Sites Grátis no Comunidades.net
Translate to English Translate to Spanish Translate to French Translate to German Translate to Italian Translate to Russian Translate to Chinese Translate to Japanese

  

 

Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NEANDERTAL / John Darnton
NEANDERTAL / John Darnton

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NEANDERTAL

 

Em 1910, Geoffrei Bakersfield-Smith, um estudioso e aventureiro de Leeds que se entregava à sua paixão de colecionar e classificar flores alpinas, entrou por acaso no Museu Nacional de Antiguidades e Artesanato em Dushanbe no principado de Bukhara. Ali, na cave, entre engradados de louças, arquivos encharcados pela chuva e outros detritos, descobriu uma pedra única. Era uma estela em forma de retângulo do tamanho de uma mesa de café pequena, primorosamente gravada.

Parte desaparecera - a aresta exterior direita era formada por uma rachadura como uma serpentina - e algumas das gravações estavam gastas. Mas destacavam-se outras linhas em relevo, tão claras quanto pegadas de botas na lama; representavam alguma espécie de figuras humanas.

Na poeirenta sala de arquivos do museu, Bakersfield-Smith descobriu uma pequena anotação feita com mão trêmula. A tabuinha tinha sido encontrada em 1874 por um camponês que lavrava os campos, numa aldeia da montanha do outro lado das terras Tajique. (Bakersfield-Smith notou que a Ásia tinha sofrido um terremoto em 1873, e presumiu que a tabuinha teria sido cuspida de uma das cavernas subterrâneas de calcário que transformavam a área num cortiço.)

O camponês tinha-a transportado numa carroça de madeira puxada por bois até à cidade provincial de Khodzant, onde a deixou à entrada de uma loja de produtos secos. Não há registro de como ou quando a pedra terá sido levada para o museu em Dushanbe.

Bakersfield-Smith fez um esboço da estela. Com um canivete retirou as areias das rachaduras e entalhes, e (com um papel, passando-lhe o lápis por cima) fez uma cópia das gravações.

Foi buscar a sua máquina fotográfica de tripé e fotografou-a. Procurou a parte que faltava por todo o Museu, mas não conseguiu encontrá-la.

Em Londres, BakersFeld-Smith mostrou os seus apontamentos e fotografias a P. T. Baqlord, depois Lord Uckston, um profissional do relativamente recente campo da antropologia física. Em 1913, Baqlord produziu uma monografia e um artigo no Jornal The Royal Society for Arqueology intitulados "Os Pictogramas de Khodzant".

Duplicando as fotografias, cortando-as em imagens para as separar, e reorganizando-as numa sequência linear, Baqlord foi capaz de reconstituir uma narrativa histórica. Afirmava que a estela contava a história de uma batalha antiga, tão significativa, teorizava ele, que os seus sobreviventes se tinham sentido na obrigação de registrá-la para as gerações posteriores.

Repare-se nas tentativas de situar a ação no tempo e no espaço (escrevia ele). Especificamente, vemos símbolos que poderiam representar luas e outros que parecem representar a folhagem sazonal. Numa das imagens há o que parece ser uma montanha, bem como um afloramento peculiar da pedra com espinhaços que a fazem parecer as costas de um punho fechado. Exatamente onde se situa este monte, não se sabe, mas deveria notar-se que a vasta e inexplorada região dos mais altos Pamirs, do Afeganistão, Tajiquistão e Cachemira, possuem numerosas formações rochosas incomuns, tanto pelo seu tamanho gigantesco, quanto pela forma estranha, atribuíveis à escultura em gelo.

A narrativa de Baqlord sobre a batalha era apaixonante mas, em última instância, insatisfatória por causa da parte que faltava; o final, se é que havia um, era desconhecido. Por assim dizer, a história desaparecia no ar. Mas ele tinha sido capaz de discernir duas linhas diferentes de guerreiros e de delinear três confrontos distintos.

Chegara mesmo a detectar, num dos cantos superiores, o que ele teorizava como sendo uma contagem de cadáveres, embora os corpos surgissem curiosamente representados pelo que pareciam ser olhos humanos colocados em árvores. Perscrutando através de uma lente de aumento durante semanas sem fim, e esculpindo meticulosamente o barro com um escalpelo de cirurgião para reconstruir as linhas obliteradas, foi capaz de recriar as armas dos seus minúsculos soldados, as quais, escreveu ele, “eram de uma natureza notavelmente primitiva".

Mas, cientificamente, o trabalho era imperfeito. Sem o original, a estela nunca poderia ser datada. Por isso, na análise final, Baqlord fica com uma hipótese que, em grande parte, não passa de uma conjectura: que, muito provavelmente, os combatentes seriam pequenos clãs de mongóis que se defrontaram em algum lugar entre 100 ou 200 a. C.

Depois, nunca chegou a reparar num pormenor realmente curioso na tabuinha - o fato de que um dos grupos de guerreiros era diferente do outro, tal como estavam marcados por testas estranhamente inclinadas que terminavam numa clara saliência protuberante atravessando a zona das sobrancelhas. Baqlord fez apenas uma referência de passagem a "uma fita na testa".

O seu trabalho suscitou uma ligeira agitação nos círculos académicos, mas depressa esmoreceu. Alguns pensavam que se tratava de um embuste. A magra e pequena monografia só sobreviveu até à segunda metade deste século junto de meia dúzia de arqueólogos que a consideravam uma curiosidade. "O Enigma de Khodzant” tornou-se o tema favorito das conferências para estudantes de licenciatura.

A pedra em si foi deixada nas adegas do museu. Depois veio a Revolução Russa, que se estendeu ao Tajiquistão, e a estela se perdeu.

 

 

                   O ENIGMA DE KHODZANT

Akbar Atilla descansou a AK-47 de encontro ao tronco de uma árvore e afastou-se do campo de tiro em busca de um local para se aliviar. O luar era pouco menos que suficiente para se poder ver o caminho; bandos de nuvens espalhavam-se em camadas pelo céu noturno e, de tempos a tempos, obscureciam-no completamente.

Os guerrilheiros Mujahedin tinham subido cada vez mais alto pelas montanhas Tajique adentro em busca de uma base segura. Aqui estavam a salvo. Não havia forças governamentais que os pudessem alcançar sem ser através de uma grande expedição, e se o tentassem, os guerrilheiros podiam ficar à espera em qualquer dos milhares de fendas e abatê-los um a um. A montanha era uma fortaleza inexpugnável.

Foi sentindo o caminho com os pés enquanto trepava pela encosta rochosa, depois parou e pôs-se à escuta. Havia o vento sibilando através dos abetos brancos e as vozes dos seus camaradas embaixo, falando calmamente. Alguém estava contando uma história.

Desprendeu a túnica e procurou o cinto dentro dela. Então ouviu qualquer coisa: um som inconfundível, um passo atrás de si. Endireitou-se e começou a virar-se.

O ataque foi rápido. Não teve tempo de reagir. Sentiu um golpe estrondoso na cabeça e olhou para cima em pânico enquanto as nuvens se afastavam. Ali, ao luar, viu uma forma vaga, grotesca e selvagem, depois uma cara escarninha, um rosto alongado com umas sobrancelhas protuberantes que pareciam de osso. Não teve tempo de gritar enquanto sentia um segundo golpe e depois braços que o agarraram esmagando-lhe as costelas. Foi arrebatado noite adentro.

Cedo na manhã seguinte, os outros encontraram-lhe a espingarda ainda encostada à árvore. Não havia mais nada. Imaginaram se teria fugido para o vale, talvez para se reunir à sua família, talvez para trabalhar nas colheitas. Mas porque iria deixar a arma para trás?

A história do desaparecimento era como outras histórias mais recentes e assim, com o tempo, chegou à aldeia, e depois a uma cidade na encosta. Nessa altura, detalhes imaginários já embelezavam o conto e era fraca a semelhança com o que tinha de fato acontecido.

Apenas se mantinha o mistério central: num momento um homem estava ali, e no seguinte tinha desaparecido no ar.

O relato foi ouvido por um americano que viajava pelos Pamirs, o qual, por amor das conveniências e para evitar perguntas demais, era chamado cônsul. Ele transcreveu-o para uma disquete e colocou-lhe em apêndice um breve recorte do jornal local dessa semana, que tinha sido traduzido pelo seu secretário:

 

HISKADETH, 8 de Nov. - Uma mulher de 24 anos do Surreq, Inglaterra, que fazia parte de um grupo que subia o monte Askasi, foi encontrada morta na semana passada. Depois de ter estado desaparecida durante quatro dias, o seu corpo foi encontrado numa saliência da rocha a duas milhas do topo.

O instrutor, Robert Brodq, de Londres, disse que o grupo tinha andado preocupado com a mulher, Katrina Brqan, depois de ela aparentemente se ter afastado do acampamento. Disse que o grupo executara uma vasta busca mas ela não fora encontrada até que tinham desistido e iniciado a descida.

O grupo tinha andado fazendo marchas e escaladas durante três semanas naquela região raramente visitada por estranhos. Os nativos contam histórias de "homens das montanhas" que atacam as pessoas que por ali se aventuram. O Sr. Brodq disse que o grupo ficara assustado com várias aparições misteriosas, mas recusava-se a entrar em pormenores.

A autópsia realizada pelo Dr. Askan Katari revelou escoriações e ferimentos múltiplos no crânio. Havia "inconsistências", disse o Dr. Katari, sem mais detalhes. O corpo irá de avião para Inglaterra onde será enterrado.

 

O cônsul codificou o disquete, colocou-o num envelope e dirigiu-o à Faculdade em Beteshda, em Maryland, como lhe fora recomendado que fizesse em tais ocasiões. Enviou-a pelo correio diplomático da Embaixada Americana em Dushanbe, a capital do Tajiquistão.

 

Matt decidiu fazer uma pausa. Içou-se para fora do buraco em forma de campa, andou até ao cântaro de água e estava levantando-o no ombro quando, pelo canto do olho, percebeu uma pequena mancha. Baixou o cântaro e olhou para o vale para uma nuvem de pó redemoinhando à distância.

Um carro.

Era o primeiro carro que via em quatro meses. O que andaria fazendo no meio de lugar nenhum? Tirou o chapéu de abas largas com o anel de manchas de suor e olhou para cima. Instantaneamente sentiu o sol da África Ocidental ferindo-lhe o cérebro. Rolou os ombros e experimentou uma dor agradável nos músculos das costas.

No declive árido, ao fundo, trabalhavam cinco figuras: os seus alunos. Gostava de olhar para eles assim lá embaixo, cada um atarefadamente absorvido escavando. Um empurrava um carrinho de mão com pedras; outro, deitado de borco no chão, dentro de uma vala, limpava a superfície de uma pedra com uma escova de dentes. Tinham um aspecto exótico, naquele calor e poeira, como uma paisagem lunar.

Olhou para o relógio. Hora de almoço. Trotou monte abaixo com passos largos, e escorregou de lado até alcançar a sua tenda. Lá dentro estava um calor sufocante. Atou as abas para a manter aberta e ligou uma ventoinha com uma lâmina de borracha de doze centímetros, que pouco fez para agitar o ar tórrido.

As moscas zumbiam espessamente. Num espelho pendurado no poste da tenda, Matt teve um vislumbre da sua cara. Estudou as linhas de suor correndo como regatos pela testa e faces, a desaparecerem na barba por fazer. Um matagal de cabelo castanho pendia-lhe sobre a testa, cobria-lhe as orelhas e encaracolava-se-lhe à roda do colarinho. A sujeira agravava-lhe os pés de galinha à volta dos olhos castanho-escuros, e os vincos descendentes que lhe contornavam os dois lados da boca.

Atirou as botas, deitou-se na cama de campanha, cruzou os braços atrás da cabeça, e olhou para cima, para a lona luminosa da tenda. Uma sombra cruzou-a no alto enquanto o encerado protetor ondulava letargicamente na brisa.

- Dormindo?

A voz de Nicole tinha um tom leve, solícito, com uma ponta de zombaria.

- Nem por isso. Só passando pelas brasas.

- Ainda é só uma da tarde.

Ele sentou-se.

- Bom, você sabe, estes velhos ossos...

Sorriu e abanou a cabeça, exasperada. Detestava que ele fizesse referências à idade. Era outro dos modos que ele tinha de espetar mais uma cunha na fenda entre eles. Tirou o lenço estampado e deixou o cabelo cair pelas costas. Era castanho-claro, listrado da poeira e agitava-se sobre os ombros com a brisa da ventoinha.

- Você viu o carro - disse ela. Era mais uma afirmação do que uma pergunta.

- Vi.

- Quem poderá ser?

- Não sei. Não estamos à espera do correio senão para daqui a duas semanas.

- Pode ser qualquer coisa importante. Talvez uma peça para o seu computador.

- Como um livro de instruções. - O computador de Matt estava ali num canto, como sempre, sem uso. Não tinha sido capaz de dominá-lo - era um homem do passado, não do futuro, gostava de dizer a sua incompetência transformava-o no alvo das piadas dos seus alunos.

- Pode ser alguma mensagem da universidade. Talvez as escavações recebam fundos para mais seis meses.

- Quando é para entregar dinheiro eles não mandam ninguém dar meia volta ao mundo. Anunciam-no à noite - numa sala vazia.

Ela riu. Ele levantou-se e espreguiçou-se.

- De qualquer modo - disse ele -, quem quer que seja chega atrasado para o almoço. - Avançou em direção à abertura.

- Só espero que não sejam más notícias - disse ela. - Adoro estar aqui. Descobri o trabalho da minha vida.

Ele sorriu.

- Tem os seus momentos bons - disse, depois fez uma vênia e um gesto para lá da aba da tenda, um convite a partir.

Ela lançou-lhe um olhar zangado e, ao passar, correu o dedo indicador devagar sobre a parte inferior do abdómen dele, desarranjando-lhe a camisa e roçando-lhe a pele abaixo do umbigo. Contra a sua vontade sentiu-se perturbado.

Porque é que não dormia com ela? Não era que não sentisse desejo - isso, graças a Deus, não o tinha abandonado. Recordou a noite em que Nicole fizera avanços. Entrara discretamente na sua tenda e encontrou-a à espera na cama de campanha. Estava nua sob o dossel da rede contra os mosquitos, que lhe pendia à volta como uma roupagem transparente. Matt sentira um ímpeto desordenado de desejo e receio.

Foi até à caixa de objetos de uso pessoal, retirou um wisky de má qualidade e sentou-se no engradado junto à cama. Passaram a garrafa um ao outro. Ela estava sentada direita, segurando um cobertor para tapar o peito e, por uma ou duas vezes, quando se esticou para pegar a garrafa, deixou-o cair e ele pode abarcar a visão total dos seios dela, pequenos e firmes. Há quanto tempo é que não fazia amor? Dez semanas? Três meses?

Beberam em espírito de camaradagem até acabarem com a garrafa. Ele cambaleou para o exterior, para dar um passeio sob as estrelas, e quando regressou, uma hora mais tarde, ela tinha ido embora. Nos dias que se seguiram andava furiosa. Depois, estranhamente, a ira derreteu-se e começou a agir como se tivesse um direito especial sobre ele.

Sentava-se ao lado nas refeições, olhava-o com admiração e sorria com um ar conjugal às piadas dele.

Por uma ou duas vezes ela engendrou situações para ficarem a sós, para lhe falar. Ele espiava os momentos que aí vinham e, fazendo-se desentendido, desviava a conversa com um gracejo tão desajeitado que chegava sendo cruel. Sentia-se vil, mas achava aquilo tudo tão previsível e cansativo - o romance de acampamento entre a estudante licenciada e o professor endurecido pelos safaris -, o folclore das escavações e os ossos descobertos por acaso na terra. Não queria passar outra vez por todas as declarações, revelações, recriminações. Talvez esteja ficando velho, pensou, mas sinto vontade de abraçar a abstinência da mesma maneira que costumava rebolar na auto-indulgência.

De repente, aos trinta e oito anos, Matt tinha-se tornado consciente do tempo. Censurava-se pela hipocrisia no romance, todos os jogos, as facadas no mistério, as rotinas do namoro que tinha aperfeiçoado ao longo dos anos como o jargão vazio de um político, chocavam-no agora como desenxabidos. Só uma vez tinha sido capaz de despir todo aquele fingimento, há uns anos atrás. E disso fizera uma trapalhada.

Sentia-se inquieto e insatisfeito, os nervos gastos como seixos à beira de água numa praia. Disse a si próprio que entesourava a sua solidão, o que era verdade, mas algo mais também era verdade, e era suficientemente honesto para o reconhecer durante aquela estranha noite em claro: sentia-se só.

No entanto, a situação com Nicole era instável. Tinha que fazer qualquer coisa para reconhecer os sentimentos dela ou iriam explodir, e isso podia arruinar a expedição. Sempre o tinha surpreendido quanto o sentido de coesão de um grupo era essencial para o sucesso de uma escavação.

Lá fora, Matt olhou para a taça do vale. Na planície abaixo, o carro estava mais perto. A poeira parecia lançar-se para o ar como uma explosão e depois chovia para trás em forma de pluma.

- De uma coisa gosto neste lugar - disse. - Ninguém pode nos apanhar desprevenidos.

- Dá-nos tempo para reforçar as defesas. - Nicole virou-se e olhou significativamente para ele, tentando enfatizar o segundo sentido.

Enquanto caminhava à frente no trilho, ele observava a parte de trás dos calções esfarrapados. Pedaços de fio penduravam-se como franjas esbranquiçadas sobre a carne exposta da parte superior da coxa, e enquanto ela o guiava lentamente ele podia ver-lhe o contorno das cuecas e observar a oscilação ondulatória das nádegas.

 

A Dra. Susan Arnot sentiu a excitação habitual ao falar diante de um público, mesmo sendo apenas constituído pelos estudantes de licenciatura de Antropologia.

Era qualquer coisa que tinha que ver com o estar no centro dos acontecimentos, ser o foco da atenção de todos aqueles olhos erguidos. E a sensação de controle - tinha de admitir que também gostava disso. Seria isto o que a demagogia significava?

A aula de Susan Arnot sobre o homem pré-histórico era uma das mais concorridas na Universidade de Wisconsin, mesmo sendo ela tida por uma fera. Havia sempre um frêmito extra em frequentar um curso de alguém que era bem conhecido na área, especialmente alguém controverso, cujas teorias tinham abalado a instituição. E claro que ela era um pouco o modelo do símbolo sexual dos acampamentos. Tinha uma bela figura, com membros longos, às vezes usando jeans com couro negro e andando de moto nos dias de folga, com o comprido cabelo asa de corvo enfiado num capacete vermelho-cereja. Quando entrava numa sala, esta agitava-se como se as moléculas estivessem a aquecer.

As conferências de Susan eram famosas no Campus, por isso o auditório estava à cunha. Sobre um estrado de madeira que estalava, com um raio de luz projetado por cima dela vindo do fundo da sala como um foco, apenas conseguia ver cabeças sem feições. Uma ou duas jóias brilhavam na semiobscuridade e alguns óculos refletiam a luz como pequenos faróis.

Tinha os amansado com piadas: as coisas do costume sobre achados arqueológicos raros, comparações entre o homem de Java e uma certa personalidade eminente do Campus, a mistificação de Piltdown e a investigação de um professor. Eram piadas baratas mas funcionavam, e sentia-se satisfeita quando eles se riam nas deixas certas.

Abruptamente levantou o punho direito, flexionou o polegar e disparou um zunido à distância. Por trás dela apareceu um mapa enorme, rudemente desenhado em tinta preta, com os rios representados por rachaduras sinuosas e os montes por pestanas. Os alunos concentraram-se nele e alguns levantaram as canetas, prontos a tirar apontamentos.

Nomes de lugares em alemão do vale do Reno: Oberhausen, Solingen, o rio Düssel. Ela ergueu um ponteiro e avançou até ao mapa, agora muito profissional.

- E assim chegamos ao acontecimento principal. O ano é 1856: Agosto. Três anos antes de Darwin publicar Sobre a Origens das Espécies. Já está trabalhando nela há cerca de vinte anos, e não tem muita pressa. Mas em breve irá chegar-lhe aos ouvidos que um rival está preparando um manuscrito onde propõe uma coisa chamada "seleção natural" e isso irá lançá-lo num furor de produção competitiva.

Olhou para os estudantes para se assegurar de que a estavam acompanhando e, por um motivo qualquer, começou a sentir-se um pouco enervada, um sentimento vago, desorientador, que agora de vez em quando a assaltava.

Elevou o ponteiro. O bico de borracha vermelha tocou no mapa e acariciou o centro num movimento circular lento.

- Aqui, neste pequeno vale a leste do Reno, algo está quase acontecendo que irá despertar a atenção da instituição científica do século XIX. Uma descoberta. E tal como em muitas descobertas importantes, a sorte vai desempenhar um papel de relevo.

Ergueu o punho. Outro clique, e uma fotografia a cores de vales e prados brilhou na tela.

- É um pequeno vale tranquilo, cheio de edelweiss e narcisos amarelos. A garganta que vêem recebeu, no século XVII, o nome de um professor de Dusseldorf, Joaquim Neumann. Ele costumava vaguear pelo vale em busca de inspiração para os seus poemas e música - ambos bastante horríveis, diga-se de passagem. Mas era uma figura amada e, depois de ter morrido, os anciãos da aldeia decidiram conferir o nome dele aos montes que adorava. Joaquim era um bocado pedante. Preferia ser chamado pela versão grega do seu nome, que significava Homem Novo: em grego, Neander.

- Dois séculos mais tarde, em 1856, num calmo dia de Agosto, trabalhadores de uma pedreira descobriram uma caverna, que tinha pilhas e pilhas de ossos lá dentro, amontoados à volta das paredes e espalhados pelo chão, mas a maioria acumulada num monte perto do centro. Os trabalhadores jogaram-nos fora, menos algumas partes. Por uma razão qualquer, o proprietário da terra, um tal Felix Beckershoff, interessou-se por aqueles velhos ossos e conseguiu salvar alguns: braços e pernas, parte de um pélvis, o fragmento de um crânio.

Outro diapositivo apareceu na tela: pedaços de um osso, brilhante como pedras preciosas polidas e castanho-escuro como cartão molhado. Partes eram identificáveis - o topo de uma caixa craniana, um fêmur de aspecto familiar, uma tíbia esguia. O bico do ponteiro dançou por entre eles desenhando um oito.

- Felizmente, Beckershoff conhecia um tal J. C. Fuhlrott, o fundador da Sociedade de Ciências Naturais do local. Quando Fuhlrotc viu estes fragmentos, não conseguiu acreditar nos seus olhos. Que espécie de ossos eram aqueles? O crânio de abóbada baixa com a sua terrível crista protuberante: como se podia explicar aquilo? Os membros arqueados. O cúbito ferido dobrado. A quem pertenciam? Seguramente não eram de nenhum animal, e no entanto, também de nenhum homem, ou nenhuma espécie de homem ainda vivo.

Susan regressou ao púlpito. Agora os estudantes escreviam febrilmente. Ela não precisava consultar as fichas, já tinha feito aquela conferência dezenas de vezes. Mas mesmo assim, não conseguia afastar a sensação de não estar dando o seu rendimento, de vulnerabilidade.

Quem são todas estas pessoas que estão aqui me ouvindo? O que estarão de fato pensando?

Obrigou a sua voz a soar num tom ligeiro, de conversa.

- Fuhlrott trouxe um anatomista de Bona, um professor Schaaffhausen. Ele tornou-se o primeiro a teorizar que aquele espécime era de fato algo de verdadeiramente inimaginável, não um macaco, nem um homem, mas algum tipo de pré-homem, talvez um ser antigo que vagueasse Europa afora muito antes dos Romanos e dos Celtas. Tentem imaginar, apenas por um segundo, o salto ousado que significava aquela indução singular.

- Depois envolveram-se os profissionais. A teoria da evolução estava na sua infância. Os seus gritos ameaçadores ecoavam já para cima e para baixo pelos sóbrios corredores da ciência. A instituição estava dividida: os evolucionistas aproveitaram-se desta maneira de ossos e elevaram-nos: Presto!, como reivindicação da sua teoria revolucionária. Os antievolucionistas continuaram o ataque. Insistiam que os ossos eram um acaso insignificante. Desenharam-se os lados. Pensadores famosos apareceram com explicações. A plausibilidade não era a primeira exigência. Rudolf Virehow, o anatomista alemão mais conhecido do seu tempo, concluiu que o proprietário daqueles ossos era um ser humano normal que sofria de raquitismo. A dor indizível, raciocinou ele, obrigava-o a franzir o sobrolho, que então se ossificou com aquelas fortes saliências bizarras.

- Na sua grande maioria, os cientistas mais preeminentes mantiveram-se à parte da controvérsia. Seguramente que Darwin o fez. - Susan abanou ligeiramente a cabeça. - Mas não deveremos fazer julgamentos excessivos. Lembrem-se, foi uma era de negras superstições, de pseudo-religião, de um conservadorismo tipo camisa-de-forças. Era um anátema imaginar um humano com um antepassado com a forma do macaco, para não mencionar um primo com a cabeça a direito que parecia que tinha sido atropelado por um caminhão.

- Mas então a Providência interveio. As provas começaram a amontoar-se até que se tornaram incontestáveis.

Ergueu de novo o punho e outro mapa saltou para a tela, mostrando a Europa, o Norte de África, e o subcontinente indiano, com cruzes negras espalhadas sobre eles, a agruparem-se à volta do Sul da França.

- Houve mais descobertas de fósseis. E havia ossos de mamíferos enormes, alguns deles extintos, como o mamute e o veado gigante. Era muito difícil contestar isto. - O bico do ponteiro batia na tela. - Os ossos começaram a aparecer como cogumelos depois da chuva: Gibraltar, Itália, Bélgica Rússia Iraque e Israel.

Sorriu. A sua angústia tinha aliviado um pouco. Recuou até o púlpito, ainda olhando para a tela, como se estivesse à espera de que algo mágico acontecesse, e a voz adotou o tom do clímax da narrativa.

- É assim... as provas levaram a melhor. A ciência ganhou. William King, um anatomista irlandês, identificou o fóssil como uma nova espécie de humanidade. A paleo-antropologia foi fundada como uma área de estudo. A nossa criatura foi reconhecida, batizada, analisada. Foi-lhe dado um nome. Vinha do vale das flores da montanha e do nosso amado professor com as rimas insuportáveis, Joaquim Neumann.

- E agora, meus senhores, eis aqui - havia o toque carnavalesco do leiloeiro enquanto levantava alto o punho acima da cabeça e apertava o botão com o polegar - a estrela do nosso espectáculo... Homo sapiens Neandertecalensis, mais conhecido entre vós pelo Homem de Neandertal!

A sala escureceu enquanto a figura gigantesca a usurpava. Era enorme, hirsuta e corria de um lado ao outro da tela. Era o rosto largo demais, tão estranhamente familiar por centenas de esboços e sonhos meio recordados: a testa escorregadia e inclinada para a frente, a caixa protuberante da fronte, horrivelmente nervurada, o nariz ligeiramente recurvado, proeminente, e o queixo redondo e fraco. Era de uma disformidade indizível, feio, suficientemente perto de uma cabeça humana para ser reconhecível e assim tornar as diferenças ainda mais grotescas. Era como se a mão de um gigante tivesse pegado numa cabeça de cera e a tivesse empurrado brutalmente para a frente, tornando-a alongada.

O Neandertal transformava Susan numa anã e, enquanto ela passeava pelo palco diante do seu peito peludo, esquecida da forma gigantesca que a espiava por trás, o contraste dava-lhe um aspecto de ameaça: King Kong espreitando pela janela.

Aquele esboço, feito pelo ilustrador checo Zdenek Burian, era o seu favorito. Gostava do modo como captara a aura claramente humana. Qualquer coisa nas comissuras da boca tornava-as nas linhas de um sorriso, e os olhos ferozmente inteligentes pareciam olhar a distância como se estivessem fixando-se em qualquer coisa grave - talvez a extinção da própria criatura. Tão sagazes e tão melancolicamente sem esperança. Havia um toque de cansaço inexprimível na inclinação dos ombros. Isto não era um animal. Era, em todos os aspectos, igual ao homem.

 

Matt não dava crédito a sinais - era muito cético para acreditar que o universo pudesse ser organizado, mesmo por uma força malévola - mas sentia-se incapaz de afastar a convicção de que esta pluma de poeira era de mau agouro. A sensação tornava-se mais forte agora que o carro se aproximava, mas engoliu-a diante dos estudantes.

- Talvez seja a piza que encomendamos -, brincou, enquanto acabavam um almoço de carne de cabra da noite anterior, reaquecida e empurrada com cerveja Tusker morna.

Pegou a sua bebida e saiu sozinho, afastando-se ao longo da saliência até uma pedra onde se podia sentar e vigiar a parte mais baixa da escavação: o poço cavado em camadas de trincheiras, os carrinhos de mão tapados por resguardos, a velha caravana que lhes servia de laboratório, as caixas de ferramentas direto no chão como pequenos caixões de madeira. Curioso, como nenhum outro lugar lhe era agora importante.

Pensou em todas as descobertas feitas ao longo de décadas: pedaços de osso e dentes, pederneiras e pontas de flechas - todas essas peças do quebra cabeça. O conhecimento sobre o homem do baixo paleolítico tinha crescido exponencialmente durante as últimas poucas décadas, mas o que é que se conhecia verdadeiramente do seu universo, da sua mentalidade e alma, o modo como tentaria perceber o sentido do mundo antes de adormecer à noite, ou como reagia quando via um pôr do Sol ou um veado fulvo a galopar?

Matt, tal como estava ali sentado, imaginava o homem pré-histórico erguendo-se exatamente naquele mesmo lugar. Teria sido a margem de um grande lago, talvez, a julgar pelos depósitos de sedimentação.

Cavernas profundas transformavam os montes atrás de si numa colméia e se abrigariam quase junto à beira da água. Perfeito em termos de segurança, e isso seria o mais importante de tudo. Matt sabia alguma coisa sobre o habitat e crenças desta criatura, e tentava evocar até o mais ínfimo reflexo da sua psique: uma parte guerreiro, outra parte sombra temerosa estremecendo nos recessos de uma caverna. Tentou, como o tinha feito muitas vezes antes, esvaziar-se e assumir esses medos, os cheiros de sangue, banha e pêlo, o cérebro deslizando sobre si próprio com uma capacidade de entendimento que ultrapassava os poucos e débeis grunhidos que lhe eram concedidos. Era tudo tão difícil de saber. Seria possível, mesmo por um fragmento de segundo, sentir uma ligação com algo tão primitivo e tão maior, que tinha passado por este caminho há eternidades atrás?

Com um clamor, o Land Rover fez uma curva, mergulhou no centro do acampamento, e parou abruptamente. A poeira alcançou-o e envolveu-o numa nuvem que diminuiu quando o motor foi desligado.

Um homem saltou da parte de trás e avançou até eles com passo rápido. Tinha um aspecto peculiar. O cabelo parecia tombar-lhe em arbustos. Era rechonchudo mas surpreendentemente ágil, um homem branco no princípio dos quarenta. Usava botas de marcha novas, um casaco de safari e óculos de sol semicirculares.

- Dr. Mattison? - Avançou diretamente para Matt e ofereceu-lhe a mão gorducha. Matt apertou-a. O cumprimento do homem era mais forte do que esperara. - Ou deverei dizer, "Dr. Mattison, presumo"? Apesar de tudo estamos na África. Pelo menos acho que estamos. Não consigo ter certeza, posso ter me enganado e voltado para trás ali no banho de poeira.

- E o senhor é...

- Van Steeds. Frederick. - Uma pausa. - Costumam me chamar de Van.

O nome era-lhe familiar, mas Matt não conseguia situá-lo.

O visitante tirou os óculos escuros e limpou-os numa fralda da camisa. A pele à volta das maçãs do rosto estava inchada com gordura e os olhos cinzentos dardejavam em volta assim que se apanharam sem óculos, dando-lhe um ar inquisidor, mas furtivo. Inclinou-se e sacudiu as pernas das calças. Soltou-se uma onda de poeira.

- Olhe para isto. Nem sei como se conseguem habituar ao pó.

Matt viu Van olhando para a mesa.

- Quer comer alguma coisa?

- Não me incomodaria.

Os estudantes arranjaram-lhe espaço enquanto um deles saqueava a despensa e regressava com algumas fatias de carne, pão e outra cerveja.

O condutor sentou-se sob uma acácia e adormeceu imediatamente, com as mãos caídas no chão de palmas para cima. Van olhou para ele.

- Não sei o que acontece com estes caras. Assim que saem do carro adormecem. Até parece que está escrito no contrato deles ou coisa que o valha.

- Khat - disse um estudante. - Está mascando khat.

- Não! Como é que sabe?

- Pelos olhos. Pupilas dilatadas. Todos por aqui o mascam.

- Filho da mãe.

Matt cansou-se da conversa fiada.

- Vejamos Van. Percebo que viajou por quatro horas desde Djibouti sob o sol da tarde, mas...

- Dez, para ser correto. Aterrei em Hargeisa, guiei até Djibouti, e lá apanhei este carro até aqui. Ele perdeu-se duas vezes. Disse que sabia o caminho.

- Sim, mas agora está aqui, portanto talvez nos pudesse dizer porquê.

- Com certeza - disse Van, e sorria inesgotavelmente. Matt percebeu que estava se divertindo com o seu pequeno mistério. – Mas o que acontece - olhou em volta para os outros - é que tenho que falar consigo em particular.

- Está bem.

Van acabou o almoço devagar, em silêncio e depois levantou-se, lambendo a gordura dos dedos. Matt indicou-lhe o caminho até à tenda. Assim que entraram, Van estendeu-lhe um comprido envelope castanho sem uma palavra. Enquanto Matt o rasgava para abrir, o homem espreitou pela aba da tenda, acendeu um cigarro e disse:

- Não posso responder a qualquer pergunta. É provável que as tenha para fazer. Gostaria muito, mas francamente não tenho grandes respostas para dar.

O cabeçalho era discreto e de aspecto importante:

Instituto de Investigação Pré-Histórica, 129 Brandywine Lane, Bethesda, MD 09763.

 

         Caro Dr. Mattison,

Tenho todas as razões para crer que esta carta irá chegar no momento mais inoportuno, e desde já peço desculpas pela coincidência desafortunada. Asseguro-lhe que só um assunto de extrema importância, até mesmo urgência, me levaria a procurá-lo numa altura como esta e a fazer-lhe um pedido que, espero bem, a sua magnanimidade não lhe permitirá recusar.

Como pode, ou não, saber, contratamos os serviços do Dr. Jerome Kellicut, a quem penso que conhece bem e que sempre falou muito favoravelmente de si. Por esse motivo, achamos que podemos confiar em si.

O Dr. Kellicut tem estado fora, no Tajiquistão, desenvolvendo um projeto excitante que nós patrocinamos. O projeto é da maior importância para a comunidade científica e, em particular, para o campo da investigação paleontológica e antropológica. Há já alguns meses que não recebemos notícias dele, além de uma mensagem que lhe enviou a si, por nosso intermédio, e que temos em nosso poder para lhe entregar.

A mensagem apresenta-se sob a forma de uma convocação à qual, estamos convencidos, quererá responder favoravelmente assim que tiver conhecimento dos fatos. Lamento ter de acrescentar que temos razões para crer que a vida do Dr. Kellicut está em perigo.

Por este motivo, instigo-o a que parta assim que receber esta carta e que se apresente na nossa sede em Bethseda, Maryland, no endereço acima. Antecipando a sua resposta positiva, foram feitas reservas de avião e alojamento em seu nome. Também foram tomadas providências para que outros tomem em mãos o seu projeto atual.

Por fim, gostaria de enfatizar a natureza imperiosa do pedido que lhe está sendo feito. Tenho certeza de que compreenderá a suprema necessidade de rapidez e segredo.

 

Havia uma assinatura ousadamente rabiscada e, por baixo dela, o nome e categoria:

Harold Eagleton, Diretor.

Matt estava perplexo. Tinha pensado muitas vezes em Kellicut, o seu mentor em Harvard, mas há mais de cinco anos que não o via e não sabia nada dele há... quanto? Pelo menos dois anos. Kellicut.

Ninguém tinha influenciado tanto a vida de Matt como aquele homem o fizera. Dirigia o poderoso departamento de arqueologia como um príncipe e os estudantes eram os seus súditos. Viviam na esperança de serem escolhidos para as suas escavações, de se juntarem à elite.

Kellicut costumava percorrer os bares de Cambridge com eles pela noite adentro e depois regressavam ao apartamento dele, onde lhes tocaria Fats Waller ou Maria Callas e cozinhava um montículo de ovos mexidos cheios de especiarias numa frigideira de ferro preta que nunca era lavada.

Matt era impressionável - nunca conhecera o pai, que morrera quando ele tinha dois anos - e Kellicut bombardeava-o com revelações, pensamentos subversivos, a poesia de Blake, compositores de quem nunca ouvira falar.

Porquê eu? Matt sempre se perguntara, sentindo-se agradado mas indigno. Tinha sido apenas uma questão de tempo até que sucumbisse ao fascínio de Kellicut pelos "antigos", não os Gregos nem os Romanos, que tinham deixado atrás de si escritos e por tal eram conhecíveis, mas os verdadeiros antigos, os seres anteriores à memória no processo de se tornar humano.

Na segunda escavação de Matt, anos atrás, em Combe Grenal, um pequeno vale cavado pelo Dordonha no Sul da França, desenterraram mais de 20100 fragmentos de ossos de Neandertal e até mesmo parte de um esqueleto. Toda a cama de rocha foi levantada por uma grua, para balançar precariamente enquanto Kellicut saltava para cima e para baixo, praguejando e gritando em francês macarrônico. O operador da grua, um francês, tinha-a empinado tanto que a rocha estava quase escorregando do suporte e esmagando-se de encontro ao chão quando, por fim, o próprio Kellicut resolveu saltar para a cabina e conseguiu fazer a rocha deixar de balançar e instalá-la na caixa de um caminhão. Matt recordava-se bem da cena: Kellicut dando palmadas nas alavancas, ainda praguejando e em seguida rindo.

Depois, lá para o fim da noite, apareceu com quatro garrafas de champanhe gelado, vindas sabe Deus de onde, e apanharam todos uma bebedeira. E nessa altura, sempre pronto a quebrar as regras, Kellicut deu a cada um deles um pequeno fragmento de crânio de Neandertal, furado e montado num fio de prata. Obedientemente, Matt usou o seu no pescoço durante anos, até o tirar e guardar no bolso. Agora mesmo tinha-o por perto, como um talismã.

Para ser honesto, Matt tinha ficado um bocadinho ferido por Kellicut ter deixado de dar notícias. Agora estava metido num problema qualquer - até aí estava tudo claro. Mas que perigo? De que projeto se tratava e qual seria a sua mensagem? Matt tinha ouvido falar do Instituto de Investigação Pré-Histórica, uma entidade nova embora bem dotada para a investigação de ponta nos campos relacionados com a área, mas não sabia muito sobre ela. Em que projeto estava Kellicut metido? Como é que este Eagleton sabia onde estava Matt, e como é que podia pensar que Matt arrancaria assim sem mais nem menos ?

Olhou de relance para Van, que estava fumando e com alguma dificuldade para tentar expelir o fumo através da aba da porta.

- Van, que assunto é este?

- Lamento. Como disse, não posso falar.

- Não pode, ou não quer?

- Acredite-me, se pudesse acrescentar alguma coisa ao que está na carta, eu o faria. Kellicut desapareceu numa escavação no Tajiquistão e precisamos de você para nos ajudar a encontrá-lo.

- Você me entrega esta carta e espera que eu abandone tudo e parta?

- Sim.

- Porquê?

- Porque a vida dele pode estar em perigo. - Van abriu a porta da tenda e cuspiu para fora um enorme globo de saliva.

- Porque diz isso?

- É um lugar perigoso. Devia manter-se em contato. E como diz a carta, há meses que não sabemos nada dele.

Ficaram silenciosos por um momento. Depois Van falou.

- Então você vem?

Matt sentiu um aperto na garganta.

- E para quando é a partida?

- Eu parto hoje. Você pode partir dentro de dois dias.

Matt protestou.

- Mas e a escavação? Não posso ir embora e abandoná-la. Estes garotos dependem de mim.

- Esse assunto já foi tratado. Temos alguém para tomar conta disto. Um cara da Universidade de Columbia. Chega amanhã, ou mais tardar na quinta-feira.

- Parece que pensaram em tudo - disse Matt.

- Nunca é suficiente. É por isso que precisamos de você.

- Porquê eu?

- Você conhece Kellicut. Conhece o campo. Você é o único, praticamente o único, que o conhece.

De mistura com a sensação de alarme, Matt reparou em mais qualquer coisa, um sentimento que conhecia. Era um pequeno zumbido de excitação nos ouvidos, um formigueiro nas pontas dos dedos, aquela velha impressão que tinha quando uma aventura estava à vista.

Trataram das coisas. Van só ficou mais meia hora. Quando Matt o acompanhou ao Land Rover, Van despertou o condutor adormecido, que abanou a cabeça, saltou e entrou no carro.

Matt olhou outra vez dentro dos óculos escuros de Van.

– Mais uma coisa. O seu nome é familiar, mas não consigo lembrar-me do seu trabalho. Qual é a sua área?

- Eu? Comecei na psicologia, depois passei para a paleo-antropologia. Agora estou envolvido no psicolinguismo.

- Claro Van Steeds. Li algumas coisas suas, é fascinante, toda essa nova investigação sobre comunicação sem linguagem. Perdoe-me.

- Não faz mal. Fico impressionado que alguém da sua estatura se incomode a ler as publicações obscuras em que aparecem os meus trabalhos. - Van sorriu com os dentes todos e escorregou para o assento traseiro sem mais palavras e o carro afastou-se, deixando atrás de si outra nuvem de poeira.

Mais tarde, quando Matt regressou à tenda olhou para fora pela aba. Ali, no chão, estava o globo de cuspo de Van. Não conseguia acreditar. Era verde. Filho da mãe, pensou ele. O cara estava mascando khat.

 

Susan levantou o ponteiro para fazer cócegas no queixo do Neandertal.

- Aqui está ele. Sabem o que as pessoas dizem acerca dele: "Uma brincadeira da Natureza", "Um beco sem saída da evolução". O nosso pobre primo com cara de macaco, uma figura equívoca e anormal que desperdiçou a sua hora no palco. Bom, nada poderia estar mais longe da verdade. Aprendemos muito nos últimos dez ou quinze anos e tudo o que agora sabemos contradiz esse estereótipo calunioso.

Uma velha fotografia cintilou na tela. Um homem com aspecto eminente, usando um laço, com uma pêra bem aparada, olhos semicerrados e os lábios meio abertos num sorriso de auto-satisfação.

Parecia-se um pouco com Sigmund Freud.

- Eis aqui o vilão, Marcellin Boule, um famoso paleontologista francês. Mais do que ninguém foi ele o responsável pelo grande mal-entendido em torno do Neandertal que até hoje se mantém, em tudo, desde a literatura à banda desenhada.

Susan esboçou as origens de Boule, o seu desejo de fama, a sua obsessão em manter pura a linhagem humana pelo rejeitar dos antepassados primitivos. E falou do dia fatídico, em 1908, quando um esqueleto de uma pequena caverna perto de La Chapelle-aux-Saints lhe caiu nas mãos. Fez passar um dia positivo da reconstrução do esqueleto feita por ele - um trabalho imperfeito que pretendia torná-lo o mais parecido possível com um macaco, as vértebras do pescoço espetadas como as de um gorila e o osso do dedo grande do pé afastado para formar um polegar em oposição.

- Não é de espantar que por gerações o olhassem de alto como se fosse um cretino mudo. Bom, vejam o que acontece quando são corrigidas as distorções do senhor Boule. - a tela mudou e o esqueleto apresentava-se erecto. - Olhem para isto. Um pouco mais majestoso. Não é tão alto como nós, mas não é de fato assim tão diferente. É evidente que não parece um símio. Hoje em dia as pessoas gostam de dizer que se o barbeassem e lhe pusessem um terno e uma gravata, poderíamos perdê-lo na Madison Avenue. Talvez. Mas a partir do momento em que fossem apresentados, iriam logo saber. Quando lhes apertasse a mão provavelmente partiriam todos os ossos.

Susan viu um quadrado de luz no fundo da sala e recortada contra ele uma figura escura esgueirando-se para dentro do auditório. Pensou que a tinha visto inclinar-se para se sentar numa das filas de trás enquanto a porta se fechava e a luz diminuía. De novo sentiu aquela ansiedade pairar livremente.

Forçou-se a concentrar na exposição e cruzou o estrado, agarrando fortemente o ponteiro.

- Sabemos que o Neandertal conhecia o fogo. O fogo tinha sido usado durante milhares de anos e sem fogo ele não poderia ter sobrevivido à última glaciação. Era um produtor de fogo e não apenas um conservador de fogo. Usava pirites de ferro e pederneiras para acendê-lo, e talvez secasse fungos para fazer as mechas. De fato, era muito doméstico no que dizia respeito a alimentar a sua lareira.

Susan tinha certeza de que havia um intruso sentado na Fila de trás, um homem. Quem poderia ser? Quem iria entrar a meio de uma conferência daquelas?

- Ele enterrava os seus mortos. Curiosamente, muitos dos cemitérios que encontramos são de crianças. Um lugar particularmente bem conservado é o de Teshik-Tash, uma caverna na cordilheira de Gissar ao sul de Samarcanda. É uma câmara completa e contém seis pares de chifres de cabra da montanha siberiana. Um par está ligeiramente queimado. Tudo aponta para um ritual elaborado, talvez para, no futuro, trazer a criança de novo à vida. A morte era muito especial para o Neandertal. De fato, creio que construiu um culto em torno dela.

- No mínimo, poderemos avançar com a hipótese de que praticava uma religião, embora evidentemente não tenhamos o menor indício quanto ao tipo de religião. Quase com certeza que o fogo fazia parte do seu culto. Algumas cavernas têm o que parece ser câmaras de fogo, seja por razões práticas, para manter o fogo sempre aceso, ou para propósitos rituais. Talvez roubando o fogo às tempestades com raios, quando os céus se abriam e malhavam no seu pobre universo, o Neandertal, como Sísifo, estivesse subindo acima da sua condição. Talvez estivesse usurpando o poder dos seus deuses e talvez eles, tal como os deuses gregos e até mesmo Javé, exigissem expiação através de alguma forma de sacrifício. Será que estes ossos de crianças nos falam de Abraão e Isaac? Não sabemos e poderemos nunca vir a saber.

Fez uma pausa por um momento.

- Portanto, agarremo-nos ao que sabemos. Sabemos que o Neandertal vivia em grupos e tomava conta dos velhos e dos enfermos. Descobrimos esqueletos com fraturas curadas e marcas de doenças provocando incapacidades que o provam para além da dúvida. – Na tela apareceu um esqueleto atrofiado. - Aqui temos a descoberta de Ralph Solecki na grande caverna do Shanidar, no Iraque. Aqui o nosso homem pré-histórico foi morto por uma avalancha de pedras. Era velho, talvez de quarenta anos, o que em termos de Neandertal o torna vetusto. Vêem aquele ferimento no crânio? Provavelmente vem do soterramento. Mas olhem para o braço direito dele. Tinha sido amputado alguns anos antes - vêem? - bem abaixo do cotovelo. Tinha artrite. Agora olhem para o lado esquerdo do rosto. Vêem a cicatriz no osso? Era cego do olho esquerdo. Não há maneira nenhuma de alguém assim conseguir sobreviver sozinho. Os outros mantinham-no vivo. A tribo sustentava os seus membros mais fracos, os que não podiam caçar, nem trabalhar. Neste aspecto, os Neandertal eram humanos, talvez até mais humanos do que nós o somos. Aqueles de vocês que ultimamente entraram num lar sabem o que quero dizer.

- Eis aqui algo mais para aqueles que de entre vocês imaginavam os Neandertal como personagens mais que anormais de banda desenhada. O Senhor Boule fez um molde endocraniano da caveira de La Chapelle e pensava que o seu proprietário era atrasado mental. Hoje, claro, sabemos que o tamanho do cérebro não é um indicativo de inteligência. Anatole France, o filósofo francês, tinha um cérebro apenas dois terços tão grande quanto o do adulto Neandertal médio. Mas também agora sabemos mais acerca das caveiras dos Neandertal, e a partir das medidas cranianas fica acima de qualquer dúvida que os cérebros deles não eram menores que os nossos. Antes pelo contrário: eram quase dez por cento maiores. E o que é mais, alguns dizem que a ratio entre o tamanho do cérebro e o do corpo, a assim chamada cefalização, uma medida mais correta da inteligência que o mero tamanho do cérebro, quando projetada através de uma espécie na sua totalidade, é também optimizada por um fator de ponto doze.

- Um gráfico mostrando a cefalização de vinte espécies foi exibido. O mais elevado era o do Neandertal, o mais baixo tinha a etiqueta VACA MODERNA.

- Não há maneira de reconciliar estas informações sem admitir a possibilidade de que o Neandertal era nosso par em poder mental, ou talvez mesmo nosso superior.

Susan atravessou o estrado, fez uma pausa para o efeito dramático, e ergueu o punho.

- Consideremos o homem moderno.

Para a tela saltou uma fotografia granulada de um homem bonito, nos seus sessenta anos. Com um casaco de safari em caqui, descansava contra um túmulo qualquer. Começava a ficar careca, de barba grisalha, tinha um brilho travesso no olhar e um sorriso ligeiro, mostrava um ar desenvolto. Embora estivesse descontraído, encostado contra uma parede antiga em ruínas, um pedaço de palha entre os dentes, parecia pronto a saltar sobre a câmara. Tinha os olhos escuros e penetrantes. Era difícil não olhar para eles.

- Eis o paradoxo. Se o homem de Neandertal é assim tão inteligente, o que é que aconteceu? Como é que este cara atrás de mim conseguiu vir a ser o mandão? O que é que aconteceu ao nosso homem do vale das flores alpinas? Porque é que estamos nós aqui e porque é que ele desapareceu? Para citar Jack Nicholson em Honra de Prizzi, "Se ele é tão estupidamente esperto, porque é que está tão estupidamente morto? - Houve um riso reprimido perante a blasfêmia. - Porque é que os Neandertal apareceram há duzentos e trinta mil anos atrás, floresceram durante milênios, espalhando-se desde a Europa Ocidental até à Ásia Central e Médio Oriente, estendendo o seu alcance a diversas faunas e floras, apenas para desaparecerem da vista e todos ao mesmo tempo? - Susan bateu com o ponteiro contra a tela com tanta força que o fez tremer. - Vocês vêem aqui um dos mais eminentes pensadores e paleo-antropólogos dos nossos tempos - e houve uma pausa reverencial - o Dr. Jerome Kellicut. Posto de uma maneira simples, o trabalho dele revolucionou a nossa área de estudo.

Olhou para cima. Sempre tinha gostado daquela foto. Tinha-a tirado ela própria, em Creta, anos atrás. "Talvez eu esteja dourando a pílula demais", pensou. Recentemente tinha dado consigo a questionar alguns dos êxitos de Kellicut, a desmitificar o homem. Mais cedo ou mais tarde teria que acontecer. Fora uma personalidade tão sedutora, o tipo de professor que modificava a vida dos seus licenciados. Quem não adoraria um homem que pensava em termos de eternidades?

- Através de um método ímpar de datação das pedras, chamado termoluminescência, não irei maçá-los com os pormenores, o Dr. Kellicut examinou pedras de sílex das cavernas do Neandertal no Sul de França, e foi capaz de fixar a sua idade mais acuradamente do que qualquer outro antes dele. A extraordinária conclusão a que chegou é que os Neandertal viveram até muito mais tarde do que nós pensávamos, até há cerca de trinta mil anos atrás. Anteriormente, a sua extinção tinha sido situada há quarenta mil anos. A diferença é apenas de dez mil anos, mas não uns vulgares dez mil anos, porque foi exatamente neste período que o homem moderno apareceu em cena, surgindo na África e migrando através do Médio Oriente até à Europa. Em outras palavras, Kellicut foi capaz de provar, indiscutivelmente, que os seres humanos modernos, o Homo sapiens , e o Homo sapiens Neandertalensis coexistiram. Coexistiram!

- Pensem nas possibilidades. - A voz de Susan começava agora subindo de tom. - Haveria comércio entre estes dois membros da mesma espécie, tão juntos por tantos anos? Trocavam idéias entre si? Negociavam ferramentas? Caçavam juntos? Cresciam juntos? Guerreavam entre si?

- Talvez, por fim, tenhamos agora, pelo menos, os princípios de uma solução para o grande enigma: o que é que aconteceu ao Homo sapiens Neandertadalensis? Porque agora sabemos que a sua saída de cena correspondeu mais ou menos à entrada do Homo sapiens sapiens, uma subespécie que é inquietantemente similar ao Neandertal mas, de algum modo crítico, apresentando as diferenças que nos permitiram sobreviver e tornarmo-nos a criança eleita da Terra.

- Precisamos encontrar a chave para decifrar o enigma. Se não era uma questão direta de inteligência, e não temos razão alguma para pensar que fosse, dado as nossas melhores estimativas sobre a capacidade craniana, o que terá sido? Se pudéssemos encontrar a resposta para esta única pergunta, saberíamos tudo. Saberíamos exatamente o que é que nos torna diferentes dos outros animais. O que é que, de entre todas as criaturas, nos torna especiais: diferentes, conscientes, dotados de história, com a percepção da mortalidade. O que é que nos torna sapiens. Por fim, chegaríamos às câmaras ocultas que têm escondido o segredo da nossa existência.

As luzes acenderam-se depressa. Houve uma salva de palmas ruidosa, um zumbido de vozes e o som dos assentos das cadeiras a saltar, livros a serem fechados, enquanto a sala começava a esvaziar-se.

Susan arrumou os papéis, andou alguns passos, parou para falar com um grupo de estudantes e depois dirigiu-se para a parte de trás do auditório. Estava a meio caminho, subindo a coxia, quando reparou na figura sentada na última fila.

O coração acelerou-se. Era um homem de aspecto peculiar, com um casaco que lhe assentava mal e óculos de sol semicirculares que pendiam de um cordão pendurado no pescoço. Manteve-se corcovado no assento até que ela chegou diante dele.

 

O avião de Susan descia em direção ao monumento a Washington, depois à Elipse e ao Memorial a Lincoln. Carros minúsculos rodavam com movimentos precisos, miniaturizados.

Detestava Washington. Tinha vivido ali durante um ano com uma bolsa do Instituto Smithsonian depois da graduação em Harvard.

Ainda estremecia com as recordações daquelas tardes quentes, catalogando ossos e devaneando sobre países longínquos. E também, claro, "lambendo as feridas de um coração partido" como cruelmente diziam os amigos nas suas costas.

Recuperou a velha mala de viagem e, à beira do passeio, foi contactada pelo condutor de uma limusine que trazia um cartaz com os dizeres Dra. Arnot. Foram até um bairro residencial próximo, com prédios de dois e três andares e casas baixas de tijolo tosco. As crianças brincavam lá fora.

Fazia-lhe lembrar a pequena cidade de madeireiros no Oregon onde tinha crescido, uma terra ingrata de onde sempre quisera escapar. A sua infância tinha sido infeliz.

Era filha de um pai alcoólico que abandonara a mulher, frágil e de sangue fraco, e tinha fugido para capitanear um barco de rio. A religião servira-lhe de conforto. A sua única recordação calorosa era a pequena igreja de ripas brancas no topo de um monte.

Retirava a sua força da avó, uma grande beleza húngara de quem tinha herdado a pele escura, os malares altos e pernas compridas. Fora a avó quem deixara Budapeste aos vinte e três anos para fazer uma longa jornada de caravana através do Canadá, descendo até ao Oregon. Susan tinha herdado dela esse traço de independência - que tinha ignorado a sua pobre mãe. Quando iniciava uma escavação, ou uma aventura como esta, gostava de pensar que também ela era uma pioneira.

Recebera a mensagem de Van apenas há dois dias, mas estava sentindo-se culpada por ter demorado tanto tempo pondo seus assuntos em ordem. Visconti, o diretor do Departamento, não tinha sido simpático. Todavia, tinha-a deixado partir. Conseguira espicaçar-lhe a curiosidade acerca do Instituto de Investigação Pré-Histórica com o levantar de uma sobrancelha e a insistência de que a maioria dos cientistas cometeria um assassinato pela honra de discursar ali. Encontrou muitas referências à entidade na biblioteca - todas desde 1987 - e estranhava não saber mais coisas sobre o lugar.

Van não fora um mensageiro comunicativo. Deu poucas informações sobre si próprio, sobre Kellicut, em que tipo de expedição de investigação estivera ele tão envolvido, e nem sequer lhe tinha dito o que podia esperar deles para além de "um interrogatório acadêmico de segunda". Depois, também parecia saber muita coisa acerca dela - não tanto devido àquilo que de fato dissera, mas pelo que não foi dito, perguntas que não fez e coisas que assumiu.

Pouco depois surgiu de súbito um campus universitário e um sinal apontava para o Instituto de Investigação Pré-Histórica. Lá dentro, atarefadas às secretárias, estavam duas funcionárias. Com acenos de cabeça, Susan foi encaminhada para uma sala mais pequena onde Van a esperava. Levantou-se com lentidão do sofá e inclinou-se ligeiramente.

- Bem-vinda - disse.

- Obrigada. - Ela olhou em volta. A sala estava mobilada com peças antigas, confortáveis e discretas. - Que espécie de lugar é este? Uma universidade?

- Em parte. Achamos que ajuda muito à sinergia de apoio. -Indicou-lhe o caminho através de outra sala e outro corredor ainda. Quando chegaram junto a um par de portas de carvalho, abriu-as e afastou-se para o lado, deixando-a passar.

Desorientada, sentindo-se quase tonta, Susan entrou numa pequena sala de conferências com tapetes felpudos e cadeiras espessamente almofadadas onde estavam sentadas cerca de uma dúzia de pessoas.

Mas exatamente ao centro, viu alguém que a deixou sem respiração.

Ali estava, em tamanho natural, Matt.

 

Eagleton fez a cadeira de rodas dar meia volta para ficar de frente para o painel de controle das telas e confirmou para ficar seguro de que a fita estava gravando. Este momento era importante. Queria ter certeza que capturava as expressões dele e dela, os olhos de ambos no momento preciso em que a surpresa levantasse a cortina para revelar a verdade. Poderia analisá-las mais tarde, com calma. Sempre se orgulhara da sua habilidade em detectar pistas de mexeriquices, "os desastrados espiões do coração" como lhes chamava, que não eram captados por analistas menos observadores.

Mattison sabia que ela vinha, o que evidentemente significava que se tinha preparado. O velho Sehwartzbaum tratara disso, o idiota, tendo-o deixado escapar no princípio da manhã. Eagleton Ficou com vontade de matá-lo. Todavia, o que poderia ter feito de outra maneira?

Queria que os membros do pessoal e os consultores mais antigos se encontrassem com eles e os interrogassem pessoalmente. Tinha descoberto que o interrogatório feito por especialistas era o melhor para sacar informação científica que poderia se revelar valiosa. Mesmo se os próprios especialistas não fizessem qualquer idéia de como é que essa informação ia ser usada. Conhecia á virtude de compartimentar os subordinados e mantê-los na ignorância. Era, por agora, uma segunda natureza sua, ou, para ser mais exato, uma primeira natureza.

Eagleton estava agudamente consciente de quanto valia este pequeno empreendimento. Sentiu a tensão. Mas também sentiu algo mais, aquele crescente borbulhar da excitação, as palmas das mãos suadas. Meu Deus, como odiava o suor! Mas como vivia para a excitação! Exatamente como nos velhos tempos. Conhecia as alcunhas que lhe davam, "Capitão Queen", "o Cobra de Metal". Era esse o problema com a vigilância interna; descobria-se mais do que se queria saber.

No entanto, era sempre impossível saber demais. A informação é poder, como dizem. Uma dose saudável de paranóia nunca fez mal a ninguém. Recordou-se da piada divertida sobre a definição do oposto de paranóia: "A crença ultrajante de que não estamos sendo perseguidos."

Para Harold Eagleton de cabeça de prata, agora com sessenta e dois anos e pronto para as curvas, cercado de inimigos e acossado por um mundo vingativo cheio de batérias, esta expedição representava o seu regresso. Mas tudo tinha que correr do modo exatamente correto. Este assunto de Kellicut era preocupante. Ele não confiava em Van. Precisava de Mattison e da Arnot, e tinha que ter certeza que iriam funcionar da maneira que ele exigia que funcionassem.

Acendeu um cigarro e brincou com o controle remoto. Um bom grande plano dela. Dele também. Ela não era feia de todo, até ele teria que admitir - ele que, normalmente, pensava numa mulher em termos do seu valor de rua. Mas podia ver que era atraente, qualquer coisa na curva dos lábios, o cabelo em cascata, e o modo como o penteava para trás com uma das mãos quando estava nervosa – e agora estava evidentemente nervosa, tomada de surpresa quando viu Mattison. Mas recuperara depressa, via Eagleton com agrado, e entrou na sala com distinção.

Ela deu a volta, apertando as mãos. Os homens levantaram-se com uma demonstração ostensiva de delicadeza e as mulheres ficaram sentadas e agarraram-lhe na mão com força, sorrindo naquela cúmplice irmandade que as mulheres cientistas agora afetavam. Era uma coleção variada de talentos: um morfologista, um neurologista, um físico, um matemático e um astrofísico, dois geneticistas, um geólogo, um antropólogo, um psicólogo e um parapsicólogo; um arqueólogo, um ecologista, um sociobiologista-evolucionista, um paleontólogo, um anatomista e um arqueo-historiador.

Susan reconheceu a maioria dos nomes e até conhecia alguns deles. Quando foi apresentada ao Dr. Ugo Brizzard, um homem que publicava estudos sobre comunicação telepática que a maioria dos cientistas considerava como um desequilibrado, ela conseguiu controlar o laivo de surpresa.

Eagleton observava-a de perto enquanto se aproximava de Mattison. A mão dele estava estendida e ela apertou-a.

- Nós já nos conhecemos - disse ela.

- É verdade - respondeu ele.

Sorriram um para o outro e ela continuou.

Muito fria, pensou Eagleton. Estava começando a permitir-se ser otimista. Eles conseguem tomar conta disto, pensou, enquanto arquivava os dossiês deles numa gaveta onde estava escrito USO EXCLUSIVO DO DIRETOR.

 

- Temos a sorte de ter tanto a Dra. Arnot como o Dr. Mattison juntos na mesma sala. - O Dr. C. C. Simpson, um antropólogo de cabeça branca, agia como moderador. - Assim poderemos ter duas respostas diferentes para cada questão.

Riram-se. Depois, com café e chá, o grupo foi atirando as perguntas. Fáceis no início, depois cada vez mais especializadas. Por fim chegaram ao típico para o qual a discussão estava inexoravelmente encaminhando-se: a extinção do Neandertal.

- Podem fornecer-nos a melhor e mais atual linha de pensamento sobre o quando e o porquê dessa ocorrência? - inquiriu um professor de matemática chamado Eugene Pringle, um homem de aspecto benigno, com lentes grossas que lhe aumentavam os olhos ao tamanho de órbitas desmedidas azuis e brancas.

- O quando é mais fácil do que o porquê - disse Susan. – As provas mais recentes revelam que o Neandertal desapareceu há cerca de trinta mil anos. Os achados mais ricos e recentes vêm de partes da antiga União Soviética. A datação por radiocarbono situa-os por essa época.

- Por outro lado - disse Matt -, também temos sinais que apontam para uma transição em vez de um aniquilamento, dentro do Paleolítico Superior. Há indicações de uma indústria regional, o Chatelperronian, no Sudoeste de França e Espanha...

- Desculpem-me - veio uma interrupção do fundo. - O que é uma indústria regional?

- A produção de ferramentas distribuída por uma vasta área. Se é Neandertal, e as lâminas bem batidas levam-me pensando que assim seja, a data poderia vir até um pouco mais tarde. Há até sinais de uma associação entre o Neandertal e o Aurignaciano. Nessa base, não podemos excluir a miscigenação entre populações.

- Alguns de nós excluímos essa hipótese - acrescentou Susan.

- Porquê?...

- Porque os restos em questão, os restos de Vindija, não são conclusivos. Foram encontrados num nível com apenas uma ponta de osso Aurignaciana. Não é o suficiente para sustentar uma estrutura teórica completa, especialmente tendo uma proposta tão significativa. Há ainda muitas perguntas.

Matt fez uma careta. Ela sempre fora meticulosa no que dizia respeito à ciência, pensou. Pela primeira vez lançou-lhe um longo olhar. Ainda conseguia deixá-lo sem respiração. Os anos foram-lhe generosos, pensou, embora tivesse agora a pele tracejada por grupos de pequenas rugas, em resultado de todo aquele bronzeado do sol.

O corpo tornara-se um pouco mais espesso, mas não lhe ficava mal. Enchia-lhe a cara e arredondava-lhe a curva das ancas. Como sempre, o cabelo preto era o seu maior atrativo, embora não estivesse mais longo e liso, mas se erguesse em todas as direções como uma nuvem de trovoada. Algo lhe aprofundara o aspecto. Seriam as marcas de uma vida solitária ou um novo mistério suscitado pela separação entre ambos?

Há quantos anos fora - quinze? Nunca mais se tinham falado durante todo esse tempo. Atacavam-se obliquamente, através da má-língua e notas de rodapé. Ele tinha-a avistado por várias vezes, uma delas na ponta de uma sala de conferências, mas quando abriu caminho até lá, empurrando e acotovelando-se através da multidão, ela já tinha desaparecido.

- Admite - disse Matt. - Há muita coisa que não sabemos. Nem sequer sabemos quando viveu a grande maioria deles. A distribuição dos fósseis é muito vasta. Talvez eles estivessem morrendo como moscas há oitenta ou noventa anos atrás e se tivéssemos tropeçado nos esqueletos mais recentes.

- Oitenta ou noventa anos atrás! - exclamou o matemático Pringle.

- Desculpem, passei à estencigrafia. Claro que quero dizer oitenta ou noventa mil anos.

- Estamos esclarecidos quanto ao quando - disse Pringle.

- E quanto ao porquê?

- Bom - disse Susan. - Isso ainda é mais controverso. Como seria de esperar, as teorias abundam. E todas têm uma falha óbvia em comum: vêm dos sobreviventes. Como se costuma dizer, a história é escrita pelos vencedores.

- Não sobra mais ninguém aqui para fazê-lo - disse Pringle.

- Certo. De qualquer maneira, em termos gerais, todos concordam que a fisionomia do Neandertal o tornava capaz de suportar um clima frio, muito mais frio do que qualquer um a que nós pudéssemos sobreviver. Durante a última glaciação, a de Würm, ele teria se sentido como em casa, desde que tivesse uma caverna para onde rastejar e uma fogueira para tostar os pés. Então alguma coisa aconteceu.

- Seguramente foi alguma coisa traumátic -, acrescentou um homem atarracado e curvado cujo nome Susan não entendera.

- O Neandertal não recuaria diante de nada para fazer passar os seus genes.

Oh não! pensou Susan, espero que não seja um desses sociobiólogos ultradarwinistas arrepiantes, um desses caras que gosta de monopolizar as discussões gritando fatos idiotas tais como, a raiva sobrevive na saliva, por isso os cães loucos mordem e não podem engolir.

Matt lançou de súbito:

- Há aqueles que apoiam uma teoria da catástrofe, uma espécie de Big Bang que teria causado a extinção em massa. Uma modificação súbita do ambiente, uma erupção vulcânica. Alguma mudança no ecossistema que ele estaria particularmente mal preparado para ultrapassar. O problema é que os catastrofistas não conseguem dizer qual é a catástrofe. Teria que ser uma coisa suficientemente poderosa para apagar o Neandertal, mas suficientemente localizada para poupar o Homo sapiens. Não tem propriamente pés para andar. Furos feitos no gelo da Gronelândia e estudos da areia do Saara não dão quaisquer indicações de um único acontecimento particular há trinta mil anos.

- Talvez o aquecimento gradual da Terra fizesse reduzir a sua zona de habitação - acrescentou Pringle. - Talvez o tivesse forçado a áreas cada vez mais pequenas, digamos, empurrado para o topo das montanhas até que eventualmente se acabasse o seu abastecimento de comida.

- Pouco provável - disse Susan. - A escala de tempo está fora de questão. E ele teria se adaptado.

- Talvez tivesse tentado e falhado.

- Talvez. Mas não se esqueçam que tudo o que sabemos acerca do Neandertal pinta o retrato de um ser criativo, adaptável. Utiliza o fogo. Vive em cavernas. Usa peles de animais. É alguém que manipula o seu ambiente em vez de se tornar vítima dele.

- O que é que quer dizer?

- Estou dizendo que durante centenas de milhares de anos o homem pré-histórico está entalado neste pântano de subsistência imutável e brutal. E depois, chega uma variante que abre caminho à custa das garras para fora da lama. Usa o intelecto. Vive em grupos sociais. Resolve problemas. E esta é a criatura que a natureza seleciona para o seu jogo cruel? Não faz sentido, quer dizer, cientificamente. Se a ciência nos ensina alguma coisa, é que a natureza é lógica e consistente.

- Isso é verdade - disse o homem atarracado. - É como a cólera.

- Desculpe? - disse Susan.

- A cólera dissemina-se pela excreção, por isso a cólera faz-nos excretar - disse ele.

Eu sabia que ele era um ultradarwinista, pensou Susan.

- Então qual é a resposta? - perguntou o eminente paleontólogo, o Dr. Victor Sehwartzbaum.

- Com as devidas desculpas a Gertrud Stein, qual é a pergunta?

- É a pergunta que nos trouxe a todos aqui: o que é que exterminou o Homo Sapiens Neandertadalensis?

- Estão olhando para eles.

- Hem ?

- Nós. Todos nós.

- Como?

- É simples - disse Susan. - Acabamos com eles.

- Calma aí - disse Matt.

- Sabem - disse Susan. - Aqueles de nós que seguimos as pisadas do Dr. Kellicut caímos em dois campos opostos e não somos lá muito simpáticos uns com os outros.

- Isso é uma afirmação suave - disse Schwartzbaum.

- O meu campo chama-se "Arca de Noé" ou "África Minha, segunda parte" - continuou Susan. - Acreditamos que muito tempo depois de o Homo erectus ter emigrado de África, ocorreu uma segunda migração, há acerca de cem mil anos. Éramos nós anatomicamente os humanos modernos. De alguma maneira conquistamos o Neandertal, com uma nova invenção, ou uma nova forma de organização social. Uma luta darwiniana em escala maciça, uma guerra entre espécies. Deve ter sido, quase literalmente, uma luta até à morte.

- Então veio a escola de pensamento a que eu chamo de "fazer-amor-e-não-a-guerra", que é encabeçada aqui pelo Dr. Mattison. Acreditam que não houve uma segunda emigração vinda de África, que várias formas evoluíram de modo mais ou menos independente em regiões diferentes e depois misturaram-se entre si. A piscina de genes do homem moderno apenas atolou o pântano do Neandertal.

- Atolar é dificilmente a palavra que eu usaria - disse Matt. - Assimilou, absorveu. Qualquer que fosse a razão, o Homo sapiens é a criatura com o pensamento mais sexualizado que o mundo alguma vez produziu.

- E também guerreiro - acrescentou Susan.

- Sim, e a guerra leva a uma maior miscigenação. As espécies, separadas de fato, tornaram-se uma. Vencemos pela nossa manha na cama e não pela nossa magia no campo de batalha.

A aliteração desviou Susan do caminho, e ela fez uma pausa.

- Qualquer um pode trivializar a teoria de outro - disse.

- É verdade. Mas a questão é que, se seguir a sua teoria, tem que estar disposta a aceitar a idéia do mais sangrento massacre da história, um holocausto do Plistoceno, como alguns lhe chamaram. Onde estão as valas comuns? Onde estão todas as caveiras com as caixas cranianas quebradas? Acho menos cansativo para a imaginação acreditar que o Neandertal continua, dentro de cada um de nós.

- Sei que é difícil de acreditar, quando se olha para a testa lisa do Dr. Mattison - disse Susan com sarcasmo.

- Demorou quarenta mil anos para que ficasse assim. Cada um de nós tem um traço dessa herança genética.

Os olhos deles encontraram-se por um momento, e então Susan interrompeu.

- Ultimamente fizemos alguns achados que sinto que são significativos. Estou particularmente interessada numa zona do Uzbequistão perto do mar Cáspio. Há dois anos encontrei um esconderijo de ossos Neandertal. Encontrei-os, literalmente, sob o meu almoço, numa tarde; entornei-lhes o café por cima. Ainda os estou catalogando. E, embora ainda não tenhamos examinado a todos, parece que muitos Neandertal morreram juntos. Poderiam ser os restos de um antigo campo de matança.

- O que torna o local tão intrigante é que as cavernas Neandertal estão por todo o lado e contêm milhares de ossos de animais. Alguns são inegavelmente humanóides. Muitos dos ossos foram quebrados ao meio, dolorosamente, como se por uma ferramenta. Chegamos a uma conclusão que sentimos ser iniludível: foram abertos para se extrair a medula.

Susan fez um compasso de pausa, para deixar o significado do que estava dizendo penetrar na mente dos ouvintes.

- Também há caveiras com a marca reveladora da manipulação Neandertal: uma ligeira mas inequívoca mutilação na base onde entra a espinal medula, no grande forâmene. Mutilações similares foram encontradas em crânios nas cavernas Neandertal desde, pelo menos, 1931. Ninguém sabia como interpretar isso. Nós pensamos que sabemos. - Olhou em volta para o grupo. - Senhoras e senhores, a prova parece incontestável: o homem de Neandertal era um comedor de cérebros.

Quando Van os levou para fora da sala, Matt virou-se para Susan e disse:

- Tanto tempo.

- Oh, pareceu assim tanto? Pensei que estava sendo breve.

Ele abanou a cabeça perante o mal-entendido intencional, um velho truque.

- De onde é que desencantou aquela do fazer-amor-e-não-a-guerra? - perguntou ele.

- Pensei que você iria gostar - respondeu. - Em nome dos velhos tempos e essas coisas.

- Acredita mesmo naquela história de comerem os cérebros?

- Talvez se passassem com tantas perversões sexuais.

Matt ficou sério.

- Susan, o que está acontecendo? Tem alguma idéia do que raio estamos fazendo aqui?

Van interrompeu sem cerimônias.

- Aguentem só mais um minuto e tudo se tornará claro. - E deslizou à frente por um corredor anti-séptico.

Susan inclinou-se para perto de Matt e murmurou:

- Não sei mais do que você. Apenas recebi uma mensagem para vir, e sei que tem algo a ver com Kellicut, e que ele corre uma espécie qualquer de perigo.

Van parou em frente de uma pesada porta de carvalho, bateu, esperou pela resposta e entrou. A sala estava inesperadamente na semiobscuridade.

Levaram alguns segundos para focarem a vista e descobrirem a figura angular sentada por trás da mesa junto à parede, longe da janela bloqueada por persianas fechadas. O homem estava fumando. Uma nuvem pairava-lhe sobre a cabeça.

- Ah!, entrem... sejam bem-vindos. - A voz era anasalada mas sedutora, autoritária.

Entraram mais juntos. O homem por trás da mesa não se levantou, mas ofereceu a mão curvada sobre o mata-burrão impecável.

- Dra. Arnot, Dr. Mattison. Sou Harold Eagleton. Bem-vindos ao Instituto de Pesquisa Pré-Histórica.

O tom dele insinuava que estava habituado a que o seu nome fosse reconhecido. Segurava no cigarro à moda da Europa de Leste, entre o polegar e o indicador da mão esquerda, os outros dedos espetados como um leque.

Enquanto Matt lhe apertava a mão dominando-o pela estatura, Susan estudava Eagleton. Era uma visão extraordinária, meio corcunda, todo retorcido: pele pálida, cabeça empertigada, óculos de aros de aço. Havia um brilho de metal sob a mesa, o aro de aço e a borracha negra de uma cadeira de rodas. Então era por isso que ele parecia escarrapachado, com um buraco no meio como um soufflé. Ela sentiu um cheiro estranho que não conseguia situar. Talvez um desinfetante.

Eagleton virou-se para encará-la.

- Estamos muito gratos, minha querida, que pudesse ter vindo tão depressa. Kellicut precisa da sua ajuda, assim como nós.

- Não me parece que tenha havido outra alternativa – disse Matt. - De que é que se trata?

Eagleton olhou-o de alto a baixo.

- Bom, não vamos fazer cerimônias, está bem? - Assoprou outra nuvem. - O Instituto... já ouviram falar de nós? Sim? Ótimo. - Era difícil dizer se tinha ficado genuinamente satisfeito. - Estamos envolvidos em muitos aspectos da pesquisa pré-histórica, muitas áreas. Áreas que outras instituições podem descurar. Temos um amplo financiamento e valorizamos muito um bom trabalho de campo. Temos projetos por todo o mundo e só queremos os melhores. Gente como o Dr. Kellicut. Precisamos deles.

Matt ficou surpreso com a formulação: precisar?

- Porque é que precisam deles? Para que é que precisam deles?

- Para tudo - disse Eagleton, despedindo-o com a mão.

Matt olhou para Susan, que fixava Eagleton fascinada.

Van sentava-se silencioso num sofá. As paredes estavam cobertas com mapas e com o que parecia serem fotografias de reconhecimento por satélite. Um pequeno Degas estava num canto. Matt descobriu alguns diplomas emoldurados e esquematizou a ascensão que representavam: Universidades do Tennessee, Columbia, Harvard, Edimburgo St John de Oxford.

Eagleton seguiu-lhe o olhar. Não perdia nada.

- Ah!, a velha pista do papel - disse. - Tão sem sentido, não é? - Fez uma pausa refletindo. - Onde estava eu? - Uma nuvem de fumaça subiu. - Bom, patrocinamos recentemente uma boa série de expedições e algumas têm sido mais... ortodoxas que outras. Ultimamente, decidimos especializar-nos no Neandertal, ou antes, a decisão foi-nos imposta. Estamos levando-a muito a sério. Assunto interessante. Compreendem que nem todos de entre nós tínhamos esse tipo de bagagem, embora tivéssemos sido capazes de reunir um belo pequeno rebanho de especialistas, como tenho certeza que vocês...

- Receio não estar entendendo - interrompeu Matt. - Porque é que se envolveram na pesquisa sobre o Neandertal? O que esperam exatamente vir a ganhar?

O tom de Eagleton mudou. Agora tinha um toque duro.

- Porquê... Porque podia mudar tudo. Podia revolucionar completamente a área, não vêem? De fato, foi o seu amigo, o Dr. Kellicut, quem nos envolveu. Estava muito entusiasmado, por isso nós o patrocinamos. Para o Cáucaso. Soava um pouco como loucura, de fato, mas nunca se sabe, não é? - Esmagou a ponta do cigarro, procurou sob a mesa e alcançou um interruptor. A fumaça desapareceu pelo ventilador do teto e um ligeiro nevoeiro tombou. - Um agente antibacteriológico - explicou. - Espero que não se importem.

- Continue, por favor - disse Susan. - Diga-nos, onde está agora o Dr. Kellicut?

- Bom, esse é o problema. Não sabemos. Geralmente costumamos saber, é claro, mas especificamente não sabemos. É aqui que vocês entram. É por isso que precisamos de vocês, para nos ajudarem a encontrá-lo. Só um paleo-antropólogo pode encontrar outro paleo-antropólogo, vocês sabem.

Eagleton parecia agitado. A mão direita desenhou um arco pelo ar e foi descansar-lhe sobre a testa, com os dedos apontando para baixo.

Passou-a pelo cabelo para trás e balançou-se ligeiramente. Matt começou a desconfiar se este seu frívolo ar professoral não seria apenas teatro.

- Quero dizer, ele está onde o mandamos, ou antes, onde ele queria ir, com a nossa bênção. O caso é que há muito tempo que não dava notícias, até há pouco, quero dizer. Até ter chamado por vocês.

- Por nós!

- Sim.

- Nós os dois?

- Sim. Chegou desta maneira. - Eagleton abriu a gaveta da mesa e retirou um pedaço de papel de embrulho castanho que tinha sido alisado e que tinha a garatuja familiar de Kellicut:

 

Dra. S. Arnot/ Dr. M. Mattison

Ao cuidado: Instituto de Pesquisa Pré-Histórica

1290 Brandywine Lane

Bethesda, MD 09763

USA

 

- Onde é que está a mensagem? - perguntou Susan. – Onde está a nota?

- Não é uma nota - disse Eagleton -, mas penso que se poderia chamar uma mensagem. É o que estava dentro da embalagem.

- Ele acenou em direção a Van, que foi até um armário e regressou com uma velha caixa quadrada de madeira com cerca de trinta centímetros de altura. Colocou-a no centro da mesa de Eagleton, ergueu a tampa, mexeu lá dentro e retirou um objeto coberto com um pano branco sujo.

- Isto veio exatamente assim - disse Eagleton.

Inclinou-se e retirou o pano de repente. Por baixo dele, brilhante e surpreendentemente branca, estava uma caveira. Parecia fazer-lhes uma careta a partir do centro da mesa de Eagleton. Van segurava-a, à maneira de Hamlet. Um sussurro de reconhecimento: aquela fronte longa e descaída, o queixo aparado, e claro, a faixa espessa e impenetrável de osso proeminente sobre os olhos.

- É perfeito! - exclamou Susan, tentando tocá-lo com a excitação. Segurava-o em ambas as mãos, como um presente de Natal. - Um espécime perfeito. Nunca vi nenhum tão completo, tão bem conservado. É a descoberta do século!

Eagleton grunhiu.

- Isso é verdade - disse ele.

- É quase perfeito demais - acrescentou Mark. – Nem parece real. Já o dataram?

- Claro - respondeu Eagleton. Acendeu outro cigarro.

- E?

- Essa é a parte estranha.

- O quê? Que idade tem?

Eagleton soprou o fumo.

- Vinte e cinco.

- Vinte e cinco? - disse Matt incrédulo.

- É impossível - disse Susan.

Matt lançou-lhe um olhar feroz.

- O Neandertal não estava vivo há vinte e cinco mil anos.

- Não são vinte e cinco mil anos - disse Eagleton. Teve de repente um súbito ataque de tosse, por isso quase não conseguiu assoprar as palavras. - Vinte e cinco anos.

Abanou o ar, e a nuvem de fumo ondulou-lhe por cima da cabeça.

 

Susan estava cochilando ao lado dele. Tinha a cabeça ligeiramente inclinada para trás, a garganta exposta. Os seios erguiam-se e desciam à medida que respirava. Ele olhou para as pestanas, que de vez em quando tremiam. Talvez estivesse sonhando.

Os outros passageiros estavam silenciosos. Matt podia ouvir o ligeiro gemido da música vindo dos auscultadores dela, um som de inseto. Uma espécie de blues, talvez Otis Redding ou Coltrane.

Costumava viver ao som deles. Uma imagem do passado surgiu, a de uma aparelhagem estéreo retumbando num apartamento - a toca deles, em Cambridge.

Virou-se e olhou para fora da janela, enquanto a asa do avião se inclinava, e pela primeira vez viu o topo dos montes Pamir cobertos de neve. Os picos, folhas de rocha aguçadas e chanfradas, mostravam-se através da brancura como metal atravessando a carne. O coração saltou-lhe. Terreno implacável, pensou - sem deus, inabitável e irresistível.

Matt ainda não tinha se recomposto do choque de ter visto o crânio. Não conseguia obrigar-se a crer que só tinha vinte e cinco anos de idade; era inacreditável demais. A idéia de que um Neandertal pudesse ter sobrevivido até ao século XX era uma coisa que os lunáticos vinham apregoando há anos e de quem cientistas como ele tinham troçado sem pensar duas vezes. E no entanto, ali estava.

A coisa parecia autêntica. Já tinha manipulado um número suficiente de caveiras Neandertal durante a sua vida para o saber num instante. Poderia ter sido tratado, lavado por um banho de ácido? Mesmo assim, estava muito bem conservado. Deve ter sido feito a partir de um molde com um novo tipo de gesso simulando osso. Mas se era uma falsificação, era perfeita. Quem teria o conhecimento necessário para poder criá-la - e para quê?

Susan estava mais aberta a aceitá-la pelo valor facial. Tinham-no discutido a caminho do aeroporto. Ele citara fraudes históricas famosas, desde o monstro de Loch Ness até ao homem de Piltdown.

- Também foram convincentes no seu tempo - dizia. Mas Susan parecia querer acreditar nisto. Os olhos dela brilhavam já por antecipação. - E se é verdade? - tinha dito. - Imagina, pode existir todo um grupo deles por aí em algum lugar e, se os encontrássemos, podíamos estudá-los como seres vivos. Não mais ficaremos reduzidos às nossas patéticas pequenas adivinhações baseadas numa pedra lascada ou num fragmento de osso. Uma espécie completamente outra e poderíamos estabelecer contato com eles. Imagina o que isso poderia significar.

Tinha que admitir que sentira alguma excitação quando ela dissera aquilo. Parecia um sonho e, por um momento, deixou-se levar. Era rebuscado, mas se ele não aproveitasse esta oportunidade ficaria o resto da vida pensando: poderia ser verdade? Só provar que não, era um motivo mais do que suficiente para fazer a viagem. E tinham um objetivo mais imediato - encontrar Kellicut. Porque havia poucas dúvidas de que ele tinha desaparecido. E se alguém tivera todo aquele trabalho fabricando uma mistificação, ele poderia mesmo estar em perigo.

Olhou outra vez para Susan. Não tinham sido capazes de falar sobre o seu passado. Uma hora depois de terem abandonado o aeroporto de Kennedy tinham pedido bebidas puras: um wisky para ele, vodca para ela. Quando tocaram os copos num brinde sem palavras, inclinando-se um para o outro como conspiradores, houvera um instante de algo parecido com intimidade. Mas o momento tinha passado.

Uma vez ele tentou encaminhar a conversa para ambos, mas ela tinha resistido firmemente e assim ficaram falando das suas carreiras e de um passado mais recente.

- E depois de Harvard, o que você fez?

- Andei por aí às voltas, a peripatética jovem doutorada. Estive em Berkeley durante três anos.

- Ouvi falar.

- Foi bastante agradável mas não sei todo aquele sol, a comida saudável, toda aquela gente do lado certo de todos os problemas... Comecei a ter saudades de céus mais nebulosos.

Matt sorriu.

- Não publiquei muita coisa. Mas Kellicut era um sonho. Estava mesmo ligado a nós, sabe, e ficou preocupado conosco depois, por isso puxou uns cordelinhos para me ajudar. Ouvi falar numa escavação no Iraque e arranquei. Meu Deus, foi maravilhoso: o trabalho, a poeira, as discussões, todas as pequenas aventuras inesperadas, até as moscas. À noite, quando o deserto ficava frio, balançava-me na cama de rede até adormecer. Olhava para cima, para aquele céu enorme e escuro com todas as estrelas e pensava: é isto. Não quero mais nada senão isto. Mas claro que agora acho que queria. No encanto, a escavação foi um sucesso. Encontramos os ossos. Descobri o meu primeiro crânio. Era um fragmento deste tamanho. - Ela levantou o polegar e o indicador, à distância de doze centímetros.

- E depois?

- Fui para Madison. Entrei no quadro. Mais escavações, mais ossos, mais ensaios. O pó regressando ao pó. A história da minha vida. - Estava deixando de fora as partes importantes, de propósito.

É divertido como uma vida pode soar nua se reduzida ao esqueleto, pensou.

- E durante todo esse tempo nunca pensou em casar?

Ela empertigou-se.

- Não.

- Nem chegou perto?

- Escuta Matt - ele percebeu que fora a primeira vez em que ela usara o nome dele, e soava ao mesmo tempo estranho e familiar -, nós não temos que entrar nesse campo. Há uma série de outras coisas sobre as quais gostaria mais de falar. - A voz dela tinha baixado. - Não te fiz perguntas acerca da Anne.

- Anne. Já não a vejo há... - fez uma pausa para fazer as contas; era importante ser exato, agora que estavam se aventurando pelo gelo fino -... muito perto de treze anos.

Ficaram de novo em silêncio. Ela pediu outra bebida. Teria vencido os seus receios de vir a tornar-se alcoólica? Ele pediu outro wisky.

A hospedeira namoriscou com ele, ignorando Susan e olhando-o nos olhos, provocadora.

E era assim - nada de confissões desnudando a alma, nenhuma catarse emocional. Talvez isto fosse melhor, pensou Matt; por um lado ele as queria, mas por outro as receava. Como é que poderia explicar o que tinha acontecido e como é que se tinha sentido naquela época? Fora há tanto tempo. Nunca tinha sido bom em usar as palavras quando era importante. Tinha que admitir, ficou aliviado.

Susan também preferia que fosse assim. Tinha ficado abalada pelo choque de ver Matt e não ter tido tempo para se preparar. Era tudo tão diferente das centenas de encontros de acaso que tinha encenado nos seus devaneios. Ele ainda era bonito, pensou tristemente. Mas pelo menos, não engordara; algumas das suas fantasias vingadoras tinham-no tornado obeso e tal pensamento tinha-a feito sentir-se triunfante. Mas a realidade era diferente. Estava contente que o estômago dele estivesse ainda magro como o de um cowboy. Mas no geral estava incomodada por descobrir que ele ainda tinha assim tanta presença, que o seu olho mental o estivesse sempre observando quando estava por perto.

Levara anos para recompor-se da traição. Os sentimentos, mais do que desaparecido, tinham sido cobertos pela espuma acumulada da vida quotidiana. Os amigos dela ficaram cansados de ouvi-la, por isso, com o tempo, deixara de falar nele. Enterrou os sentimentos dentro de si até que, por fim, conseguiu encurralá-los num canto. Continuou a ir a outros lugares e teve outros amantes, mas de vez em quando os sentimentos erguiam-se e nesses momentos sentia a dor toda outra vez, embora não tão fortemente quanto antes. Agora sabia que, para salvar uma parte sua muito íntima, tinha que se manter à distância.

Susan pôs os auscultadores e aninhou-se no assento. A saia subia-lhe pelas coxas à medida que se deixava escorregar. Matt sentava-se direito, beberricando do seu copo e olhando para fora da janela.

 

Van estava escarafunchando num monte de papéis. Pastas de cartão amontoavam-se no assento junto ao seu e escorregavam de um lado para o outro quando o avião balançava. Trabalhava sempre assim, compulsivamente. Talvez por isso fosse um cientista tão bom e exímio em missões. Fazia sempre mais do que lhe pediam, lendo, estudando, considerando as coisas sob todos os ângulos. Estava orgulhoso do seu curricolum - era uma das poucas coisas de que se poderia sentir orgulhoso. O trabalho era a sua vida, e havia muito pouco espaço para outra coisa qualquer.

Van sentia-se superior desde que se lembrava, mesmo quando era rapaz. Havia sempre rapazes que eram maiores, mais bonitos, mais rápidos. Cresceram e tornaram-se homens que assim se mantinham, tipos como Matt, que faziam tudo parecer fácil, que absorviam tudo sem sequer se esforçarem. Com Van era diferente. Tinha que lutar pela menor migalha. Nada lhe era fácil. Mas tinha uma vantagem: era esperto - mais esperto que eles todos - e podia imaginar sob todos os ângulos.

A mãe morrera em circunstâncias estranhas quando tinha quatro anos de idade, qualquer coisa relacionada com a explosão de um fogão a gás. Nunca lhe tinha sido completamente explicado, seguramente que não pelo pai, um homem distante e amargo que era oficial no exército. Van não se lembrava de alguma vez ter se sentado no colo dele, ou de lhe ter tocado, nem uma vez. O que melhor recordava era a cara marcada das bexigas, o corte de cabelo com uma zona de pele por cima das orelhas, o cheiro quente do bafo dele. Van e o irmão mais novo eram filhos de militar. Andavam muito de um lado para o outro. O pai ia à frente e um mês ou dois mais tarde mandava-os chamar. Eles apanhavam o trem. Uma vez, no trem de Fort Dix para Fort Bragy, estavam tão nervosos com medo de perder a parada que fizeram turnos para ficarem acordados durante a noite a lerem os nomes das estações. Quando chegaram, o pai mal lhes falou.

Depois, Van descobriu a ciência. Começou com a matemática, onde encontrou a ordem que lhe limpava a mente, e avançou pela química e física. Na faculdade descobriu as ciências sociais – menos seguras que as ciências naturais, mas mais atraentes porque pressupunham a manipulação do comportamento humano. Ficou enfeitiçado pela psicologia experimental e, em Chicago, pela psicologia do comportamento.

Fez ratos correrem por labirintos, fazia-lhes operações, e obrigava-os a correrem outra vez. Trepou pela escala da evolução, atingindo os macacos e depois as pessoas, trabalhando com doentes sofrendo de danos cerebrais. As técnicas eram sempre as mesmas, dizia brincando "um pouco de queijo numa extremidade, uns choques elétricos na outra". Um gosto pelas investigações de ponta levou-o para a emergente área do psicolinguismo.

Van não tinha queda para a vida doméstica. Faltava-lhe o feitio para isso. Não tinha muitas relações. Estava sempre mudando de lugar e gostava do seu trabalho, que o mantinha saltitando e agradava à sua faceta solitária. Gostava de estar por dentro, de saber coisas que as outras pessoas não sabiam. E era bom nisso, mesmo que Eagleton não lhe desse grande crédito, um homem com quem era difícil trabalhar.

Esta era uma coisa estranha, esta expedição do Neandertal. Não sabia o suficiente, não se sentia à vontade no assunto, mas poderia ser aquilo que ele estava à espera, aquilo que... o quê? O seu destino pensou, se isso não for uma palavra muito fora de moda.

- Importa-se? - disse Matt, apontando para o assento ao lado de Van.

Van resmungou, mas fechou a pasta que tinha diante de si e olhou para fora da janela vendo as montanhas. Por baixo era tudo faces de rocha nua e prístinas pontes de neve.

- Provavelmente é o território mais inexplorado no mundo inteiro - disse Matt. - Olhe bem. Fica-se pensando como é que alguma coisa poderia sobreviver ali.

- Não podia... se for humano não pode.

Matt olhou para além de Van para os picos e recordou-se das informações sobre os montes Pamir que tinha retirado de um dicionário geográfico na semana anterior: sete ou oito cordilheiras separadas no terreno de Cachemira, do Afeganistão e das remotas repúblicas da Ásia Central do que anteriormente fora a União Soviética, dos atuais nunca tinham sido feitos mapas. Ficaram conhecidos através dos tempos como o "teto do mundo" - não tanto pela altura das suas montanhas, que eram de fato altas, mas pelas terras escondidas dos seus vales, planícies e lagos. O primeiro a usar a palavra Pamir fora o monge budista chinês Hsüan Tsang, que fizera a travessia de Badakhshan para o Tashkurgan no século VII. Mas fora Marco Polo quem melhor os descrevera como um sinistro labirinto de montanhas e geleiras, amontoadas de cascalho e vales escondidos cheios de depósitos de lápis-lazúli.

- Por outro lado - disse Matt -, se alguma coisa sobreviveu ali, estaria escondida do mundo exterior durante anos.

- Décadas. Séculos. - Van voltou-se abruptamente da janela.

- Sabe. Havia uma aldeia escondida em algum lugar ali em baixo. Leztinecia. Estava completamente isolada. Existiu sabe-se lá por quanto tempo, setenta, cem anos. Sem nenhum contato com o mundo exterior. Foi descoberta em 1926 por uma expedição russa. Os aldeãos tinham retrocedido ao barbarismo. Quase haviam perdido o uso do fogo. Os cientistas que os encontraram foram tratados quase como deuses e os aldeãos deram-lhes tudo o que tinham. Foram dormir numa noite e sabe o que aconteceu?

- O que foi? - perguntou Matt.

- De manhã, quando abriram a porta da cabana, encontraram duas crianças mortas na soleira. Tinham sido chacinadas.

- Porquê?

- Foi a aldeia inteira que o fez. Não se percebia de quem eram filhos. Não podiam ser julgados por ter quebrado leis que nunca tinham ouvido falar. - Ele casquinou. - O sacrifício aos deuses é um dos instintos mais velhos na história da humanidade.

- E a aldeia?

- A história do costume. Apagada do mapa pela doença. Alguns deles saíram dali, ou vieram a casar com gente de fora. O resto morreu. De qualquer maneira, talvez estivessem condenados. Admita, qualquer cultura que mata as suas crianças não está vendo as coisas a longo prazo.

Ficaram calados. Depois Van disse desajeitadamente

- Sabe, li o seu trabalho.

- Leu ?

- Hum-hum. No News England Jornal of Arqueology, The Fossil Reviews, tudo. Até li Neandertal: Assassino ou Primo Amigável?

Matt não costumava encontrar as pessoas que liam os jornais esotéricos e as publicações obscuras por onde andavam os seus artigos, e ficara sempre ligeiramente embaraçado com o título do seu livro uma concessão a um editor obcecado pelas vendas, e por fim desapontado.

Reparou que Van não o elogiara por nenhum deles.

Van perguntou-lhe em que é que ele estava trabalhando no momento, e Matt disse-lhe que andava examinando a morfologia do trato vocal do Neandertal, especificamente a faringe.

- Porquê? - perguntou Van.

- Pode vir a descobrir-se que era primitiva. A partir daqui poderíamos deduzir que a sua linguagem era limitada. Provavelmente não poderia dizer algumas consoantes: um G por exemplo, ou um K. O seu âmbito vocálico seria pouco desenvolvido.

- E aonde é que isso tudo leva?

- É muito cedo para dizer, mas aqui vai o resumo da teoria: A linguagem é a essência do pensamento. É tanto o berço como a porta da inteligência. O Neandertal não tinha capacidades linguísticas totais por isso a sua capacidade para o pensamento abstrato nunca se desenvolveu. À medida que a interação social se torna cada vez mais importante para a sobrevivência, ele fica pelo caminho. Em atividades como a caça em grupo, onde a comunicação e o pensamento antecipatório são cruciais, ele não podia estar à altura. Ficou pelo caminho.

- Condenado à extinção por falta de uma epiglote adequada? - zombou Van.

- Qualquer coisa no gênero - respondeu Matt na defensiva.

- Tem aí alguns problemas, professor.

- Tais como

- Está indo longe demais - disse Van.

- Por um lado, a comunicação pode ocorrer com uma vocalização muito limitada. Conhecemos tribos na Nova Guiné e no Amazonas que sobrevivem muito bem com linguagens baseadas em não mais que doze sons distintos.

- E por outro?

- Por outro, porque é que o pensamento abstrato tem que estar correlacionado com uma multiplicidade de sons? Ou porque é que o teria a complexidade da linguagem? Intuímos que isso é verdade, mas podemos estar enganados. E depois, claro, há uma terceira possibilidade, e essa é a mais interessante de todas.

- Qual é ?

- A comunicação além do som.

- Quer dizer a percepção extra-sensorial?

- Ou qualquer coisa no gênero. Não gosto do termo. Pressupõe que a percepção não conduzida através dos nossos sentidos é extraordinária.

- Bom, e não é?

- É óbvio que não penso que seja, ou não teria devotado a isso a minha vida.

- Então é esse o seu campo?

- Sim. Posso não ser um eminente professor da Universidade de Chicago, mas tenho um doutorado. Não preciso que me dêem lições como a um estudante universitário.

- Desculpe. Não era minha intenção fazer isso.

Matt estava intrigado com o que Van acabara de dizer e tentou sacar-lhe mais informações, mas Van recusava-se a discutir as suas investigações mais recentes.

- Não é publicável - e foi tudo.

Fez-se um silêncio incômodo; depois Van disse:

- Deixe-me perguntar-lhe uma coisa.

- Claro.

- Porque é que nunca postularam que os Neandertal ainda podiam existir?

- Porque a possibilidade é tão remota que se torna absurda.

- Ah sim? Como é que podem ter tanta certeza?

Van estava quase rosnando quando disse isto. Que cara tão esquisito, pensou Matt. Tão desastrado. Para alguém que era tão evidentemente inteligente, o homem explodia em crises de irracionalidade.

Agora era Van quem estava dando uma lição, e estava gostando.

Existiam, dizia ele, perto de catorze milhões de espécies na terra das quais apenas um ponto sete milhões - menos de quinze por cento tinham sido identificadas e classificadas. Apareciam novas espécies todos os dias. Só nos últimos cem anos, eram descobertas uma média de quinhentas por cada década até 1920; agora andaria pela média de uma centena por década.

- E não estou falando de mamíferos de dois pés - disse ele. - Estou falando de caça grossa. O macaco indiano de nariz achatado, o panzé africano pigmeu. Já ouviu falar do meganumtiacus vuquangencis. Claro que não. É um veado bastante grande. Pseudoryx sghetinhensis. Uma coisa parecida com um boi. Foram ambos descobertos no Laos, em 1994. Uma expedição francesa ao Tibete tropeçou numa raça antiga de cavalos com metro e meio de altura, em 1995. Parecia que tinham acabado de saltar da pintura de uma caverna.

- Aparecem espécies novas todos os dias. Encontra-se a carne nos mercados locais, uma pele nova com listas estranhas é descoberta no peito de um nativo qualquer. No século passado, ninguém acreditava no gorila da montanha, mesmo havendo uma série de lendas acerca dele, porque ninguém o tinha visto. Só cerca de três mil africanos o tinham visto.

Recordou o panda gigante no oeste de Tchechuan, que estava sendo caçado há setenta anos, até que conseguiram apanhar um.

- Acontece sempre da mesma maneira. Primeiro vêm o mito e o boato. As pessoas não acreditam, até que o vêem com os seus próprios olhos. Depois, subitamente, ali está ele, e depois ninguém se recorda sequer que não acreditamos. Parece ridículo não ter contado com ele. É tudo húbris. Pensamos em nós próprios como os eleitos, os seres supremos em todo o planeta. Pensamos que é propriedade nossa e não sabemos nada sobre ele.

- Veja a superfície da Terra, subtraia os oceanos, depois os desertos, as montanhas e as regiões árticas. Sabe o que é que sobra? Cerca de vinte por cento. Habitamos um quinto do globo e pensamos que estamos em todo o lado, que não sobra espaço para mais ninguém. Nem sequer conseguimos imaginar concorrentes. Mas é tão disparatado pensar que somos os únicos hominídeos sobre a Terra, como o é pensar que a Terra é o único planeta no universo com vida.

Agora era Matt quem se sentia como um aluno de licenciatura e também não gostou.

- Espere um pouco - protestou. – Podemos não viver em todo lugar, mas é certo como o diabo que viajamos por todo o lado. Se temos concorrentes, porque é que nunca os encontramos?

- Pelo mesmo motivo que a maioria dos americanos nunca encontraram índios.

- Quer dizer?

- É uma lei natural. Os vencedores expulsam os vencidos, tornando-os invisíveis. Empurram-nos para as zonas mais indesejáveis: o deserto, onde nada pode crescer, as terras de vegetação enfezada, para o Ártico. Pela mesma razão que os Esquimós, você provavelmente chama-lhes Inuit, continuam a avançar cada vez mais para norte.

- Mas nós vemos os nativos americanos e os Inuit.

- Sim, mas imagine agora que o seu grupo vencido não é apenas outra tribo ou raça, mas de fato uma subespécie completamente diferente. Pense nessa pobre minoria, patética, despojada até ao mínimo. E se acontecesse de estarem assustados e, Deus sabe, tivessem um motivo para estarem assustados, não fariam tudo para ficarem longe da vista? Não virariam as costas e fugiriam ao menor sinal da espécie dominante, do temível inimigo?

- Dê um passo mais adiante. Imagine que esta minoria particular tinha uma caraterística especial de adaptabilidade? Por exemplo, como o Neandertal, ser capaz de sobreviver em climas em que nós em minutos gelaríamos até à morte? Não iria isso reduzir mais ainda as possibilidades de contato, pelo menos contato a uma escala significativa?

Matt ouvia em silêncio.

- Veja - continuou Van. - Eu não sei quem tem razão, se você ou Arnot. Talvez tivesse havido uma guerra genocida, ou talvez nos tivéssemos cruzado com eles até à inexistência. Em qualquer dos casos, é fácil imaginar alguns deles continuando a viver. Como esses soldados japoneses sobrevivendo na selva. Se houve uma guerra e alguma espécie de vitória apocalíptica, o que é que podia impedir um pequeno grupo de bater em retirada? Mesmo que seja uma questão de viver em cavernas, sentarem-se à roda do fogo narrando interminavelmente os dias negros da sua derrota, geração após geração.

- Ou então, se houvesse um grupo que tivesse resistido à assimilação, que simplesmente fosse para outro lado. Preserva a pureza da subespécie virando as costas à corrente majoritária da evolução. Eremitas. Um bando de relíquias vivendo no alto das montanhas onde quase ninguém chega. De tempos em tempos, dão com um de nós ao virar de uma esquina. Passam palavra: um intruso!, e retiram-se para mais alto, o seu mundo encolhendo-se ainda mais. Mas pelo menos continuam por descobrir, ainda a salvo. Sabe, ainda hoje estamos descobrindo novas tribos no Amazonas e as pessoas vão até lá. As pessoas não vão aos altos Pamirs.

Matt viu Susan mexendo-se cinco filas à frente.

- Está bem - disse ele. - Digamos que existe este bando de relíquias, esta... espécie paralela. Porque é que são sempre eles a descobrir-nos? Porque é que nós nunca damos com eles? Quero dizer, um Neandertal andando por um caminho... em algum lugar ... Até a lei das probabilidades...

- Vá lá, professor! - Van foi buscar o título por sarcasmo, como um insulto. - O que é que pensa que nos trouxe aqui? O que é que pensa que está em todas essas pastas? - Apanhou várias delas e abriu uma. - Há pessoas que deram com eles. Apenas não os identificaram corretamente.

Matt olhou para baixo e viu páginas impressas, descrições em

itálico, datas, mapas. Folheou uma e encontrou uma compilação de novas histórias, com dezenas de páginas cada uma. Pegou numa ao

acaso de The Hong Kong Record de 1948:

 

CHINOZCHIA, Dez. 12 - O Dr. Peter Armstrong e a sua equipe de três assistentes regressaram de uma excursão ao interior, com notícias de uma descoberta extraordinária. Um homem selvagem, de metro e oitenta de altura, completamente coberto de pêlos longos e vermelhos.

O Dr. Armstrong diz que encontrou o animal num caminho perto de um regato. . .

 

Folheou as páginas. Havia registros de outros, em inglês, francês, alemão, chinês.

- Estes relatórios não são novos, professor. Vão muito para trás na História. Os manuscritos medievais estão cheios de referências a estranhos homens selvagens vivendo fora da civilização. Como é que está de autores romanos? Lucrécio, em De Rerum Natura: descreveu-os perfeitamente, uma raça primitiva, constituída por "ossos mais largos e sólidos por dentro". Verifique Plínio e irá encontrar os Malhados, que viviam no deserto da Líbia. Usavam uma clava e de fato tinham a cabeça colada à parte de cima do peito, o que é muito próximo do aspecto que um Neandertal deveria ter, se você tropeçasse em algum morto à sua frente quando tivesse saído para um passeio à tardinha.

- Se quer registros históricos, está tudo aqui - disse Van. - Uma abundância de encontros. Centenas deles, por todo o lado, vistos por toda a espécie de gente. Só é preciso ter consciência deles, destas pequenas histórias de seis centímetros em pequenos jornais de tantos em tantos anos. Tem que descobrir as relações. Os pontos estão aqui; só tem que os ligar uns aos outros.

Pegou numa pasta e desfiou as páginas pelo ar, tão perto que Matt sentiu o vento. - Não me interessa o que lhe chamam. Pés-Grandes. Sasquatch na América. Iéti no Tibete. Alma no Targabati. Chuchunaa no Verkhoyansk...

- Espere aí - interrompeu Matt. - Quer-me dizer que todos esses são Neandertal? Ontem já era bastante difícil acreditar que existiam na Mongólia Exterior. Agora espera que eu acredite que também existem no Estado de Washington?

- Claro que não. - Van elevou o tom, como se estivesse argumentando com uma criança recalcitrante. - Veja. Não estou dizendo que todos estes são Neandertal, longe disso. Eu estou dizendo que existe uma semelhança notável entre todas estas visões e descrições de grandes primatas cabeludos vivendo acima da linha da neve. Vai para além das leis das probabilidades ou das coincidências. Quase todos os países têm histórias sobre criaturas esquisitas que são contadas à volta da fogueira nos acampamentos à noite e, por uma qualquer razão estranha, estas criaturas são quase sempre a mesma. O que é que isso lhe diz?

- Talvez sejam só lendas.

- Talvez, de fato são sem dúvida. É esse o meu ponto. Vá lá, recorda-se do seu Taylor? Do seu Rosenthal? o Significado do Folclore, o Reino do Irreal e u Psique Coletivo. Ambos sabemos que as lendas.têm um sentido. Elas não saltam apenas para a existência espontaneamente. São um meio de comunicação através de gerações e para permitir lidar com algo. E estas são lendas universais, lendas que aparecem em todo o mundo, com variantes locais, é claro. A fim de poderem incorporar uma realidade objetiva que realmente aconteceu. Mitos de origem. O Dilúvio. Porque é que o Dilúvio aparece em dezenas de culturas? Porque se trata de um fato histórico. Só que ocorreu antes que a história fosse escrita.

- Os avistamentos destas criaturas estão por todo o lado. Isso quer dizer que o mito está por todo o lado, e isso deveria dizer-lhe que se baseia numa realidade.

- Está bem - disse Matt. - Deixe que acredite em você por um minuto. Talvez a realidade tenha acontecido, mas talvez tenha sido há muito tempo atrás... milhares de anos, dezenas de milhares de anos... mantidas vivas no nosso inconsciente coletivo.

- Ah!, é aí que passamos da lenda à prova. À prova científica.

- Está bem, dê-me a prova.

Van mostrou um sorriso oleoso.

- Ao nível mais simples, há as pegadas. Não uma, nem cinco, não uma dúzia. Montes e montes delas. Cento e setenta e cinco autenticadas, para ser mais exato. Muitas mais duvidosas. - Abriu uma pasta e folheou as páginas dedlado para que Matt pudesse vê-las. Havia fotografias página após página, desenhos, mapas, diagramas - um livro com nada mais do que pegadas. A maioria eram largas e retas, com um dedo grande curiosamente distendido.

Muitas tinham réguas de madeira colocadas de comprido. Também havia fotografias dos descobridores, segurando moldes brancos gigantes ou apontando para o chão.

A maioria pareciam ser homens e mulheres de aspecto estranho, com feições macilentas, roupas que não condiziam, sorrisos triunfantes,

Fanáticos.

Matt parou numa página. Era o artigo genuíno: uma pegada de uma caverna Neandertal bem conhecida na Toscana. Comparou-a com outras. Eram virtualmente idênticas. Para confrontação havia a pegada de um humano moderno, com três quartos do tamanho.

- Há uma série de outras coisas. Tufos de cabelo. Muitos deles são encarniçados, pelo menos os encontrados na China. Uma grande

parte é encontrada nos troncos de árvores com cerca de metro e vinte a metro e meio.

- Sem dúvida andavam coçando as costas - disse Matt. Estava sendd irônico, mas Van não percebeu.

- Depois há as fezes, todo o tipo de fezes.

- Poupe-me às fotos.

- Mas o mais convincente são os avistamentos. Houve cento e sessenta só no Cáucaso entre 1923 e 1951. A maioria pertencem a aldeãos analfabetos, por isso não são levados a sério. Não houve assim tantos recentemente, de fato, até muito poucos. É possível que estejam desaparece ndo ali.

- E se há tantas dessas coisas passeando por aí, porque é que ainda não pegaram nenhuma? Ou encontraram alguma morta num lugar qualquer?

- É curioso que pergunte isso. - Van passou-lhe outra pasta.

No interior estavam fotocópias de um livro de Myra Shackley, uma acadêmica britânica, descrevendo numerosos encontros, incluindo vários em que o homem-animal era morto.

Matt olhou para Van. Fisicamente este estranho homem com a sua testa alta e larga, o cabelo espetado dos lados como um halo e olhos semivendados não dava uma impressão agradável, mas havia nele algo de formidável.

- Não estou tentando convertê-lo - continuou Van. - Como eu disse, não me interessa se você acredita ou não. Tudo o que estou dizendo é que deveria estar atento a essa possibilidade, porque se o maior argumento contra a existência deles é de que não há provas, o argumento é incorreto. Há uma grande quantidade de provas.

- Se está tudo aí, como disse, porque é que mais ninguém senão

você e mais uns poucos maduros ouviram falar disso?

Van agarrou com força o descanso do braço.

- Você realmente quer saber? - perguntou após um momento.

- Claro.

- Porque é pouco respeitável. São maluquices. Vai contra a corrente. Você tem alguma idéia de como a instituição científica, caras como você, pode ser perversa quando algo de ameaçador aparece? É tal qual qualquer burocracia com direitos adquiridos relativamente ao status quo, só que pior. Se emerge uma nova teoria que contradiga a sabedoria aceita, é abatida, assim que é apanhada no radar. Deus não permita que venha a penetrar e chegue às massas!

- Se é apenas ligeiramente ameaçadora, fica sujeita ao ridículo. Os jornais metem a colher, os acadêmicos zombam, a imprensa popular escreve histórias divertidas. Mas se é alguma coisa verdadeiramente revolucionária, como isto, atacam com a artilharia pesada e recebe o tratamento completo. Há carreiras arruinadas, pessoas expulsas da cidade, nada aparece impresso. Ninguém quer passar por tolo.

- Está bem - disse Matt. - Dou-lhe razão quando diz que há resistência quando aparece algo de novo. É verdade em qualquer área. Mas se as provas se acumulam e se tornam convincentes, então a nova teoria, ou o que quer que seja, começa a ser ouvida.

- Deixe-me contar-lhe uma história. Em 1906 um explorador russo chamado Badzare Baradiyan estava chefiando uma expedição através do deserto do Alachan. Uma noite, quando a caravana parou ao pôr do Sol viram uma criatura peluda de pé numa duna. Perseguiram-na. Fugiu. Mas todos a tinham visto, bastante de perto, sem dúvidas. A observação suscitou entusiasmo em casa, mas quando Baradiyan escreveu o seu relatório oficial sobre a expedição, o presidente da Sociedade Imperial de Geografia Russa obrigou-o a suprimir o incidente. Nada menos que o presidente! E ele o fez. Porquê? Tenho certeza de que se estivesse aqui hoje poderia dar um sem-número de razões. Mas de longe que esse encontro foi o acontecimento mais significativo da expedição.

- A moral da história é o modo como a instituição reagiu: da maneira que sempre reage. Prefere apagar qualquer coisa para a qual não tem uma explicação pronta. É uma velha história, mais velha que Galileu. A ciência vira-se para a superstição e chega a torturar para defender o seu direito a estar errada.

- Mas ultimamente - disse Matt - as teorias que não se aguentam são disparatadas. Tudo se resume às provas.

- E eu digo que as provas estão aí, mas não são consideradas. - Van fez um gesto em direção às pastas. - É claro que você viu uma das provas em primeira mão, até lhe pegou. O crânio.

Matt considerou o último ponto. Deixou a fantasia à solta por um momento. E se de fato existisse outra espécie até agora não descoberta, um bando de relíquias vivendo numa região inabitável para os humanos? De súbito tudo parecia possível. Ele imaginava os três trabalhando juntos, ele, Kellicut e Susan. Iriam ver coisas que nenhum outro humano tinha visto, responder a perguntas tidas por irrespondíveis, publicar ensaios que acabariam espantando o mundo. Não iria apenas mudar o que sabemos do Neandertal, pensou Matt; iria mudar o que sabemos acerca de nós próprios. Van tinha mencionado Galileu.

Isto iria ser ainda maior do que a visão dele através do telescópio.

A realidade intrometeu-se. A parte maior dele, a parte científica,

ainda não podia conceber a existência deles, mas tinha que admitir que a sua resistência começava a desmoronar.

A aeromoça apareceu com um wisky grátis não pedido e sorriu enquanto o colocava na mesa de Matt. Ele passou-lhe o copo vazio.

- Diga-me uma coisa - disse. - Porque é que Kellicut nos mandou aquela encomenda?

- Só podemos supor que ele sabia que vocês saberiam o que fazer com ela.

- Porque é que ele não nos disse? Para quê todos estes jogos?

Van ficou calado.

- E porque é que não mandou uma nota qualquer?

- Aí não posso ajudá-lo.

Van ficou quieto por um segundo e depois falou devagar.

- Acho que vocês receberam a mensagem que ele queria que recebessem. Apesar de tudo, vocês estão aqui. - Virou-se para olhar de novo através da janela. - E vamos à procura dessa coisa danada.

- Pensei que íamos à procura de Kellicut.

- Por causa dele também. Vamos à procura de ambos.

Matt acabou a bebida. Viu o topo da cabeça de Susan a movendo-se, e com um grunhido levantou-se e avançou pelo corredor. Ela estava esticardd os braços para frente, parecendo despenteada, sonolenta, e momentaneamente perplexa. Quando o viu, sorriu abertamente pela primeira vez.

Estava sem sapatos. Matt olhou para os pés dela, envolvidos em meias pretas. Pareciam tão elegantes, tão perfeitamente formados com curvas doces e arcos esculpidos, em comparação com as fotografias que acabara de ver.

As suspeitas de Matt e Susan aumentavam à medida que entravam no Tajiquistão. A viagem fora cansativa. O avião fizera uma aterragem difícil em Dushanbe, à segunda tentativa. O país tornara-se independente há pouco tempo e estava ainda envolvido em guerras civis. Soldados adolescentes de pele escura, com malares mongólicos, passavam pelas brasas em cadeiras de metal, vestidos de uniformes camuflados, com as AK-47 apontando displicentes para o chão.

Os funcionários da alfândega, que usavam insígnias novas e brilhantes em velhos uniformes, examinaram-lhes tudo na bagagem, mais por curiosidade do que outra coisa, e manipularam o pequeno gravador de Matt e o leitor de cassetes de Susan com reverência.

Depois arrastaram Van para uma sala dos fundos onde ele começou a discutir. Podiam ouvir-se os gritos através da porta fechada.

- Ele traz uma arma - disse Susan.

- O quê? Como é que você sabe?

- Reconheço a situação, tem todas as caraterísticas. Não estou gostandd disto.

- Eu também não - respondeu Matt.

- Nunca ouvi falar de um cientista que andasse armado. - Matt tentou acalmar os receios dela. - Depois, também nunca vi uma expedição como esta.

- Quem é ele? Alguma espécie de caçador de caça grossa? Irá abrir caminho a explosivos para fugir?

- É um cowboy de Ruy-pum. Mas há qualquer coisa estranha nele, não consigo entender o quê.

- Entendo que quer dizer - respondeu Matt. - É definitivamente pouco ortodoxo. Li alguns dos artigos dele e estive ouvindo-o no avião. É um verdadeiro crente no paranormal e não alimenta quaisquer dúvidas.

- Ainda não entendi porque é que Kellicut não nos escreveu diretamente se queria que viéssemos.

- Talvez não soubesse onde nos encontrar - respondeu Matt.

- Sei que não tinha o meu endereço. Há algum tempo que nãonos falávamos.

- Talvez. Mas o que é que ele andava fazendo com estes caras?

Sabe que é um esnobe. Viu as pessoas naquela sala. Nenhuma era de primeira linha a não ser o Sehwartzbaum e ultimamente tem estado fora de ação. A maioria dos outros fica muito à distância.

- Tenho andado a magicar sobre todo o Instituto. Porque é que está filiado a uma universidade recente de que nunca se ouviu falar?

Susan ponderou a pergunta.

- Até já considerei a possibilidade de estarmos metidos com alguma espécie de seita, que eu parti e abandonei a minha investigação e arrisquei a minha reputação por uma quimera. Mas a verdade é que não interessa quem são eles. Se estão atrás de qualquer coisa, o prêmio é muito alto para deixá-lo escapar por causa do risco de estar enganada.

- Acho que se mantivermos os olhos abertos e formos cuidadosos, podemos seguir os nossos próprios planos e fazer o que temos que fazer - disse Matt.

Van emergiu, carregando a mala debaixo do braço, com uns selos novos e alguns rótulos vermelhos.

- Espantoso, o que uma pequena

gorjeta pode fazer. - Fez uma careta.

- Que tipo de arma é? - perguntou Matt.

- Uma magneten 3.45.

- E para quê?

- Seguro de vida.

- Que raio de seguro de vida.

Em Dushanbe apanharam um pequeno avião de hélice que os levou até o sopé dos montes. Havia cabras no corredor presas aos braços dos assentos.

Uma aeromoça com véu ofereceu-lhes caramelos duros. O avião circundou a pista, que era uma tira de asfalto no meio da relva, e aterrou com uma série de pulos como uma pedra saltando na água.

Quando saíram, a altitude parecia sugar-lhes o ar dos pulmões.

Foram recebidos por Rudy, o guia, um russo cujos serviços tinham sido contratados antecipadamente.

Esperava no portão, acenando assim que os viu, depois azafamou-se, com exagerados apertos de mão e amontoando as bagagens sobre si de maneira que, visto por trás, cambaleando até o Land Cruiser, parecia chaplinesco.

- Por favor, por aqui menina. Por aqui - gritava por cima do ombro.

Rudy era um homem grande, de rosto franco e nariz de pugilista. O cabelo loiro caía-lhe sobre as orelhas e as mãos eram enormes.

Susan gostou dele à primeira vista. Sentou-se ao seu lado enquanto ele guiava loucamente, agarrando o volante com as duas mãos, de ombros erguidos como asas de galinha.

O carro desfilava de lado a lado da estrada enquanto ele gritava observações sobre as batidas do motor, movendo a cabeça para cima e para baixo com entusiasmo violento e espreitando pelo retrovisor para estabelecer contato visual com Matt e Van.

Rudy passou um antebraço cabeludo pelo pára-brisas, um gesto de rejeição que incluía os rochedos, os hirsutos tufos de erva castanha, e os montes estéreis marcados das bexigas.

- No meu país temos árvores de verdade. Não estas coisinhas estúpidas. E relva. Nós a sentimos nos dedos dos pés. Vacas que dão leite . Rabanetes tão grandes como... - Ficou embatucado.

- O seu punho - disse Susan.

- ... o seu punho. E água. Nos rios, o tempo todo. Não é como esta inundação louca quando as neves derretem e depois nada. Todo este sim-e-não.

- Então porque é que veio para aqui?

Encolheu os ombros.

- A vida é engraçada. - Fez um resumo do seu passado. O pai tinha construído uma barragem no Kzazhastak, tinha casado com uma Tajique, e tornou-se funcionário do corpo diplomático. Foram para Nova Iorque. Rudy fora para um liceu. No East Side. Julia Richmond. 1976.

- Não !

- Sim, sim, garanto. Aprendi tanto. Aprendi inglês. Aprendi novos livros. Aprendi música nova. Aprendi o sentido disto. - Susan ria, Matt inclinava-se para a frente para espreitar por cima do assento. Rudy tinha a mão direita nas costas, com o dedo médio esticado para cima.

- Canções. Sei todas as canções desse ano. Os tops. WABC. Dêem-nos vinte minutos, e lhe daremos o mundo. - Começou a cantar o refrãodde Don't go oreaging my heart, com pronúncia forte e desafinado.

Van resmungava, mas até mesmo ele parecia apreciar aquela espontaneidade de saltimbanco.

Rudy conduzia-os até um hotel para passarem a noite, onde iriam encontrar o guia de Kellicut, a última pessoa que o tinha visto vivo.

- Diga-nos tudo o que sabe acerca dos homens da montanha - pediu abruptamente Van.

- Os Tajique por aqui têm uma série de histórias acerca deles. Chamam-lhes Alma e às vezes Czechkai. Quer dizer os viventes da neve, não viventes, os habitantes da neve. Ninguém os vê de fato. Ou pelo menos ninguém que eu conheça. Mas sabem, como sou russo, eles não confiam muito em mim. Não gostam de falar nisso. Só ficam com os olhos muito abertos. Nem sempre entendo o que dizem.

- As pessoas acreditam neles, disso tenho certeza. Algumas até dizem que já fizeram negócios com eles. Vão até o alto da montanha, deixam sal e açúcar e contas e coisas num certo lugar. Depois voltam lá uma semana ou duas mais tarde e o sal desapareceu, mas há peles de animais no mesmo lugar, de urso, coelho, esse tipo de coisas.

Van interrompeu.

- Quem faz isso? Já falou com alguém que tivesse feito isso?

Rudy disse que não, e ninguém lhe podia dizer ao certo onde era o ponto de troca. Nem sequer tinha certeza de que a história fosse verdadeira.

- Às vezes desaparecem pessoas, se passam acima da linha da neve. Desaparecem sem deixar rasto. Quando isto acontece ficam todos preocupados. Acendem velas e culpam os Czechkai. Alguns dizem que está ficando pior, que está acontecendo cada vez mais. Ninguém sabe porquê. Falei com um pai que tinha um filho que desapareceu. O rapaz tinha subido a montanha para caçar. Estava sempre fazendo isso e depois um dia não voltou. Procuraram por ele e alguns dizem que encontraram o corpo dele sem a cabeça. Mas quem sabe? O pai não quer falar no assunto.

- Há muita superstição entre esta gente. Se disserem essa palavra, Czechkai, as pessoas não gostam. As crianças fogem. É como aquele monstro da América. Como é que lhe chamam? Aquele com que os crescidos ameaçam as crianças?

- O papão - respondeu Susan.

- O quê?

- É o monstro que se esconde debaixo da cama das criancinhas.

- Bom, é muito parecido com isso.

A estrada começou a ficar sulcada de buracos, sinal da aproximação de uma aldeia. Matt virou-se para Susan, com a voz animada.

- Sabe onde é que estamos? Em que cidade estamos? - Ela abanou a cabeça. - Vi num sinal. Estamos em Khodzant!

Levou algum tempo até que o nome fizesse sentido.

- Quer dizer - perguntou ela -, como no Enigma de Khodzant?

- Isso mesmo.

- Com um raio!

- O que é o Enigma de Khodzant? - perguntou Rudy.

Van respondeu.

- É uma pictogravura de uma espécie qualquer.

Acham que é muito antiga. Ninguém sabe quando é porque o original perdeu-se. Uma parte dela tinha desaparecido e nunca foi decifrada.

- E veio daqui? - perguntou Rudy.

- Aparentemente sim. A não ser que haja mais do que uma Khodzant.

Matt estava surpreso. Uma meia dúzia de cientistas sabia do Enigma, mas não a maioria dos outros.

- Como é que sabe tudo isso? - perguntou a Van.

- Ando a par destas coisas. Nunca se sabe quando podem ser úteis.

O carro virou através de ruas estreitas passando por casas de pedra e argamassa entrando num pátio. A única palavra HOTEL estava escrita em tinta azul desbotada sobre uma porta em arco.

Rudy foi o primeiro a sair do carro, logo ladrando ordens a um rapaz que abrira o portão do hotel. Levou-os para fazerem o registro num estreito balcão de madeira. O proprietário, um homem com sobrancelhas pretas, e poucos dentes, usava uma camiseta esporte Duke com as palavras "blue devil" sobre o coração. Nunca tinha visto passaportes americanos e folheou-lhes as páginas com o dedo, vagarosamente, antes de levá-los para os quartos.

O jantar, um guisado aceitável, foi acompanhado pelo fluir da vodca que Rudy providenciara. Sempre que via um copo vazio, inclinava-se com o seu longo braço para o encher até acima.

Depois foram até ao bar, uma pequena caverna decorada com um entrançado de vinhas e plantas crescendo de blocos de cinza colocados no alto. O proprietário entrou com uma bandeja de xícaras de café de porcelana e murmurou qualquer coisa ao ouvido de Rudy: o rapaz que trabalhara como guia de Kellicut tinha chegado.

Entrou na sala. Tinha cerca de treze a catorze anos, com o cabelo absolutamente negro e olhos castanhos líquidos que os observaram um a um, usava uma camisa solta, uma capa e alparcatas.

Van ia começar a falar, mas Susan interrompeu-o. Foi até junto do rapaz e pegou-lhe na mão com firmeza, sorrindo. Ele apertou-a de volta, abanou-a solenemente e depois fez uma vênia.

- Este é Sharafidin - disse Rudy.

Os outros apertaram-lhe a mão. Após cada cumprimento, fazia a vênia.

Rudy fez sinal ao rapaz para se sentar, mas ele continuava de pé.

Trocaram algumas palavras em persa, e então o rapaz começou a sua narrativa fluentemente e sem hesitações. Finalmente Rudy fez-lhe um sinal para parar enquanto traduzia.

- Ele diz que o Professor, é assim que chama ao Mr. Kellicut, chegou aqui há muitos meses atrás. Que ficou exatamente aqui neste hotel. As pessoas não sabiam o que ele queria ou porque é que estava aqui. Muitas pessoas não lhe falavam, mas andavam curiosas, por isso pouco a pouco começaram a falar-lhe. Ele falava persa, não muito fluente.

Enquanto Rudy traduzia, o rapaz olhava fixamente para Susan, que lhe retribuía o olhar.

- Gradualmente as pessoas foram se habituando a ele. Dava longos passeios. Acima dos montes, às vezes até às montanhas. Sabia medicina e curou algumas pessoas. pouco a pouco, as casas foram-se abrindo. Uma noite foi jantar na nossa casa. Matamos uma cabra. Ele deu uma prenda ao meu pai, uma estampa muito bela. Tem a imagem de uma mulher, a estátua de uma mulher enorme segurando um facho e um livro, com água a toda a volta. Diz Cidade de Nova Iorque. O meu pai gostou tanto dela que a pendurou por cima do nosso forno.

Van interrompeu.

- O que é que o teu pai lhe disse acerca dos Alma? - Rudy traduziu. O rapaz não entendeu. Quando Rudy tentou outra vez, o rapaz desviou os olhos.

- Ele diz que não estava lá - disse Rudy.

- Continue - disse Matt delicadamente.

Desta vez o rapaz falou durante muito tempo. Rudy encorajava-o acenando lentamente com a cabeça de vez em quando. Ele contou como um dia o Professor revelou o seu desejo de subir à montanha para ver os Alma por si mesmo e como eles tinham tentado repetidamente dissuadi-lo.

- Por isso uma noite o meu pai disse: Se tem que ir, é porque tem que ir. Mas digo-lhe para levar o meu primeiro filho. - Era, disse ele, a maneira que o seu pai tinha de garantir a segurança do Professor. Depois o rapaz descreveu os preparativos e a subida: dias e dias subindo. - Um dia chegamos a um ponto onde até nem sequer as árvores tinham ido. Aí construímos a nossa cabana. Cada dia dávamos passeios cada vez mais alto. Onde quer que fôssemos, o Professor estudava o chão. Depois acampamos. De noite gelava. Eu tinha uma pequena cama que ele tinha feito para mim, mas mesmo assim tinha frio.

- O Professor começou a sair sozinho. Não me deixava ir com ele. Dava longos passeios. Depois esteve fora toda uma noite e depois durante muito tempo. Dias e dias. Voltava e escrevia. Estava agindo de maneira estranha. Às vezes falava alto sozinho. Depois ficou doente e tremia. Estava muito fraco. Ficou melhor e foi embora outra vez. Ficou fora de novo por muito tempo.

- Já não tínhamos muita comida. Eu tinha que descer a montanhane apanhar coelhos e pássaros e levá-los para cima. Não sei se o Professor regressou enquanto estive fora. Procurei as pegadas dele. Às vezes as via.

- Depois o Professor regressou. Tinha mau aspecto. Parecia diferente. Não me ligou muito. Era como se não me conhecesse. Falava muito em voz alta, mas nessa outra língua. Por isso não conseguia compreender o que ele dizia.

- Já quase não tínhamos comida, mas ele não queria vir embora. Perguntei-lhe porquê e não queria me dizer. Falava muito sobre os Alma. Perguntava-lhe o que é que ele queria dizer. Ainda ria mais. Foi embora cada vez por mais tempo.

- Um dia voltei da caça e ele estava lá. Agora tinha a barba comprida. Estava muito excitado. Disse que eu tinha que ir para casa e levar uma coisa comigo. Deu-me uma caixa. Era pesada e tinha coisas escritas. Ele disse que eu tinha que dá-la ao meu pai e que o meu pai tinha que colocá-la imediatamente no correio. E assim fiz.

- E depois voltou lá? - perguntou Susan.

Rudy traduziu e o rapaz abanou a cabeça.

- Voltou a vê-lo?

E de novo abanou a cabeça.

- Você viu os Alma? - perguntou Matt.

- Não. - O rapaz mordeu o lábio e falou devagar. - Uma vez procurei o rastro do Professor e não o encontrei, mas vi outras pegadas. Maiores.

Trocaram olhares entre si. Rudy tomou uma golada de vodca.

- Mais alguma pergunta?

- Pergunte-lhe - disse Matt - se ele abriu a caixa.

Van olhou para cima sombriamente. O rapaz disse que não, depois olhou para Susan e disse qualquer coisa. Rudy ladrou-lhe uma resposta.

- O que é que ele disse? - perguntou Susan.

- Nada, menina. Não é importante.

- Quero saber o que é que ele disse.

- Ele quer saber se a menina e o Professor se conheciam.

- Se nos conhecíamos?

- Qual é a pergunta exata dele... Não entendo. Não quer dizer nada, tenho certeza.

Van parecia perplexo.

- Porque raio é que ele quer saber uma coisa dessas? - perguntou.

- Diga-lhe que sim - disse Susan.

- Não entendo - disse Rudy.

- Ele está tentando entender quem somos nós. - O tom de Susan era brusco.

Quando Rudy respondeu, o rapaz olhou para Susan e depois, fazendo uma vênia a todos, recuou para fora da sala.

Lá fora, caía o crepúsculo. Susan estava sentada de costas para a janela, a pele escura brilhando à luz das velas, os olhos como cavernas negras. Brincando com a cera, falou num tom de voz comedido.

- Então, diga-me Van, qual é o plano?

-Pelo menos sabemos por onde começar - disse Van.

- O acampamento.

- E penso que a sua idéia é usar Sharafidin para nos levar até lá? - Disse Susan.

- Já está tudo tratado - respondeu Van.

- Há mais alguma coisa que também já esteja tratada? Mais algumas surpresas? - perguntou Susan.

- Espero bem que não.

- Portanto, vamos até ao acampamento de Kellicut - disse Matt. - E depois?

Fez-se um silêncio. Finalmente Van respondeu.

- Depois tocamos de ouvido. Vemos o que podemos encontrar. Procuraremos uma mensagem. Procuraremos rastros.

- E se não encontrarmos nada?

- É aí que entram vocês dois. Vocês conhecem-no e sabem de que é que ele andava à procura. Talvez vocês tentem duplicar as ações dele, pensem da maneira que ele pensou, façam o que ele fez, vão aonde ele foi. Como disse, tocamos de ouvido.

- E então a arma, Van? - perguntou Matt. - O que é que está planejando fazer com ela?

- Nada, se puder.

- Então porque é que a usa? - perguntou Susan.

- Para o caso de precisarmos dela.

- Tem alguma razão para pensar que vamos precisar? - continuou ela.

- Vejam, não temos qualquer idéia do que vamos encontrar lá em cima.

Matt falou mais alto.

- E nós vamos à procura dessa coisa ou vamos caçá-la?

- Raios, vocês ouviram o garoto. As pessoas andam desaparecendo lá em cima. Se vocês querem tentar as macacadas da sua antropologia de treta, façam favor. Saquem do gravador e gravem os pensamentos mais íntimos dos tipos. Vejam até onde é que isso os leva. Mas não serve para mim.

- Lembre-se apenas que nós somos cientistas, e não caçadores.

- Certo, mas eu quero voltar inteiro.

Van estava preocupado: talvez eles estejam assustados, talvez eles desistam.

Sentaram-se silenciosos na escuridão crescente, e de súbito havia muito pouco a dizer. Repentinamente, Susan empurrou a cadeira para trás, levantou-se, murmurou algumas palavras de boa-noite, e saiu.

Matt levantou-se e seguiu-a.

 

Matt e Susan foram até uma casa de chá numa praça que brilhava de luz. Uma dúzia de homens estavam sentados m mesas de metal espalhadas por um pátio, sorvendo chá verde, fumando tabaco escuro e falando baixinho numa cantilena monótona. Alguns sentavam-se de pernas cruzadas junto a camas erguidas, cobertas com carpetes de Bukharan, jogando xadrez. Música turca saía de uma porta iluminada.

Os homens olharam para Matt e Susan com curiosidade evidente.

Eles sentaram-se a uma mesa e pediram café, apontando para os outros.

- Olhe para isto - disse Susan, mostrando com um gesto a distância para lá da praça. Ali, imediatamente acima da parede escurecida das construções, estava a lua cheia. Pendurada no céu como se descansasse sobre os telhados, tão clara que as crateras marcadas por buracos cinzentos se exibiam como manchas num pêssego maduro.

- Meu Deus - disse Matt. - Não há nada como a velha Lua sobre . . . Khodzant.

- Khodzant. Nem me espanta que nada faça sentido. Desde que chegamos aqui tenho me sentido como uma charada embrulhada num enigma, ou o que quer que essa expressão queira dizer.

Susan sorriu.

- Pense só, em algum lugar lá em cima nas montanhas o nosso pequeno hominídeo provavelmente está também olhando para a Lua.

- Provavelmente uivando à Lua.

- Vá lá.

- O quê?

- Lá está você outra vez - disse Susan - assumindo que não são civilizados.

- O que é que há de não civilizado em uivar? Eu o faço todos os dias.

- O que só é uma prova a meu favor. De qualquer maneira, você é

que é o cara que tem que acreditar que eles são tão bons como nós.

- Não tão bons como nós, apenas iguais, compatíveis.

- E sexualmente atraentes.

- Vá lá, eu nunca disse isso - protestou Matt.

- Bom, seguramente que o insinuou. Porque outro motivo iríamos atrás deles num furor de... como é que lhe chamou?

- Imperialismo reprodutivo?

- Exato, imperialismo reprodutivo. E qual era aquele outro termo que popularizou? Todos os meus alunos me atiram com essa nos exames.

- O fluxo dos genes.

- É isso, o fluxo dos genes. Bonita frase. Soa como um anúncio do Calvin Klein.

- Muito engraçada. E você? Onde é que desencantou todo aquele negócio da guerra? Caçar, explorar, atirar pessoas dos rochedos abaixo. E o disparate sobre comerem os cérebros? Pensava que isso tinha ficado fora de moda com Alberto Blanc nos anos 50. Acredita mesmo nisso?

- Não acredito necessariamente - respondeu ela na defensiva. - Estou aberta a essa possibilidade.

- Onde é que estão as provas?

- Não é uma questão de provas. Apenas indícios. Todos aqueles buracos nos crânios.

- Talvez haja outra explicação.

- É, talvez tivessem sido metralhados.

Ele procurou o criado.

- Matt, posso perguntar-lhe uma coisa? Agora a sério.

- Claro.

Fez uma pausa.

- Enquanto estivemos juntos, alguma vez me traiu com uma garota Neandertal?

Ele riu. Ela ainda conseguia surpreendê-lo.

- Ela não me quis. Disse que os meus braços eram muito curtos e a minha testa direita demais. Porque é que pergunta?

- Oh!, apenas curiosidade. Pensei que talvez a tua teoria sobre todas aquelas relações sexuais e cruzamentos fosse, assim, uma extrapolação baseada na experiência pessoal.

- Estou vendo, Susan. Tal como a tua sobre a guerra. - O criado chegou com duas xícaras meio cheias de café turco e azafamou-se por ali intrusivamente, demorando-se, virando as taças de modo a que as asas apontassem para a direita. Susan manteve-se silenciosa até que ele se afastou, depois fez um ar confuso.

- Homo sapiens sapiens. Sabe, sempre me intrigou como é que avaliávamos dois sapiens.

- A resposta é simples.

- E qual é ela?

- Você mesma o disse. Somos nós que damos os nomes.

- A arrogância!

- Porquê? Que nome nos daria?

- Que tal qualquer coisa como Homo duplicitzs? - Pensou por um momento. - De fato, o nome que resume a maioria dos homens que conheço já foi usado: Homo erectos? O que é que acha?

- O que é que acho? Não acho que só primeiros sentidos tenha muita graça.

- Eu também não.

Subitamente parecia ter ficado séria e ele olhou-a de soslaio. Não estava sorrindo. A pele dela parecia escura dentro de um vestido de algodão branco com um profundo decote em bico vindo da linha do pescoço. Ele sabia que ela não usava soutien. Olhou-lhe para a mão descansando sobre a mesa e sentiu um impulso de lhe tocar. Mas ela retirou-a.

- Está ficando tarde, é hora de regressar - disse Susan.

Caminharam em silêncio até ao hotel. O portão estava trancado e tiveram que tocar durante muito tempo. O rapaz saiu de camisa de noite branca flutuante e abriu-o.

As chaves dos seus quartos, de bronze pesado amarradas a paus de madeira, estavam penduradas lado a lado. Sem palavras, arrastaram-se escadas acima. No corredor puseram as chaves nas fechaduras ao mesmo tempo e depois olharam um para o outro, o que os fez sorrir.

 

O quarto de Susan era pequeno e desolado. Um candeeiro com buracos no quebra-luz lançava sombras sobre a parede.

Foi até ao roupeiro e abriu a porta. Havia um espelho de corpo inteiro no interior. Olhou para o seu reflexo com surpresa. Havia tristeza no rosto, mas ainda tinha bom aspecto. Tirou o vestido de algodão por cima da cabeça. Estava mesmo na linha, os seios ainda firmes. Fez a calcinhs escorregar até os tornozelos e saiu de dentro delas. Endireitou-se e olhou no espelho o seu corpo nu.

Atirou os sapatos e deitou-se sobre a cama, olhando para o teto. Sentiu o quarto rodar e fechou os olhos. Abriu ligeiramente as pernas, devagar, e começou a acariciar o estômago com a ponta dos dedos. Conseguia ouvir a voz de Matt ditando os acontecimentos do dia para o gravador. O que iria ele dizer acerca dela?

Sentiu tudo precipitar-se ao mesmo tempo. Pequenas coisas focaram-se - uma rachadura no teto, uma maçaneta de porta, um sapato caído de lado - mas não mantinham a angústia à distância. Não lhe serviam de âncora. Abriu os olhos e ergueu a cabeça até sentir o quarto aquietar-se, depois deitou-se para trás e descontraiu-se outra vez. Moveu a mão mais para baixo, ainda em movimentos circulares lentos, e os olhos fecharam-se.

Subitamente ouviu um ruído, um raspar de encontro à porta e uma pancada ligeira. Inclinou-se e olhou. Um envelope branco estava sob a porta.

Saltando, enfiou o vestido, foi rapidamente até à porta e abriu-a.

O corredor estava vazio. Abriu o envelope. Sentiu uma estocada perante a letra familiar, traços grossos e acutilantes, nada fácil de ler.

Era uma carta de Kellicut.

 

Van encontrou um bom lugar, uma "zona segura" como Eagleton teria chamado. O alcatrão do telhado do hotel já estava quente com o sol matinal. Ele estava atrás da chaminé, fora de vista.

Espreitou por trás de uma esquina para verificar a pequena porta fechada para lá do telhado. Em cima havia apenas algumas nuvens deslocando-se para leste. Não iriam interferir com a transmissão.

Abriu a mochila, retirou uma caixa preta, soltou os fechos dos lados em direção a si, e abriu-lhe a tampa. O teclado estava sujo dos dedos de todos os que o tinham usado antes dele. Só aqueles caras é que o podiam entalar com uma NOMAD em segunda mão, nem sequer o modelo mais recente que pesava uns bons dois quilos a menos. Esta era um tanque.

Ligou-a, inclinou a tela de micro-ondas de pernas para o ar num ângulo de 45 graus. Datilografou CTERM para o programa e selecionou ROI para Região do Oceano Índico, um dos quatro satélites circulando à volta do globo. A barra de força do sinal atravessou a tela - 14.8, o mais alto que alguma vez vira - por isso inseriu o disco e matraqueou o seu código de identificação de nove dígitos. Mais letras. Houve um ligeiro zumbido e depois um silêncio longo enquanto o céu era pesquisado e ele esperou por aquele apertar de mãos mágico acima da estratosfera. Era curioso como sentia sempre uma corrente de tensão durante estas esperas. Não era assim com um rádio ou um telefone. Devia ser qualquer coisa que tinha a ver com todo o espaço que os impulsos eletrônicos estavam atravessando, uma distância maior do que a que ele tinha atravessado em toda a sua vida. Sentiu de novo o velho desejo de fumar um cigarro.

No café da manhã Van tinha detectado suspeitas em Matt e Susan.

Não era em nada que eles tivessem dito ou feito. De fato, foram as tentativas deles para parecerem naturais, até amigáveis. Era um perito em descobrir significados nos gestos mínimos e na leitura da linguagem corporal. Em dada altura apanhou-os trocando um olhar significativo.

Ficou pensando indolentemente se já tinham por fim ido para a cama um com o outro. Mereciam-se: qualquer dos dois era perfeito como o raio.

Subitamente ouviu os pequenos bips, a cantilena que indicava uma ligação. Um segundo mais tarde a tela ficou vazia e apareceu a ordem TRANSMITIR.

Van datilografou o código. Era um relatório rotineiro sobre o avanço das operações. Não havia muito a transmitir a não ser a localização. Já tinha enviado uma mensagem com as informações dadas pelo rapaz. Eagleton adorava relatórios detalhados - era certo que tinha curiosidade acerca de Matt e Susan - e Van tinha um prazer perverso em sonegar tanta informação quanto pudesse.

Sabia que Eagleton se descartaria dele num segundo, e nos únicos momentos em que se sentia com um bocadinho de poder era quando estava em campo. Então o balanço equilibrava-se. Bem podia aproveitar enquanto durava.

Recebeu o reconhecimento de rotina: CONF-OK. Fechou o NOMAD e deslizou o interruptor para OFF. Tinha sido avisado por um funcionário das comunicações, um velho amigo de copo, que as máquinas tinham sido modificadas de maneira que a posição OFF ativasse automaticamente o sistema SAT-SEARCH a fim de que pudesse ser detectado em qualquer parte do mundo. Era típico de Eagleton tentar estar sempre por cima. Van fez questão de a manter na posição OFF por enquanto - se não o fizesse, iria alertá-los para o fato de que sabia o que se passava. Depois pôs o computador de novo na mochila e esgueirou-se para baixo.

 

Matt ficou preocupado com a nota de Kellicut: o conteúdo, o fato que Kellicut sentisse a necessidade de enviá-la, e que ele tivesse escolhido uma via lateral para que lhes chegasse às mãos - às mãos de Susan, na verdade, porque lhe fora dirigida a ela. Assumiram que ele a deve ter mandado da montanha por Sharafidin e que tinha sido o rapaz quem a entregara na noite anterior. O que provavelmente explicava a estranha pergunta que fizera sobre Kellicut e Susan se conhecerem um ao outro - sem dúvida algum mal-entendido de uma diretiva dada por Kellicut para se assegurar que apenas ela a receberia.

Quando Matt ouvira o bater suave na sua porta na noite anterior, soube logo que era Susan. Deixou cair o gravador e abriu a porta com o coração na garganta, mas assim que viu a confusão na cara dela, percebeu que não aparecera pelo motivo que ele esperava. Sem uma palavra, ela passou-lhe a carta. Ele ainda a tinha, e agora desdobrou o papel sujo e leu-o outra vez:

 

Susan,

Tem que vir urgentemente. Só você e Matt podem apreciar a enormidade do que eu descobri. Não demorem. E eis uma reflexão posterior:

Não falem disto a outros. Mantenham-no secreto. Só nós os cientistas deveríamos fazer o contato. Há muitos que não são dignos representantes da nossa espécie. Rápido, por amor de Deus! O que iremos experimentar juntos ultrapassa tudo na história da humanidade.

Pelos deuses, amanhã será um dia de ajuste de contas.

 

Kellicut não a tinha assinado. É típico, pensou Matt, olhando para a letra rabiscada, egocêntrica e enigmática até ao fim. Sem data, sem local. Mas pela maneira como o papel estava vincado e amarrotado, tinha sido claramente escrito de improviso. O seu objetivo era o aviso para não falar sobre a expedição. Mas porquê? Também não era mais que típico dele. Aquela linha sobre "muitos que não são dignos representantes da nossa espécie" - uma maneira curiosa de pôr as coisas.

Grande. Ele nos diz que estamos à beira de fazer a maior descoberta da história, e nos diz que não podemos falar disso. Manda um aviso quando não podemos fazer nada acerca do assunto. Porque é que não se deu ao trabalho de procurar os nossos endereços se estava embarcando numa coisa tão importante?

Kellicut, o Flautista de Hamelin, ainda nos conduzindo para o desconhecido após todos estes anos.

Só que agora não é a teoria dos Quanta e Jung, é... quem diabo sabe o que será?

Algo mais era perturbante: esta nota sugeria que tinha havido de fato uma carta anterior dentro da encomenda. Ele não o dizia por

tantas palavras, mas o tom parecia o de um post-scriptum, uma "reflexão posterior" como ele dizia. O que era evidente. Kellicut adorava o drama e não estava acima das palhaçadas para chamar a atenção, mas no fundo era um cientista. Não iria apenas atirar com um crânio Neandertal de vinte e cinco anos de idade para dentro de uma caixa sem explicações. Muitas.coisas estavam estavam em jogo e muita coisa podia correr mal. As implicações de uma carta sonegada eram arrepiantes:

Eagleton, ou Van, ou ambos estavam escondendo alguma coisa. Porquê? O que é que Matt e Susan não podiam saber?

Não havia dúvidas que a carta viera de Kellicut. Era o estilo dele, a untuosidade dele. Matt podia mesmo visualizá-lo escrevendo aquela apaixonada promessa de descoberta que "ultrapassa tudo na história da humanidade". E os floreados no fim, a citação grega: "Pelos deuses, amanhã será um dia de ajuste de contas." Foi Susan quem a situou: Aquiles falando depois de Pátroclo ter sido morto fora dos muros de Tróia.

Mesmo numa situação como esta, em que ele pensa que está à beira de uma grande descoberta, em que está encaminhardo dois dos seus colegas mais próximos diretamente para o perigo, mesmo assim ainda tem que ser pedante, pensou Matt. A amargura que sentiu surpreendeu-o.

 

No pátio, Van espalhou o equipamento, com uma pasta de mola na mão e gritando ordens a Rudy, que alegremente embalava cada peça assim que era verificada.

Matt estava exasperado com todos os suprimentos: tendas, sacos-cama, botas, anoraques, um estojo médico, lanternas, equipamento para cozinhar, machados, facas, cantis, máquinas fotográficas. E todos os tipos de comida: enlatada e carnes defumadas, mas na maioria pouco apetitosos vegetais desidratados embalados a vácuo.

- Meu Deus! - disse Matt, vigiando a pequena montanha.

- Vamos à procura dos Alma, ou vamos abrir um supermercado?

Susan saiu com uma xícara de café fumegante na mão, o cabelo despenteado.

Matt apontou para um pequeno saco de lona.

- O que é que vai ali? - perguntou a Van.

- Foguetes luminosos.

- Para que é que precisamos de foguetes luminosos?

- Para o caso de termos de ser evacuados.

- E quem é que nos vai evacuar?

- Nunca se sabe. É melhor prevenir que remediar.

Susan captou os olhos de Matt, franziu o sobrolho, abanou a cabeça e foi embora.

Fizeram a estrada de Pamir, uma fita negra de asfalto que escorregava através das montanhas por todo o caminho até Khorog na fronteira afegã e continuava para além até à antiga cidade de Osh, antigamente um terminal de caravanas.

Rudy estava ao volante e cantarolava uma rapsódia de canções na moda no ano que passara em Nova Iorque.

Van, sentado ao lado dele, estava sendo inexplicavelmente tolerante.

Passaram por uma ou duas aldeias fantasma, amontoados de cabanas de lama em encostas íngremes sombreadas pelas árvores, todas bem fechadas e sem sinal de vida. Nos arredores havia o que antes teriam sido campos de trigo e até mesmo uma casa coletiva abandonada, os enormes barracões de pedra desabando e os telhados dando de si. Vagões e arados tinham sido deixados no seu lugar.

- O que é que aconteceu? - perguntou Matt. - Doença, fome?

- Nem uma coisa, nem outra - disse Rudy. - Isto era uma colonização do Governo sobre o rio Vaksh. Foi desmantelada à força em 1981, depois de três terremotos. Morreram cerca de doze mil pessoas. O epicentro foi aqui. Toda a região está ainda instável.

Mais tarde, subiram até ao sopé das montanhas, onde os leitos dos rios estavam cheios com as torrentes resultantes das neves derretidas e a erva castanha se tornava verde.

Ao meio-dia pararam para almoçar. Rudy estacionou o carro junto de um regato e, depois de comerem, Matt seguiu o seu curso contornando uma curva depois da qual se transformava num pequeno lago. Num impulso, despiu a roupa e atirou-se vigorosamente para dentro de água. Encontrou um fundo de areia, virou-se lentamente de costas e aparou a queda com os braços até que apenas a cabeça lhe ficou acima da água.

Deixou-se flutuar, como uma folha. Durante toda a manhã tinha tido fantasias sexuais quanto a Susan, nadando nelas. Ao descer para o regato virara-se para esperar por ela, olhando-lhe apenas o corpo. Deixou-a passar à frente e fixou as gotas de suor descendo-lhe pela parte de trás das coxas. Imaginava-se empurrando aquelas coxas abertas e enterrando ali a cabeça como antes costumava fazer.

O devaneio desfez-se com os gritos dos outros, anunciando que era hora de partir. Quando saiu da água e se secou, sentiu o ar quente contra o corpo e percebeu que estava excitado.

Nessa tarde foi Matt a conduzir. Normalmente gostava de fazer, mas aqui era difícil. Tinham abandonado o asfalto e iam balançando por uma estrada com lombas de lixo, de modo que se fosse muito depressa o carro era tomado de um tremor de abanar os ossos. Com o Sol afundando-se à frente, era difícil perceber o caminho por entre o brilho e as pedras que faiscavam. Piscava tanto os olhos que sentiu as sobrancelhas doendo.

À noite, Susan tomou o volante enquanto Van e Rudy dormiam na parte de trás. O ar arrefecia rapidamente. O vento entrava como uma corrente subterrânea de água fria, mas deixaram as janelas abertas porque sabia bem. Com a luz dos faróis a baloiçar, era difícil detectar os obstáculos na estrada, por isso Matt fazia de co-piloto, gritando quando descobria qualquer coisa. Estava a divertir-se. E ela também.

De vez em quando viam um escorpião correndo entre os raios dos faróis com a cauda levantada alto, ágil e de aspecto obsceno.

- Precisávamos era de música - disse Matt.

- Espera aí. - Ela parou o carro, foi investigar atrás e regressou com uma mala de couro, apoiou-a no guarda-lamas, ligou-a, e arrancou.

Os sons de Bruce Springsteen encheram a noite. Quando arrancou acelerando, estavam os dois fazendo um sorriso amarelo.

Três horas mais tarde pararam para passar a noite no alto de um pequeno monte coberto de erva rodeado de rochedos e pedregulhos. Fizeram uma grande fogueira e cavaram uma trincheira à volta do acampamento, deitando-lhe gasolina para afastar os escorpiões. Junto ao fogo, Van debruçava-se sobre um mapa.

- Fizemos um bom tempo, tendo em consideração a estrada. Devemos ter andado quase quatrocentos quilômetros. - Matt espreitou-lhe por cima do ombro enquanto ele traçava a rota. - Calculo que cheguemos à base da montanha por volta do meio-dia. - Van estava quase sociável.

Depois do jantar estenderam os sacos-cama. Susan desenrolou o dela junto ao de Matt. Sharafidin pôs o seu cobertor afastado para um dos lados e fez as orações de joelhos, com a testa tocando o chão, virado para Meca. Com a cabeça para baixo, a camisa branca ondeava-lhe sobre as costas magras. Abruptamente endireitou-se e do seu molho de roupa extraiu qualquer coisa que parecia uma caixinha. Ergueu-a para o céu noturno, levou-a devagar até aos lábios, e beijou-a quatro ou cinco vezes. Rudy olhou para ele e depois para Matt e Susan, sorriu, apontou com o indicador para a têmpora e fez círculos indicando loucura.

Matt tentava adormecer, mas a estrada desenrolava-se diante dele e o sangue fervia-lhe. Ouvia o respirar de Susan, regular e profundo, e adormeceu de repente, como se caísse de um rochedo.

De manhã começaram cedo. Van guiou silenciosa e mecanicamente. Estavam subindo muito depressa e podiam sentir a altitude obstruindo-lhes os ouvidos. A topografia mudara. Os arbustos rasteiros tinham desaparecido e a estrada estava flanqueada de pinheiros escanzelados.

Depois as árvores raras desapareceram e a estrada começou a espiralar-se em curvas de cotovelo, traiçoeiras e íngremes. Van passou a meter a segunda, depois a primeira. Por fim a estrada acabou-se de vez num caminho rochoso.

Van estacionou sob uma árvore à beira de um prado.

- Fim da linha - disse, desligando o motor.

- Não se pode dizer que eu goste da expressão - disse Susan.

Descarregaram os apetrechos e ensacaram-nos nas mochilas, com Van dirigindo as operações. Ele guardava o embrulho, que era maior, separado do dos outros. Por fim abriu a capota do Cruiser e desligou a bateria.

- Não sabemos por quanto tempo vamos andar lá por cima - disse ele, enquanto punha as chaves do carro sobre o retrovisor. - Estão aqui em cima, para o caso de ser preciso.

- Para o caso de quê?

- De nos separarmos.

Enquanto atravessavam o prado em direção à floresta, os picos recortavam-se indistintamente e pareciam próximos, incrustados no gelo glacial. Contra um céu de nuvens correndo, véus de nevoeiro circulavam à volta delas em torvelinho e davam uma ilusão de movimento, pelo que elas pareciam vacilar e precipitar-se.

Andaram durante horas subindo pela encosta de pedras e espinheiros, seguindo o caminho traçado por Sharafidin. Ele marchava com firmeza, os olhos escuros movendo-se constantemente em busca de pistas. Não havia trilhos. Por uma ou duas vezes enganou-se, e tiveram que voltar para trás e descansar enquanto ele ia à frente. Depois chamava-os assim que encontrava a pista. Estava calor sob a luz do Sol, e ele ia em tronco nu, o corpo flexível mostrando as costelas.

A parte da frente da camisa de Van estava encharcada com um triângulo de suor. A mochila dele era mais pesada que a dos outros e isso atrasava-o. Matt e Susan andavam com facilidade e ritmo, conservando a energia. Rudy era o mais barulhento. Afastava os rugosos ramos dos arbustos para o lado como se estivesse abrindo as portas de um saloon. Debaixo de um chapéu de palha de abas largas, parecia pateta e falava constantemente para quem estivesse ao alcance da voz.

Chegaram a um delta, depois de terem passado as ruínas de um kisblak, várias casas e canais abertos para irrigação e campos que antes tinham sido lavrados. Estava tudo abandonado. As paredes de pedra tinham-se desmoronado. O solo parecia escuro e fértil, e a terra mostrava o aspecto de um lugar que tinha sido ocupado durante séculos.

Após várias horas chegaram a um prado alpino cortado ao meio por um rio revoltoso. Deixaram cair as mochilas - Van precisou de ajuda para se libertar da sua - e beberam avidamente a água fria.

Rudy enchia o chapéu e jogava-o sobre a cabeça, ficando com um aspecto tão cômico que os outros tiveram que rir.

Susan afastou-se sozinha prado. De um lado podia ver enormes e desajeitados arbustos de zimbro e os ciprestes. Aqui e além amontoados de roseiras bravas, madressilvas e silvas. O ar quente e preguiçoso lançava o cheiro das rosas da montanha.

- Lindíssimo, não é? - soou a voz de Rudy por trás dela. Ele admirou a paisagem com ar contemplativo antes de falar outra vez.

- É um dos motivos porque regressei a este país maluco. – Enquanto olhava para cima, para os picos formidáveis, as suas feições de criança descontraíram-se. Ele é mesmo bonito, pensou de súbito Susan.

- Nunca tinha estado antes no Tajiquistão? - perguntou Rudy.

- Não, nunca. Porquê?

- Pensei que podia já cá ter estado junto com aquele primeiro grupo.

- Que grupo?

- O que veio no ano passado, antes do Dr. Kellicut. Sabe, aquele em que veio o Van.

Durante o resto da tarde continuaram a escalar. O chão tornava-se gradualmente mais íngreme e a subida mais árdua. Sharafidin ia longe adiante deles.

Pela tarde, o chifre-de-veado verde, os pequenos choupos e vidoeiros começaram a desaparecer e depressa ficaram completamente para trás. Agora havia arbustos rasteiros, erva enfezada e ocasionais chorões por entre grandes pedras marcadas pela erosão. Montaram o campo numa prateleira rochosa e prepararam os sacos-cama. Matt e Rudy afastaram-se para apanhar lenha, para a encontrarem tiveram que andar muito, descendo a encosta que tinham acabado de subir. Regressaram com meia dúzia de toros e braçadas de ramos, a tempo de alimentar uma pequena fogueira que Susan tinha acendido com a erva do prado.

- Tomem - disse ela, passando uma taça a cada um. - Café, para ressuscitarem.

Depois do jantar Sharafidin fez as suas orações noturnas. Quando acabou, Susan aproximou-se de Rudy e foram até junto dele e conversaram. A dado ponto, Sharafidin mexeu na sua trouxa, retirou o objeto que tinha suscitado a curiosidade deles na noite anterior e passou-o a Susan. Ela examinou-o cuidadosamente e, quando o devolveu, disse algo que Rudy traduziu.

Matt sentou-se numa rocha à beira da plataforma, com os músculos doendo agradavelmente. Com os raios laranja do Sol que se escondia, ele podia ver a linha das árvores abaixo fazendo um ziguezague através das encostas e desaparecendo em vales de ambos os lados. O nevoeiro do crepúsculo erguia-se como vapor. A terra estendia-se pela distância infinita.

Susan sentou-se ao lado dele. Ele estava contente com a presença dela. A paisagem era tão sublime que precisava de companhia. Ficaram em silêncio até que por fim Matt se virou para ela:

- Eu te vi observando o talismã de Sharidin. É o quê?

- Um Alcorão em miniatura. Diz que foi usado contra Kitehener na batalha de Omdurman. Paraíso garantido para o seu proprietário. Está muito usado... de o esfregarem, penso.

- Ele te disse o que é que faz?

- Não era preciso. Protege-o. Põe-no em ligação com Alá e os espíritos da montanha.

- Será que tem alguns suplentes?

Quando Susan falou outra vez, o tom dela era sério. Disse-lhe o que Rudy despejara por acaso sobre a viagem anterior de Van. Com quem é que ele estava e porque é que veio aqui?

- E porque é que escondeu isso de nós? - acrescentou Matt.

Pouco podiam fazer. Se confrontassem Van diretamente ele iria apenas negar. Por outro lado, tinham-se comprometido a encontrar o acampamento de Kellicut. Por isso, resolveram simplesmente observar Van com muito cuidado, esperando uma oportunidade para lhe sacarem a verdade - e ambos se sentiam pouco satisfeitos por não terem um plano melhor.

Agora estava quase escuro e enquanto olhavam para o vale, Susan disse:

- Sabe o que é que também me incomoda? Quanto mais tempo aqui estou, tanto mais acredito que os Neandertal ainda existem. Kellicut acredita nisso e Van com certeza também acredita. Enquanto atravessávamos a floresta não me saía da cabeça aquele crânio. Aquilo era osso de verdade.

- Está começando a parecer que sim.

- E se é autêntico, talvez todas essas histórias que eles contam para passar as longas noites de Inverno lá embaixo nas aldeias sejam verdade.

- Talvez - respondeu ele.

- E aqui estamos nós em cima à espera de encontrar um. Ou dois. Ou vinte. E se são perigosos? O que é que podemos fazer, valsar até eles e apertar-lhes as mãos?

- Talvez os possamos observar sem sermos vistos.

- É, e talvez não.

- Não se esqueça - disse Matt -, foram eles que se retiraram aqui para cima, por isso devem ter mais medo de nós, que nós deles.

- Fale por si - disse Susan. - Outra coisa. Sei que é apenas a minha imaginação, mas enquanto vínhamos atravessando a floresta não deixava de pensar que eles estavam nos observando. Comecei por pensar: e se eles andam mesmo por aqui? E acabei acreditando nisso. Quase podia sentir os olhos deles sobre mim. Não sentiu isso?

- Não.

- Bom, eu senti. Não acreditei completamente, mas estava convencendo-me disso.

Matt olhou ao longe sobre os montes abaixo, agora quase completamente negros.

- Não se esqueça que já estamos muito alto, talvez a três mil e seiscentos metros. A altitude pode afetar-nos de maneiras estranhas.

- Tais como? - perguntou ela sarcasticamente. - Alucinações? Paranóia?

- Não, falo sério. Hiperventilação. Insônia. Ansiedade sem motivos. Uma sensação de pânico descontrolado. Água nos pulmões.

- Ótimo. Agora me sinto muito melhor.

- Não quer dizer que vá se descontrolar. Só que faz as coisas aterradoras parecerem ainda mais aterradoras. Não leve isso muito a sério.

- Vou me lembrar disso quando estiver no caldeirão com alguém quase transformando o meu cérebro em bife tártaro.

Matt sorriu para si. A combinação entre a auto-segurança total e descarada vulnerabilidade - isso era parte do que o atraíra nela anos atrás.

- Tenho dito - disse ele com calor genuíno -, você não mudou muito.

- Para melhor ou para pior?

- Melhor.

Ela abanou a cabeça imperceptivelmente, irritada com a presunção dele. Tinha passado tantos anos descarregando a sua cólera contra Matt, uma antiquada cólera branca e pura, que se tornara rotina, e já nem sequer tinha certeza de ainda a sentir. Traição - era esse o pecado que embrulhava todos os pequenos delitos e decepções de Matt numa única palavra. Por repetir a palavra como um mantra durante anos, ela podia reduzir a relação deles à sua essência. Não havia dúvidas quanto ao assunto: traição é o que era, enganá-la com a sua melhor amiga. Ela não tinha suspeitado de nada do que estava acontecendo. Só soube de Anne no fim, o que aprofundou a sua vergonha e tornou as ações dele imperdoáveis. Conhecendo-a, ele devia saber como ela se iria sentir diante de todos. Depois começou a vê-lo como desprezível, com todas as suas pequenas mentiras. Foi quando verdadeiramente deixou de estar apaixonada por ele, quando o respeito que tinha por ele se evaporou.

De fato, ela também tivera o seu caso secreto. Mas havia uma diferença, dizia a si própria, porque certamente que a um nível qualquer ela tivera consciência do engano de Matt - era impossível estar tão perto de outra pessoa e não dar por isso - portanto, num certo sentido, ela estava protegendo-se igualando a transgressão dele. Ela sabia que estava racionalizando a sua própria traição, mas isto não diminuía certeza de que a sua não fora uma frivolidade. Fora concreta e sem dúvida necessária, porque ela não tinha sido suficiente para ele. Era autodefesa.

- Vamos embora - disse.

Na manhã seguinte levantaram-se cedo e começaram a subir sem falar, com as pernas doendo e os pés latejando. Cada passo trazia dor. Mexiam-se como zombis, e à medida que o sol ia pesando, a monotonia dos seus passos erradicava todo o sentido do tempo.

Mas Sharafidin ainda subia sem esforço, flutuando como um papagaio de papel de um lado para o outro em busca do melhor lugar para pisar. As suas pernas finas bombeavam-no para cima e moviam-se sem parar.

A esta altitude a erva tinha em grande parte desaparecido, e encontraram-se numa paisagem desconsolada de lixo, seixos, rochas e cascalho solto. Pelo meio da tarde tinham alcançado a estrada oblonga da montanha que se estendia entre dois picos. Quando o chão se endireitou a marcha tornou-se mais fácil. A partir dali podiam ver o vale lá embaixo, a oitenta quilômetros de distância.

Descobriram um remendo de sombra sob uma rocha que aflorava à superfície. Quando se aproximaram ouviram um som sussurrante, e o chão tremia. Por trás de uma enorme pedra, escondido na sombra, havia um buraco. Embaixo, à distância de um braço, corria um riacho subterrâneo.

Matt estendeu o braço e sentiu a água gelada. Encheu o cantil, ergueu-o, e passou-o em volta.

- Bem podíamos parar aqui para almoçar - disse Susan.

Rudy disse algo a Sharafidin e ele respondeu. O seu tom tenso e o baixar dos olhos chamou a atenção de Matt.

- O que é?

- Perguntei-lhe onde é que estamos, e ele disse... para ser correto, ele disse: chegamos ao lugar aonde as pessoas não vão.

- Oh, sim? Bom, diga-lhe que vão ter de mudar o nome do lugar - zombou Van.

Afastou-se para investigar o riacho no local em que subia à superfície, a doze metros de distância. Subitamente ouviram-no gritar. Encontraram-no numa margem que era arenosa e se estendia num semicírculo em que a água tinha desgastado a rocha mais acima. O cantil de Van estava tombado ao lado dele. Aparentemente estivera enchendo-o. Emitia arquejos curtos e agudos, depois uma espécie de respiração asmática. Estava ajoelhado de um modo rígido e pouco natural e a outra mão apontava, movendo-se para cima e para baixo como um pistão.

O primeiro pensamento de Matt foi que ele tinha tido um ataque de coração.

- Você está bem? - gritou ele.

- Veja! - Van apontava para o chão entre as suas pernas de novo com aquele estranho movimento de pistão enquanto corriam para ele.

Susan chegou primeiro.

- Meu Deus.

Ali na areia, próximo do ribeiro, havia uma única pegada, profunda e anormalmente grande. Matt inclinou-se e olhou mais de perto. Parecia humana, mas era muito larga na planta do pé.

- Está bem, quem é que é maluco agora? - gritava Van, olhando em volta selvagemente para eles. - Eu disse, mas vocês não quiseram acreditar em mim.

Investigaram a área e descobriram outras pegadas e depois, estranhamente, algumas impressões de botas cardadas. Pareciam ser de tamanhos diferentes e mais claras, mais recentes.

Seguiram as pegadas das botas até onde foi possível, mas desapareciam em solo duro. Parecia que tinham sido feitas por três pessoas. Três pessoas, e antes delas, uma criatura de aspecto humano, um humanóide mas não humano. Pelo modo como os rastros das botas se amontoavam junto das pegadas, tornava-se evidente que os humanos tinham tentado segui-las.

- Vejam isto - disse Rudy. Segurava uma ponta de cigarro entre o polegar e o indicador. Cheirou-a. - É russa - disse ele.

Van estava ficando para trás. A sua respiração era difícil e a mochila parecia-lhe carregada de pedras. Quando se vestira de manhã, tinha assestado o coldre. Uma tira de couro não curtido segurava-lhe a arma de encontro à coxa direita, e estando apertada, quando se lhe entranhava na carne fazia-o sentir o poder da arma. Ele sabia que começara a sentir os efeitos da falta de oxigênio. Todos aqueles anos de fumante e todas aquelas substâncias e produtos químicos que tinha tomado vingavam-se agora: DMT, STP, drogas cujos nomes já nem sequer se recordava, como as siglas das estações de rádio da sua infância.

Conhecia os sintomas da doença da altitude: os ataques de tontura, não completamente desagradáveis mas misturados com pequenas picadas de parancíia e, mais que tudo, a sensação de pânico por ter que inspirar com força para encher os pulmões e não conseguir apanhar ar.

Estava ficando muito pior, iria ser insuportável.

Tentou controlar a mente, mas isso apenas o fazia sentir-se mais ansioso, e deixou-a vaguear por onde entendesse.

Então os russos tinham estado aqui. Devia ter suspeitado. Ele próprio nunca confiara neles, e tinha sido ele quem negociara com eles diretamente.

A transparência era um monte de mentiras. Isto era muito grande para ignorarem. Deram algumas informações, guardaram outras tantas, e no fim avançaram primeiro com a sua própria expedição.

Talvez os russos queiram que nós façamos o trabalho de levantar a caça enquanto ficam refastelados até avançarem para a matança, pensou ele. Eagleton também tinha as suas dúvidas, Van tinha-o percebido, mas era capaz de colocá-las de lado, baseando os seus argumentos no que ele chamava de "fator anárquico" em Moscou. Eagleton sempre fora bom no jogo, especialmente com coisas que não lhe pertenciam, como a vida das outras pessoas.

Mais para o fim da tarde Sharafidin acelerou o passo de súbito, e quando passaram uma curva viram que ia quase correndo. Gritaram, mas ele não abrandou o passo nem se voltou para trás. Tinha desaparecido por cima da crista de um espinhaço.

Apressaram-se atrás dele. Alcançando a crista e olhando por uma longa encosta abaixo, viram um campo e uma espécie de estrutura. Demorou um pouco para que o sentido daquilo se instalasse - era o acampamento dr Kellicut.

A localização não era má, pensou Matt. O lugar tinha uma vista clara em todas as direções e encabeçava um caminho fácil para baixo.

Para uma fuga rápida? Pouco provável. Kellicut não era um homem que levasse em consideração a fuga. Mais provavelmente teria sido atraído pela elegância do lugar de modo a que de noite pudesse olhar para lá das montanhas que tinha escalado e os sopés dos montes afastando-se embaixo. A vista iria reconfirmar este sentido de onipotência.

Chegaram à beira do acampamento. Dentro da salada de formas à frente mexia-se um regato, uma mancha de movimento. Van sentiu-o registrar-se na sua visão periférica mesmo antes de ter tomado plena consciência dele.

Deixou-se cair de cócoras, a mão direita batendo no coldre até que com um arco rápido sacou a arma, depois ergueu-se devagar, ainda fazendo pontaria. Focou os olhos, com os sentidos subitamente descontraídos e sentiu que o alívio o tomava.

Era apenas um pássaro, um falcão grande e castanho pendurado no topo de um poste, batendo as asas arqueadas. Endireitou-se.

- Merda - disse. - Não estava à espera daquilo.

O pássaro era um mau augúrio, pensou Susan. De súbito soube, com uma certeza que não podia explicar, que não iriam encontrar Kellicut no acampamento. Tinha um ar desabitado, desmazelado, abatido pela chuva e neve.

O lugar parecia espartano comparado com a visão do acampamento bem abastecido que tinham imaginado durante a subida. A estrutura principal era um abrigo com cerca de metro e vinte de altura e três metros e sessenta de comprido. Estendia-se a partir da face de uma rocha à altura do ombro. Seguia paralelo a uma parede de rochas com cerca de sessenta centímetros de altura, que servia de pára-vento.

A quinze metros de distância havia uma plataforma encaixada numa das poucas árvores atrofiadas que cresciam a esta altitude. Era uma despensa de alimentos. Na outra direção havia tudo o que sobrara da fogueira, e em outra ainda havia um poço improvisado com uma corda atada a um balde de metal caído por terra. Afastado num caminho lateral estava o que parecia ser uma latrina, um fosso com duas pedras por cima.

- Não é muito - disse Van.

Matt estava pensando o mesmo.

- Parece que ele já não vem aqui há algum tempo.

Susan avançou até ao abrigo e inclinou-se para entrar.

- Matt, venha aqui! - gritou ela.

Ele apressou-se, agachou-se e entrou. Mal havia espaço para os dois. Estava tudo em desordem. Um colchão de borracha verde tinha sido rasgado em todo o comprimento. Panelas e tachos jogados no chão, um deles amassado. Uma caneca de café estava feita em pedaços e uma lanterna de querosene partida. Um par de botas de Kellicut, dobradas e rijas de lama, apresentavam-se calmas numa prateleira de madeira improvisada.

Perturbada, Susan gatinhou para apanhar alguns papéis e dar-lhes uma olhadela. Estavam todos em branco. Ergueu os olhos para encontrar os de Matt.

- O que é que acha disto? O que é que pode ter feito isto?

- É difícil de dizer.

- Mas terá sido feito deliberadamente? Por algum... alguma coisa? Ou poderá ter acontecido naturalmente, uma tempestade ou algo assim ?

- Uma tempestade é pouco provável. Não podia ter feito isto.

- Ele apontou para os fragmentos espalhados da caneca de plástico azul. - Talvez um animal. - O tom era duvidoso. - Mas não está completamente despedaçado. Algumas destas coisas poderiam ter sido feitas pelo vento, ou o martelar de uma chuvada forte. Apesar de tudo, ter estado abandonado provavelmente há meses.

- Mas não o colchão de ar. Olha bem. Está em tiras. – Ele pegou-o. - Não parecem ser marcas de garras, mas foi feito de propósito. Este aqui - ele apontou um buraco - podia ser a marca de um dente. Qualquer coisa o rasgou.

- Se a cabana tivesse sido vandalizada por alguma criatura grande, porque é que não foi destruída? - Susan ergueu o braço e tocou no tronco por cima da cabeça, depois abanou-o. - Ainda sólida, diria mesmo tal qual como quando foi construída. Mas poderia ter sido derrubada em dois minutos se... se alguma coisa realmente o quisesse fazer.

Matt lançou-lhe um olhar perscrutador. Sabia que ela se estava agarrando a palhinhas.

- Vamos ver lá fora.

Saíram e levantaram-se. Era um alívio estar ao ar livre. O pequeno abrigo era claustrofóbico e tinha um cheiro estranho e pungente. Começaram a examinar o chão. Sem o mencionarem, andavam ambos à procura de pegadas. Não havia nenhuma. O solo era muito compacto.

Van, que tinha andado investigando os limites do acampamento, veio até eles.

- Não entendo - disse, pondo-se de joelhos para olhar dentro do abrigo. Enfiou um dedo entre dois dos troncos do teto. - Isto deve ter tido uma cobertura qualquer, um encerado ou qualquer coisa assim para evitar que a chuva entrasse. Mas não há nada de parecido por aqui em qualquer lugar. - O espírito da caça parecia reanimar Van. Ergueu a cabeça e olhou para cada um deles. - Deixem que lhes pergunte, já que conheciam Kellicut melhor do que eu.

-O que é?

- Diriam que ele era temerário? Assim, um tipo arrogante?

- O que é que quer dizer com isso? - perguntou Susan.

- Ou seja, vocês diriam que ele teria dificuldade em imaginar que qualquer coisa de mal lhe pudesse acontecer? Conhecem o gênero, o tipo de homem que nunca faz testamento?

- Não diria isso.

- Vamos, Susan - disse Matt - eu diria que ele acertou em cheio, cem por cento.

- Aonde é que quer chegar? - perguntou Susan, irritada pelos ares detetivescos de Van.

- Onde ele quer chegar é: porque é que Kellicut não nos deixou uma mensagem ?

- Talvez tenha deixado. Só porque não conseguimos encontrá-la não quer dizer que não tenha existido. Não consigo acreditar que ele tenha apenas ido embora sem deixar uma nota de qualquer tipo.

- Talvez não soubesse que ia embora - disse Van.

Susan percebeu logo aonde é que ele queria chegar, mas fez-se de estúpida.

- Isso quer dizer o quê?

- E se ele foi atacado e morto? Ou arrastado daqui? Ou apanhado numa emboscada? - Van gesticulou vagamente para as cristas de rocha acima deles.

- Não há sinais de luta - disse Susan. - E continuo a acreditar que teria tomado qualquer espécie de providências para as pessoas que viessem até aqui à procura dele. Não se esqueça, ele nos pediu para virmos.

- Talvez tenha deixado uma nota, ou talvez não - disse Van.

- Pode ter sido destruída. Ou roubada. Ou levada pelo vento - disse Matt. - Qualquer coisa pode ter acontecido.

- Ou talvez a tenha escondido - sugeriu Susan. - Isso seria mais do gênero dele.

Van resmungou.

- E já que estamos falando disso - retorquiu Matt - disse-nos que o conhecíamos melhor que você. Até que ponto é que o conhecia? Não tinha idéia que o conhecesse sequer.

- Muito mal. Os nossos caminhos cruzaram-se quando ele fez um pequeno trabalho para nós, e foi tudo.

Matt sabia que Van estava de novo escondendo qualquer coisa e tomou nota mentalmente para explorar o assunto no momento apropriado. Continuaram à procura de pegadas e pistas, dividindo o campo em quatro setores como fatias de torta e partindo do centro até à periferia, mas o terreno rochoso não revelou nada.

Matt juntou-se aos outros junto do que tinha sido a fogueira, agora um círculo quebrado de rochas que segurava um monte de cinzas espalhadas e ensopadas. Van ajoelhou-se e pegou um pedaço de carvão e esmagou-o entre o polegar e o indicador. - Há seis meses atrás, ainda fazia mais frio do que agora, por isso ele deveria ter querido manter o fogo acesso a qualquer custo. - Pegou um ramo meio queimado. - Parece ter sido apagado por água, por isso, a não ser que estivesse chovendo, o que é possível mas pouco provável, ele apagou o fogo deliberadamente.

- Isso quer dizer - disse Susan - que provavelmente foi a última coisa que ele fez por aqui. Um toque final de trabalho doméstico. Não parece que estivesse sendo atacado ou assustado. O que quer dizer que toda esta destruição que vimos foi feita depois de ele ter partido.

Matt escarafunchou por entre as cinzas, que se agarravam umas às outras em torrões molhados. - Diria que são velhas. Tudo depende do tempo que tem feito, mas não me parece que tenham acendido fogo aqui há pelo menos dois ou três meses, talvez mais.

- Concordo - disse Van. - Ele já saiu daqui há muito tempo. O que quer que lhe tenha acontecido, ele não voltou aqui.

- Provavelmente não voltou desde que enviou a encomenda para baixo com Sharafidin.

- Então o que é que fazemos agora? - perguntou Rudy.

- Vamos procurá-lo - respondeu Susan.

- Aposto uma coisa - disse Van, com uma profundidade de sentimentos que surpreendeu os outros. - Se o encontrarmos, encontraremos a eles.

A esta altitude, o Sol punha-se mais tarde do que no vale embaixo, mas a meia-luz não trazia qualquer calor. Depressa o Sol se escondeu por trás de nuvens baixas, passou a soprar um vento gelado e golfadas de nevoeiro começaram a rolar das encostas superiores como uma avalancha fantasma, envolvendo-os tão completamente que por vezes não conseguiam ver nada para além do acampamento.

Puseram os suprimentos de comida na plataforma da despensa, acenderam a fogueira, e envolveram-se nos sacos-cama enquanto esperavam que o jantar ficasse pronto.

Rudy servia café a todos. Van estava sentindo-se um pouco melhor, embora se cansasse facilmente e de vez em quando deitasse sangue do nariz, um pequeno fio que lhe escorria pelo lado do rosto. Ruminava enquanto fixava as fagulhas voando para o nevoeiro.

- Pode descobrir-se muito acerca de um homem só pela maneira como monta o acampamento - disse. - Mais ainda do que pela própria casa. A casa estava lá antes dele, mas um acampamento é algo que ele constrói por si mesmo no meio do nada, e deixa nele o seu selo.

- Por exemplo? - perguntou Matt.

- Por exemplo, vejam a latrina. Um par de toros sobre um fosso. Bastante rudimentar, vocês não acham? E a despensa, é muito básica. Diria que o Professor não é pessoa que gaste muito tempo pensando em comodidades.

- Diria que não está longe da verdade - disse Matt.

- E o abrigo também não é nada de espectacular. Porque é que ele não se deu ao trabalho de construir qualquer coisa mais consistente? Quero dizer, faz frio como a merda aqui em cima. Ou ele pensava que não ficaria aqui por muito tempo, ou não se preocupou com o assunto.

- Não contesto isso. Diria que ele não se preocupou - disse Matt.

- Depois, há o lugar em si. Se ele quisesse isolar-se, poderia ter encontrado uma caverna; deve haver dúzias delas por aqui. Mas ele escolhe o lugar menos discreto das redondezas. Não me parece muito inteligente.

Susan irritou-se.

- A não ser que ele quisesse ser visto.

- Talvez seja isso - disse Matt. - Anunciar a sua presença. Fazer com que eles viessem até ele.

- Ou talvez ele pensasse que eles saberiam de qualquer maneira onde é que ele estava - disse Susan. Van virou a cabeça e lançou-lhe um olhar perscrutador muito peculiar. Parecia estar tentando entender qualquer coisa. Susan continuou. - A pessoa que construiu este acampamento seguramente não tinha medo, e conhecendo Kellicut, diria que se encaixa.

- Mas ele não terá visto as pegadas? - perguntou Matt. – Nós as vimos, e nem sequer andávamos à procura delas. Faz pensar que isso o teria acalmado um pouco.

- Provavelmente, seria o contrário.

- Você acha que ele não teria medo.

- Claro.

- Então porque é que não se preocupou com o fato de eles poderem ter medo dele? Porquê tudo tão aberto? Porque não tentar surpreendê-los ?

- Não sei - disse Susan. - Provavelmente, e para começar, talvez ele não estivesse de acordo com essa teoria, com esse negócio do Neandertal bater em retirada para fugir do Homo sapiens. Tenho certeza que nunca se referiu a isso nas coisas que publicou. Parecia imaginá-los romanticamente como uma espécie de seres possivelmente superiores.

- Ou talvez haja qualquer coisa que nós não sabemos – continuou Matt. - Talvez ele tenha descoberto algo que o tenha convencido de que eles de alguma maneira não são assustadores.

Ficaram silenciosos à volta da fogueira. Rudy estava passando pelas brasas. Van ficou pensando durante um minuto, depois abanou a cabeça e olhou em volta outra vez.

- Há outra coisa. Vejam a maneira como foi montado. Não faz sentido. Aqui fica a fogueira e o poço fica ali longe. Porque é que não fez o fogo junto à água? Sem dúvida que seria mais conveniente. E o que é que faz a despensa ali embaixo? Pensem nisto. Para fazer uma refeição têm que andar de um lado para o outro. É muito...

- Espere aí - interrompeu Susan. E deu um salto excitada. - Você tem razão. Vejam aquilo. É um triângulo. Um triângulo perfeito, Matt.

O mesmo pensamento também o assaltou. Pôs-se de pé.

- Poderia ser isso?

- Depressa, arranje uma corda.

Rudy abriu os olhos. Matt vasculhava-lhe a mochila e apareceu com um baraço de corda. Segurou numa ponta e atirou a outra a Susan, que começou a medir a distância entre a fogueira e o poço.

- Vocês dois, importavam-se de me contar o seu pequeno segredo? - disse Van. Estava tentando soar descontraído, mas havia irritação na voz.

- É apenas uma possibilidade - disse Susan. - Não sei se estamos certos. - Ela mediu a corda e marcou-a enrolando-a no pulso; depois, ainda segurando-a com força, movimentou-se para medir a distância entre o poço e a despensa.

- É uma espécie de sinal que os paleontólogos usam, ou pelo menos Kellicut usava. Tornou-se uma espécie de ritual nas nossas escavações. Antes de tudo, percorríamos a área toda e a investigávamos, procurando lugares hipotéticos para escavar, vocês sabem, a julgar pelo desenvolvimento glacial, a sedimentação, a erosão, esse tipo de coisas, e onde pensávamos que poderíamos cavar, fazíamos um triângulo equilátero com pedras. Depois regressávamos e escavávamos o centro.

Agora ela estava medindo o terceiro lado, e Matt continuou as explicações.

- Kellicut, como macaco velho que é, sabia que tinha de encontrar um esconderijo seguro. Mas onde? As rochas não servem; poderiam ser deslocadas, ou algo as poderia ter retirado do lugar.

- Por isso usou o próprio acampamento? - perguntou Van.

- Eureka - disse Susan segurando a corda. - Um triângulo equilátero perfeito.

Ela cortou a linha da base ao meio, marcou-a com uma pedra, fez correr a corda como um marcador de altitude e deu os passos até ao centro exato, e enterrou o salto do sapato no lugar.

Matt foi buscar uma pá e começou a cavar. O solo estava bem batido e cada pazada retirava apenas umas poucas pedras e torrões de terra. Rudy ajudou, dando uma machadada no local.

- Não posso acreditar que ele tivesse feito isso - disse Matt. - Mesmo para ele é tortuoso demais.

Logo a seguir a pá bateu em qualquer coisa. Ele escavou à volta, soltou-a com a ponta da pá, meteu a mão e puxou uma caixa de metal. Sacudiu a sujeira da tampa. Teve que fazer esforço para abri-la. Dentro havia um grosso diário vermelho, sujo e com os cantos das folhas dobrados.

 

Eagleton não gostava do homem vestido de uniforme que estava ali diante de si, mas sabia que era o melhor na sua especialidade e precisava dele. Por isso, tinha concordado em dar ao coronel Kane um resumo das informações - ou seja, relativamente completo. Eagleton nunca dizia tudo a quem quer que fosse.

Como gesto de boa vontade, Eagleton atirou-lhe por cima da mesa o telegrama de quatro linhas enviado por Van. De qualquer modo, era uma mensagem inútil. O homem inclinou-se vindo das sombras para o ler e depois resmungou.

- Onde é que eu ia? - perguntou Eagleton.

- Kellicut.

- Ah!, sim, Kellicut. Bom, como ia dizendo, há anos que o financiamos. Umas coisitas aqui e ali, nada de especial. Nunca nos passou pela cabeça que nos retribuísse com benefícios e êxitos. Eram sempre coisas de baixa prioridade.

- Baixa prioridade? Isso surpreende-me. Especialmente agora.

Eagleton inclinou-se para trás na cadeira e deu uma tragada no cigarro à sua maneira elegante.

- Bom, a criptozoologia nunca foi nada de grandioso aqui no Instituto - explicou ele. - Temos tido um par de pessoas trabalhando nisso desde o princípio, mas mais como passatempo. Nada de sério, nada que chamasse a atenção dos rapazes graúdos, pelo menos até agora.

- Continue.

- Na maioria apenas conservamos os arquivos. Os encontros estranhos aqui e ali. Excertos de jornais, esse tipo de coisas. – Fez um gesto em direção a uma pilha de arquivos no parapeito da janela. - Na realidade, fizemos isso porque sabíamos que os Russos andavam fazendo o mesmo. Para não ficarmos atrás em nada; era esse o jogo na época. E eles estavam metidos nisso de verdade, Deus sabe porquê. Era difícil, então, descobrir alguma vantagem militar. Talvez fosse apenas como os nossos serviços secretos fazendo todo aquele trabalho com os golfinhos, um desses tempos idiotas em que alguém em algum lugar se interessa por investigação de ponta e a burocracia não pode ficar de fora.

Eagleton falou-lhe das anteriores expedições russas, começando por um explorador chamado Badzare Baradiyan em 1900 e mais tarde um Buryat Mongol, um professor conhecido apenas como Zhamtsarano. Foram presos e exilados pelos seus esforços, e os seus volumosos arquivos desapareceram em algum lugar nos intestinos da seção de Leninegrado do Instituto de Estudos Orientais na Academia das Ciências.

Em 1958 uma expedição aos Pamirs encabeçada por Boris Porshnev terminou num fracasso e coberta de ridículo a nível mundial, graças a algumas histórias sarcásticas nos tablóides britânicos judiciosamente divulgadas pelo M16.

- Nada de pessoal. Apenas a Guerra Fria - chasqueou.

Após a queda do muro de Berlim, enviara Van para estabelecer contato com Rinchen, o especialista que só foi encontrado numa qurt, na Mongólia. Rinchen levou Van até aos arquivos perdidos da Academia, classificados sob uma palavra mongol que rudimentarmente se traduz por "o ser invisível que existe".

- Uma mina de ouro. Setecentos e oitenta e um itens separados. Maior do que toda a nossa coleção. Conseguimos tudo o que queríamos. Metemos todas as informações no computador, Fizemos cruzamento de referências, e descobrimos o melhor lugar para procurar. Pronto! Uma combinação perfeita de informações e análise, trabalho marxista e tecnologia capitalista, se quiser.

- A nossa idéia, de fato, até foi minha, era esquecer a grande operação, a grelha de pesquisa, infravermelhos, e tudo isso. Como é que se pode usar um exército naquele terreno, naquelas condições, contra criaturas que sabem onde é que nós estamos antes de nós o sabermos? Seria melhor instalar uma presença contínua em pequena escala, algo que não atraísse demais as atenções. Enviar para ali alguém que soubesse de que é que anda à procura. Deixá-lo ficar uns meses, uns anos se necessário. Ficar conhecendo os nativos, ouvir todas as histórias.

- Foi assim que nos lembramos de Kellicut. Era a escolha natural, e claro que ele estava interessado. É muito egomaníaco. Tivemos apenas que lhe acenar com aquilo diante do nariz.

- Chegou a falar-lhe na Operação Aquiles?

Eagleton hesitou por uma fracção de segundo. Não tinha percebido que Kane sabia da Operação Aquiles, o mais secreto dos segredos, a intervenção divina que tinha dado o pontapé de saída para toda aquela malvada coisa. Jesus! Se ele sabia, então outros também sabiam.

- Não. Não, não falamos. Não vimos qualquer necessidade de... complicar a investigação dele.

- Compreendo.

- Nem sequer tínhamos certeza de que ele iria ter êxito, em caso algum. Pelo menos, não tão depressa. Não lhe demos muito no que respeita a apoio ou a material e alimentos. Ele também gosta das coisas à maneira dificil.

- No princípio recebemos uma ou duas mensagens, nada de importante. Depois o silêncio. Meses de silêncio. Era como se ele tivesse caído num buraco negro. Estávamos mesmo ficando preocupados. E então chegou-nos a encomenda.

- Dirigida aos Drs. Arnot e Mattison.

- Sim. Bom, isso é um mero aspecto técnico. Éramos nós quem estava financiando a operação.

- Operação? Ou expedição?

- Expedição.

- Compreendo - O homem em uniforme levantou-se. – Muito obrigado pelo relatório - disse Kane. - Claro que não irei dizer nada a ninguém. Se tivermos que intervir e saltar sobre eles, terei que preparar uma equipe e começar a treiná-la. Assim que estivermos prontos podemos movimentar-nos em quatro horas. Há mais alguma coisa que eu precise de saber?

- Não, nada mais.

O homem fez uma saudação brusca antes de sair. O gesto impressionou Eagleton como pouco franco. Mas pelo menos ele esqueceu-se de me fazer a pergunta-chave - para saber se os russos estavam, eles próprios, preparando uma expedição aos Pamirs. Poupou-me a mentira, pensou Eagleton com uma risada.

 

12 Fev.

Enevoado, frio.

Gastei o dia todo montando o acampamento.

Completamente exausto.

Tremendamente difícil construir um abrigo quando o material é precioso e escasso para fazer a cobertura. Abati quatro árvores e arrastei-as aqui para cima doze a quinze metros. O Sharafidin não ajuda muito. Tem boa vontade, pobre garoto, mas não faz idéia do que é preciso fazer. Tenho que lhe explicar tudo. Depois, acho que ele pensa que sou louco. E até pode ter razão. De qualquer modo, para estar de acordo com a minha nova domesticidade, estou começando este diário, cumprindo uma promessa que fiz a mim mesmo semanas atrás - que iria pegar na caneta no dia em que assentasse o acampamento, nem um momento depois. Já decidi onde deixarei o diário. Se vocês estão lendo isto, Susan e Matt, congratulo-me e sugiro que bebam um copo à sua esperteza e à minha. Se não encontrarem isto, ninguém mais o irá encontrar, e estas palavras nunca virão à luz. Talvez esteja igualmente certo... Estou muito cansado para continuar a escrever.

Amanhã retomarei o fio desta narrativa.

 

Matt lia o diário em voz alta contra um pano de fundo do ruído do vento. Sentados à volta da fogueira enquanto a noite se instalava e o nevoeiro refletia as sombras expulsas do fogo, fazendo-as dançar de roda como espíritos. Tinha proposto saltar algumas das entradas anteriores do diário e passar adiante para o fim, e ver se lançava alguma luz sobre o desaparecimento de Kellicut, mas nenhum dos outros aceitou isso. Em particular Susan; queria sentir a experiência sequencialmente, do modo que o autor a tinha vivido.

As entradas começavam num estilo tão elaborado quanto literário.

Kellicut descrevia os primeiros dias: a sua viagem montanha acima, os preparativos, e o equipamento que era surpreendentemente escasso. Fazia exposições sobre a flora e a fauna, completas com o nome latino para algumas das flores. escrevia acerca dos falcões, que "enfunam o peito e lhe circulavam por cima da cabeça como se lhes tivessem dito que eram abutres".

Havia alguns apartes mordazes e algumas citações obscuras. Depois o estilo começou a tornar-se mais imediato e concreto, como se o cansaço, a solidão e a aventura o estivessem despindo das suas pretensões.

De alguma maneira, Kellicut tinha conseguido um mapa rude das encostas superiores. Todos os dias se aventurava num percurso predeterminado que o levava a um setor diferente. A idéia era tornar-se visível, chamar a atenção para a sua presença fazendo barulho, atirando objetos, ou por outras palavras, agindo como um "ser humano normal odioso e saqueador", como ele dizia.

Hansel e Gretel ao contrário, murmurou Matt, conduzindo os pobres até si por uma pista de lixo. A estratégia era baseada em várias premissas fundamentais. A primeira, era que as criaturas, o que quer que pudessem ser, não iriam apenas descer durante uma noite e esmigalhar-lhe o crânio. Outra, era que elas próprias não estariam com um medo de morte e, portanto, não iriam se retirar para um canto qualquer ainda mais inacessível. E se alguma destas duas premissas estivesse errada?

Matt chegou a uma entrada crítica, datada de 27 de Fevereiro. Por esta altura, Kellicut estava deixando cair ocasionalmente o uso do pronome pessoal da primeira pessoa, um toque que parecia corresponder a uma mudança significativa: a sua força estava se esvaindo e o seu sentido de um objetivo geral estava desaparecendo. Matt leu em voz alta:

 

27 Fev.

Tive visitas a noite passada. Tenho certeza de que eram eles, sei que eram. Vi que alguma coisa tinha mudado no acampamento assim que acordei. Difícil dizer o quê. Em grande parte, um sexto sentido.

Também descobri um cheiro peculiar, difícil de descrever – pungente como peles de animais molhadas ou uma doninha atropelada numa estrada.

A única coisa que tinha sido mexida era a despensa, mas tinha sido feito de uma maneira pouco comum. Foram levados pedaços de restos de comida, um pedaço de lebre defumada e outras carnes. Foram retiradas do centro, exatamente como um comprador num supermercado.

A comida à volta - compota, açúcar, condimentos, etc. - não foi tocada. Não havia absolutamente qualquer chance de um animal se pôr de pé e atingir o centro por cima das outras coisas sem derrubar tudo.

Não vi pegadas em lugar nenhum, embora tivesse investigado a área circundante durante horas. As boas notícias é que eles não podem estar longe. Se podem dar comigo, também posso dar com eles. A curiosidade é uma motivação poderosa. Quem sabe, Talvez as minhas visões noturnas me estejam palitando os dentes e espiando-me neste exato momento.

Mais tarde, no mesmo dia: consegui chegar ao acampamento no começo do anoitecer. Exausto. Sem sorte. Não vi nada fora do comum. Não quero assustar Sharafidin.

 

28 Fev.

Andei à procura o dia todo, da madrugada ao crepúsculo.

Sem êxito. Sharafidim ficou contente por me ver. Penso que já me tinha dado por um dos raptados. Muito cansado para continuar a escrever.

 

1 Março. Nada

 

2 Março.

A cerca de dez quilômetros quadrante 4, sector SE comecei a encontrar caminhos. Primeiro pensei que estava apenas seguindo curvas naturais à volta das cristas. Depois reparei que havia arbustos gastos, o chão mais macio, e pedras partidas. Podiam ter sido os bodes, cabras ou mesmo ursos. Mas tenho esperanças de que os caminhos tenham sido feitos por eles. Agora tenho uma tática nova: marco uma posição ao longo de um caminho e fico à espera. A minha força está diminuindo - receio não estar comendo o suficiente.

 

4 Março.

Nada a relatar.

Sentei-me o dia todo junto ao que achava ser um dos caminhos principais e não vi nada a não ser um estranho animal parecido com um roedor. Não o consegui apanhar. Continuo a sentir-me mal.

 

5 Março.

Não posso continuar assim. Preciso fazer excursões mais longe e mais longas, mas duvido que tenha forças para mudar o acampamento ou reconstruí-lo. Vou tentar levar comigo alguma comida e fazer viagens de três a quatro dias. Tentei explicar isto a Shara, mas não tenho certeza que ele tenha compreendido. Nada de importante pode acontecer no que respeita a visões.

 

8 Março.

Não tenho certeza da data.

Estou perdendo as referências.

Passei noites em lugares marcados no meu mapa (quad. 4, setor 12F). Cobri muito terreno, mas vi pouco. Ainda me sinto tonto. Receio estar sofrendo de desidratação. Talvez privação de oxigênio. Duvido que seja a melhor maneira de continuar a busca.

 

14 Março.

Regressei após longa exploração. Nada digno de nota.

Preciso de tempo para me recuperar. Estou com medo.

 

15 Março. Fiquei no campo. Febre.

 

19 Março (aprox.).

Sinto-me um pouco melhor.

Posso sentar-me e beber caldo.

Sharafidin tem sido maravilhoso. Devo-lhe a vida. Espero recuperar as forças.

 

Passaram-se dias sem qualquer entrada. Havia apontamentos gatafunhados de tempos a tempos, visões estranhas, ataques de pânico.

Depois surgiam enormes passagens incoerentes, saltos lógicos súbitos, e até pedaços sem sentido. De vez em quando Matt tinha a sensação de que estava lendo as palavras de um louco. Depois Kellicut parecia ter feito uma descoberta-chave, uma ponte de qualquer espécie, embora não ficasse claro se era uma ponte natural, ou uma construção feita por um ser inteligente. Referia-se a ela apenas como "o elo" e não fornecia coordenadas, nem sequer para o mapa ausente.

Parecia ter perdido o equilíbrio de tal maneira que se esquecia de que estava escrevendo um manuscrito para outros. Agora era só para si próprio, o registro de uma mente em declínio e um ego ainda forte entornando-se nas páginas como sangue. Falava de novo de febre. Delirava que era o maior explorador da história, Balboa olhando para o oceano Pacífico, Galileu a espreitar pelo telescópio. Maior que qualquer deles.

Por esta altura todas as datas e sentido do tempo tinham desaparecido, e Kellicut referia-se a si próprio na terceira pessoa. Matt descobriu que estava lendo um fluxo de consciência crítico, palavras tropeçando com pedaços de descrições atormentadas. Mas o que é que aquilo queria dizer? Folheou as últimas páginas. Os olhos caíram sobre uma passagem no centro das páginas:

 

um sussurrar na fenda, o escuro e o vento... Onde está Cérbero?... Ele entra no longo túnel, os ombros tão raspados que o sangue saltou uma sinalização para a viagem de regresso se houver uma... escuro e mais escuro e de repente raios de luz que cegam... Conheço o segredo deles e o poder que possuem - o suficiente para derrotar a ceifeira, a verdadeira vida depois da vida, eterna... Eles sabem que eu sei, eles sabem que eu observo. Eles estão observando-me sem olharem... extraordinário... o vale da vida, um mundo inteiro, um universo, filhos de Deus nus e peludos. Trouxas embrulhadas no alto das árvores, casulos de traças gigantes e ossos espalhados embaixo... oh, que cemitério, e os olhos, os olhos estão sobre você.

 

Seguia-se uma página em branco e depois a entrada final. O tom era calmo, racional.

 

Acampamento base. 7 de Abril.

Vou voltar para eles. Vou dar-me a conhecer, apresentar-me.

 

Isto era o texto todo. A página seguinte estava em branco, como todas as restantes.

Matt fechou o diário devagar. O que ele tinha lido confirmava os seus receios e acelerou-lhe a adrenalina através do corpo. Seria excitação ou medo? Já não conseguia dizer. Tinha os sentimentos muito misturados. Então eles existiam, apesar de tudo! Ou seria isso, ou Kellicut estava completamente louco e delirante. Matt pensou no mundo exterior, tão penetrante, tão poderoso. Tantas pessoas, em todo o lado. Tudo - cidades, aeroportos, televisão, carros, computadores.

Isso era a realidade. Como podiam este anacronismo, estas pequenas águas estagnadas do passado, continuarem a existir? Uma enxurrada de ceticismo inundou-o como água rebentando diques.

Mas quando olhou para a fogueira e para as caras dos que estavam à volta dela, e quando sentiu a paisagem estéril, isolada, dos Pamirs e sentiu o diário nas mãos, uma convicção avassalou-o e estancou a inundação. Inexplicavelmente vinda não se sabe de onde, uma picada de paranóia: poderia esta coisa toda ser uma espécie de truque elaborado, uma armadilha?

Toda a gente ficou silenciosa por um momento. Susan levou a mão à testa. Sentia o peito pesado, como se tivesse dificuldade em respirar.

A exibição de emoções parecia quase teatral.

Matt abriu o livro de novo. Não havia mapa em lugar nenhum.

Fixou a última página em branco como se contivesse parte de um segredo, depois folheou a página para trás e olhou para a data da última entrada. Há dois meses atrás. E não tinha voltado desde então.

Quais eram as probabilidades de ainda estar vivo? De que não tivesse sido despedaçado membro por membro? Ou estivesse morto em algum lugar no fundo de uma ravina? Ou tivesse tido um colapso junto a uma pilha de rochas, tendo sucumbido ao frio e à fome? É uma hipótese remota de sobrevivência, pensou Matt.

- Bom, alguma coisa aconteceu. Ele viu alguma coisa – disse ele por fim.

- Ou alguma coisa o viu - disse Susan. - Que conversa era essa acerca de olhos?

- E um cemitério? - perguntou Rudy.

- Ele está claramente à beira de um colapso - disse Matt.

- Andou dias sozinho sem comida suficiente. Tem febre. Talvez lhe tenha afetado a mente. Talvez esteja delirando. - Ficou surpreso por dar consigo usando o presente. Não parecia apropriado.

- Ele não estava delirando - disse Van, falando por fim. – Ele sabia sobre o que é que estava escrevendo.

É estranho como parecemos todos estar sendo tão delicados quanto à escolha de palavras, pensou Susan, em bicos de pés à volta de cascas de ovo.

- Como é que sabe? - desafiou ela.

- É óbvio - respondeu Van, com uma condescendência tão evidente que se tornava deslocada, quase aborrecida. - Ele descobriu um caminho qualquer para atravessar para o mundo deles, um elo. Foi à procura deles e encontrou-os. Está tudo aí, uma passagem de qualquer espécie, talvez até um cemitério. De onde é que pensam que veio o crânio?

- E os olhos, que é que isso quer dizer? - perguntou Susan.

Van encolheu os ombros.

- O problema é que não há mapa - disse Matt. - Ele fala de um, até dá coordenadas, mas nós não o temos. Sem ele, como poderemos seguir-lhe a pista? Não temos a mínima idéia para onde raio ele terá ido, só sabemos que era para cima.

- Mesmo que tivéssemos o mapa - disse Susan - reparem que ele não deixou nenhuma posição desta... passagem, falha, o que quer que seja. Porque é que não a descreve?

Ela abanou a cabeça.

- É exasperante - disse Matt. - Porque é que ele persiste em ser tão danadamente enigmático? É típico, ele sempre teve um traço perverso.

Susan ficou calada por um momento e depois falou devagar, como se estivesse pensando alto.

- Portanto, parece que ele de fato os viu, ou pelo menos observou-os de alguma maneira antes de ter encontrado aquele crânio. Neste caso tinha muito mais provas concretas. Ele sabia que eles existiam; não estava apenas especulando sobre o assunto. Então, para quê ser tão misterioso? Porquê mandar apenas o crânio sem uma carta? Porque não comunicar a sua grande descoberta? Não o fazer corresponde a um risco muito grande. E se não tivesse conseguido passar a informação e se nós não tivéssemos vindo? Numa situação deste tipo ele não iria correr riscos. É muito importante para ele. Para a ciência. Ninguém, e especialmente ninguém com o ego dele, iria voluntariamente ficar silencioso sobre este assunto.

Um a um olharam para Van. Ele fixava o fogo, depois mexeu-se e limpou a cara com a manga. Quando falou, foi sem sentimentos ou remorsos.

- Havia uma nota, muito breve. - Ficou silencioso outra vez.

- Continue - disse Matt. Estava fervendo de raiva, mas conseguiu escondê-la.

- Não tem muito que se lhe diga, de fato.

- Continue - repetiu Matt com firmeza.

- Vinha com a encomenda. Uma página. Parece que tinha sido rasgada desse diário, o mesmo tipo de papel.

Matt folheou o livro aberto. Mesmo no fim havia os restos de uma página rasgada que faltava.

- E?

- Era dirigida a vocês os dois. Ele fazia uma breve descrição, ou pelo menos assim parecia. Era delirante como esta. Parecia dizer que ele os tinha encontrado e que ia voltar lá para dar uma segunda olhadela.

- Continue.

- Não podíamos ter certeza do que é que ele estava dizendo. Ele não referia essa parte sobre o "apresentar-se" ou que raio isso queira dizer. Penso que não o iria fazer numa carta. Soa melodramático demais.

- Continue.

- Não há muito mais a dizer. Claro que a analisamos, de trás para a frente: tinta, papel, psiquiatras, tudo o que se pode imaginar.

- Qual foi a conclusão?

- Não houve surpresas. Era genuína.

- Não houve surpresas! - encolerizou-se Matt. - Você quer dizer que tinha acabado de ser informado da existência de outro hominídeo neste planeta e diz que não houve surpresas?

- Bom, doutor, eu nunca fui o cético que você era – respondeu Van, com o sorriso escarninho de um rapazinho.

Matt sentiu vontade de lhe bater com força.

- Ele dizia mais alguma coisa? - insistiu Susan. - Mais qualquer coisa que não estivesse no diário?

- Nada de que me lembre.

- Um mapa?

- Jesus, não! Se tivesse um mapa, eu não precisaria de trazê-los comigo.

- Notas de campo?

- Não.

- Nada?

- Não havia mais informações. Ainda não é possível dizer o que ele viu, ou sequer se ele viu alguma coisa além do palavreado febril... a não ser, claro, que andou passeando por uma espécie qualquer de cemitério. No fim ele dizia que tínhamos que nos apressar. Pelo amor de Deus, venham o mais depressa possível; acho que estas eram as palavras exatas.

Matt e Susan trocaram olhares ao brilho do fogo. Parecia-se com a nota que Sharafidin tinha entregue.

- Está bem - disse Matt, com voz ameaçadora - agora diga-nos exatamente porque é que nos escondeu isso.

Van suspirou.

- Muito francamente, não nos pareceu que acreditassem nela.

- Não pareceu?

- Você acreditou - disse Susan.

- Ah!, sim, mas vejam, há anos que acredito. - Van deu uma gargalhada curta e resfolegou. - E depois havia outra coisa. Não tenho certeza que ele concordasse com o fato de eu também vir. Ele nunca confiou realmente em nós, entendem?

- Mas que merda! Nem entendo porquê - disse Matt.

Van ignorou-o.

- Ele nunca soube bem quais eram as nossas intenções.

- Você disse que ele nos escreveu - disse Susan. – Dizia alguma coisa especificamente em relação a você?

- Sim.

- O que é que ele dizia?

- Ele dizia: não confiem neles. Se puderem, venham sozinhos.

- É bastante específico - disse Matt.

Ficaram em silêncio. Matt ainda estava zangado, mas Van tinha alcançado de novo o equilíbrio e começava a sorrir de uma maneira peculiar, como um garoto apanhado fazendo bagunça.

Susan inclinou-se para Van.

- Diga-me; quais são exatamente os seus objetivos? Quem é a sua gente?

- Nós somos iguais a vocês, exatamente iguais – respondeu Van. - Somos exploradores científicos... mais ou menos.

Os nevoeiros estavam carregando agora e era tarde, mas sentiam-se muito excitados para dormir.

- Precisamos de Sharafidin - disse Matt de súbito. Olharam em volta. O rapaz tinha desaparecido. Espalharam-se pelo acampamento e depressa o encontraram afastado, sozinho, embrulhado no seu cobertor de lã. Talvez estivesse perturbado pela discussão entre eles, pensou Susan.

- Pergunte-lhe se ele alguma vez viu um mapa - disse Matt a Rudy.

Rudy traduziu a pergunta. O rapaz enrolou-se no cobertor, tremendo ligeiramente, e falou devagar.

Rudy virou-se para eles.

- Ele diz que havia um, mas o Professor andava sempre com ele.

- Onde é que ele o guardava quando saía do campo?

- Levava-o sempre com ele.

- Pergunte-lhe se o Professor costumava enterrar o livro cada vez que se afastava.

- Ele diz que nunca o viu enterrar o livro.

- Faz sentido - disse Matt. - Enterrou-o da última vez. Quando partiu, tinha algum motivo para pensar que poderia não regressar. E é óbvio que tinha outro medo: que alguma outra coisa pudesse chegar ao campo antes de nós.

Van resfolegou.

- Parece que estava certo das duas vezes.

 

À medida que o fogo diminuía, Matt despertou de um sono leve e viu Susan sentada acordada, abraçada aos joelhos e fixando as pequenas chamas.

Levantou-se, atirou alguns ramos quebrados para o fogo, e sentou-se ao lado dela. Ela sorriu, quase com tristeza.

- Não consegue dormir? - Ela acenou. - O diário está te preocupando? O diário, Kellicut, o fato de eles poderem ser reais, isto tudo.

Fez uma pausa de um segundo.

- Você.

- Por essa ordem?

Outro meio sorriso.

- Matt - disse ela solenemente -, já percebeu que podemos estar à beira da maior descoberta do mundo? Buracos negros, espaço sideral, o telescópio de Hubble, são todos grandes passos no nosso conhecimento do exterior. Isto é interior. É como o DNA, é sobre as nossas origens como espécie. Quem poderia ter imaginado? Tudo o que sempre temos teorizado pode ir pelos ares, e estou contente, porque será substituído pela verdade.

Ele inclinou-se e pegou-lhe na mão. Ela deixou-o segurá-la por um momento, depois deu-lhe um aperto e retirou-a.

- Vou entrar - disse ela. Despiu-se e escorregou para dentro do saco-cama.

Matt não conseguia voltar a adormecer de imediato. Ouvia os outros respirando e alguns sons variados vindos da escuridão. Por fim caiu num dormitar incerto, sonhando e depois quase acordando. Imaginava uma figura enorme e estranha andando pelo acampamento. Passava furtivamente junto da despensa, inclinando-se para retirar alguns pedaços de carne do centro. Esquadrinhou-lhes as mochilas e espreitou-os. Por uma ou duas vezes quase ficou consciente. Os nevoeiros corriam por cima das brasas até que, por fim, o fogo morreu completamente, a escuridão dominou, e caiu num sono profundo.

Na manhã seguinte, os nevoeiros tinham desaparecido e o dia estava limpo. Acordaram todos ao mesmo tempo, como se um encantamento mágico tivesse sido levantado.

Quando se preparavam para o café da manhã repararam que Sharafidin tinha ido embora. Procuraram por todo o lado, mas faltavam o cobertor e os poucos abastecimentos.

- Eu já sabia - disse Van. Estava furioso. - Ele estava assustado, está bem. Eu já sabia quando fomos até junto dele na noite passada. Sabia que ia fugir.

- Não sei - disse Rudy duvidoso, coçando a cabeça.

- Aposto que teve que ver com aquele maldito diário – continuou Van.

- Ele sabia mais do que disse. Estava escondendo qualquer coisa.

Susan estava acocorada no lugar em que Sharafidin se tinha deitado. Olhava para o chão, depois baixou a mão, apanhou qualquer coisa, e foi até junto de Matt, parecendo ter ficado sem fôlego.

- Ele não fugiu. - Ela abriu o punho direito; na mão tinha o minúsculo Alcorão. A sua superfície de couro usado brilhava sob o sol matinal.

- E agora o que é que fazemos? - perguntou Rudy.

Ninguém respondeu. Tinham ficado silenciosos depois de uma manhã inteira falando e a discutir sobre o desaparecimento de Sharafidin.

Primeiro cada um deles tinha pensado no assunto por si. Matt estava calado, Rudy atarefava-se com a limpeza depois do café da manhã, Van passeava de um lado para o outro, ostensivamente não perturbado, e Susan escreveu uma longa mensagem para Kellicut, que enterrou na "caixa do correio", como Matt lhe chamava, para a hipótese remota de que ele regressasse.

Tinham revistado o acampamento em busca de sinais de uma luta ou o que eufemisticamente começaram a chamar de "visitantes", mas não encontraram nada. Matt tinha verificado as mochilas. Duas estavam meio de esguelha, deitadas de lado, mas era difícil recordar a sua disposição exata na noite anterior. Não podia dizer se tinham sido mexidas ou não. Na despensa parecia estar tudo em ordem. Ele não contou o seu pesadelo a ninguém.

- Ouçam, não estou dizendo que ele seja um covarde ou qualquer coisa assim - disse Van. - Trouxe-nos até aqui. Talvez que na sua cabeça tivesse cumprido a sua parte no negócio, por isso não tinha motivo para continuar por aqui.

Susan virou-se para ele zangada.

- Ele não ia levantar-se e partir sem dizer uma palavra. Você não sabe o que está dizendo.

Matt tentou diminuir a tensão.

- O que nós fazemos é continuar e depressa. De qualquer maneira, daqui em diante ficaríamos por nossa conta. Sharafidin não poderia ter nos ajudado mais. Não poderia ter nos levado mais longe do que trouxe.

- E como é que sabemos para que lado ir? - perguntou Rudy.

- Continuamos apenas subindo - respondeu Matt, com uma confiança que não sentia. - Não temos um mapa, mas o diário diz-nos grosseiramente o que devemos procurar: primeiro uma ravina, depois uma espécie qualquer de ponte, depois uma fenda. Descobrir a fenda vai ser o mais difícil.

Começaram a escalar a encosta na parte mais distante do acampamento. A meio caminho de um ressalto Susan virou-se e olhou para baixo. Podia ver o caminho que tinham feito, o ponto em que Van tinha se agachado com a arma. Isso tinha sido há menos de vinte e quatro horas, pensou ela, mas já pareciam dias. O diário de Kellicut tinha mudado tudo.

A existência de um bando de relíquias de hominídeos estava parecendo cada vez mais provável. Daqui de cima o abrigo dele parecia insignificante, era mais uma pilha de ramos e pedras contra uma extensão ilimitada de rochas e céu.

O sol brilhava, mas quando o vento se mexia, o frio cortava até aos ossos. Eles caminhavam em fila indiana, cuidadosamente. O esforço de cada passo era enorme, como se a altitude lhes tivesse selado os pés com pesos.

Susan estava confusa acerca de Sharafidin. O que é que lhe podia ter acontecido? Van estava enganado; ele não iria apenas desaparecer. Ela tinha certeza. Claro que havia outra explicação, mas era muito sombria para se pensar nela e tentou pô-la de parte.

Contornaram uma aresta e depararam com uma paisagem espetacular em frente. Havia uma ravina, depois uma longa encosta de rocha inclinada com remendos de neve incrustados nas sombras; erguendo-se diante dela como uma onda gelada havia outro cume, e à distância ainda outro. No topo do mais afastado brilhava como um diamante uma crista de neve. O mundo parecia continuar sempre, até tão longe quanto a vista deles podia alcançar.

Matt sentiu-se infinitamente pequeno. De uma maneira bastante estranha, a sensação não era opressiva mas de euforia, até mesmo libertadora na sua primeira onda. Mas o sentimento dissipou-se rapidamente e depressa deu lugar à tristeza, nascida da tomada de consciência dramática de que em todo aquele espaço e majestade as perspectivas de encontrarem o que andavam à procura eram uma possibilidade remota.

Assim que chegaram à coroa da crista, Susan apanhou-o e caminharam lado a lado. O cabelo dela, escondido debaixo de um boné, caía em franjas que lhe roçavam a cara.

- Eis ali o palheiro. Só gostaria de saber onde é que está a agulha - disse ela, mostrando a paisagem à frente com o queixo.

- Deixe-me perguntar uma coisa.

- Claro.

- Neste momento provavelmente podíamos dar meia volta e voltar para trás, certo? Quero dizer, provavelmente a partir daqui podíamos achar o caminho de volta.

- Provavelmente.

- Mas daqui a três ou quatro dias, talvez já não possamos.

- Certo.

- Então?

- Então qual é a sua idéia?

- Talvez devêssemos pensar no assunto outra vez para chegarmos a uma conclusão sobre o que é que queremos fazer.

- Susan, você já sabe o que é que queremos fazer.

- Como é que você sabe?

- Porque te conheço.

Claro que ele estava certo. Não havia nada que a impedisse de continuar, e se alguém sugerisse que voltassem para trás, ela lutaria como uma tigresa. Não era por acaso que era neta de uma aventureira húngara que atravessara o Canadá. Mas agradava-lhe a idéia de falar sobre o assunto e descobrir força num consenso.

- E os outros? Talvez devessem dar a sua opinião?

- Estás brincando? Olhe para Van. Atropelaria a avó só para poder prosseguir. Mal pode respirar, mas não vai desistir.

- E Rudy?

- É mais difícil de dizer, mas acho que foi contratado pela duração que for preciso. E quando for a hora, ele fará o que queremos que faça.

Susan suspirou com um sorriso débil.

- Ótimo - disse ela. - Exatamente da maneira que eu sempre imaginei que a minha vida iria acabar. Vagueando à volta da porta do céu, à procura do professor distraído e do Abominável Homem das Neves.

Quando atingiram o topo da coroa, o espectáculo fê-los parar. Um bando de pássaros de prata negra contornou-os, rápido e baixo, deixando atrás de si um grito tão fino como um rastro de vapor. Era estonteante ser atirado para o céu com as nuvens esfarrapando-se e mergulhando sob eles.

Matt deixou cair a mochila.

- Mãezinha, consegui! Cheguei ao topo do mundo! - gritou ele, esticando os dois braços na sua melhor imitação de James Cagney.

Quando Susan riu, um riso cheio, Matt deu meia volta, agarrou-a por um braço, e puxou-a de encontro a si. Ela ergueu o rosto e ele beijou-a, rapidamente. Os olhos dela estavam abertos. Ele beijou-lhe a face. Ela moveu a cabeça ligeiramente para trás, de volta aos lábios dele, e desta vez beijou-o longa e profundamente, depois aninhou-se dentro dos braços.

Rudy apareceu por trás deles, cruzou os braços e fez uma pequena dança, e apressou-se para alcançá-los.

- Ah! eu sabia. Apostava. Tenho um faro para estas coisas.

Deixou cair a mochila e azafamou-se por ali, com uma felicidade genuína por causa deles.

- Rudy - disse Susan carinhosamente. - Eis uma expressão dos anos noventa: relax.

- Relax? Relax? O que é que isso quer dizer? - Estava deliciado.

- Acalme-se. Lembra? É como "acalme-se", só que é mais forte.

- Relax. Que duro.

Sentaram-se e esperaram por Van. Matt e Susan estavam calados e de repente incomodados, mas Rudy mantinha uma tagarelice constante.

Tiveram que esperar por muito tempo, e quando Van por fim denodadamente escalou a encosta estava arfando muito. Tinha a cara pálida e a cabeça atordoada pelo esforço de recuperar a respiração.

Deixou-se cair ao lado deles e embalou a cabeça com as mãos.

- Pensei que todos aqueles cigarros o tinham preparado para se governar sem oxigênio - disse Matt.

Van olhou para ele, mas estava muito esbaforido para responder.

Decidiram dividir o peso do carregamento de Van, e Matt começou a descarregar-lhe a mochila. Descobriu o NOMAD.

- Bom, o que é que temos aqui? - disse ele, erguendo-o alto.

Susan pegou o aparelho, examinando-o.

- Imaginem - disse ela. - Até já vi um destes antes. É para transmissão via satélite, não é?

- Você usou isto? - Matt tinha dificuldade em conter a cólera.

Mais uma vez Van os estava tomando por idiotas.

Van abanou a cabeça, abriu a boca para falar, depois baixou os olhos, buscando refúgio na fragilidade.

- Não é má idéia ter uma ligação por satélite - disse Matt.

- Mas não sei porque é que manteve isso em segredo. E é pesado demais. Não podemos levá-lo conosco mais longe. - Colocou-o numa saliência, descarregou outros apetrechos e colocou-os ao lado, formando um monte com aquilo, e depois fez uma pilha de pedras tapando tudo. - Sempre quis enterrar um computador - disse ele.

Antes de cobri-lo completamente, Matt verificou a ligação.

O botão estava ligado na posição OFF. Não tinha meio de saber que isto significava que o transmissor continuava a enviar um sinal automático de pista, e Van não o avisou.

Matt retirou uma pá do saco e acrescentou-a à pilha. Por fim, Van conseguiu falar.

- Achei que ia precisar dela para abrir a minha sepultura - disse.

- Besteira. Ainda vai enterrar a todos nós - disse Susan. Van sabia que estava em mau estado. Sentia-se sufocar inexoravelmente. De vez em quando uma onda de pânico fazia-lhe estremecer o corpo; sentia-a chegar, depois crescer e correr através de si como uma corrente elétrica.

Estava suando e cheio de frio ao mesmo tempo. Nos Barbados vira uma vez pescarem do oceano um homem moribundo. O mergulhador fez um esforço. Por fim ele ficou deitado na praia por um momento e depois expirou, olhando diretamente para o Sol de olhos abertos.

O homem, soube ele depois, era um experiente mergulhador de profundidade que tinha mergulhado centenas de vezes, descido a centenas de metros, e explorado cavernas submarinas sem conta. Ninguém sabia o que tinha acontecido desta vez, apenas a dezoito metros de profundidade.

Um colega mergulhador teorizava que tinha sido atacado por um pânico incontrolável e de repente correu para a superfície.

Agora Van podia entender aquilo, só que não havia superfície para onde se dirigir. Tinha baixado as defesas, e por isso penetravam nele toda a espécie de pensamentos loucos. Sabia isto a um nível qualquer, mas o conhecimento não diminuía o poder que tinham sobre ele. Sentia, com uma certeza difícil de explicar, que os outros estavam contra ele. Estavam intencionalmente marcando uma passada rigorosa para que ele se cansasse e ficasse para trás. O rádio-computador era um disparate de que iriam se arrepender. Que levem tudo. Não faziam idéia, nem tinham o menor vislumbre, do que estava acontecendo. Ele podia ver o que é que eles estavam preparando. Não iam conseguir enganá-lo.

Mas dêem-me tempo, pensou. Sei como equilibrar o resultado.

Nessa noite acamparam na base de uma ravina protegida dos dois lados por rochas que tinham caído. Não havia vento, mas o frio ainda penetrava como fragmentos de vidro.

A cabeça de Van latejava e sentiu outra onda de pânico avassalá-lo. Por um motivo qualquer começou a pensar no pai. "A doença é uma fraqueza e a fraqueza é uma doença", o pai costumava dizer.

Mais tarde, quando estava tentando adormecer, teve um ataque de respiração Cheyne-Stokes por causa da altitude. No momento em que deslizava da consciência para o sono, ficou com a respiração cortada. Quando o centro de emergência do cérebro passou a comandar, o corpo foi atormentado por estremecimentos enquanto tentava absorver grandes golfadas de ar e acordou em pânico, encharcado em suor.

Aconteceu-lhe três vezes durante a noite.

Todos marcharam na manhã seguinte, e pela tardinha a mente de Matt começou a vaguear outra vez. Era como ter um devaneio, apenas mais demorado e um pouco mais intenso, e a linha entre fantasia e realidade tornava-se mais fluida.

- Matt, Matt!

Susan chamava-o por trás. Ele virou-se lentamente, enquanto andava, ainda no meio do nevoeiro.

- Olhe, olhe para baixo.

Ele olhou. Não viu nada fora do normal - rochas e cascalho espalhados por ali, as biqueiras das botas de alpinista a moverem-se inexoravelmente para a frente, uma após a outra, no meio da poeira.

- Olhe em volta! Não está vendo? - A voz de Susan estava mais excitada do que alarmada. Movia-se indolentemente pelo ar fino e parecia vir de muito longe.

De súbito percebeu: Estava num caminho! Era rudimentar, e aqui e além desaparecia nas manchas de poeira, mas era inegavelmente o esboço de uma espécie de trilha. Inclinou-se. Não havia pegadas nítidas, apenas um escurecimento da terra. Mais adiante, onde o terreno se elevava ligeiramente, o caminho mantinha-se batido, curvando ligeiramente para evitar uma superfície rochosa.

Susan alcançou-o, respirando com dificuldade.

- O que você acha? - perguntou.

- É difícil de dizer. Não há nenhuma pegada.

- Pode ter sido feito por um animal qualquer, como os bodes da montanha. Por outro lado, não há excrementos.

- É estranho, o modo como parece começar vindo de lugar nenhum.

- É tal qual Kellicut escreveu - disse Susan.

Rudy juntou-se a eles, e após um longo momento, chegou Van também. Rudy estava entusiasmado com a descoberta, mas Van aceitou-a sem grande felicidade.

- Bom - disse, com um suspiro de resignação e exaustão - pelo menos sabemos que agora estamos no quintal deles.

 

Nessa noite montaram o acampamento num corte oval na encosta rochosa. Tinha sido um dia duro. A trilha alargara-se um pouco e tornara-se ais distinta. Depois de quatro horas cruzara-se com outra trilha, e depois com uma terceira. Matt tinha ficado durante longos minutos em cada cruzamento, tentando decidir-se. Por fim, havia tantos caminhos novos que desistiram e simplesmente tentaram continuar a andar mais ou menos na mesma direção.

O céu escureceu rapidamente. Rudy, que parecia menos cansado que os outros, encarregou-se de tratar do jantar, massa pré-cozida e vegetais desidratados. Levou meia hora apanhando pequenos pedaços de madeira para acender uma pequena fogueira.

- É melhor fazer uma fogueira pequena, juntem-se, e aqueçam-se - disse ele.

Matt e Susan não tinham se tocado desde o beijo na ravina, na manhã anterior. Não que Matt não tivesse pensado nisso. Fantasias de sexo com ela tinham continuado a entrar e sair-lhe da cabeça, mas o cansaço, a fome e o frio tinham intervindo. Agora Van e Rudy estavam dormindo nos seus sacos, de costas para o fogo. Não havia qualquer som a não ser o gemido distante do vento. Até o fogo estava silencioso a não ser pelo assobiar das brasas ardendo.

Silenciosamente, Matt abriu o seu saco-cama. Sentiu no ombro o ar frio, mas não estava gelado. Esticou-se, procurou o fecho do saco de Susan, e abriu-o devagarinho. A sua mão moveu-se lá dentro. Levou o seu tempo, a mexer-se para cima e para baixo, depois mais profundamente, até que sentiu a parede do corpo dela. Quando os dedos lhe tocaram na camisola, fez pressão até sentir a carne por debaixo, e depois aproximou-se.

Ela estava acordada, ele sabia. A respiração vinha-lhe em pequenas explosões irregulares, mas ela não se mexeu. Acariciou-lhe o estômago através da camisola, com pequenos e lentos movimentos circulares, subiu até o seio direito, segurou-o com a mão em concha, depois fez a mão descer até ao umbigo. Sentiu uma pequena pausa na respiração, mas continuava sem se mexer.

Ele moveu a mão de novo para cima e sentiu-lhe os mamilos endurecer sob os seus dedos. Devagar baixou a mão e fê-la escorregar até ao monte de pêlos púbicos. Nesse momento ela mudou de posição e virou-se para ele. Com os braços estendidos, puxou-o para si, e ele sentiu as arestas duras do desejo a varrê-lo por dentro.

Depois ouviu-se o grito, tão alto e desumano que inundou Matt com adrenalina. Retirou a mão do saco de Susan e saltou pondo-se de pé, mesmo ainda antes de ter percebido qual era a origem. Uma sombra andava vagueando por ali, Van dentro do saco-cama, rolando de um lado para o outro, gritando.

- O que é que foi? O que é que está acontecendo? - Matt acorreu e segurou-o no lugar com o joelho em terra. Quando abriu o saco, Van rebolou para fora agarrado ao estômago, numa trouxa contorcendo-se. Depois Matt ouviu outro som, um grunhido baixo, vindo de Rudy.

- Veneno - arquejou Van. - Fomos envenenados.

- Depressa, beba isto! - Era Susan, levando um cantil aos lábios de Van. Ele deu um gole.

- Outro - ordenou ela. - Agora já.

Ela foi até Rudy e fez o mesmo, depois deu alguma água a Matt e bebeu ela própria. Devagar, Rudy e Van sentiram as dores a retroceder.

- Não é perigoso - disse Susan. - São os legumes. Não puseram água suficiente. Não foram suficientemente hidratados, por isso quando os comemos, e bebemos o chá, começaram a inchar aqui dentro.

- Jesus - disse Matt. Ele levantou-se e foi espreitar Rudy, que conseguira fazer um sorriso bovino por entre os gemidos.

Na manhã seguinte, com o Sol escondido por trás de um grosso cobertor de nuvens, o ar ainda estava mais frio. Vestiram-se com camadas de fibra de polipropileno por debaixo dos anoraques.

Já estavam marchando há três horas quando chegaram à ravina, escondida da vista e abaixo de uma inclinação. A princípio, parecia apenas uma depressão diante da face da rocha que se erguia íngreme no outro lado, e Matt tropeçou, quase caindo nela.

- Parece que tem dez metros de largura - disse Matt.

- Muito comprido para as cordas, mesmo que conseguíssemos prendê-las no outro lado - disse Van.

- Acham que é a ravina de Kellicut? - perguntou Susan.

- É difícil de dizer - respondeu Matt. - Pode haver dúzias delas aqui em cima. No entanto, ele apenas menciona uma em todas os seus deslocamentos, talvez a tenhamos encontrado.

A marcha era mais difícil e lenta agora que estavam fora dos caminhos. Matt conduziu-os para cima e para baixo de prateleiras rochosas e à volta de amontoados de rochas. Muito rapidamente, apesar do frio, estavam suando e despiram alguns dos abafos. Por várias vezes Van desequilibrou-se e caiu, praguejando. Enquanto andavam não perdiam de vista a ravina.

Depois de duas horas, descansaram para almoço: carne seca, empurrada com chá quente e Fraco.

Van sentava-se imóvel, como se um único gesto fosse um desperdício de movimento.

- Já repararam - disse ele - que aqui em cima o prazer é apenas o alívio da privação total, um ligeiro alívio da dor?

- Oh, não acredito - Susan riu, lançando um olhar rápido a Matt.

- Tenho que ir mijar - disse Rudy, e afastou-se.

Uns minutos mais tarde ouviram-no gritar, e apareceu por trás de um canto da uma rocha, com as calças desabotoadas, agitando os dois braços como se estivesse dando saltos numa corrida de sacos. Foram acudir-lhe, e quando chegaram perto ele começou a apontar freneticamente. À frente, ao virar da curva, tão perto que a poderiam ter alcançado com uma pedrada, havia uma estranha estrutura estendendo-se como um grosso elástico atravessando a largura total da ravina.

- É isto! - gritou Susan. - Como é que ele lhe chamou? "Um elo para outro mundo".

- Uma ponte - disse Matt.

Correram para mais perto, depois instintivamente desaceleraram e continuaram com cautela, passo a passo, olhando em volta em busca de sinais de vida.

O olhal era rude, com cerca de cem metros de comprido, construído com três ramos e folhas tecidas juntos, mantidos no lugar por gavinhas delgadas. Era um cilindro pendente com cerca de sessenta centímetros de largura, precariamente descaído no meio e depois erguendo-se para uma plataforma rochosa no outro lado, onde estava atado a postes pregados no chão.

Matt e Susan ficaram boquiabertos de admiração, mas Van era prático.

- Não é exatamente a ponte de Brooklyn - disse ele.

- Como é que se atravessa essa coisa?

- Rasteja-se - disse Matt.

- Mas será que aguenta?

- Só há uma maneira de descobrir.

- De fato, há quatro maneiras de o descobrir, porque somos quatro.

- Quem é o primeiro? - perguntou Rudy.

- Podíamos tirar à sorte - disse Van.

- Isto não é um jogo - disse Matt.

Susan estava ocupada observando o entrançado dos caules da ligação no lado mais próximo, o sobrolho franzido pela concentração. - Matt, olhe aqui. Nunca vimos nada como isto antes. Ultrapassa tudo o que sabemos sobre cultura musteriana. Vê a complexidade destes nós.

Matt agachou-se junto dela.

- Não sei - disse ele. - Se usavam cordas ou gavinhas como estas há milhares de anos atrás, o material teria se decomposto há muito. Nunca teria sobrevivido para que nós o encontrássemos.

Ela levantou-se de repente.

- Eu vou primeiro. - As palavras tinham um com decisivo. - Primeiro porque sou a mais leve e depois porque sou eu quem mais anseia por atravessar isto.

Ninguém discutiu com ela.

Retiraram as mochilas e seleccionaram algumas coisas para aliviar o peso. Por entre as peças que decidiram deixar ficar para trás, guardadas numa pequena fenda, havia latas de comida e duas pequenas tendas. Cobriram a fenda com pedras para ocultar o esconderijo.

Susan enfiou o blusão na mochila e apertou as correias à volta das pernas e dos braços para conseguir uma maior flexibilidade. Atou uma corda à volta da cintura e, inclinando-se sobre a ravina, lançou-a à volta do lado de baixo do vão da ponte, e ligou-a com uma folga.

Atou outra corda ao cinto e atirou a ponta solta a Matt, que a amarrou a uma rocha.

- Seja o que Deus quiser - disse ela com um sorriso débil. - Lembre-se, se alguma coisa correr mal, quero co-autoria no ensaio.

- Está dada - respondeu Matt.

- Quando eu estiver no meio, grite-me para eu desatar a corda para que a recupere. Não é suficientemente comprida para ir até o fim.

Ela começou cautelosamente, abraçando o cilindro de ramos e detritos, levantando-se e rastejando por uns centímetros, depois deixando os braços cair para balançar a corda de segurança uns centímetros mais à frente, como um madeireiro subindo o tronco de uma árvore. O avanço era lento.

Quando Susan tinha avançado uns três metros, a engenhoca começou a balançar num arco cada vez mais aberto como um pêndulo, e ela parou e agarrou-se com força até que o arco diminuiu. Depois mudou de movimentos. Agitava-se suavemente de trás para a frente, mas aguentou. Uma vez olhou para baixo; fechou os olhos depressa e descansou por um momento.

Já a mais de meio do caminho ganhou velocidade e descobriu o ritmo certo. Matt estava de olho na corda e quando esta ficou esticada gritou-lhe. Sem olhar para trás, ela alcançou o cinto e desatou-a.

A ponta caiu rápida no vazio e inesperadamente Matt sentiu um sacão forte enquanto a puxava para si. Quando Susan chegou ao outro lado, levantou-se e fez o V da vitória com os dedos.

Seguiu-se Rudy e depois Van. A meio do caminho, Van pegou a corda de segurança e atirou-a para Susan. Teve que fazer quatro tentativas para alcançá-la.

Sendo o último, Matt estava por conta própria. Não havia uma corda para segurá-lo.

A um quarto do caminho, sentiu uma onda de vertigem inundá-lo. Parou e agarrou-se aos ramos. Estava frio, e o vento chicoteava-lhe os dedos. Podia ouvir os gritos dos pássaros - por cima, ou por baixo? Descansou, depois convocou todas as suas forças e prosseguiu. À medida que se aproximava do fim, sentiu o sangue correndo através de si e uma tontura que lhe apanhou o corpo todo.

- Foi canja, hem? - comentou Van.

Sentaram-se durante um bom tempo. Por fim Susan falou.

- Quem quer que tenha feito esta coisa, seria humano?

- Como é que a atravessaram da primeira vez? - perguntou Matt.

- Imaginem o esforço envolvido - disse Van.

- E porquê? O que os terá levado a fazer isto? – perguntou Susan.

- Alguma coisa os motiva - disse Matt. - Alguma coisa os está fazendo abandonar o seu precioso retiro. Mas o quê?

- Comércio? Trocar comida por peles de animais? - sugeriu Van.

- Duvido - respondeu Susan. - Isso não chega para ultrapassar séculos de esconderijo e exílio auto-imposto.

- Andam à procura de alguma coisa.

Matt ajoelhou-se junto à ponte, espreitou para debaixo dela e assobiou. Chamou os outros e apontou para um poste erguendo-se de uma pilha de rochas que serviam de suporte ao contraforte da ponte.

- Vejam ali. É uma alavanca. Se baterem naquilo, as rochas soltam-se e caem e o raio da engenhoca despenha-se toda na ravina.

- Como um mecanismo de ejeção - acrescentou Van.Quem quer que tenha construído isto queria ser capaz de destrui-la num instante.

- Portanto, eles querem ter acesso ao mundo exterior, mas também têm medo dele - disse Susan. - É contraditório.

- Vamos tentar esclarecer o assunto - continuou Matt. – Imaginem por um momento que eles estão conscientes da nossa presença - e penso que é uma idéia aceitável. Porque é que não a destruíram para nos manterem à distância?

Ficaram calados durante um momento. Por fim Van disse.

- Só há uma explicação. Eles querem que nós os visitemos.

Olhando para baixo, para o chão, a três metros de distância, Rudy fez a sua segunda descoberta da tarde.

- E não somos os únicos disse ele, apontando para pegadas de botas cardadas no chão. - Vejam, mais rastos de botas.

Matt estava atravessando uma pequena plataforma de cascalho espalhado por ali como lascas de gesso, quando reparou no primeiro floco de neve. Espantou-o que fosse invulgarmente grande enquanto cavalgava as correntes de ar até ao chão. Bateu numa rocha a seus pés e agarrou-se ali como um tufo de algodão doce. Depois viu outro.

Tentou não sucumbir ao medo, mas tinha que o empurrar conscientemente para um canto da sua mente. Talvez os flocos de neve fossem apenas uma ocorrência de acaso. Era pouco provável, tinha de admitir, mas talvez fosse apenas uma precipitação breve e passageira; pulverizações de neve deviam acontecer muitas vezes a esta altitude. Mas o bom senso, e o céu carregado cor-de-chumbo por cima diziam-lhe outra coisa.

A princípio, depois de terem atravessado a ponte, tinham sentido uma exaltação estranha e eufórica. Estavam tão tontos quanto assustados e marchavam cautelosamente, como se tivessem cruzado a fronteira de um planeta estranho, mantendo-se juntos e lançando olhares em volta. Quem sabia o que é que poderia estar espreitando por trás daquelas rochas? Mas depois de uma hora ter passado, e depois outra naquela paisagem sombria e sem vida, o nervosismo acabou por dar lugar a um cansaço monótono.

- Kellicut não nos disse nada acerca desta parte, ou disse? – perguntou Susan, quando pararam para descansar. - Claro que eu não poderia saber - continuou ela - claro que não tive a oportunidade de ler a carta dele. - Olhou divertida para Van.

Depois Van fez uma coisa estranha: sorriu.

- He! Vá lá – disse ele quase agradavelmente - já quase que pedi desculpa por isso.

Muito em breve a boa disposição tinha desaparecido. Pararam para almoçar, mas passaram um momento horrível por causa do frio. Os dedos de Rudy estavam tão gelados que mal conseguia acender a lenha. O fogo era pateticamente pequeno, e aconchegaram-se uns aos outros para se manterem quentes. Até o caldo de carne ficou apenas morno.

O vento, assanhando-se, chicoteava por uma garganta próxima e assobiava sombriamente, como um órgão. Decidiram continuar; pelo menos o movimento iria de alguma maneira contrabalançar o frio.

Caíram mais flocos de neve. Estranho, pensou Matt, se olhássemos direto para cima pareciam estar concentrando-se sobre nós. Que tal, de egocentrismo?, devaneou. Caíam individualmente, como pára-quedistas.

Olhou para o céu pela centésima vez nesse dia. Mostrava-se na mesma como antes, uma enorme brancura acinzentada, de teto baixo, que se espalhava em todas as direções como um gigantesco banho de vapor congelado.

Na sua mente correram todos os cenários. A pá que tinham deixado para trás - evidentemente um erro. O mesmo quanto às tendas, que eram muito pesadas. Lá se iam os abrigos. Ainda tinha a faca, mas não era grande coisa para cavar. Van tinha a arma - não ajudava nada. Talvez os sacos-cama pudessem ser ligados entre si pelos fechos de correr, pelo menos dois deles ou talvez mais, para servir de abrigo.

Mas podiam precisar mantê-los separados para ter mais calor, e para o caso dos cantos não ficarem presos se o vento continuasse a aumentar de intensidade.

Matt parou e esperou que os outros o alcançassem. Estavam movendo-se cuidadosamente, e levou algum tempo até que se reunissem.

- O que é que pensam? - perguntou, quando estavam todos juntos. Descobriu que estava elevando a voz como se o vento já estivesse rugindo.

- Vai ser ruim - disse Van. - Não me agrada o aspecto disto. Estamos ferrados.

- Olhem-me para aquele céu - disse Rudy. - Nem um buraquinho em lugar nenhum.

Só Susan percebeu que Matt estava perguntando o que é que deviam fazer.

- Não consigo pensar em outra alternativa senão continuar - disse ela. - Temos que continuar a andar. Deve haver um refúgio por aí num lugar qualquer.

- O problema é que - respondeu Matt - estamos numa espécie de plataforma. Não passamos por nada há horas, nem sequer um buraco.

Van disse:

- É certo como a merda que não podemos parar aqui. Estamos expostos demais. Nada a fazer senão continuar.

Matt fez uma consulta rápida.

- Todos de acordo? - Assentiram com as cabeças. - Então temos que ficar juntos. E também não podemos perder tempo. Isto é para você, Van. Tem que acompanhar o nosso passo, de alguma maneira.

Van ia começar a falar, depois olhou para o lado.

Desta vez, quando reiniciaram a caminhada, os pára-quedistas tinham se multiplicado; estava a caminho uma completa invasão aérea em torvelinho. De tão alto e tão longe quanto a vista de Matt podia alcançar, os flocos mergulhavam com força. Ocupavam a totalidade do céu. Uma sensação de desgraça cresceu-lhe no estômago.

Primeiro a neve assentou nos recantos das rochas, em sulcos e cavidades, depois começou a formar pequenas cornijas na parte de baixo das saliências.

Também o vento estava ficando mais forte, às vezes empurrando a neve em frenesis circulares que se irritavam à volta de rochedos e escarpas. Matt apertou mais a touca. Meteu a mão no bolso e pôs uns óculos de neve, depois virou-se para olhar Susan, a uns seis metros atrás. Ela estava andando com os movimentos constrangidos e delicados de alguém lutando para afastar a dor. Em torno dela havia uma revoltosa paisagem lunar em preto-e-branco. A visão comoveu-o de uma maneira que não lhe acontecia há anos. Acenou, virou-se, e continuou a andar, os passos abafados pela neve.

Logo no início dos seus estudos de paleontologia, Matt tinha ficado impressionado. Na sua primeira viagem tinha adorado tudo, mas especialmente o começo, o cavar, descer camada a camada e passar por todos os períodos. O que eram os episódios glaciais? Podia ouvir a cantilena dos dias de escola regressando: Würm, Riss, Mindel, Günz. Os fluviais? Gambliano, Kanjerano, Kamasiano, Kagerano.

Cavando através dos aiôns até que ficassem nus à superfície de uma parede vertical. Tinha-se sentido como um mergulhador de profundidade descendo pelos vários níveis a fim de que a terra pudesse ceder os seus segredos afundados. Seria a descida? Ou era a excitação da descoberta, uma série de ossos espalhados, o fragmento castanho de um crânio? Até a palavra para isso estava certa, pensou: não "escavação", mas "cavar". Primitiva e básica. Tinha-se perdido nos pormenores, procurando com uma lente de aumento nas mãos e de joelhos como algum Sherlock do deserto. Adorava deitar-se de barriga para baixo sobre uma tábua, e torcer um bisturi para escavar um pedaço de lixo enterrado ou usar uma escova de dentes para limpar as minúsculas articulações dos dedos. Mas mais que tudo, tinha adorado o princípio, o primeiro balanço do machado, o cavar. Um sentimento indescritível, reconfortante, assustador, como o regresso a um lugar santificado da infância muito distante.

Agora, contra o uivar do vento, mal ouviu os outros chamando-o.

Pareciam gritos através de painéis de vidro. Os três estavam quase invisíveis na brancura total. Quando se virou e fez o caminho para trás, viu que o seu rastro ficava quase completamente coberto.

- Está muito densa. Não  conseguimos nos ver - disse Rudy.

- Estamos nos separando - disse Susan. - Van estava andando na direção errada e tivemos que ir à procura dele.

- Está bem. Peguem as cordas, vamos atar-nos uns aos outros.

Os flocos de neve tinham-se transformado em pequenos grãos duros, que lhes atacavam a cara como insetos picando. Só o ruído já era esmagador, e demoraram uma eternidade para atar as cordas.

Van falou pela primeira vez.

- Matt - Matt pensou que o seu nome soava de modo irreal no meio de toda aquela brancura - esta tempestade de neve não vai diminuir. Estamos ferrados. Falo sério. Estamos mesmo ferrados na voz dele havia um toque de pânico.

Susan interrompeu.

- A nossa única esperança é descobrir um lugar qualquer e depressa. Não vamos conseguir continuar por muito mais tempo.

- Penso que a plataforma termina ali à frente - disse Matt. - Não consigo ter certeza, mas pensei que vi a forma de qualquer coisa. Pode ser a face de um rochedo.

- É melhor sermos rápidos.

- Temos que chegar lá. É a nossa única esperança.

- Vou cantar - disse Rudy.

Enquanto Matt lutava para avançar, ouviu a voz de Rudy atrás de si:

Nem sempre pode conseguir o que quer

Nem sempre pode conseguir o que quer

Mas se tentar, às vezes

Talvez possa então encontrar

E conseguir o que precisa

Minutos mais tarde, Matt chegou a um rochedo escarpado que se erguia do nada. Estava ali especado na tempestade, um promontório fantasmagórico e escuro. Deu um puxão à corda para apressar os outros e cambaleou até ele.

Mergulhou para a base e começou a escavar a neve em braçadas. Em breve os outros estavam a seu lado, a ajudando-o. A neve era tão leve que parecia que atiravam cestos de ar. Chegaram à rocha e varreram-na.

Apareceu uma fenda. Seguiram-na, cavando mais a neve enquanto ela se alargava e tornava mais profunda. Agora era trabalho duro. Matt estava suando e a neve de repente tornara-se densa e pesada.

A fenda alargara-se até uns quarenta e cinco centímetros. Retiraram mais neve, e então a fenda acabou ali.

Ninguém disse uma palavra.

Matt tentou baixar-se para entrar na fenda, mas tocou no fundo após apenas sessenta centímetros. Tentou deslocar uma pedra, que rolou e lhe caiu contra o braço, ferindo-o. Enrolou a manga da camisa e ficou olhando. Algumas gotas de sangue destacavam-se na neve, pontos vermelhos brilhantes num torvelinho de branco.

Susan levou uma mão cheia de neve até à ferida e o sangue estancou. Matt não sentiu dor.

- Nada mais a fazer senão continuar - disse ela.

Sentaram-se e descansaram um pouco na pequena cratera que tinham criado, mas começaram a adormecer. Alarmados, levantaram-se e continuaram a andar. Aqui a neve chegava-lhes acima dos joelhos, por isso a marcha era difícil e cambaleavam mais do que andavam.

Matt sentiu uma sede poderosa na parte de trás da garganta, mas não queria parar para procurar o cantil, pendurado em algum lugar na armadura gelada e branca que lhe revestia o corpo. Até nos pés estava sentindo sono.

Matt não percebeu que tinha parado. E os outros também.

Susan e Rudy estavam sentados na neve que os cobria até à cintura e Van rastejava por ali, balançando-se delicadamente nas mãos e joelhos.

Já não sentiam frio, na realidade não, apenas se sentiam desconjuntados, vagos, e agradavelmente sonolentos. Em algum lugar nos recantos da sua mente, chegou a Matt a idéia de que iam morrer. Mas mesmo essa certeza parecia abafada, exterior a si, adoçada pela brancura a toda a volta. Não era alarmante.

Mas sentia sede. Procurou o cantil e levou-o aos lábios. Um esguicho de água passou através de um bloco de gelo, e arrepiou-se, depois endireitou-se e começou de novo a sentir os membros. Cambaleou até Susan, que estava meio reclinada, aturdida. Tinha as pupilas dilatadas e os vestígios de um sorriso nos lábios. Van cabeceava, quase dormindo.

Matt desatou as cordas e amarrou-as umas às outras para fazer outra mais comprida. Uma das pontas passou-a pelos cintos dos três, e a outra atou-a ao seu próprio cinto.

- Fiquem aqui - gritou inutilmente, e partiu por sua conta, em frente. Atrás de si podia ouvir a voz de Rudy, esganiçada e um pouco desafinada.

A voz diminuiu de intensidade, e não conseguia dizer se tinha sido Rudy parando ou o vento que a tinha obliterado.

Agora a camada de neve em alguns lugares chegava-lhe à cintura. Por duas vezes tropeçou, e quando se lançava para a frente, mergulhava num casulo tão branco, quente e puro que se sentia tentado a descansar por um bocado, mas levantava-se e continuava. A parte superior da sua visão estava perdida no escuro, cortada de alguma maneira, como um rasgão no topo de uma fotografia.

Abruptamente o vento mudou de direção e por um momento pôde ver. Diante de si, na neve, havia uma forma escura que se parecia com Susan, exceto que quando ele se aproximou podia ver que ela não usava o blusão. Estava de fato vestida com uma roupa de verão tal como usara quando ele a vira pela primeira vez há muitos anos atrás. Como é que ela podia sobreviver aqui em cima assim? E o cabelo dela era basto e voava na aragem, exatamente como nesses filmes antigos desatualizados. Estava chamando-o para diante e quando a alcançou, estendeu os braços e tocou-lhe e começou a puxá-la para si, só que ela não se rendeu.

Matt descobriu que estava encostado a uma parede de rocha. Os jatos do vento por trás tinham-no empurrado pelo caminho, e contornou a parede até que por fim sentiu escuridão por cima de si, e o vento parou subitamente. A consciência regressou. Percebeu que estava no interior da boca de uma caverna.

Desatou a corda, mas manteve-a por dentro do cinto, passou-a à volta de um rochedo e atou-a. Depois deu meia volta e seguiu a corda para fora da caverna, adentro da tempestade, puxando-a sobre a neve como uma linha de pescar até que alcançou os outros.

 

A luz reaparecia no fundo de um longo túnel. Susan viu-a aproximar-se cada vez mais perto, quase como um trem, a não ser que era uma espécie diferente de luz, e era ela quem estava se movendo.

Aproximava-se cada vez mais, e no momento em que ia saltar para a luz do dia que a cegava, ouviu vozes à sua volta.

- Vamos, vamos. Levante-se! - Matt gritava. Ele agarrou-a até ela se pôr de pé e ia-a acordando enquanto a arrastava para a abertura. Estava surpreso por parecer tão perto. Depois voltou atrás para ir buscar Rudy e finalmente Van, e todos entraram em colapso profundo no interior da caverna.

Quando Susan acordou, não fazia a mínima idéia de há quanto tempo estava dormindo. Sentiu uma agradável sensação de calor e amparo, e quando abriu os olhos viu uma fogueira. Rudy atarefava-se à volta dela, preparando uma refeição. As chamas lambiam as paredes de rocha, lançando sombras. Ele sorriu, trouxe-lhe uma caneca de café e fez-lhe festa na cabeça.

Perto dela, Matt começou a mexer-se.

- Ah!, o herói acorda - disse Rudy.

Matt olhou, perdido durante um segundo, piscando. Ainda passou um momento antes que pudesse falar.

- Foi você o herói. Foram as suas cantigas que correram comigo.

- Era esse o meu plano.

Susan inclinou-se, pôs a mão por trás do pescoço de Matt, e sorriu-lhe.

- Não sei como fez, mas conseguiu - disse ela.

Ele pensou na visão que tivera do cabelo dela ao vento; depois olhou para Van.

- Ele está bem - disse Rudy. -Já se levantou. Você foi o único que ficou dormindo até tarde. Agora a sopa quase pronta.

Matt levantou-se e foi até à boca da caverna. As arestas estavam cobertas de neve, mas a tempestade parara. Fora do portal debruado de branco, viu uma paisagem alva e prístina, brilhando difusamente, estendendo-se até onde a sua vista alcançava. Era tão pacífica e bela que era difícil conceber que quase se tornara a sepultura deles.

Os quatro comeram com vontade - tiras de bife com feijões e café quente. Depois Van ganhou cor e disse que se sentia muito melhor.

Não parava de dar palmadinhas na perna esquerda.

- Tinha quase certeza que estava gelada - disse ele.

Estavam sentados silenciosamente à volta da fogueira quando Rudy disse:

- Não têm curiosidade em saber onde encontrei a madeira? - Olharam para cima. - Aqui mesmo - respondeu ele à sua própria pergunta, apontando para um canto da caverna.

- É estranho - disse Matt. - E a fumaça vai a direito para cima. Deve haver uma chaminé natural.

- E isso não é tudo - disse Rudy. - Estão preparados para mais? Esta não é a primeira fogueira que aqui foi feita. Quando a acendi, encontrei cinzas.

Matt foi até à mochila e sacou de uma lanterna. Van fez o mesmo, e investigaram as paredes da caverna, cuidadosamente para evitar estalatites e estalagmites.

Algo captou a atenção de Matt e ele aproximou-se.

- Com um raio!

Van acorreu e lançou o raio da sua lanterna para o lado da de Matt.

No centro dos raios surgiram pinturas rudes, manchas de ocre, castanhas e vermelhas. A princípio era difícil perceber o que significavam, mas depois adquiriram forma: algumas pareciam ser representações de humanos, outras de animais; algumas de caçadas, outras de batalhas.

- Meu Deus - disse por fim Van. - Estas pinturas... são pré-históricas. Iguais às das grutas de Lascaux.

- Olhe - disse Matt - estas figuras aqui. Estão caçando. Vê aquela? Ele está segurando uma moca. - Chegou a lanterna mais perto. - Está vendo o mesmo que eu? Olhe para a testa. - A figura tinha uma plataforma maciça ao longo da testa. E todas as outras também.

Van tocou na pintura, depois olhou para o dedo. Estava manchado de vermelho.

- Estão frescas - disse suavemente.

Nesse momento exato ouviram um grito mal abafado por trás de si, o tipo de som que escapa involuntariamente quando qualquer coisa de inimaginável está acontecendo.

Susan e Rudy estavam amontoados à entrada da caverna. Olhavam para fora e, ali na neve, viram formas escuras, humanóides mas não humanas, erguendo-se da brancura. Vinham em direção à caverna.

 

Eagleton deslocou a cadeira de rodas até à janela e com um indicador elegante ergueu a persiana. Estava lusco-fusco, sempre um momento inquietante nos subúrbios de Washington. Os candeeiros da rua começavam a acender-se com um salto, as luzes nos edifícios do campus a apagar-se rapidamente, e os carros saíam do parque de estacionamento, levando os fatigados trabalhadores para casa. Estes empregados não são dos que gostam de demorar à mesa, pensou. Todos tinham família à espera. Ele não tinha nenhuma.

De fato, ele não tinha ninguém. Era este o pensamento que tentara evitar. Sabia que o espreitava. Normalmente era o que se passava a esta hora do dia. Quando era novo, ainda entusiástico quanto lutando na Guerra Fria como se fosse um gigantesco jogo de futebol, assumiu que toda a gente estava tão envolvida no assunto quanto ele. Eles pareciam ter estado, mas em algum lugar, ao longo do caminho, tinham acumulado mulheres e filhos, casas de férias, caravanas e cães de raça para lhes lamberem as mãos quando regressavam a casa.

Ele não tinha feito isso, e sentia-se defraudado. Ninguém lhe explicara as regras, que havia mais coisas em jogo do que o futebol a decorrer diante dos seus olhos e que tanto o ocupava.

Era tão estranho que tivesse dado toda a sua vida à Companhia.

Tornara-se lendário, chicoteando os cavalos durante vinte e cinco anos como vice-diretor assistente encarregado da contra-espionagem. Mas-o fim da Guerra Fria interferiu, fizera inimigos demais, tinha a carreira acabada. O que é que esta nova equipe sabia acerca da ponte aérea de Berlim, a Baía dos Porcos, o Vietnam? O que é que se ralavam com a honra? Por isso tinham-no empurrado para esta aparelhagem de águas estagnadas, este estranho negócio de investigar fenômenos paranormais. Mas iria ser o último a rir. Tinha tropeçado numa coisa tão grande que ia lhes arrebentar na cara. Iria fazer parecer a instalação de microfones no Kremlin como uma brincadeira de crianças.

Deu outra tragada. Claro que uma vida normal não teria sido fácil.

Havia a doença. Ainda detestava conhecer pessoas novas, especialmente mulheres. Sentia-se humilhado sempre que encontrava uma escada na Ópera ou um parapeito muito alto. Não era como esta nova geração, os ativistas que exigiam elevadores, rampas especiais e tratamento de igualdade. Tinham tanta autoconfiança. Ele odiava-os e invejava-os ao mesmo tempo.

Ter relações sexuais era difícil, dado as suas limitações. Não era completamente inexperiente. Tinha pago a prostitutas, mas só quando o desespero lhe ultrapassava a vergonha. Com elas sentia uma vaga de inseguranças: a consciência de que não sentiam nada por ele naquele momento incômodo de se mudar da cadeira para a cama; a sensação de que lhes suscitava piedade e nunca medo - tudo isto tornava problemática a ereção. E claro, isso transformava-se num medo em si mesmo, ultrapassando todas as outras preocupações e lançando uma mortalha negra sobre tudo.

Depois veio Sarah. A princípio tinha aparecido como um anjo de misericórdia. Fora secretária dele. No dia em que ali entrara, o perfume dela enchera-lhe o escritório e ele esqueceu o seu receio dos micróbios. O progresso da intimidade tinha parecido tão natural.

Naquela tarde de fim de Verão ela aproximara-se dele, tinha posto a mão na curva do cotovelo, e depois tinha se inclinado para o beijar suavemente no rosto, e o seu ser ainda ardia, ainda lhe podiam fazer acelerar a pulsação. As noites no apartamento dela, a careta sardônica do chofer quando o deixava lá. Imagine-se, ela até lhe tinha cozinhado refeições! Depois vieram as dúvidas, aqueles murmúrios satânicos assobiando-lhe através do cérebro, que nasciam, dizia ela, do desprezo que ele tinha por si próprio. O que quer que fosse, as dúvidas aumentaram, depois transformaram-se em certezas. Apesar de tudo, ela também não gostava dele. Tinha sido tudo uma jogada feia, um golpe para subir na carreira. Ele tinha posto um oficial mais novo a segui-la para a espiar. De fato, não tinha descoberto grande coisa - uma frase mais descuidada na gravação de uma escuta, uma carta de interpretação

duvidosa - mas era o suficiente para Eagleton. O orgulho tinha sido sempre a sua desgraça.

Deixou cair a persiana e movimentou a cadeira por ali. É esse o caminho da loucura. Tinha dito as palavras em voz alta? Quase pensou que sim. Imaginou ter ouvido um eco débil vindo de um canto mais escuro.

Regressou à mesa e tentou concentrar-se. Um negócio feio, este. Abriu o ficheiro de cima desinteressadamente. O conteúdo era ainda magro: alguns mapas, relatórios sobre os antecedentes de Matt e Susan, boletins meteorológicos, as poucas mensagens de Van, as ordens dadas a Kane. Porque é que o rádio-computador de Van tinha passado ao sinal automático há cinco dias e se mantinha no mesmo lugar? Já tinha pensado em todas as possibilidades vezes sem conta; a mais provável, decidiu ele, era que o grupo tivesse sido obrigado a acampar, e por uma razão qualquer Van tivesse sido impedido de escapar para mandar uma mensagem. Talvez estivesse doente. Talvez o computador se tivesse avariado e ele o tivesse abandonado.

Eagleton sentiu um arrepio. Não era que sentisse alguma simpatia por Van. Deus sabe, andavam a atacar-se um ao outro há muitos anos para isso. O que se passava era que, sem ele, a equipa não fazia a mínima idéia do que ia enfrentar. Como é que poderiam? Quem poderia sequer imaginar tal coisa? E sem uma pista sobre a natureza extraordinária da criatura que procuravam, estavam destinados a falhar.

A missão não seria a sua vitória, mas a sua ruína.

Eagleton inclinou-se e, pela enésima vez, abriu a pasta marcada

 

           OPERAÇÃO AQUILES.

 

Susan e Rudy espiaram para fora da caverna. O sol refletia-se na superfície da neve e na brancura ofuscante era difícil ver, mas a uma distância relativa formas escuras atravessavam a neve como sombras.

- Jesus! - exclamou Susan. Havia reverência na sua voz. Rudy balbuciava qualquer coisa em russo. Matt estava calado. Van sustinha a respiração.

Lá fora as formas escuras moviam-se devagar, gigantes cinzentos convergindo na brancura total. Estavam aproximando-se lentamente da caverna vindos de todas as direções - quatro deles, seis, dez, mais de uma dúzia.

Foi por causa disto que viemos, pensou Susan. Pelo menos os encontramos. Eles existem. Kellicut estava certo. A cientista estava exultante. Imaginem, pensou, a primeira hipótese de contato entre espécies em - quanto? trinta mil anos? Depois um pensamento sombrio assaltou-a: mas alguma vez se saberá?

O quadro diante dela era de uma beleza fria e desprendida, como uma tela de Brueghel, figuras negras contra uma cortina de branco. Mas o modo como as criaturas se espaçavam e moviam em direção à caverna também era ameaçadora. Uma picada de medo espalhou-se pelos membros, uma sensação tão poderosa que parecia nascer de alguma fonte de repugnância instintiva.

Matt e Van olharam por cima do ombro dela. A boca da caverna era tão apertada, com o seu forro de neve, que mal havia espaço para olharem para fora. Van soltou a respiração e deu um soluço curto e inesperado. Matt continuava apenas abanando a cabeça.

- Com um raio. Não acredito - disse ele. - Não consigo acreditar.

Ninguém respondeu. Estavam mais interessados no espectáculo diante de si. Ele foi varrido por uma corrente de entusiasmo. Isto é o acontecimento da minha vida, pensou. Estar aqui e testemunhar isto. Não importa o que aconteça a seguir, só isto vale tudo.

As criaturas chegavam mais perto, furtivamente. Pareciam vir de todas as direções, como se tivessem coordenado a sua aproximação.

Estarão nos caçando?, perguntou-se Matt. O sol brilhante tornava difícil vê-los bem. Havia qualquer coisa de fantasmagórico naquela cena toda; as correntes de neve, o Sol cegando, a rocha sombria no interior da entrada da caverna.

Mesmo apenas silhuetas escuras, as criaturas podiam ser reconhecidas como diferentes: mais compactas, arredondadas nos ombros, com membros mais grossos e curtos. Enquanto iam chegando mais perto, o Sol foi atravessado por uma nuvem, o brilho desapareceu e as feições deles tornaram-se de súbito completamente visíveis. Não havia dúvidas sobre a sua autoridade. Transportavam clavas talhadas no que pareciam ter sido ramos grossos, largas no topo e afunilando para a ponta.

Vestiam peles de animais, rudemente talhadas em perneiras e ponchos. Os braços peludos estavam nus. Nos pés usavam correias de couro peculiares e paus que lhes permitiam andar com um movimento lento e arrastado na espessa crosta de neve. Não se afundavam apesar da sua corpulência óbvia. A neve agarrava-se às perneiras e às partes superiores do torso que estavam viradas para o vento.

A voz da cientista murmurou na mente de Susan: veja como eles se adaptaram tão bem ao seu meio tão inóspito. Selecionou um deles, e examinou-o em pormenor. Não era muito grande, mas o corpo dava uma impressão de densidade. A cintura e o peito eram largos, e os músculos do braço tinham o dobro do tamanho dos de um ser humano normal. O cabelo comprido e preto caía numa crina de franjas que se enrolavam num pescoço maciço. Mas o que se destacava imediatamente era o rosto, excessivamente grande, com os olhos muito afastados, o nariz achatado, as feições no conjunto muito largas, como um desenho num balão inchado. Os maxilares eram fortes, e o queixo curto e cortado para trás, como se tivesse sido aparado. E acima de tudo, fazendo bojo para fora da testa, havia o sobrolho formidável, uma protuberância óssea como um tumor ovalado. Empurrava para baixo a cara e fazia os olhos, debaixo das sobrancelhas espessas, parecer enterradas nas suas órbitas enormes. A testa era grotesca. De uma maneira estranha, era impossível não ficar olhando para ela. As criaturas andavam completamente erectas, mas suportavam a cabeça de uma maneira particular, protuberante, como se estivesse suspensa por arames invisíveis.

Pareciam-se com homens espreitando à distância.

Aos olhos humanos, o resultado era indescritivelmente feio. Enquanto os quatro olhavam para fora da caverna, ficaram espantados por ver como estas criaturas eram realmente diferentes, muito bizarras e ao mesmo tempo parecendo tão naturais. As analogias só faziam com que as diferenças parecessem mais exageradas. Não tinham qualquer semelhança com nenhum dos esboços e reproduções, as patéticas tentativas de laboratório para extrapolar uma aparência provável a partir de fragmentos de um crânio. Não se pareciam com nada do que eles tinham imaginado.

Matt estava estupefato por sentir repugnância. Examinou o horizonte. Tudo o resto parecia tão normal: a neve, o céu. De súbito, tudo o que tinha acontecido desde o início, o crânio no gabinete de Eagleton, a longa escalada da montanha, a tempestade, tudo o impressionou como exótico. Como é que tinha chegado aqui? Quais tinham sido os passos?

- Não acredito. Nunca acreditei de fato até agora – murmurou Susan.

- Eu sei - respondeu Matt. - Eu também não. Nem sequer tenho certeza de acreditar agora.

- Sinto que estou assistindo aos princípios dos tempos.

Van interrompeu. A voz dele tinha um tom baixo e monocórdico.

- Não parecem amigáveis e sabem que estamos aqui. Vêm atrás de nós.

- Eles vêm em direção a nós - disse Susan. - Não sabemos se vêm atrás de nós.

Uma das criaturas destacou-se do grupo. Era maior e caminhava com firmeza à frente, enquanto os outros se distribuíam em leque atrás dela. Na mão direita segurava uma moca enorme. À volta da cabeça usava uma faixa distintiva de pele preta e branca.

- Olhem, está ali o chefe - disse Matt. - Vejam como os outros parecem segui-lo? Estão cumprindo as instruções dele.

Van foi em busca da arma. Atrapalhou-se um bocado com a aba do coldre. Estava embrulhada em neve congelada. Deu-lhe um puxão para abri-la, depois pegou na coronha da arma e ergueu-a contra a luz, olhando para ela.

- Merda. Vejam. - Mostrou-lhes o tambor. Estava congelado, bloqueado com gelo todo à volta. Matt sentiu o coração cair-lhe aos pés.

- Jesus - disse.

- Quem sabe o que isso poderia fazer - disse Susan. - Eles são tantos. provavelmente uma arma não os faria parar.

- A não ser que os fizesse fugir - disse Van.

- E o que é que fazemos agora? - perguntou Rudy.

Ninguém respondeu.

As criaturas estavam se aproximando mais, e agora mais devagar. Tinham se organizado em semicírculo, como a bloquear qualquer fuga possível.

Matt foi o primeiro a falar.

- A única coisa a nosso favor é que nós somos tão estranhos para eles, quanto eles o são para nós. De fato, eles ainda nem sequer nos viram. Não sabem nada a nosso respeito, o que somos ou o que podemos fazer.

- Seria um grande erro deixá-los perceber que estamos assustados - disse Susan. - Temos que agir pacificamente e sem medo.

- Isso é teatro a mais - disse Rudy.

- Ela tem razão - acrescentou Matt. - Temos que convencê-los que estamos aqui com intenções honrosas. Viemos à procura deles. Somos emissários, emissários do grande além. Que há muitos mais como nós lá no lugar de onde viemos. Se eles nos tratarem bem, podem ganhar com isso. Se nos ferirem, irão pagar por isso.

Van olhou para trás, para dentro da caverna. Parecia estar à procura de qualquer coisa.

- Precisamos de algo para oferecer. Ou qualquer coisa para a troca. O que é que temos que lhes possamos dar?

- Blusão? - sugeriu Rudy. - Cantil?

- Não - disse Matt. - Já, não. Primeiro precisamos criar um laço de confiança. Qualquer coisa que pareça estranho pode fazê-los reagir mal. Podia ter mau resultado. Devíamos tentar usar comida.

Susan foi até à fogueira e regressou com tiras de carne seca.

- Há isto - disse ela.

Van falou outra vez.

- Um de nós tem que levar isso lá fora.

Olharam para ele.

- Porquê?

- Eles sabem exatamente onde é que nos encontramos. Portanto, não vamos denunciar nada. Além disso, temos que mostrar que queremos encontrar-nos com eles, que fizemos todo este caminho para nos encontrarmos com eles. É esse o nosso objetivo.

Os outros ficaram calados. Sabiam que ele tinha razão.

- Outra coisa - continuou Van. - Não podemos correr o risco de esperar que eles entrem aqui.

Matt olhou para Susan. Ela acenou em consentimento, por isso fez a pergunta que estava na cabeça de todos.

- Quem vai lá?

- Nada de voluntários desta vez - disse Van. - Só há uma maneira correta de fazer isto. Tirar à sorte.

Concordaram.

- Mas Rudy não entra - disse Susan. - Não deveria entrar. Ele não fez contrato para isto. Tem que ser decidido entre nós os três.

- Não - protestou Rudy. - Quando concordei em vir, concordei com o risco. Faço parte do grupo. - E acrescentou em tom de jogo: - Um por todos, todos por um.

Van encolheu os ombros, procurou no fundo de um bolso interior, sacou de uma carteira de fósforos, tirou quatro e, com uma dentada, arrancou a cabeça a um. Tapou-os com a mão esquerda e prendeu-os em leque entre o polegar e o indicador.

Escolheram solenemente, cada um escondendo o seu fósforo. Matt respirou fundo. A cara de Susan estava tensa. Olharam uns para os outros. Rudy fez um sorriso débil. Exibiu o fósforo mais curto.

- Bom - disse ele. - Não é o meu dia de sorte. – Parecia siderado. Levantou-se e abraçou cada um dos outros. Pediu um cigarro a Van e puxou a fumaça com força. - Sempre quis deixar de fumar - disse, com a voz soando fraca. Devolveu os fósforos a Matt e depois foi até à fogueira e pegou as tiras de carne seca com a mão esquerda, apertando-as com o polegar.

- É melhor ir com o gorro abaixado - disse Van. – Para confirmar que lhes mostra que não tem nada escondido.

Rudy assentiu, depois começou subitamente a falar em russo. Um regato de palavras. Após um momento, Matt percebeu que ele estava rezando o pai-nosso.

Rudy avançou até à abertura e baixou a cabeça para sair. A meio caminho do exterior, virou-se e olhou para cada um deles à vez.

- Que Deus te proteja - disse Susan.

Rudy parecia querer dizer qualquer coisa, mas só conseguiu abrir e fechar a boca.

No momento em que ele saiu para o exterior, as criaturas ficaram paradas nas suas posições e olharam para ele com tanta força quanto os quatro as tinham olhado antes. Depois, uns poucos ergueram as mocas acima das cabeças, e dois ou três deram um passo atrás.

O chefe ficou imóvel, a dez metros de distância. Os olhos, escondidos por trás da protuberância enorme, pareciam ser verdes e eram penetrantes.

Matt pensou que conseguia ouvir sons, uma espécie de murmúrios guturais, mas eram indistintos demais para que tivesse certeza.

- Raios - disse ele. Não tinham tido em conta a neve. Chegava à altura das coxas de Rudy. Ele caiu sobre a crosta, lutando e torcendo-se para atravessar as camadas altas, o que roubava toda a dignidade à sua aparência. Fazia-o parecer patético, como um animal ferido arrastando-se, mais do que o representante de uma qualquer ordem superior.

A cerca de três metros da entrada da caverna, Rudy virou-se para olhar para trás e encolheu os ombros, desamparadamente. O sangue tinha-lhe fugido da cara. O olhar possuía uma qualidade plangente que feriu o coração de Susan. Talvez funcione a favor dele, pensou, porque ele não parece ameaçador. Mas não conseguia acreditar nisso.

Pela maneira como as criaturas o estavam olhando, ela sabia que o que era exigido era uma exibição de força, não de fraqueza. Quando Rudy parou para descansar, o chefe deu duas ou três grandes passadas para a frente, lavrando facilmente a neve com os seus sapatos primitivos. Depois parou e esperou, mudando o peso e virando-se ligeiramente para um dos lados como um arqueiro.

Segurava a clava apoiada no chão atrás de si. Estaria tentando escondê-la?

Agora só havia pouco mais de um metro entre eles. Rudy empurrou-se para a frente, corajosamente, para diminuir o intervalo. Alto como era, estava tão profundamente enterrado na neve que a cabeça só lhe chegava à cintura da criatura. Parecia uma criança olhando um adulto. Sempre muito devagar, ergueu a mão esquerda. As tiras de carne seca adejavam ligeiramente ao vento. Uma estranha oferenda: a partir da caverna, parecia uma criança oferecendo uma mão cheia de fitas. Também tinha a mão direita erguida, com a palma para cima num improvisado gesto de paz.

A cabeça da criatura mexeu-se lentamente enquanto observava as mãos de Rudy. Movia-se de maneira estranha em cima do pescoço comprido, como a de um lagarto. Olhou para a cara de Rudy e para o corpo dele imerso na neve. Por um momento parecia pouco segura, intrigada. A inteligência brilhava-lhe nos olhos. Tinha os dentes à mostra, tortos e amarelos.

Depois, num movimento tão rápido que não permitiu qualquer antecipação, virou-se rapidamente pela cintura, balançou a moca subitamente à vista com um poderoso empurrão da anca, e atirou com ela esmagadoramente de encontro à parte lateral da cabeça de Rudy.

Fez um estouro incrível. Rudy mergulhou para um lado, sem resistir. A cabeça parecia uma abóbora partida ao meio. Instantaneamente, uma mancha vermelha saltou-lhe dos longos caracóis loiros e espalhou-se num rastro sobre a neve branca.

Van guinchou. Susan agarrou o braço de Matt. Matt sentiu a respiração fugindo-lhe.

Todos os três tiveram certeza de que Rudy estava morto.

Olharam com horror para as criaturas a reunirem-se lentamente à volta do corpo, tapando-lhes a vista. Um mergulhou a mão no sangue. Outro erguia uma tira de carne seca acima da cabeça e examinava-a cuidadosamente.

Os três recuaram para dentro da caverna.

- Eu não... não posso... acreditar - arfou Susan.

- Não há chance de que ele tenha sobrevivido àquilo – disse Van, tremendo visivelmente.

Olharam em volta atacados de pânico na semiobscuridade.

- Vamos lá, temos que tentar alguma coisa - gritou Matt.

- Agarrem as mochilas. Van, tente descongelar a arma. Segure-a por cima do fogo.

Van correu para a fogueira e segurou o tambor por cima da fogueira. Estava chamuscando os dedos, mas manteve-o ali até que por fim algumas gotas de água começaram a escorrer. - Vamos, vamos, vamos - instava ele.

- Rápido - gritou Matt.

Por trás deles, uma sombra passou na parede. Uma das criaturas tinha entrado. Os lábios dela pareciam curvados num fatídico meio rosnido, meio sorriso.

- Não dá - gritou Van. - Demora muito. Ainda está gelado.

- Estamos feitos - disse Matt.

Outra sombra moveu-se para o interior, depois outra. Muito depressa havia uma fila deles estendendo-se através da abertura da caverna, bloqueando a saída, muito perto e aterrorizadores.

Um cheiro vago, doentio, enchia o ar.

 

Kane sentava-se para trás nos seus arreios, na barriga do C130, e sentiu os motores vibrando ao longo da espinha. Olhou para o fundo do corredor, para os homens ligados aos assentos móveis ao longo das barras de metal no interior do avião. O treino deles estava quase terminado, e não estavam completamente prontos. Como aqueles exercícios de pára-quedas já tinham mostrado, não estavam funcionando como uma equipe. E isso era a coisa mais importante para uma expedição de busca e captura tão fantasmagoricamente inacreditável como esta.

O tenente Sodder inclinava-se para a frente, para gritar por cima do barulho dos motores. Era quase como se lhe conseguisse ler os pensamentos.

- Coronel, posso perguntar-lhe uma coisa?

Kane não gostou do som da voz do homem. Muito lamuriosa.

- Pergunte - respondeu ele.

- Alguns dos homens estão intrigados.

- Com o quê?

- Com a missão.

- Ou seja?

- Bom, coronel, é difícil de dizer exatamente. Mas parece estranho. . .

- Sim?

- Os homens estão intrigados, coronel, quanto à natureza exata da missão. Vamos tentar capturar qualquer coisa?

Não era uma má dedução. Também não era difícil de fazer, dado a aparelhagem que estava sendo transportada para a base na Turquia, as redes, as jaulas, armas com tranquilizantes, todas guardadas em caixotes sem marcas. Claro que era impossível manter qualquer coisa secreta na tropa.

Durante apenas um segundo Kane brincou com a idéia de confiar no tenente Sodder. Iria gostar de ver a cara do homem, as rugas de incompreensão, descrença, e finalmente o medo a traçar os seus padrões à medida que fosse tomando consciência da verdadeira importância do empreendimento.

- Tenente, o que é que o leva a dizer isso?

- Bom, coronel, estamos levando conosco algum equipamento incomum, e estamos intrigados sobre para o que serve.

Kane contemporizou.

- Diria que se parece com uma expedição de caça, não acha tenente?

- Sim, meu coronel. Mas isso não é tudo.

Kane estava começando a ficar exasperado.

- Que mais, tenente?

- Aqueles óculos esquisitos, coronel. Aqueles óculos de visão noturna ou o quer que sejam. Quando os pomos, quase não conseguimos ver nada.

- Tenente, acho que já está no exército há tempo bastante para saber que será informado do que precisa saber quando precisar saber.

Nos olhos de Sodder faiscou o ressentimento. Kane gostou disso. Desapertou o cinto e foi até à cabina e gritou para o co-piloto, que sacou do plano de vôo e de um mapa com um círculo vermelho onde se mostrava a zona de lançamento.

- Só mais alguns minutos! - gritou o piloto. Kane regressou ao bojo do avião e fez sinal aos homens. Eles levantaram-se e verificaram os pára-quedas.

Kane abriu a porta. Por baixo havia as planícies retas e secas da Turquia. Foi até Sodder, que se aproximou e segurou com os dois braços na ombreira, olhando a luz por cima da porta. Quando se acendeu, saltou e desapareceu. Depois outro homem, e outro.

Em pouco tempo no avião ficou só Kane. Começou a pensar o que aconteceria se resolvesse ficar ali, ou esperasse até que o avião fizesse o círculo de volta à base e depois saltasse para os desertos da Turquia.

Saboreou a idéia de desaparecer para sempre.

Depois a luz acendeu-se. Por reflexo, encheu os pulmões de ar, agarrou-se à ombreira e empurrou-se para o vazio. O vento enfunava-lhe as bochechas. Podia ver os topos dos pára-quedas abertos lá embaixo, cogumelos no ar. O salto sabia ao mesmo de sempre, uma pequena punhalada de terror e depois o longo vôo a mergulhar fundo.

 

As criaturas bloqueavam a entrada. A luz da fogueira enviava-lhes as sombras vacilando na parede da caverna, fazendo-as parecer ainda mais ameaçadoras.

Van ergueu a arma encravada. Ainda estava pesada do gelo, e escorria água do tambor. Quando a apontou ao chefe, o gesto não causou qualquer impressão. Era como se Van empunhasse um pau de madeira.

- Fiquem juntos - disse Matt suavemente. - Vou apagar o fogo. - Atirou-lhe terra para cima, fazendo a caverna mergulhar na escuridão a não ser pela luz do dia jorrando na entrada.

Matt ergueu a lanterna e acendeu-a. O raio tocou no chão, e o efeito foi instantâneo. As criaturas fugiram atabalhoadamente da estreita haste de luz. Até o chefe vacilou e se desviou.

Matt brincou com o raio, movendo-o lentamente através do chão, depois pouco a pouco em direção a eles, empurrando-os para trás direito à boca da caverna.

Van sacou da sua lanterna e acendeu-a e um segundo raio tocou no chão, cruzando-se com o primeiro. Matt começou a gritar.

- Não... - mas antes que pudesse dizer mais qualquer coisa Van tinha erguido a lanterna e fixado o raio diretamente no peito da criatura mais próxima de si.

A criatura emitiu um guincho agudo e olhou de lado para o estômago em pânico. Os braços redemoinharam quando ele caiu pesadamente para trás, perdendo o equilíbrio. Os outros correram para ele guinchando.

Susan falou alto:

- Vamos. Talvez haja outra saída. Depressa, antes que ele se levante.

Na confusão, correram para a parte de trás da caverna, onde encontraram uma passagem estreita. Desceram-na correndo tão depressa quanto podiam, movendo-se rapidamente através do escuro com a ajuda das lanternas. Já estavam ouvindo a confusão da caçada atrás de si.

- Eles vêm aí - ofegou Van.

O chão tinha sido batido e alisado, fazendo um caminho que se inclinava para frente. As paredes apertavam-se dos dois lados como num funil. Tinham a sensação de estar correndo para o coração da Terra.

À frente, o túnel dividia-se em dois. Rapidamente, Matt lançou o raio da lanterna para ambos os lados. O lado esquerdo parecia menos usado, por isso fora por ele. Quinze metros à frente, o túnel torcia-se e dividia-se de novo. Desta vez escolheram a passagem da direita, que levava a uma pequena câmara apertada com o teto inclinado. Quando Matt passou a lanterna, desaparecia num poço negro num dos lados. O teto era tão baixo que tiveram que se agachar. O chão era de terra batida.

- Temos que parar e pensar no que vamos fazer - disse Susan.

- Não podemos parar - respondeu Van. - Temos que continuar.

- Não - disse Matt. - Temos que recuperar o fôlego.

Descobriram um recanto num lado e esgueiraram-se lá para dentro, apagaram as lanternas e acocoraram-se, esforçando-se por ouvir na escuridão os ruídos feitos pelos seus perseguidores.

A princípio só podiam ouvir o som da sua própria respiração. Estar escondidos fazia-os sentirem-se ainda mais vulneráveis, e foram apanhados pelo seu próprio terror.

- Ouçam - disse Van.

Ouviram um retinir à distância que se tornava cada vez mais alto. Depois, muito perto, perceberam o bater de pés correndo e alguns gritos guturais, entremeados com guinchos agudos. Os sons diminuíram outra vez pela direção oposta, e durante alguns minutos fez-se silêncio. Matt olhou para Susan. Tinha a cara contraída. Os olhos de Van estavam fechados.

Depois ouviram a aproximação de mais pés correndo ao longo de uma passagem diferente por trás deles. O passo tinha uma espécie de ressalto peculiar. Havia um buraco pouco maior que a mão, e quando Matt olhou através dele viu um túnel, e o bruxulear de tochas acesas diminuindo contra a parede enquanto os sons desapareciam.

Eram uns três ou quatro, pensou. Pareciam estar correndo em todas as direções. Um pandemônio, como num ninho de vespas atirado ao chão. Não sabia o que era pior, um ataque frio e metódico, ou este tipo de caos com montes deles correndo por ali em perseguição. Mais cedo ou mais tarde um deles acabará por dar conosco, pensou.

De novo se instalou o silêncio durante muito tempo, e de alguma maneira a respiração deles acalmou. Van continuava com os olhos fechados com força.

Dentro do seu esconderijo, Van estava lívido de medo e raiva. Tinha espuma ao canto dos lábios. O que suspeitara nos últimos três anos acerca das criaturas tinha acabado de se confirmar.

- Eu estava certo - murmurou. - São uns demoníacos filhos da puta.

- Viram os olhos dele quando matou Rudy? - perguntou Susan. Estremeceu. - Nem um vislumbre de hesitação, nem um sinal de humanidade.

- A única bênção é que foi súbito - disse Matt. - Rudy já estava morto antes de tocar no chão.

- Nunca deveríamos tê-lo deixado ir - disse Susan.

Van resmungou.

- Talvez tenha tido sorte.

- Odeio ter que deixar o corpo dele ali. O que é que acham que eles vão fazer com ele? - perguntou.

- Não sei - disse Van. - De qualquer modo, também não importa muito, para ele.

De novo Susan sentiu um regurgitar da repulsa em relação a Van. Com a crise, o seu lado ruim estava submergindo.

- Uma coisa é certa - disse Matt -, se eles nos encontram, também estamos mortos.

Puseram-se de novo à escuta de ruídos de perseguição, mas não ouviram nada. Van pigarreou.

- Quanto àquele negócio com a lanterna. Você tinha razão, é claro. Assim que lhe pus o raio em cima e não o feriu, perdeu a... a magia. Eu não estava pensando.

- Temos é que pensar agora - disse Matt. - Como raio é que vamos sair daqui?

- Que mais é que temos? - perguntou Susan.

- A minha arma - disse Van. - É a única esperança.

- Temos que a descongelar de alguma maneira - disse Matt.

- Precisávamos era de uma fogueira. Estava quase dando certo há pouco.

- Mas não podemos tentar acender uma aqui - disse Susan -, nem mesmo pequena. Iam encontrá-la num instante.

- Não, temos que encontrar a deles. Sabemos que têm uma num lugar qualquer. Estão usando tochas acesas - disse Matt.

- É melhor sairmos daqui - disse Van. - Este lugar não é seguro.

Saíram para a câmara. Quando Matt apontou a lanterna em todas as direções, viram um novo túnel, um menor que parecia ter fendas e saliências que poderiam servir de esconderijo. Foi à frente, usando a lanterna com intermitências, enquanto os outros seguiam atrás, agarrando-se instintivamente às paredes.

Adiante havia uma interseção de dois túneis que pareciam muito semelhantes, exceto que um deles descia um pouco. Matt murmurou:

- Não faço idéia onde é que estamos. Perdi completamente o sentido de orientação.

Susan tocou-lhe na manga, apontou, e seguiram pelo túnel descendente, tateando no escuro porque não queriam que a luz da lanterna os denunciasse. Após uns cinco minutos chegaram a outro cruzamento, e de novo Susan indicou o caminho.

- Tem alguma idéia para onde está indo? - perguntou Matt.

- Não - disse Susan -, mas sinto que é o correto. – Depois de uma curva larga para a esquerda e uma longa extensão reta, descortinaram um débil raio de luz à distância. - Talvez seja o que andamos procurando - disse ela.

O túnel curvava e elevava-se um pouco, depois descia outra vez. Matt acendeu a lanterna e o raio apanhou qualquer coisa ao longo da parede, um recorte dentado. Fez a luz incidir à frente e atrás. Havia nichos escavados na parede, com marcas escuras de fuligem por cima.

- Raios me partam - disse ele. - É para os archotes. Descobrimos uma espécie qualquer de corredor principal.

- Provavelmente a maldita caverna é a casa deles – disse Van. - Tropeçamos com a porra da casa deles.

O brilho ficou mais forte, ouviram o crepitar do fogo e viram o vacilar das chamas refletido contra a pedra castanha das paredes.

Matt colou-se à parede lateral e, lentamente, espreitou à volta da esquina. Era outra câmara, não maior que uma adega, aberta por cima e subindo para a escuridão. No centro, uma enorme fogueira crepitava e atirava fagulhas, lançando uma rajada de calor tal qual fornalha. Um enorme monte de madeira empilhava-se contra a parede.

A câmara da fogueira estava vazia, mas duas outras passagens conduzindo a ela fizeram-nos sentir vulneráveis, podiam ser surpreendidos.

Era evidente que estavam numa área central, e onde as criaturas podiam aparecer a qualquer momento vindas dos buracos escuros, mas não havia alternativa, se queriam usar o fogo.

Matt entrou, sentiu a parede de calor bater-lhe e acenou aos outros para o seguirem.

- Rápido - murmurou roucamente. Van correu para a pilha de madeira, partiu um pau, descarregou a arma, fez passar uma das pontas do ramo pelo gatilho do revólver, e ergueu-o uns trinta centímetros acima das chamas. A sombra dele, lançada sobre a parede atrás de si, crescia e diminuía por turnos, exagerando-lhe os movimentos.

Van parecia estar recuperando algum do seu sangue-frio. Talvez ter algo para fazer o reanimasse.

- Não consigo acreditar que este lugar continue vazio por muito tempo - disse. - O fogo é muito importante para eles. Alguém tem que vir alimentá-lo.

Susan estava de guarda numa posição em que podia ver duas das entradas dos túneis, enquanto Matt andava nervosamente para trás e para diante.

- Continuo sem entender - disse ele.

- O quê?

- Matarem Rudy daquela maneira. Mata-se porque se tem medo, certo? Ou pelo menos os humanos matam. De que é que eles podiam ter medo?

- De nós - disse Susan.

- Mas ele não os estava ameaçando - disse Matt. - Eles eram claramente superiores em número. Tinham-no à sua mercê.

- E depois? - perguntou Van.

- Depois, não faz sentido, a não ser que toda a sua estrutura motivacional seja diferente. Matam pelo prazer de matar. Ou então, não significa nada para eles.

- Talvez não tenham conceito de morte - disse Susan. – Ou talvez a glorifiquem, lhe prestem um culto. Lembra-se da sua própria investigação: os Neandertal como comedores de cérebros.

Era a primeira vez que algum deles dava nome às criaturas.

- Não tenho certeza que sejam assim tão diferentes de nós – disse Susan. - Mataram Rudy porque estavam com medo dele... e de nós.

- Mas mesmo assim é loucura. Se tem medo de alguma coisa afasta-se dela. Se tem medo do mundo lá de fora, para quê construir uma ponte até ele?

- Talvez precisem - disse Van -, para negociar.

- Para negociar? É justo, mas então porquê matar os primeiros clientes que vêem?

- Talvez nós não sejamos os primeiros - disse Susan. - E talvez outra coisa qualquer os esteja motivando, correndo com eles da sua montanha. Qualquer coisa de novo, qualquer coisa relacionada com aquela selvajaria que acabamos de ver.

- Talvez - disse Matt com dúvidas. - Mas não parece coincidir com o que Kellicut estava descrevendo. As criaturas sobre as quais ele escreveu pareciam pacíficas, quase amistosas. Estas são macacos homicidas. Não encaixa.

- Talvez o seu grande doutor não fosse assim o melhor observador da rua dele - disse Van por cima do ombro, ainda segurando a arma sobre o fogo. - Uma coisa lhes digo. Estou certo como o diabo que não vou deixar nenhum desses filhos da mãe chegar perto de mim.

Susan olhou-o irada.

Com os olhos ramelosos, o cabelo hirsuto, a postura corcovada, todo amarrotado no anoraque enquanto se ajoelhava junto ao fogo, suando desalmadamente, ele próprio parecia um animal.

Matt interrompeu.

- Quanto tempo mais é que essa porra dessa coisa vai levar?

- Está quase. Deixou agora mesmo de pingar.

- Repararam nos sapatos de neve deles? - perguntou Susan.

- Sim - disse Matt. - Bem primitivos. Um par de troncos amarrados juntos. Mas funcionam.

- Estes tipos eram provavelmente os caçadores. Pareciam mais equipados do que... do que nós costumávamos pensar. Mas não são assim muito sofisticados. Um deles tinha uma lança, pareceu-me. Vi-a quando estavam ali dentro da caverna. Mas a maioria deles só tinha clavas.

- Se são caçadores - disse Matt - provavelmente há montes de outros por aí para cozinhar, tratar das fogueiras, e curtir as peles, esse tipo de coisas. Até pode ser que estejam todos por aí em algum lugar, se isto é a toca deles. A não ser que seja apenas uma espécie de posto avançado.

- Não é um posto avançado - afirmou Susan com firmeza. - Aquela pintura, os túneis, aquilo - acrescentou ela, indicando a fogueira. - Tudo aponta para a mesma coisa. Isto é a casa deles.

Matt ia começar a dizer qualquer coisa, mas parou quando ouviu um clique atrás de si. Van tinha retirado a arma do fogo e estava rodando o tambor. A coronha estava quente, por isso tinha encolhido o braço para dentro da manga e usava o punho como pega.

Testou-a puxando o gatilho. Clique. Depois colocou-a no chão, apanhou as balas, cuspiu no tambor para esfriá-lo, e inseriu-as uma a uma na câmara, queimando os dedos. Da mochila retirou uma caixa de munições e guardou-a no bolso.

- Vamos ao negócio – disse ele, com um sorriso aloucado.

- Foi mesmo a tempo - disse Susan. - Vem aí alguma coisa!

- Tinha o ouvido virado para a entrada de um dos túneis e apontou para ele quando ouviu passos pesados dirigindo-se a eles. Vinham correndo e a sua urgência fez nascer uma idéia inquietante: de alguma maneira, eles sabem que nós estamos aqui, pensou ela. Não estão só à nossa procura, estão nos encurralando.

Matt olhou para os outros túneis e falou baixinho.

- Está bem, vamos escolher um. Muito perto de um tiro no escuro.

- Este parece maior - disse Susan. - Talvez devêssemos ir por aqui. Não queremos andar por aí perdidos para sempre, e agora temos a arma.

Matt olhou para Van.

- Alguma vez disparou essa coisa?

Van deu-lhe um resmungo por resposta.

Esgueiraram-se pelo túnel que Susan escolhera, que acabou por se revelar ser mais largo do que os outros que os tinham trazido até ali. Podiam sentir uma ligeira brisa e ouvir uma cacofonia de barulhos, indistintos e sem direção clara, como os rumores longínquos de uma cidade. O som era vago e inquietante, e por instinto juntaram-se uns aos outros, colando-se a uma das paredes. De segundos a segundos, Matt acendia a lanterna por tempo suficiente para vislumbrarem o caminho.

Depois, erguendo-se acima dos rumores, ouviram os sons novos e agudos das criaturas aproximando-se, grunhidos, ruído de passos, pés arrastando-se, mas era impossível dizer de onde vinham. Esforçaram-se por escutar em ambas as direções, mas não havia chance de os localizarem. O som estava ficando mais alto.

Começaram a correr, ainda sem certeza de se apressarem para longe dos sons ou a acelerarem em direção a eles. Depois tornou-se claro; os passos estavam à frente.

Matt ousou acender a lanterna e, por um segundo, apontou o raio para frente. A parede expandia-se mostrando escuridão para um lado, uma fenda com sessenta centímetros de largura que levava a um beco não maior do que um armário. Podia escondê-los. Correram para ela e espremeram-se lá dentro, um de cada vez, Van no fim, e depois esperaram, com o coração aos saltos.

Van ergueu a arma e apontou-a para a abertura.

- Fechem os olhos - ordenou abruptamente.

- Está louco? - sussurrou Matt.

- Falo sério. Não faça perguntas, mas feche os olhos. – Ele próprio estava de olhos fechados. Matt olhou para Susan. Ela também tinha fechado os olhos.

Segundos mais tarde o ruído dos passos aumentou, e à medida que os archotes se aproximavam, a parede oposta ao buraco ficou com um brilho cor de laranja que se tornava cada vez mais brilhante.

Matt fechou os olhos e, por entre as pálpebras cerradas, detetou as chamas e sentiu o calor apenas a uns centímetros de distância. Depois, gradualmente, a luz e o ruído começaram a desaparecer, e enquanto Matt estava ali especado, percebeu pela primeira vez que podia cheirá-los, um cheiro pungente de gordura animal e secreções humanas que lhe invadia as narinas e lhe dava vômitos. Depois, a mancha de movimento, cores, e sombras recuou, o barulho tinha acabado, e tudo ficou silencioso e escuro outra vez. Começou a tremer.

Van deixou sair o ar com ruído e Susan soltou um pequeno suspiro.

- Foi por pouco - disse ela.

- Que cena era essa de fechar os olhos? - perguntou Matt.

- Depois - disse Van. - Primeiro é melhor encontrarmos uma saída daqui antes que venham outros. - Espremeram-se para sair um a um e retomaram a sua fuga túnel abaixo e a procura de uma saída.

Quinze metros adiante chegaram a um arco que se abria para um dos lados. Seguiram-no e entraram numa cripta gigantesca decorada com imagens. Contornos de desenhos a azul e negro cobriam as paredes superiores, e as paredes inferiores eram decoradas com formas graciosas e espirais. Um teto abobadado, muito acima, estava coberto de estalatites que apontavam para baixo como adagas e tinham as pontas pintadas de vermelho. Estalagmites erguiam-se como cones ao longo das orlas da cripta e estavam engrinaldadas com tiras de couro e contas. Havia um cheiro pesado de animal. No centro, no chão, havia peles estiradas junto a uma pilha de ossos.

- O que é isto? - perguntou Susan com a voz tremendo.

- Uma espécie qualquer de santuário - disse Matt aterrorizado.

As peles estavam dispostas cuidadosamente em semicírculo, como em louvor ou exibição. Ele virou-se e apontou a luz da lanterna para a superfície da parede à frente das peles. O que viu tirou-lhe a respiração, e fez Van assobiar baixinho.

O raio iluminava um quadro brilhantemente colorido que se estendia por toda a parede, um retângulo enorme com figuras de tamanho natural, elaboradamente pintadas em painéis. Os painéis pareciam representar uma narrativa, como os rolos da Etiópia, e as cores eram dadas por camadas múltiplas e profundas, como se tivessem sido pintados e repintados geração após geração.

Ficaram olhando por algum tempo antes de falarem. As figuras tinham sido reproduzidas de uma maneira muito bela. Eram claramente guerreiros - carregavam clavas e outras armas - e estavam divididos em dois partidos antagônicos que se defrontavam um ao outro. Um tinha a fronte protuberante e o aspecto atarracado dos Neandertal. Os outros guerreiros eram mais altos e elegantes, com queixos salientes e crânios pequenos: Homo sapiens.

Matt fez circular a luz do raio, fascinado pela habilidade de execução, o sentido artístico por trás das linhas e das cores, tentando sacar o significado da narrativa: a saga de uma batalha qualquer. Sim, era isso, as duas subespécies estavam em guerra, um conflito de qualquer espécie. Mas porque é que lhe parecia tão estranhamente familiar?

De repente fez-se luz.

- Susan, sabe o que é isto?

- Sim - disse ela, chegando à mesma conclusão quase no mesmo instante. A surpresa estrangulava-lhe a voz. - O Enigma de Khodzant!

- E vejam! Está completo. Não lhe falta qualquer fragmento. Provavelmente é o original.

- Que raio está aqui fazendo?

Não tinham visto que Van se tinha esgueirado, passando através de outro corredor lateral. Enquanto eles se maravilhavam diante do quadro e tentavam decifrar a conclusão da sua mensagem, o grito dele interrompeu-os.

- He! Cheguem aqui. Depressa!

Romperam à volta da curva. Matt ficou aliviado por ver que Van não estava com problemas. Tinha sido a admiração e não o medo que motivara o seu chamado. Estava olhando surpreendido para a orla de uma vasta caverna, a parte mais íntima da toca das criaturas que os perseguiam.

Parecia estar vazia, mas os sinais de habitação mostravam-se por todo lado. A fumaça de três pequenas lareiras curvava-se subindo e desaparecia na brumosa escuridão acima. As paredes estavam queimadas todas à volta, marcas negras até bem alto na rocha como fuligem de chaminés.

Havia lareiras, percebeu Matt, usadas para cozinhar e provavelmente para curtir couro. Instintivamente, os seus olhos não paravam de procurar sinais de movimento. Não via nenhum, mas ele tinha a sensação estranha de que a caverna tinha estado apinhada de criaturas até apenas há um momento e que elas podiam regressar a qualquer altura.

Com a força da vontade, Matt acalmou-se e depois, conscientemente, começou a procurar detalhes. Cada fenda e vão estava cheio com peles de animais. Havia-as nos montes e saliências, no chão rochoso, empilhadas aos cantos - o pêlo castanho do urso, o pêlo comprido do búfalo, do veado e do alce, lebres gigantes, marmotas, antílopes das montanhas, e outras que ele não era capaz de reconhecer.

E percebeu que estavam colocadas em grupos.

- Parece que eles talvez tenham se dividido em unidades familiares - disse Susan. Havia ossos espalhados junto aos pés dela. – Olhe para isto - disse, apontando para uma pilha mais ao lado. Continha grandes nacos de carne e cartilagem, partes irreconhecíveis de animais, meio apodrecidas e ainda pingando sangue. - Agora sabemos definitivamente que comem carne.

Para um dos outros lados via-se uma pilha de armas, e Susan inclinou-se para examiná-las. Havia sovelas, machados, lanças e uma série de ferramentas para cortar e quebrar. Lascas de pedra espalhavam-se à volta de uma rocha aplanada que tinha sido usada como bigorna. Fascinante, uma pequena fábrica de ferramentas. Era quase avançado para hominídeos primitivos prepararem assim o núcleo da pedra antes de a lascar, a técnica de Levalois, recordou-se ela. Havia outros instrumentos, alguns com trinta e sessenta centímetros de comprido, que nunca tinha visto antes.

Descobriu um pequeno cercado, uma cavidade natural da rocha que tinha sido fechada com um semicírculo de pedras e forrado com peles de animais. Ficou a estudá-lo por muito tempo antes de ser capaz de descobrir a sua função.

- Definitivamente, há famílias a viver aqui. Olhe para isto.

Admirando como a curiosidade de Susan vencia o medo, Matt foi até ela e olhou para baixo, e reparou imediatamente no fedor forte e desagradável vindo das peles gastas e o cheiro penetrante de urina.

- É um parque - disse ela. - Mais um poço, de fato, mas cumpre a mesma função. Põe as crianças aqui e fica livre para descalçar os sapatos e cozinhar um mamute peludo.

Investigaram mais um pouco. Algumas armas estavam alinhadas numa saliência, com as pontas cobertas de sangue. Matt pegou uma e cheirou-a. O cheiro era leve e indistinto. Voltou a pô-la no mesmo lugar.

- Se isto é a casa deles - disse, - para onde é que foram? Parece que estavam todos aqui há poucos minutos.

- Talvez os tenhamos assustado. Alguma espécie de alarme geral para evacuação, para protegerem as mulheres e as crianças.

- Até pode ser que saibam que estamos aqui. Podem estar espiando-nos. Ou preparando-nos uma armadilha de qualquer espécie.

Van estava nervoso. Tinha ido até o centro da caverna e ficado parado, fazendo-lhes sinal com a mão para que se juntassem a ele e olhando esbugalhado para cima. Foram até ele um de cada lado e olharam para cima. Contra a face da rocha, erguido alto junto à abóbada da caverna, estava um ícone enorme, feito no afloramento chanfrado, uma estátua de qualquer espécie, gotejando com tufos de peles brancas e pretas. Parecia ser uma espécie qualquer de animal, meio hominídeo, meio urso. Tinha o focinho estreito de um urso das cavernas com presas brilhantes; acima do focinho, um par deolhinhos de órbitas retraídas fixava-os maliciosamente. Na luz débil por cima deles podiam detectar uma testa protuberante e, no topo, madeixas de cabelo preto que caíam e se misturavam num carpete de seis metros feito com peles de urso dos dois lados. A aparição assemelhava-se a uma gigantesca boneca de vudu, feita com arte e malevolência de espírito suficientes para evocar uma mistura de esplendor e horror.

- Isto deve ser a divindade deles - disse Susan. - Uma cabeça de deus zoomórfica. Vejam como brilha com... com ódio. Quem quer, ou o que quer, que criou isto é mau, pura e simplesmente mau. É um deus pagão de malícia e morte.

- Isto é mesmo um santuário - disse Matt. Reparou nas manchas de vermelho embebidas nas rochas à volta de uma pedra erguida diretamente por baixo da figura. - Não me surpreenderia que fizessem os sacrifícios aqui mesmo.

Não levou muito tempo até que descobrissem os crânios. Estavam pendurados na parede para um dos lados do ícone, num canto escuro em reentrância. Matt moveu o raio da lanterna devagar em volta, iluminando-os um a um, como máscaras horríveis na parede de uma galeria. Eram evidentemente crânios humanos, com as largas abóbadas brancas e brilhantes e maxilares salientes. Um estava ligeiramente virado de lado, por isso puderam detectar um buraco acusador na base da parte de trás, imediatamente acima da espinal medula. Os cérebros tinham sido extraídos.

- Matt! - exclamou Susan. - Eles são comedores de cérebros.

A luz de Matt continuou a mover-se e viram outra coisa que os fez engolir em seco. Num dos lados, o troféu mais fresco era uma nova cabeça. Tinha sido cruelmente cortada, pedaços de veias escurecidas e osso pendiam do pescoço. Estava quase irreconhecível por tanta da carne ter sido arrancada, mas não havia dúvidas que era Sharafidin.

Matt ficou agoniado. Susan aos vômitos. Van em silêncio.

- Bom, agora sabemos - disse depois de um minuto.

- Não podemos deixá-la ficar aqui assim - disse Susan. - Temos que fazer alguma coisa.

- Está doida? - retorquiu Van. - A altura é pouco apropriada para um funeral e ainda menos o lugar. O melhor é sairmos daqui ou acabamos como ele.

Não era difícil de entender a profundidade do medo que sentia porque estava tremendo. Veio um barulho do lado oposto da caverna que soava como uma rocha rolando pelo chão. Matt sentiu Susan apertar-lhe o braço e desligou a luz, mas era tarde demais.

Subitamente um guincho agudo encheu a caverna, um grito como nunca antes na vida tinham ouvido, perfurante e lamurioso. Era como se um conjunto de cordas vocais humanas tivesse sido esticado com força e largamente aberto, como um instrumento. Ecoou por toda a caverna e corredores acima e abaixo.

Do outro lado da caverna, numa saliência alta em que eles ainda não tinham reparado, espreitava-os uma figura enevoada, de pequena estatura. Uma criança, pensou Susan. Depois gritou outra vez. Eles correram pela passagem mais próxima, chocando contra a encosta rochosa como movidos a jato, sem parar para escolher a rota de fuga. Ouviam o bater dos seus próprios passos ressoar nas paredes.

Pensaram que os sons vinham de trás mas não podiam ter certeza. Correram ainda mais depressa, começando a sentir a falta de ar provocada pela altitude e entontecidos com a atmosfera estagnada das cavernas.

- Não aguento muito mais - arquejou Van. Tinha começado a tropeçar ocasionalmente, e abanava os braços como abas inúteis.

- Não pare agora, por amor de Deus! - gritou Matt. Mas a cara de Van estava lívida, sem vida.

Ele não vai suportar muito mais, pensou Matt, e é ele quem tem a arma. Abruptamente, a passagem terminou e eles encontraram-se diante de uma ravina escura. Matt moveu o raio à frente. Havia uma ponte inteiramente feita de rocha atravessando a ravina. Era impossível de dizer se era resistente ou não.

- É a nossa única esperança - disse.

- Temos que passar um de cada vez.

Van, ainda com falta de ar, assentiu.

- Se conseguirmos passar para o outro lado, eles não podem investir contra nós. Se tentarem atravessar a ponte, prepararemos uma emboscada. - Ergueu a arma e segurou-a de lado.

Susan atravessou primeiro. Não olhou para baixo e levou o seu tempo descobrindo apoio seguro. Postada a meio caminho, por cima do poço escuro, podia ouvir os passos aumentando de intensidade.

Apressou-se e terminou sem perigo. Depois atravessou Van e por fim Matt.

Esgueiraram-se pela boca de uma passagem no outro lado e esperaram. Em breve, com um clamor, as criaturas lançaram-se até à ravina. Do outro lado da divisória olharam fixamente para os três humanos.

Gelaram instantaneamente e todo o som desapareceu. Assim tão perto, pareciam mesmo horríveis. Cabelo tinhoso caía sobre os músculos suados incrustados de porcaria. O aspecto deles revelava um ar mal intencionado, e mostravam os dentes, com ausência de caninos. A maioria segurava mocas. Alguns tinham armas longas e finas como agulhas. Começaram a balançar-se para cima e para baixo e a grunhir de excitação.

Um deu um passo em frente e avançou em direção à ponte. Sem hesitação, entrou nela movendo-se cuidadosamente mas com segurança. Outro alinhou atrás dele. A meio caminho, o primeiro parou por um momento, intrigado. Olhou diretamente para eles.

Porque é que eles não fugiam? Que objeto era aquele que um deles estava segurando?

Van ergueu a arma e apontou ao peito da criatura. Tinha a mão tremendo.

- Agora! - gritou Matt. - Vamos, atire! - A voz dele ecoou por toda a ravina. As criaturas bateram na cabeça olhando para ele e o que estava em cima da ponte parou outra vez, quieto - um alvo perfeito. E Van continuou sem disparar.

- Que raio está esperando? - gritou Matt. Estaria Van paralisado demais para atirar? - Dê-me isso se não consegue disparar!

Nesse momento, ouviu a explosão junto do seu ouvido e viu o coice do pulso de Van quando voava para cima. A criatura, parada no meio da ponte, olhava surpreendida para o buraco que tinha no peito, de onde saía sangue. Matt olhou para o outro lado, para os outros, tinham se encolhido com aquele som tão incrivelmente alto e pareciam atônitos, até mesmo assustados. A criatura tocava no peito, ainda confusa, mas nesse exato momento o som da explosão regressou como um trovão vindo da ravina e depois rugindo da direção oposta. Agora parecia mais alto, até que houve um estrondo, abriu-se uma fenda, outro som mais cavo, e as rochas começaram a cair. O som continuou até que desencadeou um tremor como um sismo, e enquanto mais rochas iam caindo, a ravina encheu-se de poeira, obscurecendo-lhes a visão.

- Vai desabar, - gritou Susan quando caíam para trás. Nesse momento a terra por cima parecia esboroar-se e, com um som de rebentar os ouvidos, caiu sobre eles, um peso impiedoso, tão rápido que não houve tempo para registrar a dor. Matt revolteou para baixo numa espiral em direção à escuridão e ao vazio.

 

Acordou sem ter dado por ter estado inconsciente. A primeira coisa que sentiu foi um peso nas pernas e uma espécie de sensação de morte. Estava deitado no escuro. Mal podia respirar por causa da poeira. Não conseguia lembrar onde estava ou o que tinha acontecido.

Gradualmente, tudo regressou: as pinturas na parede da caverna, a visão das criaturas na neve, a morte de Rudy, a caça, a caverna, o tiro. Tentou mexer as pernas e descobriu que não podia. Teriam sido esmagadas com o desmoronamento? Era isto que se sentia quando não se tinha pernas? Tateou o exterior dos bolsos. Havia o volume de uma faca e uma carteira de fósforos. Os fósforos, recordou-se, tinham pertencido a Rudy que os tinha entregue antes de sair da caverna. Quando a tirou para fora e acendeu um fósforo, irrompeu um clarão. Transformou-se num halo e ele olhou em volta. Viu as suas pernas desaparecendo sob uma parede de rocha e terra que se inclinava até o teto. Depois, sangue ao longo do seu braço esquerdo. Através da poeira conseguia divisar uma forma deitada junto de si. Era Susan, jazendo enrolada e imóvel. Não conseguia ver se ela respirava.

Matt começou o árduo trabalho de se desenterrar. Era difícil deitado de costas e no escuro. Escavou a terra com as mãos, inclinando-se para frente com tanta força que os músculos abdominais se contraíram num espasmo. Empurrou a terra atrás de si dando-lhe a forma de um apoio para as costas, usando as mãos como pás. Os dedos começaram a sangrar. Puxou pedras pesadas para baixo e as colocou de lado.

O avanço era lento porque assim que abria uma cavidade, mais rochas e terra rolavam pela inclinação abaixo para enchê-la. Sentiu um objeto de metal. O coração exultou: era a lanterna. Suspendeu a respiração rezando enquanto a ligava. Não funcionava. Atirou-a para o lado e continuou a cavar. Meia hora mais tarde, já tinha libertado tudo menos a ponta dos pés. Deitando-se reto para trás e empurrando o chão com os punhos, foi capaz de se movimentar, livre por fim da avalancha de rochas. Descobriu que podia mexer uma perna; a outra estava torcida para um lado. Susan agitou-se e começou a falar sozinha numa voz monótona e monocórdica.

Matt acendeu outro fósforo, arrastou-se até ela e fez-lhe uma festa na cara. Ela abriu os olhos, depois fechou-os e esticou-se para coçar um braço. Ele sentiu uma umidade atrás da cabeça dela, fios de qualquer coisa pegajosa misturada com o cabelo e soube que era sangue. Tentou pôr-se de pé e descobriu que conseguia a custo, pondo o peso na perna boa e esticando o braço para se apoiar na parede da caverna. Levantou Susan. Ela erra capaz de se pôr de pé, embora ainda estivesse de olhos fechados.

Matt acendeu outro fósforo e olhou para trás. O desmoronamento tinha bloqueado a passagem com terra fresca e escura, sem ter destruído as paredes, como se um buldozer tivesse empurrado toneladas de rocha e detritos através do pequeno canal. Não havia sinais de Van, nem da arma. Não é uma má maneira de morrer, pensou Matt, súbita e final, morte e enterramento ao mesmo tempo. Mexeu o braço para tocar na mochila, que ainda tinha às costas e sentiu uma dor no ombro de que antes não tivera consciência.

Cambalearam pela passagem abaixo, respirando a poeira que começava a assentar. Susan parecia estar em coma. Dizia coisas, mas ele só conseguia apanhar uma palavra aqui e acolá. Tentou falar com ela.

Quando o fez, ela calou-se, mas não podia saber se o tinha ouvido ou não. Não dava qualquer sinal.

Ele tateou o caminho à volta de uma curva e acendeu o último fósforo. À frente havia um corredor reto. Piscando os olhos, viu um raio de luz cortando através do túnel como a lâmina de uma espada. Delicadamente, pousou Susan no chão, coxeou adiante e ajoelhou-se.

Lá estava aquela dor no ombro outra vez - e meteu a cara no buraco. O ar frio bateu-lhe no rosto, mergulhou-lhe nos pulmões e parecia espalhar-se pelos membros como uma golada de wisky.

Bebeu profusamente.

Alargou o buraco, afastando a terra, puxando-a para dentro, e empurrando-a para longe. Foi surpreendentemente rápido e depressa podia introduzir a cabeça e depois o tronco através da abertura. Lá fora, onde a neve se amontoava em camadas, estava frio e silêncio.

O Sol brilhando, com uma luz tão deslumbrante que ele mal podia ver. Regressando para recolher Susan, teve de empurrá-la pelo buraco pelas costas. As pernas dela caíam inertes na neve e ela não acordou.

A neve era profunda mas tinha endurecido, pelo que em parte se enterravam. Ele queria ir para o mais longe possível da caverna, por isso tentou pôr-se de pé e puxá-la por trás, mas não conseguia e, após alguns passos, o cansaço e a dor venceram-no. Enterrou-se e a sua mente começou a devanear. Sentia o vento agora e deixou que o levasse. Passou os braços à volta de Susan e aconchegou a cabeça dela sob o seu queixo. Encaixavam perfeitamente. Somos um por fim, pensou obscuramente enquanto o vento o embalava com delicadeza.

Sentado ali, quieto, sentiu o frio penetrando. Começou nas extremidades, depois avançava em direção ao centro. Conseguia sentir os membros tornando-se pesados, os sentidos mais espessos. Pensou em luzes apagando-se nos quartos distantes de uma mansão. Abraçou Susan com mais força e inclinou-se para trás na neve. Sentia-a estranhamente quente. As suas pálpebras enfrentavam o Sol. Fazia a tela diante si cintilar com estrelas cadentes e meteoros. Sentiu-se ser puxado para o vórtice quente, a aurora da criação.

Ficaram ali, imóveis como estátuas, até que a neve se amontoou à volta deles. Depois, como nuvens que se agarram ao Sol, figuras granuladas aproximaram-se e longos pares de braços peludos alcançaram-nos e puxaram-nos para fora da neve.

 

                   PARAÍSO

Kane inclinou o samovar e segurou-o pelo topo, com a palma da mão esticada para deitar as borras de café de zurrapa numa caneca brasonada com uma cara amarela e feliz.

Chegara na noite anterior, num helicóptero que o tinha apanhado na seção VIP do aeroporto em Dushanbe, onde fora despachado das formalidades por um grupo de oficiais Tajiques que não falavam uma palavra de inglês. Estava vestido como civil para que a sua chegada não desse nas vistas.

Depois passou duas horas no helicóptero que se anunciava sobre o solo estéril e roçava as árvores como um farol voador. Finalmente, aterraram numa clareira mal amanhada, nos limites de Murgab, uma pobre cidade Tajique no sopé dos montes Pamir. A poeira levantada pelas pás cobriu a testa e a cara de Kane, deixando-lhe um círculo à volta dos olhos que lhe davam um ar de guaxinim.

Foi recebido pelo oficial de serviço de noite, um tipo em roupa de faxina amarrotada chamado Grady, que lhe apertou a mão rapidamente e bocejou. Não foi pedido a Kane que se identificasse, o que era estranho para uma operação tão secreta. Quando alcançaram o dormitório, Grady apontou vagamente para filas de beliches duplos e disse.

- Escolha um qualquer. São todos iguais, pouco confortáveis. - Depois desapareceu por uma porta. Kane pousou o saco de lona.

Vindos do fundo obscurecido do quarto ouviam-se vários ressonares. Numa mesa, ao centro, descansavam um aparelho de televisão e um vídeo, junto com um monte de cassetes antigas, revistas Penthouse e Hustler, garrafas de Coca-Cola vazias, algumas com beatas de cigarro encharcadas lá dentro. Por perto, dois frascos de aspirinas quase vazios.

As paredes descascando suavam aborrecimento.

Não havia dúvida que o lugar parecia uma lixeira. Kane recordava-se das velhas fotografias que tinha visto de Los Alamos, o aquartelamento em barracas de madeira no topo de uma meseta no deserto, onde os maiores cérebros científicos do século se tinham reunido para criar a sua satânica engenhoca de destruição: o depósito de água partido, as ruas enlameadas, o ginásio de aspecto malcheiroso e a pequena casa do rancho em que a própria bomba atómica fora montada.

Era estranho como os acontecimentos mais marcantes de uma época ocorriam nos cenários mais dilapidados.

Abriu a porta de trás e saiu por um corredor em direção a uma luz de brilho fraco. Descobriu Grady numa sala lateral, de pés para o ar, com um livro aberto sobre o colo. Na parede diante dele, brilhando para baixo, havia uma série de telas. Dois estavam vazios e três funcionando. Uma tela mostrava uma parede lisa com uma pia, sem nada mais. Nos outros dois, vista de ângulos diferentes, havia uma forma escura embrulhada e deitada numa cama de campanha. Era difícil perceber de que se tratava, de qualquer maneira estava imóvel, sem dúvida a dormir.

- É ele? - perguntou Kane.

- Sim. A bela adormecida.

Kane olhou para os números digitais na parte de baixo da tela.

- Está gravando?

- São as ordens. Vinte e quatro horas por dia, oito dias por semana.

- O som também?

- Gravamos, mas com o som baixo, senão fica-se maluco. – Grady inclinou-se e ligou um botão. De um autofalante no teto veio um ruído estranho, baixo e áspero. Kane demorou um momento para perceber que era a respiração. Olhou para o relógio e cronometrou-o com o ponteiro dos segundos. Grady observava-o, depois virou o botão.

Mais tarde, deitado num dos beliches debaixo, Kane sacou do relógio e tentou imitar a respiração. Achou difícil, porque as pausas entre as expirações eram anormalmente longas. Teve dificuldade em adormecer por causa do ressonar da outra ponta da caserna.

De manhã, depois de um café da manhã de ovos em pó mexidos, Kane encontrou os outros seis homens da caserna, todos americanos, tipos taciturnos, militares emproados como ele. Assemelhavam-se a todos os carcereiros.

Tinha sido bem informado antes de deixar a Turquia, mas mesmo assim ainda não se sentia preparado para o que estava à beira de testemunhar. Já há algum tempo que ouvira falar na Operação Aquiles - não se chegava àquele posto sem ter desenvolvido uma rede de vigilância de fugas de informação e boatos que pudesse ter valor estratégico no futuro - e tinha feito de estúpido e adulado Eagleton e outros o suficiente para ter ficado com uma idéia muito boa do que estava acontecendo. Mas de fato ainda tivera dificuldade em acreditar, até há alguns minutos atrás, quando lhe entregaram a pasta.

Mandaram-no entrar para um pequeno gabinete sem janelas e ali estava ela, diante dele, no centro de uma mesa, os únicos papéis presentes. A porta fechou-se e ficou sozinho. Havia um enorme frasco de aspirinas numa prateleira, era o terceiro que via. Devagar, como se estivesse abrindo uma potencial carta armadilhada, levantou a aba do grosso envelope carregado de etiquetas dizendo SECRETO - NÍVEL 5 (o mais elevado) e US MILINTEL.

Retirou um molho de papéis com três centímetros de espessura de lá de dentro e mergulhou nos preliminares, uma prosa pouco caraterística e não militar, provavelmente escrita por um cientista. Depois chegou aos sumários pertinentes:

 

O sujeito foi encontrado ao lado de um caminho, numa zona montanhosa, de localização exata desconhecida. Estava de cara para baixo, aparentemente doente ou sofrendo de colapso, quando foi descoberto por dois pastores. Ficaram impressionados com a aparência do sujeito e a princípio deixaram-no ali, mas depois regressaram, colocaram-no num carro e trouxeram-no para a aldeia de Deibaillot, Tajjiquistão, onde o sujeito foi colocado num estábulo. Quando as suas condições pioraram foi levado a uma clínica local, onde o médico se recusou a tratá-lo. No entanto, foi-lhe permitido ficar na clínica, e a sua existência tornou-se conhecida do cônsul americano, que seguiu os procedimentos de notificação prescritos em conformidade com DATCOM 3824.

O sujeito foi realojado em Murgab em condições de segurança absoluta e posto em cela solitária.

Com o tempo, a condição física do sujeito melhorou gradualmente. Retomou consciência e começou a comer, embora as provisões dietéticas continuem sendo um problema. O estado mental dele é por vezes agitado, e dá a aparência de rejeitar a clausura. Teve de ser refreado. As experiências são difíceis, embora não impossíveis e estão piorando com o tempo. Mas já algumas variantes foram estabelecidas na zona experimental.

De fato, no que respeita às reações do sujeito, nunca foi encontrado nada de semelhante da parte dos humanos; "da parte dos humanos", notou Kane, a primeira indicação de que "o sujeito" representava qualquer coisa tão completamente fora do reino do normal, que o que estava sendo registrado com tanto desprendimento prosaico era nada mais nada menos que a mais espantosa descoberta científica do mundo. Folheou o resto dos documentos.

Havia relatórios médicos, registrados em letra inclinada e a tinta permanente. Pressão arterial, eletrocardiograma, gráficos vocais, testes de DNA. Havia pontos de exclamação após algumas das medidas físicas. Parecia que o exame tinha sido feito enquanto "o sujeito" estava inconsciente. Um asterisco explicava: não queria "cooperar" e à vista de um estetoscópio ou qualquer outro instrumento ficava com ataques de raiva ou medo, ou uma combinação dos dois.

Seguiam-se páginas de apontamentos, aparentemente sobre estudos de percepção: fotografias de blocos a preto-e-branco ou multicoloridos, triângulos, círculos, quadrados, cartas de jogar, postais, referências a imagens de vídeo.

Kane estava tentando decodificar os termos quando a porta se abriu e entrou um homem pequeno, ficando careca, logo de mão estendida, um feixe de energia nervosa de bata branca com a ponta da caneta de tinta permanente saindo de um bolso.

- Chamo-me Resnick. Bem-vindo ao nosso pequeno esconderijo. - Kane grunhiu. Não estava com vontade de ser bem-educado. Resnick começou a tratar do assunto em causa. Estava preocupado, disse, porque tinha havido uma rápida deterioração da saúde do sujeito.

Tinha deixado de comer. Isso era aborrecido e embaraçoso, disse Resnick, especialmente dado que não se tinham poupado a esforços para encontrar comida que fosse apetitosa. Não era fácil conseguir vegetais frescos nesta parte do mundo. Até tinham mandado vir de avião carregamentos de legumes frescos da capital da província, mas continuava a perder peso rapidamente.

Resnick suspirou.

- É como se tivesse tomado a decisão de deixar de funcionar. Claro que não podemos permitir isso. Poderemos ser obrigados a usar alimentação forçada. Odiaria ter que fazer isso, mas pode não haver alternativa.

- Fale-me da capacidade especial dele.

- Ah, o dom. - Resnick fez um meio sorriso e desviou os olhos.

- Existe de fato?

- Gostaria que você o tivesse experimentado por si próprio, mas receio que isso agora seja impossível. Há já algum tempo que se recusa a cooperar.

- Mas você viu? Gravou?

- Pouco claro. Num momento sim, não há dúvidas. Mas depois a repetição tornou-se difícil. As informações são cientificamente, como direi?, atacáveis. Tinham de ser, sem os rigores necessários. Não há grupo de controle, esse tipo de coisas. Como é que pode haver um grupo de controle só com um único sujeito?

- Mas você atestou a existência disso de modo a que você próprio ficasse convencido?

Resnick fez de novo aquele seu sorriso de esguelha. - Tem que compreender, sou um cientista primeiro e antes de tudo. Exijo fatos onde os outros têm a liberdade de prosseguir com base na fé. Suposições, teorias, nada disso me interessa.

Kane recordou-se do que tinha extraído da pasta de Resnick: um mandão que trabalhava com Van Steeds, esse discípulo de última hora de B. F. Skinner que tinha feito a tese sobre o tálamo e

psicolinguismo. Uma nota fora rabiscada na página por Eagleton:

Este homem, Resnick, executará todas as experiências, sem fazer perguntas.

Em resumo, era a escolha perfeita para supervisionar uma experiência destinada a suscitar o ceticismo dos poucos cientistas que viessem a ter conhecimento dela. Assim, de acordo com o figurino, provavelmente recusava aceitar as conclusões do seu próprio trabalho, mesmo quando lhe saltavam à cara. Kane resmungou outra vez.

- Deixe-me vê-lo.

Enquanto desciam as escadas para a cave, parte de Kane recusava-se a continuar. Ele sabia porquê: o poder da memória. Há quase vinte anos atrás descera uma escada semelhante no Uganda. Idi Amin tinha fugido de Kampala e, enquanto jovem adido militar da embaixada dos Estados Unidos em Nairobi, Kane tinha acorrido à capital destruída. Fora dos primeiros a revistar a casa abandonada por Amin e, na cave, tinha seguido por um túnel até ao célebre Gabinete de Pesquisa do Estado. Ali descera por uma escada como esta, usando apenas a luz da lanterna, levando-o a umas masmorras onde o massacre de setenta pessoas tivera lugar poucas horas antes. Algumas ainda estavam vivas, cortadas aos pedaços, quando ele andou sobre o chão de cimento, literalmente patinhando em sangue. Era uma recordação que de tempos em tempos lhe surgia nos pesadelos.

Seguiu Resnick. Quando chegaram à pesada porta de aço, Resnick fez chocalhar uma argola de metal e ergueu uma chave-mestra chanfrada.

Quando a porta se abriu, o que mais chocou Kane foi o cheiro, um odor com o toque da urina, merda e suor azedo, mas algo ainda mais forte, um cheiro pungente que se sobrepunha a todos os outros.

Contra vontade e apesar do treino, sentiu o medo a agarrá-lo.

- As manhãs são normalmente melhores, mas nunca se sabe disse Resnick. - E isso coloca a questão de como é que sabe que é manhã. Não há janelas, nenhuma distração de qualquer espécie.

- Estava falando por cima do ombro, tão solene quanto um médico fazendo a visita com um novo interno. Passaram por meia dúzia de celas vazias e ele parou diante de outra porta.

- Agora é melhor entrar sozinho. Não queremos enervá-lo.

Quando penetrar no campo de visão dele, fique de cabeça baixa, como numa vênia. Descobrimos que é o que funciona melhor.

E mexa-se extremamente devagar. Nada de movimentos súbitos, isso é o pior. Fique longe das grades. Pode sentir estranhas sensações dentro da cabeça. E não fale. Acima de tudo, não fale. Mesmo se fizer um som, não lhe responda. - Destrancou a porta e deu um passo para o lado, e Kane entrou. Tornando-se imperturbável, deu um passo silencioso em frente, depois outro.

Antes mesmo de o ter completamente à vista, Kane já estava chocado.

Num instante rápido, viu a criatura: viu-a e cheirou-a e de alguma maneira sentiu-a com sentidos que nem sequer sabia que tinha. Observou-a com os olhos de alto a baixo, recordou-se, mudou de focalização, medindo, avaliando, julgando. A criatura estava afundada num colchão, virada para a parede, as costas curvadas num monte. Era peluda mas com pele de humanóide, escurecida até um tom acinzentado. Os pêlos eram longos, finos e escuros como os de um chimpanzé, mas esparsos e emaranhados. Os ombros, arredondados e poderosos, recurvavam-se de uma maneira pouco natural. Kane viu que isso era devido às algemas que prendiam a criatura, enrolando-a numa bola. Correias grossas circundavam-lhe os pulsos e puxavam-lhe os braços sobre o estômago e através dos antebraços como uma camisa-de-força. As correias tinham feito feridas com pus e sangue seco. Estava vestida com calças amarelas rasgadas nas coxas, para nelas caberem os músculos salientes, e a parte de trás cortada de onde saíam as nádegas, enormes e cobertas de fezes secas. Os pés descalços eram grandes, com os dedos abertos. Via-se uma das solas, rosa brilhante.

A cela estava em grande parte nua. Tinha uma pia num dos lados mas Kane viu que a criatura, limitada pelas correias, não podia alcançá-la. Não havia latrina ou balde de despejos. O chão de cimento inclinava-se em direção a um escoadouro, e uma mangueira grossa ligada a uma torneira estava pendurada num canto.

Kane experimentou uma sensação estranha. Talvez fosse o fedor, ou a invasão da adrenalina, mas sentia a cabeça pesada, como se alguma coisa estivesse crescendo lá dentro, e trocou os olhos por causa de uma dor funda por trás das órbitas. Não teve tempo para pensar nisso porque, nesse momento, a criatura mexeu-se e conseguiu sentar-se.

Virou-se e olhou para Kane sem surpresa. Olharam-se nos olhos. Kane olhou profundamente para as íris azuis e as pequenas pupilas negras lá dentro, e soube num instante que estava perscrutando, não o reflexo superficial e embotado de um animal qualquer, mas os lagos profundos de um ser inteligente. De olhos fixos um no outro, pareciam dois aviadores descrevendo-se um ao outro no radar, e depois atacando os alvos.

Kane não gostou do que viu. Sentiu uma repugnância instintiva subindo dentro de si. Os olhos dirigiram-se para a testa, para a saliência inclinada, perfeitamente formada e simétrica mas grotescamente fora do lugar, como um tumor. Repelia-o.

Os olhos da criatura devolveram o olhar, fixando-o num transe, quase desafiadores. Kane não sentiu nem um pouco de compaixão. Não manteve a cabeça baixa. Pelo contrário, levantou-a e fixou diretamente a criatura indefesa.

Sem pensar, disse em voz alta as palavras que lhe vieram à cabeça em algum lugar lá do fundo:

- Você faria o mesmo conosco, não faria?

Instantaneamente, a criatura atirou com a cabeça para trás, ergueu-a, e deixou sair um grito agudo semi-humano de angústia que reverberou na cela e através do estreito corredor.

Kane deu consigo sendo puxado por Resnick. O homem estava lamuriando-se tão perto do seu ouvido que conseguia sentir-lhe o bafo.

- O que é que fez? O que é que fez? Eu lhe disse. Eu o avisei. Enquanto subia as escadas em direção à luz, podia ainda ouvir os sons atrás de si, agora um lamento. Depois uma porta fechou-se e abruptamente foram abafados. Cá em cima, sentou-se, abalado, no pequeno gabinete. Quando olhou para Resnick, meio atabalhoado e endireitando a bata, de novo a cabeça de Kane foi enevoada por aquela curiosa dor que aumentava como um balão.

 

Matt acordou devagar, erguendo-se através de níveis de consciência como um mergulhador vindo à superfície. Ficou deitado sem se mexer, e depois abriu os olhos e fechou-os outra vez. As perguntas estavam levando muito tempo a formar-se no seu cérebro vagaroso.

Onde é que estava? Queria refugiar-se num longo sono. Mas algo o obrigava a vir para cima até à superfície e para a luz acima dela. Abriu os olhos de vez e pestanejou.

Mexeu-se e imediatamente sentiu dor. Disparou pela coxa direita, passou ao longo das costas e circundou-lhe o ombro direito. Levantou a mão esquerda no ar diante da cara. Três dedos, o médio e os outros dois praticamente não tinham vida. Fechou a mão. Pelo menos os dedos mexiam-se. Quando se içou, apoiando-se no cotovelo, a dor atacou-o de novo profundamente no ombro direito. O que é que tinha acontecido? Com um esforço, obrigou a mente a andar para trás.

Devagar, as memórias começaram a arrumar-se. Estava agora completamente consciente e com a consciência veio uma onda de medo puro que lhe apanhou as entranhas: onde é que estava Susan? Estaria viva?

Mexeu as pernas e sentou-se, a dor atacando um milésimo de segundo depois, tão certa como um choque de retorno, e olhou em torno de si.

Havia verde a toda a sua volta, folhas e plantas e vinhas. Ficou espantado: parecia que há muito tempo não via árvores. A casca delas, milagrosa, era de um castanho rico e profundo. Havia uma brisa ligeira, suave, que fazia os ramos abanar ligeiramente, um ondear rítmico que o enjoava um pouco. Por cima da cabeça os ramos encontravam-se e teciam um dossel. Podia ver farrapos de céu. Em alguns lugares a folhagem verde era tão densa que a luz do Sol caía em lâminas agudas, como esboços bíblicos da floresta primordial no princípio da criação.

Matt tinha estado descansando sobre ramos entrelaçados com folhas e erva. Não era desconfortável, nem tão-pouco natural. Alguma coisa - alguém - tinha feito esta cama primitiva. Quem? De novo, tentou empurrar os pensamentos para trás. Não conseguia se lembrar de quase nada após o desmoronamento. A poeira e as pedras e o raio da lanterna cortandd para cima: disso lembrava-se. Depois, o empurrar das pedras e da terra, que justificava a dor pelo lado direito abaixo. Viu sangue seco na camisa e quando puxou o tecido uma dor apunhalou-o. Tinha a camisa colada à pele.

Cuidadosamente, descolou-a e olhou. Uma ferida redonda, vermelha com bordos de sangue seco, estendia-se da anca até à primeira costela. Com mau aspecto, mas superficial, concluiu. Levantou os dedos dormentes e mexeu-os outra vez. Reagiram lentamente e a contragosto.

Queimados do frio. Agora lembrava-se de ter fugido da caverna, cavando as rochas com as mãos nuas, e de puxar Susan através da neve. A brancura ofuscante e a fadiga paralisante. Mas como é que tinha chegado aqui - onde quer que aqui fosse? E onde é que ela estava?

Uns metros mais adiante, junto à base de uma árvore, viu o blusão, enrolado numa bola. Próximo dele estava a mochila. A visão encheu-o de esperança. Era uma prenda de bom augúrio. Evidentemente, alguma coisa o tinha trazido até aqui, e o que quer que tivesse sido, qualquer que fosse a força superior responsável, não o tinha morto - pelo menos por enquanto. Talvez Susan estivesse também aqui com ele, talvez tivesse sido ela quem pusera os seus pertences ali ao lado.

Matt resmungou, reuniu forças e levantou-se. Primeiro ficou tonto e esticou um braço para se apoiar numa árvore. Quando se sentiu equilibrado andou até à mochila, ajoelhou-se, abriu-a, e mexeu lá dentro.

Parecia estar tudo ali, até os foguetes que tirara a Van. Próximo do topo encontrou a caixa de plástico azul dos primeiros-socorros, abriu-a e retirou o frasco do anti-séptico. A tampa saiu com facilidade: já tinha sido aberto. Ergueu-o contra a luz. Tinha desaparecido cerca de um quarto. Levantando a camisa, olhou de novo para a ferida. Não havia sinal de infeção e uma crosta começava já a formar-se nas pontas.

Alguém a tratara. Deitou-lhe mais anti-séptico por cima.

Estava numa espécie de caramanchão. A folhagem estendia-se por todos os lados, e fetos enormes cobriam o chão lançando um cheiro rico e úmido. Encontrou um caminho e seguiu-o, movendo-se cautelosamente.

A cada meia dúzia de passos, parava para olhar em todas as direções e suspendia a respiração para ouvir melhor. Nada se movia, nada se via em lugar nenhum e eram poucos os sons.

Estava intrigado com a flora luxuriante. Cheirava a musgo, folhas e frutos maduros, e as árvores estavam engrinaldadas de vinhas. Evidentemente que tinha descido a centenas de metros da caverna e da plataforma sem árvores onde o nevão atacara. Mesmo assim, a vegetação era luxuriante e fecunda demais para pertencer aos montes Pamir, a não ser que tivesse sido transportado para algum vale escondido com um perfil meteorológico esquisito, talvez um lugar protegido pelos altos picos, alimentado por neve derretida e aquecido por vapores vulcânicos.

O caminho levava através de um bosque escurecido e ele caminhou com cuidado, tentando pôr os pés no chão sem fazer barulho. Chegou à orla de um prado minúsculo e sentou-se para pensar o que fazer a seguir. Não lhe agradava entrar em campo aberto. Olhou para a erva, que lhe chegava à altura dos olhos. Passaram algumas moscas. De repente percebeu, com uma enorme dor de estômago, de como estava esfomeado, mas tinha pouca energia, decerto não a suficiente para ir à procura de comida. Deixou-se cair, levantou a mão esquerda e olhou para os dedos; pelo menos sentia-os um pouco menos dormentes.

Lembrou-se da personagem de Jack London, cercado de lobos junto a uma fogueira, cujo último gesto consciente fora contemplar a beleza pura da mão humana, toda a criação se incluía no movimento de rotação dos dedos fechando-se.

Depois viu-o vir através do prado no seu balanço peculiar. Movia-se depressa. Este estava nu e trazia qualquer coisa no ombro. Matt deixou-se escorregar mais para baixo e suspendeu a respiração. Vinha direito para si. Teve de lutar contra o instinto de dar um salto e fugir.

Em vez disso, deu meia volta e rastejou através da erva direito ao bosque, depois agachou-se e correu com a cabeça baixa. Quando já tinha as árvores atrás de si, endireitou-se e correu às claras, saltando sobre ramos e correndo velozmente por entre as vinhas. Quando chegou a uma árvore, mergulhou e ficou escondido pelos ramos.

Ali susteve a respiração e observava-o no caminho a uns trinta metros de distância. Subitamente, como se ferido por alguma coisa, parou, pausou por um momento, e depois virou-se para o bosque num ângulo agudo, vindo direito a ele até que Matt podia ver o feio crânio deformado, o largo peito peludo, o molho de madeira que transportava ao ombro com uma mão pendurada. Andou em volta, afastou os ramos no outro lado, espremeu-se entre eles e correu para salvar a vida.

Correu e correu. Arfando por ar, reconheceu uma cabana e, enquanto-corria em direção a ela, viu através das árvores um sinal de

movimento, uma forma. Era Susan. Susan! Estava de pé no centro.

Mas diante dela, movimentando-se em direção a ela, estava outra forma, enorme e peluda. Matt convocou a sua última reserva de energia, correu em direção a eles e irrompeu pela cabana dentro. Deu consigo saltando alto no ar, abandonando o chão com a força do impulso de todo o seu peso, para aterrar inteiro nas costas da criatura.

Sentiu o impato da pancada, ouviu o grunhido dorido do ar sendo expelido, e captou um olhar de alarme na cara de Susan. Depois sentiu-se a navegar e a cair para baixo em direção ao tronco de uma árvore. Bateu nele com a cabeça e ouviu mais sons, vagos e indistintos, enquanto mais uma vez mergulhava nas profundezas escuras e pacíficas da inconsciência.

- Matt, Matt. - Susan chamava-o docemente e acariciava-lhe a testa com a mão. Abriu os olhos. Ela estava ajoelhada ao lado dele, a olhar para baixo. Pegou-lhe a cabeça e embalou-a nos braços, e depois colocou-a no colo e acariciou-lhe a face com as pontas dos dedos. - Tenho que admitir que você é corajoso - disse ela. - Mas qual era exatamente o teu plano? Estava tentando cavalgá-lo até à morte?

- Susan, pelo amor de Deus, estava tentando fazê-lo parar. Ele avançava contra você. - Ele tentou levantar-se.

- Não era contra mim, era para mim. Ele é meu amigo. Acalme-se. - Empurrou-o para baixo. - Tenho tanto para te contar.

Matt sentou-se direito e olhou em volta rapidamente. O Neandertal estava de pé, à distância, junto a uma árvore.

Ela riu sem querer e disse:

- Você o assustou tanto quanto ele te assustou. Não se preocupe, é inofensivo. Chama-se Caralonga, pelo menos é assim que eu lhe chamo.

- Quanto tempo eu estive desmaiado?

- Um dia inteiro. Claro que me pareceu mais tempo para mim do que para você.

- Sem dúvida - respondeu Matt, esfregando o galo na cabeça.

- Antes de mais, coma qualquer coisa.

Ela atarefou-se preparando comida. Pôs algumas nozes e bagas num prato de alumínio tirado da mochila. De uma garrafa - Matt podia ver que se tratava da garrafa de vodca de Rudy - deitou-lhe água numa taça de madeira, misturando-lhe uma espécie de papa de aveia. - Não é tão mau como parece - disse em tom de consolo. - Pense nisto como qualquer coisa que os suecos comeriam no café da manhã.

- E o que me diz da criatura?

- Chiu. Tudo a seu tempo.

Por fim, tendo-lhe satisfeito a fome de comida embora ainda não a de respostas, ela deu-lhe umas palmadinhas no joelho.

- Não saia daqui - ordenou-lhe. - Está pronto para a experiência da sua vida?

- Desapareceu por trás de uns arbustos e regressou minutos mais tarde, orgulhosamente de braço dado com o mesmo hominídeo que Matt tinha atacado.

- Matt apresento-lhe Caralonga. Caralonga, apresento-te Matt. Não se preocupe - acrescentou ela sorrindo. - Ele não guarda ressentimentos.

Matt arfou de incredulidade, recuando instintivamente à vista do primata nu. Olhou fixamente o físico volumoso, pernas curtas, o peito cilíndrico, os bícepes protuberantes e depois para cima, para a enorme cara projetada para diante com o crânio rebaixado, o queixo que desaparecia, os olhos afastados e profundos, e a inconfundível barra de osso. Quase parecia muito humano - quase, mas não completamente.

Susan riu baixinho com a confusão de Matt.

- Pode dizer o que quiser - disse ela, assumindo o papel do especialista. - Ele não vai entender. Não têm linguagem.

O hominídeo aproximou-se e pôs-se de cócoras, olhando para Matt com interesse e curiosidade pouco profunda. Não parecia estar com medo, nem ser ameaçador. Matt olhou-o de cima abaixo; as costas eram compridas, as pernas curtas. Tinha mais pêlo que um humano, mas não era completamente hirsuto. Tudo acerca dele parecia um pouquinho deslocado e, no entanto, era suficientemente humanóide para - para quê? Matt inclinou-se de perto e fixou-lhe a cara.

Viu-lhe inteligência nos olhos, talvez até uma inteligência ao nível da sua, mas não viu admiração.

Caralonga tocou na manga da camisa de Matt e apalpou o tecido.

Matt olhou para os dedos rotundos, unhas rudes e articulações nodosas.

As linhas que atravessavam a palma da mão eram completamente diferentes das dos humanos. Num impulso, ele avançou e tomou a mão na sua, e assim que sentiu o agarrar poderoso, uma onda de emoção avassalou-o, um frêmito pulsando tão forte que parecia o reverter para uma qualquer idade remota, como se o seu núcleo genético tivesse sido ativado por aquela faísca de contato físico. Sentiu-se cheio de alegria.

- Espantoso, não é? - disse Susan. - Pensar que o toque recua a trinta mil anos.

- Ouça! - exclamou Matt. - Ele está falando. - Sons gorgolejavam do peito espesso.

- Receio que não. Eles fazem barulhos em certos momentos. E pelo que percebi, os barulhos parecem registrar emoções de uma maneira rude: alarme, surpresa, alegria. Mas definitivamente não falam. Fazem outra coisa.

- O quê?

- Pensam.

- O que é que quer dizer com isso?

- Transmitem pensamentos, ou imagens, qualquer coisa.

- Quer dizer telepatia?

- Uma espécie. Vai entender o que eu quero dizer. Pode senti-lo quando acontece. E depois eles parecem saber para onde é que está olhandd, quase como se eles também estivessem olhando para a mesma coisa.

- Como é que sabe disso?

- Tente esconder-se e vai ver do que é que eu estou falando. É quase como se. . .

- Como se o quê?

- Como se estivessem dentro de si.

- Incrível.

- Eu sei. Não o consigo explicar. É uma espécie qualquer de comunicação extra-sensorial.

De súbito, Caralonga desinteressou-se e foi embora. Qualquer coisa na majestade do seu porte, a inclinação da cabeça enquanto andava com um balancear nos passos largos, era estranhamente revelador.

- Meu Deus, ele é velho - deixou escapar Matt.

- Correto. Você tentou estrangular um dos anciãos da tribo.

- Tribo. Há muitos deles?

- Nem vai acreditar quantos.

- Mas como é que podem ser da mesma espécie dos que encontramos antes? Praticamente parecem iguais, mas os outros eram tão selvagens. Estes parecem muito mais humanos.

- Não sei o que é mais humano, mas tem razão, são completamente diferentes.

- Van morreu, foi morto pelo desabamento - disse Matt.

- Calculei isso. Não podíamos fazer nada. Agora sente-se e descanse. Foi um raio de um galo que arranjou aí. Tem outra surpresa à espera. Mas isso é para mais tarde.

Susan conduziu Matt ao longo do caminho em direção ao que ela chamava de aldeia. Ia tagarelando, contente por Matt estar bem e também feliz pelo companheirismo humano, por ter alguém com quem partilhar as observações sobre o mundo pouco plausível em que tinham caído.

- Depois te ensino os nomes deles - disse ela - a começar pelos três que nos salvaram: Gênesis, Êxodo e Levítico. Pode dizer que estava com um estado de espírito bíblico. São ainda os meus preferidos. Pode-se sempre reconhecer Levítico: tem uma estatura mais elegante e uma cicatriz na cara, embora só Deus saiba onde é que a arranjou. De Fato, está tornando-se cada vez mais fácil distingui-los uns dos outros.

Matt olhou para ela assombrado.

- Está gostando de brincar de Eva, não está? Dando nomes às criaturas.

- Desconfio que sim.

- É uma forma de controle. Sempre gostou disso. - Ela sorriu.

- Mas eu não gosto disso - disse Matt. - Preciso saber algumas coisas, tais como é que chegamos aqui, antes que me diga os nomes deles.

Picada, Susan apressou-se a dar-lhe as informações. Retomara consciência ao descer a encosta da montanha e contou a Matt o que se recordava.

A primeira sensação fora a força férrea dos braços que adembalavam, a protuberância dura dos bícepes. Quando abriu os olhos viu a parte de baixo de carne branca do pequeno queixo sem barba e deu uma espreitadela para dentro da boca: os dentes dele eram castanhos.

O primeiro impulso foi entrar em pânico, dado que partiu do princípio que estes eram os mesmos tipos que tinham morto Rudy.

Mas estranhamente, à medida que as horas passavam e ela se fingia ainda inconsciente, descobriu qualquer coisa de indescritivelmente tranquilizador neles. Não sabia se era a delicadeza do comportamento, os braços que a abraçavam, se era ter vislumbrado Matt sendo levado junto com ela.

Ao anoitecer chegaram à aldeia no vale. Depois de a terem posto junto do fogo, ela tentou continuar a espiá-los sem ser vista, mas eles parecem ter percebido a tramóia e trouxeram-lhe comida, que lhe deixaram perto. Ela comeu e adormeceu. Quando acordou, na manhã seguinte, descobriu que estava na cabana com Matt e rodeada de um monte deles: machos, fêmeas e crianças. O medo desapareceu-lhe gradualmente, sendo substituído por uma sensação de maravilha.

A cientista afirmava-se.

- Pode imaginar - exclamou ela - temos a oportunidade de estudar outra espécie vivendo realmente no meio deles. Acabar com as teorias, as conjecturas, as especulações. Apenas observação, investigação cultural pura à moda antiga, com a diferença de que é pré-histórica.

Matt estava espantado com a facilidade com que Susan parecia sentir-se em casa. Estava absorvendo tudo, infiltrando e tentando dar-lhe um sentido como se estivesse numa fantástica viagem de campo.

Como nós os humanos nos adaptamos ao inesperado e à adversidade, pensou ele. Será essa qualidade o segredo da nossa sobrevivência?

Ele próprio ainda se sentia abalado. Num nível primitivo tinha chegado à conclusão que o perigo retrocedia. A parte arcaica do seu cérebro, que bombeava os químicos em resposta à agressão, começava a acalmar-se. Mas tinha todos os sentidos apurados ao máximo e quando se cruzaram com um hominídeo pelo caminho, ele achou que ia saltar para fora da pele.

Havia outra coisa, além do medo, em que Matt reparou. A princípio pusera-a de parte, mas agora tinha certeza. Matt olhava-os de frente e eles retribuíam o olhar. Mas nem sempre olhavam para ele e ele sentiu um peso no cérebro, quase como uma intrusão, como se algo mais estivesse a movimentar dentro de si. E quando o hominídeo ia embora, a sensação desaparecia, como o Sol regressando por trás das nuvens.

A aldeia estava construída à volta de um rio. Não tinha muito que se visse, uma coleção de abrigos de recurso que pontilhavam a encosta do monte e se multiplicavam quando a terra se endireitava na cova do vale.

O que despertou a atenção de Matt foram os próprios hominídeos, a mancha de atividade enquanto desempenhavam as tarefas do dia-a-dia, carregando toros e cestos, acocorados, comendo, tratando da fogueira que enviava uma espiral preguiçosa de fumaça céu acima. E as crianças - claro, que teria de haver crianças! - umas versões em miniatura dos adultos, só que as saliências da testa pareciam mais pronunciadas nas suas caras pequenas.

Andavam todos nus. Nenhum deles usava peles de animais como os outros tinham usado - de fato, parecia que não havia qualquer animal por ali - e nenhum carregava clavas ou alguma outra arma. As mulheres eram uns centímetros mais baixas do que os homens, e as formas femininas impressionaram Matt como sendo exageradas, ancas extremamente largas, nádegas caídas e seios pendentes.

Os pénis dos homens, pendurados livremente, não pareciam ser particularmente grandes e eram discretos nos ninhos espessos de pêlo genital.

- Sei o que está pensando - disse Susan. - E a resposta é: não sei. Ainda não estive aqui tempo suficiente para vê-los copulando.

- No que respeita a isso, não parece haver uma grande diferença entre os sexos. Seguramente não nos papéis que desempenham. Ambos tratam do fogo e moem o grão com almofariz e pilão, e tanto quanto posso dizer, essas parecem ser as duas grandes atividades.

- Sim, eles têm cereais. Plantam searas, mas não matam animais e não comem carne. O fogo é usado para limpar o terreno e não para cozinhar. Assim, estamos seguramente errados quanto a isso. A agricultura instalada antes da caça, é fascinante, não é?

De fato, Matt estava pensando em outra coisa.

- Susan, estamos aqui de pé há alguns minutos e ninguém nos liga.

- Mas eles sabem que nós estamos aqui; podemos senti-los lendo, é assim que eu digo. Por isso eles sabem que não somos uma ameaça. No entanto, a curiosidade deles não está, como diríamos, bem desenvolvida. Ontem quando aqui vim pela primeira vez, causei uma pequena agitação, especialmente entre as crianças. Mas neste momento já me consideram quase como um trapo velho.

Matt entrou numa cabana. Estava construída em forma de cone à volta do tronco de uma árvore. Os ramos mais baixos tinham sido cortados rente ao tronco e pendiam até ao chão. Ramos mortos tinham sido empilhados no topo para formar uma espécie de tenda cônica como a dos índios. Parecia-se em parte com a vedação de espinhos de um kraal dos Masai no Quênia, pensou ele. Lá dentro não havia grande coisa: algumas cabaças com água, meia dúzia de ferramentas de pedra lascada alguns cestos de madeira trabalhada cheios de cereal.

- Não - Susan continuava falando no jargão dos guias turísticos. - consigo entender a organização social, se é que existe alguma. Não parecem viver em família. Os adultos e as crianças deslocam-se por aí, de uma cabana para a outra. As mulheres parecem recuar para o pano de fundo. Mas não estou aqui há tempo suficiente para falar com segurança.

Matt ainda não conseguia reconciliar estes hominídeos com os monstros sedentos de sangue que tinham morto Rudy. Os outros pareciam cruéis - não apenas porque usavam armas mas por causa de qualquer coisa no porte, uma maneira de avançar a cabeça no pescoço alongado, um brilho cruel nos olhos enterrados por debaixo daquela aba óssea.

Estes mostravam-se completamente pacíficos. Tinham uma abertura e uma calma, acocorados e mastigando bagas e frutos, como se nada neste domínio terreno lhes dissesse respeito.

- Vou dizer o que me intriga - disse ele. - É apenas uma primeira impressão, mas de tudo o que vi até agora, são muito mais primitivos do que eu esperava, ou do que teria esperado se alguma vez ousasse imaginar uma coisa assim.

- Sim.

- Em comparação com o bando que encontramos na montanha parecem ter um atraso de aiôns. Aquele grupo, odeio dizê-lo, mas tinha organização. Tinham um chefe; agiam em conjunto de uma maneira coordenada, planejada. Usavam armas. E viu a caverna deles. Estavam curtindo peles, pelo amor de Deus!

- O que é que quer dizer? - perguntou ela.

- Estou dizendo que, apesar das semelhanças exteriores, são muitos diferentes, como duas espécies diferentes.

- Vá lá. Parecem iguais. Estão separados pela distância de um dia de caminhada. E você diz que são duas espécies diferentes?

- Sei que parece inacreditável - disse Matt. - Só quero dizer que eles agem como duas espécies diferentes.

- Está perto há umas seis horas e já se tornou um especialista.

- Vamos com calma. De qualquer maneira você nunca gostou da variação regional.

- O que é que isso quer dizer? - disse ela encolerizada.

- Significa que vai sempre pela explicação mais simples, substituição violenta, um grupo conquistando o outro. Talvez exista outra explicação.

- Tal como ?

- Não sei.

- A seguir vai me dizer que estes dois grupos evoluíram separadamente porque um está no vale e outro na montanha. Também há uma coisa como levar longe demais o desenvolvimento multirregional.

Ficaram calados por um momento. Depois Susan falou.

- De qualquer maneira, você está se esquecendo de uma coisa.

- O quê?

- O Enigma de Khodzant.

- Está bem, chico esperto. O que é que significa?

- Não sei. Mas sei que tem alguma coisa a ver com a guerra, e

que é a chave para esta coisa toda. Pretendo descobri-la.

- Boa sorte.

O caminho estreitava-se num trilho. Susan parecia segura da direção a tomar e ia à frente. Em breve tinham se afastado da aldeia e penetrado profundamente na floresta. Podiam ouvir os pássaros, o zumbido de insetos, mil pequenas criaturas em debandada.

- Onde vamos? - perguntou Matt.

- É surpresa. Lembra-se?

Susan saltou por cima de um regato com passos largos e graciosos.

Na floresta, o seu luxuriante cabelo negro parecia estar em casa. Matt ainda tinha dores ligeiras, mas estava melhor. Andaram à vontade durante uma hora, quando Susan se virou e disse com um sorriso:

- Estamos quase chegando. Está bem?

Matt fez uma careta de sofrimento.

- Claro que sim.

Subiram por uma encosta e chegaram a uma falésia onde grande parte do vale se espraiava diante deles. À distância, paredes a pique erguiam-se até às montanhas acima.

- Raios me partam - disse Matt. - Estamos numa cratera. Aposto que ainda está ativa. Deve ser por isso que o clima é tão temperado.

Susan deu-lhe o braço.

- Sabe, um dia é muito tempo para ficar inconsciente. Estava preocupada. Não deixe que isto te suba à cabeça, mas pode estar reaquecendo o teu caminho de volta à minha afeição.

- Bom, estar aqui perdida sozinha com umas centenas de homens das cavernas pode ter algo a ver com isso.

Ela riu e continuou. Dentro em pouco ouviam um rugido contínuo por entre as árvores um pouco à frente: uma catarata. Mais dez minutos chegaram diante de uma queda de água com trinta metros de largura que caía a prumo de um rochedo. Matt cheirou o enxofre, e percebeu que se tratava de um enorme géiser enviando para cima um esguicho quente. Isto explica o clima, pensou: nascentes geotérmicas lançando vapores aquecidos que colidem com uma corrente de ar quente vinda do vale.

Ao fundo, na base da queda de água, havia uma bacia larga formada pelo líquido que caía. Matt olhou para baixo e viu que um caminho de pedras descia até à bacia junto da base da catarata. Depois ouviu outro ruído penetrando intermitentemente por cima do rugido, mas ocasionalmente distinto. Parecia uma voz a solfejar ou cantar, por impossível que fosse, mas era tão difícil de reter que começou a duvidar dos seus sentidos.

Depois Susan pôs as mãos em concha junto aos ouvidos dele e gritou qualquer coisa, de novo indistinta, e apontou para a base da catarata. Saindo da neblina veio uma sombra reconhecível com a forma humana e depois tornando-se familiar. Aproximou-se e foi subindo os degraus, mas só quando chegou ao topo é que Matt teve certeza. Ali, aproximando-se com ar solene, embrulhado numa toga como um deus grego clássico, mas com uma barba comprida que lhe dava semelhanças com um profeta do Antigo Testamento, estava Kellicut.

 

Se Eagleton não era fanático, não era nada. Quando pegava um assunto, mergulhava nele durante horas sem fim, não pensando em nada mais. As suas ruminações começavam num ponto central, depois expandiam-se em círculos cada vez mais vastos, como um cão à procura de um caminho para casa.

Era por isso que o seu gabinete tinha sido transformado com artesanato e tótens nas últimas duas semanas. Ao longo de uma parede havia retratos de grandes homens da paleo-antropologia e áreas afins, variando da geologia à psicologia cognitiva. Até havia praticantes da nova escola da arqueologia experimental, almas estranhas que desapareciam nuas no deserto durante meses a fio, para tentar recriar os estilos de vida dos seus antepassados primitivos. Até aqueles que tinham se perdido e distanciado do que se considerava ser o caminho aceito da sabedoria, os conservadores vagabundos e os lutadores de causas perdidas, estavam ali representados.

À direita, fixando o espaço com um olhar cético através de pequenos óculos circulares, estava a foto de Rudolf Virchow, o alemão fundador da moderna patologia que tinha destruído a sua reputação por lutar contra a ultrajante teoria da evolução. Havia uma pintura de Alfred Russel Wallace, o autodidata de fala mansa vindo da classe baixa, de olhos castanhos líquidos, o homem cujas teorias anteciparam as de Darwin. Havia Thomas Huxley, bonito e de cabelo comprido, com ar confiante zombando para a câmara; e Paul Broca, a pedra basilar da antropologia física francesa; e até Edward Simpson, o notável falsário inglês, sentado numa cadeira de madeira rodeado pelas ferramentas do seu ofício, um martelo na mão e aos pés umas pedras fraudulentas, destinadas sem dúvida a alguns crédulos compradores vitorianos.

Acima deles todos, tanto fisicamente na parede, quanto mentalmente no panteão hierárquico de Eagleton, estava Ernst Haeckel, o naturalista alemão, de aspecto nobre, com longas tranças louras e um ar de destino trágico como o do general George Custer. Tinha abraçado o evolucionismo com uma paixão perigosa, convertendo a sobrevivência dos mais aptos num dogma da Natureza da phiolosophie, a filosofia mística romântica que levou às teorias eugênicas e doutrinas raciais do nazismo.

Eagleton sentia-se irresistivelmented atraído pelo homem, aqui representado de botas e chapéu de abas largas, com uma caneca de cerveja junto ao cotovelo.

Sobre uma mesa, ao lado da mesa de Eagleton, estava um velho conjunto de moldes, mandíbulas, pedaços de crânios apresentando números rabiscados com tinta escura, e uma variedade de ferramentas pré-históricas: martelos de pedra, machados de uma e duas faces, poliedros, raspadeiras, discóides, lascas e fragmentos. Quando perdido nos seus pensamentos, pegava as peças, virava-as de um lado para outro como contas de um rosário, e reorganizava-as em novos padrões.

Na parede em frente, bem esticada e presa a uma placa de cortiça, estava uma reprodução do Enigma de Khodzant com os painéis em falta, a charada por resolver que era a favorita de todos os licenciados.

Mais ninguém, a não ser Eagleton, sabia que estava relacionada com os Neandertal, pelo menos ninguém ainda vivo. Eagleton tinha estabelecido a relação graças a Zhamtsarano, o mongol que lhe inspirara o respeito e a afinidade que um explorador sente por um colega que trilhara o mesmo caminho virgem umas décadas mais cedo, e desaparecera.

A representação fora descoberta nos arquivos de Zhamtsarano no Instituto de Estudos Orientais na Academia das Ciências. Havia ali um esboço do enigma, incluindo o último quadrante que faltava, claro, e uma inscrição garatujada em cirílico. De novo, Eagleton leu a tradução numa folha de papel sobre a sua mesa:

 

Cada tribo tem o seu mito central próprio. É o mito de origem ou de sobrevivência que demarca a tribo e cria a sua diferenciação. Penetrar no coração do mito é compreender o momento de criação da tribo e a aurora da sua história.

 

Monte Olimpo, Geia e Urano, os Titãs, Caim e Abel, o Dilúvio e a Arca de Noé, Moamé e a Montanha, Krishna, a Tribo Perdida de Israel - todos incorporavam esta verdade básica, como Eagleton o percebera. Calculava que Zhamtsarano resolvera a charada da pictografia mas não tinha registrado a resposta, o que era típico de alguém que acreditava que o caminho era tão importante quanto o ponto de chegada.

Eagleton olhava-a fixamente durante horas, tentando decifrar a sua mensagem e, às vezes, enquanto se ocupava de outra tarefa, virava a cadeira de rodas subitamente para lhe dar uma olhadela, como se o segredo pudesse ser apanhado numa emboscada.

Eagleton estava ficando sem tempo. Tinha decisões a tomar, mas faltava-lhe a informação sólida que lhes desse fundamento. O transmissor de Van continuava mudo. Havia sérias chances de que ele e os outros estivessem metidos em problemas. Deveria mandar Kane e a equipe da SWAT? Se os pára-quedistas chegassem cedo demais, arrasando tudo e aos pontapés a torto e a direito como sempre, podiam abortar completamente a missão. Mas se chegassem tarde demais? Então o único problema seria contê-los: como impedir que aquilo que eles descobrissem se viesse a saber - isto é, se ainda houvesse alguma coisa para descobrirem.

E os russos? Tinha ficado aborrecido por saber pela última transmissão de Van que já estavam no terreno. À sua maneira falsa, Van tinha insinuado que Eagleton já sabia da expedição deles. O que era verdade, claro, de um modo geral e não encontrara nenhuma razão para introduzir Van nesses meandros. Mas não pensara que Moscou avançasse tão depressa, nem fazia idéia do que é que os cientistas russos andavam tramando. Hesitaram em passar toda aquela investigação e conceder o terreno aos americanos, com ou sem Transparências.

Apesar de tudo, para quê dar de graça uma vantagem num campo pioneiro? Os hábitos da Guerra Fria eram difíceis de perder.

Eagleton acendeu outro cigarro e abriu a pasta da Operação Aquiles com os documentos mais recentes no topo. Daqui não tinha boas notícias. O sujeito perdera quase dez quilos em três semanas, deixara de cooperar com os experimentadores, tinha de ser preso com cadeias com ferros de mãos e pés, e andava fazendo estranhos ruídos.

Folheou as páginas de informações sobre as experiências feitas em Aquiles: sumários das folhas em bruto que tinham sido registradas durante meses e enviadas aos montes para Maryland, para serem verificadas e reverificadas, desde que tinham descoberto os notáveis poderes da criatura. Não era telepatia, a leitura da mente, mas definitivamente um passo em direção a isso - Visão Remota, ou VR, é o que os cientistas lhe chamavam, e estavam absolutamente seguros de que a criatura, quaisquer que fossem as outras qualidades menores que pudesse exibir, a possuía.

Eagleton chegou à transcrição da sua primeira entrevista com os cientistas que lhe tinham explicado. Leu-a.

 

- Trata-se de leitura do pensamento?

- Não, só muito dificilmente. Não é de todo a mesma coisa. Primeiro que tudo, o pensamento, pelo menos nos humanos, é inseparável da linguagem e muito dele tem lugar no córtex cerebral. Este sujeito não tem um córtex cerebral desenvolvido, pelo menos não está desenvolvido da mesma maneira. Não, o dom é ocular.

- Quer dizer que precisa de olhos para funcionar?

- Sim, dos olhos de outros.

- E vêem essa pessoa?

- Não, apenas vêem o que essa pessoa vê. Vêem através dos olhos dessa pessoa, de fato, ocupam os centros óticos onde a informação visual é processada. Por isso não vêem a pessoa real, a não ser que essa pessoa esteja olhando para um espelho.

- Pode ir até algum lugar e ver qualquer coisa?

- Quer dizer, se pode viajar através do espaço à vontade e, digamos, ficar pendurada no topo de uma árvore observando um pôr de Sol? De modo nenhum. Como disse, é uma forma limitada de telepatia, completamente dependente de um canal para trabalhar através dele, um outro cérebro que seja o receptor primário e trabalhe as informações.

- E pode mesmo ver através dos olhos de outra pessoa?

Primeiro tinham-no descoberto acidentalmente nas câmaras de vídeo, nos tempos em que o apetite dela era grande. Repararam que momentos antes de ser alimentada, a criatura entrava num frenesi antecipatório. De alguma maneira sabia que a comida vinha a caminho. Um observador esperto junto dos monitores fez notar que isso acontecia no momento preciso em que o guardador entrava pela porta aberta em direção à lata de comida, a sete salas de distância da cela. Variaram as horas de alimentação, mas ela continuava a saber com uma exatidão de segundos. Alargaram os testes para incluir; todo o tipo de coisas: banhos, recreios, a apresentação de brinquedos.

De algum modo conseguia detectar as coisas que estavam acontecendo na sala ao lado. Havia uma constante: alguém tinha que estar nessa sala e usando os olhos. Construíram testes a toda a prova: um homem num andar diferente olharia para um de três sinais - um triângulo, um círculo, ou um quadrado - e embaixo, a criatura apanharia o objeto correto. Mudaram todas as variáveis: os objetos, a distância, o tempo, a iluminação. Até desligaram os monitores de televisão, e ela ainda escolhia corretamente, com uma margem de erro tão pequena, 0,106 por cento, que era estatisticamente insignificante.

O campo de observação foi alargado. A criatura podia realizar VR com três observadores diferentes espalhados a quilômetros de distância. Tendo-lhe sido dado um bloco e carvão, até conseguia desenhar, de uma maneira rude, os contornos de uma cena que estava sendo vista por outro, desde que as fronteiras fossem suficientemente claras. Mas outra pessoa tinha que estar olhando para que a faculdade funcionasse.

Aqueles que passavam tempo com a criatura, os tratadores e os cientistas repararam que sentiam uma sensação de falta de nitidez, e as vezes dores de cabeça, quando a criatura invadia os seus receptores visuais. Um tratador em particular, um americano irlandês chamado Scanlon, era o favorito da criatura: parecia gastar muito tempo "vendo" o que Scanlon estava observando. Por sugestão de Eagleton posta em prática pelos cientistas, ligaram a criatura a um ECG, a um gravador de reações galvânicas da pele e outros instrumentos para medir as emoções do corpo. Depois, Scanlon, que não sabia do teste, foi levado numa viagem de carro descendo uma estrada da montanha a cento e cinquenta quilômetros por hora. As agulhas saltaram loucamente as medições da criatura saíram dos parâmetros.

Era pena, pensou Eagleton, que fora isso a criatura fosse tão pouco comunicativa. A informação ia toda só num sentido. Era incapaz de lançar alguma luz sobre a sua capacidade única, como um sábio idiota executando problemas de multiplicação até às décimas para um animal de aspecto tão rude e possuía um dom tão sublime. Era pena. Talvez só consigamos compreendê-lo com uma autópsia, e isso pode não estar longe, dado o modo como a saúde da criatura estava se deteriorando.

Toda esta operação era muito grande para quaisquer erros. Só Deus sabia o que possuir aquela faculdade podia significar. Com os avanços da genética nestes dias, a transferência do dom para os humanos era mais do que possível, estava praticamente ao alcance. As aplicações inspiram terror, pelo menos a nível militar. Um exército inteiro com uma capacidade daquelas seria invencível. Imagine-se as possibilidades na espionagem, na recuperação, comando e controle de informações. Imagine-se as vantagens durante econômicas, no estabelecer de quotas com os japoneses, no regatear com a União Européia. Não era de admirar que os russos estivessem de volta no jogo.

Eagleton fechou a pasta e apertou o botão debaixo do tampo e entrou uma secretária - uma nova, a terceira desde a partida precipitada de Sarah. Usava um perfume mas ele não conseguia distinguir a marca, dos seus sentidos o olfato era o mais fraco. Quando lhe entregou a pasta ela olhou para ele e perguntou:

- Mais alguma coisa, senhor?

O tom saiu-lhe rude, o tom de um homem que tem montes de trabalho à frente e não pode ser interrompido por conversas fúteis..Não, nada. Nada mais. - Ela saiu, fechando suavemente a porta atrás de si. Ele pegou numa mandíbula e balançou-a na mão, depois olhou de novo para o Enigma de Khodzant. Lá fora, através das persianas, estava ficando escuro.

 

- Recuso-me a falar de Rousseau. Recuso-me a falar de Locke e Schopenhauer. Purguei-me dos filósofos. São todos uns filisteus ignorantes. Pertencem a uma parte do meu cérebro que eliminei.

Kellicut estava descansando de encontro a uma árvore, um lugar perfeito para uma discussão sobre o homem como bom selvagem. Mostrava uma irritação nova, que surpreendia Matt, vinda após a estranha abertura, quase mística, que até agora tinha exibido. Susan, que estava sentada no chão olhando para cima, para Kellicut, não parecia partilhar da percepção de Matt.

Matt encostava-se ao tronco da árvore. Impressionada pela vista de alguns hominídeos que apanhavam bagas por ali, tão pacíficos no seu elemento atural, Susan tinha tentado espicaçar a conversa para os filósofos que antes os costumavam ocupar horas sem fim pelos bares de Cambridge. Era uma maneira de quebrar o gelo, mas a Matt parecia-lhe que ela tinha caído de novo no papel da estudante reverente.

Matt tinha notado as transformações em Kellicut no momento em que o vira. Estava em boa forma e bronzeado pela sua estada no vale. Os braços eram musculosos e a pele estava curtida. A idade, se não o resto, dava-lhe maior autoridade, enfatizada pela fartura da barba grisalha. Tinha o rosto seco e nos olhos o brilho do fanático, como um anjo bíblico vingador. De fato, não usava uma toga, mas uma tanga feita do que já fora um par de calças.

Estranhamente, Kellicut não tinha mostrado surpresa ao ver Matt.

Sem dúvida que já sabia da sua presença através de Susan, é claro. Porém, depois de tantos anos e em circunstâncias tão peculiares, Matt tinha esperado mais. Apesar de tudo, tinha apenas voado através de meio mundo em resposta a uma convocação urgente. Esperara encontrá-lo grato e não distante. Só houvera aquele cumprimento frio quando Matt o encontrara alguns momentos antes. Matt sentiu uma vaga da velha afeição e, por cima do rugido da catarata, gritara-lhe:

- Mandou-nos vir e aqui estamos nós - movendo-se em direção a ele para abraçá-lo.

Kellicut deixou-se ficar onde estava e ergueu um sobrolho. A resposta dele fora apenas audível sobre o som da queda de água:

- Bom, de qualquer maneira, já estão aqui. - Matt escondeu o desapontamento, mas enquanto o fazia, percebeu que reencenava uma emoção que experimentara muitas vezes ante na presença deste homem.

- Pensamos que estava em perigo.

- Era isso que eu queria que o Instituto pensasse.

- Porquê ?

- Porque não confio neles. Não sei em quem confiar. Nem sequer tenho certeza de poder confiar em vocês. Vão ter que ser pacientes comigo.

Depois Kellicut caiu num longo silêncio. Não parecia que estivesse em conflito. Pelo contrário, parecia ter a mente calma e vazia. Era como se qualquer coisa houvesse atingido o íntimo da sua alma e o tivesse virado do avesso.

Mas agora, horas mais tarde, com Susan a espicaçá-lo, Kellicut começou a despejar as palavras que há muito estavam encerradas nele. Falou sem mexer as mãos, sem qualquer tipo de gesto - só para ela.

- A filosofia é uma mentira. Uma fraude. Não são os pensamentos ou o pensamento dos pensamentos que estão errados, são as próprias palavras.

Pela sua própria natureza são limitadoras. As palavras não conseguem captar o pensamento ou sequer chegar perto de o capturar, por isso tornaram-se mentirosas. A linguagem não é um dom, é um fardo. Percebemos isso quando usamos a verdadeira comunicação por outro meio.

Kellicut percorreu os acontecimentos passados e falou da sua busca pelas montanhas, a descoberta da ravina conduzindo ao vale e o primeiro encontro com os hominídeos.

- Soube, no primeiro momento em que os vi, que possuíam um poder extraordinário. Já os tinha observado à distância, e percebi com uma certeza difícil de explicar, que também tinham consciência da minha presença, que estavam a me observar como eu os observava. Ou, mais precisamente, que eles estavam observando a minha observação deles.

- Fui ao acampamento, deixei o diário e regressei. Desta vez estavam todos juntos numa clareira, como se tivessem previsto a minha chegada. O que de fato tinha acontecido, embora eu não tivesse meio de saber na época. Não senti medo. Porque haveria de sentir? Já sabia umas coisas acerca deles. Não eram agressivos, e os meus motivos eram puros. Aproximei-me deles como seres da mesma família que existem num plano superior.

- Saí dos arbustos e meti-me no meio deles. Não estavam minimamente surpreendidos. Cheiraram-me e examinaram-me com curiosidade, de modo algum ameaçadores. Procurei pelo chefe, mas não havia nenhum, à parte alguns anciãos, como iria descobrir mais tarde, que de uma maneira geral são respeitados. Em vez disso, cada um é verdadeiramente igual, da criança mais pequena ao homem mais forte. Não têm gesto de cumprimento como o aperto de mão, porque não há necessidade de exibir intenções pacíficas. As intenções são sempre pacíficas. Que razão existe para suspeitar de qualquer mão quando se vive num mundo sem armas?

- Eles sabiam que eu tinha fome e deram-me de comer, literalmente deram-me de comer. Reuniram-se à minha volta e puseram comida na minha boca. Esta foi a minha primeira experiência com o dom. Dei por isso quando olhei para a comida e eles me deram mais. Quando desviei os olhos, só um bocadinho, eles pararam. Porém não estavam olhando para os meus olhos. Como é que sabiam? Sabiam apenas.

- Como? - perguntou Matt.

Kellicut virou-se para ele com agressividade na voz.

- Não sente? Não experimentou?

- Não tenho certeza.

- Sabemos quando está acontecendo. Experimentamos a sensação. É como se a nossa mente estivesse se enchendo de algum modo. É esta a melhor maneira que tenho para o descrever, como um recipiente a encher-se com água ou um nevoeiro que toma conta da tua cabeça.

- Quando acontece com um deles pode ser uma sensação passageira. Mas quando acontece com um grupo é uma sensação intensa. O nevoeiro fica cada vez mais espesso, e quando finalmente nos liberta, uma chuvada atravessa-nos, lava-nos e limpa-nos. Não é muito diferente do LSn, a mesma sensação de nos soltarmos completamente, de mergulhar em alguma coisa poderosa e infinita. Não é nada assustador. É, qual é a palavra?, animador, reconfortante. É como pertencer a alguma coisa, como rebentar com a solidão, como não estar só no sentido mais profundo do termo.

Os três ficaram em silêncio por um momento e depois Kellicut continuou.

- Eles alcançaram uma existência beatífica. Pensem nisso. São herbívoros e pacíficos. Não matam animais nem se matam uns aos outros. O seu modo de vida é comunal. Não há individualidade, não há sentido do eu, não há ego. Porque é que deveria haver, como poderia haver, quando a psique pode sair do corpo, quando a mente existe literalmente no coletivo? Tudo o que conta é a tribo.

- O que é que acontece quando um deles morre? - perguntou Susan.

Kellicut ficou surpreendido pela pergunta, mas não porque não tivesse pensado no assunto. Fez uma pausa.

- Isso é um assunto completamente diferente - disse docemente.

- Mas como é que funciona esse poder psíquico? - perguntou Matt.

- Uma pergunta bastante trivial e utilitária.

- Penso que sou um tipo dessa espécie.

- Não é usado para nada, enquanto tal. Apenas é - disse Kellicut irritado.

- O que eu quero dizer é, eles lêem nosso pensamento, ou são apenas capazes de ver o que nós vemos?

- Apenas?

- Sabe o que quero dizer.

- Sei. E não sendo capaz de executar o feito eu próprio, não vejo como possa responder. Tenho estado apenas no lado do receptor, pelo menos até agora.

- O que é que quer dizer com até agora? - perguntou Matt.

- Vai tentar aprender a fazero aquilo?

- Não iria tão longe. Mas pode-se sempre ter esperança.

- Soa muito próximo da percepção extra-sensorial - disse Susan.

- No que respeita a esse assunto, qual é a diferença entre ler o pensamento de alguém e de fato ver o que essa pessoa está vendo, especialmente quando o fenômeno ultrapassa a barreira da espécie? Se ambas as espécies pensassem da mesma maneira, talvez eles pudessem ler os nossos pensamentos. Mas assim, eles só podem ver o que nós vemos.

- Acho que tem razão - disse Kellicut.

- E acredita que não puderam desenvolver a linguagem porque não precisam da linguagem? - perguntou Matt.

- Não puderam?

- Está bem, esqueça o puderam. Que eles não desenvolveram a linguagem porque não precisam da linguagem?

- Exatamente. Para quê rastejar quando se pode andar?

-Enquanto nós podemos ver que o oposto é mais correto.

- O oposto?

- Não entendeu? - Kellicut estava outra vez irritado. - Aqui a comunicação ocorre na sua forma mais pura. O indivíduo é submergido no grupo. O mundo é completo, por isso não há grande necessidade de empurrar para a frente outra coisa qualquer. Para quê lutar pelo progresso quando a mudança só pode significar regressão?

- Isso não me soa muito darwiniano - disse Matt.

- Darwin não tem nada a ver com isto. A sobrevivência do mais apto era um conceito brilhante, mas não admite qualquer dimensão ética ou moral. É o mundo como uma corrida de obstáculos gigante, sempre mutável e malevolente. É a história escrita depois do Gênesis.

- E o que temos aqui é anterior ao Gênesis? - perguntou Matt.

- Totalmente. Se conseguir entender isso, que Deus o ajude. Não vê que está rodeado de seres inocentes, ingênuos e confiantes? Descobriu o próprio Éden, o grande jardim do paraíso, anterior à transgressão de Adão e Eva. Faz tudo parte do grande desígnio da natureza, a repetir-se vezes sem fim.

- O Éden? - perguntou Matt.

- Sim, o Éden. De todas as maneiras.

- Todas as maneiras? Quer dizer que podemos vir a encontrar Deus aqui ?

- Quase com certeza. Eu já encontrei. E não apenas isso.

- Que mais?

- Também encontrará Satã. Preparado para se transformar numa serpente.

- Quem é Satã?

- Não sou eu quem vai dizer. Posso estar enganado.

Ocorreu a Matt, e percebeu que a suspeita já estava se formando dentro de si há algum tempo, que Kellicut pudesse estar louco. Olhou para Susan, que parecia fascinada. Como é que ela não via isso? Kellicut tinha recuado para a ofuscação. Matt pensou na corrida pelas cavernas há apenas alguns dias. Subitamente recordou-se de Van o avisar para fecharem os olhos quando estavam se escondendo nos recessos, a urgência na voz dele. Claro! Van sabia dos poderes deles. Sabia que eles podiam ver pelos olhos de outros. Ele soubera sempre. A constatação o irritou.

- Diga-me - disse ele. - Já sabia alguma coisa disto antes de ter vindo até aqui?

- Nem um pouco.

Matt acreditou nele.

- E os Neandertal assassinos em que tropeçamos, onde é que se encaixam?

- Não posso dizer. Nunca os vi, embora saiba, claro, que eles descem de vez em quando e fazem raides. Susan me contou a sua experiência. Lamento o que aconteceu a Sharafidin. Ajudou-me muito. E também soube da morte do seu amigo. Muito do que sei tem sido por conjectura. Estou trabalhando numa teoria, mas será prematuro divulgá-la.

Matt e Susan sabiam que não valia a pena pressioná-lo. Kellicut não era do tipo dos que cedem caminho assim que fixam os calcanhares.

- O que eu gostaria de saber - disse Matt - é porque é que eles são tão brutais. Mataram Rudy sem um momento de hesitação.

- Diria que a resposta é óbvia - disse Kellicut.

- E qual é?

- Odeiam-nos.

- Odeiam-nos ? Porquê ?

- Porque os vencemos. Quase os exterminamos, quase, mas não completamente. O pior que se pode fazer a um inimigo mortal é quase matá-lo.

Nessa noite Susan tentou uma experiência. Mesmo antes do anoitecer, saiu sozinha e contornou a orla da aldeia, fazendo o seu percurso silenciosamente, roçando os ramos pendurados baixo através do caminho. Não era o medo que a fazia mover-se tão discretamente, já tinha se adaptado ao vale e tinha consciência de ser atraída pelos seus ritmos tranquilos, especialmente no fim do dia. Movia-se silenciosamente porque não queria ser detectada.

Ouviu nos arbustos o roçar de algum pequeno animal perto dos seus pés. Parou, mas depois de passar recomeçou outra vez, escapulindo-se.

Hesitou numa bifurcação, procurando orientar-se, e seguiu pelo trilho da esquerda onde a mata era mais espessa. Dirigia-se a um bosque de vidoeiros junto a um regato, que ela sabia ser frequentado por Levítico.

Pensou por um momento fugaz no mundo exterior, na azáfama e discordância que tinha sido a sua vida. Isso costumava ser a realidade. Isto era a ausência de tempo e de peso. Podia a mente e o corpo mover-se de um mundo para outro assim sem mais? Percebeu, com angústia, quanta falta sentia do que tinha deixado para trás enquanto, ao mesmo tempo, a um nível diferente, como estava pronta para abandonar tudo. Será que não haveria um equilíbrio?

Quando contornou uma curva indo ao regato, viu Levítico na margem oposta, de braços dobrados ao lado do tronco como um gato, bebendo profundamente da água. Ondas em delicados círculos concêntricos afastavam-se do seu queixo. O topo da cabeça, espesso e negro cerrado, arqueava-se para cima, e por baixo das sobrancelhas observava-a.

A cicatriz na cara brilhou. Ela sentou-se na margem oposta à dele, a um metro de distância.

Ele ergueu a cabeça e olhou para ela. Ela esperou. Nesta posição, os músculos dos ombros dele mostravam-se flexíveis e enormes. Parece uma pantera, pensou ela, ágil e poderoso. Olhou para a testa dele. Havia o sobrolho proeminente, destacando-se rígido contra o resto das feições. Era impossível ignorar aquela crista de osso, pálida e sólida, uma bossa enorme onde a pele deveria ser lisa. Combinada com o queixo para dentro e o crânio achatado, empurrava a cara para frente como uma espécie de reflexo distorcido por uma garrafa, um embrião por trás de um vidro. Fê-la arrepiar-se involuntariamente, como o sobressalto súbito de quem estava quase adormecendo. Haverá alguma coisa em nós que nos leve a desprezar outra espécie por estar tão próxima, porque as variações mínimas avultam como deformações insuportáveis? Será que temos assim tanto medo das deformações em nós próprios? No entanto, os olhos eram perfeitos e límpidos e humanos. Ela viu que as íris eram castanho-dourado e o branco estava raiado de minúsculas veias vermelhas. Teve um impulso para esticar o braço e tocar-lhe na testa - seria dura, ou cederia? Repulsa e atração - fundiam-se numa só.

Na água escura abaixo, podia ver o reflexo de Levítico. A perspectiva a partir dali era a mesma de quando a tinha carregado montanha abaixo. Ele parou de beber e devolveu-lhe o olhar. Ela susteve a respiração e depois começou a sentir aquilo porque tinha vindo. Principiou em algum lugar na periferia da mente dela como uma sombra, depois ganhou força com uma rapidez surpreendente e tornou-se denso. Ficou sentada quieta e deixou-se ser invadida. Cresceu e expandiu-se até que um calor como cera derretendo-se parecia encher-lhe o crânio e descer-lhe pela medula abaixo. Estava siderada. A mente elevava-se nos ares; saltava por cima dos topos das árvores, e voou até às nuvens; depois, como uma pena, flutuou lentamente para baixo até que acabou por descansar. Durante um momento mantiveram os olhos um no outro fixando-se; depois Levítico desviou os olhos e afastou-se em direção à mata sem se voltar.

Susan ficou pregada ao chão durante muito tempo, saboreando o resplendor crepuscular. Estava começando a ficar escuro, percebeu abruptamente. Levantou-se, desabotoou languidamente os botões da blusa caqui, despiu as calças, as calcinha e deixou-se escorregar lentamente para dentro da água que escurecia.

 

Resnick não gostava de entrar na cela, tanto por causa do cheiro, quanto pela sensação de ansiedade que inexplicavelmente se tornara mais forte. Nesta altura o cheiro era verdadeiramente avassalador. Era difícil entender o que o provocava. Fezes secas e flatulência devido a uma dieta estranha foram o seu primeiro palpite, as glândulas sudoríparas o segundo, eczema o terceiro. Tinham tentado tudo incluindo dar um banho na criatura e lavá-la com umas mangueiradas, antes quando conseguia pôr-se de pé, mas nada tinha funcionado e por fim desistiram. Quando o cheiro passou a penetrar no andar de cima, queimaram incenso. Quando os tratadores entravam na cela usavam máscaras de gaze para a boca e o nariz, besuntadas com camadas de Vick VapoRub.

Havia outro motivo pelo qual Resnick não estava interessado em aproximar-se da criatura, mas não o confessava a ninguém. Tornava-se muito esquisito, o modo como ficava com aquelas dores de cabeça. Era melhor guardar uma coisa daquelas só para si. Podia até ser a sua própria mente pregando-lhe peças, algum problema psicossomático.

Nos seus tempos de estudante, há décadas atrás, fora o entusiástico assistente de laboratório de Van Steeds. Isso tinha sido antes, quando Van estava fazendo grande figura no Departamento de Ciências do Comportamento em Chicago. Até Harry Harlow, no vizinho Wisconsin, se vira obrigado a tirar o chapéu e reparar no brilhante licenciado e, em menor grau, no seu ajudante. Nessa época, Van era um behaviourista, antes de se dedicar a este remoto negócio psicolinguístico.

Era engenhoso e estava na vanguarda das investigações mais recentes, sempre lendo ensaios em revistas de que mais ninguém ouvia falar. Resnick teve uma recordação súbita: Van sentado na cervejaria e explicando, com mais do que um toque de condescendência, a última teoria sobre a ligação do DNA.

Van já era um bocado estranho nessa época. Uma vez Resnick abriu a porta do laboratório e encontrou-o sentado numa mesa branca montando cérebros de ratos em dispositivos. Os ratos, que tinham sido operados e sujeitos a experiências para testar a percepção, tinham sido "sacrificados", como dizia o termo científico. Os seus flácidos corpos brancos de cauda rosa, as caixas cranianas abertas, estavam sobre um jornal no chão, debaixo de uma casca de banana. Van ainda mastigava a banana enquanto laminava os cérebros com o ar aborrecido de um trabalhador de charcutaria cortando fiambre. Dos ratos, Van e Resnick passaram aos macacos rhesus. Estas operações eram muito mais complicadas e levavam horas para executar.

Ali de pé na minúscula sala de operações onde até a máscara de anestesia era para bonecas, Resnick costumava fingir que eles eram médicos, fazendo operações de neurocirurgia de ponta em vítimas de acidentes, e passava solenemente os instrumentos esterilizados. Na verdade, as operações eram avançadas - Van estava entrando em novas regiões do cérebro ainda largamente virgens - a diferença era que ele não estava tentando reparar o tecido cerebral, mas destruí-lo.

O método era cruel: Van fazia lesões, queimando-o com uma agulha ligada a um tubo de nitrogênio líquido, e removia a região septal. Assim que recuperava, o macaco entrava em reação automática de raiva ao mínimo estímulo, de modo que, só o passar junto de uma fila de animais enjaulados, cada um com uma ligação de metal saindo-lhe do cérebro, punha-os a saltar de um lado para o outro como doidos.

Quando Van removia a amígdala, o macaco tornava-se plácido e esborrachava as fezes nas paredes da jaula, como a pintura com as mãos num jardim de infância. Quando lhes removia partes do hipotálamo, o chão misterioso do terceiro ventrículo que se pensa ser o âmago do funcionamento interior, o macaco sentava-se fleumaticamente, esvaziado de todo o afeto e personalidade. Uma vez Van plantou um elétrodo no centro do prazer e armou-o com um aparelho para que o macaco se auto-estimulasse. Deixou o animal sozinho até que morreu de exaustão. "Sessenta e uma horas", notou ele quando depois verificou o cronômetro. "Não é mau, acabar assim."

Fora Van quem conseguira aquele trabalho para Resnick, e Resnick estava-lhe grato. Mas sentia que Van não tinha o direito de entrar ali a qualquer hora da maneira que o fez quando a criatura tinha acabado de ser capturada. Van estava frustrado com a falta de resultados das experiências e quase fora brutal no modo como manipulara a criatura, a ligara ao ECG e às outras máquinas que ela detestava. Resnick estava contente por Van ter partido há meses.

Quando se esticou para pegar na caneca de café, Resnick captou uma mancha de movimento na parte superior da tela. Deveria ser Grady ou Allen a entrarem junto das grades. Era Allen, o seu bigode em forma de guiador por cima da máscara da boca podia ser visto facilmente no nebuloso monitor preto-e-branco. Allen levava óculos escuros - como os que Van costumava usar - e isso era um erro: pareciam irritar a criatura. Transportava as correias extra, três delas, cada uma com seis centímetros de largura.

Agora Grady estava à vista e a criatura começou a fazer aquele horrível som de lamentação. As chaves tiniram quando abriram a porta da cela. Resnick olhou para a caneca e decidiu que precisava de outra dose, e deixou a sala. Não era permitido que o fizesse - as regras exigiam uma observação de vinte e quatro horas - mas estavam lá dois tratadores. O terceiro estava ativando o alimentador à força e iria juntar-se a eles dentro de um minuto. Não era, tinha que admitir, uma visão agradável, mesmo num monitor.

Resnick atarefou-se na cozinha e levou o seu tempo fazendo o café, trauteando para si próprio. Quando regressou à sala de controle, a alimentação tinha acabado. Era imaginação sua, ou havia pedaços de comida na parede da cela? Os tratadores estavam conversando.

- O filho da mãe mijou-me todo - disse Grady.

Allen riu. Resnick viu a porta da cela fechar-se e ouviu o som metálico estridente interromper a lamentação débil. Na tela um objeto em trouxa embalava-se lentamente.

Depois, de súbito, como antes, Resnick sentiu uma dor maciça dentro da cabeça, começando longe nos seus lobos temporais e depois avançando e espalhando-se como lava. Era muito pior do que qualquer enxaqueca que alguma vez tivera. Esticou a mão para o frasco de aspirinas de tamanho gigante, tirou quatro e engoliu-as com o café.

Às vezes imaginava o que Van andaria à procura durante as suas visitas à cela. Parecia que fora desde então que a criatura ficara tão difícil de manipular.

 

Matt e Olhos-Azuis circulavam à volta um do outro dentro do poço, cada um deles à procura de uma aberta. Olhos-Azuis, batizado em honra de Sinatra porque gostava de fazer vocalizações, não era grande combatente, mas dava luta.

De fato, nenhum dos hominídeos era um grande combatente, apesar da sua força superior. O esporte era guerreiro e conceitos como domínio, vitória e derrota não tinham lugar no seu universo mental. Apreciavam uma queda dura no solo, mas se a viam como divertida ou não era difícil de dizer, já que não riam, mas pareciam ficar excitados. O sentido de humor deles, tal como era, revelava-se insondável para Matt e Susan. Nada do que se baseava em fraudes, manha ou enganos - jogos que implicavam a substituição de um objeto por outro - provocava outra reação além da incompreensibilidade total. Mas algumas atividades eram claramente apreciadas.

As crianças brincavam muito de correr umas atrás das outras, guinchando de uma maneira estridente e aguda, embora no fim não se apanhassem umas às outras. Susan tentou ensinar-lhes a jogar pega-pega, mas foi um fiasco porque a noção de "estar morto" ia muito além do alcance deles.

Linhas e limites também lhes eram estranhos. Matt teorizou que o conceito de um fim arbitrário imposto ao espaço deveria, de alguma maneira, estar relacionado com o egocentrismo. Se os poderes psíquicos permitem que o mundo cresça além dos horizontes e depois se encolha até à dimensão de uma piscadela de olho, como é possível entender um limite? Mas em breve iria descobrir que numa zona crítica - a da morte - a delineação estava rigidamente estabelecida.

No aspecto prático, Matt percebeu que não fazia sentido marcar os limites de uma arena. Mas junto do centro da aldeia encontrou uma grande depressão no solo, que apelidou de "poço" e que cumpria as funções enquanto ele tentava ensinar-lhes algum esporte.

Os concorrentes normalmente ficavam lá dentro, embora nada os pudesse impedir de subitamente saltarem no meio de um jogo sempre que a idéia lhes passava pela cabeça.

Matt divertia-se com o contato físico. Recordava-se do choque que tivera no dia em que tocara na mão de Caralonga. Mas não conseguia perceber se a promessa do toque dele tinha sido realizada. Embora já estivessem vivendo no vale há alguns dias, nem ele nem Susan tinham conseguido perfurar as linhas inimigas no que respeitava à comunicação com os hominídeos.

Pela sua parte, aqueles pareciam ter perdido o interesse por Matt e Susan. Embora estes não se sentissem de modo algum rejeitados, tinham-se tornado, de alguma maneira, desapercebidos - num certo sentido, invisíveis.

- Não me incomoda - brincava Matt com Susan uma noite. - Aguento ser rejeitado. Já vivi na Inglaterra.

Mas o sentimento de solidão estava tornando-se opressivo. Só se tinham um ao outro e, num grau menor, a Kellicut, que estava muitas vezes distante, dentro da caverna junto à catarata recebendo o que ele chamava de "instrução espiritual".

Quando se juntava a eles, essa presença causava problemas. Matt sentia que Kellicut agia como se parte da sua mente tivesse evaporado. Susan acreditava que ele tinha passado para um plano superior. Além disso, concentrava toda a sua energia e aprovação sobre Susan, parecendo cada vez mais hostil a Matt.

- Você ainda tem tanta admiração por ele, não tem? - disse-lhe Matt uma vez.

- Claro - foi tudo o que respondeu.

Entretanto, Matt e Olhos-Azuis andavam às voltas na poeira como duas pontas de um compasso, Matt começou a balançar-se e agitar os braços, um prelúdio às Fintas e esquivas que antes tinham funcionado tão bem. Olhos-Azuis movia-se num desastrado passo lateral, os braços estendidos, parecendo um péssimo bailarino.

Matt lançou-se para a direita em direção à perna esquerda do seu oponente. Olhos-Azuis entrou em pânico e saltou para a direita, desequilibrado, cambaleando e quase caindo sem que Matt lhe tivesse tocado sequer. Depois endireitou-se e as voltas recomeçaram.

Olhos-Azuis era novo. A princípio, Matt tinha achado que era difícil calcular as idades deles. O osso da testa afetava-lhes o padrão das rugas e, a não ser que houvesse sinais claros de idade avançada, como cabelos brancos ou seios pendurados, a maioria dos homens e das mulheres pareciam todos iguais assim que atingiam a altura total.

Porém, pouco a pouco começou a encontrar pistas. A força e a jovialidade do passo era uma delas, e por esses dois critérios, Olhos-Azuis devia estar pelos vinte e poucos anos. Olhando para os fortes bícepes e peito circular do seu adversário, Matt pensou: ele podia esmagar-me até à morte se quisesse.

De repente, Olhos-Azuis baixou a cabeça e carregou contra a perna direita de Matt. Matt deu meia volta para trás, mudando subitamente o peso, deixando a perna esquerda exposta como percebeu a seguir, pois Olhos-Azuis mudou de direção a meio do percurso, agarrou-lhe a perna esquerda e atirou-o de costas. Ergueu Matt com os dois braços acima da cabeça, tão facilmente como se estivesse levantando um ramo, e atirou-o para o ar a uns bons dois metros. Matt aterrou com um baque. Ficou tão surpreso que levou algum tempo para entender que tinha aterrado exatamente sobre a sua ferida. Olhos Azuis sentava-se à beira do poço, perfeitamente descansado.

Vendo-os à distância, Susan rira tanto que teve que se sentar. Kellicut, na posição de lótus a alguma distância, tinha o olhar perdido no espaço.

Mais tarde, ao anoitecer, quando se sentavam junto da fogueira, Susan riu outra vez quando falaram no assunto.

- Gostaria que tivesse visto a sua cara - disse ela, e depois acrescentou num tom sério: - Mas entendeu o significado daquilo, não entendeu? Mostra que eles podem aprender.

- Não. - A voz de Kellicut saiu da escuridão; tinham-se esquecido de que ele estava ali. - Somos nós que temos que aprender.

Kellicut estava num estado febril, causado por um ataque nessa tarde, que ele tinha guardado para si próprio. Sentado junto ao poço, uma fração de segundo antes de Olhos-Azuis atacar, uma visão das pernas de Matt tinha entrado na cabeça de Kellicut vinda não se sabe de onde, tão clara como a fotografia tipo postal do monte Rushmore no seu aparelho View-Master que tanto o fascinava quando criança.

Dois dias mais tarde, numa tarde quente, Susan e Matt fizeram amor.

Tinha chovido de manhã e as roupas deles estavam ensopadas. Decidiram tirá-las assim que a chuva parasse e espalhá-las sobre um rochedo para que secassem ao sol. Matt, que se despiu primeiro, virou-se de costas. Enquanto Susan se despia, olhou para as pequenas ondas de músculo nas costas de Matt e as covas suavemente esculpidas nas nádegas.

- Não sei o que você pensa - disse ela, - mas estou a começar a sentir-me um bocado idiota por usar roupas quando todos por aqui andam nus.

- Também já pensei nisso.

- É quase anti-social, como usar fraque numa convenção de nudistas.

- Aposto que estão todos falando de nós... antes, pensando em nós.

- Quando se virou, ele pôde ver o monte escuro do pêlo púbico dela através da calcinha molhada.

- Bom, eu estou pronta a correr o risco, pelo menos por esta tarde - disse Susan.

Deliberadamente ela não olhou para baixo para o pênis dele enquanto despia as cuecas. Quando Matt olhou para ela, ela sentiu uma contração involuntária do baixo ventre.

- Tenho de dizer - disse ele com admiração genuína -, você está com um aspecto espantoso.

Sentiu-se orgulhosa. Despir-se graciosamente fora sempre a sua especialidade.

Andaram até chegarem a um prado. Ela teve de reprimir uma careta à imagem que eles invocavam, como um velho esboço bíblico:

Adão e Eva passeando pelo viçoso jardim prelapsariano. A meio do prado sentaram-se; a erva amarela emparedava-os de todos os lados e fazia um ninho seguro. Quando Susan se deitou, ele virou-se e deitou-se ao lado dela, com as mãos por trás da cabeça. Ela levantou-se sobre um cotovelo e fez os dedos dançarem sobre o peito dele e foi descendo em direção ao estômago. Sentiu-se úmida entre as pernas, uma titilação de calor, depois olhou para baixo e viu a ereção dele formando-se. Ela sorriu para ele e trepou-lhe para cima, abriu as pernas e beijou-o profundamente.

Mais tarde nessa noite, de volta à cabana, fizeram amor outra vez. Depois, ela deixou-se ficar nos braços de Matt e ele contornou-lhe o queixo com o indicador.

- Em que está pensando? - perguntou ela.

- Na bonita mandíbula que você tem. O lindo fóssil que irá fazer.

Ficaram em silêncio por um momento.

- Sabe, Matt, eu nunca conto segredos, e jurei que nunca lhe diria se alguma vez voltássemos a nos encontrar, para quê dar-lhe essa satisfação?, mas demorei muito tempo para esquecê-lo.

Ele acenou lentamente.

- Não sei porque estou dizendo isto. Acho que por algum motivo deveria saber. Depois de termos acabado, fui durante uns tempos para a Polônia, era em 1981, os anos do Solidariedade, e encontrei todos aqueles caras querendo encher o passado. Eles chamavam-lhe "os espaços em branco da história" e tinham que enchê-los antes que pudessem andar para frente. O levantamento de Varsóvia, o massacre de Katyn, os julgamentos, as purgas de saneamento, o atirar sobre os trabalhadores, tudo isso tinha que vir à luz. Era uma obsessão.

- Esta tarde, depois de termos feito amor, pensei, eu sinto-me assim, sou eu. Tenho estes espaços em branco na minha vida e tenho que te falar neles para poder continuar, para que possamos continuar, e você tem que me contar sobre si e Anne.

Anne. Porque é que ele tinha começado a andar com ela? Quais eram os motivos dele? Matt tinha-se feito essa pergunta vezes sem conta, revivendo o momento com Anne fora da casa da praia que todos tinham alugado no Verão em que ele estava noivo de Susan. Ele tinha saído com dois gins tônica. Ele e Anne estavam sós nesse quente entardecer, ao lado um do outro sobre um cobertor na praia. Quando ele se esticou para beijá-la, ela tinha-se retraído por um momento e depois, quase tristemente, com um suspiro, virou-se, e ele soube de súbito que ela lhe pertencia - de fato, já lhe pertencia há algum tempo. Mas o que é que o fez fazer aquilo? Já por vezes tinha pensado na questão, mas nunca a tinha aprofundado; tinha muito medo do que poderia descobrir acerca de si próprio.

- O que está perguntando é porque eu o fiz - disse Matt por fim. - Honestamente, não sei, embora tenha pensado nisso mais vezes do que imagina. Sei que depois me senti como um vigarista.

Ficaram calados por muito tempo.

- Matt, há uma coisa que eu nunca te contei. - Matt suspendeu a respiração. Susan continuou. - É difícil de contar, por isso vou só dizer. Todo esse tempo, ou a grande parte dele, eu também andava com outra pessoa, um cara com quem me envolvi quando tinha estado fora no ano anterior. Ele era importante para mim e não conseguia acabar com ele. Tentei, quando você e eu começamos a falar em casar, mas não conseguia.

Fez uma pausa, e depois disse:

- Aí está. Afinal não era assim tão difícil. - Tendo começado, ela já não conseguia parar. - Assim, todo esse tempo em que você estava com Anne, todo esse tempo em que me enganava, eu andava a vê-lo. E todo esse tempo em que tivemos aquelas cenas por causa de você ser patologicamente infiel e merdas assim, eu não era capaz de lhe contar. Dizia a mim mesma que não queria te ferir. Mas era mais do que isso; eu era uma covarde. Teria perdido o meu direito... o meu direito à cólera. Mas depois de termos nos separado, era isso que tornava a dor muito pior, saber que eu também tinha culpa e você nunca o iria saber. Sempre lamentei muito que fosse assim, e ainda estou arrependida disso agora.

Ela apertou-o com mais força.

- Matt, o que quer que aconteça, temos que ser capazes de confiar um no outro. Nada é tão ruim como o engano e a traição.

Matt não sabia o que dizer. Abraçou-a com delicadeza durante muito tempo. Na onda das emoções, nem sequer estava certo do que estava sentindo. Queria perguntar quem tinha sido o homem, mas depois percebeu que não era preciso; já sabia. Só podia ter sido uma pessoa: Kellicut.

 

Eagleton brincou com o machado de pedra, uma peça de rocha cor de salmão-claro com a forma de meia-lua. Tinha sido esculpida há um milhão e duzentos mil anos atrás; qualquer mão desconhecida, já mais humana do que animal, tinha circundado a aresta com uma série de colares de entalhes, cada um tão perfeito como uma impressão digital.

Era um belo objeto. Tinha-o pedido emprestado por intermédio de um curador ao Instituto Smithsonian que não tinha aprofundado muito a sua vaga explicação para o que é que ele o queria. Na verdade, queria-o como a varinha divinatória de um médium. Como qualquer bom detective, Eagleton sabia que para resolver um mistério não se podia recuar longe demais.

Estava à espera de Dan Wilkinson, o neurocientista da Agência de Espionagem e Defesa, que se especializara em fenômenos parapsicológicos.

Em 1985, Wilkinson tinha feito uma série de experiências com visão remota que tinha se tornado famosa no interior do círculo ferozmente controlado dos iniciados que acompanhavam aquelas coisas.

Na sala de conferências forrada com chumbo no terceiro andar do Antigo Edifício de escritórios do Executivo em Washington, preparou um psíquico como vidente diante de uma equipe de cientistas.

Entre outras experiências, deu ao homem graus específicos de longitude e latitude e pediu-lhe para desenhar o que via. No bloco de apontamentos uma mansão com pilares gradualmente tomou forma - quase idêntica à de uma fotografia em preto-e-branco que estava trancada dentro de uma pasta de pele. Era a dacha de Mikhail Gorbachev.

O ceticismo persistiu durante a década seguinte, embora a AED mantivesse três psíquicos de RV na lista de pagamentos. Entravam em transe em salas obscurecidas em Fort Meade, no Maryland, tentando localizar os reféns americanos no Líbano, descobrir os paradeiros de Sadam Hussein, e caçar submarinos soviéticos. Em 1994, o Congresso passou o programa à CIA, que recomendou um corte nos financiamentos e, em Novembro de 1995, um artigo em The Washington Post rebentou com o assunto.

Agora Wilkinson estava desempregado.

Eagleton deixou Wilkinson esperar à porta do seu gabinete. Desconfiava dele, e não apenas porque o homem tinha subido nas fileiras de uma agência de espionagem concorrente. Como Eagleton, era um construtor de impérios burocráticos, e o seu objetivo era o mesmo: chefiar a Direção de Ciência e Tecnologia da CIA. Um rival era uma coisa, um rival inteligente era outra. Mas Eagleton precisava dos seus conhecimentos de perito em neurologia e do laboratório, por isso tinha-o trazido aos seus meandros a meio caminho.

Pressionou o botão e disse à recepcionista para mandar entrar o seu rival. Wilkinson trazia consigo o que pareciam ser duas caixas de chapéus, colocou-as sobre a mesa de Eagleton, e foi até o interruptor do desinfetante.

- Eu não dispararia o mata-mosquitos, Eagleton. Não se sabe o que poderia fazer a isto. - Eagleton estava começando a ficar arrependido de ter enviado a Wilkinson o crânio do Neandertal e de o ter deixado ler alguns dos relatórios da Operação Aquiles. Graças a Deus a localização ainda era secreta.

- O endo molde, suponho? - disse Eagleton. - Como é que saiu?

- O molde endocranial, se não se importa - disse Wilkinson. - Veja por si - acrescentou, levantando a tampa de uma caixa no ar como o criado apresentando a especialidade do chefe. Diante de Eagleton estava o modelo perfeito de um cérebro, como um pudim de gelatina, mas feito de borracha de silicone. Parecia-se com um cérebro humano, mas observado mais de perto algumas diferenças emergiam; era alongado e maior atrás, junto aos lóbulos occipitais, enquanto os lóbulos frontais pareciam menores.

- Incrível, não é? - disse Wilkinson. - Nunca fizemos uma réplica tão perfeita. As estrias da superfície interior eram fortes, por isso conseguimos uma boa reprodução. Podem detectar-se facilmente as regiões neurais específicas.

- Isso posso eu ver - disse Eagleton irritado. - Mas o que é que isso nos diz?

- Para começar, é enorme. Um pouco mais de mil seiscentos e cinquenta mililitros de volume. Os cérebros modernos andam em média pelos mil e duzentos a mil e quinhentos. Há predominância cerebral, por outras palavras, é dextro. Já agora, é um "ele", não é?

- Não faço a mínima idéia.

Wilkinson pegou um lápis e tocou com ele no cérebro.

- Repare claro, na dimensão dos lóbulos occipitais. Isto é de esperar quando há um abaulamento do osso occipital, às vezes chamado carrapito ou bolo. - Abriu a outra caixa, que continha o crânio que Kellicut tinha enviado.

- Vê este entalhe perto do osso occipital? É a eminência justamastóide. Serve para suportar os músculos que correm até à maxila inferior. É o que lhe dá a mordedura poderosa como uma torquês. Pensamos que usava os dentes quase como uma terceira mão. Isso é sustentado pelas marcas de corte nos incisivos, que são extremamente grandes.

- Está saltando a parte principal, não está?

- Já vou - respondeu Wilkinson impaciente. Bateu repetidamente com o lápis nos lados do cérebro. - Está bem, aqui está ela. Dê uma olhadela nestas regiões. A área de Brocca, a área de Wernicke, o gyrus angular. Vê algo de estranho?

Eagleton esperava em silêncio.

- São os centros da fala, nos humanos. E aqui estão ausentes.

Virtualmente não existem.

- Agora olhe para isto. - O lápis acariciava a superfície do cérebro. - O córtex. Nos humanos, grande parte dele, mais de metade, recebe informações visuais. Aqui é exagerado. Quase noventa por cento. É esta a área da visão remota.

- Como é que funciona?

- Não podemos saber isso enquanto não tivermos um cérebro de fato. Mas arriscaria o palpite que, de alguma maneira, esta criatura é capaz de entrar no campo receptor de outra. Pode ler os impulsos neurais, provavelmente em ambos os caminhos parvicelular e magnicelular. Acho que o único meio que tinha para fazer isso era ir diretamente à fonte principal do córtex, ao próprio tálamo.

O tálamo, pensou Eagleton. Em grego queria dizer antecâmara ou câmara nupcial, o centro íntimo mais secreto, uma pequena bola instalada imediatamente acima da base do cérebro.

- Se estiver certo, então, claro que há repercussões.

- Tais como?

- Por um lado, a faculdade pode envolver mais do que a visão. Na Operação Aquiles nós a vimos funcionando, mais ou menos, entre espécies. Pode bem ser muito mais eficiente no interior de uma única espécie. A um certo nível pode ainda estar mais perto da telepatia, uma transferência de pensamento concreta. Dado que os humanos formulam muito do pensamento através da linguagem, não se espera que um Neandertal entenda. Mas pode haver diferenças em cada um.

- O sistema pode ser despistado? O que acontece se mantivermos os olhos fechados?

- Em teoria, isso deveria fazer diferença. Se o campo receptor não estiver funcionando, ou se não vir nada mais do que escuridão, como é que alguém pode entrar? Mas na prática, que diferença de fato faria? Não podemos saber.

- Se um humano se aproxima de um Neandertal, o Neandertal irá automaticamente saber que ele está ali?

- De novo, é impossível saber. Se tivesse que conjecturar, diria que provavelmente não. Provavelmente, a faculdade não é passiva, como a audição, quer dizer, sempre operativa, mesmo durante o sono. Acho que isso daria lugar a uma sobrecarga do estímulo; ficaria doido só tentando arrumar todas as mensagens que se está recebendo. O mais provável é que o olho interior tenha de ser conscientemente dirigido, da mesma maneira que os nossos olhos externos são. Não é um sistema de alarme, a não ser que se ligue.

- Se você estiver certo relativamente ao tálamo, quais são as repercussões?

Wilkinson encolheu os ombros. Agora tinha entrado na área da especulação pura.

- Não sabemos muito acerca do tálamo. Mas a posição dele sugere duas coisas: é sensível e extremamente importante. As pessoas que acreditam em percepção extra-sensorial gostam de procurá-la aí; é possível que os humanos tenham uma capacidade vestigial ou ainda não desenvolvida. Também o fazem aqueles que procuram algum enquadramento fisiológico para o ego, o sentido do eu. E claro, ainda há uma terceira coisa.

- Que é?

- Que é, que está tudo inexplicavelmente ligado com todas as formas de sensação, incluindo muito evidentemente a pior. Nunca teve uma dor de cabeça por cansaço da vista?

Matt começou a preocupar-se porque ele e Susan estavam ficando muito magros. Ele sabia que uma dieta de nozes, bagas e vegetais acabaria por lhes estabilizar o peso, mas inquietava-se porque, entretanto, poderiam enfraquecer. Não parecia haver muita doença entre os hominídeos, mas quem saberia que anticorpos teriam criado na sua existência à parte?

Uma manhã cedo remexeu na mochila enquanto Susan dormia.

Encontrou uma série de objetos díspares que poderiam se tornar úteis um dia - um canivete suíço, o estojo de pronto-socorro, os foguetes de Van - e por fim descobriu o que procurava, um rolo de arame fino. Partiu um gancho da mochila e ergueu-o para examiná-lo.

Perfeito. Abriu uma das lâminas do canivete, colocou o gancho de encontro a um rochedo, e limou-o para fazer um anzol. Na outra ponta abriu um pequeno buraco, depois cortou algumas cerdas de uma escova, adicionou-lhe um farrapo de tecido amarelo, amassou firmemente o minúsculo molho logo acima do anzol, e atou o arame no buraco. Cortou um ramo, aparou-o, e partiu.

Seguiu o ribeiro em direção à nascente até que chegou a um lago onde a água corria escura e profunda. Uma brisa hesitante fazia ondas pequenas inclinadas atravessando a água. Outro dia perfeito no paraíso, pensou Matt, de pé sobre um afloramento ao longo da margem. Atirou a linha para o centro do lago e puxou-a para si, lentamente, agitando ligeiramente a isca de vez em quando, num movimento solto, aperfeiçoado em inúmeras manhãs de Verão nos lagos da Nova Inglaterra.

Não teve que esperar muito. Na terceira passagem houve um esparramar rápido, um brilho de prata, e a isca mergulhou. O puxão era forte e insistente. Matt deixou o peixe brincar um pouco, depois deu um sacão e arrancou-o para terra. A cauda chicoteava a água enquanto o trazia pelo ar: uma truta - com cerca de três quilos e meio, calculou. Estrebuchou na erva até que ele lhe deu com uma pedra na cabeça. Um pouco de sangue apareceu na boca arfante e a cauda agitava-se ainda, por isso Matt bateu-lhe outra vez.

De regresso, Matt sentia-se contente com a sua habilidade. Como é que iria apresentá-la a Susan, embrulhada em folhas? Cerimoniosamente, com uma vênia untuosa qual chefe de mesa do Quatro Estações?

Não havi ninguém na aldeia quando regressou, nem sequer as crianças. Era estranho. Foi até à fogueira, pôs o peixe numa pedra próxima, e levou os apetrechos para a cabana. Susan não estava lá. Ia voltar de novo para a aldeia quando a ouviu chamar pelo seu nome.

Gritou em resposta, percebendo, quando o fez, como era incomum ouvir gritos no vale.

Ela parecia preocupada.

- Meu Deus, Matt o que é que você fez?

- O que você quer dizer?

- Está tudo num tumulto. Kellicut montou uma expedição de guerra.

- Em nome de quê, por Deus?

Quando alcançaram a aldeia onde alguns momentos antes não se via ninguém, Matt descobriu que tinha se formado uma multidão.

Deviam estar escondidos quando passei por aqui há pouco, pensou ele. Os hominídeos pareciam aturdidos. O centro das atenções, percebeu Matt com uma sensação de desânimo, era a pedra onde deixara o peixe. Quando se aproximou com Susan ao lado, o grupo afastou-se para evitá-lo, e as crianças fixavam-no com olhos inchados abertos de apreensão.

Kellicut estava no centro rodeado pelos anciãos, pronunciando toda a espécie de sons e agitando as mãos. Quando viu Matt a sua cara fechou-se.

- Venha aqui - comandou ele.

Matt foi até ele. Neste momento já sabia que a sua transgressão fora monumental.

- Não diga nada - disse Kellicut. - Não é que eles entendessem se dissesse. Da mesma maneira que não compreendem a mim. Mas alguma coisa passa, de alguma maneira. Faça um olhar arrependido, mesmo que não se sinta assim.

Matt sentia-se mesmo e não teve de fingir a emoção. Baixou os olhos, mas pelo canto do olho vislumbrou Susan; ela parecia envergonhada.

- É incrível - continuou Kellicut. - Chega aqui e vira tudo de pernas para o ar. Estas são pessoas que não conseguem entender o matar. A idéia de voluntariamente tirar a vida! Como conceito simplesmente não existe. Mas "comê-la!" Nem consigo imaginar como é que eles iriam reagir se soubessem que era isso que você pretendia fazer.

- Por Deus, lamento muito - disse Matt. - Não fazia idéia.

- Evidentemente.

- O que devo fazer?

- Bom, para começar, ponha-se de joelhos no chão e olhe para baixo.

Matt assim fez.

- Agora olhe para mim - Kellicut colocou a palma da mão na cabeça de Matt e olhou silenciosamente para o céu durante um longo momento.

- Agora levante-se - disse ele.

- Para que isto serve?

-Já os vi agir assim algumas vezes, acho que quando têm alguma coisa muito importante a comunicar. Portanto talvez eles pensem que estamos fazendo a mesma coisa. Estou mostrando o meu descontentamento.

Por uma fração de segundo, Matt pensou ter visto um pequeno brilho do velho humor atravessar a cara de Kellicut.

- E agora? - perguntou Matt. Era como se ele fosse de novo o estudante e Kellicut o professor todo-sábio.

- Agora, vá até o peixe e, cuidadosamente, retire-lhe os olhos, embrulhe-o em folhas de vinha muito delicadamente. Depois vá até onde eu te disser, suba em uma árvore e deixa-o lá.

- Está brincando, certo?

- Nunca falei tão sério. Chama-se culto dos mortos. Lembre-se de ter lido acerca destas coisas? Bom, agora vai ter que participar de um.

- E o que é que eu faço com os olhos? Espero não ter que comê-los.

- Não tem graça. - Quando Kellicut começou a andar em direção ao peixe, a multidão afastou-se e dispersou. Os olhos cruzaram-se e, pela primeira vez, ele sorriu para Matt.

 

Já era a hora de fazer um plano. A princípio, Matt e Susan esperavam que Kellicut quisesse trabalhar com eles, e tinham visões de uma sociedade de investigação a três, num seminário de trabalho sobre os Neandertal que iria abalar o mundo. Mas era evidente que as coisas não iam funcionar assim. Kellicut tinha mudado; estava perdido para a ciência. Ficara tão mergulhado e fascinado pelo misticismo e pureza dos hominídeos, e tão obcecado em adquirir ele próprio o poder especial que eles tinham, que perdera toda a objetividade.

Não mais lhe interessava observar e medir a comunidade deles, queria juntar-se a ela.

Ainda podia ser útil, até mesmo essencial, para comunicar com eles, mas estava radicalmente contra a idéia de alguém publicar o que quer que fosse. Às vezes insistia que o mundo lá de fora nunca poderia entender seres assim; outras declarava, com o ar melodramático de um pregador de telenovela, que o mundo exterior os destruiria.

Matt e Susan também estavam preocupados com a destruição deles, mas receavam os renegados que tinham morto Sharafidin, Rudy e Van. Sentiam que tinham pouco tempo: o que é que iria impedir um ataque dos predadores da montanha - especialmente se soubessem que havia humanos no vale?

O desmoronamento tinha aniquilado Van. Talvez os renegados pensassem que também eles tinham sido mortos. E se eles escavassem e não encontrassem os corpos? A questão do tempo era crítica: tinham que reunir o máximo de informação que fossem capazes de recolher o mais depressa possível e sair dali enquanto pudessem.

Mas a investigação não era fácil. A ausência de linguagem começava a ser prejudicial: até as expressões faciais eram intraduzíveis. Tentaram sinais rudimentares, mas não funcionou. Os hominídeos emitiam sons, mas estes não formavam palavras; registravam reações básicas mas não tinham significado por si. Kellicut, que parecia saber mais do que mostrava, não estava interessado em ajudar e condenou completamente a idéia de usar uma linguagem falada. A verdadeira comunicação, Matt e Susan sabiam, ocorria naquele espaço misterioso do qual estavam excluídos.

No entanto, ainda seriam capazes de recolher informações preciosas.

Todas as noites Matt gravava as suas observações num cassete. Susan enchia os cadernos de apontamentos. Tinha perdido a máquina fotográfica no desmoronamento, mas tinha um bloco de desenho apinhado com esboços que capturavam a vida neandertal. Trabalhavam febrilmente em contra-relógio. Colecionavam artefatos para levar consigo, na maioria pedras lascadas e outros instrumentos, taças rudes e outras vasilhas. Fizeram uma compilação de uma lista de áreas a serem cobertas antes de partirem: práticas religiosas, estrutura social ritos de sepultamento, os papéis dos sexos. Às vezes sentiam que as perguntas eram muito maiores que as respostas. Em particular Susan sentia-se frustrada com as suas tentativas falhas de aprender coisas sobre as mulheres. Elas juntavam-se em grupos que se desfaziam e dispersavam assim que ela aparecia. Tinha visto uma delas escolher folhas e depois regressar a uma cabana onde uma criança doente estava deitada de costas inerte, mas não a deixou observar.

Decidiram partir depressa com o material que tivessem. Mais tarde poderiam decidir regressar. Para evitar os renegados tinham de descobrir a ravina que tinha trazido Kellicut até ao vale. De alguma maneira, desceriam a montanha às suas custas. Mas Kellicut ainda estava estranhamente frio. Por vezes era quase como se os olhasse como pouco mais do que emissários do universo para além da borda do vale. Falava sombriamente do Instituto e continuava recusando-se a responder às perguntas que lhe faziam sobre o que ele pensava que procurava, ou porque é que tinha mandado chamá-los.

Durante dias, Matt andou importunando Kellicut pedindo-lhe a direção da ravina, mas de todas as vezes fora repelido. Por um motivo qualquer, uma manhã, Kellicut tinha mudado de idéia. De cócoras no chão, parecendo mais do que nunca um santo homem indiano, fez o esboço de um mapa na areia. O vale era mais ou menos circular. Traçou as linhas para os rios, desenhou alguns picos como pontos de referência, e marcou a localização atual deles com um X. A ravina estava no lado oposto. Ao longo do caminho desenhou uma elipse e marcou-a com um sombreado em cruz.

- Aqui é onde se fazem os enterros. Se fosse vocês, passava de lado.

- Porquê? - perguntou Matt.

Kellicut olhou-o friamente e salientou que o respeito pelos mortos era importante em qualquer cultura. Ele próprio tinha estado lá apenas duas vezes: na sua primeira incursão pelo vale, quando tinha apanhado o crânio que dera a Sharafidin, o que agora lamentava, e no dia em que regressara de vez. Nenhum dos hominídeos ia ali alguma vez, além dos coveiros permanentes, cujas caras e parte superior do torso eram pintadas de giz branco e que eram olhados como párias, passando toda a sua vida na zona proibida dos enterramentos.

- A morte é o acontecimento terminal, o princípio mais temido em torno do qual a vida se organiza - disse Kellicut. - O significado não pode ser capturado em palavras, só em símbolos. Desenhar o mapa tinha-lhe soltado a reserva, e sentando-se de pernas cruzadas à sombra de uma árvore, o seu tom regressou ao dos velhos tempos: o instrutor cheio de autoridade. - Onde o modo de vida é comunal, onde não existe individualidade ou eu com o sentido que damos às palavras, a tribo é a única realidade. Sobrepõe-se a todo o resto, e a morte, que diminui a tribo, é a única ameaça. Na medida em que toda a tribo encolheu, toda a tribo é afetada, e é por isso que nasce o culto dos mortos. Uma casta especial de intocáveis é posta de parte para embrulhar os mortos, e tratam deles numa terra especial onde nunca vai ninguém. Os olhos dos mortos são retirados.

- Os olhos! - sobressaltou-se Susan.

- Sim. Porque é que é assim, ainda não tenho certeza - disse Kellicut.

- Mas acha que se trata do quê?

- Não acho. Tenho a intuição. Para entender o que é a vida para eles temos que nos projetar num plano de existência completamente diferente. Temos que adquirir uma dimensão adicional. Imaginem que são o centro do mundo, do seu mundo, e no entanto, a periferia desse mundo é constituída por outros. O seu horizonte é contíguo ao horizonte dos outros. É como o sistema solar. Vocês são o Sol, mas também são os planetas. Vocês conhecem os pensamentos dos outros da mesma maneira que os seus. Isto acontece de uma maneira qualquer que não pretendo compreender. Não sei como toda esta informação é recebida, e como é tratada, e menos ainda tornada inteligível. Mas é. E então alguma coisa acontece. Um dia, um dos da tribo morre. Um dos planetas desintegra-se, e vocês sentem isso pessoalmente, não apenas a partir de uma sensação de empatia, mas porque uma pequena parte de vocês "realmente" morre. Talvez seja como perder um apêndice. É insuportável, e por isso lutam para evitá-lo. Tentam reter os órgãos que são a consciência da tribo, a rede da sua existência comunal. Vocês retiram os olhos.

- E o que se faz com eles? - perguntou Susan.

- Dão-nos ao xamã.

Susan sabia a quem é que ele se referia, um hominídeo mais velho, o que usava um colar de cascas de caracol à volta do pescoço. Tinha medo dele.

- E o que ele faz com eles?

- Ah! Isso é assunto para uma discussão diferente - disse Kellicut.

E regressou ao silêncio, como uma porta fechando-se lentamente e depois fazendo o clique da tranca ao cair.

Matt levantou-se.

- É melhor irmos. - À parte, de um dos lados, estavam três figuras. Eram Olhos-Azuis, Levítico e um terceiro com uns dentes da frente muito grandes que Susan tinha apelidado de Dentelongo.

- Eles irão com vocês, até descobrirem para onde vocês se dirigem - previu Kellicut.

O grupo arrancou, Matt e Susan à frente e os três seguindo-os à distância, caminhando com o seu andar balanceado e musculoso.

O sol estava quase a pique quando pararam para descansar. Os três acompanhantes aproximaram-se deles, e comeram algumas bagas. Matt sacou o cantil e passou-o a Susan, que deu umas goladas e o passou a Levítico. Ele agarrou-lhe com as duas mãos levou-o à boca e inclinou-o da maneira que Susan tinha feito. A água fria caiu-lhe sobre a boca e o queixo surpreendendo-o. Matt riu, mas Susan aproximou-se dele e tocou-lhe no braço. Ele não se encolheu, mas em troca tocou-lhe no lado de dentro do cotovelo. Fazia-lhe ligeiras cócegas.

Levantaram-se e partiram. Meia hora mais tarde o chão começou a subir sistematicamente. A meio caminho da encosta, Susan percebeu que faltava qualquer coisa. Os pássaros tinham deixado de cantar. Ela virou-se e olhou para trás; os três hominídeos haviam desaparecido.

Um pouco mais acima chegaram junto a árvores em que a casca tinha sido retirada e se via a carne amarela dos troncos.

Marcadores de zona, calculou ela.

Olhou para Matt, que estava franzindo ligeiramente a testa.

- Talvez isto não seja uma idéia assim tão boa - disse ela. – Talvez devêssemos dar ouvidos a Kellicut.

- Talvez devêssemos pensar pelas nossas próprias cabeças – respondeu Matt. - Ele não sabe tudo.

No topo da cumeeira o chão endireitava-se num planalto. Susan tinha a impressão intensa de que estavam sendo observados, e quando desviou o olhar sentiu uma sensação peculiar, como se a cabeça lhe ficasse pesada. Começaram a atravessar o planalto e depressa chegaram junto do primeiro cadáver.

Estava numa árvore, embrulhado em folhas de vinha. De um lado as folhas secas tinham dado de si e viram a forma branqueada de um osso pélvico.

À medida que avançavam, as trouxas nas árvores multiplicavam-se, suportadas em ramos como ninhos fantasmagóricos. Algumas das coberturas tinham-se deteriorado, e partes de esqueletos aconchegavam-se nas forquilhas das árvores. Pilhas de ossos enchiam o chão como cascas em algumas zonas, com crânios fazendo esgares semeados por ali. Um vago cheiro de podre enchia o ar. A maioria destes restos era antiga, percebeu Susan.

O terreno dos enterramentos era grande e levaram uma meia hora a atravessá-lo, movendo-se tão cuidadosamente quanto ladrões e sentindo-se expostos e vulneráveis, como se a qualquer momento pudessem ser atacados pelo sacrilégio. Tudo em volta estava numa calma de morte. Ela não viu os coveiros, mas sabia que estavam sendo observados por eles.

Assim que chegaram ao outro lado, depressa atingiram a parede do vale, quase a pique. Procuraram numa direção e depois na outra até que encontraram uma fenda na rocha. Matt esgueirou-se para dentro primeiro, depois Susan. Andaram bastante pelo interior da terra para saberem que podiam continuar até ao exterior da montanha. Susan sentiu um alívio que não esperava ao perceber que existia uma saída. Fazendo o caminho para trás, voltaram ao vale.

Não tinham ido longe quando Susan puxou a manga de Matt e apontou para a superfície da rocha. Havia a boca escancarada de uma caverna. Ficou espantada com certeza - de onde vinha, não podia dizer - que conduzia aos túneis de onde ela e Matt mal tinham escapado com vida há um par de semanas.

Voltaram para trás através do cemitério.

- Sinto que não devíamos estar fazendo isto - disse Susan. - Kellicut tem razão.

 

- Matt - disse Susan com um tom de auto-satisfação na tarde seguinte -, fazendo o balanço, acho que me safei muito bem. As minhas teorias ainda se aguentam. As tuas é que, na maioria, foram pelo ar.

Estavam deitados num prado, e Susan tinha arrancado uma palha e estava fazendo cócegas com ela debaixo do queixo de Matt.

- Acho que me recordo de você defendendo a idéia que o Neandertal tinha uma faringe incompleta e não podia fazer alguns sons: um g, não era um deles?

- Quantos g é que ouviu aqui? - respondeu ele.

- Não muitos, mas dado que eles não falam de todo, fica um pouco fora da questão, não acha

- Uma pequena correção. Uma nota de rodapé. De qualquer forma, nunca sustentei realmente essa teoria; estava só experimentando a hipótese.

- Estou vendo.

Depois foi a vez de Matt.

- Mas me lembro de ter embarcado nessa teoria de que o alongamento do osso do pélvis sugeria que a gravidez do Neandertal duraria onze meses. - Susan corou ligeiramente. - As implicações eram evidentes, se bem me recordo; mais tempo no útero significa um desenvolvimento mais sofisticado. Não vejo muita sofisticação. Ou uma série de mulheres andando por aí com barrigas enormes.

- Era apenas uma hipótese vaga. Abandonei-a logo a seguir. De qualquer maneira, não parece haver por aí muitas mulheres, ponto final. Como é que explica isso?

- Ataques - disse Matt. - Feitos pelos outros lá de cima da montanha.

- Também pensei nisso.

Ficaram calados por um momento. Depois Susan atacou outra vez.

- E os enterros?

- O que?

- Você sempre negou que tivessem rituais funerários. Sempre disse que um esqueleto inteiro é apenas um feliz acidente geológico.

- Nem sempre. Pode recordar-se que aceitei a posição de sentado para o sepultamento. E reconheci que, em alguns casos, os Neandertal atafulhavam os túmulos com ferramentas de pedra e peças de carne e outros artigos. Só não me passei dos carretos como você.

- Ques dizer, o sepultamento com flores de Shanidar não é - disse Susan, referindo-se a um local, no Iraque, onde grãos de pólen em sedimentos à volta dos ossos foram interpretados por alguns como uma pista de que o cadáver tinha sido ornamentado com grinaldas de flores.

- Sim, ainda acho que isso é uma besteira romântica. Os grãos chegaram lá por acaso, algum animal ali fez a toca, ou houve um deslocamento estratigráfico. Tal como em Teshik-Tash. Pensava-se que aqueles chifres de bode siberiano tinham sido enterrados no chão à volta do corpo da criança para a trazer de volta à vida; acho que eram postos ali para proteger o corpo dos predadores.

- Tão prosaico. Você simplesmente não consegue acreditar que existe uma coisa como a importância do ritual.

- Susan, eu admito que nunca esperei encontrar os seres queridos embrulhados como casulos e espetados em árvores. Mas não testemunhamos nenhum enterro aqui e não sabemos se têm rituais ou não.

- Às vezes você me surpreende. Não vê o lado épico das coisas: grandes batalhas, lutas pela existência, uma espécie fazendo outra desaparecer. Tudo o que vê é sexo.

- Aí, você me pegou.

- Se a sua teoria está certa, se nós misturamos os nossos genes e os propagamos até desaparecerem, deveríamos estar ansiosos para nos acasalarmos com eles, você e eu. Certo?

- Talvez não. Talvez agora já tenhamos evoluído para uma zona muito distante.

- Mas deveríamos sentir uma espécie qualquer de atração, qualquer coisa. Sente?

- E você? - perguntou ele.

- Eu perguntei primeiro.

- O que quer que diga? Que perguntei segundo?

- Bom, há muita coisa em jogo. Se eu disser que sim, isso poderia querer dizer que você tem razão.

- Susan, diga apenas a verdade. o que sente?

- Bom, essa é difícil. De algumas maneiras, não, de modo algum. Acho a idéia completamente repugnante. Mas em outros momentos, sim, conseguiria imaginá-lo.

- Se consegue imaginá-lo, então é porque é possível: não há barreira à reprodução, e de fato nós e os Neandertal pertencemos à mesma espécie. Isto assumindo o conceito biológico de espécie.

- Quer dizer que, se duas populações diferentes podem cruzar-se, são da mesma espécie?

- Claro. E se não, se você e eu não conseguimos conceber a idéia, então James Shreeve está certo quando sugere que a cara do Neandertal, e em particular os olhos, os põem fora de jogo sexualmente no que nos diz respeito. Então, assim, somos duas espécies à parte.

- Isto é que é uma área de investigação!

Repararam que os hominídeos não eram acanhados quanto a sexo. Machos e fêmeas copulavam quando lhes dava vontade, e não havia conceito de monogamia; enquanto alguns andavam aos pares regulares, outros não andavam. Na maioria das vezes eram os machos que tomavam a iniciativa, mas nem sempre.

Numa noite, dúzias de adultos saíram da aldeia e caminharam pelos bosques. Matt e Susan juntaram-se a eles. Tinham detectado um ar de excitação no grupo, uma rapidez nos passos, uma energia transbordando. Por cima das cabeças estava a Lua grande e baixa, um disco gigante cor de magnólia produzindo tanta luz pálida no chão que lançavam sombras enquanto andavam.

Após um quarto de hora, chegaram junto a uma enorme formação rochosa que nenhum deles tinha visto antes. Na ponta mais afastada havia um enorme buraco triangular, suficientemente grande para deixá-los passar um a um. Assim que entraram, ficaram espantados com o calor e a fumaça. Estavam numa enorme caverna baixa. Ardia uma fogueira, alimentada por quatro hominídeos pingando suor. As chamas saltavam alto e desapareciam no grande funil por cima, a chaminé para o exterior. Uma luz avermelhada refletia-se das paredes com reentrâncias da rocha, e o calor era tão sufocante que Susan pensou que ia desmaiar.

Sentaram-se ao lado uns dos outros. Através da fumaça conseguiam descortinar os que estavam sentados perto do fogo, e pela primeira vez Susan viu Kellicut ali, junto de Levítico e outros. Os que cuidavam da fogueira atiraram com mais madeira para as chamas, que baixaram por um momento e depois se ergueram mais alto. Vindo do fundo da caverna ouviram um som cavo e sincopado, e dois hominídeos machos e duas fêmeas saíram das sombras, a bater em dois tubos que pareciam de bambu. O som das batidas rítmicas fazia eco nas paredes e envolvia a caverna, fazendo Susan vibrar fundo por dentro. Reparou que os que tratavam do fogo estavam a pôr longas ervas verdes sobre as chamas, que enviavam vagas de fumo, acre mas relativamente agradável, que enchia a caverna como nevoeiro.

Susan estava encharcada em suor, tal como Matt, e despiram-se. Entretanto, a batida intensificou-se. Numa pequena área de terra, no centro, uma mulher levantou-se e começou a dançar, girando loucamente. O ruído aumentou quando os outros começaram a bater nas coxas com as mãos, em coro. A bailarina rodopiava, depois parou diante de um macho e puxou-o para si. À luz bruxuleante da fogueira Susan viu que o pênis dele estava ereto, estendendo-se dos genitais como um pau pequeno e grosso.

A bailarina arrastou-o para a entrada e saíram. Continuaram as palmas e de novo o bater dos instrumentos tornou-se mais alto. Os tratadores do fogo atiraram mais ervas para as brasas. Quando inalou profundamente, Susan sentiu os pulmões ardendo e o sangue acelerou-lhe nas veias. Sentiu a cabeça leve, tonta com o narcótico, e os olhos encheram-se de lágrimas com a fumaça. Levantou-se outra bailarina, apanhou um parceiro e saiu. Depois outra. Kellicut olhava fixamente para Susan através da fumaça. Susan ergueu-se. Com todos os olhos sobre si, a batida e as palmadas fluíam sobre ela em ondas, fazendo-a perder o controle. Ela rodopiava selvaticamente, já quase sem conseguir focar os olhos, arrebatada pelo ruído, que tinha se tornado uma intrincada e misteriosa forma de música. Coberta de suor, sentiu o calor envolvê-la como um cobertor e o ruído dilacerá-la com uma estranha mão gelada.

Sentiu-se profundamente excitada ao longo do interior das coxas e nos mamilos. Vagamente, através do nevoeiro, conseguia distinguir Kellicut, erguendo-se caminhando em direção a ela. Junto a ele viu Matt, também correndo para ela, com o rosto descontrolado. Parou e Matt estava diante dela, e fugiram juntos noite adentro.

Estava tudo calmo no exterior, no entanto o ruído e a excitação da caverna continuavam a reverberar-lhes dentro da cabeça e fizeram amor freneticamente. Depois afastaram-se um do outro e ficaram à distância, muito arrebatados para poderem se tocar. Levaram minutos até poderem se reaproximar.

- Deus do céu! - disse por fim Matt.

Ficaram silenciosos por um momento até que Matt falou outra vez.

- Estou contente por ter me escolhido. Não achei que fosse fazê-lo.

- Eu não sabia o que estava fazendo. Nem sequer pensei.

- Susan ?

-O que é?

- Diga-me, queria escolhê-lo?

- Não escolhi, não é?

- E quanto a um "deles" ? Considerou a hipótese de fazer amor com um deles?

Ela inclinou-se sobre ele e abraçou-o.

- Matt, meu querido idiota. Não percebeu? Acabamos de fazê-lo.

Matt tornou-se amigo de um jovem hominídeo chamado Lancelot.

Sentia-se atraído para ele porque Lancelot, que tinha as pernas mais compridas e um tronco mais elegante que a maioria dos outros, parecia ser tanto mais inteligente quanto aberto a novas invenções. Quando Matt olhou para os seus olhos castanhos, ficou convencido que observava um profundo reservatório de animação.

Lancelot era curioso e gostava de bisbilhotar os pertences deles. Pegava num objeto, como uma faca, e elevava-o no ar, examinando-o a partir de todos os lados. Quando faziam longas excursões e Matt se perdia completamente, Lancelot era sempre capaz de encontrar o caminho de volta. Se tinham que subir uma parede de rocha, ele primeiro observava-a bem, traçando com os olhos de dardo um caminho de saliências e apoios para os pés.

Uma vez, quando iam por um caminho, Lancelot arrastou Matt para uma árvore, praticamente empurrando-o para cima dela, e depois subiu atrás dele. Mal tinham acabado de sair do chão, passou correndo um enorme javali, atirando com as presas para o ar. Matt não sabia se Lancelot o tinha ouvido chegar ou se de alguma maneira tinha sentido a presença do animal com a sua faculdade especial.

Em outra tarde, Matt adormeceu e foi acordado para descobrir Lancelot acariciando-lhe a testa lisa com os dedos e parecendo intrigado.

Durante as viagens, às vezes Lancelot desaparecia por longos períodos, geralmente andando sempre na mesma direção. Quando isto acontecia, Matt seguia o seu próprio caminho, mas de vez em quando sentia uma ligeira palpitação por trás dos olhos e um peso no lobo frontal, e sabia que Lancelot o estava lendo.

Era extremamente frustrante que a comunicação fosse na maioria apenas num sentido. Depois de semanas de experimentação e aprendizagem intensas, Matt percebeu que estava num impasse. De uma maneira estranha, tinha caído numa rotina. O que Dostoievsky escrevera era verdade: o Homem, enquanto animal, habitua-se a tudo. Aqui estava ele, vivendo o sonho de um paleontólogo, um laboratório pré-histórico real e, no entanto, não poderia confessar honestamente que tinha penetrado no âmago do mistério de como eram de fato estes seres. Mas apesar disso tinha-se adaptado a um mundo que nem sequer poderia ter imaginado há dois meses atrás, de tal maneira assim era que a sua vida quotidiana lhe parecia quase normal.

Por desespero, decidiu tentar ensinar Lancelot a falar. Fez um esforço consciente para recordar tudo o que antes tinha lido acerca das experiências com os chimpanzés e a linguagem. Claro que isto iria ser diferente porque não iria apenas tentar transmitir o conceito de um objeto - digamos, o conceito de "arvoridade" inerente a uma árvore - que era basicamente aprendizagem associativa levada a um nível abstrato. Estaria também tentando ensinar Lancelot a pronunciar e usar a palavra correctamente, e depois associá-la a outras palavras para criar novos sentidos. Era este o salto quântico da linguagem.

Para a primeira lição sentou Lancelot à sua frente, apanhou uma pedra de tamanho razoável, abriu-lhe a mão, e pôs-lhe a pedra lá dentro, repetindo vezes sem fim a palavra "rocha". Recebendo um olhar de incompreensão, deixou cair o r para simplificar o som, repetindo "ocha" vezes sem conta enquanto a retirava e voltava a pôr na mão do desconcertado Lancelot. Durante dias Matt tentou fazer com que a idéia lhe entrasse dentro da cabeça, mas sem êxito. Às vezes Lancelot repetia o som, mas nunca parecia ligá-lo à pedra.

Matt tentou outras palavras: "folha", "céu", "água". Tentou a linguagem dos sinais, fazendo por mímica as ações de comer e dormir. Tentou "Matt", ou "eu", e "você" apontando, um gesto que parecia não transmitir qualquer significado. Evidentemente os pronomes não tinham contexto num mundo que não diferenciava entre nós próprios e os outros. A dada altura, foi buscar o gravador e registrou os sons para reproduzi -los interminavelmente enquanto apresentava os objetos, mas Lancelot ficou fascinado demais pelo próprio gravador para prestar atenção.

- Não estou chegando a lugar algum - confiou Matt a Susan numa tarde.

- Não é de surpreender. A linguagem tem que ser a única e mais complicada atividade humana.

- Mas eles são tão semelhantes, de tantas maneiras. Diria que a capacidade está lá nalgum lugar, mesmo se apenas numa forma vestigial que pode ser ativada.

- Se não é usada, não se vai desenvolver. É como aquelas crianças que nascem com catarata; se não são tratadas nos primeiros seis meses, ficam irremediavelmente cegas. Além disso, o cérebro dos hominídeos já é especializado; tem que processar toda aquela informação vinda dos canais visuais dos outros.

- No entanto, às vezes fazem sons.

Susan sugeriu que ele tentasse ir pelo caminho oposto, e aprendesse tanto quanto pudesse o vocabulário falado dele. Talvez pudesse usar isso como uma alavanca para conseguir romper a barreira. Ele concentrou-se nos mais jovens, especialmente quando estavam brincando, porque era nessa altura que pareciam pronunciar a maioria dos sons. Gravou-os na cassete e, com o tempo, passou a ser capaz de associar alguns sons com reações específicas. Detetou um som para surpresa, uma espécie de grunhido gutural aberto. Depois teve a sorte de gravar o alarme, uma vez que um grupo de crianças brincando na margem de um rio dispersou correndo quando um predador, um gato pequeno que se parecia com um leão da montanha, se dirigiu a eles.

Depois Matt ouviu de novo a fita, ouviu uma série de gemidos agudos que soavam como uma lamentação fúnebre.

Praticou ele próprio o som sozinho nos bosques, e nessa noite disse a Susan, meio brincando, para se preparar para um momento histórico.

De pé na orla da aldeia, inspirou fundo e deixou o grito rebentar de tal maneira que ecoou através das árvores. Antes que Susan percebesse o que estava acontecendo, Matt estava-lhe aos pés torcendo-se no chão com as mãos contra as têmporas.

- Matt, pelo amor de Deus, o que aconteceu?

Ele sentou-se, com um ar um pouco envergonhado.

- Dei o alarme, está certo. Acho que queriam saber o que estava errado, e leram-me todos ao mesmo tempo.

Se Lancelot não aprendeu a falar, aprendeu outra coisa. Uma noite, enquanto Matt e Susan presidiam a uma sessão de luta, estava ele no poço com um jovem hominídeo quando foi atirado ao chão. Instantaneamente, pôs-se de pé e avançou sobre o jovem, que rodou de tal maneira que o cotovelo dele o apanhou no queixo. Lancelot vacilou para trás, atordoado, depois atacou direito ao seu opositor, bateu-lhe com a cabeça no peito, e atirou-o duramente ao chão.

Quando se virou triunfante, Matt apanhou um vislumbre da cara dele vermelha de raiva. Matt saltou para dentro para terminar o jogo.

Ele e Susan estavam espantados e um pouco enervados. Depois falaram sobre o assunto.

- Sabe o que eu pensei quando vi aquilo? - disse Susan. - Havia ali verdadeira cólera, agressão. Isso não está no vocabulário emocional dos outros por aqui.

- Quer gostemos disso ou não, a cólera e agressão são caraterísticas humanas - respondeu Matt. - Talvez alguns deles tenham já começado a tomar o caminho dos renegados, e esse caminho os conduza direto a nós.

Durante todo este tempo, Kellicut andava sendo submetido à sua própria instrução e passava cada vez mais tempo com o xamã.

O xamã vivia numa cabana isolada, a única que tinha uma porta, que estava sempre fechada. Era rodeada por um fosso de pequenos tótens como tufos de cabelo e dentes, e emanava dali um cheiro nauseabundo.

Matt e Susan chamavam-lhe Olho-Negro, um nome que o retratava no aspecto e nas funções, que eram as de guiar a tribo através do mundo etéreo dos espíritos. Carregava, sobre a sua frágil estrutura, o peso das almas dos antepassados que já tinham partido. A parte superior do seu corpo era emaciada, com os ossos dos ombros espetados debaixo da pele como asas de morcego, e a cara era macilenta, chupada e sinistra, com o cabelo despenteado a cair como uma cortina.

Quando o afastava, mostrava um olho enevoado e fixo, olhando permanentemente à distância como se ele estivesse tendo visões que escapavam aos outros, de espíritos que residiam em ninhos escondidos e árvores ocas.

Olho-Negro partia sozinho para um pináculo rochoso dias seguidos, aí comungando com os espíritos e jejuando, para regressar tão magro ¨como a lâmina de um machado. A tribo parecia excitada quando ele reaparecia, e dava-lhe comida e outras oferendas, mas também tinha medo dele, afastando-se quando ele se aproximava.

Organizava cerimônias para comungar com os antepassados, completadas com gritos e cantos, bater de troncos, e ataques de possessão.

Susan reparou que nestas ocasiões ele parecia cair em transe e, quando o fazia, mantinha o seu único olho bom fechado. Isto, imaginava ela, isolava-o completamente do mundo exterior e tornava impossível que os outros membros da tribo o lessem, se é que o ousavam fazer.

 

Cedo numa manhã, com um céu tão azul que cobria o vale como um globo luminoso, uma agitação assolou a aldeia. Matt, que tomava banho num fresco regato, ouviu guinchos de excitação e o que soava como gritos. Susan, que apanhava framboesas de um arbusto para o café da manhã, pôs-se de pé tão depressa que se arranhou. Procurou desembaraçar-se no caminho cuidadosamente e depois correu até à aldeia, chegando ao mesmo tempo que Matt.

Um grupo de hominídeos estava empurrando, impelindo e dando pontapés na terra. As crianças andavam à roda deles com caras solenes.

Uma espécie de luta qualquer, pensou Matt, depois percebeu, com um sobressalto, como tinha se adaptado tão por completo à tranquilidade sonolenta da aldeia: o simples pensamento de uma confusão chocava-o.

Depois viu a cabeça de Caralonga por cima do ajuntamento, e quando o hominídeo se virou para o encarar, percebeu que tinha as feições distorcidas pela angústia.

- O que está acontecendo? - perguntou Susan. Ela também estava perturbada com a cena.

- Não faço idéia, mas é melhor descobrirmos.

Assim que Susan deu uns passos em frente, a multidão afastou-se abrindo caminho para ela e Matt, e pôde ver uma padiola feita de ramos e folhas. Sobre ela estava um hominídeo que nunca tinha visto antes, um jovem de cabelo escuro. Assim que o grupo pousou a padiola no chão, o corpo rolou até parar, inerte.

O jovem estava muito ferido. Mostrava um lenho atravessandor-lhe um dos lados da testa. A carne tinha sido arrancada do osso protuberante, que se mostrava de uma brancura alva, como alguma excrescência que tivesse rebentado com a pele. Sangue escuro escorria-lhe pelo lado da cara em direção à parte de trás do pescoço, empapando-lhe o cabelo. Parecia estar ficando inconsciente. Tinha o joelho direito esmagado e sangrando; o braço esquerdo pendia-lhe inerte para um lado, com a carne interna exposta para cima. Trazia o corpo adornado de uma maneira que eles nunca tinham visto, como se usasse pintura de guerra. Tinha a cara marcada com linhas de ocre vermelho e carvão, desenhando um V nascendo do nariz, e o peito poderoso exibia-se traçado com linhas semelhantes que emanavam do externo. A respiração fazia-o mostrar as costelas.

Caralonga não conseguia deixar de lhe tocar. Abraçava o outro braço do jovem numa postura de aflição, como uma Pietá, e emitia estranhos sons arrepiantes, atirando com a cabeça para trás e esticando as cordas vocais em gritos de dor. Qualquer coisa no olhar dele, e a maneira como embalava o corpo para confortá-lo e manter o resto à distância, impressionou Susan.

- Matt - disse ela. - É o Filho dele.

- É - disse a voz de Kellicut vinda por trás. - E pelo aspecto vai morrer num instante se não fizermos alguma coisa.

- O que podemos fazer?

- Provavelmente muito pouco, mas será mais do que o que eles podem. A medicina não é uma arte muito desenvolvida por aqui.

Quando Caralonga ouviu Kellicut, deixou cair o braço do rapaz, correu até ele, pôs-lhe a mão enorme sobre a nuca e empurrou-o em direção à padiola, enquanto a multidão se afastava para lhe dar lugar.

Guiou Kellicut para baixo de modo que ele teve de se ajoelhar junto ao corpo.

Branco como cal, Kellicut tocou na têmpora do rapaz. O jovem abriu brevemente os olhos, olhou para o pai e gemeu, depois virou a cabeça para um lado. Kellicut encostou-lhe as costas da mão à cara, tocou-lhe nas costelas, e tomou-lhe o pulso. Inesperadamente, Caralonga deixou sair um gemido, de intensidade igual ao do filho.

- Deus do céu! - disse Matt. - Ele está lendo o filho. Está recebendo a dor dele. Está sentindo-a literalmente.

- Exato - disse Kellicut por cima do ombro. - E deve ser excruciante. Não podemos ter a mais vaga noção do que seja. O problema é que não acho que diminua a dor do filho ou a mitigue de alguma maneira. É apenas uma forma de experimentá-la simultaneamente, uma empatia puramente altruísta.

Kellicut estava transformando-se em médico. - Primeiro, temos de limpar-lhe o sangue. Não consego ver nada. Não faço idéia do que vamos encontrar aqui. - Virou-se abruptamente. - Matt - ordenou -, vai buscar seu estojo de primeiros socorros, rápido. Vamos levá-lo para a cabana grande junto ao rio. Susan, traga todas as roupas que tiver. Temos de cobri-lo. Está em estado de choque. - Agora já era o velho Kellicut, ladrando ordens peremptórias, apressando-se a tomar o comando antes que os outros tivessem sequer percebido a situação. - Vamos embora.

Começou a erguer a padiola e cinco homens apressaram-se a ajudá-lo. Com o movimento, agitavam o jovem, que deixou sair um lancinante gemido de dor e Caralonga fez o mesmo.

O estranho cortejo abriu caminho pelo meio da aldeia, mas agora com a sensação de ter um objetivo, um animal enorme de três metros empurrando a poeira e Kellicut à frente conduzindo-o co.

Junto ao rio fez gestos para que a padiola fosse colocada sob um grupo de choupos. Perto havia uma cabana formada pelo entrelaçar de ramos de duas árvores. Era aberta dos dois lados e uma brisa suave atravessava-a. Foi aqui que Kellicut montou a loja. Mandou Matt até o rio por três vezes com o cantil, lançou água sobre as feridas e limpou-as gentilmente com uma das blusas de Susan até que pôde ver onde a carne estava rasgada. Havia terra agarrada à volta das bordas do rasgão ao longo da testa.

- O que acha que lhe aconteceu? - perguntou Susan.

- É difícil de dizer, mas esta aqui foi provocada por um golpe qualquer -, respondeu Kellicut, ainda limpando a testa. - Olhe para o inchaço no lado; e aqui o osso está falhado, vê? - Ele ergueu uma pequena tira de pele junto ao osso do sobrolho. - Isto é o tórus frontal. Imagina, estamos olhando para um osso que nunca foi visto em nenhuma escola médica do mundo. - Embrulhou o jovem nas roupas que Susan tinha deixado, uma pilha patética que incluía um par de calças. - Nunca lhe serviriam, sabem - disse Kellicut. - Teremos que usá-las como cobertor. - Voltou de novo ao seu doente.

- Não tenho nada de médico, mas apostaria que ele não arranjou

este golpe numa queda. E não é provável que tivesse esmagado assim a perna num acidente qualquer. Não - disse, aconchegando as roupas sob o corpo do jovem que estava começando a tremer, - foi feito com uma moca; diria que andou metido numa luta.

- Com quem?

- Com o mesmo bando que vocês encontraram.

- Como é que sabe?

- Quem mais poderia? - Kellicut fez uma pausa pensando no que iria dizer. - Além disso, ele fugiu para se juntar a eles.

- O quê?

- Exato. Há algumas semanas. O pai ficou destroçado. Não conseguia aceitar isso. - Kellicut olhou para Caralonga, que estava sentado num cepo, olhando fixamente para a cara do filho e balançando-se lentamente para frente e para trás. - De fato, trata-se de uma espécie de estigma, ter um filho ou uma Filha que se junta aos renegados, mas este tipo aqui é tão respeitado que não parece ter-lhe afetado muito o prestígio. A não ser que sofreu muito.

- É incrível - disse Matt.

- Incrível porquê? Eles têm uma profundidade de sentimentos que nem sequer consegue imaginar.

- Não é isso. Quero dizer o fugir para se juntar a outro grupo como aquele, os... os renegados, como lhes chama.

- De alguma maneira, este rapaz é o responsável por vocês terem sido encontrados.

- Como ?

- Aqueles três que os encontraram eram uma equipe de busca que andava à procura dele.

Susan olhou para Kellicut.

- Acho que há muita coisa a ser esclarecida. Há muita coisa que pode nos dizer.

- Sim - suspirou ele. - Acho que sim. Mas tudo a seu tempo. Vamos primeiro ao que interessa. Antes, temos que salvar este jovem.

Caralonga olhou por cima do corpo do filho diretamente para Kellicut. Matt não era um especialista em ler emoções nas caras destes seres que ainda lhe eram tão estranhos, mas não teve dúvidas acerca deste: Caralonga implorava. Curvado pela idade, foi até Kellicut, levantou-lhe a mão e afastou dois dedos, e gentilmente colocou-os sobre as pálpebras do seu filho. Depois, com os seus próprios dedos, tocou nos olhos de Kellicut e manteve-os ali por um momento, um olhar de súplica na cara. Ele está nos dizendo que seu filho está morrendo e pedindo a Kellicut que o salve, pensou Matt.

 

Eagleton esmurrou o intercomunicador e rugiu baixo:

- Schwartzbaum! - Depois apertou o botão para lançar o desinfectante vindo de cima. Se há alguém que pode contaminar este gabinete, pensou maliciosamente, é esse fala-barato do Schwartzbaum. Era uma infelicidade que ele estivesse, mesmo tangencialmente, ligado à operação.

Schwartzbaum tinha passado pela fábrica de paleo-antropologia de Harvard e estudado com os melhores. Tinha começado como um homem clássico dos "ossos e rochas" e depois, tal como o seu tema de estudo, tinha evoluído. Andava agora na investigação de ponta da genética evolucionista. De dois em dois anos publicava ensaios sobre a fisionomia esqueletal e o DNA mitrocondrial que eram tão obscuros e ilegíveis que a sua reputação se tornara inexpugnável.

Eagleton tinha precisado tanto da sua perícia para este projeto que o nomeara vice-diretor do Instituto com todas as regalias: um salário de 150 000 dólares, um lugar no estacionamento e um camarote reservado para toda a época dos jogos dos Redskin.

Agora precisava de Shwartzbaum ali para ajudá-lo a tomar uma decisão, ou melhor, para falar. Eagleton usava o homem de tempos em tempos para lhe servir de eco. Às vezes a decisão não tinha nada a ver com o assunto que eles discutiam. Considerava útil explorar as questões afluentes com um colega enquanto o seu intelecto formidável navegava sozinho pelos baixios do rio principal.

Usava Schwartzbaum da mesma maneira que um experimentador usa o ruído branco para apagar as distrações invasoras. Esta era uma dessas ocasiões.

Schwartzbaum entrou com um ar distraído, puxou de uma cadeira e sentou-se muito perto para desconforto de Eagleton. Este não

disse nada. Apenas rolava a cadeira de rodas para frente e para trás como um corredor na linha de partida, acendeu um cigarro e lançou um jato de fumaça de segunda mão aos tufos de cabelo alados que se espetavam por cima das orelhas de Schwartzbaum, à moda do cientista louco.

Funcionou. Dando o aspecto de um homem apanhado numa nuvem de gás mostarda, Schwartzbaum fez a cadeira recuar trinta centímetros.

- Bom - disse Eagleton. - Acabou o relatório?

- Relatório?

- Sobre a sessão aqui. A que tivemos com os Drs. Arnote e Mattison. - A irritação começava a mostrar-se na voz de Eagleton, que não fez qualquer esforço para escondê-la.

- Ah., esse relatório. Não, ainda não. Lamento, mas tenho andado preocupado com um ensaio sobre a abertura nasal no crânio do Neandertal. Cheguei à conclusão que...

- Esse relatório devia ter aparecido sobre a minha mesa ontem de manhã. Preciso saber o que pensa sobre as interpretações

divergentes deles.

- Bom, sabe o que se diz: juntem dois paleontólogos numa sala e obterão três opiniões diferentes. É um grupo que nem sequer consegue estar de acordo quanto à ortografia do seu tema de estudo. Alguns alinham com os alemães, que deixam cair o "h" mudo, N-E-A-N-D-E-R-T-A-L, e outros...

- Eu esperava ter uma discussão mais substancial do que soletrares poéticos.

- Ah !, desculpe. Sobre... ?

- Sobre a teoria da Dra. Arnot relativa ao canibalismo, por exemplo.

- Hem! Canibalismo? - Schwartzbaum afagou a barbicha coma ponta dos dedos. O gesto fez lembrar a Eagleton uma aranha de costas agitando as pernas no ar. - Lamento, mas isso não é novo. É o lado subterrâneo e escuro da investigação Neandertal, uma sombra que recua ao trabalho de alguns dos caçadores de fósseis originais.

- Explique.

Schwartzbaum aconchegou-se na cadeira, inspirou profundamente, e fixou os olhos numa mancha da parede.

- A não ser que esteja enganado, a primeira referência foi feita por volta de 1860 no trabalho de Edouard Dupont, um geólogo belga. Andava esquadrinhando uma caverna ali por... creio que era Le Trou de la Naulette... quando descobriu uma parte de um maxilar inferior de tamanho razoável. Era inegavelmente humana, mas também muito com aspecto de macaco pela maneira como se inclinava para trás, dos dentes para o queixo.

Subitamente Schwartzbaum tomou consciência de que estava afagando o seu próprio maxilar. Corado, deu um puxão à mão para baixo.

- Não se esqueça que, Sobre a Origem das Espécies só tinha saído há poucos anos. A teoria da evolução lutava para encontrar um ponto de apoio para se tornar credível, e este pedaço de mandíbula era a primeira prova anatômica sólida a apoiar Darwin. De qualquer modo, uma coisa bizarra aconteceu. As insinuações sobre canibalismo já tinham começado, por isso Dupont fez questão de dizer que os seus ossos não eram de modo algum os restos de um festim. Mas quando as descobertas dele foram traduzidas para inglês, ficou tudo virado de pernas para o ar de tal maneira que as pessoas pensaram que ele estava dizendo que eram os restos, e que os Neandertal eram canibais. Pensaram isto porque queriam pensá-lo, e a má reputação ficou.

Schwartzbaum saltou algumas décadas até ao princípio de 1899 e um tal Dragutin Gorjanovic Kramberger, um croata que era filho de um sapateiro e nunca tinha sido aceito pelos intelectuais de Berlim e Paris. Mas foi o último a rir. Descobriu o lugar de Krapina, uma caverna do tesouro com centenas de espécimes Neandertal. O que o impressionou foi que os esqueletos tinham sido espalhados por todo o lado e que parte dos ossos grandes estavam faltando, alguns mesmo queimados. Além disso, um número surpreendente deles pertencia a crianças. Tudo isto Gorjanovic considerou como prova irrefutável de que eram vítimas de banquetes pré-históricos.

Eagleton parecia estar olhando intensamente para Schwartzbaum, mas as palavras que se entornavam da língua do velho homem chegavam-lhe através de um nevoeiro. A sua mente começava a lutar com o problema que tinha proposto a si mesmo. Estava já avançando pelo rio principal abaixo e o pequeno barco de excursão do seu visitante desaparecendo nos pântanos laterais.

Schwartzbaum continuava, incansável como um ator embriagado pelas luzes da ribalta.

- Todas as teorias e insinuações obscuras atingiram um clímax anos mais tarde, em 1939, exatamente nas vésperas da Guerra. - Contou a história de Alberto Blanc um jovem caçador de fósseis italiano em lua-de-mel no monte Circeo, a sul de Roma. Alguns trabalhadores toparam com o teto de uma caverna escondida e andaram por ali mexendo às escuras. Presto, um deles agarrou num crânio para Alberto. A questão era, em que local exato da caverna é que ele o tinha apanhado?

- O debate sobre a resposta trouxe ainda mais dores de cabeça, passe a piada. Dura até hoje, e tem arruinado mais conferências do que posso contar.

- Sabe, Blanc insistia que o crânio tinha vindo do centro de um grupo de pedras dispostas em círculo. Chamava-lhes a "coroa de pedras" para aumentar o efeito dramático. A rachadura na têmpora direita? Prova de um crime antigo. Aquele buraco largo na base do crânio era, dizia Blanc para a extração do cérebro. A sua hipótese era que o Neandertal, tendo vencido um inimigo, provavelmente atacando-o por trás e dando-lhe um golpe mortal, separa a cabeça do corpo, come o cérebro, e usa a caixa craniana como um cálice sagrado para os seus rituais, colocando-a sobre a "coroa de pedras" tão delicadamente como um padre hoje agita o cálice da comunhão sobre o altar. Interessante, não é?

Eagleton deixou sair um grunhido não comprometedor, enquanto Schwartzbaum continuava a tagarelar esquecido.

- O que acontece é que, hoje em dia, a grande parte dos paleontólogos rejeita a teoria. Há muitos talvez. Talvez o círculo não fosse de fato um círculo. Talvez o crânio tivesse sido mordido por um animal. Talvez Blanc estivesse sendo apenas um italiano romântico. Funciona para os tablóides de supermercado, mas não passa na inspeção da sala de jantar da faculdade de Harvard.

- E a Dra. Arnot?

A pergunta o fez regressar de chofre ao real. Schwartzbaum gostava de se sentar nas fronteiras e Susan Arnot era uma pessoa que tinha tendência para derrubar fronteiras.

- Na generalidade, o trabalho dela tem sido exemplar, e é respeitada na área. Mas claro que ainda não publicou nada sobre a sua última... contribuição para a teoria de Blanc.

- E o que acha?

- Eu?

- Sim, você.

Schwartzbaum tornou-se cauteloso, um especialista na cadeira das testemunhas a quem por fim se pedia que se comprometesse sobre o pedaço de uma prova.

.- Publicamente não sou identificado com nenhum dos lados. Ainda não tomei uma posição clara. Mas poderia dizer aqui, na privacidade deste gabinete, que não subscrevo a idéia de que eles se comiam uns aos outros.

- Disse antes que as pessoas pensavam que os Neandertal eram canibais porque queriam pensar isso. O que queria dizer?

- Sabe, hoje a evolução é para nós uma coisa lógica como cheia de sentido; em retrospectiva, torna-se óbvia. Thomas Huxley disse-o melhor: "Como fui estúpido em não ter pensado nisso." Esquecemos quão verdadeiramente revolucionária foi na altura, como desafiou o preceito básico do que era a humanidade. Numa pincelada rápida significava que não éramos mais a criação de Deus, diferente dos animais, dotada de razão e uma centelha de divindade. Já não éramos especiais; subitamente fomos deitados abaixo do nosso pedestal. Descobriu-se que éramos apenas mais um animal como qualquer outro, um pouco mais esperto ou mesmo muito mais esperto, o que explicava como havíamos chegado ao topo do monte, mas basicamente um animal na mesma. Prevalecemos por causa do nosso intelecto, e isso desenvolve-se em grande parte por acaso, graças às duas pernas e a um polegar em oposição ou uma caixa de voz. Encaremos o assunto, a imagem de uma criatura arrastando-se a si própria para fora do pântano primordial não é tão enobrecedora de contemplar como o arco entre o dedo de Deus e a mão estendida do homem na Capela Sixtina.

- Por isso, já não mais somos deuses menores; somos apenas macacos maiores. Depois, para piorar as coisas, junto vêm os fósseis enchendo os espaços em branco, de modo que a nossa ligação com a macaquice é ainda mais evidente. Está bem, o Homem de Piltdown é uma fraude, mas mesmo sem ele há muitos outros "elos que faltam", e o mais importante de todos é o Neandertal. Por isso, precisamos de qualquer coisa que o separe de nós, que nos ponha de novo no nosso pedestal. Temos necessidade de transformá-lo num animal. Que maneira melhor de o fazer que acusá-lo de violar o tabu mais pernicioso que se pode imaginar, cometer o crime mais abominável, o símbolo de tudo o que nos coloca acima dos outros neste horrível continuum de selvagens em luta, do que comer a sua própria espécie?

Nesta altura Schwartzbaum já estava tão enamorado da sua própria eloquência que quase tinha esquecido da figura sentada por trás da mesa na escuridão crescente. Ficou surpreso quando Eagleton o interrompeu.

- Parabéns. Respondeu a todas as perguntas excepto a mais importante.

- Que é?

- Porque é que eles seriam canibais?

- Isso é fácil - respondeu Schwartzbaum, afagando a barbicha de novo. - Desde tempos imemoriais, a razão é sempre a mesma, para ganhar a inteligência da nossa vítima.

Eagleton despediu-o secamente.

 

O filho de Caralonga estava deitado numa placa de terra batida no interior da grande cabana junto do rio. Tinha os olhos fechados e parecia pálido e exausto, mas ainda respirava. Susan estudou-lhe as feições.

O inchaço em forma de carrapito na parte de trás da cabeça, uma caraterística dos hominídeos que lhes servia de contrapeso para as suas enormes caras compridas, e lhes empurrava a cabeça para a frente, de maneira que o queixo quase lhe tocava no peito. Esta postura fazia-o parecer solene e em paz, como se já estivesse morto, como a estátua de pedra num sarcófago de uma catedral medieval européia. As longas pestanas dele tremeram. Não é feio, pensou. De alguma maneira tem um aspecto nobre, embora dificilmente angélico.

Mas tinha um ar distinto, como um jovem príncipe. Não devia ter mais do que quinze, dezesseis anos, pensou. Estava começando a perder aquele quase inconsciente arrepio de repulsa que a costumava avassalar quando lhes contemplava os rostos distorcidos.

Olhou para as marcas de tinta na cara, traços selvagens com o objetivo de inspirar medo. Eram universais; os povos primitivos à volta do Mundo usavam tais adornos para as caçadas e as batalhas, e às vezes para os funerais de grandes guerreiros. Tocou numa linha vermelha; uns flocos secos agarraram-se ao dedo e ela cheirou-os.

Hematite, ou óxido vermelho, que dava a cor ao ocre. Era usado nos enterros pré-históricos como símbolo do sangue, e vira-o recentemente nas caras dos selvagens que tinham morto Rudy e tentado caçá-los na caverna.

Caralonga sentava-se perto, em silêncio, mas balançando-se ligeiramente para trás e para frente como se estivesse sendo abanado por brisas invisíveis. Poderia estar em oração, pelo modo como se recolhia em si, isolado do mundo exterior.

Kellicut acotovelou Susan, empurrando-a para o lado e examinou o rapaz de novo, agora mais completamente, levantando-lhe um braço, batendo-lhe na caixa das costelas, verificando-lhe o pulso. Era dominador, mas Susan conhecia-o suficientemente bem para perceber que isso era suscitado pelo nervoso.

Estava tentando dragar os parcos conhecimentos que tinha vislumbrado nos seus seis meses na faculdade de medicina há trinta anos atrás.

- O que você vai fazer? - perguntou ela.

- Você vai ver - dardejou ele. - Ou seja, se sair do caminho e me der uma ajuda.

Ela conteve uma resposta. Kellicut enviou-a, junto com Matt, em busca de todos os tipos de objetos para um objetivo não imediatamente aparente. Matt trouxe o cantil e o estojo médico. Susan disponibilizou um pequeno contentor de vodka que tinha andado poupando e também o seu casaco. Tal como Matt, caiu no velho padrão de obedecer ao mentor sem fazer perguntas.

Tal como instruídos, Matt e Susan cavaram um buraco pouco fundo, encheram-no com ramos, e foram buscar uma brasa na fogueira comum para incendiar a pequena pira. Pegou depressa, enviando ondas de calor que faziam dançar as árvores por trás dela e libertavam uma pequena lâmina de fumaça.

- Ferva a água do cantil - ordenou Kellicut. - Uns bons dez minutos, mas não mais. Vou ter que colocá-la aqui - acrescentou ele, erguendo a garrafa de vodka - porque preciso do cantil para outra coisa. - Jogou a vodka sobre a fronte do rapaz e depois na parte interior do cotovelo, enxugando-a com um trapo. Na garrafa ficou um dedal; Kellicut ergueu-a e emborcou-a.

- Mais uma coisa - disse a Susan, pondo a garrafa de lado e virando-lhe as costas enquanto se inclinava sobre o rapaz. - Vá buscar o xamã. Vamos precisar dele. Sabe onde é a cabana. Não se preocupe em bater; ele saberá que está lá.

Susan conhecia de fato o lugar, com o seu cheiro nauseabundo e porta ominosamente fechada. Não gostava de lá ir.

Por um momento esperou à porta da cabana de Olho-Negro, mas não havia sinal de vida lá dentro. Por fim, aproximou-se com cuidado da porta e deu-lhe um empurrão. Feita de ramos grossos amarrados juntos, abriu-se para dentro para revelar escuridão e um fedor tão nauseabundo que quase vomitou.

Ficou imóvel, respirando pela boca, enquanto os olhos se acostumavam à escuridão. Gradualmente, as formas foram emergindo. Num canto havia uma prateleira rudimentar de madeira aplainada. Sobre ela estavam vasilhas feitas de cascas de tartaruga, cheias com um líquido espesso de alguma espécie e pequenos objetos redondos, algum tipo de bolas. Deu um passo em frente. O cheiro disparou tão fortemente que quase o sentia atravessando-lhe a pele.

Olhou para baixo. Pedaços de fios flutuavam no líquido, ligados aos objetos.

Com uma enxurrada de repugnância, percebeu de súbito que eram globos oculares, centenas deles.

Sentiu-se tonta. Uma sensação estranha amontoou-se no cérebro, um nevoeiro, como se tivesse um vapor vindo de dentro como no espelho de um banheiro. Deu dois passos atrás para partir e caiu diretamente nos braços de Olho-Negro.

Ele trazia um longo bastão trabalhado como o de um pastor cuja ponta estava entalhada com a forma da cabeça de um lobo. Não cedeu terreno, por isso ela tropeçou para trás e quase caiu. Ele não fez qualquer gesto para ajudá-la mas pronunciou ruídos guturais que soavam hostis.

O olho queimado como uma estrela explodida - glaucoma, pensou ela, em estado avançado. Deve ser completamente cego daquele olho. O outro também mostrava sinais da doença. Será que só vê através dos olhos dos outros? - conjecturou. Mas se assim é, porque é que vira a cabeça na minha direção?

Olho-Negro pegou-lhe na mão e levou-a para o exterior.

 

Eagleton ainda não tinha conseguido tomar uma decisão e o tempo escasseava. Acendeu um cigarro, aspirou profundamente, e olhou para Schwartzbaum por cima da mesa. O homem é um papagaio, pensou, mas é um manancial de informações. Quase relutantemente, porque estimava o silêncio, fez outra pergunta.

- Diga-me, a teoria da Dra. Arnot sobre a guerra entre o Homosapiens e o Neandertal. Acredita nisso?

Schwartzbaum franziu a testa e esticou as pernas diante de si.

- A teoria da Dra. Arnot, apresso-me a dizer, não é original. Pelos anos de 1920 havia um cara chamado Hermann Klaatsch, um antropólogo da Universidade de Heidelberg. Achava que era impossível o Homo sapiens ter descendido do rude Neandertal. Por isso desenvolveu uma noção estranha de que teria havido uma luta primeva pela sobrevivência na qual os Neandertal teriam sido todos mortos e consumidos. Chamava-lhe a Batalha de Krapina.

- É aceitável ?

- Bom, mais ninguém acreditou nisso, e com bons motivos. Por um lado, os Neandertal estavam disseminados pela Europa. É um bocado difícil imaginá-los todos agrupando-se e perdendo toda a sua população numa batalha única e decisiva.

- Os exércitos estão sempre sendo derrotados numa única batalha: Gettysburg, Waterloo, Agincourt. A maioria das guerras acabam por se ver reduzidas a um confronto pivô.

- E um dos lados perde. Mas não é completamente erradicado. Alguns dos derrotados batem em retirada e fogem para uma caverna para lamber as feridas. Não são completamente exterminados.

- Estou vendo o teu ponto de vista - disse Eagleton com uma careta. Fez uma pausa, esmagou o cigarro, e perguntou: - Então você está do lado do Dr. Mattison: misturamos os nossos genes com os deles?

A barreira acenava a Schwartzbaum.

- Aí também há problemas. O grande dilema da investigação Neandertal é como explicar um único mistério: o fóssil novo é mais neandertalóide que o antigo. Tem um tórus frontal mais pronunciado, isto é, a saliência da testa. Tem um crânio alongado, membros longos, todas as caraterísticas que associamos com o Neandertal clássico. Por isso, parece que eles estavam evoluindo distanciando-se do Homo sapiens, e não em direção a nós, o que entra em conflito com o nosso sentido de como as coisas devem ter acontecido. Como explicá-lo?

- Como é que você explica?

- Bom, como poderia esperar, as teorias abundam. Uma é a de que existiam diferentes populações de Neandertal, separadas por geleiras inultrapassáveis durante a Idade do Gelo, e que eles evoluíram em direções diferentes. O fator crítico na mudança evolucionária é o isolamento, porque obviamente acaba com a mistura de raças.

- Como é que isso se aplica ao Neandertal?

- Os espécimes Neandertal que parecem mais humanos vêm do período anterior mais quente e são encontrados em todo o lado. O Neandertal clássico aparece mais tarde, durante a última glaciação. São encontrados em bolsas e a sua morfologia está adaptada a um clima subáretico. Têm os membros mais robustos, os crânios mais compridos, as passagens nasais mais largas, talvez para aquecer o ar. Curiosamente, os cérebros também são maiores. Porque que isso acontece, não sabemos. Por outro lado, é um caso claro de adaptação a um ambiente hostil. Aconteceu através da seleção natural, ou talvez até de uma derivação genética.

- Fale-me da derivação genética.

- É um conceito refinado. Basicamente, é a estatística aplicada à genética. Em pequenas populações isoladas, acontecimentos fortuitos podem ter repercussões ampliadas. Quando as mutações genéticas ocorrem, atingem um estágio em que são rapidamente perpetuadas. Os acidentes têm mais efeito do que se ocorressem numa população mais vasta, e as mudanças podem ser quase dramáticas.

- Digamos, por exemplo, que um pequeno grupo desenvolve pernas extraordinariamente compridas. Estes genes tornam-se tão numerosos que esmagam todos os outros, ditos genes normais, até que ter pernas longas se torna a norma. Os de pernas compridas têm mais velocidade e isto, pelo seu lado traz consigo todo o tipo de outras mudanças, digamos, uma alteração na dieta dado que novos tipos de animais se tornam caça, ou uma mudança de habitat porque agora se pode fugir aos predadores naturais. E as mudanças continuam a acontecer, uma espécie de processo autoperpetuado que acaba num salto quântico. Mas isto não acontece porque os novos traços são necessariamente mais vantajosos de alguma maneira; ocorre por derivação acidental.

- Compreendo. E se este salto quântico envolver uma capacidade abstrata, digamos, percepção telepática ou qualquer coisa no gênero. Poderia acontecer?

- Quer dizer a capacidade de projetar imagens diretamente de um cérebro para outro? Em teoria, pelo menos, não é impossível.

- E o córtex mais largo do Neandertal não poderia prover o equipamento físico para tal capacidade?

- De novo, falando teoricamente, sim. Mas há um problema. Sabemos a partir dos humanos que muito do cérebro já está empenhado, para a linguagem.

- E se eles não tivessem linguagem? Então teriam um cérebro enorme, maior que o nosso, ali apenas adormecido.

- Mas não há motivo para que eles não desenvolvam a linguagem. Como meio de comunicação é preferível porque permanece. Pode-se escrever. Pode até durar mais que o falante. Você e eu nunca encontramos Shakespeare, mas podemos ouvi-lo falar, por assim dizer.

- E se alguma coisa os tivesse impedido de desenvolver a linguagem ?

- É difícil imaginar o que poderia ter suspendido o desenvolvimento da linguagem. Só consigo pensar numa causa possível.

- Qual ?

- Altitudes elevadas.

Eagleton deu um quarto de volta na cadeira.

- Explique.

- Os alpinistas ficam com a sua capacidade de avaliação baralhada, isto não é uma observação nova. Mas investigações recentes estão associando-a à linguagem. Um neurocientista em Brown, Philip Lieberman, tem andado a verificar os efeitos cognitivos da falta de oxigênio. A teoria dele é que afetam a parte do cérebro envolvida em movimentos sequenciais, incluindo o movimento feito pela língua, lábios e laringe. Os gânglios basais ficam privados de oxigênio, e a sintaxe da linguagem falada vai ao ar. Por isso os pensamentos saem baralhados.

- Assim, a longo prazo - disse Eagleton calmamente -, uma espécie num ambiente desses poderia desviar-se da linguagem e desenvolver qualquer coisa como telepatia, para compensar.

- Em teoria, só em teoria, sim, isso é possível.

- E se esta habilidade fosse usada para uma função vital para um grupo constantemente temeroso, constantemente batendo em retirada? E se também permitisse a cada um dos membros atuar como um vigia, uma espécie de sistema de alarme precursor, automático, para toda a tribo?

- Bom, então teria um valor acrescentado que iria contribuir para a probabilidade da sua continuação. Nesse caso, o processo de derivação genética seria reforçado pela seleção darwiniana, que tenderia a acentuar o traço, a solidificá-lo, por assim dizer. Mas onde quer chegar?

- A lugar nenhum. Estamos apenas tendo uma discussão teórica. Estou interessado no que você disse acerca de vários grupos Neandertal. Como é que uma coisa assim acontece?

- Bom, isto é tudo teoria, não se esqueça, mas um acontecimento qualquer interveio para dividir completamente a população geral em subgrupos. Provavelmente a Idade do Gelo. Sabemos que os da Europa Ocidental se desenvolveram para o Neandertal clássico e eventualmente desapareceram. Resumindo, o ramo deles secou. Os de outros lados podem ter-se tornado mais como nós. É a chamada sapienização. Ou podem ter sobrevivido por algum tempo isolados nas suas pequenas represas e desenvolver alguns traços peculiares através da derivação genética. A pista esfria nessa parte do mundo conhecida como "Ásia Ocidental".

- Ásia Ocidental? Onde é isso?

- É um termo estranho que as pessoas ainda hoje usam quando escrevem sobre os Neandertal. Inclui toda aquela região enorme que vai do mar Negro atravessando zonas da União Soviética, Usbequistão e Tajiquistão. Grande parte está inexplorada.

Abruptamente, outra vez sem sequer dizer obrigado, Eagleton despediu Schwartzbaum. Já não precisava mais dele. Já tinha tomado a decisão que buscava às apalpadelas.

Van não dava notícias há mais de três semanas. Era a hora de mandar Kane avançar.

 

Susan e Olhos-Negros andaram até à margem do rio, ele com a sua mão ossuda por cima da dela tal um falcão agarrando a presa. Ela sentia uma estranha sensação de poder, latejando, emanando dele, como se gerasse alguma espécie de voltagem psíquica. Não conseguia dizer se era ela que o conduzia, ou ele quem a guiava.

Caralonga encontrou-os e voltou para trás à frente deles, de cabeça baixa. Quando chegaram à clareira da cabana, Matt estava lá, bem como três ou quatro hominídeos. Kellicut trabalhava em algo num canto, com as ferramentas espalhadas à volta: uma faca, o cantil, o estojo médico com a tampa azul-e-branca aberta. Quando os viu, colocou cuidadosamente a sua obra num pano e levantou-se.

- Estou contente por estarem aqui. Ele está com mau aspecto. Não temos muito tempo.

- O que pretende fazer?

- Ele tem aquele rasgão na testa e um joelho esmagado, mas também tem uma ferida de lado. Não consigo ter certeza, mas acho que foi ferido há alguns dias e tem andado perambulado, por isso penso que o principal problema dele é a perda de sangue. Vamos ter que lhe dar uma transfusão.

- Como é que vai fazer isso?

- Muito mal, é a resposta. Teremos sorte se conseguirmos enfiar-lhe uma quantidade significativa de sangue, e com todos os germes aqui à volta, ele terá sorte se sobreviver. Mas é a única esperança.

- Quem vai ser o doador?

Kellicut olhou para Caralonga, ainda balançando-se lentamente.

- E ele? Veio para quê? - Susan gesticulou com a cabeça em direção a Olho-Negro, que ainda não lhe largara a mão. Hesitava em retirá-la, como se fosse alguma espécie de sanguessuga tendo que ser despregada cuidadosamente.

- Tenho esperanças que, de alguma maneira, possamos lhe explicar o que vamos fazer ao rapaz, e talvez consiga comunicá-lo aos outros. É o único que pode compreender. Depois - Kellicut regressou ao seu trabalho - pode vir a dar jeito tê-lo por perto se isto correr mal.

Susan juntou-se a Matt perto da fogueira e observava enquanto Kellicut conferenciava com Caralonga e Olho-Negro, fazendo sons e gestos. A dado momento, inclinou-se e abriu os olhos do rapaz; em outro, cortou a si mesmo com a faca, fazendo sair um fio de sangue do antebraço. Parecia duvidoso que estivesse conseguindo passar a idéia. Entretanto a água fervia no cantil. Ela e Matt usaram-na para esterilizar um enorme tubo de borracha do estojo médico e alguns trapos, e levaram o equipamento para junto do lugar onde estava o rapaz.

De algum modo, Kellicut tinha convencido Caralonga a deitar-se numa cama de ramos tecidos perto do filho. Depois pegou uma seringa hipodérmica, limpou-a com a água fervendo, e empurrou o êmbolo. Com uma faca, fez um pequeno furo na parte superior da seringa, alargando-o gradualmente até ficar redondo. Enfiou-lhe uma das pontas do tubo de borracha, elevou-a e virou-a no ar admirando o seu trabalho artesanal, depois passou a outra ponta do tubo a Susan.

- Segure isto também - ordenou, entregando-lhe o cantil. Ajoelhou-se ao lado de Caralonga, limpou-lhe o interior do braço com um trapo embebido em álcool e espetou-lhe a agulha na veia, puxando o êmbolo devagarinho para que a câmara se enchesse com o líquido vermelho-escuro. Ao vê-lo Susan sentiu uma afinidade com os hominídeos.

Pica-me não sangro eu? pensou ela.

- Ah-ha! - exclamou Kellicut quando o êmbolo passou pelo buraco que tinha escavado e o sangue de Caralonga começou a fluir pelo tubo tão nitidamente como um regato desviado por uma barragem improvisada. - Funciona! - gritou, tão entusiasmado que ela percebeu que ele não tivera certeza.

- Mantenha a outra ponta no cantil - avisou, - e segure-o baixo. Temos que fazê-lo continuar saindo. - Susan podia ver o tubo escurecendo devagar enquanto o líquido avançava. Segurava o tubo à boca do cantil e agarrava-o pelo fundo com a outra mão.

Ficaram assim até o cantil encher. Embora o fluxo fosse contínuo, demorou muito tempo.

Subitamente, Susan deu um pequeno grito, quando o sangue começou a entornar pela borda.

Kellicut acorreu e tirou-o. Retirou a agulha de Caralonga, depois pegou um penso rápido do estojo para lhe cobrir a picada no braço.

- Está como novo - ladrou ele.

Caralonga ergueu-se sobre um cotovelo para lançar um olhar desconfiado ao penso rápido e depois devagar deitou-se outra vez, Fechando os olhos.

Kellicut levou Matt e Susan para junto do rapaz.

- Esta parte vai ser mais complicada - disse. - Segurem o sangue o mais alto que puderem - ergueu-lhe o braço acima da cabeça - e mantenham-no aí.

Retirou o tubo de borracha, usou um pedaço de plástico para improvisar um funil de alimentação ao tubo, passou-o a Matt e também lhe levantou o braço.

- Quando eu disser, deitem-lhe o sangue - disse. - Se houver uma bolha de ar no tubo, estamos feitos. - Ergueu a seringa, puxou o êmbolo para trás tanto quanto este o permitia, enfiou a agulha numa veia do braço do rapaz, e empurrou o êmbolo um par de centímetros, com cuidado para não fazê-lo passar o buraco. Funcionou. Lentamente, o sangue começou a fluir tubo abaixo, como um termômetro descendo.

- Devia ter sido um médico da selva. - A voz de Kellicut inchava de orgulho. - Faz-nos sentir como uma espécie de deuses.

Depois ligaram o joelho e a cabeça do rapaz, cobriram-no de novo com as roupas extra, e deixaram-no dormindo junto do pai. Os outros hominídeos ficaram, ali à volta da cabana, incertos quanto ao que deviam fazer e olhando para Olho-Negro em busca de orientação.

 

Nessa noite, sentado à roda da fogueira, Kellicut tinha um ar tão contente consigo mesmo que Susan aproveitou a oportunidade para sondá-lo.

- Fale-nos dos outros - implorou ela. - o que lhes chamou?

- Renegados.

- Isso.

- Não há muito a dizer. Tive conhecimento deles pouco depois de ter chegado. Não os vi, claro, duvido que estivesse aqui para contar a história se os tivesse visto. Mas tive a oportunidade de apanhar umas coisas aqui e ali, o suficiente para elaborar algumas teorias. Como vocês devem calcular, são muito temidos.

- De onde é que eles vêm? - perguntou Matt.

- Exatamente daqui, deste mesmo vale. Por tudo o que sabemos deve haver outras tribos espalhadas por essas montanhas. Só Deus sabe como é que eles são. Mas os renegados vêm deste vale. Aumentaram com o tempo, quem sabe quanto, provavelmente gerações. Talvez até centenas de anos.

- Mas como?

- São rejeitados, marginais, párias. De fato, é simples.

- Bom, talvez pudesse satisfazer o nosso capricho e explicar-nos.

- De vez em quando há alguém que nasce diferente. Anti-social, ou pior talvez, um criminoso. Há qualquer coisa de patológico nele, geneticamente diferente. Não se adapta, quebra as regras, zomba dos tabus. É um fenômeno que ocorre em todas as populações. Inadaptados espontâneos. Os Sioux chamavam-lhes "contrários", pessoas que fazem tudo de trás para frente, até montar os cavalos virados para a garupa. Todas as sociedades, todas as tribos os produzem.

- Da perspectiva de um biólogo evolucionista, poderia-se dizer que a sociedade tem que fazê-lo se quer sobreviver. É uma forma de experimentar, de tentar novos modelos, se quiserem.

- E isto é particularmente verdadeiro nas tribos fechadas, socialmente coesas, como esta é devido à sua faculdade especial. A capacidade de partilhar percepções transforma-os numa única unidade, pelo que qualquer comportamento que seja anti-social ou mesmo fora do normal assume um aspecto ameaçador para o todo comunitário. Portanto, a tribo junta-se para expulsar o rebelde, ou o rebelde escolhe por si próprio exilar-se. Quem sabe como é que o processo realmente funciona? O grupo limpa-se, livra-se do elemento perturbador e ele parte ao pôr do Sol e é tudo. Nunca mais se fala dele. Exceto que há uma mosca na sopa.

- O que é isso? - perguntou Matt.

- Ele desaparece, mas não vai embora de fato - exclamou Susan.

- Exatamente. Parte para o deserto sozinho e aprende a sobreviver. Deixa o Éden. Eventualmente junta-se outro. Com o tempo, os números aumentam. A princípio é um pequeno bando de maltrapilhos, mas cresce e cresce. Depressa temos uma subcolônia inteira de marginais. Quando as mulheres se juntam a eles, torna-se reprodutivo por direito próprio. Depois transforma-se numa população competitiva.

- Quantos deles há? - perguntou Susan.

- Não faço idéia. Mas não são os números que contam. É o espírito. É a força impulsionadora. É quem eles são.

- São uns brutos! - exclamou Susan, enquanto a imagem do sangue de Rudy na neve lhe invadia o cérebro.

-Susan! - censurou Kellicut. Virou-se para olhar para ela. - Você entendeu tudo ao contrário. Como pode ser tão estúpida? Esteve na caverna deles. Viu como vivem e o que conseguiram realizar.

- O que eles realizam?

- Pense, pelo amor de Deus! Para começar, caçam. Isso significa que têm que cooperar entre si, têm que trabalhar juntos, têm que planejar ataques. São precisos seis ou sete homens para abater um animal grande, por isso têm que distribuir tarefas diferentes, um para preparar a armadilha, outro para espantar a caça, e tudo o mais. Têm que pensar primeiro, de fato projetarem-se no futuro. Comem carne, por isso a absorção de proteínas é mais elevada. Isso torna-os mais fortes. Cozinham a comida no fogo para torná-la mais saborosa e para conservá-la. Usam peles, decoram a caverna. Há uma divisão do trabalho, com os homens na rua caçando e as mulheres em casa tratando da lareira e criando as crianças. Estão começando a viver em grupos familiares. Tem uma hierarquia social.

- Eles matam - disse Susan bruscamente.

- Sim, eles matam. Infelizmente matar parece fazer parte disso. Talvez seja uma parada necessária no caminho para a civilização. Porque é disso que estamos falando, de civilização. Não se iluda. Eles representam uma forma mais elevada, superior em todos os aspectos. Lembra-se do que aprendeu em Harvard? Quais são os primeiros sinais, os primeiros impulsos da vida comunal? Arte das cavernas, espiritualismo, proto-urbanização, estratificação social. Está tudo ali com aqueles habitantes da montanha e não aqui com estes comedores de lótus. Não vêem? Os renegados representam um salto àfrente gigantesco, o tipo de coisa pela qual passou o Homo sapiens há eternidades atrás. É a evolução fazendo agir a sua vontade. Eles estão tentando nos apanhar. É um desses súbitos pulos para frente, que ocorrem talvez uma vez em cada cem mil anos e nós estamos mesmo aqui. Estamos assistindo ao momento da criação.

- Porque é que eles não atacam o nosso grupo se são assassinos e têm habilidades marciais superiores? - perguntou Matt. - Podiam arrasá-los num instante.

Kellicut fixou os olhos nele.

- Não tenho bem certeza. Por um lado, estão separados pelo cemitério. Há um tabu quanto a atravessá-lo, como sabem, mas esta explicação é pouco convincente. Talvez haja uma espécie de trégua não declarada, um impasse nas relações entre os dois. Apesar de tudo, os renegados precisam dos nossos amigos daqui para aumentar os seus números; esta é a tribo mãe. Ou talvez seja apenas uma questão de tempo até que eles ataquem. Darwin seria instrutivo agora.

- O que descreve dificilmente soa como um paraíso - disse Matt. - Se eles estão sendo salvaguardados como população de reprodução, é um Éden forjado. Há trevas no centro.

Kellicut fez uma pausa de um momento, depois soava mais sombrio.

- Seguramente que há sinais preocupantes. Acho que estão começando a atacar os nossos Neandertal de tempos em tempos. São impiedosos, como vocês testemunharam e andam sendo dominados por um demagogo. Há um guincho assustado associado a ele, um som que se assemelha a "Keewak". É o mais forte dos fortes, e levou-os a adorar uma espécie de cabeça de deus.

- Impiedosos não é a palavra. Eles tinham crânios humanos pendurados lá embaixo - disse Matt.

Exatamente nesse momento os hominídeos acocorados por perto saltaram subitamente, lamentando-se e atirando com as cabeças para trás para deixar sair uivos longos e agudos. Os seus movimentos eram tão desconcertados que levou alguns momentos para os três perceberem que era uma exibição de dor. Depois todos pensaram no mesmo.

Correram para a cabana junto ao rio, onde um grande grupo de hominídeos andava por ali à tareia com um ar de ausência de objetivo

que sugeria problemas. Kellicut abriu caminho através deles, correu para o rapaz e puxou as roupas. Tinha os olhos fechados mas a cavidade do peito subia e descia. Kellicut sentiu-lhe o pulso: fraco mas regular. Não havia crise.

- Olhe para trás! - disse Matt.

Kellicut virou-se e viu Caralonga ainda deitado na cama de ramos tecidos, inerte e pálido, de corpo rígido e olhos fechados. Kellicut foi até ele e pegou-lhe na mão, grande e suja, com o polegar transformado num cepo por uma vida apanhando frutos e bagas. Estava começando a ficar rígida, com os dedos semicerrados formando uma garra.

- Deus do céu - disse Kellicut. - Sabem o que aconteceu? Ele sacrificou a si próprio. Estava dando o seu sangue para o filho para que o filho vivesse, por isso, logicamente pensou que isso significava que ele ia morrer. E porque pensou, morreu mesmo!

Nesse momento a multidão afastou-se e Olho-Negro apareceu, com o cabelo despenteado e o olho branco amarelecido fixando-se luminosamente para uma banda. A multidão ficou silenciosa e recuou enquanto ele pegava uma bainha de madeira que Kellicut e os outros nunca antes tinham visto e retirou dela uma longa lâmina de pedra lascada afiada até à ponta. Inclinou-se, embalou a cabeça de Caralonga com um braço, inseriu rapidamente a pedra numa órbita junto à cana do nariz e, com um movimento rápido de quem tem muita prática, sacou-lhe o globo ocular. Fez o mesmo ao outro olho. Depois ergueu-os alto, órbitas brancas com sangue, fiapos negros pendurados, e lançou um grito longo, lancinante e agudo, que os fez gelar até aos ossos.

Quando um morre, todos morrem um pouco. A tribo que vê e sente como um indivíduo fica diminuída quando um único par de olhos passa para a noite, do mesmo modo que sofre uma tapeçaria apertadamente tecida quando um único fio se solta.

O enterro de Caralonga começou imediatamente, a partir do momento em que Olho-Negro guardou os olhos numa bolsa que lhe balançava do pescoço. Uma fogueira enorme foi construída no meio da aldeia e tudo foi atirado para as chamas, não apenas lenha, mas até camas artesanais e os ramos crus de suporte das cabanas. Na sua dor, pouco foi poupado e as chamas ergueram-se a três metros de altura, chamuscando as folhas das árvores mais próximas.

Toda a aldeia apareceu, homens, mulheres e crianças, e pela primeira vez Susan percebeu como a tribo era grande - pelo menos alguns milhares. Havia hominídeos que ela nunca tinha visto antes, incluindo alguns mais velhos, tanto homens como mulheres que deviam viver existências eremíticas nos pontos mais afastados do vale, e se reuniam em reação a uma silenciosa convocação coletiva. Todas as mortes eram críticas, mas a de Caralonga não era uma morte ordinária. Era um dos anciãos da tribo.

O corpo nu foi elevado numa padiola com cerca de metro e meio de altura, feita de troncos ligados entre si por gavinhas e enfeitados com papoulas vermelhas, que foi colocada a uns seis metros da fogueira.

Por trás dela, sentavam-se seis jovens de pernas cruzadas com troncos ocos no colo, batendo neles com paus criando um ritmo sincopado e lúgubre. Outros moviam-se à volta deles numa dança, levantando lentamente as mãos e as pernas em posturas contorcidas, quase como se estivessem debaixo de água.

O fogo era alimentado por crianças, até que Olho-Negro apareceu de novo, desta vez com a vista boa tapada, trazendo uma concha. As crianças retiraram paus ardentes e brasas do fogo para formar um caminho e ele andou sobre eles não mostrando sinais de dor, até que chegou junto à fogueira e colocou a concha nas chamas.

Folhas longas e finas foram atiradas para as labaredas, e os hominídeos dançaram junto a elas inalando a fumaça. Matt e Susan também o inalaram e, em segundos, foram atacados por tonturas, depois por um torpor. O mundo começou a rodar e tudo tremeluzia. Uma aura rodeava as figuras que se moviam e tornou-se difícil ver.

Olho-Negro retirou a concha da fogueira e foi conduzido até à padiola onde derramou um fio de óleo quente, que caiu brilhando, sobre o corpo de Caralonga. O bater nos troncos acelerou, um som staccato agudo que fez todos dançarem mais depressa, até que alguns desmaiaram.

Caíram no chão e outros dançavam sobre eles. Matt e Susan também dançaram, primeiro desajeitadamente, mas depressa perdendo todas as inibições entregaram-se à fumaça e ao ritmo dos pés.

Isto continuou pela noite toda. Finalmente, longas folhas de vinha foram colocadas no chão como uma manta e o corpo de Caralonga, agora rígido e mais fácil de transportar, foi colocado no centro e depois amortalhado. As folhas colaram-se ao óleo, e ataram as parras à volta dele até que o embrulho foi fechado, a pele pálida ficou inteiramente escondida e ele ficou mumificado. Os que tocavam os tambores aceleraram a batida - Matt nunca achou que fosse possível martelarem ainda mais rápido - até que se tornou num estridor único e contínuo de rebentar com os tímpanos. Nesse momento a dança parou, e da escuridão saíram seis homens, com a cara e o corpo pintados de branco - os coveiros. Colocaram-se ao lado da padiola, levantaram-na facilmente e levaram-na consigo, tudo tão rapidamente que era como se Caralonga tivesse sido engolido pela escuridão que aumentava.

Mais tarde nessa noite, enquanto Susan dormia ao lado dele na cabana, Matt ouviu um ruído seco vindo da distância, ressoando em algum lugar na montanha.

Parecia muito agudo para ser um trovão.

Enquanto o eco débil se desvanecia através do vale, considerou-o com alarme crescente. Soava quase como o tiro de uma arma.

 

Kellicut seguiu Olho-Negro pelo caminho rochoso acima. O xamã andava depressa para um homem tão velho e só com um olho. Os pés descalços evitavam destramente os sulcos e pedras porque já conhecia de cor o caminho. À frente deles, contra um pano de fundo de nuvens, Kellicut podia ver o seu destino, um pico redondo com a estranha forma de um punho.

O funeral fora há cinco dias e a aldeia tinha acalmado e regressado ao normal, como se nunca tivesse acontecido. O filho de Caralonga melhorava de dia para dia. Já se sentava e ia comendo. Susan chamara-lhe Joelho-Ferido.

Kellicut não gostava que ela lhes desse nomes e já lhe dissera, mas ela continuava. Tinha engraçado com o rapaz.

Olho-Negro gastou muito tempo com Joelho-Ferido. Kellicut conjecturava se o xamã queria ter certeza que o jovem hominídeo não tinha sido contaminado pelo tempo despendido na caverna e se estaria ainda suficientemente puro para se reunir à aldeia - ou talvez estivesse ansioso para aprender o máximo possível acerca dos poderosos renegados.

Parecia a Kellicut que este velho tornado sábio carregava agora sem ajuda o fardo de pensar sobre o futuro de toda a tribo.

Felizmente o xamã parecia ainda confiar nos humanos. Kellicut sabia que, se tinha alguma esperança de penetrar nos mistérios da percepção telepática comunal e dominar ele próprio o poder, necessitava das instruções de Olho-Negro.

Já tinha recebido imagens de vez em quando. O que tinha que fazer - o que os hominídeos podiam fazer - era aprender a controlar o processo para que ele pudesse decidir através de que olhos estava olhando. De outra maneira, tudo seria um caos, uma barragem enlouquecedora de imagens sobre a qual não teria controle. Pela sua parte, o xamã parecia olhar Kellicut como um colega no reino dos assuntos espirituais.

No pináculo, o xamã parou e fez sinal a Kellicut para se juntar a ele.

Kellicut percebeu que estava sendo convidado a olhar muito além da parede íngreme da prateleira em que se encontravam, e assim fez, contemplando para lá dos topos verdes das árvores, dos espaços rebaixados que eram os prados e das paredes da ravina, até lá longe as espiras brancas das montanhas distantes. Kellicut experimentou aquela sensação de ter outra presença na sua mente, como uma sala enchendo-se de água e percebeu porque é que o velho hominídeo o queria ali. Estava de fato ficando cego, e desejava uma vez mais sentir a beleza.

A caverna no topo do pináculo tinha o cheiro habitual, pungente, almiscarado. Havia pedras para se sentarem e pilhas de ossos atirados para um canto. Se eram humanos ou de animais Kellicut nunca se preocupou em determinar.

O xamã meteu a mão na bolsa e retirou dela um embrulho do tamanho do punho, folhas cobertas de lama, que abriu para mostrar uma brasa brilhante. De um canto apanhou um longo cachimbo, encheu-o com ervas castanhas trituradas, acendeu-o, deu uma longa fumaça e passou-o a Kellicut, que fez o mesmo.

Visões saltaram-lhe para o cérebro. A mente encheu-se com formas e cores e movimentos, compactados pelo pequeno espaço no interior da caverna. Sentou-se para trás de encontro à rocha e deixou que o cortejo de sensações o atravessasse.

O xamã começou a cantar, num tom alto que era calmante como canto gregoriano. Quando Kellicut fechou os olhos, a mente focou-se. Viu um borrão esbranquiçado, o contorno distorcido das rochas, uma protuberância de pedra na parede da caverna. Abrindo os olhos, fixou o velho hominídeo, cujo único olho bom estava dirigido às rochas por trás da sua cabeça. Kellicut virou-se e olhou para trás de si. Havia a protuberância que acabara de ver no seu olho mental.

 

Nessa noite, Kellicut encontrou Matt e Susan sentados à beira do rio e juntou-se a eles na margem. Susan podia sempre dizer quando ele tinha estado "comungando", como ela lhe chamava, com o xamã, porque retornava subjugado e vago. Como alguém regressando de terapia de eletrochoques, pensou.

Desta vez ainda vinha mais calado do que o costume, e soube que tinha alguma coisa para lhes dizer.

- Preparem-se para um choque - disse ele. - Vem do filho de Caralonga - que, incidentalmente, não fugiu para se juntar aos renegados, mas foi raptado de um caminho deste lado da montanha. Estava na caverna quando vocês passaram por ela. Aparentemente, causaram alguma agitação.

- Continue - disse Matt.

- Bom, parece que de vocês três, um foi capturado. Ainda está como prisioneiro.

- Deus do céu! Van.

- Sim, e há algo pior. Levou um bom tempo para que a imagem chegasse, mas no fim eu a entendi. Os renegados apanharam-lhe o "pau de trovão". Parabéns. Introduziram tecnologia assassina do século vinte na Idade da Pedra.

 

Quando era rapaz, Van tinha passado um verão no lago Michigan. Gastava horas andando ao longo da praia sob os rochedos, à procura de minúsculas chaminés na areia. Eram armadilhas miniatura. Enterradas longe da vista, por baixo delas, havia formigas leão. E divertia-se encontrando uma formiga e deixando-a cair lá dentro, vendo-a lutar para subir, deslocando grãos de areia e escorregando para trás, até que por fim, exausta, tombava para o fundo e era sugada a partir de baixo por um par de pinças.

Agora Van, no fundo de um poço, era como uma dessas formigas. Podia subir uns três quartos do caminho pelos lados, apenas para cair outra vez. Havia um ponto em que quase conseguia chegar ao topo, mas quando tentou trepar até à borda, os guardas obstruíram-lhe pesadamente a saída e empurraram-no para trás. Numa das vezes levou uma mocada. Claro que eles tinham uma vantagem, podiam ver o que ele estava fazendo sem sequer terem que olhar. A fuga era impossível, e depressa desistiu de tentar.

Estava em más condições, exausto, alquebrado, macilento. Raramente dormia por longo tempo. Tinha pesadelos, e quando acordava desejava regressar ao pesadelo. Tinha o corpo coberto de equimoses, feridas, arranhões. Teria sido muito melhor, pensou, que tivesse morrido no desmoronamento. Em vez disso, recuperara a consciência neste poço, o corpo atormentado em agonia. Doía-lhe a cabeça o tempo todo, um anel de dor que parecia circundá-la, a cingi-la continuamente, como as tiras de tortura medieval que eram apertadas à volta das têmporas até que o cérebro fosse espremido pelas órbitas. Rezou pela libertação.

Sabia de onde é que vinha a dor. Era daquele chefe sedento de sangue que tinha morto Rudy e dos seus seguidores. Claro que o poder dos hominídeos era mais do que a Visão Remota. Sabia isso pela Operação Aquiles, e pelas dores de cabeça que lá apanhara. Mas na época, lidava apenas com um hominídeo. Aqui estava sujeito às leituras de dúzias deles ao mesmo tempo, e do mais forte deles, o chefe e déspota, aquele cuja presença suscitava ruídos agudos de temor. O Instituto deveria ter percebido que a faculdade dos hominídeos podia confundir os processos mentais e perturbar os recessos atávicos da mente humana.

Às vezes sentia que a pressão concentrando-se no interior do seu crânio o estava levando à loucura. Só sentia alívio quando as criaturas dormiam. Assumia que isso era de noite, mas não podia ter certeza.

E quando o grandalhão andava por ali, Van sentia o poder queimando o seu cérebro como um laser. Às vezes desmaiava, e depois acordava como se saísse de um ataque epiléptico, com a dor aliviada. Nesses momentos, sentia uma clareza de cristal a entrar-lhe no cérebro fervente, como uma bebida fresca de água da montanha. Mas o alívio temporário apenas tornava muito maior a dor quando regressava.

No lado mais afastado do poço, ao longo da parede, havia uma saliência. Van conseguia alcançá-la, e içando-se para cima podia Ficar de pé e observar o que acontecia na caverna dos mamutes. Mas não gostava de fazer isto porque era assustador mirar aqueles selvagens a tratar das suas vidas, esfolando peles, secando os curtumes, a cozinhar a carne sobre fogo aberto e fornicando à vontade. Pareciam animais, no reflexo do fumo e das chamas, o cabelo espesso e escuro eriçado como tiras de pele, os corpos a brilharem de suor e largando aquele cheiro repugnante.

Tinha sido a partir da saliência que testemunhara o sacrifício.

Soubera que não era o primeiro prisioneiro no poço porque tinha descoberto coisas escritas numa parede. Era em cirílico, infelizmente, e assim não conseguia ler. As letras pareciam ser recentes e rabiscadas à pressa. Também havia ossos no poço, cheiro de urina e pedaços de fezes secas num canto. Assumiu que os ossos fossem da comida atirada ali para dentro, da mesma maneira que um osso com pedaços de carne e cartilagem lhe era atirado a ele. De vez em quando baixavam-lhe uma taça cheia de água estagnada. Era feita da abóbada interior de um crânio.

No entanto, Van não fazia a mínima idéia de que houvesse outro prisioneiro vivo na caverna, até àquele dia horrível em que ouviu os tambores soando, numa batida alta e insistente que ecoava pelos túneis acima e abaixo. Trepou até à saliência e observou as criaturas reunindo-se, espalhando-se em semicírculos concêntricos diante do enorme deus com a forma da cabeça de um urso.

O grandalhão, usando uma pele de urso negra flutuando para trás a partir da protuberância da testa, trazendo o torso nu marcado com tinta vermelha e preta, e penas como correias à volta dos pulsos, avançou de um lado.

Os outros recuaram para lhe dar espaço. Enquanto a criatura se inclinava para a frente para se sentar num banco de madeira trabalhada junto à base da cabeça do deus, Van viu um objeto escuro balançar-lhe no peito. Era a sua própria arma, ainda no coldre, que lhe estava pendurada ao pescoço pelo cinto. Os tambores aceleraram a batida e do outro lado da caverna veio arrastado um homem, debatendo-se e berrando. Usava só as calças de um uniforme e gritava em russo enquanto era empurrado em direção a um espesso toro que se erguia no chão. Segundos antes de ser forçado a dobrar-se, avistou Van a uns trinta metros de distância, abraçado à saliência. Por agora já tinha parado de clamar e quando os seus olhares se cruzaram brevemente, Van pensou que podia ler uma mensagem nos olhos aterrados do homem: vingue-me.

Depois o grandalhão olhou diretamente para o homem, como o fizeram todos os outros e o russo caiu no chão, torcendo-se de agonia, com os pulsos de encontro às têmporas como uma torquês. Durante um momento, pareceu ter desmaiado; depois puxaram-no até se pôr de joelhos e foi amarrado ao toro de cara para baixo com uma forte tira de couro segurando-lhe a cabeça, expondo as linhas das vértebras ao longo da parte superior da espinha. Taças vazias tinham sido colocadas à volta do cepo. O chefe levantou-se e agitou os braços como se estivesse conduzindo uma orquestra invisível. Os tambores tocavam e a criatura deu um passo em frente com uma pederneira em forma de cinzel numa das mãos, e uma rocha na outra. Quando colocou a pedra na base do crânio do homem, Van gritou, todos olharam para ele, e subitamente Van sentiu a dor insuportável entrar na sua própria cabeça. Mas por um motivo qualquer continuou a olhar.

Não veio qualquer grito do russo quando a pedra afiada foi martelada na base do seu crânio. A cabeça caiu-lhe inerte para a frente e Van ficou observando a matéria cinzenta do cérebro dele sendo despejada para as taças. Quando as criaturas começaram a comê-la, Van caiu da saliência de cara para frente para dentro do poço. Ficou ali sem se mexer, ouvindo a batida alta dos tambores, que continuou por horas.

Mais tarde foi capaz de perceber, baseando-se no tempo em que ele próprio já estava prisioneiro, que o sacrifício tinha sido feito pela lua cheia. Mas isto era muita especulação, dado que não tinha maneira de saber por quantas horas ficara inconsciente depois do desmoronamento.

Agora que a sua mente era tão pouco confiável, não podia ter certeza de não ter perdido a habilidade de medir os dias.

 

Resnick achava que se tornara mais fácil aventurar-se pelo corredor subterrâneo, e mesmo ficar de fora da cela, agora que o prisioneiro estava em tão más condições. Sabia que era errado pensar naquilo como um "prisioneiro", especialmente dado que ele era um cientista.

Mas tinha que enfrentar os fatos: a criatura aterrava-o e ficava contente por vê-la atrás das grades. Mesmo assim fora assustador estar na presença dela, por isso deixava a maioria das experimentações diretas aos outros.

Quem sabia que poderes mentais ela possuía? Ou o que acontecia à nossa mente quando era remexida? Sabia que o nervo ótico passava perigosamente perto do centro da dor, mas Grady e os outros seguramente não sabiam. Não tinham temores porque não estavam amaldiçoados com o conhecimento e imaginação que ele tinha. Portanto, parte dele ficava grata quando a condição física da criatura desceu tão baixo que deixou de ser uma ameaça.

Nestes dias raramente se movia, apenas ficava ali enrolada no colchão dormindo por longos períodos. Já não era necessário prendê-la, mas era preciso alimentá-la por intravenoso. A garrafa no suporte estava próxima da cama e o tubo venoso terminava numa agulha metida no braço pelo lado interior do cotovelo.

Às vezes, quando ela se mexia, a agulha saltava e então, quem quer que nessa altura estivesse ao monitor, tocava um alarme e Grady ou Allen praguejavam, abriam a cela e espetavam-na de volta. Já não fazia qualquer sentido tentar sequer fazer experiências, por isso Resnick tinha pouco com que se entreter.

Era como nos velhos tempos lá no laboratório de psico, quando Van inventava experiências e Resnick se sentava por ali bebendo café e fazendo palavras cruzadas. Isto tinha-se tornado um velório, mas ia conseguir aguentar, e quando tudo tivesse terminado entrariam os patologistas para fazer a autópsia.

Depois, talvez aprendessem qualquer coisa, ao cortar o cérebro em dezenas de milhares de fatias finas como papel. Neste momento, não havia muito de nada, apenas filas e filas de números, teorias vagas e conclusões mal costuradas.

Um dia o irlandês, Scanlon, que tinha ficado tão ligado àquilo que fora transferido, veio fazer uma visita. Resnick estivera nos monitores e por isso viu a reação quando Scanlon andou até às grades: a criatura ergueu a cabeça e estendeu um braço fraco, palma para cima e dedos esticados. Mas Scanlon não conseguiu alcançá-la. Quando saiu, meteu a cabeça pela sala de controle e gritou qualquer coisa sobre Resnick vir a apodrecer no Inferno. Um cara estranho. Muito sensível. Não estava talhado para a ciência.

 

Assim que ouviu que Van ainda estava vivo, Matt soube que era preciso irem salvá-lo. Não sentia que lhe deviam alguma coisa. Mais

do que qualquer outro, Van era responsável por tê-los atraído até ali acima, e nem uma única vez Fizera jogo limpo com eles. Simplesmente, o pensamento de alguém à mercê daquelas bestas horríveis era insuportável. A imagem do crânio de Sharafidin em decomposição não parava de lhe vir à cabeça.

E havia uma segunda razão: a arma. Se de alguma maneira conseguissem apanhá-la, e encontrar a reserva de munições de Van, isso poderia ajudá-los na sua própria fuga. E Kellicut tinha razão deixada ali, era uma influência corruptora que iria perturbar o equilíbrio natural.

Mas como poderiam fazer sem serem eles próprios apanhados?

Por mais que tentasse preparar um esquema não conseguia inventar nada melhor do que um vago plano para penetrar nos túneis pela caverna do fundo e procurá-lo - uma estratégia muito pouco sofisticada.

Susan não tinha tanta certeza de que devessem ir salvar Van. Mostrava-se relutante em tentar algo que parecia tão evidentemente impossível e que poderia trazer consequências terríveis.

- Podíamos levar Joelho-Ferido conosco como guia - sugeriu Matt quando estavam deitados juntos na cabana.

- Ia precisar de uma equipe inteira. De outro modo você não duraria cinco minutos.

- O que quer dizer com você?

- Matt, não tenho certeza de estar de acordo contigo. Assumindo, por um momento, que estamos certos em querer tentar isso, como poderíamos fazê-lo? Quem poderíamos levar conosco?

- Teríamos que treiná-los para lutar.

- Isso significa treiná-los para infligir dor, talvez até para matar.

- Eu sei.

- Iria modificá-los para sempre, transformaria tudo. Isto deixaria de ser o Éden.

- Susan, de qualquer maneira o Éden está acabando. Ouviu o que Kellicut disse. Estão sendo apanhados. É apenas uma questão de tempo até que os renegados os destruam. E acho que alguns deles querem defender-se. As coisas mudaram desde que Caralonga morreu. Se reagirem, pelo menos têm uma chance.

- E o que acha que Kellicut diria acerca de encorajarmos isso? Tudo o que nos martelou dentro da cabeça deste o primeiro ano era sobre a responsabilidade dos cientistas sociais observarem sem interferir.

- Está pondo o credo profissional de Kellicut à frente da moralidade humana básica. Não podemos deixar Van morrer.

- Eu sei. Também sinto isso, mas uma das coisas que Kellicut nos ensinou era que os cientistas não deveriam pensar em apenas um indivíduo.

- Susan, esqueça a ciência. Pense na religião. Se nos ensina alguma coisa, é a santidade da vida, qualquer vida, em qualquer lugar.

Susan ficou calada, o que Matt interpretou como teimosia e resistência. E atirou-lhe de chofre:

- Kellicut. Às vezes fico pensando nele. Porque está tentando aprender a habilidade deles com tanto empenho?

- É místico.

- Besteira. É poder. E você teria percebido isso se não estivesse sob o domínio dele. Será porque ainda é a estudante dele, ou ainda a sua amante?

Susan ficou muito chocada para responder. Foi passear até à floresta, fervendo de raiva. E não é típico? - dizia para si mesma.

Achando que falávamos de ciência e moralidade e ele só consegue pensar se eu ando dormindo com Kellicut ou não. Nada mais do que estúpida rivalidade masculina.

Seguiu o caminho até à catarata e ficou diante dela durante muito tempo, escutando o rugido. Olhou para baixo, para a bacia, e reparou com um sobressalto que Kellicut estava ali, abancado nas rochas com um grupo de hominídeos. Olhou, espantada.

Sentava-se mais alto que eles, balançando-se lentamente e umas vezes fechando os olhos e depois abrindo-os. Os hominídeos tinham um ar tão confiante. Ela soube, num segundo, porque é que ele estava ali, porque era atraído para o lugar em que a água caindo afogava todos os sons exteriores. Era o professor aprendendo dos seus alunos.

Havia qualquer coisa de terrivelmente privado, ilícito até, naquela reunião. Virou-se e foi de volta para a aldeia. A sua ira contra Matt tinha se dissipado. Pela primeira vez em anos, recordou a pequena igreja de madeira branca no topo de um monte, no Oregon, aonde ia quando era pequena.

 

Nessa noite, na cabana, virou-se para Matt.

- Tem razão, não sobre aquela parte de eu ainda ser amante dele, mas por não estar sendo sincera comigo. Claro que temos que ir salvar Van.

Abraçaram-se e depois beijaram-se. Quando ela desabotoou o primeiro botão na camisa dele movendo a mão num círculo fechado sobre o peito dele, ele virou-se para ela e ela acariciou-lhe a parte de trás do pescoço e a espinha. Ele fez a mão passar por debaixo do elástico dos calções dela e por dentro da calcinha, sentindo-lhe as nádegas, macias e ligeiramente frias. Quando escorregou para cima dele e o beijou de novo, sentiu o desejo rolar através de si, e no entanto tinha consciência de um centro de resistência, da presença irritante de alguém mais.

Conseguiu afastá-la, mas continuava consciente dela, enevoadamente, pelo meio da excitação e depois ao fazerem amor. O sentimento de uma consciência alheia não o abandonou senão muito depois, quando ela lhe descansava nos braços, o cabelo desgrenhado pela transpiração e a respiração acalmando-se gradualmente. Depois desapareceu furtiva como um fantasma.

Matt levantou-se, vestiu-se e foi rapidamente pelo caminho até à aldeia.

Não muito longe encontrou Kellicut encostado a uma árvore e, por um momento, alguma coisa no olhar do homem, corado por ter sido descoberto e ao mesmo tempo estranhamente desafiador, plantou na cabeça de Matt a idéia ridícula de que fora Kellicut quem lhe invadira o cérebro.

 

Esperaram emboscados à volta de uma clareira na parte mais espessa da floresta. Dentelongo e Olhos-Azuis de um lado, Lancelot e Joelho-Ferido num outro, Matt e outro jovem, Rapazalto, num terceiro.

Susan, Levítico e alguns outros faziam ruidosamente o seu caminho através dos bosques, tentando espantar algum animal para fora da toca em direção à armadilha.

Matt e Susan haviam pensado cuidadosamente em quem selecionar para o bando de caçadores. Começaram com Lancelot, recordando-se do vislumbre de raiva que exibira durante a luta.

Joelho-Ferido já tinha sido exposto aos renegados e percebera alguns dos seus traços agressivos. Havia mais uns poucos jovens hominídeos que pareciam estar movendo-se na mesma direção, agora que Caralonga se fora e que os outros anciãos mais fracos perdiam influência.

Todos levavam mocas e lanças. Matt tinha passado horas à procura de ramos do tamanho e peso apropriados, afiando-os e polindo as pontas na chama. Instruir os hominídeos em como atirar as lanças ainda era mais difícil, dado que não entenderam logo o objetivo do exercício.

Usou um boneco de palha como alvo e, eventualmente, os hominídeos entravam no espírito do jogo e eram de fato capazes, de tempos em tempos, de o ferir. No entanto, se teriam compreendido que se tratava de um substituto de um animal vivo e respirando, era duvidoso.

A princípio os jogos de guerra eram ainda mais difíceis. Os pacíficos hominídeos tinham dificuldade em entender o conceito de equipe, dois grupos opostos um ao outro sem nenhuma razão discernível.

Depois, Susan teve uma idéia genial. Desapareceu nos bosques e voltou com bolas de lama, e emergiu de uma cabana com uma mezinha de ocre brilhante, que passou a espalhar pelos torsos de um grupo. A princípio, Matt foi contra - fazia-o sentir como se fosse um garoto brincando de índios e cowboys - mas depressa entendeu o efeito notável que tinham os traços de pintura de guerra.

Foi como se a idéia se tornasse de repente clara, e um instinto primitivo para o combate tivesse sido acordado. O que acontecera, teorizaram eles, era que o ocre despoletava associações com os temidos e odiosos renegados. Com efeito, as linhas da batalha já tinham sido desenhadas.

O construto psicológico de inimigo estava latente, tinha apenas que ser preenchido.

Agora os sons de pancada martelavam mais perto, dado que os batedores se aproximavam. Subitamente, Matt ouviu um som diferente por cima dos outros, o crepitar e roçagar de um animal em fuga, quando os cascos lhe tocavam em folhas e ramos e se levantavam outra vez.

Olhou para Rapazalto e podia perceber que também estava ouvindo. Mas em que é que pensava? Estaria experimentando o mesmo disparar da adrenalina pelas veias, o escalpe zunindo, a mente limpando-se de tudo o que fosse exterior e concentrando as energias para a matança?

Por duas vezes até então, Matt tentara ensiná-los preparando uma emboscada, e de cada uma delas falhara: a única lança voando em direção ao animal tinha sido a sua.

Uma vez fora uma marmota e a arma passou-lhe inofensivamente por cima.

Da segunda era um veado, que desviou a lança de Matt com um toque dos chifres e a atirou ruidosamente de encontro a um tronco. Em nenhuma das ocasiões qualquer dos hominídeos fez gesto algum. Matt não via motivos para pensar que desta iria ser diferente, mas tinha que continuar tentando porque iriam precisar das peles.

De repente, um íbex saltou para a clareira e ficou imóvel por um momento, cheirando o vento, como se sentisse perigo à sua volta. Matt podia ver-lhe o nariz negro tremendo e os chifres graciosos curvando-se para trás. Colocou-se numa pose especial - de joelho em terra, numa postura de concentração - e tentou enviar mensagens aos hominídeos, imagens de lanças e sangue, como antes tinha feito sem qualquer êxito. Depois, levantou-se devagar, surpreso pela quantidade de tempo que tinha à sua frente. Alçou o braço direito vagarosamente, fê-lo recuar e atirou a arma com toda a sua força, apontando a lâmina diretamente à garganta do animal. Assim que a lança voou, soube que ia acertar. Enterrou a cabeça pontiaguda no peito castanho do animal.

O íbex deu um salto recuando, atordoado, e balançou para trás e para frente nos quartos traseiros. Apesar de tudo, a lança não ficara assim tão profundamente enterrada; agitou-se, e depois tombou no chão.

Mas o animal estava gravemente ferido. Não conseguia fugir e caiu sobre os joelhos. Embora tentasse se levantar uma e outra vez, sucumbiu por fim, e rolou ficando de lado.

Matt não conseguia reprimir a excitação dentro de si, e orgulho do caçador que lhe chegava atravessando as idades. Quando pôs o pé na clareira, os outros também o fizeram, embora com relutância.

- Bom, bom - disse Susan, correndo, ainda ofegante. - Você Tarzan.

O íbex deitava sangue da boca, os olhos ficando desfocados, expirou rapidamente diante deles. Os hominídeos olhavam espantados.

A carcaça ficara numa posição estranha, empoleirada muito distante do chão. Matt inclinou-se e abanou-a, virando-a e viu outra lança do outro lado, enterrada a uns trinta centímetros na zona das costelas, cercada por uma ferida que deitava sangue.

Olhou para cima surpreso. Só um dos hominídeos não tinha arma. Lancelot estava ali, os ombros quadrados, um sorriso na cara. Susan e Matt trocaram olhares.

- Ele conseguiu! - exclamou ela docemente.

Os outros hominídeos ficaram por ali de pé, inseguros quanto ao que deviam fazer. Dois deles deixaram cair as lanças e começaram com o balido agudo que soava como um grito de aflição e lamento, depois viraram-se abruptamente e correram floresta adentro. Não voltaram, mas Lancelot olhava para a carcaça com orgulho.

Matt e Susan decidiram acampar aquela noite no lugar onde estavam.

Os hominídeos apanharam lenha e fizeram fogo com uma brasa que traziam. Matt tirou o canivete e começou a separar um dos quartos traseiros, fazendo a incisão muito baixo para preservar o máximo possível de pele. Com uma lâmina tão pequena era difícil cortar através da carne e tinha que a talhar por camadas, de modo que, em breve, tinha as mãos vermelhas de sangue.

Ao atingir a articulação da anca, a bola do fêmur e a casca do pélvis, não conseguia separá-las com a faca, por isso esmagou-a com uma pedra afiada e depois ergueu a articulação até seu joelho, e dobrou-a para trás, partindo-a.

Quando se levantou e aproximou da fogueira, segurando com as duas mãos o osso retalhado, o sangue escorrendo até os cotovelos, os hominídeos recuaram com horror.

Observavam-no cuidadosamente

quando colocou o osso atravessado em dois ramos queimando. Um assobio encheu o ar, seguido pelo cheiro de carne chamuscada.

Matt cortou-lhe pequenos pedaços e comeu-os, deu uma porção a Susan, que também comeu, e passou uns pedaços aos hominídeos.

Eles olhavam espantados para os nacos de carne. Dois deles recusaram-se a tocar-lhes, mas os outros ergueram-nos e examinaram-nos à luz da fogueira. Dentelongo cheirou o seu, depois tocou-lhe com a língua. Os outros olhavam-no enquanto ele, a experimentava, trincou uma pontinha, que depois cuspiu e segurou entre o polegar e o indicador, erguendo-a para a luz como se fosse uma gema preciosa.

Olhou para Matt, que rapidamente mastigou outro pedaço para encorajá-lo, depois colocou-a entre os dentes e mordeu-a. Segundos mais tarde, pôs o resto na boca e experimentou mastigá-la.

Susan respirou fundo, só então percebendo que tinha estado a suster a respiração. Dos outros apenas dois começaram a comer.

Mais tarde nessa noite, enquanto estava deitada sem conseguir adormecer ouvindo a respiração regular de Matt e olhando as estrelas lá em cima, Susan ouviu o roçagar de passadas desaparecendo nos bosques e depois o som de alguém vomitando. Seria mais do que um deles? Como era pouco natural engolir os músculos de outro animal, forçar a carne a descer e sentir o suco sangrento escorrendo pela garganta abaixo, refletiu.

Sabia que os hominídeos tinham passado um Rubicão e por isso, o que quer que viesse a acontecer, a vida nunca mais seria a mesma no vale.

Na manhã seguinte Matt esfolou o íbex. Colocou-o de costas e, enquanto Susan e Dentelongo lhe seguravam as patas no ar, usou a faca para fazer uma incisão ao longo da pele branca da barriga. Depois pegou uma pedra grande, arredondada numa das pontas para encaixar bem na mão e afiada na outra, e martelou-a como um cutelo contra a parte de dentro da pele enquanto a desprendia das vísceras.

Empregou pedras afiadas para cortar pedaços de carne e separar os ligamentos que uniam os músculos aos ossos. De vez em quando parava para afiar as ferramentas, batendo-as contra outra rocha para remover pequenas lascas. Algo lhe captou a atenção e o fez parar ali: ao longo da haste de um osso, exibiam-se os vestígios dos pequenos cortes que acabara de fazer. Já vira centenas de ossos com marcas daquelas e tinha ficado excitado quando as descobria em lugares do início da Idade da Pedra.

Preparavam-se para partir para outro acampamento. Hoje iriam aprender como preparar uma armadilha, decidiu Matt, depois, talvez uma ratoeira de poço com paus afiados lá dentro. Só precisavam de uma meia dúzia de peles, o suficiente para que um grupo pudesse entrar na caverna e não ser imediatamente reconhecido como estranho.

Os hominídeos começaram a levantar o acampamento. Levítico e Rapazalto usaram a pele para embrulhar grandes pedaços de carne e penduraram-na num ramo que levavam ao ombro.

Quando iam abandonando a clareira, Lancelot voltou atrás e ajoelhou-se ao lado do íbex estripado. Pegou no machado de pedra e usou-o com força para esmagar a parte de cima do crânio. Repetiu o movimento três ou quatro vezes.

Matt e Susan ficaram chocados até que o viram desalojar os belos chifres curvos e atirá-los para trás das costas. Era um troféu.

Susan sabia quando Levítico estava vendo através dela. A sensação ocorreu muitas vezes durante a expedição de caça, especialmente quando eles se separaram, uma vez perto da frente da linha de marcha e a outra lá atrás. Ela até passou a entregar-se a essa sensação familiar, um encher-se por dentro, às vezes durando apenas um minuto ou dois - é uma maneira de dizer olá, avisar que está ali, pensou ela.

Não podia ter certeza que a fonte era Levítico, mas estava convencida de que era ele pelo modo como se sentia quando tal advinha - não era violada nem invadida, mas confortada e descansada.

Calculou se os hominídeos poderiam identificar os da tribo que entravam e saíam dos seus campos perceptuais. Claramente, aquela faculdade especial era mais complexa do que ela e Matt tinham suposto de início. Talvez implicasse comunicação em dois sentidos e talvez fosse de maior alcance do que o ver através dos olhos de outros, algo mais próximo da PES. Talvez estivesse reduzida a imagens telepáticas nuas apenas quando atravessava a barreira das espécies.

O que poderia explicar muita coisa - para começar, porque é que os hominídeos nunca tinham desenvolvido a linguagem. À primeira vista, a linguagem parecia um melhor meio de comunicação, porque enviava conceitos abstratos e podia ser escrita, permitindo que o conhecimento fosse se acumulando num compêndio. Mas se os hominídeos podiam fazer mais do que enviar imagens para trás e para frente, se pudessem de fato sentir e pensar o que outro estava sentindo e pensando, não havia necessidade de linguagem, porque a comunicação entre eles era completa. A linguagem - a fala - seria apenas a pálida sombra de um discurso tão sublime e perfeito que era o equivalente a, de fato, trocarem de lugares. Nesse caso, não era a capacidade de comunicar que tinha transformado o Homo sapiens no grande empreendedor da natureza, era a "inabilidade" para comunicar.

Susan sentia-se orgulhosa por se considerar uma empirista, mas também estava aberta à possibilidade de postular o não provado, por isso não eliminou a hipótese de, no seu estado primordial, os humanos terem podido possuir uma faculdade similar, agora perdida ou abandonada. Talvez, especulou ela, ainda tenhamos uma capacidade de PES vestigial e seja por isso que tanta gente tem a pretensão de atestar a sua existência. Mais ainda, talvez estando exposto a ela a faça acordar de novo, da mesma maneira que uma criança exposta à linguagem aprende a falar. A não ser, pensou, que por agora grande parte do nosso cérebro esteja já consumido ao serviço das meras palavras.

Encontrou Levítico num prado debaixo do sol quente, fosse por acaso ou não, não sabia. Aproximou-se dele e ficou a sessenta centímetros de distância, fixando-lhe os olhos enterrados fundo na sua cara aberta e larga. Pondo-lhe as mãos nos ombros nus e virando-o delicadamente para que não a olhasse, ela fechou os olhos. Nada. Tentou empurrar a sua mente para fora. Levantou-se uma brisa e ela chegou-se a ele, abraçando-o por trás, e cheirando o odor pungente do cabelo e do suor seco na nuca dele. Inclinou-se para um lado e olhou-lhe por cima do ombro, para a erva dourada ondeante do prado e as árvores além dele, depois fechou os olhos e concentrou-se, mas o prado e as árvores não reapareceram. Quando sentiu que estava sendo enchida, libertou-o.

- Não - disse ela em voz alta, sabendo que ele não iria compreender, mas dizendo-o apesar de tudo. - Não. Quero ser eu a fazer isso. - Mas a calorosa sensação familiar continuou.

O regresso deles à aldeia não causou qualquer excitação, mesmo vindo eles com armas, pedras afiadas e peles. Recordando-se vivamente do ocorrido quando aparecera com um único peixe morto, Matt ficou espantado, até que percebeu que era evidente que os aldeãos sabiam o que os caçadores tinham andado fazendo e todos os passos dados.

Kellicut era um assunto diferente. Estava à espera deles na cova da fogueira e tremia de raiva.

- Não entendem nada? Não aprenderam nada naqueles anos todos?

Matt fez-lhe frente.

- Sei o que vai dizer a seguir - disse -, mas nós sabemos o que andamos fazendo.

- O raio é que sabem! Ensinando-os a caçar! Espera-se que vocês aqui sejam observadores. Entendem isso? É a primeira lei da ciência social. Vocês são observadores e nada mais. Não entram. Não ensinam, não mudam, não convertem. Entenderam?

- Isto é diferente.

- Diferente como?

- Está em jogo a vida de um homem.

- A vida de um homem! Vocês nem sequer sabem realmente quem é esse homem.

- Esse é outro motivo para irmos. Temos que descobrir.

- E o que é a vida de um homem comparada com isto tudo? - Kellicut girou o braço em volta, abarcando a aldeia, as árvores, o vale todo. - Uma espécie inteira, uma espécie que tem andado por aqui há mais tempo que nós próprios. Os nossos progenitores, Deus do céu!

- Talvez possamos salvá-los e protegê-los no caminho.

- Protegê-los dos renegados, é isso?

- Sim.

- É isso que vocês não compreendem. É suposto vocês não terem nada a ver com isso. Vocês nem sequer deviam estar aqui. Isto é um mundo primitivo e vocês são como algum malvado viajante no tempo. Interferem e alteram tudo!

- Você também interferiu, Jerry - disse Susan. Usou o nome próprio do professor docemente. - Se sente assim tão fortemente acerca disto, porque é que deu a transfusão a Joelho-Ferido?

Kellicut cuspia enquanto falava, de raiva.

- Isso foi diferente. Isso foi um ato discreto que não afetou todo o futuro da espécie.

- Além disso - interrompeu Matt, - o fez sentir-se como Deus, não fez? - Pôs a mão no bolso e retirou o fragmento de crânio preso a uma correia de prata que Kellicut tinha lhe dado quase há duas décadas atrás, e ergueu-o. - Tal como ensinar o fazia sentir como um Deus. Ou levar-nos a escavações e distribuir pequenas recompensas. Ou dormir com Susan.

Nunca tiveram a chance de ouvir a resposta de Kellicut, porque naquele momento Olho-Negro saiu das sombras, avançou até eles, pegou nas mãos de Matt e Susan, e pousou a sua mão dura sobre as deles. Era difícil de dizer se o gesto era uma bênção, ou uma maldição.

 

Antes da sua incursão à caverna, Matt e Susan verificaram os preparativos. Não que tivessem ali tanto equipamento que houvesse perigo de esquecerem alguma coisa. O que precisavam mesmo era de se aprontarem psicologicamente, e planejar as coisas para frente punha-os bem-dispostos, alimentando a ilusão de que haviam forjado um plano concreto para salvar Van e depois escapar inteiros.

Tinham vendas para os olhos feitas de tiras de pano, com o nó molhado para se segurarem melhor, que eram atadas à volta do pescoço para poderem ser puxadas depressa para cima dos olhos. Isto fora idéia de Susan, recordando-se da instrução de Van na caverna para manterem os olhos fechados.

Pensou que era uma manobra defensiva contra o poder dos seus adversários - um modo de contrariá-lo momentaneamente caso fossem apanhados numa situação perigosa. Pelo menos essa era a teoria. Na prática, não tinham maneira de saber se funcionava ou não.

Haviam decidido levar três dos hominídeos da expedição de caça, começando por Joelho-Ferido, que presumivelmente conseguiria guiá-los pelo labirinto de túneis. Matt e Susan só podiam esperar que compreendesse qual era a sua missão assim que iniciassem o percurso, porque não poderiam lhe explicar, nem pedir-lhe ajuda se as coisas corressem mal, estava além da compreensão. Lancelot, que começara a se tornar um chefe tribal, era um membro indispensável ao grupo. Trouxera os chifres do íbex de volta à aldeia, colocando-os à entrada da sua cabana com as pontas enterradas na terra, e o troféu parecera aumentar-lhe a estatura, especialmente entre os jovens machos. Levítico era o terceiro, escolhido por Susan, que disse que seria valioso por causa da sua esperteza. O nosso Ulisses, chamou-lhe ela.

Estes três confederados estavam vestidos com roupas feitas das peles que tinham apanhado. Fora um trabalho longo e árduo, primeiro fazê-las e depois convencer os hominídeos a usá-las. Matt usou tiras de tripa para unir as peles umas às outras, enfiando-as por buracos que Susan lhes fizera com uma pedra afiada. Uma das peles passava pela cabeça como um poncho, caindo solta e sendo atada à volta da cintura com mais tripa, enquanto a outra era utilizada para fazer perneiras rudes. Tanto quanto se recordavam, era assim que os renegados se ataviavam. As roupagens não estavam bem presas, mas não tinham que estar. O seu único objetivo era a camuflagem.

A princípio, os três hominídeos recusaram-se a usar as peles. Estavam rijas com sangue seco em manchas e cheiravam ao animal, e a idéia de vesti-las era-lhes repugnante. Matt e Susan demonstraram como deviam ser colocadas, mas tiveram pouco êxito. Por fim, Matt pegou a pele do íbex e fez a mímica de uma caçada, embrulhando-a num arbusto, perseguindo-a, e atirando-lhe a lança. Depois, cerimoniosamente, apresentou-a a Lancelot, lançando-a pelos ombros como um cortesão adornaria um rei com um manto. Lancelot recebeu-a gravemente, e em seguida os outros aceitaram as peles, movimentando-se desajeitadamente e olhando para os seus corpos e uns para os outros.

Também lhes foram dadas armas. Lancelot tinha a lança que o transformara num caçador e Susan fez clavas para Joelho-Ferido e Levítico, escolhendo ramos pesados afunilados e usando um machado de pedra para formar um topo arredondado e uma pega macia. Trabalhou nelas horas, rodeada por um círculo de hominídeos que observavam cada um dos seus movimentos em silêncio.

Na sua mochila, Matt guardou um rolo de corda e algumas rudes ferramentas de pedra. A lanterna teria sido valiosa, mas ficara na caverna. Em vez dela, iriam usar tochas feitas de ramos e palha.

Preocupado, Matt tinha ficado acordado grande parte da noite antes de partirem. Havia tantas incógnitas. E se o poder dos renegados para os perceberem de longe fosse mais sofisticado do que esperava? E se operasse como um sistema de radar registrando qualquer nova presença assim que ela se apresentasse? E se os renegados os detectassem, os atraíssem mais fundo na sua toca e se servissem da sua comunicação superior para fechar qualquer chance de saída?

Na orla da aldeia, Matt e Susan viraram-se para olhar para trás. O seu bando de esfarrapados, balançando-se desconfortavelmente dentro das suas peles, teriam parecido cômicos em outras circunstâncias.

Alguns aldeãos observavam-nos partir. À distância, de pé junto a uma árvore, tão reto que parecia fazer parte dela, estava Olho-Negro. Susan disse-lhe adeus, sabendo que não iria retribuir ou sequer entender o gesto, e ele não o fez.

Quando chegaram à periferia do cemitério, os hominídeos recusaram-se a pisá-lo. Susan tentou mostrar que apenas tinham a intenção de atravessá-lo, mas foram inflexíveis e não se mexeram. Ela olhou para frente. Uma espiral de três abutres fazia círculos no céu, e outros miravam-nos de ramos nus mais próximos, o tufo de penas pretas e brancas espalhando-se sob os bicos como patilhas. Depois, Susan ficou admirada: dois coveiros, figuras fantasmagóricas todas de branco, acocoravam-se a menos de dez metros, o branco dos olhos igual ao branco do giz espalhado pelos corpos. Havia um silêncio sobrenatural, apenas interrompido pelo som dos insetos zumbindo. Nada se mexia no interior daquela zona de morte, tão claramente delineada como se o rio Estíge corresse a seu lado, a não ser pelos pássaros comedores de carniça cavalgando as correntes aéreas por cima deles.

- Não vale a pena - disse Matt. - Eles não o atravessam.

- Podíamos ir à frente e esperar que viessem nos encontrar. Ou podíamos dar a volta com eles.

- É melhor dar a volta. - Ele pegou-lhe na mão e arrancaram, mantendo-se à esquerda do cemitério. Os hominídeos deram-lhe uma margem larga e olhavam-no com suspeição, como se a própria terra pudesse abrir-se a qualquer momento e devorá-los.

Matt recriminava-se.

Devia ter previsto a possibilidade dos hominídeos se recusarem, especialmente após aquela visita há semanas atrás. A volta iria acrescentar horas à aproximação e deixá-los cansados antes que alcançassem sequer a entrada da caverna. Pararam por três vezes para repousar. Os hominídeos não pareciam estar cansados. Olhando para eles como espécimes objetivos, Matt ficou de novo impressionado pela superioridade das suas capacidades físicas - as pernas curtas e fortes como colunas, os troncos baixos, os ombros enormes e as mãos grossas, as sobrancelhas que serviam de âncora aos músculos maciços dos maxilares. São feitos para combater, pensou, e se por todos esses muitos séculos atrás o Neandertal tivesse adquirido a luxúria de derramar sangue que tem possuído a humanidade, com certeza que já nos tinha arrumado há muito. Tudo que eles precisavam era de um pouco de pecado original.

Olhou para Joelho-Ferido, cuja testa cortada há muito tinha sarado, transformando-se numa feia cicatriz torcida e vermelha que lhe ia da linha do escalpe até um dos sobrolhos.

Poderia ser a marca de Caim? Matt recriminou-se.

Não era esta a hora para se transformar num filósofo mal-informado.

A caverna estava colocada verticalmente no rochedo, uma falha gigante na fachada da rocha com uns seis metros de altura. Aproximaram-se de lado, com Matt guiando o caminho e Susan fazendo a retaguarda atrás dos hominídeos, para o caso de mostrarem sinais de recusa. Caso se negassem, não tinha idéia do que faria para convencê-los, mas sentiu que era mais aconselhável manter um olho neles.

Susan sabia como eram nervosos. Levítico estava lendo-a muitas vezes e desesperadamente.

Matt trepou com cautela até à entrada da caverna. Escuridão total. Olhou para baixo e viu pequenas pilhas de rochas espalhadas na entrada. Talvez se tratasse de um bom sinal, porque se fosse uma zona de muito trânsito seguramente que os resíduos teriam sido afastados.

É só a porta da cozinha, pensou, usada sempre que uma criatura queira fazer uma incursão à tribo para roubar uma mulher ou um escravo. Percebeu que o medo o atacou pelas costas. Odiava a escuridão e sentia-se claustrofóbico só com a perspectiva de descer, uma fobia bem fundamentada pelo terror da sua própria fuga in extremis apenas há algumas semanas atrás. Respirou fundo e entrou.

Os outros penetraram atrás dele um a um, quase como se estivessem fazendo um exercício militar. Um bom princípio, pensou, enquanto sentia as trevas assaltando-lhe os olhos. Demoraram-se um pouco na entrada para pegarem as coisas que transportavam.

À meia luz, Matt perscrutou Joelho-Ferido; a cara dele parecia sem expressão - ou isso, ou Matt não conseguia decifrar qual a expressão que lá estava - mas mostrava-se controlado. O impulso para fugir da dor deve ser universal, calculou Matt. Se assim é, então Joelho-Ferido aparenta ser um tipo duro. Mas também calculou que os hominídeos estariam usando a sua faculdade para explorarem a passagem à frente, da mesma maneira que ele, uma criança no Inverno da Nova Inglaterra, costumava tentear o lago em busca do gelo fino, atirando pedras para frente. Como reagiriam se uma das suas pedras atingisse o perigo?

Assim que as pupilas se dilataram, Matt e Susan perceberam com alívio que, apesar de tudo, a escuridão não era total. A princípio, a caverna parecera negra como breu, mas dez metros mais adiante curvava-se para a esquerda. Agora podiam ver em frente que a parede oposta tremeluzia com uma débil luz, presumivelmente refletida de tochas para lá da curva. O túnel era enorme, como uma toca de mamute penetrando diretamente no interior da montanha.

Concordaram que Joelho-Ferido fosse o primeiro a entrar, esperando que adotasse naturalmente o seu papel de guia.

- Até aqui tudo bem - sussurrou Matt.

- Sim, até aqui - respondeu ela com a voz tremendo.

Quando chegaram à curva, Joelho-Ferido passou-a sem um sinal de hesitação. Levava a uma caverna larga iluminada por archotes e orlada por depósitos de carbonato de cal em forma de pingentes de gelo, erigidos através dos milênios. O chão ao meio estava aberto debaixo de um teto que, no centro, se expandia para o alto como se fosse uma tenda de circo. As rochas por cima deles agitavam-se com vida peluda: morcegos, aninhando-se nas reentrâncias, voavam por ali num desassossego e varriam os intrusos, como bombardeiros mergulhando em ataques abortados.

Matt e Susan começaram a tremer de frio e podiam ver a sua própria respiração. Ficara para trás o calor pouco natural do vale da cratera, acobertado pelas correntes de ar geotérmicas, e de novo os seus corpos se encontravam à mercê do frio da altitude. Acenderam as tochas que tinham trazido da caverna.

Atravessando o espaço aberto, chegaram a uma parede com três túneis. Os labirintos iam começar de verdade, e só podiam esperar que Joelho-Ferido conseguisse tratar disso e conduzi-los à cova do Minotauro.

Escolheu o túnel do meio. Depressa este estreitou, erguendo-se depois precipitadamente, o que fazia sentido dado que o santo dos santos ao qual queriam chegar se encontrava bem alto no interior da montanha. Mas a inclinação tornava a caminhada mais dura. Haviam se acumulado pedras no fundo e por vezes era como trepar por uma calha de escoamento cheia de carvão. O que ainda era pior para Matt, era que a altura da passagem começava a diminuir e via-se forçado a dobrar-se.

Sentiu a claustrofobia agarrar-lhe o coração como uma vingança e foi precisa toda a sua força de vontade para continuar andando. Por fim, a passagem endireitou-se e já podiam de novo andar eretos. As tochas deles estavam ardendo com a chama baixa: o oxigênio era fraco.

Quinze minutos depois, os hominídeos gelaram de súbito. Olhavam em frente com incerteza, depois viravam-se para encará-los e desta vez Matt não teve problemas em ler a emoção do medo escrita nas suas feições largas. Claramente, alguma coisa estava se aproximando mas, esforçando-se por ouvir, eles apenas conseguiam escutar a rajada distante do vento.

- Passamos uma reentrância há pouco - sussurrou Matt. – É melhor voltarmos lá e escondermo-nos.

- E estes caras?

- É melhor nos separarmos. Se ficarmos todos juntos é mais fácil para os renegados lerem-nos. Eles ficarão protegidos pelos seus disfarces.

- Está bem.

Recuando, descobriram o pequeno abrigo. Um pouco além havia uma câmara retirada onde deixaram os três hominídeos com as tochas, rezando para que não levantassem suspeitas. Matt e Susan puxaram as vendas para cima e esperaram, com os corpos encaixados e aconchegados no espaço reduzido. Não tiveram que aguardar muito.

Cedo ouviram o denunciador galope e arrastar de pés das criaturas.

Susan fechou os olhos debaixo da venda e tentou esvaziar a mente.

Matt pôs os braços à volta dela e cingiu-a com força à medida que os sons se tornavam mais altos, até que as criaturas os cruzaram do outro lado da parede de rocha apenas a uns sessenta centímetros de distância.

Susan podia ouvir o arquejar da respiração deles e o peso dos passos lentos batendo no chão da caverna. Apertou Matt com mais força. Por fim, os sons diminuíram assim que as criaturas passaram por eles e continuaram andando, movendo-se em direção aos hominídeos. Susan retirou a venda. O cheiro invadiu-lhe as narinas.

Estavam tão perto que podíamos ter-lhes tocado se esticássemos o braço, pensou. Outra sensação lhe chegou à mente, foi aquele encher familiar: Levítico, ela sabia, estava estabelecendo o contato no momento do seu terror, tal como Matt o fizera. Manteve os olhos abertos e recebeu-o, completamente imóvel por longos segundos enquanto Matt lhe segurava o corpo, até que finalmente se descontraiu e disse.

- Está tudo bem. Eles estão a salvo. - Matt lançou-lhe um longo olhar perscrutador.

Reunido, o grupo continuou passagem acima com Joelho-Ferido ainda a chefiá-lo.

Subiram durante meia hora, passando por pequenas câmaras e becos conduzindo a tocas de raposa que continham lareiras e peles espalhadas para dormir, mas felizmente não encontraram mais criaturas. Depois, o suave roçagar das brisas deu lugar à azáfama fantástica que tinham presenciado semanas atrás, como o zumbido de mil asas ressoando dentro de uma colméia.

Joelho-Ferido parou por um momento no lugar, aterrorizado enquanto se concentrava, depois agachou-se e enfiou-se por um túnel tão pequeno que teve que rastejar.

Para Matt era como um túmulo. Curvava-se para cima como uma chaminé, por isso subiram-no usando apoios para os pés e as mãos, até que por fim emergiram numa saliência de onde se podia ver toda a caverna do mamute. Por baixo deles estava a colméia.

Por todo o lado, no chão aberto da caverna e em cada reentrância e fenda, as criaturas movimentavam-se por ali num tumulto de atividade que os fez suspender a respiração. Estavam cozinhando, curtindo peles, fazendo ferramentas, cortando carne, fornicando, fazendo alarido, dormindo e comendo - uma colônia auto-suficiente de homens, mulheres e crianças.

Matt viu crianças guinchando, correndo uns atrás dos outros à volta de uma lareira. De um lado, uma mulher acocorava-se diante de uma pele curtida, segurando-a com ambas as mãos e tentando rasgá-la com os poderosos músculos dos maxilares. Parecia estar fazendo sacos de pele para a água. Outra mulher por perto batia com uma pedra, depois atirou-a para uma pilha de outras pedras. Susan estava certa, pensou ele. Há mais mulheres aqui do que no vale. Aposto que foram raptadas de lá.

Concentrado, o barulho era formidável. A fumaça de uma dúzia de fogueiras fez-lhes lacrimejarem, e estava tão quente como dentro de uma panela de pressão. Olhando para baixo, para tudo aquilo, não mais de dez metros por cima das jubas de cabelo embaraçado, Matt sentiu que testemunhavam o nascimento da civilização, o momento em que os nossos antepassados tinham passado da existência bruta de macacos solitários para os esplendores e rigores da comunidade e da indústria. Mas em outro sentido, a colônia estava ainda imersa em selvajeria.

Erguendo-se no centro da enorme caverna via-se a escultura do deus malevolente em forma de cabeça de urso, e junto a ela, a parede de crânios humanos.

A parede exibia uma nova aquisição, a cabeça de um macho caucasiano. Matt obrigou-se a examiná-la, com o primeiro pensamento de que poderia ser Van, mas mesmo à distância podia dizer que a fisionomia era diferente, tinha o nariz comprido demais.

- Não temos muito tempo - murmurou para Susan. - É preciso encontrar Van antes que nos percebam.

Não respondeu, aparentemente perdida contemplando a incrível visão diante deles. Matt seguiu o olhar dela e fixou-se na figura que ela observava. Como é que lhe podia ter escapado? Kee-wak estava no centro do ajuntamento, com uma cabeça a mais de altura que os outros e, quando se movia entre eles, abria-se um caminho: as outras criaturas recuavam como cães chicoteados, baixando as cabeças e adotando inconfundíveis posturas de subordinação. Não havia dúvidas quanto ao assunto. Era uma figura extraordinária, nascido para mandar. Tinha a parte superior do tronco adornada com linhas onduladas vermelhas e pretas que lhe contornavam os músculos em padrões de impressão digital, o cabelo tombava-lhe em tranças compridas decoradas com contas e contornara a boca com tinta vermelha que parecia sangue. Quando andava, a cabeça abanava lentamente de um lado para o outro, naquele curioso movimento de lagarto que tinha ficado gravado na memória de Matt quando do confronto na neve com Rudy.

- Olhe - murmurou Susan - ele tem a arma de Van à volta do pescoço! - Seguramente, havia o coldre pendurado até ao abdómen, batendo docemente nos músculos em espinhaço.

Kee-wak levantou os olhou e começou a observar as zonas superiores da caverna. Rapidamente, Matt e Susan puseram as vendas e recuaram, deitando-se na saliência.

Susan sentiu Levítico enchê-la e soube, alguns segundos mais tarde, que o perigo havia passado. Ergueu a venda e espreitou por cima da borda. Kee-wak tinha abandonado a caverna. Observou o rebuliço de atividade apenas por um momento antes de tomar uma decisão.

- Matt, tenho que encontrar a câmara sagrada. Quero ver outra vez o Enigma de Khodzant.

- Estás doida?

- Tenho que ir. Não vê? Têm que significar qualquer coisa. Não sei porquê, mas