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MUSASHI – Vol II / Yoshikawa, Eiji
MUSASHI – Vol II / Yoshikawa, Eiji

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

MUSASHI

Volume II

 

 

O Fogo - O Vento

 

A MELANCIA

As águas do Yodogawa — rio que em Kyoto corre por terras de Fushimi-Momoyama, sede do castelo Fushimi — seguem seu curso e vêm, algumas dezenas de quilômetros adiante, banhar também as pedras da muralha do castelo de Osaka, na baía de Naniwae[1], constituindo uma ligação natural entre os dois castelos. Talvez seja esse o motivo por que qualquer medida política tomada em Kyoto chegue ao conhecimento do castelo de Osaka instantaneamente e, em contrapartida, qualquer movimentação militar nos arredores de Osaka alcance com incrível precisão os ouvidos dos senhores do castelo Fushimi[2].

Em torno desse extenso rio que atravessa as províncias de Settsu e Yamashiro a sociedade japonesa passava, nesses dias, por uma revolução cultural em que duas correntes se mesclavam. No castelo de Osaka, Toyotomi Hideyori e sua mãe, Yodo-gimi — a dama de Yodo — lançavam mão de todos os recursos na tentativa de ostentar um poder que já não detinham depois da morte de Toyotomi Hideyoshi, mas seus esforços constituíam um melancólico espetáculo, semelhante ao do sol que aos poucos descamba no ocaso. O castelo Fushimi, por seu lado, estava ocupado por Tokugawa Ieyasu desde a batalha de Sekigahara, que se empenhava em traçar novos rumos políticos e econômicos para o país, reformulando radicalmente as diretrizes governamentais anteriores estabelecidas pelo falecido Toyotomi Hideyoshi. A mistura das duas correntes envolvendo dois pólos de poder — um em declínio representado pelo castelo de Osaka, e outro em ascensão, representado pelo castelo Fushimi — era patente em toda parte, como, por exemplo, nos barcos que singravam as águas do rio Yodo, em homens e mulheres caminhando pelas margens, nas canções populares, em rostos de rounin à procura de emprego.

— E agora, o que acha que vai acontecer?

O assunto vinha sempre à baila, pois interessava a todos.

— Acontecer onde?

— No país, ora!

— Muita coisa vai mudar, isto é certo. Aliás, desde os tempos de Fujiwara Michinari, nem um dia sequer se passou sem mudanças. E depois que as casas Genke e Heike entraram em disputa pelo poder, as mudanças passaram a acontecer com maior rapidez.

— Isto quer dizer que teremos guerra de novo.

— As coisas tomaram tal rumo que já não há caminho de volta possível. Não há força capaz de conduzir o país pacificamente.

— Dizem que em Osaka estão arregimentando rounin de outras províncias.

— Com certeza. Que ninguém nos ouça, mas soube que Tokugawa-sama também está comprando uma montanha de rifles e pólvora dos navios mercantes bárbaros.

— Mas se é assim, por que é que ele deu em casamento sua neta, Sen-hime, a Toyotomi Hideyori?

— Nossos grandes líderes são sábios; nós, do povo, é que somos incapazes de compreender suas razões.

Sob o sol inclemente, as rochas ardiam, o rio fervia. O outono já se aproximava, mas o calor, nesse fim de estação, tornara-se ainda mais intenso que durante o auge do verão.

A beira do rio Yodo, na cabeceira da ponte Kyobashi, chorões esbranquiçados de calor pendiam seus ramos. Uma cigarra cruzou o rio e voou cegamente, desaparecendo entre as casas da vila. Àquela hora do dia a vila perdera a feérica beleza que as luzes noturnas costumavam lhe emprestar. Brancas, queimadas de sol, as telhas de madeira pareciam cobertas por fina camada de cinza. A montante e a jusante do rio havia um considerável número de barcaças atracadas, todas elas carregadas de pedra. Onde quer que a vista alcançasse viam-se apenas pedras — sobre o rio, pedras nas margens.

As pedras em questão eram blocos de rocha, na maioria grandes, suas superfícies medindo aproximadamente quatro metros quadrados. Era hora do almoço. Indiferentes ao calor, carregadores — homens contratados para arrastar os blocos de rocha — gozavam momentos de descanso, alguns sentados sobre as rochas escaldantes, outros deitados de lado ou de costas. Nas proximidades, bois de carga dos carroções que transportavam toras mantinham-se imóveis, baba escorrendo de suas bocas e enxames de moscas cobrindo seus corpos.

Estava em curso a reforma do castelo Fushimi.

Contrariamente ao que parecia, no entanto, Tokugawa Ieyasu — então se fazendo chamar Ogosho ou Grande Líder — não se hospedava ali. As reformas casteleiras simplesmente faziam parte do programa de governo Ieyasu, no período pós-guerra.

Obrigando os suseranos das diversas províncias a reformar seus castelos,

Ieyasu mantinha os fudai daimyo — senhores feudais de sua confiança — sempre ocupados, em constante estado de alerta, ao mesmo tempo em que dilapidava as posses dos tozama daimyo[3] — suseranos que não gozavam de sua total confiança — levando-os a se exaurir financeiramente

Uma outra razão ocultava-se por trás da política de reconstrução castelar: as grandes obras de construção civil eram o meio mais eficiente de distribuir renda pelas camadas sociais mais baixas e promover a rápida e entusiástica aceitação popular do governo Tokugawa. Eis por que as reformas dos castelos se sucediam em todo o país. Entre as maiores estavam as dos castelos de Edo, Nagoya, Sunpu, Echigo-Takata, Hikone, Kamiyama, Otsu, etc.

 

Cerca de mil homens vinham diariamente em busca de trabalho a dia, apenas nas obras do castelo Fushimi. A grande maioria deles era empregada na construção da nova muralha. Em conseqüência do espantoso afluxo de trabalhadores, a cidade de Fushimi viu de pronto crescer sua população de prostitutas, vendedores ambulantes e moscas, as últimas atraídas pelo excessivo número de cavalos e bois de carga.

— Tudo prospera, graças a Tokugawa-sama — dizia o povo, louvando as medidas adotadas pelo governo Ieyasu.

Ao mesmo tempo, oportunista e interesseira como sempre, a classe mercantil especulava febrilmente, ábaco em punho aferindo cada fenômeno social:

— Se estourar outra guerra... será a minha oportunidade de lucrar. Mercadorias trocavam de mãos em silêncio — suprimentos militares na

sua grande maioria, era óbvio.

As pessoas abandonavam o saudosismo e a lembrança dos gloriosos dias do domínio Toyotomi, e já começavam a preocupar-se: como lucrariam na nova ordem política estabelecida pelo governo Tokugawa? Não lhes importava quem detinha o poder. Bastava-lhes apenas que seus insignificantes desejos fossem atendidos e a subsistência assegurada.

E Ieyasu não traiu os anseios da plebe rude. Satisfazer o povo foi para ele, com certeza, tarefa mais agradável que distribuir doces entre criancinhas, mormente porque os recursos financeiros não provinham da casa Tokugawa, mas dos gordos cofres dos fuzai daimyo, cujas finanças Ieyasu solapava enquanto aumentava a própria popularidade.

A par dessas medidas na área urbana, na área rural o governo Tokugawa passou a exercer um controle rigoroso sobre a produção agrícola, impedindo a requisição aleatória da safra e negando o direito de cada feudo a ela, como era costume até então. Desse modo, Ieyasu lentamente estabelecia as bases da política feudal Tokugawa.

“Não explique medidas políticas à plebe, imponha-as”, e “Quanto aos agricultores, constitui ato de caridade conceder-lhes apenas o suficiente para viver, sem lhes permitir extravagâncias”, eram princípios da política centralizadora do governo de Ieyasu.

Essa política — condição prévia do estado feudal controlador — traria conseqüências que se fariam sentir indiscriminadamente sobre toda a população, desde os mais ricos senhores feudais aos mais humildes lavradores, e acabaria por imobilizá-los, amarrando-lhes mãos e pés por mais de três gerações. Mas, nesse momento, ninguém pensava num futuro cem anos distante. Aliás, nem no amanhã pensavam os trabalhadores que vinham ganhar o dia erguendo e arrastando blocos de rocha.

Saciada a fome do meio-dia, o máximo que podiam desejar era a rápida chegada da noite. Ainda assim, em vista da atual situação, perguntavam-se incessantemente:

— Vai haver outra guerra?

— Quando?

Ninguém, no entanto, se preocupava com a situação política ou se detinha questionando os rumos da paz, uma vez que esses homens tinham apenas uma certeza: “Para nós, pior do que está não há de ficar, mesmo que venha uma nova guerra.”

— Quem quer melancias?

Como sempre acontecia na hora do descanso, uma jovem, filha de lavradores, surgiu carregando um cesto de melancias e as ofereceu aos trabalhadores. Um grupo que jogava bakuchi à sombra de algumas rochas comprou duas.

— E vocês, não querem melancia? Quem me compra uma melancia? — repetia a jovem andando de grupo em grupo, mas as respostas eram quase sempre as mesmas:

— E eu lá tenho dinheiro, sua idiota?

— Só se for de graça!

Nesse instante, um jovem trabalhador, pálido e solitário, que se acomodara entre duas rochas abraçando os joelhos, levantou o olhar mortiço e murmurou:

— Melancia...

Magro, queimado de sol, olhos fundos e faces encovadas, quase irreconhecível, o jovem carregador era Hon’i-den Matahachi.

 

Matahachi contou sobre a palma da mão algumas moedas, sujas de terra. Entregou-as à vendedora e comprou uma melancia. Em seguida, ajeitou a fruta no colo, recostou-se molemente nas pedras e permaneceu alguns minutos imóvel e cabisbaixo.

De súbito, curvou-se para a frente e, apoiando-se numa das mãos, vomitou saliva ruidosamente sobre a relva, como um boi. A melancia rolou do seu colo, mas Matahachi não tinha sequer ânimo para recuperá-la. Pelo visto, não tivera a intenção de comê-la quando a comprara. Seu olhar mortiço apenas fixava a melancia. Seus olhos eram duas esferas de vidro vazias, sem vontade ou esperança. Seus ombros ondulavam a cada respiração.

“Malditos...”

Em sua mente surgiam apenas vultos odiosos: a face branca de Okoo, a imagem de Takezo. “Ah, se não fosse Takezo..., se não tivesse conhecido Okoo”, não podia deixar de pensar, ao retraçar desde a origem o caminho que percorrera até a sua atual e degradante situação.

A batalha de Sekigahara fora o primeiro passo em direção ao desastre. O segundo, a sedução de Okoo. Não fossem esses dois fatores, ainda estaria em sua terra natal. Seria hoje o líder de seu clã, estaria casado com uma linda mulher, seria sem dúvida alvo de inveja dos aldeões.

“Otsu deve me odiar tanto! Como estará ela?”

Ultimamente, pensar em Otsu era o seu único consolo. Mesmo no tempo em que vivia com Okoo, o coração de Matahachi voltara-se para Otsu a partir do momento em que percebera a verdadeira personalidade da viúva. Mais tarde, partira, ou melhor dizendo, fora expulso da Hospedaria Yomogi — a casa dirigida por Okoo — quando então passara a pensar em Otsu com maior freqüência ainda.

Nessa época, Matahachi sentira o brio ferido ao saber que Miyamoto Musashi — o jovem espadachim em ascensão cujo nome andava na boca dos samurais em Kyoto — era, na verdade, seu amigo de infância Takezo.

“Muito bem: se ele pode, eu também posso!” Parou de beber, chutou longe a indolência e procurou mudar de vida. “Vai ver quanto eu valho, Okoo. Espere só!”

Não achou, contudo, um emprego conveniente de uma hora para outra. Tarde demais percebeu, com amargura e nitidez, o tamanho do erro que cometera ao se alhear de tudo e viver cinco anos à custa de uma mulher mais velha.

“Qual o quê, ainda há tempo. Tenho apenas 22 anos. Hei de vencer, custe o que custar.”

Era o tipo de conclusão exaltada a que qualquer um chegaria, mas procurar emprego no canteiro de obras do castelo Fushimi exigira de Matahachi um tocante esforço e representara um verdadeiro salto de olhos vendados sobre um precipício que o destino — achava ele — abrira por engano à sua frente. E foi assim que — nem ele sabia de onde tirara tanta resistência — viera se dedicando àquele trabalho braçal sob o sol escaldante ao longo de todo o verão e o começo do outono.

“Ainda serei famoso. Por que não, se Musashi conseguiu? Nada disso, serei ainda mais famoso que ele e então me farei respeitar. Nessa hora me vingarei de Okoo também. Esperem mais dez anos...”

Mas — repentinamente lhe ocorreu — quantos anos teria Otsu daqui a dez anos? Ela era um ano mais nova que Takezo e ele. Dentro de dez anos, Otsu teria 31 anos!

“Otsu continuaria solteira até lá, à minha espera?” Matahachi ignorava os recentes acontecimentos de sua terra. Concluiu, então, que dez anos era tempo demais, tinha de ser dentro de cinco ou seis anos, no máximo. Precisava retornar à vila nesse interim, pedir perdão a Otsu e casar-se com ela. “É isso! Tenho cinco ou seis anos, no máximo!”

O olhar mortiço que fixava a melancia brilhou discretamente. E então, do outro lado de uma volumosa rocha, um dos seus companheiros voltou-se apoiado sobre o cotovelo e disse:

— Ei, Matahachi, está falando sozinho? Ué, que cara verde, você está muito abatido! Que foi? A melancia estava podre e lhe deu dor de barriga?

 

Matahachi forçou um sorriso e, na mesma hora, sentiu uma desagradável tontura. Cuspiu sobre a relva e balançou a cabeça negativamente:

— Não... Não é nada, deve ser o calor... Preciso de um descanso no turno da tarde. Vocês me cobririam?

— Olhem só, o molengas! — disse o robusto companheiro, lançando-lhe um olhar que continha um misto de desprezo e piedade. — E essa melancia, para que a comprou se nem consegue comê-la?

— Pensei em oferecê-la a vocês, companheiros, para compensar o trabalho que lhes dou a mais.

— Ora, muito amável de sua parte. Pessoal, é um presente de Matahachi, venham comer! — disse o homem, pegando a melancia e quebrando-a contra a quina de uma pedra. Os homens próximos acorreram de imediato como formigas e, ávidos, disputaram os suculentos e doces nacos vermelhos.

— Ao trabalho, homens, ao trabalho! — gritou o chefe do grupo, subindo numa pedra. O samurai supervisor saiu de um abrigo, empunhando um chicote. Um odor acre de corpos suados impregnou o ambiente e até as moscas se alvoroçaram. Gigantescos blocos de rocha adiantaram-se devagar, uns após outros, rolando sobre toras de madeira, impulsionados por alavancas e tracionados por cordas da grossura de um punho, compondo um cenário fantástico semelhante a uma majestosa parada de nuvens cúmulos-nimbos.

A onda reformista trouxera em seu bojo um novo tipo de música folclórica, a “moda do arrasto”[4], entoada em todo o país por homens que ganhavam a vida movimentando grandes blocos de rocha. A cantiga que se ouvia agora era uma delas. A nova tendência popular chegou a ser registrada por Hachi-suka Yoshishige, senhor do castelo de Awa, em carta que remeteu à sua terra. Yoshishigue, designado a supervisionar a reforma de diversos castelos, vistoriava a do castelo de Nagoya na ocasião, e assim escreveu:

“Encontrei-me ontem com certa pessoa que me ensinou uma modinha cantada por arrastadores de Nagoya, cuja letra mandei anotar e aqui transcrevo:

Nosso amo, glória a ele,

É Tougoro-sama.

Ele quer que a gente arraste

Pedras de Awataguchi.

Eia, arrastem, eia, pedras,

Eia, eia, sem descanso.

Só de ouvir a sua voz

Eia, arrastem, eia, pedras,

Tremo inteiro, pernas, braços!

Eia, arrastem, eia, pedras,

Se mais tenho que arrastar,

De morrer eu sou capaz.

A canção está na boca de todos, velhos e moços. A meu ver, nada expressa melhor a triste realidade deste nosso mundo transitório.”

Pelo que se depreende da carta, a rude canção dos trabalhadores havia se transformado em música de salão e vinha sendo cantada ao som de instrumentos musicais no decorrer das alegres noitadas de importantes daimyo da época, como Hachisuka Yoshishige.

Indiscutivelmente, o hábito de cantar se popularizara nas cidades no auge do domínio de Toyotomi Hideyoshi, cognominado Taiko. Embora também se cantasse durante o período Muromachi (1392-1573) dos xoguns Ashikaga, as letras desses tempos tinham um teor decadente, e o cantar era restrito aos salões. Nessa época, até as cantigas infantis tinham um tom sombrio e sentido. Sob o regime de Hideyoshi, porém, o cancioneiro popular se enriqueceu e se encheu de cantigas alegres, repletas de esperança. O povo gostava de cantar enquanto trabalhava ao ar livre.

Encerrado o episódio da batalha de Sekigahara, e conforme a sociedade aos poucos se tingia com as cores da civilização Tokugawa, as cantigas também sofreram ligeira modificação, esmaecendo o tom vigoroso e liberal de suas letras. No período Hideyoshi as canções brotavam espontâneas do seio do povo mas, durante o regime Ieyasu, cantigas aparentemente compostas por músicos pagos pela casa Tokugawa passaram a ser oferecidas às pessoas.

— Que mal-estar! — murmurou Matahachi, segurando a cabeça febril. A cantilena a plenos pulmões de seus companheiros zumbia em seus ouvidos como uma incômoda nuvem de moscas e o irritava. “Cinco anos... Cinco anos! Que será de mim se tiver de continuar cinco anos nesta vida? Num dia de trabalho ganho apenas o suficiente para comer. Se não trabalho, nem tenho o que comer!” Pendeu a cabeça, o rosto pálido, a boca seca de tanto cuspir.

Foi então que notou a pouca distância um bushi alto e jovem, cuja aproximação não havia percebido. O homem usava um sombreiro de palha grosseiramente urdido, que enterrara quase até os olhos; trazia, além disso, presa à cintura e sobre o hakama, uma pequena trouxa típica dos samurais peregrinos. Abrira um leque metálico sobre a pala do sombreiro e examinava atentamente a topografia do castelo Fushimi, bem como o andamento das obras.


SASAKI KOJIRO

Inesperadamente, o samurai peregrino sentou-se diante de uma pedra chata de quase três metros quadrados de superfície. Uma vez sentado, a pedra — por sua altura conveniente — serviu-lhe de mesa e de apoio para os cotovelos.

Com dois vigorosos sopros, removeu a areia depositada na superfície quente da rocha e, de quebra, uma fileira de laboriosas formigas. Apoiou os cotovelos na mesa improvisada e repousou por momentos sobre as duas mãos a cabeça protegida pelo sombreiro. As rochas ao redor refletiam o sol a pino, e um asfixiante mormaço subia da relva, bafejando-lhe o rosto. O calor era quase insuportável, mas o homem mantinha-se imóvel, absorto na contemplação da obra.

Tudo indicava que nem notara a presença de Matahachi, a poucos passos de distância. Este, zonzo e com náuseas, pouco se importava se havia ou não um samurai agindo de modo estranho ao seu lado: de costas para o forasteiro, Matahachi descansava, vez ou outra cuspindo sobre a relva. Nesse momento, sua respiração ofegante atraiu talvez a atenção do samurai desconhecido, pois o sombreiro se moveu e uma voz disse:

— Que há contigo, carregador?

— É o calor, acho... — respondeu Matahachi.

— Estás com náuseas?

— Melhorou, mas ainda estou, um pouco.

— Vou te dar um bom remédio — disse. Apanhou uma pequena caixa de remédios[5], abriu-a, espalhou sobre a palma da mão alguns grãos escuros, levantou-se e, aproximando-se de Matahachi, despejou-os em sua boca, dizendo:

— Daqui a pouco te sentirás melhor.

— Muito obrigado.

— Amargo o remédio?

— Nem tanto.

— Vais continuar aí descansando por algum tempo, suponho.

— Sim, senhor.

— Fica então vigiando e me avisa se alguém se aproximar. Chama-me, ou então joga alguns pedregulhos em minha direção. Combinado?

Assim dizendo, o samurai peregrino voltou ao seu lugar e sentou-se uma vez mais. Retirou em seguida um pincel de um estojo portátil, abriu sobre a pedra uma caderneta e concentrou-se em anotar alguma coisa.

Sob a pala do sombreiro seu olhar se transferia sem cessar do castelo para a sua área externa, ou ainda para a silhueta das montanhas ao fundo, o rio e o torreão. Pelo visto, o pincel esboçava a topografia do castelo, bem como aspectos internos e externos da sua muralha.

Pouco antes da batalha de Sekigahara, o castelo Fushimi havia sofrido o assédio das tropas dos suseranos Ukita e Shimazu — da coalizão ocidental posteriormente derrotada — e tivera duas de suas áreas fortificadas tomadas, bem como diversas trincheiras destruídas. As atuais reformas, porém, vinham acrescentando inexpugnabilidade e nobreza à sua primitiva estrutura. Majestoso, o castelo Fushimi contemplava agora de esguelha seu rival, o castelo de Osaka, situado no outro extremo de uma estreita faixa prateada, o rio Yodogawa.

Ao espiar sobre o ombro do samurai o esboço que ele atentamente tracejava, Matahachi percebeu que, em algum momento anterior, o homem deveria ter estado no topo da montanha Fushimi e no vale Taikyuu por trás do castelo, de onde obtivera uma vista aérea dos portões traseiros, e que compunha agora uma planta bastante precisa e detalhada.

— Ih!... — exclamou Matahachi baixinho, dando-se conta com um sobressalto de que, por trás do homem absorto na elaboração do esboço, havia surgido um bushi — vassalo talvez do suserano local ou do daimyo designado pelo governo Tokugawa para vistoriar a reforma do castelo. Calçando sandálias de palha e vestindo meia-armadura, o bushi carregava uma espada presa às costas por uma tira de couro e, mudo, aguardava em pé, por trás do samurai peregrino, que este percebesse sua presença.

“Que distração a minha!”, pensou Matahachi, sinceramente arrependido de não cumprir o prometido; porém, tarde demais. Já não adiantava chamá-lo ou avisar jogando pedregulhos.

Momentos depois, o samurai peregrino espantou com a mão a mosca que lhe sugava o sangue do pescoço suado, e se voltou. No mesmo instante esbugalhou os olhos, surpreso, e abafou uma exclamação. O supervisor de obras devolveu o olhar fixamente e, em silêncio, estendeu a mão protegida por armadura ao esboço sobre a rocha.

 

Ao perceber que a planta, ciosamente elaborada sob o sol impiedoso e em difíceis condições, lhe seria arrebatada e amassada pela mão que surgira de maneira inesperada por cima do seu ombro, o samurai peregrino explodiu como um punhado de pólvora pegando fogo.

— Largue! — berrou, agarrando o pulso do bushi. O supervisor de obras, por sua vez tentando evitar que o caderno de esboços lhe fosse arrebatado, levantou-o bem alto, ordenando:

— Quero ver esta planta!

— Insolente!

— Cumpro o meu dever.

— Isso não justifica sua atitude.

— Por que reluta em mostrá-la?

— Porque não lhe interessa. Você nem a compreenderia!

— De qualquer modo, confisco esta planta.

— Nem pensar!

O caderno, puxado pelos dois lados, partiu-se, ficando cada metade na mão de um homem.

— É melhor que se comporte, ou o levarei preso.

— Para onde?

— Ao posto do magistrado.

— E você, por acaso, é um oficial?

— Exatamente!

— De que posto e a serviço de quem?

— Não lhe interessa. Basta saber que sou o supervisor desta obra e que o estou detendo para investigações porque o considero suspeito. Quem lhe deu permissão para elaborar a planta topográfica e os detalhes da reforma deste castelo?

— Sou um samurai peregrino e viajo pelas províncias observando os detalhes topográficos e arquiteturais dos castelos, para posterior estudo. Que mal há nisso?

— Espiões enxameiam por aí com essa mesma desculpa. De qualquer modo, a planta está confiscada. E você também será submetido a interrogatório. Acompanhe-me.

— Até onde?

— À presença do magistrado.

— Pretende me tratar como um simples criminoso?

— Cale-se e venha.

— Escute aqui, oficial. Pelo que vejo, costuma fazer o povinho tremer de medo com sua carranca, mas comigo não é tão fácil.

— Ande de uma vez!

— Tente fazer-me andar — disse o samurai peregrino, decidido a não sair do lugar. O oficial por fim se enfureceu. Lançou ao chão a metade do caderno de esboços que tinha arrebatado, pisoteou-a, e extraiu da cintura um longo jitte de quase 60 centímetros. Retraiu um dos pés e se posicionou, pronto a aplicar um golpe de jitte no cotovelo do seu adversário, caso este levasse a mão ao cabo da espada, mas como não o viu reagir, ordenou outra vez:

— Ande ou o levarei amarrado!

Nem tinha o oficial acabado de falar quando o samurai peregrino deu um passo à frente. No mesmo instante ouviu-se um grito e o oficial, ato contínuo, foi agarrado pelo pescoço. A outra mão do samurai voou ao obi da armadura:

— Verme! — rosnou, erguendo o oficial do solo e lançando-o contra o canto de uma volumosa rocha.

O corpo do fiscal espatifou-se no chão como a melancia partida há pouco por um dos carregadores, e se imobilizou, molemente.

— Ugh! — exclamou Matahachi, cobrindo o rosto com as mãos, pois algo rubro e pastoso espirrara para o seu lado. Digna de admiração era a calma do samurai peregrino, a poucos passos de distância. Talvez porque estivesse acostumado a lidar com oficiais e situações semelhantes, ou porque a súbita explosão de raiva o houvesse acalmado — o fato era que o homem não dava mostras de fugir apressado. Ao contrário, juntava a metade da planta pisoteada, além de outros papéis espalhados ao redor, e procurava com olhos calmos o sombreiro que voara longe, pois a corda havia se rompido quando lançara o oficial contra a rocha.

Matahachi estava horrorizado. Assistira a uma aterrorizante demonstração de habilidade que o deixara arrepiado. Viu que o samurai peregrino, agora sem o sombreiro, não devia ter 30 anos ainda. O rosto forte e queimado de sol tinha leves marcas de varíola e faltava-lhe um quarto da face, a partir do canto inferior da orelha até o queixo. Ou melhor, talvez desse essa impressão porque havia no local uma cicatriz feia de um antigo corte que repuxara a carne dessa parte do rosto. Outra cicatriz escura era visível por trás da orelha e mais uma no dorso da mão esquerda. Aquele era um rosto selvagem, repelente, e fazia supor que, por baixo das roupas, o homem tivesse outras marcas espalhadas pelo corpo.

 

Apanhando o sombreiro, o samurai peregrino cobriu a cabeça e, ocultando o rosto desfigurado, apressou-se em fugir, rápido como o vento. Naturalmente, muito pouco tempo se passara. Nem as centenas de carregadores que trabalhavam nas proximidades, nem os supervisores que, jitte e chicote em punho, gritavam ordens aos suados homens, sequer perceberam.

No entanto, instalado num torreão alto feito de toras, havia um par de olhos especialmente designado para vistoriar o local — o do inspetor-chefe de carpinteiros e policiais. De lá partiu um grito e, no momento seguinte, alguns soldados rasos que, suados, se ocupavam em preparar um enorme caldeirão de chá no interior de um cercado próximo à base do torreão, correram para fora gritando:

— Que foi?

— Que houve?

— Outra briga?

Mas a essa altura uma pequena multidão vociferante envolta numa nuvem de poeira amarelada já se juntara na porteira, aberta na paliçada de bambu, que separava a obra da área urbana do povoado:

— É um espião de Osaka!

— Nunca aprendem?

— Acabem com ele!

Esbravejando, pedreiros, trabalhadores e encarregados do policiamento acorriam, zelosos como se a questão afetasse cada um diretamente.

O samurai da feia cicatriz no queixo fora pego. Tentara escapar ocultando-se com agilidade atrás de um carroção que saía pela porteira nessa hora, mas os vigias, desconfiados de seu comportamento, tinham-no derrubado, atingindo-lhe os pés de chofre com um sasumata — instrumento de cabo longo semelhante a um forcado com dois dentes cravejados de pregos.

Ao mesmo tempo, uma voz esbravejara de cima do torreão:

— Prendam o homem do sombreiro!

Bastou para que vigias e policiais caíssem sobre ele, sem perguntar por quê. O samurai se recompôs e, em desespero, enfrentou-os como um animal acuado. O primeiro a tombar foi o vigia do forcado: arrancando o instrumento de suas mãos, o samurai peregrino com ele enredou os cabelos do vigia e lançou-o ao chão. Derrubou em seguida mais quatro ou cinco homens, e logo fez cintilar a lâmina de uma comprida espada que levava à cintura. A arma, muito mais robusta do que uma espada convencional, era apropriada para situações de combate. Extraiu-a portanto da cintura, ergueu-a com os dois braços acima da cabeça e vociferou:

— Vermes!

Foi o suficiente: os homens recuaram, formando uma clareira no cerco por onde avançou o samurai, disposto a abrir caminho para a liberdade. Fugindo do perigo, a multidão dispersou-se gritando mas, nesse instante, pedras provenientes de todos os lados choveram sobre o peregrino.

— Acabem com ele!

— A pauladas!

Eram pedreiros e serventes que, ao perceberem o recuo dos samurais encarregados do policiamento, extravasavam desse modo o antagonismo que nutriam no cotidiano por samurais peregrinos em geral, a quem consideravam excêntricos eremitas ou, pior, um bando de desocupados, arrogantes e exibicionistas, dados a andar pelo mundo vangloriando-se do pouco que sabiam.

— Mata! Mata!

— Liquida de uma vez! — gritavam os homens.

— Patifes! — rosnou o samurai peregrino avançando contra a multidão, que a cada avanço recuava gritando. Seus olhos já não buscavam um caminho de fuga, mas procuravam os homens que lhe lançavam as pedras, perdidos o discernimento e a prudência.

 

Apesar dos muitos feridos e alguns mortos que o episódio produzira, a área retornou à normalidade momentos depois, cada homem de volta ao seu trabalho como se nada houvesse acontecido.

Impassíveis, carregadores ocupavam-se em arrastar pedras, serventes em transportar terra, pedreiros em talhar rochas com seus formões.

Com a chegada da tarde, o calor nesse fim de verão tornou-se insuportável, intensificado pelo ruído quente dos formões arrancando faíscas das pedras e pelo relinchar enlouquecido dos cavalos afetados pela excessiva exposição ao sol. Não se moviam sequer as nuvens encadeadas, que se estendiam desde o castelo Fushimi até o rio Yodo.

— Homem, fica aí e toma conta deste, ouviste? Já está praticamente morto, mas vou deixá-lo do jeito que está, até a chegada do magistrado. Se morrer, morreu, não precisas te incomodar — lembrava-se Matahachi vagamente de ter ouvido as recomendações de um mestre de obras e de um samurai supervisor, antes de se retirarem. Entrara em estado de choque, talvez, pois desde a cena de há pouco, parecia-lhe viver um pesadelo. Vira e ouvira o oficial, mas nada se registrara claramente em seu cérebro.

 “A vida não tem sentido. Este, estava aí agora mesmo, fazendo a planta do castelo.” Havia já algum tempo, o olhar opaco de Matahachi prendia-se na forma estendida no chão, a dez passos de distância, enquanto divagava sobre a futilidade da vida. “Parece que já morreu. Nem 30 anos devia ter, o coitado.”

Amarrado com uma grossa corda, o samurai do rosto desfigurado jazia no chão deixando à mostra um dos lados do rosto escuro, sujo de terra e sangue, contraído num esgar atormentado. A outra ponta da corda achava-se presa a uma enorme rocha. “Para que amarrar desse jeito um homem incapaz até de gemer, quanto mais de se mover?”, pensava Matahachi enquanto o contemplava. Na perna quebrada, que emergia em curioso ângulo de seu hakama rasgado, um pedaço de osso, branco, rompera a pele da canela e estava à mostra. Seus cabelos empastados de sangue já haviam atraído moscas e sobre seus pés e mãos caminhavam formigas.

“Quantos sonhos não devia acalentar este homem, ao sair peregrinando pelo mundo em busca de aperfeiçoamento. De onde viera, quem seriam seus pais?”

Enquanto lamentava a sorte do homem, a depressão tomou conta de Matahachi, que não sabia mais se pensava no desconhecido ou no próprio destino.

— Deve haver um caminho mais inteligente para o sucesso — murmurou.

Os tempos eram de transição para uma era de realizações, em que se conclamava a juventude a aspirar por um futuro melhor: “Erguei-vos, jovens!” “Sonhai!” Nos tempos que corriam, um indivíduo qualquer podia sonhar em ascender à posição de proprietário e senhor de um castelo. Até Matahachi sentira-se afetado por esse clima social.

Levados pela ambição, moços abandonavam suas terras, lares e laços familiares, a maioria tornando-se samurais peregrinos. Para estes, em suas andanças país afora, sempre haveria um meio de obter comida e roupa onde quer que fossem, pois mesmo o mais simplório dos interioranos desses tempos se interessava por artes marciais e se mostrava disposto a pagar para obter informações. Os templos representavam outro meio de subsistência e, com um pouco de sorte um samurai peregrino poderia até cair nas graças de um poderoso clã provinciano, tornando-se seu hóspede permanente. Além disso, caso a sorte de fato lhe sorrisse, poderia vir a receber de algum daimyo poderoso uma taxa de vassalagem, módico estipêndio pago a tais indivíduos por prudentes suseranos que, desse modo e sem um sério comprometimento de suas finanças, os mantinham sempre à mão para alguma emergência militar.

Mas no meio dessa multidão de samurais peregrinos, sem dúvida poucos eram os contemplados pela sorte. Apenas dois ou três em dez mil obtinham sucesso e fama, e um bom estipêndio. Mesmo para estes, o aprendizado continuava árduo e o progresso difícil, pois a carreira não oferecia um diploma final, uma garantia de sucesso permanente.

— É um absurdo! — murmurou Matahachi, sentindo pena do seu amigo de infância, Musashi, e do caminho por ele escolhido. “Dia chegará em que o contemplarei do alto da minha posição bem-sucedida, mas não cometerei a tolice de seguir o seu caminho”, pensou. A visão do samurai morto reforçou sua resolução.

— Que é isso? — disse Matahachi repentinamente, esbugalhando os olhos e saltando para trás. Pois a mão cheia de formigas do samurai que considerara morto se contraíra de repelão. A mão e o punho emergiram em seguida, como a cabeça de uma tartaruga, para fora das cordas que envolviam seu tronco. A mão tocou o chão, e então o samurai nela se apoiou para erguer o tronco e a cabeça. Aos poucos, começou a rastejar, avançando em sua direção.

 

Apavorado, Matahachi engoliu a saliva que se juntava na boca e recuou ainda mais. Seu susto foi tão grande que perdeu a voz. Conseguia apenas fixar, de olhos esbugalhados, a cena à sua frente.

Um som sibilante escapava da boca do homem, que parecia querer falar. Por homem subentende-se o samurai peregrino do rosto deformado. Matahachi o havia dado por morto, mas ele ainda vivia.

O som sibilante continuava a soar em sua garganta, intermitente. Seus lábios já estavam escuros e ressequidos, incapazes de pronunciar qualquer palavra. Mas o desesperado esforço que fazia para falar, apesar de tudo, interferia na respiração provocando o som que lembrava o de uma flauta rachada.

Não era pelo fato do homem ainda estar vivo que Matahachi se espantara, mas porque ele vinha rastejando, apesar das cordas que prendiam os braços ao corpo. Só esse esforço já era assombroso mas, mais impressionante ainda: o moribundo mortalmente ferido vinha arrastando consigo, enquanto avançava centímetro a centímetro, uma pesada rocha de algumas dezenas de quilos atada à outra ponta da corda.

Sua força era descomunal, sobrenatural. Alguns trabalhadores musculosos da obra gabavam-se de ter a força de dez ou vinte homens juntos, mas nenhum chegaria aos pés desse monstro.

Além de tudo, o samurai peregrino agonizava. Só o fato de estar vagando no limiar da morte explicaria, talvez, sua força sobre-humana. E Matahachi imobilizou-se de pavor porque o homem vinha se aproximando cada vez mais, fixando-o com olhos esbugalhados, quase saltando das órbitas.

— Po... Por favor! — gaguejou o homem palavras quase ininteligíveis junto com mais alguns sons estranhos. A única coisa significativa eram os olhos — olhos de alguém ciente de que vai morrer — congestionados, um tanto úmidos, chorosos.

— ... peço! — A cabeça pendeu bruscamente: desta vez, o homem morrera de verdade. A pele do seu pescoço escureceu num instante diante do olhar de Matahachi. As formigas já se apinhavam em seus cabelos, brancos de pó. Uma espreitava o buraco do nariz, onde o sangue coagulara.

Matahachi apenas olhava, aturdido, sem compreender. Em seu íntimo, no entanto, começava a formar-se uma certeza: o último pedido do homem seria uma carga em seus ombros e o perseguiria por toda a vida, como uma maldição. Parecia-lhe que a bondade do samurai — ao lhe dar remédio quando percebera seu mal-estar — bem como a própria incompetência, não notando a aproximação do supervisor e não avisando o peregrino a tempo, transformavam-se em elos de uma cadeia que o destino preparara para amarrá-lo ao desconhecido.

A cantoria dos carregadores de pedra soava agora abafada, distante. A névoa esfumaçava lentamente o contorno do castelo. Sem que Matahachi se desse conta, a noite vinha caindo. As primeiras luzes na cidade casteleira de Fushimi já se acendiam, trêmulas.

— É verdade... Talvez haja alguma coisa aqui.

Matahachi tocou de leve a pequena trouxa que o morto trazia à cintura: dentro encontraria informações sobre sua procedência ou dados familiares, com certeza. “Talvez quisesse me pedir para entregar uma lembrança à família,” pensou.

Removeu do cadáver a trouxa e a caixa de remédios e guardou-as em suas próprias roupas. Pensou também em cortar uma mecha de seus cabelos para remetê-la à sua gente mas, ao ver o rosto do morto, desistiu horrorizado.

Um ruído de passos chegou aos seus ouvidos. Espiou por trás de uma rocha e avistou diversos samurais do posto do magistrado aproximando-se. Ao se dar conta de que retirara objetos pessoais do morto sem pedir permissão e os tinha agora em seu poder, Matahachi percebeu o perigo que corria e a necessidade de fugir o mais rápido possível. Curvado para a frente, esgueirou-se pulando de pedra em pedra, ligeiro como uma lebre.

 

A brisa da tarde trouxe consigo o outono. Buchas amadureciam numa cerca viva. À sombra dela, a mulher do confeiteiro, que tomava banho numa tina de água quente, voltou-se ao ouvir ruídos no interior da casa e perguntou, exibindo um palmo da pele branca por trás da cerca:

— Quem está aí? É você, Matahachi-san?

Matahachi era um dos pensionistas do casebre. Mal chegara, revolvera freneticamente o armário, retirara um quimono e uma espada, trocara-se, cobrira a cabeça com uma toalha, e se apressava agora em calçar outra vez as sandálias.

— Está escuro aí dentro, não está, Matahachi-san? — disse a mulher.

— Nem tanto.

— Já vou acender uma luz.

— Não se incomode com isso, já estou saindo.

— Não vai tomar banho?

— Não.

— Passe um pano úmido pelo corpo, ao menos.

— Não é preciso.

Mal respondeu, Matahachi saiu apressado pela porta dos fundos. Simples, pois não havia portão ou cerca, a porta dos fundos dando diretamente para uma extensa campina. Quase no mesmo momento, vindo do extremo da campina, um grupo de homens se aproximou do casebre do confeiteiro e entrou pela porta da frente. Alguns samurais da construção estavam entre eles.

— Esta foi por um triz! — murmurou Matahachi.

O fato de alguém ter roubado a trouxa e a caixinha de remédios do samurai da feia cicatriz no queixo logo fora descoberto, é claro. Mais claro ainda é que a suspeita recaíra sobre ele, Matahachi, que vigiava o morto.

“Mas eu não a roubei. Apenas fiquei, a contragosto e provisoriamente, com os pertences do morto, em atenção ao seu pedido.”

Matahachi não sentia a consciência pesada. Os objetos estavam guardados nas dobras internas de seu quimono, mas apenas por algum tempo.

“Não posso mais voltar a trabalhar na obra”, pensou. Não tinha a mais remota idéia de aonde ir, a partir do dia seguinte. Sentiu, porém, até certo alívio: não fosse pelo acontecido, talvez tivesse continuado a arrastar pedras por muitos anos.

O mato chegava à altura dos ombros, carregado de sereno. Não corria o risco de ser visto de longe, o que lhe facilitava a fuga. E agora, para onde? Qualquer que fosse o destino, nada tinha além do que levava no corpo. A sorte espreitava, assim lhe parecia, oferecendo-lhe tanto boas oportunidades como desgraças. A direção que tomasse agora teria o poder de mudar para sempre o seu destino. Não acreditava que pudesse haver uma vida predestinada, inevitável. Tinha apenas de andar ao sabor do acaso.

Osaka, Kyoto, Nagoya ou Edo — para onde iria? De qualquer modo, não tinha conhecidos em lugar nenhum. O futuro abria-se à sua frente, tão incerto quanto a sorte nos dados. E tanto quanto a sorte nos dados, incerta era a vida de Matahachi. Deixaria que algum acontecimento fortuito guiasse seus passos, decidiu ele.

Mas por mais que andasse, nenhum acontecimento se lhe apresentou na extensa campina das terras de Fushimi. Apenas os grilos cricrilavam cada vez mais alto, e mais pesado caía o sereno. Encharcada de orvalho, a barra do quimono tolhia seus passos e as sementes das plantas nela aderidas provocavam comichões em seus tornozelos.

Matahachi esquecera o mal-estar que o atormentara durante o dia mas, em contrapartida, sentia-se faminto. Seu estômago estava completamente vazio. A caminhada tornara-se penosa desde o momento em que tivera certeza de não estar sendo seguido.

“Preciso achar um lugar para dormir”, pensou.

E esse desejo o levara inconscientemente àquele local no extremo da campina, onde avistara a cumeeira de uma casa solitária. Ao se aproximar, percebeu que o portal e o muro ao redor da casa estavam inclinados por obra de alguma tempestade. Com toda a probabilidade, o telhado também estaria avariado. Mas era uma construção elegante que, em dias mais felizes — assim imaginou Matahachi — deveria ter sido a casa de veraneio de algum fidalgo. Sofisticadas mulheres provenientes da capital, reclinadas em coloridas liteiras puxadas por parelhas de bois, teriam freqüentado a casa, passando entre arbustos de trevo. Matahachi cruzou o portal — de onde as portas há muito haviam desaparecido — e, contemplando a casa principal e suas dependências quase ocultas pelo mato, lembrou-se prontamente de certa passagem da coletânea Gyokuyou[6], de autoria do monge poeta Saigyo:

“Fui à procura de alguém que conheci outrora e que, assim me dizem, mora hoje em Fushimi. Encontro uma casa abandonada, cujo jardim ervas daninhas invadiram, ocultando as passagens. Ouço apenas o cricrilar dos grilos.

No devastado jardim a que chego

Do mato rompendo o cerco,

Por mim choram, desolados,

Grilos e o orvalho a gotejar.”

Matahachi, imóvel e tiritando de frio, rememorava as palavras do poeta e examinava a casa quando, atiçada pelo vento, viu romper uma língua de fogo num braseiro dentro da construção que julgara desabitada. Instantes depois, o som de uma flauta shakuhachi vibrou no ar.

 

Pelo visto, era um monge mendigo komuso que aproveitava a casa vazia para passar a noite. A sombra do monge, projetada na parede, dançava conforme as chamas avermelhadas se elevavam. O monge tocava sozinho. Não pensava em distrair alguém ou a si próprio. Apenas tentava concentrar-se na melodia e alhear-se do mundo para que a solitária noite de outono passasse despercebida. Ao terminar a melodia, o monge suspirou:

— Ah!...

Ciente de que essa era a única casa no meio da campina, iniciou um despreocupado monólogo:

— 40 anos, dizem, é a idade da razão. Mas, no meu caso, já tinha 40 e mais sete quando cometi o deslize que me fez perder o estipêndio e o bom nome; além de tudo, acabei abandonando meu único filho em terras estranhas... Que vergonha, que vergonha! Nem sei como me explicar à minha mulher, no outro mundo, ou ao meu filho... Quando analiso o meu caso, concluo que 40 anos é a idade da razão só para sábios. Para gente comum, como eu, não há idade mais perigosa que a dos 40. É como andar por uma ladeira: qualquer descuido é fatal. Principalmente quanto a mulheres.

Cruz ou as pernas e, com a flauta shakuhachi fixada à frente, apoiou ambas as mãos no seu bocal.

— Muita besteira andei fazendo nos meus 20 e 30 anos por causa de mulheres mas, nessa idade, o mundo tende a ser benevolente com os nossos pecados, e nada parece nos marcar para sempre... Mas depois dos 40, as aventuras amorosas vão ficando cada vez mais ousadas e em casos como aquele, com Otsu, o mundo não perdoa. Aquilo se transformou num formidável escândalo, graças a que perdi casa, estipêndio e até meu filho... Aos 20 ou 30 anos, ainda há chances de recuperação, mas um erro aos 40 não tem conserto.

Cabisbaixo como um cego, o monge falava sozinho.

Matahachi entrou na casa e, silenciosamente, aproximou-se do aposento em que o indivíduo se achava. Quando viu, porém, o rosto cadavérico, os ombros magros como os de um cachorro do mato, os cabelos secos e emaranhados realçados pelas chamas, e ouviu o monólogo enlouquecido do monge komuso, arrepiou-se de horror e perdeu a coragem de lhe dirigir a palavra, pois o homem lembrava um demônio das trevas.

— Ah, mas que bobagem fui fazer!

O monge agora erguia o rosto e fitava o teto. Suas narinas, dois grandes buracos como os de uma caveira, eram visíveis do local onde estava Matahachi. Vestia um quimono simples e encardido, como o de um rounin qualquer, e usava na altura do peito uma estola budista, única evidência de que era um dos mais humildes monges zen da seita Fuke. A esteira sobre a qual se sentava era o seu único bem. Ele a enrolava e a levava na mão a todos os lugares, era o seu leito e o seu abrigo contra a chuva e o sereno.

— Não adianta ficar falando, a esta altura, mas nenhuma fase na vida de um homem é mais perigosa que a dos 40 anos. A gente acha que já viu o mundo, conhece a vida, e tende a se supervalorizar só porque conquistou uma pequena posição. É quando se perde a vergonha e se corre o risco de cometer desatinos no campo amoroso, como aconteceu comigo. O destino me aplicou um golpe traiçoeiro e me jogou ao chão... Castigo pela sem-vergonhice!

Curvou-se uma vez, como se pedisse desculpas a alguém, tornou a se curvar mais uma vez.

— Talvez eu tenha merecido: não reclamo por mim. A natureza me concedeu abrigo em meu arrependimento, e um meio de vida — disse, derramando algumas lágrimas repentinas. — Mas, e meu filho, como vou compensá-lo? O castigo pelos meus pecados recaiu com maior força sobre os ombros do pobre Joutaro. Tivesse eu conservado meu posto no clã Ikeda de Himeji, o menino seria o respeitável herdeiro de um samurai com mil koku de estipêndio. Mas hoje, o pobrezinho está longe de sua terra e do pai, sozinho no mundo... E imagine só se ele, mais tarde, na idade adulta, vier a saber que o pai foi banido do clã porque se envolveu com uma mulher e prevaricou depois dos 40! Nunca mais poderei olhá-lo de frente.

Por instantes, cobriu o rosto com as mãos e assim permaneceu. E então, levantou-se repentinamente e se afastou do braseiro, dizendo:

— Chega! Já ia recomeçar minhas lamúrias... Ah, olhe a lua aí. Acho que vou sair para a campina e tocar até não mais poder. Boa idéia: vou me livrar das queixas e da luxúria que ainda queimam em meu peito, lançando-as ao vento da campina.

Saiu, levando consigo a flauta de bambu.

 

Monge estranho, pensou Matahachi que, oculto, espreitava enquanto o homem se levantava e se afastava cambaleando. Imaginou ter visto um ralo bigodinho no rosto emaciado. Não parecia tão velho, mas seu andar era trôpego.

O monge komuso se fora bruscamente e demorava a voltar. Matahachi achou que o homem não estava em seu juízo perfeito, o que lhe inspirou, junto com certa dose de horror, um pouco de compaixão. Quanto a isso nada podia fazer, mas o que o perturbou a seguir foi o fogo no braseiro, queimando vivamente, atiçado pelo vento noturno. E uma tora em chamas se partira e já começava a queimar o assoalho.

— Mas que perigo, que perigo! — disse Matahachi, aproximando-se e despejando sobre as brasas a água de uma bilha. A casa era uma construção abandonada, perdida no meio do mato, é verdade. Mas imagine que desgraça não seria se se tratasse de um daqueles magníficos templos das eras Kama-kura ou Asuka, cuja reconstrução seria para sempre impossível!

— Gente como esse monge é responsável pelos incêndios que assolam Kamakura e Kouyasan — resmungou Matahachi, levado por inesperado espírito cívico, indignado, sentando-se ao fogo no lugar anteriormente ocupado pelo monge. Vagabundos não têm casa ou família; por isso mesmo, não têm noção de civismo. Nem lhes passa pela cabeça que o fogo represente perigo. Eis porque, imperturbáveis, acendem fogueiras em santuários de paredes finamente trabalhadas, forradas de ouro. Ao calor das criminosas chamas, vidas desprovidas de sentido aquecem suas carcaças.

“Mas a culpa não é só dos vadios”, pensou Matahachi, lembrando-se de que ele próprio agora era um deles. Em nenhuma outra época houvera tantos desocupados no país. E na origem desse fenômeno social estavam as guerras que, se por um lado eram vantajosas para muitos, por outro provocavam o surgimento de um número assustador de pessoas marginalizadas, descartadas como refugo pela sociedade. Que esses elementos se tornassem pesos mortos a sustar o progresso da próxima geração era natural, um karma inevitável. Mas ainda assim a quantidade de monumentos — verdadeiros tesouros nacionais — que essa escória descuidada queimava e destruía por onde passava era bem menor que aquela arrasada por profissionais da guerra em incêndios planejados, como por exemplo os incêndios que haviam devastado os santuários dos montes Kouyazan e Hieizan, ou a cidade imperial.

— Ah, olhem só que coisa interessante temos aqui! — disse Matahachi, ao se virar casualmente para um dos lados. E exame mais cuidadoso, tanto o braseiro quanto o nicho central do aposento em que se encontrava revelavam linhas elegantes. A sala talvez tivesse sido usada para cerimônias do chá em sua origem. E numa prateleira do pequeno nicho central, bem característico, algo chamara a sua atenção.

Nada que se assemelhasse a um caro vaso de flores ou a um fino incensório, mas uma bilha de saque, de gargalo quebrado, e uma panela preta, de ferro. Dentro da panela restava ainda um bocado de arroz com legumes cozidos; a botelha, ao ser sacudida, gorgolejou, deixando escapar um aroma de saque pelo gargalo quebrado.

— Que bom!

Nessas circunstâncias, o estômago assumia o comando, não dando tempo à razão de tecer considerações sobre eventuais direitos alheios à propriedade.

Matahachi bebeu o saque da botelha e esvaziou a panela:

— Ah, finalmente satisfeito! — disse, deitando-se e apoiando a cabeça no braço.

O fogo queimava lentamente, deixando-o sonolento. O cricri dos grilos aos poucos tomava conta da campina, parecia chuva caindo de mansinho, embalando o sono. Devagar o som invadiu a casa, ressoando nas paredes, no teto e no tatami puído do aposento.

— É verdade! — disse Matahachi de repente, lembrando-se de algo e aprumando-se. Enquanto ali estava sem nada para fazer, era melhor passar os olhos pelo conteúdo da pequena trouxa que escondera nas dobras internas do quimono, atendendo ao pedido do samurai moribundo. Examinou a trouxa. O tecido vermelho estava encardido. Em seu interior havia roupas de baixo bastante usadas e objetos pessoais de um viajante comum. Ao desdobrar as roupas, no entanto, dois objetos pesados caíram à sua frente: um pequeno cilindro, envolto com cuidado em papel encerado — um rolo de papel pergaminho, talvez um documento precioso — e uma pequena bolsa contendo dinheiro para as despesas de viagem.

 

A bolsa, de couro, era roxa. Dentro havia uma razoável quantia em ouro e prata. A visão das moedas despertou cobiça em Matahachi. Com medo de si próprio, murmurou por prevenção:

— Isto não é meu, não é meu.

Abriu o papel encerado que envolvia o outro volume e descobriu, conforme previra, um rolo de papel pergaminho. Na extremidade interna do papel, um bastão feito de madeira fina servia de eixo ao rolo; a ponta externa começava numa espécie de capa de brocado, entremeado de fios de ouro. O elegante conjunto pedia para ser aberto.

“Que será isto?”, pensou Matahachi. Não tinha idéia do conteúdo. Depositou o volume no chão, desenrolou-o pouco a pouco e leu:

AUTORIZAÇÃO

Para a Prática do Estilo Chudoryu

 

Princípios Explícitos:

Relâmpago, Roda, Círculo, Barco Flutuando

 

Princípios Ocultos: Indestrutível, Superior, Ilimitável

 

Perante os deuses, atesto por este documento que os sete princípios acima foram transmitidos verbalmente ao mestre SASAKI KOJIRO.

Vila Jokyoji, Feudo de Uzaka, na Província de Echizen

 

No mês..., do ano....

Ass.: Kanemaki Jisai (Da Escola Toda Nyudo Seigen).

Ao mestre Sasaki Kojiro.

Em papel diferente havia sido acrescentado ao documento um pós-escrito com a chave dos princípios secretos do estilo em forma de versos:

Na água que não se juntou,

De um poço que não se cavou,

Brilha a lua.

Um homem sem forma ou sombra

A água tira.

“Ah, isto é um atestado de plena proficiência”, logo compreendeu Matahachi. Contudo, nada sabia sobre esse personagem, Kanemaki Jisai, que assinava a autorização. Mas se o nome em questão fosse Ito Yagoro, mesmo o ignorante Matahachi saberia prontamente responder: é um famoso mestre, também conhecido como Ittosai, fundador do estilo Ittoryu. Pois esse Kanemaki Jisai havia sido o mestre do famoso Ito Ittosai. Mestre Jisai — que por sua vez herdara os ensinamentos de Toda Nyudo Seigen, já caído no ostracismo — vivia atualmente em algum canto de uma província afastada, numa idade próxima à velhice. Mas Matahachi não tinha meios de saber tais detalhes.

Muito antes de especular sobre a identidade de Kanemaki Jisai, Matahachi se viu perguntando:

“E quem seria Sasaki Kojiro? Ah, deve ser o nome do samurai peregrino, assassinado hoje de modo tão brutal no pátio de obras do castelo Fushimi.” Convicto de que acertara, balançou a cabeça afirmativamente. “Está explicado por que era tão forte! Esta autorização mostra que ele tinha o diploma de proficiência do estilo Chudoryu. Mas que jeito lamentável de morrer! Deve ter deixado muita coisa por fazer. A expressão de seu rosto, em seus últimos momentos, mostrava claramente quanto lhe custava morrer. E, com certeza, seu último pedido referia-se a este documento: queria que eu o entregasse a conhecidos em sua terra, sem dúvida.”

Matahachi recitou mentalmente uma oração pela alma do morto, mais que nunca decidido a levar os pertences à terra dele.

Deitou-se de novo e, como o frio aumentava, lançou vez ou outra um graveto no braseiro. Embalado pelo calor das chamas, cochilou por alguns instantes.

Longe, proveniente da campina, vinha o som de uma flauta, tocada sem dúvida pelo estranho monge komuso que havia pouco deixara a casa. Que pedia, que buscava? Incessante, atormentado, o som — impregnado talvez pelo desejo de expulsar queixas e luxúria, conforme dissera o monge ao partir — vagou noite afora pela campina. Mas Matahachi, exausto pelos acontecimentos do dia, caiu em sono profundo, indiferente ao cricrilar dos grilos e à melodia da flauta.

 

O MONGE KOMUSO

A campina amanheceu envolta num véu cinzento. O ar frio lembrava o auge do outono. Gotas de orvalho brilhavam em tudo.

Na cozinha, cuja porta a ventania derrubara, pegadas de raposa se entrecruzavam. A noite se fora, mas os esquilos ainda se demoravam nas proximidades.

— Brrr... Que frio! — disse o monge, despertando e sentando-se no assoalho da ampla cozinha. Voltara de madrugada, exausto, deixara-se cair ali mesmo e adormecera, empunhando a flauta de bambu.

A estola e as roupas encardidas estavam ainda mais sujas em conseqüência das andanças noturnas. As manchas de orvalho e as sementes agarradas em suas roupas emprestavam ao monge o aspecto desfeito dos que — assim diz o povo — caem no feitiço da raposa e passam a noite ao relento vivendo situações ilusórias. O monge certamente se resfriara, já que a temperatura, naquela manhã, nem de longe lembrava o calor do dia anterior. Franziu tanto o nariz que quase juntou sua ponta às sobrancelhas, e soltou um sonoro espirro. O ranho aderiu ao bigode-de-arame, agora ralo, apenas uma sombra. Indiferente, nem tentou limpá-lo.

— É verdade, ainda tenho um pouco de saque sobrando — murmurou. Levantou-se, passou por um corredor em que mais pegadas de raposas e texugos se entrecruzavam, e saiu procurando o aposento do braseiro.

A luz do dia, a mansão abandonada revelou-se grande a ponto de obrigá-lo a procurar o aposento, mas, claro, nem tanto que impossibilitasse sua localização.

— Ora essa...

O monge olhava ao redor com ar perdido. A botelha de saque não estava onde deveria. Logo a encontrou, caída perto do braseiro. Ao mesmo tempo, junto ao vasilhame vazio, descobriu um homem desconhecido que dormia a sono solto, babando de boca aberta.

— Quem é este homem? — perguntou em voz alta, espiando o vulto que não despertava. Roncava tão alto que nem um soco conseguiria acordá-lo. “Foi ele quem bebeu todo o meu saque”, pensou o monge, irritadíssimo agora com o ronco.

Mas as descobertas não pararam aí. Pois não é que não restara nenhum grão do arroz com legumes que deixara reservado para a refeição matinal? O monge empalideceu. A questão envolvia sua sobrevivência.

— Malandro! — disse, dando-lhe um chute.

— Uh... uh! — exclamou Matahachi, erguendo a cabeça.

— Acorda de uma vez! — voltou a dizer o monge com um novo chute.

— Que é isso?! — gritou Matahachi levantando-se. Uma veia pulsava em seu rosto mal desperto. — Você me chutou!

— E ainda acho pouco! Quem lhe deu licença para comer o meu ensopado e beber o meu saque?

— Ah, eram seus?

— Claro que eram!

— Ora essa, me desculpe, então.

— Vejam só, “me desculpe”, diz o homem, “me desculpe”!

— Perdoe-me.

— Pensa que basta pedir perdão?

— Que mais quer você que eu faça? Me diga!

— Devolve!

— Devolver de que jeito, seja comi e seja sustentam meu corpo?

— Eu também tenho de me sustentar, não lhe parece? Toco flauta o dia inteiro pelas portas das casas e o máximo que consigo é um punhado de arroz e esmola suficiente para um gole de saque. E não estou para distribuir o que ganho com tanto custo entre estranhos como você. Devolve, já disse, devolve!

O monge komuso com seu bigodinho-de-arame esbravejava imperioso, o rosto magro e esfaimado contorcendo-se de raiva. A voz tinha um quê infantil.

 

— Deixe de ser mesquinho — disse Matahachi, fitando o monge com desprezo. — Não vejo por que se enerva desse jeito por causa de um resto de arroz e de um gole de saque barato.

O monge retorquiu, furioso:

— Como é?! Resto ou não, para mim é o sustento de um dia, com isso sobrevivo mais um dia. Devolve, ou então...

— Então o quê?

Com um urro, o monge agarrou o pulso de Matahachi e gritou:

— Você me paga!

— Deixe-se de besteiras! — disse Matahachi. Livrou-se das mãos do monge e agarrou-o pela nuca, magra como a de um gato abandonado. Pretendia derrubá-lo com um golpe e subjugá-lo de uma vez, mas o monge reagiu com inesperada tenacidade, atacando o pescoço de Matahachi.

— Ora, seu!... — rosnou Matahachi, retesando-se. Mas seu adversário tinha uma espantosa força nas pernas, de modo que, queixo erguido e gemendo de modo estranho, era Matahachi agora quem se via empurrado em direção ao outro aposento, aos trambolhões, lutando por recuperar terreno. Tirando proveito da resistência que encontrava, o monge lançou-o de encontro à parede com um súbito movimento.

A velha mansão já tinha os pilares e as juntas do assoalho apodrecidos. A parede ruiu sem resistência, lançando uma chuva de barro seco sobre Matahachi.

O jovem levantou-se, cuspindo furiosamente. Mudo de raiva, desembainhou a espada e lançou-se sobre o monge mendigo. Este parecia já esperar por isso e, shakuhachi em punho, enfrentou-o. O pobre homem, porém, logo pôs-se a ofegar, seu peito esquálido chiando ruidosamente em contraste com o vigoroso corpo de Matahachi.

— Viu no que dá? — disse este último, atacando o adversário com sucessivos golpes que não lhe davam tempo para respirar. O monge tinha agora o aspecto de uma alma penada. Perdera a agilidade e desequilibrava-se volta e meia, prestes a cair. E, de cada vez, soltava um estranho grito agonizante. Apesar de tudo, fugia de um lado para o outro, não se deixando pegar com facilidade.

Por fim, a presunção de Matahachi foi a causa do próprio desastre. Ao ver que o monge pulava para o jardim como um gato, correu afoito no seu encalço e, mal pisou o corredor, sentiu que a tábua da varanda, havia tempos exposta à chuva e apodrecida, cedia com um estalo. Seu pé afundou no vão aberto e Matahachi caiu sentado. Ao ver isso, o monge saltou de volta sem perda de tempo, agarrou o jovem pelo peito e distribuiu violentos socos no rosto e nas têmporas, indiscriminadamente.

Com o pé preso, Matahachi não conseguia se defender. Na mesma hora sentiu que o rosto inchava como uma barrica. E enquanto se debatia, grãozinhos de ouro e prata rolaram das dobras internas do quimono. A cada soco, caíam tilintando pelo chão, espalhando-se ao redor dos dois.

— Que é isso? — disse o monge, abrindo a mão. Enfim livre, Matahachi saltou para longe.

Depois de dar vazão à raiva com tanta violência que até lhe doíam os punhos, o monge arfava, olhos presos nos grãozinhos espalhados à sua volta.

— Está vendo, cretino! — disse Matahachi, cobrindo com a mão uma das faces inchadas, a voz trêmula. — Para que brigar por causa de um resto de arroz e de um gole de saque barato? Pode ser que não pareça, mas dinheiro é o que não me falta, seu morto de fome! Se é isso que quer, pode pegar, eu lhe dou. Mas em troca, prepare-se que vou lhe devolver, um por um, todos os socos que me deu. Vamos, venha e ponha a cabeça aqui! Quero lhe devolver com juros o arroz e o saque!

 

Por mais que Matahachi esbravejasse, o monge komuso nada dizia. Calmo afinal, Matahachi observou-o melhor e, surpreso, verificou que o homem chorava, o rosto premido contra as tábuas do avarandado.

— Idiota, bastou ver a cor do ouro para ficar choramingando — disse Matahachi venenosamente. Mas o monge perdera o ânimo por completo e não reagiu à humilhação.

— Ai de mim, que vergonha! Como sou desprezível!

Já não falava com Matahachi, fazia apenas uma sentida autocensura. E a veemência com que se condenava também era anormal:

— Idiota, idiota! Quantos anos tens, afinal? Caíste tão baixo na vida, vives na maior degradação e ainda não aprendeste? Já não tens salvação!

O monge batia a testa contra uma coluna de madeira escura e lamentava, batia e lamentava:

— Para que tocas o shakuhachi? Para expulsar a estupidez, as paixões, a ilusão, o egoísmo e a luxúria pelos seis orifícios, não é? Mas em vez disso, o que fazes? Te envolves numa luta mortal com um homem que tem idade para ser teu filho, por um pouco de arroz e um gole de saque!

O estranho homem ora se queixava, chorando, ora batia a própria testa contra o pilar com força. Pelo jeito, só desistiria quando partisse em dois a própria cabeça.

O autoflagelo era muito mais violento que os socos aplicados em Matahachi. Este, aparvalhado, contemplava a cena. Mas ao notar que o sangue começava a escorrer da testa roxa e inchada do monge, viu-se compelido a intervir:

— Ei, ei... Pare com isso! Não faz sentido.

— Me deixe em paz, por favor.

— Mas o que tem você?

— Nada.

— Está doente?

— Não estou.

— Que tem, então?

— Tenho raiva de mim. Devia limpar o mundo livrando-o desta minha carcaça com estas mãos e dá-la de comer aos corvos. Mas me exaspera ter de morrer estúpido como sou agora. Quero progredir um pouco, chegar a um padrão razoável para então apodrecer em algum canto da campina, porém, não consigo... Pensando melhor, acho que você está com a razão: é uma espécie de doença, isso que tenho.

Repentinamente Matahachi sentiu pena do monge. Juntou as pepitas espalhadas ao redor e introduziu algumas em sua mão, dizendo:

— Eu também errei. Tome, e me desculpe.

— Não quero! — disse o monge, retirando a mão bruscamente. — Não quero seu ouro, não quero!

Para um homem que se enfurecera tanto por causa de um resto de arroz no fundo de uma panela, o monge reagia com estranha repulsa, sacudindo a cabeça com força e se afastando:

— Você é bem esquisito, reconheça.

— Nem tanto.

— Ah, mas que tem algo estranho em você, isso tem...

— Que lhe importa? Me deixe em paz!

— Komuso, você tem um sotaque da região de Chugoku.

— Claro, sou de Himeji.

— Ora essa... E eu sou de Mimasaka.

— Da província de Sakushu...? — disse o monge, olhando-o fixamente. — E onde, de Sakushu?

— Yoshino.

— Yoshino? Mas que coincidência... Pois eu conheço muito bem a área, porque trabalhei algum tempo como chefe dos guardas no posto de Hinagura.

— Ah, então você era um vassalo do senhor de Himeji!

— Isso mesmo. Apesar da minha aparência, já fui um bushi, de nome Aokk.. — começou a dizer o monge, mas calou-se de modo abrupto, consciente de sua decadência e envergonhado. — Mentira, é tudo mentira. Bem, acho que vou à vila esmolar.

Levantou-se repentinamente e saiu para a campina.

 

A TENTAÇÃO

As pepitas de ouro eram uma tentação muito grande, maior ainda por Matahachi saber que não devia gastá-las. Por fim, chegou à conclusão de que tomar emprestadas algumas — não muitas, é claro — e usá-las, não constituiria crime.

— Se tenho de viajar para entregar as coisas do morto em sua terra atendendo a um pedido dele mesmo, é certo que terei despesas. Nesse caso, é natural que as pague com o seu dinheiro.

Depois de chegar a essa conclusão, Matahachi sentiu certo alívio. A essa altura, já havia começado, pouco a pouco, a gastar o dinheiro.

Mas de onde era esse indivíduo, Sasaki Kojiro, em cujo nome fora expedido o diploma do estilo Chudoryu, em seu poder juntamente com o dinheiro?

Estava quase convencido de que Sasaki Kojiro deveria ser o samurai peregrino morto, mas não tinha a mínima idéia de seus antecedentes — se era rounin ou avassalado —, nenhum ponto de referência.

A única pista era o mestre de esgrima que assinava a permissão, Kanemaki Jisai. Se conseguisse chegar a ele, num instante saberia desse Kojiro. Pensando nisso, viera perguntando pelas casas de chá, restaurantes e hospedarias desde Fushimi até Osaka, toda vez que uma oportunidade se apresentava:

— Já ouviu falar de um certo Kanemaki Jisai, exímio mestre de esgrima? Mas a resposta era sempre a mesma:

— Nunca.

— É um ilustre representante do estilo Chudoryu, estilo que por sua vez deriva do de Toda Seigen — acrescentava Matahachi. Mas ninguém os conhecia.

E então, certo dia, um samurai razoavelmente bem informado que conhecera na estrada, lhe disse:

— Esse homem, Kanemaki Jisai, deve estar hoje bem velho, se é que já não morreu. Se não me engano, mudou-se para a região de Kanto e, com o avançar da idade, retirou-se para um vilarejo na área de Joshu, evitando aparecer em público. Mas se quer saber dele, acho que deve dirigir-se ao castelo de Osaka e procurar por Toda Mondonosho.

Quando Matahachi lhe perguntou quem seria Toda Mondonosho, o homem respondeu que, segundo se lembrava, era parente de um certo Toda Seigen — originário da vila Jokyoji, feudo de Uzaka, na província de Echizen — e um dos instrutores de artes marciais de Toyotomi Hideyori, herdeiro do antigo kanpaku Hideyoshi.

A informação era meio vaga, mas Matahachi ia mesmo a Osaka. Reservou portanto um quarto numa estalagem da rua principal mal chegou à cidade, e tentou saber se havia ou não um samurai com esse nome servindo no castelo de Osaka.

— Sim, senhor — disse o estalajadeiro — houve antigamente um homem de nome Toda Mondonosho que, assim dizem, era neto de Toda Seigen-sama. Não era instrutor de lorde Hideyori, mas costumava dar aulas de artes marciais aos vassalos no castelo de Osaka. Contudo, há alguns anos se mudou para a província de Echizen.

Embora fosse um simples mercador, o homem servia ao castelo de Osaka e a informação merecia, portanto, maior crédito do que a do samurai que encontrara na estrada. Era opinião do estalajadeiro, além disso, que “não vale a pena deslocar-se até a província de Echizen, já que não se tem certeza da permanência do senhor Mondonosho nessa cidade. Em vez de procurar um desconhecido em terras tão distantes, é mais prático procurar mestre Ito Yagoro, homem muito conhecido atualmente. Se não me engano, mestre Ito Yagoro também praticou sob a supervisão desse Kanemaki Jisai — que o senhor procura — e, mais tarde, criou um estilo próprio a que chama Ittoryu”.

Ali estava um conselho bastante razoável.

Mas ao procurar informar-se do endereço de Ito Yagoro, soube que o homem vivera até havia pouco em Shirakawa, na periferia da cidade de Kyoto, mas — todos assim lhe diziam — ninguém mais o vira nem dele ouvira falar em Kyoto ou Osaka, sendo muito provável que tivesse partido para uma viagem de estudos.

— Isto está ficando muito confuso! — disse Matahachi, abandonando a procura. — Também, não é nada que tenha de ser resolvido com urgência — acrescentou.

 

A cidade de Osaka teve o efeito de despertar, no espírito do jovem Matahachi, a ambição adormecida. Havia ali uma intensa demanda por guerreiros talentosos.

No castelo Fushimi lutavam por implantar o sistema de vassalagem e a nova política do governo Tokugawa, mas no castelo de Osaka arregimentavam-se homens de talento e organizava-se um exército de rounin, extra-oficialmente.

— Dizem que lorde Hideyori paga em segredo uma ajuda de custo aos ex-comandantes Goto Matabei, Sanada Yukimura, Akashi Kamon, e também ao senhor Chosokabe Morichika[7] — era o comentário insistente dos mercadores. A vida para os rounin era, portanto, mais fácil, e sua presença mais apreciada na cidade casteleira de Osaka do que em qualquer outra cidade.

Chosokabe Morichika, por exemplo, alugara uma casa numa ruela nos arrabaldes da cidade e, apesar da pouca idade, raspara os cabelos e mudara o nome para Ichimusai — o Homem de Um Sonho Só. Disfarçado de boa-vida, perambulava pela zona alegre cultivando os prazeres refinados com o ar distante dos que dizem: “Nada tenho a ver com as mazelas deste mundo.” Mas Matahachi ouvira também dizer que, se a ocasião chegasse, um exército inteiro composto de 700 a 800 rounin se ergueria a um simples gesto seu, sob a bandeira dos que desejavam ver ressuscitado o domínio da casa Toyotomi. Hideyori, segundo os boatos, sustentava também com dinheiro do próprio bolso a aparentemente alegre vida de Morichika.

Nos dois meses que passara observando a cidade de Osaka, Matahachi, entusiasmado, chegara à conclusão de que ali estava o elo inicial da corrente que o conduziria ao sucesso.

A ambição, o mesmo sentimento puro que o levara, com uma lança nas mãos, a se aventurar pelos campos de Sekigahara em companhia de Takezo, seu amigo de infância, ressuscitava em seu corpo outra vez em forma.

O dinheiro do samurai morto aos poucos minguava, mas Matahachi passava os dias alegre e feliz, pois sentia que enfim o destino começava a lhe sorrir. Tinha a nítida impressão de que a sorte o esperava, à espreita até por baixo da pedra em que acabara de tropeçar.

“Em primeiro lugar, tenho de cuidar da minha apresentação”, decidiu, comprando um bom par de espadas. Como o tempo esfriava com a chegada do outono, comprou também um quimono forrado e uma casaca, apropriados para a estação.

A estada em estalagens era cara. Alugou portanto um quarto nos fundos da casa do seleiro e passou a fazer as refeições em tabernas. Fazia apenas o que lhe agradava, retornando ao quarto alugado quando bem entendesse. Enquanto vivia a seu gosto, esperava que uma boa idéia ou um incidente qualquer o conduzisse ao tão almejado emprego.

Do ponto de vista de Matahachi, levar a vida desse modo exigia um bocado de autodisciplina e fazia-o sentir-se um novo homem, de hábitos regrados.

“Está vendo, lá na frente, aquele homem que passa precedido por um lanceiro, e que se faz acompanhar por um séquito de 20 samurais e um cavalo de reserva? É o inspetor-chefe da ponte Kyobashi, à entrada do castelo de Osaka, mas já foi um simples rounin e chegou a trabalhar transportando terra na limpeza do fosso Junkei, há pouco tempo.”

Histórias invejáveis como essa chegavam constantemente aos ouvidos de Matahachi. Pouco a pouco, porém, Matahachi começou a achar que o mundo parecia uma muralha de pedras firmemente encaixadas, onde não havia lugar para pedras retardatárias. Começou a sentir um leve desânimo, mas combateu-o dizendo para si mesmo: “O mundo assim me parece porque ainda não encontrei quem me dê o empurrão inicial. O difícil é encontrar uma brecha; uma vez encontrada, basta agarrar-me a ela e me firmar.” Pediu também ao fabricante de selas que o informasse, caso viesse a saber de algum emprego.

— Ora, o senhor é jovem ainda e muito competente, ao que me parece. É só avisar o pessoal do castelo que logo surgirá alguém propondo-lhe emprego — respondeu o seleiro, pressuroso. Apesar das palavras promissoras, nenhuma proposta chegou ao seu conhecimento. Enquanto isso, o inverno avançava, dezembro ia a meio e metade do dinheiro se fora.

 

Numa área baldia da próspera cidade, a geada branqueia a relva todas as manhãs. Com o avançar do dia, quando a geada desfeita torna as ruas barrentas, gongos e tambores começam a soar nesse local.

E dezembro e o povo corre apressado com a aproximação do fim do ano, mas nesse lugar a pequena multidão que se aglomera sob o frio sol de inverno tem um ar ocioso. Vistosas bandeiras de papel e borlas coloridas em pontas de chuços chamam a atenção desses desocupados para seis ou sete funções montadas por trás de precários cercados — rústicas paliçadas rodeadas de esteiras de palha que impedem a visão dos transeuntes. A preferência do público é disputada seriamente numa verdadeira luta pela sobrevivência.

Um odor acre de shoyu barato infiltra-se no meio da multidão. Homens de peludas pernas à mostra relincham como cavalos e apregoam espetos de legumes cozidos exibidos entre os dentes. Com a chegada da noite, mulheres de pesada maquiagem branca, afinal liberadas de seus deveres, passam umas após outras como um bando de ovelhas, mastigando ruidosamente salgadinhos feitos de grãos de arroz torrados.

No local em que um vendedor de saque juntara alguns banquinhos e armara sua taberna a céu aberto, um grupo de homens acabava de brigar. Sem vencedores ou vencidos, o pequeno agrupamento afastara-se rumo à cidade em ruidoso torvelinho, largando em seu rastro uma trilha de sangue.

— Muito obrigado, senhor. Graças à sua presença, salvei toda a minha louça — repetia o vendedor de saque inúmeras vezes, curvando-se na frente de Matahachi. — Acho que consegui aquecer esta dose de saque a seu gosto, senhor — dizia o homem, servindo também uma porção de aperitivos por conta da casa.

Matahachi estava satisfeito. A briga não fora perigosa pois envolvera simples mercadores. Assim sendo, Matahachi armara uma feia carranca e observara o desenrolar dos acontecimentos, pronto a intervir caso ameaçassem prejudicar o pobre vendedor de saque. Mas, para satisfação sua e do vendedor, tudo se resolvera sem maiores complicações para ambos.

— Quanta gente, não, taberneiro? — comentou Matahachi.

— É verdade. Todo o mundo sai à rua com a chegada do fim de ano, mas pouca gente pára — disse o taberneiro em tom de queixa.

— E o tempo continua firme. Ainda bem!

Um milhafre alçou vôo no meio da multidão e ganhou altura, carregando algo em seu bico. Matahachi sentiu o rosto em brasa e pensou, distante como quem pensa num estranho: “Ora, eu tinha jurado nunca mais beber quando comecei a trabalhar na reforma do castelo Fushimi! Desde quando comecei a beber de novo?” E em seguida: “Mas um homem tem, pelo menos, de beber um pouco.”

— Mais uma bilha, taberneiro! — ordenou, voltando-se.

Nesse instante, um homem se aproximou e sentou-se num banquinho ao lado. Pelo aspecto, era um rounin. Suas duas espadas, a longa e a curta, sobressaíam impressionantes e ameaçadoras mas, de resto, vestia-se pobremente: o quimono forrado tinha a gola encardida, e sobre ele não trazia nem um simples colete.

— Ei, taberneiro, um gole para mim também. Quente e bem rápido, ouviu? Sentou-se cruzando as pernas e lançou um olhar avaliador em direção a

Matahachi. Seu olhar percorreu-o dos pés à cabeça e, quando encontrou o do jovem, o homem riu bobamente, dizendo:

— Olá!

Matahachi devolveu o cumprimento e convidou:

— Tome um pouco do meu enquanto o taberneiro amorna o seu, se não se importa por já estar começado.

— Aceito — disse o desconhecido, estendendo a mão imediatamente. — Na verdade, estava de passagem, e quando o vi aí bebendo, não consegui resistir. O cheiro da bebida parece tomar conta do nariz da gente e nos arrastar.

O homem bebia com muito gosto. Matahachi julgou que o desconhecido tinha um jeito aberto e valente.

 

O estranho era um bom copo. Enquanto Matahachi bebia um quarto de litro, o homem já esvaziara mais de um litro sem se alterar.

— Quanto costuma beber, em média? — perguntou Matahachi.

— Dois litros, brincando. Agora, se me ponho a beber de verdade, nem sei quantos.

Comentando o quadro político atual, o homem aprumou-se e expôs sua opinião com veemência:

— Esse Ieyasu não é de nada! Pôs de lado o herdeiro Hideyori e se faz chamar de Ogosho, o Grande Líder. É um absurdo. Se você afastar dele homens como Honda Masazumi e todo o seu generalato composto de fiéis vassalos, que lhe sobra? Esperteza, sangue frio e um pouco de habilidade política, nem sempre condizentes com o perfil de um verdadeiro bushi. Como eu gostaria que Ishida Mitsunari[8] tivesse vencido! Para nossa infelicidade, o homem era exigente demais e de baixa extração para liderar tantos daimyo.

A certa altura, perguntou de chofre:

— E se uma ruptura entre Ieyasu e os partidários de Toyotomi Hideyori se tornar iminente, que partido você tomará?

Ao ouvir de Matahachi a pronta resposta: “de Osaka!”, o homem levantou-se sobre o banquinho, empunhando a taça:

— Brindo a mais um partidário da nossa causa. E então, a que clã você pertence? — No momento seguinte pareceu cair em si e disse: — Perdoe a grosseria. Eu me apresentarei primeiro. Meu nome é Akakabe Yasoma e sou rounin de Gamo. Já ouviu falar em Ban Dan’emon? Pois ele e eu somos íntimos, ambos à espera de dias melhores. E em companhia de Susukida Hayato Kanesuke — o famoso general atualmente em vertiginosa ascensão nos quartéis de Osaka — cheguei a perambular por muitas províncias. Encontrei-me também umas três ou quatro vezes com Ono Shurinosuke, mas não gosto muito do seu gênio retraído; contudo, ele é mais poderoso que Kanesuke.

Percebendo que já falara demais, o homem voltou à questão inicial:

— E quanto a você?

Matahachi duvidava que a história fosse inteiramente verdadeira. Apesar disso, sentiu-se um tanto inferiorizado e resolveu também vangloriar-se:

— Já ouviu falar em mestre Toda Nyudo Seigen, da vila Jokyoji, do feudo de Usaka, na província de Echizen, o fundador do estilo Toda?

— Sim, ouvi falar.

— Pois esse mestre, Toda Seigen, transmitiu os segredos do seu estilo a meu mestre, Kanemaki Jisai, fundador do estilo Chudoryu e grande espadachim, que hoje vive recluso, longe das coisas mundanas.

O homem não manifestou nenhum espanto ante a informação. Inclinou-se para servir mais uma dose a Matahachi e comentou:

— Isso quer dizer que você é um espadachim.

— Exato.

Matahachi achou graça ao perceber como era fácil mentir. Contadas com convicção, as mentiras melhoravam o gosto da bebida, como um delicioso aperitive Seu rosto enrubescia cada vez mais.

— Bem que eu desconfiava. Acertei em cheio! Eu o vinha observando há algum tempo e havia notado que seu físico, por exemplo, é forte, mostra um preparo incomum... E então, é discípulo de Kanemaki Jisai. Se não se importa, gostaria de saber seu nome.

— Eu me chamo Sasaki Kojiro. E Ito Yagoro Ittosai é meu colega, veterano da academia.

— O quê? — exclamou o outro, assustado. O espanto do seu interlocutor chocou Matahachi, que na mesma hora pensou em se retratar, dizendo: “Isso foi uma brincadeira!” Mas ao ver que Akakabe Yasoma pusera abruptamente um joelho em terra e se curvava respeitoso à sua frente, percebeu que era tarde demais para desmentir.

 

— Perdoe-me se não o reconheci a tempo — repetia Yasoma diversas vezes. — Sasaki Kojiro é um espadachim magistral, um nome bastante conhecido em nosso meio. É inconcebível que não o tenha reconhecido. Perdoe-me se fui insolente.

Matahachi sentiu um indizível alívio: se o homem conhecesse ou já houvesse alguma vez encontrado Sasaki Kojiro, a impostura teria sido descoberta e ele estaria a esta altura suando para se explicar.

— Ora — disse — levante-se, por favor. Tanta formalidade me constrange.

— Constrangido estou eu que, sem saber com quem falava, andei me gabando. Espero não tê-lo irritado.

— De modo algum. Pois tenho a consciência de que sou ainda jovem, com pouca experiência do mundo: nem sequer sirvo a um clã.

— Mas sua habilidade como espadachim é indiscutível! Já ouvi mencionarem seu nome em muitos lugares.... Sasaki Kojiro, ora, vejam só! — murmurou Yasoma, fixando em Matahachi os olhos de bêbado, turvos e remelentos. — Mas que lástima não estar a serviço de ninguém, com toda a sua habilidade!

— É porque, até hoje, minha vida inteira foi dedicada ao aprimoramento de minha técnica. Eis porque não conheço nada do mundo.

— Mas é claro! Quer dizer que não descartou a idéia de servir a um amo.

— Basicamente. Imagino que algum dia terei de servir a alguém.

— Mas isto é muito simples, com toda a sua habilidade. Mesmo assim, se não apregoar sua competência, nunca será descoberto. Veja, por exemplo, o que aconteceu comigo: estava o tempo todo à sua frente, e me espantei sobremodo quando soube quem era — adulou-o Yasoma, oferecendo-se em seguida: — Eu intermediarei um bom serviço para você.

— Para dizer a verdade — continuou Yasoma — eu mesmo confiei o meu futuro a um amigo, Susukida Kanesuke. No momento, não estão questionando os antecedentes das pessoas que contratam, no castelo de Osaka. Além disso, se eu recomendar uma personalidade como você, posso afirmar com segurança que o senhor Susukida se interessará de imediato. Deixe que eu me encarregue de seu futuro.

Pelo visto, Akakabe Yasoma se entusiasmara com a perspectiva de lhe arrumar um emprego. Matahachi estava bastante ansioso por aceitar a oportunidade mas, tarde demais, sentia que cometera um erro irreparável ao fazer-se passar por Sasaki Kojiro.

Por outro lado, caso tivesse dito a verdade, isto é, que era Hon’i-den Matahachi, um goushi da província de Mimasaka, e contado a história de sua vida, tinha certeza de que Yasoma não teria se interessado. Quando muito, fungaria com desprezo. O que atraíra sua atenção fora, sem sombra de dúvida, o nome Sasaki Kojiro.

“Calma”, disse Matahachi com seus botões. “Não tenho por que me preocupar tanto. Pois esse indivíduo, Sasaki Kojiro, está morto, linchado no canteiro de obras do castelo Fushimi. Provavelmente mais ninguém além de mim sabe que o homem morto era Sasaki Kojiro. E como o diploma de esgrima, único documento que o identificava, está agora em meu poder a pedido do morto, não há como começar uma investigação. Além do mais, as autoridades jamais perderiam tanto tempo procurando identificar um homem violento, linchado por uma multidão indignada. Já desistiram. Jamais serei descoberto!”

Um plano ousado, ardiloso, começou a se formar na mente de Matahachi, que tomou uma súbita decisão: assumiria por completo a personalidade de Sasaki Kojiro.

— Taberneiro, a conta! — pediu, retirando certa quantia da carteira e levantando-se. Akakabe Yasoma levantou-se também e interveio, precipitadamente:

— E nossa conversa, como fica?

— Conto com a sua ajuda. Mas aqui é impossível conversar com calma. Quero ir para algum lugar onde haja um pouco mais de privacidade.

— Está certo! — concordou Yasoma satisfeito, observando com naturalidade Matahachi pagar até a sua conta.

 

Na viela, na periferia da cidade, viviam mulheres suspeitas, usando pesada maquiagem branca. Matahachi pretendia ir a um lugar mais fino, mas Akakabe Yasoma dissuadiu-o, dizendo:

— Para que gastar em casas elegantes? Conheço um lugar bem melhor, acompanhe-me.

Levado pela conversa de Yasoma, que insistentemente apregoava as qualidades dessa área na periferia da cidade, Matahachi descobriu, ali chegando, que o ambiente até lhe agradava.

A área, esclarecera Yasoma, era conhecida como Viela das Monjas[9]. Os quase mil casebres geminados que ali se erguiam eram, com ligeiro exagero, todos ocupados por prostitutas. Juntos, os lampiões das casas consumiam impressionantes 100 koku[10] de óleo por noite, sinal evidente de que os negócios prosperavam.

Próximo à área corria um fosso escuro por onde o mar entrava na maré enchente. Por esse motivo, um exame cuidadoso das lanternas vermelhas e das treliças das janelas revelava a presença de inúmeros piolhos do mar e caranguejos, semelhantes a repelentes escorpiões, venenosos e mortais. No meio da multidão de rostos pintados, porém, um ou outro rosto jovem e bonito, bem como mulheres de quase 40 anos, com os dentes tingidos de preto, cabeças envoltas em coifas de monja[11] e olhar queixoso no frio ar noturno, constituíam visões capazes de provocar até em devassos freqüentadores da zona sentidas reflexões sobre a impermanência das coisas terrenas.

— Quantas! — suspirou Matahachi.

— Está vendo? E são muito melhores que essas cantoras ou mulheres das casas de chá. Pensando bem, são prostitutas, idéia nada agradável. Mas se você passar uma noite de inverno com elas, ouvindo-as falar do passado e das histórias de suas famílias, descobrirá que não nasceram prostitutas.

Andando no meio da multidão que se comprimia na rua, Yasoma dava explicações com ar entendido.

Muitas dessas mulheres que hoje se vestem como monjas foram acompanhantes de grandes damas do xogunato Muromachi, outras são filhas de vassalos que serviam a generais famosos como Takeda Shingen, ou têm parentesco com Matsunaga Hisahide. Histórias como essas eram comuns nos dias que se sucederam à queda da casa Heike[12], mas passados os períodos Tenbun (1532-1555) e Eiroku (1558-1570), mudanças muito mais violentas no cenário do poder vieram se repetindo. Em conseqüência, essas flores caídas juntam-se como lixo nas sarjetas deste nosso mundo efêmero. Que se há de fazer...?

Entraram a seguir numa casa, onde Matahachi deixou Yasoma encarregar-se da diversão. Especialista no assunto, Yasoma foi perfeito na escolha das bebidas e no tratamento com as mulheres. Na verdade, era um prazer passar a noite na viela, pensou Matahachi.

Nessa noite, os dois homens dormiram na área, naturalmente. O dia raiou, sem que Yasoma desse mostras de se cansar do local. Matahachi, que na Hospedaria Yomogi administrada por Okoo vivera sempre se escondendo, cumprindo o papel de marido de mulher-dama, pareceu afinal se livrar da frustração acumulada durante todos esses anos, pois disse, a certa altura:

— Chega! Estou farto de bebida. Vamos embora!

— Que é isso? Faça-me companhia até a noite! — respondeu Yasoma, irredutível.

— Posso fazer, mas o que pretende depois?

— Marquei um encontro com Sussukida Kanesuke, em sua mansão, logo mais à noite. Há tempo de sobra... E, pensando bem, você tem de me explicar em detalhes as suas pretensões para que eu possa expô-las a Kanesuke.

— Não acho conveniente impor o valor do estipêndio, já a esta altura.

— Errado, não subestime seu próprio valor. Preste atenção: você, Sasaki Kojiro, um samurai qualificado, com autorização para praticar o estilo Chudoryu de esgrima, não pode chegar dizendo que quer um cargo no oficialato, não importa quanto paguem. Esse tipo de atitude só provoca desprezo. Acho que vou iniciar negociações pedindo 500 koku de estipêndio. Normalmente, quanto mais confiante se mostra o samurai, melhor o tratamento e maior o estipêndio. Deixe o orgulho de lado.

 

À sombra da muralha, o crepúsculo caía cedo como num vale ao pé de montanhas, pois a gigantesca silhueta do castelo de Osaka vedava o sol.

— Aquela é a mansão de Susukida — disse Yasoma.

Dando costas para as águas geladas do fosso em torno do castelo, os dois homens permaneciam em pé, tremendo de frio. A bebedeira do dia se dissipara num instante mal se viram na beira do fosso. A água escorria do nariz de Matahachi e congelava ao chegar na ponta.

— A do portal?

— Não, a da esquina, ao lado.

— Que bela mansão!...

— O homem fez uma linda carreira. Antes dos 30, ninguém conhecia Susukida Kanesuke. E de repente...

Matahachi não prestava muita atenção ao que Yasoma lhe dizia, não porque duvidasse de suas palavras. Ao contrário, àquela altura depositava tanta confiança no companheiro que não achava necessário analisar com cuidado tudo o que ele lhe dizia. Contemplando as dezenas de mansões que se erguiam em torno do castelo, de suseranos de maior ou menor importância, Matahachi mal conseguia conter a ambição em seu jovem peito.

— Esta noite, quando me encontrar com Kanesuke, farei com que ele aceite cuidar do seu futuro, você vai ver — disse Yasoma, acrescentando casualmente: — E quanto àquele dinheiro?

— Ah, é verdade — disse Matahachi, retirando a carteira de couro das dobras internas do quimono. Pensara de início gastar com moderação mas, sem que se desse conta, dois terços do dinheiro já se tinham ido. Raspando o fundo da carteira, Matahachi entregou tudo a Yasoma, dizendo:

— Isto é tudo. Acha suficiente?

— É mais que suficiente.

— Já que é um presente, será mais delicado apresentá-lo dentro de um envelope.

— Que é isso? Kanesuke e outros como ele aceitam abertamente, hoje em dia, o que chamam de contribuição ou taxa de recomendação. Não é preciso disfarçar, estou lhe dizendo. Deixe por minha conta.

Ao ver que todo o seu dinheiro se ia nas mãos de Yasoma, Matahachi sentiu uma ponta de insegurança e correu no seu encalço, dizendo:

— Veja se leva a missão a bom termo, Yasoma!

— Confie em mim. Se Kanesuke não se mostrar receptivo, pego o dinheiro e o trago de volta, muito simples. Afinal, Kanesuke não é o único homem influente na área de Osaka. Existem outras pessoas a quem posso recorrer, como Ono, Goto, e muitos mais.

— Quando é que vou saber a resposta?

— Você poderia ficar aí mesmo, mas não me parece boa idéia esperar em pé nesse vento, à beira do fosso. Além do que, pode parecer suspeito. Vamo-nos encontrar amanhã.

— Amanhã? Onde?

— Lá onde montaram aqueles espetáculos.

— Combinado.

— Espere-me sentado num dos banquinhos do vendedor de saque, onde nos encontramos a primeira vez. É mais seguro.

Depois de combinar o horário, Akakabe Yasoma passou pelo portal da mansão com passos decididos e desapareceu no seu interior. Matahachi observou atento o seu jeito seguro e descontraído de cruzar o portal e pensou:

— Realmente, Yasoma mostra familiaridade com o ambiente da mansão: tudo indica que conhece Susukida Kanesuke há muito tempo, conforme disse.

Naquela noite, por fim tranqüilo, Matahachi dormiu embalando sonhos de grandeza e, no dia seguinte, dirigiu-se ao terreno baldio no horário combinado, pisando a relva coberta de gelo.

Como sempre, uma pequena multidão se juntava sob o fraco sol de inverno, indiferente ao vento frio de fim de ano.

 

Akakabe Yasoma não apareceu nesse dia, inexplicavelmente.

— Deve ter tido algum contratempo — pensou Matahachi de boa fé. No dia seguinte sentou-se mais uma vez, simplório, num banquinho da

taberna ao ar livre, ficando a examinar a multidão que se juntava na área. Mas a tarde caiu sem que Yasoma surgisse.

Um pouco constrangido, Matahachi disse ao vendedor de saque:

— Cá estou eu de novo, taberneiro!

Já estavam no terceiro dia. Ao se sentar outra vez num dos banquinhos, o vendedor de saque, que intimamente vinha estranhando o comportamento de Matahachi, perguntou-lhe por quem esperava todos os dias. Matahachi então lhe explicou que por tais e tais motivos, combinara encontrar-se ali com Yasoma, o rounin que conhecera nesse lugar havia alguns dias.

— Quê? Com aquele homem? — exclamou o vendedor de saque, atônito. — Quer então dizer que ele lhe prometeu agenciar um emprego e lhe roubou o dinheiro?

— Não roubou, não. Fui eu que lhe pedi para interceder junto ao senhor Susukida, e lhe confiei o dinheiro destinado a promover a aproximação. E se fico aqui todos os dias é porque tenho pressa em saber a resposta.

— Ora essa, senhor! — disse o taberneiro com expressão penalizada. — Nem que espere cem anos, o homem não vai aparecer.

— O que... O que disse? Como não?

— Aquele indivíduo é um vigarista famoso. Malandros iguais a ele enxameiam por aqui e se topam com algum ingênuo, logo se aproximam e armam o bote. Pensei em adverti-lo do perigo, sinceramente, mas tive medo do que me poderia acontecer mais tarde. Além disso, achei que o senhor logo perceberia, só de ver seu jeito. Então... o homem levou todo o seu dinheiro? Que absurdo!

Ultrapassando os limites da simpatia, o taberneiro parecia agora sentir pena da ignorância de Matahachi. Mas este, pelo jeito, não tinha consciência do papel de trouxa que representara. O prejuízo e a perda de todas as esperanças deixaram-no trêmulo, o coração acelerado. Bestificado, contemplava a multidão.

— É quase certo que não vai adiantar, mas em todo o caso, pergunte por ele na tenda do ilusionista. Ali costuma se juntar um grupo de malandros para jogar. Pode ser que Yasoma esteja por lá tentando a sorte, já que conseguiu tanto dinheiro.

— Entendi — disse Matahachi, levantando-se do banquinho precipitadamente. — E qual das tendas é a do ilusionista?

Na direção apontada pelo taberneiro havia uma tenda grande, a maior do terreno, onde se exibia um bando de mágicos. Espectadores amontoavam-se na porta. Chegando perto, Matahachi viu diversos nomes famosos em bandeirolas afixadas ao lado da entrada e ouviu, por trás das esteiras e cortinados que vedavam o extenso cercado, uma estranha música, misturada a gritos dos mágicos e aplausos do público.

 

Ao dar a volta aos fundos do cercado, Matahachi encontrou uma outra porta diferente daquela usada pelo público. Espiou, e um vigia lhe perguntou:

— Vai jogar?

Matahachi balançou a cabeça positivamente. Como o olhar que o vigia lhe devolveu pareceu consentir, Matahachi entrou. No interior do cortinado, um grupo de quase 20 rounin sentava-se formando uma roda ao ar livre e jogava bakuchi. À sua chegada, os olhares hostis de todos convergiram em sua direção. Um dos jogadores à sua frente se levantou e lhe cedeu o lugar. Matahachi então disse, precipitadamente:

— Vocês viram Akakabe Yasoma por aqui?

— Yasoma? Por falar nisso, faz alguns dias que o Yasoma não aparece por aqui. Que lhe terá acontecido?

— Acha que ele virá? — tornou a perguntar Matahachi.

— E como vou saber? Sente-se aí, de qualquer forma.

— Não, não vim jogar. Estou aqui à procura dele.

— Não me venha com gracinhas. Se não pretendia jogar, o que faz aqui?

— Me desculpe!

— Quer levar um chute na canela?

— Já estou de saída, desculpem — repetiu Matahachi, escapulindo apressado. Nesse instante, um dos jogadores veio atrás dele esbravejando:

— Samurai provinciano, nós aqui não temos o costume de aceitar desculpas. Espertinho! Se não vai jogar, pague a entrada!

— Não tenho dinheiro.

— Não tinha dinheiro, mas veio espiar! Queria ver se nos pegava distraídos para roubar nosso dinheiro, não é, ladrãozinho?

— O que disse? — gritou Matahachi, agarrando o cabo da espada nervosamente. Ao ver isso, o homem riu, disposto a comprar a briga.

— Idiota! É preciso muito mais do que uma simples ameaça para assustar alguém como eu, acostumado à vida de uma cidade grande como Osaka. Vá, use a espada, se for capaz!

— Eu... eu o mato!

— Mata! Que está esperando?

— Sabe com quem está falando?

— Sei lá!

— Sasaki Kojiro é meu nome e sou discípulo do famoso Toda Goro-zaemon, originário da vila Jokyoji, do feudo de Uzaka, na província de Echizen, fundador do estilo Toda de esgrima, ouviu bem?

Matahachi imaginou que o nome o poria em fuga mas, pelo contrário, o homem explodiu em gargalhadas e, dando as costas a Matahachi, chamou os demais no interior do cercado:

— Venham ver, companheiros! O nosso homem acabou de dar um nome pomposo e parece querer se bater conosco. Vamos ver até onde vai a sua habilidade, que acham?!

Mal acabou de falar, o homem soltou um berro agudo e pulou, golpeado nas nádegas por Matahachi, que o atacara de surpresa.

— Cão! — gritou o homem. Logo a seguir, um alarido fez-se ouvir às costas de Matahachi, que agora fugia misturando-se à multidão, levando na mão a espada ensangüentada.

Matahachi procurava se esconder no meio do povo, mas todos os rostos ao redor se pareciam com o de um dos baderneiros e ele se sentia em perigo. Repentinamente, notou diante dele um cortinado estampando um gigantesco tigre, na entrada de uma barraca. Ao lado da porta havia uma lança com ponta em forma de foice e, numa bandeirola, um emblema representando o olho de uma serpente. De pé, em cima de um caixote vazio, um velho mercador cantarolava em voz roufenha uma ladainha para atrair curiosos:

— É o tigre, é o tigre! Venham ver o tigre. Sem sair de casa, viaje quatro mil quilômetros de ida e quatro mil quilômetros de volta. Venham ver, venham ver, o tigre veio da Coréia, caçado por Kato Kiyomasa!

Matahachi jogou uma moeda e mergulhou no interior da barraca. Um pouco mais calmo, passeou o olhar em volta à procura do tigre. À sua frente, haviam levantado duas ou três folhas de madeira, uma ao lado da outra e, pregada a elas, haviam esticado uma pele de tigre, seca e dura como uma peça de roupa lavada e exposta ao sol.

 

O público contemplava comportadamente a pele do tigre: ninguém se revoltava pelo fato de estarem exibindo um tigre morto. — Ah, então isso é um tigre!

— Como é grande, não?

O povo, admirado, continuava a desfilar, entrando por uma porta e saindo por outra. Matahachi queria matar o máximo de tempo possível e ali se deixou ficar, apenas olhando a pele do tigre. De súbito, percebeu à sua frente um casal idoso, em trajes de viagem.

— Veja só, esse tigre está morto, tio Gon — disse a velha.

O velho samurai introduziu a mão pela grade de bambu e tocou a pele, respondendo:

— Claro que está, pois se isto é a sua pele!

— Mas o homem que apregoava na entrada deu a entender que era um tigre vivo, não deu?

— É mágica, obaba, é mágica! — respondeu o samurai idoso, rindo em tom de troça. Mas a anciã, irritada, voltou o rosto e, formando um bico com a boca enrugada, disse:

— Bela porcaria! Se era um número de mágica, que anunciassem na bandeirola. A ver uma pele de tigre morto, prefiro vê-lo vivo numa gravura. Vá até a entrada e mande o homem devolver nosso dinheiro!

— Obaba, obaba! Vão todos rir da gente. Pare de reclamar tão alto!

— Que me importam os outros? Se você tem vergonha de reclamar, vou eu! Assim dizendo, começou a retroceder no meio da aglomeração quando

percebeu alguém gritar de leve e se esconder. O idoso samurai a quem a anciã chamava de tio Gon soltou um berro no mesmo instante:

— Matahachi!

A velha Osugi, que não enxergava muito bem, perguntou ansiosa:

— Que disse, tio Gon?

— Não o viu, obaba? Era Matahachi, em pé logo atrás de você!

— Quê?! Verdade?

— Está fugindo!

— Para que lado?

Os dois anciãos rolaram pela porta. Fora, a tarde caíra e a penumbra já cobria a multidão apressada. Matahachi esbarrou inúmeras vezes em transeuntes e, a cada vez, girava tontamente, fugindo sempre em direção à cidade, sem nunca se voltar.

— Pare, pare aí, filho!

Matahachi voltou-se e viu que a velha Osugi corria no seu encalço como uma louca. Tio Gon também vinha atrás, levantando a mão e gritando:

— Matahachi! Tonto, do que foge?

Ao perceber que nem assim Matahachi se detinha, a velha Osugi espichou o pescoço enrugado e berrou:

— Ladrão! Pega o ladrão! Pega!

Os homens próximos reagiram sem demora, e usando longas varas de bambu que serviam de suporte a cortinados, abateram Matahachi como fariam a um morcego.

— Peguei! Peguei!

— Malandro!

— Bate mais!

— Mata de uma vez!

Mãos e pés emergiram da multidão, castigando-o impiedosamente, cusparadas o atingiram.

Ao ver a cena, a velha Osugi que, esbaforida, acabava de alcançá-los em companhia de tio Gon, empurrou a multidão a cotoveladas, levou a mão ao cabo de sua espada e arreganhou os dentes, gritando feroz:

— Miseráveis, parem com essa crueldade! Que pretendem fazer a este jovem?

A turba, sem nada compreender, explicava:

— Velha senhora, este homem é um ladrão!

— Ladrão coisa nenhuma, este homem é meu filho!

— Seu filho...?!

— Exato! E quem foi o desgraçado que o chutou? Quem foi o miserável mercador que ousou chutar este filho de samurais? Repete a insolência de novo, que esta velha ficará muito contente em dar o troco!

— Deus nos livre! Mas quem foi que berrou há pouco: “Ladrão, ladrão!”?

— Quem gritou fui eu, esta velha aqui presente! Mas ninguém pediu que gentinha como vocês o chutassem! Gritei pensando em deter meu filho, isso foi um ato de amor materno. E se não sabiam do que se tratava, como é que se põem a chutar e a bater, bando de trapalhões?

 

AMOR E ÓDIO

O bosque ficava no centro da cidade. A luz bruxuleante de um archote fazia as vezes de iluminação pública e clareava fracamente a área.

— Venha cá! — disse a velha Osugi, agarrando Matahachi pela nuca e arrastando-o da rua para dentro do bosque. Assustada com a fúria da idosa senhora, a turba desistira de acompanhá-los. O velho Gon, que ficara sob uma arcada torii [13]próxima protegendo o flanco posterior, logo os alcançou.

— Não bata nele, obaba. Lembre-se que Matahachi já não é uma criança — disse, tentando soltar a mão de Osugi do pescoço de Matahachi.

— Não se intrometa! — disse a velha, afastando-o com uma brusca cotovelada. — Eu sou a mãe, e estou castigando meu filho. Quem interfere, se intromete. Cale a boca, se me faz o favor. E você, Matahachi!

Em momento digno de lágrimas de alegria, a velha mulher, revoltada, agarrava a nuca do filho e pressionava sua cabeça contra o solo. Diz-se que a velhice transforma as pessoas, tornando-as impacientes e simplórias. Ou talvez os complexos sentimentos que assaltavam agora a velha Osugi representassem carga excessiva para seu espírito exausto. Senão, como classificar sua reação, misto de choro, raiva e louca manifestação de alegria?

— Que história é essa de sair correndo, mal vê a própria mãe? Você nasceu de mim, e não da forquilha de uma árvore! Esqueceu que é meu filho, hein, hein?! Paspalho! — dizia Osugi, aplicando vigorosas palmadas em suas nádegas, conforme fazia quando o castigava na infância. — Enquanto eu sofria, achando que já não pertencia a este mundo, você vivia tranqüilamente em Osaka! Que ódio, que ódio! Explique por que não voltou à sua terra para prestar homenagem às almas ancestrais, nem se preocupou em vir ver esta sua velha mãe. E não lhe ocorreu que todos os nossos parentes pudessem estar aflitos por sua causa?

— Me perdoe, mãe, me perdoe! — gritava Matahachi como uma criancinha, entre palmadas da mãe. — Sei que agi mal, sei disso. Exatamente por isso não consegui voltar para casa. Quando a vi, há pouco... foi tão inesperado que saí correndo como um doido, nem sei por quê. Que vergonha, ai, que vergonha! Tio Gon, mãe, senti tanta vergonha! — disse, ocultando o rosto nas mãos.

Ao vê-lo arrependido, a velha Osugi enrugou ainda mais os olhos e o nariz no rosto idoso e pôs-se também a soluçar. Mas valente como era, logo se recuperou e, combatendo resolutamente a própria fraqueza, voltou a falar:

— Você é a desgraça dos nossos ancestrais! E se confessa que está com vergonha, boa coisa não há de ter praticado!

Tio Gon, incapaz de se conter por mais tempo, interveio:

— Já basta, obaba: desse jeito, vai acabar deformando o caráter do menino.

— Vai se intrometer de novo? Aliás, você é indulgente demais, tio Gon, nem parece homem! Matahachi não tem pai e eu tenho de fazer o papel de mãe e de pai severo, ao mesmo tempo. Entendeu por que o castigo tanto? E nem pense que já acabei. Matahachi, sente-se aí! — disse Osugi, reaprumando-se ela própria e apontando o chão à sua frente.

— Sim, senhora. — Matahachi levantou o peito sujo de terra e formalizou-se, sem ânimo algum.

 

Osugi era uma mãe temível. Em certos aspectos era complacente, muito mais que a maioria das mães, mas tinha o hábito de trazer à baila a honra dos ancestrais por qualquer motivo, o que deixava Matahachi submisso como um cordeirinho.

— Não me esconda nada, ou será pior para você. Começando da hora em que partiu para a batalha de Sekigahara, o que foi que esteve fazendo? Conte tudo detalhadamente, até que me dê por satisfeita.

— Vou contar, vou contar.

Não ocorreu a Matahachi esconder o que quer que fosse. Contou como escapara vivo dos campos de Sekigahara em companhia do amigo Takezo; como se ocultara nas proximidades do pântano de Ibuki; como fora seduzido por Okoo, uma mulher mais velha, e como a vida em sua companhia se transformara em amarga experiência, da qual agora se arrependia. Quando acabou, sentiu um grande alívio, como se acabasse de vomitar algo podre há muito retido no estômago.

— Que coisa! — gemeu tio Gon.

— Você me espanta! — disse Osugi, estalando a língua impaciente. — E que anda fazendo ultimamente? Até que está bem vestido. Como é, conseguiu entrar para o serviço de algum suserano? Já recebe um estipêndio?

— Sim! — disse Matahachi sem querer, ansioso por agradar a mãe. Mas o medo de ser pego mentindo o fez emendar depressa:

— Mas ainda não consegui emprego.

— E então... de que vive?

— Da esgrima; dando aulas de esgrima.

— Verdade? — disse Osugi bem-humorada, relaxando pela primeira vez. — Aulas de esgrima? Muito bem! Apesar da vida difícil que levava, vinha se dedicando à esgrima. Mostra que é meu filho. Este é bem meu filho, não é mesmo, tio Gon?

Tio Gon concordou meneando com energia a cabeça diversas vezes, ansioso por mudar o humor da velha Osugi:

— É claro, tem de haver nele um pouco do sangue de nossos ancestrais. Embora tenha perdido o rumo momentaneamente, não perdeu o espírito.

— E então, Matahachi?

— Senhora?

— Com quem estudou, nesta cidade?

— Com o mestre Kanemaki Jisai.

— Ouça, discípulo do famoso mestre Kanemaki! — disse Osugi, seus olhos e nariz enrugados demonstrando tanta satisfação que Matahachi se viu tentado a aumentar sua alegria. Retirou então das dobras internas do quimono  o diploma de esgrima, desenrolou-o e, ocultando apenas a última linha que dizia: “Ao mestre Sasaki Kojiro”, mostrou-o à luz dos archotes:

— Veja, minha mãe, aqui está!

— Deixe-me ver! — disse Osugi, estendendo a mão. Mas Matahachi não lhe entregou o documento, dizendo apenas:

— Leia e tranqüilize-se, minha mãe.

— Tem razão! — disse a velha, sacudindo a cabeça. — Veja, tio Gon, que beleza! Não é à toa que sempre foi mais inteligente e também muito mais hábil que Takezo, desde pequeno.

Osugi quase babava de orgulho mas, instantes depois, seus olhos caíram na última linha do documento que Matahachi sem querer deixara à mostra, enquanto enrolava o diploma.

— Espere, espere um pouco: aqui diz Sasaki Kojiro. Que é isso?

— Ah... isso? Isso é um pseudônimo.

— Pseudônimo? E por que o pseudônimo, meu filho, justo você que tem um belo nome, Hon’i-den Matahachi?

— É que, como levava uma vida vergonhosa nos últimos tempos, não quis sujar o nome de nossos ancestrais.

— Ah, então foi isso! Muito bem, mostra um caráter louvável, meu filho! E agora, preste bastante atenção, pois vou lhe contar o que vem acontecendo em nossa terra, fatos que você por certo desconhece.

Com esse prólogo, e sempre pensando em incentivar e meter o filho embrios, a velha senhora pôs-se a contar os últimos acontecimentos da vila Miyamoto desde a partida de Matahachi, os motivos que levaram a ela e ao tio Gon, como representantes da casa Hon’i-den, a partir juntos da vila e a peregrinar por diversas províncias durante os últimos anos, com o intuito de encontrar e matar a dupla Takezo e Otsu. Sem a intenção de exagerar, mas ainda assim exagerando, Osugi contou minuciosamente a sua história com os olhos úmidos, interrompendo-se diversas vezes para assoar o nariz.

 

Matahachi ouvia, imóvel e cabisbaixo, o emocionado relato da idosa mãe. Agora ele se comportava como um dócil e bom filho.

Mas os aspectos ressaltados pela velha mãe em sua arenga, como a preservação do bom nome familiar e da moral samuraica, não comoveram o filho tanto quanto aquela única notícia: Otsu amava outro!

— Mãe, isso aconteceu de verdade?

Ao perceber a comoção no rosto do filho, a velha senhora imaginou que enfim conseguira, com seu discurso, despertar-lhe o brio e disse:

— Se pensa que minto, pergunte aqui ao seu velho tio Gon. Otsu, aquela relapsa, o abandonou para correr atrás de Takezo, essa é a verdade. Aliás, se você pensar mais um pouco, pode até ser que Takezo, sabendo que você não retornaria tão cedo, tenha seduzido Otsu e fugido, roubando-a de você. Não é, tio Gon?

— Isso mesmo, pode-se esperar qualquer coisa dessa dupla. Afinal, Takezo escapou do cedro centenário no templo Shippoji — onde o bonzo Takuan o havia amarrado para pagar seus pecados — com a ajuda da Otsu. Com certeza existe algo mais que simples amizade entre esses dois.

Ao ouvir isso, Matahachi por fim se encolerizou. Sobretudo porque nutria ultimamente contra o velho amigo Takezo um inexplicável antagonismo. A idosa mãe espicaçou ainda mais o orgulho do filho:

— Entendeu agora, Matahachi, o espírito que nos move, a mim e ao tio Gon, quando continuamos nossas buscas país afora? Sem trazer comigo a cabeça desses dois — de Takezo, o homem que fugiu levando a noiva de meu filho, e de Otsu, a mulher que sumiu jogando o honrado nome Hon’i-den na lama — nunca mais terei coragem de comparecer perante o altar de nossos ancestrais ou o povo de nossa aldeia.

— Entendi.

— Nem você está em condição de voltar a pisar sua terra natal na atual circunstância, concorda?

— Agora não posso mais.

— Destrua esses seus odiosos inimigos.

— Certo.

— Que resposta desanimada! Acha, por acaso, que não é hábil o suficiente para matar Takezo?

— Não é isso. Tio Gon interferiu:

— Não se preocupe, Matahachi, estou do seu lado.

— E também esta sua velha mãe.

— Ainda haveremos de voltar para casa carregando orgulhosamente as cabeças de Otsu e Takezo, não é mesmo, Matahachi? E depois, você escolherá uma linda noiva e herdará a casa Hon’i-den. Nesse dia, nossa honra de bushi estará salva. Nosso nome gozará merecido reconhecimento nas províncias vizinhas e, sobretudo, não restará em Yoshino nenhuma linhagem comparável à nossa — concluiu tio Gon.

— Vamos, anime-se, Matahachi. Acha que é capaz de cumprir a missão?

— Sim.

— Você é um bom filho. Ele merece elogios, tio Gon. Acabou de jurar que matará Takezo e Otsu — disse Osugi, finalmente em paz. Moveu-se então de leve, tentando levantar-se, pois havia já algum tempo que suportava em silêncio o enregelante frio que vinha do chão.

— Ai, ai, ai!

— Que foi, obaba?

— Acho que foi o frio, tio Gon. Sinto uma dor terrível nos quadris e não consigo me aprumar.

— Isso é mau! É aquela dor crônica de novo. Matahachi voltou as costas para a mãe e disse:

— Suba em minhas costas, mãe, eu a levo.

— Você vai me levar... me levar em suas costas, filho? — disse Osugi, passando os braços pelos ombros de Matahachi. — Quando foi a última vez que me levou a cavalo em suas costas? Veja, Tio Gon, Matahachi está me levando! — maravilhou-se a anciã, derramando lágrimas de alegria.

Quando as lágrimas quentes atravessaram a roupa e atingiram a pele de Matahachi, este sentiu uma indizível satisfação:

— Tio Gon, onde estão hospedados? — perguntou.

— íamos procurar ainda. Qualquer lugar serve, vá andando.

— Está bem! — disse Matahachi, caminhando e balançando alegremente o corpo da idosa mãe nas costas. — Puxa, como você é leve, mãe! Muito mais leve que pedras!

 

UM BELO JOVEM

Fardos de papel e folhas de indigueiro constituíam a maior parte da carga. Além disso, o navio transportava também clandestinamente em seu porão fardos de tabaco, cuja comercialização fora proibida. A princípio, esta última carga era secreta, mas o cheiro a denunciava.

Algumas vezes por mês o navio trafegava entre a província de Awa[14] e a cidade de Osaka, interligando as duas localidades. Setenta a oitenta por cento dos passageiros que haviam embarcado com a carga eram mercadores que se dirigiam a Osaka ou para lá retornavam, conversando animadamente:

— Como vão os negócios? Rendosos?

— Qual! Mas ouço dizer que em Sakai[15] as coisas andam de vento em popa.

— Dizem que a demanda por armas de fogo é tão grande que faltam artesãos nessa área.

Outro mercador interveio:

— Eu, por exemplo, trabalho com material bélico — suportes de bandeiras e armaduras — mas esse tipo de comércio já não rende o que costumava.

— Realmente?

— É que os samurais aprenderam a fazer cálculos...

— Ah!...

— Tempos atrás, costumávamos comprar dos bandoleiros o material pilhado por eles, pintar ou dar-lhe uma demão de laça, e o vendíamos de novo nos quartéis. Vinha então uma nova guerra, os bandoleiros tornavam a pilhar o mesmo material que a gente tornava a restaurar. Era um tipo de comércio rotativo de boa rentabilidade, ainda mais porque ninguém se incomodava em pesar com rigor o ouro e a prata na hora do pagamento.

A conversa girava quase sempre em torno do mesmo assunto.

— Hoje em dia, não existe comércio que se possa chamar de verdadeiramente rendoso no país. O negócio agora é arriscar tudo e sair pelo mar, como fizeram Ruson Sukezaemon[16], ou Chaya Sukejiro — disse alguém fitando o mar alto, apregoando a riqueza de países distantes.

— Comparados aos samurais, porém, nós, os mercadores, vivemos muito melhor, apesar das queixas. Esses samurais, coitados, não têm a mesa tão variada quanto a nossa; em minha opinião, a tão propalada vida luxuosa dos daimyo deixa muito a desejar; e, acima de tudo, na hora do perigo, têm de se pôr em armas e partir para a guerra, prontos para morrer. Sem falar que, no dia-a-dia, o famoso código de honra dos bushi os amarra, impedindo-os de agir como bem entendem. E de dar pena, sem dúvida — disse outro.

— Isto quer dizer que, apesar das dificuldades, é melhor ser mercador?

— Claro que é! Pelo menos, vivemos do jeito que nos agrada.

— Basta nos mostrarmos humildes perante a classe guerreira. E um bom lucro compensa qualquer humilhação.

— Nada melhor do que viver bem a vida.

— Sem dúvida! De vez em quando, encontro uns coitados a quem fico com vontade de perguntar: “Para que vieram ao mundo?”

Pelo aspecto, esses homens — embora simples mercadores — eram ricos e haviam estendido sobre o convés um amplo tapete importado, estabelecendo para si uma área de primeira classe.

Realmente, examinando-se com cuidado o grupo, chegava-se à conclusão de que o luxo — prerrogativa da classe samuraica durante o período Momoyama[17] — talvez houvesse migrado para a classe mercantil depois da morte de Hideyoshi. Os finos copos, os deslumbrantes apetrechos e as roupas de viagem, assim como a luxuosa bagagem desses homens mostravam que o estilo de vida de um mercador — apesar de sua natural parcimônia — ainda era muitíssimo superior ao de um samurai com mil koku de estipêndio.

— A viagem está ficando monótona.

— Que tal um passatempo?

— Boa idéia. Vamos fechar essa cortina à nossa volta.

O grupo começou a jogar baralho, recentemente introduzido no país por navios mercantes espanhóis e portugueses. Concubinas e serviçais foram encarregados de manter os copos sempre cheios. Os homens divertiam-se apostando quantias tão elevadas que apenas um punhado desse ouro impediria uma aldeia inteira de morrer de fome.

Dez por cento do total de passageiros que haviam embarcado com os mercadores eram monges itinerantes, rounin, estudiosos do confucionismo, bonzos e samurais, gente a quem os mercadores gostariam de perguntar: “Para que vieram ao mundo?” Agrupados a um canto junto aos fardos, fitavam com olhar ausente o mar de inverno.

 

Em meio a esse grupo de passageiros de expressão enfarada estava um jovem.

— Quieto! — ordenou, a certa altura. Apoiado a um fardo e voltado para o mar, abrigava em seu colo algo redondo e peludo.

— Ora... é um macaquinho! — exclamou alguém, espiando. — Parece domesticado.

— Eé.

— Você o tem há muito tempo?

— Não. Peguei-o há pouco, quando transpunha as montanhas vindo de Tosa[18] em direção a Awa.

— Você mesmo o pegou?

— Isso. Mas passei maus bocados, perseguido por seus pais e pelo bando. Embora não se recusasse a conversar, o jovem não levantava os olhos, continuando diligentemente a caçar pulgas pelo pequeno corpo preso entre as pernas. Os cabelos estavam cortados à moda dos adolescentes — longos, presos em rabo no alto da cabeça por uma faixa roxa e aparados em franja na testa — e vestia um vistoso e colorido conjunto de quimono acolchoado e hakama de seda, usando sobre ele um longo e folgado colete de lã vermelha que lhe chegava abaixo dos quadris. A aparência era a de um adolescente, mas não havia como garantir que realmente o fosse.

A dúvida era razoável: estilos vistosos como o desse jovem eram herança do período Momoyama, de rica influência sobre os usos e costumes, quando a moda impusera seus caprichos até sobre cachimbos, popularizando os assim chamados “cachimbos Taiko”, em homenagem a Toyotomi Hideyoshi, cognominado Taiko. E assim, persistia ainda no país a moda surgida no auge do período Momoyama, quando jovens de 20 anos, muito além da maioridade, haviam evitado raspar os cabelos, conservando a franja característica dos adolescentes até bem depois dos 25 anos, usando roupas de tecidos vistosos bordados de ouro e prata e fazendo questão de aparentar a pureza e o frescor de um adolescente[19].

Por esse motivo, não se poderia afirmar de maneira categórica, com base apenas em sua aparência, que o jovem fosse na verdade um adolescente. No aspecto físico, por exemplo, era alto e imponente, tinha a pele clara, lábios vermelhos e olhos brilhantes. Ademais, as extremidades das sobrancelhas escuras afastavam-se dos cantos externos dos olhos e subiam em direção às têmporas, emprestando ao rosto uma expressão bastante agressiva.

Não obstante, o tom com que disse ao macaco: “Por que tanto se mexe?”, aplicando-lhe um ligeiro tapa na cabeça, ainda absorto em caçar pulgas, continha grande dose de ingenuidade juvenil. Nenhum motivo especial existe para tanta especulação sobre sua idade, mas somando-se os indícios e tirando-se a média, estimava-se que o jovem teria seus 19 ou 20 anos.

Quanto à sua identidade, nada poder-se-ia deduzir dos trajes de viagem e das macias meias de couro e sandálias de palha. Contudo, seus modos descontraídos em meio ao grupo composto por monges itinerantes, bonequeiros, samurais andrajosos como mendigos e plebe malcheirosa, fazia imaginar que não pertencia a nenhum clã, havendo muito maior probabilidade de que fosse um rounin.

Contudo, levava consigo um objeto valioso demais para um simples rounin: uma espada do tipo usado em batalhas[20], longa, que trazia enviezada às costas, presa por uma tira de couro por cima do colete vermelho. A espada era reta, sem a curvatura característica da espada comum, mais parecendo uma longa vara.

O tamanho e a qualidade da espada, cujo cabo emergia sobre um dos ombros do jovem, atraíam imediatamente o olhar das pessoas.

— Que bela espada! — pensou Gion Toji que, a poucos passos de distância, havia já algum tempo a contemplava embevecido. — Nem em Kyoto se vêem muitas iguais a essa.

A qualidade excepcional da arma fez com que especulasse sobre o dono, sua carreira e seu passado. Gion Toji esperava uma oportunidade para se aproximar do belo jovem e entabular diálogo.

Em meio à névoa gelada que pairava sobre o mar, a ilha Awaji, de vagos contornos, refletia os raios solares e aos poucos se distanciava à popa.

Sobre a cabeça dos passageiros, o ruído da larga vela desfraldada sobrepunha-se ao rugido do mar.

 

Gion Toji, cansado da monótona viagem, abafou um bocejo. Nada como uma jornada tediosa para despertar no viajante a sensação de ser um estranho em terra desconhecida. Toji tomara o barco no fim de uma dessas cansativas viagens, que já durava 14 dias.

“Será que o mensageiro expresso chegou a tempo? Se chegou, ela deve estar à minha espera no cais do porto de Osaka”, pensou, evocando a figura de Okoo como único consolo para o tédio.

Pois a casa Yoshioka, que obtivera fama e invejável situação financeira ao ser apontada instrutora de artes marciais pelo xogunato Ashikaga do período Muromachi, via agora sua fortuna comprometida na geração de Seijuro por causa da vida desregrada que este levava. Nos círculos mais íntimos comentava-se que até a academia da rua Shijo estaria hipotecada e que muito provavelmente passaria às mãos de mercadores nesse fim de ano. A situação era negra. Mesmo que Seijuro juntasse o restante da fortuna amealhada pelo pai Kenpo e se mudasse levando apenas a roupa do corpo, o valor levantado não daria para cobrir as contas que vinham sendo cobradas com insistência por credores de todos os tipos, aglomerados à sua porta nos últimos dias.

— E agora?

À pergunta de Seijiro, Gion Toji, ciente de que os convites à farra feitos por ele próprio ao mestre eram a causa parcial do problema, disse:

— Deixe por minha conta. Vou lhe mostrar como pôr as contas em ordem. Toji empregou toda a sua astúcia e elaborou um projeto, segundo o qual

dariam início à construção de uma nova academia denominada Shinbukaku na área ocidental do bairro Nishi-no-touin, atualmente desocupada.

Dando seguimento ao plano, Toji fez com que Sejuro escrevesse uma circular com o seguinte teor:

Em razão da atual conjuntura, cresce a cada dia a popularidade das artes marciais, assim como a demanda por praticantes dessas artes pelos senhores feudais. Em vista disso, e com o objetivo de treinar um número cada vez maior de seguidores do nosso estilo, surge a necessidade de se ampliar a academia hoje existente para que assim possamos dar continuidade à obra do nosso fundador, celebrizando-a em todo o país. A realização dessas metas é sem dúvida um dever de todos nós, antigos discípulos do falecido mestre.

Com a circular nas mãos, visitou um a um os diversos discípulos formados pela academia Yoshioka Kenpo espalhados pelas áreas de Chugoku, Kyushu e Shikoku. O objetivo das visitas era, evidentemente, solicitar uma contribuição para a construção do referido Shinbukaku.

Muitos dos antigos discípulos do falecido Kenpo serviam a clãs em várias localidades e haviam ascendido a altos cargos. Contrariando as expectativas de Toji, porém, poucos foram os que, lendo a circular explicativa, se animaram a assinar o livro de ouro.

“Mandarei em breve, por carta”, ou “Contribuirei em outra oportunidade, quando for a Kyoto”, eram as desculpas mais freqüentes, e Toji acabou, afinal de contas, angariando apenas uma pequena parcela do que planejara.

Uma vez que o patrimônio em jogo não era dele, pensava Toji otimista que o problema seria contornado de algum modo e empenhava-se havia algum tempo em trazer à lembrança não o rosto de seu mestre, Seijuro, mas o de Okoo, a quem já havia algumas semanas não via. Mas como para tudo há um limite, também disso se aborrecera e, abafando um novo bocejo, não sabia mais o que fazer para aplacar o tédio.

Nesse momento sentiu inveja do bem-apessoado jovem que, havia algum tempo, se entretinha em caçar pulgas pelo corpo do seu macaco. Aquele, sim, achara um bom passatempo. Toji não resistiu e, por fim, aproximou-se do rapaz e entabulou conversa:

— Está indo para a cidade de Osaka, jovem?

Ainda segurando a cabeça do macaco, o jovem voltou-se e os olhos grandes lançaram um olhar pouco amistoso ao rosto de Toji.

— Isso mesmo. Vou a Osaka — disse.

— Sua família reside em Osaka, por acaso?

— Não é esse o caso.

— Mora em Awa, então.

— Também não.

O jovem era seco, sem dúvida. Em seguida, voltou a se absorver na tarefa de repartir com os dedos, cuidadosamente, os pêlos do pequeno macaco.

 

Toji não viu como continuar a conversa e calou-se durante alguns momentos para logo voltar a falar.

— Bela espada a sua — disse, agora elogiando a longa espada às costas do jovem. Quanto a isso, respondeu ele:

— É verdade. Está há gerações em minha família. — Satisfeito com o elogio, voltou-se então inteiramente para o lado de Toji e continuou: — Esta espada foi feita para ser usada em campo de batalha, de modo que penso em entregá-la a algum bom mestre armeiro em Osaka e pedir que a refaça, a fim de poder levá-la à cintura.

— Ela me parece um tanto longa para ser levada à cintura.

— Tem apenas três shaku[21] de comprimento.

— Muito longa, repito!

— Espero ser capaz disso... — retrucou o jovem. Um sorriso confiante surgiu em seus lábios.

— Claro que você é capaz de levá-la à cintura — em vez de três, a espada poderia ter até quatro shaku e ainda seria possível. Mas o importante é saber se você é bom o suficiente para manejá-la com desembaraço na hora da necessidade — enfatizou Toji em tom de censura ante o que considerou fanfarronice do jovem. — Um homem que se pavoneia levando à cintura uma espada longa o suficiente para ser confundida com uma tramela de porta pode ter um ar bem provocante. Mas são justamente esses os tipos que, na hora azada, a arrancam da cintura, atrapalhados, e fogem carregando-a nos ombros. Desculpe a indiscrição mas — que estilo você pratica?

Em se tratando de esgrima, Toji não podia deixar de mostrar condescência diante daquele rapaz mal saído das fraldas. O jovem lançou um rápido olhar ao rosto arrogante de seu interlocutor e disse:

— Estilo Toda.

— O estilo Toda foi idealizado para espadas curtas, se não me engano.

— É para espadas curtas. Mas não existe lei alguma que me obrigue a usar a espada curta só porque pratico o estilo Toda. Detesto imitar os outros. Assim, ao contrário do que meu mestre preconizava, divisei um meio de usar a espada longa. Quando meu mestre descobriu, irritou-se e me expulsou da academia.

— É típico dos jovens vangloriar-se desse tipo de rebeldia. E depois?

— Em seguida, deixei para trás a vila Jokyoji, na província de Echizen, desliguei-me do estilo Toda e procurei um certo mestre Kanemaki Jisai, fundador do estilo Chudoryu. Quando soube do que me acontecera, esse mestre mostrou-se compreensivo e me admitiu como seu discípulo. Depois de quatro anos de intensos estudos, atingi afinal um estágio que foi considerado satisfatório pelo meu mestre.

— Esses mestres provincianos costumam conceder diplomas a troco de quase nada, pelo que sei.

— Ao contrário, mestre Jisai não concede diplomas com facilidade. Ouvi dizer que, antes de mim, ele concedera a apenas uma pessoa — Ito Yagoro Ittosai, meu colega veterano — a autorização para praticar o estilo. E como eu também queria o diploma, submeti-me a um treinamento severíssimo, suportando inomináveis sofrimentos e provações. Nesse ínterim, minha mãe faleceu e tive de retornar à minha terra, interrompendo os estudos.

— De onde você é?

— Venho da vila Iwakuni, na província de Suo[22]. Depois de retornar à minha terra, não me descuidei um dia sequer: à beira da ponte Kintai, pratiquei sozinho, cortando chorões e abatendo andorinhas — usando esta espada, forjada por Nagamitsu[23], a mim entregue por minha mãe em seu leito de morte com a expressa recomendação de cuidar dela com carinho. Esta arma é um tesouro da família.

— Forjada por Nagamitsu!

— O nome do forjador não está gravado na lâmina, mas assim reza a tradição. É famosa em minha terra, tendo até sido carinhosamente batizada de “varal” por causa do seu inusitado comprimento.

Contrariando a impressão de reserva que transmitia ao primeiro contato, o atraente jovem pôs-se a dar informações não solicitadas quando a conversa passou a girar em torno de assuntos de seu interesse. E uma vez que se punha a falar, a reação do interlocutor não lhe interessava. Tanto por esta última particularidade como pelos detalhes da carreira que há pouco relatara, o rapaz parecia bastante voluntarioso, bem diferente da sua aparência.

 

O jovem calou-se por alguns minutos, parecendo imerso em emocionantes recordações. Suas pupilas refletiram uma rápida sombra de nuvens.

— Mas mestre Kanemaki também adoeceu e morreu no ano passado, completando uma longa vida de realizações — murmurou, quase sussurrando. — Eu ainda estava em Suo quando Kusanagi Tenki, um colega da academia, me transmitiu a notícia do falecimento do mestre, e chorei, emocionado. Pois meu mestre deixou de conceder o diploma a Kusanagi Tenki — que sempre se manteve ao seu lado e que o acompanhou em seus últimos momentos, que entrara para a sua academia muito antes de mim e que, além de tudo, era seu sobrinho — preferindo dá-lo a mim, que nos últimos tempos vivia tão longe. Segundo soube, mestre Kanemaki havia preparado o diploma havia algum tempo e lamentou muito não poder me rever em vida e me entregá-lo pessoalmente.

Seus olhos encheram-se de lágrimas que quase rolaram.

Gion Toji ouvia as reminiscências emocionadas do jovem, mas não se sentiu nem de longe solidário. Ainda assim, achou preferível conversar com ele a ter de passar mais algumas horas de tédio, de modo que fingiu genuíno interesse e murmurou:

— Ah... entendo.

O jovem continuou, quase como se desabafasse:

— Eu devia ter ido imediatamente, na ocasião, mas ainda estava em Suo, e meu mestre em Joshu[24], no meio das montanhas. Algumas centenas de quilômetros nos separavam. Por uma infeliz coincidência, minha mãe também faleceu nessa época, de modo que não consegui chegar a tempo de ver meu mestre.

O navio começou a jogar. Nuvens ocultaram o sol e o mar adquiriu um tom acinzentado, produzindo vagalhões que lançavam uma espuma gelada sobre a amurada.

O jovem continuou seu relato em tom emocionado. Resumindo, ele havia fechado a propriedade onde a mãe vivera e partido ao encontro de Kusanagi Tenki — seu colega e sobrinho de seu falecido mestre — com quem ficara de se reunir em algum lugar.

— Meu mestre Jisai não tem nenhum parente vivo. Por isso, legou ao sobrinho, Tenki, um certo valor que, assim presumo, não deve ter sido muito grande e, para mim que estava em terras distantes, o diploma do estilo Chudoryu. Tenki está de posse desse diploma e neste momento está percorrendo diversas províncias a estudo. Combinamos então, por correspondência, que nos encontraremos no equinócio da primavera[25], data em que ambos subiremos ao monte Houraiji, na província de Mikawa[26], situada a meio caminho entre as regiões de Joshu e Suo. Lá, receberei das mãos de Tenki o legado de meu mestre. De modo que, até lá, pretendo percorrer com tranqüilidade as áreas próximas ao castelo imperial e conhecê-las.

Terminado o relato, o jovem voltou-se enfim para Toji e perguntou:

— E o senhor: é de Osaka?

— Não, de Kyoto — respondeu Toji. Permaneceu por instantes calado, atento ao marulhar das ondas. Perguntou em seguida:

— De modo que você também pensa em viver das artes militares? — Havia algum tempo Toji o escutava com ar de desprezo e, nesse momento, pareceu visivelmente enfarado. Aos seus olhos, jovens que andavam por aí falando de diplomas e proficiência, como este, eram pretensiosos.

E desde quando, pensava Toji, pululavam no mundo espadachins hábeis ou até magistrais? Ele próprio, por exemplo, era discípulo dos Yoshioka havia quase 20 anos e só nos últimos tempos conseguira chegar àquele nível. Tomando a si próprio como base, do que pretendiam viver esses jovens daqui para a frente?

O jovem, que estivera fitando o mar em silêncio envolvendo os joelhos com os braços, murmurou então:

— De Kyoto? — Voltou-se uma vez mais para Toji e perguntou: — Em Kyoto, ouvi dizer, vive o herdeiro de Yoshioka Kenpo, um certo Yoshioka Seijuro. Sabe se ele ainda atua?

 

Basta dar-lhes corda para que comecem a falar de assuntos que não entendem. Fedelho impertinente, disse Toji para si, irritado. Mas pensando bem, o jovem ainda não sabia que se achava cara a cara com Gion Toji, o mais graduado dos discípulos da Academia Yoshioka. Imaginava o espanto e o constrangimento do rapaz quando descobrisse a verdade. Em parte para dissipar o tédio, resolveu divertir-se um pouco à custa dele:

— Na verdade, a Academia Yoshioka me parece próspera como sempre. Já esteve na academia, por acaso?

— Nunca. No entanto, quando chegar a Kyoto, pretendo me bater com Yoshioka Seijuro ao menos uma vez, só para sentir o seu nível.

— Uff! — disse Tojiro, contendo o riso. Careteou e, disfarçando o desprezo o melhor que pôde, falou:

— Tem certeza de sair incólume dos portões da academia?

— Que é isso! — rebateu o jovem. Em seguida, pôs-se a rir, divertido com a pergunta. — A academia é superestimada por causa de sua estrutura, que é muito grande. Seu fundador, Kenpo, foi um exímio esgrimista, sem dúvida alguma, mas tanto o mestre atual, Seijuro, como o irmão dele, Denshichiro, não são grande coisa. Ao menos assim me parece.

— Como pode saber, se nunca se bateu com nenhum deles?

— Mas o boato corre em todas as províncias, entre praticantes de artes marciais. Realmente, um boato não merece crédito total. Ainda assim, ouve-se com freqüência falar que o estilo Yoshioka, de Kyoto, está com os dias contados.

“Vamos parando por aí”, tinha vontade de dizer Toji. Pensou em revelar de uma vez a própria identidade, mas encerrar o assunto àquela altura dos acontecimentos daria a impressão de que o jovem se divertira à sua custa, e não o contrário. Além do mais, faltava ainda um bocado para o navio atracar em Osaka. De modo que ironizou:

— Sei. E como no mundo não faltam convencidos, assim me dizem, pode ser que tal boato esteja de fato correndo. Mudando de assunto, você falou há pouco que, na época em que esteve em sua terra natal, longe de seu mestre, procurou aperfeiçoar o manejo da espada longa abatendo andorinhas em pleno vôo à beira da ponte Kintai, não foi?

— Falei.

— Nesse caso, você por certo é capaz de abater com sua espada essas aves marinhas que vez ou outra se aproximam do barco em vôo rasante, não é mesmo?

Enfim percebendo a animosidade nas palavras de seu interlocutor, o jovem contemplou fixamente os lábios escuros de Toji por alguns segundos, e afinal respondeu:

— Sou, mas não tenho nenhuma vontade de fazer uma exibição tão tola. Parece, porém, que você quer me obrigar a isso!

— Mais do que justo, já que se sente autorizado a fazer pouco do estilo Yoshioka.

— Pelo que vejo, minhas referências pouco elogiosas à Academia Yoshioka o ofenderam. Você é discípulo ou parente dos Yoshioka?

— Nem um, nem outro. Mas como cidadão de Kyoto, não me agrada ouvir falarem mal da Academia Yoshioka.

— Ora, são apenas boatos — riu o jovem. — Não fui eu quem disse isso.

— Jovem!

— Pois não?

— Sabe o que é uma pessoa mal informada? Pois então, ouça meu conselho: nunca subestime ninguém, pois desse jeito não irá muito longe. E pare de se vangloriar dizendo que tem diploma do estilo Chudoryu e que aperfeiçoou o uso da espada longa abatendo andorinhas em pleno vôo. Não pense que todo mundo é cego. Mas se insiste em se vangloriar, veja antes com quem fala.

 

— Está me chamando de fanfarrão, por acaso? — quis saber o jovem.

—: Exato. E daí? — disse Toji, empinando o peito e aproximando-se de propósito. — Foi para o seu bem, e porque penso em seu futuro. Um pouco de fanfarronice pode até ser atraente num jovem mas, em excesso, é repulsivo.

— Acho que minha atitude complacente levou-o a se gabar. Mas agora, quero que saiba: eu, na verdade, sou Gion Toji, o mais graduado discípulo de Yoshioka Seijuro. E se ouvir de sua boca mais uma palavra desabonadora com referência ao estilo Kyoryu Yoshioka, terá de se haver comigo!

Sentindo que atraía os olhares curiosos dos passageiros próximos, Toji manifestou apenas sua posição e autoridade, e afastou-se em direção à popa do navio, resmungando:

— Bando de convencidos!

Mas o jovem das belas feições o seguiu, em silêncio.

“As coisas vão ficar sérias”, pressentiram os demais passageiros, mantendo-se distantes mas voltando-se para acompanhar os acontecimentos.

Toji não desejara de modo algum um confronto. Uma vez no porto de Osaka, Okoo estaria esperando-o no cais. Não convinha envolver-se numa briga com um moleque momentos antes de se encontrar com uma dama, pois chamaria a atenção para a sua pessoa e as conseqüências seriam imprevisíveis. Aparentando indiferença, Toji debruçou-se na amurada e, apoiando os cotovelos no gradil, observou as águas escuras que redemoinhavam sob o leme de popa.

— Senhor — disse o jovem, batendo levemente no ombro. Estava claro que era do tipo persistente. O tom das palavras, porém, era tranqüilo, não tinha nenhum indício de descontrole emocional.

— Escute, mestre Toji.

Impossibilitado de continuar fingindo ignorância, Toji voltou o rosto e disse:

— Que quer?

— O senhor acabou de me chamar de fanfarrão em público, ferindo-me o orgulho. Assim sendo, vou realizar, a contragosto, a exibição que há pouco exigiu de mim. Venha testemunhar, por favor.

— Que foi que eu exigi? Me diga!

— Não posso acreditar que já tenha se esquecido. Pois quando soube que para me aperfeiçoar eu matava andorinhas em pleno vôo com esta espada longa, junto à ponte Kintai, na província de Suo, o senhor riu e exigiu que eu abatesse uma dessas aves que se aproximam do convés em vôos rasantes, tenho certeza.

— Quanto a isso, confirmo.

— Então, se eu derrubar uma dessas aves, perceberá que não sou um mentiroso contumaz.

— É verdade.

— De modo que farei a demonstração.

— Está bem! — respondeu Toji, com um sorriso gelado. — Tome cuidado, porém, para não prometer demais e cair no ridículo.

— Farei a demonstração, de qualquer modo.

— Longe de mim detê-lo.

— Nesse caso, servirá de testemunha?

— Muito bem, vou acompanhá-lo.

Ao ouvir a vigorosa resposta de Toji, o jovem parou no centro do convés da popa, retesou os pés sobre as tábuas e levou a mão ao cabo da espada excepcionalmente longa conhecida como “varal”, às costas, e falou:

— Mestre Toji, mestre Toji!

Toji, que de longe olhava fixamente a pose do jovem, perguntou-lhe o que queria.

E então, com toda a seriedade, o jovem respondeu:

— Sinto incomodá-lo, mas gostaria que convencesse alguns desses pássaros a descer até aqui, quando então abaterei quantos quiser.

 

Pelo visto, o jovem respondia ao desafio de Toji apelando para um dos famosos recursos espirituosos do monge Ikkyu[27], cantados em verso e prosa.

Toji fora claramente ridicularizado e, é natural, ficou furioso. Para tudo havia um limite:

— Cale a boca! Qualquer um abateria uma estúpida ave se fosse possível fazê-la descer!

Mas o jovem respondeu:

— O mar mede milhares de léguas, a espada nem mesmo um metro: se o pássaro não se aproxima, nem eu consigo abatê-lo.

Toji adiantou-se com dois ou três passos agressivos e disse, triunfante:

— Está vendo? Isto é uma desculpa. Se não consegue, reconheça o fato com franqueza e peça desculpas!

— Ora, se pretendesse pedir desculpas, não me poria jamais nesta posição. Em vez de pássaros, porém, abaterei algo um tanto diferente.

— Quê?

— Mestre Toji, importa-se de se aproximar mais cinco passos?

— Que quer?

— Sua cabeça. A mesma que acaba de exigir: prove se é ou não apenas um bravateiro. E mais justo que abater essas aves inocentes.

— Que besteira é essa? — gritou Toji, retraindo involuntariamente a cabeça. No mesmo instante, o jovem sacou a espada que levava às costas, seu braço distendendo-se como um arco cuja corda se rompe. A lâmina sibilou. A longa espada de quase um metro moveu-se tão rápido que mal se percebeu um risco prateado cortando o ar.

— Que é isso! — gritou Toji, cambaleando e levando a mão ao pescoço. A cabeça continuava ali, e não sentiu qualquer anormalidade.

— Compreendeu, senhor? — disse o jovem, afastando-se entre os fardos do convés.

Toji não conseguiu disfarçar a palidez do próprio rosto, mas ainda não havia percebido que algo muito importante lhe tinha sido cortado. O jovem já tinha desaparecido quando o olhar foi por acaso atraído para um objeto estranho sobre as tábuas do convés, no trecho iluminado por pálidos raios solares. Parecia um pincel, um pequeno maço de pêlos escuros. Com uma exclamação de susto, Toji levou a mão ao topo da cabeça e percebeu que o topete se fora.

— Que aconteceu?

Enquanto alisava o topo da cabeça, espantado, o laço que prendia os cabelos na nuca se desfez e os cabelos das têmporas, finalmente livres, caíram espalhando-se por ambos os lados do rosto.

— Como se atreveu, fedelho? — disse Toji, quase sufocando com a indignação que lhe subia das entranhas, dura como pedra. No mesmo instante, percebeu com nitidez quase dolorosa que tudo que o jovem lhe dissera estava longe de ser mentira ou bravata. Que técnica assombrosa, incompatível com a idade! Tarde demais Toji descobriu que, neste mundo, podiam existir jovens realmente habilidosos!

Mas vai grande a distância entre a admiração, produto da mente, e a indignação, que tem origem nas entranhas. Quando Toji se voltou, verificou que o jovem havia retornado ao seu lugar e procurava algo, examinando o chão ao redor. Toji visualizou uma esplêndida brecha em sua guarda. Umedeceu portanto o cabo da espada com uma cusparada e empunhou-o com firmeza. Curvou de leve o próprio corpo e pensou em aproximar-se sorrateiramente pelas costas para cortar, por sua vez, os cabelos do jovem.

Mas Toji duvidava que fosse capaz de cortar apenas os cabelos de seu adversário de forma espetacular. Com toda certeza acabaria cortando o topo do crânio ou o rosto. Não que isso tivesse importância.

O sangue afluiu-lhe à pele, os músculos se retesaram e um rugido surdo lhe escapou da boca. Nesse exato momento, iniciou-se um tumulto no interior da área cercada por cortinas visível à distância, onde havia algum tempo se entretinham os mercadores de Awa, Sakai e Osaka, jogando baralho e apostando alto.

— Faltam algumas cartas!

— Será que voaram?

— Procure desse lado.

— Não estão aqui.

Os mercadores se agitavam e batiam o tapete quando, repentinamente, alguém ergueu a cabeça e berrou, espantado:

— Olhem o macaquinho, onde foi parar! Apontava a ponta do mastro.

 

Era verdade: o macaco lá estava, na ponta de um mastro de quase dez metros de altura. No convés, os demais passageiros, a essa altura bastante entediados com a longa viagem marítima, voltaram os rostos para o alto, entusiasmados com a distração:

— Olhem, ele tem alguma coisa na boca.

— São cartas do baralho.

— Ah, entendi! Ele as arrebatou daqueles ricaços.

— Vejam só: o macaquinho manuseia o baralho, imitando os gestos daqueles homens.

Uma carta veio flutuando e caiu no meio dos rostos erguidos:

— Desgraçado! — murmurou um mercador de Sakai, recolhendo apressadamente a peça. — Continua faltando. Ele deve ter mais algumas nas mãos.

— Quero as cartas do macaco. Sem elas não posso continuar jogando.

— De que jeito? Quem vai subir àquela altura?

— E o capitão?

— Só se for ele.

— Que se pague ao capitão, nesse caso, e se peça a ele que as recupere.

Devidamente recompensado, o capitão aceitou a incumbência. Fez questão, porém, de mostrar que, na posição de capitão de um navio em pleno mar e, portanto, de comando, precisava averiguar a responsabilidade do incidente. Subiu, pois, numa pilha de fardos e disse:

— Senhores passageiros: afinal, de quem é o macaco? Peço ao dono que se adiante.

Ninguém se apresentou dizendo: “O macaco é meu.” Mas todos que haviam estado na área sabiam. Involuntariamente, os olhares convergiram na direção do belo jovem.

O capitão também devia saber. Em conseqüência, sentiu-se afrontado com o silêncio. Ergueu ainda mais a voz autoritária e disse:

— O macaco não tem dono? Se não tem, acabo com ele. E não quero ver ninguém reclamando depois.

Dono, o macaco tinha. Mas reclinado contra um fardo, o jovem parecia perdido em pensamentos.

— Que descarado! — sussurrou alguém. O comandante contemplava com ferocidade o rosto do jovem. Os membros da rica classe mercantil, cuja diversão o macaco interrompera, agitaram-se de modo visível, trocando entre si comentários mordazes: “Que cara-de-pau!”, “É surdo!”, “Ou então mudo!”

Mas o jovem apenas ajeitou os pés e se acomodou melhor, continuando indiferente.

— Estou vendo que, além de peixes, o mar dá macacos também, pois hoje me pulou um para dentro do barco. Já que não tem dono, posso acabar com ele do jeito que quiser. Ouçam todos: depois de tudo o que eu, como capitão, já disse, o dono não se apresentou. Mais tarde, se alguém aparecer dizendo que é meio surdo, que não escutou, vocês serão testemunhas.

— Fique tranqüilo, comandante: nós somos testemunhas — berraram os mercadores, completamente enfurecidos.

O comandante desceu a escada que conduzia ao fundo do navio. Quando retornou, trazia nas mãos um mosquete e uma mecha acesa.

“Está furioso!”, pensaram todos. Ao mesmo tempo, curiosos quanto à reação do jovem dono do macaco, voltaram-se em sua direção.

 

O único a mostrar total despreocupação era o macaco no alto do mastro, examinando as cartas em meio à brisa marinha. Seus gestos pareciam uma deliberada zombaria.

De súbito, porém, o animal entrou em pânico e exibindo os dentes brancos pôs-se a guinchar, a correr pela verga e a saltar para o topo do mastro.

No convés, o comandante, imóvel, com a mecha fumegante rente ao nariz e o mosquete apontando o céu, mirava o macaquinho fixamente.

— Bem-feito! Agora ele se assustou — comentou um dos mercadores, aparentando embriaguez pelo aspecto.

— Silêncio! — atalhou o mercador de Sakai, puxando-o pela manga. Pois o jovem que, mudo, estivera contemplando o outro lado até esse momento, erguera o corpo de chofre e se voltara, interpelando:

— Comandante!

Agora, era a vez do comandante fingir-se surdo. Uma faísca saltara da mecha para a pólvora da trava. Quase ao mesmo tempo, o comandante gritou:

— Ah!

A arma estrondeou, desviada, e arrancada das mãos do capitão, já estava nas do jovem. Os passageiros haviam se jogado no convés, tapando os ouvidos. O mosquete voou por cima de suas cabeças e caiu no mar além da amurada.

— Que é isso?! — berrou o capitão indignado, e com razão. De um salto, agarrou o jovem pela gola e nele se dependurou. Literalmente, pois, frente a frente com o atarracado capitão, o jovem era bem maior tanto em altura como no porte.

— Que é isso digo eu! Que pretendia? Matar um animal inocente com arma de fogo?

— Exato!

— Isso é um ultraje!

— Não sei por quê! Eu avisei muito bem!

— Avisou como?

— Você não tem olhos nem ouvidos?

— Cale a boca! Não se esqueça de que sou seu passageiro e um bushi. Como espera que um samurai se digne a responder a alguém do nível de um simples comandante de navio e que se põe a berrar ordens de pé, em posição mais alta que a de seus próprios passageiros? Insolente!

— Não me venha com desculpas. Foi para evitar este tipo de confusão que eu avisei, e avisei muito bem. Pode ser que meu jeito de falar não lhe tenha agradado. Mas como é que não disse nada e fingiu nem escutar quando aqueles senhores passageiros lá adiante começaram a se queixar do seu macaco, muito antes de eu dizer qualquer coisa?

— Que senhores passageiros lá adiante...? Ah, refere-se àquele bando de mercadores no interior do cortinado, entretidos em jogatina há algum tempo?

— Não fale grosso! Aqueles senhores pagaram passagens três vezes mais caras que as dos passageiros comuns.

— Bando de insolentes, é o que são. Eu os vinha observando enquanto bebiam e apostavam altas somas em público, agindo como se o barco inteiro lhes pertencesse, e não gostei do que vi. Se o macaco fugiu levando o baralho, com certeza não fui eu quem mandou. Ele apenas imitava o mau comportamento daquele bando. Não vejo por que me desculparia por isso.

Enquanto falava, o jovem voltou o rosto afogueado em direção aos mercadores de Sakai e Osaka aglomerados adiante e sorriu com ostensiva ironia.

 

A CONCHA DO ESQUECIMENTO

As luzes do porto de Kizugawa tremem à distância, avermelhadas em meio ao crepúsculo e ao marulhar das ondas. A brisa traz um leve cheiro de peixe, indicando a aproximação da costa. Aos poucos, diminui a distância entre os gritos no barco e o alvoroço em terra firme.

Um estrondo — e a âncora é lançada à água, levantando uma nuvem de espuma branca. Amarras são atiradas, a prancha de desembarque posicionada.

— Alguém para a Hospedaria Kashiwaya?

— Veio no barco o filho do sacerdote xinto do templo Sumiyoshi?

— Correio expresso! Quero um mensageiro expresso!

— Senhor! Meu senhor!

Sobre o desembarcadouro, uma agitada multidão aguardava e um mar de lanternas cercou a lateral do barco. O jovem de belas feições desembarcou, premido pela multidão. Ao vê-lo passar com o macaco empoleirado no ombro, dois ou três aliciadores de clientes das inúmeras hospedarias locais lhe gritaram:

— Senhor, não cobramos pelo pernoite do macaco! Gostaria de se hospedar conosco?

— Quer visitar o Templo Sumiyoshi? Estamos instalados bem na frente do portão do templo e os aposentos têm uma vista maravilhosa!

Sem lhes lançar sequer um olhar, mas também sem ter ninguém a aguardá-lo, o jovem foi o primeiro a desaparecer rapidamente do porto, sempre com o macaco agarrado ao ombro.

Um pequeno grupo comentou, enquanto o acompanhava com o olhar:

— Sujeito arrogante! Só porque maneja a espada um pouco melhor que os outros!

— É verdade. Ele conseguiu estragar metade da nossa viagem.

— Não fôssemos simples mercadores, ele jamais sairia impune do navio.

— Ora, deixe que os samurais continuem se pavoneando. E fácil lidar com eles: deixe-os pensar que são os tais e eles se darão por satisfeitos. Nós/ os mercadores, lhes oferecemos as flores, mas comemos os frutos. Este é o nosso estilo. Paciência, aborrecimentos iguais aos de hoje precisam ser tolerados.

O grupo numeroso e carregado de bagagens que desembarcou em fila trocando comentários era o dos comerciantes de Osaka e Sakai. A espera de cada mercador havia uma pequena multidão portando lanternas e acompanhada de liteiras, notando-se em seu meio alguns rostos femininos.

Gion Toji desembarcou por último, furtivamente.

Seu rosto tinha uma expressão indescritível. Toji com certeza nunca passara por uma experiência tão desagradável. Para disfarçar a ausência do topete, envolvera a cabeça com um capuz, mas nada podia ocultar a expressão sombria que lhe pairava ao redor dos olhos e da boca.

— Olá! Toji-sama! Estou aqui! — disse alguém. A mulher também cobria a cabeça com um lenço. O rosto, exposto por longo tempo ao vento frio do atracadouro, enrijecera deixando à mostra as rugas por baixo da pesada maquiagem branca.

— Ah, Okoo! Você veio!

— Como assim? Você não me mandou uma carta, pedindo que o esperasse no atracadouro?

— Sei disso. Mas não sabia se a carta teria chegado a tempo.

— Que lhe aconteceu? Você não me parece bem.

— Não é nada. Acho que estou mareado. De qualquer modo, vamos seguir para Sumiyoshi e procurar uma boa hospedaria.

— Está bem. Deixei uma liteira à espera, logo aí.

— Ótimo! E quanto à hospedaria, já fez a reserva?

— Sim, estão todos à sua espera.

— O quê? — disse Toji, surpreso. — Espere aí, Okoo. Planejei este encontro no cais porque pretendia passar dois ou três dias a sós com você, em algum lugar calmo. Que história é essa de “todos”? Quem são eles?

 

— Não! Mande embora a liteira!

Furioso, Gion Toji se recusava a entrar na liteira e se afastava, deixando Okoo para trás. A cada vez que Okoo tentava falar, interrompia-a com um grito:

— Cale a boca, sua burra!

O motivo da ira residia, sem dúvida, na notícia que Okoo lhe dera. Não se podia negar, porém, que a explosão resultava também da raiva acumulada no decorrer da viagem de barco.

— Vou passar a noite sozinho! Dispense a liteira! Você não me compreende mesmo, sua burra! Burra, burra! — esbravejou Toji, afastando Okoo com um safanão.

A beira do rio, todas as lojas do mercado de peixes já haviam cerrado suas portas. Nas escuras entradas dos barracos, escamas de peixes espalhadas pelo chão luziam como conchas. Chegando àquela área e aproveitando a ausência de transeuntes, Okoo abraçou Toji e disse:

— Pare com isso, você está fazendo um papelão!

— Solte-me!

— Se passar a noite sozinho, não vai ter aquilo que tanto quer...

— Não importa mais!

— Não diga isso...

A face fria de Okoo roçou o rosto de Toji, trazendo o perfume de seus cabelos e da maquiagem. Toji sentiu que se libertava parcialmente da fria solidão da viagem.

— Venha, por favor! — insistiu Okoo.

— Estou desapontado.

— Sei disso. Mas nós dois teremos outras oportunidades.

— Quando desembarquei, vinha sonhando em passar dois ou três dias a sós com você, em Osaka.

— Pensa que não sei?

— Se sabe, para que trouxe os outros? Isso acontece porque você não gosta de mim tanto quanto eu de você — acusou Toji.

— Lá vem você de novo! — disse Okoo com olhar de censura, fingindo chorar.

Okoo explicou: ao receber a carta de Toji por um mensageiro expresso, pretendera, é claro, seguir para Osaka sozinha. Infelizmente, porém, Yoshioka Seijuro surgira nesse dia na Estalagem Yomogi para beber, como sempre em companhia de seis ou sete discípulos, e acabara sabendo da viagem por Akemi. “Se Toji vai desembarcar em Osaka, vamos lá recebê-lo!”, dissera Seijuro. Com o apoio dos bajuladores do grupo, a idéia tomou corpo e logo alguém sugeriu que Akemi também fosse. Impossibilitada de recusar — dizia Okoo — ela se juntara ao grupo de quase dez pessoas, hospedara-se numa estalagem de Sumiyoshi e, enquanto o grupo se divertia, arrumara uma liteira e viera ao cais esperá-lo.

Depois de ouvi-la, Toji concluiu que Okoo não tivera como evitar a situação, mas isso não o impediu de sentir-se deprimido. Este dia não pressagiava nada de bom, chegou a pensar Toji, rememorando os aborrecimentos anteriores e antevendo os próximos.

Para começar, era-lhe penoso ter de enfrentar Seijuro e os colegas mal punha os pés em terra firme, e relatar o resultado de suas andanças. Pior ainda seria remover o capuz. “Como é que vou me explicar?”, perguntava-se com relação ao fato de ter perdido o topete. Ele também tinha o seu orgulho de samurai. Uma humilhação sem testemunhas era suportável, pensava ele, mas o fato assumia graves proporções se se tornasse público.

— Está bem, paciência. Chame a liteira e vamos a Sumiyoshi — resolveu Toji afinal.

—Vamos? Que bom! — exclamou Okoo, afastando-se depressa rumo ao cais.

 

Okoo, que partira há pouco para buscar Toji no atracadouro, ainda não retornara. Enquanto isso, seus companheiros de viagem haviam tomado banho e, aconchegados em grossos quimonos acolchoados cedidos pela hospedaria, aguardavam sua volta.

— Okoo e Toji já devem estar chegando. Mas esperar à toa também cansa. Muito naturalmente, o grupo concluiu que seria melhor esperar bebendo.

E bebiam apenas para esperar a chegada de Toji. Com o correr das horas, no entanto, a embriaguez tomou conta de todos, fazendo-os esquecer por que bebiam.

— Alguém sabe de cantoras profissionais em Sumiyoshi?

— Vamos contratar algumas beldades para animar a reunião. Que tal, companheiros?

O velho hábito se manifestava. “Deixe disso!” era o tipo de intervenção que jamais partiria da boca de um desses homens. Apenas a presença do mestre, Yoshioka Seijuro, deixava-os ligeiramente constrangidos, mas “ate isso contornaram, dizendo:

— Nosso jovem mestre tem a companhia de Akemi e ficará melhor num aposento separado. Vamos pedir-lhe que se mude.

Seijuro sorriu a contragosto com o descaramento de seus discípulos. No entanto, 9 arranjo lhe convinha. A perspectiva de passar algumas horas a sós com Akemi em outro aposento, mergulhados sob a coberta de um kotatsu[28], lhe era muito mais agradável do que a de beber com seus homens.

— É agora, pessoal! — disse um dos discípulos mal se viram sozinhos. Não demorou muito, surgiu no jardim um grupo de cantoras de aspecto duvidoso que se autodenominava “A Atração do Rio Tosama”, carregando flautas e shamisen surrados.

— Afinal, o que querem vocês: brigar ou beber? — disse rudemente uma mulher do grupo, com forte sotaque interiorano.

Um dos homens, a essa altura bastante embriagado, respondeu de pronto:

— Idiota! Pagar para brigar não faz o nosso estilo. Já que as contratamos, pretendemos beber e nos divertir à vontade!

— Nesse caso, que tal se aquietarem um pouco mais?

— Está bem, está bem! Vamos cantar...

Levados pela mulher, os homens cobriram as peludas pernas que emergiam dos quimonos desfeitos ou se ergueram de suas posições quase deitadas e se aprumaram. E no momento em que a festa atingia o auge, uma jovem surgiu, anunciando:

— A pessoa que aguardavam desembarcar já chegou e está vindo para este aposento, junto com a senhora que o foi buscar.

— Que disse a garota? O que é que vem aí?

— Ela disse Toji.

— Toooji, Toooji, lembranças ao Tooji...

À entrada do aposento, Gion Toji e Okoo contemplavam os companheiros embasbacados. Ao que parecia, ninguém no grupo estava à espera de Toji. Para que, perguntava-se Toji, seus companheiros haviam vindo de tão longe à cidade de Sumiyoshi em meio à azáfama que precedia a chegada do Ano Novo? Segundo Okoo, eles ali estavam para recebê-lo mas, pelo visto, ninguém se lembrava de sua existência. Irritado, Toji interpelou a serviçal que o conduzira até ali:

— Menina!

— Senhor?

— Onde está o jovem mestre? Leve-me ao seu aposento.

— Sim, senhor.

Mal Toji deu alguns passos pelo corredor, e uma voz o interrompeu:

— Olá, meu estimado companheiro e veterano! Bem-vindo de volta! Que é isso? Então, deixou-nos aqui à sua espera e deu uma escapada com Okoo, não foi? Malandro!

Completamente embriagado, o homem se levantou e lançou o braço ao redor do pescoço de Toji. Seu hálito era terrível. Toji tentou escapulir mas seu companheiro bêbado o arrastou à força para dentro do aposento. Durante a breve refrega, o homem embriagado pisou involuntariamente nos pés de alguém e, desequilibrando-se, caiu sobre a mesa ainda agarrado a Toji, espalhando pratos e taças.

— Meu capuz! — exclamou Toji levando a mão à cabeça, porém tarde demais: seu companheiro havia se agarrado ao capuz e caíra sentado para trás.

 

— Ué! Que é isso?!

A estranheza tomou conta de todos no aposento e seus olhares convergiram para a cabeça sem topete de Toji.

— Que aconteceu com seu cabelo?

— Ora essa, que penteado mais estranho!

— Que foi que lhe aconteceu?

Alvo do olhar fixo dos companheiros que o examinavam sem cerimônia, Toji enrubesceu e, vestindo novamente o capuz, disfarçou:

— Nada, é que me surgiu uma ferida na cabeça. O grupo explodiu em gargalhadas:

— Trouxe uma ferida como lembrança da viagem!

— Quem com o ferro fere, com ferro será ferido.

— Não procure pêlo em casca de ovo.

— Pelos cabelos se agarra uma oportunidade.

Ao sabor de associações que vinham às mentes embriagadas, os homens citavam ditos populares pilheriando às custas de Toji, mas ninguém levou a sério sua desculpa.

A noite se foi, afogada em bebida. No dia seguinte, porém, os homens mudaram radicalmente de atitude e, agrupados numa praia nos fundos da hospedaria, falavam do episódio com a mesma seriedade com que discutiriam os rumos do país:

— Isto não pode ficar assim!

Pinheiros de pequeno porte se erguiam na área. Sentados em círculo sobre a areia, os homens empinavam o peito, enrijeciam os braços e falavam com sofreguidão, cuspindo para todos os lados.

— E quanto a essa história — têm certeza que é verdadeira?

— Eu mesmo a ouvi, com estes meus ouvidos. Ou acha, por acaso, que estou mentindo?

— Calma, calma, não se irrite tanto. Aliás, nem adianta.

— Como não adianta? Esse episódio não pode ser ignorado. Na melhor das hipóteses, é uma afronta à honra da Academia Yoshioka, a mais famosa do país em artes marciais. Isso não pode, de modo algum, ficar assim.

— Nesse caso, o que faremos?

— Ainda está em tempo. Procurem esse jovem samurai peregrino que anda em companhia de um macaco, custe o que custar! E cortem seu topete! E restaurem a dignidade de Gion Toji, ou melhor, da Academia Yoshioka!

O homem que na noite anterior parecia mais bêbado que um gambá, nessa manhã se transformara em afoito leão e, tomado de fúria, rugia a plenos pulmões.

O motivo de toda essa comoção era o seguinte: nessa manhã, os colegas de Gion Toji haviam encomendado à hospedaria que lhes preparassem especialmente um banho matinal. Enquanto se aqueciam na vasta banheira coletiva e se livravam dos últimos vestígios da ressaca, um homem, também hóspede e que se dizia mercador de Sakai, lhes viera fazer companhia. Entre uma conversa e outra, o mercador lhes havia contado que presenciara um acontecimento deveras divertido no dia anterior, a bordo do barco que fazia regularmente a ligação entre Awa e Osaka. Falou-lhes então a respeito do rapaz bem apessoado que andava com um macaquinho e, quando chegou ao trecho em que Gion Toji perdia o topete, o mercador, entusiasmado, imitou gestos e até expressões faciais.

— Pois o samurai que perdeu o topete disse que era um dos discípulos mais graduados da Academia Yoshioka, de Kyoto. Se isso for verdade, grande coisa não há de ser essa academia! — completou o mercador, divertido, enquanto se aquecia na água quente.

A partir desse incidente, a indignação tomou conta do grupo. Revoltados com Gion Toji, cuja atitude no episódio consideravam imperdoável e dispostos a interrogá-lo minuciosamente, foram informados, ao procurá-lo, que o mesmo estivera confabulando com Yoshioka Seijuro bem cedo mas que, mal terminara a refeição matinal, partira para Kyoto em companhia de Okoo sem se despedir de ninguém.

Os fatos pareciam comprovar a história do mercador. Correr no encalço de um veterano tão covarde era perder tempo. Melhor seria correr atrás do jovem desconhecido que usava os cabelos cortados à moda dos adolescentes e andava em companhia de um macaco, agarrá-lo e limpar o nome da Academia Yoshioka.

— Alguém se manifesta contra?

— Naturalmente não!

— Nesse caso...

Traçados os planos, os discípulos de Seijuro se ergueram, espanando a areia de seus hakamas.

 

Até onde a vista alcançava, a enseada de Sumiyoshi se estendia plácida, a orla espumante das ondas que corriam pela areia lembrando uma infinita sucessão de pequenas rosas brancas murmurantes. Esquecido do inverno, o sol brilhava na areia da praia impregnada de maresia.

Akemi molhava as pernas brancas na água e andava pela praia, catando algo da areia que logo tornava a lançar ao mar. Observou por momentos os discípulos da Academia Yoshioka que, aparentando preocupação, se dispersavam cada qual para um lado, carregando à cintura espadas cujas bainhas projetavam as pontas agressivamente para o alto.

— Ora essa, que terá acontecido? — perguntou-se Akemi em pé à beira da arrebentação, acompanhando seus movimentos com os olhos arregalados.

Nesse instante, o último dos discípulos passou correndo bem ao seu lado.

— Aonde vão? — perguntou Akemi.

— Ah, Akemi! — disse o homem, parando. — Não quer vir também? Nós nos separamos para procurá-lo.

— Procurar o quê?

— Um jovem samurai que ainda usa os cabelos cortados como um adolescente e anda com um macaquinho.

— Que tem esse homem?

— Ele não pode andar solto por aí porque pode até prejudicar o bom nome de mestre Seijuro.

O homem contou a história da absurda “lembrança” que Gion Toji trouxera da viagem, mas Akemi apenas comentou, em tom de censura:

— Vocês vivem procurando briga!

— Não é que apreciemos particularmente brigar, mas você não percebe que deixar um fedelho desses impune pode prejudicar o bom nome do estilo Kyoryu Yoshioka, reconhecido em todo o país?

— E daí? Que prejudique, ora!

— Não diga asneiras!

— Vocês, homens, passam o dia inteiro correndo atrás de besteiras!

— E você? Faz algum tempo que a vejo vagando por aí, mas está à procura do quê?

— Eu? — disse Akemi, baixando o olhar para a areia clara a seus pés. — Eu... procuro uma concha.

— Uma concha? Está vendo? Vocês, mulheres, gastam o dia de um jeito ainda mais inútil! Para que procurar uma concha? Olhe quantas caídas por aí, mais numerosas que estrelas no céu.

— A que procuro não é uma concha comum, como essas. É a concha do esquecimento.

— Concha do esquecimento? Nunca ouvi falar. Nem deve existir.

— Nas outras praias, não. Dizem que ela existe só aqui, na enseada de Sumiyoshi.

— Não existe!

— Acontece que existe! — teimou Akemi. — Se acha que estou mentindo, venha comigo que lhe mostro.

Akemi arrastou a seguir o relutante discípulo até um bosque de pinheiros, não longe dali, e apontou um marco no chão. Na pedra havia sido gravado um antigo poema da coletânea Shin Chokusen-shu[29]:

À enseada Sumiyoshi um dia irei

Em busca de certa concha que em suas areias bate.

Suave concha, concha do esquecimento,

De um antigo amor frustrado a lembrança apaga.

Akemi exibiu-o orgulhosamente e perguntou:

— E agora? Continua dizendo que não existem?

— Isto é uma lenda, bobagem de um poeta qualquer que não merece crédito.

— Em Sumiyoshi ainda existem um/fonte e uma flor, que também trazem esquecimento.

— Está bem, está bem, façamos de conta que existem. Mas para que servem?

— Servem para fazer esquecer. Se você levar uma dessas conchas em seu obi ou na manga do quimono, passará a se esquecer de tudo com facilidade.

— Quer ficar mais desmemoriada do que já é?

— Quero! Quero me esquecer de tudo! E como não consigo, ultimamente tenho passado dias em tormento e noites sem dormir... É por isso que a procuro. Me ajude a encontrá-la, por favor.

— E eu lá tenho tempo? — disse o homem, lembrando-se de repente de sua missão e partindo às carreiras em outra direção.

 

 “Como seria bom esquecer!”, chegava a pensar Akemi, quando o sofrimento se tornava insuportável. Por outro lado, também pensava: “Não quero esquecer!” Braços cruzados sobre o peito, Akemi hesitava entre dois sentimentos contraditórios.

Se existia de verdade uma concha mágica que proporcionava esquecimento, melhor seria introduzi-la sorrateiramente na manga de Seijuro. E então ele a esqueceria, pensava, suspirando.

— Que homem insistente!

Só de lembrar, Akemi sentiu o coração pesando. Chegava até a supor que Seijuro viera ao mundo apenas para tornar malditos os dias de sua juventude.

Quando a insistente paixão de Seijuro a deixava desgostosa, Akemi sempre trazia à lembrança, num canto da mente, a imagem de Musashi. A presença dele em seu coração lhe dava alívio e sofrimento ao mesmo tempo. Pois Akemi sentia então uma avassaladora vontade de fugir de sua atual situação e mergulhar num mundo de sonho.

“Mas...”

Akemi hesitava inúmeras vezes. Tinha certeza absoluta quanto aos próprios sentimentos, mas não quanto aos de Musashi.

“Ah... queria antes esquecer!”

O mar verde de súbito lhe pareceu tentador. Contemplando-o, Akemi sentiu medo de si própria. Via-se capaz de correr nessa direção em linha reta, sem hesitar.

Mas ninguém, nem mesmo a madrasta Okoo, tinha conhecimento da intensidade dos seus sentimentos. Muito menos Seijuro. Todos que a conheciam de perto julgavam-na extremamente alegre, sapeca e imatura, infantil a ponto de não conseguir corresponder às investidas amorosas dos homens.

Em seu íntimo, Akemi considerava simples estranhos esses homens e até a madrasta. Não se constrangia em se divertir às custas deles. Andava por todo lado agitando o guizo preso à manga do quimono, sempre agindo como uma criança irrequieta mas, ao se ver sozinha, não conseguia impedir que um suspiro quente lhe escapasse dos lábios.

— Senhorita! Senhorita! O jovem mestre há tempos a procura! Está preocupadíssimo, querendo saber aonde foi a senhorita.

Era o empregado da hospedaria que, ao descobri-la junto ao marco de pedra, se aproximara correndo e gritando.

Akemi encontrou Seijuro num aposento cujas portas cerradas deixavam de fora o sibilar do vento no pinheiral. Com as mãos metidas sob a coberta vermelha do kotatsu, Seijuro parecia solitário. Mal a viu, perguntou:

— Onde andava neste frio?

— Frio?? Que horror! Não está nada frio! A praia está toda ensolarada!

— Que fazia na praia?

— Catava conchas.

— Você parece criança!

— Mas sou uma criança.

— Já pensou quantos anos fará no próximo ano?

— Quero continuar criança para sempre, não importa a idade. Alguma objeção?

— Muitas. Tenha um pouco de pena de sua mãe, que vive preocupada com você.

— Minha mãe? Ah, essa não se preocupa nem um pouco comigo, tenho certeza. Claro, ela própria se acha muito jovem ainda.

— Está bem. Venha então se aquecer junto ao kotatsu.

— Detesto fogareiros. Me dão calor e mal-estar. Não se esqueça que não sou velha.

— Akemi... — Seijuro agarrou-a pelo pulso e a atraiu para si. — Parece que hoje estamos sozinhos. Sua madrasta teve a consideração de partir para Kyoto.

 

De súbito, Akemi deu-se conta do fogo no olhar de Seijuro e enrijeceu de pavor. Tentou afastar-se instintivamente, mas a mão de Seijuro não soltou o pulso. Agarrando-o com dolorosa firmeza, disse em tom acusador:

— Por que foge, Akemi? — Veias azuis sobressaíam nas têmporas.

— Não estou fugindo.

— Não há ninguém por perto neste momento. Esta é uma oportunidade rara. Concorda, Akemi?

— Concordar com o quê?

— Não seja tão ríspida. Já nos conhecemos há quase um ano e, a esta altura, deve saber muito bem o que sinto por você. Okoo há muito já me deu o consentimento. Disse que você não me obedece porque não sou hábil o suficiente. Se é assim, hoje...

— Não! — disse Akemi dobrando o corpo e jogando-se contra o tatami. — Solte. Solte a mão, a minha mão!

— Nunca!

— Eu não quero! Não quero!

O pulso avermelhado parecia prestes a se quebrar, mas Seijuro não afrouxava a mão: o estilo Kyohachi, empregado numa ocasião como esta, tornava inútil qualquer resistência por parte de Akemi. Além disso, havia nele algo diferente nesse dia. Nas ocasiões anteriores, Seijuro tinha bebido furiosamente e importunado com insistência, mas agora não havia traço de embriaguez em seu rosto pálido.

— Akemi: você me deixa neste estado e ainda quer me humilhar?

— Que me importa! — gritou Akemi, lançando mão de um último recurso. — Se não me soltar, eu grito. Vou chamar todo mundo!

— Experimente! Este aposento fica longe da ala central da hospedaria. Além disso, deixei instruções para que ninguém se aproximasse.

— Vou-me embora!

— Não permito.

— Não sou propriedade sua!

— Tolinha! Já dei a Okoo uma soma tão grande que me deixa na situação de dono de seu corpo! Pergunte à sua madrasta e ela lhe dirá.

— Pode ser que minha madrasta tenha negociado meu corpo, mas eu não me lembro de tê-lo vendido. Não me entrego a um homem que não amo, nem morta!

— Que disse?

O cobertor vermelho do kotatsu foi repentinamente lançado contra o rosto de Akemi, sufocando-a. Akemi gritou com toda a força, o coração quase parando no esforço.

Mas por mais que chamasse, ninguém a acudiu.

Na superfície do shoji, iluminado por um frio sol de inverno, as sombras dos pinheiros se agitavam impassíveis, apenas reproduzindo o marulhar distante das ondas. Alheio à crueldade humana, um pássaro chilreava alegremente em algum lugar.

Minutos sé passaram. Por trás do shoji explodiu o choro de Akemi. Seguiram-se alguns minutos de silêncio em que não se ouviu voz ou movimento no interior do quarto. E então a porta corrediça se abriu abruptamente e Seijuro surgiu, pálido, cobrindo com a mão direita as marcas sangrentas deixadas pelas unhas de Akemi no dorso da mão esquerda.

No mesmo instante a porta se afastou uma vez mais com violência e Akemi correu para fora.

— Akemi! — Seijuro empertigou-se e fez menção de detê-la, mas apenas observou-a se afastar, segurando a mão ferida envolta numa toalha. Não tivera tempo de impedi-la, porque Akemi corria como louca, totalmente descomposta.

Seijuro pareceu um pouco apreensivo mas não foi no seu encalço. Ao notar que o vulto de Akemi se afastava do jardim, mergulhava num dos aposentos da hospedaria e se ocultava, sentiu alívio e, ao mesmo tempo, certa dose de satisfação. Seu rosto se contorceu num frio sorriso.

 

DA IMPERMANÊNCIA DA VIDA

— TioGon! Oh, tioGon!

— Que foi, obaba. Fale! —— Não se cansou ainda?

— Estou começando a sentir moleza nas pernas.

— Foi o que pensei. Eu também enjoei de andar. Mas a arquitetura do templo Sumiyoshi é mesmo uma beleza, faz jus à fama! Ah, quer dizer que esta laranjeira é a árvore sagrada de Wakamiya Hachiman?

— É o que parece.

— Diz a lenda que, quando a imperatriz Shingu cruzou os mares e foi à Coréia, trouxe 80 navios repletos de presentes, sendo este o primeiro deles.

—Veja, obaba, o cavalo sagrado preso no estábulo é uma beleza! Ganharia o páreo, sem dúvida alguma, se corresse em Kamo!

— Hummm... É malhado cinza e creme!

— Olhe, tem alguma coisa escrita na placa.

— Diz que se você fizer um chá com as sementes desta manjedoura e o der de beber, obterá cura para o choro noturno de recém-nascidos e para o rilhar de dentes durante o sono. Beba, tio Gon!

— Não diga bobagens!

Rindo, os dois velhos passearam o olhar ao redor.

— Ué...?! Onde está Matahachi?

— É verdade. Onde se meteu?

— Ah, lá está ele, descansando na entrada do teatro kagura.

— Matahachi, eeei, filho! — chamou a velha Osugi, levantando a mão. — Se você for por esse lado, vai dar de novo na grande arcada Torii. A intenção é seguir para os lados do farol do templo!

Matahachi se aproximou, relutante. Andar a esmo todos os dias junto com os dois velhos transformara-se em considerável provação. Até suportaria, se fossem apenas cinco ou dez dias visitando pontos turísticos. Mas deprimia Matahachi a idéia de que teria de continuar na companhia dos dois até encontrar seu odiado inimigo, Miyamoto Musashi, e dele se vingar.

Considerava inútil andarem os três juntos e propusera separarem-se, para sair sozinho à procura de Musashi, mas Osugi respondera:

— O Ano Novo se aproxima e há muito não comemoramos juntos sua passagem. Em vista das circunstâncias, pode ser que este seja nosso último ano juntos neste mundo; vamos ao menos comemorar este começo de ano em companhia um do outro.

Incapaz de ignorar o desejo da velha mãe, Matahachi continuava a acompanhá-la, mas pretendia deixá-la um ou dois dias depois do Ano Novo. Tanto Osugi quanto o velho tio Gon não podiam passar por um templo budista ou xintoísta sem parar para oferecer algumas moedas e rezar demoradamente aos deuses, levados talvez pela proximidade do fim de suas vidas ou por um exacerbado sentimento religioso. Naquela ocasião, por exemplo, haviam passado quase o dia inteiro no templo Sumiyoshi.

— Ande mais depressa! — disse a velha Osugi com descabida impaciência ao ver Matahachi aproximando-se molemente.

— Olhem só quem fala!— respondeu Matahachi mal-humorado, sem dar mostras de se apressar. — Esquecem-se de quanto eu esperei por vocês.

— Isso é coisa que se diga? Qualquer pessoa pararia para adorar os deuses se pusesse os pés em terras sagradas. Por falar nisso, nunca o vi adorando Buda ou os deuses xintoístas. Sua atitude me deixa muito apreensiva quanto ao seu futuro.

Matahachi voltou-se para o outro lado e replicou:

— Estou cansado dessa ladainha.

A resposta do filho irritou Osugi ainda mais:

— Ladainha?

Durante os primeiros dois ou três dias, mãe e filho transbordavam de amor um pelo outro e o relacionamento fora mais doce do que mel. Passada a novidade, porém, Matahachi começou a se rebelar, zombando a cada passo da idosa mãe. Em conseqüência, a velha Osugi fazia o filho sentar-se à sua frente todas as noites e lhe pregava longos sermões quando retornavam à hospedaria.

E ali estavam todos os indícios de que teria início uma nova sessão. Tio Gon, prevendo aborrecimentos, interveio acalmando um e outro e pondo-se a andar:

— Vamos, vamos, parem com isso os dois!

 

 “Mas que dupla!”, pensava tio Gon da mãe e do filho.

Andava atento, procurando a todo custo resgatar o bom humor da velha senhora e remover a expressão amuada do rosto de Matahachi.

— Ah... Estão vendendo ostras assadas na brasa, naquela barraquinha perto da praia. Bem que eu senti um cheirinho gostoso! Vamos lá, obaba, tomar um trago!

Lá estava a barraca, com seus estores de fibra de bambu trançada, perto do farol. Arrastando atrás de si a dupla pouco entusiasmada, tio Gon entrou primeiro e disse:

— Queremos saque. —Voltou-se em seguida para o sobrinho e acrescentou: — Vamos, Matahachi, ânimo. E quanto a você, obaba, implica demais.

Ofereceu-lhe uma taça, mas a velha Osugi voltou o rosto para o lado e respondeu secamente:

— Não quero!

Constrangido, tio Gon ofereceu a mesma taça, desta vez para Matahachi:

— Você então, Matahachi.

Sombrio, Matahachi logo esvaziou duas a três bilhas de saque, o que naturalmente irritou ainda mais a velha Osugi.

— Mais uma! — gritou Matahachi pedindo a quarta bilha, sem esperar pela iniciativa do tio.

— Você está se excedendo! — repreendeu-o Osugi. — O objetivo desta viagem não é passear ou beber. E você também, tio Gon, acho bom parar por aí. Apesar da idade, age como uma criança, igualzinho a Matahachi.

Repreendido, tio Gon enrubesceu violentamente como se tivesse bebido todo o saque sozinho e, sem saber para onde se voltar, disfarçou o constrangimento alisando o próprio rosto e saiu da barraca:

— Tem razão, tem toda razão! — resmungou.

E foi depois de sua saída que a velha Osugi começou uma paciente admoestação ali mesmo, na barraca de moluscos. Quando a ansiedade e o amor maternal despertavam, a idosa senhora não conseguia se conter e aguardar o retorno à hospedaria para iniciar sua arenga. Pouco se lhe dava também que houvesse estranhos por perto. Quanto a Matahachi, fixava o rosto da mãe, taciturno e petulante. A princípio, deixou-a falar à vontade e só depois começou por sua vez:

— Mãe: quer então dizer que, afinal, você me acha um filho ingrato, um fraco, um poltrão, certo?

— E não é?! Afinal, não consigo ver um traço de honradez em tudo o que você fez até hoje!

— Mas também não sou de jogar fora. Você simplesmente não me entende.

— Como, não entendo?! Ninguém melhor que uma mãe para conhecer o próprio filho. E ter um filho como você representou a ruína da casa Hon’i-den.

— Espere. Espere e verá, eu ainda sou jovem. Continue desprezando seu filho, velha rabugenta! Um dia vai se arrepender, dentro do seu túmulo!

— Ótimo! Quero mil arrependimentos iguais a esse. Mas isso não acontecerá, mesmo que se passem cem anos. Que lástima!

— Já que sou um filho digno de lástima, por que me espera? Melhor ainda, eu lhe faço o favor de ir embora.

Matahachi levantou-se indignado e afastou-se abruptamente, em largas passadas.

A velha Osugi, alarmada, chamou-o com voz trêmula:

— Espere, filho!

Matahachi, contudo, não se voltou. Tio Gon, o único que poderia ter intercedido para reter Matahachi, contemplava imóvel o mar, olhos arregalados e fixos num ponto.

Ao ver isso, a velha Osugi voltou a sentar-se no banquinho da barraca, gritando:

— Tio Gon, não o detenha! Não o chame de volta, ouviu bem, tio Gon?

 

Ao ouvir a voz de Osugi, tio Gon voltou-se e disse:

— Obaba! — Mas as palavras seguintes nada tinham a ver com o que Osugi esperara ouvir. — Estou estranhando a atitude daquela mulher. Espere-me aí mesmo.

Mal disse, tio Gon lançou o sombreiro em direção à barraca e disparou em linha reta para o mar. Osugi espantou-se:

— Tonto! Aonde pensa que vai? Estamos em apuros! Olhe lá, Matahachi!... Gritando, a idosa mulher correu alguns metros no seu encalço, mas as

plantas rasteiras à beira-mar lhe tolheram os pés. Osugi caiu de bruços, estirando-se em cheio sobre a areia.

— Idiota, cretino!

Rosto e peito cheios de areia, a velha pôs-se de quatro e se levantou. Os olhos que raivosamente procuravam o vulto do tio Gon de repente se arregalaram. Osugi gritou:

— Maluco! Maluco! Está louco? Aonde pensa que vai? Tio Gon!

A própria Osugi parecia doida, correndo desvairada atrás do velho Gon em direção ao mar.

Pois nesse instante Tio Gon já entrava na água. Por causa de um baixio existente na área da costa, a enseada mantinha-se rasa por muitos metros, de modo que a água lhe chegava ainda na altura das canelas. O idoso homem, porém, continuava a correr cada vez mais para o fundo, a espuma levantada por seus passos formando uma fumegante cortina branca ao seu redor.

Um quadro ainda mais espantoso desenrolava-se, porém, à frente de tio Gon: um outro vulto, este o de uma mulher, corria também com terrível ímpeto mar adentro.

Tio Gon a notara pela primeira vez na praia, parada à sombra dos pinheiros e contemplando imóvel a superfície verde do mar. No instante seguinte, o vulto, de cabelos negros soltos, corria em linha reta para dentro da água, chapinhando.

Graças ao banco de areia que, como já foi dito antes, mantinha a água rasa por cerca de quinhentos metros, a mulher também continuava com a água pela metade das canelas. Em meio aos respingos, brilhavam a gola vermelha do quimono e o ouro do brocado de seu obi, lembrando a cena em que Taira-no-Atsumori[30] avança mar adentro cavalgando o próprio ginete.

— Mulheer! Pare, mulher! — gritou tio Gon, conseguindo enfim se aproximar. Mas o banco de areia devia terminar abruptamente nesse local pois, no momento seguinte, a mulher afundou tragada por uma onda, voltando um estranho gemido na superfície da água.

— Desmiolada! Pretende se matar de verdade? — esbravejou tio Gon, continuando a segui-la decidido, ele próprio submergindo logo atrás.

Na praia, a velha Osugi corria de lado, rente à água, em desespero. Ao ver que com um último espadanar desapareciam os vultos da mulher e de tio Gon, pôs-se a gritar:

— Acudam, acudam de uma vez! Não estão vendo que os dois vão morrer? A voz acusadora parecia culpar os pescadores próximos pelo que estava ocorrendo.

— Que estão esperando, homens? Acudam rápido, vamos! — berrava Osugi, caindo, erguendo-se e correndo, abanando as mãos em desespero, como se ela própria estivesse prestes a se afogar.

 

— Será que tinham um pacto de morte?

— Não pode ser...

Os pescadores riam, reunidos ao redor dos dois corpos estendidos na areia. A mão do idoso tio Gon segurava com firmeza o obi da jovem mulher. Nenhum deles respirava.

A jovem desgrenhada parecia viva, e em seu rosto destacavam-se o branco da maquiagem e o carmim do rouge. Mordia levemente o lábio arroxeado e sorria.

— Ah, mas eu conheço esta mulher!

— Eu a vi catando conchas na praia!

— Isso mesmo! Ela está hospedada naquela estalagem!

Não houve necessidade de ir avisar, pois quatro ou cinco serviçais da hospedaria surgiram correndo. E entre eles estava Yoshioka Seijuro, pálido: ao notar a aglomeração na praia, tivera um mau pressentimento e acorrera ofegando:

— ÉAkemi!

Ciente, porém, da presença de estranhos e temeroso do que poderiam pensar, parou ao lado dos corpos, imóvel.

— Senhor samurai, esta moça está em sua companhia?

— Está.

— Faça com que ela vomite a água, depressa.

— Será que se salva?

— Não perca tempo falando.

Os pescadores dividiam as atenções entre os corpos de tio Gon e de Akemi, pressionando-lhes a boca do estômago e batendo em suas costas.

Akemi logo voltou a si. Seijuro fez com que um serviçal da hospedaria a carregasse às costas e retirou-se rapidamente, fugindo dos olhares curiosos.

— Tio Gon! Ei, tio Gon!

Osugi chorava, pressionando o rosto contra o ouvido do idoso homem. A jovem Akemi logo se recuperara. Tio Gon, porém, em razão da idade ou talvez da bebida que ingerira momentos antes de entrar no mar, havia morrido. Seus olhos, por mais que Osugi o chamasse, não voltaram a se abrir.

Os pescadores, que até esse momento haviam se empenhado em reanimá-lo, por fim desistiram, dizendo:

— Não adianta mais.

Ao ouvir isso, Osugi parou de chorar instantaneamente e, virando-se para os homens que se haviam mostrado tão solidários, gritou:

— Quem disse que não adianta? Se a menina voltou a si, por que ele não voltaria?

Furiosa, a velha Osugi empurrou os homens que cuidavam do tio Gon, esbravejando:

— Eu vou reanimá-lo!

Desesperada, Osugi lançou mão de todos os recursos. O empenho da velha senhora era até comovente, mas seu jeito autoritário — tratando as pessoas ao redor como se fossem seus empregados, ora reclamando do modo como apertavam a barriga, ora protestando que desse jeito não surtiria efeito, ou ainda suas impertinências exigindo que acendessem uma fogueira na praia e fossem buscar remédios — irritou os pescadores que, afinal, não eram seus parentes e sequer a conheciam.

— O que essa velha ranzinza pensa que somos?

— Não percebe a diferença entre um homem morto e um desmaiado? Quero ver se é capaz de ressuscitar o velho!

Sussurrando entre si, aos poucos foram se afastando do local.

Na praia, a tarde começava a cair. Uma fina cerração vinha do mar e, no céu, nuvens douradas refletiam fracamente a luz do sol poente. Osugi ainda não desistira. Acendeu uma fogueira, abraçou o corpo do velho Gon e, mantendo-o perto do fogo, continuava a clamar:

— Oh, tio Gon! Escute, tio Gon! As ondas quebravam cinzentas.

Por mais lenha que jogasse na fogueira, o corpo do idoso homem não se aquecia. Mas Osugi aparentemente acreditava que, a qualquer instante, seu velho Gon voltaria a falar: mascando remédios retirados de seu estojo, continuava a transferi-los diretamente de sua boca para a boca do morto, a abraçá-lo e a sacudi-lo:

— Abra os olhos só mais uma vezinha, tio Gon, fale alguma coisa!... Que é isso, tio Gon? Não pode me abandonar aqui e partir primeiro, onde já se viu? Pois se nem acertamos as contas com Musashi ou com a bruxa Otsu!

 

UM INIMIGO QUE SURGE DO PASSADO

Fora do aposento, a tarde avançava em meio ao marulhar das ondas e ao rumor do vento nos galhos dos pinheiros. Akemi caíra em sono agitado. Mal fora acomodada nas cobertas, a febre subira e a jovem passara a delirar.

À cabeceira, Seijuro, o rosto mais pálido que aquele sobre o travesseiro, sentava-se em desanimado silêncio. Por mais genioso que fosse, a dolorosa agonia da flor que ele próprio pisoteara devia pesar em sua consciência, pois ali estava ele, cabisbaixo e angustiado.

Seijuro era, sem dúvida alguma, o homem que se satisfizera transformando à força uma alegre jovem em presa de seus instintos bestiais. Mas o homem consciencioso que, com o rosto enrijecido e solene, velava imóvel à cabeceira da jovem ressuscitada, preocupando-se com o seu pulsar e respirar, também era Yoshioka Seijuro.

Trazendo à tona dois aspectos tão contraditórios da personalidade no curto período de um dia, Seijuro nem por isso parecia desnorteado. Seu rosto apenas espelhava dor e vergonha, aparentes nas sobrancelhas contraídas e na boca crispada.

— Acalme-se, Akemi, por favor. A maioria dos homens age dessa maneira, não só eu... Compreendo que se tenha assustado com a violência do meu amor, mas um dia você vai me entender...

Sentado à cabeceira de Akemi, Seijuro repetia as mesmas palavras inúmeras vezes, tentando consolar a jovem ou, talvez, a si próprio.

Um negrume denso como tinta envolvia o aposento. Vez ou outra a mão branca de Akemi se soltava das cobertas e batia com um ruído seco sobre o tatami. Seijuro a repunha sob as cobertas, mas Akemi o afastava, irritada.

— Que dia é hoje? — perguntou a jovem subitamente.

— Como?

— Quantos dias faltam... para o Ano Novo?

— Apenas sete. Até lá, você já estará boa. Vamos passar o Ano Novo em Kyoto, Akemi — respondeu Seijuro, aproximando o rosto do de Akemi.

— Não! — gritou ela de súbito, quase chorando, batendo no rosto que se aproximava do seu. — Vai embora!

As imprecações saíam de sua boca em voz fina e desvairada:

— Porco! Animal!

— És um animal!

— Não suporto nem te ver!

— Perdoe, Akemi.

— Cala a boca, cala a boca, cala a boca!

A mão branca se agitava no escuro, em desespero. Seijuro continha a respiração e, sombrio, sofria enquanto contemplava seus modos loucos. Devagar, Akemi se acalmava para voltar a perguntar:

— Que dia é hoje?

— Falta muito para o Ano Novo?

— Sete dias — durante sete dias, a partir do primeiro dia do ano, ele disse que estará todas as manhãs sobre a ponte da rua Gojo. Foi esse o recado de Musashi-sama. Ah... como eu queria que o Ano Novo chegasse de uma vez! Quero voltar a Kyoto! Musashi-sama vai estar sobre a ponte da rua Gojo.

— Que disse? Musashi?

— Que Musashi? Fala, por acaso, de Miyamoto Musashi?

Atônito, Seijuro procurou confirmar espreitando o rosto de Akemi, mas não obteve resposta. Cerrando firmemente as pálpebras azuladas, a jovem dormia profundamente.

Agulhas de um pinheiro caíram mansamente e resvalaram na superfície do shoji, iluminado pela claridade proveniente do mar. Um cavalo relinchou ao longe. Instantes depois, a luz de uma lamparina varou o shoji e um visitante surgiu, precedido por uma serviçal da hospedaria.

— Mestre! Está aí, jovem mestre?

 

— Olá, quem é? Estou aqui! — disse Seijuro, fechando precipitadamente a divisória dos dois aposentos e aparentando displicência.

— Sou eu, Ueda Ryohei.

Um homem vestindo imponentes roupas de viagem e coberto de pó entreabriu o shoji e sentou-se num canto do aposento.

— Olá, Ueda! — saudou Seijuro, perguntando-se o que o traria à sua presença. Ueda Ryohei pertencia, junto com os veteranos Gion Toji, Nanbou Yoichibei, Miike Jurozaemon, Kobashi Kurando e Otaguro Heisuke, ao grupo que se auto-intitulava “Os Dez Mais da Academia Yoshioka”.

Para aquela pequena viagem recreativa, Seijuro não trouxera nenhum desses auxiliares diretos e Ueda Ryohei deveria ter permanecido na academia da rua Shijo. Não obstante, ali estava Ryohei vestindo roupas de montar e mostrando todos os sinais de urgência em seus modos. Era verdade que Seijuro deixara para trás diversos problemas que o preocupavam mas, sem dúvida, a emergência que fizera Ryohei vir de tão longe à sua procura, fustigando um cavalo, não haveriam de ser os problemas financeiros ou as dívidas cobradas com insistência por mercadores, com a aproximação do fim de ano.

— Que foi? Algo importante aconteceu durante a minha ausência?

— Vou transmitir-lhe as notícias de uma vez, pois preciso pedir seu retorno imediato.

— Estou ouvindo.

— Ora, onde é que...

Ueda Ryohei introduzira ambas as mãos nas dobras de seu quimono e apalpava perplexo o próprio corpo quando um grito ecoou do outro lado da divisória:

— Nãão! Porco! Sai, sai de perto de mim!

Mesmo no sono, os acontecimentos do dia deviam perseguir Akemi como um pesadelo, pois a jovem amaldiçoava com vivacidade: as palavras, pronunciadas claramente, em nada lembravam um delírio.

— Que foi isso? — perguntou Ryohei, assustado.

— Nada!... E Akemi... está um pouco indisposta desde que chegamos, e delira por causa da febre.

— Ah, Akemi!

— Deixemos isso de lado. Preocupa-me muito mais o motivo de sua vinda até aqui. Fale de uma vez.

— Aqui está — disse Ryohei, retirando uma carta que por fim achara nas dobras do seu obi. Apresentou-a a Seijuro, aproximando dele a lamparina deixada’pela mulher da hospedaria.

Seijuro lançou um olhar casual à carta e exclamou:

— Ah... Mas é de Musashi! Ryohei assentiu com firmeza:

— Isso mesmo!

— Já a abriram?

— As pessoas que a receberam em seu lugar decidiram abri-la de comum acordo, uma vez que nela está escrito “urgente”.

— Que... que manda ele dizer?

Seijuro não conseguia tomar a carta em suas mãos de imediato. Por que perguntar, se o assunto era seu e se Miyamoto Musashi devia estar sempre em sua mente? Mas a bem da verdade, até esse dia Seijuro estivera certo de que jamais voltaria a ter notícias de Musashi. Traído em sua expectativa, sentiu um frio na espinha e, momentaneamente abalado, contemplou a carta, sem ânimo para abri-la.

Apertando os lábios, Ryohei respondeu nervoso:

— A carta chegou, afinal. Apesar das bravatas que andou contando antes de partir na primavera passada, pensávamos que esse homem jamais voltaria a pôr os pés na cidade de Kyoto. Mas — que presunçoso — “conforme prometi”, diz ele... Veja, ele teve ainda a ousadia de endereçar a carta a “Mestre Yoshioka Seijuro e Dignos Discípulos”, fazendo constar apenas o próprio nome, Miyamoto Musashi, como desafiante!

 

A carta não registrava o endereço do remetente, não sendo possível portanto saber-se por onde andava Musashi.

Mas seu paradeiro não importava. O fundamental era que, cumprindo estritamente a promessa, Musashi remetera a carta desafiando mestre e discípulos da academia Yoshioka. A partir desse momento, a casa Yoshioka e Musashi estavam em guerra: no final, um dos lados eliminaria o outro.

Aquilo era um duelo — e mortal. Em lutas desse tipo, um samurai aposta a vida por sua honra e espada. O duelo deixa de ser verbal ou uma simples demonstração de floreios técnicos de esgrima e passa a exigir o empenho da vida.

E para Yoshioka Seijuro, o desafiado, constituía um incrível fator de risco continuar desconhecendo os termos do desafio. Além disso, não deveria ter permanecido ocioso à espera deste dia, era óbvio.

Em Kyoto, alguns bravos discípulos de Seijuro mostravam-se revoltados com o comportamento de seu mestre e reclamavam:

— Desta vez, as coisas foram longe demais!

Outros choravam amargurados ou rilhavam os dentes lembrando a humilhação que haviam sofrido nas mãos de um simples guerreiro itinerante e diziam:

— Como gostaria que mestre Kenpo estivesse agora entre nós!

E assim, com o respaldo dos colegas que, unânimes, achavam importante “pôr o mestre a par do assunto e trazê-lo incontinente de volta a Kyoto”, Ueda Ryohei cavalgara até ali. Mas Seijuro apenas contemplava a carta de interesse vital depositada à sua frente, sem dar mostras de querer abri-la.

— Seja lá como for, leia-a, por favor! — instou Ryohei, um tanto irritado.

— Ah... a carta — murmurou seu mestre, por fim tomando-a nas mãos e passando os olhos.

Conforme prosseguia na leitura, Seijuro não conseguia ocultar o ligeiro tremor que lhe surgia na ponta dos dedos. Não porque a caligrafia ou o estilo da carta de Musashi fossem particularmente agressivos, mas porque nunca se sentira tão frágil espiritualmente. O murmúrio delirante de Akemi soando através da divisória, no aposento contíguo, abalava por completo a postura samuraica que Seijuro costumava manter no cotidiano. Sua segurança se desfazia como espuma na areia.

A carta de Musashi, por outro lado, vinha escrita com muita simplicidade:

 

Senhores,

 

Esperando que estejam todos em plena forma, escrevo-lhes esta carta conforme prometi.

Estou certo de que V. Sas. obtiveram um notável progresso técnico no transcorrer destes últimos meses, mas previno-os que também consegui considerável aperfeiçoamento de minhas habilidades.

Informem onde, em que dia e a que horas terei a oportunidade de demonstrá-lo. Não faço qualquer exigência específica. Desejo unicamente realizar o duelo há muito prometido, de acordo com os critérios que V. Sas. estabelecerem.

Tomo apenas a liberdade de solicitar-lhes uma resposta pública, escrita em placa que deverá ser afixada no meio da ponte da rua Gojo, entre o 1o e o 7o dia do ano.

 

Aos... dias do mês...,

Shinmen Miyamoto Musashi Masana

— Vou-me embora imediatamente! — disse Seijuro levantando-se, amarfanhando a carta e metendo-a na manga do quimono. Emoções diversas tumultuavam o espírito, tornando-lhe impossível permanecer por mais um instante que fosse.

O encarregado da hospedaria foi chamado às pressas à sua presença. Ao lhe ser solicitado que, em troca de pagamento, cuidasse de Akemi até a sua total recuperação, o estalajadeiro aceitou a incumbência a contragosto.

Nesse momento, Seijuro desejava mais que tudo afastar-se daquela casa e daquela noite desagradável.

— Levo seu cavalo! — gritou a Ryohei quando terminou apressadamente de se preparar para a viagem. Saltou para a sela e partiu, quase fugindo. Ueda Ryohei também disparou atrás do cavalo pela escura estrada arborizada de Sumiyoshi.

 

O “VARAL”

— Ah-há, claro que vi! Fala de um jovem vestindo roupas vistosas, levando um macaquinho no ombro, estou certo? Pois alguém que corresponde a essa descrição acabou de passar por aqui há pouco — informou um homem.

— Onde, onde? Que diz? Desceu pela ladeira Shingonzaka de Takazawa e se dirigiu à ponte Noujin-bashi... Mas não cruzou a ponte, pois foi também visto à entrada da loja do armeiro, à beira do fosso oriental? Finalmente! Encontramos a pista! É ele, é ele, não tem erro!

— Atrás dele, homens!

Atraindo a atenção dos pedestres nesse entardecer, ali ia um grupo de homens correndo precipitadamente, tentando alcançar um indivíduo de cuja existência não tinham certeza.

Àquela hora do crepúsculo, os estabelecimentos comerciais à beira do fosso oriental já haviam cerrado suas portas, mas um dos homens entrara na loja e questionara com rispidez o mestre armeiro. Instantes depois, saiu porta afora e, pondo-se a correr, disse:

— A Tenma! Vamos para Tenma!

O resto do grupo o acompanhou, tentando confirmar a boa notícia:

— Descobriu?

O líder respondeu com vivacidade:

— Descobri para onde foi!

Desnecessário dizer, aqueles eram os discípulos da academia Yoshioka que, desde cedo, vasculhavam a área central de Sumiyoshi em busca de um jovem e seu macaquinho de estimação, desaparecidos na noite anterior mal desembarcaram no porto.

A informação obtida no morro Shingonzaka tinha fundamento, conforme vieram a saber na loja do armeiro. Dizia o mestre armeiro que, realmente, a certa hora daquela tarde, quando já pensavam em cerrar as portas, surgira um jovem samurai de cabelos cortados à moda dos adolescentes. O jovem largara na entrada da loja um macaquinho que levava ao ombro e sentara-se para descansar.

“Está aí o mestre armeiro?”, perguntara. Mas como infelizmente ele, o armeiro, havia se ausentado e o empregado assim informara ao jovem, este dissera: “Trouxe uma arma muito valiosa que gostaria de ver afiada, mas a ausência do mestre armeiro me deixa em dúvida. Antes de confiá-la a vocês, quero saber, de um modo geral, até que ponto são competentes no serviço de reforma e afiamento de espadas. Se existe na casa alguma arma afiada pelo mestre armeiro, mostre-me”. Em vista disso, foram-lhe formalmente apresentadas algumas espadas, às quais o jovem lançara um olhar casual para depois comentar: “Parece-me que este estabelecimento só trabalha com armas rústicas. Não me agrada deixar a minha aos cuidados de uma casa desta categoria. A espada que quero ver afiada é esta às minhas costas, apelidada de “varal”: é histórica e está há gerações com a minha família. Nela não consta o nome do forjador mas, como pode ver, é uma obra-prima original, cunhada em Bizen, sem qualquer vestígio de ter sido encurtada.”

Desembainhàra a seguir a brilhante espada e a exibira, vangloriando-se o tempo todo das suas qualidades, ao que o empregado do armeiro, julgando ridícula a atitude do jovem, murmurara que “varal” era um nome bem apropriado para aquela espada sem curvatura, cujo único mérito aparente era o seu comprimento. Ao ouvir isso, o jovem se aborrecera um pouco, levantara-se de modo abrupto e perguntara o caminho para Tenma, de onde deveria partir o barco que subia o rio rumo a Kyoto. Depois, dissera fingindo indiferença: “Vou mandar afiá-la em Kyoto. Em todas as lojas de Osaka por que passei só vi espadas de soldados rasos, vulgares, afiadas sem técnica alguma. Obrigado pela informação”. Afastara-se a seguir rapidamente, contou o armeiro.

Quanto mais os discípulos de Seijuro ouviam a respeito do jovem, mais se reforçava neles a impressão de arrogância. Decepar o topete de Gion Toji com certeza aumentara-lhe ainda mais a presunção. Era bem provável que o jovem estivesse agora mesmo caminhando pela estrada cheio de si, sem saber que o mensageiro da morte, na pessoa dos discípulos, se aproximava cada vez mais de suas costas.

— Vai ver agora, novato fanfarrão!

— Já o temos em nossas mãos. Não há mais pressa.

O grupo andara o dia inteiro sem descanso, e a última observação partiu do mais fatigado. A isso, o que corria na frente respondeu:

— Pelo contrário, temos de nos apressar! O último barco a subir o rio Yodo parte por volta desta hora, se não me engano.

 

Mal avistou a margem do rio, perto de Tenma, o líder do grupo gritou:

— Irra! E agora?

— Que foi? — gritou o que lhe vinha logo atrás.

— Já estão empilhando os bancos da casa de chá, no atracadouro. Além disso, não vejo o barco no rio.

— Partiram?

Agruparam-se todos ruidosamente, contendo a respiração ofegante e, por alguns momentos, quedaram-se mudos e um tanto desapontados contemplando a superfície do rio. Logo abordaram o empregado que fechava a casa de chá e este os informou que, sem dúvida, um samurai de cabelos cortados à moda adolescente levando um macaco havia embarcado. Acrescentou também que o barco — aliás, o último do dia — acabara de zarpar havia pouco mas, com toda a probabilidade, ainda não chegara ao porto seguinte, Toyosaki, bem perto dali. Era muito provável que conseguissem alcançá-lo caso corressem pela margem, pois um barco navegando contra a correnteza rio acima se desloca muito lentamente, ao contrário dos que deslizam a favor da corrente, completou o homem.

— Isso mesmo! Nada de desânimo. Já que o perdemos aqui, não há mais pressa. Descansemos um pouco.

Assim dizendo, os discípulos de Seijuro tomaram chá e comeram rapidamente alguns confeitos antes de prosseguir às carreiras pela escura estrada margeando o rio.

Além da vasta área escura à frente, o rio se bifurcava formando duas faixas brilhantes que lembravam cobras prateadas. Estavam no ponto em que o rio Yodo se separa formando os rios Nakatsu e Tenman e, próximo a essa área, viram surgir um instável ponto de luz.

— É o barco!

— Nós o alcançamos.

Os sete homens alvoroçaram-se, entusiasmados.

As folhas secas dos juncos à beira-rio brilhavam como lâminas de espadas ao luar. Nos roçados próximos não restara sequer uma folha verde. Um vento gelado soprava pressagiando geada, mas nenhum dos homens sentia frio.

— Perfeito!

A distância diminuía gradativamente. Mal se assegurou de que aquilo era sem dúvida o barco, um dos homens gritou, sem pensar direito no que fazia:

— Eeeei! Parem o barco!

Uma voz pachorrenta respondeu:

— Para quêêê?

Na margem, o homem que gritara antes da hora levava uma reprimenda dos companheiros. Por que gritar desse jeito justo ali? Alguns quilômetros além havia um porto onde o barco forçosamente teria de atracar, pois haveria passageiros embarcando e desembarcando. Mas o berro acabara proporcionando ao inimigo dentro do barco condições para se pôr em guarda, reclamavam alguns de seus colegas.

— Ora, isso também não tem tanta importância, pois o adversário está só. Já que você o alertou, é melhor nos identificarmos de uma vez e cuidar para que ele não fuja pelo rio.

— Isso mesmo! Bem observado!

Graças à judiciosa intervenção de um dos homens, a discussão se encerrou. Os sete homens, unidos uma vez mais, ajustaram o passo à velocidade do barco noturno que subia o rio Yodo e tornaram a gritar:

— Eeeei!

— Que queeerem?

Não era um passageiro, aparentemente, mas o capitão que assim perguntara.

— Chegue o barco à margem!

— Está louco?

Ruidosas gargalhadas no interior da embarcação acompanharam a resposta.

— Recusa-se? — gritou um dos discípulos, em tom ameaçador. A isso, respondeu desta vez um dos passageiros, imitando o tom da pergunta:

— Recuso-me!

No ar frio, o hálito dos sete homens em terra firme formava uma nuvem branca ao redor das cabeças, dando a impressão de que literalmente fumegavam de raiva.

— Muito bem! Se não vão chegar à margem, esperaremos no próximo atracadouro. Mas entre os passageiros deve haver um novato levando um macaco. Digam a ele que, se tem noção de honra, adiante-se e fique em pé próximo à amurada. E se vocês lhe derem cobertura para fugir, avisamos: arrastaremos um a um para a margem e os trataremos como cúmplices. Ouviram?

 

A balbúrdia estabelecida no pequeno barco era nitidamente perceptível para os que o contemplavam da margem. E agora? — pareciam todos perguntar-se.

Se o barco acostasse, algo desagradável sem dúvida aconteceria: os sete samurais que caminhavam pela margem tinham prendido as mangas com tiras de couro e moviam ostensivamente suas espadas.

— Não lhes dê resposta, capitão!

— Digam o que disserem, não responda.

— Não acoste até chegarmos a Moriguchi. Lá recorreremos aos oficiais do posto policial.

Os passageiros sussurravam conselhos, assustados. O audacioso que se manifestara primeiro emudecera e apertava os olhos. Parecia rezar para que a distância — garantia única de segurança — entre a margem e o barco se mantivesse.

Os sete da margem continuavam incansáveis a acompanhar a embarcação. O momentâneo silêncio indicava que aguardavam a reação dos passageiros. Contudo, cansados de esperar, voltaram à carga:

— Ouviu bem, bushi que cheira a fralda e anda com um macaco? Venha à amurada! Vamos!

Repentinamente, uma voz ergueu-se no meio dos passageiros que vinham aconselhando a nada responder:

— É comigo?

No mesmo instante, um vulto jovem surgiu na amurada.

— Você mesmo!

— Até que enfim!

— Fedelho!

Os sete homens da margem dirigiam olhares raivosos e apontavam o vulto, ameaçando atravessar o rio a nado caso fosse menor a distância.

Com a longa espada apelidada de “varal” às costas, o bushi de aparência juvenil parou na amurada e ali permaneceu, imóvel. A luz do luar batia na água a seus pés, logo abaixo da amurada, e refletia em seus dentes brancos e pontiagudos.

— Novato em companhia de um macaco e cabelos cortados como um adolescente não existe outro, além de mim. Quem são vocês? Bandoleiros sem meios para sobreviver, ou uma trupe mambembe morta de fome?

Mal a voz fluiu sobre o rio e os alcançou, os sete voltaram-se simultaneamente, rilhando os dentes:

— Que disse?

— Como ousa, amestrador de macacos?!

As ofensas partiam da boca dos sete homens e ricocheteavam na superfície da água, uma a uma:

— Olhem só quem fala! Daqui a pouco vai enrolar o rabo entre as pernas e pedir perdão.

— Que disse? Somos discípulos da academia Yoshioka. Sabia disso ou não, quando há pouco nos dirigiu as palavras ofensivas?

— Já que está sobre o rio, estique o braço, lave esse pescocinho mimoso e prepare-o para a degola.

O barco aproximava-se do dique de Kema.

No local erguiam-se mourões de atracação e um casebre. Ao perceber que chegavam ao atracadouro da aldeia, os sete homens espalharam-se pela doca, fechando a saída.

Mas o barco permanecia parado à distância, no meio do rio, dando voltas no mesmo lugar. Tanto o capitão quanto os passageiros, assustados com a grave situação, insistiam que seria mais seguro não atracar. Ao perceber a manobra, os sete discípulos da academia Yoshioka tornaram a gritar:

— Vocês aí: por que não atracam?

— Quero ver se se agüentam dois ou três dias sem aportar. Ainda vão se arrepender!

— Se não atracarem, passaremos todos no fio da espada!

— Podemos pegar um bote e chegar até aí, não se esqueçam! Parados na margem, os homens lançavam as ameaças quando afinal o

pequeno barco virou a proa em direção a eles e, simultaneamente, uma voz penetrante cortou a água gelada do rio:

— Calem a boca! Atendendo ao seu desejo, farei o favor de me aproximar. Preparem-se e aguardem!

Era o jovem que, assim dizendo, empunhara a longa vara usada para conduzir o barco em águas rasas e, ignorando por completo as aflitas admoestações do capitão e dos demais passageiros, vinha impelindo a embarcação vigorosamente rumo à margem.

 

Aí vem ele!

— O atrevido!

Com as mãos nas empunhaduras das espadas, os sete formavam um semicírculo, cercando a área que a proa apontava, e onde provavelmente acostaria o barco.

A quina da proa era uma lâmina cortando a correnteza. Conforme se aproximava, o vulto do jovem agigantava-se aos olhos dos sete homens que, em terra, continham a respiração e o aguardavam. E no momento em que a proa avançou pela área pantanosa coberta de juncos secos, vindo de encontro ao peito dos homens — ou assim lhes pareceu, pois inconscientemente seus calcanhares moveram-se para trás — a forma arredondada de um pequeno animal lançou-se do barco, vencendo os quase dez metros de pântano e juncos secos que o separavam da margem, e agarrou-se no pescoço de um dos homens.

— Ahhh!... — gritou o homem. Ao mesmo tempo, sete raios prateados partiram das bainhas das espadas e cortaram o ar.

— É o macaco!

Mas a percepção chegou-lhes apenas depois que as espadas haviam desferido golpes inúteis no ar. Cientes agora de que haviam confundido o salto do pequeno animal com o do próprio inimigo, reconheciam o erro e admoestavam-se mutuamente:

— Não se afobem!

A essa demonstração de pânico e confusão, os demais passageiros — que, temendo ser envolvidos, se haviam agrupado a um canto do barco — sentiram diminuir a tensão, mas ninguém se atreveu a rir. Apesar de tudo, alguém ainda gritou: “Ei!” Pois o jovem que até esse momento vinha impulsionando o barco com a longa vara, de repente a enfiara no meio dos juncos e, com um ligeiro impulso, saltara com destreza maior que a do macaco, lançando sem nenhum esforço aparente o próprio corpo a uma curta distância dos homens.

— Ora!

Os sete homens voltaram-se simultaneamente para o local onde o jovem aterrissara, um pouco distante daquele previsto por eles. Os músculos repuxados de seus rostos provavam que a situação lhes era inesperada, muito embora tivessem tido a oportunidade de se preparar. Agora, porém, não lhes sobrava tempo para compor uma estratégia de aproximação. Dispararam portanto pela margem, um atrás do outro, em direção ao jovem. Como resultado, a formação circular de combate se desfez e se transformou em fila indiana, dando ao jovem que os aguardava a uma curta distância condições de fechar a guarda por completo.

O homem que liderava a coluna já alcançara uma posição em que retornar seria impossível. Instantaneamente, seus olhos se congestionaram e seus ouvidos nada mais ouviram. As táticas de combate treinadas até a exaustão no cotidiano sequer afloraram à sua mente. Com os dentes arreganhados, o homem avançou contra o jovem como se pretendesse mordê-lo, apontando-lhe a espada.

No mesmo instante, o jovem samurai projetou o peito para a frente e deu a impressão de que se punha na ponta dos pés. O corpo, naturalmente avantajado, pareceu crescer ainda mais e a mão direita subiu até a altura do ombro: o jovem acabava de empunhar o cabo da espada que levava às costas.

— São discípulos da academia Yoshioka? Bem a calhar! Do outro, apenas aparei o topete e o perdoei mas, pelo visto, isso não os satisfez. Aliás, nem a mim.

— Bra... Bravateiro!

— Já que penso mandar polir este “varal”, não vou poupá-los: preparem-se!

Apesar de alertado, o homem da frente parecia hipnotizado e, em rígida pose, não conseguiu se afastar. A longa espada “varal” partiu-o em dois com a mesma facilidade com que partiria uma pêra.

 

As costas do que ia à frente pressionaram os ombros do que lhe vinha logo atrás. Ao ver o cabeça da fila ser eliminado com facilidade por um rápido golpe da longa espada inimiga, os seis companheiros restantes desequilibraram-se mentalmente e perderam a unidade de ação.

Nessas condições, um grupo transforma-se em alvo mais fácil que um único homem. O jovem samurai, entusiasmado pelo êxito do primeiro golpe, usou o “varal” — espada longa que lhe possibilitava alcançar uma extraordinária distância — e golpeou de lado o homem seguinte.

O golpe não teve êxito completo, mas o homem fora atingido duramente: com um estranho uivo, pulou para dentro de uma moita de juncos.

— O próximo!

Quando o jovem os fitou com seu olhar penetrante, os discípulos que restavam perceberam, apesar de todo o despreparo, a gravidade do erro cometido e mudaram a formação rodeando o inimigo como cinco pétalas em torno de um miolo, ao mesmo tempo em que se instigavam:

— Não recuem!

— Não recuem, ouviram?

Encorajado pela momentânea perspectiva de vitória que a nova formação proporcionava, um dos homens avançou gritando:

— Fedelho insolente!

Não era coragem, era o ato inconsciente de um indivíduo que havia perdido a noção do medo. Este era o tipo de ocasião em que palavras eram desnecessárias, mas o homem tornou a gritar:

— Vou lhe ensinar agora!

No mesmo instante, saltou em direção ao adversário. O golpe, desferido de cima para baixo, deveria ter penetrado fundo na defesa inimiga, achava o homem. Sua espada, porém, cortou inutilmente o ar a quase 60 centímetros de distância do peito do jovem samurai.

A ponta da espada manejada com excessiva confiança bateu num pedregulho, como seria de se esperar. O discípulo dos Yoshioka viu-se, ato contínuo, na posição de alguém que voluntariamente mergulha de cabeça no escuro poço da morte: com a planta de um pé e a extremidade da bainha da espada apontando para o alto, expôs-se inteiro ao golpe adversário.

Mas em vez de abater o inimigo que tinha a seus pés, o jovem samurai se esquivou e, acrescentando um rápido impulso ao movimento, saltou sobre o homem ao lado.

Outro urro ecoou de súbito, indicando que mais um fora mortalmente ferido. Ao ver isso, os três restantes, incapazes de voltar à formação circular de combate, iniciaram uma precipitada fuga em fila indiana.

A fuga atiça no homem o instinto predatório. Agarrando com ambas as mãos a longa espada, o jovem gritou, enquanto lhes corria atrás:

— E isso o que ensinam na academia Yoshioka? Isso é sujeira! Quero suas cabeças de volta!

Gritando e correndo, continuou a persegui-los:

— Parem! Parem aí! Vocês me detiveram, fizeram-me perder o navio e depois fogem, largando-me aqui? Isso não é digno de um samurai! Estou avisando: se continuarem a fugir, vou espalhar esta história por todo o país e transformar o estilo Kyohachi da casa Yoshioka em motivo de escárnio.

Transformar um samurai em alvo de zombaria é, para ele, a maior ofensa, mais humilhante ainda que cuspir-lhe no rosto. Mas aos ouvidos dos homens em fuga, até isso perdera importância.

Mais ou menos à mesma hora soava sobre o dique de Kema o tilintar gelado dos sinos de um arreio. A geada e o reflexo do luar nas águas do rio Yodo clareavam a paisagem, tornando desnecessário o uso de lanternas. Tanto o vulto a cavalo quanto o vassalo que corria a pé junto às ancas da montaria expeliam um hálito branco e, esquecidos do frio, apressavam-se em seguir caminho.

— Ah!

— Desculpe!

Os três perseguidos, quase se chocando contra as narinas do cavalo, rodopiaram algumas vezes para se desviar e voltaram-se para olhar.

 

Repentinamente contido pela rédea, o cavalo empinou e relinchou alto. O vulto sobre o cavalo espiou os três rostos confusos à sua frente e exclamou:

— Ora, se não são os meus discípulos!

Por alguns instantes, olhou-os com estranheza, mas logo se irritou e os repreendeu:

— Idiotas! Por onde andaram o dia todo?!

— Ah, jovem mestre!!

No mesmo instante, Ueda Ryohei surgiu de trás do cavalo e se adiantou, dizendo:

— Que tipo de comportamento é esse? Vieram acompanhando o jovem mestre e nem estavam ao seu lado no momento de sua partida? No mínimo andaram se envolvendo em outra briga de bêbados! Para tudo existe um limite, ouviram?

Ter a luta classificada como outra briga de bêbados era insuportável. Os três homens ultrajados contaram que, muito pelo contrário, lutavam para preservar a autoridade do estilo e o bom nome de seu mestre, e que isso trouxera tais e tais conseqüências. Apavorados e com as línguas secas, expuseram a situação com incrível rapidez, concluindo:

— Aí vem... Aí vem ele!

E trepidantes de pavor, voltaram os olhares na direção dos passos que se aproximavam.

Ao ver a atitude covarde de seus discípulos, Ueda Ryohei se agastou:

— Que gritaria é essa, bravateiros inúteis? Do modo como agem, em vez de limpar o nome do estilo, tornam a sujá-lo com uma nova camada de lama. Deixem comigo, eu o enfrentarei.

Assim dizendo, Ryohei, protegendo atrás de si os três discípulos e Seijuro, adiantou-se cerca de dez passos.

— Vai ver agora, novato! — disse Ryohei, aguardando os passos que se aproximavam.

Sem saber o que o aguardava, o jovem samurai vinha em disparada, agitando a longa espada:

— Eeei, parem aí! Não me digam que a fuga é o princípio secreto do estilo Yoshioka! Não sou particularmente a favor de matanças, mas este meu “varal” não se contenta com pouco, e quer mais sangue, muito mais! Dêem-me aqui suas cabeças! Devolvam! Se querem fugir, fujam, mas deixem aqui suas cabeças!

Gritando a plenos pulmões, o jovem corria pelo dique de Kema, seu vulto voando em linha reta em direção aos homens.

Ueda Ryohei cuspiu nas mãos e empunhou a espada com maior firmeza. O jovem samurai, correndo como um vendaval, talvez não tivesse percebido o vulto à sua frente, pois prosseguiu com passadas tão largas que, naquele ritmo, passaria pisando a cabeça de Ryohei.

Com um poderoso kiai, Ryohei, que aguardava contraindo os fortes músculos braçais, distendeu-os de súbito. A espada descreveu um movimento de varredura, a princípio paralelo ao chão e depois ascendente. Na extensão das mãos entrelaçadas que seguravam o cabo, a ponta da espada prosseguiu seu trajeto ascendente e o golpe pareceu visar as estrelas. O jovem parou com um pé no ar, girou uma vez rigidamente sobre o próprio eixo e voltou-se outra vez, quando o ouviram murmurar:

— Ora, ora, um novo adversário!

Num átimo, desfechou um contragolpe, movendo o “varal” lateralmente em direção a Ryohei que, desequilibrado e com o corpo tombado para diante, prosseguia em linha reta, cambaleando.

O golpe fora de indescritível violência. Ryohei jamais conhecera um indivíduo com esse nível de destreza. Logrou esquivar-se, mas acabou rolando do dique para dentro das plantações à sua margem. Por sorte, o dique era baixo e a plantação, um arrozal congelado. Estrategicamente falando, porém, ficava claro que ele perdera sua oportunidade e, quando conseguiu enfim voltar para cima do dique, o vulto do jovem agitava-se furiosamente. Sua longa e cintilante espada, o “varal”, já rechaçara os três discípulos que restavam e, avançando, aproximava-se agora do homem a cavalo, Yoshioka Seijuro.

 

Seijuro estivera tranqüilo, certo de que a contenda se resolveria muito antes de chegar até ele. Mas o perigo se aproximou com rapidez.

O jovem tinha um estilo extremamente violento. A ponta da longa espada avançou em direção a Seijuro, visando o ventre do seu cavalo.

— Ganryu, espere! — gritou Seijuro nesse instante, de modo inesperado. Ao mesmo tempo, retirou com incrível rapidez um dos pés do estribo, transferiu-o para o alto da sela e, acrescentando ao movimento um impulso semelhante a um chute, levantou-se sobre a sela. Enquanto o cavalo saltava sobre a cabeça do jovem e disparava como uma flecha, Seijuro, num ágil movimento contrário, aterrissava quase cinco metros atrás.

— Formidável!

O elogio não partira de nenhum dos discípulos de Seijuro, mas do seu adversário, o jovem samurai. Reempunhando a espada, aproximou-se de um salto e disse:

— Essa foi uma linda demonstração de agilidade, tenho de reconhecer. Eis aqui uma bela oportunidade, pois presumo estar na presença de Yoshioka Seijuro. — Em guarda!

A ponta da espada voltada na direção de Seijuro era a imagem da agressividade. O sucessor de Yoshioka Kenpo merecia o título: seu corpo demonstrara preparo suficiente para enfrentar o ataque.

— Sua sagacidade merece aplausos, Sasaki Kojiro, da província de

Iwakuni. Tem razão, sou Yoshioka Seijuro, mas não me agrada cruzar armas com você sem motivo. Esta disputa pode ser resolvida a qualquer tempo. Abaixe a guarda, portanto, e vamos tirar a limpo esta confusão, em primeiro lugar.

O jovem talvez não o tivesse ouvido de início, quando Seijuro o chamara “Ganryu”, mas desta vez a denominação Sasaki da província de Iwakuni não poderia passar despercebida. Absolutamente surpreso, exclamou:

— Quê? Como sabe que sou Ganryu Sasaki Kojiro? Seijuro bateu de leve na própria coxa:

— Quer então dizer que é realmente Sasaki Kojiro? — Assim dizendo, adiantou-se. — Esta é a primeira vez que o vejo em pessoa, mas ouço sempre falar a seu respeito.

— Quem estaria falando de mim? — quis saber Kojiro, com ar ligeiramente atordoado.

— Seu colega veterano, mestre Ito Yagoro.

— Ora, que surpresa! Então conhece mestre Ittosai?

— Até a altura do outono deste ano o senhor Ittosai morava nas proximidades do morro Kaguraga, em Shirakawa. Eu mesmo o visitei ali algumas vezes, e o próprio mestre me honrou procurando-me em casa, à rua Shijo.

— Ora, ora! — disse Kojiro, sorrindo. — Isto quer dizer que é como seja nos conhecêssemos!

— Mestre Ittosai referia-se com freqüência a você. Dizia ele que em Iwakuni havia um jovem de nome Ganryu Sasaki que, como ele, seguira os ensinamentos de Toda Gorozaemon sob a orientação do mestre Kanemaki Jisai. Disse também que era o mais jovem dos seus discípulos. Num futuro próximo, contudo, só você poderia disputar com ele a posição de melhor espadachim do país.

— Mas como deduziu instantaneamente que eu era Sasaki Kojiro, com base apenas nessas informações?

— Mestre Ittosai havia-me falado da sua juventude e descrito sua pessoa. Sei também em detalhes o motivo por que é conhecido como Ganryu. Ao notar que manejava com desembaraço essa espada longa, logo me veio à mente o nome e assim o chamei. Adivinhei apenas.

— Mas é extraordinário! Que encontro inesperado! — exclamou Kojiro, satisfeito. Seu olhar caiu em seguida sobre a espada sangrenta que tinha nas mãos e, no momento seguinte, perguntou-se de que jeito acertariam essa conta.

 

Ao conversar, aparentemente se entenderam. Passados instantes, o grupo prosseguiu pelo dique de Kema rumo à cidade de Kyoto, tendo à frente Sasaki Kojiro e Yoshioka Seijuro lado a lado, como velhos amigos, seguidos de perto por Ueda Ryohei e três friorentos discípulos.

— Aliás, deixe-me esclarecer um ponto: quem começou esta briga não fui eu. Pelo contrário, fui insistentemente provocado — explicava Kojiro.

Seijuro tornou a ouvir da boca de Kojiro detalhes da conduta de Gion Toji no barco que interligava a ilha de Awa a Osaka. A isso juntou o que agora se lembrava de seu comportamento posterior e concluiu:

— Que vergonha! Assim que retornar, vou chamá-lo à minha presença e submetê-lo a interrogatório. Longe de mim guardar-lhe rancor. Pelo contrário, peço-lhe que me desculpe o fato de não conseguir controlar devidamente meus discípulos.

Ao ouvir as escusas, Kojiro viu-se obrigado a aparentar modéstia:

— Não se desculpe. Como vê, eu também sou um bocado genioso e gosto de falar com certa arrogância; além disso, nunca recuso uma boa briga e estou sempre disposto a enfrentar qualquer um. De modo que a culpa não é só de seus discípulos: ao contrário, os homens que hoje agiram em defesa do bom nome do estilo Yoshioka e de seu mestre, embora deixem muito a desejar no aspecto técnico, estavam bem intencionados, os coitados.

— A culpa é minha — disse Seijuro, caminhando com uma expressão sombria no rosto.

Ao ouvir de Kojiro que, se não se opunha, gostaria de deixar para trás o incidente e esquecer tudo, Seijuro concordou:

— Isto vai além de minhas expectativas. E aproveitando o feliz acaso que o pôs em meu caminho, gostaria de convidá-lo a dar-nos algumas aulas na academia.

Vendo a cordialidade reinar entre os dois homens, os discípulos os acompanharam aliviados. E quem haveria de adivinhar que o belo jovem de ar adolescente, à primeira vista um simples garoto mimado grande demais para a idade, era Ganryu Sasaki Kojiro, “o jovem prodígio da província de Iwakuni” tão exaltado por mestre Ito Yagoro Ittosai? Era-lhes perfeitamente compreensível que Gion Toji não o tivesse levado a sério e se metido em maus lençóis.

Esclarecidos os fatos, admirados e assustados estavam Ueda Ryohei e os demais discípulos, salvos por um triz da mortífera ação do “varal”, a espada de estimação do jovem Kojiro.

— Então, este é Ganryu! — pensavam, fitando de soslaio as largas costas do indivíduo que lhes ia à frente. Agora que sabiam, percebiam algo invulgar em sua aparência e se recriminavam pela falta de discernimento.

Logo se aproximaram outra vez do atracadouro de Kema. Ali jaziam as vítimas do “varal”, já rijas. Ueda Ryohei determinou aos três discípulos restantes que cuidassem dos companheiros mortos e foi buscar o cavalo que havia pouco disparara, trazendo-o de volta pela rédea. Quanto a Sasaki Kojiro, assobiou diversas vezes chamando o macaco de estimação.

O macaquinho reapareceu em resposta aos assobios e saltou-lhe ao ombro. Seijuro ofereceu o cavalo a Kojiro, ao mesmo tempo em que o convidava com insistência a se hospedar na academia da rua Shijo. Sasaki Kojiro balançou negativamente a cabeça e respondeu:

— Não concordo. Eu ainda sou um novato desconhecido, enquanto o senhor é, para se falar pouco, o sucessor de Yoshioka Kenpo, de uma casa famosa desde o período Heian, o líder de algumas centenas de discípulos.

Tomou a seguir das rédeas e acrescentou:

— Monte e não se preocupe comigo. No entanto, gostaria de me apoiar na rédea enquanto ando, pois isso me facilitará o caminhar. Aceito de bom grado o convite e passarei algum tempo hospedado em sua academia. Viajaremos deste modo até Kyoto e conversaremos pelo caminho.

Kojiro era por vezes insolente, mas também sabia ser educado. Seijuro, cujo destino era bater-se com Musashi no começo do ano seguinte, não podia deixar de sentir certa animação por ter encontrado Sasaki Kojiro, um exímio espadachim, e pela perspectiva de tê-lo em sua academia.

— Muito bem! Nesse caso, cavalgarei no primeiro trecho. Quando você se cansar, revezaremos.

Assim dizendo, Seijuro montou.

 

RIOS E MONTANHAS ETERNOS

Durante o período Eiroku (1558-1570), quando Tsukahara Bokuden e Kamiizumi Ise eram considerados os melhores espadachins do leste japonês, a eles se opunham dois outros nomes no oeste: a casa Yoshioka, da cidade de Kyoto, e a casa Yagyu, da região de Yamato.

Mais digna de menção, porém, era uma casa da mesma época: a do suserano Kitabatake Tomonori, senhor supremo de Ise em Kuwana. Diz a lenda que Tomonori foi um marco no mundo da esgrima e bom governador, razão pela qual muito depois de sua morte seu nome ainda era lembrado com carinho pelos habitantes da cidade casteleira, saudosos da boa administração e da prosperidade experimentada pela província de Kuwana daqueles tempos.

E por ser tão virtuoso Kitabatake Tomonori mereceu a confiança de Bokuden, o exímio espadachim do leste, que lhe ensinou os segredos do seu lchi-no-tachi — ou ‘Espada Primordial’ —, o genuíno estilo Bokuden florescendo conseqüentemente em Ise e não no leste japonês, como seria de se esperar.

Bokuden tinha um filho, Tshukahara Hikoshiro, que herdou integralmente os bens familiares depois da morte do pai, exceto os preciosos segredos da Espada Primordial. Inconformado, Hikoshiro saiu da terra natal Hitachi logo após o falecimento do pai, rumou para Ise, avistou-se com Tomonori e lhe declarou:

— Meu pai, Bokuden, ensinou-me há algum tempo os princípios secretos da Espada Primordial. Antes de morrer, porém, disse-me ele que os havia também confiado ao senhor, o que me despeitou a vontade de saber se os segredos a nós transmitidos seriam idênticos. Que tal compararmos as diferenças e as semelhanças dos princípios que nos foram legados dentro da mais estrita confidencia e assim aprimorarmos o estilo Bokuden?

Tomonori percebeu de imediato que Hikoshiro ali estava com o intuito de apoderar-se dos segredos da Espada Primordial. Mesmo assim, respondeu-lhe:

— Muito bem, eu os mostrarei a você.

E de pronto exibiu todas as poses secretas do estilo. Graças a isso, Hikoshiro foi capaz de reproduzir as diversas posições da Espada Primordial. Como porém não tinha a necessária qualificação, conseguiu apenas imitá-las e, por conta disso, o verdadeiro estilo Bokuden de esgrima difundiu-se muito mais na área de Ise, terra até hoje considerada berço de muitos guerreiros habilidosos.

Esse tipo de história gabando as qualidades da província de Kuwana chega obrigatoriamente aos ouvidos de qualquer visitante ao pisar essas terras pela primeira vez. Comparadas, contudo, à conversa inútil mesclada de bravatas que certos guias impingem a turistas, tais histórias são mais toleráveis, tendo ainda o mérito de ser instrutivas. Eis porque, movendo a cabeça vez ou outra em concordância, o viajante — que havia partido da cidade casteleira de Kuwana e agora se aproximava a cavalo pela estrada que leva ao morro Tarusaka — ouvia sem interromper o condutor do cavalo exaltar a própria terra, murmurando apenas:

— Interessante. Muito interessante.

O clima da região de Ise é quase sempre ameno, mas dezembro já ia a meio: proveniente da enseada de Nako, um vento gelado, cortante, atingia o desfiladeiro. Apesar disso, o homem escanchado sobre o cavalo de carga alugado por alguns trocados usava roupas de baixo de cânhamo e, sobre elas, um simples quimono forrado. É verdade que vestia ainda sobre o quimono uma meia casaca sem mangas, mas o conjunto encardido era sumário, pouco agasalhador.

O rosto escuro, queimado de sol, transformava o sombreiro em inutilidade. Mesmo assim ele o tinha sobre a cabeça, mas tão velho e surrado que não atrairia a atenção de ninguém caso o deixasse cair no meio do caminho. Os cabelos, que havia muito não viam água, estavam enfeixados de forma displicente e lembravam um ninho de ratos.

“Será que tem com que me pagar?”, preocupara-se o condutor no momento em que aceitara levá-lo. Outro problema havia afligido o dono do cavalo: seu passageiro dirigia-se para um local distante, no meio de uma área montanhosa, sendo remota a probabilidade de conseguir um cliente para o caminho de volta.

— Patrão?

— Hum?

— Vamos parar em Yokkaichi para um almoço antecipado, passar por Kameyama ao entardecer e, se depois disso prosseguirmos sem descanso até a vila Ujii, lá chegaremos bem depois do anoitecer.

— Hum...

— Continuamos assim mesmo?

— Hu-hum.

O lacônico passageiro com tudo concordava e, do lombo do cavalo, apenas contemplava com interesse a enseada de Nako.

O cavaleiro era Musashi.

Ninguém sabia por onde andara perambulando desde o fim da primavera anterior até os primeiros dias deste inverno. A pele curtida por ventos e chuvas tinha textura e cor de papel pardo. No rosto, destacavam-se apenas os olhos, cada dia mais claros e penetrantes.

 

O condutor tornou a perguntar:

— Patrão, a vila Unrin’in, nas terras de Ano, fica quase oito quilômetros além da base do monte Suzuka. Que vai fazer nessas lonjuras?

— Procuro alguém.

— Mas lá só tem lenhador e lavrador morando, que eu saiba.

— Mora também um exímio manejador de kusarigama, a corrente com foice. Foi o que me disseram em Nara.

— Ah, fala de Shishido-sama?

— Isso, Shishido...

— Baiken.

— Ele mesmo.

— Esse homem é forjador de foices e, dizem, maneja bem o kusarigama. Vejo que o senhor, patrão, é um estudante de artes marciais.

— Hu-hum.

— Nesse caso, é melhor ir a Matsuzaka. Lá tem um homem cuja habilidade é notória em Ise.

— Quem?

— Um certo Mikogami Tenzen.

— Ah..., Mikogami!

Musashi assentiu e nada mais perguntou, dando a entender que já o conhecia. Oscilando sobre o lombo do cavalo, contemplou em silêncio os telhados das hospedarias de Yokkaichi que despontavam a seus pés, no fundo da ladeira. Mal entrou na cidade, desmontou e acomodou-se a um canto da barraca de um vendedor de lanches para almoçar.

Enquanto andava na direção da barraca, tornou-se evidente que Musashi tinha um dos pés envolto num pedaço de pano e mancava levemente. Um ferimento na sola do pé havia inflamado, sendo esse o aparente motivo pelo qual viajava a cavalo.

Nos últimos tempos, Musashi viera dispensando contínuos cuidados ao próprio corpo, mas a despeito disso acabara pisando um prego cravado numa tábua de engradado enquanto andava no meio da multidão do porto de Narumi. O ferimento havia infeccionado no dia anterior e o peito do pé inchara e avermelhara, como um caqui maduro.

“Será que eu poderia ter-me esquivado deste inimigo?”, perguntava-se Musashi, pensando na situação em termos de combate. Na qualidade de guerreiro, era-lhe humilhante ser derrotado por um simples prego.

“O prego jazia com a ponta para cima, bem visível, e eu o pisei. Isso prova que os olhos me traíram e o espírito não se distribuía igualmente por todas as partes do meu corpo. Além de tudo, pisei no prego até o fim, permitindo que ele penetrasse fundo na planta do pé. Isso prova que meu corpo não estava livre para reagir de pronto. Se naquela hora nada me tolhesse, o prego teria sido detectado no instante em que sua ponta tocou a sola da sandália e eu teria retirado o pé a tempo.”

Refletiu sobre o próprio despreparo e concluiu: “Desse jeito, nunca chegarei a ser alguém.”

Espada e corpo não formavam ainda uma unidade. Irritava-o perceber em si essa espécie de deformação: sua habilidade no manejo da espada progredia, mas corpo e espírito ficavam para trás.

Um fato no entanto o consolava: não havia desperdiçado tempo nos quase seis meses transcorridos desde o momento em que deixara para trás o feudo de Yagyu, na primavera anterior, até o presente dia. Disso Musashi se orgulhava.

De Koyagyu alcançara Iga, e de lá descera à estrada de Oumi[31]. Passara em seguida por Mino[32], Owari[33] e finalmente chegara a Ise. E em todas as cidades casteleiras, montanhas e pântanos por que havia passado, procurara obcecado o verdadeiro sentido da esgrima.

Aos poucos, Musashi chegara à pergunta crucial:

“No que consiste a essência da esgrima?”

Mas a esperada resposta “Esta é a verdade!” não fora encontrada nas cidades, nos pântanos ou nas montanhas. Nos últimos seis meses, tivera a oportunidade de se avistar com algumas dezenas de guerreiros, entre eles alguns espadachins hábeis e famosos, embora o fossem apenas por suas técnicas.

 

Difícil era encontrar um homem. O mundo abundava de seres humanos, mas custoso era achar entre eles um homem verdadeiro.

Musashi deu-se conta dessa dolorosa verdade durante suas andanças pelo país. E a cada nova e lamentável constatação, ressurgia-lhe no peito a imagem de Takuan, o homem tão genuinamente humano.

“Sou um privilegiado, pois o destino me concedeu a maravilhosa oportunidade de cruzar com ele bem cedo na vida. Não posso deixar passar em branco este privilégio.”

Ao pensar em Takuan, Musashi era capaz de sentir ainda hoje uma dor aguda partindo dos punhos e invadindo o corpo inteiro. Era uma sensação estranha, uma lembrança fisiológica daquele dia distante, quando fora atado a um galho no alto do cedro centenário.

“Espere e verá, Takuan! Dia virá em que eu o suspenderei num galho do cedro centenário e lhe pregarei a verdade”, prometia sempre Musashi, não porque sentisse raiva ou quisesse vingança. Longe disso. Apenas considerava maravilhosa a missão que estabelecera para si, qual seja, a de um dia alcançar um modo de vida superior, que superasse o do zen, almejado pelo monge.

E se um dia Musashi obtivesse um incrível progresso e simbolicamente amarrasse Takuan no alto do cedro para lhe dar sábios conselhos destinados a iluminar-lhe a vida, que responderia o monge lá de cima?

Ali estava algo que Musashi gostaria muito de saber.

Era provável que Takuan lhe dissesse:

— Que situação gratificante! Estou feliz!

Não! Sendo o que era, o monge jamais externaria sua alegria com tanta franqueza. Riria de modo seco e diria talvez:

— Nada mal para um novato!

Mas esses detalhes pouco importavam, achava Musashi. O importante era superar algum dia o monge de forma inequívoca e assim patentear sua gratidão.

Louca fantasia! Pois Musashi havia começado a compreender cada vez mais a extensão e a dificuldade do caminho que se abria à sua frente, principalmente agora que nele dava os primeiros passos.

“Nunca chegarei aos pés de Takuan”, desesperava-se, o sonho de superá-lo desabando ruidosamente.

E por mais penoso e frustrante que isso lhe parecesse, a noção da própria inexperência e despreparo acentuava-se ainda mais quando se comparava a Sekishusai, o grande mestre do feudo de Yagyu, com quem afinal acabara não conseguindo avistar-se. Sentia-se então insignificante, incompetente até para tocar em assuntos como artes marciais ou caminhos. De súbito, o mundo, que até então lhe havia parecido repleto de gente sem valor, tornava-se imenso e temível.

“Não posso perder tempo teorizando. A esgrima não é lógica, nem a vida uma teoria: elas têm de ser praticadas, vividas!”

Embrenhava-se então com ímpeto em montanhas e florestas. Ao emergir desses lugares tempos depois e surgir em um vilarejo qualquer, seu aspecto dava uma idéia do tipo de vida que havia levado.

No rosto magro, as faces vinham encovadas, e pelo corpo espalhavam-se inúmeros cortes e hematomas. A longa permanência sob cachoeiras, em exercícios ascéticos, havia-lhe ressecado e desgrenhado os cabelos. Apenas os dentes destacavam-se incrivelmente brancos no corpo escurecido pelo contato com a terra sobre a qual havia dormido. E assim, altivo e confiante, descia ele das montanhas para as vilas dos homens em busca de oponentes de seu nível.

Era em busca de um tal oponente — cujo nome obtivera em Kuwana — que Musashi andava nesse exato momento. Sobravam-lhe ainda quase dez dias para o começo da primavera, quando teria de estar em Kyoto. A caminho para essa cidade, pretendia descobrir se Baiken, o especialista em kusarigama, era um dos raros homens deste mundo dignos desse nome ou se não passava de mais um inútil, como tantos outros.

 

A noite já ia a meio quando Musashi alcançou a localidade pretendida. Pa’gou o condutor, agradeceu-lhe o serviço e completou:

— Podes ir, estás dispensado.

Pretendia afastar-se quando o condutor o deteve: não tinha como retornar de tão longe àquela hora, dizia ele. Preferia passar a noite sob o alpendre da casa que Musashi procurava, e retornar pela manhã, quando talvez conseguisse um passageiro na descida do desfiladeiro de Suzuka. Além disso, acrescentou, não tinha vontade de andar nem um quilômetro a mais nesses ermos, com o frio que fazia.

O homem tinha razão. Afinal, a região em que se encontravam situava-se aos pés das montanhas Iga, Suzuka e Ano e para onde quer que se voltassem avistavam-se apenas montanhas, cujos topos a neve branqueava.

— Estás disposto a procurar a casa comigo?

— A de Baiken-sama?

— Exato.

— Procurarei, como não!

O referido Baiken era, conforme lhe haviam dito, lavrador e ferreiro nesse lugarejo. De dia, achariam a casa facilmente, mas àquela hora da noite não se via nenhuma luz no povoado adormecido.

Um único som — o de um malho[34] socando pano — ecoava a intervalos regulares no gelado céu noturno. Buscando a procedência do som, os dois homens avistaram enfim um ponto de luz.

Por feliz coincidência, a casa de onde provinha o som era a do agricultor e ferreiro Baiken: provava-o a pilha de ferro velho sob o alpendre, assim como o beiral preto de fuligem.

— Bate à porta e confirma para mim — pediu Musashi ao condutor.

— Sim, senhor — respondeu o homem, empurrando a porta e entrando na casa. A porta se abria para um amplo aposento de terra batida. O fogo ardia rubro ao redor da forja, mas não havia ninguém trabalhando nela no momento. E ali estava uma mulher, de costas para o fogo, entretida em malhar um pedaço de pano.

— Boas-noites! Com sua licença, faz o favor! Ah... que belo fogo! Isto é irresistível!

Ao ver que um desconhecido lhe entrava porta adentro e se agarrava à beira da forja, a mulher parou de malhar e indagou:

— De onde és tu, homem?

— Já vou explicar, senhora. Sou condutor de cavalos, e venho de Kuwana. A verdade é que acabo de chegar trazendo uma pessoa que vem de muito longe, dona, só para ver seu marido.

— Ora essa — resmungou a mulher, erguendo a cabeça e fixando em Musashi um olhar pouco amigável. O cenho franzido e a óbvia contrariedade indicavam que ali deviam surgir com freqüência samurais peregrinos e que ela já estava acostumada a lidar com esses tipos incômodos. Devia ter cerca de 30 anos, era de certa forma bonita e disse a Musashi em tom autoritário, como se falasse a uma criança:

— Feche a porta! Não vê que o meu bebê é capaz de se resfriar com o vento frio?

Com uma ligeira mesura, Musashi fechou a porta às costas:

— Sim, senhora.

Sentou-se em seguida num cepo próximo à forja e abrangeu com o olhar a pequena oficina enegrecida pela fuligem, assim como a área habitável da casa, de quase cinco metros quadrados, forrada de esteiras. E lá estavam, realmente, dependurados em ganchos a um canto da parede, cerca de dez exemplares de kusarigama, arma que ele ainda desconhecia.

“São elas!”, pensou Musashi. Seu olhar cintilou, pois o que o trouxera de tão longe até ali fora a certeza de que conhecer tão inusitadas arma e técnica concorreria para o seu adestramento.

Largando o malho de madeira, a mulher levantou-se abruptamente, subiu para a área forrada de esteiras, mas não foi preparar-lhes o chá, como esperavam os dois homens. Em vez disso, mergulhou nos cobertores ali estendidos, no meio dos quais dormia um bebê. Repousou em seguida a cabeça sobre o próprio braço e deu o seio à criança:

— Você aí, samurai. Quer dizer que veio de longe em busca do meu homem só para cuspir sangue? Mas está com sorte, porque meu marido viajou... Acaba de poupar a própria vida!

 

Musashi irritou-se. Será que viera até esses ermos só para ser zombado pela mulher do ferreiro?

É verdade que mulheres em geral tendem a exagerar a importância social de seus maridos. Mas esta, em especial, era um caso sério: acreditava firmemente não existir no mundo homem mais ilustre que o seu.

Discutir com ela estava fora de cogitação. Musashi apenas indagou:

— Viajou? É uma pena. Aonde foi ele?

— Foi ver Arakida-sama.

— Arakida-sama?

— Veio a Ise e nem sabe quem é Arakida-sama? — caçoou a mulher de novo.

A criança ao seio pôs-se a choramingar. De súbito, a mulher pareceu esquecer-se por completo de que havia estranhos no aposento e pôs-se a cantar uma canção de ninar com forte sotaque regional:

Dorme, nenê,

Dorme de uma vez.

Tu que és lindo quando dormes,

Feio ficas ao chorar.

Dorme, dorme,

Não me faças chorar também.

Musashi teve de conformar-se com a situação, já que viera até ali por livre e espontânea vontade. O único consolo era o gostoso calor proveniente do fogo na forja.

— Senhora: essas, na parede, são as correntes usadas por seu marido? — perguntou a certa altura, disposto ao menos a vê-las de perto para futura referência. Pediu permissão para examinar uma delas. A mulher resmungou algo ininteligível entre sonolentos refrões da canção de ninar e concordou vagamente.

— Com sua licença — disse Musashi, estendendo o braço e retirando uma das armas da parede. Tomou-a nas mãos e examinou-a com cuidado.

“Ah, isto é o kusarigama, tão popular nos últimos tempos!”, admirou-se o jovem.

Era um simples bastão medindo pouco mais de 40 centímetros e que podia ser levado à cintura. Numa das pontas havia uma argola e, presa a ela, uma longa corrente. Na extremidade da corrente havia uma bola de ferro que, rodada, servia para atingir um crânio inimigo e arrebentá-lo.

“E daqui sai uma foice!”

Havia uma fenda ao longo do bastão, e embutida nela uma foice, cujo dorso azulado e brilhante era visível. Musashi extraiu-a com a unha. A lâmina armou-se lateralmente, e tinha o comprimento apropriado para decepar cabeças.

“Hum! Isto deve ser usado assim...”

Empunhando a foice com a mão esquerda e segurando com a direita a corrente com a bola de ferro, Musashi posicionou-se contra um inimigo imaginário.

Foi então que, erguendo de súbito a cabeça, a mulher voltou-se e disse:

— Ora, mas que pose horrorosa! — Guardou o seio e desceu ao aposento de terra batida. — Desse jeito, a espada do seu adversário o cortará em dois num piscar de olhos! É assim que se maneja um kusarigama

Arrebatando a arma das mãos de Musashi, a vulgar mulher do camponês ferreiro empunhou-a e imobilizou-se por um breve segundo na posição correta.

Musashi arregalou os olhos e deixou escapar uma exclamação abafada.

Deitada no meio das cobertas, seio à mostra, a mulher mais lembrava uma vaca leiteira, mas ao empunhar o kusarigama e se posicionar para a luta, ela se transformava: seu aspecto agora era magnífico, solene, belo até.

Na lâmina da foice, de um preto azulado que lembrava o dorso de uma cavalinha, via-se nitidamente gravado: Estilo Shishido Yaegaki.

 

No instante em que o olhar de Musashi, atônito, cravou-se no vulto, a mulher do ferreiro desfez a pose, suprimindo do corpo todos os vestígios da forma.

— É isso, mais ou menos — disse ela, enrolando ruidosamente a corrente no bastão e devolvendo o conjunto ao prego na parede.

Musashi lastimou não ter tido tempo para memorizar a pose. “Queria poder observá-la outra vez!”, pensou. A mulher, no entanto, não parecia disposta a uma nova demonstração: recolheu pano e malho, preparou a lenha para a refeição da manhã seguinte e foi arrumar a cozinha, batendo em pratos e panelas.

“Se até a mulher tem tanto preparo, a habilidade do próprio Baiken deve ser extraordinária!”

Ato contínuo, Musashi sentiu-se tomado de uma doentia necessidade de conhecê-lo. Mas a crer no que lhe dizia a mulher, o marido fora visitar um certo Arakida, em Ise.

“Veio a Ise e nem sabe quem é Arakida-sama?”, rira a mulher havia pouco. Pondo de lado o orgulho, Musashi perguntou ao condutor quem era Arakida-sama.

— É o guardião do grande templo xintoísta Daijingu, de Ise — respondeu» o já sonolento condutor, recostado à parede próxima à forja, confortavelmente aquecido.

“Ah, é o supremo sacerdote do Daijingu! Ótimo! Se Baiken está na casa dele, será fácil encontrá-lo”, imaginou de pronto Musashi.

Nessa noite, dormiram sobre esteiras. Mas o sono foi curto pois, bem cedo, um rapaz, o ajudante do ferreiro, acordou e abriu as portas da oficina.

— Já que estás aqui, não queres aproveitar e me levar a Yamada em teu cavalo, condutor? — perguntou Musashi, levantando-se.

— A Yamada? — admirou-se o condutor. Uma vez que recebera na noite anterior os trocados combinados, o homem concordou. E assim, depois de passar por Matsuzaka, lá ia ele outra vez conduzindo Musashi, despontando ao entardecer do mesmo dia pela longa estrada arborizada freqüentada por romeiros, a se estender por quilômetros até o grande templo Daijingu.

As barracas de chá à beira da estrada estavam desertas: o movimento era fraco, mesmo considerando-se que estavam em pleno inverno, estação desfavorável ao turismo. Numerosas árvores haviam sido derrubadas por tempestades e jaziam abandonadas à beira da estrada, e raros eram os viajantes ou o som de relinchos de cavalos.

Da hospedaria em Yamada, onde se recolheu, Musashi mandou um mensageiro à casa do guardião Arakida para saber se ali se hospedava Baiken. Logo, o mensageiro retornou com um bilhete escrito pelo mordomo do guardião dizendo que devia haver algum engano, pois não havia ninguém com esse nome hospedado na casa.

Musashi sentiu-se frustrado, e o pé ferido passou de súbito a incomodar. O inchaço, comparado ao de dois dias atrás, tinha aumentado.

Na hospedaria, recomendaram-lhe lavar o ferimento com a água morna restante da produção de tofu, o queijo de soja. Musashi passou o dia seguinte inteiro repetindo o tratamento.

“E já estamos em meados de dezembro”, pensou Musashi, cada vez mais irritado com o cheiro de tofu na água da tina. A carta de desafio à Casa Yoshioka já tinha sido remetida por mensageiro expresso quando passara por Nagoya. Por nada no mundo poderia, àquela altura, solicitar adiamento do duelo, alegando que tinha ferido o pé.

Tinha de estar sobre a ponte da rua Gojo no primeiro dia do ano de qualquer maneira, pois deixara a cargo do desafiado estabelecer a data do duelo. Além disso, havia também assumido outros compromissos.

“Devia ter seguido direto para Kyoto, sem fazer este desvio por Ise”, arrependia-se Musashi, contemplando o próprio pé de molho na água morna. Aos seus olhos, o pé parecia inchar e crescer como um tofu.

 

Prestimosas, as pessoas da estalagem aconselhavam diversos tratamentos:

— Este remédio caseiro é usado há gerações em minha família.

— Tente tratar com este linimento — diziam-lhe.

Os dias se passavam e o pé inchava cada vez mais, pesando como uma tora. Ao cobri-lo à noite com as cobertas, a febre, e a dor tornavam-se insuportáveis.

Até onde a memória alcançava, Musashi não se lembrava de ter estado de cama sequer por três dias seguidos. Em sua infância, tivera um furúnculo no topo da cabeça numa área que usualmente é raspada por ocasião da maioridade. A ferida lhe deixara uma marca escura no local, razão por que, contrariando usos e costumes, decidira nunca raspar os cabelos. Afora esse episódio, jamais sofrerá de um mal mais sério.

“Doenças são afinal um dos mais temíveis inimigos do homem. Que armas existem para combatê-las?”

Seus inimigos não eram obrigatoriamente externos, pensava Musashi. Meditou sobre o assunto durante os quatro dias em que permaneceu deitado.

“Quantos dias me restam ainda?” Voltou o olhar para o calendário, contou os dias até o final do ano e concluiu: “Não posso continuar nesta inatividade.” O coração passava então a bater rápido contra as costelas, o tórax se expandia e abaulava, rijo como uma armadura, obrigando-o a chutar as cobertas com o pé ferido e a sentar-se de repelão.

“Como vencer a academia Yoshioka se não posso nem dominar este mal?”

Tentou subjugar a infecção sentando-se formalmente sobre as pernas dobradas. Doía! Tanto, que quase desfaleceu.

Musashi cerrou os olhos, o rosto voltado para a janela. As faces rubras aos poucos retomaram a cor normal. Dominado pela vontade férrea, o mal pareceu ceder e a mente clarear.

Abriu os olhos e avistou pela janela, diretamente à frente, as árvores do bosque sagrado ao redor dos templos Geku e Naiku[35]. Sobre elas, a montanha Maeyama e, um pouco mais a leste, a montanha Asamayama. Entre as duas e interligando uma encosta à outra, sobressaía altaneiro um pico que lembrava uma espada, seu topo dominando os das demais montanhas da cadeia.

— O Pico da Águia!

Musashi encarou a formação com olhar feroz. Deitado, ele a havia visto todos os dias da janela do quarto. Não sabia bem por quê, mas o pico lhe espicaçava a combatividade, a vontade de dominar. A arrogância da montanha o irritava, mormente agora que o pé, inchado como uma barrica, tanto o atormentava.

O altivo cume, que se elevava acima das nuvens e das demais montanhas, trazia à mente de Musashi, inevitavelmente, a imagem de Yagyu

Sekishusai. O velho devia ter esse aspecto, imaginava. Aos poucos, a montanha passou a encarnar o próprio Sekishusai, rindo e escarnecendo das fraquezas de Musashi a partir de sua privilegiada posição.

Enquanto desafiava a montanha com o olhar, Musashi havia se esquecido da dor, mas de súbito deu-se conta de que o pé ardia como se o tivesse metido na forja do ferreiro. Com um gemido involuntário, afastou-o para o lado. Franziu o cenho e fitou o tornozelo inchado, grosso, que não lhe parecia pertencer.

— Alguém pode me atender? — gritou de repente, como se quisesse expulsar a dor lancinante.

Como nenhuma das serviçais apareceu de pronto, esmurrou duas ou três vezes o tatami e esbravejou:

— Não tem ninguém nesta casa? Quero partir agora, neste exato momento. Encerrem a conta! Preparem-me um lanche e mais uns três pares de sandálias resistentes!
A FONTE SAGRADA

De acordo com a obra Hogen Monogatari[36], o vilarejo de Furuichi, por onde Musashi passava nesse instante, havia sido o berço de Tairano-Tadakiyo, um bravo guerreiro da Antigüidade. Em pleno período Keicho, no entanto, mulheres das casas de chá espalhadas pela alameda arborizada davam o tom da época ao vilarejo.

As referidas casas de chá eram precárias barracas feitas de estacas de bambu amarradas umas às outras, cercadas por esteiras de palha trançada e vedadas por desbotadas cortinas de enrolar. Quanto às mulheres, usavam pesada maquiagem branca e espalhavam-se pelas ruas, tão numerosas quanto as árvores das alamedas, abordando os transeuntes noite e dia sem cessar:

— Entre um instante.

— Venha tomar um chá.

— Olá, moço!

— Senhores!

Para alcançar o templo Naiku, o viajante é obrigado a caminhar no meio dessas barulhentas mulheres, expondo-se aos seus olhares, cuidando para que elas não lhe batam a carteira. Musashi, que havia deixado para trás a hospedaria de Yamada, passou também entre elas com jeito decidido, cenho e boca franzidos em feia carranca, mancando e arrastando o pé dolorido.

— Alô, samurai peregrino.

— Que houve com seu pé?

— Venha cá que eu cuido dele.

— Faço uma massagem, quer?

As mulheres obstruíam sua passagem, agarravam-no pela manga do quimono, pelo sombreiro, pelo pulso.

— Desmanche essa carranca! Não fica bem num moço tão bonito.

Musashi enrubescia e perdia a fala, totalmente constrangido. Despreparado para enfrentar esse tipo de inimigo, desculpava-se sem cessar provocando o riso das mulheres: suas desculpas eram ingênuas e ele era adorável, tímido e selvagem como um filhote de leopardo, diziam as desavergonhadas. As atrevidas mãos brancas não o largavam. Cada vez mais desconcertado, Musashi pôs de lado o orgulho e fugiu, abandonando o sombreiro.

Tinha a impressão de que o riso das mulheres ecoava sobre a sua cabeça e continuava a acompanhá-lo ao longo da estrada arborizada. Não sabia o que fazer para acalmar as batidas do coração, aceleradas pelo contato das mãos brancas.

Musashi, como qualquer homem normal, não conseguia manter-se impassível perante o sexo oposto, e havia passado por inúmeras situações aflitivas durante suas andanças pelo país. Noites houvera em que mal havia conseguido dormir, obrigado a exercer um violento esforço para conter o sangue tumultuado. Diferente de enfrentar um adversário posicionado além de sua espada, Musashi sentia-se impotente nessas situações: o corpo queimava de desejo, e ele se debatia, insone, valendo-se até de imagens da pura Otsu para satisfazer suas fantasias lascivas.

Por sorte, uma dor inominável o atormentava nessa noite, desviando-lhe a atenção das mulheres. A corrida forçada havia provocado um intenso ardor, semelhante ao de pisar sobre ferro em brasa. A cada passo, a dor lancinante partia da sola do pé, percorria o corpo e lhe varava pelos olhos.

Ele sabia que tinha de enfrentar essa agonia desde o momento em que deixara a hospedaria, e estava preparado. Cada vez que erguia o pé ferido, volumoso como uma barrica, tinha de concentrar toda a força do corpo, mas isso lhe serviu para afugentar da lembrança os lábios vermelhos, as mãos pegajosas como mel e os cabelos perfumados, e para devolvê-lo mais depressa à normalidade.

“Maldição! Maldição!”

Cada passo o levava por um campo de argila fervente. O suor porejava em sua testa. Os ossos do corpo inteiro pareciam desarticular-se.

Contudo, no momento em que cruzou as águas do rio Isuzu e pôs um pé nas terras sagradas do templo Naiku, percebeu uma súbita mudança. A simples visão da relva fê-lo sentir a presença divina. Não sabia a que devia essa impressão, mas até o ruflar das asas de um pássaro tinha uma qualidade extraterrena.

Ao atingir a área do Kazano-miya, o Templo do Vento, Musashi finalmente rendeu-se à dor: com um gemido, desabou sobre a raiz de um grosso cedro e, abraçando a perna inchada, imobilizou-se.

 

Musashi permaneceu longo tempo imóvel. Parecia morto, petrificado. Por dentro, sentia ondas de fogo partindo do pé infeccionado e percorrendo o corpo; por fora, o gelado vento noturno mordia-lhe a pele.

Musashi perdeu a consciência. Para que fora ele chutar as cobertas e abandonar de súbito o quarto da hospedaria? Ele devia saber que agonias o esperavam...

Se partiu porque o irritava esperar indefinidamente o pé sarar — irritação aliás típica dos que se vêem presos à cama — a atitude era absurda, uma violência praticada contra si. Geraria apenas sofrimento, e o quadro tenderia a piorar depois.

Seja como for, ele devia estar muito tenso pois, passados instantes, ergueu a cabeça de repelão e cravou no céu um olhar agudo, feroz.

No amplo espaço negro acima dele, copas de gigantescos cedros do jardim sagrado rugiam incessantemente ao vento. Mas o som que nesse instante feriu seus ouvidos e lhe chamou a atenção foi o de pífaros, flautas e flajolés acompanhando uma melodia antiga.

Apurou os ouvidos e conseguiu discernir delicadas vozes infantis em coro.

Batam palmas, batam palmas,

O meu pai mandou dizer

Para todos: batam palmas!

Se a manga do quimono se rasgou,

Não a quero aproveitada

Nem em obi, nem em faixa.

Palmas, palmas, palmas.

— Maldição! — explodiu Musashi novamente, mordendo os lábios, erguendo-se a custo. Mas o corpo, mole, não lhe obedecia. Agarrou-se com ambas as mãos ao muro do Templo do Vento e arrastou-se lateralmente, como um caranguejo.

A melodia celestial provinha da porta treliçada logo em frente. Uma réstia de luz coava por ela. A casa, conhecida como “Mansão das Crianças”, abrigava graciosas virgens que serviam ao templo Daijingu. Acompanhadas de pífaros e flajolés, as pequenas ensaiavam uma canção, encenando um quadro que com toda a probabilidade vinha se repetindo desde o antigo período Tenpyou (729-749).

O portão a que Musashi chegou rastejando como um inseto era o dos fundos da mansão. Espiou por ele mas não viu ninguém, o que pareceu agradá-lo. Retirou as duas espadas da cintura e a pequena trouxa das costas, amarrou-as num único volume e confiou-as à guarda do templo, dependurando-as num dos muitos ganchos existentes na parede e que sustinham capotes de palha contra chuva e neve.

Mal se viu livre do peso, Musashi levou as mãos aos quadris e afastou-se coxeando.

Algum tempo já se tinha passado quando um homem nu surgiu às margens rochosas do Isuzu a quase um quilômetro dali, quebrou a crosta de gelo superficial e, espadanando ruidosamente, começou a banhar-se nas águas do rio.

Nenhum sacerdote testemunhou a cena, o que foi uma sorte para o homem. Se tivesse sido surpreendido, ele teria ouvido sem dúvida uma ríspida reprimenda:

— Estás louco?

A cena do homem nu banhando-se nas águas geladas do rio pareceria realmente coisa de louco aos olhos de qualquer um. De acordo com um antigo romance, o Taiheiki[37], certa vez, num distante passado, havia vivido nas imediações de Ise um arqueiro de nome Nikki Yoshi-naga. O homem — um tolo baderneiro, segundo o livro — invadiu as sagradas terras do templo e profanou-as: pescou os peixes do rio Isuzu, falcoou os pássaros do monte Kamiji, assou-os e comeu-os. E enquanto assim agia, exaltando a força guerreira bruta, aos poucos foi sendo tomado de loucura. Pois o espírito desse guerreiro louco parecia ter-se apossado do banhista noturno.

Passados instantes, o homem saiu da água e como um pássaro aquático subiu numa rocha, enxugou-se e se vestiu. O homem era Musashi.

Os cabelos das têmporas estavam congelados e eriçavam-se, fio a fio, como agulhas.

 

De que jeito venceria seus adversários daqui para a frente se não conseguia sequer superar este sofrimento físico? — admoestava-se Musashi duramente. Dentro de alguns dias, aliás, teria de se bater contra um poderoso adversário: Yoshioka Seijuro e seus discípulos.

A situação entre ele e os Yoshioka havia-se tornado complexa, mortal. Desta vez, seus adversários fariam questão de jogar contra ele toda a competência e o prestígio da academia. Com toda a certeza eles já haviam montado uma estratégia mortífera, e esperavam impacientes pelo dia do confronto.

Musashi considerava simples jogo de palavras destituído de sentido certas expressões como “lutar com unhas e dentes” e “estar pronto para morrer” que alguns samurais bravateiros usavam com a mesma facilidade com que invocavam seus santos. Musashi achava que qualquer guerreiro, ao se ver numa situação igual à sua, tinha de “lutar com unhas e dentes”: isso não passava de uma reação instintiva, comum a todos os animais. Quanto a “estar pronto para morrer”, subentendia-se um preparo espiritual mais elevado, é verdade, mas ainda assim nada extraordinário numa situação em que a morte fosse inevitável.

Seu problema era vencer, e não estar ou não “pronto para morrer”. Queria de algum modo conseguir a firme crença de que ia vencer.

A distância física que o separava de seus inimigos não era grande: cerca de 160 quilômetros. Se andasse rápido, alcançaria Kyoto em menos de três dias. Mas o preparo espiritual, este não podia ser alcançado num prazo preestabelecido de dias.

A carta de desafio para os Yoshioka já tinha sido remetida de Nagoya, mas Musashi vinha-se perguntando nos últimos dias:

“Estou pronto para a luta? Tenho certeza de vencer?”

Reconheceu então, com pesar, que havia em seu espírito uma ponta de insegurança, decorrente da admissão do próprio despreparo. Musashi sabia perfeitamente que lhe faltava amadurecer, que não pertencia ainda ao círculo dos peritos ou à categoria dos grandes mestres.

Üe nada adiantava tentar valorizar-se, pois logo lhe vinham à mente Nikkan, do templo Ozoin, ou as imagens de Yagyu Sekishusai e do excepcional monge Takuan, a mostrar-lhe o próprio despreparo e fraqueza, a obrigá-lo a rever por completo o conceito que fazia de si próprio.

E imaturo e despreparado como se sentia, tinha de adentrar um terreno dominado por hábeis e letais guerreiros. E vencer. Pois por mais bravamente que lutasse, lutar apenas não fazia dele um bom guerreiro. Para poder enquadrar-se na definição original de guerreiro, tinha de vencer! Vencer, vencer sempre até o fim da vida que lhe fora reservada e deixar vigorosas marcas de sua passagem pelo mundo. Só assim diriam que vivera em toda a plenitude a vida de um guerreiro.

Musashi estremeceu.

— Eu vou vencer! — gritou, começando a caminhar pelo bosque sagrado, rumo à nascente do rio Isuzu.

Como um primitivo habitante das cavernas, Musashi avançou rastejando pela áspera superfície de rochas sobrepostas. Na milenar floresta da ravina, que machado algum jamais tocara, uma cascata emudecera: suas águas tinham-se imobilizado em plena queda, transformadas em colunas e pingentes de gelo.

 

Aonde ia Musashi à custa de tanto esforço, e com que objetivo?

Talvez tivesse realmente enlouquecido — castigo divino por ter-se banhado nas águas sagradas do rio Isuzu, profanando-as. Seu rosto contorcia-se de forma diabólica enquanto murmurava:

— Eu consigo! Eu consigo!

Só mesmo uma vontade férrea era capaz de levar um indivíduo a galgar rochedos agarrado a ramos de glicínias e vencer passo a passo gigantescas rochas e pedras. Musashi tinha de ter um objetivo específico em mente para justificar tanto esforço, porque aqueles com certeza não eram atos de um homem normal.

Além do passo Ichinose, nem mesmo um ayu — vigoroso peixe capaz de enfrentar fortes correntezas na piracema — é capaz de subir o rio Isuzu. O trecho rochoso de quase um quilômetro é escarpado, com violentas corredeiras. Depois do passo, havia apenas um íngreme paredão de rocha, por onde só macacos e tengu, os duendes das florestas, ousariam passar.

— Ali está o Pico da Águia! — murmurou Musashi. Obstáculos intransponíveis pareciam não existir em seu atual estado de espírito.

Ao que tudo indicava, o jovem havia largado na Mansão das Crianças as duas espadas porque já pensava em escalar esse paredão. E ali estava ele, galgando-o centímetro a centímetro, agarrando-se a delgados ramos de glicínias. Sua força parecia sobrenatural. Algo semelhante a uma força gravitacional exercida a partir do espaço parecia sugá-lo da face da terra.

E pouco depois, em pé sobre o paredão finalmente conquistado, Musashi soltou um grito triunfante.

Daquele ponto, já conseguia avistar à distância, muito abaixo, as águas leitosas do rio Isuzu, assim como toda a orla marítima de Futamigaura.

Musashi voltou o olhar penetrante em direção ao Pico da Águia, em cuja base havia urna floresta rala, envolta em fina névoa noturna. Agora ele tinha conseguido aproximar-se muito mais do irritante pico, avistado todos os dias do quarto da hospedaria entre gemidos de dor.

— Este pico é Sekishusai! — exclamou convicto.

E era essa convicção que o havia arrastado até ali. O olhar fulgurante revelava enfim a razão da sua abrupta partida da hospedaria, do banho no rio sagrado e desta escalada. Tudo levava a crer que Musashi sentia o grande mestre Yagyu Sekishusai como uma incômoda presença a pairar continuamente sobre ele, uma sombra a lhe empanar o espírito, combativo como poucos.

Eis por que a altiva montanha lhe havia lembrado Sekishusai, e por que o irritara tanto sentir-se contemplado por ela.

— Detesto essa montanha! — havia pensado Musashi sem cessar.

Ao mesmo tempo, imaginara que alívio não sentiria se pudesse galgar de mãos nuas a montanha, pisar o cume com os pés sujos, e gritar: “E agora, que me diz, Sekishusai!” Além disso, precisava superar este desafio e restabelecer a confiança em si se esperava entrar em Kyoto e vencer o clã Yoshioka.

Relva, árvores ou gelo — tudo o que seus pés pisavam representava, sem exceção, inimigos vencidos. Cada passo levava-o para mais perto da definição final — a vitória ou a derrota. O sangue, que gelara durante o banho no rio sagrado, fervia agora, e o suor evaporava por todos os poros.

Musashi agarrou-se à áspera superfície do Pico da Águia: estava agora numa área à qual nem ascetas conseguiam chegar. Tateava em busca de pontos de apoio e a cada vez que seus pés se firmavam na superfície rochosa, pedregulhos dela se desprendiam e caíam, ressoando no bosque abaixo.

De metro em metro Musashi distanciava-se da terra, e seu tamanho aos poucos diminuía. Nuvens brancas surgiam, envolviam-no, e quando se dissipavam, o vulto havia ascendido um pouco mais, cada vez mais perto do céu.

O pico, um gigante, apenas observava, indiferente, seus movimentos.

 

Como um caranguejo colado à rocha, Musashi se agarrava à superfície da montanha: oito décimos da encosta já tinham sido vencidos.

Um movimento em falso, e ele despencaria vertiginosamente com os pedregulhos, em queda livre até o fundo do precipício.

Musashi respirava por todos os poros. O esforço até ali fora excruciante e o coração parecia prestes a saltar pela boca. Galgava alguns poucos centímetros e logo parava para descansar. Voltava-se então, quase sem querer, para observar o trecho vencido.

O bosque do milenar jardim sagrado, a fita prateada do rio Isuzu, os cumes dos montes Kamiji, Asama e Maeyama, assim como Toba, a aldeia de pescadores, e o mar ao longo da costa de Ise — tudo se estendia agora a seus pés.

— Nove décimos vencidos!

Morno e acre, Musashi sentiu o cheiro do próprio suor chegar-lhe às narinas vindo das dobras do quimono. De súbito, teve a inebriante sensação de haver mergulhado o rosto entre os seios maternos, ao mesmo tempo em que a áspera superfície da rocha lhe pareceu uma extensão da própria pele. Uma irresistível vontade de dormir o invadiu.

Um rascar metálico — e a rocha, no ponto em que apoiava o polegar de um dos pés, esfarelou-se e ruiu. A vida, latente em meio à letargia, manifestou-se de súbito com um pulsar mais forte: automaticamente o pé procurou um novo ponto de apoio. O esforço final era extenuante, inexprimível em palavras. Assemelhava-se ao do esgrimista tentando dar o decisivo golpe final contra um adversário do mesmo nível.

— É agora! Estou quase lá!

Musashi tornou a se mover, dilacerando a superfície rochosa com mãos e pés. Se não tinha força física e espiritual para vencer este obstáculo, cedo ou tarde seria derrotado por outro guerreiro, isso era uma certeza.

— Maldita montanha!

O suor molhava a rocha, quase levando-o a escorregar em diversas ocasiões. Seu corpo fumegava e o fazia assemelhar-se a um floco de nuvem. Repetia sem cessar, como numa fórmula mágica:

— Maldito Sekishusai! Maldito Nikkan, maldito Takuan!

Passo a passo, continuou a galgar, sempre imaginando pisar a cabeça de gente que vinha considerando superior a ele nos últimos tempos. A montanha e ele já constituíam um único ser. A montanha por perto se espantava por se ver tão firmemente agarrada. E então, repentinamente, o pico uivou, jogando areia grossa e pedregulhos contra o rosto de Musashi.

Uma enorme mão pareceu tapar-lhe a boca, asfixiando-o. Apesar de agarrado à rocha, sentiu que o vento ameaçava arrastá-lo com incrível força. Musashi cerrou os olhos e permaneceu de bruços, imóvel por algum tempo.

Não obstante, uma canção triunfal se elevava do seu coração. Pois no instante em que se jogara de bruços, Musashi havia vislumbrado o infinito, o mundo das Dez Regiões. Além do mais, ele também tinha visto que a noite lentamente se retraía e a aurora se anunciava em suaves cores no imenso oceano de nuvens que o rodeava.

— Venci!!

Como uma corda excessivamente retesada, a férrea vontade de Musashi tinha-se partido no momento em que havia pisado o cume da montanha e que desabara. Incessante, o vento soprava pedregulhos sobre suas costas.

Caído de bruços, o espírito vagando no limiar da consciência, sentiu o corpo inteiro perder peso invadido por uma indescritível sensação de prazer. Molhado de suor e preso à superfície do cume, Musashi experimentou um estranho êxtase — como se ele próprio e a montanha executassem um sublime ritual de procriação em meio ao despertar da natureza — e dormiu por muito tempo.

De súbito, ergueu a cabeça sobressaltado. A mente era um cristal, límpido, transparente. Sentiu vontade de mover o corpo, saltitar como um peixe no meio da correnteza.

— Não existe mais nada sobre mim! Estou em cima do Pico da Águia! O sol matinal, deslumbrante, coloria o pico e o próprio Musashi. Ele

ergueu para o alto os dois braços, musculosos como os de um homem primitivo, e contemplou os próprios pés, assegurando-se de que pisavam efetivamente o cume da montanha.

E foi então que se deu conta: um líquido esverdeado — pus em quantidade suficiente para encher um copo — havia escorrido do pé sobre a rocha, liberando no límpido ambiente um estranho odor humano e a leve fragrância de um espírito afinal liberto de toda a angústia.

 

A MIRAGEM

As pequenas xamãs que viviam na Mansão das Crianças eram naturalmente todas virgens. As mais novas teriam seus 13 ou 14 anos, mas havia também algumas mais velhas, de quase 20 anos.

As roupas formais — quimono de seda branca forrado, e hakama vermelho — eram usadas durante as cerimônias musicais, ou kagura. Para as atividades normais do dia a dia, como estudar ou arrumar a casa, as xamãs usavam folgados hakama de algodão vermelho sobre quimonos de manga curta. Terminadas as tarefas matinais, as meninas costumavam carregar seus respectivos livros e dirigir-se à sala de estudos do sacerdote xintoísta Arakida para as aulas de língua pátria e poesia.

— Oh, que será isso? — espantou-se uma menina no meio do grupo que passava pelo portão dos fundos rumo à sala de aula. De um gancho na parede destinado a capas de palha pendiam as duas espadas e a pequena trouxa que Musashi ali havia deixado na noite anterior.

— De quem é isto?

— Como vou saber?

— É de algum osamurai-sama, com certeza.

— Até aí eu também sei. Mas quem seria esse samurai?

— Eu acho que foi um ladrão! Ele deve ter roubado essas coisas e as esqueceu aí!

— Credo! Melhor nem mexer.

Agrupadas em torno do volume, entreolhavam-se arregalando os olhos, assustadas como se tivessem surpreendido o próprio ladrão, enrolado em peles e tirando a sesta em pleno dia.

Não demorou muito, e uma das meninas propôs:

— Vamos avisar Otsu-sama!

Correu para dentro da casa e gritou pela grade da varanda:

— Mestra, venha ver uma coisa! Rápido!

Otsu largou o pincel sobre a escrivaninha, abriu a janela do aposento na ala dos hóspedes e espiou:

— Que foi?

— Um ladrão largou duas espadas e uma trouxa ali — apontou a pequena xamã.

— Entreguem tudo a Arakida-sama.

— Mas a gente está com medo de mexer naquelas coisas.

— Nossa, que confusão vocês estão fazendo! Se estão com medo, deixem as coisas aí mesmo que eu as apanho mais tarde e as levo a Arakida-sama. E vocês, não percam tempo com bobagens e sigam de uma vez para a sala de aula.

Instantes depois, quando Otsu saiu de seu quarto, não viu mais ninguém nas proximidades: as obedientes meninas já tinham desaparecido. Na mansão subitamente silenciosa haviam ficado apenas uma mulher idosa, encarregada das tarefas domésticas, e uma pequena xamã doente, descansando num dos aposentos.

— Não tem idéia de quem seja o dono destas coisas, vovozinha? — perguntou Otsu antes de retirar do gancho as armas e a trouxa.

O fardo pesava como chumbo e Otsu, desprevenida, quase o deixou cair. “Como conseguiam os homens andar com naturalidade levando objetos tão pesados à cintura?”, perguntou-se Otsu.

— Vou até os aposentos de Arakida-sama — avisou Otsu à velha serva, e saiu carregando o pesado embrulho com ambas as mãos.

Dois meses já se haviam passado desde que Otsu e Joutaro tinham sido acolhidos no templo Daijingu, de Ise. Depois dos últimos acontecimentos, os dois haviam percorrido as estradas de Iga, Oumi e Mino procurando desesperadamente por Musashi. Com a chegada do inverno, Otsu percebeu que não suportaria os rigores de uma jornada por estradas serranas cobertas de neve e decidiu parar na região de Toba. Para prover o próprio sustento, a jovem dava aulas de flauta nessa localidade quando notícias sobre sua pessoa chegaram aos ouvidos do sacerdote xintoísta Arakida, que a convidou então a ensinar sua arte às pequenas virgens da Mansão das Crianças.

Otsu aceitou sem restrições o convite, atraída pela oportunidade de conhecer as antigas melodias tradicionalmente executadas no templo Daijingu, assim como pela idéia de conviver por algum tempo com as pequenas virgens na floresta sagrada.

Nessa altura, Joutaro transformou-se numa inconveniência: por ser menino, ele não podia hospedar-se na mansão das pequenas xamãs. Como não havia outra solução, encarregaram-no então de ajudar na manutenção do jardim sagrado durante o dia, instruindo-o a se recolher à noite ao depósito de lenha do sacerdote Arakida para dormir.

 

Na fria manhã de inverno, as árvores nuas do bosque sagrado gemiam ao vento e o som era quase sobrenatural.

Um fio de fumo — a própria fumaça lembrando algo místico, da idade dos deuses — subia no meio do bosque ralo. Na origem da fumaça devia estar Joutaro, empunhando uma vassoura junto a um monte de folhas secas. Otsu parou por instantes e pensou:

“Ele está trabalhando ali.”

Sorriu ao pensar em Joutaro.

O diabrete!... O pequeno traquinas!...

Até que o garoto vinha-se comportando bem nos últimos tempos, obedecendo às suas ordens e trabalhando em vez de brincar, pensou Otsu.

Em algum lugar ecoavam estampidos secos — como se alguém estivesse quebrando galhos. Apesar do pesado volume nos braços, Otsu enveredou por uma trilha no bosque, chamando:

— Jouta-saaan!

A resposta, viva como sempre, soou ao longe:

— Eeeei!

Logo, passos aproximaram-se correndo, e em seguida o próprio Joutaro lhe surgiu à frente:

— Olá, Otsu-san!

— Que é isso? Você não devia estar trabalhando na manutenção do jardim? Como pode andar por aí com essa espada na mão se é um servidor do templo, de uniforme branco e tudo?

— Eu só estava treinando um pouco! Praticava sozinho contra as árvores.

— Pode treinar quanto quiser, mas em outro lugar! Onde você pensa que está? Este é o nosso jardim espiritual, é a expressão da pureza e da harmonia espiritual da nossa gente. Estas terras são sagradas, pertencem à deusa-mãe da nação japonesa. Você leu os avisos espalhados por aí, não leu? Eles dizem: “Não quebre as árvores do jardim sagrado.” “É expressamente proibido matar pássaros e animais”. E justo você, o encarregado da manutenção deste jardim, não devia andar por aí quebrando galhos com uma espada!

— Sei disso! — replicou Joutaro. O olhar petulante acrescentava: pensa que sou bobo?

— Sabe e continua fazendo? Se Arakida-sama o vê, é sermão na certa.

— Mas eu estou quebrando galhos de árvores mortas! Ou será que nem essas posso quebrar?

— Não pode.

— Que conversa boba é essa? Deixe-me então perguntar-lhe uma coisa, Otsu-san!

— Diga.

— Se este jardim é tão precioso, como você diz, por que é que o povo não cuida melhor dele, hein?

— É uma vergonha, concordo. E como deixar que ervas daninhas tomem conta de nosso espírito.

— Antes fossem só ervas daninhas! Olhe só essas árvores secas, atingidas por raios! Além delas, outras dezenas foram derrubadas por tempestades e apodrecem com as raízes expostas. Pelo jeito, tem beirais quebrados e goteiras em diversos santuários, resultantes das bicadas dos pássaros; e tem também lanternas de pedra fora do prumo nos jardins. E aí, pergunto eu: como é que isso pode acontecer num jardim tão precioso, hein, Otsu-san? Enquanto isto aqui permanece abandonado, o palácio de Osaka resplandece, todo dourado! E dizem por aí que Tokugawa Ieyasu está mandando reconstruir ultimamente mais de dez castelos em diversas províncias, a começar pelo de Fushimi. Enquanto as mansões dos daimyo e ricaços de Kyoto e Osaka chegam a brilhar de limpeza, este jardim continua em estado precário! Nos jardins desses ricaços — em “estilo Rikyu”, ou “estilo Enshu”, ou sei lá mais o quê — não se vê nenhum cisco, porque isso pode arruinar o “sabor do chá”, dizem eles. Você tem idéia de quantas pessoas trabalham na conservação desta enorme propriedade sagrada? Três a quatro homens, incluindo eu e um velhinho surdo!

 

Com um súbito encolher de ombros Otsu conteve o riso e disse:

— Mas você está repetindo textualmente o sermão que Arakida-sama fez há alguns dias, Jouta-san!

— Ah... Você esteve lá também?

— Claro que estive.

— Hum, bem acho que você me pegou!

— Você não entende nada do assunto e é feio repetir a opinião dos outros finjindo que são suas, Jouta-san. Mas voltando ao que comentávamos, acho que Arakida-sama tem toda a razão de se enfurecer com o que acontece por aqui.

— É isso! Depois de ouvir o sermão de Arakada-sama, comecei a achar que Nobunaga, Hideyoshi e Ieyasu não são grandes homens coisa nenhuma. Talvez até sejam, mas não é nada bonito dominar o país e depois posar de único herói todo poderoso.

— Nobunaga e Hideyoshi ainda passam: apesar de tudo, providenciaram a construção do palácio imperial de Kyoto e, de um modo geral, preocuparam-se com a felicidade do povo, embora eu desconfie que tenham feito tudo isso não por clarividência, mas porque queriam justificar-se aos olhos do povo. Muito pior foram as administrações dos xoguns Ashikaga, nos períodos Eikyou (1429-1441) e Bunmei (1469-1487).

— É mesmo? Como assim?

— Nesse período aconteceu a revolta de Ounin (1467-1477).

— Ah, sei.

— Por causa da incompetência dos xogum Ashikaga, o país se viu convulsionado por constantes lutas internas. Numa época em que poderosos lutavam contra poderosos, tentando impor-se pela força, o povo não conseguia gozar um dia sequer de paz e é claro que não havia quem se preocupasse seriamente com os rumos do país.

— Você está falando da briga que envolveu as casas Yamana e Hoso-kawa, não está?

— Isso mesmo. Guerras eclodiam porque todos pensavam apenas em defender seus próprios interesses. Esse foi um período negro, em que interesses mesquinhos alimentaram conflitos. E nesse período conturbado, um certo Arakida Ujitsune — ancestral do atual Arakida-sama — ocupava o cargo de sacerdote-mor do templo de Ise, como vinham fazendo sucessivas gerações de sua família. Cansado de ver, desde a época da revolta de Ounin, que antigos ritos assim como o serviço divino caíam no esquecimento porque todos estavam ocupados em defender os próprios interesses, o sacerdote Arakida Ujitsune solicitou às autoridades inúmeras vezes — 27 ao todo, para sermos exatos — verba para recuperar este jardim em ruínas. Mas a corte se esquivava, o xogunato não tinha recursos e os gananciosos guerreiros estavam empenhados apenas em disputas territoriais. Ninguém queria ajudar. Em meio a tudo isso, Ujitsune-sama, lutando contra os poderosos da época e a falta de recursos, convenceu diversas personalidades a aderirem à sua causa. E finalmente, no ano VI do período Meiou (1492-1501), conseguiu verba para reformar o templo[38]. Não é de pasmar que ele tenha tido de lutar tanto?

Mas, pensando bem, todos nós tendemos a esquecer a importância de certos valores: quem, depois de adulto, se lembra por exemplo que deve seu crescimento ao leite materno?

Joutaro deixou Otsu terminar o seu emocionado discurso e então saltou, bateu palmas e riu:

— Ah, peguei você! Peguei você! Estou aqui calado, fingindo que não sei de nada, só para ver você também se fazendo de entendida e repetindo tintim por tintim o sermão de Arakida-sama!

— Ora essa! Você também tinha ouvido este sermão, pestinha? — disse Otsu, movendo a mão como se fosse bater em Joutaro, mas vendo-se tolhida pelas pesadas armas que carregava. Aproximou-se então um passo do menino e o olhou com fingida zanga.

— Ué?! — exclamou Joutaro, chegando-se ainda mais. — De quem são essas espadas, Otsu-san?

— Não sei de quem são. Não mexa nelas!

— Deixe-me ao menos ver de perto: prometo que não as toco. Nossa, como são grandes! Parecem pesadas!

— Está vendo? Seus olhos já estão brilhando de cobiça!

 

Um ruído apressado de sandálias aproximou-se às costas dos dois: era uma das pequenas xamãs que, havia pouco, tinha saído da Mansão para estudar com o sacerdote Arakida.

— Mestra! O sacerdote a está chamando. Disse que quer lhe pedir um favor — anunciou. Ao ver que Otsu a tinha ouvido e se voltava, a pequena retornou às carreiras por onde viera.

Joutaro aprumou-se de repente e passeou o olhar inquieto pelas árvores próximas.

O sol de inverno coava por entre folhas agitadas pelo vento, produzindo trêmulas ondas luminosas no chão. Joutaro imobilizou-se no meio das manchas irrequietas. Seu olhar parecia perseguir uma miragem.

— Que foi? Que procura, Jouta-san?

— Nada... — respondeu Joutaro, triste, mordendo a ponta do dedo. — Há pouco, quando aquela menina disse “Mestra!”, me lembrei de repente... Foi um choque!

— Lembrou-se de Musashi-sama?

— Hum? Hu-hum! — grunhiu Joutaro vagamente.

No mesmo instante Otsu sentiu um bolo quente lhe chegando aos olhos e ao nariz, dando-lhe vontade de soluçar.

“Para que você foi me lembrar?”, queria gritar Otsu, ressentida com Joutaro por sua observação impensada.

Não conseguir passar um dia sequer sem pensar em Musashi já era uma carga pesada demais para Otsu. Mas então, por que não se desfazia desse peso incômodo e não procurava estabelecer-se num lugar tranqüilo, não procurava casar-se e constituir família?, logo diria o monge Takuan, o insensível. Otsu era capaz de sentir pena do pobre monge zen budista por ele jamais ter conhecido o amor, mas nunca, nem em sonhos, seria capaz de abrir mão daquilo que sentia nesse exato instante.

O amor era como uma cárie: doía de modo insuportável. Quando absorta em alguma tarefa, Otsu conseguia esquecê-lo e agir normalmente. Mas quando se lembrava, a dor a espicaçava, obrigando-a a vagar a esmo por províncias e estradas desconhecidas em busca de Musashi, sentindo uma vontade louca de enterrar o rosto em seu peito largo e chorar.

— Ai!...

Otsu começou a andar, silenciosa. Onde, onde, onde andaria ele? Das agonias experimentadas por um ser humano durante a vida, nenhuma é mais exasperante, depressiva e ao mesmo tempo tão sem remédio do que a de procurar alguém em vão.

Uma lágrima escorreu pelo rosto de Otsu enquanto andava, mãos cruzadas sobre o próprio peito. Entre as mãos e o peito aninhava-se uma trouxa que exalava um cheiro acre e um par de espadas, de empunhaduras cobertas por fios gastos, quase podres.

Mas Otsu não sabia, não podia imaginar que o suor e a sujeira impregnados nesses objetos provinham do corpo de Musashi. O coração inteiramente tomado pela imagem do jovem, Otsu quase nem se lembrava que os levava ao colo, exceto pela sensação de peso.

— Otsu-san! — disse Joutaro às suas costas, seguindo-a com expressão contrita. Deu um salto e agarrou-lhe a manga no instante em que a triste jovem ia desaparecendo no interior da mansão do sacerdote Arakida.

— Você se zangou, Otsu-san? Está sentida comigo?

— Não... Não se preocupe...

— Desculpe. Me desculpe, está bem?

— Não é culpa sua, Jouta-san. Eu é que sou chorona. Agora, tenho de entrar para saber o que Arakida-sama quer de mim. Quanto a você, volte para o jardim e trabalhe direitinho, ouviu?

 

O sacerdote Arakida Ujitomi tinha transformado sua mansão em escola e a denominava Casa do Saber. Com ele estudavam as pequenas xamãs e mais quase 60 crianças de vários níveis sociais provenientes dos três distritos que compunham as terras sagradas.

Ujitomi ministrava o estudo dos clássicos às suas pequenas alunas, matéria não muito popular nesses dias, tanto mais desprezada quanto mais elevado o nível cultural de um centro urbano.

De um ponto de vista puramente local, era bastante apropriado que Ise, com seus templos e bosques sagrados ricos de tradição, desse a conhecer os clássicos às meninas ali nascidas, pensava Ujitomi. De um ponto de vista mais amplo, que englobava o país, Ujitomi julgava estar plantando, com suas aulas, sementes culturais no espírito do povo, rezando para que num futuro próximo delas brotasse, verdejante como os bosques do templo, um novo jeito de pensar, diferente do predominante no momento, em que todos exaltavam a classe guerreira, tendendo a confundir sua grandeza com a do próprio país, esquecidos de que deixando degradar o campo contribuíam para o declínio desse mesmo país. Esse era um tocante empreendimento privado do sacerdote.

Assim, Ujitomi explicava diariamente às suas crianças, com infinitos amor e paciência, complexas obras como Kojiki — histórias e lendas do Japão Antigo — e as obras clássicas do confucionismo chinês, adaptando-as aos ouvidos infantis.

E talvez os incansáveis esforços educativos empreendidos por Ujitomi ao longo dos últimos dez anos tivessem frutificado, pois ao contrário do povo das demais províncias, todos em Ise — até mesmo uma criança de três anos — tinham senso crítico suficiente para não serem ofuscados pelos feitos do kanpaku Toyotomi Hideyoshi, nem pela exibição de força de Tokugawa Ieyasu, jamais confundindo o brilho dessas estrelas guerreiras com o verdadeiro esplendor do sol.

Nesse instante, Ujitomi saiu da ampla sala de estudos da Casa do Saber com o rosto ligeiramente suado.

Finda a aula, suas alunas dispersavam-se como um bando de abelhas de volta às colméias, mas uma delas parou ao seu lado e observou:

— Sacerdote, Otsu-sama o espera lá fora.

— É verdade! — exclamou Ujitomi. — Como fui me esquecer? Onde está ela?

Em pé do lado de fora da sala de aula, Otsu, ainda carregando as duas espadas, estivera havia algum tempo ouvindo a ardente exposição que Ujitomi fizera às crianças.

— Estou aqui, Arakida-sama. Desejava falar comigo?

 

— Desculpe-me se a fiz esperar. Venha cá, entre.

Ujitomi conduziu-a aos seus aposentos, mas antes ainda de se sentar, fitou admirado as espadas que Otsu carregava e indagou:

— Que é isso?

Otsu explicou-lhe que, de manhã, as duas espadas de procedência desconhecida pendiam de um suporte para capas de chuva no interior da Mansão das Crianças e que as pequenas xamãs haviam ficado horrorizadas, razão por que ela própria as havia trazido até ali.

— Ora essa! — exclamou Arakida Ujitomi, juntando as sobrancelhas brancas e contemplando os objetos com estranheza. — Não são de nenhum dos nossos devotos, são?

— Por que motivo um devoto iria até lá? De mais a mais, não havia nada no local até ontem à noite, donde se conclui que essa pessoa deve ter entrado na mansão tarde da noite ou durante a madrugada, horário improvável para a visita de um devoto.

— Sei — murmurou Ujitomi aborrecido, franzindo o cenho. — Acho que alguém, talvez um proprietário rural descontente, fez esta brincadeira de mau gosto com a intenção de me dar a conhecer seu descontentamento.

— Alguém em particular?

— Sim. Na verdade, foi para falar sobre isso que mandei chamá-la.

— Quer dizer que o descontentamento relaciona-se à minha pessoa?

— Não vá agora se ofender com o que vou lhe dizer, Otsu-san, mas... E o seguinte: certo goushi destas terras se diz contrário a que você permaneça na Mansão das Crianças e, tão preocupado está com a minha reputação, que me vem advertindo com muita rispidez.

— Ele o está agredindo por minha causa?

— Espere um pouco, também não precisa ficar tão abalada. É que, aos olhos do povo — não vá se ofender, Otsu-san... — você já não deve ser virgem; e permitir a permanência de uma mulher maculada na Mansão das Crianças seria o mesmo que profanar as terras sagradas do templo. É assim que pensam.

Ujitomi falava serenamente, mas os olhos da jovem logo se encheram de lágrimas de humilhação. Ela se sentia exasperada por não poder, aos gritos, lançar contra uma pessoa específica a sua revolta. Por outro lado, reconhecia que o povo talvez tivesse razão em pensar desse modo, já que ela era uma mulher vivida e viajada, temperada no convívio com estranhos, uma nômade a vagar pelo mundo carregando no coração um amor velho, entranhado como o pó de muitos anos... Apesar de tudo, ela era virgem, se sentia insultada e tremia de indignação por duvidarem disso.

Ujitomi parecia não estar dando importância à questão, mas também não podia ignorar a opinião pública. E uma vez que a primavera se aproximava, o sacerdote comunicava à jovem que as aulas de flauta estavam suspensas e lhe pedia para abandonar a Mansão das Crianças.

Otsu concordou imediatamente, pois nunca tivera a intenção de prolongar sua estada no templo, muito menos agora, que sabia estar trazendo aborrecimentos ao sacerdote. Agradeceu portanto os pouco mais de dois meses de hospitalidade e lhe disse que se punha a caminho nesse mesmo dia. A isso, Ujitomi replicou:

— Também não precisa partir com tanta pressa.

Apesar de tudo o que dissera, Ujitomi sentia muita pena da jovem, de cujo passado se havia inteirado em linhas gerais. Sem saber como consolá-la e perdido em pensamentos, aproximou de si uma pequena caixa de aspecto despojado, retirou algo de dentro e o embrulhou num pedaço de papel.

Nesse instante, Joutaro — a sombra constante de Otsu —, que se havia aproximado da varanda sem ser notado e parará às costas da jovem, espichou o pescoço e sussurrou:

— Vai partir de Ise, Otsu-san? Vou com você, não se preocupe. Já não era sem tempo: trabalhar na conservação do jardim estava começando a me cansar. Não fique triste, Otsu-san, partimos em boa hora.

 

— É pouco, mas prova a minha gratidão. Aceite e use este dinheiro para pagar as despesas de viagem — disse Ujitomi, entregando à jovem uma quantia modesta retirada do magro cofre.

Otsu nem sequer tocou no dinheiro, a expressão do rosto dizendo claramente que considerava um absurdo ser paga. Dera aulas às pequenas virgens da Mansão das Crianças, era verdade, mas em troca o templo a acolhera e a sustentara por mais de dois meses. Se era para aceitar o dinheiro, ela também teria de pagar por sua estada, argumentou Otsu. A isso Ujitomi respondeu:

— Pois em vez disso, quero que me faça um favor, quando passar por Kyoto.

— Farei o que quiser, mas não aceito o dinheiro: a sua intenção para mim vale mais que qualquer pagamento — replicou Otsu decidida, devolvendo o pequeno embrulho. Ujitomi então olhou para Joutaro, às costas da jovem:

— Hum...Você então, garoto: vou dar isto a você. Gaste-o no que quiser durante a viagem.

— Muito obrigado! — disse Joutaro, estendendo a mão de imediato e apanhando o pequeno embrulho. Só então voltou-se para Otsu e procurou sua aprovação:

— Posso ficar com isso, não posso, Otsu-san?

Uma vez que o menino já se apossara do dinheiro, a jovem pôde apenas agradecer, constrangida:

— Agradeço, em nome do menino. Satisfeito enfim, Ujitomi disse:

— O favor a que me referi há pouco é o seguinte: gostaria que me entregassem isto na residência de lorde Karasumaru Mitsuhiro, em Horikawa, quando vocês passarem por Kyoto.

Assim dizendo, o idoso sacerdote retirou de uma prateleira na parede dois rolos de papel.

— Isto é o fruto do meu modesto trabalho. Nestes rolos pintei gravuras que me foram encomendadas por lorde Mitsuhiro há quase dois anos. Eu as terminei há apenas alguns dias. Sei que o lorde pretende dá-las de presente ao Imperador depois de lhes acrescentar notas explicativas de seu próprio punho. Eis por que não me sinto bem mandando-as por mensageiros ou estafetas. Será que vocês não poderiam encarregar-se de levá-las com todo o cuidado, não deixando que se sujem ou se molhem na chuva?

Otsu pareceu momentaneamente aturdida pela inesperada responsabilidade, mas, impossibilitada de recusar, aceitou a missão. Ujitomi aproximou então de si uma caixa e algumas folhas de papel encerado que já tinham sido preparadas de antemão e, antes de nelas guardar seus desenhos, ofereceu, em parte movido por orgulho e em parte porque queria contemplar uma vez mais sua obra antes de se desfazer dela:

— Querem ver?

Abriu os rolos e estendeu-os sobre o tatami na frente dos dois.

— Oh! — exclamou Otsu involuntariamente. Joutaro também arregalou os olhos e esticou o pescoço, quase debruçando-se sobre os desenhos.

Era impossível saber que história contavam as gravuras, pois nelas ainda faltavam as notas explicativas. Mas a vida e os costumes do período Heian — retratados nas minúsculas pinceladas e no rico colorido do estilo Tosa[39] — desenrolavam-se numa sucessão de cenas maravilhosas perante o extasiado olhar dos dois jovens.

Embora nada entendesse de pintura, Joutaro exclamou admirado:

— Veja este fogo! Parece real, parece quente!

— Olhe, mas não toque em nada — sussurrou Otsu. Enquanto os dois continham a respiração e contemplavam embevecidos a pintura, um funcionário do templo, que surgira pelo jardim interno, trocava algumas palavras com o sacerdote.

Ujitomi assentiu e disse:

— Entendi. Pelo visto, não é um bandido. Mas por via das dúvidas, exija um recibo desse indivíduo antes de devolvê-las.

Entregou a seguir ao funcionário as duas espadas e a pequena trouxa trazidas havia pouco por Otsu.

 

Ao saber que a professora de flauta estava de partida, as meninas da mansão ficaram tristes.

— Vai partir de verdade?

— Vai mesmo?

Agrupadas ao redor de Otsu, já pronta para a viagem, as meninas mostravam-se pesarosas, como se estivessem prestes a perder uma irmã muito querida.

Joutaro gritou do outro lado do muro, fora da mansão:

— Já estou pronto, Otsu-san!

Havia despido o uniforme branco dos servidores do templo e vestia agora o costumeiro quimono de mangas curtas. Levava a espada de madeira nos quadris e, numa trouxa enviesada às costas, os rolos de pintura — acondicionados numa caixa embrulhada em diversas folhas de papel encerado — que Arakida Ujitomi lhe confiara, recomendando muito cuidado.

— Já? Que rapidez! — disse Otsu da janela.

— Claro! E você, Otsu-san, não está pronta ainda?. É nisso que dá andar com mulheres: demoram demais para se aprontar.

Em vista do regulamento que proibia a entrada de homem — adulto ou criança —, Joutaro aquecia-se ao sol e bocejava do lado de fora da mansão havia já algum tempo, contemplando a silhueta enevoada da montanha Kamiji. Irrequieto por natureza, a inatividade, mesmo momentânea, o aborrecia.

— Não está pronta ainda, Otsu-san? Do interior da mansão, Otsu respondeu:

— Estou indo!

Realmente, a jovem já estava pronta havia muito, mas fora retida pelas pequenas virgens. Tristes, as meninas não queriam se apartar da jovem mestra, a quem haviam aprendido a amar como a uma irmã nos curtos dois meses de convivência.

— Prometo que virei vê-las. Cuidem-se e sejam felizes! — disse Otsu. Mas será que voltaria para vê-las de verdade? A jovem duvidava.

Algumas pequenas começaram a soluçar, uma delas sugeriu que fossem todas juntas até a base da ponte sagrada sobre o rio Isuzu para vê-la partir, e foi prontamente apoiada pelas demais. Saíram portanto da mansão agrupadas em torno de Otsu, mas pararam em seguida, do outro lado do muro.

— Ué! — exclamaram as pequenas xamãs, admiradas: Joutaro, que tanto havia reclamado da demora, não estava ali.

— Jouta-saan! — chamaram, levando as mãos em concha às pequenas bocas.

Conhecendo Joutaro muito bem, Otsu não se preocupou e disse às meninas:

— Acho que se cansou de tanto esperar e seguiu adiante sozinho.

— Que menino rabugento! — observou uma delas. Outra ergueu o olhar para Otsu e indagou:

— Ele é seu filho?

Otsu não conseguiu rir da ingênua pergunta e rebateu com súbita seriedade.

— Vocês estão achando que ele é meu filho? Como, se ainda vou fazer 21 anos na próxima primavera? Será que pareço tão velha?

— É que eu ouvi alguém dizer...

Otsu lembrou-se dos boatos a que Ujitomi se referira e sentiu raiva de novo. Mas logo se acalmou: que lhe importava a opinião do mundo? Se Musashi acreditava nela, nada mais lhe importava. A ela bastava apenas ter a confiança desse único homem.

— Ei, Otsu-san! Você me deixa esperando todo esse tempo para depois ir-se embora sem mim? Isso não se faz! — berrou Joutaro nesse instante, alcançando-a às carreiras.

— Mas não o vi em lugar algum! — justificou-se Otsu.

— Podia ao menos ter tido a consideração de me procurar! Acontece que levei, há pouco, o maior susto da minha vida: vi alguém muito parecido com Musashi-sama seguindo em direção à estrada de Toba e fui atrás para verificar.

— Alguém parecido com Musashi-sama?

— Mas não era ele. Corri até a alameda e percebi, mesmo vendo-o de costas e à distância, que o sujeito era coxo. Que decepção!

 

No decorrer das jornadas que juntos vinham empreendendo, Otsu e Joutaro haviam experimentado diariamente amargas decepções semelhantes. Os dois tinham perdido a conta das vezes que se sobressaltaram porque o homem que acabava de cruzar com eles na estrada parecia-se com Musashi, ou porque o aspecto do outro que ia adiante lhes era familiar, quando então corriam até ultrapassá-lo, para depois voltar-se e olhá-lo de frente. Quantas e quantas vezes seus corações não se tinham acelerado por causa de vultos entrevistos à janela de uma casa num centro urbano qualquer, a bordo da balsa que acabava de zarpar, no interior de uma liteira, ou andando a cavalo, só porque lembravam de leve o homem que tanto procuravam. Já nem sabiam quanto esforço inútil tinham dispendido de cada vez na frenética tentativa de ver a esperança confirmada, e de quantas vezes tinham depois, abatidos, trocado tristes olhares.

Joutaro parecia agora bastante abalado pela experiência por que acabara de passar, mas Otsu, calejada por seguidas decepções, não deu muita importância ao fato.

Sobretudo depois de saber que o samurai em questão era coxo, Otsu desatou a rir e tentou consolar o menino:

— Coitadinho! Esforçou-se tanto por nada! Vamos, deixe a tristeza de lado, pois dizem que não é bom começar uma jornada de mau humor.

— E essas meninas? — disse Joutaro, examinando abertamente as pequenas xamãs. — Por que estão nos seguindo, hein?

— Não seja tão malcriado. Elas estão com pena de me ver partir e querem me acompanhar até a ponte Ujibashi sobre o rio Isuzu.

— Coitadinhas! Estão com pena de me ver partir! — disse Joutaro, imitando Otsu e fazendo as meninas rir.

A chegada de Joutaro animou o grupo até então lacrimoso e uma das pequenas gritou vivamente:

— Otsu-sama! Mestra! Não é por aí!

— Eu sei! — respondeu Otsu, mesmo assim seguindo em frente até alcançar o portal sagrado Tamagoshi. De lá, voltou-se para o distante templo Naigu, bateu palmas de acordo com o ritual xintoísta e, mãos postas, curvou a cabeça e rezou em silêncio.

Joutaro murmurou:

— Ah, agora entendi. Foi se despedir da deusa.

Como porém não dava mostras de querer fazer o mesmo, as pequenas xamãs espetaram-lhe ombros e costas com seus dedinhos e reclamaram:

— E você, Jouta-san, não vai rezar à deusa?

— Eu não!

— Nossa, não fale nesse tom que a deusa vai entortar sua boca.

— Não gosto de rezar. Tenho vergonha.

— Vergonha de quê? Você não vai rezar a uma deusa desconhecida de um templo qualquer, mas à nossa deusa-mãe. Ela é a mãe de todos nós, não se esqueça!

— Sei disso!

— Se sabe, não precisa ter vergonha. Vá rezar!

— Não vou.

— Teimoso!

— Cale a boca, sua metida! Enxerida!

— Credo!

As outras xamãs que tinham estado quietas, apenas ouvindo os dois discutirem, arregalaram os olhinhos todas ao mesmo tempo e ecoaram em uníssono:

— Credo!

— Que menino bravo!

Otsu chegou nesse instante junto ao grupo e perguntou:

— Que está acontecendo, meninas?

A resposta veio instantânea, já que as pequenas esperavam uma oportunidade para se queixar:

— Jouta-san disse que somos enxeridas! E disse também que não quer rezar à deusa, imagine!

— Que feio, Jouta-san! — repreendeu Otsu brandamente.

— Grande coisa!

— Você me contou certa vez que, ao ver Musashi-sama lutando contra os monges lanceiros de templo Hozoin e correndo perigo de vida, juntou as mãos, ergueu-as para o alto e rezou: “Ó deuses!” Então, qual o problema? Vá até ali e reze.

— Mas todo mundo fica olhando!

— Nesse caso, dêem-lhe as costas, meninas. Eu também me viro. — Enfileiradas, deram as costas para Joutaro. — Está bem assim? — perguntou Otsu. Como não recebeu resposta, voltou-se mansamente e espiou. Joutaro corria em direção ao portal sagrado. Uma vez lá, Otsu o viu parar e fazer uma rápida reverência.

 

O CATAVENTO

Sentado no banco em frente à barraca do vendedor de ostras assadas, Musashi desatava as sandálias voltado para o mar.

— Patrão, restam ainda dois lugares no barco que excursiona pelas ilhas. Não quer completar o grupo? — oferecia um barqueiro, em pé à sua frente.

Duas mergulhadoras, cada qual levando no braço uma cesta cheia de moluscos, vinham insistindo havia já algum tempo:

— Senhor, leve moluscos frescos para casa.

— Compre meus moluscos, compre.

Musashi removia em silêncio os trapos manchados de sangue e pus que envolviam seu pé ferido. A área inflamada desinchara, a febre se fora e agora a pele no local estava esbranquiçada e macerada, cheia de rugas.

— Não quero, não quero! — recusou Musashi abanando a mão para afastar tanto o barqueiro como as mergulhadoras. Pisou a areia, caminhou até a beira da arrebentação e mergulhou o pé rugoso na água salgada.

O pé doía tão pouco desde a manhã que Musashi quase o esquecera. Sentia-se saudável, cheio de vitalidade e em conseqüência, muito mais confiante em si mesmo. Musashi acreditava porém que essa autoconfiança não era fruto apenas da saúde recuperada. A confiança, reconhecia ele, lhe vinha de saber que havia crescido como ser humano de ontem para hoje, e isso o enchia de alegria.

Mandou a filha do vendedor de frutos do mar comprar-lhe meias de couro, calçou-as com um par de sandálias novas e pisou o chão com firmeza. Do ferimento restara-lhe apenas uma leve dor ao caminhar e o hábito de mancar um pouco.

— Senhor, o barqueiro está gritando lá do atracadouro. O senhor não está indo para Ouminato[40] nesse barco? — perguntou-lhe o dono da barraca, sem desviar os olhos dos mariscos sobre a brasa.

— Isso mesmo. De Ouminato partem navios que fazem regularmente a ligação com Tsu, não partem?

— Sim, senhor. Com Yokkaichi e Kuwana também.

— Que dia é hoje, vendeiro?

— Ora, perdeu a noção de quantos dias faltam até o fim do ano, senhor? — riu o homem. — Que vida boa! Estamos no dia 24 do último mês do ano.

— Ainda? Pensei que estávamos muito mais perto do fim de ano!

— Ah, como é bom ser jovem!

Musashi caminhou rapidamente, quase correndo, até o atracadouro da praia de Takashiro. Sentia vontade de correr muito mais.

A barcaça que levava a Ouminato, na margem oposta do rio, logo ficou lotada. Mais ou menos na mesma hora, Otsu e Joutaro atravessavam a ponte Ujibashi sobre o rio Isuzu, abanando as mãos e despedindo-se com pesar das pequenas xamãs.

As águas do rio Isuzu desembocam no porto de Ouminato, mas, insensíveis, deixaram que o barco se fosse, velas ao vento, levando Musashi.

Em Ouminato, Musashi baldeou imediatamente para outro barco, cujos passageiros eram, em sua maioria, viajantes. As grandes velas capturavam suavemente o vento e a embarcação prosseguiu ao longo do mais plácido trecho da costa de Ise, tendo à esquerda as cidades de Furuichi e Yamada, e a estrada arborizada de Matsuzaka.

Pela estrada de Matsuzaka iam andando Otsu e Joutaro, seus passos e o barco seguindo simultaneamente na mesma direção, quase à mesma velocidade.

 

Musashi sabia que em Matsuzaka morava um certo Mikogami Tenzen, um espadachim originário da região de Ise considerado um gênio da atualidade, mas abandonou a idéia de ir vê-lo e desceu em Tsu.

No momento em que desembarcava no porto de Tsu, um bastão de aproximadamente 60 cm à cintura do homem que lhe ia à frente chamou-lhe repentinamente a atenção.

O bastão tinha uma corrente enrolada. Na extremidade da corrente, havia um bola de ferro. Além dessa arma, o homem, que teria cerca de 42 ou 43 anos, levava também uma espada rústica em bainha de couro. Seu rosto tinha marcas de varíola e a pele era escura, tão queimada de sol quanto a de Musashi; seus cabelos, avermelhados, eram inusitadamente crespos.

Pelo aspecto, qualquer um diria que o homem era um bandoleiro, se o jovem que lhe vinha no encalço não o tivesse chamado neste instante:

— Patrão, patrão!

O rapazote, de 16 ou 17 anos, que ficara para trás no momento do desembarque, era um ajudante de ferreiro, conforme atestavam as manchas escuras de fuligem nas abas do nariz e o malho de cabo longo levado ao ombro.

— Me espere, patrão!

— Anda logo!

— Tinha esquecido o malho no barco.

— Esqueceste a ferramenta de trabalho, o teu ganha-pão?

— Mas já peguei.

— É claro! Faltava só não o teres pego. Partia-te a cabeça!

— Patrão?

— Não amola!

— Não íamos passar a noite em Tsu?

— O sol ainda vai alto. Passaremos por Tsu sem parar.

— Bem que eu gostaria de dormir uma noite em Tsu. Já que estivemos viajando a trabalho, um pouco de conforto ia bem.

— Não me venhas com gracinhas!

A rua que ligava o atracadouro à cidade fervilhava de gente: aliciadores de hospedarias e vendedores de lembrancinhas estavam alertas como sempre à procura de fregueses, obstruindo o caminho dos passageiros desembarcados.

Quando alcançaram esse trecho, o ajudante de ferreiro, ainda com o malho ao ombro, já tinha perdido de vista o seu patrão uma vez mais e o procurava aflito no meio da multidão. Passados instantes, porém, o patrão lhe surgiu à frente, segurando um pequeno catavento de papel comprado numa loja de brinquedos próxima:

— Iwa-kou! — chamou o patrão.

— Senhor?

— Leva isto para mim.

— Um catavento!

— Não o leves na mão, porque podes te chocar com alguém no meio da multidão e quebrá-lo. Enfia-o na gola do quimono, junto à tua nuca.

— Ah, vai dá-lo de presente!

— Hum...

O homem devia ter um filho pequeno e, pelo jeito, voltava para casa de uma longa viagem, ansioso por rever o rostinho sorridente do pimpolho.

Andando sempre alguns passos à frente, o patrão se voltava vez ou outra, preocupado com o catavento a girar espetado na gola do ajudante Iwa-kou. Coincidência ou não, ia na mesma direção de Musashi.

Ali estava o homem que tanto procurara, concluiu Musashi por tudo que via.

O mundo, porém, estava repleto de ferreiros e não eram poucas as pessoas que andavam levando à cintura uma corrente com foice. Para se certificar, Musashi o acompanhou ora passando-lhe à frente, ora ficando para trás, observando atentamente. Notou então que o caminho por eles tomado cruzava a cidade casteleira de Tsu e aos poucos enveredava em direção à estrada de Suzuka. Além disso, o diálogo que lhe chegava aos ouvidos truncado pela distância varreu-lhe as últimas dúvidas da mente. Musashi abordou o ferreiro:

— Está indo para Umebata, senhor? Interpelado, o homem respondeu bruscamente:

— Estou. Por quê?

— O senhor não seria por acaso mestre Shishido Baiken?

— Isso, sou Baiken. E você, quem é?

 

Embora já tivesse percorrido havia bem poucos dias esse mesmo caminho, Musashi optara por ele porque transpor o monte Suzuka e entrar por Minaguchi em Kusatsu, na província de Goshu[41], era o percurso mais lógico para chegar a Kyoto, cidade onde queria festejar a passagem do ano.

Já tinha decidido que se bateria numa outra oportunidade com Baiken, pois tinha perdido a vontade quase obsessiva de enfrentá-lo. Mas topar com ele acidentalmente no meio do caminho era muita sorte.

— Acho que nós dois estávamos destinados a nos conhecer. Na verdade, estive há poucos dias em sua casa, na vila Ujii e falei com sua mulher. Meu nome é Miyamoto Musashi, e sou um samurai peregrino.

— Ah, sei... — respondeu Baiken, como se estivesse a par disso. — Você deve ser o homem que se hospedava na estalagem de Yamada e que queria me desafiar para um duelo.

— Ficou sabendo que eu o procurava?

— Pois você não mandou um mensageiro à mansão de Arakida-sama perguntar se eu não estaria hospedado com ele?

— Mandei.

— Realmente, fui fazer um serviço para Arakida-sama, mas nunca me hospedaria em sua mansão. Usei a oficina de alguns colegas, na cidade sagrada, e fiz um trabalho que só eu sei fazer.

— Ah, foi por isso que não o encontraram na casa do sacerdote.

— Soube ali que um samurai peregrino hospedado numa estalagem de Yamada procurava por mim, mas não dei importância, pois tudo isso me pareceu uma grande amolação. O samurai era você?

— Isso mesmo. Tinha ouvido dizer que o senhor era um exímio manejador da corrente com foice.

— Ora essa, deve ter falado com minha mulher — disse Baiken, gargalhando.

— Sua mulher fez-me a gentileza de mostrar rapidamente a posição de guarda do estilo Yaegaki.

— E isso não bastou? Para que correr atrás de mim e me desafiar, então? Posso lhe mostrar pessoalmente a posição de guarda, mas vai ver a mesma coisa. Posso até lhe mostrar um pouco mais, mas no mesmo instante, você terá ido para o outro mundo.

A mulher de Baiken era convencida como poucos, realmente, mas o próprio Baiken não lhe ficava atrás. Arrogância e artes marciais andavam sempre de mãos dadas e eram insuportáveis em qualquer circunstância. Mas, pensando bem, um homem talvez precisasse de boa dose de confiança em si para conseguir um lugar ao sol, acima de todos os arrogantes guerreiros que enxameiam pelo mundo.

Musashi já havia no íntimo começado a desprezar Baiken. Era, no entanto, incapaz de mostrar desprezo a quem quer que fosse apenas baseado em impressões superficiais. Isso porque, ao dar o primeiro passo no caminho da vida, Takuan lhe mostrara de modo doloroso e inesquecível que no mundo havia muita gente bem preparada. Acresciam-se a isso as lições aprendidas no templo Hozoin e no castelo Ko-yagyu.

Portanto, muito antes de tratar com desprezo um desconhecido, Musashi se habituara a avaliá-lo com cuidado até ter certeza do seu valor real, mantendo sempre uma atitude humilde e quase nunca reagindo com fervor a provocações, o que o fazia parecer por vezes subserviente, ou até mesmo covarde num primeiro momento.

— Tem razão — respondeu, com a atitude diferente do jovem ante alguém mais velho. — Como o senhor mesmo disse, a demonstração feita por sua mulher me foi valiosa. Mas já que tive a oportunidade de encontrá-lo aqui, gostaria muito de obter mais algumas informações sobre o uso do kusarigama.

— Informações? Se quer apenas conversar, posso muito bem atendê-lo. Você vai passar a noite em alguma estalagem de Kai?

— Essa era a intenção inicial, mas... Sem querer ser inconveniente, o senhor não me daria abrigo em sua casa por mais uma noite?

— Minha casa não é estalagem, você sabe, e não tenho cobertores para hóspedes. Se não se importa em partilhar o cubículo do meu aprendiz, Iwa-kou...

 

Entardecia quando chegaram.

O sol avermelhava as nuvens e, sob elas, o pequeno povoado na base da montanha Suzuka se estendia, plácido como um lago de águas claras.

Em pé a um canto do distante alpendre, Musashi avistou um vulto que reconheceu como sendo o da mulher do ferreiro. Alertada por Iwa-kou, que correra à frente para anunciar o retorno do patrão, a mulher esperava o marido erguendo nos braços a criança e o catavento, repetindo:

— Olha, estás vendo? Ali vem teu pai. Estás vendo? É o teu pai! Baiken, o monstro arrogante, já de longe derreteu-se inteiro ao avistar o filho. Levantou a mão, agitou os cinco dedos e gritou:

— Aqui, filhinho! Teu papai está aqui!

Instantes depois, pai e mãe entraram na casa e, sempre em companhia da criança, sentaram-se a um canto, entretidos em animada conversa, ignorando por completo Musashi e seu pedido de pernoite. A atitude era até compreensível, levando-se em consideração que Baiken acabava de chegar de uma longa viagem. Perto da hora do jantar, Baiken pareceu finalmente dar-se conta e, apontando para Musashi que, sem se descalçar, ainda permanecia no aposento de terra batida aquecendo-se ao fogo da forja, disse para a mulher:

— Ah, ia-me esquecendo. Dá de comer também a esse samurai peregrino.

A mulher retrucou, sem vestígios de amabilidade na voz:

— Mas esse homem já dormiu uma noite aqui, na tua ausência.

— Sei disso. Põe o homem a dormir com Iwa-kou.

— Da outra vez, ele dormiu numa esteira, perto da forja. Que durma hoje também.

— Você aí, jovem — disse Baiken. Um pote de saque amornava nas cinzas do braseiro à sua frente. — Gosta de saque? — perguntou, oferecendo uma taça.

— Um pouco — respondeu Musashi.

— Então beba!

— Sim, senhor.

Musashi sentou-se na beira da área mais elevada, na divisa com o aposento de terra batida. Agradeceu com uma ligeira reverência e levou a taça à boca. A bebida, produzida na região, era ácida.

— Um brinde — disse Musashi, devolvendo a taça.

— Não sei dessas coisas. Eu bebo em outra taça. Mudando de assunto, jovem, quantos anos tem você? Me parece novo ainda.

— Faço 21 no ano que vem.

— Onde é a sua terra?

— Mimasaka.

No mesmo instante Baiken voltou-se. Seu olhar penetrante percorreu Musashi de cima a baixo.

— O que me disse, há pouco? Estou falando do seu nome.

— Miyamoto Musashi.

— Musashi... Como se escreve?

— Do mesmo jeito que se escreve Takezo.

A mulher do ferreiro surgiu trazendo tigelas de sopa, arroz, picles e hashi.

— Coma — disse com rudeza, largando as coisas diretamente sobre a esteira.

— Sei! — murmurou Baiken, retomando a conversa interrompida e sacudindo a cabeça depois de um longo silêncio. Retirou a bilha das cinzas, sentiu sua temperatura.

— Está no ponto! — observou, despejando saque na taça de Musashi, para de súbito, tornar a perguntar:

— Quer então dizer que, em criança, você se chamava Takezo?

— Isso mesmo.

— E assim se chamava quando tinha cerca de 17 anos?

— Sim.

— E você não teria por acaso tomado parte da batalha de Sekigahara com essa idade, em companhia de um outro jovem, de nome Matahachi?

Musashi, ligeiramente admirado, perguntou:

— Como sabia, senhor ferreiro?

 

— Muito simples: eu também lutei na batalha de Sekigahara.

A coincidência aproximou-os, e Baiken, mudando repentinamente de atitude, disse em tom cordial:

— Bem achei que já o tinha visto em algum lugar. Devo ter-me encontrado com você em Sekigahara, no meio da batalha.

— Não me diga que também fazia parte do exército Ukita?

— Naquela época eu morava em Yasugawa, na província de Goshu, e em companhia de alguns goushi da área estive na frente nessa batalha.

— Realmente? Então nos cruzamos, com certeza.

— Que foi feito de seu companheiro, Matahachi?

— Nunca mais o vi, desde então.

— Desde então, quando?

— Com o fim da guerra, fomos acolhidos numa casa nos pântanos de Ibuki, onde permanecemos até nos recuperarmos dos ferimentos. Matahachi e eu nos separamos logo depois e desde então...

— Ei! — gritou Baiken para a mulher, que já se havia deitado com a criança — o saque acabou.

— Paciência! Não temos mais.

— Mas eu quero outro tanto.

— Estou dizendo que acabou. Por que insistes, justo hoje?

— É que a conversa está ficando cada vez melhor.

— Não tem mais, já disse.

— Iwa-kou! — berrou Baiken, voltando-se para um canto da oficina. Do outro lado de uma fina divisória de madeira algo moveu-se entre palhas. Logo, o aprendiz de ferreiro entreabriu um postigo e disse, mostrando apenas a cara:

— Que quer, patrão?

— Vai à casa de Onosaku-san e pede dois litros de saque emprestados. Musashi apanhou a tigela de arroz e disse:

— Vou jantar primeiro, com sua licença.

— Espere, espere um pouco! — interveio Baiken, agarrando o pulso de Musashi — Não está vendo que mandei buscar mais saque?

— Se era para mim, chame seu ajudante de volta. Não consigo beber mais.

— Deixe disso! — insistiu Baiken. — E depois, você não disse que queria informações sobre o uso da corrente com foice? Posso lhe ensinar tudo que sei, com certeza, mas tenho de molhar a garganta enquanto falo.

Iwa-kou retornou quase em seguida.

Baiken despejou um pouco da bebida numa bilha pequena e, enquanto a aquecia no braseiro, começou a expor seus conhecimentos, enfatizando as vantagens da sua arma numa luta.

Diferente da espada, a corrente com foice não dava tempo para o oponente se defender, sendo esse um dos seus aspectos mais atraentes. Além disso, a corrente possibilitava ao seu manipulador enredar e arrebatar a arma das mãos do inimigo, antes mesmo de entrar em confronto direto com ele.

— Suponhamos que você esteja assim, com a corrente na mão esquerda e a bola de ferro na direita — disse Baiken sem se levantar, mostrando a posição. — Se o adversário atacar, apare o golpe com a foice e, ao mesmo tempo em que apara, lance a bola no rosto dele. Este é um dos golpes.

Mudou a seguir a posição e disse:

— Se você estiver deste jeito — isto é, se existe uma distância maior entre você e seu adversário —, seu objetivo será enredar e arrebatar com a corrente a arma do outro, seja ela uma espada, lança ou bordão. Isto funciona com qualquer tipo de arma.

Baiken explicou também que existia mais de uma dezena de técnicas secretas diferentes de lançar a bola de ferro, técnicas estas transmitidas de mestre a discípulo apenas verbalmente. Quando usada alternadamente com a foice, informou ainda Baiken, a corrente movia-se como uma cobra, emitindo reflexos que iludiam o inimigo por completo, inibindo-lhe os movimentos, imobilizando-o e transformando-o num alvo perfeito. E ali estava outro modo de usar com vantagem a corrente com foice.

Musashi o ouvia com toda atenção.

Conversas desse tipo transformavam-no na personificação do interesse: literalmente todo ouvidos, Musashi mergulhou nas explicações de Baiken.

Uma corrente... Uma foice...

E duas mãos.

Enquanto ouvia, Musashi desenvolvia seu próprio raciocínio.

“A espada é manejada com uma mão. Mas o homem possui duas mãos...”

 

Sem que disso se dessem conta, os dois homens tinham esvaziado também o segundo cântaro. Baiken bebeu bastante mas se empenhou muito mais em fazer Musashi beber. Este ultrapassara involuntariamente o seu limite habitual e chegou a um estado de embriaguez nunca antes experimentado.

— Mulher, vamos dormir nos fundos. Cede tuas cobertas ao nosso hóspede e arruma outras para a gente lá dentro. — disse o ferreiro a certa altura.

A mulher tinha, ao que parecia, o hábito de dormir nesse aposento e, sem se importar com o hóspede, já havia estendido as cobertas e se deitado com a criança enquanto Baiken e Musashi bebiam.

— Anda, sai da cama de uma vez e deixa nosso hóspede dormir! Ele me parece muito cansado — insistiu o homem.

A mulher de Baiken já tinha percebido que o marido mudara de atitude havia algum tempo e tratava seu hóspede com repentina cordialidade, mas relutava em se levantar. Primeiro, porque não conseguia compreender por que o marido queria obrigá-la a ceder as cobertas e transferir-se para o outro quarto, e segundo, porque no momento seus pés já estavam começando a esquentar.

— O hóspede ficou de dormir no quarto de ferramentas junto com Iwa-kou, não ficou? — reclamou ela.

— Idiota! — gritou o marido, furioso, olhando feio para a mulher deitada no meio das cobertas. — Manda-se um hóspede dormir com Iwa-kou dependendo da importância dele, entendeu? Pára de reclamar e arruma nosso canto nos fundos.

A mulher ergueu-se bruscamente e foi em silêncio para o outro quarto. Baiken tomou em seus braços a criança adormecida e disse:

— Jovem, estes cobertores não são de primeira, mas aqui pelo menos você está perto do braseiro. Se sentir sede no meio da noite, achará água quente na chaleira para um chá. Estique-se à vontade e durma tranqüilo.

Retirou-se a seguir. Instantes depois, a mulher voltou para trocar o travesseiro. Seu humor havia melhorado e falou com gentileza:

— Meu marido disse que pretende dormir até mais tarde amanhã porque bebeu além da conta e está cansado da viagem. Descanse você também à vontade, não precisa acordar cedo. Pela manhã, eu lhe preparo uma boa refeição.

— Ora essa, muito obrigado — disse Musashi a custo. Estava tão embriagado que mal teve ânimo de remover as sandálias e despir o sobretudo. — Boa-noite! — disse e mergulhou nas cobertas ainda mornas. Parada à porta que levava ao quarto do fundo, a mulher, atenta, observou-o por alguns minutos.

— Boa noite! — disse por fim com suavidade. Soprou a lamparina e se foi mansamente:

Musashi sentia um aro de ferro comprimindo-lhe cada vez mais o crânio, a anunciar uma forte ressaca. As têmporas latejavam de modo audível.

“Ora, como foi que passei da conta, justo hoje?”, perguntava-se Musashi, o mal-estar provocando-lhe um leve arrependimento. Talvez porque Baiken tivesse oferecido com tanta insistência. Mas o que havia por trás da súbita mudança de atitude de seus anfitriões? Por que o desdenhoso Baiken resolvera mostrar-se tão hospitaleiro de uma hora para outra, e mandara seu empregado buscar-lhe mais saque? Por que a mulher, sempre tão rude, se mostrava agora tão amável? Por que lhe haviam cedido as cobertas neste local privilegiado?

Era suspeito, ocorreu de súbito a Musashi, mas muito antes de conseguir raciocinar com clareza, o sono o envolveu como uma pesada neblina. Fechou os olhos, deu dois suspiros profundos e puxou o cobertor cobrindo-se até a altura dos olhos. Agora, sentia calafrios.

Das brasas, quase extintas, erguia-se vez ou outra uma tênue língua de fogo, cujo reflexo bruxuleava na testa de Musashi. Logo, um profundo ressonar se fez ouvir.

A mulher de Baiken — apenas um rosto branco no escuro espiando em silêncio pela porta do quarto — voltou nesse momento furtivamente para perto do marido, seus pés descalços produzindo um leve chape-chape no contato com a esteira.

 

Musashi sonhava. O mesmo sonho se repetia em retalhos continuamente. Na verdade, não podia chamar aquilo de sonho. Era quase uma alucinação, como se uma lembrança dos tempos de infância por alguma razão houvesse aflorado e rastejasse agora semelhante a um inseto sobre o cérebro adormecido, suas patas largando atrás de si um rastro de letras fosforescentes.

Seja como for, uma canção soava em seu sonho:

Dorme, nenê,

Dorme de uma vez.

Tu que és lindo quando dormes,

Feio ficas ao chorar.

Dorme, dorme,

Não me faças chorar também.

Musashi tinha ouvido essa canção de ninar na visita anterior à casa: a mulher de Baiken a cantara enquanto dava o seio ao filho. E no sonho essa mesma canção com o forte sotaque regional de Ise soava nas terras de Yoshino, onde Musashi havia nascido.

O sonho prosseguia.

Ele era ainda um bebê e estava no colo de uma mulher de rosto alvo, de mais ou menos 30 anos. O pequeno Musashi sabia que a mulher era sua mãe. Agarrada ao seio da mulher, a criança erguia os olhinhos para o rosto branco.

Feio ficas ao chorar.

Dorme, dorme,

Não me faças chorar também.

Era a mãe que cantava e o embalava. O rosto delicado e abatido lembrava em sua palidez uma flor de pereira. Pequenas flores de musgo pontilhavam o extenso muro de pedras; o céu, acima da casa e das copas das árvores, tinha as cores do entardecer; havia luz no interior da mansão.

Lágrimas brotavam dos olhos da mãe. Admirado, o bebê Musashi as observava.

— Saia daqui!

— Vá embora para a casa de seus pais!

A voz severa do pai, Munisai, ecoava no interior da mansão, mas Musashi não o via. Sabia apenas que a mãe fugia desnorteada ao longo do extenso muro de pedras da mansão, chegava às margens do rio Aida e, chorando, avançava agora para dentro da água.

— Cuidado! Cuidado! — queria dizer o pequeno Musashi debatendo-se em seu colo, tentando alertá-la do perigo que corriam.

Mas a mãe seguia cada vez mais para o fundo, contendo nos braços de forma quase dolorosa a criança agitada, pressionando o rosto molhado de lágrimas contra o do filho:

— Takezo, Takezo! Você é meu? Ou é de seu pai?

Nesse instante, Munisai gritou alguma coisa da margem. Ao ouvir-lhe a voz, a mãe submergiu nas águas crespas do rio Aida e o pequeno viu-se jogado sobre os seixos da margem, chorando a plenos pulmões no meio das primulas.

— Ah!

Musashi despertou: sabia que estivera sonhando e tomou a cair em leve modorra. Logo, o rosto da mulher — a mãe ou uma estranha? — o espreitou no sonho e tornou a despertá-lo.

Musashi não se lembrava das feições daquela que o trouxera ao mundo. Pensava sempre nela, mas seria incapaz de descrevê-la. Conseguia quando muito imaginar se não teria a aparência de uma ou outra pessoa conhecida.

— E por que sonho com ela justo esta noite?

A embriaguez se fora e, desperto enfim, Musashi abriu os olhos e viu o teto. No forro preto de fuligem bruxuleavam reflexos avermelhados do fogo quase extinto.

Foi então que notou o catavento flutuando bem em cima de seu rosto, preso ao teto por um fio.

Era o presente que Baiken havia trazido para o filho. Além disso, deu-se conta de que havia um forte cheiro de leite na borda do cobertor que o cobria quase até os olhos. E tinham sido eles — objetos e cheiros ao seu redor — os responsáveis pelo inesperado sonho com a mãe, achou Musashi, seu olhar cravando-se no catavento, intenso como o de alguém que enfim encontra um ente querido.

 

Musashi vagava entre a vigília e o sono, olhos semicerrados fitando o teto. Repentinamente, o brinquedo sobre o rosto causou-lhe estranheza — o catavento tinha começado a girar.

Nada devia haver de extraordinário nisso, já que o brinquedo tinha sido projetado para girar, mas Musashi enrijeceu-se de súbito e quase se ergueu:

— Que é isso?

Apurou os ouvidos.

Em algum lugar, uma porta deslizava mansamente, quase sem ruído. Cerrada a porta, as pequenas pás foram aos poucos parando e de súbito imobilizaram-se.

Havia algum tempo pessoas entravam e saíam sem cessar pela porta dos fundos da casa. Os pés se moviam com extremo cuidado, em silêncio, sem provocar o menor ruído, mas a ligeira corrente de ar, que se formava a cada vez que a porta se abria, passava pela cortina à entrada do aposento e alcançava instantaneamente o fio do catavento. Ato contínuo, as cinco pétalas da flor de madeira criavam vida e se agitavam, tremiam e revoluteavam com a leveza de uma borboleta, para em seguida voltar a imobilizar-se quando a porta se fechava.

Mansamente, Musashi tornou a pousar no travesseiro a cabeça e, imóvel, procurou sentir com todo o corpo a atmosfera da casa. À semelhança de um inseto que oculto sob uma folha tenta perceber os mistérios do tempo, Musashi tinha agora os nervos aguçados e espalhados por todo o corpo, captando sinais.

Aos poucos, começou a dar-se conta da natureza do perigo que o rodeava, muito embora continuasse sem saber por que o proprietário da casa, Baiken, um completo estranho, queria tirar-lhe a vida.

“Será que estou num covil de ladrões?”, pensou.

Mas um ladrão tem a capacidade de avaliar de golpe o grau de riqueza de sua possível vítima, bem como o valor dos seus pertences, e saberia de imediato que nada lucraria eliminando-o.

“Baiken me odiaria?”

Também não parecia ser o caso.

Por mais que pensasse não atinou com a resposta, mas a sensação de ameaça à sua vida aumentava cada vez mais. E agora, essa ameaça já se havia aproximado o suficiente para exigir a imediata escolha de uma entre duas estratégias: esperar imóvel por ela, do jeito como estava, ou tomar a iniciativa e se levantar.

Musashi desceu a mão até tocar o piso do aposento de terra batida, um nível abaixo. Seus dedos tatearam pelo chão, procurando as sandálias. As sandálias escorregaram, uma após outra, suavemente, para dentro das cobertas.

De súbito, o catavento pôs-se a girar com rapidez. Revoluteava como uma flor encantada à tênue luz que provinha do braseiro.

Passos soaram, agora nítidos, nos fundos e em torno da casa, formando um cerco ao redor das cobertas onde dormia Musashi. Instantes depois, dois olhos brilharam sob a meia-cortina à entrada do aposento. Um homem se aproximou de joelhos, trazendo uma espada desembainhada na mão; um outro avançou rente à parede empunhando uma lança, e acercou-se cautelosamente das cobertas pelo lado dos pés.

Os dois homens observaram em silêncio o volume sob as cobertas, atentos ao ressonar. Um terceiro vulto, saído das cortinas como fumaça, tinha-se materializado em pé ao lado da cama. Era Baiken. Empunhava a corrente com a mão esquerda e a bola de ferro com a direita.

Três pares de olhos fitaram-se. Alcançado o consenso, o homem à cabeceira tomou a iniciativa e chutou o travesseiro. O segundo, aos pés da coberta, saltou prontamente para o aposento de terra batida e assestou a lança.

— Acorda, Musashi! — gritou Baiken, recuando a mão que empunhava a bola de ferro.

 

Debaixo das cobertas, não houve reação.

A foice aproximou-se ameaçadora, a lança tocou os cobertores, os homens berraram — mas nada se moveu, pois Musashi já não estava mais ali.

O homem que tinha removido o cobertor com a ponta da lança gritou:

— Ei! Ele sumiu!

Baiken, confuso, examinou ao redor e só então se deu conta do cata-vento que girava no ar à altura do seu rosto.

— Tem uma porta aberta em algum lugar! — berrou, saltando para o aposento de terra batida.

No mesmo instante, o outro homem exclamou:

— Com os diabos!

No extremo mais afastado da parede da oficina havia uma porta que dava para a cozinha e para uma passagem lateral: a porta tinha sido corrida e apresentava agora uma abertura de quase um metro.

Fora, a geada branqueava a paisagem como em noite de luar. O descontrolado revolver do catavento fora provocado pelo vento cortante que entrava por essa abertura.

— Foi por aqui, o maldito!

— Que faziam os homens de guarda lá fora? Onde estão? Baiken, agitado, gritou:

— Ei, ei, ei! Homens!

Debaixo do alpendre e das sombras próximas vultos indistintos surgiram devagar, rastejando. Alguém perguntou quase num sussurro:

— Patrão...? Correu tudo bem, patrão? Baiken gritou furioso:

— Que idiotice é essa? Que vigiavam, parados aí? O maldito já fugiu!

— Como é? Ele fugiu? Mas... quando?

— É a mim que perguntam?

— Essa não entendi.

— Parvos!

Baiken entrava e saía pela porta, irritado, mas logo disse:

— Ele tem apenas duas opções: ou vai transpor Suzuka, ou vai retornar pela estrada que leva a Tsu. Não deve ter ido longe. Procurem-no!

— Para que lado?

— Eu sigo na direção de Suzuka. Vocês descem para Tsu. Juntando os de dentro da casa com os de fora, eram dez os homens,

alguns armados de kusarigama.

O grupo não tinha um aspecto homogêneo. Um dos homens empunhando a corrente com foice parecia um caçador, e outro que levava uma espada rústica à cintura tinha jeito de lenhador. Os demais eram aparentemente de profissões semelhantes, mas o brilho sinistro de seus olhos e a obediência cega às ordens do homem a quem chamavam patrão contradiziam as aparências. O próprio Baiken nunca poderia ser um simples lavrador e ferreiro.

Baiken dividiu seus homens em dois grupos:

— Quem o achar primeiro dispara o mosquete; os demais devem acudir de pronto.

Dispersaram-se em seguida às pressas no encalço do fugitivo.

Contudo, 15 minutos de perseguição e correria haviam tido o poder de desanimar os homens, que retornaram trocando observações frustradas.

O medo de levar uma reprimenda em regra do patrão revelou-se também infundado, pois Baiken, que já havia retornado, estava sentado em sua oficina, cabisbaixo e sem ânimo.

— Não deu certo, patrão!

— Que lástima!

Às palavras em tom consolador de seus homens, Baiken respondeu:

— Que se há de fazer!

Para dar vazão à raiva, quebrou gravetos no joelho e gritou:

— Mulher, quero beber! Serve saque para todos!

Remexeu o fogo quase extinto e lançou com raiva um monte de gravetos no braseiro.

 

Com a balbúrdia em plena madrugada, o bebê acabou acordando e chorava sem parar. Deitada com ele, a mulher de Baiken retrucou que já não tinham mais saque. Ao ouvir isso, um dos homens logo se ofereceu para trazer um pouco da própria casa e saiu.

Pelo jeito, moravam todos nas cercanias, pois a bebida logo chegou. Sem se preocuparem em amorná-la, os impacientes homens despejaram-na em chávenas e beberam em grandes goles.

— Que coisa irritante!

— Rapazola atrevido!

— Sujeitinho de sorte! Escapou por um triz da morte certa.

Os homens repetiam frases de efeito destinadas a melhorar o gosto da bebida.

— O jeito é se conformar, patrão. Foi asneira do pessoal que montava guarda lá fora.

Estavam todos empenhados em embriagar o patrão e pô-lo a dormir o mais rápido possível. Baiken, por seu lado, não tentou incriminar seus homens.

— Parte da culpa foi minha — observou. A expressão sombria em seu rosto dizia que a bebida tinha um gosto amargo nessa noite. — Eu devia ter feito o trabalho sozinho. Para que convocar a ajuda de tanta gente e fazer esse estardalhaço todo por causa desse novato, um rapazola comum... O problema é que eu não queria dar um passo em falso já que, quatro anos atrás, quando o sujeito tinha somente 17 anos, teve a capacidade de liquidar o meu irmão, Tsujikaze Tenma.

— Mas o patrão tem certeza de que o samurai errante que se hospedava aqui é o mesmo de quatro anos atrás — o que procurou abrigo na casa de Okoo, a vendedora de moxa de Ibuki?

— Foi o espírito do meu falecido irmão Tenma que o trouxe aqui, com certeza. A princípio não tive a mais leve desconfiança. Mas depois de uma ou duas doses de saque e a partir de um assunto qualquer, o sujeito começou a falar espontaneamente que havia participado da batalha de Sekigahara, que à época se chamava Takezo, mas que hoje usa o nome Miyamoto Musashi. Ele não fazia a menor idéia de que falava com Tsujikaze Ryohei, bandoleiro de Yasugawa, o irmão mais novo de Tsujikaze Tenma. Ele é Takezo, o jovem que matou meu irmão com uma espada de madeira, tenho certeza. A idade e o físico coincidem.

— Quanto mais penso, mais lastimo tê-lo deixado escapar.

— Os tempos são de paz, e ultimamente não há mais lugar para bandoleiros neste mundo. Se meu irmão fosse vivo hoje, acho que estaria sem meios para se sustentar, em apuros como eu. Teria de se transformar em lavrador-ferreiro, ou até em assaltante de estradas, para sobreviver. Ainda assim, acho uma pena ele ter morrido golpeado pela espada de madeira de um soldado raso, sem eira nem beira, fugitivo do campo de Sekigahara. E cada vez que me lembro disso, sinto uma coisa ferver dentro do peito.

— Naquela ocasião, havia mais um rapazola junto com esse Takezo, não havia, patrão?

— Matahachi.

— Isso mesmo. Esse tal Matahachi fugiu naquela mesma noite em companhia de Okoo e da filha dela, Akemi. Por onde andará ele a esta hora?

— Meu irmão Tenma danou-se porque andava enrabichado por Okoo, não se esqueçam. Estejam todos alertas porque pode ser que dêem de cara com ela em algum lugar, do mesmo jeito que me encontrei com Takezo.

Lentamente, a embriaguez tomou conta de Baiken que, sonolento, cabeceava contemplando as chamas do braseiro.

— Deite-se, patrão.

— É melhor dormir de uma vez, patrão.

Solícitos, os homens o acomodaram nas cobertas até há pouco ocupadas por Musashi e ajeitaram-lhe a cabeça sobre o travesseiro, apanhado no chão da oficina. No mesmo instante Baiken esqueceu a raiva e começou a roncar.

— Vamos embora, pessoal.

— Vamos dormir!

Ali estava o remanescente dos bandos de Tujikaze Tenma, da região de Ibuki, e de Tsujikaze Ryohei, de Yasugawa, homens que, tempos atrás, andavam pelo mundo declarando-se orgulhosamente bandoleiros. Transformados agora em lavradores e caçadores por força das circunstâncias, os antigos bandoleiros nem por isso tinham perdido as presas. Instantes depois saíram da oficina do ferreiro e desapareceram em meio à névoa da madrugada, seus olhos penetrantes movendo-se inquietos no escuro.

 

Depois disso, a casa se aquietou, como se nada tivesse acontecido. Apenas o ressonar pausado dos moradores e o barulho dos ratos roendo em algum lugar faziam-se ouvir.

O bebê ainda choramingou por algum tempo, mas quando o escuro interior da casa cheirando a corpos adormecidos se aqueceu, também aquietou-se.

E então...

A um canto do aposento de terra batida, entre a oficina e a cozinha, havia uma pilha de lenha armazenada ao lado de um forno de barro. Sombreiros e capas de palha pendiam de um prego na parede rústica. E das sombras do forno, rente à parede, uma capa de palha moveu-se de súbito.

A capa pareceu criar vida e ergueu-se sozinha no ar, voltando ao prego da parede. Logo, um vulto «sfumaçado pareceu destacar-se da parede e materializou-se em pé ao lado do forno.

Era Musashi.

O jovem não se havia afastado sequer um passo da casa. Quando se esgueirara para fora das cobertas, havia pouco, ele tinha aberto a porta para de imediato cobrir-se com a capa e ocultar-se junto à pilha de lenha.

Musashi andou pela oficina em silêncio. Baiken brincava no mundo dos sonhos, e os seus possantes roncos davam a perceber que tinha problemas no nariz. A situação pareceu divertir Musashi: no escuro, seu rosto contorceu-se num meio sorriso involuntário.

Atento aos roncos, Musashi parou para refletir.

“Eu já venci Baiken”, pensou. Não tinha dúvidas quanto a isso.

Mas a crer na história que ouvira há pouco, Shishido Baiken era o nome recentemente adotado por Tsujikaze Ryohei, o bandoleiro de Yasugawa. E Baiken se dispusera a matá-lo nessa noite mavido pelo amor fraterno, pela vontade de consolar o espírito do irmão, Tenma, disposição aliás digna de louvor num bandoleiro.

Se o deixasse viver, Musashi não teria sossego: o homem o perseguiria e tentaria matá-lo na próxima oportunidade. O melhor seria eliminá-lo já, para sua própria segurança, mas... Valeria a pena?

O jovem ponderou a questão em silêncio. Instantes depois, pareceu chegar a uma resolução: dirigiu-se à parede próxima à cabeceira de Baiken e retirou um dos kusarigama do prego.

Baiken continuava dormindo.

Musashi espiou o rosto adormecido. Com a unha, extraiu a lâmina embutida no bastão. A foice se armou e formou um gancho, a brilhar azulado no escuro.

Musashi envolveu a lâmina numa folha de papel umedecida e apoiou-a suavemente na curva do pescoço do homem adormecido.

“Pronto!”

Suspenso do forro, o catavento também dormia. Se Musashi não envolvesse a lâmina, talvez encontrassem, com o raiar do dia, a cabeça deste pai rolando no chão, decepada. E então, o pequeno catavento giraria enlouquecido, imaginava Musashi.

O jovem tinha tido seus motivos para matar Tsujikaze Tenma; além de tudo, na época ele estava ainda sob os efeitos da sangrenta guerra. Mas tirar a vida de Baiken agora não fazia sentido. Não só não fazia sentido, como também o envolveria numa nova relação kármica com certa criança, que sairia pelo mundo procurando vingar o pai. A idéia o horrorizou.

E justo nessa noite a lembrança dos falecidos pais voltava com persistência à mente de Musashi. Invejou as pessoas adormecidas na casa às escuras cheirando a sono e leite, sentindo-se quase pesaroso de partir. Dirigiu-se aos moradores da casa, em pensamento:

“Obrigado por tudo. Descansem tranqüilos até o dia raiar.”

Abriu a porta, cerrou-a atrás de si com todo o cuidado e partiu para uma nova jornada. O sol ainda não havia despontado.

 

UM CAVALO SEM FREIOS

Os primeiros dias de uma jornada são sempre cheios de animação, o cansaço nem chega a incomodar.

A dupla havia chegado tarde na noite anterior às hospedarias situadas na encruzilhada do posto de inspeção, mas hoje bem cedo, enquanto uma densa névoa ainda cobria a paisagem, já tinha passado pela montanha Fudesute e se encontrava perto de Yonken-chaya. Foi só então que o sol começou a despontar no horizonte às costas dos dois viajantes.

— Que coisa mais linda!

Os dois tinham-se voltado e contemplavam, imóveis e embevecidos, a beleza solene do disco solar em ascensão.

Os raios rubros refletiam no rosto de Otsu, cujos olhos fulguravam cheios de vida. Não só ela como a fauna e a flora, toda a natureza ao redor, constituíam nesse momento orgulhosas gemas a adornar a terra.

— Não vejo ninguém subindo a estrada, Otsu-san. Hoje, somos os primeiros a passar por aqui — disse Joutaro.

— Você se orgulha de cada coisa! Que diferença faz se somos os primeiros ou os últimos a passar pela estrada?

— Claro que faz diferença!

— Quer dizer que uma estrada de 40 quilômetros passa a ter apenas 30 só porque passamos primeiro?

— Não estou falando desse tipo de diferença. Mas é sempre mais agradável caminhar na frente dos outros por uma estrada, concorda? Muito melhor do que andar chocando ancas de cavalos ou ir na rabeira dos carregadores de palanquim!

— Quanto a isso, concordo. Mas que esse seu jeito orgulhoso de falar é estranho, lá isso é!

— É que, quando ando por estradas desertas, sinto como se tudo ao redor me pertencesse e eu estivesse percorrendo meus domínios.

— Nesse caso, façamos de conta que você é um suserano e eu sou o arauto que vai à frente do seu cavalo, abrindo caminho e anunciando a passagem do senhor das terras. Aproveite e ande com bastante imponência.

Otsu apanhou um galho de bambu à beira da estrada e começou a brincadeira anunciando em tom cantado:

— Curvem-se todos! Curvem-se todos! Dêem passagem ao senhor destas terras!

Um rosto espiou, pelo alpendre da casa de chá Yonken-chaya, cujas portas Otsu acreditara ainda fechadas àquela hora matinal.

— Ai, que vergonha! — sussurrou a jovem, enrubescendo e fugindo constrangida.

— Otsu-san! Otsu-san! — gritou Joutaro indo-lhe atrás. — Você não pode abandonar seu suserano e sair correndo desse jeito. É execução na certa!

— Não quero mais brincar!

— Mas foi você quem começou!

— A culpa é sua: você sempre consegue me tirar do sério. Credo, o homem da casa de chá continua olhando para cá. Na certa pensa que sou louca.

— Vamos voltar até lá.

— Para quê?

— Estou com fome.

— Já?

— Vamos comer a metade do lanche que trouxemos para o almoço.

— Pare com isso. Nem andamos dez quilômetros ainda! Se deixo por sua conta, você é capaz de fazer cinco refeições por dia!

— Em compensação, não ando de liteira, nem a cavalo, como você.

— O que aconteceu ontem foi excepcional. Era tarde e eu queria alcançar o posto de inspeção para o pernoite. E já que reclama, não vai se repetir.

— Hoje é a minha vez de andar a cavalo!

— Que é isso? Onde se viu um garoto forte como você andando a cavalo?

— Mas eu quero experimentar. Deixe, Otsu-san, deixe!

— Que menino impossível! Só hoje, entendeu?

— Eu vi um cavalo de carga preso ao mourão da casa de chá. Vou pegá-lo.

— Nada disso! Ainda é cedo, mal começamos a jornada!

— Está querendo me levar na conversa, é?

— Mas você nem está cansado, está? É um desperdício!

— Se for esperar até me cansar, nunca chegarei a cavalgar! Sou capaz de caminhar léguas sem sentir o mínimo cansaço. Deixe-me montar agora, enquanto a estrada está vazia. Será mais seguro!

Embora tivessem começado a jornada cedo, não iriam muito longe naquele andar. Sem esperar pelo consentimento de Otsu, Joutaro disparou alegremente em direção à casa de chá, voltando atrás pelo caminho já percorrido.

 

Yonken-chaya significa literalmente “quatro casas de chá”. Mas isto não quer dizer que as quatro casas se enfileirassem uma ao lado da outra, como lojas de roupas usadas. O nome serve para designar uma extensa área próxima às encostas das montanhas Fudesute e Kutsukake, por onde se espalham quatro casas de chá para o descanso dos viajantes.

— Ó tio! — berrou Joutaro, em pé diante de uma das referidas casas de chá. — Me prepara o cavalo!

O estabelecimento tinha acabado de abrir. O dono, ainda sonolento, voltou um olhar mal-humorado para examinar o menino cheio de energia que o despertara de vez com seu berro e disse:

— Que foi? Não sabes falar baixo?

— O cavalo! Me prepara logo o cavalo! Quanto quer para me levar até Minakuchi? Se não for muito caro, posso seguir até Kusatsu montado nele!

— Garoto, cadê teus pais? Tu és filho de quem?

— Filho de gente!

— Ah, bom! Pensei que fosses cria do Trovão.

— Trovão é você, tio!

— És bem respondão, hein, garoto!

— Me aluga o cavalo!

— Pensas que aquele cavalo é para montar? Pois não é e não posso alugá-lo para vossa senhoria, entendeste?

— Não pode alugar ele para vossa senhoria, é? — arremedou-o Joutaro.

— Peste dos infernos!

O dono da casa de chá apanhou um toco em brasa do fogão, onde alguns manju cozinhavam no vapor, e o lançou em direção a Joutaro. O tição não atingiu o alvo, mas a barriga do cavalo, preso ao alpendre a alguma distância.

O animal, velho, de pestanas quase brancas e que, desde potrinho, trabalhara todos os dias sem reclamar carregando no lombo fardos de miso e trigo, havia muito tempo não se espantava tanto. Relinchando alto, pôs-se a corcovear em desespero, suas costas chegando a bater no teto do alpendre.

— Aaah, danado! — gritou o velho, acorrendo. Podia estar xingando tanto o cavalo como Joutaro. — Ôôôôôa, ôôôa!

Segurou o animal pelas rédeas e pretendia conduzi-lo para baixo de uma árvore, ao lado da casa, quando Joutaro tornou a interromper:

— Me aluga, vá, tio!

— Já disse que nãoi

— Por que não?

— Não tenho condutor.

A essa altura Otsu já se encontrava ao lado dos dois e sugeriu que, se o homem não dispunha de um condutor, pagaria a viagem adiantado e, chegando a Minakuchi, entregaria o cavalo a um condutor ou viajante que se dirigisse para os lados da casa de chá. Os modos finos de Otsu pareceram despertar a confiança do taberneiro, que lhe entregou as rédeas. Nesse caso, Otsu poderia levar o cavalo até a hospedaria de Minakuchi, ou até Kusatsu se quisesse, disse o homem.

Joutaro estalou a língua, irritado:

— Olhem só para isso, o homem mudou de atitude só porque você é bonita.

— Não fale mal do taberneiro que o cavalo pode se ofender e jogá-lo no chão no meio do caminho, Jouta-san.

— Até parece que um cavalo caduco como esse é capaz de me derrubar.

— Por falar nisso, você é capaz de montar?

— Claro! Só que ele é meio alto...

— Não adianta você se agarrar desse jeito às ancas dele!

— Me pega no colo e me põe em cima, Otsu-san!

— Quanto trabalho você me dá!

Otsu ergueu-o pelas axilas e o pôs sobre a sela. Joutaro sentiu-se imediatamente com vontade de seguir caminho olhando o mundo do alto e pediu:

— Vamos, faça-o andar!

— Você me parece prestes a cair...

— Não tem perigo!

— Nesse caso, aqui vamos nós.

Otsu tomou as rédeas, voltou-se e se despediu do taberneiro, pondo-se a caminho.

Mal dera cem passos quando alguém, invisível na espessa névoa matutina, gritou às suas costas:

— Eeeeei!

Ao mesmo tempo, passos apressados aproximaram-se rapidamente.

 

— Quem será?

— É conosco?

Parados, voltaram-se. No meio da densa névoa branca, surgia um vulto humano cujos contornos gradativamente se definiam. Logo, a distância se reduziu possibilitando-lhes perceber formas, cores, e até a aparência do indivíduo.

Fosse noite, os dois talvez tivessem pensado em fugir antes de ser alcançados, pois o homem tinha um olhar agressivo, carregava uma espada rústica — cujo cabo sobressaía quase perpendicular à cintura — e à frente, introduzido no obi, um bastão com corrente.

O estranho chegou como um vendaval trazendo consigo uma atmosfera de violência e parou abrupto ao lado de Otsu. Ato contínuo, arrebatou as rédeas de suas mãos e ordenou, voltando-se para Joutaro:

— Desce!

O velho cavalo assustou-se outra vez e deu alguns passos para trás batendo os cascos. Joutaro, desequilibrado, agarrou-se às crinas e gritou:

— Pare com isso! Tá pensando o quê? Esse cavalo é meu, eu o aluguei.

— Cala a boca! — esbravejou o homem sem prestar a mínima atenção ao que o menino dizia. — Mulher! — disse então, voltando-se para Otsu.

— Que é?

— Sou Shishido Baiken e moro na vila Ujii, pouco além do posto de inspeção. Por motivos que não vêm ao caso, estou no encalço de um certo Miyamoto Musashi, que deve ter passado bem cedo por esta estrada, fugindo de mim. A esta altura, ele já deve ter deixado para trás as pousadas de Minaguchi há muito tempo. De modo que preciso deitar a mão nele de qualquer jeito em Yasugawa, na entrada de Goshu, porque depois desse ponto ele me escapa. Me dê o cavalo.

Falava tão rápido que chegava a ofegar. A manhã estava gelada a ponto de transformar a névoa retida nas copas das árvores em flores de gelo. Apesar disso, gotas de suor brilhavam no pescoço de Baiken, tornando sua pele semelhante à de um réptil, com suas artérias intumescidas.

Otsu empalideceu a olhos vistos, como se a terra lhe tivesse sugado todo o sangue, e perdeu a fala: os lábios arroxeados tremiam, tentando fazer perguntas ao homem para compreender melhor o que acabara de ouvir, mas nenhum som deles saía.

— M... Musashi? — gaguejou Joutaro, ainda sobre o cavalo. Agarrado à crina, seus braços e pernas também tremiam.

Baiken, desesperado por seguir viagem o mais rápido possível, não chegou a perceber o inusitado espanto dos dois e gritou:

— Vamos lá, moleque! Desce, desce! Anda logo ou te parto a cara! Ameaçou chicoteá-lo com a ponta da rédea, mas Joutaro sacudiu a

cabeça com força e gritou:

— Não desço!

— Quê?

— O cavalo é meu. Desista de querer alcançar alguém com ele!

— Moleque atrevido! Estou tentando ser razoável porque vocês são afinal apenas uma mulher e uma criança, e recebo malcriações em troca!

— Otsu-san! — gritou Joutaro, fitando-a por cima da cabeça de Baiken. — Não podemos emprestar o cavalo, podemos? Não devemos, não é verdade?

Otsu tinha vontade de aplaudir Joutaro por suas corajosas palavras. O cavalo não podia seguir viagem, muito menos o homem, com toda a certeza!

— Isso mesmo! — respondeu. — Talvez o senhor esteja com pressa, mas nós também estamos. Espere mais um pouco e não faltarão cavalos e liteiras cruzando as montanhas. Como acabou de dizer o menino, seu pedido é absurdo e não vamos atendê-lo!

— Eu não desço. E não entrego o cavalo, nem morto! Unânimes, os dois rejeitaram com firmeza a exigência de Baiken.

 

Baiken estranhou um pouco a firme recusa, mas a seu ver a situação inteira era risível, não merecia que perdesse tempo com ela.

— Quer dizer que não vão me ceder o cavalo?

—13 óbvio! — disse Joutaro, seguro como um adulto.

— Vai pro inferno, então! — explodiu Baiken, esquecendo-se, até certo ponto compreensivelmente, que lidava com uma criança.

No instante seguinte saltou, tentando alcançar e jogar ao chão o menino, agarrado como uma pulga à crina da montaria. A mão de Baiken fechou-se sobre a perna apoiada à barriga do cavalo.

Joutaro não se lembrou, pelo visto, que esse era o momento exato de arrancar a espada da cintura. Ao se ver agarrado pelo tornozelo por um adversário indiscutivelmente mais forte do que ele, ficou frenético:

— Cão danado! — disse, lançando sucessivas cusparadas que atingiram o rosto de Baiken.

Desastres costumam chegar sem se anunciar na vida das pessoas.

Dois jovens que havia pouco tinham contemplado o nascer do sol e sentido a alegria de viver, viam-se agora envolvidos num perigoso conflito. Otsu não queria, a essa altura, entrar em luta com um desconhecido e sair ferida, muito menos morrer. O medo ressecou-lhe a boca e trouxe um gosto amargo.

No entanto, pedir desculpas e entregar o cavalo estava fora de cogitação, pois seria o mesmo que lançar a fúria assassina deste sinistro homem no rastro de Musashi, o qual, segundo acabara de ouvir, tinha passado por ali poucas horas atrás. Musashi corria grande perigo, disso a jovem tinha certeza. Se lograsse atrasar Baiken por algumas horas, estaria dando ao jovem tempo para escapar.

Otsu apertou com firmeza os lábios rubros e decidiu: jamais emprestaria ao homem as velozes patas do cavalo, mesmo que a distância entre ela e Musashi instantaneamente aumentasse por causa dessa decisão.

— Pare com isso! — gritou Otsu empurrando com força o peito do homem, surpresa com a própria coragem, ou temeridade. Baiken, que ainda limpava o cuspe do rosto, espantou-se um pouco com mais esta demonstração de força dos seres que julgara frágeis. Como se não bastasse, a mão de Otsu, que acabara de empurrar Baiken, agarrou na fração de segundo seguinte a empunhadura da espada rústica que lhe sobressaía do obi, mostrando uma vez mais que a coragem de uma mulher é muito maior do que imagina o homem.

— Vagabunda! — vociferou Baiken, pensando em segurar o pulso de Otsu, mas na realidade fechando a mão sobre a espada que já começava a deixar a bainha, puxada pela mão da jovem. No instante em que a mão direita de Baiken tocou a lâmina, seus dedos mínimo e anular pareceram criar vida, saltaram e foram ao chão, ensangüentados.

Com um grito de dor Baiken pulou para trás involuntariamente, segurando os dedos restantes da mão direita. A reação fez com que a espada, cujo cabo permanecia na mão de Otsu, acabasse desembainhada tão seguramente quanto se ele próprio o fizesse. Um corisco prateado partiu das mãos de Otsu, correu pelo chão e se escondeu às costas dela.

Baiken, o mestre em artes marciais, acabava de cometer um erro ainda maior que o da noite anterior: menosprezara a capacidade de seus adversários, levado pela impressão de que não passavam de uma frágil mulher e um inofensivo menino, e se equivocara.

No momento em que, maldizendo a própria inépcia, tentava reaprumar-se, a espada — agora nas mãos de alguém que tinha esquecido o sentido da palavra medo — veio em sua direção num golpe lateral. Mas a arma, de lâmina grossa e quase um metro de comprimento, era pesada, e a maioria dos homens consideraria difícil manejá-la. De modo que, quando Baiken se esquivou, Otsu foi arrastada pelo peso da espada, e acabou cambaleando.

A jovem sentiu um impacto no braço, como se tivesse atingido o tronco de uma árvore e, no mesmo instante, viu uma nuvem rubra esguichando na sua direção. Uma leve tontura a invadiu. A espada tinha atingido a anca do cavalo, a cuja crina Joutaro continuava agarrado.

 

O cavalo tinha passado por muitos sustos desde cedo e estava agitado. O corte era superficial, mas o relincho, quase um berro de agonia, foi espantoso. Com o ferimento vertendo sangue, o animal pôs-se a debater.

 Baiken berrou algo indistinto e estava prestes a agarrar o punho de Otsu para arrancar de suas mãos a espada, quando as patas traseiras do cavalo, que se agitava louco de medo, atingiram os dois. O animal empinou, relinchou alto mais uma vez, narinas frementes, e disparou pela estrada como uma flecha.

— Ôôôôa! Ôôôa! — gritou Baiken, investindo contra o rastro de areia e pó do cavalo em fuga, quase tombando para a frente na pressa, mas sem conseguir alcançá-lo.

Foi então que voltou os aterrorizantes olhos injetados de sangue na direção de Otsu, e... não a achou.

— Quê?!

Àquela altura, as veias azuladas nas têmporas de Baiken tinham engrossado ainda mais. Procurou ao redor e encontrou a espada aos pés de um pinheiro, na beira da estrada. Apanhou-a de um salto, espiou por cima do barranco raso, logo adiante, e avistou o telhado de uma casa de lavradores bem aos seus pés.

Tudo indicava que Otsu, atingida pelas patas do cavalo, havia rolado pelo barranco. Nesse ponto, Baiken já havia começado a achar que devia existir algum tipo de vínculo entre a jovem e Musashi. O ferreiro tinha pressa em prosseguir viagem, mas a idéia de deixar Otsu escapar o exasperava.

Baiken desceu correndo o barranco.

— Onde é que ela se meteu? — gemeu ele, rodeando a casa dos camponeses em largas passadas. — Onde se escondeu?

Apenas um velho lavrador corcunda, rígido de pavor, observava, semi-oculto por uma roca, os modos loucos de Baiken espreitando debaixo do alpendre, abrindo portas de celeiros e espiando o interior.

— Lá vai ela! — gritou Baiken, localizando-a afinal.

No brejo de ciprestes, no fundo do vale, a neve ainda se acumulava. Otsu corria como um faisão pela íngreme encosta coberta de ciprestes rumo ao fundo do vale.

— Agora te achei! — berrou Baiken de cima, fazendo Otsu voltar-se involuntariamente. Seu vulto aproximou-se, mais rápido que os torrões de terra, que se soltavam à sua passagem e rolavam barranco abaixo. A mão direita empunhava a espada que acabara de apanhar do chão, mas Baiken parecia não ter a intenção de usá-la. Na certa imaginava que se a jovem era a companheira de Musashi, poderia usá-la como isca ou para descobrir seu paradeiro por intermédio dela.

— Vagabunda!

Baiken estendeu a mão esquerda e as pontas dos seus dedos tocaram os cabelos de Otsu.

A jovem encolheu-se e abraçou o tronco de uma árvore. Ato contínuo, perdeu o pé, e se viu balançando como um pêndulo, rente ao barranco. Torrões de terra e pedregulhos caíram sobre sua cabeça e escorreram pelas mangas para dentro da roupa. E durante o tempo todo os olhos arregalados de Baiken e sua espada brilhavam sobre ela.

— Idiota! Que pretende? Fugir? Daí para baixo é um precipício, direto para dentro do rio no fundo do vale!

Otsu voltou o olhar para os pés e viu, algumas dezenas de metros abaixo, a faixa verde do rio abrindo caminho pela neve do fundo da ravina. A vista, longe de apavorá-la, prometia salvação. Sentiu que era capaz de soltar os braços e lançar-se no espaço a qualquer momento.

Mal pressentiu a morte, e mais rápido que o medo dela, Musashi lhe veio à mente. Na cabeça de cabelos eriçados, a imagem do jovem surgiu, clara como a lua entre nuvens de tormenta, tão nítida quanto lhe permitiam memória e imaginação.

— Patrão! Patrãão!

Ecos da montanha repetiram nesse momento uma voz distante, desviando a atenção de Baiken.

 

Rostos surgiram no topo do barranco. Eram dois ou três homens. — Patrão! — gritava um deles. — Ainda por aqui? Vá em frente sem perda de tempo. Interrogamos o dono da casa de chá e acabamos de saber que um samurai passou por lá esta madrugada, mandou preparar um lanche e se afastou correndo em direção ao vale Koga. Sabia disso?

— Em direção ao vale Koga?

— Sim. Mas tanto faz que tenha ido pelo vale Koga, ou transposto o monte Tsuchiyama para sair em Minaguchi: os caminhos acabam se juntando nas pousadas de Ishibe. Se a gente chegar primeiro em Yasugawa e armar uma cilada, o sujeito cairá em nossas mãos com certeza.

Baiken ouvia as vozes distantes, mas o olhar feroz continuava fixo em Otsu, amarrando-a.

— Quero-os todos aqui embaixo! Desçam! — ordenou Baiken.

— Descer até aí?

— Rápido!

— Mas se continuarmos nessa lengalenga, Musashi vai acabar passando por Yasugawa e...

— Calem a boca e desçam.

— Certo, certo!

Os homens eram os mesmos que na noite anterior haviam se esforçado em vão para alcançar Musashi e, pelo jeito, estavam habituados a andar pelas montanhas, pois desceram a íngreme escarpa em linha reta, correndo como um javali. Ao depararem com Otsu, entreolharam-se admirados.

Baiken inteirou os companheiros dos acontecimentos em rápidas palavras e confiou-lhes Otsu, ordenando-lhes que a trouxessem mais tarde até Yasugawa. Os asseclas concordaram e amarraram a jovem cabisbaixa, lançando olhares furtivos ao rosto assustadoramente pálido, com pena de apertar o laço.

— Entenderam as instruções? E não se atrasem!

Com esta última recomendação, Baiken correu obliquamente pela encosta da montanha, ágil como um macaco e logrou alcançar o fundo do vale Koga e a beira do rio, de onde se voltou e olhou para cima.

O minúsculo vulto parado à distância levou a mão à boca e gritou:

— Encontro-os em Yasugawa. Vou cortar caminho. Quanto a vocês, sigam pela estrada principal, redobrando a atenção. Entendeeeram?

De cima do barranco, veio o eco das vozes dos homens:

— Entendeeemos!

Baiken se afastou então pelo vale pontilhado de neve, saltando de rocha em rocha como um galo silvestre.

O cavalo estava velho e alquebrado, mas em pânico era ainda capaz de criar problemas para o cavaleiro. Mormente sendo o cavaleiro o despreparado Joutaro.

Com o corte na anca aberto e sangrando, a velha montaria parecia estar sentindo o rabo em chamas e disparou pela estrada, venceu a encosta Happyakuya do monte Suzuka num piscar de olhos, transpôs o morro Kani, embarafustou-se pelo posto de descanso dos liteireios no morro Tsuchiyama, e chispou pela vila Matsuo e pela base da montanha Nunobiki, sem jamais parar.

Digno de admiração era o fato de Joutaro ainda estar sobre a sela.

— Cuidado-cuidado-cuidado!

De olhos fechados e agarrado agora ao pescoço do cavalo, uma vez que as crinas Já não lhe davam apoio suficiente, berrava ele sem parar como se repetisse uma fórmula mágica capaz de frear o cavalo.

Quando as ancas do cavalo saltavam inopinadamente, o traseiro de Joutaro dançava no ar criando uma situação perigosa que, muito mais que o próprio cavaleiro, afligiu aldeões e liteireiros a observar boquiabertos sua passagem.

Se nem montar soubera, desmontar não saberia, e muito menos parar o animal.

— Cuidado! Cuidado-cuidaaado!

Pobre Joutaro, que há tempos vinha atormentando Otsu, insistindo em cavalgar ao menos uma vez na vida para correr como o vento! O desejo tão longamente acalentado tinha sido com certeza atendido, mas a voz pouco a pouco estava tornando-se chorosa: a fórmula mágica freneticamente repetida não queria surtir efeito.

 

Aos poucos, viajantes haviam começado a surgir na estrada, mas ninguém queria deter um cavalo desenfreado e correr o risco de se ferir, metendo-se além do mais em assunto que não lhe dizia respeito.

— Que é isso, gente? — dizia um, acompanhando-os com o olhar.

— Maluco! — xingava outro, desviando-se para a beira da estrada. Num piscar de olhos cavalo e cavaleiro passaram pela vila Mikumo e pela parada de Natsumi.

Fosse aquele o lendário macaco Son Goku cavalgando sua nuvem mágica[42], teria posto a mão em pala sobre os olhos e, de sua privilegiada posição, apreciado a paisagem matinal dos vales e serras de Iga e Koga, louvado a esplêndida vista das montanhas de Nunobiki e do rio Yokota, assim como a do lago Biwa-ko que surgia ao longe, semelhante a um espelho incrustado na terra ou a um floco de nuvem roxa pousado no solo. Joutaro, porém, embora cavalgasse um cavalo de rapidez talvez comparável à da nuvem mágica, não estava em condições de lançar sequer uma olhadela para os lados.

Seus berros “Cuidado-cuidado-cuidado!” mudaram para “Segura o cavalo! Segura o cavalo! Segura o cavalo!” e tornaram a mudar para “Socooorro!” ao atingir o topo da íngreme ladeira Koji-zaka.

O menino saltava como uma bola sobre o dorso do animal, que agora se precipitava de cabeça ladeira abaixo, fazendo antever que desta vez lançaria sua carga ao chão.

Mas quase no final da ladeira, o galho de um gigantesco carvalho à beira da estrada atravessava o caminho como se quisesse obstruí-lo de propósito. Quando Joutaro sentiu as folhas atingindo-lhe o rosto, acreditou encontrar a mão salvadora dos céus, a resposta às suas preces, e agarrou-se instantaneamente ao galho como um sapo.

Enfim livre da carga, o cavalo desembestou ladeira abaixo e Joutaro, abraçado ao galho, viu-se repentinamente balançando nas alturas.

A altura nem era tanta, pois do galho ao chão devia haver pouco menos de três metros. Se largasse a árvore de uma vez, Joutaro voltaria ao solo sem maiores problemas. Mas para provar que um ser humano não é um macaco, ali estava o menino, aferrando-se com unhas e dentes ao galho, ora abarcando-o com as pernas, ora mudando de posição as mãos quase dormentes, frenético como se estivesse dependurado num penhasco e correndo perigo de vida. O choque lhe afetara o raciocínio, normalmente tão vivo, fazendo-o debater-se de um jeito cômico e ao mesmo tempo comovente.

Logo, um sonoro estalo anunciou que o galho se partia. “Xiiü”, pensou o menino, mas no minuto seguinte ele se viu sentado no chão, sem dano algum. Joutaro olhou ao redor, apatetado.

— Puxa!

Não viu o cavalo. Mesmo que o visse, não tornaria a montá-lo por nada neste mundo.

E estatelado deixou-se ficar por instantes, mas logo saltou em pé, como que impelido por uma mola:

— Otsu-saan! — gritou ele para o topo da ladeira

De súbito, disparou pelo caminho anteriormente percorrido. Suas feições estavam tensas, e desta vez o menino empunhava com firmeza a espada de madeira.

— Que lhe poderá ter acontecido? Otsu-saan!

Ao alcançar o topo da ladeira, cruzou com um homem de rosto oculto num sombreiro. Usava um quimono escuro e um hakama de couro, sem sobretudo. À cintura, levava um par de espadas.

 

— Menino! Ei, menino! — disse o homem, erguendo a mão ao passar por Joutaro, analisando o pequeno com atenção, da cabeça aos pés. — Que houve?

Joutaro voltou alguns passos e perguntou:

— O senhor veio lá de trás, tio?

— Isso mesmo.

— Não viu por acaso uma moça bonita, de uns 20 anos?

— Vi, sim.

— Onde?

— Em Natsumi, a curta distância daqui, um grupo de bandoleiros a trazia amarrada à ponta de uma corda. Estranhei, mas como não era de minha conta, passei por eles sem nada lhes perguntar. Acho que os homens eram asseclas de Tsujikaze Ryohei, o bandoleiro que se fixou no vale Suzuka.

— São eles! — disse Joutaro.

Ao ver que o menino ia sair correndo de novo, o homem o deteve:

— Espere! A moça está com você?

— Está! Ela se chama Otsu-san.

— Se você não souber lidar com a situação, esses homens são capazes de matá-lo. Conte-me toda a história enquanto aguardamos a passagem deles, já que serão obrigados a vir por este caminho. Talvez eu tenha uma boa idéia.

Joutaro confiou de imediato no desconhecido e contou-lhe com detalhes tudo o que lhes havia acontecido nessa manhã. O homem balançou diversas vezes a cabeça coberta pelo sombreiro e depois disse:

— Ah, agora entendi. Mas por mais que se esforcem, vocês dois não são páreo para os asseclas de Tsujikaze Ryohei, que agora diz chamar-se Baiken. Muito bem, eu recuperarei essa jovem Otsu-san dás mãos do bando.

— E eles a entregarão?

— De graça talvez não, mas eu cá tenho algumas idéias. Esconda-se no meio desses arbustos e fique quieto.

Mal Joutaro se ocultou, o homem prosseguiu a passos largos para o fundo do vale. Inquieto, Joutaro pôs a cabeça para fora da moita e espiou: “E se o homem disse tudo aquilo apenas para me consolar e foi-se embora?”, pensou ele.

De repente, ouviu vozes no topo da ladeira e escondeu-se depressa outra vez: a voz era de Otsu. Com as mãos atadas às costas e cercada pelos três bandoleiros, a jovem veio andando e passou momentos depois na frente da moita onde se escondia Joutaro.

— O que tanto procura? Pare com isso e ande ligeiro!

— Ande logo! — gritou outro, empurrando-lhe o ombro. Otsu cambaleou.

— Estou procurando o menino que estava comigo. Que lhe teria acontecido? Jouta-saan!

— Cale a boca!

Havia sangue no pé branco da jovem. Joutaro pensou em saltar da moita, gritando: “Estou aqui!”. Mas no mesmo instante, viu surgir o samurai do quimono escuro. O homem tinha se livrado do sombreiro, e vinha agora subindo o morro quase às carreiras com expressão preocupada no rosto moreno. Aparentava 25 ou 26 anos, e murmurava consigo mesmo, assustado, sem sequer olhar para os lados:

— Céus! Que confusão!

Os três bandoleiros, que tinham entreouvido suas palavras, pararam no meio da ladeira e voltaram-se para acompanhar com os olhos o homem que acabara de cruzar por eles com um brusco “Dêem-me licença!”. Sem conseguir conter-se, um deles o interpelou:

— Ei, você não é o sobrinho dos Watanabe? De que confusão está falando?

 

Deduzia-se dessas palavras que o homem do quimono escuro era sobrinho de Watanabe Hanzou, o representante de uma tradicional família ninja, bastante respeitada nas cercanias do vale Iga e do vilarejo Kouga.

— Não sabem ainda? — perguntou o sobrinho dos Watanabe.

— De quê? — indagaram de volta os três bandoleiros, aproximando-se. O sobrinho dos Watanabe disse, apontando à frente:

— Um certo Miyamoto Musashi está lá embaixo, de espada em punho bloqueando a estrada. O homem preparou-se dos pés à cabeça para a luta, e está examinando com olhar assustador todos os viajantes que passam pelo local, um por um.

— Que disse? Musashi?

— Quando fui passar, o homem aproximou-se de mim agressivamente e me perguntou o nome. Respondi-lhe que sou Tsuge San-no-jou, sobrinho do ninja Watanabe Hanzou, do bando Iga. No mesmo instante ele se desculpou e disse-me calmamente que se não sou assecla de Tsujikaze Ryohei, do vale Suzuka, podia passar.

— E?

— Perguntei-lhe então o que estava acontecendo, e ele me respondeu que ouvira rumores na estrada dando conta de que um certo bandoleiro de nome Tsujikaze Ryohei — hoje vivendo sob o pseudônimo Baiken — planejava assassiná-lo com a ajuda de alguns asseclas. Se esse era o caso, continuou o sujeito, em vez de se deixar apanhar facilmente na cilada que lhe haviam preparado, preferia estabelecer sua base de ação naquele lugar e lutar até o fim.

— Isso é verdade, San-no-jou?

— E por que haveria eu de mentir? De mais a mais, de que jeito haveria eu de conhecer esse nome, Miyamoto Musashi?

Nos rostos dos três homens surgiram nítidos sinais de apreensão. Que faremos?, pareciam perguntar-se, trocando olhares de esguelha.

— Prossigam com cuidado — recomendou San-no-jou, dando mostras de querer afastar-se, quando um dos homens o reteve, ansioso:

— Sobrinho dos Watanabe!

— O que foi?

— Estamos numa enrascada, homem! Até o patrão comentou que esse homem era absurdamente forte.

— Ele é muito competente, com certeza. Quando se aproximou de mim lá embaixo, empunhando numa das mãos a espada desembainhada, até eu, que nada tenho a ver com o caso, me senti mal.

— Que acha que devemos fazer? Porque, na verdade, estávamos arrastando esta mulher para Yasugawa a mando do patrão.

— Eu não tenho nada a ver com isso.

— Não banque o indiferente e dê-nos uma mãozinha.

— Nem pensar! Se meu tio vier a saber que os ajudei a fazer qualquer tipo de serviço, levo uma reprimenda colossal, com certeza! Mas conselhos posso até lhes dar — se quiserem ouvir.

— Claro que queremos! Vão ajudar muito!

— Em primeiro lugar, livrem-se dessa mulher que levam na ponta da corda: soltem-na no meio do mato ou melhor, amarrem-na provisoriamente no tronco de uma árvore.

— Sei. E depois?

— Vocês não podem passar por esta ladeira. Vão ter de andar um pouco mais, atravessar o vale por caminhos secundários e levar quanto antes a notícia a Yasugawa. Passem à frente do tal Musashi, fechem o cerco à distância pelo outro lado, e só depois caiam em cima dele.

— Ah, entendi.

— Acho melhor agirem com prudência, pois o sujeito está pronto para tudo. Sinto que poderá haver muitas mortes, mas não gostaria de ver isso acontecer.

Os três homens aprovaram o plano de imediato:

— Isso mesmo! Vamos seguir seus conselhos.

Depois, arrastaram Otsu para dentro das moitas, amarraram-na ao tronco de uma árvore e começaram a se afastar, mas um deles logo retornou para amordaçá-la, dizendo:

— Assim está melhor.

— Ótimo!

Afastaram-se a seguir pela mata e desapareceram.

Joutaro, que estivera imóvel acocorado no meio das folhas e dos arbustos secos, espichou então o pescoço e olhou em torno com cuidado, imaginando se já podia sair.

 

Não havia ninguém à vista, nem viajantes, nem o sobrinho dos Wata-nabe, San-no-jou.

— Otsu-san! — gritou Joutaro, pulando e chegando perto dela por dentro da mata. Desatou os nós e arrastou-a pela mão para o meio da estrada.

— Vamos fugir!

— Como é que você veio parar aqui, Jouta-san?

— Não importa! Temos de fugir! É agora ou nunca!

— Espere, espere um pouco!

Otsu parou para ajeitar os cabelos desalinhados, a gola do quimono e a faixa sobre o obi, o que impacientou Joutaro:

— Isto não é hora de perder tempo se arrumando! Deixe para se pentear depois, Otsu-san!

— Mas o homem que passou há pouco disse que Musashi-sama está lá embaixo, na base da ladeira.

— E é para ele que você está se arrumando?

— Não, não! — replicou Otsu, tentando justificar-se com uma seriedade quase cômica. — Mas é que encontrando Musashi-sama, nada mais teremos a temer. E como acho que nossas dificuldades acabaram e estou me sentindo bem mais tranqüila...

— Mas será que Musashi-sama está mesmo lá embaixo?

— Por falar nisso, aonde foi o homem que conversava com os três bandoleiros?

— Não o vejo em lugar algum! — constatou Joutaro, olhando em torno. — Que sujeito mais estranho!

Mas uma coisa era certa: Tsuge San-no-jou os havia salvado das garras da morte.

E Otsu já começava a achar que nunca seria capaz de lhe agradecer o suficiente se além de tudo lograsse reencontrar Musashi na base do morro.

— Vamos, vamos logo! — disse a jovem.

— Ué! Já acabou de se arrumar?

— Está zombando de mim, Jouta-san?!

— Você está com um ar tão feliz, que não resisti.

— Olhe só quem fala! Você também está!

— Claro que estou! Só que eu não escondo minha alegria, como você. Sou até capaz de gritar. Quer ver? Estou feliz, estou feliz! — Joutaro agitou braços e pernas. — Mas... E se meu mestre não estiver lá embaixo? Otsu-san, vou correndo na frente para verificar, está bem?

Dito isto, disparou ladeira abaixo. Otsu o seguiu sentindo que o coração corria direto para a base do morro, mais depressa ainda que o menino; suas pernas, porém, arrastavam-se morosamente.

“Estou toda desarrumada!”, lamentou-se Otsu, fitando o pé ensangüentado e as mangas sujas do contato com a terra e o mato.

E na manga havia uma folha seca. A jovem a apanhou e andava brincando com ela quando percebeu que um inseto nojento saíra de um casulo branco e rastejava agora pelo dorso da mão.

Otsu tinha-se criado nas montanhas mas não gostava de bichos. Horrorizada, agitou a mão freneticamente.

— Ande logo! Que moleza, Otsu-san! Venha de uma vez! — gritou Joutaro vivamente da base da colina. O tom era alegre, e sugeria que o menino tinha enfim encontrado Musashi.

— Finalmente, finalmente! — pensou Otsu.

Sentiu-se consolada de toda a miséria, e orgulhosa de si mesma ante os deuses por ter conseguido realizar esse seu mais caro desejo. O coração palpitava de alegria.

Mas Otsu sabia muito bem que essa alegria era só dela, um prelúdio tocado apenas para os seus ouvidos. Quem lhe garantia que Musashi corresponderia ao seu amor? O coração já lhe começava a doer num misto de felicidade e agonia.

 

A terra continuava congelada nas áreas sombrias à beira da estrada, mas no fim da ladeira havia uma casa de chá num trecho de terra tão ensolarado que moscas voejavam em torno apesar do intenso frio desses dias de inverno. Voltada para os arrozais da base da montanha, a casa comercializava protetores de pata para bois, feitos de palha, e confeitos baratos. E ali, parado na frente da loja, estava Joutaro esperando por Otsu.

— Onde está ele? — perguntou a jovem, seu olhar percorrendo com cuidado a pequena multidão barulhenta à entrada da casa de chá na parada dos liteireiros.

— Não o encontrei — disse Joutaro, com ligeiro desapontamento, acrescentando:

— O que será que aconteceu?

— Como? — exclamou Otsu, incrédula. — Não pode ser!

— Mas ele não está em lugar algum! Perguntei na casa de chá, mas ninguém viu um samurai que correspondesse à descrição. Estou achando que houve um mal-entendido — disse o garoto, sem se mostrar especialmente frustrado.

Otsu sabia que a culpa era dela por ter-se alegrado antes da hora, mas achou revoltante a rapidez com que Joutaro se dispunha a liquidar a questão.

“Que menino!”, pensou Otsu, furiosa com a quase indiferença do garoto.

— Você o procurou ali adiante?

— Procurei.

— E atrás desse marco?

— Não está.

— Atrás da casa de chá?

— Não está, já disse! — replicou Joutaro, ligeiramente aborrecido com a insistência.

Otsu voltou o rosto para o lado num brusco movimento.

— Está chorando, Otsu-san?

— Que lhe importa?

— Não consigo entender você às vezes, sabia? Sempre a achei uma moça muito inteligente, mas em alguns aspectos você parece criança! Pense bem: para começar, aquela notícia não tinha fundamento algum. Mas você acreditou piamente nas palavras do homem, ficou feliz e agora começa a choramingar porque não encontrou Musashi-sama. Você não regula bem! — disse Joutaro, começando a rir abertamente, sem consideração alguma.

Otsu sentiu vontade de se sentar ali mesmo, no meio da estrada. A luz do mundo inteiro tinha-se ido repentinamente e o habitual pesar — não, muito mais que isso, uma decepção profunda, jamais experimentada — invadiu-lhe o coração. Os dentes cariados na boca escancarada em riso lhe pareceram odiosos, irritantes. Por que tinha de andar com esse pestinha? Ai!, se pudesse, abandoná-lo-ia por aí e seguiria chorando sozinha pela estrada!, considerou Otsu.

Pensando bem, apesar de estarem os dois andando em busca de Musashi, as reações eram diferentes porque Joutaro procurava apenas seu mestre querido, enquanto Otsu tentava encontrar o homem da sua vida. Além disso, episódios desse tipo não costumavam abater Joutaro: o menino logo recuperava o bom humor porque tinha, no íntimo, a certeza de um dia reencontrar seu mestre. Mas Otsu, ao contrário, não conseguia ser tão otimista e perdia o ânimo durante dias, chegando até a imaginar para si um futuro dos mais sombrios.

“Pode ser que eu esteja destinada a nunca mais vê-lo!”, pensava ela.

Quem ama quer ser correspondido, mas também anseia por privacidade. Otsu, principalmente, órfã desde pequena e afeita à solidão, ressentia-se da presença de estranhos com muito mais intensidade do que a maioria das pessoas.

Ligeiramente amuada e fingindo-se ofendida, a jovem pôs-se a caminho em silêncio quando uma voz a chamou às suas costas:

— Otsu-san!

Não era Joutaro. A jovem voltou-se e viu um homem sair de trás do marco de pedra e se aproximar abrindo caminho na relva seca. As bainhas das espadas longa e curta brilhavam, úmidas de orvalho.

 

Era Tsuge San-no-jou.

Otsu e Joutaro tinham pensado que San-no-jou prosseguira ladeira acima havia pouco, mas eis que o homem reaparecia num lugar inesperado. O comportamento era estranho.

Além disso, não era correto chamá-la “Otsu-san”, pensou a jovem: demonstrava uma intimidade que não tinham. Joutaro reagiu com agressividade:

— Tio, o senhor mentiu para nós.

— Como assim?

— O senhor disse que Musashi-sama estava aqui, com um espada na mão! Onde está ele? O senhor mentiu!

— Idiota! — ralhou San-no-jou. — Não percebe que graças à mentira sua amiga conseguiu escapar daqueles três? Você não tem nada a cobrar de mim. Muito pelo contrário, acho que me deve agradecimentos.

— Quer dizer que a lorota foi para engabelar os três homens?

— É óbvio!

— Agora entendi! Está vendo, Otsu-san? Era lorota mesmo! — disse Joutaro

Otsu foi obrigada a reconhecer que fizera um triste papel. Irritar-se com Joutaro era uma coisa, mas chamar San-no-jou de mentiroso era outra, totalmente desprovida de sentido. Com uma delicada mesura, a jovem agradeceu San-no-jou por sua providencial intervenção.

Este, enfim satisfeito, disse:

— Os bandoleiros de Yasugawa andam bem menos ativos nos últimos tempos. Ainda assim, acho que vocês não conseguirão escapar ilesos destas montanhas com esse bando nos seus calcanhares. Quanto a esse Mfyamoto Musashi, por quem tanto se preocupam, não vai cair na armadilha dos bandidos se for tão bom guerreiro quanto afirma o menino.

— Sabe se existem outras estradas além desta que levem à de Ko-shu?— perguntou Otsu.

— Claro que existem. — San-no-jou ergueu o olhar e contemplou o límpido perfil das montanhas cobertas de neve. — Se chegar ao vale de Iga, tem a estrada que vem de Ueno; se alcançar o vale Ano, tem a estrada que vem de Kuwana e Yokkaichi; além delas, devem existir ainda mais alguns atalhos e picadas que cortam florestas. Acho que esse tal Miyamoto Musashi deve ter tomado um desses caminhos.

— Espero que sim, sinceramente.

— Maior perigo correm vocês dois. De nada valerá tê-los salvo das garras desse bando de cães selvagens se continuarem a andar calmamente por esta estrada, pois acabarão chegando a Yasugawa e às mãos dos bandidos outra vez. Pode ser que achem o caminho um pouco íngreme, mas será melhor me acompanharem: vou levá-los por um atalho que ninguém conhece.

San-no-jou os conduziu por uma picada que cortava as montanhas acima da aldeia de Koga e levava ao estreito de Outsu pelo passo Makado, local onde parou e explicou minuciosamente o caminho a seguir, acrescentando:

— Daqui para frente não têm mais nada a temer. Tratem de chegar cedo às pousadas e depois prossigam com cuidado.

Otsu agradeceu novamente e ia se afastar quando San-no-jou a deteve:

— Otsu-san, estamo-nos despedindo, percebeu? — Fixou um olhar intencional no rosto da jovem e acrescentou, quase com raiva: — Durante todo o percurso esperei que me perguntasse, mas acabei não tendo esse prazer.

— Perguntar o quê?

— Meu nome.

— Mas eu o ouvi, na ladeira Koji-zaka.

— E lembra-se dele?

— O senhor é Tsuge San-no-jou-sama, sobrinho de Watanabe Han-zou-sama.

— Que bom! Longe de mim querer me impor, mas você não vai se esquecer, vai?

— Nunca me esquecerei do quanto lhe devo.

— Não é nada disso. Espero que não se esqueça de que ainda sou solteiro. Se meu tio não fosse tão implicante, eu a levaria à minha casa, mas... Bem, deixe isso para lá. Na vila, existe uma pequena hospedaria, cujo dono me conhece. Dê-lhe o meu nome e hospede-se com ele. Adeus!

 

Otsu sabia que devia muito a San-no-jou, mas quanto mais gentil se mostrava o homem, mais ele lhe repugnava.

Desde o início, a jovem tivera a impressão de que San-no-jou era talso porque mentia com muita facilidade, o que a impediu de agradecer-lhe sinceramente e a fez sentir certo alívio no momento da despedida, como se estivesse escapando das garras de um lobo.

O mesmo parecia estar sentindo Joutaro, habitualmente tão receptivo, pois murmurou enquanto atravessavam o passo:

— Que sujeito desagradável!

Otsu também não conseguiu conter-se e sussurrou:

— Concordo com você. E que terá ele querido dizer quando enfatizou que ainda era solteiro?

— Na certa quis dizer que vai aparecer um dia para lhe pedir a mão.

— Que os deuses me livrem!

A partir desse ponto, a jornada transcorreu sem incidentes, o único fato a lamentar sendo o de que não tinham conseguido saber de Musashi nem à beira do lago de Oumi, nem ao cruzar a ponte Karahashi, em Seta, ou ainda no posto de inspeção da ladeira Ou-saka.

Na cidade de Kyoto, arranjos festivos de pinheiro e bambu já adornavam os portais, anunciando a aproximação do Ano Novo. E ao ver a cidade enfeitada à espera da primavera, o coração de Otsu parou de lamentar a oportunidade perdida para se encher uma vez mais de esperanças.

Manhã do primeiro dia do ano, na boca da ponte da rua Gojo.

Ou senão, do segundo, terceiro ou quarto dia... Ele estaria ali esperando todas as manhãs até o sétimo dia, Otsu ouvira Joutaro dizer. Pena que Musashi não esperava por ela. Mas não tinha importância: se viesse a encontrá-lo, seus sonhos estariam quase todos realizados.

“Mas e se...?”

E eis que de súbito uma nova sombra vinha toldar sua alegria: Hon’i-den Matahachi. Pois todas as sete manhãs Musashi estaria esperando por Hon’i-den Matahachi!

Joutaro lhe havia dito que o recado tinha sido transmitido verbalmente a Akemi, não sendo certo que Matahachi o recebera.

“Que Matahachi não venha e só Musashi-sama esteja sobre a ponte”, rezava Otsu. De Keage chegou à entrada da rua Sanjo e misturou-se ao turbilhão humano, agitado com a aproximação do fim de ano. Matahachi podia estar andando no meio daquela gente, sentiu ela com súbita apreensão. Musashi também era capaz de estar por ali. E se a mãe de Matahachi, a velha Osugi, pessoa a quem mais temia neste mundo, lhe surgisse agora pelas costas?

Joutaro, porém, parecia não ter uma única preocupação no mundo: de volta à cidade grande depois de longa ausência, parecia excitado com as cores e a balbúrdia reinante.

— Já vamos para a hospedaria, Otsu-san?

— Ainda não.

— Será uma pena nos fecharmos numa hospedaria com esta claridade. Vamos andar mais um pouco. Parece que tem uma feira lá adiante.

— Deixe a feira para lá porque temos algo muito mais importante a fazer.

— O quê?

— Você já se esqueceu do pacote que carrega às costas desde Ise, Jouta-san?

— Ih, é verdade!

— Nada de passear por aí antes entregar a lorde Karasumarü Mitsuhiro a encomenda que Arakida-sama nos confiou.

— Podemos pousar na mansão dele esta noite, não podemos? Otsu transferiu o olhar para as águas do rio Kamogawa e sorriu:

— Como poderia haver um quarto na nobre mansão do conselheiro imperial para Jouta-san, o pobre menino piolhento de beira-estrada?

 

BORBOLETA NO INVERNO

Quando a cama da jovem doente deixada aos cuidados da hospedaria foi encontrada vazia, a direção do estabelecimento achou que poderia ser acusada de negligência e se ver envolvida numa situação nada agradável.

Mas o hospedeiro de Sumiyoshi tinha uma vaga idéia das razões por trás da doença da jovem, e resolvendo que ela não tentaria afogar-se outra vez, remeteu apenas uma nota a Yoshioka Seijuro por estafeta, não se dando a desnecessários trabalhos, como o de mandar alguém do estabelecimento no encalço da fugitiva.

E foi assim que Akemi se viu repentinamente livre como um passarinho saído da gaiola. Mas a jovem havia passado por uma experiência que quase a matara e não estava em condições de bater as asas com vigor. Além de tudo, os profundos ferimentos físicos e emocionais resultantes da violência praticada por Seijuro não eram do tipo que cicatrizavam em dois ou três dias.

“Que ódio!”

A bordo do barco que cruzava regularmente o Yodo, Akemi contemplava a correnteza, sentindo a revolta crescer no peito tão turbulenta quanto as águas do rio.

O ódio que nutria por Seijuro não era também um ódio qualquer. O sentimento era complexo, já que Akemi amava outro homem, e seu sonho de uma vida feliz ao lado desse homem havia sido destruído por Seijuro e sua violência.

Pelas águas do rio Yodo navegavam ligeiro barcos transportando arranjos para portais com vistas ao Ano Novo e à primavera.

“E agora, valerá a pena encontrar-me com Musashi-sama no primeiro dia do ano?”

A dúvida trouxe lágrimas que lhe escorreram pelo rosto.

Como Akemi havia esperado a manhã do Ano Novo, dia em que Musashi viria à ponte sobre a rua Gojo para encontrar-se com Matahachi!

Desde o momento em que começara a se sentir atraída por Musashi até hoje, Akemi se mantivera fiel a ele, não dando a menor atenção aos homens que chegara a conhecer mais tarde em Kyoto. Comparava Musashi ao inútil Matahachi, em eternas brincadeiras frívolas com a madrasta Okoo, e seu amor só fazia crescer.

Se saudade pudesse ser comparada a um fio, achava Akemi, então o amor era um novelo a enrolar o fio e a crescer dia a dia dentro do coração. Os anos podiam se passar longe da pessoa amada, mas o amor alimentava-se de lembranças e notícias distantes e encarregava-se de alongar o fio da saudade, nele se enrolando e crescendo cada vez mais.

E até poucos dias atrás Akemi assim se sentira, conservando o puro perfume dos lírios de campo que vicejam aos pés da montanha Ibuki. Mas agora, a pureza se fora.

Ela tinha certeza de que ninguém sabia, mas parecia-lhe que todo mundo a olhava com outros olhos.

— Ei, moça! Ó moça!

A voz despertou Akemi, que pela primeira vez tomou consciência das árvores secas e dos pagodes ao seu redor, e de si própria, andando no crepúsculo por Teramachi, nas proximidades da rua Gojo, como uma friorenta borboleta num dia de inverno.

— Você está arrastando um pedaço de faixa ou obi. Quer que eu arrume para você?

A abordagem tinha sido grosseira, mas as duas espadas à cintura indicavam que homem era um rounin. Akemi não o conhecia, mas o samurai era Akakabe Yasoma, sempre a perambular pelas ruas mais movimentadas do centro de Kyoto ou pelos subúrbios da cidade.

Raspando no chão as sandálias rotas, o homem aproximou-se de Akemi e apanhou a ponta do cordão que a jovem arrastava atrás de si.

— Está parecendo a louca de uma peça nô! As pessoas vão rir de você. E porque é que não ajeita esse cabelo? Você não é feia.

 

Aborrecida, Akemi fingiu não ouvir e continuou andando. Akakabe Yasoma tomou seu silêncio por timidez e insistiu:

— A moça parece ser da cidade. Que lhe aconteceu? Fugiu de casa? Ou do marido?

— Cuidado! Uma menina tão bonitinha não devia perambular por aí com esse ar perdido É verdade que hoje em dia, não temos mais o difamado portal Rashomon[43], nem bandidos habitando a montanha Oue, mas em compensação a cidade anda cheia de bandoleiros, rounin e mercadores de mulheres, que babam por um rostinho bonito, sabia?

Como Akemi não se dignava a responder, Yasoma continuou a falar sozinho e a segui-la:

— Que coisa! — comentou, a respeito da própria observação. — Ouvi dizer que ultimamente mulheres de Kyoto estão sendo vendidas em Edo e alcançam um bom preço. Antigamente, quando o terceiro Fujiwara fundou a cidade de Hiraizumi na província de Oushu[44], muitas mulheres de Kyoto foram vendidas para lá, mas hoje em dia é a cidade de Edo que se transformou num mercado promissor porque Hidetada, o segundo xogum da dinastia Tokugawa, está se empenhando seriamente em estabelecer ali a base do xogunato. Casas de prostituição famosas de Fushimi, Sumi, Sakai e Sumiyoshi, estão abrindo filiais em Edo, a 800 km de distância daqui.

— E sua beleza, menina, chama a atenção de qualquer um. Tome muito cuidado para não ser vendida, ou para não cair nas garras de algum bandoleiro sem escrúpulos.

— Xôô, passa — gritou Akemi de repente. Agitou a manga do quimono como se enxotasse um cão vira-latas, voltou-se e olhou feio para o homem. — Passa, passa!

Yasoma gargalhou e observou:

— Esta é meio louca mesmo!

— Não amole!

— Ou será que não?

— Idiota!

— O que disse?

— Louco é você!

— Ih, é maluca mesmo, não tem dúvida! Coitadinha! — gargalhou Yasoma de novo.

— Não lhe interessa, ouviu? — replicou Akemi, empinando o nariz. — Vou acertar uma pedra em você!

— Ora, o que é isso! — disse Yasoma sem se abalar, continuando a persegui-la.

— Espere um pouco, moça!

— Não enche! Passa, cachorro, passa!

Na verdade, Akemi morria de medo. Desvencilhou-se das mãos de

Yasoma e disparou em linha reta, mergulhando num denso matagal próximo à área onde, dizia-se, antigamente existira a mansão de Komatsu-dono[45], fugindo entre as longas e ondulantes hastes do capim.

— Eei, moça! — Yasoma a seguiu como um cão de caça, dançando no meio do mato alto.

Uma lua crescente lembrando o sorriso da louca em máscara nô surgira no céu para os lados do monte Toribe. Por infelicidade, essa era uma área normalmente deserta e o sol já começava a descambar. Muito embora bem que nesse momento, a 200 metros dali, havia um punhado de gente descendo a montanha a passos lentos, mas essa gente — terços nas mãos, vestida de branco e envergando sombreiros atados com cordão branco — não acorreu aos gritos de Akemi porque fazia parte de um cortejo fúnebre e ainda chorava pelo morto que acabava de enterrar.

 

Um violento empurrão de Yasoma jogou Akemi no meio do mato.

— Nossa, desculpe! — disse Yasoma. Pura zombaria. O homem lançou-se sobre Akemi, envolveu-a nos braços e a imobilizou. — Você se machucou?

Akemi esbofeteou o rosto barbudo com raiva, duas, três vezes. Mas Yasoma parecia nem sentir. Pelo contrário, estava gostando: semicerran-do os olhos, o homem deixava-se bater sem nunca afrouxar o abraço, esfregando com persistência o rosto barbudo no de Akemi. A barba picava como se fossem agulhas e era um tormento para a jovem, que nem conseguia respirar.

Akemi o arranhou com vontade.

As unhas feriram as narinas, que imediatamente se tingiram de vermelho e incharam, como as do leão das danças folclóricas. Mas Yasoma não a largava.

Do santuário dedicado a Amida[46], no monte Toribe, um sino dobrava anunciando o anoitecer e a transitoriedade das coisas terrenas. Mas a voz de Buda admoestando: “A matéria é vã. Tudo é vaidade neste mundo!”[47] não encontrava eco no coração desse homem que vivia de cometer excessos. As longas hastes do capim seco em torno dos dois vultos ondulavam violentamente.

— Fique quieta.

— Não tenha medo.

— Você vai ser minha mulher. Que tal?

— Prefiro morrer!... — gritou Akemi. O berro tinha uma vibração de dor tão intensa que Yasoma se espantou:

— O quê? Mas por quê, hein, menina?

Juntando braços e joelhos ao peito, Akemi tinha-se fechado como um botão de camélia. Yasoma tentava vencer com palavras a barreira dos músculos. Ao que parecia, além de já ter tido experiências semelhantes anteriores, o homem divertia-se até nesse tipo de situação, zombando com toda a calma da presa, sem se importar com sua fúria.

— Para que chorar? Não tem motivo algum para chorar! — sussurrava rente aos ouvidos de Akemi. — Nunca esteve com um homem, mocinha? Não pode ser! Com a sua idade...

Akemi lembrou-se do incidente com Yoshioka Seijuro e de como lhe fora difícil respirar então. Contudo, comparado àquele outro momento crucial em que não conseguira sequer enxergar as divisórias do shoji, hoje se sentia muito mais calma.

— Espere! Espere um pouco, já disse! — berrou Akemi sem sentido algum, enrolada sobre si mesma como um caracol.

Convalescente ainda, sentia-se arder em febre. Mas pela cabeça de Yasoma nem sequer passava a idéia de que o calor fosse febre.

— Esperar? Tudo bem, espero, claro que espero! Mas nem tente fugir, porque aí vou perder a paciência!

Akemi sacudiu violentamente os ombros e livrou-se das persistentes mãos de Yasoma. Levantou-se a seguir, olhando feroz para o homem que finalmente se afastara um pouco:

— Que pretende?

— Você sabe muito bem!

— Não se iluda comigo: sou mulher, mas sei me defender, está ouvindo?

Havia sangue em seus lábios, cortados no contato com a borda de uma folha. Akemi mordeu o lábio ferido e no mesmo instante, lágrimas escorreram pelo queixo alvo misturadas ao sangue.

— Ora, você diz coisas interessantes! Estou começando a achar que não é louca, não.

— Claro que não sou!

Empurrou de súbito o peito do homem e correu em direção à lua, tropeçando e gritando no meio do mato ondulante que se estendia a perder de vista:

— Socorro! Assassino!

 

Momentaneamente, Yasoma pareceu muito mais louco que Akemi. Excitado, esqueceu por completo a pose de homem experiente e despindo a pele humana, revelou a besta sob ela.

— Socorro!

Nem correra 100 metros na trilha azulada do luar quando a besta a abocanhou.

Com as pernas brancas impiedosamente desnudadas, Akemi caiu de bruços, sujando de terra o rosto parcialmente coberto por mechas de cabelo desgrenhados.

A primavera se aproximava, mas o vento que descia uivando pela encosta do monte Kacho ainda ameaçava congelar o campo. O peito arfante desnudou-se, expondo ao vento frio os seios brancos de Akemi, transformando os olhos de Yasoma em duas janelas de fogo.

Nesse instante, Yasoma foi atingido com um objeto extremamente duro na altura da orelha. O homem sentiu o sangue juntar-se momentaneamente no local e uma bola de fogo ali explodir.

— Aaah! — gritou Yasoma.

A perturbação fê-lo voltar-se, ainda gritando, e cometer um novo erro. Pois no mesmo instante um berro o atingiu em cheio no rosto:

— Animal!

Uma grossa flauta de bambu rasgou o ar silvando e golpeou o topo da sua cabeça.

Yasoma não teve tempo de sentir este último golpe. Os cantos dos seus olhos descaíram, os ombros arriaram, e o homem tombou para trás, balançando a cabeça como um tigre articulado de papel.

— Foi mais fácil do que eu esperava!

Parado com a arma — uma flauta de bambu shakuhachi — na mão, o monge komuso espiava a cara de Yasoma, desmaiado de boca aberta a seus pés. Mesmo que recuperasse a consciência, o homem ia ficar abobado, já que os dois golpes haviam atingido o cérebro. “Que crueldade! Teria sido melhor se o tivesse matado de uma vez...”, parecia considerar o monge komuso, fitando Yasoma com ar compenetrado.

Akemi contemplava estupefata o rosto do monge: ele tinha sob o nariz um bigode ralo, como se tivesse plantado ali alguns cabelos de milho. Por causa da grossa flauta de bambu, o homem de cerca de 50 anos podia ser um monge komuso, mas por suas roupas encardidas e pela única espada à cintura, podia tanto ser um mendigo como um samurai.

— Está segura agora! — disse Aoki Tanzaemon, abrindo a boca num riso que expôs ainda mais os grandes incisivos superiores.

Akemi finalmente recuperou-se e disse:

— Muito obrigada.

Arrumou os cabelos, ajeitou as roupas desalinhadas e, ainda receosa, passeou o olhar ao redor.

— Onde fica a sua casa? — perguntou Tanza.

— Minha casa? A casa, a casa...

Akemi escondeu o rosto nas mãos e começou a chorar. Incapaz de responder com franqueza, contou meias-verdades e chorou de novo.

Falou da mãe — madrasta, na verdade — e de como ela tentara vendê-la, e de como viera até ali fugida de Sumiyoshi. Ao chegar nesse ponto, declarou:

— Nunca mais volto para casa, nem morta. Ninguém sabe o quanto sofri até hoje! Tenho até vergonha de contar, mas quando eu era pequena, minha madrasta me obrigava a roubar os pertences dos soldados mortos nos campos de batalha!

Mais que os nojentos Seijuro e Akakabe Yasoma, Akemi odiava Okoo nesse instante. O ódio tomou conta de seu corpo e fê-la chorar de novo, com o rosto oculto nas mãos.

 

TENTAÇÕES ADORMECIDAS

O pequeno vale ficava bem aos pés do pico Amida, e por ele ressoava o sino do templo Kiyomizudera. Cercado também pelos montes Uta-no-naka e Toribe, o vale era tranqüilo e aconchegante, protegido dos frios ventos de inverno.

E ao chegar ao referido vale Komatsu-dani, Aoki Tanzaemon disse:

— Esta é a minha casa provisória. Bem informal, não acha? Sorriu arreganhando os lábios sob o bigodinho ralo e voltou-se para

Akemi.

— Isto aqui?! — exclamou Akemi. Sabia que estava sendo grosseira, mas não conseguiu se conter.

Pois a “casa” era apenas um pequeno santuário devastado. Se aquilo podia ser considerado uma casa, muitas havia nas imediações, pois santuários e templos abandonados por ali não faltavam: as cercanias do vale até a região de Kurotani e Yoshimizu eram consideradas o berço da seita Nenbutsu — cultores de Amida —, e muitas eram as ruínas históricas relacionadas a Shinran, o fundador da seita, e a Hounen[48], o fiel iluminado que se tinha despedido em lágrimas de seus muitos discípulos e seguidores, atendentes, nobres da corte, beatos e beatas num santuário deste mesmo vale Komatsu-dani, na noite anterior ao do seu desterro para Sanuki.

Mas tudo isso tinha acontecido numa longínqua primavera do período Jogen (1207-1211). A noite agora era de fim de inverno, nenhuma flor havia nos arredores a estiolar mansamente.

— Entre... — convidou Tanza. Subiu na frente para a varanda do santuário, empurrou uma porta de treliça e acenou, chamando Akemi.

A jovem hesitava, sem saber se aceitava a oferta ou se saía andando sozinha pela noite em busca de outro lugar para dormir.

— Apesar das aparências, isto aqui é bem aconchegante. Está forrado, de esteira, é verdade, mas assim fica mais quentinho que com o piso nu. Por que hesita? Está com medo de que eu possa ser um bandido igual ao outro? — indagou Tanza.

Akemi balançou a cabeça, negando em silêncio.

Sentia que Aoki Tanzaemon era um homem bom, e estava tranqüila quanto a esse aspecto. Além do mais, ele era velho, parecia já ter passado dos 50. O que a fazia hesitar eram a sujeira do santuário que ele chamava de casa e o mau cheiro proveniente das roupas e da pele encardida dele.

No entanto, não sabia para onde ir e tinha medo do que lhe poderia acontecer desta vez, caso voltasse a topar com Akakabe Yasoma. Sobretudo sentia-se febril, sem forças e com muita vontade de se deitar.

— Posso mesmo? — perguntou, começando a subir para a varanda pela curta escada.

— Claro que pode. Fique quantos dias quiser, pois aqui ninguém virá incomodá-la.

O interior do santuário estava tão escuro que Akemi receou ver morcegos saindo por ali a qualquer momento.

— Espere um pouco — disse Tanza de um canto, batendo com a pederneira. Instantes depois, a luz bruxuleou numa lamparina, provavelmente achada em algum lugar.

A luz revelou panelas, tigelas, travesseiro de madeira, esteiras: o básico havia sido juntado. Dizendo que lhe prepararia uma papa de trigo sarraceno, Tanza despejou carvão num fogareiro de porcelana desbeiçado, juntou gravetos e soprou, atiçando o fogo.

“Que homem bondoso”, pensou Akemi. Mais calma, a sujeira deixou de incomodá-la e, do mesmo jeito que o homem, começou a sentir-se à vontade nesse meio.

— Você me disse que estava com febre e que sentia moleza no corpo, certo? Deve estar resfriada. Deite-se aí enquanto preparo o mingau.

Uma cama fora arrumada num canto com esteiras e a palha das embalagens de arroz. Akemi forrou o travesseiro de madeira com um lenço de papel que tinha consigo e logo se deitou.

EirTvez de cobertor, havia um pedaço de mosquiteiro feito de papel encerado, outro dos achados de Tanza.

— Vou dormir um pouco se o senhor me der licença — disse Akemi.

— E não se preocupe com nada.

— Muito obrigada.

A jovem juntou as mãos e agradeceu. No momento em que foi cobrir-se com o mosquiteiro, um animal de olhos faiscantes saltou debaixo dele e transpôs sua cabeça. Com um grito agudo, Akemi jogou-se de bruços no chão.

 

Susto maior levou Aoki Tanza, que deixando escapar das mãos o pacote de trigo sarraceno, gritou:

— Que foi isso?

Seus joelhos ficaram brancos da farinha derramada. Dobrada sobre si mesma, Akemi disse, ofegante:

— Um bicho... Maior que um rato... Ele pulou desse canto.

— Deve ser um esquilo — observou Tanza, olhando ao redor. — Esses danados surgem sempre por aqui, farejando a comida. Mas não estou vendo nada em lugar algum.

Akemi ergueu a cabeça cautelosamente e exclamou:

— Olhe, lá está ele!

— Onde?

Tanza levantou-se a meio e voltou-se para olhar às suas costas. Com efeito, sobre a cerca em torno do santuário central — há muito despojado das imagens sagradas e dos objetos de adoração — estava parado um pequeno animal que, ao perceber o olhar de Tanza sobre si, encolheu-se assustado.

Era um macaco, e não um esquilo.

Tanza o contemplou, desconfiado. Talvez o macaco tivesse então decidido que era fácil comunicar-se com o homem à sua frente, pois percorreu agilmente a balaustrada duas ou três vezes, sentou-se de novo no mesmo lugar, ergueu o rosto peludo cor de pêssego e pestanejou, como se quisesse dizer alguma coisa.

— Danadinho, por onde terá entrado? Bem vi que tinha grãos de arroz espalhados por todo lado. Foi você?

O animal pareceu compreender o sentido das duas últimas palavras, pois antes que Tanza se aproximasse, escondeu-se de um salto no santuário.

— Até que ele é simpático — riu Tanza. — Acho que não nos incomodará se lhe dermos um pouco de comida. Vamos deixá-lo em paz.

Limpou a farinha dos joelhos e ajeitou-se perto da panela.

— Não tenha medo, Akemi. Durma.

— Tem certeza?

— Pelo visto, não é selvagem. Deve ser um animal de estimação fugido de algum lugar. Não se preocupe com ele. Está com frio?

— Não.

— Durma, durma. Nada melhor que um bom sono para curar um resfriado.

Despejou a farinha na panela, juntou água e mexeu, fazendo movimentos circulares com o hashi.

O carvão queimava vivamente no fogareiro desbeiçado. Tanza deixou a panela no fogo e começou a picar cebolinha verde.

A tábua era uma mesinha velha encontrada no santuário; a faca, uma adaga enferrujada. Sem ao menos lavar as mãos, Tanza transferiu a cebolinha picada para um prato de madeira. Enxugou a tábua improvisada, que logo se transformou em mesa.

Com o borbulhar da água, o ambiente se aqueceu gradativãmente. Abraçando as pernas semelhantes a gravetos secos, Tanza observava com olhar faminto a espuma sobre a água fervente. Parecia feliz, como se todo o prazer da vida se concentrasse no interior da panela.

Para os lados do templo Kiyomizudera um sino soou, como todas as noites. A primavera estava próxima e os exercícios ascéticos de inverno já haviam terminado, mas a chegada do fim do ano tinha por certo o poder de despertar a ansiedade no coração dos homens, fazendo os sofredores tocarem o gongo em busca de alívio, e os fiéis em retiro rezarem incansavelmente, noite adentro.

“Em troca de meus erros, aqui estou eu, pagando os pecados. Mas... E Joutaro, por onde andará? Que a culpa do pai não recaia sobre o filho, que somente o pai pague pelos próprios pecados. Namu-kanzen bosatsu, gloriosos santos budistas, voltai vosso misericodioso olhar para Joutaro, velai por ele”, rezava Tanza.

De repente, Akemi gritou no sono:

— Não! Não!

A jovem parecia sufocar em sonhos.

“Cachorro!”

Respirando pausadamente, olhos cerrados e rosto contra o travesseiro, a jovem chorava.

 

Akemi despertou com os próprios gritos e perguntou:

— Eu disse alguma coisa enquanto dormia?

— Você me assustou, menina!

Tanza aproximou-se da sua cabeceira e, enxugando-lhe o rosto molhado de suor, comentou:

— Deve ser a febre. Você está suando muito.

— O que eu disse?

— Muita coisa.

— Que tipo de coisa?

Enrubescendo ainda mais o rosto já vermelho de febre, Akemi puxou o mosquiteiro que lhe servia de cobertor e cobriu a cabeça.

— Existe um homem a quem você odeia profundamente, não é, Akemi?

— Eu disse isso?

— Disse. Que aconteceu? O homem a abandonou?

— Não.

— Ele a enganou?

— Também não.

— Ah, já entendi — disse Tanza, tirando suas próprias conclusões. Repentinamente, Akemi soergueu-se e perguntou:

— E agora, que faço de minha vida?

A raiva e a tristeza acumuladas forçaram-na a contar em meio a soluços o vergonhoso episódio ocorrido na praia de Sumiyoshi, agarrada aos joelhos de Tanza.

“Sei, sei...”

O ar saía das narinas de Tanza, quente de emoção. O nariz lhe ardia, excitado por um perfume que havia muito não sentia: o cheiro de um corpo feminino. Nos últimos tempos, ele se acreditara seco e murcho como uma árvore velha, para sempre livre das vulgaridades inerentes à condição humana. Mas eis que de repente se sentiu intumescer, como se lhe houvessem despejado sangue muito quente nas veias: Tanza lembrou-se pela primeira vez em muito tempo que por baixo das costelas ainda tinha pulmões e um coração batendo.

— Ora, ora! Não sabia que Yoshioka Seijuro era um homem tão desprezível! — explodiu Tanza, sentindo intenso ódio do herdeiro dos Yoshioka. Contudo, o que fazia o sangue do idoso Tanza ferver a esse ponto não era tanto a indignação dos justos, mas ciúme, um ciúme estranho, como o do pai que teve a filha violentada. Seus ombros tremeram de ira mal contida.

Aos olhos de Akemi, no entanto, Tanza era um homem digno de confiança, a quem tudo podia contar.

— Quero morrer, tenho vontade de morrer! — gemeu ela, contorcendo-se e apertando o rosto lavado em lágrimas contra os joelhos magros do homem.

Um tanto perplexo pelas inesperadas sensações que esse contato despertava em seu corpo, Tanza disse:

— Não chore, não chore. Você não está maculada, asseguro-lhe, já que as coisas aconteceram sem o seu consentimento. No caso da mulher, a pureza é muito mais uma questão espiritual do que física, não é mesmo? A castidade é portanto uma questão espiritual. É sabido que, se uma mulher trai seu homem em pensamento, perde a castidade, pelo menos durante o tempo em que pensa no outro.

Mas essa arenga conformista não consolava Akemi, que continuou a chorar e a lamentar, suas lágrimas quentes chegando a varar a roupa de Tanza:

— Tenho vontade de morrer, de morrer — desabafou ela.

— Não chore, menina, não chore — repetia Tanza, acariciando-lhe de leve as costas, mas sem conseguir sentir total simpatia pelo corpo trêmulo nos seus joelhos. Saber que aquela pele macia e perfumada já tinha pertencido a um outro homem o irritava.

O macaco, que dissimuladamente havia se aproximado da panela, abocanhou algo e fugiu. Ao perceber o movimento, Tanza deixou a cabeça de Akemi escorregar-lhe dos joelhos e agitando um punho fechado, gritou para o macaco:

— Maldito!

A comida falava mais alto ao coração de Tanza do que lágrimas de uma mulher, era óbvio.

 

O dia raiou.

Quando o sol surgiu, Tanza disse para Akemi:

— Vou à cidade esmolar. Cuide da casa para mim na minha ausência. No caminho de volta, vou-lhe comprar remédios, comida quente, temperos e arroz.

Vestiu a estola dos komuso, mais encardido do que pano de chão, apanhou a flauta e o sombreiro e deixou o santuário.

Seu sombreiro, diferente dos usados pelos monges komuso, era do tipo comum, feito de fibra de bambu trançado. Com ele na cabeça e arrastando as sandálias rotas, Tanza saía a esmolar pela cidade todos os dias, exceto quando chovia. Parecia um espantalho ambulante, o bigodinho ralo piorando ainda mais seu aspecto miserável.

Nessa manhã, particularmente, Tanza sentia os olhos enevoados: não tinha dormido bem na noite anterior, ao contrário de Akemi, que depois de chorar e se lamentar tomara o mingau quente, transpirara bastante e acabara caindo em sono profundo.

A razão da insônia ainda persistia em sua mente, recusando-se a dissipar mesmo debaixo do sol claro e morno.

“Tem mais ou menos a idade da Otsu”, pensava. “Elas são de temperamento bem diferentes, e Akemi é mais engraçadinha. Otsu é refinada, porém fria. Akemi é toda sedução, rindo, chorando ou se zangando.”

E essa sedução tinha o efeito de fortes raios solares sobre o corpo de Tanza, rejuvenescendo suas células murchas. Mas Tanza não podia esquecer a própria idade: virando-se inquieto durante a longa noite perturbada pela presença de Akemi, ele se admoestara, severo:

“Como posso ser tão desprezível? Eu tinha um honroso cargo hereditário na vassalagem da casa Ikeda, mas destrui a linhagem, fui expulso do clã Himeji, tornei-me um nômade e caí no submundo, por quê? Por causa de uma mulher. Porque fiz a besteira de sentir por Otsu a mesma paixão que me queima agora!”

“Será que ainda não aprendi a lição?”, perguntava-se. “Ando com a flauta e a estola budista, mas estou longe do límpido caminho dos que abraçam a seita fuke Quando poderei atingir a iluminação dos santos monges peregrinos?”

Envergonhado, ele havia cerrado os olhos e se esforçado para dormir até a madrugada. E o cansaço resultante da noite agitada aderia agora como uma sombra ao pobre vulto trôpego.

“Vou livrar-me desses pensamentos impuros. Mas que menina engraçadinha. E que golpe sofreu! Vou consolá-la. Vou lhe ensinar que nem todos os homens do mundo são bestas lascivas. Além do remédio, que mais vou lhe comprar no caminho de volta? É estimulante pensar que o resultado da mendicância vai se transformar em conforto para Akemi! Não devo desejar nada além disso.”

E foi quando, à custa de muito esforço, conseguiu afinal acalmar o tumultuado coração, que Tanza ouviu um súbito ruflar de asas sobre o barranco, e um falcão interpôs-se momentaneamente entre ele o sol.

Tanza ergueu o rosto. Da copa de um carvalho desfolhado, penas cinzentas, leves como flocos de algodão, vieram flutuando sobre sua cabeça.

Com um pássaro preso nas garras, o falcão alçou vôo mostrando o lado interno de suas asas.

— Ele pegou! — gritou alguém e, em seguida, um silvo agudo chamou o falcão.

 

Instantes depois dois vultos em trajes de caça vieram descendo a ladeira atrás do templo Ennenji e se aproximaram de Tanza.

Um deles tinha um falcão pousado sobre o punho esquerdo. À cintura, do lado oposto ao das duas espadas, trazia um saco para guardar a caça. Atrás dele vinha um cão de caça castanho, de aspecto ágil.

O homem era Yoshioka Seijuro.

Seu companheiro era bem mais jovem: de físico másculo, usava um quimono vistoso, do tipo usado por adolescentes, e trazia enviesada às costas uma comprida espada de quase um metro de comprimento. Os cabelos, longos, estavam amarrados em rabo. Descrito assim, não será preciso explicar mais: o homem só podia ser Ganryu Sasaki Kojiro.

— Estou certo de que foi por aqui! — disse Kojiro, parando e examinando em torno. — Foi bem nesta área que meu macaco se desentendeu com o seu cão de caça, ontem à tarde, e levou uma mordida no rabo. Acho que não gostou da experiência, pois desapareceu e não voltou mais. Pode ser que ainda esteja escondido no topo de alguma árvore.

— Por que haveria de estar? O macaco tem pernas, não se esqueça. — observou Seijuro, secamente. — Para começar, não devia tê-lo trazido quando saímos a falcoar! — acrescentou, sentando-se numa pedra próxima.

Kojiro também acomodou-se num toco de árvore e replicou:

— Não é verdade que o trouxe comigo. O que posso fazer, porém, se o bicho me segue por todos os lados? Não posso negar também que sinto sua falta quando não o tenho por perto.

— Sempre julguei que dar carinho a macacos e cachorros fosse coisa de mulheres e homens desocupados, mas quando vejo um jovem estudante de artes marciais tão afeiçoado a um macaquinho, percebo que não se pode generalizar.

Seijuro, que já havia visto Kojiro lutando no dique Kemazu, respeitava-o como espadachim, mas ao observar-lhe gostos e comportamento no cotidiano não podia deixar de considerá-lo bastante imaturo. Os três ou quatro dias de convivência haviam sido suficientes para mostrar-lhe que, apesar de sua grande habilidade guerreira, Kojiro tinha ainda muito a crescer.

A constatação de que o jovem não era perfeito teve, porém, o efeito de deixar Seijuro mais à vontade, facilitando-lhes o convívio e aprofundando a familiaridade.

Kojiro riu:

— Devo isso ao meu lado infantil. Mas deixe estar: vou-me esquecer de macacos quando aprender a me divertir com mulheres.

Enquanto o jovem conversava descontraidamente, Seijuro, ao contrário, dava sinais de inquietação cada vez mais claros, seus olhos brilhando impacientes como os do falcão pousado no punho.

— Que quer esse monge mendigo? Já faz algum tempo que nos espreita — resmungou Seijuro de repente, em tom reprovador. Kojiro voltou-se para olhar.

O homem que Seijuro fitava com feroz desconfiança era naturalmente Aoki Tanza, que ao ouvir o comentário, deu as costas aos dois e começou a se afastar lentamente.

— Vamos embora — disse Seijuro, erguendo-se de repente. — Já estamos no dia 29 de dezembro e, por mais que pense, este momento não é propício para falcoar. Vamos voltar para a academia.

Kojiro apenas sorriu com frieza, como se já estivesse esperando o repente.

— Já? Mas só pegamos uma rolinha e dois tordos até agora! Isto não compensa o trabalho de chegar tão longe com o falcão. Vamos subir mais um pouco a montanha.

— Não, eu vou desistir. O falcão também parece perceber meu desânimo e não desempenha seu papel a contento. É melhor retornar à academia e treinar, treinar bastante!

Seijuro disse as últimas palavras mais para si mesmo num tom vibrante, diferente do usual, e ergueu-se, disposto a ir-se embora sozinho.

 

— Se vai para casa, também vou — disse Kojiro algo descontente, começando a acompanhá-lo. — Sinto haver insistido contra a sua vontade, mestre Seijuro.

— Ora, não precisa se desculpar.

— Afinal, fui eu quem insistiu em falcoar, tanto ontem como hoje.

— Compreendi muito bem que você visava o meu bem. Não obstante, já estamos no fim do ano e, conforme lhe contei, aproxima-se o dia do duelo com esse indivíduo, Miyamoto Musashi.

— Por isso mesmo encorajei-o a falcoar e a distrair-se um pouco, para fortalecer-se espiritualmente. Acho, no entanto, que isso não é do seu feitio.

— Compreenda: quanto mais boatos ouço, mais me parece que não devo subestimar esse tal Musashi.

— Maior motivo ainda para não se precipitar, nem se deixar pressionar. Tem de se disciplinar espiritualmente.

— Não estou de modo algum me sentindo pressionado; mas subestimar um inimigo é um dos erros estratégicos mais graves. Preciso treinar até o dia do duelo, dedicar-me inteiro a isso. Se apesar de tudo eu for derrotado, significará que ele era mais hábil, e não me restará outra alternativa senão conformar-me.

Kojiro valorizava a honestidade de Seijuro, mas também notava com clareza como era limitada a sua visão. Sentia, não sem uma dose de piedade, que o homem não estava qualificado para carregar por muito mais tempo a fama e a academia a ele legadas pelo pai, Yoshioka Kenpo.

“Denshichiro, o irmão mais novo, tem mais nervos”, pensava.

Mas este era um estróina incorrigível: embora mais hábil que Seijuro com a espada, seguira o modelo dos segundos filhos e era irresponsável; segundo diziam, não dava a mínima importância ao famoso nome paterno.

Kojiro já havia sido apresentado a esse irmão, mas não conseguira sentir simpatia por ele. E logo uma estranha animosidade tinha surgido entre os dois.

“Seijuro é honesto, mas limitado. Vou tentar ajudá-lo”, decidira Kojiro. Eis por que procurara fazê-lo esquecer o duelo, e o trouxera a falcoar. Mas, ao que parecia, o homem era incapaz de manter-se impassível ante a aproximação da grande data e queria retornar à academia para treinar. A seriedade com que encarava o assunto era digna de louvor, mas Kojiro tinha vontade de perguntar quantos dias ainda lhe restavam para treinar.

“Não adianta, isto é de seu temperamento “, percebeu Kojiro, pesaroso.

E assim iam eles quase chegando no caminho da casa, quando repentinamente se deram conta de que o cão de caça castanho, ao pé de ambos havia bem pouco, tinha desaparecido e seus latidos selvagens soavam agora a distância.

— Acho que acuou uma caça — disse Kojiro com os olhos brilhando de excitação. Seijuro, porém, pareceu irritar-se com isso e disse:

— Deixe-o. Vamo-nos embora que ele virá atrás.

— Mas é uma pena — disse Kojiro. — Vou dar uma olhada. Espere-me aí mesmo, por favor.

O jovem correu na direção dos latidos e descobriu o cão na entrada de um santuário Amida, saltando furioso contra uma janela de treliça, arranhando com violência as colunas laqueadas e as juntas das paredes.

 

Que teria farejado o cão para agir desse jeito? Kojiro aproximou-se de uma abertura longe da janela visada pelo cão.

Achegou o rosto à porta de treliça do santuário e espiou, mas nada conseguiu ver: dentro estava tão preto quanto o fundo de um pote de laça negra. O jovem agarrou a porta com ambas as mãos e a afastou com estrépito. A esse ruído o cão acorreu, saltando e abanando o rabo.

— Passa! — ordenou Kojiro, chutando-o. Mas o cão, excitado, não recuou e, no instante em que Kojiro entrou no santuário, passou-lhe à frente por baixo das pernas.

Ato contínuo, um grito feminino feriu os ouvidos de Kojiro. O berro agudo, no auge do pavor, misturou-se ao ladrar selvagem do cão e criou instantaneamente uma balbúrdia infernal. O santuário inteiro estremecia com os ecos dos latidos e gritos, de tal modo que as vigas do teto ameaçavam partir-se.

— Que é isso? — exclamou Kojiro, acorrendo, para no mesmo instante descobrir o alvo das investidas do cão, assim como a mulher que gritava frenética.

Akemi havia estado deitada sob o mosquiteiro de papel encerado, quando o macaco, cujo rastro o cão farejara, entrou pela janela e se escondeu atrás dela.

O cão veio no encalço do macaco e ameaçou morder a jovem.

Com um grito agudo, Akemi tombou de costas. Quase simultaneamente um ganido forte soou aos pés de Kojiro.

— Ai! Ai-ai! — gritou Akemi, debatendo-se. O cão havia-lhe abocanhado o antebraço esquerdo.

— Solta, danado! — gritou Kojiro para o cachorro, dando-lhe um segundo chute nas costelas. O cão já havia morrido no primeiro pontapé, mas a bocarra continuava cerrada sobre a presa.

— Solta, solta! — debatia-se Akemi, enquanto o macaco saltava de sob seu corpo.

— Cão danado!

Kojiro agarrou cada uma das mandíbulas do animal e logo soou um ruído seco — como o de laça se rompendo. A cabeça do cão pendeu com a cara quase partida ao meio. Kojiro agarrou-o pelo rabo e lançou-o para fora pela porta.

— Pronto, acabou! — disse, sentando-se perto de Akemi.

O braço da jovem estava em estado lastimável. O sangue escorria sobre a pele branca desenhando um padrão que lembrava pétalas de peônia. A visão foi capaz de provocar calafrios de dor até em Kojiro.

— Saque! Saque para lavar o ferimento! Você tem? É, acho um pouco difícil que o tenha neste lugar. E agora?

O sangue escorria morno pela mão que apertava com firmeza o braço de Akemi.

— Há dias o cão vinha agindo de modo estranho. Se ele estava louco e o veneno lhe entrar no sangue, você também poderá ficar louca — murmurou Kojiro, procurando divisar um tratamento emergencial.

— Louca? Posso ficar louca? Verdade? Ah, como eu gostaria! Eu quero ficar louca, louca!

— Não diga tolices!

De chofre Kojiro aproximou o rosto ao antebraço da jovem, cobriu o ferimento com a boca e sugou o sangue. Sentiu a boca cheia quando cuspiu, logo tornando a aproximar o rosto da pele alva.

 

Ao entardecer, Tanza retornou lentamente depois de um dia de mendicância.

Abriu a porta do santuário, já envolto em penumbras, e disse:

— Estou de volta, Akemi. Sentiu minha falta?

Depositou a um canto remédios, mantimentos e o pote de óleo e acrescentou:

— Espere um pouco. Já vou acender a luz para você.

A luz da lamparina clareou o ambiente mas, no mesmo instante, Tanza sentiu o coração encher-se de sombras.

— Onde está você, Akemi? Akemi, Akemi! — chamou, mas não a encontrou.

Seu amor transformou-se em raiva incontida, toldando-lhe a vista e escurecendo o mundo inteiro. Quando a raiva se foi, a tristeza caiu sobre Tanza: mais jovem não haveria de ficar com o passar dos anos, seguramente, e em glória e ambição já não podia cogitar. Imaginou sua solitária velhice e contorceu o rosto, quase em lágrimas.

— Como é que ela se foi sem ao menos se despedir de mim depois que eu lhe salvei a vida e a tratei com tanto carinho? Ah, o mundo é assim mesmo. Acho que as jovens são assim, hoje em dia. Ou será que ela tinha medo de mim? — disse Tanza em tom queixoso, examinando desconfiado o lugar onde Akemi havia estado deitada. Descobriu então um pequeno retalho de tecido, uma ponta de obi rasgado. Havia manchas de sangue nele. Uma suspeita sem fundamento cresceu-lhe no peito, assim como um estranho ciúme.

Impaciente, chutou a cama de palha e lançou fora o remédio que havia comprado. Estava faminto depois de um dia inteiro esmolando, mas sem vontade de preparar o jantar, apanhou a flauta e saiu gemendo à varanda do santuário.

Depois disso, Tanza percorreu o vale tocando a flauta por mais de uma hora, tentando expulsar a paixão desenfreada que lhe ia na alma. A melodia anunciava aos quatro ventos que o desejo continua a existir como um elemento latente, fogo fátuo a irromper de vez em quando na vida do homem até que ele repouse para sempre em seu túmulo.

“Para que passei a noite inteira me debatendo insone, contido por um falso moralismo, se aquela menina está destinada a ser abusada por outros homens?”

Inúmeros e confusos sentimentos que iam desde arrependimento a auto-censura turbilhonando no sangue sem levar a lugar algum — aquilo era a pura expressão da paixão carnal. Tanza tocava esforçando-se por livrar-se desse lodaçal e purificar-se. O pobre homem, contudo, devia-ter nascido sob um signo muito forte do pecado, pois o som que conseguia extrair da flauta não alcançava o límpido timbre zen, que almejava.

— Monge komuso, que lhe deu para ficar tocando flauta sozinho esta noite? Se conseguiu boas esmolas na cidade e comprou um bocado de saque, dê-me um pouco e deixe-me embebedar com você — disse um mendigo, espichando o pescoço de sob a varanda do santuário. Por ser aleijado, o homem só conseguia morar debaixo das construções e contemplava com inveja o cotidiano de Tanza no espaço acima, achando sua vida digna de príncipes e reis.

— Ei! Você talvez tenha visto. Diga-me, que foi feito da menina que eu trouxe ontem comigo?

— Como é que você deixa escapar uma beldade daquelas? Hoje cedo, logo depois que você partiu, um jovem guerreiro, de cabelos compridos e espada enorme às costas, veio até aqui, pegou o macaco, pôs a menina nos ombros, e os levou embora.

— Quê? Um rapaz de cabelos compridos?

— E mais bonitão que você ou eu, pelo menos — disse o aleijado. Riu, achando graça da própria piada.

 

O DESAFIO

— Leva o falcão à gaiola — ordenou Seijuro a um discípulo, mal chegou à academia da rua Shijo, descalçando-se em seguida.

Seijuro estava visivelmente aborrecido, e a irritação aflorava-lhe à pele, cortante como navalha.

Os discípulos, aflitos com o seu mau humor, ofereciam-lhe água para lavar os pés e, pressurosos, tomavam o sombreiro.

— E mestre Kojiro, que saiu em sua companhia, senhor?

— Deve vir logo mais.

— Separaram-se enquanto percorriam as matas em busca da caça?

— Não. Ele me deixou esperando e demorava a voltar, de modo que vim embora primeiro.

Seijuro foi para o seu aposento, trocou-se e veio sentar-se em sua saleta. Além do pátio interno, havia um vasto salão de treino. A academia tinha fechado no dia 25 para o fim de ano, e só reabriria na primavera.

A casa pareceu de súbito deserta sem o contínuo vai-e-vem dos quase mil discípulos e o som das espadas de madeira entrechocando-se.

Do seu aposento, Seijuro passou a perguntar repetidas vezes a um discípulo:

— Ele ainda não voltou?

— Ainda não, senhor.

“Quando Kojiro chegar, vou usá-lo como parceiro e treinar como se estivesse lutando contra o próprio Musashi”, decidiu Seijuro. A tarde caiu =e a noite chegou sem que Kojiro aparecesse, o mesmo se dando no dia seguinte.

Implacável, o último dia do ano chegou, e ao meio-dia, uma pequena multidão de cobradores aglomerou-se na sala de espera da mansão Yoshioka:

— Dêem um jeito, não queremos saber — gritavam os sempre servis mercadores, agora impacientes. — Dizer que o encarregado saiu e que o patrão também saiu não resolve nada!

— Quantas vezes teremos de vir até aqui?

— Eu podia até me retirar sem reclamar se fossem só as contas deste último meio-ano. Afinal, esta casa sempre me prestigiou, desde os tempos do falecido mestre Kenpo. Mas olhem aqui: são contas acumuladas desde os festejos de finados do ano passado, e mais todas deste ano — gritava um mercador, indignado a ponto de quase esfregar o caderno de contas no nariz do atendente.

Eram marceneiros e estucadores, até então prestigiados pela casa Yoshioka, fornecedores de arroz e saque, negociantes de tecidos, e cobradores de diversas casas de chá por onde Seijuro andara divertindo-se ultimamente.

Essas ainda podiam ser consideradas dívidas pequenas. Piores eram as contraídas por Denshichiro junto a agiotas, a juros altíssimos, sem o conhecimento do irmão mais velho.

— Já vi que não adianta discutir com vocês. Vamos, deixe-nos falar com mestre Seijuro.

Cinco ou seis haviam até se sentado, resolvidos a não sair do lugar.

Até pouco tempo atrás, as despesas da academia e da casa Yoshioka haviam estado a cargo de Gion Toji. Mas esse importante personagem volatilizara-se havia alguns dias em companhia de Okoo, a proprietária da hospedaria Yomogi, levando consigo todo o dinheiro arrecadado durante a campanha pelo interior.

Os discípulos não sabiam mais o que fazer.

Oculto no interior da mansão, Seijuro respondera lacônico, ao ser consultado:

— Digam que não estou.

O irmão mais novo, Denshichiro, não era tolo: ele jamais se aproximaria da casa na véspera do Ano Novo, um dia perigoso para devedores em geral.

Nesse instante, um grupo de seis a sete homens arrogantes entrou pela porta: eram Ueda Ryohei e seus companheiros, do bando que se autodenominava “Os Dez Mais” da academia Yoshioka.

Ryohei percorreu o olhar hostil pelo grupo de cobradores.

— Que eles querem aqui? — perguntou, contemplando-os com desdém.

O discípulo designado a atendê-los explicou em poucas palavras a óbvia situação.

— Ah, são cobradores! Vocês querem receber, não é mesmo? Nesse caso, esperem até que a situação desta nobre casa melhore. E quem não quiser esperar, pode me acompanhar até o salão de treino: eu pago de outro modo — disse Ryohei.

 

A solução violenta apresentada por Ryohei indignou os mercadores.

Que significava isso, esperar até que a situação da nobre casa melhorasse? Pior ainda, que história era essa de chamar os descontentes à sala de treinos para ouvir a voz da razão? Afinal, se haviam servido àquela gente com tanta presteza, adulando-os, vendendo fiado, sempre sorridentes — “Volte-amanhã!”, “Sim-senhor!”, “Volte-depois-de-amanhã”, “Sim-senhor!” —, era porque tinham confiado no prestígio do instrutor de artes marciais do xogum Muromachi, o falecido Kenpo. Para tudo tinha um limite, até para a arrogância daquela gente. No dia em que um mercador desistisse de cobrar com medo de ameaças, a classe não sobreviveria! E se os samurais se achavam capazes de tocar o mundo sozinhos, que experimentassem! — diziam as expressões rancorosas nos rostos afogueados.

Ryohei passeou o olhar pelos mercadores que confabulavam unidos e decidiu que eram um bando de idiotas:

— Vão embora, vão! Não adianta continuarem aí sentados. Os mercadores calaram-se, mas não se arredaram do lugar. Ryohei então disse para um dos discípulos:

— Bote-os para fora!

Ao ouvir isso, os cobradores, que até então vinham se contendo, explodiram:

— Isso agora é demais, não acha, patrão?

— O que é demais? — retrucou Ryohei.

— Essa falta de consideração!

— Que falta de consideração?

— Como é que pode mandar botar-nos para fora?

— Nesse caso, por que não se retiram ordeiramente? É véspera de Ano Novo!

— Por isso mesmo! Nós também estamos preocupados, sem saber se conseguiremos ou não nos manter até o próximo ano! É por isso que pedimos encarecidamente: saldem suas dívidas!

— A casa Yoshioka tem mais o que fazer.

— Isso não é desculpa.

— Não me diga que está descontente!

— Não é isso. Basta pagar que não reclamo mais!

— Venha cá um instante.

— Aonde?

— Está com medo, insolente?

— Que jeito mais tolo de resolver as coisas!

— Tolo? Me chamou de tolo?

— Não disse isso do patrão. Quis dizer que isso não está certo.

— Cale a boca!

Ryohei agarrou o homem pela gola, arrastou-o à varanda e lançou-o para fora. O grupo de cobradores que se aglomerava no local saltou para trás, mas dois ou três não conseguiram esquivar-se a tempo e foram arrastados pelo homem.

— Quem mais quer reclamar? Como é que se aglomeram à entrada da nobre casa Yoshioka para cobrar ninharias? Isso é um ultraje! E agora, se o nosso jovem mestre se dispuser a pagar, eu não permitirei. Vamos, botem a cabeça aqui, um por um.

Ao verem a mão fechada de Ryohei erguida em posição ameaçadora, todos se ergueram e saíram disputando a dianteira. No entanto, uma vez fora dos portões, e já que não dispunham de força física, aguçaram as línguas e xingaram:

— Vou rir muito no dia em que vir uma placa na frente desta casa anunciando: vende-se!

— E esse dia não vai demorar!

— Se depender de nossos votos!

Dentro da mansão, Ryohei ouviu os comentários dos ressentidos mercadores e riu a mais não poder. Seguiu então em companhia dos demais para os aposentos de Seijuro e o encontrou sozinho perto do fogareiro, aquecendo-se.

— Isto aqui está quieto demais, jovem mestre. O senhor está bem?

— Claro! — respondeu Seijuro, sentindo novo ânimo ao ver seus melhores homens aproximando-se num grupo compacto. — Está chegando o dia, Ryohei!

— É verdade. E foi para falar a respeito disso que viemos. Que resolvemos quanto ao dia, hora e local do duelo com Musashi?

— Que resolvemos...? — repetiu Seijuro, pensativo.

 

Na carta mandada tempos atrás, Musashi deixara a cargo dos Yoshioka a escolha da data, horário e local do duelo, exigindo porém que os detalhes constassem numa placa que devia ser erguida nos primeiros dias de janeiro sobre a ponte da rua Gojo.

— Primeiro, vamos decidir o local — murmurou Seijuro. — Que acham da campina do templo Rendaiji, ao norte da cidade? — sondou.

— Boa escolha. E quanto ao dia e a hora?

— Primeira semana do ano, ou logo depois.

— Quanto antes, melhor. Assim Musashi não terá tempo de planejar nenhuma estratégia covarde.

— Nesse caso, dia 8.

— Dia 8? Não convém. É o aniversário de falecimento do nosso velho mestre.

— Ah, é o dia em que meu pai morreu, ia-me esquecendo. Vamos então escolher um outro. Manhã do dia 9, último terço da hora do coelho[49]... É isso, está resolvido!

— Nesse caso, farei constar os dados no aviso e o erguerei ainda esta noite à beira da ponte, na passagem do ano. De acordo?

— Sim.

— Pronto para o duelo, jovem mestre?

— Claro!

A situação exigia essa resposta.

Pela cabeça de Seijuro nem sequer passava a idéia de perder para Musashi. A técnica que lhe fora cuidadosamente ensinada na infância pelo pai, Kenpo, jamais fora superada por nenhum dos discípulos ali presentes em todas as ocasiões que com eles se batera, e muito menos haveria de ser por um jovem interiorano em começo de carreira, como esse Musashi, confiava Seijuro.

E se apesar de tudo nos últimos dias sentia súbitas incertezas que lhe perturbavam o equilíbrio emocional, era porque enfrentava diversos problemas pessoais e não porque negligenciara os treinos, acreditava ele.

Seu caso com Akemi podia ser considerado o maior desses problemas: ele se aborrecera muito com o episódio. E quando retornara às pressas para Kyoto, depois de receber a carta de Musashi, Gion Toji tinha fugido com o dinheiro, a situação financeira deteriorou-se ainda mais, cobradores passaram a acuá-lo todos os dias — e não tivera tempo de preparar-se espiritualmente.

E desde que retornara a Kyoto quase não havia visto o jovem Sasaki Kojiro, em quem tinha depositado tanta esperança. Quanto ao irmão, Denshichiro, este nem se aproximava da academia. E apesar de Seijuro não ter Musashi em tão alta conta a ponto de achar que precisaria da ajuda desses dois para derrotá-lo, sentiu-se só e abandonado: o fim do ano prometia ser bastante triste.

— Veja, jovem mestre. Acho que ficou bom — disse Ueda Ryohei vindo com os companheiros de uma sala anexa e apresentando-lhe uma placa de madeira que acabara de ser aplainada e aprontada. As letras ainda brilhavam, úmidas da tinta fresca:

CARTA ABERTA AO ROUNIN DE SAKUSHU MIYAMOTO MUSASHI

Atendendo ao vosso pedido, estabeleço as seguintes condições para o duelo:

Local: Campina do templo Rendaiji, setor norte da cidade.

Data e hora: 9o dia do primeiro mês, último terço da hora do coelho.

Juro, em nome dos deuses, o fiel cumprimento do acima estabelecido. Caso V.S. não cumpra estas condições, será ridicularizado publicamente.

E que os deuses me castiguem, caso eu não as cumpra.

No último dia do ano IX do período Keicho (1605), faz saber

Yoshioka Seijuro, Herdeiro de Yoshioka Kenpo

 

— Acho que está bom — disse Seijuro, acenando gravemente e parecendo enfim acalmar-se.

Com a placa debaixo do braço, Ueda Ryohei seguiu a passos largos em companhia dos demais para a ponte da rua Gojo no anoitecer do último dia do ano.

 

SOLIDÃO

Na área ao pé do monte Yoshida moravam muitos vassalos da nobreza, samurais de vida monótona ganhando módicos estipêndios.

Casas pequenas de portais modestos, de aspecto tão conservador que denunciavam logo à primeira vista a classe social dos habitantes, ali se enfileiravam, tranqüilas.

— Não é esta, nem esta outra.

Examinando um a um os nomes nos portais das casas, Musashi andava pela rua.

— Talvez tenham-se mudado. Desanimado, parou.

Lembrava-se da área muito vagamente em meio à névoa que toldava suas lembranças infantis, já que vira a tia pela última vez no enterro do pai, Munisai. Como, porém, ela era a única parente consangüínea que lhe restava no mundo além da irmã Ogin, Musashi sentiu-se subitamente tentado a procurá-la ao chegar em Kyoto no dia anterior.

Se bem se lembrava, o marido da tia era um samurai em posto subalterno na casa nobre Konoe e vivia de um modesto estipêndio. Imaginara localizar a casa com facilidade na base do monte Yoshida mas, ao chegar ali, eram tantas as casas parecidas — todas pequenas, ocultas atrás de árvores e de portais hermeticamente fechados, encerradas em si como caramujos, algumas com placas de identificação, outras sem elas — que logo viu a dificuldade de descobri-la ou mesmo de pedir informações sobre sua localização.

— Desisto. Acho que já se mudaram mesmo.

Musashi começou a retornar para a cidade. Sobre o centro urbano, a névoa noturna começava a se acumular, refletindo as luzes vermelhas das casas em festa à espera do Ano Novo.

O último dia do ano vinha chegando ao fim e havia no ar um vago burburinho. Nas ruas, as pessoas tinham um jeito diferente de andar e olhar, mais animado que o habitual.

— Ah! — exclamou Musashi, voltando-se para olhar a mulher com quem acabara de cruzar. Fazia sete ou oito anos que não a via, mas essa devia ser a irmã da mãe, que saíra de Sayogo, na província de Banshu, para casar-se e viver em Kyoto.

— Parece-se com ela! — pensou Musashi de imediato. Para ter certeza, seguiu-a durante algum tempo e notou que a mulher, miúda, de quase 40 anos, levando junto ao peito as compras para os festejos da passagem do ano, encaminhava-se para a viela deserta, havia pouco exaustivamente percorrida por Musashi.

— Senhora! Minha tia!

A mulher voltou-se desconfiada e examinou com cuidado o rosto e o corpo inteiro do jovem. Aos poucos, um brilho de surpresa alarmada surgiu em seus olhos, em torno dos quais a vida monótona e parcimoniosa havia-se encarregado de juntar pequenas rugas precoces.

— Ora...Você é Musashi, filho de Munisai, não é?

Ser chamado de Musashi em vez de Takezo pela tia que não via desde a infância era surpreendente e ao mesmo tempo triste.

— Sim, senhora, sou Takezo, dos Shinmen — retificou Musashi.

A tia continuou apenas a olhá-lo, sem dizer: “Como você cresceu!”, ou “Está tão mudado que nem o reconheci!”, como esperava Musashi. Afinal, falou em tom frio, quase reprovador:

— E então? O que o traz aqui?

Enquanto conversavam, e por não se lembrar da mãe que lhe havia faltado bem cedo na vida, Musashi procurava algo desta última no contorno dos olhos e no jeito dos cabelos da tia, perguntando-se se ela teria tido em vida essa mesma altura, ou esse timbre de voz.

— Nada em especial, senhora. Quis apenas saber como estariam passando meus tios, uma vez que estou em Kyoto.

— Ia à minha casa?

— Sim. Espero não estar sendo inconveniente com esta visita repentina.

— Então, considere feita a visita. Já que nos encontramos, não tem mais por que ir à minha casa. Vá-se embora, vá! — disse a mulher abanando a mão, dispensando-o.

 

Como uma mulher podia ser tão fria com o sobrinho que não via há tanto tempo?

Um estranho não seria mais indiferente, considerou Musashi. Censurou-se pela ingenuidade de. ter pensado nela como uma segunda mãe, mas não se conteve e perguntou:

— Por quê, minha tia? Se não me quer ver, eu me vou, não tenha dúvida. Não consigo entender, porém, por que me manda embora, mal nos encontramos no meio da rua. Se tem algo a me censurar, diga-me, senhora.

A franqueza pareceu constranger a tia, que disse:

— Entre um pouco, então, e venha cumprimentar seu tio. Mas sabe como ele é. E se eu disse tudo aquilo é porque não gostaria de vê-lo desiludido com seus modos bruscos. Afinal, você não nos visita há tanto tempo...

Um pouco mais consolado, Musashi seguiu a mulher para dentro da casa.

Logo ouviu do outro lado de uma divisória a voz de Matsuo Kaname, o marido da tia. O sussurro contrariado, asmático, fez Musashi sentir-se malquisto uma vez mais e se remexer constrangido.

— Que disse? Musashi, o filho de Munisai, está aí? Ele tinha de vir justo hoje? E que fez você? Quê? Está aí, no quarto ao lado? Como é que o deixou entrar sem me avisar, mulher tola?

Incapaz de suportar por mais tempo, Musashi chamou a tia e se preparava para apresentar as despedidas quando Kaname correu a porta do quarto e, cenho franzido, espiou pela abertura:

— Então, você está aí!

Parecia estar vendo sobre o seu tatami um imundo protetor de cascos bovinos. “Camponês malcheiroso!”, dizia seu olhar.

— Que veio fazer aqui?

— Vim apenas saber como estão, uma vez que certos assuntos me trouxeram a esta cidade.

— Não minta!

— Como disse?

— Eu sei muito bem, não adianta esconder! Você andou aprontando em sua terra, comprou o ódio de muitos de seus conterrâneos, maculou o nome de sua família e agora está foragido, não está?

— E ainda tem a coragem de dizer que veio apenas para saber como estamos?

— Perdoe-me. Ainda pretendo voltar à minha terra e me justificar perante meus antepassados e o povo de minha aldeia.

— Mas neste momento não está nem em condições de voltar à sua terra, não é verdade? Bem diz o ditado: quem semeia vento, colhe tempestade. Munisai deve estar chorando no seu túmulo.

— Sinto ter-lhes imposto minha presença. Aqui me despeço, minha tia.

— Espere um pouco, rapaz! — interrompeu-o o tio, repreensivo. — Não fique andando a esmo perto da minha casa porque se meterá em sérios apuros. Pois a matriarca dos Hon’i-den — essa velha obstinada de nome Osugi — apareceu-me aqui há coisa de meio ano e diversas outras vezes nos últimos dias. Ela se senta aí na entrada, furiosa, querendo saber se você esteve nesta casa e insiste conosco para que lhe forneçamos informações sobre o seu paradeiro.

— Ah, a velha senhora tem aparecido também por aqui?

— E fiquei sabendo de tudo por intermédio dela. Se laços de sangue não o ligassem à minha mulher, eu o entregaria a ela amarrado; mas sei que não posso fazer isso. Descanse um pouco e depois parta, ainda esta noite, antes que nos envolva em seus problemas e acabe prejudicando-nos também.

Era decepcionante: seus tios já o haviam julgado com base na versão apresentada pela velha Osugi.

Musashi permaneceu cabisbaixo, em sombrio silêncio: uma tristeza sem tamanho tinha agravado sua natural introversão.

A atitude pareceu finalmente comover a tia, que o convidou a descansar um pouco no aposento ao lado. Mais do que isso ela não lhe ofereceria, pelo jeito. Musashi levantou-se em silêncio e foi para a outra sala. O cansaço dos últimos dias e a necessidade de estar no dia seguinte, o primeiro do ano, sobre a ponte da rua Gojo, levou-o a deitar-se imediatamente com a espada nos braços. Era a própria imagem do homem solitário, ciente de que só podia contar consigo mesmo em todo o mundo.

 

Tentando ver o lado positivo do episódio, Musashi considerou que não devia ofender-se tanto. A atitude fria, as palavras ásperas, tinham uma explicação: aqueles eram seus verdadeiros tios, não necessitavam tratá-lo cerimoniosamente.

De tão irritado com eles, chegara a pensar em cuspir na entrada da casa e partir, mas sentiu que tinha de se esforçar por interpretar positivamente suas atitudes. Como pessoa a eles ligada por fortes laços de sangue, Musashi gostaria de ajudá-los ou de ser por eles ajudado em situações adversas.

Mas esse sentimentalismo era típico de um jovem ignorante. Musashi era imaturo, infantil até, em sua visão do mundo e das pessoas. Esse tipo de relacionamento com parentes só seria possível se ele já fosse rico e famoso, mas não agora, que lhes surgira à porta numa noite fria, sujo e mal vestido, além de tudo na véspera do Ano Novo.

O erro de julgamento logo se evidenciou.

Confiante nas palavras da tia que o convidara a descansar um pouco, Musashi havia se deitado no escuro, faminto, à espera da refeição. No entanto, apesar dos aromas de cozidos e do barulho da louça provenientes da cozinha desde o anoitecer, ninguém lhe surgiu à porta para convidá-lo a jantar.

No pequeno fogareiro portátil restava apenas uma fraca brasa brilhando como um vaga-lume. Mas fome e frio eram secundários: descansando a cabeça sobre o braço dobrado, Musashi dormiu profundamente por quase quatro horas.

— Sinos da passagem do ano!...

Musashi ergueu-se de repente: o cansaço dos últimos dias havia desaparecido como por encanto e a mente estava lúcida e serena.

Sinos de todos os templos, dentro e fora da cidade, repercutiam gravemente anunciando o fim das trevas e a chegada da luz.

Os 108[50] toques do sino conclamavam a humanidade a despertar das paixões terrenas, instigavam os homens a refletir sobre a transitoriedade das coisas materiais.

— Eu estava certo.

— Fiz tudo que tinha de ser feito.

— Não me arrependo do que fiz.

 “Quantas pessoas no mundo haveria capazes de pensar assim neste momento?”, indagava-se Musashi. A cada toque de sino, remorsos agitavam-se em seu íntimo, fatos passados de que agora se arrependia amargamente.

E isso acontecia não só nesse ano. No anterior, e no anterior a esse, não se lembrava de haver passado um ano, ou um dia sequer sem lamentar alguma coisa.

O ser humano parece propenso a fazer alguma coisa e arrepender-se logo depois. Mesmo em matérias como a escolha da parceira, a grande maioria do homens arrasta vida afora um irremediável arrependimento. Que mulheres se arrependam ainda é perdoável. No entanto, é difícil ouvi-las queixando-se. O mesmo não acontece com os homens: eles falam das próprias mulheres com agressividade, no mesmo tom com que se refeririam a sandálias velhas e gastas — uma atitude patética e desprezível.

Musashi não tinha problemas conjugais, mas isso não o impedia de ter outras coisas a lamentar. Agora, por exemplo, já se arrependia de ter vindo àquela casa.

“Continuo confiando demais em coisas como laços sangüíneos. Vivo dizendo a mim mesmo que sou só no mundo, que posso contar apenas comigo mesmo, e quando menos espero, cá estou eu, tentando depender de alguém. Sou tolo, muito ingênuo, tenho de crescer!”

Sentia-se humilhado, desprezava a própria imagem humilhada e envergonhava-se cada vez mais de si próprio.

— É isso: vou deixar escrito!

Movido por um repentino impulso, desfez a pequena trouxa de viagem.

Nesse mesmo instante, uma mulher idosa em trajes de viagem parava à porta da casa e nela batia resolutamente.

 

Musashi retirou da trouxa um caderno rústico — feito de folhas de papel dobradas em quatro e costuradas num dos lados — e tomou do pincel.

Ali Musashi anotara impressões colhidas durante as viagens, conceitos zen, detalhes geográficos interessantes, palavras de incentivo dirigidas a si mesmo, e aqui e ali, paisagens em pinceladas rápidas.

Musashi contemplou a página em branco. As 108 badaladas continuavam a repercutir, ora à distância, ora próximas. Escreveu:

“De nada me lamentarei.”

Fazia parte de seu hábito registrar palavras de auto-censura toda vez que descobria pontos fracos em si mesmo. Mas escrever apenas não fazia sentido: as palavras tinham de ficar gravadas em seu espírito e, para tanto, deviam ser cantadas a cada manhã e noite como um sutra. Por conseguinte, o fraseado tinha de ser melódico, fácil de ser recitado, como um poema.

Depois de refletir alguns instantes, reescreveu:

“Não lamentarei meus atos passados.”

Repetiu a frase baixinho, para si mesmo. Mas ainda parecia haver algo que não lhe agradava, pois recompôs a frase:

“Jamais me arrependerei de meus atos.”

A frase inicial: “Nada lamentarei”; não era forte bastante. Tinha de ser “arrependerei”; e definitivo como “jamais”. “Jamais me arrependerei de meus atos.”

— É isso!

Satisfeito, jurou a si mesmo que assim seria doravante. Tinha de progredir muito, forjar corpo e espírito o tempo todo para alcançar um dia o ponto de não precisar mais arrepender-se de suas ações.

“A meta é distante, mas ainda chegarei lá “, prometeu a si mesmo.

Foi então que a porta do shoji às suas costas correu silenciosamente e o rosto friorento da tia espiou:

— Musashi — sussurrou, com voz trêmula, contida. — Está vendo? Algo me dizia para não deixá-lo entrar em casa! Pois aí está Osugi, a matriarca dos Hon’i-den, batendo à minha porta bem na passagem do ano! Ela deu com os olhos nas sandálias que você descalçou na entrada da casa e está esbravejando, enfurecida: “Musashi tem de estar aqui! Traga-o à minha presença!” Escute, escute só como ela grita! Que horror! E agora, Musashi?

— Como? A velha Osugi?

Efetivamente, a voz ríspida da obstinada matriarca alcançava-o junto ao vento frio que entrava uivando pelas frestas.

Os sinos da passagem de ano acabavam de se calar e a tia estava se preparando momentos atrás para tomar um copo de água pura, o primeiro do ano que começava, e chamar os bons augúrios. E que seria da casa se neste momento místico nela ocorresse derramamento de sangue? Sem dar-se ao trabalho de disfarçar o desagrado, a tia lhe disse:

— Fuja, Musashi, por favor! A fuga é o caminho mais seguro. Como você deve estar ouvindo, seu tio tenta impedir a entrada da velha senhora, afirmando que não hospeda você. Aproveite e fuja pelos fundos!

Ainda falando, juntou ela própria os pertences e o sombreiro do sobrinho, e levou-os até a porta dos fundos, para onde também trouxe um par de meias de couro e as sandálias do tio.

Musashi as calçou atendendo aos insistentes apelos da tia, mas disse, bastante constrangido:

— Sei que estou sendo inconveniente, minha tia, mas lhe serei muito grato se me der algo para comer. Uma tigela de arroz e picles serão suficientes. Não como nada desde a tarde passada.

A tia reagiu indignada:

— Isso é hora de falar em comida? Tome! Leve isto e vá-se embora de uma vez!

Assim dizendo, trouxe-lhe cinco nacos de mochi[51] envoltos em um pedaço de papel. Musashi os aceitou, levou-os à testa com as duas mãos em sinal de agradecimento e despediu-se:

— Adeus!

Saiu a seguir para o mundo ainda escuro apesar da chegada do novo ano, e seguiu caminho cabisbaixo, pisando a fina crosta de gelo que recobria a terra, um vulto triste e friorento lembrando um pássaro sem penas vagando no inverno.

 

Musashi sentia cabelos e unhas prestes a congelar na fria madrugada. Tinha apenas uma percepção aguda do próprio hálito branco contrastando com a escuridão, mas o frio era tão intenso que até mesmo esse bafo morno ameaçava transformar-se em gelo antes ainda de alcançar a barba em torno da boca.

— Que frio! — disse alto, involuntariamente. Nem nos oito infernos gelados sentiria tanto frio, imaginou Musashi, perguntando-se o motivo dessa desconfortável sensação justo nessa manhã.

— É porque o frio está no coração, e não no corpo — descobriu Musashi. — Para começar, tenho ainda em mim essa carência que me leva às vezes a ansiar por afeto, como se eu fosse um bebê e buscasse o calor materno. Isso me leva a sentir solidão, a invejar o calor que coa pelas janelas dos lares alheios. Por que não me orgulho desta solidão e desta vida nômade que me foram concedidas? Por que não as considero ideais e não agradeço aos céus por elas?

Os dedos dos pés, congelados e doloridos, tinham-se repentinamente aquecido até as pontas. Agora, o hálito branco era vapor a abrir caminho no escuro, varrendo o frio.

— Um nômade solitário que não tem ideais nem sente gratidão por sua vida independente nada mais é que um mendigo. O que diferencia o monge poeta nômade Saigyou de um reles mendigo é a existência desse sentimento no seu coração.

De súbito, Musashi ouviu um estalo seco e, simultaneamente, um raio branco partiu de sob a planta dos pés e correu pelo chão. Observou melhor e percebeu que pisava uma fina crosta de gelo. Sem que se desse conta, ele havia descido para a beira do rio Kamogawa e andava Por sua margem oriental.

Não havia vestígios de aurora no céu ou nas águas do rio. Ele viera andando sem hesitar desde a base da montanha Yoshida, em meio a uma escuridão negra como o breu, mas agora, ao perceber que estava na beira do rio, imobilizou-se, incapaz de dar mais um passo.

— Vou acender uma fogueira! — decidiu-se.

Aproximou-se do barranco e juntou gravetos, pedaços de madeira e outros materiais de fácil combustão. Bateu a pederneira. Precisou de paciência e empenho para conseguir uma minúscula chama.

Finalmente, os gravetos pegaram fogo. Sobre eles empilhou cuidadosamente, como uma criança construindo um castelo de brinquedo, pequenas aparas fáceis de queimar. O fogo adquiriu intensidade, cresceu de súbito e, atiçado pelo vento, estendeu labaredas que ameaçaram lamber-lhe o rosto.

Musashi retirou das dobras internas do quimono o pequeno embrulho contendo os nacos de mochi e os assou na fogueira. Observando os bolinhos que tostavam, cresciam e rompiam a crosta externa, lembrou-se dos Anos Novos da sua infância. A tristeza dos que cedo perderam o lar lhe aflorou na alma como uma bolha, refletindo a luz da fogueira.

Musashi comeu em silêncio. Os mochi não tinham gosto de nada, mas o jovem neles sentiu o sabor do mundo.

— Uma comemoração somente minha.

No rosto abrasado pelo calor da fogueira, os cantos dos lábios ergueram-se num sorriso, como se repentinamente se lembrasse de algo divertido.

— E que bela comemoração! Pelo visto, o céu concede a todos o direito de festejar a entrada do ano, já que nem a mim recusou estes cinco pedaços de mochi. Farei um brinde ao Ano Novo com as águas do rio Kamo-gawa, e terei os 36 picos da cadeia Higashiyama para enfeitar o meu portal. E agora, vou me purificar e aguardar o raiar do primeiro dia do ano.

Aproximando-se de um remanso, Musashi desatou o obi. Largou quimono e roupas de baixo na margem do rio e mergulhou.

Lavou-se inteiro chapinhando na água como um pássaro e, instantes depois, enquanto se secava com vigorosos movimentos, a luz da manhã rompeu as nuvens e começou lentamente a iluminar-lhe as costas.

Foi então que um vulto se aproximou da beira do rio atraído pelo clarão da fogueira, e parou em pé sobre o barranco. Embora totalmente diferente de Musashi tanto no físico como na idade, o vulto era o de um outro andarilho perdido no mundo, ali conduzido pelo karma, ou seja, o de Osugi, a matriarca dos Hon’i-den.

 

A AGULHA

 “Finalmente o achei, fedelho!”, gritou Osugi no íntimo. Alegria e temor confundiam-se no peito agitado.

— Ah, maldito!

Tinha vontade de agir de imediato, mas o corpo vacilante se opôs e lhe tirou o equilíbrio: Osugi cambaleou e caiu sentada rente ao tronco de um pinheiro.

— Que alegria! Finalmente o encontrei! Isto só pode ter acontecido por obra do espírito de Tio Gon, morto de maneira tão inesperada na praia de Sumiyoshi.

A velha Osugi tinha, nesse exato momento, um pedaço de osso e uma mecha dos cabelos do velho guardados na pequena trouxa de viagem atada à cintura. Nunca se separava dessas lembranças e com elas conversava durante suas longas jornadas: “Tio Gon: você pode ter morrido, mas não acho que estou sozinha. Afinal, partimos juntos de nossa terra jurando juntos retornar depois de justiçar Musashi e Otsu... Sei que seu espírito permanecerá comigo sobre este meu velho ombro até cumprirmos a promessa! E eu lhe prometo que vou-me empenhar para liquidar Musashi o mais breve possível. Espere e verá, tio Gon.”

Osugi não se cansava de repetir noite e dia as mesmas palavras, como um sutra. Sete dias haviam-se passado desde a morte do tio Gon. E nesses sete dias a velha Osugi procurara Musashi com o mesmo intenso desespero da deusa Kishimojin[52] em busca do filho perdido. E agora, finalmente o encontrara.

A primeira pista viera na forma de um boato entreouvido nas ruas de Kyoto, dando conta de um provável duelo entre Yoshioka Seijuro e Musashi, nos dias seguintes.

A segunda havia sido uma placa, afixada na tarde anterior por alguns discípulos da academia Yoshioka na ponte Oubashi da rua Gojo, em meio a um intenso tráfego.

“Mas é muito atrevido, esse Musashi! Tanta petulância é digna de riso! Está claro que Yoshioka Seijuro vai liquidá-lo, mas... Nesse caso, não posso cumprir a promessa feita a meus conterrâneos. Haja o que houver, tenho de agir antes para conseguir a cabeça desse amaldiçoado, erguê-la pelos cabelos e mostrá-la ao meu povo”, pensava Osugi, frenética depois de ler o aviso.

Conclamando a ajuda dos deuses ancestrais, e apertando junto ao corpo o osso do velho Gon, ela havia tomado a decisão de encontrar Musashi, mesmo que para isso tivesse de afastar com as mãos uma a uma todas as moitas sobre a face da terra.

E foi assim que, pela enésima vez, havia batido nessa noite à porta de Matsuo Kaname. E depois de ter questionado os tios de Musashi sem resultado e destilado veneno pela boca, vinha ela retornando desanimada pelo barranco do rio nas proximidades da rua Nijo quando avistara um clarão nos baixios à beira do rio. Osugi havia parado sobre o barranco e espiado, imaginando tratar-se de um mendigo aquecendo-se ao calor de uma fogueira. E então avistou nas águas rasas do rio, a quase dez metros de um fogo vivo, um homem saindo do banho: ignorando o frio intenso, o homem enxugava o corpo musculoso.

“Musashi!”

Mal o identificou, a velha caiu sentada, incapaz de se erguer por alguns instantes. Seu adversário estava nu. Era uma oportunidade única para aproximar-se correndo e abatê-lo de golpe, mas o idoso e murcho coração não lhe permitia. As emoções, cada vez mais confusas com o avançar da idade, assumiram o comando da situação e a velha, agitada, só sabia dizer, como se já tivesse efetivamente a cabeça de Musashi em suas mãos:

— Gloriosos deuses, agradeço-vos a ajuda! Quanta alegria! Não posso ter encontrado Musashi por mera coincidência: minhas preces fervorosas dos últimos dias devem ter-vos comovido, ó deuses, e vós me proporcionastes a oportunidade de me vingar com estas mãos!

E ali se deixava ficar Osugi, mãos postas agradecendo aos céus com uma tranqüilidade comum em idosos, mas incomum em se tratando dela.

 

Uma por uma, as pedras do baixio emergiam das trevas revelando seus contornos úmidos e brilhantes à luz da aurora.

Depois de enxugar o corpo, Musashi vestiu-se, introduziu as duas espadas no obi firmemente atado à cintura e ajoelhou-se, curvando a cabeça em silenciosa prece aos deuses.

— É agora! — decidiu Osugi, frenética. Mas nesse mesmo instante Musashi saltou de súbito uma poça de água e pôs-se a caminho. Temendo vê-lo fugir se o chamasse daquela distância, a velha Osugi, alarmada, seguiu pelo barranco para a mesma direção.

O primeiro alvorecer do ano aos poucos revelou vagos e harmoniosos contornos de telhados e pontes da cidade, mas estrelas ainda brilhavam no céu e a noite se demorava, escura, na base do monte Higashiyama.

Passando sob a ponte da rua Sanjo, Musashi abandonou o baixio e emergiu sobre o barranco, sempre caminhando a passos largos.

A velha Osugi pensou em detê-lo diversas vezes, ordenando:

“Pare, Musashi!”

Buscando porém com a sagacidade dos velhos a condição mais favorável para efetuar o ataque — uma brecha na guarda, a distância ideal —, acabou por andar-lhe à cola algumas centenas de metros.

Musashi já tinha percebido a presença de Osugi havia algum tempo e não se voltara de propósito: no instante em que se voltasse e seus olhos se encontrassem, a velha lhe saltaria em cima, tinha certeza. Embora idosa, Osugi estava armada e desesperada, e Musashi teria de reagir, ao menos para evitar ferir-se.

“Aí está uma adversária temível!”, considerou Musashi seriamente.

Fosse aquele o Takezo dos tempos da vila Miyamoto, tê-la-ia repelido com um murro, lançando-a no chão a cuspir sangue. Mas agora, não se sentia propenso a isso.

Na verdade, Musashi é quem devia odiá-la, e não Osugi a ele. O ódio que Osugi lhe devotava — intenso a ponto de fazê-la jurar-lhe inimizade por todas as sete reencarnações a que uma alma está destinada — tinha origem em mal-entendidos e em confusas emoções que, uma vez esclarecidos, deveriam promover o entendimento. Mas Musashi poderia explicar-lhe as razões um milhão de vezes e ainda assim não lograria fazê-la esquecer a vingança cuidadosamente planejada e levá-la a dizer:

— Ah, então foi isso? Agora entendi!

No entanto, mesmo se o próprio filho Matahachi ali estivesse para lhe explicar como haviam os dois partido para a batalha de Sekigahara e o que lhes havia sucedido depois da guerra, essa obstinada anciã ainda assim não deixaria de achar que ele, Musashi, era o pior inimigo de quantos havia da família Hon’i-den, muito menos que fugira raptando a noiva do filho.

“Esta é uma boa oportunidade para promover o encontro dela com Matahachi. Se chegarmos à ponte da rua Gojo, talvez já o encontre lá, à minha espera”, imaginou Musashi, certo de que o recado havia sido transmitido ao amigo.

E a base da referida ponte Oubashi estava próxima. A região, populosa e de intenso tráfego de pedestres, ainda conservava, mesmo depois das inúmeras batalhas do período Sengoku, a magnificência dos áureos tempos da casa Taira, como as grandes mansões e o jardim de rosas de Taira-no-Shigemori. Nessa manhã, porém, todos os portais ainda estavam fechados.

Marcas deixadas na noite anterior por ancinhos continuavam inalteradas na frente das casas adormecidas e aos poucos se definiam na luz branca do alvorecer.

Os contornos das grandes pegadas de Musashi também passaram a definir-se ao olhar de Osugi. Como odiava essas pegadas!, pensou a velha.

Pouco menos de 100 metros separava agora os dois da boca da ponte.

— Musashi! — gritou Osugi, a voz rouca, como se expelisse catarro da garganta. Punhos cerrados e pescoço esticado, ela aproximou-se correndo.

 

— Carcaça humana à minha frente! É surdo, por acaso?

Era óbvio que Musashi a ouvira. Os passos de Osugi correndo-lhe no encalço podiam não ser vivazes como os de um jovem, mas soavam determinados, como os de alguém preparado para morrer.

Costas voltadas para ela, Musashi continuava a caminhar.

“E esta agora!”, pensava. Não lhe ocorria estratégia alguma para livrar-se dessa emergência.

Entrementes, Osugi passou-lhe à frente e ordenou:

— Pare, já lhe disse!

A velha senhora barrou a passagem de Musashi, ofegando como um asmático, empenhando-se em normalizar a respiração e juntar saliva na boca.

Incapaz de ignorá-la por mais tempo, Musashi dirigiu-lhe a palavra a contragosto:

— Ora, se não é a matriarca dos Hon’i-den! Que encontro inesperado!

— Petulante como sempre, não é, Musashi? Inesperado digo eu! Você me escapou lindamente na ladeira Sannen-zaka, de Kiyomizu. Mas hoje, essa cabeça é minha! — gritou, esticando o corpo inteiro e mais o pescoço fino e enrugado semelhante ao de um galo de rinha em direção ao alto Musashi. Para o jovem, a anciã de lábios arreganhados a berrar indignada, quase cuspindo os salientes incisivos superiores, era mais temível do que um robusto guerreiro furioso.

Boa parte do temor lhe fora incutido na infância. Naqueles distantes dias — Matahachi, um menino ranhento, e Musashi, um garoto levado de quase nove anos — ele costumava sentir um nó nas tripas, encolhia-se de medo e fugia em disparada toda vez que cruzava com a velha Osugi nas plantações de amora ou na cozinha da sua casa e a ouvia esbravejar: “Moleque!”.

E o berro trovejante continuava, pelo jeito, a soar em algum canto da sua mente, pois Musashi encarou nesse momento a velha que sempre considerara antipática e rabujenta com uma quase resignação, apesar do ódio profundo que lhe devotava agora em decorrência do que havia sofrido em suas mãos depois da batalha de Sekigahara.

Osugi, por seu lado, não conseguia esquecer-se de Takezo, o fedelho traquinas. Para ela, Musashi continuava o mesmo moleque ranhento cheio de caspas, quase monstruoso com suas pernas e braços compridos demais. Podia até admitir que ela própria envelhecera e que ele se tornara adulto, mas não conseguia alterar o conceito que fazia dele.

E sentir-se tratada desse jeito pelo homem a quem ainda considerava um moleque era-lhe insuportável por causa da palavra empenhada junto ao povo de sua terra, e mais que tudo, do ódio que lhe devotava. Osugi não podia deixá-lo impune: tinha de levar Musashi ao túmulo junto com ela.

— Não precisa dizer mais nada. Ou me deixa cortar sua cabeça sem resistir, ou luta contra mim. Resolva, Musashi!

Assim dizendo, a velha levou os dedos da mão esquerda à boca — aparentemente para umedecê-los — e apoiou-os em seguida no cabo da espada curta em seu quadril, avançando para Musashi.

 

 “Um louva-a-deus contra um tanque de guerra.” A frase, usada nestas situações, escarnece do louva-a-deus raquítico, no caso a matriarca dos Hon’i-den, armando sua pata em forma de foice e investindo contra um ser humano.

O olhar de Osugi tinha na verdade algo da fúria do louva-a-deus. A cor de pele e a aparência geral eram, além disso, idênticas ao do inseto.

Musashi — com seu peito volumoso e ombros largos, a acompanhar impassível os movimentos de aproximação da anciã como se observasse uma criança brincando — era a própria imagem do tanque de guerra a contemplar desdenhoso a investida do louva-a-deus.

A situação beirava o cômico, mas Musashi não tinha vontade de rir.

Subitamente, sentiu pena, uma intensa simpatia e vontade de confortar essa anciã que se havia tornado sua inimiga.

— Obaba, obaba! Espere um pouco! — disse, segurando-a levemente pelo cotovelo.

— Como se atreve! — berrou Osugi, fazendo tremer o cabo da espada seguro na mão, e os protuberantes incisivos. — C... Covarde! Não adianta querer me tapear, fedelho inexperiente! Esqueceu-se de que esta velha já viu no mínimo 40 Anos Novos mais que você? Ademais, não tenho tempo para conversa mole. Vamos, deixe-me acabar com você de uma vez!

A cor da velha Osugi já se havia tornado cadavérica e o tom de sua voz era desesperado. Musashi assentiu:

— Eu a compreendo... Compreendo muito bem. Mostra a fibra de um Hon’i-den, valorosos vassalos de Shinmen Munetsura.

— Refreie a língua, moleque insolente. Engana-se se pensa que vou-me derreter ouvindo lisonjas de um fedelho que tem idade para ser meu neto.

— Não distorça o sentido do que lhe falo e escute sem prevenções o que eu tenho a lhe dizer, obaba.

— Seu testamento, por acaso?

— Não, explicações.

— Covarde! — berrou Osugi indignada, pondo-se na ponta dos pés, como se quisesse alongar o pequeno corpo, e gritando:

— Não quero ouvir, não quero ouvir! Não tenho ouvidos para explicações, a esta altura!

— Nesse caso, deixe sua espada sob minha guarda momentânea. E então, daqui a pouco, quando Matahachi aparecer na ponte Oubashi, tudo se esclarecerá.

— Você disse Matahachi?

— Isso mesmo. Mandei-lhe um recado na primavera do ano passado.

— Que recado?

— Prometi que me encontraria com ele aqui, esta manhã.

— Mentiroso! — esbravejou Osugi, sacudindo a cabeça, frenética.

Se fosse verdade, Matahachi naturalmente ter-lhe-ia falado a respeito quando tinham se encontrado na cidade de Osaka, havia pouco. Matahachi não recebera recado algum de Musashi. Só por isso, Osugi decidiu serem mentiras tudo que Musashi lhe dizia.

— Você não tem vergonha, Musashi? É filho de Munisai ou não? Teu pai não lhe ensinou que um homem deve morrer com dignidade quando chega a sua hora? Cansei-me desse jogo de palavras. Quero ver se é capaz de defender-se deste golpe guiado pela mão dos deuses, o mais ansiado da minha vida!

A velha Osugi encolheu repentinamente o braço, livrou o cotovelo, empunhou a espada com as duas mãos e arremeteu em linha reta contra o peito de Musashi, gritando:

— Namu! Que assim seja!

Musashi bateu-lhe de leve nas costas com a palma da mão e esquivou-se.

— Calma, obaba! — disse.

— Oh, todo misericordioso, todo compassivo! — invocou Osugi frenética, voltando-se, e repetiu: — Namu Kanzeon Bosatsu! Glória a Kanzeon misericordiosa!

O golpe foi violento, mas Musashi esquivou-se, agarrou-lhe o pulso e a atraiu a si, dizendo:

— Desse jeito você vai acabar se queixando de cansaço mais tarde, obaba. Vamos, é logo aí, acompanhe-me sem discutir até a ponte Oubashi!

Com o braço torcido e imobilizado, Osugi voltou o rosto para Musashi, nele fixando o olhar feroz. Franziu então os lábios como se fosse cuspir. O ar saiu de sua boca com um silvo.

— Aah!

Musashi afastou-a com um empurrão e saltou para trás, levando a mão ao olho esquerdo.

 

O olho ardia, como se uma brasa o houvesse atingido.

Musashi retirou a mão da pálpebra e a examinou, mas nela não viu vestígios de sangue. Não conseguia, porém, sequer entreabrir o olho esquerdo.

Ao perceber a perturbação do adversário, Osugi exultou:

— Glória a Kanzeon Bosatsu!

Sem lhe dar trégua, atacou-o com dois, três golpes seguidos de espada.

Algo desnorteado, Musashi esquivou-se enviesando o corpo. No mesmo instante sentiu a espada de Osugi atravessar-lhe a manga do quimono e roçar-lhe o antebraço na altura do cotovelo. Pelo rasgo da manga, o tecido branco do forro surgiu manchado de sangue.

— Acertei! — gritou Osugi louca de alegria, golpeando a esmo. Parecia estar atacando uma árvore, sem sequer notar que seu adversário não reagia. Chamava à terra a misericordiosa deusa Kanzeon Bosatsu de Kiyomizudera, e saltitava ao redor de Musashi uivando ruidosamente:

— Namu! Namu!

Musashi apenas acompanhava seus movimentos, esquivando-se quando necessário. Mas o olho ardia violentamente, como se acabasse de levar um soco, e o cotovelo esquerdo, embora o ferimento fosse insignificante, sangrava tanto que chegava a manchar a manga do quimono.

“Que descuido!”, pensou Musashi, tarde demais. Nunca, até esse dia, ele havia passado pela experiência de ceder a iniciativa a um oponente e, sobretudo, de ferir-se em conseqüência disso. Musashi não tinha querido revidar os golpes desferidos por essa anciã de agilidade física comprometida porque a situação não era de duelo: ele com certeza não se sentia combativo com relação à velha Osugi, e nem lhe passara pela cabeça a idéia de vencê-la ou de ser por ela derrotado.

E não seria essa atitude um genuíno descuido? Do ponto de vista tático, a situação evidenciava a derrota de Musashi, sua imaturidade exposta de modo insofismável pela fé e pela espada da velha Osugi.

Musashi percebeu a própria falha com um sobressalto:

“Cometi um erro!”

Ato contínuo, descarregou com toda a força uma palmada no ombro da matriarca que, empolgada, continuava a atacar.

— Ah!

Osugi caiu de quatro: a espada lhe escapou da mão e voou longe. Musashi apanhou a arma com a mão esquerda, e com o braço direito, enlaçou a cintura da velha Osugi que lutava por erguer-se.

— Ai, que ódio! — gritou Osugi suspensa no ar sob o braço de Musashi, debatendo-se como uma tartaruga. — Onde estão os deuses? Onde estão os santos que não me vêm ajudar? Logo agora que já tinha conseguido golpeá-lo uma vez! Ai, que faço? Musashi! Não me humilhe mais! Corte-me a cabeça de uma vez, vamos!

Musashi cerrou os lábios com firmeza e pôs-se a andar em largas passadas.

E durante todo o tempo, Osugi não parou de gritar com voz rouca que parecia vir das entranhas:

— Estava escrito que assim seria: a sorte na guerra é imprevisível. Se estes são os desígnios divinos, por que lamentar? Quando Matahachi souber que seu tio Gon morreu sem completar a missão e que sua mãe tombou pelas mãos do homem a quem jurou matar, com certeza se erguerá indignado, disposto enfim a vingar-se. E agora, minha morte não terá sido em vão! Ao contrário, servirá de estímulo! Musashi! Ande logo, acabe comigo! Aonde é que você vai? Pretende me humilhar antes de me matar? Corte-me a cabeça, já lhe disse!

 

Musashi não lhe deu ouvidos e, com a velha Osugi debaixo do braço, aproximou-se da boca da ponte Oubashi:

“E agora, onde a deixo?”, pareceu perguntar-se, percorrendo o olhar ao redor em busca de um lugar apropriado. “Já sei!”

Desceu uma vez mais do barranco para a margem do rio e depositou a anciã cuidadosamente no fundo de um bote atado ao pilar da ponte.

— Fique aqui por algum tempo, obaba. Dentro em breve, seu filho há de vir.

— Que pretende? — berrou Osugi, repelindo com violência as mãos de Musashi e algumas esteiras ao seu redor. — Matahachi não vai aparecer por aqui. Ah, agora começo a compreender: não contente em matar-me, você pretende ainda me expor ao olhar dos que trafegam pela ponte, me humilhar em vida, e só depois liquidar-me!

— Ora, continue pensando o que quiser. Logo compreenderá.

— Mate-me, Musashi!

— Ah-ah! — riu Musashi alegremente.

— Está rindo de quê? Não tem sequer coragem de passar a espada por este pescoço fino e velho? — esbravejou Osugi.

— Isso mesmo: não tenho.

— Covarde!

Osugi mordeu a mão do jovem que, como último recurso, tentava amarrá-la e prendê-la ao fundo do barco.

Abandonando o braço para que a velha o mordesse à vontade, Musashi acabou de atá-la tranqüilamente. Devolveu em seguida a espada curta à bainha, e a introduziu de novo na cintura de Osugi. Ia afastar-se quando a velha tornou:

— Musashi! Musashi! Você desconhece o código de honra dos bushil Volte aqui que eu lhe ensino!

— Mais tarde, obaba.

Fez uma ligeira mesura e apoiou um dos pés no barranco. Como porém a velha Osugi não parava de esbravejar, voltou atrás e lançou sobre ela as esteiras existentes no barco.

Nesse exato momento, o sol mostrou de súbito a borda do seu disco em chamas sobre a crista da montanha Higashiyama: o primeiro dia do ano raiava.

Parado na boca da ponte Gojo Oubashi, Musashi contemplou extasiado o magnífico espetáculo. Os raios rubros pareciam penetrar-lhe o corpo, tingindo de vermelho o âmago do seu ser.

Lamúrias que vicejam o ano inteiro em meio a pensamentos mesquinhos dissipam-se ante esse radioso brilho: Musashi sentiu-se purificado, o coração repleto da alegria de viver.

— Além de tudo, sou jovem!

A energia contida nos cinco nacos de mochi percorria-lhe o corpo e lhe chegava até os calcanhares. Musashi voltou-se:

— Pelo jeito, Matahachi ainda não chegou — murmurou, examinando a ponte. E então deixou escapar uma súbita exclamação: o que já o aguardava sobre a ponte desde a noite anterior não era Matahachi nem qualquer outra pessoa, mas o aviso afixado por Ueda Ryohei e alguns discípulos da academia Yoshioka.

“Local: campina do templo Rindaiji.

Dia nove, último terço da hora do coelho.”

Musashi arrepiou-se inteiro, aproximou o rosto e observou com cuidado a placa recém-preparada e a tinta ainda fresca. Só de ler sentia-se enrijecer como um porco-espinho, o sangue quente e o espírito combativo estufando-lhe o corpo.

— Ah, como dói!

Incapaz de suportar o violento ardor no olho esquerdo, Musashi levou novamente a mão à pálpebra e, ao baixar a cabeça, descobriu horrorizado uma agulha espetada no quimono, logo abaixo do queixo. Observou com atenção e percebeu de imediato mais quatro ou cinco na gola e nas mangas, brilhando como agudas farpas de gelo.

 

— É isso, então!

Extraiu uma delas e examinou-a cuidadosamente. Tinha tamanho e grossura aproximados de uma agulha comum, mas nela não havia o orifício para a passagem da linha. Além disso, era triangular e não cilíndrica.

— Velha bruxa! — murmurou Musashi espiando o baixio e arrepiando-se de horror. — Isto aqui deve ser uma agulha de sopro. Já ouvi falar delas, mas nem em sonho podia imaginar que a velha possuísse esse tipo de habilidade secreta. Que perigo!

Interessado, recolheu uma a uma as agulhas e as prendeu na gola, em segurança, com o intuito de estudá-las mais tarde.

Segundo o que já ouvira dizer em sua curta vida de guerreiro, existiam duas correntes entre os praticantes de artes marciais, uma defendendo a existência da técnica de soprar agulhas guardadas na boca, e outra negando-a.

De acordo com os que a defendiam, essa era uma técnica tradicional de auto-defesa muito antiga. Inicialmente empregada como simples passatempo por costureiras e tecelãs chinesas naturalizadas que haviam trabalhado nos departamentos têxteis do governo japonês, a técnica evoluíra aos poucos vindo até ser aproveitada na arte militar. Embora não constituísse por si só uma arma, a referida técnica seria um recurso refinado que antecedia o próprio ataque, tendo existido até o período Ashikaga, diziam os defensores, convictos.

Os que negavam sua existência rebatiam:

— Não digam asneiras. A própria discussão em torno da existência ou não de algo tão primário quanto isso já representa uma vergonha para a classe guerreira.

Esta corrente, que dizia interpretar corretamente a teoria da arte guerreira, afirmava:

— Tecelãs e costureiras vindas da China talvez passassem o tempo brincando desse jeito, mas uma brincadeira é sempre uma brincadeira, e não uma arte marcial. Além de tudo, no interior da boca humana existe a saliva, que pode se encarregar de saturar e anular devidamente estímulos quentes, frios, ácidos ou picantes. Mas a saliva não seria capaz de envolver a ponta da agulha de modo a não ferir a boca.

Seus oponentes argumentavam:

— Mas é aí que se enganam: isso é possível. Naturalmente exige treino, mas gente existe capaz de envolver algumas agulhas em saliva e conservá-las na boca, lançando-as com o uso da língua e de uma sutil técnica respiratória contra os olhos do adversário.

A corrente contrária insistia: mesmo assim, aquilo era afinal uma simples agulha e tinha como alvo um único ponto do corpo humano, o olho. E mesmo que as agulhas atingissem o alvo, não teriam efeito algum se a área atingida fosse o branco dos olhos. Elas seriam capazes de cegar um homem apenas se atingissem a pupila com precisão, mesmo assim provocando um ferimento não mortal. E de que modo uma técnica tão insignificante, destinada a frágeis mulheres e crianças, poderia ter evoluído a ponto de ser aproveitada militarmente?, questionavam.

A isso, replicavam os defensores:

— Por isso mesmo ninguém está afirmando que evoluiu tanto quanto qualquer arte marcial, mas é verdade que esse tipo de técnica secreta ainda subsiste até os dias de hoje.

Musashi ouvira de passagem um grupo discutindo algo semelhante havia algum tempo, mas como ele próprio não reconhecia a técnica como arte marcial, não lhe parecera possível existir alguém que a dominasse. Agora, porém, percebeu dolorosamente que sempre haveria uma informação útil no meio de qualquer conversa, por mais tola que ela parecesse.

Sentia o canto interno do olho queimar e pulsar, provocando lágrimas, mas por sorte a pupila não fora atingida.

Musashi apalpou o próprio corpo, à procura de um pedaço de pano para enxugar as lágrimas. As mãos tateavam indecisas sem saber de onde destacar um pedaço, mangas ou gola.

Nesse instante, ouviu às costas o silvo de seda rasgando. Ao se voltar, notou uma mulher aproximando-se às carreiras com uma tira vermelha de quase 30 centímetros na mão. A mulher havia estado observando-o e rasgara com os dentes um pedaço da barra da própria roupa de baixo.

 

O SORRISO

Era Akemi.

Seus cabelos desgrenhados nem de longe lembravam os elaborados penteados femininos das datas festivas. Estava descalça e tinha as roupas desalinhadas.

— Ora! — exclamou Musashi sem intenção alguma, apenas arregalando os olhos. Achou que a conhecia, mas ao contrário de Akemi, não a identificou de pronto.

A jovem sempre imaginara que Musashi também pensava nela, ao menos um pouco. Não sabia por quê, mas acabara acreditando nisso no decorrer dos anos.

— Sou eu, Takezo-san, isto é, Musashi-sama! Aproximou-se algo hesitante com o retalho vermelho na mão.

— Que aconteceu com seu olho? Não o esfregue, pode piorar. Limpe-o com isto.

Musashi aceitou em silêncio o trapo e com ele comprimiu o olho, voltando a examinar cuidadosamente o rosto de Akemi.

— Esqueceu-se de mim? — perguntou a jovem.

— Sou eu...

— Não se lembra de mim? — insistiu Akemi.

Seu amor, preservado com tanto zelo, vacilava agora ao enfrentar o rosto destituído de expressão à sua frente. Akemi tivera certeza de que ao menos uma coisa existia no fundo do seu coração ferido: seu amor por Musashi. E ao perceber de súbito que até esse sentimento era pura ilusão, a jovem sentiu algo duro como uma bola de sangue subir-lhe ao peito. Trêmula, levou as duas mãos ao rosto e conteve o soluço que lhe irrompia pelo nariz e boca.

— Ah! — lembrou-se Musashi. Aquele último gesto reavivara uma centelha, talvez porque nele visse a singeleza da menina que conhecera nos pântanos de Ibuki, sempre a andar com um guizo tilintando na manga do quimono.

Repentinamente, dois braços robustos envolveram os magros ombros de Akemi.

— É você, Akemi-san...? É isso mesmo, você é Akemi-san! Como fui encontrá-la aqui? Explique-me!

As perguntas encadeadas aumentaram a tristeza da jovem.

— Você já não mora na região de Ibuki? E sua mãe, como vai? Ao perguntar por Okoo, Musashi naturalmente lembrou-se da ligação dela com Matahachi:

— Vocês ainda vivem com Matahachi? Na verdade, Matahachi devia estar aqui esta manhã... Você veio a pedido dele?

Cada palavra o distanciava dela. Rosto enterrado em seu peito, Akemi apenas chorava e sacudia a cabeça.

— E Matahachi: ele não vem? Que houve? Pare de chorar e me explique, pois não consigo entender nada desse jeito.

— Ele não vem. Não recebeu o recado e não vem — foi tudo o que conseguiu dizer a jovem, trêmula, o rosto molhado ainda apoiado ao peito de Musashi.

Tudo que havia planejado falar-lhe desfazia-se como uma espuma bruxuleante a flutuar no sangue em tumulto. Não conseguia sequer pensar em contar-lhe como fora forçada pela própria madrasta a um destino cruel, ou o que lhe acontecera desde o maldito dia na praia de Sumiyoshi até hoje.

Sobre a ponte iluminada por serenos raios solares já começavam a circular vultos esparsos. Eram mulheres em quimonos floridos rumando para o templo Kiyomizudera, ou samurais em trajes formais iniciando a ronda de visitas aos superiores para cumprimentá-los pelo Ano Novo.

E no meio dos pedestres surgiu de repente uma figurinha de cabelos revoltos semelhantes aos de um kappa: era Joutaro, a quem fim de ano ou Ano Novo não interessavam. Ao chegar no meio da ponte, deu com Musashi e Akemi.

— Ué?! Pensei que fosse Otsu-san, mas não é!

Joutaro estacou. Parecia chocado, como se acabasse de surpreender um casal em atitude indecorosa.

 

Como podiam os dois permanecer tão próximos um do outro, imóveis na beira do caminho? Por sorte, ninguém os observava, mas... Que diabos, afinal eram um homem e uma mulher adultos!, não podia deixar de pensar o menino, surpreso.

E justo seu mestre, a quem tanto respeitava!

“A culpa é dessa mulher!”, resolveu Joutaro. O pequeno coração pulsava forte, sentia ciúmes, um misto de tristeza e irritação, ganas de apanhar uma pedra e jogar nos dois.

— Imagine se essa não é Akemi, a mulherzinha que ficou de passar o recado do mestre para o tal Matahachi! Ah, ela tem por que ser assanhada: afinal, trabalhava numa casa de chá! E desde quando ficou tão íntima do meu mestre? E o mestre, então! Vou contar tudo para Otsu-san!

Examinou a rua de cima a baixo, espiou sob a ponte mas não viu Otsu em lugar algum.

— Que lhe teria acontecido?

Pois Otsu tinha saído primeiro da mansão Karasumaru, onde se hospedavam havia alguns dias.

Certa de que iria encontrar-se com Musashi, Otsu havia lavado os cabelos no dia anterior e perdido um tempo enorme num trabalhoso penteado, dormira mal, e hoje, ainda de madrugada, vestira o caro quimono  de vistoso padrão primaveril — um presente da casa Karasumaru — e aguardara ansiosa o dia raiar.

— Em vez de ficar aqui sem fazer nada, apenas esperando o dia raiar, vou aproveitar para visitar o santuário Gion e o templo Kiyomizu-dera. Depois disso, irei à ponte Gojo Oubashi — havia decidido Otsu a certa altura.

E quando Joutaro propusera: “Então, vou junto!”, fora repelido.

— Não — havia explicado a jovem. Joutaro era boa companhia em qualquer ocasião, mas hoje ela precisava de um pouco de privacidade, como toda mulher apaixonada. — Quero conversar a sós com Musashi-sama por alguns momentos. Venha mais tarde, Jouta-san, depois que o dia clarear, com toda a calma. Prometo esperar por você na ponte, com seu mestre. De lá não vou sair até você aparecer.

Foi o que a jovem havia dito antes de partir da mansão bem cedo nessa manhã.

O arranjo não deixara Joutaro nada feliz, mas ele não se havia ofendido ou zangado. Já tinha idade suficiente para compreender o que se passava no coração de Otsu, a quem pensava conhecer bem depois de todos esses dias e noites de convivência. Desde o dia em que rolara sobre o feno com a pequena Kocha da hospedaria do feudo Yagyu ele se tornara capaz de intuir que tipo de emoção provocam mutuamente um homem e uma mulher.

Ainda assim não compreendia certas atitudes de Otsu — seus recorrentes ataques de choro e depressão —; elas lhe davam vontade de rir ou deixavam-no constrangido. Nesse instante, porém, ao perceber que a mulher chorosa agarrada ao peito de Musashi era Akemi, uma estranha total para os dois, sentiu-se tomado de repentina raiva. Leal a Otsu, pensou, “Mulherzinha insuportável!”, e logo depois, como se fosse ele o traído, “Muito bonito, hein, mestre!”, e na continuação, irritado, “Onde está Otsu-san? Preciso contar para ela.”

E ali estava o menino, procurando-a impaciente em cima e embaixo da ponte, quando percebeu que os dois à sua frente haviam-se movido — aparentemente para não chamar atenção dos transeuntes — e tinham-se aproximado do corrimão próximo à boca da ponte. Rostos voltados para baixo pareciam agora contemplar o baixio, Musashi com os braços sobre o parapeito e debruçado sobre ele, Akemi, rente ao seu lado.

Os dois não perceberam quando Joutaro passou às suas costas, rente ao parapeito do outro lado da ponte.

— Mas Otsu é folgada mesmo! Como é que ela perde tanto tempo rezando para a deusa Kanzeon nessa emergência? — resmungou Joutaro, esticando-se inteiro tentando visualizar seu vulto na ladeira da rua Gojo.

A quase dez passos de onde estava o menino erguiam-se quatro ou cinco grossos chorões desfolhados. Bandos de garças brancas eram vistos com freqüência pescando ao seu redor, mas nesse dia, no lugar das aves havia um jovem de cabelos longos atados à nuca em rabo: recostado a um tronco que se contorcia rente ao solo à semelhança de um dragão rastejante, o jovem contemplava um ponto fixamente.

 

Musashi, braços sobre o parapeito ao lado de Akemi, balançava levemente a cabeça em resposta aos seus murmúrios ansiosos. No entanto, sua atitude não dava a perceber se as intensas palavras que Akemi — trêmula e pondo de lado a natural inibição feminina — lhe sussurrava, ultrapassavam ou não a fronteira dos seus ouvidos.

A razão da dúvida estava no olhar de Musashi, desviado — apesar dos freqüentes meneios da cabeça em sinal de compreensão — para um ponto totalmente inesperado, criando um clima bem diferente daquele de dois jovens apaixonados olhando para os lados enquanto falam de amor. Em poucas palavras, seu olhar era uma chama fria, incolor, verrumando um ponto sem pestanejar.

A Akemi não sobrava senso crítico suficiente para estranhar esse olhar. Soterrada nas próprias emoções, continuava a falar entre soluços:

— Agora já lhe contei tudo que me aconteceu. Não escondi nada! — disse, aproximando-se furtivamente do braço sobre o parapeito. — Já se passaram cinco anos desde a batalha de Sekigahara. E no decorrer desses cinco anos, as circunstâncias... Meu corpo... Tudo mudou. Soluçou de novo e prosseguiu:

— Mas não! Eu não mudei, nem o amor que sinto por você, isso eu lhe garanto. Entende o que eu estou lhe dizendo, Musashi-sama? Entende?