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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


MUSASHI – Vol I / Yoshikawa, Eiji
MUSASHI – Vol I / Yoshikawa, Eiji

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MUSASHI

Volume I

 

 

A Terra - A Água

 

O GUIZO

 “E depois de tudo, céu e terra aí estão, como se nada tivesse acontecido. A esta altura, a vida e as ações de um homem têm o peso de uma folha seca no meio da ventania... Ora, que vá tudo para o inferno!”, pensou Takezo.

Estirado imóvel entre os mortos, ele próprio mais parecendo um cadáver, resignava-se com o destino.

“É inútil tentar mover-me agora...”

Na realidade, estava exausto. Takezo ainda não se dera conta, mas devia ter algumas balas alojadas no corpo.

Desde a noite anterior, ou mais precisamente desde a noite de 14 de setembro do ano V do período Keicho (1600) até essa madrugada, uma chuva torrencial castigara a região de Sekigahara, e agora, já passado o meio-dia, as densas e baixas camadas de nuvens ainda não se haviam dissipado. Da massa escura que vagava pela encosta do monte Ibuki e pela serra de Mine, a chuva caía intermitente e branca, cobrindo uma área de quase quinze quilômetros, lavando as marcas da violenta batalha.

E essa chuva desabava ruidosa sobre o rosto de Takezo e os corpos ao redor. Como uma carpa esfaimada, Takezo abria a boca aparando com a língua a água que lhe escorria pelas abas das narinas.

“Água para um moribundo...” O pensamento veio-lhe à mente entorpecida.

A coalizão ocidental, da qual fizera parte o seu exército, fora derrotada. A fragorosa queda tivera início no momento em que Kobayakawa Hideaki traíra os seus até então aliados e, em ousada manobra, juntara seu exército aos orientais, retornando em seguida sobre os próprios passos e avançando contra os postos de seus antigos aliados, Ishida Mitsunari, Ukita, Shimazu e Konishi.

Em apenas meio dia definiu-se o detentor do poder no país. Aquela batalha havia decidido o destino não só de milhares de combatentes, cujos paradeiros eram ignorados, como também o das futuras gerações, de filhos e netos daqueles homens.

“E também o meu...”, pensou Takezo. De súbito, vieram-lhe à mente as imagens da sua única irmã e dos anciãos que havia deixado em sua terra. Por que não sentia nada, nem mesmo tristeza? Morrer seria isso?, perguntou-se. Naquele instante, a dez passos de distância, uma forma em tudo semelhante a um cadáver ergueu repentinamente a cabeça entre os corpos de soldados aliados e gritou:

—Take-yaaan!

O grito, chamando-o pelo diminutivo familiar, pareceu despertar Takezo do estupor. Seus olhos procuraram ao redor. Era o companheiro Matahachi.

Em busca de fama e glória, empunhando apenas uma lança, haviam partido juntos da aldeia natal e combatido lado a lado nesse campo, integrando as tropas de um mesmo suserano. Tinham ambos dezessete anos.

— Mata-yan? É você? — respondeu. Em meio à chuva, tornou a voz:

— Você está bem, Take-yan?

Juntando toda a força que lhe restava, Takezo gritou:

— É claro! Não vou deixar ninguém me matar! Nada de morrer à toa, está me ouvindo, Mata-yan?

— Nunca, diabos!

Momentos depois, Matahachi surgiu ao lado do amigo arrastando-se com dificuldade e agarrou sua mão, dizendo bruscamente:

— Vamos fugir!

Em resposta, Takezo atraiu para si a mão do companheiro, advertindo-o:

— Não se mexa, finja-se de morto! O perigo ainda não passou!

Mal acabara de falar, um ribombo surdo começou a sacudir o solo em que repousavam as cabeças. Fileiras de reluzentes cavalos negros varriam o centro do campo de Sekigahara e precipitavam-se em direção aos dois jovens.

Ao vislumbrar a bandeira, Matahachi apavorou-se:

— São soldados de Fukushima!

Notando a agitação do amigo, Takezo agarrou-o pelo tornozelo, arrastando-o de volta ao chão:

— Quer morrer, idiota?

No instante seguinte, patas enlameadas de numerosos cavalos — levando em seus dorsos guerreiros inimigos em armaduras, brandindo lanças e espadas — transpunham suas cabeças com passos cadenciados e se afastavam a galope.

Deitado de bruços, Matahachi permaneceu imóvel; Takezo porém fixava, olhos arregalados, os ventres das dezenas de animais que destemidamente passavam sobre sua cabeça.

Ao que tudo indicava, a chuva torrencial dos dois últimos dias marcara o fim das tempestades de outono. Nessa noite, 17 de setembro, não havia nuvens no céu e a lua fulgurava, parecendo fixar irada os seres na terra, inspirando até mesmo certo temor.

— Você consegue andar?

Passando o braço de Matahachi pelos ombros, Takezo caminhava, amparando-o. Preocupava-o a respiração ofegante do companheiro soando junto ao seu ouvido.

— Você está bem? Agüente um pouco mais! — repetia Takezo, de tempos em tempos.

— Estou bem — respondia Matahachi, obstinado. Seu rosto, contudo, estava mais pálido do que o luar.

Duas noites vagando pelos vales pantanosos do monte Ibuki, alimentando-se de nozes e vegetais, haviam provocado eólicas em Takezo e grave diarréia em Matahachi.

Era perigoso encetar a caminhada de retorno à terra natal em noite de luar, clara como aquela: mesmo vitoriosos, os partidários de Tokugawa obviamente não se descuidariam e estariam naquele momento à caça dos derrotados da batalha de Sekigahara, os generais fugitivos Ishida, Ukita e Konishi, entre outros. Takezo, porém, optara pelo retorno, de um lado porque Matahachi — atormentado por excessivo mal-estar — dizia já nem se importar em ser capturado, e de outro porque considerava total incompetência de sua parte esperar sentado por seus captores. E assim caminhava ele agora amparando o amigo, rumo aonde parecia situar-se a pousada de Tarui.

Matahachi arrastava-se a custo, usando uma lança como cajado.

— Desculpe, sou um estorvo, Take-yan. — Apoiado ao ombro do amigo, repetia as mesmas palavras inúmeras vezes com a voz embargada.

— Pare com isso — repreendeu-o Takezo. Depois de uma curta pausa, porém, acrescentou: — Quem lhe deve desculpas sou eu. Mas veja: quando ouvi dizer que os suseranos Ukita e Ishida Mitsunari se preparavam para entrar em guerra, pensei: “Que bela oportunidade!” Pois sei que o senhor Shinmen Igamori, a quem meu pai serviu antigamente, é vassalo da casa Ukita. Calculei portanto que — embora eu seja filho de um simples goushi[1]— seria admitido em seu quadro de samurais em consideração a esse antigo relacionamento e participaria desta guerra, bastando me apresentar a ele com uma lança na mão. Sonhava vencer um general em luta e exibir o grande feito à gente da nossa terra, que me considera um imprestável; queria também que Munisai, meu falecido pai, se orgulhasse de mim lá em seu túmulo... Eram esses os meus sonhos.

— É isso mesmo... os meus também — apoiou-o Matahachi.

— Foi por isso que procurei você, meu amigo de infância, e convidei-o a partir em minha companhia. No entanto, sua mãe me repreendeu duramente por achar a idéia absurda; como se não bastasse, sua noiva Otsu, do templo Shippoji, e minha irmã, juntas e banhadas em lágrimas, vieram tentar me dissuadir. “A guerra não é para você. Fique em sua própria terra e aja como um verdadeiro filho de goushi!”, disseram-me. Até dou-lhes razão. Afinal, somos ambos filhos únicos, insubstituíveis.

— É verdade.

— Ainda assim, achei que não valia a pena dar ouvidos a conselhos de mulheres e idosos, e segui em frente, lançando-me à aventura. Mas ao chegar aos quartéis da casa Shinmen descobri que o senhor Shinmen Igamori, apesar de ter sido amo de meu pai, não me acolheria com facilidade em seu quadro de samurais. Aboletei-me na frente do quartel e implorei por um posto, nem que fosse na infantaria, com a insistência de um vendedor ambulante, e por fim cheguei às linhas de frente. Mas só consegui que me designassem para trabalhos de sentinela ou de picador: em vez da lança, empunhei uma foice com muito maior freqüência. Não tive a oportunidade de matar sequer um simples samurai, que dizer de um general! E, no final, veja a situação em que ficamos. Sua mãe e Otsu nunca me perdoarão se eu deixá-lo morrer nestas condições.

— Mas ninguém vai culpá-lo por isso, Take-yan. Perdemos a batalha, era essa a nossa sina, e tudo se transformou numa confusão dos diabos. Se algum culpado existe, é Kobayakawa Hideaki, o traidor, e eu o odeio!

 

Passados instantes, viram-se os dois em pé, à beira de uma área descampada. Até onde o olhar abrangia, avistava-se apenas uma vasta extensão de mata que parecia ter sido devastada por um furacão. Não havia luzes nem casas, não era essa a região pretendida.

— Onde estamos? Examinaram o lugar mais uma vez.

— Conversamos demais e parece que erramos o caminho — murmurou Takezo.

— Aquele não é o rio Kuise? — perguntou Matahachi, ainda amparado ao ombro do amigo.

— Mas então, foi por aqui que se travou a grande batalha de anteontem, quando as tropas do nosso general Ukita enfrentaram as do general oriental Fukushima, bem como as do traidor Kobayakawa e as de Ito e Honnosei!

— Será? Nesse caso, devo ter corrido como um louco por toda esta área... Estranho, não consigo me lembrar de nada.

Takezo apontou com o dedo:

— Olhe ao redor.

Nas moitas à beira do descampado ou nas águas leitosas do rio, onde quer que o olhar caísse, jaziam corpos de soldados aliados e inimigos, ainda insepultos. Um soldado mergulhara de cabeça numa moita, outro tombara de costas expondo o dorso às águas do rio, outro ainda rolara preso a seu cavalo. À luz do luar, mesmo sem os vestígios de sangue que a chuva ininterrupta de dois dias havia lavado, exibiam a pele lívida e alterada, testemunhas eloqüentes do violento combate travado nesse dia.

— Escute os grilos... parece até que estão chorando.

Sobre o ombro de Takezo, Matahachi soltou um suspiro profundo, doentio. Não eram só os grilos que choravam — também dos olhos de Matahachi escorriam lágrimas, deixando em seu rosto dois sulcos brilhantes.

— Se eu morrer, cuidará da minha Otsu pelo resto da sua vida, Take-yan?

— Que bobagem é essa, homem? De onde tirou essa idéia, tão de repente?

— Talvez eu morra.

— Não comece a se lamuriar. Ânimo, não se deixe abater.

— Acho que os parentes cuidarão de minha mãe, mas Otsu é sozinha no mundo. Ela é uma pobre enjeitada, abandonada muito nova por um samurai errante que passou uma noite no templo Shippoji. Falo sério, Take-yan: se eu morrer, cuide dela por mim.

— Por que alguém morreria de uma simples diarréia? Ânimo, homem! — encorajou-o Takezo. Agüente mais um pouco, resista. Quando encontrarmos uma casa de lavradores, peço remédios e vejo se consigo um lugar confortável para você se deitar.

Na estrada que ligava Sekigahara a Fuwa existiam pousadas e aldeias. Takezo avançava com cautela.

Pouco além, depararam outra vez com um grande número de cadáveres. Ao que parecia, uma unidade inteira tinha sido aniquilada nesse local. Muito embora a visão de um cadáver já não despertasse sentimentos de revolta ou pena, algo espantou Takezo e fez com que também Matahachi estacasse surpreso, abafando um grito.

Por entre os cadáveres amontoados, um vulto se ocultara com a agilidade de uma lebre. O luar deixava os arredores claros como dia. Fixando-se o olhar, percebia-se o dorso de um vulto acocorado.

“Um bandoleiro?” — foi o pensamento que lhes ocorreu. Mas surpreendentemente tratava-se de uma garota aparentando treze ou catorze anos, usando quimono de mangas curtas e arredondadas, com a cintura presa por

uma faixa de tecido — obi — estreita e rota, porém do melhor brocado. A menina, oculta entre os cadáveres, por sua vez fixava nos dois vultos, desconfiada, olhos vivos semelhantes aos de um felino.

 

A guerra terminara, realmente, mas soldados caçadores de prêmios estariam vasculhando a região à procura de sobreviventes, e o campo do recente combate parecia ainda guardar o lúgubre lamento dos mortos estirados por toda a parte. Que pretendia portanto a menina, sobretudo à noite, oculta no meio dos cadáveres, sozinha ao luar?

Takezo e Matahachi continham a respiração, observando por instantes, com desconfiança, os modos da menina. Após curta pausa, Takezo chamou alto:

— Ei, você!

O súbito movimento dos olhos grandes mostrou que a menina estava prestes a fugir.

— Não fuja! Ei, só quero uma informação! — acrescentou depressa, porém tarde demais. A garota era espantosamente rápida e já tinha disparado na direção oposta à deles, sem ao menos olhar para trás. Ao movimento da sombra que se afastava parecendo dançar ao luar, o som de um guizo, talvez atado ao obi ou à manga do quimono, soou límpido e zombeteiro, deixando no ar uma estranha reverberação.

— Que era aquilo?

Takezo perscrutava imóvel a fina névoa noturna. A seu lado, Matahachi estremeceu.

— Seria um espectro?

— Acho que não — discordou Takezo, rindo. — Ela desapareceu entre aquelas duas colinas. Deve haver uma pousada por perto. Era isso o que eu pretendia perguntar, e não assustá-la...

Ao alcançarem o ponto entre as colinas, avistaram realmente as luzes de uma casa para os lados em que os cômoros na base do monte Fuwa se estendem para o sul. Desse ponto, caminharam ainda cerca de dez quilômetros e enfim se aproximaram. A casa era uma construção solitária cercada por um muro de barro e tinha um portal velho guarnecendo a entrada, detalhes que a distinguiam de uma casa de lavradores. Passando pelo portal de pilares podres — e de onde as portas havia muito tinham desaparecido —, viram surgir em meio ao mato as portas cerradas da construção principal. Takezo bateu levemente:

— Boa noite, sei que é tarde e sinto incomodar, mas peço ajuda a um doente. Não pretendo trazer-lhes aborrecimentos.

Por momentos, não houve resposta. A menina avistada anteriormente parecia confabular com alguém no interior da casa. Instantes depois ecoaram ruídos por trás da porta. Esperavam que esta se abrisse mas, em vez disso, uma voz perguntou vivamente:

— Vocês são sobreviventes da batalha de Sekigahara, não são? Era a garota.

— Somos. Pertencemos às forças do general Ukita e fazemos parte da infantaria do exército de Shinmen Igamori.

— Nesse caso, não posso ajudar. Dar abrigo a sobreviventes é crime. Você diz que não pretende trazer-nos aborrecimentos, mas vai acabar trazendo.

— Se é assim, paciência!

— Procurem um outro lugar.

— Vou-me embora, então, mas meu companheiro está sofrendo com uma diarréia muito forte. Você não lhe daria um remédio, por favor?

— Se for só isso...

Pareceu considerar a questão por instantes, mas logo passos acompanhados pelo som de um guizo afastaram-se para os fundos da moradia: a menina fora consultar alguém.

No instante seguinte, um rosto surgiu numa das janelas. Uma mulher, com certeza a proprietária da casa e que teria estado à espreita havia já algum tempo, disse:

— Abra a porta, Akemi. São fugitivos, sem dúvida, mas as autoridades não estão interessadas em investigar soldados rasos. Não há com que se preocupar, dê abrigo a eles.

A rotina dos dois refugiados, ocultos no casebre que servia como depósito de lenha, girava em torno de cuidados com a saúde: Matahachi permanecia em repouso e curava a diarréia ingerindo periodicamente doses de carvão em pó e uma cocção de arroz e alho-poró. Takezo desinfetava com um saque de baixa qualidade o ferimento provocado por uma bala em sua coxa.

— Fico imaginando como ganham a vida as pessoas desta casa — disse Matahachi.

— Não importa, a ajuda que nos dão veio em boa hora—replicou Takezo.

— A dona da casa é jovem ainda... Não sei como tem coragem de viver sozinha com uma menina num lugar tão deserto — insistiu Matahachi.

— A menina não lembra sua Otsu, do templo Shippoji?

— Lembra sim, e é uma belezinha... Mas não consigo compreender o que ela fazia perambulando no meio da noite por um campo de batalha cheio de cadáveres: o lugar era repugnante até para nós!

— Escute... o guizo! — Takezo apurou o ouvido e disse: — A menina Akemi se aproxima.

O ruído de passos cessou à porta do casebre. Batidas soaram, leves como bicadas de um pica-pau:

— Matahachi-san, Takezo-san — chamou uma voz.

— Pronto! — respondeu Takezo no mesmo instante.

— Sou eu, Akemi, trouxe-lhes um pouco de papa de arroz.

— Ora, muito obrigado.

Levantando-se da esteira, Takezo destrancou a porta. Akemi trazia uma bandeja com frutas e remédios.

— Como vão vocês? — perguntou Akemi.

— Como vê, estamos quase curados, graças à sua ajuda — respondeu Takezo cerimoniosamente.

— Mamãe recomenda que não conversem em voz alta nem se mostrem aqui fora, mesmo depois de sararem — advertiu Akemi.

— Obrigado pelo conselho.

— Os senhores Ishida Mitsunari e Ukita Hideie, generais fugitivos do campo de Sekigahara, ainda não foram presos. Dizem, por isso, que as buscas andam intensas nesta região — acrescentou Akemi.

— Entendo.

— Embora vocês sejam simples soldados rasos, seremos punidas se descobrirem que os escondemos aqui.

— Compreendi.

— Boa noite, então, e até amanhã.

Com um sorriso, Akemi pretendia retirar-se quando Matahachi a deteve:

— Akemi-san, fique um pouco mais, vamos conversar.

— Não posso — respondeu Akemi.

— Mas por quê?

— Minha mãe se zanga.

— Só quero fazer-lhe algumas perguntas. Por exemplo, quantos anos você tem?

— Quinze.

— Quinze? Você é miúda para a idade, não?

— Que tem a ver com isso?

— Onde está seu pai?

— Morreu.

— Do que vivem vocês?

— Quer saber a nossa profissão?

— Isso mesmo.

— Somos vendedoras de moxa.

— Ah, é verdade — disse Matahachi — a moxa produzida nesta região é famosa.

— Na primavera, colhemos ervas nas montanhas e as secamos durante o verão; no inverno, nós as transformamos em moxa, que vendemos nas hospedarias de Tarui.

— Está certo! É um trabalho conveniente para mulheres.

— É só isso que queria saber?

— Apenas mais uma pergunta, Akemi-san.

— Diga.

— Naquela noite — a noite em que batemos à sua porta pela primeira vez — o que fazia você no meio daquele campo cheio de soldados mortos?

— Não é da sua conta!

Akemi bateu a porta que se fechou com um estrondo, e afastou-se correndo em direção à construção principal, o guizo retinindo ao movimento das mangas.

 

O COGUMELO VENENOSO

Com quase um metro e oitenta de altura, Takezo era excepcionalmente alto e assemelhava-se a um veloz potro de raça. Tinha braços e pernas longos, lábios vermelhos e as espessas sobrancelhas, de traçado mais longo do que o normal, ultrapassavam o canto externo dos olhos conferindo-lhes determinação.

“Boa safra”!

Em sua infância assim o chamavam, zombando, os aldeões da vila Miyamoto, em Sakushu. Devido ao excepcional comprimento das pernas e braços, bem como às generosas proporções de seus olhos, nariz e boca, o povo da aldeia sugeria que Takezo era fruto de uma boa safra.

Matahachi também pertencia ao grupo dos “boas-safras”. Era porém um pouco mais baixo e de compleição mais robusta. Seu tórax era largo e, quando falava, os olhos protuberantes moviam-se inquietos no rosto arredondado.

Ele andara espionando, com certeza, pois trazia novidades:

— Ei, Takezo, sabe que a viúva costuma se pintar e se embonecar todas as noites? — segredou.

Eram ambos jovens. Quando Takezo, com seu vigoroso físico em pleno desenvolvimento, se recuperou dos ferimentos à bala, Matahachi já não suportava a vida de grilos reclusos que levavam no úmido e escuro depósito de lenha.

Assim, o forasteiro que passou a freqüentar a ala principal da residência — e que, sentado à beira do fogo, entoava cantigas populares, ria e fazia rir com gosto a viúva Okoo e a pequena Akemi — só podia ser Matahachi, cujo vulto já não se via durante o dia no depósito de lenha. Aos poucos, Matahachi passou também a não dormir no casebre à noite.

Vez ou outra aparecia à porta do depósito de lenha, hálito recendendo a saque:

— Saia daí, Takezo — dizia, tentando atraí-lo para fora do casebre. A princípio, Takezo se recusava, repreendendo-o:

— Idiota, somos fugitivos, lembra-se?—ou ainda: — Não gosto de beber. Com o passar do tempo, porém, seus escrúpulos foram sendo vencidos pelo tédio.

— Esta área é segura? — perguntou. Saíra do casebre pela primeira vez em 20 dias e, espreguiçando-se com gosto, bocejou fixando o olhar no céu azul.

— Não devemos abusar da hospitalidade alheia, Matahachi. É hora de voltar para a nossa terra — disse.

— Concordo. Mas a viúva e a filha afirmam que está havendo rigorosa investigação nas barreiras de inspeção[2] das estradas que levam a Ise e à capital. Acham que é mais seguro continuarmos escondidos, ao menos até a época das primeiras neves.

— Não me parece que esteja tentando se esconder quando fica sentado à beira do fogo bebericando saque, Matahachi.

— Ora, você se preocupa demais. Fique sabendo que dias atrás, quando surgiu por aqui um bando de samurais a mando de Tokugawa — aliás muito irritados por ainda não terem conseguido prender o general Ukita, último dos generais foragidos — quem os recebeu e os rechaçou fui eu. É muito mais seguro agir assim do que viver escondido no depósito, tremendo a cada vez que se ouvem passos.

— É, pode ser que você tenha razão.

Os argumentos não o convenceram, mas Takezo acabou por concordar e, a partir desse dia, transferiu-se também para a construção principal.

Longe de se aborrecer, a viúva ficou contente porque os jovens traziam mais animação à casa, e aceitou com prazer o novo arranjo.

— Um dos dois devia se casar com a minha Akemi e vir morar para sempre conosco — brincou, divertindo-se com o constrangimento que provocava nos jovens ingênuos.

 

A encosta da montanha, nos fundos da casa, era recoberta por um denso pinheiral. Levando um cesto nas mãos, Akemi ia vasculhando as raízes dos pinheiros.

— Achei, achei mais um, venha ver! — gritava com ingênuo entusiasmo a cada vez que, atraída pelo aroma característico, descobria mais um cogumelo de pinheiro.

A poucos passos de distância, Takezo também se acocorava sob a copa de uma árvore.

— Também achei!

O sol de outono, filtrado pelas agulhas dos pinheiros, tremeluzia em minúsculas ondas de luz sobre os dois vultos.

— Vamos ver quem colheu mais? — desafiou Akemi.

— Eu, é claro!

Mergulhando as mãos no cesto de Takezo, Akemi eliminou impiedosamente os cogumelos de espécies diferentes.

— Não vale! Este não é, este também não, este outro é venenoso. Está vendo? Colhi muito mais que você! — gabou-se.

— Vai começar a escurecer. Que acha de irmos embora? — perguntou Takezo.

— Só porque perdeu a aposta — troçou Akemi. Seus pés, ágeis como os de um faisão, já a levavam à frente descendo a trilha. Repentinamente imobilizou-se, empalidecendo.

Pela encosta da montanha aproximava-se um homem, cruzando o bosque em largas passadas. Dele emanavam impressionante selvageria e agressividade, visíveis nas sobrancelhas espessas e ferozes, nos lábios grossos e arreganhados, na enorme espada rústica, armadura em cota de malha e indumentária de pele com que cobria o corpo. Os olhos esbugalhados moveram-se em direção à jovem.

— Akebô! — chamou, usando rude diminutivo, e se aproximou. Sorria, exibindo dentes amarelados. O rosto de Akemi, porém, não era mais que uma pálida máscara de pavor. — Sua mãe está em casa? — indagou o homem.

— Está — respondeu Akemi, trêmula.

— Quando chegar lá, dê um recado a ela. Diga que eu soube por aí que ela anda ganhando uns trocados a mais, escondendo-os de mim. Que qualquer dia desses apareço para cobrar a minha parte.

Akemi permanecia muda.

— Se pensam que não fico sabendo, enganam-se. O sujeito que comprou a mercadoria de vocês me informou em seguida. E você também, fedelha, não andou perambulando todas as noites pelos campos de Sekigahara? — trovejou.

— Não, não andei.

—Diga a sua mãe: nada de brincadeiras, ou as expulso daqui, compreendeu? Cravou um olhar feroz no rosto da menina e afastou-se a seguir na direção do pântano, parecendo gingar ao peso do próprio corpo.

— Quem é esse? — perguntou Takezo, desviando o olhar do vulto que se afastava e voltando-se para Akemi. Seu rosto tinha uma expressão solidária.

— Tsujikaze, da aldeia de Fuwa — respondeu Akemi num sopro de voz, a boca ainda trêmula.

— É um bandoleiro, estou certo?

— Sim.

— Por que o homem estava tão irritado? Akemi não respondeu.

— Diga, não conto a ninguém. Ou é algo que nem a mim pode contar? Após breve e constrangido momento de silêncio, Akemi jogou-se repentinamente contra o peito de Takezo.

— Não conte mesmo a ninguém! — pediu.

— Confie em mim.

— Naquela noite... você ainda não adivinhou o que eu fazia?

— Não.

— Eu estava saqueando.

— Como assim?

— Quando a guerra acaba, saio a campo e roubo dos samurais mortos qualquer coisa que tenha valor — espadas, punhais, saquinhos de sachê.... Morro de medo, mas precisamos viver e, se eu não for, minha mãe se zanga.

 

O sol ainda ia alto. Convidando Akemi, Takezo sentou-se no meio do mato. A solitária casa perdida nos pântanos de Ibuki era visível entre os pinheiros no declive logo adiante.

— Então essa história de viver da venda de moxa feita com ervas colhidas nestes pântanos era mentira?

— Minha mãe é uma pessoa de hábitos caros, sabe, e vender moxa não nos rende o suficiente para viver.

— Seu pai era mercador?

— Chefe de um grupo de bandoleiros — respondeu Akemi, o olhar traindo até mesmo uma ponta de orgulho — mas foi assassinado por Tsujikaze Tenma, o homem que há pouco passou por aqui. O povo, ao menos, diz que foi ele.

— Quê, assassinado?

Akemi assentiu em silêncio. Dos olhos brotaram lágrimas que escorreram sem que a própria menina se desse conta. Takezo não gostava muito de Akemi porque, apesar de miúda e não aparentar os quinze anos, expressava-se como um adulto. Além disso, seu comportamento vez ou outra deixava entrever uma surpreendente astúcia. No entanto, ao notar as lágrimas que brotavam entre os espessos cílios, Takezo sentiu sua fragilidade e, ao mesmo tempo, vontade de protegê-la, envolvendo-a com força em seus braços.

Akemi não fora criada segundo padrões normais de educação. Acreditava cegamente não existir no mundo profissão melhor que a do pai, um bandoleiro. Okoo sem dúvida a criara na crença de que tudo se justificava em nome da sobrevivência — até mesmo as cruéis ações de um frio bandoleiro, muito mais desumanas que as de um ladrão vulgar.

Na verdade, no decorrer do longo período de guerras, o bandoleirismo transformara-se em única opção de trabalho para os rounin, samurais errantes sem emprego ou suserano, indolentes e destemidos por natureza. Era uma realidade aceita pelo povo. Os senhores feudais, por seu lado, deles se aproveitavam durante as guerras, contratando-os para incendiar campos inimigos, espalhar boatos desorientadores ou roubar os cavalos dos adversários. Caso não fossem procurados para esses serviços, restavam ainda aos bandoleiros diversas outras opções: saquear cadáveres, assaltar sobreviventes, reclamar o prêmio pela cabeça de um guerreiro famoso cujo cadáver encontrassem abandonado num campo de batalha, cada guerra proporcionando-lhes meios para sobreviver ociosamente por quase um ano.

Até mesmo a pacata população de lavradores e lenhadores, embora impedida de trabalhar a terra quando a guerra eclodia nas imediações de seus povoados, conhecia o gosto do lucro fácil proveniente da exploração das sobras de guerra.

Em conseqüência, os bandoleiros profissionais eram intransigentes na defesa de seus domínios. Imperava em seu meio uma lei inflexível estabelecendo sanções aos que se aventurassem a invadir seus territórios. Tais sanções assumiam, invariavelmente, a forma de cruéis execuções.

— E agora, o que faço? — Akemi estremeceu, horrorizada com essa lembrança. — Tenho certeza de que asseclas de Tsujikaze nos procurarão. E se vierem...

— Se vierem, recebo-os com meus cumprimentos, não se preocupe — respondeu Takezo.

Enquanto desciam a montanha, o crepúsculo invadia mansamente o pântano. O fogo para aquecer a água do banho já fora aceso e sua fumaça se espalhava pelo alpendre da casa, rastejando sobre as espigas rosadas das eulálias. A viúva Okoo, como sempre arrumada para a noite, esperava em pé junto ao portão dos fundos. Ao avistar os vultos de Akemi e Takezo que chegavam lado a lado, repreendeu a menina com inusitada dureza na voz e no olhar:

— Por onde andou até tão tarde, Akemi?

Absorto em pensamentos, Takezo não percebeu, mas a garota era particularmente sensível aos humores da mãe. Sobressaltou-se e, ruborizada, afastou-se correndo.

 

A viúva Okoo estava furiosa:

— Por que não me contou de uma vez? — ralhava com Akemi no dia seguinte, ao tomar conhecimento do encontro com Tsujikaze Tenma. A viúva abriu armários, gavetas e o depósito e, juntando artigos neles armazenados, comandou:

— Ajudem-me aqui. Quero esconder tudo isto no forro da casa.

— Pode deixar.

Matahachi subiu ao forro e Takezo, em pé sobre um banco entre Okoo e Matahachi, intermediou o transporte dos objetos.

Takezo ter-se-ia espantado, não o tivesse Akemi posto a par do assunto no dia anterior. A quantidade de objetos amealhados no decorrer de um período talvez longo era grande. Havia desde espadas curtas a pontas de lanças, braços de armaduras, abas de elmo, pequenos relicários, terços, mastros de bandeira e, entre os objetos mais volumosos, até uma sela ricamente adornada de madrepérolas, ouro e prata.

— Acabou? — perguntou Matahachi, espreitando do forro.

— Só mais este.

Okoo tomou a peça que restava, uma espada moldada na madeira rija e escura de carvalho, medindo aproximadamente um metro e vinte. Takezo tomou-a nas mãos. Apreciou a envergadura, experimentou o peso e a rigidez da arma, e não se sentiu capaz de soltá-la.

— Dê-me esta espada, oba-san — pediu.

— Quer mesmo?

— Muito!

Okoo não disse claramente que dava, mas assentiu com um sorriso que lhe conferiu covinhas ao rosto.

Matahachi desceu do forro parecendo bastante enciumado.

— Olhem o coitadinho, ficou amuado! — zombou Okoo, presenteando-o com um colete de couro enfeitado com botões de ônix. Matahachi, no entanto, não ficou muito contente.

Todas as tardes, desde o tempo em que o marido ainda vivia, Okoo tinha por hábito arrumar-se para a noite, tomando banho e pintando cuidadosamente o rosto. Apreciava tomar saque ao jantar e exigia que Akemi a acompanhasse. Gostava de se exibir, sendo do tipo determinado a conservar a juventude a todo o custo.

— Venham, venham todos!

Sentou-se à beira do fogo, serviu saque a Matahachi e obrigou Takezo a empunhar também uma taça, dizendo:

— Não admito que um homem não saiba beber. Eu, Okoo, o ensinarei. E agarrando-o pelo pulso, forçava-o a beber contra a vontade. Matahachi

acompanhava seus movimentos, vez ou outra fixando em Okoo um olhar inquieto e sombrio. A viúva, ciente disso, apoiava uma mão atrevida sobre a coxa de Takezo, entoando em voz fina e melodiosa arietas populares em voga no momento.

— Esta canção revela meus sentimentos. Você compreende, Takezo-san? — indagava.

Não lhe importava que Akemi desviasse o rosto, constrangida; falava, ciente também da timidez de um dos jovens e do ciúme do outro.

— Takezo, acho que já está na hora de irmos embora — disse Matahachi em determinado momento, demonstrando crescente descontentamento.

— Para onde, Mata-san? — perguntou Okoo.

— De volta à aldeia Miyamoto, em Sakushu. Se quer saber, lá na minha terra tenho mãe e até uma noiva esperando por mim — respondeu Matachachi, ríspido.

— Ora, ora, desculpe-me, não devia tê-los acolhido. Se tem alguém esperando por você, parta sozinho, Mata-san, não quero retê-lo — respondeu a viúva, maldosa.

 

Ao correr os dedos pela espada, comprimindo-a fortemente nas mãos, Takezo era capaz de sentir, com fascínio e prazer indizíveis, a curvatura da arma em harmoniosa simetria com o seu comprimento. Nunca largava a espada de carvalho que tinha ganhado de Okoo.

À noite, dormia abraçado à arma. Ao sentir a superfície fria contra o rosto, revivia em seu sangue com toda a violência o espírito implantado pelo pai, Munisai, durante os vigorosos treinamentos no rigor do inverno.

Munisai fora a personificação da severidade, frio como as geadas de outono. Em sua infância, Takezo vivera ansiando pela presença da mãe, da qual fora afastado ainda muito novo. Pelo pai, ao contrário, não nutrira afeição: ele havia sido apenas um indivíduo temível, em cuja presença sentira desconforto. Fugira para perto da mãe, em Banshu, aos nove anos de idade, movido apenas pelo desejo de ouvir sua voz terna dizendo: “Como cresceu, querido!”

Mas Munisai havia se separado dela por motivos desconhecidos. A mãe casara-se posteriormente com um samurai de Sayogo, em Banshu, e nessa ocasião já tinha dois filhos do novo casamento.

— Vá embora, volte para a casa de seu pai, meu filho! — Ainda hoje, Takezo conseguia evocar nitidamente a imagem da mãe que assim lhe falava em prantos, abraçando-o fortemente, ambos escondidos num bosque junto a um templo deserto.

Pouco depois, fora alcançado pelos mandatários do pai, atado às costas de um cavalo em pêlo e reconduzido à aldeia Miyamoto em Mimasaka. “Atrevido, atrevido!”, vociferara Munisai, vergastando-o repetidamente. Também este episódio ficara marcado indelevelmente no espírito infantil.

— Não a procure nunca mais; caso contrário, não respondo por mim — ameaçara o pai.

Decorrido certo tempo, Takezo tomou conhecimento da doença e posterior morte da mãe. De criança introvertida e sombria, repentinamente Takezo tornou-se violento, incontrolável. Até mesmo Munisai por fim calou-se, pois se erguia um bastão com a intenção de castigá-lo, Takezo o enfrentava empunhando um bordão. Chefiava o bando de desordeiros da localidade, sendo Matahachi, da mesma aldeia, o único capaz de confrontá-lo.

Aos treze anos já era quase tão alto quanto um adulto. Nessa época, surgiu numa vila próxima, à procura de oponentes para um duelo, um samurai peregrino[3] de nome Arima Kihei, portando uma placa que o anunciava como polidor de metais. Na ocasião, Takezo abateu-o num duelo realizado no interior de uma arena. Os aldeões exaltaram então sua valentia, dizendo:

— É corajoso o boa-safra Take-yan!

Contudo, ao notar no decorrer dos anos que sua violência não conhecia limites, os aldeões passaram a temê-lo e a evitá-lo:

— Aí vem Takezo, não o provoquem — diziam. Desse modo, o menino passou a sentir sobre si apenas a indiferença do povo. Também o pai em breve partiu deste mundo, mantendo-se severo e frio até o final de seus dias. Em conseqüência, a brutalidade do gênio de Takezo só aumentou.

Não fosse a presença da única irmã, Ogin, já teria sido expulso da aldeia, porque com certeza teria sido levado a praticar algum ato de caráter ultrajante, inadmissível. Aos rogos quase sempre em lágrimas dessa irmã, pelo menos, invariavelmente obedecia com docilidade.

Essa partida para a guerra juntamente com Matahachi mostrava o início de uma revolução em sua personalidade: em algum canto começava a ganhar corpo a vontade de se humanizar. No momento, porém, havia perdido o rumo outra vez. A realidade era sombria.

Não obstante, havia um lado descontraído na personalidade desse jovem, descontração que somente um período brutal como o Sengoku[4], com suas incessantes guerras, seria capaz de gerar. Seu rosto adormecido não traía a mínima preocupação com o dia seguinte. Ressonava tranqüilo, sonhando talvez com a gente de sua aldeia, ainda abraçado à espada.

— Takezo-san...

Evitando a fraca luminosidade da pequena lamparina, Okoo sentou-se à sua cabeceira.

— Como dorme!

Seu dedo tocou levemente os lábios de Takezo.

 

Com um sopro, Okoo apagou a lamparina e deitou-se silenciosamente, rente a Takezo, aproximando o corpo com um movimento ondulante, felino. O rosto branco da viúva e as roupas de dormir, vistosas demais para uma mulher da sua idade, diluíram-se na escuridão. Apenas o orvalho caía manso no peitoril da janela.

— Não é possível, ainda não percebeu! — murmurou a viúva.

Dois movimentos ocorreram então, simultaneamente: de Okoo, tentando remover a espada das mãos de Takezo, e deste, levantando-se de um salto:

— Ladrão! — berrou Takezo.

Derrubada sobre a lamparina, Okoo caiu de bruços, bateu o ombro e gritou de dor, pois Takezo torcia-lhe o braço.

— Oba-san? — exclamou Takezo, soltando o braço. — Pensei que fosse um ladrão!

— Ai, como dói! Brutamontes! — reclamou a viúva.

— Desculpe-me, é que eu não sabia...

— Ora, que é isso, não se desculpe, Takezo-san, não é preciso.

— Que... Que é isso?

— Silêncio, seu inconveniente! Não fale tão alto! Você já percebeu o carinho com que cuido de você, não é mesmo?

— Sim, e a senhora tem minha eterna gratidão por tudo que tem feito por mim.

— Não falo de sentimentos formais como gratidão, dever. Falo de emoções mais fortes, profundas e sofridas...

— Espere, espere um pouco. Já vou acender a luz.

— Maldoso!

— Ei..., oba-san!

Takezo sentia as pernas, os braços, o corpo todo tremer. Nunca, mesmo diante do pior inimigo, havia sentido tanto medo. Seu coração nunca havia palpitado tanto, nem mesmo em Sekigahara, quando se vira sob incontáveis patas de cavalos. Encolheu-se num canto do quarto e implorou:

— Vá-se embora, por favor, volte para o seu quarto. Se não for, grito por Matahachi.

Okoo não se mexeu. Parecia fixar Takezo com raiva, pois somente sua respiração se fazia ouvir no escuro. Instantes depois, falou:

— É impossível que não saiba o que eu sinto por você, Takezo-san.

— Como se atreve a me humilhar deste jeito? — gritou a viúva de repente, irritada.

— Eu, humilhar?

— Isso mesmo!

Estavam ambos exaltados. Não fosse por isso, teriam percebido que, havia algum tempo, alguém esmurrava a porta da casa. Aos poucos, o som das vozes transformou-se em alarido:

— Abram! Abram já esta porta!

A luz de uma vela moveu-se entre as folhas corrediças da porta do quarto. Era Akemi despertando. Passos soaram e Matahachi perguntou:

— Que barulheira é essa? Do corredor, Akemi chamou:

— Mãe?

Sem ter noção exata do que se passava, Okoo voltou correndo para o próprio quarto e de lá respondeu ao chamado de Akemi. Ao que parecia, os intrusos tinham arrombado a porta e invadido a casa: sondando-se a escuridão, notavam-se seis ou sete vultos corpulentos aglomerados na entrada. Uma voz em meio ao grupo bradou:

— Sou Tsujikaze. Acendam já uma luz!

 

UM PENTE VERMELHO

Os intrusos tinham planejado atacar à noite para surpreender os moradores adormecidos e invadiram a casa com os pés enlameados, sem se preocupar em descalçar as sandálias. Separados em grupos, revolviam o depósito, os armários, o vão sob o assoalho.

Aboletado à beira do fogo, Tsujikaze Tenma observava em silêncio o trabalho de seus sequazes vasculhando a casa.

— Bando de lerdos, que foi que acharam?

— Nada, chefe.

— Nada mesmo?

— Nada!

— Sei... Mas é claro, não deve ter nada escondido, com certeza. Suspendam a busca!

Okoo sentara-se na sala ao lado, as costas voltadas para o grupo de invasores. Sua atitude era de desafio, aparentando até mesmo indiferença ante o rumo dos acontecimentos.

— Okoo.

— O que você quer?

— Sirva-me ao menos um pouco de saque.

— Deve estar por aí — se quer, procure e beba por sua conta.

— Ora, que modos são esses... Eu, Tenma, estou lhe fazendo uma visita depois de tanto tempo...

— É desse jeito que você costuma visitar as pessoas?

— Calma, não fique nervosa, a culpa também é sua. O fato é que chegou seguramente aos meus ouvidos o boato de que certa viúva vendedora de moxa estava ganhando uns trocados a mais saqueando cadáveres de soldados no meu território. E onde tem fumaça, tem fogo.

— E as provas? Onde estão as provas?

— Não seja tola. Se realmente pretendesse achar provas, não teria mandado Akemi avisá-la com antecedência. Conforme dita a lei dos bandoleiros, ordenei uma busca rotineira pela casa e, desta vez, faço vista grossa. Agradeça a minha bondade.

— Agradecer, eu? Ora, quanta bobagem!

— Que acha de vir aqui e me servir um pouco de saque? Okoo não lhe deu resposta.

— Mulher cheia de caprichos! Não percebe que se aceitasse meus favores sua vida seria muito mais fácil?

— Dizem que quando a esmola é muito grande...

— Recusa?

— Tenma, você sabe por acaso quem matou meu marido?

— Ora, aí está: se quer se vingar, ponho meus modestos serviços ao seu dispor.

— Não se faça de inocente!

— Que disse?

— Comenta-se por aí, a boca pequena, que o mandante do assassinato foi você, Tsujikaze Tenma, não sabia? E embora seja mulher de bandoleiro, jamais pretendo cair tão baixo a ponto de viver às custas do assassino de meu marido.

— Cuidado com o que diz, Okoo.

Ocultando um sorriso falso, Tenma tragou de vez o saque da chávena.

— Para o bem das duas, mãe e filha, é melhor não repetir o que acaba de dizer — rosnou.

— Quando terminar de criar Akemi, acertarei contas com você, esteja certo! — replicou Okoo.

Tsujikaze ria silenciosamente, sacudindo os ombros. Bebeu em seguida todo o saque da bilha e dirigiu-se a um dos bandoleiros que se postava, lança ao ombro, num dos cantos da sala:

— Você aí: use a lança e arranque algumas folhas deste forro.

O bandoleiro andou pela sala golpeando o forro com o cabo da lança. Pelas frestas abertas rolaram armaduras e uma profusão de artigos.

— Aí está — disse Tenma, levantando-se ameaçador. — A lei dos bandoleiros é clara: arrastem esta mulher para fora da casa e matem-na!

 

Os bandidos avançaram displicentes para o aposento em que se sentava Okoo, considerando que se tratava apenas de uma mulher. Estacaram petrificados, no entanto, na entrada da sala. Aparentemente, temiam aproximar-se da viúva.

— Que se passa? Arrastem para cá essa mulher de uma vez!

Tsujikaze Tenma impacientava-se no outro cômodo. Ainda assim seus asseclas permaneciam imóveis, observando fixamente o interior do aposento e perdendo um longo tempo.

Tenma estalou a língua, impaciente, e foi pessoalmente verificar o local.

Pretendia aproximar-se de Okoo em seguida, mas também ele não conseguiu vencer o umbral da porta.

Invisíveis da sala onde ardia o braseiro, ali estavam, além de Okoo, dois jovens de aparência agressiva. Takezo empunhava a espada de carvalho negro em posição baixa, pronto a atingir e a quebrar as pernas daquele que entrasse. Matahachi posicionara-se do outro lado da porta, e segurava com ambas as mãos uma espada, mantendo-a bem alto sobre a cabeça. Aguardava, ansioso por abater a primeira cabeça que, por pouco que fosse, surgisse dentro de seu campo de visão. Akemi não estava à vista — fora certamente escondida em algum armário para evitar que se ferisse. A estratégica defesa da sala fora composta enquanto Tenma bebia aboletado à beira do fogo e, ao que tudo indicava, esse respaldo era uma das causas da calma de Okoo.

— Está claro! — rosnou Tenma, lembrando-se. — Você é o rapazote que vi, outro dia, andando pelas montanhas com Akemi. E quem é o outro?

Matahachi e Takezo aguardavam em silêncio, demonstrando claramente que preferiam ação a palavras. Uma atmosfera sinistra envolvia os dois jovens.

— Não sei de homens morando nesta casa. Presumo então que vocês sejam dois vagabundos, lixo dos campos de Sekigahara. Vou avisando: não se metam no que não lhes diz respeito, pois vão sofrer as conseqüências — vociferou Tenma.

— Sou Tsujikaze Tenma, da aldeia de Fuwa: não há quem não me conheça nas redondezas. E vocês são arrogantes demais para uma dupla de fugitivos dos campos de Sekigahara. Vão ver agora o que faço com os dois!

— Saiam! — ordenou Tenma com um gesto, dirigindo-se aos do seu bando: não queria que o estorvassem. Inadvertidamente, porém, um bandoleiro” que se afastava andando de costas caiu no braseiro cavado ao nível do assoalho e gritou. Fagulhas das toras de pinheiro elevaram-se no ar, tocaram o teto e encheram o ambiente de cinzas.

Tenma, que até então fixava imóvel a entrada da sala, rosnou:

— Malditos! — e de súbito invadiu o quarto.

— Opa! — fez Matahachi, descarregando instantaneamente a espada com toda a força dos dois braços. Mas nem toda a sua agilidade foi capaz de sobrepujar o ímpeto de Tenma: a arma de Matahachi resvalou com um tinido na ponta da espada do adversário.

Okoo permanecia em pé, agora afastada a um canto. No lugar anteriormente ocupado por ela, Takezo estava à espera, em guarda, mantendo a espada de carvalho em posição enviesada. Nesse momento, investiu visando o tórax de Tenma, jogando contra ele todo o peso do corpo num golpe violento.

A espada rasgou o ar, sibilando.

Em resposta, Tenma usou o próprio corpo lançando o peito sólido como rocha ao encontro de Takezo. Este, que nunca havia se defrontado com um indivíduo tão poderoso, tinha a impressão de ter sido agarrado por um enorme urso. Imobilizado por um forte punho em sua garganta, sentia socos atingindo-lhe a cabeça, querendo arrebentar-lhe o crânio. Com um súbito movimento do corpo, contudo, liberou de golpe o ar retido no peito: o enorme corpo de Tsujikaze Tenma projetou-se então no espaço, pernas dobradas, e foi de encontro à parede com um estrondo que abalou a casa.

 

Ao marcar uma presa, Takezo nunca permitia que ela lhe escapasse; subjugava-a a qualquer custo e jamais a abandonava mortalmente ferida, perseguindo-a até o seu aniquilamento total. Tais aspectos da personalidade de Takezo eram visíveis desde a infância. Viera ao mundo trazendo no sangue certo primitivismo ancestral, puro e selvagem, até agora intocado pela luz do saber, em estado bruto desde o nascimento. Estes mesmos aspectos teriam sido responsáveis, talvez, pela aversão que Munisai nutrira por ele. As severas punições no estilo de um bushi, impostas pelo pai, trouxeram resultado inverso: forneceram presas ao pequeno tigre. E quanto mais os aldeões o evitavam repudiando sua violência, mais vigoroso crescia, livre de peias, esse pequeno selvagem. Não lhe bastara também percorrer vales e montanhas de sua terra natal como se tudo lhe pertencesse: tivera de partir, afinal, rumo a Sekigahara em busca de um sonho ambicioso.

Para o jovem Takezo, Sekigahara representara o primeiro contato com o mundo, mas em seus campos os sonhos haviam ruído fragorosamente. Como porém nada tinha a perder, o sonho desfeito e o futuro incerto nem de leve o deixavam frustrado ou desesperado.

Nessa noite, sobretudo, deparara com uma presa inesperada: Tsujikaze Tenma, chefe de uma quadrilha de bandoleiros. Como tinha ansiado por um inimigo desse nível nos campos de Sekigahara!

— Covarde, volte aqui, covarde!

Aos gritos, Takezo corria como um raio pelos campos escuros. Dez passos à frente fugia Tenma, também este tão rápido que parecia voar.

Os cabelos de Takezo se eriçavam, o vento zunia nos ouvidos, a sensação de prazer era tão intensa que se tornava quase insuportável. O sangue galopava nas veias com uma alegria bestial e o levava ao paroxismo.

No instante em que, de um salto, sua sombra pareceu sobrepor-se às costas de Tenma, o sangue jorrou da espada de carvalho e um medonho urro cortou os ares. O corpanzil de Tsujikaze Tenma foi ao chão com um baque. Seu crânio era uma massa disforme e, no rosto, os olhos saltavam das órbitas.

Takezo desferiu ainda dois ou três golpes seguidos: surgiram costelas quebradas, brancas, rasgando a pele. Esfregou então o braço na testa e disse:

— E agora, valentão?

Lançou um breve olhar para o cadáver e voltou-se solenemente, retornando sobre os próprios passos. Parecia considerar trivial o feito. Fosse superior o adversário, sabia, seria ele, Takezo, a jazer esquecido.

— É você, Takezo? — soou ao longe a voz de Matahachi.

— Hum — respondeu Takezo com voz pachorrenta, vagando o olhar ao redor.

— Que aconteceu? — perguntou Matahachi, chegando às carreiras.

— Liquidei-o. E você?

— Eu também liquidei um — respondeu, exibindo a Takezo uma espada ensangüentada até o cabo, e acrescentando: — O resto do bando fugiu. São uns covardes, os bandoleiros. — Deu de ombros, arrogante.

O riso ecoou alegre enquanto os dois jovens, quase crianças, divertiam-se espremendo o sangue que lhes sujava as mãos.

Pouco depois, afastaram-se conversando animadamente rumo à única luz proveniente da casa coberta de colmos, visível ao longe.

 

Um cavalo campeiro meteu a cabeça pela janela e examinou a casa. Bufou, suspirando ruidosamente, e acordou as duas figuras:

— Malandro! — gritou Takezo dando um tapa na cabeça do cavalo. Matahachi espreguiçou-se tanto que parecia querer varar o teto com os punhos cerrados.

— Ah, como dormi bem! — disse.

— O sol já vai alto.

— Já está entardecendo?

— Não parece.

Uma noite de sono, e das ocorrências do dia anterior nada mais restara em suas mentes: na vida dos dois jovens somente existiam o hoje e o amanhã. Takezo correu no mesmo instante para fora, desnudou o torso e lavou-se nas águas límpidas do riacho. Levantou então o rosto e sorveu a luz do sol e o ar puro sob o céu profundo.

Matahachi levantou-se, por sua vez, e com o rosto ainda enevoado de sono dirigiu-se à sala onde Akemi e Okoo sentavam-se junto ao braseiro.

— Bom dia! — disse com jovialidade proposital. — A senhora hoje me parece bastante deprimida, oba-san.

— Pareço?

— Que houve? Conseguimos liquidar Tsujikaze Tenma, o homem que assassinou seu marido, ao que dizem, e ainda mais um do bando. Não vejo motivos para depressão.

Matahachi estranhava com razão. Ele havia esperado que o extermínio de Tenma fosse devidamente festejado pelas duas mulheres na noite anterior, mas ao contrário de Akemi, que batera palmas de alegria, Okoo demonstrara claros indícios de apreensão.

E o fato de Okoo continuar apreensiva e sombria à beira do fogo, não só irritava Matahachi como também o intrigava.

— Que se passa? — perguntou. Aceitou o chá que Akemi lhe servia e sentou-se cruzando as pernas. Okoo sorriu de leve, com jeito de quem inveja a rudeza e a inexperiência da gente jovem.

— Veja bem, Mata-san, Tsujikaze Tenma era o líder de uma centena de bandoleiros.

— Ah, já entendi: a senhora receia que o bando volte para se vingar. Ora, os bandoleiros não são de nada, eu e o Takezo...

— Deixe disso! — disse Okoo, abanando a mão. Matahachi aprumou-se:

— Como assim? Pois digo e repito: eles não passam de um bando de vermes, deixe que venham! Ou a senhora julga que não podemos com eles?

— Não vai adiantar, pois vocês são só dois garotos. Tenma tem um irmão mais novo, de nome Tsujikaze Kohei. Se ele aparecer por aqui para se vingar, será impossível vencê-lo, mesmo que vocês o enfrentem juntos.

A observação irritou Matahachi. Ouvindo, porém, as explicações da viúva, aos poucos começou a se convencer. O irmão de Tenma, Tsujikaze Kohei não só era poderoso na região de Yasugawa, em Kiso, como também exímio em artes marciais e em shinobi — a técnica ninja[5] de entrar dissimuladamente nos recintos. Dos homens que Kohei marcara para matar, ninguém até esse dia, dizia-se, morrera de morte natural. Contra um ataque frontal talvez fosse possível defender-se; como, todavia, enfrentar um homem especializado em atacar sorrateiramente as vítimas durante o sono?, perguntava a viúva.

— Para quem tem o sono pesado como eu, a parada vai ser dura! — admitiu Matahachi, apoiando pensativo o queixo na mão. Ao vê-lo assim, Okoo declarou já não haver outra saída: tinham de abandonar a casa e viver em outras paragens; e sendo esse o caso, perguntava o que fariam os dois.

— Vou falar com Takezo. Mas para onde foi esse sujeito?

Não o vendo ao redor da casa, Matahachi procurou-o longe com a mão em pala sobre os olhos. Avistou à distância, no descampado aos pés do monte Ibuki, a diminuta figura de Takezo cavalgando a esmo o cavalo que surgira de manhã nas proximidades da casa.

— Que sujeito folgado! — murmurou Matahachi. Pôs as mãos em concha e gritou:

— Eeeei, venha cá!

Deixaram-se cair sobre folhas secas. Não há nada melhor que uma boa amizade ou um agradável papo sobre a relva.

— Está decidido, então: voltamos à nossa terra! — disse Matahachi.

— Vamos embora! É claro que não podemos continuar morando indefinidamente com a viúva e a filha — apoiou-o Takezo.

— Certo.

— Não sei lidar com mulheres — resmungou Takezo, ao que Matahachi replicou:

— Está bem, vamo-nos então.

Matahachi lançou-se de costas sobre a relva, voltando o rosto para o céu:

— De repente, está me dando uma vontade louca de rever a minha Otsu! — exclamou, batendo os pés. — Olhe lá, aquela nuvem me faz lembrar Otsu, de cabelos lavados e escorridos... que inferno!

Takezo fitava distraído as ancas do cavalo, do qual acabara de apear. O gênio dócil dos pacatos homens do campo também está presente no cavalo campeiro: livre, este se afastava espontaneamente, sem nada pedir em troca.

Ao longe, Akemi chamou:

— Venham almoçar!

— Oba! — saltaram os dois em pé.

— Quer ver quem chega primeiro, Matahachi?

— Eu, diabos!

Akemi batia palmas recebendo a dupla que se aproximava levantando poeira.

Mas a pequena Akemi abateu-se de modo repentino ao saber, durante a tarde, que os dois jovens pretendiam retornar às suas terras. Por certo tinha imaginado que continuariam juntos para sempre, perpetuando a vida animada que passara a levar com a inclusão dos dois à rotina da casa.

— Que choradeira é essa, bobinha? — ralhou Okoo, arrumando-se para a noite. Fixava ao mesmo tempo o olhar irado em Takezo pelo espelho.

Este desviou o rosto: acabara de se lembrar dos sussurros da viúva à sua cabeceira na noite anterior e do perfume adocicado de seus cabelos.

Sentado ao lado, Matahachi — muito à vontade, agindo como se a casa lhe pertencesse — retirara um bojudo cântaro de saque de um dos armários, transferia o conteúdo para uma pequena bilha e comentava:

— Esta noite vamos brindar à despedida e beber até cair. A viúva Okoo, que se esmerara na maquiagem, apoiou-o:

— Já não vale a pena pouparmos a bebida: vamos esvaziar todos os cântaros.

Okoo apoiava-se em Matahachi e gracejava com vulgaridade, obrigando Takezo a desviar o rosto constrangido.

— Já não agüento mais — disse enfim a viúva, mal conseguindo manter-se em pé; enroscando-se em Matahachi, foi por ele carregada ao quarto. De passagem, lançou maliciosamente:

— Durma por aí, Take-san, já que gosta de dormir sozinho! Seguindo à risca a recomendação, Takezo deitou-se no mesmo lugar e adormeceu. Estava muito embriagado, a madrugada vinha chegando e, por isso, quando despertou no dia seguinte, o sol já ia alto no céu.

Ao se erguer, um fato chamou-lhe a atenção de imediato: a casa parecia deserta. Não viu a pequena trouxa de viagem preparada na noite anterior por Akemi e sua mãe, os abrigos de viagem, nem as sandálias. Sobretudo, estranhou a ausência de Matahachi.

— Ei, Matahachi!

Não o encontrou nos fundos da casa, tampouco no depósito de lenha. Ao lado da bica, que permanecera aberta, achou apenas o pente vermelho da viúva.

— Cretino!

Levou o pente ao nariz. O perfume fez com que revivesse a terrível cena de sedução de duas noites atrás. Pelo visto, Matahachi entregara-se a essa sedução. Uma indizível tristeza o invadiu.

— E agora, que será de Otsu? — Jogou o pente no chão, com ímpeto.

Mais que a raiva, abalou-o lembrar-se de Otsu, à espera do noivo em sua aldeia.

Ao avistar a figura desanimada de Takezo sentado imóvel por longo tempo na cozinha da casa, o cavalo que rondava a casa desde o dia anterior meteu a cabeça pelo alpendre. Não recebendo o esperado afago nas narinas, pôs-se a comer, conformado, os grãos de arroz que restavam esquecidos sobre a pia.

 

FLORES PARA O SANTUÁRIO

Sucessão ininterrupta de montanhas — eis como se descreveria apropriadamente essa região. Já a partir de Tatsuno, em Banshu[6], o caminho torna-se íngreme. A estrada de Sakushu[7] mergulha por entre sucessivas montanhas, leva à crista da serra, passa por trechos onde sobressaem marcos de madeira delimitando fronteiras, por colinas recobertas de pinheiros, e transpõe também o pico de Nakayama. E ao alcançar finalmente o trecho em que breve avistaria a seus pés o desfiladeiro do rio Aida, o viajante quase sempre arregala os olhos admirado:

— Incrível, até nestes ermos existem casas!

É considerável, sobretudo, o número de moradias. Agrupadas ao longo das margens do rio ou nas encostas das montanhas, junto a primitivos roçados, compõem nada mais que um aglomerado de povoados. Ainda assim, 40 quilômetros rio acima, o suserano Shinmen Igamori e seus familiares haviam morado num pequeno castelo até pouco antes da batalha de Sekigahara, ocorrida no ano anterior. Nas minas de prata de Shikozaka, divisa com Inshu, no interior dessa área montanhosa, costumam surgir também muitos mineiros à procura de trabalho. Ademais, numerosos estranhos afluem a esta pequena aldeia: são viajantes que partem de Tottori rumo a Himeji, ou trafegam entre Tajima[8] e Bizen[9] transpondo a serra. Por este motivo, mesmo perdida no meio das montanhas, a vila possui estalagens e lojas de tecidos e de vestuário. Vez ou outra, ao cair da tarde, consegue-se até divisar vultos de mulheres servindo às mesas nos alpendres das hospedarias: por baixo dos alvos lenços com que cobrem os cabelos, seus rostos pintados lembram os de morcegos brancos.

Essa é a vila Miyamoto.

Do alpendre do templo Shippoji, de onde se avistam os telhados das casas seguros por pedras, Otsu contemplava as nuvens cismando vagamente:

— Já se passou quase um ano...

Por ser órfã, e talvez por ter sido criada num templo, a jovem Otsu fazia lembrar a chama fria e solitária de um incensório.

Completara dezesseis anos no ano anterior, sendo um ano mais nova que Matahachi, seu noivo. E fora este Matahachi que se havia juntado ao amigo Takezo e partira para a guerra no verão anterior, não dando notícias desde então.

— Talvez em janeiro... ou então em fevereiro... — assim pensando, Otsu havia esperado em vão e, ultimamente, a espera a cansara. A primavera avançava e já se estava em abril.

— Ninguém teve notícias deles, nem mesmo na casa de Takezo-san. Será que esses dois morreram de verdade?

Se vez ou outra, entre suspiros, perguntava a alguém, ouvia quase sempre mesma resposta:

— Claro! A começar pelos familiares do senhor Shinmen Igamori, ninguém até hoje voltou da batalha, e veja quem ocupa seu castelo depois da guerra: um bando de samurais desconhecidos, todos vassalos de Tokugawa!

“Por que os homens amam tanto as guerras? Bem que eu quis detê-los...” Acomodada no alpendre do templo, Otsu era capaz de permanecer imóvel horas a fio, seu rosto triste traindo o hábito de perder-se em pensamentos. Cismava também hoje quando alguém a chamou:

— Otsu-san, Otsu-san!

A voz provinha da área externa, próxima à cozinha do templo. Da direção do poço, vinha caminhando um homem nu, exceto por uma tanga, cujo aspecto lembrava uma antiga estatueta de arahant[10].

Era um jovem monge zen-budista itinerante, aparentando cerca de 30 anos, originário da região de Tajima e que costumava visitar o templo a cada três ou quatro anos. Com o peito peludo exposto ao sol, comentou feliz:

— Ah, a primavera já chegou!

— Realmente — continuou — estou feliz com a chegada da primavera, mas os malditos piolhos passaram a se comportar como se fossem donos do mundo; por sinal, exatamente como se comportou Fujiwara Michinaga[11]. Resolvi por isso lavar a roupa toda de uma só vez. E agora preciso pôr estes andrajos a secar, mas, veja você, tenho o senso estético razoavelmente desenvolvido. Se quer saber, estou em sérias dificuldades, pois sinto que não é apropriado estendê-los neste pessegueiro em flor, nem naquele arbusto de chá. Você não teria um varal, por acaso, Otsu-san?

Otsu ruborizou-se:

— Mas o senhor ficou sem as roupas, monge Takuan... o que vai fazer até que sequem?

— Sempre posso esperar dormindo, ora!

— Que absurdo!

— Pensando bem, devia ter esperado até amanhã, 8 de abril, aniversário de Buda. Aí então, eu ficaria imóvel, assim, e me banhariam com chá de hortênsias... — Juntou os pés e assumiu solenemente a clássica pose de Buda, uma das mãos apontando o céu e a outra, a terra.

 

— Sou o Ser Supremo do céu e da terra...

Vendo Takuan imitar Buda por algum tempo com seriedade e empenho, Otsu não se conteve e riu com gosto:

— Sabe que imita muito bem, monge Takuan?

— À perfeição, não acha? Claro, pois sou, na verdade, a própria reencarnação do príncipe Siddharta.

— Se é assim, já vou banhá-lo com um bom chá de hortênsias, da cabeça aos pés.

— Não, não se incomode, só estava brincando!

De repente, uma abelha surgiu visando o rosto de Takuan. A reencarnação do príncipe Siddharta agitou freneticamente os braços tentando espantá-la. Ao perceber que o cordão da tanga do monge começava a se desatar, a abelha deu-se por satisfeita e fugiu.

Otsu ria a mais não poder, vergada sobre o próprio corpo.

— Ai, como dói! — queixou-se apalpando a barriga.

Apesar da índole melancólica, Otsu não parava de rir durante os dias em que o jovem monge zen-budista, de nome Takuan Shuho, nascido na região de Senba, passava os dias no templo.

— É verdade, ia-me esquecendo: não posso ficar assim à toa! — disse Otsu, estendendo os pés alvos na direção das sandálias.

— Aonde vai, Otsu-san? — perguntou o monge.

— Amanhã é 8 de abril, o senhor sabe, mas eu tinha me esquecido por completo das recomendações do nosso abade. Como faço todos os anos, tenho de colher flores e enfeitar o santuário para a comemoração do nascimento de Buda e, à noite, preparar o chá de hortênsias.

— Ah, vai colher flores... E onde há flores nesta região?

— Nas margens do rio, nos povoados rio abaixo.

— Quer que a acompanhe?

— De modo algum!

— Mas você não vai conseguir colher tantas flores sozinha. Deixe-me ajudá-la.

— Desse jeito? O senhor vai me envergonhar!

— Ora, que importância tem? Para começar, o homem veio ao mundo nu.

— Não se atreva a me acompanhar!

Otsu correu para os fundos do templo. Com um cesto atado às costas e uma tesoura na mão, tentava escapulir sorrateiramente pelo portão de serviço quando Takuan surgiu logo atrás. Tinha-se enrolado num enorme furoshiki[12] — do tipo usado para embalar cobertores — que encontrara em algum lugar.

— Que horror! — disse Otsu.

— Mereço agora a sua aprovação?

— O povo vai caçoar.

— Não vejo por quê.

— Ande bem longe de mim!

— Fingida! Sei que gosta de andar escoltada por um cavalheiro.

— Não fale mais comigo!

Otsu correu à frente. Takuan vinha poucos passos atrás desfraldando ao vento a larga barra do furoshiki, qual Shakyamuni descido de píncaros nevados.

— Ora, ora, zangou-se Otsu-san? — ria Takuan. — Não fique tão nervosa! Com essa cara emburrada, é capaz de espantar o namorado.

Cerca de quinhentos metros rio abaixo, às margens do Aida, milhares de pequenas flores do campo desabrochavam em alegre profusão. Otsu depositou o cesto no chão e, rodeada de borboletas, já dirigia ativamente a tesoura ao caule das flores.

— Quanta paz! — exclamou o jovem Takuan, em pé ao seu lado, dando vazão ao seu caráter sensível, religioso. No entanto, nem mesmo tentava ajudar Otsu, que se atarefava colhendo flores.

— Pequena Otsu, neste momento você é a personificação da paz. Todo homem, seja ele quem for, poderia passar a vida num paraíso como este; no entanto, prefere chorar, prefere sofrer, prefere mergulhar num cadinho onde fervem paixões, luxúria e falsidade, consumindo-se nos tormentos dos oito infernos. Quisera ao menos poupar você de um destino semelhante, Otsu-san.

 

Rosas silvestres, papoulas, violetas, crisântemos... Otsu lançava as flores no cesto à medida que as colhia.

— Não perca tempo pregando sermões, monge Takuan. Cuidado com as abelhas, podem picar seu rosto outra vez! — caçoou.

O monge ignorou-a:

— Tolinha, não estou falando de abelhas; neste momento, discorro sobre o destino de uma certa jovem, segundo os ensinamentos de Buda.

— O senhor é um intrometido, sabia?

— Eis uma declaração acertada! Sem dúvida, nós, os bonzos, somos muito intrometidos. No entanto, nossa profissão existe por ser tão necessária ao mundo quanto a dos carpinteiros, dos samurais, ou a dos comerciantes de arroz e tecidos. É bem verdade também que há três mil anos os ditos bonzos e a espécie feminina da humanidade não convivem em harmonia. De acordo com o budismo, mulheres são a encarnação do diabo, seres demoníacos, mensageiras do inferno. Deve ser por isso que vivemos brigando, eu e você: o karma é antigo.

— Por que as mulheres são consideradas demoníacas?

— Porque enganam os homens.

— E os homens, não enganam também as mulheres?

— Espere aí, essa é um pouco difícil de responder... Ah, já sei!

— Vamos, responda!

— Buda era homem!

— Muito conveniente para os homens, não acha?

— Contudo, presta atenção, ó mulher: não te melindres...

— Ah... chega, monge!

— ...pois se, em sua juventude, Buda desaprovou as mulheres por ter sido atormentado, à sombra de uma figueira, por tentações que assumiam formas femininas, em sua velhice chegou até a admitir discípulos do sexo feminino. O bodisatva[13] Ryuju foi outro que detestou, digo, temeu as mulheres tanto quanto o próprio Buda, mas posteriormente tornou-se grande amigo de quatro virtuosas mulheres, que considerou esposas exemplares. Exaltou-lhes as virtudes, dizendo aos homens que as tivessem como modelos quando fossem escolher suas mulheres.

— Está vendo? Como tudo o mais, é muito conveniente para os homens.

— É inevitável, pois na velha índia, berço do budismo, a supremacia dos homens sobre as mulheres era ainda mais acentuada que em nosso país. Voltando ao nosso bodisatva Ryuju, ele dirigiu às mulheres um conselho.

— Que tipo de conselho?

— Disse: mulher, não te cases com um homem...

— Conselho mais esquisito!

— Não brinque, escute até o fim. Ele disse: “não te cases com um homem: casa-te com a verdade”.

— Compreendeu? Em outras palavras, quer dizer: não se apaixone por um homem, mas sim por algo verdadeiro.

— E o que quer dizer “apaixonar-se por algo verdadeiro”?

— Para ser franco, parece que nem eu sei direito. Otsu riu, mas o monge continuou:

— Bem, trocando em miúdos, quer dizer: case-se com o que é verdadeiro. Isto significa que você não deve correr atrás de ilusões para que não lhe aconteça de acabar carregando no ventre o fruto de uma relação enganosa com algum desconhecido da cidade grande; que deve procurar casar-se com alguém de sua própria terra, merecedor de confiança, e dar à luz filhos sadios.

— Pare com isso! — disse Otsu fingindo bater no monge e acrescentando: — Não disse que ia me ajudar a colher as flores?

— Creio ter afirmado algo parecido.

— Então não fique aí parado falando o tempo todo, e segure o cesto para mim.

— Com todo o prazer.

— Enquanto isso, vou à casa de Ogin-sama[14] verificar se o obi que pretendo usar amanhã já está pronto.

— Ogin-sama? Ah, já sei, a jovem que apareceu um dia desses lá no templo... Eu também vou.

— Desse jeito?

— Estou com sede. Quero tomar chá.

 

Aos 25 anos de idade, bonita e bem nascida, não era por falta de pretendentes que Ogin continuava solteira.

Por outro lado, os pretendentes, a bem da verdade, não eram tantos quanto seria de se esperar, graças à reputação do irmão Takezo, o mais insubordinado das redondezas, sempre citado desde a infância como modelo de má-criação, junto com Matahachi. Ainda assim, muitos eram os que insistiam em pedi-la em casamento, encantados com as maneiras modestas e a fina educação da jovem. No entanto, Ogin a todos recusava, dando sempre a mesma razão:

— Quero continuar sendo, para Takezo, a mãe que ele nunca teve, ao menos até que amadureça um pouco mais.

A casa onde morava fora construída nos áureos tempos em que Munisai, servindo à casa Shinmen como instrutor de artes marciais, obtivera permissão para incorporar ao seu nome o sobrenome Shinmen de seu suserano. Por esse motivo, o estilo da ampla mansão construída às margens do rio Aida, com seus muros de pedra e paredes rebocadas, era mais imponente do que se esperaria da casa de um goushi. Hoje, envelhecida, ervas daninhas vicejavam em meio à palha do telhado, e as fezes das andorinhas, que se haviam acumulado no decorrer dos anos, manchavam de branco o espaço entre o beiral e a janela alta do recinto onde Munisai mantivera, há tempos, um salão de treinamento de jitte-jutsu[15].

Já não tinha ninguém servindo à família, pois Munisai falecera na miséria após um longo período de desemprego. Os antigos servos, todavia, eram todos moradores da vila Miyamoto e continuavam zelando pela casa. Mesmo após a decadência de Munisai, a velha governanta e os antigos lacaios ainda se revezavam, deixando silenciosamente alguns vegetais na porta da cozinha, limpando e arejando aposentos há muito fechados, ou enchendo a bilha de água fresca.

Certa de que algum desses antigos serviçais entrava naquele instante pelos fundos da casa, Ogin, entretida em seu trabalho, não deteve a mão que guiava a agulha.

— Boa-tarde, Ogin-sama.

Ogin levantou o rosto surpresa, pois Otsu sentava-se silenciosamente atrás dela.

— Que susto! É você, Otsu-san? Estou terminando de costurar o obi que vai usar amanhã nos festejos do aniversário de Buda.

— Sinto dar-lhe tanto trabalho. Eu mesma poderia costurar meu obi mas andei tão ocupada com as tarefas do templo...

— Ora, não se preocupe, desse modo me entretenho e evito ficar pensando.

Desviando o olhar, Otsu percebeu às costas de Ogin a pequena luz votiva bruxuleante. Coladas no altar budista ali armado, viu duas novas papeletas com a caligrafia de Ogin:

Pela alma de Shinmen Takezo — aos dezessete anos

Pela alma de Hon’i-den Matahachi — idem

Flores e um pequeno vasilhame com água enfeitavam o altar.

Otsu pestanejou:

— Que é isso? Você recebeu uma notificação confirmando a morte dos dois, Ogin-sama?

— Não, mas só posso pensar que morreram. Já me conformei e resolvi considerar a data da batalha de Sekigahara, 15 de setembro, como a de suas mortes.

Otsu balançou a cabeça em feroz negativa.

— Não acredito! Aqueles dois não podem ter morrido. Tenho certeza de que estarão de volta a qualquer momento.

— Você costuma sonhar com o seu noivo?

— Muitas vezes.

— Então morreram mesmo, pois eu também vivo sonhando com meu irmão.

— Não quero nem saber. Vou arrancar estas papeletas — são de mau agouro.

Os olhos de Otsu já se enchiam de lágrimas. Levantou-se decididamente, apagou a luz votiva do altar e, não satisfeita, apanhou indignada o vaso de flores e o vasilhame de água, levando-os ao aposento contíguo e jogando seu conteúdo no jardim pela varanda. No mesmo instante, o monge Takuan que se sentara a um canto da varanda deu um salto:

— Que água gelada! — berrou.

 

— Otsu, sua bruxa, o que pretende? Eu disse que queria tomar chá nesta casa e não um banho de água gelada! — vociferou Takuan, enxugando-se com ofuroshiki.

Otsu ria e chorava ao mesmo tempo:

— Desculpe, monge Takuan, me perdoe.

Pediu desculpas, adulou-o, e depois de levar-lhe o tão almejado chá, voltou para junto de Ogin:

— Quem é esse homem? — perguntou Ogin, espiando admirada o canto da varanda.

— É um monge peregrino que está hospedado no templo. Quando você esteve lá, dias atrás, não havia um monge sujo e desleixado, deitado de bruços ao sol do santuário, o rosto apoiado nas duas mãos? Lembra-se que na ocasião eu perguntei a esse monge o que fazia, e que ele respondeu: “estou promovendo uma luta de sumo[16] entre os piolhos”?

— Ah, aquele!

— Ele mesmo: monge Shuho Takuan.

— Excêntrico, não?

— Demais!

— Não é manta, nem veste monástica... eu me pergunto: que é aquilo que ele está usando?

— Um furoshiki,

— Espantoso!... Ele me parece novo ainda.

— Trinta e um anos. Mas o nosso abade diz que, apesar das aparências, é uma figura muito ilustre.

— Isto mostra mais uma vez que nunca se deve julgar as pessoas pela aparência.

— Disseram-me que ele nasceu na vila Izushi, em Tajima, e aos dez anos já era noviço; aos catorze entrou para o templo Shofukuji, da seita Rinzai, e foi ordenado pelo Abade Kizen. Andou na companhia de sábios que vieram do templo Daitokuji, de Yamashiro, aperfeiçoou seus estudos em Kyoto e Nara, foi discípulo de renomados monges como Gudo, do templo Myoshinji, e Itto, do templo Sennan, com os quais, diz-se, teve oportunidade de aprofundar seus estudos.

— Bem me pareceu diferente.

— Mais tarde, ao que me contaram, foi nomeado Monge Superior do templo Nansoji, de Izumi e, em outra ocasião, designado Superior do templo Daitokuji por ordem imperial; deste último cargo demitiu-se em apenas três dias. Depois disso, suseranos influentes como Toyotomi Hideyori, Asano Yoshinaga, e Hosokawa Tadaoki, bem como nobres da corte, como Kara-sumaru Mitsuhiro, lamentando seu afastamento, tentam continuamente atraí-lo a seus feudos com mil ofertas: prometem, por exemplo, que se ele concordar em permanecer em seus feudos mandarão erigir um templo só dele ou dotá-lo com generosa contribuição... Mas o monge Takuan recusa todos os convites, ninguém sabe por quê, preferindo vagar pelas províncias como um mendigo, tendo apenas por companhia seus piolhos de estimação. Ele deve ser meio maluco, não acha?

— Vistas pelo lado dele, nós é que devemos parecer malucas.

— E é verdade, é o que ele diz. Principalmente quando me vê chorando sozinha, preocupada com meu noivo.

— Mas ele é muito divertido.

— Acho até que um pouco demais!

— Quanto tempo pretende ficar no templo?

— Vai-se lá saber. Sempre surge e desaparece quando bem entende. Considera sua todas as casas.

Da varanda, Takuan esticou o pescoço e aparteou:

— Estou ouvindo tudo!

— Não tem importância, não estou falando mal do senhor! — replicou Otsu.

— Pode falar, não me incomodo, mas quero saber onde está o doce que devia acompanhar meu chá.

— Está vendo, Ogin-sama? Ele se considera em casa — queixou-se Otsu.

— Está vendo o quê? Você, com essa carinha de santa incapaz de matar uma barata, é muito mais mal-educada que eu, está me ouvindo, Otsu, sua bruxa? — interrompeu-a Takuan.

— Como assim?

— Onde já se viu me servir chá puro, sem um docinho sequer para adoçar a boca, e ficar aí, despudorada, chorando e alardeando seus amores?

 

Soa o sino do templo Daishoji. Ecoa o sino do templo Shippoji, desde o amanhecer até o entardecer. Mocinhas solteiras da aldeia, usando quimonos com obi vermelho, mulheres de mercadores, idosos levando netos pelas mãos, afluem incessantemente à colina onde se situa o templo.

Rapazes disputam uma espiadela no interior do santuário repleto de fiéis, tentando vislumbrar o vulto de Otsu:

— Lá está ela!

— Mais bonita que nunca! — confidenciam.

Em comemoração ao aniversário de Buda haviam montado no interior do templo um pequeno santuário, cujo teto, de folhas de figueira, era sustentado por colunas recobertas de guirlandas de flores do campo. Dentro dessa miniatura de santuário havia chá de hortênsias em oferenda e uma pequena estátua negra de Buda, de aproximadamente 60 centímetros, cujas mãos apontavam, uma o céu e a outra, a terra. Usando uma pequena concha de bambu, o monge Takuan encarregava-se nesse dia de banhar a imagem sagrada com chá de hortênsias e, sempre que solicitado, de encher os vasilhames feitos de gomos ocos de bambu que os fiéis lhe apresentavam.

— Vamos lá, minha gente! Este templo é pobre, sejam generosos em suas oferendas, principalmente os ricos. Para cada concha cheia de chá, ofereçam 100 kan[17] que eu garanto correspondente alívio de seus males.

Sentada a uma escrivaninha à esquerda do santuário, usando o obi novo, Otsu tinha à frente uma caixa-tinteiro laqueada e escrevia versos em papéis coloridos, simpatias que distribuía entre os fiéis.

Neste dia auspicioso

Em que o aniversário de Buda comemoramos

Livrem-nos estes versos

Das pragas que nos atormentam.

Rezava a tradição local que esses versos, colados no interior das casas, eram poderosas simpatias contra doenças e a proliferação de insetos.

Otsu já preenchera centenas dessas papeletas e, à medida que seu punho se cansava, a caligrafia deteriorava.

— Monge Takuan! — chamou, aproveitando uma pequena pausa no movimento.

— Diga!

— Pare de exigir a contribuição dos fiéis.

— Estou me dirigindo aos ricos, apenas. Aliviá-los de seu dinheiro é praticar a virtude das virtudes.

— Não percebe que, se continuar falando desse jeito, um ladrão é capaz de achar que pode assaltar a casa de um desses ricaços hoje à noite?

— Hum... Aí vem mais gente! Não empurrem, calma! O moço aí, espere a sua vez — disse Takuan a um dos jovens fiéis.

—Oh, monge! — chamou alguém no meio do grupo.

— Quem, eu?

— Quem não respeita a vez é você. Por que é que serve sempre as mulheres primeiro?

— Porque também gosto de um rostinho bonito, ora.

— Esse bonzo é depravado!

— Olhem só quem fala! Sei muito bem que vocês também não estão atrás do chá de hortênsias, nem dos versinhos da simpatia: metade vem adorar Buda, outra metade vem contemplar o rostinho de Otsu-san. Vocês pertencem ao segundo grupo, tenho certeza. Ei, onde está a oferenda? Desse jeito nunca serão populares no meio das meninas.

Otsu sentia o rosto arder de vergonha:

— Pare com isso, monge Takuan — disse. — Se continuar desse jeito, zango-me de verdade com o senhor!

Levantou os olhos cansados, vagando-os ao redor. Repentinamente, seu olhar se deteve por um breve momento num rosto na multidão. Otsu soltou uma curta exclamação, deixando o pincel escapar dos dedos.

No mesmo instante em que se levantava, o rosto vislumbrado ocultou-se como um esquivo peixe em meio à correnteza. Esquecida de tudo o mais, Otsu disparou pelo corredor chamando:

— Takezo-san, Takezo-san!

 

O POVO DA ALDEIA

Os Hon’i-dens não eram simples camponeses: eram goushi, orgulhosos de sua condição social.

A velha matriarca da família, Osugi, mãe de Matahachi, geniosa viúva de quase 60 anos, partia todas as manhãs para os campos à frente de lavradores e arrendatários, arava a terra e ceifava o trigo até o anoitecer. A caminho de casa, depois de um longo e árduo dia de trabalho, carregava ainda às costas um fardo de folhas de amoreira — alimento dos casulos da seda — tão volumoso que chegava a ocultar seu vulto encurvado. Como se não bastasse, era ainda capaz de trabalhar na criação dos bichos-da-seda durante a noite.

— Vó!

Ao avistar o neto ranhento e descalço que se aproximava correndo pelos campos, Osugi endireitou-se no meio das amoreiras:

— Heita, meu neto, foste ao templo? Heita aproximou-se:

— Fui sim, vó.

— E Otsu-san? Estava lá?

— Sim. E estava muito bonita, sentada no meio das flores do santuário. Usava um obi novo.

— Trouxeste o chá de hortênsias e os versinhos contra as pragas?

— Não trouxe.

— E por quê, posso saber?

— Porque a “tia” Otsu disse que não precisava, que era para eu ir direto para casa e avisar você.

— Avisar o quê?

— Sabe o Takezo que morava do outro lado do rio? A tia disse que viu ele hoje andando no meio do povo lá no templo.

— É verdade o que estás me dizendo?

— É verdade, vó!

Osugi procurou ao redor, olhos úmidos como seja houvessem localizado o filho amado.

— Heita, tu ficas aqui, em meu lugar, colhendo as folhas de amora.

— Vó, onde é que você vai?

— Para casa. Se Takezo voltou para a casa dos Shinmen, então Matahachi também chegou.

— Eu também vou.

— Não carece, pestinha.

A casa de paredes rebocadas erguia-se à sombra de um robusto carvalho. Osugi correu para a porta do celeiro e, dirigindo-se aos arrendatários e à filha que trabalhavam nas proximidades, gritou aflita:

— Sabem se meu filho já chegou?

— Nãão!... Todas as cabeças balançaram em negativa, os olhares espantados.

Impaciente, a velha matriarca repreendeu com rispidez os que a olhavam atoleimados, ordenando-lhes que saíssem à procura do filho e o trouxessem de imediato à sua presença, pois se Takezo fora visto na vila, sem dúvida Matahachi estaria em sua companhia.

Também no seio dessa família o dia da batalha de Sekigahara fora considerado o do provável falecimento de Matahachi. Osugi adorava o filho. Ele era o único herdeiro do ramo principal da família Hon’i-den, pois sua única irmã, de acordo com um velho costume em famílias com poucos filhos, recebera o marido em núpcias, dando origem desse modo a um ramo familiar secundário.

— E então, já o encontraram? — perguntava com insistência, entrando e saindo sem parar da casa. Ao escurecer, acendeu uma luz em intenção das almas de seus ancestrais e sentou-se súplice ao pé do pequeno altar.

Sem ao menos jantar, os moradores da casa saíram todos à procura, mas a esperada notícia não chegava, mesmo com o avançar da noite. Osugi permanecia em pé, na escura entrada da casa.

Uma lua velada pairava sobre uma árvore próxima. As montanhas ao fundo e à frente achavam-se envoltas em fina névoa esbranquiçada, e o ar noturno recendia com o perfume das amoreiras em flor.

Da estreita senda que cortava a plantação surgiu um vulto caminhando em direção à velha Osugi. Ao reconhecer a noiva do filho, Osugi levantou a mão.

— É você, Otsu?

— Obaba-sama![18] — Arrastando as sandálias, úmidas e pesadas, Otsu aproximou-se correndo.

 

— Me disseram que você viu Takezo. É verdade?

— Sim, no festival do templo Shippoji. Tenho certeza de que era ele.

— E quanto a Matahachi? Não soube dele?

— Pois é, eu quis perguntar ao Takezo-san mas, quando o chamei, escondeu-se, não sei por quê. Sempre foi meio esquivo, mas não compreendi por que fugiu de mim daquele jeito.

— Fugiu?

Osugi pendeu a cabeça, cismando.

Esta idosa mãe, que nutria por Takezo um ódio perene, responsabilizando-o por haver aliciado o filho para a guerra, permaneceu em silêncio por instantes alimentando suspeitas infundadas.

— O imprestável... Estou começando a achar que deixou meu filho morrer na guerra e agora, pressionado pelo medo, voltou sozinho para casa, o descarado — resmungou a velha.

— Que é isso? Não acredito. Se assim fosse, por certo faria chegar às nossas mãos uma lembrança do morto — contradisse Otsu.

— Qual o quê! — retrucou a velha com convicção. — Aquele imprestável não seria capaz de tanta consideração! Azar teve meu filho em se meter com tão má companhia.

— Ouça, obaba-sama, de qualquer modo, acho que devemos ir à mansão de Ogin-sama, pois, no meu entender, Takezo-san deverá estar lá esta noite.

— Sem dúvida, já que são irmãos...

— Então, vamos lá juntas fazer-lhe uma visita.

— Pois essa Ogin também me irrita! Sabe que o irmão arrastou meu filho para a guerra e nem por isso vem me visitar para me dar uma satisfação; tampouco se dá ao trabalho de me comunicar o seu retorno. Não acho que a iniciativa deva partir de mim. Quem me deve uma visita é ela.

— Mas este não é o momento para discutirmos minúcias: quero me encontrar com Takezo-san o quanto antes e saber do meu noivo. Quando chegarmos lá, deixe que eu falo e esclareço toda a situação. Por favor, venha comigo!

Osugi concordou com aparente má vontade, embora ansiasse tanto ou mais que Otsu por saber do paradeiro do filho.

A mansão dos Shinmen ficava do outro lado do rio, a uma distância aproximada de um quilômetro e meio. A família Hon’i-den provinha de uma velha linhagem goushi; os Shinmen, por seu lado, descendiam da antigamente poderosa casa Akamatsu; separadas pelo rio, não era de hoje que se estabelecera uma velada rivalidade entre as duas famílias.

O portal achava-se fechado e a folhagem das árvores em volta da mansão era densa a ponto de não permitir que se vislumbrasse luz pelo lado de fora. À sugestão de Otsu de passarem pelo portão de serviço nos fundos da casa, Osugi reagiu com altivez:

— A matriarca dos Hon’i-den em visita aos Shinmen não se rebaixa entrando pelos fundos.

Como Osugi não se movia, Otsu viu-se obrigada a procurar sozinha o portão de serviço. Instantes depois, uma luz bruxuleou além do portal e Ogin apareceu.

— Grata por vir receber-me pessoalmente. É tarde, bem sei, porém aqui estou porque o assunto que tenho a tratar não pode ser adiado — disse Osugi, entrando com passos decididos. Seu comportamento era altivo e a linguagem autoritária.

 

A matriarca sentou-se em silêncio no lugar de honra do aposento, solene como se fosse a emissária de alguma divindade. Ouviu arrogante a saudação de Ogin e foi diretamente ao assunto:

— Soube que o imprestável de sua casa está de volta. Queira trazê-lo à minha presença.

A linguagem era afrontosa. Ogin retrucou:

— A quem se refere, senhora, quando diz “o imprestável de minha casa”? A velha casquinou risinhos debochados:

— Oh, creio que a língua me traiu. Parece que acabei assimilando o linguajar do povo da aldeia. O imprestável a quem me refiro é Takezo. De volta da guerra, deve estar se ocultando em sua casa, pois não?

Ogin mordeu os lábios, ofendida:

— Não é esse o caso — respondeu friamente.

Otsu interveio, penalizada com a situação de Ogin, explicando-lhe que o vira durante os festejos no templo e acrescentou, conciliadora:

— Muito estranho que não tenha aparecido, não lhes parece? Ogin reafirmou angustiada:

— Não voltou. Mas se o viram, deve aparecer por aqui a qualquer momento.

No mesmo instante, a mão da velha Osugi atingiu o tatami produzindo um ruído seco:

— Será que ouvi bem? Que história é essa de “deve aparecer a qualquer momento”? Para começo de conversa, fique sabendo que quem aliciou meu filho e o levou para a guerra foi o imprestável do seu irmão. Para nós, os Hon’i-den, Matahachi é muito, muito precioso, pois é nosso único herdeiro. Seu irmão sabe disso e ainda assim o levou, sem o meu conhecimento, e agora tem ò desplante de voltar sozinho, são e salvo. Posso até aceitar tudo isso, mas é imperdoável que nem apareça para me dar uma satisfação! Aliás, vocês dois são impertinentes: não têm consideração por esta velha mãe? Vamos, uma vez que seu irmão Takezo retornou, quero também meu filho de volta. Senão, exijo que me apresente o imprestável para que ele me dê explicações convincentes sobre o paradeiro e a situação do meu filho!

— Mas estou lhe dizendo que Takezo não está aqui...

— Você é muito descarada! Não é possível que não saiba onde ele está neste momento.

— Por favor, seja razoável! — Ogin desfez-se em lágrimas. Tudo seria diferente se o pai, Munisai, fosse vivo e estivesse ali presente, pensava.

Naquele momento, um leve ruído proveio da porta da varanda. Não era o vento pois, logo a seguir, passos soaram nitidamente.

— Que foi isso? — perguntou a velha Osugi, com um súbito brilho no olhar. Ao mesmo tempo, Otsu se levantou.

Um grito estertorante ecoou em seguida. Dentre os sons produzidos pela garganta humana, era o que mais se assemelhava ao urro de um animal. Logo, uma voz bradou:

— Detenham esse homem!

Passos em desabalada carreira soaram ao redor da mansão. O ruído de galhos partindo e de arbustos rompendo não resultava dos movimentos de um único indivíduo.

— É ele, Takezo! — gritou a velha Osugi, levantando-se às pressas. Fixou o olhar rancoroso na nuca de Ogin, que chorava dobrada sobre si mesma, e acrescentou: — Sabia que ele estava aqui. Mas esta mulher é muito cínica: estava tentando escondê-lo de mim. Não sei que razão está por trás disso tudo, mas por essa você me paga!

Caminhou para a porta da varanda e escancarou-a. Ao espiar ao redor, empalideceu de súbito.

O corpo de um jovem usando perneiras ali jazia de costas. O aspecto atroz da vítima — de cujos nariz e boca o sangue gotejava — indicava que fora eliminada com um único golpe de um instrumento sem corte, algo semelhante a uma espada de madeira.

 

— Que... quem é? Tem um homem morto aqui! — À trêmula e urgente voz de Osugi, Otsu acorreu trazendo uma lamparina. Ogin também veio espiar medrosamente.

O morto não era Takezo, tampouco Matahachi, mas um samurai nunca visto nas redondezas. Embora horrorizada, Osugi pareceu aliviada e sussurrou:

— Quem será que o matou? — De repente, mudou de tom e começou a instar com Otsu para que fossem embora, pois não queria ver-se envolvida no episódio. A jovem, porém, sentia pena de Ogin, maltratada pelas cruéis palavras que a velha matriarca, em seu cego amor pelo filho, lhe dirigira sem parar desde o momento em que haviam chegado à casa. Julgava existir alguma razão por trás dos acontecimentos e queria, ao mesmo tempo, consolá-la. Disse, portanto, que iria mais tarde.

— Faça então como bem entender — respondeu a velha, ríspida, retirando-se sozinha.

—Leve consigo esta lamparina de mão—ofereceu-lhe Ogin por educação.

— Fique sabendo que a matriarca dos Hon’i-den, embora velha, não está caduca a ponto de precisar da ajuda de uma lamparina para caminhar à noite — foi a resposta que obteve. Decididamente, a anciã não se deixava dobrar com facilidade. Uma vez fora da mansão, soergueu e prendeu a barra do quimono e começou a se afastar com passos seguros, trilhando o caminho que desaparecia na densa cerração.

Mal andara alguns passos, uma voz a deteve:

— Espere um pouco, vovó. — O envolvimento que tanto temera já estava acontecendo. O vulto de um imponente bushi, desconhecido na região, emergiu da escuridão. Tinha presa à cintura uma espada militar, e braços e pernas protegidos por meia-armadura.

— Você vem da casa dos Shinmen, estou certo?

— Perfeitamente.

— Pertence à família?

— Que idéia absurda! — disse Osugi, agitando a mão em frenética negativa. — Sou a matriarca de uma família goushi e moro do outro lado do rio.

— Neste caso, deve ser a mãe de Hon’i-den Matahachi, o que partiu para a guerra em companhia de Shinmen Takezo.

— É como diz. E, deixe-me acrescentar, meu filho não partiu por vontade própria: foi aliciado pelo imprestável.

— Imprestável?

— Esse Takezo.

— É tão mau caráter quanto reza sua fama na vila?

— Nem me fale! Senhor, o sujeito é tão violento que ninguém consegue pôr-lhe as mãos. Nem sei lhe dizer quanto temos sofrido pelo fato de meu filho haver-se envolvido com esse tipo de gente.

— Pelo que consta, seu filho morreu na batalha de Sekigahara. Mas não lamente, sua morte será vingada.

— Posso saber com quem estou falando? — perguntou Osugi, desconfiada.

— Estou a serviço de Tokugawa e, depois da queda do castelo de Himeji, fui mandado para cá para impor ordem; cumprindo determinações de meu suserano, preparei uma barreira de inspeção na fronteira de Banshu e estava conferindo a identidade dos transeuntes quando um certo Takezo desta casa (apontou o muro às costas) rompeu a barreira e fugiu. Já sabíamos que o elemento pertencia às tropas do suserano Shinmen Igamori e que integrava as forças do general Ukita. Em vista disso, partimos em sua perseguição e o encurralamos aqui, na vila Miyamoto. Entretanto, o sujeito é tremendamente combativo. Já estamos há dias no seu encalço, aguardando que a fadiga o domine, mas não está fácil prendê-lo.

— Ah, agora entendi — assentiu Osugi. Enfim descobrira por que Takezo não fizera nenhum contato, tanto no templo Shippoji quanto aqui, em sua própria casa. Ao mesmo tempo, o ressentimento cresceu: seu filho não voltara, mas o outro chegara são e salvo.

— Escute, senhor. Por mais resistente que seja Takezo, acho que existe um modo muito fácil de prendê-lo — disse a velha, tentadora.

— Como vê, disponho de poucos homens. Agora mesmo, acabo de perder mais um nas mãos desse sujeito —justificou-se o comandante.

— Tenho um excelente plano. Escute-me com atenção — disse a velha.

— É isso, claro! — O comandante, que viera do castelo de Himeji para vistoriar a fronteira, concordou acenando vigorosamente a cabeça ao plano sussurrado em seu ouvido.

— Espero que seja bem-sucedido — animou-o a velha Osugi, retirando-se em seguida.

Pouco depois o comandante reunia nos fundos da mansão dos Shinmen um grupo de catorze ou quinze homens. Após ouvir algumas instruções dadas em surdina, o grupo transpôs o muro e espalhou-se pela mansão.

Em seu interior, uma lamparina ardia solitária. Num dos aposentos, enxugando lágrimas furtivas, as duas jovens ainda conversavam trocando confidencias sobre os infortúnios de suas vidas. E então, afastando com violência as duas folhas da porta corrediça, os homens invadiram inopinadamente a sala com os pés calçados e sujos.

Otsu abafou um grito e imobilizou-se, pálida e trêmula. Ogin, ao contrário, encarou os invasores com severidade, como se esperaria da filha de Munisai.

— Qual das duas é a irmã de Takezo? — perguntou um dos soldados.

— Sou eu! — declarou Ogin, enfrentando-os com altivez. — Como se atrevem a invadir esta mansão sem a minha licença? Moro aqui sozinha, mas saibam que não deixarei impune qualquer insolência!

O comandante do grupo, o que havia pouco andara conversando com a velha Osugi, apontou Ogin para os seus homens e disse:

— É esta!

A lamparina apagou-se em meio ao tumulto que se seguiu. Otsu gritou desesperada e correu, aos tropeções, para o jardim. A ação era violenta demais, ultrajante. Dez ou mais homens tentavam subjugar e amarrar uma única mulher. A brava resistência que Ogin opôs aos atacantes nem parecia partir de uma frágil mulher. Ainda assim, tudo terminou em questão de minutos: os homens a dominaram e a chutavam.

O pior acontecera. Otsu não sabia como tinha chegado até ali mas, quando se deu conta, corria descalça pelo caminho que levava ao templo Shippoji. Acostumada a um cotidiano pacífico, os acontecimentos a chocavam: parecia-lhe que o mundo inteiro enlouquecera.

Ao chegar ao pé do morro onde se situava o templo, um vulto sentado numa pedra à beira do caminho levantou-se:

— Olá, é a pequena Otsu! — Era o monge Shuho Takuan. — Fiquei preocupado porque não costuma ficar fora até tão tarde e estava procurando por você. Ué, você veio descalça? — perguntou, desviando o olhar para os seus pés.

Otsu jogou-se chorando em seu peito:

— Que horror, monge Takuan, aconteceu uma coisa terrível. Me ajude! Como de hábito, Takuan filosofou:

— Coisa terrível? Deve estar exagerando: neste mundo, poucas coisas são terríveis. Vamos, acalme-se e conte-me tudo.

— Prenderam Ogin-sama! Matahachi-san não apareceu e a pobre Ogin-sama, justo ela, sempre tão gentil, foi presa. E agora, o que podemos fazer?

Otsu soluçou longo tempo, aconchegando o corpo trêmulo ao peito do monge.

 

A ARMADILHA

Era uma tarde de primavera silenciosa e ar estagnado. A terra inteira — mata e solo — arfava como uma jovem mulher. Na atmosfera asfixiante, ondas de vapor pareciam se desprender até do suor do rosto. Takezo caminhava solitário. Usava como cajado a espada de carvalho e passeava o olhar irado ao redor: no interior da montanha nada havia que merecesse sua atenção. Aparentava cansaço, e o menor movimento, como o de um pássaro alçando vôo, atraía seu olhar penetrante. Do corpo sujo, úmido de suor e orvalho, emanavam selvageria e agressividade.

— Malditos! — disse, entre dentes. De súbito, impulsionada pela raiva, a espada sibilou e atingiu um robusto tronco de árvore.

A seiva branca escorreu do corte e capturou seu olhar. Vagas lembranças do leite gotejando do seio materno vieram-lhe à mente. Takezo imobilizou-se por instantes no local, em muda contemplação. Morta a mãe, os rios e as montanhas de sua terra falavam apenas de solidão.

— Por que me perseguem desse jeito? Se me avistam, correm a me denunciar no posto da montanha; se me encontram, fogem sorrateiros como se topassem com um lobo.

Quatro dias já se haviam passado desde o momento em que Takezo se ocultara na montanha de Kinumo. Além, envolta em névoa, adivinhava a mansão onde agora vivia sozinha a irmã; logo a seus pés, na base da montanha, o telhado do templo Shippoji emergia sereno entre os galhos das árvores.

Mas ele não ousava aproximar-se desses locais. Durante os festejos do aniversário de Buda tentara estabelecer contato com Otsu mas, ao ser por ela chamado no meio da multidão que lotava o templo, ocultara-se depressa porque receara ser preso ou envolvê-la nos acontecimentos.

A noite, aproximara-se sorrateiro da mansão onde morava a irmã. Por infeliz coincidência, contudo, lá encontrara a mãe de Matahachi. Pelas frestas da porta, espreitara os movimentos da irmã. Enquanto hesitava, imaginando como se desculparia caso a idosa matriarca o censurasse por retornar sem o filho, fora detectado pelo grupo de samurais de Himeji, que mantinham o local sob vigilância, e obrigado, uma vez mais, a retirar-se às pressas, impossibilitado de trocar duas palavras com Ogin.

Desde então, escondido na montanha de Kinumo, percebia que os samurais de Himeji vasculhavam palmo a palmo todas as estradas por onde presumiam que ele passaria; parecia-lhe também que expedições de caça formadas por samurais e moradores da aldeia saíam todos os dias, vasculhando ora uma, ora outra montanha das redondezas.

“Que estará Otsu-san pensando de tudo isso...?” A desconfiança gerava monstros em sua imaginação. Era levado a crer que todos na aldeia, sem exceção, eram seus inimigos e o encurralavam por todos os lados.

“Não tenho coragem de contar a Otsu-san os verdadeiros motivos que levaram Matahachi a não voltar. Já sei, contarei à mãe dele. Cumprida a missão, não ficarei nem mais um instante nesta vila horrorosa!”

Decidida a questão, Takezo pôs-se a caminho. Não podia, porém, descer ao povoado em plena luz do dia. Apanhou uma pedra, mirou um pássaro e lançou-a. Depenou em seguida o pássaro abatido e, rasgando com os dentes a tenra carne ainda morna, mastigou enquanto caminhava.

Repentinamente, vislumbrou um vulto que, mal o avistou, se ocultou esbaforido entre as árvores. Takezo ofendeu-se com a aversão demonstrada por alguém que nem ao menos o conhecia direito.

— Pára aí! — Com um salto felino caiu sobre o vulto.

 

Takezo conhecia de vista o homem, um carvoeiro que andava com freqüência pela montanha. Agarrou-o pela gola e o interpelou:

— O que há, por que foges de mim, homem? Olha bem para mim, sou Shinmen Takezo, da vila Miyamoto, lembras-te? Não sou um monstro, não tenho por hábito devorar ninguém. Por que foges, sem ao menos me cumprimentar?

— Si... sim, senhor.

— Senta-te aí.

Mal o soltou, o carvoeiro tentou escapar novamente. Desta vez, Takezo chutou suas pernas finas e fingiu descarregar a espada sobre sua cabeça. Com um grito de terror, o homem jogou-se de bruços no chão, protegeu a cabeça com as mãos e imobilizou-se:

— Socorro! — guinchou.

Takezo não compreendia por que o povo da vila o temia tanto.

— Escuta aqui, quero apenas que respondas às minhas perguntas, está bem?

— Respondo, respondo sim, mas não me mate, por favor!

— Quem falou em matar? Quero saber se existem patrulhas na base da montanha.

— Sim, senhor.

— E o templo Shippoji, também está sendo vigiado?

— Está sim, senhor.

— Sabes se hoje o pessoal da vila saiu à minha procura pelas montanhas?

— Algo me diz que fazes parte das patrulhas.

O homem pulou sobressaltado e balançou a cabeça em veemente negativa:

— Não, nunca!

— Espera, fica quieto aí — disse Takezo, agarrando-o pela nuca e imobilizando-o. — O que foi feito de minha irmã?

— Irmã? Que irmã, senhor?

— A minha, imbecil, a senhora Ogin, dos Shinmen. Não posso evitar que o pessoal da aldeia saia à minha caça, aliciado pelo oficial que veio de Himeji, mas espero sinceramente que não estejam ameaçando minha irmã.

— Sei não, sei nadinha a respeito disso, não!

— Ora, malandro! — Takezo levantou a espada, ameaçador. — Estou estranhando teu jeito. Solta a língua de uma vez, ou te arrebento a cabeça com isto!

— Não faça isso, não precisa! Eu falo, eu falo! — suplicou o carvoeiro, juntando as mãos. Relatou então detalhadamente a prisão de Ogin, dizendo também que rodara pela vila uma notificação governamental estabelecendo que era criminoso, e portanto passível de sanção, todo aquele que fornecesse alimento ou concedesse abrigo a ele, Takezo. Contou ainda que todos os dias um homem era recrutado em uma das casas da aldeia e saía à sua procura pelas montanhas guiando o grupo do bushi de Himeji.

— Tens certeza, homem? — indagou Takezo, cuja pele se arrepiava de indignação. Seus olhos injetados encheram-se de lágrimas. — Mas de que crime acusam minha pobre irmã? — murmurou.

— A gente não sabe, a gente só tem medo de desobedecer às ordens do suserano.

— Aonde... aonde levaram minha irmã? Em que lugar fica a cela?

— Ouvi o povo da aldeia dizendo que a levaram para o posto de inspeção na fronteira de Hinagura. Foi o que ouvi dizer.

— Hinagura!

Um olhar sombrio carregado de ódio fixou a distante silhueta da montanha em que se situava a fronteira. A crista das montanhas da região Chuugoku projetava-se contra o céu já escuro, coalhado de nuvens cinzentas.

—Então é isso! Vou resgatá-la, minha irmã, espere por mim... — sussurrou Takezo. Escorado na espada de carvalho, desceu em direção ao pântano guiado pelo ruído da água, deixando em seu rastro apenas o farfalhar das folhas.

 

Há pouco silenciara o sino do serviço religioso. O abade do templo Shippoji, que estivera viajando, retornara no dia anterior.

Fora, o negrume não deixava entrever nada além da ponta do nariz. Proveniente do templo, porém, distinguia-se a claridade avermelhada das luzes votivas e do braseiro no alojamento dos monges, o tremeluzir da lamparina nos aposentos do abade e até mesmo o difuso contorno de pessoas.

— Tomara que Otsu-san apareça...

Takezo aguardava imóvel, enrodilhado sob a ponte que servia de corredor de ligação entre o santuário e os aposentos do abade. O aroma do jantar em preparação pairava morno no ar. Sopas e cozidos fumegantes povoaram sua imaginação. Seu estômago, que nada recebera além de raízes e carne crua de pássaros nestes últimos dias, contraiu-se dolorosamente. Takezo gemeu e vomitou, agoniado.

— Que foi isso? — Alguém ouvira.

— Deve ser um gato. — Era a voz de Otsu respondendo. Seu vulto surgiu em seguida, transportando o jantar numa pequena mesa portátil, e atravessou a ponte sob a qual Takezo se enrodilhava.

— Otsu-san! — tentou chamar Takezo, mas a voz falhou em meio à náusea. Felizmente, pois logo atrás surgiu um homem acompanhando-a:

— Onde fica a sala de banho? — perguntou. Vestia quimono cedido pelo templo, um estreito obi amarrado à cintura, e levava na mão uma toalhinha. Takezo levantou a cabeça e reconheceu o samurai que viera do castelo de Himeji. Pelo visto, enquanto ordenava a subordinados e camponeses que procurassem por Takezo, dia e noite sem descanso, o líder do grupo recolhia-se ao templo mal caía o sol, banqueteando-se e abusando do saque que os monges lhe serviam.

— A sala de banho, senhor? — Otsu depôs a pequena mesa que transportava. — Acompanhe-me, por favor. Caminhou pela varanda que circundava a construção, guiando-o aos fundos do templo. Repentinamente o comandante, que ostentava um fino bigode sobre o lábio superior, agarrou-a por trás:

— Que acha de tomarmos banho juntos? — disse.

— Que é isso? — gritou Otsu. Imobilizando seu rosto com as duas mãos, o samurai percorreu suas faces com os lábios:

— Boa idéia, não acha?

— Pare, pare com isso! — A pequena Otsu era frágil, nem conseguia gritar por socorro, pois o samurai tapara sua boca com a mão.

Esquecido de tudo, até mesmo do perigo, Takezo galgou de um pulo a varanda:

— Solte-a! — O soco atingiu a nuca do samurai, que tombou facilmente, ainda agarrado a Otsu. No mesmo instante, Otsu soltou um grito agudo.

Surpreso, o oficial bradou:

— Takezo! Você é Takezo! Às armas, homens, às armas!

Ato contínuo, ruído de passos e gritos cruzaram o ar, e um vendaval pareceu varrer o interior do templo. Alguém tangia o sino, conforme tinham previamente combinado.

— Ao ataque! — Os batedores espalhados pelas montanhas convergiram para o templo. Sem demora, iniciaram buscas pela montanha logo atrás do templo e, em seguida, vasculharam a de Kinumo. A essa altura, todavia, percorrendo caminhos só por ele conhecidos, Takezo já se encontrava na larga entrada da casa dos Hon’i-den:

— Obaba! Obaba! — chamava ele, em direção à luz proveniente da casa.

 

— Quem me chama?

Osugi surgiu descontraída do interior da casa, trazendo na mão uma vela, cuja chama um protetor de papel encerado abrigava do vento. O rosto cheio de rugas, iluminado de revés pela bruxuleante chama, adquiriu instantaneamente um tom acinzentado:

— Você...

— Duas palavras apenas, obaba. Matahachi não morreu na guerra. Ele está bem e vive numa outra província, junto com uma mulher. É só isso o que eu tenho a dizer. Avise Otsu-san por mim, está bem? — Mal acabou de falar, Takezo empunhou a espada e fez menção de retornar à noite escura.

— Pronto, já cumpri meu dever — murmurou.

— Takezo! — deteve-o Osugi. — Para onde pretende ir?

— Eu? — disse Takezo. A voz vinha carregada de tristeza. — Pretendo romper as barreiras do posto de Hinagura e resgatar minha irmã. Nunca mais voltarei a vê-la, obaba, pois logo depois vou-me embora para outras terras. Só vim até aqui porque queria informar, a você e a Otsu-san, que não abandonei Matahachi covardemente para voltar sozinho. Agora que já sabe, nada mais me detém neste lugar.

— Sei...

Mudando a vela de mão, Osugi gesticulou chamando-o para perto de si:

— Você deve estar com fome, meu filho.

— Há dias não sei o que seja comer uma refeição decente.

— Pobrezinho... Estava justamente preparando o jantar. Gostaria de oferecer-lhe como presente de despedida. Enquanto cozinho, vá tomar um gostoso banho quente.

— Vamos, Takezo. Afinal, a sua e a minha são famílias antigas, ambas remontando ao tempo dos Akamatsu. Não quero deixá-lo partir. Faça como estou lhe dizendo, meu filho.

Takezo levou o braço ao rosto e enxugou os olhos. O súbito contato com a bondade derreteu o gelo que desconfiança e cautela haviam formado em seu íntimo.

— Ande logo, dê a volta aos fundos. Não podemos arriscar que alguém o veja. Tem uma toalha? Já sei, enquanto toma seu banho, vou separar para você algumas peças de roupa limpa que eram de Matahachi. E depois vou acabar de preparar o jantar. Aproveite seu banho, não se apresse.

Entregando-lhe a vela, Osugi desapareceu no interior da casa. Passados alguns minutos, um vulto atravessou correndo o jardim da frente e se afastou às pressas: era a filha de Osugi.

Entrementes, a porta da casa de banho fechou-se com ruído. Dentro, a água correu e a luz da vela bruxuleou. Osugi perguntou:

— Como está a temperatura da água? A voz de Takezo soou abafada:

— Ótima... Puxa, parece que estou renascendo.

— Aproveite seu banho, não tenha pressa. Falta um pouco ainda para o jantar.

— Obrigado, obaba. Se soubesse, teria vindo mais cedo. Achei que você me odiava...

Mais algumas palavras em tom alegre perderam-se em meio ao ruído da água caindo. Não obteve, entretanto, resposta de Osugi.

Momentos depois, a filha de Osugi estava de volta, arfante. Trazia consigo um grupo de aproximadamente 20 homens, entre samurais e batedores de montanha.

Osugi esperava-os à entrada da casa e sussurrou-lhes algumas instruções.

— Como, você o mandou tomar um banho? Excelente idéia! Esta noite ele não nos escapa!

O grupo dividiu-se em dois e avançou rastejando como um bando de enormes sapos em direção à luz da casa de banho, a brilhar vermelha na escuridão.

Havia algo, uma sensação indefinível no ar: o sexto sentido de Takezo captou e o pôs em alerta. Instintivamente, o jovem espreitou o exterior pela fresta da porta e, no mesmo instante, sentiu os pêlos do corpo se eriçando:

— É uma armadilha! — vociferou.

Nu dentro de um minúsculo compartimento, não dispunha de tempo, nem de capacidade para raciocinar, pois percebera tarde demais. Fora, vultos empunhando bordões, lanças ejitte tomavam toda a área. Na realidade, não passavam de duas dezenas de homens, mas aos seus olhos pareciam multiplicados.

Não havia nenhuma alternativa de fuga. Não tinha à mão uma única peça de roupa. No entanto, Takezo não estava com medo. Ao contrário, a raiva que sentia de Osugi excitava seu espírito selvagem.

“Vou mostrar-lhes do que sou capaz!” Nem pensou em estratégias de defesa. Mesmo premido, só conseguia pensar em tomar a iniciativa e atacar.

Takezo escancarou a porta com um chute e saltou para fora enquanto seus captores aglomeravam-se indecisos quanto ao modo de invadir o compartimento.

— Estão à minha procura? — esbravejou. Estava nu e seus cabelos molhados haviam se soltado, caindo em desordem pelo pescoço.

Um homem correu em sua direção empunhando uma lança e investiu apontando-a contra o seu peito. Agarrando a lança pelo cabo, Takezo sacudiu-a e derrubou o homem. Rangendo os dentes, apossou-se da arma e avançou contra o grupo:

— Vermes!

A situação beirava o absurdo. Takezo agitava a lança em todos os sentidos, golpeando o inimigo a torto e a direito. Essa estratégia quase sempre surtia efeito. Na realidade, Takezo aprendera nos campos de Sekigahara a técnica de combater usando o cabo ao invés da ponta da lança.

Fora um erro de avaliação de seus perseguidores. Tarde demais percebiam que deveriam ter tomado a iniciativa do ataque e invadido a casa de banho em grupo de três ou quatro. Arrependidos, gritavam entre si, dando ordens desencontradas.

Entrementes, a lança bateu contra o solo em uma dezena de golpes sucessivos e se partiu. Embaixo do beiral próximo, Takezo notou uma pedra pesada repousando sobre uma enorme tina de picles. Agarrou a pedra, levantou-a e arremessou-a sobre o círculo dos seus perseguidores.

— Ele entrou na casa. Atrás dele! — gritaram os homens. No mesmo instante, a velha Osugi e a filha saltaram de dentro da casa para o jardim, esbaforidas e descalças, tropeçando na pressa.

Takezo vasculhava os aposentos tempestuosamente, provocando à sua passagem estrondos assustadores.

— Onde estão as roupas? Quero as minhas roupas! — esbravejava.

Jogadas pelos aposentos havia roupas que os moradores da casa usavam na lavoura e, caso se desse ao trabalho de procurar, encontraria peças limpas nos armários, mas sequer lhes deu atenção. Seus olhos injetados finalmente localizaram, a um canto da cozinha, os andrajos que estivera usando. Takezo agarrou-os e, usando a asa do forno como apoio, saiu pela janela e rastejou pelo telhado.

A confusão se estabelecera no solo: os homens gritavam estupefatos como se uma torrente barrenta, rompendo um dique, os houvesse engolfado. De pé bem no meio do telhado, Takezo vestia-se com toda a calma. Com os dentes rasgou uma tira de seu obi; em seguida, juntou os cabelos molhados num feixe e os amarrou tão firmemente à nuca, que os cantos dos olhos e as sobrancelhas se ergueram, repuxados.

Sobre a cabeça, estrelas juncavam um céu de primavera.

 

ESTRATÉGIAS DE GUERRA

— Olááááá...

O grito partia de uma montanha.

— Eeeeeeei...

Procedente de outra, soava longe a resposta. A caçada prosseguia diariamente, relegados a segundo plano o cultivo do bicho-da-seda e o trabalho na lavoura.

Imponentes tabuletas pregadas em altas estacas surgiram nas estradas e na porta da casa do líder da comunidade, com o aviso:

 

Shinmen Takezo — filho do falecido Shinmen Munisai desta aldeia — com prévia ordem de detenção, foi visto transitando pelas estradas serranas desta região. Quem com ele cruzar deverá prendê-lo imediatamente, pois é um criminoso e assassino. Os seguintes prêmios serão concedidos:

- a quem o capturar —10 moedas de prata;

- a quem o decapitar — 10 medidas de terra arável;

- a quem denunciar seu esconderijo — 2 medidas de terra arável.

No ano VI do Período Keichofaz saber,

Clã Ikeda Terumasa

Era grande o rebuliço na casa dos Hon’i-den, pois correra o rumor de que Takezo retornaria para se vingar. Apavorados, familiares trancavam portas e janelas e reforçavam todas as entradas com barricadas. Ao redor da casa agrupava-se também um considerável número de homens enviados pelo suserano de Himeji. Caso Takezo surgisse, os diversos grupos haviam planejado trocar sinais entre eles, tangendo sinos, tocando búzios e todos os instrumentos sonoros disponíveis, para encurralá-lo e, finalmente, prendê-lo. Contudo, apesar de todo o empenho, os resultados até o momento haviam sido nulos.

Pela manhã, um novo grupo de curiosos se formara à beira da estrada e seus integrantes sussurravam aflitos:

— Olhe, mataram mais um!

— Quem é a vítima desta vez?

— Um samurai.

O corpo havia sido encontrado nos limites da aldeia caído de cabeça num arbusto — pés projetados no ar de forma grotesca —, e logo rodeado de gente que espiava, cheia de medo e curiosidade.

O samurai tinha o crânio partido. Ao que tudo indicava, fora atingido com a tabuleta que, fincada no dia anterior em local próximo, estava agora caída, manchada de sangue, às costas do morto.

A face superior da tabuleta exibia o texto da premiação e as pessoas inteiraram-se de seu teor. Esquecidos da atrocidade cometida, alguns riram, ainda que involuntariamente.

— Não vejo graça alguma! — repreendeu alguém.

Otsu retirou-se da roda dos curiosos. Em seu rosto branco, até os lábios tinham perdido a cor.

— Não devia ter olhado... — arrependia-se, correndo para a base da colina do templo, esforçando-se para apagar da memória a cara do morto.

Um punhado de homens veio descendo com estrépito o morro. Avisados da ocorrência, dirigiam-se ao local liderados pelo comandante, que transformara o templo em acampamento de guerra havia já alguns dias. Ao avistar Otsu, o comandante perguntou, pachorrento:

— Olá, Otsu. Por onde andou?

Desde o desagradável incidente de dias atrás, a simples visão do bigode-de-arame provocava em Otsu calafrios de repulsa.

— Fui fazer compras. — Lançou a resposta sem ao menos olhar para ele e subiu correndo a longa escadaria de pedra que conduzia ao santuário central.

 

Diante do santuário, Takuan brincava com um cão. Ao perceber que Otsu” passava correndo, desviando-se do cachorro, chamou-a:

— Chegou uma carta para você, Otsu-san.

— Para mim?

— Como você não estava, recebi-a em seu lugar. Tirou a carta de dentro da manga e entregou-a.

— Que aconteceu? Você está pálida! — observou.

— Vi um homem morto à beira da estrada e comecei a passar mal.

— Pois não devia ter olhado... Embora vivamos atualmente num mundo em que não adianta fechar os olhos ou se desviar — há cadáveres em demasia aparecendo por toda a parte. Esperava que ao menos esta vila permanecesse em paz, como um pedaço do Paraíso Terrestre.

— Diga-me: o que leva Takezo-san a matar tanta gente?

— Se não matar, ele morre. E se nada fez para merecer a morte, não tem por que morrer.

— Estou com medo! — disse Otsu estremecendo. — E se ele aparecer, que faremos?

Nuvens cinzentas flutuavam novamente, baixas, sobre a crista das montanhas. Levando a carta nas mãos, Otsu caminhou absorta e desapareceu no interior do compartimento do tear, ao lado da cozinha.

Uma peça de padronagem masculina estava sendo tecida no tear. Otsu trabalhara incansável na peça desde o ano anterior, concentrando em cada fio todo o anseio pelo noivo ausente. Enquanto tecia, pensava continuamente no prazer que teria em vê-lo usando uma roupa feita com esse tecido.

Sentada junto ao pente, releu o invólucro:

— Quem será o remetente?

Uma órfã é sozinha no mundo — não costuma receber nem enviar cartas. Confirmou uma vez mais o destinatário, pois não conseguia deixar de imaginar que havia algum engano.

O envelope, bastante manuseado, chegara esgarçado e com os dizeres borrados por gotas de chuva, atestando o longo caminho, de posta em posta, percorrido pela carta. Ao rasgar o papel, duas cartas foram ao chão. Tomou uma ao acaso, e leu. A caligrafia feminina era-lhe totalmente desconhecida, e o estilo indicava alguém não muito jovem.

Otsu-sama,

Estou certa de que, ao ler a missiva junto a esta, nada mais terei a acrescentar. Escrevo, no entanto, movida pelo desejo de esclarecer a situação.

Ao sabor do acaso, cujos laços uniram nossos destinos, comunico-lhe que adotei o senhor Matahachi tornando-o meu legítimo herdeiro. Antevejo a inquietação que esta notícia lhe causará e que, a persistir, não lhe trará, nem a ele, proveito algum. Rogo-lhe, pois, esquecer doravante que o senhor Matahachi existe. Encerro aqui minha missiva. Respeitosamente,

Okoo

A outra carta, cuja caligrafia era sem sombra de dúvida de Matahachi, explicava prolixamente os motivos que o levavam a não voltar para casa. Resumindo, pedia a Otsu que esquecesse o passado e se casasse com outro. Dizia também que não tinha coragem de comunicar os fatos à mãe, e que por isso Otsu deveria, quando a encontrasse, dizer-lhe apenas que ele estava bem e que vivia em outra província.

Otsu sentiu um frio mortal invadindo-lhe a mente. Nem chorar conseguia. A cor das unhas nos dedos trêmulos que seguravam a carta pareceu-lhe igual à das unhas do morto entrevisto pela manhã a caminho das compras.

 

Enquanto seus homens se cansavam em incessantes diligências, expostos dia e noite à intempérie, o comandante do bigodinho-de-arame transformara o templo em quartel-general e, simultaneamente, em refúgio para si próprio, ali pernoitando sossegado. Como resultado, os monges do templo desdobravam-se todas as noites para atendê-lo, aquecendo-lhe a água para o banho, preparando-lhe um bom prato de peixe, buscando saque de boa qualidade nas casas dos camponeses, os cuidados com a hospitalidade consumindo-lhes boa parte do tempo.

A noite vinha chegando. Em meio à azáfama, Otsu não se mostrara ainda na cozinha e, em conseqüência, o jantar do hóspede do abade tardava.

Takuan percorria os limites do templo chamando por Otsu como se ela fosse uma criança perdida. Havia passado diversas vezes na frente do abrigo do tear, mas não espiara dentro, pois a porta estava fechada e não ouvira o som do tear em movimento.

— Onde está Otsu? — esbravejava o abade, surgindo repetidamente no corredor em forma de pontilhão. — Em algum lugar tem de estar! Não vêem que o nosso hóspede sente falta dos seus serviços e se recusa a tocar no saque? Andem logo, encontrem-na de uma vez!

Tamanha era a sua aflição que, por fim, o sacristão se viu obrigado a descer até a base do morro, iluminando o caminho com uma lamparina portátil.

Casualmente, Takuan abriu a porta da sala do tear e ali encontrou Otsu. Debruçada sobre o tear, estava envolta em triste silêncio, sozinha no escuro.

Por instantes, Takuan nada disse, pois parecia-lhe que presenciava sem querer uma cena não destinada aos seus olhos. Aos pés da jovem notou duas cartas ferozmente retorcidas e pisoteadas como atormentados bonecos de maldição[19]. Takuan apanhou-as:

— Estas não são as cartas que chegaram hoje cedo, Otsu-san? Por que não as guarda?

Otsu sequer as tocou. Apenas balançava de leve a cabeça.

— Estão todos à sua procura. Percebo que não está se sentindo bem, mas vá servir o jantar nos aposentos do abade, vá. Acho que ele está em apuros.

— Estou com tanta dor de cabeça... Deixe-me sozinha, ao menos por esta noite, monge Takuan.

— Se dependesse de mim... Sempre me pareceu um despropósito fazê-la atender à mesa e servir saque a quem quer que seja. Mas você precisa compreender que, infelizmente, o nosso abade é um mundano sem convicções morais firmes: aprecia demais os prazeres da sociedade e sente-se na obrigação de banquetear e adular o Bigodinho-de-arame. Pensa estar desse modo agradando indiretamente ao seu suserano e não percebe que, agindo assim, compromete a dignidade deste templo. — Acariciou de leve as costas da jovem e acrescentou: — Mas nunca esqueça que quem cuidou de você e a criou desde criança foi o abade. Em ocasiões iguais a esta, tente ser-lhe útil. Basta comparecer, nem que seja por alguns instantes. Compreendeu?

— Sim.

— Então, vamos.

Quando o monge a soergueu, Otsu finalmente levantou a cabeça em meio ao odor acre das lágrimas:

— Eu vou. Mas gostaria que o senhor ficasse comigo nos aposentos do abade, monge Takuan, enquanto sirvo ao nosso hóspede.

— Não me importo; o samurai do bigodinho de arame, porém, parece não gostar muito de mim. E eu, de minha parte, sou tentado a zombar dele toda vez que ponho os olhos naquele bigode. É uma reação infantil, reconheço, mas... sou assim mesmo, que se há de fazer...

— Sozinha não vou.

— Não se preocupe, o abade estará lá.

— Mas sempre que chego, o abade se retira!

— Isso agora é inquietante... Muito bem, eu a acompanho então. Portanto, vá despreocupada preparar o jantar, minha pequena.

 

Com a chegada de Otsu, o humor borrascoso do hóspede melhorou aos poucos. À medida que as taças de saque se esvaziavam, acentuava-se a vermelhidão do seu rosto e, contrapondo-se ao bigodinho empinado, os cantos dos olhos descaíam languidamente.

Algo, porém, o impedia de atingir o estado de total bem-aventurança: do outro lado da mesa havia um intruso que se sentava achatando-se contra o tatami como um corcunda e lia um livro apoiado sobre as coxas. Era o monge Takuan. Calculou que este fosse um dos muitos funcionários de menor importância do templo e, portanto, dirigiu-se a ele com um agressivo movimento do queixo:

— Ei, você!

Ao notar que, absorto na leitura, Takuan sequer erguia a cabeça, Otsu chamou-lhe discretamente a atenção.

— É comigo? — perguntou o monge, procurando ao redor.

— Você mesmo, padreco. Não preciso de você. Pode se retirar.

— Não, muito obrigado.

— Não consigo apreciar devidamente a bebida com você aí lendo um livro! Levante-se! — insistiu o comandante.

— Pronto, pronto, já fechei o livro — retrucou o monge, sereno.

— Só de vê-lo me irrito.

— Então leve o livro para fora, Otsu-san.

— Não estou me referindo ao livro. É você a nota destoante neste ambiente.

— Isto agora é um problema. Evidentemente, não possuo os poderes de Goku Sonja[20]: não sou capaz de me evaporar e desaparecer, ou ainda, de assumir a forma de uma mosca e pousar no canto desta mesa...

— Insolente! Retire-se, já disse! — gritou cada vez mais furioso o comandante.

— Está bem! — respondeu Takuan, parecendo convencido. Tomou a mão de Otsu e acrescentou: — Nosso hóspede aprecia a solidão. Amor ao isolamento: eis o verdadeiro espírito do homem virtuoso! Vamos embora, Otsu-san, estamos estorvando.

— E...eei!

— Pronto?

— Quem lhe disse para levar Otsu? Eu já sabia, já sabia! Desde o princípio você me pareceu um bonzo arrogante e detestável!

— É verdade, não existem, neste mundo, muitos bonzos ou samurais graciosos. Seu bigode, por exemplo...

— Cale a boca e endireite-se! — gritou o oficial, estendendo a mão para a espada que repousava no nicho.

Takuan arregalou os olhos e fixou o bigodinho que, com a fúria, se retesava:

— Endireitar? Endireitar o quê?

— Está ficando cada vez mais insolente! Vou executá-lo, como punição!

— Pretende cortar-me a cabeça? Desista, não vale a pena! — riu Takuan.

— Repita o que disse!

— Não há nada mais desestimulante que decapitar um bonzo. Esforço perdido se, na cabeça que rolou, a boca de repente se abrir num alegre sorriso...

— Ah, é? Quero ver você dizer alguma coisa quando tiver a cabeça separada do corpo!

— No entanto...

A loquacidade de Takuan só fazia aumentar a ira do comandante. A mão cerrada sobre a empunhadura da espada tremia nervosa.

Otsu interpôs-se entre os dois homens, protegendo Takuan com o próprio corpo e, com voz chorosa, recriminava a verbosidade do monge:

— Não fale assim, monge Takuan! Esta não é a maneira correta de se dirigir a um samurai. Por tudo que lhe é sagrado, peça-lhe desculpas, vamos! E se ele lhe corta a cabeça de verdade?

Mas Takuan continuou, irredutível:

— Ora, afaste-se, Otsu-san! Não se preocupe, um homem incompetente como ele, que mesmo contando com a ajuda de um bando de homens leva mais de 20 dias e não consegue capturar um simples fugitivo, não está em condições de cortar a cabeça do monge Takuan. Espantoso será se conseguir! Realmente espantoso!

 

— Não se mexa! — rosnou o comandante, o rosto de lua cheia rubro de raiva, extraindo a meio a espada da bainha. — Afaste-se, Otsu, vou partir em dois esse padreco que já nasceu falando!

Otsu, que continuava protegendo Takuan às costas, prostrou-se aos pés do oficial e suplicou:

— Compreendo que o senhor esteja irritado, mas, por piedade, perdoe o monge Takuan. Ele não faz por mal, esse é o seu jeito de lidar com todas as pessoas. Não é nada pessoal, ele brinca deste modo com todo mundo.

Takuan interveio:

— Que é isso, Otsu-san? Não estou brincando, falo sério. Disse incompetente, porque ele é um samurai incompetente. Que mal há nisso?

— Ainda insiste? — vociferou o comandante.

— Insisto quanto quiser. Por certo não lhe interessa quantos dias leva a tumultuada perseguição movida contra Takezo; mas pense no prejuízo dos camponeses, obrigados a abandonar a lavoura e a auxiliar nos trabalhos de busca, sem remuneração. Pense nos pobres arrendatários; é possível que eles morram de fome.

— Escute aqui, padreco: como se atreve, com a sua insignificância, a criticar a administração de meu suserano?

— Não critico o governo de seu suserano; critico, isto sim, a mentalidade de alguns de seus funcionários que, interpondo-se entre o suserano e o povo, transformam a profissão numa sinecura. Por exemplo, você: o que o faz sentir-se no direito de estar agora nestes aposentos, usando apenas um quimono leve após o banho, regalando-se com um banquete servido por uma linda menina? Quem lhe concedeu tal privilégio?

— Lealdade ao servir o suserano; humanidade no trato com o povo — não são esses os deveres de um funcionário? Por outro lado, ignorar os entraves à lavoura, desconsiderar a fadiga dos subalternos, roubar horas durante o cumprimento do dever para, sozinho, se banquetear, esbanjar os recursos da população, oculto sob a capa do poder — são procedimentos típicos do mau funcionário.

— Experimente decapitar-me e levar minha cabeça a Ikeda Terumasa, senhor do feudo de Himeji. Dirá ele, atônito: “Que é isso, Takuan? Aqui vejo só a tua cabeça! Como é que me vens visitar deste jeito? Que foi feito do resto de ti?” Saiba você que o senhor Terumasa e eu somos velhos conhecidos, desde os tempos das cerimônias de chá do templo Myoshinji — encontrei-o ainda diversas vezes na cidade de Osaka e também no templo Daitokuji.

O comandante agora tinha a aparência de uma víbora da qual houvessem extraído a peçonha. A embriaguez refluía lentamente e parecia incapaz de avaliar se o monge falava sério ou não.

— Para começar, acho melhor que se sente — convidou-o Takuan. — Se você acha que minto, posso muito bem ir agora mesmo ao castelo de Himeji e visitar o senhor Terumasa, levando-lhe um pacote de farinha de trigo sarraceno de presente. Mas se existe algo de que eu não goste é de bater à porta de senhores feudais. Por outro lado, se durante a amena conversa com que nos entreteremos à mesa do chá se vier a falar da infrutífera caçada que você promove na vila Miyamoto, é quase certo que o suserano lhe ordenará o seppuku[21]. É por isso que eu dizia, desde o princípio: desista de querer decapitar-me. Mas o mal de um samurai é ser incapaz de avaliar as conseqüências dos seus atos: aí reside o verdadeiro defeito do bushi.

— Devolva a espada ao nicho — continuou o monge. — E aproveitando o ensejo, tenho mais algumas recriminações a fazer: você, com certeza, nunca leu a obra de Sun Tzu[22] sobre estratégias de guerra. Pois é uma vergonha que você, um samurai, desconheça as obras de Sun Tzu e de Lu Tzu[23]! Com base nesses tratados, vou fazer-lhe agora uma preleção sobre como capturar Takezo sem provocar maiores baixas entre seus soldados. Não tem outra saída senão ouvir-me com atenção, pois disso dependerá sua carreira futura. Sente-se, já lhe disse! Otsu-san, sirva-lhe um pouco mais de saque, por favor.

 

Entre Takuan, mal entrando na casa dos 30, e o comandante do bigode-de-arame, já passando dos 40, havia mais de dez anos de diferença. Entretanto, não é a idade que estabelece a real diferença entre os homens: o que conta é a qualidade desses homens e o aprimoramento dessa qualidade. E se o aprimoramento do caráter se processar de modo contínuo, como no caso do monge, a diferença torna-se imensurável.

— Não, muito obrigado, não creio que deva beber mais — replicou respeitosamente o comandante, esquecido o agressivo ímpeto inicial. — Então, sois íntimo de meu suserano Terumasa! Perdoai minhas repetidas ofensas, pois ignorava a circunstância — acrescentou. Seu embaraço era tão evidente que beirava o cômico.

Takuan, no entanto, não se mostrou arrogante:

— Ora, ora, deixemos esse assunto de lado. Como capturar Takezo, eis a questão. Em resumo, esta é a sua missão e de seu bom êxito depende sua honra, não é verdade?

— É como dizeis.

— Se bem que, pelo que vejo, você não deve estar se importando muito, pois quanto mais demorar a capturar Takezo, mais tempo lhe sobrará para permanecer indolente no templo, apreciando a farta mesa e perseguindo a pequena Otsu.

— Não, não é bem assim... Quanto a este assunto, muito apreciaria se...

— ... eu não informasse o seu suserano, não é verdade? Pode contar com a minha discrição. Mas por outro lado, se a perseguição a Takezo se prolongar por mais tempo — restrita às buscas pelas montanhas, aliás de todo infrutíferas — além do sofrimento imposto aos camponeses, há de se considerar o desconforto deste povo ordeiro, impossibilitado de se empenhar com tranqüilidade em seus afazeres diários.

— Sei disso e, apesar das aparências contrárias, intimamente me impaciento com a situação, noite e dia...

— Falta-lhe apenas uma bom plano, não é mesmo? É por isso que lhe digo: você desconhece os rudimentos da arte guerreira.

— Estou envergonhado...

— Tem razão, é uma vergonha. Tem de aceitar quando digo que é um incapaz, um servidor corrupto de vida mansa... Mas não me agrada continuar apenas a humilhá-lo. Prometo-lhe, portanto, capturar Takezo dentro de três dias.

— Que dissestes?

— Pensa que estou mentindo?

— Mas...

— Mas, o quê?

— ... algumas dezenas de soldados trazidos de Himeji, juntamente com algumas centenas de lavradores — perfazendo um total aproximado de duzentas pessoas — estão vasculhando essas montanhas sob as minhas ordens!

— Belo trabalho, sem dúvida...

— Estamos também em plena primavera, e não faltam alimentos nas montanhas: a estação é favorável a Takezo e desvantajosa para nós.

— Espere, então, até as primeiras neves do inverno.

— Creio que isso também...

— ... não seja conveniente, não é mesmo? É por isso que estou lhe oferecendo ajuda: eu porei Takezo a ferros. Posso muito bem dar cabo da missão sozinho; pensando melhor, vou pedir a ajuda de Otsu-san. Nós dois daremos conta do recado.

— Gracejais novamente!

— Não diga asneiras! Pensa você, por acaso, que Shuho Takuan passa seus dias gracejando?

— N... não, senhor! — retrucou o comandante, perplexo.

— É por isso que lhe disse e torno a repetir: você ignora os rudimentos da arte marcial. Sou um monge, é verdade, mas conheço a essência dos livros do grande estrategista Sun Tzu. Imponho, porém, uma condição antes de aceitar essa missão. Caso você não concorde, pretendo cruzar os braços e esperar como simples espectador a chegada das primeiras neves.

— Qual é a condição?

— Que deixe a meu cargo punir Takezo, depois de capturado.

— Quanto a isso...

O comandante torcia o bigodinho-de-arame, pensativo. Conjecturava se esse jovem monge desconhecido não estaria apenas tentando enganá-lo com bravatas. Caso se mostrasse firme, talvez se assustasse, revelando sua verdadeira identidade, calculou. Resolveu, portanto, responder com firmeza:

— Aceito. Se vós capturardes Takezo, a punição ficará a vosso cargo. Caso, no entanto, não consigais o intento no prazo de três dias, o que fareis?

— Enforco-me numa árvore deste jardim — disse Takuan, mostrando a língua como um enforcado.

 

Na manhã seguinte, o sacristão esbravejava ansioso na cozinha:

— O monge Takuan deve estar louco. Ouvi dizer, há pouco, que aceitou uma missão absurda!

Ao ouvir os detalhes, os homens ao redor esbugalhavam os olhos:

— Não acredito!

— Mas de que jeito?

Até o abade, posto a par do assunto, sentenciou:

— Bem diz o ditado: pela boca se fisga o peixe. Suspirou, meneando gravemente a cabeça.

Uma pessoa, no entanto, preocupava-se de fato com o monge: a órfã Otsu, agora mais que nunca sozinha no mundo, sem ninguém a quem recorrer doravante. Pois a inesperada carta de rompimento que recebera de Matahachi — em quem até então depositara inteira confiança — magoara-a muito, talvez mais ainda do que se por acaso tivesse recebido uma carta comunicando a morte do noivo em campo de batalha; nenhum laço a prendia, por outro lado, à geniosa matriarca dos Hon’i-den, exceto a circunstância de ser ela a mãe de seu ex-noivo.

Nessa situação Takuan era, para a jovem, a única luz em meio ao sofrimento. Quando fora descoberta pelo monge no dia anterior em prantos junto ao tear, cogitava de verdade em matar-se com a mesma lâmina que usara para estraçalhar o tecido, em cuja preparação trabalhara com tanto afinco. Demoveram-na do intento, persuadindo-a até a atender o hóspede, as reconfortantes palavras do monge e o calor de suas mãos. E agora, o querido monge corria perigo.

Esquecida dos próprios reveses, Otsu sofria ante a possibilidade de perdê-lo numa aposta insensata.

O bom senso dizia-lhe ser impossível, a ela e ao monge, prender Takezo em apenas três dias quando um contingente inteiro não lograra deitar-lhe as mãos em mais de 20 dias de perseguição contínua.

Na noite anterior, Takuan se despedira do comandante e regressara ao santuário após jurar, em nome de Yumiya-Hachiman[24], o fiel cumprimento dos termos da aposta. Mal o vira de volta ao alojamento, Otsu não se contivera e pusera-se a recriminar interminavelmente os termos levianos da aposta. Takuan, porém, batera com gentileza em seu ombro, dizendo-lhe que não se preocupasse: que importância tinha a sua vida, dissera, se em troca dela lograssem eliminar a fonte de dissabores do vilarejo, remover o perigo que rondava as estradas de quatro províncias — Inaba, Tajima, Harima e Bizen — e salvar ainda a vida de muita gente? Que descansasse tranqüila até a tarde do dia seguinte, deixando o resto por sua conta, acrescentara. A preocupação de Otsu só pôde aumentar.

A tarde já chegara. Ao procurar por Takuan, encontrou-o fazendo a sesta em companhia de um gato, a um canto do santuário.

Todos no templo, a começar pelo abade e incluindo o sacristão e simples funcionários, empenhavam-se agora em fazer Otsu desistir da missão:

— Não vá, Otsu-san!

— Esconda-se em algum lugar!

Passeando vagamente o olhar ao seu redor, Otsu nem por isso se decidia.

O sol já caía a oeste. No vale, ocultos entre as pregas formadas pelas montanhas da cordilheira do Chuugoku, o rio Aida e a vila Miyamoto envolviam-se lentamente em sombras sob a tênue luz do sol poente.

Um gato pulou do santuário, sinal de que Takuan se levantara. Em pé na varanda do templo, o monge se espreguiçava.

— Arrume-se que já vamos partir, Otsu-san — disse o monge.

— Já preparei sandálias, cajados, perneiras, remédios e as capas de chuva para a nossa expedição às montanhas.

— Quero acrescentar mais alguns itens.

— Uma lança... ou talvez uma espada?

— Absolutamente! Quero que me prepare comida.

— Um lanche, o senhor quer dizer?

— Não, uma panela, arroz, temperos para sopa, sal... e, se der, um pouco de saque. Procure na cozinha e acrescente o que mais for possível. Ajeite tudo numa única trouxa: vamos carregá-la juntos, passando-a pelo cajado.

 

O FEITIÇO DE UMA FLAUTA

As montanhas próximas destacavam-se negras, parecendo banhadas em verniz; as distantes mostravam seus contornos pálidos na noite de primavera, de morna brisa.

À beira do caminho, a névoa se aninhava nas pequenas moitas de bambu e nos ramos das glicínias. Na medida em que se distanciavam do povoado, as montanhas surgiam parecendo molhadas por uma chuva noturna.

— É gostoso andar assim, não acha, Otsu-san? — comentou Takuan, carregando uma das pontas do cajado em que passara o fardo com os mantimentos.

Levando a outra ponta ao ombro, Otsu respondeu, às costas do monge:

— Nem um pouco. Posso saber até onde o senhor pretende seguir?

— Bem... — A resposta do monge soou insegura. — Vamos prosseguir um pouco mais, está bem?

— Não me incomodo de andar, mas...

— O que foi, cansou-se?

— Não....

Otsu sentia doer o ombro em que apoiava o cajado e transferia o peso, ora à direita, ora à esquerda.

— Reparou que não encontramos ninguém até agora? — observou Otsu.

— Penso que o comandante do bigodinho-de-arame recolheu todos os seus homens ao povoado e pretende permanecer de braços cruzados durante os três dias da aposta, pois não o vi hoje nos arredores do templo.

— Depois das bravatas que contou, como, em nome dos céus, pretende o senhor capturar o fugitivo?

— Em algum momento ele vai ter de aparecer.

— Mesmo que apareça, sempre foi uma pessoa muito valente. Além disso, sente-se acuado e desesperado. Neste momento, é o demônio em pessoa. Só de pensar, minhas pernas tremem.

— Olhe aí, bem aos seus pés!

— Ai, que horror! Que susto o senhor me pregou!

— Calma, ainda não é o nosso jovem. Chamei sua atenção porque estenderam cipós e armaram essas barreiras de sarças à beira do caminho.

— Já sei: os homens prepararam armadilhas e esperam que Takezo-san caia nelas.

— Se não tomarmos cuidado, quem vai acabar caindo nelas somos nós — gracejou o monge.

— Por favor, não diga isso! Fico com tanto medo que não consigo dar nem mais um passo!

— Se for para cairmos numa armadilha, serei eu o primeiro. Mas a quanto trabalho inútil se deram esses homens... Ah, nós já entramos um bocado no vale.

— Há pouco, vencemos a montanha Kinumo. Esta área já deve ser Tsuji-no-Hara — disse Otsu, que conhecia bem as redondezas.

— Acho que não vale a pena andarmos a noite inteira. E você, que acha? — perguntou o monge.

— Não adianta me perguntar, não sei de nada! — esquivou-se Otsu, mal-humorada.

— Vamos descansar o fardo por alguns instantes.

— Que pretende fazer, monge?

Takuan caminhou até a beira do penhasco e respondeu:

— Vou fazer xixi.

A seus pés, as águas da cabeceira do rio Aida formavam corredeiras e rugiam enlouquecidas, debatendo-se entre sólidos rochedos.

— Ah, que sensação! Estamos em sintonia: eu e o universo, o universo e eu.

De cabeça erguida, Takuan parecia contar estrelas enquanto uma fina névoa subia da urina expelida.

Ao longe, Otsu reclamou, desamparada:

— Ande logo, monge Takuan! Que demora! O monge retornou finalmente:

— Pronto! Parado naquele lugar, tive um presságio. Agora podemos ir, pois já tenho uma noção aproximada da direção a seguir.

— Presságio?

— O presságio me veio à mente, ou melhor, à alma: analisei os aspectos da terra, das águas e do céu, ponderei sobre os mesmos e fechei os olhos. Recebi então um sinal que me dizia para ir àquela montanha.

— Ade Takateru?

— Desconheço o nome, mas é a que tem uma meseta, desprovida de árvores, bem visível em sua encosta.

— Aquela clareira é o Pasto de Itadori.

— Pasto de Itadori! Um pasto que aprisiona[25]!! Eis um nome de bom agouro. Takuan riu com gosto.

 

A área, um suave declive de esplêndida vista, situa-se na encosta sudeste da montanha de Takateru, a meio caminho de seu pico, e é conhecida pelos habitantes locais como Pasto de Itadori.

Se por pasto era conhecida, a área devia servir de pastagem para bois ou cavalos, mas o local estava deserto. Naquele momento, apenas uma leve aragem noturna encrespava a relva, não havendo o menor vestígio dos animais.

— É aqui que vamos acampar. Neste momento, Takezo é o inimigo Gi-no-Souso, e eu sou Shokatsu Koumei[26].

Otsu descansou o pequeno fardo no chão:

— Que é que vamos fazer? — perguntou.

— Vamos sentar — respondeu o monge.

— E o senhor acha que, sentados, conseguiremos prender Takezo-san?

— Com uma boa rede, consegue-se apanhar até um pássaro em pleno vôo. É muito simples!

— Monge Takuan, não estaria o senhor divagando, enfeitiçado por uma raposa[27]?

— Vamos acender uma fogueira: pode ser que ele caia na armadilha. Takuan acendeu a fogueira juntando gravetos secos. Ligeiramente reconfortada, Otsu comentou:

— Como o fogo reanima!

— Estava com medo, Otsu-san?

— Um pouco. Acho que ninguém gosta de passar a noite perdido num lugar como este, no meio de uma montanha. E depois, que pretende fazer se começar a chover, monge?

— Quando vinha para cá, notei que havia uma gruta na estrada logo abaixo. Se chover, nela nos abrigaremos.

— Takezo-san também deve procurar abrigo nesses lugares à noite, ou quando chove. Por que é que os moradores da aldeia o odeiam tanto? Não consigo compreender...

— É desse modo que reagem ao poder. Quanto mais simples o povo, mais teme a autoridade. O medo é tamanho que acabam por expulsar um irmão de suas próprias terras.

— Em resumo, cada um só pensa em salvar a própria pele, não é isso?

— Considerando-se que o povo não tem meios para se defender, a reação é, até certo ponto, justificável.

— E quanto aos samurais de Himeji: precisam fazer tanto estardalhaço para perseguir um único homem?

— Isso também é inevitável, em nome da segurança pública. Na verdade, tudo começou porque Takezo, sentindo-se constantemente acuado desde a batalha de Sekigahara, rompeu uma barreira na fronteira quando voltava a essa aldeia, abatendo um homem do clã do suserano de Himeji, encarregado de vigiar o posto de inspeção da montanha. Em conseqüência, viu-se forçado a cometer sucessivos assassinatos para poder preservar a própria vida: ninguém senão o próprio Takezo deve ser responsabilizado por essa desgraça — ela resulta do pouco conhecimento que Takezo tem da vida.

— Também odeia Takezo-san, monge Takuan?

— É claro! Fosse eu o suserano, com toda a certeza iria puni-lo severamente: mandaria esquartejá-lo para que servisse de exemplo a toda a nação. Mesmo que ele tivesse o poder de se ocultar sob a terra, ainda assim o prenderia e o crucificaria, nem que para isso tivesse de abrir caminho entre as raízes das plantas. Se você for liberal e disser: “Ora, para que tanto barulho, é apenas Takezo, um único homem”, as rédeas do governo se afrouxarão. E isso é perigoso, sobretudo em nosso mundo atual, tão conturbado.

— Nossa! O senhor na verdade é muito severo, monge Takuan, apesar de ser sempre tão gentil comigo.

— Sou mesmo! Vim para aplicar com imparcialidade severa punição e sábia recompensa. Estou aqui investido desse poder.

— Que foi isso?

Otsu levantou-se de seu lugar ao lado da fogueira com um sobressalto:

— Não ouviu passos lá embaixo, no meio das árvores?

 

— Passos? — perguntou Takuan, apurando também os ouvidos; logo, porém, rompeu em riso, exclamando:

— São macacos! Veja, lá vão eles, mãe e filhote, pulando de galho em galho!

Otsu respirou aliviada:

— Ufa! Que susto! — murmurou, tornando a sentar-se.

Fixando as labaredas em muda contemplação, deixaram-se os dois ficar por mais de duas horas, ao sabor da noite que avançava. Quebrando gravetos secos e alimentando a fogueira que se extinguia, Takuan perguntou:

— Em que pensa, pequena?

— Eu?

Otsu desviou o rosto de pálpebras inchadas pelo calor das chamas e fitou o céu: — Pensava em como é misterioso este mundo. Parada neste lugar, consigo sentir este monte de estrelas, dentro da noite deserta... isto é, deserta não, pois tudo permanece no mesmo lugar, oculto pela escuridão... Como ia dizendo, consigo sentir as estrelas se mexendo, devagarinho, num amplo movimento. Não sei como, mas o mundo se move, eu o sinto. Ao mesmo tempo, também eu, esta pequena coisa insignificante, posso estar sendo manipulada por, vamos dizer, algo invisível, meu destino sendo modificado a todo instante, nesta mesma hora em que aqui estou... É nisso que pensava o tempo todo.

— Mentira! Pode até ser que tal pensamento tenha passado por sua mente, mas deve haver algo mais sério a preocupá-la — retrucou o monge.

— A verdade é que eu li a carta que você recebeu; perdoe-me se isso lhe desagrada.

— A carta?

— Como você só chorava, recusando-se a retomar a carta que apanhei no chão da sala do tear, guardei-a na manga do quimono. O que fiz em seguida não foi muito elegante, reconheço, mas... acabei lendo tudo, tintim por tintim, sentado na latrina, só para fazer o tempo passar.

— Monge! Que feio!

— E então compreendi tudo. Isso que lhe aconteceu, Otsu-san, foi melhor para você, eu acho.

— Melhor por quê?

— Deu para perceber que Matahachi é um homem volúvel; pior seria se ele a afrontasse com uma carta daquele tipo depois de casados. Já que aconteceu antes, foi até melhor, eu penso.

— É difícil para nós, mulheres, raciocinar desse jeito.

— E então, de que jeito raciocinam vocês?

— Acho que fui humilhada! Humilhada! — disse Otsu, mordendo repentinamente a manga do quimono. — Hei de encontrá-lo a qualquer custo e dizer-lhe tudo o que penso a seu respeito, ou não terei paz. E também a essa mulher, Okoo.

Takuan fitava o perfil da jovem que soluçava, cheia de mágoa:

— Pronto, já começou... — murmurou, com certa incoerência. — Esperava que ao menos a você, Otsu-san, o destino reservasse uma vida tranqüila, sem contato com a maldade do mundo ou a falsidade dos homens; que você cresceria, um dia tornando-se mãe e depois avó, terminando seus dias pura como a flor da Figueira Sagrada[28]. Mas vejo que os ventos do destino já começam a fustigá-la.

— ... tão humilhada! E agora, o que faço da minha vida, monge Takuan?

Sacudida por soluços, Otsu chorou por muito tempo, o rosto oculto nas dobras da manga.

 

Durante o dia, escondidos na gruta, os dois dormiam o quanto queriam. Comida não lhes faltava.

Todavia, por um motivo qualquer, Takuan não saía à procura de Takezo para tentar capturá-lo, principal objetivo da excursão, tampouco parecendo com isso se importar.

A terceira noite já havia chegado. Sentada ao lado da fogueira, como nas duas noites anteriores, Otsu o alertou:

— O prazo expira esta noite, monge Takuan.

— Expira mesmo.

— Que pretende o senhor fazer?

— Com relação a quê?

— Como? Já se esqueceu que viemos até aqui para cumprir os termos da terrível aposta?

— Hum.

— Se não conseguirmos prender Takezo-san esta noite ainda... Takuan a interrompeu:

— Já sei, já sei. Se eu falhar, meu corpo penderá de um dos galhos do velho cedro, muito simples. Entretanto, não quero morrer ainda, não se preocupe.

— Nesse caso, que acha de sair à procura dele?

— Não o encontraríamos no meio destas montanhas, mesmo que o procurássemos...

— Decididamente, não consigo compreendê-lo! O interessante, porém, é que sentada aqui ao seu lado, até eu começo a me sentir confiante e a achar que devemos nos abandonar ao destino.

— Sentir-se confiante, este é o ponto!

— Quer dizer, então, monge Takuan, que aceitou essa missão maluca apenas por confiar em si mesmo?

— Mais ou menos.

— Ai, que desespero!

A insegurança tomou realmente conta de Otsu que, no íntimo, vinha acreditando ter o monge algum trunfo escondido.

Seria esse homem um débil mental? Um indivíduo no limiar da demência é, algumas vezes, confundido com um gênio. Talvez esse fosse o caso do monge, conjecturou Otsu.

Takuan, porém, continuava a fitar o fogo, tendo no rosto uma expressão vaga.

— Bem, metade da noite já se foi — murmurou, como se só então se desse conta disso.

— Isso mesmo. Logo, logo, vai amanhecer—enfatizou Otsu, propositadamente seca..

— Estranho... — murmurou o monge.

— O que foi?

— Já deveria ter aparecido.

— Fala de Takezo-san?

— E de quem mais?

— Ninguém é louco de se apresentar voluntariamente a seu algoz — ponderou Otsu.

— Engano seu. No fundo, o espírito humano é frágil. O homem, por natureza, abomina a solidão. Sobretudo aquele que se vê repelido e perseguido por seus semelhantes e que, sozinho, enfrenta o gelo e o aço da sociedade. Impossível que não se sinta atraído pelo calor destas chamas.

— O senhor não está tirando conclusões precipitadas?

— De modo algum! — disse o monge, sacudindo a cabeça com convicção. Otsu sentiu-se reconfortada com a discordância do monge.

— Segundo meus cálculos, ele já deve estar por perto. Entretanto, não sabe se me considera amigo ou inimigo. Julgo que, miserável e assaltado por dúvidas, não consegue estabelecer contato conosco e nos observa das sombras com olhar furtivo. Já sei, ceda-me por instantes isso que você traz preso ao seu obi, Otsu-san.

— A flauta?

— Ela mesma.

— Sinto muito, mas esta flauta não empresto a ninguém.

 

— Por que não? — perguntou Takuan com inusitada insistência.

— Porque não quero — respondeu Otsu, meneando negativamente a cabeça.

— Que mal há nisso? O uso não desgasta uma flauta: pelo contrário, só a aprimora.

— Mesmo assim.

Otsu mantinha uma mão sobre o obi, não dando mostras de concordar.

Na verdade, Takuan a compreendia muito bem, pois certo dia em que Otsu lhe contara suas origens, falara-lhe da importância da flauta que sempre trazia consigo; contudo, achava que a jovem podia cedê-la ao menos por alguns momentos e insistiu:

— Tocarei com cuidado, prometo. Empreste-me, só por um instante.

— Não quero.

— De jeito nenhum?

— De jeito nenhum.

— Mas que menina teimosa!

— Sou mesmo. Takuan, então, cedeu:

— Nesse caso, toque você uma peça.

— Também não quero — disse Otsu, balançando mais uma vez negativamente a cabeça.

— Nem isso?

— Nem isso.

— Por quê?

— Porque começo a chorar quando toco.

— Sei...

Quão empedernido se torna o espírito de um órfão — condoeu-se Takuan. Ao mesmo tempo, ocorreu-lhe de repente que, nesse espírito árido e empedernido, havia um poço sempre vazio, quase seco, sedento de algo que órfão algum possuía. Faltava uma fonte a alimentar o poço, a fonte do amor, graça negada aos órfãos. No íntimo da jovem deviam viver as sombras dos pais desconhecidos, mesmo agora em contínuo contato com ela; mas deles Otsu não conhecia o amor.

Na verdade, a flauta era uma lembrança dos pais, a única imagem concreta que deles possuía. Segundo seu relato, o instrumento estava preso ao obi no momento em que, nova ainda, inconsciente do mundo que a rodeava, fora encontrada na varanda do templo Shippoji, abandonada qual cria de gatos.

Assim sendo, a flauta era, por certo, o único meio de que dispunha, caso desejasse um dia descobrir suas origens; até então era, sem dúvida, imagem e voz dos pais.

“Porque começo a chorar quando toco...” O monge calou-se, comovido, pois compreendeu muito bem por que Otsu se recusava a tocar ou a ceder o instrumento.

Nessa noite, a terceira da aposta, uma lua de brancura perolada e vago contorno brilhava por trás de nuvens esgarçadas, uma visão rara nessa época do ano. E os gansos selvagens — aves que arribam no outono e se vão na primavera — também hoje abandonavam as terras japonesas, grasnando no meio das nuvens.

— Veja, o fogo está se apagando de novo. Acrescente essa lenha seca à fogueira, Otsu-san. Ora, o que houve?

— Você está chorando?

— Que insensatez a minha, fazê-la rememorar lembranças dolorosas... — disse o monge, arrependido.

— Pelo contrário, insensata sou eu, monge Takuan. Toque-a, por favor — respondeu Otsu, puxando a flauta presa ao obi e entregando-a ao monge. O instrumento vinha num velho saquinho de brocado, tecido com fios de ouro. Embora o pano estivesse esgarçado e o cordão partido, o invólucro tinha um ar refinado que, de antemão, conferia nobreza à flauta em seu interior.

— Ah... você tem certeza?

— Tenho.

— Que acha, então, de tocar você a flauta? Posso ser o ouvinte. Toque, que eu fico aqui apreciando.

Sem ao menos tomar a flauta nas mãos, Takuan virou-se e se quedou silencioso, envolvendo os joelhos com os dois braços.

 

Longe de se sentir estimulada, Otsu inibiu-se ao perceber que o monge — normalmente o primeiro a caçoar caso alguém se oferecesse a exibir seus dotes musicais — imóvel, cerrara os olhos e apurava os ouvidos.

— Ouvi dizer que o senhor é um exímio flautista, monge Takuan.

— E, pelo que dizem, não sou dos piores.

— Nesse caso, toque primeiro.

— Para que tanta modéstia? Que eu saiba, você também se dedicou muito.

— Aprendi com um mestre da escola Seigen-ryu que passou quatro anos no templo como nosso hóspede especial.

— Que beleza! Nesse caso, obras primas como Kikkan devem fazer parte do seu repertório.

— Nem pensar!

— Bem, toque qualquer coisa, ou melhor, toque com a intenção de expulsar pelos sete orifícios da flauta tudo o que lhe vai na alma.

— Tem razão. Creio que sentirei alívio se conseguir expulsar, através da flauta, toda tristeza, rancor e amargura da minha alma.

— Exatamente. É importante expurgar a alma. Diz-se que, com seus 40 centímetros de comprimento, a pequena flauta sintetiza um ser humano e, ao mesmo tempo, todo o universo. Kan, go, jou, saku, mu, ge, ku — pelos sete orifícios, pode-se dizer, falam as cinco paixões humanas[29] e respiram os dois sexos, masculino e feminino. Já teve, por acaso, a oportunidade de ler a obra Kaichikushoul

— Não me recordo.

— No começo da obra, há um trecho que diz: a flauta é o receptáculo de cinco vozes e oito sons[30], e a harmonia das quatro virtudes[31] em dois timbres.

— Fala como um mestre, monge Takuan.

— Qual, sou apenas um típico monge de vida mansa. Bem, não me custa nada avaliar a flauta para você.

— Tenha a bondade.

Mal tomou o instrumento nas mãos, Takuan disse:

— Ah, esta é uma flauta rara. Se estava com você, quando foi encontrada, é possível inferir-se, a partir disso, o nível social de seus pais.

— Meu professor de flauta também a elogiou. É tão valiosa assim?

— Uma flauta também possui presença e personalidade. Basta tomá-la nas mãos e as sentimos. Sei que antigamente havia instrumentos famosos, como a flauta Semiori, do imperador abdicado Toba, a Koyamaru, do senhor Komatsu, ou a Janigashi que Kiyohara Suketane celebrizou; entretanto, no mundo violento em que hoje vivemos, afirmo nunca ter visto flauta tão preciosa quanto esta. Já sinto arrepios antes mesmo de ouvi-la.

— Não fale assim que me deixa ainda mais inibida.

— A flauta tem nome próprio. Não consigo distinguir as letras à luz do luar.

— Está escrito Gin-ryu[32], em letras miúdas.

— Gin-ryu... Realmente — comentou Takuan, devolvendo-a às mãos Otsu, junto com o estojo e o invólucro.

— Então, vamos à interpretação — disse, solene. Influenciada pela seriedade do monge, Otsu formalizou-se:

— Releve a pobreza da execução.

Sentada sobre a relva, endireitou a postura e fez uma reverência à flauta.

Takuan nada mais disse. Noite alta, envolviam-nos apenas o céu e a terra. O monge se anulara — sua negra silhueta assemelhava-se a uma rocha da montanha.

Otsu levou a flauta aos lábios.

 

Enviezando ligeiramente o rosto de tez alva, Otsu preparou a flauta com calma. Seus gestos, umedecendo o bocal e concentrando-se, em nada se assemelhavam aos habituais. A força da arte lhes conferia dignidade. Dirigiu uma reverência ao monge e escusou-se com modéstia:

— Considere mero passatempo esta tosca interpretação.

Takuan aperas meneou a cabeça em assentimento.

O som da flauta elevou-se no ar. Os dedos de Otsu, delgados e brancos, pareciam pequenos duendes pisando e dançando sobre os orifícios da flauta.

O tom era grave — transportado pela melodia que murmurava como um regato, Takuan sentia-se fluir como águas que ora correm apressadas por vales, ora brincam travessas em remansos. Ao se elevar aguda a melodia, experimentava a alma arrebatada subir ao espaço, brincar entre nuvens; ou então, vozes da terra e ecos do céu compunham novamente uma triste melodia, a canção do vento a sussurrar nos pinheirais lamentando a inconstância das coisas mundanas.

Olhos cerrados, atento e embevecido, Takuan lembrou-se de uma lenda envolvendo outia famosa flauta, esta pertencente ao lorde Sanmi Hiromasa. Certa noite de liar, Hiromasa passeava tocando flauta nos arredores do portão meridional[33] do Palácio Imperial quando, ao passar pelo alto portal de cumeeira dupla, ouviu alguém sobre o portal acompanhando-o com outra flauta. Conversou com o desconhecido, permutaram-se os instrumentos e passaram o resto da noite em animado dueto. Mais tarde, contava a lenda, soube-se que o desconhecido era o diabo que assumira a forma humana.

Dizia-se que a música tinha o poder de comover até mesmo o diabo. Como poderia então um frágil filho de humanos, presa das cinco paixões, resistir à flauta tocada por esta beldade?

Takuan confiava. Ao mesmo tempo, sentiu-se tentado às lágrimas.

Lentamente sua cabeça pendeu de encontro aos joelhos. E mais e mais seus braços os apertaram.

Aos poucos, a fogueira extinguia-se entre os dois, mas a face de Otsu, ao contrário, enrubescia. Absorta, em estado de total concentração, compunha uma unidade inseparável com a flauta.

A melodia tocada por Otsu parecia pairar nas alturas e tocar o infinito, ora clamando pela mãe, ora buscando o pai desconhecido. Ou ainda parecia denunciar, ressentida, ao insensível homem que a abandonara e vivia agora em outras terras, quão feridos se achavam seus sentimentos. Sobretudo, indagava como poderia ela, uma jovem de dezessete anos, magoada, órfã e sem relações, sonhar doravante com uma vida plena.

A flauta exprimia todo o seu desespero. Inebriada pela arte, ou talvez perturbada enfim pela intensidade dos próprios sentimentos, a respiração de Otsu tornou-se ligeiramente ofegante, o suor começou a porejar em sua testa e as lágrimas escorreram por sua face, deixando dois traços brilhantes.

A longa melodia não chegara ao fim. Ora límpida, ora murmurante, soluçante, prosseguia interminável.

Naquele momento, a cinco ou seis metros da tênue claridade da fogueira prestes a se extinguir, ouviu-se um breve rumor junto à relva, semelhante ao de um animal rastejando.

Takuan, que levantara de repente a cabeça e observara por instantes, imóvel, o negro vulto, levantou a mão e disse, calmo:

— Visitante nas sombras, frio é o sereno. Aproxime-se do calor do fogo e venha ouvir.

Otsu imobilizou a mão na flauta e, estranhando, perguntou:

— Está falando sozinho, monge Takuan?

— Não percebeu ainda, Otsu-san? Takezo chegou já há algum tempo e está escondido aí, pertinho de você, ouvindo sua flauta — replicou o monge, apontando com o dedo.

Otsu voltou-se para olhar o local indicado e, ato contínuo, trazida de volta à realidade, soltou um grito de terror, atirando instintivamente a flauta na direção do vulto negro.

 

Muito mais que Otsu, que gritara aterrorizada, assustou-se o vulto, até então enrodilhado. Com um ágil movimento, pulou das moitas como uma lebre e ameaçou disparar para longe.

Com o grito intempestivo de Otsu o monge também se perturbou, à semelhança de um pescador que vê escapar o peixe da rede:

— Takezo! — chamou, concentrando no grito uma energia espantosa. — Espere!

Também o segundo grito continha incrível força e inibia. A voz do monge era autoritária, impossível de ser ignorada. Takezo voltou-se, parecendo pregado ao solo.

Olhos flamejantes fixavam as figuras do monge e da jovem — olhos carregados de suspeita, perigosos, sedentos de sangue.

Takuan não disse mais nada — apenas cruzou os braços, sereno, à altura do peito. Enquanto Takezo o fixava, ameaçador, o monge permanecia mudo, fitando-o, parecendo acompanhar o ritmo de sua respiração.

Não se passou muito, pequenas rugas surgiram brandamente ao redor dos olhos do monge, conferindo-lhes indizível expressão afetuosa. Descruzou então os braços e disse, com um aceno de mão:

— Venha cá.

No mesmo instante Takezo pestanejou, deixando aflorar uma estranha expressão ao rosto sujo.

— Por que não se aproxima? Venha e divirta-se conosco.

— Aqui temos comida e bebida. Não somos seus inimigos, nem procuramos vingança. Que acha de conversarmos um pouco, sentados ao redor deste fogo?

—Takezo, acho que você está cometendo um grande engano. Neste mundo há fogo, bebida, comida e até mesmo o calor da compaixão, caso você a busque. Não obstante, creio que você, por sua própria vontade, se lançou no inferno e de lá olha o mundo sob um prisma distorcido — não é assim? Bem, não vou discursar mais. Em seu atual estado, razões não devem interessar. Vamos, aproxime-se do fogo e aqueça-se. Otsu-san, junte arroz às batatas que cozinhou há pouco e faça um pirão bem gostoso. Está me dando fome também.

Otsu voltou a panela ao fogo enquanto o monge aquecia o saque. A pacífica atitude dos dois tranqüilizou Takezo que, passo a passo, foi se aproximando; no entanto, um leve acanhamento fê-lo parar a poucos passos dos dois. Takuan rolou uma pedra para perto do fogo.

— Pronto, sente-se aí! — ordenou, batendo-lhe no ombro.

Takezo sentou-se, obediente. Otsu, porém, não conseguia encará-lo; sentia-se perto de um animal selvagem livre, perigoso.

— É, parece-me que estão cozidas. — Removendo a tampa da panela, Takuan havia espetado uma batata na ponta de seu hashi[34]. Soprou e levou-a então à boca, mastigando ruidosamente:

— Está bem macia. E então, quer um pouco também?

Takezo assentiu em silêncio e, pela primeira vez, sorriu exibindo os dentes brancos.

 

Otsu encheu uma tigela e entregou-a. Takezo soprava o escaldante cozido e comia.

A mão que empunhava o hashi tremia, os dentes batiam ávidos contra a borda da tigela, demonstrando com eloqüência sua fome e a degradação em que caíra. Era uma imagem de assustadora intensidade.

— Muito bom! — disse Takuan, pondo de lado o seu hashi. — Quer um pouco de saque?

— Não, obrigado. Não bebo — respondeu Takezo.

— Não gosta? — perguntou o monge, ao que Takezo respondeu sacudindo a cabeça. Em matéria de estímulos fortes não confiava no estômago: os mais de dez dias enfurnado nas montanhas o haviam afetado.

— Sinto-me reconfortado, muito obrigado.

— Não quer mais?

— Não. Estou satisfeito.

Devolveu a tigela às mãos de Otsu e, pela primeira vez, dirigiu-lhe a palavra:

— Otsu-san.

Cabisbaixa, em voz quase inaudível, Otsu respondeu:

— Que é?

— Que faz você por aqui? Ontem pensei ter visto também o clarão de uma fogueira nesta área.

A pergunta assustou a jovem. Enquanto imaginava, trêmula, o que responder, Takuan interveio, dizendo com ousadia e simplicidade:

— Na verdade, viemos capturar você.

Takezo não se mostrou especialmente surpreso. Cabisbaixo, fitava com olhos desconfiados ora um, ora outro. Takuan, sentindo que a ocasião era apropriada, abordou a questão:

— E então, Takezo, já que precisa ser preso, que acha de se entregar à minha justiça? Leis são leis, quer ditadas por soberanos, quer emanadas dos ensinamentos de Buda. No entanto, minhas leis são mais humanas que outras.

— Não, não quero ser preso! — replicou Takezo, sacudindo com vigor a cabeça. Ao perceber que a disposição do jovem se alterava, o monge interveio, apaziguador:

— Escute com calma. Compreendo que queira resistir, mesmo que isso signifique suã ruína. Contudo, eu lhe pergunto: acha que conseguirá vencê-los?

— Vencer quem?

— As pessoas que tanto odeia, as leis dos senhores destes feudos, você mesmo.

— Não consigo! Fui derrotado! Eu... — gemeu Takezo, seu patético rosto distorcendo-se no esforço de conter as lágrimas. — A mim só me resta morrer lutando. Matarei um por um, todos os que odeio, a matriarca dos Hon’i-den, os samurais de Himeji...

— E quanto à sua irmã?

— Quê?

— Que pretende fazer com sua irmã, Ogin, presa neste momento numa cela na montanha de Hinagura?

— Que acha que acontecerá à gentil Ogin, sempre tão preocupada com o irmão? E quanto ao nome da família de Shinmen Munisai, descendente direto de Hirata Shogen, ramo da veneranda família Akamatsu, de Harima, não lhe importa desonrá-lo?

Takezo cobriu o rosto com as mãos sujas, de unhas longas:

— N... não quero saber, nada disso importa mais! — gritou Takezo, agora chorando abertamente, os ombros magras sacudidos por soluços.

Repentinamente Takuan cerrou o punho e atingiu o rosto de Takezo com um soco:

— Imbecil! — trovejou.

Sobrepondo-se ao corpo de Takezo que, atônito, cambaleava, o monge deu-lhe mais um soco, esbravejando:

— Infeliz, filho ingrato, em nome de seus pais e ancestrais, eu, Takuan, vou dar-lhe mais um soco. Como é, doeu?

— Doeu... — disse Takezo com um gemido.

— Se doeu, é porque ainda lhe resta algo humano. Otsu-san, passe-me a corda ao seu lado. Por que hesita? Não percebe que Takezo já resolveu entregar-se a mim? Os laços com que vou amarrá-lo não são os laços da lei: são os laços da misericórdia. Não tem por que sentir medo ou pena. Vamos logo, passe a corda para cá.

Amarrado e jogado ao chão, Takezo cerrara os olhos. Nada lhe teria sido mais fácil que repelir o monge — um safanão e o corpo de Takuan rolaria como uma bola. No entanto, jazia sobre a relva, inerte, pernas e braços estendidos, lágrimas correndo copiosas pelos cantos dos olhos.

 

O CEDRO CENTENÁRIO

Amanhece. O som do sino, grave e pausado, ecoa pelo morro do templo Shippoji. Não anuncia as horas, como de hábito — anuncia a manhã do terceiro dia. O povo da aldeia galga o morro correndo, ansioso por notícias.

— Olhem lá! Pegaram Takezo!

— É verdade!

— De quem foi a façanha?

— Do monge Takuan-sama!

Uma pequena multidão comprimia-se na frente do santuário. Preso ao corrimão da escadaria achava-se Takezo, amarrado como um animal selvagem. Ao se defrontarem com ele, os aldeões engoliam seco, como se vissem o diabo em pessoa:

— Ah!

Sentado nos degraus da escadaria, o monge Takuan declarou, disfarçando o riso:

— Muito bem, de agora em diante vocês poderão dedicar-se à lavoura despreocupados, minha boa gente!

O povo passou imediatamente a reverenciar o monge como a um herói ou ao santo padroeiro. Alguns se prostravam no chão, outros se ajoelhavam e tentavam levar sua mão à testa, adorando-o.

— Que é isso? Poupem-me!

O monge abanava a mão, aborrecido com as demonstrações de cega veneração.

— Ouça com atenção, povo da aldeia: o fato de ter prendido Takezo não faz de mim um herói. A natureza seguiu um curso lógico, foi isso. Ninguém é capaz de vencer ignorando as leis da sociedade. O mérito é da lei — esclareceu Takuan.

— Como é modesto! Vê-se logo que é um herói de verdade! — louvou-o alguém.

— Bom, se fazem tanta questão, concordo. Mas chamei-os aqui porque gostaria de trocar idéias com vocês — disse o monge.

— Sobre o quê, por favor?

— Sobre a punição a ser imposta a Takezo, nada mais, nada menos. Prometi ao vassalo do suserano Ikeda Terumasa que se não o capturasse em três dias, me enforcaria; caso, porém, o capturasse, prometeu-me ele que a punição ficaria a meu cargo.

— Sim, sabíamos disso.

— Pois é, que faremos então? O prisioneiro aqui está, mas o que acham vocês, devemos executá-lo ou poupar-lhe a vida e libertá-lo?

— Que idéia absurda! — gritaram unanimemente. — É claro que ele tem de ser executado! Não vale a pena soltar um homem tão perigoso, só nos trará aborrecimentos!

— Sei. — Takuan calou-se, pensativo. Impacientes, os que se postavam mais atrás começaram a se agitar:

— Acabem com ele de uma vez!

Aproveitando o clima hostil que se havia instalado, uma anciã adiantou-se, e aproximando-se de Takezo, fitou-o ferozmente: era a matriarca dos Hon’i-den, a velha Osugi. Bateu em Takezo com o cajado de amoreira que tinha nas mãos e gritou:

— Miserável, asqueroso! E acham que me dou por satisfeita só de matá-lo? Monge Takuan! — disse a velha Osugi, desta vez voltando o rosto irado em direção ao monge.

— Que quer, obaba?

— Meu filho Matahachi teve a vida destruída por obra deste miserável. Por causa dele, a casa Hon’i-den perdeu seu precioso herdeiro.

— Ah, sei, Matahachi. Bem, ele não me parecia grande coisa como filho — talvez fosse melhor você adotar outro. Que acha da idéia, obaba? — perguntou Takuan.

— Que está dizendo, monge? Bom ou mau, é meu filho. E este homem o traiu; tenho, portanto, o direito de vingar meu filho. Peço que deixe a meu cargo a punição deste miserável.

Nesse momento, uma voz arrogante por trás da multidão interrompeu as palavras da anciã:

— Nada feito!

O povo, atemorizado e pressuroso, deu passagem ao comandante das caçadas, o Bigodinho-de-arame.

 

O comandante parecia extremamente irritado.

— Que querem aqui? Isto não é uma exibição. Ordeno que lavradores e mercadores se retirem! — gritou ele.

Mas Takuan aparteou:

— Nada disso! Não há por que se retirar, minha gente. Eu os convoquei aqui para discutirmos o destino de Takezo. Tenham a bondade de ficar.

— Calai-vos! — ordenou o comandante, alteando os ombros com arrogância, fixando ferozmente o monge e transferindo o olhar, em seguida, para a velha Osugi e a multidão. — Este homem, Takezo, é um criminoso contumaz que violou as leis do Estado; além disso, é fugitivo da batalha de Sekigahara. Não lhes compete, de modo algum, decidir o destino dele: a decisão cabe à Sua Senhoria, o suserano.

—Ah, pare com isso! — disse Takuan, meneando a cabeça, determinado. — Não foi isso que você me prometeu!

Pressentindo que o monge arruinaria sua carreira, o comandante insistiu freneticamente:

— Monge Takuan, o prêmio pela captura de Takezo vos será concedido por Sua Senhoria, conforme prometido. Portanto, chamo a mim a responsabilidade da guarda de Takezo.

Mal o ouviu, Takuan pôs-se a rir, alto e zombeteiro. Ria apenas, sem nada dizer. O comandante do bigodinho-de-arame empalideceu:

— Qual é a graça? Não me ofendais!

— Não me ofenda, digo eu! Escute aqui, senhor Bigodinho: pretende voltar atrás com a palavra? Muito bem, quebre a promessa e verá: desfaço neste instante as amarras que prendem Takezo e liberto-o!

O povo recuou, assustado.

— Concorda?

— Não só o liberto, como o instigo a atacá-lo. Quero ver você lutar com Takezo, de homem para homem; vença e prenda-o então, por sua própria conta e risco, se for capaz!

— Um momento, um momento — interveio o comandante.

— Que é, agora? — retrucou Takuan, impaciente.

— Já que o homem está preso, não vale a pena soltarmos as amarras e provocar novos tumultos. Assim sendo, posso deixar a execução a vosso cargo — mas me entregareis sua cabeça, espero.

— A cabeça? Ora, não brinque. Enterros são o ofício de um monge. Como pode um templo se manter, se abre mão dos seus defuntos?

O monge ridicularizava-o, tratando-o como uma criança. Virou-se então de novo para os aldeões e disse:

— Bem, parece-me que, se espero por uma opinião, esta conferência nunca chegará ao fim. Ainda mais que me apareceu até uma anciã dizendo-se insatisfeita com a simples execução do criminoso... Tive então uma idéia: que acham se eu dependurasse Takezo por quatro ou cinco dias no galho mais alto deste velho cedro, mãos e pés firmemente atados, e ali o deixasse ficar, fustigado por chuva e vento até que um corvo lhe arranque os olhos?

Talvez por achar o castigo severo demais, a multidão não se manifestou. A velha Osugi disse, então:

— Brilhante idéia, monge Takuan. Vamos deixá-lo pendendo dos galhos deste cedro, não apenas quatro ou cinco, mas 10 ou 20 dias. E no fim, eu me encarrego de lhe aplicar o golpe de misericórdia.

Takuan concordou depressa:

— Então, assim será!

O monge agarrou-o pela gola. Calado e cabisbaixo, Takezo caminhou em direção ao cedro.

Alguns aldeões sentiram pena, eventualmente, mas a indignação dos últimos dias falou mais alto: emendando cordas de linho, içaram-no depressa a uma altura aproximada de seis metros e ali o deixaram pendendo, como um boneco de palha.

 

Terminada a missão nas montanhas, Otsu voltou ao templo e, ao entrar em seu quarto, a vida solitária que levava tornou-se insuportável.

“Por quê?”, indagava-se Otsu.

Sempre fora sozinha no mundo; além disso, em oposição à negra solidão das três noites passadas na montanha — tendo apenas o monge por companhia — no templo havia presença humana, luzes e o calor aconchegante do fogo. Apesar disso, por que se sentia mais solitária aqui que nas montanhas?

Sentada à janela, cotovelos fincados sobre a pequena escrivaninha e rosto apoiado nas mãos, a jovem permaneceu imóvel metade do dia, parecendo sondar seu coração.

— Já sei!

Finalmente, Otsu sentiu que vislumbrara a natureza de seus sentimentos. A solidão era uma sensação semelhante à fome, nada tinha a ver com fenômenos externos — invadia o ser quando havia insatisfação íntima.

Sim, no templo havia animação, pessoas em movimento, luz e um bom fogo, realmente; tais fenômenos externos, porém, não tinham o poder de mitigar a solidão.

Nas noites passadas na montanha houvera apenas árida escuridão, o sereno e as silenciosas árvores ao redor; todavia, o monge, com quem partilhara as noites, não fora uma simples presença externa: suas palavras tiveram o poder de invadir-lhe o ser e, levadas pelo sangue, alcançar seu coração, aquecendo-o e alegrando-o muito mais do que o fogo e a luz.

“É porque sinto falta do monge Takuan!” Otsu soergueu-se.

Mas o monge, após decidir o destino de Takezo, estava em conferência com os vassalos do suserano de Himeji no aposento destinado às visitas. De volta à vila e premido por compromissos, Takuan não teria tempo para lhe dispensar a mesma atenção que lhe dispensara nas montanhas.

Mal tomou consciência do fato, Otsu tornou a se sentar. Ansiava por amigos. Não precisava de muitos: bastava-lhe apenas um. Queria desesperadamente alguém que a conhecesse, que a amparasse, em quem pudesse confiar. Ah, como queria!

A flauta — única recordação dos pais. Oh!, sim, na verdade ela a possuía e a tinha consigo; mas, aos dezessete anos, surgem no íntimo de uma jovem anseios que uma simples e fria flauta já não consegue satisfazer. Necessitava com urgência de algo bem próximo, real.

E então lembrou-se, com raiva, de Matahachi e de sua ultrajante conduta:

“Que desgosto, que desgosto...”

Lágrimas mancharam a escrivaninha de laça; impelido pela emoção, o sangue circulava rápido, as veias das têmporas se intumesciam e latejavam, a cabeça inteira doía.

Às suas costas, a porta corrediça moveu-se em silêncio e se entreabriu. Sem que Otsu tivesse percebido, o crepúsculo se adensara no alojamento dos monges. Pela fresta da porta, o fogo brilhava avermelhado na cozinha.

— Ah, enfim a encontrei! E eu, desperdicei meu dia!

Era a velha Osugi que, assim reclamando, entrava em seu quarto.

— Seja bem-vinda, obaba-sama.

Otsu ofereceu-lhe uma almofada às pressas. A matriarca recebeu-a sem agradecer e sentou-se rigidamente.

— Minha nora — iniciou, em tom severo.

— Sim, senhora — respondeu Otsu, fazendo uma reverência e tocando o tatami com as duas mãos, encolhendo-se de medo.

— Estou aqui para certificar-me de sua disposição e, em seguida, trocar idéias com você. Estive até agora conversando com o bonzo Takuan e os vassalos do senhor de Himeji. Mas o mal-educado sacristão nem ao menos se deu ao trabalho de me oferecer um chá. Estou sedenta. Sirva-me primeiro uma taça de chá.

 

Mal tomou o chá, a velha aprumou-se e disse:

— Vamos ao que nos interessa. A informação provém do imprestável Takezo e, portanto, não merece crédito total; mas diz ele que Matahachi está vivo e mora em outra província.

Otsu comentou friamente:

— Não me diga!

— Mas ainda que estivesse morto, você, Otsu, foi escolhida para ser a mulher de Matahachi; o abade deste templo, substituindo seus pais, deverá entregá-la à família Hon’i-den, e assim a tornará minha nora. Não há dúvidas quanto a esse ponto, há?

— Bem...

— Alguma dúvida? — .... Não, senhora.

— Muito bem! Esclarecido esse ponto, já me sinto mais tranqüila. Prosseguindo: a língua do povo tende a ser maldosa; por outro lado, já estou velha e preciso de alguém que cuide de mim, principalmente se Matahachi tardar a voltar. Não posso permanecer para sempre na dependência de minha filha — ela, afinal, já tem sua própria família para cuidar. Assim sendo e aproveitando este ensejo, quero que saia do templo e se mude para a minha casa.

— Eu... Tenho de me mudar para sua casa? — perguntou Otsu, incrédula.

— E sabe de mais alguém que esteja sendo cogitado para ser minha futura nora? — respondeu Osugi, rispidamente.

— Mas...

— Pretende insinuar que não gostaria de viver comigo?

— Não, não é isso.

— Então arrume suas coisas.

— E... se esperássemos a volta de Matahachi-san?

— Nada de esperas! — impôs Osugi. — Não quero correr o risco de vê-la caindo na boca do povo, enquanto aguarda meu filho. Cabe a mim controlar seu comportamento. Você deverá permanecer ao meu lado, pois quero lhe ensinar a costurar, a trabalhar na lavoura, as regras de etiqueta e as técnicas da criação do bicho-da-seda. Entendeu?

Otsu ouviu sua própria voz chorosa respondendo sem convicção:

— S... Sim, senhora.

— Passemos agora a outro assunto — comandou Osugi. — Por mais que tente, não consigo perceber quais são as reais intenções do monge Takuan com relação a Takezo. Felizmente, você ainda mora neste templo; quero, portanto, que se mantenha sempre alerta e vigie esse bonzo até Takezo morrer. Pode-se esperar tudo do monge Takuan, em especial na calada da noite.

— Quer dizer então que... não preciso mudar-me de imediato?

— É óbvio, pois não poderá fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Sua mudança para a família Hon’i-den ocorrerá no dia em que a cabeça de Takezo rolar. Entendeu?

— Sim, senhora.

— Espero que minhas instruções tenham sido bem claras — frisou Osugi, retirando-se.

No mesmo instante, uma sombra que parecia aguardar esse momento surgiu na janela e chamou em voz baixa:

— Otsu! Otsu!

Ao espiar, Otsu deparou com o comandante, em pé sob a janela. Tomando repentinamente as mãos da jovem entre as suas, o comandante apertou-as com força e disse:

—Recebi uma intimação do clã e sou obrigado a partir, de volta a Himeji. Vim agradecer sua hospitalidade.

— Ora, sinto muito — disse Otsu, tentando retirar as mãos. O comandante, porém, deteve-as com firmeza e continuou: — Parece-me que rumores referentes à prisão de Takezo chegaram aos ouvidos de Sua Senhoria, e vai haver um inquérito. Se eu pudesse ao menos entregar a cabeça de Takezo a Sua Senhoria, não só salvaria minha honra, como ainda conseguiria justificar-me perfeitamente. Mas por mais que explique ao maldito bonzo, ele se recusa a me entregar o criminoso. Não quer ceder. Gostaria de acreditar, porém, que ao menos você é minha aliada. Tome esta carta: leia-a mais tarde, quando estiver sozinha.

Passou às mãos de Otsu um pequeno volume e afastou-se apressadamente, morro abaixo.

 

Não era uma simples carta: junto vinha também um pequeno embrulho pesado.

Otsu conhecia muito bem o caráter traiçoeiro do comandante. Sentiu repulsa, mas abriu com cuidado o embrulho. O brilho dourado de uma moeda de ouro feriu seus olhos. A carta dizia:

Pelos motivos que já lhe expliquei pessoalmente, peço-lhe um grande favor: mate Takezo efaça com que me entreguem sua cabeça discretamente na cidade casteleira de Himeji dentro dos próximos dias.

Acredito que já tenha percebido quais são as minhas intenções com relação a você. Todos conhecem este seu humilde servo, Aoki Tanzaemon, vassalo de lorde Ikeda, com soldo de mil koku[35]. Estou firmemente resolvido a tê-la como esposa e, na qualidade de mulher de um funcionário de nível mil koku a, fortuna lhe sorrirá. Conserve esta carta como prova da promessa de casamento — conclamo Hachiman, deus da guerra, por testemunha.

Entrementes, não se esqueça: faça tudo que lhe for possível e me mande a cabeça de Takezo, para o bem de seu amado esposo.

Despeço-me com estas poucas linhas, pois o tempo urge.

Tanza

— Já jantou, Otsu-san?

Ao ouvir a voz de Takuan chamando-a, Otsu calçou as sandálias e saiu:

— Não consigo comer: estou indisposta, com dor de cabeça — respondeu Otsu.

— Que é isso em sua mão? — perguntou o monge.

— Uma carta.

— De quem?

— Quer ler?

— Se não se importa...

— Nem um pouco.

Tomando a carta que Otsu lhe entregava, Takuan passou os olhos rapidamente e gargalhou:

— Quer então dizer que, premido pelo desespero, nosso comandante lança mão de promessas amorosas e ouro para tentar comprá-la? E o nome do senhor Bigodinho é Aoki Tanzaemon! Não tivesse lido a carta, jamais saberia. Mas que beleza! Este mundo está repleto de samurais dignos de louvor!

— Pouco me importa, monge! Mas ele me deu também esta moeda de ouro. Que faço com ela?

— Puxa, é uma moeda valiosa!

— Não gosto nada disso.

— Se quer se livrar dela, deixe por minha conta.

Segurando a moeda, Takuan caminhou para o santuário e fez menção de depositá-la na caixa de oferendas; porém mudou de idéia e, levando-a à testa, fez uma reverência e devolveu-a a Otsu:

— É melhor ficar com ela, Otsu-san; não vejo nenhum inconveniente.

— Mas não gostaria que, mais tarde, o comandante usasse esta moeda como pretexto para me comprometer.

— Esta moeda já não pertence ao senhor Bigodinho: foi dada em oferenda à Nyorai-sama, que a purificou. Nada receie: leve-a como um amuleto, se preferir — disse o monge, introduzindo-a no obi de Otsu.

— Vamos ter ventania esta noite — reparou Takuan, olhando para o céu.

— É verdade, não tem chovido ultimamente — observou Otsu.

— A primavera chega ao fim; uma boa chuvarada há de livrar a terra dos restos podres das flores e da estupidez dos homens.

— Mas se a chuva for muito forte, o que acontecerá a Takezo-san, monge Takuan?

— A ele?

Dois rostos se ergueram, simultaneamente, fitando o topo do cedro centenário. No mesmo instante, um brado proveio dos altos ramos agitados pelo vento:

— Takuan! Takuan!

— Olá! É Takezo! — murmurou o monge, perscrutando a ramagem.

— Takuan, bonzo dos infernos, monge hipócrita! Quero falar com você. Chegue aqui embaixo!

Fustigando os ramos das árvores, o vento interferia na voz, fazendo-a soar estranhamente. Uma chuva brilhante de agulhas do cedro caiu sobre o rosto de Takuan e no chão ao seu redor.

 

— Ora, ora, vejo que ainda lhe sobra muita energia, Takezo! — riu Takuan, arrastando as sandálias e aproximando-se da árvore. — Só espero que esse surto de energia não tenha como causa o medo da morte que se aproxima.

O monge parou a uma distância conveniente e ergueu o olhar.

— Cale a boca! — berrou Takezo. Muito mais que surto de energia, era acesso de raiva. — Pensa que se tivesse medo da morte me entregaria a você daquele jeito, sem resistir?

— Você se entregou porque eu sou forte e você, fraquinho.

— Como se atreve, bonzo maldito!

— Quanta valentia! Se não gostou, posso retificar: você se entregou porque eu sou sábio, e você, um asno.

— Ah, se eu estivesse aí...

— Escute aqui, macaquinho: você está bem preso, amarrado a esta árvore. Não adianta se debater: está dando um espetáculo pouco digno.

— Takuan! Cale a boca e ouça!

— Que é? Fale!

— Se eu quisesse lutar, teria acabado com você naquela hora. Para mim teria sido muito fácil esmagar um frouxo como você!

— Sinto muito, agora é tarde!

— Sabe muito bem disso, e ainda assim você... Eu me deixei prender porque fui enganado por sua fala macia de monge virtuoso. Acreditei que, mesmo que me prendesse, você seria incapaz de me humilhar desse jeito, expondo-me à execração pública.

— E daí? — disse o monge, com indiferença.

— Quero saber o porquê, qual o motivo disso tudo! Por que não acaba comigo de uma vez? Eu não queria ser morto pelas mãos de meus inimigos, ou dos aldeões. Já que não podia evitar, pensei que teria morte mais digna em suas mãos, monge, um indivíduo que parecia compreender o código de honra de um bushi. Eis porque me entreguei a você — e esse foi o meu erro!

— Foi o seu único erro? Não percebe que seus atos passados estão repletos de erros? Enquanto aí está, medite sobre o seu passado.

— Não me amole! Não me envergonho de nada que fiz. A velha Osugi me insultou, me chamou de traidor; mas eu nada mais fiz que vir trazer-lhe notícias do seu filho Matahachi, pois acreditava firmemente ser esse o meu dever, a verdadeira lealdade para com um amigo. Foi por isso que forcei passagem por uma barreira nas montanhas e voltei para esta vila. Por acaso contrariei em algum ponto o código de honra de um bushil

— Esses pequenos detalhes não importam. Basicamente, o que importa é o seu íntimo — por exemplo, a sua obstinação. Existem erros fundamentais no seu modo de pensar; por esse motivo, um ou dois atos de bravura dignos de um samurai que você possa ter realizado nada significam; pelo contrário, quanto mais você se agita, alardeando lealdade, justiça, mais problemas cria para si próprio e para os outros, fazendo com que se enrede cada vez mais na teia que você mesmo teceu, compreende...? E então, Takezo, que tal a paisagem vista aí de cima?

— Você ainda me paga, bonzo!

— Antes que se transforme em arenque seco, veja se percebe como é vasto o mundo das Dez Regiões[36] — observe das alturas o mundo dos homens e reconsidere sua vida. E quando se apresentar a seus ancestrais, no além, conte-lhes que em seus últimos momentos na terra, e;se conselho lhe foi dado por um certo Takuan. “Que belo discurso fúnebre tiveste!”, dirão eles satisfeitos, tenho certeza.

Otsu, que até então se mantivera poucos passos atrás, petrificada, repentinamente aproximou-se correndo e gritou:

—Assim já é demais! Acompanhei o diálogo desde o começo e acho que não tem o direito de falar desse jeito com uma pessoa indefesa, monge Takuan! Afinal, o senhor é ou não um monge? Takezo-san tem razão: ele se entregou sem resistir porque confiava no senhor.

— Que os deuses me protejam! É um motim! — protestou o monge.

— É muita crueldade! Se continuar a falar desse jeito, passarei a odiá-lo. Se acha que ele deve ser executado, tenha ao menos a decência de matá-lo de uma vez: ele está pronto para receber o castigo.

Pálida de indignação, Otsu desafiava o monge.

 

Otsu avançou, tentando agarrar o monge: seu olhar, no rosto pálido molhado de lágrimas, traía a revolta de uma alma sensível.

— Cale a boca! — replicou Takuan, com inusitada severidade. Esse não é assunto para mulheres. Não se meta!

— Não! Não me calo! — respondeu Otsu, meneando freneticamente a cabeça. A jovem também não estava em seu estado normal. —Eu também tenho o direito de opinar sobre este assunto, pois fiz minha parteno Pasto de Itadori por três dias e três noites.

— Não lhe reconheço o direito! Sobre o destino de Takezo decido eu, aconteça o que acontecer.

— Mas não percebe que não estou tentando interferir? Se quer executá-lo, mate-o de uma vez, é só o que estou procurando lhe dizer. Por que deixá-lo pendendo do galho, mais morto que vivo, exposto à crueldade do povo? O senhor parece estar se divertindo com essa atrocidade!

— Pois é, reconheço que estou.

— Monstro insensível!

— Saia da minha frente.

— Não saio!

— Outro acesso de teimosia, menininha birrenta? — disse Takuan, desvencilhando-se da jovem e empurrando-a com força. Otsu cambaleou e, lançada contra o cedro, agarrou-se ao tronco, desfazendo-se em lágrimas.

Nunca imaginara que até o monge pudesse ser tão cruel. Achara que, em consideração ao povo da aldeia, castigaria Takezo amarrando-o à árvore mas, no último momento, tomaria medidas punitivas bastante humanas. No entanto, o monge dizia que se comprazia com o sofrimento dele, que se divertia com isso! A jovem estremeceu de horror.

Se até o monge, em quem vinha depositando total confiança, era na verdade um ser tão desprezível, todo o mundo deveria ser igualmente desprezível. Se não podia confiar em mais ninguém, no mundo inteiro, então... Otsu submergiu, chorando, num mar de desespero.

Mas repentinamente o áspero tronco em que apoiava o rosto molhado de lágrimas despertou em Otsu uma estranha emoção. Parecia-lhe que o sangue de Takezo, o jovem atado nos ramos mais altos — o mesmo que lhes lançava das alturas palavras ardentes —, pulsava no interior da árvore, cujo grosso tronco dez pessoas de mãos dadas não lograriam abarcar.

Digno filho de um bushil Que comportamento viril! Sobretudo, que caráter leal! Refletindo sobre o modo como se deixara capturar pelo monge e o que dissera há pouco, tornava-se evidente que aquele era, afinal, um jovem sensível, capaz de derramar lágrimas e — quem diria — até bondoso!

Otsu percebeu que se equivocara com relação a Takezo, influenciada pela opinião corrente. Por que odiá-lo como a um monstro? Onde estava o temível selvagem que necessitava ser caçado?

Ombros sacudidos por sucessivos soluços, Otsu abraçou firmemente o velho cedro, molhando a áspera casca com suas lágrimas.

O topo da árvore gemeu, como se Tengu[37], o duende das florestas, balançasse os ramos mais altos. Um grosso pingo de chuva atingiu a nuca de Otsu, outro, a face de Takuan.

— Aí vem chuva! — disse o monge, levando a mão ao rosto. — Ei, Otsu-san.

— Ó chorona! Está vendo, tanto choraminga que até o céu se pôs a chorar. Vamos bater em retirada, que a ventania está forte e logo vai cair uma tempestade. Venha, não perca tempo com quem está para morrer.

Cobrindo a cabeça com a veste, Takuan correu a se refugiar no santuário.

A chuva desabou violenta e branca, esfumaçando a orla escura da noite.

Otsu permanecia imóvel, deixando a chuva fustigar-lhe as costas. Imóvel também permanecia Takezo, amarrado no topo da árvore.

 

Otsu não conseguia se afastar. Em instantes a chuva encharcou suas roupas, mas ela ignorou o desconforto, imaginando o sofrimento de Takezo; não lhe sobrava, porém, tempo nem serenidade para analisar por que tentava partilhar esse sofrimento.

Apenas percebia que se defrontava, pela primeira vez em sua vida, com uma soberba figura masculina. Ao mesmo tempo em que nele reconhecia o verdadeiro homem, crescia também em seu íntimo uma ânsia real por salvar-lhe a vida.

— Pobrezinho! — Otsu rodeava tontamente o tronco do cedro. Por mais que tentasse, o vento e a chuva não lhe permitiam sequer distinguir os contornos do jovem atado no alto da árvore.

— Takezo-saaan! — chamou, mas não obteve resposta. Sem dúvida ele a julgava tão insensível quanto um membro da família Hon’i-den ou um dos aldeões.

“Se ficar uma noite inteira exposto a esta tempestade vai morrer, com certeza. Oh, céus! Não haverá um único ser humano, neste mundo cheio de gente, disposto a salvar a vida deste homem?”

Repentinamente Otsu arremeteu em meio à chuva. O vento parecia persegui-la, fustigando seus calcanhares.

As portas da cozinha e do alojamento do abade, bem como de todos os aposentos do templo, achavam-se hermeticamente fechadas. A água que transbordava da calha caía como uma catarata e cavava um buraco no chão.

— Monge Takuan! Monge Takuan! —A porta em que Otsu batia, frenética, era a do quarto destinado ao monge.

— Quem é?

— ÉOtsu, monge!

— Quê, você ainda está na chuva? — disse o monge, abrindo a porta no mesmo instante e perscrutando a névoa. — Que aguaceiro horroroso, menina! Entre de uma vez que está ficando tudo alagado!

— Não vou entrar. Vim apenas fazer-lhe um pedido. Por tudo o que lhe é sagrado, monge Takuan, permita que o retirem da árvore.

— Retirar quem?

— Takezo-san!

— Nem pensar!

— Serei eternamente grata ao senhor — implorou Otsu, ajoelhando-se na lama sob a chuva inclemente e suplicando de mãos postas. — Faça de mim o que quiser, mas por favor, por favor, salve-o, eu lhe suplico!

A chuva encobria a voz chorosa da jovem. Como um estóico asceta que busca aperfeiçoar-se sob as águas de uma cachoeira, Otsu permanecia imóvel na tempestade, mantendo as mãos firmemente unidas.

— Não tenho mais a quem recorrer, monge Takuan! Prometo fazer tudo o que estiver ao meu alcance, mas solte-o, eu lhe imploro!

A chuva batia com violência no rosto de Otsu e penetrava em sua boca enquanto chorava e clamava.

Takuan permanecia mudo e imóvel como uma rocha; suas pálpebras vedavam os olhos com firmeza, como portas de um santuário a guardar relíquias sagradas. Depois de instantes, suspirou profundamente — e então duas fendas surgiram sob as pálpebras e se alargaram de súbito, revelando um olhar pétreo:

— Recolha-se e vá dormir, é o meu conselho. Você tem a saúde delicada — sabe muito bem que banhos de chuva não lhe fazem bem.

— Mas...

Otsu tentou agarrar-se à porta; o monge, porém, fechou-a com firmeza, dizendo:

— Vou dormir. E aconselho-a a fazer o mesmo.

Otsu, no entanto, não desistiu. Como em todos os edifícios, havia sob o templo um vão razoável entre o assoalho e o solo, e nele a jovem mergulhou. Otsu parou acocorada sob o ponto em que, assim julgava, o monge preparara as cobertas para dormir e pôs-se a gritar a plenos pulmões:

— Por favor! Está me ouvindo, monge? Terá minha eterna gratidão! Não está me ouvindo, monge malvado? Desalmado! Demônio! Não tem sentimentos, monge Takuan?

O monge suportou os gritos por algum tempo em estóico silêncio. A certa altura, porém, percebendo que não conseguiria conciliar o sono, perdeu a paciência e levantou-se de um salto, esbravejando:

— Alguém me acuda! Tem um ladrão embaixo do meu quarto! Peguem o ladrão!

 

O DIÁLOGO DA ÁRVORE E DA PEDRA[38]

A chuva da noite anterior se fora e levara consigo os últimos traços da primavera. Nessa manhã, o sol brilhava inclemente, queimando rostos. Mal o dia amanheceu, a velha Osugi surgiu no templo e espiou pela porta do alojamento dos monges: tinha o aspecto alvoroçado de alguém que espera uma diversão.

— Takezo ainda vive, monge?

— Olá, obaba — disse Takuan, surgindo na varanda — que chuva horrorosa a de ontem, não?

— Que chuva e que vento, sim, senhor. Bem-feito para Takezo!

— Contudo, ninguém morre só por ficar uma ou duas noites exposto à chuva, por mais inclemente que ela seja — advertiu o monge.

— Será que não? — disse a velha, perscrutando os ramos superiores; ofuscada, apertou os olhos no rosto cheio de rugas até transformá-los em duas finas lâminas. — Parece um monte de trapos enxovalhados — nem se mexe!

— Mesmo assim, não está morto. Basta ver que os corvos ainda não pousaram em sua cabeça.

— Obrigada pela informação — disse Osugi. Espiou o interior do templo e pediu: — Não vejo minha nora em parte alguma. Poderia chamá-la para mim?

— Que nora?

— Otsu, está claro!

— Que eu saiba, Otsu não é sua nora, pois não se casou com ninguém da família Hon’i-den — disse o monge.

— Mas em breve casará — retrucou Osugi secamente.

— E com quem, se o noivo está ausente?

— Você não passa de um monge peregrino: cuide de sua própria vida. Onde está Otsu, se me faz o favor?

— Acho que ainda dorme.

— Ah, é verdade — disse, tirando conclusões apressadas. Ela está com sono porque mandei-a vigiar Takezo durante a noite, é lógico. O turno do dia é seu, monge Takuan.

Osugi parou sob a árvore e quedou-se por instantes, contemplando o topo. Desceu em seguida laboriosamente para a vila, apoiada no bastão de amoreira.

Takuan trancou-se em seu quarto e lá ficou até o anoitecer. No decorrer do dia, um garoto da vila subiu o morro até o templo e pôs-se a jogar pedras nos ramos do velho cedro. Só então, por uma única vez, a porta de correr do quarto se abriu e o monge surgiu:

— Sai já daí, moleque! — trovejou. Em seguida, a porta tornou a se fechar.

A alguma distância do quarto do monge, na mesma ala do templo, ficava o quarto de Otsu, cuja porta também permaneceu cerrada nesse dia. Apenas o sacristão ia e vinha, levando-lhe infusões e papa de arroz em pequenas panelas de ferro.

No auge da tempestade, na noite anterior, Otsu fora descoberta por um funcionário do templo e arrastada contra a vontade para o quarto, não sem antes ouvir severa reprimenda do abade. Pior ainda, pegara um forte resfriado e mal tinha forças para erguer a cabeça do travesseiro, segundo dizia o sacristão.

A noite vinha chegando. Contrastando com a anterior, a lua brilhava branca no céu sem nuvens. Quando todos no templo se aquietaram adormecidos, o monge, cansado dos livros, calçou as sandálias e saiu.

— Takezo! — chamou. Um leve frêmito agitou os ramos, no topo do velho cedro. Gotas de sereno caíram ao seu redor formando uma chuva tênue e brilhante.

— Pobrezinho, já nem tem forças para responder. Takezo, ei, Takezo! Na mesma hora, um berro possante se fez ouvir:

— Que quer, monge dos infernos? — Era a voz estrondosa de Takezo, cujo ânimo nada lograva abater.

— Ora, ora... — disse o monge, elevando uma vez mais o olhar. Vejo que ainda não perdeu a voz. Nesse passo, creio que é capaz de durar mais cinco ou seis dias. E então? Está com fome, Takezo?

— Não me faça perder tempo com conversa fiada, bonzo. Ande logo, corte a minha cabeça de uma vez!

— Nada feito, não ouso cortá-la descuidadamente. Do jeito como você é atrevido, sua cabeça é capaz de pular e morder meu pescoço, mesmo depois de separada do corpo. Bem, vamos apreciar o luar.

Takuan sentou-se sobre uma pedra próxima.

 

— Espere aí que já lhe mostro...

Concentrando toda a força do corpo, Takezo pôs-se a sacudir o galho em que se achava amarrado.

Folhas e fragmentos de casca choveram sobre o rosto de Takuan. O monge os removeu, limpou os ombros e o peito, e voltou uma vez mais o rosto para o alto:

— Isso, assim é que se faz, gostei de ver! É preciso sentir raiva, muita raiva para que realmente venham à tona a verdadeira força e o caráter de uma pessoa. Nestes últimos tempos, anda na moda rotular de intelectual e magnânimo o indivíduo imperturbável, que oculta sua raiva. Que jovens se ponham a imitar tal atitude, supostamente adulta, constitui indizível absurdo. Gente jovem não deve conter a raiva. Tem de expô-la! Vamos, ranja os dentes, sinta raiva, muita raiva, Takezo!

— Ah, não perde por esperar, bonzo maldito! Eu ainda vou conseguir desgastar essas cordas e rompê-las, e então aterrissarei ao seu lado e o matarei a pontapés!

— Palavras promissoras! Sinto-me orgulhoso! Até que isso aconteça, aqui permanecerei, à espera. Contudo, pense bem: até quando será capaz de agüentar? Sua vida não se terá acabado muito antes de a corda arrebentar?

— Como é?

— Céus, que força impressionante! Você está conseguindo balançar até a árvore! Mas veja a terra: nem se abala, reparou? Sabe por quê? Porque não há força em seu ódio — seu ódio é pequeno, é privado, tem origem em rancores pessoais. A indignação de um homem deve ser desprovida de interesses pessoais, devotada à causa pública. Encolerizar-se levado por mesquinhas emoções pessoais é histeria feminina.

— Continue tagarelando à vontade; já vai ver o que lhe acontecerá!

— Não adianta, Takezo, desista! Desse jeito, só vai conseguir cansar-se. Por mais que se debata, nunca conseguirá abalar a terra — nem sequer partir esse galho.

— Maldição!

— Se empregasse toda essa energia a favor, já não diria da pátria, mas ao menos de terceiros, você conseguiria mover céus e terra, até mesmo os deuses, sem falar nos simples mortais!

Nesse ponto, Takuan passou a usar o tom que empregava em seus sermões:

— É lamentável, lamentável! Nasceu de humanos, e no entanto é uma fera: e selvagem como uma fera, sem progredir um passo sequer em direção à condição humana, este jovem tão formoso está condenado a terminar seus dias.

— Cale a boca! — gritou Takezo. Lançou na direção do monge uma cusparada que se pulverizou antes de atingir o solo.

— Agora escute, Takezo, preste atenção: sua força física tornou-o bastante presunçoso, não é verdade? Acreditava não haver no mundo ninguém mais forte que você, estou certo ou não? E agora, que tem a dizer do seu atual estado?

— Você não me derrotou pela força: nada tenho de que me envergonhar.

— Não importa se fiz uso de expedientes ou de palavras, o fato é que o derrotei. Prova disso é que, por mais que se mortifique, aqui estou sentado numa pedra como vencedor e você exibe sua triste figura, dependurado num galho de árvore. Tem idéia do que provocou esta situação?

— Se considerarmos apenas a força física, você é mais forte do que eu, tem toda a razão. Um homem não pode lutar com as mãos limpas contra um tigre, é claro. Mas um tigre é sempre um tigre, um animal inferior ao homem, não se esqueça.

— O mesmo se dá com a sua coragem: todas as suas ações, até agora, demonstraram temeridade, uma falsa coragem que deriva da ignorância. Não são atos de um ser humano, nada têm a ver com a verdadeira força de um bushi. O homem, o verdadeiro bravo, teme o que tem de ser temido, poupa e resguarda a vida — esta pérola preciosa — e procura morrer por uma causa digna. Percebe agora o que há de tão lamentável em tudo isso? Você veio ao mundo possuindo força física e firmeza de caráter, mas é inculto — aprendeu apenas o lado sombrio da arte guerreira, não procurou cultivar a sabedoria e a virtude. “Aperfeiçoar-se no duplo caminho das letras e das armas” — conhece a expressão? Mas que significa “duplo caminho”? Sem dúvida não significa que dois são os caminhos.a serem percorridos em busca do aperfeiçoamento; significa, isto sim, que os dois caminhos, das letras e das armas, estão juntos e perfazem um único caminho. Compreendeu, Takezo?

 

Calou-se a voz sobre a pedra, nada mais disse o vulto sob a árvore — a noite permaneceu negra e serena. Por instantes, reinou o silêncio.

Então, com um movimento deliberado Takuan levantou-se da pedra e disse:

— Medite por mais uma noite sobre tudo o que lhe disse, Takezo. Só então, atendendo a seu pedido, cortarei sua cabeça.

O monge afastou-se entre 10 a 20 passos em direção ao santuário, dando as costas ao velho cedro. Nesse instante, a voz de Takezo soou do alto:

— Espere um pouco!

O monge voltou-se e perguntou, de longe:

— Que foi?

— Volte aqui embaixo da árvore mais uma vez, por favor!

— Está bem... assim?

Repentinamente o vulto no alto bradou, em desespero:

— Salve-me, monge Takuan! —Abruptamente, os galhos do cedro ondularam, parecendo soluçar. — A partir deste instante, quero refazer minha vida. Percebi agora que assumi uma missão, ao vir ao mundo como um ser humano. No entanto, mal percebo o valor da vida, vejo-me amarrado no topo de uma árvore. Estou arrependido, monge Takuan!

— Muito bem, vejo que compreendeu! Só agora, pode-se dizer, sua alma tornou-se digna de um ser humano.

— Ah, mas não quero morrer! Quero assumir minha vida mais uma vez! Quero recomeçar deste ponto. Por tudo o que lhe é sagrado, monge Takuan, salve-me!

— Impossível! — disse o monge, indiferente ao apelo. — Nada na vida pode ser refeito. As armas, nas batalhas da vida, são reais. Se o inimigo cortou-lhe a cabeça, você não pode pretender repô-la sobre os ombros e sair andando. Não se retoma a vida, depois de perdê-la. Tenho muita pena, porém não posso desfazer os nós que o prendem. Reze e medite devidamente neste momento em que vaga entre a vida e a morte — só assim enfrentará com calma a morte que se aproxima.

O ruído das sandálias apagou-se ao longe. Takezo também se calou. Conforme aconselhara o monge, cerrou os olhos à espera da divina iluminação, perdida a vontade de viver ou de morrer. Assim permaneceu longo tempo entre miríades de estrelas, fustigado pelo vento que varava a noite, gelando a alma.

Debaixo da árvore surgiu então um vulto que voltava o rosto para o topo. Passados instantes, agarrou-se ao grosso tronco, tentando desesperadamente atingir os ramos mais baixos. Quem quer que fosse, não sabia subir em árvores, pois mal galgava uns poucos centímetros, escorregava e vinha ao chão arrastando fragmentos da casca.

Mesmo assim, com persistência e decisão, à custa de inúmeras tentativas que lhe deixaram as mãos esfoladas e ardentes, o vulto afinal conseguiu tocar no primeiro ramo: desse ponto em diante alcançou com facilidade os demais ramos e logo atingiu uma grande altura, chamando ofegante:

— Takezo-san, Takezo-san!

Takezo voltou o rosto, uma caveira em que só os olhos brilhavam, vivos:

— Quem...

— Sou eu.

— Otsu-san?

— Você disse, há pouco, que queria refazer sua vida, não disse? Vamos então fugir daqui!

— Fugir?

— Isso mesmo. Eu também tenho motivos para não querer ficar nesta aldeia. Se continuar por aqui... Ah, não suporto nem pensar nisso. Vou salvá-lo, Takezo-san. É o que você quer, não é?

— Claro, corte logo, corte rápido estas cordas!

— Espere só um instante.

Otsu viera inteiramente preparada para partir em longa jornada. Uma estreita faixa de tecido cruzava-lhe as costas prendendo uma minúscula trouxa de viagem. Dela retirou uma adaga curta e cortou as cordas. Takezo tinha perdido a sensibilidade nas pernas e braços e Otsu, embora tentasse ampará-lo, também perdeu o equilíbrio. Juntos despencaram do topo do cedro, ganhando impulso conforme caíam.

 

Takezo aterrissou sobre os próprios pés. Mesmo de uma altura superior a seis metros, logrou cair em pé e, estonteado, pisou firmemente a terra.

Um gemido abafado soou junto ao solo. Ao baixar os olhos, percebeu que Otsu jazia ao seu lado, mãos e pés rígidos e distendidos. Abaixou-se depressa e soergueu-a em seus braços:

— Otsu-san! Otsu-san!

— Ai, está doendo!

— Está ferida?

— Não sei ainda... Mas acho que consigo andar. Não se preocupe.

— Não deve ter se machucado muito: a queda foi amortecida pelos galhos do cedro.

— E você, Takezo-san, está bem?

— Eu... eu estou vivo! — constatou Takezo, maravilhado.

— Sem dúvida, está! — disse Otsu radiante.

— No momento, é só isso que me importa.

—Temos de fugir o mais rápido possível. Se alguém nos descobre, aí então estaremos perdidos para sempre — apressou-o Otsu.

Mancando, Otsu pôs-se a caminho. Takezo acompanhou-a. Como dois insetos miseráveis e mutilados que se arrastam sobre a terra, perderam-se lenta e silenciosamente na névoa.

— Veja, o céu ao longo do mar de Harima está começando a clarear — disse Otsu.

— Onde estamos, Otsu-san? — perguntou Takezo.

— No pico Nakayama. Já atingimos o cume — respondeu Otsu.

— Já nos distanciamos tanto assim?

— É incrível o que se consegue com determinação. É verdade, ia-me esquecendo: faz dois dias e duas noites que você não come absolutamente nada! — disse Otsu.

De repente, Takezo percebeu que estava com sede e fome. Otsu desfez o pequeno fardo que levava às costas e ofereceu-lhe bolinhos de arroz. Os dedos de Takezo tremeram ao sentir a doçura do creme espalhando-se em sua boca:

— Estou vivo! — pensou, e com renovada convicção. — De agora em diante, vou refazer minha vida!

O sol da manhã refletia-se rubro nas nuvens, tingindo de vermelho o rosto dos dois jovens. As feições de Otsu surgiram vivas à frente de Takezo que, maravilhado, tomou súbita consciência de sua presença: vivia um momento de sonho.

— Bem, de agora em diante teremos de redobrar os cuidados, pois o dia já clareou — observou Otsu. — Além disso, estamos perto da fronteira.

Ao ouvir a palavra fronteira, os olhos de Takezo de repente brilharam: — Lembrei-me! Tenho de ir agora ao posto de Hinagura!

— Onde? Hinagura?

— Minha irmã está presa numa cela, no posto de Hinagura. Vou deixá-la agora porque preciso salvar minha irmã.

Por instantes, Otsu fixou em silêncio no rosto de Takezo um olhar amargo.

— Então, eram essas as suas reais intenções... — murmurou. — Se era para nos despedirmos aqui, deste modo, não teria partido da vila Miyamoto.

— Que mais posso fazer, diga-me?

—Takezo-san — disse Otsu. Seu olhar pressionava. Estendeu a mão e estava a ponto de tocar as de Takezo, mas não completou o gesto, trêmula e rubra de emoção. — Quando surgir uma boa oportunidade, pretendo expor-lhe meus sentimentos. Por ora, desejo apenas deixar bem claro que não quero me separar de você deste modo. Leve-me com você, para onde quer que seja.

— Mas...

— Por favor! Aliás, mesmo que recuse, pretendo seguir com você. Se quer salvar Ogin-sama e acha que estou estorvando, posso seguir sozinha daqui para a frente, chegar primeiro na cidade casteleira de Himeji e ficar esperando por você.

— Combinado! — Takezo já se erguia a meio.

— Tenho a sua palavra, não tenho?

— Claro.

— Espero você na ponte Hanadabashi, na entrada da cidade, ouviu? Mesmo que você demore cem, ou mil dias, lá estarei à sua espera!

Takezo apenas meneou a cabeça, assentindo, enquanto se distanciava correndo pela encosta da montanha, ao longo do desfiladeiro.

 

A CASA DE CHÁ MIKAZUKI

— Obaba! Obaba!

Heita, o neto dos Hon’i-den, entrou descalço e esbaforido pela porta e, esfregando com as costas das mãos o ranho verde que lhe escorria do nariz, gritou em direção à cozinha:

— O que você está fazendo? Aconteceu uma coisa muito grave!

A velha Osugi, acocorada na frente do fogão, atiçava o fogo soprando por um tubo de bambu:

— Mas que exagero, Heita! Que foi agora?

— A aldeia está em rebuliço e você aí, cozinhando? Não ouviu dizer que Takezo fugiu?

— Quê? Fugiu?

— Dizem que quando o dia amanheceu, já não encontraram Takezo no topo do velho cedro.

— Tens certeza?

— E ainda tem mais! O pessoal do templo também está em polvorosa porque a “tia” Otsu desapareceu.

A notícia abalou a avó muito mais do que Heita havia esperado. O menino mordia nervoso a ponta do dedo.

— Heita, meu neto!

— Senhora.

— Dê uma corrida e vá chamar meu genro. Aproveite e passe pela casa do velho tio Gon, na beira do rio, e peça-lhe que venha também, imediatamente — disse a velha, com voz trêmula.

No entanto, muito antes que Heita saísse da casa, um pequeno e ruidoso grupo de parentes e arrendatários já se havia formado à entrada, avistando-se entre eles os vultos do velho Gon e do genro de Osugi.

— Deve ter sido obra da sem-vergonha Otsu.

— O monge Takuan também não foi encontrado.

— Por certo os dois estão juntos nisso.

— Que medidas vamos tomar?

Tanto o velho Gon como o genro de Osugi já vinham armados, cada qual com sua lança, herança das respectivas famílias; todos os olhares convergiam, intensos, para a entrada da casa.

— Você já está sabendo, obaba? — perguntou alguém, espiando o interior da casa.

Como uma verdadeira goushi, a velha Osugi, ao perceber que a notícia tinha fundamento, havia se sentado na frente do altar budista e ali permanecia, controlando a crescente ira.

— Calem-se e aguardem um pouco. Logo estarei com vocês — disse.

Ofereceu por instantes uma silenciosa prece aos ancestrais; abriu com calma o armário das armas, trocou-se, calçou grossas meias e sandálias de viagem e, finalmente, surgiu junto ao grupo.

Ao notar que prendera uma espada curta em seu obi e tinha os cordões das sandálias enrolados e atados às canelas — claro sinal de que se preparara para uma longa jornada — o grupo reunido deduziu o que pretendia a geniosa matriarca.

— Não se exaltem; eu, a matriarca dos Hon’i-den, sairei à procura dessa nora desavergonhada e farei justiça com minhas mãos. — Assim dizendo, a velha pôs-se a caminho.

Parentes e arrendatários seguiram no seu encalço, exaltados, cada qual armado de bordões e lanças de madeira:

— Se obaba vai, também vamos! — diziam. O grupo liderado pela sinistra figura de Osugi rumou para o desfiladeiro de Nakayama.

No entanto, quando o grupo atingiu o cume do Nakayama, o dia já ia a meio e era tarde demais.

— Nós os perdemos! — Os homens rilhavam os dentes, mortificados. Pior ainda: quando o grupo tentou passar pelo posto da fronteira, o oficial

encarregado aproximou-se e o impediu de prosseguir.

— Não permitimos a passagem de grupos numerosos, compondo facções — disse.

Representando o grupo, o velho Gon adiantou-se, explicou a situação pormenorizadamente e procurou negociar:

— Se desistirmos a esta altura, a honra de nossos ancestrais estará arruinada e seremos motivo de chacota na vila, tornando impossível nossa permanência nestes feudos. Assim sendo, gostaria de solicitar licença para prosseguir até alcançar e capturar os três indivíduos, a saber, Takezo, Otsu e Takuan.

Apesar da insistência, o oficial manteve a proibição. Dizia, impassível, que compreendia muito bem os motivos, mas que os regulamentos eram inflexíveis. Havia, é verdade, o recurso de se mandar um mensageiro ao castelo de Himeji solicitando permissão especial para a passagem do grupo, mas nesse caso, quando o mensageiro retornasse com a permissão, os fugitivos já se teriam distanciado e saído dos domínios do clã.

— Se é assim — disse Osugi, dirigindo-se ao oficial após consultar o grupo — apenas eu e o velho tio Gon prosseguiremos. Não há objeções quanto a isso, há?

— Não há restrição alguma quanto à passagem de até cinco pessoas — explicou o oficial.

Osugi assentiu e convocou o exaltado grupo para uma reunião em um descampado próximo:

— Meus amigos! — disse, iniciando um curto e patético discurso de despedida.

 

— Não têm por que se sentirem frustrados. Eu já sabia que enfrentaríamos dificuldades deste tipo desde o momento em que partimos de casa.

Enfileirados, os membros do clã ouviam solenes as palavras da velha Osugi, olhos fixos na boca de lábios finos que mal ocultavam os dentes proeminentes e boa parte das gengivas.

— Saibam que, antes de me armar com esta espada, há gerações em posse de minha família, prestei as devidas homenagens aos nossos ancestrais e deles me despedi, fazendo-lhes duas promessas: primeiro, que punirei devidamente essa mulher de conduta vergonhosa, que desonrou o nome Hon’i-den; segundo, que procurarei descobrir o paradeiro de meu filho Matahachi. Se na verdade continua entre os vivos, eu o trarei de volta a esta vila, nem que seja arrastado por uma corda atada ao seu pescoço. Cumpridas as promessas, farei com que Matahachi assuma sua posição de herdeiro único e escolherei para ele outra mulher, cujos dotes hão de superar, e muito, os de Otsu. Só assim conseguirei limpar o nome Hon’i-den, e mostrar minha cara na vila uma vez mais.

— Sábia decisão! — exclamou um dos parentes.

Transferindo o olhar penetrante para o rosto do genro, Osugi prosseguiu:

— Continuando: tanto eu como o tio Gon somos velhos e praticamente já nos retiramos da condução ativa dos negócios familiares. Assim sendo, pretendo peregrinar até conseguir realizar estas duas grandes missões, mesmo que isso consuma três ou quatro anos de minha vida. Durante minha ausência, meu genro estará à frente dos negócios: não negligenciem os cuidados com a criação do bicho-da-seda e não permitam que o mato tome conta dos campos e das plantações. Espero que tenham compreendido bem minhas palavras.

Tio Gon já beirava os 50 anos; Osugi há muito passara dos 50. Era óbvio que, se chegassem a um confronto com Takezo, os justiceiros seriam justiçados. Os parentes dos dois velhos, preocupados, sugeriam que talvez fosse melhor levarem mais três jovens robustos em sua companhia.

— Não é preciso — redargüiu Osugi, sacudindo a cabeça. — Falam dele como do diabo, mas não passa de um garoto crescido: não há o que temer, meus amigos. O que me falta em força física, talvez me sobre em astúcia. Contra um ou dois adversários, isto — disse, apontando os próprios lábios com um gesto misterioso e confiante — é tudo que preciso.

— Sabemos que será inútil tentar detê-la. Siga em frente, então, com a nossa bênção — disseram os homens.

— Adeus!

A velha Osugi e o tio Gon afastaram-se lado a lado, descendo o desfiladeiro de Nakayama rumo leste. Do topo da montanha, o grupo acenava, gritando em despedida:

— Que os deuses a acompanhem, obaba!

— Se adoecer, mande alguém nos avisar imediatamente, ouviu?

— Volte logo!

Quando as vozes aos poucos diminuíram, a velha Osugi comentou:

— Ora, somos ambos velhos: nosso destino é morrer primeiro. De minha parte, parto com o coração leve. E você, tio Gon?

— Eu também — respondeu o velho Gon.

Embora vivesse atualmente da caça, tio Gon era um sobrevivente das batalhas do período Sengoku, um bushi que na mocidade havia conhecido um mundo sangrento. Seus ossos eram rijos e a pele tinha sido curtida em campos de batalha. Comparados aos de Osugi, seus cabelos não eram tão brancos. Seu nome era Fuchikawa Gonroku e era tio de Matahachi, o que explicava seu interesse pelo caso.

— Obaba?

— Que é, tio Gon?

— Acho que vou ter de parar em alguma loja e comprar ao menos umas sandálias apropriadas para a jornada porque, ao contrário de você, não tive tempo de me preparar.

— Tem uma casa de chá na descida do monte Mikazuki, tio Gon.

— É verdade, acho que lá encontrarei sandálias e sombreiros.

 

Se conseguissem descer até a base da montanha chegariam a Tatsuno, na província de Banshu, não muito distante de Ikaruga. Mas o dia, embora longo pela proximidade do verão, já chegava ao fim. Osugi descansava no alpendre da casa de chá e, ao pagar as despesas, comentou:

—Acho que não conseguiremos alcançar Tatsuno antes do anoitecer. Pelo visto, teremos de pernoitar em alguma hospedaria barata nos arredores de Shingu.

— Bem, vamos andando, então — disse Gonroku, levantando-se. Tinha nas mãos um sombreiro que acabara de comprar.

— Espere um pouco, obaba.

— Que foi agora?

— Vou encher o cantil[39] com a água fresca do poço lá dos fundos. Gonroku contornou a casa e encheu o cantil. Estava para retornar quando

uma janela lhe chamou a atenção. O velho parou e espiou por ela. Tinha alguém deitado numa esteira e o quarto, escuro, recendia a remédios.

— Alguém está doente — murmurou Gonroku. Uma esteira cobria o rosto do doente, deixando apenas cabelos negros à mostra sobre o travesseiro.

— Ande logo, tio Gon! — reclamou a velha Osugi.

— Já vou, já vou! — respondeu Gonroku, correndo a alcançá-la.

— Por que demorou tanto? — implicou Osugi, mal-humorada.

— Parece que tem alguém doente na casa —justificou-se tio Gon, andando ao lado da velha.

— Grande novidade! Não perca tempo com bobagens — ralhou Osugi. Tio Gon, incapaz de enfrentar a matriarca da família, ignorou a reprimenda com uma sonora gargalhada.

Da casa de chá em diante, o declive se acentuava rumo às terras de Banshu. A estrada apresentava profundos sulcos produzidos em dias de chuva por patas de cavalos e pelas rodas dos pesados carroções das minas de prata, que por ali trafegavam com freqüência.

— Cuidado, não me vá tropeçar e cair, obaba.

— Cuide-se você! Não estou velha a ponto de precisar de apoio para andar por estradas iguais a esta.

Repentinamente, uma voz acima de suas cabeças os interpelou:

— Que dupla de idosos bem disposta!

Os dois velhos ergueram a cabeça e depararam com o dono da casa de chá, montado num cavalo.

— Olá! Para onde vai você? — perguntou Gonroku.

— Estou indo para Tatsuno — respondeu o homem.

— Não é um pouco tarde para isso?

— É que só em Tatsuno consigo encontrar um médico. Partindo agora, só conseguirei estar de volta no meio da noite, mesmo andando a cavalo.

— O doente é pessoa de sua família?

— Pois não é — disse o homem com um suspiro resignado. — Se fosse minha mulher ou um dos meus filhos, não estaria aqui reclamando, mas acontece que a doente é uma viajante desconhecida que parou para descansar por instantes em minha casa. Má sorte a minha.

— Na verdade, eu a vi pela janela do seu quarto, há pouco. Quer então dizer que é uma viajante?

— Isso mesmo, uma jovem. Começou a sentir calafrios enquanto descansava no alpendre de minha casa. Como não podia deixá-la abandonada, cedilhe o quarto dos fundos, mas a febre começou a subir cada vez mais e seu estado passou a inspirar cuidados.

Osugi estacou instantaneamente e perguntou:

— Não era por acaso uma jovem esguia, aparentando uns dezessete anos?

— Isso! Disse que vinha da vila Miyamoto.

— Tio Gon! — disse Osugi fazendo um sinal com os olhos, enquanto apalpava seu obi. — Que estupidez a minha!

— Que foi?

— Parece que esqueci meu terço no alpendre da casa de chá!

— Mas que pena! Deixe que eu vou buscá-lo — ofereceu-se o estalajadeiro.

— De modo algum! Você está indo buscar o médico e, quanto mais cedo voltar, melhor será para a doente. Siga em frente, não se preocupe. — Assim dizendo, o velho Gon já refazia em largas passadas o caminho percorrido. Despachando o estalajadeiro, Osugi foi atrás. A respiração dos dois velhos tornara-se ofegante:

— É Otsu, com certeza!

 

Otsu pegara um resfriado por causa da noite passada ao relento no meio da tempestade, mas nem se lembrara da febre até o momento em que se separara de Takezo, no pico de Nakayama. Ao ficar sozinha e encetar a jornada, no entanto, havia passado a sentir dores pelo corpo inteiro e, não suportando o terrível mal-estar, tinha parado na casa de chá Mikazuki e aceitado o pouso oferecido pelo dono do estabelecimento.

— Quero água, por favor, água... — murmurava, delirando.

O estalajadeiro fechara a loja e saíra para buscar um médico. Antes de partir, o bondoso homem havia dito que agüentasse um pouco mais, pois logo estaria de volta com o médico, mas a febre estava tão alta que Otsu já não se lembrava disso.

Com a boca seca parecendo repleta de espinhos, Otsu continuava pedindo:

— Por favor, dê-me um pouco de água...

Levantou-se por fim e, localizando a pia, arrastou-se penosamente nessa direção. No momento em que estendia a mão para a cuia, ouviu a porta sendo arrombada.

A casa rústica no meio da montanha não possuía trancas. Osugi e o velho Gon entraram com cuidado.

— Está escuro, não, tio Gon?

— Espere um pouco — disse o velho, aproximando-se do fogareiro. Ateou fogo num feixe de gravetos e à sua luz exclamou:

— Ela não está mais aqui, obaba!

— Como? — disse Osugi. Notou em seguida a porta ao lado da pia entreaberta e gritou: — Ela saiu por ali!

Nesse momento, alguém lhe lançou a água de uma cuia no rosto: era Otsu, que se afastou correndo ladeira abaixo agitando mangas e barra do quimono, como um passarinho a voar cego no meio da ventania.

— Maldita! — praguejou Osugi, perseguindo-a. — Venha logo, tio Gon!

— A menina fugiu, obaba?

— Ainda pergunta? Graças à sua estupidez, ela percebeu a nossa aproximação. Faça alguma coisa, depressa!

— É ela quem vai lá? — perguntou Gonroku, apontando o vulto ligeiro como uma corça no fundo da ladeira. — Não se preocupe, não pode ir longe com aquelas pernas finas, e doente, além de tudo. Logo a alcançarei e então, um golpe só e ela estará liquidada— disse, começando a correr.

Osugi acompanhou-o de perto, gritando:

— Preste atenção, tio Gon! Você pode golpear apenas uma vez, porque quem vai-lhe cortar a cabeça sou eu, ouviu bem? Mas antes ela vai ter de ouvir umas verdades!

Nesse instante, Gonroku, que corria à frente, parou e se voltou:

— Maldição! — gritou.

— Que aconteceu? — quis saber Osugi.

— Ela mergulhou no bambuzal...

— Nesse barranco?

— É. O barranco não é fundo, mas o problema é que é escuro. Temos de voltar para a casa de chá e pegar uns archotes. — Hesitante, Gonroku tinha parado à beira do bambuzal quando Osugi o alcançou:

— Ande logo, molenga! — gritou, dando-lhe um empurrão nas costas. Pego desprevenido, Gonroku cambaleou alguns passos para a frente e,

pisando em folhas secas, escorregou barranco abaixo com um grito de susto. Quando o ruído da queda cessou no escuro fundo do vale, sua voz indignada se fez ouvir ao longe:

— Velha desgraçada! Olhe só o que fez! Agora, veja se desce até aqui de uma vez!

 

O MEDO

O ponto havia surgido no dia anterior e ainda permanecia no mesmo lugar.

Imóvel ao lado do proeminente rochedo sobre o platô de Hinagura, o ponto escuro poderia ser um pedaço do próprio rochedo que se destacara e rolara até ali.

— O que será aquilo? — perguntavam-se os guardas do posto de inspeção, mãos em pala sobre os olhos.

A luz iridescente do sol impedia que examinassem melhor o objeto. Um dos guardas sugeriu a esmo:

— Deve ser uma lebre.

— É maior do que uma lebre. Deve ser um cervo — disse outro.

— Não, lebres ou cervos nunca ficariam imóveis por tanto tempo, deve ser uma rocha mesmo, disse um terceiro.

— Ora, onde se viu rocha ou tronco de árvore surgir do nada, de um dia para outro? — contrariou alguém.

— Como não? Rochas podem perfeitamente surgir da noite para o dia. Chamam-se meteoritos e costumam cair do céu — replicou um dos homens, do tipo falador, tumultuando a discussão.

— Ah, tanto faz! — interveio outro homem do grupo, do tipo tranqüilo, tentando dar novo rumo à conversa, o que irritou mais alguém:

— Tanto faz, não! O que acha que estamos fazendo aqui, neste posto de Hinagura? Nossa missão é vigiar o trânsito das estradas e as fronteiras de quatro províncias, a saber, Tajima[40], Inshu[41], Sakushu e Harima. Isto não significa ganhar o soldo tomando banhos de sol.

— Está bem, está bem, já entendi.

— E se aquilo não for lebre nem cervo, e sim um homem? — insistiu.

— Não está mais aqui quem falou. Vamos acabar com isso — disse o tranqüilo, pensando ter finalmente encerrado a discussão, quando outro a recomeçou:

— Mas aquilo pode muito bem ser um homem.

— Acho que não.

— Não podemos ter certeza. Lance uma flecha de longo alcance e tente acertá-lo.

O guarda que correu apressado para dentro do posto e trouxe de lá um jogo de arco e flecha parecia ser um bom atirador: desnudou rapidamente um ombro, armou a flecha, retesou o arco e disparou. O alvo visado era o ponto negro no topo de um suave aclive que se destacava solitário contra o céu azul, do outro lado do profundo vale que se interpunha entre o posto e o aclive em questão.

A flecha voou como um rouxinol, cruzando o vale em linha reta.

— Muito baixo! — disse alguém às costas do atirador. Uma segunda flecha partiu zumbindo.

— Errou de novo! — Outro atirador se adiantou e, tomando o arco, disparou outra flecha que mergulhou no vale e se perdeu.

— Que balbúrdia é essa? — perguntou um bushi, o oficial encarregado do posto, surgindo no meio do grupo. — Muito bem, deixem por minha conta — disse, ao se inteirar dos fatos, tomando o arco em suas mãos.

Obviamente, a habilidade do oficial era superior. Armou a flecha e retesou ao máximo o arco, fazendo a corda gemer nos entalhes, mas logo devolveu-a à posição inicial e observou:

— É melhor não atirar.

— Por quê? — indagou alguém.

— Porque aquilo só pode ser um ser humano. E nesse caso, tanto pode ser um eremita como um espião de uma outra província ou um suicida tentando pular no precipício para acabar com a vida. Seja qual for o caso, não podemos matá-lo: capturem-no e tragam-no até aqui — ordenou o oficial.

— Viu? Bem que eu disse! — gabou-se o guarda que primeiro aventara a hipótese do ponto ser um homem, fremindo as narinas de importância. — Vamos logo!

— Ei, espere aí... De que jeito vamos chegar àquele pico?

— E se formos pelo vale?

— E um precipício!

— Não tem jeito, temos de dar a volta pelo desfiladeiro de Nakayama.

Imóvel, braços cruzados sobre o peito, Takezo fixava com olhar feroz o telhado do posto de inspeção de Hinagura, do outro lado do profundo vale.

Embora soubesse que sua irmã Ogin estava presa numa das alas daquela construção, Takezo havia permanecido o dia anterior inteiro sentado, imóvel, e mesmo agora não parecia querer se levantar.

 

Há poucos dias, Takezo não teria hesitado ante a perspectiva de enfrentar eventuais 50 ou cem guardas de um posto qualquer. Mas agora...

Sentado em local estratégico, conseguia divisar de um golpe todo o posto e analisava o terreno: de um lado, o posto de inspeção era resguardado por um profundo vale, o acesso sendo portanto obrigatoriamente pelos portões duplos.

A área onde se encontrava era um platô e, até onde a vista alcançava, não havia árvores ou ondulações de terreno atrás das quais pudesse se ocultar. Nessas situações, devia-se normalmente agir protegido pelas sombras da noite; no entanto, muito antes que as sombras se adensassem, as duas barreiras do posto já estariam fechadas, e os alarmes soariam a qualquer emergência.

— Não vou conseguir me aproximar sem ser notado! — gemeu Takezo. Acomodado aos pés do proeminente rochedo durante dois dias, tentara em vão desenvolver um plano de ataque e, enfim, concluiu:

— É impossível! — Aparentemente, fora-se o impulso de arriscar a vida na empreitada.

“Ora essa, quando foi que me tornei tão medroso?”, indagava-se Takezo impaciente, certo de que nunca fora um covarde.

A tarde já caía sem que Takezo se movesse: era inexplicável, mas sentia medo, um medo agudo de se aproximar do posto.

“Estou com medo — não sou o mesmo de dias atrás, sem dúvida. Será isso covardia? Absolutamente não!”, negou Takezo, meneando a cabeça.

O medo que sentia não era covardia, mas conseqüência das idéias que o monge introduzira em sua mente. Levantara-se o véu da cegueira e ele passara a enxergar.

As palavras do monge voltaram-lhe à lembrança: “A coragem de um homem difere da coragem de um animal selvagem; a coragem do bravo nada tem a ver com a temeridade do rufião.”

Seu espírito enfim despertara e passara a perceber vagamente o medo, devolvendo-o à normalidade:

“Sou um homem e não um animal selvagem” — voltou a assegurar-se Takezo, “e no instante em que me conscientizei dessa verdade, minha vida tornou-se preciosa.” Pois enquanto não soubesse até onde conseguiria aprimorar-se como ser humano, enquanto não lograsse concluir esse aprimoramento, não se sentia disposto a abrir mão da vida.

“É isso!”, concluiu Takezo, erguendo o olhar para o céu: enfim descobrira o que lhe ia no íntimo.

Entretanto, não poderia deixar de salvar a irmã, mesmo que a empreitada significasse enfrentar o medo recém-descoberto e arriscar á vida, agora tão preciosa.

“Esta noite descerei pelo precipício, atravessarei o vale e galgarei o penhasco”, pensou Takezo. O acesso por ali parecia simples porque o posto de inspeção não tinha cercas na parte dos fundos, uma vez que o penhasco constituía uma barreira natural inexpugnável.

No momento em que chegava a essa decisão, uma flecha cravou-se no terreno a uma pequena distância de seus pés. De repente, tomou consciência de um grupo de homens, àquela distância pequenos como formigas, aglomerados nos fundos do posto, provavelmente alvoroçados porque o haviam descoberto. Momentos depois, todavia, os homens se dispersaram.

“Lançaram uma flecha como teste”, concluiu Takezo com acerto, mantendo-se imóvel de propósito. Alguns instantes mais e o sol descambou majestoso atrás da cordilheira de Chuugoku. A noite se aproximava.

Takezo levantou-se e apanhou uma pedra: seu jantar voava. Lançou o pedregulho e logo um pássaro caiu a seus pés. Depenou-o e, enquanto mastigava a tenra carne, um grupo de guardas surgiu de súbito e cercou-o com alarido.

 

— Takezo! Este homem é Takezo, da vila Miyamoto! — gritavam os homens, identificando-o afinal. Um segundo clamor elevou-se:

— Cuidado! Ele é perigoso! Não se descuidem! — advertiam-se mutuamente.

Reagindo à ameaça, o olhar de Takezo inflamou-se, perigoso.

— Tomem! — berrou. Tinha erguido uma pesada rocha com as mãos e lançou-a contra a roda dos guardas.

A rocha tingiu-se de sangue. Saltando como uma lebre pela brecha aberta no cerco, Takezo distanciou-se correndo. Não fugia dos perseguidores — pelo contrário, disparava rumo ao posto, os cabelos eriçados como juba.

— Aonde vai ele? — gritavam os homens, atônitos, pois Takezo corria cegamente em direção ao posto como uma mariposa atraída pela luz.

— Enlouqueceu! — gritou alguém. Com um novo alarido, o grupo partiu em sua perseguição. Quando os homens alcançaram enfim o posto, Takezo já tinha mergulhado nele pelos portões duplos.

Caíra em pleno território inimigo onde a morte o aguardava com a boca escancarada, mas passou pelas armas solenemente enfileiradas, pelas cercas e pelo oficial sem ao menos notar-lhes a presença.

— Espere, quem é você? — gritou o oficial, tentando agarrá-lo. Sem sequer dar-se conta disso, Takezo derrubou-o com apenas um soco.

Ao passar pelo segundo portão, agarrou uma das pilastras, arrancou-a do chão e girou-a. Não lhe importava quantos eram os guardas — sabia apenas que a massa escura à sua frente representava o inimigo. Brandiu a viga na direção do grupo e imediatamente espadas e lanças se quebraram, indo com estrépito ao chão.

— Ogin! — gritou Takezo, contornando o posto. — Minha irmã! Com os olhos injetados investigou a esmo o interior das dependências.

— Ogin, sou eu, Takezo! — Ao deparar com uma porta cerrada, arrombava-a com a pesada viga de mais de quinze centímetros de largura, levada sob o braço.

As galinhas criadas no posto voavam alvoroçadas e cacarejavam como se o mundo estivesse acabando, pousadas no telhado.

— Ogin, onde está você?

Gradativamente a voz de Takezo foi ficando rouca, semelhante à das aves, e seus apelos cada vez mais desesperados. Apesar disso, ele não foi capaz de encontrar Ogin.

Das sombras de um casebre fétido, a estrebaria, surgiu um criado tentando esgueirar-se como uma fuinha.

— Pára aí! — gritou Takezo, lançando aos pés dele a viga, agora viscosa de sangue. Agarrou-o pela gola e esbofeteou o rosto do homem que, acovardado, choramingava.

— Diz-me em que cela prenderam minha irmã ou acabo contigo! — gritou.

— Não está mais aqui, senhor. Foi transferida ontem para o castelo de Himeji, por ordens do clã, senhor.

— Tu disseste Himeji?

— Sim, senhor — respondeu o homem apavorado.

— Estás dizendo a verdade?

— Sim, senhor, é verdade.

Takezo lançou o criado sobre o grupo de guardas — que, refeitos, voltavam ao ataque — e com um rápido movimento, ocultou-se atrás da estrebaria.

Cinco ou seis flechas caíram em torno dele, uma delas atingindo a manga do quimono. Por um breve segundo Takezo permaneceu imóvel mordendo a unha do polegar, observando as flechas. Repentinamente disparou para a cerca e saltou, mergulhando para a liberdade.

O estampido de um mosquete[42] reboou às suas costas. O eco reverberou no fundo do vale e sacudiu as montanhas.

Takezo já ia muito além, com a mesma rapidez de uma rocha que rola ladeira abaixo.

“Aprenda a temer o que deve ser temido!”

“Violência é sinal de imaturidade, é ignorância, é força de besta-fera.”

“Tenha a bravura de um verdadeiro guerreiro!”

“A vida é uma pérola preciosa!”

Takezo fugia, ligeiro como a brisa; na mesma velocidade, fragmentos dos conselhos de Takuan giravam em sua mente.

A CELA DA LUZ

Ponte Hanadabashi, limites da cidade casteleira de Himeji. Conforme prometera, Takezo esperava já há alguns dias por Otsu, ora sob a ponte, ora nos arredores.

“Que lhe teria acontecido?”, perguntava-se preocupado. Decorridos sete dias, não vira Otsu em lugar algum, muito embora a jovem lhe houvesse prometido ali esperar por ele cem ou até mil dias. Takezo impacientava-se, mas uma vez que empenhara a palavra, nem sequer cogitava em abandonar o local.

Ao mesmo tempo, procurava descobrir onde teriam confinado a irmã Ogin, de cuja transferência para a cidade soubera pelo guarda do posto. Quando não vagava pelas vizinhanças da ponte, seu vulto envolto em esteira de palha e disfarçado de mendigo era visto percorrendo diversos pontos da cidade.

— Takezo! Finalmente o encontrei!

Com esta súbita exclamação, um monge aproximou-se repentinamente. Takezo sobressaltou-se, pois julgara-se seguro, irreconhecível sob o disfarce.

— Acompanhe-me!

O monge que o agarrara pelo pulso era Takuan.

— Deixe de me dar tanto trabalho e venha de uma vez! — intimou o monge, arrastando-o. Takezo acompanhou-o em silêncio, pois Takuan era o único homem contra quem se sentia incapaz de reagir: seu destino seria novamente o topo de uma árvore ou então a cadeia do clã, imaginou.

Ogin também deveria estar presa num ponto qualquer da cidade. Breve estaria em sua companhia, ambos sentados sobre a mesma flor de lótus[43]. “Que ao menos nos permitam morrer juntos”, rezava Takezo.

A gigantesca muralha de pedra e as paredes brancas do castelo Hakurojo surgiram à sua frente. Takuan já cruzara a ponte sobre o fosso externo e dirigia-se ao portão central com passos decididos. À sombra dos grossos portões de ferro reforçados com rebites, Takezo notou lanças enfileiradas e, apesar de toda a sua coragem, angustiou-se.

— Ande, venha de uma vez! — chamou Takuan, acenando. Já tinha passado pelo portão central e estava a caminho do segundo portão, além do fosso interno.

O suserano do recém-tomado castelo Himeji ainda não estava seguro de havê-lo conquistado definitivamente. Seus soldados mostravam-se tensos, prontos a entrar em combate a qualquer momento.

Takuan convocou um funcionário à sua presença:

— Aqui está ele — disse, entregando o jovem — deixo-o aos seus cuidados.

— Muito bem, senhor — respondeu o funcionário.

— Mas muita atenção: o pequeno tigre tem presas afiadas e ainda não foi totalmente domesticado. Trate-o com jeito, senão é capaz de morder, entendeu? — disse por cima do ombro, rumando do segundo pátio fortificado para o pátio principal, onde se situavam os aposentos do suserano. Movia-se com desembaraço, como um homem acostumado ao ambiente.

— Acompanhe-nos, por favor — disseram os guardas a Takezo, mas sem tocá-lo, lembrando-se da advertência de Takuan.

Seguindo na companhia dos guardas, Takezo viu-se repentinamente numa sala de banho, onde o convidaram a se banhar. O convite era inesperado. Além disso, desde que caíra na armadilha preparada pela velha Osugi, as salas de banho haviam passado a lhe inspirar uma antipatia instintiva. Takezo cruzou os braços e parou, pensativo.

— Há roupas limpas aqui ao lado. Vista-as quando sair do banho, por fevor — disse-lhe um servo, apontando um conjunto de quimono e hakama[44] de algodão preto. Admirado, reparou dispostos sobre o conjunto um leque, lenços de papel[45] e, embora rústicas, duas espadas, a longa e a curta[46].

 

A torre tenshu — fortaleza e quartel-general — e o torreão que abrigava os aposentos do suserano compunham a um canto do vasto castelo Hakurojo o pátio fortificado principal, tendo como pano de fundo o verde da montanha Himeyama. O senhor do castelo, Ikeda Terumasa, era baixo, tinha a cabeça raspada e o rosto coberto de escuras marcas de varíola. Ligeiramente recostado num apoio para o braço, lançou o olhar sobre o pátio e disse:

— E então, Takuan, é esse o nosso homem?

— Sim. É ele. — Sentado ao seu lado, o monge confirmou, solenemente. —Tens razão, é um jovem de aparência destemida. Fizeste bem em salvá-lo.

— Pelo contrário, ele deve a vida à vossa clemência, senhor.

— Ambos sabemos que não foi assim. Sinto que se tivesse entre meus servidores um funcionário com o teu discernimento, outros jovens poderiam ser poupados e, mais tarde, prestar relevantes serviços à nação; o problema é que a maioria dos meus servidores imagina ser seu único dever mandá-los para a prisão.

Além do extenso avarandado sentava-se Takezo, diretamente na relva do jardim. Vestia um sobretudo de algodão preto sobre o conjunto de roupas que lhe fora oferecido e aguardava, mãos pousadas sobre as coxas e olhos baixos.

— Teu nome é Shinmen Takezo? — perguntou Terumasa.

— Sim — respondeu Takezo, alto e claro.

—Os Shinmen são, originariamente, um ramo do clã Akamatsu. E Akamatsu Masanori foi, há tempos, senhor deste castelo. Talvez devamos ao destino a tua presença aqui, neste momento — disse Terumasa.

Takezo permaneceu em silêncio, pois sentia-se culpado de denegrir o nome dos ancestrais. Não se sentia humilde perante Terumasa, mas em relação aos seus próprios antepassados.

— Mas — disse o suserano, alteando a voz severamente — teu comportamento tem sido inaceitável!

— Sim, senhor.

— Vou submeter-te a severa punição — disse. Virando-se, falou ao monge: — Takuan. Soube que um vassalo meu de nome Aoki Tanzaemon prometeu, sem ao menos me consultar, deixar a teu cargo a punição deste jovem, caso tu lograsses prendê-lo: tal fato se deu realmente?

— Sim. Interrogai Tanza e ele lho dirá — respondeu o monge.

— Na verdade, já o interroguei.

— Sabeis que de minha parte não tenho motivos para mentir ou dissimular.

— Muito bem, as duas versões então coincidem. Tanza é meu vassalo: sua palavra tem o mesmo peso da minha. Embora seja eu o suserano, reconheço já não ter autoridade para punir este jovem. Contudo, é impossível deixá-lo partir livremente. Assim sendo, a punição dele está a teu cargo, Takuan.

— Era o que este humilde monge esperava, senhor.

— E então, que pretendes, Takuan?

— É verdade que na torre deste castelo existe um aposento selado onde nunca penetra a luz do dia e que, dizem, é mal-assombrado?

— Sim, é verdade.

— O aposento continua selado até hoje?

— Não houve nenhum motivo para abri-lo até agora; além disso, meus vassalos evitam o local, de modo que as portas e as janelas do aposento continuam fechadas.

— Nunca vos ocorreu que a existência desse único aposento totalmente às escuras na fortaleza do bravo senhor Terumasa, o mais valoroso aliado de Tokugawa, empanaria vosso prestígio?

— A idéia não me ocorreu.

— Mas certamente o povo é capaz de medir, até por esses pequenos detalhes, o prestígio de um suserano. Proponho, portanto, que se introduza uma luz nesse local.

— Como assim?

— Peço que me cedais esse aposento: ali Takezo deverá ser mantido em confinamento até o dia em que eu, Takuan, julgar pago o seu crime. — E voltando-se para o jovem: — Takezo, esse será o seu castigo — determinou o monge.

— Muito bem! — disse Terumasa, rindo.

Era verdade o que um dia Takuan dissera ao comandante do bigodinho, Tanzaemon, no templo Shippoji: o suserano Terumasa e o monge eram companheiros na prática do zen.

— Apareça mais tarde na sala de chá, Takuan — convidou o suserano.

— Para suportar vosso medíocre desempenho na cerimônia do chá, senhor? — perguntou o monge, troçando.

— Não digas asneiras, fiz grandes progressos ultimamente. Hoje, vou te mostrar que não sou apenas um rude guerreiro. Estarei à tua espera, não te esqueças.

Assim dizendo, Terumasa retirou-se. Sua extraordinária figura, que mal atingia um metro e meio de altura, pareceu preencher todo o castelo Hakurojo.

 

Aposento no alto do torreão, conhecido como “quarto selado”. Escuridão total.

Aqui não existem calendários, a primavera e o outono se confundem, o silêncio impera absoluto, todos os sons do cotidiano foram eliminados.

Uma única luz proveniente do pavio de uma lamparina ilumina o vulto de Takezo e seu rosto pálido de faces encovadas.

A viga escura que cruza o teto, bem como a madeira do assoalho estão geladas. A luz da lamparina, a respiração forma uma névoa branca ao redor da boca de Takezo evidenciando que, lá fora, o inverno é rigoroso.

O livro de Sun-tzu sobre estratégias de guerra está sobre a escrivaninha, aberto no capítulo referente à configuração do solo:

Sun-tzu disse:

Por suas características topográficas,

Certos terrenos conduzem,

Outros são hostis,

Outros mantêm o inimigo à distância,

Outros não dão passagem,

Outros são inexpugnáveis,

Outros ainda são distantes.

Ao deparar com um trecho de seu agrado, Takezo lia-o repetidas vezes, em voz alta.

Por conseguinte,

Aquele que conhece seus soldados movimenta-os

e não se desnorteia,

Unifica-os e não se deixa encurralar.

Conseqüentemente, diz Sun-tzu,

Aquele que conhece a si mesmo e ao inimigo,

Vence — ou seja, não se arrisca;

Aquele que conhece céu e terra

Vence — ou seja, se realiza.

Se acaso sentia os olhos cansados, aproximava o vasilhame de água e banhava-os; se a lamparina bruxuleava, espevitava-a.

Pilhas de livros rodeavam a escrivaninha. Havia desde literatura japonesa e chinesa até tratados zen e história do Japão. Os livros soterravam a sala.

Todas as obras provinham da biblioteca do clã. No momento em que, condenado ao confinamento, fora encerrado na sala do torreão, Takuan lhe dissera:

— Leia tudo o que lhe for possível. Diz-se que certo renomado monge chinês encerrava-se periodicamente numa enorme biblioteca e lia milhares de livros. E a cada vez que de lá saía, diz a lenda, aos poucos seus olhos espirituais se abriam. Quanto a você, encerrado neste escuro recinto, considere-se dentro do ventre materno, preparando-se para o nascimento. Aos olhos da carne, este recinto nada mais é que um escuro quarto selado. No entanto, olhe com atenção e medite: a sala está repleta de luz, luz que todos os tipos de sábios da China e do Japão ofereceram à civilização. Tanto poderá viver enclausurado num escuro quarto selado, ou passar os dias numa sala cheia de luz — a escolha é sua e cabe ao seu espírito decidir.

Com esse conselho, Takuan se retirara. Desde então, muitas vezes as estrelas haviam se apagado no céu. Totalmente esquecido da passagem dos dias, Takezo apenas sabia que o inverno chegava quando sentia frio, e que era primavera quando o ambiente esquentava. Entretanto, supunha que o próximo retorno das andorinhas a seus ninhos construídos nas frestas do torreão indicaria a chegada da primavera do terceiro ano.

— E então, já terei 21 anos — murmurou cabisbaixo, avaliando seu passado. — Que fiz eu nestes 21 anos de vida?

Envergonhado de si mesmo, perdido em remorsos, havia dias em que passava imóvel, os cabelos das têmporas eriçados, em silenciosa agonia.

As andorinhas chilreavam do lado de fora, sob o beirai. Através dos mares, a primavera finalmente chegara.

E foi então que, de repente, num certo dia do terceiro ano, ouviu uma voz:

— Como vai você, Takezo?

Era Takuan que vinha subindo as escadas.

— Ah!

Uma onda de alegria o engolfou. Incapaz de proferir palavra, Takezo apenas reteve em suas mãos a manga da veste do monge.

— Acabo de chegar de viagem, sabe? Três exatos anos se passaram. Calculei que, a esta altura, seu crescimento dentro do ventre materno já deveria ter-se completado — disse o monge.

— Não tenho palavras para expressar minha gratidão por toda a sua bondade.

— Gratidão? — repetiu o monge, rindo com alegria. — Sem dúvida você aprendeu a falar uma nova linguagem, Takezo. Vamos, vamos, hoje você sairá deste lugar, levando com você a luz do saber, e retornará ao mundo dos homens.

 

Ao sair do quarto selado do torreão, Takezo foi uma vez mais conduzido à presença do suserano Terumasa, como há três anos.

Naquela ocasião fora-lhe indicado um lugar sobre a relva, no meio do jardim. Hoje, porém, seu lugar estava reservado sobre o assoalho de madeira, no vasto avarandado do torreão que abrigava os aposentos do suserano, e ali Takezo sentou-se.

— E então, que achas de servir à minha casa, Takezo? — perguntou Terumasa.

Takezo agradeceu o honroso convite, mas respondeu que não tinha, no momento, intenção de servir a nenhum suserano, acrescentando:

— Caso, porém, eu resolvesse servir neste castelo, é muito provável que os espíritos, sobre os quais tanto fala o povo, passassem a assombrar realmente o quarto selado do torreão, noite após noite.

— Por quê? — indagou Terumasa.

— Ao examinar o interior do torreão à luz da vela, notei que havia manchas negras brilhantes como laça aderidas a vigas e portas. Observando-as melhor, descobri que eram sangue humano. Imagino que seja o sangue derramado por meus ancestrais, membros da família Akamatsu, em seus trágicos momentos finais.

— Sim, é provável.

— Senti a pele arrepiar e o sangue revoltar-se num indescritível ressentimento. Que fim tiveram meus ancestrais, membros da família Akamatsu, que nesta região de Chuugoku um dia reinaram supremos? Seu destino é vago — como a brisa do outono que se vai; seus dias, efêmeros, terminaram em ruína. Mas o sangue, embora outros sejam os corpos, ainda vive em seus descendentes. E minha humilde pessoa, Shinmen Takezo, é um deles. Por conseguinte, caso aceitasse vosso convite e passasse a servir neste castelo, é possível que os espíritos que habitam o quarto selado tentassem se sublevar, iniciando uma rebelião. Caso a rebelião se concretizasse e um descendente dos Akamatsu retomasse este castelo, um novo quarto selado teria de surgir aqui. O massacre de mais seres humanos tornaria a unir as almas em um novo círculo de transmigração[47]. E isto não deverá nunca mais ocorrer em consideração ao povo que, neste momento, tenta fruir um pouco de paz.

— Tens toda razão — concordou Terumasa. — E então, é tua intenção voltar à vila Miyamoto e terminar teus dias como um goushi?

Por instantes, Takezo, calado, apenas sorriu. Em seguida, respondeu:

— Ambiciono uma vida nômade, senhor.

— Sei... — Voltando-se então para o monge, disse Terumasa: — Providencia-lhe roupas civis e dinheiro para as despesas de viagem.

— Agradeço vossa grande bondade, senhor — respondeu Takuan.

— Ora, é a primeira vez que ouço um agradecimento tão formal da tua boca, Takuan — admirou-se o suserano.

— Realmente... — disse Takuan, rindo. Terumasa voltou-se então para Takezo:

— Uma vida errante durante a mocidade não deixa de ser interessante. Apesar disso, para que nunca esqueças tuas origens e tua terra natal por onde quer que andes, vou dar-te um novo sobrenome: Miyamoto, em homenagem à tua vila natal. A partir de hoje, pássaras a te chamar Miyamoto, pois eu assim te nomeio: Miyamoto! — disse Terumasa.

— Assim me chamarei — acedeu Takezo. Curvou-se em profunda mesura, as duas mãos tocando o assoalho.

A seu lado, Takuan acrescentou:

— Nesse caso, vamos mudar também a leitura de seu nome: conservando-se as mesmas letras, que sejam lidas de um novo modo — Musashi. Saído do ventre da escura cela, hoje é o seu primeiro dia no mundo da luz. Melhor será que se renove inteiramente.

— Muito bem, muito bem! — apoiou-o Terumasa, cada vez mais entusiasmado — Miyamoto Musashi! Gostei deste nome! Bebamos a ele. Providencia saque! — ordenou a um vassalo.

Transferiram-se todos a um outro aposento, onde Takuan e Takezo, daquele momento em diante rebatizado Musashi, tiveram a honra de entreter o suserano até tarde da noite. Logo Takuan levantou-se em meio aos vassalos convidados para a reunião e pôs-se a executar um bailado medieval[48]. Mesmo embriagado, o monge conseguia compor um ambiente de puro divertimento ao seu redor. Musashi contemplava discretamente o alegre Takuan, entretido em sua dança.

O dia já amanhecia quando os dois saíram do castelo.

Por um bom tempo não haveriam de se encontrar, pois Takuan pretendia seguir caminho, seu destino era tão incerto quanto o “das nuvens ou das águas”[49] que se vão sem dizer para onde. Musashi, por seu lado, preparava- se para dar o primeiro passo no árduo caminho de adestramento e disciplina ascética, rumo à sua formação pessoal e guerreira.

— Façamos aqui as despedidas — disse Musashi, ao atingirem a cidade casteleira.

— Um momento — interveio o monge, retendo-o pela manga — não existe ainda uma pessoa com quem você gostaria de se encontrar?

— Quem?

— Sua irmã, Ogin.

— Ogin... Então, ela ainda vive?

Mal disse, desviou o olhar: nem por um momento, mesmo em sonhos, havia deixado de pensar na irmã.

 

A PONTE HANADABASHI

Segundo Takuan, quando Musashi atacara o posto de Hinagura, havia três anos, Ogin já não se encontrava no local e, por isso, não sofrerá sanções posteriores. Ogin não retornara à vila Miyamoto por diversas razões e hoje — informava o monge — levava uma vida tranqüila junto a parentes, em Sayogo.

— Não quer ir vê-la? — convidou-o Takuan. — Sei que sua irmã deseja muito revê-lo. No entanto, consegui dissuadi-la durante os últimos anos, dizendo-lhe: “Faça de conta que seu irmão morreu. Isto mesmo, a esta altura, eleja deve ter realmente morrido. Dentro de três anos, porém, prometo que trarei à sua presença um novo Takezo, diferente daquele que você conheceu.”

— Quer dizer então que lhe devo não só a minha vida, como também a de minha irmã? Não tenho palavras para agradecer. No momento, posso apenas expressar minha gratidão deste modo — disse, juntando as duas mãos à altura do peito e sobre elas curvando a cabeça, num gesto de adoração.

— Vamos, vamos, eu o levarei a ela — disse Takuan, apressando-o.

— Agradeço, mas já não é preciso: sinto-me feliz, como se de fato a tivesse visto. Não devo ir ao seu encontro.

— Por quê?

— Porque hoje, enfim, sou um novo homem: passei pela experiência da morte, renasci e, neste exato instante, estou decidido a dar o primeiro passo no longo e difícil caminho dos que buscam aperfeiçoar-se.

— Não diga mais nada: já compreendi.

— Sabia que compreenderia.

— Percebo o quanto mudou, e só posso me alegrar com isso. Você me deixa muito feliz, Musashi. Será como quer, então, meu jovem.

— Neste caso, aqui me despeço; ver-nos-emos algum dia, se me for dado viver até então.

— Muito bem. De minha parte, meu rumo é incerto: como uma nuvem ou como a água, assim corro o mundo... Encontrar-nos-emos de novo em algum lugar, se for possível.

As palavras do monge eram serenas. Ia afastar-se, mas voltou:

— É verdade, ia-me esquecendo. Saiba que a matriarca dos Hon’i-den e o tio Gon estão por aí procurando você e Otsu, jurando matá-los ou nunca mais voltar às suas terras. Talvez venham a importuná-lo, mas não lhes dê atenção. Quanto ao comandante do bigodinho, Aoki Tanza, não que eu o tivesse denunciado, mas... foi sumariamente demitido em conseqüência do seu mau comportamento, e também ele deve estar vagando por essas estradas. Ande, portanto, com muita cautela: inúmeras são as ciladas na estrada da vida.

— Sim, senhor.

— Isso é tudo. Adeus — disse Takuan, caminhando rumo ao oeste.

— Felicidades! — disse Musashi às suas costas. Parado no meio da estrada, observou por longo tempo o vulto do monge que se afastava. Finalmente sozinho, tomou a direção leste.

Apenas uma espada! Seu único amparo e proteção repousava junto ao quadril... Musashi pousou a mão nela levemente.

“A espada será minha vida. Ela representa meu espírito: vou procurar aperfeiçoar-me incessantemente no manejo da espada, e ver até onde consigo aprimorar minha personalidade. Takuan segue o caminho zen. Meu caminho será a espada e por ela hei de um dia alcançar a grandeza do monge.”

21 anos, plena juventude — havia tempo ainda!

Seus passos eram vigorosos. Os olhos brilhavam, cheios de esperança. Vez ou outra erguia a larga aba do sombreiro, de fibra de bambu trançada, e lançava um olhar vivo à estrada sem fim que se abria à sua frente.

No momento em que, deixando para trás a cidade de Himeji, começava a atravessar a ponte Hanadabashi, uma mulher correu no seu encalço e, agarrando-o pela manga, disse:

— Espere um pouco, por acaso você não seria...

— Otsu-san? — espantou-se Musashi.

A jovem fixou nele um olhar carregado de censura:

— Não quero sequer pensar que tinha se esquecido desta ponte e de que nela prometi esperar por cem ou mil dias, Takezo-san...

— Você ficou aqui me esperando durante estes três últimos anos?

— Com certeza! Fui perseguida pela matriarca dos Hon’i-den e quase morri nas mãos dela, mas consegui salvar-me por um triz. E desde então, isto é, desde quase 20 dias depois de nos despedirmos no desfiladeiro de Nakayama até hoje, estive trabalhando naquela casa — disse Otsu, apontando uma pequena loja de artefatos de bambu, na base da ponte — à sua espera. São passados exatos 970 dias: agora, espero que cumpra a promessa e me leve com você.

 

 “Não é possível!”, pensou Musashi, desesperado. Na verdade, fora com muito custo que man tivera a resolução de não rever Ogin e dera com decisão os primeiros passos que o levavam para longe dela. E agora, isto! “Como posso levar comigo uma mulher, se estou começando agora uma árdua viagem de aprendizado?”, pensou.

De mais a mais, esta não era uma mulher qualquer: embora por pouco tempo, fora noiva de Hon’i-den Matahachi. Segundo dizia Osugi, mesmo ausente o noivo, era a “minha nora Otsu “.

Incapaz de disfarçar a expressão aborrecida que lhe aflorou ao rosto, Musashi perguntou bruscamente:

— Levá-la comigo aonde?

— Aonde quer que você vá...

— Saiba que tenho um duro caminho de privações pela frente. Não viajo por prazer.

— Sei muito bem. Asseguro-lhe, apesar disso, que não pretendo estorvá-lo e estou pronta para enfrentar qualquer privação.

— Nunca se ouviu falar de um bushi em jornada de aprendizado com uma mulher. Serei alvo de zombaria. Por favor, solte-me.

Otsu agarrou-se com maior força à manga do quimono:

— O que está me dizendo? Quer dizer que me enganou?

— Como posso tê-la enganado? Diga-me!

— Pois você parece ter se esquecido da promessa que me fez no pico de Nakayama.

— Aquilo... foi impensado de minha parte. E se bem me lembro, naquela ocasião, eu estava com muita pressa e apenas acenei concordando com o que você me dizia.

— Não, de jeito algum! Você distorce a verdade! — revoltou-se Otsu. Musashi tentava se afastar, mas a jovem o seguia de perto, prensando-o contra a balaustrada da ponte:

— Você se esqueceu também do que me disse no alto do velho cedro, quando lhe perguntei se fugiria comigo?

— Solte-me, estamos chamando a atenção dos transeuntes.

— Que olhem, não me importo! Naquela noite, eu lhe perguntei se fugiria comigo e você respondeu: “Claro, corte estas cordas, depressa!” — lembra-se?

Otsu tentava discutir racionalmente, mas seus olhos cheios de lágrimas eram poços de emoção.

Musashi não tinha palavras para enfrentar a argumentação racional de Otsu, muito menos a emoção e o calor envolvente de seu olhar: de súbito, sentiu os próprios olhos umedecendo.

— Solte-me, Otsu-san. É dia claro, as pessoas estão se voltando para nos olhar.

Otsu soltou a manga, obediente, e debruçando-se sobre o parapeito pôs-se a soluçar mansamente.

— Perdoe-me, comportei-me com vulgaridade. Não tenho nenhum direito de exigir sua gratidão: esqueça o que eu disse há pouco, por favor.

— Otsu-san — disse Musashi, curvando-se sobre o parapeito e espreitando seu rosto — deixe-me explicar: na realidade, durante mais de novecentos dias, ou seja, durante todos os dias em que você me esperou nesta ponte, estive encerrado no alto de uma torre do castelo Hakurojo, impedido de ver a própria luz do dia.

— Sei disso.

— Sabia?

— Sim. O monge Takuan me contou.

— Quer dizer que está a par de tudo que me aconteceu?

— Ele me salvou quando caí desacordada num denso bambuzal no fundo de um vale, perto da casa de chá Mikazuki. E foi ele também quem me arrumou este emprego na loja de artefatos de bambu. Ainda ontem, passou por aqui e... não entendi bem, mas me disse enquanto tomava chá: “Problemas entre um homem e uma mulher não são o meu forte. Daqui para a frente, lavo minhas mãos.”

— Foi isso o que ele disse? — perguntou Musashi, voltando-se na direção em que o monge se fora. Quando tornaria a vê-lo?

Sentiu mais uma vez a grandeza do amor de Takuan, ao mesmo tempo em que percebeu como fora limitado o seu discernimento ao se julgar único objeto do interesse dele. O monge tinha estendido a mão não só a sua irmã, Ogin, como também a Otsu e a todos os que dele haviam necessitado, distribuindo imparcialmente o seu amor.

 

 “Daqui para a frente, lavo as mãos porque nada entendo desses problemas envolvendo um homem e uma mulher.”

Ao ouvir de Otsu que o monge assim dissera antes de se ir, Musashi sentiu subitamente que lhe punham sobre os ombros uma carga cujo peso não estava preparado para carregar.

Em meio à fabulosa coleção de livros chineses e japoneses que tivera a oportunidade de conhecer durante os novecentos dias que passara confinado no quarto selado, não se lembrava de haver lido uma única linha sobre tão importante tópico do relacionamento humano. Takuan também parecia não querer se envolver com problemas dessa natureza, pois fugira alegando não serem de sua alçada.

“Problemas entre um homem e uma mulher só podem ser resolvidos entre eles.” — Era isso que o monge tentara sugerir? Ou será que ele o desafiava: “É tão simples! Tente resolver sozinho ao menos este problema!”

Perdido em pensamentos, Musashi contemplava fixamente as águas do rio sob a ponte.

Foi a vez de Otsu debruçar-se no parapeito e espreitar o rosto de Musashi:

— Posso ir com você, não posso? — insistiu.— O proprietário da loja concordou em me dispensar quando eu quisesse. Vou até lá, explico a situação, arrumo minhas coisas e volto em seguida. Ficará à minha espera, não ficará?

— Por favor, Otsu-san! — interrompeu-a Musashi, prensando a mãozinha branca contra a balaustrada. — Reconsidere, eu lhe peço!

— Por quê? — tornou a insistir Otsu.

— Como já tentei explicar-lhe há pouco, estive encerrado durante três anos num quarto escuro e, à custa de muito sofrimento, consegui vislumbrar o caminho a seguir. Acabo de renascer e este é o primeiro dia em que Miyamoto Takezo — não, Miyamoto Musashi, pois até meu nome foi mudado — dará o primeiro passo no longo caminho rumo ao aperfeiçoamento. Em minha mente não há lugar para nada além de dedicação a esse aprendizado. Você percebe que não será absolutamente feliz compartilhando o caminho de um indivíduo assim resolvido, não percebe?

— Quanto mais o ouço, mais me sinto atraída por você. Não vê que, para mim, é o único homem digno desse nome sobre a face da terra e que, agora que o encontrei, não posso deixá-lo?

— Não importa o que disser, não a levarei comigo!

— Mesmo assim, eu o acompanharei por onde for. Basta que eu não atrapalhe o seu treinamento, não é verdade? É isso, não é?

— Prometo não estorvá-lo!

— Olhe, preste bem atenção: não vá embora sem mim, pois me zangarei, realmente. Espere-me aqui. Volto em seguida.

Assim dizendo, Otsu afastou-se em direção à loja na base da ponte, sem perceber que a conversa se transformara, nos últimos momentos, em monólogo.

Musashi pensou em aproveitar o momento e fugir em direção contrária, deixando tudo para trás. O pensamento apenas aflorou, mas seus pés permaneceram imóveis, pregados à ponte.

Otsu voltou-se mais adiante, insistindo:

— Não se afaste daí, ouviu?

Em resposta ao rostinho sorridente e às duas covinhas, Musashi assentiu com um involuntário movimento de cabeça. Tranqüilizada, Otsu desapareceu no interior da loja.

Se pretendia partir, a oportunidade era única. Musashi travava uma surda batalha com os próprios sentimentos. Em suas pálpebras queimava, imobilizando-o, a última visão de Otsu, os tocantes olhos repletos de doçura.

Adorável Otsu! Além de Ogin, não acreditava haver no mundo ninguém que o amasse com tanto desprendimento. De mais a mais, estava longe de ser-lhe indiferente.

Contemplou o céu, contemplou o rio e, em agonia, debruçou-se sobre o parapeito: não conseguia decidir-se. Dentro de instantes, minúsculas lascas de madeira começaram a cair do corrimão onde Musashi repousava braços e rosto, precipitaram-se no rio e foram levadas pela correnteza.

Otsu surgiu usando sandálias novas com cordões de um amarelo vivo, e um sombreiro com fita vermelha que lhe realçava a beleza.

No entanto, Musashi havia desaparecido.

Com um gritinho desesperado, Otsu procurou ao redor, quase em prantos.

Perto do local onde há pouco o deixara, algumas lascas de madeira espalhavam-se sobre a ponte. Ao dirigir casualmente o olhar para o parapeito, Otsu notou entalhes na madeira, feitos com o auxílio de uma adaga[50]. Os entalhes formavam palavras que se destacavam, brancas, na madeira queimada do corrimão. Diziam:

“Perdoe-me. Perdoe-me.”

A ACADEMIA YOSHIOKA

 “Da vida, ninguém sabe o amanhã” (Dito popular).

E Oda Nobunaga[51] também costumava declamar:

No mundo em contínua transição,

Cinqüenta anos e uma vida

São meros sonho ou ilusão.

O poema e o dito popular expressam certo tipo de pensamento daqueles tempos, comum a todas as classes sociais, desde as mais baixas até as intelectuais. Realmente, as guerras haviam chegado ao fim e as luzes das cidades de Osaka e Kyoto brilhavam, tão intensas quanto no auge do período Muromachi[52]. O povo, porém, vivia apreensivo, em contínua expectativa de que, mais dia, menos dia, as luzes se apagariam de novo e o caos voltaria a reinar: o pessimismo, conseqüência dos longos e turbulentos anos de guerra em que o país vivera mergulhado nos últimos tempos, não podia ser facilmente erradicado.

Corria o décimo ano do período Keicho (1605). A batalha de Sekigahara já era acontecimento do passado, episódio ocorrido havia cinco anos, apenas relembrado em conversas.

Tokugawa Ieyasu se retirara da posição de xogum[53], havendo rumores de que, em março, durante a próxima primavera, seu sucessor, o terceiro filho Hidetada, partiria de Edo e chegaria a Kyoto para prestar as devidas homenagens ao imperador. Na cidade imperial, os negócios prosperavam.

Todavia, o povo não conseguia acreditar que esse surto de prosperidade — conseqüência do fim das guerras — fosse indício de paz duradoura. Embora Tokugawa Hidetada já tivesse se estabelecido no castelo de Edo como segundo xogum, no castelo de Osaka continuava entrincheirado Toyotomi Hideyori[54], vivo e gozando de boa saúde. Hideyori não só gozava de boa saúde, como também representava uma contínua ameaça ao segundo xogum Tokugawa Hidetada, pois muitos senhores feudais ainda lhe eram fiéis. Como se não bastasse, Hideyori havia herdado do pai, a par da desmedida ambição, imensa fortuna e o vasto castelo, suficientes para pagar e abrigar todos os rounin do país.

— Logo vai haver outra guerra, estejam certos.

— É apenas uma questão de tempo.

— Aproveitem, que as luzes da cidade não vão brilhar para sempre, logo começará outra guerra. Quem falou em viver 50 anos? Você pode morrer amanhã!

— Por que me preocupar? Melhor beber enquanto posso.

— É verdade! Viva a vida cantando!

O mesmo tipo de pensamento norteava a vida daqueles samurais que haviam emergido em grupo da rua Shijo, no bairro Nishi-no-Touin, da cidade de Kyoto. Ao lado, corria o muro branco de uma construção, nele se destacando um imponente portal. Uma velha placa de madeira enegrecida pelo empo, nem por isso menos majestosa, ostentava um letreiro meio apagado, somente legível a curta distância:

YOSHIOKA KENPO (Heian)

Academia de Artes Marciais por

Indicação da Casa Xogunal Muromachi

Quando se aproxima a hora em que as luzes da cidade se acendem, pelos portões da academia se retira uma horda de jovens samurais. Alguns levam três espadas — a longa, a curta e mais uma, de madeira, usada em treinos — presas à altura do quadril esquerdo; outros carregam lanças nos ombros. Não há um único dia de folga nas atividades. Parecem exímios em suas especialidades: havendo outra guerra, tipos como estes serão, certamente, os primeiros a tombar. Todos, sem exceção, parecem perigosos como pequenos vulcões prestes a entrar em erupção.

Um grupo de quase dez discípulos da academia passou naquele momento:

— Mestre, jovem mestre! — chamava um deles, cercando um homem — desculpe-me, mas hoje não volto à casa em que estivemos ontem à noite. Concordam comigo, senhores?

— Plenamente! As mulheres só tinham olhos para o senhor, jovem mestre. Nem notaram a nossa presença.

— É verdade. Que tal se procurássemos esta noite uma casa onde as mulheres não nos conheçam, nem ao nosso mestre?

O grupo todo concordou, com gritos entusiásticos ecoando pela rua.

Nesta área, à margem do rio Kamogawa, as luzes brilhavam numerosas. Com a valorização gradual das terras, pequenas casas precariamente construídas, quase barracos, haviam começado a surgir nos terrenos que, incendiados em sucessivas guerras e posteriormente tomados pelo mato, tinham permanecido abandonados por longo tempo como verdadeiros símbolos dos conturbados anos do período Sengoku. Nas portas dessas casas pendiam, até meia altura, cortinas vermelhas ou da cor do trigo anunciando os nomes dos estabelecimentos, e mulheres de vida fácil procedentes da província de Tanba, com os rostos cobertos com uma maquiagem branca malfeita, emitiam assobios curtos e característicos, convidando os incautos. Prostitutas compradas em levas na província de Awa tocavam shamisen, um instrumento de cordas que surgira recentemente, o melodioso som em stacatto acompanhando as atrevidas canções em voga.

Ao se aproximar da zona do meretrício, Yoshioka Seijuro, o homem a quem chamavam jovem mestre e que vestia sobretudo marrom-escuro com o emblema da família — três pequenas espirais no interior de um círculo — estampado nas mangas, voltou-se para o grupo e disse:

— Um sombreiro, Toji. Providencie um sombreiro.

— Que tipo de sombreiro? Daqueles em forma de cesto, que cobrem o rosto todo? — perguntou Gion Toji, um dos discípulos.

— Exatamente.

— Mas para que ocultar o rosto, jovem mestre?

— Nenhum motivo especial. Apenas não quero que as pessoas me apontem e digam: “Olhe, ali vai o primogênito da família Yoshioka.”

 

— Ah, não quer se expor andando pelas ruas da zona alegre! — zombou Toji. — É esse jeito fidalgo do nosso mestre que faz com que todas as mulheres se sintam atraídas por ele, para o nosso desespero. — Toji misturou habilmente gracejos e lisonja; voltou-se em seguida para um dos homens e ordenou:

— Vá comprar um sombreiro, rápido.

O homem afastou-se em direção à casa de chá onde vira expostos os sombreiros, mergulhando entre os alegres transeuntes, alguns embriagados, outros meras silhuetas de teatro de sombras recortadas contra as luzes das casas.

De posse do sombreiro, Seijuro cobriu a cabeça e caminhou agora abertamente:

— Pronto, deste modo não serei reconhecido. Às suas costas, Toji o adulava:

— Está realmente um dândi. Mais elegante, impossível! Os demais o ajudavam:

— Vejam as mulheres, vieram todas à porta, interessadas!

As palavras dos discípulos não eram pura lisonja. Seijuro — beirando os 30 anos e no apogeu da virilidade — era alto, e seu porte aristocrático condizia com o de um herdeiro de família tradicional; brilhavam as espadas curta e longa que trazia à cintura.

Por trás das cortinas cor-de-trigo e das treliças vermelho-ocre as mulheres se alvoroçavam, trinando como aves engaioladas:

— Olá, bonitão!

— Ó do sombreiro! Que elegância!

— Venha cá, entre um instante.

— Levante o sombreiro um pouquinho e deixe-me ver seu rosto.

Seijuro empertigou-se, envaidecido. Na verdade, o herdeiro dos Yoshioka passara a freqüentar a zona alegre apenas recentemente. Era presunçoso por ser filho do famoso Yoshioka Kenpo, e por ter sido criado em ambiente farto, ignorando o lado amargo da vida — em suma, um típico herdeiro de aristocratas. Não era de estranhar, portanto, que as lisonjas de seus discípulos e as provocações das mulheres agissem em seu espírito como um doce veneno, levando-o à embriaguez.

Naquele instante, a voz esganiçada de uma mulher partiu do interior de uma das casas:

— Mas vejam quem vai aí: é o jovem mestre da rua Shijo! Sei que é, não adianta esconder o rosto!

Seijuro tentou disfarçar o olhar triunfante e, aparentando surpresa, estacou na frente da janela de onde provinha a voz, perguntando ao discípulo:

— Toji, como foi que esta mulher descobriu?

— Muito estranho! — disse Toji, fitando o rosto sorridente por trás da treliça e, a seguir, o de seu mestre; virou-se então para os colegas e perguntou em voz alta:

— Senhores, eis que deparamos com um fato deveras suspeito.

O grupo inteiro parou e instigou, alvoroçado:

— Que foi, qual é o mistério?

— Nosso querido jovem mestre, que todos julgávamos tão ingênuo, era um lobo em pele de cordeiro: pois não é que eleja conhecia esta mulher? — disse Toji, apontando a mulher e gesticulando comicamente.

— É mentira! — disse a mulher, ao que Seijuro acrescentou, com fingida indignação:

— De que fala, Toji? Nunca pus os pés nesta casa!

Toji sabia disso perfeitamente, mas retrucou, zombeteiro:

— Como acontece, então, jovem mestre, que esta mulher tenha adivinhado a sua identidade, apesar do sombreiro que esconde seu rosto? Isto é ou não suspeito, senhores?

— Muito suspeito! — agitou-se o grupo enquanto a mulher, encostando na treliça o rosto coberto por pesada pintura branca, ria e negava:

— Não, não é bem assim! Cavalheiros, não sobrevive em nosso meio quem não sabe dessas coisas.

— Ora, ora, ela se faz de entendida! Diz então como fizeste para saber! — replicou Toji.

— Muito simples: o tom marrom-escuro do seu sobretudo é o preferido dos gentis-homens que freqüentam a academia da rua Shijo. O “matiz Yoshioka”, como é conhecida essa tonalidade especial de marrom, está na moda até em nosso meio — respondeu a mulher.

— O “matiz Yoshioka” não é exclusivo do nosso mestre: muitos o usam.

— Mas vejam o emblema das três espirais! — acrescentou a mulher.

— Que distração! — disse Seijuro. Enquanto fitava a própria manga, uma mão branca surgiu por trás da treliça e agarrou-a rapidamente.

 

— Esta é impagável: preocupado com o rosto, esqueci-me de esconder o emblema. Dou-me por vencido! — exclamou Seijuro.

— Agora já não tem como recusar: terá de favorecer esta casa, jovem mestre — disse Toji.

— Está bem, está bem. Mas, primeiro, faça com que esta mulher solte minha manga — pediu Seijuro, embaraçado.

— Mulher, nosso mestre concorda em entrar. Larga a manga! — ordenou Toji.

— De verdade? — alegrou-se a mulher, soltando-a.

O grupo afastou o cortinado e invadiu a casa ruidosamente.

Seguindo o padrão geral, esta era também uma construção barata, feita às pressas. O recinto em que se encontravam, longe de oferecer conforto, era decorado com quadros vulgares e arranjos florais malfeitos. Excetuando Seijuro e Toji, no entanto, aqueles homens eram insensíveis a tais pormenores.

— Tragam saque! — gritou alguém.

— Tragam petiscos! — gritou outro.

— Tragam mulheres, e depressa! — gritou Ueda Ryohei, discípulo que se comparava a Gion Toji em destreza, na academia.

O grupo explodiu em gargalhadas:

— Tragam mulheres, essa foi boa! Ordens do velho Ueda: tragam logo as mulheres! — gritaram, imitando os modos de Ryohei.

— Como se atrevem a me chamar de ‘velho’ ? — reclamou o velho Ueda, o rosto meio oculto por trás de uma taça, fuzilando com o olhar os jovens companheiros. — Concordo, sou veterano na academia mas, como podem ver, minhas têmporas continuam negras.

— Você deve tê-las tingido, como Sato Sanemori! — caçoou um dos homens.

— Gracejos têm hora: quem foi o engraçadinho? Apresente-se, vai ter de beber, como castigo! — retrucou Ueda, fingindo-se ofendido.

— Fico aqui mesmo: jogue a taça para cá! Uma taça foi pelos ares:

— Aí vai. Outra retornou:

— Devolvo.

— Quero ver alguém dançando — comandou Toji. Seijuro, levemente embriagado, sugeriu:

— Ueda, mostre-nos sua juventude.

— Se é para mostrar como sou jovem, não posso recusar: aceito o desafio — disse Ueda; saiu do recinto e, dirigindo-se a um canto da varanda, retornou com um avental vermelho atado à cabeça e uma flor de ameixeira enfiada no cordão. Agarrou então uma vassoura, dizendo:

—Atenção, homens, dança folclórica da província de Hida. Toji, comece a cantar!

— Muito bem, todos cantando! — ordenou Toji.

A canção elevou-se ao ritmo de hashis batendo nas bordas de pratos e fogareiros:

Além da sebe,

além da sebe

Em meio à neve

Entrevi linda menina,

As mangas do quimono

Agitando em meio à neve.

Ruidosamente o grupo aplaudiu Ueda, que se retirou. As mulheres então o substituíram, acompanhadas por instrumentos de percussão:

Quem eu ontem conheci,

Hoje não vejo mais.

Quem eu hoje encontrei,

Amanhã aonde andará?

Sou um pobre coitado

Que não sabe do amanhã.

Deixe então que eu cante hoje,

Meu amor por você.

A um canto, um homem empunhava uma funda taça cheia de saque e desafiava outro:

— Não me diga que não agüenta beber esse pouquinho...

—Desisto...

— Belo exemplar de bushi é você!

— Está bem, eu bebo, contanto que você também beba...

— Trato feito!

O grupo considerava ponto de honra beber como um boi. Suportavam a custo o mal-estar e apostavam entre si, emborcando de uma só vez grandes quantidades de saque, deixando o excedente escorrer pelos cantos das bocas.

Com o tempo, alguns começaram a vomitar, outros, a fitar tristonhos os rostos dos companheiros. A bebida deixou-os cada vez mais presunçosos e alguém gaguejou, entre arrotos:

— Afora o nosso jovem mestre Yoshioka, instrutor do estilo Kyohachi, existe mais alguém no mundo que entenda de esgrima? Se existe, que se apresente!

 

Naquele momento, um homem sentado do outro lado do jovem mestre e que, também farto e embriagado, não parava de soluçar, começou a rir:

— Pare com essa bajulação barata só porque está na presença do mestre. O estilo Kyohachi de esgrima não é o único do país. Tampouco a Academia Yoshioka é, necessariamente, a melhor. Veja, por exemplo, que só aqui, em Kyoto, existem a Academia de Toda Seigen, em Kurotani, e a de Ogasawara Genshinsai, em Kitano; e em Shirakawa, embora não admita discípulos, mora o famoso Ito Ittosai.

— E daí, que tem isso a ver? — tornou o primeiro, agressivamente.

— Daí estou dizendo que esse tipo de presunção é inaceitável.

— Como é? — o presunçoso, sentindo-se ferido em seu orgulho, avançou o rosto e provocou: — Venha até aqui e sustente o que disse, se for capaz!

— Assim? — replicou o outro, também avançando o rosto.

— Qual é a sua intenção? Você freqüenta a Academia Yoshioka e mesmo assim pretende desacreditar o estilo Yoshioka?

— Longe de mim a intenção! Estou apenas dizendo que hoje — ao contrário dos tempos do nosso velho mestre, quando títulos como “Instrutor do Clã Xogunal Muromachi” ou “Academia de Artes Marciais, por Indicação Xogunal” eram sinônimos de excelência reconhecidos por todos — hoje vivemos numa época em que sobram aspirantes à nossa carreira e não são poucos os companheiros desse ramo que se destacam tanto em Kyoto como nas cidades de Edo, Hitachi, Echizen, Chuugoku, e até nos confins de Kyushu. Eu apenas quis dizer o seguinte: o fato do nosso velho mestre, Yoshioka Kenpo, ter sido um dos melhores de sua época, não transforma necessariamente seu filho nem seus discípulos nos melhores de nossos dias. Acho que esse tipo de convencimento é um grande erro. Não estou certo?

— Errado: você é um covarde, está com medo dos outros guerreiros!

— Quem disse que sou covarde? Só estou advertindo que é perigoso vangloriar-se.

— Advertindo? E quem é você para advertir alguém? — O presunçoso não se conteve, e com um seco empurrão no peito do seu opositor derrubou-o sobre pratos e taças.

— Ah, quer briga?

— Quero!

Os veteranos Gion Toji e Ueda intervieram apressadamente, apartando os dois que se haviam engalfinhado:

— Parem com essa demonstração barata de força!

E oferecendo nova rodada de saque, tentavam acalmar os ânimos exaltados:

— Calma, calma!

— Está certo, entendi perfeitamente seu ponto de vista.

Um continuou a gritar cada vez mais alto, enquanto o outro se punha a chorar copiosamente, agarrado ao pescoço do velho Ueda.

— Veja se me entende, velho Ueda: disse o que disse, sem rodeios, porque na verdade prezo demais o bom nome da Academia Yoshioka. Por obra desses bajuladores vulgares, o nome do nosso velho mestre, Yoshioka Kenpo, poderá ser arrastado na lama um dia desses... Escute o que estou dizendo, Ueda.

As mulheres haviam se dispersado e os instrumentos musicais achavam-se espalhados pela sala. Irritado, alguém andava pelos aposentos contíguos, praguejando:

— Onde estão as mulheres? Malditas mulheres!

Um homem vomitava ajoelhado à beira da varanda, e outro o confortava massageando-lhe as costas.

Seijuro não conseguia descontrair-se. Toji percebeu rapidamente o humor de seu mestre e sussurrou:

— Creio que não está conseguindo divertir-se, jovem mestre.

— Fico pasmo com o comportamento dos meus homens: é isso que chamam de diversão? — espantou-se Seijuro.

— É bem assim que se divertem, infelizmente.

— Que maneiras!

— Não gostaria de se transferir para um outro ambiente mais calmo, jovem mestre? Eu o acompanharei.

Seijuro aceitou, grato, o oferecimento, dizendo:

— Quero voltar à casa onde estivemos ontem.

— À Hospedaria Yomogi?

— Lá mesmo.

— O nível daquele estabelecimento é muito superior. Eu já sabia que o senhor preferia a Hospedaria Yomogi mas... com esses baderneiros nos acompanhando, seria impossível. Foi por isso que entrei de caso pensado nesta casa barata.

— Vamos embora, Toji. Deixe o resto por conta do velho Ueda.

— Finjo ir ao banheiro, e vou ao seu encontro em seguida.

— Muito bem, espero-o lá fora.

Assim dizendo, Seijuro esgueirou-se habilmente, deixando para trás seus discípulos embriagados.

 

LUZ E SOMBRA

Levantando os calcanhares brancos, ela se equilibrava na ponta dos pés. A mulher de meia-idade, os cabelos lavados e escorridos sobre os ombros, reacendera a lanterna cuja chama o vento apagara e, com dificuldade, tentava devolvê-la ao prego sob o beirai. No alvo braço erguido, as sombras projetadas pela luz da lanterna moviam-se misturadas às mechas dos cabelos negros. Tocada pela brisa noturna de fevereiro, pairava no ar leve fragrância de flor de ameixeira.

— Quer ajuda, Okoo? — disse repentinamente uma voz às suas costas.

— Oh, é você, jovem mestre?

— Espere um pouco.

Quem assim falou surgindo ao seu lado, no entanto, não foi o jovem mestre Seijuro, mas seu discípulo, Gion Toji.

— E então, está bem assim? — perguntou.

— Muito obrigada — disse Okoo.

As letras na lanterna anunciavam: Hospedaria Yomogi.

Observando cuidadosamente o efeito, Toji murmurou: — Está meio torto — e refez o serviço. Era interessante como certos homens, intolerantes e exigentes em seus lares, tornavam-se prestimosos e diligentes ao pôr os pés em casas da zona alegre, oferecendo-se para abrir janelas e ajeitar almofadas.

— Finalmente, um pouco de paz — disse Seijuro, assim que se acomodou. — Que silêncio agradável!

— Quer que abra? — disse Toji, dirigindo-se a uma porta corrediça.

A porta dava para um estreito avarandado protegido por um corrimão. Além dele, murmuravam as águas do rio Takasegawa. Do outro lado da pequena ponte da rua Sanjo, sobre o rio, avistava-se na direção sul apenas o vasto pátio de Zuisen’in, a escura rua dos Templos e um campo de choupos. Nas proximidades ficava também o outeiro maldito, onde Toyotomi Hidetsugu, conhecido como Regente Cruel, havia se suicidado em companhia de suas concubinas e filhos, cumprindo ordens do tio, o general Toyotomi Hideyoshi. O episódio ainda permanecia vivo na lembrança do povo.

— O silêncio é meio opressivo: onde estarão as mulheres? Maldita Okoo que não aparece, nem nos serve o chá. Por que demora tanto, se não há outros clientes esta noite?

Toji era irrequieto, do tipo incapaz de ficar parado por longo tempo.

Levantou-se e dirigiu-se a um estreito corredor que conduzia ao interior da casa, pensando em mandar apressar o serviço. Mal saíra do quarto, esbarrou num vulto.

— Oh! — ouviu Toji, juntamente com o tilintar de um guizo e o barulho de porcelana chocando-se sobre uma bandeja de laça dourada. Em pé à sua frente estava uma jovem e o guizo soava junto à manga de seu quimono.

— Olá, Akemi! — disse Toji.

— Cuidado, vou acabar derramando o chá! — advertiu-o Akemi.

— Deixe o chá para lá! Então não sabe que o senhor Seijuro, de quem você tanto gosta, está à sua espera na outra sala? — retrucou Toji.

— Viu o que fez? Acabei derramando o chá! Vá buscar um pano para mim, que a culpa é sua — ordenou Akemi, petulante.

— Onde está Okoo? — quis saber Toji.

— Arrumando-se.

— Ainda?

— O movimento foi muito grande durante o dia.

— Quem esteve aqui?

— Ninguém que lhe interesse! E veja se me deixa passar — disse Akemi, entrando na sala e cumprimentando o hóspede: — Seja bem-vindo.

Seijuro, que se fingia absorto na paisagem, voltou-se:

— Ah, é você... Quero agradecer a atenção com que nos atendeu a noite passada — disse, algo embaraçado.

Akemi retirou da prateleira uma pequena caixa, semelhante às usadas para guardar incenso, e colocando sobre ela um cachimbo com boquilha de porcelana, ofereceu-o dizendo:

— Quer fumar, jovem mestre?

— Pensei que fumar fosse proibido! — admirou-se Seijuro.

— Mas todos fumam escondido — riu Akemi.

— Nesse caso, vou experimentar também.

— Deixe-me preparar o cachimbo.

Akemi retirou folhas de tabaco da pequena e elegante caixa de madrepérola e apertou-as com o dedo esguio e branco no fundo do fornilho de porcelana, oferecendo-o em seguida a Seijuro:

— Por favor — disse, voltando a boquilha em sua direção.

O herdeiro dos Yoshioka, manipulando desajeitadamente o cachimbo, comentou:

— É ardido!

A jovem riu alegremente.

— Onde está Toji? — perguntou Seijuro.

— Deve estar no quarto de minha mãe, como de hábito — respondeu Akemi.

— Acho que Toji gosta de Okoo. É, estou quase certo disso. Sem dúvida, o malandro freqüenta a casa escondido de mim.

 

— Acertei? — insistiu Seijuro.

— Não seja indiscreto! — riu Akemi.

—Aposto que sua mãe também tem uma queda por Toji. Não é verdade?

— Nada sei sobre isso — esquivou-se Akemi.

— Tem sim, tenho certeza. Vem a calhar, pois assim formamos dois pares: Toji e Okoo, eu e você. —Aparentando indiferença, Seijuro cobriu com a sua a mão da jovem.

— Não toque em mim! — gritou Akemi, e com súbito e vigoroso movimento afastou a mão que repousava sobre a sua. O movimento de repulsa excitou-o. Seijuro abraçou o frágil corpo de Akemi, que tentava se levantar, e imobilizou-o:

— Aonde vai, minha pequena?

— Saia! Largue-me!

— Fique aqui, pertinho de mim.

— Tenho... tenho de lhe servir saque.

— Não quero saque.

— Mas minha mãe mandou! Ela vai se zangar!

— Não vai, não. Okoo está se divertindo com Toji na outra sala. Seijuro forçou o rosto de encontro ao de Akemi que, no mesmo instante,

desviou a cabeça freneticamente e, com as faces rubras, gritou a plenos pulmões:

— Alguém me acuda! Mãe! Mãe!

Aproveitando a momentânea desorientação de Seijuro, Akemi escapou de seus braços e, mal se viu livre, voou da sala como um pássaro assustado, fazendo tilintar o guizo na manga do quimono. Segundos depois, risadas ecoaram da direção em que a jovem, chorosa, correra a se esconder.

Frustrado e abandonado, o herdeiro dos Yoshioka estalou a língua, impaciente. Em seu rosto sombrio transpareciam amargura e tristeza.

— Vou-me embora — murmurou. Saiu para o corredor e deu alguns passos, furioso.

No mesmo instante viu-se envolvido por dois braços que o retiveram:

— Qué é isso, Sei-sama! Aonde vai? — Era Okoo que, assim dizendo, acudia bem a tempo de impedir que Seijuro se retirasse. Havia arrumado os cabelos e pintado cuidadosamente o rosto. Toji, instado por ela, também o consolava:

— Vamos, vamos, não se aborreça com a menina!

À custa de muita adulação, Seijuro foi reconduzido à sala. Okoo serviu prontamente o saque e procurou acalmá-lo, enquanto Toji trazia Akemi de volta para o aposento.

Ao ver o rosto desanimado de Seijuro, Akemi virou-se rapidamente ocultando um súbito sorriso matreiro.

— Sirva saque ao nosso jovem mestre, Akemi! — ordenou Okoo.

— Claro! — respondeu a jovem, empurrando bruscamente o pequeno pote de saque em sua direção.

— Está vendo, Sei-sama? Esta menina não tem modos, parece que nunca amadurece! — comentou Okoo.

Toji logo apartou:

— Mas aí reside todo o seu encanto: sempre fresca, como a primeira flor de cerejeira.

— Mas já vai fazer 21 anos! — replicou Okoo.

— 21? Não parece. É tão miúda que aparenta quando muito 16 ou 17 anos.

Akemi reagiu com a vivacidade de um pequeno esquilo:

— Acha mesmo, Toji-san? Que bom! Gostaria de ter 16 anos para sempre. Algo maravilhoso me aconteceu quando eu tinha 16 anos.

— O quê?

— Algo maravilhoso, que não posso contar a ninguém... Quando eu tinha 16 anos! — disse Akemi com ar sonhador, cruzando as mãos sobre o peito. — Sabe onde eu morava nessa época? No ano da batalha de Sekigahara...

Okoo interrompeu-a repentinamente, com expressão de desagrado:

— Não fique aí tagarelando e vá buscar o shamisen.

A jovem levantou-se abruptamente e afastou-se sem responder. Ao retornar, abraçou o instrumento e pôs-se a cantar, sonhadora, mais disposta a se perder em agradáveis lembranças que em entreter os hóspedes.

Se acaso esta noite

Nuvens cobrirem o céu

Deixe que cubram, não faz mal,

Já que lágrimas me embaçam os olhos,

E a lua... que importa a lua?

— Compreendeu o sentido da canção, Toji-san? — perguntou Akemi sonhadora.

— Perfeitamente. Cante mais uma, Akemi.

— A noite inteira, se quiser...

Pode a noite ser escura,

Nunca perco o meu rumo,

Mas, ah, confesso, estou perdida,

Perdida por você.

— Está certo: ela tem mesmo 21 anos! — murmurou Toji.

 

Seijuro, que até então permanecera acabrunhado, mãos na cabeça, por alguma razão animou-se repentinamente e disse, oferecendo-lhe a taça cheia de saque:

— Beba você também, Akemi.

— Ora, com prazer — respondeu Akemi com desembaraço. Tomou a bebida e devolveu a taça: — Obrigada.

— Já? Você vira rápido, Akemi! — Seijuro por sua vez esvaziou a taça e tornou a enchê-la, oferecendo de novo: — Beba mais uma.

— Obrigada.

Akemi bebia rapidamente, sem pausas. Seu ritmo não esmoreceu, mesmo depois que a taça foi trocada por outra maior. Era do tipo franzino, aparentava apenas 16 ou 17 anos, tinha lábios puros que homem algum jamais tocara e uma timidez de gazela no olhar. No entanto, misteriosamente, aquele corpo esguio absorvia toda a bebida.

— Melhor desistir, Sei-sama. Conheço bem a filha que tenho: nunca se embriaga. Deixe-a tocando shamisen, será mais proveitoso — disse Okoo.

— Não importa, estou me divertindo — retorquiu Seijuro, enchendo outra taça com determinação.

Preocupado com o rumo dos acontecimentos, Toji interveio:

— Que houve, mestre? Está se excedendo um pouco na bebida esta noite.

— Deixe-me em paz!

Conforme temia Toji, havia algo errado, pois logo Seijuro declarou:

— Toji, talvez eu não vá para casa esta noite.

— Isso mesmo, durma em minha casa quantas noites quiser. Não é mesmo, Akemi? — incentivou-o Okoo.

Fazendo um sinal com os olhos, Toji conduziu Okoo a outro aposento e sussurrou-lhe que estavam com um problema. Toji achava que seu mestre, apaixonado como parecia, só sossegaria quando Akemi fosse persuadida a aceitá-lo, muito embora o procedimento pudesse parecer censurável. No entanto, dizia ele, muito mais que a opinião de Akemi, importava a permissão da mãe; assim sendo, queria saber quanto queria Okoo para dar o consentimento.

— Bem, deixe-me ver... — disse Okoo na penumbra do quarto, levando pensativa o indicador à bochecha coberta por pesada maquiagem.

— Vamos, dê um jeito — insistiu Toji, aproximando-se. — Veja bem: o mestre é instrutor de artes marciais, e a família Yoshioka possui grande fortuna. O arranjo será proveitoso para as duas, pois o falecido mestre Yoshioka Kenpo foi, durante longo tempo, instrutor dos xoguns Muromachi e sua academia é uma das maiores do país em número de discípulos, senão a maior. Além disso, o senhor Seijuro ainda é solteiro: não vejo como a história possa ser desvantajosa para Akemi.

— Eu não me importo — disse Okoo.

— Se você concorda, ninguém mais pode reclamar: o acordo está feito. Nós dois, o jovem mestre e eu, vamos passar a noite em sua casa.

O quarto não tinha iluminação. Ousadamente, Toji passou o braço pelos ombros de Okoo. Naquele instante, do outro lado da fina divisória que separava o quarto do aposento contíguo, ouviu-se o ruído de um baque.

— Você tem outro hóspede? — espantou-se Toji.

Sem nada dizer, Okoo assentiu, meneando a cabeça. Aproximou a seguir os lábios úmidos do ouvido de Toji e sussurrou:

— Mais tarde!...

Os dois afastaram-se negligentemente. Quando retornaram à sala, Seijuro já se havia deitado bastante embriagado. Toji também se deitou, partilhando o mesmo quarto, e permaneceu a noite inteira em estado de semivigília, à espera. Em vão, pois a madrugada avançava sem que nada se movesse nos aposentos dos fundos — o tão esperado roçagar de sedas não se fez ouvir.

No dia seguinte Toji levantou-se tarde, aborrecido e frustrado. Seijuro já se havia acordado e bebia novamente, sentado na sala junto ao rio. Entretinham-no Okoo e Akemi, ambas imperturbáveis.

— Promete que nos leva realmente? Que bom! — dizia Akemi. Falavam de uma apresentação de Okuni Kabuki, montada às margens do rio.

— Aprontem logo as caixas de lanche e não se esqueçam de levar saque — ordenou Seijuro.

— Então preciso aquecer a água do banho — disse Okoo, atarefada.

— Que bom! — exclamou Akemi.

Apenas as duas mulheres, mãe e filha, pareciam entusiasmadas naquela manhã.

 

Ultimamente ferviam na cidade comentários sobre o bale das virgens xamânes do templo de Izumo, conhecido como Dança de Okuni.

O grupo de bailarinas fizera grande sucesso em Kyoto e, na esteira da fama, entrara em voga uma nova moda, o teatro feminino, ou Okuni Kabuki. Disputando o recém-descoberto filão de apreciadores de espetáculos frágeis e delicados, inúmeros grupos teatrais armavam palcos suspensos nas ribanceiras próximas à rua Shijo, apresentando danças folclóricas como o Nembutsu-mai, ou o Yakko-mai, cada grupo tentando ser original e criar um estilo próprio. Nos últimos tempos, atrizes saídas da classe das cortesãs, travestidas de homens e com pseudônimos artísticos masculinos, eram vistas freqüentando as casas nobres.

— Ainda não se aprontaram? — reclamava Seijuro.

O sol já passava do meridiano. Enquanto Okoo e Akemi se arrumavam meticulosamente, o humor de Seijuro, cansado da espera, começava a se deteriorar. Toji, incapaz de esquecer a frustração da noite anterior, não conseguia recuperar a verve que lhe era típica e resmungava:

— O que nos irrita, a nós, homens, é a capacidade que as mulheres têm de resolver, na última hora, que não gostam do próprio penteado ou do obi...

— Estou com vontade de desistir... — resmungou Seijuro. Contemplou o rio. Uma mulher alvejava tecidos no rio, debaixo da ponte

da rua Sanjo. Sobre a ponte, um homem passava a cavalo. Seijuro lembrou-se das aulas da academia, negligenciadas: em seus ouvidos ecoavam o ruído das espadas de madeira e dos cabos das lanças entrechocando-se. Que estariam pensando de sua ausência os muitos discípulos? Por certo o irmão Denshichiro estaria impaciente à espera.

— Que acha de irmos embora, Toji? — perguntou Seijuro.

— A esta altura, vai ser meio difícil... — respondeu Toji, hesitante.

— Mas...

— Okoo e Akemi ficarão furiosas, jovem mestre! Elas estão muito entusiasmadas. Por favor, aguarde só mais um instante que vou apressá-las.

Toji saiu da sala. Espiou um aposento: vazio, exceto por um espelho e pelas roupas espalhadas no chão.

— Onde será que se meteram? — murmurou Toji, procurando na sala contígua. Não as encontrou, também ali. Chegou a um aposento sombrio e mal arejado, com péssima iluminação, onde o cheiro das cobertas se acumulara. Abriu uma porta sem pensar, e foi recebido com um berro em pleno rosto:

— Que você quer?

Atônito, afastou-se um passo e fitou o escuro interior do quarto forrado de tatami desgastados e úmidos, em contraste gritante com os das salas destinadas aos hóspedes. Um rounin aparentando vinte e poucos anos, indisfarçavelmente um malandro, achava-se deitado no chão com as pernas e braços espalhados. Os calcanhares sujos apontavam em sua direção. Da cintura, emergia o cabo de uma espada que ele não se dera ao trabalho de tirar, ao se deitar.

— Ah, desculpe-me. Não sabia que havia outro hóspede... — disse Toji.

— Não sou hóspede! — berrou de volta o homem, ainda deitado e fixando o teto com olhar irado.

Um cheiro acre de bebida provinha de seu corpo. Toji não sabia quem era, mas achando prudente não se envolver, disse:

— Nesse caso, desculpe-me — e tentou se afastar. O homem sentou-se abruptamente e gritou:

— Feche a porta!

Espantado, Toji obedeceu. Mal se afastou, Okoo, que estivera alisando os cabelos de Akemi no pequeno aposento contíguo à sala de banho, entrou no quarto: arrumara-se com tanto esmero que ninguém diria ser ela simples proprietária de uma pequena hospedagem.

— Que é agora? — disse ela ao homem ali deitado, com o tom que usaria para repreender uma criança.

Às suas costas, Akemi perguntou:

— Não quer vir conosco, Matahachi-san?

— Aonde? — perguntou Matahachi.

— Assistir a um espetáculo de Okuni Kabuki.

— Bah! — disse Hon’i-den Matahachi, contraindo os lábios como se fosse cuspir. — Marido algum andaria na companhia do homem que corteja sua mulher!

 

Ao se arrumar para sair, a animação toma conta de uma mulher, que se esmera na maquiagem e na escolha das roupas. A observação de Matahachi sem dúvida perturbou a alegria de Okoo, que se voltou com um brilho furioso no olhar:

— Que disse? — perguntou. — Está sugerindo que exista algo entre mim e Toji-sama?

— Ninguém disse isso — retrucou Matahachi, agora na defensiva.

— Acabou de sugerir, neste instante! — tornou Okoo.

— Nem é homem bastante para sustentar o que diz... — continuou Okoo, fixando o olhar feroz no rosto do outro, que mergulhara em sombrio mutismo. — Estou cansada de suas crises de ciúmes. Akemi, deixe esse louco para lá e vamos embora! — chamou, afastando-se raivosamente.

Matahachi estendeu o braço para a barra do seu quimono:

— Louco? Quem é louco? Como ousa falar assim do próprio marido?

— Que marido? — tornou Okoo. — Se pretende ser meu marido, comporte-se de acordo. Não se esqueça que está comendo e dormindo à minha custa.

— Quê?!

— Desde o momento em que saímos de Goshu até hoje você não conseguiu ganhar nem míseros cem mon. Vive do dinheiro que eu e Akemi ganhamos com o nosso suor. Você não tem o direito de reclamar, pois andou esse tempo todo na vida mansa, bebendo sem parar.

— Eu... eu quis trabalhar, quis carregar pedras em obras por aí. Mas você não me deixou, dizendo que não suportava comida barata, que não queria viver em cortiços. E no fim, acabou entrando para esta profissão suja. Abandone-a!

— Abandonar o quê?

— Esta maldita profissão.

— E viver do que a partir de amanhã?

— Já disse que vou carregar pedras no pátio de obras do castelo: ganharei o suficiente para nos sustentar, você vai ver. Não é difícil sustentar duas ou três pessoas.

— Se gosta tanto de carregar pedras ou andar por aí arrastando pranchas de madeira, saia desta casa e vá viver sozinho trabalhando nessas obras. Acho que tem afinidade com esse tipo de profissão — afinal, você é um interiorano de Sakushu. Fique sabendo que ninguém o obriga a viver nesta casa. Portanto, se não gosta, esteja à vontade: vá-se embora quando quiser.

Okoo e Akemi desapareceram da frente de Matahachi que, humilhado, tinha os olhos cheios de lágrimas. Furioso, Matahachi continuou fixando o olhar num canto da sala.

As lágrimas finalmente caíram sobre o tatami, saltando dos olhos como água em ebulição. Era tarde, mas Matahachi agora se arrependia. Quando vagara como fugitivo da batalha de Sekigahara e fora acolhido na solitária casa dos pântanos de Ibuki, chegara momentaneamente a achar que fora uma grande sorte ter encontrado aquela gente amável, e não hesitara em se aquecer ao calor de sua hospitalidade. Mas, avaliando as conseqüências agora, achava que podia muito bem ter sido capturado pelas tropas inimigas porque, na verdade, acabara prisioneiro do mesmo modo. A levar esta vida indigna, servindo de consolo a uma viúva volúvel, suportando recriminações e a agonia de uma vida inteira nas sombras, talvez tivesse sido melhor ter sido capturado e arrastado de cabeça erguida ao quartel inimigo. E aqui estava ele, o começo da vida destruído por essa mulher que por certo aprendera de uma sereia o segredo da eterna juventude, essa mulher monstruosa e vulgar, cujo incansável apetite sexual transparecia na carne branca e na maquiagem perfumada!

— Maldita! — murmurou Matahachi. Seu corpo inteiro tremia. — Mulher maldita! —As lágrimas enchiam novamente os olhos. Queria chorar até não poder mais.

Por quê? Por que — recriminava-se — não retornara à vila Miyamoto? Por que não voltara para o seio de sua pequena Otsu? O seio puro de Otsu....

Vila Miyamoto — lá onde viviam sua mãe, a irmã, o cunhado, o velho tio Gon... Gente tão querida!

O sino do templo Shippoji, onde Otsu morava, estaria agora ecoando gravemente pelas montanhas. As águas do rio Aida estariam murmurando, as flores desabrochando nas ribanceiras, os pássaros cantando naquele dia de primavera.

— Idiota! Cretino! — Matahachi socou a própria cabeça. — Grande idiota!

 

Vozes e passos indicavam que estavam de saída afinal. Okoo, Akemi, Seijuro e Toji — mãe e filha, e a dupla desde o dia anterior hospedada na casa. Conversavam animadamente:

— Ah, a primavera chegou mesmo! Aqui fora percebe-se bem! — disse Seijuro.

— Claro, pois já estamos quase em março — replicou Okoo.

— Há boatos de que, em março, o xogum Tokugawa e sua comitiva virão de Edo para esta cidade. Creio que vocês duas terão oportunidade de ganhar um bocado de dinheiro — comentou Seijuro.

— Não acredito — disse Okoo.

— Por quê? Os samurais do leste não gostam de se divertir? — perguntou Toji.

— São muito grosseiros — respondeu Okoo.

— Escute, mãe, é a banda do Okuni Kabuki, hão é? Escute, são tambores e flauta — interrompeu-a Akemi.

— Mas que coisa! Essa menina só pensa no espetáculo! — irritou-se Okoo.

— Não posso evitar, mãe.

— Esqueça um pouco o teatro e encarregue-se do sombreiro do jovem mestre, Akemi — sugeriu Okoo.

— Que belo par formam esses dois! — disse Toji, insinuante.

— Pare com isso, Toji-san — reclamou Akemi, voltando-se para a dupla às suas costas. No mesmo instante, Okoo retirou apressadamente a mão que Toji retinha na sua.

Os passos e as vozes passaram ao lado do quarto onde se deitava Mata-hachi. Apenas uma parede o separava da rua.

O olhar furioso de Matahachi acompanhou o grupo pela janela do quarto. O ciúme envolvia seu rosto como uma máscara esverdeada.

— Que há comigo? — gritou. Sentou-se de novo pesadamente no quarto escuro. — Por que estou chorando? Sou um idiota!

Chamou-se de covarde, desprezível, irritante, num acesso de indignação.

— Aquela bruxa mandou-me embora? Muito bem, saio de cabeça erguida! Não tenho de continuar por aqui suportando os desaforos dessa megera! Sou jovem, tenho apenas 22 anos... e a vida inteira pela frente! — gritou para a casa repentinamente silenciosa.

— É isso mesmo! Mas...

Por quê, por quê? O ressentimento confundia seu raciocínio. A vida que levara nestes últimos anos perturbara-lhe a mente, reconhecia. Mas como manter a sanidade, quando sua mulher derrama sobre outros sorrisos e coqueteria outrora usados para seduzi-lo? A noite, não conseguia dormir de preocupação, de dia não ousava afastar-se da casa. E assim prosseguia, debatendo-se naquele quarto escuro, afogando-se em saque.

E tudo por causa dessa maldita velha!

Conhecia muito bem essa revolta. Sabia ainda que, embora tardia, a única solução para o seu problema seria chutar para bem longe a vergonhosa vida que levava e ir-se embora, dando asas ao vigoroso anseio que queimava em seu jovem peito.

Porém, um estranho feitiço o retinha. E que atração! Ela devia ter parte com o demônio. Suas imprecações, seus gritos agudos chamando-o de parasita, expulsando-o, transformavam-se misteriosamente em doce atração sensual na calada da noite. Lábios rubros, que nada ficavam a dever aos da jovem filha Akemi...

Eis uma das razões; porém, outras havia.

Por exemplo, Matahachi percebia que não estava preparado para carregar pedras sob os olhares sarcásticos de Okoo e Akemi. Cinco anos nessa vida dissoluta com certeza o tinham deixado indolente. A pele conhecera e se habituara à fina seda, o paladar se aprimorara: já conseguia distinguir o fino sabor do saque proveniente da região de Nada. Agora, o jovem Matahachi da vila Miyamoto já não era aquele rapaz rústico, simplório e destemido do passado. E porque levava — desde muito antes de completar os 20 anos — uma vida devassa com uma mulher bem mais velha, a juventude se fora, distorcida e maculada por tantos erros.

Hoje... hoje, no entanto, seria diferente.

— Maldita! Como gostaria de ver sua cara arrependida quando percebesse que me fui! — disse Matahachi, levantando-se furiosamente.

 

— Vou-me embora, ouviram? — berrou. A casa vazia não o deteve.

Ajeitando à cintura a espada, objeto que apesar de toda a degradação ainda valorizava, Matahachi apertou os lábios:

— Sou homem, afinal!

Podia ter saído com altivez pela porta da frente. O hábito, porém, falou mais alto: calçou as sandálias sujas à porta da cozinha e saiu abruptamente pelos fundos da casa.

Uma vez do lado de fora, parou abrupto como se os pés tivessem encontrado um obstáculo invisível: na fria brisa que vinha do leste anunciando a primavera, Matahachi pestanejou, indeciso.

— E agora, para onde?

O mundo de repente lhe pareceu um vasto oceano, sem um porto seguro onde atracar. Conhecia apenas duas porções da sociedade: a vila Miyamoto, sua terra natal, e os arredores da área onde ocorrera a batalha de Sekigahara.

— É verdade! — disse, voltando atrás. Entrou em casa pela cozinha, furtivo como um cão em busca de restos. — Preciso de dinheiro!

Foi ao quarto de Okoo. Remexeu a esmo gavetas, caixas, o espelho, mas não encontrou o que procurava. Sem dúvida, era o tipo de precaução que uma mulher como Okoo tomaria. Decepcionado, Matahachi sentou-se pesadamente entre as roupas que espalhara.

Seda vermelha, tecidos procedentes de Nishijin, matiz Momoyama, o perfume de Okoo se desprendia das peças, quase tangível. Naquele exato momento, Okoo estaria no teatro improvisado — um barraco à beira do rio — assistindo à dança de Okuni ao lado de Toji. Matahachi evocou sua pele branca, seus gestos de flerte.

— Bruxa!

As recordações que povoavam sua mente tinham o gosto amargo do arrependimento.

Tarde demais vinha-lhe com dolorosa intensidade a lembrança de Otsu, a noiva que abandonara em sua terra natal. Matahachi não conseguira se esquecer de Otsu. Ao contrário, o tempo se encarregara de lhe mostrar, claramente, a pureza ímpar daquela que um dia prometera esperar por ele em sua terra distante. Tinha vontade de se ajoelhar ali mesmo e pedir-lhe perdão, tamanho anseio sentia por ela.

Mas rompera os laços que o prendiam a Otsu. Não tinha o direito de lhe impor a sua presença.

— E por culpa dessa bruxa!

De nada adiantava àquela altura, mas percebeu que errara ao confessar honestamente a Okoo que tinha uma noiva, de nome Otsu, em sua terra natal. Na ocasião, Okoo apenas sorrira, encantadora, com forçada indiferença: em seu íntimo, no entanto, o ciúme a devastara. Certo dia, enquanto falava de trivialidades com o amante, Okoo inopinadamente exigira que Matahachi escrevesse uma carta a Otsu, desfazendo o compromisso; não satisfeita, anexara ainda uma oarta humilhante escrita de próprio punho, e as remetera à desprevenida Otsu.

— Otsu, minha Otsu... Como teria ela reagido? — sussurrou, quase enlouquecido.

O arrependimento trouxe-lhe à mente a imagem de Otsu, seu olhar repleto de censura.

A primavera estaria chegando também à vila Miyamoto. Ah!, os rios, as eternas montanhas...

Matahachi conteve a custo o impulso de gritar, de chamar a mãe, os parentes, todos tão queridos! A própria terra da vila parecia aguardar calorosamente por ele.

— Nunca mais vou poder pisar aquelas terras, por culpa dessa megera! Arrebentou o cesto onde Okoo guardava suas roupas e rasgou-as indiscriminadamente, espalhando as tiras por toda a casa.

Naquele instante, percebeu um vulto em pé, à entrada da casa.

— Com licença. Sou mensageiro da casa Yoshioka, da rua Shijo, e gostaria de saber se nosso jovem mestre e o senhor Gion Toji não estariam aqui — disse o estranho.

— Sei lá! — replicou Matahachi, grosseiro.

— Perdoe-me, mas tenho certeza de que se encontram nesta casa. Sei que minha pergunta é inoportuna pois ambos pretendiam divertir-se em segredo. No entanto, o que me traz a esta casa é de suma importância para a academia — até para a honra da família Yoshioka, eu diria.

— Não amole!

— Insisto que ao menos lhes transmita um recado. Diga-lhes que voltem o mais rápido possível, pois surgiu-nos hoje na academia um certo Miyamoto Musashi, da província de Tajima, um samurai errante em jornada de aprendizado; e como o homem não encontrou entre nós ninguém à altura de sua habilidade, mostra-se firmemente decidido a esperar pelo mestre: ninguém conseguiu demovê-lo do intento — disse o mensageiro rapidamente.

— O que disse? Miyamoto? — gaguejou Matahachi.

 

A RODA DA FORTUNA

Que dia infeliz fora aquele para o clã Yoshioka!

Alguns discípulos mais conscientes achavam que a data deveria ficar gravada na memória de todos como aquela em que a academia de artes marciais tivera seu nome maculado por vergonha jamais experimentada desde a sua fundação na rua Shijo, no bairro Nishi-no-touin. Usualmente, àquela hora do crepúsculo, todos os alunos começavam a dispersar-se pelas ruas rumo às respectivas casas. Naquele dia, porém, ninguém se retirara: presas de dolorosa comoção, os discípulos ainda ali permaneciam, silenciosos, agrupados na ante-sala e nos aposentos, a situação de extrema gravidade que atravessavam refletida em seus rostos.

Ao menor ruído proveniente da entrada e que lembrasse o de uma liteira estacionando, todos faziam menção de se levantar e perguntavam, rompendo o pesado silêncio:

— Será o jovem mestre?

— Ele chegou?

O homem que, desalentado, permanecia recostado no pilar da entrada, respondia menaando pesadamente a cabeça:

— Ainda não.

E os discípulos caíam outra vez num sombrio silêncio. Alguém estalou a língua, impaciente, outro suspirou alto, dardejando o olhar na semi-escuridão do crepúsculo.

— Por que demora tanto?

— E justo hoje!

— Descobriram ao menos o paradeiro dele?

—Ainda não; mas diversos grupos de busca saíram à sua procura — logo estará de volta.

— É bom que o encontrem depressa!

Saindo de um dos quartos internos, um médico passou em silêncio à frente deles e se dirigiu para a porta acompanhado de alguns discípulos. Tendo-se ido o médico, os homens tornaram a se recolher, em silêncio, para o interior de outro aposento.

— Até a luz esqueceram-se de acender. Ei, por que não acendem a luz? — gritou alguém, exasperado, externando a irritação que todos sentiam ante a própria incapacidade de enfrentar o infortúnio que repentinamente desabou sobre suas cabeças.

A luz votiva do altar em homenagem ao Bodisatva Hachiman, na entrada da academia, brilhou de repente. No entanto, mesmo a luz não tinha o brilho costumeiro: lembrava uma luz de velório e parecia envolta em estranha auréola agourenta.

Pensando bem, talvez a academia Yoshioka houvesse trilhado um caminho demasiado suave nestes últimos dez anos, consideravam alguns dos discípulos mais antigos.

O falecido Yoshioka Kenpo, fundador da academia, sem dúvida fora um homem de grande valor, diferente dos filhos, os irmãos Seijuro e Denshichiro. A princípio simples artesão especialista em tingir tecidos, Kenpo descobrira uma nova técnica de esgrima ao manipular vezes sem fim a goma usada para fixar a matriz no pano. Naquela época, tomara lições de um monge de Kurama, exímio no manejo da naginata[55], dedicara-se ao estudo do estilo Hachiryu de esgrima e, por fim, conseguira criar um estilo próprio: o estilo Yoshioka para a espada curta. Finalmente, Yoshioka Kenpo fora agraciado com o título de instrutor de artes marciais da casa xogunal Ashikaga, e seu estilo adotado pelos xoguns.

“Yoshioka Kenpo foi, sem dúvida, um homem de valor”, pensavam os atuais discípulos, que não se cansavam de louvar o falecido mestre, exaltando-lhe a personalidade e a virtude. Os herdeiros, os irmãos Seijuro e Denshichiro, haviam recebido um treinamento que nada ficava a dever ao do pai; no entanto, haviam também herdado fama e fortuna, aliás nada modestas.

“E nelas está a causa da sua ruína!”, diziam alguns.

Não fora a personalidade do primogênito Seijuro que atraíra os atuais discípulos da academia, mas a virtuosidade do falecido Kenpo e a fama que ainda gozava o estilo Yoshioka. Afinal, freqüentar a academia Yoshioka abria-lhes as portas da sociedade.

A academia, hoje nas mãos de Seijuro, não possuía mais elos com o xogunato depois da queda da casa Ashikaga; todavia, a grande fortuna da família já se havia acumulado durante a vida do sóbrio Kenpo. Ocupando uma vasta mansão, a academia Yoshioka era, em número de alunos, a maior de Kyoto, por sua vez a maior cidade do Japão. Merecimentos à parte, à primeira vista dominava no mundo dos que viviam da esgrima e pela esgrima.

E enquanto no interior da academia os orgulhosos membros do clã se vangloriavam e se divertiam, o tempo passara fora daqueles extensos muros brancos e operara uma invisível transformação. Foi assim que, despertados do glorioso sonho em que a presunção os havia mergulhado, tinham ido naquele dia ao encontro do desastre pela espada de um obscuro provinciano de nome Miyamoto Musashi.

 

O incidente tivera início do seguinte modo:

— Sou um rounin e venho da vila Miyamoto, província de Yoshino, em Sakushu: meu nome é Miyamoto Musashi.

Com estas palavras se identificou um provinciano à entrada da academia — veio comunicar o porteiro nesse dia. Os discípulos ali presentes acharam graça e pediram maiores detalhes. Em resposta, o porteiro informou que o provinciano aparentava 21 ou 22 anos, tinha quase um metro e oitenta de altura e parecia obtuso como um boi trazido repentinamente do escuro para a luz; seus cabelos, emaranhados, maltratados e vermelhos do sol, pareciam não ver pente há mais de ano, e estavam enfeixados com displicência; de tão encardidas, tornava-se impossível distinguir se suas roupas eram de tecido liso ou estampado, marrom ou preto, nelas havendo até uma sugestão de mau cheiro. Apesar de tudo, o fato de estar carregando às costas uma sacola feita de fios de papel torcido e curtido, própria para transportar miudezas e muito usada por samurais peregrinos, indicava que o jovem tinha a pretensão de ser um dos muitos rounin em jornada de aperfeiçoamento; de qualquer modo, ele tinha uma aparência aparvalhada — completara o atendente.

Até aí, nada havia de extraordinário. Mas ao saberem que em vez de pedir humildemente um pouco de comida na cozinha — como seria de se esperar de uma pessoa com o seu aspecto — o jovem parado na majestosa entrada da academia solicitava, justo ele, um duelo com o mestre da academia, Yoshioka Seijuro, o representante do estilo, os discípulos explodiram em gargalhadas.

— Enxote-o, ordenou alguém;

— Calma! Calma! Vamos saber de que escola é, e quem é seu mestre, disseram outros.

Em conseqüência, o atendente, antecipando uma diversão, afastou-se para perguntar e voltou comunicando que a resposta do jovem fora ainda mais extraordinária, pois dissera:

— Aprendi, em criança, a manejar o jitte com meu pai. Depois disso, obtive orientação de alguns poucos guerreiros que passaram por minha vila; aos 17 anos, parti de minha terra e, dos 18 aos 20 anos, por motivos que não vêm ao caso, devotei-me apenas ao estudo das letras; durante todo o ano passado encerrei-me sozinho nas montanhas e me apliquei, tendo por mestres as árvores e os espíritos das montanhas. Assim sendo, não tenho ainda mestre ou um estilo estabelecido. Pretendo, no futuro, seguir os passos do lendário Kiichi Hogen e, adotando como modelo o espírito do famoso estilo Kyohachi da escola Yoshioka, almejo, embora consciente de minha inexperiência, empenhar-me para criar, assim como o fez mestre Kenpo, um estilo próprio: o estilo Miyamoto de esgrima.

Ao serem informados que o jovem assim respondera de modo franco, é verdade, mas ingênuo e titubeante, com um forte sotaque interiorano — que o atendente imitou — os discípulos desataram em gargalhadas outra vez.

Só o fato de surgir maltrapilho nos portões da academia considerada a melhor do país já demonstrava falta de savoir-faire, achavam; mas pretender estabelecer estilo próprio, como o mestre Kenpo, demonstrava tamanha ignorância das próprias limitações que chegava a ser cômico. Alguém sugeriu, em tom de troça, que o atendente fosse perguntar-lhe a quem deveriam entregar seu corpo em caso de morte.

— Com relação a este meu corpo, que o joguem — se for o caso — no monte Toribe ou o lancem com os dejetos no rio Kamo: não haverá ressentimentos — fora a resposta inesperadamente elegante para alguém tão desengonçado, segundo o atendente.

— Está bem: deixe-o entrar! — disse alguém após curta hesitação, dando início a todo o infortúnio. Pretendiam admiti-lo no salão de treinos, talvez aleijá-lo, e expulsá-lo em seguida. Todavia, já no primeiro duelo, aleijado ficara um dos discípulos da academia, cujo braço fora quebrado pela espada de madeira usada em treinos. O braço não fora apenas quebrado, mas quase arrancado: a mão do homem pendia, presa apenas à pele do pulso.

Um após outro, os que se levantavam acabaram recebendo ferimentos semelhantes e de igual gravidade, ou foram implacavelmente derrotados. Embora a espada fosse de madeira, gotas de sangue manchavam o assoalho. Uma sinistra ameaça pairou então no ar: não se poderia permitir que esse jovem interiorano totalmente desconhecido fosse embora, vivo e vitorioso, mesmo que, para detê-lo, até o último discípulo da academia tivesse de tombar.

— Vejo a inutilidade de prosseguirmos com estes duelos, pois não há ninguém à minha altura. Só me baterei, agora, com o próprio mestre Seijuro.

Com esta mais que justificada alegação, Musashi sentou-se, em determinado momento, e ninguém mais conseguiu demovê-lo. Relutantemente introduziram-no numa sala e mandaram mensageiros à procura de Seijuro, enquanto um médico atendia os feridos nas salas do fundo.

Mal o médico se retirou, fritos irromperam chamando repetidas vezes por um dos feridos; ao acorrerem, os demais discípulos viram que dois dos seis ali deitados já estavam mortos.

 

— Não podemos fazer mais nada...

Os rostos dos discípulos sentados à cabeceira dos companheiros mortos destacavam-se pálidos de tensão.

Nesse momento, passos apressados soaram na entrada da academia, percorreram o salão de treinamento e irromperam afinal pelas salas do fundo: eram o jovem mestre Yoshioka Seijuro e Gion Toji. Seus rostos esverdeados tinham a expressão aturdida dos que foram, de súbito, trazidos de volta à realidade.

— Que houve? Que confusão é essa?

Toji era o guarda-costas da família Yoshioka e também um dos mais antigos membros da academia. Por conseguinte, suas palavras eram sempre imperiosas, não importando a ocasião.

No mesmo instante, o discípulo que sentado à cabeceira do companheiro pranteava sua morte, levantou o olhar, ofendido:

— Que houve, pergunto eu! Desta vez você foi longe demais, Toji: como se atreveu a sumir desse jeito, levando o jovem mestre?

— Sumir? Quem sumiu?

— Nos tempos do falecido mestre Kenpo, deslizes desse tipo nunca foram permitidos.

— Levei nosso jovem mestre para assistir a um espetáculo de kabuki, pois ele quase nunca se distrai. Que mal há nisso? E como se atreve a nos falar dessa maneira? Não se esqueça de que está na presença do seu mestre!

—Ausentes uma noite inteira só para assistir a um espetáculo de kabukil O espírito de nosso mestre Kenpo deve estar lamentando em seu altar, lá dentro.

— Cale-se! Nunca mais repita o que disse!

Alguns discípulos tentaram apartar os dois homens e a balbúrdia se generalizou. Naquele instante, no escuro quarto ao lado, alguém gemeu:

— Parem! Tennam um pouco de consideração!

— O momento não é de brigas internas: já que o nosso mestre está de volta, quero que ele nos vingue! Não deixem esse maldito rounin sair vivo dos portões da academia, entenderam? — gritou outro sob as cobertas, batendo a mão contra o tatami, revoltado. Os dois, embora derrotados pela espada de Musashi, tinham apenas braço ou mão fraturados e, por não estarem mortalmente feridos, agitavam-se loucos de raiva.

Os gritos dos companheiros feridos tiveram o efeito de uma reprimenda:

— Têm razão! — reconheceram.

Nos tempos que corriam, a casta dos samurais ou bushi, superior na escala social à dos agricultores, artesãos e mercadores, preocupava-se sobremaneira com a honra. Homens desta classe preferiam muitas vezes morrer a ter seus nomes maculados. Os governantes da época, até então premidos por incessantes guerras, não haviam ainda traçado uma política adequada para os tempos de paz e os cidadãos da cidade de Kyoto — e com eles todos os outros — viviam sujeitos às leis da própria província, vagas e inadequadas. Todavia, o zelo dos bushi em preservar sua honra levava lavradores e mercadores a também valorizar a força do caráter, o que, em última análise, contribuía para a preservação da paz social. Deste modo governava-se o povo, compensando e até superando a legislação inadequada.

Sem fugir à regra, os homens da academia Yoshioka, no momento em que se recuperaram da consternação provocada pela derrota, reagiram com fervor ao pensamento da honra ultrajada, o primeiro a lhes aflorar à mente.

“A honra do mestre foi maculada!” A reflexão fez com que todos esquecessem pequenas rivalidades e se unissem em torno de Seijuro no amplo salão de treinamentos.

Contudo, o próprio Seijuro aparentava insegurança, justamente nesse dia. O cansaço da noite maldormida pairava como sombra em seus olhos.

— Onde está esse maldito rounin? — perguntou, enquanto passava uma longa tira de couro pelos braços e prendia as mangas do quimono, preparando-se para o duelo. Escolheu uma entre as duas espadas de madeira que lhe apresentava um discípulo, e empunhou-a.

— Nós os deixamos aguardando naquela sala porque o sujeito insistia em esperar sua volta — disse um dos homens, apontando um pequeno quarto anexo à sala de estudos.

 

— Tragam-no aqui — disse Seijuro, movendo os lábios ressequidos. Estava pronto a aceitar o desafio. Sentado numa plataforma destinada aos instrutores, empunhava a espada de madeira.

— Imediatamente! — responderam em uníssono três ou quatro discípulos. Desceram ao jardim, calçaram as sandálias e se preparavam para atravessar correndo o pátio em direção à varanda oposta onde ficava a sala de estudos quando Gion Toji, Ueda e outros veteranos os detiveram, agarrando-os pelas mangas:

— Calma, calma, não se afobem!

Os apressados sussurros trocados em seguida não chegaram aos ouvidos de Seijuro, que a tudo assistia um pouco afastado. Homens do clã Yoshioka, parentes e veteranos passaram a formar o núcleo de diversos grupos. Os homens juntaram as cabeças e confabularam alvoroçados, divergindo em alguns pontos ou enfatizando outros.

A conferência logo terminou. Segundo a opinião dos muitos que conheciam perfeitamente a capacidade de Seijuro e se preocupavam com o destino do clã Yoshioka, não era recomendável permitir que o jovem mestre aceitasse sem reservas o desafio lançado pelo desconhecido rounin, à espera na outra sala. Muitos já haviam sido mortos ou mutilados: se além deles também Seijuro fosse eventualmente derrotado, o acontecimento teria sérias repercussões e representaria um risco muito grande para o clã, temiam eles.

Não haveria com que se preocupar caso estivesse ali presente o irmão mais novo, Denshichiro. Infelizmente, porém, até ele se ausentara desde cedo nesse dia. Segundo a opinião geral, o segundo filho, Denshichiro, herdara o talento do falecido pai Kenpo, sendo muito mais habilidoso que o primogênito. Entretanto, sempre levara uma vida despreocupada, acomodado na posição de segundo filho, longe das responsabilidades inerentes à primogenitura. Denshichiro saíra de casa pela manhã dizendo que planejava ir ao santuário de Ise em companhia de amigos e nem sequer comunicara quando pretendia voltar.

— Ouça, jovem mestre — disse Toji aproximando-se de Seijuro e sussurrando algo em seu ouvido. A face de Seijuro contorceu-se, como se acabasse de ouvir uma afronta insuportável:

— Uma cilada? — arquejou.

— Silêncio! — disse Toji, prendendo com o seu o olhar de Seijuro.

— Uma ação tão covarde não é digna de meu nome. O homem não passa de um rounin provinciano. Não quero que se diga por aí, mais tarde, que me acovardei e mandei matá-lo com a ajuda de muitos.

— Não se preocupe — disse Toji, atropelando as palavras de Seijuro, cuja valentia soava forçada — deixe tudo por nossa conta.

— Que há? Pensam por acaso que serei derrotado por esse tal Musashi?

— Absolutamente não, jovem mestre; mas vencê-lo não lhe trará prestígio algum. Além disso, todos nós achamos que esse homem não merece a honra de duelar com o senhor. Este incidente é insignificante — não comprometerá sua reputação. Mas se permitirmos que escape com vida, aí sim, corremos o risco de ter a honra desta casa denegrida por esse sujeito — respondeu Toji.

Enquanto discutiam, o número de homens que até então lotava o salão de treinos se reduzira à metade. Através do jardim, pelos fundos, pela porta da frente e rodeando a casa, vultos se esgueiravam e se dissolviam como sombras na noite.

— Veja; não há tempo para mais nada, jovem mestre! — disse Toji, e com um sopro apagou a luz da lamparina. Desatou em seguida o cordão que prendia a espada e arregaçou as mangas.

Seijuro continuou sentado, observando. Sem dúvida alguma, sentia um certo alívio, mas não estava feliz. Percebia claramente que os discípulos haviam menosprezado sua capacidade. Após a morte do pai, negligenciara os treinos e as conseqüências aí estavam. Seijuro deixou-se abater, melancólico.

O pequeno exército de discípulos e membros do clã havia se ocultado — somente ele restara no salão. A academia parecia envolta em uma manta escura, silenciosa e opressiva como o fundo de um poço.

Uma irreprimível inquietação compeliu-o a se levantar. Ao espiar pela janela, nada viu na escuridão além de uma única sala iluminada — aquela em que o aguardava Musashi, o desafiante.

 

O reflexo da luz no shoji bruxuleava às vezes, lentamente.

Exceto por aquela sala onde a luz tremia, a escuridão toldava o corredor, o vão abaixo do avarandado e a sala de estudos ao lado. Dezenas de pares de olhos semelhantes aos de rãs passaram aos poucos a perscrutar as trevas. Os homens prendiam a respiração, imobilizavam as espadas e tentavam adivinhar, imóveis, qualquer indício de movimento no interior da sala iluminada.

— Que estará acontecendo? — perguntou-se Toji, hesitante. Os demais discípulos também hesitavam. Embora ainda fosse desconhecido na cidade de Kyoto, o homem que se anunciara Miyamoto Musashi possuía indiscutível habilidade. Por que então permanecia em silêncio total? Qualquer guerreiro conhecedor dos rudimentos da arte marcial detectaria sem dúvida a aproximação de tantos inimigos do lado de fora de uma sala, por mais silenciosos que fossem. Nos tempos que corriam, um guerreiro que não possuísse ao menos esse dom em pouco tempo perderia cem vezes a vida.

“O homem acabou adormecendo”, pensaram, pois havia muito fora posto nessa sala, aguardando.

Por outro lado, caso fosse mais esperto do que supunham, talvez já houvesse pressentido a armadilha e estivesse bem preparado, à espera do ataque, com as mangas presas e as barras do hakama arregaçadas, mantendo de propósito a luz do candeeiro acesa.

— É isso, com certeza! — imaginaram, rígidos de tensão, vítimas da atmosfera ameaçadora criada por eles mesmos, espreitando-se mutuamente à espera de um voluntário que invadisse a sala. Alguém engoliu em seco.

— Senhor Miyamoto! — disse Toji. Tivera uma súbita inspiração e o chamara do lado de fora, sem abrir a porta — desculpe-nos a demora, mas gostaria que se apresentasse.

O silêncio persistiu. “Tudo leva a crer que o inimigo já percebeu a cilada”, pensou Toji.

— Cuidado! — advertiu Toji com o olhar aos companheiros de ambos os lados e, dando um violento chute, desmontou a porta corrediça de seu encaixe. Contrariando as próprias expectativas, todos recuaram instantaneamente. Alguém gritou uma ordem e, ato contínuo, outras divisórias foram derrubadas, levando os móveis da sala na queda.

— Desapareceu!

— Como?

— Para onde foi?

Vozes que repentinamente recuperavam a coragem explodiram à luz bruxuleante do candeeiro. Na sala restava apenas uma almofada, sobre a qual Musashi estivera corretamente sentado quando um dos discípulos da academia trouxera o candeeiro, há pouco. Restavam também o pequeno braseiro portátil e o chá, intacto e já frio.

— Ele escapou! — gritou outro na direção do pátio, saindo à varanda. Os homens que surgiram do jardim e dos vãos sob o avarandado espumavam de raiva, impotentes, maldizendo o descuido das sentinelas. Por seu lado, os encarregados da vigilância afirmavam unânimes: era impossível que Musashi tivesse escapado. Protestavam que o haviam visto afastar-se uma única vez, em direção ao banheiro, mas que ele logo retornara à sala e de lá não saíra mais.

— Mas não pode ter-se evaporado... — retrucavam outros, impacientes. Nesse momento, gritou um dos homens que abrira um armário e espiara:

— Olhem! Foi por aqui! — Apontava algumas tábuas deslocadas e o buraco aberto no assoalho.

— Se o homem escapou depois que trouxemos o candeeiro, não deve ter ido muito longe!

— Atrás dele!

Um sopro de valentia percorreu o bando, que repentinamente se deu conta do que parecia ser uma demonstração de fraqueza do inimigo. Os homens arremessaram-se na rua pelo portão de serviço, pelos fundos e pelas pequenas portas laterais.

Na mesma hora, uma voz gritou:

— Lá vai ele! — Nesse instante, todos viram um vulto saltar das sombras do portão principal e cruzar a rua, mergulhando na viela do outro lado.

 

O vulto fugia rapidamente. Sua sombra resvalou como um morcego contra o muro no fundo da viela e desviou-se para um dos lados.

Passos desencontrados das dezenas de homens perseguindo a sombra ecoavam na noite silenciosa. Grupos menores davam a volta por outras ruas e tentavam cercá-la pela frente. Gritos soavam de permeio. Ao atingirem enfim o trecho pouco iluminado entre Kuyado e as ruínas incendiadas do templo Honnoji, um alarido se fez ouvir:

— Covarde!

— Cadê a valentia?

Preso pelos perseguidores que gritavam e o chutavam sem dó, o homem soltou um urro e, desistindo da desenfreada fuga, enfrentou-os ferozmente, derrubando com um único movimento os três que o haviam agarrado pela gola.

— Você me paga! — berrou alguém, pronto a transformar a rua em palco de sangrenta carnificina, quando outro gritou:

— Espere! Este não é o nosso homem! Alguns logo o apoiaram:

— Tem razão!

— Não é Musashi!

— Enquanto os homens contemplavam o prisioneiro, estupefatos e desapontados, Gion Toji finalmente alcançou o grupo e perguntou:

— Pegaram-no?

— Pegamos, mas...

— Ora, mas esse homem... — disse Toji.

— Você o conhece?

— Vi-o na Hospedaria Yomogi, ainda esta manhã — respondeu Toji.

Dezenas de pares de olhos desconfiados analisaram em silêncio da cabeça aos pés a figura de Matahachi, que se ocupava em recompor as roupas e os cabelos desalinhados.

— É o dono da hospedaria?

— Não, a proprietária disse que não; deve ser o gerente — respondeu Toji.

— A atitude dele é suspeita. Por que estaria espionando a academia, escondido atrás do portão?

Repentinamente, Toji afastou-se dizendo:

— Enquanto perdem tempo com esse indivíduo, Musashi vai longe. Tratem de se espalhar e descobrir ao menos onde se hospeda.

— É isso mesmo! Procurem onde ele se hospeda — ecoaram os homens. Matahachi continuou cabisbaixo, voltado para o lado do fosso do templo.

De súbito, voltou-se para os homens que se afastavam correndo e chamou:

— Um momento, por favor! O último estacou e voltou-se:

— Que houve?

Matahachi aproximou-se e perguntou:

— Quantos anos aparentava esse tal Musashi, que apareceu hoje na academia?

— Como vou saber? — retrucou o homem.

— Não tinha quase a minha idade? — insistiu Matahachi.

— Mais ou menos.

— Disse que era originário da vila Miyamoto, em Sakushu?

— Isso mesmo.

— Escreve-se Musashi com as mesmas letras com que se escreve Takezo, não é verdade?

— Para que quer saber? Por acaso é conhecido seu?

— Não, não é isso.

— Pois se não quiser passar por maus bocados, iguais aos que passou há pouco, aconselho-o a não ficar perambulando por aí — disse o homem, desaparecendo em seguida na noite. Matahachi afastou-se lentamente, caminhando pela margem escura do fosso. Vez ou outra parava e erguia o olhar para as estrelas. Seus passos eram indecisos, não tinham destino certo.

“Acho que era ele mesmo. Deve ter trocado de nome e viaja para se aperfeiçoar. Imagino que tenha mudado bastante. Se o encontrasse agora, talvez nem o reconhecesse.”

Introduzindo as duas mãos no obi, chutou pedregulhos com a sandália. Cada pedra trazia-lhe à lembrança o rosto do amigo.

“Não adianta, este não é o momento certo para um reencontro. Estou atravessando um período difícil e não quero que ele me despreze. E o meu orgulho — como fica? Mas se os discípulos da academia Yoshioka o encontrarem, acabará morto. Gostaria de poder avisá-lo da cilada...” — murmurou Matahachi.

 

A LADEIRA

À margem da ladeira forrada de pedregulhos que conduz ao templo Kiyomizudera, velhos casebres sucedem-se, mal alinhados como dentes em certas bocas, seus telhados de madeira cobertos de musgo.

Um cheiro forte e rançoso de peixe assado impregnava o ar quente do meio-dia. Repentinamente, a voz aguda de uma mulher soou no interior de um dos casebres:

—Velho bêbado, imprestável! Abandonas mulher e filhos, quase nos matas de fome e tens a coragem de voltar para casa com essa cara-de-pau, sem-vergonha?

Um prato voou pela porta aberta e espatifou-se no chão, os cacos brancos espalhando-se na rua. No instante seguinte, um homem aparentando 50 anos, tipo comum entre artesãos, espirrou porta afora, aos tropeços.

Uma mulher descalça e desgrenhada, seios à mostra pendendo como os de uma vaca, surgiu em sua perseguição, gritando:

— Aonde pensas que vais, sem-vergonha?

Ato contínuo, a mulher agarrou-o pelo topete e atacou-o com socos e mordidas. O choro estridente de uma criança fez coro com o ladrar de um cão e os vizinhos acorreram.

Musashi voltou-se para contemplar o tumulto e sorriu sob o sombreiro. Parado havia já algum tempo na frente da modesta oficina de cerâmica, anexa ao casebre em questão, estivera observando longamente os movimentos do torno e da espátula, absorto como uma criança que contempla um brinquedo.

Logo seu olhar foi outra vez atraído para o interior da oficina. Mas os dois artesãos que ali trabalhavam em total concentração nem sequer haviam erguido as cabeças, seus espíritos parecendo presos ao barro que moldavam.

Contemplando o trabalho dos homens, em pé no meio da rua, Musashi sentiu-se, também ele, tentado a moldar aquela argila. Sempre tivera gosto por esse tipo de trabalho, desde a infância. Achou-se capaz de moldar algo simples, como uma tigela.

Contudo, ao observar com atenção o trabalho de um dos artífices — um homem de quase 60 anos que, naquele instante, com a espátula e a ponta dos dedos moldava uma tigela — repreendeu-se pela presunção:

“Quanta habilidade! É preciso muita dedicação para se chegar a este ponto!”, reconheceu.

Ultimamente, o respeito que lhe inspirava qualquer obra superior, fruto do trabalho e da arte alheia, despertava com freqüência reflexões dessa natureza no espírito de Musashi. Compreendeu então com clareza que não era capaz de fazer nada sequer semelhante.

Observando melhor, notou que os dois homens haviam exposto sobre uma prancha de madeira, a um canto da oficina, diversos tipos de porcelana como pratos, vasilhames, cabaças e jarras, e neles haviam afixado etiquetas de preços, aliás módicos, com o intuito de vendê-los aos romeiros que transitavam por aquela rua. A consciência de que até mesmo a fabricação de porcelanas baratas como essas exigia tanta técnica e concentração, fez com que Musashi percebesse quão longe ainda estava de atingir sua meta na longa caminhada que iniciara rumo à própria formação guerreira.

A bem da verdade, Musashi havia andado bastante orgulhoso de si, pois nestes últimos 20 dias viera desafiando algumas academias mais famosas da cidade — entre elas, a de Yoshioka Kenpo — e, como resultado, havia percebido que sua habilidade como espadachim, contrariando a própria expectativa, estava longe de ser desprezível.

Viera a Kyoto — cidade que abrigava o castelo imperial, a antiga sede de inúmeros xogunatos — certo de que ali encontraria os melhores guerreiros e de que para ali convergiriam os generais mais hábeis, os soldados mais valentes do país; nenhuma academia por ele visitada, porém, fora capaz de lhe inspirar respeito, de levá-lo a curvar-se com deferência ao se retirar.

Pelo contrário: cada vitória sobre seus oponentes provocava em Musashi indizível tristeza, levando-o a afastar-se dessas academias desiludido.

— Não entendo: ou sou muito mais hábil do que imaginava, ou eles muito ineptos.

Se os guerreiros com quem se batera nas academias visitadas até aquele dia eram considerados os melhores da atualidade, quais seriam então os atuais valores da sociedade? Musashi não conseguia discernir claramente.

Mas nesse instante os ceramistas lhe haviam mostrado que não poderia se dar ao luxo da presunção: até mesmo um velho artesão, de cujas mãos saíam rústicas peças de porcelana valendo apenas alguns trocados — descobrira Musashi depois de atenta observação — possuía essa aterradora capacidade de concentração, base de toda a sua técnica e arte. E o que ganhava o velho homem em troca dessa habilidade? Mal tinha o que comer, e vivia num miserável barracão. A vida não podia ser tão fácil quanto chegara a pensar, com certeza.

Mentalmente, Musashi dirigiu uma respeitosa reverência ao ancião sujo de barro, absorto em seu trabalho, e afastou-se em silêncio. Ergueu a cabeça e fixou o olhar na íngreme ladeira que conduzia ao templo Kiyomizudera.

 

— Senhor, ei, senhor rouninl

No instante em que Musashi recomeçou a subir a íngreme ladeira, uma voz o deteve.

— É comigo? — indagou Musashi, voltando-se. Um homem de barba cerrada vinha no seu encalço empunhando um bastão de bambu. Usava quimono de algodão, curto e acolchoado, que lhe deixava à mostra coxas e pernas.

— Seu nome é Miyamoto-sama? — perguntou.

— Sim.

— Musashi é o seu primeiro nome? — insistiu.

— É.

— Obrigado — disse o homem, virando-se abruptamente e afastando-se rumo à ladeira Chawanzaka.

Musashi acompanhou-o com o olhar e o viu desaparecer sob o toldo de uma casa de chá. Ao passar por ali, há pouco, notara descansando ao sol um grupo numeroso de carregadores de liteira parecidos com aquele barbudo que o detivera. Quem estaria interessado em saber seu nome? Quem quer que fosse, por certo surgiria em seguida. Musashi parou por um instante, aguardando, mas não avistou mais ninguém. Retomou então a caminhada e atingiu o topo da ladeira.

Visitou os santuários Senjudou e Higan-in, nas proximidades, e sob cada teto rezou com fervor:

“Protegei minha irmã, que vive longe e solitária em minha terra: concedei-lhe saúde e longa vida.”

“A mim, Musashi, obscuro e ignorante, submetei à provação e fazei de mim o melhor espadachim da face da terra; ou senão, deixai-me morrer.”

Takuan ensinara não por palavras, mas pela vivência, e posteriormente Musashi confirmara nos livros, que a oração tem o poder de lavar a alma, purificando-a.

Lançou o sombreiro à beira do barranco e jogou-se sobre a relva. Daquele local avistava toda a cidade de Kyoto. Ao redor de seu corpo, brotos de cavalinha despontavam do solo.

“Já que me foi dado o privilégio de nascer como um ser humano, quero viver uma vida gloriosa!”

A chama pura da ambição ardia em seu jovem peito.

Ali, recostado na relva, Musashi acalentava sonhos bem diferentes dos de romeiros e visitantes que transitavam ao seu redor, na morna tarde de primavera.

No distante período Tengyou (938-944), dizia a lenda que dois malucos ambiciosos, Taira-no-Masakado e Fujiwara Sumitomo, haviam sonhado conquistar o Japão, dividi-lo em dois e partilhar o domínio do país, caso a conquista se concretizasse. Ao ler a respeito num manuscrito qualquer, Musashi achara cômicas a estupidez e a temeridade dos dois personagens. Hoje, porém, já não se sentia tão propenso a rir. Os objetivos divergiam, é verdade, mas havia pontos semelhantes em seus sonhos. Também sonhava — prerrogativa dos jovens — em abrir caminho no mundo.

“Vejamos Oda Nobunaga...”, pensou, “ou Toyotomi Hideyoshi...”

Mas as guerras eram sonhos de gerações passadas. A geração atual há muito ansiava por paz. E para corresponder a esse anseio, Tokugawa Ieyasu tivera de se empenhar por longos anos, o que mostrava como era difícil sonhar.

Ainda assim...

“Hoje estamos no período Keicho e aqui estou eu, com toda a vida pela frente. Um pouco tarde para almejar uma existência como a de Nobunaga, e impossível viver como Hideyoshi. Mas posso sonhar. Tenho essa liberdade. Até o filho do carregador de liteiras que há pouco me deteve tem o direito de sonhar.”

Ainda assim...

Musashi tornou a analisar seus sonhos.

A espada.

Por ela se abria seu caminho.

Nobunaga, Hideyoshi, Ieyasu eram excelentes modelos. À margem do caminho percorrido por esses admiráveis homens, a sociedade progredira e florescera. Todavia, a obra realizada por este último, Tokugawa Ieyasu, fora tão completa que hoje já não havia lugar para reformas violentas e agressivas.

Considerando tudo isso, a cidade de Kyoto — que agora avistava do morro Higashiyama —já não oferecia, como nos tempos da batalha de Sekigahara, tantas oportunidades para o nascimento de um herói.

“Não. O mundo mudou. Esta geração não está mais à procura de guerreiros como Nobunaga e Hideyoshi.”

Musashi passou então a relacionar seus sonhos com a realidade:

A espada e a sociedade atual.

A espada e a vida.

Nesse instante, o rosto barbudo do carregador de liteiras emergiu à beira de um barranco.

— Olhem, lá está ele! — disse, apontando-o com a vara.

 

Musashi franziu o cenho e fixou os homens sob o barranco. O grupo de carregadores de liteira agitou-se:

— Ele está olhando feio para a gente!

— Atenção, ele vai embora!

Musashi deu alguns passos e afastou-se tentando ignorá-los, mas os homens puseram-se a acompanhá-lo, alguns pela beira do barranco, outros interceptando-lhe o caminho e postando-se mais adiante, de braços cruzados ou apoiados nos bastões. Logo se viu preso no centro de um largo cerco formado pelos carregadores de liteiras.

Musashi parou e voltou-se em silêncio. No mesmo instante, o grupo também parou. Alguns riam mostrando os dentes brancos e comentavam:

— Olha lá, ele agora resolveu ler a tabuleta!

Realmente, Musashi havia parado em frente à escadaria do santuário Hongando e erguia o olhar para uma velha tabuleta que pendia da viga-mestra do templo.

Irritado, pensou em gritar com o grupo e dispersá-lo, mas se conteve: não valia a pena envolver-se com insignificantes carregadores de liteira. De mais a mais, deveria estar ocorrendo algum engano que cedo ou tarde se esclareceria. Assim pensando, suportou em silêncio a presença dos homens, fixando um olhar feroz nos dois ideogramas da tabuleta: Hon-gan. Nesse momento, o grupo de carregadores começou a se agitar:

— Estão chegando!

— Eles vêm vindo!

Musashi deu-se conta de que o portão leste do templo Kiyomizudera estava repleto de gente: romeiros, monges e até vendedores ambulantes postavam-se lado a lado formando cerco duplo e triplo por trás dos carregadores dê liteira, todos acompanhando o desenrolar dos acontecimentos com os olhos brilhando de expectativa.

Foi então que gritos vigorosos e cadenciados de carregadores marcando a marcha se fizeram ouvir da base da colina e se avizinharam rapidamente. Em pouco tempo um carregador aproximou-se de um dos extremos do cerco. Acavalada em suas costas vinha uma anciã aparentando seus 60 anos. Logo atrás surgiu um velho bushi com jeito interiorano, nada garboso, também este parecendo, havia muito, ter passado dos 50.

— Basta, basta! — gritou a velha às costas do carregador, batendo palmas vigorosamente.

O carregador de liteiras dobrou os joelhos e se acocorou.

— Obrigada — disse a velha, pulando com agilidade das costas do homem. Virou-se então para o velho bushi logo atrás e lhe disse, enérgica:

— Não se descuide, tio Gon!

Lá estavam a velha Osugi e Furukawa Gonroku, e pelo aspecto de suas roupas e calçados, havia muito andavam longe de suas casas.

— Onde está ele? — disse Osugi. Cuspiu e umedeceu a empunhadura da espada, rompeu o cerco e penetrou no círculo formado pela multidão.

Os carregadores aglomeraram-se ao seu lado, externando preocupação ou solidariedade:

— Olhe ali o seu adversário, velha senhora.

— Não se apresse, senhora.

— Cuidado, o rapaz tem cara de poucos amigos!

— Prepare-se com muito cuidado. Os espectadores se admiravam:

— Como? Essa velhinha está querendo desafiar aquele moço?

— Assim me parece.

— Mas até o padrinho do duelo parece vacilante! Deve haver alguma razão por trás disso.

— Com certeza!

— Olhem lá, ela está gritando com o velho! Ela é durona!

Osugi bebeu um gole de água do cantil que um dos carregadores se apressara em ir buscar. Entregou-o a seguir ao velho Gon e lhe disse:

— Para que a pressa? Nosso adversário, afinal, é um simples moleque que mal saiu das fraldas. Pode ter até aprendido a manejar um pouco a espada, mas não há de ser grande coisa, tenho certeza. Calma!

Dirigiu-se diretamente à escadaria do santuário Hongando, dobrou os joelhos e sentou-se no chão. Do regaço retirou um velho terço e, ignorando por completo Musashi, o inimigo, que se mantinha em pé à distância — e também os olhares da multidão — rezou por alguns instantes em silêncio, apenas movendo os lábios.

 

Levado pela atitude fervorosa de Osugi, tio Gon também juntou as mãos em uma prece. A situação, ultrapassando o trágico, tornara-se cômica, e alguns na multidão não conseguiram conter o riso.

— De que estão rindo? — gritou um dos carregadores, encolerizado. — Não tem graça alguma! O caso é bastante sério, fiquem sabendo. Esta velha senhora vem de muito longe, da província da Sakushu, atrás de um sem-vergonha que roubou a noiva do filho e fugiu. Por causa disso, há cinqüenta e tantos dias tem feito peregrinações diárias ao templo Kiyomizudera. E então hoje, por acaso, viu esse sujeito aí, o sem-vergonha ladrão de noivas, passando pela ladeira Chawanzaka.

Um outro carregador logo interveio, explicando por sua vez:

— Mas esses descendentes de samurais são mesmo impressionantes: pois não é que esta senhora, velha desse jeito, em vez de ficar descansando e levar uma vida boa com os netinhos em sua terra, resolveu sair no lugar do filho para se vingar do sujeito que desonrou o nome da família? É de pasmar!

Outro ainda continuou:

— E não é porque a velha senhora nos paga uma rodada de bebida todos os dias, nem porque ela é nossa freguesa, que estamos aqui lhe dando auxílio: nossa ajuda é desinteressada. O que nos comoveu demais foi sua fibra, desafiando na sua idade um rounin jovem e forte. Qualquer homem de bom coração toma o partido dos mais fracos. Se a velha senhora for derrotada, nosso grupo vai se unir e pegar esse rounin. Não é, gente?

— É óbvio!

— Ninguém vai ficar parado olhando uma anciã sendo maltratada.

Ao ouvir as explicações do grupo de carregadores de liteira e contagiada pelo seu ardor, a multidão começou a se agitar também:

— Vai, pega o moço! — incentivou alguém.

— Mas onde está o filho dessa velha? Que aconteceu que não tenta ele mesmo se vingar? — perguntava outro.

— Ah, o filho...

Do filho, nem os carregadores pareciam saber. Alguns achavam que tinha morrido, um outro dizia, dando-se ares de entendido, que a velha estava exatamente procurando saber se ele ainda vivia ou se morrera.

Em meio a tudo isso, a velha Osugi terminara a prece e guardava o terço em seu regaço. A multidão se aquietou.

— Takezo! — interpelou a velha, pousando de leve a mão esquerda no cabo da espada curta que sobressaía à sua cintura.

Mudo, Musashi continuava de pé no mesmo lugar. Imóvel como um pilar, interpunha entre ele e a velha uma distância de mais de cinco metros.

Tio Gon postou-se rente à Velha Osugi e espichou o pescoço, gritando por sua vez:

— Você mesmo!

Musashi permanecia em silêncio, parecendo perdido.

Estava se lembrando da advertência que lhe fizera o monge Takuan, no momento em que dele se despedira na cidade de Himeji. Ao mesmo tempo, considerava mortificante a versão dos fatos que os carregadores haviam apresentado à multidão e não conseguia aceitar o ódio a ele devotado pela família Hon’i-den.

Tudo não passava de uma questão de orgulho e rivalidade de pessoas vivendo em um acanhado pedaço de terra. Se Hon’i-den Matahachi estivesse ali ao seu lado, todo o desentendido se esclareceria, tinha certeza.

Naquele instante, porém, Musashi estava perplexo. Que fazer com aquela situação? O desafio lançado pela velha decrépita e por seu companheiro, um trôpego e idoso bushi, deixava-o atônito. O rosto de Musashi e seu rígido silêncio eram a pura expressão do aborrecimento.

Interpretando erroneamente seu silêncio, os carregadores gritavam:

— E agora, covarde?!

— Perdeu a fala, moleque?

— Anda, mostra que é homem e deixa que a velha acabe contigo!

A velha Osugi piscou várias vezes e sacudiu a cabeça com força, demonstrando seu temperamento irascível. Virou-se então de repente para os carregadores e gritou:

— Calem a boca! Quero vocês como testemunhas, e só! Prestem atenção: se ele nos matar, quero que mandem nossas cinzas para a vila Miyamoto, entenderam? Este é o meu único pedido. O resto é balela. E também não quero a ajuda de ninguém.

Puxou a espada curta e aproximou-se mais um passo de Musashi, fitando-o ferozmente.

 

— Takezo! — gritou novamente a velha Osugi. — Soube que mudou de nome e, agora, diz que se chama Miyamoto Musashi. Ah, que nome imponente! Mas nos velhos tempos, em nossa terra, todos o conheciam por Takezo — quanto a mim, também o chamava de “imprestável”, lembra-se?

Soltou uma risadinha debochada e moveu o pescoço cheio de rugas: muito antes de desembainhar a espada, agredia-o com palavras.

— Que é isso? Pensou que mudando de nome conseguiria esconder-se de mim? Tolo! Como vê, os deuses clareiam os caminhos por onde foge e os mostram a mim. Agora, exijo uma definição: ou corta-me a cabeça, ou mato-o eu! Vamos, eu o estou desafiando.

Tio Gon emendou logo atrás, esforçando-se ao máximo por elevar a voz rouca:

— Cinco anos já se passaram desde o dia em que você saiu fugido da vila Miyamoto. Procuramos por você todos os dias, sem descanso, e não faz idéia do trabalho que tivemos. Mas os deuses nos recompensaram das peregrinações diárias ao templo Kiyomizudera e, para nossa alegria, aqui o achamos afinal. Mesmo velho, eu, Furukawa Gonroku, não serei batido por um moleque da sua laia. Ponha-se em guarda!

Desembainhou a espada longa fazendo cintilar a lâmina e disse, protegendo a velha Osugi:

— Cuidado, obaba! Fique atrás de mim.

Longe de se esconder, Osugi rebateu impetuosamente:

— Nada disso: quem deve se cuidar é você, tio Gon! Não se esqueça que está convalescendo de uma paralisia. Olhe bem onde pisa!

— Qual o quê, não se preocupe: todos os santos budistas estarão conosco.

— Quanto a isso, é verdade, tio Gon: até os espíritos de nossos ancestrais estarão velando por nós. Coragem!

— Em guarda, Takezo!

— Em guarda!

Os dois velhos desafiavam Takezo apontando-lhe de longe as espadas. No entanto, Takezo, o desafiado, não só se mantinha imóvel, como também não dizia palavra.

— Que foi, acovardou-se, Takezo? — gritou a velha Osugi e, impaciente, correu a passos miúdos aproximando-se de um dos lados, tentando um golpe lateral. Porém, tropeçou numa pedra e caiu de quatro aos pés do jovem.

— Cuidado, cuidado, ele vai matá-la! — agitou-se prontamente a multidão.

— Ela precisa de ajuda! — gritavam. Tio Gon, no entanto, parecia paralisado, apenas fitando boquiaberto o rosto de Takezo.

Mas a velha era corajosa: recuperou num abrir e fechar de olhos a espada que deixara escapar das mãos, pôs-se de pé sozinha e, correndo de volta para o lado de Gonroku, apontou de novo a espada para Musashi:

— Estúpido! Para que serve essa sua espada? É enfeite, por acaso? Não vai usá-la? — berrou.

O rosto de Musashi — tão rígido que parecia esculpido em madeira — moveu-se nesse instante pela primeira vez e ele gritou:

— Não!

A seguir, caminhou a passos largos na direção dos dois velhos que, assustados, saltaram um para cada lado, abrindo caminho.

— Aonde pensa que vai, Takezo?

— Não vou usar a espada! — gritou Musashi.

— Pare aí, seu... Pare, já disse!

— Não vou usar a espada!

Musashi negou três vezes, seguindo sempre em frente sem ao menos olhar para os lados. Atravessou a multidão e continuou a caminhar.

— Vai fugir! — berrou Osugi, alarmada.

— Segurem o homem! — gritaram os carregadores. O grupo todo moveu-se como uma torrente e, passando à frente de Musashi, fechou o cerco.

— Ora...

— Onde está ele?

O cerco estava formado, mas Musashi já não se encontrava em seu interior.

Muito mais tarde, em meio à multidão que se dispersava pelas ladeiras Chawanzaka e Sannenzaka, algumas pessoas faziam circular um boato: naquele momento crucial, diziam, haviam visto Musashi saltar e elevar-se no ar mais de dois metros, atingindo com a agilidade de um gato o topo do muro ocidental do templo e, ato contínuo, desaparecer. Ninguém no entanto acreditou, muito menos tio Gon e a velha Osugi, que continuaram em frenética busca até escurecer, vasculhando o vão embaixo do templo e as matas ao redor.

 

O DUENDE DAS ÁGUAS

O ruído surdo e compassado de um pilão socando trigo sacode um grupo de casebres. A chuva, copiosa e atípica naquela primavera, mais parecendo chuva de outono, apodrece casebres onde vivem criadores de bois de carga e papeleiros. Esta é uma área pobre na periferia de Kitano, a noroeste de Kyoto: o reduzido número de chaminés expelindo fumaça naquela hora do entardecer indica que poucos são os lares onde se prepara a refeição noturna.

Debaixo de um beiral pende um sombreiro, à guisa de cartaz; nele, letras rústicas anunciam: “Estalagem”. Agarrado a um pilar da varanda, do lado de fora da cozinha de terra batida, o entregador de saque da taberna local, um garoto de cerca de dez anos, espreita o interior da casa e grita com voz viva, mais forte do que se pode esperar de seu corpo franzino:

— Ó de casa! Ó vô! Não tem ninguém na estalagem?

Os cabelos, crescidos e em desordem, brilham molhados e aderem às orelhas, transformando o menino num retrato vivo do kappa[56], o duende das águas. Veste um quimono curto, de mangas estreitas, e usa uma corda em lugar do obi. Por ter corrido em meio à lama da rua, nódoas de barro salpicam-lhe as costas até a altura dos ombros.

— É você, Jou? — perguntou o estalajadeiro, do interior da casa.

— Eu!

— Não quero saque hoje. Meu hóspede ainda não voltou, Jou.

— Mas vai querer, quando seu hóspede chegar, não vai? Então! Vou em casa e trago o mesmo tanto de sempre, está bem?

— Não! Se meu hóspede pedir, então eu mesmo vou até lá buscar um pouco.

— Que é que você está fazendo aí, vô?

— Estou tentando escrever uma carta que vou mandar para Kurama, pela carroça que segue amanhã para aquelas bandas. O diabo é que não me lembro direito dos caracteres e estou quebrando a cabeça. Cale a boca, se me faz o favor, e não me perturbe, está bem?

— Que coisa! Velho desse jeito e ainda não aprendeu a escrever direito?

— Pirralho impertinente! Se não calar essa boca, vai levar uma paulada na cabeça. Quer?

— Dê aqui que eu escrevo para você.

— Ah! Até parece!

— Não estou brincando, não. Ai, ai... Não é assim que se escreve “batata”, vô. Do modo como está, você escreveu “vara”[57]!

— Não me amole!

— Não adianta se enfezar, vô! Está errado, de verdade. Você está mandando uma vara ao seu amigo de Kurama?

— Não, estou mandando batatas.

— Então, não fique aí teimando e escreva direito: batata.

— Falar é fácil! Se eu soubesse, já tinha escrito.

— Ei!, espere aí.i. Acho que, desse jeito, só você e mais ninguém será capaz de ler esta carta, vô.

— Escreva você então, quero ver — disse o velho, empurrando o pincel em direção ao menino.

— Está bem, deixe comigo. Vá falando!

Sentando-se na entrada do aposento, Joutaro, o menino de recados e entregador de saque da taberna local, empunhou o pincel.

— Tonto! — exclamou o velho estalajadeiro.

— O quê! Nem sabe escrever direito e eu é que sou tonto? — replicou Joutaro, petulante.

— Não está vendo que sujou o papel com o ranho do nariz, moleque?

— Epa, que coisa! Esta fica por conta da casa — disse Joutaro; rasgou o papel com um gesto vivo e com ele assoou o nariz. Jogou fora a folha e disse, retomando o pincel:

— Agora dite, que eu escrevo.

Realmente, empunhou o pincel com segurança e escreveu com movimentos fluidos as palavras ditadas pelo velho estalajadeiro.

Nesse exato momento, o tão falado hóspede da estalagem, que saíra desprevenido pela manhã, retornou pelo caminho enlameado, as sandálias molhadas e pesadas da chuva. Jogou num canto do alpendre o saco de carvão que usara para se proteger da chuva e murmurou:

— Que pena! É o fim das flores.

Fitava uma ameixeira cujas flores costumava apreciar todas as manhãs, à entrada da estalagem, e ao mesmo tempo torcia, distraído, as mangas molhadas do quimono.

Era Musashi. Hospedado nessa estalagem havia mais de 20 dias, quando a ela voltava sentia a reconfortante sensação de estar retornando ao próprio lar.

Entrou pela cozinha e seus olhos caíram sobre o menino de recados da taberna e o velho estalajadeiro que, cabeças juntas, pareciam absortos em alguma tarefa. Curioso, espiou em silêncio sobre os ombros dos dois. No mesmo instante, Joutaro percebeu o rosto de Musashi por trás deles e exclamou:

— Ei, isso não se faz! É feio espiar!

Ocultou então rapidamente o pincel e a carta às suas costas.

 

— Mostre! — mandou Musashi, caçoando.

— Nada feito! — respondeu Joutaro, meneando a cabeça. Pensou um pouco e acrescentou vivamente:

— O que me dá em troca, se eu mostrar?

Musashi sorriu. Despiu as roupas molhadas, entregou-as ao estalajadeiro e respondeu:

— Ora, não tente bancar o espertinho!

— Está bem. Não quero nada. Mas que tal um pouco de saque? Vou buscá-lo para você.

— Enfim, conseguiu o que queria. Parece-me que vou ter de comprar seu saque mais uma vez — riu Musashi, descontraído.

— Dois quartilhos? — insistiu Joutaro.

— É muito.

— Um quartilho, então.

— Não agüento tudo isso.

— Que pão-duro! Diga então quanto quer.

— Você é impossível, Joutaro. Vou falar a verdade: não tenho muito dinheiro. Não sou pão-duro, sou apenas um samurai peregrino pobre.

— Nesse caso, deixe que eu mesmo medirei o seu saque e acrescentarei um pouco mais, certo? Em troca, conte-me uma daquelas suas histórias interessantes, está bem, tio?

Joutaro disparou alegremente na chuva. Musashi voltou o olhar para a carta, largada ao seu lado, e disse:

— Estalajadeiro, foi o menino quem escreveu esta carta?

— Sim, senhor. É de assustar como esse garoto é esperto.

Musashi leu por instantes a carta com admiração, pedindo entrementes:

— Empreste-me uma muda de roupa, faça-me o favor. Se não tiver, contento-me com roupas de dormir.

— Separei essas que estão ao seu lado, pois imaginei que o senhor voltaria molhado — respondeu o velho estalajadeiro.

Musashi dirigiu-se ao poço e banhou-se em água fria. Vestiu a seguir as roupas secas e sentou-se à beira do fogo.

Um cozido fora posto no gancho sobre o braseiro, picles e tigela dispostos para a refeição.

— Moleque danado! Que andará fazendo que demora tanto? — murmurou o estalajadeiro.

— Quantos anos tem o menino? — perguntou Musashi.

— Diz que tem 11, senhor.

— É maduro para a idade!

— Não é para menos: trabalha desde os sete naquela taberna e vive no meio dos condutores de cavalo, papeleiros das redondezas e viajantes de passagem. Já viu e ouviu muita coisa na vida, senhor.

— Mas onde aprendeu a escrever tão bem, vivendo nesse meio?

— Sua caligrafia é realmente tão boa?—indagou o estalajadeiro, admirado.

— Existe boa dose de imaturidade em sua caligrafia. Claro, não passa de uma criança. No entanto, há ingenuidade, ou melhor, se transposto para a esgrima, diria que é uma pessoa com poderosa força interior. Talvez venha a ser algo na vida.

— Algo como quê, senhor?

— Como um homem, por exemplo.

— Hã? — fez o estalajadeiro, sem compreender nada. Destampou a panela e espiou seu conteúdo, resmungando:

— Como demora! Vai ver, anda zanzando de novo por aí.

Desceu à cozinha e dispunha-se a calçar as sandálias quando uma voz viva o interrompeu:

— Cheguei, vô.

— Por que demorou tanto, moleque? Meu hóspede está há muito à sua espera.

— Não foi minha culpa. Quando cheguei na taberna, tinha um freguês lá me esperando. O homem estava bêbado e começou a me fazer um monte de perguntas, e não queria me soltar.

— Que tipo de perguntas?

— Sobre o seu hóspede.

— Aposto que andou dando com a língua nos dentes.

— Não precisou. Mesmo que eu não dissesse nada, todo mundo por aqui já sabe do que aconteceu anteontem, lá no templo Kiyomizudera. A mulher da casa ao lado e a filha do laqueador do outro lado da rua tinham ido ao templo nesse dia e viram o apuro em que o tio se meteu quando se viu cercado pelos carregadores de liteira.

 

Musashi, sentado em silêncio à beira do fogo, virou-se nesse instante e disse, como que implorando:

— Está bem, garoto, deixe esse assunto para lá.

O olhar vivo de Joutaro percebeu num átimo o desagrado no rosto Musashi; disse, portanto, atropelando as últimas palavras do jovem:

— Posso passar a noite aqui com você, tio? — e sem esperar resposta, foi lavar os pés.

— Por mim, tudo bem... desde que o pessoal da taberna não esteja precisando de você.

— Já terminei o serviço lá em casa.

— Então venha cá e jante comigo.

—Vou amornar o saque para você, tio. Disso eu entendo — disse Joutaro, enterrando o pote nas cinzas do braseiro. Logo o retirou e ofereceu:

— Está no ponto, tio.

— Está bom, realmente! — admirou-se Musashi.

— Gosta de saque, tio?

— Gosto.

— Pena que você seja pobre e não possa beber muito.

— Sim.

— Mas não é verdade que os grandes guerreiros são geralmente sustentados por senhores feudais e recebem vultosos estipêndios? Uma vez, um freguês lá da taberna me contou que, antigamente, estrategistas como Tsukahara Bokuden se faziam acompanhar por um séquito de 70 a 80 pessoas, quando viajavam, e ainda levavam parelhas de muda e falcões pousados nos braços dos pajens.

— Isso mesmo.

— Já o estrategista Yagyu-sama, que foi tomado a serviço de Tokugawa-sama em Edo, dizem que recebe 11.500 koku; é verdade?

— É verdade.

— E então, por que você é tão pobre, tio?

— Porque ainda estou em aprendizagem.

— Mas então, quando é que você vai andar acompanhado por um grande séquito como o lorde Kamiizumi Ise ou como Tsukahara Bokuden?

— Quem sabe? Talvez eu nunca venha a ser um grande senhor como os que você mencionou.

— Você não é um guerreiro forte, tio?

—Você ouviu o povo que me viu no templo Kiyomizudera. Seja lá como for, o fato é que eu fugi, naquele dia.

— Pois é. É por isso que o pessoal da vizinhança vive falando que o samurai peregrino hospedado nesta estalagem é um poltrão. Morro de raiva!

— Ora, por que se incomoda? Falam de mim e não de você! — riu Musashi.

— Mesmo assim. Tio, faz-me um favor? Tem um bando de moços, condutores de bois e fabricantes de tinas, que se junta nos fundos da casa do laqueador para praticar esgrima. Vá lá um dia desses, desafie-os para um duelo e dê uma surra neles por mim.

— Está bem, está bem!

Musashi era incapaz de recusar um pedido de Joutaro: sua afeição pelo garoto era patente. Acrescia-se a isso o fato de ser ele próprio ainda muito jovem e, portanto, facilmente contagiado pelo entusiasmo do menino. Outros motivos ainda o aproximavam de Joutaro, como por exemplo o fato de não ter tido irmãos ou um ambiente familiar aconchegante em sua infância: sem que disso se desse conta, estava sempre à procura de um lenitivo para a sua solidão, uma oportunidade para extravasar seu amor.

— Mudando de assunto, vamos falar de você agora. De onde vem?

— Himeji.

— Quê, da província de Banshu?

— Isso. Você é de Sakushu, não é, tio? Seu sotaque é de lá.

— É verdade. Então somos quase vizinhos. E que fazia seu pai, em Himeji?

— Era samurai. Meu pai era um samurai!

— Vejam só!

Claro! Apesar da surpresa estampada no rosto, Musashi sentiu que apenas se confirmava o que no íntimo sempre suspeitara. Em resposta às perguntas de Musashi, Joutaro respondeu:

— Meu pai se chama Aoki Tanzaemon, e recebia um estipêndio de 500 koku, imagine você. Mas quando fiz seis anos, ele foi despedido e se tornou um rounin. Daí viemos a Kyoto e fomos ficando cada vez mais pobres. Foi então que me entregou na taberna e ele mesmo se tornou um monge komuso[58]. É por isso que eu quero ser samurai — acrescentou. — E para me tornar um samurai, é preciso, antes de mais nada, que eu me torne um bom espadachim. Tio, você não gostaria de me ter como seu discípulo? Faço qualquer coisa, se você me aceitar.

O pobre garoto implorava, o olhar brilhante e obstinado. Muito antes de se decidir a aceitar ou a rejeitar o pedido de Joutaro, Musashi se viu, compassivo, a pensar na ruína daquele que um dia fora o comandante do bigodinho-de-arame, Aoki Tanzaemon. Na condição de guerreiro, estava acostumado à inconstância da sorte, a sua própria um contínuo jogo de vida e morte. Ainda assim, quando as voltas da fortuna lhe eram assim cruamente apresentadas, não conseguia evitar que uma indizível tristeza pesasse em seu coração, amargando-lhe a bebida.

 

Joutaro revelou-se um garoto tremendamente obstinado: nada era capaz de demovê-lo de seu propósito. Quanto mais o velho estalajadeiro ralhava ou adulava, tentando fazê-lo desistir da idéia, mais o menino persistia, retrucando com malcriações. Agarrava Musashi pelo pulso, abraçava-o, implorava, rompia em choro, por fim. Sem saber o que mais fazer, Musashi acabou concordando:

— Está bem, está bem, aceito-o como meu discípulo. Mas preste atenção: terá de voltar à taberna esta noite e falar com o seu amo. Só depois deverá retornar aqui, compreendeu?

Afinal tranqüilizado, Joutaro se foi. Cedo, na manhã seguinte, Musashi disse:

— Obrigado pela longa hospedagem, estalajadeiro, mas pretendo seguir para Nara. Prepare um lanche para mim, por favor.

— Como? Já vai partir? — disse o estalajadeiro, espantado com a súbita resolução de Musashi, acrescentando: — Sei, é por causa desse pestinha corri seu pedido intempestivo...

— Absolutamente, não é por causa do garoto. Há muito desejava conhecer os lanceiros do famoso templo Hozoin em Nara, e creio que é chegada a hora. Pode ser que mais tarde o menino apareça por aqui e lhe crie problemas quando descobrir que me fui, mas...

— Ora, quanto a isso não se preocupe: como toda criança, vai chorar por algum tempo, mas logo se esquecerá por completo, tenho certeza.

— De mais a mais, creio que o taberneiro não concordará com a sua partida — disse Musashi, afastando-se da estalagem.

Pequenas ameixas vermelhas rolavam em meio à lama da estrada. A chuva se fora e o céu amanhecera lavado, sem nuvens: até o vento que roçava a pele vinha carregado de um novo frescor.

As chuvas haviam aumentado as águas do rio que agora corriam barrentas sob a ponte de madeira, à entrada da rua Sanjo. Ao pé da ponte, um numeroso grupo de bushi, todos a cavalo, detinha e examinava os transeuntes que por ali passavam. Em resposta às suas indagações, Musashi foi informado que o xogum, ora residindo em Edo, estava para chegar em breve a Kyoto para prestar homenagens ao Imperador. Na vanguarda de sua comitiva, diversos daimyo, senhores de grandes e pequenos feudos, já estavam chegando à cidade nesse dia; procediam portanto a um controle local, investigando os suspeitos, principalmente os rounin arruaceiros.

Musashi respondeu às perguntas dos oficiais com simplicidade e passou por eles sem dar grande importância ao fato. Repentinamente, porém, percebeu que se tornara um homem apartidário, sem convicções políticas: não era simpatizante da causa dos Toyotomi, de Osaka, nem dos Tokugawa, de Edo. Hoje, era apenas um rounin solitário.

Ao se lembrar de como partira para a batalha de Sekigahara, impetuoso e inconseqüente, levando consigo apenas uma lança, achou graça.

Se hoje lhe perguntassem que partido tomaria, o de Osaka ou de Edo, sabia que algo em seu íntimo o faria responder instintivamente: o de Osaka. Pois seu pai, Munisai, servira à casa Shinmen, partidária dos Toyotomi de Osaka. Além disso, as façanhas do poderoso herói Toyotomi Hideyoshi — um simples soldado da infantaria que ascendera à posição mais alta de regente do país — povoavam a mente de todos os goushi. Seus grandes feitos, que Musashi ouvira na infância, sentado à beira do fogo, não o deixavam esquecer a existência e a importância desse herói.

No entanto, Musashi aprendera uma lição: a lança que brandira em Sekigahara junto com os soldados daquele grande exército não lograra mover uma pedra sequei no enorme tabuleiro do destino, nem prestara um valioso serviço à casa Shinmen.

Teria feito sentido se tivesse entrado naquela guerra pronto para morrer, e lutado lealmente rezando pelo sucesso de seu suserano. Mas a bem da verdade, naquela ocasião um motivo muito diferente da lealdade os movia, a ele e a Matahachi: a sede de fama. Em resumo, tinham entrado naquela guerra pensando em lucro fácil sem grandes investimentos.

Mais tarde, porém, Takuan lhe ensinara: a vida é uma pérola preciosa. Hoje, percebia o tamanho do erro cometido: longe de dispensar grandes investimentos, a aventura em que se lançara exigira o empenho do maior bem do ser humano — a vida — em troca de um lucro irrisório — a fama — e caso a sorte o ajudasse, além de tudo. Musashi achou cômica a própria ingenuidade daqueles tempos.

Sentindo o suor umedecer-lhe a testa, Musashi descansou por instantes, pensando:

— Já devo estar chegando à cidade de Daigo...

Sem que disso tivesse consciência, a estrada o levara a considerável altura da montanha. De repente ouviu uma voz ao longe:

— Tiiiio!

Uma pequena pausa, e outra vez:

— Espere por mim!

Ao mesmo tempo, veio à mente de Musashi a imagem de um menino parecido com um kappa, o duende das águas, correndo a toda a velocidade contra o vento.

Acertara. Em instantes o vulto de Joutaro surgiu no extremo da estrada.

— Mentiroso! Você é um mentiroso!

Joutaro esbravejava, a boca escancarada, o rosto contraído prestes a irromper em choro, e se aproximava ligeiro, arfando ruidosamente.

 

 “Aí vem ele, finalmente!”, pensou Musashi, nada surpreso. Com um ligeiro sorriso, voltou-se à espera.

O menino vinha chegando com uma velocidade espantosa. O vulto de Joutaro, que agora voava certeiro em direção a Musashi, fazia lembrar vagamente um filhote híbrido de corvo e tengu. Com a aproximação, Musashi logrou discernir claramente sua indumentária extravagante e não conseguiu evitar que um novo sorriso lhe surgisse nos lábios. Suas roupas não eram as mesmas do dia anterior: tinha se trocado por outras melhores, especiais, usadas nas ocasiões em que saía a recados. Não obstante, continuavam curtas demais tanto na altura quanto no comprimento das mangas. À cintura, carregava uma espada de madeira maior que ele e trazia nas costas um sombreiro enorme. Mal o alcançou, Joutaro mergulhou nos braços de Musashi e, agarrando-se a ele, gritou:

— Você mentiu!

No mesmo instante irrompeu em choro.

— Que é isso, garoto? — disse Musashi, envolvendo-o em seus braços com carinho. Joutaro, contudo, não diminuiu o berreiro, ao que parecia tirando proveito do fato de estarem a sós numa estrada no meio das montanhas.

— É feio chorar. Pare com isso! — disse Musashi.

— Não quero saber! — gritava Joutaro, balançando-se nos braços de

Musashi. — Você que é um adulto enganou uma criança: isso é mais feio ainda. Ontem você me prometeu que eu seria seu discípulo e depois me largou e foi embora. Não está certo!

— Tem razão. Me perdoe — pediu Musashi. Ao ouvir isso, o choro mudou de tom, tornando-se sentido e dengoso. O muco escorria livremente do nariz.

— Pare de chorar, já lhe disse. Não tive a intenção de enganá-lo, mas você tem pai e um amo para quem trabalha. Mandei-o consultar seu amo porque sem o seu consentimento, não posso levá-lo comigo.

— Mas então, por que é que não me esperou chegar com a resposta, hein? — insistia Joutaro.

— É por isso que estou lhe pedindo desculpas. E você, falou com seu amo?

— Falei — respondeu Joutaro, parando enfim de chorar e arrancando duas folhas de uma árvore próxima. Ante o olhar admirado de Musashi, Joutaro levou-as ao nariz e assoou-se com estardalhaço.

— E então, que disse ele? — perguntou Musashi.

— Disse: “Vá”.

— Sei!

— Disse também: “Um pirralho maluco como você nunca será admitido como discípulo de um bom guerreiro ou em uma boa academia. Mas o hóspede da estalagem é famoso por ser um poltrão. Deve formar uma boa dupla com você. Vá e peça que o empregue como carregador ou pajem.” E me deu esta espada de madeira, como presente de despedida.

Musashi gargalhou e disse:

— Tem opiniões interessantes, esse seu amo.

— Passei em seguida pela estalagem, mas o vô tinha saído e não estava lá. E então, peguei para mim este sombreiro que estava dependurado no alpendre da casa.

— Mas este sombreiro fazia as vezes de um cartaz. Está escrito: “Estalagem”, não percebeu?

— Que importa? Melhor que ficar todo molhado na primeira chuva que vier — replicou Joutaro.

Parecia confiante outra vez, seguro de que já fora admitido como discípulo. Musashi resignou-se quando percebeu que não tinha como recusar. Ao pensar, porém, nas circunstâncias em que Aoki Tanzaemon caíra em desgraça e no encontro fortuito com seu filho, na estalagem, Musashi começou a considerar se não seria seu dever adiantar-se e assumir o futuro da criança.

— Ah, tinha me esquecido. Sabe que mais, tio? — disse Joutaro. Finalmente tranqüilizado, lembrara-se, e tirou de dentro do quimono uma carta.

— Achei. É isto — acrescentou, entregando-lhe. Musashi tomou-a, estranhando:

— Que é isto?

— Ontem à noite, quando fui à estalagem para lhe entregar saque, eu lhe falei de um rounin bêbado que estava na taberna e fez perguntas sobre você, lembra-se?

— Sim. Lembro-me de algo parecido.

— Pois esse rounin estava mais bêbado do que um gambá quando voltei à taberna, e me fez ainda mais perguntas. É um desses beberrões incorrigíveis: virou quase quatro litros de saque, imagine! E depois de tudo, escreveu esta carta e foi-se embora, me pedindo que lhe entregasse.

Intrigado, Musashi procurou o remetente no avesso do invólucro.

 

Ao ler o nome do remetente, Musashi teve uma surpresa: era de Hon’i-den Matahachi. A caligrafia era rude e até os ideogramas pareciam dançar ébrios.

— Matahachi! — exclamou Musashi, rompendo apressadamente o invólucro. Agitado por confusos sentimentos que iam da saudade à tristeza, leu com dificuldade os ideogramas mal escritos. A caligrafia desordenada era justificável, levando-se em conta que fora escrita depois de quase quatro litros de saque, mas o próprio teor da carta era confuso e, com muita dificuldade, Musashi por fim conseguiu decifrar seu sentido. Dizia:

Depois que nos separamos no sopé da montanha Ibuki, vivo com saudades de minha terra natal e de você, velho amigo. Por acaso, ouvi seu nome há alguns dias na academia Yoshioka. Será que o procuro? Será que não? Em dúvida e confuso, aqui estou nesta taberna, bebendo como um boi.

Até aqui, Musashi leu com certa facilidade. A partir deste ponto, as letras tornaram-se quase ilegíveis.

Cinco anos já se passaram desde que nos separamos. Levo uma vida indolente, preso à gaiola dourada da sedução, desperdiçando tempo e juventude.

Viva! Seu nome começa a despontar finalmente em Kyoto.

Dizem alguns: Musashi é fraco, um covarde, especialista na arte da fuga. Outros dizem: Musashi é magistral, sua habilidade é incomparável. — Tanto faz, pois conseguiu enlamear alguns nomes de Kyoto, famosos no mundo das artes marciais. Saúdo apenas a façanha.

Penso: você é inteligente. Com certeza será um guerreiro bem sucedido. Em contrapartida, olho para mim agora, e que vejo ? Como sou estúpido! Não sei como não morro de vergonha ao me comparar com você, meu sábio amigo.

Mas espere, vamos com calma: a estrada da vida é longa, nada está definido para sempre. Isso mesmo. Não quero vê-lo agora. Dia virá em que serei capaz de olhá-lo nos olhos, penso eu. Rezo pelo seu bem-estar.

Mas não era tudo. Havia ainda um longo pós-escrito, onde Matahachi expunha de maneira prolixa um assunto que parecia considerar urgente. Dizia que os quase mil discípulos da academia Yoshioka, profundamente despeitados com o episódio de há dias, procuravam por ele freneticamente e que, portanto, devia se cuidar. Prosseguia dizendo que Musashi não podia morrer agora, já que conseguira com tanto custo tornar-se conhecido no mundo das artes marciais e que também ele, Matahachi, esperava de algum modo alcançar o sucesso na vida; que quando esse dia chegasse, procurá-lo-ia e passariam momentos agradáveis rememorando os velhos tempos. Em consideração a esse seu sonho e como um incentivo a ele, Matahachi, Musashi deveria cuidar-se e preservar sua integridade física.

Esse era em linhas gerais o teor da carta. Matahachi dava a entender que escrevia movido pela amizade, mas Musashi sentiu nas entrelinhas o seu despeito.

“Por que não me deteve simplesmente dizendo: ‘Quanto tempo! Que prazer em revê-lo, meu amigo!’ “, pensava Musashi.

— Joutaro, você perguntou a essa pessoa onde ela morava? — indagou Musashi.

— Não — respondeu Joutaro.

— Será que sabem, na taberna?

— Acho que não.

— É freguês assíduo?

— Não, foi a primeira vez que o vi.

Era uma pena. Se soubesse onde morava, pensava Musashi, podia retornar a Kyoto mas, sem saber, não valia a pena.

Tinha ganas de sacudir Matahachi e corrigir seu caráter distorcido. Ainda conservava o velho sentimento fraternal com relação ao amigo, e estava ansioso por arrastá-lo de volta ao bom caminho, resgatá-lo da sua atual vida desregrada. E também por desfazer o mal entendido com Osugi, a idosa mãe de Matahachi.

Em silêncio, Musashi seguia em frente. A estrada entrou em declive na entrada de Daigo e logo abaixo surgiu a encruzilhada de Rokujizo.

Repentinamente, Musashi dirigiu-se ao menino:

— Joutaro, gostaria que se encarregasse de uma tarefa, sem perda de tempo.

 

— Que tipo de tarefa? — perguntou Joutaro.

— Quero que me leve um recado — respondeu Musashi.

— Até onde?

— A Kyoto.

— Ah, mas então... tenho de voltar atrás? Por quê?

— Quero que entregue uma carta minha na academia Yoshioka, da rua Shijo.

Joutaro não respondeu. Cabisbaixo, chutava pedregulhos com a ponta dos pés.

— Não quer? — perguntou Musashi, curvando-se e espreitando seu rosto.

— Não, não é isso... — respondeu Joutaro, balançando a cabeça sem muita convicção. — Por acaso não é uma desculpa para me deixar de novo para trás?

Fixou em Musashi um olhar repleto de desconfiança. Quem plantara a desconfiança na mente do menino? Musashi sentiu-se constrangido.

— Esqueça o que aconteceu ontem e me perdoe. Um bushi não mente jamais.

— Está bem. Então vou.

Em Rokuamida pararam numa casa de chá e compraram lanches embalados em pequenas caixas. Enquanto descansavam, Musashi redigiu a carta. Em linhas gerais, dizia:

Mestre Yoshioka Seijuro,

Chega a meus ouvidos a notícia de que está à minha procura por intermédio de seus discípulos. Neste momento, estou viajando pela estrada Yamato e pretendo passar quase um ano peregrinando por Iga, Ise e outras localidades com o intuito de aprimorar minha técnica, não estando em meus planos alterar o itinerário. Do mesmo modo que V. S., lastimo o fato de não nos termos conhecido por ocasião de minha visita à sua academia, há alguns dias. Dou-lhe, portanto, minha palavra: tornarei a visitá-lo em janeiro ou fevereiro do próximo ano. Estou certo de que, até lá, V. S. estará preparado para o encontro. De minha parte, adianto que tenciono enfrentá-lo depois de aprimorar ainda mais minha habilidade no decorrer deste ano. Rezo do fundo do meu coração para que uma derrota tão formidável quanto a que sofreu há alguns dias não venha a se repetir e que o glorioso nome do velho mestre Kenpo seja preservado.

Shinmen Miyamoto Musashi Masana

Embora polida, era uma carta altiva. No invólucro, escreveu: “Destinatários: Mestre Seijuro Yoshioka e Dignos Discípulos.” Joutaro recebeu a carta e tornou a frisar:

— Levo isto até a academia da rua Shijo e jogo-a lá dentro, certo?

— Nada disso. Entre pelo portão principal e entregue-a em mãos ao atendente, compreendeu?

— Já sei. Já sei.

— E aproveitando, gostaria que se encarregasse de mais uma missão. Esta talvez seja um pouco difícil para um menino da sua idade. Aceita?

— O quê? Que missão?

— O bêbado que lhe deu a carta ontem à noite é um velho amigo meu chamado Hon’i-den Matahachi. Quero que o encontre para mim.

— Essa é muito fácil.

— E de que jeito vai achá-lo?

— Pergunto nas tabernas.

— Bem pensado — riu Musashi. — Mas acho que existe um meio mais fácil. Entendi, pela carta que me escreveu, que Matahachi conhece alguém da casa Yoshioka. Pergunte por ele na academia.

— E depois?

— Depois, vá ao encontro de Matahachi e transmita-lhe o seguinte recado: “A partir do primeiro até o sétimo dia de janeiro do próximo ano, vou estar todas as manhãs sobre a ponte Oubashi da rua Gojo. Escolha uma manhã de sua conveniência e venha ao meu encontro, sem falta. Estarei à sua espera.” Diga-lhe que foi isso o que eu falei.

— É só?

— Somente. Insista que quero vê-lo sem falta. Entendeu?

— Está bem. E até eu voltar, onde é que você me espera, tio?

— Façamos assim: sigo viagem para Nara e, lá chegando, escolho uma hospedaria e espero por você. Quando terminar a sua missão, vá a Nara e procure o porteiro do Templo Hozoin. Deixarei com ele o nome da hospedaria que eu escolher.

— Promete?

—Ainda desconfia? — riu Musashi. — Se quebrar a promessa dessa vez, eu o deixo cortar minha cabeça.

Rindo ainda, afastaram-se da casa de chá, Musashi rumo a Nara, Joutaro retornando a Kyoto. A encruzilhada fervilhava de viajantes com sombreiros; relinchos de cavalos e andorinhas em vôos rasantes cortavam o ar. Joutaro, um pequeno vulto no meio da multidão, voltou-se. Musashi continuava em pé no mesmo lugar. Sorriram um para o outro e cada qual seguiu seu caminho.

 

NAS ASAS DO VENTO

Brisa do amor,

Brinca brejeira nas mangas do quimono.

Ó brisa, como pesam minhas mangas!

Pesaria o amor?

Cantarolando a canção que aprendera no dia em que assistira ao Okuni Kabuki, Akemi desceu às margens do rio Takasegawa, nos fundos da casa de chá, para lavar algumas peças de roupa em suas águas. Flores caídas no rio giravam lentamente ao seu redor e eram atraídas quando a jovem recolhia as peças da água.

Finjo indiferença,

E não mostro o que sinto.

Não o enganem, porém, seus olhos:

Quanto maior a indiferença

Mais profundo é o amor.

— Você canta muito bem, tia! — disse uma voz sobre o barranco. Akemi voltou-se:

— Quem é você? — perguntou.

Um garoto com uma enorme espada de madeira à cintura e gigantesco sombreiro atado às costas estava parado na margem do rio. Lembrava um anão. Ao perceber que Akemi o fitava agressivamente, girou as pupilas nos olhos redondos e sorriu com intimidade exibindo os dentes.

— De onde vem você? E não sou “tia” coisa nenhuma. Nem sou casada! — disse Akemi, mal-humorada.

— Está bem. Senhorita, então.

— Ora, que pirralho atrevido! Mal saiu das fraldas e já aprendeu a mexer com as mulheres. Trate de assoar o nariz, primeiro.

— Bem, é que preciso de uma informação.

— E essa agora! Viu o que fez? Você me distraiu e o rio me levou uma peça — irritou-se Akemi.

— Eu pego para você — disse Joutaro, correndo rio abaixo atrás da roupa arrastada pela correnteza. Alcançou-a usando a longa espada de madeira, útil nessas emergências, e retornou para perto de Akemi.

— Obrigada. Mas que queria saber? — perguntou.

— Sabe se há por aqui uma casa de chá chamada Hospedaria Yomogi?

— Ora, a Hospedaria Yomogi é nossa. É essa aí—disse Akemi, apontando às costas.

— Até que enfim! Procurei um bocado! — animou-se Joutaro.

— De onde vem você? — quis saber Akemi.

— Lá de trás.

— Bela resposta! Explicou tudo.

— É que nem eu sei direito de onde vim.

— Moleque mais esquisito! — murmurou Akemi.

— Quem? Quem é esquisito?

— Ninguém — replicou Akemi rindo disfarçadamente. — Mas que quer você em minha casa?

— Tem um homem chamado Hon’i-den Matahachi morando aí, não tem? Pelo menos foi a informação que os homens da academia Yoshioka, lá da rua Shijo, me deram. “Pergunte lá que eles sabem”, foi o que me disseram.

— Não mora, não.

— Mentira!

— É verdade, não mora mais. Antigamente morava.

— Para onde foi, então?

— Não sei.

— Vá ver lá dentro se alguém sabe, vá.

— Mas se nem minha mãe sabe! Ele fugiu de casa.

— E esta, agora!

— Quem foi que o mandou aqui à procura dele?

— Meu mestre.

— E quem é seu mestre?

— Miyamoto Musashi.

— Trouxe uma carta ou uma encomenda?

— Nada—respondeu Joutaro, balançando a cabeça negativamente. Parecia perdido, fitando os pequenos redemoinhos que se formavam no remanso.

— Você é um mensageiro bem estranho, reconheça. Não sabe de onde vem e não traz nenhuma carta.

— Mas trago um recado.

— Que recado? Se por acaso Matahachi-san voltar — por mim acho que não volta nunca mais... — mas se voltar, eu mesma lhe dou o recado.

— Até que a idéia é boa, não acha?

— Eu é que sei? É você quem tem de decidir.

— Então está decidido. Olhe, ele disse que quer se encontrar sem falta com esse tal Matahachi.

— Ele quem? — perguntou Akemi impaciente.

— Meu mestre, Miyamoto-sama, ora! É o seguinte, preste atenção: meu mestre mandou dizer a esse homem, Matahachi, que entre os dias primeiro e sete de janeiro do próximo ano estará todas as manhãs sobre a ponte Oubashi da rua Gojo, esperando por ele. Pediu para ele escolher um dia e comparecer sem falta — explicou Joutaro.

Akemi rolava de rir.

— Mas vejam só que recado. O homem vai esperar sete dias! Que sossego! Esse seu mestre é quase tão excêntrico quanto você. Ai, estou com dor de barriga de tanto rir — gemeu Akemi, entre acessos de riso.

 

— Que é, hein? Está rindo de quê? Tontona! — interrompeu-a Joutaro, furioso.

Akemi parou de rir abruptamente, espantada com a zanga do menino.

— Você se ofendeu? — perguntou.

— E claro! E eu, que pedi com tanta educação.

— Desculpe. Prometo não rir mais. E também que passo o recado sem falta a Matahachi-san, caso apareça por aqui.

— De verdade?

— De verdade — assegurou Akemi. Careteou, tentando disfarçar um novo acesso de riso. — Como é mesmo o nome da pessoa que mandou o recado?

— Miyamoto Musashi. Você se esquece fácil, hein?

— Como se escreve? — quis saber Akemi.

Joutaro apanhou um galho de bambu caído nas margens do rio e curvando-se, escreveu na areia:

— Assim.

Akemi contemplava fixamente os ideogramas traçados na areia.

— Ah... mas então, ele se chama Takezo, não é verdade? — perguntou hesitante.

— Não, não, ele se chama Musashi — retorquiu Joutaro, categórico.

— Mas Musashi e Takezo se escrevem com os mesmos ideogramas — insistiu Akemi.

— Mas lê-se Musashi, teimosa! — contradisse Joutaro.

A vareta que Joutaro furiosamente lançara no rio flutuava e ia sendo pouco a pouco arrastada pela correnteza. O olhar de Akemi, no entanto, continuava preso ao nome traçado na areia. Perdida em pensamentos, nem sequer pestanejava. Momentos depois seu olhar transferiu-se para os pés de Joutaro, percorreu seu pequeno corpo e subiu devagar ao seu rosto. Parecia ver o menino pela primeira vez ao lhe perguntar, quase num sopro:

— Por acaso esse seu mestre, Musashi-sama, não vem de Yoshino, na província de Mimasaka?

— Isso. Eu sou de Banshu, meu mestre é da vila Miyamoto. Nossas terras são vizinhas.

— É um homem alto, viril... Ele não usa os cabelos raspados na frente, usa?

— Ué, como é que você sabe? — perguntou Joutaro, desconfiado.

— Um dia, ele me contou que teve um furúnculo na testa, em criança, e não raspava o cabelo porque tinha uma cicatriz feia no lugar.

— Quando foi isso?

— Há quase cinco anos — no outono do ano da batalha de Sekigahara.

— Puxa, você conhece meu mestre há tanto tempo assim?

Akemi não conseguiu responder. Perdera a fala pois as lembranças daqueles dias turbilhonavam em seu íntimo como uma sonora melodia, descompassando seu coração. “É ele, Takezo-san!”, pensava. No decorrer de todos esses anos viera observando o comportamento da mãe, a transformação por que passara Matahachi. Como resultado, aprofundava-se cada vez mais em seu íntimo a certeza de que acertara ao escolher Musashi entre os dois. “Eu sabia,” dizia para si mesma, “ele é muito diferente de Matahachi-san.” Tinha certeza de que seu destino não se prendia a nenhum dos muitos homens que freqüentavam a casa de chá. Tratava com frio desprezo os homens afetados que a procuravam, pois somente a imagem de Takezo, que conhecera há cinco anos, povoava os sonhos dessa jovem ainda virgem. Refugiada nas canções que entoava, cultivava com carinho os sonhos de um futuro que, assim esperava, não estaria muito distante. E secretamente orgulhava-se da vida solitária que levava.

— Se você encontrar esse tal Matahachi, passe-lhe o recado sem falta. Combinado?

Dando por encerrada a missão, Joutaro subiu às carreiras o barranco, apressando-se em seguir caminho.

— Espere um pouco, menino! — gritou Akemi, correndo no seu encalço e detendo-o pela mão. A intensidade do rosto afogueado de Akemi, desesperada à procura de palavras, fazia-a tão bela que Joutaro desviou o olhar, deslumbrado.

 

— Como é que você se chama? — perguntou Akemi febrilmente.

— Joutaro — respondeu o menino, contemplando com uma careta a jovem que, presa de intensa comoção, lhe parecia tão sedutora.

— Quer então dizer que você vive com Takezo-san, Joutaro? — perguntou Akemi.

— Musashi-sama, já disse! — replicou Joutaro, enfático.

— Isso, com... Musashi-sama — repetiu Akemi.

— Isso mesmo.

— E onde é que ele mora? Tenho de vê-lo, custe o que custar.

— Mas ele não tem residência fixa.

— Como assim?

— Ele é um samurai peregrino. Viaja por todos os lados para aprimorar sua técnica.

— Mas então, onde está hospedado neste momento?

— Ficou combinado que ele me deixaria um recado no templo dos lanceiros Hozoin, em Nara.

— Ah, mas então não está em Kyoto!

— Mas volta, no ano que vem. Lá pelo mês de janeiro.

Akemi parecia refletir, perdida em pensamentos. Nesse instante, uma voz que vinha da janela da cozinha às suas costas disse:

— Por que tanto demora, Akemi? Não fique dando trela a esse filhote de mendigos e termine o serviço de uma vez! — ordenou Okoo.

Nessas ocasiões, Akemi mal continha a revolta contra a mãe, reprimida no cotidiano.

— Não vê que estou tentando compreender direito o recado que esse menino trouxe para Matahachi-san? E não sou sua empregada — respondeu, malcriada.

Os ombros tensos de Okoo, visíveis da janela, estremeceram de ira contida. Estava num de seus dias. Lançou a Akemi um olhar malévolo que parecia dizer: “E quem foi que sustentou você até hoje, sua grosseira?”

— Matahachi? Que tem o menino a ver com Matahachi? Diga-lhe que Matahachi já não faz parte de nossa família e mande-o embora. No mínimo mandou esse pirralho mendigo com algum recado porque não tem coragem de aparecer na minha frente. Não perca tempo com isso — ordenou Okoo.

Joutaro abriu a boca, estupefato:

— Está pensando o quê? Não sou mendigo, não — murmurou., Da janela, Okoo observou os dois atentamente e tornou a mandar:

— Entre de uma vez, Akemi.

— Mas sobraram algumas peças por lavar na beira do rio — insistiu Akemi.

— Deixe o resto por conta da serviçal. Imagine se Seijuro-sama aparece de repente e a vê nesse estado! É capaz de sair correndo. Vá se banhar e se arrumar logo.

— Grande coisa! O nojento... Vou ficar muito feliz se ele sair correndo — retrucou Akemi, correndo para casa a contragosto, o aborrecimento transparecendo em sua fisionomia. No mesmo instante Okoo também se retirou da janela. Joutaro ergueu a cabeça e falou, fixando os olhos na janela agora fechada:

— Feiosa! Velha desse jeito e com a cara toda pintada! Há, há! A janela tornou a se abrir no mesmo instante e Okoo gritou:

— Que foi que disse? Repita!

— Ih, a velha escutou! — disse Joutaro, batendo rapidamente em retirada. Não conseguiu evitar, porém, que o conteúdo de uma panela com os restos de uma sopa rala atingisse sua cabeça. Jotaro sacudiu-se todo, como um cachorro molhado. Pinçou com dois dedos um pedaço de verdura que aderira ao seu pescoço e contemplou-o com uma careta. Saiu correndo então, cantando a plenos pulmões uma modinha insolente, extravasando a raiva:

Numa viela escura

Do templo Honnoji

Mora uma bruxa velha

De cara branca empetecada,

Que pariu um filho loiro, Que pariu outro ruivo.

Trololó, trololó, trololó.

 

CAMINHOS QUE SE CRUZAM

A parelha de bois arrasta uma carreta com fardos de arroz, ou talvez de feijão azuki, empilhados a grande altura. Uma placa de madeira fincada no topo da pilha anuncia em nítidos caracteres negros a dádiva de algum abastado paroquiano:

DOAÇÃO AO TEMPLO KOUFUKUJI

O templo Koufukuji situa-se em Nara. Ao mencionar Nara, qualquer um se lembra do templo Koufukuji. Joutaro também se lembrou e sorriu feliz:

— Aí vai uma carreta, bem para onde eu quero. Tá no jeito.

Correu a alcançá-la e num pulo sentou-se em sua traseira. Ajeitou-se confortavelmente, dando as costas para a frente. Conseguiu até se recostar nos fardos.

Morros cobertos de arbustos de chá arredondados e cerejeiras em início de floração ladeavam a estrada. Nos arrozais, lavradores aravam a terra rezando por mais um ano de paz no país e pela preservação dos brotos de arroz, longe dos pés dos soldados e das patas de seus cavalos. Mulheres de lavradores lavavam verduras nas águas de um riacho. Reinava uma quase tediosa paz na estrada Yamato.

— Assim é que eu gosto! — observou Joutaro, contente. Talvez pudesse tirar uma soneca. Quando acordasse, estaria em Nara, imaginou otimista. Às vezes, as rodas do carroção passavam sobre pedras que preenchiam, aqui e ali, os profundos sulcos deixados por outras carretas na estrada. Nesses momentos, o carroção gemia e estremecia, mais um motivo de alegria para o menino, já satisfeito pelo simples fato de estar repimpado num veículo em marcha. Seu pequeno coração batia acelerado e feliz.

“Ei, tem uma galinha cacarejando alto em algum lugar. Cuidado, tia, acho que tem uma doninha roubando seus ovos. Quem será o menino chorando na beira da estrada? Mas também, que tombo ele levou! Aí vem um cavalo a galope.”

Todos os acontecimentos que desfilavam perante seus olhos eram motivo de especulação. A vila ficou para trás, e agora trafegavam por um trecho ladeado de árvores. Joutaro arrancou uma folha de camélia e, levando-a aos lábios, dela extraiu um agudo assobio. Satisfeito, pôs-se a cantar, entremeando assobios à canção:

Se o cavalo leva às costas

Um valente general,

‘Ikezuki’ou ‘Surusumi’[59] tem de ser seu nome,

E seus arreios são dourados.

Se o cavalo vem dos campos,

Ou da lama do arrotai,

É pobreza o ano inteiro:

Marcha mais, carrega mais,

É pobreza o ano inteiro.

— Que foi isso? — estranhou o condutor que ia na frente da parelha. Voltou-se, mas como nada viu, seguiu caminho.

Um assobio agudo, cadenciado, tornou a soar. Dessa vez, o condutor abandonou as rédeas e deu volta ao carroção. Repentinamente, um soco acertou em cheio a cabeça de Joutaro.

— Moleque malandro! — esbravejou o condutor da parelha.

— Ai-ai! — berrou Joutaro.

— Quer dizer que pegavas carona na traseira da carroça, moleque?

— Que tem? Não posso?

— Claro que não.

— Mas se não é você que puxa o carroção, tio!

— Não banques o engraçadinho.

No instante seguinte Joutaro foi desalojado e lançado ao solo. Seu corpo rolou e parou de encontro às raízes das árvores, na beira da estrada. A carroça se afastou. Aos olhos do menino, parecia sacolejar zombeteira pelos sulcos da estrada. Joutaro ergueu-se, massageando as coxas. De repente, fez uma careta e seus olhos passaram a examinar os arredores.

— Ih, será que perdi? — murmurou. Dera por falta da resposta à carta de Musashi que os homens da academia Yoshioka lhe haviam entregue quando passara por lá. Joutaro a introduzira num tubo de bambu protegendo-a cuidadosamente e, a partir de determinado trecho, andara com ele pendurado ao pescoço por um barbante.

— E agora... e agora? — Seus olhos passaram a vasculhar uma área que aos poucos se ampliava. Nesse momento, uma jovem viajante aproximou-se e perguntou-lhe gentilmente:

— Perdeu alguma coisa?

Joutaro lançou um rápido olhar de esguelha ao rosto sorridente sob o sombreiro e grunhiu inseguro:

— Hu-hum. — O menino logo voltou para o chão o olhar que percorria a área ao redor, enquanto balançava a cabeça sem parar.

 

— Dinheiro? — perguntou a jovem.

— Não — respondeu Joutaro mecanicamente, perturbado. A jovem sorriu de novo e disse:

— Não seria por acaso um tubo de bambu de uns 30 centímetros, com um barbante na ponta?

— Isso mesmo! — concordou Joutaro ansioso.

— Você passou há pouco pelo templo Manpukuji e andou mexendo com uns cavalos de carga amarrados no moirão, lembra-se? O condutor até se zangou e gritou com você...

— Hã...

— Você saiu correndo, o barbante se partiu e vi o tubo cair. Nesse momento, um senhor, um samurai que conversava com os condutores dos animais, apanhou-o. Volte atrás e pergunte a ele.

— Está me dizendo a verdade?

— Claro!

— Muito obrigado! — disse Joutaro, pronto a refazer correndo o percurso.

— Espere um instante — deteve-o a jovem — não precisa retornar. Está vendo esse homem sorridente vestindo um fino hakama que se aproxima? É ele.

— Tem certeza? — quis saber Joutaro, fixando com firmeza o vulto que vinha chegando.

Era um homem excepcionalmente robusto, aparentando cerca de 40 anos. Alto, de ombros e tórax bem mais largos que o padrão, tinha uma barba negra e cerrada que lhe envolvia o queixo. Os pés, protegidos por macias meias de couro, calçavam sandálias de palha e pisavam o solo com visível firmeza, dignamente. Era sem dúvida um respeitável karô, ou seja, o súdito mais graduado de algum famoso daimyo, avaliou Joutaro, sentido-se incapaz de dirigir-se a ele com sua costumeira familiaridade. Por sorte, o próprio samurai dirigiu-lhe a palavra:

— Menino!

— Sim, senhor! — acudiu Joutaro prontamente.

— Não foi você que deixou cair há pouco este porta-correspondências perto do templo Manpukuji? — perguntou o samurai desconhecido.

— Que sorte! Achei! Achei! — exclamou Joutaro, aliviado.

— Em primeiro lugar, agradeça, pois quem o achou fui eu — ralhou o homem.

— Obrigado! — disse o menino, bem depressa.

— Um mensageiro portando uma resposta importante como esta não deve andar mexendo com cavalos ou pegando carona em traseira de carroções. Não é assim que se serve a um amo, certo?

— Andou lendo a carta? — indagou Joutaro, desconfiado.

— Quando se acha um objeto como este, em primeiro lugar verifica-se o seu conteúdo. Este é o procedimento correto. No entanto, nunca se deve violar o lacre de uma carta que se achou. Quanto a você, ao receber de volta o que perdeu, verifique também a integridade do conteúdo. Compreendeu?

Joutaro tirou a tampa do tubo de bambu e espiou o interior. A carta da academia Yoshioka estava lá. Enfim tranqüilizado, repôs o laço no pescoço e murmurou baixinho:

— Nunca mais a perco.

Vendo a alegria do menino, a jovem — que a tudo assistia em silêncio — alegrou-se também e, dirigindo-se ao samurai, externou o agradecimento que o garoto estouvado não fora capaz de expressar:

— Muito obrigada por sua consideração.

O samurai barbudo acertou o passo com o da jovem e do menino e perguntou:

— Este moleque está em sua companhia, minha jovem?

— Não, ele me é completamente desconhecido — esclareceu ela.

— Bem vi que não combinavam — riu o homem. — Tem um jeito peculiar, o garoto, não acha? É impagável esse sombreiro com o anúncio “Estalagem”.

— Sua simplicidade é comovente. Fico imaginando até onde irá desse jeito — comentou a jovem.

Ladeado pelos dois adultos, Joutaro recuperara a animação e a verve:

— Quem, eu? Vou até o templo Hozoin, em Nara — interveio prontamente. Seus olhos fixaram-se num gasto invólucro de brocado que despontava entre as pregas do obi da jovem.

— Ora, vejam só, você também está levando uma carta num porta-correspondência? Tome cuidado para não deixar cair — aconselhou Joutaro.

— Que porta-correspondência? — indagou a jovem.

— Isso que você tem em seu obi, ora — replicou o menino.

— Mas isto não é um porta-correspondência — riu a jovem — é uma flauta transversal.

— Flauta, é? — disse Joutaro, os olhos brilhando de curiosidade, aproximando o rosto audaciosamente da cintura da jovem. De súbito, seu olhar fixou-se em seus pés e depois percorreu todo o seu corpo, de baixo a cima, analisando-o com cuidado.

 

Embora fosse uma criança, seus olhos sabiam reconhecer uma mulher bonita. E se competência lhe faltava para avaliar plenamente a beleza, sobrava-lhe sensibilidade para captar, com a ingenuidade típica das crianças, a pureza de uma jovem. De repente, Joutaro sentiu-se muito feliz por estar viajando em companhia de uma pessoa tão bela. Seu pequeno coração disparou e tinha a sensação que pisava em nuvens.

— Está certo, uma flauta! — murmurou para si mesmo, admirado. — Você sabe tocar flauta, tia? — perguntou.

Num instante, Joutaro lembrou-se da garota da Hospedaria Yomogi e de como ela se zangara ao ser chamada de “tia”. Confuso, atropelou suas últimas palavras com a primeira pergunta que lhe veio à cabeça:

— Como é que você se chama, senhorita?

A intempestiva pergunta, feita com toda a simplicidade, provocou o riso da jovem que, sem responder, voltou o rosto sorridente e fitou o samurai, do outro lado de Joutaro. O samurai, cujo rosto barbudo lembrava um urso, gargalhou mostrando dentes brancos e saudáveis:

— Não tem nada de bobo, esse moleque! — comentou. — Preste atenção, meu filho: faz parte da etiqueta anunciar primeiro o próprio nome antes de perguntar o dos outros, entendeu?

— Eu sou Joutaro — disse ele prontamente.

A jovem tornou a rir, divertida com os seus modos.

— Ah, assim não vale! Eu já disse o meu nome, mas você não diz o seu. Já sei: diga o seu primeiro, obuke-san[60].

— Meu nome? — repetiu ele, um tanto embaraçado. — Shoda — acrescentou rápido.

— Shoda-san. E seu prenome?

— Não vem ao caso — atalhou Shoda.

— Está bem. Agora é a sua vez, senhorita. Dois homens já deram os seus nomes. Se não revelar o seu, estará contrariando as regras da cortesia, acho eu — insistiu Joutaro.

— Eu me chamo Otsu — disse a jovem.

— Otsu-sama. Está bem! — entusiasmou-se o menino. Satisfeita a curiosidade, passou sem pausa para outro assunto:

— E por que anda com uma flauta enfiada no meio do seu obil

— Porque é um objeto precioso. Dele depende minha subsistência — explicou Otsu.

— Então você é flautista, Otsu-sama?

— Isso mesmo. Nem sei se existe essa profissão, mas é graças a ela que tenho estado viajando por tanto tempo. Acho, portanto, que pode me chamar de flautista.

— Sua flauta é do tipo usado pelos músicos que tocam kagura, as melodias sagradas do xintoísmo, como nos templos de Gion e Kamo? — perguntou Joutaro.

— Não.

— É igual à dos flautistas das bandas que acompanham bailados, nesse caso — insistiu.

— Também não.

— Qual o tipo, então?

— Uma simples flauta transversal — respondeu Otsu. Shoda fitou a longa espada de madeira de Joutaro e perguntou:

— E que faz você com isso, Joutaro?

— Ora, não sabe para que serve uma espada de madeira, obuke-san?

— Estou lhe perguntando qual o sentido disso, moleque.

— É para eu aprender a esgrimir, naturalmente.

— Já tem um mestre?

— Claro!

— Que deve ser o destinatário da carta dentro desse tubo. Acertei?

— Isso mesmo.

— Imagino que seu mestre seja um espadachim bastante habilidoso.

— Nem tanto.

— É ruinzinho?

— Parece. O povo assim diz.

— Que azar o seu.

— Não faz mal. Eu também não sou de nada.

— Aprendeu alguma coisa?

— Mas ele ainda não me ensinou nada. Shoda riu das respostas do menino e disse:

— Andar com este menino quebra a monotonia da viagem. E quanto a você, minha jovem? Até onde pretende seguir?

— Não tenho um destino fixo. Na verdade, estou há alguns anos à procura de certa pessoa que desejo rever a qualquer custo. Como soube que ultimamente muitos rounin têm convergido para a cidade de Nara, para lá me dirijo na esperança de encontrar essa pessoa, embora não tenha uma pista concreta.

 

A ponte Ujibashi despontava adiante.

Um velho de fina aparência, tendo ao lado uma bojuda chaleira de ferro, havia se instalado na varanda da Casa de Chá Tsuen, e servia o chá com elegância aos viajantes que paravam para descansar sob seu teto. A beleza da paisagem realçava o seu serviço, e disso sabia tirar partido o idoso homem. Ao perceber o vulto de Shoda que nesse momento se aproximava da casa de chá, dirigiu-lhe a palavra com a familiaridade de velhos conhecidos:

— Bem-vindo seja, senhor. Terei a honra de receber em minha casa o súdito do venerando suserano de Koyagyu?

— Por certo. Quero descansar um pouco. E dê alguns doces ao menino que aí está — pediu Shoda ao velho.

Mal ganhou os doces, Joutaro escolheu uma colina próxima e a escalou correndo, esquecido de que haviam parado para descansar os pés. Otsu sorveu o chá apreciando seu delicado aroma e perguntou:

— Estamos muito longe de Nara, ainda?

— Sim. Mesmo um andarilho muito rápido não consegue chegar além de Kizu antes do anoitecer. Uma mocinha como você conseguirá no máximo chegar a Taga ou Ide, onde terá de pernoitar — respondeu o velho. O barbudo samurai, Shoda, interveio:

— Esta mocinha diz que está indo a Nara à procura de alguém que tenta encontrar há alguns anos. Que acha da idéia de uma garota sozinha em Nara, hoje em dia? Eu não gosto disso.

O ancião arregalou os olhos assustado:

— Nem pensar! — exclamou, abanando a mão. — Não a deixe ir, senhor. Se ao menos soubesse com certeza onde encontrar a pessoa que procura, seria diferente. Mas se esse não for o caso, para que se aventurar numa área tão perigosa?

O velho dono da casa de chá citou a seguir diversos casos verídicos para ilustrar a má fama da cidade. Explicou, servindo-se também de uma chávena, que à menção da cidade de Nara vem à mente do cidadão comum a pacífica imagem de antigos templos azul-turqueza e dos meigos olhos dos cervos que abundam em seus pátios. A tranqüila paisagem da velha cidade, que antigamente sediara a capital do país, não seria jamais tocada por fome ou guerras, acreditavam todos. A realidade, contudo, era bem outra.

Logo após a batalha de Sekigahara, um incalculável número de rounin saídos dos exércitos derrotados haviam buscado esconderijo no trecho compreendido entre a cidade de Nara e a montanha Kouyasan. Eram todos partidários da casa Toyotomi, de Osaka, e haviam integrado as forças militares da coalizão ocidental. Já não recebiam estipêndios, tampouco estavam capacitados para outras profissões. Na atual situação de franca expansão do xogunato Tokugawa, cujo poder se centralizava em Edo, a leste do país, esses homens não tinham sequer o direito de andar pelas ruas em plena luz do dia.

Uma teoria, aceita de um modo geral, calculava que a batalha de Sekigahara fora responsável pelo surgimento, nesses últimos cinco anos, de cerca de 120 a 130 mil samurais destituídos de suas funções.

Dizia-se também que, depois da referida batalha, o xogunato Tokugawa confiscara feudos que respondiam pela colheita de 6.600.000 koku, ou seja, de 33 milhões de alqueires de arroz, cada alqueire correspondendo a 180 litros do cereal. Encerrado o confisco, é verdade que alguns daimyo haviam conseguido permissão para restaurar seus feudos. Mesmo subtraindo-se o número destes, porém, ainda restavam quase 80 daimyo proscritos, cujas terras somadas respondiam pela produção de 20 milhões de alqueires de arroz. Calculando-se que cada 100 koku confiscados tenha dado origem a três rounin, dizia-se que os rounin surgidos nas diversas províncias e que haviam mergulhado no submundo, somados ao número de seus familiares e pessoal dos feudos de origem, totalizavam no mínimo 100 mil.

Áreas ao redor da cidade de Nara e da montanha Kouyasan, em particular, onde se erguiam inúmeros templos historicamente refratários ao controle militar, transformavam-se em potenciais esconderijos para tais rounin. Assim era que se conseguia rapidamente enumerar, logo de cabeça, Sanada Yukimura, oculto na montanha Kudoyama; o rounin do norte Kita Juzaemon, nas florestas da montanha Kouyasan; Sengoku Souya, nas proximidades do templo Houryuji; Ban Dan’emon, nas vielas de estreitos geminados do templo Koufukuji; sem falar em Goshuku Manbei ou em sicrano e beltrano das tropas do general Konishi, algures. Eram, todos eles, bravos e temidos guerreiros que, inconformados com a própria situação de clandestinidade, rezavam com fervor pelo retorno dos tempos de guerra, como rãs chamando chuva em dia de sol.

Ainda que na clandestinidade, esses renomados rounin tinham meios — embora modestos — para se manter, e certa dignidade em seu comportamento. O mesmo não se podia dizer dos samurais sem destino que infestavam as estreitas vielas da periferia de Nara e que, para sobreviver, haviam chegado ao ponto de vender as próprias espadas. Desesperados, anarquizavam a sociedade, agora sob o regime Tokugawa, enquanto esperavam, dia após dia, por um eventual indício de levante dos derrotados correligionários ocidentais, cujo poder centralizador era representado pelo castelo de Osaka. Sendo esta a atual situação da área, uma mocinha de sua beleza dirigir-se para lá seria o mesmo que uma mosca rumar direto para uma teia de aranha, dizia o velho proprietário da casa de chá, tentando insistentemente dissuadi-la.

 

Ao ouvir os detalhes, ir para Nara pareceu a Otsu uma idéia tenebrosa. A jovem permaneceu em silêncio, pensativa.

Se ainda tivesse uma pista, por mais tênue que fosse, não teria hesitado em enfrentar qualquer tipo de perigo. Infelizmente, não contava no momento com nenhuma indicação. A partir da ponte Hanadabashi, à entrada da cidade de Himeji, Otsu andara apenas vagando sem destino, dia após dia, de um lugar a outro, anos a fio. E agora estava no meio de outra dessas viagens sem fim.

— Otsu-san — disse o barbudo Shoda, espiando o rosto tenso da jovem. — É assim que se chama, não é? Pois bem, Otsu-san, tenho algo que estava querendo lhe propor há algum tempo: que acha de desistir da viagem a Nara e me acompanhar a Koyagyu?

O samurai revelou a seguir sua verdadeira identidade, dizendo:

— Meu nome é Shoda Kizaemon e sou súdito da casa Yagyu. Pois meu idoso suserano, que já está na casa dos 80, anda ultimamente bastante debilitado. O tédio o atormenta. Ao saber há pouco que você ganha a vida tocando flauta, ocorreu-me que talvez pudesse distraí-lo com a sua arte. Gostaria muito que aceitasse minha proposta e me acompanhasse.

Ao lado, o velho proprietário da casa de chá apoiou a idéia com veemência, dizendo:

— Siga na companhia deste senhor, mocinha. Talvez já tenha ouvido falar dele, mas trata-se do velho suserano de Koyagyu, Yagyu Muneyoshi-sama. Retirou-se da vida ativa há algum tempo e adotou o nome Sekishusai. Seu filho, o jovem suserano Munenori-sama, foi oficialmente convocado a Edo logo após a batalha de Sekigahara, e serve agora ao clã do xogum Tokugawa como instrutor marcial. Não achará com facilidade uma casa tão ilustre quanto esta para servir, senhorita. Acompanhe-o, insisto, pois poderá nunca mais ter a sorte de ser convidada a servir numa mansão como essa.

Ao saber que seu companheiro de viagem era o vassalo mais importante de uma casa famosa no meio militar, Otsu viu suas suspeitas confirmadas: os finos modos de Kizaemon só podiam indicar alguém de posição superior.

— Não lhe agradou a proposta? — indagou Kizaemon.

— Muito pelo contrário, nada seria melhor para mim, senhor. Uma coisa, no entanto, me preocupa: minha flauta estaria à altura do gosto de tão ilustre suserano? — disse Otsu.

— Que tolice. Existe uma grande diferença entre o idoso suserano Yagyu e os daimyo comuns. Como acabou de ouvir, meu amo até mudou seu nome para Sekishusai, e pretende gozar o restante de seus dias de um modo simples, como um velho apreciador da arte do chá. Ao contrário do que se espera, esse tipo de constrangimento é até capaz de aborrecê-lo.

Otsu sentiu então nascer uma esperança: a casa Yagyu, surgida depois da casa Yoshioka, era a mais ilustre da atualidade graças ao seu poder militar. Em conseqüência, samurais peregrinos de diversas províncias para lá deveriam acorrer em busca de aprimoramento. Imaginou então que talvez houvesse um livro em sua academia registrando o nome dos que lhe batiam à porta, e como ficaria feliz, caso entre eles encontrasse o nome Miyamoto Musashi Masana que há tanto tempo procurava. Seu rosto repentinamente iluminou-se:

— Aceito então com grande prazer o seu convite.

— Consente, então? Pois acaba de me dar uma grande alegria! — entusiasmou-se Kizaemon. — Resolvido este assunto — prosseguiu — devemos retomar imediatamente a viagem. Contudo, uma mocinha frágil como você não terá condição de chegar à província de Koyagyu antes do anoitecer. Importa-se de andar a cavalo, Otsu-san?

— Nem um pouco — respondeu Otsu.

Kizaemon afastou-se da varanda, levantou a mão para a base da ponte Ujibashi e fez um sinal. Um dos muitos condutores de cavalo que se agrupavam na área acorreu. Kizaemon acomodou Otsu na sela e prosseguiu a pé, a seu lado.

Joutaro, que havia subido no morro por trás da casa de chá, descobriu os dois nesse instante e aproximou-se correndo:

— Já vão embora? — perguntou de longe.

— Estamos de partida, menino! — confirmou Kizaemon.

— Esperem por miiim!

Joutaro alcançou-os no meio da ponte. Quando Kizaemon lhe perguntou que andara fazendo, Joutaro respondeu que estivera espiando um grupo de adultos que se divertia com um jogo interessante no bosque do morro onde subira.

O condutor de cavalos riu e disse:

— Patrão, isso que ele viu foi um grupo de rounin jogando bakuchi, um jogo de azar. As coisas andam muito feias, pois esses rounin esfaimados atraem os transeuntes e, depois de lhes roubar até a roupa do corpo, os põem a correr.

 

Sobre o dorso do cavalo seguia a bela jovem, o rosto protegido por um sombreiro; acompanhavam-na de cada lado Joutaro e Shoda Kizaemon e, à frente, o condutor do animal.

O grupo atravessou a ponte e aproximou-se do barranco do rio Kizu. Centenas de andorinhas esvoaçavam sobre a planície de Kawachi, enevoando o céu. Por instantes, o grupo pareceu caminhar dentro de uma pintura.

— Quer dizer então que esses rounin se dedicam habitualmente ao bakuchi? — perguntou Kizaemon ao condutor, retomando o assunto.

— Se isso fosse tudo, até que não seria tão mal. Mas costumam também praticar extorsões, raptar mulheres... O pior é que são muito fortes, invencíveis.

— E que faz o suserano deste feudo?

— O suserano até que os prenderia, se fossem apenas algumas dezenas deles. Mas se os rounin de Kawachi, Yamato e Kigawa se juntarem, acabarão enfrentando o exército do suserano.

— Ouvi dizer que estão também em Koga...

— Esses são os rounin de Tsutsui. Estão todos inconformados e, se não houver uma nova guerra, acho que não será possível acabar com eles.

Joutaro, que ouvia a conversa calado, interrompeu-os bruscamente:

— Só ouço falar mal dos rounin, mas há gente séria no meio deles, não há?

— Claro que sim — respondeu Kizaemon.

— Não se esqueçam que meu mestre também é um rounin — salientou o menino agressivamente.

Kizaemon riu, divertido:

— Então é esse o motivo do seu ar amuado. Muito bem, garoto, mostrou lealdade ao seu mestre. Por falar nisso, disse há pouco, se não me engano, que seguia para o templo Hozoin. Por acaso seu mestre pertence ao templo?

— Nada disso. Ele vai apenas me deixar um recado no templo, dizendo onde estará hospedado — esclareceu Joutaro.

— Qual o seu estilo?

— Não sei.

— Belo discípulo esse que não sabe o estilo adotado por seu mestre. O condutor interrompeu-os de novo:

— É que hoje em dia a esgrima está em voga, patrão. Qualquer pé rapado escolhe esse caminho. Se der-se ao trabalho de contar, só neste trecho da estrada vai ver de cinco a dez samurais peregrinos por dia.

— Tantos assim? — perguntou Kizaemon, surpreso.

— Acho que é conseqüência desse aumento geral de rounin — observou o condutor com ar entendido.

— Talvez tenha razão.

— E sabe por que toda essa popularidade da esgrima, patrão? Porque os bons são muito requisitados: os daimyo logo oferecem 500 a 1000 koku. Deve ser por isso que escolhem essa carreira.

— Sei... um atalho para o sucesso.

—Veja o senhor, por exemplo, esse moleque aí, com a espada de madeira à cintura. Está achando que basta apenas aprender a descer a espada nos outros para ser grande coisa. Que os deuses nos protejam! E se o número de gente como ele aumentar daqui para a frente, nem sei como vão conseguir se sustentar.

Joutaro enfezou-se:

— Repita o que disse, condutor de meia tigela! — gritou.

— Aí está: mais parece uma pulga carregando um palito, mas já fala como se fosse um grande samurai.

Kizaemon aparteou, rindo da fúria do menino:

— Calma, Joutaro, calma. Vai perder de novo a carta em seu pescoço.

— Não vai acontecer outra vez — resmungou Joutaro amuado.

—Ah, estamos chegando à balsa sobre o rio Kizu e teremos de nos separar agora. Joutaro, começa a escurecer: siga direto para o seu destino, não perca tempo perambulando por aí, compreendeu? — recomendou Kizaemon.

Joutaro voltou-se para Otsu:

— E você, Otsu-san? — perguntou.

— Também me despeço de você, pois resolvi seguir com Shoda-san para o castelo do feudo Koyagyu. Prossiga com cuidado, está bem, Joutaro?

— Ah, mas nesse caso vou ter de seguir sozinho?

— Não fique triste. Um dia, se o destino assim quiser, nós nos encontraremos em algum lugar, porque a estrada é o seu lar, e também o meu até que eu encontre a pessoa que procuro.

— Mas quem é que você procura, Otsu-san?

Otsu não respondeu. De cima do cavalo, seus olhos apenas sorriram com gentileza. Joutaro disparou pela margem do rio e pulou para dentro da balsa. A barcaça deslizou mansamente até o meio do rio, seu contorno debruado de vermelho contra o sol poente. Joutaro voltou-se. As silhuetas de Otsu, sobre o cavalo, e de Kizaemon, a pé ao seu lado, afastavam-se passo a passo pela estrada do templo Kasagi, na altura em que o rio Kizu se torna bem mais estreito e passa a correr entre altos barrancos. Os dois vultos de contornos imprecisos, já envoltos na penumbra que avançava com rapidez pela montanha, distanciavam-se lentamente precedidos pela trêmula luz de uma lamparina.

 

OS LANCEIROS DO TEMPLO HOZOIN

O templo Hozoin era famoso entre os praticantes de artes marciais, numerosos como moscas ou abelhas nessa época. Tão grande era a sua fama que, caso um praticante de artes marciais durante uma conversa se referisse ao Hozoin como a um simples templo e deixasse transparecer sua ignorância, era imediatamente visto como um impostor.

Sua fama era maior ainda na cidade de Nara. Nessas terras, era quase certo que a maioria ignorava, por exemplo, a existência do templo Shossoin, famoso depositário de relíquias budistas, mas saberia indicar prontamente a localização do templo Hozoin ao estrangeiro em busca de informações.

— Fica no morro Abura — diriam de imediato.

O referido morro localiza-se a oeste de um bosque de altíssimos cedros, tão denso como as florestas onde — segundo diz o povo — vive Tengu, o lendário duende. As ruínas do famoso templo Ganri-in — testemunha de passadas glórias da época Nara (710-784) — bem como as de Hiden-in e Seyaku-in — extensas casas de banhos erigidas pela devota imperatriz Komyo (701-760) com a intenção de lavar e purificar os corpos de mil fiéis — também se localizam nas proximidades, as pedras de suas construções originais mal despontando em meio ao musgo e ao mato.

Musashi parou por instantes e procurou ao redor. Se a informação que lhe haviam dado era correta, ele estava no morro Abura. Já passara por diversos templos, mas em nenhum dos portais encontrara a placa com o nome Hozoin.

Os cedros, saídos do rigor do inverno, banhavam-se agora na morna luz da primavera, seus troncos exibindo a coloração mais escura do ano. Além e acima de suas copas surgia — plácida e gentil nessa época do ano — a montanha Kasugiyama: a silhueta da montanha, de ampla fralda, lembrava a de uma formosa cortesã com as muitas camadas do longo quimono espalhadas ao seu redor. O crepúsculo já envolvia em sombras os pés de Musashi, mas na crista da montanha ainda brilhavam os raios do sol poente.

Musashi andava olhando para o alto em busca de telhados que lembrassem um templo e parou abruptamente. Dera com os olhos numa placa que, à primeira vista, parecia anunciar: Hozoin. Examinando melhor, porém, leu: Ozoin. Os nomes, muito parecidos, diferiam apenas no ideograma inicial.

Espiou pelo portão e a construção que avistou lembrava as da seita Nichiren. Musashi nunca ouvira dizer que o templo Hozoin pertencesse a essa seita; concluiu portanto não ser esse o templo que procurava, apesar dos nomes semelhantes.

Por alguns instantes permaneceu indeciso na entrada do templo. Nesse momento, um noviço, talvez retornando de uma missão, passou ao seu lado encarando-o com suspeita. Musashi removeu o sombreiro e dirigiu-lhe a palavra educadamente:

— Uma informação, por favor.

— Sim? Que quer saber?

— Este é o templo Ozoin?

— Isso mesmo. Bem como diz a placa à sua frente.

— Disseram-me que o templo Hozoin também se situa neste morro. Pode informar-me onde fica?

— Os fundos deste templo se ligam aos do Hozoin. Por acaso vai em busca de um duelo?

— Sim.

— E que tal desistir? Ainda é tempo.

— Como disse?

— Se vai ao templo em busca de alívio ou cura para um aleijão, é perfeitamente compreensível. Mas não vale a pena vir de longe só para aleijar braços e pernas que recebeu inteiros ao nascer — advertiu o jovem bonzo, fitando-o com certa arrogância. Diferente de um simples monge Nichiren, este era de compleição bastante robusta.

É certo que as artes marciais estão na moda hoje em dia, continuou ele. No entanto, quando os aprendizes começavam a bater sem parar à porta, como ocorria nos últimos tempos, tornavam-se um incômodo. Pois o Hozoin, como o próprio nome indicava, era um templo dedicado ao estudo das leis luminosas do budismo, não sendo absolutamente uma academia destinada a ministrar aulas para lanceiros. Se transposto para o mundo dos negócios, poder-se-ia dizer que o ramo principal do templo era ensinar religião, lancear sendo um ramo secundário. Mas tudo começara quando o antigo abade do Hozoin, Kakuzenbo In’ei, assíduo freqüentador do castelo de Yagyu Muneyoshi e íntimo de lorde Kami-izumi Ise, este último um profundo conhecedor da religião budista, começou, graças a esses relacionamentos, a se interessar pouco a pouco pelas artes marciais e a praticá-las para se distrair. Com o tempo, aperfeiçoou-se a ponto de criar novas técnicas de lancear, técnicas estas posteriormente denominadas estilo Hozoin, e que acabaram por tornar o templo famoso. E esse excêntrico abade Kakuzenbo In’ei iria completar 84 anos nesse ano, já senilizado. Recusava-se a falar com estranhos e, quando obrigado a isso, apenas mexia molemente a boca desdentada, nada falando e nada compreendendo do que lhe era dito, tendo-se esquecido por completo de tudo que se relacionasse com o manejo da lança.

— Portanto, está perdendo seu tempo indo até lá — disse o jovem bonzo rudemente a Musashi, com a óbvia intenção de expulsá-lo.

 

— Estou bem a par dessas circunstâncias pelos boatos — replicou Musashi, ciente de estar sendo menosprezado. — Mas os mesmos boatos dizem que, mais tarde, os segredos da técnica foram transmitidos a um certo monge de nome Inshun, e que este atua no momento como mestre-sucessor, continuando não só a se dedicar ao aprimoramento da técnica, como também a cuidar de numerosos discípulos, não se recusando a ministrar ensinamentos a qualquer um que bata à sua porta — acrescentou.

— Ah, mas esse monge Inshun é, por assim dizer, um discípulo do superior do meu templo, o templo Ozoin. O fundador do estilo Hozoin, Kakuzenbo In’ei, transmitiu os segredos da técnica ao superior do meu templo e este, por sua vez, retransmitiu-os a Inshun, do templo Hozoin, quando In’ei ficou caduco, por considerar uma lástima que um estilo tão famoso se perdesse.

Musashi compreendeu instantaneamente o motivo da má vontade do noviço do templo Ozoin. Por trás de seu tortuoso modo de se exprimir, escondia o desejo de insinuar aos ignorantes forasteiros que o atual sucessor do templo Hozoin fora, na verdade, elevado a esse posto pelo superior do seu templo, o Ozoin, da seita Nichiren; insinuava também que, por esse motivo, era o seu superior quem possuía os segredos da técnica original, sendo o genuíno sucessor do estilo.

— Ah, compreendi — respondeu Musashi. Agora satisfeito, o noviço do Ozoin perguntou, curioso:

— Pretende ir até lá assim mesmo?

— Uma vez que aqui estou... — disse Musashi.

— Tem razão — concordou o noviço.

— Disse há pouco que os dois templos estão ligados pelos fundos. Devo então seguir em frente por este caminho e depois dobrar à esquerda ou à direita? — perguntou Musashi.

— Se está mesmo resolvido a ir, siga por dentro do nosso templo e corte o caminho para os fundos do Hozoin. É muito mais rápido — explicou o noviço.

Musashi agradeceu e seguiu em frente, conforme lhe fora explicado. Passou rente à cozinha e encaminhou-se para os fundos do templo. Ao lado, viu um depósito de lenha, uma despensa e uma pequena horta de alguns ares que lembrava o quintal de algum abastado agricultor. A um canto da horta surgiram os contornos de um outro templo.

“Esse deve ser o templo Hozoin”, pensou Musashi, pisando a terra macia e passando entre as fileiras de viçosas hortaliças, nabos e cebolinhas.

Repentinamente, deparou com um velho monge que, empunhando uma pequena foice, cuidava da horta. Trabalhava em silêncio, curvado sobre a foicinha, suas costas formando uma corcunda rígida como madeira. Nessa posição, seu rosto era invisível, notando-se apenas parte da testa de onde emergiam as pontas das sobrancelhas, brancas e eriçadas. Apenas o som metálico do instrumento batendo ocasionalmente contra um pedregulho e quebrando o silêncio reinante acompanhava o movimento do idoso monge revolvendo a terra. “Este monge idoso também deve pertencer ao templo Ozoin,” pensou Musashi. Quis dirigir-lhe algumas palavras amáveis, mas foi contido pela profunda concentração do monge, totalmente dedicado a cuidar da horta. Prosseguiu portanto em silêncio, passando rente a ele. De súbito, Musashi sentiu, com um agudo sobressalto, que as pupilas do velho monge curvado sobre a foice acompanhavam fixamente pelo canto dos olhos o movimento de seus pés. Uma sensação aterradora e indefinível, sem forma ou voz — algo que não parecia provir de um corpo ou espírito humano, mais lembrando um raio prestes a romper as nuvens — percorreu instantaneamente todo o seu corpo.

Alarmado, imobilizou-se por uma fração de segundo e, no instante seguinte, tomou consciência de si próprio voltando-se para observar o pacífico vulto do idoso monge de uma distância de quase quatro metros. Seu coração batia acelerado, como se tivesse acabado de se desviar de um rápido golpe de lança com uma larga passada. A posição do velho não se modificara: agora de costas para Musashi, continuava curvado sobre a terra, o ruído metálico do metal contra a pedra cortando pausadamente o silêncio.

“Quem será esse ancião?”, pensou. Ainda intrigado e perseguido pela dúvida, Musashi viu-se afinal à entrada do templo Hozoin. “A crer no que dizem, Inshun, o sucessor, é ainda jovem, e o seu antecessor, In’ei, é um velho caduco, segundo acabo de saber...” Enquanto esperava o atendente, não conseguia apagar da mente a imagem do idoso monge. Anunciou-se duas vezes em voz bem alta, tentando espantar a incômoda questão, mas não obteve resposta, sua voz apenas ecoando pela floresta. Do vasto interior do templo ninguém apareceu.

 

Ao desviar o olhar, notou um gongo num dos lados. Musashi usou-o e logo ouviu uma voz distante respondendo das entranhas do templo.

O atendente, um enorme bonzo, lembrava um líder dos antigos monges guerreiros do monte Hiei. Examinou Musashi da cabeça aos pés com o olhar farto dos que lidam com visitantes iguais a ele todos os dias.

— Estudante de artes marciais? — perguntou.

— Sim — respondeu Musashi.

— Que quer?

— A honra de algum ensinamento — respondeu Musashi conciso.

— Entre — disse o atendente, indicando uma tina, à direita. A água vinha por uma tubulação de bambu. Obviamente, aconselhava-o a lavar os pés antes de entrar. Uma dezena de pares de sandálias gastas espalhavam-se ao redor da tina.

Musashi seguiu o atendente por um longo corredor de tábuas negras. Introduzido num aposento de cujas janelas se avistavam os arbustos de um jardim, aguardou por alguns instantes. Excetuando a atitude agressiva do bonzo que o atendera, era um templo como outro qualquer, sob todos os aspectos, havendo até um forte cheiro de incenso no ar. O robusto monge retornou e empurrou rudemente em sua direção um caderno e uma caixa contendo pincel e tinta:

— Escreva aí seu nome e com quem estudou. — Parecia estar lidando com uma criança.

Musashi tomou o caderno nas mãos e leu em sua capa:

“Registro dos Nomes dos Dignos Visitantes

Secretaria do Templo Hozoin”

Ao folheá-lo, viu registrados os nomes de inúmeros estudantes e, ao lado, as datas das respectivas visitas. Musashi registrou também o seu, deixando em branco o espaço destinado à identificação do estilo.

— Quem é seu mestre de artes marciais? — perguntou o monge.

— Sou autodidata — respondeu Musashi. — Em criança, tive algumas aulas de jitte-jutsu com meu pai, mas confesso que não me empenhei nos estudos. Mais tarde, com a maturidade, passei a considerar mestres todos os seres do mundo e todos os guerreiros veteranos do país, deles extraindo diversos ensinamentos.

— Sei... Bem, como já deve ser do seu conhecimento, o nosso é o famoso estilo Hozoin, conhecido em todo o país desde os tempos do nosso antigo mestre. Nossa lança é agressiva, violenta, e não perdoa ninguém. Antes de nos desafiar, aconselho-o a ler o que está escrito na primeira página deste Registro.

Musashi tomou a folhear o caderno ao lado e leu o termo de compromisso que lhe escapara anteriormente:

Aceito o ensinamento ministrado por este templo e prometo que ninguém apresentará queixa caso eu venha a ficar aleijado ou até mesmo a morrer.

— Estou ciente — disse Musashi devolvendo o caderno com um rápido sorriso. O termo de compromisso era familiar a qualquer samurai peregrino. Musashi já o vira em muitos lugares.

— Muito bem, acompanhe-me então — ordenou o atendente, conduzin-do-o mais além, para o interior do templo.

A sala de treino — ao que tudo indicava, um salão de conferências reformado — era espantosamente vasta. Nunca vira em outras academias pilares de madeira tão grossos. As bandeiras das portas — com seus entalhes folheados a ouro e demãos de alvaiade já descascados — também eram típicas de um templo mas inusitadas numa academia. Musashi verificou que se enganara ao julgar-se o único desafiante desse dia: mais de uma dezena de aprendizes aguardava sua vez, em fila. Além deles, havia ainda uma dezena ou mais de discípulos, monges do templo, e um grande número de samurais que ali estavam apenas para assistir às lutas.

No centro do salão um duelo acontecia nesse instante, e uma dupla cruzava as lanças. Os presentes estavam absortos, observando em tenso silêncio. Ninguém se voltou para olhar quando Musashi se sentou calmamente num dos cantos.

Um aviso na parede ao lado dizia: “Atendemos a pedidos de duelo com lanças reais.” A dupla em questão usava apenas longos bastões de carvalho. Mesmo assim, o efeito era devastador quando o golpe atingia o alvo: o desafiante, que voara e fora ao chão atingido nesse momento, voltou ao seu lugar arrastando-se penosamente. Sua coxa havia inchado como um barril e, incapaz de se sentar, estirara um dos pés e se apoiava num dos cotovelos, quase deitado. Suportava, ao que parecia, uma intensa dor em silêncio.

— O seguinte! — disse o monge mestre, com arrogância. Tinha as mangas da veste contidas por tiras que se cruzavam às suas costas, os volumosos músculos formando nodosidades nas coxas, braços, ombros e fronte. Segurava em posição vertical uma lança de mais de três metros de comprimento e, do centro do salão, examinava os espectadores.

 

— Apresento-me, nesse caso — disse um deles, levantando-se. Ajeitou as tiras que continham suas mangas e adiantou-se para o centro do salão. Em pé, o bonzo o aguardava imóvel, ainda empunhando verticalmente sua lança. Mas no momento em que o novo desafiante, escolhendo uma naginata entre as armas enfileiradas na parede, a empunhou e com ela investiu, o bonzo rosnou como um lobo e avançou, descarregando seu bastão na cabeça do adversário.

Segundos depois, o monge já havia voltado à posição anterior e, recomposto e impassível, convocava, mantendo a lança em pé:

— O próximo!

O desafiante derrotado não se mexia mais. Parecia vivo ainda, mas incapaz até de erguer a cabeça. Alguns discípulos se adiantaram e o arrastaram pela gola para a área onde os demais aguardavam. Um rastro de saliva misturado com sangue sujou as tábuas do salão.

— Mais ninguém? — tornou a chamar o bonzo, cada vez mais arrogante. Musashi imaginou que esse fosse o monge Inshun, o sucessor do estilo Hozoin, mas em resposta à sua pergunta seu vizinho informou-o que se tratava de Agon, o discípulo mais graduado de Inshun. Foi informado também que havia sete discípulos graduados no templo, cognominados “Os Sete Pilares do Templo”, que se encarregavam da maioria dos duelos, sendo portanto muito rara a presença de Inshun nesses acontecimentos.

— Ninguém mais se apresenta? — insistiu o bonzo, empunhando agora a lança em posição horizontal. O monge atendente surgiu então com o registro na mão, e comparando nomes com os rostos ao redor, perguntava apontando uns e outros:

— Você?

— Não... Talvez em outra ocasião.

— O outro ao lado?

— Hoje não, não estou realmente disposto.

Pareciam todos intimidados. Algumas recusas depois o atendente virou-se para Musashi e perguntou:

— E você, que decide?

Musashi curvou-se educadamente e disse:

— Por favor.

— Por favor o quê? — insistiu o atendente.

— Por favor, aceite meu desafio — respondeu Musashi, levantando-se. Todos os olhares convergiram em sua direção.

O arrogante bonzo Agon já se havia retirado para um dos lados e, rodeado por outros discípulos, gargalhava em resposta a alguma observação. Voltou-se, porém, ao perceber que havia mais um desafiante no centro do salão. Aparentando tédio, relutava em retornar, reclamando com displicência:

— Ninguém quer me substituir? Os demais contemporizavam:

— É só mais esse. Já que começou, acabe.

Demonstrando má vontade, Agon voltou ao centro do salão. Ajeitou nas mãos o longo bastão de carvalho que usava em lugar da lança, lustroso e negro por anos de uso. Inopinadamente deu as costas a Musashi, deitou a lança e soltou uma série de gritos agudos semelhantes aos de um pássaro alvoroçado, arremetendo contra uma parede afastada de todos. Sua lança bateu com estrondo na parede de aspecto recém-reformado e que parecia ser usada como alvo durante os treinos, pois nela haviam fixado uma prancha de madeira resistente de quase dois metros quadrados. A lança, simples bastão de madeira sem ponta, rompeu a madeira e atravessou a prancha com a mesma facilidade das providas de ponteiras.

Agon soltou um novo estranho grito, recolheu a lança e voltou-se em seguida para Musashi, aproximando-se com passos que lembravam um bailado. O corpo musculoso e destemido parecia envolto em tênue vapor. Fixou em seguida com intensa ferocidade o vulto de Musashi que, algo admirado, permanecia em pé e imóvel à distância:

— Em guarda! — advertiu.

No instante em que se preparava para investir com o mesmo ímpeto com que investira contra a prancha de treino, uma voz do lado de fora da janela o interrompeu:

— Tolo! Agon, és um grande idiota! Abre os olhos e vê: tens pela frente algo um tanto diferente de uma prancha de madeira.

A voz vinha entremeada de risos mal contidos.

 

Mantendo a lança na mesma posição, Agon voltou o rosto para o lado e esbravejou:

— Quem está aí?

Do lado de fora da janela ainda se ouvia o riso abafado. Um rosto idoso, que se assemelhava a uma máscara de madeira lustrada pelas mãos de algum antiquário, surgiu à janela. Mde emergiam sobrancelhas brancas, eriçadas.

— Desiste do duelo, Agon. É inútil. Transfere-o para depois de amanhã. Espera a chegada de Inshun  — aconselhou-o o idoso monge.

Musashi teve um pequeno sobressalto ao reconhecer o monge corcunda que cuidava da horta quando, havia pouco, passara por ela.

Uma fração de segundo depois a cabeça desapareceu da janela. Prevenido pelo ancião, Agon relaxou a mão que empunhava a lança. Mal se defrontou com o olhar de Musashi, porém, as palavras de advertência do velho monge foram varridas de sua mente.

—Tolices! — gritou Agon, ciente de que o velho monge já não se achava à janela.

— Preparado? — perguntou Musashi, confirmando a intenção do adversário.

Foi o suficiente para que Agon se inflamasse, indignado. Cerrou a mão, segurando a lança com maior firmeza, e pareceu crescer sobre o assoalho. O musculoso e pesado corpo de Agon adquiriu momentaneamente a leveza de uma pluma. Seu vulto tornou-se impreciso como o reflexo da lua nas águas encrespadas de um lago, não se podendo afirmar com certeza se seus pés tocavam ou não as tábuas do assoalho.

Musashi dava a impressão de estar pregado ao chão. Empunhava a espada de madeira com ambas as mãos, apontando-a diretamente à frente. Nada havia de especial na posição em que se guardava. Ao contrário, com sua altura excepcional, chegava quase a parecer desengonçado. Não era também tão musculoso quanto Agon. De especial havia apenas seus olhos, arregalados como os de um pássaro. O sangue parecia ter afluído para o interior de suas pupilas que, de negras, tinham adquirido uma tonalidade âmbar translúcida.

Agon sacudiu a cabeça com um brusco repelão, tentando talvez livrar-se de uma importuna gota de suor que lhe escorria pela testa. Ou talvez procurasse afastar do espírito as incômodas palavras do velho monge. Seja como for, era óbvia a sua irritação. Em contraste com o adversário que se mantinha totalmente imóvel, movimentava-se sem cessar, provocando-o, sem deixar de observá-lo o tempo todo à procura de uma brecha em sua defesa.

Inesperadamente Agon investiu, lança em riste. Quase ao mesmo tempo, um urro cortou o ar e seu corpo foi ao chão. Musashi, com a espada agora erguida acima da cabeça, já havia saltado para longe na mesma fração de segundo.

Os monges companheiros de Agon acorreram e apinharam-se ao redor do seu corpo, gritando:

— Que aconteceu? Como está ele?

De tão consternados, houve até quem caísse, tropeçando na lança que rolara das mãos de Agon.

— Tragam linimentos, rápido! — gritou alguém desesperado, mãos e vestes manchadas de sangue.

O velho monge que há pouco se afastara da janela havia dado a volta ao redor do templo, entrara pela porta da frente, chegara ao salão e assistia agora à cena, visivelmente desgostoso. Suas palavras detiveram o homem que tentava às pressas afastar-se em busca dos remédios:

— Imbecis! Para que linimentos, a esta altura? Por que acham que o aconselhei a desistir?

 

Musashi viu-se sozinho, esquecido de todos e, sentindo-se de repente embaraçado, retirou-se.

Ninguém o deteve. Sentou-se à beira da varanda e calçava as sandálias quando o idoso monge o alcançou.

— Jovem — chamou ele.

— Pois não? — disse Musashi, voltando o rosto e fitando o monge por cima do ombro.

— Gostaria de conhecê-lo melhor. Retorne ao interior do templo, por favor — convidou o monge.

Musashi acompanhou-o. Desta vez, foi conduzido para além do salão de treinamentos, nas profundezas do templo, e introduzido num aposento quadrado fortemente protegido, quase uma cela, com acesso por uma única porta.

O velho monge sentou-se e disse:

— Na verdade, o monge superior deste templo deveria recebê-lo em pessoa; faço, no entanto, as honras da casa, porque ele partiu ontem em viagem para Settsu, sendo esperado apenas para daqui a três dias.

—Agradeço a gentileza — respondeu Musashi, com uma ligeira mesura. — Hoje, recebi inesperadamente uma valiosa lição; entretanto, lastimo que, em conseqüência, seu discípulo Agon tenha se ferido — acrescentou.

— Não lastime — disse o velho monge — tais acontecimentos são comuns em duelos marciais. Muito antes de se posicionar na arena, um combatente tem de estar preparado tanto para a vitória como para a derrota. Não se preocupe com isso.

— E como está ele? — perguntou Musashi.

— Teve morte instantânea.

As palavras do monge tiveram o efeito de uma lufada de vento gelado no rosto de Musashi.

— Morreu, então...

E eis que mais uma vida se apagava sob o golpe de sua espada de madeira. Musashi cerrou os olhos por um breve momento recitando intimamente uma invocação sagrada, como era seu hábito quando tais notícias chegavam ao seu conhecimento.

— Jovem — tornou o ancião.

— Sim, senhor.

— Disse chamar-se Miyamoto Musashi. Estou certo?

— Esse é o meu nome.

— Com quem aprendeu sua arte?

— Com ninguém em particular. Em criança, Munisai me ensinou a arte do jitte-jutsu; posteriormente, vaguei por diversas províncias, aprendendo com todos os veteranos com quem cruzei; até os rios e as montanhas me ensinaram durante minhas peregrinações.

— Louvo sua atitude. No entanto, meu jovem, você é muito forte, direi até forte demais.

Tomando as palavras do ancião como um elogio, Musashi sentiu o rosto abrasar-se e disse com modéstia:

— Pelo contrário, tenho certeza de que sou ainda imaturo, tendo muito a aprender.

— Concordo; eis porque tenha talvez de aprender a conter um pouco a sua força. Terá de aprender a ser um pouco mais fraco.

— Como disse? — perguntou Musashi, admirando-se com a inesperada observação.

— Lembra-se de haver passado ao meu lado, há pouco, enquanto eu revolvia a terra da horta? — perguntou o velho monge.

— Sim.

— No momento em que passou por mim, você deu um prodigioso salto de três metros de altura e aterrissou mais à frente.

— É possível.

— Por que agiu de maneira tão estranha?

— Porque senti que a foice que manejava poderia a qualquer momento desviar-se e atingir meus pés. E também porque, curvado como estava, seu olhar parecia percorrer agudamente meu corpo inteiro, procurando com força letal uma brecha por onde me atacar.

O idoso monge riu com franqueza:

— Mas foi exatamente o contrário — salientou, divertido. — Quando você se aproximou a uma distância de quase 20 metros, senti essa força letal a que se referiu atingindo como um raio a ponta da minha foicinha. Seus passos estão carregados de ímpeto combativo, meu jovem, de um violento impulso de dominação. Em resposta, armei-me intimamente, como seria de se esperar. Se um simples lavrador tivesse passado por mim naquele instante, haveria ali um velho curvado sobre a foice dedicando-se ao cultivo de suas hortaliças, e nada mais. A atmosfera mortífera que diz ter sentido não passou de um reflexo de sua própria energia. Isto significa que você saltou três metros, assustado com o próprio reflexo, meu jovem — concluiu o velho monge, rindo ainda.

 

Musashi percebeu que seus pressentimentos estavam certos e congratulou-se por sua própria perspicácia: o monge corcunda não era um indivíduo comum. Mas ao mesmo tempo percebeu que, muito antes de trocar com ele as primeiras palavras de apresentação, o idoso homem já o havia derrotado. Como um calouro na presença de um respeitável veterano, Musashi ajeitou-se, rígido de constrangimento.

— Acato seu ensinamento com deferência, senhor. Agradeço-lhe. Perdoe a rudeza, mas gostaria de saber: qual o seu cargo no templo Hozoin? — perguntou.

— Engana-se, não pertenço ao templo Hozoin. Meu nome é Nikkan, e sou o monge superior do templo Ozoin, cujos fundos dão para os fundos deste templo.

— Ah, o superior do templo Ozoin — repetiu Musashi.

— In’ei, o antigo superior do templo Hozoin, e eu somos velhos amigos. Quando In’ei começou a lidar com a lança, também quis aprender. Por motivos que não vêm ao caso, porém, hoje em dia não toco mais em lanças.

— Quer dizer então que o monge Inshun, o sucessor atualmente encarregado deste templo, foi seu discípulo e aprendeu de suas mãos a manejar a lança, estou certo? — confirmou Musashi.

— Acho que sim. Não acredito que faça parte dos deveres de um monge saber manejar uma lança; no entanto, o templo Hozoin adquiriu uma estranha fama por causa dessa arte e, levado pela opinião geral de que era uma lástima que essas técnicas se perdessem, transmiti a Inshun — e apenas a ele — os segredos da arte.

— E eu poderia me abrigar num canto qualquer do templo, enquanto aguardo o retorno do monge Inshun? — quis saber Musashi.

— Pretende desafiá-lo? — perguntou Nikkan.

—Vim de muito longe e gostaria de aproveitar esta oportunidade para observar a sua técnica, mesmo que a demonstração se resuma a apenas um golpe.

— Não faça isso — disse Nikkan com um toque de reprovação na voz, balançando negativamente a cabeça. — Não vejo que proveito poderá tirar disso.

— Por quê?

— Porque ao ver o desempenho de Agon, já deve ter apreendido, em linhas gerais, a técnica dos lanceiros do Hozoin. Que há para ser visto além do que já viu? Todavia, se quer algo mais, olhe para mim, para os meus olhos — disse Nikkan, aprumando-se e aproximando o rosto do de Musashi. Nos olhos encovados de Nikkan, os globos pareciam prestes a saltar. Musashi contemplou-os fixamente e pareceu-lhe que mudavam de cor, de uma tonalidade âmbar cambiante para um azul índigo profundo. Sentiu os próprios olhos arderem e acabou desviando primeiro o olhar.

Nikkan soltou uma risadinha seca. Despercebido, um monge havia se aproximado por trás de Nikkan e lhe fazia uma pergunta. Nikkan aprumou-se de novo e respondeu:

— Traga-a aqui.

Uma pequena mesa portátil posta para uma refeição ligeira foi-lhe apresentada. Nikkan encheu a tigela com uma generosa porção de arroz e apresentou-a a Musashi dizendo:

— É costume deste templo oferecer uma refeição ligeira a todos os que o visitam. Sirva-se. Os picles que acompanham o arroz são uma especialidade do templo. O pepino é posto em conserva com pimenta vermelha e ervas. Experimente, é saboroso.

— Obrigado — disse Musashi. Ao erguer o hashi, sentiu uma vez mais o duro brilho do olhar de Nikkan. Não conseguiu perceber, porém, se a agressiva energia partia do próprio Nikkan ou se era novamente o reflexo de sua própria agressividade. A origem dessas intensas vibrações espirituais era uma sutileza que lhe escapava. Sentia-se inquieto, com a vaga sensação de que se se distraísse apreciando com tranqüilidade o sabor dos picles, poderia a qualquer momento ser atingido por um soco, como já lhe ocorrera certa vez, quando partilhara uma refeição com o monge Takuan. Ou então, que a lança sobre a cornija poderia desabar sobre ele.

— Não quer repetir? — perguntou Nikkan ao ver a tigela vazia.

— Estou bem satisfeito, obrigado — respondeu Musashi.

— E o que achou do famoso picles do templo Hozoin?

— Muito saboroso.

Uma vez fora do templo, Musashi percebeu que, apesar do que respondera, não conseguia lembrar que gosto tinham as duas fatias dos famosos picles Hozoin. Em sua língua restava apenas o ardido da pimenta.

 

UMA ESTALAGEM EM NARA

— Perdi este duelo — murmurava Musashi enquanto se retirava caminhando pelo escuro bosque de cedros. Vez ou outra uma rápida sombra cruzava seu caminho: eram cervos que fugiam céleres, espantados por seus passos.

“Sou superior fisicamente, sei disso, mas saí do templo com a nítida sensação de ter sido derrotado. Isso não prova que, apesar da vitória formal, na verdade fui derrotado?”, perguntava-se. Longe de sentir-se satisfeito com o próprio desempenho, caminhava cabisbaixo e absorto, censurando a cada passo o seu despreparo.

Com um súbito sobressalto, parou e olhou para trás. As luzes do templo ainda eram visíveis à distância. Musashi refez depressa o caminho e, parando uma vez mais à entrada do templo, disse ao porteiro que o atendeu:

— Meu nome é Musashi. Estive aqui há pouco.

— Esqueceu alguma coisa? — perguntou o porteiro.

— Certa pessoa deverá aparecer por aqui dentro de um ou dois dias, perguntando por mim. Diga a ela que me procure nas estalagens à beira do lago Sarusawa, por favor. Estarei à espera numa delas.

— Está bem — concordou o porteiro, distraído. Inseguro com o tom da resposta, Musashi frisou:

— A pessoa a quem me refiro chama-se Joutaro, e é apenas um menino. Tenha a gentileza, portanto, de lhe transmitir o recado corretamente.

Dadas as instruções, Musashi retornou a passos largos pelo mesmo caminho. Em seu íntimo, crescia a certeza de que fora de fato derrotado pelo velho Nikkan, pois saíra do templo perturbado a ponto de se esquecer do recado a Joutaro.

Uma idéia apenas o perseguia, dia e noite, obsessivamente: como atingir a imbatível posição de melhor espadachim do país? Numa espada, numa única espada concentrara toda a sua ansiedade.

Mas se deixava o templo como um vencedor, por que, continuava a perguntar-se, não conseguia se livrar da amarga sensação de não estar à altura da vitória? Por que não conseguia sentir-se realizado? Continuou a caminhar, desconsolado e perplexo, logo percebendo que já havia chegado às margens do lago Sarusawa.

Casas populares novas — que haviam começado a multiplicar-se a partir da era Tenshou (1573-1592) — apinhavam-se agora desordenadamente ao redor do lago e espalhavam-se pela vertente do rio Saigawa. O centro administrativo da área, havia pouco estabelecido por Oukubo Chouan sob o governo Tokugawa, ficava nas proximidades, assim como a casa do vendedor de manju[61], um chinês que se naturalizara japonês e que se dizia descendente de Lin Ho-ching. Seus negócios pareciam prosperar, pois expandira a loja em direção ao rio.

Musashi tinha de procurar uma hospedaria e parou indeciso no meio das luzes que começavam a se acender com o crepúsculo. Pelo visto, muitas eram as hospedarias na região mas, como estava longe de ser rico, tinha de se preocupar com as despesas. Uma das opções seriam as estalagens baratas das áreas mais afastadas ou das vielas transversais, mas temia que Joutaro não o encontraria caso se decidisse por uma delas.

Ao passar em frente à casa dos manju, sentiu uma pontada de fome, apesar da refeição no templo. Sentou-se num dos bancos e pediu um prato de manju. Na macia casca de cada doce vinha estampado o ideograma Lin, queimado a ferro. Ao contrário do que lhe acontecera quando experimentara os picles do templo, desta vez sentiu o sabor dos manju.

Uma mulher serviu-lhe o chá e perguntou:

— Onde pretende passar a noite, senhor?

Musashi aproveitou a oportunidade e sondou-a com relação ao seu pequeno dilema. A mulher respondeu de pronto que, nesse caso, a pensão mantida por um parente dos proprietários daquele estabelecimento era o que buscava, e que ele deveria se hospedar nela sem falta, já que ela iria de imediato buscar o dono. E sem esperar a resposta, correu para os fundos, voltando acompanhada da proprietária, mulher ainda jovem cujas sobrancelhas raspadas indicavam a condição de casada.

 

Musashi foi conduzido a uma residência em uma tranqüila rua lateral, não muito longe da confeitaria. A mulher bateu levemente à porta e, ao ouvir alguém respondendo, voltou-se para Musashi e explicou com delicadeza:

— Esta é a casa de minha irmã mais velha. Não se preocupe, portanto, com gratificações de qualquer espécie e fique à vontade.

A garotinha que os atendeu parecia habituada a receber estranhos: trocou algumas palavras sussurradas com a mulher e juntas conduziram Musashi ao andar superior. Depois de introduzi-lo num quarto, a doceira desejou-lhe bom descanso e se foi.

A casa era elegante, os aposentos e mobília finos demais para uma pensão. Longe de estar à vontade, Musashi sentiu-se algo constrangido.

Como já havia jantado, tomou banho e, nada mais lhe restando a fazer, preparou-se para dormir. Mas continuava inquieto, sem compreender como os proprietários — abastados, pelo que deduzia do aspecto da casa — ocupavam-se em hospedar estranhos. A menina, quando sondada, apenas sorrira sem nada dizer.

Cedo, na manhã seguinte, Musashi comunicou à menina:

— Gostaria de continuar hospedado por mais alguns dias porque estou à espera de um companheiro.

—À vontade—respondeu a garota, descendo a seguir para avisar. Instantes depois, a dona da casa subiu ao aposento de Musashi para cumprimentá-lo. Era uma mulher bonita, de pele suave, e aparentava 30 anos. Musashi procurou de pronto esclarecer suas dúvidas. Em resposta às suas perguntas, a mulher sorriu e explicou que, na verdade, era a viúva de um músico do teatro nô, de nome Kanze. Segundo ela, a cidade de Nara andava ultimamente repleta de rounin de origem duvidosa que tornavam precária a segurança local. Por causa desses homens, prostíbulos e tabernas suspeitas haviam surgido em quantidade assombrosa pelos becos, mas esse tipo de diversão não satisfazia os referidos proscritos. Em companhia de alguns jovens da localidade, passaram então a tramar, todas as noites, assaltos às casas onde sabiam não haver homens, dando a isso o nome de “ronda às viúvas”.

Desde a batalha de Sekigahara, o país atravessava um aparente período de paz, mas as guerras dos anos anteriores tinham provocado o surgimento de rounin em todas as localidades, e seu número assustava. Em conseqüência disso, as casas de diversão noturna viviam cheias, ladrões e chantagistas pululavam em todos os feudos. Essa deterioração dos costumes era um fenômeno posterior ao episódio da guerra contra a Coréia e — a viúva assim ouvira dizer — muitos atribuíam a responsabilidade a Toyotomi Hideyoshi, o antigo kanpaku. O fato era que uma onda de imoralidade afogava atualmente o país, dizia a viúva. A situação fugia ao controle do recém-empossado administrador nomeado por Tokugawa, mormente porque, ao caos já reinante na cidade de Nara, se somaram os numerosos rounin saídos dos campos de Sekigahara.

— Ah, quer dizer que hospeda estranhos como eu para atuarem como espantalhos! Agora entendi — disse Musashi.

— Como vê, não há homens nesta casa — disse a viúva, rindo. Musashi também sorria, achando graça na engenhosidade da mulher.

— Por esse motivo, insisto: permaneça o tempo que quiser, sem se preocupar com nada — tornou a viúva.

— Compreendi. Enquanto aqui permanecer, esteja tranqüila: nada acontecerá a ninguém desta casa. Mudando de assunto, estou à espera do meu pajem, que deverá chegar por estes dias. Quero que anuncie minha presença em sua casa afixando um aviso na porta — pediu Musashi.

— Perfeitamente — disse a mulher. Preparou uma papeleta e nela escreveu em letras graúdas:

“Esta Casa hospeda Miyamoto-sama.”

Colou-a em seguida na entrada da casa, à semelhança de um amuleto contra pragas.

O dia se passou sem que Joutaro aparecesse. E então, no dia seguinte, surgiu na hospedaria um grupo de três samurais:

— Queremos entrevistar-nos com o mestre Miyamoto — disse um deles. Ao saber que os homens eram do tipo belicoso, daquelas que não aceitam

uma recusa simples, Musashi pediu que os mandassem subir. Os samurais, participantes do grupo de ociosos que havia assistido ao seu duelo no templo Hozoin, sentaram-se à vontade ao seu redor:

— Olá! — cumprimentaram com familiaridade, como se o conhecessem de longa data.

 

— Foi simplesmente fantástico! Estamos abismados! — disse um deles, mal se acomodando e logo, passando a desfiar um rosário de elogios com a óbvia intenção de lisonjear Musashi.

. — Não deve constar dos registros nenhum outro nome que tenha batido às portas do Hozoin e derrotado de um só golpe um dos Sete Pilares, os discípulos mais graduados do templo. Melhor ainda porque se tratou do arrogante Agon: o homem soltou um gemido apenas e caiu babando sangue!

— O episódio está sendo muito comentado em nosso círculo. Onde quer que se junte um bando de rounin desta região, o assunto é sempre o mesmo: “Quem será esse desconhecido Miyamoto Musashi?” Dizem por aí, também, que a fama do templo está em baixa.

— Pode-se afirmar, sem medo de erro, que não há rivais à sua altura.

— E você é jovem ainda, tem todo o futuro pela frente.

— Prevejo para você uma carreira brilhante.

— Como pode ser um rounin desempregado, com todo o seu talento? Com o perdão da palavra, acho um desperdício.

Sorviam ruidosamente o chá, comiam os confeitos que lhes haviam sido servidos espalhando farelos sobre as coxas, e continuavam a elogiar Musashi de modo exagerado, a ponto de deixá-lo constrangido. Musashi deixou-os falar, esperando que se cansassem. No entanto, ao notar que a ladainha era interminável, interrompeu-os:

— E quem são vocês? — perguntou.

— Ora, que distração a minha! Deixe-me apresentar: sou Yamazoe Danpachi, antigo vassalo do suserano de Gamo — disse um deles.

— Eu aqui me chamo Otomo Banryu. Domino o estilo Bokuden e tenho uma algo exagerada ambição de vencer no mundo atual.

— E eu sou Yasukawa Yasubei. Sou rounin, e filho de rounin, desde a queda de Oda Nobunaga — disse o terceiro, rindo abertamente.

Estavam estabelecidas, em linhas gerais, as identidades dos três rounin. Não obstante, continuavam tagarelando, sem se preocupar em esclarecer por que ocupavam o precioso tempo de Musashi, desperdiçando também o deles. Aproveitando uma brecha, Musashi interrompeu-os de novo:

— E que os traz à minha presença?

— Ah, é verdade! — disse um deles, só então parecendo lhe ocorrer a idéia de explicar. No mesmo instante os três aproximaram suas cabeças para expor que ali estavam porque desejavam consultá-lo com relação a um empreendimento. O referido empreendimento, um espetáculo, estava sendo montado no sopé do monte Kasuga. Quando falavam em espetáculo, não se referiam ao teatro nô ou a uma exibição qualquer, como Musashi poderia muito bem imaginar. Não senhor: o espetáculo a que se referiam tinha por finalidade difundir no meio do povo a verdadeira natureza das artes marciais, associando duelos a apostas. Estavam no momento mandando erguer um galpão para abrigar o número, e os prognósticos eram muito bons. Mas os três talvez não dessem conta do recado; além disso, sempre havia a possibilidade de perderem para algum valentão todo o dinheiro das apostas, amealhado com tanto custo. Eis porque tinham vindo consultá-lo: não gostaria Musashi de participar do empreendimento? Caso aceitasse, o lucro seria naturalmente dividido em partes iguais e as despesas de hospedagem e refeições do período correriam por conta deles. Que achava ele de ganhar algum dinheiro para as despesas antes de seguir viagem? — perguntavam os homens.

Musashi escutava em silêncio o insistente convite, sorrindo com ironia, mas se aborreceu afinal e interrompeu-os:

— Se o motivo que os trouxe aqui é esse, não se detenham mais: não aceito a proposta.

Os três homens mostraram-se admirados com a recusa sumária e insistiram:

— Por quê?

Musashi sentiu uma irritação juvenil contra o sórdido esquema dos homens e respondeu:

— Porque não sou um jogador. Além do mais, faço as refeições com o hashi, nunca com a espada: ela não se presta a isso.

— Que quer dizer?

—Ainda não entenderam? Embora pobre, eu, Musashi, sempre serei um bushi. Retirem-se, idiotas!

 

Um sorriso gelado subiu aos lábios de um deles, que deixou escapar uma risada maldosa entre os dentes cerrados. O outro ficou rubro de raiva:

— Não pense que esqueceremos — lançou o terceiro sobre os ombros, afastando-se. Os três homens tinham plena consciência de que, mesmo juntando suas forças, não venceriam Musashi. Retiraram-se então com estrépito do aposento, demonstrando raiva apenas nas atitudes e nos passos irados, mas deixando no ar uma ameaça: o episódio não estava encerrado.

As noites andavam mornas e nevoentas nos últimos tempos. A jovem viúva, feliz com a proteção que a presença de Musashi lhe garantia, preparava jantares esmerados. Pela segunda noite consecutiva Musashi fora convidado a jantar no andar térreo e, com o espírito leve graças ao saque que tomara com moderação, retornou ao seu aposento, deitou-se no escuro sobre o tatami e espreguiçou-se ao máximo.

— Que agonia! — murmurou. As palavras de Nikkan, o velho monge do templo Ozoin, vieram-lhe outra vez à mente.

Os homens derrotados por sua espada eram rapidamente varridos da memória: suas imagens, mesmo as dos que deixara para trás semimortos, desfaziam-se como bolhas. Em contrapartida, não conseguia livrar-se da lembrança dos que o haviam sobrepujado, mesmo por pouco, e em cuja presença se sentira inferiorizado. Como vencê-los? O pensamento não lhe saía da mente, possuindo-o como uma maldição.

— Que agonia! — gemeu de novo.

Agarrou uma mancheia dos próprios cabelos, ainda estirado sobre o tatami, e puxou-a. Como suplantar Nikkan? Como tornar-se imune ao extraordinário poder que emanava daqueles olhos sinistros?

Por dois dias Musashi se debateu, sem conseguir afastar o pensamento mortificante. A bem dizer, gemia lastimando a própria incapacidade.

Por vezes, uma dúvida quanto à própria aptidão o assaltava: talvez nunca alcançasse o sucesso. Toda vez que se defrontava com um adversário do calibre de Nikkan vinha-lhe a mesma dúvida: chegaria algum dia à sua altura? Não era capaz de avaliar-se corretamente, pois nunca tivera um mestre, nem sua aprendizagem seguira uma metodologia.

Não podia esquecer também que Nikkan lhe dissera: — Você é forte demais. Aprenda a conter um pouco a sua força.

Musashi não conseguira ainda compreender plenamente o sentido de suas palavras. Ser forte era uma das condições primordiais de um guerreiro superior. E então, por que seria isso um defeito? Calma, talvez as palavras do velho monge corcunda não devessem ser tomadas a sério. Talvez estivesse rindo a esta altura, vangloriando-se de ter mistificado e se livrado de um jovem ingênuo com meia dúzia de palavras ditas como se fossem a quintessência da verdade. Improvável não era.

“Malditos livros!”, pensou. “Quem me assegura com certeza se são benéficos ou nocivos?”

Não era a primeira vez que o pensamento lhe ocorria. Desde que fora encerrado no torreão do castelo de Himeji e obrigado a ler livros durante três anos, nunca mais voltara a ser o mesmo. Diferente do que fora tempos atrás, habituou-se a interpretar os acontecimentos à luz da razão, transformando-se numa pessoa que só conseguia aceitar por completo um fato depois de analisá-lo friamente e aprová-lo racionalmente. Tinha plena consciência de que a transformação ocorrera não apenas em relação ao modo como encarava a esgrima, mas também quanto à sua visão da sociedade em geral, e dos homens em particular.

Em conseqüência, podia considerar que a temeridade dos tempos de infância já estava bastante contida. Nikkan porém lhe dizia que sua força ainda era excessiva, e Musashi compreendia muito bem que o monge não se referia à força física, mas à sua natureza selvagem e impetuosa.

“O conhecimento dos livros é desnecessário a um guerreiro. Meu progresso se retarda porque me tornei em parte sensível às emoções e pensamentos alheios. Talvez devesse ter cerrado os olhos e golpeado de uma só vez o velho Nikkan: quem sabe ele não se desfaria facilmente como um boneco de argila?”, pensou Musashi.

Foi então que sentiu a vibração produzida por passos na escada.

 

O rosto da menina surgiu no vão da entrada. Logo atrás vinha Joutaro. Seu rosto queimado de sol parecia mais escuro ainda pela sujeira acumulada durante os dias em que estivera viajando. Os cabelos, que o tornavam tão semelhante a um kappa, estavam duros e brancos de pó.

— Olá, até que enfim! Estava à sua espera — disse Musashi, abrindo os braços para recebê-lo. Joutaro ajeitou-se entre eles e sentou-se estirando os pés sujos.

— Ufa, estou cansado! — reclamou.

— Você me achou com facilidade? — perguntou Musashi.

— Nada disso! Andei um bocado à sua procura — disse Joutaro em tom de queixa.

— Não perguntou por mim no templo Hozoin?

— Mas o bonzo do templo disse que não sabia de nada! Aposto que se esqueceu de me deixar o recado.

— De modo algum! Não só deixei o recado como pedi ao bonzo uma atenção especial. Bem, já não importa, pois aqui está você. Cumpriu as tarefas?

— Esta é a resposta da academia Yoshioka — disse Joutaro retirando a carta do canudo que levava ao pescoço e entregando-a. Acrescentou em seguida:

— Quanto à outra tarefa, não consegui achar o tal Hon’i-den Matahachi. Deixei então um recado com as pessoas da casa onde ele morava e vim-me embora. Está bem assim?

— Excelente. Muito obrigado. Agora, vá tomar um bom banho quente, e depois jante no andar de baixo — instruiu Musashi.

— Isto aqui é uma pensão?

— Quase isso.

Musashi esperou o menino se afastar para abrir a resposta que lhe mandava Yoshioka Seijuro. Em linhas gerais, dizia que esperava com igual ansiedade por uma nova oportunidade de duelo. Por outro lado, caso Musashi não comparecesse à academia até o próximo inverno conforme prometia, arrogava-se o direito de considerar que, de puro medo, desaparecera sem deixar vestígios. Nesse caso, Musashi deveria se preparar, pois a academia Yoshioka se encarregaria de divulgar por todo o país a sua covardia, transformando-o em alvo de deboches.

A caligrafia grosseira e o tom afetado da carta sugeriam que alguém menos culto que Seijuro a escrevera em seu nome. Musashi rasgou-a em tiras e as queimou. Cinzas negras que lembravam borboletas queimadas esvoaçavam e se contorciam sobre o tatami. O intercâmbio de cartas estabelecera as bases de um desafio, mais do que isso, de um duelo de vida e morte. Uma das partes acabaria transformada em cinzas iguais a essas.

A vida de um guerreiro tem início a cada amanhecer, mas nada garante sua continuidade até o anoitecer. Musashi sempre soubera quão precária era a vida que levava. Teoricamente, compreendia e aceitava a iminência da morte. Mas... e se sua vida durasse de fato apenas até o próximo inverno? Surpreso, percebeu não estar pronto a enfrentar uma morte tão próxima.

“Quanta coisa a realizar! O aprimoramento da minha técnica marcial é uma delas mas, além disso, não concretizei nenhum dos muitos sonhos de um homem, como por exemplo, andar pelas estradas do país, à semelhança de Bokuden ou Kamiizumi Ise, acompanhado de um numeroso séquito, um falcão pousado no braço do pajem, e parelhas de muda puxadas por servos; ou ter uma casa famosa de que pudesse me orgulhar e nela abrigar uma bela mulher, sustentar filhos e vassalos, tornar-me bom pai e esposo, constituir um lar enfim, o lar que nunca tive.”

Que dizia! Muito antes de se enquadrar em qualquer desses modelos, queria passar pela experiência de se apaixonar por uma mulher. Até esse dia mantivera a castidade sem muito esforço, pois apenas um pensamento ocupava a sua mente: aperfeiçoar suas habilidades marciais. Ultimamente, porém, ao andar pelas ruas de Kyoto e Nara, de súbito lhe ocorria notar, ou melhor, sentir como uma pontada a beleza física de certas mulheres com quem cruzava. Era nessas ocasiões que uma imagem lhe vinha à mente, impetuosa: Otsu.

Sua imagem parecia provir de um passado longínquo; ao mes