde o início eu achei que pra compreender este caso devia-se procurar não os indícios e pistas externos, mas os mais verdadeiros, do conflito de personalidades e dos segredos do coração. E posso adiantar que, embora tenha presentemente chegado ao que acredito ser a autêntica solução do caso, não disponho de nenhuma prova material do que afirmo. Sei que é assim, porque é preciso que seja assim, pois de nenhum outro modo cada fato isolado pode vir a ocupar seu lugar estabelecido na ordem das coisas. E essa, a meu ver, é a solução mais satisfatória que existe.

Fez uma pausa e depois continuou.

— Vou começar minha viagem pelo momento em que tomei conhecimento do caso... quando me foi apresentado como fato consumado. Ora, todo caso, na minha opinião, tem um contorno e forma definidos. A configuração deste, no meu entender, girava exclusivamente em torno da personalidade da senhora Leidner. Antes que eu soubesse exatamente que espécie de mulher ela era, não poderia saber por que fora assassinada nem quem a assassinara.

— Esse, portanto, foi o meu ponto de partida... a personalidade da senhora Leidner.

— Havia também outro ponto de interesse psicológico... o curioso estado de tensão descrito como existentes entre os membros da expedição. Isso foi declarado por várias testemunhas diferentes... algumas até estranhas à casa... e que, mesmo que dificilmente pudesse ser considerado como ponto de partida, deveria, contudo, ser levado em conta durante minhas investigações.

— A idéia aceita parecia indicar que era o resultado direto da influência da senhora Leidner sobre os membros da expedição, mas, por motivos que mais adiante explicarei, isso não me parecia inteiramente aceitável.

— Para começar, como disse, me concentrei única e exclusivamente na personalidade da senhora Leidner. Tive vários meios de avaliar essa personalidade. Havia as reações que provocara em certo número de pessoas, todas diferindo enormemente em caráter e temperamento, e havia o que eu podia recolher por minha própria observação. O campo de ação dessa última era, naturalmente, limitado. Porem consegui apurar certos fatos.

— A senhora Leidner possuía gostos simples e até mesmo austeros. Não se tratava, evidentemente, de uma sibarita. Em compensação, os bordados que fazia revelavam extrema finura e beleza. O que indicava uma mulher de propensões exigentes e artísticas. Vendo os livros que tinha no quarto, formei um retrato ainda mais completo. Era inteligente e calculei também que fosse, no fundo, egoísta.

— Tentaram persuadir-me de que a senhora Leidner era uma criatura cuja principal preocupação seria atrair o sexo oposto... que era, em suma, uma mulher sensual. Não acreditei que esse fosse o caso.

— No quarto dela eu notei os seguintes livros, numa prateleira: Quem Eram os Gregos?, Introdução à relatividade, A Vida de Lady Hester  Stanhope, A Volta a Matusalém, Linda Condon e o Trem de Crewe.

— Mostrava, pra começar, interesse pela cultura e pela ciência moderna — ou seja, um lado nitidamente intelectual. Entre os romances, Linda Condon e. em grau menor, O Trem de Crewe, pareciam indicar que a senhora Leidner sentia simpatia e interesse pela mulher independente... desimpedida ou livre das armadilhas masculinas. Estava também obviamente interessada na personalidade de Lady Hester Stanhope. Linda Condon é um estudo requintado de narcisismo feminino. O Trem de Crewe é um estudo de um individualista exacerbado. A Volta a Matusalém simpatiza mais com a atitude intelectual perante a vida do que com a sentimental. Achei que começava a compreender a morta.

— Em seguida analisei as reações dos que formavam o círculo de relações imediatas da senhora Leidner... e o meu retrato ficou cada vez mais completo.

— Tornava-se evidente, através das descrições do Dr. Reilly e outros, que a senhora Leidner era uma dessas mulheres dotadas pela Natureza não apenas de beleza, mas com o tipo de magia calamitosa que às vezes acompanha a beleza e pode, até, existir independente dela. Essas criaturas, geralmente, deixam um rastro de acontecimentos violentos por onde passam. Provocam desastre... às vezes para os outros... às vezes para si mesmas.

— Me convenci de que a senhora Leidner era uma mulher que essencialmente adorava a si mesma e que gostava, acima de tudo, da sensação de poder. Onde quer que se encontrasse, tinha de ser o centro do universo. E todas as pessoas que a cercassem, homens ou mulheres, viam-se obrigadas a reconhecer a preponderância dela. Com algumas era fácil. A Enfermeira Leatheran, por exemplo, que é uma pessoa de índole generosa, de imaginação romântica, ficou imediatamente cativada e cedeu, de maneira incondicional, sua total admiração. Havia, porém, uma maneira pela qual a senhora Leidner exercia esse domínio... pelo medo. Onde a conquista provava ser fácil demais, entregava-se a um aspecto mais cruel de seu caráter... mas desejo reiterar, enfaticamente, que não se trata do que se pode chamar de crueldade consciente. Era tão natural e irrefletido quanto a conduta de um gato com um rato. Onde entrava a consciência, era intrinsecamente bondosa e muitas vezes seria capaz de perder o próprio tempo pra demonstrar bondade e consideração com criaturas alheias.

— Ora, é claro que o primeiro, e mais importante, problema a resolver seria o das cartas anônimas. Quem as escrevera e por quê? Perguntei a mim mesmo, teriam sido escritas pela própria senhora Leidner?

— Para responder esse problema, tornou-se necessário retroceder muito no tempo... voltar, de fato, à data do primeiro casamento da senhora Leidner. É aqui que começamos, propriamente, nossa viagem. A viagem pela vida da senhora Leidner.

— Antes de qualquer coisa, devemos compreender que a Louise Leidner de todos esses anos de outrora é, essencialmente, a mesma Louise Leidner da época atual.

— Era então moça, de beleza excepcional... essa mesma beleza assombrosa que abala o espírito e os sentidos de um homem como nenhuma simples beleza material é capaz... e já era, essencialmente, egoísta.

— As mulheres desse tipo se rebelam naturalmente contra a idéia do casamento. Podem sentir atração por homens, porém preferem pertencer a si mesmas. São, verdadeiramente, La Belle Dame sans Merci da lenda. Entretanto a senhora Leidner casou... e podemos supor, a meu ver, que o marido deve ter tido uma certa força de caráter.

— Depois sobrevém a revelação de suas atividades de traidor, e a senhora Leidner procede da maneira que contou pra enfermeira Leatheran. Informa o Governo.

— Agora, proponho eu, houve um significado psicológico para esse gesto. Ela disse à enfermeira Leatheran que era moça muito patriota, idealista e que esses sentimentos a levaram à ação. Mas é fato notório que somos propensos a nos iludir quanto aos motivos de nossas próprias ações. Escolhemos, instintivamente, os motivos mais lisonjeiros. A senhora Leidner talvez acreditasse que tivesse sido movida pelo patriotismo mas também creio que isso constituiu realmente o resultado de um desejo inconsciente de se livrar do marido! Não gostava de ser dominada... detestava a sensação de pertencer a outra pessoa... em suma, odiava permanecer em segundo plano. Adotou uma forma patriótica de recuperar a liberdade.

— Contudo, o íntimo de sua consciência via-se devorado por um sentimento de culpa, destinado a desempenhar importante papel no futuro dela.

— Chegamos agora diretamente à questão das cartas. A senhora Leidner era extremamente atraente ao sexo forte. Por diversas vezes sentiu-se atraída por homens... mas a cada nova oportunidade uma carta ameaçadora desempenhava sua função e o caso não se concretizava.

— Quem escrevia essas cartas? Frederick Bosner, seu irmão William ou a própria senhora Leidner?

— A hipótese é perfeitamente viável para cada teoria. Parece-me evidente que a senhora Leidner era dessas mulheres que inspiram mesmo paixões masculinas abrasadoras, o tipo de devoção que pode virar obsessão. Acho bastante possível acreditar em um Frederick Bosner, para quem Louise, a esposa, importasse mais do que tudo no mundo! Ela o traíra uma vez e ele não ousava mais se aproximar abertamente, mas estava determinado ao menos a torna-la sua ou de mais ninguém. Preferia vê-la morta a pertencendo a outro homem.

— A senhora Leidner, por sua vez, se sentisse, bem no íntimo, qualquer repulsa em formar um vínculo conjugal, é possível que adotasse essa maneira de sair de situações delicadas. Era uma caçadora que, abatida a presa, perdia todo o interesse por ela! Necessitando de drama pra viver, inventou um extremamente satisfatório... um marido ressuscitado, impedindo os proclamas! Satisfazia seus instintos mais profundos. Transformava-se numa figura romântica, heroína trágica, e evitava novos casamentos.

— Essa situação perdurou vários anos. Toda vez que surgia a mínima possibilidade de casamento... chegava uma carta ameaçadora.

— Mas agora chegamos a um ponto realmente interessante. Surge em cena o Dr. Leidner... e não chega nenhuma carta proibitiva. Nada a impede de se tornar a senhora Leidner. É só depois do casamento que chega uma carta.

— É de se perguntar logo... por quê?

— Examinemos cada hipótese separadamente.

— Se a própria senhora Leidner escreveu as cartas, o problema se explica facilmente. A senhora Leidner queria de fato casar com o Dr. Leidner. E portanto casou. Mas nesse caso, por que escreveu uma carta mais tarde? A necessidade de drama que sentia seria forte demais pra ser sufocada? E por que apenas aquelas duas cartas? Depois disso nenhuma outra foi recebida até um ano e meio atrás.

— Agora tomemos a segunda teoria, segundo a qual as cartas foram escritas pelo primeiro marido, Frederick Bosner (ou pelo irmão). Por que a carta ameaçadora chegou depois do casamento? É de se presumir que Frederick não quisesse que ela casasse com Leidner. Por que, então, não impediu o casamento? Tinha procedido assim com o maior sucesso em ocasiões anteriores. E por que, tendo esperado a realização do casamento, recomeçou, então, as ameaças?

— A resposta, insatisfatória, é que, em virtude de um contratempo qualquer, não pôde protestar mais cedo. Talvez estivesse preso ou viajando pelo exterior.

— A seguir devemos considerar a tentativa de envenenamento a gás. Parece extremamente improvável que fosse causada por agente externo. Os possíveis responsáveis por essa encenação seriam os próprios Doutor e Senhora Leidner. Aparentemente não há motivo concebível pra que o Dr. Leidner fizesse tal coisa, portanto somos levados à conclusão de que a senhora Leidner planejou-a e levou-a a cabo, pessoalmente.

— Por quê? Mais drama?

— Depois disso, o Dr. e Sra. Leidner embarcam pro estrangeiro e durante dezoito meses levam uma vida feliz, sossegada, sem nenhuma ameaça de morte pra atrapalhar. Atribuem esse fato a terem dissimulado, com êxito, o próprio rastro. Mas tal explicação é completamente absurda. Hoje em dia, uma viagem ao exterior é pouco apropriada pra essa finalidade. Sobretudo no caso dos Leidners. Ele era o diretor de uma exposição científica. Informando-se no museu, Frederick Bosner teria logo obtido o endereço exato. Mesmo admitindo que não dispusesse de fundos necessários pra perseguir o casal pessoalmente, não encontraria empecilho pra continuar a remeter as cartas ameaçadoras. E me parece que um homem obcecado como ele não hesitaria em fazer isso.

— Em vez disso, não se tem mais notícias dele até quase dois anos mais tarde, quando recomeçaram as cartas.

— Por que recomeçaram as cartas?

— Eis uma pergunta bem difícil... respondida com a maior facilidade ao dizer que a senhora sentia-se entediada e precisava de mais drama. Eu, porém, não me contento com tão pouco. Essa forma particular de drama me causou a impressão de ser meio vulgar e grosseira demais pra combinar com a personalidade exigente dela.

— A única coisa que me restava fazer era manter aberta a questão.

— Havia três possibilidades definidas. Primeira: as cartas foram escritas pela própria senhora Leidner; segunda: foram escritas por Frederick Bosner ou pelo jovem William Bosner; terceira: podiam ter sido escritas, originalmente, tanto pela senhora Leidner como pelo primeiro marido, porém agora eram falsificações... ou seja, estavam sendo escritas por uma terceira pessoa, ciente das cartas anteriores.

— Chego agora à consideração direta da comitiva da senhora Leidner.

— Examinei primeiramente as oportunidades concretas que cada membro da expedição havia tido pra cometer o crime.

— De modo geral, à primeira vista, qualquer um podia tê-lo cometido, sob o ponto de vista de oportunidade, com a exceção de três pessoas.

— O Dr. Leidner, por unanimidade de testemunhos, nunca desceu ao terraço, o senhor Carey estava de plantão nas obras. O senhor Coleman foi pra Hassanieh.

— Só que esses álibis, meus amigos, não eram tão bons quanto pareciam. Exceto o do Dr. Leidner. Não há absolutamente dúvida alguma de que ele permaneceu no terraço o tempo todo e que não desceu senão cerca de uma hora e um quarto depois que o crime se consumara.

— Mas seria exato que o senhor Carey houvesse permanecido o tempo todo nas obras?

— E o senhor Coleman, estaria de fato em Hassanieh na hora em que ocorreu o crime?

Bill Coleman avermelhou, abriu a boca, tornou a fechá-la e olhou apreensivo ao redor de si.

A expressão do senhor Carey não se modificou.

Poirot seguiu adiante, calmamente.

— Também levei em conta outra pessoa que, eu me convenci, seria perfeitamente capaz de cometer um crime se atingisse o rancor suficiente. A senhorita Reilly tem coragem, inteligência e uma certa tendência pra crueldade. Quando me falou sobre a morta, eu lhe disse, brincando, que esperava que ela tivesse um álibi. Creio que a senhorita Reilly teve então consciência de que, pelo menos no íntimo, sentira vontade de matar. De qualquer modo, me pregou imediatamente uma mentira muito tola e inútil. Respondeu que tinha estado jogando tênis aquela tarde. No dia seguinte, numa conversa casual com a senhorita Johnson, eu soube que, em vez de jogar tênis, a senhorita Reilly estivera perto desta casa na hora do crime. Ocorreu-me que, mesmo que a senhorita Reilly não fosse a culpada, poderia prestar alguma informação valiosa.

Parou e depois pediu, tranqüilamente:

— Quer contar-nos, senhorita Reilly, o que foi que viu naquela tarde?

A moça não respondeu logo. Continuou olhando para fora da janela sem virar a cabeça, e quando falou foi numa voz neutra e comedida.

— Fui a cavalo até as escavações depois do almoço. Devia faltar mais ou menos um quarto pras duas quando cheguei.

— Encontrou algum de seus amigos por lá?

— Não, parecia que não tinha ninguém, a não ser o capataz árabe.

Não viu o senhor Carey?

Não.

— Curioso — disse Poirot. — M. Verrier também não o encontrou quando passou por lá aquela tarde.

Olhou de modo interrogativo para Carey, que não se moveu nem retrucou.

— Não tem nenhuma, senhor Carey?

— Fui dar uma volta. Não estava havendo nada de especial.

— Que direção o senhor tomou?

— A da margem do rio.

— Não voltou pra casa?

— Não.

— Imagino — interveio a senhorita Reilly, — que estivesse esperando por alguém que não apareceu.

Ele olhou para ela, porém não respondeu.

Poirot não insistiu no assunto. Falou outra vez com a moça.

— Não viu mais nada, mademoiselle?

— Vi, sim. Eu não estava longe de casa da expedição quando notei a camioneta parada ao lado de um riacho. Achei meio esquisito. Depois enxerguei o senhor Coleman. Caminhava de cabeça baixa, como se estivesse procurando alguma coisa.

— Escute aqui — explodiu o senhor Coleman. — Eu...

Poirot interrompeu-o com um gesto imperioso.

— Espere. Chegou a falar com ele, senhorita Reilly?

— Não, não falei.

— Por quê?

— Porque, de vez em quando, ele parava e olhava em volta, de um jeito incrivelmente furtivo. Aquilo... Deu-me uma sensação desagradável. Puxei a rédea do cavalo e me afastei: Creio que não me viu. Eu não estava muito perto e ele se concentrava no que fazia.

— Olhe aqui — senhor Coleman não conseguiu ficar calado por mais tempo. — Tenho uma explicação perfeitamente plausível... eu reconheço... que parece um tanto suspeito. Pra dizer a verdade, na véspera eu havia metido um ótimo cilindro de lacre no bolso do paletó, em vez de guarda-lo no depósito de antiguidades... e esqueci por completo. E depois descobri que decerto tinha caído do bolso, pois não encontrei mais... devia ter perdido nalgum lugar. Não queria atritos por causa disso e resolvi dar uma boa busca sem que ninguém percebesse. Estava quase certo de que deixara cair no percurso de ida ou de volta das escavações. Fiz às pressas o que devia fazer em Hassanieh, mandei um walad comprar o que era comprar o que era preciso e regressei mais cedo. Estacionei a camioneta num lugar discreto e fiquei procurando durante mais de uma hora. E nem assim encontrei o maldito troço! Aí então subi na camioneta e me dirigi pra casa. Naturalmente todos pensaram que eu acabara de chegar.

— E não quis desenganá-los — perguntou suavemente Poirot.

— Ora, naquelas circunstancias, era até natural, não lhe parece?

— Francamente não concordo — retrucou Poirot.

— Ah, o que é isso?... não se meta em apuros... é o meu lema! Mas não me pode acusar de nada. Nunca entrei no pátio, e não há de encontrar ninguém que afirme o contrário.

— Essa, é claro, tem sido a dificuldade — afirmou Poirot. — O testemunho dos empregados de que ninguém entrou no pátio pelo lado de fora. Depois, porém, refletindo, me ocorreu que não foi isso realmente o que eles disseram. Juraram que nenhum desconhecido entrara nas dependências do prédio. Ninguém lhes perguntou se algum membro da expedição havia feito o mesmo.

— Pois então pergunte — sugeriu Coleman. — Macacos me mordam se viram a mim ou Carey, também.

— Ah! Mas isso levanta um problema interessante. Eles, sem dúvida, notariam um desconhecido... mas chegariam a notar um membro da expedição? Todos entram e saem por ali qualquer hora do dia. Os empregados dificilmente prestariam atenção a essas idas e vindas. É possível, a meu ver, que tanto o senhor Carey como o senhor Coleman pudessem ter entrado sem que a observação dos empregados registrasse qualquer lembrança do fato.

— Conversa fiada! — exclamou o senhor Coleman.

— Dos dois — prosseguiu Poirot na maior calma, — creio que o senhor Carey tinha menos possibilidade de ser visto saindo ou entrando. O senhor Coleman partira de carro pra Hassanieh de manhã e esperariam que regressasse do modo idêntico. Sua chegada a pé despertaria, pois, atenção.

— Lógico que despertaria! — exclamou Coleman.

Richard Carey ergueu a cabeça. Fixou os profundos olhos azuis diretamente em Poirot.

— Está-me acusando de assassinato, M. Poirot? — Perguntou.

Mantinha a mais perfeita serenidade mas havia qualquer coisa de perigoso no tom de sua voz.

Poirot curvou-se para ele.

— Por enquanto estou apenas levando todos vocês numa viagem... a minha viagem rumo à verdade. A essa altura eu já estabelecera um fato... que todos os membros da expedição, inclusive a enfermeira Leatheran, podiam realmente ter cometido o crime. Que não houvesse quase nenhuma probabilidade de alguns o cometerem, tinha interesse secundário.

— Já examinara os meios e oportunidades. Então passei ao motivo. Descobri que todos, sem exceção, possuíam um!

— Oh, M. Poirot! — exclamei. — Menos eu! Eu era uma desconhecida. Tinha recém-acabado de chegar.

— Eh bien, ma soeur, e não era justamente isso que a senhora Leidner temia? Um desconhecido, de fora?

— Mas... mas... Ora, o Dr. Reilly sabia de tudo a meu respeito! Foi ele quem sugeriu que eu viesse!

— Até que ponto ele sabia a seu respeito? Praticamente o que a senhora mesma lhe contou. Não seria a primeira vez que impostores se disfarçam de enfermeiras de hospital.

— O senhor pode escrever ao St. Christopher — comecei.

— Quer fazer o favor de guardar silencio por um instante? É impossível continuar enquanto a senhora insiste nessa discussão. Não digo que a considere suspeita atualmente. O que eu afirmo é que, deixando aberta a questão, a senhora podia facilmente ser outra pessoa além da que fingir ser. Não sei se sabe, mas há muito travesti masculino perfeito por aí. O jovem William Bosner podia talvez recorrer a esse expediente.

Estive prestes a lhe revelar francamente o que pensava daquela idéia. Travesti masculino, pois sim! Mas ele levantou a voz e se apressou a seguir com tal determinação que tive de desistir.

— Agora vou usar de toda a franqueza... serei mesmo brutal. É necessário. Não pretendo deixar pedra sobre pedra neste lugar.

— Examinei e considerei individualmente cada morador desta casa. Pra começar pelo Dr. Leidner, logo me convenci de que o amor que sentia pela esposa representava o principal motivo de sua existência. Era um homem despedaçado e destruído pela dor. Já mencionei a enfermeira Leatheran. Se fosse um travesti masculino, teria de ser incrivelmente perfeito e me inclinei a crer que era exatamente o que pretendia ser... uma enfermeira de hospital da maior competência.

— Obrigada, da mesma forma — contrapus.

— Minha atenção ficou então despertada pelo senhor e senhora Mercado, que se encontravam, tanto um como o outro, em manifesto estado de grande agitação e intranqüilidade. Primeiro analisei a senhor Mercado. Seria capaz de cometer um crime e, se fosse, por quais razões?

— A senhora Mercado tem a constituição frágil. Em princípio, não parecia provável que possuísse a força física suficiente pra derrubar uma mulher como a senhora Leidner com um pesado utensílio de pedra. Se, entretanto, a senhora Leidner estivesse ajoelhada na ocasião seria pelo menos fisicamente possível. Existem maneiras de uma mulher induzir outra a se ajoelhar. Oh! Não maneiras sentimentais! Por exemplo, uma mulher pode querer encurtar a bainha da saia e pedir que a outra prenda os alfinetes pra ela. A segunda se ajoelharia no chão sem desconfiar de nada.

— Mas o motivo? A enfermeira Leatheran já me falara dos olhares de fúria que vira a senhora Mercado dirigir a senhora Leidner. O senhor Mercado, evidentemente, sucumbira com a maior facilidade aos encantos da senhora Leidner. Porem não acreditei que a solução fosse encontrada em mero ciúme. Tinha certeza de que a senhora Leidner realmente não alimentava o mínimo interesse pelo senhor Mercado... e a senhora Mercado, sem dúvida, sabia disso muito bem. Podia ficar temporariamente indignada com o fato, mas pra assassinato era preciso que houvesse maior provocação. Só que a senhora Mercado é, intrinsecamente, um tipo arrebatadamente maternal. Pelo jeito com que olhava pro marido, percebi que não apenas o amava como também lutaria com unhas e dentes por ele... e mais até... que encarava a possibilidade de ter de fazer isso. Mantinha-se sempre de sobreaviso, apreensiva. Esse nervosismo  era por causa dele... e não dela. E quando me concentrei no senhor Mercado, me foi relativamente fácil adivinhar a raiz do problema. Recorri a um expediente pra verificar a exatidão desse meu palpite. O senhor Mercado tomava entorpecentes... numa fase adiantada do vício.

— Ora, provavelmente não há a menor necessidade de explicar que a aplicação de entorpecentes durante um período muito prolongado produz o efeito de neutralizar a consciência moral de modo considerável. Sob a influencia de drogas, um homem comete ações que nem sonharia cometer poucos anos atrás, antes de se dedicar à pratica. Em certos casos, a cometer crimes... e tem sido difícil determinar se foi ou não foi totalmente responsável por seus atos. A lei de diversos países diverge ligeiramente nesse sentido. A principal característica do criminoso toxicômano é o excesso de confiança na própria esperteza.

— Julguei possível que houvesse algum incidente vexatório, talvez até criminoso, no passado do senhor Mercado que a esposa tivesse logrado, de um modo qualquer, abafar. Em todo caso, a carreira dele estaria pendendo por um fio. Se espalhassem rumores sobre esse incidente antigo, o senhor Mercado ficaria arruinado. A esposa se mantinha sempre de sobreaviso. Mas eu precisava também levar em consideração a senhora Leidner, que tinha inteligência muito aguda e amor pelo poder. Ela talvez até induzisse o pobre homem a lhe confiar o segredo. Seria o tipo de coisa apropriado ao temperamento dela sentir-se de posse de um segredo que pudesse revelar a qualquer momento com resultados desastrosos.

— Eis, portanto, um possível motivo pro crime por parte dos Mercados. A fim de proteger o companheiro, a senhora Mercado, eu tinha certeza, não hesitaria diante de nada! Tanto ela como o marido dispuseram da oportunidade... durante aqueles dez minutos em que o pátio ficou deserto.

— Não é verdade! — exclamou a senhora Mercado.

Poirot não prestou atenção.

— Depois considerei a senhorita Johnson. Seria ela capaz de cometer um crime?

— Achei que sim. Possuía muita força de vontade e férreo autocontrole. Criaturas dessa espécie estão constantemente se reprimindo... e um dia a represa transborda! Mas se a senhorita Johnson tivesse cometido o crime só podia ser por um motivo relacionado com o Dr. Leidner. Se achasse convencida, de alguma forma, que a senhora Leidner estava prejudicando a vida do marido, então o profundo ciúme inconsciente que abafa no íntimo, ante a possibilidade de um motivo plausível, saltaria da maneira mais desenfreada.

— Sim, a senhorita Johnson era positivamente uma possibilidade.

— Depois havia os três rapazes.

— Primeiro Carl Reiter. Se, por acaso, um dos membros da expedição fosse William Bosner, então Reiter, sem dúvida, era a pessoa mais indicada. Só que se era William Bosner, tinha de ser certamente um ator extraordinário! Se fosse apenas ele mesmo, teria algum motivo pro crime?

— Considerado sob o ponto de vista da senhora Leidner, Carl Reiter seria uma vítima fácil demais pra interessar. Estava preparado ´ra cair de bruços no chão e adora-la incondicionalmente, A senhora Leidner desprezava a adoração indiscriminada... e a atitude servil quase sempre desperta o pior lado feminino. Em sua maneira de tratar Carl Reiter, a senhora Leidner demonstrou uma crueldade verdadeiramente deliberada. Aplicava um escárnio aqui... uma alfinetada ali. Transformou num inferno a vida do pobre rapaz.

Poirot se interrompeu subitamente e dirigiu-se a Reiter de maneira íntima, extremamente confidencial.

— Mon ami, aproveite a lição. Você é homem. Portanto comporte-se como tal! Rastejar não é próprio da natureza viril. As mulheres e a Natureza têm quase exatamente as mesmas reações! Lembre-se de que é preferível pegar o maior prato ao seu alcance e joga-lo à cabeça de uma mulher do que se retorcer feito um verme toda a vez que ela olhar pra você!

Abandonou o tom pessoal e retomou seu estilo de sermão.

— Poderia Carl ter sido incitado a um tal ponto de tortura que se revoltasse contra sua algoz, matando-a? O sofrimento causa efeitos estranhos num homem. Não fiquei certo de que não houvesse acontecido assim!

— A seguir, William Coleman. Sua conduta, segundo o relatório da senhorita Reilly, era certamente suspeita. Se fosse o criminoso, só podia ser porque sua personalidade expansiva dissimulava a personalidade oculta de William Bosner. Não creio que William Coleman, enquanto William Coleman, tenha o temperamento de um assassino. Suas faltas talvez residissem em outra direção. Ah! Quem sabe a enfermeira Leatheran é capaz de adivinhar quais seriam?

Como é que adivinhara? Tenho certeza de que não estava dando a impressão de pensar absolutamente em coisa alguma.

— De fato não é nada — disse eu, hesitante. — Apenas, já que se está no terreno da verdade, o próprio senhor Coleman uma vez declarou realmente que poderia ter sido um bom falsário.

— Ótima observação — opinou Poirot. — Por conseguinte, se houvesse encontrado alguma das velhas cartas ameaçadoras, poderia tê-la copiado sem dificuldade.

— Ai, ai, ai — exclamou o senhor Coleman. — Isso é o que se chama uma conspiração contra mim.

Poirot não se intimidou.

— Quanto a ele ser ou não ser William Bosner, trata-se de uma questão difícil de ser tirada a limpo. Mas o senhor Coleman mencionou um tutor... não um pai... e não existe nada pra descartar definitivamente a idéia.

— Que disparate! — retrucou o senhor Coleman. — Não entendo como é que ficam dando ouvidos a esse cara.

— Dos três rapazes, resta apenas o senhor Emmott — continuou Poirot. — Também podia ser um possível disfarce pra identidade de William Bosner. Fosse quais fossem os motivos pessoais que pudesse ter pra eliminação da senhora Leidner, logo percebi que eu não disporia de meios de apura-los por intermédio dele, que sabia guardar segredos como ninguém. Não havia a menor possibilidade de provoca-lo ou forçá-lo a se trair em qualquer sentido. De todos os participantes da expedição, parecia o melhor e mais imparcial julgador da personalidade da senhora Leidner. Creio que sempre soube exatamente como ela era... mas não pude descobrir o efeito que isso teria causado nele. Imagino que a própria senhora Leidner se sentisse certamente irritada e furiosa com sua atitude.

— Posso afirmar que, entre todos os membros da expedição, o senhor Emmott, no tocante a caráter e capacidade, me dava a impressão de ser o mais apto a executar satisfatoriamente um crime inteligente e bem planejado.

Pela primeira vez o senhor Emmott desviou os olhos da ponta dos sapatos.

— Obrigado — disse.

Dir-se-ia haver um leve traço de ironia em sua voz.

— As duas últimas pessoas de minha lista eram Richard Carey e o Padre Lavigny.

— Segundo o testemunho da enfermeira Leatheran e outros,  o senhor Carey e a senhora Leidner tinham uma antipatia mútua. A custo mostravam-se educados. Outra pessoa, a senhorita Reilly, propôs uma teoria totalmente oposta para explicar a glacial atitude de polidez de ambos.

— Logo verifiquei que a explicação da senhorita Reilly era a que mais se aproximava da verdade. Adquiri minha certeza pelo simples expediente de instigar o senhor Carey a falar de forma arrojada e desprecavida. Não foi difícil. Conforme vi imediatamente, ele se achava num estado de forte tensão nervosa. De fato se achava... e se acha... à beira de um total colapso nervoso. Um homem que sofre até o limite da própria capacidade quase nunca oferece séria resistência numa discussão.

— As barreiras do senhor Carey ruíram por terra praticamente na mesma hora. Revelou, com uma sinceridade de que não duvidei um só momento, que odiava a senhora Leidner.

— E estava, inegavelmente, dizendo a verdade. Odiava mesmo a senhora Leidner. Porém, por quê?

— Já me referi a mulheres que possuem uma magia calamitosa. Mas há homens que também têm essa espécie de magia, que podem, sem o mínimo esforço, atrair mulheres. O que se chama, hoje em dia, le sex-appeal! O senhor Carey tinha de sobra essa qualidade. Era, pra começar, dedicado a seu amigo e patrão, e indiferente à esposa deste último. Isso não convinha a senhora Leidner. Ela precisava dominar... e se dispôs a cativar Richard Carey. Mas nesse ponto, creio eu, sucedeu algo inteiramente imprevisto. Ela própria, talvez pela primeira vez em sua vida, tombou vítima de uma paixão subjugadora. Apaixonou-se... com amor mesmo... por Richard Carey.

— E ele... não pôde resistir. Eis a verdade sobre o terrível estado de tensão nervosa que teve de suportar. Tem sido um homem dilacerado por duas paixões opostas. Amava Louise Leidner... sim, mas também odiava-ª Odiava-a por solapar a lealdade que devia ao amigo. Não existe maior ódio do que o de um homem que se apaixona involuntariamente por uma mulher.

— Cá estava o motivo que eu buscava. Fiquei convencido de que, em certos momentos, a coisa mais natural para Richard Carey seria bater com toda a força no belo rosto que o enfeitiçara.

— Desde o início eu me sentia seguro de que o assassinato de Louise Leidner era um crime passionnel. Em Richard Carey, encontrei o candidato ideal pra cometer esse tipo de crime.

— Restava apenas outro candidato ao título de assassino... o Padre Lavigny. Minha atenção foi despertada pelo piedoso monge logo no começo, devido a uma certa discrepância entre sua descrição do forasteiro que fora visto espiando pela janela e a fornecida pela enfermeira Leatheran. Sempre costumava haver um pouco de divergência em todos os depoimentos prestados por testemunhas diferentes, mas essa era positivamente clamorosa. Além do mais, o Padre Lavigny insistiu numa determinada característica... um estrabismo... que devia facilitar muito a identificação.

— Mas bem cedo se tornou evidente que, ao passo que a descrição da enfermeira Leatheran estava intrinsecamente exata, a do Padre Lavigny não era nada parecida. Dava quase a impressão de que procurava nos enganar de propósito... como se não quisesse que encontrássemos o homem.

— Mas nesse caso decerto sabia qualquer coisa sobre o tal individuo misterioso. Fora visto conversando com ele, porém só dispúnhamos de seu testemunho sobre o assunto da conversa.

— Que estava fazendo o iraquiano quando a enfermeira Leatheran e a senhora Leidner o avistaram? Tentando espiar pela janela... a janela da senhora Leidner, julgaram ambas, mas ao me colocar no mesmo ponto em que se encontravam, percebi ao que podia ter sido igualmente a janela do depósito de antiguidades.

— Na noite do dia seguinte ocorreu um alarme. Havia um intruso no depósito de antiguidades. Entretanto, não se deu por falta de nada. O ponto interessante, a meu ver, é que quando o Dr. Leidner chegou lá, já encontrou o Padre Lavigny na sala. O Padre Lavigny diz que viu uma luz. Mas novamente só dispomos de seu testemunho.

— Começo a sentir curiosidade pelo Padre Lavigny. Outro dia, quando faço a sugestão de que o Padre Lavigny talvez fosse Frederick Bosner, o Dr. Leidner ridiculariza a idéia, dizendo que o Padre Lavigny é uma pessoa famosa. Adianto a suposição de que Frederick Bosner, que teve quase vinte anos pra criar uma nova carreira, sob um nome diferente, podia perfeitamente ser famoso a esta altura! Seja como for, não creio que tenha passado esse lapso de tempo numa comunidade religiosa. Uma solução muito mais simples se impõe.

— Algum membro da expedição conhecia de vista o Padre Lavigny antes que ele chegasse aqui? Aparentemente não. Por que não podia, então, ser alguém fingindo que era o monge? Descobri que haviam telegrafado a Cartago a respeito da súbita enfermidade do Dr. Byrd, que devia acompanhar a expedição. Nada mais simples do que interceptar um telegrama. Quanto ao trabalho, a expedição não contava com nenhum outro epigrafista. Com ligeiras noções sobre o assunto, um sujeito esperto podia ludibriar o resto da equipe. Tinham sido descobertas pouquíssimas placas e inscrições até então e eu já verificara que os pronunciamentos do Padre Lavigny haviam causado certa estranheza.

— Tudo indicava que o Padre Lavigny seria provavelmente um impostor.

— Mas seria ele Frederick Bosner?

— De qualquer modo, as coisas não pareciam encaminhar-se nesse sentido. A verdade provavelmente se encontrava numa direção bem diferente.

— Tive uma longa conversa com o Padre Lavigny. Sou católico praticante e conheço vários sacerdotes e membros de comunidades religiosas. O Padre Lavigny me deu a impressão de não estar familiarizado com seu papel. Em compensação, porém, acreditei que estivesse familiarizado com outro, muito diferente. Eu já encontrara indivíduos desse tipo com bastante freqüência...  só que não pertenciam a comunidades religiosas. Bem pelo contrário!

— Comecei a passar telegramas.

— E então, inadvertidamente, a enfermeira Leatheran me forneceu uma pista valiosa. Estávamos examinando os ornamentos de ouro no depósito de antiguidades e ela comentou que havia sido encontrado um pedaço de cera colado numa taça. Eu perguntei: “Cera?” E o Padre Lavigny perguntou: “Cera?” E foi o suficiente! Num instante, pelo tom de voz dele, descobri o que estava fazendo aqui.

Poirot fez uma pausa e dirigiu-se diretamente ao Dr. Leidner.

— Lamento dizer-lhe, monsieur, que a taça de ouro no depósito de antiguidades, a adaga de ouro, os enfeites pra cabelo e diversas outras coisas não são os objetos autênticos que o senhor encontrou. São cópias bem feitas, obtidas por electrotipia. Acabo de ser informado, por esta última resposta aos meus telegramas, que o Padre Lavigny não é outro senão Raoul Menier, um dos ladrões mais hábeis nos anais da Polícia francesa. É especialista em roubos de museus de objets d’art e congêneres. Seu cúmplice é Ali Yusuf, uma espécie de turco, que trabalha como joalheiro de primeira classe. Nunca tínhamos ouvido falar em Menier antes da descoberta feita pelo Louvre de que certos objetos que lá se encontravam não eram autênticos... Apurou-se então que, em cada caso, um ilustre arqueólogo, que o diretor do museu jamais vira pessoalmente, estivera há bem pouco tempo manuseado os artigos espúrios durante uma visita ao Louvre. Ao serem interrogados, todos esses ilustres cavalheiros negaram ter comparecido ao museu nas datas assinaladas!

— Fiquei sabendo que Menier estava em Tunis, em preparativos pra efetuar um roubo dos Santos Padres, quando chegou o telegrama remetido pelo senhor. O Padre Lavigny, que se achava doente, viu-se forçado a recusar o convite, mas Menier conseguiu apoderar-se do telegrama e substituí-lo por outro, aceitando. Sentia-se completamente seguro ao proceder dessa maneira. Mesmo que os monges lessem em algum jornal (o que era extremamente improvável) que o Padre Lavigny se encontrava no Iraque, julgariam apenas que a notícia, como tantas vezes acontece, carecia de fundamento.

— Menier e seu cúmplice chegaram. O último é visto quando está inspecionando o depósito de antiguidades pelo lado de fora. O plano consiste em tirar impressões a cera, o que é feito pelo Padre Lavigny. Ali Yusuf, então, faz cópias satisfatórias. Sempre há colecionadores inescrupulosos, dispostos a pagar bom preço por antiguidades autênticas sem formular perguntas indiscretas. O Padre Lavigny efetuará a troca da falsificação pelo artigo genuíno... de preferência à noite.

— E isso sem dúvida era o que ele estava fazendo quando a senhora Leidner ouviu e deu o alarme. Que saída encontra? Inventa às pressas uma história de ter visto luz no depósito de antiguidades.

— O que, como vocês dizem, todo mundo engoliu. Mas a senhora Leidner não era nada ingênua. Talvez se lembrasse do pedaço de cera em que reparara e depois juntasse as duas coisas. E se foi isso o que ela fez, como teria procedido? Não estaria dans son caractère não tomar logo nenhuma providência e sim se divertir com insinuações que provocariam embaraço no Padre Lavigny? Deixando perceber que desconfia dele... mas não que tem certeza. É, talvez, um jogo perigoso, porém ela gostava  dessa espécie de jogo.

— E, quem sabe, o tivesse jogado por um tempo longo demais. O Padre Lavigny descobre a verdade e ataca antes que ela compreenda o que ele pretende fazer.

— O  Padre Lavigny é Raoul Menier... um ladrão. Será também... um assassino?

            Poirot caminhou pela sala. Tirou um lenço do bolso, enxugou a testa e prosseguiu.

— Essa era a situação em que me encontrava hoje de manhã. Havia oito possibilidades distintas e eu não sabia qual delas estava certa. Ainda ignorava a identidade do criminoso.

— O crime, porém, é um hábito. O homem ou mulher que mata termina sempre matando novamente.

— E, com o segundo crime, o assassino se desmascarou.

— Desde o início, sempre mantive presente no espírito que alguma dessas pessoas talvez estivesse de posse de conhecimentos que não ousava revelar... e que incriminavam o assassino.

— Nesse caso, tal pessoa correria perigo.

— Minha solicitude se concentrou principalmente na enfermeira Leatheran. Tinha uma personalidade dinâmica e inteligência ágil, inquisitiva. Fiquei apavorado de que descobrisse mais do que convinha à sua própria segurança.

— Como todos sabem, ocorreu um segundo crime. Mas a vítima não foi a enfermeira Leatheran... foi a senhorita Johnson.

— Agrada-me supor que eu teria achado a solução correta, de qualquer maneira, por puro raciocínio, mas é certo que o assassinato da senhorita Johnson me ajudou a acha-la muito mais depressa.

— Pra começar, um suspeito estava eliminado... a própria senhorita Johnson... porque nem por um momento levei em conta a hipótese do suicídio.

— Examinemos agora as circunstâncias desse segundo crime.

— Primeira: No domingo de noite a enfermeira Leatheran encontrava a senhorita Johnson em pranto, e poucas horas mais tarde a senhorita Johnson queima um fragmento de carta que a enfermeira crê estar escrita com a mesma caligrafia das cartas anônimas.

— Segunda: Ao entardecer da véspera de sua morte, a senhorita Johnson é encontrada pela enfermeira Leatheran no terraço, presa de um estado que a enfermeira descreve como de incrédulo horror. Ao interroga-la, recebe a seguinte resposta: “Vi como alguém pode entrar pelo lado de fora... sem que ninguém jamais percebesse.” E recusou maiores explicações. O Padre Lavigny está cruzando o pátio e o senhor Reiter se acha à porta do departamento de fotografias.

— Terceira: A senhorita Johnson é encontrada moribunda. As únicas palavras que consegue articular são: “a janela... a janela...”

— Essas foram as circunstâncias e estes são os problemas que temos de enfrentar: Qual a verdade sobre as cartas? O que viu a senhorita Johnson do terraço? Que pretendia dizer com “a janela... a janela”?

— Eh bien, tomemos o segundo problema, em primeiro lugar, porque apresenta a solução mais fácil. Subi com a enfermeira Leatheran e parei na posição em que a senhorita Johnsosn tinha ficado. Dali ela avistava o pátio, a arcada e a ala norte do prédio, onde se viam dois membros da equipe. Teriam aquelas palavras alguma relação com o senhor Reiter ou o Padre Lavigny?

— Quase no mesmo instante me ocorreu uma explicação plausível. Se um desconhecido entrasse pelo lado de fora, só poderia faze-lo disfarçado. E havia apenas uma pessoa cujo aspecto se prestava a isso. O Padre Lavigny! Com um capacete contra o sol, óculos escuros, barba preta e o hábito comprido de algodão dos monges, um estranho poderia entrar sem que os empregados percebessem que se tratava de um estranho.

— Seria isso que a senhorita Johnson queria dizer? Ou teria ido mais longe? Será que descobrira que toda a personalidade do Padre Lavigny era um disfarce? Que não era a pessoa que fingia ser?

— Sabendo o que eu sabia a respeito do Padre Lavigny, me senti inclinado a considerar o mistério solucionado. Raoul Menier era o criminoso. Assassinara a senhora Leidner para silencia-la antes que o delatasse. Agora outra pessoa revela que descobriu seu segredo. Ela, também, precisa ser eliminada.

— E assim tudo se explica! O segundo crime. A fuga do Padre Lavigny... sem o hábito e a barba. (Deve andar viajando em companhia do cúmplice através da Síria com dois excelentes passaportes de caixeiro-viajante.) Seu ato em colocar a mó manchada de sangue debaixo da cama da senhorita Johnson.

— Como eu disse, fiquei quase satisfeito... mas não inteiramente. Pois a solução perfeita deve explicar tudo... o que não sucedia com essa.

— Ela não explica, por exemplo, por que a senhorita Johnson diria “a janela... a janela” enquanto agonizava. Não explica seu ataque de choro por causa da carta. E nem sua atitude mental no terraço... aquele incrédulo horror e aquela recusa em revelar à enfermeira Leatheran o que era que agora suspeitava ou sabia.

— Era uma solução aplicável aos fatos externos mas que não satisfazia os requisitos psicológicos.

— E foi então que, parado no terraço, recapitulando mentalmente esses três pontos... as cartas, o terraço, a janela... eu percebi... tal como a senhorita Johnson tinha percebido!

— E dessa vez tudo se explicava!

 

Fim da viagem

Poirot olhou a seu redor. Todos os olhos agora se fixavam nele. Tinha havido um certo espairecimento... um afrouxamento da tensão. De súbito, ela voltara.

Algo vinha vindo... algo...

A voz do Poirot, calma e desapaixonada, prosseguiu:

— As cartas, o terraço, “a janela”... Sim, tudo se explicava... tudo encaixava no lugar certo.

— Ainda há pouco eu disse que três homens tinham álibi pra hora do assassinato. Dois desses álibis provaram não ter o menor valor. O terceiro também não tinha valor. O doutor Leidner não apenas podia ter cometido o crime... como eu estava convencido de que ele cometera.

Fez-se silêncio, um silencio embaraçado, aturdido. O doutor Leidner não disse nada. Parecia ainda imerso em seu mundo distante. David Emmott, entretanto, remexeu-se inquieto em sua cadeira e falou:

— Não sei o que o senhor pretende insinuar, monsieur Poirot. Eu lhe afirmei que o doutor Leidner nunca saiu do terraço até pelo menos, um quarto pras três. Essa é a pura verdade. Juro solenemente que é. Não estou mentindo. E ser-lhe-ia absolutamente impossível ter feito isso sem que eu visse.

Poirot assentiu:

— Oh, eu acredito no senhor. O doutor Leidner não saiu do terraço. É um fato indiscutível. Mas o que eu percebi... e o que a senhorita Johnson tinha percebido... foi que o doutor Leidner podia assassinar a sua mulher sem precisar descer do terraço.

Ficamos todos boquiabertos.

— A janela — gritou Poirot. — A janela dela! Foi isso que percebi... tal como a senhorita Johnson percebera. A janela do quarto da senhora Leidner ficava logo abaixo, do lado oposto ao pátio. E o doutor Leidner permanecera sozinho lá em cima, sem ninguém pra testemunhar sua ação. E aquelas pesadas mós trituradora de pedras se achavam ali, ao alcance da mão dele.  Tão simples, tão incrivelmente simples, desde que se admitisse uma hipótese... que o assassino tivesse a oportunidade de mudar a posição do cadáver antes que alguém visse. OH, é estupendo... de uma simplicidade incrível!

— Ouçam... a coisa se passou assim:

— O doutor Leidner está no terraço, trabalhando nos montões de cerâmica. Ele chama o senhor lá em cima, senhor Emmott, e enquanto o retém conversando, nota que, como em geral acontece, o garoto árabe se aproveita de sua ausência para abandonar o trabalho e sair do pátio. Conserva o senhor na companhia dele durante dez minutos, depois o deixa descer e assim que ele chega aqui embaixo, gritando pelo menino, o doutor Leidner põe em prática seu plano.

— Tira do bolso a máscara besuntada de plasticina com a qual já assustou a sua mulher em outra ocasião, balançando-a à beira do parapeito até bater na janela da senhora Leidner.

— Essa janela, como recordarão, é a que abre pro campo, do lado oposto ao do pátio.

— A senhora Leidner está deitada na cama, quase adormecida. Tranqüila e feliz. De repente, a máscara começa a bater na janela e lhe chama a atenção. Só que agora não está anoitecendo; é pleno dia... Não há nada aterrorizante nela. Identifica-a pelo que ela é... uma forma grosseira de embuste! Em vez de se assustar, fica indignada. E faz o que qualquer outra mulher tivesse feito em seu lugar. Salta da cama, abre a janela, passa a cabeça pelos ferros da grade e olha para cima, para ver quem é o autor do embuste.

— O doutor Leidner está esperando. Tem na mão, preparada, uma pesada pedra de moinho. E no instante preciso ele a deixa cair...

— Dando um leve grito (que foi ouvido pela senhorita Johnson), a senhora Leidner tomba sobre o tapete ao pé da janela.

— Ora, a mó tem um orifício central, e através dele o doutor Leidner passou, previamente, uma corda. Agora lhe basta içá-la, puxando a mó para cima. E torna a coloca-la, com todo o cuidado, a mancha de sangue virada pra baixo, entre outros objetos do mesmo gênero que se encontram no terraço.

— Depois continua seu trabalho durante mais de uma hora, até julgar que chegou o momento de pôr em cena o segundo ato. Desce a escada, fala com o senhor Emmott e com a enfermeira Leatheran, cruza o pátio e entra no quarto de sua esposa. Esta é a explicação que ele próprio dá sobre o que fez ali dentro é a seguinte:

— Vi o corpo de minha mulher amontoado ao lado da cama. Por uns instantes fiquei paralisado, como se não me pudesse mexer. Depois, finalmente, fui e me ajoelhei perto dela, levantando-lhe a cabeça. Percebi que estava morta... Então me pus em pé. Não consegui enxergar nada direito e tive a sensação de estar bêbado. Pude alcançar a porta e chamar por socorro.

— Uma descrição perfeitamente plausível dos movimentos de um homem cego de dor. Agora ouçam o que eu acredito que de fato aconteceu. O doutor Leidner entra no quarto, corre à janela, e tendo calçado um par de  luvas, fecha-a e passa as trancas. Aí então levanta o corpo de sua esposa, mudando-o para uma posição entre a cama e a porta. Depois enxerga uma pequena mancha de sangue no tapete, ao pé da janela. Não pode trocá-lo pelo outro tapete, pois são de diferente tamanho, mas opta pela seguinte solução: coloca o tapete manchado diante do lavatório e o que estava ali, ao pé da janela. Se alguém perceber a mancha de sangue a relacionará com o lavatório... mas não com a janela... detalhe importantíssimo. Não deve haver nenhuma sugestão de que a janela desempenhou qualquer papel no crime. Por fim vem a porta e banca o marido desesperado. E isto, conforme acredito, não foi difícil porque amava de fato a seu mulher.

— Mas homem de Deus! — exclamou o doutor Reilly, já impaciente,  — Se ele a amava, por que a matou? Qual foi o motivo?Você perdeu a língua, Leidner? Diga-lhe que está louco.

O doutor Leidner não falou, nem se moveu.

— Não lhes afirmei desde o início que se tratava de um crime passionnel? — perguntou Poirot. — Por que seu primeiro marido, Frederick Bosner, ameaçou matá-la? Porque a amava... e no fim, como vêem, cumpriu suas ameaças.

— Mais oui... mais oui... desde que compreendi que o doutor Leidner cometeu o crime tudo se explica.

— Pela segunda vez, recomeço minha viagem a partir do início... o primeiro casamento da senhora Leidner... as cartas anônimas ameaçadoras... e o segundo matrimônio dela. As cartas a impediram de casar-se com qualquer outro homem... porém não a impediram de casar com o doutor Leidner. A explicação é facílima... o doutor Leidner é realmente Frederick Bosner!

— lniciemos, pois, a viagem, do ponto de vista do jovem Frederick Bosner.

— Em primeiro lugar, sabemos que ama a sua esposa, Louise, com paixão irresistível, de uma intensidade que só uma mulher como ela é capaz de despertar. Ela o atraiçoa. É condenado à morte. Foge. Fica envolvido num acidente ferroviário, porém consegue reaparecer com uma nova personalidade... a de um jovem arqueólogo de origem sueca, Eric Leidner, cujo cadáver, horrivelmente mutilado, será convenientemente enterrado como Frederick Bosner.

— Qual  a atitude do novo Eric Leidner com a mulher que estava disposta a enviá-lo à  morte? Primeiro, e acima de tudo, ele ainda a ama. Lança-se à tarefa de construir uma vida nova. É homem de grande habilidade, foi talhado para sua profissão e a transforma em êxito. Porém jamais esquece a paixão predominante de sua vida. Mantém-se informado sobre os  movimentos de sua mulher. De uma coisa está friamente resolvido (lembrem-se da descrição que a própria senhora Leidner fez dele para a enfermeira Leatheran... Era doce e amável, mas desumano): ela não pertencerá a nenhum outro homem. Toda vez que  julga necessário, manda uma carta anônima. Imita certas peculiaridades da letra dela, caso invente de mostrar as cartas anônimas à polícia. As mulheres que escrevem cartas anônimas sensacionais a si mesmas constituem um fenômeno tão comum que a polícia com certeza optaria logo por essa solução, dada a semelhança da caligrafia. Ao mesmo tempo, Leidner a deixa em dúvida sobre se realmente estava vivo ou não.

— Por fim, depois de  muitos anos, julgou que chegou a hora; reaparece na vida dela. Tudo corre bem. Sua mulher jamais suspeita de sua verdadeira identidade. Era um homem famoso nos meios científicos. O rapaz bonito e alinhado hoje é um sujeito de meia-idade, que usa barba e tem ombros caídos. E assim vemos como a história se repete. Frederick é capaz de dominar a Louise, tal como fez anos antes. Pela segunda vez, consente em casar com ele. E nenhuma carta surge para proibir o compromisso.

— No entanto, posteriormente, uma carta é recebida. Por quê?

— Creio que o doutor Leidner não estava disposto a se arriscar. A intimidade do casamento podia despertar nela certas lembranças capazes de desbaratar seus planos. Desejava convencer sua esposa, de uma vez para sempre, que Eric Leidner e Frederick Bosner são duas pessoas diferentes. Tanto assim que uma carta ameaçadora é remetida pelo primeiro só por causa do segundo. O incidente um tanto pueril do envenenamento de gás aconteceu logo depois... preparado pelo doutor Leidner, evidentemente. Sempre com o mesmo propósito em vista.

— A partir de então, fica satisfeito. Não precisa remeter novas cartas. Já podiam desfrutar de uma feliz vida conjugal.

— Mas eis que, após quase dois anos, as cartas anônimas recomeçam.

— Por quê? Eh bien, acho que sei. Porque a ameaça que continha naquelas cartas era uma ameaça verdadeira. (É por isso que a senhora Leidner estava sempre assustada. Conhecia o caráter gentil, mas implacável, de seu Frederick.) Se ela pertencer a algum outro homem ele a mataria. E ela se entregou ao Richard Carey.

— E assim, descoberta a traição, o doutor Leidner, fria e calmamente, prepara a cena do crime. E posteriormente o levou a cabo convencido de que não seria descoberto seu autor.

— Compreendem agora o papel importante desempenhado pela enfermeira Leatheran? O estranho comportamento do doutor Leidner (que desde o começo me deixou intrigado) ao contratá-la para cuidar de sua esposa, está explicado. Era vital que uma testemunha profissional, fidedigna, pudesse declarar irrefutavelmente que a senhora Leidner havia sido morta há mais de uma hora quando o cadáver foi descoberto... ou seja, que fora assassinada quando todos seriam capazes de jurar que o marido se encontrava no terraço. Uma suspeita talvez fosse levantada de que ele a tinha matado quando entrou no quarto e encontrou o cadáver... Mas isso não seria possível se uma enfermeira competente, com treino hospitalar, podia assegurar positivamente que já tinha morrido uma hora atrás.

— Outra coisa que se explica é o curioso estado de tensão nervosismo que tomou conta da expedição este ano. Eu nunca, desde o início, julguei que se atribuísse exclusivamente à influência da senhora Leidner. Durante várias temporadas, esta mesma expedição teve fama de ótima camaradagem. Na minha opinião, o estado de espírito de uma comunidade sempre reflete, diretamente, a pessoa que ocupa a chefia. O doutor Leidner, por mais quieto que fosse, era um homem de grande personalidade. Foi devido a seu tato, bom senso e compreensivo manejo do caráter humano que a atmosfera sempre fora de tanta alegria. 

— Se ocorrera uma mudança, portanto, só podia ser atribuída à pessoa em comando... em outras palavras, ao doutor Leidner. Era ele e não a senhora Leidner, o responsável pela tensão e o constrangimento. Não é de admirar que a equipe sentisse a  mudança sem compreender o motivo. O paciente e amável doutor Leidner, aparentemente o mesmo,estava apenas representando aquele papel.  O verdadeiro Leidner era um fanático obcecado que planejava um crime.

— E agora vejamos o segundo assassinato... o da senhorita Johnson. Ao arrumar os papéis do doutor Leidner no escritório (um serviço que se incumbiu espontaneamente, ansiosa por ter algo pra fazer), ela decerto encontrou algum rascunho incompleto de uma das cartas anônimas.

— Deve ter achado tão incompreensível quanto extremamente inquietante! O doutor Leidner aterrorizando deliberadamente a própria esposa! Não pode compreender aquilo... mas fica tremendamente abalada. É nessa disposição de ânimo que a enfermeira Leatheran a encontrou chorando desesperadamente.

— Não acredito que na ocasião ela suspeitasse de que o doutor Leidner fosse o assassino, porém minhas experiências de som nos quartos da senhora Leidner e do Padre Lavigny adiantaram alguma coisa para ela. Ela percebe que, se foi o grito da senhora Leidner que escutou, a janela do quarto dela devia estar aberta, e não fechada. Na hora isso não lhe transmite uma impressão vital, mas fica gravado em sua memória.

— O cérebro dela continua a funcionar... esmiuçando sempre, cada vez mais próxima da verdade. Talvez fizesse alguma referência às cartas anônimas e o doutor Leidner percebesse o perigo, mudando de atitude. A senhorita Johnson então nota que ele, de repente, se apavora.

— Mas o doutor Leidner, conforme pensou ela, não podia ter assassinado a sua mulher. Passou o tempo todo  no terraço.

— E depois, uma tarde, ao se achar também no terraço meditando sobre o ocorrido, deu-se conta subitamente da verdade. A senhora Leidner tinha sido assassinada dali de cima, através da janela aberta.

— Foi nesse instante que a enfermeira Leatheran a encontrou.

— E imediatamente, reafirmando-se a velha afeição que dedicava ao doutor Leidner improvisa um rápido fingimento. A enfermeira não deve suspeitar da medonha descoberta que acaba de fazer.

— Olha propositadamente na direção oposta, para o pátio, e comenta alguma coisa sugerida pela aparição do Padre Lavigny, ao atravessar o pátio.

— Recusa-se dar explicações. Tem de “refletir um pouco”.

— E o doutor Leidner, que a andava observando ansiosamente,percebe que ela sabe de tudo, quem era o assassino. Não é o tipo de mulher que dissimule o horror e a angústia que está sentindo.

— É verdade que por enquanto ainda não o denunciou... mas por quanto tempo poderá continuar confiando nela?

— O crime é um hábito. Naquela noite, o doutor Leidner substituiu o copo de água por outro, contendo ácido. Há sempre possibilidade de que pensem que ela mesma se havia envenenado. Ou até de que tivesse cometido o primeiro assassinato e se deixasse agora vencer pelo remorso. Para reforçar essa idéia, retira a mó do terraço e coloca-a debaixo da cama. 

— Não é de admirar que a pobre senhorita Johnson, em sua agonia, pudesse apenas tentar desesperadamente revelar a informação que tinha conseguido a custa de sua própria vida. Pela “janela”, foi assim que a senhora Leidner morreu, não era pela porta... "pela janela"...

— E, desse modo, tudo se explica; tudo encaixa em seus respectivos  lugares... tudo é psicologicamente perfeito.

— Só que não existem provas... Absolutamente nenhuma prova...

Nenhum de nós abriu a boca. Estávamos perdidos num mar de horror. Sim, e não apenas de horror.  De compaixão, também. 

O doutor Leidner não se mexeu nem falou. Ficou sentado exatamente como estivera até então. Um homem extenuado, abatido, velho... 

Por fim agitou-se ligeiramente e fitou Poirot com olhos mansos, cansados...

— Não — disse ele. — Não há nenhuma prova. Mas isso não tem importância. O senhor sabia que eu não negaria a verdade... Jamais neguei a verdade... Eu acho... realmente... que me sinto até contente. Estou tão cansado...

Depois acrescentou simplesmente:

— Lamento por causa de Anne. Aquilo foi ruim... insensato... uma ação perversa... desatinada... Não fui eu! A pobre sofreu muito antes de morrer. Sim, aquilo não era eu... Era o medo que sentia...

Um leve sorriso pairava em seus lábios retorcidos de dor.

— O senhor seria um ótimo arqueólogo, monsieur Poirot. Possui o dom de saber reconstruir o passado.

— Tudo se passou exatamente como descreveu.

— Eu amava a Louise e matei-a... Se a tivesse conhecido, compreenderia... Não, creio que mesmo assim o senhor compreende...

 

L’envoi

Não resta, de fato, grande coisa para contar...

O “Padre” Lavigny e a seu companheiro quando estavam a ponto de embarcar no porto de Beirute.

Sheila Reilly se casou com o jovem Emmott. Acho que será ótimo para ela. Ele não é servil — saberá  mantê-la em seu devido lugar. Ela teria tiranizado o coitado do Bill Coleman. 

Por falar nisso, tratei dele, quando se operou de apendicite há um ano. Passei a simpatizar muito com ele. Seu tutor ia mandá-lo para uma fazenda na África do Sul.

Nunca mais voltei ao Oriente. E engraçado — às vezes bem que gostaria voltar. Penso no ruído que a roda hidráulica fazia, e nas lavadeiras e naquele olhar arrogante, esquisito, que os camelos dão para a gente — e chego até a sentir saudade. Afinal de contas, talvez a sujeira não seja realmente  tão insalubre, quanto nos ensinam a crer!

O doutor Reilly geralmente me procura quando vem a Inglaterra e, como já disse, foi ele quem me meteu nesta. “Se não quiser, não precisa aceitar”, falei para ele. “Sei que a gramática está toda errada e que não escrevi direito nem coisa parecida... mas ficou pronto.” 

E ele aceitou. Sem a menor cerimônia. Se chegar a ser publicado, vou experimentar um sentimento estranho.

Monsieur Poirot voltou para Síria e mais ou menos uma semana depois  foi para casa pelo Expresso do Oriente, onde se envolveu noutro crime. Era esperto, não nego, mas não lhe perdôo assim no mais o modo como se divertiu à minha custa. Fingindo julgar que eu podia estar metida no assassinato e não ser enfermeira de hospital coisíssima nenhuma!

Os médicos às vezes também são assim. Gozam à nossa custa, ora se não, e nunca se lembram que podem magoar a gente!

Tenho pensado muito na senhora Leidner, e em como ela realmente era. Há ocasiões em que me parece que foi uma mulher simplesmente terrível —e noutras me lembro de sua delicadeza comigo, da suavidade de sua voz — e do belíssimo cabelo loiro que tinha e tudo o mais — e acho que talvez, em última análise, é mais digna de compaixão do que de censura...

E não posso deixar de sentir pena do doutor Leidner. Sei que foi duplamente assassino, mas para mim isso não parece fazer grande diferença. Era tão tremendamente apaixonado por ela. É horrível gostar tanto assim de alguém....

De qualquer modo, à medida que envelheço e vejo uma quantidade sempre maior de pessoas, tristezas e enfermidades, e conheço mais pessoas, mais compaixão sinto por todos. Há momentos em que, francamente, não sei aonde foram parar os bons princípios rígidos com que titia me educou. Era  uma mulher profundamente religiosa, e muito exigente. Não havia nenhum de nossos vizinhos cujos defeitos ela não soubesse de cor e salteado.

Ai, meu Deus, não é que o doutor Reilly tinha razão? Como é que a gente faz para parar de escrever? Se eu  pudesse encontrar uma frase realmente boa, que produzisse o efeito desejado...

Vou perguntar a ele se não conhece alguma em árabe...

Que nem a que monsieur Poirot usou:

“Em nome do Alá, o misericordioso, o compassivo...”

Algo por esse estilo...

 

                                                                                            Agatha Christie

 

 

                      

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