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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MORTE NO NILO / Agatha Christie
MORTE NO NILO / Agatha Christie

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MORTE NO NILO

 

                       

 

LINNET RIDGEWAY!

- É ela! - exclamou Mr. Burnaby, proprietário de Three Crowns, dando uma cotovelada no companheiro.

De boca aberta e olhos arregalados, os dois homens fitaram o belíssimo Rolls Royce vermelho, que parara em frente do Correio.

Desceu uma jovem, sem chapéu e com um vestido que parecia (parecia somente) muito simples. Cabelos doirados e feições um tanto autoritárias, tipo deveras atraente, como raramente se via em Malton-under-Wode.

Em passos rápidos e decididos, a jovem entrou no edifício do Correio.

- É ela! - repetiu Mr. Burnaby. E em tom mais baixo e reverente: - Possui milhões... Vai gastar um dinheirão na propriedade que comprou. Piscinas, jardins italianos, salão de baile... Reforma completa da casa!

- É mais dinheiro que entra na cidade.

O comentário, em tom de inveja e rancor, foi feito pelo outro, um sujeito magro e espigado.

- Sim. Ótimo para Malton-under-Wode. Ótimo! – concordou Mr. Burnaby, exprimindo-se em tom complacente. E depois duma pequena pausa: - Isto vai interessar-nos um pouco.

- Mas é muito diferente de Sir George - lembrou o outro.

- Ah, a culpa foi dos cavalos! Sir George nunca teve muita sorte - disse Mr. Burnaby com indulgência.

- Quanto recebeu ele pela propriedade?

- Nada menos de sessenta mil, pelo que me contaram.

Ante o assobio de surpresa do companheiro, Mr. Burnaby continuou com ar triunfante:

- E dizem que ela pretende gastar outro tanto, antes de dar o serviço por terminado!

- Isso é pecado! - exclamou o homem. – Onde arranjou tanto dinheiro?

- Na América, pelo que ouvi dizer. A mãe era filha única de um desses multimilionários. Como no cinema, hem?

A jovem saiu nesse momento. O homem magro acompanhou com o olhar o carro que se afastava, e resmungou:

- Não acho que esteja certo! Dinheiro e beleza... É de mais! Uma rapariga com uma fortuna dessas não tem o direito de ser bonita. E é bonita de fato!... Tem tudo. Não acho justo...

Trecho da notícia social do Daily Bdague:

 

“Entre as pessoas que ceavam em Chez Ma Tante, notei a linda Linnet Ridgeway. Estavam em sua companhia a Hon. Joana Southwood, Lorde Windlesham e Mr. Toby Bryce. Como ninguém ignora, Miss Ridgeway é filha de Melhuish Ridgeway, que se casou com Ana Hartz. Herdou do avô, Leopoldo Hartz, imensa fortuna. A bela Linnet é a sensação do momento. Corre o boato de que o seu noivado será anunciado brevemente. Não há dúvida que Lorde Windlesham parece muito apaixonado!”

           

- Querida, vai ficar uma maravilha! – exclamou a Hon. Joana Southwood.

Estava no quarto de Linnet Ridgeway, sentada em frente da janela. O seu olhar passou sobre os jardins, indo até ao descampado, com a sua franja azulada, formada pelos bosques.

- Uma perfeição, não é verdade?

Ao dizer isto, Linnet apoiou-se ao parapeito da janela. A expressão do seu rosto era animada, viva, dinâmica. A seu lado, Joana Southwood parecia, até certo ponto, uma criatura apagada: vinte e sete anos, alta, magra, rosto inteligente e sobrancelhas depiladas com originalidade.

- E conseguiu tanto em tão pouco tempo! Contratou muitos arquitetos?

- Três.

- Como são eles? Não creio que jamais tenha conhecido algum.

- Simpáticos. Mas às vezes pouco práticos, pelo que tive ocasião de observar.

- Minha querida, com certeza deu logo remédio a isso! É a pessoa mais prática que conheço.

Houve uma pequena pausa. Joana apanhou o colar de pérolas que estava sobre o toucador e disse:

- Com certeza que são verdadeiras, não é verdade, Linnet?

- Naturalmente!

- Sei que para si é “naturalmente”, minha querida, mas nem toda a gente poderia dizer a mesma coisa. Em geral são cultivadas, ou mesmo uma boa imitação, de Woolworth! Minha querida, são extraordinárias. Tão bem combinadas! Este colar deve valer uma fortuna.

- Um pouco vulgar, na sua opinião?

- Não, de maneira nenhuma. Uma beleza. Quanto vale?

- Mais ou menos cinqüenta mil libras.

- Que dinheirão! Não tem medo de ser roubada?

- Não; uso-o constantemente e, além disso, está no seguro.

- Deixe-me usá-lo até à hora do jantar, sim? Que emoção para mim!

- Claro, se isso lhe causa assim tanto prazer – concordou Linnet, rindo;

- Sabe uma coisa? Às vezes, invejo-a. Você tem tudo na vida. Vinte anos; dona do seu nariz; fortuna enorme; beleza; ótima saúde. Até mesmo inteligência! Quando faz vinte e um anos?

- Em Junho. Darei uma grande festa em Londres, para celebrar a minha maioridade.

- E pretende depois casar-se com Charles Windlesham? Esses insuportáveis cronistas mundanos andam excitadíssimos. E Charles parece deveras apaixonado.

Linnet respondeu, encolhendo os ombros:

- Não sei. Para dizer a verdade, ainda não pensei em casar-me.

- E faz muito bem. As coisas mudam, depois do casamento, não é verdade?

O telefone tocou e Linnet foi atender.

- Sim?

Respondeu-lhe a voz do mordomo:

- Miss de Bellefort deseja falar-lhe. Posso fazer a ligação?

- Bellefort? Sim, naturalmente.

A ligação estabeleceu-se e em seguida ouviu-se uma voz ardente, suave e um tanto ofegante:

- Olá, Miss Ridgeway! Linnet!

- Jackie querida! Há quantos séculos não tenho notícias suas!

- Tem razão; é mesmo uma vergonha. Mas, Linnet, preciso muito de falar consigo.

- Não pode cá vir? Gostaria de lhe mostrar a propriedade... O meu novo brinquedo.

- Pois é justamente o que desejo fazer.

- Então tome um ônibus; ou um automóvel, se achar preferível.

- Está bem. Vou no meu calhambeque. Comprei-o por quinze libras; às vezes, arranca que é uma maravilha! Mas é caprichoso. Se eu não estiver à hora do chá, é porque ele embirrou com alguma coisa. Até já.

Linnet desligou o telefone e aproximou-se novamente de Joana.

- É a minha mais velha amiga, Jacqueline de Bellefort. Estivemos juntas num convento em Paris. Teve o mais incrível azar deste mundo. Seu pai era um conde francês; a mãe, americana-sulista. O pai fugiu com outra mulher, e a mãe perdeu toda a fortuna no pânico de Wall Street. Jackie ficou sem nada. Não sei como se tem arranjado nestes últimos dois anos.

Joana polia as unhas esmaltadas de um rubro vivo. Inclinou a cabeça para ver o efeito, e perguntou, em tom langoroso:

- Minha querida, não acha que vai ser uma maçada? Quando acontece uma infelicidade aos meus amigos, abandono-os imediatamente! Parece falta de coração, mas evita-se assim tanto aborrecimento futuro! Estão sempre a querer dinheiro emprestado, ou então abrem alguma loja, e a gente tem que ir ali comprar os mais pavorosos vestidos deste mundo! Ou ainda dedicam-se a pintar abatjours e a fazer écharpes...

- Quer dizer que, se eu perdesse a fortuna, abandonava-me no dia seguinte?

 - Sim, minha querida, não o nego. Concorde que ao menos sou franca! Só gosto das pessoas que estão por cima. E você verá que o mesmo se dá com quase toda a gente, mas muitos não têm a coragem de confessar a verdade. Dizem apenas: “Francamente, não tolero Fulana, Sicrana, ou Beltrana. Os dissabores fizeram dela uma pessoa tão amarga, tão esquisita, coitadinha!”

- Como é maldosa, Joana!

- Apenas me defendo, como toda a gente.

- Eu não!

- Claro que não! Uma pessoa com os seus rendimentos não precisa de ser sórdida.

- E engana-se a respeito de Jacqueline - protestou Linnet. - Ela não é uma parasita. Tenho querido ajudá-la, mas sempre recusou os meus oferecimentos.

Tem um orgulho enorme.

- Por quê tanta pressa em vir aqui? Garanto que quer alguma coisa.

- Realmente, pareceu-me um tanto agitada - confessou Linnet.

- Jackie sempre foi muito emotiva.

Uma vez, chegou a espetar um canivete...

- Querida, que interessante!

- Num garoto que estava a maltratar um cão. Jackie tentou fazer com que ele parasse com a brincadeira. Não o conseguindo, segurou o garoto e deu-lhe uns açoites. Mas o rapaz era mais forte, e então de repente ela puxou de um canivete e zás! Não imagina que algazarra, depois disso!

- Não duvido. É incrível!

A criada de Linnet entrou neste momento. Pediu licença, foi ao guarda-roupa, tirou dali um vestido e retirou-se.

- Que aconteceu a Marie? - perguntou Joana. - Parece que esteve a chorar.

- Coitada! Lembra-se que lhe contei que ia casar-se com um rapaz que trabalhava no Egito? Como não o conhecesse muito bem, achei melhor tirar algumas informações. Pois vim a saber que tem mulher e três filhos!

- Quantos inimigos você deve ter!

- Inimigos? - perguntou Linnet, admirada.

Joana inclinou a cabeça e acendeu um cigarro.

- Inimigos, minha querida. Você é assustadoramente eficiente. Sabe, melhor do que ninguém, o que deve ser feito.

Linnet exclamou, soltando uma gargalhada.

- Imagine, dizer isso quando eu, afinal, não tenho um único inimigo neste mundo!

Lorde Windlesham estava sentado sob o cedro do jardim, admirando os graciosos contornos de Wode Hall. Nada que desfigurasse a beleza antiga - os novos alçados e pavilhões ficavam para trás, não estragavam a fachada. Quadro de tranqüilidade e beleza, iluminado pelo sol de Outono. E, no entanto, não era Wode Hall que Charles Windlesham via naquele momento, mas uma mansão do tempo de Elisabeth, mais imponente, com uma larga alameda no parque, e um fundo mais sombrio... A sua própria mansão, Charltonbury; e, no primeiro plano, um vulto feminino - uma jovem de cabelos doirados e rosto de expressão ardente... Linnet, como senhora de Charltonbury!

Tinha esperança. A recusa de Linnet não fora absolutamente categórica. Não passara mesmo de um pedido de espera. Pois bem; ele saberia esperar...

Extraordinariamente conveniente essa união. Um casamento rico era, no seu caso, aconselhável, mas não uma necessidade premente, a ponto de obrigá-lo a desdenhar os próprios sentimentos. E amava Linnet. Tê-la-ia desejado para esposa, mesmo que ela fosse paupérrima e não uma das mais ricas raparigas da Inglaterra.

Distraiu-se durante algum tempo com esses agradáveis planos para o futuro. Talvez a restauração da ala oeste, afastada a necessidade de abandonar a caça...

Charles Windlesham continuou a sonhar, ao sol...

Eram quatro horas quando o roadster parou, com um ruído áspero de rodas sobre as pedras da rua e dele desceu uma rapariga. Pequena, delgada e de cabelos negros. Subiu a correr os degraus e puxou o cordão da campainha.

Minutos depois faziam-na entrar na vasta sala de visitas, e um imponente mordomo anunciava, com a costumada e lúgubre entonação:

- Miss de Bellefort.

- Linnet!

- Jackie!

Windlesham afastou-se ligeiramente, observando com ar complacente a impetuosa criaturinha que de braços abertos se atirara sobre Linnet.

- Lorde Windlesham, Miss de Bellefort, a minha melhor amiga - apresentou a dona da casa.

Bonita, achou ele. Não exatamente bonita, mas indubitavelmente atraente, com aqueles olhos enormes e os cabelos negros e ondulados. Lorde Windlesham disse uma ou duas palavras amáveis e depois, sem dar nas vistas, deixou a sós as duas amigas.

Jacqueline gritou, naquele seu modo característico, tão conhecido de Linnet.

- Windlesham? Windlesham? Mas é o rapaz com quem você vai casar-se, pelo que dizem os jornais! Casa, Linnet?

- Talvez - murmurou Linnet.

- Querida, estou tão contente! Ele é simpático.

- Oh, não conte como certo. Ainda não me decidi.

- Claro que não! As rainhas deliberam longamente, antes de escolherem o príncipe consorte.

- Não seja ridícula, Jackie.

- Mas você é uma rainha, Linnet! Sempre o foi. Sa Majesté, la reine Linnette! Linnette, la blonde! E eu... Bom; eu sou a confidente da rainha, a primeira dama de honor.

- Está a dizer tolices, querida. Onde esteve durante tanto tempo? Desapareceu sem uma explicação! E nunca se lembrou de me escrever.

- Bem sabe que detesto escrever. Onde estive? Oh, cem por cento submersa, querida. Em EMPREGOS, sabe disso? Empregos sombrios, com mulheres sombrias!

- Querida, gostaria que...

- Aceitasse a liberalidade da rainha? Pois bem, para ser franca, foi para isso que vim. Não; não para pedir dinheiro emprestado. Ainda não cheguei a esse ponto! Mas vim pedir-lhe um grande favor.

- Diga lá.

- Se é verdade que vai casar-se com esse Windlesham, talvez me compreenda melhor.

- Jackie, não me diga que...

- Sim, Linnet, estou noiva!

- Então é isso! Achei-a excessivamente exuberante. É esse o seu estado habitual, mas hoje pareceu-me mais ainda.

- É como me sinto.

- Fale-me sobre o felizardo.

- Chama-se Simon Doyle. É alto, forte, muito simples e infantil; adorável, enfim! Pobre... Muito pobre. É o que se chama um "gentil-homem" e disso não há dúvida, mas sem dinheiro. A família é de Devonshire. Simon adora o campo e tudo quanto lhe diz respeito. E pensar que passou estes últimos cinco anos num abafado escritório da cidade! Mas agora estão a despedir muitos empregados, e ele viu-se de repente sem colocação. Linnet, eu morro se não me casar com ele! Morro, sim...

- Não seja ridícula, Jackie.

- Mas é verdade. Sou louca por ele. Ele é louco por mim. Não podemos viver um sem o outro.

- Querida"você está verdadeiramente apaixonada!

- Eu sei. É horrível, não é verdade? O amor domina-nos e nada podemos fazer contra isso.

Houve uma pausa. Os olhos dilatados tiveram uma expressão trágica. Jackie estremeceu ligeiramente e continuou:

- Às vezes, tenho medo. Simon e eu fomos feitos um para o outro. Nunca poderei amar outro homem. Preciso que nos ajude, Linnet. Quando me contaram que tinha comprado esta propriedade, tive uma idéia. Ouça: você vai precisar de um administrador, talvez mesmo de dois. Quero que dê o lugar a Simon.

- Oh! - exclamou Linnet, assustada.

Jacqueline continuou vivamente:

- Ele conhece bem o assunto. Foi criado no campo, de modo que sabe dirigir uma propriedade. Além do mais, tem prática bastante de serviço de escritório. Oh, Linnet, você dar-lhe-á o emprego, não é verdade, por minha causa? Se ele não der conta do recado despeça-o. Mas tenho a certeza de que dará. E poderemos viver numa casinha, e você e eu ver-nos-emos muitas vezes. Será maravilhoso...

Jackie levantou-se e insistiu:

- Diga que sim, Linnet. Por favor, diga que sim. Minha querida amiga Linnet, diga que sim!

- Jackie...

- Combinado?

Linnet desatou a rir.

- Ridícula Jackie! Pois bem, traga o seu namorado, deixe-me conversar com ele e discutiremos o assunto.

Jackie avançou para a amiga, beijando-a com exuberância.

- Querida Linnet, você é amiga a valer! Eu sabia-o. Sabia que podia contar consigo, agora e sempre. É a mais adorável criatura deste mundo. Adeus.

- Mas, Jackie, você vai ficar aqui.

- Eu? Oh, não. Vou para Londres e amanhã estarei de volta, com Simon, para decidirmos tudo. Você vai adorá-lo; ele é um amor.

- Mas não pode esperar ao menos para tomar uma chávena de chá?

- Não, não posso, Linnet. Estou muito excitada, aflita para ir contar tudo a Simon. Sei que pareço louca, querida, mas quanto a isso nada posso fazer. O casamento com certeza me curará. Ouvi dizer que ficamos mais ponderadas, depois.

Ao chegar à porta, Jackie pareceu hesitar, depois voltou para dar mais um rápido abraço.

- Querida Linnet, não há ninguém no mundo como você!

M. Gaston Blondin, proprietário do elegante restaurante  Chez Ma Tante, não era homem que desse a muitos dos fregueses a honra da sua companhia. Até as mais belas mulheres, os ricos, os nobres e os afamados, às vezes esperavam em vão por um sinal que os distinguisse. Raramente, e com ar de condescendência, M. Blondin saudava um dos fregueses, acompanhando-o a uma mesa privilegiada e trocando com ele um ou outro discreto comentário.

Mas naquela noite, três vezes M. Blondin exerceu a real prerrogativa. Uma vez, por uma duquesa; outra, por um par do Reino, grande apreciador do turf; e a terceira vez por um homenzinho um tanto cômico, de enormes bigodes negros, e que, a julgar pelas aparências, não era pessoa cuja presença pudesse honrar o elegante Chez Ma Tante.

M. Blondin, no entanto, tratou-o com desusada consideração.

Embora ninguém tivesse conseguido mesa durante a última meia hora, de repente e misteriosamente apareceu uma, num dos pontos mais cobiçados. M. Blondin em pessoa acompanhou o recém-chegado, dando mostras de grande empressement.

- Mas, naturalmente, para o senhor sempre haverá mesa, Monsieur Poirot! Desejaria que nos desse essa honra mais frequentemente.

Hercule Poirot sorriu, lembrando-se de certo incidente em que tinham estado envolvidos um cadáver, um criado, M. Blondin e uma belíssima e misteriosa dama.

- É muita gentileza sua, Monsieur Blondin.

- Veio só, Monsieur Poirot?

- Sim, estou só.

- Oh, bem! Jules vai preparar-lhe uma refeição que será um verdadeiro poema; sim, um poema! A companhia das senhoras, por mais encantadoras que elas sejam, tem essa desvantagem: afasta da comida a nossa atenção. Garanto-lhe que vai apreciar o seu jantar, Monsieur Poirot. Agora, quanto ao vinho...

Seguiu-se uma conferência entre técnicos, assistida por Jules, o maitre d'hôtel.

M. Blondin demorou-se alguns segundos, perguntando em tom confidencial:

- Está a tratar de algum caso grave?

- Não, infelizmente - disse Poirot abanando tristemente a cabeça. - Juntei algumas economias e posso agora gozar uma vida de ociosidade.

- Invejo-o, Monsieur Poirot.

- Não, não, seria tolice seguir o meu exemplo. Garanto-lhe que não é agradável como parece... - disse Poirot, com um suspiro. - É bem verdade o que dizem: que o homem foi obrigado a inventar o trabalho para fugir ao esforço de ter que pensar.

M. Blondin ergueu as mãos, num gesto expressivo.

- Mas há tanto que fazer! Viagens...

- Sim, viagens. E não são poucas as que tenho feito. Pretendo visitar o Egito, este Inverno. Dizem que o clima é magnífico! Já é alguma coisa a gente ver-se livre do nevoeiro, dos dias cinzentos, da monotonia da chuva que cai sem cessar.

- Ah, o Egito! - suspirou M. Blondin.

- Pode-se mesmo, creio eu, chegar até lá de comboio, escapando da viagem por mar, com exceção, é lógico, do canal da Mancha.

- Ah, o mar... Não passa bem a bordo?

Hercule Poirot abanou a cabeça, estremecendo ligeiramente.

- Nem eu tão-pouco - confessou M. Blondin. - Curioso, o efeito que tem sobre o estômago.

- Mas sobre alguns estômagos, somente! O balanço não tem efeito nenhum sobre certas pessoas. Parecem até gostar!

- Injustiça de Deus.

M. Blondin sacudiu a cabeça e afastou-se, concentrando-se ainda nesse ímpio pensamento.

Durante esta pequena conversa os criados, de mãos hábeis e movimentos suaves, serviam Poirot. Torradinhas melba, manteiga, balde de gelo, enfim, todos os complementos de uma refeição de primeira.

A orquestra negra rompeu numa orgia de sons altos e discordantes. Londres dançava.

Hercule Poirot pôs-se a observar a sala; a sua mente metódica ia registrando tudo o que via.

Que expressão de cansaço e tédio na maioria dos rostos! Alguns daqueles homens pesadões pareciam, no entanto, divertir-se... Mas na fisionomia dos seus pares notava-se uma expressão de paciente resignação. A gorda mulher de vermelho estava radiante. Indubitavelmente, os obesos tinham alguma compensação na vida... Um prazer, um deleite negado aos de silhueta mais moderna.

Muita gente nova... Alguns com expressão vaga, alguns entendidos; outros, sem dúvida alguma, infelizes. É um absurdo dizer que a juventude é a época da felicidade - juventude, tempo da maior vulnerabilidade!

O olhar de Poirot suavizou-se ao pousar sobre certo par. Muito bem combinado: rapaz alto, de ombros largos; rapariga esbelta e delicada. Dois corpos que se moviam num perfeito ritmo de felicidade – felicidade encontrada no ambiente, na hora, na companhia um do outro.

De súbito, a dança parou. Palmas. Depois o bis, e o par voltou à sua mesa, perto da de Poirot.

A rapariga vinha corada, sorridente. Quando a viu sentada, Poirot estudou-lhe o rosto, ligeiramente erguido para o do companheiro. Havia naqueles olhos alguma coisa mais do que simples expressão de riso.

Hercule Poirot abanou a cabeça.

“Ela ama demais, esta pequena”, pensou ele.

“Não vale a pena. Não, não. É muito perigoso.”

Uma palavra lhe chamou a atenção neste momento: Egito.

Aos seus ouvidos chegaram duas vozes. A da rapariga: ardente, clara, arrogante e com ligeiro sotaque estrangeiro nos rr; a do rapaz: agradável, grave, bem educada.

- Não estou a ser otimista, Simon. Garanto-lhe que Linnet não nos faltará.

- Talvez falte eu.

- Tolice. É justamente o emprego que lhe convém.

- Bom, para ser franco, creio que tem razão... No fundo, não tenho dúvidas quanto à minha capacidade. E hei-de vencer... por sua causa!

A rapariga riu baixinho. Riso de verdadeira felicidade...

- Esperaremos três meses, até termos a certeza de que você não será despedido. E então.

- Então eu aceitá-la-ei como minha legítima esposa; não é assim que se diz?

- E iremos passar a nossa lua-de-mel ao Egito. Pouco importa que fique caro! Conhecer o Egito foi sempre o sonho da minha vida. O Nilo, as pirâmides, a areia...

O rapaz disse, em voz rouca e abafada:

- Veremos tudo isso juntos, Jackie... Juntos. Que maravilha, não acha?

- Não sei... Será tão maravilhoso para você como para mim? O seu amor será tão profundo como o meu?

A voz da jovem tornara-se subitamente áspera, os olhos dela pareciam maiores, com expressão quase receosa.

A resposta foi dada com igual aspereza:

- Não seja absurda, Jackie.

A rapariga repetiu:

- Não sei... - e depois, encolhendo os ombros:

- Vamos dançar.

Hercule Poirot murmurou de si para si:

“Un qui aime et un qui se laisse aimer.” Também eu digo: “Não sei...”

Joana Southwood disse:

- E, com certeza, ele não é lá grande coisa?

- Oh, não creio - respondeu Linnet. – Confio no gosto de Jacqueline.

- Ah, mas em matéria de amor há muito contra-senso!

Linnet abanou a cabeça com impaciência e procurou mudar de assunto.

- Preciso de ir ver Mister Pierce, a respeito daqueles projetos.

- Projetos?

- Sim, algumas cabanas em péssimas condições sanitárias. Pretendo demoli-las, assim que os moradores tiverem saído.

- Você dá provas de um espírito higiênico e humanitário.

- De qualquer maneira, as cabanas teriam que desaparecer, para dar lugar à minha nova piscina.

- Os moradores estão satisfeitos com a idéia?

- Quase todos ficaram encantados. Mas dois ou três não concordaram... procuravam opor dificuldades. Não parecem compreender que as suas condições de vida vão melhorar extraordinariamente.

- Mas você, com certeza, não cedeu?

- Minha querida Joana, creia que a vantagem é toda deles!

- Sim, não duvido. Benefício compulsório. - Joana soltou uma risada ao ver Linnet contrair as sobrancelhas e acrescentou:

- Vamos, confesse, você é uma tirana. Tirana benfeitora, se achar preferível.

- Não sou tirana, de forma alguma.

- Mas gosta que seja feita a sua vontade.

- Nem sempre.

- Linnet Ridgeway, pode olhar-me bem de frente e dizer que já houve uma ocasião em que não tivesse feito exatamente o que desejou fazer?

- Inúmeras.

- Oh, sim, “inúmeras”. Apenas isto; nada de positivo. E não pode citar-me um só exemplo, por maior esforço que faça! O retumbante triunfo! Linnet Ridgeway na sua carruagem dourada!

- Acha que sou egoísta? - perguntou Linnet, bruscamente.

- Não; irresistível, apenas. Efeito da combinação “dinheiro-encanto”. Todos se curvam diante da sua pessoa; aquilo que não pode comprar com dinheiro, adquire-o você com um sorriso. Resultado: Linnet Ridgeway, a Jovem que Possui Tudo.

- Não seja ridícula, Joana!

- E então, não possui tudo?

- Creio que sim... Mas dito desse modo parece repulsivo.

- Claro que é repulsivo! Daqui a alguns anos, com certeza, você vai sentir profundo tédio. Entretanto, goze o seu retumbante triunfo na sua carruagem doirada! Mas às vezes fico a conjeturar o que não acontecerá quando você quiser passar por uma rua onde houver a tabuleta “Trânsito Impedido”.

- Não seja idiota, Joana. - Linnet voltou-se para Lord Windlesham, que acabava de se juntar a elas, e explicou: - Joana está a dizer-me as coisas mais desagradáveis deste mundo.

- Só despeito, querida, só despeito – replicou Joana em tom vago, erguendo-se para sair dali.

Não se desculpou por deixá-los. Percebera o brilho do olhar de Windlesham...

O rapaz nada disse durante alguns minutos. Depois foi direito ao assunto:

- Resolveu alguma coisa, Linnet?

A jovem respondeu lentamente:

- Acha que estou a ser cruel? Talvez que, não tendo a certeza, eu devesse dizer: “Não”...

O rapaz interrompeu-a.

- Não diga isso! Dar-lhe-ei tempo para refletir. Mas creio que poderíamos ser felizes um com o outro.

Linnet respondeu em tom de criança que se desculpa:

- Sabe, estou a divertir-me tanto... principalmente com tudo isto aqui... Em Wode Hall, quero concretizar o meu ideal; acho que está a ficar bonito, não é verdade?

- Lindo. Bem planeado. Tudo perfeito. Você é muito inteligente, Linnet - disse o rapaz. E depois de uma pausa: - Gosta de Charltonbury, não gosta? Naturalmente, precisa de ser modernizada, mas você tem tanto jeito para isso! Seria até uma distração.

- Mas... Naturalmente, Charltonbury é uma maravilha.

Linnet falara com espontaneidade e entusiasmo, mas não pôde deixar de sentir um frio no coração. Pareceu-lhe ter ouvido uma nota discordante, que viera perturbar a completa satisfação que antes sentira.

Naquele momento, não analisou a sensação; mas depois, quando Windlesham entrou em casa, procurou sondar os seus mais recônditos pensamentos.

Charltonbury. Sim, fora isso. Desagradara-lhe a referência a Charltonbury. Mas por quê? A mansão era relativamente famosa. Pertencia à família de Windlesham desde os tempos de Elisabeth. A posição de senhora de Charltonbury era realmente invejável. Windlesham era, incontestavelmente, um dos melhores partidos da Inglaterra.

Claro que ele não podia levar Wode a sério... A propriedade de Linnet não podia ser comparada com a outra. Mas Wode era dela! Linnet vira-a, comprara-a, reformara-a, ali gastando rios de dinheiro. Era a sua propriedade, o seu reino. Perderia o valor, a importância, se Linnet se casasse com Windlesham. Que utilidade podiam ter duas casas de campo? E, das duas, naturalmente Wode Hall é que teria de ser sacrificada.

Ela, Linnet Ridgeway, deixaria de existir. Seria condessa de Windlesham, levando um belo dote a Charltonbury e ao seu dono. Já não seria rainha, mas esposa do rei.

“Estou a ser ridícula”, pensou consigo mesma.

Era curioso, no entanto, como lhe desagradava a idéia de abandonar Wode... E outra coisa também a preocupava.

A voz de Jackie, com aquela estranha entonação: Se não me casar com ele, eu morro! Morro...

Tão decidida, tão atraente. Ela, Linnet, sentiria o mesmo a respeito de Windlesham? Claro que não. Talvez não fosse mesmo capaz de sentimento tão intenso. Devia ser... maravilhoso... sentir assim.

O ruído de um carro ouviu-se, através da janela aberta.

Linnet fez um gesto impaciente. Jackie e o namorado, com certeza. Tinha de ir ao encontro deles.

Estava de pé, à porta da entrada, quando Jacqueline e Simon Doyle desceram do carro.

Jackie correu para a amiga e apresentou:

- Linnet, este é Simon. Simon, aqui está Linnet. É a pessoa mais maravilhosa deste mundo.

Linnet viu um rapaz alto, de ombros largos e olhos de um azul profundo, cabelos castanhos ondulados, queixo quadrado e sorriso franco, talvez mesmo um tanto infantil...

Foi a primeira a saudá-lo. A mão que apertou a sua era firme, quente... Linnet gostou da maneira como ele a olhou - com expressão de ingênua e franca admiração.

Jackie dissera-lhe que a amiga era maravilhosa e não havia dúvida que ele concordava com ela.

Linnet sentiu que o sangue lhe corria mais rápido nas veias; parecia tomada de leve embriaguez...

- Isto aqui não é realmente lindo? - perguntou.

- Entre, Simon, e deixe-me receber dignamente o meu novo administrador.

Ao voltar-se, para conduzi-los, ia pensando:

“Sou imensamente... imensamente feliz. Gosto do namorado de Jackie. Gosto imensamente...”

E depois, com súbita angústia:

“Felizarda, esta Jackie...”

Tim Allerton reclinou-se na cadeira de vime e bocejou, fitando o mar. Depois, olhou de soslaio para a mãe.

Mrs. Allerton era uma senhora de cabelos brancos, de cinqüenta anos, ainda bonita. Procurava disfarçar a imensa afeição que sentia pelo filho, dando aos lábios uma expressão de severidade todas as vezes que olhava para ele. Mas ninguém se iludia com isso, e Tim menos que qualquer outro.

- Gosta de Maiorca, mamã?

- Bem... é barato - ponderou ela.

- E frio... - completou Tim, estremecendo ligeiramente.

Era um rapaz alto, magro, de peito franzino e cabelos negros. A boca tinha uma expressão suave, o olhar era tristonho e o queixo pouco firme. Mãos longas e delicadas.

Ameaçado, anos antes, de tuberculose, nunca fora realmente muito forte. Constava que “escrevia”, mas os amigos dele sabiam tacitamente que as perguntas curiosas sobre as suas produções literárias não eram recebidas com entusiasmo.

- Em que estás a pensar, Tim?

Mrs. Allerton estava alerta. Os olhos de um castanho-escuro brilharam com expressão suspeita.

O rapaz respondeu, sorrindo:

- Estava a pensar no Egito.

- No Egito?

- Sim. Há lá calor a valer. Convidativas areias doiradas. O Nilo. Eu gostaria de subir o Nilo; e a mãe?

- Oh, gostaria! - respondeu ela, secamente. - Mas é uma viagem cara. Não é para aqueles que têm de contar os trocos.

Tim soltou uma gargalhada, ergueu-se e estendeu os braços, parecendo de repente animado, cheio de vida. Quando respondeu, foi em tom excitado, ardente:

- As despesas ficam por minha conta. Sim, querida mamã, não se espante. Uma pequena oscilação no mercado, com resultados absolutamente satisfatórios, como vim a saber hoje de manhã.

- Hoje de manhã? - perguntou Mrs. Allerton em tom brusco. - Tu recebeste apenas uma carta e... - interrompeu-se, mordendo os lábios.

No rosto de Tim surgiu uma expressão ao mesmo tempo divertida e aborrecida. Mas o bom humor saiu vitorioso.

- Era uma carta de Joana! - concluiu ele serenamente. - Acertou, mamã. Que ótimo detetive minha mãe daria! Até mesmo o célebre Hercule Poirot teria que temer pela sua glória, caso se lembrasse de competir com ele.

Mrs. Allerton zangou-se.

- Só porque reconheci a letra...

- E viu que não era do corretor? Tem razão. Para ser exato, foi ontem que recebi dele a comunicação. A letra da pobre Joana realmente chama a atenção... gatafunhos sobre todo o sobrescrito, como se por ele tivesse passeado alguma aranha embriagada.

- Que diz Joana? Alguma novidade? - perguntou Mrs. Allerton, procurando dar à voz uma entonação natural e despreocupada.

A camaradagem entre Tim e sua prima em segundo grau, Joana Southwood, tinha o dom de a irritar. “Não que haja alguma coisa entre eles” – costumava dizer. Tinha a certeza de não existirem motivos para receios. Tim nunca manifestara pela prima um interesse sentimental, e o mesmo se podia dizer de Joana, em relação a ele. A atração mútua parecia ter por base o mesmo gosto pelos potins e um grande número de amigos comuns. Ambos eram sociáveis e gostavam de comentar a vida alheia; Joana era espirituosa, se bem que às vezes um tanto cáustica.

Não era, portanto, o medo de ver o filho apaixonado por Joana que fazia com que Mrs. Allerton se retraísse quando a rapariga estava presente ou quando chegavam cartas dela. Era outro sentimento, difícil de ser definido - talvez que, sem dar por isso, tivesse ciúmes do prazer que Tim parecia sentir na companhia da prima. Ele e a mãe eram tão bons companheiros, que Mrs. Allerton ficava ligeiramente alarmada quando o via interessado por outra mulher. Imaginava também que a sua companhia, em tais ocasiões, poderia constranger as duas pessoas mais jovens. Frequentemente, ia encontrá-los profundamente absortos num assunto, tendo a impressão de que, à sua chegada, a conversa vacilava, e que Tim e Joana procuravam propositadamente fazer que ela ficasse inteirada do assunto, como mandava a boa educação. Não; não havia dúvida de que Mrs. Allerton não apreciava Joana Southwood. Achava-a pouco sincera, afetada e muito superficial, e tinha de fazer um esforço para não manifestar francamente a sua opinião.

Em resposta à pergunta da mãe, Tim tirou a carta do bolso e pôs-se a relê-la. Uma carta longa, conforme observou Mrs. Allerton.

- Pouca coisa - disse Tim. - Os Devenishes estão a divorciar-se. O velho Monty foi preso por estar embriagado quando dirigia o carro. Windlesham foi para o Canadá. Parece que ficou muito abalado, quando Linnet Ridgeway o recusou. Ela vai casar com aquele seu administrador.

- Que coisa esquisita! E ele é algum sujeito impossível?

- Não, em absoluto. É um dos Doyle de Devonshire. Sem dinheiro, naturalmente... e estava noivo de uma das melhores amigas de Linnet. Deixa estar que é forte!

- Não acho isso bonito - declarou Mrs. Allerton, corando.

Tim lançou-lhe um olhar rápido e afetuoso.

- Eu sei que a mãe não aprova o roubo do marido das outras e todas essas histórias.

- No meu tempo, tínhamos, felizmente, as nossas normas! Hoje em dia, os novos pensam que podem andar por aí a fazer o que bem entendem.

- Não “pensam” somente. Fazem-no – declarou Tim, sorrindo.

- Pois acho isso horrível!

Os olhos de Tim tiveram um brilho malicioso.

- Alegre-se, veterana! Talvez eu concorde consigo. Em todo o caso, ainda não me apropriei da esposa ou noiva de ninguém.

- Tenho a certeza de que nunca farias uma coisa dessas - declarou Mrs. Allerton. E acrescentou com certo orgulho:

- Eduquei-te bem de mais para isso.

- Então a glória é sua, e não minha.

Sorriu com ar brincalhão, dobrou a carta e guardou-a de novo no bolso. Mrs. Allerton pensou: “Ele mostra-me todas as cartas que recebe, mas lê-me somente trechos das de Joana.”

Afastou esse pensamento indigno, decidindo-se, como sempre, a agir como a senhora de boa educação.

- Joana está a divertir-se muito?

- Mais ou menos. Pensa em abrir uma pastelaria em Mayfair.

- Está sempre a falar em dificuldades financeiras! - comentou Mrs. Allerton, com uma ponta de despeito. - Mas vai a toda a parte, e sempre admiravelmente bem vestida. Deve gastar um dinheirão em roupas.

- Oh, bom, talvez não as pague - disse Tim. - Não, mamã, não me refiro àquilo que a sua mentalidade burguesa lhe sugere. Falo literalmente: que talvez não pague as suas contas.

Mrs. Allerton suspirou.

- Nunca pude compreender como há gente que consiga fazer isso.

- É um dom especial - declarou Tim. - Quando a pessoa tem gostos extravagantes e nenhuma noção do valor do dinheiro, encontra sempre quem lhe dê crédito ilimitado.

- Sim, mas acaba na Rua da Miséria, como o pobre Sir George Wode.

- A mamã tem um fraco por aquele tratador de cavalos; provavelmente porque ele lhe chamou “botão-de-rosa” em algum baile de 1879.

- Em 1879, eu ainda não tinha nascido! - protestou veemente Mrs. Allerton. - Sir George é um homem muito fino, e não admito que lhes chames tratador de cavalos.

- Ouvi histórias muito esquisitas a respeito dele, contadas por pessoas bem informadas.

- Tu e Joana não têm escrúpulo nenhum de falar da vida alheia; qualquer coisa serve, contanto que seja maldosa.

Tim replicou, erguendo as sobrancelhas:

- Mãe querida, está irritada! Não sabia que apreciava tanto o velho Wode.

- Tu não compreendes que sacrifício deve ter sido para ele vender Wode Hall. Adorava aquela propriedade.

Tim tinha uma resposta na ponta da língua, mas conteve-se. Afinal de contas, quem era ele para julgar os outros? Depois de uma pequena pausa, disse com ar pensativo:

- Sabe uma coisa? Creio que não se engana muito. Linnet convidou-o para ir ver as reformas, e ele recusou grosseiramente.

- Claro. Ela devia ter tido o tacto de não fazer tal convite.

- E acho que o velho lhe guarda rancor. Resmunga consigo mesmo todas as vezes que a vê. Não lhe perdoa ela ter-lhe oferecido um preço exagerado pela mansão em ruínas.

- E não achas isso natural? - perguntou Mrs. Allerton, secamente.

- Para ser franco, não! - replicou Tim. – Para quê viver no passado? Para que continuarmos apegados às coisas que deixaram de existir?

- Com que pretendes substituí-las?

Tim respondeu, encolhendo os ombros:

- Excitação. Novidade. Prazer do imprevisto. Em vez de herdar um inútil pedaço de terra, a satisfação de ganhar dinheiro pelo nosso próprio esforço, com a nossa inteligência e habilidade.

- Enfim, uma bem sucedida transação na Bolsa!

- Porque não? - perguntou Tim, rindo.

- E que dizer de um prejuízo igual?

- Minha mãe, não está demonstrando muito tato com essa sua observação. Além do mais, é pouco apropriada, justamente hoje!... Que me diz da viagem ao Egito?

- Bom, acho que...

Tim interrompeu-a, sorrindo.

- Está combinado, então. Tanto a mãe como eu sempre tivemos vontade de conhecer o Egito.

- Que data sugeres?

- Oh, o mês que vem. Janeiro é a melhor época. Gozaremos da agradável companhia do pessoal deste hotel por mais algumas semanas.

- Tim! - exclamou Mrs. Allerton em tom de censura. E depois, como quem se desculpa: - Prometi a Mistress Leech que tu a acompanharias à polícia. Ela não fala espanhol...

- A respeito daquele anel? - perguntou Tim com uma careta. - O rubi cor de sangue de sua filha? Ainda insiste em dizer que foi roubado? Bom, irei para lhe fazer a vontade, mamã, mas na minha opinião é perder tempo. Só servirá para meter em apuros alguma pobre criada. Tenho a certeza de que lhe vi o anel no dedo naquele dia, quando foi tomar banho no mar. Com certeza caiu-lhe sem que desse por isso.

- Mistress Leech garante que o deixou sobre o toucador.

- Pois não deixou. Vi-o com os meus próprios olhos. Aquela mulher é uma tonta. Qualquer pessoa que se enfia pelo mar dentro em Dezembro, só porque o Sol está a brilhar nesse momento, pode ser qualificada de idiota. Além do mais, as mulheres obesas não têm o direito de se exibir de maillot. É um espetáculo revoltante.

- Creio que devo desistir de tomar banho - murmurou Mrs. Allerton.

Tim replicou, soltando uma gargalhada:

- A mãe? Pode fazer inveja a muita garota de dezoito anos!

Mrs. Allerton suspirou:

- Gostaria que houvesse mais gente nova aqui, para te fazer companhia, Tim.

- Pois eu não - replicou o rapaz, abanando enfaticamente a cabeça. - Damo-nos muito bem, a mãe e eu, e não sinto a falta de outras distrações.

- Mas gostarias que Joana aqui estivesse.

- Pelo contrário - declarou ele com inesperada firmeza. - Nisso engana-se. Joana diverte-me, mas não gosto dela realmente; além do mais, a sua contínua presença irrita-me. Graças a Deus, não está aqui! Não me desagradaria mesmo saber que nunca mais veria Joana em toda a minha vida.

Fez uma pequena pausa e depois murmurou, em tom quase imperceptível:

- Há somente uma mulher no mundo por quem sinto verdadeiro respeito e admiração. E, Mistress Allerton, creio que sabe muito bem a quem me refiro.

A mãe de Tim corou, parecendo um tanto constrangida.

O rapaz concluiu, em tom grave:

- Não há no mundo muitas mulheres realmente corretas. Mas acontece que a mãe é uma delas.

Em Nova Iorque, num apartamento que dava para o Central Park, Mrs. Robson exclamou:

- Mas que maravilha! És realmente uma criatura feliz, Cornélia.

Cornélia Robson corou de prazer. Era uma rapariga alta, desajeitada; os olhos castanhos tinham a expressão submissa do olhar de um cão.

- Oh, será ótimo! - concordou a rapariga.

A velha Miss Van Schuyler inclinou a cabeça, satisfeita com a correta atitude das parentes pobres.

- Sempre sonhei com uma viagem à Europa - suspirou Cornélia.

- Mas nunca pensei que o sonho se realizasse.

- Miss Bowers, naturalmente, irá comigo, como de costume - avisou Miss Van Schuyler. - Mas socialmente acho que a sua companhia deixa um tanto a desejar... Há muitas coisas em que Cornélia me poderá ser útil.

- Terei nisso muito prazer, prima Marie - replicou Cornélia prontamente.

- Bem, bem, então está decidido. Vá agora procurar Miss Bowers, minha querida. É a hora da minha gemada.

A mãe de Cornélia disse, quando a rapariga se retirou:

- Minha cara Marie, fico-lhe realmente grata! Você bem sabe que, na minha opinião, Cornélia sente não ter êxito na sociedade. Isso deve, é lógico, mortificá-la. Se eu estivesse em condições de lhe proporcionar viagens... Mas não ignora qual a nossa situação, depois da morte de Ned.

- Tenho muito prazer em levá-la comigo - declarou Miss Van Schuyler. - Cornélia foi sempre muito serviçal, e é menos egoísta do que as raparigas de hoje.

Mrs. Robson ergueu-se e beijou o rosto amarelo e enrugado da prima rica.

- Fico realmente grata - repetiu, saindo da sala.

Encontrou, na escada, uma mulher de tipo decidido e eficiente. Miss Bowers trazia um copo com um líquido amarelo e espumante.

- Então, Miss Bowers, de abalada para a Europa?

- Sim, Mistress Robson.

- Que viagem agradável!

- Sim, creio que vai ser muito agradável.

- Já esteve no estrangeiro?

- Oh, sim, Mistress Robson. Estive em Paris, no Outono passado, com Miss Van Schuyler. Mas ainda não conheço o Egito.

Mrs. Robson pareceu hesitar.

- Espero que... não haverá... inconveniente - disse, baixando a voz.

Miss Bowers, no entanto, respondeu no tom habitual:

- Oh, não, Mistress Robson. Isso fica por minha conta. Estou sempre de olho aberto.

Mas ainda havia uma expressão preocupada na fisionomia de Mrs. Robson, quando desceu os últimos degraus da escada...

No seu escritório, na parte baixa da cidade, Mr. Andrew Pennington abria a correspondência particular.

De súbito, cerrou o punho, batendo com força sobre a escrivaninha. O rosto enrubescera e duas grossas veias sobressaíam-lhe na testa.

Premiu um botão sobre a escrivaninha e imediatamente surgiu uma elegante estenógrafa.

- Diga a Mister Rockford que venha aqui.

- Sim, Mister Pennington.

Minutos depois, apareceu Sterndale Rockford, sócio de Pennington. Os dois tinham mais ou menos o mesmo tipo. Altos, cabelos grisalhos, fisionomias inteligentes, bem barbeados.

- Que aconteceu, Pennington?

Pennington ergueu os olhos da carta que estava relendo e disse:

- Linnet casou-se.

- Quê?

- Você ouviu o que eu disse! Linnet Ridgeway casou-se!

- Como? Quando? Por que motivo o não soubemos a tempo?

Pennington lançou um olhar ao calendário da escrivaninha e explicou:

- Ainda não estava casada quando escreveu esta carta, mas agora está. Dia 4, de manhã. Hoje, portanto.

Rockford sentou-se de chofre numa cadeira.

- Ufa!... Sem participação, sem nada? Quem é ele?

Pennington consultou novamente a carta.

- Doyle. Simon Doyle.

- Que espécie de sujeito? Já ouvi falar nele?

- Não. Ela não é muito explícita... – declarou Pennington, estudando a letra de caracteres altos e nítidos.

- Tenho a impressão de que há qualquer coisa de esquisito nesta história toda... Mas isso não vem ao caso. O principal é que está casada.

Os olhares de ambos encontraram-se. Rockford inclinou a cabeça, dizendo calmamente:

- O assunto requer estudo.

- Que vamos fazer?

- É o que lhe pergunto.

Ficaram alguns minutos em silêncio. Rockford perguntou, afinal:

- Tem algum plano?

- O Normandie sai hoje - respondeu Pennington lentamente. - Um de nós dois ainda poderia...

- Está louco! Qual é a sua idéia?

 Pennington replicou:

- Esses advogados ingleses... - mas não terminou a frase.

- E então? Está por acaso a pensar em enfrentá-los? Está louco!

- Não, sugiro que você... Ou eu... Que um de nós vá à Europa.

- Mas que idéia é a sua? - perguntou de novo.

Pennington acariciou a carta e replicou:

- Linnet vai passar a lua-de-mel no Egito. Pretende ali ficar um mês ou mais...

- Egito, hem?

Rockford refletiu alguns instantes. Depois ergueu a cabeça e o seu olhar encontrou o do sócio.

 - Egito... É essa a sua idéia?

 - Sim. Um encontro fortuito. A passeio. Linnet e o marido... Atmosfera de lua-de-mel. Não é impossível.

Rockford não pareceu muito convencido.

- Linnet é perspicaz. Se é!... Mas...

- Creio que há maneiras de... Se conseguir – murmurou suavemente Pennington.

De novo, os olhares de ambos se encontraram.

Rockford inclinou a cabeça.

-Está certo, meu rapaz.

Pennington consultou o relógio.

- Teremos de nos apressar... seja qual for o que tiver que partir.

- Vá você - exclamou vivamente Rockford. - Você teve sempre as maiores atenções de Linnet. Tio  Andrew... Aproveite-se disso.

A fisionomia do outro endureceu.

- Espero dar conta do recado.

- Isso é imperativo - declarou Rockford. A situação é crítica...

Ao rapazinho franzino que abrira a porta com ar interrogador, disse William Carmichael:

- Faça o favor de me mandar Mister Jim.

Minutos depois, Jim Fanthorp apareceu, fitando o tio com expressão indagadora.

- Hummmm... Cá está você - grunhiu o velho, erguendo a cabeça.

- Mandou-me chamar?

- Olhe para isto.

O rapaz sentou-se e puxou para mais perto a pilha de papéis, enquanto o outro ficava a observá-lo.

- Então?

A resposta foi imediata:

- Parece-me muito suspeito.

O sócio mais velho da firma Grant & Carmichael grunhiu novamente.

Jim Fanthorp releu a carta aérea que acabara de chegar do Egito.

“... parece o cúmulo escrever de negócios num dia como este. Passámos uma semana em Mena House e fizemos uma excursão a Fayam. Depois de amanhã, vamos subir o Nilo, até Luxor e Assuão; talvez cheguemos até Cartum. Ao entrarmos no escritório da agência Cook, hoje de manhã, para tratar das passagens, imagine quem ali fomos encontrar?!... O meu procurador americano, Andrew Pennington. Creio que você lhe foi apresentado há dois anos, quando ele veio a Inglaterra. Nem por sombras podia eu pensar que viria encontrá-lo no Egipto, e nem ele sabia que eu estava aqui. Nem tão-pouco que eu me casara! A carta que lhe escrevi, contando tudo, deve ter chegado justamente quando ele partiu da América. Também vai subir o Nilo, seguindo o nosso itinerário. Não é extraordinária a coincidência?Muito agradecida por tudo quanto fez por mim em época de tanta balbúrdia...”

Ao notar que o sobrinho se preparava para virar a página,, Mr. Carmichael tirou-lhe a carta das mãos.

- É só isso. O resto não tem importância. Muito bem; que acha você?

O rapaz refletiu alguns segundos.

- Bom... Na minha opinião, não foi coincidência...

O outro aprovou com a cabeça e rosnou:

- Gostaria de ir ao Egito?

- Acha aconselhável?

- Acho que não há tempo a perder.

- Mas eu, por quê?

- Reflita um pouco, meu rapaz, reflita. Nem Linnet nem Pennington o conhecem. Se for de avião, talvez chegue a tempo.

- Eu... Para ser franco, a idéia não me agrada muito. Que devo fazer?

- Use os seus olhos. Os ouvidos. A inteligência... se é que a tem. E, se necessário, aja.

- Eu... a idéia não me agrada.

- Talvez não; mas tem de ser.

- É... necessário?

- Imperativo, na minha opinião – declarou Mr. Carmichael.

Compondo o turbante de fazenda nacional, que usava à volta da cabeça, Mrs. Otterbourne disse em tom lamuriento:

- Não sei por que motivo não vamos para o Egito. Estou farta de Jerusalém.

Ao notar que a filha não fazia comentário algum continuou:

- Podias ao menos responder quando alguém diz alguma coisa.

Mas Rosalie Otterbourne estava atenta ao jornal colocado na sua frente.

Um retrato, e em baixo a notícia:

 

“Mrs. Simon Doyle, que antes do casamento era conhecida como a bela Miss Linnet Ridgeway. Mr. Mrs. Doyle estão a passar a lua-de-mel no Egito..”

 

- Gostaria de ir para o Egito, mamã? - perguntei.

- Gostaria - respondeu bruscamente Mrs. Otterbourne - Acho que nos tratam aqui com muita alegria. Reclamei para o hotel, e espero-me com direito a uma redução nos preços. Quando falei a esse respeito, foram muito impertinentes, mesmo muito. Mas não fiz cerimónia em dizer a opinião que tinha sobre eles!

A rapariga suspirou.

- Um lugar é igual a outro lugar, mamã. Gostaria de partir já.

Mrs. Otterbourne continuou:

- E hoje de manhã o gerente teve o topete de me dizer que todos os quartos estão reservados, e temos de desocupar os nossos nestes dois próximos dias!

- Então vamos para outro lugar. Imediatamente. Estou disposta a lutar pelos direitos.

- Na minha opinião, talvez seja preferível irmos para o Egito - murmurou Rosalie. - Tanto faz aqui como lá.

- Não é realmente uma questão de vida ou de morte. - concordou a outra. Mas nisto ela enganava-se. Era, de fato, uma questão de vida ou de morte.

- Aquele é Hercule Poirot, o célebre detetive – indicou Mrs. Allerton.

Ela e o filho estavam sentados em cadeiras de vime de um vermelho berrante, do lado de fora do Hotel Catarata, em Assuão, e observavam os dois vultos que se afastavam: um homenzinho baixo, que envergava um fato de seda branca, e uma rapariga alta e esbelta.

Tim Allerton endireitou-se na cadeira, com inesperada vivacidade.

- Aquele cômico homenzinho? - perguntou incrédulo.

 - Sim, aquele cômico homenzinho!

- Santo nome de Deus, que está ele a fazer aqui?

A mãe de Tim soltou uma gargalhada.

- Meu caro, não te exaltes dessa forma. Porque será que os homens gostam tanto de crimes? Por mim, detesto romances policiais, e não me dou ao trabalho de os ler. Mas não creio que Poirot esteja aqui por algum motivo especial. Tem ganho muito dinheiro e com certeza viaja para conhecer o mundo.

- Parece que soube escolher a rapariga mais bonita. - Mrs. Allerton inclinou a cabeça de lado, observando novamente os dois vultos. A rapariga era uns dez centímetros mais alta que o companheiro. Andava com elegância, sem se inclinar para a frente, e ao mesmo tempo com rigidez.

- Ela é bonita. com certeza?

Ao fazer a pergunta, Mrs. Allerton lançou ao filho um olhar de soslaio, divertindo-se ao ver o peixe morder a isca.

- Mais do que bonita! É pena estar sempre de mau humor.

- Talvez seja apenas expressão fisionômica, meu filho.

- Um diabrete desagradável, com certeza. Mas bonita, disso não há dúvida.

O alvo desses comentários caminhava ao lado de Poirot. Rosalie Otterbourne revirava na mão a sombrinha e a expressão do seu rosto não desmentia as palavras de Tim. Parecia realmente mal-humorada; estava de sobrancelhas contraídas e a linha rubra dos lábios descaía-lhe nos cantos.

Passaram pelo portão do hotel, voltaram à esquerda e entraram no jardim público.

Hercule Poirot conversava com volubilidade, tendo no rosto uma expressão de beatitude. Estava de fato de seda branca, muito bem passado, chapéu panamá, e levava na mão um vistoso enxota-moscas com cabo de imitação de âmbar.

 -...estou encantado... - dizia ele. - Encantado! Os recifes negros da Elefantina, o sol, os barquinhos no rio. Sim, vale a pena viver.

Fez uma pausa e acrescentou:

- Não é também a sua opinião, mademoiselle?

Rosalie replicou secamente:

- Oh, provavelmente. Mas acho Assuão um lugar lúgubre. O hotel está quase vazio e os hóspedes têm cem anos de idade...

Interrompeu-se, mordendo os lábios.

Os olhitos de Poirot tiveram um brilho malicioso.

- É verdade, sim; estou com um pé na cova.

- Eu... não estava a pensar no senhor - disse a  jovem. - Desculpe-me. Foi pouco delicado da minha  parte.

- Não tem importância. É natural que deseje companheiros da sua idade. Oh, bom; há pelo menos um.

- Aquele que fica sentado ao lado da mãe o tempo todo? Gosto dele... mas acho-o insuportável... tão pretensioso!

 Poirot sorriu.

 - E eu? Sou também pretensioso?

 - Oh, de maneira nenhuma.

Não havia dúvida que ela não estava interessada, mas isso não preocupou Poirot, que, com ar pacatamente satisfeito, comentou:

- O meu melhor amigo diz que sou muito convencido.

- Oh, bom, com certeza o senhor tem motivos para isso - disse Rosalie, num tom vago. - Infelizmente, o crime não me interessa.

Poirot disse com ar solene:

- Alegra-me saber que não tem nenhum segredo horrível a ocultar.

Pelo espaço de um segundo, a máscara entediada da rapariga transformou-se, e ela lançou um rápido olhar ao companheiro. Poirot continuou, sem parecer notar coisa alguma:

- Mademoiselle, sua mãe não compareceu hoje ao almoço. Espero que não esteja indisposta?

- A mamã não tem passado bem - declarou Rosalie secamente. - Darei graças a Deus quando nos formos embora daqui.

- Seremos companheiros de viagem, não é verdade? Faremos juntos a excursão até Uadi Halfa e à Segunda Catarata?

- Sim.

Os dois saíram das sombras do jardim para um poeirento trecho da estrada que marginava o rio. Cinco vendedores de colares, dois de bilhetes postais, três de escaravelhos de gesso e outros ainda destacaram-se de um grupo e acercaram-se deles, em atitude infantilmente esperançosa.

- Quer contas, senhor? Muito bonitas, senhor.

Muito baratas...

- Menina, compre um escaravelho. Veja... grande rainha... muita sorte.

- Veja, senhor... lazúli verdadeiro. Muito bom, muito barato...

- Um passeio de jumento, senhor? Este é muito bom. Jumento Whiskey e Soda, senhor...

- Quer ir às pedreiras de granito, senhor? Este, bom jumento. O outro não presta, cai de vez em quando, senhor...

- Bilhete postal? Bonito... barato...

- Veja, menina... só dez piastras; muito barato... isto é de marfim... Este muito bom enxota-moscas... este, tudo âmbar...

- Vai de barco, senhor? O meu, muito bom...

- Volta para o hotel, senhora? Este, muito bom jumento...

Hercule Poirot fazia gestos vagos, tentando livrar-se do enxame de moscas humanas. Rosalie atravessou o grupo com ar de sonâmbula.

- É melhor a gente fingir que é surda e muda - observou.

A algazarra ainda os acompanhava.

- Bakshish? Bakshish? Hip, hip, hurrah! Muito  bom, muito barato...

Os trapos de cores vistosas que eles vestiam arrastavam-se pitorescamente, e as moscas pousavam nas  pálpebras daqueles homens.

Alguns eram persistentes. Outros conformavam-se, preparando-se para investir contra o próximo turista.

Agora, Poirot e Rosalie faziam a via-sacra das lojas... Aqui, entonação suave e persuasiva...

- Dá-me a honra de visitar hoje a minha loja, senhor? - Deseja este crocodilo de marfim, senhor? - Já esteve na minha loja, senhor? - Mostro-lhe os mais belos artigos...

Entraram na quinta loja e Rosalie comprou vários rolos fotográficos - a finalidade daquele passeio.

Saíram e foram até à margem do rio.

Um dos vapores do Nilo acabava de atracar. Poirot e Rosalie observaram com interesse os passageiros.

- Muitos, não? - comentou a rapariga.

Virou a cabeça ao perceber que Tim Allerton vinha juntar-se-lhes. O rapaz parecia ofegante, como se tivesse caminhado muito depressa.

Continuaram ali durante alguns minutos. Tim foi o primeiro a falar:

- Gente horrível, com certeza - comentou em tom desdenhoso, indicando as pessoas que desembarcavam.

- Em geral são insuportáveis - concordou Rosalie.

Os três tinham o ar superior que assumem as pessoas que já estão num lugar, quando estudam os recém-chegados.

- Olá! - exclamou Tim, com uma nota de súbita excitação na voz: - Macacos me mordam se aquela não é Linnet Ridgeway!

Se Poirot não pareceu interessado, o mesmo não se pode dizer de Rosalie. Inclinou-se para a frente, a expressão entediada desapareceu-lhe do rosto.

- Onde? Aquela de branco?

- Sim, com o rapaz alto. Vão descer agora. O marido, com certeza. Não me lembro do nome dele, neste momento.

- Doyle - informou Rosalie. - Simon Doyle. “Todos os jornais deram a notícia. Ela é riquíssima,” é?

- Uma das raparigas mais ricas de Inglaterra - declarou Tim, animadamente.

Ficaram em silêncio, observando os passageiros que desciam.    Poirot fitou com curiosidade o alvo daqueles comentários.

- É muito bonita - murmurou.

- Algumas pessoas têm tudo - observou Rosalie, num tom amargo.

Havia no seu rosto uma estranha expressão de rancor, enquanto o olhar dela acompanhava a jovem que vinha a descer a escada de bordo.

Linnet Doyle estava tão bem vestida como a principal figura de uma revista ao entrar no palco. Tinha também o aplomb de uma artista famosa. Estava habituada a chamar a atenção, a ser admirada, a ser a primeira, onde quer que aparecesse.

Percebeu os olhares atentos dirigidos à sua pessoa - e ao mesmo tempo quase não os percebeu, pois tais tributos faziam parte da sua vida.

Desceu para a margem, representando um papel, se bem que o representasse inconscientemente. A rica, a bela Linnet Ridgeway, a flor da sociedade, na sua viagem de núpcias. Voltou-se com ligeiro sorriso para o homem a seu lado, fazendo uma observação qualquer. Ele respondeu, e o som da sua voz pareceu interessar Poirot. O olhar do detetive brilhou; as suas sobrancelhas contraíram-se ligeiramente.

O casal passou perto deles. Poirot ouviu Simon Doyle dizer:

- Procuraremos arranjar tempo para isso, querida. Podemos ficar uma semana ou duas, se gostar de estar aqui.

O rosto do rapaz estava voltado para ela. Expressão ardente, adoradora, talvez mesmo um tanto humilde.

Poirot examinou-o com ar pensativo. Ombros largos, rosto bronzeado, olhos azul-escuros, sorriso infantil.

- Um tipo de sorte! - comentou Tim Allerton, ao vê-los passar. - Imagine! Encontrar uma herdeira que não tenha adenóides e pés chatos!

- Parecem muito felizes - disse Rosalie com uma nota de inveja na voz. Disse repentinamente, mas tão baixo que Tim não percebeu o sentido das palavras:

- Não é justo.

Mas Poirot ouviu-a. Continuava de sobrancelhas contraídas, com ar perplexo, mas não deixou de lançar  à companheira um olhar curioso.

Tim disse então:

- Tenho que fazer uma compra para minha mãe.

Tocou no chapéu e afastou-se. Poirot e Rosalie voltaram lentamente para o hotel, afastando do caminho um ou outro vendedor importuno.

- Então não é justo, mademoiselle? – perguntou ele suavemente.

A rapariga corou, encolerizada.

- Não sei o que quer dizer com isso.

- Repito, apenas, o que lhe ouvi dizer em voz baixa há pouco. Oh, disse, sim. Rosalie encolheu os ombros.

 - É realmente de mais para uma pessoa só. Dinheiro, beleza, e porte e... - Interrompeu-se repentinamente.

Poirot sugeriu:

- Amor? Hem, amor? Mas a senhora não sabe. Talvez ele tenha casado só pelo dinheiro!

- Não viu, então, como a olhava?

- Sim, mademoiselle. Vi tudo; até mesmo alguma coisa que a senhora não viu.

- Que foi?

Poirot respondeu lentamente:

- Vi, mademoiselle, linhas escuras sob uns olhos de mulher. Vi as articulações lívidas da mão que segurava uma sombrinha...

- Que quer dizer com isso? - perguntou Rosalie, olhando-o bem de frente.

- Digo que nem tudo o que luz é ouro; digo que, embora aquela senhora seja bela, rica e amada, existe alguma coisa que não vai bem... E ainda mais...

- Sim?

Poirot continuou, franzindo as sobrancelhas:

- Sei que, certa vez, em qualquer lugar, já ouvi aquela voz; a voz de Mister Doyle. E gostaria de saber onde foi!

Mas Rosalie não o ouvia. Parecia subitamente feita  pedra, desenhando com a ponta da sombrinha arabiscos na areia. De repente, explodiu:

- Sou detestável. Uma verdadeira peste. Gostaria de lhe arrancar o vestido e pisar aquele rosto belo e arrogante. Não passo de uma gata invejosa; mas é assim que sinto. Tudo, na atitude dela, indica triunfo, importância, confiança em si.

A explosão pareceu surpreender Poirot. Segurou o braço de Rosalie e sacudiu-a amigavelmente e sem rudeza.

- Tenez... Vai sentir-se melhor por ter dito isso.

- Odeio-a. Nunca pensei que, à primeira vista, fosse possível odiar tanto uma pessoa!

- Magnífico.

Rosalie fitou-o com ar incrédulo. Depois desatou a rir.

- Bien - disse Poirot, rindo também.

Voltaram como bons camaradas para o hotel.

- Preciso ir ver a mamã - disse a jovem ao entrarem no átrio sombrio e fresco.

Poirot dirigiu-se para o terraço que dava para o Nilo. As mesinhas estavam preparadas para o chá, mas ainda era cedo. Ele ficou alguns momentos a olhar o rio, depois foi passear pelo jardim.

Algumas pessoas jogavam tênis, apesar do calor do sol. Poirot parou a observá-las; depois desceu a ladeira.

E ali, sentada numa cadeira que dava para o Nilo, foi encontrar a rapariga que vira em Chez Ma Tante. Reconheceu-a imediatamente. O rosto que vira naquela noite ficara-lhe nitidamente gravado na memória. Mas a expressão era agora bem diversa. Estava mais pálida, mais magra e havia no seu rosto algumas sombras que indicavam cansaço e sofrimento.

Poirot recuou. A jovem não o vira; ele ficou, portanto, a observá-la durante alguns segundos, sem que ela suspeitasse da presença dele. O pezinho batia impacientemente no chão. Os olhos, de estranho brilho, tinham uma expressão de calmo e sombrio triunfo. Ela fitava o Nilo, onde os barquinhos de velas brancas navegavam de um para o outro lado.

Um rosto - uma voz. Lembrou-se então de ambos. O rosto da rapariga; a voz que pouco antes ouvira novamente. A voz de um rapaz em lua-de-mel...

E, enquanto Poirot estava ali, a observar a jovem, deu-se a segunda cena do drama.

Vozes, lá em cima. A rapariga levantou-se de chofre. Linnet Doyle e o marido desciam a ladeira. Linnet parecia feliz, confiante; a expressão tensa, a rigidez dos músculos tinham desaparecido...

A jovem que se erguera tão repentinamente adiantou-se então.

Os outros dois estacaram.

- Olá, Linnet - disse Jacqueline de Bellefort. - Então você está aqui! Os nossos caminhos estão sempre a cruzar-se, não é verdade? Olá, Simon, como vai você?

Linnet recuara, apoiando-se à rocha com uma exclamação. O belo rosto de Simon Doyle teve uma súbita convulsão de cólera. Ele adiantou-se, como se quisesse agredir a esguia criaturinha à sua frente.

Com um rápido movimento de cabeça, qual um passarinho, ela indicou que percebera a presença de uma pessoa estranha. Simon voltou-se e viu Poirot.

Disse então desajeitadamente:

- Olá, Jacqueline. Não esperávamos encontrá-la aqui.

As palavras dele tiveram um som muito pouco convincente.

Os dentes brancos da rapariga reluziram.

- Verdadeira surpresa, hem! - disse ela.

Depois, com uma inclinação de cabeça, pôs-se a subir a ladeira.

Delicadamente, Poirot tomou a direção oposta.

Mas ainda ouviu Linnet dizer:

- Simon... pelo amor de Deus... Simon, que podemos fazer?

 

Terminara o jantar.

Suave a iluminação no terraço do Hotel Catarata, onde, em redor de mesas pequenas, estava a maioria dos hóspedes.

Simon e Linnet Doyle vieram até ali, acompanhados por um senhor distinto, de cabelos grisalhos, rosto barbeado e vivaz de americano.

O grupo hesitou um momento à porta. Tim Allerton ergueu-se e adiantou-se, dizendo amavelmente a Linnet:

- Não se lembra de mim, com certeza. Sou primo de Joana Southwood.

- Naturalmente... Que distração a minha! Tim Allerton, não é verdade? Apresento-lhe meu marido (aqui a voz de Linnet tremeu ligeiramente: orgulho? timidez?). É o meu procurador, na América, Mister Penningson.

Tim cumprimentou os dois homens e disse, voltando-se de novo para Linnet:

- Desejo apresentar-lhe minha mãe.

Minutos depois faziam todos parte de um grupo. Linnet sentara-se a um canto, entre Tim e Pennington cada um deles procurando atrair a sua atenção. Mrs. Allerton conversava com Simon Doyle.

A porta giratória moveu-se. A jovem sentada entre os dois homens teve uma súbita contracção. Mas ficou de novo à vontade, quando viu um homenzinho engraçado, que imediatamente atravessou o terraço.

Mrs. Allerton disse:

- Você não é a única celebridade aqui presente. Aquele cômico homenzinho é Hercule Poirot.

Falara despreocupadamente, apenas por hábito de  sociedade, para quebrar uma pausa constrangedora;  mas a informação pareceu impressionar Linnet.

- Hercule Poirot? Claro que o conheço de nome...

Os olhos dela adquiriram uma expressão abstrata, e os dois homens a seu lado ficaram sem saber o que  dizer.

Poirot aproximou-se do parapeito do terraço, mas a sua companhia foi imediatamente solicitada.

- Sente-se, Mister Poirot. Linda noite, não acha?

- Claro que sim, madame, muito linda – concordou ele, aceitando o convite.

Sorriu amavelmente para Mrs. Otterbourne. Que enorme quantidade de gaze preta, e que ridículo turbante!

Mrs. Otterbourne continuou, na sua voz alta e lamurienta.

- Inúmeras notabilidades aqui, não é verdade?

Com certeza, os jornais dirão alguma coisa a esse respeito. Belezas da sociedade, famosas romancistas... interrompeu-se com um sorriso de falsa modéstia.

Poirot mais sentiu do que viu a contração da rapariga mal-humorada à sua frente.

- Está atualmente a escrever alguma novela, madame? - perguntou ele.

Mrs. Otterbourne esboçou novamente um sorriso desajeitado.

- Ando muitíssimo preguiçosa. Preciso de recomeçar. O meu público está a mostrar-se impaciente, e  o meu editor... pobre homem! Reclamações a cada  correio! Até mesmo telegramas!...

Poirot viu de novo a jovem à sua frente mudar de  posição.

- Não me importo de lhe contar, Mister Poirot. Estou aqui em busca de ambiente, de cor local. Neve em Pleno Deserto! é o título do meu próximo livro. Forte. Sugestivo. Neve... no deserto... derretendo-se  ao primeiro sopro ardente da paixão.

Rosalie ergueu-se, murmurando qualquer coisa, e  dirigiu-se para o jardim imerso em sombras.

- A gente precisa de ser forte – continuou Mrs. Otterbourne, sacudindo enfaticamente o turbante. - Realidade... sim, os meus livros são reais. As bibliotecas podem bani-los... que importa? Digo a verdade. Sexo... Ah! Mister Poirot, porque será que toda a gente tem medo do sexo? O pivot do Universo? Tem lido os meus livros?

- Não, infelizmente, madame!... A senhora compreende; não leio muitos romances. O meu trabalho...

Mrs. Otterbourne disse com firmeza:

- Preciso dar-lhe um exemplar de   Sombra da Figueira. Creio que vai gostar. É cru... mas é real!

- É muita gentileza sua, madame. Terei muito prazer em lê-lo.

Mrs. Otterbourne ficou dois ou três minutos em silêncio, brincando com um longo colar de contas que lhe passava duas vezes pelo pescoço.

Olhou rapidamente de um lado ao outro, murmurando:

- Talvez seja preferível dar um pulo lá acima e trazê-lo.

- Oh, madame, por favor, não se incomode. Mais tarde...

- Não, não é incômodo nenhum - declarou ela erguendo-se. Gostaria de lhe mostrar...

- Que é que sucedeu, mamã? - perguntou Rosalie, reaparecendo inopinadamente.

- Nada, minha querida. Ia apenas buscar um livro para Mister Poirot.

 - Sombra da Figueira? Deixe lá, que eu vou  buscá-lo.

- Tu não sabes onde está.

- Sei, sim.

A rapariga atravessou rapidamente o terraço e entrou no átrio.

- Permita-me que a felicite, madame, pela linda  filha que tem - disse Poirot, inclinando-se galantemente.

- Rosalie? Sim, sim é bonita. Mas é muito dura,  Mister Poirot. E não tem paciência com as pessoas doentes. Acha que tem sempre razão. Pensa que sabe mais a respeito da minha saúde do que eu própria...

Poirot fez sinal a um criado que ia a passar naquele momento.

- Um licor, madame? Chartreuse? Creme de menthe?

Mrs. Otterbourne abanou vigorosamente a cabeça.

- Não, não. Sou francamente pela lei seca. Talvez tenha notado que só bebo água... ou de vez em quando uma limonada. Não suporto nada que tenha álcool.

- Posso então oferecer-lhe uma limonada?

Ela inclinou a cabeça e Poirot encomendou o refresco e um bénéditine.

 A porta girou novamente e Rosalie apareceu, com o livro.

- Aqui está - disse ela em voz inexpressiva.

- Mister Poirot acaba de me oferecer um refresco  - disse a romancista.

- E mademoiselle, que deseja?

- Nada - declarou a rapariga. Ao perceber a falta de gentileza da resposta, acrescentou: - Nada, obrigada.

Poirot aceitou o volume que Mrs. Otterbourne lhe estendia. Tinha ainda a capa original, em cores alegres, onde se via, sentada numa pele de tigre, uma senhora de cabelos cortados e unhas rubras, em trajes de Eva. Em cima, uma árvore com folhas de carvalho, cheia de maçãs enormes e de fantástico colorido. Sombra da Figueira, por Salomé Otterbourne. Dentro, uma nota do editor, referindo-se em termos entusiásticos ao magnífico realismo e coragem daquele estudo da vida amorosa de uma mulher moderna.

Franco, real, verdadeiro - eram os adjectivos empregados.

Poirot inclinou-se, murmurando:

- Sinto-me muito honrado, madame.

Ao erguer a cabeça, os seus olhos encontraram os da filha da autora. Involuntariamente, ele fez um pequeno movimento, não podendo ocultar totalmente a surpresa e a consternação que sentiu ante a eloqüência da dor que aqueles olhos revelavam.

Felizmente, as bebidas chegaram neste momento.

Poirot ergueu galantemente o copo.

- À votre santé, madame, mademoiselle.

Mrs. Otterbourne murmurou, enquanto ia tomando uns goles da limonada:

- Delicioso, tão refrescante!

Depois disso, ficaram em silêncio, fitando os recifes negros e brilhantes. Pareciam fantásticos, ao luar. Como enormes monstros pré-históricos, que tivessem metade do corpo fora da água.

Soprou repentina brisa, que com a mesma pressa desapareceu.

Que impressão de silêncio, de expectativa!...

O olhar de Hercule Poirot examinou o terraço e os seus ocupantes. Estaria enganado, ou também havia aqui a mesma sensação de expectativa? Como no teatro, quando a gente espera a entrada da artista principal...

Neste momento, a porta giratória moveu-se novamente, desta vez como se a pessoa a empurrasse com gesto de estudada importância. A conversa cessou em todas as mesas, os olhares voltaram-se para aquele lado.

Apareceu uma jovem morena e esbelta, de vestido de noite, cor de vinho. Parou por alguns segundos, depois atravessou o terraço com ar decidido e foi sentar-se a uma mesa desocupada. Na sua atitude nada havia de ostensivo, nada fora de propósito, e, no entanto, dera a impressão de uma artista a entrar no palco.

- Ora, ora! - exclamou Mrs. Otterbourne, abanando a cabeça

aprisionada no turbante. - Ela pensa que é alguém, essa pequena!

 Poirot nada disse. Observava... A jovem sentara-se num lugar de onde podia encarar Linnet Doyle. Logo em seguida, a milionária inclinou-se para a frente, disse qualquer coisa e levantou-se, indo sentar-se noutra cadeira. Estava agora de costas para a recém-chegada.

Poirot inclinou a cabeça, pensativo.

Cinco minutos mais tarde, a outra jovem foi sentar-se no lado oposto do terraço. Ali ficou, fumando e sorrindo com serenidade, como se não tivesse uma só preocupação na vida. Mas constantemente, como que inconscientemente, o seu olhar descansava sobre a esposa de Simon Doyle.

Um quarto de hora mais tarde, Linnet ergueu-se bruscamente e entrou no hotel, quase logo seguida pelo marido.

Jacqueline de Bellefort sorriu e fez a cadeira girar para o outro lado. Acendeu um cigarro e pôs-se a contemplar o Nilo. Continuou a sorrir...

 

- Mister Poirot.

 O detetive ergueu-se apressadamente. Continuara sentado no terraço, mesmo depois de o último hóspede se retirar. Imerso em profunda meditação, estivera a contemplar as lisas e brilhantes rochas negras, mas, ao ouvir o seu nome, voltou à realidade.

Chamara-o uma voz bem-educada, firme; e, apesar de ligeiramente arrogante, encantadora.

Voltando-se vivamente, Hercule Poirot encontrou o olhar dominador de Linnett Doyle.

A jovem lançara sobre o vestido de cetim branco uma capa de veludo carmesim: estava tão bela e imponente que Poirot, no seu íntimo, a comparou a uma rainha.

- Estou a falar com Hercule Poirot?

A frase era mais uma afirmação do que uma pergunta.

- Ao seu dispor, madame.

- Talvez saiba quem sou?

- Sim, madame. Disseram-me o seu nome. Sei exatamente quem é.

Linnet inclinou a cabeça, como quem não esperava outra coisa.

- Quer acompanhar-me à sala de jogo, Mister Poirot? Desejo muito falar-lhe - disse ela com aquele seu ar encantadoramente dominador.

- Certamente, madame.

Entraram no hotel, caminhando Linnet um pouco à frente. Quando chegaram à sala de jogo, a jovem fez sinal a Poirot para que fechasse a porta. Sentou-se depois a uma das mesas e o detetive seguiu-lhe o exemplo. Linnet foi direita ao assunto. Nenhuma hesitação. Fluência absoluta.

- Tenho ouvido falar muito do senhor, Mister Poirot, e sei que é um homem muito inteligente. Acontece que preciso de auxílio, e creio que o senhor é a pessoa mais indicada para isso.

Poirot inclinou a cabeça e replicou:

- É muita gentileza sua, madame. Mas, a senhora sabe, estou em férias, e nestas ocasiões não costumo aceitar incumbência alguma.

- Poderíamos chegar a um acordo.

A frase não foi dita de maneira insultuosa - apenas com a entonação de quem está habituada a decidir tudo de acordo com os seus próprios interesses.

Depois de imperceptível pausa, Linnet continuou:

- Mister Poirot, estou a ser vítima de uma intolerável perseguição. É preciso que isso acabe! A minha intenção era ir à polícia, mas meu... meu marido acha que ela nada poderia fazer.

- Talvez possa ser mais explícita? – perguntou Poirot delicadamente.

- Sim, é o que vou fazer. É muito simples.

Ainda nenhuma hesitação, nada de rodeios. Linnet Doyle tinha uma mentalidade de homem de negócios. Fez uma pequena pausa, apenas para poder apresentar os fatos da maneira mais concisa possível.

- Antes de me conhecer, meu marido estava noivo de uma amiga minha, Miss de Bellefort. Simon rompeu o noivado; dois caracteres antagônicos. Lamento dizer que a minha amiga ficou muito abalada. Eu... sinto muito, mas ninguém pode impedir estas coisas. Ela fez... bem, certas ameaças. Pouca atenção dei a essas ameaças, que, sou forçada a confessar, ela não procurou levar a efeito. Em vez disso, adotou o estranho procedimento de... de nos seguir aonde quer que vamos.

Poirot ergueu as sobrancelhas e comentou:

- Vingança um tanto... original.

- Muito original... e completamente ridícula! Mas, ao mesmo tempo... importuna - confessou Linnet, mordendo os lábios.

Poirot inclinou a cabeça em sinal de assentimento.

- Sim, não há dúvida. A senhora, creio eu, está em viagem de núpcias?

- Estou, sim. Aconteceu, primeiro, em Veneza. Lá estava ela, no Danielli. Pensei que fosse apenas coincidência. Situação um tanto constrangedora, mas nada mais do que isso. Depois, fomos encontrá-la a bordo, em Brindisi. Pensamos que estivesse a caminho da Palestina; julgamos tê-la deixado no navio. Mas ao chegarmos a Mena House, lá estava ela, à nossa espera!

- E depois?

- Subimos o Nilo. Eu... tinha quase a certeza de a encontrar a bordo. Não a vendo, julguei que tivesse desistido de agir de maneira tão... tão infantil. Mas quando chegámos aqui... vimos que nos esperava.

Poirot observou Linnet com atenção. Absolutamente senhora de si; mas as articulações da mão que se agarravam à mesa estavam lívidas...

- E tem medo que continue esse estado de coisas?

- Tenho... - disse Linnet. E depois de uma pequena pausa: - Claro que tudo isso é uma infantilidade... Jacqueline está a fazer um papel ridículo. Admiro-me de que não tenha mais orgulho, mais dignidade.

Poirot fez um gesto impulsivo.

- Há ocasiões, madame, em que o orgulho e a dignidade... saltam pela janela! Existem outras... emoções mais fortes.

- Sim, possivelmente - disse Linnet com impaciência. - Mas, francamente, que espera ela lucrar com isso?

- Nem sempre é uma questão de lucro, madame.

Qualquer coisa no tom de Poirot desagradou a Linnet. Ela corou e replicou vivamente:

- Tem razão. Uma discussão sobre os motivos não vem ao caso. O ponto principal é pôr termo a tudo isso.

- E de que maneira pretende consegui-lo, madame?

- Bom... naturalmente, meu marido e eu não podemos continuar a ser vítimas de tal perseguição. Deve haver alguma medida legal contra uma coisa dessas.

Linnet falara com impaciência. Poirot perguntou, fitando-a:

- Ela ameaçou-a, por acaso, em público? Serviu-se de termos insultuosos? Tentou qualquer violência física?

- Não.

- Então, francamente, madame, não vejo o que a senhora possa fazer. A jovem tem prazer em viajar por certos lugares, e esses lugares são os mesmos onde a senhora e seu marido se acham, eh bien, que mal há nisso? O Sol nasce para todos! Ela não procura intrometer-se na sua vida particular? É sempre em público que tais encontros se dão?

- Quer dizer que não há nada que eu possa fazer?

- Perguntou Linnet com incredulidade.

Poirot respondeu serenamente:

- Nada, na minha opinião. Mademoiselle de Bellefort está no seu direito.

- Mas... isto é de enlouquecer! É intolerável! Ver-me obrigada a suportar uma coisa dessas!

Poirot disse secamente:

- Compreendo o seu ponto de vista, madame, principalmente porque não deve estar habituada a suportar coisas que lhe desagradam.

- Deve haver uma maneira de pôr fim a isso - disse Linnet, contraindo as sobrancelhas.

- A senhora poderia partir, procurar outro lugar - sugeriu Poirot, encolhendo os ombros.

- Ela seguir-me-ia.

- Provavelmente.

- Mas é absurdo!

- Exatamente.

- De qualquer maneira, porque hei-de eu... por que havemos nós de fugir? Como se... como se...

Linnet interrompeu-se.

Poirot disse, então:

- Exatamente, madame. Como se... ! Aí é que está a questão, não é verdade?

Linnet ergueu a cabeça e encarou-o.

- Que quer dizer com isso?

Poirot mudou de entonação. Inclinou-se para a frente, perguntando em tom confidencial, muito suave:

- Por que motivo se importa tanto, madame?

- Por quê? Mas é alucinante! Irritante ao máximo! Já lhe disse qual a razão.

Poirot abanou a cabeça.

- Não inteiramente.

- Que quer dizer com isso? - perguntou novamente Linnet.

Poirot apoiou-se ao espaldar da cadeira, dizendo em tom despreocupado, impessoal:

- Escute, madame: vou contar-lhe uma historiazinha. Há um ou dois meses, estava eu num restaurante em Londres. Na mesa pegada à minha, vi duas pessoas, um rapaz e uma rapariga. Pareciam muito felizes, muito apaixonados. Discutiam, confiantes, o futuro. Não que eu seja indiscreto... eles não se preocupavam com quem pudesse ouvi-los. O homem estava de costas para mim, mas podia ver o rosto da rapariga. Ardente. Apaixonado. Aquela jovem amava com o coração, a alma, o corpo; e não era dessas pessoas que amam levianamente e muitas vezes. Via-se claramente que, para ela, era questão de vida ou de morte. Estavam noivos, pelo que pude perceber, e falavam do lugar aonde iam passar a lua-de-mel. O Egito.

Poirot fez uma pausa. Linnet perguntou bruscamente:

- E então?

- Isto foi há um ou dois meses - continuou Poirot. - Mas o rosto da rapariga, não mais o esqueci. Sabia que o reconheceria, se o visse novamente. Lembro-me também da voz do homem. E, madame, creio que não lhe será difícil adivinhar a ocasião em que de novo vi o rosto e ouvi a voz. Aqui, no Egito. O homem, em lua-de-mel, sim; mas em lua-de-mel com outra mulher.

Linnet disse secamente:

- E que tem isso? Já mencionei os fatos.

- Os fatos... sim.

- Então?

Poirot disse lentamente:

- A rapariga do restaurante referiu-se a uma amiga; uma amiga que, tinha ela a certeza, não lhe daria nenhuma decepção. Essa amiga era, creio eu, a senhora.

Linnet corou.

- Sim, eu disse-lhe que éramos amigas.

- E ela tinha confiança na senhora?

- Tinha.

Linnet hesitou por um momento, mordendo impacientemente os lábios. Depois, vendo que Poirot não parecia disposto a falar, continuou:

- Naturalmente, foi um caso lamentável. Mas essas coisas acontecem, Mister Poirot.

- Ah, sim, acontecem, madame. - Fez uma pausa, e depois: - A senhora pertence à Igreja Anglicana, com certeza?

- Realmente - disse Linnet, um tanto perplexa.

- Então deve conhecer certos trechos da Bíblia, que são lidos em voz alta na igreja. Deve ter ouvido falar do rei David, do homem rico que tinha muitos rebanhos e do pobre que só tinha uma ovelha, e como o rico tirou ao pobre essa única ovelha. Foi uma coisa que aconteceu, madame.

Linnet endireitou-se na cadeira e exclamou, os olhos brilhantes de cólera:

- Vejo perfeitamente aonde quer chegar, Mister Poirot! Falando sem rodeios, acha que roubei o namorado à minha amiga. Sob o ponto de vista sentimental, que na minha opinião é o ponto de vista das pessoas da sua geração, talvez isso seja verdade. Mas a fria realidade é diferente. Não nego que Jackie estivesse loucamente apaixonada por Simon, mas não creio que o senhor tenha admitido a hipótese de o mesmo se dar com ele. Gostava muito dela, mas acho que, mesmo antes de me conhecer, ele já começara a compreender que ia cometer um erro, casando-se com Jacqueline. Procure examinar o caso a sangue-frio, Mister Poirot. Simon descobre que é a mim que ama, não a Jackie. Que deve fazer? Ser de uma nobreza heróica e casar-se com uma mulher por quem não tem amor, provavelmente estragando três vidas; pois é duvidoso que nessas circunstâncias pudesse fazer Jackie feliz! Se já estivesse casado quando me conheceu, concordo que talvez fosse seu dever manter-se firme; se bem que nem disso posso ter a certeza! Quando um é infeliz no casamento, também o outro sofre. Mas o noivado não é um laço indissolúvel. Se houver engano, então não há dúvida que é preferível encarar a situação antes que seja tarde de mais. Concordo que foi duro para Jackie; lamento que tenha sido assim; mas, paciência! Foi inevitável.

- Não sei - declarou Poirot.

- Que quer dizer com isso?

- Muito sensato, muito lógico, tudo quanto disse. Mas não explica uma coisa.

- Que coisa?

- A sua atitude, madame. Esta perseguição, a senhora poderia encará-la de dois modos: poderia causar-lhe aborrecimento, sim, ou despertar a sua piedade. Piedade por ver a sua amiga tão profundamente ferida, a ponto de desdenhar todas as convenções sociais. Mas não é essa a sua reacção. Para a senhora, a perseguição é intolerável. E por quê? Por uma razão, apenas; porque a senhora experimenta uma sensação de culpa.

Linnet ergueu-se de chofre.

- Como ousa o senhor? Realmente, Mister Poirot, está a ir longe de mais!

- Mas é que eu ouso, madame! Ouso, sim. Vou falar-lhe com absoluta franqueza. Na minha opinião, embora tenha tentado iludir-se a si própria, a senhora procurou conscientemente suplantar a sua amiga. Na minha opinião, sentiu, desde o princípio, grande atração por Mister Doyle. E houve um momento em que hesitou, quando compreendeu que poderia parar ou continuar. A escolha dependia da senhora, não de Mister Doyle. É bonita, madame, rica, perspicaz, inteligente; e tem encanto. Estava nas suas mãos fazer valer esse encanto, ou limitá-lo. A senhora tem tudo o que o mundo possa oferecer. A vida da sua amiga resumia-se em uma só pessoa. A senhora sabia-o e, embora hesitasse, não ergueu a mão... Ao contrário, estendeu-a, como o rei David, tirando ao pobre a sua única ovelha.

Houve um silêncio. Linnet dominou-se e replicou friamente:

- Isso nada tem com o caso!

- Tem, sim. Estou a explicar-lhe por que motivo as inesperadas aparições de Miss de Bellefort a têm perturbado tanto. É porque (embora o procedimento dela talvez seja pouco feminino e pouco digno) a senhora tem a íntima convicção de que ela está no seu direito.

- Isso não é verdade!

Poirot encolheu os ombros.

- Vejo que insiste em querer iludir-se a si própria.

- Absolutamente.

Poirot disse suavemente:

- Madame, tenho a impressão de que tem tido uma vida feliz e de que a sua atitude para com os outros tem sido sempre generosa e amável.

- Tenho feito o possível para agir assim – disse Linnet.

A cólera impaciente desaparecera-lhe do rosto. A frase fora pronunciada simplesmente, quase com desânimo.

Poirot disse:

- E é por isso que a idéia de ter ferido alguém a perturba tanto, é por isso que tem dificuldade em reconhecer que isto se tenha dado. Perdoe-me se fui impertinente, mas a psicologia é o fator mais importante de um caso.

Linnet replicou lentamente:

- Mesmo supondo-se que seja verdade o que diz (e note que não admito coisa alguma!) que fazer agora? Ninguém pode modificar o passado; temos de encarar as coisas tal qual elas são.

- A senhora raciocina com clareza. É verdade; não se pode alterar o passado. Temos de aceitar as coisas como elas são. E, às vezes, madame, nada mais do que isso podemos fazer: aceitar as conseqüências dos nossos atos passados.

- Quer dizer que não há nada que eu possa fazer? - perguntou Linnet com incredulidade. - Nada?

- Precisa de ter coragem, madame. Pelo menos, é essa a minha opinião.

- Mas o senhor não podia... falar com Jackie... com Miss de Bellefort? Procurar convencê-la?

- Sim, posso fazer isso. Fá-lo-ei, se é esse o seu desejo. Mas não espere grandes resultados. Na minha opinião, Miss de Bellefort está tão obcecada, que nada a demoverá do seu propósito.

- Mas há-de haver alguma coisa que o senhor possa fazer para nos livrar desta perseguição.

- A senhora poderia, naturalmente, voltar a Inglaterra e fixar-se no seu lar.

- Mesmo assim, creio que Jacqueline seria capaz de se instalar na vila, para que eu a visse todas as vezes que pusesse o pé fora da propriedade.

- Tem razão.

- Além do mais, não creio que Simon concorde em fugir.

- Qual a atitude dele, em tudo isto?

- Está furioso. Simplesmente furioso.

Poirot inclinou a cabeça, pensativo. Linnet continuou, em tom suplicante:

- O senhor procurará... falar com ela?

- Falarei, sim. Mas não creio que seja bem sucedido.

Linnet exclamou violentamente:

- Jackie é extraordinária. Ninguém pode prever o que ela fará!

- Falou-me, há pouco, de certas ameaças. Poderá dizer-me que tipo de ameaças?

Linnet encolheu os ombros e respondeu:

- Ela ameaçou... Bom... ameaçou matar-nos a ambos. Jackie, às vezes, demonstra... o seu temperamento latino.

- Compreendo... - disse Poirot, gravemente.

Linnet voltou-se para ele, em tom ardente:

- O senhor agirá por mim?

- Não, madame - respondeu o detetive com firmeza. – Não aceitarei a incumbência. Farei o possível, sob o ponto de vista humanitário. Isso, sim. A situação é difícil, perigosa. Farei o possível para a ajudar, mas repito que não creio muito no êxito.

- Mas não agirá em meu favor? - perguntou Linnet, pesando cada palavra.

- Não, madame - respondeu Hercule Poirot.

 

O detetive encontrou Jacqueline de Bellefort sentada num dos rochedos que davam para o Nilo. Tivera a certeza de que ela não se retirara e que iria encontrá-la em algum ponto, nas imediações do hotel.

Estava com o queixo entre as mãos e não voltou a cabeça quando ouviu passos.

- Mademoiselle de Bellefort? - perguntou Poirot. – Permite que lhe fale por alguns momentos?

Jacqueline voltou ligeiramente a cabeça, com um leve sorriso a brincar-lhe nos lábios.

- Pois não - respondeu. - É Mister Hercule Poirot, creio eu? Posso tentar adivinhar? Vem falar-me em nome de Mistress Doyle, que lhe prometeu principescos honorários, se fosse bem sucedido na sua missão.

Poirot sentou-se num banco, perto dela.

- A sua suposição é, em parte, verdadeira - disse ele sorrindo. - Acabo de ter uma entrevista com Mistress Doyle. Mas não aceitei honorários e, rigorosamente falando, não a represento.

Jacqueline deixou escapar uma exclamação e fitou-o com atenção.

- Então porque veio? - perguntou bruscamente.

Poirot respondeu com outra pergunta:

- Já me tinha visto antes, mademoiselle?

- Não, creio que não.

- Pois eu já a conhecia. Sentei-me a seu lado em Chez Ma Tante. Estava lá com Mister Simon Doyle.

O rosto da jovem transformou-se em máscara inexpressiva.

- Lembro-me daquela noite...

- Desde então, muita coisa aconteceu - disse Poirot.

- Sim, tem razão; muita coisa aconteceu.

A voz da rapariga era dura, com entonação profundamente amarga.

- Mademoiselle, falo como amigo. Enterre os seus mortos!

Ela pareceu sobressaltada.

- Que quer dizer com isso?

- Esqueça-se do passado! Volte-se para o futuro! Aquilo que está feito está feito. A amargura não dará remédio a coisa alguma.

- Isso conviria admiravelmente a Linnet.

Poirot fez um gesto vago.

- Não penso nela neste momento. Estou a pensar em Jacqueline de Bellefort. A senhora sofreu, sim, mas o que está a fazer agora só serve para lhe aumentar o sofrimento.

A jovem sacudiu a cabeça e respondeu:

 - Engana-se. Há ocasiões... em que chego quase a sentir prazer.

- E isso, mademoiselle, é o mais lamentável.

Ela ergueu vivamente o busto.

- O senhor não é tolo - disse. E depois, pesando as palavras: - Creio que é bem-intencionado.

- Volte para casa, mademoiselle. É nova, inteligente... Tem o mundo diante de si.

Jacqueline abanou lentamente a cabeça.

- O senhor não compreende, ou não quer compreender. Simon é o meu mundo.

- O amor não é tudo, mademoiselle - disse Poirot suavemente.

- É só na mocidade que temos essa ilusão.

- O senhor não compreende. - Lançando-lhe um rápido olhar, a rapariga acrescentou: - Sabe de tudo, com certeza? Conversou com Linnet? Simon e eu amávamo-nos.

- Sei que a senhora o amava.

- Simon e eu amávamo-nos. E eu queria muito a Linnet... Confiava nela. Era a minha melhor amiga. Linnet pôde comprar sempre tudo o que quis. Nunca se privou de coisa alguma. Quando viu Simon, desejou-o e apropriou-se dele, simplesmente.

- E ele consentiu em ser comprado?

Jacqueline abanou lentamente a cabecinha negra.

- Não, não foi exatamente isso. Se tivesse sido assim, eu hoje não estaria aqui... Está a insinuar que Simon não merece ser amado... Se se tivesse casado com Linnet por interesse, isso seria verdade; mas não se casou por dinheiro. O caso é mais complicado do que parece. Existe uma coisa chamada deslumbramento, Mister Poirot. E nisso o dinheiro ajuda. Linnet tinha “cambiente”, percebe? Era a rainha de um pequeno reino; mulher de luxo até à ponta dos dedos. Como numa cena de teatro. O mundo a seus pés... Um dos mais ricos e mais cobiçados pares da Inglaterra era pretendente à sua mão. Em vez de aceitá-lo, ela inclinou-se para o obscuro Simon Doyle... Admira-se de que isso lhe tenha subido à cabeça? - Jacqueline fez um gesto brusco: - Olhe a Lua lá em cima. Pode vê-la perfeitamente, não pode? É verdadeira. Mas, se o Sol estivesse a brilhar, não a poderia ver. Foi mais ou menos isso. Eu era a Lua... Quando veio o Sol, Simon não mais me viu... Ficou ofuscado. Nada mais viu, a não ser o Sol: Linnet.

Fez uma pausa, depois continuou:

- Vê, portanto, que foi... deslumbramento. Ela subiu-lhe à cabeça. Além do mais, é absolutamente senhora de si, tem aquele hábito de mandar. Mostra-se tão decidida, tão certa, que faz as outras pessoas terem também certeza. Simon foi... fraco, talvez, mas deve –se levar em conta que é um rapaz muito simples. Ele ter-me-ia amado, e somente a mim, se Linnet não tivesse aparecido, arrebatando-o para a sua carruagem doirada. E eu sei, sei perfeitamente, que nunca a teria amado, se ela não tivesse procurado conquistá-lo.

- Sim, é isso o que a senhora pensa.

- Sei que é a verdade. Ele amava-me: sempre me amará.

- Mesmo agora?

Ela ia responder vivamente, mas conteve-se. Olhou para Poirot, corando violentamente. Voltou o rosto, baixou a cabeça e disse em voz abafada:

- Sim, sei. Agora odeia-me. Sim, odeia-me... Ele que se acautele!

Remexeu rapidamente na bolsa de seda que estava no banco. Depois estendeu a mão. Poirot viu-lhe na destra um revolverzinho de cabo de madrepérola, que mais parecia um brinquedo.

- Bonito, não? - perguntou a rapariga. - Parece muito pequeno para ser verdadeiro, mas é verdadeiro! Uma destas balas dá para matar uma pessoa. E tenho boa pontaria...

 Sorriu como quem se lembra de fatos antigos. - Quando fui com minha mãe para a Carolina do Sul, meu avô ensinou-me a atirar. Ele era daquele tipo que gostava de solucionar as suas rixas à bala, principalmente quando a honra estava em jogo. Também meu pai teve duelos muitas vezes, em novo. Era bom esgrimista. Duma vez, matou um homem, por causa de uma mulher. Vê, portanto, Mister Poirot... - encarou-o bem de frente -...tenho a quem sair! Comprei este revólver quando tudo aquilo aconteceu. Pretendia matar um deles... a dificuldade estava em saber qual! Qualquer serviria. Se eu achasse que Linnet ia ter medo... mas Linnet tem muita coragem física. Foi aí que... achei que podia esperar! A idéia cada vez me seduzia mais. Afinal de contas, eu poderia realizar o meu propósito em qualquer momento; seria mais divertido esperar... e ficar a pensar nisso. E então ocorreu-me esta vingança: segui-los! Onde quer que chegassem, alegres e felizes, iriam encontrar-me! E deu resultado! Atingiu Linnet em cheio, mais do que qualquer outra coisa! Ficou profundamente perturbada. Foi aí que comecei a divertir-me... E não há nada que ela possa fazer! Sou sempre muito amável e delicada! Não há uma palavra a que eles possam agarrar-se! Mas isso está a envenenar-lhes a existência.

Nítida e cristalina, uma gargalhada dela ecoou pela noite dentro.

Poirot segurou-a pelo braço.

- Fique quieta. Quieta!

Jacqueline voltou-se para ele e exclamou:

- Então?

O seu sorriso era de franco desafio.

- Mademoiselle, imploro-lhe, não faça uma coisa dessas.

- Quer que eu deixe em paz a querida Linnet, não é verdade?

- É algo mais profundo do que isso. Não abra ao mal as portas do seu coração.

Ela ficou de lábios entreabertos, uma expressão perplexa surgiu-lhe no olhar.

Poirot continuou, gravemente:

- Porque, se o fizer, o mal atenderá à chamada... Sim, disso não há dúvida. Entrará no seu coração, fazendo dele a sua morada, e passado algum tempo já não será possível expulsá-lo.

Jacqueline fitou-o. O olhar dela pareceu vacilar.

- Não sei... Não sei... - murmurou. E depois, em tom de desafio: - O senhor não me pode impedir.

- Não, não posso - concordou Poirot, tristemente.

- Mesmo que quisesse matá-la... o senhor não poderia impedir-me de o fazer.

- Não, não poderia, se a senhora estivesse disposta a sofrer o castigo.

Jacqueline de Bellefort soltou uma gargalhada.

- Oh, não tenho medo da morte! Afinal de contas, que tenho eu que me prenda à vida? Com certeza acha errado matar uma pessoa que nos prejudicou, mesmo que essa pessoa nos tenha roubado aquilo que mais prezamos no mundo?

Poirot respondeu em tom decidido:

- Sim, mademoiselle. Acho que matar é um crime imperdoável.

Jacqueline riu novamente.

- Então deve aprovar o meu atual plano de vingança. Porque, sabe, enquanto ele der resultado, não usarei esta arma... Mas há ocasiões em que tenho medo; sim, medo. Vejo tudo vermelho à minha frente... quero feri-la... enfiar-lhe uma faca no coração, encostar-lhe o revólver à fronte, apertar o gatilho... Oh!

A exclamação assustou Poirot.

- Que aconteceu, mademoiselle?

Ela voltara a cabeça e o seu olhar perscrutou as trevas.

- Alguém... ali, de pé. Agora já se foi.

Hercule Poirot voltou-se vivamente.

Tudo deserto e silencioso.

- Parece-me que não há ninguém, além de nós, mademoiselle. - Ergueu-se e continuou: - Em todo o caso, já disse tudo quanto tinha para dizer. Desejo-lhe muito boa noite.

Jacqueline também se levantara. Disse em tom quase suplicante:

- O senhor compreende, não compreende?... que não posso fazer o que me pede?

Poirot sacudiu a cabeça e replicou:

- Não! Sei que poderia, se assim o desejasse! Há sempre um momento! A sua amiga Linnet... Houve também um momento em que ela poderia ter estacado... Mas deixou que o momento passasse. E quando uma pessoa faz isso, fica amarrada, e não tem segunda oportunidade.

- Não tem segunda oportunidade... - repetiu Jacqueline.

Ficou pensativa por alguns segundos, depois ergueu a cabeça em atitude de desafio.

- Boa noite, Mister Poirot.

Ele abanou a cabeça tristemente; depois, seguiu-a pelo caminho que levava ao hotel.

 

Na manhã seguinte, quando saía do hotel para ir a pé até à cidade, Poirot viu Simon Doyle aproximar-se.

- Bom dia, Mister Poirot.

- Bom dia, Mister Doyle.

- Vai à cidade? Permite que lhe faça companhia?

 - Pois não! Terei nisso muito prazer.

Os dois homens caminharam lado a lado, passaram pelo portão e ganharam a sombra das árvores. Simon tirou então o cachimbo da boca e disse:

- Creio que minha mulher teve uma conversa com o senhor, ontem à noite, Mister Poirot?

- Realmente.

Simon Doyle estava de sobrancelhas ligeiramente contraídas. Pertencia àquele tipo de homem de ação, que sente dificuldade em exprimir-se com clareza.

- Até certo ponto, fiquei satisfeito - disse ele. - O senhor conseguiu convencê-la de que nada podemos fazer.

- Realmente não existe, neste caso, nenhuma pena imposta pela lei - concordou Poirot.

- Exatamente. Linnet não podia compreender que isso fosse possível - disse Simon sorrindo ligeiramente.

- Foi criada com a idéia de que qualquer dificuldade pode ser solucionada pela polícia.

- Boa coisa, se isso fosse possível - disse o detetive.

Houve uma pausa. De repente, Simon exclamou, uma onda de sangue subindo-lhe ao rosto:

- É... é o cúmulo que ela seja vítima de tal perseguição! Não fez coisa alguma. Vá lá que alguém diga que procedi como um miserável! Com certeza que é verdade. Mas não admito que Linnet seja responsabilizada. Nada teve que ver com o caso.

Poirot inclinou gravemente a cabeça, mas não fez comentário algum.

- O senhor... conversou com Jackie... com Miss de Bellefort?

- Conversei.

- Conseguiu convencê-la a mostrar um pouco mais de bom senso?

- Não o creio.

Simon exclamou em tom irritado:

- Ela não vê que está a fazer um papel ridículo? Não percebe que nenhuma mulher respeitável agiria dessa forma? Não tem um pouco de orgulho, de dignidade?

Poirot replicou, encolhendo os ombros:

- Ela tem apenas... como direi?... a impressão de que foi lesada.

- Está certo, mas, com os diabos, meu amigo, uma rapariga normal não procede desta forma! Confesso que a culpa foi toda minha. Não fui correto nessa história. Acharia compreensível que ficasse aborrecida comigo e nunca mais me quisesse ver... Mas seguir-me por toda a parte é... indecente! Exibindo-se desta maneira! Que espera ganhar com isso?

- Vingança... talvez.

- Tolice! Compreenderia melhor uma atitude melodramática... Se me desse um tiro, por exemplo.

- Acharia isso mais de acordo com o temperamento dela?

- Para ser franco, acharia, sim. É impulsiva, tem um gênio dos diabos. Não me surpreenderia que, sob o domínio da cólera, praticasse um ato de loucura. Mas esta espionagem...

- É mais subtil, sim! Inteligente!

- O senhor não compreende. Isso dá cabo dos nervos de Linnet.

- E os seus?

Simon fitou-o com ar de surpresa.

- Eu?... Gostaria de torcer o pescoço àquela pestezinha.

- Nada ficou, então, do sentimento antigo?

- Meu caro Mister Poirot... não sei como explicar-me... Foi como... como a Lua, quando aparece o Sol. A gente não vê mais nada. Assim que vi Linnet, Jackie deixou de existir.

- Tiens, c'est drôle, ça! - murmurou Poirot.

- Perdão?

- A sua comparação interessou-me, nada mais do que isso.

 Simon corou novamente, dizendo:

- Jackie disse-lhe, com certeza, que me casei com Linnet por interesse. É mentira! Nunca me casaria por dinheiro com mulher alguma. O que Jackie não compreende é que é difícil, para um homem, quando... quando... uma mulher gosta dele como Jackie gostava de mim...

- Ah!... - exclamou Poirot, olhando vivamente para o companheiro.

Simon continuou:

- Parece... Talvez o não deva dizer... mas Jackie gostava demasiado de mim!

- Un qui aime et un qui se laisse aimer - murmurou Poirot.

- Hem? Que foi que disse? O senhor compreende, um homem não quer que a mulher goste mais dele que ele dela. - A voz de Simon tornou-se mais quente, à medida que ele continuava: - Ninguém quer ter a impressão de que é, corpo e alma, propriedade de outra pessoa. Aquela atitude de posse! Este homem é meu; pertence-me! É coisa que não tolero, que homem algum tolera. A gente quer escapar... libertar-se. O homem quer sentir que a mulher lhe pertence, e não ele a ela.

Interrompeu-se e acendeu um cigarro com os dedos ligeiramente trêmulos.

- E era assim que se sentia ao lado de Mademoiselle Jacqueline? - perguntou Poirot.

- Que disse? - exclamou Simon, erguendo os olhos. E depois: - Sim, sim. Para ser franco, foi o que aconteceu. Ela nunca percebeu coisa alguma, é claro, e nem eu podia falar-lhe sobre isso. Mas estava inquieto... e, quando encontrei Linnet, perdi a cabeça! Nunca tinha visto mulher mais linda na minha vida. E tão extraordinária! Toda a gente a fazer-lhe a corte, e ela escolhe um pobre diabo como eu!

A última frase fora dita em tom de ingênua admiração.

- Compreendo - disse Poirot. - Sim, compreendo.

- Por que motivo não pode Jackie aceitar a situação, conformar-se de boa vontade? Afinal de contas, cada um tem que agüentar o que lhe toca neste mundo. Confesso que a culpa foi toda minha. Mas paciência. Acho loucura um homem casar-se com uma mulher a quem deixou de amar. E agora que conheço bem Jackie, que vejo a que extremos pode chegar, compreendo que escapei de boa!

- A que extremos pode chegar... - repetiu Poirot, pensativo.

- Tem alguma idéia do que isso possa ser, Mister Doyle?

Simon fitou-o, sobressaltado.

- Não... ou pelo menos... que quer dizer com isso?

- O senhor sabe que ela tem um revólver?

- Não creio que se sirva dele. Talvez que no princípio... Mas já passou desse ponto. Agora está apenas despeitada, procura importunar-nos.

- Talvez seja apenas isso - disse Poirot, encolhendo os ombros.

- É com Linnet que me preocupo - disse Simon, um tanto desnecessariamente.

- Sim, compreendo.

- Não acredito que Jackie tente qualquer coisa de melodramático, mas esta perseguição está a dar cabo dos nervos de Linnet. Vou contar-lhe a idéia que me ocorreu, e talvez o senhor possa dizer-me se o meu plano deve ser modificado. Para começar, anunciei abertamente que vamos ficar aqui uns dez dias. Mas amanhã o navio Karnak sai de Shellâl para Uadi Halfa. É minha intenção comprar passagens para este vapor, até Philae. A criada de Linnet levará as malas para bordo; nós dois tomaremos o Karnak em Shellâl. Quando Jackie perceber que não voltamos, será tarde de mais... estaremos em plena viagem. Com certeza há-de julgar que fomos para o Cairo. Penso até em dar uma gorjeta ao porteiro para dizer isso. Na agência de turismo, não lhe poderão dar informações, pois os nossos nomes não constarão da lista de passageiros.  Que tal a idéia?

- Não há dúvida que está bem planeado. E se ela resolver esperar aqui?

- Talvez não voltemos. Poderíamos continuar até Cartum, indo depois, de avião, para o Quênia. Ela não nos pode seguir à volta do mundo.

 - Não; há-de chegar a hora em que as dificuldades financeiras a impedirão de continuar. Ouvi dizer que não tem fortuna.

Simon fitou o detetive com admiração.

- Muito bem pensado da sua parte; a idéia ainda não me ocorrera. Jackie é paupérrima.

- E, no entanto, conseguiu segui-los até aqui?

Simon disse, em tom perplexo:

- Ela tem um pequeno rendimento, naturalmente. Pouco menos de duzentas libras por ano, creio eu. Com certeza... sim, com certeza está a gastar o capital, para poder custear estas viagens.

- Quer dizer que chegará o dia em que não terá mais recursos e ficará em absoluta miséria?

- Sim...

Simon remexeu-se, constrangido, como se aquela idéia lhe causasse desconforto. Poirot observava-o atentamente.

- Não, não é uma idéia muito agradável...

- Bom, quanto a isso nada posso fazer! - exclamou Simon colericamente. E depois: - Que tal acha o meu plano?

- Acho que talvez dê resultado. Mas, naturalmente, é uma retirada.

Simon corou violentamente.

- Quer dizer que vamos fugir? Sim, é verdade. Mas Linnet...

Poirot ficou a observá-lo, depois inclinou a cabeça, concordando.

- Como diz, é realmente a melhor solução. Mas lembre-se de que Mademoiselle Jacqueline é inteligente.

Simon replicou sombriamente:

- Algum dia creio que teremos de enfrentar a situação e lutar, de uma maneira ou de outra. O procedimento dela não é nada razoável.

- Razoável, mon Dieu! - exclamou Poirot.

- Não vejo motivo para que uma mulher não proceda como um ser racional - disse Simon com firmeza.

- Às vezes, procedem - replicou Poirot secamente. - E são ainda mais desconcertantes. - Fez uma pequena pausa e acrescentou: - Também estarei a bordo do Karnak. O nosso itinerário é o mesmo.

- Oh!... - Simon hesitou, depois perguntou, parecendo ter dificuldade em exprimir-se: - Não é por nossa causa? Quero dizer, não gostaria que...

Poirot desiludiu-o imediatamente.

- De forma alguma! Já estava resolvido, antes de sair de Londres. Faço sempre os meus planos com antecedência.

- Não vai então de um lugar a outro, conforme a inspiração? Não acha isto muito mais agradável?

- Talvez. Mas para se ter êxito na vida, cada pormenor deve ser estudado de antemão.

Simon soltou uma gargalhada e replicou:

- Com certeza, é assim que procedem os assassinos mais hábeis.

- Sim; se bem que o crime mais perfeito de que tenho lembrança, e um dos mais difíceis de ser descoberto, foi cometido no impulso do momento.

Simon disse, um tanto infantilmente:

- Precisa de contar-nos alguns dos seus casos, a bordo do Karnak.

- Não; poderia acabar por me tornar maçador.

- Isso nunca! O senhor deve ter muita coisa interessante para contar. Pelo menos, é esta a opinião de Mistress Allerton... Está ansiosa pela oportunidade de lhe fazer um interrogatório em regra!

- Mistress Allerton? A senhora de cabelos grisalhos que tem um filho tão delicado.

- Exatamente. Estará também a bordo do Karnak.

- Sabe que o senhor...

- Claro que não! - declarou enfaticamente Simon. – Ninguém sabe de coisa alguma. Parti do princípio que é melhor não confiar em ninguém.

- Ótima medida, que também costumo adotar. Por pensar nisso, a terceira pessoa do seu grupo, aquele senhor de cabelos grisalhos...

- Um pouco estranho, numa viagem de núpcias, não é o que está pensando? Pennington é o procurador de Linnet, na América. Encontrámo-lo, por acaso, no Cairo.

- Ah, verdadeiramente! Permite-me uma pergunta? Sua esposa atingiu já a maioridade?

- Ainda não completou vinte e um anos - respondeu. - Mas não teve que pedir o consentimento de ninguém para se casar comigo. A notícia causou grande surpresa a Pennington. Ele saiu de Nova Iorque no Carmanic, dois dias antes de ter ali chegado a carta onde Linnet lhe participava o nosso casamento. E, portanto, não sabia de nada...

- Carmanic - murmurou Poirot.

- Ficou muito admirado quando nos encontrou no Cairo.

- Foi realmente uma grande coincidência!

- É verdade. Ficamos a saber que pretendia viajar pelo Nilo e, portanto, reunimo-nos; não podíamos, sem indelicadeza, agir de outra forma. Além do mais... Bom, de certo modo, foi até um alívio. - Simon interrompeu-se, parecendo de novo constrangido. - O senhor compreende. Linnet tem andado nervosíssima, esperando ver Jackie surgir a cada momento... Enquanto estávamos sós, este assunto vinha à baila constantemente. A companhia de Andrew Pennington valeu-nos neste sentido: vimo-nos obrigados a falar de outras coisas.

- A sua esposa não se abriu com Mister Pennington?

- Não - disse Simon, em tom ligeiramente agressivo. - É assunto que só a nós diz respeito. Além do mais, quando iniciamos esta viagem pelo Nilo, pensamos que o caso estivesse liquidado.

Poirot abanou a cabeça, dizendo:

- Não, ainda não está liquidado. O fim ainda não está próximo, disso tenho a certeza.

- Sou obrigado a dizer, Mister Poirot, que o senhor não é muito animador.

O detetive encarou-o com ligeira irritação, pensando consigo mesmo: “Este anglo-saxão não leva nada a sério. Continua a ser uma criança”.

Linnet Doyle e Jacqueline de Bellefort levavam ambas o caso muito a sério. Mas na atitude de Simon ele nada mais via do que irritação, impaciência masculina.

- Permite-me uma pergunta indiscreta? A idéia de vir ao Egito foi sua?

Simon respondeu, corando:

- Não, claro que não. Para falar a verdade, teria preferido ir a outra parte qualquer. Mas Linnet fazia grande empenho. E então... então...

Interrompeu-se, sem saber como continuar.

- Naturalmente - disse Poirot, gravemente.

Compreendia que, se Linnet fazia empenho numa coisa, essa coisa tinha de ser feita.

Pensou consigo mesmo: “Ouvi três versões da mesma história. Uma contada por Linnet Doyle, a segunda por Jacqueline de Bellefort, a terceira por Simon Doyle. Qual delas estará mais próxima da verdade?”

 

Mais ou menos às nove horas da manhã seguinte, Simon e Linnet Doyle partiram para a sua excursão a Philae. De uma das varandas do hotel, Jacqueline de Bellefort viu-os partir no pitoresco barquinho de velas brancas. Por este motivo, não viu sair, da frente do hotel, um carro cheio de malas, onde ia sentada uma criada de ar grave e compenetrado. O carro tomou a direcção de Shellâl.

Hercule Poirot resolveu passar na ilha Elefantina, bem defronte do hotel, as duas horas que lhe restavam antes do almoço.

Desceu até ao ancoradouro e reuniu-se aos dois homens que tomavam um dos barcos do hotel. Evidentemente, os dois sujeitos não se conheciam. O mais novo chegara na véspera, de comboio. Alto, de cabelos escuros, rosto magro e queixo belicoso. Usava umas calças de flanela cinzenta, muito sujas, e um pulôver de jogador de pólo, impróprio para aquele clima. O outro era um sujeito de meia-idade, atarracado, que não perdeu tempo a encetar conversa com Poirot, exprimindo-se num inglês um tanto lânguido. Sem tomar parte na conversa, de expressão fechada e sobrancelhas contraídas, o mais novo voltou-lhe as costas, pondo-se a admirar a agilidade com que os barqueiros núbios governavam o barco com os dedos dos pés, enquanto com as mãos manobravam as velas.

O rio estava tranqüilo: viam-se passar os vultos negros dos recifes... A brisa soprava-lhes no rosto. Chegaram à ilha; assim que desembarcaram, Poirot e o seu loquaz companheiro foram diretamente para o museu. A esta altura, o homenzinho oferecera ao detetive o seu cartão de visita, inclinando-se galantemente:

- Signor Guido Richetti, Arqueólogo.

Não ficando atrás em gentileza, Poirot retribuiu a vênia e apresentou também o seu cartão. Satisfeitas as convenções, os dois entraram juntos no museu, mostrando-se o italiano uma fonte de eruditas informações. Agora conversavam em francês.

O rapaz que viera com eles deu, com ar desinteressado, uma volta pela sala, bocejando de vez em quando; depois saiu. Poirot e Richetti acabaram por lhe seguir o exemplo. O italiano pôs-se entusiasticamente a examinar as ruínas, mas Poirot, reconhecendo uma sombrinha de listas verdes, nos recifes perto do rio, fugiu naquela direcção.

Mrs. Allerton estava sentada na rocha, tendo um livro no regaço e um caderno de desenho nas mãos.

Poirot tirou delicadamente o chapéu e Mrs. Allerton puxou logo a conversa.

- Bom dia - disse ela. - Nada mais difícil do que a gente ficar livre desta criançada.

Um bando de pretinhos estava à volta dela, sorridentes, de mão estendidas e implorando bakshish com ar esperançoso.

- Pensei que ficassem cansados de me observar - disse Mrs. Allerton com ar desanimado. - Estão aí há duas horas, e chegaram um a um. De vez em quando, eu empunhava a sombrinha e bradava: Imshi, espalhando-os, por um ou dois minutos; mas voltavam logo, de olhos arregalados, esses olhos nojentos... e narizes ainda mais nojentos! Não creio que goste de crianças, a não ser que estejam mais ou menos limpas e tenham noções elementares de educação.

Ela respirou, riu-se e Poirot, amavelmente, procurou dispersar a petizada, embora sem resultado. Fugiam, mas não tardavam a voltar, formando um círculo à volta deles.

- Se ao menos se pudesse ter um pouco de sossego no Egito, acho que gostaria daqui estar algum tempo! - exclamou Mrs. Allerton. - Mas a gente nunca pode estar realmente só. Vem logo alguém pedir-nos dinheiro, ou oferecer jumentos, ou colares, ou propor excursões às vilas dos nativos, ou seja lá o que for.

- É um grande inconveniente, não há dúvida – concordou Poirot.

Estendeu o lenço no rochedo e sentou-se com muito cuidado.

- Seu filho hoje não lhe faz companhia?

- Não; Tim tem de mandar algumas cartas, antes de partirmos daqui. Vamos à Segunda Catarata, não sabia?

- Eu também vou.

- Oh, que bom! Confesso que estou encantada por conhecê-lo. Estivemos em Maiorca com uma tal Mistress Leech, e ela contou-nos as coisas mais extraordinárias deste mundo a seu respeito, Monsieur Poirot. Perdera no banho de mar um anel de rubi e lamentou que o senhor lá não estivesse para o encontrar.

- Ah, parbleu, não sou nenhuma foca!

Ambos riram. Mrs. Allerton disse então:

- Vi-o da minha janela, hoje de manhã, caminhando ao lado de Simon Doyle. Diga-me: que acha dele? Estamos todos interessadíssimos pelo marido de Linnet Ridgeway.

- Ah, sim?

- É verdade. Talvez o senhor não ignore que o casamento dele com Linnet causou grande surpresa. Pensavam todos que ela ia aceitar Lorde Windlesham, e de repente aparece noiva deste rapaz de que ninguém jamais ouvira falar!

- Conhece-a bem, madame?

- Não, mas uma das minhas primas, Joana Southwood, é uma das suas melhores amigas.

- Ah, sim, tenho lido esse nome nos jornais -disse Poirot. Ficou em silêncio por alguns minutos, depois continuou: - Está muito em evidência, essa Mademoiselle Joana Southwood.

- Oh, Joana sabe fazer reclamo de si própria, disso não há dúvida! - disse secamente Mrs. Allerton.

- Não a aprecia muito, madame?

- A minha observação foi muito pouco caridosa - disse Mrs. Allerton, em tom penitente. - O senhor sabe, tenho ideias antigas, e não gosto dela. Mas Tim e Joana são muito bons amigos.

- Compreendo - disse Poirot.

Mrs. Allerton lançou-lhe um rápido olhar, e resolveu mudar de assunto.

- Há pouca gente nova por aqui! Aquela linda pequena de cabelos castanhos, que tem por mãe a horrível criatura de turbante, é quase a única rapariga que se vê aqui. Notei que o senhor tem conversado muito com ela. Interesso-me por aquela pequena.

- Por quê, madame?

- Tenho pena dela. Como uma pessoa pode sofrer tanto, quando é nova e sensível! Creio que ela sofre bastante.

- É verdade; não é feliz, a pobrezinha.

- Tim e eu chamamos-lhe a “pequena amuada”. Tentei uma ou duas vezes conversar com ela, mas tratou-me com absoluta frieza. Parece-me que vai também fazer esta viagem pelo Nilo. Com a convivência, será inevitável uma certa camaradagem, não é verdade?

- É possível, madame.

- Por mim, sou muito sociável; gosto imenso de estudar tipos diferentes. - Fez uma pausa e continuou: - Tim disse-me que essa jovem morena (Miss de Bellefort, creio eu) estava noiva de Simon Doyle. Deve ser constrangedor, um encontro desses.

- Realmente - concordou Poirot.

Mrs. Allerton lançou-lhe um olhar rápido.

- Sabe uma coisa? Talvez seja tolice minha, mas ela amedronta-me. Parece uma criatura tão... ardente.

- Talvez não se engane muito, madame. Uma grande força emotiva é sempre assustadora.

- Também gosta de estudar tipos diversos, Monsieur Poirot? Ou reserva o seu interesse para os grandes criminosos?

- Madame, essa categoria não incluirá muita gente?

Mrs. Allerton pareceu ligeiramente alarmada.

- Fala sério?

- Com o devido incentivo, é claro – terminou Poirot.

- Que, com certeza, varia?

- Naturalmente.

 Mrs. Allerton hesitou, brincando-lhe um sorriso nos lábios.

- Até mesmo eu?

- As mães, madame, são as mais impiedosas, quando os filhos estão em perigo.

- Creio que é verdade - disse gravemente Mrs. Allerton. - Sim, o senhor tem razão.

Ficaram em silêncio por alguns segundos; depois, ela continuou, sorrindo:

 - Procuro imaginar crimes de acordo com o temperamento de cada uma das pessoas do hotel. É muito divertido... Simon Doyle, por exemplo?

Poirot respondeu, sorrindo também:

- Um crime muito simples; um caminho direto para o seu objetivo. Nada de subtilezas.

- E, naturalmente, fácil de ser descoberto?

- Sim. Não seria vergonhoso.

- E Linnet?

- Como a rainha, em Alice, no País das Maravilhas: “Cortem-lhe a cabeça”. E pronto!

- Claro. O divino poder da monarquia! Como no caso da vinha de Naboth... E a rapariga perigosa... Jacqueline de Bellefort? Poderia tornar-se assassina?

Poirot hesitou por um ou dois segundos, depois respondeu sem grande convicção:

- Sim, creio que sim.

- Mas não tem a certeza?

- Não. Ela deixa-me perplexo, aquela pequena.

- Não creio que Mister Pennington fosse capaz de matar, não acha também? Parece tão seco, tão dispéptico, sem sangue nas veias.

- Mas, provavelmente, com um poderoso instinto de conservação!

- Sim, talvez. E a pobre Mistress Otterbourne, com o seu eterno turbante?

- Existe uma coisa que se chama vaidade.

- Como motivo para o assassínio? - perguntou, admirada, Mrs. Allerton.

- Os motivos são às vezes muito banais, madame.

- Quais os principais, Monsieur Poirot?

- Dinheiro, principalmente. Com isto quero dizer "lucro" em toda a extensão da palavra. E há também: vingança, amor, medo... e ódio, simplesmente. E filantropia...

- Monsieur Poirot!

- Oh, sim, madame. Conheci uma pessoa chamada... digamos A... que foi assassinada por B, unicamente para que C fosse beneficiada. Os crimes políticos geralmente podem ser assim classificados. Uma pessoa é considerada nociva à civilização e por esse motivo eliminada. Tais criminosos esquecem-se de que só Deus tem o direito de vida ou morte.

Poirot falara em tom grave. Mrs. Allerton concluiu calmamente:

- Agrada-me essa opinião. Mas, por outro lado, Deus escolhe os seus instrumentos.

- É perigoso pensar assim, madame.

Ela replicou, com entonação menos séria:

- Depois desta conversa, Monsieur Poirot, admiro-me de que ainda haja um ser vivo no mundo.

Levantou-se, acrescentando:

- Temos de voltar. Vamos sair logo depois do almoço.

Quando chegaram ao ancoradouro, viram o rapaz de pulôver de jogador de pólo preparando-se para tomar o seu lugar no barco. O italiano já ali estava instalado. Quando o barqueiro núbio soltou a vela, Poirot procurou, delicadamente, encetar conversa com o desconhecido.

- Há coisas maravilhosas no Egipto, não é verdade?

O rapaz fumava um cachimbo mais ou menos barulhento. Tirou-o da boca e disse, breve e enfaticamente, e, contra a expectativa, em voz muito bem-educada:

- Causam-me nojo.

Mrs. Allerton, interessada, colocou o lorgnon no nariz e fitou-o com ar encantado.

- Sim? E a que se refere? - perguntou Poirot.

- Tome por exemplo as Pirâmides. Grandes blocos de inútil alvenaria, erguidos para satisfazer o despótico egoísmo de um rei obeso. Pense na multidão de homens que suaram e morreram ao construí-las. Fico nauseado quando me lembro do sofrimento e tortura que elas representam.

Mrs. Allerton exclamou alegremente:

- O senhor acharia preferível não haver Pirâmides, nem Paternon, nem belos túmulos e templos, só pela satisfação de saber que as criaturas tiveram três refeições por dia e morreram tranquilamente nos seus leitos !

O rapaz fitou-a de sobrolho carregado.

- Acho que os seres humanos valem mais do que as pedras.

- Mas não duram tanto - observou Poirot.

- Prefiro ver um operário bem alimentado a admirar aquilo a que chamam "obra de arte". O futuro é que tem importância, não o passado.

Isto foi de mais para o Signor Richetti, que rompeu num palavreado difícil de ser compreendido.

O rapaz replicou apaixonadamente, dizendo francamente qual a sua opinião sobre o capitalismo.

Quando terminou o seu discurso, tinham chegado ao cais do hotel.

Mrs. Allerton murmurou animadamente: "Bom, bom" - e desceu imediatamente. O rapaz atirou-lhe um olhar venenoso.

No átrio do hotel, Poirot encontrou Jacqueline de Bellefort, vestida de amazona. A rapariga inclinou-se com um sorriso zombeteiro e disse:

- Vou andar de jumento. Recomenda uma excursão às vilas nativas, Monsieur Poirot?

- É aonde pretende ir, mademoiselle? Eh bien, são pitorescas, mas aconselho-a a não gastar muito dinheiro nas curiosidades locais.

- Que são mandadas daqui para a Europa? Não, não sou assim tão ingênua.

Com uma ligeira inclinação de cabeça, ela saiu para a claridade do Sol, lá fora.

Poirot acabou de arrumar as malas, fácil tarefa, uma vez que as suas roupas estavam sempre na melhor ordem possível. Dirigiu-se em seguida para a sala de jantar.

Depois do almoço, o ônibus do hotel levou até à estação os hóspedes que iam à Segunda Catarata. Tomariam ali o expresso do Cairo a Shellâl.

Iam: Mrs. Allerton e o filho, Poirot, o rapaz de calças de flanela e o italiano. Mrs. Otterbourne e a filha tinham preferido a excursão à represa e a Philae; tomariam o vapor em Shellâl.

O comboio trazia uns vinte minutos de atraso. Mas finalmente chegou. Começou a correria. Carregadores nativos que tiravam as malas das carruagens esbarravam em outros que carregavam a bagagem dos que partiam. Finalmente, um tanto ofegante, Poirot viu-se num compartimento com a sua bagagem, a dos Allerton e outra completamente desconhecida, ao passo que Tim e a mãe tinham ido parar a outra carruagem, com o resto das suas malas.

No compartimento do detective, estava uma senhora idosa, de rosto enrugado, gola alta com barbas, muitos brilhantes nos dedos, e, no rosto, uma expressão de grande desprezo pelo resto da Humanidade.

Lançou a Poirot um aristocrático olhar e entrincheirou-se por detrás de uma revista americana. Em frente dela estava sentada uma jovem grandalhona, um tanto desajeitada. Tinha olhos castanhos, submissos como os de um cão, cabelos em desalinho, e parecia ansiosa por agradar. De vez em quando, a velha levantava o olhar e em tom seco dava-lhe uma ordem qualquer.

- Cornélia, reúna as mantas. Quando chegarmos, tome conta da minha mala. Não permita que ninguém a agarre. Não se esqueça da minha faca de cortar papel.  Viagem curta. Dez minutos depois chegavam ao cais, onde estava atracado o S. S. Karnak. As duas Otterbourne já se encontravam a bordo.

O Karnak era menor do que o Papyrus ou o Lótus, navios da Primeira Catarata, grandes de mais para passar pelos canais da represa de Assuão. Os passageiros subiram para bordo, indo logo procurar as suas acomodações. Como o navio não estava cheio, muitos tinham cabines no tombadilho de passeio. Toda a parte fronteira desse tombadilho era ocupada por um salão envidraçado, onde os passageiros podiam sentar-se para admirar o rio. No tombadilho de baixo, ficava a sala de fumo e o pequeno salão, e no tombadilho inferior a sala de jantar.

Deixando as malas na cabina, Poirot voltou ao tombadilho, para apreciar a partida, indo reunir-se a Rosalie, que estava debruçada na amurada.

- Então vamos para a Núbia! Está contente, mademoiselle?

A jovem respirou profundamente e respondeu:

- Estou, sim; tenho a impressão de que estamos agora realmente longe de tudo.

Fez um gesto com a mão, mostrando o rio na frente deles. Espetáculo em que havia qualquer coisa de selvagem: o lençol de água; os recifes sem vegetação que desciam até à margem; aqui e ali, as ruínas de uma casa abandonada. O cenário tinha um encanto melancólico, sinistro, mesmo.

- Longe das criaturas - acrescentou Rosalie.

- A não ser dos companheiros de viagem, mademoiselle?

Ela encolheu os ombros, dizendo:

- Há qualquer coisa neste país que me faz ficar... má. Tudo o que ferve dentro de mim parece vir à tona... Tudo tão mal distribuído, tão injusto...

- Será? A gente não pode julgar pelas aparências.

Rosalie murmurou:

- Veja as mães de algumas pessoas... e veja a minha. Para ela, não existe outro deus a não ser o Sexo, e Salomé Otterbourne é o seu profeta! - Interrompeu-se. E depois: - Talvez eu não devesse ter dito isto.

Poirot fez um gesto com ambas as mãos.

- Porque não? Estou habituado a ouvir muita coisa. Se, como diz, está fervendo por dentro, como geléia no fogo, eh bien, deixe que a espuma venha à superfície, para que a gente possa também tirá-la com uma colher! - Poirot fez um gesto, de quem atirava qualquer coisa ao rio e acrescentou:

- Pronto, já se foi!

Rosalie não pôde deixar de sorrir.

- Que homem extraordinário é o senhor! - murmurou. De repente contraiu-se e exclamou: - Olhe quem está aqui! Mistress Doyle e o marido! Eu não tinha a menor ideia que também iam fazer esta viagem.

Linnet acabara de sair de uma cabina que ficava na parte central do tombadilho e Simon vinha logo atrás dela. Poirot teve um leve sobressalto ao vê-la aparecer - tão bela, tão senhora de si. Atitude arrogante, feliz. Simon também parecia outra pessoa. A boca rasgava-se-lhe  num sorriso e parecia um colegial satisfeito.

- Que maravilha! - disse, inclinando-se também na amurada. - Acho que vou gostar muitíssimo da viagem: e você, Linnet? Não se tem impressão alguma de viagem de turismo, parece que vamos conhecer o coração do Egito.

Linnet respondeu vivamente:

- Tem razão. É tão... selvagem, se é que me exprimo bem.

Ao dizer isto, passou a mão pelo braço de Simon, e ele apertou-lha carinhosamente.

- Estamos a largar, Lin.

Realmente o navio afastava-se do cais. Tinha começado a viagem de sete dias - até à Segunda Catarata e de novo de volta ao hotel.

Atrás deles, ecoou uma gargalhada cristalina. Linnet deu uma súbita reviravolta. Jacqueline de Bellefort estava ali, tendo no rosto uma expressão zombeteira.

 Olá, Linnet; não pensei que viesse encontrá-la aqui. Julguei tê-la ouvido dizer que ia ficar mais dez dias em Assuão. Que surpresa!

- Você não... não... - balbuciou Linnet. Depois, conseguindo um sorriso convencional: - Nem eu tão-pouco esperava vê-la.

- Não?

Jacqueline afastou-se para o outro lado do navio. A mão de Linnet apertara com força o braço do marido.

- Simon... Simon...

A expressão de prazer desaparecera da fisionomia de Doyle. Via-se que estava furioso. Fechou os punhos, apesar do esforço que fazia para se dominar.

Os dois afastaram-se dali. Embora não voltasse a cabeça, Poirot percebeu algumas palavras soltas.

... Fugir... impossível... poderíamos...

E depois, mais alta, a voz de Doyle, desesperada, mas decidida:

- Não podemos fugir a vida inteira, Linnet: agora, temos que seguir para diante.

Algumas horas mais tarde. Anoitecera. Poirot estava sentado no salão envidraçado, admirando o panorama. O Karnak passava por uma garganta do rio. Os recifes desciam com uma espécie de ferocidade até às águas que corriam entre eles.

Estavam agora na Núbia.

Poirot ouviu um ruído...

Linnet Doyle apareceu a seu lado. Cruzava e descruzava as mãos e Poirot estranhou-lhe a expressão do rosto; de criança assustada e perplexa. Foi ela a primeira a falar:

- Mister Poirot, estou com medo... com medo de tudo. Nunca me senti assim. Estes recifes selvagens, sombrios, nus... Para onde vamos? Que vai acontecer? Tenho medo, repito. Toda a gente me odeia, não sei porquê... fui sempre amável, tenho procurado ajudar os outros... e, no entanto, muita gente me odeia. Excetuando Simon, estou cercada de inimigos. É horrível saber que há quem nos deteste.

- Mas que significa tudo isso, madame?

- Nervos, talvez... mas tenho a impressão do perigo... perigo à minha volta.

Lançou um rápido olhar por sobre o ombro, depois disse bruscamente:

- Como irá acabar tudo isto? Estamos presos aqui. Numa ratoeira. Não há saída nenhuma. Temos de continuar. Eu... não sei onde estou.

Linnet sentou-se numa cadeira a seu lado. Poirot fitou-a gravemente, tendo nos olhos uma expressão compassiva.

Linnet continuou:

- Como pôde ela saber que seguíamos neste navio? Como pôde saber?

Poirot abanou a cabeça e respondeu:

- Ela é inteligente, como a senhora sabe.

- Tenho a impressão de que nunca poderei escapar-lhe.

- Existe uma solução. Admiro-me que ainda não lhe tenha ocorrido... Afinal de contas, no seu caso, madame, o dinheiro é de somenos importância. Porque não tomou o seu dahabiyah particular?

Linnet pareceu ter dificuldade em explicar-se.

- Se tivéssemos sabido... mas naquela ocasião não desconfiávamos de coisa alguma... E é difícil... – Fez uma pausa, e depois com súbita veemência: - Oh, o senhor não conhece metade das minhas dificuldades. Preciso ser diplomata, com Simon... É tão sensível, em matéria de dinheiro. Queria que eu fosse com ele a Espanha... queria pagar sozinho as despesas da viagem de núpcias. Como se isso tivesse importância! Os homens são uns tolos. Simon tem de se habituar a... viver confortavelmente. Só a menção de um dahabiyah o perturbou: despesas desnecessárias e essa história toda. Tenho de educá-lo... aos poucos.

Linnet ergueu os olhos e mordeu os lábios, achando que se excedera nas confidências. Levantou-se, dizendo:

- Tenho de ir vestir-me. Desculpe-me, Mister Poirot, mas parece-me que estive a dizer muitas tolices!

 

Usando um elegante e discreto vestido de noite, de renda preta, Mrs. Allerton desceu para a sala de jantar. O filho encontrou-a à porta.

- Desculpe-me; pensei que estivesse atrasado.

- Onde serão os nossos lugares?

O salão estava repleto de mesinhas. Mrs. Allerton ficou parada, à espera que o Steward, ocupado em acomodar um grupo grande, pudesse vir atendê-la.

- Por pensar nisso, convidei aquele homenzinho, Hercule Poirot, para se sentar à nossa mesa.

- Mamã! - exclamou Tim, parecendo realmente chocado e descontente.

Mrs. Allerton fitou-o, admirada. Em geral, Tim era tão cordato...

- Incomoda-te, meu filho?

- Claro que me incomoda. É um sujeito sem eira nem beira.

- Oh, não, Tim! Não concordo contigo.

- De qualquer maneira, que interesse temos nós em conviver com um desconhecido? Num vaporzinho deste tamanho, é aborrecido! Teremos a companhia dele pela manhã, à tarde e à noite.

- Desculpa-me - disse Mrs. Allerton, parecendo realmente compungida. - Pensei que achasses muito divertido. Mister Poirot, afinal de contas, deve ter tido uma vida cheia de peripécias. E tu gostas de romances policiais!

- Preferia que a mãe não tivesse essas idéias luminosas - resmungou Tim. - Creio que não há agora nada a fazer!

- Para ser franca, não vejo como.

- Oh, bom, então é melhor conformar-me.

O steward aproximou-se, conduzindo-os a uma mesa. No rosto de Mrs. Allerton, havia uma expressão perplexa. Em geral, Tim era muito cordato e bem-humorado. Aquela explosão não estava de acordo com o seu temperamento; ele não sentia a habitual aversão dos Ingleses pelos estrangeiros. Era cosmopolita... "Oh, paciência", pensou ela com um suspiro. "Os homens são incompreensíveis! Até mesmo os mais chegados a nós têm reações imprevistas."

Tinham acabado de se sentar quando Poirot apareceu, atravessando rapidamente a sala. Parou, apoiando a mão no encosto da terceira cadeira.

- Permite, realmente, madame, que me aproveite do seu convite?

- Naturalmente. Sente-se, Mister Poirot.

- É muita gentileza sua.

Mrs. Allerton teve a desagradável impressão de que, ao sentar-se, ele lançara um rápido olhar a Tim, e que o rapaz não conseguira esconder totalmente o descontentamento que sentia.

Mrs. Allerton procurou criar um ambiente agradável. Ao tomarem a sopa, apanhou a lista de passageiros, que estava sobre a mesa.

- Vamos ver quem conhecemos - propôs ela alegremente. – Isto é sempre divertido.

 Começou a ler.

- Mistress Allerton, Mister Tim Allerton. Bom, até aqui não é difícil. Miss de Bellefort. Está na mesa das Otterbourne... Será possível que ela e Rosalie estejam agora a dar-se bem? Em seguida, vem o Doutor Bessner. Quem é este Doutor Bessner?

Ao dizer isto, ergueu os olhos para uma mesa a que estavam sentados quatro homens.

- Na minha opinião, deve ser aquele gordo de bigodinho e cabeça quase rapada - disse Poirot. - Alemão, com certeza. Parece gostar da sopa.

Não havia dúvida que dali podiam ouvir o ruído que o homem fazia ao comer.

Mrs. Allerton continuou a ler.

- Miss Bowers? Vamos adivinhar quem é Miss Bowers? Há três ou quatro mulheres... Bom, por enquanto vamos deixá-la de lado. Mister e Mistress Doyle. São, sem dúvida nenhuma, os mais importantes. Ela é muito bonita, e que maravilhoso vestido que ela tem!

Tim voltou-se ao ouvir o comentário. Linnet, Simon e Pennington ocupavam uma mesa de canto. Linnet estava de branco, tendo como única jóia um colar de pérolas.

- A mim, parece-me um vestido muito simples - disse Tim. - Apenas um pedaço de fazenda com uma espécie de corda na cintura.

- Sim. Uma descrição muito masculina de um modelo de oitenta guinéus.

- Não posso compreender como é que as mulheres pagam tanto pelas suas roupas! - comentou Tim.

- É um verdadeiro absurdo.

Mrs. Allerton continuou a estudar os companheiros de viagem.

- Mister Fanthorp deve ser aquele rapaz sério, que nunca diz uma palavra, e que está à mesa do alemão. Rosto simpático; desconfiado, mas inteligente.

- Sim, o rapaz é inteligente - concordou Poirot.

- Quase não fala, mas ouve atentamente e observa tudo. Os olhos dele não perdem nada... não é do tipo que a gente espera encontrar viajando por prazer nesta parte do Globo. Gostaria de saber o que faz por aqui.

- Mister Ferguson - leu Mrs. Allerton. - Tenho um palpite de que Ferguson é o nosso amigo comunista. Mistress Otterbourne, Miss Otterbourne. Sabemos quem são. Mister Pennington? Aliás: tio Andrew! É um homem bonito...

- Mamã!... - admoestou Tim.

- Acho que é bonito, de uma maneira seca - completou ela. - Queixo um tanto cruel. Com certeza daquele tipo a que se referem os jornais, que especula em Wall Street... Garanto que é riquíssimo! Em seguida: Mister Hercule Poirot, cujas enormes qualidades estão sendo desperdiçadas. Não pode arranjar um crime para Mister Poirot, Tim?

A pilhéria, dita com boa intenção, só serviu para aborrecer mais ainda o rapaz. Contraiu as sobrancelhas e Mrs. Allerton continuou vivamente:

- Mister Richetti. O nosso amigo italiano, o arqueólogo.

Depois, Miss Robson, e finalmente Miss Van Schuyler. Esta última é fácil de adivinhar. A feíssima americana que, com certeza, se julga dona do navio e que provavelmente vai mostrar-se muito esquiva e não dirigir a palavra senão aos muito privilegiados! Mas é extraordinária, sob certo ponto de vista, não é verdade? Uma espécie de objeto antigo... As duas mulheres em sua companhia devem ser Miss Bowers e Miss Robson. Uma delas, a magra de óculos, com certeza é a secretária; a outra, coitada, que parece divertir-se apesar de ser tratada como escrava, deve ser alguma parente pobre. O meu palpite é que Robson é a secretária, e Bowers a parente pobre.

- Engana-se, mamã - declarou Tim, que recuperara o bom humor.

- Como é que o sabes?

- Estava no salão antes do jantar e ouvi a velhota dizer à dama de companhia: "Onde está Miss Bowers? Vá imediatamente chamá-la, Cornélia. " E lá foi a rapariga como um cãozinho obediente.

- Preciso de conhecer Miss Van Schuyler – disse Mrs. Allerton com ar pensativo.

Tim sorriu novamente.

- Ela tratá-la-ia com frieza, mamã.

- Não importa. Prepararei o terreno, sentando-me a seu lado e falando em tom baixo e bem-educado (mas perfeitamente perceptível) de todos os titulares, parentes e amigos nossos, de que me puder lembrar. Creio que uma ligeira referência ao teu primo em terceiro grau, o duque de Glasgow, conseguirá maravilhas.

- Como é pouco escrupulosa, mamã!

Os acontecimentos, depois do jantar, não deixaram de ter o seu lado cômico, para quem gostasse de estudar a natureza humana.

O rapaz socialista (que, conforme julgara Mrs. Allerton, era realmente Mr. Ferguson) retirou-se para a sala de fumar, desdenhando a companhia dos que tinham ido para o salão envidraçado.

Conforme era de esperar, Miss Van Schuyler escolheu o melhor e mais resguardado canto, avançando decidida para a mesa à qual estava sentada Mrs. Otterbourne.

- A senhora há-de desculpar-me, mas creio que deixei aqui o meu tricot.  Diante daquele olhar hipnotizador, a senhora de turbante teve que bater em retirada. Miss Van Schuyler instalou-se ali com a sua comitiva. Mrs. Otterbourne sentou-se perto, de vez em quando aventurando uma ou outra observação, mas foi tratada com tal frieza que teve logo de desistir. Miss Van Schuyler continuou ali sentada, em esplêndido isolamento. Os Doyle procuraram a companhia dos Allerton; o Dr. Bessner ficou ao lado do silencioso Mr. Fanthorp. Jacqueline de Bellefort estava sozinha, com um livro na mão. Rosalie Otterbourne parecia inquieta... Uma ou duas vezes, Mrs. Allerton dirigiu-lhe a palavra, procurando atraí-la para o seu grupo, mas a rapariga respondeu sem a menor cordialidade.

Mr. Poirot passou a noite ouvindo pormenores da carreira literária de Mrs. Otterbourne.

Ao dirigir-se para a sua cabina, naquela noite, Poirot encontrou-se com Jacqueline de Bellefort. A rapariga estava debruçada na amurada. Voltou-se, ao ruído de passos, e Poirot não pôde deixar de notar a expressão de profunda infelicidade do seu rosto. A despreocupação, o malicioso desafio, o sombrio triunfo tinham desaparecido.

- Boa noite, mademoiselle.

- Boa noite, Mister Poirot. - Ela pareceu hesitar, depois perguntou: - Ficou admirado por me ver aqui?

- Não tanto admirado como pesaroso... muito pesaroso - respondeu Poirot em tom grave.

- Quer dizer... pesaroso por minha causa?

- Sim, foi o que eu quis dizer. A senhora escolheu o caminho mais perigoso... Da mesma maneira que nós, neste navio, iniciamos uma viagem, também a senhora partiu numa viagem só sua, navegando por entre escolhos, num rio tormentoso, ao encontro de correntes perigosas e desconhecidas...

- Por que diz tudo isso?

- Porque é verdade... A senhora cortou as amarras que a prendiam à segurança. Duvido que possa agora voltar, mesmo que fosse esse o seu desejo.

- É verdade... - murmurou ela lentamente. E depois, deitando a cabeça para trás: - Oh, bom, cada um de nós tem de acompanhar a sua estrela para onde quer que ela nos conduza.

- Cuidado, mademoiselle, que não seja uma estrela falsa!

Ela deu uma gargalhada e imitou a voz de papagaio dos rapazes que ofereciam jumentos:

- Esta estrela muito má, senhor! Esta estrela cai...

Poirot acabara de pegar no sono, quando um murmúrio de vozes o despertou.

Reconheceu a voz de Simon Doyle, repetindo as mesmas palavras que dissera quando o navio saíra de Shellâl:

- Agora temos de seguir para diante...

“Sim, agora temos de seguir para diante” - murmurou Poirot de si para si.

Não estava nada satisfeito.

 

Na manhã seguinte, o navio chegou cedo a Es-Sebua. Toda sorridente, tendo na cabeça um chapéu de aba larga e esvoaçante, Cornélia Robson foi uma das primeiras a descer. Não era o seu forte fazer pouco dos outros. Tinha bom gênio e estava sempre mais disposta a notar as qualidades do que os defeitos dos outros. Não estremeceu ao ver Poirot, de fato branco, camisa cor-de-rosa, gravata borboleta e chapéu branco, como provavelmente teria estremecido horrorizada a muito aristocrática Miss Van Schuyler.

Enquanto caminhavam lado a lado, por uma avenida ladeada de esfinges, respondeu amavelmente à frase com que ele tentou entabular conversa.

- As suas companheiras não vêm a terra, visitar o templo?

- Bom, a prima Marie, isto é, Miss Van Schuyler, nunca se levanta cedo. Precisa de ter muito cuidado com a sua saúde. E, naturalmente, queria que Miss Bowers, a enfermeira, ficasse para a atender em diversas coisas. Disse também que este não é um dos templos mais interessantes. Mas foi muito amável, permitindo que eu descesse...

- Muito amável - disse Poirot secamente.

A ingênua Cornélia não percebeu a ironia.

- Oh, ela é muito boa. Foi uma maravilha convidar-me para esta viagem. Acho que sou uma criatura de sorte! Nem pude acreditar, quando ela disse à mamã que pretendia trazer-me.

- E tem-se divertido, mademoiselle?

- Oh, muitíssimo. Conheci a Itália: Veneza, Pádua, Pisa. Depois o Cairo... Só no Cairo é que a prima Marie não passou muito bem e eu não pude sair. E agora esta viagem a Uadi Halfa...

Poirot comentou, sorrindo:

- Vejo que tem muito bom gênio, mademoiselle.

Ao dizer isto, olhou pensativo para Rosalie, que caminhava solitária à frente deles.

- É muito bonita, não é? - perguntou Cornélia, acompanhando o olhar do detetive. - Talvez um pouco reservada de mais. Muito inglesa, disso não há dúvida. Mas é menos bonita que Mistress Doyle. Acho que Mistress Doyle é a mulher mais linda, mais elegante que jamais vi na minha vida! E o marido parece adorá-la, não é verdade? Acho aquela senhora de cabelos grisalhos muito distinta. Creio que é prima de um duque. Estava a falar sobre ele, perto de nós ontem à noite. Mas não creio que tenha um título.

E foi falando, até que o dragomano fez sinal para que todos parassem. O homem anunciou:

- Este templo foi dedicado ao deus egípcio Amon e ao deus Sol Ré-Harakhte, que tem por símbolo uma cabeça de gavião...

A voz monótona continuou. O Dr. Bessner, de Baedeker em punho, falava consigo mesmo em alemão. Preferia orientar-se pelo que estava escrito...

Tim Allerton não se reunira ao grupo. E a mãe procurava quebrar a reserva do gélido Mr. Fanthorp. Andrew Pennington, de braço dado com Linnet, ouvia atentamente, parecendo muito interessado nas explicações do guia.

- Um metro e oitenta e cinco centímetros de altura, então? - disse Pennington, admirado. - Parece-me um pouco menos. Que tipo, este Ramsés! Que energia!

- Um bom negociante, tio Andrew – comentou Linnet.

Pennington fitou-a com ar aprovador.

- Está muito bem-disposta, Linnet. Tenho estado preocupado consigo, ultimamente. Andava muito abatida.

Rindo e conversando, o grupo voltou para bordo. De novo o Karnak cortou as águas do Nilo. O cenário era agora menos árido. Havia palmeiras, campos cultivados.

A mudança de panorama pareceu trazer certo alívio à opressão dos passageiros. Tim Allerton recuperara o bom humor. Rosalie estava menos reservada. Linnet parecia quase despreocupada...

Pennington disse-lhe:

- É falta de tacto falar em negócios numa viagem de núpcias, mas há uma ou duas coisas...

- Mas, naturalmente, tio Andrew! – exclamou Linnet, voltando imediatamente a ser mulher de negócios. – O meu casamento traz algumas modificações, é lógico.

- Justamente. Quando lhe convier, queria que assinasse alguns documentos.

- Porque não agora?

Andrew Pennington lançou um olhar à sua volta. Eram os únicos, naquele canto do salão envidraçado. Quase todos estavam fora, no pedaço de tombadilho que ficava entre o salão e as cabinas. Além deles, estavam ali: Mr. Ferguson, tomando cerveja numa mesinha do centro, de pernas estendidas e usando as mesmas pouco limpas calças de flanela, e assobiando nos intervalos entre um gole e outro; Mr. Poirot sentado na parte fronteira, muito atento ao panorama; Miss Van Schuyler, a um canto, lendo um livro sobre o Egito.

- Ótimo - disse Pennington.

Saiu do salão.

Linnet e Simon sorriram um para o outro - sorriso lento, que levou alguns minutos para se definir.

- Tudo bem, querida?

- Sim, tudo bem. Engraçado como já não me sinto atormentada!

Pennington voltou, trazendo consigo uma porção de documentos escritos em letra cerrada.

- Deus do Céu! - exclamou Linnet. – Tenho de assinar tudo isso?

Pennington pareceu compungido.

- Sei que é aborrecido para si, mas eu gostaria que os seus negócios ficassem em ordem. Primeiro, o aluguer da propriedade da Quinta Avenida... Depois a concessão daqueles terrenos no Oeste...

Continuou falando, enquanto ia pondo em ordem os papéis.

Simon bocejou.

Nisto, a porta que dava para o tombadilho abriu-se e Mr. Fanthorp apareceu. Examinou o salão com ar despreocupado, dirigindo-se em seguida para onde estava Poirot, ali ficando a apreciar as águas azuladas e a areia amarela...

...assine aqui - concluiu Pennington, estendendo uma folha de papel sobre a mesa e indicando um espaço em branco.

Linnet pegou no documento e começou a lê-lo.

Voltou de novo à primeira página; depois pegou na caneta que Pennington colocara sobre a mesa e assinou:

- Linnet Doyle...

Pennington afastou o papel e apresentou-lhe outro.

Fanthorp encaminhou-se despreocupadamente para aquele lado. Olhou pela janela lateral, como se qualquer coisa na margem lhe tivesse chamado a atenção.

- É apenas a transferência - disse Pennington a Linnet. - Não precisa de ler.

Mas Linnet examinou rapidamente o documento. Pennington estendeu outra folha, que Linnet leu com atenção.

- Está tudo em perfeita ordem - declarou o americano. – Nada de interessante. Terminologia legal, apenas.

Simon bocejou novamente, dizendo:

- Minha querida, não vai ler tudo isso, pois não? Levará até à hora do almoço, ou talvez mais.

- Leio sempre tudo até ao fim - disse Linnet. - Aprendi isto com meu pai. Ele dizia que às vezes podia haver um engano involuntário.

Pennington disse, com uma gargalhada um tanto áspera:

- A senhora teve sempre boa cabeça para os negócios, Linnet.

- É muito mais cautelosa do que eu - disse Simon, rindo. - Nunca li um documento na minha vida! Assino onde me mandem assinar, na linha de pontinhos, e pronto!

- É um desleixo - reprovou Linnet.

- Não tenho feitio para negócios - disse Simon jovialmente. - Nunca tive. Dizem-me para assinar e eu assino. É muito mais simples.

Andrew Pennington fitava-o, pensativamente. Disse em tom seco, acariciando o lábio superior:

- Um tanto arriscado, às vezes, não, Doyle?

- Tolice! Não sou destes sujeitos que acham que toda a Humanidade está pronta a passar-nos a perna. Sou uma criatura confiante, sabe, e acho que vale a pena, pois quase nunca me arrependo.

De repente, com grande surpresa de todos, o silencioso Mr. Fanthorp voltou-se, dirigindo-se a Linnet:

- Espero que não considere impertinência da minha parte, mas a senhora há-de permitir-me que lhe diga o quanto admiro a sua competência. Na minha profissão (sou advogado) tenho notado que, infelizmente, as senhoras são em geral pouco cautelosas. Achei admirável ouvi-la dizer que nunca assina um documento sem primeiro o ler até o fim. Admirável!

Inclinou-se ligeiramente; depois, muito vermelho, voltou-se para de novo contemplar o Nilo.

Linnet balbuciou, hesitante:

- Eu... agradeço-lhe...

Mordeu os lábios para conter o riso. Com que solenidade falara o rapaz!

Pennington parecia deveras aborrecido. Simon não sabia se devia ficar também aborrecido ou achar graça.

As orelhas de Mr. Fanthorp continuavam muito vermelhas.

- O próximo, por favor - disse Linnet ao seu procurador.

Mas o mau humor do americano não se dissipara.

- Talvez seja preferível deixarmos para outra ocasião - disse ele secamente. - Como... hum... como diz Doyle, se a senhora quiser ler tudo, ficaremos aqui até à hora do almoço. Não podemos perder a maravilha deste cenário. E, de qualquer maneira, os dois primeiros documentos eram os mais urgentes. Mais tarde trataremos do resto.

- Vamos para fora - sugeriu Linnet. – Está aqui muito calor.

Saíram os três. Hercule Poirot voltou a cabeça, pensativo. O seu olhar pousou-se, durante alguns minutos, sobre as costas de Mr. Fanthorp, indo depois fixar-se em Mr. Ferguson, que continuava na sua posição despreocupada, assobiando baixinho.

Finalmente, o detetive olhou para a empertigada Miss Van Schuyler, que continuava sozinha no seu canto. A velhota fulminava Ferguson com o olhar.

A porta abriu-se e Cornélia apareceu, muito esbaforida.

- Demorou-se muito - disse a velha, secamente.

- Onde esteve?

- Desculpe-me, prima Marie. A lã não estava onde a senhora me disse que a procurasse.

- Minha amiga, você nunca encontra nada! Reconheço-lhe a boa vontade, mas precisa de fazer um esforço para ser mais inteligente e mais esperta. Basta concentrar-se um pouco mais.

- Sinto muito, prima Marie. Sei que sou muito tola.

- Pois esforce-se por não o ser. Convidei-a para esta viagem e espero em troca um pouco de atenção.

Cornélia corou.

- Desculpe-me, prima Marie.

- E onde está Miss Bowers? Há dez minutos que eu devia ter tomado as minhas gotas! Faça o favor de ir procurá-la imediatamente. O médico disse que é importantíssimo...

Nesse momento, Miss Bowers apareceu, trazendo um copo com o remédio.

- As suas gotas, Miss Van Schuyler.

- Eu devia ter tomado este remédio há dez minutos – exclamou a velhota secamente. - Se há coisas que me irritam, a falta de pontualidade é uma delas.

- Perfeitamente - concordou Miss Bowers. Consultou o relógio de pulso e declarou: - Falta meio minuto para as onze.

- Pelo meu relógio são onze e dez.

- Poderá verificar que o meu está certo. É uma ótima marca. Não se adianta nem se atrasa um segundo.

Miss Bowers continuava imperturbável.

Miss Van Schuyler tomou o remédio e disse asperamente:

- Estou muito pior.

- Sinto muito, Miss Van Schuyler.

Apesar disso, Miss Bowers não parecia demasiado pesarosa. A sua atitude era completamente desinteressada. Dera, maquinalmente, a resposta que devia dar.

- Está quente de mais aqui - disse Miss Van Schuyler. - Arranje-me uma cadeira no tombadilho, Miss Bowers. E você, Cornélia traga o meu tricot, mas não vá deixá-lo cair! Depois quero que me desmanche uma meada.

A pequena procissão saiu.

Mr. Ferguson suspirou, mudou de posição e observou para os circunstantes:

- Céus, como eu gostaria de torcer o pescoço a esta criatura!

Poirot perguntou, em tom interessado:

- É um tipo que lhe desagrada, hem?

- Desagrada? Se desagrada! Que bem faz esta mulher a quem quer que seja? Nunca trabalhou, nunca levantou um dedo para ajudar ninguém. Aproveitando-se sempre dos outros... É uma parasita... e uma parasita bem pouco simpática, ainda por cima. Há muita gente neste navio que não faria falta, se desaparecesse do mundo!

- Acha?

- Claro que acho. Aquela rapariga, por exemplo, que estava há pouco ali, a assinar transferências de ações e fazendo-se importante! Centenas e centenas de criaturas matando-se por uma ninharia para que ela possa usar meias de seda e vestidos luxuosos! Uma das mulheres mais ricas de Inglaterra, disseram-me, e uma que nunca ajudou ninguém.

- Quem lhe disse que é uma das mulheres mais ricas da Inglaterra?

Mr. Ferguson fitou Poirot com ar belicoso e replicou:

- Um homem com quem o senhor não gostaria de falar! Um homem que trabalha com as suas próprias mãos e não se envergonha disso! Muito diferente dos seus bonecos bem vestidos que não valem nada.

O olhar do rapaz examinou com desagrado a gravata borboleta e a camisa cor-de-rosa de Poirot.

- Pois eu, eu trabalho com a inteligência e não tenho vergonha disso! - exclamou Poirot devolvendo o olhar do socialista.

- Deviam ser mortos à bala, todos eles! – rosnou o homem.

- Meu caro, que paixão tem pela violência!

- Diga-me: que bem se pode conseguir sem ela? A gente tem de quebrar e destruir, antes de edificar coisa que preste.

- É certamente mais fácil, e mais barulhento e mais espetacular!

- Que faz o senhor para ganhar a vida? Nada, garanto. Com certeza, considera-me um homem médio...

- De maneira nenhuma! Estou por cima! - declarou Poirot com ligeira arrogância.

- Quem é o senhor?

- Sou detetive - disse Poirot com o ar modesto de quem dissesse: "Sou rei."

- Deus do Céu! - exclamou o rapaz parecendo realmente atônito. - Não me diga que aquela rapariga arrasta atrás de si um pateta de um polícia? Tem assim tanto cuidado com a pele?

- Não tenho relações algumas com Mister e Mistress Doyle - declarou Poirot secamente. - Viajo por prazer.

- Divertindo-se com umas férias, hem?

- E o senhor? Não está também de férias?

- Férias? - repetiu Mr. Ferguson com ar de desprezo. - Estudo as condições da vida.

- Muito interessante - disse Poirot, saindo dali discretamente e dirigindo-se para o tombadilho.

Miss Van Schuyler instalara-se no melhor canto. Cornélia estava ajoelhada em frente dela, com uma meada de lã à volta dos braços estendidos. Miss Bowers, sentada muito direita, lia o Saturday Evening Post.

Poirot vagueou por ali, indo até ao tombadilho de estibordo. Ao passar pela popa, quase colidiu com uma mulher, que se voltou assustada para ele. Morena, provocante, tipo latino, vestida de preto. Estivera a conversar com um homem fardado, que parecia ser um dos maquinistas. Havia uma estranha expressão no rosto de ambos - de culpa e alarme. Poirot ficou a fazer conjecturas sobre o assunto que tinham estado a discutir...

Continuou o seu caminho. Abriu-se a porta de uma cabina e, metida num roupão de cetim escarlate, Mrs. Otterbourne quase lhe caiu nos braços.

- Desculpe-me - disse ela. - Meu caro Mister Poirot, desculpe-me! O balanço... O balanço, o senhor compreende! Nunca fui bom marinheiro. Se ao menos o navio parasse de jogar... - Agarrou o braço do detetive e continuou: - Nunca me sinto bem, a bordo. E fico aqui, sozinha, horas e horas... Aquela minha filha... não tem nenhuma consideração... nenhum cuidado com a sua pobre mãe, que tudo tem feito por ela. - Aqui, Mrs. Otterbourne começou a chorar, mas sem interromper as queixas. - Tenho trabalhado para ela como uma escrava, como uma verdadeira escrava. Uma grande amoureuse... que eu poderia ter sido! Uma grande amoureuse! Sacrifiquei tudo... ninguém se incomoda! Mas direi a todo o mundo... agora mesmo... como minha filha me abandona...

Fez um movimento para a frente, mas Poirot procurou detê-la delicadamente.

- Irei procurá-la, madame. O rio está agitado.

A senhora poderia ter sido varrida pela borda fora.

Mrs. Otterbourne fitou-o com ar incrédulo.

- Acha?

- Sem dúvida nenhuma.

Poirot conseguiu o seu intento. Mrs. Otterbourne parecia vacilar, mas depois entrou, tropeçando, na cabina.

As narinas de Poirot estremeceram uma ou duas vezes. Depois, foi procurar Rosalie, que estava sentada entre Tim e Mrs. Allerton.

- Sua mãe reclama a sua presença, mademoiselle.

A jovem estivera a rir-se, feliz e despreocupada.

Uma sombra passou-lhe pelo rosto... Lançou um olhar suspeito ao detetive e saiu apressadamente dali.

- Não posso compreender esta menina – disse Mrs. Allerton. - Varia tanto! Mostra-se um dia amável... e no outro francamente indelicada.

- Completamente estragada e mal-humorada - declarou Tim.

Mrs. Allerton abanou a cabeça e replicou:

- Não o creio. Na minha opinião, é muito infeliz.

Tim encolheu os ombros.

- Oh, bom, com certeza todos nós temos os nossos aborrecimentos - disse ele em tom seco e duro.

Neste momento, ouviu-se o som de um gongo.

- Almoço! - exclamou Mrs. Allerton, encantada.

- Estou a morrer de fome.

Naquela noite, Poirot notou que Mrs. Allerton conversava com Miss Van Schuyler. Ao passar por ali, viu a mãe de Tim piscar os olhos disfarçadamente para ele.

- Naturalmente, no castelo de Cafries... O duque... – dizia ela.

De folga por algum tempo, Cornélia estava no tombadilho, ouvindo o Dr. Bessner, que, com frases inspiradas, lhe falava sobre as coisas do Egito. A rapariga parecia encantada.

Debruçado na amurada, Tim dizia:

- De qualquer maneira, é um mundo infame...

- Algumas pessoas têm tudo. Não é justo - replicou Rosalie.

Poirot suspirou.

Ainda bem que já não era novo...

 

Naquela manhã de segunda-feira, foram ouvidas várias exclamações de prazer no tombadilho do Karnak. O navio estava ancorado; em frente dele podia ver-se, banhado pelo Sol da manhã, um grande templo talhado na rocha. Quatro enormes figuras fitavam eternamente o Nilo e o nascente.

Cornélia exclamou, entusiasmada:

- Oh, Mister Poirot, isto é uma maravilha! Quero dizer... São tão grandes e serenos... Olhando para eles a gente sente-se tão pequena... como um inseto... e nada parece ter importância, não é verdade?

Mr. Fanthorp, que estava perto deles, murmurou:

- Sim... hummmm... é realmente impressionante.

- Que colosso, hem? - disse Simon Doyle, aproximando-se. E em tom confidencial, dirigindo-se a Poirot: - Sabe uma coisa, não sou muito amigo de visitar templos e admirar vistas, mas um espetáculo como este impressiona, empolga, se é que compreende o que quero dizer. Aqueles faraós devem ter sido uns sujeitos extraordinários.

Os outros afastaram-se. Simon baixou a voz e continuou:

- Estou satisfeitíssimo por ter feito esta viagem.

As nuvens dissiparam-se. Extraordinário que isto tenha acontecido, mas é verdade. Os nervos de Linnet voltaram ao normal. Diz ela que é porque enfrentou finalmente a situação.

- Acho muito provável - declarou Poirot.

- Diz que, quando viu Jackie no navio, sentiu um choque horrível. Mas depois... sem saber como, deixou de se importar com isso. Combinamos não a evitar mais. Enfrentaremos Jackie no seu próprio campo, mostrando-lhe que a sua atitude ridícula já não nos impressiona. É apenas falta de dignidade da parte dela; nada mais do que isso. Pensou que iríamos atormentados, enervados, mas... Bom, agora já não nos impressionamos. Que isto lhe sirva de lição!

- Muito bem - disse Poirot, com ar pensativo.

- E, portanto, está tudo em ordem, não é verdade?

- Sim, sim...

Linnet surgiu neste momento, bela e sorridente, de vestido de linho cor de damasco.

Saudou Poirot sem grande entusiasmo, com uma ligeira inclinação de cabeça; depois levou o marido dali.

Poirot sorriu intimamente, reconhecendo que a sua atitude crítica não fora muito apreciada. Linnet estava acostumada a ser admirada, tanto pela sua pessoa como pelos seus atos. Hercule Poirot cometera um crime de lesa-majestade.

Mrs. Allerton veio procurá-lo.

- Que diferença, nesta jovem! - murmurou. – Parecia aborrecida, nada feliz, em Assuão. Hoje está tão contente que a gente tem medo até que ela esteja...

Antes que Poirot pudesse responder, foi feita a chamada para todos se reunirem. O guia oficial levou os passageiros para terra, para visitarem Abu Simbel.

Poirot estava agora ao lado de Andrew Pennington.

- É esta a sua primeira viagem ao Egito? - perguntou ao americano.

- Não. Estive aqui em 1923. Isto é, estive no Cairo. Mas é a primeira vez que faço esta viagem pelo Nilo.

- Veio pelo Carmanic, creio eu? Pelo menos foi o que me disse Mistress Doyle.

Pennington lançou ao detetive um olhar penetrante e respondeu:

- Vim, sim.

- Estive a pensar que talvez o senhor tenha conhecido uns amigos meus que estavam também a bordo: a família Rushington Smith.

- Não me lembro de ninguém com esse nome. O navio estava cheio e tivemos mau tempo: muitos dos passageiros quase não saíram das cabinas. E, de qualquer maneira, a viagem é tão curta que a gente não chega a saber quem está ou não a bordo.

- Sim, tem razão. Que agradável surpresa, encontrar-se com Mistress Doyle e o marido! Não tinha a menor idéia de que estavam casados?

- Não. Mistress Doyle tinha-me escrito, mas a carta chegou à América depois de eu ter partido, e foi-me reenviada de lá. Só a recebi alguns dias depois do nosso inesperado encontro no Cairo.

- Conhece Mistress Doyle há muitos anos, não é verdade?

- Oh, sim, Mister Poirot. Conheço Linnet Ridgeway desde que era deste tamanho - disse ele, fazendo um gesto para ilustrar o que dissera. - O pai dela e eu éramos grandes amigos. Um homem extraordinário, Melhuish Ridgeway, e que teve grande êxito na vida.

- A filha herdou uma fortuna considerável, pelo que ouvi dizer... Oh, pardon, não estou a ser muito discreto!

Andrew Pennington sorriu ligeiramente.

- Oh, isso não é segredo. Sim, Linnet é uma mulher muito rica.

- Creio, no entanto, que a última baixa lhe afetou o valor das ações, por mais seguras que sejam?

Pennington levou um ou dois segundos para responder:

- Isso, naturalmente, é, até certo ponto, verdadeiro. As coisas estão muito difíceis, hoje em dia.

- Parece-me, no entanto, que Mistress Doyle tem boa cabeça para os negócios - murmurou Poirot.

- Tem razão. Sim, tem razão. Linnet é uma mulher prática e inteligente.

Pararam. O guia começou a falar sobre o templo construído pelo grande Ramsés. As quatro gigantescas imagens do próprio Ramsés, talhadas na rocha, duas de cada lado da entrada, pareciam encarar o pequeno grupo de turistas.

Desdenhando as explicações do dragomano, Richetti examinava a base dos gigantes, onde se viam em relevo as imagens dos escravos negros e sírios.

Quando entraram no templo, pareceu experimentarem todos uma sensação de tranqüilidade e paz. O guia continuava a chamar a atenção de todos para as imagens em relevo, de colorido vivo, nas paredes internas, mas os turistas separaram-se em grupos de duas ou três pessoas.

Em alemão sonoro, o Dr. Bessner lia o seu Baedeker, parando de vez em quando para traduzir uma passagem ou outra para Cornélia, que docilmente se conservava a seu lado. Mas não por muito tempo... Miss Van Schuyler entrou pelo braço da fleumática Miss Bowers e ordenou: "Venha cá, Cornélia" - interrompendo assim a aula.

Depois dela partir, o alemão ainda continuou, a sorrir vagamente, através das grossas lentes dos óculos.

 - Rapariga simpática - disse ele a Poirot. – Não tem a aparência faminta das magricelas de hoje... Belas curvas... Sabe também ouvir inteligentemente, e é um prazer dar-lhe explicações.

Poirot não pôde deixar de refletir que era sina de Cornélia ter sempre que obedecer ou ouvir.

Dispondo de alguns momentos de liberdade, depois da peremptória ordem dada a Cornélia, Miss Bowers estava de pé no meio do templo, examinando-o com o seu olhar frio e pouco curioso, não parecendo muito impressionada com as maravilhas do passado.

Havia um santuário interno, onde estavam quatro imagens, sentadas em atitude de grande dignidade. Linnet e Simon estavam ali a examiná-las. A jovem passara o braço pelo do marido e estava de rosto erguido - rosto típico da moderna civilização; inteligente, curioso, sem nada que lembrasse o passado.

- Vamos sair daqui - disse Simon. - Não gosto destes sujeitos, principalmente daquele de chapéu alto.

- É Amon, com certeza. E o outro é Ramsés. Porque não gosta deles? Acho-os muito imponentes.

- Imponentes de mais, na minha opinião. Há neles algo de sobrenatural... Vamos para o sol.

Linnet riu-se, mas acompanhou-o.

Saíram para fora, pisando a areia amarela e quente. Linnet começou a rir... Aos pés deles, em fila, estavam as cabeças de seis meninos núbios, parecendo separadas dos corpos. Viravam os olhos, as cabeças moviam-se no mesmo ritmo, enquanto eles diziam.

 - Hip, hip, hurrah! Muito bom, muito bom. Muito obrigado.

- Que absurdo! Como conseguem uma coisa destas? Estão enterrados muito profundamente? - perguntou Linnet.

Simon atirou algumas moedas e imitou os garotos:

- Muito bom, muito bonito, muito caro!

Dois rapazitos, a cargo do show, apanharam as moedas.

Linnet e Simon continuaram o seu caminho.

Não tinham vontade de voltar para o navio e estavam cansados de apreciar vistas e antiguidades. Sentaram-se de costas para a rocha, aquecendo-se ao sol.

- Como é lindo o Sol! - exclamou Linnet. Tão bom... E que tranquilidade, que sensação de segurança! Como é bom ser feliz... Como é bom ser eu, eu, eu, Linnet Doyle...

Fechou os olhos. Estava meio acordada, meio adormecida, com pensamentos que não fugiam nem se fixavam, como a areia que a brisa levantava e de novo deixava cair.

Simon não fechara os olhos. Também neles havia uma expressão de contentamento. Que tolo fora em aborrecer-se, aquela primeira noite! Não havia motivo para se preocupar. Tudo ia bem... Afinal de contas, a gente podia confiar em Jackie...

Um grito... Alguém a correr para aquele lado, gesticulando, gritando...

Durante alguns segundos, Simon pareceu estupefato. Em seguida ergueu-se de um salto, arrastando Linnet consigo.

Um minuto depois teria sido tarde de mais. Um grande bloco de pedra, que rolara do penhasco, passou fragorosamente por eles. Se tivesse ficado onde estava, Linnet teria sido esmagada.

Pálidos, sem fala, os dois continuaram agarrados um ao outro. Tim Allerton e Poirot chegaram, a correr.

- Lá foi, madame, escapou por pouco!

Instintivamente, os quatro ergueram os olhos. Não viram coisa alguma. Mas lá em cima havia uma senda... Poirot lembrou-se de ter visto alguns nativos seguirem por ali, quando o grupo de turistas desembarcara.

Olhou para o casal Doyle. Linnet parecia atordoada, perplexa. Simon estava francamente furioso.

- Que Deus a amaldiçoe - exclamou ele.

Interrompeu-se, lançando um rápido olhar ao companheiro de Poirot.

- Safa, que foi por um triz! - exclamou Tim. - Algum idiota que soltou a pedra, ou terá ela rolado por acaso?

Ainda muito pálida, Linnet balbuciou:

- Creio que... algum idiota soltou a pedra.

- Poderia ter ficado reduzida a pó. Parece-lhe que não tem nenhum inimigo, Linnet?

Duas vezes ela engoliu em seco, sem poder responder à pergunta.

- Venha para o navio, madame - disse Poirot vivamente. - Precisa de tomar um estimulante.

Caminharam alguns segundos em silêncio. Via-se que Simon mal podia conter a cólera, mas Tim começou a falar em tom de gracejo, procurando distrair a atenção de Linnet do perigo de que ela escapara. Poirot estava mudo, sério.

E então, quando chegaram ao passadiço, Simon estacou subitamente, estupefato.

Jacqueline de Bellefort vinha descendo para terra.

Com o seu vestido de fustão azul, parecia uma criança naquela manhã.

- Deus do céu! - murmurou Simon em tom abafado. - Então foi um acidente.

A cólera desaparecera-lhe do rosto, sendo substituída por tal expressão de alívio que Jacqueline notou que acontecera alguma coisa de anormal.

- Bom dia - disse ela. - Creio que estou atrasada.

Com uma inclinação de cabeça para todos em geral, tomou a direção do templo.

Simon agarrou o braço de Poirot. Tim e Linnet iam na frente.

- Meu Deus, que alívio! Pensei... pensei...

- Sim, sim, sei o que pensou - disse Poirot.

Mas ainda continuava preocupado e grave.

Voltou a cabeça, observando cuidadosamente a posição de todos os outros membros do grupo.

Miss Van Schuyler vinha pelo braço de Miss Bowers.

Um pouco adiante, de pé, Mrs. Allerton ria dos garotos núbios. Mrs. Otterbourne estava ao lado dela.

Não viu nenhum dos outros.

Poirot abanou a cabeça e lentamente acompanhou Simon, que subia para o vapor.

 

- Quer fazer-me o favor, madame, de me explicar o sentido da palavra fé?

A pergunta pareceu causar surpresa a Mrs. Allerton. Ela e Poirot subiam lentamente o rochedo que dava para a Segunda Catarata. Quase todos os outros tinham ido de camelo, mas Poirot achou que o balanço do animal poderia lembrar o de um navio. Mrs. Allerton dera como desculpa a preservação da sua dignidade pessoal.

Tinham chegado na noite anterior a Uadi Halfa. Duas lanchas haviam, nessa manhã, levado todo o grupo até à Segunda Catarata, com exceção de Richetti, que insistira em ir sozinho a um lugar deserto chamado Semna que, dissera ele, era muito importante por ter sido a porta da Núbia no tempo de Amenemhet III, e onde havia uma laje na qual se lia que, ao entrar no Egito, os negros tinham de pagar direitos aduaneiros. Os outros passageiros fizeram tudo para o dissuadir, embora sem resultado. Signor Richetti estava resolvido e afastou todas as objeções: 1) que a excursão não valia a pena; 2) que não seria possível conseguir um carro; 3) que não poderia obter outro meio de condução; 4) que o preço seria proibitivo. Tendo zombado de 1; manifestado incredulidade quanto a 2; tendo-se prontificado a procurar ele mesmo o carro quanto a 3; e pechinchando animadamente, em árabe, ao chegar a 4, finalmente o italiano abalara, arranjando a partida de maneira furtiva e secreta, para evitar que algum outro turista se lembrasse de lhe fazer companhia.

- Pey? - Mrs. Allerton inclinou a cabeça de lado, como quem reflete. - Bom, é realmente uma palavra escocesa. Indica uma espécie de exagerada felicidade que precede o desastre. O senhor sabe o que quero dizer... É bom de mais para poder durar, e essa história toda... E ela continuou no mesmo tom, tentando explicar o melhor que podia e sabia. Poirot ouvia-a atentamente:

- Agradecido, madame. Agora compreendo. É esquisito que tivesse dito isso ontem, sem prever que, por pouco, Madame Doyle ia escapar à morte.

Mrs. Allerton estremeceu ligeiramente.  - Deve ter sido por um triz. Acha que algum daqueles negrinhos fosse capaz de empurrar a pedra por brincadeira? É o que as crianças de todo o mundo gostam mais de fazer... sem má intenção, é claro.

Poirot encolheu os ombros.

- Talvez, madame.

Mudou de assunto, falando de Maiorca, e fazendo várias perguntas, sob o pretexto de uma possível visita.

Mrs. Allerton já gostava muito de Poirot – talvez por espírito de contradição. Percebera que Tim fazia o possível para que ela não se mostrasse tão camarada do detective, que ele qualificava de "homem sem eira nem beira". Mas Mrs. Allerton não compartilhava dessa opinião. Provavelmente era a exótica maneira de Poirot se vestir que aumentava a prevenção de Tim. Mas Mrs. Allerton achava-o inteligente, e interessante a sua companhia. Muito compreensivo, também... Viu-se de repente a fazer-lhe confidências, contando-lhe a antipatia que tinha por Joana Southwood. Sentiu um grande alívio em falar sobre isso. E por que não? Ele não conhecia Joana, provavelmente nunca viria a conhecê-la. Que mal havia em desabafar?

Neste momento, Tim e Rosalie falavam dela.

Tim estivera a queixar-se, em tom meio brincalhão. Saúde má, não o bastante para despertar interesse; nem boa tão-pouco, a ponto de lhe permitir que levasse a vida que desejaria levar. Pouco dinheiro - nenhuma ocupação atraente.

- Vida completamente insípida - terminou ele em tom descontente.

Rosalie replicou bruscamente:

- Você tem uma coisa que muita gente invejaria.

- E isso é...?

- Sua mãe.

Tim ficou agradavelmente surpreendido.

- Minha mãe?... Sim, é extraordinária. É muito amável da sua parte dizer-me isso.

 - Acho-a encantadora. Bonita... distinta, calma... como se nada pudesse atingi-la... E, no entanto, sempre pronta a achar graça e a divertir-se.

Rosalie balbuciava, tal a sua espontaneidade.

Tim sentiu uma onda de simpatia pela rapariga. Desejou poder retribuir o elogio, mas infelizmente Mrs. Otterbourne era, na sua opinião, um dos maiores perigos para a Humanidade. Ficou embaraçado por não poder responder.

Miss Van Schuyler ficara na lancha. Não podia arriscar-se a subir de camelo, nem tão-pouco a pé. Dissera, em tom brusco:

- Sinto ter de lhe pedir que fique comigo, Miss Bowers. Era minha intenção dizer-lhe que fosse, e Cornélia que ficasse, mas as raparigas de hoje são tão egoístas! Fugiu sem me dar a mínima satisfação. E vi-a a conversar com aquele sujeito desagradável e mal-educado, o tal Ferguson. Cornélia desapontou-me bastante. Não tem a menor noção dos hábitos da sociedade. 0 Miss Bowers replicou, na sua voz desinteressada:

- Não tem importância, Miss Van Schuyler. Está muito quente para se ir a pé, e eu não sinto atração alguma pelas selas daqueles camelos. Com certeza, estão cheias de pulgas.

Ajeitou os óculos, semicerrou os olhos para examinar o grupo que vinha descendo o morro e observou:

- Miss Robson não está com aquele rapaz. Está com o doutor Bessner.

Miss Van Schuyler rosnou, apenas.

Desde que descobrira que Bessner tinha uma clínica na Checoslováquia e era dos médicos mais afamados da Europa, tratava-o com mais cordialidade. Além do mais, talvez viesse a precisar dos seus serviços profissionais, antes de ver terminada aquela viagem.

Quando voltaram para o navio, Linnet deixou escapar uma exclamação de prazer.

- Um telegrama para mim!

Agarrou-o vivamente e abriu-o.

- Mas... não compreendo... batatas.... beterrabas... que significa tudo isto, Simon?

Simon ia aproximar-se para ler por sobre o ombro dela, quando uma voz furiosa exclamou:

- Desculpe-me, esse telegrama é para mim.

Ao dizer isto, Richetti arrancou-o bruscamente das mãos de Linnet, fulminando-a ao mesmo tempo com o olhar.

A jovem fitou-o, admirada, depois virou o sobrescrito.

- Oh, Simon, que tolice a minha! É Richetti, não Ridgeway... Além disso, o meu nome já não é Ridgeway. Peço desculpa.

Linnet seguiu o arqueólogo, que se dirigia para a popa.

- Peço-lhe que me desculpe, Signor Richetti. O meu nome era Ridgeway, antes de me casar, e não estou casada há muito tempo...

Interrompeu-se, sorridente, convidando-o também a sorrir do faux pas de uma recém-casada.

Mas não havia dúvida que Richetti não achara graça. Nem mesmo a rainha Vitória, nos seus momentos de maior severidade, poderia ter-se mostrado tão descontente.

- Deve ter-se cuidado, ao ler um nome. Qualquer desleixo neste sentido é imperdoável.

Linnet mordeu os lábios, sentindo o sangue vir-lhe ao rosto. Não estava habituada a ver as suas desculpas recebidas daquela forma. Voltou-se e, aproximando-se do marido, disse em tom colérico:

- Estes italianos são insuportáveis.

- Não faça caso, querida. Vamos ver o grande crocodilo de marfim que chamou a sua atenção.

Desceram juntos para terra.

Poirot, que os observava, ouviu a seu lado uma respiração ofegante. Voltou-se e deu com Jacqueline de Bellefort, de mãos agarradas à amurada do navio. A expressão do seu rosto alarmou Poirot... Já não era alegre ou maliciosa. Como se dentro dela ardesse um fogo consumidor...

- Eles já não ligam importância - disse ela, falando baixinho e depressa. - Já não os posso atingir... Não se importam que eu esteja ou não aqui... Não posso... não posso feri-los mais.

Poirot notou que as mãos de Jacqueline tremiam.

- Mademoiselle...

Ela não se pôde conter.

- Oh, agora é tarde... tarde de mais. O senhor tinha razão. Eu não devia ter vindo. Não nesta viagem... Como foi que a classificou? Viagem da alma? Não posso voltar atrás... tenho que continuar. Eles não serão felizes juntos... não serão! Prefiro matar...

Afastou-se bruscamente, sem terminar a frase. Poirot seguiu-a com o olhar. Nisto sentiu uma mão sobre o ombro.

- A sua amiguinha parece muito perturbada, Mister Poirot.

O detetive voltou-se, admirando-se ao dar com um velho conhecido. - Coronel Race!

O homem, de rosto bronzeado, sorriu.

- Que surpresa, hem?

Hercule Poirot vira Race um ano antes, em Londres. Convivas do mesmo jantar - reunião que terminara com a morte de um estranho sujeito, o dono da casa.

Poirot sabia que Race era um homem que tanto podia estar aqui como ali. Geralmente, era encontrado num dos postos avançados do Império, onde havia perigo de alguma sublevação.

- Então está em Uadi Halfa - comentou Poirot com ar pensativo.

- Estou aqui neste navio.

- Quer dizer?.

- Que vou voltar com vocês para Shellâl.

Poirot ergueu as sobrancelhas.

- Muito interessante. Posso, talvez, oferecer-lhe um drink?

Foram para o salão envidraçado, agora completamente deserto. Poirot encomendou um whiskey para o  coronel e para si uma laranjada bem açucarada.

- Então vai voltar conosco? - disse o detetive, depois do primeiro gole. - Iria mais depressa se fosse  pelo navio do governo, que viaja tanto de noite como  de dia, não é verdade?

O rosto de Race enrugou-se num sorriso.

- Acertou, como sempre, Mister Poirot - disse ele.

- Os passageiros, então?

- Um deles.

- Qual? Eu gostaria de saber?! - perguntou Poirot erguendo os olhos para o tecto.

- Infelizmente nem eu sei.

Poirot fitou-o com ar interessado e o coronel continuou:

- Não há motivo para não lhe contar. Ultimamente, temos tido muitos aborrecimentos aqui, de uma forma ou de outra. Não queremos apanhar as pessoas que promovem abertamente as agitações e sim os homens que, inteligentemente, chegam o fogo à pólvora. Eram três. Um morreu. Outro está na cadeia. Quero o terceiro... um homem que já cometeu cinco ou seis assassínios a sangue-frio. É um dos mais inteligentes agitadores pagos que jamais existiram... E acha-se neste navio. Sei disso, pelo trecho de uma carta que esteve nas nossas mãos. Depois de decifrada pudemos ler: "X estará a bordo do Karnak. Fev. de 7 a 13." Não dizia sob que nome viajaria.

- Alguma descrição do sujeito?

- Não. De ascendência americana, francesa e irlandesa. Meio mestiço. Isto não nos ajuda muito! Tem alguma idéia?

- Uma idéia... não é muita coisa - disse Poirot, pensativo.

Conheciam-se tão bem que Race não insistiu. Sabia  que Poirot não falava a não ser que tivesse a certeza do que dizia.

O detetive coçou o nariz e disse, em tom descontente:

- Passa-se alguma coisa neste navio que me causa inquietação.

Race fitou-o com ar indagador, mas nada disse.

Poirot continuou:

- Imagine uma pessoa, digamos: A, que prejudicou seriamente uma segunda pessoa, B. Esta pessoa B deseja vingar-se. Faz algumas ameaças... - A e B estão neste navio?

- Exatamente - disse Poirot.

- E B, presumo, é uma mulher?

- Acertou.

Race acendeu um cigarro e disse:

- Se eu fosse você, não me preocuparia. As pessoas que dizem que vão fazer isto e mais aquilo geralmente não fazem nada.

- Principalmente quando se trata das mulheres, não é o que quer dizer?

Mas Poirot não parecia nada satisfeito.

- Há mais alguma coisa? - perguntou Race.

- Há, sim. Ontem, A escapou milagrosamente da morte. Espécie de morte que muito convenientemente poderia ter sido considerada acidente.

- Tentativa feita por B?

- Não; é justamente isso que não compreendo. B não podia ter tido ligação alguma com o caso.

- Então foi acidente?

- Creio que sim... mas não gosto desse tipo de acidentes.

- Tem a certeza de que B está inocente?

- Absoluta.

- Bom, existem dessas coincidências. Por pensar nisso: quem é A? Uma pessoa desagradável?

- Pelo contrário. Uma rapariga encantadora, rica e bonita.

- Até parece um romance - comentou Race, sorrindo.

- Peut-être. Mas, repito, não estou nada satisfeito, meu amigo. Se não me engano, e, para ser exato,  raramente me engano...

O coronel Race sorriu intimamente deste tão típico comentário.

- Então há realmente motivo para me inquietar

- Continuou Poirot. - E agora você aparece-me com outra complicação. Vem dizer-me que há um assassino a bordo do Karnark!

- Mas as suas vítimas em geral não são raparigas encantadoras.

Poirot abanou a cabeça com ar descontente.

- Tenho medo... Tenho medo... Aconselhei hoje essa senhora, Mistress Doyle, a ir com o marido para Cartum, a não voltarem neste navio. Mas não concordaram. Peço a Deus que nos deixe chegar a Shellâl sem que aconteça uma desgraça.

- Não está a ser muito pessimista?

- Tenho medo - disse o detetive simplesmente. - Sim, eu, Hercule Poirot, tenho medo...

 

No dia seguinte. Noite parada e quente.

Cornélia Robson admirava o interior do templo.

O Karnak ancorara novamente em Abu-Simbel, para que os passageiros pudessem visitar o templo, desta vez com luz artificial. Extraordinária diferença! Cornélia comentou o facto com Mr. Ferguson, que estava a seu lado.

- Imagine, a gente vê muito melhor à noite! - exclamou ela. - Todos os inimigos do rei, que foram degolados por ordem dele... bem visíveis, agora. E ali está um lindo castelo que eu não tinha notado antes. Gostaria que o doutor Bessner estivesse aqui, para me explicar o que é.

- Não compreendo como tolera aquele velho idiota – exclamou Ferguson em tom desanimado.

- Não diga isso. É um dos homens mais bondosos que tenho conhecido.

- Velho pedante.

- Acho que não devia falar dessa forma.

O rapaz segurou-a pelo braço. Iam saindo do templo, para a noite quente e enluarada.

- Como é que consente em ser apoquentada por aquele velhote, e dominada e pisada por aquela megera?

- Mister Ferguson!

- Não tem um pouco de personalidade? Não sabe que é tão boa como ela?

- Não sou, não! - exclamou Cornélia com sincera convicção.

- Não é tão rica... foi o que quis dizer.

- Não foi, não. A prima Marie é muito culta e...

- Culta! - exclamou o rapaz soltando o braço tão bruscamente como o agarrara. - Essa palavra repugna-me.

Cornélia fitou-o, alarmada.

- Ela não gosta que você converse comigo, não é verdade? - continuou o rapaz.

Cornélia corou, muito embaraçada, mas nada respondeu.

- E porquê? Por pensar que não sou do seu nível social? Bah... Não sente o sangue ferver-lhe nas veias?

- Gostaria que não fosse tão exaltado - balbuciou Cornélia.

- Não compreende então, você, uma americana, que todos nascem livres e iguais?

- De maneira nenhuma! - protestou Cornélia.

- Minha menina, isso faz parte da sua Constituição!

- A prima Marie diz que os políticos não são cavalheiros. E, naturalmente, não somos todos iguais. Que tolice! Sei que não sou bonita. Isso às vezes entristecia-me, mas já me conformei. Gostaria de ser bela e elegante como Mistress Doyle, mas não sou assim, e de nada vale ficar aborrecida.

- Mistress Doyle! - exclamou Ferguson em tom de profundo desprezo. - É um tipo de mulher que  devia ser morta para exemplo.

Cornélia fitou-o com ar ansioso.

- Com certeza é por causa da sua digestão - diagnosticou ela.

- Tenho uma pepsina especial, que  a prima Marie já experimentou. Quer também experimentar?

- Você é impossível! - exclamou Ferguson, afastando-se dali.

Cornélia dirigiu-se para o navio. Ia a chegar ao passadiço quando Ferguson a alcançou de novo.

- Você é de fato a melhor pessoa neste navio - disse ele. - Não se esqueça disso!

Corada de prazer, Cornélia dirigiu-se para o salão envidraçado.

Miss Van Schuyler conversava com o Dr. Bessner - conversa agradável, a respeito de certos aristocráticos clientes do médico.

Cornélia disse em tom contrito:

- Espero não me ter demorado de mais, prima Marie.

A velhota consultou o relógio e replicou secamente:

- Não foi lá muito rápida, minha amiga. E onde pôs a minha écharpe de veludo?

Cornélia procurou à sua volta, oferecendo-se depois para ir ver na cabina.

- Claro que não a encontrará na cabina! - exclamou a velha.

- Estava aqui a meu lado depois do jantar, e eu não saí deste salão. Estive sentada ali, naquela cadeira.

Cornélia iniciou nova busca.

- Não consigo encontrá-la, prima Marie.

- Tolice. Procure de novo.

Mais parecia uma ordem dada a um cão; e, como sempre, Cornélia obedeceu humildemente.

O silencioso Mr. Fanthorp, que estava sentado ali perto, ergueu-se para a ajudar. Mas a écharpe não apareceu.

O dia fora tão quente e abafado que muita gente se retirara cedo, depois de ter ido a terra admirar o templo. Os Doyle jogavam o brídege, a uma mesa de canto, com Pennington e Race. O único ocupante do salão era Hercule Poirot, que parecia morto de sono.

Ao passar por ele (rainha com a sua comitiva!) Miss Van Schuyler parou para lhe dizer algumas palavras.

O detetive ergueu-se prontamente, reprimindo um enorme bocejo.

- Só agora fiquei a saber quem é, Mister Poirot - disse a americana. - Um velho amigo meu, Rufus Van Aldin, já me falara do senhor. Preciso que me conte uma das suas aventuras, quando tiver ocasião.

Dito isto, passou adiante com uma amável, se bem que condescendente, inclinação de cabeça.

De olhos reluzentes, apesar da sonolência, Poirot inclinou-se exageradamente diante dela.

Depois bocejou de novo. Sentia-se pesado e embrutecido de tanto sono e mal podia ficar de olhos abertos. Olhou de relance para os jogadores de brídege, absortos no jogo, depois para Fanthorp, que parecia muito interessado na leitura de um livro. Não havia mais ninguém no salão.

Passou pela porta giratória, entrando no tombadilho. Jacqueline de Bellefort, que vinha apressadamente em direção contrária, quase colidiu com ele.

- Pardon, mademoiselle.

- Está com cara de sono, Mister Poirot.

- Sim - confessou ele francamente. – Mal posso abrir os olhos. Tivemos um dia muito abafado, opressivo.

- Sim... - disse ela, parecendo refletir alguns  segundos. - Sim, dia em que tudo parece... estalar!

Quebrar! A gente não pode mais...

A sua voz era rouca e apaixonada. Jackie olhara, não para Poirot, mas para a areia da costa. As suas mãos estavam convulsas, rígidas. Súbito, a tensão pareceu diminuir.

- Boa noite, Mister Poirot.

- Boa noite, mademoiselle.

Os olhos de ambos encontraram-se, mas somente durante uns segundos. No dia seguinte, ao relembrar este olhar, Poirot chegou à conclusão de que nele houvera um apelo...

Poirot dirigiu-se para a sua cabina e Jacqueline entrou no salão. Depois de ter atendido Miss Van Schuyler em mui tas coisas úteis e inúteis, Cornélia pegou num bordado e voltou para o salão. Não sentia sono. Pelo contrário, estava bem acordada e ligeiramente excitada.

Os jogadores de brídege continuavam absortos no jogo. Fanthorp ainda lia tranquilamente. Cornélia sentou-se e começou a bordar.

De repente, a porta abriu-se e Jacqueline apareceu. Ficou ali parada, a cabeça lançada para trás. Depois tocou a campainha e aproximou-se de Cornélia, sentando-se a seu lado.

- Esteve em terra?

- Estive - respondeu Cornélia. - Achei tudo lindo ao luar.

- Sim, é uma noite linda... Verdadeira noite de lua-de-mel.

O seu olhar procurou a mesa do brídege, descansando um momento sobre Linnet Doyle.

O criado veio atender a campainha.

Jacqueline encomendou um gin duplo. Ao ouvir a ordem, Simon lançou-lhe um olhar rápido, onde havia uma expressão ligeiramente ansiosa.

- Simon, esperamos a sua marcação - disse Linnet.

Jacqueline pôs-se a cantarolar baixinho. Quando o criado voltou, ela ergueu o copo e exclamou: “"Ao crime!” Bebeu de um só trago e encomendou outro.

Simon olhou de novo para aquele lado. Começou a distrair-se nas marcações; Pennington, seu parceiro, chamou-lhe duas ou três vezes a atenção.

Jacqueline começou de novo a cantarolar, a princípio baixinho, depois um pouco mais alto:

Ele era dela, e abandonou-a...

- Perdão - disse Simon a Pennington. - Foi tolice minha não voltar ao seu naipe. E assim eles ganharam o rubber.

Linnet ergueu-se.

- Estou com sono. Acho que vou para a cama.

- Está mesmo na hora - declarou o coronel Race.

- De acordo - disse Pennington.

- Você vem, Simon?

Doyle respondeu lentamente:

- Ainda não. Creio que vou primeiro tomar um drink.

Linnet inclinou a cabeça e saiu com Race. Pennington acabou o seu whiskey e acompanhou-os.

Cornélia começou a recolher as linhas e o bordado.

- Não vá ainda, Miss Robson - pediu Jacqueline. - Não vá por favor. Estou com vontade de fazer desta noite uma noite e tanto! Não me abandone.

Cornélia sentou-se novamente.

- Nós, raparigas, precisamos ficar solidárias! – disse Jacqueline, atirando a cabeça para trás e soltando uma gargalhada sem alegria alguma.

O criado trouxe o segundo gin.

- Tome alguma coisa - ofereceu Jacqueline.

- Não, muito agradecida - respondeu Cornélia.

Jacqueline inclinou a cadeira para trás e recomeçou a cantarolar, mais alto agora:

Ele era dela, e abandonou-a...

Mr. Fanthorp virou uma página do livro: Europe  from Within.

Simon apanhou uma revista.

- Acho que vou para a cama - disse Cornélia. - Está a fazer-se tarde.

- Não pode ir já - disse Jacqueline. - Não lho  permito sem que me conte a sua vida.

 - Bom... Não há muito que contar... - balbuciou Cornélia. - Tenho vivido sempre em casa, quase  não viajo. É esta a minha primeira viagem à Europa. Estou encantada...

 Jaqueline soltou nova gargalhada.

- É uma criatura feliz, não é? Céus, eu gostaria  de ser assim.

- Oh, gostaria? Mas garanto-lhe que...

Cornélia não terminou, parecendo muito embaraçada.

Não havia dúvida que Miss de Bellefort estava a beber de mais. Bom, isso não era novidade para Cornélia. Tinha visto muita gente beber no tempo da Lei Seca. Mas havia alguma coisa... Jacqueline falava com ela... olhava para ela... e no entanto Cornélia sentia que as suas palavras eram dirigidas a outra pessoa.

Mas só havia duas pessoas no salão: Mr. Fanthorp e Mr. Doyle. O primeiro parecia absorto na leitura; o segundo tinha um ar esquisito... uma expressão vigilante no olhar...

Jacqueline disse de novo:

- Conte-me a sua vida.

Obediente, como sempre, Cornélia fez-lhe a vontade. Conversou pesadamente, dando pormenores inúteis da sua vida quotidiana. Estava tão pouco habituada a ser ouvida! O seu papel era ouvir, ouvir sempre.

E, no entanto, Jacqueline parecia querer saber. Quando Cornélia parava, a outra animava-a a continuar:

- Vamos, conte-me mais alguma coisa.

E, portanto, Cornélia continuou ("A mamã, naturalmente, tem uma saúde muito delicada; em certos dias só come cereais!") sabendo, infelizmente, que tudo o que dizia era supinamente desinteressante, mas apesar disso lisonjeada pela atenção que a outra lhe dispensava. Mas estaria Jacqueline realmente interessada? Não estaria, por acaso, ouvindo alguma outra coisa, ou antes: esperando ouvir outra coisa? Olhava para Cornélia, sim, mas não haveria alguém naquela sala...

- E, naturalmente, temos aulas de arte, e o ano passado fiz um curso de... (Que horas seriam? Tardíssimo, com certeza. Estivera falando, falando sem parar. Se ao menos acontecesse alguma coisa...)

Imediatamente, como para que o seu desejo ficasse satisfeito, alguma coisa aconteceu que, no primeiro momento, lhe pareceu muito natural.

Jacqueline voltou a cabeça, e disse a Simon Doyle:

- Toque a campainha, Simon. Quero outro drink.

O rapaz ergueu os olhos da revista que folheava e disse calmamente:

- Os criados já foram para a cama. Já passa da meia-noite.

- Estou a dizer-lhe que quero outro drink.

- Você já bebeu de mais, Jackie.

Ela voltou-se bruscamente para o rapaz.

- Que diabo tem você com isso?

Ele encolheu os ombros e respondeu:

- Nada.

A rapariga observou-o durante um ou dois minutos. Depois:

- Que aconteceu, Simon? Está com medo?

Ele não respondeu, e pegou de novo na revista, com exagerada calma.

Cornélia murmurou:

- Céus... tão tarde, já... Preciso...

Começou a remexer nas suas coisas, deixou cair o dedal.

- Não vá ainda - disse Jacqueline. - Quero ter outra mulher aqui ao meu lado, para me apoiar. - Deu uma gargalhada e continuou: - Sabe por que motivo Simon está com medo? Receia que lhe conte a história da minha vida.

- Oh!... - balbuciou Cornélia.

Jacqueline disse em voz bem clara:

- Porque, sabe você, nós fomos noivos.

- Oh, não diga isso!

Cornélia estava dominada por emoções contrárias. Sentia-se profundamente embaraçada, mas ao mesmo tempo estava excitada, curiosa. Que expressão... sombria, no rosto de Simon Doyle!

- Sim, é uma história muito triste - disse Jacqueline em  voz abafada e irônica. - Ele tratou-me muito mal; não é verdade, Simon?

Simon Doyle disse asperamente:

- Vá para a cama, Jackie. Você está bêbeda.

- Se está constrangido, meu caro Simon, pode sair da sala.

Simon olhou para ela. A mão que segurava a revista tremia ligeiramente. Mas declarou em tom firme:

- Não saio.

Cornélia murmurou pela terceira vez:

- Tenho de ir... é tão tarde...

- Você não vai - disse Jacqueline, estendendo a mão e obrigando-a a sentar-se. - Vai ficar e ouvir o que tenho para lhe dizer.

- Jackie, você está a fazer um papel ridículo! – exclamou Simon asperamente. - Pelo amor de Deus, vá para a cama.

Jacqueline endireitou-se na cadeira. Dos seus lábios saiu, sibilante, uma torrente de palavras encolerizadas:

- Está com medo de uma cena, não está? Isso porque você é tão inglês... tão reservado! Quer que eu proceda "corretamente", não é verdade? Mas pouco me importo de ser correta ou não! É melhor sair daqui, porque vou falar... e muito.

Jim Fanthorp fechou com cuidado o livro, bocejou discretamente, consultou o relógio, levantou-se e saiu.

Atitude muito inglesa e muito pouco convincente.

Jacqueline deu uma reviravolta na cadeira e de novo fitou Simon.

- Seu grandíssimo idiota, pensou que podia tratar-me como me tratou, sem sofrer coisa alguma? - exclamou em voz rouca e pesada.

Simon abriu os lábios, mas resolveu calar-se. Continuou imóvel, como se achasse que a cólera se extinguiria por si, caso nada dissesse para provocar Jacqueline.

A voz dela era pesada, confusa. Cornélia parecia fascinada, pois não estava habituada a ver emoções tão fortes assim postas a nu.

- Disse-lhe que seria mais fácil matá-lo do que permitir que pertencesse a outra mulher... Acha que falei só por falar? Engana-se. Estive apenas... à espera, você pertence-me! Ouve? É meu.

Nem assim Simon falou. A mão de Jacqueline procurou qualquer coisa na bolsa. A rapariga inclinou-se para a frente.

- Eu disse-lhe que o mataria, e disse a verdade...

- Jacqueline ergueu a mão, onde brilhou qualquer coisa. – Vou matá-lo como a um cão, cão que você é...

Finalmente, Simon pareceu acordar. Ergueu-se de um salto, mas no mesmo instante ela premiu o gatilho...

Simon torceu-se, caindo na cadeira. Cornélia deu um grito e correu para o tombadilho. Jim Fanthorp estava ali, debruçado sobre a amurada.

- Mister Fanthorp... Mister Fanthorp...

O rapaz correu. Cornélia agarrou-lhe as mãos, falando incoerentemente.

- Ela matou-o! Oh, ela matou-o!

Simon Doyle estava imóvel na cadeira onde havia caído meio atravessado. Jacqueline parecia paralisada. Tremia violentamente e com os olhos dilatados fitava a mancha rubra que, pouco a pouco, se espalhava pela calça de Simon, bem abaixo do joelho, no ponto onde ele comprimia um lenço.

Jacqueline balbuciou:

- Eu não tinha intenção... Oh, meu Deus, eu não tinha intenção...

O revólver desprendeu-se-lhe dos dedos nervosos, caindo no chão com um ruído seco. Ela deu-lhe um pontapé e a arma foi parar debaixo de uma poltrona.

Simon murmurou em voz fraca.

- Fanthorp, pelo amor de Deus... vem gente... Diga que não foi nada... um acidente... ou seja lá o que for... É preciso evitar o escândalo.

Fanthorp inclinou a cabeça, como quem compreendeu perfeitamente. Virou-se para a porta, dizendo ao assustado núbio que apareceu neste momento:

- Muito bem... muito bem... Foi uma brincadeira!

O negro pareceu perplexo; depois, tranqüilizou-se.

Sorriu, arreganhando os dentes e saiu.

Fanthorp voltou-se para os outros:

- Está certo. Não creio que ninguém mais tenha ouvido. Mais pareceu o estalo de uma rolha, ao saltar.

Agora...

Parou, sobressaltado. Jacqueline começara a chorar histericamente.

- Oh, meu Deus, eu preferia estar morta... Vou matar-me... Oh, que fiz eu, que fiz eu?

Cornélia correu para o seu lado.

- Calma, menina, calma.

De testa úmida e rosto contraído de dor, Simon disse, ansiosamente: - Levem-na daqui. Pelo amor de Deus, levem-na daqui! Fanthorp, obrigue-a a ir para a cabina. Por favor, Miss Robson, vá chamar aquela sua enfermeira.

Olhou, suplicante, para um e para outro e continuou:

- Não a deixem sozinha... Façam com que a enfermeira fique com ela. Depois vão chamar Bessner. Pelo amor de Deus, não deixem que minha mulher venha a saber disto.

Jim Fanthorp inclinou a cabeça. Aquele silencioso rapaz sabia mostrar-se calmo e competente numa crise.

Ele e Cornélia levaram a chorosa Jacqueline para a cabina. Ela continuava a lutar, os soluços pareceram recrudescer.

- Vou afogar-me... Vou afogar-me... Não mereço viver... Oh, Simon... Simon...

- Vá chamar Miss Bowers - disse Fanthorp a Cornélia - Fico aqui à espera.

Cornélia inclinou a cabeça e apressou-se a obedecer.

Assim que ela saiu, Jacqueline agarrou o braço de Fanthorp.

- A perna de Simon... está a sangrar... quebrada... Ele pode morrer. Preciso ir vê-lo... Oh, Simon... Simon... Como é que fui fazer aquilo?

Ela erguera a voz. Fanthorp recomendou:

- Calma... calma... Nada acontecerá a Mister Doyle.

A jovem começou a lutar.

- Deixe-me. Quero atirar-me à água... Quero morrer.

Segurando-a pelos ombros, Fanthorp obrigou-a de novo a deitar-se.

- Fique quieta. Não faça barulho. Procure dominar-se. Não vai acontecer coisa alguma, garanto-lhe.

Com grande alívio de Fanthorp, Jacqueline pareceu acalmar-se. Ele deu graças a Deus quando as cortinas se abriram e a competente Miss Bowers, metida num horrível quimono, entrou, acompanhada por Cornélia.

- Então, então, que é isto? - perguntou vivamente a enfermeira, tomando conta da situação, sem demonstrar surpresa ou alarme.

Fanthorp deu-se por feliz por deixar Jacqueline entregue aos seus cuidados e apressou-se a ir procurar o Dr. Bessner.

Bateu, entrando quase imediatamente.

- Doutor Bessner?

Ouviu um ronco terrível e logo em seguida uma voz assustada:

- Sim? Que houve?

Fanthorp acendera a luz. O médico piscou os olhos, parecendo uma coruja enorme.

- Doyle... Foi ferido. Miss de Bellefort deu-lhe um tiro. Está no salão. O senhor pode vir examiná-lo?

O médico agiu prontamente. Fez algumas rápidas perguntas, enfiou um roupão e os chinelos, pegou na maleta e acompanhou o inglês até ao salão.

Simon conseguira abrir uma janela a seu lado, apoiando ali a cabeça, procurando respirar o ar puro da noite. O rosto dele tinha uma palidez impressionante.

O médico aproximou-se.

- Então? Que aconteceu?

Um lenço ensangüentado estava caído no chão, e no tapete havia uma mancha rubra.

O exame do médico foi pontilhado de exclamações e grunhidos teutónicos.

 - Sim, isto é grave... Fratura... E grande perda de sangue. Herr Fanthorp, precisamos de o levar para a cabina. Assim... Ele não pode andar. Temos que pegar nele... assim.

Quando levantavam Simon, Cornélia apareceu à porta.

O médico deixou escapar um grunhido de satisfação.

- Ach, é a senhora? Goot. Venha connosco. Tenho necessidade de quem me auxilie. A senhora ser-me-á mais útil do que aqui o nosso amigo. Ele já está pálido.

Fanthorp perguntou com um sorriso amarelo:

- Quer que vá chamar Miss Bowers?

O médico lançou a Cornélia um olhar crítico e declarou:

- Esta senhora servirá. Não vai desmaiar, ou coisa parecida, hem?

- Farei o que me disser que faça - replicou Cornélia vivamente.

Bessner inclinou a cabeça com ar satisfeito.

A pequena procissão seguiu pelo tombadilho.

Os dez minutos seguintes foram dedicados ao tratamento; Mr. Fanthorp não os apreciou em absoluto. Sentia-se intimamente envergonhado da coragem demonstrada por Cornélia.

- Bom, é só o que posso fazer - disse Bessner finalmente. E batendo no ombro de Simon, com ar aprovador: - Foi um herói, meu amigo.

Depois enrolou a manga da camisa do ferido e tirou uma seringa da maleta.

- Vou agora dar-lhe um sedativo, para poder dormir. E  quanto à sua mulher?

- Ela não precisa saber até amanhã - disse Simon, fracamente. - Eu... ninguém deve censurar Jackie... Foi tudo por culpa minha. Tratei-a muito mal... pobre menina... não sabia o que estava a fazer.

O médico inclinou a cabeça.

- Sim, sim, compreendo.

- É minha a culpa - insistiu Simon. Os seus olhos procuraram os de Cornélia. - Alguém precisa ficar com ela... Poderia... fazer alguma loucura...

O médico deu-lhe uma injeção. Cornélia disse, muito compenetrada:

- Não se preocupe, Mister Doyle. Miss Bowers vai ficar com ela toda a noite.

Os olhos de Simon tiveram um brilho de gratidão. Relaxou os músculos e cerrou as pálpebras. De repente, abriu-os novamente.

- Fanthorp? O revólver... não devem deixá-lo... por ali... os criados iriam encontrá-lo... de manhã.

O inglês inclinou a cabeça.

- Está certo. Vou eu mesmo buscá-lo.

Saiu e percorreu o tombadilho. Miss Bowers apareceu à porta da cabina de Jacqueline.

- Está bem. Dei-lhe uma injecção de morfina - anunciou a enfermeira.

- Mas a senhora vai ficar ao lado dela?

- Sim. A morfina tem um efeito excitante sobre certas pessoas. Ficarei com ela toda a noite.

Fanthorp foi para o salão.

Alguns minutos mais tarde, o médico ouviu uma pancada na sua porta.

- Doutor Bessner?

- Sim - respondeu o interpelado, aparecendo imediatamente.

Fanthorp chamou-o para o tombadilho.

- Ouça... Não consigo encontrar o revólver...

- Que me diz?

- O revólver. Caiu da mão da rapariga... Ela deu-lhe um pontapé e ele foi parar debaixo de uma das poltronas. Mas não está ali.

Entreolharam-se por segundos.

- Mas quem poderia tê-lo apanhado?

Fanthorp encolheu os ombros.

Bessner continuou:

- Esquisito... Mas, quanto a isso, não vejo o que possamos fazer.

Perplexos e ligeiramente alarmados, os dois homens separaram-se.

 

Hercule Poirot acabava de tirar a espuma do rosto recém-barbeado, quando ouviu uma pancada na porta. Quase que imediatamente Race entrou sem cerimônia alguma.

- O seu instinto não o enganou. Aconteceu! - disse  ele ao detetive.

Poirot endireitou-se e perguntou bruscamente:

- Aconteceu o quê?

- Linnet Doyle morreu; levou um tiro na cabeça ontem à noite.

Poirot ficou uns minutos em silêncio. Duas cenas apareceram vivamente diante dos seus olhos... Uma jovem, em Assuão, dizendo em tom ofegante: "Gostaria de lhe encostar o revólver à cabeça e premir o gatilho..." E outra, mais recente, a mesma voz dizendo:

"A gente sente que não pode continuar... que qualquer coisa vai estalar. " E aquela fugidia expressão de súplica no olhar. Que acontecera com ele, que não respondera ao apelo? Estivera cego, surdo, imbecilizado, com aquela vontade de dormir.

Race continuou:

- Como tenho certa posição oficial, mandaram-me chamar, entregando-me o caso. O navio devia partir daqui a meia hora, mas só partirá com ordem minha. Há, naturalmente, a possibilidade de o assassino ter vindo de terra.

Poirot sacudiu negativamente a cabeça. Race pareceu concordar com ele.

- Tem razão. A hipótese deve ser afastada. Bom, meu amigo, assuma o comando. Você entende mais do que eu do assunto.

Poirot, que se vestira com grande rapidez, voltou-se para o amigo, dizendo:

- Estou às suas ordens.

Saíram para o tombadilho.

- Bessner já deve estar lá - disse Race. - Mandei-o chamar imediatamente.

Havia, no navio, quatro cabinas de luxo, com casa de banho. Das duas a bombordo, uma era ocupada por Bessner, a outra por Andrew Pennington. A estibordo, a primeira era de Miss Van Schuyler e a seguinte de Linnet Doyle. A de Simon ficava contígua a esta.

Um criado muito pálido e nervoso, do lado de fora da cabina de Linnet, abriu a porta para os dois homens entrarem. Bessner estava debruçado sobre a cama, mas ergueu a cabeça e grunhiu quando os viu chegar.

- Que nos diz, doutor Bessner, deste negócio? – perguntou Race.

O médico coçou com ar pensativo o queixo ainda não barbeado.

- Ach! Ela levou um tiro à queima-roupa. Veja... aqui... por cima da orelha... onde a bala entrou. Uma bala muito pequena, de calibre vinte e dois, diria eu. O revólver quase encostado à cabeça... Veja, a pele está chamuscada.

De novo, e com tristeza, Poirot se lembrou das palavras que ouvira em Assuão.

Bessner continuou:

- Ela estava a dormir... Não houve luta... O assassino entrou no escuro e matou-a, sem que ela tivesse percebido coisa alguma.

- Ah! Non! - exclamou Poirot, sentindo-se ultrajado no seu senso psicológico. (Jacqueline de Bellefort, de revólver em punho, entrando sorrateiramente numa cabina às escuras... Não, isto não estava "certo").

Bessner fitou-o através das grossas lentes dos óculos e declarou:

- Mas garanto-lhe que foi o que aconteceu.

- Sim, sim. Não estava a pensar no que me disse. Não quis contradizê-lo.

Bessner deixou escapar um grunhido de satisfação.

Poirot adiantou-se. Linnet Doyle estava deitada de lado, em posição natural e calma. Mas, acima do ouvido havia um pequeno orifício, e um círculo de sangue seco à volta dele.

O detetive sacudiu tristemente a cabeça. Nisto, o seu olhar fixou-se na parede, deixando escapar uma exclamação de espanto.

A brancura da parede estava maculada por uma grande letra J traçada com um líquido escuro.

Durante segundos, Poirot não pôde desviar os olhos; inclinou-se depois e com muito cuidado ergueu a mão direita da morta. Um dos dedos estava manchado de vermelho escuro...

- Nom d'un nom d'un nom!

- Hem? Que sucedeu? - perguntou Race.

O médico ergueu os olhos e disse:

- Ach! Isso aí?

- Com os diabos! - exclamou Race. - Que me diz a isto, Poirot?

- Você pergunta-me o que é isto? Eh bien, é muito simples, não é? Mistress Doyle está a morrer, deseja indicar o seu assassino, e escreve com o dedo molhado no próprio sangue a inicial de quem a matou. Oh, sim, é simplicíssimo.

- Ach! Mas...

O médico ia dizer qualquer coisa, mas um gesto brusco do coronel deteve-o.

- Então é essa a sua opinião? - perguntou Race lentamente.

Poirot voltou-se para ele, inclinando afirmativamente a cabeça.

- Sim, sim. É como já disse, de uma incrível simplicidade. Tão conhecido, não é verdade? Acontece tantas vezes em romances policiais! É mesmo um pouco vieux jeu! Faz-me acreditar que o assassino seja um pouco... antiquado!

Race respirou profundamente.

- Compreendo. A princípio, pensei...

Poirot interrompeu-o, sorrindo:

- Que eu acreditava nos velhos clichês melodramáticos? Mas, perdão, doutor Bessner; o senhor ia a dizer?...

O médico exclamou na sua voz gutural:

- Que diz? Bah! É absurdo! Tolice! A pobre senhora morreu instantaneamente. Embeber o dedo no sangue (como os senhores podem ver, há muito pouco sangue!) e escrever a letra J na parede... Que tolice! Que melodramática tolice!

- C'est de l'enfantillage.

- Mas foi feito com alguma intenção - disse Race.

- Naturalmente - declarou Poirot, com uma expressão grave.

- Que significa esta letra J? - perguntou Race.

- Jacqueline de Bellefort - declarou prontamente o detetive. - Uma jovem que há menos de uma semana me disse que nada lhe daria maior prazer do que... - Interrompeu-se, depois citou deliberadamente: - "encostar-lhe o meu querido revólver à cabeça e apertar o gatilho..."

- Gott in Himmel! - exclamou o médico.

Houve um momento de silêncio. Race respirou profundamente e perguntou:

- E foi exatamente o que aconteceu?

Bessner inclinou a cabeça.

- Sim, foi. Revólver de calibre muito pequeno, provavelmente vinte e dois. A bala, naturalmente, tem que ser extraída, mas podemos dar isso como certo.

- Qual a hora da morte?

De novo Bessner coçou o queixo, fazendo um ruído áspero. Disse:

- Não posso ser muito preciso. São agora oito horas. Acho que, levando-se em conta a temperatura de ontem à noite, ela está morta no mínimo há seis horas e no máximo há oito.

- Isso fixa a hora da morte entre a meia-noite e as duas da manhã?

- Exatamente.

Houve uma pausa. Race olhou à volta e perguntou:

- E quanto ao marido? Com certeza dorme na cabina contígua.

- No momento presente está a dormir na minha cabina - disse o dr. Bessner.

Os outros fitaram-no atônitos.

Bessner abanou a cabeça várias vezes.

- Ach, isso mesmo. Vejo que não sabem do incidente... Mister Doyle levou um tiro, ontem à noite, no salão.

- Tiro? Mas, quem?...

- Miss Jacqueline de Bellefort.

- Está ferido gravemente? - perguntou Race em tom brusco.

- Sim, houve fratura. Tomei, no momento, as providências necessárias, mas, assim que for possível, Mister Doyle terá de tirar uma radiografia e procurar receber tratamento adequado, que não lhe pode ser dado neste navio.

- Jacqueline de Bellefort... - murmurou Poirot.

O seu olhar procurou de novo a letra J, na parede.

Race disse bruscamente:

- Se não há nada mais para se fazer aqui, vamos então para baixo. A gerência pôs a sala de fumo à nossa disposição. É imperativo conhecer os pormenores do que aconteceu ontem à noite.

Saíram da cabina. Race fechou a porta e tirou a chave, dizendo:

- Podemos voltar mais tarde. O mais urgente é ter uma idéia exata dos acontecimentos.

Foram para o tombadilho de baixo, onde encontraram o gerente do Karnak que, parecendo pouco à vontade, esperava à porta da sala de fumo.

O pobre homem estava muito perturbado, aflito por deixar a responsabilidade ao coronel Race.

- Acho que, levando em conta a sua posição oficial, não há melhor solução do que deixar tudo nas suas mãos. Recebi ordem de me pôr à sua disposição sobre aquele outro... assunto. Se quiser assumir o comando, providenciarei para que tudo seja feito de acordo com a sua vontade.

- Muito bem. Para começar, gostaria que, durante o inquérito, esta sala ficasse à minha disposição e de Mister Poirot.

- Perfeitamente.

- Por enquanto, é só isto. Continue com o seu trabalho. Sei onde devo procurá-lo, se precisar de alguma coisa.

O gerente saiu, parecendo mais aliviado.

Race voltou-se para o médico:

- Sente-se, Bessner, e conte-nos o que aconteceu ontem à noite.

Ele e Poirot ouviram em silêncio a narrativa do médico.

- Muito claro - comentou Race, depois de Bessner concluir. - A rapariga estava excitada, mais ainda ficou depois de dois ou três drinks, acabando por disparar o revólver contra Doyle. Depois, foi à cabina de Mrs. Doyle e matou-a.

Mas o médico acenou com a cabeça.

- Não, não concordo. Não acho isso possível. Para começar, ela não teria escrito a sua própria inicial na parede. Seria ridículo, nicht wahr?

- Poderia ter agido assim, se estivesse tão cegamente enciumada como parecia - disse Race. - Talvez tivesse querido assinar... Bom, assinar o crime.

Poirot abanou a cabeça.

- Não; não creio que agisse assim tão cruamente.

- Então só há outra explicação. Alguém escreveu aquele J, com intenção de atrair as suspeitas sobre a jovem.

O médico concordou:

- Sim, e o criminoso foi infeliz... porque, o senhor sabe, não somente é improvável que a jovem fraulein tenha cometido o crime, mas impossível, na minha opinião.

- Como assim?

Bessner falou do histerismo de Jacqueline, que os obrigara a chamar Miss Bowers.

- E creio... tenho a certeza, que Miss Bowers passou com ela toda a noite.

- Se foi assim, as coisas simplificam-se – disse Race.

- Quem descobriu o crime? - perguntou Poirot.

- A criada de Mistress Doyle, uma tal Louise Bourget. Foi hoje de manhã chamar a patroa, como de costume. Ao encontrá-la morta, saiu horrorizada da cabina, desmaiando nos braços de um criado que passava nesse momento. O homem foi procurar o gerente e este veio chamar-me. Avisei Bessner, depois fui para a sua cabina, Poirot.

O detetive inclinou a cabeça e Race continuou, dirigindo-se agora ao médico:

- Doyle precisa de ser informado. O senhor disse que ele ainda está a dormir?

- Sim, na minha cabina. Dei-lhe um forte narcótico a noite passada.

Race voltou-se para Poirot:

- Não creio que seja necessário determos o doutor Bessner por mais tempo, não é verdade?... Muito agradecido, doutor.

O médico ergueu-se.

- Sim, vou tomar o meu pequeno-almoço. Depois, voltarei à minha cabina, para ver se Mister Doyle está em condições de ser acordado.

- Agradecido.

Depois de Bessner sair, os dois homens entreolharam-se.

- Então, que me diz a isto, Poirot? – perguntou Race. - Está tudo nas suas mãos. Receberei as suas ordens. É só dizer-me o que devo fazer.

Poirot inclinou-se, dizendo:

- Eh bien, precisamos de iniciar o inquérito. Em primeiro lugar, acho que devemos verificar o incidente de ontem à noite. Isto é, temos que interrogar Fanthorp e Miss Robson, que testemunharam o fato. O desaparecimento do revólver é muito significativo.

Race tocou a campainha e deu uma ordem ao criado que apareceu.

Poirot abanou tristemente a cabeça, murmurando:

- É grave, é grave...

- Tem alguma idéia? - perguntou Race, com certa curiosidade.

- As minhas idéias são confusas. Não estão em ordem... Não nos podemos esquecer de uma coisa importantíssima: que essa pequena odiava Linnet Doyle e falou em matá-la.

- Acha que seria capaz?...

- Acho que sim... sim - disse Poirot sem muita convicção.

- Mas não desta maneira? É isto que o aborrece? Não entraria no escuro, matando-a enquanto ela dormia? Acha impossível este absoluto sangue-frio?

- Sim, até certo ponto.

- Acha que essa rapariga, Jacqueline de Bellefort, seria incapaz de um crime frio e premeditado?

Poirot disse lentamente:

- Não tenho a certeza. Ela teria a inteligência... sim, mas duvido que chegasse a praticar o ato.

- Sim, compreendo - declarou Race. - Bom, de acordo com a história de Bessner, teria sido materialmente impossível.

- E se for verdade, isso facilita muito as coisas. Esperemos que seja verdade. - Poirot fez uma pausa e acrescentou com simplicidade: - Ficarei contente, porque tenho muita pena dela.

Abriu-se a porta e Cornélia e Fanthorp apareceram.

- Não é horrível? - exclamou Cornélia. - Pobre, pobre Mistress Doyle! Tão bonita! Só um monstro a poderia ter ferido. E Mister Doyle vai ficar desesperado, quando souber. Ainda ontem à noite estava tão preocupado, com medo que ela viesse a saber do incidente!

- É justamente sobre isso que queremos certas informações, Miss Robson - disse Race. – Desejamos saber exatamente o que se passou ontem à noite.

Cornélia começou a falar, um tanto confusamente, mas, com uma ou outra pergunta, Poirot pô-la no bom caminho.

- Ah, sim, compreendo. Depois do brídege, Madame Doyle retirou-se. Mas teria ido para a sua cabina?

- Foi, sim - disse Race. - Eu mesmo a acompanhei, despedindo-me dela à porta da cabina.

- A que horas?

- Céus, isso não sei eu dizer - exclamou Cornélia.

- Passavam vinte minutos das onze horas - disse Race.

- Bien. Então às onze e vinte, Madame Doyle estava viva. Nessa ocasião, quais eram, exatamente, as pessoas que estavam no salão?

Desta vez foi Fanthorp quem respondeu:

- Doyle, Miss de Bellefort, Miss Robson e eu.

- Isso mesmo - confirmou Cornélia. - Mister Pennington acabou o seu whiskey e retirou-se em seguida.

- E isso foi... ?

- Oh, três ou quatro minutos depois.

- Antes das onze e meia, então?

- Sim.

- Então só ficaram no salão: a senhora, Miss de Bellefort, Mister Doyle e Mister Fanthorp. Que estavam todos a fazer?

- Mister Fanthorp estava a ler um livro; eu, a bordar. Miss de Bellefort estava... estava... Fanthorp veio em auxílio de Cornélia.

- Estava a beber muito.

- Sim, conversava comigo, pedindo-me que lhe contasse a minha vida. Mas dizia coisas esquisitas... olhava para mim, mas as suas palavras pareciam dirigidas a Mister Doyle. Ele estava furioso, mas não dizia coisa alguma. Creio que achou que, se ficasse quieto, ela se acalmaria.

- Mas não foi o que aconteceu?

Cornélia abanou a cabeça.

- Procurei retirar-me, uma ou duas vezes, mas ela prendeu-me. Sentia-me constrangida... Depois, Mister Fanthorp levantou-se e saiu...

- Estava a ficar desagradável - disse o rapaz. – Achei preferível sair discretamente. Miss de Bellefort procurava armar abertamente uma cena.

- E depois ela puxou o revólver - disse Cornélia.

- Mister Doyle deu um salto, mas a bala atingiu-o na perna. E aí então Jacqueline começou a chorar e soluçar... e eu fiquei apavorada, e corri atrás de Mister Fanthorp e ele acompanhou-me, e Mister Doyle pediu que não fizéssemos escândalo, e um dos núbios ouviu a detonação e veio saber o que era, e Mister Fanthorp disse que não era nada, e nós levamos Jacqueline para a cabina e Mister Fanthorp ficou com ela enquanto fui chamar Miss Bowers!

Cornélia parou, ofegante.

- A que horas? - perguntou Race.

Cornélia exclamou de novo:

- Céus, isso não sei eu dizer!

Mas Fanthorp respondeu prontamente:

- Mais ou menos meia-noite e vinte. Sei que à meia-noite e meia hora já eu estava na minha cabina.

- Deixem-me ter a certeza sobre um ou dois pontos – disse Poirot. - Depois que Mistress Doyle se retirou, nenhum dos quatro saiu do salão?

- Não.

- Tem a certeza de que Miss de Bellefort não saiu dali?

Fanthorp respondeu sem hesitar:

- Absoluta. Nem Doyle, nem Miss de Bellefort, nem eu ou Miss Robson saímos do salão.

- Muito bem. Isto prova que Miss de Bellefort não poderia ter assassinado Mistress Doyle antes de... digamos meia-noite e vinte. Agora, Miss Robson: a senhora disse-nos que foi chamar Miss Bowers. Miss de Bellefort ficou sozinha na cabina nesse período de tempo?

- Não, Mister Fanthorp ficou com ela.

- Muito bem. Até agora, Miss de Bellefort tem um álibi perfeito. Miss Bowers é a próxima pessoa a ser ouvida, mas antes de a mandar chamar, gostaria de saber a sua opinião sobre um ou dois pontos. A senhora disse-me que Mister Doyle estava ansioso para que Miss de Bellefort não ficasse sozinha. Recearia ele por acaso Que ela cometesse outro acto de loucura?

- É essa a minha opinião - disse Fanthorp.

- Acha que receava que ela atacasse Mistress Doyle?

- Não; não creio que fosse esse o seu receio – declarou Fanthorp. - Na minha opinião, temia que ela fizesse alguma loucura contra si própria.

- Suicídio?

- Exatamente. O efeito do álcool parecia ter desaparecido e ela estava desolada com o que fizera. Recriminava-se veementemente, dizendo que preferia ter morrido.

Cornélia disse timidamente:

- Acho que Mister Doyle estava preocupado com  ela. Falou muito suavemente... Que era culpa dele...  que a maltratara. Foi muito... gentil.

Hercule Poirot abanou a cabeça, pensativo.

- Agora, quanto ao revólver. Que fim levou?

- Ela deixou-o cair - disse Cornélia.

- E depois?

Fanthorp explicou que mais tarde fora procurar o  revólver, não o tendo encontrado.

- Ah! - exclamou Poirot. - Agora estamos perto. Por favor, sejam precisos. Descrevam-me exatamente o que aconteceu.

- Miss de Bellefort deixou cair o revólver, dando -lhe em seguida um pontapé.

- Como se sentisse repugnância - disse Cornélia.

- Compreendo exatamente como devia sentir-se.

- E, conforme me disseram, o revólver foi parar debaixo de uma poltrona. Agora, muita atenção: Miss de Bellefort não o apanhou, antes de sair do salão?

Tanto Cornélia como Fanthorp foram positivos neste ponto.

- Precisamente. Apenas quero ter a certeza - disse Poirot.

- Chegamos, então, a este ponto. Quando Miss de Bellefort saiu do salão, o revólver estava sob a poltrona. E como depois disso Miss de Bellefort não ficou sozinha um só minuto, não teve oportunidade de ir ao salão para apanhar a arma. Que horas eram, Mister Fanthorp, quando voltou para o procurar?

- Pouco antes da meia-noite e meia hora.

- E quanto tempo se passou, desde o momento em que o senhor e o doutor Bessner levaram Doyle para fora do salão, até àquele em que voltou para procurar o revólver?

- Cinco minutos... talvez um pouco mais.

- Então, nesses cinco minutos, alguém tirou a arnuz de debaixo da poltrona. Esse alguém não era Miss de Bellefort. Quem teria sido? Parece muito provável que essa pessoa tenha sido o assassino de Mistress Doyle. Podemos também supor que essa pessoa viu ou ouviu o que se passou no salão.

- Não sei por que motivo diz isso – interrompeu Fanthorp.

- Porque o senhor acabou de dizer que a arma estava debaixo da poltrona, fora do alcance da vista de quem quer que fosse. Acho, portanto, pouco provável que tivesse sido descoberta por acaso. Foi apanhada por alguém que sabia que estava ali. E, portanto, esse alguém deve ter assistido à cena.

Fanthorp abanou a cabeça.

- Não vi ninguém quando saí para o tombadilho, pouco antes de ser dado o tiro.

- Ah, mas o senhor saiu pela porta a estibordo.

- Sim, do mesmo lado da minha cabina.

- Então não teria visto uma pessoa que estivesse a espiar pelos vidros da porta a bombordo?

- Não - confessou o rapaz.

- Alguém mais ouviu a detonação, a não ser o criado núbio?

- Que eu saiba, não. Depois de uma pequena pausa, Fanthorp continuou:

- Lembro-me agora de que as janelas tinham sido fechadas, porque Miss Van Schuyler sentira uma corrente de ar, ao princípio da noite. As portas giratórias também estavam fechadas. Duvido que a detonação pudesse ser ouvida. Teria soado apenas como o estalo de uma rolha ao saltar.

- Até agora ninguém parece ter ouvido o segundo tiro; aquele que matou Mistress Doyle - comentou Race.

- Logo trataremos disso - disse Poirot. – Por enquanto quero concentrar-me em Mademoiselle de Bellefort. Precisamos de interrogar Miss Bowers. Mas antes de saírem - com um gesto deteve Cornélia e Fanthorp - desejo que me dêem certas informações sobre as suas pessoas. Assim não será necessário  chamá-los novamente. Primeiro, o senhor: o seu nome, completo?

- James Lechdale Fanthorp.

- Endereço?

- Glasmore House, Market Donnington, Northamptonshire.

- Profissão?

- Sou advogado.

- As suas razões para visitar este país?

Houve uma pausa. Pela primeira vez, o impassível Fanthorp pareceu desconcertado. Disse, finalmente, quase balbuciando:

- Hummm... por prazer.

- Ah! - exclamou Poirot. - De férias, hem, de férias?

- Hummm... sim.

- Muito bem, Mister Fanthorp. Queira dar-me um resumo dos seus actos, depois dos acontecimentos que acaba de expor.

- Fui imediatamente para a cama.

- A que horas?

- Logo depois da meia-noite.

- A sua cabina é a vinte e dois, a estibordo, a mais próxima do salão?

- Exatamente.

- Mais uma pergunta. Ouviu alguma coisa... seja o que for, depois de se retirar?

Fanthorp pareceu refletir.

- Deitei-me imediatamente. Creio ter ouvido o ruído de um baque na água, quando ia a pegar no sono.

- Ouviu? Perto?

Fanthorp abanou a cabeça.

- Francamente, não o posso dizer. Eu estava meio adormecido.

- E a que horas devia ter sido isso? - à uma hora, mais ou menos. Francamente, não

posso precisar.

- Muito agradecido, Mister Fanthorp. Não quero mais nada.

Poirot voltou-se para Cornélia.

- E agora, Miss Robson, o seu nome todo?

- Cornélia Ruth. O meu endereço é: The Red House, Bellfield, Connecticut.

- Porque veio ao Egito?

- Minha prima Marie, Miss Van Schuyler, convidou-me para vir em sua companhia.

- Já conhecia Mistress Doyle, antes de a encontrar nesta viagem?

- Não, não conhecia.

- Que fez ontem à noite?

- Fui imediatamente para a cama, depois de ter ajudado o médico a tratar da perna de Mister Doyle.

- A sua cabina é...?

- Quarenta e um, a bombordo, pegada à de Miss de Bellefort.

- Ouviu alguma coisa?

- Nada, absolutamente nada.

- Nenhum baque?

- Não. Nem poderia ouvir, pois do meu lado o navio está encostado à margem.

Poirot inclinou a cabeça.

- Muito agradecido, Miss Robson. Talvez possa agora fazer-me a gentileza de me mandar Miss Bowers.

Depois de Cornélia e Fanthorp saírem, Race voltou-se para Poirot:

- Parece claro. A não ser que três testemunhas independentes estejam a mentir, Jacqueline de Bellefort não poderia ter reavido aquela arma. Mas alguém a apanhou. E alguém presenciou a cena. E alguém foi bastante idiota para escrever a letra J na parede.

Ouviu-se uma pancada na porta e Miss Bowers apareceu.

A enfermeira sentou-se com a calma e correção habituais. Respondeu às perguntas de Poirot, dizendo-lhe o nome, endereço, profissão e acrescentando:

- Estou ao serviço de Miss Van Schuyler há mais de dois anos.

- A saúde dessa senhora é realmente delicada?

- Não, não posso dizer que o seja – declarou Miss Bowers. - Já não é muito nova, e é nervosa quanto à sua saúde, de modo que gosta de ter sempre uma enfermeira a seu lado. Mas não tem nenhuma moléstia grave. Gosta de ser servida, e está disposta a pagar para isso.

Poirot pareceu compreender.

- Ouvi dizer que Miss Robson foi chamá-la ontem, à noite, Miss Bowers?

- Foi, sim.

- Pode dizer-me exatamente o que aconteceu?

- Pois não! Miss Robson contou-me resumidamente a cena do salão e eu acompanhei-a. Encontrei Miss de Bellefort num estado de grande excitação.

- Fez alguma ameaça contra Mistress Doyle?

- Não, nada nesse gênero. Parecia tomada de mórbido arrependimento. Tinha bebido muito, pelo que me pareceu, e estava a sentir a reação. Achei que não devia ficar sozinha; dei-lhe uma injeção de morfina e passei a noite a seu lado.

- Agora, Miss Bowers, quero que me responda francamente: Miss de Bellefort saiu da cabina?

- Não, não saiu.

- E a senhora?

- Fiquei com ela até hoje de manhã.

- Tem a certeza absoluta?

- Absoluta.

- Agradecido, Miss Bowers.

Depois de a enfermeira sair os dois homens entreolharam-se.

Jacqueline de Bellefort estava absolutamente inocente. Quem teria assassinado Linnet Doyle?

 

Race disse:

- Alguém apanhou o revólver e esse alguém não foi Miss de Bellefort. Alguém que sabia o bastante para pensar que o crime seria atribuído a ela... Mas essa pessoa ignorava que uma enfermeira iria ficar a seu lado toda a noite, depois de lhe ter dado uma injeção de morfina. E mais ainda: já houvera uma tentativa de morte contra Linnet Doyle, quando aquela pedra rolou do penhasco. Também disso Jacqueline de Bellefort estava inocente. Quem, então?

- Será mais simples procurarmos ver quem não poderia ter sido - disse Poirot. - Mister Doyle, Mistress Allerton, Mister Tim Allerton, Miss Van Schuyler e Miss Bowers são inocentes, pois estavam ao alcance da minha vista naquele momento.

- Hummm - resmungou Race. - Ainda sobra muita gente. E quanto ao motivo?

- Acho que só Mister Doyle nos poderá ajudar. Houve vários incidentes...

A porta abriu-se e Jacqueline entrou. Estava muito pálida, e parecia atordoada.

- Não fui eu - disse em voz de criança amedrontada. - Oh, por favor, acreditem em mim. Toda a gente vai pensar que fui eu... mas não fui... não fui! É horrível! Gostaria que não tivesse acontecido. A noite passada, quase matei Simon... Creio que estava louca. Mas o outro tiro não fui eu que...

Sentou-se, desatando a chorar.

Poirot bateu-lhe levemente num ombro.

- Vamos, vamos. Sabemos que não matou Mistress Doyle. Está provado, sim, provado, mon enfant.

Jackie endireitou-se bruscamente na cadeira.

- Quem foi, então?

- Também gostaríamos de o saber! - disse Poirot. - Não pode ajudar-nos em alguma coisa, minha menina?

Jacqueline sacudiu a cabeça.

- Não sei... Não posso imaginar quem... Não, não tenho a menor idéia.

Ficou alguns minutos de sobrancelhas contraídas, depois continuou:

- Não me posso lembrar de ninguém que lhe desejasse a morte... - aqui a voz de Jackie tremeu ligeiramente: -.. a não ser eu.

- Desculpem-me por um momento - interrompeu Race. - Acaba de me ocorrer uma coisa.

Saiu apressadamente.

Jacqueline continuou sentada, de cabeça baixa, torcendo nervosamente as mãos. De repente, exclamou:

- A morte é uma coisa horrível. Sim, horrível. Detesto lembrar-me dela.

- Tem razão - disse Poirot. - Não é agradável, na verdade, pensar que, agora, neste momento, uma pessoa deve estar a regozijar-se com o êxito do seu crime.

- Não... diga isso! - exclamou Jackie. - É horrível, dito assim dessa maneira!

Poirot replicou, encolhendo os ombros:

- É verdade.

Jackie murmurou baixinho:

- Desejei a sua morte... e agora ela está morta... E, mais ainda, morreu como eu disse que gostaria que morresse!

- Sim, mademoiselle. Levou um tiro na cabeça.

- Então eu tinha razão, aquela noite, no Hotel Catarata! Alguém estava a ouvir.

- Ah! Eu estava a pensar se se lembraria disso. Sim, é demasiada coincidência. Mistress Doyle ter morrido exatamente da maneira que a senhora imaginou.

Jackie estremeceu.

- Aquele homem... quem poderia ter sido?

Houve alguns minutos de silêncio; depois, Poirot perguntou em tom muito diferente:

- Tem a certeza de que era um homem, mademoiselle?

- Sim, naturalmente. Pelo menos...

Ela franziu as sobrancelhas, fechou os olhos, esforçando-se por se lembrar melhor.

- Pensei que fosse um homem - disse lentamente.

- Mas agora já não tem a certeza?

- Não, não tenho a certeza. Julguei que fosse um homem... mas era apenas um vulto... uma sombra...

Fez uma pausa e, como Poirot nada dissesse, continuou:

- Acha que talvez tenha sido uma mulher? Mas nenhuma das mulheres deste navio pode ter motivos para desejar a morte de Linnet, não é assim?

Poirot não respondeu. A porta abriu-se e Bessner apareceu.

- Quer fazer o favor de vir ver Mister Doyle, Monsieur Poirot? Ele deseja falar consigo.

Jackie levantou-se de um salto, agarrando Bessner pelo braço.

- Como vai ele? Está... bem?

- Claro que não está bem - respondeu o médico em tom de censura. - Houve fractura.

- Mas não morrerá?

- Ach, quem falou em morrer? Quando chegarmos a um lugar civilizado, ele tirará uma radiografia e receberá o tratamento adequado.

A jovem torceu convulsivamente as mãos, caindo de novo na cadeira.

Poirot saiu com o médico. Nesse momento, Race veio reunir-se a eles. Percorreram o tombadilho de passeio, até à cabina de Bessner.

Simon Doyle estava deitado, a sua palidez era impressionante, tanto pela dor como pelo choque que levara. Mas a expressão principal da sua fisionomia era perplexidade - a penosa perplexidade de uma criança.

- Entrem, por favor - disse ele. - O médico contou-me... a respeito de Linnet... Não posso acreditar. Não posso acreditar que seja verdade.

- Sim, deve ter sido um choque horrível – disse Race.

Simon balbuciou:

- Os senhores sabem... não foi Jackie. Tenho a certeza de que não foi Jackie! As aparências são contra ela, não há dúvida, mas tenho a certeza de que não é culpada. Estava... um pouco embriagada, a noite passada, e muito excitada; foi por isso que me alvejou. Mas Jackie não cometeria um... assassínio... a sangue-frio...

Poirot disse suavemente:

- Não fique assim perturbado, Mister Doyle. Não foi Miss de Bellefort quem matou sua esposa.

Simon fitou-o com ar de dúvida.

- Está a falar sério?

- Mas já que não foi Miss de Bellefort, pode dar-nos uma idéia de quem poderia ter sido?

Simon abanou a cabeça, parecendo ainda atordoado.

- É absurdo... impossível. A não ser Jackie, ninguém tinha motivo para lhe desejar mal.

- Reflita, Mister Doyle. Não tinha inimigos? Não existe ninguém com razões de queixa contra ela?

Simon sacudiu negativamente a cabeça.

- É absurdo, fantástico. Há, naturalmente, Windlesham. Ela desquitou-se dele para casar comigo. Mas não vejo que um rapaz correto como Windlesham possa cometer um crime... Além do mais, está a muitas milhas de distância daqui. O mesmo se aplica a Sir George Wode. Tinha um pequeno ressentimento contra Linnet, reprovando a maneira como ela modificou a casa, mas também ele está longe; e, em todo o caso, seria ridículo pensar em alguém cometer um crime por motivo tão fútil.

- Ouça, Mister Doyle. No primeiro dia, aqui, a bordo do Karnak, fiquei impressionado com uma conversa que tive com sua esposa - disse Poirot vivamente. - Estava muito aborrecida, muito preocupada. Disse: (preste atenção às minhas palavras!) disse que toda a gente a odiava. Que estava com medo, que se sentia em perigo, como se cada pessoa à sua volta fosse um inimigo.

- Ficou realmente perturbada quando viu Jackie a bordo. O mesmo se deu comigo - disse Simon.

- É verdade, mas isso não basta para explicar tais palavras. Quando disse que estava cercada de inimigos, com certeza exagerou, mas sem dúvida nenhuma referia-se a mais de uma pessoa.

- Talvez nisso tenha razão - concordou Simon.

- Creio que posso explicar... Ficou muito perturbada com um nome que viu na lista dos passageiros.

- Um nome na lista dos passageiros? Que nome?

- Bom, para falar a verdade, não sei. Eu não ouvi com atenção, tão preocupado ficara com a aparição de Jacqueline. Se bem me lembro, Linnet falou em prejuízos, em negócios, e que não se sentia à vontade quando encontrava alguém que tinha uma queixa contra a sua família. Embora não conheça muito bem a história da família, sei que a mãe de Linnet era filha de um milionário. Seu pai era apenas abastado, mas depois do casamento naturalmente começou a jogar na Bolsa, ou seja lá o que for. Como resultado destas transações, naturalmente muitas pessoas tiveram prejuízos. O senhor sabe a história: abastança num dia, miséria no outro. Muito bem: pelo que percebi, estava a bordo o filho de um homem que sofrera um grande desastre financeiro por causa do pai de Linnet. Lembro-me de tê-la ouvido dizer: "É horrível a gente saber que é detestada por uma pessoa que nem ao menos nos conhece. "

- Sim... - disse Poirot com ar pensativo. – Isso explica o que ela me disse. Pela primeira vez na vida estava a sentir o peso, não as vantagens, da sua posição. Tem a certeza, Mister Doyle, de que ela não disse o nome do homem?

Simon abanou a cabeça com ar desanimado.

- Francamente, não prestei muita atenção. Sei que respondi: "Oh, hoje em dia ninguém se incomoda muito com o que aconteceu com os pais. A vida caminha demasiadamente depressa para isso."

Bessner disse secamente:

- Ach, mas tenho um palpite. Existe a bordo um rapaz que demonstra ressentimento.

- Ferguson? - perguntou Poirot.

- Sim. Falou uma ou duas vezes contra Mistress Doyle. Eu mesmo o ouvi.

- Que podemos fazer para ter a certeza? - perguntou Doyle.

- Race e eu temos que interrogar todos os passageiros - declarou Poirot. - Até ouvirmos o que têm a dizer, seria leviandade formar opinião. Há ainda a criada... Acho que deve ser a primeira a ser interrogada. A presença de Mister Doyle talvez nos seja útil.

- Boa idéia - concordou Simon.

- Estava há muito tempo ao serviço de Mistress Doyle?  - Mais ou menos dois meses.

- Só dois meses? - exclamou Poirot.

- O senhor não supõe...

- Sua esposa tinha jóias de valor?

- Tinha o colar de pérolas. Disse-me que valia quarenta ou cinqüenta mil libras. - Simon estremeceu ligeiramente e exclamou: - Meu Deus, acha que aquelas malditas pérolas...

- O móbil do crime pode ter sido o roubo - disse Poirot. - Se bem que pareça impossível... Bom, veremos. A criada que venha cá.

Louise Bourget era a moreninha viva que Poirot vira, certa vez, no tombadilho.

Mas agora a vivacidade desaparecera do seu rosto. Via-se que tinha chorado e parecia amedrontada, e no entanto havia no seu rosto uma expressão profundamente astuciosa, que impressionou desagradavelmente os dois homens.

- O seu nome é Louise Bourget?

- Sim, monsieur.

- Quando foi que viu Mistress Doyle com vida pela última vez?

- A noite passada, monsieur. Esperei para a ajudar a despir-se.

- Que horas eram?

- Um pouco depois das onze, monsieur. Não posso dizer a hora exata. Esperei que a senhora me dispensasse e depois saí.

- Quanto tempo levou tudo isso?

- Dez minutos, monsieur. A senhora estava cansada. Disse-me que apagasse as luzes antes de sair.

- Depois de a deixar, que fez você?

- Fui para a minha cabina, monsieur, no tombadilho de baixo.

- E não viu nem ouviu nada que nos possa servir de esclarecimento?

- Como poderia eu, monsieur?...

- Isso só você nos poderá dizer - replicou Poirot.

A mulher olhou-o de soslaio e continuou:

- Mas, monsieur, eu não estava perto... como poderia eu ver ou ouvir alguma coisa? Eu estava no tombadilho de baixo. A minha cabina fica do outro lado do navio. Teria sido impossível ouvir qualquer coisa. Claro que se não tivesse sentido sono, se tivesse subido as escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro, entrar ou sair da cabina de madame; mas, como não foi assim...

Ergueu as mãos num gesto suplicante, dirigindo-se a Simon:

- Monsieur, por favor... Compreende a minha situação? Que posso eu dizer?

- Minha cara menina, não seja tola – repreendeu Simon asperamente: - Ninguém pensa que viu ou ouviu coisa alguma. Não se preocupe. Cuidarei de si. Ninguém pensa em acusá-la...

- Monsieur é muito bom - murmurou Louise, baixando modestamente os olhos.

- Podemos ter então a certeza de que nada viu ou ouviu? - perguntou Race com impaciência.

- Foi o que eu disse, monsieur.

- E não conhece ninguém que tivesse alguma queixa contra a sua patroa?

Com grande surpresa de todos, Louise abanou vigorosamente a cabeça.

- Oh, sim. Isso sei. A essa pergunta posso responder "sim", com a maior certeza deste mundo.

- Refere-se a Mademoiselle de Bellefort? - perguntou Poirot.

- Quanto a ela, não há dúvida. Mas não era em Miss de Bellefort que eu pensava. Há um homem neste navio que não gostava de madame, e que estava muito zangado porque ela o havia prejudicado.

- Deus do Céu, que significa tudo isso? - exclamou Simon.

Louise continuou, abanando enfaticamente a cabeça:

- Sim, sim, é como digo! O caso deu-se com a antiga criada de madame, que a servira antes de mim. Um homem, um dos maquinistas deste vapor, queria casar-se com ela. A outra criada, Marie, era o seu nome, estava disposta a casar-se com ele. Mas Madame Doyle tirou informações sobre o homem e descobriu que esse tal Fleetwood já era casado... com uma mulher de cor, os senhores compreendem, natural deste país. Ela voltara para viver com a família, mas continuava ainda a ser mulher dele. Madame contou isto a Marie, e ela ficou muito triste e não quis mais saber de Fleetwood. O homem ficou furioso, e quando descobriu que Madame Doyle se chamara Miss Linnet Ridgeway, antes do casamento, disse-me que gostaria de a matar! Estragara-lhe a vida, intrometendo-se onde não era chamada; foi o que ele me disse.

Louise parou, triunfante.

- Interessante - comentou Race.

Poirot voltou-se para Simon e perguntou:

- Sabia disso, por acaso?

- Não - respondeu Simon com evidente sinceridade. – Duvido mesmo que Linnet soubesse que o homem trabalhava neste navio. Provavelmente, ela já se esquecera do incidente.

Voltou-se bruscamente para a criada e perguntou:

- Falou sobre isso a Mistress Doyle?

- Não, monsieur, claro que não.

- Sabe alguma coisa a respeito do colar da sua patroa? - perguntou Poirot.

- O colar? - exclamou Louise arregalando os olhos. - Ontem à noite ainda o usou.

- Você viu o colar, quando Mistress Doyle se foi deitar?

- Sim, monsieur.

- Onde foi que ela o guardou?

- Na mesinha de cabeceira, como de costume.

- Foi onde o viu pela última vez?

- Sim, senhor.

- Viu-o ali hoje de manhã?

Uma expressão assustada apareceu no rosto da rapariga.

- Mon Dieu, nem me lembrei de olhar! Aproximei-me da cama, depois vi... vi madame. Saí a correr e desmaiei.

Hercule Poirot inclinou gravemente a cabeça.

- Você nem ao menos olhou. Mas eu tenho olhos observadores, e digo-lhe que não havia nenhum colar na mesinha de cabeceira, hoje de manhã.

 

Poirot não se enganara. O colar não estava na mesinha de cabeceira de Linnet.

Louise Bourget foi encarregada de dar uma busca nas coisas de Mrs. Doyle; estava tudo em ordem, segundo ela disse. Somente haviam desaparecido as pérolas.

Saíram da cabina. Um dos criados de bordo veio dizer que a refeição estava pronta na sala de fumo.

Quando percorriam o tombadilho, Race parou para se debruçar na amurada.

- Ah! Vejo que tem uma idéia, meu amigo - exclamou Poirot.

- Sim, ocorreu-me de repente, quando Fanthorp disse que tinha ouvido um baque na água. Também eu acordei ontem à noite, pensando ter ouvido esse mesmo ruído. É bem possível que, depois do crime, o assassino tenha atirado a arma fora.

- Acha isso possível, meu amigo?

Race encolheu os ombros e replicou:

- É apenas uma sugestão. Afinal de contas, a arma não foi encontrada na cabina. Foi a primeira coisa que procurei.

- Assim mesmo, parece incrível que tenha sido atirada à água.

- Onde está, então?

- Se não está na cabina de Mistress Doyle, logicamente só há um lugar onde poderá ser encontrada.

- E é...?

- A cabina de Mademoiselle de Bellefort.

- Sim, compreendo...

Race parecia refletir. E depois, em tom brusco:

- A pequena não está na cabina agora. Vamos examiná-la?

Mas não era essa a idéia de Poirot.

- Não, não, meu amigo. Não sejamos precipitados. Talvez ainda não tenha sido levada para lá.

- Que acha uma busca imediata a todo o navio?

- Dessa maneira ficariam a saber o que pensamos. Precisamos de agir com a maior cautela. A nossa posição é, neste momento, muito delicada. Vamos discutir a situação enquanto comemos.

Entraram na sala de fumo.

- Então? - disse Race servindo-se de café. - Temos dois indícios: o desaparecimento das pérolas, e aquele tal Fleetwood. Quanto ao colar, tudo leva a acreditar em roubo, mas... não creio que concorde comigo...

Poirot disse vivamente:

- Não acha que a escolha do momento foi um tanto infeliz?

- Exatamente. O roubo de um colar daquele valor acarretaria uma busca rigorosa. Todos os passageiros teriam que ser revistados: como poderia então o ladrão esperar escapar?

- Poderia ter ido a terra, escondendo-o em qualquer parte.

- A companhia tem sempre um guarda na margem.

- Então não seria possível... Teria o assassínio sido cometido para distrair a atenção do roubo? Não, isto é um absurdo! Mas suponhamos que Mistress Doyle tenha acordado e apanhado o ladrão em flagrante?...

- E o homem matou-a? Mas ela estava a dormir quando levou o tiro.

- Então, também isso está fora de discussão. Sabe uma coisa?... Tenho um palpite a respeito destas pérolas... e no entanto... não, é impossível. Porque, se o meu palpite estivesse certo, as pérolas não teriam desaparecido. Diga-me: qual é a sua opinião sobre a criada?

- Achei que sabia mais do que quis dar a entender - respondeu Race lentamente.

- Ah, também você teve essa impressão?

- Não é nada simpática.

- Tem razão. Eu não poderia ter confiança naquela pequena.

- Acha que teve alguma relação com o crime?

- Não, não o creio.

- Com o roubo das pérolas, então?

- Isso é mais provável. Há pouco tempo que estava ao serviço de Mistress Doyle. Pode ser que faça parte de alguma quadrilha especializada em roubos de jóias; nestes casos, há sempre uma criada com ótimas referências. Infelizmente, não nos é possível tirar informações a respeito dela. Além do mais, esta explicação não me satisfaz... Aquelas pérolas... ah, sacré, o meu palpite devia estar certo. E, no entanto, ninguém seria imbecil a ponto de...

Poirot interrompeu-se bruscamente. Race perguntou:

- E quanto a Fleetwood?

- Precisamos de o interrogar. Talvez esteja aí a solução. Se a história de Louise é verdadeira, ele tinha motivo para desejar vingar-se. Poderia ter assistido à cena entre Jacqueline e Mister Doyle, entrando depois no salão vazio para se apoderar da arma. Sim, é possível. E aquela letra J escrita com sangue... Também está de acordo com a psicologia de uma criatura rude.

- Quer dizer que é exatamente a pessoa que procuramos?

- Sim... só se...

Poirot coçou o nariz e respondeu com uma careta:

- Vê você, reconheço as minhas fraquezas. Dizem que gosto de tornar difíceis os meus casos. A solução que você sugere... é tão simples... fácil de mais... Não acho possível que tenha realmente sucedido dessa maneira. E, no entanto, talvez seja simples prevenção da minha parte.

- Bom, talvez seja melhor chamarmos o homem aqui.

Race tocou a campainha. Depois de o criado se retirar, Race voltou-se novamente para Poirot:

- Outras... probabilidades?

- Muitas, meu amigo. Tomemos, por exemplo, o procurador americano.

- Pennington?

- Sim, Pennington. Assisti, um dia destes, a uma cena curiosa.

Poirot contou a Race o que acontecera e continuou:

- Vê, pois, que é significativo. Madame queria ler todos os papéis, antes de os assinar. E ele, então, deu a desculpa de um outro dia. E o marido fez uma observação muito significativa!

- Qual?

- Disse: "Nunca leio documento algum. Assino onde me mandam assinar." Percebe como é significativo? Pennington percebeu. Foi como se eu tivesse lido isso no seu olhar. Fitou Doyle como se uma idéia inteiramente nova lhe tivesse passado pela cabeça. Imaginemos, meu amigo, que você é procurador da filha de um homem imensamente rico. Talvez tenha usado o dinheiro para especular. Sei que é  o que acontece em novelas policiais, mas de vez em quando a gente lê também sobre isso nos jornais. É coisa que acontece, meu amigo, acontece.

- Não duvido - declarou Race.

- Talvez ainda haja tempo para especular loucamente. Talvez a pupila ainda não tenha atingido a maioridade. E então... ela casa-se! A administração do dinheiro passa, de um momento para o outro, das suas mãos para as dela! Catástrofe!... Mas ainda há uma esperança. Ela está em lua-de-mel. Talvez se descuide... Um documento enfiado no meio dos outros; assinado, talvez, sem ser lido... Mas Linnet Doyle não era desse tipo. Com ou sem lua-de-mel, era uma mulher de negócios. E então seu marido faz uma observação, e uma nova idéia ocorre ao homem que desesperadamente procura salvar-se da ruína. Se Linnet morresse, a fortuna passaria para as mãos do marido, e com ele seria tão fácil lidar! Seria como uma criança nas mãos de um homem astuto como Andrew Pennington. Mon cher coronel, garanto-lhe que vi o pensamento passar pela mente de Pennington. "Se eu tivesse que tratar com Doyle..." Sim, foi este o pensamento de Andrew Pennington.

- Talvez - disse Race secamente. - Mas você não tem provas.

- Não, infelizmente.

- E há também aquele tal Ferguson. Fala com bastante azedume... Não que me impressione com palavras; apesar disso, é possível que ele seja o filho do homem que foi levado à ruína pelo pai de Linnet. Sei que é arriscado, mas não impossível. Há gente que fica às vezes a remoer injúrias passadas.

Race ficou em silêncio por alguns minutos, e depois disse:

- E há também o meu homem.

- Sim, há o "seu homem", como você diz.

- É um assassino - declarou Race. - Quanto a isso não há dúvida. Por outro lado, não vejo que ligação possa ter tido com a família de Linnet. Vivem em esferas completamente diversas.

Poirot disse lentamente:

- A não ser que, acidentalmente, Mistress Doyle tenha descoberto a identidade dele.

- É possível, mas pouco provável. - Race interrompeu-se ao ouvir uma pancada na porta. Depois:

 Ah, aqui está o nosso quase bígamo.

Fleetwood era um homem alto e de aparência feroz. Olhou, desconfiado, de um para o outro. Poirot reconheceu nele o homem que vira no tombadilho a conversar com Louise Bourget.

Fleetwood perguntou:

- Mandou-me chamar?

- Mandei - disse Race. - Talvez tenha ouvido dizer que foi cometido um crime neste vapor, ontem à noite?

O homem inclinou a cabeça.

- E creio que você tinha motivos para não gostar da mulher que foi assassinada.

Uma expressão de alarme surgiu no olhar de Fleetwood.

- Quem lhe disse isso?

- Acho que Mistress Doyle se intrometera entre você e uma certa rapariga.

- Sei quem lhe contou isso: aquela francesa vagabunda. É uma grande mentirosa, essa rapariga.

- Mas aconteceu que é verdade.

- É mentira!

- Diz isso sem saber ainda do que se trata.

O alvo foi atingido. O homem enrubesceu, engolindo em seco.

- É verdade, não é, que ia casar-se com uma rapariga chamada Marie, e que ela desmanchou o noivado quando soube que você já era casado?

- Que tinha ela com isso?

- Quer dizer: que tinha Mistress Doyle com isso? Bom, você sabe, bigamia é bigamia.

- Não foi nada assim. Casei-me com uma das nativas daqui. Ela voltou para a sua família. Não a vejo há seis anos.

- Mas ainda está casado com ela.

O homem ficou em silêncio e Race continuou:

- Mistress Doyle, ou Miss Ridgeway, como se chamava naquele tempo, descobriu tudo...

- Sim, e que Deus a amaldiçoe! Metendo-se naquilo que não lhe dizia respeito... Eu teria sido bom para Marie. Teria feito tudo pela sua felicidade. E ela nunca teria sabido nada da outra, se não fosse por aquela sua patroa intrometida. Não nego que tinha esta razão de queixa contra aquela senhora, e fiquei revoltado quando a vi neste navio, toda bem vestida e cheia de jóias, mandando em Deus e toda a gente, sem se lembrar que estragara para sempre a vida de um homem! Fiquei revoltado, sim... Mas daí a pensarem que sou um miserável assassino... se pensam que peguei num revólver e a matei... Bom, isso não passa de uma grande mentira! Nunca lhe toquei. E que Deus me sirva de testemunha.

O homem parou, o suor escorria-lhe da testa.

- Onde estava você ontem, entre a meia-noite e as duas da manhã?

- Na minha cama. E o meu companheiro poderá confirmar o que digo.

- Veremos - disse Race, despedindo-o com uma seca inclinação de cabeça. - Por enquanto é só isto.

- Eh bien? - disse Poirot quando a porta se fechou.

Race encolheu os ombros.

- Falou muito coerentemente. Está nervoso, é claro, mas não excessivamente. Teremos que verificar o seu álibi, se bem que não creio que seja decisivo. O companheiro dele provavelmente estava a dormir, e este sujeito poderia ter entrado e saído sem que o outro percebesse coisa alguma. Depende de sabermos se mais alguém o viu.

- Sim, precisamos de averiguar.

- O próximo fato a investigar, na minha opinião, é se alguém ouviu qualquer coisa que nos dê uma idéia da hora do crime. Bessner diz que ocorreu entre a meia-noite e as duas da manhã. É possível que algum dos passageiros tenha ouvido a detonação, mesmo que não a tenham reconhecido como um tiro. Por mim, não ouvi nada semelhante. E você?

Poirot sacudiu a cabeça.

- Dormi como um frade. Não ouvi nada, absolutamente nada. Mesmo que estivesse narcotizado, não teria dormido mais profundamente.

- É pena - disse Race. - Bom, esperemos obter mais resultado com as pessoas que têm cabinas a estibordo. Já interrogamos Fanthorp. Em seguida, vêm os Allerton. Vou mandar chamá-los.

Mrs. Allerton entrou com muita vivacidade. Envergava um vestido cinzento, de seda listrada.

- É horrível! - disse, ao aceitar a cadeira que Poirot lhe ofereceu. - Mal posso acreditar... Aquela linda criatura, com tudo para a prender à vida... morta desta maneira! Mal posso realmente acreditar.

- Sei como se sente, madame - disse Poirot em tom compreensivo.

- Ainda bem que o senhor está a bordo – disse ela simplesmente. - Assim poderá descobrir quem cometeu o crime. Fiquei contente por saber que não foi aquela pobre rapariga de rosto trágico.

- Mademoiselle de Belleford? Quem lhe contou que não foi ela?

- Cornélia Robson - respondeu Mrs. Allerton com a sombra de um sorriso. - Sabe, ela está excitadíssima com toda esta história! É provavelmente a única coisa fora do comum que lhe aconteceu na vida e que jamais acontecerá. Mas é muito nova, e envergonha-se de gozar com os acontecimentos. Acha que é horrível da sua parte.

Mrs. Allerton fitou Poirot durante alguns segundos, depois acrescentou:

- Mas não devo tagarelar. O senhor tem algumas perguntas a fazer-me?

- Sim, por favor. A que horas se deitou, madame?

- Logo depois das dez e meia.

- E dormiu imediatamente?

- Sim; estava com sono.

- E ouviu alguma coisa... seja o que for, durante a noite?

Mrs. Allerton franziu as sobrancelhas.

- Sim, creio que ouvi um baque e alguém correr... ou teria sido o contrário? Estou um pouco confusa. Tive a vaga idéia de que alguém caíra ao mar... Sonho, o senhor compreende. Mas depois acordei e fiquei à escuta, e nada mais ouvi.

- E sabe a que horas foi isso?

- Não, infelizmente não. Mas não creio que tenha sido muito depois de me ter deitado; isto é, durante a primeira hora ou pouco mais tarde.

- Infelizmente, madame, isso é muito vago!

- Tem razão. Mas não vale a pena eu querer adivinhar, quando na realidade não tenho a menor idéia, não é verdade?

- E é só o que tem a dizer-nos, madame?

- Infelizmente, é.

- Já conhecia Mistress Doyle, antes desta viagem?

- Não. Tim conhecia-a. E eu já ouvira falar muito dela, por uma prima, Joana Southwood, mas nunca tínhamos trocado uma palavra, até àquele dia, no terraço do hotel, em Assuão.

- Se me dá licença, madame, tenho outra pergunta a fazer-lhe.

Mrs. Allerton murmurou com um leve sorriso:

- Gostaria imenso que me fizesse uma pergunta indiscreta.

- Muito bem. A senhora, ou pessoa de sua família, teve algum prejuízo financeiro, em conseqüência de transações com Melhuish Ridgeway, pai de Mistress Doyle?

A pergunta pareceu surpreender Mrs. Allerton.

- Oh, não. As finanças da família nunca sofreram, a não ser uma ligeira depressão... O senhor sabe, tudo rende menos do que costumava render... Não houve nada de melodramático na nossa pobreza. Meu marido deixou uma fortuna pequena, mas ainda conservo o que herdei, embora os juros não sejam os mesmos daquele tempo.

- Agradecido, madame. Talvez queira ter a bondade de nos mandar o seu filho?

Tim disse a Mrs. Allerton, quando esta foi procurá-lo:

- Acabou-se a prova? Chegou a minha vez. Que espécie de perguntas lhe fizeram?

- Apenas se eu tinha ouvido alguma coisa ontem à noite. E, infelizmente, não ouvi coisa alguma. Não sei como... Afinal de contas, a cabina de Linnet é quase pegada à minha. Acho que devia ter ouvido a detonação. Vai agora, Tim; estão à tua espera.

Poirot fez a Tim a mesma pergunta que a Mrs. Allerton, e ele respondeu:

- Fui cedo para a cama, às dez e meia, mais ou menos. Li um pouco, e apaguei a luz logo depois das onze horas.

- Ouviu alguma coisa depois disso?

- Ouvi uma voz de homem, dizendo boa noite, não muito longe da minha cabina.

- Devia ser eu, despedindo-me de Mistress Doyle - Disse Race.

- Com certeza. Depois disso fui para a cama.  Mais tarde, ouvi ruídos confusos: alguém chamando Fanthorp, lembro-me agora.

- Era Miss Robson, ao sair do salão envidraçado.

- Sim, com certeza foi isso. E depois ouvi várias vozes diferentes. E alguém correndo pelo tombadilho, e um baque na água. E depois a voz do velho Bessner, recomendando em tom não muito baixo: "Cuidado, agora." E ainda: "Não ande depressa demais."

- Ouviu um baque?

- Qualquer coisa desse gênero.

- Tem a certeza de que não foi uma detonação?

- Bom, talvez tenha sido isso. Deu-me a impressão do estalo de uma rolha ao saltar. É possível que tenha sido um tiro. Talvez eu tenha imaginado o baque, por associação de idéias; o ruído da rolha fazendo-me lembrar algum líquido a ser despejado num copo... Sei que, na nebulosidade do meu pensamento, achei que estava a dar-se uma festa, ou coisa parecida. E desejei que fossem todos para a cama e ficassem quietos!

- Nada mais, depois disso?

Tim pareceu refletir.

- Somente Fanthorp movendo-se na sua cabina, que é pegada à minha. Pensei que nunca mais fosse para a cama.

- E depois?

Tim encolheu os ombros.

- Depois... o esquecimento.

- Não ouviu mais nada?

- Absolutamente nada.

- Muito agradecido, Mister Allerton.

Tim levantou-se e saiu.

 

Race estudava a planta do tombadilho de passeio.

- Fanthorp, Tim Allerton, Mistress Allerton. Depois uma cabina vazia, a de Simon Doyle. A velha americana. Se alguém ouviu alguma coisa, também ela deve ter ouvido. É melhor mandarmos chamá-la, se já estiver a pé.

Miss Van Schuyler entrou na cabina, parecendo ainda mais velha e amarela naquela manhã. Os olhitos pretos tinham uma venenosa expressão de contrariedade.

Race ergueu-se e inclinou-se diante dela.

- Sentimos muito ter que a incomodar, Miss Van Schuyler. Foi muita bondade sua... Queira sentar-se.

A velhota disse secamente:

- Acho detestável ver-me metida nisto; detestável! Não quero de modo algum envolver-me em... hummm... negócio tão desagradável.

- Tem razão, tem razão. Eu estava justamente a dizer a Monsieur Poirot que, quanto mais cedo ouvíssemos o seu depoimento, melhor, pois assim não teríamos mais que a incomodar.

Miss Van Schuyler fitou Poirot com expressão um pouco mais benevolente.

- Fico satisfeita por ver que os senhores compreendem os meus sentimentos. Não estou habituada a estas coisas.

Poirot disse suavemente:

- De acordo, mademoiselle. É exatamente por isso que queremos deixá-la livre de aborrecimentos o mais depressa possível. Agora: a que horas se deitou ontem?

- Deito-me sempre às dez horas. Ontem, fiquei um pouco atrasada, porque, muito desatenciosamente, Cornélia fez-me esperá-la.

- Très bien, mademoiselle. Agora: que ouviu depois de se ter retirado?

Miss Van Schuyler explicou:

- Tenho o sono muito leve.

- À merveille. É uma sorte para nós.

- Acordei com a voz daquela espalhafatosa criada de Mistress Doyle, dizendo: "Bonne nuit, madame", em voz alta de mais, na minha opinião.

- Depois?

- Adormeci novamente. Acordei com a impressão de que alguém estava na minha cabina, mas não tardei a perceber que o ruído vinha da cabina vizinha.

- A de Mistress Doyle?

- Sim. Depois ouvi passos no tombadilho e em seguida um baque na água.

- Não sabe mais ou menos que horas eram?

- Posso dizer exatamente a hora. Uma e dez.

- Tem a certeza?

- Tenho, sim. Olhei para o relógio, que estava na mesa de cabeceira.

- Não ouviu uma detonação?

- Não; nem nada desse gênero.

- Mas quem sabe se não foi a detonação que a acordou?

Miss Van Schuyler pareceu refletir, inclinando ligeiramente a cabeça.

- Talvez - respondeu, contrariada.

- E não tem a menor idéia do que possa ter causado esse baque na água?

- Pelo contrário. Sei perfeitamente o que foi.

Race endireitou-se, de olhar alerta.

- Sabe?

- Claro! Não gostei daquele ruído de passos a meio da noite. Levantei-me, portanto, e fui até à porta da minha cabina. Miss Otterbourne estava debruçada na amurada e acabava de atirar qualquer coisa à água.

- Miss Otterbourne?

- Distingui-lhe perfeitamente o rosto.

- E ela não a viu, mademoiselle?

- Não o creio.

Poirot inclinou-se e perguntou:

- E qual a expressão do rosto de Miss Otterbourne?

- Parecia profundamente alterada.

Os dois homens entreolharam-se. Race perguntou:

- E então?

- Miss Otterbourne afastou-se para o lado da popa e eu voltei para a cama.

Neste momento, bateram à porta e o gerente apareceu, trazendo nas mãos um embrulho encharcado.

- Encontramos, coronel.

Race estendeu a mão e desembrulhou, dobra por dobra, o tecido de veludo. Caiu de dentro um lenço grosseiro, com manchas cor-de-rosa, que envolvia um revolverzinho de cabo de madrepérola.

Race fitou Poirot com ar de malicioso triunfo.

- Vê? A minha idéia não era assim tão má. Foi atirado à água - disse ele, colocando o revólver na palma da mão. - Que diz a isto, Monsieur Poirot? É o revólver que viu no Hotel Catarata, naquela noite?

O detetive examinou-o com cuidado, depois disse calmamente:

- Sim, é o mesmo. Cá estão os enfeites no cabo e... as iniciais: J. B. É um article de luxe, muito feminino, mas apesar disso perigoso.

- Vinte e dois... - murmurou Race, examinando-o também. - Duas balas batidas. Não há dúvida nenhuma de que é esta a arma.

Miss Van Schuyler tossiu de maneira significativa.

- E que acham da minha écharpe?

- A sua écharpe, mademoiselle?

- Sim, isto que o senhor tem aí na mão é a minha écharpe de veludo!

Race examinou o tecido macio e perguntou:

- Isto é seu, Miss Van Schuyler?

- Claro que é meu! - exclamou a velha secamente. - Dei pela sua falta ontem à noite. Perguntei a todos se tinham visto a minha écharpe.

Poirot consultou Race com o olhar e este inclinou a cabeça em sinal de assentimento.

- Onde a viu pela última vez, Miss Van Schuyler?

- Estava a meu lado, no salão, ontem à noite. Quando me levantei para me ir deitar, não consegui encontrá-la.

Poirot perguntou tranquilamente:

- Percebe para que foi usada?

Ao dizer isto, abriu a écharpe, mostrando vários furinhos no tecido.

- O assassino usou-a para amortecer a detonação - acrescentou ele.

- Que topete! - exclamou Miss Van Schuyler, corando violentamente.

Race disse então:

- Ficar-lhe-ei muito agradecido, Miss Van Schuyler, se me disser quais as suas relações com Mistress Doyle, anteriormente a esta viagem.

- Essas relações eram inexistentes.

- Mas conhecia-a?

- Sabia quem era, naturalmente.

- Mas a sua família e a dela não se davam?

- A minha família foi sempre exigente, coronel Race. Minha mãe jamais sonharia em ir visitar uma pessoa da família Hartz, que, a não ser pelo seu dinheiro, era gente que socialmente não contava.

- É só o que tem a dizer, Miss Van Schuyler?

- Nada tenho a acrescentar ao que já disse. Linnet Ridgeway foi educada na Inglaterra e eu nunca a tinha visto até pôr os pés neste vapor.

Dito isto, levantou-se. Poirot abriu-lhe a porta e ela saiu muito tesa e importante.

Os olhares dos dois homens encontraram-se.

- É esta a sua versão da história, e dela não se afastará - disse Race. - Talvez seja verdade. Não sei... Mas... Rosalie Otterbourne? Por esta não esperava eu!

Poirot abanou a cabeça, com ar perplexo. Depois bateu com força o punho na mesa, exclamando:

- Mas isto não tem sentido! Nom d'un nom d'un nom! Não tem sentido!

- Que quer exatamente dizer com isso? - perguntou Race, fitando-o com curiosidade.

- Digo que até certo ponto tudo caminha logicamente. Alguém queria matar Linnet Doyle. Alguém ouviu a cena no salão, ontem à noite. Alguém ali entrou sorrateiramente, apanhando o revólver; o revólver de Miss de Bellefort, lembre-se bem! Alguém matou Linnet com este revólver e escreveu a letra J na parede... Tudo muito claro, não é verdade? Tudo apontando para Jacqueline. E depois, que faz o assassino? Deixa o revólver (a arma reveladora) em algum lugar onde possa ser encontrado? Não! Ele, ou ela, atira o revólver à água, esta prova tão importante. Por quê, meu amigo, por quê?

Race sacudiu a cabeça.

- É realmente esquisito - confessou ele.

- Mais do que esquisito, impossível!

- Impossível não, uma vez que aconteceu!

- Não foi isso que eu quis dizer. Digo que a marcha dos acontecimentos é impossível! Alguma coisa está errada.

 

Race fitou o colega com curiosidade. Respeitava, e tinha motivo para isso, a inteligência de Hercule Poirot. E, no entanto, naquele momento não podia acompanhar-lhe o raciocínio. Mas nem por isso lhe perguntou coisa alguma. Não era hábito seu fazer perguntas. Continuou com o assunto de que tratavam naquele momento.

- Que fazer, em seguida? Interrogar a pequena Otterbourne?

- Sim; isso talvez nos ajude um pouco.

Rosalie Otterbourne entrou com expressão de má vontade no rosto. Não parecia nervosa ou amedrontada; apenas de mau humor e contrariada.

- Então! Que desejam? - perguntou.

Foi Race quem primeiro lhe dirigiu a palavra.

- Estamos a investigar a morte de Mistress Doyle – explicou ele.

Rosalie inclinou a cabeça, sem nada responder.

- Quer dizer-me o que fez ontem à noite?

Rosalie refletiu alguns segundos.

- A mamã e eu fomos cedo para a cama; antes das onze horas. Não ouvimos coisa alguma, a não ser murmúrios de vozes à porta da cabina do doutor Bessner. Distingui a voz pesada do alemão, afastando-se. Naturalmente, só hoje de manhã fiquei a saber do que se tratava.

- Não ouviu um tiro?

- Não.

- Não saiu da sua cabina, ontem à noite?

- Não.

- Tem a certeza?

Rosalie encarou-o.

- Que quer dizer com isso? Claro que tenho a certeza.

- A senhora não teria, por acaso, dado a volta pelo tombadilho, e atirado qualquer coisa à água?

- Há alguma lei proibindo que se atirem coisas à água? - perguntou a jovem, corando.

- Não, claro que não. Então foi o que fez?

- Nada disso. Já lhe disse que não saí da minha cabina.

- Se alguém tiver dito que a viu...

A jovem interrompeu-o:

- Quem foi que disse que me viu?

- Miss Van Schuyler.

- Miss Van Schuyler? - perguntou Rosalie, admirada.

- Sim; Miss Van Schuyler disse que espreitou pela porta da sua cabina, e viu a senhora atirar qualquer coisa à água.

- É mentira - declarou a jovem sem hesitar.

Depois, como se alguma coisa lhe tivesse ocorrido de repente, perguntou:

- A que horas?

Desta vez foi Poirot quem respondeu:

- Passavam dez minutos da uma hora, mademoiselle.

Rosalie inclinou a cabeça, com ar pensativo.

- Ela viu mais alguma coisa?

Poirot fitou-a com curiosidade, coçando o queixo.

- Ver... não. Mas ouviu.

- Sim?

- Alguém a mexer-se na cabina de Mistress Doyle.

- Compreendo - murmurou Rosalie.

Agora estava pálida, muito pálida.

- E insiste em dizer que não atirou nada fora, mademoiselle?

- Por que motivo havia eu de andar no meio da noite a atirar coisas ao rio?

- Talvez houvesse um motivo, um motivo inocente.

- Inocente? - perguntou a jovem bruscamente.

- Foi o que eu disse. Porque, a senhora sabe, alguma coisa foi atirada à água a noite passada; uma coisa que nada tinha de inocente.

Sem dizer uma palavra, Race mostrou-lhe a écharpe de veludo, abrindo-a para exibir o seu conteúdo.

Rosalie recuou, perguntando:

- Foi com isto... que a mataram?

- Sim, mademoiselle.

- E acha que eu... que fui eu que a matei? Que tolice! Por que motivo havia eu de querer matar Linnet Doyle? Se nem ao menos a conhecia!

Sorriu, levantando-se com ar desdenhoso.

- É completamente ridículo! - acrescentou.

- Lembre-se, Miss Otterbourne, de que Miss Van Schuyler está pronta a jurar que distinguiu claramente as suas feições, ao luar.

Rosalie riu novamente.

- Aquela gata velha! Com certeza é quase cega. Não foi a mim que viu. - Fez uma pausa e perguntou: - Posso ir-me embora?

Race inclinou a cabeça e a jovem saiu.

Os dois homens entreolharam-se novamente. Race acendeu um cigarro e comentou:

- Então é isso! Contradição absoluta. Em quem  devemos acreditar?

- Parece-me que nenhuma das duas foi muito franca.

- É isso o mais duro no nosso trabalho - observou Race em tom desanimado. - Tanta gente oculta a verdade, às vezes por motivos completamente fúteis! E agora? Continuaremos o interrogatório?

- Creio que sim. É sempre bom agir com método e ordem.

Mrs. Otterbourne foi a seguinte a ser chamada.

Confirmou o que a filha dissera - que tinham ambas ido para a cama antes das onze horas. Nada ouvira durante a noite. Não podia dizer se Rosalie saíra ou não da cabina... Quanto ao crime, parecia disposta a discuti-lo.

- O crime passional! - exclamou ela. - O instinto primitivo: matar! tão ligado ao instinto sexual! Aquela pequena, Jacqueline, meio latina, de temperamento ardente, obedecendo aos seus mais fortes instintos, adiantando-se de mansinho, de revólver na mão...

- Jacqueline não matou Mistress Doyle. Disso temos nós a certeza. Está provado - declarou Poirot.

- Seu marido, então - emendou Mrs. Otterbourne, sem se dar por vencida. - Sede de sangue e instinto sexual; crime passional. Há muitos exemplos...

- Mister Doyle levou um tiro na perna e estava impossibilitado de se mover - explicou o coronel Race. - Passou a noite com o doutor Bessner.

Mrs. Otterbourne pareceu desapontada, mas imediatamente procurou outra solução.

- Naturalmente! Como fui tola! Miss Bowers!

- Miss Bowers?

- Sim, é lógico. Psicologicamente tão claro! Repressão. A virgem recalcada! Enfurecida ao ver o espetáculo daqueles dois: um casal jovem e apaixonado! Claro que foi ela. É o tipo perfeito... sem atração física... seriedade inata... No meu livro "A Vinha Estéril..."

Race interrompeu-a delicadamente:

- As suas sugestões foram muito apreciadas. Precisamos agora de continuar com o nosso trabalho. Muito agradecido.

Acompanhou-a amavelmente até à porta e voltou enxugando a testa.

- Uf, que criatura venenosa! É pena não ter sido ela a assassinada.

- Pode ainda acontecer! - disse Poirot à guisa de consolação.

- Talvez não seja tão grande absurdo. Quem é que falta? Pennington? Vamos deixá-lo para o fim. Richetti, Ferguson.

Signor Richetti chegou, parecendo muito agitado e falando com volubilidade.

- Que horror! Que infâmia!... Uma mulher tão jovem e bonita... Que crime monstruoso! – exclamou erguendo expressivamente as mãos.

Respondeu com clareza às perguntas de Poirot. Logo depois do jantar, para ser exacto, fora para a cama... muito cedo. Lera um panfleto muito interessante, recém-publicado.

Apagara a luz um pouco antes das onze horas.

Não, não ouvira detonação alguma. Nem coisa parecida com o estalo de uma rolha. O único som que ouvira - e isto bem mais tarde! - fora o de qualquer coisa batendo na água, perto da sua escotilha.

- A sua cabina fica no tombadilho de baixo, a estibordo, não é verdade?

- Sim, sim, é isso mesmo. E ouvi o ruído de um baque, muito forte.

De novo ele ergueu os braços para dar ênfase à frase.

- Pode dizer-me a que horas foi isso?

Richetti pareceu refletir.

- Uma, duas, três horas depois que adormeci. Talvez duas horas.

- À uma e dez, por exemplo?

- Sim, talvez tivesse sido. Ah! Que crime horrível... desumano... uma mulher tão linda!...

Saiu o Signor Richetti, ainda gesticulando bastante.

Race olhou para Poirot. O detetive ergueu expressivamente as sobrancelhas, depois encolheu os ombros.

Mandaram chamar Mr. Ferguson.

Com ele foi mais difícil. O rapaz esparramou-se insolentemente numa cadeira.

- Que barulho por causa de uma coisa sem importância! - disse ele desdenhosamente. - Há mulheres em excesso no mundo.

Race perguntou friamente:

- Pode dar-nos um resumo dos seus atos ontem à noite, Mister Ferguson?

- Não vejo razão para isso. Mas não me incomoda responder. Vagueei de um lado para o outro. Fui a terra com Miss Robson. Quando ela voltou para o barco, vagabundeei, sozinho, mais um pouco. Voltei para o navio e fui deitar-me à meia-noite.

- A sua cabina fica no tombadilho de baixo, a estibordo?

- Fica. Não estou em cima, com os aristocratas.

- Ouviu um tiro? Qualquer coisa parecida com o estalar de uma rolha?

Ferguson refletiu; depois disse:

- Sim, creio ter ouvido um som semelhante ao saltar de uma rolha... Não me lembro quando... Antes de adormecer. Mas ainda havia muita gente a pé; agitação, passos apressados no tombadilho de cima.

- Provavelmente devido ao tiro dado por Miss de Bellefort. Não ouviu outro?

Ferguson sacudiu negativamente a cabeça.

- Nem o ruído de um baque na água?

- Sim, isso creio que ouvi. Mas havia tanto barulho que não posso ter a certeza.

- Saiu da sua cabina durante a noite?

Ferguson sorriu.

- Não, não saí. E infelizmente não tive participação no ato meritório.

- Vamos, vamos, Mister Ferguson, não seja tão infantil.

Isto pareceu encolerizar o socialista.

- Porque não hei-de dizer o que penso? Sou a favor da violência.

- Mas não põe em prática as suas idéias? – disse Poirot. - Não sei, não...

Inclinou-se e perguntou noutro tom:

- Foi aquele sujeito, Fleetwood, não foi, que lhe disse que Linnet Doyle era uma das mulheres mais ricas da Inglaterra?

- Que tem Fleetwood com isso?

- Fleetwood, meu amigo, tinha um excelente motivo para matar Linnet Doyle.

Ferguson endireitou-se vivamente na cadeira.

- Então é este o seu jogo, hem? - exclamou colericamente. - Querem empurrar a culpa para o pobre Fleetwood, que não pode defender-se, que não tem dinheiro para pagar a advogados! Mas ouçam uma coisa: se tentarem incriminá-lo, terão de ajustar contas comigo.

- E, precisamente, quem é o senhor? - perguntou suavemente

Poirot.

Mr. Ferguson corou violentamente.

- Sou uma pessoa leal aos seus amigos – disse ele bruscamente.

- Bom, Mister Ferguson, por enquanto, creio que é só isto - disse Race.

Quando a porta se fechou, Race comentou:

- Um sujeito no fundo bem simpático, não acha?

- Não desconfia então que seja o homem que está a procurar? - perguntou Poirot.

- Não o creio. E no entanto ele está a bordo. A informação foi muito precisa. Oh, bom, uma coisa de cada vez. Vamos interrogar Pennington.

 

Andrew Pennington compareceu com todas as convencionais manifestações de surpresa e pesar. Estava, como sempre, caprichosamente vestido. Usava agora uma gravata preta. O rosto comprido e bem barbeado tinha uma expressão perplexa.

- Senhores, este caso abalou-me profundamente. A pequena Linnet... Imaginem, lembro-me dela quando era a menina mais linda deste mundo! Como Melhuish Ridgeway se orgulhava dela! Bom, de nada adiantam as lamentações. Digam-me apenas em que posso ajudá-los; é só o que lhes peço.

Race abriu o interrogatório:

- Para começar, Mister Pennington, ouviu alguma coisa a noite passada?

- Não, senhor. Não posso dizer que tenha ouvido. A minha cabina fica pegada à do doutor Bessner, número trinta e oito-trinta e nove. Ouvi certa agitação, aí pela meia-noite. Naturalmente, naquela ocasião não soube do que se tratava.

- Não ouviu mais nada? Tiros?..

Pennington abanou a cabeça.

- Nada semelhante.

- E foi para a cama às...?

- Pouco depois das onze.

O americano inclinou-se para a frente e continuou em tom confidencial:

- Não creio que ignorem os boatos que correm neste navio? Aquela rapariga meio francesa, por exemplo, Miss de Bellefort. Há alguma coisa de esquisito, como sabem. Linnet nada me disse, mas naturalmente não sou cego nem surdo. Houve qualquer coisa entre ela e Simon, não houve? Cherchez la femme (é coisa que muitas vezes dá certo) e neste caso não creio que tenham que chercher muito longe.

Poirot perguntou:

- Quer dizer que, na sua opinião, Miss de Bellefort matou Mistress Doyle?

- É o que me parece. Claro que não sei de nada...

- Infelizmente, nós sabemos de alguma coisa!

- Bem? - exclamou o americano, ligeiramente sobressaltado.

- Sabemos que teria sido impossível Miss de Bellefort matar Mistress Doyle.

Poirot deu pormenorizadamente explicações, mas Pennington mostrou-se pouco disposto a aceitá-las.

- Não digo que à primeira vista não pareça que os senhores têm razão, mas aquela enfermeira... garanto que não ficou acordada toda a noite. Com certeza adormeceu e a rapariga escapuliu-se da cabina.

- Pouco provável, Mister Pennington. Lembre-se de que Miss Bowers tinha aplicado a Jacqueline uma forte injeção. Além do mais, as enfermeiras em geral têm o sono leve e costumam acordar quando os pacientes acordam.

- Acho muito esquisito - disse o americano.

Race replicou, em tom ligeiramente autoritário:

- Creio que pode acreditar, Mister Pennington, que examinamos com cuidado todas as possibilidades. Não há dúvida quanto ao resultado: Jacqueline de Bellefort não poderia ter assassinado Linnet Doyle. Somos, portanto, obrigados a procurar algures e achamos que neste ponto o senhor nos poderá auxiliar.

- Eu? - perguntou Pennington com um nervoso sobressalto.

- Sim. O senhor era íntimo amigo da vítima. Provavelmente, sabe da vida de Mistress Doyle mais do que o seu próprio marido, que a conheceu há poucos meses. Talvez nos possa dizer, por exemplo, se existe alguém com razão de queixa contra ela, alguém que tivesse motivos para lhe desejar a morte.

Pennington passou a língua pelos lábios ressequidos e respondeu:

- Garanto-lhe que não tenho a mínima idéia... Linnet, o senhor sabe, foi educada na Inglaterra. Conheço muito pouco da sua vida e das suas relações.

- E, no entanto, alguém neste navio estava interessado no seu desaparecimento. O senhor deve estar lembrado de que Mistress Doyle escapou de um perigo iminente, aqui mesmo, quando aquela pedra rolou... Ah! Mas talvez não estivesse lá?

- Não; eu estava dentro do templo, nessa ocasião. Ouvi depois comentários sobre o caso, naturalmente. Escapou por um triz. Mas... talvez um acidente, não acha?

Poirot encolheu os ombros.

- Foi o que se pensou, no momento. Agora... não sei!

- Sim, sim, tem razão! - disse Pennington enxugando a  testa com um finíssimo lenço de seda.

Race disse:

- Mistress Doyle referiu-se a certa pessoa neste navio que tinha razões de queixa, não contra ela, pessoalmente, mas contra a sua família. Sabe quem poderia ser essa pessoa?

O americano respondeu, parecendo sinceramente admirado:

- Não, não tenho a mínima idéia.

- Mistress Doyle não discutiu o caso com o senhor?

- Não.

- Era amigo íntimo do pai dela... Não se lembra de nenhuma transação que tenha tido como resultado a ruína de algum adversário, no mundo das finanças?

Pennington abanou a cabeça, com ar desanimado.

- Nenhum caso especial. Tais transações eram, naturalmente, freqüentes, mas não me lembro de ninguém que tivesse feito ameaças... Nada desse gênero.

- Em resumo, Mister Pennington, o senhor não nos pode ajudar?

- É o que parece. Lamento muito, meus senhores.

Race trocou um olhar com Poirot.

- Também eu sinto - disse ele. – Estávamos com esperanças.

Levantou-se, dando a entrevista por terminada.

- Como está de cama, Mister Doyle com certeza há-de querer que eu cuide de tudo - disse Pennington. - Perdoe-me, coronel, mas que providências vai tomar?

- Quando sairmos daqui, iremos diretamente para Shellâl, onde devemos chegar amanhã de manhã.

- E o corpo?

- Será levado para uma das câmaras frigoríficas.

Pennington despediu-se e saiu.

Poirot e Race consultaram-se com o olhar. O coronel acendeu um cigarro e comentou:

- Mister Pennington não estava nada à vontade.

Poirot inclinou a cabeça e disse:

- Mister Pennington estava tão perturbado, a ponto de dizer uma mentira estúpida. Ele não estava no templo de Abu Simbel, quando aquela pedra rolou. Sobre isso, (eu que vos falo) posso jurar. Eu acabara justamente de sair do templo.

- Uma mentira estúpida - concordou Race. - E muito significativa.

- Mas no momento oportuno nós o trataremos com luvas de pelica, não é verdade?

- É também a minha opinião.

- Meu amigo, nós entendemo-nos às mil maravilhas.

Ouviram um ronco distante e áspero, sentiram o navio vibrar a seus pés...

O Karnak iniciava a sua viagem de regresso a Shellâl.

- As pérolas - disse Race. - Temos agora que cuidar das pérolas.

- Tem algum plano?

- Tenho, sim. - Race consultou o relógio e acrescentou: - Daqui a meia hora, será servido o almoço. No fim da refeição, farei uma comunicação; direi que o colar foi roubado, e que sou obrigado a pedir que fiquem todos no salão, para que se proceda a uma busca no navio.

Poirot inclinou a cabeça em sinal de assentimento.

- Muito bem pensado. Quem quer que seja que tenha roubado o colar, ainda o conserva em seu poder. Apanhado de surpresa, o ladrão não terá oportunidade de o atirar ao rio, num momento de pânico.

Race puxou para mais perto uma pilha de papéis e disse, em tom de quem se desculpa:

- Gosto de fazer um resumo dos fatos, à medida que vou progredindo. Evita-se assim muita confusão.

- Faz muito bem. Nada há como a ordem e o método – disse Poirot.

Race escreveu durante dez minutos, na sua letra miúda e fina. Finalmente, empurrou para mais perto de Poirot o fruto do seu trabalho.

- Qualquer coisa com que não concorde?

O detetive apanhou as folhas. No alto da primeira, estava escrito:

 

ASSASSÍNIO DE MRS. LINNET DOYLE

Mrs. Doyle foi vista com vida, a última vez, pela sua criada, Louise Bourget. Hora: 23 e 30 (aproximadamente)

Das 23.30 às 0.20 as seguintes pessoas têm álibis:

Cornélia Robson, James Fanthorp, Simon Doyle, Jacqueline de Bellefort - ninguém mais - mas o crime provavelmente foi cometido depois disso, pois é quase certo o assassino ter usado o revólver de Jacqueline de Bellefort, que até então estava dentro da bolsa desta última. Não está provado que o crime foi cometido com este revólver, e só se poderá ter a certeza absoluta depois da autópsia, quando for ouvida a opinião dos técnicos, a respeito da bala; mas podemos considerar isto como provável.

Curso provável dos acontecimentos: X (o assassino) presenciou a cena entre Jacqueline e Simon Doyle, no salão envidraçado, viu onde caiu o revólver, sob a poltrona. Quando o salão ficou deserto, X procurou a arma - pensando que o crime seria por isso atribuído a Jacqueline. Devido a esta teoria, muita gente pode ser considerada inocente.

Cornélia Robson, uma vez que não teve oportunidade de ir buscar o revólver, antes de James Fanthorp voltar para o procurar.

Miss Bowers - a mesma coisa.

Dr. Bessner - a mesma coisa.

N. B. Não se pode considerar Fanthorp como completamente inocente, pois podia ter metido a arma no bolso, dizendo depois que a não encontrara.

Qualquer outra pessoa poderia ter apanhado a arma naquele espaço de dez minutos.

Possíveis motivos para o crime:

Andrew Pennington: Isto, partindo-se do princípio de que é culpado de fraudulentas especulações. Há muitos indícios neste sentido, mas não bastam para o apontar como assassino. Se foi quem fez rolar a pedra, então mostrou que é pessoa que sabe aproveitar a oportunidade que se apresenta. O crime, naturalmente, não foi premeditado, a não ser de uma maneira geral. A cena  no salão ontem à noite forneceu a oportunidade ideal.

Objeções à teoria da culpabilidade de Pennington. Porque atirou ele o revólver ao rio, uma vez que era uma prova valiosa contra "B"?

Fleetwood: Motivo: vingança. Fleetwood achava que Linnet Doyle o prejudicara. É possível que tivesse assistido à cena, notando o lugar onde o revólver fora parar. Pode tê-lo apanhado mais pela facilidade de ter uma arma à mão, do que para atirar a culpa sobre Jacqueline. Isto condiz com o gesto subseqüente de o atirar fora. Mas, sendo assim, por que motivo escreveu a letra J com sangue na parede?

N. B. É mais provável que o lenço barato, encontrado à volta do revólver, pertença a um homem como Fleetwood, do que a qualquer dos passageiros abastados.

Rosalie Otterbourne: Devemos aceitar o depoimento de Miss Van Schuyler ou a negativa de Rosalie? Alguma coisa foi lançada à água, provavelmente o revólver dentro da écharpe de veludo.

Pontos a serem estudados: Teria Rosalie algum motivo?

É possível que não apreciasse Mrs. Doyle e a invejasse – mas como motivo para matar isto parece absurdo; a julgar pelas aparências, não havia nenhuma ligação anterior entre Rosalie e Linnet.

Miss Van Schuyler: A écharpe de veludo que envolvia a arma pertence a Miss Van Schuyler. A julgar pelo que ela disse, viu-a pela última vez no salão envidraçado. Chamou a atenção para o fato de a ter perdido, tendo sido feita, sem resultado, uma busca para a encontrar.

Como foi a écharpe parar às mãos de X? Ter-se-ia X apoderado dela no princípio da noite? E, sendo assim, com que fito? Ninguém podia saber de antemão que ia haver uma cena entre Jacqueline e Simon. Teria X encontrado a écharpe no salão, quando foi procurar o revólver? Mas, neste caso, porque não foi encontrada na ocasião da busca? Miss Van Schuyler tê-la-ia perdido realmente?

Isto é:

Terá Miss Van Schuyler assassinado Linnet Doyle? Será falsa a sua acusação a Rosalie? Se matou Mrs. Doyle, qual o motivo?

Outras possibilidades:

Alguém com razões contra a família Ridgeway. Possível – mas não há indícios.

Sabemos que há um homem perigoso a bordo – um assassino. Temos aqui um assassino e um crime. Não haverá ligação entre os dois? Mas, para chegarmos a esta conclusão, seria necessário saber que Linnet tinha poderosas informações a respeito desse homem.

Conclusões: Podemos dividir as pessoas a bordo em dois grupos - aqueles que tinham motivo, ou contra quem há indícios, e aqueles que, pelo que até agora averiguamos, estão livres de suspeita.

Grupo I Grupo II

Andrew Pennington Mrs. Allerton

Tim Allerton

Fleetwood Cornélia Robson

Rosalie Otterbourne Miss Bowers

Miss Van Schuyler Dr. Bessner

Signor Richetti

Louise Bourget (Roubo) Mrs.Otterbourne

Ferguson (Política?) James Fanthorp

 

Poirot afastou os papéis e comentou:

- Está certo, muito certo, o que escreveu.

- Concorda?

- Concordo, sim.

- E agora, qual a sua colaboração?

Poirot empertigou-se com ar importante.

- Eu, eu faço a mim mesmo uma pergunta: "Por que motivo atiraram fora o revólver?"

- Só isso?

- No momento presente, é só isso. Até conseguir uma resposta satisfatória a esta pergunta, de nada vale o resto. Isto é... talvez aí esteja o ponto de partida. Note, meu amigo, que no seu sumário, você não procurou solucionar essa dificuldade.

Race sugeriu, encolhendo os ombros:

- Pânico.

Mas Poirot não pareceu satisfeito. Apanhou a écharpe de veludo, estendendo-a sobre a mesa, e passou os dedos em volta dos furos e das marcas chamuscadas.

- Diga-me uma coisa, meu amigo: você tem mais prática do que eu de armas de fogo... Uma coisa assim, à volta de um revólver, amorteceria o som?

- Não. Pelo menos não tanto como um silenciador – respondeu Race.

- Um homem, e ainda mais um homem habituado a lidar com armas de fogo, saberia isso. Mas não uma mulher.

Race fitou-o com curiosidade.

- Provavelmente, não.

- Ela teria lido novelas policiais, onde os pormenores nem sempre são exatos.

Race ergueu o revólver.

- De qualquer maneira, este brinquedo não faria muito barulho - disse ele. - Um simples estalo e pronto! Com outros ruídos à volta, as probabilidades são de dez para um de que não seria ouvido.

- Sim, pensei nisso.

Poirot examinou o lenço e continuou:

- Lenço de homem, mas não de um cavalheiro. Cecher Woolworth, com certeza. No máximo três pence.

- Tipo de lenço que um homem como Fleetwood usaria.

- Sim. Notei que Andrew Pennington usa um finíssimo lenço de seda.

- Ferguson? - sugeriu Race.

- Possivelmente. Como bravata. Mas uma bandana estaria mais de acordo!

- Em lugar de luva, com certeza, para segurar o revólver e evitar impressões digitais - disse Race.

 E acrescentou, como pilhéria: - O Caso do Lenço Cor-de-Rosa.

- Ah, sim. Cor de jeune fille, não é?

Poirot colocou o lenço sobre a mesa e voltou a examinar a écharpe.

- Apesar de tudo, é esquisito...

- A que se refere?

- Cette pauvre Madame Doyle. Deitada tão calmamente... com aquele furo na cabeça. Lembra-se da sua expressão?

Race fitou-o com curiosidade.

- Sabe uma coisa? Palpita-me que me quer dizer alguma coisa, Poirot, mas não tenho a menor idéia do que seja!

 

Ouviu-se uma pancada na porta.

- Entre - disse Race.

Apareceu um dos criados, que se dirigiu a Poirot:

- Desculpe-me, mas Mister Doyle deseja falar-lhe.

- Vou imediatamente.

O detetive saiu da sala, subiu ao tombadilho superior e foi até à cabina do Dr. Bessner.

De rosto vermelho e febril, Simon parecia um tanto constrangido.

- Foi muita gentileza sua vir ver-me, Mister Poirot. Desejo fazer-lhe um pedido.

- Sim?

Simon enrubesceu mais ainda.

- É... a respeito de Jackie. Eu gostaria de a ver. O senhor acha... O senhor importa-se... acha que ela se incomodaria... se lhe pedisse para vir até cá? Tenho estado aqui deitado, refletindo... Aquela pobre pequena... não passa de uma criança, afinal de contas... e tratei-a tão mal, e...

Interrompeu-se, sem saber como continuar.

Poirot fitou-o, interessado.

- Deseja ver Mademoiselle Jacqueline? Vou chamá-la.

- Agradecido. É muita bondade sua.

Poirot encontrou Jacqueline encolhida numa cadeira, a um canto do salão envidraçado. Tinha um livro aberto nas mãos, mas não o lia.

Poirot disse-lhe suavemente:

- Quer fazer o favor de me acompanhar, mademoiselle? Mister Doyle deseja vê-la.

A rapariga teve um sobressalto. Corou, depois empalideceu.

Havia no seu rosto uma expressão perplexa.

- Simon? Ele... quer... ver-me?

Poirot achou comovente aquela incredulidade.

- Quer vir, mademoiselle?

- Ah, sim... irei.

Acompanhou-o docilmente, como uma criança.

Poirot entrou primeiro na cabina.

- Mademoiselle está aqui.

Jacqueline entrou, vacilante, e estacou de repente. Continuou ali, de pé, muda, os olhos fitos em Simon.

- Olá! Jackie...

Também ele parecia constrangido.

Como a jovem nada dissesse, continuou:

- É muita bondade sua vir ver-me. Eu queria dizer... isto é...

Jaqueline interrompeu-o. As palavras saíram-lhe aos borbotões, em tom de desespero.

- Simon... eu não matei Linnet. Você sabe que não fui eu... Ontem à noite eu... estava louca. Oh, poderá perdoar-me?

Agora, já ele podia exprimir-se com maior facilidade.

- Naturalmente! Não tem importância! Não tem a mínima importância! Era isso que eu queria dizer-lhe. Achei que talvez você estivesse um pouco preocupada...

- Preocupada? Um pouco? Oh, Simon!

- Era por isso que queria vê-la e falar-lhe. Está certo, minha boa amiga. Você estava perturbada ontem à noite... um pouco embriagada. Tudo muito natural.

- Oh, Simon, eu poderia tê-lo matado...

- Não com aquele brinquedo...

- E a sua perna? Talvez nunca mais possa andar...

- Ouça, Jackie, não seja tola. Assim que chegarmos a Assuão, vão tirar-me uma radiografia e extrair a bala, e tudo ficará em ordem.

Jackie engoliu em seco duas vezes, depois correu para perto de Simon, ajoelhando-se ao lado da cama, escondendo o rosto nas mãos e soluçando. O rapaz acariciou-lhe a cabeça, desajeitadamente. O seu olhar encontrou o de Poirot; com um suspiro de má vontade o detetive saiu da cabina.

Ao afastar-se, ainda ouviu soluços e murmúrios.

- Como pude ser tão má... Oh, Simon!... Sinto tanto... Estou tão arrependida...

Cornélia estava debruçada na amurada. Voltou a cabeça ao ver o detetive aproximar-se.

- Ah, é o senhor, Mister Poirot. De certo modo parece incrível que o dia esteja tão bonito!

Poirot ergueu o olhar, dizendo:

- Quando brilha o Sol, a gente não pode ver a Lua. Mas quando o Sol desaparece... ah, quando o Sol desaparece!...

Cornélia fitou-o, de boca aberta.

- Perdão?

- Dizia eu, mademoiselle" que, quando o Sol desaparecer, vamos ver a Lua. É esta a verdade, não é?

- Mas... sim... claro que sim - disse ela, fitando-o, admirada.

Poirot riu de mansinho.

- Estou a dizer tolices. Não faça caso, mademoiselle.

Dito isto, dirigiu-se lentamente para a popa. Ao passar pela primeira cabina, parou alguns segundos. Ouviu trechos de conversa lá dentro.

... profunda ingratidão... depois do que fiz por si... falta de consideração para com a sua pobre mãe... não imagina o que sofro...

Poirot comprimiu os lábios. Ergueu a mão e bateu à porta.

Um silêncio assustado; depois a voz de Mrs. Otterbourne, perguntando:

- Quem é?

- Mademoiselle Rosalie está?

Rosalie apareceu. Poirot ficou impressionado com os círculos roxos sob os olhos e os sulcos à volta da boca.

- Que aconteceu? - perguntou ela sem cordialidade alguma. - Que deseja?

- O prazer de alguns minutos de conversa com a senhora. Quer fazer-me o favor?...

Os lábios da rapariga apertaram-se numa expressão mal-humorada. Fitou Poirot com ar desconfiado e perguntou-lhe de chofre:

- Por quê?

- Seria um favor, mademoiselle.

- Oh, então...

Passou para o tombadilho, fechando a porta da cabina.

Poirot segurou-a delicadamente pelo braço e levou-a pelo tombadilho, sempre em direção à popa. Passaram pelo balneário, deram a volta para o outro lado. Estavam sozinhos naquela parte do navio. O Nilo corria atrás deles...

Poirot descansou os cotovelos na amurada, mas Rosalie continuou dura e tesa.

- Que deseja? - perguntou ela no mesmo tom brusco.

Poirot falou devagarinho, escolhendo as palavras.

- Poderia fazer-lhe algumas perguntas, mademoiselle, mas não creio que consinta em responder-me.

- Parece-me então que perdeu o seu tempo, trazendo-me aqui.

Poirot passou lentamente a mão pela amurada e disse:

- Está acostumada, mademoiselle, a suportar sozinha o peso dos seus aborrecimentos... Mas não é possível fazer isso eternamente. A tensão não pode ser suportada por muito tempo. É este o seu caso, mademoiselle.

- Não sei a que se refere - disse Rosalie.

- Estou a falar sobre fatos, mademoiselle; fatos positivos e sem beleza. Vamos chamar preto ao preto, e numa sentença curta. A sua mãe bebe, mademoiselle.

Rosalie não respondeu. Abriu os lábios como quem ia falar, mas fechou-os novamente. Por um momento, ficou sem saber o que dizer.

- Não precisa de dizer coisa alguma, mademoiselle; deixe que eu fale sozinho. Em Assuão, interessei-me pelas relações entre a senhora e sua mãe. Vi imediatamente que, apesar das suas observações pouco filiais, a senhora estava na realidade protegendo desesperadamente a sua mãe. Logo percebi do que se tratava. E isto muito antes de ter, certa manhã, encontrado sua mãe completamente embriagada. Compreendi que o seu caso era de crises intermitentes, casos de cura mais difícil. A senhora dava provas de muita coragem. Além do mais, sua mãe tinha a malícia da pessoa que bebe às escondidas. Conseguiu uma provisão secreta de bebidas. Não seria surpresa para mim saber que só ontem a senhora descobriu o seu esconderijo. E assim, a meio da noite, foi para o outro lado do navio (uma vez que o seu ficava contra a margem) e atirou tudo ao Nilo.

Poirot fez uma pausa e perguntou:

- Acertei?

- Acertou, sim - disse Rosalie com súbita paixão. – Com certeza fui tola em não lhe confessar isso desde o princípio! Mas não queria que toda a gente soubesse. A notícia espalhar-se-ia entre os passageiros. E parecia tal tolice... isto é... que eu...

Poirot terminou a frase por ela:

- Tal tolice que a senhora fosse acusada de assassínio?

Rosalie inclinou a cabeça, depois explodiu novamente:

- Tenho-me esforçado tanto para impedir que viessem a saber!... Mas não é realmente culpa dela. Começou a ficar desanimada. Os seus livros não tinham saída nenhuma. O público está farto destes vulgares enredos sexuais. Ela ficou magoada... profundamente magoada. Começou então a... beber. Durante muito tempo, não compreendi porque andava tão esquisita. Quando descobri... tentei impedir que continuasse. Passava bem durante algum tempo... depois, de repente, recomeçava, tornando-se birrenta, discutindo com toda a gente. Que horror! - Rosalie estremeceu e continuou: - E eu sempre alerta, para levá-la ao bom caminho!... Depois, começou a implicar comigo... às vezes, chego a pensar que me odeia...

- Pauvre petite - disse Poirot.

Rosalie voltou-se bruscamente para ele.

- Não tenha pena de mim. Não seja bom. É mais fácil, de outra forma.

Suspirou - um suspiro de cortar o coração. E, depois de uma pausa:

- Estou cansada... horrivelmente cansada.

- Compreendo.

- Todos me acham insuportável, reservada e sempre de mau humor. Não é culpa minha. Há muito tempo já que me esqueci de como é que se pode ser gentil...

- Foi justamente o que lhe disse. A senhora suportou sozinha, durante muito tempo, o fardo dos seus pesares.

Rosalie disse lentamente:

- É um alívio... falar sobre isso. O senhor sempre foi muito bom, Mister Poirot. Creio que muitas vezes fui grosseira...

- La politesse não é necessária entre amigos.

A expressão desconfiada voltou ao rosto de Rosalie.

- O senhor vai... vai contar a toda a gente? Com certeza será obrigado a isso, por causa daquelas malditas garrafas que atirei fora.

- Não, não será necessário. Quero apenas que me esclareça sobre certo ponto. A que horas foi isso? Uma, e dez?

- Mais ou menos. Não me lembro ao certo.

- Diga-me agora, mademoiselle: Miss van Schuyler viu-a; a senhora viu-a também?

- Não.

- Diz ela que espreitou pela porta da cabina.

- Eu não poderia vê-la. Examinei de relance o tombadilho e depois olhei o rio.

- E viu alguém, quando examinou o tombadilho?

Houve uma pausa - uma longa pausa. Rosalie franziu as sobrancelhas, como quem reflete.

Finalmente, respondeu em tom firme.

- Não, não vi ninguém.

Hercule Poirot abanou lentamente a cabeça. Mas era grave a expressão dos seus olhos...

 

Isolados, ou dois a dois, com ar submisso, os passageiros entraram na sala de jantar. Como se achassem que seria indecoroso sentarem-se muito animadamente à mesa... Tomaram os seus lugares, com ar penitente, quase.

Tim Allerton chegou alguns minutos depois de sua mãe, parecendo mal-humorado.

- Nunca nos tivéssemos lembrado de fazer esta maldita viagem! - resmungou ele.

Mrs. Allerton sacudiu tristemente a cabeça.

- Oh, meu filho, também sou da mesma opinião.

Aquela linda rapariga! Tudo tão desperdiçado. Pensar que houve quem pudesse matá-la a sangue-frio! Parece impossível que exista gente capaz disso. E aquela pobrezinha...

- Jacqueline?

- Sim, tenho muita pena dela. Parece tão infeliz!

- Isto lhe ensinará a não andar por aí a disparar armas como quem brinca - disse friamente Tim, servindo-se de manteiga.

- Com certeza ela foi mal-educada.

- Oh, pelo amor de Deus, não encare o caso sob um ponto de vista maternal.

- Estás de mau humor, Tim.

- Estou, sim. E porque não havia de estar?

- Não vejo motivo para zangas. É um caso muito triste, apenas.

Tim replicou, encolerizado:

- A mãe está a ver tudo com olhos românticos! Parece não compreender que não é brincadeira nenhuma a gente ver-se envolvida num crime de morte.

Mrs. Allerton pareceu ligeiramente sobressaltada.

- Mas certamente...

- É justamente isso! Não existe nenhum "Mas certamente..." Todas as pessoas, neste maldito navio, estão sob suspeita. Nós ambos tanto como os outros.

Mrs. Allerton não pareceu convencida.

- Tecnicamente, creio que sim... mas, quanto ao resto, é ridículo!

- Não há nada de ridículo num crime! Pode ficar aí sentada, exalando santidade e com a consciência tranqüila, mas os investigadores de Shellâl ou Assuão não vão julgá-la pela expressão do seu rosto!

- Talvez que até lá já tenham descoberto a verdade.

- Por quê?

- Monsieur Poirot...

- Aquele velho pretensioso? Não descobrirá coisa alguma. Só tem prosápia e bigodes.

- Muito bem, Tim; talvez tenhas razão, mas mesmo assim é melhor a gente conformar-se e continuar de cara alegre.

Apesar disso, Tim não pareceu mais animado.

- Há ainda o roubo daquelas malditas pérolas - disse ele.

- O colar de Linnet?

- Sim; parece que foi roubado.

- Com certeza foi esse o móbil do crime.

- Por quê? Está a confundir duas coisas completamente diferentes.

- Quem disse que desapareceu?

- Ferguson. Ele soube-o pelo maquinista seu amigo, e este, por seu turno, ficou sabendo do caso pela criadinha francesa.

- Era um lindo colar - suspirou Mrs. Allerton.

Poirot chegou neste momento. Inclinou-se diante de Mrs. Allerton, desculpando-se:

- Estou um pouco atrasado.

- Com certeza esteve muito ocupado?

- Realmente - disse ele, encomendando uma nova garrafa de vinho ao criado.

- Somos muito fiéis aos nossos hábitos - observou Mrs. Allerton. - O senhor toma sempre vinho, Tim pede whiskey e soda, e eu, por meu lado, estou sempre a experimentar uma nova marca de água mineral.

- Tiens! - exclamou Poirot, fitando-a durante um momento. Depois murmurou de si para si: "Aqui está uma idéia...

Depois, com um impaciente movimento de ombros, afastou o pensamento que lhe ocorrera e começou a conversar sobre banalidades.

- É grave o ferimento de Mister Doyle? - perguntou dali a pouco Mrs. Allerton.

- Sim, é mais ou menos sério. Bessner está ansioso por chegarmos a Assuão, para que possam tirar uma radiografia e extrair a bala. Mas tem esperanças de que ele não fique defeituoso.

- Pobre Simon! Ainda ontem parecia um menino satisfeito, a quem nada faltava no mundo. E agora a sua linda esposa está morta e ele inutilizado numa cama! Espero, no entanto...

- Que espera, madame? - perguntou Poirot vendo que ela parara no meio da frase.

- Espero que não esteja zangado de mais com aquela pobrezinha.

- Com Mademoiselle Jacqueline? Pelo contrário. Estava muito preocupado com ela.

 Poirot voltou-se para Tim e continuou:

- Sabe uma coisa? Está aí um interessante problema psicológico. Durante todo o tempo em que Mademoiselle Jacqueline os seguia, ele estava furioso; mas agora que ela o atacou, ferindo-o gravemente, toda a cólera de Mister Doyle parece ter desaparecido. Pode explicar-me uma coisa destas?

- Sim, creio que sim - disse Tim com ar pensativo. – O procedimento dela, a princípio, fez com que ele se sentisse um tolo...

- Tem razão. Ofendeu a sua dignidade masculina.

- Mas agora, encarando-se o caso sob outro ponto de vista, ela é que fez papel de tola. Toda a gente está contra Jacqueline, de modo que...

- Ele pode mostrar-se generoso e perdoar-lhe - terminou Mrs. Allerton. - Como os homens são crianças!

- Comentário profundamente falso que as mulheres têm a mania de fazer - murmurou Tim.

Poirot sorriu. E, dirigindo-se ao rapaz:

- Diga-me: a prima de Madame Doyle, Miss Joana Southwood, era parecida com ela?

- O senhor confundiu o parentesco, Monsieur Poirot. Joana é nossa prima e era amiga de Linnet.

- Ah, perdão, estou confundido. É uma rapariga muito em moda. Tenho-me interessado por ela ultimamente.

- Por quê? - perguntou Tim bruscamente.

Poirot quase se pôs de pé para cumprimentar Jacqueline, que acabava de entrar e passava por ali, dirigindo-se para a sua mesa. A jovem estava corada e de olhos brilhantes, parecendo ligeiramente ofegante.

Quando se sentou de novo, Poirot parecia ter esquecido a pergunta de Tim. Murmurou em tom distraído:

- Gostaria de saber se todas as mulheres que têm jóias de valor são tão descuidadas como Madame Doyle!

- É então verdade que o colar desapareceu? - perguntou Mrs. Allerton.

- Quem lhe disse isso, madame?

- Ferguson - declarou Tim.

- Sim, é verdade - respondeu Poirot gravemente.

- Com certeza vai ser muito desagradável para todos nós - disse nervosamente Mrs. Allerton. – Pelo menos é o que diz Tim.

O rapaz ficou carrancudo, mas o detetive voltou-se para ele.

- Ah! Então já passou por essa experiência? Esteve hospedado em alguma casa onde houve um roubo?

- Nunca.

- Oh, sim - lembrou Mrs. Allerton. – Estiveste  em casa dos Portaligtons, quando foram roubados os  brilhantes daquela velha impossível.

- Confunde sempre as coisas, mamã. Eu estava lá, quando descobriram que os brilhantes que ela usava eram falsos! A substituição talvez tivesse sido feita anos antes... Para ser franco, muita gente achou que talvez fosse ela mesma a responsável!

- Foi o que Joana disse, com certeza.

- Joana não estava lá.

- Mas conhecia muito bem aquela gente. O comentário é do tipo que ela gostaria de fazer.

- A mãe está sempre contra Joana.

Poirot mudou vivamente de assunto. Disse que estava com intenção de fazer uma compra grande, numa das lojas de Assuão. Um tecido muito interessante, vermelho e ouro. Teria, naturalmente, que pagar alguns direitos alfandegários...

- Eles dizem que podem... como direi?... despachar tudo para mim? E que os direitos não serão muito pesados. Acham que chegará tudo em ordem?

Mrs. Allerton disse que muita gente fazia, naquelas  lojas, compras que eram mandadas diretamente; para a Inglaterra, e que em geral não havia motivo de queixa.

- Bien. Farei isso, então. Mas que trabalho, quando a gente está no estrangeiro e nos chega um pacote de Inglaterra! Já tiveram essa experiência? Têm recebido alguma coisa, em viagem?

- Não o creio, não é verdade, Tim? Tens recebido livros, naturalmente, mas sobre isso nunca tivemos aborrecimentos.

- Ah, não; com livros é diferente.

A sobremesa fora servida. Sem prévio aviso, Race levantou-se e fez o seu discurso.

Referiu-se às circunstâncias do crime e anunciou o roubo do colar. Enquanto se procedia a uma busca no vapor, ele ficaria grato aos passageiros se permanecessem tranqüilos no salão. Depois disso, se ninguém fizesse objeção, seriam todos revistados...

Poirot aproximara-se discretamente de Race. Ouviu-se um zunzum... Vozes perplexas, indignadas, excitadas...

Poirot murmurou qualquer coisa ao ouvido de Race, justamente no momento em que este ia sair do salão.

O coronel inclinou afirmativamente a cabeça e chamou um criado.

Disse-lhe algumas palavras e depois, juntamente com Poirot, passou para o tombadilho, fechando a porta.

Ficaram por um ou dois minutos debruçados na amurada. Race acendeu um cigarro e disse:

- Não é má a sua idéia. Logo veremos se dá resultado. Dou-lhes três minutos.

A porta da sala de jantar abriu-se e o mesmo criado com que tinha falado apareceu. Saudou Race, dizendo:

- Tem razão, coronel. Uma das senhoras diz que precisa de falar-lhe com urgência.

- Ah! - exclamou Race com ar satisfeito. - Quem é ela?

- Miss Bowers, a enfermeira.

O coronel pareceu surpreendido.

- Traga-a para a sala de fumo. Não consinta que ninguém mais saia da sala.

- Não, senhor. O outro criado cuidará disso.

O homem voltou ao salão e Poirot e Race dirigiram-se para a sala de fumo.

- Bowers, hem? - murmurou Race.

Mal tinham lá entrado, Miss Bowers apareceu com o criado. O homem saiu, fechando a porta.

- Muito bem, Miss Bowers; que significa tudo isto? - perguntou Race.

Miss Bowers era a mesma pessoa controlada de sempre, não parecendo nada emocionada.

- Desculpe-me, coronel, mas, nas circunstâncias atuais, achei que era preferível vir imediatamente falar-lhe - disse ela, abrindo a bolsa - para lhe devolver isto...

Tirou de dentro um colar de pérolas, colocando-o sobre a mesa.

 

Se Miss Bowers fosse do tipo que gostasse de causar sensação, teria ficado amplamente satisfeita com o efeito do seu gesto.

No rosto de Race aparecera uma expressão completamente estupefata.

- É extraordinário! Quer ter a bondade de se explicar, Miss Bowers?

- Naturalmente. Foi para isso que vim aqui - disse a enfermeira, instalando-se confortavelmente numa cadeira. - Claro que me foi difícil resolver qual a mais acertada maneira de agir. A família, naturalmente, preferiria evitar um escândalo, confiando no meu critério; mas as circunstâncias são tão extraordinárias que não me deixam outra alternativa. Não encontrando nada nas cabinas, a primeira idéia dos senhores seria revistar os passageiros; se o colar fosse encontrado em meu poder, a situação seria embaraçosa e a verdade teria que vir à luz.

- E qual é exatamente a verdade? Tirou estas pérolas do quarto de Mistress Doyle?

- Oh, não, coronel Race. Claro que não. Foi Miss Van Schuyler quem as tirou.

- Miss Van Schuyler?

- Sim. Não pôde resistir... O senhor sabe, ela costuma tirar... coisas. Jóias, principalmente. É por isso que a acompanho por toda a parte, e não por causa da sua saúde. E devido a esta sua... maniazinha. Fico alerta, e felizmente nada houve de desagradável desde que estou ao seu serviço. Basta eu ficar de sobreaviso, o senhor compreende. E ela costuma pôr tudo no mesmo lugar (num pé de meia) de modo que é muito simples para mim. Basta eu olhar para lá todas as manhãs. Tenho o sono leve e durmo sempre a seu lado; nos hotéis deixo aberta a porta de comunicação. Procuro então convencê-la a voltar para a cama. Num navio, é, naturalmente, muito mais difícil. Mas geralmente ela não faz isso de noite. É mais um hábito de apanhar as coisas que vê esquecidas aqui e ali... Claro que sempre sentiu grande atração pelas pérolas.

- Como foi que a senhora descobriu que o colar tinha sido tirado? - perguntou Race.

- Encontrei-o no pé de meia, hoje de manhã. Eu sabia, naturalmente, a quem pertencia. Já o tinha notado. Fui levá-lo à cabina de Mistress Doyle, com esperanças de a encontrar ainda a dormir e sem ter dado pelo seu desaparecimento, mas ao chegar à porta vi ali um criado, que me contou o que acontecera. Ninguém podia entrar na cabina. O senhor compreende, portanto, o meu dilema. Mas eu ainda tinha esperança de conseguir pôr o colar na cabina em qualquer outro momento. Garanto-lhe que passei uma manhã muito desagradável, procurando resolver qual a melhor maneira de agir, pois, como o senhor sabe, a família de Miss Van Schuyler é muito correta e exigente. Uma notícia como esta nunca deverá aparecer nos jornais. Mas não será necessário, não é verdade?

Miss Bowers parecia realmente preocupada.

- Depende das circunstâncias - respondeu Race, sem se comprometer. - Mas faremos, é claro, o possível para a ajudar. Que diz a isso Miss Van Schuyler?

- Oh, ela negará a pés juntos, naturalmente. É o que sempre faz. Dirá que uma pessoa maldosa colocou o colar entre as suas roupas. Nunca confessa ter tirado coisa alguma. É por isso que vai muito mansinha para a cama, quando é apanhada a tempo. Diz que foi apenas admirar a Lua, ou coisa parecida.

- Miss Robson sabe desse... defeito?

- Não, não desconfia de nada. Sua mãe sabe, mas Miss Robson é uma rapariga muito ingênua e Mistress Robson achou preferível que ela continuasse na ignorância. Posso perfeitamente tomar conta de Miss Van Schuyler sozinha - acrescentou a competente Miss Bowers.

- Ficamos muito agradecidos, Miss Bowers, por nos ter vindo procurar tão prontamente - disse Poirot.

A enfermeira ergueu-se, dizendo:

- Espero ter agido pelo melhor.

- Pode ter a certeza que sim.

- O senhor compreende que, com um crime de morte...

Race interrompeu-a com voz grave:

- Miss Bowers, vou fazer-lhe uma pergunta e quero que compreenda que terá de ser respondida com absoluta franqueza. Miss Van Schuyler é mentalmente anormal, a ponto de ser cleptomaníaca. Tem também tendências homicidas?

Miss Bowers respondeu vivamente:

- Oh, céus, não! Nada nesse gênero; disso pode ter a certeza. A velha é incapaz de uma maldade.

A resposta fora dada com tanta firmeza que não havia mais nada a dizer. Apesar disso, Poirot ainda fez uma pergunta.

- Miss Van Schuyler é ligeiramente surda, não é?

- Para falar a verdade, sim, Monsieur Poirot. Não muito, de modo que não se nota isso ao conversar com ela. Mas muitas vezes não ouve uma pessoa entrar no quarto, ou qualquer outra coisa desse gênero.

- Acha que ouviria ruído de passos na cabina de Mistress Doyle, que é pegada à dela?

- Oh, não o creio. A cama dela fica do outro lado, nem mesmo contra a parede comum às duas cabinas! Não, não creio que pudesse ouvir coisa alguma.

- Agradecido, Miss Bowers.

- Quer ter a bondade de voltar à sala de jantar e esperar ali com os outros? - disse Race.

Abriu a porta e viu-a descer as escadas e dirigir-se para o salão. Depois fechou de novo a porta e voltou para perto da mesa. Poirot examinava o colar.

- Bom, a reação foi rápida - disse Race. - Mulher astuta e de muita presença de espírito, capaz de nos iludir mais ainda, se isto convier aos seus planos. E, quanto a Miss Van Schuyler? Não creio que possamos eliminá-la da lista dos suspeitos. É possível que tenha cometido o crime para se apoderar das pérolas. Não podemos acreditar na palavra da enfermeira; ela fará o possível para proteger a família.

Poirot inclinou a cabeça. Estava muito ocupado a revirar as pérolas nos dedos, examinando-as contra a luz.

- Na minha opinião, podemos acreditar que esta parte da história, referente à velha, é verdadeira. Ela espreitou pela porta da cabina e viu Rosalie. Mas não creio que tenha ouvido coisa alguma na cabina de Mistress Doyle. Com certeza estava apenas a espreitar, antes de ir surripiar as pérolas.

- Então Rosalie estava no tombadilho?

- Sim; atirando à água o sortido de bebidas da mãe.

Race abanou a cabeça, com ar de pena.

- Então é isso! Duro para uma pessoa tão nova.

- Sim; a vida não tem sido muito alegre para cette pauvre petite Rosalie.

- Estou contente por terem sido dissipadas as dúvidas. Ela não ouviu ou viu coisa alguma?

- Fiz-lhe essa pergunta. Respondeu-me (depois de um intervalo de vinte segundos!) que não vira ninguém.

- Oh! - exclamou Race subitamente alerta.

- Sim, é significativo.

- Se Linnet foi assassinada à uma e dez, ou a qualquer hora depois, em que havia silêncio no navio, acho extraordinário que ninguém tenha ouvido o tiro - observou Race. - Concordo que aquele revolverzinho não faria muito barulho, mas haveria completo silêncio a bordo, e qualquer ruído, mesmo um estalo, seria ouvido. Mas começo a compreender melhor. A cabina contígua à de Mistress Doyle, na parte da frente, estava desocupada, uma vez que Simon se achava na do médico. A outra, atrás, é de Miss Van Schuyler, que é ligeiramente surda. Isto deixa apenas...

Fez uma pausa, fitando Poirot.

- A cabina pegada à dela, do outro lado do navio, isto é, a de Pennington. Parece-me que voltamos sempre a Pennington.

- Voltaremos a ele daqui a pouco, mas sem luvas de pelica! Ah, sim, vou proporcionar a mim mesmo esta satisfação! - exclamou Poirot.

- Neste meio tempo, é melhor continuarmos a revistar o navio. O colar servirá de desculpa, embora já tenha sido devolvido, pois Miss Bowers com toda a certeza não irá propalar o fato.

- Ah, estas pérolas! - disse Poirot, examinando-as mais uma vez contra a luz.

Passou a língua sobre elas, chegando mesmo a morder uma. Depois largou-as sobre a mesa, suspirando.

- Mais complicações, meu amigo - disse ele. - Não sou perito no assunto, mas, na época das minhas atividades, lidei muito com jóias, e conheço mais ou menos o que vejo. Estas pérolas são apenas uma boa imitação.

 

Race blasfemou violentamente.

- Este maldito caso está a ficar cada vez mais complicado - disse ele, apanhando o colar. - Tem a certeza de que não se enganou? A mim parece-me verdadeiro.

- Sim, a imitação é perfeita.

- Que significa isto? Quem sabe se Linnet não trazia uma imitação, para viajar mais tranquilamente, como fazem muitas mulheres?

- Se fosse esse o caso, o marido provavelmente estaria informado.

- Talvez não lhe tivesse contado.

Poirot abanou a cabeça, descontente.

- Não, não creio. Naquela primeira noite, a bordo, admirei as pérolas de Mistress Doyle, o oriente, o brilho maravilhoso. Tenho a certeza de que eram verdadeiras.

- Isso sugere-nos duas possibilidades. Primeiro: que Miss Van Schuyler roubou a imitação, depois de o colar verdadeiro ter sido roubado por outra pessoa. Segundo: que aquele negócio de cleptomania é treta. Ou Miss Bowers é uma ladra, e inventou a história, procurando alienar as nossas suspeitas com a entrega da imitação, ou o bando está todo de acordo. Isto é: trata-se de uma autêntica quadrilha, querendo passar por uma família americana.

- Talvez. É difícil saber - disse Poirot. – Mas chamo a sua atenção para um ponto. Uma imitação, com fecho e tudo o mais, perfeita a ponto de enganar Mistress Doyle, não poderia ter sido feita à pressa. A pessoa que copiou as pérolas deve ter tido ocasião de examinar cuidadosamente as verdadeiras.

Race ergueu-se.

- É inútil continuar a fazer conjecturas. Vamos para diante. Temos que encontrar o colar verdadeiro, ficando ao mesmo tempo de olhos abertos.

Primeiro, revistaram as cabinas do tombadilho inferior.

A de Richetti continha vários trabalhos sobre arqueologia, em diversas línguas; inúmeras roupas; loções para o cabelo, de perfume intenso; duas cartas - uma, de uma expedição arqueológica na Síria, e outra, pelo que parecia, de uma irmã que vivia em Roma. Todos os lenços eram de seda de cor.

Passaram em seguida para a cabina de Ferguson.

Literatura comunista; vários instantâneos; Erezvhon, de Samuel Butler; uma edição barata de Pepys Diary. O guarda-roupa não era muito vasto - as roupas de cima geralmente rotas e sujas, as de baixo, pelo contrário, de muito boa qualidade. Lenços caros, de linho.

- Interessante discrepância - murmurou Poirot.

- É esquisito não haver nada de pessoal, nenhuma carta, documento ou coisa parecida.

- Sim, dá que pensar. Um sujeito engraçado, este Ferguson.

Poirot examinou, pensativo, um anel com sinete, guardando-o em seguida na gaveta onde o encontrara.

Dali foram para a cabina de Louise Bourget. A criada costumava tomar as suas refeições depois dos outros passageiros, mas Race dera ordem para que ela fosse reunir-se aos outros.

Um dos criados veio procurá-lo.

- Desculpe-me, senhor, mas não consigo encontrar aquela rapariga. Não posso saber para onde foi.

Race espreitou para dentro da cabina de Louise.

Estava vazia.

Foram para o tombadilho de passeio, e começaram a busca nas cabinas a estibordo. A de Fanthorp era a primeira. Aqui, perfeita ordem. Mr. Fanthorp não trazia grande bagagem, mas tudo o que tinha era de boa qualidade.

- Nenhuma carta - comentou Poirot. – Este Mister Fanthorp tem o cuidado de destruir a sua correspondência.

Em seguida, foram para a cabina de Tim Allerton.

Havia ali sinais de uma mentalidade de anglo -católico – um pequeno tríptico e um grande terço de madeira trabalhada.

Além das roupas de uso pessoal, encontraram um manuscrito incompleto, muito anotado e rabiscado, e uma boa coleção de livros, quase todos de recente publicação. Havia também uma grande quantidade de cartas numa gaveta. Poirot, que nunca tivera escrúpulo de ler a correspondência alheia, passou uma vista de olhos por elas. Notou que não havia nenhuma de Joana Southwood. Apanhou um tubo de seccotine, examinando-o com ar distraído, depois disse:

- Vamos continuar.

- Nada de lenços de Woolworth - observou Race, tornando a pôr numa gaveta o que dali tirara.

A seguir, vinha a cabina de Mrs. Allerton. Muito bem arrumada; no ar, um suave perfume de lavanda...

A busca terminou logo. Race comentou, ao sair:

- Uma senhora correta, esta.

A segunda cabina era a que Simon Doyle usava como vestiário. As coisas de primeira necessidade, como pijamas e objetos de toilette, tinham sido levados para a cabina de Bessner, mas o resto ficara ali. Duas malas de coiro de bom tamanho e uma mala-armário. No armário, havia também algumas roupas.

- Vamos examinar tudo com cuidado, meu amigo - disse Poirot. - É bem provável que o ladrão tenha escondido aqui as pérolas.

- Acha?

- Sim, sim. Pense bem! O ladrão, seja ele quem for, devia saber que cedo ou tarde iríamos fazer uma busca e que seria loucura esconder o colar na sua própria cabina. Os lugares públicos apresentam outras dificuldades, mas aqui está uma cabina que não poderá ser visitada pelo dono. E, portanto, se o colar for encontrado aqui, ficaremos na mesma.

Mas, por mais que procurassem, nada encontraram.

Poirot soltou uma exclamação descontente e mais uma vez saíram para o tombadilho.

A cabina de Linnet fora fechada, depois de o corpo ser removido, mas Race trouxera a chave.

Entraram. A não ser pela ausência do corpo, estava tudo exatamente como de manhã.

- Poirot, se há alguma coisa para ser descoberta aqui, pelo amor de Deus, descubra-a! – exclamou Race. - Ninguém mais competente do que você, tenho a certeza disso.

- Desta vez não se refere às pérolas, mon ami?

- Não. O crime é mais importante. É possível que alguma coisa me tenha escapado hoje de manhã.

Calmamente, com método e habilidade, Poirot começou a busca. Pôs-se de joelhos e examinou o soalho, palmo a palmo. Em seguida a cama. Depois o armário, as gavetas da cômoda, a mala-armário, as duas finas maletas. Concentrou-se finalmente no lavatório. Vários cremes, pós, loções. Mas a única coisa que pareceu interessar Poirot foram dois frascos, com a etiqueta "Nailex". Tirou-os da prateleira e levou-os para a mesa de toilette. Um deles, com o rótulo "Nailex Rose", estava vazio, a não ser uma ou duas gotas de um líquido rubro, no fundo. O outro, do mesmo tamanho, mas rotulado "Nailex Cardinalv, estava quase cheio. Poirot desarrolhou-os a ambos, cheirando-os com cuidado e delicadeza.

Um cheiro de pêra invadiu a cabina. Com uma careta, o detetive rolhou os frascos.

- Descobriu alguma coisa? - perguntou Race.

Poirot replicou com um provérbio francês:

- On ne prend pas les mouches avec le vinaigre.

Depois acrescentou, com um sorriso:

- Meu amigo, não tivemos sorte. O assassino não foi gentil. Não deixou cair as abotoaduras, a ponta do cigarro, a cinza do charuto ou, no caso de se tratar de uma mulher, o lenço, o bâton, o gancho do cabelo.

- Somente o frasco de verniz para unhas?

Poirot encolheu os ombros, dizendo:

- Tenho que perguntar à criada. Há aqui uma coisa... sim, uma coisa muito curiosa.

- Onde diabo foi ela meter-se?

Saíram, fecharam a porta e foram para a cabina de Miss Van Schuyler.

Ali, também, todos os sinais de luxo - tudo em perfeita ordem.

A cabina seguinte era a cabina dupla, ocupada por Poirot; a seguir vinha a de Race.

- Pouco provável que o tenham escondido numa destas - disse Race. Poirot não concordou.

- É possível. Certa vez, no Expresso do Oriente, tive que investigar um assassínio. Havia o mistério de um quimono vermelho. Tinha desaparecido, e no entanto devia estar no comboio. Achei-o... imagina onde?... Na minha própria maleta, fechada à chave! Ah, mas que impertinência!

- Bom, vejamos se alguém foi impertinente consigo ou comigo desta vez.

Mas nada encontraram. Em seguida, revistaram a cabina de Miss Bowers, com igual resultado. Os lenços ali, eram simples, de linho com uma inicial, apenas.

A seguir, a cabina das duas Otterbournes. Também aqui Poirot foi meticuloso, mas sem resultado algum.

Logo depois entraram na cabina de Bessner. Ao lado de Simon, estava uma bandeja com comida em que ele não tocara.

- Sem apetite - desculpou-se Simon.

Parecia febril, mais doente do que no princípio do dia. Poirot compreendeu a ansiedade de Bessner em levá-lo o mais depressa possível para um hospital.

O detetive explicou o que ele e Race estavam a fazer e Simon inclinou a cabeça com ar aprovador. Manifestou grande surpresa quando soube que as pérolas haviam sido devolvidas por Miss Bowers, e que eram falsas.

- Tem a certeza absoluta, Mister Doyle, de que sua esposa não tinha um colar falso, que trouxe em lugar do verdadeiro?

Simon abanou enfaticamente a cabeça.

- Oh, tenho a certeza. Linnet adorava aquele colar e usava-o em toda a parte. Estava no seguro e acho que por isso ela se despreocupava um pouco.

- Precisamos então continuar a nossa busca.

Poirot abriu as gavetas. Race atacou uma das malas.

Simon fitou-os, admirado, e perguntou:

- Ouçam, não suspeitam do velho Bessner, não é verdade?

Poirot encolheu os ombros, replicando:

 - Por que não? Que sabemos nós dele? Somente o que ele próprio nos contou.

- Mas ele não poderia esconder aqui o colar, sem que eu...

- Não poderia esconder hoje, sem que o senhor o percebesse. Mas a substituição pode ter sido feita há muitos dias.

- Não pensei nisso.

A busca foi improfícua.

Agora, a cabina de Pennington. Os dois homens levaram algum tempo a examinar com cuidado o conteúdo de uma pasta - vários documentos que exigiam a assinatura de Linnet.

Poirot comentou em tom lúgubre:

- Tudo acima de qualquer suspeita. Não é também a sua opinião?

- Sem dúvida. Mas o homem não é nenhum idiota. Se houvesse aqui algum documento comprometedor, uma procuração, ou coisa parecida, é mais do que certo que o teria destruído imediatamente após o crime.

- Tem razão.

Poirot tirou da gaveta de cima da cômoda um pesado Colt, examinou-o, guardando-o novamente.

- Então ainda há gente que viaja armada! - murmurou ele.

- Sim, significativo, talvez. Mas Linnet não foi assassinada com uma arma deste calibre. - Race fez uma pausa e depois disse: - Sabe uma coisa? Tenho procurado uma resposta à sua observação sobre o revólver atirado ao rio. Suponhamos que o assassino o tenha deixado na cabina, e que outra pessoa o deitou fora?

- Sim, é possível. Também pensei nisso. Mas dá ensejo a várias perguntas. Quem era essa segunda pessoa? Que interesse tinha em proteger Jacqueline? Que estava lá a fazer? A única pessoa que nós sabemos que entrou na cabina de Linnet foi Miss Van Schuyler. Acha possível ela ter tirado o revólver? Que motivo tem para proteger Jacqueline? E no entanto... que outro motivo pode existir para a remoção da arma?

Race sugeriu:

- Talvez a velha tenha reconhecido a sua écharpe, ficasse assustada e atirasse tudo fora.

- A écharpe, talvez. Mas a arma? Concordo, no entanto, que talvez seja uma solução. Mas é pouco subtil, bon Dieu, é pouco subtil. E você ainda não percebeu uma coisa a respeito da écharpe...

Quando saíram da cabina de Pennington, Poirot propôs que Race continuasse a revistar as que faltavam, de Jacqueline, de Cornélia, e duas desocupadas, enquanto ele ia conversar com Simon Doyle.

Voltou então para a cabina de Bessner.

Simon disse, ao vê-lo entrar:

- Ouça, estive a refletir. Tenho a certeza de que o colar de ontem à noite era o verdadeiro.

- Por que diz isso, Mister Doyle?

 - Porque Linnet... - ele contraiu-se ligeiramente ao pronunciar o nome da esposa - esteve a acariciá-lo pouco antes do jantar e falando sobre ele. Entendia de jóias. Tenho a certeza de que teria percebido, se fosse falso...

- Em todo o caso, era uma boa imitação. Diga-me uma coisa: Mistress Doyle estava habituada a separar-se do colar? Emprestou-o alguma vez a uma amiga, por exemplo?

Simon corou, ligeiramente constrangido.

- O senhor sabe, Mister Poirot, é-me difícil responder... eu... o senhor compreende, não havia muito tempo que eu conhecia Linnet.

- Ah, não; foi um romance rápido, o seu.

Simon continuou:

- E, portanto, não podia estar a par de uma coisa dessas. Mas Linnet era muito generosa. Não duvido de que isso tenha acontecido.

Poirot disse em voz muito suave:

- Por exemplo, nunca emprestou o colar a Mademoiselle de Bellefort?

- Que quer dizer com isso? - exclamou Simon, corando violentamente. Tentou sentar-se, teve uma contração de dor e caiu de novo sobre a cama. - Que pretende insinuar? Que Jackie roubou o colar? Não foi ela. Juro que não. Jackie é honesta como ninguém. É ridículo supor que é ladra... completamente ridículo.

Poirot fitou-o com os olhos brilhantes.

- Oh, lá lá lá! - exclamou inesperadamente. - Parece que fui mexer num vespeiro.

- Jackie é honesta!

Poirot lembrou-se de uma voz de mulher, em Assuão, à beira do Nilo, dizendo: "Amo Simon... e ele ama-me. "

Ficara conjecturando qual das três asserções que ouvira naquela noite era a verdadeira. Parecia-lhe agora que fora Jacqueline quem mais se aproximara da verdade.

A porta abriu-se e Race apareceu.

- Nada - disse em tom brusco. - Bom, era o que esperávamos. Vejo que os criados vêm para nos contar o resultado da busca, no salão.

Um homem e uma mulher apareceram à porta.

O homem foi o primeiro a falar.

- Nada, senhor.

- Algum dos homens fez oposição?

- Somente o italiano. Falou muito sobre isso. Disse que era uma vergonha... qualquer coisa nesse  gênero. E tinha um revólver.

- Que espécie de revólver?

- Automático. Mauser 25, senhor.

- Os italianos são nervosos - comentou Simon.

- Richetti fez um barulho dos diabos em Uadi Halfa, só por causa de um telegrama errado. Foi muito grosseiro com Linnet.

Race voltou-se para a criada das cabinas, uma mulher forte e bonita.

- Nada, nas senhoras - declarou ela. - Todas protestaram, a não ser Mistress Allerton, que não podia ter sido mais gentil. Nem mesmo sinal do colar! Por pensar nisto, Miss Rosalie Otterbourne tem um revolverzinho na bolsa.

- De que tipo?

- Pequenino, com cabo de madrepérola. Mais parece um brinquedo.

Race teve um sobressalto.

- Maldito caso! Pensei que ela estivesse livre de qualquer suspeita. Porque será que toda a gente, neste navio anda com revólver de cabo de madrepérola?

Voltou-se para a mulher e perguntou:

- Mostrou-se aborrecida quando você descobriu o revólver?

A criada abanou a cabeça e respondeu:

- Não creio que tenha percebido. Eu estava de costas, quando examinei a bolsa.

- De qualquer maneira, ela devia saber que o revólver seria encontrado. Oh, bom, não sei o que pensar. E quanto à criada?

- Batemos o navio todo à procura dela, senhor, e não conseguimos encontrá-la.

- De que se trata? - perguntou Simon.

- Louise Bourget, a criada de Mistress Doyle, desapareceu.

- Desapareceu?

Race disse com ar pensativo:

- É possível que o colar tenha sido roubado por ela. É a única pessoa que poderia ter conseguido uma imitação.

- E depois, quando percebeu que iam revistar o navio, atirou-se ao rio - sugeriu Simon.

- Tolice! - replicou Race em tom irritado. - Ninguém pode atirar-se de um navio como este em pleno dia, sem que alguém dê por isso! Ela deve estar aqui.

Houve uma pausa, depois Race perguntou à criada:

- Quando foi que Louise foi vista pela última vez?

- Mais ou menos meia hora antes de tocarem a sineta do almoço.

- Vamos examinar a sua cabina. Talvez encontremos aí algum indício.

Race desceu para o tombadilho de baixo, acompanhado por Poirot. Abriram a porta da cabina e entraram.

Louise Bourget, que tinha por obrigação conservar em ordem as coisas dos outros, não parecia muito ordenada no que era seu. Em cima da cômoda havia uma confusão de objetos, a sua maleta estava aberta, com roupas caídas para fora, impedindo-a que se fechasse, e nas cadeiras estavam pousadas algumas roupas de baixo.

Poirot examinou as gavetas da cômoda e Race a maleta.

 Os sapatos de Louise estavam alinhados perto da cama. Um deles, de verniz preto, parecia descansar num ângulo muito esquisito, quase sem apoio. Tão extraordinário aquilo que chamou a atenção de Race.

Race fechou a maleta e inclinou-se sobre os sapatos.

Soltou uma brusca exclamação...

Poirot voltou-se vivamente para ele e perguntou

- Qu'est-ce qu'il y a?

Race respondeu sombriamente:

- Ela não desapareceu. Está aqui, debaixo da cama..

 

O corpo sem vida de Louise Bourget estava no chão da cabina. Os dois homens inclinaram-se para o examinar.

Race foi o primeiro a erguer-se.

- Morta há mais de uma hora, creio eu. Bessner terá que dar o seu parecer. Apunhalada no coração. Morte instantânea, com certeza. Não está nada bonita, não é verdade?

- Não - respondeu Poirot, estremecendo ligeiramente.

O rosto moreno e felino estava convulsionado numa expressão de surpresa e fúria - os lábios abertos, mostrando os dentes.

Poirot inclinou-se novamente, erguendo a mão direita da morta. Abriu-lhe os dedos, que ainda agarravam qualquer coisa. Entregou a Race um pedacinho de papel de um tom rosa-lilás e perguntou:

- Sabe o que é?

- Dinheiro.

- O canto de uma nota de mil francos, creio eu.

- Bom, não há dúvida quanto ao que aconteceu - disse Race. - Ela sabia alguma coisa, e estava a explorar o assassino. Bem notamos nós que ela não estava a ser muito sincera hoje de manhã!

- Temos sido idiotas... imbecis! - exclamou Poirot. - Devíamos ter compreendido... nesse momento. Que foi que ela disse? Como poderia eu ver ou ouvir alguma coisa! Eu estava no tombadilho de baixo. Claro que, se não tivesse sentido sono, se tivesse subido as escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro, entrar ou sair da cabina da senhora; mas como não foi assim..." Claro que foi o que aconteceu! Ela subiu. Viu alguém esgueirando-se para a cabina de Linnet, ou saindo de lá. E, por causa da sua ganância, da sua insensata ganância, jaz aí agora!

- E estamos longe de saber quem a matou - disse Race, aborrecido.

Mas Poirot abanou a cabeça, dizendo:

- Não, não... Sabemos muito mais agora. Sabemos... quase tudo. Parece incrível... e no entanto deve ter sido assim. Mas não compreendo... Ah! Que idiota fui hoje de manhã! Achamos... achamos que Louise estava a ocultar-nos alguma coisa, e não percebemos a causa de tudo: chantagem.

- Deve ter exigido algum dinheiro imediatamente - disse Race. - Com ameaças. O assassino foi obrigado a ceder, pagando-a em dinheiro francês. Algum indício?

- Não o creio. Muita gente traz em viagem uma reserva de dinheiro, libras, dólares, e também francos. Com certeza o assassino deu-lhe tudo o que tinha, em moeda de vários países. Vamos continuar.

- O assassino entrou aqui, deu-lhe o dinheiro e depois...

- Depois, ela contou o dinheiro - terminou Poirot. - Oh, sim, conheço esse tipo. Ela contaria o dinheiro, e ao fazê-lo estaria distraída. O assassino atacou. Tendo conseguido matá-la, agarrou o dinheiro e fugiu... sem notar que ficava o canto de uma nota.

- Talvez seja possível identificá-lo por aí – disse Race, sem grande convicção.

- Duvido. Ele examinará as notas e notará o rasgão. Claro que, se fosse um sujeito avarento, não teria coragem de destruir uma nota de mil francos; mas acredito que seja um tipo completamente diferente.

- Por que diz isso?

- Tanto este crime como o de Mistress Doyle exigem certas qualidades: coragem, audácia, presença de espírito, rapidez; qualidades que não condizem com um temperamento prudente, econômico.

Race abanou a cabeça, desanimado.

- Vou mandar chamar Bessner.

O exame médico não durou muito. Com uma profusão de Achs, Sos e outras exclamações, Bessher pôs mãos à obra.

- A morte não ocorreu há mais de uma hora - declarou ele. - Foi rápida, instantânea.

- Que arma acha o senhor que foi usada?

- Ach, isto é interessante. Alguma coisa muito afiada, muito fina, muito delicada. Posso mostrar-lhes de que tipo.

Foram todos para a cabina de Bessner. O médico abriu uma mala pequena, tirando dali uma espécie de bisturi longo e fino.

- Alguma coisa neste gênero, meu amigo. Não uma faca comum de mesa.

- Espero que nenhum dos seus instrumentos... lhe falte, doutor? - perguntou Race suavemente.

Bessner encarou-o; uma onda de sangue subiu-lhe ao rosto.

- Que diz? - exclamou indignado. - Acha que eu, Carl Bessner, tão conhecido em toda a áustria, eu, com a minha clínica, os meus aristocráticos clientes... eu tenha matado uma miserável femme de chambre! Ah, mas é ridículo, absurdo o que diz! Nenhum dos meus instrumentos me falta, nenhum, garanto-lhe. Estão todos aqui, nos seus lugares. Verifique o senhor mesmo. Não me esquecerei deste insulto à minha profissão.

Bessner fechou a caixa bruscamente, atirou-a para cima de uma cadeira e passou furioso para o tombadilho.

- Uf! - exclamou Simon - o velho ficou furioso!

- É lamentável - disse Poirot, encolhendo os ombros.  - Estão enganados. O velho Bessner é uma ótima criatura, apesar de ser meio boche.

O médico reapareceu subitamente.

- Querem ter a bondade de sair da minha cabina? Tenho de fazer o curativo à perna do doente.

Miss Bowers entrara depois dele, e esperava, correta e profissional, que os outros se retirassem.

Race e Poirot obedeceram vagarosamente. Race murmurou qualquer coisa e passou à frente.

Poirot voltou à esquerda.

Ouviu vozes femininas, uma gargalhada... Jacqueline e Rosalie conversavam na cabina desta última.

A porta estava aberta. As raparigas ergueram os olhos quando a sombra de Poirot caiu sobre elas. Rosalie sorriu para ele pela primeira vez, um sorriso tímido e amável, um tanto incerto, como quem fazia uma coisa com que não estava familiarizada.

- Falando da vida alheia, meninas! - brincou ele.

- Não, nada disso - respondeu Rosalie. – Para falar a verdade, estávamos a comparar os nossos bâtons.

Poirot sorriu.

- Les chiffons d'aujourd'hui - murmurou ele.

Havia algo de forçado no seu sorriso, e Jacqueline, mais perspicaz do que Rosalie, não deixou de notar o fato. Largou o batôn e passou para o tombadilho.

- Alguma coisa... que foi que aconteceu?

- Acertou, mademoiselle. Alguma coisa aconteceu.

- Que foi? - perguntou Rosalie, vindo juntar-se a eles.

- Outra morte - disse Poirot.

Rosalie ficou um minuto com a respiração suspensa. Poirot observava-a atentamente. Viu a expressão de alarme, e, mais do que isso, de consternação, que por um minuto passou pelos olhos dela.

- A criada de Mistress Doyle foi assassinada - disse ele sem rodeios.

- Assassinada? - exclamou Jacqueline. - O senhor disse assassinada?

- Sim, foi isso o que eu disse.

Embora a resposta tivesse sido dada a Jackie, os olhos de Poirot observavam Rosalie. Foi a ela que se dirigiu em seguida:

- A tal criada viu alguma coisa que não devia ter visto. E, portanto, receando que ela não soubesse guardar segredo, reduziram-na para sempre ao silêncio!

- Que teria ela visto?

A pergunta foi feita de novo por Jackie, e de novo Poirot respondeu a Rosalie. Interessante, aquela cena triangular...

- Quanto a isso, não pode haver dúvida - disse o detetive. - Deve ter visto alguém entrar ou sair da cabina de Mistress Doyle, na noite do crime.

Poirot era observador. Notou a respiração ofegante, o estremecimento das pálpebras... A reação de Rosalie fora exatamente a que ele esperava ver.

- Ela disse quem? - perguntou Rosalie.

Poirot sacudiu tristemente a cabeça.

Ouviram-se passos no tombadilho. Cornélia, apareceu, assustada, de olhos arregalados.

- Oh, Jacqueline, aconteceu uma coisa horrível!

Afastaram-se as duas. Instintivamente, Poirot e Rosalie tomaram a direcção oposta.

A jovem perguntou bruscamente:

- Por que me olha dessa forma? Que é que lhe passou pela cabeça?

- A senhora fez-me duas perguntas. Far-lhe-ei uma só, em troca, mademoiselle. Porque não me conta a verdade?

- Não sei a que se refere. Contei-lhe tudo, hoje de manhã.

- Não; nem tudo. Não me contou que traz na bolsa um revólver de pequeno calibre, com cabo de madrepérola. Não me contou tudo o que viu a noite passada.

A rapariga corou. Depois disse secamente:

- Não é exato. Não tenho revólver nenhum.

- Insisto em dizer que tem um revólver na sua bolsa.

Ela deu uma reviravolta, entrou na cabina e voltou imediatamente, entregando-lhe com gesto brusco a sua bolsa de camurça cinzenta.

- Está a dizer absurdos. Verifique.

Poirot abriu a bolsa. Não havia dentro nenhum revólver.

Devolveu-a a Rosalie, notando a expressão desdenhosa e triunfante do olhar dela.

- Não, não está aqui - disse ele, bem-humorado.

- Vê? Nem sempre tem razão, Monsieur Poirot. E engana-se sobre aquela coisa ridícula que disse.

- Não; não o creio.

- O senhor é impossível! - declarou ela, batendo o pé, indignada. - Mete uma idéia na cabeça, e vai batendo, batendo sempre na mesma tecla.

- É porque quero que me diga a verdade.

- Qual é a verdade? O senhor parece conhecê-la melhor do que eu.

- Quer que lhe diga o que foi que a senhora viu? Se eu acertar, está pronta a confessar que acertei? Pois bem, vou começar. Acho que, quando deu a volta pela popa do navio, a senhora estacou subitamente porque viu um homem a sair de uma cabina do centro do tombadilho; a cabina de Mistress Doyle, como ficou a saber no dia seguinte. Viu-o fechar a porta e afastar-se para o outro lado, entrando numa das cabinas da extremidade. E agora: acertei, mademoiselle?

Rosalie não respondeu.

Poirot continuou:

- Talvez ache mais sensato não responder. Talvez tenha medo de, se falar, ser também assassinada.

Por um momento pensou que ela morderia a isca - que a acusação à sua coragem conseguiria aquilo que argumentos mais subtis não tinham conseguido.

Os lábios de Rosalie entreabriram-se... tremeram.

- Não vi ninguém - disse ela.

 

Endireitando os punhos do vestido, Miss Bowers saiu da cabina do médico.

Jacqueline abandonou Cornélia bruscamente e  aproximou-se da enfermeira.

- Como vai ele?

Poirot chegou a tempo de ouvir a resposta. Miss Bowers parecia preocupada... Disse:

- Não vai muito mal.

- Quer dizer que piorou? - exclamou Jacqueline.

- Bom, não nego que ficarei mais tranqüila depois da radiografia, quando ele estiver num hospital. Quando acha que chegaremos a Shellâl, Mister Poirot?

- Amanhã, cedo.

Miss Bowers comprimiu os lábios e abanou a cabeça lentamente.

- É pena. Estamos a fazer o possível, mas há sempre o perigo de uma septicemia.

Jacqueline agarrou o braço da enfermeira, exclamando:

- Ele vai morrer? Vai morrer?

- Céus, não, Miss de Bellefort. Isto é, espero realmente que não. O ferimento em si não é perigoso. Mas não há dúvida quanto à necessidade de uma radiografia. E, naturalmente, o pobre Mister Doyle deve ficar hoje em repouso absoluto. Com toda esta agitação... não é de admirar que a febre tenha subido. O choque da morte da mulher, e uma e outra coisa...

Jacqueline largou o braço da enfermeira e afastou-se, indo debruçar-se na amurada.

- Na minha opinião, nunca se deve perder a esperança – disse Miss Bowers. - Felizmente, Mister Doyle tem uma ótima constituição, e isto é um ponto a seu favor. Mas não há dúvida que esta alta de temperatura causa preocupações...

Abanou a cabeça, acertou os punhos mais uma vez e afastou-se em passos rápidos.

Com os olhos cheios de lágrimas, Jacqueline dirigiu-se, cambaleante, para a sua cabina. Sentiu que alguém a ajudava a firmar-se. Voltou-se e deu com Poirot. Apoiou-se a ele e entraram juntos na cabina.

Jacqueline sentou-se na cama, e as lágrimas correram-lhe então livremente, acompanhadas de soluços.

- Ele vai morrer. Vai morrer. Sei que vai morrer. E fui eu que o matei...

Poirot encolheu os ombros, com ar tristonho.

- Mademoiselle, o que está feito está feito. É tarde demais para arrependimentos.

Jacqueline exclamou, apaixonadamente:

- Se ele morrer, a culpa será minha. Eu... E amo-o tanto, tanto...

 - Demais... - suspirou Poirot.

O pensamento ocorrera-lhe meses antes, no restaurante de M. Blondin, e era ainda essa a sua opinião.

Após ligeira hesitação, continuou:

- Mas não se fie no que diz Miss Bowers. Achei sempre as enfermeiras muito lúgubres! A enfermeira da noite admira-se sempre de encontrar o doente vivo, ao anoitecer, e a enfermeira do dia fica admirada por encontrá-lo vivo na manhã seguinte! Elas conhecem a fundo, compreende, as complicações que podem sobrevir. Uma pessoa que guia um carro poderia imaginar: se um roadster saísse daquela encruzilhada, se aquele camião se lembrasse  de repente de fazer marcha atrás, se a direção do carro que se aproxima se partisse, se um cão saltasse daquela cerca em cima do meu braço; eh bien com certeza eu morreria. Mas a gente supõe, e geralmente com razão, que nenhuma dessas coisas acontecerá e que a viagem terminará sem incidentes.

Jacqueline disse, sorrindo por entre as lágrimas:

- Procura consolar-me, Monsieur Poirot?

- Deus sabe o que tento fazer! A senhora não devia ter feito esta viagem.

- Tem razão... Tem sido... horrível! Mas está quase terminada.

- Mais oui... Mais oui.

- E Simon irá para o hospital e será bem tratado, e tudo se arranjará.

- Fala como uma criança! E viveram para sempre felizes. É isto, não é?

A rapariga corou.

- Monsieur Poirot, garanto-lhe que nunca...

- "É cedo de mais para pensarmos nisso!" É a frase hipócrita que devia ter dito, não é verdade? Mas a senhora é meio latina, mademoiselle. Deve saber reconhecer a verdade, mesmo quando não é muito elegante. Le roi est mort... vive le roi! O Sol escondeu-se, já se vê a Lua. É isto, não é?

- O senhor não compreende. Ele tem apenas dó de mim, porque sabe como me sinto por ser a causadora de todo o seu sofrimento.

- Ah, bom, a piedade sincera é um nobre sentimento - declarou Poirot.

Fitou-a com ar meio zombeteiro, em que havia também outra expressão. Murmurou baixinho, em francês:

 

La vie est vaine

Un peu d'amour

Un peu de haine

Et puis bonjour.

 

La vie est brève

Un peu d'espoir

Un peu de rêve

Et puis bonsoir.

 

O detetive saiu de novo para o tombadilho. Race, que passeava de borda a borda, chamou-o.

- Poirot? ótimo. Tenho uma idéia.

Passou o braço pelo do detetive e começaram a caminhar juntos.

- A respeito de um comentário de Doyle. Oportunamente, não lhe dei importância. Qualquer coisa sobre um telegrama.

- Tiens... c'est vrai.

- Com certeza não dá nada, mas não podemos desprezar nenhum indício. Com os diabos, meu amigo, duas mortes e ainda estamos no escuro!

- Não; no escuro não. No claro.

Race fitou-o com curiosidade.

- Tem alguma idéia?

- Agora é mais do que uma idéia. Tenho a certeza.

- Desde... quando?

- Desde a morte de Louise Bourget.

- Macacos me mordam se entendo alguma coisa!

- Meu amigo, está tudo tão claro, tão claro! Só há certas dificuldades. Embargos, impedimentos! Compreenda-me: à volta de uma pessoa como Linnet Doyle há tanta coisa... tantos sofrimentos... ódio, inveja, ciúme, mesquinhez. Como um enxame de moscas... zumbindo... zumbindo.

- Mas chegou a alguma conclusão? – perguntou Race sem poder conter a curiosidade. - Sei que não diria uma coisa dessas, a não ser que tivesse a certeza. Quanto a mim, estou na mesma. Tenho as minhas suspeitas, é claro...

Poirot estacou subitamente, agarrando com força o braço de Race.

- Você é um grande homem, mon colonel. Não diz: "Conte-me. Que foi que descobriu?" Sabe que, se pudesse falar, eu falaria. Há ainda tanta coisa para esclarecer! Mas reflita, reflita durante alguns minutos sobre o que lhe vou dizer. Há certos pontos... A declaração de Mademoiselle de Bellefort, de que alguém ouviu a nossa conversa em Assuão. O depoimento de Mister Tim Allerton, sobre o que ouviu ou não ouviu na noite do crime. As significativas respostas de Louise Bourget, hoje de manhã. O facto de Mistress Allerton beber água, seu filho whiskey e soda, e eu vinho. Acrescente a isto os dois frascos de verniz das unhas, e o provérbio que citei na ocasião. E, finalmente, chegamos ao ponto culminante da história: o fato do revólver ter sido envolvido num lenço barato e numa écharpe de veludo, e atirado ao rio...

Race ficou alguns minutos em silêncio, depois abanou a cabeça.

- Não compreendo. Tenho apenas uma vaga idéia do que está a insinuar, nada mais.

- É porque você está enxergando apenas a metade. E lembre-se de uma coisa: temos que começar, desde o princípio, pois as nossas primeiras deduções estavam completamente erradas.

Race fez uma careta.

- Estou habituado a isso. às vezes, tenho a impressão de que é só esse o trabalho do detetive: voltar atrás, recomeçar!

- Sim, tem razão. E é justamente isso que muita gente não quer fazer. Concebem uma teoria e querem que tudo caiba dentro dela. Se alguma coisa não se encaixa, afastam-na sem mais nem menos. Mas os fatos que não se encaixam são justamente os mais significativos. Durante todo este tempo, reconheci a importância do revólver ter sido levado do local do crime. Sabia que tinha alguma significação, mas há meia hora somente compreendi qual era essa significação!

- E eu ainda não vejo nada!

- Mas verá! Reflita sobre os pontos que lhe indiquei. Agora, vamos solucionar o problema do telegrama. Isto é, se Herr Doktor nos receber.

Bessner recebeu-os carrancudo.

- Que é isto? Querem ver de novo o meu doente? Garanto-lhes que é uma imprudência. Está com febre, teve um dia muito agitado.

- Apenas uma pergunta. Nada mais do que isso - prometeu Race.

O médico afastou-se com um grunhido de descontentamento e os dois homens entraram na cabina.

Bessner passou por eles, resmungando qualquer coisa e disse:

- Volto daqui a três minutos, o tempo que lhes dou para falarem com o doente.

Os seus passos pesados ressoaram no tombadilho.

O olhar de Simon interrogou os dois homens.

- Que desejam?

- Uma coisa de nada - disse Race. - Quando os criados de bordo me disseram que Richetti se tinha mostrado muito desagradável, o senhor observou que isso não era de admirar, pois o homem tinha mau gênio, e fora muito grosseiro com sua esposa, a respeito de certo telegrama. Pode contar-nos o incidente?

- Pois não. Foi em Uadi Halfa, quando acabávamos de voltar da Segunda Catarata. Linnet julgou ter visto um telegrama para ela. Esqueceu-se de que o seu nome já não era Ridgeway; e Richetti e Ridgeway são parecidos, quando escritos em má caligrafia. Abriu, portanto, o telegrama, não podendo entendê-lo; nisto, o italiano aproximou-se furioso, arrancando-lhe o telegrama das mãos. Ela seguiu-o, para lhe pedir desculpa, mas o homem tratou-a com muita grosseria.

Race respirou profundamente.

- E o senhor sabe, Mister Doyle, o que dizia esse telegrama?

- Sei, sim senhor; Linnet leu um trecho em voz alta. Dizia...

Interrompeu-se. Qualquer coisa estava a acontecer lá fora...

- Onde estão Mister Poirot e o coronel Race? Preciso vê-los imediatamente. É muito importante. Trago informações importantes. Eu... Estão com Mister Doyle?

Bessner não fechara a porta; somente a cortina se interpunha entre a cabina e o tombadilho. Mrs. Otterbourne afastou-a, entrando como um furacão. Estava vermelha, caminhando em passo incerto, e a sua voz não era muito firme.

- Mister Doyle, sei quem matou sua esposa! - exclamou ela em tom dramático.

- Quê?

Simon e os dois outros homens fitaram-na estupefatos. Mrs. Otterbourne lançou-lhes um olhar triunfante. Estava feliz, imensamente feliz.

- Sim, a minha teoria está provada. Instinto primitivo, impulso irresistível... Pode parecer impossível, fantástico... mas é verdade.

Race perguntou bruscamente:

- Quer dizer que tem em seu poder provas contra a pessoa que assassinou Mistress Doyle?

Mrs. Otterbourne caiu sobre uma cadeira, abanando enfaticamente a cabeça.

- Claro que tenho. Os senhores concordam, não é verdade, que a pessoa que matou Louise Bourget também matou Linnet Doyle?

- Sim, sim - disse Simon em tom impaciente. - É lógico. Continue.

- Então não me enganei. Sei quem matou Louise Bourget, e portanto sei quem matou Linnet Doyle!

- Quer dizer que tem uma teoria a respeito da morte de Louise Bourget - disse Race em tom céptico.

Mrs. Otterbourne voltou-se para ele como uma fera.

- Não, nada disso. Tenho a certeza absoluta. Vi a pessoa com os meus próprios olhos.

Agitado, febril, Simon pediu:

- Pelo amor de Deus, comece pelo princípio. Sabe quem matou Louise Bourget?

Mrs. Otterbourne inclinou a cabeça.

- Vou contar-lhes exatamente o que aconteceu.  Sim, ela sentia-se feliz, sem dúvida nenhuma! Era aquele o seu momento de triunfo. Pouco importava que os seus livros não tivessem saída... Pouco importava que o público que antes os devorava tivesse agora outros prediletos! Salomé Otterbourne tornar-se-ia novamente famosa, o seu nome apareceria nos jornais... Seria a principal testemunha num crime de morte!

Respirou profundamente e abriu a boca.

- Foi quando desci para o almoço. Não tinha vontade nenhuma de comer... depois daquela tragédia... Bom, este pormenor não interessa. No meio do caminho, ocorre-me que me esquecera de certa coisa na cabina e pedi a Rosalie que fosse buscá-la.

Mrs. Otterbourne fez uma pequena pausa.

A cortina moveu-se ligeiramente, como que ao toque da brisa, mas nenhum dos três homens notou coisa alguma.

- Eu... - Mrs. Otterbourne parou de novo. Era um assunto delicado, mas não podia desprezar aquele pormenor. - Eu... tinha uma combinação com uma das pessoas... do... hum... personnel do navio. Esta pessoa tinha que me... arranjar certa coisa... e eu não queria que minha filha soubesse... Ela às vezes é implicante... Bom, a história não estava lá muito bem contada, mas depois poderia pensar em qualquer coisa que causasse melhor impressão nos jurados.

Race olhou interrogativamente para Poirot.

O detetive inclinou a cabeça de maneira imperceptível e os lábios dele formaram a palavra: "Bebida".

A cortina moveu-se novamente. Apareceu qualquer coisa, com um brilho acinzentado de metal...

Mrs. Otterbourne continuava:

- Eu tinha combinado ir até ao tombadilho da popa abaixo deste, onde o homem estaria à minha espera. Ao percorrer o tombadilho, vi abrir-se a porta de uma cabina e surgir Louise. Parecia estar à espera de alguém. Ficou surpreendida quando me viu, entrando de novo, bruscamente, na cabina. Não dei importância ao fato, é claro. Fui até onde devia ir e recebi a... tal coisa, das mãos do homem. Paguei-lhe e... troquei algumas palavras com ele. Depois voltei. Quando ia a transpor aquele ângulo, vi alguém bater à porta da cabina da criada e entrar...

Race disse:

- E essa pessoa era...

Bum!

 O ruído da explosão pareceu encher toda a cabina. Cheiro forte de pólvora... Mrs. Otterbourne virou de lado, como que em atitude indagadora, depois tombou para a frente, batendo pesadamente no chão. O sangue jorrava-lhe detrás da orelha...

Houve um momento de silêncio estupefato.

Logo em seguida, os dois homens válidos levantaram-se. O corpo da mulher atrapalhou-os um pouco... Race inclinou-se sobre ela, ao passo que Poirot, com um pulo de gato, passava para o tombadilho.

Vazio. No chão, bem perto da porta, o revólver, um Colt.

Poirot olhou de um lado para outro. O tombadilho estava completamente deserto. Dirigiu-se para a popa. Ao fazer a curva, deu com Tim Allerton, que vinha apressadamente, em sentido contrário.

- Com os diabos, que aconteceu? – perguntou o rapaz, ofegante.

- Viu alguém, quando vinha para cá?

- Se vi alguém? Não.

- Então, acompanhe-me.

Poirot segurou o rapaz pelo braço e voltou para a cabina de Bessner.

Havia agora um grupo em frente à porta: Rosalie, Jacqueline e Cornélia tinham saído das suas cabinas. Outras pessoas vinham do salão: Ferguson, Fanthorp e Mrs. Allerton.

Race postara-se ao lado do revólver. Poirot disse bruscamente a Tim Allerton:

- Tem por acaso um par de luvas?

Tim remexeu no bolso.

- Tenho, sim - disse ele.

Poirot agarrou as luvas, calçou-as e baixou-se para examinar o revólver. Race seguiu-lhe o exemplo. Os outros observavam, de respiração suspensa.

- Ele não foi para o outro lado - disse Race. Fanthorp e Ferguson estavam sentados no salão e tê-lo-iam visto.

- E Mister Allerton também o teria visto se ele tivesse ido para a popa - declarou Poirot.

Race disse, apontando a arma:

- Creio que vimos este revólver há pouco tempo... Precisamos de nos certificar disso.

Bateram à porta da cabina de Pennington. Não houve resposta. A cabina estava vazia... Race foi até à cômoda e abriu a gaveta de cima. O revólver desaparecera.

- Este ponto está esclarecido - disse Race. - E agora, onde estará Pennington!

Voltaram para o tombadilho. Mrs. Allerton juntara-se ao grupo. Poirot aproximou-se vivamente, dizendo:

- Madame, leve Miss Otterbourne daqui, e fique com ela. Sua mãe foi... - Poirot consultou Race com o olhar e terminou: - assassinada.

Bessner apareceu, muito afogueado.

- Gott im Himmel! Que sucedeu?

Abriram caminho para ele. Race fez um sinal com a cabeça e o médico entrou na cabina.

- Procurem Pennington - disse Race. - Há impressões digitais nesse revólver?

- Nada - declarou Poirot.

Encontraram Pennington no tombadilho de baixo, na saleta, a escrever algumas cartas. O americano levantou o rosto bonito e bem barbeado e perguntou:

- Algo de novo?

- Não ouviu um tiro?

- Agora que me falam nisso, creio ter ouvido um estrondo qualquer. Mas nunca imaginei... Quem levou o tiro?

- Mistress Otterbourne.

- Mistress Otterbourne? - perguntou ele, parecendo muito admirado. - Que me dizem! Mistress Otterbourne... Não vejo por que... - Fez uma pausa e depois baixando a voz: - Quer-me parecer, senhores, que temos a bordo algum maníaco. Acho que devemos organizar um sistema de defesa.

- Mister Pennington, há quanto tempo está nesta sala? - perguntou Race.

- Bom, deixe-me pensar... - disse Pennington, coçando o queixo devagar. - Uns vinte minutos, mais ou menos.

- E não saiu daqui?

- Não... Claro que não - disse o americano, fitando os dois homens com expressão indagadora.

- Saiba, Mister Pennington, que Mistress Otterbourne foi assassinada com o seu revólver - disse Race.

 

Mr. Pennington ficou escandalizado, Mr. Pennington mal podia acreditar naquelas palavras.

- Mas, meus senhores, o caso é muito sério. Realmente muito sério.

- Muito, para o senhor, Mister Pennington.

- Para mim? - exclamou o americano erguendo admirado as sobrancelhas. - Mas, meu caro senhor, eu estava aqui, a escrever tranquilamente, quando ouvi a detonação.

- Talvez tenha uma testemunha para provar isso?

O americano abanou a cabeça.

- Bom, não... não digo que tenha. Mas vê-se logo que teria sido impossível eu ir até ao tombadilho de cima, matar aquela pobre mulher (e que motivos tinha eu para isso, afinal de contas?) e descer de novo, sem que alguém me visse. Há sempre muita gente no salão, a esta hora do dia.

- Como explica o fato de ter sido usado o seu revólver?

- Bom, creio que nisso tenho um pouco de culpa. Logo depois de termos vindo para bordo, estávamos conversando, no salão, sobre armas de fogo, e lembro-me de ter dito que quando viajo trago sempre um revólver.

- Quem estava presente?

- Bom, não posso lembrar-me exatamente. Muitas pessoas, em todo o caso.

O americano fez uma pausa, abanou lentamente a cabeça e repetiu:

- Sim, nisso tenho um pouco de culpa.

- E depois:

- Primeiro Linnet, depois a criada de Linnet e agora Mistress Otterbourne. Não faz sentido!

- Houve um motivo - disse Race.

- Sim?

- Mistress Outterbourne ia dizer-nos o nome de uma pessoa que ela vira entrar na cabina de Louise. Antes de o poder fazer, alguém a matou.

Pennington enxugou a testa com um lenço de seda, murmurando:

- É horrível!

- Mister Pennington, eu gostaria de discutir certos aspectos deste caso consigo - disse Poirot. - Quer vir à minha cabina daqui a meia hora?

- Com muito prazer.

Mas o americano não parecia sentir prazer algum...

Race e Poirot saíram.

- Um sujeito astuto - observou Race. - Mas está com medo, hem?

- Não está nada satisfeito, o nosso Mister Pennington - concordou Poirot.

Quando chegaram de novo ao tombadilho de passeio, Poirot viu Mrs. Allerton sair da sua cabina, fazendo-lhe urgentes sinais.

- Madame?

- Aquela pobre menina! Diga-me, Mister Poirot, não há alguma cabina dupla onde eu possa ficar com ela? Não convém voltar para aquela onde dormia com sua mãe, e a minha só tem um leito.

- Isso é fácil de se arranjar, madame. É muita bondade sua.

- Oh, nada, nada. Além do mais, gosto da pequena. Sempre simpatizei com ela.

- Está muito... abalada?

- Muito. Creio que era muito dedicada àquela horrível mulher. É isto que torna o caso tão patético. Tim acha que ela bebia... É verdade?

Poirot apenas inclinou a cabeça. Mrs. Allerton continuou, encolhendo os ombros:

- Oh, bom... Pobre mulher!... Com certeza não devemos julgá-la, mas Rosalie deve ter tido uma vida dura.

- Sim, madame, teve. É muito orgulhosa, e foi sempre muito leal.

- Gosto disso... quero dizer: da lealdade. É um sentimento que hoje em dia está fora de moda. Tem um caráter esquisito, aquela menina... Orgulhosa, reservada, teimosa, e no fundo muito afetuosa, creio eu.

- Vejo que ela estará em muito boas mãos, madame.

- Não se preocupe; cuidarei dela. Está-se afeiçoando a mim de uma maneira muito comovente.

Mrs. Allerton entrou de novo na cabina e Poirot voltou ao local do crime.

Cornélia estava de pé, no tombadilho, de olhos bem abertos.

- Não compreendo bem, Mister Poirot. Como é que a pessoa que fez fogo conseguiu fugir sem que nenhum de nós a visse?

- Sim, como? - perguntou Jacqueline.

- Ah, não foi assim tão extraordinário como pensam. Há três direções que o assassino poderia ter seguido.

Jacqueline pareceu admirada.

- Três?

- Poderia ter ido para a direita e poderia ter ido para a esquerda - disse Cornélia. - Não vejo outro caminho.

Jacqueline também parecia perplexa. De súbito, o  seu rosto iluminou-se.

- Claro. Ele poderia ter tomado, no mesmo plano, uma de duas direções; mas poderia também ter voltado à direita, neste mesmo plano. Isto é, não poderia subir mas poderia descer.

Poirot sorriu:

- Mademoiselle é inteligente - disse ele.

Cornélia disse:

- Creio que sou uma tonta, mas não percebo coisa alguma.

- Monsieur Poirot quer dizer que ele poderia ter saltado para o tombadilho de baixo.

- Céus! - exclamou Cornélia. - Isso nunca me ocorreria! Mas teria que ser muito ágil. Acham isso possível?

- Muito fácil - disse Tim. - Lembre-se de que há sempre um minuto de surpresa depois de um acontecimento como este. A gente ouve uma detonação e durante um ou dois segundos fica como que paralisado.

- Foi o que lhe aconteceu, Mister Allerton?

- Sim, foi o que me aconteceu. Durante cinco segundos, fiquei apatetado. Depois, corri pelo tombadilho.

Race saiu da cabina de Bessner e disse em tom autoritário:

- Queiram ter a bondade de sair. Vamos remover o cadáver.

Obedeceram todos imediatamente. Poirot acompanhou-os.

Cornélia disse com tristeza:

- Nunca me esquecerei desta viagem... Três mortes... Um verdadeiro pesadelo.

Ferguson exclamou, em tom agressivo:

- Isso é porque vocês são supercivilizados. De viam considerar a morte como a consideram os Orientais. É apenas um incidente, que mal se nota.

- Isso está certo para eles - observou Cornélia.

- Coitados, não têm instrução.

- Não; e é uma vantagem. A instrução desvitalizou a raça humana. Veja a América; a sua mania de cultura. É repugnante.

- Acho que está a dizer tolices - observou Cornélia corando.

- No Inverno, assisto sempre a conferências sobre Arte Grega e a Renascença, e ouvi uma sobre as Mulheres Célebres da História.

- Arte Grega! Renascença! Mulheres Célebres da História! Fico desgostoso só de ouvi-la falar. É o futuro que importa, menina, não o passado. Morreram três mulheres neste navio... Bom, e que tem isso? Não fazem falta. Linnet Doyle e o seu dinheiro! A criada francesa, parasita doméstica. Mistress Otterbourne, velha idiota e inútil. Acha que alguém se importa que tenham morrido ou não? Pois eu não acho. Foi mesmo uma boa coisa.

- Engana-se redondamente! - exclamou Cornélia com veemência. - E estou cansada de o ouvir falar, como se ninguém tivesse importância no mundo a não ser você. Eu não apreciava Mistress Otterbourne, mas Rosalie gostava muito da mãe e está profundamente abalada com a sua morte. Eu não achava a criada francesa muito simpática, mas há-de haver alguém, em algum canto do mundo, que gostasse dela... E quanto a Linnet Doyle... Bom, sem olhar mais nada, era uma beleza! Achava-a tão bonita que ficava com um nó na garganta sempre que a via aparecer. Sei que sou feia, e isto faz com que aprecie mais ainda a beleza. Era tão linda... com qualquer coisa de Arte Grega! E quando uma coisa bela desaparece, é um prejuízo para a Humanidade. Pronto, e acabou-se.

Mr. Ferguson recuou um passo e enfiou as duas mãos nos cabelos, puxando-os com força.

- Desisto - disse ele. - Você é incrível. Não tem um pingo de despeito feminino... - E, voltando-se para Poirot: - Sabe que o pai de Cornélia foi levado à ruína pelo velho Ridgeway? Mas esta menina faz caretas quando vê a herdeira coberta de pérolas, exibindo modelos franceses? Não! Solta um balido apenas: Não é linda? Como qualquer ovelha mansinha. Não creio que tenha sentido despeito algum.

Cornélia corou.

- Sim, mas por um minuto apenas. O meu pai morreu de desgosto...

- Por um minuto apenas! Essa é boa!

Cornélia voltou-se bruscamente para ele.

- Bom, não disse há pouco que era o futuro que importava, e não o passado? Tudo isso foi no passado, não foi? Já se acabou!

- Um a zero! - confessou Ferguson. – Cornélia Robson, você é a mulher mais simpática que jamais encontrei na vida. Quer casar comigo?

- Não seja absurdo.

- É um pedido de casamento, embora feito na presença do Grande Detetive. De qualquer maneira, o senhor é testemunha, Monsieur Poirot. Em pleno gozo das minhas faculdades, propus casamento a esta mulher, contra todos os meus princípios, pois não aprovo os tais laços legais entre os sexos! Mas, como não creio que ela aceitasse outra coisa, que seja então o matrimônio! Vamos, Cornélia, diga "sim"!

- Acho que você é supinamente ridículo - replicou Cornélia, corando.

- Porque não se casa comigo?

- Não é sério...

- Quer dizer que não estou a falar sério quando lhe proponho casamento, ou que não sou bastante sisudo?

- Ambas as coisas; mas eu referia-me ao caráter. Você ri de tudo o que é sério: Educação, Cultura e... Morte. Ninguém poderia ter confiança em si. Interrompeu-se, corou de novo e entrou apressada mente na sua cabina.

Ferguson continuou a olhar naquela direção.

- Maldita rapariga! Pareceu-me que estava a ser  sincera. Quer um homem de confiança. Essa é boa! - Fez uma pausa e depois perguntou com curiosidade: - Que aconteceu, Monsieur Poirot? O senhor está muito pensativo.

Com um sobressalto, Poirot voltou à realidade.

- Reflito, nada mais do que isso. Reflito.

- Meditação sobre a Morte, por Hercule Poirot. Um dos seus conhecidos monógrafos.

- Mister Ferguson, o senhor é um rapaz muito impertinente.

- Desculpe-me. Gosto de atacar as instituições organizadas.

- E eu... sou uma delas?

- Exatamente. Que acha daquela pequena?

- Miss Robson?

- Sim.

- Acho que é uma rapariga de muito caráter.

- Tem razão. É enérgica, embora pareça dócil. Corajosa... Bom, quero aquela menina. Creio que não será mau ir sondar a velhota. Se eu conseguir que se manifeste abertamente contra mim, talvez Cornélia fique mais bem-disposta a meu favor.

Ferguson deu uma reviravolta e dirigiu-se para o salão.

Miss Van Shuyler estava sentada no seu canto habitual, parecendo mais arrogante do que nunca, e fazia tricô.

Ferguson aproximou-se.

Entrando disfarçadamente, Poirot sentou-se a uma distância regular, parecendo absorto na leitura de uma revista.

- Boa tarde, Miss Van Schuyler.

Miss Van Schuyler ergueu o olhar, baixando-o imediatamente e respondendo em tom gélido:

- Hummm... boa tarde.

- Miss Van Shuyler, preciso falar-lhe sobre um assunto muito importante. Quero casar com a sua prima.

O novelo de lã de Miss Van Schuyler caiu, rolando pelo soalho. A velhota respondeu em tom lacrimonioso:

- O senhor deve estar maluco.

- De modo nenhum. Estou decidido. Já falei com ela.

Miss Van Shuyler observou-o friamente, com o olhar curioso de quem examina um animal raro.

- Falou! E, com certeza, ela mandou-o passear?

- Recusou.

- Naturalmente.

- Nada de "naturalmente. Vou insistir até ela dizer "sim".

- Garanto-lhe, senhor, que tomarei providências para que minha prima não seja importunada - declarou Miss Van Schuyler, em tom acerbo.

- Que tem a senhora contra mim?

Miss Van Schuyler apenas ergueu as sobrancelhas, deu um puxão na lã para fazer voltar o novelo, e encerrou assim a conversa.

- Vamos - insistiu Ferguson. - Que tem contra mim?

- Acho a pergunta desnecessária, Mister... Hummm... não sei o seu nome.

- Ferguson.

- Mister Ferguson - completou Miss Van Schuyler com evidente desprezo - tal casamento está fora de discussão.

- Quer dizer que não sou digno dela?

- Acho que isso está mais do que claro.

- E porque é que não sou digno dela?

Miss Van Schuyler não respondeu.

- Tenho duas pernas, dois braços, boa saúde, inteligência normal. Que é que me falta?

- Existe uma coisa chamada posição social, Mister Ferguson.

- Posição social? Isso é laracha.

A porta abriu-se e Cornélia apareceu, estacando subitamente ao ver o seu pretendente em conversa com a temível prima Marie.

Ferguson voltou a cabeça, sorriu e exclamou:

- Aproxime-se, Cornélia. Estou a fazer o pedido da maneira mais correta possível.

- Cornélia! - exclamou a americana em voz realmente terrível. - Cornélia, você deu corda a este rapaz?

- Eu... Claro que não... isto é...

- Que quer dizer com isso?

- Ela não me deu corda - disse o rapaz, vindo em socorro de Cornélia. - A culpa é toda minha. Não me desiludiu completamente, porque tem muito bom coração. Cornélia, sua prima diz que não sou digno de si. Isso, naturalmente, é verdade, mas não sob o ponto de vista de Miss Van Schuyler. O meu caráter, é lógico, não é tão elevado como o seu, mas diz ela que socialmente estou muito abaixo de si.

- Isso, creio eu, há-de saltar aos olhos de Cornélia - disse a americana.

- Acha? - perguntou Mr. Ferguson, fitando a rapariga atentamente. - É por isso que não quer casar comigo?

- Não, não é - replicou Cornélia, corando. – Se eu gostasse de você, teria dito "sim", fosse você quem fosse.

- Então não gosta de mim?

- Acho-o impossível! As coisas que diz... A maneira de as dizer... Eu... nunca encontrei ninguém como o senhor...

Confusa, e prestes a chorar, Cornélia saiu apressadamente do salão.

- Para ser franco, o começo não está nada mau – observou Ferguson. Reclinou-se na cadeira, olhou o teto, assobiou, cruzou as pernas e continuou: - Ainda acabarei por lhe chamar "minha prima".

Miss Van Schuyler estava trémula de raiva.

- Saia desta sala imediatamente, senhor, ou tocarei a campainha para chamar o criado.

- Paguei a minha passagem, e não poderão expulsar-me do salão principal - disse Ferguson. – Mas vou fazer-lhe a vontade.

Ergueu-se e saiu displicentemente dali, cantarolando baixinho.

Miss Van Schuyler tentou erguer-se, louca de raiva. Saindo discretamente do seu retiro, Poirot curvou-se para apanhar o novelo que rolara de novo.

- Agradecida, Monsieur Poirot. Se quiser fazer o favor de me mandar Miss Bowers... Estou muito perturbada... Que sujeito insolente!

- Um tanto excêntrico, creio eu - observou Poirot. – Quase todos os da família são assim. Tarados, naturalmente. Sempre dispostos a exageros.

Fez uma pausa e perguntou despreocupadamente:

- A senhora reconheceu-o, com certeza?

- Reconheci-o?

- Adota o nome de Ferguson, por não querer usar o título, devido às suas idéias avançadas.

- Título?

- Sim, aquele rapaz é Lorde Dawlish. Riquíssimo, naturalmente. Tornou-se comunista, quando esteve em Oxford.

No rosto de Miss Van Schuyler, refletiam-se emoções contraditórias. Perguntou em voz rouca:

- Há quanto tempo sabe isso, Monsieur Poirot?

O detetive encolheu os ombros.

- Vi o retrato dele numa destas revistas... e depois encontrei na sua cabina o anel com o brasão. Oh, quanto a isso não há dúvida.

Poirot divertia-se com o conflito de emoções da velha americana. Finalmente, com uma amável inclinação de cabeça, ela despediu-se, dizendo:

- Fico-lhe muito agradecida, Monsieur Poirot.

O detetive ainda sorria, mesmo depois de se ver só, no salão.

Sentou-se, minutos depois, e o seu rosto adquiriu uma expressão mais grave. Estava a seguir um determinado curso de idéias... De vez em quando abanava a cabeça.

- Mais oui - murmurou afinal. - Está tudo certo.

 

Race veio procurá-lo.

- Então, Poirot, que me diz? Pennington deve subir daqui a dez minutos. Deixo tudo nas suas mãos, meu amigo.

Poirot ergueu-se vivamente.

- Primeiro, mande chamar Fanthorp.

- Fanthorp? - perguntou Race, admirado.

- Sim. Traga-o à minha cabina.

Race inclinou a cabeça e afastou-se. Poirot dirigiu-se para a sua cabina. Minutos depois, chegavam Fanthorp e Race.

Poirot indicou duas cadeiras e ofereceu cigarros.

- Agora, Mister Fanthorp, vamos ao que interessa! Vejo que usa a mesma gravata que o meu amigo Hastings.

Fanthorp olhou, perplexo, para a gravata, e explicou:

- É uma gravata O. E.

- Exacamente. Saiba que, embora estrangeiro, conheço o ponto de vista inglês. Sei, por exemplo, que há coisas "que se fazem" e coisas "que não se fazem".

Fanthorp sorriu, dizendo:

- Hoje em dia isso já não é vulgar.

- Talvez não, mas o hábito persiste. A Velha Gravata da Escola ainda é A Velha Gravata da Escola, e há certas coisas (sei por experiência própria) que quem usa a Velha Gravata não faz! Uma dessas coisas, Mister Fanthorp, é uma pessoa intrometer-se na conversa de estranhos, quando ninguém pediu a sua opinião.

Fanthorp fitou-o sem nada dizer. Poirot continuou:

- Mas há poucos dias, Mister Fanthorp, foi exatamente isso o que o senhor fez. Certas pessoas estavam a tratar de negócios particulares, no salão; o senhor aproximou-se, indubitavelmente para ouvir a conversa chegando mesmo a voltar-se e dar os parabéns à senhora, Mistress Simon Doyle, pela sua criteriosa maneira de negociar.

Fanthorp estava rubro. Poirot continuou, sem esperar por comentário algum:

- Muito bem, Mister Fanthorp; isso não devia, de modo algum, ser o procedimento de uma pessoa que usa uma gravata igual à do meu amigo! Hastings é delicadíssimo, e morreria de vergonha se fizesse uma coisa dessas. E, portanto, levando-se em consideração o fato de o senhor ser muito novo para estar em condições de fazer uma viagem tão dispendiosa, não devendo ter grande fortuna pessoal, pois trabalha numa firma de advogados, e não dando mostras de recente moléstia que necessitasse de uma viagem de convalescença, levando-se tudo isto em consideração, pergunto a mim mesmo, e pergunto também ao senhor: Qual a razão da sua presença neste navio?

Fanthorp lançou a cabeça para trás, num desafio, exclamando:

- Recuso-me a prestar qualquer declaração nesse sentido. Acho que está louco, Monsieur Poirot.

- Estou no meu juízo perfeito. Onde fica a sua firma? Em Northampton, isto é, não muito longe de Wode Hall. Que conversa tentou ouvir? Sobre documentos... Qual a finalidade da sua observação, qual o comentário que fez com evidente constrangimento e malaise? A finalidade era evitar que Mistress Doyle assinasse, sem lê-los, certos documentos.

Poirot fez uma pausa; depois continuou:

- Houve, neste navio, um crime, e logo em seguida outros dois. Se eu lhe disser que a bala que matou Mistress Otterbourne saiu do revólver de Mister Andrew Pennington, talvez compreenda que é seu dever contar-nos o que sabe.

Fanthorp ficou em silêncio alguns minutos. Finalmente, disse:

- O senhor tem uma maneira engraçada de dizer as coisas, Monsieur Poirot, mas compreendo o seu ponto de vista. O fato é que não tenho informações precisas para lhe dar.

- Quer dizer então que é um caso de suspeita, apenas?

- Exatamente.

- E, portanto, acha imprudência falar? Talvez tenha razão, sob o ponto de vista jurídico. Mas isto aqui não é um tribunal de justiça. Race e eu procuramos descobrir o criminoso. Qualquer informação que nos dê poderá ser de grande valor.

Jim Fanthorp refletiu novamente. Depois:

- Muito bem. Que desejam saber?

- Por que motivo empreendeu esta viagem?

- Vim a mandado de meu tio, Mister Carmichael, procurador de Mistress Doyle, na Inglaterra. Por motivos de negócios, meu tio mantinha constante correspondência com Mister Andrew Pennington, procurador de Mistress Doyle, na América. Diversos pequenos incidentes (não posso enumerá-los a todos) fizeram com que meu tio suspeitasse que as coisas não andavam como deviam.

- Para falar sem rodeios, seu tio suspeitava que Pennington fosse um trapaceiro?

Fanthorp inclinou a cabeça, sorrindo de leve.

- O senhor é mais franco do que eu, mas no fundo é isso mesmo. Certas desculpas apresentadas por Pennington, e explicações sobre o emprego de determinados capitais despertaram as suspeitas de meu tio. Tais suspeitas ainda não estavam bem definidas, quando soubemos que Miss Ridgeway se casara e viera para o Egito. O casamento tranqüilizou meu tio, pois, quando ela voltasse à Inglaterra, a direção dos negócios ser-lhe-ia entregue. Nisto, numa carta do Egito, ela referiu-se ao fato de se ter encontrado, por acaso, no Cairo, com Andrew Pennington. As suspeitas de meu tio tornaram-se mais fortes. Ele teve a certeza de que o americano, agora em situação desesperada, iria tentar obter a assinatura de Mistress Doyle, para cobrir os seus desfalques. Não tendo provas para apresentar à sua cliente, meu tio viu-se numa embaraçosa situação. A única solução que encontrou foi mandar-me para cá de avião, para tentar descobrir a verdadeira situação. Eu devia ficar de olhos abertos, e, se fosse necessário, agir; missão muito desagradável, pode ter a certeza! Para falar a verdade, na ocasião a que o senhor se referiu, sei que fiz um papel indecente. Situação constrangedora, mas o resultado foi satisfatório.

- Quer dizer que Mistress Doyle desconfiou de qualquer coisa? - perguntou Race.

- Não tanto por isso. Mas creio que Pennington ficou com a pulga atrás da orelha. Fiquei convencido que ele não tentaria mais nada durante algum tempo, e até lá eu esperava ter travado relações com os Doyle, para poder preveni-los de qualquer forma. Para dizer a verdade, pretendia falar com Mister Doyle. Mistress Doyle era tão apegada a Pennington que seria difícil insinuar qualquer coisa contra ele. Teria sido mais fácil falar com o marido.

Race inclinou a cabeça, concordando. Poirot perguntou:

- Quer dar-me a sua opinião franca, Mister Fanthorp? Se tivesse que fazer um negócio desonesto, escolheria para vítima Mister ou Mistress Doyle?

Fanthorp sorriu ligeiramente.

- Mister Doyle, sem hesitar um só momento. Linnet era muito perspicaz. O marido, pelo que me parece, é um destes sujeitos confiantes que não entendem de negócios e estão sempre prontos a assinar "na linha de pontinhos", como ele mesmo disse.

- De acordo - declarou Poirot. - E ai está o motivo.

- Mas tudo isto são conjecturas – observou Fanthorp. - Não são provas.

- Ah! Ah! Mas conseguiremos as provas - exclamou Poirot.

- De que maneira?

- Provavelmente por intermédio do próprio Pennington.

Fanthorp pareceu pouco convencido.

- Acha? Eu duvido.

Race consultou o relógio e declarou:

- Ele deve estar a chegar.

Percebendo a insinuação, Fanthorp despediu-se e saiu.

Dois minutos depois, Pennington apareceu, mostrando-se ainda amável e sorridente. Somente a linha dura do queixo e a expressão cautelosa do olhar deixavam perceber o experiente homem de luta, que estava de sobreaviso.

- Muito bem, senhores, aqui estou eu – disse ele, sentando-se e olhando para os dois homens.

Poirot começou:

- Pedimos-lhe que viesse até aqui, Mister Pennington, pois não há dúvida que está diretamente interessado no assunto.

Pennington exclamou, erguendo as sobrancelhas:

- É essa a sua opinião?

- Sem dúvida nenhuma - replicou Poirot suavemente. - Se não me engano, conheceu Linnet desde criança.

- Oh!... - O rosto do americano desanuviou-se, a expressão de alerta já não era tão intensa. - Perdão, eu não tinha entendido bem. Sim; conforme lhe disse hoje, conheci Linnet desde pequenina.

- Era amigo íntimo do pai dela?

- Sim; Melhuish Ridgeway e eu éramos muito amigos.

- Tão íntimos que, antes de morrer, ele o nomeou procurador da filha, entregando-lhe a direção de toda a sua imensa fortuna?

- Sim, mais ou menos isso - disse o americano. A expressão cautelosa voltara ao seu rosto. – Não sou, naturalmente, o único responsável. Havia outros.

- Morreram?

- Dois morreram. O terceiro, Mister Sterndale Rockford, ainda vive.

- Seu sócio?

- Sim.

- Pelo que vim a saber, Miss Ridgeway era menor, quando se casou?

- Sim; ia fazer vinte e um anos em Julho próximo.

- E, naturalmente, a gerência da fortuna passariapara as mãos dela?

- Exatamente.

- Mas o casamento precipitou os acontecimentos?

O queixo de Pennington endureceu.

- Perdoem-me, mas que têm os senhores com isso? – perguntou em tom agressivo.

- Se lhe desagrada responder...

- Não é questão de desagradar. Não me importo que perguntem. Mas não vejo razão para isso.

- Oh, mas certamente, Mister Pennington - disse Poirot, inclinando-se para o americano, os olhos a luzirem como os de um gato -... existe a questão do motivo... E a situação financeira da vítima deve sempre ser levada em conta.

Pennington disse em tom dúbio:

- Pelo testamento de Ridgeway, Linnet devia assumir a gerência dos negócios quando fizesse vinte e um anos, ou quando se casasse.

- Nenhuma outra condição?

- Nenhuma.

- E, se não me engano, é uma questão de milhões?

- Sim, de milhões.

Poirot disse suavemente:

- A sua responsabilidade, Mister Pennington, e do seu sócio, deve ter sido enorme.

- Estamos acostumados a assumir responsabilidades. Isso não nos preocupa - replicou o outro secamente.

- Não sei, não.

Qualquer coisa no tom de Poirot desagradou ao americano.

- Que diabo quer dizer com isso? – perguntou ele colericamente.

 Poirot replicou com ar de ingênua franqueza.

- Estava a pensar, Mister Pennington, se o casamento de Linnet não teria causado certa... consternação, no seu escritório!

- Consternação?

- Foi a palavra que empreguei.

- Que diabo quer insinuar?

- Uma coisa muito simples. Os negócios de Linnet Doyle estarão em perfeita ordem, como deviam estar?

Pennington ergueu-se, exclamando:

- Basta. Por mim, basta!

- Mas primeiro vai responder à minha pergunta?

- Estão em perfeita ordem - replicou o outro, secamente.

- Não ficou alarmado com a notícia do casamento, a ponto de tomar o primeiro vapor para a Europa e fingir um encontro fortuito no Egito?

Pennington aproximou-se, parecendo novamente calmo.

- O que acaba de dizer é um verdadeiro absurdo! Eu não tinha a menor ideia do casamento de Linnet, até a encontrar no Cairo. Fiquei admiradíssimo... A carta dela deve ter chegado um ou dois dias depois de eu ter saído de Nova Iorque. Foi-me reenviada e recebi-a uma semana depois.

- O senhor disse-me que veio no Carmanic?

- Exatamente.

- A carta chegou a Nova Iorque depois de o Carmanic sair?

- Quantas vezes tenho que repetir a mesma coisa?

- Estranho... - murmurou Poirot.

- Que é que é estranho?

- Que nas suas malas não haja etiqueta alguma do Carmanic. Os únicos rótulos transatlânticos são do Normandie, que saiu dois dias depois do Carmanic.

Por um momento, o outro ficou sem saber o que dizer. O seu olhar vacilou...

Race interveio, para reforçar a vantagem a favor deles:

- Vamos, vamos, Mister Pennington. Temos várias razões para acreditar que o senhor veio no Normandie e não no Carmanic. Se assim foi, recebeu a carta de Mistress Doyle antes de sair de Nova Iorque. Não vale a pena negar; nada mais fácil do que esclarecer este ponto com as respectivas companhias.

Pennington procurou distraidamente uma cadeira e sentou-se. A sua fisionomia estava impassível - de jogador de póquer. Atrás daquela máscara, a ágil inteligência preparava a próxima cartada.

- Entrego os pontos, senhores. Foram espertos de mais para mim. Mas eu tinha uma razão para isso.

- Sem dúvida - disse Race secamente.

- Se eu lhes disser quais eram as razões, espero que compreendam que falo confidencialmente.

- Pode esperar um procedimento criterioso da nossa parte. Não podemos, é lógico, garantir nada às cegas.

- Muito bem - suspirou o americano. – Vou confessar a verdade. Certas coisas que se passaram na Inglaterra desagradaram-me profundamente. Fiquei preocupado. Como não era possível descobrir coisa alguma por carta, resolvi vir averiguar pessoalmente.

- Que quer dizer com "coisas que me desagradaram"?

- Eu tinha razões para acreditar que Linnet estava a ser lesada.

- Por quem?

- Pelo seu advogado inglês. É uma acusação que não se pode fazer levianamente. Resolvi vir saber pessoalmente do que se tratava.

- Isso prova o seu sincero interesse pelos negócios da sua cliente, não há dúvida. Mas não explica a mentira a respeito da carta.

- Bom, quanto a isso... - o americano estendeu as mãos, de palmas para cima, e continuou: - A gente não pode vir perturbar uma viagem de núpcias, sem dar para isso uma razão plausível. Achei preferível que se acreditasse em coincidência. Além do mais, eu não sabia coisa alguma a respeito do marido. Era até possível que fosse cúmplice.

- Em resumo, os seus motivos eram absolutamente desinteressados - observou Race, secamente.

- Exatamente, coronel Race.

Houve uma pausa. Race olhou para Poirot. O detetive inclinou-se para a frente dizendo:

- Mister Pennington, não acreditamos numa só palavra dessa história.

- Com os diabos, não acreditam? Em que acreditam, então?

- Parece-nos que o casamento de Linnet Ridgeway o deixou numa situação embaraçosa; que o senhor veio à pressa, esperando poder salvar-se, isto é, procurando um meio de ganhar tempo. E achamos que, tendo isso em vista, procurou obter a assinatura de Mistress Doyle para certos documentos, não tendo sido bem sucedido. E que, no fim da viagem pelo Nilo, quando caminhava pelo penhasco de Abu Simbel, o senhor deslocou uma pedra, que quase a matou...

- Está louco.

- Acreditamos que mais ou menos as mesmas circunstâncias se repetiram na viagem de volta, isto é, que se apresentou a oportunidade de eliminar Mistress Doyle quando a morte dela seria certamente atribuida a outra pessoa; e não somente julgamos, mas sabemos que o seu revólver foi usado para matar a mulher que nos ia revelar o nome do assassino de Mistress Doyle e de Louise Bourget...

- Com os diabos! - exclamou o americano, interrompendo a eloqüência de Poirot. - Aonde quer chegar? Está louco? Que motivo tinha eu para matar Linnet? Eu não herdaria coisa alguma, quem herda é o marido! Porque não o interrogam? O beneficiado é ele, não eu.

Race replicou friamente:

- Na noite do crime, Doyle só saiu do salão depois de ter levado um tiro na perna. A impossibilidade de se mover depois disso é atestada pela enfermeira e pelo médico, ambos testemunhas de confiança. Ele não poderia ter matado Louise Bourget. É mais do que certo que não matou Mistress Otterbourne! O senhor sabe-o tão bem como nós.

- Sei que não a matou - disse Pennington um pouco mais calmo. - Digo apenas: porque se voltam contra mim, quando nada lucro com essa morte?

- Mas, meu caro senhor, isto é apenas uma questão de opinião - disse Poirot, com a suavidade do miar de um gato. - Mistress Doyle era uma mulher inteligente, bem a par dos seus negócios, e bastante perspicaz para descobrir qualquer irregularidade. Assim que assumisse a gerência da fortuna, o que se daria logo que fosse para a Inglaterra, não deixaria de suspeitar... mas depois da sua morte, como bem disse o senhor, o marido herda tudo, e o caso muda de figura. Simon desconhece os negócios da esposa; sabe apenas que era muito rica. É pessoa simples e confiante... O senhor não terá grande dificuldade em apresentar-lhe documentos complicados, ocultando o ponto principal numa confusão de algarismos, adiando a prestação de contas sob qualquer pretexto, alegando formalidades, a recente depressão do mercado. Acho que haverá muita diferença entre lidar com a esposa ou com o marido.

Pennington encolheu os ombros.

- As suas idéias são... ridículas.

- O tempo no-lo dirá.

- Que disse?

- Disse: "O tempo no-lo dirá." Temos aqui três mortes, três assassínios. A lei exigirá uma completa  vistoria aos negócios de Mistress Doyle.

Poirot viu os ombros do outro caírem e percebeu  que vencera. As suspeitas de Fanthorp estavam confirmadas.

O detetive continuou:

- O senhor os apostou... e perdeu. É inútil querer continuar com o bluff.

Pennington murmurou:

- O senhor não compreende... Foi tudo muito direito. Essa maldita depressão... A loucura de Wall Street... Mas já preparei a reação. Com sorte, estará tudo em ordem até meados de Junho.

Com as mãos trêmulas, procurou um cigarro; tentou acendê-lo, mas sem resultado.

- Com certeza aquela pedra foi uma súbita tentação – disse Poirot. - Pensou que ninguém o tinha visto...

- Aquilo foi um acidente, garanto que foi! – exclamou Pennington, inclinando-se para a frente, com expressão ansiosa e a voz aterrorizada. - Tropecei e caí contra a pedra. Juro que foi um acidente...

Os dois homens nada disseram.

De repente, Pennington pareceu voltar a si. Ainda estava abalado, mas o espírito combativo refizera-se-lhe em parte. Dirigiu-se para a porta, dizendo:

- Os senhores não me podem incriminar. Foi um acidente. E não fui eu que a matei! Ouviram? Quanto a isso, não podem também incriminar-me, e nunca conseguirão fazê-lo.  - Saiu.

 

Quando a porta se fechou, Race suspirou profundamente.

- Conseguimos mais do que eu esperava. Confissão de fraude. De tentativa de assassínio. Mais teria sido impossível. Um homem pode confessar uma tentativa de morte, mas não o crime verdadeiro.

- Às vezes, sim - disse Poirot com olhos sonhadores, luzentes como os de um gato.

Race fitou-o com curiosidade.

- Tem algum plano?

Poirot inclinou a cabeça, enumerando pelos dedos:

- O jardim de Assuão. O depoimento de Mister Allerton. Os dois frascos do verniz. A minha garrafa de vinho. A écharpe de veludo. O lenço manchado. O revólver encontrado no local do crime. A morte de Louise. A morte de Mistress Otterbourne... Sim, está tudo aí. Pennington não é o assassino, Race.

- Quê? - perguntou Race, estupefato.

- Pennington não é o assassino. Tinha motivos? Sim. Desejava a morte de Linnet? Sim. Chegou a fazer uma tentativa. Mais que tudo. A este crime era necessário algo que Pennington não possui. É um crime que exige audácia, execução rápida e perfeita, coragem, indiferença ao perigo, e uma inteligência calculista, de recursos. Pennington não tem esses atributos. Não podia cometer um crime, a não ser que tivesse a certeza de que não correria perigo. Mas este crime era dos mais perigosos! Era necessário audácia... E Pennington não é audacioso. É apenas astuto.

Race fitou Poirot com o respeito que um homem competente tem por outro.

- Você resolveu todo o problema?

- Creio que sim. Há uma ou duas coisas... Aquele telegrama, por exemplo, que Linnet Doyle leu.  Gostaria de esclarecer esse ponto.

- Com os diabos, esquecemo-nos de perguntar a  Doyle. Ia dizer-nos quando a velha Otterbourne apareceu... Vamos perguntar-lhe novamente.

- Daqui a pouco. Primeiro quero conversar com  certa pessoa.

- Quem?

- Tim Allerton.

Race ergueu as sobrancelhas.

- Allerton? Bom, vamos mandá-lo chamar.

Tocou a campainha e mandou o criado dar o recado.

Tim entrou, com expressão indagadora na fisionomia.

- Mandaram-me chamar?

- Sim, Mister Allerton. Sente-se.

Tim sentou-se. A expressão do seu rosto era atenta, mas ligeiramente contrariada.

- Alguma coisa em que os possa servir? - perguntou ele em tom polido, mas nada entusiasmado.

- Até certo ponto, talvez - disse Poirot. - O que realmente lhe peço é que me ouça.

Tim ergueu as sobrancelhas, admirado, e replicou:

- Pois não. Ninguém sabe ouvir melhor do que eu. Digo sempre: Hummm... Hummm... nos momentos oportunos. 

- Ótimo. Hummm, Hummm, será muito expressivo. Eh bien, vamos começar. Quando os conheci, em Assuão, Mister Allerton, senti grande atração pelo senhor e pela senhora sua mãe. Para começar, acho-a uma das pessoas mais encantadoras que conheci até hoje...

O rosto inexpressivo de Tim transformou-se durante uns segundos:

- Sim, é única - concordou ele.

- Mas o que depois me interessou foi o fato de se referirem a certa pessoa.

- Como?

- Sim... Uma certa Joana Southwood. Porque, o senhor sabe, eu tinha ouvido esse nome recentemente.

Poirot fez uma pausa e continuou:

- Nestes últimos três anos, certos roubos de jóias têm preocupado a Scotland Yard. Do tipo que pode ser descrito como "roubos sociais". O método é geralmente o mesmo: a substituição da jóia verdadeira por uma imitação. O inspetor Japp, que é meu amigo, chegou à conclusão de que os roubos não eram praticados por uma só pessoa, mas por duas, que muito inteligentemente trabalhavam de acordo. Estava convencido, pelos indícios, de que os roubos eram cometidos por pessoas da sociedade. A sua atenção fixou-se, finalmente, em Miss Joana Southwood. Verificou-se que cada uma das vítimas era sua parenta ou amiga, e em todos os casos ela chegara a ter nas mãos ou usar a jóia desaparecida. Além do mais, a sua maneira de viver não estava de acordo com a sua fortuna. Por outro lado, estava provado que o roubo propriamente dito, isto é, a substituição, não fora cometido por ela. Em certas ocasiões, ela achava-se fora da Inglaterra no momento da substituição. E assim, pouco a pouco, uma idéia se formou no cérebro do inspetor Japp. Miss Southwood fora, em certa época, sócia de uma firma de jóias de fantasia. Japp achou que provavelmente ela examinava as jóias das amigas, desenhando-as minuciosamente, providenciando em seguida para que fossem copiadas por algum joalheiro hábil e pouco escrupuloso. Depois disso, havia a substituição da jóia verdadeira pela falsa, substituição essa feita por uma terceira pessoa, alguém que pudesse provar não ter examinado a jóia, nem tido interferência alguma na sua cópia. Japp ignorava a identidade desta terceira pessoa. Certos trechos da sua conversa, Mister Allerton, interessaram-me. Um anel desaparecera durante a sua estada em Maiorca, o senhor estivera hospedado numa casa onde houve uma dessas substituições, a sua intimidade com Miss Southwood, tudo isso chamou a minha atenção. Além disso, o fato de não gostar da minha companhia e de procurar evitar a camaradagem entre sua mãe e eu... Poderia, é claro, tratar-se apenas de antipatia pessoal, mas achei que não era esse o caso. O senhor fazia grande esforço para ocultar, sob certa afabilidade, essa antipatia. Eh bien, depois da morte de Linnet, descobriu-se o desaparecimento das pérolas. Compreende, pois, que imediatamente me lembrei do senhor! Mas não fiquei satisfeito. Porque, se, como desconfio, é cúmplice de Miss Southwood (íntima amiga de Mistress Doyle) então o método em pregado seria a substituição, não o roubo pura e simplesmente. Mas as pérolas são devolvidas inesperadamente, e que descubro eu?... Que se trata apenas de uma imitação. Sei então quem é o verdadeiro ladrão. O colar devolvido era falso; a substituição fora feita anteriormente.

Poirot fitou o rapaz sentado na sua frente. Tim estava pálido. Não tinha o espírito combativo de Pennington. Era de outro tipo, mais franco, menos calejado. O rapaz exclamou, esforçando-se por manter o tom zombeteiro:

- Que diz? E, se foi isso o que aconteceu, que fiz então às pérolas?

- Também sei onde estão.

A expressão de Tim transformou-se.

Poirot continuou lentamente:

- Há somente um lugar onde podem estar. Refleti sobre isso, e cheguei a esta conclusão. As pérolas, Mister Allerton, estão escondidas num terço, na sua cabina. As contas do terço são entalhadas com muita perfeição... Provavelmente feitas sob encomenda. Estas contas podem ser desatarraxadas, se bem que ninguém o perceberia, ao vê-las. Dentro de cada conta está uma pérola, colada com seccotine. Muitos investigadores policiais respeitam os objectos religiosos, a não ser que haja neles algo que realmente chame a atenção. O senhor contou com isso. Tentei descobrir de que maneira Miss Southwood lhe mandara a imitação... Deve ter vindo pelo correio, uma vez que o senhor decidiu esta viagem quando soube, em Maiorca, que Mistress Doyle estava aqui em lua-de-mel. Na minha opinião, o colar veio num livro, quadrado, cortado nas páginas do centro. Em geral, os livros não são abertos no correio.

Houve uma pausa, uma longa pausa. Depois Tim disse serenamente:

- O senhor venceu. Mas foi uma aventura interessante. Não há nada a fazer, creio eu, a não ser aceitar o castigo.

Poirot inclinou a cabeça.

- Sabe que foi visto, aquela noite?

- Visto? - exclamou Tim com um sobressalto.

- Sim. Alguém o viu sair da cabina de Linnet Doyle, na noite do crime.

Tim exclamou:

- Ouça! Não pensa... Juro que não fui eu que a matei! Tenho estado em palpos de aranha... Escolher logo aquela noite!... Céus, que pesadelo tem sido isto para mim.

- Sim, o senhor deve ter tido momentos desagradáveis - concordou Poirot. - Mas agora que a verdade veio à luz, talvez nos possa ajudar. Mistress Doyle estava viva ou morta, quando o senhor roubou as pérolas?

Tim respondeu em voz rouca:

- Não sei. Juro por Deus, Monsieur Poirot, que não sei. Eu descobrira onde ela deixava o colar durante a noite... na mesinha de cabeceira. Entrei de mansinho, estendi a mão e agarrei o colar, deixando ali o falso. Calculei, naturalmente, que ela estivesse a dormir.

- Não ouviu a respiração? É claro que procurou ouvir?

- Estava tudo muito silencioso... muito silencioso... - disse Tim, parecendo realmente sincero. - Não; não me lembro de tê-la ouvido respirar...

- Havia algum cheiro a pólvora queimada no ar como se um tiro tivesse sido dado recentemente?

- Não o creio. Não me lembro.

Poirot suspirou.

- Então estamos na mesma.

- Quem foi que me viu? - perguntou Tim com curiosidade.

- Rosalie Otterbourne. Veio do outro lado do navio, viu-o sair da cabina de Linnet e entrar na sua.

- Então foi ela quem lhe contou...

Poirot replicou suavemente:

- Desculpe-me; não foi ela quem me contou.

- Mas então... como chegou a saber?

- Porque sou Hercule Poirot! Não preciso que me digam! Quando lhe perguntei, sabe o que ela me respondeu? Não vi ninguém." Mas mentiu.

- Por quê?

Poirot replicou despreocupadamente:

- Talvez por ter pensado que o homem que ela vira era o assassino. Tinha razão para pensar isso.

- Mais um motivo para lhe contar.

Poirot encolheu os ombros.

- Não foi essa a opinião de Miss Otterbourne.

Tim disse, com uma nota esquisita na voz:

- É uma pequena extraordinária. Deve ter sofrido muito com aquela sua mãe.

- É verdade. A vida não tem sido muito fácil para ela.

- Pobre menina... - murmurou Tim. E voltando-se para Race: - Confesso ter roubado as pérolas, e os senhores encontrá-las-ão exatamente onde disseram que estão. Sou culpado, sim. Mas, quanto a Miss Southwood... não confesso coisa alguma. Os senhores não têm provas contra ela. A maneira como consegui o colar falso é coisa que só a mim diz respeito.

- Atitude muito correta - murmurou Poirot.

- Sempre cavalheiro! - comentou Tim.

E depois de uma pequena pausa:

- O senhor compreende agora por que motivo eu ficava aborrecido ao ver minha mãe sempre a procurá-lo, Monsieur Poirot. Não sou criminoso bastante calejado para gostar de me ver cara a cara com um grande detetive, ainda mais antes de levar a efeito uma operação arriscada! Talvez que outro sentisse prazer nisso. Eu não. Para ser franco, fiquei com muito medo!

- Mas nem assim desistiu?

Tim encolheu os ombros.

 O medo não bastou para tanto. A troca tinha de ser feita; uma ótima oportunidade se apresentava aqui no navio. Duas cabinas depois da minha, e Linnet tão preocupada com os seus aborrecimentos, que não notaria a substituição...

- Não sei, não...

- Que quer dizer com isso? - perguntou vivamente Tim.

Poirot tocou a campainha.

- Vou pedir a Miss Otterbourne que venha aqui por alguns minutos.

Tim franziu as sobrancelhas, mas nada disse.

Rosalie entrou logo depois. Os seus olhos, inchados de chorar, tiveram uma expressão admirada ao ver Tim. Mas a atitude desafiadora desaparecera por completo. Sentou-se, fitando Poirot e Race, com uma docilidade inesperada.

- Sentimos muito incomodá-la, Miss Otterbourne - disse Race suavemente, um tanto aborrecido com Poirot.

- Não tem importância - murmurou a jovem.

Poirot tomou a palavra:

- Preciso de esclarecer um ou dois pontos, mademoiselle. Quando lhe perguntei se tinha visto alguém no tombadilho, à uma e dez, naquela madrugada, a senhora respondeu-me que não. Felizmente, consegui descobrir a verdade sem o seu auxílio. Mister Allerton confessou que esteve na cabina de Linnet Doyle a noite passada.

A jovem olhou de relance para Tim, e este inclinou gravemente a cabeça.

- A hora está certa, Mister Allerton?

- Certíssima.

Rosalie fitava-o, perplexa. Os seus lábios tremeram... entreabriram-se...

- Mas você não... não...

Ele respondeu vivamente:

- Não; não a matei. Sou ladrão, não assassino. Tudo virá à luz, de modo que não há mal nenhum em saber-se a verdade. Eu estava com os olhos naquele colar!

- Mister Allerton diz que foi à cabina naquela noite trocar o colar verdadeiro por um falso – disse  Poirot.

- É verdade? - perguntou Rosalie.

Os olhos graves, tristonhos, interrogaram-no suavemente.

- É verdade - disse Tim.

Houve uma pausa. Race remexeu-se na cadeira constrangido.

Poirot continuou, num tom esquisito de voz:

- Como disse, é esta a história de Mister Allerton, em parte confirmada pelo seu testemunho, mademoiselle. Isto é, há provas quanto ao fato de ter ele visitado a cabina de Linnet a noite passada, mas não quanto ao motivo de tal visita.

Tim fitou-o, exclamando:

- Mas o senhor sabe!

- Sei o quê?

- Bom... Sabe que tenho o colar em meu poder.

- Mais oui... mais oui. Sei que tem o colar, mas não sei quando se apoderou dele. Talvez tenha sido antes da noite passada... Ainda há pouco o senhor me disse que Linnet não teria notado a substituição. Não estou muito certo disso. Suponhamos que tivesse notado... Suponhamos que soubesse quem era o culpado... que tivesse ameaçado denunciá-lo... E suponhamos que o senhor tenha ouvido a cena entre Jacqueline e Simon, e que, assim que viu o salão vazio, entrou ali, apoderando-se do revólver... E que mais tarde, quando havia silêncio a bordo, foi à cabina de Linnet para impedir de uma vez por todas que ela o denunciasse...

- Meu Deus!... - murmurou Tim, fitando Poirot com olhar de intenso sofrimento.

O detetive continuou:

- Mas alguém mais o viu: Louise Bourget. No dia seguinte, foi procurá-lo. O senhor compreendeu que ceder à chantage da rapariga seria tornar-se para sempre seu escravo. Fingiu concordar, marcando encontro na cabina dela para depois do almoço. E então, quando Louise contava o dinheiro, matou-a... Mas a sorte não estava do seu lado. Alguém o viu dirigir-se para a cabina... Mistress Otterbourne. Mais uma vez o senhor teve que agir prontamente, loucamente, mas era a sua única oportunidade! Ouvira Pennington falar do revólver... Correu à cabina dele, apanhou o revólver, ficou do lado de fora da cabina do doutor Bessner e atirou antes que Mistress Otterbourne pudesse revelar o seu nome...

- Não! - exclamou Rosalie. - Não foi ele! Não foi.

- Depois disto, fez a única coisa que lhe era possível fazer. Deu a volta pela popa, e quando dei com o senhor, fingiu que vinha em direção contrária. O senhor usara luvas, e estas luvas estavam no seu bolso.

- Diante de Deus juro que nada disso é verdade! - exclamou Tim.

Mas a voz trêmula e hesitante não era nada convincente.

Nisto, a exclamação de Rosalie surpreendeu-os a todos.

- Claro que não é verdade! E Monsieur Poirot sabe-o bem. Fala assim por algum motivo oculto.

Poirot fitou-a, sorrindo. Estendeu as mãos, de palmas para cima, como quem entrega os pontos.

- Mademoiselle é inteligente de mais... Mas concordam que foi engenhoso?

- Com os diabos...

Tim parecia furioso, mas Poirot conteve-o com um gesto.

- As aparências estão contra si, Mister Allerton, e quero que não se esqueça disto. Agora, vou dizer-lhe algo mais agradável. Ainda não examinei aquele terço na sua cabina. Pode ser que, quando o fizer, não encontre ali coisa alguma. E uma vez que Mademoiselle Rosalie insiste em dizer que não viu ninguém no tombadilho... eh, bien nada temos contra o senhor. O colar foi tirado por uma cleptomaníaca, que o devolveu. Está numa caixa na mesinha ao lado da porta; se o senhor e mademoiselle quiserem examiná-lo...

Tim ergueu-se e permaneceu um momento imóvel. Quando falou, as suas palavras soaram inadequadas, mas pareceram satisfazer os ouvintes.

- Obrigado. Não precisarão de dar-me outra oportunidade.

Abriu a porta para a rapariga passar, e levou a caixinha.

Seguiram lado a lado pelo tombadilho. Tim abriu a caixa, tirou de dentro o colar falso e atirou-o ao Nilo.

- Pronto! Quando devolver a caixa a Poirot, o colar verdadeiro estará dentro dela. Que idiota tenho sido!

Rosalie disse em voz baixa:

- Como foi que começou?

- Como comecei? Oh, não sei ao certo. Tédio... preguiça... espírito de aventura. Maneira muito mais agradável de passar o tempo que na prisão de um escritório. Há-de parecer-lhe sórdido... mas tinha uma certa atração. Principalmente por causa do perigo.

- Creio que compreendo.

- Sim, mas você nunca faria uma coisa dessas.

Rosalie ficou pensativa alguns minutos, depois respondeu:

- Não; não faria.

- Oh, minha querida... você é tão linda.. tão linda! Por que não quis dizer que me viu a noite passada?

- Pensei que... poderiam suspeitar de si.

- E suspeitou de mim?

- Não. Não o achei capaz de matar alguém.

- Tem razão; não sou feito da massa forte dos assassinos. Sou apenas um mísero ladrão.

Ela tocou-lhe timidamente no braço.

- Não diga isso...

Tim segurou com força a mão de Rosalie, dizendo:

- Minha querida, seria possível... Sabe a que me refiro?... Ou lançar-me-ia sempre em rosto...

Ela replicou, sorrindo:

- Há coisas que também você me poderia lançar em rosto...

- Rosalie, meu amor...

Ela fez um gesto, detendo-o:

- Mas... e Joana?

- Joana?! Você é como a mamã! Não ligo a mínima importância a Joana... Tem cara de cavalo e olhos de ave de rapina... Uma criatura muito pouco atraente, enfim.

Rosalie disse, após uma pausa:

- Sua mãe não precisa saber de nada.

- Não sei - replicou Tim, pensativo. – Creio que lhe contarei. A mamã é forte. Pode agüentar muita coisa. Sim, creio que vou desfazer-lhe as ilusões maternais a meu respeito. Ficará tão contente ao saber que as minhas relações com Joana eram puramente comerciais, que me perdoará seja o que for!

Tinham chegado à cabina de Mrs. Allerton. Tim bateu à porta com firmeza. Mrs. Allerton apareceu.

- Rosalie e eu... - começou Tim.

Fez uma pausa.

- Oh, meus queridos... - exclamou Mrs. Allerton abraçando Rosalie. - Minha querida menina... Eu tinha esperanças, mas Tim era tão esquisito!.. Fingia que não gostava de si! Mas claro que não me enganou.

Rosalie balbuciou:

- A senhora foi sempre tão boa para mim... tão boa... Desejei que...

Não pôde continuar, apoiando, feliz e soluçante, a cabeça no ombro de Mrs. Allerton.

 

Quando a porta se fechou sobre Tim e Rosalie, Poirot voltou-se com ar penitente para Race. O coronel estava muito sério.

- Consente no meu arranjo, não consente? - perguntou o detetive. - É um tanto irregular... Sei que é irregular... mas prezo muito a felicidade das criaturas.

- Não parece prezar a minha! - queixou-se Race.

- Aquela jeune fille... tenho um fraco por ela, e vejo que está apaixonada. Será um óptimo casamento. Ela tem as qualidades fortes que lhe faltam a ele. A mãe gosta de Rosalie... tudo tão bem combinado!

- Em resumo, o casamento foi arranjado pelos deuses e por Hercule Poirot. Só me resta tomar parte na conspiração.

- Mas, mon ami, eu disse-lhe que isto tudo não passa de mera suposição da minha parte.

Race não pôde deixar de rir.

- Está certo, está certo. Não sou nenhum polícia, graças a Deus! Não duvido de que o rapaz ande direito daqui por diante. A rapariga é muito correta quanto a isso não há dúvida. Não; do que me queixo é da sua maneira de me tratar, a mim! Sou paciente, mas existe um limite para essa paciência. Você sabe quem cometeu os três crimes neste navio, ou não sabe?

- Sei.

- Então para quê toda esta lengalenga?

- Acha que me estou a divertir com conjecturas? E isso aborrece-o? Mas não é como pensa. Duma vez fiz parte de uma expedição arqueológica e ali aprendi alguma coisa. Durante a escavação, quando saía alguma coisa da terra, tiravam cuidadosamente tudo quanto estava em volta. Primeiro a terra solta, raspando aqui e ali com uma faca, até que o objeto aparecesse limpo, isolado, pronto para ser fotografado sem elementos estranhos a deformá-lo. É o que tenho procurado fazer; afastar os elementos estranhos para que possamos ver a verdade, a verdade nua e crua.

- Muito bem. Que venha então essa verdade nua e crua! Não foi Pennington. Não foi Allerton. Não deve ter sido Fleetwood. Para variar, diga-me quem foi.

- Meu amigo, é justamente o que vou fazer.

Ouviu-se uma pancada na porta. Race blasfemou baixinho.

Cornélia e o Dr. Bessner entraram. A rapariga parecia muito perturbada.

- Oh, coronel Race! Miss Bowers acaba de me contar a respeito da prima Marie... Levei um choque horrível! Miss Bowers disse que não podia mais suportar sozinha a responsabilidade, que era melhor eu saber, já que faço parte da família. A princípio, não quis acreditar, mas o doutor Bessner tem sido muito bom...

- Nada disso - protestou o médico, modestamente.

- Tem sido tão amável, explicando tudo, e como a pessoa não tem culpa... Ele já teve casos de cleptomania na sua clínica. E explicou-me que muitas vezes é um caso agudo de neurose...

Cornélia pronunciou a última palavra com profunda reverência. Como os outros nada dissessem, continuou:

- Está implantado no subconsciente, às vezes por causa de alguma coisa que aconteceu quando a pessoa era criança. Ele tem curado muita gente, fazendo o doente pensar no passado, procurando lembrar-se que coisa era essa...

Cornélia vez uma pausa, respirou, e continuou:

- Mas estou preocupadíssima, com medo de que venham a descobrir. Seria horrível, se chegassem a saber em Nova Iorque! Imagine, os jornais publicariam a notícia...  A prima Marie, a mamã... nenhuma delas poderia andar de cabeça erguida.

Race suspirou:

- Sim, senhor, pelo que vejo, isto aqui é a Casa dos Segredos.

- Perdão, coronel Race?

- Eu queria dizer que qualquer coisa menos grave do que o assassínio está a ser ocultada.

- Oh, que alívio! - exclamou Cornélia juntando as mãos. - Tenho andado tão preocupada...

- A senhora tem muito bom coração - disse Bessner, dando-lhe uma pancadinha benevolente no ombro. E, voltando-se para os outros: - É muito nobre e sensível.

- Oh, não. O senhor é que está a ser amável.

- Tem visto Mister Ferguson? - perguntou Poirot.

Cornélia corou.

- Não, mas a prima Marie tem falado sobre ele.

- Parece que o rapaz é nobre - observou Bessner. – Confesso que não dá essa impressão. As suas roupas são horríveis. Nem por sombras parece um rapaz de educação!

- E qual é a sua opinião, mademoiselle?

- Acho que é maluco, pura e simplesmente – declarou Cornélia.

Poirot perguntou, voltando-se para o médico:

- Como vai o seu doente?

- Ach, vai indo otimamente. Acabo de tranqüilizar a pequena Fraulein de Bellefort. Talvez não acreditem, mas encontrei-a em estado de desespero, só porque o rapaz tinha um pouco de febre hoje à tarde! Nada mais natural. É mesmo extraordinário que a febre não tenha subido mais ainda. Ele é como alguns dos nossos camponeses; tem um ótimo organismo. Tenho-os visto gravemente feridos, não parecendo sentir coisa alguma. O mesmo se dá com Mister Doyle. O pulso dele está normal, a temperatura apenas um pouco mais elevada do que devia estar. Consegui acalmar os receios da rapariga. Em todo o caso, é ridículo, nicht wahr? Num momento, dá um tiro ao sujeito, e no momento seguinte tem medo que ele morra!

Cornélia disse:

- Ela ama-o apaixonadamente; é por isso.

- Ach, mas não está certo! Se a senhora gostasse de um homem, iria dar-lhe um tiro? Não; é sensata de mais para isso.

- De qualquer maneira, não gosto de coisas que fazem barulho! - exclamou infantilmente Cornélia.

- Claro que não. É muito feminina...

Race interrompeu a troca de amabilidades.

- Se Simon está bem, não vejo motivo para não reatarmos a nossa conversa de hoje à tarde. Estava a falar-me de um telegrama...

- Ah! Ah! Muito engraçado - exclamou Bessner. - Doyle falou-me do tal telegrama. Batatas, alcachofras... Ach? Perdão?

Race endireitara-se na cadeira, exclamando:

- Meu Deus! Então é ele! Richetti...

Voltou-se para os outros três, que o fitavam sem nada compreender.

- Um novo código, usado na rebelião da áfrica do Sul. Batatas significam metralhadoras; alcachofras, explosivos poderosos, e assim por diante. Richetti é tão arqueólogo como eu! É um perigoso agitador, um homem que já matou várias pessoas. Mistress Doyle abriu o telegrama por engano, os senhores compreendem. Se repetisse na minha frente o que lera, Richetti estaria perdido!

Race pareceu refletir. E depois, voltando-se para Poirot:

- Acertei? É Richetti o criminoso?

- É o seu homem - declarou Poirot. – Sempre  achei que havia qualquer coisa de esquisito nele. Era  perfeito de mais no seu papel. Só arqueólogo, não uma  criatura humana.

Poirot fez uma pausa, e, como os outros nada dissessem, continuou:

- Mas não foi Richetti quem matou Linnet Doyle. Há já algum tempo que conheço o que chamo a primeira metade" do assassino. Agora conheço também a segunda metade". O quadro está completo. Mas compreendam que, embora saiba o que aconteceu, não tenho provas. Intelectualmente, a solução satisfaz-me. Há apenas uma esperança: confissão, por parte do assassino.

Bessner ergueu cepticamente os ombros.

- Ach! Mas isso seria um milagre.

- Não o creio. Não nas circunstâncias atuais.

- Mas quem é? - exclamou Cornélia. - Não vai dizer-nos?  O olhar de Poirot foi de um para o outro. Race sorria ironicamente; Bessner continuava céptico; Cornélia, de lábios entreabertos fitava-o com expressão profundamente interessada.

Race mexeu-se na cadeira e exclamou:

- Então, vamos ver até que ponto chega a inteligência de Hercule Poirot!

- Para começar, fui idiota, completamente idiota - disse o detetive. - O maior obstáculo era o revólver, o revólver de Jacqueline. Porque não ficara no local do crime? A intenção do assassino era certamente "criminá-la. Por que motivo levou a arma? Fui tão idiota que imaginei os mais fantásticos motivos. E o verdadeiro era muito simples! O assassino levou o revólver porque precisava de levá-lo... porque não podia fazer outra coisa!

 

Poirot inclinou-se para Race e continuou:

- Você e eu, meu amigo, iniciamos a nossa investigação com uma idéia preconcebida. Achávamos que o crime fora perpetrado num impulso de momento, sem nenhum plano anterior. Alguém desejava eliminar Linnet Doyle e aproveitara a oportunidade de agir num momento em que o crime seria certamente atribuído a Jacqueline de Bellefort. Daí se concluía que essa pessoa ouvira a cena entre Jacqueline e Simon, e se apoderara da arma quando os outros saíram do salão. "Mas, meu amigo, se essa nossa idéia preconcebida estivesse errada, então todo o aspecto da questão ficava alterado. E estava errada! O crime não fora cometido impulsivamente. Ao contrário, fora planeado, calculado com muita precisão, tendo todos os pormenores sido estudados de antemão, até mesmo quanto ao narcótico vertido aquela noite na garrafa de vinho de Hercule Poirot! Tomo vinho; os meus companheiros de mesa tomam: um, água mineral; o outro, whiskey e soda. Nada mais simples do que deitar uma dose de um narcótico inofensivo no meu vinho, uma vez que as garrafas ficaram na mesa todo o dia. Mas não achei isso provável. O dia estivera quente, e eu sentia-me cansadíssimo; não era de admirar que, contra o meu costume, eu tivesse dormido profundamente.”

“Compreendam-me: ainda estava sob a impressão daquela idéia preconcebida. Se eu tivesse sido narcotizado, então o crime teria sido premeditado... Quero com isto dizer que, antes das sete e trinta, quando foi servido o jantar, o crime já fora planeado... E isto (sob o ponto de vista da idéia preconcebida) era absurdo.”

O primeiro obstáculo à ideia preconcebida foi o fato de ter o revólver sido encontrado no Nilo. Para começar, se as nossas deduções estivessem certas, o revólver nunca deveria ter sido atirado ao rio. E ainda mais..,

Poirot voltou-se para Bessner:

- O senhor, doutor Bessner, examinou o corpo de  Linnet Doyle. Lembra-se que o ferimento apresentava  sinais de chamuscado, significando que o tiro fora dado com a arma rente à cabeça.

Bessner inclinou a cabeça, dizendo:

- Sim, é exato.

- Mas o revólver foi encontrado dentro de uma écharpe de veludo, podendo-se verificar que a bala perfurara as dobras do tecido, parecendo que a intenção do criminoso fora abafar o som. Mas se o tiro tivesse sido dado através do veludo, não haveria sinais chamuscados na pele  da vitima. E, portanto, o tiro dado através da écharpe não podia ser o tiro que matara Linnet Doyle. Poderia ter sido o outro, de Jacqueline contra Simon? Não, pois quanto a isso havia testemunhas. Parecia, portanto, que houvera um terceiro tiro, sobre o qual nada sabíamos. Mas duas balas somente haviam sido picadas.

 "Estava ali uma curiosa circunstância, difícil de ser explicada. O segundo ponto interessante foram os dois frascos do verniz, que encontrei na cabina de Linnet. Agora, raramente as senhoras trocam a cor do verniz das unhas, e eu notei que as unhas de Linnet tinham sempre a tonalidade chamada "Cardinal", de um vermelho-escuro. O outro frasco estava marcado "Rose", que é de um rosa-pálido. Mas as poucas gotas no fundo do frasco não eram cor-de-rosa, mas de um vermelho-vivo. A curiosidade fez que eu destapasse o frasco e cheirasse o conteúdo. Em vez do acentuado perfume de pêra, havia ali um cheiro de vinagre! Isto queria dizer que as duas gotas lá no fundo deviam ser de tinta vermelha! Ora: não havia motivo para que Mistress Doyle não tivesse tinta vermelha na cabina, mas seria mais natural que a guardasse num frasco de tinta e não num frasco de verniz. Estava ali um elo com o lenço manchado de rosa, encontrado à volta do revólver. Tinta vermelha ao contacto da água desaparece com facilidade, mas sempre deixa um tom rosado.

“Talvez que só com estes indícios eu devesse ter chegado à verdadeira conclusão, mas houve um acontecimento que acabou com todas as dúvidas. Louise Bourget foi assassinada de maneira que a indicava claramente como chantagista. Segurava o canto de uma nota de mil francos... Lembrei-me também das significativas palavras que me dissera naquela manhã...” Ouçam cuidadosamente, pois aqui está a chave do problema. Quando lhe perguntei se vira alguma coisa na noite anterior, ela deu-me uma resposta muito curiosa:

“Claro que se não tivesse sentido sono, se tivesse subido as escadas, talvez tivesse visto o assassino, esse monstro, entrar ou sair da cabina de madame”... Agora, que é que isto significa?

Bessner, que parecia intelectualmente interessado no assunto, sugeriu:

- Significava que subira as escadas.

- Não, não; o senhor não compreende aonde quero chegar. Porque dizia ela isto a nós?

- Para insinuar...

- Mas para que insinuar a nós? Se sabia quem era o assassino, poderia ter agido de duas maneiras: dizer-nos a verdade, ou guardar silêncio e explorar o criminoso! Mas não fez nem uma nem outra coisa. Não disse prontamente: "Não vi ninguém. Eu estava a dormir." Nem tão-pouco: ""Vi alguém, Fulano-de-tal. Porque se serviu daquela frase complicada? Parbleu, só pode haver uma razão! Ela estava a insinuar para o assassino, e, portanto, o assassino devia estar presente na ocasião. Mas, além de nós dois, Race e eu, só estavam ali duas pessoas: Simon Doyle e o senhor, doutor Bessner.

O médico deu um salto da cadeira.

- Ach! Que está dizendo? Está a acusar-me? Mas isso é ridículo, inconcebível!

Poirot disse bruscamente:

- Fique quieto. Estou a dizer-lhe quais as minhas  reflexões, na ocasião. Sejamos impessoais.

- Ele não está a acusá-lo - disse Cornélia em tom conciliador.

Poirot continuou vivamente:

- E, portanto, só restavam os outros dois: Simon Doyle e Bessner. Mas que razão tinha Bessner para matar Linnet Doyle? Nenhuma, a julgar pelas aparências. Simon Doyle, então? Mas isso era impossível!

Havia muitas testemunhas de que ele não saíra do salão antes do conflito. Depois, fora ferido; ter-lhe-ia sido materialmente impossível sair dali. Tinha eu provas disso? Sim. Havia o depoimento de Miss Robson, de Jim Fanthorp, de Jacqueline de Bellefort, quanto à primeira parte; a declaração de pessoas competentes como Miss Bowers e o doutor Bessner, quanto à segunda. Não havia dúvida possível. E, portanto, Bessner devia ser o culpado. Em favor dessa teoria havia o fato da criada ter sido apunhalada com um instrumento cirúrgico. Mas, por outro lado, fora o próprio Bessner quem chamara a atenção para esse ponto!

“E então, meus amigos, um outro fato indiscutível se apresentou ante os meus olhos. A insinuação de Louise Bourget não poderia ter sido feita a Bessner, pois poderia ter falado com ele em particular a qualquer momento que o desejasse. Tais palavras só poderiam ter sido dirigidas a uma pessoa: Simon Doyle! Simon estava ferido, tinha o médico constantemente a seu lado, estava na cabina desse médico... Ela arriscou-se a dirigir-lhe aquelas palavras ambíguas, com medo de não ter outra oportunidade. Lembro-me de que se voltou para ele, exclamando: "Monsieur, por favor... Compreende a minha situação? Que posso eu dizer?” E a resposta dele: "Minha cara menina, não seja tola. Ninguém pensa que viu ou ouviu coisa alguma. Não se preocupe. Cuidarei de si. Ninguém a acusa". Era esta a garantia que ela desejava obter!

Bessner soltou um grunhido imenso.

- Ach! Que tolice! Acha que um homem com a perna fraturada pode andar pelo navio a matar os passageiros? Garanto-lhe que teria sido impossível a Simon Doyle sair da cabina!

Poirot disse suavemente:

- Sei disso. Tem toda a razão. Era impossível... mas verdadeiro! Logicamente, as palavras de Louise só poderiam ter tido um sentido. E, portanto, voltei atrás, fazendo uma revisão do caso, estudando os acontecimentos à luz deste novo conhecimento. Teria sido impossível que, antes da questão, Simon tivesse saído do salão sem que pessoa alguma lhe notasse a ausência? Não achei a idéia admissível. O testemunho de pessoas competentes como Bessner e Miss Bowers poderia ser desprezado? Também não. Mas lembrei-me de que houvera um intervalo... Simon Doyle ficara sozinho no salão pelo espaço de cinco minutos, e o exame competente de Bessner fora feito depois deste período. Para este período tínhamos apenas o testemunho aparente, visual; e, aquilo que parecera provável, já não era certo. Que é que fora realmente visto, deixando de lado as suposições?

Miss Robson vira Miss de Bellefort atirar, vira Simon cair na cadeira, vira-o apertar contra a perna um lenço que gradualmente se fora tingindo de vermelho. Que vira ou ouvira Mister Fanthorp? Ouvira um tiro, encontrara Doyle com um lenço manchado de vermelho à volta da perna. Que acontecera depois? Doyle mostrara-se muito insistente, ao pedir que levassem dali Miss de Bellefort, dizendo que não a deixassem sozinha. Depois disso sugerira a Fanthorp que fosse chamar o médico.

“E, portanto, Miss Robson e Miss de Bellefort e Mister Fanthorp saíram dali, e nos seguintes cinco minutos estiveram ocupados no tombadilho a bombordo. As cabinas de Miss Bowers, do médico e de Miss de Bellefort ficam todas daquele lado. Simon Doyle só precisava de dois minutos... Apanha o revólver, tira os sapatos, corre como uma lebre pelo tombadilho, entra na cabina da esposa, que está a dormir, dá-lhe um tiro na cabeça, põe no lavatório o frasco com a tinta vermelha (é necessário que não seja encontrado em seu poder!) volta a correr para o salão, apanha a écharpe de Miss Van Schuyler (que anteriormente escondera no vão da poltrona) enrola-lhe o revólver e dá um tiro na própria perna... A cadeira onde cai (com verdadeira dor, desta vez) fica perto da janela. Ele abre a janela e atira o revólver ao Nilo, envolto na écharpe e no lenço revelador...”

 - Impossível! - disse Race.

- Não, meu amigo, nada impossível. Lembre-se do depoimento de Tim Allerton. Ele ouviu um estalo e em seguida o ruído de um baque. E ouviu mais alguma coisa... passos de quem corria, em frente da sua cabina. Mas ninguém devia andar a correr no tombadilho a estibordo. Que ouvira Mister Alberton? Os passos de Simon Doyle, correndo só de meias.

- Ainda acho impossível - declarou Race. - Ninguém poderia ter agido com essa velocidade. Ainda mais um sujeito de raciocínio lento como Doyle!

- Mas muito ágil, fisicamente!

- Quanto a isso, de acordo. Mas não poderia ter planeado tudo sozinho com todos esses pormenores.

- Mas não planeou sozinho, meu amigo. Nisso é que estávamos enganados. Parecia um crime cometido num impulso de momento, mas não era um crime nesse sentido! Pelo contrário. Foi muito inteligentemente planeado, e estudado minuciosamente. Não era possível que Simon tivesse por acaso um frasco de tinta no bolso. Não: foi propositadamente. Não foi por acaso que Jacqueline deu um pontapé no revólver, mandando-o para baixo da poltrona, de maneira a ficar ali esquecido até mais tarde.

- Jacqueline?

- Certamente. A segunda metade do assassino. Que foi que deu a Simon o seu álibi? O tiro dado por Jacqueline. Que foi que deu a Jacqueline o seu álibi? A insistência de Simon, que fez com que a enfermeira passasse a noite toda ao lado dela. E, portanto, encontramos nos dois as qualidades necessárias: em Jacqueline, a inteligência fria e calculista; em Simon, o homem de ação, que cometeria o crime com incrível rapidez e precisão.

Poirot fez uma pausa e continuou:

- Analisem o caso sob o ponto de vista certo, e todas as dúvidas se dissiparão. Simon e Jacqueline tinham sido apaixonados um pelo outro. Admitam a hipótese de ainda se amarem e tudo fica esclarecido. Simon liquida a esposa rica, herda o seu dinheiro e mais tarde casará com a antiga namorada. Muito inteligente! A perseguição a Mistress Doyle, por parte de Jacqueline, fazia parte do plano. A suposta raiva de Simon. E no entanto... havia falhas. Ele queixara-se certa vez das mulheres autoritárias, exprimindo-se com sincera amargura. Eu devia ter percebido que pensava na sua mulher, não em Jacqueline. Depois, a sua atitude para com a esposa, em público. Um típico inglês, como Simon Doyle, em geral não é demonstrativo. Simon não era verdadeiramente um bom ator. Exagerou a atitude apaixonada. E aquela conversa que tive com Jacqueline, quando ela quis que eu pensasse que alguém estivera à escuta!... Eu não vi ninguém. E não havia ninguém! Mas isto seria mais tarde um pormenor cheio de interesse. E duma vez, aqui no navio, julguei ter ouvido uma conversa entre Simon e Linnet. Dizia ele: “Agora temos que andar para diante.” Era Simon, sim, mas dirigindo-se a Jacqueline.

“O drama final foi perfeitamente calculado. O narcótico vertido no meu vinho, para evitar que lhes atrapalhasse os planos, a escolha de Miss Robson como testemunha, o prelúdio da cena no salão, o histerismo de Miss de Bellefort, os seus remorsos exagerados. Ela fez bastante barulho, para evitar que o tiro fosse ouvido. En vérité, foi uma idéia muito inteligente! Jacqueline declara ter atirado sobre Doyle, Miss Robson confirma as suas palavras, Fanthorp diz a mesma coisa...”

E, quando o médico examina Doyle, verifica que realmente ele está ferido! Não pode haver dúvida! Ambos conseguiram um perfeito álibi, à custa, naturalmente, de certo risco e sofrimento para Simon. Mas era necessário que o sofrimento de fato o inutilizasse durante algum tempo.

“Mas houve um imprevisto! Louise Bourget não tinha sono aquela noite. Subiu as escadas e viu Simon correr até à cabina da esposa e sair novamente dali. Isto bastou para que tirasse as suas conclusões no dia seguinte. E, portanto, procurou gananciosamente extorquir dinheiro, assinando assim a sua sentença de morte.”

- Mas Mister Doyle não poderia ter matado Louise – exclamou Cornélia.

- Não. Este crime foi cometido pela outra parceira. Assim que teve oportunidade, Simon pediu para falar com Jacqueline. Chegou mesmo a fazer-me sinal para que os deixasse sós. Falou-lhe do novo perigo. Precisavam de agir sem demora! Ele sabe onde Bessner guarda os seus instrumentos. Depois do crime, o bisturi é posto de novo no seu lugar; um pouco tarde, um tanto ofegante, Jacqueline entra no salão, para almoçar.

“Mas nem assim passou o perigo. Mistress Otterbourne viu Jacqueline entrar na cabina de Louise Bourget. E vem a correr contar a Simon a novidade. Jacqueline é a assassina. Lembra-se, Race, como Simon gritou com a pobre mulher? Nervos, pensamos nós. Mas a porta ficara aberta e ele procurava avisar a cúmplice. Ela ouviu-o e agiu com a rapidez do relâmpago. Lembrou-se do revólver que Pennington mencionara no salão. Foi buscá-lo, aproximou-se da porta, ficou à escuta e no momento crítico atirou. Gabara-se certa vez de ser boa atiradora, e deu provas disso”.

“Depois do terceiro crime, eu disse que o assassino poderia ter tomado três caminhos. Poderia ter ido para a popa (e neste caso o criminoso era Tim) poderia ter pulado para baixo (pouco provável) ou ter entrado em alguma cabina. A de Jacqueline era a segunda depois da do doutor Bessner. Bastava-lhe atirar o revólver para o chão e entrar na cabina, desmanchar o cabelo e atirar-se para cima da cama. Arriscado, mas a única coisa possível.”

Houve alguns segundos de silêncio. Depois Race perguntou:

- Que aconteceu com a primeira bala, atirada por Jacqueline?

- Creio que entrou na mesa. Há ali um buraco recentemente feito. Acho que Doyle teve tempo de a tirar com um canivete, atirando-a pela janela. Tinha, naturalmente, uma cápsula extra, para que julgássemos que somente duas balas haviam sido picadas.

- É horrível - suspirou Cornélia. - Simplesmente horrível. Pensaram em tudo!

Poirot ficou em silêncio. Mas não era um silêncio modesto. Os seus olhos pareciam dizer: “Não, nisso está enganada. Não contaram com Hercule Poirot!”

Disse em voz alta:

- E agora, doutor Bessner, vamos dizer umas palavrinhas ao seu doente...

 

Mais tarde, Poirot bateu à porta de uma cabina.

Uma voz disse "Entre", e ele entrou.

Jacqueline estava sentada numa cadeira. Noutra, contra a parede, estava a robusta criada de bordo. Jacqueline olhou, pensativa, para Poirot. Com um gesto, indicou a criada e perguntou:

- Não podemos ficar a sós?

Ele inclinou a cabeça e a mulher retirou-se. Poirot puxou a cadeira desocupada para perto de Jacqueline.

Nenhum dos dois disse coisa alguma. O detetive parecia muito infeliz.

Finalmente, a rapariga resolveu quebrar o silêncio.

- Então está tudo acabado! O senhor foi inteligente demais para nós, Monsieur Poirot.

O detetive suspirou, estendeu as mãos para cima sem nada encontrar para dizer.

- Apesar de tudo, não sei como poderia ter provado - continuou Jacqueline. - Acertou, naturalmente, mas se tivéssemos continuado com o bluff...

- De nenhuma outra forma, mademoiselle, poderia ter acontecido.

- Isto pode satisfazer a inteligência, mas não creio que tivesse convencido os jurados. Oh, bom, não há remédio. O senhor colheu Simon de surpresa, e ele entregou os pontos, sem lutar. Perdeu a cabeça, coitado, e confessou tudo.

Minutos depois, Jacqueline acrescentou:

- Ele é mau jogador.

- Mas a senhora sabe perder.

Ela riu subitamente - uma gargalhada estranha, alegre, desafiadora.

- Oh, sim, sei perder.

E impulsivamente, fitando o detetive:

- Não se aborreça tanto, Monsieur Poirot! Por minha causa, é o que quero dizer. O senhor importa-se, não é verdade?

- Sim, mademoiselle.

- Mas nunca lhe ocorreria deixar-me escapar?

- Nunca - respondeu Poirot serenamente.

Ela inclinou a cabeça, concordando.

- De nada vale ser sentimental. Não poderia recomeçar... Já não sou pessoa em quem se possa ter confiança. Eu mesma o sinto...

Continuou, como se falasse consigo própria:

- É tão fácil matar... E a gente começa a achar  que não tem importância... Que é só a nossa felicidade que interessa! Isto é perigoso.

Fez uma pausa, e depois