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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NAVALHA NA CARNE / Plinio Marcos
NAVALHA NA CARNE / Plinio Marcos

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NAVALHA NA CARNE

 

Um sórdido quarto de hotel de quinta classe. Um guarda-roupa bem velho, com espelho de corpo inteiro, uma cama de casal, um criado-mudo, uma cadeira velha são os móveis do quarto.

64º abrir o pano, Vado está deitado na cama, lendo uma revista de história em quadrinhos. Entra Neusa Sueli.)

Neusa Sueli - Oi, você está aí? !

VADO - Que você acha?

NEUSA SUELI - É que você nunca chega tão cedo.

VADO - Não cheguei, sua vaca! Ainda nem saí!

Neusa Sueli - Tá doente?

VADO - Doente o cacete!

NEUSA SUELI - Não precisa se zangar. Só perguntei por perguntar.

VADO - Mas pode ficar sabendo que estou com o ovo virado.

Neusa Sueli - Por quê, meu bem?

VADO - Não sabe, né? .. ,

NEUSA Sueli - Não sou adivinhona.

VADO - Quer bancar a engraçada? vou te encher a lata de alegria. (Vado começa a torcer o braço de Neusa Sueli.) Gostou?

NEUSA SUELI - Poxa, você está me machucando.

Vado - Você ainda não viu nada, sua miserável!

NEUSA SUELI - Ai, não te fiz nada!

VADO - Não fez? Não fez, sua filha de uma cadela?

NEUSA SUELI - Que foi que eu te fiz?

VADO - Quer se fingir de boba?

NEUSA SUELI - Ai, ai! Juro que não sei.

VADO - Sabe por que eu não saí hoje? .

NEUSA SUELI - Sua cabeça é seu guia.

VADO - Pois é, né?

NEUSA Sueli - Eu não prendo ninguém.

(Vado empurra Neusa Sueli, que cai no chão.)

VADO - Já lembrou o que me aprontou, sua nojenta?

NEUSA Sueli - Você está é com onda.

VADO - Quer criar caso? Pode ficar certa que outra presepada que você me arrumar, não vai ser mole pra você. Sua porca! Quem você pensa que eu sou? Um trouxa qualquer? Assim você aprende a não querer bancar a sabida comigo.

NEUSA Sueli - Poxa, você me machucou. (Levanta-se.)

VADO - Assim você se manca.

NEUSA Sueli - Abre o jogo de uma vez. O que é que eu te fiz? Já foram fazer alguma fofoca de mim pra você, é? Eu sei quem foi! Você fica entrando no papo daquela vadia lá do 102. Só pode ser ela quem te encheu a cabeça. Pensa que eu não sei? Ela dá em cima de tudo que é homem das outras. A perebenta não pode ver ninguém bem. Mas ela vai ver. Comigo não vai ter bafo. Corto a cara dela com gilete.

Vado - Cala essa boca, pombas! Aquela mulher não tem nada a ver com isso. E você sabe bem.

NEUSA SUELI - Ela não me manja, não! Se ela se assanha pro teu lado, eu engrosso. Olha aqui, Vado, já vou te avisando. Se eu te ver batendo caixa com ela, faço um azar. Você sabe que eu faço mesmo. Não estou aqui pra ser comeada por uma jogada-fora daquelas. ,

VÀDO - Vê se cala essa matraca. . . , ,

NEUSA SUELI - Já vi que você embarcou na dela. .

VADO - Quer tomar outro cacete? Não, né? Então não me enche o saco! Já estou cabreiro com você. Se espernear, te meto a mão.

NEUSA SUELI - Aquela filha-da-puta te enrolou, eu sei. Ela fez assim com o macho da Mariazinha. Cagüetou pra ele que ela estava se escamando na viração porque estava prenha. O cara foi lá e malhou a Mariazinha. A coitada até abortou de tanta pôrrada que levou. Depois, enquanto a desgraçada se danava no hospital, o sacana ia na leve com a grana da cadela do 102. Também, a Mariazinha é uma trouxa. Saiu do hospital e aceitou o miserável do homem dela de volta.

VADO - Ela que tá certa.

NEUSA SUELI - Otária é o que ela é.

VADO - Não manjo esse cara da Mariazinha. Mas ele está por dentro.

NEUSA Sueli - Um paspalhão que ele é, Voltou todo empesteado daquela galinha.

VADO - Conversa! O sujeito sabe viver.

NEUSA SUELI - Sabe viver pra chuchu. Se não fosse a Maria cuidar do miserável, ele se acabava. Entrou no puteiro da cadela a pé e saiu a cavalo.

Vado - Mas ele que pode. Está certo, sim. A mina é gamada, leva no macio. Fez ela pagar o esquentamento da outra.

NEUSA SUELI - Maria é uma boba. Comigo não tem disso.

VADO - Quer ver eu te aprontar uma dessas e você me agüentar? Duvida? Te faço uma pior e tu me engole. Se duvida, diz. Te apronto uma que não vai ser mole pra ti. Se duvida, te mostro.

Neusa Sueli - Você não tem coragem.

VADO - Não? Já existe penicilina, boboca! Me limpo fácil. Agora, você se estrepa. Pega fama de perebenta, tá lascada. Ninguém mais vai querer. Nem o cara mais jogado às traças.

NEUSA SUELI - Poxa, Vado, não vai fazer um papelão desses comigo.

VADO - Me apronta outra presepada como a de hoje. Me apronta, que eu te estrepo.

NEUSA SUELI - Mas, poxa, o que eu te fiz hoje?

VÀDO - Pôrra, quer apanhar outra vez? Fica querendo se fazer de sabida, depois se queixa. Estou deixando a coisa no barato. Se tentar me engrupir, te arrebento todos os dentes com uma mucada.

NEUSA SUELI - Não tem babado. Alguém te encheu a cuca. Te botou contra mim.

VÁDO - Não me torra o saco! Tenho malandragem para dar e vender. Não vai ser você que vai gozar minha cara.

NEUSA SUELI - Não estou querendo gozar ninguém.

VÀDO - Ai de você se quisesse!

NEUSA Sueli - Só não estou por dentro de sua bronca.

VADO - Não está, né? Agora, olha, sua puta sem-vergonha! (Vado mostra os bolsos vazios.) Morou, agora?

NEUSA SUELI - Está na lona?

VADO - Eu estou duro! Estou a nenhum! Eu estou a zero! A zero, sua vaca!

NEUSA SUELI - E a culpa é minha?

VADO - Vagabunda, miserável! Sua puta sem-calça! Quem tu pensa que é? Pensa que estou aqui por quê? Anda, responde!

(Pausa) Não escutou? Responde! Por quê? Você acha que eu te aturo por quê?

NEUSA SUELI - Eu sei... Eu sei... .

VADO - Sabe, né? Então diz. Por que eu te aturo?

Neusa Sueli - Poxa, Vadinho, eu sei...

VÀDO - Então diz! Diz! Quero escutar. Diz de uma vez, antes que te arrebente. Por que eu fico com você? . ,

NEUSA SUELI - Por causa da grana. , , .

VADO - Repete, sua vaca! Repete! Repete! Anda!

NEUSA SUELI - Por causa da grana.

VADO - Repete mais uma vez. , .... ,

NEUSA SUELI - Por causa da grana.

VÀDO - Mais alto, sua puta nojenta! , ,

NEUSA SUELI - Por causa da grana.

VÁDO - Isso mesmo. Estou com você por causa do tutu. Só por causa do tutu. Você sabe. Estou aqui por causa da grana. Por causa da grana. É isso mesmo. E se você não me der moleza, te arrebento o focinho. Eu sou o Vadinho das Can dongas, te tiro de letra fácil, fácil. Eu estou assim (Faz gesto

com os dedos indicando muitas.) de mulher querendo me dar o bem-bom. Você sabe disso também, não sabe? (Pausa.) Sabe ou não sabe?

NEUSA SUELI - Sei... Sei, sim... (Chora.)

VÁDO - Pára de chorar! Pôrra, será que vou ter de aturar até essa onda de choro?

NEUSA SUELI - Pronto. Já não estou mais chorando.

VADO - Que mania de fazer drama à toa!

NEUSA SUELI - À toa? Você me machucou!

VADO - Bem feito! Assim você aprende a não folgar com o bom.

NEUSA SUELI - Não te fiz nada. Você está zoeira!

VADO - Estou mesmo. Minha zoeira é ser bom pra mulher. Te trato legal, nisso que dá. Quando digo que estou a nenhum, que estou durango, a piranha põe banca Imitando a voz de Neusa Sueli.) Não é culpa minha, não é culpa minha! Poxa, será que tenho cara de trouxa? Sou teu macho, se não tenho um puto de um tostão, quem está errado?

Neusa Sueli - Não sei...

Vado - Ai, meu cacete! Não aprendeu? As pôrradas que te dei não serviram de nada?

Neusa SUELI - Te dou a grana. Se você torra, que posso fazer?

Vado - Que grana que você me deu hoje?

Neusa SUELI - Não sabe, né? Ganha no mole, mete o pau fácil.

Vado - Escuta aqui, desgraçada! Tá querendo me azedar de novo? Que dinheiro você me deu hoje?

Neusa SUELI - Não deixei dinheiro aí no criado-mudo?

Vado - Ficou louca?

NEUSA SUELI - Claro que deixei o tutu aí.

Vado - Então ele voou.

Neusa Sueli - Então voou!

VADO - Mentirosa! Nojenta!

NEUSA SUELI - Não me força a paciência. Encheu a cuca de fumo e esqueceu de tudo.

VADO - Não peguei uma ponta de estaleiro hoje, pantera! Estou de presa seca por tua causa. Pensa que maconha anda por aí dando buzo?

NEUSA Sueli - Só sei que botei o dinheiro aí no críado-mudo, como todo dia.

VÀDO - Se botasse, eu não estava aqui esquentando a mufâv Estava lá na sinuca me divertindo.

NEUSA SUELI - Queimando erva e dinheiro.

VÀDO - E daí? Dinheiro meu gasto onde quero. . ,

NEUSA SUELI - E eu que me dane na viração.

VÀDO - É a lei. Mulher que quer se bacanear com cara linha de frente como eu tem de se virar certinho.

NEUSA SUELI - Um dia a casa cai, pode crer. ,

VADO - Não conversa, não. Quero saber onde está a pôrra do dinheiro.

NEUSA SUELI - Botei aí. Cansei de falar. ,

VADO - Então alguém pegou.

Neusa Sueli - Então pegou. .. ,

Vado - E não fui eu. )

NEUSA Sueli - Será?... Será que foi o desgraçado?...

VÀDO - Que desgraçado?

NEUSA SUELI - O Veludo. Será que foi ele?

VÀDO - Ele?... Ficou batusquela? Ele não ia ter peito.

NEUSA SUELI - Ele entrou aqui hoje depois que saí?

VÀDO - Como vou saber? Estava dormindo.

NEUSA SUELI - Acho que o sacana veio arrumar o quarto, viu você apagado, passou a mão na erva e se mandou.

VÀDO - Não inventa! Ele não ia ser tão cara-de-pau assim.

NEUSA Sueli - Não sei, não. Vi o garoto do bar saindo do quarto do Veludo.

VADO - E daí? Ele dá o que é dele.

NEUSA Sueli - Pois é. Mas há muito tempo ele vem cozinhando o garoto e não arrumava nada porque estava duro. O garoto cobrava caro para entrar na dele.

VADO - Poxa, será que ele afanou meu tutu pra dar praquele trouxinha?

NEUSA SUELI - Se ele entrou aqui hoje, foi ele.

VÀDO - Mato esse puto de merda, se foi ele.

NEUSA SUELI - vou perguntar pra Dona Tereza.

VÀDO - Perguntar o quê?

NEUSA SUELI - Se a velha pagou o ordenado do Veludo.

VÀDO - Que nada! Deixa ele pra mim! Chama essa bicha miserável!

NEUSA SUELI - (Vai até a porta do quarto e chama-.) Veludo! Veludo! Quarto três! (Pausa.) Não escutou.

VÀDO - Chama mais alto. Todo veado é surdo.

Neusa Sueli - Veludo! Veludo! …

VELUDO - (Fora de cena.) quem me chama?

Neusa Sueli - Quarto três.

Veludo-já vai.

Vado - vou acertar o passo dessa bichoná

NEUSA SUELI - Não vai machucar ele.

VADO - Não, né? Você vai ver.

Neusa Sueli - Ele é doido por um enxame. Ele chama a cana.

VADO - Essa bicha não é doida, nem nada. ,

NEUSA Sueli - Toma cuidado, Vadinho. Vê lá o que tu vai fazer.

VÀDO - Vai por mim.

Veludo - (Na porta do quarto.) Chamou Neusa Sueli?

VADO - Entra, bichona.

Veludo - com licença.

(Veludo entra.) ... . ,

VADO - Vai entrando, seu puto. ,

VELUDO - O senhor está aí, Seu Vado?

VADO - Estou, sim. . .

VELUDO - É o senhor que quer falar comigo, ou é a Neusa Sueli? Adoro esse nome Neusa Sueli.

VÁDO - Fecha a porta e deixa de frescura.

VELUDO - (Fecha aporta.) Pronto, Seu Vado.

VADO - Presta atenção no que vou te dizer, seu veado de merda.

VELUDO - Se o senhor começar a me xingar, me mando.

Neusa Sueli sabe como eu sou. Não gosto de desaforo. Nem. dos meus homens agüento maltrato.

VadO - Filho-da-puta! Veado nojento!

VELUDO - Você está vendo, Neusa Sueli? vou me arrancar. Depois você reclama que eu não gosto de vir fofocar no seu quarto. É por essas e outras. Ninguém gosta de estupidez.

VÀDO - Isso não é nem o começo.

VELUDO - Pra mim é o fim.

(Veludo tenta sair, Vado o agarra-com violência.)

VELUDO - Bruto! Cafajeste!

VADO - Cala essa boca, fresco de uma figa!

VELUDO - Me deixa sair.

VADO - Senta aí!

(Vado bate em Veludo e faz com que ele se sente numa cadeira.)

VELUDO - Ai, ai! Que é que deu nesse homem?

VÀDO - Vamos conversar, seu sem-vergonha.

Veludo - Se a Neusa Sueli gosta de apanhar, bate nela. Eu não gosto de coisas brutas, não sou tarado. (Vado bate em Veludo.) Ele está me batendo, Neusa Sueli.

Neusa SUELI - Explica tudo direitinho. Vai ser melhor pra você.

Veludo - Explica o quê?

VADO - Quem mandou você pegar o dinheiro?

Veludo - Que dinheiro?

Vado - O que você pegou.

Veludo - Deus me livre! Que dinheiro que eu peguei? Ai, meu

Deus! Nem sei do que vocês estão falando.

VADO - Cadê a grana, Veludo?

(Bate em Veludo.)

Veludo - Ai, ai, seu cafetão nojento! Tua mulher não te dá dinheiro? Quer pegar o meu?

VADO - Se abre logo!

Veludo - Miserável! Vai bater na cara da tua mãe. Porco! Essa vaca da Sueli não te dá moleza, é? Pensa que eu vou dar? Nojento! Cafetão!

VADO - Cala o bico!

VELUDO - Vai morrer morfético! Tu e essa perebenta Essa suadeira!

Neusa Sueli - Fala logo, Veludo. Você pegou o dinheiro que estava no criado-mudo? Fala logo, anda!

VELUDO - Ai, ai! Ele está quebrando o meu braço.

Neusa Sueli - Pegou ou não pegou? i y

Veludo - Não peguei.

VADO - Não mente, nojento! Não mente! , .

VELUDO - Eu não peguei! Juro que não peguei! NEUSA SUELI - Você pensa que vai levar a gente no bico? VELUDO - Juro que não sei de dinheiro nenhum.

VÀDO - Não sabe, cachorro?

(Vado continua sempre batendo em Veludo )

Veludo - Ai, ai! Esse homem me mata! Socorro! Socorro! v,

VÁDO - O que você fez com minha grana, miserável?

VELUDO - Não me bate! Não me bate!

VADO - Então se abre.

 

NEUSA SUELI - A gente sabe o que você fez com a grana.

VàDO - Confessa logo, bicha, senão vou botar pimenta no teu rabo.

VELUDO - Pelo amor de Deus, Neusa Sueli, não deixa esse tarado me judiar!

NEUSA SUELI - Então começa a contar.

VELUDO - Ai, meu São Jorge guerreiro! Está todo mundo doido. Está todo mundo chapado de erva. Neusa Sueli, pelo amor de Deus, eu não sei de nada!

VÀDO - Filho-da-puta! Mentiroso!

VELUDO - Socorro! Socorro! Monstro! Por que você não faz isso com um homem, seu nojento? Ai, esse tarado está me matando!

VÀDO - Seu puto, você apanhou a grana daqui pra andar com o garoto do bar? ... ,

VELUDO - Não entrei aqui hoje.

VÀDO - Você veio arrumar o quarto, pegou o dinheiro,

NEUSA SUELI - E deu pro moleque do bar.

VELUDO - Eu ia fazer uma coisa dessa? Não sou ladrão e não sou que nem você, que tem que dar dinheiro pra homem.

NEUSA SUELI - Pensa que não vi o garoto sair do seu quarto?

VELUDO - E daí? Ele gama em mim.

VÁDO - O desgraçado gama o meu dinheiro. Isso é que é! E você passou a mão na grana e deu pra ele.

VeLUDO - Eu, não!

Neusa Sueli - Mentiroso! Você mesmo falou que estava gamado no garoto e que ele não queria nada com você, porque você estava duro. Falou ou não falou?

 

VELUDO - Se dei dinheiro pro meu machinho, ninguém tem nada com isso. Na minha vida, mando eu. Sou livre.

VÀDO - Puto sem-vergonha! Você deu o meu dinheiro. O meu dinheiro, que estava ali em cima, e você afanou.

(Vado agarra Veludo pelos cabelos.) -

VELUDO - Ai, ai! Esse homem vai me deixar careca!

Neusa Sueli - Sabe que por sua causa eu levei um couro do Vado, seu sacana?

Veludo - Bem feito!

(Neusa Sueli arranha o rosto de Veludo.)

VELUDO - Ai, você me paga, sua porca! Você vai ver!

VADO - Você não vai pegar ninguém.

VELUDO - Ela é mulher. com ela eu posso.

VADO - Que é que você fez do dinheiro? Fala!

Veludo - Não peguei.

NEUSA SUELI - É teimoso como uma mula. vou te ajudar a lembrar. (Apanha uma navalha na bolsa.) vou te arrancar os olhos! (Aproxima a navalha do rosto de Veludo.)

VELUDO - Não! Pelo amor de Deus! Não, Neusa Sueli! Não!

VADO - Pode cortar esse miserável!

Neusa Sueli - Vai falar tudinho?

(Veludo faz que sim com a cabeça)

VÀDO - A bicha ficou apavorada. , ,

Neusa Sueli - Então começa.

VÁDO - Fala logo, anda!

VELUDO - Estou sem ar.

Vado - Não vem com frescura! Não vem com frescura!

NEUSA Sueli - Veludinho, é melhor pra você contar tudo direitinho. É pro seu bem, querida.

VELUDO - Você me perdoa, Neusa Sueli? Eu devolvo tudinho. Eu não agüentei. Eu vim arrumar o quarto, o Seu Vado estava dormindo, eu peguei o dinheiro e dei pro rapaz do bar. Eu estava gamado nele. Juro que devolvo.

VADO - Canalha! Miserável! Veado safado! Deu todo o metal pro trouxinha?

VELUDO - Só dei a metade.

VADO - E o resto da grana? E o resto?

VELUDO - Comprei um baseado de erva.

VADO - Sacana! Eu de presa seca e ele se tratando. ,

VELUDO - É vício.

VADO - E pensa que vou sustentar vício de veado?

VELUDO - Eu vou devolver o dinheiro todinho, Seu Vado. Pode crer.

Vado - Quando? No dia de São Nunca?

VELUDO - Não, no fim do mês. No meu pagamento.

VADO - E você pensa que eu vou esperar até o fim do mês?

VELUDO - Desculpe, Seu Vado.

VADO - vou te cagüetar pra Dona Tereza. Ela te põe na rua, te paga os teus dias de basquete e eu pego o meu.

VELUDO - Por favor, Seu Vado. Eu juro que devolvo tudo.

VADO - Quero juros.

Veludo - Eu pago, mas não apronta pra mim. ..

VáDO - Vai pagar o dobro. Se não comparecer, já viu. Te agarro e te desgraço.

VELUDO - Eu pago, pode crer.

NEUSA Sueli - Ele paga, sim, Vado. O Veludo é bonzinho.

VELUDO - A Neusa Sueli me conhece. Quando eu digo que faço uma coisa, eu faço mesmo, nem que me lasque todo.

VADO - Quero ver. E o fumo? Queimou ele todo?

VELUDO - Nem biquei ainda. Não trato disso quando estou trabalhando. Eu fico muito louca quando estou chapada.

VADO - Dá pra cá a erva.

VELUDO - O senhor me deixa dar umas narigadas também?

VADO - Depois a gente vê. Dá pra cá, anda!

VELUDO - (Dando o cigarro.) É fumo do norte mesmo. Dá uma zoeira legal!

NEUSA SUELI - Não vai queimar essa porcaria aqui.

VADO - Você cala a boca.

NEUSA SUELI - Dona Tereza não gosta de bagunça aqui na pensão.

VADO - Quero que ela vá à merda!

VELUDO - Ai, que homem doidão.

NEUSA Sueli - Depois, quem se estrepa sou eu. Quando você se arranca, ela vem aqui reclamar.

VADO - Manda ela à merda!

Neusa Sueli - Ela me põe na rua. -VADO- Azar!

Neusa SUELI- Azar meu, né? ,, , !

VADO - Pôrra, pára de me torrar o saco. Foi você que arrumou toda a confusão e ainda resmunga. Não quero escutar um pio contra a maconha. Gosto de curtir minha onda de leve.

VELUDO - Ele sabe viver.

(Vado acende o cigarro de maconha e dá uma tragada.)

VADO - Legal!

VeluDO - Não fica triste, Neusa Sueli. Homem é assim mesmo.

Todos uns brutos. (Pausa.) Seu Vado, deixa eu dar um cheiro?

VADO - Quer bicar?

veluDO - O senhor deixa?

VADO - Não!

vELUDO - Ah, deixa... por favor... deixa...

VADO - Se manca, vagabundo!

BELUDO - Por favor...

Vado - Gosta de fumo, é?

VELUDO - Sou tarado.

Vado - E por que fica gastando dinheiro com os pivetes? Por quê, hein? . , -

vELUDO - Ah, Seu Vado... .

VADO - Você gosta mais de maconha ou demoléque? ,

vELUDO - Cada coisa tem sua hora.

VADO - Bichona malandra!

Veludo - Deixa eu bicar, Seu Vado?

 

Vado - Pega aqui. Na minha mão.

VELUDO - Que bom.

(Tenta agarrar o cigarro.)

VADO - Não vale segurar. !

VELUDO - Como o senhor é mau, Seu Vado.

(A cena repete-se varias vezes, sempre Veludo tentando alcançar, com a boca, o cigarro que está na mão de Vado. Veludo fica cada vez mais agoniado. Vado ri cada vez mais. Neusa Sueli permanece indiferente. Veludo agarra a mão de Vado, que lhe dá um violento empurrão.)

VELUDO - Neusa Sueli, manda ele deixar eu fumar, manda.

NEUSA SUELI - Não estou gostando nada dessa zorra aqui dentro.

VELUDO - Vai, Neusinha Sueli, manda ele me dar uma tragada. Por favor, Sueli, manda. Eu não agüento mais.

NEUSA SUELI - Acho melhor você se arrancar daqui.

VELUDO - Seu Vado, deixa eu dar uma fumadínha só.

VADO - Sem-vergonha! Pensa que mulher manda em mim, bicha louca? Pensa que se essa vaca mandasse eu ia te dar o fumo?

VELUDO - Que homem bruto, meu Deus! Vado, deixa eu fumar!

VADO - Ainda sou Seu Vado pra você. Perdeu o respeito, seu miserável?

VELUDO - Homem que me judia eu não chamo de senhor. É Vado, e olhe lá.

VÁDO - Te dou uma pôrrada que você vê.

Veludo - Dá, então.

(Vado bate em Veludo.)

 

VÀDO - Gostou?

Veludo - Bate mais. ,

VÀDO - Nojento!

VELUDO - Bate, seu bobo, bate.

(Vadofica vencido, impotente.)

VELUDO - Você viu, Neusa Sueli, como a gente lida com homem?

VÀDO - Cala a boca, bicha!

VELUDO - Vem me bater, seu trouxa!

VÀDO - Você vai ver, bicha louca!

VELUDO - Pode bater. A cara está aqui.

VÀDO - Veado! Veado de merda! Porco nojento! Ladrão semvergonha!

VELUDO - Bate em mim, machão. Bate nesta face, te viro a outra. Como Jesus Cristo.

VÀDO - Bicha é uma desgraça.

VELUDO - Você viu como eu encabulei o homem, Neusa Sueli? Tadinho dele! Ficou sem jeito. Coitadinho! Vê a carinha do Vado, Neusa Sueli. Vai fazer um carinho pra ele. Ele está tristinho. Vai lá, bobona. Vai agradar teu homem. Vai, Neusa Sueli.

NEUSA Sueli - Pára com isso, pombas! Será que você não se manca que não está agradando? Poxa, você é mais chato que cri-cri. Por que você não se manda daqui? Vai lá pro teu quarto! Vai à merda! Vai à puta que te pariu! Mas me esquece. Não quero você aqui no meu poleiro. Anda, te arranca! Te arranca, que é melhor pra você. Já estou invocada. Muito invocada.

VELUDO - Desculpe. Não vou morrer por causa disso. Não quer eu aqui, me mando e pronto. Nunca fico onde não me querem. Aliás, só vim aqui porque me chamaram. Mas já vou indo. Tchau mesmo! Pensei que era o homem deste galinheiro que cantava de galo. Entrei bem. Quem manda aqui é a galinha velha.

NEUSA SUELI - Galinha velha é a tua mãe! .

VADO - Ela se queimou.

VELUDO - Pôs a carapuça porque quis...

Neusa Sueli - Vai saindo!

(Veludo vai se dirigindo para a porta.) VADO - Fica! Só sai quando eu mandar.

VELUDO - Ela está invocada comigo. Não quero encrenca. vou embora.

VÀDO - Ela que se dane! Fica!

NEUSA SUELI - Você vai me pagar, sua bicha. Está botando o meu homem contra mim.

VELUDO - Eu quero ir embora, ele não deixa. Neusa Sueli - Nojento!

VELUDO - Não sei por que as mulheres me detestam tanto.

VADO - Ai, ai!

NEUSA Sueli - É melhor deixar essa bicha sair. Já estou me esquentando.

VADO - Ela agora vai queimar o fumo. Não vou deixar ela sair daqui de presa seca. Vem fumar, bichinha!

VELUDO - Agora eu não quero.

VADO - Não faz onda e pega logo. ,

VELUDO - Pra mim michou.

VaDO - Não queria? Tá aí. Mete o nariz.

VeluDO - Já falei que não quero.

VADO - Estou mandando fumar.

VELUDO - Você não é meu homem, não me manda nada.

Vado - Chupa essa fumaça!

VELUDO - Nem por bem, nem por mal.

(Vado desespera-se e começa a bater em Veludo.)

VELUDO - Bate! Bate! Bate!

VÁDO - Eu te mato! Eu te mato!

VELUDO - Mata! Mata! Mata mesmo, homem! Mas eu não fumo tua maconha! Não fumo!

VADO - Fuma essa merda! Fuma! Não escutou eu mandar?

(Vado vai tentando, desesperadamente, colocar o cigarro na boca de Veludo, para que ele fume. Veludo não deixa.)

VELUDO - Me mata, meu homem!

NEUSA Sueli - Pára com isso, Vado! Pára com isso!

VADO - Quero que esse puto fume maconha, eu quero!

VELUDO - Mas não vai conseguir nada de mim.

VADO - Por favor, Veludo, fuma essa droga, se não eu faço uma desgraça! Por favor, fuma!

VELUDO - Nem você me pedindo de joelhos.

NEUSA SUELI - Pelo amor de Deus, Vado, pára com isso! Pára com isso! Eu não agüento mais! Eu não agüento mais!

VADO - Sueli, meu amor, me ajuda! Sueli, minha santa, me ajuda! Sueli, segura esse veado nojento. Segura ele, Sueli! Eu quero fazer ele fumar maconha. Eu quero que ele fume! Eu quero! Por favor, Sueli, segura ele!

NEUSA SUELI -É só isso que você quer, seu porco?

VÀDO - É só o que eu quero. Me ajuda! Por favor.

NEUSA SUELI - Eu te ajudo! Eu te ajudo!

VELUDO - Ai, ai, tenho cócegas! Ai, ai, ai! Meu Deus, que loucura! Que loucura divina!

(Neusa Sueli vai tentar segurar Veludo. Quando vai tocá-lo ele grita)

VELUDO - Não toca em mim, mulher! Não toca em mim! Eu não gosto que mulher me toque! Não me toque! Não me toque!

NEUSA SUELI - Veado miserável! Miserável! (Agarra-o e o empurra pra porta.) Agora vai cagüetar a gente pra polícia, seu nojento!

VELUDO - Sua vaca! Você vai me pagar! Não vou na polícia, não. Não gosto dessa gente. Mas vai ter forra. Você não perde por esperar.

NEUSA SUELI - Cai fora daqui, bicha sem-vergonha! Cai fora!

(Veludo sai, xingando. Neusa Sueli fecha a porta e depois fica parada, olhando Vado por longo tempo.)

VÀDO - Está me achando bonito ou me botando quebrante?

Neusa Sueli - Nojento!

Vado - Não começa a me encher o saco.

NEUSa SUELI - Você é um sacana.

VADO - Você é uma cortadora de onda.

NEUSA SUELI - Nunca pensei que você pudesse ser tão miserável.

VADO - E eu nunca pensei que você fosse tão chata.

NEUSA SUELI - Não sou é descarada.

VADO - Vai ser freira, então

NEUSA SUELI - Eu tenho moral.

VADO - Depois de velha, até eu.

NEUSA Sueli - Velha, não! Só tenho trinta anos.

VADO - De puteiro?

Neusa Sueli - Canalha!

VADO - Quando você fica bronqueada é que a gente vê como você está apagada.

NEUSA SUELI - Estou é cansada. Só isso.

Vado - Devia se aposentar. Trinta anos de basquete cansa qualquer uma.

NEUSA SUELI - Eu nasci igual a qualquer uma. Limpinha. Há trinta anos atrás, eu era um nenê.

VADO - Não força a idéia, piranha velha. Você é a veterana das veteranas.

Neusa SUELI - Tenho só trinta anos.

VADO - Coroa!

NEUSA Sueli - Porco! Nojento! Você pensa que não manjei a tua jogada com o Veludo?

VADO - Deixa de história. Vocês antigas vêem malícia em tudo. NEUSA SUELI - Só sei que você me embrulhou o estômago.

VADO - A vovó das putas todas é metida a família, é?

NEUSA Sueli - Vovó das putas é a vaca que te pariu.

VADO - Limpa essa boca quando falar da minha mãe. Se folgar comigo, te arrebento. ...... . . . .. .

NEUSA SUELI - Então não me torra a paciência.

Vado - Só estou falando a verdade. Você está velha. Outra noite, cheguei aqui, você estava dormindo aí, de boca aberta. Roncava como uma velha. Puta troço asqueroso! Mas o pior foi quando cheguei perto pra te fechar a boca. Queria ver se você parava com aquele ronco miserável. Daí, te vi bem de perto. Quase vomitei. Pôrra, nunca vi coisa mais nojenta. Essa pintura que você usa aí pra esconder a velhice estava saindo e ficava entre as rugas, que apareciam bem. Juro, juro por Deus, que nunca tinha visto nada mais desgraçado. Eu até...

NEUSA SUELI - Pára com isso! Chega de escutar mentira! Pára com isso!

VADO - Mentira? Eu ê que sei! Senti uma puta pena de mim. Um cara novo, boa pinta, que se veste legal, que tem um papo certinho, que agrada, preso a um bagulho antigo. Fiquei bronqueado. Pôrra, ainda tentei quebrar o galho. Pensei comigo mas de corpo ainda é uma coisa que se pode aproveitar. E sem te acordar, tirei a coberta, tirei tua camisola, tirei tua calcinha e teu sutiã. As pelancas caíram pra todo lado. Puta coisa porca! Acho que até um cara que saísse de cana, depois de um cacetão de tempo, passava nesse lance. Pombas, que negócio ruim era você ali dormindo. Juro por Deus, nunca vi nada pior. Se não fosse o desgraçado do ronco de porca velha, eu tinha mandado te enterrar. Pôrra, e não se perdia nada. Me larguei. Não agüentava.

NEUSA SUELI - E por que não se mandou de vez? .

VADO - Fiquei esperando uma chance de te jogar isso no, focinho. Não ia sair sem te contar como você está podre.

NEUSA Sueli - E enquanto isso me tomava a grana.

VÁDO - Claro! Não sou nenhum bobo. Enquanto isso, tratava de mim por fora. Mulherio novinho e bonito está aí mesmo.

Neusa Sueli - Teu negócio é veado. Vi hoje.

VÁDO - Que é isso, coroa? Tá com ciúme do Veludo?

NEUSA SUELI - Tenha vergonha nessa cara.

VÁDO - Quem tem que ter vergonha é você, velhota. Não agüenta o repuxo, não tem como agarrar o homem, fica aí apavorada, até com medo de um veado de merda.

Neusa Sueli - Canalha!

VADO - Estava sendo uma onda legal, você cortou com a tua rabujice. Você é coroa! .

NEUSA SUELI - Não sou é de bacanal.

VADO - Puta que não gosta de bacanal é que está bem apagada.

NEUSA SUELI - Estou apagada é de canseira. Isso é que é; Não de velhice. De canseira. Sabe o que é uma noite de viração?

VÁDO - As meninas tiram de letra. É só abrir as pernas e faturar.

e Acham moleza. Agora, velha cansa à toa. Tem reumatismo.

e Tem que se esforçar pra agradar o freguês e outros babados.

e E ainda, pra não ficar jogada fora sozinha, tem que aturar o cafetão. Mas isso é igual na vida e nas casas de família. Os machos só aturam as coroas por interesse. Pra se divertir, a gente sempre tem uma garota enxutinha.

NEUSA SUELI - Eu tenho homem a hora que quero. , , ,

VÁDO - Por que me atura? Por quê? Eu sou chato pacas! NEUSA SUELI - É mesmo. Ainda bem que reconhece.

VÁDO - Por que você me agüenta?

NEUSA SUELI -Porque... Porque... , , .

VÁDO - Sou bom de cama? ,

Neusa Sueli - É. É mesmo. As verdades a gente diz.

VADO - É. Isso é verdade. Só que faz um mês que você não sabe de mim. Mais de um mês.

NEUSA SUELI - É... é... E mesmo assim te dou a grana.

VADO - Uma grana micha. Muito micha.

NEUSA Sueli - Não é culpa minha. Você sabe que não é; A situação está uma broca pra todas. Esse novo delegado que entrou aí está querendo fazer média. Toda hora passa o rapa. Até os tiras andam apavorados, não pegam caixinha, nem nada. Se os homens da lei estão com medo, os fregueses nem se fala. Mas deixa esse filho-da-puta desse delegado esquentar o lugar, fica tudo igual a antes. Daí, você vai ver se eu faturo alto outra vez ou não.

VADO - Você é enganadora.

NEUSA SUELI - Você anda por aí. É só perguntar pra qualquer uma. Elas te dizem como a barra anda pesada.

VADO - Isso é desculpa de velha.

Neusa Sueli - Velha, não.

Vado - Velha, sim. Todo mundo te acha um bagaço. Não viu o que o Veludo disse?

Neusa Sueli - o que foi?

VADO - Te chamou de galinha velha.

Neusa Sueli - Despeito de bicha.

VADO - Falou certo. Você está velha mesmo.

NEUSA SUELI - Só porque você quer.

Vado - É, né? Mostra os teus documentos.

(Vado vai pegar a bolsa de Neusa Sueli, ela o impede.)

NEUSA SUELI - Tenho trinta anos.

VADO - Deixa eu ver os papéis.

Neusa Sueli - Que onda besta!

VADO - Deixa eu ver.

NEUSA SUELI - Não torra a paciência!

VADO - Está com medo?

NEUSA SUELI - Medo, não. Acho besteira. .

VADO - Mentiu, agora não quer que eu prove a tua idade.

Neusa Sueli - Tenho trinta.

VADO - No mínimo cinqüenta anos. . . .

NEUSA SUELI - Fiz trinta no fim do ano passado.

VADO - Deixa eu ver os documentos. (Vado tenta tirar a bolsa das mãos de Neusa Sueli.) Tá com medo de mostrar os documentos?

NEUSA SUELI - Não gosto que mexam na minha bolsa.

(Vado insiste em tirar a bolsa de Neusa Sueli, até que a bolsa se abre, deixando espalhar pelo chão todo o seu conteúdo.)

Vado - Tá bom, velha! Pode sossegar, não vou pegar seus documentos pra ver o que eu já sei. Você tem cinqüenta anos e não adianta mentir.

(Neusa Sueli - (No chão, apanhando os objetos espalhados.) Pára com isso! Pára! Por favor, pára! Poxa, será que você não se manca? Será que você não é capaz de lembrar que venho da zona cansada pra chuchu? Ainda mais hoje. Hoje foi um dia de lascar. Andei pra baixo e pra cima, mais de mil vezes. Só peguei um trouxa na noite inteira. Um miserável que parecia um porco. Pesava mais de mil quilos. Contou toda a história da puta da vida dele, da puta da mulher dele, da puta da filha dele, da puta que o pariu. Tudo gente muito bem instalada na puta da vida. O desgraçado ficou em cima de mim mais de duas horas. Bufou, bufou, babou, babou, bufou mais pra pagar, reclamou pacas. Desgraçado, filho-daputa. É isso que acaba a gente... Isso que cansa a gente. A gente só quer chegar em casa, encontrar o homem da gente de cara legal, tirar aquele sarro e se apagar, pra desforrar de toda a sacanagem do mundo de merda que está aí. Resultado-, você está de saco cheio por qualquer coisinha, então apronta. Bate na gente, goza a minha cara e na hora do bembom, sai fora. Poxa, isso arreia qualquer uma. Às vezes chego a pensar Poxa, será que sou gente? Será que eu, você, o Veludo, somos gente? Chego até a duvidar. Duvido que gente de verdade viva assim, um aporrinhando o outro, um se servindo do outro. Isso não pode ser coisa direita. Isso é uma bosta. Uma bosta! Um monte de bosta! Fedida! Fedida! Fedida!

VADO - É... é mesmo...

NEUSA Sueli - É mesmo o quê?

VADO - Você está uma velha podre.

Neusa Sueli - Nojento!

VADO - Nada mais nojento que puta velha. Pôrra, como incomoda!

NEUSA Sueli - Eu não sou velha! Eu não sou velha! Eu estou gasta! Eu estou gasta nesta putaria!

VADO - Depois de cinqüenta anos, qualquer uma se apaga.

NEUSA SUELI - Eu tenho trinta anos! Apenas trinta anos! Apenas trinta anos!

Vado - Mentirosa! Enganadora! Vadia velha! Mostra os teus documentos. Mostra! Não tem coragem? Já sabia. Mentiu a idade, mas não engrupe ninguém. Tem um troço que não mente. Sabe o que é? Teu focinho! (Pega um espelho e obriga Neusa Sueli a olhar-se nele.) Olha! Olha! Olha!

NEUSA SUELI - Por favor, Vado, pára com isso!

VADO - Olha! Olha bem! Vê! Cinqüenta anos!

NEUSA SUELI - Vado, por favor, pára com isso! Pára com isso!

VADO - Cinqüenta anos! Velha nojenta! Cinqüenta anos!

NEUSA SUELI - Chega! Chega, pelo amor de Deus!

VADO - Olha, olha bem, velha! Bem velha! Cinqüenta anos no mínimo!

NEUSA SUELI - Por piedade, Vado. Pelo amor de tua mãe!

VADO - Cinqüenta anos! Fim da picada! Toda ruim. Ainda com essa meleca na cara, maquilagem e tal, engrupe os trouxas. Mas sem essa droga, deve ter bem mais de cinqüenta.

NEUSA SUELI - Vado, chega! Por favor, chega! ,

VADO - Olha bem! Olha bem! Velhota! Coroa! O Veludo tinha razão. Galinha velha! Vamos ver sem essa meleca quantos anos tem.

(Vado tira o lençol da cama e o esfrega no rosto de Neusa Sueli.)

NEUSA SUELI - Não, Vado! Não! Por favor, não!

VADO - Cem anos! Cem anos ou mais! Quanta ruga! Que cara amassada! Que bagaço!

NEUSA SUELI - Pára! Pára com isso!

(Vado pega o espelho e faz Neusa Sueli olhar-se nele.) Vado - Vê, puta, quanta ruga! !

Neusa SUELI - Chega! Chega! Chega! Não agüento mais. Chega!

VADO - Chega mesmo! Chega mesmo! Mesmo! Sou um cara boa pinta, não vou perder minha mocidade ao lado de um bagaço. Cadê a grana, sua vaca? Onde está a grana de hoje?

NEUSA Sueli - vou te dar a grana. (Pega o dinheiro na bolsa.) Está aí todo o dinheiro que tenho. Pronto. É seu. Está contente?

VADO - Tá legal. Assim é que é. Agora, tchau mesmo!

NEUSA SUELI - Não, você não vai saindo assim, não. Não dei a minha grana? Não é meu cafetão? ..

VADO - Vê se me esquece, velhota!

NEUSA SUELI - Você não vai se arrancar! ,

VADO - E por que não?

NEUSA SUELI - Nós vamos trepar.

VADO - Tá caducando?

NEUSA SUELI - E vai ter que ser gostoso. . . . .

VADO - Por dinheiro nenhum. .

NEUSA SUELI - Vai, sim, Vadinho, meu cafetão.

VADO - Sai dessa, velha. ..,

NEUSA Sueli - Velha, feia, gasta, bagaço, lixo dos lixos, galinha, coroa, sou tudo isso. Mas você vai trepar comigo.

VADO - Essa, não.

(Neusa Sueli fecha a porta do quarto e guarda a chave no seio . . .

Neusa Sueli - Viu? Já se tocou?

VADO - Abre essa porta. Abre essa porta. Anda! É surda, desgraçada? Não escuta a gente mandar? Abre essa porta! É melhor pra você.

NEUSA Sueli - É meu cafifa. Leva minha grana. Tem que me fazer gozar. Custe o que custar.

VADO - Você está me baratinando.

Neusa Sueli - Pra você ver. . .

VADO - Abre essa porta! Abre!

NEUSA SUELI - Não adianta espernear.

VADO - Você quer apanhar? .

Neusa SUELI - Quero, sim. Me bate. Bate legal.

- VADO - Não vou me afobar. vou tirar de letra. Puxo uma palha e te deixo aí na tara.

Neusa Sueli - Experimenta.

VADO - (Deitando na cama.) Boa noite, velha!

NEUSA Sueli - (Pega a navalha.) Vado, se você dormir, eu te capo, seu miserável!

VADO - Que é isso? Tá louca?

NEUSA SUELI - Estou. Estou louca de vontade de você. Se você não for comigo agora, não vai nunca mais com ninguém.

VADO - Mas que é isso, mulher?

NEUSA SUELI - Pode escolher, seu filho-da-puta!

VADO - Sai dessa dança, Sueli. Poxa, que negócio mais zoeira. Você embarca em todas. Poxa, por isso que eu às vezes me invoco com você. Qualquer sarrinho e você perde a esportiva.

Que onda! Não sabe brincar? Estava tirando um barato de leve, você já apela, já faz drama. Não pode ser assim, não.

Neusa SUELI - Você não precisa gastar saliva comigo. É só trepar e pronto. Sou velha, mas quero te ter. Entendeu?

Vado - E precisa de ferro pra quê? Vai me obrigar?

Neusa Sueli - vou!

VADO - Você é uma trouxa mesmo. Entra sempre em canoa furada. Me divirto sempre às suas custas. Quer dizer que grudou essa onda de velha? Pôrra, está na zona há uni

É cacetão de tempo e não aprendeu nada? Que paspalha! Quer dizer que você me acha o rei dos otários? Devia te bolachar por essa. Mas deixa pra lá. Você já está queimada. Deixo barato. Não vou criar caso. Mas vê se te manca. Poxa, você acha que se eu te achasse coroa jogada-fora ia estar aqui esticando papo? Me mandava sem dizer nada. Dava um pinote sem tu nunca saber por quê. Assim que é.

NEUSA SUELI - Então... então... por que toda essa bobageira?

VÀDO - Sou Vadinho, cafifa escolado. Judio de mulher pra elas gamarem.

NEUSA SUELI - Não precisa nada disso.

VADO - Minha embaixada! Sabe como é. Escuta esse papo que é de verdade. Eu estava borocoxô. Não queria fazer a obrigação. Inventei a onda. Grudou. Azar teu.

NEUSA SUELI - Mas faz um tempão que você não me procura.

VADO - Não faz tanto tempo assim. O que é bom deixa saudade. Isso que é.

Neusa Sueli - É... é...

VADO - Agora, tem um porém! Se eu não estivesse a fim, não

ia ter navalha que me obrigasse. Pode botar fé no que te digo. Eu sou um cara que só embarco por gosto.

Neusa SUELI - Você sabe conversar.

VADO - Que nada! Sou é da firmeza. Meu defeito é brincar muito.

Neusa SUELI - Eu estou na merda... Eu, estou na merda...

VADO - Que papo careca é esse?

NeUSA Sueli - Você me arreou.

VADO - Não complica. Larga o ferro e está tudo legal.

(Neusa Sueli deixa cair no chão a navalha que segurava.)

VADO - Assim. Bonitinha. É gamada em mim, pra que fazer guerra?

(Vado aproxima-se de Neusa Sueli, que está sentada na

cama. Vado começa a acariciá-la, enquanto disfarçadamente, retira a chave da porta que estava no seio de Neusa Sueli. Em poder da chave, ele se encaminha pra porta, abre-a e sai. Neusa Sueli, quando percebe que Vado saiu, corre até a porta e grita)

NEUSA SUELI - Vado!... Vado!... Você vai voltar?... Você vai voltar?...

(Neusa Sueli fica por algum- tempo parada na porta, depois volta, pega um sanduíche de mortadela, senta-se na cama, fica olhando o vazio por algum tempo. Depois, prosaicamente, começa a comer o sanduíche.)

 

                                                                                Plinio Marcos  

 

                      

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