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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


Movido pela Maré / Nora Roberts
Movido pela Maré / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Movido pela Maré

 

Ethan foi emergindo do sonho e, dando uma volta, saiu da cama. Ainda estava escuro, mas ele normalmente começava sua jornada antes de que a noite cedesse à alvorada. Gostava do silêncio, a rotina singela, o trabalho duro que vinha depois.

Nunca lhe esquecia sentir-se agradecido porque lhe tivesse concedido a possibilidade de escolher e por poder levar essa forma de vida. Embora as pessoas responsáveis por lhe haver concedido tanto a possibilidade de optar como essa vida concreta já tinham morrido, para ele, o eco de suas vozes permanecia na bonita casa junto à água. Freqüentemente elevava a vista de seu solitário café da manhã na cozinha, esperando ver entrar em sua mãe arrastando os pés, bocejando, com o cabelo ruivo furiosamente enredado pelo sonho, os olhos apenas entreabiertos.

E embora fazia quase sete anos que ela se foi, Ethan seguia encontrando consolo nessa íntima imagem matinal.

Mais doloroso lhe resultava pensar no homem que se converteu em seu pai. Apenas três meses depois, a morte do Raymond Quinn estava ainda muito fresca para poder sentir nenhuma quietude. E se tinha produzido em circunstâncias suspeitas ainda sem explicar, em um acidente de tráfico ocorrido a plena luz do dia em uma estrada seca, em um dia de março que começava apenas a cheirar a primavera. O veículo viajava rápido e seu condutor não pôde, ou não quis, manter o controle em uma curva. As provas tinham demonstrado que não existia razão médica alguma para que Ray se estrelasse contra um poste de telefone.

Mas existiam provas de um motivo emocional, e isso enchia ao Ethan de pesadumbre.

Essa idéia ocupou sua mente uma vez mais, enquanto se preparava para a jornada. Deu a seu cabelo, ainda úmido depois da ducha, uma rápida passada com o pente, que não conseguiu absolutamente domar as amplas ondas de cabelo castanho esclarecido pelo sol. barbeou-se ante o espelho embaciado; seus serenos olhos estavam sérios enquanto se tirava a espuma e a barba de um dia desse rosto ossudo e bronzeado que ocultava secretos, secretos que raramente desvelava.

Com o passar do lado esquerdo da mandíbula corria uma ferida, presente de seu irmão maior, em que sua mãe lhe tinha tido que dar pontos com toda paciência. Menos mal, pensou Ethan enquanto se esfregava distraídamente com o polegar a cicatriz apenas visível, que sua mãe era médico. Um ou outro dos três filhos estava acostumado a requerer primeiros auxílios com bastante freqüência.

Ray e Stella os tinham acolhido quando eram três moços já médio crescidos, todos selvagens, todos feridos, todos estranhos. E com eles tinham formado uma família.

E logo, pouco antes de sua morte, Ray tinha acolhido a um quarto.

Agora Seth DeLauter lhes pertencia . Ethan não o punha em duvida em nenhum momento. Mas sabia que outros sim. Na pequena cidade do St. Christopher todo mundo comentava que Seth não era simplesmente outro dos moços sem lar do Ray Quinn, a não ser seu filho ilegítimo. Um filho concebido, quando sua esposa ainda vivia, com outra mulher, uma mulher mais jovem.

Ethan podia ignorar a fofoca, mas lhe resultava impossível ignorar o fato de que o moço, de dez anos, olhava com os olhos do Ray Quinn.

Naqueles olhos aninhavam sombras que Ethan também reconhecia. Um ferido reconhece a outro. Sabia que a vida do Seth tinha sido um pesadelo antes de que Ray o acolhesse. O mesmo tinha vivido uma.

Agora o menino se encontrava a salvo, pensou Ethan enquanto ficava umas folgados calças de algodão e uma camisa de trabalho descolorida. Agora o menino era um Quinn, embora a papelada legal não estivesse completa ainda. Contavam com o Phillip para assegurar-se disso. Ethan sabia que seu meticuloso irmão se ocuparia desse tipo de assuntos com o advogado. E Cameron, o major dos Quinn, tinha conseguido estabelecer um tênue vínculo com o Seth.

Tinha-o feito torpemente, pensou Ethan sonriendo pela metade. Tinha sido como contemplar uma briga de gatos que se arranham e cospem. Agora que CAM se casou com uma bonita assistente social, as coisas talvez se acalmassem um pouco.

Ethan preferia a vida tranqüila.

Ainda ficavam batalhas por liberar, já que a companhia de seguros se negava a abonar a apólice do Ray pela suspeita de suicídio. Lhe encolheu o estômago e se tomou um momento para acalmar-se. Seu pai não podia haver-se suicidado. O capitalista Quinn sempre se enfrentou aos problemas e tinha ensinado a seus filhos a fazer o mesmo.

Mas essa nuvem seguia pesando sobre a família, e não parecia querer afastar-se. Tampouco era a única. Estava também a repentina aparição na cidade da mãe do Seth, com suas acusações de perseguição sexual formuladas ante o decano da faculdade onde Ray dava classes de Literatura Inglesa. As acusações não puderam manter-se; continham muitas mentiras, havia muitos mudanças na história da mulher, mas era inegável que a seu pai tinham afetado. Também era inegável que, pouco depois de que Glorifica DeLauter abandonasse St. Christopher de novo, Ray também se foi.

E retornou com o menino.

Logo estava a carta encontrada no veículo do Ray depois do acidente: era uma óbvia ameaça de chantagem dessa DeLauter. E além disso estava o fato de que Ray lhe tinha entregue dinheiro, uma boa quantidade de dinheiro.

E agora Glorifica DeLauter havia tornado a desaparecer. Ethan desejava que seguisse assim, mas sabia que a fofoca não cessaria até que todas as respostas estivessem claras.

Não havia nada que ele pudesse fazer, recordou-se a si mesmo. Saiu ao patamar e deu um golpe rápido na porta de em frente. O gemido do Seth foi seguido por um murmúrio sonolento e depois por uma irritada maldição. Ethan continuou para a planta baixa. Seguro que Seth voltava a queixar-se por ter que levantar-se tão cedo. Mas enquanto CAM e Anna seguissem na Itália de lua de mel e Phillip estivesse em Baltimore trabalhando até o fim de semana, correspondia a ele levantar o menino e fazer que se fora a casa de um amigo até a hora de ir à escola.

Estavam em plena temporada de caranguejo e os mariscadores começavam sua jornada antes da saída do sol. Assim, até que retornassem CAM e Anna, também Seth teria que levantar-se logo.

A casa se achava escura e em silêncio, mas Ethan se movia por ela com facilidade. Agora possuía sua própria casa, embora parte do acordo para conseguir a tutela do Seth se apoiava em que os três irmãos residissem sob o mesmo teto e compartilhassem a responsabilidade.

Ao Ethan não importava assumir responsabilidades, mas sentia falta de seu casita, sua intimidade e quão singela tinha sido sua vida anteriormente.

Acendeu as luzes da cozinha. A noite passada havia meio doido ao Seth recolher depois do jantar e Ethan notou que o tinha feito pela metade. Ignorando a mesa pegajosa e coberta de coisas, dirigiu-se diretamente à cozinha.

Seu cão Simon desfez o novelo que formava dormido e se estirou perezosamente, golpeando o chão com a cauda. Ethan preparou o café e saudou o retriever com uma carícia distraída na cabeça.

Agora voltava para sua mente o sonho, esse que lhe tinha apanhado justo antes de despertar. Seu pai e ele, juntos no navio de tarefa inspecionando jaulas para caranguejo, os dois sozinhos. O sol esquentava bastante e brilhava com uma luz cegadora. A água estava transparente e em calma. Nesse momento pensou que tinha sido um sonho muito vívido, inclusive se cheirava a água e o pescado, e o suor.

A voz de seu pai, tão fresca na lembrança, elevava-se sobre os ruídos do motor e das gaivotas.

—Sabia que cuidariam do Seth entre os três.

—Não tinha que morrer para nos pôr a prova. —O tom do Ethan era de ressentimento, com um aborrecimento de fundo que não se permitiu admitir quando estava acordado.

—Tampouco era o que eu tinha em mente —replicou Ray em tom ligeiro enquanto escolhia caranguejos da jaula situada sob o bóia que Ethan tinha enganchado com o gancho de ferro. Suas grossas luvas laranjas de pescador brilhavam sob o sol—, asseguro-lhe isso. Ouça, tem aqui uns bons caranguejos para fazer ao vapor e um montão de fêmeas.

Ethan observou a jaula cheia de crustáceos e tomou nota automaticamente do número e o tamanho. Mas não era a pesca o que importava, não ali, não então.

—Você quer que te cria, mas não te explica.

Ray o olhou, tornando-se para trás a boina vermelho vivo que levava sobre a juba chapeada. O vento jogava com seu cabelo e com a caricatura do John Steinbeck que decorava a parte dianteira de sua camiseta, fazendo-a ondear sobre o amplo peito. O grande escritor norte-americano sustentava um letreiro no que assegurava que trabalharia em troca de comida, mas não parecia muito feliz a respeito.

Pelo contrário, Ray Quinn transbordava de saúde e energia, suas rosadas bochechas estavam sulcadas por profundas dobras que simplesmente pareciam celebrar o ânimo satisfeito e feliz de um homem vigoroso de uns sessenta anos ao que ficava muita vida por diante.

—Você tem que encontrar seu próprio caminho, suas próprias respostas. —Ray lhe sorriu com seus brilhantes olhos azuis e Ethan observou as rugas que se faziam mais profundas em torno deles—. Desse modo, adquire mais significado. Sinto-me orgulhoso de ti.

Ethan sentiu que lhe ardia a garganta e que o coração lhe encolhia. Distraídamente, repôs a ceva na jaula, e depois olhou como os bóias laranjas se moviam balançados pela água.

—por que?

—Porque é você. Só porque é Ethan.

—Eu deveria ter ido verte mais freqüentemente. Não deveria te haver deixado sozinho tanto tempo.

—Isso é uma solene tolice. —Agora a voz do Ray soava tão irritada como impaciente—. Eu não era um velho inválido. Me vou chatear se pensar assim, se te culpar por não ter velado por mim, pelo amor de Deus. Igual a queria culpar ao CAM por haver-se transladado a viver a Europa e até ao Phillip por ir-se a Baltimore. Mas os pássaros sãs abandonam o ninho. Você mãe e eu criamos pássaros sãs. —antes de que Ethan pudesse replicar, seu pai elevou uma mão. Era um gesto tão dele, o do professor que se nega a ser interrompido enquanto está explicando algo, que Ethan riu—. Mas você os sentia falta de. Por isso estava zangado com eles. Eles se foram, você ficou e desejava os ter perto. Bom, pois já os tem de volta, não?

—Assim parece.

—E tem uma cunhada estupenda, o começo de um negócio de construção de navios e isto... —Ray fez um gesto assinalando a água, as bóias que se balançavam, a alta erva de mar, úmida e brilhante, na borda, onde uma garceta solitária se elevava como um pilar de mármore—. E em seu interior, Ethan, poses algo que Seth necessita. Paciência. Possivelmente inclusive muita em certos aspectos.

—E isso o que se supõe que significa?

Ray emitiu um breve suspiro.

—Há algo que não possui, Ethan, algo que necessita. Não tem feito mais que esperar e te buscar desculpas, sem fazer nada para consegui-lo. Se não mover ficha logo, o vais perder outra vez.

—O que? —Ethan se encolheu de ombros e dirigiu o navio até a seguinte bóia—. Tenho tudo o que necessito e desejo.

—Não te pergunte o que, te pergunte quem. —Ray estalou a língua e depois deu a seu filho um rápido meneio no ombro—. Acordada, Ethan.

E se tinha despertado com a estranha sensação de ter essa mão grande e familiar no ombro.

Mas, pensou meditabundo enquanto tomava sua primeira taça de café, seguia sem conhecer as respostas.

 

—Agarramos uns bons insetos, capitão.

Jim Bodine tirava da jaula caranguejos, dos que estão a ponto de perder o carapaça, e jogava a valiosa captura no tanque. Não lhe importavam as sonoras pinzas, como o provavam as cicatrizes de suas grosas mãos. Levava as luvas típicas de sua profissão, mas, como qualquer mariscador sabia, danificavam-se muito rápido. E assim que tinham um buraco, os caranguejos acabavam dando com ele.

Trabalhava sem pausa, com as pernas separadas para manter o equilíbrio a pesar do balanço do navio, com os olhos escuros entreabridos em um rosto curtido pela idade, o sol e a vida. Lhe podiam jogar cinqüenta ou oitenta anos, e lhe dava igual uma coisa ou outra.

Sempre chamava capitão ao Ethan e não estava acostumado a pronunciar mais de uma frase enunciativa cada vez que falava.

Ethan trocou de rumo para a seguinte jaula, empurrando ligeiramente com a mão direita o leme de cano, que quase todos os mariscadores preferiam ao de roda. Ao mesmo tempo, com a esquerda dirigia o acelerador e a alavanca de marchas. Terei que ir fazendo pequenos ajustes à medida que se avançava pelo palangre de nasas.

A baía do Chesapeake podia ser magnânima quando lhe dava a vontade, mas também gostava das mutretas para te fazer suar pelo bota de cano longo.

Ethan a conhecia tão bem como a si mesmo, freqüentemente pensava que inclusive melhor; conhecia perfeitamente os inconstantes ânimos e movimentos do estuário maior do continente, que fluía do norte ao sul ao longo de duzentas milhas e entretanto media só quatro de largura quando se deslizava junto ao Anápolis, e trinta na desembocadura do rio Potomac. St. Christopher, situado ao casaco da parte baixa da borda oriental de Maryland, vivia da generosidade da baía e amaldiçoava seus caprichos.

As águas do Ethan, seu lar, estavam bordeadas de restingas, enlaçadas por serpenteantes canais de drenagem, com abruptos ribazos, que reluziam entre bosquetes de tulípero e carvalho.

Era um mundo de regatos formados pela maré e repentinos bancos de areia onde cresciam o aipo silvestre e o feno de mar.

converteu-se em seu mundo, com suas estações cambiantes, suas tormentas repentinas e sempre, sempre, com os sons e os aromas da água.

Calculando o tempo, agarrou o comprido gancho de ferro e, em um perito movimento tão fluido como um passo de baile, enganchou o cabo das nasas e atirou dele. Em poucos segundos, uma jaula se elevou da água, jorrando de algas e restos de ceva, cheia de caranguejos. Viu as pinzas vermelho brilhante das fêmeas adultas e os olhos carrancudos dos machos.

—Boa colheita! —foi tudo o que comentou Jim enquanto ficava à tarefa, içando a jaula a bordo como se pesasse gramas em vez de quilogramas.

Esse dia o mar estava picada e Ethan cheirava a tormenta que se morava. Quando tinha as mãos ocupadas, usava os joelhos para dirigir os mandos. Jogou um olhar às nuvens que começavam a agitar-se no céu do oeste, ao longe.

Dava-lhes tempo, pensou, a seguir com o resto do palangre na parte larga da baía e ver quantos crustáceos mais se colocaram nas jaulas. Sabia que Jim andava escasso de dinheiro, e ele também necessitava tudo o que pudesse tirar para manter a flutuação o negócio de construção de navios que acabava de montar com seus irmãos.

Dava-lhes tempo, pensou outra vez, enquanto Jim repunha a ceva em uma das jaulas com despojos de pescado médio descongelados e a lançava pela amurada. Com um salto, Ethan enganchou o seguinte bóia.

Seu lustroso cão Simon, um retriever da baía do Chesapeake, tinha a língua fora e se apoiava com as pernas dianteiras na dá de presente. Ao igual a seu dono, onde mais feliz se achava era na água.

Os dois homens trabalhavam coordinadamente e quase em silêncio, comunicando-se com grunhidos, encolhimentos de ombros e algum taco de vez em quando. Agora que havia abundância de caranguejos, dava gosto trabalhar. Outros anos não era assim; anos em que parecia que o inverno tivesse terminado com os crustáceos ou que a água não alcançaria nunca a temperatura suficiente para tentá-los a nadar.

Nesses anos, os mariscadores sofriam a menos que tivessem outra fonte de ganhos; Ethan tinha intenção de fazer-se com uma construindo navios.

O primeiro navio Quinn estava quase terminado. E que jóia, pensou. Cameron já tinha outro ajustado para um tipo rico ao que conhecia de quando se dedicava às carreiras, assim começariam breve. Ethan estava seguro de que seu irmão atrairia às pessoas com dinheiro.

O foram conseguir, disse-se a si mesmo, por muitas dúvidas e queixa que tivesse Phillip.

Olhou o sol, calculou a hora e contemplou as nuvens que se aproximavam lentamente, avançando sem pausa para o este.

—Vamos, Jim.

Levavam oito horas na água, uma jornada curta. Mas Jim não se queixou. Sabia que não era realmente a tormenta que se morava o que fazia que Ethan enfiasse o navio de volta para a parte alta da Baía.

—O guri já teria chegado do penetre —comentou.

—Sim.

E embora Seth podia valer-se por si mesmo para ficar solo em casa pela tarde, ao Ethan não gostava de tentar ao destino. Um menino de dez anos, e com o caráter do Seth, era um perigo andante.

Quando seu irmão voltasse da Europa dentro de um par de semanas, repartiriam-se o cuidado do menino entre os dois. Mas, no momento, a responsabilidade recaía nele.

A água da baía estava encabritada e adotava um tom cinza metálico como reflexo do céu, mas nem aos homens nem ao cão lhes preocupava a agitado viagem enquanto o navio escalava as levantadas ondas tomando as de frente e logo se deslizava para baixo nos seios. Simon se tinha colocado na proa; tinha a cabeça alta e as orelhas movidas pelo vento, e sorria com um sorriso pão. Ethan tinha construído o navio ele mesmo e sabia que agüentaria. Tão seguro como o cão, Jim procurou o amparo da toldilla e, cavando as mãos, acendeu um cigarro.

O porto do St. Chris transbordava de turistas. Os primeiros dias de junho lhes impulsionavam a sair dos bairros residenciais de Washington e Baltimore, lhes tentando a agarrar o carro para aproximar-se até ali. Ethan imaginava que a pequena cidade lhes parecia pitoresca, com suas ruas estreitas, suas casas de madeira e seus tiendecitas. Gostavam de contemplar como trabalhavam os dedos dos descascadores de caranguejos, comer os esponjosos bolos feitos com esse crustáceo e poder lhes contar a seus amigos que tinham provado a sopa de caranguejo fêmea. alojavam-se nas hospedarias, a cidade presumia de ter nada menos que quatro, e se gastavam o dinheiro nos restaurantes e as lojas de presentes.

Ao Ethan não parecia mau. Nas épocas em que a baía não se mostrava pródiga, o turismo mantinha viva a localidade. E lhe ocorreu que, em algum momento, algum desses turistas podia decidir que o desejo mais profundo de sua alma era possuir um veleiro construído de forma artesanal em madeira.

O vento aumentou enquanto Ethan atracava no mole. Jim saltou agilmente para amarrar os cabos. Suas pernas curtas e seu corpo rechoncho lhe faziam parecer uma rã saltitanta vestida com botas de borracha brancas e uma boina manchada de graxa.

A um distraído sinal da mão de seu amo, Simon se sentou e esperou no navio enquanto os homens descarregavam a captura do dia e o vento fazia dançar a toldilla, de um verde comido pelo sol. Ethan contemplou como se aproximava Pete Monroe com seu cabelo cinza metálico esmagado sob uma desgastada boina, e com seu corpo fornido vestido com umas amplas calças cáquis e uma camisa vermelha de quadros.

—Boa captura, Ethan.

Este sorriu. Tinha-lhe bastante aprecio ao senhor Monroe, apesar de que era miserável até a medula. Dirigia a Marisquería Monroe com o punho bem apertado. Mas, por isso ele sabia, não havia empresário marisquero que não se queixasse dos benefícios.

tornou-se para trás a boina e se arranhou o pescoço onde o suor e o cabelo úmido lhe faziam cócegas.

—Não está mau.

—Muito em breve voltam hoje.

—mora-se uma tormenta.

Monroe assentiu. Nesse momento, seus descascadores de caranguejos, que tinham estado trabalhando à sombra de toldos de raias, preparavam-se para ir-se dentro. Sabia que a chuva empurraria também aos turistas a procurar um sítio onde tomar um café ou um sorvete. Como era um dos dois sócios da cafeteria Bayside Eats, não lhe importava.

—Que trazem? Umas setenta caixas, não?

Ethan deixou que seu sorriso se fizesse mais ampla. Alguém poderia dizer que tinha um ar de pirata. Ethan não se haveria sentido insultado, mas sim surpreso.

—Mas bem noventa, diria eu.

Sabia exatamente a como se vendiam, mas tinha claro que terei que regatear, como de costume. Tirou seu puro para essas situações, acendeu-o e se dispôs à tarefa.

As primeiras gotas gordas começaram a cair quando se dirigia a casa. Calculava que tinha conseguido um bom preço pelos caranguejos; suas oitenta e sete caixas. Se o verão seguia assim, teria que pensar-se o de colocar outras cem jaulas o ano próximo, possivelmente inclusive contratar a alguém a tempo parcial.

Dedicar-se às ostras na baía já não era como antes desde que os parasitas as tinham deixado dizimadas. Então os invernos se fizeram duros. O que precisava eram umas quantas temporadas boas de caranguejo para poder investir a maior parte dos benefícios no novo negócio e para contribuir a pagar ao advogado. Ante essa idéia apertou os lábios enquanto a embarcação cabeceava de caminho a casa.

por que necessitavam um maldito advogado? por que tinham que pagar a um enganador manhoso vestido de traje para que limpasse o bom nome de seu pai? Isso não ia acabar com as fofocas que circulavam pela cidade. Os falatórios só terminariam quando a gente encontrasse algo mais suculento ao que lhe fincar o dente que a vida e a morte do Ray Quinn.

E a presença do menino..., meditou, observando a água que tremia sob o tamborilar uniforme da chuva. Havia gente a que gostava de fazer comentários sobre o menino que lhes olhava com os olhos azul escuro do Ray Quinn.

A ele, pessoalmente, não lhe importava. Por isso a ele concernia, a gente podia seguir lhe dando à língua até que lhes caísse da boca. Mas lhe doía no mais profundo que alguém insinuasse algo mau sobre o homem ao que tinha amado com cada pulsado de seu coração.

Assim que se deixaria os dedos para pagar ao advogado e faria o que terei que fazer para proteger ao guri.

No céu soou um trovão que retumbou na água como um cañonazo. A luz se reduziu como no crepúsculo pelas nuvens escuras que se abriram para liberar sólidas cortinas de água. Entretanto, Ethan atracou com calma em seu embarcadero. Total, molhar-se um pouco mais não lhe faria mal.

Como compartilhando esse sentimento, Simon saltou à água para nadar até a borda enquanto seu dono amarrava os cabos. Logo, este recolheu a tartera e se dirigiu à casa, com suas botas de pescador chapinhando no mole.

As tirou no alpendre traseiro. Quando era pequeno, sua mãe lhe tinha jogado um montão de broncas por colocar porcaria em casa, e Ethan conservava o hábito adquirido após. Mas não reparou em que o cão molhado empurrava a porta com o focinho e entrava antes que ele. Até que viu as encimeras e os chãos reluzentes.

Mierda, foi tudo o que lhe ocorreu enquanto olhava as pisadas e ouvia o alegre latido de saudação do Simon. Logo houve um chiado, mais latidos e risadas.

—Está empapado! —A voz feminina era grave, suave e alegre. Também era muito firme, e Ethan se sentiu um pouco culpado—. Fora, Simon! Vamos, fora. Vete ao alpendre dianteiro até que te seque.

Houve outro gritito e risadas de menino pequeno junto às de outro maior. «Está aqui toda a turma», pensou Ethan passando-a mão pelo cabelo molhado. Quando ouviu passos que se aproximavam, saiu disparado ao armário das vassouras para tirar a faxineira.

Não se movia depressa muito freqüentemente, mas podia fazê-lo quando se via obrigado.

—Ai, Ethan! —Grace Monroe o contemplou com as mãos em seus estreitos quadris, alternando seu olhar entre ele e os rastros de cão no chão recém encerado.

—Já me ocupo eu. Sinto muito. —Viu que a faxineira ainda estava molhada e decidiu que era melhor não olhar a jovem diretamente—. Não tinha dado conta —murmurou, enchendo um cubo com água na pia—. Não sabia que te tocava vir hoje.

—Vá, assim deixa que os cães molhados corram pela casa manchando o chão quando não me toca vir?

Ethan se encolheu de ombros.

—O estou acostumado a estava sujo quando me fui esta manhã, assim não acreditava que se notasse algo mais de sujeira. —Por fim se relaxou um pouco. ultimamente sempre lhe custava uns minutos consegui-lo quando estava com ela—. Mas se tivesse sabido que me foste jogar uma bronca, o teria deixado no alpendre.

Quando se voltou, sorria, e ela deixou escapar um suspiro.

—Anda, me dê a faxineira, já o faço eu.

—Não, não, o que mancha meu cão o limpo eu. ouvi o Aubrey.

Com ar distraído, Grace se apoiou na ombreira da porta. sentia-se cansada, o que não era nada fora do normal. Como cada dia, levava oito horas trabalhando. E essa noite ficavam ainda outras quatro servindo taças no pub do Shiney.

Alguns dias, quando se metia na cama arrastando-se, quase haveria dito que ouvia chorar a seus pés.

—Seth me está cuidando isso. Há-me meio doido trocar os dias. Esta manhã me chamou a senhora Lynley me pedindo que a trocasse a manhã porque sua sogra a chamou de Washington para autoinvitarse para jantar. Diz que a sogra olhe cada bolinha de pó como se fora o major pecado contra Deus e a humanidade. Acreditei que não lhes importaria se vinha hoje em lugar de amanhã.

—Você nos encaixe onde melhor te venha, Grace, agradecemo-lhe isso igual.

Ethan a observava enquanto esfregava. Sempre lhe tinha parecido bonita. Era como um cavalo dourado e de largas pernas. Levava o cabelo curto como um menino, mas lhe gostava de como lhe sentava, igual a um brilhante gorro com franjas.

Estava tão magra como uma dessas supermodelos que cobram milhões de dólares, mas ele sabia que sua silhueta alta e esbelta não se devia na moda. Conforme recordava, de menina era fraca e desajeitada. Quando ele chegou ao St. Chris e à família Quinn, ela teria uns sete ou oito anos. Agora devia andar pelos vinte e dois, e «flacucha» já não era a palavra mais apropriada para descrevê-la.

Era como um salgueiro jovem, pensou, quase ficando avermelhado.

Lhe sorriu e seus olhos verdes de sereia se animaram, enquanto que nas bochechas apareceram pequenos hoyitos travessos. Por razões que não podia precisar, lhe parecia divertido contemplar a um exemplar macho tão são com a faxineira.

—Que tal te foi o dia?

—Não esteve mau. —Esfregou o chão a consciência. Era um homem meticuloso. Depois se dirigiu de novo à pia para enxaguar a faxineira e o cubo—. Lhe vendi um bom carregamento de caranguejos a seu pai.

Ante a menção de seu pai, o sorriso da jovem perdeu parte de seu brilho. Estavam distanciados e levavam assim desde que ficou grávida do Aubrey e se casou com o Jack Casey, o homem ao que seu pai denominava «essa nulidade de mecânico do norte do estado».

Resultou que seu pai levava razão sobre o Jack. O tipo a tinha deixado na estacada um mês antes do nascimento de seu bebê, levando-se consigo as economias, o carro e quase toda a auto-estima do Grace.

Mas o tinha superado, recordou-se a si mesmo. E as arrumava bastante bem. E seguiria arrumando-lhe bem ela sozinha, sem um céntimo de sua família, embora tivesse que matar-se a trabalhar para consegui-lo.

Ouviu o Aubrey rir de novo, uma sonora gargalhada, e seu ressentimento se desvaneceu. Tinha tudo o que importava. Tudo estava vinculado ao pequeno anjo de olhos vivazes e cabelo encaracolado que estava no quarto do lado.

—antes de ir lhes prepararei um pouco de jantar.

Ethan se girou e a olhou outra vez. Estava bronzeada e lhe sentava muito bem, dava a sua pele um tom quente. Possuía um rosto alargado a jogo com seu esbelto corpo, embora o queixo mostrava certa tendência à obstinação. Se a olhasse qualquer homem, veria uma loira esbelta e sossegada e um belo rosto, um rosto que o fazia desejar a um poder contemplá-la um pouco mais.

E se um o fazia, veria as olheiras sob os grandes olhos verdes e certo cansaço em torno da suave boca.

—Não tem por que fazê-lo, Grace. Deveria ir a casa e descansar um pouco. Hoje te toca ir ao pub, não?

—Sobra-me tempo e prometi ao Seth hambúrgueres esbugalhados em molho. Não demorarei muito. —moveu-se enquanto Ethan seguia observando-a. Fazia muito que tinha aceito que esses olhares dele, largas e pensativas, esquentavam-lhe o sangue. Outra das pequenas dificuldades da vida, pensou—. O que passa? —perguntou enquanto se passava uma mão pela bochecha como esperando encontrar um tiznajo.

—Nada. Bom, se for cozinhar, tem-te que ficar para nos ajudar a comer o que preparar.

—Estupendo. —relaxou-se de novo e se adiantou a agarrar o cubo e a faxineira das mãos do Ethan para guardá-los ela mesma—. Ao Aubrey adora estar aqui com o Seth e contigo. por que não vai com eles à sala? Tenho que terminar uma penetrada e logo me ponho com o jantar.

—Te darei uma mão.

—Não, de maneira nenhuma. —Era outra questão de orgulho. Pagavam a ela, e tinha que fazer o trabalho ela. Todo o trabalho—. Anda, vete à sala, e não deixe de lhe perguntar ao Seth que tal o exame de matemática que lhes entregaram hoje.

—O que lhe puseram?

—Outro sobressalente.

Lhe piscou os olhos um olho e lhe jogou da cozinha. Seth era muito inteligente, pensou enquanto se dirigia ao quarto de lavar, situado junto à cozinha. Se a ela lhe tivessem dado melhor os números quando era pequena, se tivesse tido uma mente mais prática, não se teria passado a vida na escola sonhando.

Teria aprendido um ofício, um de verdade, não só pôr taças, cuidar da casa ou cortar caranguejos. Teria tido uma profissão a que voltar quando se encontrou grávida, só e com todas as esperanças de escapar a Nova Iorque para ser bailarina feitas pedacinhos, como um cristal golpeado com um tijolo.

Ora!, não era mais que um sonho absurdo, disse-se a si mesmo, esvaziando a secadora e carregando-a uma vez mais com a roupa molhada da máquina de lavar roupa. Castelos no ar, como dizia sua mãe. Mas o certo era que, enquanto crescia, só havia duas coisas que desejava: dançar e ao Ethan Quinn.

Não tinha conseguido nenhuma das duas.

Deixou escapar um leve suspiro, aproximando de sua bochecha o lençol suave e cálida que acabava de agarrar da cesta da roupa. O lençol do Ethan, a que tinha tirado de sua cama essa mesma manhã. Nesse momento, tinha captado seu aroma no tecido e possivelmente, durante um minuto ou dois, permitiu-se sonhar um poquito sobre como poderia ter sido se ele a tivesse desejado, se ela se deitou com ele nesses lençóis, em sua casa.

Mas sonhar não fazia as tarefas, nem pagava o aluguel nem comprava as coisas que necessitava sua filhinha.

Começou a dobrar os lençóis com energia, as colocando ordenadamente sobre a rugiente secadora. Não tinha por que envergonhar-se de limpar casas ou servir taças. Além disso, ambas as coisas lhe davam bem. E se sentia uma pessoa de proveito e necessitada por outros. Com isso bastava.

Certamente, o homem com o que tinha estado casada brevemente não a tinha necessitado nem a tinha considerado uma pessoa de proveito. Se ao menos se amaram o um ao outro, se se tivessem querido de verdade, teria sido distinto. Para ela, tinha sido uma necessidade se desesperada para pertencer a alguém, de sentir-se querida e desejada como mulher. Para o Jack... Grace sacudiu a cabeça. Sinceramente, não tinha nem idéia do que tinha significado para ele.

Uma atração sexual, supunha, que se converteu na concepção de um novo ser. Era consciente de que ele acreditava ter feito o mais correto ao levá-la ao tribunal e ficar com ela frente a um juiz naquele frio dia de outono para intercambiar os votos matrimoniais.

Nunca a tinha maltratado. Nunca se tinha embebedado e a tinha pego, como faziam alguns maridos com suas algemas, às que não queriam. Tampouco se dedicava a perseguir saias, ao menos não que ela soubesse. Mas tinha visto, à medida que Aubrey crescia dentro dela e seu ventre se ia arredondando, o brilho de pânico que se instalava no olhar do Jack.

E logo, um dia, ele se foi dizer uma palavra.

O pior de tudo, pensou Grace, é que se havia sentido aliviada.

Se Jack fazia algo por ela, era obrigá-la a crescer, a fazer-se carrego das coisas. E o que lhe tinha dado valia mais que as estrelas.

Pôs a roupa dobrada na cesta, que se colocou no quadril, e se dirigiu à sala.

Ali estava seu tesouro, com um lustroso cabelo loiro e encaracolado e um precioso rosto de bochechas rosadas iluminado de alegria enquanto tagarelava com o Ethan, que a tinha sentada em seu regaço.

Com dois anos, Aubrey Monroe parecia um anjo do Botticelli, toda rosa e ouro, com vivazes olhos verdes e hoyitos que fendiam suas bochechas. Tinha além pequenos dentes de gatinho e mãos de dedos largos. Embora logo que podia entender a metade do que dizia, Ethan assentiu com seriedade.

—E então o que tem feito Parvo? —perguntou quando compreendeu que lhe estava tratando de contar uma história relacionada com o cachorrinho do Seth.

—Lambeu-me a cara. —Com a risada nos olhos, esfregou-se as bochechas com as mãos—. Toda a cara. —Sonriendo, tocou- a cara ao Ethan e começou um jogo que gostava de muito—. Ai! —riu estrepitosamente, lhe esfregando a cara de novo—. Barba.

Entrando no jogo, Ethan passou ligeiramente os nódulos pelas suaves bochechas da menina, e logo apartou a mão rapidamente.

—Ai! Você também tem.

—Não! Você.

—Não. —Atraiu-a para si e lhe deu uns sonoros beijos na bochecha enquanto ela se revolvia encantada—. Você.

Rendo-se a gargalhadas, a menina se escabulló para aproximar-se do moço que estava atirado no chão.

—Barba Seth. —Cobriu-lhe as bochechas de beijos e saliva. A dignidade do Seth requeria que este fizesse uma careta de desagrado.

—Jo, Aubrey, me deixe em paz. —Para distrai-la, agarrou um dos carros de brinquedo da menina e o fez correr ligeiramente por seu braço—. É uma pista de carreiras.

Os olhos da menina brilharam com a emoção de um jogo novo. lhe arrebatando o carro, fez-o correr, sem tanta suavidade, por qualquer parte do corpo do Seth que podia alcançar.

Ethan se limitou a sorrir.

—Você lhe procuraste isso, colega —disse ao Seth quando Aubrey pisou na coxa para chegar até seu outro ombro.

—Prefiro-o a que me encha de babas —alegou Seth, mas elevou o braço para impedir que a menina caísse ao chão.

Por um momento, Grace simplesmente ficou ali olhando. Ethan, sentado relajadamente na grande poltrona de orelhas, sorria aos meninos. Estes, com suas cabeças juntas, uma delicada e coberta de cachos dourados, o outro com um arbusto de cabelo desgrefiado bastante mais escura.

O pequeno moço perdido, pensou, e seu coração voou até ele com a mesma compaixão que sentia do primeiro dia que o viu. Mas agora tinha encontrado o caminho a um lar.

Sua apreciada filha. Quando Aubrey era apenas Um bato as asas em seu útero, Grace prometeu amá-la, protegê-la e desfrutar com ela. Ao Aubrey nunca faltaria um lar.

E o homem que foi uma vez um muchachito perdido, o homem que se deslizou em seus sonhos de adolescente anos atrás para não abandoná-los nunca mais... O se tinha construído um lar.

A chuva tamborilava no telhado, a televisão era um murmúrio baixo sem importância. Os cães dormiam no alpendre dianteiro e o vento úmido penetrava pela porta com mosquiteira.

Grace desejou o que não lhe correspondia desejar: poder deixar no chão a cesta da roupa, aproximar-se e sentar-se no regaço do Ethan. Ser bem recebida, inclusive esperada. Fechar os olhos apenas um ratito e ser parte desse tudo.

Em lugar disso, retirou-se, sentindo-se incapaz de pôr o pé nesse universo tranqüilo e depravado. Retornou à cozinha, onde as luzes do teto lançavam um brilho descarnado. Ali, deixou a cesta na mesa e começou a tirar o que necessitava para o jantar.

Quando Ethan entrou uns minutos mais tarde em busca de uma cerveja, a carne estava dourando-se, as batatas se fritavam em azeite de amendoim e a jovem estava preparando a salada.

—Cheira muito bem.

ficou parado um momento, sentindo-se incômodo, Fazia anos que ninguém cozinhava para ele, e nem sequer então o tinha feito uma mulher. Seu pai se movia a gosto na cozinha, mas sua mãe... Sempre brincavam sobre o fato de que quando ela cozinhava, necessitavam todos seus conhecimentos médicos para sobreviver à comida.

—Estará preparado dentro de uma meia hora. Espero que não te importe jantar logo. Tenho que levar ao Aubrey a casa, banhá-la e me vestir para ir ao trabalho.

—Nunca me importa comer, em particular quando não me toca cozinhar . E a verdade é que hoje quero ir ao estaleiro durante um par de horas.

—Ah. —Olhou-lhe, soprando a franja—. me Deveria haver isso dito. Me teria dado mais pressa.

—Não passa nada. —Bebeu um gole da garrafa—. Gosta de algo de beber?

—Não, obrigado. Estava pensando em usar o enfeite para saladas que preparou Phillip. Resulta muito mais saboroso que o comprado.

Estava deixando de chover, a água se espaçava em uma garoa lenta que a aquosa luz do sol tentava atravessar. Grace olhou para a janela, sempre esperando ver um arco íris.

—Que bem estão as flores da Anna! —comentou—. Lhes sinta bem a chuva.

—Assim não tenho que tirar a mangueira. Se se secassem quando ela não está, mataria-me.

—Não a culpo. Trabalhou muito duro para as plantar antes das bodas. —Grace trabalhava com rapidez e agilidade enquanto falava. Escorreu um turno de batatas e jogou outra ao azeite fervendo—. Foi umas bodas tão bonita! —continuou enquanto mesclava o molho para a carne em uma terrina.

—Tudo saiu bem. Tivemos sorte com o tempo.

—Ah, é que esse dia não podia chover. Teria sido um pecado.

Podia vê-lo de novo com toda claridade. O verdor da erva no pátio traseiro, o brilho da água. As flores plantadas pela Anna transbordavam de cor junto às compradas, que quase se saíam dos vasos de barro, e as terrinas estavam dispostas ao longo do tapete branco pela que tinha desfilado a noiva até reunir-se com o homem com quem ia casar se.

Seu vestido branco ondeava ao vento, o fino véu realçava os olhos escuros e embriagados de felicidade. As cadeiras estavam ocupadas por amigos e familiares. Os avós da Anna choravam. E CAM, o briguento Cameron Quinn, olhava a sua prometida como se acabasse de receber as chaves do paraíso.

Umas bodas caseira. Singela, romântica, cálida, pensou Grace, perfeita.

—Anna é a mulher mais bela que vi em minha vida —comentou com um suspiro logo que tingido de inveja—. É tão moréia e exótica...

—Vai bem a meu irmão.

—Pareciam estrelas de cinema, tão elegantes e reluzentes... —sorriu-se a si mesmo enquanto incorporava o molho especiada à carne, lhe dando voltas—. Quando Phillip e você tocaram a valsa para seu primeiro baile, foi a coisa mais romântica que vi nunca. —Voltou a suspirar enquanto acabava a salada—. E agora estão em Roma. Não me posso isso nem imaginar.

—Chamaram ontem pela manhã para me pilhar antes de que me fora a trabalhar. Dizem que o estão acontecendo muito bem.

Grace riu com um som grave e um pouco rouco que correu ao Ethan pela pele como círculos na água.

—De lua de mel em Roma? O estranho seria o contrário. —Ao tirar outro turno de batatas da frigideira, algumas gotas de azeite lhe saltaram, lhe alcançando em um lado da mão, por isso amaldiçoou brandamente—: Vá! Maldita seja. —Quando levantava a pequena queimadura até sua boca para aliviar a dor, Ethan se aproximou rapidamente e lhe agarrou a mão.

—Queimaste-te? —Viu que a pele se estava pondo vermelha e levou ao Grace à pia—. te Jogue água fria em cima.

—Não passa nada. É só uma pequena queimadura. Ocorre-me sempre.

—Não te passaria se levasse mais cuidado. —Ethan tinha o cenho franzido e sua mão agarrava os dedos dela com firmeza para mantê-los sob o grifo aberto—. Te dói?

—Não. —Grace não podia sentir nada mais que a mão dele em seus dedos e seu próprio coração lhe retumbando no peito. Consciente de que estava a ponto de ficar em ridículo, tratou de liberar-se—. Não passa nada, Ethan. Não se preocupe.

—Tem que te pôr um pouco de pomada. —O elevou o braço para o armário para procurá-la e elevou a cabeça. Seus olhares se juntaram. ficou quieto, com a água saindo do grifo, ambas as mãos apanhadas sob a fria cascata.

Sempre procurava não estar muito perto dela para não poder ver as diminutas bolinhas de pó dourado nos olhos dela. Porque se as visse começaria a pensar, a imaginar.Y então teria que recordar-se a si mesmo que se tratava do Grace, a menina a que tinha visto crescer. A mulher que era a mãe do Aubrey. Uma vizinha que o considerava um amigo de confiança.

—Tem que te cuidar mais. —Sua voz soava rouca, pois as palavras tinham que sair de uma garganta que se ficou seca como o pó. Ela cheirava a limão.

—Estou bem. —Grace se estava morrendo, a meio caminho entre um prazer embriagador e uma desesperança total. Ethan lhe sustentava a mão como se fora tão frágil como o vidro soprado. E a olhava com o cenho franzido, como se ela tivesse menos sentido que sua filha de dois anos—. Ethan, me vão queimar as batatas.

—Ah, bom. —Mortificado porque tinha estado pensando, durante apenas um segundo, se a boca do Grace teria um sabor tão suave como parecia, apartou-se bruscamente procurando com estupidez o tubo de pomada. O coração lhe saltava no peito, e ele odiava essa sensação. Preferia as coisas acalmadas e fáceis—. Não deixe de te jogar um pouco de bálsamo. —Deixou o tubo na encimera e retrocedeu—. Eu... farei que os meninos se lavem as mãos para jantar.

voltou-se, recolheu a cesta da roupa e se foi.

Com movimentos pausados, Grace fechou o grifo, voltou-se e salvou as batatas fritas. Satisfeita com como ia o jantar, agarrou o tubo e ficou um pouco de pomada, esfregando brandamente a pele

 

Não havia nada melhor que um sábado, a menos que fora o anterior à última semana de colégio e às férias estivais. Isso, claro, era como todos os sábados de sua vida enrolados em uma grande bola brilhante.

na sábado significava passar o dia na água, faenando com o Ethan e Jim, em lugar de na escola. Significava trabalho duro, calor e bebidas frescas. Coisas de homens. Com os olhos protegidos pela viseira de sua boina dos lhes Areje e pelos muito fanfarrões óculos de sol que se comprou em uma expedição ao centro comercial, Seth lançou o gancho de ferro para enganchar o seguinte bóia de superfície. Seus jovens músculos se marcaram sob a camiseta de Expediente X, que lhe assegurava que a verdade se achava aí fora.

Observou como trabalhava Jim, inclinando a jaula e desenganchando a tampa, feita com a de uma lata de ostras, da caixa da ceva que estava no fundo da jaula. Seth se deu conta de que terei que tirar a ceva velha agitando a caixa, e contemplou as gaivotas, que se mergulhavam e chiavam como loucas. Era genial. Agora terei que agarrar bem a jaula, lhe dar a volta e agitá-la a batente para que os caranguejos da parte superior caíssem no tanque de lavagem que lhes aguardava. Seth pensou que ele podia fazer todo aquilo se o propunha de verdade. Não lhe davam medo uns quantos caranguejos falso só porque tivessem o aspecto de grandes insetos mutantes chegados de Vênus ou porque tivessem pinzas que estalavam e beliscavam.

Mas sua tarefa era repor a ceva com um par de montões de asquerosos despojos de pescado, fechar a tampa da caixa e assegurar-se de que a corda não se ficou enredada. Logo tinha que calcular a distância entre os bóias e, se tudo ia bem, lançar a jaula pela amurada. À água!

E depois lhe tocava lançar o gancho de ferro para enganchar a seguinte bóia.

Já sabia distinguir as fêmeas dos machos.

Jim dizia que os caranguejos garota se pintavam as unhas porque seus pinzas são vermelhas. É incrível como os desenhos da pança se parecem com os órgãos sexuais. Qualquer pode ver que os caranguejos menino têm aí uma larga T que parece uma pilila.

Jim lhe tinha mostrado também um casal de caranguejos apareándose, ele os chamava «dobladores», e isso sim que era muito. O caranguejo menino simplesmente sobe sobre a garota, coloca-a debaixo de si, e dessa forma nadam durante dias.

Seth pensava que lhes tinha que gostar.

Ethan tinha comentado que os caranguejos se casam, e quando Seth riu zombador, elevou uma sobrancelha. Ao Seth intrigou o suficiente para ir-se à biblioteca da escola e procurar livros sobre caranguejos. E agora acreditava entender, mais ou menos, o que Ethan tinha querido dizer. O menino protege à garota ao mantê-la sob seu corpo, porque ela só pode aparearse quando está na última muda e sua carapaça é brando, por isso é vulnerável. Inclusive depois do emparelhamento, ele segue levando-a até que sua carapaça se endurece de novo. E como ela só se aparea uma vez, é como estar casados.

Seth pensou em como se casaram CAM e a senhorita Spinelli, Anna, recordou-se que agora tinha que chamá-la Anna. Esse dia, muitas mulheres soltaram a lágrima e os tios riram e brincaram. Todo mundo fez muitos dramalhões, e havia flores, música e montões de comida. Ele não o pilhava. Para ele, casar-se só significava que podia ter relações sexuais sem que ninguém se chateasse.

Mas foi guay. Nunca se tinha visto em outra igual. Embora antes das bodas CAM lhe tinha obrigado a ir ao centro comercial e lhe tinha feito provar-se trajes, não lhe importou muito.

Às vezes lhe preocupava um pouco que as coisas pudessem trocar a partir de agora, quando apenas se estava acostumando a como eram. Agora haveria uma mulher na casa. Em geral, Anna lhe caía bem. Embora era assistente social, sempre tinha sido legal com ele. Mas não deixava de ser uma mulher.

Como sua mãe.

Seth atalhou esse pensamento. Se pensava em sua mãe, se recordava a vida que tinha levado com ela, os homens, as drogas, os pequenos quartos sujos, lhe ia amargurar o dia.

E em seus dez anos de vida não tinha vivido tantos dias agradáveis para arriscar-se a danificar um.

—O que, jogando uma cabezadita, Seth?

A suave voz do Ethan lhe devolveu bruscamente à presente. Piscou e viu o sol refletindo-se na água onde se balançavam os bóias laranjas.

—Só estava pensando —resmungou, e rapidamente atirou de uma bóia.

—O que é eu, não penso muito. —Jim colocou a jaula na dá de presente e começou a escolher caranguejos. Seu enrugado rosto se rendeu em um sorriso—. Pensar te pode dar meningite.

—Mierda —comentou Seth, observando Esse captura está começando a mudar o carapaça.

Jim grunhiu, sustentando um caranguejo com o carapaça quase pendurando pela parte traseira.

—A este elemento, amanhã o come alguém em sanduíche. —Piscou os olhos um olho ao Seth enquanto jogava o crustáceo no tanque—. Ao melhor, eu.

Tolo, que era ainda um cachorrinho e se merecia seu nome, olisqueó a Nasa, o que provocou uma revolta brusca e fera dos crustáceos. Quando as pinzas estalaram, o perrillo se separou de um salto com um ganido.

—Esse cão... —Jim morria de risada—. Esse sim que não se tem que preocupar com a meningite.

A jornada não terminou nem quando levaram a porto a captura do dia, esvaziaram o tanque e deixaram ao Jim em sua casa. Ethan se separou dos controles.

—Temos que ir ao estaleiro. Quer levá-lo você?

Embora os olhos do Seth se achavam ocultos pelos óculos escuros, Ethan imaginou que sua expressão devia corresponder-se com sua mandíbula queda. Fez-lhe graça que o menino se limitasse a encolher-se de ombros, como se tais coisas acontecessem diariamente.

—Claro, sem problema.

Com as Palmas suarentas, Seth se fez cargo do leme.

Ethan se manteve afastado, com as mãos metidas nos bolsos traseiros da calça e os olhos atentos. Havia muito tráfico na água. Uma tarde agradável de fim de semana atraía aos navios de recreio à baía. Mas o trajeto era curto e o menino tinha que aprender em algum momento. Não se podia viver no St. Chris e não saber como pilotar um navio de tarefa.

—um pouco a estribor —indicou ao Seth—. Vê esse esquife daí? É um dominguero, e te vai penetrar pela proa se mantiver este rumo.

Seth entrecerró os olhos, estudou o navio que lhe assinalava Ethan e a gente que estava em coberta. Comentou bufando:

—Isso é porque o tipo lhe está fazendo mais caso a essa garota do biquini que ao vento.

—Bom, a verdade é que lhe sinta bem o biquini.

—Não sei o que lhes vêem os peitos.

Dito seja em sua honra, Ethan não soltou a gargalhada, mas sim assentiu com seriedade e replicou:

—Imagino que, em parte, deve-se a que nós não temos.

—A mim a verdade é que não me interessam.

—Já me dirá isso dentro de um par de anos —murmurou Ethan, protegido pelo ruído do motor. Ante essa idéia fez uma careta. E que diabos foram fazer quando o guri chegasse à puberdade? Alguém teria que lhe falar sobre... as coisas. Sabia que Seth possuía já um conhecimento excessivo sobre o sexo, mas era todo do tipo perverso e pegajoso, o mesmo que ele adquiriu a uma idade muito temprana.

Um deles teria que lhe explicar como deviam ser as coisas, como podiam ser, e mais logo que tarde.

Oxalá não tocasse a ele.

Avistou o estaleiro, o velho edifício de tijolo, o flamejante mole que acabava de construir com seus irmãos. Invadiu-lhe o orgulho. Possivelmente o edifício não parecesse grande coisa com os tijolos furados e o telhado cheio de emplastros, mas foram triunfar. A janelas estavam sujas mas em bom estado, sem cristais quebrados.

—Afrouxa o acelerador. Leva-o devagar. —Sem dar-se conta, Ethan colocou uma mão sobre a que Seth tinha nos controles. deu-se conta de que o menino ficava tenso e logo se relaxava. Ainda seguia sem aceitar que lhe tocassem por surpresa, mas já não reagia tão mal como antes—. Assim, assim, um pouco mais a estribor. —Quando o navio chocou brandamente com os pilote, Ethan saltou ao embarcadero para amarrar os cabos—. Bom trabalho! —A um sinal dela, Simon, virtualmente tremendo de emoção, saltou a terra. Uivando freneticamente, Parvo subiu a dá de presente, vacilou e logo o seguiu—. me Aconteça a geladeira.

Resmungando só um pouco, Seth a alcançou.

—Ao melhor eu poderia pilotar o navio alguma vez quando sairmos a mariscar.

—Ao melhor. —Ethan esperou a que o menino saltasse sem perigo ao mole, antes de dirigir-se às portas traseiras do edifício.

Já estavam totalmente aberto e por elas saía a comnovedora voz do Ray Charles. Ethan deixou a geladeira junto à porta e se colocou as mãos nos quadris.

O casco estava terminado. CAM tinha trabalhado do lindo para fazer o mais possível antes de partir de lua de mel. Tinham-no cercado, embarbillando os cantos para que se ocultassem, mas de modo que as costuras ficassem lisas.

Juntos tinham completado o armação, empenado ao vapor, usando marcas de lápis como guia e «caminhando» cada cuaderna cuidadosamente até sua posição, por meio da aplicação de uma pressão suave e firme. O casco era sólido. Não haveria gretas no forro de uma embarcação de Navios Quinn.

O desenho se devia principalmente ao Ethan, embora CAM lhe tinha acrescentado alguns toques aqui e lá. O casco era de fundo em arco, caro de construir mas com as vantagens da estabilidade e a velocidade. Ethan sabia o que queria o cliente.

Com essa ideia em mente, tinha desenhado a forma da proa, optando por uma de cruzeiro, atrativa e boa também para a velocidade, capaz de flutuar. A popa era um contradiseño de longitude moderada, o que proporcionava um lançamento que faria que a longitude do navio fora maior que seu comprimento do navio de flutuação.

Era um desenho de linhas puras muito atrativo. Ethan compreendia que o cliente procurava tanto um aspecto estilizado como a navegabilidade básica.

Quando chegou o momento de revestir o interior com uma mescla aos cinqüenta por cento de azeite de linhaça quente e terebintina, recorreu ao Seth para o trabalho sujo. Era uma tarefa desagradável, estava garantido que alguém acabava com queimaduras, apesar das luvas e a precaução. Mas o menino tinha agüentado bem.

De onde se achava, Ethan podia estudar o arrufo, o perfil superior do casco. decidiu-se por um aplanado para conseguir uma embarcação mais ampla e mais seca, com suficiente espaço abaixo para a gente. A seu cliente gostava de sair a navegar com amigos e familiares.

O tipo tinha insistido em que se usasse madeira de teca, embora Ethan lhe tinha assegurado que o pinheiro ou o cedro teriam bastado para a madeiramento do casco. Ethan pensou agora que aquele homem tinha dinheiro para gastar-lhe em sua afeição e também no status. E terei que reconhecer que a teca lhe dava um aspecto espetacular.

Seu irmão Phillip estava trabalhando na coberta. Nu até a cintura pelo calor e a umidade, e com o cabelo loiro escuro protegido por uma boina negra, sem nomes nem logotipos, com a viseira para trás, estava atarraxando as pranchas. Cada poucos segundos, o duro e agudo zumbido do chave de fenda elétrico competia com a voz melosa do pianista cego.

—Que tal vai? —perguntou Ethan por cima do ruído.

Phillip elevou a cabeça. Seu rosto de anjo mártir estava úmido de suor, os olhos castanho dourado mostravam um ar irritado. Nesse mesmo instante acabava de recordar-se a si mesmo que ele era um executivo de publicidade, não um carpinteiro.

—Faz mais calor que no inferno no verão e só estamos em junho. Aqui terá que pôr uns ventiladores. Tem algo afresco, ou ao menos úmido, nessa geladeira? Faz uma hora que me acabou a bebida.

—Excursão a chave do grifo e sairá água —sugeriu Ethan brandamente enquanto se inclinava para agarrar um refresco frio da geladeira—. É um novo avanço tecnológico.

—Só Deus sabe o que há na água do grifo. —Phillip apanhou a lata que lhe lançou seu irmão e, ao ver a etiqueta, fez uma careta—. Pelo menos aqui lhe dizem que produtos químicos lhe jogam.

—Perdoa, a água Evian nos acabou. Já sabe como fica Jim com sua água de desenho. Nunca tem o bastante.

 —Vete a mierda —replicou Phillip, mas sem veemência. bebeu-se a Pepsi geada a fervuras e depois arqueou uma sobrancelha quando Ethan se aproximou de inspecionar sua tarefa.

—Bom trabalho.

—Ah, pois muito obrigado, chefe. Dá-me você um aumento?

—Pois claro, como não, o dobro do que cobras agora. Seth é o pitagorín. Quanto é zero por dois, Seth?

—Zero —respondeu o menino com um sorriso rápido. Seus dedos estavam desejando provar o chave de fenda elétrico. Até então ninguém lhe tinha deixado tocá-lo, nem nenhuma das outras ferramentas elétricas.

—Bom, agora já posso me permitir esse cruzeiro ao Tahití.

—por que não te dá uma ducha, a menos que também tenha algo contra te banhar com água do grifo? Já sigo eu aqui.

Era tentador. Phillip se sentia sujo, suarento e se estava morrendo de calor. Com gosto teria matado a alguém por uma boa taça de vinho Pouilly-Fuisse bem frio. Mas sabia que seu irmão tinha levantado desde antes do alvorada e tinha trabalhado já o que uma pessoa normal consideraria uma jornada completa.

—Posso lhe jogar outro par de horas.

—Vale. —Era exatamente a resposta que Ethan esperava. Phillip tendia a queixar-se, mas nunca te falhava—. Acredito que poderemos acabar com a coberta antes de ir para casa.

—Posso...?

—Não —responderam ambos ao uníssono, adiantando-se à pergunta do Seth.

—por que diabos não? —perguntou—. Não sou tolo. Não vou colocar lhe um parafuso de mierda a ninguém no olho ou algo assim.

—Porque nós gostamos de jogar com ele. —Phillip sorriu—. E somos maiores que você. Anda, toma. —Colocou a mão no bolso traseiro, tirou a carteira e extraiu um bilhete de cinco dólares—. Baixa lhe até o Crawford e me traga água engarrafada. Se for de boa vontade, com as voltas te pode comprar um sorvete.

Seth não se queixou, mas, enquanto chamava a seu cão e se dirigia à saída, murmurou pelo baixo que lhe tratavam como a um escravo.

—Quando tivermos mais tempo, teríamos que lhe ensinar a usar as ferramentas —comentou Ethan—. Tem boas mãos.

—Sim, mas é que queria que se fora. Ontem à noite não lhe pude contar isso O detetive conseguiu lhe seguir a pista a Glorifica DeLauter até o Nags Head.

—Assim que se dirige ao sul... —Elevou seu olhar até a do Phillip—. conseguiu localizá-la?

—Não, move-se muito e pagamento em metálico. Tem um montão de dinheiro lhe contem e lhe soem. —Apertou os lábios—. Lhe sobra para esbanjar desde que papai lhe soltou um pastón pelo Seth.

—Não parece que esteja muito interessada em retornar aqui.

—Eu diria que tem tanto interesse no menino como uma gata guia de ruas raivosa quer a um gatinho morto. —Sua própria mãe era igual, as poucas vezes que se deixava ver, recordou Phillip. Nunca tinha visto glorifica DeLauter, mas a conhecia. Desprezava-a—. Se não a encontramos —acrescentou, passando-a lata fria pela frente—, nunca vamos descobrir a verdade sobre papai e sobre o Seth.

Ethan assentiu. Sabia que para isso Phillip constituía uma missão, e sabia que, com toda probabilidade, seu irmão levava razão. Mas se preguntaha, muito freqüentemente para manter a serenidade, o que foram fazer quando conseguissem averiguar a verdade.

Os planos do Ethan depois de uma jornada de quatorze horas eram dar uma ducha infinita e tomar uma cerveja fria. Fez as duas coisas de uma vez. Tinham comprado sanduíches para o jantar, e se comeu o seu no alpendre traseiro, a sós, na suave calma do entardecer. dentro da casa, Seth e Phillip discutiam sobre que vídeo ver primeiro. Arnold Schwarzenegger se enfrentava ao Kevin Costner. Ethan já tinha apostado pelo Arnold.

Tinham um acordo tácito, pelo qual os sábados de noite Phillip se fazia cargo do Seth. Desse modo, Ethan podia escolher como passar a velada. Podia unir-se a eles, como fazia alguma vez, para uma sessão de vídeo. Podia subir a instalar-se em seu quarto com um livro, o que estava acostumado a fazer mais freqüentemente. Podia sair, o que acontecia raramente.

antes de que seu pai morrera tão de repente e de que a vida trocasse para todos eles, Ethan vivia em seu casita com sua própria e sossegada rotina. Seguia jogando a de menos, embora tratava de não sentir rancor para o jovem casal a que a tinha alugado. adoravam quão acolhedora era, e não deixavam de comentar-lhe adoravam as habitações pequenas com altos ventanales, o alpendre, as árvores que a resguardavam e lhe proporcionavam sombra e intimidade e a suave carícia da água contra a borda.

Também adorava todo isso. Agora que CAM se tinha casado e Anna ia se transladar ali, ele teria podido voltar a escapulir-se. Mas nesse momento vinha bem o dinheiro do aluguel. E, o que era mais importante, tinha dado sua palavra. Viveria ali até que as batalhas legais estivessem brigadas e ganhas, e Seth fora seu para sempre.

balançou-se na cadeira de balanço, escutando como começava o canto dos pássaros noturnos. E deveu ficar dormido, porque chegou o sonho, e chegou com claridade.

—Você sempre foste um solitário, mais que seus irmãos —comentou Ray. Estava sentado no corrimão do alpendre e se girou um pouco para poder contemplar a água se queria. Seu cabelo brilhava como uma moeda de prata na penumbra, e a constante brisa o fazia ondear livremente—. Sempre te gostou de ficar a sós com suas idéias até resolver seus problemas.

—Sabia que sempre podia ir a ti ou a mamãe. Só queria me esclarecer eu primeiro.

—E agora? —Ray se moveu para olhar a seu filho diretamente.

—Não sei. Possivelmente ainda não consegui me esclarecer. Seth se vai adaptando. Já se sente mais a gosto conosco. Durante as primeiras semanas, parecia sempre a ponto de sair fugindo. lhe perder lhe doeu quase tanto como a nós, possivelmente igual, porque tinha começado a acreditar que as coisas foram bem.

—Foi duro como teve que viver antes de que lhe trouxesse aqui. Entretanto, não foi tanto como o que te tocou passar a ti, Ethan, e sobreviveu.

—Por pouco. —Ethan tirou um de seus puros e se tomou seu tempo acendendo-o—. Às vezes ainda me volta a lembrança. A dor e a vergonha. E o suarento medo de saber o que vai ocorrer. —encolheu-se de ombros e acrescentou—: Seth é algo mais pequeno do que era eu. Acredito que já se livrou de uma parte... enquanto não tenha que enfrentar-se a sua mãe outra vez.

—Ao final terá que enfrentar-se a ela, mas não estará sozinho. Essa é a diferença. Todos vós lhe apoiarão. Sempre lhes apoiastes os uns aos outros. —Ray sorriu, seu rosto grande e amplo se enrugou em todas partes de uma vez—. E você, o que está fazendo aqui fora, sentado sozinho, um sábado de noite? Preocupa-me, filho, juro-lhe isso.

—foi um dia muito comprido.

—Quando eu tinha sua idade, meus dias eram largos, e minhas noites mais ainda. Mas se acabar de cumprir os trinta, joder. Sentar-se no alpendre em uma cálida noite de sábado em junho é para velhos. Anda, agarra o carro e vete a dar uma volta, a ver onde acaba. —Lhe piscou os olhos um olho—. Me aposto a que ambos sabemos onde vais terminar.

O estrépito repentino de gritos e disparos de arma automática fez que Ethan se sobressaltasse na cadeira de balanço. Pestanejou e olhou atentamente o corrimão do alpendre. Não havia ninguém. Claro que não havia ninguém, disse-se com um movimento rápido. Tão somente tinha dado uma cabezadita durante um minuto e lhe tinha despertado o filme de ação que estavam vendo na sala.

Mas, quando baixou o olhar, viu o puro aceso em sua mão. Confuso, ficou olhando-o. De verdade o tinha tirado do bolso e o tinha aceso em sonhos? Isso era ridículo, absurdo. Devia havê-lo feito justo antes de ficar dormido; era um costume tão arraigado que sua mente não tinha registrado os movimentos.

Entretanto, como tinha podido ficar dormido se não se sentia cansado absolutamente? De fato, sentia-se desassossego, nervoso e completamente alerta.

incorporou-se, massageando-a nuca, e estirou as pernas enquanto passeava acima e abaixo pelo alpendre. Deveria ir dentro e sentar-se a ver o filme com pipocas e outra cerveja. Enquanto se dirigia à porta, soltou uma maldição.

Não estava de humor para uma noite de sábado no cinema. iria dar uma volta no carro a ver onde terminava.

Ao Grace lhe tinham dormido os pés até os tornozelos. Os malditos saltos altos que eram parte de sua uniforme de garçonete a estavam matando.

As noites de entre semana não estavam tão mal porque, de vez em quando, havia tempo para tirar-se os um momento ou até para sentar uns minutos. Mas os sábados de noite o pub do Shiney se animava e lhe tocava fazer outro tanto.

Levou a bandeja coberta de copos vazios e cinzeiros cheios até a barra, descarregando-a com eficácia enquanto vozeava o pedido ao garçom:

—Dois brancos da casa, duas cervejas de grifo, um gim-tonic e uma lima com sifão.

Teve que gritar para fazer-se ouvir por cima do ruído da clientela e o que, com muita dificuldade, podia-se chamar música de uma banda de três pessoas que Shiney tinha contratado. Os músicos eram sempre muito maus porque o dono não queria soltar a massa para contratar a uns bons.

Mas a ninguém parecia lhe importar.

A diminuta pista de baile estava a transbordar de gente, o que a banda interpretou como um sinal para subir o volume.

Grace tinha a cabeça como um tambor grande e as costas lhe estava começando a vibrar ao ritmo do baixo.

Depois de completar o pedido, levou a bandeja pelo estreito espaço que havia entre as mesas esperando que o grupo de jovens turistas vestidos na moda lhe deixassem uma boa gorjeta. Serve-lhes com um sorriso, assentiu quando lhe disseram que o carregasse na conta e se dirigiu a outra mesa de onde a tinham chamado.

Ainda ficavam dez minutos para o descanso. Como se fossem dez anos.

—Olá, Gracie.

—Tudo bem, Curtis? Olá, Bobbie. —Tinha ido à escola com eles no passado remoto e confuso. Agora trabalhavam para seu pai envasilhando fruto do mar—. o de sempre?

—Sim, duas cervejas de grifo. —Curtis o propinó ao Grace o de sempre, um tapinha no traseiro, no que levava um laço. Ela se tinha acostumado a não tomar-lhe a sério. Vindo dele, era um gesto bastante inofensivo, inclusive uma amostra de apoio carinhoso. Alguns de quão forasteiros passavam pelo bar tinham mãos muito menos inofensivas—. Como está sua preciosa filha?

Grace sorriu, compreendendo que essa era uma das razões pelas que tolerava os tapinhas. O sempre lhe perguntava pelo Aubrey.

—Cada dia mais bonita. —Viu outra mão que se elevava de uma mesa e acrescentou—: Agora lhes trago as cervejas.

Levava uma bandeja cheia de jarras, terrinas de panchitos e copos quando Ethan entrou; a ponto esteve de cair. Ele nunca ia os sábados de noite. Às vezes se deixava cair um dia entre semana para tomar uma cerveja tranqüilamente, mas nunca quando o local estava cheio de gente e de ruído.

Deveria ter tido o mesmo aspecto que qualquer outro homem. Os jeans estavam desbotados mas limpos, levava uma singela camiseta branca metida neles, e as botas de trabalho eram velhas e estavam desgastadas. Mas ao Grace não parecia igual a outros homens, nunca o tinha parecido.

Possivelmente era seu corpo alto, magro, de membros largos e finos, que se movia tão facilmente como um bailarino pelos espaços estreitos. Possuía uma graça natural, do tipo que não se pode aprender, mas abertamente viril. Parecia que caminhasse sempre pela coberta de um navio.

Tivesse podido ser seu rosto, tão ossudo e áspero, justo no bordo da beleza. Ou os olhos, sempre tão claros e pensativos, tão sérios que demoravam uns segundos em unir-se à boca quando sorria.

Grace serve as bebidas, guardou-se o dinheiro e foi a por mais pedidos. E, pela extremidade do olho, observou-lhe fazer um sítio na barra, justo ao lado da parte dos garçons. O tão ansiado descanso lhe esqueceu por completo.

—Três cervejas de grifo, uma Mich e um vodca com gelo. —Sem dar-se conta, passou-se a mão pela franja e sorriu—. Olá, Ethan.

—Há muita gente hoje.

—Sábado do verão. Busco-te uma mesa?

—Não, aqui estou bem.

O barman estava ocupado com outro pedido, o que deixou ao Grace um minuto para relaxar-se.

—Steve está encalacrado, mas virá a esta zona rápido.

—Não tenho nenhuma pressa.

Por regra general, Ethan procurava não pensar no aspecto que tinha Grace com essa minissaia ajustada, as pernas infinitas cobertas com meias de ralo e os estreitos pés embainhados em altos saltos. Mas esse dia se encontrava em um estado de ânimo propício, assim que se permitiu pensar.

Nesse momento teria podido lhe explicar ao Seth o que ocorria com os peitos. os do Grace eram pequenos e altos, e por cima do amplo decote da blusa se divisava uma suave porção de sua curva.

de repente, Ethan desejou desesperadamente uma cerveja.

—pudeste te sentar um momento?

Ao princípio não lhe respondeu. Sua mente se ficou em branco ao observar como esses olhos tranqüilos e pensativos a passavam roçando.

—Eu, ah, pois..., sim, já quase me toca fazer o descanso. —Sentia as mãos torpes enquanto dispunha as bebidas na bandeja—. Estou acostumada ir fora, eu gosto de escapar do ruído.

Esforçando-se por atuar com naturalidade, olhou à banda pondo os olhos em branco, e se viu recompensada por um lento sorriso do Ethan.

—Há algum grupo pior que este?

—Já te digo! Este é quase o melhor. —Quando levantou a bandeja e se dirigiu às mesas, Grace quase tinha conseguido relaxar-se de novo.

Ethan a olhou enquanto se tomava a cerveja que Steve lhe tinha servido. Observou como se moviam suas pernas, como esse laço ridículo e totalmente sexy se balançava ao mesmo tempo que os quadris. E como dobrava os joelhos, mantendo a bandeja em equilíbrio, enquanto deixava as bebidas na mesa.

Observou, com os olhos entreabridos, como Curtis lhe deu outra amistosa palmada.

Seus olhos se fecharam ainda mais quando um estranho com uma velha camiseta do Jim Morrison lhe agarrou a mão, atraindo-a para si. Viu como Grace lhe respondia com um sorriso e um movimento negativo de cabeça. Ethan já estava afastando-se da barra, sem ter muito claro o que era o que ia fazer, quando o estranho a soltou.

Quando Grace retornou com a bandeja, foi Ethan quem lhe agarrou a mão.

—Tome o descanso agora.

—Como? Eu... —Para sua surpresa, Ethan a empurrou firmemente pelo local—. Ethan, seriamente, tenho que...

—Tome o descanso agora —repetiu, e abriu a porta de um empurrão.

Fora, na noite cálida, o ar era limpo e fresco e soprava a brisa. Assim que a porta se fechou a suas costas, o ruído se amorteceu até um apagado rugido e o vapor da fumaça, o suor e a cerveja se converteu em uma lembrança.

—Não acredito que deva trabalhar aqui.

Lhe olhou boquiaberta. por si só, a afirmação era já estranha, mas lhe ouvir pronunciá-la em um tom obviamente irritado a confundiu.

—Como?

—Já me ouviste, Grace. —meteu-se as mãos nos bolsos porque não sabia o que fazer com elas. Se as tivesse deixado livres, possivelmente a tivessem agarrado de novo—. Não está bem.

—Que não está bem? —repetiu sem compreender.

—Tem uma filha, Por Deus. O que faz servindo taças, com esse conjunto, para que os clientes lhe atirem os discos? Esse tipo virtualmente tinha a cara em seu decote.

—Não, não a tinha. —A meio caminho entre a graça que o fazia e a exasperação que lhe produzia, Grace moveu a cabeça em sentido negativo—. Por Deus bendito, Ethan, era o de sempre. E completamente inofensivo.

—E Curtis te pôs a mão no culo.

A graça se estava convertendo em aborrecimento.

—Já sei onde pôs a mão, e se me tivesse suposto um problema, a teria afastado de um golpe.

Ethan tomou fôlego. Tinha começado aquela cena, com melhor ou pior acerto, e tinha que terminá-lo.

—Não deveria trabalhar médio nua em nenhum bar, tendo que apartar a golpes as mãos de seu culo. Teria que estar em casa com o Aubrey.

Os olhos do Grace passaram de uma leve irritação a uma fúria acesa.

—Ah, sim? Seriamente? Essa é sua meditada opinião? Bom, não sabe como te agradeço que me tenha feito isso saber. E, para que saiba, se não trabalhasse, e não trabalho médio nua, não teria uma casa em que viver.

—Já tem um trabalho —insistiu ele teimosamente—. Limpando casas.

—Isso. Limpo casa, sirvo taças e de vez em quando limpo caranguejos. Para que veja o assombrosamente habilidosa e versátil que sou. Também pago o aluguel, o seguro, as faturas do médico, o gás, a água e a luz, e uma canguru. Compro comida, compro roupa, gasolina. Cuido de minha filha e me cuido . E não necessito que você venha a me dizer o que não está bem.

—Quão único digo...

—Já sei o que diz. —Palpitavam-lhe os pés e ia notando a dor em seu fatigado corpo. Pior, muito pior, era o duro aguilhão de vergonha por esse olhar de desprezo sobre como ganhava a vida—. Sirvo taças e sotaque que os homens me olhem as pernas. Se gostarem, ao melhor deixam melhores gorjetas. E se me deixam isso, igual lhe posso comprar a minha filha algo que a faça feliz. Assim podem olhar tudo o que lhes agrade. E oxalá tivesse o corpo ideal para luzir este estúpido uniforme, porque então tiraria mais dinheiro.

Ethan teve que fazer uma pausa antes de falar para esclarecê-las idéias. O rosto dela estava vermelho de fúria, mas tinha os olhos tão fatigados que ao Ethan lhe rompeu o coração.

—Vende-te por pouco, Grace —disse brandamente.

—Sei exatamente o que valho, Ethan. —Girou o queixo e acrescentou—: Até o último céntimo. Me acabou o descanso.

deu-se a volta sobre os saltos que a estavam amassando e, com passo irado, retornou ao ruído e à atmosfera carregada de fumaça.

 

—Necessito coelhinho também.

—Sim, carinho, iremos também com seu coelhinho.

Sempre era uma expedição, pensou Grace. Só foram até a gaveta de areia do pátio traseiro, mas Aubrey não deixava de pedir que a acompanhassem todos seus amigos de peluche.

Grace havia resolvido esse problema logístico com uma enorme bolsa da compra em que havia um urso, dois cães, um peixe e um vapuleado gato, aos que se uniu o coelhinho. Embora a jovem sentia os olhos como cheios de areia pela falta de sonho, sorriu ampliamente quando sua filha tentou elevar a bolsa ela sozinha.

—Eu os levo, minha vida.

—Não, eu.

Era a frase preferida da menina, pensou Grace. A sua filha gostava de fazer as coisas ela mesma, inclusive quando teria sido mais singelo deixar que outra pessoa as fizesse. Ou seja a quem saía, pensou Grace burlando-se de ambas.

—Vale, levemos a turma fora.

Abriu a porta, que chiou ruidosamente, lhe recordando que tinha que engordurar as dobradiças, e esperou enquanto Aubrey cruzava a soleira e saía ao diminuto alpendre traseiro arrastando a bolsa.

A jovem tinha conseguido animar o alpendre pintando o de uma cor azul suave e colocando vasos de barro de barro com gerânios brancos e rosas. Não queria que sua casa parecesse uma proteção temporária, embora o fora. Queria que fora um lar, ao menos até que tivesse economizado o suficiente para dar a entrada de uma casa própria.

No interior, os quartos eram mas bem pequenos, mas havia resolvido esse problema, para alívio de sua conta bancária, comprando só o mobiliário essencial. Quase todos os móveis que possuía procediam de saldos de segunda mão, mas os tinha pintado e restaurado, ou lhes tinha trocado a tapeçaria, até fazê-los seus.

Para ela era vital possuir algo próprio.

A casa tinha uns encanamentos antediluvianos, no telhado havia goteiras e pelas janelas penetrava o vento. Mas havia dois dormitórios, algo muito importante para o Grace. Queria que sua filha tivesse um quarto próprio, um lugar alegre e acolhedor. ocupou-se ela mesma, empapelando as paredes, pintando uma sianinha e colocando umas cortinas coquetes.

Lhe rompia o coração ao pensar que se aproximava o momento de substituir o berço de sua menina por uma camita.

—Cuidado de baixar —advertiu, e Aubrey começou a descender, plantando firmemente ambos os piececitos, calçados em sapatilhas esportivas, em cada degrau. Quando chegou abaixo, a menina pôs-se a correr, arrastando a bolsa detrás de si e chiando iludida.

adorava a gaveta de areia. Grace se sentia muito orgulhosa quando a via sair disparada para ali. Tinha-o construído ela mesma, reciclando madeira velha que tinha lixado meticulosamente até deixá-la suave e que logo tinha pintado de uma cor vermelha viva. Nele estavam os cubos e as pás e os grandes carros de plástico, mas sabia que Aubrey não tocaria nada até ter tirado tudo seus mascotes de peluche.

Algum dia, Grace se prometeu a si mesmo, sua filha teria um cachorrinho de verdade e um quarto de jogo onde poderia receber aos amiguitos que a visitassem para passar as largas tardes de chuva.

Grace se agachou enquanto Aubrey colocava seus brinquedos cuidadosamente na areia branca.

—Você se sinta aqui e joga enquanto eu curto a grama. Promete-me isso?

—Vale. —Aubrey lhe lançou um alegre sorriso com suas covinhas bem marcados—. Você joga.

—dentro de um ratito. —Acariciou os cachos de sua filha. Não se cansava nunca de acariciar a esse milagre que tinha surto dela. antes de incorporar-se, jogou um olhar ao redor, esquadrinhando com olhos de mãe qualquer sinal de perigo.

O pátio estava cerca e ela mesma tinha colocado na porta um ferrolho a prova de meninos. Ao Aubrey dava de bisbilhotar. Sobre a cerca que separava seu pátio do dos Cutter corria uma planta trepadeira que para finais do verão estaria coberta de flores.

Notou que não havia movimento na casa do lado. Era domingo pela manhã, e muito cedo para que seus vizinhos fizessem algo mais que vadiar pensando no café da manhã. Julie Cutter, a filha maior, era seu apreciadísima canguru.

deu-se conta de que Irene, a mãe da Julie, tinha estado trabalhando no jardim no dia anterior. Não se via nenhuma só má erva nos arriates nem no huertecito.

Com certa vergonha, Grace jogou uma olhada à parte traseira do pátio, onde sua filha e ela tinham plantado tomates, feijões e cenouras. Aí sim que havia más ervas, pensou com um suspiro. Teria que ocupar-se delas depois de cortar a grama. Só Deus sabia por que tinha pensado que ia dispor de tempo para cuidar de um horta. Mas tinha sido muito divertido cavar a terra e plantar as sementes com sua menina.

Tão divertido como seria meter-se na gaveta com sua filha, fazer castelos de areia e jogar a imaginar. Mas não, disse-se enquanto se incorporava. A erva lhe chegava quase aos tornozelos. Pode que fora erva alugada, mas agora era dela e era sua responsabilidade. Que ninguém pudesse dizer que Grace Monroe não era capaz de cuidar o que era dele.

Guardava a velha cortadora sob um tecido igualmente velho. Como de costume, olhou primeiro o nível de gasolina, jogando outra olhada a suas costas para assegurar-se de que sua filha seguia na gaveta. Agarrando o cordão de arranque com as duas mãos, deu-lhe um puxão. E o único que obteve como resposta foi uma tosse asmática.

—Venha, não me faça perder o tempo esta manhã. —Já não se lembrava de quantas vezes lhe havia meio doido arrumar o velho aparelho, enredando nele ou a golpes. Relaxando os doloridos ombros, voltou a atirar, e logo outra vez, antes de deixar que o cordão retrocedesse e levá-los dedos aos olhos—. É que sabia.

—Problemas?

Voltou a cabeça bruscamente. Depois da discussão da noite anterior, Ethan era a última pessoa a que esperava ver em seu jardim. Não lhe agradava, em particular porque tinha decidido que seguiria furiosa com ele. Além disso, era consciente de seu aspecto: levava umas velhas calças curtas cinzas, uma camiseta muito lavada, o cabelo despenteado e nenhuma gota de maquiagem.

Maldita seja, vestiu-se para trabalhar no jardim, não para receber visitas.

—Me posso arrumar isso eu sozinha. —Atirou de novo apoiando o pé, calçado em uma sapatilha com um buraco no dedo, a um lado do aparelho. Quase conseguiu que arrancasse, quase.

—Deixa-o descansar um momento. Assim o vais afogar. —Essa vez o cordão retrocedeu com um assobio perigoso.

—Sei como arrancar minha cortadora.

—Não o ponho em dúvida, quando não está furiosa. —Ethan se aproximou enquanto falava, magro e cômodo em sua virilidade, vestido com uns jeans usados e uma camisa de trabalho arregaçada até os cotovelos.

Ao não receber resposta quando bateu na porta, tinha dado a volta até a parte traseira. E sabia que se ficou contemplando-a um pouco mais do que era estritamente educado. Grace se movia tão bem...

Em algum momento da inquieta noite, tinha chegado à conclusão de que mais lhe valia encontrar uma forma de emendar as coisas com ela. E tinha passado boa parte da manhã tentando decidir como fazê-lo. Então a viu, com esses membros largos e esbeltos que o sol tinha tornada cor oro pálido, o cabelo claro, as finas mãos... E desejou seguir observando.

—Eu não estou furiosa —replicou Grace com um vaio impaciente que provava a mentira de sua afirmação. O se limitou a olhá-la aos olhos.

—Escuta, Grace...

—Eeeethan! —Com um chiado de puro gozo, Aubrey saiu de um salto da gaveta de areia e correu para ele, a toda velocidade, com os braços estendidos e a cara iluminada pela alegria.

O a apanhou e lhe deu umas voltas.

—Olá, Aubrey.

—Vêem jogar.

—Bom, eu...

—Beijo. —Franziu seu boquita com tal energia que ele riu e lhe deu um carinhoso beijo—. Vale! —escorreu-se de seus braços e correu de volta à areia.

—Olhe, Grace, lamento se ontem à noite me passei.

O fato de que o coração lhe tivesse derretido ao ver abraçar a sua filha só fortaleceu sua determinação de manter-se firme.

—Se te passou?

Ethan moveu os pés, claramente incômodo.

—Só queria dizer que...

A explicação se viu interrompida pelo Aubrey, que voltava correndo com seus queridos cães de peluche.

—Beijo —exigiu firmemente enquanto tendia os braços ao Ethan. Este o deu, e a menina se foi de novo correndo.

—O que queria dizer é...

—Acredito que disse o que queria dizer, Ethan.

ia mostrar se obstinada, pensou ele com um suspiro interno. Bom, sempre o tinha sido.

—Não o disse muito bem. A maior parte do tempo me enredo com as palavras. Ódio verte trabalhar tão duro. —Fez uma pausa, paciente, quando Aubrey retornou pedindo um beijo para seu urso—. É que me preocupo com ti, isso é tudo.

Grace inclinou a cabeça.

—por que?

—Que por que? —Pergunta-a lhe deixou perplexo. agachou-se a beijar o coelhinho de peluche com o que Aubrey lhe dava na perna—. Bom, eu..., porque...

—Porque sou mulher? —sugeriu ela—, porque sou mãe solteira?, porque meu pai pensa que sujei a honra do nome familiar, não só por ter tido que me casar mas também por me haver divorciado?

—Não. —aproximou-se um passo mais a ela, beijando ao gato que Aubrey lhe tendia—. Porque faz mais de meia vida que te conheço e isso faz que seja parte dela. E porque talvez seja muito orgulhosa ou teimosa para te dar conta de quando alguém só deseja que as coisas lhe resultem um pouco mais fáceis.

Grace notou que se abrandava, estava a ponto de lhe dizer que o agradecia. E nesse momento ele o danificou.

—E porque eu não gostei de ver como lhe sovavam esses homens.

—me sovar? —As costas lhe pôs rígida e tirou o queixo—. Esses homens não me estavam sovando, Ethan. E se o fazem, sei como responder.

—Não te suba pelas paredes outra vez. —arranhou-se o queixo e lutou para não suspirar. Não sabia por que se incomodava em discutir com uma mulher, não havia forma de ganhar—. Só vim a te dizer que o sinto e que talvez eu poderia...

—Beijo! —exigiu Aubrey enquanto tratava de subir por sua perna.

De forma instintiva, Ethan a elevou, agarrou-a em braços e a beijou na bochecha.

—O que ia dizer...

—Não, beijo mamãe. —Saltando em seus braços, Aubrey lhe apertou os lábios para fazer que se franzissem—. Beijo mamãe.

—Aubrey! —Humilhada, Grace elevou os braços para agarrar a sua filha, mas esta se aferrou à camisa do Ethan como um pequeno ouriço dourado—. Deixa em paz ao Ethan!

Trocando de estratégia, a menina reclinou a cabeça no ombro do Ethan e sorriu docemente, aferrando-se com um braço a seu pescoço como uma planta trepadeira enquanto sua mãe atirava dela.

—Beijo mamãe —insistiu cantarolando enquanto olhava ao Ethan movendo as pestanas seductorarnente.

Se Grace o tivesse tomado a brincadeira em lugar de mostrar-se tão envergonhada, além de um pouco nervosa, Ethan tivesse podido simplesmente lhe roçar a frente com os lábios e assunto resolvido. Mas se tinha posto tinta, resultava íntimo. Não olhava aos olhos e respirava entrecortadamente.

Viu como ela se mordia o lábio inferior e decidiu que podia resolver o assunto de um modo totalmente distinto.

Com a menina entre ambos, colocou uma mão em um dos ombros do Grace.

—É mais fácil assim —sussurrou, e roçou os lábios dela com os seus.

Mas não foi mais fácil. o coração lhe deu um salto. Apenas se podia considerar um beijo, pois tinha terminado quase antes de começar. Não era mais que um suave roce dos lábios, apenas um momento para saborear a textura. E um sopro de uma promessa que lhe fez desejar, desesperadamente, o impossível.

Em todo o tempo desde que a conhecia, Ethan nunca havia meio doido a boca do Grace com a sua. Nesse momento, com apenas essa tênue amostra, perguntou-se por que tinha esperado tanto. E começou a lhe preocupar que essa idéia o trocasse tudo.

Aubrey aplaudiu encantada, mas ele não o ouviu. Os olhos do Grace, desse verde líquido e um pouco brumoso, estavam posados nos seus. E seus rostos estavam próximos. Tão próximos que ele logo que tinha que inclinar-se um pouco se queria voltar a provar... para ficar mais tempo essa vez, pensou, enquanto ela abria os lábios para exalar um tremente suspiro.

—Não, eu! —Aubrey lhe plantou a suave boquita a sua mãe na bochecha e logo ao Ethan—. Vêem jogar.

Grace retrocedeu bruscamente como uma marionete a que lhe tivessem atirado das cordas de repente. A sedosa nuvem rosa que tinha começado a lhe nublar o cérebro se evaporou.

—Em seguida, carinho. —Movendo-se com rapidez, arrebatou-lhe a menina dos braços ao Ethan e a deixou no estou acostumado a—. vá fazer um castelo no que possamos viver. —O propinó um suave tapinha no traseiro que a mandou correndo para a areia. Depois se esclareceu garganta e disse—: É muito bom com ela, Ethan. Agradeço-lhe isso.

O decidiu que onde melhor podiam estar suas mãos, nessas circunstâncias, era nos bolsos. Não sabia exatamente o que fazer com o veemente desejo que sentia nelas.

—É uma delícia. —Deliberadamente, voltou-se a contemplar à menina em sua gaveta vermelha.

—E bastante travessa. —Tinha que recuperar a compostura, disse-se Grace, e a seguir fazer o que devia—. Ethan, por que não nos esquecemos de ontem à noite? Estou segura de que o disse com a melhor intenção. A realidade não é sempre o que escolhemos ou o que nós gostaríamos que fora.

O se voltou lentamente e seus olhos tranqüilos se centraram no rosto dela.

—O que é o que você quer, Grace?

—O que quero é que Aubrey tenha um lar e uma família. Acredito que estou bastante perto de obtê-lo.

Ethan sacudiu a cabeça.

—Não. O que é o que deseja para o Grace?

—Além dela? —Jogou um olhar a sua filha e sorriu—. Já nem me lembro. Agora mesmo o que quero é ter a grama talhada e o horta limpo de más ervas. Agradeço-te que tenha vindo. —voltou-se para lhe dar outro puxão ao cordão de arranque—. Amanhã me passo por sua casa.

ficou muito quieta quando a mão dele se posou sobre a sua.

—Eu cortarei a erva.

—Posso fazê-lo eu.

Ele pensou que nem sequer era capaz de arrancar o puñetero aparelho, mas teve a sensatez suficiente para não mencioná-lo.

—Não hei dito que não possa, hei dito que o farei eu.

Grace não podia voltar-se, não podia arriscar-se a provar o efeito que teria encontrar-se de novo tão perto, cara a cara.

—Você tem coisas que fazer.

—Grace, vamos estar aqui todo o dia discutindo quem vai cortar a grama? Para quando terminarmos, eu teria podido cortá-lo duas vezes e você poderia estar salvando seus feijões da invasão de más ervas.

—ia ocupar me delas. —Grace falava com um fio de voz. Ambos se achavam inclinados, separados tão somente por uns centímetros. O impulso de puro desejo animal que sentiu para ele a deixou consternada.

—Faz-o agora —murmurou ele, desejando que se afastasse. Se não o fazia, e rápido, não poderia seguir contendo-se e a tocaria. Tocaria-a de um modo ao que não tinha direito.

—De acordo. —Grace se apartou, movendo-se de lado enquanto o coração lhe golpeava nas costelas como um coelho dando patadas—. Lhe agradeço isso, muito obrigado. —mordeu-se o lábio com dureza, porque ia ficar a balbuciar. Empenhada em comportar-se com naturalidade, voltou-se com um pequeno sorriso—. Deve ser o carburador outra vez. Tenho algumas ferramentas.

Sem responder, Ethan agarrou o cordão com uma mão e atirou forte dele duas vezes. O motor ficou em marcha com um estranho rugido.

—Parece que assim vale —comentou brandamente quando viu que os lábios dela se apertavam de frustração.

—Sim, isso parece. —Tratando de não sentir-se irritada, dirigiu-se rapidamente a sua pequeno horta.

E se inclinou, pensou Ethan enquanto ele começava a cortar a primeira fileira. inclinou-se com essas finas calças de algodão de um modo que lhe obrigou a respirar lenta e cuidadosamente.

Ela não tinha nem idéia, pensou ele, pelo que tinha suposto para seus hormônios, normalmente tão disciplinadas, ter seu lindo traseiro apertado contra ele. O que o fazia à temperatura de seu sangue, normalmente moderada, ter essas largas pernas nuas roçando as suas.

Grace podia ter uma filha, um fato que ele tratava de recordar sempre para afastar escuros e perigosos pensamentos, mas, a seu modo de ver, era quase tão inocente e tão ingênua como quando tinha quatorze anos; quando ele tinha começado a ter aqueles pensamentos escuros e perigosos sobre ela.

Tinha conseguido não levá-los a prática. Por Deus bendito, se ela não era mais que uma menina. E um homem com seu passado não tinha direito a tocar a alguém tão puro, assim que se contentou sendo amigo dele. Acreditou que poderia seguir sendo seu amigo e nada mais. Mas, ultimamente, esses pensamentos lhe assaltavam mais freqüentemente e com mais força. estavam-se fazendo difíceis de controlar.

Ambos tinham suficientes complicações em suas vidas, recordou-se a si mesmo. Só ia cortar lhe a grama, possivelmente até a ajudaria a tirar as más ervas. Se ficava tempo, ofereceria-se às levar a povo para tomar um sorvete. Ao Aubrey gostava o de morango.

Depois tinha que ir ao estaleiro e ficar a trabalhar. E, como além lhe tocava cozinhar, tinha que pensar no pequeno problema do menu.

Mas, tivesse uma filha ou não, pensou quando Grace se inclinou para tirar de um puxão um dente de leão que resistia, possuía umas pernas assombrosas.

Grace sabia que não tivesse devido deixar-se convencer para ir à cidade, nem sequer para um sorvete rápido. Só isso significava alterar seu programa para a jornada, arrumar-se um pouco mais que para trabalhar no jardim e passar mais tempo em companhia do Ethan, quando ela se sentia muito consciente de suas necessidades.

Mas ao Aubrey adorava essas pequenas expedições especiais, assim não podia negar-se.

Só havia uma milha até a cidade, mas a paisagem trocava de uma vizinhança tranqüila ao matizado porto. Agora as lojas de presentes e lembranças permaneceriam abertas sete dias à semana para aproveitar a temporada turística estival. Casais e famílias passeavam com bolsas cheias de lembranças que levar-se a casa.

O céu era azul brilhante e se refletia na baía, convidando aos navios a deslizar-se por sua superfície. Um par de marinheiros novatos tinham enredado as cordas de seu pequeno veleiro Sunfish, deixando que as velas se afrouxassem. Mas parecia que o estavam passando de maravilha a pesar do pequeno percalço.

Grace cheirava o pescado frito, os doces que se derretiam, o enjoativo aroma de coco dos protetores revestir e, sempre, sempre, o aroma úmido da água.

Tinha crescido nesse porto, contemplando os navios e navegando neles. Tinha deslocado livremente pelos moles, entrando e saindo das lojas. Tinha aprendido a cortar caranguejos junto a sua mãe, e adquirido a habilidade e velocidade necessárias para extrair a carne, esse prezado produto que se envasilhava para exportá-lo a todo mundo.

O trabalho não lhe resultava alheio, mas sempre se havia sentido livre. Sua família vivia bem, embora sem luxos. Seu pai não desejava estragar a suas mulheres as mimando em excesso, mas sempre tinha sido amável e carinhoso, apesar de suas manias. E nunca tinha demonstrado sentir-se decepcionado por ter tido só uma filha, em lugar de filhos que perpetuassem seu sobrenome.

Ao final, lhe tinha decepcionado de todas formas.

Grace equilibrou a sua filha no quadril e lhe fez alguns mímicos.

—Há muita gente hoje —comentou.

—Parece que cada verão há mais. —Mas Ethan se encolheu de ombros. Necessitavam às multidões veraniegas para sobreviver no inverno—. Me hão dito que Bingham vai ampliar e pôr mais elegante o restaurante para atrair a uma maior clientela durante todo o ano.

—Bom, agora tem esse cozinheiro do norte, e conseguiu que saísse um artigo sobre seu local na revista do Washington Post. —Grace moveu ao Aubrey em seu quadril—. O Descanso da Garceta é o único restaurante fino de por aqui. lhe dar um toque de elegância deveria ser bom para a cidade. Sempre íamos ali para jantar para celebrar as ocasiões especiais.

Baixou ao Aubrey, tratando de não lembrar-se de que não tinha visto o interior de um restaurante nos últimos três anos. Tomou a sua filha da mão e se deixou arrastar implacavelmente para o Crawford.

Era outro dos lugares emblemáticos da cidade, o sítio para tomar um sorvete ou um refresco e comprar sándwiches para levar. Como era a hora de comer, estava cheio de clientes. Grace se obrigou a não danificar as coisas mencionando que deveriam tomar um sándwich em lugar de um sorvete.

—Olá, Grace, Ethan. Olá, Aubrey, preciosa. —Liz Crawford lhes lançou um grande sorriso enquanto preparava diestramente um sándwich de embutido. Tinha sido companheira de escola do Ethan e tinham saído juntos durante um período breve que ambos recordavam com carinho.

Agora era a robusta e sardenta mãe de dois meninos, e estava casada com Júnior Crawford, assim chamado para lhe distinguir de seu pai, Senior.

Júnior, fraco como um aspargo, assobiava entre dentes enquanto se ocupava de cobrar. Saudou-lhes escuetamente.

—Muito trabalho —comentou Ethan, esquivando o cotovelo de um cliente no mostrador.

—Já te digo! —Liz pôs os olhos em branco, envolveu com habilidade o sándwich em papel branco e o passou, junto com outros três, por cima do mostrador—. Querem um sándwich?

—Gelado —respondeu Aubrey rotundamente—. Fresa.

—Bom, passa e lhe diga a mamãe Crawford o que quer. Ah, Ethan, Seth esteve por aqui recentemente com o Danny e Will. Esses meninos crescem como a má erva, juro-lhe isso. levaram-se um montão de sándwiches e refrescos. Hão dito que estavam trabalhando em seu estaleiro.

Ethan sentiu um espiono de culpa, sabendo que Phillip não estava só trabalhando a não ser jogando um olho aos três guris.

—Eu vou para lá dentro de um momento.

—Ethan, se não ter tempo para isto... —começou Grace.

—Dá-me tempo a tomar um sorvete com uma garota bonita. —Com essas palavras, elevou ao Aubrey e deixou que apertasse o nariz contra o cristal do congelador no que estavam as cubetas dos distintos sabores de sorvete artesão.

Liz tomou o seguinte pedido enquanto olhava a seu marido movendo as sobrancelhas de forma muito expressiva como dizendo: «Ethan Quinn e Grace Monroe, bom, bom, o que te parece?».

Agarraram seu sorvete e se dirigiram fora, onde a brisa que saía da água era cálida, e foram caminhando afastando da multidão até encontrar um dos bancos de ferro pelos que tinham feito campanha os anciões da cidade. Com um punhado de guardanapos de papel na mão, Grace se colocou ao Aubrey no regaço.

—Lembrança quando vinha aqui e conhecia todas as pessoas que via —murmurou Grace—. Mamãe Crawford estava acostumado a estar depois do mostrador lendo um livro de bolso. —Notou que o sorvete do Aubrey lhe tinha manchado a perna, mais abaixo da calça, e se limpou—. Carinho, come pelos borde antes de que se desfaça.

—Você também tomava sempre sorvete de morango.

—O que?

—Segundo lembrança —comentou Ethan, surpreso de que a imagem se mantivera tão nítida em sua mente—, preferia o de morango. E o refresco de uva.

—Suponho que sim. —Ao inclinar-se a limpar mais manchas de sorvete, ao Grace lhe deslizaram os óculos de sol pelo nariz—. Todo parecia singelo se podia desfrutar de um sorvete de morango e um refresco de uva.

—Há coisas que seguem sendo singelas. —Como ela tinha as mãos ocupadas, Ethan lhe empurrou os óculos para cima, e lhe pareceu apreciar um espiono de algo em seus olhos depois dos escuros cristais—. Outras, não.

Dirigiu seu olhar para a água enquanto se concentrava em comer o sorvete. Uma idéia melhor, decidiu, que contemplar como Grace comia o seu lentamente, com grandes lametones.

—Estávamos acostumados a vir algum domingo, de vez em quando —recordou—. Nos colocávamos todos no carro e vínhamos à cidade para tomar um sorvete ou um sándwich, ou simplesmente para ver o que acontecia. A mamãe e papai gostavam de se sentar em uma das mesas com sombrinha da cafeteria e tomar um refresco de limão.

—Ainda os sinto falta de —comentou Grace brandamente—. Sei que você também. Aquele inverno que tive a pneumonia, lembro-me de minha mãe e da tua. Dava-me a impressão de que, cada vez que despertava, encontrava a meu lado à uma ou à outra. A doutora Quinn era a pessoa mais bondosa que conheci. Minha mãe...

interrompeu-se, movendo a cabeça.

—O que?

—Não quero que se sinta triste.

—Não se preocupe, continua.

—Minha mãe vai ao cemitério cada ano na primavera para pôr flores em sua tumba. Eu a acompanho. Até a primeira vez que fomos, não me tinha dado conta de quanto queria minha mãe à tua.

—Não sabia quem punha as flores. Me alegro se soubesse. O que se comenta..., o que algumas pessoas andam dizendo sobre meu pai teria feito que ela tirasse seu temperamento irlandês, e já teria calado alguma boca.

—Esse não é seu estilo, Ethan. Você tem que arrumar esse assunto a sua maneira.

—Ambos quereriam que fizéssemos o que fora melhor para o Seth. Isso é o mais importante.

—Já estão fazendo o que é melhor para ele. Cada vez que o vejo, parece-me mais depravado. Quando chegou estava muito triste. Seu pai estava tratando de fazer algo a respeito, mas tinha problemas próprios. Já sabe quão preocupado andava, Ethan.

—Sim. —Então o sentido de culpa lhe pesou como uma laje no mais profundo de seu coração—. Sei.

—Agora te hei posto triste. —voltou-se para ele, de modo que seus joelhos chocaram—. O que lhe preocupasse não tinha que ver contigo. Você foi uma luz intensa e firme em sua vida, isso se via.

—Se lhe tivesse feito mais pergunta... —começou Ethan.

—Não é seu estilo —repetiu ela, e, esquecendo que tinha a mão pegajosa, acariciou-lhe a bochecha—. Sabia que lhe contaria isso quando estivesse preparado para fazê-lo, quando pudesse fazê-lo.

—E logo foi muito tarde.

—Não, nunca o é. —Seus dedos se deslizaram ligeiramente pela bochecha do Ethan—. Sempre há uma oportunidade. Eu acredito que não poderia viver, dia detrás dia, se não acreditasse que sempre há uma oportunidade. Não se preocupe —acrescentou com suavidade.

Ethan sentiu que algo se movia em seu interior e elevou a mão para cobrir a dela com a sua. Algo se deslizava e abria. Nesse momento, Aubrey deixou escapar um chiado de alegria selvagem.

—Avô!

Grace apartou a mão bruscamente e logo a deixou cair como uma pedra. Toda a calidez que tinha fluido dela se esfriou. Endireitou os ombros e os esticou ao tempo que se voltou para diante e viu aproximar-se de seu pai.

—Aqui está meu muñequita. Vêem com o avô.

Grace deixou ir a sua filha e a viu correr até que seu pai a abraçou. O não se alterou ante as mãos pegajosas e os lábios sujos. riu, abraçou-a e correspondeu ao generoso beijo da menina com um bem sonoro.

—Mmm, morango, que rico! —Fez ruídos como se se comesse a bochecha do Aubrey até que a menina deu um chiado de prazer. Depois, a colocou com facilidade no quadril e salvou a pequena distância que havia até onde se achava sua filha. Já não sorria.

—Grace, Ethan, dando um paseíto de domingo?

A garganta do Grace estava seca e lhe ardiam os olhos.

—Ethan convidou a um sorvete.

—Ah, muito bem.

—Agora o tem posto você também —comentou Ethan com a esperança de relaxar parte da tensão que se mascava no ambiente.

Pete se olhou a camisa, onde Aubrey tinha deixado restos de seu sorvete.

—A roupa se lava. Ethan, desde que começaram a trabalhar nesse navio, não te vê freqüentemente no porto um domingo.

—Hoje vou começar mais tarde. O casco está terminado, e a coberta, quase.

—Que bem, isso está muito bem. —Fez um gesto de sincera satisfação e depois se dirigiu a sua filha—. Sua mãe está na cafeteria. Quererá ver sua neta.

—Vale, eu...

—Já me levo isso eu —interrompeu ele—. Você pode ir a casa quando quiser e sua mãe lhe levará isso dentro de uma hora ou dois.

Grace tivesse preferido que a esbofeteasse a que a falasse com esse tom distante e cortês. Mas assentiu, pois Aubrey já estava tagarelando sobre sua avó.

—Adeus! Adeus, mamãe. Adeus, Ethan —se despediu a menina, olhando atrás sobre o ombro de seu avô ao tempo que lhes lançava ruidosos beijos.

—Sinto muito, Grace. —Consciente do inadequado do comentário, Ethan tomou a mão e a encontrou rígida e fria.

—Não importa. Não pode importar. E além ele quer ao Aubrey, adora-a. Isso é quão único importa.

—Não é justo para ti. Você pai é um homem bom, mas não foi justo contigo.

—Decepcionei-lhe. —ficou em pé, limpando-as mãos rapidamente com os guardanapos com as que tinha feito uma bola—. Esse é a essência da questão.

—Não é mais que seu orgulho, que se dá de batidas contra o teu.

—Talvez. Mas meu orgulho é importante para mim. —Atirou os guardanapos em um cesto de papéis e decidiu que aí concluía o assunto—. Tenho que voltar para casa, Ethan. Ficam milhares de coisas que fazer e, já que disponho de um par de horas, mais vale que as faça.

O não insistiu embora lhe surpreendeu quanto desejava fazê-lo. O mesmo odiava que lhe pressionassem e lhe dessem a lata para que falasse de seus assuntos.

—Levo-te a casa.

—Não, prefiro passear. Gosta de seriamente. Obrigado por me dar uma mão. —Conseguiu sorrir quase com naturalidade—. E pelo sorvete. Amanhã passo por sua casa. Não esqueça lhe recordar ao Seth que a roupa suja se deixa na cesta, não no chão.

afastou-se caminhando; suas largas pernas devoravam o terreno. Grace se assegurou de que estava longe antes de afrouxar o passo, antes de passar uma mão por esse coração que lhe doía apesar de que lhe ordenava que não lhe doesse.

Só havia dois homens aos que queria de verdade, e parecia que nenhum podia querê-la como ela necessitava que a quisessem.

 

Ao Ethan não importava a música quando trabalhava. De fato, seus gostos musicais eram tão amplos como ecléticos, outro presente dos Quinn. Freqüentemente a casa estava cheia de música. Sua mãe tocava muito bem o piano, e lhe jogava o mesmo entusiasmo às peças do Chopin que às do Scott Joplin. O talento musical de seu pai se expressava no violino, e esse era o instrumento pelo que Ethan se havia sentido atraído. Desfrutava com seus variados ânimos e seu pequeno tamanho.

Contudo, parecia-lhe um desperdício ter a música posta quando estava tratando de concentrar-se em uma tarefa concreta, pois normalmente aos dez minutos deixava de escutá-la. Nesses momentos, sentia-se muito mais a gosto em silêncio, mas ao Seth gostava de ter a rádio posta no estaleiro, e com o volume a batente. Assim para manter a paz, Ethan simplesmente desconectava do enloquecedor rock and roll.

O casco do navio já tinha sido calafetado e macizado, uma tarefa que requeria muitas horas de trabalho. Seth lhe tinha resultado de grande ajuda, admitiu, ao lhe proporcionar duas mãos e dois pés mais quando o necessitava. Embora o menino se queixava pelo trabalho tanto como Phillip.

Ethan desconectava disso também para manter a prudência.

Esperava terminar de cobrir a coberta antes de que Phillip chegasse para o fim de semana, cercando primeiro em uma das diagonais, e logo na outra em ângulo reto.

Com um pouco de sorte, essa semana e a seguinte poderia avançar bastante com a cabine e o camarote. Seth punha o grito no céu quando lhe tocava o lixado fino, mas o fazia bastante bem. Ethan só teve que lhe ordenar um par de vezes que repassasse partes da madeiramento do casco. Tampouco lhe importavam as perguntas do menino, embora uma vez que começava, não parava.

—Para que serve essa parte?

—É o mamparo da cabine.

—por que a tem já atalho?

—Porque queremos que solte todo o pó antes de envernizar e selar.

—E para que são todas essas outras porcarias?

Ethan fez uma pausa em sua tarefa, olhando de onde se encontrava para baixo, onde se achava o menino, que contemplava com o cenho franzido uma pilha de madeira sem cortar.

—Aí estão os laterais e o extremo da cabine, a batayola e os galões.

—Muitas peças para um navio de mierda!

—Pois vai haver muitas mais.

—E por que o tipo não compra o navio de repente?

—Melhor para nós que não o tenha feito. —Os bolsos bem forrados do cliente lhe estavam proporcionando uma base econômica a Navios Quinn—. É que gostou do outro navio que lhe construí e assim pode lhes contar a todos seus influentes amigos que lhe desenharam um navio e o construíram à mão e de forma artesanal.

Seth trocou de lixa e se aplicou de novo à tarefa. A verdade é que não lhe importava trabalhar. E gostava dos aromas da madeira, o verniz e até o do azeite de linhaça. Mas seguia sem entendê-lo.

—Costa um montão de tempo fazê-lo.

—Levamos menos de três meses. A muita gente custa um ano, e até mais, construir um navio de madeira.

Seth ficou com a boca aberta.

—Um ano! Joder, Ethan.

A sonora queixa, tão normal, fez que Ethan quase chegasse a sorrir.

—Tranqüilo, este não nos vai custar tanto. Quando voltar CAM e possa trabalhar a tempo completo, avançaremos mais rápido. E uma vez termine o curso, você pode te ocupar de grande parte das tarefas menores.

—O curso já terminou.

—Como?

—Que terminava hoje. —O sorriso do Seth era ampla e radiante—. Sou livre. Já está.

—Hoje? —Fazendo uma pausa no trabalho, Ethan franziu o cenho—. Acreditava que ficavam um par de dias.

—Não, não.

Em algum momento tinha perdido a noção do tempo, pensou Ethan. E não era próprio do Seth, ao menos ainda não, facilitar informação de forma voluntária.

—Deram-lhe as notas?

—Sim, aprovei.

—Vejamo-lo. —Ethan deixou as ferramentas e se limpou as mãos nos jeans—. Onde estão?

Seth se encolheu de ombros e seguiu lixando.

—Aí, em minha mochila. Não é para tanto.

—Vejamo-lo —repetiu Ethan.

O menino se embarcou no que Ethan chamava seu baile típico. Pôs os olhos em branco, encolheu-se de ombros e emitiu um suspiro de sofrimento. Extrañamente, não terminou com um taco, como acostumava. aproximou-se aonde tinha atirado a mochila e rebuscou nela.

Ethan se escorou a bombordo para tomar o documento que Seth lhe tendia. Ao ver a expressão rebelde do rosto do menino, compreendeu que as notícias seriam sombrias. Seu estômago se encolheu e deu um salto. O sermão de rigor, pensou suspirando para si, lhes ia resultar terrivelmente embaraçoso aos dois.

Ethan estudou o pequeno papel, uma folha impressa por ordenador, e se tornou para trás a boina para arranhá-la cabeça.

—Tudo sobressalentes?

Seth voltou a encolher-se de ombros e afundou as mãos nos bolsos.

—Sim, e o que?

—Nunca tinha visto um boletim de notas com tudo sobressalentes. Inclusive Phillip tinha vários notáveis e algum bem de vez em quando.

A vergonha e o medo a ser chamado empollón, ou um pouco igualmente horrível, surgiu-lhe de repente.

—Não é para tanto.

Elevou uma mão para receber o boletim, mas Ethan negou com a cabeça.

—E um porrete que não —replicou; logo reparou no cenho franzido do Seth e acreditou entender a razão. Sempre é duro ser distinto a outros—. Tem um bom cérebro e deveria te sentir orgulhoso dele.

—É algo que está aí, simplesmente. Não é como saber pilotar um navio ou coisas assim.

—Se tiver um bom cérebro e sabe como usá-lo, pode aprender a fazer o que for. —Ethan dobrou o papel com cuidado e o guardou no bolso. É obvio que ia presumir todo o possível—. Digo eu que teríamos que ir comprar uma pizza ou algo assim.

Confundido, Seth entreabriu os olhos.

—Mas você tinha preparado uns sándwiches cutres.. .

—Isso já não basta. A primeira vez que um Quinn tira tudo sobressalentes se merece pelo menos uma pizza. —Viu como a boca do menino se abria e se fechava e observou o gozo que saltou em seus olhos antes de que baixasse o olhar.

—Vale, isso moa.

—Pode esperar outra hora?

—Sem problema.

O menino agarrou o papel de lixa e ficou a trabalhar freneticamente. E às cegas. Seus olhos estavam deslumbrados, tinha o coração na garganta. Acontecia-lhe cada vez que um deles lhe chamava Quinn. Sabia que seu nome seguia sendo DeLauter. Tinha que pô-lo ao começo de cada tarefa que fazia na escola, não? Mas escutar ao Ethan lhe chamar Quinn fez que essa pequena llamita de esperança que Ray tinha aceso nele meses antes brilhasse um pouco mais alta.

ia se ficar. ia ser um deles. Nunca mais ia retornar ao inferno.

Por volta de que valesse a pena que lhe tivessem chamado ao despacho do Moorefield esse dia. A subdirectora lhe tinha pescado uma hora antes de que acabassem as classes. Lhe tinha feito um nó de nervos no estômago, como sempre. Mas lhe tinha ordenado que se sentasse e lhe havia dito que se sentia orgulhosa de como tinha avançado.

Que humilhante.

Vale, igual não tinha pego a ninguém nos últimos dois meses. E tinha apresentado as deveres todos os dias porque havia alguém que não deixava de lhe dar a lata para que o fizesse. Pbillip era o pior nesse aspecto. Era como se o tio fora um policial dos deveres ou algo assim, pensou Seth. E sim, tinha levantado a mão em classe de vez em quando, simplesmente porque lhe dava a vontade.

Mas que a «subdi» lhe distinguisse dessa forma... tinha-lhe dado tanta vergonha... Quase tinha desejado que lhe tivesse agarrado pelas orelhas para lhe pôr outro castigo.

Entretanto, se um punhado de estúpidos sobressalentes faziam feliz a um tipo como Ethan, pois estava bem.

Em opinião do Seth, Ethan era um tio totalmente genial. Trabalhava ao ar livre todo o dia e suas mãos tinham cicatrizes e calos bem gordos. Ao Seth parecia que lhe poderiam cravar pontas nas mãos sem que o notasse, do duras e ásperas que as tinha. Possuía dois navios que se construiu ele mesmo, e sabia tudo sobre a baía e a navegação. E não se atirava a fritada.

Dois meses atrás, Seth havia visto Solo ante o perigo na televisão, embora era uma peli cutre em branco e negro e não havia sangue nem explosões. Nesse momento pensou que Ethan era igual a esse tal Gary Cooper. Não falava muito, assim quando falava, a gente escutava. E fazia o que terei que fazer sem presumir.

Ethan também podia enfrentar-se aos maus e ganhá-los. Porque era o correto. Seth lhe tinha dado voltas a isso durante um momento e tinha chegado à conclusão de que isso é o que significava ser um herói. Alguém que fazia o correto.

De ter sido capaz de ler os pensamentos do menino, Ethan se teria assombrado e lhe teria entrado muchísima vergonha. Mas a aquele lhe dava muito bem guardar-lhe para si mesmo. Nisso, Ethan e ele se pareciam tanto como se fossem gêmeos.

Pode que ao Ethan lhe passasse pela cabeça que a pizzería logo que distava uma maçã do pub do Shiney, onde Grace estaria começando seu turno, mas não o comentou.

De todos os modos, não podia levar a menino a um bar, pensou enquanto se dirigiam às luzes brilhantes e ao ruído do Village Pizza. E seguro que Seth se queixava, e bastante, se lhe pedia que esperasse no carro uns minutos enquanto jogava uma olhada. Possivelmente Grace protestasse também se notava que estava tratando de cuidar dela.

Mais valia deixá-lo correr e concentrar-se no assunto principal. Colocou as mãos nos bolsos traseiros da calça e examinou a carta colocada na parede que havia detrás da barra.

—Do que a quer?

—Cogumelos, nem pensar. São asquerosos.

—Nisso estamos de acordo —murmurou Ethan.

—De pimiento e salsicha picante —comentou o menino em tom zombador, mas o danificou ao balançar-se um pouco em suas sapatilhas esportivas—. Se crie que pode com isso.

—Eu posso se você puder. Né, Justin —disse com um sorriso de saudação para o menino que estava detrás da barra—. nos ponha uma grande de pimiento e salsicha picante, e dois Pepsis gigantes.

—Vale. Para tomar ou para levar?

Ethan jogou uma olhada à dúzia de mesas e reservados e se deu conta de que não tinha sido o único que tinha tido a idéia de celebrar o último dia de classe com uma pizza.

—Seth, vete e safada esse último reservado daí atrás. Para tomar aqui, Justin.

—Sentem-se. Agora lhes levamos as bebidas.

Seth soltou a mochila no banco e tamborilou com os dedos na mesa ao ritmo trepidante do Hootie e os Blowfish que surgia da máquina de discos.

—vou jogar uma partida aos videojuegos —anunciou. Quando Ethan fez gesto de tirar a carteira, Seth negou com a cabeça—. Tenho dinheiro.

—Não, hoje corre de minha conta —replicou Ethan brandamente, e tirou alguns bilhetes—. É sua festa. Vete a por mudança.

—Guay. —O moço agarrou os bilhetes e saiu correndo a pelas moedas.

Enquanto Ethan se acomodava no reservado, perguntou-se como podia pensar tanta gente que passar um par de horas em uma sala ruidosa era uma forma estupenda de divertir-se. Um corro de meninos estavam tratando de ganhar uma partida nas três máquinas colocadas ao longo da parede traseira. A máquina de discos tinha trocado ao Clint Black, com seus lamentos de cantor country. Um menino pequeno que havia no reservado de atrás do seu tinha uma rabieta de cuidado e um grupo de garotas adolescentes ria a um volume que teria feito que ao Simon sangrassem as orelhas.

Que maneira de passar uma formosa noite do verão!

Então divisou a Liz Crawford com seu marido e suas duas filhas em um reservado próximo. Uma das meninas, provavelmente Stacy, pensou Ethan, falava rapidamente fazendo muitos gestos, enquanto o resto da família ria a mandíbula batente.

Eram uma unidade, pensou, possuíam sua própria ilha no meio do ruído e as luzes cambiantes. Imaginou que isso é o que significa ser uma unidade, uma família. Saber que pode te refugiar ali o troca tudo.

Entretanto, surpreendeu-lhe o puxão de inveja, e fez que se movesse incômodo no duro assento do reservado enquanto olhava carrancudo ao vazio. Tinha tomado uma decisão sobre ter uma família fazia anos e esse agudo impulso de desejo não lhe agradava.

—Mas bom, Ethan, que expressão tão feroz!

Elevou a vista enquanto deixavam as bebidas sobre a mesa frente a ele e se encontrou com os olhos pícaros de Linda Brewster.

Era muito atrativa, disso não lhe cabia dúvida. Ajustado-los jeans negros e a decotada camiseta da mesma cor se pegavam a seu bem desenvolvido corpo como uma mão de pintura fresca a um Chevrolet clássico. Fazia uma semana que tinham concluído os trâmites de seu divórcio, e então se concedeu uma manicura e um novo penteado. Suas unhas de coral roçaram a loira juba recentemente atalho, ao tempo que sorria ao Ethan.

Tinha-lhe jogado o olho fazia tempo. depois de tudo, ela levava mais de um ano separada desse desastre do Tom Brewster e uma mulher tinha que olhar por seu futuro. Ethan Quinn devia ser bom na cama. Ela intuía essas coisas. Essas grandes mãos seguro que trabalhavam a consciência... e seguro que eram atentas.

Também gostava de seu aspecto: curtido e com um toque de dureza. E esse lento sorriso, tão sexy... Quando conseguia lhe arrancar uma, te dava vontade de te lamber por antecipado.

E possuía uma forma tranqüila de fazer as coisas. Linda sabia o que se comentava sobre as águas tranqüilas. morria por saber quão profundas eram as do Ethan.

Este era plenamente consciente de aonde se dirigia o olhar de Linda, e manteve a seu bem alerta para ter uma via de escapamento. As mulheres como Linda lhe davam mais medo que um nublado.

—Olá, Linda. Não sabia que trabalhasse aqui. —De havê-lo sabido, teria evitado a pizzería como se fora a peste.

—Só estou dando uma mão a meu pai durante um par de semanas. —Estava sem branca, e seu pai, o dono do estabelecimento, havia-lhe dito que se se acreditava que ia poder viver a costa de sua mãe e dele, deixava-o claro. Que pusesse seu traseiro a batalhar—. Fazia tempo que não te via.

—Pois estive por aqui. —Oxalá se largasse. Seu perfume lhe dava desgosto.

—Contaram-me que seus irmãos e você alugastes esse velho celeiro do Claremont e que lhes dedicam a construir navios. Estava pensando em me aproximar de jogar uma olhada.

—Não há muito que ver. —Onde diabos estava o menino quando o necessitava?, perguntou-se Ethan um pouco desesperado. Quanto lhe podiam durar essas ditosas moedas?

—Dá igual, eu adoraria vê-lo. —Linda deslizou suas brilhantes unhas com o passar do braço do Ethan, ao tempo que ronronava enquanto apalpava o músculo—. Posso escapar um ratito daqui. por que não me leva ali e me ensina o que terei que ver?

Durante um momento, ao Ethan ficou a mente em branco. Ao fim e ao cabo, não deixava de ser um homem, e ela se passava a língua pelo lábio superior para atrair seus olhos. Não é que lhe interessasse, absolutamente, mas fazia muito que uma mulher não gemia sob seu corpo. E lhe parecia que Linda devia gemer como ninguém.

—tirei a máxima pontuação —disse Seth de repente afundando-se no reservado, excitado pela vitória, e agarrando sua bebida. Sorveu um pouco com a pajita e disse—: Tio, por que demora tanto a pizza? Morro de fome.

Ethan sentiu que o sangue voltava para circular por suas veias e esteve a ponto de suspirar de alívio.

—Em seguida vem.

—Bom. —Apesar da irritação que lhe produzia ser interrompida, Linda lançou um radiante sorriso a Este Seth deve ser o novo. Como te chama, precioso? Me esqueceu seu nome.

—Meu nome é Seth. —Em um instante, o menino se fez uma idéia de como era. Uma loira oca, foi seu primeiro e último pensamento. Tinha visto mais que suficientes em sua curta vida—. E você, quem é?

—Meu nome é Linda, sou uma velha amiga do Ethan. Meu pai é o dono disto.

—Guay, então igual lhes pode dizer que se dêem pressa com a pizza, que a este passo aposentamos aqui.

—Seth... —A palavra e o olhar tranqüilo do Ethan foi tudo o que fez falta para que calasse—. Seu pai segue fazendo as melhores pizzas da zona, Linda —disse Ethan com um sorriso mais relaxado—. Não se esqueça de comentar-lhe —No te preocupes. Y tú dame un toque alguna vez. —Movió la mano izquierda y añadió—: Ya soy una mujer libre.

—Não se preocupe. E você me dê um toque alguma vez. —Moveu a mão esquerda e acrescentou—: Já sou uma mulher livre.

afastou-se rebolando os quadris como um metrônomo bem engordurado.

—Cheira como esse sítio do centro comercial onde têm todas essas coisas para garotas. —Seth enrugou o nariz. Não lhe tinha cansado bem porque lhe tinha visto nos olhos uma sombra de sua mãe—. Só quer te levar a horta.

—te cale, Seth.

—Seriamente! —comentou com um encolhimento de ombros, mas alegremente deixou acontecer o tema quando Linda retornou com a pizza.

—Que aproveite! —disse-lhes, inclinando-se sobre a mesa um pouco mais do necessário se por acaso Ethan se perdeu a vista a primeira vez.

Seth agarrou uma porção e lhe deu uma dentada, sabendo de que lhe ia queimar o paladar. Os sabores estalaram em sua boca, fazendo que valesse a pena queimar-se.

—Grace faz uma pizza genial —comentou enquanto mastigava—. É inclusive melhor que esta.

Ethan se limitou a grunhir. Lembrar-se do Grace quando acabava de ter, por muito a seu pesar que fora, uma breve e suarenta fantasia com Linda Brewster, crispava-lhe os nervos.

—Pois sim. Teríamos que ver se nos faz una um dia que deva limpar e isso. Toca-lhe amanhã, não?

—Sim. —Ethan tomou uma porção, irritado porque tinha perdido o apetite quase por completo—. Isso acredito.

—Ao melhor faz uma antes de ir-se.

—Mas se já está comendo pizza hoje...

—E o que? —Seth devorou a primeira porção com a velocidade e precisão de um chacal—. Poderíamos comparar. Grace teria que abrir uma cafeteria ou algo assim, então não teria que trabalhar em todas essas coisas distintas. Não faz mais que trabalhar. quer comprar uma casa.

—Ah, sim?

—Sim. —Seth se lambeu o lado da mão por onde lhe gotejava o molho—. Uma pequena, mas tem que ter jardim, para que Aubrey possa jogar e ter um cão e isso.

  Chá contou ela todo isso?

—Claro. Perguntei-lhe por que se passava o tempo limpando casas e trabalhando no bar, e me contou que essa era a razão. E se não ganhar o suficiente, Aubrey e ela não terão uma casa própria para quando a menina comece a ir à creche. Suponho que inclusive uma casa pequena custa um montão de massa, não?

—Pois sim —respondeu Ethan brandamente. lembrava-se do satisfeito, do orgulhoso que se sentou ao comprar sua própria casa junto à água. O que tinha significado para ele saber que tinha conseguido o êxito no que fazia—. Economizar leva muito tempo.

—Grace quer ter a casa para quando Aubrey comece a ir ao colégio. Depois diz que tem que começar a economizar para poder enviar a à universidade. —riu zombador e decidiu que podia animar-se com uma terceira porção—. Jo, Aubrey é apenas um bebê, faltam milhares de anos para que vá à universidade. Isso é o que eu lhe disse —acrescentou, porque gostava que a gente soubesse que Grace e ele estavam acostumados a conversar—. Grace riu e comentou que fazia cinco minutos que ao Aubrey tinha saído o primeiro dente. Não o entendi.

—Quer dizer que os meninos crescem muito rápido. —Como não parecia que o fora a voltar o apetite, Ethan fechou a caixa e tirou alguns bilhetes para pagar a comida—. Vamos ao estaleiro e nos levamos isto. Como não tem classe amanhã, podemos lhe jogar um par de horas mais.

Jogou-lhe bastante mais de duas horas. Uma vez ficou a isso, não podia parar. Esclarecia-lhe mente, lhe impedia de dispersar-se, fazer-se perguntas, preocupar-se.

A construção do navio era uma tarefa concreta e tangível com um fim previsível. Ali sabia o que fazia, como sabia quando saía à baía.

Não existiam as zonas de sombra dos «possivelmente» e «que tal se».

Seguiu trabalhando inclusive quando Seth se fez um novelo em um lençol manchado de pintura e ficou dormido. Parecia não lhe incomodar o ruído das ferramentas, embora Ethan se perguntava como alguém podia dormir com a maior parte de uma pizza grande de pimiento e salsicha no estômago.

Começou a trabalhar nos extremos e os esquineros do camarote e a brazola da cabine, enquanto o vento noturno soprava preguiçoso pelas portas, que estavam abertas. Tinha apagado a rádio, assim agora a música era a água, com seus suaves nota que se deslizavam junto à borda.

Trabalhava lenta e cuidadosamente, embora em sua imaginação podia ver o projeto terminado. Decidiu que CAM se ocuparia da maior parte do trabalho do interior. Era o mais habilidoso dos três na marcenaria. Phillip podia ocupar-se das tarefas preparatórias, lhe dava melhor o trabalho manual do que gostava de admitir.

Se mantinham esse ritmo, calculava que podiam ter o navio preparado para navegar dentro de dois meses. O tema de calcular os benefícios e percentagens o deixava ao Phillip. O dinheiro serviria para alimentar aos advogados, o estaleiro e suas próprias panças.

por que não lhe havia dito Grace que queria comprar uma casa?

Ethan franziu o cenho, pensativo, enquanto procurava um perno galvanizado. Não era um passo muito importante para comentá-lo com um menino de dez anos? Mas, bom, a verdade era que Seth o tinha perguntado. Só lhe havia dito que não devia trabalhar tão duro, não lhe tinha perguntado por que insistia em fazê-lo.

O que tinha que fazer Grace era reconciliar-se com seu pai, pensou uma vez mais. Se ambos deixassem a um lado esse teimoso orgulho dos Monroe durante cinco minutos, poderiam chegar a um acordo. Ela se tinha ficado grávida, e não lhe cabia nenhuma dúvida de que Jack Casey se aproveitou de uma moça jovem e ingênua e que se merecia a morte por isso, mas toda isso era água passada.

Em sua família nunca se guardaram rancor, nem por coisas pequenas nem por coisas grandes. brigavam, como não, e seus irmãos e ele freqüentemente se davam uma boa surra. Mas quando terminavam, assunto concluído.

É verdade que ele tinha alimentado certo ressentimento porque CAM se foi a Europa e Phillip se transladou a Baltimore. Aconteceu justo depois da morte de sua mãe, e ele ainda se sentia muito mal. Tudo tinha trocado em um abrir e fechar de olhos, e isso lhe fez lhe dar voltas e mais voltas ao tema.

Mas, inclusive assim, nunca teria tornado as costas a seus irmãos se lhe tivessem necessitado. E sabia que eles teriam feito o mesmo.

Que Grace não pedisse ajuda e que seu pai não a oferecesse lhe parecia uma autêntica estupidez.

Jogou um olhar ao grande relógio redondo colocado na parede sobre as portas dianteiras. Idéia do Phillip, recordou, esboçando um sorriso. Lhe tinha ocorrido que tinham que calcular quantas horas jogavam, mas, por isso ele sabia, seu irmão era o único que levava a conta.

Era quase a uma, o que significava que Grace terminava no bar dentro de uma hora. Não estaria mal carregar ao Seth na caminhonete e passar-se rapidamente pelo bar. Só para... ver como foram as coisas.

Quando estava a ponto de incorporar-se, ouviu o menino gemer em sonhos.

«Por fim a pizza lhe está fazendo efeito», pensou sacudindo a cabeça. Mas imaginou que a infância não estava completa sem sua dose de dores de barriga. Descendeu, fazendo girar os ombros para desentorpecer os músculos, enquanto se aproximava do menino.

ajoelhou-se a seu lado, pô-lhe uma mão nos ombros e lhe deu uma leve sacudida. O menino se elevou pegando golpes.

O punho apertado alcançou ao Ethan em plena boca e fez que sua cabeça retrocedesse. A surpresa, mais que a dor, rápido e agudo, induziu-lhe a dizer um taco. protegeu-se do seguinte golpe e depois agarrou firmemente o braço do Seth.

—Vale já!

—me tire as mãos de cima! —Selvagem, desesperado, e apanhado ainda na garra pegajosa do sonho, Seth se debateu no ar—. me Tire as putas mãos de cima!

A compreensão lhe chegou nesse instante; foi o olhar nos olhos do Seth, um terror nu e uma ira sañuda. Ambas as coisas as tinha sentido ele uma vez, junto a um calafrio de impotência. Liberou o menino, elevando as mãos com as Palmas para fora.

—Estava sonhando. —Disse-o de forma tranqüila, sem inflexão, e ouviu como a respiração entrecortada do Seth reverberava no ar—. Te tinha ficado dormido.

O moço manteve os punhos apertados. Não recordava haver ficado dormido. lembrava-se de haver-se acurrucado enquanto escutava trabalhar ao Ethan. E o seguinte que sentiu foi que se achava de volta em um daqueles quartos escuros, de aromas azedos e muito humanos, e que os ruídos procedentes do quarto do lado eram muito fortes e animais.

E um dos homens sem rosto que acabava de usar a cama de sua mãe se arrastou até ele e lhe pôs as mãos em cima outra vez.

Mas era Ethan quem lhe observava, pacientemente, com esses olhos sérios que sabiam muito. Lhe retorceu o estômago, não só pelo que tinha passado, mas também porque agora Ethan teria que sabê-lo.

Como não lhe ocorriam palavras nem desculpas, Seth simplesmente fechou os olhos.

Isso foi o que inclinou a balança para o Ethan. O ceder à impotência, o deslizar-se para a vergonha. O tinha abandonado sua própria ferida, mas agora resultava que teria que curá-la depois de tudo.

—Não deve ter medo do que aconteceu.

—Eu não tenho medo de nada. —Os olhos do moço se abriram de repente. O aborrecimento neles era adulto e amargo, mas sua voz saía a sacudidas, como o menino que era—. Não tenho medo de um sonho de mierda.

—Tampouco tem que sentir vergonha. Como sim a sentia, e muito, Seth se incorporou de um salto. Seus punhos se apertaram de novo. —Eu não sinto vergonha de nada. E você não sabe uma mierda.

—Sei tudo. —E como sabia, odiava falar disso. Mas, apesar da postura desafiante, o moço tremia, e Ethan sabia exatamente o solo que se sentia. O único que ficava era falar disso. Era o correto—. Sei o que os sonhos me fizeram , sei que os tive durante muito tempo depois de que esse tipo de coisas se terminaram para mim. —E seguia tendo-os de vez em quando, pensou, mas não havia necessidade de lhe dizer ao menino que possivelmente se enfrentasse a toda uma vida de tratar de superar certas lembranças—. Sei o que te faz por dentro.

—E uma mierda. —As lágrimas ardiam no fundo de seus olhos, lhe humilhando ainda mais—. Não me passa nada. Me piré dali, não? Liberei-me dela, não? E não vou voltar, aconteça o que acontecer.

—Não, não vai voltar —assentiu Ethan. Passasse o que acontecesse.

—Importa-me um carajo o que você ou qualquer pensem sobre o que aconteceu então. E fazendo como que sabe não me vais enganar para que lhe conte isso.

—Não me tem que contar nada a respeito —lhe disse Ethan—. E eu não tenho que fazer como que sei. —Recolheu a boina que o murro do Seth fazia cair e a passou sem dar-se conta pelas mãos antes de voltar a ficar a Mas o gesto cotidiano não conseguiu suavizar a apertada e escorregadia bola de tensão em suas vísceras—. Minha mãe era uma puta, minha mãe biológica. E uma yonqui viciada na heroína. —Manteve seus olhos nos do Seth e um tom de voz natural—. Eu tinha menos idade que você quando me vendeu pela primeira vez a um homem ao que gostava dos meninos.

A respiração do Seth se acelerou ao tempo que dava um passo atrás. Não, era tudo o que podia pensar. Ethan Quinn era completamente forte e sólido Y... normal.

—Está mentindo.

—A gente normalmente minta para fanfarronear, ou para livrar-se de alguma tolice que tem feito. Não vejo o sentido de nenhuma de ambas as coisas, e muito menos do que serviria mentir sobre isto.

Voltou a tirá-la boina porque, de repente, pareceu-lhe que lhe apertava muito a cabeça. Uma vez, dois, passou-se a mão pelo cabelo para afrouxar a carga.

—Vendia a homens para pagar o pendure. A primeira vez, lutei. Não serve para evitá-lo, mas lutei. A segunda vez, lutei, e umas quantas vezes depois dessa. Depois, deixei de lutar, porque isso só o fazia pior.

Ethan manteve seu olhar na do menino. Os olhos do Seth estavam escuros e não tão acalmados como quando Ethan tinha começado a falar. Doía-lhe o peito até que se lembrou de voltar a respirar.

—Como pôde suportá-lo?

—Deixou de me importar. —Ethan se encolheu de ombros—. Deixei de «ser», compreende? Não havia ninguém a quem pudesse ir em busca de ajuda, ou não sabia que a houvesse. Ela se mudava freqüentemente para despistar aos serviços sociais.

Seth sentia os lábios secos e apertados. Os esfregou com força com o dorso da mão.

—Nunca sabia onde te foste despertar pela manhã.

—Sim, nunca sabia. —Mas todos os sítios tinham o mesmo aspecto. Todos possuíam o mesmo aroma.

—Mas te liberou. Conseguiu sair daquilo.

—Sim, consegui me liberar. Uma noite, quando o cliente tinha terminado conosco dois, houve um incidente. Gritos, sangue, insultos. Dor. Não me lembro bem de tudo, mas veio a polícia. Eu devia estar bastante mal, porque me levaram a hospital e em seguida compreenderam o que tinha passado. Terminei nos serviços sociais, e me poderia ter ficado estagnado neles, mas a doutora que me tratou era Stella Quinn.

—Eles lhe acolheram.

—Sim, acolheram-me. —E dizer isso, simplesmente dizê-lo, acalmou-lhe a náusea—. Não é só que me trocassem a vida, é que me salvaram isso. Depois segui sonhando com aquilo durante muito tempo, tinha esses sonhos nos que desperta suando e tratando de respirar, convencido de que está ali de novo. E embora te dá conta de que não é verdade, o frio te dura um momento.

Seth se secou as lágrimas com os nódulos, mas já não lhe davam vergonha.

—Eu sempre me liberei. Às vezes me puseram as mãos em cima, mas sempre me escapei. Nenhum deles pôde...

—Bem feito.

—Mas de todas formas queria lhes matar a todos, e a ela também. Queria lhes matar.

—Sei.

—Não queria dizer-lhe a ninguém. Acredito que Ray sabia, e CAM como que imagina. Mas não queria que ninguém pensasse que eu..., que me olhassem e pensassem... —Não podia expressá-lo, sentia vergonha de que a gente lhe olhasse e visse o que tinha acontecido, ou o que podia ter acontecido, naqueles quartos fedidos—. por que me contaste isso?

—Porque tem que saber que isso não te faz menos homem. —Ethan esperou, consciente de que Seth tinha que decidir se aceitava ou não a verdade de sua afirmação.

O que Seth viu foi um homem alto, forte, dono de si, com mãos grandes e calejadas e olhos tranqüilos. Um dos pesos que esmagava seu coração se elevou.

—Acredito que sei. —E sorriu brevemente—. Te sangra a boca.

Ethan se tocou brandamente com o dorso da mão e soube que acabavam de cruzar uma fina e delicada linha.

—Tem um bom gancho de direita. Pilhaste-me por surpresa. —Elevou uma mão tentativamente e lhe revolveu ao menino o cabelo, despenteado pelo sonho—. Venha, nos lavemos e vamos a casa.

 

Grace tinha por diante uma manhã muito ocupada. Às sete e quinze, enquanto se fazia o café e com olhos que ainda não se aberto de tudo, pôs a primeira máquina de lavar roupa. Entre enormes bocejos, regou as novelo do alpendre e os pequenos vasos de ervas aromáticas que havia no batente da janela da cozinha.

Enquanto o aroma do café começava a perfumar o ar lhe dando esperança, esfregou os copos e terrinas que Julie tinha usado a noite anterior quando cuidava do Aubrey. Fechou a bolsa de batatas fritas e a devolveu a seu lugar no armário, logo limpou os miolos da encimera onde a moça se tomou um boquinha enquanto conversava por telefone.

Julie Cutter não era muito ordenada, mas tinha muito carinho ao Aubrey.

Às sete e meia em ponto, quando Grace levava meia taça de café, Aubrey despertou.

Tão regular como o alvorada, pensou Grace, saindo da diminuta cozinha alargada em direção ao dormitório, que estava a um lado da sala. Com chuva ou sol, fora dia de festa ou laborable, o despertador interno de sua filha soava exatamente às sete e meia todas as manhãs.

Grace podia havê-la deixado em seu berço enquanto se terminava o café, mas cada dia esperava esse momento com ilusão. Aubrey se achava de pé em um lado do berço, com os cachos loiros revoltos pelo sonho e as bochechas ainda rosadas. Grace recordava ainda a primeira vez que entrou e viu sua filha de pé, balançando-se sobre suas inseguras pernas, e com a cara radiante de surpresa pelo êxito.

Agora as pernas da menina eram mais fortes. Elevava uma, logo a outra, em uma espécie de marcha brincalhona. riu alto quando sua mãe entrou no quarto.

—Mamãe, mamãe, olá, minha mamita.

—Olá, minha menina. —Grace se inclinou por um lado do berço para lhe oferecer os primeiros mímicos e suspirou. Era consciente de quão afortunada era. Não podia haver uma menina em todo o planeta com um caráter mais alegre—. Como está meu Aubrey?

—Aúpa, aúpa.

—Claro. Pis?

—Pis. —Aubrey assentiu e riu quando sua mãe a elevou e a tirou do berço.

Aubrey se estava acostumando a usar o banho, decidiu Grace, inspecionando o fralda da menina enquanto se dirigiam ao banho. Tinha seus acertos e enganos.

Essa vez foi um acerto, assim Grace se embarcou nos generosos louvores sobre funções corporais que só um adulto com um menino pequeno pode cornprender. Lavou-lhe os dentes e lhe escovou o cabelo no quarto de banho, não maior que um armário, que Grace tinha conseguido animar pintando as paredes de cor verde memora e colocando cortinas de raias como um toldo.

Logo começou a rotina do café da manhã. Aubrey queria cereais com plátano, mas sem leite. Colocou a mão sobre a terrina quando Grace ia servir se o sacudindo a cabeça energicamente.

—Não, mamãe, não. Taça, por favor.

—Vale, o leite em uma taça. —Grace encheu uma e a colocou na bandeja, junto à terrina—. Agora tome o tudo. Hoje temos muito que fazer.

—O que fazer?

—Vejamos. —Grace se preparou uma torrada enquanto recitava a sua filha o programa para o dia—. Temos que terminar a penetrada e logo lhe prometemos à senhora West que hoje lhe limparíamos as janelas. —Umas três horas de trabalho, calculou Grace—. Depois temos que ir ao súper.

Aubrey gritou de alegria.

—Lucy.

—Sim, verá o Lucy. —Lucy Wilson era uma das pessoas mais queridas pela menina. A cajera sempre tinha um sorriso e uma piruleta para ela—. E quando guardarmos a compra, vamos a casa dos Quinn.

—Seth! —O leite lhe gotejou da boca sorridente.

—Bom, carinho, não sabemos seguro se estará em casa hoje. Pode que tenha saído com o Ethan no navio ou que esteja em casa de seus amigos.

—Seth —repetiu Aubrey, muito claramente, e sua boca se enrugou em um gesto obstinado.

—Já veremos. —Grace lhe limpou as manchas.

—Ethan.

—Possivelmente.

—Perritos.

—Tolo, seguro. —Deu a sua filha um beijo na cabeça e se permitiu o luxo de tomar uma segunda taça de café.

Às oito e quinze, Grace se tinha feito com um montão de periódicos e um vaporizador com uma mescla de vinagre e amoniaco. Aubrey se entretinha sozinha, sentada na grama com um brinquedo que imitava sons de animais. Cada poucos segundos, uma vaca fazia «mu» ou um porco fazia «oink oink», e a menina repetia fielmente o som.

Para quando Aubrey ficou a jogar com os blocos de construção, Grace tinha terminado de limpar e abrilhantar a parte exterior das janelas da fachada e de um lado da casa. Ia bem de tempo. E teria seguido assim de não ter saído a senhora West com altos copos de chá gelado e vontades de conversar.

—Grace, não sei como te agradecer que me limpe as janelas. —A senhora West, que tinha muitos netos, tinha-lhe servido ao Aubrey sua bebida em uma taça de plástico de cor viva com patitos.

—eu adoro fazê-lo, senhora West.

—Com a artrite, eu já não posso, e eu gosto que as janelas brilhem. —Sorriu e as rugas de seu curtido rosto se fizeram mais profundas—. E você consegue que brilhem. Minha neta, Layla, disse que me limparia isso, mas, se te disser a verdade, essa garota, maldita seja sua imagem, é uma cabeça louca. O mesmo fica à tarefa e acaba dormindo no horta. Não sei o que vai ser dela.

Grace riu e seguiu esfregando a seguinte janela.

—Só tem quinze anos. Tem a cabeça nos meninos, a roupa e a música.

—E que o diga. —A senhora West assentiu tão vigorosamente que sua papada se bamboleou com o gesto—. Olhe, eu a sua idade era capaz de limpar um caranguejo rapidamente. Ganhava a vida, e só pensava no trabalho até que este estava terminado. —Lhe piscou os olhos um olho—. Então pensava nos meninos.

Deixou escapar uma afável risada antes de sorrir ao Aubrey.

—Vá corderito mais lindo que tem, Gracie!

—É a luz de minha vida.

—E melhor que o pão. Conhece mais pequeno de meu Carly, Luke? Não para quieto nem dois minutos e se passa todas as horas do dia enredando. A semana passada me encontrei escalando isso as cortinas do salão como um gato. —A lembrança a fez rir—. Esse Luke é um terremoto, digo-lhe isso de verdade.

—Aubrey também tem seus momentos.

—Não me acredito, impossível com essa carita de anjo. dentro de pouco, vais ter que estar todo o dia com um pau para manter aos meninos se separados dela. É preciosa, e já a vi da mão com um menino.

Ao Grace quase lhe caiu a garrafa de limpador e se girou rapidamente para assegurar-se de que sua menina não tinha crescido enquanto ela não olhava.

—Aubrey?

A Senhora West voltou a rir.

—Vi-a passeando pelo porto com esse menino dos Quinn, o novo.

—Ah, Seth. —A sensação de alívio era tão ridícula que Grace deixou o limpador no chão e tomou seu copo para beber—. Aubrey está apaixonada por ele.

—É um menino muito bonito. Meu pequeno Matt vai à mesma classe que ele e me contou que Seth surrou a esse valentão do Robert faz algumas semanas. Não pude remediá-lo, pensei que já era hora de que alguém lhe desse seu castigo. Que tal andam os Quinn?

Pergunta-a era seu objetivo principal para sair a conversar, mas a senhora West acreditava que era importante abordar o tema de forma gradual.

—Bastante bem.

A senhora West pôs os olhos em branco. Terei que pôr mais empenho para tirar água do poço com essa bomba.

—A garota com a que se casou CAM é bonita de verdade, embora ela também vai ter que andar com mil olhos para lhe manter a raia. Esse CAM sempre foi um pouco selvagem.

—Acredito que Anna pode com ele.

—foram-se ao estrangeiro de lua de mel, não?

—A Roma. Seth me ensinou uma postal que mandaram. É preciosa.

—Sempre me recorda esse filme com o Audrey Hepburn e Gregory Peck, essa em que ela é uma princesa. Já não fazem filmes assim.

—Férias em Roma. —Grace sorriu com nostalgia. Os filmes clássicos e românticas eram sua debilidade.

—Essa mesma. —Grace se parecia um pouco ao Audrey Hepburn, pensou a senhora West. O tom de cabelo não era o mesmo, claro, porque Grace era loira como uma vikinga, mas tinha os olhos grandes e o rosto bonito e cometido. E estava muito magra.

—Eu alguma vez estive no estrangeiro —disse a senhora West, o que incluía, a seu modo de ver, dois terços dos Estados Unidos—. vão voltar logo?

—dentro de um par de dias.

—Hum. Bom, essa casa necessita uma mulher, isso está claro. Não imagino o que podem ser quatro homens em uma casa. Deve cheirar como um meia três-quartos suado a maior parte do tempo. Não conheço nenhum homem deste planeta que não se mije fora da taça.

Grace riu e voltou para as janelas.

—Não está tão mal. A verdade é que CAM levava a casa bastante bem antes de que me contratassem para que me ocupasse eu. Mas o único que se lembra de esvaziá-los bolsos antes de deixar a roupa no cesto de lavar é Phillip.

—Se isso for tudo, não está mau. Imagino que a esposa do CAM se ocupará da casa quando estiverem de volta.

A mão do Grace apertou mais forte o punhado de periódicos quando seu coração deu um rápido salto.

—Eu..., Anna trabalha a tempo completo no Princess Anne.

—O mais provável é que ela assuma a responsabilidade da casa —repetiu a senhora West—. A cada mulher gosta de levar a casa a sua maneira. Imagino que lhe vai vir bem ao menino ter uma mulher na casa todo o tempo. Não sei no que estava pensando Ray esta vez, juro-lhe isso. Tinha um coração de ouro, isso sim, mas quando morreu Stella... perdeu o rumo. Um homem de sua idade..., fazer-se carrego de um menino assim, apesar de como fossem as coisas. Não é que eu cria uma palavra dessa fofoca que se ouça de vez em quando. Nancy Claremont é a pior fofoqueiro, dá-lhe à língua assim que tem oportunidade.

A senhora West se deteve um segundo, esperando que Grace lhe seguisse o jogo, mas esta continuava olhando a janela com o cenho franzido.

—Sabe se esse inspetor de seguros vai voltar?

—Não —respondeu Grace brandamente—. Não sei. Espero que não.

—Não vejo o que lhe pode importar à empresa de seguros de onde vem o menino. Inclusive se Ray se suicidó, e não digo que fora assim, não podem demonstrá-lo, não? Porque... —Fez uma pausa para maior efeito, como fazia cada vez que expor essa idéia, e acrescentou— não estavam ali!

Disse a última parte com um tom triunfal, como quando o havia dito ao Nancy.

—O professor Quinn não se haveria suicidado —murmurou Grace.

—Claro que não. —Embora era um tema que dava muito jogo—. Mas o menino... —interrompeu-se, enquanto aguçava o ouvido—. Está soando o telefone. Grace, passa quando quiser começar com o interior —comentou enquanto entrava na casa apressadamente.

A jovem não disse nada. Seguiu trabalhando a bom ritmo, mas sua mente dava voltas. Envergonhava-lhe não poder concentrar-se no professor Quinn. Só podia pensar em si mesmo e no que ia ocorrer.

Voltaria Anna de Roma com intenção de levar a casa ela sozinha? ia perder ela seu trabalho ali e o dinheiro extra que tirava com ele? E o que era pior, muito pior, perderia a oportunidade de ver o Ethan uma ou duas vezes por semana?, perderia a oportunidade de compartilhar com ele uma comida de vez em quando?

deu-se conta de que se acostumou, até depender disso, a ser parte da vida do Ethan, embora fora uma parte ínfima. E, por muito lastimoso que soasse, adorava lhe dobrar a roupa, lhe estirar os lençóis na cama. Até se permitia imaginar que ele pensaria nela quando encontrava uma de suas notas pela casa, ou quando se deslizava entre lençóis limpa de noite.

ia perder isso também: o prazer de lhe ver aproximar-se do navio e agarrar ao Aubrey em braços quando ela exigia um beijo, ou quando lhe dirigia um olhar com seu sorriso? Eram todo isso apenas imagens que teria que entesourar em sua mente a partir de agora?

Seus dias passariam sem nem sequer isso para iludir-se. E suas noites passariam uma atrás de outra, sempre sozinha.

Apertou os olhos, lutando contra a desesperança. Voltou-os a abrir quando Aubrey lhe atirou da prega das calças curtas.

—Mamãe. Lucy?

—Em seguida, carinho. —Como o necessitava, Grace agarrou a sua filha em braços para lhe dar um forte abraço.

Era quase a uma quando Grace terminou de colocar a compra e preparar a comida do Aubrey. Só levava meia hora de atraso e pensou que o podia recuperar sem muita dificuldade. unicamente tinha que trabalhar um pouco mais rápido e manter a cabeça na tarefa. «Deixa de fazer planos», ordenou-se a si mesmo enquanto sentava ao Aubrey na sillita infantil do carro. «Basta de tolices.»

—Seth, Seth, Seth —repetia Aubrey, saltando no assento como uma possessa.

—Já veremos. —Grace se sentou ao volante, colocou a chave e lhe deu uma volta. A resposta foi um zumbido asmático—. Não, não, não o faça. Não o faça. Não tenho tempo para isto. —um pouco assustada, girou de novo a chave, apertou o pedal da gasolina e suspirou aliviada quando o motor arrancou—. Assim está melhor —murmurou enquanto saía à rua dando marcha atrás—. Vamos, Aubrey.

—Vamos!

Cinco minutos depois, a metade de caminho entre sua casa e a dos Quinn, o velho carro ficou a tossir de novo, estremeceu-se e depois começou a arrotar vapor por debaixo do capô.

—Maldita seja!

—Maldita seja! —imitou alegremente a menina.

Grace se limitou a apertá-los olhos com as Palmas das mãos. Era o radiador, estava segura. O mês passado tinha sido a correia do ventilador, e antes disso, as pastilhas do freio. Resignada, estacionou a um lado da estrada e se baixou para levantar o capô.

Saíram nuvens de fumaça que a fizeram tossir e retroceder uns passos. Com ar decidido, tragou-se o nó de desesperança que tinha na garganta. Ao melhor não era nada importante. Possivelmente fora outra vez alguma correia. E se não, pensou com um grande suspiro, teria que decidir se valia a pena gastar mais dinheiro nesse velho cacharro ou apertar seu já de por si estreito pressuposto para comprar outro similar. De qualquer maneira, agora não podia fazer nada. Abriu a porta do outro lado e desabotoou a cadeira do Aubrey.

—O carro se tornou a pôr doente, carinho.

—Aaayy!

—Sim, o vamos ter que deixar aqui.

—Sozinho?

A preocupação de sua filha pelos objetos inanimados a fez sorrir uma vez mais.

—Não por muito tempo. vou chamar ao senhor do carro para que venha a cuidá-lo.

—E que o cure.

—Isso espero. Agora temos que ir caminhando a casa do Seth.

—Vale! —Encantada com a mudança na rotina, Aubrey se pôs-se a andar teimosamente.

Trezentos metros mais à frente, Grace teve que agarrá-la em braços, mas fazia um dia precioso, e caminhar lhe oferecia a oportunidade de olhar e ver de verdade. A madressilva pendurava de uma cerca que bordeaba um limpo campo de soja e despedia um aroma muito agradável. Cortou uma flor para sua filha.

Quando rodeavam a restinga que bordeaba o terreno dos Quinn, doíam-lhe os braços. pararam-se a contemplar uma tartaruga que tomava o sol a um lado do caminho e Aubrey riu quando o animal escondeu a cabeça no carapaça ao aproximar-se de tocá-la.

—Carinho, poderia caminhar um ratito agora?

—Cansada. —Com olhos suplicantes, Aubrey elevou os braços—. Aúpa.

—Bom, vêem aqui. Já quase chegamos.

Já tinha passado a hora da sesta do Aubrey. À menina gostava de jogar a sesta justo depois da comida, todos os dias. Dormia quase duas horas e depois despertava outra vez cheia de energia.

Quando Grace subiu as escadas do alpendre e entrou na casa, a cabecita da menina era um peso dormido em seu ombro.

Uma vez que a acomodou no sofá, subiu apressadamente para desfazer camas, recolher a roupa suja e classificá-la. depois de colocar a primeira carga na máquina de lavar roupa, fez uma rápida chamada ao mecânico, que fazia tudo o que podia para manter seu pobre carro com vida.

Voltou de novo acima com rapidez para fazer as camas com lençóis limpa. Para economizar esforço, tinha produtos de limpeza em cada piso. ocupou-se do primeiro banho, esfregando e esclarecendo arrebatadamente até que o cromo e os azulejos reluziram.

deu-se conta de que ia ser sua última sessão completa na casa antes da volta da Anna e CAM. Mas já tinha decidido, em algum momento do passeio desde seu carro avariado, que ia tirar um par de horas para um rápido repasse o dia que lhes esperavam de volta.

Estava orgulhosa de seu trabalho. E, é obvio, gostava de pensar que outra mulher notaria a ordem, os rincões limpos, os pequenos toques especiais que tratava de acrescentar. Uma profissional como Anna, uma mulher com uma carreira que lhe exigia muito, veria que Grace era necessária na casa, não?

Correu escada abaixo de novo para lhe jogar uma olhada a sua filha, tirar a roupa molhada da máquina de lavar roupa, pô-la em uma cesta e colocar a segunda carga.

Quando chegassem os recém casados, se aseguría de que houvesse flores frescas no dormitório principal. E tiraria as toalhas boas. Deixaria- uma nota ao Phillip lhe pedindo que comprasse go de fruta para decorar a terrina da mesa da cozinha.

Tiraria um pouco de tempo para encerar à mão os chãos de madeira e lavar e engomar as cortinas.

Tendeu a roupa na corda com rapidez, sem nada da alegria que normalmente lhe proporcionava essa tarefa. Contudo, a singela rotina começou a acalmá-la. De algum jeito, tudo ia sair bem.

Então lhe deu um enjôo e moveu a cabeça para limpar-se. A fadiga lhe tinha jogado em cima de repente, como um murro na mandíbula. Se se tivesse tomado a moléstia de calcular o tempo que tinha levantada e sem parar nem um momento, teria contabilizado sete horas, frente às breves cinco de sonho da noite passada. O que sim calculava era que ficavam outras doze ainda. E necessitava um descanso.

Dez minutos, prometeu-se, como fazia às vezes quando tinha uma jornada muito larga, e se tombou ali mesmo, na erva, junto à roupa que ondeava no varal. Uma sesta de dez minutos lhe devolveria a energia, lhe deixando tempo suficiente para limpar a cozinha antes de que despertasse sua filha.

Ethan se dirigia a casa em carro do porto. Tinha cortado sua jornada habitual no mar, deixando que Jim e seu filho voltassem a sair com o navio para inspecionar as jaulas do estreito do Pocomoke. Seth se tinha ido com o Danny yWill e ele planejava comer rápido e tarde, e depois passar umas quantas horas no estaleiro. Queria terminar a cabine, possivelmente começar o teto do camarote. quanto mais conseguisse fazer, menos demoraria CAM em ficar com o trabalho fino e os retoques.

Reduziu a velocidade ao ver o carro do Grace a um lado da estrada, e logo estacionou rapidamente. Quando olhou sob o aberto capô, limitou-se a sacudir a cabeça. O ditoso traste, mantinha-se em pé a base de saliva e orações. Grace não deveria conduzir um carro tão pouco confiável. E o que tivesse passado, pensou sombríamente, se ao puñetero cacharro lhe dava de avariar-se justo quando ela voltava do pub em metade da noite?

Jogou-lhe uma olhada mais detalhada e assobiou entre dentes. O radiador estava estragado, e se ela pensava em trocá-lo, ele teria que convencer a de não fazê-lo.

O lhe buscaria um carro decente de segunda mão. O poria a ponto, ou pediria ao CAM, que sabia de motores como o rei MIDAS sabia de ouro, que o fizesse. Não podia permitir que Grace conduzisse semelhante cacharro, e menos com a menina.

De repente se deu conta e retrocedeu alguns passos. Não era assunto dele. E uma mierda, pensou com um arranque de gênio pouco característico nele. Ela era amiga dela, ou não? Tinha direito a ajudar a uma amiga, especialmente a uma que necessitava que a cuidassem.

E Deus sabia, tanto se Grace era consciente disso como se não, que ela necessitava que a cuidassem.

montou-se de novo no carro e se dirigiu a sua casa com o cenho franzido.

Esteve a ponto de fechar de uma portada a porta antes de ver o Aubrey feita um novelo no sofá. O cenho franzido se desvaneceu. Fechou a porta com suavidade e se aproximou dela sem fazer ruído. Unia um punho sobre uma almofada. Incapaz de resistir, agarrou-o brandamente e se maravilhou ante aqueles deditos tão pequenos, tão perfeitos. Levava um laço em um dos cachos, uma pequena cinta azul de encaixe que sua mãe lhe teria colocado pela manhã. Agora estava inclinado, mas isso só o fazia mais gracioso.

Oxalá despertasse antes de que ele tivesse que ir-se de novo.

Mas agora tinha que encontrar à mãe e conversar sobre um veículo confiável.

Ergueu a cabeça e pensou que a casa estava muito silenciosa para que Grace estivesse no piso superior. Foi à cozinha e viu os sinais de um apressado café da manhã. Grace ainda não se ocupou disso. Mas a máquina de lavar roupa zumbia e fora divisou a roupa tendida ondeando ao vento.

Viu-a assim que saiu pela porta. E lhe entrou um pânico de morte. Não soube o que pensar, só que ela jazia na erva. Horríveis imagens de enfermidade e feridas lhe amontoaram na mente ao tempo que saiu correndo. achava-se apenas a um passo dela quando se deu conta de que não estava inconsciente. Estava dormindo. Acurrucada como sua filha dentro da casa. Com um punho perto da bochecha, respirava devagar, de forma profunda e regular. Ethan cedeu a seus debilitadas joelhos, sentou-se junto a ela e esperou até que seu coração recuperasse um ritmo que se aproximasse do normal.

sentou-se, escutando como a roupa golpeava o varal, como a água lambia a erva marinha, e como tagarelavam os pássaros. Enquanto, perguntou-se que diabos ia fazer com ela.

Ao final, simplesmente suspirou, incorporou-se e, inclinando-se, tomou em seus braços.

Grace se estirou e se apertou contra ele, fazendo que seu sangue corresse tão rápido que se sentiu incômodo.

—Ethan —sussurrou, girando o rosto para a curva de seu pescoço, o que incitou nele uma brilhante fantasia em que ambos rodavam pela erva aquecida pelo sol—. Ethan —repetiu, lhe passando os dedos pelo ombro. O ficou rígido como o ferro. Logo disse de novo—: Ethan! —Esta vez foi um chiado de surpresa quando elevou a cabeça e o viu.

Os olhos do Grace estavam atordoados pelo sonho e cheios de assombro. Sua boca se curvou em uma suave Ou, que resultava gloriosamente tentadora. Depois se ruborizou até as pontas do cabelo.

—O que? O que acontece? —conseguiu dizer, apesar da combinação de excitação e vergonha que lhe retorcia o estômago.

—Se quer jogar a sesta, teria que ser tão sensata como Aubrey e fazê-lo ao casaco do sol.

Sabia que sua voz soava áspera, mas não podia fazer nada a respeito. O desejo lhe atendia a garganta como umas garras que lhe arranhavam com regozijo.

—Eu só estava...

—Tiraste-me dez anos de vida ao verte aí tiragem. Acreditava que te tinha desacordado ou algo assim.

—Só queria me tombar um momento. Aubrey estava dormida, assim... Aubrey! Tenho que ir ver se estiver bem.

—Acabo de fazê-lo eu. Está bem. E você teria mostrado mais sentido comum se te tivesse deitado com ela no sofá.

—Não venho aqui a dormir.

—Estava dormida.

—Mas só um minuto.

—Necessita mais de um minuto.

—Não, absolutamente. É só que as coisas me complicaram hoje e me cansou o cérebro.

Isso quase lhe fez graça. deteve-se na cozinha, com ela ainda nos braços, e a olhou aos olhos.

—Que te cansou o cérebro?

—Sim. —Nesse momento o tinha virtualmente desligado—. Tinha que descansar a mente um segundo, isso é tudo. Baixa me, Ethan.

O não estava preparado para fazê-lo, ainda não.

—Acabo de ver seu carro como a uma milha daqui.

—chamei ao Dave e lhe avisei. vai vir assim que possa.

—vieste caminhando de ali com o Aubrey em braços?

—Não, trouxe-nos o chofer. Baixa me já, Ethan —disse antes de explorar.

—Bom, pois pode lhe dar à chofer o resto do dia livre. Eu te levarei a casa quando despertar Aubrey.

—Posso chegar a casa por meus próprios meios. Logo que comecei as tarefas aqui. Tenho que voltar a me pôr com elas.

—Não vou permitir que caminhe três milhas.

—Chamarei a Julie. Ela virá a nos recolher. Seguro que você tem trabalho que fazer. Eu... levo certo atraso —comentou, já desesperada—. Não posso me pôr a trabalhar se não me solta.

Ethan a olhou.

—Não pesa nada.

O brilho de desejo que havia nos olhos do Grace se tornou em irritação.

—Se for dizer que estou fraca...

—Eu não diria fraca. O que passa é que é de osso fino. —E de pele suave e tersa. Depositou-a no chão antes de que lhe esquecesse o propósito de cuidar dela—. Não se preocupe hoje da casa.

—Sim, tenho que fazer meu trabalho. —Grace era um molho de nervos. A forma em que ele a olhava fazia que desejasse saltar de novo a seus braços, mas também sair correndo pela porta traseira como um coelho. Nunca tinha experiente tal luta interior, e só podia manter-se em seus treze—. O farei mais rápido se não lhe puser isso por meio.

—Tirarei-me de no meio assim que chame a Julie e veja se pode vir a te recolher.

Elevou uma mão para lhe tirar um penugem de dente de leão do cabelo.

—Vale.

Grace se voltou e marcou alguns números no telefone da cozinha. Possivelmente seria melhor, pensou enquanto o telefone começava a soar, que Anna não quisesse que ela seguisse na casa uma vez voltasse. Parecia que já não podia estar com o Ethan mais de dez minutos sem ficar como um pudim. Se isso não trocava, seguro que acabava fazendo algo que envergonharia a ambos.

 

Ao Ethan não importava lhe jogar horas ao navio de noite, em particular quando podia trabalhar sozinho. Não tinha feito falta muita persuasão para que permitisse ao Seth acampar com os outros guris no pátio traseiro. Assim podia desfrutar de uma noite a sós, algo estranho ultimamente, e com tempo para trabalhar, sem ter que emprestar atenção a perguntas e comentários.

 Não é que o menino não fora entretido, disse-se Ethan. De fato, sentia-se muito apegado a ele. Aceitá-lo em sua vida lhe tinha resultado natural porque Ray o tinha pedido. Mas o afeto, a avaliação e a lealdade tinham ido crescendo e solidificando-se até que simplesmente estavam aí.

Entretanto, isso não queria dizer que o menino não fora capaz de lhe esgotar.

Esta noite, Ethan se limitou ao trabalho manual. Inclusive se alguém se sentia espaçoso e alerta a meia-noite, o mais provável é que estivesse um pouco aturdido, e não queria arriscar-se a perder um dedo com as ferramentas elétricas. Em qualquer caso, relaxava-lhe o trabalho tranqüilo, lixar a emano superfícies e borde até senti-los suaves.

antes de que terminasse a semana, estariam preparados para selar o casco e então poderia pôr ao Seth a lixar os fitas de seda. Se CAM ficava ao talho sob coberta e se o menino não protestava muito por trabalhar com a massa, o calafate e o verniz durante uma semana ou dois, iriam bastante bem.

Olhou a hora em seu relógio, viu que tinha perdido a noção do tempo e começou a guardar a ferramenta. Como não estava Seth para atirar da vassoura, varreu o chão.

À uma e quarto estava estacionado junto ao pub. Não tinha intenção de entrar, como não tinha intenção de deixar que Grace caminhasse a milha e meia que havia até sua casa quando terminasse o turno. Assim que se arrellanó no assento, acendeu a luz superior e passou o tempo folheando sua manuseado exemplar do Cannery Row.

Dentro era o momento da última ronda. Quão único tivesse feito mais feliz ao Grace teria sido que Dave lhe houvesse dito que tudo o que fazia falta para que seu carro funcionasse de novo era um pouco de chiclete usado e uma banda de borracha. Mas o que lhe havia dito em realidade era que lhe custaria o equivalente a três anos de comprar chicletes e borrachas, e que se poderia considerar afortunada se o velho cacharro podia percorrer outras cinco mil milhas. Era algo pelo que teria que preocupar-se mais tarde. No momento, tocava-lhe lutar com um cliente pesado, que estava de passagem pelo povo em rota para o Savannah, e que acreditava que ao Grace gostaria de ser sua diversão essa noite.

—Tenho uma habitação em um hotel. —Lhe piscou os olhos um olho quando ela se inclinou para lhe servir a última taça da noite—. Tem uma cama bem grande e serviço de habitações as vinte e quatro horas do dia. Poderíamos fazer uma festa cojonuda, meu amor.

—Não vou a muitas festas, mas obrigado.

O lhe agarrou a mão e atirou dela o suficientemente forte para lhe fazer perder o equilíbrio. Grace teve que lhe agarrar o ombro para não cair em seu regaço.

—Então esta é sua oportunidade. —O homem tinha olhos escuros e lhe dirigiu um olhar lascivo aos peitos—. eu adoro as loiras de pernas largas. Sempre as trato de um modo especial.

Era um pesado, pensou Grace enquanto lhe jogava outra vez o fôlego de cerveja na cara. Mas as tinha visto com homens piores.

—Muito obrigado, mas vou terminar meu turno e irei a casa.

—Sua casa vai bem.

—Ouça...

—Bob, me chame Bob, neném.

Grace se liberou de um puxão.

—Olhe, senhor, simplesmente não me interessa.

Claro que lhe interessava, pensou ele lhe lançando um sorriso que sabia que era sedutora. Ao fim e ao cabo tinha pago dois dos grandes para que lhe arrumassem os dentes, não?

—Sempre me põe quando as mulheres lhes fazem as difíceis.

Grace decidiu que não valia a pena esbanjar nem um suspiro de asco.

—Fechamos dentro de um quarto de hora. Tem que abonar sua conta.

—Vale, vale, não ponha bordo. —Sorriu ampliamente e tirou um maço de bilhetes sujeitos com um clipe. Sempre punha um par de vinte na parte de fora e logo o preenchia com bilhetes de um—. me Diga o que te devo e depois... negociaremos a gorjeta.

Às vezes, decidiu Grace, mais valia manter a boca fechada. O que queria sair dela era o suficientemente desagradável como para que a despedissem. Assim que se afastou para levar os copos vazios à barra.

—Esse te está dando problemas, Grace?

Ela sorriu fracamente ao Steve. Agora estavam trabalhando sozinhos os dois. A outra garçonete se foi às doze, alegando uma dor de cabeça. Como estava pálida como um fantasma, Grace a tinha animado a que se fora, aceitando cobri-la.

—Outro de esses que se crie um dom de Deus para as mulheres. Nada do que preocupar-se.

—Se não se foi quando fecharmos, esperarei até que esteja a salvo no carro, caminho de sua casa.

Grace se limitou a emitir um som que não a comprometia. Não tinha mencionado sua carência de veículo, porque sabia que Steve insistiria em levá-la a casa. Vivia a vinte minutos em direção contrária, e tinha uma esposa grávida que lhe esperava.

Foi limpando e cobrando aos clientes das mesas. Notou com alívio que o cliente problemático por fim se levantava para partir. Pagou seus 18,83 dólares em metálico com um bilhete de vinte que deixou na mesa. Embora tinha conseguido monopolizar a maior parte de seu tempo e atenção durante as últimas três horas, Grace se sentia muito cansada para irritar-se pela lastimosa gorjeta.

O bar não demorou para esvaziar-se. A clientela estava composta em sua major parte por estudantes universitários que tinham saído uma noite entre semana para tomar um par de cervejas e conversar. Calculou que tinham dobrado umas dez mesas desde que começou seu turno às sete. Suas gorjetas da noite não foram contribuir em muito ao novo carro que tinha que comprar.

Estava tão silencioso que ambos saltaram como coelhos quando soou o telefone. Inclusive quando Grace riu de sua reação, o rosto do Steve perdeu a cor.

—Mollie —foi tudo o que disse, lançando-se a pelo aparelho de um salto. Agarrou-o e disse gaguejando—: chegou o momento?

Grace deu uns passos adiante, perguntando-se se teria força suficiente para lhe agarrar se se deprimia. Quando seu companheiro começou a assentir rapidamente, ela sentiu que seu sorriso se fazia mais ampla.

—Vale. Você..., você chama o médico, vale? Todo esta preparado. Cada quanto...? Ai, Deus! Ai, Meu deus! Vou para lá. Não te mova. Não faça nada. Não se preocupe.

Soltou o telefone sem devolvê-lo a seu lugar e logo ficou congelado.

—Ela..., Mollie..., minha esposa.

—Sim, já sei quem é Mollie, fomos juntas ao penetre da creche. —Grace riu. Depois, como ele tinha um aspecto tão comovedor e tão cheio de medo, tomou a cara entre as mãos e lhe deu um beijo—. Vete. Mas conduz com cuidado. Os bebês se tomam seu tempo. Esperarão-lhe.

—vamos ter um bebê —comentou Steve lentamente, como se provasse cada palavra—. Mollie e eu.

—Sei. E é maravilhoso. Diz-lhe que irei ver a, e ao bebê. Certamente, se ficar aqui parado como se tivesse os pés pegos ao chão, acredito que terá que ir-se ela sozinha ao hospital.

—meu deus! Tenho que ir. —Derrubou uma cadeira de caminho à porta—. Chaves, onde estão as chaves?

—As do carro as tem no bolso. As do bar estão detrás da barra. Eu me ocupo de fechar, papai.

deteve-se, olhou para trás e lhe lançou uma enorme e lhe eletrifiquem sorriso.

—Caray! —disse, e se foi.

Grace seguiu renda-se enquanto levantava a cadeira e a colocava do reverso na mesa.

lembrou-se da noite em que ficou de parto. Ai, tinha tanto medo, estava tão excitada. Sim lhe havia meio doido ir sozinha ao hospital. Não tinha havido marido com quem compartilhar o pânico. Não tinha havido ninguém que se sentasse com ela, que lhe dissesse que respirasse, que lhe agarrasse a mão.

Quando a dor e a solidão chegaram a seu ponto máximo, cedeu e permitiu que a enfermeira chamasse a sua mãe. É obvio, sua mãe foi e ficou com ela, e viu como Aubrey vinha ao mundo. Choraram juntas, e riram juntas, e isso fez que tudo voltasse a ir bem.

Seu pai não acudiu. Nem então nem depois. Sua mãe se inventou desculpas, tratou de lhe tirar ferro, mas Grace compreendeu que não podia esperar ser perdoada. Outros a visitaram, Julie e seus pais, amigos e vizinhos.

Ethan e o professor Quinn.

Levaram-lhe flores, rosas e margaridas brancas e rosas. Colocou uma de cada no livro de fotos do Aubrey.

Recordar lhe fez sorrir, assim quando a porta se abriu a suas costas, voltou-se rendo.

—Steve, se não for já, sua esposa... —Grace sei interrompeu, sentindo mais irritação que medo ao ver o homem que entrava—. Está fechado —anunciou com firmeza.

—Sei, meu amor. Sabia que encontraria uma forma de ficar atrás e me esperar.

—Não lhe estava esperando. —por que diabos não tinha fechado a porta quando saiu Steve?—. Hei-lhe dito que está fechado. Tem que ir-se.

—Se lhe quer montar isso assim, por mim, vale. —aproximou-se caminhando relajadamente, apoiou-se na barra. Levava meses indo ao ginásio e sabia que a postura punha de manifesto seus músculos bem tonificados—. por que não nos põe uma taça? E podemos falar sobre essa gorjeta.

Ao Grace lhe acabou a paciência.

—A gorjeta, já me deu isso. Agora me deixe que eu lhe dê um conselho. Se não sair por essa porta agora mesmo, chamo à polícia. Em lugar de passar a noite em sua enorme cama do hotel, a vai passar em um calabouço.

—Tenho outros planos. —Agarrou-a, lançou-a contra a barra e se esfregou contra ela—. O vê? Você também tinha outros planos. Vi como me olhava. Levo toda a noite esperando um pouco de ação.

Grace não podia levantar o joelho para lhe dar um bom golpe nessa parte que pressionava contra ela tão orgulhoso. Não podia liberar as mãos para empurrar ou arranhar. O pânico começou como uma destilação em sua garganta, e logo se estendeu como uma inundação quente quando lhe colocou uma mão sob a saia.

estava-se preparando para morder, gritar e cuspir quando de repente o homem saiu pelos ares. Quão único pôde fazer foi ficar pega à barra e olhar ao Ethan.

—Está bem?

Disse-o tão calmadamente que a cabeça do Grace se moveu automaticamente acima e abaixo para assentir. Mas os olhos dele não estavam acalmados. Havia neles uma ira tão elementar e primária que ela se estremeceu.

—Sal e me espere na caminhonete.

—Eu..., ele... —Então gritou. Logo lhe daria vergonha recordá-lo, mas foi tudo o que saiu de sua tensa garganta quando o homem se lançou contra Ethan como um aríete, com a cabeça para baixo e os punhos apertados.

Ela olhou enjoada como Ethan simplesmente se girou e lhe deu um, dois murros e se desfez do homem como se fora uma mosca. Logo se agachou, agarrou-o pelo peitilho da camisa e lhe fez sustentar-se sobre pernas de borracha.

—Mais vale que vá. —Sua voz era aço puro com um fio perigosamente agudo—. Porque se te vir por aqui nos próximos minutos, você Mato. E a menos que tenha família ou amigos próximos, a ninguém vai importar um apito.

Lançou-o, com o que ao Grace pareceu apenas um giro da boneca, e o homem se estrelou contra uma mesa. Logo Ethan lhe voltou as costas como se o tipo não existisse. Mas a desumana fúria seguia intacta em seu rosto quando olhou ao Grace.

—Hei-te dito que esperasse na caminhonete.

—Tenho que..., tenho que... —Grace ficou uma mão no peito e apertou para cima para empurrar as palavras. Nenhum dos dois olhou quando o homem se incorporou torpemente e saiu pela porta cambaleando-se—. Tenho que fechar. Shiney...

—Shiney se pode ir a mierda. —Como não parecia que ela fora a mover-se, agarrou-a da mão e a arrastou até a porta—. Se merece que o açoitem por permitir que uma mulher só fechamento este sítio de noite.

—Steve... teve que...

—Vi a esse bode sair apitando daqui como se houvesse uma bomba relógio. —Ethan tinha a intenção de manter uma larga conversação com ele também. Logo, prometeu-se sombríamente, enquanto empurrava ao Grace para que subisse à caminhonete.

—chamou Mollie... Está de parto. Hei-lhe dito que se fora.

—Só te ocorre. Estúpida mulher.

Essa afirmação, pronunciada com tal fúria borbulhante, fez que lhe tirasse o tremor que acabava de começar, e cortou a gratidão lhe balbuciem que Grace estava a ponto de expressar. O a tinha salvado como um cavalheiro em um conto de fadas, mas a tênue neblina romântica que brilhava em seu cérebro ainda afetado se evaporou.

—Não sou estúpida.

—Sim que o é, joder. —Tirou a caminhonete do estacionamento bruscamente, soltando cascalho e fazendo que Grace caísse para trás em seu assento. O gênio do Ethan, incomum mas tremendo, seguia inalterado, e não havia forma de lhe parar até que lhe passasse.

—Esse homem era o estúpido —repôs energicamente—. Eu só estava fazendo meu trabalho.

—Fazendo seu trabalho por pouco lhe violam. Esse hijoputa tinha a mão colocada sob sua saia.

Ela ainda podia sentir como a tinha sovado. A náusea lhe subiu pela garganta mas a tragou implacável.

—Já sei. Essas coisas não passam no Shiney.

—Pois acaba de passar no Shiney.

—Não é o tipo de cliente normal. Esse não era de por aqui. Esse era...

—Esse estava aqui. —Ethan girou para entrar no estacionamento do Grace, freou e apagou o motor com um gesto brusco da boneca—. E você também, varrendo um bar em metade da noite sozinha, joder. E o que foste fazer quando terminasse? Caminhar as putas três milhas até sua casa?

—Poderia ter conseguido que me levasse alguém, mas...

—Mas é muito teimosa para pedi-lo —concluiu ele—. Preferiria te arrastar coxeando com esses saltos quilométricos antes de pedir um favor.

Grace levava umas esportivas em sua bolsa, mas decidiu que não serviria de nada mencioná-lo. Sua bolsa, recordou, que se tinha ficado no bar aberto. Agora lhe tocaria voltar cedo pela manhã, recolher suas coisas, e fechar com chave antes de que o chefe se inteirasse.

—Bom, pois muito obrigado por sua opinião sobre meus defeitos e pelo sermão. E muitíssimas obrigado por tomar a moléstia de me trazer até minha casa. —Deu-lhe um empurrão à porta, mas Ethan lhe agarrou o braço e lhe deu a volta com brutalidade.

—Aonde coño te crie que vai?

—Vou a casa. Me vou pôr em encharcamento meu teimoso pescoço e meu estúpido cérebro e depois vou à cama.

—Não terminei.

—Mas eu sim. —liberou-se bruscamente e se desceu de um salto. Desde não ter sido pelos malditos saltos, o teria conseguido. Mas antes de que desse três passos, Ethan saiu por seu lado e lhe bloqueou o caminho—. Não tenho nada mais que te dizer. —A voz do Grace era fria e distante, e o queixo estava erguido.

—Muito bem. Assim pode me escutar. Se não deixar de trabalhar no pub, que é o que deveria fazer, vais adotar certas precauções básicas. O primeiro, um carro de que possa confiar.

—Não te ocorra me dizer o que tenho que fazer.

—te cale!

Grace se calou, mas só porque se ficou muda de assombro. Nunca, em todos os anos que o conhecia, tinha visto assim ao Ethan. À luz da lua, podia ver que a ira de seus olhos não se apaziguou no mais mínimo. Seu rosto era como uma pedra, as sombras que se deslizavam sobre lhe davam um aspecto duro, inclusive perigoso.

—Me vou ocupar de que tenha um veículo confiável —continuou, no mesmo tom cortante—. E não voltará a fechar você sozinha nunca mais. Quando terminar seu turno, quero que alguém te acompanhe ao carro e espere até que ponha o seguro e vá.

—Isso é ridículo.

Ethan avançou um passo. Embora não a tocou, nem elevou a mão, Grace retrocedeu. Seu coração começou a pulsar muito rápido ressonando forte na cabeça.

—O que é ridículo é que cria que pode fazê-lo todo você sozinha. E já estou farto.

Grace replicou cheia de raiva, odiando-se a si mesmo:

—Que você está farto?

—Sim, e isto vai trocar. Não posso impedir que te mate a trabalhar, mas posso fazer algo quanto ao resto. Se você não toma medidas no bar para assegurar sua segurança, farei-o eu. vais deixar de te buscar problemas.

—me buscar problemas? —O ultraje fluiu em seu interior como uma quebra de onda hirviente, por isso lhe surpreendeu que não lhe estalasse a cabeça—. Eu não estava procurando nada. Esse bode não aceitou um não por resposta, não lhe importou quantas vezes o repeti.

—Isso é exatamente o que te estou dizendo.

—Você não sabe o que está dizendo —replicou em um irado sussurro—. Me vi com ele, e teria seguido fazendo-o se...

—Como? —A visão do Ethan estava tinta de vermelho nos borde. Seguia a vendo pega à barra, com os olhos muito abertos e assustados que brilhavam qual cristal. Seu rosto estava pálido como um fantasma. Se ele não tivesse entrado nesse momento ...E como a idéia do que tinha podido acontecer seguia lhe arranhando no mais profundo de seu cérebro, seu controle se fez pedacinhos—. me Diga como —exigiu, apertando-a contra si em um movimento rápido—. Adiante, demonstre-me isso —Déjame.

Grace se debateu, empurrou-lhe e seu pulso se acelerou.

—me deixe.

—Crie que lhe dizendo que te deixe, uma vez cheirou seu perfume, vai trocar algo? Uma vez que há sentido o contorno de seu corpo? —Curvas sutis e largas linhas—. Sabia que não havia ninguém que lhe detivera, que podia fazer o que gostasse.

No interior do Grace todo era um assalto sem pensamento; o coração, o sangue, a cabeça.

—Eu não haveria... lhe teria detido.

—Detenme a mim.

Dizia-o a sério. Uma parte dele desejava desesperadamente que lhe parasse, que fizesse ou dissesse algo que conseguisse manter a raia seu lado selvagem. Mas sua boca estava na do Grace, áspera e desejosa, absorvendo seus ofegos, procurando mais e desfrutando de seus tremores, rápidos e violentos.

Quando ela gemeu, quando seus lábios se renderam, abriram-se e lhe responderam, Ethan perdeu a cabeça.

Arrastou-a à erva, rodou com ela, sobre ela. O grosso ferrolho com que tinha mantido seus desejos sob chave se abriu com uma explosão e o que saiu fluindo foi uma cobiça temerária e um desejo primitivo. Assaltou a boca feminina com o apetite implacável de um lobo faminto.

Alagada por necessidades tanto tempo enterradas, Grace se arqueou contra ele, procurando unir seu centro com o seu, seu núcleo com o seu. Seu organismo sofreu um curto-circuito de surpreso prazer, e depois se lançou à vida uivando de sorte.

Calor em baforadas, gemidos estrangulados, trementes deleites.

Este não era o Ethan que ela conhecia, ou o que tinha sonhado que um dia a tocaria. Não havia delicadeza, não havia ternura, mas se entregou a ele, encantada pela sensação de arrebatamento.

Envolveu seus largos membros em torno dele para lhe aproximar mais, deixou que os dedos se afundassem em seu cabelo, que se aferrassem a ele. E tremeu com o perverso prazer de saber que ele era mais forte.

Ethan se deleitou saboreando sua boca, seu pescoço enquanto atirava do ajustado e decotado sutiã. Necessitava desesperadamente sua pele, o tato, o sabor. A pele do Grace, seu sabor.

Seus peitos eram pequenos e firmes, a pele tão suave como o cetim sob sua palma larga e dura. O coração do Grace revoava debaixo.

Grace gemeu, assombrada pela sensação dessa emano arruda acariciando-a, roçando-a, que revolvia um impulso gêmeo entre suas pernas, onde os músculos haviam lhe tornado frouxos e líquidos. E pronunciou seu nome em um suspiro.

Foi como se lhe tivesse pego um tiro. O som da voz do Grace, seu fôlego quebrado, o tremor de sua pele, o propinaron uma bofetada fria e dura.

apartou-se rodando até tombar-se de costas e lutou por recuperar o fôlego, a prudência. A decência. Por Deus bendito, estavam no pátio dianteiro do Grace. A menina dormia dentro da casa. E ele tinha estado a ponto, quase a ponto, de fazer algo pior que o tipo do bar. Tinha estado a ponto de trair sua confiança, sua amizade e sua vulnerabilidade.

A besta que se ocultava em seu interior era precisamente a razão pela qual se jurou não tocá-la nunca. Agora, ao deixá-la solta, tinha violado seu voto e o tinha quebrado tudo.

—Sinto muito. —Uma frase desprezível, pensou, mas não possuía outras palavras—. meu Deus, Grace, sinto muito.

O sangue do Grace seguia fluindo ardente e essa necessidade aterradora e maravilhosa se elevou até fazê-la desejar gritar de excitação. voltou-se, e alargou a mão para lhe acariciar o rosto.

—Ethan.. .

—Não há desculpas —lhe interrompeu ele rapidamente, sentando-se de modo que não lhe tocasse, que não lhe tentasse—. perdi os estribos, e já não raciocinava.

—Que perdeste os estribos? —Grace ficou onde estava, atirada na erva que agora lhe parecia muito fria, com a cara elevada para a lua, que agora brilhava com muita intensidade—. Assim só estava furioso—comentou em tom apagado.

—Estava furioso, mas isso não é desculpa para te fazer danifico.

—Não me tem feito mal. —Ainda podia sentir suas mãos na pele, a pressão áspera e insistente. Mas a sensação então, a sensação agora, não era de dor.

Ethan acreditou que agora podia controlá-lo, o olhá-la, o tocá-la. Ela devia necessitá-lo. Não poderia ter suportado que lhe tivesse medo.

—Quão último quero é te fazer danifico. —Tão tenro como um pai carinhoso, arrumou-lhe a roupa. Quando ela não se encolheu, passou-lhe uma mão pelo desordenado cabelo—. Só quero o melhor para ti.

Grace não se encolheu, mas o que sim fez foi apartar sua mão, brusca e energicamente, de um tapa.

—Não me trate como a uma menina. Faz uns minutos não te há flanco tanto me tratar como a uma mulher.

Que não lhe havia flanco?, ironizou Ethan sombrio.

—cometi um engano.

—Então ambos o cometemos. —sentou-se, limpando-a roupa com energia—. Não foi algo só de sua parte, Ethan, sabe. Eu não tratei que fazer que parasse porque não desejava que o fizesse. Isso foi tua idéia.

Ethan se sentia confundido e, de repente, muito nervoso.

—Joder, Grace, estávamos dando voltas na erva diante de sua casa.

—Não é isso o que te tem feito te deter.

Com um suspiro inaudível, ela elevou os joelhos e as rodeou com os braços. Esse gesto, tão inocente, contrastava com a diminuta saia e as médias de ralo, e fez que ao Ethan lhe atassem de novo os músculos do estômago em nós ardentes e escorregadios.

—Teria-te detido fora como fora, em qualquer lugar que tivesse acontecido. Possivelmente porque te acordaste que era eu, mas agora me resulta mais difícil acreditar que não me deseja. Assim vais ter que me dizer isso claramente se quiser que as coisas voltem a ser como eram.

—Assim é como devem ser.

—Isso não é uma resposta, Ethan. Sinto ter que te pressionar nisto, mas acredito que mereço que me responda. —Resultava-lhe brutalmente duro lhe perguntar, mas o sabor dele ainda permanecia em seus lábios—. Se não pensar em mim desse modo, e foi só seu gênio o que te empurrou a me dar uma lição, tem que me dizer isso sem tolices.

—foi o gênio.

Aceitando uma nova ferida em seu coração, Grace assentiu.

—Bom, pois funcionou.

—Isso não faz que estivesse bem. O que acabo de fazer me aproxima bastante a esse hijoputa do bar.

—Eu não desejava que ele me tocasse. –Grace inspirou fundo, reteve o ar e o deixou escapar lentamente. Mas ele não falou. Não falou, pensou ela, mas se retirou.

Possivelmente não se moveu um centímetro, mas se separou dela da forma que mais importava.

—Não sabe como te agradeço que estivesse ali esta noite. —foi incorporar se, mas Ethan se adiantou e lhe ofereceu uma mão. Ela a aceitou para que a situação não resultasse ainda mais embaraçosa a nenhum dos dois—. Me assustei e não sei se tivesse sido capaz de resolvê-lo sozinha. É um bom amigo, Ethan, e avaliação muito seu desejo de ajudar.

O se meteu as mãos nos bolsos, onde estariam a salvo.

—falei com o Dave sobre um novo carro. Sabe de um par deles de segunda mão em boas condições.

Posto que gritar não tivesse servido de nada, Grace riu.

—Não perde o tempo. Está bem, já lhe chamo amanhã. —Elevou o olhar para a casa em que brilhava a luz do alpendre dianteiro—. Quer entrar? Poderia-te pôr um pouco de gelo nos nódulos.

—Ora, estão bem. O tipo tinha a mandíbula como um travesseiro. E você tem que ir à cama.

—Sim. —Sozinha, pensou, para dar voltas e mais voltas. E desejar—. vou passar me na sábado um par de horas, só para arrumar um pouco as coisas antes de que retornem Anna e CAM.

—Muito bem, agradecemo-lhe isso.

—Bom, boa noite. —voltou-se e caminhou pela erva para a casa.

Ethan esperou. disse-se a si mesmo que só queria assegurar-se de que ela se encontrava a salvo antes de ir-se. Mas sabia que era mentira, que era uma covardia. Necessitava a distância antes de poder concluir a resposta à pergunta que lhe tinha formulado.

—Grace?

Ela fechou os olhos brevemente. Tudo o que desejava neste momento era entrar em casa, se arrastar até a cama e dar o gosto de uma boa choradeira. Fazia anos que não o permitia. Mas se deu a volta e fez que seus lábios se curvassem.

—Sim?

—Sim que penso em ti desse modo. —Apesar da distância, viu a forma em que seus olhos se abriram mais e se obscureceram, a forma em que seu lindo sorriso desapareceu até que simplesmente ficou ali lhe olhando—. Não quero fazê-lo. Repito-me que não devo. Mas penso em ti desse modo. Agora vete dentro —lhe ordenou brandamente.

—Ethan...

—Venha, é tarde.

Grace conseguiu girar o pomo, entrar na casa e fechar a porta a suas costas. Mas rapidamente se voltou para a janela para ver retornar a sua caminhonete e afastar-se nela.

Era tarde, reconheceu com um tremor que identificou como de esperança. Mas talvez não era muito tarde.

 

—Agradeço-te que me dê uma mão, mamãe.

—Que te dê uma mão? —Carol Monroe rechaçou a idéia estalando a língua enquanto se agachava a atar os cordões das esportivas rosas do Aubrey—. me Levar este cubinho de açúcar comigo a casa a passar a tarde é uma pura delícia. —Deu-lhe um golpecito no queixo—. Nos vamos passar isso em grande, a que sim, carinho?

Aubrey sorriu, conhecendo o jogo.

—Brinquedos! Temos brinquedos, avó. Muñequitas.

—claro que sim. E, quando chegarmos, talvez tenho uma surpresa para ti.

Os olhos do Aubrey se abriram, enormes e brilhantes. Aspirou ar e deu um guincho de alegria, enquanto descia da cadeira de um salto, para correr pela casa em sua própria versão de uma dança de vitória.

—Ai, mamãe! Outra boneca, não. Me está malcriando isso.

—Impossível —afirmou Carol com firmeza, ao tempo que se dava um empurrão no joelho para poder incorporar-se—. Além me corresponde como avó.

Posto que Aubrey estava ocupada correndo e gritando, Carol se tomou um momento para observar a sua filha. Seguia sem dormir o suficiente, como sempre, pensou, notando as olheiras que se esboçavam sob os olhos do Grace. E seguia comendo menos que um passarinho, embora havia lhe trazido suas bolachas caseiras favoritas de manteiga de amendoim, com o fim de que sua filha tivesse algo com o que cobrir seus delicados ossos.

Uma moça que não chegava aos vinte e três deveria maquiar-se um pouco, frisar o cabelo e sair com seus saltos uma noite ou dois em lugar de matar-se a trabalhar.

Como Carol fazia comentários similares uma dúzia de vezes ou mais e sua filha não lhe tinha feito nenhum caso uma dúzia de vezes ou mais, agora provou uma tática distinta.

—Tem que deixar de trabalhar de noite, Gracie. Não te sinta bem.

—Estou bem.

—Trabalhar duramente como Deus manda é necessário para viver e é admirável, mas uma pessoa tem que reuni-lo com um pouco de desfrute e diversão ou se secará por completo.

Cansada de escutar sempre a mesma canção, por muito que variassem as notas, Grace se voltou e esfregou a encimera de sua cozinha, de por si já impoluta.

—Eu gosto de trabalhar no bar. Proporciona-me a oportunidade de ver gente, de conversar com eles.

—Embora fora só para lhes perguntar se queriam outra ronda—. O pagamento é bom.

—Se necessitar dinheiro...

—Estou bem. —Grace adotou uma expressão inflexível. Teria sofrido as penas do inferno antes de admitir que tinha estirado tanto seu pressuposto que estava a ponto de romper-se. E que resolver seus problemas de transporte ia ser tampar um buraco para abrir outro durante nos próximos meses—. O dinheiro extra me vem de pérolas e servir taças me dá bem.

—Já sei. Poderia trabalhar na cafeteria, ter um horário de dia.

Pacientemente, Grace escorreu o pano de chão e a pendurou na pia para que se secasse.

—Mamãe, já sabe que isso é impossível. Papai não quer que trabalhe para ele.

—Isso não o há dito nunca. Além disso, nos ajudas limpando caranguejos quando nos falta pessoal.

—Lhes dou uma mão —especificou Grace, ao tempo que se voltava—. E estou encantada de fazê-lo quando posso. Mas ambas sabemos que não posso trabalhar na cafeteria.

Sua filha era tão teimosa como duas mulas que atirassem em direções opostas, pensou Carol. Isso era o que a fazia filha de seu pai.

—Já sabe que, se o tentasse, poderia conseguir que cedesse.

—Não quero fazê-lo. deixou muito claro o que sente para mim. Deixa-o, mamãe —murmurou quando viu sua mãe a ponto de protestar—. Não quero discutir contigo nem quero te colocar nunca mais na posição de ter que defender ao um frente ao outro. Não está bem.

Carol elevou as mãos. Amava-os a ambos, marido e filha. Mas, Por Deus que não os compreendia.

—Ninguém pode lhes falar com nenhum dos dois quando têm essa expressão no rosto. Não sei por que gasto saliva tentando-o.

Grace sorriu.

—Eu tampouco. —aproximou-se, inclinou-se e beijou a sua mãe na bochecha. Carol era uns quinze centímetros mais baixa que Grace, que media um metro setenta—. Obrigado, mamãe.

Carol se abrandou, como sempre, e se passou uma mão pelo curto cabelo encaracolado. Antes o tinha tão loiro como o de sua filha e sua neta. Mas, como a natureza era como era, agora lhe dava uma discreta ayudita com o Miss Clairol.

Suas bochechas eram redondas e rosadas, e a pele era surpreendentemente suave. Mas não a descuidava. Não se ia à cama nenhuma noite sem haver-se aplicado cuidadosamente uma capa do Oil of Olay.

Desde seu ponto de vista, ser mulher não era só uma questão do destino. Era um dever. Apesar de aproximar-se perigosamente a seus quarenta e cinco aniversários, orgulhava-se de seguir parecendo uma muñequita de porcelana, como seu marido a descreveu fazia muito tempo.

Naquele momento a estava cortejando e tinha feito um esforço para ser poético. Agora essas coisas normalmente lhe esqueciam.

Mas era um bom homem, pensou. Um bom fornecedor, um marido fiel, e um homem justo nos negócios. Seu problema, sabia, era um coração tenro que resultava ferido com muita facilidade. Grace lhe tinha feito muito dano, simplesmente por não ser a filha perfeita que ele esperava.

Estes pensamentos lhe passaram pela mente enquanto ajudava a sua filha a recolher o que Aubrey ia necessitar para a visita da tarde. Parecia-lhe que atualmente os meninos necessitavam muitas mais costure. Houve um tempo em que se colocava ao Grace no quadril, colocava alguns fraldas em uma bolsa e já estavam listas para sair.

Agora sua menina tinha crescido e tinha uma filha própria. Grace era uma boa mãe, pensou, sonriendo um pouco enquanto sua filha e sua neta selecionavam quão animais desfrutariam de do privilégio de uma visita à casa da abuelita. O fato era, Carol tinha que admiti-lo, que ao Grace lhe dava melhor que a ela. A garota escutava, sopesava, considerava. E possivelmente isso era o melhor. Ela simplesmente tinha atuado, decidido, exigido. Grace era tão dócil quando era menina que nunca lhe tinha ocorrido pensar nas inexpresadas necessidades que ardiam no espírito de sua filha.

O sentimento de culpabilidade continuava porque ela tinha sido consciente do sonho de sua filha de aprender dança. Em lugar de considerá-lo seriamente, Carol tomou por um capricho infantil. Não tinha ajudado a sua filha nisso, não a tinha animado, não tinha acreditado nela.

As classes de balé lhe tinham parecido uma atividade normal para uma menina. Se tivesse tido um filho, ocupou-se de que jogasse na Liga Infantil. Era... como se faziam as coisas, pensou agora. As meninas tinham tutús e os meninos luvas de beisebol. por que não podia ser assim de simples?

Mas Grace tinha sido mais complexa, admitiu Carol. E ela não o tinha visto. Ou não o tinha querido ver.

Quando com dezoito anos Grace lhe disse que tinha economizado o dinheiro de seus empregos do verão, que queria ir a Nova Iorque a estudar dança e que se podia ajudá-la com os gastos, respondeu-lhe que se deixasse de tolices.

As garotas que acabavam de sair do instituto não se foram correndo a Nova Iorque, nada menos. supunha-se que os sonhos de bailarina deveriam ir transformando-se em sonhos de bodas e vestidos de noiva.

Mas Grace se empenhou em fazer realidade seu sonho e falou com seu pai e lhe pediu que o dinheiro que tinham afastado para lhe pagar a universidade se pudesse usar para lhe pagar as classes em uma escola de dança em Nova Iorque.

Pete se tinha negado, é obvio. Possivelmente o fez de forma um pouco cruel, mas com a melhor intenção. Quão único fazia era ser sensato, preocupar-se com sua filha. E Carol esteve totalmente de acordo naquele momento.

Mas depois, ela viu como sua filha trabalhava sem descanso e economizava cada céntimo, mês detrás mês. Estava decidida a ir-se, ao preço que fora, e ao vê-lo, Carol tratou de pressionar ligeiramente a seu marido para que o permitisse.

Mas ele não cedeu, e tampouco o fez Grace.

Acabava de cumprir os dezenove quando apareceu em cena o pico de ouro do Jack Casey. E aí se acabou tudo.

Tampouco podia lamentá-lo, tendo em conta que Aubrey vinha daquilo. Mas podia lamentar que o embaraço, o apressado matrimônio e o divórcio ainda mais apressado tivessem aberto uma fratura ainda major entre pai e filha.

Mas o que era não se podia trocar, disse-se, e tomou a sua neta da mão para levá-la até o carro.

—Seguro que esse carro que Dave tem para ti funciona bem?

—E1 diz que sim.

—Bom, quem melhor para sabê-lo. —Era um bom mecânico, pensou Carol, embora também ele tinha sido o que contratou ao Jack Casey—. Já sabe que te posso emprestar o minha uma temporada. Assim teria mais tempo para olhar por aí.

—Este irá bem. —Nem sequer tinha visto o veículo de segunda mão que Dave lhe tinha procurada—. na segunda-feira assinamos os papéis e então terei mobilidade outra vez.

Depois de sentar ao Aubrey na sillita, Grace entrou no carro, ao tempo que sua mãe se sentava ao volante.

—Vamos, vamos, vamos! Rápido, avó, rápido —exigiu Aubrey. Carol se ruborizou quando Grace a olhou, arqueando as sobrancelhas.

—tornaste a lhe dar ao acelerador, verdade?

—Conheço-me estas estradas como a palma da mão, e não me puseram nenhuma multa em toda minha vida.

—Porque a polícia não pode te alcançar. —Rendo, Grace ficou o cinturão.

—Quando voltam os recém casados? —Carol não só queria sabê-lo, preferia dirigir a conversação longe de sua conhecida afeição a pisar em forte o acelerador.

—Acredito que chegam hoje por volta das oito da tarde. Só quero lhe dar uma passada à casa, possivelmente preparar um pouco de jantar se por acaso chegam com fome.

—Imagino que a esposa do CAM lhe agradecerá isso. Que bonita estava de noiva. Nunca vi uma mais bela. O que não sei é onde conseguiu esse vestido, com o pouco tempo que lhe deixou o menino para planejar a cerimônia.

—Seth me comentou que Anna o comprou em Washington e o véu era de sua avó.

—Isso está bem. Eu também tenho meu véu guardado. imaginei muitas vezes o bem que te sentaria em suas bodas. —deteve-se e com gosto se teria mordido a língua.

—Teria resultado um pouco desconjurado no tribunal do condado.

Carol suspirou ao tempo que entrava no atalho dos Quinn.

—Bom, já lhe porá isso a próxima vez.

—Não me voltarei a casar nunca. Não me dá bem. —Sua mãe ficou com a boca aberta ante esta afirmação. Grace se desceu do carro rapidamente, logo apareceu pelo guichê e deu a sua filhinha um sonoro beijo—. te Leve bem, ouve-me? E não deixe que a abuelita te dê muitos doces.

—Avó tem chocolate.

—Já sei! Adeus, minha menina. Adeus, mamãe. Obrigado.

—Grace. —O que podia dizer?—. Né, me chame quando terminar e acontecer com recolher.

—Já veremos. Não deixe que te esgote —acrescentou e correu escada acima.

Sabia que tinha calculado bem o tempo. Todos estariam trabalhando no estaleiro. Estava decidida a não sentir-se violenta pelo que tinha acontecido fazia duas noites. Mas sim, sentia-se terrivelmente violenta e queria tempo para acalmar-se antes de voltar a ver o Ethan.

Era uma casa que resultava sempre cálida e acolhedora. Relaxava-lhe cuidar dela. Como sabia que uma grande parte de sua motivação para trabalhar esta tarde era egoísta, esforçou-se ainda mais. O resultado ia ser o mesmo, não?, pensou sentindo-se um pouco culpado, enquanto passava a velha camurça estendendo a cera pelos chãos de madeira até deixá-los brilhantes. Anna se encontraria uma casa reluzente, com o aroma das flores frescas, da cera e da composição que perfumavam o ambiente.

Uma mulher não devia retornar de sua lua de mel a uma casa desordenada e cheia de pó. E Deus sabia que os Quinn geravam desordem e pó em abundância.

Que narizes! Ela era necessária aqui. Quão único estava fazendo era pôr o de manifesto.

Dedicou-lhe muito tempo ao dormitório principal, colocando as flores que lhe tinha pedido ao Irene, para logo trocar o floreiro de sítio meia dúzia de vezes até que se amaldiçoou a si mesmo. Em qualquer caso, Anna as poria onde quisesse, pensou de novo. Provavelmente o trocaria tudo. Quase seguro que o quereria tudo novo, pensou Grace enquanto engomava os finos visillos do verão recém lavados até que não mostrassem nem a mais mínima ruga.

Anna era uma mulher de cidade e seguro que não gostava do gasto mobiliário e os toques rústicos. Em um plis-plas o poria tudo em couro e cristal, e os belos objetos da doutora Quinn seriam guardados em caixas que iriam parar ao desvão para ser substituídos por esculturas que ninguém compreenderia.

Esticou a mandíbula enquanto pendurava os visillos. Logo lhes deu um rápido meneio.

Seguro que cobria os belos chãos antigos com um carpete moderno e além disso pintaria as paredes de alguma cor viva que daria dor de olhos. Lhe acumulou o ressentimento enquanto se dirigia energicamente por volta do quarto de banho para colocar um ramo de rosas tempranas em uma terrina pouco profunda.

Qualquer com um pouco de sentido comun podia ver que a casa só necessitava um pouco de atenção, e um pouco mais de cor aqui e lá. Se ela pudesse dar sua opinião...

deteve-se, dando-se conta de que tinha os punhos apertados, e de que seu rosto, refletido no espelho sobre o lavabo, brilhava de ira.

—OH, Grace, mas o que te passa? —Sacudiu a cabeça e quase riu de si mesmo—. Em primeiro lugar, sua opinião não conta e, em segundo, não sabe se Anna for trocar algo.

Era só que podia trocar o que quisesse, admitiu. E assim que trocava uma só coisa, já nada voltava a ser o mesmo.

Não era isso o que tinha ocorrido entre o Ethan e ela? Algo tinha trocado e agora lhe dava medo, ao mesmo tempo que esperança, que as coisas não voltassem a ser igual.

O pensava nela, pensou e suspirou ante seu próprio reflexo. E o que pensaria? Ela não era uma beleza e além disso estava muito magra para resultar sexy. Sabia que, de vez em quando, conseguia captar o olhar de algum homem, mas não durava muito.

Não era brilhante nem particularmente inteligente, não era capaz de manter uma conversação estimulante nem sabia flertar. Jack lhe disse uma vez que possuía estabilidade. E lhes tinha convencido a ambos, por um tempo, de que isso era o que ele procurava. Mas a estabilidade não era o tipo de rasgo que atraía a um homem.

Talvez se seus maçãs do rosto fossem mais altas ou suas covinhas mais pronunciadas. Ou se suas pestanas fossem mais espessas e escuras. Talvez se os coquetes cachos não se saltaram uma geração, lhe deixando o cabelo liso e murcho.

O que pensaria Ethan quando a olhava? Desejou possuir a valentia necessária para lhe perguntar.

Ela se olhava, e via o ordinário.

Quando dançava, não se sentia ordinária. sentia-se especial, bela e cheia de graça. Com ar sonhador, realizou um plié, colocando a entrepierna sobre os talões, depois se elevou de novo. Teria jurado que seu corpo suspirava de gozo. Dando-se gosto, fluiu em um movimento antigo mas bem recordado, para concluir com uma lenta pirueta.

—Ethan! —chiou, enquanto o rubor alagava suas bochechas ao vê-lo parado na porta.

—Não pretendia te dar um susto mas tampouco queria interromper.

—Ah, bom. —Envergonhada, recolheu seu trapo de limpar e o retorceu entre as mãos—. Estava... a ponto de terminar aqui.

—Sempre foi uma bailarina muito bonita. —prometeu-se conseguir que as coisas voltassem a ser como sempre entre eles, assim que lhe sorriu como sorriria a uma amiga— Sempre dança no quarto de banho depois de limpá-lo?

—Não o faz todo mundo? —Fez tudo o que pôde para responder a seu sorriso, mas o calor seguiu lhe picando nas bochechas—. Acreditava que ia terminar antes de que chegassem. Suponho que os chãos me levaram mais tempo de que pensava.

—Estão muito bem. Parvo já se escorregou uma vez. Surpreende-me que não o tenha ouvido.

—Estava sonhando acordada. Acreditava que eu... —Conseguiu limpar o cérebro e lhe jogar um bom olhar. Estava asqueroso, talher de suor e sujeira e Deus sabe que mais—. Ouça, não estará pensando em te dar uma ducha aqui, verdade?

Ethan elevou uma sobrancelha.

—Me tinha passado pela cabeça.

—Não, impossível.

Ao avançar ela, ele retrocedeu. Era consciente de como cheirava nesse momento. Isso era razão suficiente para manter a distância, mas o pior era que ela estava tão bonita, tão limpa. Fazia um voto solene de não voltar a tocá-la e tinha intenção de respeitá-lo.

—por que?

—Porque não tenho tempo de limpar de novo depois, nem tampouco o banho de abaixo. Ainda fica fritar o frango. pensei lhes fazer isso e uma fonte de salada de batata, para que não tenham que lhes preocupar de esquentar algo quando Anna e CAM cheguem a casa. Depois tenho que me ocupar da cozinha, assim não me dá tempo, Ethan.

—Tenho fama de ser capaz de passar a faxineira no banheiro depois de usá-lo.

—Não é o mesmo. Não pode usá-lo.

Agitado, tirou-se a boina e se passou uma mão pelo cabelo.

—Bom, pois vá problema, porque temos três homens que precisam tirar umas quantas capas de sujeira.

—Há uma baía justo aí fora.

—Mas...

—Toma. —Grace abriu o armarito sob o lavabo e tirou uma pastilha de sabão sem usar. Estavam preparados se acreditavam que lhes ia deixar usar os bonitos sabões para convidados que tinha colocado em um pires—. Lhes tirarei toalhas e roupa limpa.

—Mas...

—Venha, Ethan, e lhes diga ao Phil e Seth o que hei dito. —Pô-lhe o sabão na mão e acrescentou—: Agora mesmo já está soltando pó por toda parte.

O franziu o cenho olhando a pastilha e logo a ela.

—Nem que viesse a família real a nos visitar. Joder, Grace, não me vou ficar em Pelotas e a me mergulhar do embarcadero.

—Já, como se não o tivesse feito antes.

—Não com uma mulher perto.

—Vi homens nus alguma vez e vou estar muito atada para lhes tirar fotos a ti e a seus irmãos. Ethan, acabo-me de passar a maior parte do dia fazendo que esta casa reluza. Não vais pulverizar sua sujeira por toda parte.

Contrariado porque, em sua experiência, discutir com uma mulher que tinha tomado uma decisão era tão doloroso e estéril como golpeá-la cabeça com uma parede de tijolo, meteu-se o sabão no bolso.

—Já agarro eu as puñeteras toalhas.

—Não, não, não, não. Você tem as mãos sujas. Eu lhes levo isso.

Murmurando para si mesmo, baixou as escadas. Phillip recebeu a notícia sobre o banho com um encolhimento de ombros. Seth estava encantado. Saiu correndo como uma flecha, chamou os cães para que lhe seguissem e foi pulverizando sapatos, meias três-quartos e camisa enquanto corria para o embarcadero.

—Este já não vai querer banhar-se normalmente nunca mais —comentou Phillip. sentou-se no mole para tirá-los sapatos.

Ethan ficou de pé. Não ia se tirar nenhuma ditoso objeto até que Grace lhes trouxesse as toalhas e a roupa e entrasse de novo na casa.

—O que faz? —perguntou quando Phillip se tirou a suada camiseta tirando-lhe pela cabeça.

—Estou-me tirando a camiseta.

—Bom, pois volta a lhe pôr isso vai sair Grace.

Phillip elevou o olhar, viu que seu irmão falava totalmente a sério e riu.

—te acalme, Ethan, inclusive a visão de meu torso assombrosamente viril não lhe vai fazer perder a cabeça.

Para prová-lo, ficou de pé e lhe lançou um sorriso a jovem, que se aproximava cruzando a grama.

—ouvi algo sobre frango frito —gritou.

—Estou nisso. —Quando Grace chegou ao embarcadero, colocou as toalhas e a roupa limpa em ordenados montões. endireitou-se e sorriu olhando como chapinhavam Seth e os cães. Supôs que tinham assustado a todas as aves e peixes em um rádio de uma milha—. o de banhar-se aqui adoram.

—por que não te dá um banho conosco? —sugeriu Phillip, e poderia jurar que ouviu como ao Ethan lhe desencaixava a mandíbula—. Poderia me esfregar as costas.

Grace riu e recolheu a roupa que já se tiraram.

—Faz tempo que não me banho em couros e, por muito que goste, agora mesmo tenho muitas coisas que fazer. Se me derem o resto da roupa, porei a máquina de lavar roupa antes de ir.

—Muito obrigado. —Mas quando Phillip procurou a fivela da calça, Ethan lhe deu uma cotovelada nas costelas.

—Pode lavá-la logo se te empenhar, Grace. Agora vete a casa.

—Ethan é muito tímido —disse Phillip meneando as sobrancelhas—. Mas eu, não.

A jovem se limitou a rir outra vez, mas se dirigiu de volta à casa para que estivessem cômodos.

—Não deveria brincar com ela desse modo —murmurou Ethan.

—Levo anos fazendo-o. —Phillip se tirou os jeans, sujos do trabalho, encantado de livrar-se deles.

—Agora é distinto.

—por que? —Phillip começou a tirá-los cueca de seda, mas captou o olhar de seu irmão—. Ah, vá, vá. por que não o havia dito?

—Não tenho nada que dizer. —Como Grace já estava na casa e não podia imaginar-lhe com o nariz pego à janela, tirou-se a camisa.

—A mim o que me põe é sua voz.

—Como?

—Esse som grave que sai da garganta —continuou Phillip, encantado de poder tirar de gonzo a seu irmão por algo—. É uma voz grave, suave e muito sexy.

Apertando os dentes, Ethan se tirou as botas de trabalho com brutalidade.

—Possivelmente não deveria escutar com tanta atencion.

—O que posso fazer? O que posso fazer se tiver um ouvido perfeito? E uma vista bem aguda, também —acrescentou, calculando a distância que lhes separava—. E pelo que posso ver, o resto é igualmente atrativo. Sua boca resulta especialmente lhe sugiram. Lábios cheios, bem formados, sem carmim. Parecem-me do mais suculentos.

Ethan inspirou lentamente duas vezes enquanto se tirava os jeans.

—Está tratando de me chatear?

—Faço tudo o que posso.

Ethan se incorporou e mediu a seu competidor.

—Prefere te mergulhar de cabeça ou de pé?

Agradado, Phillip sorriu.

—Isso é o que te ia perguntar eu.

Ambos esperaram um instante, logo se lançaram o um contra o outro e se agarraram. E, acompanhados pelos estrondosos gritos de fôlego do Seth, lançaram-se à água lutando o um com o outro.

«Ai, Meu deus», pensou Grace com o nariz pego à janela. «Ai, Meu deus». Se tinha visto alguma vez dois exemplares masculinos mais impressionantes, já não se lembrava. Ela só queria jogar uma rápida olhada. Seriamente. Apenas uma miradita inocente. Mas então Ethan se tirou a camisa Y...

Bom, e o que?, não era uma Santa. E jogar uma olhada não o fazia machuco a ninguém.

Era simplesmente que ele era formoso, tão por dentro como por fora. Deus bendito, se pudesse voltar a lhe pôr as mãos em cima durante cinco minutos nada mais, poderia morrer feliz. Embora talvez pudesse, já que ele não era tão indiferente como ela sempre tinha assumido.

Não tinha havido nada indiferente em sua forma de beijá-la, ou na forma em que aquelas mãos a tinham percorrido apressadas.

Deixa-o já, ordenou-se mentalmente, e se separou da janela. seguindo desta maneira, quão único ia conseguir era excitar-se. Sabia como canalizar suas necessidades mais íntimas, que era trabalhando até que lhe passavam.

Mas se não estava totalmente concentrada no frango, quem podia culpá-la?

Quando Phillip voltou a entrar, Grace tinha as batatas para a salada postas a esfriar e o frango na frigideira. O jovem já não parecia um jornaleiro suarento. Em seu lugar aparecia o homem suave, dourado, de uma despreocupada sofisticação. Lhe piscou os olhos um olho.

—Aqui cheira muito bem!

—Fiz mais para que tenham para a comida de amanhã. Deixa essa roupa no quarto de lavar, em seguida me ocupo dela.

—Não sei o que faríamos sem ti nesta casa. —Grace se mordeu o lábio e esperou que todos pensassem o mesmo.

—Ethan está ainda na água?

—Não, Seth e ele estão lhe fazendo algo ao navio. —Phillip foi ao frigorífico e tirou uma garrafa de vinho—. E onde está Aubrey hoje?

—Com minha mãe. De fato, acaba-me de chamar e quer que fique um momento mais. Suponho que um destes dias terei que ceder e permitir que fique a dormir. —Sem compreender, baixou o olhar à taça de afresco veio dourado que Phillip lhe oferecia—. Ah, obrigado. —O que sabia de vinho se podia resumir em menos de duas frases, mas lhe deu um sorvo, porque era o que se esperava dela. Então elevou as sobrancelhas—. Anda, isto não se parece em nada ao que servem no bar.

—Menos mal. —Phillip considerava que o que chamavam o branco da casa no Shiney era apenas levemente superior ao pis de cavalo—. Como vão as coisas pelo bar?

—Bem. —Grace se concentrou no frango, perguntando-se se Ethan lhe teria contado o incidente. Era improvável, decidiu, quando Phillip não prosseguiu com o tema. relaxou-se de novo e deixou que ele a entretivera enquanto trabalhava.

O jovem sempre tinha um montão de histórias que contar. Um bate-papo fácil, quase descuidada. Grace sabia que era muito preparado, que tinha êxito e que na cidade se encontrava como peixe na água. Mas nunca a fazia sentir tola ou pouco capacitada. E de uma forma carinhosa, fez-a sentir um poquito mais feminina que antes de que entrasse na cozinha.

Por isso é pelo que seus olhos riam e sua boca se pregou em um belo sorriso quando Ethan entrou. Phillip se sentou, bebendo seu vinho enquanto Grace lhe dava os últimos toques ao jantar.

—Isso lhe está inventado isso.

—Juro-lhe isso. —Phillip elevou uma mão para sublinhar suas palavras e riu ao ver entrar em seu irmão—. O cliente quer que seja o ganso o que fale, assim que lhe estamos escrevendo o diálogo. «Jeans Ganso de Arroio, uma fina plumagem para a vida diária.»

—É a coisa mais parva que ouvi em minha vida.

—Né! —Phillip lhe fez um brinde—. Já verá como se vendem. Tenho que fazer algumas chamadas. —incorporou-se e deu uma volta à mesa a propósito para lhe dar um beijo a jovem, o que fez que Ethan se inflamasse—. Obrigado por nos dar de comer, carinho.

Saiu assobiando tranqüilamente.

—Lhe imagina, ganhá-la vida escrevendo frases para que as diga um ganso? —Divertida, Grace sacudiu a cabeça enquanto colocava a terrina com a salada de batata no esfrego—. Já está tudo, assim quando tiverem fome, podem jantar. A roupa está na secadora. Não a deixem aí quando tiver terminado ou se enrugará toda.

moveu-se, ordenando a cozinha à medida que falava.

—Esperaria-me para lhes dobrar isso mas ando um pouco mal de tempo.

—Levo-te a casa.

—Agradeço-lhe isso. vou fazer os papéis do carro na segunda-feira, mas até então... —Elevou os ombros e jogou um último olhar para assegurar-se de que não ficava nada por fazer. De todos os modos, foi fixando em cada rincão e cada detalhe enquanto se dirigia para a porta dianteira.

—Como vai ao trabalho? —perguntou Ethan quando estavam em sua caminhonete.

—Leva-me Julie. E depois me levará o próprio Shiney. —esclareceu-se garganta—. Quando lhe expliquei o acontecido a outra noite, alterou-se muito. Não é que estivesse furioso comigo, a não ser preocupado pelo que tinha acontecido. Queria matar ao Steve, mas tendo em conta as circunstâncias..., por certo, tiveram um menino. Quatro quilogramas, o vão chamar Jeremy.

—Já o tinha ouvido —se limitou a comentar Ethan.

Agora Grace tomou ar para dar-se ânimo.

—Sobre o que aconteceu, Ethan, quero dizer...

—Tenho algo que te dizer sobre isso. —Tinha-o pensado com supremo cuidado, palavra por palavra—. Não deveria me haver posto furioso contigo. Você estava assustada e eu me passei mais tempo te gritando que me assegurando de que estivesse bem.

—Já sabia que, em realidade, não estava furioso comigo. Era só que...

—me deixe continuar —insistiu, mas esperou até que girou para entrar no atalho da casa. —Não tinha por que te tocar desse modo. Tinha-me prometido que nunca o faria.

—Mas eu o desejava.

Apesar de que as suaves palavras fizeram que lhe atendesse o estômago, moveu a cabeça em sentido negativo.

—Não voltará a acontecer nunca mais. Tenho minhas razões, Grace, e são razões sólidas. Você não as conhece, e não as compreenderia.

—Não posso as compreender se não me disser quais são.

O não ia contar lhe o que tinha feito, ou o que lhe tinham feito. E o que temia que seguisse espreitando em seu interior, preparado para sair de um salto se não mantinha fechada a jaula.

—São minhas razões. —voltou-se para ela para dizer o olhando a de frente—. Poderia te haver feito mal, estive a ponto. Isso não voltará a acontecer.

—Não tenho medo de ti. —Elevou a mão para lhe acariciar a bochecha, mas ele a agarrou para apartá-la.

—E nunca terá que o ter. Você me importa. —Apertou-lhe a mão brevemente, logo a soltou—. Sempre me importaste.

—Já não sou uma menina e não vou romper me se me tocar. Eu desejo que me toque.

Lábios cheios, bem formados, sem carmim. As palavras do Phillip ressonaram em sua cabeça. E agora Ethan sabia, que Deus lhe ajudasse, exatamente o suculentos que podiam ser.

—Sei que você crie que o deseja, e por isso é pelo que vamos tratar de esquecer o que aconteceu a outra noite.

—Eu não vou esquecer o —sussurrou a jovem, e a forma em que lhe olhou, com os olhos suaves e cheios de necessidade, fez que a cabeça lhe desse voltas.

—Não voltará a acontecer nunca mais. Assim mais vale que te mantenha se separada de mim durante um tempo. —Sua voz estava tinta de desespero quando se inclinou para lhe abrir a porta—. O digo a sério, Grace, manten separada de mim durante um tempo. Já tenho muitos preocupações.

—Está bem, Ethan. —Não lhe ia suplicar—. Se isso é o que quer.

—Isso é exatamente o que quero.

Essa vez não esperou até que Grace entrasse na casa, mas sim deu marcha atrás para sair ao meio-fio assim que ela fechou a porta da caminhonete.

Pela primeira vez em mais anos dos que podia contar, considerou seriamente a possibilidade de agarrar uma boa bebedeira.

 

Seth os esperava vigilante. Sua desculpa para achar-se no pátio dianteiro à medida que se alargavam as sombras eram os cães. Não é que fora exatamente uma desculpa, pensou. Estava tratando de lhe ensinar a Parvo não só a apanhar a gasta e mordida bola de tênis, a não ser a trazer a de volta como o fazia Simon. O problema era que Parvo voltava correndo até ti e logo esperava que jogasse tira e afrouxa para arrebatar-lhe Sabía que estaban de camino porque Cam había llamado desde el avión, algo muy guay. Apenas podía esperar para contarles a Danny y Will que había hablado con Cam mientras éste se hallaba volando en un avión sobre el océano Atlántico.

Não é que lhe importasse. Tinha umas quantas Pelotas, paus e uma velha parte de corda que lhe tinha dado Ethan. Podia jogar e jogar enquanto os cães tivessem vontades de correr, que era, por isso tinha visto, até o infinito.

Mas, enquanto jogava com os cães, manteve o ouvido atento se por acaso se aproximava um carro.

Sabia que estavam de caminho porque CAM tinha chamado do avião, algo muito guay. Logo que podia esperar para lhes contar ao Danny e Will que tinha falado com o CAM enquanto este se achava voando em um avião sobre o oceano Atlântico.

Já tinha procurado a Itália no atlas e tinha encontrado Roma. Tinha percorrido o caminho com o dedo, uma e outra vez, através desse largo oceano, de Roma até a baía do Chesapeake, até esse ponto diminuto na borda oriental de Maryland que era St. Christopher.

Durante uns dias lhe deu medo que não fossem retornar. imaginou ao CAM chamando e dizendo que tinham decidido ficar ali para que ele pudesse voltar a participar das carreiras.

Sabia que CAM tinha vivido em um montão de sítios, participando de carreiras de motos, carros e navios. Ray o tinha contado tudo e havia um caderno gordo cheio de todo tipo de artigos e fotos de periódicos e revistas sobre todas as carreiras que CAM tinha ganho. E sobre todas as mulheres com as que havia tonteado.

E sabia que, justo antes de que Ray se estrelasse contra o poste de telefone e morrera, CAM tinha ganho uma importante carreira em seu aerodeslizador, que Seth desejava poder pilotar embora fora só uma vez.

Phillip tinha conseguido lhe localizar por fim no Montecarlo e Seth tinha encontrado também esse ponto no atlas e não parecia muito maior que St. Chris. Mas ali tinham um palácio, cassinos elegantes e até um príncipe.

CAM tinha retornado a casa a tempo de ver morrer ao Ray. Seth sabia que não planejava ficar muito tempo. Mas se tinha ficado. depois de uma espécie de briga, havia- dito ao Seth que não ia se partir, que estavam unidos o um ao outro e que ficava.

Mas isso era antes de que se casasse, antes de que voltasse para a Itália. antes de que Seth começasse a preocupar-se porque Anna e CAM se esquecessem dele e das promessas que tinham feito.

Mas não se esqueceram. foram voltar.

Não queria que soubessem que lhes estava esperando, ou o nervoso que estava porque foram chegar a casa em qualquer momento. Mas o estava. Não podia compreender por que estava tão excitado. Só levavam fora um par de semanas e, em qualquer caso, CAM era um tostón a maior parte do tempo.

E quando Anna vivesse ali, todos começariam a dizer que tinha que cuidar sua forma de falar porque havia uma mulher na casa.

A uma parte de lhe preocupava que Anna fora a trocar as coisas. Embora ela era a assistente social encarregada de seu caso, ao melhor se cansava de ter a um menino sempre ali. Ela tinha o poder de fazer que se fora. Agora tinha inclusive mais poder, pensou, porque se o fazia com o CAM todo o tempo.

recordou-se a si mesmo que ela tinha jogado limpo, desde a primeira vez que lhe fez sair de classe e se sentou com ele na cafeteria da escola para falar.

Mas não era igual ocupar-se de um caso e viver com ele na mesma casa, verdade?

E possivelmente, só possivelmente tinha jogado limpo com ele, mostrou-se simpática porque gostava que CAM a trabalhasse. Porque queria que se casasse com ela. Agora que já o tinha conseguido, já não tinha que mostrar-se simpática. Até podia escrever em um de seus informe que lhe viria melhor viver em outro sítio.

Bom, ele estaria atento e veria como foram as coisas. Sempre podia fugir se ficavam mau. Embora a idéia de fugir fez que lhe doesse o estômago de uma forma que não lhe tinha doído nunca.

Queria estar aqui. Queria correr pelo pátio lhes lançando um pau aos cães. Queria levantar-se da cama quando ainda estava escuro e tomar o café da manhã com o Ethan e sair a agarrar caranguejos no navio. Trabalhar no estaleiro e visitar o Danny e Will.

Comer comida de verdade sempre que lhe desse a fome e dormir em uma cama que não cheirasse a suor alheio.

Ray lhe tinha prometido todo isso, e embora Seth nunca se confiou de ninguém, sim se confiou nele. Talvez Ray era seu pai, talvez não. Mas Seth sabia que lhe tinha pago a Glória um montão de dinheiro. Pensava nela como Glória e não como sua mãe. Ajudava-lhe a pôr mais distância.

Agora Ray estava morto, mas lhes tinha feito prometer a cada um de seus filhos que manteriam ao Seth na casa junto à água. Supunha que a idéia não lhes tinha gostado, mas igualmente o tinham prometido. Tinha descoberto que os Quinn mantinham sua palavra. Para ele, manter uma promessa era um conceito novo e maravilhoso.

Se a rompiam agora, sabia que lhe ia doer mais que qualquer outra costure no mundo.

Assim esperou e quando ouviu o carro, o indomável rugido do Corvette, seu estômago saltou de nervos e excitação.

Sim.on ladrou duas vezes como saudação, mas Parvo se lançou a um bulício de latidos médio assustados. Quando o estilizado carro branco entrou no atalho, ambos os cães se lançaram correndo para ele, saudando com a cauda como uma bandeira. Seth se meteu nos bolsos as mãos que lhe haviam posto suarentas e se aproximou caminhando com ar depravado.

Olá! —Ana lhe saudou lhe lançando um sorriso radiante.

Seth podia ver por que CAM se apaixonou por ela, claro. O mesmo tinha feito esboços de seu rosto várias vezes em segredo. Gostava de desenhar mais que nada no mundo. Seu olhar de artista incipiente apreciava a pura beleza desse rosto, os amendoados olhos escuros, a tez oro pálido, a boca generosa e o toque exótico dos maçãs do rosto. Seu cabelo, despenteado pelo vento, era uma massa escura e frisada. Sua aliança de bodas, ouro e diamantes, reluzia quando se desceu do carro.

E lhe pilhou de improviso em um estreito abraço cheio de alegria.

—Que maravilhosa festa de bem-vinda!

Embora o abraço lhe tinha surpreso lhe fazendo desejar que durasse mais, debateu-se para liberar-se.

—Só estava jogando com os cães. —Olhou ao CAM e se encolheu de ombros—. Olá.

—Olá, guri. —Moreno, magro e de aspecto um pouco perigoso, CAM foi estirando seus membros ao sair do sob veículo. Seu sorriso era mais rápido que a do Ethan, mais viva que a do Phillip—. Bem a tempo para me ajudar a baixar a bagagem.

—Claro, claro. —Seth elevou a vista e contemplou a montanha de malas atadas a baca do carro—. Mas não lhes levaram toda essa mierda com vós.

—Recolhemos mais mierda na Itália quando estávamos ali.

—Não pude me conter —comentou Anna rendo—. Tivemos que comprar outra mala.

—Dois —lhe corrigiu CAM.

—Alguém é só uma bolsa, não conta.

—Vale. —CAM abriu o porta-malas e tirou uma generosa mala verde escuro—. Você leva a que não conta.

—Já está pondo a trabalhar a seu flamejante algema? —Phillip se aproximou do carro, caminhando entre os cães—. Já a agarro eu, Anna —comentou, e lhe deu um beijo com tal entusiasmo que Seth olhou ao CAM pondo os olhos em branco.

—Deixa-a, Phil —advertiu Ethan com suavidade—. Eu não gostaria de nada que CAM tivesse que te matar antes inclusive de entrar em casa. Bem-vindos —acrescentou e sorriu quando Anna se voltou para ele para lhe dar um beijo tão entusiasta como o que Phillip lhe tinha dado a ela.

—Dá gosto estar em casa.

Resultou que a bolsa continha presentes que Anna começou a distribuir ao momento, junto com anedotas de cada um. Seth ficou olhando a camiseta de futebol branca e azul claro que lhe tinha dado. Jamais ninguém tinha feito uma viagem e havia lhe trazido um presente. A verdade era que podia contar os presentes que tinha recebido com os dedos da mão.

—Na Europa o futebol é muito importante —lhe disse Anna—. Só que ali o chamam simplesmente futebol e ao nosso futebol americano. —Seguiu rebuscando e tirou um livro de grande tamanho com a capa em papel couché—. E acreditei que isto te ia gostar. Não é como ver os quadros. contemplá-los em pessoa resulta arrebatador, mas te pode fazer uma idéia.

O livro estava cheio de quadros, cores gloriosas e formas que deslumbraram seus olhos. Um livro de arte. Anna se tinha acordado de que gostava de desenhar e tinha pensado nele.

—É genial —se limitou a murmurar porque não se confiava em sua voz.

—Anna queria comprar sapatos a todo mundo —comentou CAM—. Tive que detê-la.

—Assim só me comprei meia dúzia de pares para mim.

—Acreditava que só eram quatro. —Anna sorriu.

—Seis. Comprei dois sem que se inteirasse. Ah, Phillip, vi uns Maglis, poderia ter chorado.

—E Arinani?

Suspirou com desejo.

—Claro, também.

—Agora vou chorar eu.

—Podem chorar por coisas de moda mais tarde —lhes disse CAM—. Eu morro de fome.

—esteve Grace. —Seth ardia em desejos de prová-la camiseta ao momento, mas pensou que ia parecer um boneco de pano—. O limpou tudo. Tem-nos feito nos banhar na baía. E preparou frango frito.

—Que Grace fez frango frito?

—E salada de batata.

—Não há nada como o lar —murmurou CAM enquanto se dirigia à cozinha. Seth esperou uns segundos e logo o seguiu.

—Suponho que poderia me comer outra fatia —comentou como por acaso.

—Ponha à cauda. —CAM tirou do esfrego a fonte e a terrina.

—Não lhe deram que comer no avião?

—Isso foi antes, isto é agora. —CAM se encheu um prato com comida, logo se apoiou na encimera. O guri tinha um aspecto bronzeado e saudável. Os olhos seguiam tendo um ar cauteloso, mas tinha perdido essa expressão de coelho a ponto de sair correndo. perguntou-se se lhe surpreenderia tanto como lhe tinha surpreso a ele saber que tinha sentido falta da esse pirralho pico de ouro—. Bom, e que tal foi tudo?

—Bem. Já terminou o curso e estive ajudando muito ao Ethan com o navio. Paga-me uma miséria ali e no estaleiro.

—Anna quererá saber que notas tiraste.

—Sobressalentes —murmurou Seth enquanto mastigava um bocado de frango. CAM se engasgou.

—Em tudo?

—Sim, e o que?

—Lhe vai encantar. Quer conseguir mais pontos com ela?

Seth se encolheu de ombros outra vez, entreabrindo os olhos enquanto pensava no que lhe tocaria fazer para agradar à mulher da casa.

—Talvez.

—Ponha camiseta. passou-se quase meia hora para escolher a melhor. adorará se lhe põe isso a mesma noite que lhe deu isso.

—Ah, sim? —Só se tratava disso?, pensou Seth, e se relaxou até sorrir—. Bom, suponho que posso lhe dar uma satisfação.

—Seriamente lhe gostou da camiseta —comentou Anna enquanto colocava concienzudamente o conteúdo de uma mala—. E o livro. Me alegro tanto de que nos ocorresse o do livro.

—Sim, encantaram-lhe. —Ao CAM parecia que o dia seguinte, ou inclusive o ano seguinte, estariam bem para desfazer a bagagem. Além disso gostava de estirar-se na cama e contemplá-la, contemplar a sua esposa, pensou com uma estranha sensação de alegria, enredar pela habitação.

—E não se ficou bloqueado ao lhe dar um abraço. É um bom sinal. Sua interação com o Ethan e Phillip é mais relaxada, mais natural, muito mais do que era faz um par de semanas. Estava ansioso por voltar a verte. Agora mesmo se sente um pouco ameaçado por mim. Eu troco a dinâmica na casa, justo quando se estava acostumando a como funcionavam as coisas. Assim está esperando e observando a ver o que acontece. Mas isso é bom. Significa que considera que isto é seu lar. Eu sou a intrusa.

—Senhorita Spinelli?

Anna voltou a cabeça e arqueou uma sobrancelha.

—Para ti, senhora Quinn.

—por que não desconecta a assistente social até na segunda-feira?

—Não posso. —Tirou um de seus sapatos novos da bolsa e o olhou extasiada—. A assistente social está muito satisfeita com a evolução deste caso concreto. E a senhora Quinn, a recém estreada cunhada, está decidida a ganhá-la confiança do Seth, possivelmente inclusive até seu carinho.

Voltou a colocar o sapato na bolsa e se perguntou quanto teria que esperar para poder lhe pedir ao CAM que lhe vestisse o armário do dormitório. Sabia exatamente o que queria e ele era muito bom com as mãos. Pensando-o, ficou olhando. Sim, muito bom com as mãos.

—Enfim, suponho que posso terminar com as malas amanhã.

CAM sorriu lentamente.

—Isso suponho eu também.

—Sinto-me muito culpado. Grace deixou a casa impoluta.

—por que não vem aqui? Trabalharemos com esse sentido de culpa.

—por que não? —Atirou o sapato por cima do ombro e, rendo, lançou-se sobre ele.

—Não está nada mal. —CAM estudou o navio. Eram apenas as sete da manhã, mas seu relógio interno seguia posto na hora de Roma. Como se tinha despertado cedo, não viu razão alguma para deixar que seus irmãos vadiassem na cama.

Assim aí estavam os Quinn, de pé sob as brilhantes luz do estaleiro, contemplando o trabalho em marcha. Seth imitou sua postura, as mãos nos bolsos, as pernas abertas apoiadas firmemente, a cara séria.

ia ser a primeira vez que trabalhavam os quatro juntos no navio. Não cabia em si de alegria.

—Eu tinha pensado que você começasse a trabalhar sob coberta —começou Ethan—. Phillip calcula que fazem falta quatrocentas horas para completar o camarote.

CAM se burlou.

—Eu o posso fazer em menos.

—Fazê-lo bem —interveio Phillip—, é mais importante que fazê-lo rápido.

—Eu posso fazê-lo rápido além de bem. O cliente vai ter este bebê preparado para navegar e com a cozinha cheia de champanha e caviar em menos de quatrocentas horas.

Ethan assentiu. Posto que CAM tinha conseguido outro cliente, que queria um navio de pesca esportiva, esperava sinceramente que isso fora verdade.

—Então, nos ponhamos a trabalhar.

E o trabalho lhe mantinha a mente se separada de temas nos que não tinha por que entrar. O cérebro tinha que estar concentrado para poder usar o torno, ao menos se a gente apreciava suas mãos. Ethan fez girar a madeira lenta, cuidadosamente, moldando o mastro. Os protetores auditivos convertiam o zumbido do motor e o furioso rock que uivava da rádio em um eco amortecido.

Supôs que também havia conversação detrás dele. E, ocasionalmente, algum que outro taco. Chegava-lhe o doce perfume da madeira, o aroma forte da resina e do alcatrão usado para recubrir os pernos.

Anos antes, entre os três tinham construído seu navio de tarefa. Não era uma embarcação elegante e não podia dizer que fora bela, mas era sólida e navegava bem. Também tinham construído seu veleiro, porque estava decidido a dragar ostras em uma embarcação tradicional. Agora as ostras quase se acabaram, e seu navio se unia a outros quantos na baía que faziam percorridos turísticos no verão para tirar dinheiro.

Durante a temporada turística, o alugava ao irmão do Jim porque lhes vinha bem a ambos e porque era uma solução prática. Mas lhe incomodava bastante ver a fina nave usada para isso. Como lhe incomodava saber que outras pessoas viviam e dormiam na casa que era dela.

Contudo, na hora da verdade, o dinheiro importava. A risada do Seth penetrou pelos protetores e lhe recordou por que agora importava mais que nunca.

Quando tiveram cãibras as mãos de trabalhar, apagou o torno para lhes dar um descanso. Ao tirá-los protetores, o ruído alagou seus ouvidos.

Ouvia o CAM tamborilar com o martelo sob a coberta. Seth estava lhe dando uma capa de anti-corrosivo à talha de quilha, assim que a chapa de aço tinha um brilho úmido. Ao Phillip havia meio doido o trabalho mais desagradável, empapar o interior do poço da talha com creosoto. Era cedro vermelho velho de boa qualidade, o que deveria desanimar a qualquer molusco, mas tinham decidido não deixar nada ao azar.

Um navio Quinn estava construído para durar.

Sentiu um broto de orgulho ao vê-los trabalhar. Quase podia ver seu pai de pé junto a ele, com seus grandes punhos no quadril e um amplo sorriso no rosto.

—Que bela imagem! —comentou Ray—. É como as fotos que a sua mãe e nós adorávamos olhar. Tínhamos um montão guardadas, para as tirar e voltar às ver quando crecierais e tivessem seguido seu caminho. A verdade é que nunca tivemos oportunidade porque ela se foi antes.

—Sigo jogando a de menos.

—Sei. Ela era a cola que nos mantinha juntos a todos. Mas o fez muito bem, Ethan. Seguem pegos.

—Acredito que sem ela me tivesse morrido. Sem ti. Sem eles.

—Não. —Ray colocou uma mão sobre o ombro de seu filho e negou com a cabeça—. Você sempre foste forte, de coração e de mente. Foi capaz de atravessar o inferno e sair vivo ao outro extremo, tanto pelo que há em seu interior como pelo que fizemos. Isso teria que o ter mais presente. Simplesmente olhe ao Seth. O se enfrenta às coisas de um modo distinto ao teu, mas possui muitas das mesmas qualidades. implica-se mais do que deseja. Pensa mais profundamente do que faz acreditar. E quer ir além do que admite inclusive ante si mesmo.

—Vejo-lhe ti nele. —Nunca se tinha permitido expressar isso, nem sequer a sós—. Não estou seguro do que sinto a esse respeito.

—É curioso, eu lhes vejo os três nele. O olho de quem olhe, já sabe. —Então lhe deu uma leve palmada nas costas—. Estão construindo um navio estupendo. A sua mãe teria encantado vê-lo.

—Os Quinn constróem embarcações duradouras —murmurou Ethan.

—Com quem falas? —perguntou Seth.

Ethan piscou, sentiu que ia a cabeça, cheia de pensamentos tão desfiados como fios de algodão.

—O que? —passou-se a mão pela frente até o cabelo, tornando-a boina para trás—. O que?

—Tio, que estranho está. —Seth ergueu a cabeça, fascinado—. Como é que está aqui falando sozinho?

—Estava... —Dormido de pé?, perguntou-se—. Pensando —respondeu—. Só pensando em alto. —de repente o ruído e os aromas eram como um uivo em seu cérebro enjoado—. Necessito ar murmurou, e saiu a toda pressa pelas portas.

—Que estranho! —repetiu Seth. ia comentar algo ao Phillip, quando se distraiu ao ver que Anna entrava pela porta dianteira com uma grande cesta de picnic.

—Alguém quer comer?

—Claro! —Sempre interessado na comida, Seth se aproximou correndo—. trouxeste o frango?

—O que ficava —respondeu ela—. E sándwiches de presunto dos York grossos como tijolos. Há um recipiente térmico de chá gelado no carro. por que não o traz?

—É minha heroína —comentou Phillip, limpando-as mãos nos jeans antes de liberar a da cesta—. Né, CAM! Há aqui uma mulher preciosa que trouxe comida.

O ruído do martelo cessou ao momento. Uns segundos depois, a cabeça do CAM emergia pelo teto do camarote.

—É minha mulher. Eu tenho preferência com a comida.

—Há mais que suficiente para todos. Grace não é quão única pode cozinhar para um punhado de homens famintos. Embora seu frango frito é uma maravilha.

—Sai-lhe muito bem, sim —coincidiu Phillip. Colocou a cesta em uma improvisada tabela feita com uma prancha de aglomerado situada sobre um par de cavaletes—. Quando vós estavam fora, cozinhava regularmente para o Ethan. —Tirou um sándwich de presunto cozido e acrescentou—: Me dá que aí está acontecendo algo.

—Acontecendo, onde? —inquiriu CAM enquanto dava um salto para explorar a cesta.

—Entre o Ethan e Grace.

—Sério?

—Mmm. —A primeira dentada fez que Phillip fechasse os olhos de prazer. Tivesse preferido cozinha francesa servida em pratos de porcelana fina, mas também era capaz de apreciar um sándwich bem feito servido em um prato de papel—. Minhas certeiras habilidades de observação captaram certos sinais. O a olhe quando ela não se dá conta. O olhe quando ele não se dá conta. E Marsha Tuttle me contou uma fofoca muito interessante. Marsha trabalha com o Grace no bar —explicou a Anna—. Shiney vai instalar um novo sistema de segurança e introduziu uma nova medida, pela qual nenhuma garçonete deve fechar o local sozinha.

—aconteceu algo? —perguntou Anna.

—Sim. —Phillip jogou uma olhada para comprovar que Seth não havia tornado a entrar—. Faz algumas noites, um hijoputa entrou depois de fechar. Grace estava sozinha. Pô-lhe as mãos em cima e, segundo Marsha, teria chegado a mais. Mas resulta que Ethan estava fora. me dá que é uma interessante casualidade, tendo em conta que estamos falando de nosso irmão, que se deita e se levanta como as galinhas. Bom, o caso é que Ethan lhe fez um pouco de pupa ao tipo —disse, e lhe deu outra boa dentada ao sanduíche.

CAM se lembrou da esbelta Grace de osso fino e logo se lembrou da Anna.

—Espero que lhe desse uma boa.

—Acredito que podemos supor que não se foi de rositas. É obvio, sendo Ethan como é, não o mencionou, assim que me tive que inteirar pela Marsha na seção de verdura fresca do súper na sexta-feira de noite.

—Sofreu dano Grace? —Anna sabia muito bem o que era sentir-se apanhada, sentir-se impotente, ter que enfrentar-se com o que um certo tipo de homem era capaz de lhe fazer a uma mulher. Ou a uma menina.

—Não. Tem-lhe que ter afetado o bastante, mas nisso é como Ethan. Não o comentou. Entretanto, ontem se intercambiaram largos olhares silenciosos. E quando Ethan voltou de levá-la a sua casa, estava bastante crispado. —Ao recordá-lo, Phillip jogou uma risita—. E para ser Ethan, isso quer dizer bastante. tomou um par de cervejas e foi se navegar no balandro durante uma hora.

—Grace e Ethan. —CAM considerou a possibilidade—. Encaixam muito bem. —Viu que retornava Seth e decidiu deixar correr o tema—. A propósito, onde está Ethan?

—Está fora. —Com um grunhido, Seth deixou o recipiente térmico e fez um gesto indicando as portas—. Há dito que precisava tomar o ar e suponho que assim era. Estava aí, de pé, falando sozinho. —Encantado com o bota de cano longo, Seth rebuscou na cesta—. Parecia manter uma conversação com alguém que não estava aí. Estava muito estranho.

CAM sentiu um comichão na nuca. Entretanto, moveu-se de forma relaxada, servindo comida em um prato.

—Tampouco me viria mal um pouco de ar. vou levar lhe um sándwich.

Viu o Ethan de pé ao extremo do embarcadero, olhando a água. A ambos os lados, divisava-se o porto do St. Chris com seus casitas e seus pátios, mas ele olhava ante si, sobre a ligeira marejada até o horizonte.

—Anna trouxe um pouco de comida.

Ethan encerrou seus pensamentos e baixou o olhar até o prato.

—Que bom detalhe! É muito afortunado, CAM.

—diga-me isso . —O que ia fazer lhe punha um pouco nervoso. Mas, depois de tudo, era um homem que vivia para o risco—. Ainda me lembro da primeira vez que a vi. Eu estava zangado com o mundo. Acabávamos de enterrar a papai e quão único eu desejava parecia achar-se em outro lugar. O guri me tinha dado muitíssimo a tabarra essa manhã e me ocorreu que a seguinte etapa de minha vida não foram ser as carreiras, não ia ser a Europa. ia ser transcorrer justo aqui.

—Você foste o que renunciou a mais costure ao voltar aqui.

—Isso parecia então. Mas nesse momento se aproximou Anna Spinelli cruzando o pátio enquanto eu reparava os degraus de atrás e me deu o segundo susto do dia.

Posto que a comida estava ali e posto que CAM parecia com vontades de falar, Ethan agarrou o prato e se sentou no bordo do mole. Passou uma garceta voando silenciosa como um fantasma.

—Um rosto como o seu é capaz de sobressaltar a um homem.

—Sim. E eu já me sentia um pouco nervoso. menos de uma hora antes, tinha mantido uma conversação com papai. O estava sentado na cadeira de balanço do alpendre traseiro.

Ethan assentiu.

—Sempre gostou de sentar-se aí.

—Não estou dizendo que recordava lhe ver sentado aí. Quero dizer que lhe vi aí. Exatamente como agora te estou vendo ti.

Lentamente Ethan voltou a cabeça e olhou a seu irmão aos olhos.

—Viu-o sentado na cadeira de balanço do alpendre.

—E também lhe falei. E ele me falou. —CAM se encolheu de ombros e olhou a água—. Assim que eu acreditava que estava alucinando. É o estresse, a preocupação, possivelmente o aborrecimento. Tenho coisas que lhe dizer, perguntas que quero que responda, assim que minha mente o põe aí. Só que não era isso.

Ethan avançou com cuidado por terreno movediço.

—Você o que crie que era?

—O estava aí, essa primeira vez e as outras.

—Outras vezes?

—Sim, a última foi na manhã anterior à bodas. Disse que seria a última, porque eu já havia resolvido o que tinha que resolver no momento. —CAM se passou as mãos pela cara—. Tive que lhe deixar partir de novo. Resultou-me um pouco mais fácil. Não consegui que respondesse todas minhas perguntas, mas suponho que sim às que mais importavam.

Suspirou, sentindo-se melhor, e agarrou uma batata do prato do Ethan.

—Agora você me diga que estou louco ou que sabe do que estou falando.

Com ar pensativo, Ethan partiu um dos sándwiches pela metade e lhe deu uma a seu irmão.

—Quando segue a água, aprende que há mais coisas das que pode ver ou tocar. Sereias e serpentes. —Sorriu levemente—. Os marinhos sabem dessas criaturas, tanto se as viram como se não. Não acredito que esteja louco.

—Me vais contar o resto?

—tive alguns sonhos. Eu acreditava que eram sonhos —se corrigiu—, mas ultimamente tive um par deles estando acordado. Suponho que eu também tenho perguntas, mas me custa muito pressionar a alguém até conseguir respostas. Eu gosto de escutar sua voz, ver seu rosto. Não tivemos tempo suficiente para lhe dizer adeus de verdade antes de que morrera.

—Possivelmente isso é parte do assunto. Mas não o é tudo.

—Não. Mas não sei o que quer que faça que eu não esteja fazendo já.

—Suponho que ficará até que saiba. —CAM lhe deu uma dentada ao sanduíche e se sentiu assombrosamente contente—. E o que lhe parece o navio?

—Acredita que é cojonudo.

—Tem razão.

Ethan contemplou seu sándwich.

—O vamos contar ao Phillip?

—Para nada. Mas estou impaciente por que aconteça a ele. O que te aposta a que sai correndo em busca de algum psiquiatra de presunção? Quererá um com um montão de títulos e uma consulta na zona apropriada da cidade.

—Uma psiquiatra —lhe corrigiu Ethan, e esboçou um sorriso—. Se se tiver que tombar em um divã, quererá que seja mulher e bonita. Que bom dia faz! —acrescentou, apreciando de repente a cálida brisa e o resplendor do sol.

—Ficam dez minutos para lhe desfrutá-lo advertiu seu irmão—. Logo te quero outra vez movendo o culo.

—Vale. Sua mulher faz uns sándwiches muito bons. —Inclinou a cabeça a um lado—. Que tal lhe dará lixar madeira?

CAM o pensou e gostou da imagem.

—vamos convencer a para que nos deixe averiguá-lo.

 

Anna estava encantada de ter a tarde livre. Desfrutava muito com seu trabalho e sentia tanto carinho como respeito pela gente com a que trabalhava. Acreditava firmemente na função e os objetivos do trabalho social. E sentia a satisfação de saber que estava contribuindo a trocar as coisas.

Ajudava às pessoas: a jovem mãe solteira sem ninguém a quem recorrer, o menino não desejado, a pessoa maior sem lar. Em seu interior ardia o desejo profundo e brilhante de ajudá-los a encontrar seu caminho. Sabia o que era sentir-se perdida e se desesperada, e sabia o que podia trocar uma pessoa que oferecia uma mão e se negava a retirá-la, inclusive quando essa mão era rechaçada com um mau gesto ou uma má palavra.

E como estava decidida a ajudar ao Seth DeLauter, tinha conhecido ao CAM. Uma nova vida, um novo lar. Novos começos.

Às vezes, pensou, a recompensa retornava a ti multiplicada por cem.

Tudo o que tinha desejado, tudo o que não sabia que desejava estava ligado a essa encantadora  casa junto à água. Uma casa Branca com um cós azul. Cadeiras de balanço no alpendre, floresça no pátio. Recordava a primeira vez que a viu. Ia por esta mesma estrada com a rádio a todo volume. É obvio, a capota estava posta aquela vez para que o vento não lhe arrancasse as forquilhas do cabelo.

Tinha sido uma visita profissional, e Anna estava empenhada em que tudo fora muito sério.

A casa a tinha seduzido, sua simplicidade, sua estabilidade. Logo deu a volta à formosa construção de dois pisos junto à água e viu um homem zangado, pouco amável e muito sexy dedicado a reparar os degraus do alpendre traseiro.

Após nada tinha sido igual para ela.

Graças a Deus.

Agora era sua casa, pensou com um sorriso de satisfação enquanto conduzia o carro pela estrada flanqueada por amplos campos planos. Sua casa no campo, com o jardim que tinha sonhado... E o homem zangado, pouco amável e sexy? Também era dele, e tantas coisas mais que nunca tivesse imaginado.

Continuou pela mesma estrada reta enquanto escutava um programa na rádio sobre homens-lobo em Londres. Mas esta vez não lhe importava se o vento lhe desordenava o cabelo, que antes tinha estado cuidadosamente recolhido com forquilhas. Voltava para casa, assim que a capota estava baixada e ela se sentia muito alegre.

Tinha trabalho que fazer, mas podia concluir os informe que ficavam no portátil, em casa. Decidiu que o faria enquanto o molho de tomate se cozinhava ao fogo. ia preparar uns lingüinis para lhe recordar ao CAM a viagem de bodas.

Não é que a lua de mel tivesse terminado, embora estivessem de volta na borda oriental e já não em Roma. perguntou-se se esta paixão indomável e travessa que sentiam o um pelo outro cessaria alguma vez.

Esperava que não.

Rendo-se de si mesmo, entrou no atalho como uma centelha. E esteve a ponto de estelar o pequeno conversível com a parte de atrás de um sedan cinza apagado com o pára-choque oxidado. Quando o coração voltou para seu lugar, perguntou-se de quem seria.

Não era o tipo de carro que atraía ao CAM, decidiu. Pode que lhe gostasse de jogar com os motores, mas preferia que fossem de veículos estilizados e velozes. Esta carroceria pesada e velha não tinha aspecto de ser um carro rápido.

Phillip? Deixou escapar uma risada zombadora. O impecável Phillip Quinn não poria o pé, calçado em um sapato italiano, no gasto chão de tal veículo na vida.

Então, Ethan. Mas Anna franziu o cenho. Ao Ethan foram as caminhonetes e os jipes, não um veículo familiar que tinha as aletas ainda pintadas com antioxidante cinza.

Estavam-lhes roubando, pensou com um sobressalto que tornou o batimento do coração de seu coração em um martelo percussor. A plena luz do dia. por aqui ninguém pensava em fechar as portas e a casa estava protegida dos vizinhos só pelas árvores e a restinga.

Nesse mesmo momento havia alguém dentro, tocando suas coisas. Entreabrindo os olhos, saiu do carro a toda pressa. Não foram sair se com a sua. Agora esta era sua casa, maldita seja, e eram suas coisas, e se qualquer ladrão de médio pêlo acreditava que ia poder...

interrompeu-se ao olhar dentro do carro e ver um grande coelho rosa. E a sillita infantil. Um ladrão de casas com um menino nas costas?

Grace, caiu na conta com um suspiro. Era um dos dias de limpeza do Grace Monroe.

Garota de cidade, burlou-se, deixa a um lado seus instintos urbanos. Agora está em outro mundo. Sentindo-se totalmente ridícula, voltou para seu próprio carro e tirou sua maleta e a bolsa de verdura e fruta que tinha comprado de caminho a casa.

Ao pôr o pé no alpendre, ouviu o monótono zumbido do aspirador, acompanhado da buliçosa melodia de um anúncio de televisão. Bons sons domésticos. E estava mais que encantada de que não fosse ela a quem lhe tocava passar o aspirador.

Quando Anna entrou pela porta, ao Grace esteve a ponto de cair a manga do aspirador. Claramente agitada, retrocedeu, lhe dando com o pé ao botão para apagar o aparelho.

—Perdoa. Acreditava que ia terminar antes de que ninguém retornasse a casa.

—Hoje chego logo. —Embora levava as mãos enche, Anna ficou em cuclillas ante a cadeira em que estava sentada Aubrey, pintando furiosamente com uma cor arroxeado o desenho de um elefante em seu caderno de colorir—. Que bonito!

—É um fante.

—É um fante estupendo. O fante mais bonito que vi em todo o dia.

Como o nariz do Aubrey parecia pedi-lo, Anna lhe deu um besito.

—Quase terminei. —Ao Grace os nervos dançaram pelo espinho dorsal. Anna tinha um aspecto muito profissional vestida de traje. O fato de que o cabelo lhe derramasse livre das forquilhas só a fazia parecer... profissional e sexy, decidiu Grace—. Já terminei acima e na cozinha. Não sabia... Não estava segura do que queria, mas preparei um guisado, batatas com bechamel, queijo e presunto cozido. Coloquei-o no congelador.

—Maravilhoso. Esta noite cozinho eu. —Anna se incorporou e equilibrou as bolsas risueñamente. Esteve a ponto de tirá-los sapatos, mas se deteve. Não lhe parecia bem começar a deixar coisas atiradas quando Grace ainda estava terminando de limpar.

Esperaria até mais tarde.

—Mas amanhã não sairei logo —continuou—. Assim que nos virá de pérolas.

—Bom, eu... —Grace sabia que estava um pouco suja e suarenta e se sentiu totalmente superada pela tersa blusa da Anna e seu traje alfaiate. Ah, e esses sapatos, pensou, fazendo todo o possível para que não se notasse que estava olhando. Eram tão belos, tão clássicos, e o couro parecia tão suave que quase se poderia dormir com eles postos. Os dedos dos pés lhe curvaram de vergonha em suas puídas esportivas brancas—. A penetrada está quase terminada. Há uma carga de toalhas na secadora. Não sabia onde queria que deixasse suas coisas, assim que o dobrei tudo e o deixei sobre a cama, em seu dormitório.

—Agradeço-lhe isso. Costa ficar ao dia depois de duas semanas fora. —Anna conseguiu não sentir-se violenta. Nunca antes tinha tido senhora da limpeza, e não estava segura de qual era o protocolo para estas situações—. Tenho que guardar isto. Quer tomar algo afresco?

—Não, obrigado. Mais vale que termine e me tire de no meio.

Curioso, pensou Anna. Grace nunca lhe tinha parecido fria ou nervosa anteriormente. Embora não se conheciam bem, havia sentido que a relação era cordial. De uma forma ou outra, teriam que chegar a um entendimento.

—eu adoraria falar contigo se dispuser de tempo.

—Ah. —Grace passou a mão acima e abaixo pela manga metálica do aspirador—. Como não. Aubrey, vou à cozinha com a senhora Quinn.

—Eu também! —Aubrey saltou da cadeira e correu para a cozinha. Quando sua mãe a alcançou, já estava tiragem no chão, desenhando uma girafa morada com toda dedicação.

—Esta é sua cor esta semana —comentou Grace. Sem dar-se conta, dirigiu-se ao esfrego e tirou uma jarra de água de limão que havia preparado.Tiende a centrar-se em um até que o deixa reduzido a nada, então escolhe outro. —Sua mão se deteve sobre o copo que estava a ponto de tirar do armário—. O sinto —disse com rigidez—. Não me tinha dado conta.

Anna deixou a bolsa.

—Do que?

—De que me estava movendo em sua cozinha como se fora a minha.

Vá, pensou Anna, aí estava o problema. Duas mulheres, uma casa. Ambas se sentiam um pouco incômodas nessa situação. Tirou um tomate grande da bolsa, olhou-o e o deixou na encimera. O ano próximo trataria de cultivá-los ela mesma.

—Sabe o que eu gostei desta casa a primeira vez que entrei na cozinha? É o tipo de sítio em que resulta fácil sentir-se como em casa. Eu não quereria que isso trocasse.

Seguiu tirando coisas da bolsa e foi colocando a verdura, cuidadosamente escolhida, na encimera.

Grace teve que mordê-la língua para não mencionar que ao Ethan não gostava dos cogumelos quando Anna colocou uma bolsa deles junto aos pimientos.

—Agora é sua casa —disse com lentidão—. Quererá levá-la a sua maneira.

—Isso é verdade. E estou pensando em fazer algumas mudanças. Importaria-te me pôr um pouco dessa água? Tem um aspecto maravilhoso.

Aqui vem, pensou Grace. Mudanças. Serve dois copos e logo agarrou a taça de plástico da encimera para pôr um pouco ao Aubrey.

—Toma, carinho, com cuidado, não vá se derramar.

—Não me vais perguntar que mudanças quero fazer? —perguntou Anna.

—Não me corresponde.

—Desde quando nos correspondem umas coisas e outras não? —insistiu Anna com a suficiente irritação para contrariar ao Grace.

—Eu trabalho para ti, ao menos no momento.

—Se for dizer que o deixa, seriamente vai dar o dia. Não me importa quanto tenham avançado as mulheres, se eu ficar sozinha nesta casa com quatro homens, terminarei fazendo noventa por cento das tarefas. Possivelmente não ao princípio —continuou, agora dando voltas pela cozinha—, mas assim é como vamos terminar. Dará igual a eu tenha um trabalho a tempo completo. CAM odeia as tarefas da casa e fará o que possa para escaquearse. Ethan é bastante ordenado, mas tem o costume de escorrer o vulto. E Seth, bom, tem dez anos, assim com isso lhe digo isso tudo. Phillip só está aqui os fins de semana, e alegará que ele não foi quem sujou. —girou-se rapidamente e disse—: vais dizer me que o deixa?

Era a primeira vez que Grace via exaltar-se a Anna, e se sentiu confusa e impressionada.

—Acreditava que havia dito que foste fazer algumas mudanças e que me foste despedir.

—Estou pensando em comprar algumas almofadas novas e em trocar a tapeçaria do sofá —disse Anna com impaciência—, não em perder à pessoa da que já sei que vou depender para manter a prudência nesta casa. Crie-te que não sei quem se assegurou de que ao chegar não me encontrasse uma casa cheia de pó e cacharros sujos e roupa por lavar? Pareço-te gilipollas ou o que?

—Não, eu... —O começo de um sorriso se insinuou nos lábios do Grace—. Me batalhei isso para que o notasse.

—Vale. —Anna soltou ar—. por que não nos sentamos e começamos de novo?

—Isso estaria bem. me perdoe.

—por que?

—Por todas as coisas desagradáveis que me permiti pensar de ti nos últimos dias. —Sorriu plenamente enquanto se sentava—. Me tinha esquecido do bem que me caía.

—Grace, aqui estou em minoria. A companhia de outra mulher me pode vir muito bem. Não sei exatamente como se fazem estas coisas e posto que eu sou a estranha...

—Não é uma estranha. —Grace quase ficou boquiaberta pela surpresa—. É a esposa do CAM.

—E você foste parte de sua vida, das vidas de todos, durante muito mais tempo. —Voltou as mãos com as Palmas para cima e sorriu—. vamos esclarecer isto, para que logo possamos nos esquecer disso. O que queira que tenha estado fazendo aqui, vai de maravilha. Agradeço o saber que você te ocupa disso, para que eu possa me concentrar em meu matrimônio, meu trabalho e Seth. Entendemo-nos?

—Sim.

—E posto que meu instinto me diz que é uma mulher bondosa e pormenorizada, te vou confessar que te necessito muito mais do que me necessita você . E vou encomendar me a sua misericórdia.

A risada rápida e fácil fez aparecer hoyitos pouco profundos nas bochechas do Grace.

—Não acredito que haja nada que você não possa fazer.

—Pode que não, mas te juro Por Deus que não quero ser uma superwoman. Não me deixe sozinha com todos estes homens.

Grace se mordeu o lábio um momento.

—Se for trocar a tapeçaria do sofá do salão, vais necessitar cortinas novas.

—Estava pensando em umas com volantes.

Em total acordo, intercambiaram um sorriso deslumbrante.

—Mamãe, quero pis!

—Vá! —Grace se levantou de um salto e agarrou em braços ao Aubrey, que dançava como uma possessa—. Agora voltamos.

Anna se jogou uma risita, logo se incorporou, tirou-se a jaqueta e se preparou para começar com o molho. Esse tipo de cozinha, a familiar, a cotidiana, relaxava-a. E, dado que não lhe cabia nenhuma dúvida de que lhe conseguiria pontos extra com os Quinn quando voltassem para casa, tinha intenção de desfrutar.

Também lhe agradava ter forjado a base de uma amizade com o Grace. Desejava esse benefício que concedem as cidades pequenas ou a vida no campo: os vizinhos. Uma das razões pelas que não se encontrou a gosto em Washington era a falta de conexão com a gente que vivia e trabalhava a seu redor. Quando se transladou ao Princess Anne, encontrou parte dessa comodidade de vizinhança de toda a vida com a que tinha crescido no bairro tradicional onde residiam seus avós, em Pittsburgh.

E agora, pensou, lhe oferecia a oportunidade de fazer-se amiga de uma mulher a que admirava e de cuja companhia poderia desfrutar.

Quando Grace e Aubrey voltaram para a cozinha, sorriu.

—ouvi que acostumar aos meninos a usar o banho pode ser um pesadelo para todos os implicados.

—Há acertos e enganos. —Grace deu ao Aubrey um rápido abraço antes de deixá-la no chão—. Aubrey é uma menina muito boa, a que sim, meu carinho?

—Não me molhei as braguitas. Assim recibo um centavo para o cofre.

Quando Anna riu a gargalhadas, Grace fez uma careta simpática.

—E a chantagem funciona.

—Conta com todo meu apoio.

—Teria que terminar por aqui.

—Tem pressa?

—A verdade é que não. —Com cautela, Grace jogou um olhar ao relógio da cozinha. Segundo seus cálculos, Ethan ainda demoraria uma hora ao menos em retornar.

—Possivelmente poderia me fazer companhia enquanto preparo o molho.

—Suponho que sim. —Fazia..., já não se lembrava de quanto fazia que não se sentava na cozinha com outra mulher. A simplicidade do ato quase a fez suspirar—. Há um programa da televisão que gosta ao Aubrey e está a ponto de começar. Que tal se a sinto no salão para que o veja? Quando acabar, terminarei de passar o aspirador.

—Estupendo. —Anna deixou cair os tomates na panela para que se fizessem a fogo lento e se abrandassem.

—Nunca tenho feito molho de espaguete desde zero —comentou Grace quando retornou—. Quero dizer, usando tomates frescos.

—Leva mais tempo mas vale a pena. Grace, espero que não te incomode, mas me contaram o que aconteceu a outra noite no bar onde trabalha.

A surpresa lhe fez piscar e se esqueceu de tomar nota dos ingredientes que Anna tinha disposto na encimera.

—Contou-lhe isso Ethan?

—Não. Ao Ethan terá que lhe tirar as palavras com gancho para que te conte algo. —Anna se limpou as mãos no avental que se pôs—. Não quero me entremeter, mas tenho certa experiência sobre perseguição sexual. Quero que saiba que pode falar comigo se o necessitar.

—Não foi tão mau como pudesse ter sido. Se Ethan não chegar a estar ali... —interrompeu-se, descobriu que recordá-lo ainda lhe deixava uma sensação geada em seu interior—. Bom, mas estava. Eu teria tido que ter mais cuidado.

Anna voltou por um instante a uma estrada escura, a dentada do cascalho em suas costas depois de que a atirassem ao chão.

—É um engano torná-la culpa.

—Não, não, eu não..., não dessa forma. Eu não me merecia o que tratou de me fazer. Não lhe animei. De fato, deixei-lhe muito claro que não me interessava nem ele nem sua cama de hotel. Mas teria que ter jogado o ferrolho quando se foi Steve. Não o pensei e isso foi um descuido.

—Me alegro de que não saísse ferida.

—Poderia ter sido assim. Não posso me permitir esses descuidos. —Olhou para a porta de onde chegava a música gritã e a risada cristalina do Aubrey—. Há muito em jogo para mim.

—Ser mãe solteira não é nada fácil. Freqüentemente vejo os problemas que podem surgir nessas circunstâncias. te dá de maravilha.

Agora não era surpresa, era impressão. Ninguém lhe havia dito nunca um pouco parecido.

—Pois..., não sei. Simplesmente o faço.

—Sim. —Anna sorriu—. Minha mãe morreu quando eu tinha onze anos, teve-me sem estar casada. Quando Miro para trás e o recordo, dou-me conta de que a ela também lhe dava muito bem. Como você, simplesmente o fazia. Espero que quando eu tenha filhos, me dê a metade de bem o «simplesmente fazê-lo» que a vocês dois.

_Estão planejando CAM e você ter um filho?

—me dá bem o de planejar —comentou Anna rendo-se—. De momento, quero esperar um pouco, mas sim, desejo ter filhos. –Olhou pela janela ao lugar onde brotavam as flores que tinha plantado—. Este é um sítio maravilhoso para criar filhos. Conheceu o Ray e Stella Quinn?

—Sim, como não. Eram umas pessoas maravilhosas. Ainda os sinto falta de.

—Me teria gostado de conhecê-los.

—Teria-lhes cansado bem.

—Você crie?

—Teria-lhes cansado bem por ti mesma —lhe disse Grace—. E lhe teriam querido pelo que tem feito pela família. contribuíste a uni-los. Acredito que, durante certo tempo, sentiram-se um pouco perdidos quando morreu a doutora Quinn. Possivelmente cada um tinha que seguir seu caminho, do mesmo modo que todos tinham que retornar.

—Ethan ficou.

—Ele jogou raízes aqui, na água, como a erva de mar. Mas também andou à deriva. Sua casa está na curva que descreve o rio mais à frente do porto.

—Não a vi nunca.

—Está escondida —murmurou Grace—. lhe gosta da intimidade. Às vezes, em uma noite tranqüila, se ia dar um passeio quando estava grávida do Aubrey, ouvia-lhe tocar o violino. Se o ar soprava na direção adequada, alcançava para ouvir a melodia. Era muito solitária. Bela e solitária.

Os olhos deslumbrados pelo amor eram capazes de ver certas coisas com total claridade.

—Desde quando está apaixonada por ele?

—Parece que toda minha vida —sussurrou Grace, logo se deu conta—. Não queria dizer isso.

—Muito tarde. Não o há dito?

—Não. —Ante a só idéia, o coração do Grace se o agarrotó de pânico— Não deveria falar disto. Não gostaria. Daria-lhe muita vergonha.

—Bom, mas ele não está aqui, não? —Divertida e encantada, Anna sorriu ampliamente—. me parece maravilhoso.

—Não, não o é. É horrível. É simplesmente horrível. —Horrorizada, ficou uma mão na boca para deter uma repentina e inesperada corrente de lágrimas—. O danifiquei. Danifiquei-o tudo e agora ele não quer nem estar perto de mim.

—Ai, Grace. —Alagada de compaixão, Anna deixou de cortar verduras para acolher em um estreito abraço ao Grace, que se havia posto tensa, e logo a empurrou brandamente para uma cadeira—. Não posso acreditá-lo.

—É certo. Disse-me que me mantivera se separada dele. —Lhe quebrou a voz e se sentiu humilhada—. O sinto. Não sei o que me passou. Eu nunca choro.

—Bom, então já era hora de que trocasse a tradição. —Anna agarrou um par de guardanapos de papel de cozinha e as ofereceu—. Venha, sentirá-se melhor.

—Sinto-me tão tola... —Uma vez rota a presa, Grace soluçou no guardanapo.

—Não há nada pelo que sentir-se tola.

—Sim o há, há-o. Eu tenho feito que já não possamos seguir sendo amigos.

—Como? O que tem feito? —perguntou Anna com suavidade.

—Ofereci a ele. Suponho que acreditei, depois da noite que me beijou...

—Que te beijou? —repetiu Anna e ao momento começou a sentir-se melhor.

—Estava furioso. —Grace apertou o rosto contra o guardanapo, respirando fundo até que pôde recuperar certo controle—. Foi depois do que aconteceu o bar. Nunca lhe tinha visto assim. Conheço-lhe virtualmente de toda a vida e não sabia que pudesse ficar assim. Se não lhe conhecesse, me teria assustado a forma em que apartou ao aquele tipo de um golpe, como se fora uma bolsa de plumas. E tinha um olhar nos olhos que os fazia duros e estranhos Y... —Suspirou e admitiu o pior—. Excitantes. Ai, é horrível pensar isso.

—Está brincando? —Anna alargou uma mão e apertou a do Grace—. Se eu nem sequer estava e também me sinto excitada.

Com um sorriso choroso, Grace se secou o rosto.

—Não sei o que me passou, mas ele me gritou. Eu me zanguei e discutimos quando me levou a casa. Disse-me que deveria deixar meu trabalho, me falando como se eu não tivesse nenhuma neurônio no cérebro.

—A típica reação masculina.

—Isso. —de repente se voltou a zangar e assentiu—. Era totalmente típico, e isso nunca me tivesse esperado isso dele. E de repente estávamos dando voltas na erva.

—De verdade? —Encantada, Anna sorriu.

—Beijou-me e eu lhe beijei também e foi maravilhoso. Toda minha vida me tinha perguntado como seria e de repente aí estava e era melhor que tudo o que me pudesse ter imaginado. Depois se deteve e disse que o sentia.

Anna fechou os olhos.

—Ai, Ethan, que idiota é...

—Disse-me que me colocasse dentro, mas justo antes de que o fizesse me disse que pensava em mim. Que não queria fazê-lo, mas que o fazia. Assim que eu esperava que as coisas começassem a trocar.

—Eu diria que já trocaram.

—Sim, mas não do modo que eu esperava. O dia que CAM e você voltaram, eu estava aqui quando ele retornou a casa. E parecia que, talvez..., mas me levou de volta a casa. Disse-me que o tinha pensado muito e que não me ia tocar mais, e que me mantivera se separada de seu caminho durante um tempo. —Soltou ar e acrescentou—: E isso é o que estou fazendo.

Anna esperou durante um minuto, depois sacudiu a cabeça.

—Ai, Grace, é uma idiota. —Quando esta franziu o cenho, Anna se inclinou sobre a mesa—. Está claro que Ethan te deseja e isso lhe dá medo. Você tem o poder. por que não o usa?

—O poder? O que poder?

—O poder de conseguir o que desejas, se o que desejas for ao Ethan Quinn. Só tem que conseguir estar a sós com ele e lhe seduzir.

Grace emitiu um sorriso zombador.

—lhe seduzir? Eu, seduzir ao Ethan? Eu não poderia fazer isso.

—por que não poderia fazê-lo?

—Porque eu... —Tinha que existir uma razão simples e lógica—. Não sei. Não acredito que me desse bem.

—Arrumado a que te daria de maravilha. E eu te vou ajudar.

—Ah, sim?

—Claro. —Anna se incorporou para lhe dar uma volta ao molho e para refletir—. Quando é sua próxima noite livre?

—Amanhã.

—Estupendo, isso nos deixa o tempo suficiente. Ficaria com o Aubrey para que dormisse aqui, mas isso poderia fazê-lo muito óbvio e é melhor que sejamos sutis. Tem a alguém a quem pode confiar-lhe —Tienes que ponerte algo sencillo pero femenino. —Pensando, se golpeó los dientes con la yema de un dedo—. Lo mejor sería un tono pastel, un color frágil, verde suave o rosa.

—Minha mãe está desejando que a deixe, a dormir, mas não poderia...

—Perfeito. Com a menina na casa poderia te sentir um pouco coibida. Já pensarei como conseguir que Ethan vá para lá.

voltou-se e estudou ao Grace. Uma beleza clássica, sossegada. Olhos grandes, tristes. Ethan estava perdido.

—Tem que te pôr algo singelo mas feminino. —Pensando, golpeou-se os dentes com a gema de um dedo—. O melhor seria um tom bolo, uma cor frágil, verde suave ou rosa.

Como a cabeça começava a lhe dar voltas, Grace ficou uma mão nela.

—Vai muito rápido.

—Bom, alguém tem que fazê-lo. A este passo, Ethan e você seguirão lhes rondando quando tiverem sessenta anos. Não ponha jóias —acrescentou—. E o mínimo de maquiagem. Ponha seu perfume de sempre. Ethan está acostumado a ele, transmitirá-lhe algo.

—Anna, não importa o que eu me ponha se ele não quer estar ali.

—É obvio que importa. —Como mulher que mantinha uma larga história de amor com a roupa, essa idéia a escandalizou—. Os homens acreditam que não notam o que leva uma mulher, a menos que não leve nada. Mas o fazem inconscientemente. E consegue desencadear um certo estado de ânimo ou uma certa imagem.

Franzindo os lábios, acrescentou-lhe manjericão fresca ao molho e tirou uma frigideira para saltear cebola e alho.

—Tratarei de lhe mandar a sua casa em torno do pôr-do-sol. Deveria acender algumas vela, pôr um pouco de música. Aos Quinn gosta da música.

—O que lhe vou dizer?

—Aí sim que já não te posso ajudar, Grace —disse Anna secamente—. E me aposto a que saberá quando chegar o momento.

Grace não estava muito convencida. À medida que novos aromas perfumavam o ar, mordeu-se o lábio.

—Parece-me que lhe estou enganando.

—E o que me quer dizer com isso?

Grace riu. E se deu por vencida. 

—Tenho um vestido rosa. Comprei-me isso para as bodas do Steve faz um par de anos.

—Que tal fica?

—Bom... —Os lábios do Grace se curvaram lentamente—. A testemunha de bodas do Steve me atirou os discos antes de que cortassem o bolo.

—Esse será perfeito.

—Sigo sem... —Grace se interrompeu quando seu ouvido de mãe captou a música de campainhas que chegava do salão—. Está terminando o programa do Aubrey. Tenho que acabar por aqui.

levantou-se rapidamente, assustada ante a idéia de que Ethan voltasse para casa antes de que ela se fora. Seguro que tudo o que sentia lhe podia ver na cara.

—Anna, agradeço-te tudo o que está tratando de fazer, mas não acredito que funcione. Ethan sabe o que pensa.

—Então não lhe fará mal ir a sua casa e verte com um vestido rosa, não?

Grace deixou escapar um pouco de ar.

—Chega a ganhar CAM alguma discussão contigo?

—Muito de vez em quando, mas nunca quando me encontro em plena forma.

Grace se aproximou da porta, consciente de que ao Aubrey ficava muito pouco tempo de estar sentada formalita.

—Me alegro de que hoje haja tornado logo do trabalho.

 

O dia seguinte, à medida que se aproximava o crepúsculo, Grace não estava segura de alegrar-se absolutamente. Seus nervos estavam tão tensos que podia senti-los estirar-se e borbulhar sob a pele. Seu estômago se agitava continuamente e a cabeça lhe começava a palpitar com um ritmo agudo e insistente.

Seria estupendo, pensou enojada, que Anna conseguisse que Ethan viesse e ela se jogasse em seus pés doente e lhe balbuciem.

Isso resultaria sedutor.

Nunca deveria ter acessado a essa tolice, disse-se de novo caminhando acima e abaixo por sua pequena casa. Anna o tinha pensado tudo tão rapidamente, tinha conseguido convencê-la em tão pouco tempo e o tinha posto tudo em marcha de uma forma tão hábil, que ela se deixou arrastar sem calcular os possíveis escolhos.

Por Deus bendito, o que lhe podia dizer se aparecia? Embora provavelmente não apareceria, pensou, apanhada entre o alívio e a desesperança. Provavelmente ele nem sequer iria e ela teria deixado que sua filha passasse a noite fora para nada.

Tudo estava muito silencioso. Como única companhia se ouvia o som da brisa do anoitecer entre as árvores. Se Aubrey tivesse estado ali, onde lhe correspondia, agora mesmo lhe estaria lendo seu conto de ir-se dormir. Estaria toda lavadita, com seus talco, e feita um novelo em seus braços na cadeira de balanço. Cômoda e adormecida.

Quando escutou seu próprio suspiro, Grace apertou os lábios forte e se dirigiu ao pequena equipe estéreo que tinha na estantería amarela de pinheiro do salão. Escolheu uns CDs de sua coleção, um capricho pelo que se negava a sentir-se culpado, e deixou que a casa se enchesse com as notas românticas e comovedoras do Mozart.

Caminhou até a janela para contemplar o sol, que descendia pelo céu. A luz se ia suavizando, diluindo-se tom a tom. Na ameixeira ornamental que decorava o pátio dianteiro dos Cutter, um chotacabras solitário começou a lhe cantar ao ocaso. Oxalá pudesse rir de si mesmo, a parva do Grace Monroe com seu vestido rosa, de pé junto a uma janela esperando uma estrela a que lhe pedir um desejo.

Mas baixou a frente até o cristal, fechou os olhos e se recordou a si mesmo que não tinha idade para pedir desejos.

Anna pensou que lhe teria dado muito bem o jogo da espionagem. Tinha mantido seus planos em segredo, apesar de que desejava desesperadamente soltar-lhe tudo ao CAM.

Mas teve que recordar-se que ele era um homem, depois de tudo. E além disso, irmão do Ethan, o que era outro ponto em seu contrário. Isso era coisa de mulheres. Pensou também que tinha sido muito sutil ao vigiar ao Ethan. Não lhe ia escapar justo depois de jantar, como era seu costume. Nem lhe passaria pela cabeça o que sua cunhada lhe estava mantendo estritamente controlado.

A idéia do sorvete tinha sido uma inspiração repentina. Tinha comprado uma tarrina grande pelo caminho de volta a casa e agora seus três homens, como gostava de chamá-los, estavam sentados no alpendre traseiro com suas terrinas do Rocky Road.

Oportunidade e execução, disse-se, e se esfregou as mãos antes de sair ao alpendre.

—vai fazer calor esta noite. Parece mentira que já quase estejamos em julho.

dirigiu-se até o corrimão do alpendre para apoiar-se nela e jogar uma olhada a seus arriates de flor. Vai estupendamente, pensou com virtuosa satisfação.

—Me ocorreu que poderíamos fazer um andaime no pátio traseiro nos dia quatro.

—No porto há foguetes —interveio Ethan—. Cada ano, meia hora depois do pôr-do-sol. podem-se ver daqui, do alpendre.

—Seriamente? Isso seria perfeito. Não seria divertido, Seth? Poderia convidar a seus amigos e prepararíamos hambúrgueres e perritos quentes.

—Isso moa. —Seth já estava rebañando sua terrina e pensando como pedir mais.

—Temos que procurar as ferraduras —decidiu CAM—. As temos ainda, Ethan?

—Sim, por aí andam.

—E música. —Anna se girou o suficiente para roçar o joelho de seu marido—. Poderiam tocar os três juntos. Não tocam o suficientemente freqüentemente para meu gosto. Terei que fazer uma lista. Terão que me dizer a quem deveríamos convidar. E a comida. Ai, a comida. —Fingiu muito bem uma aturdida irritação enquanto se afastava do corrimão—. Como pude me esquecer? Prometi ao Grace lhe trocar minha receita de tortellini pela seu de frango frito.

Correu dentro a agarrar o caderno de argolas onde tinha escrito claramente a receita, algo que não tinha feito nunca, e logo voltou correndo com sorrisos de desculpa.

—Ethan, poderia levar-lhe —Pero si no son ni las nueve. —«Que no le dé tiempo a pensar. Que no le dé tiempo a encontrar los fallos.» Le metió en la casa usando sonrisas y aleteos de pestañas para hacer que avanzara—. Te lo agradezco de veras. Últimamente estoy muy despistada. La mayor parte del tiempo ando de cabeza. Dile cuánto siento no habérsela llevado antes y que no deje de contarme qué tal le queda cuando la pruebe. Muchísimas gracias, Ethan —añadió alzándose para hacerle una leve caricia cariñosa en la mejilla—. Me encanta tener hermanos.

Ele ficou olhando o pequeno cartão branco. Se não tivesse estado sentado, teria se metido as mãos nos bolsos.

—O que?

—Prometi-lhe levar-lhe hoje e me tinha passado por completo. A levaria eu, mas ainda tenho que terminar um relatório. Estou desejando provar esse frango frito que faz ela —continuou rapidamente, lhe pondo a receita na mão e logo quase atirando dele para que ficasse de pé.

—É um pouco tarde.

—Mas se não serem nem as nove. —«Que não lhe dê tempo a pensar. Que não lhe dê tempo a encontrar as falhas.» Meteu-lhe na casa usando sorrisos e aleteos de pestanas para fazer que avançasse—. Lhe agradeço isso seriamente. Ultimamente estou muito despistada. A maior parte do tempo ando de cabeça. lhe diga quanto sinto não haver a levado antes e que não deixe de me contar que tal fica quando a provar. Muitíssimas obrigado, Ethan —acrescentou elevando-se para lhe fazer uma leve carícia carinhosa na bochecha—. eu adoro ter irmãos.

—Bom... —sentia-se confuso, quase desolado, mas a forma em que ela o disse, a forma em que sorria ao fazê-lo, deixou-lhe indefeso—. Agora volto.

«Não acredito», pensou Anna com uma risita sabiamente controlada, enquanto lhe despedia alegremente. No momento em que a caminhonete desapareceu de sua vista, limpou-se as mãos as esfregando uma contra a outra. Missão cumprida.

—Que coño foi isso? —exigiu CAM, fazendo que ela desse um salto de surpresa.

—Não sei a que te refere. —Teria passado de comprimento e se teria metido em casa, mas ele deu um passo e lhe bloqueou o caminho.

—Venha já, sim que sabe. —Intrigado, inclinou a cabeça a um lado. Anna tratava de parecer inocente, mas não lhe saía de tudo. Muito regozijo em seus olhos—. Assim intercambiando receitas, né, Anna?

—O que acontece? —Ela elevou um ombro—. Sou muito boa cozinheira.

—Não lhe discuto isso, mas não é das que têm que intercambiar receitas com toda urgência, e se tivesse estado tão empenhada em passar uma ao Grace, teria atirado do telefone, que é algo que não deixaste que Ethan notasse, pois estava muito ocupada pestanejando e falando em sedutores sussurros como uma imbecil sem cérebro.

—Uma imbecil?

—Que não é —continuou, enquanto a fazia retroceder lentamente até encurralá-la contra o corrimão do alpendre—. Absolutamente. Ardilosa, inteligente, sagaz. —Colocou-lhe as mãos a ambos os lados dos quadris para sujeitá-la—. Isso é o que é.

Era um grande completo, supunha.

—Muito obrigado, Cameron. Agora a verdade é que tenho que me pôr com o relatório.

—Já. por que enganaste ao Ethan para que fora a casa do Grace?

Anna se apartou o cabelo e lhe dirigiu um olhar inexpressivo diretamente aos olhos.

—Eu diria que um tio ardiloso, inteligente e sagaz como você teria que ser capaz de deduzi-lo por si mesmo.

CAM franziu as sobrancelhas.

—Você está tratando de iniciar algo entre eles.

—Já há algo entre eles, mas seu irmão é mais lento que uma tartaruga agarre.

—É mais lento que uma tartaruga colha com óculos bifocais, mas assim é Ethan. Não crie que deveriam montar-lhe a sua maneira?

—O que precisam é passar cinco minutos a sós, e isso é o que eu tenho feito, conseguir que passassem uns minutos a sós. Além disso —deslizou os braços em torno do pescoço do CAM—, nós, as mulheres imensamente felizes, queremos que todo mundo seja também imensamente feliz.

CAM arqueou uma sobrancelha.

—Crie-te que com isso me vais convencer? Anna sorriu, logo se inclinou para lhe mordiscar o lábio inferior.

—Sim.

—Tem razão —murmurou, e deixou que lhe convencesse.

Ethan levava mais de cinco minutos sentado em sua caminhonete. Receitas? Era a coisa mais parva que tinha ouvido em sua vida. Sempre tinha pensado que Anna era uma mulher sensata, mas ali estava, lhe mandando a levar uma receita, Por Deus bendito.

E ele ainda não estava preparado para ver o Grace. Não é que não tivesse chegado a uma decisão a respeito, mas... inclusive um homem racional tem suas debilidades.

Contudo, não via como ia sair dessa, estando já ali. daria-se pressa. Provavelmente ela estaria deitando à menina, assim que lhe daria a receita e partiria.

Como um condenado a morte, saiu do veículo e se dirigiu à porta. Através da mosquiteira, podia ver a luz lhe pisquem das velas. Moveu os pés e notou que soava certa música, algo com chorosas cordas e um ressonante piano.

Nunca se havia sentido mais ridículo que aí plantado, no alpendre do Grace com uma receita de massa na mão, enquanto a música se deslizava pela cálida noite estival.

Chamou golpeando o marco de madeira, não muito forte, para não despertar ao Aubrey. pensou-se seriamente o de colocar o cartão por debaixo da porta e sair correndo dali, mas sabia que isso seria uma covardia, Lisa e sinceramente.

E Anna quereria saber por que não lhe levava a receita de frango frito do Grace.

Quando a viu, desejou Por Deus todo-poderoso ter optado pela saída covarde.

Grace saiu da cozinha, situada na parte traseira da casa. Era um sítio diminuto que ao Ethan sempre recordava a uma casita de bonecas, assim não tinha que caminhar muito. lhe pareceu que demorava horas em aproximar-se através dessa música, dessa luz.

Levava algo rosa pálido que chegava aos tornozelos, com uma linha de miúdos botões do oco do pescoço até a prega que dançava ao redor de seus pés. Quase nunca a tinha visto com um vestido, mas nesse momento se sentiu tão deslumbrado pela visão que não se questionou por que o levava.

Tudo o que podia pensar é que parecia uma rosa, larga, esbelta e a ponto de abrir-se. E a língua lhe enredou na boca.

—Ethan. —Ao Grace tremia a mão ligeiramente quando a elevou para abrir a porta. Possivelmente não tivesse feito falta uma estrela a que lhe pedir um desejo, depois de tudo. Porque aqui estava, de pé, perto, e a olhava.

—Eu vinha... —O perfume do Grace, que lhe resultava tão familiar como o seu próprio, pareceu enredar-se em torno de sua cabeça—. Anna te manda... Pediu-me que te traga isto.

Confusa, Grace tomou o cartão que lhe tendia. Ao ver a receita, teve que mordê-la parte interna da bochecha para não rir. Seus nervos retrocederam o suficiente como para que os olhos sonrieran quando os elevou para ele.

—Que amável de sua parte!

—Tem a sua?

—A sua?

—A que ela quer. A do frango.

—Ah, sim. Tenho-a na cozinha. Entra enquanto a busco.

—O que do frango?, —perguntou-se, quase enjoada pela risada contida que, de escapar soaria mas bem histérica—. O guisado, não?

—Não. —Ela possuía uma cintura tão estreita, pensou ele, uns pés tão finos—. Frito.

—Ah, sim, já sei. É que ando tão despistada ultimamente. ..

—Deve ser uma epidemia —murmurou ele. Decidiu que era mais seguro olhar a qualquer outra coisa que não fora ela. Notou um par de grosas velas brancas que ardiam na encimera—. Lhe fundiram os chumbos?

—Como?

—O que acontece com a eletricidade?

—Nada. —Notou que ficava tinta. Não tinha a receita de frango frito escrita em nenhuma parte. por que teria que fazê-lo? Quando terei que prepará-lo, simplesmente se fazia o mesmo que se feito a vez anterior—. Às vezes eu gosto de acender as velas. Vão bem com a música.

Ethan se limitou a grunhir, desejando que se desse pressa para poder sair apitando dali.

—Já deitaste ao Aubrey?

—ficou dormindo em casa de minha mãe.

Seus olhos, que tinham estado estudando o teto com toda meticulosidade, descenderam como um raio até encontrar-se com os do Grace.

—Que não está aqui?

—Não. É a primeira vez que dorme fora de casa. Já chamei duas vezes. —Sorriu levemente e seus dedos começaram a brincar com o botão superior de um modo que ao Ethan lhe fez a boca água—. Já sei que só está a umas poucas milhas e tão segura como em seu próprio berço, mas não pude evitá-lo. A casa me parece tão distinta sem ela aqui...

«Perigosa» teria sido a palavra que ele teria usado. A casita de bonecas era de repente tão letal como um campo minado. Não havia nenhuma menina inocente dormindo no quarto do lado. Estavam sozinhos, com música e velas que piscavam.

E Grace levava um vestido rosa pálido que estava pedindo que lhe desabotoasse todos esses pequenos botões brancos, um após o outro atrás de outro...

As gemas de seus dedos começaram a experimentar um desejo veemente.

—Me alegro de que tenha acontecido por aqui. —Aferrando-se a sua valentia, Grace avançou um passo e tratou de recordar que o poder era seu—. Me sentia um pouco triste.

Ethan retrocedeu um passo. Agora o desejo veemente se estendeu além das gemas dos dedos.

—Hei dito que voltaria em seguida.

—Poderia ficar para... tomar um café ou o que seja.

Café? Se seu organismo se excitava mais do que já estava nesse momento, lhe sairiam as vísceras pela pele para dançar uma dança selvagem.

—Não acredito que...

—Ethan, não posso me manter afastada de ti do modo que você me pediu. St. Chris é muito pequeno e nossas vidas estão muito entrelaçadas. —Sentia em sua garganta o pulso, que palpitava contra a pele em golpes duros e insistentes—. E além não quero fazê-lo. Não quero me manter separada de ti, Ethan.

—Já te disse que tinha minhas razões. —E se lembraria de quais eram assim que ela deixasse de lhe olhar com esses enormes olhos verdes—. Só o faço por seu bem, Grace.

—Não necessito que o faça por meu bem, Ethan. Somos adultos, tanto você como eu. Estamos sozinhos, tanto você como eu. —aproximou-se. Chegou-lhe o aroma do sabão com o que se tomou banho depois do trabalho, mas por debaixo, como sempre, apreciava-se o aroma da baía—. Esta noite não quero estar sozinha.

Ethan retrocedeu. Se não a conhecesse, diria que lhe estava acossando.

—Estou decidido, Grace. —Mas maldita seja, não era o que estava dentro de sua cabeça o que trabalhava de mais, era o que estava dentro de suas calças—. Simplesmente manten afastada.

—Tenho a sensação de que não tenho feito outra costure durante toda minha vida. Quero avançar, Ethan, seja o que seja o que isso signifique. Estou cansada de me manter afastada, ou de ficar aquieta. Se você não me desejar, terei que assumi-lo. Mas se me deseja... —moveu-se ainda mais perto e elevou uma mão que lhe colocou sobre o coração. Então descobriu que pulsava desenfreado—. Se me deseja, Ethan, por que não toma?

O retrocedeu até chocar-se com a encimera.

—Detenha. Não sabe o que está fazendo.

—Claro que sei o que estou fazendo —estalou ela, furiosa com ele e consigo mesma—. Só que não o devo estar fazendo muito bem, já que parece que você preferiria escalar a parede de minha cozinha antes que me pôr um só dedo em cima. O que crie que me vai passar, que me vou romper em mil pedaços? Sou uma mulher adulta, Ethan. estive casada. tive uma filha. Sei o que te estou pedindo e sei o que quero.

—Sei que é uma mulher adulta, Grace. Tenho olhos.

—Então usa-os e me olhe.

Como podia fazer outra coisa? Como tinha podido acreditar que seria capaz de fazê-lo? Ali, de pé entre a luz e a sombra, estava tudo o que desejava.

—Estou-te olhando, Grace. —Com as costas contra a parede, pensou. Com o coração na garganta.

—Aqui tem a uma mulher que te deseja, Ethan. Uma mulher que te necessita. —Grace viu que seus olhos trocavam para ouvir isto, que seu olhar se voltava mais aguda, mais escura, mais concentrada. Respirando entrecortadamente, retrocedeu—. Talvez eu sou o que você deseja. O que você necessita.

Ethan se temia que ela era todo isso, e que repetir-se que podia prescindir dela tinha sido um exercício inútil. Tinha um aspecto tão adorável, toda dourada e rosa à luz das velas, com os olhos tão claros e sinceros.

—Sei que o é —disse por fim—. Mas se supunha que isso não tinha por que trocar nada.

—Tem que pensar todo o tempo?

—Me está fazendo cada vez mais duro —murmurou—. Neste preciso momento.

—Então, deixa-o. Deixemos de pensar. —Embora o sangue seguia palpitando em seu cérebro, manteve o olhar enlaçado com a do Ethan. E elevou as mãos, umas mãos trementes, até o botão superior do vestido.

Ethan a viu desabotoá-lo, e se enjoou ante o modo em que esse único gesto, um gesto tão singelo, esses poucos centímetros de pele que descobria, faziam-lhe sentir-se carregado de eletricidade. Os pulmões lhe bloquearam, o sangue lhe ardeu, e suas necessidades, todas suas necessidades enterradas durante tanto tempo, rogaram ser liberadas.

—Detenha, Grace. —Disse-o com suavidade—. Não faça isso.

As mãos da jovem caíram a ambos os lados, derrotadas, e fechou os olhos.

—me deixe que o eu faça.

Seus olhos se abriram com uma piscada, logo contemplaram assombrados o sério olhar dele enquanto se aproximava dela. Grace tomou fôlego entrecortadamente e o conteve.

—Sempre quis fazê-lo —sussurrou, e deixou livre o seguinte botão.

—OH! —O fôlego que tinha contido saiu de forma entre abrupta e lhe solucem—. Ethan.

—É tão bonita... —Ela já estava tremendo. O baixou a cabeça para roçar seus lábios em um beijo suave e reconfortante—. É tão suave, e minhas mãos são tão ásperas... —Olhando-a, acariciou-lhe a bochecha e o pescoço com os nódulos—. Mas não vou fazer te danifico.

—Sei. Sei que não vais fazer me danifico.

—Está tremendo. —Abriu outro botão, logo outro.

—Não posso remediá-lo.

—Não me importa. —Com paciência, foi desabotoando os botões até a cintura—. Acredito que em meu interior sabia que, se entrava aqui esta noite, não seria capaz de me afastar de novo.

—Eu desejava que entrasse. Levo muito tempo desejando-o.

—Eu também. —Os botões eram tão pequenos, e seus dedos tão grandes... A pele dela, onde se abria o vestido, onde roçava o bordo de seu polegar, era tão suave e estava tão cálida—. me Diga se fizer algo que você não goste. Ou se não faço algo que você gostaria.

O som que ela emitiu era em parte gemido, em parte risada.

—dentro de um minuto não vou ser capaz de falar. Tenho que recuperar o fôlego. Mas eu gostaria que me beijasse.

—ia fazer o.

Mordiscou-a suave, seductoramente, porque não se tomou seu tempo a primeira vez que a beijou. Agora se entreteria, saborearia, encontraria um ritmo apropriado para os dois. Quando o suspiro dela encheu sua boca, estava carregado de doçura. Abriu mais botões e deixou que o beijo se alargasse e se fizesse mais profundo.

Não a tocou em nenhum sítio mais, ainda não. Só boca contra boca com sabores mesclados. Quando ela se balançou, elevou a cabeça e a olhou aos olhos. Empanados já, carregados e alerta.

—Quero te contemplar.

Lentamente, centímetro a centímetro, deixou que o vestido lhe deslizasse dos ombros. Eram morenos, fortes, com uma forma grácil. Sempre tinha acreditado que ela tinha os ombros mais belos e agora se concedeu o prazer de saboreá-los.

O som que saiu de sua garganta lhe disse que se sentia surpreendida e agradada por esse detalhe. O tinha muito mais que lhe dar.

Ninguém a havia meio doido desse modo, como se fora algo especial e muito prezado. O que esse contato despertou nela era algo tão novo e tão quente... Sua pele se voltou mais suave e se fez mais sensível sob a carícia de seus lábios, ao tempo que o sangue por debaixo começava a espessar-se e a fluir mais devagar. Quando o vestido caiu deslizando-se em torno de seus pés, limitou-se a suspirar.

Quando ele retrocedeu, ela ficou olhando encantada. Suas pestanas bateram as asas, o pulso saltou quando lhe acariciou levemente o peito por cima do singelo prendedor de algodão. Teve que morder o lábio para conter um gemido quando lhe abriu o objeto e lhe sustentou o peito entre as mãos.

—Quer que pare?

—meu deus! —Sua cabeça caiu para trás, e essa vez lhe escapou o gemido. Os polegares de trabalhador lhe roçaram os mamilos lentamente, uma e outra vez—. Não!

—me abrace, Grace. —Falou brandamente, e quando as mãos dela se elevaram até seus ombros e lhe aferraram, baixou de novo sua boca até a dela, procurando mais esta vez, pedindo mais, até que ela ficou sem forças.

Então a elevou entre seus braços e esperou até que ela abrisse os olhos de novo.

—vou tomar te, Grace.

—Graças a Deus, Ethan.

O riu quando ela escondeu o rosto na curva de seu ombro.

—Eu te protegerei.

Por um momento, enquanto ele a levava em braços, ela pensou em dragões e cavalheiros. Depois se abriu passado o significado mais prático.

—Eu... tomo a pílula. Não passa nada. Não estive com ninguém desde o Jack.

Em seu coração já sabia, mas escutá-lo só serve para acrescentar sua necessidade, que ia firmemente em aumento.

Grace tinha também vela acesas no dormitório. Esbeltas velas que surgiam de pequenas conchas brancas. O branco do cabecero metálico reluzia na suave luz. Margaridas brancas saíam de um vaso de cristal transparente situado na mesinha.

Ela pensou que a depositaria na cama, mas ele se sentou embalando-a, abraçando-a, embriagando-a com esses beijos lentos, intermináveis, até que seu pulso pulsou pesadamente, fazendo-se mais denso. Então as mãos começaram a mover-se.

Em cada ponto que ele tocava, um pequeno fogo se convertia em ardente chama. Suas mãos calejadas se deslizavam, escorregavam-lhe pela pele. Largos dedos de gemas ásperas a acariciavam, apertavam-na. Aí, sim, justo aí.

A barba de um dia lhe roçava a sensível curva dos peitos enquanto sua língua brincava descrevendo círculos. E sempre, sempre, sua boca retornava a dela para outro beijo interminável que lhe esvaziava a mente.

Ela atirou da camisa dele, esperando devolver parte do prazer, parte da magia. Encontrou as cicatrizes, o músculo e o homem. O torso era esbelto, os ombros largos, a pele cálida sob seus dedos inquisitivos. A brisa suspirava pela janela aberta, a chamada do chotacabras tentava alcançá-la, mas o som já não parecia tão solitário.

Ethan a jogou brandamente, acomodou sua cabeça no travesseiro, depois se inclinou para tirá-las botas. A luz dourada pálida das velas se balançava contra as sombras cor fumaça. As persianas brilhavam por cima dela. Ele a olhou enquanto a mão dela se elevava para cobrir o peito e fez uma pausa para tomá-la e lhe beijar os nódulos.

—Não o faça —sussurrou—. te Contemplar é uma delícia.

Grace não tinha pensado que lhe daria vergonha, sabia que era ridículo, mas teve que lhe ordenar a sua mão que se posasse sobre a cama. Quando Ethan se tirou os jeans, ela teve que lutar de novo com a respiração. Nenhum cavalheiro de conto de fadas possuiu nunca uma constituição tão magnífica ou suportou suas cicatrizes de forma mais heróica.

Desesperada-se para amor, elevou os braços para lhe receber. Ethan se deslizou entre eles, com cuidado de não apoiar-se sobre ela com todo o peso. Era frágil, recordou-se, tão esbelta e muito mais inocente do que acreditava.

Quando a lua se elevou aparecendo com sua luz oblíqua pela janela, começou a lhe mostrar o que sentia.

Suspiros e murmúrios, largas carícias lentas, silenciosos traguitos e bocados. As mãos do Ethan excitavam, assolavam, mas nunca apressadamente. as dela exploravam, admiravam, e se esqueceram de duvidar. Ele encontrou seus pontos mais sensíveis, a parte inferior do peito, o joelho por detrás, o suave e sedutor vale pouco profundo que havia entre as coxas e seu centro.

Tão concentrado estava nela que sua própria e crescente necessidade tomou por surpresa com um brilho intenso e duro, que arrastou um gemido quando tomou o peito em sua boca. Grace se arqueou, estremecendo-se ante essa exigência mais próxima ao extremo.

E o ritmo trocou.

Respirando de forma cada vez mais irregular, ele elevou a cabeça com os olhos fixos no rosto dela. Sua mão se deslizou entre as coxas e apertou ali, contra o calor. Encontrou-a já úmida.

—Quero verte alcançar a cúpula.

Jogou com os dedos sobre sua pele, dentro dela, à medida que a respiração lhe acelerava. Prazer, pânico, excitação, todas estas emoções lhe passaram pelo rosto. Olhou-a ascender, cada vez mais perto, mais perto, até que sua respiração se quebrou e logo se liberou em um grito estrangulado quando alcançou o topo.

Grace tratou de sacudir a cabeça para esclarecer mente, mas seguia deliciosamente enjoada. O quarto, tão familiar, dava voltas em uma nuvem, de forma que só o rosto dele aparecia clara, realmente. sentiu-se embriagada, aturdida e excitada além do expresable.

Isso, por fim, era o amor como ela o tinha sonhado.

Sua pele tremeu enquanto ele se deslizava lentamente por seu corpo, deixando com sua boca um rastro de calor e umidade.

—Por favor. —Não bastava. Inclusive isto não bastava. Grace desejava o emparelhamento, a união, a intimidade última—. Ethan. —abriu-se a ele e se arqueou—. Agora.

As mãos de lhe acariciaram o rosto, os lábios cobriram os seus.

—Agora —sussurrou junto a sua boca, e a encheu.

Os largos suspiros, como gemidos, fundiram-se. Esse primeiro estremecimento interminável de prazer, enquanto ele se enterrava nela, sacudiu-os aos dois. Quando começaram a mover-se, fizeram-no ao uníssono, suave, sedosamente, como se só tivessem estado esperando.

O desejo fluía com um caudal firme. Cavalgaram gozando do ritmo, gozando do prazer ressonante e profundo de cada investida lenta e profunda. Grace gravitava perto do bordo, sentia aproximar o orgasmo, sentia-o deslizar-se por seu organismo como uma cinta de veludo, assim ascendeu, cada vez mais alto, sumiu-se no resplendor e logo descendeu flutuando em uma maravilha ingrávida.

Ethan apertou seu rosto contra o cabelo do Grace e se permitiu segui-la.

Ele estava tão silencioso que ela se preocupou. Tinha-a abraçada, talvez sabia que ela necessitava esse contato. Mas seguia sem falar e, à medida que o silêncio se alargava, aumentava o temor do Grace pelo que ele poderia dizer quando por fim falasse.

Assim falou ela primeiro.

—Não me diga que o sente. Não acredito que pudesse suportar que me dissesse que o sente.

—Não ia fazer o. Prometi-me mesmo que nunca te tocaria deste modo, mas não lamento havê-lo feito.

Ela apoiou sua cabeça no ombro do Ethan, justo sob o queixo.

—Voltará a me tocar desse modo?

—Neste mesmo instante?

Como captou o humor preguiçoso em sua voz, ela se relaxou e sorriu.

—Já sei que não posso te colocar pressa para nada. —Elevou a cabeça porque era essencial para ela conhecer a resposta—. Me tocará, Ethan? Estará comigo outra vez?

Lhe aconteceu um dedo pelo cabelo.

—depois de esta noite não vejo que haja forma de nos convencer a nenhum de não fazê-lo.

—Se você o tentasse, teria que tratar de te seduzir de novo.

—Ah, sim? —Pelo rosto do Ethan se estendeu um sorriso—. Então possivelmente deveria começar a falar.

Encantada, ela rodou sobre ele e lhe abraçou forte.

—Além disso, a segunda vez me daria melhor, porque não me sentiria tão nervosa.

—Não parece que os nervos lhe tenham afetado absolutamente. Por pouco me trago a língua quando te aproximou da porta vestida de rosa. —Começou a lhe acariciar o cabelo, deteve-se e entreabriu os olhos—. E como é que te puseste um vestido assim para estar em casa?

—Não sei... Simplesmente me ocorreu a idéia. —Grace voltou a cabeça, e foi depositando beijos no pescoço dele.

—Espera um momento. —Consciente de quão rápido ela podia lhe distrair, tomou pelos ombros e a elevou—. Um vestido bonito, a luz das velas..., era quase como se me estivesse esperando.

—Eu sempre te estou esperando —disse ela e tratou de lhe beijar de novo.

—E me mandou a trazer uma receita, joder. —Em um movimento suave e fluido, fez-a sentar junto a ele e logo se incorporou—. Anna e você estavam compinchadas, não? fui vítima de uma conspiração.

—Que coisas mais ridículas lhe ocorrem! —Tratou de parecer indignada, mas só conseguiu parecer culpado—. Não sei de onde tira essas idéias.

—Nunca soubeste mentir. —Com firmeza, tomou pelo queixo e se manteve assim até que os olhos dela se voltaram para os seus—. Me há flanco me dar conta, mas lhes impregnei, não?

—Ela só estava tratando de ajudar. Sabia que eu estava doída por como foram as coisas entre nós. Tem direito a estar furioso, mas não tome com ela. Só estava...

—Hei dito eu que estivesse furioso? —interrompeu-a ele.

—Não, mas... —deteve-se, logo tomou ar cautelosamente e disse—: Não o está?

—Estou agradecido. —Seu sorriso era lento e travesso—. Mas talvez deveria tratar de me seduzir outra vez. No caso de.

 

Na escuridão, enquanto o mocho seguia ululando, Ethan se moveu, desprendendo do braço que Grace lhe tinha passado em torno do peito. Ela reagiu aproximando-se mais a ele. Esse gesto lhe fez sorrir.

—Já te levanta? —perguntou-lhe com a voz amortecida por seu ombro.

—Tenho que fazê-lo. Já são mais das cinco. —Podia cheirar a chuva no ar, ouvia-a chegar com o vento—. Vou me dar uma ducha. Volta a dormir.

Grace fez um ruído que ele tomou por assentimento e se refugiou no travesseiro.

Ethan se moveu na penumbra com passo ligeiro, embora teve que deter um par de vezes de caminho ao banho. Não conhecia a casa do Grace tão bem como a sua. Esperou até estar dentro para dar a luz, de modo que o resplendor não saísse ao corredor e a incomodasse.

A escala do quarto de banho estava em proporção com o resto da casa. Era tão pequeno que ele teria podido colocar-se no centro e tocar as paredes com a mão. Os azulejos eram brancos, a parede sobre eles estava empapelada em finas raias multicoloridos. Sabia que Grace tinha colocado o papel ela mesma. Alugava- a casa ao Stuart Claremont, um homem que não era conhecido por sua generosidade ou seu gosto na decoração.

sorriu-se ao ver o pato de plástico com pico laranja que aninhava a um lado da banheira. Ao cheirar o sabão, deu-se conta de por que Grace sempre cheirava vagamente a limões. Embora gostava desse aroma nela, esperava sinceramente que Jim não pudesse notar-lhe a ele.

Agachou a cabeça sob o fino jorro de água. Grace necessitava uma alcachofra nova, decidiu, e ao passá-la mão pela cara, deu-se conta de que tinha que barbear-se. Ambas as coisas teriam que esperar.

Mas agora que as coisas tinham trocado entre eles, provavelmente lhe permitisse ocupar-se de alguns acertos na casa. Sempre tinha sido muito teimosa quanto a aceitar ajuda. Parecia-lhe que uma mulher orgulhosa como ela se mostraria menos teimosa ao receber ajuda de um amante que de um amigo.

Isso é o que eram agora, refletiu. Não importava quantas promessas se feito a si mesmo. Não ia terminar com uma noite. Nem ele nem ela estavam feitos assim, e tinha tanto que ver com o coração como com as glândulas. Tinham dado o passo e esse passo implicava um compromisso.

Isso era o que mais lhe preocupava.

Nunca poderia casar-se com ela, ter filhos com ela. Ela quereria ter mais filhos. Era muito boa mãe, possuía muito amor que dar como para não querê-los. Aubrey se merecia ter irmãos ou irmãs.

Não tinha sentido lhe dar voltas, recordou-se. As coisas eram como eram. E agora mesmo ele tinha direito, e sentia a necessidade, de viver o momento. amariam-se o um ao outro quanto e enquanto pudessem. Isso teria que bastar.

Em menos de cinco minutos descobriu que o aquecedor de água do Grace era tão pequeno como o resto da casa. Até o chorrito miserável se foi pondo morno e logo frio antes de que conseguisse esclarecer-se toda a espuma.

—Miserável bode! —murmurou, pensando no caseiro. Fechou o grifo e se envolveu em uma das toalhas rosa. Queria retornar a vestir-se às escuras, mas ao abrir a porta viu a luz que procedia da cozinha e escutou a voz do Grace, ainda enrouquecida pelo sonho, cantando algo sobre encontrar o amor bem a tempo.

Enquanto as primeiras gotas de chuva tamborilavam nos cristais das janelas, dirigiu-se para o aroma de beicon que se fritava e o café a ponto de ferver. E se encontrou ao Grace, vestida com uma bata curta de algodão da cor das folhas na primavera. Seu coração pegou tal bote de gozo que lhe surpreendeu que não lhe saísse pela garganta e aterrissasse tremente nas mãos dela. moveu-se rápida e silenciosamente, assim quando a envolveu em seus braços desde atrás e apertou os lábios sobre sua cabeça, ela se sobressaltou.

—Chá hei dito que voltasse a dormir.

Ela se inclinou contra ele, fechando os olhos e absorvendo o encantado goze de um abraço na cozinha.

—Queria te preparar o café da manhã.

—Não tem por que fazer essas coisas. —Deu-lhe a volta e acrescentou—: Não espero esse tipo de coisas. Você precisa descansar.

—Queria fazê-lo. —O cabelo dele gotejava, seu peito brilhava com a umidade. A fervura cintilante de desejo a agradou e conmocionó—. Hoje é especial.

—Agradeço-lhe isso. —inclinou-se com a intenção de lhe dar um suave beijo matinal. Mas se fez mais profundo e se alargou até que ela se estreitou contra ele nas pontas dos pés.

Ethan se conteve, bloqueou a acelerada necessidade de atirar da bata e possui-la.

—Te está queimando o beicon —sussurrou, e esta vez apertou seus lábios sobre a frente do Grace—. Mais vale que me vista.

Lhe deu a volta ao beicon para que ele pudesse cruzar o quarto. Anna tinha razão no de ter poder.

—Ethan?

—Sim?

—Tenho uma tremenda necessidade de ti. —Dirigiu-lhe um olhar sobre o ombro e sorriu com satisfação—. Espero que não te importe.

O sangue abandonou sua cabeça dançando alvoroçada. Ela não estava simplesmente flertando, estava-lhe desafiando. lhe dava que ela já tinha ganho. A única resposta segura que lhe ocorreu foi um grunhido antes de retirar-se ao dormitório.

O a desejava. Grace descreveu um rápido passo de baile com um giro. Faziam o amor três vezes, três vezes ao longo da noite cheias de beleza e de glória e logo tinham dormido abraçados o um ao outro. E ele seguia desejando-a.

Era a manhã mais bela de sua vida.

Choveu todo o dia. A água estava áspera como a língua de uma arpía e igual de propenso à chicotada. Ethan lutou para manter o curso da embarcação e se alegrou de não ter permitido que o moço lhes acompanhasse. Jim e ele tinham trabalhado em piores condicione, mas imaginava que Seth se teria passado boa parte da jornada dobrado sobre a amurada.

Mas o asqueroso tempo não podia lhe danificar o ânimo. Assobiou inclusive enquanto a chuva lhe golpeava o rosto e o navio se revolvia sob seus pés como um potro selvagem.

Jim lhe olhou de soslaio umas quantas vezes. Levava trabalhando com o Ethan o tempo suficiente para saber que o menino era uma pessoa cordial e de bom coração. Mas não era um idiota que assobiasse a todas as horas. Sorriu para si enquanto içava outra jaula. Dava-lhe que ontem à noite o menino tinha feito algo mais enérgico que ler na cama.

Além já era hora, a seu modo de ver. Segundo seus cálculos, Ethan Quinn devia andar pelos trinta. A essas alturas da vida, um homem deveria ter sentado a cabeça e ter esposa e filhos. Um mariscador vivia melhor se ao voltar para casa lhe esperava uma comida quente e uma cama com companhia. Uma mulher boa te ajudava a superar as dificuldades, dava-te um sentido, animava-te quando a baía se voltava miserável, como Deus sabia que estava acostumado a acontecer.

perguntou-se quem seria essa mulher concreta. Não é que ele colocasse os narizes nos assuntos alheios. O se cuidava do seu e esperava que seus vizinhos fizessem outro tanto. Mas um homem tinha direito a um pouco de curiosidade sobre certas coisas.

Estava lhe dando voltas a como abordar o tema quando um caranguejo fêmea, por debaixo do tamanho legal, encontrou um pequeno buraco em sua luva e lhe mordeu antes de que pudesse lançar o de volta à água.

—Pequena cabrona! —comentou com um gesto de dor, mas sem muita veemência.

—Pilhou-te?

—Sim. —Jim a viu cair na água levantando espuma—. Voltarei para por ti antes de que termine a temporada.

—Parece que necessita luvas novas, Jim.

—A parienta me vai comprar uns hoje. —Jogou na Nasa os arenques médio congelados que serviam como ceva—. A verdade é que ajuda muito saber que tem uma mulher que te cuida.

—Mmm. —Ethan empurrou o leme com uma mão, enquanto com a outra empunhava o gancho de ferro, e calculou a onda e a distância.

—A um homem que se passa o dia trabalhando na água lhe reconforta saber que sua mulher lhe espera.

um pouco surpreso de que estivessem mantendo uma conversação, Ethan assentiu.

—Suponho. Terminamos com este cabo e nos voltamos.

Jim escolheu os crustáceos da seguinte jaula e deixou que o silêncio se instalasse entre eles. por cima, umas quantas gaivotas mantinham o que Jim considerava uma furiosa competição, chiando, se mergulhando e ameaçando umas a outras pelos despojos de pescado.

—Sabe? A primavera que vem, Bess e eu faremos trinta anos de casados.

—Seriamente?

—Isso reafirma a um homem, ter uma mulher. Esperas muito para te casar e te volta um maníaco.

—Suponho.

—Você andará pelos trinta, não, capitão?

—Isso.

—Não te volte um maníaco.

—Terei-o em mente —lhe respondeu Ethan enquanto lançava o gancho de ferro.

Jim se limitou a suspirar e se deu por vencido.

Quando Ethan entrou caminhando até o estaleiro, CAM se encontrava trabalhando com a serra de precisão e três moços lixavam o casco. Ou fingiam fazê-lo.

—contrataste a uma equipe nova? —perguntou a seu irmão enquanto Simon se aproximava de investigar.

CAM elevou o olhar para o lugar onde Seth conversava com o Danny e Will Miller.

—Assim me os Quito de no meio. Já terminaste com os caranguejos por hoje?

—Já agarramos muitos. —Tirou um puro e o acendeu enquanto olhava pensativamente pelas portas—. Está chovendo a base de bem.

—diga-me isso . —CAM dirigiu um olhar acusador com o cenho franzido para os ventanales pelos que se deslizava a água—. Por isso tive a esses três em cima todo o momento. O pequeno, é que não se cala nem debaixo da água. E aos outros, se não lhes der algo que fazer, passam-se o momento fazendo diabruras.

—Bom. —Ethan expulsou a fumaça e olhou como os meninos davam uma alegria ao Simon com ásperas carícias e abraços—. Ao passo que vão, acabarão de lixar o casco dentro de dez ou vinte anos.

—Isso é algo do que temos que falar.

—Contratar a esses meninos para as próximas duas décadas?

—Não, trabalho. —Era um momento tão bom como qualquer outro para tomar uma pausa. CAM se inclinou para servir chá gelado do recipiente térmico—. Esta manhã recebi uma chamada do Tom Bardette.

—Esse amigo teu que quer um navio de pesca esportiva?

—Soltou ar—. A menos que contemos com um par de pirralhos. Esse amigo do Bardette ainda não se comprometeu. vai vir a lhe jogar uma olhada ao sítio, a nós e às instalações. Eu acredito que temos que nos assegurar de que Phillip esteja aqui para lhe vender a moto e que firme um contrato e nos deixe um depósito.

Ethan não esperava que acontecesse tão rápido, que um sonho crescesse e tivesse que lhe roubar tempo ao outro. lembrou-se dos frios meses invernais de marisqueo, a sacudida de cabeça do veleiro sobre o mar picada, a larga e freqüentemente lhe frustrem busca de ostras, de pescado de rocha, de um salário.

Para alguns, um pesadelo, supunha. Para ele, a esperança e a glória.

tomou um momento para percorrer o lugar com a vista. O navio, quase terminado, esperava umas mãos hábeis e disponíveis. Os desenhos do Seth penduravam emoldurados na parede e falavam de sonhos e suor. As ferramentas, ainda resplandecentes sob uma capa de pó, mantinham-se silenciosas à espera.

Navios Quinn, pensou. Se queria conseguir uma coisa, tinha que soltar outra.

—Eu não sou o único que pode patronear o navio de tarefa ou o veleiro. —Viu a pergunta e a compreensão nos olhos de seu irmão e se encolheu de ombros—. Se trata simplesmente de lhe dedicar tempo ao que mais importa.

—Já.

—Suponho que poderia tirar um desenho para um bote.

—E que Seth fizesse o desenho —acrescentou CAM e riu ao ver a careta de seu irmão—. Todos temos nossos pontos fortes, colega. A arte não é o teu.

—Pensarei-o —decidiu Ethan—. E já veremos o que acontece.

—Vale. Então... —CAM apurou sua taça—. Que tal foi o intercâmbio de receitas?

Ethan se passou a língua pelo interior da bochecha.

—vou ter que conversar com sua esposa a respeito.

—Quando quiser. —Sonriendo, CAM arrebatou a seu irmão o puro de entre os dedos e lhe deu umas quantas impregnadas com descuido—. A verdade é... que tem um aspecto do mais depravado, Ethan.

—O suficiente —replicou tranqüilamente—. E me parece que tivesse podido ter o detalhe de me comentar que Anna estava conspirando para melhorar minha vida sexual.

—Tivesse podido, de havê-lo sabido. Por outro lado, já que sua vida sexual necessitava certas melhoras, também tivesse podido passar de lhe dizer isso Seguindo o impulso, CAM agarrou a seu irmão or o pescoço—. Porque te quero, tio. —Quando o dedo lhe afundou no estômago, limitou-se a Te rir dá conta? Até lhe melhoraram os reflexos.

Ethan se deslocou ligeiramente, transladou seu pé e trocou suas posições.

—Tem razão —disse e golpeou a seu irmão com os nódulos na cabeça para que se inteirasse.

Como lhe tocava preparar o jantar, Ethan acrescentou um ovo a uma terrina de carne de vitela picada. Não lhe importava cozinhar. Simplesmente era uma dessas coisas que terei que fazer para sobreviver. Tinha albergado uma pequena, egoísta e puramente machista esperança de que Anna se ocupasse da cozinha, como mulher da casa.

Ela tinha esmagado essa esperança como se fora um inseto.

Claro que, ao contar com ela, a tarefa se repartia entre mais pessoas. Mas o pior para ele era pensar o que fazer. Não era como cozinhar para a gente mesmo. Em seguida se tinha dado conta de que quando se cozinhava para uma família, todos ficavam a criticar.

—O que é isso? —perguntou Seth enquanto Ethan lhe acrescentava farinha de aveia à mescla.

—Cilindro de carne.

—me parece mierda. por que não podemos jantar pizza?

—Porque vamos jantar cilindro de carne.

Seth emitiu um som como se se afogasse enquanto Ethan lhe acrescentava um pouco de sopa de tomate à mescla.

—Que asco! Prefiro comer lixo.

—Pois aí fora há o bastante.

Seth trocou o peso de um pé a outro, e se elevou sobre a ponta dos pés para jogar uma olhada à terrina mais de perto. A chuva lhe estava voltando louco. Não havia nada que fazer. Estava morto de fome, tinham-lhe picado milhares de mosquitos e na televisão não havia mais que cilindros infantis e notícias.

Quando enumerou esta letanía de queixa, Ethan se limitou a encolher-se de ombros.

—Vê dar a lata ao CAM.

CAM lhe havia dito que desse a lata ao Ethan. Seth sabia por experiência que Ethan demorava muito mais em chatear-se que CAM.

—Como é que lhe joga todas essas mierdas se se chamar cilindro de carne?

—Para que não tenha sabor de mierda ao comê-lo.

—com certeza que sim sabe.

Para ser um menino que apenas uns meses antes não sabia quando ia ser sua seguinte comida, pensou Ethan sombríamente, tornou-se um sibarita. Em lugar de referir-se a isto, apontou com um único dardo certeiro.

—Pois amanhã lhe toca cozinhar ao CAM.

—Jo, tio, veneno. —Seth pôs os olhos em branco de um modo muito dramático, agarrou-se a garganta e foi dando voltas pela habitação, como enjoado. Ao Ethan teria feito certa graça se os cães não se uniram ao numerito, dando voltas e ladrando furiosamente.

Quando entrou Anna, o cilindro de carne estava no forno e Ethan tinha uma aspirina na mão.

—Olá, vá dia de cães. O tráfico estava fatal. —Elevou uma sobrancelha ao ver tomar o remédio—. Dor de cabeça, né? A chuva todo o dia sem parar pode ter esse efeito.

—Neste caso, trata-se do Seth.

—Vá! —Preocupada, serve-se uma taça de vinho e se preparou para escutar—. É inevitável que haja períodos de tensão e de dificuldades. Seth tem que superar muitas coisas e sua hostilidade é um mecanismo de defesa.

—Não tem feito mais que queixar-se na última hora. Ainda me doem os ouvidos. Não gosta do cilindro de carne —murmurou Ethan e se tirou uma cerveja do esfrego—. Que por que não jantamos pizza. Deveria estar agradecido porque alguém lhe está enchendo a pança. Em lugar disso, não faz mais que dizer que parece mierda e que a isso saberá. Depois fica a alvoroçar aos cães e eu não posso nem trabalhar em paz durante cinco minutos. Y... —interrompeu-se, com o olhar fera, quando viu que ela sorria—. Não me faz nenhuma graça.

—Sei, sinto muito. Mas eu adoro, Ethan. Resulta tão maravilhosamente normal. Seth se comporta como qualquer irritante menino de dez anos depois de um dia de chuva. Faz um par de meses teria passado o tempo em seu quarto, de mau humor, em lugar de te dar uma dor de cabeça. Supõe um avanço tremendo.

—Seu avanço lhe leva a ser mais pesado que o chumbo.

—Sim. —Anna notou lágrimas de alegria em seus olhos—. Não é maravilhoso? Deve ter sido realmente molesto se tiver sido capaz de acabar com sua imperturbável paciência. A este passo, para Natais será um autêntico horror.

—E isso é bom?

—Sim, Ethan. trabalhei com meninos que não tinham tido que acontecer as misérias que aconteceu ele e pode lhes levar muito mais tempo adaptar-se, inclusive com assistência psicológica. CAM, Phillip e você conseguistes maravilhas com ele.

Acalmando-se, Ethan lhe deu um gole a sua cerveja.

—Você também tiveste parte nisso.

—Sim, eu também, o que me faz tão feliz no plano profissional como no pessoal. E, para prová-lo, te vou jogar uma mão com o jantar. —Com estas palavras, tirou-se a jaqueta e começou a arregaçar-se—. O que tinha pensado para acompanhar o cilindro de carne?

Ethan tinha planejado colocar umas batatas no microondas porque não terei que lhes fazer nada, e talvez tirar umas ervilhas do congelador, mas...

—Tinha pensado que possivelmente esses macarrão com molho de queijo que faz você iriam bem como guarnição.

—Os Alfredo? Com o cilindro de carne, isso tem muitíssimo colesterol, mas que mais dá. Já os preparo eu. por que não se sinta até que te passe a dor de cabeça?

Já lhe tinha passado, mas lhe pareceu mais inteligente não mencioná-lo. sentou-se, preparado para desfrutar da cerveja e para lhe parar os pés a sua cunhada.

—Ah, Grace me disse que te desse as obrigado pela receita. Que já te comentará como lhe sai.

—Ah, sim? —Voltando-se para ocultar um sorriso de satisfação, Anna procurou um avental.

—Sim, e me deu a do frango frito. Meti-a no livro de cozinha. —Ethan ocultou seu próprio sorriso com a cerveja quando ela girou a cabeça.

—Você..., ah, bom...

—Lhe teria dado isso ontem à noite, mas era já tarde quando voltei e estava na cama. Quando saí de casa do Grace, encontrei-me com o Jim.

—Jim? —Seu rosto expressava claramente confusa irritação.

—Aproximei-me até sua casa para lhe ajudar a pôr a ponto um fueraborda que lhe deu problemas.

—Esteve em casa do Jim ontem à noite?

—Fiquei mais tarde que o que queria, mas havia um partido de beisebol na televisão. Os lhes Areje jogavam em Califórnia.

Anna com gosto lhe teria aberto a cabeça com sua própria cerveja.

—Passou-te a noite trabalhando em um motor e vendo um partido de beisebol?

—Pois sim. —Lançou-lhe um olhar inocente—. Como te hei dito, cheguei algo tarde, mas foi uma partida cojonudo.

Anna soltou um bufido e abriu a porta do esfrego de um puxão para tirar queijo e leite.

—Os homens —murmurou— são todos gilipollas.

—Como diz?

—Nada. Bom, espero que o passasse bem vendo a partida. —Enquanto a pobre Grace estava sozinha em casa, e triste.

—Não posso recordar haver me passado isso melhor. Até houve turnos de bateo especiais. —Agora sorria, não podia remediá-lo. Anna parecia aturdida e furiosa, e além disso tratava desesperadamente de ocultá-lo.

—Bom, maldita seja. —Furiosa, voltou-se para tirar a massa do armário e viu a cara do Ethan. girou-se lentamente, sujeitando o pacote de massa—. Você não foi ontem à noite a casa do Jim a ver um partido de beisebol.

—Ah, não? —Ethan arqueou uma sobrancelha, olhou pensativo a sua cerveja e lhe deu um gole—. Sabe? Agora que o penso, tem razão. Isso foi outra vez.

—Esteve com o Grace.

—Ah, sim?

—Venha, Ethan. —Com os dentes apertados, golpeou a encimera com o bote—. Me está voltando louca! Onde esteve ontem à noite?

—Sabe? Acredito que ninguém me tem feito essa pergunta desde que morreu minha mãe.

—Não é que queira bisbilhotar...

—Seguro?

—Vale, vale, estou tratando de bisbilhotar, mas é que contigo resulta impossível fazer o de forma sutil.

Ethan se tornou para trás em sua cadeira, observando-a. Tinha-lhe cansado bem, quase desde o começo, inclusive quando o fazia sentir-se incômodo. Não era gracioso, disse-se, dar-se conta de que nas últimas semanas tinha chegado a querê-la? O que significava que tomar o cabelo era, bom, obrigado.

—Não me estará perguntando se passei a noite na cama do Grace, verdade?

—Não, não, claro que não. —Agarrou a massa e logo a voltou a deixar—. Não exatamente. As velas, foram idéia dela ou tua?

Anna decidiu que era um bom momento para tirar uma frigideira. Podia necessitar uma arma.

—Funcionaram?

—Tua, imagino; provavelmente o vestido também. A mente do Grace não funciona assim. Não tem o que se poderia chamar... dobra.

Anna cantarolou e ficou a preparar o molho de queijo.

—Porque foi um entrometimiento oculto o me mandar ali dessa maneira.

—Sei. Mas voltaria a fazê-lo. —Com mais habilidade a próxima vez, prometeu-se a si mesmo— Olhe, Ethan, pode te chatear comigo tudo o que queira, mas nunca tinha visto ninguém tão necessitado de um entrometimiento.

—Você é uma profissional. Quero dizer, que sendo assistente social, pagam-lhe por te entremeter na vida da gente.

—Ajudo às pessoas que o precisam —afirmou ela, acendendo o fogo sob a frigideira—. E Deus sabe que você o necessitava. —Deu um salto quando a mão do Ethan se posou em seu ombro. Quase esperava que lhe desse uma leve sacudida, por isso, quando a beijou na bochecha, quão único pôde fazer foi lhe olhar piscando.

—Agradeço-lhe isso.

—Seriamente?

—Não é que queira que o volte a fazer, mas por esta vez, agradeço-lhe isso.

—Ela te faz feliz. —Tudo em seu interior se suavizou—. Posso vê-lo.

—Veremos durante quanto tempo posso fazê-la feliz eu a ela.

—Ethan...

—Deixemo-lo assim. —Beijou-a de novo, como advertência além de como amostra de carinho—. Durante um tempo, tomaremos cada dia conforme venha.

—Vale. —Mas seu sorriso se aumentou—. Grace trabalha no bar esta noite, não?

—Sim. E só para que não tenha que te morder a língua para não me perguntar isso estou pensando em me passar por ali um momento depois de jantar.

—Estupendo. —Mais que satisfeita, Anna ficou a trabalhar—. Nesse caso, jantaremos em seguida.

 

Era como entrar caminhando totalmente acordada em um sonho, pensou Grace, onde não estava segura do que ia acontecer, só sabia que seria maravilhoso. Era viver em um mundo familiar que tinha sido gentil até alcançar um estado constante de excitada ilusão.

Os dias e as noites seguiam cheios de trabalho, responsabilidades, pequenas alegrias e pequenas irritações. Mas, de momento, com essa corrente loja de comestíveis de amor, as alegrias pareciam enormes, e as irritações, diminutas.

Tudo o que tinha lido sobre o amor era certo, descobriu Grace. O sol brilhava com mais intensidade, o ar cheirava mais fresco. As flores possuíam uma cor mais viva, o canto dos pássaros soava mais melodioso. Para ela, cada tópico se converteu em uma realidade.

Também estavam esses momentos roubados: um abraço fora do bar durante seu descanso que a deixou encantada e tremente, e incapaz de dormir durante comprido tempo depois de chegar a casa; um largo e intenso olhar cheia de conhecimento se conseguia esperar na casa dos Quinn até que ele chegasse. Parecia-lhe achar-se em um constante estado de desejo, inclusive mais agudo agora que sabia o que podia ser.

O que ia ser.

Queria tocar e ser tocada, embarcar-se de novo nessa cavalgada larga e lenta para o prazer e a paixão. Junto ao desejo vivia a interminável frustração de que a vida interferisse constantemente com os sonhos.

Nunca dispunham do tempo suficiente para estar sozinhos, para simplesmente estar.

Freqüentemente se perguntava se Ethan também se sentia acossado durante o dia pela mesma necessidade nervosa. Pensou que devia ser algo em seu interior, uma espécie de cobiça sexual comprido tempo escondida, e não sabia se deleitar-se nela ou se sentir-se humilhada.

Só sabia que lhe desejava continuamente, e que cada dia que passava e se tornava em uma noite mais em solidão, esse desejo se multiplicava. perguntava-se se Ethan se escandalizaria ao sabê-lo, preocupava-lhe que talvez sim.

Não tinha por que.

Ethan só esperava ter calculado bem o tempo, e que as desculpas que lhe tinha dado ao Jim para voltar com a pesca antes de revisar todas as jaulas não fossem tão ridiculamente transparentes como lhe pareciam. Tampouco ia deixar que a culpa lhe apressasse, prometeu-se enquanto amarrava o navio no embarcadero de sua casa.

Trabalharia um par de horas extra essa noite no estaleiro para compensar o ter deixado ao CAM solo essa tarde. Se não podia dispor de uma hora a sós com o Grace, se não conseguia liberar parte da pressão que ia acumulando, voltaria-se louco. Então já não serviria para nada.

E se ela já tinha terminado na casa e se foi, bom, pois então teria que persegui-la até dar com ela, simplesmente. Ficava o suficiente controle como para não assustá-la, ou escandalizá-la, mas não podia passar um dia mais sem ela.

O sorriso começou a estender-se por seu rosto quando entrou pela porta traseira e comprovou que ainda permanecia a desordem matinal. A máquina de lavar roupa zumbia no quarto de lavar. Grace não tinha terminado ainda. Começou pela sala, procurando sinais dela.

As almofadas estavam todos ordenados e amaciados, os móveis limpos de pó e reluzentes. Quando rangeu o teto por cima de sua cabeça, olhou para cima.

Nesse momento, pensou que o destino era a mulher mais formosa que tinha conhecido. Grace estava em seu dormitório, o que poderia ser mais perfeito? Seria muito mais singelo atrai-la a uma cama em metade do dia sem sobressaltar sua sensibilidade se ela já se achava perto de uma.

Começou a subir as escadas, encantado quando a ouviu cantarolar.

Seu organismo foi atravessado por um raio fulminante de desejo quando viu que não só estava perto de sua cama, mas também virtualmente nela. Grace se achava inclinada, estendendo e ajustando os lençóis limpa, e expondo suas largas pernas em umas desgastados calças cortadas.

Seu sangue se acelerou em um estalo de velocidade que lhe deixou sem fôlego, que tornou a dor surda com o que tinha aprendido a viver em uma dor aguda e aguda. Podia ver-se a si mesmo avançando de um salto, arrastando-a até a cama, atirando de sua roupa e rasgando-a para poder enterrar-se dentro dela.

E como se sentia capaz, como o desejava, obrigou-se a permanecer onde estava até estar firmemente seguro de que podia manter o controle sobre si mesmo.

—Grace?

Ela se endireitou, voltou-se e posou uma mão sobre o coração.

—Ai, eu..., ai. —Não podia falar, logo que podia pensar coherentemente. O que pensaria Ethan, perguntou-se enjoada, se soubesse que tinha estado fantasiando, vendo-se rodar nua e suarenta com ele nesses lençóis tersas e podas?

Suas bochechas se avermelharam, o que lhe encantou.

—Não queria te surpreender.

—Não importa. —Deixou escapar um comprido suspiro, mas não serve para acalmar seu frenético coração—. Não esperava a ninguém... O que está fazendo em casa tão logo? —Rapidamente juntou as mãos porque estavam desejando agarrar-se a ele—. Está mau?

—Não.

—Não são nem as três.

—Sei. —Avançou dentro do quarto, viu que ela apertava os lábios, que os umedecia. Tome o com calma, disse-se, não a assuste—. Aubrey não está contigo?

—Não, Julie me está cuidando isso. Tem um gatinho novo e Aubrey queria ficar, por isso... —Ethan cheirava a mar, a sal e a sol. Lhe subiu à cabeça.

—Então dispomos de algum tempo. —aproximou-se um pouco mais e acrescentou—: Queria verte a sós.

—Ah, sim?

—Levo desejando verte a sós desde que fizemos o amor aquela noite. —Elevou a mão e lhe percorreu a nuca com ternura—. Te desejo —disse brandamente e baixou sua boca até a dela.

Tão suave, tão tenro, o coração dela descreveu um grande salto mortal, comprido e amplo, em seu peito. Os joelhos não a sustentavam. Tremiam-lhe enquanto elevava os braços para ele, enquanto respondia a esse beijo indeciso com uma rajada de calor. Os dedos se cravaram em sua pele, sua boca machucou a do Grace. Por um instante selvagem e travesso, ela pensou que a possuiria onde estavam, livremente e com frenesi.

Então as mãos do Ethan se fizeram mais tenras e se suavizaram ao percorrer seu corpo. Os lábios se fizeram mais doces, navegando sobre os do Grace.

—Vêem a cama comigo —sussurrou—. Vêem a cama comigo —repetiu enquanto a apoiava e a cobria.

Ela se arqueou contra ele, desejosa e ofegante, impaciente com a roupa que separava sua pele da dele. Pareciam-lhe anos desde que lhe havia meio doido por última vez, desde que sentiu esses músculos de aço. Gemendo seu nome, atirou-lhe da camisa, deixou que suas mãos possuíssem, e ao possuir, excitaram-se.

O fôlego dele surgia entrecortado, lhe queimando a garganta. Os movimentos dela sob seu corpo lhe urgiam a dar-se pressa, mas lhe dava medo machucá-la se não se tomava seu tempo, se não tomava cuidado. Por isso se esforçou por reduzir o ritmo, por saborear mais que devorar, por acariciar mais que exigir.

Mas ao igual a uma vez lhe tinha seduzido, agora lhe destroçou.

Tirou-lhe a blusa e a encontrou nua debaixo. Ela viu um brilho em seus olhos, que se voltaram de um azul ardente e que quase lhe queimavam a pele. O foi com cuidado, com supremo cuidado para não lhe fazer danifico, para não assustá-la. Ia devagar para atrasar-se inclusive quando o desejo de tomá-la, de tomá-la já, aguilhoou-lhe como um enxame.

Então sua boca se posou sobre a do Grace, sugando com uma fome se desesperada que ameaçava consumi-los aos dois. Ela elevou um braço, mas não havia nada ao que aferrar-se exceto o ar. Ele a arrastou para cima, sua boca descendeu pelo torso dela, com os dentes lhe roçando a pele, até que, lutando por respirar, ela se envolveu em torno dele.

Ethan sabia que não podia esperar, sabia que se esperava morreria. A única idéia em sua mente era agora, tinha que ser agora, e inclusive essa estava envolta nos oxidados bordem da necessidade primária. Atirou-lhe das calças, amaldiçoando, depois afundou seus dedos dentro dela.

Ela se encurvou, gritou, correu-se. O viu como seus olhos se voltavam opacos, a cabeça caiu para trás, de forma que a larga linha de seu pescoço ficou exposta para que ele a consumisse. Batalhando com a violenta necessidade de cravar-se nela, seguiu saboreando-a até encher o urgente vazio.

Então, liberou-se de seu jeans e se deslizou dentro dela, que voltou a gritar. Os músculos dela se contraíram com força em torno dele.

E perdeu a cabeça.

Velocidade, calor e força. Mais. Elevou-lhe os joelhos e investiu mais profundo, mais forte, perversamente agradado quando as unhas dela se cravaram em seus ombros. afundou-se nela, tremendo com uma avareza cega, nua.

As sensações a alagaram, arranharam-na, deixaram-na reduzida a uma massa estremecida de necessidade. Ela acreditou que morreria. Quando o seguinte orgasmo a golpeou, um punho duro e quente, acreditou ter morrido.

E ficou enfraquecida. As mãos escorregaram dos ombros úmidos do Ethan, o brilho prateado de energia se esgotou até deixá-la exausta. Escutou o comprido e lento gemido dele, sentiu que seu corpo a investia e depois se esticou. Quando ele se derrubou sobre o corpo dela, ofegando, os lábios se curvaram em um sorriso de pura satisfação feminina.

A luz do sol a deslumbrou enquanto lhe acontecia as mãos pelos quadris.

—Ethan. —voltou-se a lhe beijar o cabelo—. Não, ainda não —sussurrou quando ele iniciou um movimento—. Ainda não.

Ethan tinha sido tosco com ela e se amaldiçoou por ter permitido que o nó do controle lhe escapasse.

—Está bem?

—Mmmm. Poderia seguir assim todo o dia. Justo assim.

—Não me tomei o tempo que queria.

—Nós não dispomos de tanto tempo como a maior parte da gente.

—Não. —Elevou a cabeça e disse—: Você nem sequer me diria se te tenho feito mal. —Assim procurou por si mesmo, lhe observando o rosto com atenção. E viu nele a sonhadora satisfação de uma mulher bem amada, por apressado que tivesse sido—. Não parece que te tenha feito mal.

—foi excitante. foi maravilhoso saber que me desejava tanto. —Perezosamente, enrolou uma mecha de seu cabelo queimado pelo sol em torno de um dedo e abraçou a deliciosamente travessa sensação de achar-se nua com ele em uma cama em metade o dia—. Me preocupava pensar que eu te desejava mais do que você pudesse me desejar.

—Isso é impossível. —Para prová-lo, deu-lhe um beijo comprido, lento e profundo—. Esta não é a forma em que desejo estar contigo. Juntando uns poucos minutos entre tarefa e tarefa. E usando esses minutos para nos lançar à cama porque é o único tempo de que dispomos.

—Nunca me tinham feito o amor em metade do dia. —Sorriu—. Me gostou.

Com um comprido suspiro, tocou sua frente com a sua. Se fosse possível, passaria-se o resto do dia justo aí, dentro dela.

—vamos ter que encontrar o modo de achar mais tempo de vez em quando.

—Amanhã tenho a noite livre. Poderia dever jantar Y... ficar.

—Teria que te levar a algum sítio.

—Não há nenhum sítio ao que queira ir. Eu gostaria que jantássemos em casa. —Seu sorriso se fez mais ampla—. Te farei uns tortellini. Acabam-me de dar uma receita nova.

Quando ele riu, lhe lançou os braços ao redor e o resenhou como um dos momentos mais felizes de sua vida.

—Ai, amo-te, Ethan. —Sentia tal vertigem que demorou um momento em dar-se conta de que ele tinha deixado de sorrir, que se tinha ficado muito quieto. Os saltos descontrolados de seu coração se fizeram mais lentos e lhe invadiu uma sensação geada—. Talvez não deseje que lhe diga isso, mas não posso evitar senti-lo. Não espero que você me diga isso a sua vez, ou que se sinta obrigado A...

Os dedos de lhe apertaram levemente os lábios para fazê-la calar.

—Espera um momento, Grace —disse brandamente. Seu organismo se alagou de marés crescentes de alegrias, esperanças, temores. Não podia pensar além deles, não de forma clara. Mas a conhecia, sabia que o que dissesse agora, e como o dissesse, possuiria uma importância vital.

—Faz tanto tempo que sinto algo por ti —começou—, que não posso recordar um momento em que não o sentisse. E não tenho feito mais que me repetir que não deveria ter esses sentimentos, assim que me vai custar um pouco me acostumar a isto.

Quando ele se moveu esta vez, ela não tratou de detê-lo. Fez um gesto de assentimento, evitou seus olhos e procurou sua roupa.

—Basta-me com que me deseje, possivelmente inclusive com que me necessite um pouco. No momento me basta, Ethan. Isto é muito novo para os dois.

—Meus sentimentos são intensos, Grace. Você me importa mais do que nenhuma mulher me importou jamais.

Agora lhe olhou. Se ele o dizia, ela sabia que era a sério. A esperança começou a pulsar de novo em seu coração.

—Se sentia algo por mim, algo intenso, por que , não me havia isso dito?

—Primeiro, não tinha idade suficiente. —Ethan se passou a mão pelo cabelo sabendo que era uma tática evasiva, uma desculpa, que não era o nó. O nó não podia contar-lhe a ela—. E não me sentia cômodo ao albergar esses sentimentos e pensamentos para ti quando você estava ainda no instituto.

Ela poderia ter saltado fora da cama e dançado.

—Desde que estava no instituto? Todo este tempo?

—Sim, todo este tempo. Depois te apaixonou por outra pessoa, e não acreditei ter direito a sentir nada mais que amizade.

Ela deixou escapar o fôlego com cautela porque ia fazer uma confissão que a envergonhava.

—Nunca estive apaixonada por ninguém mais. Sempre foste você.

—Jack...

—Nunca lhe quis, e tudo o que aconteceu entre nós foi mais por minha culpa que pela sua. Permiti-lhe ser o primeiro homem que me tocasse porque nunca pensei que você o faria. E quando me dava conta de quão estúpida tinha sido, estava grávida.

—Não pode dizer que fora culpa tua.

—Sim, sim posso. —Para manter as mãos ocupadas, ficou a fazer a cama—. Eu sabia que ele não estava apaixonado por mim, mas me casei com ele porque me dava medo não fazê-lo. E durante um tempo, senti-me envergonhada, zangada e envergonhada. —Elevou um travesseiro e a meteu em uma capa—. Até uma noite em que estava tombada na cama, pensando que minha vida tinha terminado e senti um bato as asas dentro de mim.

Grace fechou os olhos e apertou o travesseiro contra si.

—Senti ao Aubrey e foi tão..., tão enorme esse leve bato as asas que já não me sentia envergonhada ou zangada. Jack me deu isso. —Voltou a abrir os olhos e colocou o travesseiro na cama com cuidado—. Lhe estou agradecida e não lhe culpo por me abandonar. O nunca sentiu aquele bato as asas. Aubrey nunca foi real para ele.

—Era um covarde, e coisas piores, por te deixar semanas antes de que nascesse a menina.

—Possivelmente, mas eu fui uma covarde, e coisas piores, por estar com ele, por me casar com ele quando não sentia por ele nenhuma mínima parte do que sentia por ti.

—Você é a mulher mais valente que conheço, Grace.

—É fácil ser valente quando tem um menino que depende de ti. Suponho que o que trato de dizer é que se cometi um engano, foi deixar acontecer tanto tempo sem te dizer que te amava. O que sinta por mim, Ethan, é mais do que nunca acreditei que chegasse a sentir. E com isso é suficiente.

—Levo quase dez anos apaixonado por ti, e ainda não é suficiente.

Ela tinha pego o segundo travesseiro, e agora lhe deslizou de entre as mãos. Quando as lágrimas lhe alagaram os olhos, apertou-os forte.

—Acreditei que poderia viver sem te ouvir dizer isso. Agora lhe preciso voltar isso para ouvir uma vez mais para recuperar o fôlego.

—Amo-te, Grace.

Seus lábios se curvaram e os olhos se abriram.

—Diz-o de um modo tão sério, quase triste. Desejando lhe ver sorrir de novo, tendeu-lhe uma ânus—. Talvez deveria praticar.

Seus dedos acabavam de tocar os dela quando ouviu a portada da porta de abaixo. Uns pés soaram nas escadas. No instante em que separavam bruscamente, Seth passou correndo pelo corredor. Derrapou até deter-se na porta do quarto e depois ficou lhes olhando.

Olhou a cama, os lençóis ainda enrugados, o travesseiro no chão. Então seu olhar trocou e encheu de uma fúria amarga que resultava muito adulta em seu rosto de menino.

—Hijoputa! —espetou ao Ethan com ódio. Logo seus olhos se centraram no Grace com asco—. Pensei que você foi distinta.

—Seth. —Grace deu um passo adiante, depois o menino girou sobre seus talões e saiu correndo—. Ai, Meu deus, Ethan! —Quando fez gesto de sair atrás dele, Ethan a agarrou o braço.

—Não, eu irei atrás dele. Sei o que sente. Não se preocupe. —Deu-lhe um apertão no braço antes de sair do quarto, mas lhe seguiu até a escada, profundamente preocupada. Nunca tinha visto um ódio tão intenso nos olhos de um menino.

—Maldita seja, Seth, hei-te dito que te dê pressa. —CAM pegou uma portada na porta dianteira quando Ethan chegava ao final da escada. Olhou para cima, viu o Grace e sentiu que um sorriso se esboçava em seus lábios—. Uy!

—Não tenho tempo para brincadeiras tolas —disse Ethan apressadamente—. Seth acaba de ir-se.

—Como? por que? —Caiu na conta antes de terminar de dizê-lo—. Mierda! Deve ter saído por atrás.

—Vou atrás dele. —Moveu a cabeça antes de que seu irmão pudesse protestar—. É comigo com quem está chateado neste momento. Sou eu quem acredita que lhe decepcionou. Tenho que arrumá-lo. —Olhou para cima, para onde Grace estava sentada nos degraus—. Cuida dela —murmurou enquanto se dirigia à porta traseira.

Ethan sabia que Seth se dirigiria ao bosque, e tinha que confiar em que não entraria muito na restinga. O menino era um supervivente, pensou. Mas o alívio lhe percorreu quando ouviu o sussurro dos arbustos e das folhas velhas.

Resultou-lhe fácil identificar o ponto onde o menino tinha deixado o atalho. abriu-se passo entre intrincadas matas, com os espinhos das sarças, e lhe seguiu. As folhas das árvores que se arqueavam sobre sua cabeça impediam que lhe alcançasse a luz do sol e o pior do calor. Mas a umidade era imensa.

O suor lhe corria pelas costas e lhe caía pelos olhos enquanto caminhava pacientemente e esperava. Sabia perfeitamente que o menino lhe estava evitando, mantendo uns metros por diante. Ao final, sentou-se em um tronco cansado, decidindo que seria mais fácil deixar que o menino viesse a ele.

Passaram dez largos minutos, com os insetos revoando como em uma nuvem e os mosquitos uscando sangre, mas por fim Seth saiu da essura e se enfrentou a ele.

—Não vou voltar contigo —disse, quase cuspindo as palavras—. Se tráficos de me obrigar, voltarei a fugir.

—Não te vou obrigar a fazer nada. —De onde estava sentado no tronco, Ethan observou menino. Seu rosto estava manchado, veteado de sujeira e suor, avermelhado de calor e de ira. As pernas e braços estavam talheres de arranhões por abrir-se passo entre as sarças. Lhe foram picar como um demônio quando Seth se acalmasse o suficiente para dar-se conta. —Quer te sentar e resolver isto falando? —perguntou brandamente.

—Não me acredito nada do que vás dizer. É um mentiroso. Os dois são uns putos mentirosos. Me vais dizer que não estavam follando?

—Não, não é isso o que estávamos fazendo.

Seth se lançou contra ele a tal velocidade que pilhou ao Ethan despreparado e lhe deu um murro de cheio na mandíbula. Logo lhe ocorreu que o menino tinha bons punhos, mas isso foi muito mais tarde. Nesse momento, teve que usar toda sua concentração para lutar com o menino até derrubá-lo.

—Matarei-te! Te vou matar assim que tenha oportunidade, bode. —revolveu-se, lutou, lutou e esperou a chuva de golpes.

—Espera, joder! —Frustrado porque os escorregadios braços suarentos do menino lhe escapavam todo o momento, Ethan lhe sacudiu levemente—. Assim não vai a nenhum sítio. Sou maior que você e te posso manter sujeito até que fique sem forças.

—me tire as mãos de cima! —Seth mostrou os dentes e resmungou—: É um filho de puta!

Era um golpe mais potente e mais certeiro que o murro. Ethan conteve o fôlego e assentiu com lentidão.

—Sim, isso é o que sou. Por isso é pelo que você e eu nos conhecemos. Pode escapar quando te soltar, Seth. Pode me jogar toda a mierda que queira. Isso é o que a gente espera dos filhos de puta. Mas imagino que você deseja algo melhor para ti mesmo. —Ethan se tornou para trás, sentou-se sobre os tornozelos e se limpou o sangue da boca—. É a segunda vez que me dá um murro na cara. Se voltar a tentá-lo, vou dar tal surra no culo que não te vais poder sentar em um mês.

—Odeio-te, jodido bode!

—Vale. Mas terá que me odiar pelas razões apropriadas.

—Quão único lhe queria era atirar isso e ela se aberto de pernas para ti.

—Cuidado! —Rápido como o raio, Ethan agarrou ao Seth pela camisa e lhe fez ficar de joelhos—. Nem te ocorra falar assim dela. Teve a suficiente sensatez para te dar conta desde o começo do tipo de pessoa que é Grace. Por isso confiou nela, por isso tomou carinho.

—Ela me importa uma mierda —proclamou, e teve que tragar para evitar que as lágrimas que lhe queimavam começassem a brotar.

—Se Grace não te importasse, não estaria tão furioso com ela e comigo. E não sentiria que lhe decepcionamos.

Ethan soltou ao Seth e se passou as mãos pela ra. Sabia o tremendamente mal que lhe dava falar de emoções, em particular das suas.

—Te vou falar claro. —Baixou as mãos e disse—: Tem razão sobre o que aconteceu antes de que chegasse a casa, só te equivoca sobre o que significa.

Os lábios do Seth tremeram em uma careta zombadora.

—Já sei o que significa joder.

—Sim, o que você conhece são sons feios na habitação do lado, um sobeteo apressado na escuridão, aromas acres, dinheiro que troca de mãos.

—Só porque não a tenha pago não...

—te cale —ordenou Ethan pacientemente—. Eu também acreditava que isso era tudo o que havia, ou a única forma que existia. Duro, sem coração, às vezes sórdido. Quão único quer do outro é o que pode conseguir para ti. Assim é egoísta, também. Obtém certo alívio, sobe-te as calças e vai. Não sempre está mau. Se não importar a nenhum dos implicados, se te ajudar a agüentar a noite, não sempre está mau. Mas não é a única forma, e certamente não é a melhor.

Recordou quando tinha pensado que esperava que tocasse a outro lhe explicar essas coisas ao menino quando chegasse o momento. Mas parecia que o momento era esse e que tocava a ele.

Não podia fazê-lo com um sorriso e uma piscada como o teria feito CAM, nem de forma suave e com palavras bonitas, como certamente o faria Phillip. O só podia falar do coração e esperar que com isso bastasse.

—O sexo pode ser como comer, só saciar a fome. Às vezes paga por uma comida, ou faz troca, e se for justo, você dá o equivalente do que recebe.

—O sexo não é mais que sexo. Só o pintam bonito para vender livros e filmes.

—Você crie que isso é quão único existe entre a Anna e CAM?

Seth se encolheu de ombros, mas estava pensando.

—Eles possuem algo que importa, algo que dura, algo sobre o que se constróem vistas. Não é com o que você cresceu nem com o que eu passei a primeira parte de minha vida, por isso lhe posso dizer isso claramente. —Ethan se apertou os olhos com os dedos, sem fazer caso do suor e das nuvens de insetos—. É distinto quando te importa, quando a outra pessoa não é só uma cara ou um corpo que está à mão e disposto. Eu vivi isso. Quase todo mundo o faz em um momento ou outro. Mas é distinto quando é só essa pessoa a que te importa, a que lhe dá sentido. Quando não é só o anseia o que te empurra. Quando deseja, por cima de tudo, dar mais do que recebe. Nunca tinha tido com ninguém o que tenho com o Grace.

Seth se encolheu de ombros e apartou o olhar, mas não antes de que Ethan visse a desdita em seu rosto.

—Sei que sente algo por ela, e que esses sentimentos são reais, fortes e importantes. Possivelmente a parte de ti desejava que ela fora perfeita, que não sentisse as necessidades que outras mulheres possuem. Acredito que uma parte mais importante de ti desejava protegê-la, te assegurar de que ninguém lhe fizesse mal. Por isso vou dizer te o que acabo de lhe dizer a ela. A amo. Nunca amei a ninguém mais.

Seth fixou os olhos na restinga. Tudo nele era dor, mas o pior era a vergonha.

—Ela te ama?

—Sim, ama-me. Não tenho nem idéia de por que.

Seth pensou que ele sabia por que. Ethan era forte e não se dava importância. Fazia o que terei que fazer. Fazia o correto.

—Eu ia cuidar dela quando fora maior. Suponho que isso te parece absurdo.

—Não. —De repente, desejava intensamente lhe dar um abraço ao menino, mas sabia que não era o momento oportuno—. Não, acredito que é algo grande. Sinto-me orgulhoso de ti.

O olhar do Seth se elevou até ele por um instante e depois fugiu de novo rapidamente.

—É como que eu..., já sabe, quero-a. Não é que goste de vê-la nua ou algo assim —acrescentou rapidamente—. É só...

—Compreendo. —Ethan se apertou forte a ponta da língua para sufocar a risada. A veloz quebra de onda de risonho alívio lhe soube melhor que uma cerveja geada em um dia abrasador—. É como se fora uma irmã, como que desejas o melhor para ela.

—Isso. —E Seth suspirou—. Sim, acredito que é isso. —Pensativamente, Ethan aspirou ar por entre os dentes.

—Tem que ser duro para um homem entrar e encontrar-se a sua irmã com alguém.

—Tenho-lhe feito mal. Queria fazer-lhe Donde el sexo era un negocio, pensó Seth, feo y sórdido.

—Sim, tem-no feito. Terá que lhe pedir perdão se quer esclarecer coisas com ela.

—vai pensar que sou um estúpido. Não quererá falar comigo.

—Queria vir ela mesma para te buscar. Seguro que agora mesmo está dando voltas acima e abaixo pelo pátio, preocupadísima por ti.

Seth tomou fôlego de um modo que se parecia muito a um soluço.

—Estive-lhe dando a tabarra ao CAM até que me trouxe para recolher minha luva de beisebol. E quando eu..., ao lhes ver ali, recordou-me quando voltava para sítio onde vivia com Glória e ela o estava fazendo com qualquer tipo.

Onde o sexo era um negócio, pensou Seth, feio e sórdido.

—É difícil deixar essas coisas de lado, ou te permitir pensar que existe uma forma distinta. —Como ele mesmo seguia trabalhando nisso, Ethan falou com cuidado—. Que fazer o amor, quando te implica, quando te importa, quando as coisas são corretas, é algo limpo.

Seth sorveu e se limpou os olhos.

—Insetos —murmurou. —Sim, aqui são uma peste.

—Teria-me que ter pego por lhes dizer essas porcarias.

—Tem razão —decidiu Ethan detrás pensá-lo momento—. Te pegarei a próxima vez. Asa, vamos a casa!

ficou de pé, limpou-se as calças e depois lhe tendeu uma mão ao moço. Este ficou olhando e viu amabilidade, paciência, compaixão. As qualidades de um homem do que se teria burlado antes, porque tinha encontrado muito pouco dessas qualidades nas pessoas que haviam meio doido sua vida.

Pôs sua mão na do Ethan e, sem dar-se conta a deixou ali enquanto descendiam pelo atalho.

—Como é que não me há devolvido o golpe uma só vez?

«Pobre moço —pensou Ethan—, muitas mãos se elevaram já contra ti em sua curta vida.»

—Ao melhor dava medo que pudesse comigo.

Seth emitiu uma espécie de risada zombadora, piscando com fúria para conter as lágrimas que insistiam em derramar-se.

—E uma mierda.

—Bom, é pequeno —disse Ethan tirando a boina do bolso traseiro do menino e colocando-lhe na cabeça—. Mas é um tipo fibroso.

Seth inspirou profundamente várias vezes à medida que se aproximavam aonde os raios do sol alcançavam o bordo do bosque, projetando uma luz branca oblíqua.

Viu o Grace, como Ethan havia dito, no pátio, abraçando-se como se tivesse frio. Deixou cair os braços, deu um rápido passo para diante e logo se deteve.

Ethan sentiu que a mão do Seth se movia na sua e lhe deu um leve apertão de ânimo.

—Seria bastante bom para conseguir que te perdoe —murmurou— que fosse correndo e lhe desse um abraço. Ao Grace adora os abraços.

Era o que queria fazer, mas lhe dava medo arriscar-se. Olhou ao Ethan, sacudiu um ombro e se esclareceu garganta.

—Suponho que poderia fazê-lo, se isso conseguir que se sinta melhor.

Ethan se deteve, observou como o guri corria pela grama e viu o rosto do Grace iluminar-se com um sorriso enquanto abria os braços de par em par para lhe receber.

 

Se a gente tinha que trabalhar em um comprido ponte vacacional, pensou Phillip, mais valia que fora em um pouco divertido. adorava seu trabalho. Porque, depois de tudo, o que era a publicidade, mais que conhecer às pessoas e saber que botões terei que tocar para obter que soltassem a massa?

Freqüentemente pensava que era uma forma aceita criativa, inclusive esperada, de lhe levantar a carteira a gente. Para um homem que tinha passado a primeira metade de sua vida sendo um ladrão, era a profissão perfeita.

Nesta véspera do dia da Independência, estava em jogo suas habilidades para trabalhar-se a um cliente em potência. Preferia-o com muito ao trabalho manual.

—Tem-nos que perdoar como está tudo é.—Phillip moveu sua mão, de unhas bem cuida, para mostrar o amplo espaço, as vigas vistas, teto, as luzes que penduravam dele, as paredes por pintar e o prejudicado chão—. Meus irmãos eu acreditam que o que vale a pena é centrar nossos esforços no produto e manter nossos gastos fixos no mínimo. Esses benefícios se transmitem a nossos clientes.

Nesse preciso momento, pensou Phillip, tinham exatamente um cliente, outro esperando e este mordiscando o anzol.

—Humm. —Jonathan Kraft se esfregou o queixo. Era um homem de uns trinta e tantos anos, e o suficientemente afortunado para pertencer à quarta geração do império farmacêutico Kraft. Dos humildes começos de seu tatarabuelo como farmacêutico em Boston, sua família tinha construído e expandido um império apoiado nos analgésicos e a aspirina. Isso lhe permitia exercer sua grande afeição à vela.

Era alto e estava bronzeado e em forma. Seu cabelo castanho estava perfeitamente talhado para ressaltar a mandíbula reta e o atrativo rosto. Levava umas calças cor ante, uma camisa blusa de marinheiro de algodão e uns náuticos usados. O relógio era um Rolex e seu cinturão era feito de couro italiano trabalhado à mão.

Parecia exatamente o que era: um homem rico e privilegiado a quem gostava das atividades ao ar livre.

—Só levam uns meses trabalhando.

—Oficialmente —replicou Phillip com um radiante sorriso. Seu cabelo era de uma cor castanha clara, talhado e penteado para tirar o máximo partido para um rosto que os anjos tinham favorecido com um beijo extra de pura beleza masculina. Levava uns Levi's gastos, como era a moda, uma camisa verde de algodão e umas esportivas Supergas cor cinza esverdeada. Seus olhos possuíam um brilho ardiloso e o sorriso era sedutor.

Parecia exatamente o que ele tinha desejado ser: um sofisticado homem de cidade a quem gostava da moda e o mar.

—Ao longo dos anos, meus irmãos e eu trabalhamos em equipes que construíram uns quantos navios. —Brandamente, dirigiu ao Jonathan para os esboços emoldurados que penduravam das paredes. Os trabalhos do Seth se exibiam de um modo rústico, pois Phillip pensava que isso harmonizava com o ambiente de uma carpintaria de ribeira tradicional—. O veleiro de meu irmão Ethan. Uma das poucas que ainda navegam cada inverno para procurar ostras na baía do Chesapeake. Tem-na há mais de dez anos.

—É uma beleza. —O rosto do Jonathan se tornou sonhador, como Phillip previa. Quando um homem se dedicava a aliviar bolsos, tinha que fazer bem seus cálculos—. Eu gostaria de vê-la.

—Estou seguro de que podemos organizar uma visita. —Deixou que Jonathan seguisse contemplando-o, antes de urgi-lo brandamente a que avançasse—. Agora, este possivelmente te soe. —Indicou-lhe o desenho de um estilizado esquife de carreiras—. O treze. Meu irmão Cameron participou tanto no desenho como na construção.

—E ganhou em meu Lorilee dois anos seguidos. —Joathan fez uma careta de resignação—. Claro que CAM capitaneava a equipe.

—Sabe de navios. —Phillip ouviu o zumbido de uma furadeira procedente de onde seu irmão estava trabalhando sob coberta. Tinha intenção de fazer intervir ao CAM em seguida.

—O balandro que estamos construindo neste momento se apóia fundamentalmente em um desenho do Ethan, embora CAM lhe acrescentou alguns toques. Estamos plenamente dedicados a satisfazer as necessidades e desejos do cliente. —Conduziu ao Jonathan até o ponto onde Seth continuava lixando o casco. Ethan estava na coberta, fixando os verduguillos—. Queria velocidade, estabilidade e certos luxos. —Phillip sabia que o casco era um modelo espetacular de construção de oculte liso, ele mesmo lhe tinha jogado um montão de suarentas horas—. Está construído procurando a beleza, não só a funcionalidade. Teca de proa a popa, como pediu o cliente —acrescentou risueñamente, golpeando o casco com os nódulos.

Phillip moveu as sobrancelhas olhando ao Ethan. Reconhecendo o gesto, este reprimiu um suspiro. Sabia que ia odiar essa parte, mas Phillip tinha pontudo que era uma boa idéia para chavecar-se ao possível cliente.

—As juntas estão engrenadas e machihembradas, sem cauda. —Ethan moveu os ombros para trás, sentindo-se como em um exame oral da escola. Sempre os odiou—. Pensamos que se os construtores de navios de toda a vida podiam fazer que as costuras durassem um século ou mais sem usar cauda, nós também. E vi falhar muitas unidas com cauda.

—Humm —repetiu Jonathan, e Ethan tomou fôlego.

—O casco está calafetado ao modo tradicional, com fios de algodão. O forro é completamente estanque, e parece tudo de madeira em sua parte interior. Em quase todas as costuras enrolam dois fios. Quase não necessitamos o maço. Depois as embreamos com os materiais normais.

Jonathan não fez nenhum comentário. Tão somente tinha uma vaga idéia do que dizia Ethan. O pilotava navios, navios que tinha comprado novos, limpos e terminados. Mas gostava de como soava a história.

—Parece um navio fino e estanque. Uma bonita embarcação de recreio. Eu procuro velocidade e eficácia, além de estética.

—Ocuparemo-nos de que o obtenha. —Phillip lhe dirigiu um amplo sorriso, ao tempo que o fazia um gesto com o dedo ao Ethan por detrás da cabeça do Jonathan. Era o momento de começar o seguinte assalto.

Ethan se dirigiu à parte interior do navio, onde CAM estava colocando a estrutura do armário situado debaixo do beliche.

—Toca-te aí acima —murmurou.

—Phil conseguiu que rivalidade o anzol?

—Não poderia dizê-lo. Eu tenho feito meu pequeno discurso e o tipo se limitou a assentir e a emitir sons. me dá que não tem nem idéia do que lhe estava contando.

—É obvio que não. Jonathan contrata a gente para que lhe faça a manutenção de suas embarcações. Não arranhou um casco nem trocado uma coberta em sua vida. —CAM se incorporou de sua posição agachada e fez exercícios para desentorpecer os joelhos—. É o tipo de pessoa que conduz um Maserati sem saber uma mierda de motores. Mas seguro que se ficou impressionado com seu deixe de homem de mar e seu atrativo de rasgos duros.

Enquanto Ethan soltava uma risita zombadora, CAM lhe deu uma cotovelada para abrir-se passo.

—Vou lhe dar um empurrãozinho. —Subiu a coberta e conseguiu parecer plausivelmente surpreso de ver o Jonathan a bordo, estudando as dá de presente—. Né, Kraft, o que acontece?

—Pois muito e muito rápido. —Com sincero gosto, Jonathan lhe estreitou a mão—. Me surpreendeu que não aparecesse na regata de San Diego este verão.

—Casei-me.

—Isso me hão dito. Parabéns. E agora te dedica à construção de navios em lugar de participar de regatas com eles.

—Eu não contaria com meu retiro definitivo das regatas. Estou jogando com a idéia de me construir um bote com arranjo de gata este inverno, sempre que o negócio afrouxe um pouco.

—Estão muito ocupados?

—Bom, corre-se a voz —comentou CAM, como sem lhe dar importância—. Um navio Quinn implica qualidade. A gente inteligente quer o melhor, quando pode permitir-lhe Sorriu, rápido e sedutor, e perguntou—: Lhe pode permitir isso você?

—Eu também estava pensando em um bote. Seu irmão lhe deve isso haver dito.

—Sim, comentou-me isso. Quê-lo ligeiro, rápido e estanque. Ethan e eu estivemos modificando um desenho do que eu tinha pensado para mim.

—Que bola! —murmurou Seth, o suficientemente alto para que só o ouvisse Phillip.

—Claro. —Este lhe piscou os olhos um olho—. Mas é uma bola de primeira qualidade. —inclinou-se um pouco mais para o Seth, enquanto CAM e Jonathan se enfrascaban em uma conversação sobre o atrativo de participar de uma carreira com um bote—. CAM sabe que embora lhe cai bem ao tipo, é muito competitivo.

— Nunca ganhou no CAM quando ambos tomavam parte. Assim...

—Assim pagará montões de massa para que CAM lhe construa uma embarcação que nem sequer poderia melhorar.

—Isso. —Orgulhoso, Phillip deu ao Seth um murro no ombro—. Possui um bom cérebro. Não deixe de usá-lo e não te passará todo o tempo lixando cascos. Agora, guri, observa ao professor. —endireitou-se, e sorriu de forma deslumbrante—. Estarei encantado de te mostrar os planos, Jonathan. por que não subimos a meu escritório? Em seguida lhe busco isso.

—Não me importaria lhes jogar uma olhada. —Jonathan desceu do navio—. O problema é que necessito o navio preparado para em um de março. Tenho que prová-lo, lhe pilhar o ar e rodá-lo antes das regatas do verão.

—Em um de março. —Phillip franziu os lábios e depois sacudiu Isso cabeça poderia ser um problema. Aqui a qualidade é o primeiro. Construir um campeão leva tempo. Jogarei-lhe uma olhada a nosso calendário —acrescentou, passando o braço sobre o ombro do Jonathan enquanto caminhavam—. Veremos o que podemos fazer, mas o contrato já está assinado e nossas folhas de trabalho me dizem que maio é o antes que podemos entregar o produto de primeira qualidade que você espera e merece.

—Isso não me deixa muito tempo para lhe pilhar os tinos —se queixou Jonathan.

—me acredite, Jonathan, a um navio construído pelo Quinn lhe pilha o tino rapidamente, rapidamente —acrescentou, jogando um olhar a seus irmãos com um sorriso de depredador antes de levar-se ao Jonathan a seu escritório.

—Nos vai conseguir até maio —decidiu CAM e Ethan assentiu.

—Ou lhe dirá que para abril e lhe tirará um extra ao pobre idiota.

—Uma coisa ou outra. —CAM plantou uma mão no ombro de seu irmão—. Quando terminar o dia teremos outro contrato.

Abaixo, Seth se burlou.

—Jo, vai acabar com ele para meio-dia. O tipo está perdido.

CAM fingiu seriedade.

—Às duas da tarde, como logo.

—As doze —insistiu Seth, lhe olhando fixamente.

—Joga-te um par de perus?

—Claro. Vem-me bem o dinheiro.

—Sabe? —comentou CAM enquanto tirava sua carteira—. antes de que viesse você para me jogar a perder a vida, eu acabava de ganhar uma fortuna no Montecarlo.

Seth se burlou risonho.

—Isto não é Montecarlo.

—E que o diga. —Passou-lhe os bilhetes e depois fez uma careta ao ver entrar em sua esposa—. te Controle. aproxima-se a assistente social. Não lhe vai parecer bem que os menores apostem dinheiro...

—Ouça, mas se tiver ganho eu —particularizou Seth, mas se guardou os bilhetes no bolso—. trouxeste comida? —perguntou a Anna.

—Ai, não, não trouxe nada. Sinto muito. —Alterada, passou-se uma mão pelo cabelo. Sentia no estômago uma bola escura que tratou ignorar com todas suas forças. Sorriu, seus lábios curvaram, mas o sorriso não chegou aos olhos. —Não haviam lhes trazido comida? —Sim, mas você normalmente traz algo melhor. —Hoje estive bastante atada preparando comida para o andaime de amanhã. —Passou-lhe uma mão pela cabeça e depois a deixou estalagem em seu ombro. Precisava sentir o contato—. Me ocorrido tomar um descanso e ver como foram coisas por aqui.

—Phil acaba de chavecar a um tipo rico para que nos solte um montão de massa.

—Que bem, isso está muito bem —comentou com ar ausente—. Então temos que celebrá-lo. por que não lhes convido a gelado? Pode te aproximar do Crawford e pilhar sorvete de caramelo?

—Como não! ——Seu rosto se partiu em um grande sorriso—. Claro que posso.

Anna tirou dinheiro de seu moedeiro, esperando que Seth não notasse que lhe tremiam as mãos. —O meu, sem frutos secos, vale?

—Vale, sem problema. Vou. —Saiu correndo, e ela o olhou com o coração dolorido.

—O que acontece, Anna? —CAM lhe pôs as mãos nos ombros, e lhe deu a volta para lhe olhar a cara—. O que passou?

—Espera um momento. vim a toda velocidade e necessito um minuto para me tranqüilizar. —Soltou ar, tomou fôlego e se sentiu um poquito mais serena—. CAM, vá procurar a seus irmãos.

—Vale. —Mas ficou ali, lhe esfregando os ombros com as mãos. Era estranho vê-la tão afetada—. Seja o que seja, resolveremos. —dirigiu-se para as portas. Ethan e Phil se encontravam fora discutindo de beisebol—. aconteceu algo —disse brevemente—. veio Anna. mandou ao Seth fora. Está preocupada.

Quando se aproximaram, Anna estava junto a um banco de trabalho olhando um dos cadernos de desenho do Seth. Picaram-lhe os olhos ao ver seu próprio rosto, esboçado com cuidado e habilidade pela mão do muchachito.

Ele sempre tinha sido algo mais que um caso que lhe tinham atribuído, quase do começo. E agora era dele, tanto como Ethan e Phillip eram deles. Eram sua família. Não podia suportar a idéia de que nada nem ninguém lhe fizesse mal a sua família.

sentiu-se mais tranqüila ao voltar-se e observar os rostos silenciosos e preocupados dos homens que se feito essenciais para sua vida.

—Isto chegou no correio de hoje. —Já não lhe tremia a mão quando a meteu na bolsa e tirou uma carta.

—Está dirigida aos Quinn. Os Quinn, assim, sem mais —repetiu—. De Glorifica DeLauter. Tenho-a aberto. pensei que era o melhor e, bom, agora eu também me chamo Quinn.

A tendeu ao CAM. Sem dizer nada, este tirou a folha de papel rajado e lhe aconteceu o sobre ao Phillip.

—Está franqueada na Virginia Beach —murmurou este—. A perdemos na Carolina do Norte. Segue pelas praias, mas vem para o norte.

—O que quer? —Ethan se meteu as mãos, com os punhos apertados, nos bolsos. Uma raiva surda a ponto de estalar lhe palpitava já no sangue.

—O que seria de esperar —respondeu CAM brevemente—. Dinheiro. «Estimados Quinn. Hei oido que Ray morreu. Que pena. Talvez não soubessem que ele e eu tínhamos chegado a um acordo. Acredito que quererão mantê-lo, posto que têm ao Seth com vós. Suponho que está muito situado aí, nessa bonita casa. Lhe sinto falta de. Não sabem que sacrifício supôs para mim ceder-lhe ao Ray, mas queria o melhor para meu único filho»

—Teria que tirar o violino —sussurrou Phillip ao Ethan.

—«Sabia que Ray seria bom com ele» —continuou CAM—. «Se comportou bem com vós três e Seth leva seu sangue.»

Deixou de ler por um momento. Aí estava, em branco e negro.

—Verdadeiro ou falso? —Elevou o olhar a seus irmãos.

—Já nos ocuparemos disso mais tarde. —Ethan sentiu que a dor atendia seu coração, mas moveu a cabeça—. Segue lendo.

—Vale. «Ray sabia quanto me doeu me separar do menino, assim que me deu uma mão. Mas agora que ele já não está, começa a me preocupar que o sítio mais apropriado para o Seth não seja aí com vós. Mas poderiam me convencer. Se estão decididos a ficar com ele, manterão a promessa do Ray de me ajudar. vou necessitar um pouco de dinheiro, como um signo de suas boas intenções. Cinco mil. me podem enviar isso a meu nome, a Lista de Correios, aqui, na Virginia Beach. Dou-lhes duas semanas, dado que não se pode uma confiar em serviço de correios. Se não ter suas notícias, saberei que em realidade não querem ao menino, assim irei lhe buscar. Ele me deve jogar de muitíssimo menos. Não deixem de lhe dizer que sua mamãe lhe quer muito e que talvez nos vejamos muito em breve.»

—Cabrona! —foi o primeiro comentário do Phillip—. Está nos pondo a prova, tentando outra pequena chantagem a ver se picarmos como fez papai.

—Não podem fazê-lo. —Anna pôs uma mão no braço do CAM e sentiu o tremor de raiva—. Têm que deixar que as instituições façam seu trabalho. Têm que confiar em mim, não permitirei que ela faça isto. No julgamento...

—Anna. —CAM pôs a carta na mão que Ethan lhe tendia—. Não vamos fazer que o menino passe por um processo judicial. Não a menos que não haja outra forma.

—Não podem lhe dar dinheiro. CAM...

—Eu não quero que receba nem um puto centavo. ficou a dar voltas, tratando de controlar—. Se acredita que nos tem agarrados pelas cabelos, mas se equivoca. Não somos um homem velho e sozinho. —voltou-se com os olhos ardentes—. Verão como tenta acontecer por cima de nós para jogar a luva ao Seth.

—teve muito cuidado na forma de dizer as coisas —comentou Ethan enquanto estuda-a carta outra vez—. Não deixa de ser uma ameaça, mas não é tola.

—É avara —interveio Phillip—. Se já esta pedindo mais, depois de tudo o que lhe deu batata, o que está fazendo é pôr a prova a profundidade do poço.

—Agora lhes vê como sua vaca leiteira —coincidiu Anna—. E resulta impossível predizer o que fará quando se der conta de que esta não se deixa ordenhar —Fazendo uma pausa, apertou-se uma têmpora com dedos, forçando-se a pensar—. Se voltar de novo condado e tráfico de ficar em contato com o Seth, posso fazer que lhe impeçam o contato direto com ele com uma ordem de afastamento, ao menos de forma temporária. Vós têm a custódia do menino. E Seth é o suficientemente major para falar por si mesmo. Pergunta-a é: fará-o? —Elevou as mãos, frustrada e logo as deixou cair—. Contou muito pouco sobre sua vida antes de que viesse aqui. Necessitarei detalhes para poder bloquear qualquer intento de reclamar a custódia por parte dela.

—O não a quer. E não quer a ele. —Ethan com muita dificuldade pôde resistir a fazer uma bola com a carta e lançá-la longe—. A menos que ele valha o preço de outra dose. Ela deixou que os clientes lhe aproximassem.

Anna se voltou a lhe olhar, manteve os olhos serenos e diretos em seu rosto.

—Contou-lhe isso Seth? Disse-te que tinha havido abuso sexual e que ela o tinha permitido?

—Contou-me o suficiente. —O gesto do Ethan se endureceu e se tornou sombrio—. Depende dele se quer contar-lhe a alguém mais e vê-lo refletido em um puto relatório oficial.

—Ethan. —Anna posou uma mão sobre seu rígido braço—. Eu também lhe quero. Só desejo lhe ajudar.

—Sei. —Deu um passo atrás porque seu aborrecimento era muito intenso e podia salpicar a outros—. O sinto, mas há vezes em que as instituições só pioram as coisas. Fazem-lhe sentir como que lhe tragam. —Tentou bloquear o eco de dor—. Ele tem que saber que conta conosco para nos manter firmes a seu lado, à margem de qualquer instituição.

—Terá que lhe dizer ao advogado que ela se pôs em contato conosco. —Phillip agarrou carta ao Ethan, dobrou-a e a colocou de novo no sobre—. E temos que decidir como vamos levar este tema. Meu primeiro impulso é baixar a Virginia Beach, tirar a de seu buraco e lhe dizer de forma que não lhe caiba nenhuma duvida o que lhe vai passar se aproximar de menos de cinqüenta milhas do Seth.

—As ameaças não vão servir de nada... —começou Anna.

—Mas nos faria sentir de maravilha. —CAM señó os dentes—. me Deixem fazê-lo .

—Por outro lado —continuou Phillip—, acredito que poderia ser muito efetivo, e contaria muito se formos a uma batalha legal, que nosso colega Glorifica recebesse uma carta da assistente social atribuída ao caso do Seth. Uma carta que resumisse a situação, as opções e as conclusões às que se chegou. Contatar ou tratar de contatar uma mãe biológica que está pensando em voltar a reclamar a custódia de seu filho, um filho que figura em seus arquivos, entraria dentro de suas competências, não, Anna?

Anna o pensou, consciente de que se tratava de linha muito fina e faria falta um grande sentido do  equilíbrio para caminhar por ela.

—Eu não posso ameaçá-la. Mas... talvez a fazer que se pare a pensar. Contudo, a parte essencial segue sendo: o vamos dizer ao Seth?

—O lhe tem medo —murmurou CAM—. Maldita seja, o menino está começando a relaxar-se, está começando a acreditar que se encontra a salvo. por que temos que lhe dizer que ela tornou a colocar a garra em sua vida outra vez?

—Porque tem direito ou seja o —disse Ethan com suavidade. Já se tinha acalmado e podia pensar com claridade—. Tem direito ou seja o que é ao que possivelmente tenha que enfrentar-se. Se souber o que é o que te persegue, tem mais oportunidades. E porque —acrescentou— a carta vinha dirigida aos Quinn. O é um de nós.

—Eu preferiria queimá-la —murmurou Phillip—. Mas tem razão.

—O diremos entre todos —coincidiu CAM.

—Preferiria dizer-lhe eu.

Tanto CAM como Phillip ficaram olhando ao Ethan.

—Seriamente?

—Pode que tome melhor vindo de mim. —voltou-se a ver como Seth entrava pela porta—. Agora o veremos.

—Mamãe Crawford nos pôs um montão de caramelo extra. Tio, jogou-lhe um jorro enorme. Havia como milhares de turistas no porto Y... —Seu bate-papo excitado se deteve. Os olhos passaram de alegres a receosos. O coração começou a lhe tamborilar no peito. Podia reconhecer os problemas, os problemas sérios. Tinham seu próprio aroma—. O que passa?

Anna lhe tirou a bolsa e se voltou para tirar as tarrinas com tampas de plástico.

—por que não se sinta, Seth?

—Não quero me sentar. —Era mais fácil tirar vantagem ao correr se a gente já estava de pé.

—Hoje chegou uma carta. —Ethan sabia que ou melhor era dar as más notícias de forma rápida e clara—. De sua mãe.

—Está aqui? —O medo retornou, afiado como um bisturi. Seth retrocedeu um passo e ficou isso como uma tabela quando CAM lhe pôs uma mao no ombro.

—Não, não está aqui. Mas nós sim. Não se esqueça disso.

Seth se estremeceu, logo plantou os pés no chão com firmeza.

—Que demônios quer? por que manda carta? Não quero lê-la.

—Então não tem por que lhe fazê-lo assegurou Anna—. por que não deixa que Ethan te explique, e logo falaremos do que vamos fazer.

—Ela sabe que Ray morreu —começou Cão—. me dá que o soube desde o começo, mas que se tomou seu tempo.

—O lhe deu dinheiro. —Seth tragou para que a saliva árrastrara o temor. Os Quinn não tinham medo se disse a si mesmo. Não lhe tinham medo a nada—. se foi. Não lhe importa que esteja morto.

—Sim, não acredito que lhe importe, mas está procurando mais dinheiro. Disso trata a carta.

—Quer que eu lhe pague? —Um medo muito resistente lhe explorou no cérebro—. Eu não tenho dinheiro. por que me pede dinheiro ?

—Não te tem escrito a ti.

Seth respirou entrecortadamente e centrou o olhar no rosto do Ethan. Os olhos eram claros e pacientes, a boca firme e séria. Ethan sabia, não podia pensar outra coisa. Ethan sabia como era. Conhecia os quartos, os aromas, as mãos grosas na escuridão.

—Quer que lhe vós paguem. —Uma parte de si queria lhes implorar que o fizessem. Que lhe pagassem o que ela quisesse. O juraria com seu sangue que faria o que lhe pedissem durante o resto de sua vida para honrar a dívida. Mas não podia. Não com o Ethan lhe observando e esperando. E sabendo—. Se o fazem, não fará mais que voltar para por mais. Seguirá voltando uma e outra vez. —Seth se passou o dorso da mão suarenta pela boca—. Enquanto saiba onde estou, voltará. Tenho que ir a outro sítio, a algum sítio onde não possa me encontrar.

—Você não vai a nenhuma parte. —Ethan se acuclilló para que seus olhos ficassem à mesma altura—. E ela não vai conseguir mais dinheiro. Não vai ganhar.

Lentamente, de forma mecânica, Seth sacudiu a cabeça para os lados.

—Você não a conhece.

—Conheço partes dela. É o suficientemente lista para saber que estamos decididos a te manter aqui conosco. Que lhe queremos o suficiente para lhe pagar. —Viu o brilho de emoção nos olhos do menino antes de que baixasse o olhar—. E que lhe pagaríamos se essa fosse a forma de terminar com isto, se isso facilitasse as coisas. Mas não vai terminar com elas nem as vai facilitar. É o que você há dito. Ela voltaria uma e outra vez.

—O que ides fazer?

—É o que vamos fazer. Entre todos nós —disse, e esperou a que o olhar do Seth se detivera de novo em seu rosto—. Em geral, vamos continuar como até agora. Phil falará com o advogado para ter esse ângulo coberto.

—lhe diga que não quero voltar com ela —disse Seth colérico, lhe lançando ao Phillip um olhar de desespero—. Aconteça o que acontecer, eu não vou voltar.

—O direi.

—Anna lhe vai escrever uma carta —continuou Ethan.

—Que classe de carta?

—Uma boa —comentou Ethan esboçando a sorriso—. Com todas essas palavras calras e todo esse cilindro oficial. Fará-o como assistente social atribuída a seu caso, para lhe dizer a Glória que contamos com o apoio da lei e das instituições. de que lhe faça pensar.

—Ela odeia aos assistentes sociais —interveio

—Bem. —Pela primeira vez em mais de uma hora Anna sorriu, e esta vez sentindo-o-a gente odeia algo normalmente lhe tem medo também.

—Uma coisa que seria de grande ajuda, se pudesse fazê-lo, Seth...

voltou-se para o Ethan.

—O que tenho que fazer?

—Se pudesse falar com a Anna e lhe contar como eram as coisas antes, descrevendo as de forma precisa como pode.

—Não quero falar disso. Aquilo se acabou. Não vou voltar.

—Sei. —Com ternura, Ethan pôs as mãos nos ombros trementes do Seth—. E sei que falar disso pode ser quase como estar de volta ali. me levou muito tempo poder contar-lhe a minha mãe, ao Stella. Dizê-lo em voz alta, embora ela já sabia a maior parte. depois disso, começou a melhorar. E ajudou a ela e ao Ray a arrumar toda a mierda legal.

Seth pensou em Solo ante o perigo e em heróis. Pensou no Ethan.

—É o que terá que fazer?

—Sim, é o que terá que fazer.

—Estará você comigo?

—Claro. —Ethan ficou de pé e lhe tendeu uma mão—. Vamos a casa e o comentaremos a fundo.

 

—Lista, mamãe? Vamos?

—Quase, Aubrey. —Grace lhe deu os últimos toques à salada de batata, polvilhando pimenton doce para lhe dar um toque de cor e de sabor.

A menina não tinha deixado de lhe perguntar o mesmo das sete e meia da manhã. Grace decidiu a única razão pela que não tinha perdido a paciência com sua filha era porque ela mesma se sentia tão desajeitada e iludida como uma menina de dois anos.

—Maaamá!

Ante a profunda frustração na voz da menina Grace se tragou uma risita.

—Vejamos. —A jovem cobriu a terrina com um plastico transparente antes de dá-la volta para olhar a sua filha—. Está muito bonita.

—Tenho um laço. —Com um gesto totalmente feminino, a menina elevou uma mão e se tocou a cinta que sua mãe lhe tinha posto nos cachos.

—Um laço rosa.

—Rosa. —Aubrey olhou ao Grace com um sorriso deslumbrante—. Mamãe bonita.

—Obrigado, carinho. —Esperava que Ethan estivesse de acordo. Como a olharia? Como deveriam comportar-se? Haveria muita gente, e ninguém, bom, além dos Quinn, ninguém sabia que estavam apaixonados.

Apaixonados, pensou com um comprido suspiro sonhador. Era um lugar tão maravilhoso no que encontrar-se. Piscou enquanto uns bracitos se aferraram a suas pernas e as apertaram.

—Mamãe, lista?

Renda-se, Grace elevou a sua filha para lhe dar um beijo e um grande abraço.

—Vale! Vamos.

Nenhum general nas horas anteriores a uma batalha decisiva tinha dirigido suas tropas com maior autoridade e determinação que Anna Spinelli Quinn.

—Seth, coloca essas cadeiras dobradiças à sombra dessas árvores de lá. Ainda não tornou Phillip com o gelo extra? Já faz vinte minutos que se foi. CAM! Ethan e você estão pondo essas mesas de picnic muito juntas.

—Faz um momento —comentou CAM pelo baixo— estavam muito separadas. —Mas voltou atrás e deslocou a mesa uns trinta centímetros.

—Vale. Assim está bem. —Carregada com toalhas de raias em vivos tons de vermelho, azul e branco, Anna atravessou a grama apressadamente—. Agora podem pôr as mesas com sombrinha mais perto da água, acredito.

CAM entreabriu os olhos.

—Há dito que as queria junto às árvores.

—troquei que opinião. —Dirigiu um olhar ao pátio enquanto estendia as toalhas. CAM abriu a boca para protestar, mas captou a tempo o gesto negativo de advertência que lhe fez seu irmão. Ethan tinha razão, decidiu. Discutir não ia trocar nada.

Anna levava toda a manhã como uma moto, quando o comentou ao Ethan uma vez estavam onde ela não pudesse lhes ouvir, fez-o com a irritação de alguém completamente perplexo.

—Estamos falando de uma mulher prática, organizada —acrescentou CAM—. Não sei que chifres lhe passa. Não é mais que uma comida ao ar livre, joder.

—Suponho que as mulheres ficam assim por coisas como esta —opinou Ethan. lembrava-se de como Grace não lhe tinha permitido dar uma ducha em seu próprio quarto de banho, só porque Anna e CAM voltavam para casa esse dia. Quem sabia o que acontecia uma mente feminina?

—Não ficou assim quando o do banquete de bodas?

—Sim. —CAM resmungou enquanto agarrava uma dessas com sombrinha, outra vez, e a levava a água banhada pelo resplendor do sol—. Phillip sim que é preparado. saiu que casa como alma leva o diabo.

—Sempre foi muito hábil —coincidiu Ethan.

 Não lhe importava mover mesas, ou colocar cadeiras, ou qualquer das dúzias de tarefas, grandes e pequenas, que ocorriam a Anna. Ajudava-lhe a manter a mente se separada de temas mais sérios.

Se se permitia pensar muito, começava a ver em sua mente uma imagem de Glória DeLauter. Como nunca a tinha visto em pessoa, a imagem criada por sua imaginação era a de uma mulher alta e corpulenta com o cabelo pajizo em desordem, os olhos duros maquiados de negro, a boca frouxa pelas muitas viagens à garrafa e os excessivos emparelhamentos com a agulha.

Os olhos eram azuis, como os seus. A boca, apesar da capa de carmim brilhante, estava formada como a sua. E sabia que não era a mãe do Seth a quem estava vendo. Era a sua.

Não se tratava de uma imagem confusa e imprecisa, como se tinha ido voltando com o tempo. Agora estava tão nítida e bem definida como se fora ontem.

Ainda possuía o poder de lhe gelar o sangue, de agitar em seu estômago um insalubre temor animal que se parecia com a vergonha. Tódavía lhe dava vontade de ficar a dar golpes com os punhos machucados e talheres de sangue.

Voltou lentamente a cabeça para ouvir um chiado de alegria. E viu o Aubrey que se aproximava correndo pela grama com os olhos brilhantes como raios de sol. E viu o Grace, de pé nas escadas do alpendre, com o sorriso cálida e um pouco tímida.

«Não tem direito —vaiou uma vocecita desagradável dentro de sua cabeça—. Não tem direito a tocar algo tão brilhante e tão bom.»

Mas sentia a necessidade, uma necessidade que lhe alagou como uma tormenta e lhe deixou sem saber o que fazer. Quando Aubrey se lançou contra ele, seus braços a elevaram e lhe deram umas voltas enquanto ela chiava de alegria. Queria que fosse dela. Com um profundo desejo, desejou que essa menina perfeita, nocente e risonha lhe pertencesse. Os joelhos do Grace afrouxaram enquanto caminhava para eles. A imagem que compunham cintilou em sua mente, em seu coração, onde ela sabia ficaria gravada. O homem desajeitado com mãos grandes e um sorriso sério e a menina de um dourado brilhante com um laço rosa no cabelo.

O sol se vertia sobre eles de um modo tão abundante e completo como o amor que brotava de seu coração.

—Leva lista para vir desde que tem aberto olhos esta manhã —começou Grace—. pensei que podíamos vir um pouco mais logo para dar uma mão a Anna. —O a olhava tão atenta, tão calmadamente, que os nervos lhe dançaram sob a pele—. Não fica muito por fazer, mas…

interrompeu-se porque o braço dele se deslizou até envolver-se com rapidez em torno dela e apertá-la estreitamente junto a si. Apenas lhe deu tempo a tomar fôlego, surpreendida, antes de que a boca dele se posasse na sua. Áspero e ansioso, o enviou raios de calor pelo sangue, fazendo girar seu aturdido cérebro até enjoá-lo. De forma amortecida, ouviu o grito feliz de sua filha.

—Beijo, mamãe!

«Ai, sim —pensou Grace, apressando-se para lhe alcançar na frenética carreira que ele tinha iniciado—. Por favor, me beije, me beije, me beije.»

Pareceu-lhe ouvir algum som que ele emitia, tal ver um suspiro, que procedia de um lugar muito fundo para ser um verdadeiro som. Os lábios dele se suavizaram. A mão que se obstinado à costas da blusa como um homem que se aferrasse a sua própria vida se abriu e a acariciou. Esta emoção, mais tenra, mais doce, que fluía dele não era mais serena que essa primeira chicotada de avareza, e só dourava os borde do desejo que ele tinha incitado.

Podia lhe cheirar, calor e homem. Podia cheirar a sua filha, talco e menina. Seus braços estreitaram a ambos, instintivamente convertendo-os em uma unidade, mantendo-os ali quando o beijo terminou e ela pôde posar a cabeça sobre o ombro dele.

Nunca a tinha beijado diante de outras pessoas. Ela sabia que CAM se achava a uns poucos metros quando Ethan a agarrou. E Seth o teria visto..., e Anna.

O que significava?

—me beije! —exigiu Aubrey, dando golpecitos ao Ethan na bochecha e franzindo os lábios.

O lhe deu gosto e logo brincou, lhe fazendo cócegas no pescoço, o que a fez rir. Depois voltou a cabeça e roçou com os lábios o cabelo do Grace.

—Não queria te agarrar por essa forma.

—Estava esperando que o fizesse —sussurrou—. Me tem feito sentir que pensava em mim. Que me desejava.

—Pensava em ti, Grace. Desejava-te. –Como Aubrey se revolvia, pô-la no chão e a deixou correr para o Seth e os cães—. O que quero dizer que não queria ser brusco contigo.

—Não o foste. Não sou frágil, Ethan.

—Sim, é-o. —Quando viu o Aubrey cair sobre Parvo para lutar na erva, voltou o olhar para o Grace, por volta de seus olhos—. Delicada —disse brandamente— como a porcelana branca com flores rosas que só usávamos o dia de Ação de Obrigado. Que ele pensasse isso fez que seu coração batesse as asas alegremente, embora ela sabia que não era assim.

—Ethan...

—Sempre me dava medo agarrá-la mau e rompê-la por uma estupidez. Nunca acostumei a ela.

Passou-lhe o polegar levemente pelo maçã do rosto, da pele estava quente e era de uma suavidade sedosa. Logo deixou cair a mão a um lado.

—Mais vale que aproximemos o ombro, antes que Anna volte louco ao CAM.

O estômago do Grace seguiu batendo as asas com uma gozosa alegria, inclusive quando ficou a tirar coisas da cozinha até uma das mesas de picnic. Às vezes se detinha, com uma fonte ou uma terrina na mão, a contemplar como Ethan cravava as estacas para jogar às ferraduras.

Olhe como lhe esticam os músculos sob a camisa. É tão forte... Olhe como mostra ao Seth a forma de agarrar o martelo. Tem tanta paciência.

Leva os jeans que lavei o outro dia. As voltas se ficaram brancas e estão começando a desfiar-se. No bolso dianteiro direito havia sessenta e três céntimos. Olhe como Aubrey lhe sobe pelas costas. Sabe que será bem-vinda. Sim, agarra-a, a alta um pouco para que não caia e segue trabalhando. Não lhe importa que lhe tire a boina e trate de ficar a em seu cabecita. Cresceu-lhe o cabelo e as pontas brilham ao sol enquanto o separa dos olhos de um meneio. Espero que siga esquecendo-se de ir ao barbeiro durante um tempo. Oxalá pudesse tocar esse cabelo neste mesmo momento. Enrolar essas espessas pontas queimadas pelo sol em torno de rni dedo.»

—É uma bela imagem —murmurou Anna por detrás, fazendo que Grace se sobressaltasse. Com uma suave risada, Anna colocou na mesa uma enorme terrina de salada de massa—. Eu às vezes faço o mesmo com o CAM. Simplesmente fico lhe olhando. Aos Quinn dá gosto olhá-los.

—Às vezes penso que só vou jogar lhe uma miradita rápida e logo não posso deixar de lhe contemplar. —Sorriu quando Ethan se incorporou, com o Aubrey ainda ascensão em suas costas, e deu voltas lentamente, como tratando de encontrá-la.

—Lhe dão muito bem os meninos —comentú Anna—. vai ser um pai maravilhoso.

Grace sentiu que lhe subia o calor às bochechas. Ela estava pensando exatamente o mesmo. Custava-lhe acreditar que apenas umas semanas antes lhe havia dito a sua mãe que não pensava casarsu nunca mais. E agora estava lhe dando voltas a essa possibilidade. E esperando.

Tinha-lhe resultado fácil apartar toda idéia de matrimônio quando não acreditava que pudesse comrpatir alguma vez sua vida com o Ethan. Em seu primeiro matrimônio foi mal porque seu coração pertecía a outro homem que não era seu marido. Foi culpa dela, e assumia a responsabilidade daquele caso.

Mas o matrimônio com o Ethan tiraria o melhor ela, não? Poderiam fundar uma família, construir lar e um futuro apoiados no amor, a confiança e a sinceridade.

Ela sabia que ele não ia apressar se. Isso não. Mas a amava. Lhe compreendia o suficiente para saber que, para ele, o matrimônio seria o seguinte passo.

Ela estava já lista para dá-lo.

O aroma dos hambúrgueres fumegando na churrasqueira, o aroma a levedura da cerveja que saía barril frio. As vozes dos meninos que riam e dos adultos que se elevavam em faiscantes conversações ou descendiam para intercambiar uma fofoca. O ruído apagado de uma embarcação que sulcava veloz as águas, com os gritos de seus tripulantes, todos adolescentes; o som metálico da ferradura quando dava em branco...

Havia perfumes, sons e imagens. E as vivas cores vermelha, branco e azul das toalhas que cobriam as mesas cheias de terrinas, pratos, fontes e panelas.

O bolo de cereja da senhora Cutter. O coquetel de camarões-rosa dos Wilson. O que ficava do saco de milho que tinham levado os Crawford. Moldes de gelatina e salada de fruta, frango frito e tomates em ramo madrugadores. A gente estava por toda parte, em cadeiras, na erva, no embarcadero e no alpendre.

Alguns homens contemplavam de pé, com as mãos nos quadris, o jogo de ferraduras, com a expressão transcendental que revistam adotar quando presenciam um espetáculo esportivo. Os bebês dormiam em sillitas ou em braços complacentes enquanto outros choravam para que fizessem conta. Os mais jovens nadavam e chapinhavam na água fresca e os majores se abanicaban à sombra.

O céu estava claro, o calor era imenso.

Grace contemplou como Parvo rebuscava pelo chão comida que se cansado. Tinha encontrado um montão e ela pensou que se sentiria doente como..., bom, como um cão, antes de que terminasse o dia.

Ela tinha a esperança de que não terminasse nunca.

Vadeando, meteu-se na água, sustentando firmemente ao Aubrey apesar dos coloridos manguitos que levava nos braços. Mergulhou a sua filha, rendo quando a menina ficou a espernear de gosto.

—Dentro, dentro, dentro! —exigiu Aubrey.

—Carinho, não me trouxe o traje de banho. —Mas se meteu um pouco mais, até que a água chegou ao joelho, para que a menina pudesse chapinhar.

—Grace!, Grace! Olhe, olhe.

Para dar gosta, Grace entreabriu os olhos para proteger do sol e viu como Seth corria para logo lançar-se do embarcadero, dobrando os joelhos e as sujeitando com os braços. Caiu na água como uma bomba, levantando uma fonte resplandecente, e a molhou inteira.

—É estilo bomba —anunciou orgulhoso cuanalió à superfície. Logo sorriu—. Anda, molhei-lhes todas.

—Seth, me leve. —Estirando-se, Aubrey lhe tendeu os braços—. me Leve.

—Não posso, Aubrey. Téngo que fazer a bomba.

Quando se afastou nadando para reunir-se com os meninos, Aubrey ficou a soluçar.

—Logo volta e joga contigo —lhe assegurou

—Agora!

—Em seguida. —Para evitar o que poderia converter-se em uma boa rabieta, lançou ao Aubrey para cima para agarrá-la assim que golpeava a água. Sotaque que jogasse e chapinhasse e logo a deixou solta, mordeu-se o lábio enquanto sua filhinha desfrutava plenamente.

—Nado, mamãe.

—Já o vejo, carinho. Nada muito bem. Mas não vá longe.

Como Grace esperava, a água, o sol e a excitação se combinaram para esgotar à menina. Quando começou a piscar e a abrir muito os olhos, como fazia quando precisava dormir, Grace a atraiu para si.

—Aubrey, vamos beber algo.

—Nado.

—Logo nadamos mais. Tenho sede. —Grace a levantou e se preparou para a pequena batalha que se morava.

—O que tem aí, Grace, uma sereia?

Mãe e filha elevaram a vista à úmida ribeira e viram o Ethan.

—A verdade é que é bonita —disse, sonriendo ao rosto triste do Aubrey—. Me deixa isso?

—Não sei. Talvez. —aproximou-se do ouvido do Aubrey e disse—: Ethan acredita que é uma sereia.

Os lábios da menina tremeram, mas já quase se esqueceu de por que queria chorar.

—Como Ariel?

—Sim, como Ariel no filme. —Começou a subir pela borda e se encontrou com a mão do Ethan, que agarrava a sua com firmeza. Quando recuperou o equilíbrio, tirou ao Aubrey dos braços.

—Nado —lhe disse a menina com um tom lastimero e logo enterrou o rosto na curva de seu pescoço.

—Já te vi nadar. —Estava molhada e fresquita, acurrucada em seus braços. Tendeu uma mão, agarrou a do Grace de novo e atirou dela até que subiu a costa da ribeira. Esta vez seus dedos, entrelaçaram-se com os dela e ficaram assim— Agora tenho duas sereias.

—Está cansada —comentou Grace em voz baixa—. Às vezes isso a volta irritável. Está molhada. —acrescentou, e fez gesto de tomar a dos braços ele.

—Não importa. —Deixou ir a mão do Grace, porque queria lhe passar a seu pelo cabelo úmido e reluzente—. Você também está molhada. Logo lhe aconteceu um braço pelos ombros e añadio—: Passeemos ao sol um ratito.

—Vale.

—Talvez ao outro lado, por diante da casa sugeriu ele, sonriendo levemente quando o fôlego do Aubrey bateu as asas contra sua pele, fazendo-se mais regular ao dormir—. Onde não há tanta gente.

Com surpresa e uma leve descarrega de prazer, Carol Monroe contemplou como Ethan passeava sua filha e sua neta. Com olhos de mulher, viu algo que a um vizinho e amigo passeando com uma velha amiga. Impulsivamente, atirou a seu marido do braço, lhe apartando da ronda de ferraduras que estava jogando absorto.

—Espera, Carol. A júnior e nos toca jogar com os ganhadores desta ronda.

—Olhe, Pete. Olhe isso. Grace está com o Ethan. —amargamente irritado, jogou uma olhada ao redor e se encolheu de ombros.

—E o que?

—Com ele, tolo. —Disse-o com carinho e exasperação—. Como noivos.

—Noivos?

riu burlonamente, disposto a rechaçá-lo, Deus sabia que de vez em quando Carol tinha idéias do mais assobiadas. Como quando se empenhou em que fizessem um cruzeiro pelas Baharnas. Como se ele não pudesse sair a navegar, em qualquer momento do dia ou da noite, ao lado mesmo de sua casa. Mas nesse momento captou algo na forma em que Ethan se inclinava para o Grace, na forma em que ela elevava a cabeça.

Fez-lhe mover os pés, franzir o cenho e apartar a vista.

—Noivos —murmurou, e não soube que diabos se supunha que sentia a respeito. Teve que recordar-se que ele não colocava os narizes na vida de sua filha. Ela já tinha eleito seu próprio caminho.

Olhando para o sol, franziu o cenho intensamente ao recordar o que havia sentido quando sua filha recostava a cabeça em seu ombro, como fazia Aubrey nesse mesmo momento com o Ethan Quinn.

Quando eram assim de pequenas, pensou, confiavam em ti, respeitavam-lhe e acreditavam o que lhes dizia, até se lhes dizia que o trovão eram anjos que aplaudiam.

Quando se faziam maiores, começavam a apartar-se. E a desejar coisas que não tinham nenhuma pingo de sentido. Como dinheiro para viver em Nova Iorque, e sua bênção para casar-se com um casulo que não valia nem a metade que elas.

Deixavam de pensar que foi o homem das respostas e lhe rompiam o coração. Assim tinha que voltar a reunir as peças como podia e lhe pôr um cadeado para que não voltasse a acontecer.

—Ethan é justo o que Grace necessita —decia Carol em voz baixa, se por acaso algum vejestorio, dos que acreditavam que lançar ferraduras a uma estaca de ferro era uma forma divertida de passar o dia, tivesse bom ouvido—. É um homem cabal e tenro. É um homem no que ela poderia apoiar-se.

—Mas não o fará.

—O que?

—Ela não se apoiará em ninguém. É muito orgulhosa para saber o que lhe convém, e sempre o foi.

Carol se limitou a suspirar. Se isso era verdade, Grace tinha herdado cada partícula de teimoso orgulho de seu pai.

—Tampouco você puseste nunca nada de sua parte.

—Não comece, Carol. Não tenho nada que dizer —Se separou dela, ignorando o sentimento culpa, porque sabia que esse gesto feria os sentimentos dela—. Quero uma cerveja —murmurou, alejandosé.

Phillip Quinn e alguns mais se achavam reunidos em torno do barril de cerveja. Pete notou com risita divertida que Phillip estava flertando com a garota dos Barrow, Celia. Não podia culpá-lo, ela tinha um corpo como o de um póster layboy e não lhe dava vergonha mostrá-lo. Não era algo que um homem deixasse de notar, embora tivesse idade suficiente para ser seu pai.

—Quer que lhe sirva uma, senhor Monroe?

—Sim, obrigado. —Pete assentiu fazendo um gesto os assistentes à festa que estavam no pátio —. Que montão de gente, Phillip! E uma a comilona, também. Lembro-me de que seus pais faziam um andaime quase todos os verões. Alegra-me saber que estão mantendo a tradição.

—Ocorreu a Anna —respondeu Phillip, lhe tendendo um copo alto de plástico com espumosa cerveja.

—Essas coisas ocorrem às mulheres mais que aos homens, suponho. Se não ter oportunidade, lhe dê as obrigado por nos convidar. Tenho que voltar para porto dentro de uma hora mais ou menos para preparar os fogos.

—Sempre são muito bons. Os melhores foguetes da borda oriental.

—Tradição —repetiu Pete. Era uma palavra importante.

Carol Monroe não tinha sido a única em notar a forma em que Ethan e Grace davam um passeio juntos. A especulação e as risitas dissimuladas começaram a estender-se sobre as saladas de batata e os caranguejos ao vapor.

Mamãe Crawford moveu o garfo ante seu boa amiga Lucy Wilson.

—Dá-me que Grace vai ter que mostrar-se firme se quiser que Ethan Quinn chegue a algo antes de que a menina tenha idade para ir à universidade. Nunca vi a um homem que se mova mais devagar.

—O se pensa muito as coisas —comentou Lucy lealmente.

—Não te digo que não. Só digo que é lento. Vi-lhes olhar-se com olhos tenros desde antes que ele tivesse seu próprio navio de tarefa. Tem que fazer quase dez anos. Stella, que em paz descanse e eu o falamos uma ou duas vezes.

—Lucy— suspirou por cima de sua salada de frutas, e só porque tratava de controlar as calorias.

—Stella conhecia seus filhos de cima abaixo.

—E tanto. Um dia lhe disse: «Stella, seu filho olharam à filha dos Monroe com olhos de cordeiro degolado». E ela riu, e comentou que era um caso sério de amor adolescente, mas que às vezes era o melhor modo de começar algo sério. Nunca compreendi por que Ethan não deu um passo à frente antes de que Grace se enredasse com aquele Jack Casey. Nunca eu gostei nem um cabelo.

—Não era mau, só débil. Olhe aí, Mamãe. —disse Lucy, baixando a voz como uma conspirado. Com a cabeça indicou ao Ethan e Grace, que aconteciam da casa, agarrados da mão e com a menina dormida no ombro dele.

—Esse sim que não tem nada de débil. —Mamãe moveu as sobrancelhas e lhe dirigiu um olhar malicioso a seu amiga—. E a lentidão pode ser uma coisa boa na cama, não, Lucy?

Lucy soltou uma gargalhada.

—Isso é certo. Isso é bem certo.

Por fortuna, ignorantes da especulação que tinham despertado por um tranqüilo passeio em torno da casa em uma cálida tarde do verão, Grace se deteve servir-se chá gelado. antes de que tivesse cheio o primeiro copo, aproximou-se sua mãe apressadamente, todos sorrisos.

—Ai, me deixe a essa preciosa menina. Não há nada tão relaxante como sentar-se com uma menina dormida nos braços. —Enquanto falava, em tom baixo e rápido, tomou ao Aubrey dos braços do Ethan—. Isso me dá uma boa desculpa para me sentar à sombra um momento e descansar. Juro-lhe isso, Nancy Claremont me pôs a cabeça como um tambor grande. Vós os jovens teriam que estar lhes divertindo.

—A ia deitar —começou Grace, mas sua mãe rechaçou a idéia com um gesto.

—Não faz falta, não faz falta. Não tenho a oportunidade de tê-la em braços freqüentemente quando está quieta. Vós, sigam passeando. Teriam que lhes tirar do sol, isso sim. Pega forte.

—É uma boa idéia —murmurou Ethan enquanto Carol se afastava depressa, arrulhando à dormida Aubrey—. um pouco de sombra e de tranqüilidade não nos viriam mau.

—Bom..., vale, mas só fica outra hora ou assim. Logo tenho que ir.

Enquanto falava, ele atirou dela com gentileza para as árvores, pensando que poderia encontrar um rincão resguardado, um lugar íntimo, onde voltar a beijá-la. deteve-se no bordo das árvores e a olhou franzindo o cenho.

—Ir aonde?

—Ao trabalho. Toca-me no bar esta noite.

—Mas se for sua noite livre.

—Era-o, ou seja, normalmente o é, mas estou fazendo algumas horas de mais.

—Já trabalha muitas.

Ela sorriu distraída e logo aliviada quando entraram na sombra que reduzia o calor na metade.

—Só umas poucas mais. Shiney foi muito bom e me jogou uma mão para que possa pagar o que devo carro. Ai, que bem se está aqui! —Fechou os olhos e inalou profundamente o afresco e úmido—. Anna me há dito que seus irmãos e você ides tocar mais tarde. me sinto perder isso —Ya te lo he oído decir antes —replicó apaciblemente—. Pero eso no cambia las cosas. Trabajo en el bar y voy a seguir trabajando allí.

—Grace, já te hei dito que se o dinheiro for um problema, eu te ajudo.

Ela voltou a abrir os olhos.

—Não necessito que me ajude, Ethan. Sei trabalhar.

—Sim, claro que sabe trabalhar. Isso é tudo o que faz. —Caminhou afastando-se dela e logo se aproximou como tratando de livrar-se do que o reconcomía por dentro—. Odeio que trabalhe no bar. —Grace ficou rígida, podia sentir a coluna lhe esticava vértebra a vértebra.

—Não quero voltar a brigar contigo por isso. um bom trabalho, um trabalho honrado.

—Não me estou brigando, só lhe estou dizendo isso. —aproximou-se dela, o torvelinho de gênio em seus olhos a surpreendeu tanto que retrocedeu até se chocar com uma árvore.

—Já lhe ouvi dizer isso antes —replicou apaciblemente—. Mas isso não troca as coisas. Trabalho no bar e vou seguir trabalhando ali.

—Necessita que alguém te cuide. —Adoecia-lhe pensar que ele não seria essa pessoa.

—Não, não o necessito.

E um corno. Já se viam sombras de cansaço baixo esses cambiantes olhos verdes e agora lhe estava dizendo que ia se passar até a duas da manhã transportando bandejas.

—Já pagaste o carro ao Dave?

—A metade. —Era humilhante—. foi muito bom e me deu até o mês que vem para lhe pagar o resto.

—Não lhe vais pagar você. —Isso, ao menos, era algo que podia fazer. E o faria, joder—. O farei eu. A ela lhe esqueceu a humilhação e ergueu o queixo, aguda e rápida como uma bala.

—Não, não o fará.

Em outro momento, ele tivesse recorrido à persuasão ou a zalamería. Ou simplesmente tivesse pago o carro sem lhe dizer nada. Mas algo fervia em seu interior, algo que levava aí, fervendo lentamente, desde que se tinha dado a volta essa manhã e a tinha visto. Não lhe deixava pensar, só sentir e atuar. Com os olhos nos fixos nela, deslizou-lhe uma mão até o pescoço.

—Cala.

—Ethan, não sou uma menina. Não pode...

—Não te vejo como uma menina. —Os olhos dela brilhavam de forma penetrante. Contribuíam a esquentar o que se achava dentro dele até a ebulição—. deixei que ser capaz de verte como uma menina e já não posso voltar a fazê-lo. Por uma vez faz o que eu quero.

Inconscientemente, o fôlego dela se quebrou, e sua pele começou a tremer. De forma confusa, sentiu que a áspera casca da árvore lhe arranhava as mãos ao as apertar contra ela. Não acreditava que ele se estivesse refiriendo nesse momento a aceitar uns quantos centenas de dólares por um carro.

—Ethan...

A outra mão dele se achava no peito do Grace. Não tinha tido intenção de pô-la ali, cobriu-a e os dedos começaram a acariciar a moldar. A camisa dela estava úmida, apenas um pouco. Ele sentia que a pele se esquentava sob a umidade.

—Por uma vez, faz o que eu quero —repetiu. Os olhos dela se abriram ainda mais. O se perdia neles, afogava-se neles. O coração do Grace palpitava sob sua mão, como se o sustentasse nela, pulsando. Suas bocas se esmagaram com violenta avareza que, por uma vez, ele se sentia capaz de controlar. O grito de surpresa dela ficou amortecido pelos lábios rapaces do Ethan. E isso só lhe produziu um escuro prazer. O calor fluiu dele, assombrando-a. Os dentes lhe mordiscaram os lábios sem piedade, a fazendo ofegar e abrir-se à brusca e mão direita invasão de sua língua.

As sensações se aconteceram muito rápidas para as separar, mas todas eram turvas, intensas, penetrantes. As mãos dele estavam em todas partes, atiravam-lhe da camisa, apoderavam-se de peitos, arranhavam-lhe por toda parte com essas mãos exquisitamente ásperas. Lhe sentiu tremer e se aferrou a seus ombros para manter o equilíbrio dos dois.

Depois lhe baixou as calças de um puxão.

Não! Uma parte de sua mente se deteve escandalizada até quase gritar. O não podia querer tomá-la, ali, dessa forma, a poucos metros de onde estava sentada a gente e os meninos jogavam. Mas a outra parte simplesmente gemeu de assombrada excitação e sussurrou um sim.

«Aqui. Agora. Assim. Exatamente assim.»

Quando ele se cravou nela, o grito os tivesse miserável a ambos, mas ele o absorveu com sua boca e se perdeu na entrecortada respiração.

O investiu forte, rápida e profundamente, seu corpo se fundia com o dela, as mãos apertavam o escuro e terminante traseiro enquanto se afundava nela. Sua mente se achava vazia de tudo o que não fora essa urgente necessidade. Quando ela se correu, estalando a seu redor, dentro dele, sentiu uma emoção perversa e primitiva que lhe cobriu a pele de suor.

Ethan, por sua parte, alcançou o clímax entre uma nuvem vermelha de paixão cegadora.

Inclusive quando a névoa se limpou, ele seguiu estremecendo-se e ofegando. Pouco a pouco foi dando-se conta do que acontecia. Escutou o som selvagem de um pássaro carpinteiro na profundidade do bosque, o tinido de risadas além das árvores. E os gemidos do Grace como soluços.

Sentiu a brisa que lhe refrescava a pele. E os tremores dela.

—meu deus! Joder —exclamou violentamente, em voz baixa.

—Ethan? —Ela não sabia, não teria acreditado jamais que alguém pudesse sentir tal necessidade dentro de si... por ela—. Ethan —repetiu, e teria elevado seus débeis braços para lhe abraçar se ele não se apartou.

—Sinto muito. Eu... —Não havia palavras. Nada que pudesse dizer servia, nada seria suficiente. inclinou-se e lhe subiu as calças, os grampeou, e com o mesmo cuidado deliberado, estirou-lhe a casaca—. Não posso te oferecer uma desculpa pelo que acontecido. Não há desculpas.

—Não quero uma desculpa. Não as necessito para o que fazemos juntos, Ethan. —O ficou olhando ao chão enquanto em sua cabeça começava um martilleo insalubre.

—Não te dei opção. —Ele sabia o que era ter opções.

—Eu já optei. Amo-te.

Então a olhou, com tudo o que vivia em seu interior como um torvelinho nos olhos. A boca do Grace estava torcida porque ele a tinha forçado, tinha os olhos muito abertos. Seu corpo teria machucados produzidos por suas mãos.

—Você te merece algo melhor.

—Eu gosto de pensar que mereço a ti. Faz-me sentir... desejada. Essa não é a palavra sequer. Posou uma mão sobre seu coração ainda desatado. Desejada —caiu na conta—. Desejada. Pêra me dá pena... —Seu olhar se separou dele, acrescentou—: Me dão pena todas as mulheres que não sabem o que é ser desejada.

—Dei-te medo.

—Só durante um minuto. —Humilhada, deixou escapar um pouco de ire—. Por Deus, Ethan, como tenho que te dizer que me gostou? Hei-me sentido vulnerável e subjugada e foi muito excitante. perdeste o controle, apesar de que é capaz de manter o de forma imperturbável a maior parte do tempo. Alegra-me saber que algo do que tenho feito, ou do que sou, conseguiu acabar com isso.

Ethan se passou as mãos pelo cabelo.

—Confunde-me, Grace.

—Não o faço a propósito. Mas não acredito que seja tão mau, tampouco.

O deixou escapar um suspiro e logo avançou o suficiente para lhe ordenar o revolto cabelo.

—Talvez o problema é que acreditam que nos conhecemos muito bem, mas não possuímos todas as peças. —Tomou a mão e a observou com esse cenho franzido pensativamente que ela adorava. Logo lhe beijou os dedos de um modo que a estremeceu.

—Não quero te fazer danifico nunca. Em modo algum. —Mas já o tinha feito, e lhe faria mais. Manteve a mão do Grace na sua enquanto caminhavam de volta para a luz. Teria que lhe falar sobre essas outras coisas seus muito em breve para que ela compreendesse por que não podia lhe dar mais.

 

—Assim não sei se for seguir saindo com ele, que se está voltando muito possessivo, sabe? Não quero ferir seus sentimentos, mas uma tem que viver, ou não?

Julie Cutter lhe deu uma dentada à maçã verde brilhante que tinha tirado do fruteiro na cozinha do Grace. sentia-se tão a gosto ali como em sua própria casa. Com soltura, elevou-se até sentar-se na encimera enquanto Grace dobrava roupa limpa na mesa.

—Além disso —continuou, fazendo um gesto com a maçã—, acabo de conhecer um menino muito bonito. Trabalha na loja de ordenadores do centro comercial, sabe? Leva umas gafitas de arreios metálica e tem um sorriso do mais doce.—Sorriu e o sorriso iluminou seu bonito rosto arredondado—. Ao lhe pedir seu número de telefone, ficou avermelhado.

—Que lhe pediu seu número de telefone?—  Grace a escutava só pela metade. adorava que Julie fora a visitá-la. Era tão alegre e faladora e estava sempre tão cheia de energia... Mas esse dia lhe custava concentrar-se. Sua mente não fazia mais que pensar no acontecido entre o Ethan e ela no sombrio bosque. O que seria o que tinha saído dele de um salto para devorá-la? E por que teria adotado uma atitude tão distante depois?

—Claro! —Julie arqueou a cabeça, com os olhos castanhos cheios de picardia—. Alguma vez pediste a um menino que saísse contigo? Venha, Grace, que já estamos ao começo de um novo milênio. A quase todos gosta que a mulher tome a iniciativa. Bom, ao menos —disse agitando sua larga juba de murcho cabelo castanho— ao Jeff gostou. Jeff é o menino dos ordenadores. Primeiro parecia tudo confundido, mas logo me deu isso, e, quando lhe chamei, dava-me conta de que se alegrava. Assim vamos sair na sábado, mas antes tenho que romper com Dom.

—Pobre Dom —murmurou Grace e elevou o olhar com ar ausente para onde Aubrey acabava de atirar a torre de blocos que tinha construído, e logo se deleitava com sua destruição.

—Bom, já o superará. Julie se encolheu de ombros—. Não é como se estivesse apaixonado por mim ou algo assim. É simplesmente que está acostumado a ter uma garota.

Grace sorriu. Uns meses antes, Julie estava louca por Dom e não fazia mais que ir contar lhe a ela cada detalhe de suas entrevistas. Ou ao menos, suspeitava, uma versão resumida.

—Mas me disse que Dom era o único.

—Era-o. —Julie riu—. Durante um tempo. Mas não estou lista para o único único ainda.

Grace foi esfrego para tirar uma bebida para as três. Asa idade da Julie, dezenove anos, ela estava grávida, casada e preocupada com as faturas. Só tinha três anos mais que a moça, mas igual poderiam ter sido trezentos.

—Está bem que procure por aí para que esteja segura. —Passou-lhe um copo a seu amiga, lhe mantendo o olhar um momento—. Deve tomar cuidado.

—Já tomo cuidado, Grace —lhe assegurou Julie, comovida—. Eu gostaria de me casar em algum momento. Em especial, se isso significa ter uma menina tão preciosa como Aubrey. Mas quero terminar a carreira e logo ver um pouco de mundo. Fazer... coisas —acrescentou, fazendo um amplo gesto—. Não quero me encontrar atada, trocando fraldas e trabalhando em um sítio de má morte porque deixei que alguém me convencesse de que...

interrompeu-se de repente, sinceramente horrorizada pelo que havia dito. Com os olhos nniy abertos e cheios de desculpa, desceu-se da encimera.

—meu deus, sinto muito, Grace. Às vezes sou mais bruta... Não queria dizer que você...

—Não importa. —Deu-lhe um leve apertão nisso braço é exatamente o que eu fiz, exatamente o que deixei que me acontecesse. Me alegro de que você tenha mais cabeça.

—Sou uma gilipollas —murmurou Julie, a ponto chorar—. Uma bruta sem sensibilidade. Sou odiosa.

—Não, absolutamente. —Grace riu brevemente e agarrou do cesto um peitilho do Aubrey—. Não feriste meus sentimentos. Eu não gostaria de pensar que não temos a confiança suficiente para que possa me dizer o que pensa.

—Você é uma de meus melhores amigas. E eu tenho uma boca enorme.

—Bom, isso é verdade. —Grace riu ao ver a careta que fez Julie—. Mas eu gosto.

—Eu lhes tenho muito carinho a ti e ao Aubrey, Grace.

—Sei. Agora deixa de preocupar-se e me conte onde vai com o Jeff, o bonito dos ordenadores.

—É uma entrevista sem risco. Uma peli e logo pizza. —Julie deixou escapar um suave suspiro de alívio. haveria-se... barbeado a cabeça e a teria tingido de arroxeado, pensou, antes de fazer nada que pudesse ferir o Grace. Com a esperança de compensar, sequer um pouco, sua falta de sensibilidade, lançou-lhe um sorriso radiante—. Já sabe que estarei encantada de ficar com o Aubrey a próxima noite que livres se Ethan e você querem sair.

Grace acabava de dobrar o peitilho e tinha começado com os meias três-quartos. deteve-se, olhando-a com um diminuto meia três-quartos branco com o bordo amarelo em cada mão.

—Como?

—Já sabe, ir ver uma peli, jantar em um restaurante, o que seja. —Moveu as sobrancelhas no que seja» e logo tratou de não rir ao ver a expressão do Grace—. Não vais ficar te aí e me dizer que não está saindo com o Ethan Quinn.

—Bom, ele..., eu... —Olhou ao Aubrey sem saber o que fazer.

—Se se supunha que era um segredo, ele não deveria estacionar a caminhonete diante de sua casa as noites que fica a dormir.

—Vá, Meu deus.

—Mas o que passa? Não é como se estivesse mantendo uma aventura ilícita, como o senhor Wiggins com a senhora Lowen, que se vêem as segundas-feiras pela tarde no motel da estrada treze. —Ant e o som estrangulado do Grace, Julie se limitou a encolher-se de ombros—. Meu amiga Robin trabalha ali e assiste a aulas noturnas, e diz que ele aluga uma habitação tudas as quintas-feiras pela manhã, às sete e meia, enquanto ela espera no carro.

—meu deus, o que pensará sua mãe? —sussurrou Grace.

—Mamãe? Sobre o senhor Wiggins? Bom...

——Não, não. —Grace não queria nem pensar no queda semanal do gordinho senhor Wiggins—. sobre...

—Ah, sobre o Ethan e você. Acredito que disse algo como Já era hora». Mamãe não é tola. E é que ele é tão bom... —disse Julie com veemência—. Como ficam as camisetas... E esse sorriso... Demora como dez minutos em lhe cobrir todo o rosto para então é que te cai a baba. Robin e eu baixamos ao porto cada dia durante um mês o verão passado só para lhe ver quando descarregava o navio.

—Ah, sim? —conseguiu dizer Grace com muita dificuldade.

—As duas estávamos totalmente penduradas por ele. —Alcançou o pote de cerâmica das bolachas e tirou duas de aveia e passas—. Eu paquerava com ele a saco assim que tinha oportunidade.

—Que você... paquerava com o Ethan...

—Mmm. —Assentiu, tragando-a bolacha—. A verdade é que me batalhei isso o bastante, não cria. Eu acredito que a ele sobre tudo lhe dava vergonha, mas consegui lhe tirar um par de sorrisos estupendos. —Sorriu alegremente enquanto Grace seguia olhando-a—. Bom, já me passou, assim não se preocupe.

—Bem. —Grace agarrou a bebida que tinha esquecido e bebeu um grande Isso gole está bem.

—Mas segue tendo um culo maravilhoso.

—Ai, Julie! —Grace se mordeu o lábio para não tornar-se a rir e lhe jogou um olhar a sua filha carregada de intenção.

—Ora, não está escutando. Assim, bom, como tinha começado a falar disto? Ah, sim. Que me posso ficar com o Aubrey quando quiser sair.

—Eu..., bom, obrigado. —Estava ainda tratando de decidir se queria deixar o tema do Ethan Quinn ou seguir com ele, quando ouviu um golpe e o viu na porta.

—É magia —murmurou Julie, e um sentimento romântico floresceu em seu coração—. Ouça, por que não me levo ao Aubrey a ver minha mãe um ratito? Cuidarei-a e lhe darei de jantar.

—Mas eu não tenho que ir a trabalhar até dentro de uma hora, quase.

Julie pôs os olhos em branco.

—Pois aproveita bem o tempo, colega. —Agarrou ao Aubrey em braços e lhe disse—: Quer vir a minha casa, Aubrey? Quer ver meu gatinho?

—Ah, gatinho. Adeus, mami.

—Né, mas... —Já saíam pela porta de atrás, e Aubrey chamava o gatinho fazendo gestos freneticamente. Grace se voltou a olhar ao Ethan, esquadrinhando seu rosto através da porta, e logo elevou as mãos.

Ele decidiu tomá-lo como um convite e entrou.

—Era Julie a que se acaba de ir com o Aubrey?

—Sim. Lhe vai deixar jogar com seu gatinho e logo lhe dará o jantar.

—É agradável que tenha a alguém como Julie para que cuide da menina.

—Sem ela estaria perdida. —Confusa, Grace inclinou a cabeça. Ele se achava de pé, obviamente incômodo, com uma mão à costas—. O que passa?  Tem-te feito mal na mão?

—Não. —Que idiota era, pensou Ethan, lhe oferecendo as flores que tinha sustentado a suas costas—. pensei que você gostaria. —Desejava desesperadamente encontrar formas de compensá-la pela forma em que a tinha tratado no bosque.

—Trouxeste-me floresça.

—Roubei-as que aqui e de lá. Talvez não deva mencionar-lhe a Anna. Os lírios os cortei a um lado da estrada. Há muitíssimos este ano.

Tinha-lhe agradável flores. Não floresça compradas, a não ser as que se parou a procurar e cortar com suas próprias mãos. Com um comprido suspiro trêmulo, enterrou o rosto nelas.

—São preciosas.

—Têm-me feito pensar em ti. Quase todo me faz pensar em ti. —E quando ela elevou a cabeça, ao ver seus olhos suaves e assombrados, ele desejou possuir mais palavras, palavras melhores, mais doces—. Já sei que agora só tem uma noite livre. Eu gostaria de te levar a jantar se não ter outros planos.

—Para jantar?

—Há um sítio no Princess Anne que gosta a Anna e CAM. É um sítio de traje e gravata, mas dizem que a comida merece a pena. Você gostaria de ir?

Ela se deu conta de que estava assentindo com a cabeça como se fora tola e se forçou a deter-se.

—eu adoraria.

—Passarei a te recolher. Por volta das seis e meia? Aí ia sua cabeça, outra vez acima e abaixo como um petirrojo que tivesse comido muitos vermes. —Muito bem. Isso vai perfeito.

—Agora não posso ficar porque me esperam no estaleiro.

—Não importa. —Ela se perguntou se seus olhos estavam tão abertos como acreditava. Poderia-lhe devorar com eles—. Muito obrigado pelas flores. São preciosas.

—De nada. —E com os olhos abertos, inclinou-se e posou seus lábios sobre os dela com muita ternura, com muita suavidade. Viu como as pestanas dela batiam as asas, e observou como o verde da íris se empanava sob as pequenas sardas douradas—. Então, até manhã.

Os músculos haviam lhe tornado massa.

—Amanhã —conseguiu dizer, e deixou escapar um suspiro muito comprido enquanto ele se afastava e saía pela porta dianteira.

Tinha-lhe agradável flores. Aferrou os caules com ambas as mãos, abraçou-os e dançou uma valsa com elas por toda a casa. Flores belas, fragrantes, de pétalas suaves. E que alguns dessas pétalas caíssem ao chão ao dançar só contribuiu a que a cena fora mais romântica.

Faziam-lhe sentir-se como uma princesa, como uma mulher. Cheirou-as avidamente enquanto dava voltas pela cozinha procurando um floreiro. Como uma noiva.

deteve-se de repente, olhando as flores... como uma noiva.

sentiu-se levemente enjoada, sua pele subiu de temperatura e suas mãos tremeram. Quando se deu conta de que estava contendo o fôlego, deixou-o escapar com um som, mas ficou apanhado E tropeçou enquanto ela tratava de tomar mais ar.

Tinha-lhe agradável flores, pensou de novo. Tinha-a convidado para jantar. Devagar, levou-se uma mão ao coração e se deu conta de que pulsava ligeiro e veloz, muito veloz.

Lhe ia pedir que se casasse com ele. Que se casasse com ele.

—Ai, ai, ai, Meu deus!

As pernas quase não a sustentavam, assim que se sentou, aí, no chão da cozinha, embalando as flores nos braços como se fossem um menino. Flores, tenros beijos, um jantar romântico para dois. Estava-a cortejando.

 Não, não. estava-se precipitando em suas conclusões. O nunca avançaria tão rapidamente para dar o seguinte passo. Agitou a cabeça, incorporou-se e encontrou uma garrafa de pescoço largo para usar como floreiro. O só tratava de ser doce, só tratava de ser considerado. Ele só era Ethan.

Abriu o grifo e encheu a garrafa. Só era Ethan, pensou outra vez, e ficou sem fôlego de novo.

Ao tratar-se do Ethan, pensaria e faria as coisas de um modo determinado. Tratando de acalmar-se e de pensar com lógica, ficou a arrumar as flores no vaso de uma em uma.

conheciam-se desde... Quase não recordava desde quando. Agora eram amantes. Estavam apaixonados. Sendo Ethan, ele consideraria que o seguinte passo era o matrimônio. Honorável, tradicional, correto. O pensaria que era o correto.

Isso o compreendia, mas esperava que passassem meses antes de que ele se definisse nessa direção. Entretanto, por que ia esperar, perguntou-se a si mesmo, quando já levavam anos esperando?

Mas... prometeu-se a si mesmo que nunca voltaria a casar-se. Fez um voto no momento mesmo de assinar os papéis do divórcio. Não podia falhar de forma tão estrepitosa outra vez, ou arriscar-se a que Aubrey tivesse que acontecer essa desdita e esse trauma. Tinha tomado a decisão de criar a sua filha ela sozinha, de criá-la bem, de criá-la com amor. Ela seria quem tirasse sua filha adiante, quem construiria um lar e o cuidaria, um lar onde sua filha pudesse crescer feliz e segura.

Mas isso foi antes de que se permitisse acreditar que Ethan podia as querer, que podia amá-la como amava a ele. Porque sempre tinha sido Ethan. Sempre Ethan, pensou fechando os olhos. Em seu coração, em seus sonhos. atreveria-se a romper essa promessa, a que tinha feito tão solenemente? ia arriscar se a converter-se em esposa outra vez, confiando suas esperanças e seu coração a outro homem?

claro que sim. Sim, arriscaria-o tudo se esse homem era Ethan. Era tão apropriado, tão perfeito, Pensou, rendo-se de si mesmo enquanto o coração e a mente se enchiam de alegria. Era o final feliz que não tinha deixado de permitir-se desejar.

Como o pediria ele? apertou-se os lábios com os dedos e notou que aqueles tremiam e se curvavam. Com serenidade, pensou, com esses olhos tão sérios, fixos nos seus. Tomaria a mão com essa suavidade dela. Estariam fora, à luz da lua, e sopraria uma suave brisa. Os aromas da noite lhes rodeariam e a música da água soaria próxima.

Com simplicidade, pensou, sem poesia nem muito pressa. O a olharia, sem dizer nada durante um momento, e logo falaria sem apressar-se.

«Amo-te, Grace. Sempre te amarei. Quer te casar comigo?»

Sim!, sim!, sim! Girou sobre si mesmo até enjoar

Seria sua noiva, sua esposa, sua companheira, seu amante. Agora. para sempre. Daria-lhe filhos, sabendo, sem nenhum gênero de dúvida, que ele os amaria e os cuidaria, que os protegeria e atenderia. Teria mais filhos com ele.

Ai, Meu deus, um filho do Ethan que crescesse dentro dela. Emocionada com a imagem, apertou-se o estômago com as mãos. E essa vez, essa vez, a vida que bateria as asas em seu interior seria desejada e bem-vinda pelas duas pessoas que a tinham concebido.

Construiriam uma vida juntos, uma vida maravilhosamente simples e plácida.

Estava desejando iniciá-la.

Ao dia seguinte de noite, recordou, e em um repentino ataque de pânico, olhou-se o cabelo. Baixou as mãos para as contemplar com total desesperança. Ai, parecia um desastre. Tinha que estar bonita.

O que se ia pôr?

surpreendeu-se rendo a gargalhadas, uma risada cheia de gozo e de nervos. Por uma vez se esqueceu do trabalho, os horários e a responsabilidade, e correu ao armário.

Anna não notou as flores roubadas até o dia seguinte. Ao dar-se conta, soltou um grito.

—Seth! Seth, vêem aqui agora mesmo.

Tinha as mãos nos quadris, um pícaro chapéu de palha inclinado e os olhos perigosos e a ponto de estalar.

—Sim? —Saiu comendo um punhado de biscoitinhos, embora o jantar se estava cozinhando no fogo.

—estiveste enredando com minhas flores? —exigiu.

O jogou um olhar ao te arrie misto de novelo anuais e perenes e soltou uma risada zombadora.

—E para que ia enredar eu com umas flores de mierda?

Ela golpeou a terra com o pé.

—Isso é o que te estou perguntando.

—Não as hei meio doido. Além disso, se você nem sequer quiser que tiremos as más ervas...

—Isso é porque não sabe distinguir entre uma má erva e uma margarida —estalou—. Bom, alguém esteve em meus arriates.

—Pois eu não fui. —encolheu-se de ombros e pôs os olhos em branco alegremente quando Anna passou a seu lado para entrar na casa feita um alfavaca. A alguém, pensou, lhe ia cair uma boa.

—Cameron! —Anna se apressou escada acima até o banho onde ele se estava lavando depois do trabalho. Olhou-a, elevando uma sobrancelha enquanto a água caía de seu rosto ao lavabo. Lhe contemplou um momento com o cenho franzido e logo negou com a cabeça—. Não importa— murmurou, e colina de uma portada.

Impossível que CAM ou Seth enredassem em seu jardim, decidiu. E se CAM se dedicava a agarrar flores para alguém, mais valia que fora para seu amante algema ou teria que matá-lo e assunto arrumado.

Seus olhos se entreabriram ao fixar-se na porta do quarto do Ethan. E emitiu um som grave e ameaçador.

deteve-se chamar, mas foram só três brevisimos golpes antes de abrir a porta de um empurrão.

—Joder, Anna! —Humilhado, Ethan agarrou as calças que estavam sobre sua cama e os colocou diante. Não levava mais que umas cueca e uma expressão doída.

—te economize o pudor, não me interessa. Há meio doido minhas flores?

—Suas flores?

Ai, Ethan sabia que isso tinha que acontecer. Anna tinha olhos de gato quando se tratava de seu jardim. Mas não supunha que ocorreria quando ele estava médio nu. Médio, e uma mierda, pensou enquanto apertava as calças com mais força.

—Alguém cortou mais de uma dúzia de flores. Cortou-as assim, sem mais.

Ela avançou sobre ele, enquanto seus olhos percorriam a estadia procurando provas.

—Né, bom...

—Algum problema? —CAM se apoiou na ombreira, fingindo seriedade. Isto tinha muchísima graça depois de uma dura jornada de trabalho. Sua mulher, chateada a batente, acossando a seu irmão, totalmente em bolas menos o culo.

—Alguém esteve em meu jardim e me roubou as flores.

—Sério? Quer que chame à polícia?

—Anda, te cale! —voltou-se para o Ethan, que prudente e covardemente retrocedeu um passo. Ela parecia disposta a matar—. E bem?

—Bom, eu... —Inicialmente tinha a intenção de confessar e pedir clemência. Mas a mulher que o contemplava com escuros olhos cheios de cólera não parecia andar muito sobrada desta virtude—. Coelhos —disse com lentidão—. Provavelmente.

—Coelhos?

—Sim. —revolveu-se incômodo, desejando ter tido as calças postas quando ela irrompeu no quarto—. Os coelhos podem ser um problema nos jardins. Simplesmente vêm dando saltos e o comem tudo.

—Coelhos —repetiu ela.

—Também poderiam ser cervos —acrescentou, já um pouco à desesperada—. ficam a pastar e se comem tudo o que encontram até deixá-lo reduzido a nada. —Rogando compaixão, jogou um olhar ao CAM—. Verdade?

Este sopesou a situação. Sabia que Anna era o suficientemente urbana para acreditar-lhe Mas Ethan..., seu irmão lhe ia dever uma, e uma grande, decidiu, e sorriu.

—Ah, sim, os cervos e os coelhos, um grande problema. —Que se evitava simplesmente tendo dois cães na casa, pensou.

—por que não me havia isso dito ninguém? —tirou-se o chapéu bruscamente e o golpeou contra a coxa—. O que podemos fazer? Como conseguimos detê-los?

—Duas formas. —A culpa lhe aguilhoou, ao menos, um pouco, mas Ethan racionalizou que os cervos e os coelhos podiam ser um problema, assim mais dava que ela tomasse precauções—. Sangre seca.

—Sangre seca? De quem?

—Pode-a comprar no viveiro e só terá que pulverizá-la. Isso os manterá afastados.

—Sangre seca. —Seus lábios se franziram enquanto tomava nota mentalmente para comprá-la.

—Também a urina.

—Urina seca?

—Não. —Ethan se esclareceu garganta—. Só sai Y..., já sabe, urinas por aí para que a cheirem e saibam que há carnívoros perto.

—Já vejo. —Assentiu, satisfeita, e logo se voltou para seu marido—. Bom, pois sal e ma em meus malmequeres.

—Teria que me beber uma primeiro cerveja —comentou CAM, e lhe piscou os olhos o olho a seu irmão—. Não se preocupe, carinho, ocuparemo-nos disso.

—Vale. —um pouco mais tranqüila, soltou ar mal-humorada—. Perdoa, Ethan.

—Já, bom, humm. —Esperou até que ela saiu a toda pressa, logo se sentou na cama. Olhou de soslaio a seu irmão, que seguia apoiado na porta e disse—: Essa tua mulher tem um ponto ruim.

—Sim, eu adoro. por que lhe roubaste as flores?

—Só queria umas poucas —resmungou e ficou as calças—. Para que demônios estão aí fora se forem retorcer o cangote por agarrar umas quantas?

—Coelhos? E cervos? —CAM se pôs-se a rir a gargalhadas.

—Bom, não deixam de ser uma praga para os jardins.

—Muito valentes teriam que ser os coelhos para aventurar-se com dois cães e chegar até a casa para selecionar algumas floresça. Se chegassem tão longe, teriam assolado o jardim inteiro até deixá-lo seco.

—Ela não tem por que sabê-lo. De momento. Agradeço-te seu apoio. Acreditava que ia dar um murro.

—Poderia havê-lo feito. Posto que te salvei esse precioso pele, parece-me que me deve uma.

—É que não há nada grátis —resmungou enquanto procurava uma camisa no armário.

—E que o diga. Seth necessita um corte de cabelo e o último par de sapatos já lhe ficou pequeno.

Ethan se voltou com uma camisa pendurando entre os dedos.

—Quer que eu lhe leve a centro comercial?

—Exatamente.

—Quase tivesse preferido o murro na cara.

—Muito tarde. —CAM se meteu um polegar no bolso dianteiro e sorriu—. E para que eram as flores?

—Pensei que ao Grace gostaria. —Grunhindo ficou a camisa.

—Ethan Quinn roubando flores e saindo para jantar de modo próprio a um restaurante elegante. —O sorriso do CAM se fez mais ampla e moveu as sobrancelhas—. Costure séria.

—É normal que um homem saia com uma mulher para jantar, e que lhe leve flores de vez em quando.

—Não, para ti não o é. —CAM se endireitou e se golpeou o ventre plano—. Bom, suponho que irei engolir essa cerveja para poder me levar como um herói.

—A gente não tem intimidade nesta casa —se queixou Ethan quando se irmano se foi—. As mulheres se metem em sua habitação sem ter sequer a cortesia de partir quando vêem que não tem as calças postas. —Franzindo o cenho, tirou uma de suas duas gravatas do armário—. E há gente que te esfolaria vivo por umas quantas flores. E antes de que te dê conta, toca-te ir ao puñetero centro comercial a lutar contra a multidão e a comprar sapatos.

Conseguiu colocá-la gravata sob o pescoço da camisa e ficou a fazer o nó.

—Quando vivia em minha própria casa, nunca tinha que me preocupar. Até podia me passear com o culo ao ar se gostava. —Dirigiu um vaio à gravata que se negava a cooperar—. É que ódio estas mierdas.

—Isso é porque te encontra mais a gosto fazendo um nó de margarida. —E quem não?

Então se deteve, os dedos ficaram como congelados sobre a gravata. O olhar permaneceu no espelho, onde podia ver seu pai atrás dele.

—Só está um pouco nervoso, isso é tudo —comentou Ray com um sorriso e uma piscada—. Uma entrevista importante.

Tomando ar com cuidado, Ethan se voltou. Ray se encontrava ao pé da cama. Seus olhos, de um azul brilhante, faiscavam alvoroçados, como Ethan recordava que acontecia quando algo o fazia muita graça.

Levava uma camiseta cor amarela forte com a imagem de um navio com as velas desdobradas, jeans velhos e sandálias muito usadas. Tinha o cabelo comprido até o ombro, e era de um brilhante prateado que refletia o sol.

Parecia exatamente o que era, ou o que tinha sido . Um homem atrativo e robusto ao que gostava da roupa cômoda e a risada sã.

—Não estou sonhando —murmurou Ethan.

—Ao princípio te resultava mais fácil acreditá-lo. Olá, Ethan.

—Olá, papai.

—Lembrança a primeira vez que me chamou assim. Custou-te um tempo. Levava conosco um ano. Deus, foi um menino tão misterioso, Ethan... Silencioso como uma sombra, profundo como um lago. Uma noite, quando estava corrigindo exames, bateu na porta. Ficou pensando um minuto. Deus, era uma maravilha verte pensar. Então disse: «Papai, chamam-lhe o telefone». —O sorriso do Ray era tão deslumbrante como a luz do sol—. Foi em seguida a não ser me teria visto como me punha em ridículo. Pus-se a chorar como um menino e tubo que lhe dizer a quem fora que chamava que me tinha dado a alergia.

—Nunca soube por que me queriam.

—Você nos necessitava. E nós necessitávamos a ti. Foi nosso, Ethan, inclusive antes de que nos encontrássemos. O destino se toma seu tempo mas sempre encontra uma forma. Foi tão... frágil... —disse Ray depois de um momento, e Ethan piscou surpreso—. Ao Stella e nos preocupava fazer algo mal e que te rompesse.

—Eu não era frágil.

—Ah, sim, Ethan, sim o foi. Seu coração era tão delicado como o cristal e parecia a ponto de fazer-se pedacinhos. Seu corpo era duro. Nunca nos preocupou que CAM e você lhes surrassem do lindo esses primeiros meses. Pensávamos que ia bem aos dois.

Os lábios do Ethan se crisparam.

—Normalmente começava ele.

—Mas você nunca te jogava atrás, uma vez te esquentava o sangue. Levava-te um momento —acrescentou—. Ainda te passa. Víamo-lhe observar e pensar, considerar e refletir.

—Vós me deram... tempo. Tempo para observar e para pensar, para considerar e refletir. Todo o decente que possuo procede de vós dois.

—Não, Ethan, nós só lhe demos amor. E esse tempo, e um lugar. —aproximou-se da janela para contemplar a água e os navios que se balançavam brandamente no embarcadero. Viu uma garceta que navegava por um céu embaciado de calor e fofo de nuvens—. Você estava destinado a ser nosso. Estava destinado a viver aqui. Adaptou-te ao mar como se tivesse nascido nele. CAM sempre quis ir depressa e Phil preferia relaxar-se e desfrutar de do passeio. Mas você... —voltou-se de novo, com o olhar pensativo, e acrescentou—: Você estudou cada centímetro do navio, cada onda, cada curva dos rios. Praticava os nós durante horas e horas e ninguém tinha que insistir para que esfregasse a coberta.

—Sempre me resultou fácil, desde o começo. Você queria que fizesse uma carreira.

—Isso era por mim. —Ray sacudiu a cabeça—. Por mim, Ethan. Os pais não deixam de ser humano, depois de tudo, e passei por um período no que acreditei que a meus filhos tinha que lhes gostar do estudi ou, tanto como a mim. Mas você fez o que era aropiado para ti. Fez que me sentisse orgulhoso de ti. Teria-lhe isso que haver dito mais freqüentemente.

—Sempre soube que o estava.

—Mas as palavras contam. Quem teria que saber o melhor que um homem que se aconteceu a vida tratando de ensinar aos jovens às amar? —Suspirou e disse—: As palavras contam, Ethan, e algumas delas lhe custam. Mas quero que não se esqueça disto. Grace e você têm muitas coisas que lhes dizer o um ao outro.

—Não quero lhe fazer danifico.

—O fará —disse Ray com suavidade— por tratrar de não fazer-lhe Oxalá pudesse verte como eu te vejo. Como te vê ela. —Voltou a mover a mão e acrescentou—: Bom, o destino se toma seu tempo. Pensa no menino, Ethan, pensa no Seth, em que partes de ti vê nele.

—Sua mãe... —começou Ethan.

—por agora pensa no menino —replicou simplesmente Ray, que logo desapareceu.

 

Não havia nem um espiono de chuva na brisa estival. O sol era de um azul assombroso e quente, uma terrina intacto que continha uma vaga neblina e frágeis nuvens. Um pássaro solitário cantava enlouquecido, como se estivesse obcecado por terminar o canto antes de que concluíra o comprido dia.

Grace se sentia tão nervosa como uma colegiala no baile de graduação. Essa idéia a fez rir. Nenhuma adolescente tinha sonhado com nervos como esses.

Brincou com o cabelo, desejando ter largos cachos brilhantes como os da Anna, exóticos, como de cigana. Mas não os tinha, recordou-se com firmeza. E nunca os teria. Ao menos, seu cabelo curto e singelo ressaltava os belos pendentes compridos de ouro que Julie lhe tinha emprestado.

A moça se mostrou muito doce e iludida com o que chamava «a grande entrevista». Se lançou em seguida a conversar sobre o que levar e com o que levá-lo, e naturalmente tinha decretado que o conteúdo do armário do Grace era um desastre total.

É obvio, deixar-se arrastar por ela ao centro comercial tinha sido uma idéia totalmente ridícula. Embora não é que Julie tivesse tido que atirar muito forte, admitiu Grace. Fazia tanto tempo que não ia às compras simplesmente pelo prazer de comprar... Durante as duas horas que passaram entrando e saindo das lojas se havia sentido jovem e livre de preocupações, como se não houvesse nada mais importante que dar com o vestido perfeito.

Contudo, não teria que haver comprado um novo, embora o tivesse conseguido rebaixado. Mas não conseguiu convencer-se de não fazê-lo. Tinha esse pequeno capricho, só esse pequeno luxo. Desejava intensamente algo novo e original para uma noite tão especial.

adorou um negro, sofisticado e sexy, com suspensórios finos e saia ajustada. Ou o vermelho, muito sensual e com um decote muito atrevido. Mas não lhe sentava bem, como sabia de antemão.

Não lhe surpreendeu que um muito singelo, de linho azul pálido, tivesse desconto. No cabide parecia muito simples, nada especial. Mas Julie tinha insistido, e ela tinha bom olho para essas coisas.

Tinha razão, é obvio, pensou agora. Era singelo, quase virginal, com o sutiã sem adornos e decote gracioso. Mas uma vez posto, ficava muito bonito pelo contraste de cor com a pele, e parecia que flutuava em torno de suas pernas.

passou-se um dedo pelo decote quadrado, vagamente assombrada de que o prendedor que Julie a tinha obrigado a comprar realmente conseguisse lhe proporcionar um pequeno canalillo. Seriamente era um milagre, pensou com uma risita.

Concentrando-se, inclinou-se para aproximar-se do espelho. Fazia tudo o que seu amiga lhe havia dito com a maquiagem emprestada. E seus olhos pareciam maiores e mais profundos. Fazia todo o possível para ocultar os sinais de cansaço e lhe pareceu que o tinha conseguido. Podia não ter dormido apenas a noite antes, mas não se sentia cansada absolutamente.

sentia-se cheia de energia.

Elevou a mão e brincou com as amostras de perfume que lhe tinham dado na loja de cosméticos. Então se lembrou de que Anna lhe havia dito que ficasse seu próprio perfume a primeira vez para o Ethan. Que isso lhe transmitiria uma mensagem.

Escolhendo sua fragrância habitual, fechou os olhos e ficou um poquito. Com os olhos fechados, imaginou que os lábios dele a roçavam aqui, roçavam-na lá, detinham-se e saboreavam aí onde o pulso fazia que a fragrância palpitasse de vida.

Ainda sonhando, tomou um bolsito de noite cor marfim, outro empréstimo, e revisou o conteúdo. Não levava uma bolsa tão pequena desde fazia..., bom, desde antes de que nascesse Aubrey, pensou. Resultava-lhe tão estranho olhar em seu interior e não ver nenhuma das coisas de mãe que estava acostumado a levar... «Hoje só coisas de mulher», pensou. A pequena caixa de pó que se permitiu comprar, uma barra de lábios que raramente se lembrava de usar, as chaves de casa, uns quantos bilhetes enrolados, e um lenço que não estava sujo e desgastado de limpar manchas infantis.

Só olhá-lo-a fez sentir-se feminina, como deslizar os pés nas sandálias de salto pouco pratico. ia passar o mal para pagar a fatura do cartão quando chegasse. voltou-se frente ao espelho e viu como a saia reproduzia o giro.

Quando ouviu que a caminhonete do Ethan se detinha fora, atravessou o quarto apressadamente. obrigou-se a deter-se. Não, não ia sair correndo para a porta como um cachorrito ansioso. ia se ficar ali esperando a que ele batesse na porta. Assim daria a seu coração a oportunidade de pulsar com normalidade de novo.

Quando ele chamou, ainda lhe retumbava nos oudois. Mas saiu do dormitório, sorriu-lhe através da mosquiteira e se aproximou da porta.

Ethan recordava vê-la aproximar-se da porta assim a noite em que fizeram o amor pela primeira vez. Tinha-lhe parecido tão bela, e tão solitária, à luz das velas que piscavam a seu redor...

Mas hoje parecia..., não acreditava ter palavras para poder expressá-lo. Tudo nela resplandecia, a pele, o cabelo, os olhos. Fez-lhe sentir-se estranho, humilde. Desejava beijá-la para assegurar-se de que era real, e ao mesmo tempo lhe dava medo tocá-la.

Retrocedeu quando ela abriu a mosquiteira, depois tomou uma mão com cuidado.

—Parece distinta.

Não, não era poesia. E lhe fez sorrir.

—Isso queria. —Fechou a porta a suas costas, deixando que a guiasse até a caminhonete.

Nesse momento, ele desejou ter pedido emprestado o Corvette.

—A caminhonete não pega com esse vestido —comentou enquanto se metiam no veículo.

—Sim me pega. —recolheu-se a saia para assegurar-se de que não se enganchava com a porta—. Talvez te pareça distinta, Ethan, mas sigo sendo a mesma.

acomodou-se no assento e se dispôs a desfrutar da noite mais bela de sua vida.

O sol seguia alto e brilhante quando chegaram ao Princess Anne. O restaurante que Ethan tinha eleito se encontrava em um dos velhos edifícios reabilitados de altos tetos e ventanales elevados e estreitos. Havia mesas envoltas em linho branco com velas ainda sem acender, e garçons com jaqueta e passarinha negra. As conversações de outros comensais estavam apagadas, como em uma igreja. Grace ouvia o tamborilar de seus saltos no gentil chão enquanto se dirigiam a sua mesa.

Queria recordar cada detalhe. A mesita escondida junto à janela, o quadro da baía que pendurava na parede, detrás do Ethan. O brilho cúmplice nos olhos do garçom que lhes entregou a carta e lhes perguntou se desejavam tomar um coquetel.

Mas, sobre tudo, desejava recordar ao Ethan. O sereno sorriso em seus olhos quando a olhou desde seu lado da mesa, a forma em que seus dedos não deixavam de lhe acariciar a mão sobre a branca toalha de linho.

—Gosta de um pouco de vinho? —perguntou-lhe.

Veio, velas, flores.

—Sim, eu adoraria.

Ele abriu a carta de vinhos e a estudou pensativamente. Sabia que ela preferia o branco, e um ou dois lhe resultavam conhecidos. Phillip mantinha sempre um par de garrafas no frigorifico. Embora saiba Deus por que um homem razoável pagaria de forma regular tanto dinheiro por algo de beber.

Agradecido porque os vinhos estavam numerados E não teria que tentar pronunciar nada em frances, comunicou-lhe ao garçom sua preferência, contentio ao ver que sua eleição era recebida com aprovação.

—Tem fome?

—um pouco. —Grace se perguntou se poderia tragar um sozinho miolo, pela alegria que lhe transbordava na garganta—. É tão agradável estar assim aqui, contigo.

—Teria que te haver levado a jantar antes.

—Isto é perfeito. Não houve muito tempo para este tipo de coisas.

—Sempre podemos buscá-lo. —E não estava tão mal levar gravata, comer em um sítio rodeado por outra gente. Não quando podia contemplá-la ao outro lado da mesa—. Parece descansada, Grace.

—Descansada? —A risada lhe escapou como um borbulho, fazendo que ele sonriera confundido. Então seus dedos apertaram carinhosamente os dele—. Ai, Ethan, adoro-te.

O sol foi afundando-se pouco a pouco e as velas foram acesas enquanto Ethan e Grace bebiam seu vinho e desfrutavam de uma comida perfeitamente preparada e servida com estilo. O lhe contou quão bem ia o trabalho no estaleiro e o novo contrato que tinha conseguido Phillip.

—Isso é maravilhoso. É incrível que começassem o negócio na primavera.

—Eu levava muito tempo lhe pensando-o disse ele—. Já tinha muitos dos detalhes resolvidos mentalmente.

Assim é como ele o faria, como não, pensou ela. Pensar as coisas muito a fundo era algo inato nele.

—Apesar de tudo, estão conseguindo que saia adiante, que seriamente funcione. Muitas vezes pensei em me dar uma volta por ali.

—E por que não o tem feito?

—Antes... Se te via muito freqüentemente ou em muitos sítios diferentes, preocupava-me. —adorava poder dizer-lhe e observar como lhe trocavam os olhos ao escutá-la—. Estava segura de que notaria o que sentia por ti, quanto desejava te tocar e que me tocasse.

O sangue cantarolava nas pontas dos dedos do Ethan enquanto roçavam os do Grace. E seus olhos trocaram, como ela queria, fazendo-se mais profundos ao olhá-la intensamente.

—Quase tinha conseguido me convencer de não me implicar contigo —disse ele com cuidado.

—Me alegro de que não o conseguisse.

—Eu também. —Aproximou os dedos dela por volta de si e os tocou com os lábios—. Talvez vem ao estaleiro um dia destes, e eu te jogarei uma olhada... e já verei.

Ela inclinou a cabeça.

—Talvez o faça.

—Poderia te aproximar uma tarde de calor e —disse enquanto seu polegar lhe percorria perezosamente os nódulos— trazer frango frito.

A risada do Grace foi rápida e fácil.

—Teria que me haver dado conta de que isso era o que realmente te atraía de mim.

—Sim, isso inclinou a balança. Um rosto bonito, olhos de deusa do mar, largas pernas, uma risada cálida, todo isso não lhe diz muito a um homem. Mas lhe acrescenta uma boa ração de frango frito ao estilo sulino, e então falamos.

Agradavelmente adulada, Grace moveu a cabeça.

—E aqui estava eu pensando que não havia forma de tirar poesia de ti.

O olhar de lhe percorreu o rosto e pela primeira vez em sua vida desejou possuir talento para compor versos.

—Quer poesia, Grace?

—Quero a ti, Ethan. Quero-te como é. —Com um comprido suspiro de felicidade, jogou um olhar ao restaurante—. E se lhe acrescentar uma velada como esta de vez em quando... —Voltou o olhar para ele e sorriu— então falamos.

—Pois parece que temos um trato, já que a meu gosta de sair assim. Eu gosto de estar em qualquer parte contigo

Ela entrelaçou seus dedos com os dele.

—Faz muito tempo. Parece-me que faz muito tempo, eu estava acostumado a sonhar com o amor. Com como esperava que fora. Isto é melhor, Ethan. A realidade resultou ser melhor que os sonhos.

—Quero que seja feliz.

—Se fosse mais feliz, teria que ser duas pessoas para conter toda a felicidade. —Seus olhos brilharam de risada enquanto se inclinava para ele—. E então teria que pensar o que fazer com dois Grace.

—Só necessito uma. Gosta de dar um passeio?

O coração lhe despenhou. Seria agora?

—Sim, acredito que um passeio seria perfeito.

O sol quase se pôs quando começaram a passear pelas bonitas ruas, criando sombras belas e profundas. A lua começava a elevar-se em um céu ainda deslumbrado de quentes cores. Não estava enche, notou Grace, mas não importava. Seu coração sim o estava.

Quando ele a voltou para tomá-la em seus braços justo no bordo do atoleiro de luz de uma luz, ela se derreteu em um beijo comprido e lento.

Distinta, pensou Ethan enquanto se permitia aprofundar o beijo. Parecia-lhe mais suave, mais cálida, cedendo a ele, embora notava os débeis tremores que a percorriam.

—Amo-te, Grace —disse para consolá-la e consolar-se a si mesmo.

o coração lhe subiu à garganta, fazendo que lhe tremesse a voz. por cima, as estrelas, brilhantes pontos de luz branca, abriam-se à vida piscando.

—Amo-te, Ethan. —Ela fechou os olhos e conteve o fôlego esperando as palavras.

—Mais vale que retornemos.

Grace abriu os olhos com uma piscada.

—Ah, sim. —Deixou escapar o fôlego e acrescentou—: se, tem razão.

Que tola!, pensou, enquanto caminhavam de retorno à caminhonete. Um homem tão precavido e meticuloso como Ethan não lhe proporia matrimônio em uma esquina do Princess Anne. Esperaria até que retornassem a casa, até que Julie se foi e lhe tivessem jogado uma olhada ao Aubrey.

Esperaria até que estivessem a sós, sem gente ao redor, em um entorno familiar. Claro, isso era. Assim que lhe lançou um sorriso luminoso enquanto ele arrancava o veículo.

—foi um jantar maravilhoso, Ethan.

Havia luz de lua, como ela havia imaginava. penetrava obliquamente pela janela e se deslizava brandamente sobre o Aubrey, que dormia em seu berço. Sua menina sonhava sonhos felizes, pensou. E quanto mais felizes seriam todos pela manhã, quando tivessem dado o passo seguinte para converter-se em uma família.

Aubrey já lhe amava, pensou Grace enquanto acariciava o cabelo de sua filha. Pouco tempo antes,ella tinha decidido criá-la sozinha, e assegurar-se de que com isso bastava. Agora tudo estava trocando. Ethan seria um pai para sua filha, um pai que a quereria e velaria por ela.

Algum dia deitariam juntos ao Aubrey. Algum dia veriam dormir a outro menino em um berço. Com o Ethan poderia compartilhar o gozo de um momento singelo como esse, um momento sereno na escuridão banhada pela luz da lua no que olha a seu filho, que dorme a salvo.

O tinha tanto que lhes dar, pensou ela. E ela tinha tanto que lhe dar a ele...

Um homem como Ethan sentiria esse primeiro bato as asas de vida no coração quando ela o sentisse no útero. Poderiam compartilhar isso, e uma vida de momentos singelos.

Grace saiu silenciosamente à sala de estar e viu que Ethan olhava pela porta. Por um momento, invadiu-lhe o pânico. ia já? Não podia ir-se. Não agora. Não antes de...

—Gosta de um café? —Disse-o rapidamente, sua voz se elevou sem que pudesse controlá-la.

—Não, obrigado. —O se voltou—. Aubrey dorme?

—Sim, está bem.

—parece-se tanto a ti...

—Você crie?

—Em particular quando sorri.

O viu como os olhos dela se posavam nos seus, brilhantes a suave luz do abajur. Por um momento, pareceu-lhe que nada tinha acontecido antes, que nada aconteceria depois. Poderiam estar os três assim, juntos em tranqüilas noites como essa, na pequena casa de bonecas. Poderia ser seu futuro. Desejava acreditar que poderia ser sua vida.

—Eu gostaria de ficar. Desejo estar contigo esta noite, se você quiser.

—Sim, claro que quero. —Ela acreditou compreender. O precisava lhe mostrar seu primeiro amor. Mais que gostosamente, tendeu-lhe uma mão—. Vamos à cama, Ethan.

O se tomou o cuidado de ser tenro, de acariciar a brandamente até que chegou à cúpula. Uma vez ali, manteve-a, manteve-a até que o corpo do Grace se arqueou, como uma tremente ponte de sensações, para fazê-la flutuar e suspirar.

Ethan viu como a luz da lua banhava a pele dela, seguiu suas sombras cambiantes com as gemas dos dedos, com os lábios. Deu-lhe prazer.

O amor a rodeava. Cobria-a. Embalava-a com um ritmo tão tenro como um mar em bruma. Deslizando-se por ele, o ofereceu de volta a ele, tomo um reflexo resplandecente.

A ternura dele a fez chorar. Já sabia que suas necessidades podiam ser abruptas, temerárias, agudas. E isso a excitava. Entretanto, essa parte dele, esse lado compassivo, sensível e generoso, chegava-lhe ao centro do coração. Caiu muito mais profundaincnte no largo poço do amor.

Quando ele se deslizou dentro dela, quando se uniram, a boca dele se posou sobre a dela para apanhar cada suspiro. Ela escorregou para cima, subindo nessa cúpula coberta de seda, se mantendo até que ele tremeu com ela e puderam agarrar o um ao outro no lento descida.

Depois, ele a deslocou para que ela se acurrucara na curva de seu braço. E a acariciou. Os olhos dela se empanaram. Agora, pensou enquanto se deixava arrastar. O o ia pedir agora, quando ambos reluziam ainda.

Esperando, ficou dormida.

Ele tinha dez anos, e a última surra que lhe tinha dado lhe tinha deixado as costas feita um labirinto de moratones e dor. Nunca lhe golpeava na cara. deu-se conta rapidamente de que à maioria dos clientes não gostavam de ver olhos morados e lábios ensangüentados na mercadoria.

Em geral, deixou de usar os punhos. Pareceu-lhe mais efetivo uma escova de cabelo. Gostava dos que eram circulares e finos, com cerdas duras. A primeira vez que o usou, a dor e a comoção foram tão intensos que lhe devolveu o golpe e foi ela a que terminou com um lábio ensangüentado. Então ela recorreu aos punhos, até que ele encontrou refúgio na inconsciência.

Não podia com ela, e sabia. Era uma mulher grande, e forte além disso. Quando estava bêbada, era ainda mais forte e mais implacável. Não servia lhe suplicar, não servia chorar, assim que ele deixou de fazê-lo. E as surras não eram tão malotes como o outro. Nada o era.

Ela tinha tirado vinte dólares por ele a primeira vez que o vendeu. Sabia porque o havia dito, e tinha prometido lhe dar dois dólares se não armava uma confusão. O não sabia do que estava falando. Não nesse momento. Não soube, não até que lhe deixou no dormitório escuro com o homem.

Inclusive então não sabia, não o compreendia. Quando essas mãos grandes e úmidas lhe tocaram, o medo foi tão cegadoramente brilhante, a vergonha tão negra, o terror tão ensurdecedor, tão ensurdecedor como seus gritos.

Gritou até que não ficou nada que se arrastasse por sua garganta mais que um gemido gutural. Ni,siquiera  a dor de ser violado conseguiu fazer que emitisse outro som.

Ela chegou a lhe dar os dois dólares. O os queimou; Sim, no lavabo sujo do sórdido quarto de banho que emprestava a seu próprio vômito, olhou como o dinrro se curvava até enegrecer-se. Seu ódio por ela era igual de negro.

prometeu-se a si mesmo, contemplando seus olhos ocos no sujo espelho, que se ela voltava a lhe prostituir, mataria-a.

—Ethan!

Com o coração atropelando-se em sua garganta, Grace ficou de joelhos de um salto para lhe sacudir os ombros. A pele sob seus dedos se achava como o gelo. O corpo dele estava rígido como uma pedra, mas tremia. Fez-a pensar atropeladamente em terremotos e vulcões. Havia uma violência hirviente sob uma dura capa de rocha.

Tinham-na despertado os sons que ele emitia. Tinham-na feito sonhar com um animal preso em uma armadilha.

Ele abriu os olhos bruscamente. Ela só via seu brilho na penumbra, mas pareciam selvagens buracos. Por um momento, lhe deu medo que a violência hirviente que percebia se abrisse passo para golpeá-la.

—Estava sonhando. —Disse-o com firmeza, segura que isso era o que fazia falta para que Ethan visse com esses olhos que a olhavam fixamente—. Não passa nada. Não foi mais que um pesadelo.

O ouvia sua própria e áspera respiração. Tinha sido mais que um pesadelo, sabia. Tinha sido outro dessas vívidas voltas ao passado que fazia anos que não sofria, esses que lhe deixavam talher de um suor frio. Mas o resultado era o mesmo. A náusea atendeu seu estômago doente, a cabeça martilleaba e nela nadava o eco lastimoso do grito de um menino. Sofreu um violento estremecimento sob as tenras mãos que lhe sujeitavam pelos ombros.

—Já estou bem.

Mas sua voz soava rouca, e ela sabia que mentia.

—Trarei-te um pouco de água.

—Não, estou bem. —Nem sequer a água lhe cairia bem ao sobressaltado estômago—. Volta a dormir.

—Ethan, está tremendo.

O deteria o tremor. Podia pará-lo. Só lhe levaria um pouco de tempo e de concentração. Viu que Grace tinha os olhos muito abertos, e bastante assustados. ficou furioso por ter levado a lembrança daquele horror ao leito dela.

Deus bendito, como se tinha permitido pensar, nem por um instante, que havia algo distinto para ele? Para os dois?

obrigou-se a sorrir.

—Assustei-me, isso é tudo. Sinto haver despertado.

Mais tranqüila, porque viu que uma sombra do homem ao que amava retornava a seus olhos, Grace lhe acariciou o cabelo.

—Deve ter sido horroroso. Há-nos asusiIdo aos dois.

—Pois sim. Já não me lembro. —Outra mentira, pensou ele, com um odioso abatimento—. Venha, te tombe. Já estou bem.

Ela se acurrucó junto a ele, esperando lhe consolar, e lhe pôs uma mão sobre o coração. Seguia nervoso.

—Fecha os olhos —sussurrou como o teria feito com o Aubrey—. Fecha os olhos e descansa. te abrace a mim, Ethan. Sonha comigo.

Rezando para encontrar a paz, ele fez ambas as coisas.

Quando Grace despertou e viu que ele se foi, tratou de convencer-se de que o peso de sua desilusão era desproporcionado. Ethan não tinha querido incomodá-la tão logo, por isso não se despediu.

Agora que o sol estava alto, ele já se encontraria no mar.

levantou-se, ficou uma bata e foi preparar café, lista para desfrutar dos escassos minutos a sós antes de que se levantasse sua filha.

Então suspirou e saiu a seu pequeno alpendre traseiro. Sabia que sua desilusão não se devia a ter descoberto ao despertar que ele já se foi. Estava segura, tão segura de que ele ia pedir que se casasse com ele… Aí estavam tudo os sinais, o cenário preparado, o momento perfeito. Mas as palavras não tinham sido pronunciadas.

Não lhe tinha faltado mais que escrever o guia, pensou fazendo uma careta, mas Ethan não se havia atenido a ele. supunha-se que essa manhã ia começar a seguinte etapa de suas vidas. imaginou-se correndo à casa da Julie para compartilhar a alegria, chamando a Anna e tagarelando, pedindo conselhos sobre bodas.

Ou contando-lhe a sua mãe.

Ou explicando-lhe tudo ao Aubrey.

Mas agora era uma manhã como qualquer outra.

Depois de uma noite muito formoso, arreganhou-se a si mesmo. Uma noite preciosa. Não tinha por que queixar-se. Irritada consigo mesma, voltou dentro para servi-la primeira taça de café recém feito.

Logo se pôs-se a rir. Mas o que tinha acreditado? Era com o Ethan Quinn com quem estava tratando. Não era esse o homem que tinha esperado, segundo ele mesmo admitia, quase uma década para beijá-la? À velocidade com que se tomava as coisas, podia passar outra antes de que mencionasse o tema do matrimônio.

A única razão pela qual tinham avançado desde esse primeiro beijo aonde se achavam agora era porque ela..., bom, ela se tinha devotado a ele, admitiu. Lisa e sinceramente. E não teria tido o valor de fazê-lo se Anna não lhe tivesse dado um empurrão.

Flores, pensou, voltando-se de modo que podia as ver enquanto sorria, formosas e radiantes na encimera da cozinha. Um jantar à luz das velas, passeios à luz da lua e fazer o amor larga e  meigamente. Sim, estava-a cortejando, e seguiria fazendo-o até que se voltasse louca esperando a que ele desse o seguinte passo.

Mas assim era Ethan, admitiu, e essa era uma das coisas que adorava dele.

Tomou um sorvo de café, mordeu-se o lábio. por que tinha que ser ele quem desse o passo? por que não podia ser ela quem fizesse avançar o assunto? Julie lhe havia dito que aos homens gostava que as mulheres tomassem a iniciativa. E não lhe tinha gostado ao Ethan que ela tivesse reunido o valor suficiente para lhe pedir que lhe fizesse o amor?

Ela podia lhe cortejar a sua vez, não? E ela podia fazer que avançasse mais rapidamente. Deus sabia que ela era uma perita em cumprir horários.

Só requeria a valentia de pedir-lhe Expulsou ar. Teria que reunir esse valor, e mergulharia em seu interior até encontrá-lo.

As temperaturas se elevaram e a umidade se elevaram e a umidade se espessou em um atoleiro pegajoso que CAM chamava, não muito risueñamente, “pestedad”. Trabalhava sob coberta, rematando o camarote até que o calor lhe fez subir, procurando desesperadamente algo de beber e um pouco de brisa.

Embora não estava acostumado a queixar-se pelas condições de trabalho, Ethan, como seu irmão, achava-se nu até a cintura. Corria-lhe o suor enquanto envernizava pacientemente.

—Isso vai demorar uma semana em secar-se com este maldito abafado.

—Uma boa tormenta limparia o ambiente, pelo menos em parte.

—Então oxalá haja uma. —CAM agarrou a jarra e bebeu com avidez diretamente dela.

—Este tempo tão pesado põe nervosas a algumas pessoas.

—Eu não estou nervoso, o que tenho é calor. Onde está o guri?

—Mandei a por gelo.

—Boa idéia. Poderia me dar um banho em gelo. Aí abaixo não há nem pingo de ar.

Ethan assentiu. Envernizar era uma tarefa bastante desagradável com esse tempo, mas trabalhar abaixo, no pequeno camarote, aonde não chegavam os grandes ventiladores, devia parecer-se com trabalhar no inferno.

—Quer que troquemos um momento?

—Eu posso fazer meu puñetero trabalho.

Ethan se limitou a encolher um ombro suarento.

—Como você diga.

CAM apertou os dentes e logo vaiou.

—Vale, estou nervoso. O calor me está fritando o cérebro e não faço mais que lhe dar voltas à cabeça pensando se essa gata guia de ruas terá recebido já a carta da Anna.

—Já deveria havê-la recebido. Saiu na terça-feira, assim que Correios abriu depois da ponte. E hoje é sexta-feira.

—Já sei que dia é, Ethan. —Enojado, CAM se limpou o suor da cara e olhou a seu irmão com o cenho franzido—. Você não está nem sequer um pouco preocupado?

—Que me preocupe não vai trocar nada. Ela fará o que queira. —Seu olhar se centrou na de seu irmão, e era tão dura como um punho apertado—. E então nos ocuparemos do tema.

CAM passeou pela coberta, captou uma fibra de ar dos ventiladores e se deu a volta.

—Nunca pude compreender como pode manter a calma quando as coisas se vão a mierda.

—Prática —murmurou Ethan enquanto continuava envernizando.

CAM relaxou seus doloridos ombros e se golpeou a coxa com os dedos. Tinha que pensar em outra coisa ou se voltaria louco.

—E que tal foi a grande cita a outra noite?

—Bastante bem.

—Joder, Ethan, tenho que tirar um gancho?

Um sorriso se moveu pelo rosto do Ethan.

—O jantar foi agradável. Tomamos esse Pouilly Fuisse que gosta tanto ao Phil. Sabe bastante rico, mas não sei a que vem tanto dramalhão.

—E o que, jogou um pó?

Ethan lhe dirigiu outro olhar, captou o amplo sorriso de seu irmão e decidiu tomá-la pergunta como tinha sido formulada.

—Sim, e você?

Divertido, já que não mais fresco, CAM jogou a cabeça para trás e rompeu a rir a gargalhadas.

—Joder, Grace é o melhor que te aconteceu nunca. Não me refiro sozinho ao sexo, embora isso deve ser parte do que te tem tão animado ultimamente. Essa mulher vai como anel ao dedo.

Ethan se deteve e se arranhou o abdômen, onde gotejava o suor lhe produzindo picores.

—por que?

—Porque é estável como uma rocha e bela como uma flor, e tem a paciência do santo Job e o suficiente senso de humor para despertar o teu. Suponho que, não demorando muito, terá que polir o pátio para outras bodas.

Os dedos do Ethan apertaram mais a broxa.

—Não me vou casar com ela, CAM.

Foi o tom, no que havia serena desespero, tanto como a afirmação o que fez que CAM entreabrisse os olhos.

—Ao melhor não compreendo —disse lentamente—, mas supunha que, tal como vão as coisas, foi a sério com ela.

—Minhas intenções são sérias respeito ao Grace. Respeito a um montão de coisas. —Voltou a molhar a broxa e ficou olhando como gotejava o antigo verniz dourado—. O matrimônio não é algo que esteja procurando.

Normalmente, CAM teria deixado acontecer um tema similar. Teria passado do assunto com um encolhimento de ombros. «Costure tua, irmão.» Mas conhecia o Ethan muito bem, queria-lhe desde fazia muito tempo para afastar da dor. agachou-se junto ao galão, de forma que seus rostos se achassem mais perto.

—Eu tampouco o andava procurando —murmurou—.-me acojonaba. Mas quando chega a sua vida a mulher, «a mulher», dá mais medo deixá-la partir.

—Sei o que me faço.

O olhar de «Não me vou descer do burro» não arredou ao CAM.

—Você sempre crie sabê-lo. Espero que esta vez leve razão. E espero muito seriamente que isto não seja algum cilindro que se remonte a aquele guri de olhos de fantasma que papai e mamãe trouxeram um dí a casa. que estava acostumado a despertar gritando de noite.

— Aí não te coloque, CAM.

—Nem você tampouco. Mamãe e papai nos educaram de outra forma.

—Não tem nada que ver com eles.

—Tudo tem que ver com eles. Escuta —se interrompeu com um suave taco ao ver entrar no Seth.

—Né, esta mierda já se está derretendo —anunciou o menino.

CAM ficou de pé e olhou ao Seth com o cenho franzido, mais por costume que por aborrecimento.

—Não te hei dito que procure uma palavra que não seja mierda?

—Você a diz —apontou Seth, movendo a bola de gelo.

—Isso não importa.

Pensando como funcionavam as coisas, Seth pôs o gelo na geladeira.

—por que?

—Porque Anna me vai esfolar se não deixar de fazê-lo. E se ela me esfola , eu esfolo a ti.

—Que medo me dá!

—Mais te valeria ter medo!

Seguiram brigando e Ethan continuou envernizando. Desconectou do bate-papo e, concentrando-se no trabalho que tinha entre mãos, encerrou sua infelicidade sob chave.

 

Ia ser perfeito. Era o apropriado, tão claramente que Grace se perguntou como não lhe tinha ocorrido antes. Um passeio em navio à hora do crepúsculo por um mar em calma, quando o céu se volta rosa e ouro pelo oeste, era uma cortina de fundo à medida de ambos. A baía constituía uma parte de suas vidas, o que oferecia e o que arrebatava.

Sabia que era mais que um lugar onde Ethan trabalhava. Era um lugar que ele amava.

Tinha sido fácil organizá-lo. Quão único teve que fazer foi pedi-lo. Ethan pareceu surpreso, logo sorriu.

—Tinha-me esquecido de que você adora navegar —comentou.

Grace se sentiu comovida quando ele simplesmente esperava que Aubrey lhes acompanhasse. Haveria outras ocasiões, pensou. Uma vida cheia delas, para os três. Mas essa noite de cálida brisa seria só para eles dois.

A risada seguia bulindo nela enquanto imaginava sua reação ao lhe pedir que se casassem. Podia ver com total claridade como ele se deteria e ficaria olhando-a com esses maravilhosos olhos azuis cheios de surpresa. Ela sorriria e lhe tenderia a mão enquanto se deslizavam sobre a água em penumbra graças ao suave vento. E lhe diria tudo o que havia em seu coração.

«Amo-te tanto, Ethan! Sempre te amei e sempre te amarei. Quer te casar comigo? Quero que sejamos uma família. Quero viver minha vida contigo. Quero te dar filhos. Quero te fazer feliz. Não esperamos já bastante?»

Então, sabia, seria o momento em que ele começaria a sorrir. Esse belo sorriso lento que avançava grau a grau pelos planos e sombras de seu rosto até alcançar os olhos. O provavelmente comentaria que também tinha a intenção de pedir-lhe Que estava nisso.

Ambos ririam e se abraçariam enquanto o sol se voltava vermelho além da borda. E sua vida em comum começaria de verdade.

—Para onde navega, Grace?

Ela piscou e viu que lhe sorria do leme.

—Estava sonhando acordada —respondeu, rendo-se de si mesmo—. O crepúsculo é o melhor momento para sonhar acordado. Há tanta paz... —incorporou-se e se acurrucó sob o braço dele—. Me alegra muito que tenha podido tirar umas horas para que pudéssemos fazer isto.

—dentro de um mês teremos completado os arremates do navio —disse Ethan ocultando o rosto no cabelo dela—. Duas semanas antes do previsto.

—trabalhastes muito duro.

—Valerá a pena. O dono veio hoje.

—Ah, sim? —Isso também formava parte disso, pensou ela. O bate-papo relaxado sobre suas atividades cotidianas—. O que há dito?

—Não parou que falar nem um momento, assim é difícil saber o que há dito. soltou isto último e o outro» que tem lido em suas revistas de vela. Fez tantas perguntas que a cabeça me dava voltas .

—Mas lhe gostou?

—Eu suponho que estava muito contente, porque em toda a tarde não deixou que sorrir como um menino o dia de Reis. Quando se foi, CAM queria apostar a que vai encalhar o navio assim que o tire a baía.

—aceitaste a aposta?

—O que diz? Não. O mais provável é que o faça. Mas não navegaste seriamente pela baía até que fica estado %parado.

Ethan não o faria, pensou ela, observando suas mãos grandes e competentes sobre o leme. O navegava limpamente.

—Lembrança quando você e sua família estavam construindo o balandro. —Grace passou os dedos pelo leme e continuou—: A primeira vez que salísteis a navegar nele, eu estava dando uma mão no porto. O professor Quinn estava ao leme e você te ocupava dos cabos. Saudou-me com a mão. —Renda-se, inclinou a cabeça para lhe olhar—. eu adorei que notasse minha presença.

—Sempre notava sua presença.

Ela se elevou para lhe beijar no queixo.

—Mas procurava que eu não notasse que você a notava. —Impulsivamente, deu-lhe um mordisquito travesso na mandíbula—. Até recentemente.

—Suponho que perdi essa habilidade. —Voltou a cabeça até que sua boca encontrou a do Grace—. Recentemente.

—Me alegro. —Com uma suave risada, posou a cabeça no ombro dele—. Porque eu gosto de notar que você nota minha presença.

Não se encontravam sozinhos na baía, mas ele se mantinha afastado das raudas barcos a motor que saíam a navegar na noite estival. Um bando de gaivotas descendia e se formava redemoinhos freneticamente em torno da popa de um esquife do que uma menina lançava pão. Sua risada, alta e brilhante, mesclava-se com os chiados avaros das aves.

elevou-se a brisa, enchendo as velas e arrastando consigo o calor úmido do dia. As escassas nuvens que flutuavam pelo oeste adotavam um tom rosado pelos borde.

Era quase o momento.

Que estranho, pensou, não se sentia nervosa absolutamente. um pouco enjoada, talvez, porque notava a cabeça muito ligeira, o coração muito livre. A esperança, antigamente coveira, era de um dourado reluzente uma vez liberada.

perguntou-se se ele entraria em um dos estreitos canais onde a sombra se fazia mais espessa e a água tomava a cor do tabaco. Ele deixaria atrás as bóias que se balançavam no mar até chegar a um lugar tranqüilo no que nem as gaivotas lhes fizessem companhia.

Ethan se sentia tão contente com o Grace a seu lado que deixou que o vento escolhesse o rumo. Deveria ajustar o arranjo, pensou. Se não o fazia em seguida, as velas se arrizarían. Mas não queria apartar-se dela, ainda não.

Cheirava a seu sabão de limão, e sentia a suavidade de seu cabelo junto a sua bochecha. Assim poderia ser sua vida em comum, pensou Ethan. Momentos serenos, passeios em navio de noite. Manter-se juntos. Construir grandes sonhos a base de outros mais pequenos.

—O está passando de maravilha —sussurrou Grace.

—Mmm?

—Essa menina que dá de comer às gaivotas. —Fez um gesto em direção ao esquife, sonriendo enquanto se imaginava ao Aubrey, dentro de alguns anos, renda-se e chamando as gaivotas da popa do navio do Ethan—. Ah, olhe, aí chega seu irmão pequeno reclamando sua parte. —riu, seduzida pelos meninos—. Que imagem mais bonita, os dois juntos —murmurou, observando como ambos lançavam o pão para cima para que o apanhassem os picos ávidos das aves—. Se fazem companhia o um ao outro. Um filho único pode sentir-se muito sozinho.

Ethan fechou os olhos quando seu próprio sonho se fez pedacinhos. Ela quereria mais filhos. Os merecia. A vida não eram só belos passeios pela baía.

—Tenho que orientar as velas —lhe disse—. Quer tomar o leme?

—Já o faço eu. —Sorriu-lhe enquanto passava sob seus braços para mover-se a bombordo—. Não me esqueceu como dirigir os cabos, capitão.

Não, pensou ele, não lhe tinha esquecido. Era uma boa blusa de marinheiro, sentia-se tão a gosto em coberta como em sua própria cozinha. Atirou do equipamento de barco com a mesma soltura com que atendia a um montão de clientes no bar.

—Não há muitas coisas que não saiba fazer, Grace.

—Como? —Elevou a cabeça e logo riu—. Não é difícil saber como usar o vento quando cresceste com ele.

—te dá bem de forma natural —a corrigiu ele—. E é uma mãe maravilhosa, e uma cozinheira excelente. E sabe como fazer que a gente se sinta a gosto.

O pulso dela passou de tranqüilo a frenético. O pediria agora, depois de tudo, antes de que ela tivesse a oportunidade de pedir-lhe a ele?

—Essas são coisas com as que desfruto —comentou observando como ele a observava—. Construir um lar aqui, no St. Chris, enche-me. Você faz o mesmo, Ethan, porque te enche.

—Eu necessito este lugar —disse ele brandamente—. É o que me salvou —acrescentou, mas havia se tornado e ela não o ouviu.

Grace esperou outro instante, desejando que ele falasse, que o dissesse, que o pedisse. Logo moveu a cabeça e cruzou de novo a coberta.

O sol se afundava, aproximando-se cada vez mais a esse comprido beijo noturno da borda. A água estava calma. As pequenas ondas dançavam junto ao casco. As velas estavam enchem e brancas.

«É o momento», pensou com um salto do coração.

—Amo-te tanto, Ethan!

Ele elevou um braço para atrai-la junto a si.

—Eu também te amo, Grace.

—Sempre te amei. Sempre te amarei.

O baixou o olhar até ela e ela viu a emoção que embargava seus olhos, fazendo que o azul voltasse mais profundo. Grace elevou uma mão até a bochecha dele e a manteve ali enquanto continha o fôlego.

—Quer te casar comigo? —Viu a surpresa, como esperava, mas não notou que seu corpo se voltasse rígido enquanto continuava apressadamente—. Quero que sejamos uma família. Quero viver minha vida contigo. Quero te dar filhos. Quero te fazer feliz. Não esperamos já bastante?

E então ela aguardou, mas não viu que o lento sorriso do Ethan se estendesse por seu rosto até os olhos. Ele se limitou a olhá-la com o que lhe pareceu que podia ser horror.

Ossudas asas de pânica bateram as asas em seu estômago.

—Sei que possivelmente você tivesse planejado fazer isto de forma distinta, Ethan, e que te surpreendeu que lhe tenha pedido isso eu. Mas quero que estejamos juntos, juntos de verdade. —por que não dizia algo, gritou a mente dela. O que fora. por que limitava a olhá-la como se lhe tivesse esbofeteado?—. Não faz falta que me corteje. —Sua voz se quebrou e fez uma pausa para recuperar-se—. Não é que eu não goste das flores e os jantares à luz das velas, mas o que de verdade preciso é que você esteja aí. Quero ser sua esposa.

Temeroso de fazer-se pedacinhos se seguia vendo um momento mais esses olhos feridos e confusos, ele apartou o olhar. Suas mãos, com os nódulos brancos, seguiam no leme.

—Temos que trocar de rumo.

—Como? —Ela se voltou bruscamente, viu a expressão dura no rosto dele e o músculo que se movia em sua mandíbula. Seu coração seguia palpitando, mas já não de ilusão. Agora palpitava de temor—. Não tem nada mais que me dizer? Só que temos que trocar de rumo?

—Não, tenho coisas que te dizer, Grace. —A voz soava tão controlada como seu coração pulsava grosseiramente—. Temos que trocar de rumo e voltar para que lhe possa dizer isso Grace apretó las manos con fuerza. No sabía si apretar los puños para dar golpes o dejar que colgaran flojas y temblorosas como las de una vieja.

Ela queria lhe gritar que as dissesse nesse mesmo momento. Mas assentiu.

—Muito bem, Ethan. Voltemos.

O sol se pôs quando atracaram. Os grilos e os aguzanieves levavam a cabo seu concerto noturno, enchendo o ar com uma música estridente, muito aguda. por cima, umas quantas estrelas piscavam através da neblina e reluzia uma lua gibosa.

Tinha refrescado rapidamente, mas ela sabia que não era essa a razão pela que sentia frio, muito frio.

Ethan amarrou os cabos ele mesmo, em silêncio, Ao igual a tinha conduzido o veleiro até casa em silêncio. Retornou à embarcação e se sentou frente a ela. A lua estava ainda baixa, apenas por cima das taças das árvores, mas as primeiras estrelas proporcionavam luz suficiente para o UE Grace pudesse ver seu rosto.

Não havia alegria nele.

—Não posso me casar contigo, Grace. —Prounció as palavras com cuidado, sabendo que lhe foram causar dor—. O sinto. Não posso te dar que desejas.

Grace apertou as mãos com força. Não sabia se apertar os punhos para dar golpes ou deixar que pendurassem frouxas e trementes como as de uma velha.

—Então me mentiu quando disse que me amava?

Possivelmente seria mais clemente lhe dizer que assim era, pensou, mas logo moveu a cabeça. Não, só seria uma covardia. Ela se merecia a verdade. Toda a verdade.

—Não te menti. Amo-te de verdade.

Havia distintos graus de amor. Ela não se enganava acreditando o contrário.

—Mas não da forma que teria que amar a mulher com a que te fosses casar.

—Não poderia amar a ninguém mais do que amo a ti. Mas eu...

Ela elevou uma mão. Lhe acabava de ocorrer algo. Se essa era a razão para rechaçá-la, não acreditava se pudesse lhe perdoar nunca.

—É pelo Aubrey? É porque tive uma filha com outro homem?

Ele se movia com rapidez tão raramente que lhe surpreendeu que lhe agarrasse a mão e a apertasse com tanta força que os ossos entrechocaron.

—Eu a quero, Grace. Sentiria-me orgulhoso de que pensasse em mim como seu pai. Isso tem que sabê-lo.

—Eu não tenho que saber nada. Diz-me que me ama e que quer a minha filha, mas não nos aceita. Ethan, está-me fazendo mal.

—me perdoe, me perdoe. —Soltou-lhe a mão como se lhe queimasse a palma—. Sei que te estou fazendo mal. Sabia que isto ia acontecer. Não tinha que ter deixado que as coisas chegassem tão longe.

—Mas o tem feito —replicou ela serenamente—. Você tinha que saber o que eu sentia e que esperava que você sentisse o mesmo.

—Sim, sabia. Teria que ter sido sincero contigo, não tenho desculpa. —«Exceto te necessitava. Necessitava-te, Grace»—. O matrimônio não entra em meus planos.

—Venha já, não tome por tola, Ethan. —Deixou escapar um suspiro, muito ferida para sentir-se zangada—. A gente como nós não tem relações, não mantemos aventuras amorosas. Nos casamos e fundamos famílias. Somos gente singela e sem complicações, e, por muita graça que lhes possa fazer a algumas pessoas, assim é como somos.

Ethan se olhou as mãos. Ela tinha razão, claro. Ou a teria tido. Mas ela não sabia que ele não era uma personá singela e sem complicações.

—Não é por ti, Grace.

—Ah, não? —A dor e a humilhação se confundiram em seu interior. imaginou que Jack Casey poderia haver dito o mesmo se se tivesse tomado o tempo para dizer algo antes de abandoná-la—. Se não ser por mim, então por quem é? Aqui não há ninguém mais.

—É por mim. Não posso fundar uma família por minha origem.

—Como que sua origem? Sua origem é a parte sul da borda oriental do St. Christopher. Você procede do Raymond e Stella Quinn.

—Não. —Elevou o olhar—. Eu procedo dos fedorentos baixos recursos de Washington e Baltimore, e de muitos outros sítios para levar a conta. Eu procedo de uma puta que se vendia a si mesmo, e a mim, por uma garrafa ou uma dose. Você não sabe de onde venho. Nem o que fui.

—Sei que procede de um lugar horrível, Ethan. —Agora falou com ternura, com a intenção de aliviar a brutal dor dos olhos dele—. Sei que sua mãe, sua mãe biológica, era uma prostituta.

—Era uma furcia —a corrigiu Ethan—. Prostituta é uma palavra muito poda.

—Vale. —Com cautela, porque via mais que dor, ela assentiu lentamente. Havia também uma fúria igual de violenta—. antes de vir aqui suportou o que nenhum menino teria que ter que suportar na vida. Mas isso foi antes de que os Quinn lhe oferecessem esperança, amor e um lar. E te fez dele. Converteu-te no Ethan Quinn.

—Isso não troca o sangue.

—Não compreendo o que quer dizer.

—Claro, joder, como vais entender o? —O soltou como um projétil, quente e perigosamente afiado. Como podia sabê-lo ela?, pensou furioso. Ela tinha crescido sabendo quem eram seus pais, e os pais de seus pais, sem ter que questionar-se nunca a herança que lhe tinham irradiado, o legado que tinha recebido deles.

Mas saberia; antes de que ele terminasse de falar, saberia o que ele queria dizer. E com isso terminaria tudo.

—Ela era uma mulher grande. Nas mãos saio a ela..., nos pés e na longitude de meus braços. —olhou-se esses braços, esses punhos que se apertaram sem que se desse conta—. Não sei de onde tirei o resto porque não acredito que ela soubesse tampouco quem era meu pai. Tão somente um cliente com o que teve má sorte. Não se livrou de mim porque já tinha tido três abortos e lhe dava medo arriscar-se outra vez. Isso é o que me disse.

—Isso é uma crueldade.

—Por Deus santo! —Incapaz de permanecer sentado por mais tempo, incorporou-se e saltou ao mole para caminhar por ele.

Grace lhe seguiu mais devagar. deu-se conta de que ele tinha razão em uma coisa. Ela não conhecia esse homem que se movia com passos rápidos e espasmódicos, com os punhos apertados como se fora capaz de usá-los violentamente contra algo que se cruzasse em seu caminho.

Assim que se manteve apartada.

—Era um monstro. Um puto monstro. Pegava-me até me deixar sem sentido, tão quando acreditava ter uma razão como quando simplesmente lhe dava por aí.

—meu deus, Ethan! —Incapaz de fazer outra coisa, ela se aproximou dele.

—Não me toque! —Não estava seguro do que podia fazer se lhe punha as mãos em cima nesse preciso momento. E isso lhe aterrorizava—. Não me toque! —repetiu.

Ela deixou que as mãos vazias caíssem aos lados e tratou de conter as lágrimas que desejavam derramar-se.

—Uma vez teve que me levar a hospital —continuou—. Suponho que lhe dava medo que morrera. Foi então quando nos transladamos de Washington a Baltimore. O médico fez muitas perguntas sobre como podia me haver caído pelas escadas e acabar com comoção cerebral e um par de costelas rotas. Eu estava acostumado a lhe dar voltas a por que não me abandonava. Mas então conseguiu ajuda familiar por mim e além assim tinha alguém a quem poder pegar. Acredito que com essas razões bastavam. Até que fiz oito anos. —Deixou de mover-se e ficou quieto, olhando-a. Havia em seu interior tanta raiva que quase podia sentir como lhe abrasavam os poros; sua amarga ascensão lhe picava na garganta—. Então foi quando lhe ocorreu que mais valia que ganhasse a vida. Levava no negócio o tempo suficiente para saber onde encontrar homens aos que não gostavam das mulheres. Homens que pagavam por deitar-se com meninos.

Ela não podia falar, nem sequer quando se levou uma mão ao pescoço para empurrar as palavras, qualquer palavra, para fora. Só pôde ficar onde estava, com o rosto mudado à luz da lua crescente e os olhos muito abertos e cheios de horror.

—A primeira vez, lutas. Lutas como se sua vida dependesse disso, e uma parte de ti não acredita que vá acontecer de verdade. Não pode acontecer. Dá igual a saiba o que é o sexo porque leva toda sua vida em seu feio bordo. Não sabe o que é isso, não pode acreditar que seja possível. Até que acontece. Até que não pode impedir que aconteça.

—Ai, Ethan! Ai, Meu deus, Meu deus! —Ela começou a chorar por ele, pelo menino, por um mundo onde existiam tais horrores.

—Tirou vinte dólares, deu-me dois. E me converteu em um puto.

—Não! —negou Grace, soluçando impotente—. Não!

—Eu queimei o dinheiro, mas isso não serve de nada. Deu-me um par de semanas, e logo me vendeu de novo. A segunda vez também luta. Mais duro que a primeira, porque agora sabe, agora crie. E segue lutando, uma e outra vez, sempre o mesmo pesadelo até que acaba te dando por vencido. Agarra o dinheiro e o esconde porque um dia terá suficiente. Então a matará e irá. Deus sabe que desejas matá-la mais inclusive do que desejas partir.

Ela fechou os olhos.

—Fez-o? .

Ele distinguiu a aspereza do tom de voz e tomou por asco e não pela intensa raiva que era. A raiva por ele, junto à violenta esperança de que o tivesse feito. Oxalá o tivesse feito.

—Não. Passa o tempo e se converte em sua vida. Isso é tudo. Nem mais nem menos. É sua vida e te limita a vivê-la.

O apartou o olhar para dirigi-la à casa, onde brilhavam luzes nas janelas. A música, CAM ao violão, chegava arrastada pela brisa, uma bela melodia.

—Vivi essa vida até que tive doze anos e um dos homens aos que me tinha vendido se voltou louco. Golpeou-me com bastante força, mas isso não era nada fora do normal. O tipo devia ir de subidón e logo se foi a por ela. Destroçaram o sítio, fizeram tanto ruído que um par de vizinhos, que normalmente não se metiam em nada, chatearam-se até o ponto de bater na porta. O tinha a mãos em torno do pescoço dela —recordou Ethan—. E Eu estava atirado no chão, lhes olhando, vendo como os olhos dela se abriam mais e mais. E pensava: «Oxalá a mate. Oxalá a mate em meu lugar». Ela agarrou uma faca e o cravou ao tipo. O cravou pelas costas justa no momento em que os vizinhos jogavam a porta abaixo. A gente gritava e gritava. Lhe tirou a carteira ao bode aquele enquanto se sangrava no chão. E se foi correndo. Nem sequer se voltou a me olhar. —encolheu-se de ombros e se voltou—. Alguém chamou à polícia e me levaram a hospital. Não sei muito bem como foi, mas aí é onde terminei. Médicos, policiais e os serviços sociais —disse brandamente— me perguntavam coisas, tomando nota das respostas. Suponho que foram atrás dela, mas nunca a encontraram.

Caiu no silêncio, por isso só se escutava o ruído da água na borda, os sons dos insetos, as notas do violão. Mas ela não disse nada, consciente de que ele não tinha terminado.

Ainda não.

—Stella Quinn se encontrava em Baltimore em um congresso médico e estava visitando os pacientes como doutora convidada. deteve-se junto a minha cama. Suponho que olhou meu histórico, não recordo. Só recordo que estava ali, que apoiou as mãos na barra da cama e me olhou.— Seus olhos eram amáveis, não suaves mas sim amáveis. Falou-me. Não emprestei atenção ao que disse, só ao tom de sua voz. Voltou muitas vezes. Em ocasiões, Ray ia com ela. Um dia me disse que se queria, podia ir a casa com eles.

ficou em silêncio uma vez mais, como se tivesse chegado ao final. Mas Grace só podia pensar que o momento em que os Quinn lhe ofereceram um lar tinha sido o princípio.

—Ethan, me rompe o coração ao te escutar. Agora sei que por muito que eu quisesse e admirasse a seus pais todos estes anos, não era suficiente. Eles lhe salvaram.

—Sim, salvaram-me —assentiu—. E desde que tomei a decisão de viver, fiz tudo o que pude para ser alguém que honrasse esse ato e a eles.

—Você é o homem mais honrado que conheço, e sempre o foste. —aproximou-se dele, envolveu-lhe em seus braços e apertou forte apesar de que os braços dele não corresponderam ao gesto—. me Deixe te ajudar —sussurrou—. me Deixe estar contigo, Ethan. —Elevou o rosto e apertou seus lábios contra os dele—. me Deixe te amar.

O se estremeceu, rompeu-se. Os braços se elevaram em torno dela com ferocidade. Sua boca aceitou o consolo que ela oferecia. balançou-se com ela, em seu abraço, na salvação que lhe brindava um mar enfurecido.

—Não posso fazer isto, Grace. Não é bom para ti.

—Você é bom para mim. —Ela se aferrou a ele quando ele a teria afastado—. Nada do que me contaste troca o que sinto. Nada poderia trocá-lo. Só faz que te ame mais.

—me escute. —As mãos dele não tremiam, e a agarraram firmemente para apartá-la—. Não posso te dar o que necessita, o que desejas, o que merece. Matrimônio, filhos, família.

—Eu não...

—Não me diga que não necessita essas coisas. Eu sei que sim.

Ela tomou ar e foi soltando pouco a pouco.

—Necessito-as contigo. Necessito uma vida contigo.

—Eu não posso me casar contigo. Não posso te dar filhos. Jurei-me não me arriscar a lhe transmitir a um filho o que queira que tenha que ela em mim.

—Não há nada dela em ti.

—Sim, há-o. —Seus dedos apertaram mais por um momento—. Você o viu aquele dia, no bosque, quando tomei contra uma árvore como um animal. Você o viu quando te gritei por trabalhar em um bar. E eu o vi muito freqüentemente quando alguém me tira de minhas casinhas. Que o mantenha sob controle não quer dizer que não esteja aí. Não posso intercambiar votos de matrimônio contigo ou conceber um filho contigo. Amo-te muito para te deixar acreditar que isso pode acontecer alguma vez.

—Ela te deixou cicatrizes não só físicas —murmurou Grace—. Em realidade, foi seu espírito o que mais danificou. E eu posso te ajudar a que sãs por completo.

O a sacudiu levemente, com ternura.

—Não me está escutando. Não está ouvindo o que te estou dizendo. Se não poder aceitar como têm que ser as coisas entre nós, compreenderei-o. Nunca te culparei por te afastar e procurar o que deseja com outra pessoa. O melhor para ti é que eu te deixe ir. E é o que estou fazendo.

—Que me deixe ir?

—Quero que vá a casa. —Soltou-a e se tornou para trás. Sentiu como se tivesse entrado em um enorme e escuro vazio—. Quando o pensar a fundo, verá as coisas a minha maneira. Então poderá decidir se deveríamos seguir nos vendo como até agora ou se preferir que te deixe em paz.

—Eu desejo...

—Não —a interrompeu—. Agora você não sabe o que desejas. Necessita tempo, e eu também. Prefiro que vá. Não te quero aqui neste momento, Grace.

Ela se levou uma mão à têmpora.

—Que não me quer aqui?

—Agora não. —O esticou a mandíbula quando viu a dor que alagava os olhos dela. Era por seu próprio bem—. Vete a casa e me deixe solo um momento.

Ela deu um passo atrás e logo outro. Depois se voltou e correu. Rodeou a casa para não entrar nela. Não podia suportar que ninguém a visse com lágrimas nas bochechas e essa horrível dor que lhe rasgava o coração. Só podia pensar que ele não ia viver com ela. Ethan não permitiria que Grace fora o que ele necessitava.

—Né, Grace! Grace! —Seth deixou de procurar as vaga-lumes que reluziam e brilhavam na escuridão e correu atrás dela—. agarrei mais ou menos um milhão destes insetos. —Elevou um pote para mostrar-lhe —¡Maldito seas! Le has hecho daño. Venga, hazme daño a mí. No te resultará tan fácil. —Mostrando los dientes, Seth le golpeó otra vez, y otra más, hasta que Ethan le agarró por el cuello de la camisa y la parte trasera del pantalón y lo sostuvo colgando sobre el mar, en el extremo del embarcadero.

Então viu as lágrimas, ouviu-as na respiração entrecortada dela quando tratava de abrir a porta do carro.

—O que acontece? por que chora? Está ferida?

Ela soltou ar com um soluço e se levou a mão ao coração. «Ai, sim, sim, estou ferida», pensou, mas em lugar disso respondeu:

—Não passa nada. Tenho que ir a casa. Não posso..., não posso ficar.

Abriu rapidamente a porta do carro e se meteu dentro.

Os olhos do Seth passaram de confusos a furiosos enquanto a via afastar-se. Ardendo de raiva, rodeou correndo a casa detrás deixar o pote reluzente na esquina do alpendre. Viu a sombra no mole e se aproximou com os punhos fechados, preparados para a batalha.

—Bode, hijoputa! —Esperou até que Ethan se voltou e então lhe afundou um punho no estômago com toda sua força—. A tem feito chorar.

—Já sei. —A recente dor física lhe sacudiu por inteiro e se uniu ao resto—. Não é teu assunto, Seth. Entra em casa.

—Maldito seja! Tem-lhe feito mal. Venha, me faça machuco . Não te resultará tão fácil. —Mostrando os dentes, Seth lhe golpeou outra vez, e outra mais, até que Ethan lhe agarrou pelo pescoço da camisa e a parte traseira da calça e o sustentou pendurando sobre o mar, no extremo do embarcadero.

—te acalme, ouve-me?, ou te atiro à água. —Deu-lhe uma sacudida forte, para lhe ameaçar, mas sem verdadeiras intenções—. Te crie que eu queria lhe fazer danifico? Crie que me resultou agradável fazê-lo?

—Então, por que o tem feito? —gritou Seth, debatendo-se como um peixe apanhado no anzol.

—Não me ficou outra opção. —Sentindo-se de repente horrivelmente cansado, Ethan pôs ao menino de pé no mole—. me Deixe solo —murmurou, e se sentou no bordo. Dando-se por vencido, pôs a cabeça entre as mãos e se apertou os olhos com os dedos—. Simplesmente me deixe sozinho.

Seth moveu os pés. Não era só Grace quem sofria. Realmente não tinha compreendido que um homem adulto podia sofrer também, não dessa forma. Mas Ethan sofria. Indeciso, Seth deu um passo adiante. meteu-se as mãos nos bolsos e logo as tirou. Moveu os pés. Suspirou. Logo se sentou.

—As mulheres —começou a dizer com uma voz equânime e meditada— fazem que um homem deseje pegar um tiro na cabeça e acabar contudo.

Era algo que tinha ouvido que Phillip dizia ao CAM e lhe pareceu que podia ser apropriado. sentiu-se recompensado quando Ethan deixou escapar uma breve risada, embora não fora de alegria.

—Sim, suponho que sim. —Ethan lhe aconteceu um braço pelo ombro e o atraiu a seu lado. E recebeu certo consolo.

 

Anna sopesou suas prioridades... e se tomou o dia livre. Não estava segura da hora a que chegaria Grace para ocupar-se da casa e não podia arriscar-se a não coincidir com ela.

Importava-lhe um cominho o que dissesse Ethan, ou o que não dissesse. achavam-se ante uma crise.

Se ela acreditasse que só tinham tido uma briga ou um mal-entendido, lhe teria feito graça ou se teria mostrado compassiva, o que fora mais apropriado. Mas não era um mal-entendido o que tinha cheio os olhos do Ethan de desolação. Ah, sabia ocultá-lo, pensou Anna enquanto arrancava lenta e implacavelmente as más ervas que ameaçavam as begônias do pátio dianteiro. E ele ocultava muito bem seus sentimentos mais íntimos. Mas ela era uma perita quando se tratava de filtrar as coisas até chegar às emoções.

Pior para ele se lhe havia meio doido uma assistente social como cunhada.

Anna se tinha trabalhado um pouco ao Seth. Não lhe cabia nenhuma dúvida de que o moço sabia algo.

Mas se tinha topado com uma inquebrável lealdade masculina. Quão único tirou dele foi o típico encolhimento de ombros dos Quinn e a cremalheira arremesso na boca.

Teria podido lhe enrolar para tirar-lhe Mas não se havia sentido capaz de fazer nada que afetasse a esse maravilhoso vínculo. Seth podia guardar-se sua lealdade para o Ethan.

Ela se trabalharia ao Grace.

Estava segura de que fazia dias que não se viam. Resultava-lhe lastimosamente singelo estar a par do que fazia Ethan. Saía a mariscar todas as manhãs e pelas tardes ia ao estaleiro. Quase não jantava e logo se retirava a seu quarto, onde, em várias ocasiões, ela tinha visto luz sob a porta até altas horas da noite.

Ethan sofria, pensou sacudindo a cabeça impacientemente. E se não passava o tempo sofrendo, o passava procurando briga.

Durante o fim de semana, Anna tinha impedido que os três irmãos chegassem às mãos quando entrou no estaleiro e os encontrou com os punhos em alto enquanto Seth olhava com ávido interesse.

Não descobriu a causa, pois se topou com o mesmo muro de unidade masculina. Quão único recebeu por sua preocupação foram encolhimentos de ombros e grunhidos.

Bom, pois isso ia se acabar, decidiu, e atacou outra má erva com entusiasmo. As mulheres sabiam como compartilhar e comentar os problemas. E embora tivesse que lhe dar ao Grace Monroe na cabeça com a pá de jardim, esta ia compartilhar e comentar, vamos que sim.

Agradou-lhe ouvir o som do carro do Grace, que estava estacionando. tornou-se para trás o chapéu, incorporou-se e lhe ofereceu um sorriso de bem-vinda.

—Olá.

—Olá, Anna. Pensava que estaria trabalhando.

—Tomei-me o dia livre por minha saúde mental. ——«Ah, sim, angústia aqui também», pensou. E não tão bem escondida como a do Ethan—. Hoje não trouxeste para o Aubrey.

—Não. Hoje a queria minha mãe. —Grace passou uma mão pela asa da grande bolsa que tinha pendurado de um ombro—. Bom, mais vale que comece e te deixe com a jardinagem.

—Estava procurando uma desculpa para tomar um descanso. por que não nos sentamos um minuto no alpendre?

—A verdade é que teria que pôr a primeira carga na máquina de lavar roupa.

—Grace. —Anna lhe pôs uma mão brandamente no braço—. Sente-se. me fale. Eu lhe conto entre meus amigas. Espero que você me conte entre as tuas.

—Como não! —A voz do Grace fraquejou. Teve que tomar ar três vezes para serenar-se—. Como não, Anna!

—Então nos sentemos. me conte o que aconteceu para lhes fazer a ti e ao Ethan tão desgraçados.

—Não sei se puder. —Mas se sentia cansada, cansada até a medula, assim que se sentou nos degraus—. Suponho que o danifiquei tudo.

—Como?

Tinha chorado até ficar seca, pensou Grace. Não é que lhe tivesse servido. Talvez a ajudaria comentar as coisas com outra mulher, uma com a que começava a ter confiança.

—Permiti-me assumir certas coisas —começou—. Me permiti fazer planos. Ethan me trouxe flores —disse fazendo um pequeno gesto de impotência com as mãos.

—Que te levou flores? —Os olhos da Anna se entreabriram um pouco. De maneira que coelhos, e uma mierda, pensou, mas tomou nota para um futuro castigo.

—E me levou a jantar. Velas e vinho. Pensei que me ia pedir que me casasse com ele. Ethan faz as coisas passo a passo, e pensei que estava preparando o terreno para uma proposta de matrimônio.

—É obvio. Estão apaixonados. O adora ao Aubrey e lhe quer muitíssimo. Ambos são pessoas que constróem lares. por que não teria que pensá-lo?

Grace ficou olhando-a um momento, e depois deixou escapar um comprido suspiro.

—Não imagina o que significa para mim te ouvir dizer isso. Senti-me tão tola...

—Bom, já vale. Não é tola. Eu não o sou e a mim também me ocorreu.

—Pois ambas nos equivocamos. Não me pediu isso. Mas me fez o amor essa noite com tal ternura, Anna... Nunca acreditei que alguém pudesse sentir tanto por mim. E logo teve um pesadelo.

—Um pesadelo.

—Sim. —E agora o compreendia—. Foi má, muito má, mas ele fingiu que não. Disse-me que não me preocupasse e lhe tirou importância. Assim já não pensei mais nisso. Então... —Reflexivamente, esfregou-se um moratón que se feito na coxa ao tropeçar com uma mesa no bar—. Ao dia seguinte decidi que, se me sentava a esperar que Ethan me propor matrimônio, o dia de minhas bodas teria o cabelo grisalho. Não é que Ethan se mova rápido na vida, precisamente.

—Não, absolutamente. Faz as coisas quando ele acredita que deve as fazer, e as faz bem. Mas não lhe viria mal um empurrãozinho de vez em quando.

—Verdade que sim? —Não pôde conter uma cálida e melancólico sorriso—. Às vezes se pensa as coisas até o aborrecimento. E eu acreditei que esta ia ser uma dessas vezes, por isso decidi pedir-lhe eu.

—Que pediu ao Ethan que se casasse contigo? —Anna riu tornando-se para trás nos degraus—. Bem feito, Grace!

—Tinha-o tudo pensado. Tudo o que ia dizer e como dizê-lo. Pensei... no mar, onde se encontra mais a gosto, assim que lhe pedi que me levasse a passear em navio ao entardecer. Foi maravilhoso, o sol se estava pondo e as velas brilhavam desdobradas. Então o pedi.

Anna deslizou uma mão em uma das do Grace.

—Deduzo que te rechaçou. Mas...

—Foi mais que isso. Se tivesse visto seu rosto... voltou-se muito frio. Disse-me que me daria uma explicação ao voltar para terra. E o fez. Não me parece bem lhe contar isso Anna, porque são assuntos deles. Mas me disse que não pode casar-se contnigo, que não vai se casar comigo nem com ninguém. Jamais.

Anna não disse nada durante um momento. Ela tinha o caso atribuído do Seth, o que significava que tinha tido acesso completo aos expedientes dos três homens que figuravam como seus tutores. Conhecia seu passado quase tão bem como eles mesmos.

—É pelo que lhe aconteceu quando era pequeno?

Os olhos do Grace piscaram, logo ficou olhando à frente.

—Contou-lhe isso?

—Não, mas sei, quase tudo. É parte de meu trabalho.

—Sabe... o que sua mãe, essa mulher, fez-lhe, e deixou que outras pessoas lhe fizessem? Não era mais que um menino.

—Sei que lhe obrigou a manter relações com clientes durante vários anos até que lhe abandonou. Ainda há cópias dos relatório médico em seu expediente. Sei que foi violado e que lhe tinham dado uma surra quando Stella Quinn o encontrou no hospital. E sei o que esse tipo de trauma, esse abuso contínuo, pode produzir. Ethan poderia haver-se convertido em um abusador. É um ciclo tristemente comum.

—Mas não o fez.

—Não, converteu-se em um homem pensativo e considerado, com um controle a toda prova. As cicatrizes seguem aí, sob o controle. É possível que a relação contigo tenha feito que algumas delas se aproximem mais à superfície.

—Não permite que lhe ajude, Anna. Lhe colocou na cabeça que não pode arriscar-se a ter filhos porque leva o sangue de sua mãe. Mau sangue que passaria a seus descendentes. Não quer casar-se porque, para ele, o matrimônio implica uma família.

—equivoca-se, e seu próprio espelho é o melhor exemplo de até que ponto. Ele não só leva o sangue dela, mas também passou os primeiros doze anos de sua vida, os mais impressionáveis, com ela, em um ambiente que poderia perverter qualquer mente infantil. Em lugar disso, ele é Ethan Quinn. por que deveriam seus filhos, filhos que procederiam de vós dois, ser menos do que ele é?

—Oxalá me tivesse ocorrido lhe dizer isso —murmurou Grace—. Me indignou tanto, senti-me tão triste e tão alterada... —Fechou os olhos—. Mas acredito que não teria trocado nada embora o houvesse dito. Não estava disposto a me escutar. A mim não —disse lentamente—. Ele não acredita que eu seja o suficientemente forte para viver com o que ele teve que viver.

—equivoca-se.

—Sim, equivoca-se. Mas está decidido. Já não me quer. Diz-me que a eleição é minha, mas lhe conheço. Se lhe disser que aceito e seguimos como até agora, consumirá-lhe por dentro até fazer que se afaste.

—Pode aceitá-lo você?

—Perguntei-me isso, levo dias lhe dando voltas. Amo-lhe tanto que até desejo possivelmente me conformar com isso, ao menos por algum tempo. Mas isso me consumiria também. —Negou com a cabeça—. Não, não posso aceitá-lo. Não posso aceitar só uma parte dele. E não vou pedir ao Aubrey que aceite nada, exceto um pai.

—Muito bem. E agora, o que vais fazer a respeito?

—Não sei se houver algo que eu possa fazer. Não quando os dois necessitamos coisas distintas.

Anna soprou.

—Grace, você é quão única pode decidir. Mas me deixe te dizer que CAM e eu não chegamos ao altar flutuando sobre asas de gaze. Os dois queríamos coisas distintas, ou isso pensávamos. E para averiguar o que queríamos juntos, fizemo-nos mal, tocamo-nos os narizes do lindo o um ao outro e lutamos com isso.

—Ao Ethan resulta difícil lhe tocar os narizes.

—Mas não impossível.

—Não, impossível não, mas... Não foi sincero comigo, Anna. por cima de tudo, isso é o que não posso esquecer. Deixou-me tecer meus sonhos, sabendo todo o tempo que ia cortar os fios e me deixar cair. Ele o lamenta, sei, mas igualmente...

—Está zangada.

—Sim, suponho que sim. Já houve outro homem que me tem feito o mesmo: meu pai —acrescentou com frieza—. Eu queria ser bailarina, e ele sabia que eu tinha depositado minhas esperanças nesse sonho. Não posso dizer que me animasse nunca, mas me permitiu seguir desejando e assistindo a aulas. E quando necessitava que tomasse partido e me ajudasse a tentar alcançar esse sonho, cortou os fios. Perdoei-lhe, ou o tentei, mas as coisas nunca tornaram a ser o que eram. Depois, fiquei grávida e me casei com o Jack. Suponho que se poderia dizer que isso cortou os fios a ele e não me perdoou nunca.

—tentaste esclarecer coisas com ele?

—Não, não o tenho feito. O também me ofereceu a possibilidade de optar, como Ethan. Ou, ao menos, o que eles consideram uma possibilidade de optar. Faz as coisas a sua maneira. Ou o aceita ou passas sem eles. Pois passo sem ele.

—Isso o entendo. Mas embora isso possa proteger seu orgulho, o que faz a seu coração?

—Quando a gente te rompe o coração, o único que fica é o orgulho.

E o orgulho, pensou Anna, sem coração pode voltar-se frio e amargo.

—Deixa que fale com o Ethan.

—Falarei eu assim que dita o que tenho que lhe dizer. —Soltou ar e acrescentou—: Me sinto melhor. Dizer essas coisas em voz alta me sentou bem. E não havia ninguém mais a quem pudesse contar-lhe Cuando llegó a la cocina, le dolía la espalda, pero era un dolor leve y gratificante. Su piel lucía una fina capa de sudor, tenía las manos arrugadas del agua de fregar y se sentía tan realizada como el presidente de una gran empresa tras una importante jugada financiera.

—Importam-me os dois.

—Sei. Tudo vai bem. —Deu a Anna um pequeno apertão na mão e logo ficou de pé—. Já não me sinto tão chorosa. Ódio me sentir assim. Agora vou liberar me dessa raiva que não sabia que sentia. —Conseguiu sorrir e continuou—: Quando terminar, te vai ficar a casa como os jorros do ouro. Quando me sinto furiosa, limpo como uma maníaca.

«Não te libere de toda a raiva —pensou Anna enquanto Grace entrava na casa—. te Guarde uma parte para o idiota do Ethan.»

Ao Grace levou duas horas e meia esfregar, esclarecer, limpar o pó e polir os quartos do primeiro piso. Passou-o mal no dormitório do Ethan, onde sua essência, o aroma de mar, permanecia no ambiente, e onde se achavam pulverizadas as pequenas peças de sua vida cotidiana.

Mas o superou, atirando desse mesmo núcleo de aço que lhe tinha permitido superar um divórcio e uma dolorosa desavença familiar. Trabalhar lhe veio bem, como sempre. O trabalho físico são e enérgico a mantinha ocupada de mãos e mente. A vida continuava. Sabia por experiência. Tudo consistia em tomá-los dias de um em um.

Ela tinha a sua filha. E tinha seu orgulho. E ainda ficavam seus sonhos, embora tinha chegado ao ponto de considerá-los mais como planos.

Podia viver sem o Ethan. Não de um modo tão pleno, possivelmente, nem tão feliz, seguro. Mas podia viver, ser útil e encontrar satisfação no caminho que se forjou para si e para sua filha.

acabaram-se as lágrimas e a autocompasión.

ficou a limpar a planta baixa com o mesmo zelo implacável. Abrilhantou os móveis até que reluziram. Esfregou as janelas até as deixar impolutas. Pendurou a penetrada, varreu os alpendres e lhe plantou batalha à sujeira como se fora um inimigo que ameaçasse apoderando-se da terra.

Quando chegou à cozinha, doía-lhe as costas, mas era uma dor leve e lhe gratifiquem. Sua pele luzia uma fina capa de suor, tinha as mãos enrugadas da água de esfregar e se sentia tão realizada como o presidente de uma grande empresa depois de uma importante jogada financeira.

Olhou o relógio, calculou o tempo. Queria terminar e partir antes de que Ethan retornasse de trabalhar. A pesar do efeito purgante do trabalho, seguia fervendo em seu coração uma ardente brasa de aborrecimento. conhecia-se si mesmo o bastante bem para ser consciente de que só se requeria um pequeno sopro para que se elevasse em altas chamas.

Se brigava com ele, se lhe dizia tão somente uma mínima parte das coisas que lhe tinham passado pela cabeça nos últimos dias, nunca poderiam voltar a estar em bons términos, e muito menos conservar sua amizade.

Não obrigaria aos Quinn a tomar partido. E tampouco queria arriscar-se a pôr em seu perigo apreciada e valiosa relação com o Seth só porque dois adultos não podiam controlar seu gênio.

—E tampouco vou perder meu trabalho por isso —murmurou enquanto limpava as encimeras—. Só porque ele não é capaz de ver o que está desprezando.

Soltou ar com um vaio e se passou os dedos pelo cabelo, que estava molhado nas têmporas pelo calor e o esforço. Logo se acalmou lhes dando aos queimadores da velha cozinha uma boa esfregada.

Quando soou o telefone, agarrou-o sem pensar.

—Diga?

—Anna Quinn?

Grace olhou pela janela e viu a Anna, que passava o tempo alegremente no jardim traseiro.

—Não, vou A...

—Tenho algo que te dizer, hijaputa.

Grace se deteve dois passos da porta.

—Como?

—Sou Glória DeLauter. Quem coño te crie que é? Como te atreve a me ameaçar?

—Eu não...

—Eu tenho direitos, ouve-me? Tenho meus putos direitos. O velho fez um trato comigo e se você e seu bastardo de marido e seus bastardos irmãos não o mantêm, arrependerão-lhes.

A voz não era só dura e áspera, pensou Grace. Era uma voz de maníaca, as palavras saíam tão depressa que se atropelavam umas a outras. Essa era a mãe do Seth, pensou enquanto lhe soavam no ouvido mais comentários desagradáveis. Essa era a mulher que lhe tinha feito mal, a que lhe tinha assustado. A que tinha recebido dinheiro por ele.

A que lhe tinha vendido.

Grace não se dava conta de que estava retorcendo o cabo do telefone na mão, que o tinha enrolado tão apertado que lhe mordia a carne. Lutando por acalmar-se, inspirou profundamente.

—Senhorita DeLauter, está cometendo um engano.

—Você é a que cometeu um engano, joder, ao me mandar essa puta carta em lugar do dinheiro que me devem. Devem-me esse puto dinheiro. Chá crie que me vou assustar porque seja uma gilipollas de assistente social? Importa-me uma mierda, como se fosse a puta reina da puta a Inglaterra. O velho está morto, e se quiser que as coisas sigam como estão, terá que tratar comigo. Crie-te que pode me manter a raia com umas palavras escritas em uma folha de papel? Você não me vais deter se eu dito voltar e me levar a menino.

—equivoca-se —Grace se ouviu si mesmo dizendo isso, mas a voz soava longínqua, e reverberava em sua cabeça. _

—O é carne de minha carne e tenho direito a me levar o que me pertence.

—Tente-o. —A raiva a atravessou como uma tempestade—. Não lhe voltará a pôr as mãos em cima nunca mais.

—Eu posso fazer o que me dê a vontade com o que é meu.

—Ele não é dele. Você o vendeu. Agora é nosso, e você não voltará a aproximar-se dele.

—O menino fará o que eu lhe diga. Sabe que, se não, pagará-me isso.

—Como lhe ocorra aproximar-se dele, destroçarei-a com minhas próprias mãos. Nada do que lhe tem feito, por muito monstruoso que seja, aproxima-se do que lhe vou fazer eu a você. Quando terminar, logo que ficará o suficiente para recolhê-la e colocá-la em um calabouço. Aí é onde acabará por abuso infantil, negligência, assalto, prostituição e o que chamem uma mãe que vende a seu próprio filho com fins sexuais.

—Mas que mentiras foi contando esse pirralho? Eu nunca lhe pus a mão em cima.

—Cale-se! Cale-se de uma vez, joder! —Grace se tinha perdido, tinha misturado à mãe do Seth e a do Ethan em uma só pessoa. Um só monstro—. Sei o que lhe fez, e, em minha opinião, não há uma jaula o suficientemente escura em que encerrá-la. Mas encontrarei uma e a colocarei eu mesma nela se voltar a aproximar-se dele.

—Eu só quero dinheiro. —Agora se percebia certa vacilação na voz, de uma vez matreira e um pouco assustada—. Só um pouco de dinheiro para sair do passo. Vós têm muito.

—Para você não tenho nada mais que desprezo. Mantenha-se afastada daqui, e mantenha-se afastada desse menino, ou me pagará isso.

—Pensa-o bem. pense-lhe isso muito bem. —ouviu-se um som amortecido, logo o choque do gelo contra um copo—. Você não é melhor que eu. Não me dá medo.

—Mais vale que o tenha. Teria que estar aterrorizada.

—Eu..., eu não terminei com este assunto.

—Para nada!

O ruído que se produziu ao pendurar se ouviu muito forte.

—Possivelmente não —comentou Grace com voz suave e perigosa—. Mas eu tampouco.

—Glorifica DeLauter —murmurou Anna. achava-se justo ao outro lado da porta, onde levava dois minutos.

—Não acredito que essa mulher seja humano. Se tivesse estado aqui, nesta habitação, lhe teria jogado as mãos ao pescoço e a teria afogado tranqüilamente. —Começou a tremer, pois a raiva bulia em seu interior—. Teria podido matá-la, ou ao menos o teria tentado.

—Já sei o que se sente. Resulta duro pensar que alguém como ela é uma pessoa e não um objeto. —Anna abriu a porta de um empurrão, sem deixar de olhar a seu amiga. Nunca tivesse esperado ver essa raiva candente em uma mulher tão aprazível—. O vejo muito freqüentemente em meu trabalho, mas nunca me acostumo.

—Era tão espantosa... —Grace se estremeceu—. Acreditava que eu era você quando agarrei o telefone. Ao princípio tentei dizer-lhe mas não quis me escutar. Não fazia mais que gritar, ameaçar e soltar tacos. Não podia deixar que se fora de rositas. Não pude suportá-lo. Sinto muito.

—Não importa. Por isso pude ouvir da conversação, eu diria que o levaste muito bem. Quer te sentar?

—Não, não posso. Não posso me sentar. —Fechou os olhos, mas continuava vendo uma cegadora névoa vermelha—. Anna, há dito que vai voltar para levar-se ao Seth a menos que lhe dêem dinheiro.

—Isso não vai acontecer. —Anna foi à geladeira e tirou uma garrafa de vinho—. Te vou servir uma taça. Lhe vais beber isso, devagar, enquanto procuro um caderno. Logo quero que me conte o que há dito da forma mais precisa possível. Pode fazê-lo? _

—Sim, lembro-me bem.

—Estupendo. —Anna olhou o relógio—. Terá que documentá-lo tudo. Se voltar, temos que estar preparados.

—Anna —Grace baixou o olhar à taça de vinho que lhe tinha servido—, Seth não deve sofrer mais. Não deve ter medo nunca mais.

—Sei. E nos vamos assegurar de que não o tenha. Agora volto.

Anna lhe fez repassar a conversação Telefónica duas vezes. Enquanto a revisavam pela segunda vez, Grace se sentiu incapaz de seguir sentada. ficou de pé, deixando a taça pela metade, e agarrou uma vassoura.

—Sua forma de dizer as coisas era tão infame como o que dizia —comentou a Anna enquanto ficava a varrer—. Ela deve ter usado esse mesmo tom com o Seth. Não sei como pode haver gente que lhe fale assim com um menino. —Logo sacudiu a cabeça—. Mas para ela ele não é um menino. Para ela ele é uma coisa.

—Se fosse chamada a atestar, poderia declarar sob juramento que ela exigiu dinheiro?

—Várias vezes —assentiu Grace—. Chegará a isso, Anna? Terão que fazer passar ao Seth por um processo legal?

—Não sei. Se as coisas forem nessa direção, poderíamos acrescentar extorsão à lista de cargos que você lhe soltaste. Deve havê-la assustado —acrescentou com um pequeno sorriso de satisfação—. me teria assustado.

—As coisas me saem sem pensar quando algo me tira de gonzo.

—Compreendo-te. A mim há muitas coisas que eu gostaria de lhe dizer, mas em minha posição, não posso. Ou não deveria —acrescentou com um comprido suspiro—. vou passar isto ao ordenador para o expediente do Seth e logo suponho que terei que lhe escrever outra carta a essa mulher.

—por que? —Os dedos do Grace apertaram mais forte o pau da vassoura—. por que tem que ter mais contato com ela?

—CAM e seus irmãos têm que saber, Grace. Precisam saber exatamente o que eram Glória DeLauter e Seth para o Ray.

—A gente se equivoca no que anda comentando. —Os olhos do Grace cintilaram enquanto tirava uma camurça do armário das vassouras. Não lhe acabava de passar a fúria que lhe fervia por dentro—. O professor Quinn não teria enganado a sua esposa. Adorava-a.

—Eles precisam conhecer todos os fatos, e Seth também.

—Eu vou dar um fato. O professor Quinn era um homem de bom gosto. Nunca teria cuidadoso duas vezes a uma mulher como Glória DeLauter, a menos que fora com compaixão ou com asco.

—CAM diz o mesmo. Mas outra coisa que anda dizendo a gente é que quando olham ao Seth vêem os olhos do Ray Quinn.

—Bom, seguro que há outra forma de explicá-lo. —Os olhos do Grace ardiam enquanto guardava a vassoura e o trapo com brutalidade e tirava um cubo e uma faxineira.

—Talvez. Mas possivelmente tenhamos que nos enfrentar ao feito de que os Quinn puderam passar por uma má rajada em seu matrimônio, como acontece freqüentemente. Possivelmente terei que assumi-lo. As aventuras extramaritales são inquietantemente normais.

—Importam-me um pimiento essas estatísticas que se ouvem na televisão ou se lêem em revistas sobre o fato de que três de cada cinco homens, ou o que seja, enganam a suas mulheres. —Grace verteu detergente no cubo, pô-lo na pia e abriu o grifo da água a batente—. Os Quinn se amavam e se gostava como pessoas. admiravam-se. Não podia estar com eles sem notá-lo. Os filhos só serviram para uni-los mais. Quando os via os cinco juntos, via uma família. Ao igual a vós cinco formam uma família.

Comovida, Anna sorriu.

—Bom, estamos nisso.

—É que vós não levam tantos anos como os Quinn. —Grace tirou o cubo da pia—. Eles formavam uma unidade.