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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NO CAMINHO DE SWANN / Marcel Proust
NO CAMINHO DE SWANN / Marcel Proust

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Em Busca do Tempo Perdido

 

''Em Busca Do Tempo Perdido''não se enquadra em qualquer escola ou corrente literária, muito embora sua escrita mantenha traços de Impressionismo e haja na obra pontos de contato com o Simbolismo. São sete livros originais que compõe a obra completa. São dezenas de personagens que se cruzam em histórias de amor, ciúmes e inveja, na França da Belle Époque. A narrativa vai passando do detalhe ao painel e do painel ao detalhe sem projeções definidas, num constante reajuste de tudo aquilo que nunca será perfeitamente ajustado. A obra é um retrato da sociedade de uma época, um mergulho no universo da burguesia francesa que permite que o leitor sinta as divergências entre nobres e burgueses. Os sete volumes dividem-se em:

 

volume I - No Caminho de Swann  Ano 1913

volume II - À Sombra das Moças em Flor  Ano 1918

volume III - O Caminho de Guermantes  Ano 1920

volume IV - Sodoma e Gomorra  Ano 1921

volume V - A Prisioneira  Ano 1925

volume VI - A Fugitiva  Ano 1925

volume VII - O Tempo Recuperado  Ano 1927

 

NO CAMINHO DE SWANN  

            Durante muito tempo, deitava-me cedo. Às vezes, mal apagada a vela, meus olhos se fechavam tão depressa que eu nem tinha tempo de pensar: "Vou dormir". E, meia hora depois, a idéia de que já era tempo de conciliar o sono me despertava: queria deixar o livro que julgava ainda ter nas mãos e assoprar a vela; dormindo, não havia deixado de refletir sobre o que acabara de ler, porém tais reflexões haviam tomado um aspecto um tanto singular; parecia-me que era de mim mesmo que o livro falava: uma igreja, um quarteto, a rivalidade de Francisco I e Carlos V. Essa crença sobrevivia por alguns segundos ao meu despertar; não ofendia a razão, mas pesava como escamas sobre os olhos, impedindo-os de perceber que a vela já não estava acesa. Depois, principiava a me parecer ininteligível, como, após a metempsicose, as idéias de uma existência anterior; o assunto do livro se desligava de mim, eu ficava livre para me adaptar ou não a ele; logo recobrava a vista e me surpreendia bastante por estar rodeado de uma obscuridade, suave e repousante para os olhos, porém ainda mais talvez para o espírito, ao qual surgia como uma coisa sem causa, incompreensível, como algo verdadeiramente obscuro. Perguntava-me que horas poderiam ser; ouvia o silvo dos trens que, mais ou menos afastado, como um canto de pássaro na floresta, assinalando as distâncias, me informava sobre a extensão da campina deserta onde o viajante se apressa em direção à próxima parada: o caminho que ele segue vai lhe ficar gravado na lembrança pela excitação de conhecer novos lugares, praticar atos inusitados, pela conversação recente e as despedidas sob a lâmpada estranha que o seguem ainda no silêncio da noite, e pela doçura próxima do regresso.

            Apoiava brandamente as faces contra as belas faces do travesseiro que, cheias e frescas, são como os rostos da nossa infância. Riscava um fósforo para ver o relógio. Quase meia-noite. É o momento em que o enfermo, que teve de viajar e ir dormir num hotel desconhecido, acordado por uma crise, se alegra ao distinguir debaixo da porta um raio de luz. Felicidade! Já é dia! Daqui a pouco os criados vão se levantar, poderá tocar a campainha, virão prestar-lhe socorro. A esperança de ser aliviado lhe dá coragem para suportar o sofrimento. Ainda agora pensou ouvir passos; os passos se aproximam e logo se afastam. E o fio de luz que estava sob a porta desapareceu. É meia-noite; acabam de apagar o gás; o último criado já se retirou e é preciso ficar a noite inteira sofrendo sem remédio.

            Voltava a adormecer, e às vezes só despertava por um breve instante, o suficiente para ouvir os estalos orgânicos da madeira dos móveis, para abrir os olhos e olhar ao caleidoscópio da escuridão, para saborear, graças a um momentâneo resplendor de consciência, o sonho em que estavam sumidos os móveis, o quarto, tudo aquilo do que eu não era mais que uma ínfima parte,  tudo a cuja insensibilidade voltava eu muito em breve a me somar. Outras vezes, ao dormir, tinha retrocedido sem esforço a uma época para sempre acabada de minha vida primitiva, tinha-me encontrado novamente com um de meus medos de menino, como aquele de que meu tio me atirasse dos cachos de cabelo, e que se dissipou. Data que para mim assinala uma nova era. O dia que me cortaram isso. Este acontecimento havia esquecido durante o sonho, e  voltava  para  minha lembrança  logo que acertava em despertar para escapar das mãos de meu tio: mas, por via de precaução, envolvia a cabeça com o travesseiro antes de voltar ao mundo dos sonhos.

            Outras vezes, assim como Eva nasceu de uma costela de Adão, uma mulher nascia enquanto eu estava dormindo, de uma má postura de meu quadril. Sendo criatura filha do prazer estava a ponto de desfrutar, me parecia que era ela a que me oferecia isso. Meu corpo sentia no dela seu próprio calor, ia buscá-lo, e eu despertava. Todo o resto dos mortais me aparecia como coisa muito imprecisa junto desta mulher, da que me separasse fazia um instante: conservava ainda minha bochecha o calor de seu beijo e sentia-me  dolorido  pelo  peso  de  seu  corpo.  Se,  como acontecia algumas vezes, representava com o semblante de uma mulher que eu tinha  conhecido  na  vida real,  eu  ia entregar-me com todo meu ser a este único fim: encontrá-la; quão mesmo essas pessoas que saem de viagem para ver com seus próprios olhos uma cidade desejada, imaginando-se que em uma coisa real saboreia-se o encanto do sonhado. Pouco a pouco a lembrança dissipava; já estava esquecida a criatura de meu sonho.

            Quando um homem está dormindo tem em torno, como um aro, o fio das horas, a ordem dos anos e dos mundos. Ao despertar, consulta-os instintivamente, e, em um segundo, lê o lugar  da  terra  em  que  se  acha,  o  tempo  que  transcorreu até seu despertar; mas estas ordenações podem confundir-se e quebrar-se. Se depois de uma insônia, na madrugada, surpreende-o o sonho enquanto lê  em  uma  postura  distinta  da  que  está acostumado a tomar para dormir, bastará elevar o braço para parar o Sol; para fazê-lo retroceder: e no primeiro momento de seu despertar não saberá que horas são, imaginará que acaba de deitar-se. Se dormitar em uma postura ainda menos usual e recolhimento, por exemplo, sentado em uma poltrona depois de comer, então um transtorno profundo se introduzirá nos mundos exagerados, a  poltrona  mágica percorrerá a toda velocidade os caminhos do tempo e do espaço, e no momento de abrir as pálpebras perceberá que dormiu uns meses antes e em uma terra distinta. Mas a mim, embora dormisse em minha cama de costume, bastava-me com um sonho profundo que afrouxasse a tensão de meu espírito para que este deixasse escapar o plano do lugar aonde eu dormia, ao despertar a meia-noite, como não sabia onde me encontrava, no primeiro momento tampouco sabia quem era; em mim não havia outra coisa que o sentimento da existência em sua simplicidade, primitiva, tal como pode vibrar no fundo de um animal, encontrar-se em maior nudez com o homem das cavernas; mas então a lembrança, ainda não era a lembrança do lugar em que me achava, mas, o de  outros lugares  aonde  eu  tinha  vivido e  aonde poderia estar. Descia até mim como um socorro que tivesse chegado do alto para me tirar de um nada, porque eu sozinho nunca poderia sair; em um segundo passava por cima de séculos de civilização, a imagem opaca vista das lamparinas de petróleo, das camisas com gola alta dobrada, foram recompondo lentamente os rasgos peculiares de minha personalidade.

            Essa imobilidade das coisas que nos rodeiam, acaso é uma qualidade que impomos, com nossa certeza de que elas são essas coisas, nada mais que essas coisas, com a imobilidade que toma nosso pensamento frente a elas. O caso é que quando eu despertava assim, com o espírito em comoção, para averiguar, sem chegar a obtê-lo, em onde estava, tudo girava em volta de mim, na escuridão: as coisas, os países, os anos. Meu corpo, muito torpe para mover-se, tentava, fora de forma de seu cansaço, determinar a posição de seus membros para daí induzir a direção da parede e o lugar de cada móvel, para reconstruir e dar nome à morada que o abrigava. Sua memória dos  flancos,  dos  joelhos,  dos  ombros,  oferecia-lhe  sucessivamente as imagens dos vários quartos em que dormisse, enquanto que,  ao  seu  redor,  as  paredes,  invisíveis,  trocando  de lugar, segundo a habitação imaginada, giravam nas trevas. Antes do meu pensamento vacilante, na soleira dos tempos e das formas, identificasse, engrenado às diversas circunstâncias ofereciam, o lugar de que se tratava, o outro, meu corpo, ia acordando para cada lugar de como era a cama, de onde estavam as portas, de onde davam as janelas, se havia um corredor, e, além disso, dos pensamentos que ao dormir ali preocupavam e que ao despertar voltava a encontrar. O lado de meu corpo, ao tentar adivinhar sua orientação, acreditava-se, por exemplo, estar jogado de cara à parede, em um grande leito com dossel, eu em seguida dizia: «Ah! Por fim dormi, embora mamãe não veio me dizer adeus», é que estava no campo, na casa de meu avô, morto já fazia tanto tempo; e meu corpo, aquele lado de meu corpo em que me apoiava, fiel guardião de um passado que eu nunca devesse esquecer, recordava-me a chama da lamparina de cristal da Boêmia, em forma de urna, que pendia do teto por leves correntinhas; a chaminé de mármore de Siena, no quarto de casa de meus avós, no Combray; naqueles dias longínquos que eu me figurava naquele momento como atuais, mas sem representar com exatidão; teria que ver muito mais claro um instante depois, quando despertasse, por completo.

            Logo, renascia a lembrança de outra postura; a parede fugia para outro lado: estava no campo, no quarto a mim destinado na casa da senhora de Saint-Loup. Meu deus!

            Já teriam acabado de jantar. Devo ter prolongado demais da conta essa sesta feita todas as tardes ao voltar de meu passeio com a senhora de Saint-Loup, antes de vestir o fraque para ir jantar. Porque já transcorreram muitos anos desde aquela época de Combray, quando, nos dias em que mais tarde retornávamos a casa, a luz que eu via nas vidraças de meu quarto era o avermelhado reflexo crepuscular. É muito diferente do tipo de vida que se leva em Tansonville, na casa de Mme, de Saint-Loup, diverso o tipo de prazer que encontro em só sair à noite, a seguir ao luar os caminhos onde brincava antigamente ao sol; e o quarto onde terei adormecido em vez de preparar-me para o jantar, percebo-o de longe, ao voltarmos, iluminado pelo clarão da lâmpada, único farol dentro da noite.

            Essas evocações turbilhonantes e confusas nunca duravam mais que uns poucos segundos; muitas vezes, a breve incerteza quanto ao local em que me achava também não deixava distinguir, umas das outras, as diversas suposições de que era feita, como não podemos isolar, vendo um cavalo na corrida, as posições sucessivas que nos mostra o cinescópio. Mas ora um, ora outro, eu havia revisto os quartos que habitara na minha vida, e acabava por lembrá-los todos nos longos devaneios que se seguiam ao despertar; quartos de inverno onde, quando estamos deitados, aconchegamos a cabeça com um monte de coisas disparatadas: um canto do travesseiro, a parte superior das cobertas, a ponta de um xale, a beira da cama, e um número dos Débats roses, coisas que por fim começamos a firmar bem, segundo a técnica dos pássaros, calcando-as indefinidamente; onde, num templo glacial, todo o prazer consiste em se sentir separado do exterior (como a andorinha do mar, que faz seu ninho no fundo de um subterrâneo, no calor da terra), e onde, estando aceso o fogo a noite toda na lareira, a gente dorme sob um grande manto de ar quente e enfumaçado, cortado de lampejos dos tições que se avivam, espécie de alcova impalpável, de caverna aquecida, escavada no seio do próprio quarto, região ardente e móvel em seus contornos térmicos, arejada pelos sopros que nos refrescam o rosto e provêm dos ângulos, das partes vizinhas à janela ou distanciadas da lareira, e que se resfriaram: -quartos de verão, onde gostamos de ficar unidos à noite morna, onde o luar, apoiado nos postigos entreabertos, lança até o pé da cama a sua escada mágica, onde se dorme quase ao ar livre, como o abelharuco embalado pela brisa na ponta de um galho; às vezes era o quarto em estilo Luís XVI, tão alegre que até na primeira noite não me sentira muito infeliz, e onde as colunatas que sustentavam levemente o teto se afastavam com tanta graça para mostrar e reservar o local da cama; às vezes, ao contrário, era outro quarto, pequeno e de teto tão elevado, aberto em forma de pirâmide à altura de dois andares e parcialmente revestido de mogno, onde, desde o primeiro segundo, eu fora moralmente intoxicado pelo aroma desconhecido do patchuli, convencido da hostilidade das cortinas roxas e da indiferença insolente do pêndulo, que tagarelava bem alto como se eu não estivesse ali ; onde um estranho espelho impiedoso, de pés quadrangulares, barrando obliquamente um dos cantos da peça, ocupava à força, na suave plenitude do meu campo visual de costume, um lugar que não estava previsto; onde o meu pensamento, esforçando-se durante horas por se deslocar, por se expandirem altura, a fim de tomar exatamente a forma do quarto e preencher até em cima o seu gigantesco funil, passava noites de muito sofrimento, enquanto eu estava estendido na cama, os olhos erguidos, o ouvido ansioso, as narinas rebeldes, coração palpitante: até que o hábito houvesse mudado a cor das cortinas, fizesse calar o pêndulo, derramasse piedade no espelho oblíquo e, mau, dissimulasse, senão expulsasse por completo, o cheiro do patchuli e diminuísse sensivelmente a altura aparente do teto. O hábito da arrumadeira hábil, mas bastante morosa e que principia por deixar sofrer nosso espírito durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, a gente se sente bem feliz ao encontra-la, pois sem o hábito e reduzido a seus próprios meios, seria nosso espírito impotente para tornar habitável qualquer aposento.

            Certamente, eu estava bem desperto agora, meu corpo havia dado uma última volta e o bom anjo da certeza havia fixado tudo ao meu redor, me deitara sob as minhas cobertas, no meu quarto, e colocara aproximadamente em seus lugares, na escuridão, minha cômoda, a escrivaninha, a lareira, a janela que dava para a rua e as duas portas. Mas, por mais que eu soubesse que não me achava nas residências que a ignorância do despertar me houvera por um instante senão apresentado a imagem nítida, ao menos me fizera acreditar sua presença possível, um impulso fora dado à memória; em geral, não procurava adormecer de imediato; passava a maior parte da noite a relembrar nossa vida de outrora, em Combray, na casa da minha tia-avó, em Balbec, em Paris, em Doncieres, em Veneza, em outros lugares ainda, a recordar os locais, as pessoas que ali conhecera, o que delas havia visto, e o que me haviam contado a respeito.

            Em Combray, todos os dias desde o fim da tarde, muito antes do momento em que seria preciso me deitar e ficar, sem dormir, longe de minha mãe e de minha avó, o quarto de dormir se tornava o ponto fixo e doloroso de minhas preocupações. Para me distrair nas noites em que me julgavam muito infeliz, haviam inventado de me dar uma lanterna mágica, com a qual cobriam minha lâmpada, enquanto esperávamos a hora de jantar; e, à maneira dos primeiros arquitetos e mestres vidraceiros da era gótica, a lanterna substituía a opacidade das paredes por irisações impalpáveis, aparições sobrenaturais multicores, onde eram pintadas legendas como num vitral vacilante e instantâneo. Porém isso fazia aumentar ainda mais a minha tristeza, pois a mudança de iluminação destruía o hábito do meu quarto, graças ao qual, salvo o suplício de me deitar, ele se me tornava suportável. Agora, não o reconhecia mais e sentia-me inquieto, como num quarto de hotel ou de um chalé, ao qual tivesse chegado pela primeira vez ao descer de um trem.

            Ao passo sacudido de seu cavalo, Golo, cheio de um desígnio atroz, saía da pequena floresta triangular que aveludava de um verde sombrio a encosta de uma colina, e avançava, aos solavancos, para o castelo da infeliz Genevieve de Brabant. Esse castelo era recortado conforme uma linha curva que era apenas o limite de uma das ovais de vidro inseridas no caixilho que deslizava à frente da lanterna. Não passava de um muro de castelo e tinha diante dele um campo aberto onde meditava Genevieve, que usava um cinto azul. O castelo e o campo eram amarelos e eu não esperava o momento de vê-los para saber a sua cor, pois, antes dos vidros do caixilho, a sonoridade vermelho-dourada do nome de Brabant mostrara-o em toda a sua evidência. Golo parava um instante para ouvir com tristeza a arenga lida em voz alta por minha tia-avó e que dava a impressão de compreender muito bem, adequando sua atitude, com uma brandura não isenta de certa majestade, às indicações do texto; depois se afastava no mesmo passo sacudido. E nada poderia deter sua lenta cavalgada. Se mexiam na lanterna, eu distinguia o cavalo de Golo que continuava a avançar sobre as cortinas da janela, inflando-se nas suas dobras, afundando-se nas suas fendas. Mesmo o corpo de Golo, de uma essência tão sobrenatural como o da sua montaria, aproveitava todo obstáculo material, todo objeto incômodo que aparecesse, para toma-lo como ossatura e torna-lo interior, ainda que se tratasse da maçaneta da porta, à qual se adaptava logo, e onde sobrenadava invencivelmente o seu manto vermelho ou seu rosto pálido sempre tão nobre e tão melancólico, mas que não deixava transparecer qualquer inquietude por essa transverberação.

            É claro que eu achava um encanto todo especial nessas brilhantes projeções que pareciam emanar de um passado merovíngio e faziam passear a meu redor tão remotos reflexos de história. No entanto, não poderia descrever que mal estar me provocava essa irrupção de mistério e de beleza no meu quarto que eu acabara de preencher com o meu eu a ponto de não dar mais atenção a ele do que a mim mesmo. A influência anestesiante do hábito passara, e eu me punha a pensar e a sentir coisas tão tristes. A maçaneta da porta, que para mim era diferente de todas as outras maçanetas do mundo, nisto que parecia abrir sozinha, sem que tivesse necessidade de gira-la, de tal modo se me tornara inconsciente o seu manuseio, eis que servia agora de corpo astral para Golo. E logo que chamavam para jantar, sentia pressa de correr para o refeitório onde a grande lâmpada do teto, sem saber de Golo ou de Barba-Azul, e que conhecia meus pais e o bife à caçarola, espalhava a sua luz de todas as noites; e de cair nos braços de mamãe, que as desgraças de Genevieve de Brabant me tornavam mais querida, ao passo que os crimes de Golo me faziam examinar minha própria consciência com maior escrúpulo.

            Infelizmente, depois do jantar eu era logo obrigado a deixar mamãe, que ficava conversando com os outros, no jardim, se fazia bom tempo, ou na saleta onde todos se abrigavam se chovia. Todos, menos minha avó que achava que "é uma pena ficar a gente encerrada, no campo" e que tinha discussões intermináveis com meu pai, nos dias em que chovia forte, porque ele me mandava ler no quarto ao invés de ficar de fora. "Não é assim que você vai fazê-lo robusto e enérgico", dizia ela tristemente, "principalmente este menino que precisa tanto de forças e de vontade." Meu pai dava de ombros e examinava o barômetro, pois gostava de meteorologia, enquanto minha mãe, evitando fazer barulhos para não perturba-lo, olhava-o com respeito carinhoso, mas não fixamente para não dar a entender que buscava devassar o mistério da sua superioridade. Quanto à minha avó, em qualquer tempo, mesmo quando a chuva caía com força e Françoise entrava com precipitação recolhendo as poltronas preciosas de vime para que não se molhassem, era vista no jardim vazio e fustigado pelo aguaceiro, levantando as mechas grisalhas e desordenadas para que sua testa melhor se embebesse da salubridade do vento e da chuva. Costumava dizer: "Enfim, respira-se!", e percorria as aléias encharcadas do jardim, muito simetricamente alinhadas para seu gosto, pelo novo jardineiro destituído do sentimento da natureza e ao qual meu pai havia perguntado desde a manhã cedinho se o tempo iria se firmar-com seu passo entusiasmado e brusco, regulado pelos diversos impulsos que em sua alma excitavam a embriaguez da tempestade, o poder da higiene, a estupidez da minha educação e a simetria dos jardins, mais que pelo desejo, que desconhecia, de evitar as manchas de lama na saia cor de ameixa e que a cobriam até uma altura que sempre faziam o desespero e o problema de sua criada de quarto.

            Quando os passeios de minha avó pelo jardim aconteciam depois do jantar, uma coisa tinha o poder de fazê-la voltar logo: era num desses momentos em que as voltas do seu passeio a levavam periodicamente, como um inseto, na direção das luzes da saleta, onde eram servidos os licores na mesinha de jogo quando minha tia-avó lhe gritava: "Bathilde! vem ver se impedes que o teu marido beba conhaque!" Para aborrecê-la, de fato (ela trouxera à família de meu pai um espírito tão diverso que todos zombavam dela e a atormentavam), visto que os licores eram proibidos a meu avô, minha tia-avó fazia-o beber algumas gotas. Minha pobre avó entrava, implorava ao marido com ardor que não bebesse conhaque; ele se zangava, bebia apesar de tudo o seu gole, e minha avó tornava a sair, triste, desanimada, no entanto risonha, pois tinha o coração tão humilde e era tão doce que sua ternura pelos outros e a pouca importância que atribuía à própria pessoa e a seus sofrimentos conciliavam-se no seu olhar com um sorriso onde, contrariamente ao que se vê no rosto de muita gente, só era irônica consigo mesma, e era para todos nós como um beijo de seus olhos, que não podiam ver os que ela amava sem os acariciar apaixonadamente com o olhar. Este suplício que lhe infligia a minha tia-avó, o espetáculo das súplicas baldadas de minha avó e de sua franqueza, de antemão vencida, tentando em vão tirar de meu avô o cálice de licor, era dessas coisas a cuja vista a gente se habitua mais tarde até a considerar em risos e a tomar o partido do perseguidor, resoluta e alegremente, para se persuadir que não se trata de perseguição; na ocasião, causavam-me um tal horror que me dava vontade de bater na minha tia-avó. Porém quando ouvia: "Bathilde! vem ver se impedes que o teu marido beba conhaque!", já adulto pela covardia, eu fazia o que todos fazemos, quando somos grandes, e há diante de nós sofrimentos e injustiças: não queria vê-los; subia para soluçar lá no alto da casa, numa peça ao lado da sala de estudos, sob os telhados, uma salinha que cheirava a íris, também aromada por uma groselheira silvestre que crescia do lado de fora entre as pedras do muro e passava um ramo florido pela janela entreaberta. Destinada a uma utilidade mais especial e mais vulgar, essa peça, de onde, durante o dia, se enxergava até o torreão de Roussainvillele-Pin, serviu por muito tempo de refúgio para mim, sem dúvida por ser a única que me permitiam fechasse à chave, para todas as minhas ocupações que exigissem solidão inviolável: a leitura, o devaneio, as lágrimas e a volúpia. Infelizmente, eu não sabia então que, muito mais tristemente que as pequenas infrações ao regime do marido, era a minha falta de vontade, minha saúde delicada, a incerteza que elas projetavam sobre o meu futuro que preocupavam a minha avó no decurso das perambulações incessantes, de tarde e de noite, quando se via passar e repassar, obliquamente erguido contra o céu, seu belo rosto de faces morenas e enrugadas, que, com o passar do tempo, se haviam tornado quase cor de malva como as lavouras pelo outono, e que ela cobria, ao sair, com um pequeno véu semi-erguido, e nas quais, trazidas pelo frio ou algum pensamento triste, estavam sempre secando lágrimas involuntárias.

            Ao subir para me deitar, meu consolo único era que mamãe fosse me beijar quando já estivesse na cama. Mas durava tão pouco isso, e ela descia tão depressa, que o momento em que a ouvia subir, e depois quando ela passava pelo corredor de porta dupla o ruído ligeiro de seu vestido de jardim, de musselina azul, com pequenos tirantes de palha trançada, era um momento doloroso. Anunciava o que ia ocorrer a seguir, quando ela me teria deixado, quando voltasse a descer. De modo que essas boas-noites que eu amava tanto, chegava a desejar que viessem o mais tarde possível, para que se prolongasse o tempo de espera em que mamãe ainda não chegara. Às vezes, quando, depois de me haver beijado, ela abria a porta para ir embora, eu queria chamá-la, dizer-lhe "beija-me mais uma vez", mas sabia que ela logo se mostraria zangada, pois a concessão que fazia à minha tristeza e à minha agitação ao subir para me beijar, levando-me aquele beijo de paz, irritava meu pai que julgava absurdo esse ritual, e ela, que punha tanto empenho em me fazer perder esse hábito, estava longe de deixar que adquirisse o de lhe pedir um novo beijo quando já estava à porta. Vê-la aborrecida, assim, destruía todo o sossego que ela me trouxera um momento antes, quando inclinara sobre o meu leito o rosto amoroso, ofertando-o como uma hóstia para uma comunhão de paz, em que meus lábios saboreariam a sua presença real e o poder de adormecer. Mas essas noites em que mamãe, enfim, se demorava

tão pouco tempo no meu quarto, eram ainda suaves em comparação com aquelas em que havia convidados para jantar, e nas quais, por causa disso, ela não subia para me dar boa-noite. Em geral, a visita se limitava ao Sr. Swann, que, afora alguns forasteiros eventuais, era quase a única pessoa que vinha habitualmente à nossa casa em Combray, às vezes para jantar como vizinho (mais raramente desde que fizera um mau casamento, pois meus pais não queriam receber sua mulher), às vezes após o jantar, sem ser esperado. Nas noites em que, sentados na frente da casa sob o grande castanheiro, ao redor da mesa de ferro, ouvíamos no portão do jardim não o barulho confuso e estridente da sineta, que ensurdecia, com seu ruído ferruginoso, inextinguível e gélido, toda pessoa da casa que a disparava ao entrar "sem tocar", mas o duplo toquezinho tímido, oval e dourado da campainha para os estranhos, todo mundo logo perguntava: "Uma visita, quem poderá ser?", mas sabia-se muito bem que só poderia ser o Sr. Swann; minha tia-avó, falando em voz alta para dar o exemplo, com um tom que se esforçava por tornar natural, dizia que não cochichassem daquela maneira; que nada é mais impolido para quem chega, que poderá imaginar, com isso, que se dizem coisas que não deve ouvir; e mandavam à frente, para tirar a limpo o que ocorria, a minha avó, sempre feliz por ter um pretexto para dar uma voltinha a mais pelo jardim e que aproveitava para arrancar às escondidas, ao passar, algumas estacas de roseiras, a fim de dar às rosas um aspecto mais natural, como uma mãe que encaracola os cabelos do filho porque o barbeiro os deixara muito lisos.

            Ficávamos todos na expectativa das novidades que minha avó iria trazer do inimigo, como se fosse possível hesitar entre um grande número de assaltantes eventuais, e logo após meu avô dizia: "Reconheço a voz de Swann." De fato, só se reconhecia a voz dele, mal se enxergava o rosto de nariz recurvo, olhos verdes, sob a testa larga rodeada de cabelos louros, quase ruivos, penteados à Bressant, porque acendíamos o menos possível de luz no jardim para não atrair os mosquitos, e eu ia, disfarçadamente, mandar dizer que trouxessem refrescos; minha avó achava muito importante, por lhe parecer mais amável, que os refrescos fossem servidos como por costume, e não de modo excepcional e unicamente para os visitantes.

            O Sr. Swann, embora muito mais jovem que meu avô, era bastante ligado a ele, que fora um dos melhores amigos de seu pai, homem excelente mas esquisito, a quem às vezes bastava uma ninharia, parece, para interromper os impulsos afetivos ou mudar-lhe o curso do pensamento. Várias vezes ao ano, eu ouvia meu avô contar à mesa sempre as mesmas anedotas sobre a atitude que Swann pai tivera por ocasião da morte da esposa, de quem cuidava dia e noite. Meu avô, que o não via há muito, correra para junto dele, na propriedade dos Swann que ficava nas redondezas de Combray; e conseguira fazê-lo deixar por um instante, todo em lágrimas, a câmara mortuária, para que não assistisse ao fechamento do caixão. Deram alguns passos pelo parque, onde brilhava um pouco de sol.

            De súbito, o velho Swann se pôs a gritar pegando o braço de meu avô: "Ah, meu velho amigo! Que felicidade passearmos juntos num dia tão lindo. Não acha bonito tudo isto, estas árvores, os espinheiros-alvares e o meu tanque? Você nunca me felicitou pelo meu tanque! Mas que cara triste é essa? Está sentindo o ventinho agora?

            Ah! por mais que se diga, existe ainda muita coisa boa na vida, meu caro Amédéel" Bruscamente a recordação da esposa morta lhe voltou, e achando muito complicado sem dúvida explicar como podia ter se deixado levar por um movimento de alegria num momento daqueles, contentou-se, com um gesto que lhe era familiar todas as vezes que uma questão difícil se apresentava a seu espírito, em passar a mão pela testa, enxugar os olhos e limpar os vidros do pince-nez. Não pôde, no entanto, consolar-se da morte da esposa, mas nos dois anos que lhe sobreviveu, dizia a meu avô: "É engraçado, penso muitas vezes na minha pobre mulher, mas não consigo pensar muito de cada vez." - "Muitas vezes, mas pouco de cada vez, como o pobre velho Swann", tornara-se uma das frases favoritas de meu avô, que ele pronunciava a propósito das mais diversas coisas. Esse velho Swann, na certa me pareceria um monstro, se meu avô, que eu considerava o melhor juiz e cujas sentenças faziam jurisprudência para mim, ajudando-me com freqüência a absolver faltas que me sentia propenso a condenar, não exclamasse: "Mas como? Era um coração de ouro!"

            Durante muitos anos, quando o Sr. Swann filho vinha nos visitar com freqüência em Combray, sobretudo antes do seu casamento, minha tia-avó e meus avós nunca suspeitaram que ele já não vivia na sociedade que sua família freqüentava e que, sob a espécie de incógnito que lhe aureolava em nossa casa esse nome de Swann, eles acolhiam-com a perfeita inocência de honrados hospedeiros que podem ter, sob seu teto, sem sabê-lo, um bandido célebre um dos membros mais elegantes do Jockey-Club, amigo predileto do conde de Paris e do príncipe de Gales, um dos homens mais cortejados da alta sociedade do bairro de Saint-Germain.

            Nossa ignorância acerca dessa brilhante vida mundana que Swann levava provinha evidentemente, em parte, da reserva e da discrição de seu temperamento, mas também do fato de que os burgueses da época faziam da sociedade uma idéia um tanto hindu, considerando-a como composta de castas estanques, nas quais cada um, desde o nascimento, se achava colocado na posição ocupada pelos pais, e de onde nada os poderia tirar para fazer penetrar em uma casta superior, a não ser pelo acaso de uma carreira excepcional ou de um casamento inesperado. O Sr. Swann pai tinha sido corretor; o "filho Swann" deveria, portanto, fazer parte a vida inteira de uma casta em que as fortunas, como numa certa categoria de contribuintes, variavam entre tal e tal renda. Sabia-se quais tinham sido as relações de seu pai, sabia-se, desse modo, quais seriam as suas, que espécie de pessoas estaria "em condições" de freqüentar. Se por acaso conhecesse outras, seriam simples relações de rapaz às quais os velhos amigos da família, como era o caso de meus pais, fechavam os olhos com benevolência, tanto mais que ele, mesmo depois de órfão, continuava a visitar-nos fielmente; mas seria de apostar que as pessoas, desconhecidas de nós, que ele freqüentava, eram dessas a quem ele não ousaria tirar o chapéu em nossa presença quando as encontrasse.

            Se se desejasse aplicar à viva força, a Swann, um coeficiente social próprio, dentre os outros filhos de corretores de situação idêntica a de seus pais, tal coeficiente não seria dos mais altos, pois Swann, de maneiras muito simples e tendo sempre a "mania" de objetos de antigüidade e pintura, morava agora numa velha casa onde ajuntava as suas coleções e que minha avó sonhava conhecer, mas que se situava no cais de Orléans, bairro em que minha tia-avó achava uma infâmia morar. "Mas o senhor é um conhecedor? Pergunto-lhe em seu próprio interesse, pois os comerciantes lhe devem impingir muitas porcarias", dizia-lhe minha tia-avó; de fato, ela não lhe atribuía competência alguma e nem sequer fazia uma alta idéia, do ponto de vista intelectual, do homem que na conversação evitava assuntos sérios e demonstrava uma precisão bastante prosaica não só quando nos dava, entrando nos mínimos detalhes, receitas culinárias, mas mesmo quando as irmãs de minha avó falavam de temas artísticos. Provocado por elas a dar a sua opinião, a exprimir sua admiração por um quadro, Swann mantinha um silêncio quase grosseiro, mas em compensação abria-se quando podia fornecer algum informe material sobre o museu onde tal quadro se encontrava, e sobre a data em que fora pintado. Porém de hábito contentava-se em procurar divertir-nos contando, de cada vez, uma história nova que lhe acabava de ocorrer com pessoas escolhidas entre as que conhecíamos, com o farmacêutico de Combray, com a nossa cozinheira, o nosso cocheiro. Certamente essas narrativas faziam rir a minha tia-avó, mas sem que ela percebesse bem se era por causa do papel ridículo que nelas Swann se atribuía sempre, ou pelo espírito com que as contava: "O senhor é um verdadeiro tipo, senhor Swann!"      Como ela era a única pessoa um tanto vulgar da nossa família, fazia questão de notar aos estranhos, quando se falava em Swann, que ele teria podido, se quisesse, morar no bulevar Haussmann ou na avenida da ópera, que era filho do Sr. Swann, que este lhe devia ter deixado uns quatro ou cinco milhões, e que isto de residir no cais de Orléans era simples capricho seu. Capricho que, de resto, ela julgava dever ser tão divertido para os outros que, em Paris, quando o Sr. Swann vinha, no dia 1° de janeiro, lhe trazer seu saquinho de marrons-glacês, ela não deixava

de lhe dizer, se havia estranhos: "Senhor Swann, quer dizer então que o senhor mora sempre perto do Entreposto de Vinhos, para ter certeza de não perder o trem quando vai para Lyon?" E olhava as outras visitas com o rabo dos olhos, por cima do pince-nez.

            Mas se houvessem dito à minha tia-avó que este Swann perfeitamente credenciado, dada a sua origem, para ser recebido por toda a "alta burguesia", pelos tabeliães e advogados mais ilustres de Paris (privilégio que ele parecia desdenhar um pouco)-tinha, como que às escondidas, uma vida inteiramente diferente; que, saindo de nossa casa, em Paris, depois de nos ter dito que iria dormir, arrepiava caminho mal dobrasse a esquina e se dirigia para um salão que nunca os olhos de um corretor ou sócio de corretor contemplaram, isso teria parecido tão incrível à minha tia como, para uma dama mais culta, a idéia de manter relações pessoais com Aristeu e de que este, depois de conversar com ela, iria mergulhar nos reinos de Tétis, um império oculto aos olhos dos mortais e onde Virgílio no-lo descreve acolhido de braços abertos; ou, para nos atermos a uma imagem de maior probabilidade de lhe ocorrer ao espírito, pois ela a havia visto pintada em nossos pratos de biscoito de Combray-que tivera no jantar Ali-Babá, o qual, quando se visse sozinho, penetraria na caverna a rebrilhar de tesouros insuspeitados.

            Um dia em que ele nos visitara em Paris após o jantar, desculpando-se por estar de casaca, dissera-nos Françoise, depois que partira, que soubera pelo cocheiro que ele jantara "na casa de uma princesa". "Sim, de uma princesa do demi-monde!", retrucara minha tia dando de ombros, numa ironia serena, sem erguer os olhos do tricô.

            Desse modo, minha tia-avó tratava-o com alguma superioridade. Como pensava que ele devia se sentir lisonjeado com nossos convites, achava muito natural que não nos visitasse, no verão, sem trazer à mão uma cestinha de pêssegos ou framboesas do seu jardim e que, de todas as suas viagens à Itália me trouxesse fotografias de obras-primas.

            Ninguém se sentia constrangido em mandar chamá-lo quando havia necessidade de molho gribiche ou de salada de ananás para os grandes jantares aos quais não o convidavam, já que não lhe atribuíam prestígio suficiente para ser apresentado aos estranhos que vinham pela primeira vez. Se a conversa recaía sobre os príncipes da Casa de França: "Pessoas que nem o senhor nem eu jamais conheceremos, nem fazemos questão de conhecer, não é mesmo?", dizia a minha tia-avó a Swann, que talvez trouxesse no bolso uma carta de Twickenham; e mandava-o empurrar o piano e virar as folhas nas noites em que a irmã de minha avó cantava, demonstrando para com aquela pessoa tão solicitada em outros lugares a ingênua rudeza de uma criança que brinca com um bibelô de coleção tão despreocupada como se fosse um objeto vulgar.

            Sem dúvida, o Swann conhecido por tantos sócios do clube àquela época era bem diverso do que minha tia criava em sua cabeça, quando à noitinha, no jardinzinho de Combray, após ressoarem os dois toques hesitantes da sineta, ela insuflava e vivificava, com tudo o que sabia sobre a família Swann, o personagem obscuro e incerto que se destacava, seguido de minha avó, sobre um fundo de trevas e que era reconhecido pela voz.

            Porém mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para todas as pessoas, e de que cada um não tem mais que tomar conhecimento, como se se tratasse de um livro de contabilidade ou de um testamento; nossa personalidade social é uma criação do pensamento alheio. Até o ato tão simples a que chamamos "ver uma pessoa que conhecemos" é em parte uma ação intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos a seu respeito, e, para o aspecto global que nos representamos, tais noções certamente entram com a maior parte. Acabam por arredondar tão perfeitamente as faces, por seguir com tão perfeita aderência a linha do nariz, vêm de tal forma matizar a sonoridade da voz como se esta fosse apenas um envoltório transparente, que, cada vez que vemos esse rosto e ouvimos essa voz, são essas as noções que reencontramos, que escutamos.

            Sem dúvida, no Swann que haviam construído para si mesmos, meus pais tinham omitido, por ignorância, uma multidão de particularidades de sua vida mundana que faziam com que outros, em sua presença, vissem todas as elegâncias dominar-lhe o rosto até o nariz recurvo, que era como que sua fronteira natural; mas também tinham podido acumular naquele rosto despojado de seu prestígio, vago e espaçoso, no fundo desses olhos depreciados, o suave e incerto resíduo um tanto memória, um tanto esquecimento-das horas ociosas passadas em nossa companhia após os jantares semanais, ao redor da mesa de jogo ou no jardim, durante a nossa vida de boa vizinhança campestre. E com tudo isto, de tal modo se enchera o envoltório corporal de nosso amigo, bem como de algumas recordações relativas a seus pais, que este Swann se tornara um ser completo e vivo e eu tenho a impressão de deixar uma pessoa para ir me encontrar com outra bem distinta quando, na minha memória, passo do Swann que conheci mais tarde em detalhe para esse primitivo Swann-no qual reencontro os erros encantadores da minha juventude, e que aliás se parece menos com o outro do que com as pessoas que conheci na mesma época, como se ocorresse em nossa vida o mesmo que num museu, onde todos os quadros de uma mesma época têm um ar de família, uma mesma totalidade-esse primitivo Swann cheio de lazeres, perfumado pelo aroma do grande castanheiro, do cestinho de framboesas e de um tantinho de estragão.

            No entanto, um dia em que minha avó tinha ido pedir um obséquio a uma dama que conhecera no Sacré-Coeur (e com a qual, devido à nossa concepção de castas, não quisera mais ter relações apesar de uma simpatia recíproca), a marquesa de Villeparisis da célebre família de Bouillon, esta lhe dissera: "Creio que você conhece bem o Sr. Swann, que é um grande amigo dos meus sobrinhos de Laumes." Minha avó regressara da visita entusiasmada com a mansão que dava para jardins e onde a Sra. de Villeparisis lhe aconselhara que alugasse casa, e também com um alfaiate e sua filha, cuja loja ficava no pátio e onde ela entrara para pedir que lhe dessem um ponto na saia, que fora rasgada na escadaria. Minha avó achara-os perfeitos, declarando que a menina era uma pérola e que o alfaiate era um homem muito distinto, o melhor que ela já vira. Pois para ela a distinção era algo absolutamente independente do nível social. Extasiava-se com uma resposta que o alfaiate lhe dera, dizendo a mamãe: "Sevigné não teria dito melhor!" e, por outro lado, a respeito de um sobrinho da Sra. de Villeparisis que encontrara em sua casa: "Ah, minha filha, como ele é vulgar!"

            Ora, a referência a Swann teve por efeito, não o de elevá-lo na consideração de minha tia-avó, e sim o de diminuir a Sra. de Villeparisis. Parecia que a consideração que, confiantes na minha avó, tributávamos à Sra. de Villeparisis lhe criasse o dever de não fazer coisa alguma que a tornasse menos digna, e a esse dever ela faltara ao tomar conhecimento da existência de Swann, ao permitir que seus parentes o freqüentassem. "Como, então ela conhece Swann? Para uma pessoa que você pretende seja parente do marechal de Mac-Mahon!" Essa opinião de meus pais sobre as relações de Swann lhes pareceu logo depois confirmada pelo seu casamento com uma mulher da pior sociedade, quase uma cocote que, aliás, ele nunca procurou apresentar, continuando a nos visitar sozinho, embora cada vez menos, mas segundo a qual julgavam poder avaliar na suposição de que lá a fora buscar-o meio, desconhecido deles, que ele freqüentava habitualmente.

            Mas, uma vez, o meu avô leu num jornal que o Sr. Swann era um dos mais fiéis convivas dos almoços dominicais do duque de X..., cujo pai e tio tinham sido os homens de Estado de maior evidência do reinado de Luís Filipe. Ora, meu avô era curioso de todos os pequenos fatos que poderiam auxiliá-lo a penetrar, em pensamento, na vida privada de homens como Molé, como o duque Pasquier, como o duque de Broglie. Ficou encantado ao saber que Swann freqüentava pessoas que os haviam conhecido.

            Ao contrário, minha tia-avó interpretou as novidades num sentido desfavorável a Swann: alguém que escolhesse suas relações fora da casta em que nascera, fora da sua "classe" social, sofria a seus olhos desqualificação lastimável. Parecia-lhe que desse modo se renunciava, de vez, aos frutos de todas as boas relações com pessoas bem situadas, que as famílias precavidas cultivavam e guardavam com honra para os filhos (minha tia-avó chegara ao ponto de ter deixado de ver o filho de um tabelião de nossos amigos porque se casara com uma alteza, e assim, descendo do nível respeitável, para ela, de filho de tabelião para o de um desses aventureiros, antigos mordomos ou moços de estrebaria, para quem se conta que as rainhas tinham às vezes algumas facilidades). Ela censurava o projeto de meu avô, que consistia em interrogar Swann, na primeira noite em que viesse jantar conosco, acerca desses amigos que lhe acabávamos de descobrir. Por outro lado, as duas irmãs de minha avó, solteironas que tinham o nobre caráter dela, mas não o seu espírito, declararam não compreender a satisfação que o cunhado podia achar em falar de semelhantes ninharias. Eram pessoas de aspirações elevadas e, por isso mesmo, incapazes de se interessar pelo que se chama uma bisbilhotice, ainda que de interesse histórico, e, de um modo geral, por tudo aquilo que não se ligasse diretamente a um objetivo estético ou moral. O desinteresse de seu pensamento era tal, quanto a tudo o que, de perto ou de longe, parecesse estar relacionado com a vida mundana, que o seu senso auditivo tendo por fim compreendido sua inutilidade momentânea desde que, ao jantar, a conversa assumia um tom frívolo ou unicamente terra-a-terra, sem que elas pudessem fazê-la retornar aos assuntos que lhes eram caros -, deixava portanto em repouso os seus órgãos receptores, fazendo-os sofrerem um verdadeiro princípio de atrofia. Se meu avô então tivesse necessidade de atrair a atenção das duas irmãs, precisava recorrer a essas advertências físicas, usadas pelos médicos alienistas no caso de certos maníacos distraídos: golpes repetidos num copo, com a lâmina de uma faca, coincidindo com uma brusca interpelação da voz e do olhar, meios violentos que os psiquiatras empregam muitas vezes nas relações comuns com pessoas sãs, seja por hábito profissional, seja por julgarem todo mundo um tanto louco.

            Elas ficaram mais interessadas quando, na véspera do dia em que Swann devia vir jantar, e lhes enviara pessoalmente uma caixa de vinho de Asti, minha tia, estendendo um número do Fígaro onde, ao lado do nome de um quadro que estava numa exposição de Corot, figuravam as seguintes palavras: "da coleção do Sr. Charles Swann", nos disse: "Viram que Swann tem “as honras” do fígaro?" - Mas eu sempre afirmei que ele tinha muito bom gosto-disse minha avó. "Naturalmente, você, desde o momento em que se trata de ter uma opinião diversa da nossa", retrucou a minha tia-avó que, sabendo que minha avó nunca era da mesma opinião que ela, e não tendo certeza que fosse a ela mesma que nós déssemos sempre razão, queria nos arrancar uma condenação em bloco das opiniões da minha avó, contra as quais procurava solidarizar-nos à força com as suas. Mas nós ficamos em silêncio. Tendo as irmãs de minha avó manifestado a intenção de falar a Swann sobre as palavras do fígaro, minha tia-avó as desaconselhou. Cada vez que ela descobria nos outros uma vantagem, por menor que fosse, e que ela descobria não possuía, persuadia-se que essa vantagem era um mal e, para não ter de invejá-los, lamentava-os. "Creio que não lhe dariam nenhum prazer; sei muito bem que me seria desagradável ver meu nome impresso com tanta evidência no jornal, e absolutamente não ficaria lisonjeada se me falassem nisso."

            No entanto, não se empenhou muito em persuadir as duas irmãs de minha avó, pois elas, por horror à vulgaridade, levavam tão longe a arte de dissimular sob paráfrases engenhosas uma alusão pessoal que esta quase sempre passava desapercebida da própria pessoa a quem se referia. Quanto à minha mãe, só pensava em conseguir de meu pai que consentisse em falar a Swann, não de sua mulher, mas de sua filha, que ele adorava e por causa de quem se dizia que afinal acabara por fazer aquele casamento. "Poderias lhe dizer só uma palavra, perguntar como vai ela. O caso deve ser tão cruel para ele." Mas meu pai se aborrecia: "Não! Tens idéias absurdas. Seria ridículo."

            Mas eu era o único de todos para quem a visita de Swann era motivo de uma dolorosa preocupação. Isto porque nas noites em que havia estranhos, ou somente o Sr. Swann, mamãe não subia para o meu quarto. Eu jantava antes de todos e a seguir vinha sentar-me à mesa, até às oito horas, quando estava convencionado que deveria deitar-me; esse beijo precioso e frágil que mamãe me dava de costume na cama, no momento em que ia dormir, era-me necessário transportá-lo da sala de jantar ao meu quarto e guardá-lo todo o tempo em que me despia, sem que sua doçura se partisse, sem que sua virtude se espalhasse e evaporasse, volátil, e justamente nessas noites em que precisava recebê-lo com as maiores precauções, via-me obrigado a pegá-lo, roubá-lo de súbito, publicamente, sem nem mesmo ter o tempo e a liberdade de espírito necessários para dar ao que fazia a atenção dos maníacos que se esforçam por não pensar em outra coisa enquanto fecham uma porta, para poderem, quando a incerteza mal sã lhes volta, lhe opor vitoriosamente a lembrança do momento em que fecharam.

            Estávamos todos no jardim quando ressoaram os dois toques hesitantes da sineta. Sabia-se que era Swann; entretanto, todos se entreolharam interrogativamente e minha avó foi enviada para um reconhecimento.

            "Tratem de lhe agradecer de modo inteligível pelo vinho; sabem muito bem que é delicioso e que a caixa é enorme", recomendou meu avô às duas cunhadas. "Não comecem a cochichar", disse minha tia-avó. "Há de ser bem agradável chegar a uma casa onde todos falam baixinho!"-"Ah! eis aqui o Sr. Swann. Vamos lhe perguntar se acha que vai fazer bom tempo amanhã", disse meu pai.

            Minha mãe julgava que só uma palavra sua poderia desfazer toda a mágoa que nossa família tivesse causado a Swann desde o seu casamento. Achou uma forma de desviar sua atenção por um momento. Mas eu segui-a; não podia me resolver a separar-me dela um só passo, pensando que daí a pouco teria de deixá-la na sala de jantar e subir para o meu quarto sem ter, como nas outras noites, o consolo de que ela fosse me dar um beijo.

            "Vamos, Sr. Swann", disse ela, "fale-me um pouco de sua filha; tenho certeza de que ela já tem gosto pelas obras de arte como o pai." - "Mas venham sentar-se conosco na varanda", disse meu avô, aproximando-se. Minha mãe foi obrigada a se interromper, mas até soube tirar desse contratempo mais um pensamento delicado, como os verdadeiros poetas a quem a tirania da rima obriga a fazer seus melhores achados: "Voltaremos a falar da sua filha quando estivermos sozinhos", disse ela a Swann, a meia voz. "Só mesmo uma mãe há de ser digna de compreendê-lo. Estou certa de que a mãe dela será da mesma opinião."

            Todos nos sentamos ao redor da mesa de ferro. Desejaria não pensar nas horas de angústia que iria passar sozinho no quarto sem poder dormir, procurava me convencer de que elas não tinham nenhuma importância, visto que as esqueceria na manhã seguinte, e tratava de me apegar a coisas futuras que me levariam, como uma ponte, para além do abismo próximo que me aterrorizava. Porém meu espírito tenso com essa preocupação, convexo como o olhar que eu dardejava sobre minha mãe, não se deixava permear por nenhuma impressão estranha. Na verdade os pensamentos entravam nele, mas sob a condição de deixarem do lado de fora todo elemento de beleza ou simplesmente de diversão que me distraísse ou emocionasse. Como um enfermo que, graças a um anestésico, pode assistir em plena lucidez à operação que nele é praticada, sem sentir coisa alguma, eu podia recitar para mim mesmo versos que apreciava e observar os esforços de meu avô para falar a Swann do duque de Audiffret-Pasquier, sem que os primeiros me causassem qualquer emoção e os segundos qualquer alegria. Tais esforços foram inúteis. Mal meu avô fizera a Swann uma pergunta relativa àquele orador, quando uma das irmãs de minha avó, a cujos ouvidos aquilo soara como um silêncio profundo mas inoportuno e que seria educado quebrar, interpelou a outra. "Imagina, Céline, que travei conhecimento com uma jovem governanta sueca que me deu detalhes muito interessantes sobre as cooperativas nos países escandinavos. Precisamos convidá-la qualquer dia desses para jantar aqui." - "Acredito!", respondeu sua irmã Flora, "mas eu também não perdi meu tempo. Encontrei, na casa do Sr. Vinteuil, um velho sábio e conhece muito Maubant, e a quem este explicou nos mínimos detalhes como se faz para preparar um papel. Nada mais interessante. É um vizinho do Sr. Vinteuil, eu não sabia; e é muito amável."-"Não é só o Sr. Vinteuil que tem vizinhos amáveis", exclamou minha tia Céline, com uma voz que a timidez fazia forte e a premeditação, falsa, lançando a Swann o que ela chamava de olhar significativo.

            Ao mesmo tempo, minha tia Flora, que compreendera que esta frase era o agradecimento de Céline pelo vinho de Asti, olhava também para Swann com um ar misto de congratulação e ironia, ou simplesmente para sublinhar o rasgo de espírito da irmã, seja por invejara Swann o tê-lo inspirado, seja ainda por não poder deixar de rir à sua custa por julgá-lo na berlinda. "Acho que poderemos conseguir que esse senhor venha jantar", continuou Flora, "quando a gente lhe dá corda sobre Maubant ou a Sra. Materna, ele fala horas sem parar."-"Deve ser delicioso", suspirou meu avô, em cujo espírito a natureza infelizmente se esquecera por completo de incluir a possibilidade de se interessar apaixonadamente pelas cooperativas suecas ou pela composição dos papéis de Maubant, assim como se esquecera de fornecer ao das irmãs de minha avó o grãozinho de sal que nós mesmos devemos acrescentar, para achar algum sabor, às narrativas sobre a vida íntima de Molé ou do conde de Paris. "Veja bem", disse Swann a meu avô, "o que vou lhe dizer tem mais relações do que parece com o que o senhor me perguntava, pois, sob certos aspectos, as coisas não mudaram muito. Esta manhã, eu estava relendo em Saint-Simon algo que o teria divertido. Está no volume sobre sua embaixada na Espanha; não é dos melhores, não passa de um diário, mas ao menos é um diário maravilhosamente bem escrito, o que já faz uma diferença em relação a esses diários aborrecidos que nos sentimos obrigados a ler de manhã e à noite." - "Não sou de sua opinião, há dias em que a leitura dos jornais me parece bem agradável...", interrompeu minha tia Flora, para mostrar que havia lido a frase sobre o Corot de Swann no figaro. "Quando falam de coisas ou de pessoas que nos interessam!", encareceu minha tia Céline. "Não digo que não", respondeu Swann espantado. "O que censuro nos jomais é o fato de nos obrigar a prestar atenção, todos os dias, em coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. Uma vez que rasgamos febrilmente, todas as manhãs, a faixa que envolve o jornal, então as coisas deviam ser mudadas e pôr no jornal, digamos, as Pensées de Pascal! (acentuou o título com ênfase irônica para não clara impressão de pedantismo). E no volume de corte dourado, que só abrimos uma vez a cada dez anos", acrescentou, testemunhando pelas coisas mundanas esse desdém que certas pessoas da sociedade afetam, "é que leríamos que a rainha da Grécia foi a Cannes ou que a princesa de Léon deu um baile à fantasia. Assim, estaria restabelecida a proporção justa." Mas, lamentando ter-se permitido falar de coisas sérias, mesmo de passagem, disse ironicamente: "Grande conversa a nossa! Não sei por que tocamos nesses “cumes” e, voltando-se para meu avô: "Portanto, Saint-Simon conta que Maulévrier é o tal de quem ele diz: ''Nunca vi nessa garrafa ordinária mais que mau humor, grosseria e asneiras."-"Ordinárias ou não, conheço garrafas em que há coisas bem diversas", disse Flora vivamente, fazendo questão de, ela também, agradecer

a Swann, pois o vinho de Asti era presente para ambas as irmãs. Céline se pôs a rir. Swann, atrapalhado, prosseguiu: "Não sei se foi ignorância ou esperteza', escreve Saint-Simon, 'mas a verdade é que ele pretendeu dar a mão a meus filhos. Percebi logo e pude evitá-lo." Meu avô já se extasiava com o 'ignorância ou esperteza', mas a Srta. Céline, em quem o nome de Saint-Simon um literato impedira a anestesia completa das faculdades auditivas, já se mostrava indignada: "Como? Você admira isso? Muito bem! Mas o que poderá isso querer dizer; que um homem não vale tanto quanto outro? Que importância tenha que seja duque ou cocheiro, se possui inteligência e bom coração? Boa maneira tinha o seu Saint-Simon de educar os filhos, se não lhes dizia que dessem a mão a todos os homens honestos. Mas é simplesmente abominável. E o senhor ousa citar uma coisa dessas?" E meu avô, consternado, sentindo, diante dessa obstrução, a impossibilidade de conseguir que Swann contasse as histórias que poderiam diverti-lo, dizia em voz baixa a mamãe: "Lembra-me então aquele verso que me ensinaste e que tanto me alivia em momentos assim. Ah, sim! 'Senhor, quantas virtudes me fazeis odiar.' Ah, como é bom!"

            Eu não desviava o olhar de minha mãe, sabia que quando estivessem à mesa não me permitiriam que ficasse até o fim da refeição, e que, para não contrariar meu pai, mamãe não me deixaria beijá-la várias vezes diante de todos, como se estivesse no meu quarto. Assim, prometi a mim mesmo, na sala de jantar, quando começassem a comer e eu sentisse aproximar-se a hora, que tiraria antecipadamente daquele beijo, que seria curto e furtivo, tudo o que pudesse extrair sozinho; escolher com o olhar o ponto da face em que a beijaria, preparar meu pensamento para poder, devido a esse começo mental de beijo, consagrar todo minuto que mamãe me concedesse para sentir sua face contra meus lábios, como um pintor, que só pode obter pequenas sessões de pose, prepara sua palheta e faz de memória, de acordo com seus apontamentos, tudo aquilo para o que pode, a rigor, prescindir do modelo. Mas eis que, antes de tocarem a sineta para o jantar, meu avô teve a ferocidade inconsciente de dizer: "O menino parece cansado; deveria subir para se deitar. Aliás, a gente janta bem tarde esta noite." E meu pai que não observava com tanto escrúpulo quanto minha avó e minha mãe o espírito dos tratados, disse: "Sim. Vamos, vai te deitar!" Eu quis beijar mamãe; nesse momento ouviu-se a sineta do jantar. "Não, não, larga a tua mãe, vocês já se despediram bastante, essas manifestações são ridículas. Vamos, sobe!"

            E tive de subir sem viático, tive de subir cada lanço da escada, como diz a expressão popular, "contra o coração", subindo contra o meu coração, que desejava voltar para junto de minha mãe porque ela não lhe dera, ao me beijar, licença de me seguir. Esses degraus detestados que eu subia sempre tão triste, exalavam um cheiro de verniz que de certa forma absorvera e fixara esse tipo particular de mágoa que eu voltava a sentir todas as noites e que a fazia talvez mais cruel agora, porque, sob esse aspecto olfativo, a minha inteligência não mais podia tomar parte nela.

            Quando dormimos e uma dor de dente ainda só nos é perceptível como uma moça que nos esforçamos duzentas vezes seguidas por tirar da água ou como um verso de Moliere que repetimos sem parar, é um grande alívio acordarmos e que nossa inteligência possa desembaraçar a idéia da dor de dente de qualquer disfarce heróico ou cadenciado. O inverso desse alívio era o que eu sentia quando o desgosto de subir para o quarto me penetrava de modo infinitamente mais rápido, quase instantâneo, a um tempo insidioso e brusco, por meio da inalação muito mais tóxica que a penetração moral -do odor do verniz característico dessa escada.

            Uma vez no quarto, era preciso fechar todas as saídas, trancar os postigos, cavar o meu próprio túmulo enquanto desfazia as cobertas, vestir o sudário da minha camisola de dormir. Mas antes de me sepultar no leito de ferro que haviam ajuntado ao quarto, pois eu sentia muito calor no verão sob as cortinas de creps do leito grande, tive um momento de revolta, e resolvi tentar um ardil de condenado. Escrevi a minha mãe, rogando que fosse até meu quarto para um caso grave que não podia dizer na carta.

            Meu medo era que Françoise, a cozinheira de minha tia que estava encarregada de cuidar de mim quando eu estava em Combray, se recusasse a entregar minhas palavras. Suspeitava que, para ela, dar um recado a minha mãe quando havia gente de fora, lhe parecesse tão impossível como para o porteiro de um teatro enviar uma carta a um ator enquanto ele está em cena. Para julgar as coisas que se devem ou não fazer, ela possuía um código imperioso, abundante, sutil e intransigente, com distinções imperceptíveis ou ociosas (o que lhe dava o aspecto dessas leis antigas que, ao lado das prescrições ferozes como massacrar as crianças ao peito das mães, proibem, com uma delicadeza exagerada, que se cozinhe o cabrito no leite da própria mãe ou que se coma o tendão de um animal). Esse código, a julgar pela súbita obstinação com que ela se negava a cumprir certas tarefas que lhe dávamos, parecia ter previsto complexidades sociais e refinamentos mundanos de tal espécie que nada no ambiente e na sua vida de doméstica da aldeia teria podido lhe sugerir; e era-se obrigado a confessar que existia nela um passado francês muito antigo, nobre e mal compreendido, como em algumas dessas cidades manufatureiras onde velhos palácios testemunham que teria havido outrora uma vida de corte, e onde os operários de uma fábrica de produtos químicos trabalham em meio a delicadas esculturas que representam o milagre de São Teófilo ou os quatro jovens Aymon.

            No meu caso particular, o artigo do código que fazia pouco provável que, salvo em caso de incêndio, Françoise fosse incomodar mamãe na presença do Sr. Swann devido a uma pessoa tão pouco importante como eu, exprimia apenas o respeito que ela professava não só pelos pais como pelos mortos, os padres e os reis mas também pelo estranho ao qual se dava hospitalidade, respeito que teria me emocionado em um livro, mas que sempre me irritava em sua boca, devido ao tom grave e enternecido que ela assumia para se referir a isto, e mais ainda naquela noite em que o caráter sagrado que ela atribuía ao jantar concorreria para que se negasse a perturbar a cerimônia.

            Mas, para ter uma probabilidade a meu favor, não hesitei em mentir e dizer que não era a mim que me ocorrera escrever a mamãe, e sim fora mamãe que me recomendara, quando nos separamos, que não esquecesse de lhe mandar uma resposta relativamente a um objeto que me pedira que procurasse; e ela certamente ficaria bastante aborrecida se não lhe enviasse um bilhete. Acho que Françoise não acreditou no que lhe disse, pois, como os homens primitivos cujos sentidos eram mais penetrantes que os nossos, percebia de imediato, por sinais imperceptíveis para nós, toda a verdade que procurávamos lhe esconder; durante uns cinco minutos, ela encarou o envelope, como se a análise do papel e o aspecto da escrita fossem elucidá-la quanto à natureza do conteúdo ou lhe informar a que artigo de seu código deveria se referir. Depois saiu com um ar resignado que parecia indicar: "É uma desgraça para os pais terem um filho desses!"

            Após um breve momento voltou para me dizer que ainda estavam tomando sorvetes e que era impossível ao mordomo entregar o bilhete agora, diante de todos; mas quando estivessem no lavabo, iria entrega-lo a mamãe. Logo diminuiu a minha ansiedade; já não era mais como há pouco, quando havia me separado de mamãe até o dia seguinte, visto que o bilhete, que decerto a deixaria zangada (e duplamente, porque essa manobra me faria ridículo aos olhos de Swann), pelo menos ia me fazer entrar, invisível e deslumbrado, na mesma peça em que ela se achava, ia falar-lhe de mim ao ouvido; visto que essa sala de jantar, proibida e hostil, onde, há um momento apenas, o próprio sorvete -ogranité-e os lavabos me pareciam encobrir prazeres malignos e mortalmente tristes porque mamãe os experimentava longe de mim, abria-se agora para mim e, como um fruto maduro que rompe sua casca, faria jorrar, expandindo até o meu coração inebriado a atenção de mamãe, enquanto ela lesse as minhas palavras.

            Agora já não me sentia mais separado dela; as barreiras haviam caído, um fio delicado nos reunia. E depois, aquilo não era tudo: sem dúvida, mamãe iria subir!

            A angústia que eu acabara de sentir, julgava que fosse motivo de zombaria para Swann se ele tivesse lido o meu bilhete e adivinhado o seu objetivo; ora, pelo contrário, como soube mais tarde, uma angústia semelhante foi o martírio de longos anos de sua vida, e ninguém melhor do que ele talvez pudesse compreendê-la: essa angústia que há em sentir o ser que se ama em um lugar de festa onde a gente não está, onde não é possível ir vê-lo, foi o amor que a fez conhecer, o amor ao qual ela está de certo modo predestinada, e que ele acaba por monopolizar e singularizar.

            Mas quando, como no meu caso, essa angústia nos invade antes de o amor ter feito sua aparição na nossa vida, ela fica flutuando a esperá-lo, vaga e livre, sem atribuição determinada, um dia a serviço de um sentimento, no dia seguinte de outro, ora a cargo da ternura filial, ora à disposição da amizade por um companheiro. E a alegria com que fiz o meu primeiro aprendizado, quando Françoise voltou para dizer que meu bilhete seria entregue, Swann também a conhecera muito, essa alegria enganadora que nos dá algum amigo, algum parente da mulher que amamos, quando, ao chegar à casa ou ao teatro em que ela está, para um baile, uma festa ou uma estréia, onde vai encontrá-la, esse amigo nos vê a vaguear do lado de fora, esperando desesperadamente uma ocasião para se comunicar com ela. Ele nos reconhece, aborda-nos com familiaridade, pergunta o que fazemos ali. E como inventamos ter algo urgente para dizer à sua parenta ou amiga, ele nos assegura que nada é mais simples, faz-nos entrar no vestíbulo e nos promete que em cinco minutos irá mandá-la ao nosso encontro. E como amamos-da mesma forma que, naquele momento, eu amava Françoise esse intermediário bem intencionado que, com uma palavra, nos faz suportável, humana e quase propícia a festa inconcebível, infernal, em cujo seio julgamos que turbilhões inimigos, perversos e deliciosos arrastam para longe de nós, fazendo rir de nós aquela a quem amamos. A julgar por ele, o parente que nos abordou e que é, também ele, um dos iniciados nos cruéis mistérios, os outros convidados da festa nada devem ter de muito demoníaco. Essas horas inacessíveis e suplicantes em que ela ia desfrutar prazeres desconhecidos, eis que, por uma abertura inesperada, nelas penetramos; eis que um dos momentos cuja sucessão as teria composto, um momento tão real como os outros, talvez mesmo mais importante para nós, pois a nossa amada tem maior participação nele, nós o percebemos agora, possuímo-lo, intervimos nele e é quase como se o tivéssemos criado: o momento em que alguém vai lhe dizer que estamos ali, embaixo. E é claro que os outros momentos da festa não deveriam ser de uma essência muito diversa dele, não deveriam ter nada mais delicioso e que tanto nos fizesse sofrer, visto que o amigo benévolo nos disse: "Mas ela ficará encantada em descer! Vai sentir muito mais prazer em conversar aqui com você do que em se aborrecer lá em cima." Infelizmente, e Swann tivera a experiência disso, as boas intenções de um terceiro não têm poder algum sobre uma mulher que se irrita por se sentir perseguida até numa festa por alguém que ela já não ama. Com freqüência, o amigo desce sozinho.

            Minha mãe não subiu e, sem qualquer consideração para com o meu amor-próprio (empenhado em que não se desmentisse a história de que ela estaria esperando uma resposta

de minha parte a respeito de um pedido seu), mandou-me dizer por Françoise as seguintes palavras: "Não há resposta", que muito mais tarde ouvi tantas vezes os porteiros dos palácios ou os empregados de clubes dizerem a alguma pobre moça que se surpreende: "Como, não disse nada, mas isso é impossível! Mas então o senhor não lhe entregou a minha carta. Está bem, vou esperar um pouco mais." E assim como ela afirma invariavelmente não ter necessidade da luz suplementar que o porteiro deseja acender para ela, e fica ali, ouvindo apenas as raras frases sobre o tempo trocadas entre o porteiro e um criado, a quem o primeiro, ao se dar conta da hora, manda de repente pôr no gelo a bebida de um freguês assim, eu, tendo recusado a oferta de Françoise de me fazer um chá ou de ficar comigo no quarto, deixei-a voltar para a copa, deitei-me e fechei os olhos, tentando não ouvir a voz de meus pais que tomavam café no jardim. Mas, passados alguns segundos, senti que, escrevendo o bilhete à mamãe, achegando-me com o risco de aborrecê-la, tão pertinho que já pensava atingir o instante de revê-la, perdera toda a possibilidade de dormir sem ater revisto, e as batidas do meu coração se tornavam de minuto a minuto mais dolorosas, porque eu aumentava a minha própria inquietação impondo-me uma calma que era a aceitação do meu infortúnio.

            De repente, diminuiu a minha ansiedade, uma felicidade me possuiu como quando um medicamento poderoso principia a agir e nos tira uma dor: eu acabava de tomar a resolução de não mais tentar dormir sem ter visto mamãe de novo, de beijá-la custasse o que custasse, quando ela subisse para se deitar, mesmo sabendo com certeza que ficaríamos brigados por muito tempo. A tranqüilidade resultante das minhas angústias findas me dava uma extraordinária alegria, não menos que a espera, a sede e o medo do perigo.

            Abri a janela sem ruído e sentei-me aos pés da cama; não fazia quase nenhum movimento para que não me ouvissem lá embaixo. Fora, as coisas, elas também, pareciam fixas numa atenção muda para não perturbar a luz da lua, que, duplicando e recuando os objetos por lhes estender à frente a sua sombra respectiva, mais densa e concreta que eles próprios, ampliava e diminuía a paisagem ao mesmo tempo, como um planisfério que se desdobrasse. O que tinha de se mover, algumas folhas do castanheiro, movia-se. Mas o seu fremir minucioso, total, executado até nos menores detalhes e nas extremas delicadezas, não se espalhava sobre o resto, nem se fundia com ele, permanecendo circunscrito.

            Expostos àquele silêncio que não absorvia nada, os rumores mais distantes, os que deviam vir dos jardins situados na outra extremidade da vila, se percebiam em tal "acabamento" que pareciam dever esse efeito de distância apenas ao seu pianíssimo, como esses motivos em surdina tão bem executados pela orquestra do Conservatório que, embora não lhes percamos uma só nota, julgamos entretanto ouvi-los longe da sala de concerto, e todos os velhos sócios-as irmãs de minha avó também, quando Swann lhes cedia as suas entradas aguçavam o ouvido, como se escutassem o longínquo avanço de um exército em marcha que ainda não tivesse dobrado a esquina da rua de Trévise.

            Sabia que o caso em que me metia era, de todos, o que me poderia trazer, da parte de meus pais, as conseqüências mais graves, na verdade bem mais graves do que poderia supor um estranho, conseqüências que ele só poderia admitir fossem causadas por faltas verdadeiramente vergonhosas. Porém, na educação que recebia, a ordem das faltas não era a mesma da educação das outras crianças e tinham-me habituado a colocar acima de todas as outras (pois sem dúvida não havia outras de que eu tivesse necessidade de sertão cuidadosamente preservado) aquelas cuja natureza comum consistia, como agora o compreendo, em nelas incorrer devido a um acesso de nervos.

            Mas então não pronunciavam tal expressão, não confessavam essa origem que poderia me levar a crer que eu era desculpável por ceder a tais acessos ou até ser, talvez, incapaz de lhes resistir. Mas essas faltas, eu bem as reconhecia pela angústia que as precedia como pelo rigor do castigo que acarretavam; e sabia que essa falta que acabara de cometer, ainda que infinitamente mais grave, pertencia à mesma família das outras pelas quais eu fora severamente punido. Quando me colocasse no caminho de minha mãe, no momento em que ela subisse para ir se deitar, e ela visse que eu ficara de pé para tornar a lhe dar boa-noite no corredor, não me deixariam mais permanecer na casa; mandar-me-iam para o colégio no dia seguinte, com certeza. Pois bem! mesmo que tivesse de me jogar pela janela cinco minutos depois, ainda assim isso era preferível. O que eu queria agora era mamãe, era dar-lhe boa-noite, já fora longe demais no caminho que me levava à realização desse desejo para poder voltar atrás.

            Ouvi os passos de meus pais que acompanhavam Swann; e, quando a sineta do portão me fez ver que ele acabara de partir, fui para a janela. Mamãe perguntava a meu pai se gostara da lagosta e se o Sr. Swann havia repetido o sorvete de café e o de pistache. "Não o achei grande coisa", disse mamãe, "creio que da próxima vez será preciso experimentar outra essência." - "Nem imagina como Swann mudou", acrescentou minha tia-avó, "parece um velho!"

            A tia-avó de tal maneira se habituara em ver sempre em Swann o mesmo adolescente, que se espantava por encontrá-lo de repente menos jovem do que a idade que lhe atribuía. E de resto, meus pais começavam a lhe achar aquela velhice anormal, excessiva, vergonhosa e merecida dos solteirões, de todos aqueles para quem parece que o grande dia que não tem amanhã há de ser mais longo que para os outros, pois para eles está vazio e os momentos vão se somando desde a manhã sem dividir-se depois entre os filhos. "Acho que tem preocupações de sobra com a libertina da mulher, que vive em Combray, como todos sabem, com um tal de Sr. de Charles. É o assunto da cidade."

            Minha mãe observou que, no entanto, fazia algum tempo que Swann parecia bem menos triste. "E já não faz tantas vezes aquele gesto do pai de esfregar os olhos e passar a mão pela testa. Acho que, no fundo, já não ama aquela mulher." - "Mas é claro que já não ama", concordou meu avô. "Recebi dele, faz algum tempo, uma carta a esse respeito, que de modo algum me convenceu, e que não deixa qualquer dúvida sobre os seus sentimentos, pelo menos quanto ao amor, quanto àquela mulher. Muito bem! Vejam", acrescentou voltando-se para as cunhadas, "vocês se esqueceram de lhe agradecer o vinho".-"Como é que não agradecemos? Aqui entre nós, acho que fui até bem delicada", respondeu minha tia Flora."Sim, você soube arranjar muito bem as coisas; cheguei a admirá-la", disse minha tia Céline. - "Mas você também se saiu muito bem." - "É verdade; fiquei satisfeita com minha frase sobre os vizinhos amáveis." - "Como, é a isso que chamam agradecer?", exclamou meu avô. "Bem que ouvi aquilo, mas o diabo me leve se percebi que se dirigia a Swann. Podem estar certas de que ele não entendeu nada." - "Que nada! Swann não é nenhum bobo, tenho certeza de que ele soube apreciar. É claro que eu não podia lhe falar do número das garrafas e do preço do vinho!"

            Meu pai e minha mãe ficaram sós, e sentaram-se um instante. Depois meu pai disse: "Bem, se quiser, vamos nos deitar." - "Se quiser, meu bom amigo, embora eu não tenha o menor sono; creio que não foi por causa desse inofensivo sorvete de café que estou tão desperta. Mas vejo luz na copa e, já que a pobre Françoise me esperou, vou lhe pedir para desamarrar o espartilho, enquanto você se despe." E minha mãe abriu a porta gradeada do vestíbulo que dava para a escada. Logo depois, ouvi que subia para fechar a janela. Fui sem barulho pelo corredor; meu coração batia tão forte que eu mal podia avançar, mas pelo menos já não batia de ansiedade, mas de terror e de alegria. No vão da escada, vi a luz projetada pela vela de mamãe. Depois, vi a ela própria; atirei-me ao seu encontro. No primeiro instante ela me olhou com espanto, não percebendo o que se passava. Logo, o seu rosto assumiu uma expressão de cólera; não me dizia uma só palavra e, com efeito, por muito menos já tinham deixado de falar comigo durante vários dias. Se mamãe me tivesse dito uma palavra, seria admitir que poderiam voltar a falar-me e, aliás, isso talvez parecesse ainda mais terrível, como um sinal que, diante da gravidade do castigo que se preparava, o silêncio e a zanga fossem pueris. Uma palavra teria significado a calma com que se responde ao criado quando se está resolvido a mandá-lo embora; ou o beijo que se dá a um filho ao mandá-lo para um quartel e que seria negado se tudo não passasse de uma briga de dois dias.

            Mas ela ouviu meu pai que subia do quartinho de vestir, onde fora tirara roupa, e, para evitara cena que ele me faria, me disse com a voz entrecortada de raiva: "Anda, anda, que pelo menos teu pai não te veja aqui esperando como um idiota!"

            Mas eu lhe repetia: "Vem me dar boa-noite", horrorizado ao ver que o reflexo da vela de meu pai já se erguia na parede, mas ainda usando a sua aproximação como forma de chantagear minha mãe, na esperança de que ela, para evitar que meu pai me encontrasse ainda ali se insistisse na sua recusa, afinal me dissesse: "Volta para o teu quarto; eu vou para lá." Era tarde demais, meu pai estava diante de nós. Sem querer, murmurei estas palavras que ninguém ouviu: "Estou perdido!"

            Mas não foi assim. Meu pai constantemente recusava-me vantagens que me haviam sido concedidas nos pactos mais generosos estabelecidos por minha mãe e minha avó, porque não se preocupava com "princípios" e para ele não havia "direito das gentes". Por um motivo eventual, ou até sem motivo, suprimia-me, no último instante, um passeio tão habitual, tão consagrado, que dele não seria possível privarem-me sem perjúrio, ou então, como o fizera ainda aquela noite, muito tempo antes da hora ritual, me dizia: ''Vamos, sobe para te deitar, e nada de desculpas!"        Mas exatamente por não ter princípios (no sentido de minha avó), não lhe era também possível atribuir intransigência. Olhou-me por um instante com ar entre espantado e furioso, e, depois que mamãe, com algumas palavras embaraçadas, lhe explicou o que ocorrera, ele disse: "Mas então vai com ele; já que justamente estavas dizendo que não tinhas sono, fica um pouco no quarto dele; quanto a mim, não preciso de nada." - "Mas, meu amigo", respondeu minha mãe com timidez, "que eu tenha sono ou não, não muda a situação, não podemos habituar essa criança..." - "Mas não se trata de habituar", disse meu pai dando de ombros, "bem vês que o menino está aflito, tem um ar desolado essa criança; vamos, nós não somos carrascos! Se ele adoecer por tua causa, muito trabalho vais ter! Já que há duas camas no quarto, vai dizer a Françoise para te preparar a cama grande e deita esta noite junto dele. Vamos, boa-noite, eu que não sou tão nervoso como vocês, vou me deitar."

            Não seria possível agradecer a meu pai; teria ficado aborrecido com o que chamava de pieguices. Não ousei fazer um movimento; ele ainda estava diante de nós, grande, em seu roupão de dormir de cor branca e a manta roxa e rosada de caxemira da Índia, com que enrolava a cabeça desde que sofria de nevralgias, na mesma atitude com que Abraão, segundo a gravura de Benozzo Gozzoli que o Sr. Swann me dera, dizia a Sara que era preciso se separar de Isaac. Faz muitos anos que isso aconteceu.

            A parede da escada, onde vi subir o reflexo de sua vela, há muito já não existe. Em mim, tantas coisas foram destruídas, coisas que eu julgava fossem durar para sempre, e se construíram novas, dando origem a penas e alegrias novas que eu não teria podido prever então, assim como as antigas se tornaram difíceis de compreender. Também há muito tempo meu pai deixou de poder dizer a mamãe: "Vai com o menino."

            A possibilidade de semelhantes horas nunca mais renascerá para mim. Porém, desde algum tempo recomeço a perceber muito bem, se apuro os ouvidos, os soluços que então consegui conter na presença de meu pai, e que só rebentaram quando fiquei a sós com mamãe. Na verdade, eles nunca cessaram; e é somente porque a vida se vai agora emudecendo cada vez mais a meu redor que os ouço de novo, como os sinos do convento que parecem tão silenciosos durante o dia por causa dos barulhos da cidade que os julgamos parados, mas que voltam a soar no silêncio da noite.

            Mamãe passou aquela noite no meu quarto; no momento mesmo em que eu acabara de cometer uma falta tamanha que esperava ser obrigado a deixar a casa, meus pais me davam mais do que eu nunca teria podido obter deles como recompensa de uma boa ação. Mesmo na hora em que se manifestava por esse ato de graça, a conduta de meu pai a meu respeito conservava algo de arbitrário e desmerecedor que a caracterizava, e que decorria em geral de que sua atitude resultava antes de convenções fortuitas do que de um plano premeditado. Talvez até o que eu chamava de sua severidade, quando mandava que me deitasse, merecesse menos este nome que a de minha mãe ou de minha avó, pois a natureza de meu pai, diferente ainda mais da minha, em certos aspectos, do que a delas, provavelmente não adivinhava até então o quanto eu me sentia infeliz todas as noites, o que a minha mãe e a minha avó sabiam muito bem; mas elas me amavam o bastante para não consentir que me poupassem o sofrimento, pois desejavam que eu aprendesse a dominá-lo a fim de diminuir a minha sensibilidade nervosa e fortalecer minha vontade.

            Quanto a meu pai, cuja afeição por mim era de outra espécie, não sei se teria tido essa coragem: uma vez que compreendera que eu estava sofrendo, dissera a minha mãe: "Vai consolá-lo." Mamãe ficou aquela noite no meu quarto e, como para não estragar com nenhum remorso aquelas horas tão diferentes do que eu tinha tido o direito de esperar, quando Françoise, compreendendo que estava se passando algo extraordinário ao ver mamãe sentada junto a mim, estendendo-me a mão e deixando-me chorar sem ralhar, lhe perguntou: "Mas senhora, que tem o patrãozinho para chorar assim?" mamãe lhe respondeu: "Nem mesmo ele sabe, Françoise, está nervoso; arrume depressa a cama grande e vá se deitar."

            Assim, pela primeira vez, minha tristeza não era considerada uma falta digna de castigo e sim um mal involuntário que se acabava de reconhecer oficialmente, como um estado nervoso pelo qual eu não era responsável; sentia o alívio de não ter mais de misturar escrúpulos à amargura das minhas lágrimas, podia chorar sem pecado. Meu orgulho também não era pequeno diante de Françoise, por aquela transformação das coisas humanas, tanto que, uma hora depois que mamãe se havia recusado a subir para o meu quarto, dando-me uma resposta desdenhosa, dizendo que eu deveria dormir, erguia-me à dignidade de grande personagem e fazia-me alcançar de súbito uma espécie de puberdade do desgosto, de emancipação das lágrimas. Deveria sentir-me feliz- e não era. Tinha a impressão de que minha mãe acabava de me fazer uma primeira concessão que lhe devia ser dolorosa, que aquilo era uma primeira abdicação, de sua parte, diante do ideal que concebera para mim, e que, pela primeira vez, ela, tão corajosa, se confessava derrotada. Parecia-me que, se eu acabava de obter uma vitória, era contra ela, pois conseguira quebrar sua vontade, dominar-lhe a razão, como o teriam feito a doença, os desgostos ou a idade; e que aquela noite principiava uma nova era, ficaria marcada como uma triste data. Se então eu tivesse ousado, teria dito a mamãe: "Não, não quero, não durma aqui." Mas eu conhecia aquela sabedoria prática, realista como se diria hoje, que, nela, matizava a natureza ardentemente idealista de minha avó, e sabia que, agora que o mal estava feito, ela preferia ao menos deixar-me desfrutar o prazer calmante dela, a incomodar meu pai.

            Com certeza, o belo rosto de minha mãe ainda esplendia de juventude nessa noite em que me estendia as mãos com tanta doçura, procurando estancar minhas lágrimas; porém parecia-me justamente que não deveria ser assim, que sua cólera me seria menos triste do que essa nova doçura que minha infância não havia conhecido; parecia-me que acabava, com mão ímpia e secreta, de traçar em sua alma uma primeira ruga e de lhe fazer aparecer o primeiro cabelo branco. Tal idéia redobrou meus soluços e então vi mamãe, que nunca se deixava levar a excessos de sentimentos comigo, dominada de repente pela minha emoção, tentar deter sua vontade de chorar. Como sentisse que eu o havia percebido, disse-me rindo: "Olha só o meu canarinho, que vai fazer sua mamãe tão boba como ele, por pouco que isto continue. Vamos, já que não tens sono, nem tampouco a tua mamãe, não vamos nos enervar, vamos fazer alguma coisa, pegar um dos teus livros." Mas eu não tinha nenhum ali. "Será que ficarias menos contente se eu te mostrasse agora os livros que a vovó deve te dar no aniversário? Pensa bem: não vais ficar desapontado de não ganhares nada depois de amanhã?"

            Ao contrário, eu estava encantado e mamãe foi buscar um pacote de livros, dos quais só pude adivinhar, através do papel que os envolvia, o formato oblongo, mas que, sob esse primeiro aspecto, embora sumário e velado, já eclipsavam a caixa de tintas do Ano-Novo e os bichos-da-seda do ano anterior. Eram La Mare au Díable, françoís e Champí, La petite Fadette e Les Maïtres Sonneurs. Minha avó, como soube mais tarde, escolhera a princípio as poesias de Musset, um volume de Rousseau e Indiana; pois, se julgava as leituras fúteis tão prejudiciais como os bombons e os pastéis, não achava que os grandes sopros do gênio tivessem sobre o espírito, mesmo o de uma criança, uma influência mais perigosa e menos vivificadora que, sobre o seu corpo, o ar livre e o vento do alto-mar. Porém como meu pai quase ativesse tratado de louca, ao saber que livros ela pretendia me dar, ela voltou pessoalmente à livraria de Jouy-le-Vicomte para que eu não corresse o risco de ficar sem presente (era um dia escaldante, ela passara tão mal que o médico advertiu minha mãe de que não deveria deixá-la cansar-se daquele modo) e se lançara aos quatro romances campestres de George Sand. "Minha filha", dizia ela a mamãe, "eu não podia me decidir a dar a esse menino algo que fosse mal escrito."

            Na realidade, nunca se resignava a comprar nada do qual não pudesse tirar proveito intelectual e sobretudo o que nos proporcionam as coisas belas, ensinando-nos a buscar o nosso prazer em outro ponto que não nas satisfações do bem estar e da vaidade. Mesmo quando precisava dar a alguém um presente chamado útil, quando tinha de dar uma poltrona, um serviço de mesa, uma bengala, ela procurava os "antigos", como se, tendo o seu longo desuso apagado todo o caráter de utilidade, eles parecessem antes dispostos a contar-nos a vida dos homens de antigamente do que a servir às necessidades da nossa. Gostaria que eu tivesse no quarto fotografias de monumentos ou das paisagens mais belas. Mas no momento de efetuar a compra, e embora a coisa reproduzida tivesse um valor estético, ela achava que a vulgaridade e a utilidade retomariam logo o seu posto pelo processo mecânico da reprodução, a fotografia. Tentava empregar uma artimanha: senão eliminar de todo a banalidade comercial, ao menos reduzi-la, substituí-la o máximo possível pelo que ainda fosse arte, de introduzir-lhe como que várias "espessuras" de arte: em vez de fotografias da catedral de Chartres, das cascatas de Saint-Cloud, do Vesúvio, informava-se com Swann para saber se algum grande pintor as teria representado, e preferia me dar fotografias da catedral de Chartres por Corot, das cascatas de Saint-Cloud por Hubert Robert, do Vesúvio por Turner, o que era um grau a mais de arte. Mas se o fotógrafo era desse modo eliminado da representação do monumento ou da paisagem, substituído por um grande artista, recuperava no entanto os seus direitos ao reproduzir essa mesma interpretação.          Tendo chegado ao último degrau da vulgaridade, ainda assim minha avó tratava de fazê-lo recuar mais. Perguntava a Swann se a obra não fora gravada, preferindo, sempre que possível, gravuras antigas e que tivessem um interesse fora de si mesmas por exemplo, as que representam uma obra-prima em um estado em que não mais podemos vê-la hoje (como a gravura da Ceia, de Leonardo, antes da sua degradação, por Morghen).

            É necessário dizer que os resultados dessa forma de compreender a arte de fazer um presente nem sempre foram muito brilhantes. A idéia que fiz de Veneza, de acordo com um desenho de Ticiano que tinha por fundo uma laguna, era certamente bem menos exata que a que me teriam dado simples fotografias. Já era impossível fazer o cálculo, quando minha tia-avó desejava estabelecer um requisitório contra minha avó, das poltronas por ela oferecidas a um jovem casal ou a velhos esposos, e que, à primeira tentativa feita para se servirem delas, desabavam logo ao peso de um dos destinatários. Mas minha avó teria julgado uma mesquinharia o preocupar-se com a solidez de um móvel onde ainda se viam uma flor, um sorriso, às vezes uma bela imaginação do passado. Até aquilo que nos móveis correspondia a uma necessidade, como se apresentasse de uma forma a que não estávamos habituados, encantava-a como os velhos modos de dizer em que vemos uma metáfora, apagada, em nossa linguagem atual, pelo desgaste do hábito.

            Ora, exatamente do mesmo jeito, os romances campestres de George Sand, que ela me dava como presente de aniversário, eram bem um mobiliário antigo, cheios de expressões caídas em desuso e convertidas em imagens que só encontramos no campo. E minha avó os havia comprado de preferência a outros, da mesma maneira como teria alugado, com mais gosto, uma propriedade onde houvesse um pombal gótico ou qualquer daqueles velhos objetos que exercem sobre o espírito uma influência benéfica, dando-lhe a nostalgia de impossíveis viagens no tempo.

            Minha mãe sentou-se junto da minha cama; pegara François le Champi, cuja capa avermelhada e título incompreensível lhe davam, para mim, uma personalidade distinta e uma atração misteriosa. Nunca havia lido romances de verdade.

            Ouvira dizer que George Sand era o tipo do romancista. Isto já me predispunha a imaginar, em François le Champi, algo de indefinível e delicioso. Os processos de narração destinados a excitar a minha curiosidade ou o enternecimento, certas maneiras de dizer que despertam a inquietude e a melancolia, e que o leitor de pouca instrução reconhece como comuns a muitos romances, pareciam-me simplesmente a mim, que considerava um livro novo não uma coisa que tivesse muitos semelhantes, mas uma personalidade única, que só em si possuísse motivo de existência uma emanação perturbadora da essência própria de François le Champi. Por sob esses acontecimentos tão corriqueiros, essas coisas tão comuns, eu sentia uma como que entonação, uma acentuação estranha. A ação se desenrolou; e me pareceu tanto mais obscura, visto que, naquele tempo, quando eu lia, devaneava muitas vezes, durante páginas inteiras, com o pensamento perdido em outra coisa. E às lacunas que essa distração deixava na narrativa, se acrescentava, quando era mamãe quem me lia em voz alta, o fato de que ela pulava todas as cenas de amor. Assim, todas as mudanças esquisitas que se operavam na atitude respectiva da moleira e do menino, e que têm sua explicação unicamente nos progressos de um amor nascente, pareciam-me impregnadas de um mistério profundo, cuja origem eu imaginava estar nesse nome desconhecido, e tão doce, de ''Champi", nome que atribuía, ao menino que o usava, e sem saber por que, sua cor viva, purpurina e encantadora. Se minha mãe era uma leitora infiel, era contudo, quanto às obras onde encontrava o tom de um sentimento verdadeiro, uma leitora admirável pelo respeito e a simplicidade da interpretação, pela beleza e a brandura do tom. Mesmo na vida, quando eram pessoas, e não obras de arte que lhe despertavam desse modo a admiração e a ternura, era tocante ver com que deferência ela afastava da voz, do gesto, das frases, um assomo de alegria que pudesse fazer mal à mãe que tinha outrora perdido um filho, toda referência a festa, a aniversário, que pudesse lembrar a um velho a sua idade avançada, todo assunto caseiro que pudesse ser aborrecido a um jovem sábio. Da mesma maneira, quando lia a prosa de George Sand, que respira sempre essa bondade, essa distinção moral que mamãe aprendera com minha avó a considerar como superiores a tudo o mais, e que só muito mais tarde eu deveria ensinar-lhe a não julgar também como superiores a tudo nos livros, atenta em banir da voz toda trivialidade, toda afetação que pudesse impedir o avanço daquela onda poderosa, ela dava toda a ternura natural, toda a ampla suavidade que exigiam, às frases que pareciam ter sido escritas para a sua voz e que, por assim dizer, cabiam por inteiro no registro de sua sensibilidade. Para feri-las no tom adequado, ela encontrava o acento cordial que lhes preexiste e as ditou, mas que as palavras não indicam; graças a esse acento, abrandava de passagem toda a crueza dos tempos verbais, dava ao imperfeito e ao pretérito perfeito a doçura que existe na bondade, a melancolia que há na ternura, dirigia a frase que ia terminando para aquela que ia começar, ora acelerando, ora retardando a marcha das sílabas a fim de fazê-las entrar, conquanto fossem diversas as suas quantidades, em um ritmo uniforme, insuflando a essa prosa tão comum uma espécie de vida sentimental e continuada.

            Meus remorsos já estavam acalmados, e eu me abandonava à doçura daquela noite em que tinha mamãe junto de mim. Sabia que uma noite dessas não podia ser renovada; que o meu maior desejo no mundo, ter mamãe no quarto durante essas tristes horas noturnas, era por demais contrário às necessidades da vida e ao sentimento de todos, para que a realização que lhe fora dada essa noite não fosse mais que uma coisa fictícia e excepcional. Amanhã voltariam minhas angústias e mamãe não ficaria comigo.

            Mas quando essas angústias estavam tranqüilizadas, eu não as compreendia mais; além disso, a noite seguinte ainda era algo remoto. Eu dizia comigo que teria tempo de refletir, embora esse tempo não me trouxesse nenhum poder a mais, pois se tratava de coisas independentes da minha vontade e que somente o intervalo que as separava ainda de mim parecia tornar mais evitáveis.

            Assim é que, durante muito tempo, quando, desperto de noite, me recordava de Combray, nunca pude rever mais que essa espécie de traço luminoso, recortado em meio a trevas indistintas, parecido com os que o acender de um fogo de artifício, ou qualquer projeção elétrica, iluminam e seccionam em um prédio cujas outras partes permanecem mergulhadas na noite: na base, bem larga, o pequeno salão, a sala de jantar, o trecho da aléia escura por onde chegaria o Sr. Swann, causador inconsciente de minhas tristezas, o vestíbulo de onde eu seguia para o primeiro degrau da escada, tão cruel de subir, que formava, sozinho, o tronco bem estreito daquela pirâmide irregular; e, no topo, meu quarto de dormir com o pequeno corredor de porta envidraçada para a entrada de mamãe; numa palavra, sempre visto à mesma hora, isolado de tudo o que podia haver em volta, destacando-se sozinho no escuro, o cenário estritamente necessário (como os que se vêem indicados em cima das velhas peças para as representações no interior) ao drama do meu deitar; como se Combray tivesse consistido apenas de dois andares ligados por uma escada estreita, e como se nunca fosse senão sete horas da noite. Para falar a verdade, poderia ter respondido a quem me interrogasse que Combray compreendia outras coisas e que existia em horas diferentes. Mas como o que na época eu lembrasse me seria fornecido exclusivamente pela memória voluntária, a memória da inteligência, e como as informações que ela nos dá sobre o passado nada conservam dele, nunca teria sentido interesse em imaginar o resto de Combray. Tudo aquilo, de fato, estava morto para mim. Morto para sempre? Era possível.

            Há muito de acaso em tudo isto, e um segundo acaso, o de nossa morte, não nos permite muitas vezes esperar por longo tempo os benefícios do primeiro. Acho bem razoável a crença céltica de que as almas das pessoas que perdemos se mantêm cativas em algum ser inferior, um animal, um vegetal, uma coisa inanimada, e de fato perdidas para nós até o dia, que para muitos não chega jamais, em que ocorre passarmos perto da árvore, ou entrarmos na posse do objeto que é sua prisão. Então elas palpitam, nos chamam, e tão logo as tenhamos reconhecido o encanto se quebra. Libertas por nós, elas venceram a morte e voltam a viver conosco.

            O mesmo se dá com o nosso passado. É trabalho baldado procurar evocá-lo, todos os esforços de nossa inteligência serão inúteis. Está escondido, fora de seu domínio e de seu alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria), que estamos longe de suspeitar. Tal objeto depende apenas do acaso que o reencontremos antes de morrer, ou que o não encontremos jamais.

            Fazia já muitos anos que, de Combray, tudo que não fosse o teatro e o drama do meu deitar não existia mais para mim, quando num dia de inverno, chegando eu em casa, minha mãe, vendo-me com frio, propôs que tomasse, contra meus hábitos, um pouco de chá. A princípio recusei e, nem sei bem porque, acabei aceitando. Ela então mandou buscar um desses biscoitos curtos e rechonchudos chamados madeleínes, que parecem ter sido moldados na valva estriada de uma concha de São Tiago. E logo, maquinalmente, acabrunhado pelo dia tristonho e a perspectiva de um dia seguinte igualmente sombrio, levei à boca uma colherada de chá onde deixara amolecer um pedaço da madeleíne.

            Mas no mesmo instante em que esse gole, misturado com os farelos do biscoito, tocou meu paladar, estremeci, atento ao que se passava de extraordinário em mim. Invadira-me um prazer delicioso, isolado, sem a noção de sua causa. Rapidamente se me tornaram indiferentes as vicissitudes da minha vida, inofensivos os seus desastres, ilusória a sua brevidade, da mesma forma como opera o amor, enchendo-me de uma essência preciosa; ou antes, essa essência não estava em mim, ela era eu. Já não me sentia medíocre, contingente, mortal. De onde poderia ter vindo essa alegria poderosa? Sentia que estava ligada ao gosto do chá e do biscoito, mas ultrapassava-o infinitivamente, não deveria ser da mesma espécie. De onde vinha? Que significaria? Onde apreendê-Ia? Bebi um segundo gole no qual não achei nada além do que no primeiro, um terceiro que me trouxe um tanto menos que o segundo. É tempo de parar, o dom da bebida parece diminuir. É claro que a verdade que busco não está nela, mas em mim. Ela a despertou mas não a conhece, podendo só repetir indefinidamente, cada vez com menos força, o mesmo testemunho que não sei interpretar e que desejo ao menos poder lhe pedir novamente e reencontrar intacto, à minha disposição, daqui a pouco, para um esclarecimento decisivo.             Deponho a xícara e me dirijo ao meu espírito. Cabe a ele encontrar a verdade. Mas de que modo? Incerteza grave, todas as vezes em que o espírito se sente ultrapassado por si mesmo; quando ele, o pesquisador, é ao mesmo tempo a região obscura que deve pesquisar e onde toda a sua bagagem não lhe servirá para nada. Procurar? Não apenas: criar. Está diante de algo que ainda não existe e que só ele pode tornar real, e depois fazer entrar na sua luz.

            E recomeço a me perguntar o que poderia ser esse estado desconhecido, que não apresentava nenhuma prova lógica, e sim a evidência de sua felicidade, de sua realidade, ante a qual as outras se desvaneciam. Quero tentar fazê-lo reaparecer. Pelo pensamento, retrocedo ao instante em que tomei a primeira colherada de chá, e encontro a mesma situação, sem qualquer luz nova. Peço a meu espírito mais um esforço, que me traga ainda uma vez a sensação que escapa. E, para que nada quebre o impulso com que ele vai procurar recuperá-la, afasto todos os obstáculos, toda idéia estranha, protejo meus ouvidos e minha atenção contra os rumores da sala ao lado. Porém, sentindo que o espírito se cansa sem proveito, forço-o, ao contrário, a aceitar a distração que lhe recusava, a pensar em outra coisa, a se refazer antes de uma tentativa suprema. Depois, pela segunda vez, faço o vácuo diante dele, e coloco-o de novo em face do sabor ainda recente daquele primeiro gole, e sinto palpitar em mim algo que se desloca, desejaria elevar-se, algo que teria se soltado a uma grande profundidade; não sei o que é, mas aquilo sobe devagar; experimento a resistência e ouço o rumor das distâncias atravessadas.

            Certamente, o que palpita desse modo bem dentro de mim, deve ser a imagem, a lembrança visual, que, ligada a esse sabor, tenta segui-lo até mim. Mas debate-se muito longe, muito confusamente; mal percebo o reflexo neutro em que se confunde o inatingível turbilhão de cores remudadas; e não consigo distinguir a forma, pedir-lhe como ao único intérprete possível, que me traduza o testemunho de sua contemporânea, de sua companheira inseparável, pedir-lhe que me diga de que circunstância particular, de que época do passado se trata.

            Será que vai chegar até a superfície de minha clara consciência, essa lembrança, o instante antigo que a atração de um instante idêntico veio de tão longe solicitar, comover, erguer do fundo de mim? Não sei. Agora não sinto mais nada, parou, desceu de novo talvez; quem sabe se nunca mais voltará de sua noite? Dez vezes é preciso que eu recomece, que me debruce para ele. E, a cada vez, a canseira que nos desvia de toda tarefa difícil, de toda obra importante, me aconselhou largar aquilo, beber meu chá pensando apenas nos aborrecimentos de hoje, nos desejos de amanhã, que se deixam remoer sem fadiga.

            E de súbito a lembrança me apareceu. Aquele gosto era o do pedacinho de madeleine que minha tia Léonie me dava aos domingos pela manhã em Combray (porque nesse dia eu não saía antes da hora da missa), quando ia lhe dar bom-dia no seu quarto, depois de mergulhá-lo em sua infusão de chá ou de tília. A vista do pequeno biscoito não me recordara coisa alguma antes que o tivesse provado; talvez porque, tendo-o visto desde então, sem comer, nas prateleiras das confeitarias, sua imagem havia deixado aqueles dias de Combray para se ligar a outros mais recentes; talvez porque, dessas lembranças abandonadas há tanto fora da memória, nada sobrevivesse, tudo se houvesse desagregado; as formas e também a da pequena conchinha de confeitaria, tão gordamente sensual sob as suas estrias severas e devotas tinham sido abolidas, ou, atormentadas, haviam perdido a força de expansão que lhes teria permitido alcançar a consciência. Mas, quando nada subsiste de um passado antigo, depois da morte dos seres, depois da destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis porém mais vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, o aroma e o sabor permanecem ainda por muito tempo, como almas, chamando-se, ouvindo, esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, levando sem se submeterem, sobre suas gotículas quase impalpáveis, o imenso edifício das recordações.

            E logo que reconheci o gosto do pedaço da madeleine mergulhado no chá que me dava minha tia (embora não soubesse ainda e devesse deixar para bem mais tarde a descoberta de por que essa lembrança me fazia tão feliz), logo a velha casa cinzenta que dava para a rua, onde estava o quarto dela, veio como um cenário de teatro se colar ao pequeno pavilhão, que dava para o jardim, construído pela família nos fundos (o lanço truncado que era o único que recordara até então); e com a casa, a cidade, da manhã à noite e em todos os tempos, a praça para onde me mandavam antes do almoço, as ruas aonde eu ia correr, os caminhos por onde se passeava quando fazia bom tempo. E como nesse jogo em que os japoneses se divertem mergulhando numa bacia de porcelana cheia de água pequeninos pedaços de papel até então indistintos que, mal são mergulhados, se estiram, se contorcem, se colorem, se diferenciam, tornando-se flores, casas, pessoas consistentes e reconhecíveis, assim agora todas as flores do nosso jardim e as do parque do Sr. Swann, e as ninféias do Vivonne, e a boa gente da aldeia e suas pequenas residências, e a igreja, e toda Combray e suas redondezas, tudo isso que toma forma e solidez, saiu, cidade e jardins, de minha xícara de chá.

            Combray, de longe, num raio de dez léguas, vista da estrada de ferro quando aí chegávamos na última semana antes da Páscoa, não passava de uma igreja que resumia a cidade, representando-a, falando dela e por ela às distâncias, e, quando a gente se aproximava, mantinha cerrado em torno de seu alto manto sombrio, em pleno campo, contra o vento, como uma pastora às suas ovelhas, o dorso lanoso e cinzento das casas reunidas que um resto de muralhas da Idade Média cingia cá e lá num traço tão perfeitamente circular como uma cidadezinha num quadro de pintores primitivos. Para morar, Combray era um tanto triste, assim como suas ruas, cujas casas, construídas de pedras escuras da região, precedidas de degraus exteriores, com telhados salientes que faziam sombra, eram tão escuras que, mal começava a cair a tarde, era necessário erguer as cortinas nas "salas"; ruas de nomes graves de santos (dos quais, alguns estavam ligados à história dos primeiros senhores de Combray): rua Saint-Hilaire, rua Saint-Jacques, onde ficava a residência da minha tia, rua Sainte Hildegarde, para onde davam as grades, e rua do Saint-Esprit, para a qual se abria a pequena porta lateral do seu jardim; e essas ruas de Combray existem em uma parte tão recuada de minha memória, adornada de cores tão diversas das que agora revestem o mundo para mim, que na verdade me parecem todas, bem como a igreja que as dominava da Praça, mais irreais ainda que as projeções da lanterna mágica; e em certos instantes, parece-me que poder ainda cruzar a rua de Saint-Hilaire, poder alugar um quarto na rua de I'Oiseau -a velha hospedaria do Oiseau Flesché, de cujos respiradouros subia um cheiro de cozinha que, intermitente e cálido, se ergue ainda em mim, em alguns momentos seria entrar em contato com o Além de modo mais maravilhoso e sobrenatural do que travar conhecimento com Golo e de conversar com Genevieve de Brabant.

            A prima de meu avô minha tia-avó-, em cuja casa morávamos, era a mãe desta tia Léonie, a qual, desde a morte do marido, meu tio Octave, não mais quisera deixar, primeiro Combray, depois em Combray, a sua casa, e depois o seu quarto, e por fim o seu leito, e não mais "descia", sempre deitada num estado incerto de desgosto, debilidade física, doença, idéia fixa e devoção. Seu aposento particular dava para a rua de Saint-Jacques, que terminava muito além, no Grand-Pré (em oposição ao Petit-Pré, verdejante no meio da cidade, entre três ruas), e que, uniforme e pardacenta, com os três altos degraus de pedra diante de quase todas as portas, assemelhava-se a um desfiladeiro feito por um entalhador de imagens góticas na mesma pedra em que houvesse esculpido um presépio ou um calvário. Minha tia, de fato, só habitava dois quartos contíguos, ficando de tarde num enquanto o outro era arejado. Eram desses quartos da província que-assim como em certas regiões há porções inteiras do ar e do mar iluminadas ou perfumadas por miríades de protozoários que não vemos nos encantam com mil aromas que neles exalam as virtudes, a sabedoria, os hábitos, toda uma vida secreta, invisível, super abundante e moral que a atmosfera ali mantém em suspensão; aromas naturais ainda, é certo, e cor do tempo como os do campo vizinho, mas já caseiros, humanos e encerrados, fina geléia industriosa e límpida de todos os frutos do ano, que largaram o pomar pelo armário; aromas sazonais, mas mobiliários e domésticos, corrigindo o travo picante da geada com a doçura do pão quente, ociosos e pontuais como um relógio de aldeia, vagabundos e ordeiros, despreocupados e previdentes, roupeiros, matinais, devotos, felizes de uma paz que só proporciona um aumento de ansiedade, e de um prosaísmo que serve de grande reservatório de poesia àquele que a atravessa sem ter vivido ali.

            Aquele ar era saturado da fina flor de um silêncio tão nutritivo, tão suculento, que eu por ali só andava com uma espécie de gula, principalmente nas primeiras manhãs ainda frias da semana da Páscoa, quando melhor o saboreava pois acabava de chegar em Combray: antes que entrasse para cumprimentar a minha tia, faziam-me esperar um instante no primeiro quarto, onde o sol, ainda de inverno, viera se aquecer diante da lareira, já acesa entre dois ladrilhos e que enchia toda a peça de um odor de fuligem, tornando-a como uma dessas grandes "bocas de forno" do campo, ou desses panos de chaminé dos castelos, sob os quais nos vem o desejo de que lá fora rebente a chuva, a neve, ou mesmo uma catástrofe diluviana para acrescentar ao conforto da reclusão a poesia da invernada; eu dava alguns passos do genuflexório até as poltronas de veludo encorpado, sempre revestidas de cabeceiras de croché; e o fogo, cozinhando como a uma massa os aromas apetitosos de que se achava repleto o ar do quarto e que já tinham sido trabalhados e "erguidos" pelo frescor úmido e ensolarado da manhã, folheava-os, dourava-os, enrugava-os, estufava-os, e deles fazia um invisível e palpável bolo provinciano, uma imensa torta em que, mal degustados os odores mais picantes, mais finos, mais respeitados, mas também mais secos do armário embutido, da cômoda, do papel de ramagem, eu sempre voltava, com uma cobiça inconfessa, a me besuntar no cheiro medíocre, pegajoso, insípido, indigesto e frugal da colcha de flores.

            No quarto vizinho, eu ouvia a minha tia que conversava consigo mesma a meia voz. Ela só me falava bem baixinho porque julgava ter dentro da cabeça algo quebrado e flutuante que poderia se deslocar se falasse muito alto, mas nunca ficava muito tempo, mesmo sozinha, sem dizer alguma coisa, pois achava que isso era saudável para a garganta e que, impedindo o sangue de estancar, aquilo faria menos freqüentes as sufocações e as angústias de que sofria; além disso, na inércia absoluta em que vivia, atribuía às suas menores sensações uma importância enorme; dotava-as de uma tal mobilidade que lhe era difícil guardá-las para si mesma, e, à falta de confidente a quem pudesse comunicá-las, anunciava-as a ela própria, num monólogo perpétuo que era sua única forma de atividade. Infelizmente, tendo adquirido o hábito de pensar em voz alta, ela nem sempre atentava em que não houvesse ninguém no quarto ao lado, e muitas vezes eu a escutava dizendo a si mesma: "Preciso me lembrar que não dormi" (pois nunca dormir era a sua grande pretensão, pretensão de que toda a nossa linguagem conservava as marcas e o respeito: de manhã, Françoise não vinha "acordá-la" e sim "entrava" no seu quarto; quando minha tia desejava fazer uma sesta durante o dia, dizia-se que ela queria "refletir" ou "repousar"; e quando lhe ocorria, na conversa, esquecer-se ao ponto de dizer "o que me acordou" ou "sonhei que", enrubescia e se corrigia logo).

            Após um instante, eu entrava para beijá-la; Françoise preparava-lhe o chá; OU, quando minha tia estava nervosa, pedia em vez do chá a sua tisana e eu é que estava encarregado de derramar do saco da farmácia em um pires a quantidade de tília que se devia pôr depois na água fervendo. O ressecamento das hastes as encurvara numa treliça caprichosa em cujo entrelaçamento se abriam as flores pálidas, como se um pintor as tivesse arranjado, expondo-as da maneira mais ornamental. As folhas, tendo perdido ou modificado seu aspecto, sugeriam as coisas mais disparatadas, uma asa transparente de mosca, o reverso branco de um selo, uma pétala de rosa, porém coisas que tivessem sido empilhadas, calçadas ou trançadas como na confecção de um ninho. Mil pequenos detalhes inúteis-encantadora prodigalidade do farmacêutico-que teriam sido suprimidos em um preparado habitual, me davam, como um livro em que a gente se maravilha por encontrar o nome de uma pessoa conhecida, o prazer de compreender que eram mesmo hastes de tílias verdadeiras, como as que eu via na avenida da Estação, modificadas, justamente por serem de verdade e não cópias, e que tinham envelhecido. E sendo cada nova característica apenas a metamorfose de uma característica antiga, eu reconhecia, nas bolinhas cinzentas, os botões verdes que não tinham chegado a vingar; mas sobretudo o brilho cor-de-rosa, lunar e suave com que as flores se destacavam na frágil floresta de hastes onde estavam suspensas como pequeninas rosas de ouro-sinal, como a luz pálida que ainda revela num muro o local de um afresco apagado, da diferença entre as partes do arbusto que tinham sido "coloridas" e as que não o foram -, me mostrava que essas pétalas eram exatamente aquelas que, antes de florirem o saco da farmácia, haviam embalsamado as noites de primavera.

            Essa chama rosa de círio era ainda a sua cor, mas meio extinta e adormecida nessa vida diminuída que era a sua agora, e que é como o crepúsculo das flores. Em breve minha tia estava em condições de mergulhar, na infusão fervente de que saboreava o gosto de folha morta ou de flor murcha, uma pequena madeleine, da qual me estendia um pedaço quando estivesse bem amolecida.

            Ao lado de sua cama havia uma grande cômoda amarela de limoeiro e uma mesa que era, a um tempo, um depósito de remédios e um altar-mor, onde, debaixo de uma estatueta da Virgem e de uma garrafa de Vichy-Célestins, podiam se encontrar missais e receitas médicas, tudo o que era necessário para seguir da cama os ofícios divinos e o regime, para que não perdesse a hora da pepsina nem a das Vésperas. Do outro lado do leito estava a janela; assim, ela tinha a rua a seus olhos, e aí costumava ler da manhã à noite, para não se enfadar, à moda dos príncipes persas, a crônica diária mas imemorial de Combray, que a seguir comentava com Françoise.

            Não estava com minha tia mais que cinco minutos, quando ela me mandava embora de medo que a deixasse cansada. Ofertava a meus lábios a testa pálida e murcha, sobre a qual, àquela hora da manhã, ainda não arranjara a cabeleira postiça, onde as vértebras transpareciam como pontas de uma coroa de espinhos ou contas de um rosário, dizendo: "Adeus, minha pobre criança, vá, vá se preparar para a missa; e, se encontrar Françoise lá embaixo, diga-lhe que não perca muito tempo com vocês e suba em seguida para ver se não preciso de alguma coisa." De fato, Françoise, que estava a seu serviço há muitos anos e não duvidava então que um dia passaria ao nosso, descuidava-se um pouco da minha tia nos meses em que estávamos lá. Houve uma época, na minha infância, antes que fôssemos a Combray, quando a tia Léonie ainda passava o inverno em Paris na casa de sua mãe, época em que eu conhecia tão pouco Françoise que, no dia 1° de janeiro, antes de entrar na casa da minha tia-avó, mamãe me punha na mão uma moeda de cinco francos, dizendo: "Principalmente não te enganes de pessoa. Para dar essa moeda, espera que eu diga: 'Bom-dia, Françoise'; e ao mesmo tempo vou te tocar de leve o braço." Mal chegávamos à obscura antecâmara da minha tia, percebíamos na sombra, sob as abas de uma touca ofuscante, tesa e frágil, como se fosse de açúcar desfiado, os redemoinhos concêntricos de um sorriso de antecipada gratidão. Era Françoise, imóvel e de pé no enquadramento da pequena porta do corredor, como uma estátua santa no seu nicho. Quando a gente já se habituava a essas trevas de capela, distinguia em seu rosto o amor desinteressado da humanidade, o respeito carinhoso pelas altas classes, exaltado nas melhores regiões de seu coração pela esperança das boas-festas. Mamãe me beliscava o braço com violência, dizendo em voz forte: "Bom-dia, Françoise."

            A este sinal, meus dedos se abriam e eu deixava a moeda, que encontrava, para recebê-la, uma mão confusa, mas estendida. Mas desde que começamos a ir a Combray eu não conhecia ninguém melhor que Françoise, éramos os seus preferidos, ela sentia por nós, ao menos nos primeiros anos, junto com a mesma consideração que tributava à minha tia, um gosto mais vivo, pois, ao prestígio de fazer parte da família (e dedicava aos laços invisíveis, que cria, entre os membros de uma família a circulação de um mesmo sangue, tanto respeito como um trágico grego), nós acrescentávamos o encanto de não sermos seus patrões habituais. Assim, com que alegria nos dava boas-vindas, lamentando que não fizesse melhor tempo à nossa chegada, na véspera da Páscoa, quando muitas vezes soprava um vento glacial, e mamãe lhe perguntava pela filha e pelos sobrinhos, e se o seu neto era bom menino, o que pretendiam fazer dele, e se era parecido com a avó. E, quando já não mais havia ninguém por perto, mamãe, que sabia que Françoise ainda chorava os pais mortos há muitos anos, lhe falava deles com ternura, perguntava-lhe mil detalhes do que havia sido a sua vida.

            Adivinhara que Françoise não gostava do genro e que este lhe estragava o prazer que tinha em estar com a filha, com quem não podia conversar em liberdade quando ele estava presente. Assim, quando Françoise ia vê-los, a algumas léguas de Combray, mamãe lhe dizia sorrindo: "Se Julien for obrigado a se ausentar e você tiver que ficar sozinha com Marguerite o dia todo, seria uma pena; mas não há de ser nada, não é mesmo?" E Françoise respondia, rindo: "A senhora sabe de tudo; é pior que os raios X (ela dizia X com uma dificuldade fingida e um sorriso, para zombar de si mesma, uma ignorante, por empregar um tal termo científico), os raios X que mandaram buscar para a Sra. Octave e que vêem o que nós temos no coração", e desaparecia, confusa por se preocuparem com ela, talvez para que não a vissem chorar; mamãe era a primeira pessoa a lhe dar essa doce emoção de sentir que sua vida, seus prazeres e pesares de camponesa podiam oferecer interesse, ser motivo de alegria ou de tristeza para outrem. Minha tia se resignava a privar-se um pouco dela durante a nossa temporada, sabendo o quanto minha mãe apreciava o serviço dessa criada tão ativa e inteligente, que se apresentava tão perfeita às cinco da manhã na cozinha, com sua touca cujas abas deslumbrantes e fixas pareciam de porcelana, quanto para ir à missa cantada; que fazia tudo bem, trabalhando como um cavalo, estivesse de saúde boa ou não, mas sem barulho, sem dar a impressão de não fazer nada, a única criada da minha tia que, quando minha mãe pedia água quente ou café preto, trazia-os fervendo; era uma dessas serviçais que, numa casa, desagradam à primeira vista aos estranhos, talvez porque não se incomodem em conquistá-los, nem se mostram em ser solícitas, sabendo muito bem que não necessitam deles, e que os de casa preferiram deixar de recebê-los a despedi-las; e, por outro lado, são as que mais se afeiçoam aos patrões, que puseram à prova sua verdadeira capacidade e não se importam com esse agrado superficial, essa tagarelice bajulatória que causa boa impressão a uma visita, mas que encobre muitas vezes uma nulidade irremediável.

            Quando Françoise, depois de ter cuidado para que nada faltasse do que meus pais precisavam, subia uma primeira vez para o quarto da minha tia para lhe ministrar sua pepsina e perguntar o que iria tomar no almoço, era bem raro que não lhe fosse pedida uma opinião ou que fornecesse explicações sobre um acontecimento importante:

            -Françoise, imagine que a Sra. Goupil passou mais de um quarto de hora atrasada para ir buscar a irmã; por pouco que se demore no caminho, não me surpreenderia que chegasse depois da Elevação.

            -E não seria de espantar-respondia Françoise.

            - Françoise, se você tivesse chegado cinco minutos antes, teria visto passar a Sra. Imbert com aspargos duas vezes mais grossos que os da tia Callot; procure saber pela criada onde foi que os obteve. Você, que este ano põe aspargos em todos os molhos, poderia arrumar alguns desses para os nossos viajantes.

            - Não seria de admirar se viessem da horta do senhor cura respondia Françoise.

            -Ah! Pois sim! Da horta do senhor cura! retrucava minha tia dando de ombros.-Você sabe bem, minha pobre Françoise, que ele quase não consegue uns pobres aspargos de nada. Garanto que os que vi agora há pouco eram grossos como um braço. Não como o seu, é claro, mas como o meu pobre braço, que emagreceu tanto este ano. Françoise, você não ouviu essa campainha que quase me rebentou a cabeça?

            - Não, senhora Octave.

            -Ah, minha pobre filha. Você tem uma cabeça bem firme, graças a Deus! Era a Maguelone que tinha vindo procurar o doutor Piperaud. Ele saiu imediatamente com ela e dobraram a rua de I'Oiseau. Deve haver uma criança doente.

            -Ah, meu Deus-suspirava Françoise, que não podia ouvir falar de uma desgraça acontecida a um desconhecido, mesmo numa parte distante do mundo, sem começar a gemer.

            - Françoise, mas por quem então tocaram a finados? Ah, meu Deus! Será pela Sra. Rousseau. Pois não é que me esqueci que ela morreu a noite passada! Ah, já é tempo que o bom Deus me chame, não sei mais o que fiz da minha cabeça desde a morte do meu pobre Octave. Mas estou fazendo você perder seu tempo, minha filha.

            -Ora, não, senhora Octave. Meu tempo não é assim tão caro. Quem fez o tempo não o vendeu para a gente. Só vou ver se o fogo não se apagou.

            Desse modo, minha tia e Françoise passavam em revista, juntas, no decurso daquela sessão matinal, os primeiros acontecimentos do dia. Estes acontecimentos, no entanto, revestiam-se às vezes de um caráter tão misterioso e grave que minha tia não conseguia esperar o momento de Françoise subir, e quatro toques violentos de campainha ressoavam pela casa.

            - Mas, senhora Octave, ainda não é hora da sua pepsina-dizia Françoise. -Teve alguma fraqueza?

            - Claro que não, Françoise dizia minha tia isto é, sim, você bem sabe que agora são muito raros os momentos em que não me sinto um pouco tonta. Um dia morrerei como a senhora Rousseau, sem ter tido tempo de me confessar; mas não foi por isso que toquei a campainha. Acredita que acabo de ver, como estou vendo você, a Sra. Goupil passar com uma menina que não conheço. Vá comprar um pouco de sal no Camus. Será estranho que Théodore não possa dizer quem seja.

            - Mas deve ser a filha do Sr. Pupin dizia Françoise, que preferia ater-se a uma explicação imediata, visto que já fora ao Camus duas vezes naquela manhã.

            -A filha do Sr. Pupin? Ora, minha pobre Françoise, você acha que eu não a conheceria?

            - Mas não falo da mais velha, senhora Octave. Quero dizer a garota, a filha que está num pensionato em Jouy; parece-me que já a vi esta manhã.

            - Ah, só se é isso dizia minha tia. - Deve ter chegado para as Festas. É isso! Não é preciso indagar, ela veio para as Festas. Mas então poderemos daqui a pouco ver a Sra. Sazerat bater à porta da irmã para almoçar. É isto! Vi o garoto do Galopin passar com um empadão! Você vai ver como era para a casa da Sra. Goupil.

            -Já que a Sra. Goupil tem visitas, senhora Octave, não deveremos tardar em ver os convidados para o almoço, pois já está ficando tarde dizia Françoise que, com pressa de descer para cuidar da comida, não desgostava de deixar à minha tia a perspectiva daquela distração.

            - Oh, não antes do meio-dia respondia minha tia em tom resignado, lançando ao pêndulo um olhar inquieto, mas furtivo, para não dar a perceber que ela, que renunciara a tudo, achava entretanto, só em saber quem a Sra. Goupil teria ao almoço, um prazer imenso, e que, infelizmente, demoraria ainda um pouco mais de uma hora. -E, ainda por cima, será na hora do meu almoço-acrescentou a meia voz para si mesma. Seu almoço era-lhe uma distração bastante para que ela não desejasse outra na mesma ocasião. - Não se esqueça, pelo menos, de me dar os ovos com creme num prato raso, ouviu? - Eram os únicos pratos ornados de decorações e minha tia se divertia, em cada refeição, a ler a legenda que lhe traziam. Punha os óculos e decifrava: Ali Babá e os quarenta ladrões, Aladim e a lâmpada maravilhosa, e dizia sorrindo:

            - Muito bem, muito bem.

            - Eu bem que iria ao Camus... dizia Françoise, sabendo perfeitamente que minha tia não a mandaria mais.

            - Não, não vale a pena, com certeza é a Srta. Pupin. Minha pobre Françoise, lastimo tê-la feito subir para nada.

            Mas minha tia sabia muito bem que não era por nada que tocara chamando Françoise, pois, em Combray, uma pessoa "que ninguém conhecia" era um ser tão inacreditável como um deus mitológico, e na verdade não havia lembrança de que, a cada vez que ocorresse, na rua do Saint-Esprit ou na praça, uma dessas aparições espantosas, pesquisas bem conduzidas não tivessem afinal reduzido a personagem fabulosa às proporções de uma "pessoa que a gente conhece", seja pessoal ou abstratamente, em seu estado civil, com tal ou qual grau de parentesco com pessoas de Combray. Ou era o filho da Sra. Sauton, que voltava do serviço, ou a sobrinha do abade Perdreau que saía do convento, ou o irmão do cura, preceptor em Châteaudun, que acabava de se aposentar ou tinha vindo passar as Festas. Ao vê-los, as pessoas sentiam a emoção de crer que houvesse, em Combray, gente desconhecida, só porque não fora logo reconhecida ou identificada. E, no entanto, muito tempo antes, a Sra. Sauton e o cura haviam avisado que estavam esperando seus "viajantes". Quando ao voltar, à tarde, eu subia para contar nosso passeio à minha tia, se acaso tinha a imprudência de lhe dizer que havíamos encontrado, perto de Pont-Vieux, um homem que meu avô não conhecia: "Um homem que o avô não conhecia!", gritava ela. "Ah, não pode ser!" Não obstante, um tanto emocionada com a novidade, queria estar com a consciência tranqüila, meu avô era chamado. "Quem foi então que o senhor encontrou perto de Pont-Vieux, meu tio? Um homem que não conhecia?" - "Sim", respondia meu avô, "era Prosper, irmão do jardineiro da Sra. Bouilleboeuf." - "Ah, bem" dizia minha tia, sossegada e um pouco enrubescida; dando de ombros com um sorriso irônico, acrescentava: "Pois este aqui me contou que o senhor havia encontrado um homem que não conhecia!" E recomendaram-me que fosse mais discreto de outra vez e que não agitasse mais a minha tia com palavras irrefletidas. De tal maneira se conhecia todo mundo em Combray, pessoas e animais, que se minha tia visse casualmente passar um cão "que ela não conhecesse", não deixava de pensar no assunto e de consagrar a esse fato incompreensível os seus talentos de detetive e suas horas de liberdade.

            - Deve ser o cachorro da Sra. Sazerat-dizia Françoise, sem muita convicção, mas com o objetivo de sossega-la e para que minha tia não "quebrasse a cabeça".

            - Como se eu não conhecesse o cachorro da Sra. Sazerat! retrucava minha tia, cujo espírito crítico não admitia um fato com tanta facilidade.

            -Ah, será então o cachorro novo que o Sr. Galopin trouxe de Lisieux. - Ah, só se é isso!

            - Parece que é um animal bem bonzinho acrescentava Françoise, que obtivera informações com Théodore-, inteligente como uma pessoa, sempre de bom humor, sempre amável, sempre um tanto gracioso. Não é comum que um animal tão novinho já seja tão galante. Senhora Octave, preciso deixá-la, não tenho tempo para me distrair, já são dez horas, o forno ainda não está aceso e eu ainda tenho de ralar meus aspargos.

            - Mas como, Françoise, ainda mais aspargos! Mas é uma verdadeira febre de aspargos que você tem este ano! Assim vai acabar enjoando os nossos parisienses!

            - Mas não, senhora Octave, eles gostam muito disto. Vão voltar da igreja com apetite e a senhora verá que não vão comê-los com a ponta do garfo.

            - Mas eles já devem estar na igreja; você faz muito bem em não perder tempo. Vá cuidar do almoço.

            Enquanto minha tia se distraía com Françoise, eu acompanhava meus pais à missa. Como gostava da nossa igreja, como a revejo bem agora! O velho pórtico pelo qual entrávamos, negro, bexiguento como uma espumadeira, estava desviado e como que cavado profundamente nos ângulos (assim como a pia de água benta para onde nos levava), como se o ligeiro roçar dos mantos das camponesas entrando na igreja, e de seus dedos tímidos tomando a água benta, pudessem, repetindo-se através dos séculos, adquirir uma força destrutiva, recurvar a pedra e entalhá-la de sulcos como os traça a roda das carroças no marco onde bate todos os dias. Suas pedras tumulares, sob as quais a nobre poeira dos abades de Combray, ali enterrados, conferia ao coro uma espécie de pavimento espiritual, já não eram também matéria inerte e dura, pois o tempo as fizera suaves, fazendo-as escorrer, feito mel, para fora dos limites de sua própria esquadria, que aqui haviam sobrepujado em uma onda amarela, arrastando à deriva uma maiúscula gótica em flores, afogando as violetas brancas do mármore; ou então voltavam a absorver-se em outros pontos, ainda mais contraindo a elíptica inscrição latina, introduzindo um capricho a mais na disposição desses caracteres abreviados, reaproximando duas letras de uma palavra que as outras tinham distendido desmesuradamente.

            Os vitrais nunca se irisavam tanto como nos dias em que o sol se mostrava pouco, de modo que, por mais cinzento estivesse o céu lá fora, tinha-se a certeza de que haveria bom tempo na igreja; um era ocupado em toda a sua grandeza por um único personagem semelhante a um Rei de baralho, que vivia lá no alto, sob um dossel arquitetônico, entre o céu e a terra (e em cujo reflexo oblíquo e azul, às vezes, nos dias úteis, ao meio-dia, quando não há ofício religioso-num desses raros instantes em que a igreja arejada, vazia, mais humana, luxuosa, com o sol batendo no seu rico mobiliário, tinha um aspecto quase habitável como o hall de pedra esculpida e vidro pintado de um palácio de estilo medieval -via-se ajoelhar por um momento a Sra. Sazerat, depondo no genuflexório ao lado um pacote bem amarrado de bolinhos que acabara de comprar na pastelaria defronte e que ia levar para o almoço); em outro, uma montanha de neve rosada, em cujo sopé travava-se uma batalha, parecia ter gelado o próprio vidro a que insuflava de seu granizo turvo, como uma vidraça onde ficassem flocos, mas flocos iluminados por alguma aurora (pela mesma, sem dúvida, que avermelhava o retábulo do altar de tons tão frescos que pareciam antes postos ali por um clarão vindo de fora e quase a se esvanecer do que pelas cores impressas para sempre nas pedras); e todos eram tão antigos que se via, aqui e ali, a sua velhice prateada faiscar com a poeira dos séculos e expor, brilhante e gasta até a corda, a trama da sua doce tapeçaria de vidro. Havia um vitral que estava em um compartimento alto, dividido em uma centena de vitrais pequenos e retangulares, onde predominava o azul, como um grande jogo de cartas semelhantes aos que deviam distrair o rei Carlos VI; mas ou porque brilhasse um raio de sol, ou porque o meu olhar, movendo-se, passeasse pelos vitrais que se apagavam e reacendiam um precioso e movediço incêndio, um instante após o vitral tomava o esplendor mutável de uma cauda de pavão, e depois tremulava e ondulava numa chuva flamejante e fantástica que gotejava do alto da abóbada sombria e rochosa, ao longo das paredes úmidas, como se eu seguisse meus pais, que levavam seu livro de orações, pela nave de alguma gruta irisada de sinuosas estalactites; um momento depois, os pequenos vitrais em forma de losango haviam tomado a transparência profunda, a intangível dureza de safiras que tivessem sido justapostas a um imenso peitoral, mas por trás das quais se sentia, mais amado que todas essas riquezas, um sorriso momentâneo do sol; e esse sorriso era tão reconhecível na onda azul e doce, com que ele banhava as pedrarias, como sobre o pavimento da praça ou a palha do mercado; e, mesmo nos primeiros domingos quando chegávamos antes da Páscoa, ele me consolava do fato de que a terra ainda era negra e nua, fazendo estender, como numa primavera histórica e que datava dos sucessores de São Luís, aquele dourado e ofuscante tapete de miosótis em vidro.

            Duas tapeçarias de trama especial representavam o coroamento de Ester (a tradição insistia que se desse a Assuero os traços de um rei da França e a Ester os de uma dama de Guermantes da qual estava enamorado); suas cores, fundindo-se, acrescentavam às figuras uma expressão, um relevo, uma iluminação singular: um pouco de cor-de-rosa flutuava nos lábios de Ester além do desenho do contorno, o amarelo de seu manto se espalhara tão untuosamente, de maneira tão cheia, que adquiria uma espécie de consistência e se erguia vivamente sobre a atmosfera recuada; e a verdura das árvores, permanecendo viva nas partes baixas do planejamento de seda e lã, mas tendo "passado" pelo alto, fazia destacarem-se num tom mais pálido, acima dos troncos escuros, os altos galhos amarelados, dourados, e como que meio apagados pela brusca e oblíqua iluminação de um sol invisível.

            Tudo isso e mais ainda os objetos preciosos, trazidos à igreja por personagens que, para mim, eram quase personagens lendários (a cruz de ouro trabalhada, dizia-se, por Santo Elói e doada por Dagoberto, o túmulo dos filhos de Luís, o Germânico, em pórfiro e cobre esmaltado) e por causa de quem eu avançava pela igreja, quando nos dirigíamos aos nossos lugares, como por um vale visitado por fadas, onde o camponês se deslumbra ao ver num rochedo, numa árvore, num pântano, o sinal palpável de sua passagem sobrenatural, tudo isso fazia que ela fosse para mim algo inteiramente diverso do resto da cidade: um edifício que ocupava, por assim dizer, um espaço quadridimensional -a quarta dimensão sendo a do Tempo-, impelindo pelos séculos o seu batel que, de abóbada em abóbada, de capela em capela, parecia vencer e transpor não apenas alguns metros, mas épocas sucessivas de onde saía vitorioso; escondendo o rude e feroz século XI na espessura de suas paredes, de onde mal se mostrava com seus pesados arcos tapados e escurecidos por grosseiros blocos de pedra, na cavidade profunda que a escada do campanário abria junto ao pórtico e, mesmo assim, dissimulado pelas graciosas arcadas góticas que se apresentavam gentilmente diante dele como irmãs mais velhas que se colocam, sorrindo, diante de um irmãozinho rústico, resmungão e mal vestido, para escondê-lo aos olhos dos estranhos; elevando ao céu, acima da praça, sua torre, que fora contemplada por São Luís e parecia vê-lo ainda; e mergulhando com sua cripta em uma noite merovíngia onde, guiando-nos às apalpadelas debaixo da abóbada obscura e fortemente nervurada como a membrana de um morcego imenso, Théodore e sua irmã nos iluminavam com uma vela o túmulo da neta de Sigeberto, em cuja laje havia uma profunda valva-como o rastro de um fóssil -e que fora cavada, segundo se dizia, "por uma lâmpada de cristal que, na noite do assassinato da princesa franca, se destacara das correntes de ouro em que ela fora presa, no local hoje ocupado pela abside, e, sem que o cristal se quebrasse, afundara na pedra, que cedeu molemente ao seu peso".

            A abside da igreja de Combray, será que se pode falar a seu respeito? Era tão grosseira, tão desprovida de beleza artística e até de inspiração religiosa! Do lado de fora, como o cruzamento das ruas para o qual ela dava era em declive, a rudeza do seu muro se erguia de um embasamento de blocos de pedra toscos, eriçados de pedregulhos, e que nada possuía de particularmente eclesiástico; as janelas dos vitrais pareciam estar fixadas a uma altura excessiva, e o conjunto dava mais a idéia de uma prisão que de uma igreja. É certo que, mais tarde, quando me lembrava de todas as gloriosas ábsides que vira, nunca me ocorria compará-las com a abside de Combray. Apenas um dia, ao dobrar uma rua provinciana, percebi, no cruzamento de três ruelas, um muro muito malfeito e alto demais, com vitrais abertos lá em cima e oferecendo o mesmo aspecto assimétrico da ábside de Combray. Então não me perguntei, como em Chartres ou em Reims, com que força se exprimira o sentimento religioso, mas exclamei involuntariamente: "A igreja!"

            A igreja! Familiar, paredes-meias, na rua de Saint-Hilaire, onde ficava a porta que dava para o norte, com suas duas vizinhas, a farmácia do Sr. Rapin e a casa da Sra. Loiseau, em que tocava sem qualquer separação; simples cidadã de Combray que poderia ter um número na rua, se as ruas de Combray tivessem números, e onde parece que o carteiro deveria parar de manhã ao fazer a distribuição, antes de chegar à casa da Sra. Loiseau e ao sair do estabelecimento do Sr. Rapin, havia, entretanto, entre ela e tudo o mais, uma delimitação que meu espírito nunca chegou a ultrapassar. A Sra. Loiseau debalde cultivava fúcsias na janela, as quais tinham o mau hábito de deixar seus ramos correrem às cegas, e cujas flores nada tinham de mais urgente que fazer, quando já grandes, que refrescar as faces congestionadas, cor-de-violeta, na fachada sombria da igreja, e nem por isso aquelas fúcsias se tornaram mais sagradas para mim: entre as flores e a pedra enegrecida em que se apoiavam, mesmo que meus olhos não distinguissem um intervalo, meu espírito erguia um abismo.

            Desde bem longe já se reconhecia o campanário de Saint-Hilaire, inscrevendo sua silhueta inesquecível no horizonte onde Combray ainda não aparecia; quando no trem que, na semana da Páscoa, nos trazia de Paris, meu pai avistava aquela torre que deslizava por todos os pontos do céu, fazendo correr em todos os sentidos o seu pequeno galo de ferro, dizia-os: ''Vamos, ajuntem as mantas, já chegamos."

            E num dos maiores passeios que dávamos em Combray, havia um local em que a estradinha estreita desembocava de súbito num imenso platô limitado no horizonte por uns bosques de recorte irregular, atrás dos quais só aparecia afina agulha do campanário de Saint-Hilaire, mas tão delgada, tão rósea, que dava a impressão de estar apenas riscada a unha no céu, por alguém que quisesse dar àquela paisagem, àquele quadro que só era natureza, um pequeno toque de arte, esta única indicação humana.

            Quando a gente se aproximava e podia ver o restante da torre quadrada e meio destruída que, menos alta que o campanário, subsistia a seu lado, ficava impressionado principalmente pelo tom avermelhado e sombrio das pedras; e, numa manhã brumosa de outono, poderia se dizer que era uma ruína de púrpura quase da cor da vinha virgem, elevando-se acima do roxo tempestuoso das vinhas.

            Muitas vezes, na praça, de volta para casa, minha avó me fazia parar para olhá-lo. Das janelas de sua torre, dispostas duas a duas, umas acima das outras, nessa proporção exata e original das distâncias que não apenas aos rostos humanos confere beleza e dignidade, o campanário largava, deixava cair em intervalos regulares revoadas de corvos que, por um momento, volteavam grasnando, como se as velhas pedras que os deixavam à vontade, sem parecer vê-los, tornando-se de súbito inabitáveis e, desencadeando um princípio de agitação infinita, os tivessem batido e expulso. Por fim, depois de terem riscado em todos os sentidos o veludo violáceo do céu da tarde, bruscamente calmos, voltavam a se recolher à torre, que de nefasta passava a propícia; alguns, pousados aqui e ali, pareciam imóveis, mas talvez estivessem

bicando algum inseto, na extremidade da torrinha do sino, como uma gaivota parada com a imobilidade de um pescador na crista de uma onda. Sem saber muito bem porque, minha avó achava no campanário de Saint-Hilaire aquela ausência de vulgaridade, de pretensão, de mesquinharia, que a fazia amar e julgar ricas de influência benéfica, tanto a natureza, quando a mão do homem não a tivesse diminuído, como fazia o jardineiro da minha tia-avó a emendá-la, como as obras do gênio. E, sem dúvida, qualquer parte da igreja a distinguia de qualquer outro prédio por uma espécie de pensamento que lhe era próprio; porém, era no campanário que ela parecia tomar consciência de si mesma, reafirmar uma existência individual e responsável. Era ele quem falava por ela. Sobretudo, creio que de modo confuso, minha avó encontrava no campanário de Combray aquilo que, para ela, tinha mais valor no mundo, o ar natural e distinto. Ignorante em arquitetura, dizia: "Meus filhos, riam de mim se quiserem, talvez não esteja bem dentro das regras, mas o seu velho vulto esquisito me agrada. Estou certa de que, se essa torre tocasse piano, não o faria sem alma." E, ao contemplá-la, seguindo com os olhos a suave tendência, a inclinação untuosa das vertentes de pedra que se reaproximavam, erguendo-se como mãos postas a rezar, minha avó de tal modo se uma à efusão da agulha que seu olhar parecia elevar-se ao alto com ela; e, ao mesmo tempo, sorria amistosamente para as velhas pedras gastas, que o pôr-do-sol iluminava apenas no alto, e que, a partir do instante em que penetravam nessa região ensolarada, suavizadas pela luz, pareciam de repente erguer-se bem mais alto, longínquas, como um canto reiniciado em voz de falsete, uma oitava acima.

            Era o campanário de Saint-Hilaire que dava a todas as ocupações, a todas as horas, a todos os pontos de visão da cidade, a sua figura, o seu arremate, a sua consagração.

            Do meu quarto, eu só podia avistar-lhe a base, que fora recoberta de ardósias; mas quando, no domingo, numa quente manhã de verão, eu o via a flamejar como um sol negro, dizia comigo: "Meu Deus! São nove horas! Tenho que me preparar para ir à missa cantada, se quero ter tempo para ir dar um beijo na tia Léonie antes", e sabia exatamente a cor do sol sobre a praça, o calor e a poeira do mercado, a sombra projetada pelo estoire da loja onde mamãe talvez entrasse antes da missa, no meio do cheiro de pano cru, para comprar um lenço que o patrão, cheio de mesuras, lhe mostrava, tendo vindo dos fundos da loja para fechá-la e onde fora passar seu terno domingueiro e ensaboar as mãos que tinha o costume, a cada cinco minutos, mesmo nas mais melancólicas circunstâncias, de esfregar uma na outra com ar de triunfo, de ousadia e de esperteza.

            Quando, após a missa, entrávamos para dizer a Théodore que levasse um bolo maior que de costume porque nossos primos tinham aproveitado o bom tempo para vir de Thiberzy almoçar conosco, a gente ficava com o campanário à nossa frente, e ele, também dourado e cozido como um grande bolo bento, com as escamas e os gotejamentos gomosos do sol, fincava a ponta aguda no céu azul. E à tardinha, quando eu voltava do passeio, e pensava no momento em que teria de dizer boa-noite à minha mãe e não vê-la mais, ele se mostrava tão doce, no dia que findava, que parecia posto e afundado, como uma grande almofada de veludo castanho, sobre o céu empalidecido que cedera sob sua pressão, arqueando-se ligeiramente para lhe dar lugar e refluindo nas bordas; e os gritos dos pássaros que voejavam a seu redor pareciam aumentar o seu silêncio e lançar ainda a sua flecha, dando-lhe algo de inefável.

            Mesmo quando percorríamos o caminho por trás da igreja, no ponto em que já não era mais visto, tudo parecia ordenado em relação ao campanário, que surgia aqui e ali entre as casas, talvez ainda mais emocionante quando assomava assim sem a igreja. Certamente, existem muitos outros que são mais belos vistos dessa forma, e, na minha lembrança, guardo vinhetas de campanários que ultrapassam os telhados, que têm outro nível artístico que não os que compunham as tristes ruas de Combray.

            Jamais hei de esquecer, numa curiosa cidade da Normandia vizinha de Balbec, dois encantadores palácios do século XVIII, que, sob muitos títulos, me são caros e veneráveis e, entre os quais, ergue-se a agulha gótica de uma igreja por eles escondida, e que dá a impressão determinar e coroar suas fachadas, porém de matéria tão diversa, tão preciosa, tão encaracolada, tão rosada, tão brunida, que bem se percebe que não faz parte delas, assim como também não faz parte dos dois belos pedregulhos unidos, entre os quais está presa na praia, a ponta purpúrea e dentilhada de alguma conchinha afunilada em agulha e fulgente de esmalte. Até em Paris, num dos bairros mais feios da cidade, conheço uma janela de onde se vê, depois de um primeiro, um segundo e até um terceiro plano composto de telhados amontoados de ruas diversas, um campanário cor-de-violeta, às vezes avermelhado, às vezes ainda, nas melhores "provas" que lhe tira a atmosfera, de um negro decantado de cinzas, e que não é outro senão o zimbório de Saint Augustin e que dá a essa rua de Paris a característica de certas vistas de Roma, feitas por Piranesi. Mas como a memória, por mais gosto que tivesse em reproduzi-las, não conseguisse pôr em nenhuma dessas pequenas gravuras aquilo que eu há muito havia perdido, o sentimento que nos faz não considerar uma coisa como um espetáculo, mas a julgá-la um ser sem equivalente, nenhuma delas impõe-se a mim, sobre uma parte profunda da minha vida, como ocorre com a lembrança desses aspectos do campanário de Combray nas ruas que ficam por trás da igreja. Ora a gente o via às cinco horas, ao ir buscar as cartas no correio, a algumas casas da nossa, à esquerda, elevando de súbito, em cimo isolado, a linha das cumeeiras; outras vezes, ao contrário, quando íamos saber notícias da Sra. Sazerat, seguíamos com os olhos essa linha que voltava a se abaixar após a descida de sua outra vertente, sabendo-se que era necessário dobrar a segunda rua depois do campanário; ora ainda, quando, passando mais além, se a gente ia à estação da estrada de ferro, ele era visto obliquamente, mostrando de perfil as arestas e superfícies novas, como um sólido surpreendido em um instante desconhecido de sua revolução; ora quando, desde as margens do Vivonne, a abside, musculosamente retesada e erguida pela perspectiva, parecia brotar do esforço que o campanário fazia para lançar sua agulha no coração do céu: era sempre a ele que cumpria voltar, sempre ele que dominava tudo, dotando as casas de

um pináculo inesperado, erguido diante de mim como o dedo de Deus, cujo corpo estivesse oculto na multidão de seres humanos, sem que nem por isso eu o confundisse com ela. E ainda hoje se, numa grande cidade provinciana ou em um bairro parisiense que eu mal conheça, um transeunte que "me mostra o caminho" me aponta ao longe, como ponto de referência, uma torre de hospital, um campanário de convento que ergue a ponta de sua torre eclesiástica na esquina de uma rua pela qual devo seguir, por pouco que minha memória possa, de modo obscuro, achar nele algum traço semelhante à figura amada e desaparecida, o transeunte, se se vira para se assegurar que

não vou me perder, pode, para seu espanto, dar comigo, esquecido do passeio projetado ou do caminho a trilhar, ali parado, diante do campanário, durante horas, imóvel, tentando lembrar-me, sentindo, no fundo de mim, terras reconquistadas ao esquecimento, que vão secando e se delineando; e nesse momento, sem dúvida, e com mais ansiedade que há pouco, quando lhe pedia que me orientasse, procuro ainda o meu caminho, dobro uma rua... mas... dentro do meu coração.

            Voltando da missa, encontrávamos quase sempre o Sr. Legrandin que, retido em Paris devido ao seu trabalho de engenheiro, só podia visitar sua propriedade em Combray na época das férias e, fora isso, ali só estava da noite de sábado à segunda-feira de manhã. Era um desses homens que, além de uma carreira científica na qual, aliás, conseguiram um êxito brilhante, possuem uma cultura bem diferente, literária, artística, que sua especialização profissional não utiliza e da qual se aproveitam na conversação. Mais letrados que muitos escritores (naquela época não sabíamos que o Sr. Legrandin desfrutava de uma certa reputação como escritor e ficamos bem espantados ao saber que um compositor célebre pusera em música alguns de seus versos), dotados de mais "facilidade" que diversos pintores, eles julgam que a vida que levam não é a que lhes conviria e trazem às suas ocupações positivas seja uma despreocupação mista de fantasia, seja uma aplicação constante, altiva, desprezadora, amarga e conscienciosa. Alto, de bonito porte, um rosto pensativo e fino de longos bigodes louros, com um olhar azul e desenganado, de uma polidez refinada, causeur como jamais ouvíramos igual, o Sr. Legrandin era, aos olhos de minha família, que o citava sempre como exemplo, o tipo do homem de elite, que levava a vida da forma mais nobre e delicada. Minha avó censurava-lhe apenas o falar um pouco bem demais, um pouco como um livro, de não empregar uma linguagem natural, como naturais eram suas gravatas lavalliere, sempre flutuantes, e seu casaco folgado, quase de colegial. Espantava-se também com as tiradas flamejantes em que ele se lançava muitas vezes contra a aristocracia, a vida mundana, o esnobismo, "certamente o pecado em que pensa São Paulo quando fala do pecado para o qual não há remissão".

            A ambição mundana era um sentimento que minha avó se sentia tão incapaz de ter e quase de compreender, que lhe parecia bem inútil empregar tanto ardor em feri-ia.

            Além do mais, não achava de bom tom que o Sr. Legrandin, cuja irmã era casada com um fidalgo da Baixa Normandia, se entregasse a ataques tão violentos contra os nobres, chegando ao ponto de censurar a Revolução por não tê-los totalmente guilhotinado.

            - Salve, amigos! dizia-nos vindo ao nosso encontro. - São felizes em ficar tanto tempo aqui; preciso estar em Paris amanhã, de volta ao meu cubículo. - Oh... - acrescentava com o sorriso docemente irônico e desenganado, um pouco distraído, que lhe era próprio. Certamente há na minha casa todas as coisas inúteis. Só lhe falta o necessário, um grande pedaço de céu como o daqui. Trate de guardar sempre um pedaço de céu acima da sua vida, meu garoto-acrescentava, voltando-se para mim. -Você tem uma bela alma, de rara qualidade, uma natureza de artista, não deixe que lhe falte nada do que lhe for preciso.

            Quando, ao regressarmos, minha tia nos mandava perguntar se a Sra. Goupil chegara atrasada à missa, éramos incapazes de informá-la. Em compensação, aumentávamos sua preocupação dizendo que um pintor trabalhava na igreja copiando o vitral de Gilberto, o Mau. Françoise, enviada imediatamente ao armazém, voltava na mesma, devido à ausência de Théodore, cuja dupla profissão de mestre de coro, com uma parte na administração da igreja, e de empregado de balcão, lhe dava, com as relações em todos os meios, um conhecimento universal.

            -Ah -suspirava minha tia-, como gostaria que já fosse a hora de Eulalie. Só ela poderia me esclarecer.

            Eulalie era uma moça coxa, ativa e surda que se "retirara" após a morte da Sra. de La Bretonnerie, onde estivera empregada desde a infância, e que recentemente alugara, ao lado da igreja, um quarto de onde descia a toda hora para os ofícios religiosos, ou então, fora deles, para rezar ou dar uma ajuda a Théodore; o resto do tempo era passado em visitas aos doentes, como minha tia Léonie, a quem ficava contando o que se passara durante a missa ou nas vésperas.         Não desdenhava acrescentar algum dinheiro eventual à pequena pensão que lhe dava a família de seus antigos patrões, indo de vez em quando cuidar da roupa branca do cura ou de alguma outra personalidade marcante do mundo clerical de Combray. Acima de uma manta preta, ela usava uma touca branca quase de religiosa, e uma doença de pele conferia a uma parte do rosto e ao nariz recurvo o tom róseo vivo da balsamina. Suas visitas eram a grande distração de minha tia Léonie, que não recebia a mais ninguém, a não ser o senhor cura. Minha tia, pouco a pouco, afastara os visitantes porque tinham todos o defeito, a seus olhos, de pertencerem a uma das duas categorias de pessoas que ela detestava. Uns, os piores, de quem se havia livrado em primeiro lugar, eram os que a aconselhavam a não se sugestionar e professavam, ainda que negativamente, e só se manifestando por determinados silêncios de reprovação ou por uns sorrisos de dúvidas, a doutrina subversiva de que um breve passeio ao sol e um bom bife sangrento (quando ela conservava quatorze horas no estômago dois miseráveis goles de água de Vichy!) lhe fariam mais bem do que a cama e os remédios. A outra categoria se compunha das pessoas que davam a impressão de crer que ela estivesse mais gravemente enferma do que pensava, e tão gravemente doente como dizia. Assim, aqueles a quem deixara subir após alguma hesitação e em face das oficiosas instâncias de Françoise, e que, durante a visita, haviam mostrado o quanto eram indignos do favor que se lhes fazia arriscando timidamente um: "Não acha que se sacudisse um pouco num dia de bom tempo", ou que, ao contrário, quando ela lhes dizia: "Estou bem mal, bem mal, é o fim, meus pobres amigos", lhe haviam respondido: "Ah, quando não se tem saúde! Mas a senhora ainda pode durar bastante", esses, tanto uns como os outros, poderiam estar certos de nunca mais voltarem a ser recebidos. E se Françoise se divertia com o ar espantado da minha tia quando, de seu leito, ela vislumbrasse uma dessas pessoas, na rua do Saint-Esprit, que tinha o jeito de vir à casa dela, ou quando tivesse ouvido um toque de campainha, ela ria ainda mais, como de uma boa piada, das manobras sempre vitoriosas de minha tia para despedir a visita e da cara sem graça que esta fazia ao ter de voltar sem a ter visto; e, no fundo, admirava sua patroa, que julgava superior a todas aquelas pessoas visto não querer recebê-Ias. Em suma, minha tia exigia, ao mesmo tempo, que a aprovassem em seu regime, que a lastimassem por seus sofrimentos e que a assegurassem quanto ao futuro.

            Era nisso que Eulalie primava. Minha tia podia lhe dizer vinte vezes por minuto: "É o fim, minha pobre Eulalie", que vinte vezes Eulalie respondia: "Conhecendo sua doença como conhecem, Sra. Octave, poderá ir até os cem anos, como me dizia ainda ontem a Sra. Sazerin." (Uma das mais firmes crenças de Eulalie, e que o número enorme de desmentidos trazidos pela experiência não fora bastante para abalar, era que a Sra. Sazerat se chamava Sra. Sazerin.)

            - Não peço para chegar aos cem anos replicava minha tia, que achava melhor não atribuíssem à sua existência um limite exato.

            E como, além disso, Eulalie sabia como ninguém distrair a minha tia sem cansá-la, suas visitas, que ocorriam regularmente todos os domingos, salvo um impedimento inopinado, eram para minha tia um prazer cuja perspectiva a mantinha naqueles dias em um estado a princípio agradável, mas bem depressa doloroso como a fome excessiva, por pouco que Eulalie se atrasasse. Bem prolongada, essa volúpia de esperar Eulalie se transformava num suplício: minha tia não parava de olhar o relógio, bocejava, sentia tonteiras. O toque de campainha de Eulalie, quando ocorria ao findar o dia, e ela já não o esperava, fazia-a sentir-se mal. Na verdade, no domingo ela só pensava naquela visita e, tão logo terminava o almoço, Françoise dava-se pressa em que nós deixássemos a sala de jantar para poder subir e "distrair" a minha tia.

            Mas (sobretudo a partir do momento em que os dias bonitos se instalavam em Combray) havia muito tempo que a hora altiva do meio dia, descida da torre de Saint-Hilaire, que ela brasonava com os doze florões efêmeros de sua coroa sonora, ressoara em torno da nossa mesa, junto com o pão bento, também familiarmente chegado da igreja, e nós ainda estávamos sentados diante dos pratos das Mil e Uma Noites, amolecidos pelo calor e principalmente pela refeição. Pois, ao fundo permanente de ovos, costeletas, batatas, geléias, biscoitos, que nem sequer nos anunciava mais, Françoise acrescentava de acordo com o trabalho dos campos e dos pomares, o fruto da pesca, os acasos do comércio, a polidez dos vizinhos e seu próprio espírito inventivo, e tão bem-feito, que o nosso cardápio, como aqueles quadrifólios, esculpidos no século XIII no pórtico das catedrais, refletiam um pouco o ritmo das estações e dos acontecimentos da vida um rodovalho, cuja frescura lhe fora garantida pela vendedora de peixe, um peru, porque vira um muito bonito no mercado de Roussainville-le-Pin, alcachofras com tutano, porque ainda não as fizera daquele modo, uma perna de carneiro assada, porque o ar livre abre o apetite e teria tempo de descer daqui a sete horas, espinafres para variar, abricós, porque ainda eram uma raridade, groselhas, porque dentro de quinze dias não haveria mais, framboesas que o Sr. Swann trouxera expressamente, cerejas, as primeiras que vinham da cerejeira do jardim depois de dois anos em que ela não dera coisa alguma, o requeijão de que eu gostava tanto antigamente, um doce de amêndoas, porque o havia encomendado na véspera, um brioche porque era a nossa vez de oferecê-lo. Quando tudo isso houvesse terminado, feito expressamente para nós mas dedicado em especial a meu pai, que era apreciador, era-nos oferecido um creme de chocolate, inspiração e atenção pessoal de Françoise, fugaz e leve como uma obra de circunstância, e no qual pusera todo o seu talento.

            Aquele que recusasse prová-lo, dizendo: "Terminei, não tenho mais fome", seria imediatamente rebaixado à categoria desses indivíduos grosseiros que, mesmo diante do presente que um artista lhe faz de uma obra sua, só vêem o peso e o material, quando o que vale é a intenção e a assinatura. Mesmo deixar no prato uma só gota que fosse seria testemunho de igual impolidez como erguer-se antes do fim da audição na cara do compositor.

            Por fim minha mãe me dizia: "Vamos, não fica aí parado, sobe e vai para o teu quarto se achas que faz muito calor lá fora, mas primeiro vai tomar um pouco de ar para não ler logo ao sair da mesa." Eu ia me sentar perto da bomba e sua pia, quase sempre ornada, como uma fonte gótica, de uma salamandra, que esculpia sobre a pedra rude o relevo móvel de seu corpo alegórico e afuselado, no banco sem encosto sombreado por um lilás, no pequenino canto do jardim que dava, por uma porta de serviço, para a rua do Saint-Esprit e de cujo solo mal cuidado se elevava por dois degraus a despensa, formando saliência na casa, e como se fosse uma construção independente. Percebia-se o seu ladrilho brilhante e rubro como pórfiro. Parecia antes um pequeno templo dedicado a Vênus do que o antro de Françoise. Estava repleto das oferendas do leiteiro, do fruteiro, da verdureira, às vezes provenientes de remotíssimas aldeias, para lhe dedicar as primícias de seus campos. E seu topo apresentava sempre, a coroá-lo, o arrulhar de uma pomba.

            Antigamente, eu não me demorava no bosque sagrado que o rodeava, pois, antes de subir para ler, entrava no pequeno gabinete de descanso que meu tio Adolphe, um irmão de meu avô, antigo militar que se reformara como major, ocupava no térreo, e que, mesmo quando as janelas abertas deixavam entrar o calor, senão os raios do sol que raramente chegavam até ali, exalava inesgotavelmente esse aroma obscuro e novo, ao mesmo tempo florestal e ancien regime, que faz devanear longamente as narinas quando se entra em certos pavilhões de caça abandonados. Mas já fazia muitos anos que eu não ia ao gabinete do tio Adolphe, pois ele não vinha mais a Combray devido a uma rusga que tivera com a família, por culpa minha, nas seguintes circunstâncias:

            Uma ou duas vezes por mês, em Paris, mandavam que eu lhe fizesse uma visita quando ele acabava de almoçar, vestido de dólmã, servido pelo criado que trajava uma jaqueta com listas roxas e brancas. Resmungando, queixava-se de que eu não vinha há muito tempo, sentia-se abandonado; oferecia-me bolo de amêndoas ou uma tangerina; atravessávamos uma sala onde nunca se parava, onde ninguém jamais acendia a lareira, e cujas paredes eram ornadas de relevos dourados, e o teto pintado de um azul que pretendia imitar o céu e os móveis revestidos de cetim como na casa de meus avós, porém amarelo; depois íamos para o que ele chamava seu gabinete de "trabalho", em cujas paredes estavam penduradas algumas dessas gravuras que representam, sobre um fundo negro, uma deusa carnuda e rosada conduzindo um carro, ou montada sobre um globo, com uma estrela na testa, tão apreciadas no Segundo Império, porque lhe achavam um ar pompeano, mas que depois foram detestadas e agora começavam a ser de novo admiradas pela única e a mesma razão, embora se alegassem outras, de terem um ar de Segundo Império. E eu ficava com meu tio até que o criado lhe viesse indagar, da parte do cocheiro, a que horas deveria atrelar os cavalos. Meu tio então mergulhava numa meditação que seu maravilhado lacaio não se atreveria a perturbar com um só movimento, esperando curiosamente o resultado, sempre idêntico. Enfim, após uma hesitação suprema, meu tio pronunciava infalivelmente estas palavras: "Duas horas e um quarto", que o lacaio repetia com espanto, mas sem discutir: "Duas horas e um quarto? Muito bem, vou lhe dizer..."

            Por essa época eu amava o teatro, amor platônico, pois meus pais ainda não me permitiam que o freqüentasse, e imaginava de modo tão inexato os prazeres que ali se desfrutavam que não estava longe de admitir que todo espectador olhava, como num estetoscópio, um cenário que era só para ele, conquanto idêntico aos mil outros que ao resto dos espectadores se oferecia, um para cada. Todas as manhãs eu corria até a coluna Morris para ver os espetáculos que ela anunciava. Nada mais desinteressado e feliz que os sonhos que cada peça anunciada oferecia à minha imaginação, sonhos que eram condicionados, também, não só pelas imagens inseparáveis das palavras que compunham seu título, como pela cor dos cartazes, ainda úmidos e inchados de cola, sobre os quais ele se destacava. A não ser uma dessas obras estranhas, como o Testamento de César Girodot e Édipo-rei, que eram inscritos, não no cartaz verde da ópera Cômica, e sim no cartaz cor de borra de vinho da Comédie Française, nada me parecia mais diverso do enfeite cintilante e branco dos Diamantes da Coroa que o cetim liso e misterioso do Dominó Negro, e, tendo meus pais dito que quando fosse pela primeira vez ao teatro, teria de escolher entre essas duas peças, procurando aprofundar sucessivamente o título de uma e o de outra, pois era tudo o que sabia delas, para tentar extrair de cada uma o prazer que me prometia e compará-lo ao que a outra me escondia, cheguei a imaginar com tanta força, por um lado, uma peça deslumbrante e nobre, e, por outro, uma peça suave e aveludada, que me senti tão incapaz de decidir qual teria a minha preferência, como se, para sobremesa, me tivessem mandado escolher entre arroz à Imperatriz e creme de chocolate.

            Todas as minhas conversas com os colegas eram sobre aqueles atores cuja arte, embora me fosse ainda desconhecida, era a primeira forma, dentre todas as de que se reveste a Arte, sob a qual ela se deixava pressentir para mim. Entre a maneira que um ou outro tinha de declamar, de matizar uma tirada, as mais pequeninas diferenças pareciam-me ter uma importância incalculável. E, conforme o que me haviam dito acerca deles, classificava-os de acordo com o talento, nas listas que recitava para mim mesmo o dia inteiro, e que tinham acabado por se solidificar no meu cérebro e incomodá-lo devido a sua mobilidade.

            Mais tarde, no colégio, todas as vezes em que, durante as aulas, o professor virava a cabeça, eu me comunicava com um novo amigo, e a primeira pergunta era sempre para saber se ele já fora ao teatro e se achara que o maior ator era Got, o segundo Delaunay, etc. E se, de acordo com sua opinião, Febre só vinha depois de Thiron, ou Delaunay após Coquelin, a súbita mobilidade que Coquelin, perdendo a rigidez da pedra, passava a ter no meu espírito para passar ao segundo posto, e a milagrosa agilidade, a fecunda animação de que se via dotado Delaunay para recuar até o quarto lugar, davam uma sensação de vida e florescimento a meu cérebro flexível e adubado.

            Mas se os autores me preocupavam dessa maneira, se a visão de Maubant saindo uma tarde do Théâtre-Français me causara o choque e as mágoas do amor, tanto mais o nome de uma estrela flamejando à porta de um teatro, tanto mais, pelos vidros de um cupê que passava na rua com seus cavalos floridos de rosas na testeira, a visão do rosto de uma mulher que eu pensava talvez fosse uma atriz, deixava em mim uma turvação mais prolongada, um esforço impotente e doloroso para imaginar a sua vida.

            Eu classificava por ordem de talento as mais ilustres, Sarah Bernhardt, a Berma, Bartet, Madeleine Brohan, Jeanne Samary, mas todas me interessavam. Ora, meu tio conhecia muitas delas, bem como cocottes, que eu não distinguia com nitidez das atrizes. Recebia-as em casa. E se o visitávamos somente em certos dias, era porque nos outros apareciam mulheres com quem sua família não poderia se encontrar, pelo menos do ponto de vista da família, pois no caso do meu tio, pelo contrário, sua grande facilidade em ter, para com as lindas viúvas que talvez nunca tivessem sido casadas, ou condessas de nome pomposo, que sem dúvida não passava de um nome de guerra, a polidez de apresentá-las à minha avó ou até de lhes dar jóias de família, já o fizera brigar mais de uma vez com meu avô. Muitas vezes, ao vir à conversa o nome de uma atriz, eu ouvia meu pai dizer à minha mãe, sorrindo: "Uma amiga do teu tio"; e eu pensava que o assédio que, talvez durante anos, alguns homens importantes faziam à porta de determinada mulher que não respondia a suas cartas e mandava que fossem despedidos pelo porteiro do hotel, meu tio bem poderia poupá-lo a um menino como eu, apresentando-o em sua casa à atriz, inacessível a tantos outros, que era sua amiga íntima.

            Assim ao pretexto de que a alteração de uma aula me impedia agora, devido a seu novo horário, e impediria muitas vezes no futuro, de ver meu tio-, um dia, que não o reservado para as visitas que lhe fazíamos, aproveitando o fato de que meus pais tinham almoçado cedo, saí e em vez de ir olhar a coluna de cartazes, para o que deixavam-me sair sozinho, corri até a casa do tio. Reparei que havia uma carruagem tirada por dois cavalos diante de sua porta, cavalos que traziam nos antolhos um cravo vermelho, igual ao que o cocheiro levava na botoeira. Chegando à escada, ouvi um riso e uma voz de mulher e, logo que toquei a campainha, um silêncio, e depois o rumor de portas que se fechavam. O lacaio veio abrir e, ao me ver, pareceu embaraçado, dizendo que meu tio estava muito ocupado, sem dúvida não poderia me receber e, no entanto, quando foi preveni-lo, a mesma voz que eu ouvira dizia: "Ora, deixe-o entrar; só um minutinho, isto me agradaria muito. Na fotografia que está sobre a mesa, ele se parece tanto com sua mamãe, sua sobrinha, cuja fotografia está ao lado da dele, não é mesmo? Gostaria de ver esse garoto ao menos um instante."

            Ouvi meu tio resmungar, aborrecer-se; por fim, o criado me fez entrar. Sobre a mesa estava o mesmo prato de bolo de amêndoas de costume; meu tio vestia a mesma japona de todos os dias, mas à sua frente, num vestido de seda rosado, com um grande colar de pérolas no pescoço, estava sentada uma mulher bem jovem que terminava de chupar uma tangerina. A incerteza em que me via, sem saber se a chamava de senhora ou senhorita, me fez enrubescer e, não ousando virar muito os olhos para o seu lado por medo de ter de lhe falar, fui beijar meu tio. Ela me olhava sorrindo, e meu tio lhe disse: "Meu sobrinho", sem lhe dizer meu nome, nem me dizer o seu, certamente porque, desde os problemas que tivera com meu avô, cuidava o mais possível de evitar todo tipo de união entre sua família e essa espécie de relações.

            -Como se parece com a mãe-disse ela.

            - Mas você nunca viu minha sobrinha a não ser em fotografia retrucou meu tio com vivacidade, num tom emburrado.

            - Desculpe, meu amigo, cruzei com ela na escada, ano passado, quando você esteve tão doente. É verdade que só a vi de relance e que sua escada é bem escura, mas foi o bastante para poder admirá-la. Este rapazinho tem seus lindos olhos e também isto-disse, traçando com o dedo uma linha sobre a parte inferior da testa. - E diga, a senhora sua sobrinha também usa o seu nome, meu amigo? perguntou a meu tio.

            - Ele se parece sobretudo com o pai resmungou meu tio, que não se preocupava em fazer apresentações, nem à distância, dizendo o nome de minha mãe, nem de perto.

            -É principalmente parecido com o pai, e também com minha pobre mãe.

            - Não conheço o pai dele disse a dama cor-de-rosa com uma ligeira inclinação de cabeça-, e jamais conheci sua pobre mãe, meu amigo. Lembre-se, foi logo depois do luto que nós nos conhecemos.

            Eu estava um tanto decepcionado, pois esta jovem dama não diferia em nada das outras mulheres lindas que eu havia visto às vezes na minha família, especialmente da filha de um de nossos primos, que eu ia visitar todos os anos no dia primeiro de janeiro. Era mais bem vestida, apenas, a amiga de meu tio, e tinha o mesmo olhar vivo e bondoso, o mesmo aspecto franco e amável. Não lhe achei nada do ar teatral que admirava nas fotografias de atrizes, nem da expressão diabólica que estaria de acordo com a vida que deveria levar. Mal acreditava que se tratasse de uma cocotte e, acima de tudo, não acreditaria que fosse uma cocotte chique se não tivesse visto o carro com os dois cavalos, o vestido cor-de-rosa, o colar de pérolas, se não tivesse sabido que meu tio só se encontrava com as de mais alto vôo. Mas perguntava a mim mesmo como é que o milionário que lhe dera seu carro, seu palacete e suas jóias podia sentir prazer em dilapidar a sua fortuna por uma pessoa de aspecto tão singelo e correto. E, no entanto, pensando no que devia ser a sua vida, sua imoralidade me perturbava mais ainda do que se fosse concretizada diante de mim numa aparência especial -por ser desse modo invisível como o segredo de um romance, de um escândalo que a devesse ter feito sair um dia da casa dos pais burgueses e a expusera a todo mundo, que tivesse desabrochado em beleza e a alçasse até o mundo da alta-roda e à notoriedade, aquela cujas feições de rosto, e entonações de voz, iguais a tantas outras que eu já conhecia, me faziam considerar, apesar de tudo, uma moça de boa família a quem já não tinha família alguma.

            Passáramos para o "gabinete de trabalho" e meu tio, meio constrangido com a minha presença, lhe ofereceu cigarros.

            - Não, meu caro disse ela -, você sabe que estou acostumada com os que o Grão-duque manda. Disse-lhe que você tem ciúmes dele. - E retirou de um estojo alguns cigarros cheios de inscrições douradas, em língua estrangeira.-Mas sim-exclamou de repente-, devo ter encontrado em sua casa o pai deste menino. Não é o seu sobrinho? Como foi que pude esquecer? Ele foi tão bom, tão amável comigo acrescentou com um ar modesto e sensível. - Mas, pensando no que poderia ter sido a áspera acolhida de meu pai, que ela classificava como "amável", eu, que conhecia de sobra a sua frieza e sua reserva, fiquei constrangido, como por alguma indelicadeza que ele houvesse cometido, com a desigualdade entre o reconhecimento excessivo, que lhe dedicavam, e sua amabilidade insuficiente. Mais tarde, pareceu-me tratar-se de um dos aspectos tocantes do papel dessas mulheres desocupadas e estudiosas, o fato de consagrarem sua generosidade, seu talento, um sonho disponível de beleza sentimental-pois, como os artistas, não o realizam, não o fazem enquadrar-se na existência comum -e um ouro que pouco lhes custa, a enriquecer com um engaste precioso e fino a vida frustrada e de mau acabamento dos homens. Como esta, no fumoir onde se achava meu tio de japona para recebê-Ia, que apresentava uma encarnação tão suave, com seu vestido de seda, suas pérolas, a elegância que emana da amizade de um grão-duque, e colhera algumas palavras insignificantes de meu pai, trabalhara-as com delicadeza, dera-lhes um toque especial, um tom precioso e, nelas engastando um de seus olhares de tão linda água, matizado de humildade e reconhecimento, devolvia-as transformadas em jóias de arte, em algo "verdadeiramente requintado".

            -Vamos, vamos, já está na hora de te despedires-disse meu tio. Levantei-me, sentia uma vontade irresistível de beijar a mão da dama corde-rosa, mas parecia-me que haveria nisso algo de audacioso como um rapto. Meu coração palpitava enquanto eu dizia comigo: "É preciso fazê-lo, não devo fazê-lo"; depois cessei de me perguntar o que faria, para poder fazer alguma coisa. E num gesto cego e insensato, destituído de qualquer razão que há um instante sentira em seu favor, levei aos lábios a mão que ela me estendia.

            -Como é gentil, e já bem galante! Tem um olhinho para as mulheres: saiu ao tio. Será um perfeito gentleman acrescentou, cerrando os dentes para dar ao vocábulo um acento ligeiramente britânico.-Será que ele não poderia vir de novo para tomar a cup of tea, como dizem nossos vizinhos ingleses? Bastaria me mandar um bleu de manhã.

            Não sabia o que significava um bleu. Não compreendia metade das palavras ditas pela dama, mas o medo de que houvesse uma pergunta oculta nelas, à qual seria desatencioso não responder, impedia-me de deixar de ouvi-las com atenção, e com isso fiquei muito cansado.

            - Não, não, é impossível retrucou meu tio, dando de ombros. - É um menino muito aplicado, estuda bastante. Tira todos os prêmios do colégio-acrescentou em voz baixa, para que eu não lhe ouvisse a mentira e o contradissesse. - Quem sabe se não será um pequeno Victor Hugo, uma espécie de Vaulabelle?

            -Adoro os artistas respondeu a dama cor-de-rosa-, só eles é que compreendem as mulheres... Eles e os homens de elite, como você. Mas perdoe a minha ignorância, meu amigo. Quem é Vaulabelle? É um desses volumes dourados que estão na pequena biblioteca envidraçada do seu quarto de vestir? Lembre-se que prometeu me emprestá-los, cuidarei bem deles.

            Meu tio, que odiava emprestar livros, não respondeu e me levou à antecâmara. Perdido de amor pela dama cor-de-rosa, cobri de beijos alucinados as faces de meu velho tio, cheirando a tabaco, e enquanto, muito embaraçado, ele me dava a entender, sem coragem de dizê-lo abertamente, que muito gostaria que não falasse a meus pais daquela visita, eu lhe dizia, com lágrimas nos olhos, que a recordação da sua bondade era tão forte em mim que um dia acharia com certeza um meio de lhe testemunhar o meu reconhecimento. De fato, era tão forte que, duas horas depois, após algumas frases misteriosas e que não me pareceram dar a meus pais uma idéia bem nítida da nova importância de que me achava dotado, julguei mais explícito contar-lhes nos menores detalhes a visita que acabava de fazer. Assim, não imaginava causar aborrecimentos a meu tio. Como poderia causá-los, se não os desejava? E não podia supor que meus pais levassem a mal uma visita que eu achava inocente. E não ocorre todos os dias que um amigo nos pede que não deixemos de desculpá-lo com uma mulher a quem se viu impedido de escrever, o que negligenciamos em fazer, julgando que tal pessoa não pode dar importância a um silêncio que para nós é desimportante. Imaginava, como todos, que o cérebro dos outros era um receptáculo inerte e dócil, sem qualquer poder de reação sobre o que se introduzisse nele; e não duvidava que, depositando no cérebro de meus pais a notícia do conhecimento que meu tio me fizera ter, lhes transmitisse ao mesmo tempo, como o desejava, o julgamento benevolente que eu fazia dessa apresentação. Infelizmente, meus pais se pautaram por princípios inteiramente diversos dos que eu lhes sugeria que adotassem, ao apreciarem a ação de meu tio. Meu pai e meu avô tiveram com ele discussões violentas, sobre as quais fui indiretamente informado. Alguns dias depois, cruzando por meu tio na rua, quando ele passava em carro descoberto, voltei a sentir a dor, a gratidão, o remorso que gostaria de lhe ter expressado. Diante da grandeza destes sentimentos, achei que um cumprimento de chapéu seria um ato mesquinho e poderia lhe dar a entender que eu não me sentia obrigado, quanto a ele, além de uma polidez banal. Resolvi me abster desse gesto insuficiente e virei o rosto. Meu tio pensou que eu estava seguindo instruções de meus pais e nunca os perdoou por isso, e morreu muitos anos depois sem que nenhum de nós o tivesse visto de novo.

            Portanto, eu não entrava mais no gabinete de repouso de meu tio Adolphe, que estava fechado agora; depois de me demorar nas vizinhanças da despensa, quando Françoise aparecia à entrada, dizendo: "Vou deixar que a criada de cozinha sirva o café e suba com a água quente, pois preciso ir logo para o quarto da Sra. Octave", eu me decidia a voltar para casa e subia diretamente para o meu quarto. A criada de cozinha era uma pessoa moral, uma instituição permanente a quem as atribuições invariáveis asseguravam uma espécie de continuidade e identidade, através da sucessão de formas passageiras nas quais se encarnava: pois jamais víamos a mesma dois anos seguidos.

            No ano em que comemos aspargos a criada de cozinha, em geral encarregada de os ralar, era uma pobre criatura doentia, num estado de gravidez muito adiantado quando chegamos para a Páscoa, e as pessoas até se espantavam que Françoise a deixasse andar e trabalhar tanto, pois ela principiava a carregar com dificuldade à sua frente a corbelha misteriosa, cada vez mais cheia, cujas belas formas se adivinhavam sob as amplas blusas. Estas lembravam os casacões que revestem algumas das figuras simbólicas de Giotto, das quais o Sr. Swann me dera algumas fotografias. Foi ele mesmo quem nos fizera notar a semelhança e quando nos pedia notícias da criada de cozinha, perguntava: "Como vai a Caridade de Giotto?"

            Aliás, ela mesma, a pobre moça, engordada pela gravidez até o rosto, até as faces que caíam retas e quadradas, se assemelhava bastante, com efeito, a essas virgens, fortes e masculinas, ou melhor, matronas, que na Arena personificam as virtudes. E agora me dou conta de que ainda de outra maneira esses Vícios e Virtudes de Pádua a ela se assemelhavam. Assim como a imagem daquela moça era acrescida pelo símbolo adicional que carregava no ventre, sem dar a impressão de que lhe compreendia o sentido, sem que nada no seu rosto lhe traduzisse a beleza e o espírito, como se não passasse de um simples fardo pesado, é deste modo que a possante matrona que está representada na Arena abaixo do nome de "Caritas" (e cuja reprodução se achava dependurada na parede do meu quarto de estudos em Combray) encarna, sem o suspeitar, a referida virtude, sem que nenhum pensamento caridoso pareça ter sido expresso alguma vez pelo seu rosto enérgico e vulgar. Por uma grande invenção do pintor, ela calca aos pés os tesouros da terra, como se pisasse uvas para lhes extrair o suco, ou antes, como se houvesse trepado em sacos para se erguer mais; e estende a Deus o coração inflamado, ou, dizendo melhor, ela o "passa", como uma cozinheira passa um sacarolhas pelo respiradouro do seu subsolo a alguém que o pede da janela do andar térreo. Quanto à Inveja, já ostentava mais fisionomia de inveja. Mas ainda nesse afresco, o símbolo ocupa tanto espaço e é representado de modo tão real, tão grossa é a serpente que silva nos lábios da Inveja, enchendo-lhe tão completamente a grande boca aberta, que os músculos de seu rosto estão distendidos para poder contê-la, como os de uma criança que enche um balão soprando, e a atenção da Inveja-e também a nossa-concentrada de todo na ação de seus lábios, quase não tem tempo de se ocupar com pensamentos invejosos.

            Apesar de toda a admiração que o Sr. Swann professava por essas figuras de Giotto, durante muito tempo não senti prazer nenhum em contemplar em nossa sala de estudos, onde haviam pendurado as cópias que ele me dera, essa Caridade sem caridade, essa Inveja que tinha o aspecto de mera ilustração, num livro de medicina, da compressão da glote ou da campainha por um tumor da língua ou pela introdução de um instrumento cirúrgico, uma Justiça cujo rosto vulgar e mesquinhamente comum era o mesmo que, em Combray, caracterizava algumas boas burguesas devotas e secas que eu via na missa, várias das quais já formavam parte dos exércitos da Injustiça. Porém mais tarde compreendi que a estranheza impressionante, a beleza especial daqueles afrescos provinha do grande espaço que ali ocupava o símbolo, e que o fato de ter sido representado não como símbolo, visto que o pensamento simbólico não era expresso, e sim como realidade, como algo efetivamente sofrido ou materialmente manejado, dava ao sentido da obra algo mais literal e preciso, e ao seu ensinamento algo de mais concreto e mais chocante. No caso da pobre criada de cozinha, também, a atenção não era incessantemente atraída para o seu ventre pelo peso que o distendia? E assim também, muitas vezes o pensamento dos agonizantes se volta para o lado real, doloroso, obscuro, visceral, para esse avesso da morte que é precisamente o lado que ela lhes mostra, que ela rudemente faz com que sintam e que se assemelha bem mais a um fardo que os esmaga, a uma dificuldade de respirar, a uma necessidade de beber, do que aquilo a que chamamos morte.

            Era preciso que aqueles Vícios e Virtudes de Pádua tivessem em si muita realidade, pois me pareciam tão vivos como a criada grávida; e ela própria não parecia menos alegórica. E talvez esta abstenção (ao menos aparente) da alma de um ser na virtude que opera por ele, tenha também, afora o seu valor estético, uma realidade, se não psicológica, pelo menos, como se diz, fisionômica. Quando mais tarde tive oportunidade de encontrar, no decurso da vida, por exemplo nos conventos, encarnações verdadeiramente santas da caridade ativa, elas geralmente mostravam uma fisionomia alegre, positiva, indiferente e brusca de cirurgião apressado, esse rosto onde não se lê nenhuma comiseração, nenhuma ternura pelo sofrimento alheio, nenhum receio em feri-lo, e que é o rosto sem doçura, a fisionomia antipática e sublime da verdadeira bondade.

            Enquanto a criada de cozinha-fazendo brilhar involuntariamente a superioridade de Françoise, como o Erro, por contraste, torna mais brilhante o triunfo da Verdade-servia o café que, segundo mamãe, não passava de água quente, e logo subia para os nossos quartos com água quente que estava apenas morna, eu me estendera na cama, um livro na mão, no meu quarto, que protegia, a tremer, sua frescura transparente e frágil contra o sol da tarde por detrás dos postigos quase fechados onde um reflexo da luz diurna conseguira, no entanto, achar um modo de fazer penetrar suas asas amarelas, e ficava imóvel entre a madeira e os vidros, num canto, como uma borboleta pousada.

            A claridade do quarto era o suficiente para ler, e a impressão de esplendor da luz era-me dada somente pelas batidas vibradas por Camus na rua de La Cure (fora avisado por Françoise que minha tia "não estava repousando" e que podia fazer barulho) contra caixotes empoeirados, mas que, retinindo na atmosfera sonora, própria das regiões quentes, pareciam fazer voar ao longe astros escarlates; mas também pelas moscas que executavam à minha frente, no seu pequeno concerto, a música de câmara do verão; não o evoca à maneira de uma ária de música humana que, ouvida por acaso nessa estação, faz com que a lembremos em seguida; está unida ao verão por um elo mais necessário; nascida dos dias lindos, só renasce com eles, contendo um pouco de sua essência; não apenas desperta a sua imagem na nossa memória, mas certifica-lhes o regresso, a presença efetiva, ambiental, de imediato acessível.

            O frescor obscuro do meu quarto estava para a plena luz do sol da rua como a sombra para o raio de sol, ou seja, tão luminoso quanto ele, e ofertava à minha imaginação o espetáculo integral do estio, que meus sentidos, se eu estivesse passeando, só poderiam desfrutar aos pedaços; e, assim, adequava-se perfeitamente ao meu repouso que (devido às aventuras narradas nos meus livros e que acabavam de emocioná-lo) suportava igualmente ao repouso de uma mão imóvel no meio da água corrente, o choque e a animação de uma torrente de atividade.

            Porém minha avó vinha me rogar que saísse, mesmo que o tempo, muito quente, se alterasse, se sobreviesse uma tempestade ou apenas um chuvisco. E, não querendo renunciar à leitura, ia pelo menos continuá-la no jardim, sob o castanheiro, numa pequena guarita de esparto e lona no fundo da qual me sentava, julgando-me oculto aos olhos das pessoas que por acaso viessem fazer uma visita a meus pais.

            E meu pensamento não seria também, por acaso, um esconderijo em cujo fundo eu sentia que permanecia oculto, até para olhar o que se passava lá fora?

            Quando eu via um objeto exterior, a consciência de que o estava olhando permanecia entre mim e ele, bordava-o com uma tênue orla espiritual que me impedia de nunca tocar diretamente a sua matéria; volatilizava-se esta de alguma forma antes que eu tomasse contato com ela, como um corpo incandescente que se aproxima de um objeto molhado não chega a tocar sua umidade, pois se faz sempre anteceder de uma zona de evaporação. Nesse tipo de tela colorida de estados diversos que, enquanto eu lia, minha consciência ia desenrolando simultaneamente, e que iam desde as aspirações mais profundamente escondidas dentro de mim até a visão inteiramente exterior que eu tinha do horizonte diante dos olhos, na extremidade do jardim, o que havia de principal em mim, de mais íntimo, o leme que governava o resto num movimento incessante, era a minha crença na riqueza filosófica, na beleza do livro que estava lendo, e meu desejo de me apropriar delas, fosse qual fosse esse livro. Pois, mesmo que o tivesse comprado em Combray, ao vê-lo na loja de Borange, muito distante de casa para que Françoise pudesse ir buscá-lo como na casa de Camus, porém mais sortida como papelaria e livraria, preso por barbantes no meio do mosaico de brochuras e fascículos que cobriam as duas folhas de sua porta, mais misteriosa e mais semeada de pensamentos que uma porta de catedral, é que o reconhecera por me ter sido citado como uma obra notável pelo professor ou pelo colega que, na ocasião, me parecia deter o segredo da verdade e da beleza, meio ressentidas, meio incompreensíveis, e cuja apreensão era o vago mas permanente objetivo de meus pensamentos.

            Depois desta crença central que, durante a leitura, executava movimentos incessantes de dentro para fora, no sentido da descoberta da verdade, vinham as emoções que me dava a ação na qual tomava parte, pois as tardes eram mais cheias de acontecimentos dramáticos do que, muitas vezes, uma vida inteira. Eram os acontecimentos que ocorriam no livro que estava lendo; é verdade que as personagens a quem interessavam não eram "reais", como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que nos fazem experimentar a alegria ou a desgraça de uma personagem real só ocorrem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou dessa desgraça; a engenhosidade do primeiro romancista consistiu em compreender que, no aparelho das nossas emoções, sendo a imagem o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo.

            Um ser real, por mais profundamente que simpatizemos com ele, em grande parte só o percebemos através dos sentidos, isto é, permanece opaco para nós, oferece um peso morto que nossa sensibilidade não consegue erguer. Se uma desgraça o atinge, esta só poderá nos comover numa pequena parte da noção global que temos dele, e ainda mais, só numa pequena parte da noção total que tem de si mesmo é que sua própria desgraça poderá comovê-lo. O achado do romancista foi ter tido a idéia de substituir essas partes impenetráveis à alma por uma quantidade idêntica de partes materiais, isto é, que nossa alma pode assimilar. Desde então, que importa que as ações, as emoções desses seres de um novo tipo nos pareçam verdadeiras, visto que fizemo-Ias nossas, que é dentro de nós que se produzem, que mantêm sob seu domínio, enquanto viramos febrilmente as páginas do livro, a rapidez da nossa respiração e a intensidade do nosso olhar. E uma vez que o romancista nos pôs nesse estado, no qual, como em todos os estados exclusivamente interiores, toda emoção é duplicada, e onde seu livro vai perturbar-nos, à maneira de um sonho, mas de um sonho mais claro que os que temos ao dormir, e cuja lembrança vai durar mais, então, eis que ele deflagra em nós, durante uma hora, todas as fortunas e todas as desgraças possíveis, algumas das quais iríamos levar a vida inteira para conhecer, ao passo que outras, as mais intensas, jamais nos seriam reveladas porque a lentidão com que se produzem impede que as percebamos. (Assim vai mudando o nosso coração, durante a vida, e esta é a pior das dores; porém só a conhecemos através da leitura, pela imaginação: na realidade o coração se transforma da mesma maneira como se produzem certos fenômenos da natureza, tão vagarosamente que, embora possamos verificar de modo sucessivo seus estados diferentes, em compensação nos foge a própria sensação da mudança.)

            Já menos interior a meu corpo que essa vida dos personagens, vinha a seguir, meio projetada diante de mim, a paisagem onde se desenrolava a ação e que exercia sobre meu pensamento uma influência bem maior que a outra, aquela que eu tinha sob os olhos quando os erguia do livro. Foi assim que, durante dois verões, no calor do jardim de Combray, senti, por causa do livro que lia na ocasião, a nostalgia de uma região montanhosa e fluvial, onde veria muitas serrarias e onde, no fundo da água cristalina, apodreciam pedaços de madeira debaixo de tufos de agrião; não longe dali, cachos de flores violáceas e avermelhadas subiam ao longo dos muros baixos. E como o sonho de uma mulher que me tivesse amado estava sempre presente no meu pensamento, naqueles verões tal sonho se impregnou do frescor das águas correntes; e cachos de flores violáceas e avermelhadas se elevavam imediatamente de cada lado daquela que foi a mulher evocada, subindo como cores complementares.E não era apenas porque uma imagem com que sonhamos permanece sempre marcada, se embeleza e enriquece com o reflexo de cores estranhas que por acaso a rodeiam no nosso devaneio; pois essas paisagens dos livros que eu lia, eram apenas paisagens, para mim, mais vivamente representadas na minha imaginação que aquelas que Combray punha diante de meus olhos, mas eram inteiramente análogas.

            Pela escolha que fizera o autor, pela fé com que meu pensamento ia ao encontro de sua palavra como de uma revelação, elas me pareciam ser impressão que de modo nenhum me dava a região onde me achava, e, principalmente, nosso jardim, produto sem prestígio da fantasia exata do jardineiro, que minha avó desprezava uma parte verdadeira da própria Natureza, digna de ser estudada e aprofundada.

            Se, quando eu lia um livro, meus pais me houvessem permitido ir visitar a região nele descrita, julgaria ter dado um passo inestimável para a conquista da verdade.

            Pois se a gente tem sempre a sensação de estar rodeada pela própria alma, isto não se dá como numa prisão imóvel; antes, sentimo-nos como que levados junto com ela num perpétuo impulso para ultrapassá-la, para atingir o exterior, com uma espécie de desânimo, ouvindo sempre ao nosso redor esta sonoridade semelhante que não é um eco de fora e sim o ressôo de uma vibração interna. Procuramos achar nas coisas, que por isso nos são preciosas, o reflexo que nossa alma projetou sobre elas, e ficamos desapontados ao verificar que elas parecem desprovidas, na natureza, do encanto que deviam, em nosso pensamento, à vizinhança de certas idéias; às vezes, transformamos todas as forças dessa alma em habilidade, em esplendor, para agir sobre as criaturas que, percebemos bem, situam-se fora de nós e que nunca atingiremos.

            Assim, se eu imaginava sempre ao redor da mulher amada os lugares que então mais desejava, se suspirasse para que fosse ela quem me levasse a visitá-los, ela quem me abrisse o acesso a um mundo desconhecido, não era isto devido ao acaso de uma simples associação de idéias; não, é que meus sonhos de viagem e de amor não passavam de momentos que hoje separo artificialmente como se fizesse cortes em diversas alturas de um repuxo irisado e aparentemente imóvel de um mesmo e inflexível jorro de todas as forças da minha vida.

            Enfim, continuando a seguir de dentro para fora os estados simultaneamente justapostos em minha consciência, e antes de chegar ao horizonte real que os envolvia, encontro prazeres de outra espécie, o de estar bem sentado, de sentir o bom aroma do ar, de não ser importunado por nenhuma visita; e quando davam horas no sino de Saint-Hilaire, o de assistir caindo, pedaço a pedaço, à parte já consumida da tarde, até ouvir o último toque que me permitia contar o total e, após o qual, o longo silêncio que o seguia parecia fazer começar no céu azul toda a parte que ainda me seria concedida para ler até o bom jantar preparado por Françoise, e que me reconfortaria das canseiras que tivera, durante a leitura do livro, para acompanhar o herói da história. E, a cada hora, parecia-me que fora há poucos instantes apenas que a hora precedente havia soado; a mais recente vinha se inscrever bem pertinho da outra no céu e eu não podia acreditar que sessenta minutos coubessem nesse pequeno arco azul compreendido entre suas duas marcas de ouro. Muitas vezes até essa hora prematura soava duas batidas a mais que a última; havia, portanto, uma que eu não ouvira, algo que ocorrera não acontecera para mim; o interesse na leitura, mágico feito um sono profundo, iludira meus ouvidos alucinados e apagara o sino de ouro sobre a superfície azulada do silêncio. Belos entardeceres de domingo, debaixo do castanheiro do jardim de Combray, cuidadosamente esvaziados por mim dos incidentes medíocres de minha vida pessoal, colocando em seu lugar uma vida de aventuras e de aspirações estranhas no interior de um país, regado de águas vivas, vós me evocais ainda essa vida quando penso em vós, e de fato vós a contendes por a terdes aos poucos contornado e cercado ao passo que eu me adiantava na leitura e diminuía o calor da tarde no cristal sucessivo, vagarosamente mutável e coberto de folhagens, de vossas horas silenciosas, sonoras, aromadas e límpidas.

            As vezes eu era interrompido na leitura, no meio da tarde, pela filha do jardineiro, que corria feito uma doida, chocando-se na passagem com uma laranjeira, cortando um dedo, quebrando um dente e gritando: "Aí vêm eles, aí vêm eles!", para que Françoise e eu acorrêssemos e não perdêssemos nada do espetáculo. Era nos dias em que, devido às manobras da guarnição, a tropa atravessava Combray, indo em geral pela rua de Sainte-Hildegarde. Enquanto os nossos criados, sentados em fila, nas cadeiras do lado de fora da grade, olhavam os passeantes dominicais de Combray, fazendo-se olhar por eles, a filha do jardineiro, pelo intervalo existente entre duas casas não próximas da avenida da Estação, havia percebido o brilho dos capacetes. Os criados recolhiam precipitadamente suas cadeiras, pois quando os couraceiros desfilavam pela rua de Sainte-Hildegarde, enchiam-na em toda a largura, e o galope dos cavalos passava rente às casas, cobrindo as calçadas submergidas como as margens que oferecem um leito demasiadamente esguio a uma torrente desencadeada.

            "Pobres crianças", dizia Françoise ao chegar à grade e já chorando; "pobre juventude que será cortada como grama; só de pensar nisso me sinto mal", acrescentava, levando a mão ao coração onde recebera o choque.

            -Como é bonito ver estes rapazes que não ligam para a vida, não é, senhora Françoise?-dizia o jardineiro só de implicância.

            E não falara debalde:

            -Que não ligam para a vida? Mas para que mais a gente deve ligar senão para a vida, o único presente que o bom Deus nunca dá duas vezes. Ai, meu Deus! Entretanto, não ligam mesmo! Eu os vi em 70: eles não têm mais medo da morte nessas miseráveis guerras; são uns loucos, nem mais nem menos; e, além disso, não valem a corda para enforcá-los, pois não são homens, são leões. (Para Françoise, a comparação de um homem a um leão, que ela pronunciava lé-ão, nada tinha de elogioso.)

            A rua de Sainte-Hildegarde dobrava muito de repente para que se pudesse ver os soldados de longe, e por aquela abertura entre as duas casas da avenida da Estação é que se vislumbravam sempre novos capacetes correndo e brilhando ao sol. O jardineiro gostaria de saber se ainda faltavam muitos para passar, e estava com sede pois o sol ardia. Assim sua filha, lançando-se de súbito como uma cidade sitiada, dava uma escapadela, alcançava a esquina da rua e, depois de haver afrontado cem vezes a morte, vinha nos trazer, com um refresco de coco, a notícia de que Cies eram cerca de mil que se aproximavam sem parar, dos lados de Thiberzy e MéségIise. Françoise e o jardineiro, as pazes feitas, conversavam sobre o que seria necessário fazer em caso de guerra:

            -Veja bem, Françoise-dizia o jardineiro-, a revolução valeria mais, pois quando ela rebenta só vai quem quer.

            -Ah, sim, pelo menos entendo isso; é mais franco.

            O jardineiro achava que, em caso de declaração de guerra, iam mandar parar todos os trens.

            -Claro, para que ninguém possa fugir.

            E o jardineiro:

            -Ah, eles são astutos pois não admitia que a guerra não passasse de uma peça de mau gosto que o Estado tentasse pregar ao povo e à qual, se houvesse algum meio, todos não deixariam de se esquivar.

            Mas Françoise se apressava a voltar para junto de minha tia, eu regressava a meu livro, os criados voltavam a se instalar à frente das portas para olhar cair a poeira e a emoção causada pelos soldados. Muito tempo depois de reinstalado o sossego, uma onda desacostumada de passeantes negrejava ainda nas ruas de Combray. E diante de toda casa, mesmo aquelas onde não havia esse hábito, os criados e até os patrões, sentados e olhando, recortavam as soleiras com um debrum caprichoso e sombrio, como os das algas e das conchas, cujos crepes e rendilhados uma forte maré deixa na margem ao retirar-se.

            Pelo contrário, a não ser nesses dias, eu podia sossegadamente entregar-me à leitura como de costume. Porém a interrupção e o comentário ocorridos certa vez, durante uma visita de Swann, à leitura que eu começava a fazer de um autor inteiramente novo para mim, Bergotte, tiveram como conseqüência, por muito tempo, o fato de que não foi mais sobre um muro ornamentado de flores roxas em cacho, e sim sobre um fundo completamente diverso, diante do pórtico de uma catedral gótica, que se destacava a imagem de uma das mulheres com quem sonhava.

            Ouvira falar de Bergotte, pela primeira vez, por um de meus colegas mais velhos que eu e pelo qual nutria grande admiração: Bloch. Ao me ouvir falar de minha admiração pela Nuit d'Octobre, dera uma risada estridente como um clarim e dissera: "Desconfie de sua predileção bastante baixa pelo senhor de Musset. É um gaga dos piores e uma besta sinistra. Devo confessar, aliás, que ele e até o chamado Racine fizeram, cada um, um único verso bem ritmado e que têm para mim, o que a meu ver é o mérito supremo, o valor de não significarem coisa alguma. São estes: "La blanche Oloossone et la blanche Camyre" e "La fille de Hinos et de Pasiphaé". Vi-os citados, em favor destes dois malandros, em um artigo do meu muito querido mestre, o tio Leconte, agradável aos deuses imortais. A propósito, eis aqui um livro que não tenho tempo de ler agora e que, parece, é recomendado por esse sujeito imenso. Disseram-me que considera o autor, o senhor de Bergotte, um galá dos mais sutis; e embora ele dê provas, às vezes, de indulgências bem inexplicáveis, sua palavra para mim é um oráculo de Delfos. Portanto, leia estas prosas líricas e, se o gigantesco formador de ritmos que escreveu Bhagavat e Le Lévrier de Magnus falou a verdade, você há de gozar, meu caro mestre, as alegrias do néctar do Olimpo."             Foi com um tom sarcástico que me pedira que o chamasse de "caro mestre" e assim também me chamava. Mas na verdade achávamos um certo prazer nesse jogo, estando ainda próximos da idade em que se acredita infundir vida àquilo que se nomeia.

            Infelizmente, conversando com Bloch e pedindo-lhe explicações, não pude diminuir a perturbação em que ele me lançara ao me dizer que os belos versos (a mim que deles não esperava mais que a revelação da verdade) seriam tanto mais belos se não significassem absolutamente nada. Com efeito, Bloch não foi mais convidado a nos visitar.

            A princípio, fora bem acolhido. É verdade que meu avô sustentava que, todas as vezes que eu me ligava mais estreitamente a um colega do que aos outros, e o levava à nossa casa, tratava-se sempre de um judeu, o que por si só não lhe desagradaria-até seu amigo Swann era de origem judaica-se não lhe parecesse que eu não o escolhia geralmente dentre os melhores. Assim, quando eu trazia um novo amigo, era bem raro que não se pusesse a cantarolar: "ó Deus dos nossos Pais", da Juive, ou então "Israel, rompe as tuas cadeias", sem a letra, é claro (Ti Ia Iam ta Iam, talim), mas eu temia que meu colega conhecesse a música e recordasse a letra.

            Antes de os ter visto, bastava que lhes ouvisse o nome, o qual, muitas vezes, nada tinha de particularmente judeu, para que adivinhasse não só a origem judaica dos meus amigos que o eram de fato, mas até o que pudesse haver, às vezes, de desagradável em suas famílias.

            - E como se chama o teu amigo que vem esta tarde?

            - Dumont, vovô.

            - Dumont? Ah, estou desconfiado.

            E cantava:

            ''Archers, faites bonne garde! Veillez sans trêve et sans bruit.''

            E depois de nos fazer com habilidade algumas perguntas mais precisas, gritava: "Em guarda! Em guarda!", ou, se era o próprio paciente já chegado a quem forçara, sem que este soubesse, por um interrogatório disfarçado, a declarar suas origens então, para nos mostrar que não tinha quaisquer dúvidas, contentava-se em nos encarar, cantarolando imperceptivelmente:

''Arqueiros, façam boa vigilância! / Viagem sem trégua e sem rumor."(N.do T)

            Essas pequenas manias de meu avô não implicavam qualquer sentimento de malquerença em relação a meus colegas. Porém Bloch havia desgostado a minha família por outras razões. Principiara por aborrecer meu pai que, vendo-o molhado, lhe dissera com simpatia:

            - Mas, senhor Bloch, que tempo está fazendo, será que choveu? Não estou entendendo nada, pois o barômetro indicava tempo bom.

            E obtivera apenas esta resposta:

            -Senhor, não posso lhe dizer absolutamente se choveu. Vivo tão decididamente fora das contingências físicas que meus sentidos não se preocupam em me notificá-las.

            - Mas, meu pobre filho, é um imbecil esse teu amigo dissera meu pai quando Bloch se foi. - Como! Não pode sequer me dizer que tempo está fazendo? Mas se não há nada mais interessante! É um idiota.

            Depois, Bloch desagradou à minha avó porque, após a refeição, como dissesse que se sentia um tanto indisposta, ele sufocara um soluço e enxugara os olhos.

            -Como queres que tenha sido sincero-disse ela-se não me conhecia; ou então é doido.

            E por fim descontentara a todos, pois tendo vindo almoçar, com uma hora e meia de atraso e coberto de lama, em vez de se desculpar havia dito:

            - Não me deixo influenciar nunca pelas perturbações da atmosfera nem pelas divisões convencionais do tempo. Reabilitara de bom grado o emprego do cachimbo de ópio e do Gris malaio, mas ignoro o desses instrumentos mais perniciosos, e além disso raramente burgueses, o relógio de pulso e o guarda-chuva.

            Apesar de tudo, ele poderia ter voltado a Combray.

            Entretanto, não era o amigo que meus pais desejassem para mim; acabaram por acreditar que as lágrimas derramadas pela indisposição de minha avó não eram fingidas; mas sabiam, instintivamente, ou por experiência, que os impulsos da nossa sensibilidade têm pouca força sobre a seqüência de nossos atos e a conduta da nossa vida, e que o respeito às obrigações morais, a fidelidade aos amigos, a execução de uma obra, o cumprimento de um regime possuem um fundamento mais seguro nos costumes cegos do que nos transportes momentâneos, ardentes e estéreis. Para mim, teriam preferido companheiros que não me dessem mais do que é estipulado doar a seus amigos, conforme as regras da moral burguesa; que não me enviariam inesperadamente um cesto de frutas por terem, nesse dia, pensado em mim com ternura; mas que, não sendo capazes de fazer inclinar em meu favor a balança exata dos deveres e das exigências da amizade por um mero impulso da imaginação e da sensibilidade, também não a falseariam em detrimento meu. Nem mesmo as nossas faltas desobrigam com facilidade de tudo o que nos devem tais naturezas, de quem minha tia-avó era o modelo, ela que, rompida há muitos anos com uma sobrinha com quem jamais falava, nem por isso modificou seu testamento, no qual lhe deixava toda a sua fortuna, pois a sobrinha era sua mais próxima parenta e aquilo ''lhe era devido".

            Mas eu gostava de Bloch, meus pais queriam me agradar, e os problemas insolúveis que eu me colocava a propósito da beleza desprovida de significado dos versos relativos à filha de Minos e de Pasífae me cansavam muito mais e me deixavam mais angustiado do que o teriam feito novas conversas com ele, embora minha mãe as considerasse perniciosas. E o teriam recebido ainda em Combray se, após aquele jantar, depois de me dizer notícia que mais tarde teve muita influência sobre minha vida, fazendo-a mais feliz e depois mais infeliz que todas as mulheres só pensavam no amor e que não haveria uma só cuja resistência não fosse possível vencer, não me houvesse assegurado ter ouvido dizer, da maneira mais certa, que minha tia-avó tivera uma juventude de aventuras e fora sabidamente "sustentada". Não pude deixar de repetir

suas palavras a meus pais e eles lhe fecharam as portas quando voltou; e, quando a seguir o encontrei na rua, comportou-se com extrema frieza para comigo.

            Mas, a respeito de Bergotte, havia dito a verdade.

            Nos primeiros dias, como ocorre com uma ária de música que nos arrebatará mas que ainda não percebemos, não descobri o que devia amar tanto no seu estilo. Não conseguia deixar o romance dele, que estava lendo, mas julgava-me interessado exclusivamente no assunto, como nos primeiros momentos do amor em que a gente vai todos os dias encontrar uma mulher em alguma reunião, em algum espetáculo, e achamos que o que nos atrai ali é a diversão. Depois, comecei a reparar nas expressões raras, quase arcaicas, que ele gostava de empregar em certos trechos, onde uma vaga escondida de harmonia, um prelúdio interior, agitam-lhe o estilo; e era também nesses momentos que ele se punha a falar do "sonho vão da vida", da "torrente inesgotável das belas aparências", do "tormento estéril e delicioso de compreender e de amar", das "emocionantes efígies que enobrecem para sempre a venerável fachada encantadora das catedrais", quando exprimia para mim toda uma filosofia nova através de imagens maravilhosas, das quais se poderia dizer terem elas mesmas despertado esse canto de harpas que então se elevava e a cujo acompanhamento davam algo de sublime. Uma dessas passagens de Bergotte, a terceira ou a quarta que isolei do restante, deu-me uma alegria inexprimível, que não saberia comparar com a primeira, uma alegria que experimentei numa região mais profunda de mim mesmo, mais unida, mais vasta, de onde os obstáculos e as separações pareciam ter sido removidos. É que, reconhecendo então o mesmo gosto pelas expressões raras, essa mesma efusão musical, essa mesma filosofia idealista que já tinha sido em outras ocasiões, sem que de tal eu me desse conta, a causa de meu prazer, não tive mais a impressão de estar na presença de um trecho especial de um determinado livro de Bergotte, traçando na superfície do meu pensamento uma figura puramente literária, e sim do "trecho ideal" de Bergotte, comum a todos os seus livros e ao qual todas as passagens análogas, que com ele se vinham misturar, teriam dado uma espécie de espessura, de volume, com o qual o meu espírito parecia engrandecer-se.

            Não era o único admirador de Bergotte; ele também era o escritor predileto de uma amiga de minha mãe, por sinal bastante letrada; por fim, para ler o seu último livro publicado, o doutor Du Boulbon fazia os clientes esperarem. E foi do seu consultório e de um parque vizinho de Combray que se evolaram algumas das primeiras sementes dessa predileção por Bergotte, tipo tão raro à época, hoje espalhado universalmente, e de que se encontra por toda parte na Europa, na América, até mesmo na aldeia mais insignificante, a flor ideal e comum. O que a amiga de minha mãe e também, segundo parecia, o doutor Du Boulbon amavam nos livros de Bergotte era, como eu, esse mesmo fluxo melódico, essas expressões antiquadas, algumas outras mais simples e conhecidas, mas as quais, pelo lugar onde as punha em evidência, pareciam revelar de sua parte uma predileção especial. Enfim, nas passagens tristes, um certo acento brusco, quase rouco. E sem dúvida, ele mesmo devia sentir que ali estavam os seus pontos mais atraentes. Pois nos livros que se seguiram, se encontrasse alguma grande verdade, ou o nome de uma catedral célebre, ele interrompia a narrativa e, numa invocação, numa apóstrofe, numa longa oração, dava livre curso a esses eflúvios que, em suas primeiras obras, eram interiores à sua prosa, revelados

apenas nas ondulações da superfície, talvez ainda mais suaves, mais harmoniosos, quando assim cobertos, não sendo possível apontar de forma exata, onde nascia e onde expirava o seu murmúrio. Tais trechos, nos quais ele se comprazia, eram nossos trechos preferidos. Eu os sabia de cor. Ficava desapontado quando retomava o fio da narrativa. Toda vez que me falava de algo cuja beleza até então me fora oculta, pinheirais, granizo, a Notre Dame de Paris, Athalie, a Phedre, fazia, numa imagem, essa beleza explodir até mim. Assim, sentindo quantas partes havia do universo que a minha percepção incompleta não poderia distinguir se ele não as pusesse a meu alcance, gostaria de ter uma opinião sua, uma metáfora sua, sobre todas as coisas, sobretudo acerca daquelas que eu mesmo tivesse ocasião de ver e, entre essas, especialmente, sobre antigos monumentos franceses e certas paisagens marítimas, porque a insistência com que os citava em seus livros provava que os tinha como ricos de significado e de beleza. Infelizmente eu ignorava a sua opinião sobre quase todas as coisas. Não duvidava que ela fosse inteiramente diferente das minhas, pois provinha de um mundo desconhecido ao qual procurava me elevar; persuadido que meus pensamentos teriam parecido pura inépcia a um tal espírito perfeito, fizera tábua rasa de todos eles, de maneira que, quando por acaso encontrasse, em um de seus livros, uma idéia que me havia ocorrido, meu coração se enchia de júbilo como se um deus, em sua bondade, me houvesse devolvido tal idéia, declarando-a legítima e bela. Ocorria, às vezes, que uma página sua dizia as mesmas coisas que eu escrevia freqüentemente à noite à minha avó e à minha mãe quando não conseguia dormir, se bem que essa página de Bergotte desse a impressão de uma coletânea de epígrafes para serem colocadas à testa de meus escritos. Mesmo mais tarde, quando comecei a escrever um livro, certas frases, cuja qualidade não era o bastante para me decidira continuá-lo, encontrei-lhes o equivalente em Bergotte. Mas somente então, quando lia-as nas suas obras, é que podia desfrutá-las; quando era eu quem as compunha, preocupado que elas refletissem exatamente aquilo que meu pensamento desejava exprimir, não "fazer semelhante", tinha muito tempo para perguntar a mim mesmo se o que estava escrevendo era tão agradável. Mas, na verdade, eu só amava de fato esse tipo de frases, esse gênero de idéias.

            Meus inquietos esforços descontentes eram eles mesmos um sinal de amor, de um amor sem prazer mais profundo. E assim, quando, subitamente, encontrava tais frases na obra de outro escritor, ou seja, sem mais ter escrúpulos ou severidade, sem ter de me atormentar, deixava-me enfim levar, deliciado, pelo gosto que me causavam, como um cozinheiro que, por uma vez, quando não precisa cozinhar, encontra tempo de ser um gourmand.

            Um dia, tendo encontrado em um livro de Bergotte, a propósito de uma velha criada, um gracejo que a linguagem solene e magnífica do escritor fazia ainda mais irônico, mas que era o mesmo que eu já fizera muitas vezes à minha avó ao falar de Françoise, e de outra vez em que vi que ele não julgava indigna de figurar num desses espelhos da verdade, que eram as suas obras, uma observação análoga à que eu tivera oportunidade de fazer a respeito do nosso amigo Legrandin (observações acerca de Françoise e Legrandin que eram certamente daquelas que eu teria mais deliberadamente sacrificado a Bergotte, convencido de que ele não lhes daria qualquer importância), pareceu-me, de repente, que minha humilde existência e os cozinheiros da verdade não estavam assim tão separados quanto imaginara, e que chegavam mesmo a coincidir em certos pontos, e chorei de alegria e confiança sobre as páginas do escritor como nos braços de um pai reencontrado.

            De acordo com seus livros, eu imaginava Bergotte como um velho frágil e desencantado que perdera filhos e nunca se consolara. E assim lia e cantava internamente a sua prosa, mais dolce, mais lento quem sabe, do que fora escrita, e a frase mais simples se dirigia a mim com uma entonação enternecida. Acima de tudo, amava a sua filosofia, entregara-me a ela por todo o sempre. Ela me tornava impaciente para chegar à idade em que entraria para a faculdade, onde faria o curso de Filosofia.

            Mas não queria que ali se fizesse outra coisa senão viver exclusivamente pelas idéias de Bergotte, e se me houvessem dito que os metafísicos que iriam me atrair então não tinham qualquer semelhança com ele, eu sentiria o desespero de um apaixonado que quer amar por toda a vida, e ao qual falam das outras amantes que terá mais tarde.

            Um domingo, durante a minha leitura no jardim, fui interrompido por Swann, que vinha ver meus pais.

            - Que é que você está lendo, posso ver? Ora, Bergotte! Mas quem lhe indicou as suas obras?

            Respondi que fora Bloch.

            -Ah, sim, aquele rapaz que vi aqui uma vez, e que se assemelha tanto ao retrato de Maomé II por Bellini. Oh, é espantoso, tem os mesmos supercílios circunflexos, o mesmo nariz aduno, os mesmos molares salientes. Quando tiver uma barbicha será a mesma pessoa. Em todo caso, ele tem gosto, pois Bergotte é um espírito encantador.

            E vendo que eu parecia admirar tanto a Bergotte, Swann, que jamais falava das pessoas que conhecia, fez, por bondade, uma exceção e me disse:

            - Conheço-o muito bem, e se isso te dá prazer, posso pedir a ele que escreva algumas palavras no teu livro.

            Não me atrevi a aceitar mas fiz a Swann algumas perguntas sobre Bergotte.

            - Poderia me dizer qual o seu ator preferido?

            -O ator, não sei. Mas sei que não compara nenhum artista à Berma, que ele coloca acima de todos. Já a viu representando?

            - Não, senhor. Meus pais não me dão licença de ir ao teatro.

            - É uma pena. Devia pedir-lhes. A Berma na Phedre, em Le Cid, não passa de uma atriz, se você quiser, mas saiba que não creio muito na "hierarquia" das artes.

            E observei, como tantas vezes me surpreendera nas conversas dele com as irmãs de minha avó, que, quando falava acerca de assuntos sérios, ou quando empregava uma expressão que parecia abranger um julgamento sobre uma terra importante, tinha o cuidado de isolá-la em uma entonação especial, automática; irônica, como se a pusesse entre aspas, dando a impressão de não querer assunto, dizendo: "A hierarquia, vocês sabem, como dizem as pessoas ridículas." então, se era ridículo, porque o dizia?

            Após um instante, acrescentou:

            - Isto dará uma visão tão nobre como qualquer obra-prima, como digamos... -e se pôs a rir como as Rainhas de Chartres!

            Até então, esse horror de exprimir com seriedade suas opiniões me parecia elegante, e era uma atitude que se opunha ao dogmatismo provinciano das irmãs de minha avó; e eu suspeitava que fosse, igualmente, uma das atitudes do espírito no meio em que Swann vivia, e onde, em reação ao lirismo das gerações anteriores, reabilitavam-se até o excesso os pequenos fatos precisos, outrora tidos como vulgares, e eram proscritas as "frases". Mas agora eu achava algo de chocante nessa atitude de Swann em relação às coisas. Ele dava a impressão de não ter coragem de externar uma opinião e de só poder estar tranqüilo quando fornecia, meticulosamente, informações precisas. Mas então, será que não percebia que postular que a precisão de tais detalhes apresentava tanta importância, já era emitir uma opinião?

            Voltei, então, a pensar naquele jantar em que eu estava tão triste porque mamãe não deveria subir ao meu quarto, e no qual ele dissera que os bailes da princesa de Léon não tinham nenhuma importância. No entanto, era nesse tipo de prazeres que ele passava a vida. Achei aquilo tudo contraditório. Para que outra vida, então, se reservaria ele para dizer por fim, com seriedade, o que pensava das coisas, para formular juízos que não colocasse entre aspas, e de não mais se entregar, com uma polidez minuciosa, a ocupações que ao mesmo tempo considerava ridículas? Reparei, também, no modo como Swann me falou de Bergotte, alguma coisa que, em compensação, não lhe era própria, mas, pelo contrário, por aquela época, fazia parte de todos os admiradores do escritor, mesmo a amiga de minha mãe e o doutor Du Boulbon.        Como Swann, todos eles diziam de Bergotte: "É um espírito encantador, tão especial, tem uma forma muito sua de dizer as coisas, um tanto rebuscada, mas tão agradável. Nem é necessário ver a assinatura, reconhece-se logo que é da sua palavra." Mas ninguém teria ido ao ponto de dizer: "É um grande escritor, tem um grande talento." Nem sequer diziam que tivesse talento. Não o diziam porque não o sabiam. Somos muito vagarosos para reconhecer no aspecto particular de um novo escritor o modelo que leva o nome de "grande talento" em nosso museu de idéias gerais. Exatamente porque esse aspecto é novo, não achamos de modo algum que se pareça ao que chamamos talento. Dizemos de preferência originalidade, encanto, delicadeza, vigor; e depois um dia percebemos que tudo aquilo junto é justamente o talento.

            -Há obras de Bergotte em que ele fala da Berma?indaguei ao Sr. Swann.

            - Creio que no seu opúsculo sobre Racine, mas deve estar esgotado. Talvez tenha havido uma reimpressão. Vou procurar saber. Aliás, posso pedir a Bergotte tudo o que você quiser, não há uma semana que ele não vá jantar lá em casa. É um grande amigo da minha filha. Costumam visitar juntos as velhas cidades, as catedrais, os castelos.

            Como eu não tivesse noção alguma da hierarquia social, a proibição imposta por meu pai às nossas relações com a Sra. Swann e sua filha tivera antes, para mim, desde muito, o efeito de me fazer imaginar grande distância entre nós e elas, dando-lhes, a meus olhos, o maior prestígio.        Lamentava que minha mãe não pintasse os cabelos e nem pusesse rouge nos lábios, como, segundo ouvira à Sra. Sazerat, nossa vizinha, fazia a Sra. Swann para agradar, não ao marido, mas ao Sr. de Charles, e pensava que deveríamos ser, para ela, um motivo de desprezo, o que me magoava sobretudo por causa da Srta. Swann, que me disseram ser uma menina bonita e com quem eu sonhava muitas vezes, emprestando-lhe, de cada vez, o mesmo rosto arbitrário e atraente. Mas quando soube, naquele dia, que a Srta. Swann era um ser de tão rara condição, banhando-se, como em seu elemento natural, em meio a tantos privilégios, que quando perguntava aos pais se havia alguém para jantar lhe respondiam com essas sílabas cheias de luz, com o nome daquele conviva de ouro que para ela era apenas um velho amigo de família: Bergotte; que para ela, a chover conversa íntima à mesa, o que, para mim, correspondia ao que era a conversação com minha tia-avó, eram palavras de Bergotte sobre esses assuntos que não pudera abordar em seus livros, e a respeito dos quais gostaria de ouvi-lo pronunciar-se como um oráculo; e que, enfim, quando ela ia visitar cidades, ele caminhava a seu lado, desconhecido e glorioso, como os deuses que se misturavam aos mortais; então senti, ao mesmo tempo, o valor de uma pessoa como a Srta. Swann e quanto eu deveria lhe parecer grosseiro e bronco, e experimentei tão vivamente a doçura e a impossibilidade de ser seu amigo que me enchi, ao mesmo tempo, de desejo e desespero. Agora, quando nela pensava, a mais das vezes a via diante do pórtico de uma catedral, explicando-me o significado das estátuas e, com um sorriso que falava bem de mim, apresentando-me a seu amigo Bergotte. E sempre o charme de todas as idéias que as catedrais faziam nascer em mim, o charme dos outeiros de Ìle-de-France e das planícies da Normandia, faziam refluir seus reflexos sobre a imagem que eu me formava da Srta. Swann: era estar completamente pronto para ama-la. Pois acreditar que um ser participa de uma vida ignorada na qual o seu amor nos faria penetrar é, de tudo quanto exige o amor para nascer, aquilo a que ele mais se prende, fazendo-o desprezar o resto.

            Até as mulheres que pretendem avaliar um homem só pelo físico, vêem neste físico a emanação de uma vida especial. É por isso que amam os militares, os bombeiros; o uniforme as faz menos exigentes para o rosto; julgam beijar, por baixo da couraça, um coração diferente, aventuroso e suave; e um jovem soberano, um príncipe herdeiro, para efetuar as conquistas mais lisonjeiras nos países estranhos que visita, não precisa ter o perfil regular que talvez fosse indispensável a um corretor da Bolsa.

            Enquanto eu lia no jardim, coisa que minha tia-avó não entendia que eu fizesse a não ser nos domingos, dia em que é proibido ocupar-se alguém com qualquer coisa séria, e quando ela não costurava num dia útil, ela me teria dito: "Como, tu ainda te divertes em ler, mas não estamos no domingo", dando à palavra divertimento o sentido de infantilidade e perda de tempo, minha tia Léonie conversava com Françoise, esperando a hora de Eulalie. Anunciava-lhe que acabara de ver passar a Sra. Goupil "sem guarda-chuva, com o vestido de seda que mandara fazer em Châteaudun. Se tem de ir muito longe antes das Vésperas, é bem capaz de deixa-lo todo ensopado."

            - Talvez, talvez - (o que significava talvez não) dizia Françoise para não eliminar, em definitivo, a hipótese de uma alternativa mais favorável.

            -Veja! -exclamava minha tia batendo na testa. - Isso me faz lembrar que fiquei sem saber se ela chegou à igreja depois da elevação. Será necessário pensar em pergunta-lo a Eulalie... Françoise, verifique aquela nuvem negra atrás do campanário, e esse sol fraco sobre as ardósias, tenho certeza que o dia não escapará de uma chuva. Não é possível que tudo fique assim como estava, fazia muito calor. E quanto mais cedo melhor, pois enquanto não chover a minha água de Vichy não desce-acrescentou minha tia, em cujo espírito o desejo de apressar a descida da água de Vichy era infinitamente maior que o medo de ver a Sra. Goupil estragar o vestido.

            -Talvez, talvez.

            -É que, quando chove na praça, não há ali o menor abrigo. Como, já três horas?-exclamava minha tia subitamente, empalidecendo. - Mas então as Vésperas já começaram, e eu esqueci a minha pepsina! Agora compreendo por que minha água de Vichy permanecia no estômago.

            E precipitando-se para um missal encadernado em veludo roxo, com fechos de ouro, e de onde, em sua pressa, deixava cair algumas dessas imagens de bordas rendilhados de papel amarelado, que marcam as páginas das festas religiosas, minha tia, enquanto engolia suas gotas, punha-se a ler às pressas os textos sagrados cuja compreensão era-lhe levemente obscurecida pela incerteza de saber se, tomada tanto tempo depois da água de Vichy, a pepsina seria ainda capaz de atingi-la e fazê-la descer.

            -Três horas, é incrível como o tempo passa!

            Uma pancadinha na vidraça, como se algo a tivesse atingido, seguida de uma grande queda, leve como grãos de areia deixados a cair do alto de uma janela, por cima, e depois a queda se estendendo, regulando-se, adquirindo um ritmo, tornando-se fluida, sonora, musical, inumerável, universal: era a chuva.

            -Aí está! Françoise, o que é que eu lhe dizia? Como chove! Mas creio que ouvi a sineta da porta do jardim, vá ver quem é que pode estar lá fora com um tempo desses.

            Françoise voltava:

            - É a Sra. Amédée (minha avó), que disse que ia dar uma voltinha. Porém está chovendo muito.

            - Isto não me surpreende nem um pouco dizia minha tia erguendo os olhos para o céu. - Sempre afirmei que ela não tinha uma mentalidade como os outros. E até prefiro que seja ela e não eu a estar lá fora neste momento.

            - A Sra. Amédée é sempre o oposto dos outros dizia Françoise com doçura, reservando para o momento em que estivesse sozinha com os outros criados, a observação de que achava minha avó meio "pancada".

            -Pronto, passou o Salve! Eulalie já não virá-suspirava minha tia.-Com certeza se apavorou com o tempo.

            - Mas ainda não deram as cinco horas, Sra. Octave. Não passam de quatro e meia.

            - Quatro e meia? E eu que fui obrigada a erguer as cortinas para ter um pouquinho de luz! As quatro e meia! Oito dias antes das Ladainhas! Ah, minha pobre Françoise, o bom Deus deve estar bem zangado conosco. Também, com o que o mundo de hoje anda fazendo! Como dizia o meu pobre Octave, a gente se esqueceu do bom Deus e ele se vinga.

            Um vivo rubro animava as faces da minha tia: era Eulalie. Infelizmente, mal acabava de ser introduzida e já Françoise voltava e, com um sorriso cujo objetivo era colocá-la em harmonia com o contentamento que sem dúvida suas palavras iam causar a minha tia, articulando as sílabas para mostrar que, apesar do uso do estilo indireto, transmitia, como boa serviçal, as próprias palavras que se dignara a empregar o visitante:

            -O Sr. Cura ficaria encantado, deslumbrado, se a Sra. Octave não estivesse repousando e pudesse recebê-lo. O Sr. Cura não quer incomodar. O Sr. Cura está lá embaixo, eu lhe disse que esperasse na sala.

            Na verdade, as visitas do cura não davam à minha tia tão grande prazer como o supunha Françoise, e o arde satisfação que esta julgava de ver estampar no rosto cada vez que tinha de anunciá-lo não correspondia inteiramente ao sentimento da enferma. O cura (homem excelente, com quem lamento não ter conversado mais, pois, se não entendia nada de arte, conhecia muito bem as etimologias), habituado a dar, aos visitantes de importância, informações sobre a igreja (tinha até a intenção de escrever um livro sobre a paróquia de Combray), cansava minha tia com explicações infindáveis, aliás sempre as mesmas. Mas quando sua visita ocorria bem ao mesmo tempo que a de Eulalie, tornava-se definitivamente desagradável para ela, que teria preferido desfrutar da companhia de Eulalie e não ter de atender a todo mundo ao mesmo tempo. Mas não ousava despedir o cura e se limitava a fazer sinal para Eulalie não ir embora junto com ele, pois ainda a deteria um pouco, quando o cura tivesse saído.

            -Senhor cura, que é que me disseram, que um artista instalou seu cavalete na sua igreja para copiar um vitral? Posso lhe dizer que cheguei a esta idade sem nunca ter ouvido falar de coisa semelhante! O que é que vão buscar as pessoas de hoje em dia! E logo o que há de mais malfeito na igreja!

            - Não chego ao ponto de dizer que é o que há de pior na igreja, pois se em Saint-Hilaire existem partes que merecem ser visitadas, há outras que estão bem velhas na minha pobre basílica, a única de toda a diocese que sequer foi restaurada. Meu Deus, o pórtico é antigo e está sujo, mas enfim possui um caráter majestoso, o mesmo digo quanto às tapeçarias de Ester, pelas quais pessoalmente não daria dois tostões, mas que os conhecedores colocam logo abaixo das de Sens. Aliás, reconheço que, ao lado de certos detalhes um tanto realistas, elas apresentam outros que testemunham um verdadeiro espírito de observação. Mas que não me venham falar dos vitrais. Que idéia, deixar as janelas sem poder passar a claridade e que chegam a enganar a vista por causa desses reflexos de uma cor que eu não saberia definir, numa igreja em que não há duas lajes que estejam no mesmo nível, e que me recusam de substituir sob a alegação de que são os túmulos dos abades de Combray e dos cavalheiros de Guermantes, os antigos condes de Brabant. Os antepassados diretos do duque de Guermantes de hoje e também da duquesa, pois ela é uma Guermantes e o marido é seu primo.

            Minha avó que, de tanto se desinteressar pelas pessoas, acabara por confundir todos os nomes, cada vez que pronunciavam o da duquesa de Guermantes pretendia que ela devia ser parenta da Sra. de Villeparisis. Todos rebentavam em gargalhadas; ela procurava se defender, alegando um certo convite: "Parece-me que havia ali esse nome de Guermantes." E por essa vez eu estava com os outros contra ela, não podia admitir que houvesse uma relação entre sua amiga de colégio e a descendente de Genevieve de Brabant.

            -Veja Roussainville: hoje não é mais que uma paróquia de fazendeiros, embora na antigüidade tenha tido grande desenvolvimento com a indústria de chapéus de feltro e de pêndulos.

            Não estou certo sobre a etimologia de Roussainville. De boa vontade julgaria que o nome primitivo era Rouville (Radulfi villa) como Châteauroux (Castrum Radulfi), mas falarei disso noutra ocasião.)

            -Muito bem, a igreja tem vitrais soberbos, quase todos modernos, e essa imponente Entrada de Luís Filipe em Combray que ficaria melhor na própria Combray, e que vale, segundo dizem, pelos famosos vitrais de Chartres. Ontem mesmo, eu falava com o irmão do doutor Percepied, que é amador e a considera o vitral mais bem acabado. Mas, como dizia ao artista que, aliás, dá impressão de ser muito cortês e dá a impressão de ser um verdadeiro virtuoso do pincel: "Que acha o senhor de tão extraordinário nesse vitral, que é ainda um pouco mais sombrio que os outros?"

            -Estou certa de que se pedisse a Monsenhor-dizia minha tia com moleza, começando a pensar que ia ficar cansada ele não lhe recusaria um vitral novo.

            - Vá contando com isso, Sra. Octave! respondia o cura. - Pois se foi justamente Monsenhor o primeiro a chamar a atenção para esse infeliz vitral provando que representa Gilberto, o Mau, senhor de Guermantes, descendente direto de Genevieve de Brabant, que era uma senhorita de Guermantes, recebendo a absolvição de Santo Hilário!

            - Mas eu não vejo onde está Santo Hilário...

            - Vê sim, no canto do vitral; nunca reparou ali numa dama de vestido amarelo? Pois bem, é Santo Hilário, que também se chama, como sabe, em certas regiões, Santo Illiers, Santo Hélier, e até, no Jura, São Ylie. Estas várias corruptelas de Sanctus Hílarius não são, de resto, as mais curiosas que ocorrem nos nomes dos bem-aventurados. Assim, a sua padroeira, minha boa Eulalie, Sancta Eulalia, sabe o que virou na Borgonha? Santo Elói simplesmente: tornou-se um santo. Veja, Eulalie, gostaria que depois de sua morte a transformassem num homem?

            -O senhor cura sempre acha um meio de caçoar.

            - O irmão de Gilberto, Carlos, o Gago, príncipe piedoso mas que, tendo perdido cedo o pai, Pepino, o Insensato, morto das seqüelas de sua doença mental, exercia o poder supremo com toda a presunção de uma juventude a que faltou a disciplina, desde que não simpatizasse com a cara de uma pessoa qualquer numa cidade, mandava massacrar todos os habitantes até o último. Querendo se vingar de Carlos, Gilberto mandou queimar a igreja de Combray, quer dizer, a igreja primitiva, a que Teodeberto, ao deixar com sua corte a casa de campo que possuía ali perto, em Thiberzy (Theodeberciacus), para ir combater os burgundos, prometera construir sobre o túmulo de Santo Hilário, se o bem-aventurado lhe desse a vitória. Dela só resta a cripta que Théodore já deve tê-las feito visitar, pois Gilberto queimou o restante. A seguir, venceu o desgraçado Carlos com a ajuda de Guilherme, o Conquistador (o cura pronunciava Guilherme), o que faz com que muitos ingleses venham visitá-la. Mas não parece ter sabido conquistara simpatia dos habitantes de Combray, pois estes se lançaram sobre ele à saída da missa, e o degolaram. Aliás, Théodore oferta um livrinho que dá todas as explicações.

            "Mas, incontestavelmente, o mais curioso na nossa igreja é a paisagem que se descortina da torre, e que é grandiosa. Com certeza, para a senhora, que não é muito forte, eu não aconselharia subir nossos noventa e sete degraus, justo a metade do célebre domo de Milão. Faz cansar uma pessoa de boa saúde, ainda mais que a gente sobe dobrado em dois para não bater com a cabeça, e, assim, vai se envolvendo em tudo quanto é teia de aranha da escadaria. Em todo caso, a senhora teria de se cobrir muito bem acrescentou (sem se dar conta da indignação que provocava em minha tia a idéia de que ela fosse capaz de subir à torre) pois há uma terrível corrente de ar lá em cima! Certas pessoas afirmam ter sentido lá o frio da morte.

            Não importa, no domingo há sempre grupos que vêm de muito longe para admirar a beleza do panorama e que voltam maravilhados. Olhe, no próximo domingo, se o bom tempo continuar, a senhora vai encontrar muita gente por lá, visto que já serão as Ladainhas. É preciso confessar: ali se goza de uma vista deslumbrante com umas fugas de planície ao longe que têm uma atração toda especial. Quando o dia está claro, pode-se avistar até Verneuil. Principalmente, pode-se abranger, ao mesmo tempo, coisas que em geral só se vêem em separado, como o curso do Vivonne e os fossos de Saint-Assise-les-Combray, do qual está separado por uma cortina de grandes árvores, ou então como os diversos canais de Jouy-le-Vicomte (Gaudiacus vice comitis, como a senhora sabe). Toda vez que vou a Jouy-le-Vicomte, bem que avistava um trecho do canal; depois, quando dobrava uma rua, via outro, mas então já não via o anterior. Por mais que os juntasse em pensamento, não obtinha bom resultado. Da torre de Saint-Hilaire é outra coisa: é como uma rede em que a localidade estivesse capturada. Apenas, não se enxerga a água; dir-se-ia que há grandes fendas que quadriculam tão bem a cidade que ela é como um brioche, cujos pedaços formam um conjunto mas já estão cortados. Para ver tudo bem, seria preciso estar ao mesmo tempo na torre de Saint-Hilaire e em Jouy-le-Vicomte.''

            O cura fatigara de tal modo a minha tia que, mal havia partido, ela era obrigada a despedir Eulalie.

            -Tome, minha pobre Eulalie-dizia com voz fraca, tirando uma moeda de uma bolsa que mantinha ao alcance da mão-, aqui está para que não se esqueça de mim em suas orações.

            -Ah, mas senhora Octave, eu nem sei bem se devo; a senhora bem sabe que não é por causa disto que venho! dizia Eulalie, com a mesma hesitação e o mesmo ar embaraçado, todas as vezes, como se fosse a primeira, e com um aspecto de descontentamento que divertia minha tia e não lhe era desagradável, pois se um dia Eulalie, pegando a moeda, mostrasse um ar menos contrariado que de costume, ela dizia:

            - Não sei o que tinha Eulalie; no entanto, dei-lhe a mesma coisa de sempre, e ela não estava contente.

            - Acho que ela não tem do que se queixar suspirava Françoise, que se inclinava a considerar como troco miúdo tudo o que lhe dava minha tia, para ela ou para os filhos, e como tesouros loucamente desperdiçados com uma ingrata as moedinhas postas todo domingo nas mãos de Eulalie, mas tão discretamente que Françoise nunca chegava a vê-las. Não é que Françoise quisesse para si o dinheiro que tia Léonie dava a Eulalie. Desfrutava suficientemente de tudo o que minha tia possuía, sabendo que as riquezas da patroa ao mesmo tempo elevam e embelezam sua criada aos olhos de todos; e que ela, Françoise, era distinta e muito bem considerada em Combray, Jouy-le-Vicomte e outros lugares, pelas numerosas granjas de minha tia, as visitas freqüentes e demoradas do cura, e o número incrível de garrafas de água de Vichy consumidas. Só era avara em relação à minha tia; se fosse gerir a fortuna dela, o que era o seu sonho, tê-la-ia preservado dos investimentos de outrem com ferocidade maternal. Entretanto, não teria achado grande mal em que tia Léonie, que sabia ser incuravelmente generosa, se inclinasse a dar, desde que fosse para os ricos. Talvez pensasse que estes, não tendo necessidade dos presentes de minha tia, não podiam ser suspeitos de amá-la por causa deles. Além do mais, ofertados a pessoas de grande fortuna, à Sra Sazerat, ao Sr. Swann, ao Sr. Legrandin, à Sra. Goupil, a pessoas "do mesmo nível" da minha tia e que "combinavam bem", aquilo lhe parecia como parte integrante dos costumes dessa vida estranha e brilhante das pessoas ricas que caçam, dão bailes, se visitam e que ela admirava sorrindo. Porém, o mesmo não ocorria com os beneficiários da generosidade de tia Léonie, se fossem aqueles que Françoise denominava "pessoas como eu, pessoas que não são mais que eu" e que eram os que ela mais desprezava, a menos que a tratassem de "Senhora Françoise" e não se considerassem como sendo "menos que ela". E quando viu que minha tia, malgrado os conselhos, só se guiava pela própria cabeça e gastava o dinheiro pelo menos era o que Françoise acreditava-com criaturas indignas, começou a achar bem parcos os donativos que tia Léonie lhe fazia, em comparação com as somas imaginárias doadas a Eulalie. Não havia granja de certa importância, nos arredores de Combray, que Françoise não julgasse que Eulalie poderia facilmente comprar com o dinheiro que lhe rendiam suas visitas. É verdade que Eulalie fazia o mesmo cálculo quanto às riquezas imensas e ocultas de Françoise.

            Em geral, depois da partida de Eulalie, Françoise profetizava sem benevolência a respeito dela. Odiava-a, porém temia-a e se sentia obrigada, quando ela se achava presente, a lhe fazer "boa cara". Depois que Eulalie saía, Françoise se desforrava, na verdade sem jamais nomeá-la, mas proferindo vaticínios cortantes, ou sentenças de caráter geral, como as do Eclesiásticas, cuja aplicação, no entanto, não podia escapar à minha tia. Depois de ter espiado por um canto da cortina, para ver se Eulalie fechara o portão: "Os aduladores sabem chegar na hora certa e arrebanhar as pepitas; mas paciência, o bom Deus há de puni-los um dia", dizia ela com o olhar oblíquo e a insinuação de Jonas ao pensar exclusivamente em Athalie quando diz: ''Le bonheur des méchants comme un torrent s'écoule.''[A fortuna dos maus se escoa como uma torrente. (N. do T)]

            Mas, quando o cura também tinha vindo e sua visita interminável havia esgotado as forças de tia Léonie, Françoise saía do quarto atrás de Eulalie, dizendo:

            -Sra. Octave, vou deixá-la descansando, a senhora está com um ar muito cansado.

            E minha tia nem mesmo respondia, exalando um suspiro que parecia ser o derradeiro, os olhos fechados, como se estivesse morta. Porém mal Françoise havia descido, quatro toques dados com a maior violência ressoavam pela casa e minha tia, sentada na cama, gritava:

            - Eulalie já foi embora? Imagine que esqueci de lhe perguntar se a Sra. Goupil havia chegado à missa antes da elevação! Corra depressa atrás dela!

            Mas Françoise regressava sem ter podido achar Eulalie.

            - Que transtorno! dizia tia Léonie sacudindo a cabeça. - A única coisa importante que eu tinha para lhe perguntar.

            Assim transcorria a vida para tia Léonie, sempre igual, na suave uniformidade daquilo que ela chamava, com um desdém afetado e uma profunda ternura, o seu pequeno ramerrão". Preservado por todo o mundo, não somente em casa, onde cada um, tendo comprovado a inutilidade de lhe aconselhar uma higiene melhor, resignara-se, aos poucos, a respeitá-lo, mas também na aldeia onde, a três quarteirões, o empacotador, antes de pregar seus caixotes, mandava perguntar a Françoise se tia Léonie "não estava repousando" -esse ramerrão foi todavia perturbado uma vez naquele ano. Como um fruto escondido que tivesse alcançado a madureza sem que ninguém percebesse e se destacasse espontaneamente, sobreveio uma noite o parto da criada de cozinha. Mas suas dores eram intoleráveis e, como não houvesse parteira em Combray, Françoise teve de sair de madrugada para ir buscar uma em Thiberzy. Por causa dos gritos da criada de cozinha, minha tia não pôde descansar e Françoise, apesar da pequena distância, demorou muito, e lhe fez muita falta. Assim, minha mãe me disse, de manhã:

            "Sobe para ver se a tia não precisa de alguma coisa."

            Entrei no primeiro aposento e, pela porta aberta, vi minha tia, deitada de lado, dormindo; ouvi que roncava de leve. Ia me retirar sem ruído, mas sem dúvida o rumor que eu fazia interviera

no seu sono e o fizera "mudar de velocidade", como se diz no caso dos automóveis, pois a música do ronco se interrompeu por um segundo e retomou num tom mais baixo; depois ela acordou e meio que virou o rosto que pude ver então: exprimia uma espécie de terror; evidentemente, acabara de ter um sonho horrível; não podia me ver da posição em que se encontrava, e fiquei ali sem saber se devia avançar ou ir embora; mas ela já parecia ter voltado ao sentimento da realidade e reconhecera a ilusão das visões que a haviam assustado; um sorriso de alegria, de piedosa gratidão para Deus, que permite que a vida seja menos cruel que os sonhos, iluminou debilmente o seu rosto, e, com o hábito que tinha de falar consigo a meia-voz quando se julgava sozinha, murmurou:

            "Deus seja louvado! O único transtorno que temos é o parto da criada de cozinha. Imaginem que eu sonhava que meu pobre Octave havia ressuscitado e queria que eu desse um passeio todos os dias!"

            Sua mão se estendeu para o rosário sobre a mesinha, porém o sono, de volta, não lhe deu forças para alcançá-lo; ela adormeceu novamente, tranqüilizada, e eu saí na ponta dos pés do quarto sem que ela nem ninguém jamais tivesse sabido aquilo que eu ouvira.

            Quando falei que, afora os acontecimentos muito raros, como o parto da criada de cozinha, o ramerrão de tia Léonie não sofria variação alguma, não me referia àqueles que, repetindo-se de modo idêntico em intervalos regulares, somente introduziam no bojo da uniformidade uma espécie de uniformidade secundária. Assim é que, todos os sábados, como Françoise ia de tarde ao mercado de Roussainville-le-Pin, o almoço era servido uma hora mais cedo para todos. E minha tia de tal modo assumira o hábito dessa infração semanal, incorporando-a aos próprios hábitos, que se lhe apegara tanto como aos outros. Estava tão "rotinada", como dizia Françoise, que se em alguns sábados tivesse de esperar pela hora habitual, isso a "desequilibraria" tanto como se tivesse, em outro dia, que antecipar o seu almoço para a hora de sábado. A antecipação do almoço, aliás, conferia aos sábados, para todos nós, um aspecto particular, indulgente, e bastante simpático.

            No instante em que normalmente se tem ainda uma hora a viver antes da interrupção da refeição, sabe-se que, dentro de alguns segundos, ia-se ver chegarem chicórias prematuras, um omelete de favor, um bife não-merecido. A volta desse sábado assimétrico era um dos pequenos acontecimentos interiores, locais, quase cívicos que, nas vidas tranqüilas e nas sociedades fechadas, criam uma espécie de laço nacional e se tornam o assunto favorito das conversas, dos gracejos, das narrativas exageradas de propósito; formaria um núcleo, já estabelecido, para um ciclo de lendas, caso um de nós fosse dotado de veia épica. Desde a manhã, antes de nos vestirmos, sem motivo, pelo prazer de experimentar a força da solidariedade, dizíamos uns aos outros de bom-humor, com cordialidade e patriotismo:

            "Não há tempo a perder, não nos esqueçamos que hoje é sábado!"; ao passo que minha tia, conferenciando com Françoise e imaginando que o dia seria mais comprido que de hábito, dizia:

            "Bem que você poderia assar um bom pedaço de vitela, já que hoje é sábado".

            Se alguém distraído, às dez e meia, olhasse o relógio e dissesse:

            "Bem, ainda falta uma hora e meia para o almoço", todos ficavam encantados por lhe dizer: "Mas ora, em que está pensando? Esqueceu que hoje é sábado?": riam-se todos por um quarto de hora e tinham a intenção de subir e contar o esquecimento à tia Léonie, para diverti-la.            Até o aspecto do céu parecia outro. Depois do almoço, o sol, consciente de que era sábado, passeava uma hora a mais pelas alturas e; quando um de nós, pensando estar atrasado para o passeio, dizia:

            "Como, são só duas horas?" ao ver passarem as duas badaladas da torre de Saint-Hilaire (que, de costume, ainda não encontram ninguém nos caminhos desertos devido à refeição do meio-dia ou à sesta, ao longo do ribeirão vivo e límpido que até o pescador havia abandonado, e passam solitárias no céu vazio onde restam apenas algumas nus vens preguiçosas), todos em coro respondiam:

            "Você está enganado, é que almoçamos uma hora mais cedo; sabe muito bem que hoje é sábado!"

            A surpresa de um bárbaro (chamávamos assim a todas as pessoas que não sabiam o que havia de particular no sábado) que, tendo vindo às onze horas para falar com meu pai encontrava a todos nós sentados à mesa, era uma das coisas que mais haviam divertido Françoise em toda a sua vida. Mas se ela achava engraçado que o visitante, desconcertado, não soubesse que almoçávamos mais cedo aos sábados, achava mais engraçado ainda (simpatizando no fundo do coração com esse chauvinismo limitado) que meu pai não atentasse para o fato de que aquele bárbaro pudesse ignorar tal costume, respondendo sem outra explicação ao seu espanto de nos visitar àquela hora na sala de jantar:

            "Ora, hoje é sábado!"

            Tendo chegado a esse ponto da narrativa, ela enxugava as lágrimas de hilaridade e, para aumentar o prazer que sentia, prolongava o diálogo, inventando o que havia dito o visitante a quem esse "sábado" não dizia coisa alguma. E, em vez de nos queixarmos desses acréscimos, sentíamo-nos insatisfeitos e lhe dizíamos:

            "Mas parece-me que ele tinha dito outra coisa. Era mais comprido da primeira vez que você contou."

            Minha tia-avó chegava a deixar o croché, erguia a cabeça e olhava-nos por sobre o pince-nez.

            Outra particularidade do sábado era que nesse dia, durante o mês de maio, nós saíamos depois do jantar para ir ao "mês de Maria".

            Como encontrávamos, de vez em quando, o Sr. Vinteuil, bastante severo para com "o deplorável gênero de vida dos jovens desleixados, segundo as idéias de hoje", minha mãe cuidava para que nada destoasse na minha roupa, e depois íamos para a igreja. Foi no mês de Maria que me lembro de ter começado a gostar dos espinheiros-alvares. Não só estavam postos no próprio altar da igreja, tão santa, mas onde tínhamos o direito de entrar, inseparáveis dos mistérios de cuja celebração participavam, mas igualmente dispunham, em meio aos círios e aos vasos sagrados, os seus ramos ligados horizontalmente uns aos outros, num brilho de festa, e que os festões de sua folhagem ainda mais embelezavam, estando sobre eles semeados em profusão, como na cauda de um vestido de noiva, pequenos buquês de botões de um alvor deslumbrante. Mas, ousando olhá-los apenas às escondidas, sentia que aqueles pomposos aparatos eram vivos e que era a própria natureza que, recortando daquele jeito as folhas, acrescentando-lhes o ornamento supremo dos botões brancos, tornara essa decoração digna, ao mesmo tempo, do que era um regozijo popular e uma solenidade mística. Mais acima, abriam-se as suas corolas, aqui e ali, com uma graça despreocupada, retendo tão negligentemente, como um último e vaporoso adorno, o ramalhete dos estames, finos como fios da Virgem, envolvendo-as todas de tal modo que eu, seguindo e tentando representar bem dentro de mim o gesto de sua florescência, imaginava-o como se fosse o movimento esturdio e rápido de uma cabeça, de olhos apertados e olhar coquete, de uma moça alva, distraída e vivaz.

            O Sr. Vinteuil viera com a filha colocar-se ao nosso lado. De boa família, tinha sido professor de piano das irmãs de minha avó e quando, depois da morte da esposa e de posse de uma herança que lhe fora dada, se retirara para os arredores de Combray, era com freqüência recebido em nossa casa. Mas, extremamente pudico, deixara de visitar-nos para não se encontrar com Swann, que havia feito o que denominava "um casamento desigual, ao gosto da época". Minha mãe, sabendo que era compositor, dissera-lhe, por amabilidade, que quando fosse visitá-lo precisava ouvir uma composição sua. O Sr. Vinteuil teria ficado encantado por isso, mas levava a tais escrúpulos a polidez e a bondade que, pondo-se sempre no lugar dos outros, temia aborrecê-los e lhes parecer um egoísta se seguisse ou simplesmente deixasse entrever o seu desejo. No dia que maus pais foram visitá-lo, eu os havia acompanhado; porém, me haviam permitido que ficasse fora, e como a casado Sr. Vinteuil, Montjouvain, ficava ao sopé de uma elevação cheia de moitas, onde eu me escondera, ocorreu-me estar no mesmo plano do salão do segundo andar, a cinqüenta centímetros da janela. Quando lhe anunciaram meus pais, vira o Sr. Vinteuil se apressar a colocar em evidência, sobre o piano, um caderno de música. Mas, tão logo entraram meus pais, tirara-o dali e o pusera num canto. Sem dúvida receava pensassem que estava contente em vê-los só para lhes tocar suas composições. E cada vez que minha mãe voltava à carga no decorrer da visita, ele havia repetido várias vezes: "Mas eu não sei quem pôs isto sobre o piano, não é o seu lugar", e desviara a conversa para outros assuntos, justamente porque estes o interessavam menos. Sua única paixão era pela filha e esta, que tinha o aspecto de um rapaz, parecia tão robusta que a gente não podia deixar de sorrir ao ver as precauções que o pai tomava com ela, tendo sempre xales de reserva para lhe pôr sobre os ombros. Minha avó observava que expressão suave e delicada, quase tímida, se podia ver no olhar daquela mocinha tão rude, cujo rosto era coberto de sardas.

            Quando terminava de pronunciar uma frase, ouvia-a como espírito das pessoas a quem a dirigira, alarmando-se com os possíveis mal-entendidos, e víamos iluminarem-se, definirem-se como por transparência, sob o rosto varonil daquele "diabo", os traços mais finos de uma pobre garota sensível.

            Quando, no momento de deixar a igreja, me ajoelhei diante do altar, senti de repente, ao me erguer, evolar-se dos espinheiros-alvares um aroma agridoce de amêndoas, e então reparei, sobre as flores, umas pequenas manchas douradas; sob as quais imaginei que esse odor deveria estar guardado, como, debaixo das partes requeimadas, o gosto de uma frangipana ou, sob suas sardas, o gosto das faces da Srta. Vinteuil. Apesar da silenciosa imobilidade dos espinheiros-alvares; esse cheiro intermitente era como o murmúrio de sua vida intensa, com que o altar vibrava, feito uma sebe agreste tocada por antenas vivas, nas quais se pensava ao ver certos estames quase rubros que pareciam ter conservado a virulência primaveril e o poder irritante dos insetos hoje transformados em flores.

            Conversávamos por um momento com o Sr. Vinteuil, diante do pórtico, ao sair da igreja. Ele se metia no meio da briga dos meninos na praça, tomava a defesa dos menores, fazia sermões aos taludes. Se sua filha nos falava, com sua voz grossa, do quanto estava contente por nos ver, parecia que, logo, uma irmã mais sensível enrubescia dentro dela por causa dessa frase de bom menino estouvado que poderia dar a impressão de que ela estaria pedindo para ser recebida em nossa casa.

            O pai lhe punha um manto sobre os ombros e eles subiam para um pequeno buggy que ela própria conduzia, e ambos voltavam para Montjouvain. Quanto à nós, como o dia seguinte era domingo, e a gente só se levantaria para a missa cantada, se fazia luar e a temperatura fosse morna, em vez de seguir diretamente para casa, meu pai, para gabar-se, nos fazia percorrer o calvário de um caminho longo, que a mínima capacidade de minha mãe em orientar-se e reconhecer -O caminho considerava como a proeza de um gênio da estratégia.

            As vezes íamos até o viaduto, cujos arcos de pedra começavam na estação da estrada de ferro e, para mim, representavam o exílio e o abandono fora do mundo civilizado, pois a cada ano,

quando vínhamos de Paris, recomendavam-nos prestar muita atenção, quando chegássemos a Combray, para não passar da estação, para estarmos prontos de antemão pois o trem recomeçava a andar ao fim de dois minutos e partia, sobre o viaduto, para além dos países cristãos, dos quais Combray assinalava, para mim, a última fronteira.

            Voltávamos pelo bulevar da estação, onde ficavam as mais bonitas vilas da comunidade. Em todos os jardins o luar, como Hubert Robert, semeava seus degraus truncados de mármore alvo, seus repuxos, suas grades entre abertas. Sua luz havia destruído o escritório do Telégrafo. Restava apenas uma coluna meio partida, que conservava no entanto a beleza de uma ruína imortal. Eu arrastava as pernas, morria de sono, o cheiro das tílias, balsâmico, me parecia uma recompensa que só se poderia obter ao preço das maiores fadigas, e que não valia a pena. De portões muito distantes uns dos outros, os cachorros acordados pelos nossos passos solitários, alternavam os latidos, como me sucede ainda ouvi-los por vezes de noite, e em meio a eles é que deve ter vindo se refugiar (quando em seu lugar construíram o jardim público de Combray) o bulevar da estação, pois, onde quer que eu esteja, desde que esses latidos começam a ressoar e a se responder, eu o enxergo, com suas tílias e a sua calçada iluminada pelo luar.

            De súbito meu pai nos mandava parar e perguntava à minha mãe: "Onde estamos?" Esgotada pela marcha, mas orgulhosa dele, ela confessava com brandura que absolutamente não fazia a menor idéia. Ele dava de ombros, rindo. Então, como se o houvesse tirado do bolso do casaco junto com a chave, ele nos mostrava, erguido à nossa frente, o pequeno portão dos fundos do nosso jardim, que viera, em companhia da esquina da rua de Saint-Esprit, esperar-nos ao final desses caminhos desconhecidos. Minha mãe exclamava com admiração: "Você é extraordinário!" E, a partir desse momento, eu não conseguia dar mais um passo, o solo andava por mim nesse jardim onde, há tanto tempo, a atenção voluntária deixara de acompanhar meus atos: o Hábito me pegava pelos braços e me levava para a cama como se eu fosse uma criancinha.

            Se o dia de sábado, que começava uma hora mais cedo e no qual ela se via privada de Françoise, lhe transcorria mais devagar que para outrem, minha tia, entretanto, esperava a sua volta com impaciência desde o começo da semana. Porquanto continha toda a novidade e distração que ainda era capaz de suportar seu corpo enfraquecido e maníaco. E todavia não é que ela não aspirasse às vezes a uma grande mudança, que não tivesse dessas horas de exceção em que se tem sede de algo diferente do que em geral ocorre, e em que aqueles que têm falta de energia ou de imaginação se sentem impedidos de extrair de si mesmos um princípio de renovação, e pedem ao minuto que passa, ao carteiro que chama, que lhe traga novidades, mesmo que seja a pior, uma emoção, uma dor; em que a sensibilidade, que a felicidade tornou silenciosa como uma harpa sem serviço, quer ressoar movida por uma mão, ainda que brutal, ainda que lhe parta as cordas; em que a vontade, que com tanta dificuldade conquistou o direito de se entregar livremente a seus desejos, a suas mágoas, gostaria de deixar as rédeas aos cuidados de acontecimentos imperiosos, mesmo que cruéis. É claro que, como as forças de minha tia, exaustas ao menor trabalho, só voltavam gota a gota ao seio de seu descanso, o reservatório era muito vagaroso para se encher, e passavam-se meses antes que ela atingisse o ligeiro excedente que outros desviam para a atividade e que ela era incapaz de conhecer e saber como empregar. Não tenho dúvidas de que, então como o desejo de substituí-lo por batatas com molho terminava, ao cabo de algum tempo, por nascer do próprio prazer que lhe provocava a volta diária do purê do qual ela não se "cansava" -, ela tirava da acumulação desses dias monótonos, a que tanto se acostumara, a expectativa de uma catástrofe doméstica restrita à duração de um só instante, mas que a obrigaria a cumprir, de uma vez por todas, uma dessas mudanças que ela reconhecia lhe fossem saudáveis e às quais não podia se decidir, por si mesma. Amava-nos de verdade, teria prazer em chorar por nós; ocorrendo era um momento em que ela se sentisse bem e não estivesse com suores, a notícia de que a casa estivesse tomada por um incêndio e que todos nós tivéssemos morrido e que, em breve, não ia restar uma só pedra das paredes, mas que ela tivesse tempo de fugir sem pressa, com a condição de se levantar imediatamente, deve ter muitas vezes alimentado suas esperanças, pois juntava às vantagens secundárias de fazê-Ia degustar num comprido desgosto toda a sua ternura por nós e de ser o espanta da vila, conduzindo as nossas exéquias, corajosa e acabrunhada, agonizante e de pé, a vantagem bem mais preciosa de forçá-la, no momento adequado, sem perda de tempo, sem possibilidade de hesitações nervosas, a ir passar o verão em seu belo sítio de Mirougrain, onde havia uma cascata. Como jamais sobreviesse um, acontecimento desse tipo, em cujo sucesso perfeito com certeza meditava ao se achar sozinha, entretida em seus inumeráveis jogos de paciência (e que a desesperança era o primeiro sinal de realização, no primeiro desses pequeninos fatos inesperados, dessas palavras que anunciam uma notícia ruim e de cujo tom nunca podemos nos esquecer, de tudo o que leva o selo da morte verdadeira, bem diversa de sua possibilidade lógica e abstrata), ela, para às vezes fazer a sua vida mais interessante, se restringia a lhe introduzir peripécias inventadas que acompanhava cor da paixão. Divertia-se em imaginar, de repente, que Françoise a roubava, que recorria à esperteza para tirá-lo a limpo, que a pegava com a mão na massa; habituada, quase jogava cartas sozinha, a fazer ao mesmo tempo o seu jogo e o do adversário dizia para si própria as desculpas embaraçadas de Françoise, às quais respondia com tanto ardor e indignação que um de nós, ao entrar nessas ocasiões, encontrava-a coberta de suor, os olhos chispando, a cabeleira postiça descomposta deixando ver a cabeça calva. Talvez Françoise ouvisse, da sala vizinha, de vez em quando os sarcasmos mordazes dirigidos a ela e cuja invenção não teriam aliviado bastante minha tia se não permanecessem em estágio puramente imaterial e se, murmurando-os a meia voz, ela não lhes desse maior grau de realidade. Por vezes, sequer esse "espetáculo numa cama" era o bastante para minha tia, e ela queria ver suas peças representadas. Então, num domingo, estando todas as portas misteriosamente fechadas, ela confiava a Eulalie todas as suas dúvidas sobre a honestidade de Françoise, sua intenção de se desfazer dela, e, em outra ocasião, dizia a Françoise de suas suspeitas acerca da infidelidade de Eulalie, a quem logo haveria de fechar a porta; alguns dias depois, desgostava-se com sua confidente dá véspera e reconciliava-se com o traidor, e os papéis seriam trocados na próxima representação. Porém as suspeitas que Eulalie lhe pudessem inspirar não passavam de fogo de palha e depressa se desvaneciam por falta de sustentação, visto que Eulalie não habitava na casa. O mesmo não sucedia quanto a Françoise, que tia Léonie estava sentindo perpetuamente sob o mesmo teto que ela, sem que, de medo de pegar uma gripe se saísse da cama, ousasse descer até a cozinha para ver se suas suspeitas eram fundadas. Pouco a pouco, seu espírito não teve outra ocupação que não fosse procurar adivinhar o que poderia estar fazendo Françoise a cada instante, e o que lhe estaria escondendo.             Observava as mais furtivas alterações da fisionomia de Françoise, uma contradição em suas palavras, um desejo que parecesse dissimular. E lhe mostrava que a havia desmascarado com uma única palavra, que fazia Françoise empalidecer, e que tia Léonie parecia sentir um prazer cruel em fincar no coração da infeliz. E no domingo seguinte, uma revelação de Eulalie-como essas descobertas que abrem, de chofre, um campo insuspeitado a uma ciência nascente e que avançava até então na rotina provava a minha tia que suas suspeitas ficavam bem aquém da verdade.

            "Mas Françoise deve saber, agora que a senhora lhe deu um carro."

            - "Que lhe dei um carro!", gritava tia Léonie. - "Ah, não sei, pensava... mas como vi que passava agora na cabeça, orgulhosa como Artaban, para ir ao mercado de Roussainville, julguei que fora a Sra. Octave quem lhe dera." Pouco a pouco Françoise e minha tia, como a fera e o caçador, não faziam mais que se defender uma da outra. Minha mãe temia que Françoise acabasse criando um verdadeiro ódio à tia Léonie, que a ofendia o mais duramente possível. Em todo caso, Françoise, cada vez mais, prestava uma atenção extraordinária às menores palavras, aos menores gestos de minha tia. Quando tinha algo a lhe pedir, hesitava por muito tempo sobre a forma como devia fazer o pedido. E quando o fazia, observava minha tia de modo furtivo, como se quisesse adivinhar no aspecto do seu rosto o que ela teria pensado e o que haveria de decidir. Assim ao passo que um artista, lendo as memórias do século XVII e desejando se aproximar do Rei-Sol, crê caminhar por essa estrada auspiciosa ao forjar uma genealogia que o faria descender de uma família histórica ou ao corresponder-se com um dos atuais soberanos da Europa, e desse modo voltando as costas precisamente para aquilo que erradamente busca sob formas análogas e, conseqüentemente, sem vida uma velha dama provinciana que só fazia obedecer sinceramente à manias irresistíveis e a uma malvadeza nascida da ociosidade, via, sem jamais ter pensado em Luís XIV, as ocupações mais insignificantes do seu dia-a-dia, englobando o seu despertar, seu almoço, seu repouso, assumirem, por sua singularidade tirânica, um pouco do interesse daquilo que Saint-Simon denominava a "mecânica" da vida em Versalhes, e podia acreditar também que seus silêncios, um matiz de bom humor ou de altivez em seu rosto, eram da parte de Françoise o objeto de um comentário tão apaixonado, tão temeroso como o silêncio, o bom humor e a altivez do Rei o eram quando um cortesão, ou até os maiores fidalgos, lhe punham em mãos uma petição, ao dobrar uma aléia em Versalhes.

            Um domingo, em que minha tia tivera, simultaneamente, a visita do cura e de Eulalie, e a seguir fora descansar, nós todos subíramos para lhe dar boa-noite e mamãe lhe apresentava suas condolências pela má sorte que sempre trazia suas visitas à mesma hora:

            -Sei que as coisas ainda não andaram bem de novo,- Léonie disse-lhe com doçura-, todas as suas visitas vieram outra vez ao mesmo tempo.

            Ao que minha tia interrompeu com:

            -Abundância de bens...pois desde que sua filha estava doente, julgava de seu dever animá-la apresentando sempre tudo pelo melhor aspecto. Porém meu pai, tomando a palavra:

            - Desejo aproveitar -disse ele-, já que toda a família está reunida, para contar algo, sem ter de repeti-lo a cada um. Temo que estejamos estremecidos com Legrandin: ele mal me deu bom-dia esta manhã.

            Não fiquei para ouvir o relato de meu pai, pois tinha estado justamente com ele após a missa quando nos encontramos com Legrandin, e desci para a cozinha para ver o que havia para o jantar, o que todos os dias me distraía como as notícias que a gente lê no jornal e me excitava à maneira de um programa de festas Como o Sr. Legrandin passasse por nós à saída da igreja, caminhando ao lado de uma castelã das redondezas que só conhecíamos de vista, meu pai o saudara a um tempo amigável e reservadamente, sem que parássemos; o Sr. Legrandin mal respondera, com ar espantado, como se não nos conhecesse, e com essa inclinação do olhar, própria das pessoas que não querem ser amáveis, e que, do fundo repentinamente prolongado dos olhos, dão a impressão de encarar a gente como da extremidade de uma estrada interminável e a uma distância tal que se contenta em nos dirigir um aceno minúsculo de cabeça para adequá-lo ao nosso tamanho de marionetes.

            Ora, a dama que acompanhava Legrandin era uma pessoa considerada de virtudes; não era possível tratar-se de uma aventura, e que não lhe agradasse verem-se juntos ou se incomodasse por ser surpreendido, e meu pai perguntou, a si mesmo o que poderia ter feito para aborrecer Legrandin. "Lastimaria tanto vê-lo incomodado", disse meu pai, "pois ele, no meio de toda essa gente dominada, com seu casaco simples, sua gravata frouxa, tem um aspecto tão desalinhado, tão verdadeiramente simples, e um ar tão ingênuo que fica bastante simpático."

            Mas o conselho de família foi unânime na opinião de que meu pai estava fantasiando ou que Legrandin, naquele momento, estava absorvido por algum pensamento. Além do mais, o receio de meu pai se dissipou na noite seguinte. Quando voltávamos de um grande passeio, avistamos Legrandin perto de PontVieux, pois ele, devido às festas, permanecia vários dias em Combray. Veio ao nosso encontro, a mão estendida: "Você conhece, senhor leitor", perguntou-me-, este verso de Paul Desjardins:

            -Os bosques já estão sombrios, o céu é ainda azul...Não é uma finura de notação para esta hora? Talvez você nunca tenha lido Paul Desjardins. Leia-o, meu menino; dizem que hoje ele é irmão pregador, mas por muito tempo foi um límpido aquarelista...Os bosques já estão sombrios, o céu é ainda azul...Que o céu seja sempre azul para você, meu jovem amigo; e até na hora, que me chega agora, em que os bosques já são sombrios, em que a noite desce rápido, você se consolará como faço eu, olhando para o lado do céu." Tirou do bolso um cigarro, ficou muito tempo com os olhos perdidos no horizonte. "Adeus, meus camaradas", disse de súbito, e nos deixou.

            Na hora em que eu descia para saber qual era o cardápio do jantar, o serviço já começara, e Françoise, comandando as forças da natureza tornadas suas auxiliares, como nas séries em que os gigantes se fazem empregar como cozinheiros, remexia o carvão, levava ao vapor algumas batatas para estufá-las e fazia o fogo dar ao devido ponto as obras-primas culinárias, preparadas antes nos recipientes de cerâmica, os quais iam desde os grandes tachos, marmitas, sopeiras e travessas, às terrinas para a caça, às formas para empadas, e aos pequenos potes de creme, passando por uma coleção completa de caçarolas de todos os tamanhos. Parava para olhar, sobre a mesa, onde a criada de cozinha acabava de descascá-las, as ervilhas alinhadas e contadas como bolinhas verdes num jogo; mas o meu encanto ia todo para os aspargos, embebidos em ultramar e rosa, e cujo talo, finamente raiado de azul e malva, vai se degradando insensivelmente até o pé ainda manchado do chão em que estava por irisações que não pertencem à terra. Merecia-me que tais nuanças celestes atraíam as criaturas deliciosas que se divertiam em se transformar em legumes e que, por meio do disfarce de sua carne comestível e consistente, deixavam entrever nessas cores nascentes da aurora, nesses esboços de arco-íris, nesses fins de tarde azuis, a essência preciosa que eu reconhecia ainda quando, pela noite que se seguia a um jantar em que eu comera aspargos, se divertiam, nas suas farsas poéticas e grosseiras como uma féerie de Shakespeare, em transformar o meu urinol em um vaso de perfume.

            A pobre Caridade de Giotto, como a chamava Swann, encarregada por Françoise de lhes tirar a pele, tinha-os junto dela num cesto, e mantinha um ar dolorido como se sentisse todas as desgraças da terra; e as leves coroas azuis que enlaçavam os aspargos por sobre suas túnicas cor-de-rosa eram minuciosamente desenhadas, estrela por estrela, como o estão no afresco as flores enfaixadas em torno à fronte ou que pontilham na corbelha da Virtude de Pádua. E no entanto Françoise girava no espeto um daqueles frangos, como só ela sabia assá-los, frangos que haviam espalhado por toda a Combray o aroma de seus méritos, e que, enquanto nos servia à mesa, faziam predominar a doçura em minha concepção especial de seu caráter, e o aroma dessa carne que ela sabia tornar tão untuosa e tenra, e que eram, para mim, o próprio perfume de uma de suas virtudes.

            Mas o dia em que, enquanto meu pai consultava o conselho da família sobre o encontro com Legrandin, eu desci à cozinha, era um daqueles em que a Caridade de Giotto, muito mal devido ao parto recente, não podia se levantar; sem auxiliar, Françoise estava atrasada. Quando cheguei lá embaixo, ela estava na copa, que dava para o galinheiro, tentando matar um frango que, por sua resistência desesperada e bastante natural, mas acompanhada por Françoise fora de si, aos gritos de "Droga! Droga!", enquanto procurava lhe partir o pescoço por sob a orelha, colocava a santa doçura e a unção da nossa criada um pouco menos em destaque do que o teria feito, no jantar do dia seguinte, com sua pele debruada de ouro como uma casula e seu molho precioso a pingar de um cibório. Logo que ele morreu, Françoise recolheu o sangue que corria sem lhe afogar o rancor, teve ainda um assomo de cólera, e, olhando o cadáver do inimigo, exclamou uma última vez: "Droga!"

            Tornei a subir, todo trêmulo; gostaria que mandassem Françoise embora imediatamente. Mas quem me faria almôndegas tão quentes, café tão cheiroso, e até... aqueles frangos? E na realidade, esse cálculo acovardado, todos já o tinham feito como eu. Pois tia Léonie sabia-o que eu ainda ignorava-que Françoise, que para a filha, para os sobrinhos, teria dado a vida sem uma queixa, era de uma dureza singular para com os outros seres. Apesar disso, minha tia a conservara, pois, se conhecia a sua crueldade, apreciava o seu serviço.

            Aos poucos, fui me apercebendo que a doçura, a compunção e as virtudes de Françoise escondiam tragédias da copa, como a história descobre que os reinados de reis e rainhas, que são representados de mãos postas nos vitrais das igrejas, foram marcadas de fatos sangrentos, Dei-me conta de que, fora do círculo dos parentes, os seres humanos tanto reais lhe causavam compaixão com seu infortúnio quanto mais afastados dela estavam. As torrentes de lágrimas que ela derramava ao ler no jornal as desgraças de pessoas desconhecidas estancavam de imediato se ela podia imaginar a pessoa que as provocara de modo mais preciso. Uma das noites que se seguiram ao parto da criada de cozinha, esta se viu acometida de cólicas atrozes; mamãe ouviu-a gemendo, ergueu-se e foi despertar Françoise, a qual, insensível, declarou que aqueles gritos não passavam de uma comédia, que ela queria "bancar a patroa". O médico, que temia essas crises, marcara, num livro de medicina que tínhamos, a página em que elas eram descritas, e nos dissera que o consultássemos para achar a indicação dos primeiros socorros de emergência. Minha mãe mandou Françoise buscar o livro, recomendando-lhe que não deixasse cair a marca. Passada uma hora, Françoise não havia voltado. Mamãe, indignada, pensou que ela tornara a se deitar e me pediu que fosse ver o livro na biblioteca. Ali encontrei Françoise que, tendo querido olhar o que o sinal marcava, lia a descrição clínica da crise e dava soluços, agora que se tratava de uma doente-padrão que ela não conhecia. A cada sintoma doloroso mencionado pelo autor do tratado, ela gemia:

            "Minha Nossa! Será possível que o bom Deus deseje fazer sofrer deste modo uma desgraçada criatura humana? Pobrezinha! "

            Mas tão logo a chamei e ela se achou de novo junto ao leito da Caridade de Giotto, suas lágrimas cessaram de correr; não pôde reconhecer nem essa agradável sensação de piedade e enternecimento que tão bem sentia e que a leitura dos jornais lhe fizera ver com freqüência, nem qualquer prazer da mesma espécie, diante do tédio e da irritação de ter se levantado no meio da noite por causa da Criada de cozinha; e à vista dos mesmos sofrimentos cuja descrição a fizera chorar ela só achou resmungos de mau humor, e até sarcasmos afrontosos, dizendo, quando julgou que nós tínhamos ido embora e não poderíamos ouvi-la:

            "Bastava que ela não fizesse o que é preciso fazer para isso acontecer! Sinal que gostou! E não venha com frescuras agora. É preciso que um rapaz esteja mesmo desamparado de Deus para se embeiçar por isto. Ah, é bem como diziam no patuá da terra da minha pobre mãe: Quem se apaixona pelo rabo de um cão vê nele apenas uma rosa em botão.''

            Se, quando o neto estava meio gripado, ela saía à noite, mesmo doente, em vez de se deitar, para ver se ele não precisava de alguma coisa, fazendo quatro léguas a pé, antes de romper a manhã, a fim de estar de volta logo ao trabalho, em compensação esse mesmo amor aos seus e o seu desejo de assegurar a futura grandeza de sua casa traduzia-se, na sua política em relação aos outros criados, por uma máxima constante que era jamais deixar um só deles criar raízes na casa da tia

            Léonie, de quem, com orgulho cuidadoso, não permitia que ninguém se aproximasse, preferindo, quando ela própria se achava doente, levantar da cama para lhe dar sua água de Vichy, em vez de permitir o acesso ao quarto da patroa à criada de cozinha. E, como esse himenóptero observado por Fabre, a vespa fossadora, que; para que os filhos, após a sua morte, disponham de carne fresca para comer, chama a anatomia em auxílio de sua crueldade e, tendo capturado gorgulhos e aranhas, lhes fere com ciência magistral e habilidade magnífica o centro nervoso, do qual depende o movimento das patas mas não as outras funções vitais, de modo que o animal paralisado, perto do qual deposita os ovos, forneça às larvas, quando surgirem à vida, um alimento dócil, inofensivo, incapaz de fuga ou resistência, mas de modo algum apodrecido.

            Françoise encontrava, para cumprir sua vontade permanente de tornar a casa inabitável a qualquer criado, ardis tão sábios e tão impiedosos que, muitos anos depois, é que ficamos sabendo que havíamos comido aspargos quase todos os dias porque o seu cheiro dava à pobre tríade de cozinha, encarregada de descascá-los, acessos de asma de tamanha violência que ela afinal foi obrigada a ir embora.

            Infelizmente deveríamos mudar em definitivo a nossa opinião sobre Legrandin. Num dos domingos seguintes ao encontro no Pont-Vieux, após o qual meu pai teve de confessar seu erro, ao findar a missa e quando, com o sol e o barulho de fora, algo tão pouco sagrado entrava na igreja que a Sra. Goupil, a Sra. Percepied (todas as pessoas que, pouco antes, quando eu cheguei meio atrasado; tinham ficado de olhos absorvidos em seus livros de orações e que eu mesmo teria julgado não me terem visto entrar se, ao mesmo tempo, seus pés não tivessem empurrado de leve o banquinho que me impedia de alcançar a cadeira) começavam a conversar conosco em voz alta sobre assuntos inteiramente temporais como se já estivéssemos na praça, vimos no limiar ofuscante do pórtico, dominando o tumulto de cores misturadas do mercado, Legrandin, quando o marido daquela senhora com a qual o havíamos visto ultimamente, acabava de apresentar à esposa de outra grande proprietário de terras das vizinhanças.

            O rosto de Legrandin exprimia uma animação e um interesse extraordinários; fez uma profunda reverência, com uma inclinação secundária para trás, o que levou seu dorso bruscamente além da posição inicial, e que deveria ter aprendido com o marido de sua irmã, Sra. de Cambremer. Esse rápido soerguimento fez refluírem, numa espécie de onda alanceada e musculosa, os quadris de Legrandin, que eu não imaginara tão carnudos; e não sei porque essa ondulação de matéria pura, essa vaga toda carnal, sem expressão, espiritualidade e que uma amabilidade cheia de baixeza açoitava com fúria, fizera de súbito acordar em meu espírito a possibilidade de um Legrandin bem diverso daquele que conhecíamos.

            Essa dama lhe pediu que dissesse algo ao seu cocheiro e enquanto ele ia até o carro, ainda persistia em seu rosto a expressão de alegria tímida e dedicada que a apresentação recente lhe causara. Embriagado numa espécie de sonho, Legrandin sorria; voltou depois para a dama com pressa e, como caminhasse mais rápido que de costume, suas espáduas balançavam ridiculamente de um e outro lado, e ele se parecia a um joguete inerte e mecânico da felicidade, de tanto que se lhe entregava, indiferente ao resto do mundo. Todavia, nós saíamos do pórtico e íamos passar por ele, e ele era bastante educado para não virar o rosto, mas fixou o olhar, de repente, cheio de uma cisma profunda, num ponto tão afastado do horizonte que não pôde nos ver e não teve de cumprimentar-nos. Sua fisionomia continuava ingênua no alto do casaco frouxo e simples que parecia sentir-se deslocado, malgrado seu, em meio a um luxo detestado. E a gravata lavalliere de pintinhas, que o vento da praça agitava, continuava a flutuar sobre ele como o estandarte de seu isolamento orgulhoso e de sua nobre independência.

            No momento em que chegávamos em casa, mamãe percebeu que havíamos esquecido a torta de creme e pediu a meu pai que voltasse comigo para avisar que a mandassem logo. Cruzamos com Legrandin perto da igreja; ele vinha em sentido contrário levando a mesma dama para o carro. Passou por nós, não interrompeu o que dizia à companheira e nos fez, com o canto do olho azul, um pequeno sinal de qualquer modo interior às pálpebras e que, não comprometendo os músculos do rosto, pôde passar perfeitamente despercebido de sua interlocutora; mas, procurando compensar pela intensidade do sentimento a área um pouco estreita em que se circunscrevia a expressão, naquele canto azulado que nos era reservado fez cintilar toda a sua benevolência, que ultrapassava a jovialidade e chegava até a ser maliciosa; tornou sutis as finezas da amabilidade até as piscadelas da cumplicidade, as meias-palavras, os subentendidos, os mistérios da conivência; e, finalmente, exaltou os protestos de amizade até as declarações de amor, iluminando então, só para nós, de um lango secreto e invisível à castelã, uma pupila apaixonada em um rosto de gelo.

            Exatamente na véspera, havia pedido a meus pais que me mandassem para jantar com ele: "Venha fazer companhia a seu velho amigo", dissera-me ele. ''Como o ramalhete que um viajante nos manda de uma região à qual não regressaremos, faça-me respirar, da distância da sua adolescência, essas flores primaveris que eu também atravessei há longo tempo. Venha com a primavera, a barba-de capuchinho, o botão-de-ouro, venha com o sédum, do qual se faz o buquê preferido da flora balzaquiana, com a flor do dia da Ressurreição, o mal-me-quer-branco e o viburno dos jardins que principia a embalsamar as alamedas da sua tia-avó quando ainda não se derreteram as últimas bolas de neve das saraivas da Páscoa. Venha com a gloriosa veste de seda do lírio, digna de Salomão, e o esmalte policrômico; [aqui um jogo de palavras, no francês, entre a flor viburno (bou/e-de-neige) e as bolas de neve das chuvas. Idades da Páscoa. (N. do T.)] dos amores-perfeitos, mas venha, acima de tudo, com a brisa ainda fresca das últimas geadas e que vai entreabrir, para as duas borboletas que desde esta manhã aguardam à porta, a primeira rosa de Jerusalém."

            Em casa, perguntavam se ainda assim deveriam mandar-me jantar com o Sr. Legrandin. Mas minha avó recusou-se a crer que ele tivesse sido pouco educado: "Vocês mesmos reconhecem que ele aparece aqui com toda a simplicidade que não é a de um mundano."       Declarava que, em todo caso, e na pior das hipóteses, se ele o tivesse sido mais valeria não se dar por achado. A falar a verdade, até meu pai; que no entanto era o mais irritado contra a atitude de Legrandin, conservava ainda uma última dúvida acerca do significado que ela comportava. Teria sido como toda atitude ou ação em que se revelasse o caráter profundo e escondido de uma pessoa; não teria ligação com suas palavras anteriores, não podíamos fazer com que confirmasse com o testemunho do culpado, que não confessaria; estávamos reduzidos ao testemunho dos nossos sentidos e nos indagamos, diante dessa lembrança isolada e incoerente, se não teriam sido o joguete de uma ilusão; de maneira que semelhantes atitudes, as únicas a poderem ter importância, nos deixam muitas vezes uma certa dúvida.

            Jantei com Legrandin no seu terraço; fazia luar: "Há uma linda espécie de silêncio, não é", disse-me ele, "para os corações feridos como o meu, um romancista que você lerá mais tarde pretende que convêm somente a sombra e o silêncio. E veja bem, meu menino, chega um momento na vida, momento do qual você ainda está bem longe, em que os olhos fatigados já não suportam senão uma luz, a que uma bela noite como esta prepara e destila com a escuridão, em que os ouvidos só podem escutar a música tocada pelo luar na flauta do silêncio." Eu ouvia as palavras do Sr. Legrandin que me pareciam sempre tão agradáveis; mas, perturbado pela recordação de uma mulher que vira recentemente pela primeira vez, e pensando agora que sabia que Legrandin era ligado à diversas personalidades da aristocracia das redondezas, que talvez ele a conhecesse, tomei coragem e lhe disse:

            "Será qua o senhor conhece a... as castelãs de Guermantes?", e também feliz, ao pronunciar esse nome, porque me fazia adquirir sobre ele uma espécie de poder pelo simples fato de arrancá-lo do meu sonho e conferir-lhe uma existência sonora e objetiva.

            Porém a este nome de Guermantes, eu vi no meio dos olhos azuis do nosso amigo fixar-se um pequenino ponto escuro, como se acabassem de ser furados por uma ponta invisível, ao passo que o resto da pupila reagia segregando ondas de azul. As olheiras escureceram, abaixaram-se. E sua boca, marcada por uma ruga amarga, dominando-se mais depressa, sorriu, enquanto o olhar permanecia doloroso, como o de um bom mártir cujo corpo é crivado de setas:            "Não, não os conheço", respondeu, mas em vez de dar a uma informação tão banal, a uma resposta tão pouco surpreendente, o tom natural e corriqueiro adequado, lançou acentuando as palavras, inclinando-se, sacudindo a cabeça, ao mesmo tempo com a insistência que se dá, para ter crédito, a uma afirmação inverossímil - como se o fato de não conhecer os Guermantes pudesse ser apenas o efeito de um acaso singular- e também com a ênfase de alguém que, não podendo calar uma situação que lhe é penosa, prefere proclamá-la para dar aos outros a impressão de que semelhante confissão não lhe causa embaraço algum, é fácil, espontânea, agradável, que a própria situação a ausência de relações com os Guermantes podia muito bem não ser sofrida, mas desejada por ele, e resultar de alguma tradição de família, princípio moral ou voto místico que lhe interditasse expressamente a convivência com os Guermantes.

            "Não", repetiu, explicando com as palavras a própria entonação, "não, não os conheço, nunca me interessei em conhecê-los, sempre fiz questão de manter minha independência total; no fundo, sou uma cabeça jacobina, você sabe. Muita gente intercedeu, dizendo que era um erro eu não ir ver os Guermantes, que eu passava a idéia de ser um turrão, um velho urso. Mas aí está uma reputação que não me assusta, pois é tão verdadeira! No fundo, só gosto nesta terra de algumas igrejas, dois ou três livros, mais uns poucos quadros, e do luar quando a brisa da sua juventude traz até mim o aroma dos canteiros que minhas velhas pupilas já não percebem."

            Eu não compreendia bem por que era necessário proclamar independência para ir à casa de pessoas que não se conhecia, e em que aquilo podia lhe dar o aspecto de um selvagem ou de um urso. Mas entendia que Legrandin não era totalmente verdadeiro quando dizia só gostar das igrejas, do luar e da juventude; apreciava bastante os moradores dos castelos e, diante deles, achava-se tomado de tão grande pavor de desagradar-lhes que não tinha coragem de fazê-los perceber que possuía amigos entre os burgueses, filhos de tabeliães ou corretores, preferindo, se se devesse descobrir a verdade, que fosse em sua ausência, longe de suas vistas e "por descuido": era um esnobe.

            É claro que nada dizia de tudo isso na linguagem que meus pais e eu tanto apreciávamos. E se eu lhe perguntasse:

            "Conhece os Guermantes?", Legrandin, o conversador, respondia:

            "Não, jamais quis conhecê-los."

            Desgraçadamente, ele respondia em segundo plano, pois um outro Legrandin, que ele ocultava cuidadosamente no fundo de si mesmo, que não mostrava, porque este último Legrandin sabia acerca do nosso, sobre o seu esnobismo, histórias comprometedoras, um outro Legrandin já respondera com o olhar ferido, o riso da boca, com a excessiva gravidade do tom da resposta, com as mil setas de que o nosso Legrandin se vira num momento crivado e agonizante, como um São Sebastião do esnobismo:

            "Ai de mim, que você me faz mal; não, não conheço os Guermantes, não desperte a grande mágoa da minha vida."

            E como este Legrandin inconveniente, esse Legrandin tagarela, se não possuía a bela expressão verbal do outro, tinha a palavra infinitamente mais lenta, composta daquilo a que se chama "reflexos", quando o conversador Legrandin queria lhe impor silêncio, o outro já havia falado e o nosso amigo, por mais que se sentisse infeliz com a má impressão que as revelações

de seu alter ego já deviam ter provocado, não podia fazer mais que atenuá-las.

            E certamente isto não queria dizer que o Sr. Legrandin não fosse sincero quando malhava os esnobes. Não podia saber, ao menos por si mesmo, que o fosse, visto que jamais conhecemos senão as paixões dos outros, e o que chegamos a saber sobre as nossas, não é por meio deles que o vamos aprender. Contra nós, elas só agem de modo secundário, pela imaginação que substitui os primeiros móveis por móveis de reserva que sejam mais decentes. O esnobismo de Legrandin nunca lhe aconselhava que fosse visitar com freqüência uma duquesa. Encarregava a sua imaginação de lhe fazer aparecer essa duquesa como que adornada de todas as graças. Legrandin aproximava-se da duquesa, julgando ceder a essa atração do espírito e da virtude que os infames esnobes desconhecem. Só os outros sabiam que ele era esnobe; pois, graças à incapacidade de compreenderem o trabalho intermediário da imaginação de Legrandin, viam, uma em frente à outra, a atividade mundana de Legrandin e sua causa primordial.

            Agora, em casa, não se tinha mais nenhuma ilusão quanto ao Sr. Legrandin e nossas relações com ele se fizeram bastante espaçadas. Mamãe se divertia muitíssimo de cada vez que surpreendia Legrandin em flagrante delito do pecado que ele não confessava, que continuava a denominar pecado sem remissão, o esnobismo. Quanto a meu pai, não levava tanto na brincadeira os desdéns de Legrandin; e quando, num ano, pensou-se em me mandar passar as férias de verão em Balbeq, juntamente com minha avó, ele disse:

            "É absolutamente necessário que eu comunique a Legrandin que vocês vão para Balbec, para ver se ele se oferece para pô-los em contato com a irmã. Ele não deve estar lembrado de nos ter dito que ela morava a dois quilômetros dali."

            Minha avó, que achava que nos balneários a gente precisa estar da manhã à noite na praia, a fim de respirar o sal, e que não se deve travar relações com ninguém, porque as visitas e os passeios são outros tantos furtos que fazemos ao ar marinho, pedia, pelo contrário, que não se falasse dos nossos projetos a Legrandin, pois já estava vendo a sua irmã, Sra. de Cambremer, desembarcando no hotel no momento em que estivéssemos a ponto de ir pescar e forçando-nos a ficar fechados para recebê-las. Mas mamãe ria de seus temores, achando que o perigo não era assim tão ameaçador, que Legrandin não teria pressa nenhuma em nos fazer relacionar com sua irmã. Ora, sem que fosse preciso falar em Balbec a Legrandin, foi este próprio que, sem imaginar que tivéssemos a intenção de ir para aquelas bandas, veio colocar-se na armadilha uma tarde em que o encontramos à beira do Vivonne.

            "Esta tarde há nas nuvens cores violáceas e azuis bem bonitas, não é, meu camarada?", comentou com meu pai; "um azul sobretudo mais floral que aéreo, um azul de cineraria, que surpreende no céu. E esta nuvenzinha cor-de-rosa não tem igualmente um jeito de flor, de cravo ou hidrângea?            Somente na Mancha, entre à Normandia e a Bretanha, é que pude fazer observações mais preciosas sobre está espécie de reino vegetal da atmosfera. Lá adiante, perto de Balbec, perto desses locais tão selvagens, existe uma pequena baía de suavidade encantadora, onde o pôr-do-sol da terra de Auge, o ocaso rubro e dourado que aliás, estou longe de desdenhar, se mostra sem caráter e insignificante; mas nessa atmosfera úmida e doce se abrem de tarde, em poucos minutos, esses buquês celestes, azuis e róseos, que são incomparáveis e muitas vezes levam horas para se desfazerem. Outras vezes, se desfolham de imediato e, então, é mais belo ainda ver o céu inteiro semeado de inúmeras pétalas róseas ou sulfurinas. Nessa baía, como que de opala, as praias douradas ainda parecem mais suaves por se acharem presas, como louras Andrômedas, a esses terríveis rochedos das costas vizinhas, a essas margens fúnebres, célebres por tantos naufrágios, onde todos os invernos muitos barcos afundam aos perigos do mar. Balbec! A mais antiga ossatura geológica do solo francês, realmente Ar-mor, o Mar, o fim da terra, a região maldita que Anatole France, um indivíduo encantador que o nosso amiguinho devia ler pintou tão bem, sob as suas névoas eternas, como o verdadeiro país dos homéricos na Odisséia. De Balbec, sobretudo, onde já se constroem hotéis, superpostos ao solo antigo e encantador que eles não alteram, que prazer excursionar, a dois passos dessas regiões primitivas e tão lindas."

            -Ah, quer dizer que conhece alguém em Balbec?perguntou meu pai. - Justamente este menino deve ir passar lá dois meses com a avó e talvez com minha mulher.

            Legrandin, tomado de surpresa por essa pergunta, num momento em que seus olhos estavam fixos em meu pai, não pôde desviá-los, mas fixando-os a cada segundo com maior intensidade e sempre sorrindo com tristeza nos olhos do interlocutor, com um ar de amizade e franqueza e sem temer olhá-lo no rosto, parece que lhe atravessou a fisionomia, como se ela se tivesse tornado transparente, e ver nesse momento bem além dela uma nuvem vivamente colorida, que lhe criava um álibi mental e que lhe permitia assegurar que, no momento em que lhe haviam perguntado se não conhecia alguém em Balbec, estava pensando em outra coisa e não ouvira a indagação. Normalmente, tais olhares fazem o interlocutor dizer:

            "Em que é que está pensando?"

            Porém meu pai, curioso, irritado e cruel, repetiu:

            -Você tem amigos em Balbec, já que conhece tão bem o lugar?

            Num último esforço desesperado, o olhar sorridente de Legrandin alcançou o máximo de brandura, de sofreguidão, sinceridade e distração, mas, pensando sem dúvida que agora já não podia passar sem responder, disse:

            -Tenho amigos por toda parte onde há bosques de árvores feridas mas não vencidas, que se aproximam para implorar juntas, com patética obstinação, a um céu inclemente que delas não tem pena.

            - Não era isso o que eu queria dizer-cortou meu pai, também obstinado como as árvores e inclemente como o céu.- Eu indagava, para a eventualidade que acontecesse algo à minha sogra, se ela tivesse necessidade de não se sentir em terra alheia, se o senhor conhecia alguém da sociedade em Balbec...

            - Lá, como em toda parte, conheço todo mundo e não conheço ninguém. Respondeu Legrandin que não se dava tão depressa por vencido;- conheço muito as coisas e pouco as pessoas. Mas as próprias coisas parecem pessoas ali, pessoas raras, de uma essência delicada e que a vida teria desapontado. Às vezes, trata-se de um castelo que descobrimos na costa, à beira da estrada onde ficou parado para confrontar seu desgosto com a noite ainda cor-de-rosa onde sobe a lua de ouro, e onde os barcos que regressam frisando as águas matizadas exibem nos mastros sua flâmula e suas cores; outras vezes, é uma simples residência solitária, antes feia de aspecto tímido porém romanesco, que oculta a todos os olhos algum segredo imorredouro de felicidade e desengano. Essa região sem verdade-acrescentou eles com delicadeza maquiavélica-essa terra de pura ficção, é de ruim entendimento é com certeza eu não a recomendaria nem escolheria para o meu amiguinho, já tão inclinado à tristeza, devido a seu coração impressionável. Os climas de confidência amorosa e de lamentação inútil podem convir ao velho desabusado que sou, mas sempre se fazem malsãos para um temperamento ainda não formado. Creia-me tornou com insistência-, as águas daquela baía, já meio bretã, podem exercer uma ação sedativa, aliás discutível, num coração que já não está intacto, como o meu, um coração cuja ferida não é mais compensada. E são contra-indicadas para a sua idade, meu menino. Boa-noite, vizinhos acrescentou, deixando-nos com aquela brusquidão evasiva de que tinha o costume e, voltando-se para nós com um dedo erguido de doutor, resumiu a consulta, gritando-nos: - Nada de Balbec antes dos cinqüenta anos e, ainda depois, dependendo do estado do coração.

            Meu pai voltou a lhe falar em nossos encontros posteriores, torturou-o com perguntas: foi tudo inútil. Como aquele escroque erudito, que empregava nó fabricado de falsos palimpsestos o trabalho e uma ciência cuja centésima parte teria bastado para lhe assegurar uma posição mais lucrativa, mas honrada, o Sr. Legrandin, - se ainda tivéssemos insistido, teria acabado por construir toda uma ética de paisagem e uma geografia celeste da baixa Normandia, de preferência a confessar que, a dois quilômetros de Balbec morava sua própria irmã, e de ser obrigado a nos dar uma carta de apresentação, o que não o assustaria tanto se tivesse absoluta segurança como devia ter, de fato, devido ao seu conhecimento do caráter de minha avó-de que não iríamos utilizá-la.

            Sempre voltávamos cedo dos passeios para poder fazer uma visita a tia Léonie antes do jantar. No princípio da estação, quando o dia acaba cedo, ainda havia um reflexo do ocaso, quando chegávamos à rua do Saint-Esprit, sobre as vidraças da casa e uma faixa purpurina no fundo dos bosques do Calvário, que se refletia mais além, no lago; vermelhidão que, acompanhada diversas vezes de um frio bem vivo, se associava, em meu espírito, ao rubor do fogo sobre o qual se assava o frango que me trazia, após o prazer poético do passeio, o prazer da gula, do calor e do repouso. Ao contrário, no verão, ao voltarmos, o sol ainda não se pusera e, durante a visita que fazíamos a tia Léonie, sua luz, que declinava e alcançava a janela, ficava parada entre as grandes cortinas e os umbrais, dividida, ramificada, filtrada e, incrustando de pedacinhos de ouro a madeira de limoeiro da cômoda, iluminava obliquamente o quarto com a delicadeza que tem nos bosques, sob as árvores.

            Porém, em determinados dias muito raros, não havia mais, quando chegávamos à rua do Saint-Esprit, nenhum reflexo do ocaso estendido nas vidraças e o lago ao pé do calvário já perdera seu tom de púrpura; às vezes já estava cor de opala e um longo raio de lua, que ia se alargando e estriando em todas as rugas da água, atravessava-o por inteiro. Então, ao nos aproximarmos da casa, vislumbrávamos uma forma no limiar da porta, e mamãe dizia:

            - Meu Deus! É Françoise que está nos esperando, sua tia está inquieta; também, voltamos tarde demais.

            E, sem ter tido tempo de nos livrar dos capotes, subíamos depressa para ver tia Léonie e tranqüilizá-la, mostrando que, ao contrário do que ela já imaginava, nada nos acontecera, mas que tínhamos ido pelo "lado de Guermantes" e, ora essa, quando a gente dava esse passeio, sabíamos muito bem que nunca se podia ter certeza da hora em que estaríamos de volta.

            - Está vendo, Françoise - dizia minha tia-, bem que falei que eles deveriam ter tomado o caminho de Guermantes! Meu Deus! Devem estar com uma fome! E o seu carneiro que certamente já estará torrado, com todo esse tempo a esperar! Também, isso é hora que se chegue! Quer dizer então que vocês foram pelo caminho de Guermantes?

            - Mas eu julgava que você sabia, Léonie - dizia mamãe. - Pensei que Françoise nos tivesse visto sair pelo portãozinho da horta.

            Pois havia ao redor de Combray dois "lados" para os passeios, e tão opostos que a gente, de fato, não saía pelo mesmo portão conforme quisesse ir por um lado ou por outro: o lado de Méséglise-la-Vineuse, que era chamado, também, o lado da casa do Sr. Swann porque se passava diante da propriedade do Sr. Swann para ir para lá; e o lado de Guermantes. Para falar a verdade, de Méséglise-la-Vineuse eu só cheguei a conhecer o "lado" e as pessoas estranhas que vinham passear em Combray, aos domingos, pessoas que, dessa vez, nem minha tia nem nenhum de nós "absolutamente conhecíamos" e que, por esse dado, eram tidas como "pessoas que terão vindo de Méséglise". Quanto a Guermantes, um dia eu deveria conhecer melhor, mas apenas muito mais tarde; e durante toda a minha adolescência, se Méséglise era-me algo inacessível como o horizonte, oculto à vista, por mais longe que a gente fosse, pelos acidentes de um terreno que já não se parecia ao de Combray, Guermantes só me surgia como o termo antes ideal do que real de seu próprio "lado", uma espécie de expressão geográfica abstrata como a linha do equador, como o pólo, como o oriente. Então, "ir por Guermantes" para chegar a Méséglise, ou o contrário, teria me parecido uma expressão tão desprovida de sentido como tomar o caminho do leste para chegar ao oeste. Como meu pai falava sempre do lado de Méséglise como sendo o mais belo panorama de planície que conhecera, e do lado de Guermantes como do tipo de paisagem de rio, eu lhes atribuía, assim concebendo-os como duas entidades, esta coesão, esta unidade que só pertence às criações do nosso espírito; a menor parcela de cada uma delas me parecia preciosa, manifestando sua excelência particular, ao passo que, em relação a elas, antes que se chegasse ao solo sagrado de uma ou de outra, os caminhos puramente materiais, em que estavam pousadas como o ideal da visão de planície e o ideal da vista da paisagem de rio, já não valiam a pena de serem encaradas, a não ser pelo espectador apaixonado pela arte dramática, as ruelas que levam ao teatro. Eu, principalmente, punha entre elas, bem mais que suas distâncias quilométricas, a distância existente entre as duas partes do meu cérebro, com que pensava nelas, uma dessas distâncias no espírito que não só fazem afastar as coisas, mas separam-nas, pondo-as em outro plano. E essa demarcação tornava-se mais absoluta ainda porque esse costume nosso de jamais ir na direção dos dois caminhos num mesmo dia, num só passeio, mas de uma vez pelo lado de Méséglise; de outra vez pelo lado de Guermantes, fechava-as, por assim dizer, bem longe uma da outra, irreconhecíveis uma à outra, nos vasos cerrados e não comunicantes entre elas, de tardes diferentes.

            Quando se queria ir pelo lado de Méséglise, saía-se (não muito cedo e até mesmo se o céu estava coberto, porque o passeio não era longo e não durava muito) como para ir a qualquer parte, pela porta da frente da casa da tia Léonie, que dava para a rua do Saint-Esprit. Éramos saudados pelo armeiro, deixávamos as cartas na caixa do correio, e, de passagem, dizíamos a Théodore, da parte dá Françoise, que ela já não tinha carvão ou café, e saíamos da cidade pelo caminho que passava ao longo da cerca branca do parque do Sr. Swann. Antes de aí chegar encontrávamos, vindo ao encontro dos estranhos, o aroma de seus lilases. Eles próprios, dentre os pequenos corações verdes e frescos de suas folhas, erguiam curiosamente acima da cerca do parque, seus penachos de plumas malvas ou brancas que rebrilhavam, mesmo na sombra, devido à luz do sol em que se banhavam. Alguns, meio escondidos pela casinha de telhas apelidada A Casa dos Arqueiros, onde residia o guarda, ultrapassavam o frontão gótico do seu róseo minaretes As Ninfas da Primavera pareceriam vulgares junto dessas hauris jovens que conservavam nesse jardim francês os tons vivos e puros das miniaturas da Pérsia. Apesar do meu desejo de abraçar-lhes o e de encostar ao rosto os caracóis estrelados de sua cabecinhas odorantes, passávamos por ali sem parar, já que meus pais tinham deixado de visitar Tansonville desde o casamento de Swann, e, para não darmos a impressão de que olhávamos o parque, ao invés de ir pelo caminho que margeia o cercado da casa, e que vai dar diretamente nos campos, íamos por outro que também chegava lá, porém obliquamente, fazendo-nos desembocar mais longe.

            Um dia, meu avô disse a meu pai:

            -Lembra-se que Swann disse ontem que, como a mulher e a filha viajavam para Reims, ele iria aproveitar para passar vinte e quatro horas em Paris? Poderíamos, já que essas damas estão fora, caminhar ao longo do parque, o que nos abreviaria o trajeto.

            Paramos um momento diante da cerca. Aproximava-se o fim da época dos lilases; alguns ainda elevavam em altos lustres cor de malva as delicadas bolhas das flores, mas em muitas partes da folhagem em que, há uma semana apenas, explodia o seu musgo embalsamado, murchava-se agora, diminuída e escura, uma espuma vazia e sem perfume.

            Meu avô mostrava a meu pai em que aspecto aqueles lugares eram os mesmos, e em que haviam mudado desde o passeio que havia feito com o Sr. Swann pai no dia da morte da esposa deste, e aproveitou a ocasião para contar mais uma vez aquele passeio. Diante de nós, uma alameda margeada de capuchinhos subia em pleno sol na direção do castelo. À direita, pelo contrário, o parque se estendia por um terreno plano.

            No escuro, devido às grandes árvores que o cercavam, havia um tanque mandado cavar pelos pais de Swann; porém, nas suas criações mais artificiais, é sobre a natureza que o homem trabalha; certos lugares impõem sempre a seu redor um império particular, arvoram suas insígnias imemoriais no meio de um parque, como o teriam feito longe de qualquer intervenção humana, na solidão que volta sempre a rodeá-los, surgidas das necessidades de sua exposição e superposta à obra humana. Assim é que, junto da alameda que dominava o tanque artificial, formara-se em duas fileiras, entrelaçadas de flores de miosótis e de pervincas, a coroa natural, azul e delicada, que cinge a fronte claro-escura das águas, e que a palma-de-santa-rita, deixando pender os gládios com um abandono de realeza, estendia sobre a escumilha e o ranúnculo de pé molhado, as flores-de-lis em trapos, amarelas e violáceas, do seu cetro lacustre.

            A partida da Srta. Swann que-eliminando a tremenda possibilidade devê-Ia aparecer numa alameda, de ser conhecido e desprezado pela filhinha privilegiada de quem Bergotte era amigo e com o qual ia visitar catedrais-tornava-me indiferente à contemplação de Tansonville da primeira vez em que era permitida, parecia, ao contrário, ajuntar a essa propriedade, aos olhos de meu avô e de meu pai, certo conforto, um atrativo passageiro, e, como nos concede, no caso de uma excursão em terra montanhosa, a ausência de qualquer nuvem, tornava-lhes aquele dia excepcionalmente apropriado a um passeio por aquelas bandas; eu preferiria que seus cálculos falhassem, que um milagre fizesse reaparecer a Srta. Swann com o pai, tão perto de nós que não teríamos tempo de evitá-lo e seríamos obrigados a conhecê-la. Assim, quando de súbito percebi sobre a grama, como um sinal de sua presença possível, um pequeno cesto esquecido ao lado de uma linha de pesca; cuja bóia flutuava na água, apressei-me a desviar a atenção de meu pai e meu avô para outro ponto. Além do mais, como Swann houvesse dito que não lhe ficava bem ausentar-se, pois na ocasião tinha hóspedes em casa, a linha poderia pertencer a algum convidado.

            Não se ouvia ruído nenhum nas alamedas. Percebia-se, à altura de uma árvore incerta, um pássaro invisível empenhando-se para tornar mais curta o dia, ao explorar, numa nota prolongada, a solidão circundante, mas recebendo dela uma réplica tão unânime, um choque de volta tão redobrado de silêncio e de imobilidade, que se diria que acabava de parar para sempre o instante que tentam fazer passar mais depressa. A luz caía tão implacavelmente do céu que se tornara fixo, que a gente gostaria de se subtrair à sua atenção, e até a água parada, como o sono era perturbado constantemente pelos insetos, sonhando sem dúvida com algum Maelstrom imaginário, aumentava a perturbação que me causara a vista da bóia de cortiça, parecendo arrastá-la a toda velocidade sobre as vastidões silenciosas do céu refletido; quase verticalmente, ela parecia prestes a mergulhar e eu já me perguntava se, sem considerar o desejo e o temor que tinha de conhecê-la, não era de meu dever prevenir a Srta. Swann de que o peixe estava mordendo quando precisei ir, correndo, juntar-me a meu pai e meu avô, que me chamavam, espantados de que não os tivesse acompanhado pela vereda que subia para os campos pela qual haviam seguido. Achei-a toda sussurrante do aroma dos espinheiros-alvares. A sebe formava uma espécie de seqüência de capelas que desapareciam sob o montão de flores; acima delas, o sol pousava na terra um pequeno quadrado de luz, como se acabasse de atravessar um vitral; seu perfume se estendia, assuntuoso, tão delimitado em sua forma como se eu estivesse diante do altar da Virgem, e as flores, desse modo enfeitadas, sustentavam distraídas seu deslumbrante buquê de estames, finas e radiantes nervuras de estilo flamboyant, como aquelas que na igreja iluminavam a rampa da galeria ou as travessas dos vitrais, que se desfaziam em alvas carnes de flor de morango. Em comparação, como não pareceriam ingênuas e matutas as elegantes que, dentro de algumas semanas também se elevariam, em pleno sol, pelo mesmo caminho rústico, e cujos corpetes de seda lisa e rubra um simples sopro desfaria!

            Porém, por mais que eu ficasse respirando diante dos espinheiros-alvares mostrando a meu pensamento que não sabia o que fazer com ele, para poder reencontrar, seu aroma fixo e invisível, unindo-me ao ritmo que suas flores lançavam aqui e ali com uma alegria juvenil e a intervalos imprevistos como certo intervalos musicais, eles ofertavam-me indefinidamente o mesmo charme com uma profusão inesgotável, mas sem me deixar, todavia, aprofundá-lo mais, como melodias que tocamos cem vezes seguidas sem escavar mais a fundo o seu segredo. Não me desviava deles um só instante, para abordá-los a seguir com forças renovadas. Até o talude que, por detrás da sebe, erguia-se em aclive pronunciado até os campos, eu perseguia uma papoula perdida, algumas centáureas que ficavam preguiçosamente para trás, que o ornamentavam aqui e ali com suas flores, como a beirada de uma tapeçaria onde transparece, de quando em quando, o motivo silvestre que há de triunfarem todo o pano; raras ainda, de espaço a espaço, como as casas isoladas de uma aldeia já anunciam que esta vem se aproximando, elas me indicavam a extensão imensa onde assomam os trigais, onde as nuvens se amontoam, e a vista de uma única papoula que hasteia na extremidade de sua cordoalha e faz tremular ao vento sua flâmula rubra, acima de sua bóia oleosa e preta, me fazia bater o coração, como ao viajante que avista num terreno baixo uma primeira barca virada, que um calafete conserta e grita, ainda antes de o ter obrigado: "O Mar!"

            Depois, eu voltava para diante dos espinheiros-alvares como diante dessas obras-primas que a gente pensa que verá melhor após ter deixado de contemplá-Ias por um momento; mas, por mais que fizesse uma tela com as mãos para não ter senão eles diante dos olhos, permanecia obscuro e vago o sentimento que despertavam em mim, em vão procurando se desprender e vir aderir a suas flores. Eles não me auxiliavam a esclarecê-lo, e eu não podia pedir às outras flores que o satisfizessem. Então, dando-me essa alegria que experimentamos ao ver, de nosso pintor preferido, uma obra que difere das que conhecemos, ou se somos levados para diante de um quadro do qual não houvéssemos visto ainda senão um esboço a carvão, se um trecho ouvido unicamente ao piano nos surge a seguir revestido das cores da orquestra, meu avô, chamando-me e apontando a baía de Tansonville, me disse:

            "Tu, que gostas dos espinheiros-alvares, olha um pouco este espinheiro-rosa; é lindo!"

            De fato, tratava-se de um espinheiro, porém cor-de-rosa, mais belo ainda que os brancos. Ele também vestia-se de festa-das-festas religiosas, que são as únicas festas verdadeiras, visto que não há um capricho contingente que as aplique, como as festas mundanas, a um dia que não lhes é destinado em especial, um dia que nada tem de essencialmente festivo, mas um vestido ainda mais rico, pois as flores unidas ao ramo, umas sobre as outras, de forma a não deixar nenhum lugar sem decoração, como os pompons que ornamentam uma haste rococó, eram "de cor", e em conseqüência de uma qualidade superior conforme a estética de Combray, se a gente a julgasse segundo a escala de prêmios do magazine da Praça, ou da loja de Camus, onde eram mais caros os biscoitos cor-de-rosa. Eu mesmo gostava mais do queijo com creme rosado, no qual me permitiam esmagar morangos. E justamente essas flores haviam escolhido um desses tons de coisa comestível, ou de macio ornamento num vestido de festa de gala, que, já que lhe apresentaram o motivo de sua superioridade, são as que parecem mais claramente belas aos olhos das crianças, e por causa disso conservam sempre para estas algo de mais vivo e mais natural que os demais tons, mesmo quando elas compreendem que nada ofereciam à sua gulodice e não tinham sido escolhidas pela costureira. E, certamente, sentira logo, como diante dos espinheiros-brancos, porém mais maravilhado, que não era de modo fictício, por um artifício de fabricação humana que estava traduzida em flores a intenção de festividade, mas que era a natureza que, espontaneamente, a exprimira, com a ingenuidade de um comerciante de aldeia que trabalha para um altar, sobrecarregando o arbusto com essas rosinhas de tom esmaecido e de um pompadour provinciano. No alto dos ramos, como outros tantos vasos escondidos de rosinhas em papéis recortados que, nos dias de festa, faziam irradiar do altar suas hastes muito finas, rebrotavam miríades de botõezinhos de tom mais pálido, os quais, entreabrindo-se, deixavam ver, como no fundo de uma taça de mármore rosa, vermelhos sangüíneos e traíam, ainda mais que as flores, a essência particular, irresistível, do espinheiro, que, fosse onde fosse que brotasse ou florescesse, só o podia fazerem cor-de-rosa. Entremeado na sebe; mas também diverso dela, como uma moça de vestido de festa no meio de pessoas em trajes caseiros, que não vão sair, pronto para o mês de Maria, do qual já parecia fazer parte, assim brilhava, sorrindo em sua fresca toalete cor-de-rosa, o arbusto católico e delicioso.

            A sebe permitia ver, no interior do parque, uma alameda margeada de jasmins, amores-perfeitos e verbenas, entre os quais se abriam as bolsas frescas de uns goivos, de um róseo aromado e murcho de couro velho de Córdoba, aquele passo que, pelo caminho, coleava uma longa mangueira de regar, pintada de verde, desenrolando seus circuitos, e que, nos pontos onde apresentava furos, erguia, por sobre as flores cujo aroma embebia com seu frescor, o leque vertical e prismático de suas gotículas multicores.

            Subitamente parei, não pude mais me mexer, como ocorre quando uma visão não se dirige apenas ao nosso olhar, mas exige mais, profundas percepções e dispõe inteiramente do nosso coração. Uma garotinha de um louro arruivado, que parecia estar regressando de um passeio, tendo às mãos uma pá de jardinagem, nos encarava, erguendo o rosto todo coberto de manchas cor-de-rosa. Seus olhos negros brilhavam e como eu não sabia, à época, nem aprendi depois, reduzir a seus elementos objetivos uma impressão forte, como não tivesse, feito se diz, suficiente "espírito de observação" para poder isolar a noção da sua cor, durante muito tempo, a cada vez que nela pensava, a lembrança do brilho de seus olhos se apresentava logo a mim como o de um azul vivo, visto que ela era loura; de forma que, talvez se ela não tivesse olhos assim tão negros, o que muito , espantava, da primeira vez que a viam eu não teria ficado, como fiquei, mais especialmente apaixonado, nela, por seus olhos azuis.

            Eu a olhava, primeiro com o olhar que é apenas o porta-voz dos olhos, mal à janela do qual se debruçam todos os sentidos, ansiosos e petrificados, o olhar que desejaria tocar, capturar, levar consigo o corpo que está olhando e com ele a alma; depois, tal era o medo de que a todo instante meu avô e meu pai, percebendo a menina, me mandassem embora dali dizendo que corresse um pouco adiante deles, que um segundo olhar, inconscientemente suplicante, procurava forçá-la a prestar atenção em mim, a me conhecer! Ela dirigiu as pupilas para diante e para o lado, a fim de tomar conhecimento de meu avô e de meu pai, e é claro que a idéia que lhe ficou foi a de que éramos ridículos, pois desviou-se e, com um ar indiferente e desdenhoso, se pôs de lado para evitar que seu rosto permanecesse dentro do campo visual deles; e enquanto, continuando a caminhar sem tê-la percebido, eles me ultrapassavam, ela deixou seus olhares correrem na minha direção, sem expressão particular, sem parecer ver-me, mas com uma fixidez e um sorriso dissimulado, que eu só podia interpretar, de acordo com as noções que recebera sobre a boa educação, como uma prova de desprezo ultrajante; e, ao mesmo tempo, sua mão esboçava um gesto indecente, a que, ao ser dirigido em público a uma pessoa que não se conhece, o pequeno dicionário de civilidade que eu carregava dentro de mim só atribuía um sentido, o de uma intenção insolente.

            "Vamos, Gilberte, entra; o que é que estás fazendo?", gritou, com voz aguda e autoritária, uma dama vestida de branco que eu não tinha visto; e, a alguma distância dela, vestido de xadrez, um senhor que eu não conhecia, fixava em mim uns olhos que lhe saíam das órbitas; deixando bruscamente de sorrir, a menina pegou sua pá e se afastou sem se virar para o meu lado, com um ar dócil, impenetrável e manhoso.

            Assim passou junto a mim este nome de Gilberte, dado como um talismã que talvez me permitisse reencontrar um dia essa que ele acabava de transformar numa pessoa e que, um momento antes, não passava de uma imagem incerta.

            Assim passou, proferido por sobre os jasmins e os goivos, acre e fresco feito as gotas da mangueira verde; impregnando, irisando a região de ar puro que havia atravessado e que isolava com o mistério da vida daquela a quem designava para os seres felizes que viviam, que viajavam com ela; expandindo, sob o espinheiro-rosa, à altura dos meus ombros, a quintessência da familiaridade deles, para mim tão dolorosa, com Gilberte, com o desconhecido da sua vida, onde eu não penetraria.

            Por um momento (enquanto nos afastávamos e meu avô murmurava: "Pobre Swann, que papel o fazem representar: fazem-no ir embora para que ela fique a sós com o seu Charles, pois é ele, reconheci-o! E essa menina, metida no meio de toda essa infâmia!"), a impressão que me causara o tom autoritário com que a mãe de Gilberte lhe falara sem que ela replicasse, mostrando-me que esta era como que forçada a obedecer a alguém, como se não fosse superior a tudo, serenou um tanto o meu sofrimento, deu-me um pouco de esperança e fez diminuir meu amor.

            Porém logo esse amor voltou a aumentar em mim como uma reação a qual o meu coração humilhado queria nivelar-se a Gilberte ou abaixá-la até ele. Eu a amava, lamentava não ter tido tempo nem inspiração para ofendê-la, para lhe fazer mal, e forçá-la a se lembrar de mim. Achava-a tão bonita que gostaria de voltar atrás para gritar-lhe, dando de ombros: "Como te acho feia, grotesca, como tu me repugnas" Entretanto, eu me afastava, levando para sempre, como primeira espécie de uma felicidade inacessível, por leis naturais impossíveis de transgressão, às crianças da minha espécie, a imagem de uma garotinha ruiva, de pele coberta de manchinhas cor-de-rosa, que segurava uma pá de jardineiro e ria, deixando correr sobre mim longos olhares sorrateiros e inexpressivos. E já o encanto com que seu nome havia incensado esse lugar, sob os espinheiros-rosa, onde havia sido ouvido por mim e por ela, ia atingir, impregnar, embalsamar tudo o que lhe ficava perto, seus avós, que os meus tinham tido a fortuna inefável de conhecer, a sublime profissão de corretor, o bairro doloroso dos Champs-Elysées que ela habitava em Paris.

            "Léonie", disse meu avô entrando em casa, "gostaria que estivesses conosco, há pouco. Não reconhecerias Tansonville. Se eu tivesse tido coragem, cortaria um ramo desses espinheiros cor-de-rosa de que gostas tanto."

            Era desse modo que meu avô contava o nosso passeio à tia Léonie, seja para distraí-la, seja por não ter perdido de todo a esperança de conseguir fazê-la sair de casa. Pois ela gostava muito daquela propriedade antigamente, e, além disso, as visitas de Swann tinham sido as últimas que recebera, quando já fechava a porta a todo mundo. E assim como ocorria quando ele ultimamente vinha pedir notícias dela (pois era a única pessoa de casa que ele ainda pedia para ver) e ela mandava responder que estava fatigada, mas que o deixaria entrar da próxima vez, assim também replicou naquela tarde: "Sim, um dia em que fizer bom tempo irei de carro até o portão do parque." É o que ela dizia com sinceridade. Teria adorado rever Swann e Tansonville; mas o desejo de revê-los lhe bastava para o que ainda possuía de forças; sua realização seria superior a elas.

            Às vezes, o bom tempo lhe dava um pouco de vigor, ela se levantava, se vestia; a fadiga principiava antes que passasse ao outro quarto e ela regressava ao leito. O que para ela começara mais cedo do que ocorre normalmente - era essa grande renúncia da velhice que se prepara para a morte, se envolve na sua crisálida, e que é possível observar, no fim das vidas que se prolongam até bem tarde, mesmo entre os antigos amantes que mais se amaram, entre os amigos unidos pelos laços mais espirituais e que, a partir de certa ocasião, deixam de fazer a viagem ou de dar o passeio necessário para se verem, cessam de se escrever e sabem que não mais se comunicarão neste mundo. Minha tia devia saber perfeitamente que não voltaria a ver Swann, que jamais deixaria a casa, mas essa reclusão definitiva deveria ter-se tornado bem fácil para ela, pelo mesmo motivo que para nós deveria ser doloroso: é que tal reclusão lhe era imposta pela diminuição que ela podia constatar a cada dia em suas forças, e que, fazendo de cada ação, de cada movimento, um cansaço, senão um sofrimento, dava-lhe; à inação, ao isolamento, ao silêncio, a doçura reparadora e abençoada do repouso.

            Tia Léonie não foi ver a sebe de espinheiros-rosa, mas a todo instante eu perguntava a meus pais se ela não iria, se outrora ela ia com freqüência a Tansonville, tentando fazê-los falar dos pais e dos avós da Srta. Swann, que me pareciam enormes como deuses. Esse nome de Swann, que se tornara quase mitológico para mim, desfalecia-me de desejo de ouvi-lo ser pronunciado, ao conversar com meus pais, não ousando eu mesmo proferi-lo, mas puxava-os para assuntos que se avizinhavam de Gilberte e sua família, que lhe diziam respeito, e nos quais eu não me sentisse exilado muito longe dela; e levava de repente meu pai, fingindo crer, por exemplo, que o cargo de meu avô já estivera nas mãos de outros membros da família antes dele, ou que a sebe de espinheiros-rosa que minha tia desejava olhar se encontrava num terreno municipal, a corrigir minha assertiva, a me dizer, como a me contrariar e por sua própria conta:           "Mas não, esse cargo era do pai de Swann, essa sebe faz parte do parque de Swann."         Então eu era obrigado a respirar fundo, de tal modo esse nome, pousando no local onde estava sempre inscrito em mim, pesava a ponto de me sufocar, visto que no instante em que o ouvia, me parecia mais denso que qualquer outro, pois trazia o peso de todas as vezes em que o dissera mentalmente. Causava-me um prazer tal que eu me sentia confuso de o ter solicitado a meus pais, pois o prazer era de tal sorte que certamente lhes custara proporcioná-lo, e sem compensação, pois não era um prazer para eles. Assim, eu desviava a conversa por discrição. Por escrúpulo também. Todos os atrativos singulares que atribuía ao nome de Swann, reencontrava-os nesse nome quando eles o pronunciavam. Parecia-me então, de súbito, que eles não podiam deixar de senti-los, que se colocavam no meu ponto de vista, que, por sua vez, percebiam, absolviam e compartilhavam de meus sonhos, e eu me sentia infeliz como se tivesse vencido e depravado meus pais.

            Naquele ano, quando, um pouco mais cedo que de hábito, meus pais fixaram a data do regresso a Paris, na manhã da partida ocorreu que, já que me tinham encrespado os cabelos para ser fotografado e também me haviam posto, com todo o cuidado, um chapéu que jamais antes usara, além de uma capa de veludo, minha mãe, depois de me procurar em toda parte, encontrou-me em lágrimas na ladeirinha ao lado de Tansonville, dizendo adeus aos espinheiros-alvares, abraçando os ramos picantes e, como uma princesa de tragédia a quem pesariam esses vãos ornamentos, ingrato para com a mão importuna que, formando todos aqueles caracóis, tivera o cuidado de me arrumar os cabelos, calcando aos pés os papelotes arrancados e o chapéu novo. Minha mãe não se comoveu com minhas lágrimas, mas não pôde reter um grito ao ver o penteado desfeito e a capa perdida. Não a ouvi:

            "Meus pobres espinheiros", dizia chorando, "só vocês é que não me dariam desgosto, não me obrigariam a partir. Vocês, vocês nunca me magoaram. Sempre hei de amar vocês." E, enxugando as lágrimas, prometi-lhes que, quando fosse adulto, não imitaria a vida insensata dos outros homens e, mesmo em Paris, nos dias de primavera, em vez de ir fazer visitas e ouvir asneiras, sairia pelos campos para ver as primeiras flores de espinheiro. Uma vez nos campos, não os deixávamos em todo o restante do passeio que fazíamos para o lado de Méséglise. Eram permanentemente percorridos, como, por um viandante invisível, pelo vento que, para mim, era o gênio particular de Combray. Todo ano, no dia da nossa chegada, para sentir que estava bem em Combray eu subia ao encontro do vento que corria pelas valas e me fazia correr atrás dele. A gente sempre tinha o vento ao nosso lado, para os lados de Méséglise, sobre aquela planície abaulada por onde, durante léguas, não se encontra nenhum acidente do terreno. Sabia que a Srta. Swann ia muitas vezes passar alguns dias em Léon e, conquanto Léon se achasse a várias léguas, a distância era compensada pela ausência de qualquer obstáculo, quando, naquelas tardes bem quentes, eu via um mesmo sopro, vindo do extremo do horizonte, curvar os trigais mais distantes, propagar-se como uma onda sobre toda a imensa extensão e vir se deitar, murmurante e morno, a meus pés, em meio aos sanfenos e trevos; esta planície que era comum a nós ambos parecia nos reaproximar, nos unir, e eu pensava que tal sopro havia passado perto dela, que se tratava de uma mensagem sua, que ele me sussurrava sem que eu pudesse compreendê-la, e eu beijava-o na passagem. À esquerda ficava uma aldeia que se chamava Champieu (Campus Pagani, segundo o cura). Do lado direito, viam-se, além dos trigais, as duas torres cinzeladas e rústicas de Saint- André-des-Champs, elas mesmas afiladas, escamosas, imbricadas de alvéolo guilhochadas, amareladas e grumosas, como duas espigas.

            A intervalos simétricos, no meio da inimitável ornamentação de suas folhas, que não é possível confundir com a folha de nenhuma outra árvore frutífera, as macieiras abriam suas grandes pétalas de cetim branco ou suspendiam os tímidos buquês de seus botões avermelhados. Foi no lado de Méséglise que notei pela primeira vez a sombra redonda que as macieiras fazem na terra ensolarada, e também as sedas de ouro impalpável que o poente tece obliquamente sob as folhas, a que eu via meu pai interromper com sua bengala sem jamais fazê-las se desviarem.

            Às vezes, no céu da tarde passava a lua branca como uma nuvem, furtiva sem brilho, feito uma atriz que não está na hora de ir representar e que, dos bastidores, em roupa comum, observa por um instante os companheiros, apagando-se ou não querendo chamar a atenção. Gostava de encontrá-la, ver sua imagem nos quadros e nos livros, mas essas obras de arte eram bem diferentes, ao menos durante os primeiros anos, antes que Bloch tivesse habituado meus olhos e meu pensamento a harmonias mais sutis daquelas em que a lua me apareceria bela hoje e onde eu não a teria reconhecido então. Era, por exemplo, um romance de Saintini uma paisagem de Gleyre, onde ela recorta nitidamente no céu uma foice de prata, dessas obras ingenuamente incompletas, como o eram minhas próprias impressões e que as irmãs de minha avó se indignavam por verem que eu delas gostava. Pensavam que se deve mostrar às crianças as obras de arte que, ao chegarmos à maturidade, admiramos em definitivo, e que as crianças dariam provas de bom gosto se as admirarem desde logo. Isto, sem dúvida, porque figuravam os méritos estéticos feito se fossem objetos materiais que um olhar aberto não pode deixar de perceber, sem ter necessidade de amadurecer lentamente os seus correspondentes no próprio coração.

            Era para os lados de Méséglise, em Montjouvain, casa situada à beira de um grande pântano e apoiada a um talude verdejante, que morava o Sr. Vinteuil. De modo que passávamos com freqüência, na estrada, por sua filha, que conduzia um buggy a toda velocidade. A partir de certa data, não a encontramos mais sozinha e sim acompanhada de uma amiga mais velha, de má reputação na terra, e que um dia se instalou definitivamente em Montjouvain. Diziam:

            "É preciso que este pobre Vinteuil seja cego pela ternura para não perceber o que se murmureja e permitir que sua filha, logo ele que se escandaliza com uma palavra imprópria, traga para casa uma mulher desse tipo. Ele diz que se trata de uma mulher superior, de grande coração, e que teria inclinações extraordinárias para a música se as tivesse cultivado. Pode estar certo que não é de música que ela e sua filha cuidam."

            O Sr. Vinteuil o dizia: e de fato é notável como uma pessoa excita sempre a admiração por suas qualidades morais, na família de uma pessoa bem diversa, com a qual tenha relações carnais. O amor físico, tão injustamente desacreditado, a tal ponto obriga toda criatura a manifestar, até às menores porções, o quanto possui de bondade, de abandono de si mesmo, que estes resplandecem até aos olhos dos que estão mais próximos. O doutor Percepied, cujo vozeirão e grossas sobrancelhas lhe facultavam, o quanto quisesse, representar o papel de pérfido, do qual não tinha o físico, sem comprometer em coisa alguma a sua reputação inabalável e imerecida de rabugento benevolente, sabia fazer rir às lágrimas o cura e todo mundo ao dizer com um tom rude: "Muito bem! Parece que a Srta. Vinteuil faz música com sua amiga. Parece que isto os espanta. Quanto a mim, não sei. Foi o pai Vinteuil quem me disse isto ainda ontem. Afinal, a moça tem o direito de amar a música. Não estou aqui para contrariar as vocações artísticas das crianças. Vinteuil também não, pelo que parece. E além disso, ele também faz música com a amiga da filha. Opa! Fazem uma tal música naquela casa! Mas de que é que estão rindo? De fato, eles fazem muita música. Outro dia encontrei o pai Vinteuil perto do cemitério. Não podia se agüentar nas pernas."

            Para aqueles que, como nós, viram, nessa época, o Sr. Vinteuil evitar as pessoas que conhecia, desviar-se quando as percebia, envelhecer em poucos meses, absorver-se em seu desgosto, tornar-se incapaz de qualquer esforço que não tivesse como finalidade direta a felicidade da filha, passar dias inteiros diante do túmulo da esposa teria sido difícil não compreender que ele estava em vias de morrer de desgosto, e supor que ele não se desse conta dos murmúrios que corriam. Conhecia-os, talvez mesmo acreditasse neles. Não existe talvez uma só pessoa, por maior que seja a sua virtude, que a complexidade das circunstâncias não possa levar a viver um dia na intimidade do vício que condena de maneira mais formal sem que, aliás, o reconheça inteiramente sob o disfarce de fatos particulares e que esse vício se cobre para entrar em contato com essa pessoa e fazê-la sofrer termos bizarros, atitudes inexplicáveis, certa noite, de um ser a quem, por sinal, tem tantos motivos para amar. Mas, para um homem como o Sr. Vinteuil, devia haver mais sofrimento que para qualquer outro, na resignação a uma dessas situações que é um erro se considere como predicado exclusivo do mundo da boêmia; são produzidas sempre que há necessidade de um vício buscar o local e a segurança precisos, um vício que a própria natureza faz desabrochar numa criança, às vezes misturando apenas as virtudes do pai e da mãe, como a cor dos olhos. Mas se o Sr. Vinteuil conhecia talvez a conduta da filha, não se segue daí que o seu culto porém, houvesse diminuído. Os fatos não penetram no mundo em que vivem nossas crenças, não as fizeram nascer, não as destroem; podem infligir-lhes os desmentia dos mais constantes sem enfraquecê-las, e um aluvião de desgraças ou de doenças, sucedendo-se ininterruptamente numa família, não a fará duvidar da generosidade de seu Deus ou do talento de seu médico. Mas, quando o Sr. Vinteuil imaginava a filha e a si mesmo do ponto de vista da sociedade, do ponto de vista da reputação de ambos, quando buscava situar-se com ela no nível que ocupavam a estima geral, então esse juízo de ordem social, ele o proferia estritamente como o teria feito o morador de Combray que lhe fosse mais hostil, via-se com sua filha no último degrau, e assim, suas maneiras ultimamente haviam assumido essa humildade, esse respeito por aqueles que se encontrassem acima dele e que via de baixo (mesmo que os houvesse considerado muito inferiores até então), essa inclinação a tentar subir até eles, que é uma conseqüência quase automática de todas as degradações.

            Um dia em que andávamos com Swann por uma rua de Combray; Sr. Vinteuil, que saía de outra, encontrara-se de súbito diante de nós sem ter tido tempo de evitar-nos; e Swann, com aquela caridade soberba do homem de sociedade que, no meio da dissolução de todos os seus preconceitos morais, só vê degradação de outrem um motivo para lhe exercer a sua boa vontade, cujos testemunhos tanto mais agradam ao amor-próprio de quem a confere, quanto mais sente preciosos ao que os recebe conversar longamente com o Sr. Vinteutt; quem até então não dirigia a palavra, e lhe perguntara, antes de se despedir, se não enviaria a filha um dia para tocar em Tansonville. Era um convite que, dois anos antes, teria indignado o Sr. Vinteuil, mas que, agora, o enchia de um tal sentimento de gratidão que, por ele, se julgava obrigado a não cometer a indiscrição de fazê-lo. A amabilidade de Swann em relação à sua filha parecia-lhe em si mesma apoio tão honroso e agradável que achava melhor não se servir dele, para com a doçura toda platônica de mantê-lo.

            - Que homem fino - disse-nos, depois que Swann se retirara, e com a mesma veneração entusiástica que coloca lindas e inteligentes burguesas sob o domínio e a fascinação de uma duquesa, por mais burra e feia que seja. - Que homem fino! É pena que tenha feito um casamento desigual.

            E então, como as pessoas mais sinceras têm sempre um tanto de hipocrisia e se despojam, ao falar com terceiros, da opinião que formam a seu respeito, expressando-a logo que o outro vai embora, meus pais lamentaram com o Sr. Vinteuil o casamento de Swann em nome de princípios e conveniências, os quais (pela mesma razão que os invocavam em comum com ele, como boas pessoas do mesmo nível social) pareciam subentender que não eram transgredidos em Montjouvain. O Sr. Vinteuil não mandou a filha à casa de Swann. E este foi o primeiro a lamentá-lo. Pois de cada vez que acabava de deixar o Sr. Vinteuil, lembrava-se de que precisava informar-se com ele acerca de uma pessoa do mesmo nome e que achava fosse algum parente seu. E daquela vez prometera a si mesmo não esquecer o que tinha a lhe dizer quando o Sr. Vinteuil mandasse a filha a Tansonville.

            Como o passeio para os lados de Méséglise era o menor dos dois que fazíamos ao redor de Combray, por esse motivo o reservávamos para os dias inseguros; o clima do lado de Méséglise era muito pluvioso e jamais perdíamos de vista a margem dos bosques de Roussainville em cuja espessura poderíamos nos abrigar. Muitas vezes o sol se escondia detrás de uma nuvem que deformava o seu oval e cujas bordas ele amarelava. O brilho, mas não a claridade, era roubado ao campo onde todas as vidas pareciam em suspenso, ao passo que a pequena aldeia de Roussainville esculpia no céu o relevo de suas arestas brancas com uma precisão e um acabamento angustiosos. Um ventinho fazia voar um corvo que voltava a descer ao longe e, contra o céu branquicento, a lonjura dos bosques parecia mais azul, como que pintada nesses camafeus que ornam os extremos das residências antigas.

            Porém outras vezes a chuva se punha a cair, chuva com que nos ameaçara o capuchinho que o oculista mantinha na vitrina; as gotas de água, como pássaros migradores que alçam vôo em conjunto, desciam do céu em filas apertadas. Não se separam, não vêm à toa durante a rápida travessia, mas cada uma, mantendo seu posto, atrai para si a posteriori e o céu fica mais escuro do que na partida das andorinhas.

            Nós nos refugiávamos no bosque. Quando parecia terminada a sua viagem, algumas, mais fracas, mais vagarosas, ainda vinham chegando. Mas saíamos do nosso abrigo, pois as gotas se divertem nas folhagens, e o solo já estava quase seco quando mais de uma se demorava brincando nas nervuras de uma folha e, suspensa na ponta, repousada, brilhando ao sol, deixava-se deslizar de repente de toda a altura do ramo e nos caía no nariz.

            Muitas vezes, também, íamos nos abrigar, em meio aos santos e aos patriarcas de pedra, sob o pórtico de Saint-André-des-Champs. Como era francesa esta igreja! Por sobre a porta, os santos, os reis-cavaleiros com uma flor-de-lis à mão, cenas de núpcias e de funerais, eram representados como poderiam sê-lo na alma de Françoise. O escultor também havia contado certas anedotas relativas a Aristóteles e a Virgílio, da mesma maneira que Françoise, na cozinha, falava com desembaraço de São Luís como se o tivesse conhecido pessoalmente e, em geral, para envergonhar meus avós pela comparação, que eram menos "justos". Sentia-se que as noções que o artista medieval e a camponesa medieval (sobreviventes no século Xl) tinham da história antiga ou cristã, e que se distinguiam tanto pela inexatidão quanto pela bonomia, eles as haviam tirado, não de livros, mas de uma tradição a um tempo antiga e direta, ininterrupta, oral, deformada, irreconhecível e bem viva. Uma outra personalidade de Combray que eu também reconhecia, virtual e profetizada na escultura gótica de Saint-André-des-Champs era o jovem Théodore, o criado da loja de Camus. Aliás, Françoise o considerava tão do seu tempo e de sua região que, quando a tia Léonie estava muito doente para que Françoise sozinha a pudesse virar na cama ou levá-la à poltrona, em vez de deixar a criada de cozinha subir para "se mostrar" à minha tia, achava melhor chamar Théodore. Ora, esse rapaz que tinha fama, e com razão, de ser má pessoa, estava de tal modo imbuído do espírito que havia decorado Saint-André-des-Champs, e especialmente dos sentimentos de respeito que Françoise achava devido aos "pobres doentes", à sua "pobre patroa", que, para erguer a cabeça de tia Léonie no travesseiro, apresentava a fisionomia ingênua e zelosa dos anjinhos dos baixos-relevos, apressando-se, com um círio na mão, ao redor da Virgem desfalecente, como se os rostos de pedra esculpida, nus e acinzentados, como os bosques no inverno, estivessem dormindo somente, e de reserva, prestes a reflorir para a vida em inumeráveis rostos populares, reverendos e astuciosos como o de Théodore, iluminados pela vermelhidão de uma maçã madura. Não mais aposta sobre a pedra como esses anjinhos, mas destacada do pórtico, de uma estatura mais que humana, em pé sobre um pedestal como sobrou um tamborete, o que evitava pousasse os pés no chão úmido, uma santa estava com as faces cheias, o busto firme que lhe enfunava as vestes como um cacho maduro num saco de crina, a fronte estreita, o nariz curto e rebelde, as pupilas fundas, o aspecto de força, insensível e corajoso das camponesas da região. Tal semelhança, que insinuava na estátua uma doçura que eu ainda não lhe procurara, era muitas vezes comprovada por alguma moça do campo, que, como nós, vinha se pôr ao abrigo da chuva, e cuja presença, igual à dessas folhagens que crescem nas paredes ao lado das folhagens esculpidas, parecia destinada a permitir, pela confrontação com a natureza, o julgamento da verdade da obra de arte.

            Diante de nós, na lonjura, terra prometida ou maldita, Roussainville, em cujos muros nunca penetrei. Roussainville, quando a chuva já cessara para nós, ora continuava a castigada como uma aldeia da Bíblia por todas as espadas da tempestade que flagelava transversalmente as casas de seus habitantes, ora já estava perdoada Deus Pai, que fazia descer sobre o burgo, desigualmente longas, como os raios de um ostensório de altar, as hastes em franjas de ouro do sol que reaparecia.

            As vezes o tempo se arruinava de todo, era preciso voltar e ficar encerrado em casa. Ao longe, no campo, aqui e ali, casas isoladas, que a escuridão e a umidade faziam assemelhar-se ao mar, agachadas no flanco de uma colina mergulhada na noite e na água, brilhavam como pequenos barcos que recolheram as velas e ficam imóveis ao lago por toda a noite. Mas que importava a chuva, que importava a tempestade! No verão, o mau tempo não passava de um mau humor passageiro, superficial, do bom tempo, subjacente e fixo, bem diverso do bom tempo instável e fluido do inverno e que, ao contrário deste, instalado na terra, onde se solidificou em densas folhagens, sobre as quais a chuva pode escorrer sem lhes comprometer a resistência de sua alegria constante, içou por toda a estação, até nas ruas da aldeia, nos muros das casas e dos jardins, seus pavilhões de seda violeta ou branca.

            Sentado na saleta, onde esperava a hora de jantar lendo, ouvia a água pingar dos nossos castanheiros, mas sabia que o aguaceiro só fazia polir suas folhas e que estas prometiam permanecer ali, como garantias do verão, por toda a noite pluviosa, assegurando a continuidade do bom tempo; que por mais que chovesse, amanhã, acima da barreira branca de Tansonville, iriam ondular, numerosas como sempre, pequenas folhas em forma de coração; e era sem qualquer tristeza que eu observava o choupo da rua dos Perchamps dirigir súplicas e rogos desesperados à tempestade; sem tristeza, eu ouvia, no fundo do jardim, os últimos rolos de trovoada ronronando entre os lilases.

            Se o tempo era ruim desde a manhã, meus pais renunciavam ao passeio e eu não saía. Mas logo criei o hábito de sair sozinho, nesses dias, para os lados de Méséglise-la-Vineuse, no outono em que tivemos que vir a Combray por causa do testamento de tia Léonie, pois ela enfim havia morrido, fazendo triunfar, ao mesmo tempo, os que pretendiam que seu regime enfraquecedor acabaria por matá-la, e não menos os outros que sempre haviam sustentado que ela sofria de uma doença não imaginária, mas orgânica, a cuja evidência os descrentes seriam obrigados a se render quando ela sucumbisse; e causando sua morte grande mágoa a apenas uma criatura, porém a esta uma dor selvagem. Durante os 15 dias que durou a última crise da doença da minha tia, Françoise não a deixou um só minuto, não trocou de roupa, não deixou que ninguém lhe prestasse socorro, e só largou o seu corpo quando foi enterrado.

            Então compreendemos que o tipo de medo em que vivera Françoise, das palavras amargas, das suspeitas, das cóleras da minha tia, tinha desenvolvido nela um sentimento que havíamos tomado por ódio e que era de veneração e amor. Sua verdadeira patroa, de decisões impossíveis de prever, de astúcias difíceis de contornar, de coração bondoso tão fácil de enternecer, sua rainha, uma misteriosa e todo-poderosa monarca já não existia. Ao lado dela, nós valíamos tão pouco. Estava longe o tempo em que havíamos começado a vir a Combray nas férias, quando possuíamos tanto prestígio quanto minha tia aos olhos Françoise. Naquele outono, totalmente ocupados com formalidades a preencher entrevistas com notários e rendeiros, meus pais não tinham praticamente nenhum tempo de lazer para passeios, que o tempo, aliás, não permitia, e se acostumaram a deixar que fosse passear sozinho para os lados de Méséglise, envolto num grande casaco que me protegia contra a chuva e que eu, com o maior prazer, jogava sobre os ombros por sentir que as listras escocesas escandalizavam Françoise, em cujo espírito não cabia a idéia de que a cor da roupa nada tinha a ver com o luto, e a quem, aliás, mal agradava o pesar que sentíamos pela morte de tia Léonie, porque não tínhamos dado um banquete fúnebre, não falávamos dela num tom especial e eu até às vezes cantarolava. Estou certo que em um livro - e nisso tão eu mesmo como Françoise - essa concepção do luto segundo a Chanson-da-Roland e o pórtico de Saint-André-des-Champs me teria sido simpática. Mas, como Françoise estava junto de mim, não sei que demônio me levava a desejar que ela se enraivecesse, e eu aproveitava o menor pretexto para lhe dizer que lastimava tanto minha tia porque era uma boa mulher, apesar de suas atitudes ridículas, mas não porque fosse minha tia, que ela poderia ter sido minha tia e me parecer odiosa - e sua morte não me faria pena alguma palavras que me teriam parecido idiotas num livro.

            Se então Françoise, tomada, como um poeta, de uma onda de pensamentos confusos acerca do desgosto, das lembranças da família, se desculpasse alegando não saber responder às minhas teorias, dizendo: "Não sei me exprimir", e - triunfava dessa confissão com um bom senso irônico e brutal digno do doutor Percepied; e se ela acrescentava: "Em todo caso, há a geologia, resta sempre o respeito que se deve à geologia", eu dava de ombros e dizia comigo: "Tenho mais o que fazer do que discutir com uma ignorante que fala desse modo", adotando assim, para julgar Françoise, o ponto de vista mesquinho dos homens àqueles que mais os desprezam na imparcialidade da meditação, são bem capazes de tomar como modelo quando desempenham uma das cenas vulgares da vida.

            Meus passeios naquele outono foram tanto mais agradáveis, porque devorava após longas horas passadas sobre um livro. Quando estava cansado de ter lido a manhã inteira na sala, punha o plaid sobre os ombros e saía. Meu corpo obrigado a guardar a imobilidade há tanto tempo, mas que fora se carregando de animação e velocidade acumuladas, precisava de imediato, como um pião que solta, gastá-las em todas as direções. As paredes das casas, a sebe de Tansonville as árvores do bosque de Roussainville, as moitas em que se apóia Montjou recebiam pancadas de guarda-chuva ou de bengala, ouviam gritos alegres, que passavam, uns e outros, de idéias confusas que me exaltavam e que não atingi o repouso na luz, por terem preferido, a um lento e difícil esclarecimento, o apraza uma derivação mais fácil para um escape imediato. A maior parte das preces, traduções daquilo que sentimos, não fazem mais que nos desembaraçar, fazendo sair de nós os sentimentos sob uma forma indistinta que não nos ajuda a conhecê-los.

            Quando experimento sumariar tudo aquilo que devo ao lado de Méséglise, as humildes descobertas das quais foi ela o palco fortuito ou o necessário inspirador, lembro-me que foi naquele outono que, num desses passeios, perto do talude verdejante que protege Montjouvain, espantei-me pela primeira vez com a discordância entre as nossas impressões e a sua expressão habitual. Depois de uma hora de chuva e vento, contra os quais lutara alegremente, como houvesse chegado à beira do pântano de Montjouvain, diante de uma pequena cabana recoberta de telhas onde o jardineiro do Sr. Vinteuil encerrava seus instrumentos, o sol acabava de reaparecer, e seus dourados que o aguaceiro lavara, reluziam novinhos no céu, sobre as árvores, sobre a parede da cabana, sobre o seu teto de telhas ainda molhado, em cujo cimo passeava uma galinha.

            O vento, a soprar, dobrava horizontalmente as ervas alucinadas, que haviam crescido nas trinchas da parede, e as penugens da galinha, e umas e outras se deixavam estirarem todo o comprimento, com o abandono de coisas leves e inertes. O teto de telha dava ao pântano, que com o sol de novo se fizera espelhante, uma marmorização cor-de-rosa, à qual eu jamais prestara atenção. E, vendo sobre a água e na superfície da parede um sorriso pálido responder ao sorriso do sol, gritei em meu entusiasmo, brandindo o guarda-chuva fechado: "Oba! Oba! Oba!" Mas, ao mesmo tempo, senti que era do meu dever não me contentar com essas palavras opacas e tentar ver mais claro em meu êxtase.

            E foi ainda naquele momento - graças a um camponês que passava, com cara fechada, e que se fechou mais ainda quando quase o atingi com o guarda-chuva no rosto, e que respondeu com frieza ao meu "bom tempo, não é mesmo, é bom caminhar"- que aprendi que as mesmas emoções não ocorrem simultaneamente, numa ordem pré-estabelecida, em todos os homens. Mais tarde, toda vez que uma leitura um pouco longa me punha com vontade de conversar, o companheiro a quem eu tinha vontade de dirigir a palavra terminava justamente de se entregar ao prazer da conversação e queria agora que o deixassem ler em paz. Se eu acabasse de pensar em meus pais com ternura e de tomar as mais sábias decisões, as mais adequadas para lhes dar prazer, tinham eles empregado o mesmo tempo para tomarem conhecimento de algum trocadilho que eu tivesse esquecido e pelo qual me censurariam com severidade no momento em que corresse até eles para beijá-los.

            Às vezes, à exaltação que me proporcionava a solidão acrescentava-se tal que eu não saberia separar com nitidez, causada pelo desejo de ver surgir diante de mim uma camponesa que eu pudesse apertar nos braços. Nascido bruscamente, e sem que eu tivesse tempo de o relacionar com sua causa, o prazer que apanhava parecia-me apenas um grau superior ao que me davam aqueles pensamentos. Atribuía então um mérito maior a tudo o que havia naquele momento em meu espírito, ao reflexo cor-de-rosa do telhado, às ervas doidas, à aldeia Roussainville aonde há tempos desejava ir, às árvores do seu bosque, ao campanário de sua igreja, em virtude dessa nova emoção que só fazia apresentá-los ainda mais desejáveis para mim porque eu julgava que eram eles que o provocava - que parecia querer apenas impelir-me mais depressa para eles quando inflava minha vela com uma brisa potente, desconhecida e propícia.   Mas se esse desejo de que me surgisse uma mulher, ajuntava aos encantos da natureza, para mim, algo mais exaltante, os encantos da natureza, em troca, aumentavam o que podem haver de muito estrito no encanto da mulher. Parecia-me que a beleza das árvores era ainda a sua, e que a alma desses horizontes, da aldeia de Roussainville, dos livros que lia naquele ano, o seu beijo me revelaria; e minha imaginação, retomando as forças ao contato da sensualidade, e minha sensualidade se espalhando por todos os recantos da minha imaginação, faziam com que o meu desejo não tivesse limites. É que também - como ocorre nesses momentos de devaneio dentro da natureza, em que, suspensa a ação dos hábitos e postas de lado as noções abstratas da coisas, acreditamos com fé profunda na originalidade, na vida individual do Jugo onde nos encontramos, a mulher passante que o meu desejo chamava parecia-me, não um simples exemplar desse tipo geral: a mulher, mas um produto necessário e natural daquele solo.

            Pois, por aquela época, tudo o que não fosse eu mesmo, a terra e os seres, se me afigurava mais precioso, mais importante, provido de existência mais real do que parece aos homens adultos. E eu não separava a terra dos seres. Desejava uma camponesa de Méséglise ou de Roussainville, uma pescadora de Balbec, como sentia desejos de Méséglise e de Balbec. O prazer que ela poderia me dar não me teria parecido menos verdadeiro, e não acreditaria mais nele se modificasse à minha vontade as suas condições. Conhecer em Paris uma pescadora de Balbec ou uma camponesa de Méséglise teria sido como receber conchinhas que eu não tivesse visto na praia ou uma plantinha que eu não houvesse encontrado nos bosques, teria sido subtrair ao prazer que a mulher me daria todos aqueles prazeres dentro dos quais a colocara a minha imaginação. Porém, vaguear assim pelos bosques de Roussainville, sem uma camponesa a quem beijar, seria não conhecer o tesouro oculto daqueles bosques, a sua profunda beleza. Aquela moça que eu imaginava sempre envolta em folhagens era também, para mim, como uma planta local, apenas de uma espécie mais elevada que as outras cuja estrutura me permitiria sentir, muito mais perto do que elas, o profundos - da região. E tanto mais facilmente podia acreditar nisso (como acreditava que as carícias com que ela me revelasse tal sabor seriam também de uma classe especial, cujo prazer só através dela poderia conhecer), que durante muito tempo  ela permaneceria nessa idade em que não abstraímos o gozo da posse das diferentes mulheres que no-lo ofertam, e ainda não o restringimos a uma noção geral desde então as faça considerar como os instrumentos intercambiáveis de um prazer sempre igual. Nem mesmo existe, isolado, separado e formulado no espírito, como o objetivo que visamos ao nos aproximarmos de uma mulher, ou como a causa de uma perturbação antecipada que experimentamos. Mal pensamos nele, como num prazer a obter; de preferência, consideramo-lo um encanto dela, pois não pensamos em nós e sim em sair de nós. Obscuramente esperado, imanente e escondido, unicamente conduz a semelhante paroxismo no momento em que se realiza, os outros prazeres que nos causam os olhares ternos, e os beijos daquela que está junto a nós, porque se nos apresenta, sobretudo, como uma espécie de transporte de nossa gratidão pela bondade do coração de nossa companheira e pela sua tocante predileção por nós e que medimos pelos benefícios e venturas que nos proporciona.

            Infelizmente, era em vão que eu implorava o torreão de Roussainville, que lhe pedia mandasse vir para mim alguma menina da aldeia, como ao único confidente que eu possuía de meus primeiros desejos, quando no alto de nossa casa em Combray, no pequeno gabinete que cheirava a íris, eu via exclusivamente sua torre no meio do quadrado da janela entreaberta, enquanto, com as heróicas vacilações do viajante que empreende uma exploração ou do desesperado que se suicida, eu abria, a desfalecer, um caminho desconhecido, e que julgava mortal, até o instante em que um rastro natural como o de uma lesma se acrescentasse às folhagens da groselha silvestre que se debruçavam até mim. Em vão lhe implorava agora. Em vão, abrangendo toda a extensão no meu campo visual, eu a canalizava com meus olhares que gostariam de trazer uma mulher dali. Podia ir até o pórtico de Saint-André-des-Champs; nunca se achava ali a camponesa que eu não teria deixado de encontrar se estivesse na companhia de meu avô e, assim, impossibilitado de travar conversação com ela. Encarava indefinidamente o tronco de uma árvore longínqua, de trás da qual ela iria surgir e vir até mim; o horizonte perscrutado continuava deserto, a noite caía, e era sem esperança que minha atenção se fixava, como para aspirar as criaturas que ali poderiam estar ocultas, naquele solo estéril, naquela terra esgotada; e não era de alegria e sim de raiva que eu fustigava as árvores do bosque de Roussainville, dentre as quais já não saíam mais seres vivos, como se não passassem de árvores pintadas na tela de um panorama, quando, não podendo me resignar a voltar para casa antes de ter apertado nos braços a mulher que tanto desejava, era, no entanto, obrigado a retomar o caminho de Combray confessando a mim mesmo que de cada vez era menos provável que o acaso a pusesse no meu caminho. Aliás, se ela fosse encontrada ali, teria eu ousado lhe dirigir a palavra? Parecia-me que ela me consideraria um louco; deixava de julgar compartilhados por outras pessoas, de crer verdadeiros, fora de mim, os desejos que formava durante tais passeios e que não se realizavam. Já não me apareciam a não ser como criações puramente subjetivas, impotentes, enganadoras, do meu temperamento. E não possuíam mais quaisquer elos com a natureza, com a realidade que desde então perdia todo o seu encanto e toda significação e não era, para minha vida, senão um quadro convencional como o é para a ficção de um romance o vagão em cujo banco o viajante o está lendo para matar o tempo.

            Foi talvez de uma impressão também sentida próximo a Montjouvain, alguns anos depois, impressão que então permaneceu obscura, que me veio bem mais tarde a idéia que formei a respeito do sadismo. Veremos depois como, por outros motivos, a recordação dessa impressão devia exercer um papel importantíssimo na minha vida. Fazia muito calor; meus pais, que tinham precisado se ausentar o dia inteiro, me haviam dito que voltasse para casa à hora que quisesse; e fui até o charco de Montjouvain, onde gostava de observar os reflexos do teto telhas, deitara-me na sombra e adormecera nas moitas do talude que dominava. Ia à casa, no ponto onde havia esperado meu pai antigamente, no dia em que ele tinha ido visitar o Sr. Vinteuil. Era quase noite quando acordei, quis me levantar, mas vi a Srta. Vinteuil (o quanto a pude reconhecer, pois não a vira muitas vezes em Combray e apenas quando ela era ainda menina, ao passo que já principiava a ser uma moça feita), que provavelmente acabava de entrar, à minha frente, a poucos centímetros de mim, naquele aposento em que seu pai recebera o meu e do qual fizera o seu gabinete particular. A janela estava entreaberta, a lâmpada acesa, eu observava todos os seus movimentos sem que ela me visse, mas, se eu fosse embora, faria estalar as moitas, ela me ouviria e poderia pensar que eu me escondera para espreitar.

            A Srta. Vinteuil estava de luto fechado, pois o pai morrera há pouco. Não tínhamos ido visitá-la, minha mãe não quis fazê-lo devido a uma virtude que no todo ainda limitava os efeitos da bondade: o pudor. Mas lastimava-a profundamente.

            Lembrava-se do triste fim de vida do Sr. Vinteuil, absorvido primeiro pelos cuidado de mãe e de babá que prestava à filha, depois pelos sofrimentos que esta lhe causara; ela revia o rosto torturado que, velho, apresentava nos últimos anos - sabia que ele renunciara para sempre a terminar de passar a limpo sua obra dos últimos anos, pobres esboços de um velho professor de piano, de um antigo organista de aldeia, que imaginávamos de quase nenhum valor, mas que não depreciávamos porque valiam muito para ele e tinham sido a razão de ser de sua vida antes de sacrificá-los pela filha e que, na maioria, nem sequer eram transcritos, se conservados apenas de memória, alguns rabiscados em folhas avulsas, ilegíveis assim permaneceriam desconhecidos; minha mãe pensava nessa outra renúncia mais cruel ainda, a que o Sr. Vinteuil se vira obrigado: a renúncia a um futuro de felicidade honesta e respeitada para a sua filha; quando relembrava toda essa graça suprema do antigo professor de piano de minhas tias, sentia um verdadeiro desgosto e pensava horrorizada nessa outra aflição que a Srta. Vinteuil de experimentar, bem mais amarga, a de viver cheia de remorsos por ter aos poucos, matado o pai. "Pobre Sr. Vinteuil"-dizia minha mãe- "viveu e morreu pela filha, sem ter recebido sua paga. Será que a recebe, depois de morto? E de que forma? Só poderá vir dela."

            No fundo do salão da Srta. Vinteuil, sobre a lareira, havia um pequeno retrato de seu pai, que ela foi buscar às pressas no momento em que ressoou o rodar de um carro na estrada. Depois, atirou-se sobre um canapé e puxou para junto de si uma mesinha sobre a qual pôs o retrato, como outrora o Sr. Vinteuil pusera a seu lado o trecho que gostaria de tocar para meus pais. Logo entrou a sua amiga. A Srta. Vinteuil recebeu-a sem se levantar, com as duas mãos enlaçadas na nuca e recuou para o lado oposto do canapé como para lhe dar lugar. Mas logo sentiu que assim parecia lhe impor uma atitude que talvez lhe fosse inoportuna. Pensou que talvez a amiga gostaria mais de ficar longe dela, numa cadeira, achou-se indiscreta, e com isso a delicadeza de seu coração se alarmou; retomando todo o espaço do sofá, fechou os olhos e pôs-se a bocejar para indicar que o desejo de dormir era o motivo único de estar assim estendida. Apesar da familiaridade rude e dominadora que tinha para com a amiga, eu reconhecia os gestos reticentes e obsequiosos, os súbitos escrúpulos de seu pai. Em breve se levantou, fingiu querer fechar os postigos e que não conseguia.

            - Deixa tudo aberto, tenho calor - disse a amiga.

            - Mas é um perigo, podem nos ver - replicou a Srta. Vinteuil.

            Mas, sem dúvida, ela adivinhou que a amiga pensaria que ela dissera estas palavras só para provocá-la, para que respondesse com outras que ela, de fato, desejaria ouvir, mas que, por discrição, queria deixar-lhe a iniciativa de pronunciá-Ias. Portanto, seu olhar, que eu não podia discernir, deve ter assumido a expressão que tanto agradava à minha avó quando acrescentou com vivacidade:

            - Quando digo "nos ver", quero dizer nos ver lendo, é perigoso, pois qualquer coisa insignificante que se faça, é desagradável pensar que olhos estranhos nos possam estar vendo.

            Por uma generosidade instintiva e uma involuntária polidez, ela calava as palavras premeditadas que julgara indispensáveis à realização completa de seu desejo. E em todos os instantes, no fundo de si mesma, uma virgem tímida e suplicante implorava e fazia recuar um velho soldado áspero e vencedor.

            -Sim, é provável que nos olhem a esta hora, nesse campo tão freqüentado -disse a amiga ironicamente. - E depois, que importa? acrescentou (achando dever juntar um piscar de olhos malicioso e terno a essas palavras que recitou por bondade, como um texto que sentia ser agradável à Srta. Vinteuil, com um tom que ela se esforçava em tornar cínico). - Se nos virem, melhor.

            A Srta. Vinteuil estremeceu e levantou-se. Seu coração, escrupuloso e sensível, ignorava quais palavras deviam vir espontaneamente se adaptar à cena como seus sentidos exigiam. Buscava, o mais longe possível de sua verdadeira natureza moral, encontrar a linguagem própria à moça viciosa que desejava ser, mas as palavras que esta última pronunciaria com sinceridade pareciam-lhe falsas em se lábios. E o pouquinho que ela se permitia nesse campo era dito num tom afetado no qual seus hábitos de timidez paralisavam suas veleidades de audácia, tudo; entremeado de "não estás com frio, não tens muito calor, não queres ler sozinha?''

            -A senhorita parece ter pensamentos bastante lúbricos esta noite - acabou por dizer, sem dúvida repetindo uma frase que ouvira antes na boca da amigo.

            No decote de seu corpinho de crepe, a Srta. Vinteuil sentiu que a amiga lhe dava um beijo, soltou um gritinho, fugiu, e as duas se perseguiram aos saltos, fazendo revoar as largas mangas como asas e gorjeando e chilreando como dois pássaros amorosos. Por fim, a Srta. Vinteuil caiu sobre o sofá, coberta pelo corpo da amiga. Mas esta encontrava-se de costas para a mesinha onde estava o retrato do velho professor de piano. A Srta. Vinteuil compreendeu que a amiga não o veria se não lhe atraísse a atenção, e lhe disse, como se apenas agora tivesse reparado nele:

            - Oh, este retrato de meu pai que nos olha, não sei quem o pôs aí, já falei, mil vezes que não é este o seu lugar.

            Lembrei que estas eram as palavras que o Sr. Vinteuil havia dito a meu respeito a propósito da partitura musical. Esse retrato lhes servia habitualmente para profanações rituais, pois a amiga lhe respondeu com estas palavras que deviam fazer parte de suas respostas litúrgicas:

            - Ora, deixe-o aí mesmo, ele não se acha mais aqui para nos aborrecer. Imagina como não haveria de lamentar-se, o macaco velho, e querer pôr-te um xale, se te visse agora com a janela aberta.

            A Srta. Vinteuil retrucou com palavras de suave censura: "O que é isso? que é isso?", que demonstravam sua boa formação, não que fossem ditadas pela indignação que semelhante modo de falar de seu pai pudesse lhe causar (evidentemente, esse era um sentimento que já se habituara a calar em si mesma, sabe-se à custa de quais sofismas?), mas porque eram como que um freio que, para não se mostrar egoísta, ela mesma punha no prazer que a amiga procurava lhe dar. E, além disso, essa moderação risonha em responder à tais blasfêmias, essa censura hipócrita e terna, pareceriam talvez à sua índole franca e generosa uma forma particularmente infame, uma forma adocicada daquela perversidade que ela procurava assimilar. Porém, não pôde

resistir à atração do prazer que sentiria em ser tratada com doçura por uma pessoa tão implacável em face a um morto indefeso; saltou sobre os joelhos da amiga e lhe estendeu castamente a testa para ser beijada, como o teria feito se fosse sua filha, sentindo deliciada que ambas alcançariam desse modo limite da crueldade, roubando ao Sr. Vinteuil, até na sepultura, a sua paternidade; sua amiga lhe pegou a cabeça entre as mãos e lhe deu um beijo na testa com docilidade que lhe era facilitada pelo grande afeto que lhe votava, e o seu desejo oferecer um pouco de distração à vida agora tão triste da pobre órfã.

            - Sabe o que gostaria de fazer com esse velho pavoroso? disse ela pegando o retrato. E murmurou ao ouvido da Srta. Vinteuil algo que não pude perceber. - Oh, você não se atreveria.

            - Não me atreveria a escarrar em cima disso? disse a amiga com uma brutalidade intencional.

            Não ouvi mais nada, pois a Srta. Vinteuil, com um ar abatido, sem jeito, ocupado, honesto e triste, veio fechar os postigos e a janela, mas sabia agora, por todos os sofrimentos que durante a vida inteira o Sr. Vinteuil suportara por causa da filha, o que, após a morte, recebera dela em paga.

            E contudo, desde então pensei que se o Sr. Vinteuil tivesse podido assistir a essa cena, mesmo assim não teria perdido a fé no bom coração da filha, e talvez não estivesse de todo enganado. Certamente, nos hábitos da Srta. Vinteuil a aparência do mal era tão completa que seria difícil ver sua realização perfeita senão numa natureza sádica; é de preferência à luz da ribalta dos teatros do bulevar, do que sob a lâmpada de uma verdadeira casa de campo, que se pode ver uma moça fazer a amiga cuspir sobre o retrato de um pai que só viveu para ela; e somente o sadismo pode dar um fundamento, na vida, à estética do melodrama. Na realidade, a fora os casos de sadismo, talvez uma moça possa cometer faltas tão cruéis como a da Srta. Vinteuil à memória e contra as vontades do pai morto, mas não os resumiria expressamente em um ato de um simbolismo tão rudimentar e tão ingênuo; o que sua conduta teria de criminosa seria mais velado aos olhos dos outros e até a seus próprios olhos, pois ela faria o mal sem confessá-lo. Mas, para além da aparência, no coração da Srta. Vinteuil, o mal, ao menos no começo, sem dúvida não era exclusivo. Uma sádica feito ela é uma artista do mal, o que uma criatura inteiramente má não poderia ser, pois o mal não lhe seria externo, antes lhe pareceria muito natural; não se distinguiria dela, até; e a virtude, a memória dos mortos, a ternura filial, como

não as cultuasse, não sentiria nenhum prazer sacrílego em profaná-las. As sádicas do tipo da Srta. Vinteuil são seres tão puramente sentimentais, tão naturalmente virtuosos, que até o prazer sensual lhes parece algo de maldoso, privilégio dos malvados. E, quando permitem a si mesmos se entregarem a eles por um momento, é na pele dos maus que tentam se pôr e de fazer entrar seu cúmplice, de modo a ter um instante de ilusão de estarem se evadindo de suas almas escrupulosas e brandas para o mundo desumano de prazer. E eu compreendia o quanto ela o desejava, ao ver o quanto lhe era impossível consegui-lo. No momento em que ela queria ser tão diferente do pai, o que ela me fazia lembrar eram os modos de pensar e de dizer do velho professor de piano. Bem mais que sua fotografia, o que ela profanava, o que fazia servir a seus prazeres, mas, que permanecia interposto entre estes e sua pessoa e a impedia de desfrutá-los diretamente, era a semelhança do seu rosto, os olhos azuis da mãe que lhe tinham sido transmitidos como uma jóia de família, os gestos de amabilidade que interpunham entre o vício da Srta. Vinteuil e ela própria uma fraseologia, uma mentalidade que não fora feita para si e a impedia de considerar o seu vício como algo muito diverso dos numerosos deveres de polidez aos quais tinha o costume de se dedicar. Não era o mal que lhe dava a noção do prazer, que lhe parecia agradável; era o prazer que lhe parecia maligno. E como cada vez que se entregava ao prazer, vinha este acompanhado dos maus pensamentos que no resto do tempo estavam ausentes de sua alma virtuosa, ela acabava por encontrar no prazer algo de diabólico, identificando-o com o mau. Talvez a filha de Vinteuil sentisse que a amiga não era virtualmente maldosa, e  - não estava sendo sincera no momento em que lhe fazia propostas blasfemas. Pêlo menos sentia o prazer de beijar, no seu rosto, sorrisos e olhares, talvez fingidos, mas idênticos em sua expressão viciosa e vulgar aos que teria tido, não um ser de bondade e sofrimento, mas uma criatura de crueldade e prazer. Por um instante ali, e podia imaginar que estaria jogando de fato os jogos que, com uma cúmplice tão desnaturada, jogaria uma moça que alimentasse de verdade aqueles sentimentos bárbaros em relação à memória do pai. Talvez não pensasse que o mal fosse um estado tão incomum, tão extraordinário, tão exilante, para onde fosse tão tranqüilo emigrar, se pudesse discernir em si mesma, como em todos os outros, a indiferença pelos sofrimentos que causamos e que, mesmo com os mais diversos nomes que se lhe dêem, é a forma terrível e constante da crueldade.

            Se era bem simples ir para os lados de Méséglise, coisa bem diversa era seguir pelo lado de Guermantes, pois o passeio era demorado e a gente queria, certeza do tempo que faria. Quando parecia iniciar-se uma série de bons dias; quando Françoise, desesperada por não cair uma só gota para "as pobres colheitas", ou não vendo mais que raras nuvenzinhas brancas nadando à superfície calma e azul do céu, exclamava gemendo: "Parece que só se vêem uns cações que brincam lá em cima, mostrando o seu focinho. Ah, bem que poderiam mandar um pouco de chuva para os pobres lavradores! E depois, quando o trigo tiver brotado, aí é quê a chuva vai cair sem parar, sem saber onde cai como se fosse sobre o mar; quando meu pai recebia invariavelmente as mesmas respostas favoráveis do jardineiro e do barômetro, então a gente dizia ao jantar: "Amanhã, se o tempo continuar assim vamos pelo caminho de Guermantes." Partíamos imediatamente após o almoço pelo portãozinho do jardim e dávamos na rua dos Perchamps, estreita e que formava um ângulo agudo, cheia de gramíneas, em meio às quais duas ou três vezes ficavam o dia inteiro arborizando. Rua tão esquisita quanto seu nome, de onde pareciam decorrer suas curiosas particularidades e sua personalidade rabugentas que em vão buscaríamos na Combray de hoje porque no lugar do seu antigo prédio se ergue a escola. Porém, meu devaneio (semelhante a esses arquitetos que seguiram a escola de Viollet-le-Duc, que, julgando encontrar sob um púlpito renascentista e um altar do século XVII os traços de um coro romano, repõem o prédio no estado em que devia estar no século XII) não deixa uma só pedra da nova construção de pé, e torna a abrir e "restitui" a rua dos Perchamps. Aliás, para essas reconstituições ele dispõe de dados mais precisos do que geralmente têm os restauradores. Algumas imagens conservadas na minha memória, as últimas que talvez ainda existam hoje, e votadas a desaparecer em breve, do que era Combray na minha infância, e como foi a própria cidade que as delineou em mim antes de desaparecer, têm toda a emoção-se é que se pode comparar um obscuro retrato às efígies gloriosas cuja reprodução minha avó tanto gostava de me dar - das gravuras antigas da Ceia ou desse quadro de Gentile Bellini nos quais se vêem, num estado que já não possuem hoje, a obra-prima de Da Vinci e o pórtico de São Marcos.

            Passávamos pela rua de Poiseau, diante da velha hospedaria de I'Oiseau Flesché, em cujo pátio entravam às vezes, no século XVII, as carruagens das duquesas de Montpensier, de Guermantes e de Montmorency, quando elas precisavam vir a Combray para alguma questão com seus rendeiros, ou para receber vassalagem. Atingíamos o passeio entre cujas árvores surgia o campanário de Saint-Hilaire. E eu gostaria de ter podido sentar ali e ficar o dia inteiro lendo, a ouvir os sinos; pois o tempo que fazia era tão bonito e tão sossegado que, ao soarem as horas, poderia se dizer que não rompiam a calma do dia, e sim que o livraram de tudo o que ele continha, e que o campanário, com a indolente exatidão cuidadosa de uma pessoa que não tem outra coisa que fazer, acabava apenas, para espremer e deixar cair algumas gotas de ouro que o calor fora lenta e naturalmente ajuntando ali decalcar, no momento exato, a plenitude do silêncio.

            O maior encanto do caminho de Guermantes era que a gente, quase todo o tempo, tinha a nosso lado o curso do Vivonne. O leito do rio era atravessado, uma primeira vez, dez minutos depois de ter saído de casa, por uma passarela chamada Pont-Vieux. Desde o dia seguinte ao da nossa chegada, dia da Páscoa, depois do sermão, se fazia bom tempo, eu corria para lá, a fim de ver, na desordem da manhã de festa em que alguns preparativos suntuosos fazem parecer mais sórdidos os utensílios caseiros atirados por ali, o rio que já passeava, de azul-celeste, por entre as terras ainda negras e despidas, acompanhado unicamente de um bando de cucos que havia chegado bem cedo, e de algumas primaveras extemporâneas, ao passo que, aqui e ali, uma violeta de bico azul deixava pender sua haste ao peso da gota de aroma que tinha no seu cartucho. A Pont-Vieux dava para uma vereda de Sirga, que naquele ponto era atapetada, no verão, com as folhas azuis de uma aveleira, sob a qual um pescador de chapéu de palha criara raízes. Em Combray, onde eu sabia que personalidade de ferreiro ou de entregador de armazém se ocultava sob o uniforme do suíço ou a sobrepeliz do menino do coro, esse pescador era o única pessoa cuja identidade eu jamais descobrira. Devia conhecer meus pais, pois erguia o chapéu quando passávamos; eu queria então perguntar-lhe o nome, faziam-me sinal que ficasse calado para não espantar o peixe. Metíamo-nos pela vereda de sirga que dominava a corrente de um barranco de vários pés altura; do outro lado, a margem era baixa, estendida em vastos prados até a aldeia, até a estação de trem, que ficava longe. Ali se achavam restos, meio afundados na grama, do castelo dos antigos condes de Combray que, na Idade Média, tinha deste lado, o curso do Vivonne como defesa contra os ataques dos senhores dá Guermantes e dos abades de Martinville. Não passavam de alguns fragmentos de torres fazendo corcovas na planície, e que mal apareciam, algumas ameias de onde outrora o besteiro arremessava pedras, de onde o vigia observava Clairefontaine, Martinville-le-Sec, Bailleau-l'Exempt, todas elas terras vassalas da Guermantes, entre as quais Combray estava encravada, e hoje tudo ao pés do chão, dominadas pelos meninos da escola dos padres que ali vinham estudar as lições, ou fazer recreio-passado quase misturado à terra, deitado à beira da água como uma pessoa que passeia e se refresca, mas que muito me fazia devanear, e eu acrescentava ao nome de Combray, à pequena aldeia de hoje, uma cidade bem diferente, detendo meus pensamentos em seu rosto incompreensível e antigo que ele me dá, que escondia sob os botões-de-ouro. Eram bem numerosos nesse lugar, quem tenha escolhido para seus divertimentos sobre a relva, isolados, aos pares, e aos grupos, amarelos como a gema de ovo, e tanto mais brilhosos me pareciam, pois, não podendo eu derivar para nenhuma veleidade de degustação o prazer que a vista deles me causava, acumulava-o em sua superfície dourada, até que se torna: bastante poderoso para produzir a beleza estéril; e isto desde a minha mais tenra infância, quando, do caminho de sirga, estendia os braços para eles sem poder ainda pronunciar bem o seu nome lindo, de príncipes dos contos de fada franceses, talvez vindos há muitos séculos da Ásia, mas radicados para sempre na aldema contentando-se com o horizonte modesto, adorando o sol e as margens do rio, à estreita vista da estação de trem, conservando ainda, no entanto, como algumas de nossas velhas telas pintadas, na sua simplicidade popular, um esplendor do Oriente.

            Eu me divertia em observar os garrafões que os meninos lançavam, Vivonne, para apanhar peixinhos, e que, cheios da água do rio, em que ficam, por sua vez, trancados ao mesmo tempo "continente" de flancos transparentes com uma água endurecida e "conteúdo" mergulhado em um continente maior de líqüido e corrente, evocavam a imagem do frescor de uma forma mais deliciosa, mais irritante do que o teriam podido fazer em uma mesa posta, só a mostrando fuga nessa aliteração permanente entre a água sem consistência, onde as mãos não podiam capturá-la, e o vidro não fluido onde o paladar não podia degustá-la; prometia a mim mesmo voltar ali mais tarde com linhas de pescar; alcançava tiras sem um pouquinho do pão reservado para a merenda; jogava no rio algumas bolinhas que pareciam suficientes para causar um fenômeno de super saturação, pois a água se solidificava logo em torno delas em cachos ovóides de girinos esfaimados, que ela até então mantivera em dissolução, invisíveis, já quase a ponto de se cristalizar.

            Em breve o curso do Vivonne se obstruía de plantas aquáticas. A princípio apareciam algumas isoladas, como o nenúfar ao qual a correnteza, em que se atravessara de maneira infeliz, lhe dava tão pouco descanso que, como um barco mecanicamente acionado, só abordava uma das margens para voltar à outra de onde viera, refazendo eternamente a dupla travessia. Empurrado para a margem, seu pedúnculo se desenrolava, se alongava, corria, alcançando o limite extremo de sua tensão até a margem onde a corrente o retomava, e as cordas verdes se dobravam sobre si mesmas e levavam a pobre planta ao que melhor se diria o seu ponto de partida, pois que ela não se demorava um segundo sem voltar a partir por uma repetição da mesma manobra. Encontrava-a de passeio em passeio, sempre na mesma situação, fazendo pensar em certos neurastênicos, no número de quem meu avô incluía minha tia Léonie, que nos oferecem, sem qualquer mudança no curso de muitos anos, o espetáculo de hábitos esquisitos, dos quais sempre se acham em vias de se libertar mas que conservam sempre; presos na engrenagem de suas indisposições e manias, os esforços em que se debatem inutilmente para se livrar só fazem assegurar o funcionamento e acionar o gatilho de sua dieta estranha, irresistível e funesta. Assim era esse nenúfar, também semelhante a um desses infelizes cujo tormento singular, que se repete indefinidamente por toda a eternidade, excitava a curiosidade de Dante e cujas causas e particularidades ele gostaria de ouvir mais longamente narradas pelo próprio torturado, caso Virgílio, afastando-se a largos passos, não o houvesse forçado a se juntar a ele o mais rápido possível, como eu a meus pais.

            Porém mais adiante a correnteza diminuía, o rio atravessa uma propriedade, cujo acesso estava aberto ao público devido ao dono, o qual se divertia ali com trabalhos de horticultura aquática, fazendo florescer, em pequenos tanques que o Vivonne forma, verdadeiros jardins de ninféias. Como as margens eram, naquele ponto, bastante arborizadas, as grandes sombras das árvores conferiam à água um fundo normalmente de um verde sombrio, e que às vezes, quando voltávamos em certos fins de tarde reacalmados após uma tempestade, eu vi de um azul-claro e cintilante a violeta, de aspecto compartimentado e de gosto japonês. Aqui e ali, na superfície, avermelhava como um morango uma flor de ninféia de centro escarlate, de bordas brancas. Mais longe, as flores, mais numerosas, eram mais pálidas, menos lisas, mais granulosas, mais crespas, e dispostas ao acaso em espiras tão graciosas que a gente julgava ver flutuar à deriva, como após o desfolhar melancólico de uma festa galante, rosas de espuma em grinaldas desfeitas. Mais adiante, um cantinho parecia reservado às espécies comuns que mostravam o branco e o asseado dos goivos, lavados como porcelanas com um cuidado doméstico, que um pouco além, apertados uns contra os outros numa verdadeira platibanda flutuante, dir-se-iam amores-perfeitos dos jardins que tivessem vindo pousar, como borboletas, suas asas azuladas e frias sobre a obliqüidade transparente desse canteiro de água; daquele canteiro celeste também: pois ele dava às flores um solo de uma cor mais preciosa, mais emocionante, do que a cor das próprias flores; e, ora durante a tarde fazendo cingir sob as ninféias o caleidoscópio de uma felicidade atenta, silenciosa e móvel, ora se enchendo, ao anoitecer, como algum porto distante, do colorido róseo e do devaneio do poente, mudando sem cessar para permanecer de acordo, ao redor das corolas de tons mais estáveis, cora o que há de mais profundo, de mais fugitivo, de mais misterioso; com o que há de mais infinito no momento, parecia tê-las feito florir em pleno céu.

            Ao sair desse parque, o Vivonne voltava a correr. Quantas vezes vi e desci a imitar, quando fosse livre para viver a meu prazer, um remador que, largando o remo, se deitasse ao comprido de costas, com os pés mais altos que a cabeça, no fundo do barco, e, deixando-o flutuar à deriva, só podendo olhar o céu que desliza devagar acima dele, trazia no rosto o antegozo da paz e da felicidade. Assentávamo-nos por entre os íris à beira d'água. No céu de feriado, passava preguiçosamente uma nuvem vadia. Por momentos, oprimida pelo tédio, uma carpa punha a cabeça fora d'água numa respiração angustiosa. Era a hora de comer. Antes de voltar, ficávamos por muito tempo a comer frutas, pão e chocolate; na grama em que vinham até nós, horizontais, enfraquecidos, porém densos e metálicos ainda, os sons do sino de Saint-Hilaire que não se haviam misturado ao ar que há tanto tempo vinham atravessando, e, pregueados pela palpitação sucessiva; todas as suas linhas sonoras, vibravam roçando as flores aos nossos pés.

            Às vezes, à beira d'água cercada de árvores, encontrávamos numa casa chamada de recreio, isolada, perdida, que nada via do mundo senão o rio que lhe banhava os pés. Uma mulher moça, cuja fisionomia pensativa e véus elegantes não eram do lugar e que sem dúvida viera, conforme a expressão popular, "enterrar-te!'' ali, desfrutar do amargo prazer de sentir que seu nome, sobretudo o nome daquele cujo coração não pudera conservar, era desconhecido na região, enquadrava-se a janela que não a deixava olhar mais além da barca amarrada perto do portão. Ergui, distraidamente os olhos ao ouvir atrás das árvores da margem a voz dos passos; que, antes mesmo de ver seus rostos, podia estar certa de que nunca tinha conhecido, e nem conheceriam, o infiel, que nada em seu passado guardava-lhe marca e nada em seu futuro teria oportunidade de recebê-la. Sentia-se que, em sua renúncia, abandonava por vontade própria os lugares onde poderia ao menos avistar o amado, por aqueles que nunca o tinham visto. E eu a contemplava, volta de um passeio por um caminho pelo qual ela sabia que ele não haveria de passar descalçando de suas mãos resignadas as longas luvas de uma graça inútil.

            Nos passeios pelo caminho de Guermantes, nunca pudemos remontar nascentes do Vivonne, nas quais eu pensara com freqüência e que se me apresentavam com uma existência tão abstrata, tão idealizada, que eu teria ficado surpreso se me dissessem que se encontravam no departamento, a uma certa distância de Combray medida em quilômetros, como no dia em que soube que havia, na Antigüidade, um outro ponto determinado da Terra onde se abriam os Infernos. Tampouco, nunca pudemos ir até o limite que eu tanto gostaria de alcançar, até Guermantes. Sabia que ali moravam castelões, o duque e a duquesa de Guermantes, sabia que eram pessoas reais e de fato existentes; mas cada vez que pensava neles, representava-os ora em tapeçaria, como era a condessa de Guermantes na "Coroação de Ester" da nossa igreja, ora de matizes mutáveis como era Gilberto, o Mau, no vitral em que passava do verde-couve ao azul-ameixa, conforme estivesse eu ainda tomando água benta ou chegando aos nossos bancos, ora totalmente impalpáveis como a imagem de Genevieve de Brabant, ancestral da família de Guermantes, que a lanterna mágica fazia passear pelas cortinas do meu quarto, ou subir ao teto enfim, sempre envolvidos no mistério dos tempos merovíngios e banhados, como em um poente, na luz alaranjada que emana desta sílaba: "antes". Mas se, apesar disso, eram para mim, enquanto duque e duquesa, seres reais embora estranhos, em compensação a sua pessoa ducal se ampliava desmedidamente, materializava-se, para poder conter em si este Guermantes do qual eram duque e duquesa, todo esse "lado de Guermantes" ensolarado, o curso do Vivonne, suas ninféias e suas grandes árvores, e tantas tardes bonitas. E eu sabia que eles não tinham apenas o título de duque e duquesa de Guermantes, e sim que, desde o século XIV, quando, depois de terem tentado inutilmente vencer seus antigos senhores, aliaram-se a eles por matrimônios, eram condes de Combray, os primeiros dentre os cidadãos da cidade, e no entanto os únicos que ali não habitavam. Condes de Combray, possuindo Combray no meio do nome, de sua pessoa, e sem dúvida tendo de fato neles aquela estranha e piedosa tristeza que era própria de Combray; proprietários da cidade, mas não de uma casa particular, sem dúvida moravam fora, na rua, entre

o céu e a terra, como aquele Gilberto de Guermantes, de quem eu só via, nos vitrais da ábside de Saint-Hilaire, o seu avesso de laca preta, ao erguer a cabeça quando ia buscar sal na loja do Camus.

            Depois, acontecia às vezes que eu passava, no caminho de Guermantes, diante de pequenos cercados úmidos onde cresciam cachos de flores sombrias. Parava, julgando adquirir uma noção preciosa, pois me parecia ter debaixo dos olhos um fragmento dessa região fluvial, que tanto desejava conhecer desde que a vira descrita por um de meus escritores prediletos. E foi com ela, com seu solo imaginário, atravessado de rios espumosos, que Guermantes, mudando de aspecto em meu pensamento, se identificou quando ouvi o Dr. Percepied nos falar das flores e das belas águas-vivas que havia no parque do castelo. Imaginava que a Sra. de Guermantes mandava que eu a fosse ver, tomada de um repentino capricho por mim; todos os dias ficávamos juntos pescando trutas. E à tardinha, levando-me pela mão, mostrava-me, ao passar diante dos jardinzinhos de seus vassalos, ao longo dos muros, as flores que ali apoiavam as hastes roxas e rubras e me ensinava seus nomes. Ela me fazia dizer-lhe o tema dos poemas que eu pretendia compor. E tais sonhos me advertiam que, já que eu desejava um dia ser escritor, era tempo de saber o que tencionava escrever. Porém, quando o indagava a mim mesmo, buscando encontrar um assunto no qual pudesse colocar um significado filosófico infinito, meu espírito parava de trabalhar, e eu só via o vácuo à frente da minha atenção, sentia que não era dotado de gênio ou talvez uma doença cerebral que impedisse de eclodir. Por vezes, pensava em meu pai para ajeitar essa situação. Ele, era tão poderoso, tão bem considerado entre pessoas de alta posição, que chegava a nos fazer infringir as leis que Françoise me ensinara serem as mais inelutáveis que as da vida e da morte; e a retardar por um ano, para nossa casa, caso único do quarteirão, os trabalhos de "reboco"; a obter do ministro, para o filho da Sra. Sazeral que desejava fazer uma estação de águas, a autorização para que conseguisse bacharelado dois meses antes, na série de candidatos cujo nome começava por N em vez de fazê-lo esperar os da letra S. Se eu caísse gravemente enfermo, se tivesse sido capturado por bandidos, convencido de que meu pai mantinha inteligência bastante com as potências superiores, possuindo irresistíveis cartas de recomendação para o bom Deus, para que minha doença ou prisão não passassem de vãs simulações sem perigo para mim, teria esperado com tranqüilidade a hora inevitável da volta à realidade agradável, a hora da libertação ou da cura; talvez essa ausência de gênio, aquele buraco negro que se abria em meu espírito quando eu buscava o tema de meus escritos futuros, não passasse de uma ilusão inconsistente, cessando com a mediação de meu pai, o qual deveria acertar com o Governo e Providência que eu seria o primeiro escritor do meu tempo. Mas de outra feita, quando meus pais se impacientavam por me ver ficar para trás e não seguir minha vida presente, em lugar de me parecer uma criação artificial de meu pai e que ele podia modificar o seu talento, me surgia, ao contrário, como compreendida uma realidade que não fora feita para mim, e contra a qual não havia remédio, cujo meio eu não dispunha de aliados, que nada conservava além de si mesmo. Parecia-me, então, que eu existia do mesmo modo que os outros homens; envelheceria, que morreria como eles, e que, dentre eles, eu pertencia apenas ao número dos que não têm talento para escrever. E assim, desanimado, renunciava a literatura para sempre, apesar dos estímulos que me dera Bloch. Tal sentimento íntimo, imediato, que eu possuía do nada do meu pensamento prevalecia com todas as palavras elogiosas que me dirigiam, como os remorsos na consciência de um malvado cujas boas ações todos louvam.

            Um dia minha mãe disse:

            "Visto que falas tanto da Sra. de Guermantes, deve vir a Combray para assistir ao casamento da filha do Dr. Percepied, que cuida dela há quatro anos. Poderias vê-la na cerimônia." Aliás, era por meio do Dr. Percepied que eu mais ouvia falar da Sra. de Guermantes, e ele até nos mostrara o número de uma revista ilustrada onde ela aparecia com o vestido que usara num baile à fantasia na casa da princesa de Léon.

            De súbito, durante a missa do casamento, um movimento que fez o suíço se deslocar de onde estava permitiu-me ver, sentada numa capela, uma dama loura de nariz comprido, olhos azuis e indagadores, uma gravata fofa de seda malva, lisa, nova e brilhante, e uma pequena espinha num lado do nariz. E como na superfície de sua face avermelhada, como se ela estivesse com muito calor, eu distinguisse, diluídas e mal perceptíveis, parcelas de analogia com o retrato que me haviam mostrado, e como, sobretudo, os traços particulares que nela notava, ao tentar formulá-los, se expressavam precisamente nos mesmos termos-um nariz comprido, olhos azuis, que usara o Dr. Percepied para descrevera duquesa de Guermantes disse a mim mesmo que aquela dama se parecia com a Sra. de Guermantes; ora, a capela em que ela seguia a missa era a de Gilberto, o Mau, sob cujas lajes, distendas e douradas como alvéolos de mel, repousavam os antigos condes de Brabant; e como me lembrasse que me haviam dito estar a capela reservada à família dos Guermantes quando algum de seus membros vinha para uma cerimônia a Combray; só podia verossimilmente haver uma mulher que se assemelhasse ao retrato da Sra. de Guermantes naquela capela justo nesse dia, dia em que ela devia precisamente vir: era ela! Grande foi a minha decepção. Provinha de que eu nunca prestara atenção, quando pensava na Sra. de Guermantes, em que a representava com as cores de uma tapeçaria ou de um vitral, em outro século, de outra matéria que não o restante das pessoas vivas. Jamais me dera conta que ela poderia ter um rosto vermelho, uma gravata cor de malva como a Sra. Sazerat, e a forma oval de suas faces me fez lembrar a tal ponto pessoas que havia visto em casa que tive a suspeita, logo dissipada, de que essa dama, em seu princípio gerador, em todas as suas moléculas talvez não fosse, substancialmente, a duquesa de Guermantes, mas que seu corpo, ignorando o nome que lhe aplicavam, pertencia a um certo tipo feminino que também compreendia mulheres de médicos e comerciantes.

            "É isto, não é mais que isto a Sra. de Guermantes!", dizia a cara atenta e assombrada com que eu contemplava essa imagem que, naturalmente, não tinha qualquer relação com as que, sob o mesmo nome de Sra. de Guermantes, haviam aparecido tantas vezes nos meus devaneios, visto que essa não fora como as outras arbitrariamente formada por mim, porém saltara-me aos olhos pela primeira vez apenas há um momento, na igreja; que não era da mesma natureza, não era colorido à vontade como as que se deixavam embeber da tinta alaranjada de uma sílaba, mas era tão real que tudo, até mesmo a pequena espinha que se inflamava na asa do nariz, certificava a sua submissão às leis da vida, como, em uma apoteose teatral, um plissado do vidro da fada, um tremor do dedo mínimo, denunciam a presença material de uma atriz viva, no ponto onde estaríamos incertos se não tínhamos pela frente uma simples projeção luminosa.

            Mas ao mesmo tempo, sobre essa imagem que o nariz proeminente; olhos penetrantes fincavam na minha visão (talvez porque fossem eles que a atingiram primeiro, que lhe tivessem feito o primeiro entalhe, quando eu ainda nem tinha tido tempo de imaginar que a mulher que aparecia diante de mim podia se Sra. de Guermantes), sobre essa imagem bem recente, imutável, tentei aplicar uma idéia:

            "É a Sra. de Guermantes", sem chegar mais do que movê-la em face dá imagem, como dois discos separados por um intervalo. Mas essa Sra. de Guermantes com quem eu tanto sonhara, agora que via existir efetivamente fora de mim, obter ainda mais poder sobre minha imaginação que, paralisada por um instante contato de uma realidade tão diversa do que esperava, pôs-se a reagir e a me dizer:

            "Gloriosos desde antes de Carlos Magno, os Guermantes tinham o direito de vida, ou de morte sobre seus vassalos; a duquesa de Guermantes descende de Genevieve dé Brabant. Não conhece, nem admitiria conhecer nenhuma das pessoas que aqui estão."

            Maravilhosa independência dos olhares humanos, retidos como por um fio tão frouxo, tão extenso, tão elástico que podem passear sozinhos longe dele durante o tempo em que a Sra. de Guermantes permaneceu sentada na capela por sobre os túmulos de seus mortos, seus olhares passearam aqui e ali subiram ao longo dos pilares, demoraram-se até em mim, como um raio penetrante pela nave, mas um raio de sol que, no momento em que recebi sua carícia me pareceu consciente. Quanto à própria Sra. de Guermantes, visto que fiquei imóvel, sentada feito uma mãe que finge não ver as travessuras ousadas e tentativas indiscretas dos filhos que brincam e interpelam pessoas que ela conhece, foi-me impossível saber se ela aprovava ou censurava, na ociosidade da alma, a entrância de seus olhares.

            Eu achava importante que ela não partisse antes que a pudesse observar bastante, pois me lembrava que, há muitos anos, considerava uma das coisas desejáveis do mundo o instante em que a visse, e não tirava os olhos de cima dela como se cada um de meus olhares pudesse transportar, guardando dentro de si a lembrança do nariz proeminente, as faces vermelhas, todas essas particularidades que me pareciam outras tantas informações preciosas, autênticas e singular sobre o seu rosto. Agora que principiava a achar belos todos os pensamentos relacionados com ela, e acima de tudo, talvez, com o desejo que temos sempre de não ficarmos decepcionados, forma do instinto de conservação das melhores selas de nós mesmos; repondo-a (visto que ela e aquela duquesa de Guermantes que eu até então havia evocado formavam uma só pessoa) fora do restante da humanidade, com a qual a vista pura e simples de seu corpo me fizera por momento confundi-la, irritava-me ouvir sussurrarem a meu redor:

            "Ela está me parecendo mais a Sra. Sazerat, que a Srta. Vinteuil", como se lhes fosse comparável. E olhares, detendo-se em seus cabelos louros, nos seus olhos azuis, nas linhas do pescoço e apagando os traços que me pudessem lembrar outros rostos, faziam-me exclamar comigo, diante daquele escorço deliberadamente incompleto: "Como é linda! Que nobreza! É bem mesmo uma orgulhosa Guermantes, a descendente de Genevieve de Brabant, que tenho à minha frente!" E a atenção com que eu lhe iluminava o rosto isolava-a de tal maneira, que hoje, se volto a pensar nessa cerimônia, é-me impossível recordar uma só das pessoas que ali assistiam a ela, a não ser ela própria e o suíço, que respondeu afirmativamente quando lhe perguntei se aquela dama era mesmo a Sra. de Guermantes. Porém ela, se revejo-a, sobretudo no momento do desfile pela sacristia, iluminada pelo sol intermitente e tépido de um dia de vento e céu nublado, e onde a Sra. de Guermantes era vista no meio de toda aquela gente de Combray, das quais até o nome ignorava, mas cuja inferioridade punha por demais em relevo a sua supremacia, para que não deixasse de sentir uma benevolência sincera em relação àquelas pessoas, às quais, de resto, esperava impor-se ainda mais, graças à bondade e à simplicidade. E também, como não podia lançar esses olhares intencionais, carregados de um sentido preciso, que a gente dirige a alguém que se conhece, mas apenas deixar seus pensamentos distraídos escapar incessantemente à sua frente numa onda de luz azul que ela não podia conter, não desejava que essa luz por acaso perturbasse ou parecesse desdenhar essa gente humilde que encontrava ao passar, que atingia a todos os instantes. Revejo ainda, acima da gravata cor de malva, sedosa e inflada, o doce espanto de seus olhos, a que ela ajuntava, sem ousar destiná-lo a ninguém mas para que todos pudessem tomar parte dele, um sorriso tímido de suserana que parece se desculpar diante de seus vassalos e mostrar que lhes tem afeto.

            Esse sorriso caiu sobre mim, que não lhe tirava os olhos de cima. Então, lembrando-me do olhar que ela deixara fixar-se em mim, durante a missa, azul como um raio de sol que houvesse atravessado o vitral de Gilberto, o Mau, disse comigo: "Mas é claro que ela presta atenção em mim." Julguei que lhe agradava, que ela ainda haveria de pensar em mim depois de ter deixado a igreja, que por minha causa, talvez ficasse triste à noite, em Guermantes. E logo me apaixonei por ela, pois se por vezes é suficiente, para que nos apaixonemos por uma mulher, que nos encare com desprezo, como achava quetinha feito a Srta. Swann, e que imaginemos que ela jamais poderá nos pertencer, às vezes também pode bastar que ela nos olhe com bondade, como a Sra. de Guermantes, e que pensemos que ela poderá ser nossa. Seus olhos azulavam como uma pervinca impossível de ser colhida e que, no entanto, me fosse dedicada; e o sol, ameaçado por uma nuvem, mas ainda despedindo, com toda a força sobre a Praça e na sacristia, seus raios de luz, dava uma encarnação de gerânio aos tapetes rubros que tinham sido estendidos para a solenidade e sobre os quais se adiantava sorrindo a Sra. de Guermantes, e acrescentava à lã deles um róseo aveludado, uma derme nua, esta espécie de ternura, de grave doçura na pompa e na alegria que eriçam certas páginas de Lohengrin, certos quadros de Carpaccio, e que fazem entender que Baudelaire tenha podido atribuir ao som do clarim o epíteto: delicioso.

            Quantas vezes, depois daquele dia, em passeios para os lados Guermantes, não me pareceu ainda mais angustioso que antes não ter qualquer inclinação para as letras e ser obrigado a renunciar de vez a tornar-me um escritor célebre? A mágoa que eu sentia, enquanto ficava a sonhar sozinho, um por um, distante dos outros, me fazia sofrer tanto que meu espírito, para não mais sentir por si mesmo, numa espécie de inibição diante da dor, deixava inteiramente de pensar nos versos, nos romances, em um futuro poético com o qual a minha face de talento me proibia de contar. Então, bem longe de todas essas preocupações literárias e em nada a ela relativos, eis que de repente um telhado, um reflexo do sol sobre uma pedra, o cheiro de um caminho, faziam-me parar por um prazer que me davam, e também porque tinham o aspecto de quem guarda, além do que eu via, algo que me convidavam a vir pegar e que, apesar de meus esforços, eu nunca conseguia descobrir. Como eu sentisse que aquilo se encontrava neles, ficava imóvel, a contemplar, a respirar, a tentar ir, com o pensamento, para além da imagem ou do aroma.

            E se me fosse preciso correr atrás do meu avô, prosseguir caminho, procurava reencontrá-los fechando os olhos; concentrava-me em relembrar exatamente a linha do telhado, o matiz da pedra que, sem que pudesse compreender a razão, me haviam parecido cheios, prestes a se entreabrir, a me entreter naquilo de que eram apenas o envoltório.

            Certamente, não eram impressões desse tipo que me poderiam dar a esperança, já perdida, de que um dia eu fosse escritor e poeta, pois elas estavam sempre ligadas a um objeto particular desprovido de valor intelectual e não se relacionavam a nenhuma verdade abstrata. Mas menos me conferiam um prazer desarrazoado, a ilusão de uma espécie de fecundidade, e por aí me distraíam do tédio, do sentimento de impotência que experimentava cada vez que havia procurado um assunto filosófico para uma grande obra literária. Mas era tão árduo o dever de consciência que me impunham as impressões de forma, de perfume ou de cor-de buscar perceber o que se está atrás deles, que não tardei a procurar em mim as escusas que me permiti subtrair-me a tais esforços e me livrassem de tamanha fadiga. Felizmente, os pais me chamavam, eu via que agora não dispunha da tranqüilidade necessária para prosseguir com proveito a minha busca, e que era melhor só voltar a pensar naquilo quando chegasse em casa, e não me cansar antecipadamente sem resultado. Então não me ocupava mais dessa coisa desconhecida que se envolvia em uma forma ou um aroma, tranqüilamente dentro de mim, pois, que a levava para protegida pelo revestimento de imagens, sob as quais a encontraria bem, e como os peixes que eu trazia num cesto, nos dias em que me deixavam ir descobertos por uma camada de ervas que lhes conservava o frescor. Uma vez em casa, ficava pensando em outra coisa e assim iam-se acumulando no meu esconderijo (como no meu quarto as flores que colhera nos passeios ou os objetos que me haviam dado) uma pedra onde brincava um reflexo, um telhado, o som de um sino, um cheiro de folhas, quantas imagens diversas sob as quais há muito jaz morta a realidade pressentida que não tive força de vontade bastante para chegar a descobrir.

            Uma vez, no entanto-quando o nosso passeio se prolongara muito além de sua duração habitual e, a meio caminho de volta, no fim da tarde, tivemos o prazer de encontrar o doutor Percepied que passava à toda no seu carro e nos reconheceu, fazendo-nos subir para junto dele-, tive uma impressão desse tipo e não a larguei sem aprofundá-la um pouco. Tinham-me feito subir ao lado do cocheiro, e íamos feito o vento porque o Dr. Percepied precisava, antes de voltara Combray, parar em Martinville-le-Sec na casa de um doente, à porta de quem ficou acertado que o esperaríamos. Numa volta da estrada, experimentei de súbito esse prazer especial que não me parecia idêntico a nenhum outro, ao perceber as duas torres de Martinville, sobre as quais batia o sol poente, e o movimento da nossa viatura e as curvas do caminho davam a impressão de mudá-las de lugar, e depois a torre de Vieuxvicq, a qual, separada delas por uma colina e um vale, e situada num plano mais elevado e longínquo, parecia entretanto bem próxima delas.

            Verificando, ao observar o formato de suas flechas, e deslocamento de suas linhas, o ensolarado de suas superfícies, senti que não ia até o extremo limite de minha impressão, que havia algo por trás desse movimento, por trás dessa claridade, algo que elas pareciam, a um tempo, conter e esconder.

            Tão afastadas se achavam as torres e tão pouco me parecia que nos aproximávamos delas, que fiquei espantado quando, alguns momentos depois, paramos diante da igreja de Martinville. Desconhecia o motivo do prazer que sentira ao percebê-las no horizonte e a obrigação de procurar descobrir esse motivo me parecia bem penosa; tinha vontade de guardar de reserva, na cabeça, essas linhas rodopiantes ao sol e de não mais pensar nelas no momento. E é provável que, se o houvesse feito, as duas torres tivessem ido ajuntar-se para sempre às tantas árvores e telhados e perfumes e sons, que eu distinguira dos outros por causa desse prazer obscuro que me haviam proporcionado e que eu jamais aprofundara. Desci para conversar com meus pais à espera do doutor. Depois continuamos, retomei meu lugar na boleia, virei a cabeça para ver ainda

uma vez as torres que, um pouco depois, percebi pela última vez numa volta da estrada. Já que o cocheiro não parecia disposto a conversar, mal tendo respondido às minhas palavras, fui obrigado, à falta de outra companhia, a recorrer à minha, tentando rememorar as torres. Em breve as suas linhas e suas superfícies ensolaradas, como se fossem uma espécie de casca, se romperam, e um pouco do que estava oculto nelas me apareceu, tive um pensamento que não existia para mim um momento antes, um pensamento que se formulou em palavras na minha cabeça, e o prazer que há pouco sentira aumentou consideravelmente, de modo que, tomado de uma espécie de embriaguez, não pude mais pensar em outra coisa. Nesse momento, e como se estivéssemos longe de Martinville, percebi-as de novo ao virar a cabeça, completamente negras dessa vez, pois o sol já se havia posto. Durante alguns instantes voltas do caminho deixavam-nas ocultas; depois elas se mostraram uma última e por fim não as vi mais.

            Sem dizer a mim mesmo que aquilo que se ocultava detrás das torres; Martinville devia ser algo semelhante a uma bela frase, pois que era principalmente sob a forma de palavras que me davam prazer, pedi lápis e papel ao doutor e, aos ressaltos do carro, escrevi, para aliviar a consciência e obedecer ao meu entusiasmo, o fragmento seguinte que encontrei mais tarde e no qual fiz somente umas poucas modificações:

            "Sozinhas, elevando-se do nível da planície e como que perdidas em pó raso, subiam para o céu as duas torres de Martinville. Em breve, observava três; vindo colocar-se à frente delas, numa volta ousada, uma torre retardatária Vieuxvicq, a elas se reunira. Os minutos passavam, andávamos depressa e entanto, as três torres estavam sempre ao longe diante de nós, como três passarinhos pousados na planície, imóveis, e que se distinguem ao sol. Depois a torre Vieuxvicq se afastou, tomou distância, e as torres de Martinville ficaram sós, iluminadas pela luz do poente que mesmo a essa distância eu via brincar e sorrirem suas telhas. Tínhamos levado tanto tempo a nos aproximar delas, que eu pensava tempo ainda necessário para atingi-las quando, de repente, tendo o carro dado a sua volta, depositou-nos à seus pés; e de modo tão áspero haviam elas se lançado contra o carro que mal tivemos tempo de parar a fim de não nos chocarmos com o pórtico. Prosseguimos o caminho; já tínhamos deixado Martinville há pouco, a aldeia desaparecera depois de nos ter acompanhado por alguns segundos; as torres e a de Vieuxvicq ainda agitavam, em sinal de despedida, os seus cumes ensolarados. Às vezes, uma delas se apagava para que as outras duas pudessem nos ver um instante ainda; mas a estrada mudou de direção, elas viraram como três pivôs de ouro e desapareceram aos meus olhos. Mas, um pouco depois como já estivéssemos perto de Combray, já tendo o sol se posto, avistei-as pela última vez, de muito longe, e não passavam de três flores pintadas no céu acima da linha baixa dos campos. Faziam-me pensar também nas três moças de uma tela, abandonadas numa solidão onde já caía a treva; e enquanto nos distanciávamos a galope, vi-as procurando o caminho com timidez e, após algumas oscilações distantes de suas nobres silhuetas, apertarem-se umas contra as outras, e formavam no céu ainda róseo apenas um só vulto negro, charmoso e resignado, a se apoiarem na noite."

            Nunca mais voltei a pensar nessa página, mas naquele momento, quase no canto da boléia onde o cocheiro do doutor colocava, de hábito, em um cesto aves que comprara no mercado de Martinville, terminei de escrevê-la, senti-me feliz, achava que ela me desentranhara tão perfeitamente aquelas torres e da que elas escondiam atrás de si, que, como se eu próprio fosse uma galinha e acabasse de pôr um ovo, comecei a cantar a plenos pulmões.

            Durante o dia inteiro, nesses passeios, eu pudera pensar no prazer que teria se fosse amigo da duquesa de Guermantes, de pescar trutas, passear de barco no Vivonne e, ávido de felicidade, não pedir à vida, nesses momentos, senão que ela se compusesse de uma série de tardes felizes. Mas quando, no caminho de volta, avistava à esquerda um sítio bastante afastado de outros dois que, ao contrário, se avizinhavam muito, e a partir do qual, para entrar em Combray, bastava tomar uma alameda de carvalhos, que tinha a um lado vários prados, cada um pertencente a um pequeno cercado e plantados a intervalos iguais de macieiras que ali projetavam, ao serem iluminadas pelo sol poente, o desenho japonês de suas sombras, meu coração punha-se a bater bruscamente, pois sabia que antes de uma hora estaríamos de volta em casa e que, como era de praxe nos dias em que tínhamos ido pelo caminho de Guermantes e que o jantar era servido mais tarde, me mandariam deitar tão logo tomasse a sopa, de modo que minha mãe, retida à mesa como se houvesse convidados para jantar, não subiria para me dar boa-noite na cama. A região de tristeza em que acabava de entrar era tão diversa da região de alegria onde me lançara um momento antes, como em certos céus uma faixa cor-de-rosa se separa, como que por uma linha, de uma faixa verde ou de outra negra. Vê-se um pássaro voar na faixa rosa, já vai atingindo a sua extremidade, quase que toca a negra e depois penetra nela. Os desejos que há pouco me assaltavam, de ir a Guermantes, de viajar, de ser feliz, eram-me agora tão estranhos que sua realização não me teria dado prazer algum. Como teria dado tudo aquilo para poder chorar a noite inteira nos braços de mamãe!

            Estremecia, não tirava os olhos aflitos do rosto de minha mãe, que naquela noite não apareceria no meu quarto onde já me achava em pensamento, e queria morrer. E esse estado iria durar até o dia seguinte, quando os raios da manhã apoiassem, como o jardineiro a sua escada, suas barras no muro revestido de capuchinhas que subiam até a minha janela, e eu pulasse da cama para descer depressa ao jardim, sem mais me lembrar que a noite tornaria a trazer consigo a hora de separar-me de minha mãe.

            E assim, foi pelo lado de Guermantes que aprendi a distinguir esses estados que em mim ocorrem, durante certos períodos, e chegam até a dividir entre si os dias, um vindo para expulsar o outro, com uma pontualidade de febre; contíguos, mas tão exteriores um ao outro, tão destituídos de meios de comunicação entre eles, que já não posso compreendê-los e sequer me representar em um o que desejei, ou temi, ou até realizei no outro estado.

            Portanto, o lado de Méséglise e o lado de Guermantes permanecem, para mim, ligados a várias das pequeninas ocorrências dessa vida que, de todas as vidas que vivemos paralelamente, é a mais cheia de peripécias, quero dizer, a vida intelectual. Sem dúvida, ela progride insensivelmente dentro de nós e as idades que mudaram seu sentido e seu aspecto, que nos abriram caminhos, mas, há muito que vínhamos preparando a sua descoberta, porém sem sabê-lo; e elas, para nós, só datam do dia, do minuto em que se nos tornaram visíveis; flores que então brincavam na grama, a água que corria ao sol, toda a paisagem rodeava, a sua aparição continua a acompanhar sua lembrança com seu rosto consciente ou distraído; e com certeza, quando eram contemplados longamente por esse humilde passante, por essa criança que sonhava-como o é um rei memorialista perdido na multidão -, esse recanto da natureza, esse pedaço jardim não poderiam pensar que, graças a ele, seriam chamados a sobreviver suas particularidades mais efêmeras; e no entanto, o aromado espinheiro-alvar se evola ao longo da sebe onde as eglantinas em breve o substituirão, o rumor um passo sem eco sobre o cascalho de uma alameda, uma bolha formada com uma planta aquática pela água do rio e que logo estoura, minha exaltação os transportou e conseguiu fazê-los atravessar tantos anos sucessivos, enquanto que em torno os caminhos se apagaram e estão mortos aqueles que os trilharam e na lembrança dos que os pisaram. Por vezes, esse trecho de paisagem assim transportado até o dia de hoje ganha relevo, tão isolado de tudo, que flutua indeciso no pensamento como uma delas florida, sem que eu possa dizer de que país ou que tempo ele provém: talvez, simplesmente, de que sonho. Mas é sobretudo como se pensasse em jazidas profundas do meu terreno mental, como nos sonhos resistentes em que ainda me apóio, que devo pensar no lado de Méséglise e no de Guermantes.          E precisamente porque confiava nas coisas, nos seres que fizeram conhecer, são os únicos que ainda levo a sério e ainda me dão alegria porque a fé que cria se haja esgotado em mim, ou porque a realidade só se for a memória, as flores que hoje me mostram pela primeira vez não me parecem verdadeiras. O caminho de Méséglise, com seus lilases, seus espinheiros, centáureas, suas papoulas, suas macieiras, e o caminho de Guermantes, com, rio de girinos, suas ninféias e seus botões-de-ouro, formaram por todo o ser para mim, o aspecto das terras em que eu gostaria de viver, onde exijo, ante tudo, que se possa pescar, passear de bote, ver ruínas de fortificações góticas encontrar em meio aos trigais, exatamente como Saint-André-des-Champs, uma igreja monumental, rústica e dourada como um monte de trigo; e as centáureas, espinheiros, as macieiras que me ocorre encontrar ainda nos campos, quando pois estão situados à mesma profundidade, ao nível do meu passado, e imediatamente em sintonia com meu coração. E, no entanto, visto que existe individualmente nos lugares, quando tenho desejos de rever o caminho de Guermantes não ficaria satisfeito se me levassem para a margem de um rio onde houve ninféias tão ou mais lindas que as do Vivonne, como, ao voltar para casa em que despertava em mim aquela angústia que depois emigra para o amor, e se tornar inseparável dele para sempre-, eu não teria desejado que viesse boa-noite uma mãe mais bela e mais inteligente que a minha.       Não; era assim que eu precisava, para dormir feliz, com aquela paz sem perturbações que alguma vez pôde me proporcionar mais tarde, já que temos dúvidas a respeito delas mesmo no momento em que nelas acreditamos, e que jamais nos confiam seu coração como minha mãe, num beijo, me confiava o seu, por inteiro, sem qualquer restrição, sem o menor sinal de espírito preconcebido, sem o resquício de uma intenção que não se dirigisse exclusivamente a mim -o que eu precisava era que fosse ela, que fosse ela quem inclinasse para mim o rosto onde havia, acima do olho, algo que era, ao que me parece, um defeito, e que eu amava como ao resto, da mesma forma, assim como o que desejo rever é o caminho de Guermantes que conheci, com o sítio um pouco distanciado dos outros dois apertados um contra o outro, na entrada da aléia dos carvalhos; são estas planícies onde, quando o sol as faz espelhantes com um charco, desenham-se as folhagens das macieiras, é essa paisagem cuja individualidade às vezes, nos meus sonhos de noite, me domina com uma força quase fantástica e que já não consigo recuperar quando acordo. Sem dúvida, por terem para sempre unido indissoluvelmente dentro de mim essas impressões diferentes, só porque me fizeram senti-las ao mesmo tempo, o lado de Méséglise e o lado de Guermantes me expuseram, no futuro, a muitas decepções e até a erros. Pois por diversas vezes quis rever uma pessoa sem perceber que era apenas porque ela me lembrava uma sebe de espinheiros, e fui induzido a crer e a fazer crer numa retomada da afeição, quando se tratava de um simples desejo de viagem. Mas também por esse mesmo motivo, e presentes, como estão, nas minhas impressões de hoje com as quais podem se relacionar, dão-lhes um fundamento e uma profundidade, uma dimensão a mais que às outras. Ajuntam-lhes também um encanto, um significado que só existe para mim. Quando, nas noites de verão, o céu harmonioso ruge como uma fera fulja e todos se incomodam com a tempestade, é no caminho de Méséglise que devo ficar sozinho em êxtase, respirando, no meio do barulho da chuva que cai, o aroma de lilases invisíveis e persistentes.

            Era assim que eu ficava muitas vezes até de manhã a pensar no tempo de Combray, nas minhas tristes noites sem sono, e também em tantos dias, cuja imagem me fora mais recentemente restituída pelo sabor - o que em Combray se chamaria "perfume" de uma xícara de chá e pela associação de lembranças estabelecidas entre recordações minhas e certos fatos que, muitos anos depois de ter deixado aquela cidadezinha, fiquei sabendo acerca de um amor que Swann vivera antes do meu nascimento, com essa precisão de detalhes mais fácil de conseguir, às vezes, quanto à vida das pessoas mortas há séculos do que no caso de nossos melhores amigos, e que parece impossível, como parecia impossível trazer uma cidade a outra - enquanto ignoramos a maneira como foi resolvida essa impossibilidade. Todas essas lembranças reunidas umas às outras: formavam mais que uma massa, mas nem por isso eu deixava de percebe-las entre as mais velhas e as mais novas, surgidas de um perfume, e depois que eram somente lembranças de outra pessoa, que as passara a mim sem fissuras, verdadeiras fendas, pelo menos

essas nervuras, essas misturas de que, em certas rochas e certos mármores, revelam diferenças de origem, de idade de "formação".

            Certamente, quando se aproximava o dia, já fazia muito que se dissolvia a breve incerteza do meu acordar. Eu sabia em que quarto me encontrava; reconstruíra-o a meu redor na obscuridade e ora me orientando apenas memória, ora auxiliando-me, como indicação, com uma luzinha fraca que espera, à qual aplicava as cortinas da janela reconstruíra-o por inteiro, mobilia como um arquiteto e um tapeceiro que conservam o buraco primitivo para janelas e as portas, recolocara os vidros e repusera a cômoda em seu lugar de costume. Porém, mal o dia começava-e não mais o reflexo de uma última brasa sobre o varão de cobre que eu tomara por ele traçava na escuridão, como que agia o primeiro raio branco e retificador, a janela com suas cortinas abandonava da porta, onde eu a situara por engano, enquanto que, para lhe dar lugar na escrivaninha, que minha memória instalara desastradamente ali, fugia a toda sala, levando a lareira de roldão e afastando a parede intermediária do corredor, o patiozinho reinava onde, ainda há pouco, se localizava o quarto da toalete. A residência que eu edificara nas trevas ia reunir-se às casas entrevistas no turbilhão do despertar, posta em fuga por aquele pálido signo que o dedo erguido dali havia traçado acima das cortinas.

 

            Para fazer parte do "pequeno núcleo", do "pequeno grupo", do "pequeno clã" dos Verdurin, uma condição bastava, mas era necessária: seria preciso aderir tacitamente a um credo, do qual um dos artigos rezava que o jovem pianista, protegido pela Sra. Verdurin naquele ano e do qual ela dizia: "Não devia ser permitido saber tocar Wagner tão bem assim!", "liquidava" ao mesmo tempo com Planté e Rubinstein, e que o Dr. Cottard tinha melhor diagnóstico do que Potain. Todo "novo recruta", a quem os Verdurin não podiam convencer que os saraus das pessoas que não freqüentavam a casa eram aborrecidos como a chuva, via-se imediatamente excluído. Sob esse aspecto, as mulheres eram mais rebeldes que os homens em desistir de toda curiosidade mundana e não queriam se resignar a abrir mão dos atrativos dos outros salões, e como, por outro lado, os Verdurin sentiam que esse espírito crítico e o demônio da frivolidade poderiam, por contágio, ser fatais à ortodoxa da igrejinha, foram levados a rejeitar sucessivamente todos os "fiéis" do sexo feminino.

            Naquele ano, a fora a jovem esposa do doutor, estavam praticamente reduzidos (embora a própria Sra. Verdurin fosse virtuosa e de respeitável família burguesa, excessivamente rica e totalmente obscura, com a qual, aos poucos, deixara de manter quaisquer relações) a uma pessoa quase do demi-monde, a Sra. de Crécy, a quem a Sra. Verdurin tratava pelo nome de batismo, Odette, declarando que era "um amor", e à tia do pianista, que devia ter sido porteira; pessoas que ignoravam a alta sociedade e de tal modo ingênuas que seria fácil fazê-las crer que a princesa de Sagan e a duquesa de Guermantes eram obrigadas a pagar a infelizes para ter gente em seus jantares, tanto que, se lhes tivessem feito o oferecimento de conseguir um convite para a casa dessas duas damas, a antiga porteira e a cocote o teriam recusado com desdém.

            Os Verdurin não convidavam para jantar: sempre havia, na casa deles, um "lugarzinho à mesa". Para o sarau, não havia programa. O jovem pianista tocava, porém só se "lhe desse na telha", porque ninguém era forçado a nada, como dizia o Sr Verdurin: "Tudo para os amigos, vivam os camaradas!" Se o pianista queria tocar a cavalgada das Valquírias ou o prelúdio do Tristão, a Sra. Verdurin protestava, não que essa música lhe desagradasse, mas, pelo contrário, porque a deixava muito impressionada. "Então você quer que eu tenha enxaqueca? Sabe muito bem que é a mesma coisa toda vez que toca isso. Sei o que me espera amanhã, quando me levantar, adeus!" Se o pianista não tocava, todos conversavam e um dos amigos, em geral o pintor predileto da ocasião, "soltava", como dizia o Sr. Verdurin "uma daquelas piadas que fazem todo mundo morrer de rir", principalmente a Sr. Verdurin, a quem - de tanto que tinha o hábito de tomar ao pé da letra as expressões figuradas de suas emoções o Dr. Cottard (um jovem principiante àquela época teve um dia de reajustar a mandíbula, que ela desarticulara de tanto rir.

            Era proibida a casaca porque estavam entre "camaradas" e para não ficarem parecidos com os "maçantes", dos quais fugiam como da peste, e que só eram convidados nas grandes recepções, dadas o mais raramente possível e apenas poderiam concorrer para tornar conhecido o músico ou agradar ao pintor. No resto do tempo, contentavam-se em representar charadas, em cear com trajes à fantasia, mas entre si, sem incorporar nenhum estranho à "rodinha".

            Mas à medida que os "camaradas" iam assumindo mais espaço na vida a Sra. Verdurin, os maçantes e os réprobos passaram a ser todos aqueles que tinham os amigos longe dela, que os impediam às vezes de estar liberados, a mal de um, a profissão de outro, a casa de campo ou a má saúde de um terceiro; W Dr. Cottard julgasse dever partir, saindo da mesa para estar ao pé de um doente estado grave, dizia-lhe a Sra. Verdurin: "Quem sabe se ele não se sentiria melhor agora, se o senhor não fosse perturbá-lo! Passaria uma boa hora sem o senhor amanhã de manhã, o senhor iria bem cedo e o acharia curado."

            Desde princípios de dezembro ela se sentia doente só em pensar que os fiéis a "abandonariam" para as festas de Natal e Ano-Novo.

            A tia do pianista exigia que ele fosse jantar em família; na casa da mãe dela.

            -Acha então que ela irá morrer, a sua mãe-gritava a Sra. Verdurin e que dureza -, se você não for jantar com ela no Ano-Novo, como se faz no interior? Tais inquietações regressavam na Semana Santa: ''-O senhor, doutor, um sábio, um espírito forte, naturalmente virá na Sexta-Feira Santa como se fosse um dia qualquer, não é? - dizia a Cottard, no primeiro dia do ano, num tom de segurança como se não duvidasse da resposta; tremia à espera de sua palavra, pois se ele não fosse ela se arriscaria a ficar sozinha.

            -Virei na Sexta-Feira Santa... dar-lhe adeus, pois vamos passar a Páscoa na Auvergne.

            - Auvergne? Para ser comido por pulgas e outros bichos? Que lhe faça bom proveito!

            E após um silêncio:

            -Se ao menos tivessem nos avisado, teríamos tentado organizar de acordo, fazer a viagem juntos em condições confortáveis.

            Do mesmo modo, quando um "fiel" tinha um amigo, ou uma "companheira", um flerte que às vezes pudesse ser motivo para uma "deserção", os Verdurin que não ficavam escandalizados

que uma mulher tivesse um amante, desde estivesse em casa deles, o amasse através deles, e não o preferisse a eles, disse:

            ''Muito bem, traga seu amigo."

            E submetiam-no à prova, para ver se era capaz de não ter segredos para a Sra. Verdurin, e se era possível ajuntá-los ao "pequeno clã". Se ele não o era, chamavam o fiel à parte, pois que o havia apresentado, e o encarregavam de romper com seu amigo ou sua amante. No caso contrário, o "novato" tornava-se um fiel por sua vez. Assim, quando naquele ano a demi-mondaine disse ao Sr. Verdurin que havia conhecido um homem encantador, o Sr. Swann, e insinuou que ele ficaria muito satisfeito em ser recebido pelos Verdurin, o Sr. Verdurin imediatamente transmitiu a petição à esposa. (Só manifestava sua opinião depois de ouvir a mulher, pois seu papel especial era pôr em execução, com todo engenho e arte, os desejos dela e dos fiéis.)

            -Aqui está a Sra. de Crécy que tem algo a lhe pedir. Desejaria apresentar um de seus amigos, Sr. Swann. Que lhe parece?

            -Ora, lá é possível recusar alguma coisa a uma perfeição como esta? Cale-se, ninguém lhe pediu sua opinião, eu digo que você é uma perfeição.

            - Já que preferem assim... respondeu Odette num tom afetado, acrescentando: vocês sabem que não estou fishing for compliments.

            - Muito bem, traga o seu amigo, se é agradável.

            Decerto o "pequeno núcleo" não tinha qualquer ligação com a sociedade freqüentada por Swann, e um mundano puro não teria achado valer a pena ocupar sua posição excepcional para se fazer apresentar na casa dos Verdurin. Porém, Swann gostava tanto de mulheres que, depois de conhecer praticamente todas da aristocracia e quando elas nada mais tinham a lhe ensinar, já não dava a essas cartas de naturalização, que quase eram títulos de nobreza, que lhe outorgara o bairro de Saint-Germain, mais que um valor de troca, de letra de crédito, sem valor em si mesma, mas que lhe facultava improvisar uma situação num recanto da província, ou num ambiente obscuro de Paris, onde a filha do fidalgo, ou do tabelião lhe houvesse parecido ser bonita. Pois o desejo ou o amor lhe dava então um sentimento de vaidade do qual era isento na vida comum (embora tivesse sido esse mesmo sentimento, sem dúvida, que o levara à carreira mundana antigamente, fazendo-o desperdiçar o espírito em prazeres frívolos e colocar sua erudição nas artes a serviço das damas da sociedade, aconselhando-as em suas compras de quadros e no mobiliário de seus palacetes), e que o fazia desejar brilhar, aos olhos de uma desconhecida pela qual se apaixonara, com uma elegância que o nome de Swann, por si só, não implicava. Desejava-o principalmente se a desconhecida era de condição humilde. Da mesma maneira que não é a outro homem inteligente que um homem inteligente terá receio de parecer imbecil, não é da parte de um fidalgo e sim de um estico que um homem elegante receará ver ignorada a sua elegância. Três quartos dos empenhos de espírito e das mentiras de vaidade que foram esbanjados, desde que o mundo é mundo, por pessoas a quem só poderiam rebaixá-los, o foram para seres inferiores. E Swann, que era simples e negligente com uma duquesa, temia ser desprezado e assumia poses na presença de uma camareira.

            Não era como tantas pessoas que, por preguiça ou sentimento resignação, da obrigação que lhes impõe a grandeza social de ficarem amarrados a uma margem, se abstêm dos prazeres que a realidade lhes apresenta fora da população mundana em que vivem aquartelados até a morte, contentando-se em acabar, chamar prazeres, à falta de coisa melhor, uma vez que se habituaram a tal; divertimentos medíocres ou os tédios suportáveis que ela contém. Quanto a Swann, não procurava achar bonitas as mulheres com quem passava o tempo, mas pelo tempo com as mulheres que primeiro achara bonitas. E muitas vezes tratava as mulheres de beleza bem vulgar, pois as qualidades físicas que ele buscava se dar conta disto estavam em completo desacordo com as que lhe tornavam admiráveis as mulheres esculpidas, ou pintadas pelos mestres que preferia. A profundidade e a melancolia da expressão esfriavam-lhe os sentidos que, ao contrário, uma saudável, opulenta e rosada bastava para despertar.

            Se numa viagem conhecia uma família com a qual seria mais elegante travar relações, mas na qual uma mulher aparecia a seus olhos com um encanto que ainda lhe era desconhecido, "manter a linha" e enganar o desejo que ele fizera nascer, substituir por um prazer diferente o prazer que poderia conhecer ela, escrevendo a uma antiga amante para que viesse vê-lo, tudo isso lhe, parecido uma tão covarde abdicação diante da vida, uma renúncia tão idiota na felicidade nova, como se, em vez de visitar a região, ele se tivesse encerrado num quarto para olhar retratos de Paris. Não se fechava no edifício de suas relações fizera dele, para poder reconstruí-lo em toda parte, de novo, quando uma mulher agradasse, uma dessas tendas desmontáveis que os exploradores trazem consigo. Quanto ao que não podia ser transportado, ou trocado por um prazer ele o teria considerado sem valor, por mais invejável que pudesse parecer aos outros. Quantas vezes seu crédito junto a uma duquesa, feito pelos desejo desta, acumulara durante anos de lhe ser agradável sem jamais ter tido a oportunidade de uma ocasião adequada, não o desfazia Swann de um só golpe, direto dela, com um despacho indiscreto, uma recomendação telegráfica que o em contato, imediatamente, com um de seus intendentes, cuja filha lhe quer atenção no campo, como o faria um esfomeado que trocasse um diamante pelo pedaço de pão. E a coisa, mais tarde, até que o divertia, pois havia contra-balançado por delicadezas sutis, uma certa grosseria. Além disso, esses tipos de homens inteligentes que viveram na ociosidade e que busca alívio e quem sabe uma desculpa na idéia de que essa ociosidade oferece inteligência, a objetos tão dignos de interesse como os que lhes proporciona a arte e o estudo, que a "Vida" contém situações mais interessantes, mais belas, que todos os romances. Pelo menos assim o afirmava, persuadia facilmente os mais finos de seus amigos da sociedade, especialmente o Charles, a quem divertia com a narração de aventuras picantes que lhe tinha acontecido, seja que, tendo encontrado num trem uma mulher a quem logo levara para sua casa, descobrira que se tratava da irmã de um soberano em cujas mãos se emaranhavam, na ocasião, todos os fios da política européia, da qual assim ficara conhecendo os detalhes de modo bastante agradável; seja que, pelo jogo complexo das circunstâncias, dependia da escolha que fizesse o conclave saber se poderia ou não se tornar amante de uma cozinheira.

            Aliás, não era somente a brilhante falange de virtuosas matronas, generais, acadêmicos, com quem estava particularmente ligado, que Swann forçava, com tanto cinismo, a lhe servir de mediadores. Todos os seus amigos tinham o hábito de receber, de vez em quando, uma carta dele, em que lhes era pedida uma palavra de recomendação ou de apresentação, com uma habilidade diplomática que, persistindo pelos amores sucessivos e os diversos pretextos, punham à mostra, mais do que o fariam as palavras irrefletidas, um caráter constante e uma identidade de objetivos. Muitos anos mais tarde, quando comecei a me interessar pelo seu caráter por causa das semelhanças que, sob outros aspectos, apresentava com o meu, muitas vezes me contaram que, quando escrevia a meu avô (que ainda não o era, pois foi mais ou menos à época do meu nascimento que principiou a grande ligação amorosa de Swann, que interrompeu por muito tempo essa prática), este, reconhecendo no envelope a letra do amigo, exclamava: "Aqui está Swann, que vai me pedir alguma coisa: cuidado!" E seja por desconfiança, seja pelo sentimento inconscientemente diabólico que nos leva a ofertar uma coisa apenas às pessoas que não a desejam, meus avós tinham por norma nunca atender aos pedidos mais fáceis de satisfazer que Swann lhes dirigia; como apresentá-lo a uma moça que jantava todos os domingos em nossa casa, sendo obrigados, cada vez que Swann tocava no assunto, a fingir que não ouviam, ainda que durante a semana inteira quebrassem a cabeça para imaginar quem poderiam convidar em companhia dela, e muitas vezes sem encontrar ninguém, só para não acenar àquele que ficaria tão feliz com isso.

            Às vezes, um casal amigo de meus avós e que até então se queixava de nunca ver Swann, lhes anunciava com satisfação, e talvez um pouco na intenção de lhes causar inveja, que Swann agora era gentilíssimo com eles e nunca os deixava.

            Meu avô não queria estragar-lhes o prazer, mas olhava para minha avó, cantarolando:

            Que mistério é este que não consigo entender?

            história fugitiva...

            Nesses negócios

            O melhor é não ver coisa alguma.

            Alguns meses depois, se meu avô perguntava ao novo amigo de Swann:

            "E o Swann, continua a vê-lo sempre muito?", o rosto do interlocutor encompridava:     "Nunca mais pronuncie este nome na minha frente!"

            "E eu julgava fossem tão unidos..."

            Fora, desse modo, durante alguns meses, no íntimo dos primos de minha avó, jantando na casa deles quase todos os dias; de repente deixou de comparecer, sem qualquer aviso. Pensaram que estivesse doente e a prima de minha avó já ia mandar pedir notícias dele, quando encontrou na copa uma carta sua que ficara, por descuido, no livro de contas da cozinheira. Na carta, ele comunicava àquela mulher que ia deixar Paris e não mais poderia comparecer. É que ela era sua amante e, no momento de romper, apenas a ela achou que devia avisar.

            Quando, ao contrário, sua amante do momento era uma pessoa da sua idade, ou pelo menos alguém cuja origem muito humilde, ou cuja situação bastante irregular, não a impedia que fosse recebida em sociedade, então, por causa dela, Swann voltava àquele meio, mas apenas na órbita particular em que ela transitava, ou então, aonde ele a levara.

            "Inútil contar com Swann esta noite", diziam, "sabem muito bem que é o dia de Ópera da sua americana."

            Dava um jeito para quê convidassem para salões, especialmente fechados, e onde ele tinha seus hábitos de seus jantares semanais, o seu pôquer; todas as noites, depois que uma leve ondulação aplicada aos cabelos ruivos havia matizado de alguma doçura, a vivacidade seus olhos verdes, Swann escolhia uma flor para a botoeira e saía para se encontrar com a amante, na mesa de alguma das mulheres do seu grupo; e então, pensa, na admiração e na amizade que as pessoas da moda, para quem ele era a palavra suprema, lhe devotariam diante da mulher que amava, ainda encontrava charme naquela vida mundana da qual se entediara, mas cuja substância, impregna calidamente colorida por uma chama insinuante que nela brincava, lhe parecia preciosa desde que a ela incorporara um novo amor.

            Mas, ao passo que cada uma dessas ligações, ou cada um desses flerte fora a realização mais ou menos completa de um sonho nascido da vista de rosto, ou de um corpo que Swann, espontaneamente, sem muito esforço, julgasse atraentes; em compensação, quando um dia no teatro foi apresentado a Ode Crécy por um de seus amigos de outrora, que lhe falara dela como de uma mulher deslumbrante, com quem poderia talvez chegar a alguma coisa, mas insinuando ela mais difícil do que o era na realidade, a fim de parecer ele próprio ter feito algo mais amável ao apresentá-lo, ela aparecera a Swann não sem beleza decerto, de um tipo de beleza que lhe era indiferente, que não lhe excitava nenhum desejo, chegando até a lhe causar uma espécie de repulsa física, uma dessas mulheres como todos têm, diversas para cada um, e que são o oposto do tipo que no sentidos exigem. Tinha um perfil acentuado demais para lhe agradar, a pele muito frágil, os pomos demasiado salientes, os traços do rosto muito enfezados. Os olhos eram belos, mas tão grandes, que cansavam o restante do rosto, deixando-se vencer pela própria massa, dando-lhe o aspecto de estar sempre mal-humorada.

            Algum tempo depois dessa apresentação no teatro, ela lhe escrevera pedindo para ver suas coleções, que tanto a interessavam, "ela, uma ignorante que tinha gosto pelas belas coisas", dizendo que achava que o conheceria melhor quando o tivesse visto no seu home, onde ela o imaginava "tão confortavelmente instalado com seu chá e seus livros", embora não lhe escondesse a surpresa de saber que morava naquele bairro que devia ser tão triste e que era "tão pouco smart para ele, que o era tanto".

            E depois que ele deixou que o visitasse, Odette, ao sair, lamentou ter ficado tão pouco tempo naquela casa onde tivera a fortuna de entrar, falando dele como se valesse para ela mais que as outras pessoas que conhecia, e parecendo estabelecer entre ambos uma espécie de tratado de união romanesca que o fizera sorrir. Mas, na idade já um pouco desiludida de que se aproximava Swann, na qual a gente sabe se contentar em estar apaixonado pelo prazer de sê-lo, sem exigir demais em troca, essa união de corações, se já não é como na primeira mocidade o fim para o qual tende necessariamente o amor, lhe fica ligada, em compensação, por uma associação de idéias tão forte que pode ser sua causa, se se apresenta antes dele. Antigamente, sonhava-se em possuir o coração de uma mulher da qual estávamos enamorados; mais tarde, sentir que possuíamos o coração de uma mulher podia bastar para que nos apaixonássemos por ela. Assim, como se busca no amor principalmente um prazer subjetivo, na idade em que poderia parecer que o gosto pela beleza de uma mulher assumisse a maior parte, o amor do amor mais físico-pode nascer sem que tenha ocorrido, em seus fundamentos, um desejo prévio. Nessa época da vida, a gente já foi diversas vezes atingido pelo amor; e ele já não evolui sozinho conforme suas próprias leis desconhecidas e fatais, ante o nosso coração espantado e inerme. Nós vamos em sua ajuda, iludimo-lo com a memória, com a sugestão. Ao reconhecer um de seus

sintomas, relembramos e fazemos renascer os outros. Visto que possuímos sua canção, gravada inteirinha dentro de nós, não precisamos mais que uma mulher que nos diga o começo repleto da admiração que inspira a beleza para encontrar a continuação. E se ela começa pelo meio-no ponto onde os corações se aproximam, onde a gente fala de só existir um para o outro-já estamos bem acostumados a essa música para que logo alcancemos a nossa parte naire no ponto em que nos espera.

            Odette de Crécy voltou a ver Swann, e depois amiudou suas visitas; e sem dúvida cada uma delas renovava, nele, a decepção que sentia ao se achar diante desse rosto, cujas particularidades esquecera um pouco nos intervalos, e que não lhe vinha à lembrança, nem tão expressivo, nem, apesar da juventude, tão murcho; lamentava, enquanto conversavam, que a grande beleza dela não fosse do tipo da qual ele teria espontaneamente preferido. Aliás, é preciso dizer que o rosto de Odette "ia mais magro e mais proeminente porque a testa e a parte superior das faces, essa superfície unida e mais plana, era recoberta pela massa de cabelos à época, se usavam prolongados em "proas", levantados em "tufos", espalhados, mechas doidas ao longo das orelhas; e quanto ao corpo, admiravelmente tal era difícil perceber sua continuidade (por causa da moda da época e emboto fosse uma das parisienses que melhor se vestia), pois tanto o corpinho, avançava em saliência como sobre um ventre imaginário e terminando bruscamente ponta, ao passo que embaixo principiava a inchar-se o balão das saias duplas, às mulheres o aspecto de serem formadas de peças diversas, mal encaixadas nas outras; quanto os fofos, os babados e o colete, com toda a independência, de acordo com a fantasia de seu desenho, ou a consistência de seu tecido, segundo a linha que os levava aos nós, aos folhos da renda, às franjas de azeviche perpendiculares, ou que os dirigia ao longo das barbatanas, mas de maneira alguma servia ao ser vivo, que, conforme a arquitetura desses penduricalhos se aproximava, afastava muito da sua, ali se sentia apertado ou bem frouxo.

            Mas quando Odette foi embora, Swann sorria, recordando que ele dissera, como o tempo demoraria a passar até que ele lhe permitisse regressar. Lembrava-se do ar inquieto e tímido com o qual pedira que não levasse tempo a chamá-la de novo, e os olhares que lhe deitara naquela ocasião, fixos numa súplica medrosa, e que a tornavam tocante sob o buquê de amores-perfeito artificiais da parte da frente do chapéu redondo de palha branca, presos com veludo negro.

            "E você", disse ela, "não irá uma vez à minha casa tomar chá, se desculpar com trabalhos em andamento, um estudo - na verdade abandonado há anos - sobre Vermeer de Delft. "Compreendo que não posso fazer nada, insignificante como sou, ao lado de sábios como você", respondera Odette. "Seria a rã diante do areópago. E, no entanto, gostaria tanto de me instruir, ser iniciada. Como deve ser divertido bulinar, meter o nariz em papéis velhos!" - acrescentou contente consigo mesma, com esse ar que assume uma mulher elegante para afirmar que sua alegria é entregar-se, sem temor de se sujar, a uma sórdida, como por exemplo, cozinhar "pondo as mãos na massa". "Você vai ver, esse pintor que o impede de me visitar (referia-se a Vermeer), nunca ouvi; nele; vive ainda? é possível ver suas obras em Paris, para que eu possa ter um daquilo que você gosta, adivinhar um pouco o que se esconde sob esta grande cabeça que trabalha tanto, esta cabeça que a gente percebe que está sempre pensando, e assim eu poderia dizer comigo mesma: ''eis aí, é nisto que ele está, do que sonho seria estar misturada aos seus trabalhos!" Ele se desculpara de medo das amizades novas, o que denominara, por gentileza, seu medo infeliz. "Você tem medo de uma afeição?''

            ''Como é engraçado, eu que não penso em outra coisa, eu que daria a minha vida para encontrar uma", dissera Odette tom de voz tão natural, tão convicto, que ele até se comoveu. "Você deve ter uma, por causa de uma mulher. E julga que todas as outras são como ela. Ela não pode compreendê-lo; você é um ser tão especial. Foi isso que me agradou primeiro em você, bem que senti que você não era como todos."

            - "E você também", dissera-lhe Swann, "sei bem o que são as mulheres, deve ter grande número de ocupações, ter pouco tempo livre."

            -"Ora, eu nunca tenho nada que fazer, estarei sempre livre para você! A qualquer hora do dia ou da noite em que lhe for cômodo me ver, mande-me buscar, ficarei muito feliz em poder vir. Fará assim? Mas sabe o que seria bom, seria apresentá-lo à Sra. Verdurin, a cuja casa vou todas as noites. Imagine a gente se encontrar lá, e eu podia pensar que você estaria lá um pouco por minha causa."

            E sem dúvida, lembrando-se assim das conversas que tivera, pensando desse modo nela quando estava sozinho, o que fazia era apenas mover a sua imagem entre muitas imagens de mulheres em devaneios românticos; mas se, graças a uma circunstância qualquer (ou mesmo, talvez, sem que fosse devido a ela, pois a circunstância que se apresenta ao declarar-se um estado, até então latente, pode não ter influído em nada sobre ele) a imagem de Odette de Crécy acabava por absorver todas as suas fantasias, se é que elas já não eram mais separáveis de suas recordações, então era porque as imperfeições do corpo dela já não tinham mais importância nenhuma, nem que fosse, mais ou menos como qualquer outro corpo, do gosto de Swann, pois que, tornando-se o corpo daquela a quem amava, seria desde então o único a poder lhe causar alegrias e sofrimentos.

            Meu avô conhecera bem, o que não se podia dizer de nenhum de seus amigos atuais, a família desses Verdurin. Mas, perdera de vista, totalmente, aquele que chamava o "pequeno Verdurin", a quem considerava, generalizando um pouco, como um decaído entre os boêmios e a gentalha, muito embora conservasse alguns milhões.

            Um dia recebeu uma carta de Swann perguntando se o podia pôr em contato com os Verdurin: "Em guarda! Em guarda!", gritara meu avô. "Isto não me espanta absolutamente, era bem por aí que Swann deveria acabar. Belo ambiente! Primeiro, não posso fazer o que me pede pois, não conheço mais esse senhor. E depois, isso me cheira a coisa de mulher, não me meto nesses negócios. Muito bem! Vai ser divertido se Swann se engraçar com os Verdurin." E, diante da resposta negativa de meu avô, foi a própria Odette quem levara Swann à casa dos Verdurin.

            No dia em que Swann apareceu pela primeira vez, os Verdurin tinham para jantar o Dr. Cottard e esposa, o jovem pianista e sua tia, e o pintor que era o favorito da ocasião, além de alguns outros fiéis.

            O Dr. Cottard nunca sabia ao certo como deveria responder a alguém, se seu interlocutor queria rir ou estava sério. E, ao acaso, ele acrescentava a todas as suas expressões fisionômicas o oferecimento de um sorriso condicional e provisório na finura expectante, o desculparia da censura de ingenuidade, se as palavras que lhe dirigiam, fossem de fato espirituosas. Porém, como tinha de enfrentar a face oposta, nunca deixava o sorriso se afirmar nitidamente no rosto, onde se via flutuar perpetuamente uma incerteza em que se lia a pergunta que não tem coragem de fazer:

            "O senhor fala isto a sério?"

            Da mesma maneira que nos salões, não estava igualmente certo de como devia se comportar na rua, e até, em geral na vida, e assim opunha aos passantes, aos carros e aos acontecimentos um só malicioso, que previamente eliminava de sua atitude toda impropriedade, visto que provava, se não era adequada ao caso, que ele bem o sabia e só por zombar procedera daquele jeito. Entretanto, em todos os assuntos onde era permitido, o doutor não deixava de esforçar-se para restringir o campo de incertezas e de completar sua instrução.

            Assim é que, conforme os conselhos que a mãe previdente lhe dera, quando deixara sua província, jamais deixava passar, ora uma locução, ora um próprio, que lhe fossem desconhecidos, sem tentar documentar-se a respeito.

            Quanto às locuções, era insaciável nas indagações, pois supondo tivessem, às vezes, um sentido mais preciso do que têm, desejaria saber o que se dizer com exatidão com aquelas que ouvia com mais freqüência: o frescor da idade, sangue azul, uma vida desregrada, o momento crítico, ser o árbitro da escola, dar carta branca, estar entre a espada e a parede, etc., e que em certos casos poderia, por seu turno, empregá-las na conversa. Na sua falta, empregava jogo de palavras que havia aprendido.

            Quanto aos nomes próprios novos que pronunciavam à sua frente, contentava-se em repeti-los em tom interrogativo, que julgava suficiente para obter explicações sem dar a impressão

de pedi-las.

            Como fosse inteiramente destituído do senso crítico que julgava este a tudo, o requinte da polidez que consiste em afirmar a alguém que nos deve favor, que os favorecidos somos nós, mas sem esperar que nos creia, era trabalho perdido com o doutor, que tomava tudo ao pé da letra. Fosse qual fosse a opinião da Sra. Verdurin a seu respeito, ela acabara, mesmo continuando a achá-lo fino, por se aborrecer ao ver que, quando ela o convidava para assistir, ou ouvir Sarah Bernhardt, e lhe dizia, para maior gentileza: "Agradeço-lhe muito ter vindo, doutor, tanto mais que tenho certeza de que já ouviu muitas vezes Sarah Bernhardt, e, além disso, estamos talvez muito perto do palco", o Dr. Cottard, entrara no camarote com um sorriso que esperava, para se acentuar ou desaparecer, que alguém com autoridade o informasse acerca do valor do espetáculo respondia: "De fato, estamos muito perto e já começamos a ficar cansados de Sarah Bernhardt. Mas você me expressou o desejo de que eu viesse. Seus desejos são ordens. Fico muito feliz em lhe prestar este serviço. O que não faria para lhe ser agradável, você é tão gentil!" E acrescentava: "Sarah Bernhardt é mesmo a Voz de Ouro, não é? Diz-se também, muitas vezes, que quando representa o teatro vem abaixo. É uma expressão estranha, não?", na expectativa de comentários que não vinham.

            "Tu sabes", dissera a Sra. Verdurin ao marido, "acho que não procedemos bem quando, por modéstia, depreciamos o que oferecemos ao doutor. É um sábio que vive fora da realidade prática, sem conhecer por si mesmo o valor das coisas, julgando-as pelo que lhe dizemos."

            -"Não tinha coragem de lhe dizer, mas já havia reparado", respondeu o Sr. Verdurin. E no dia do próximo Ano-Novo, em vez de mandar ao doutor um rubi de três mil francos, dizendo que valia bem pouco, o Sr. Verdurin comprou uma imitação por trezentos francos, dando-lhe a entender que dificilmente poderia ver outra mais bela.

            Quando a Sra. Verdurin anunciara que teriam, naquela reunião, o Sr. Swann: "Swann?", exclamara o doutor com um tom que a surpresa fazia brutal, pois a menor novidade sempre pegava mais desprevenido que ninguém esse homem que se considerava permanentemente preparado para tudo. E vendo que não lhe davam resposta: ''Swann? Mas quem é Swann?", gritou, num ímpeto de ansiedade que se deteve de súbito quando a Sra. Verdurin disse: "Ora, o amigo de que Odette nos falou." - "Ah, muito bem, está tudo bem", respondeu o doutor acalmado. Quanto ao pintor, regozijou-se com a introdução de Swann na casa da Sra. Verdurin, pois supunha-o apaixonado por Odette e gostava de favorecer as ligações amorosas. "Nada me agrada mais do que fazer casamentos", segredou ao ouvido do Dr. Cottard, "já consegui realizar muitos, até entre mulheres!" Dizendo aos Verdurin que Swann era muito smart, Odette os fizera recear um "maçante".

            Mas, ao contrário, ele lhes causou excelente impressão, sendo uma de cujas causas indiretas, à sua revelia, o fato de ter ele o hábito de freqüentar as casas elegantes. Com efeito, Swann tinha sobre os homens que nunca freqüentaram a sociedade, mesmo os mais inteligentes, uma das superioridades dos que já viveram um pouco nesse ambiente, que é o de não mais transfigurá-lo pelo desejo ou pelo horror que inspira à imaginação, e considerá-lo como não tendo qualquer importância. Sua amabilidade, isenta de todo esnobismo e do medo de parecer amável demais, tornando-se independente, tem essa facilidade, essa graça de movimentos, daqueles cujos membros flexíveis executam precisamente o que eles querem, sem a participação indiscreta e desajeitada do resto do corpo. A simples ginástica elementar do homem da sociedade, que estende a mão com amabilidade ao rapaz desconhecido que lhe apresentam, e se inclina com reserva diante do embaixador a quem é apresentado, acabara por tornar-se parte, sem que ele se

desse conta, de toda a atitude social de Swann, que em face à pessoas de um meio social e o seu, como eram os Verdurin e seus amigos, deu instintivamente mostras de uma solicitude e se fez atencioso, o que, segundo eles, nenhum "maçante'' daria ao trabalho de exibir. Só um momento de frieza ocorreu, e com o Dr. Cottard, vendo-o piscar-lhe o olho e sorrir ambiguamente ainda antes de se terem apresentado (mímica que Cottard chamava "deixar que corra"), Swann julgou sem dúvida que doutor o conhecia por ter se encontrado com ele em algum lugar alegre, em freqüentasse bem raramente e jamais tivesse vivido no mundo da boêmia. Acordo de mau gosto a alusão, sobretudo em presença de Odette, que poderia fazer mau juízo dele, mostrou-se bastante frio. Mas, ao saber que a dama que está ao lado do doutor, era a Sra. Cottard, imaginou que um marido tão jovem não, procurando referir-se, diante da mulher, a tais divertimentos; e deixou de atribuir conivente do doutor o sentido que temia.

            E logo o pintor convidou Swann com Odette ao seu ateliê; Swann achou-o gentil. "Talvez ele o favoreça mais do que a mim", disse a Sra. Verdurin, num tom de despeito fingido, "e lhe mostre o retrato de Cottard (ela o havia encomendado ao pintor). Pense bem, 'senhor' Biche", lembrou ao pintor (a quem era um gracejo consagrado chamar de "senhor"), "no olhar, nesse não sei quê de fino e divertido que há nos olhos. Você sabe que eu quero ter, sobretudo, é o seu sorriso, o que lhe pedi foi o retrato do seu esposo como essa expressão lhe parecesse notável, repetiu-a bem alto para estar certa que vários convidados a ouvissem, e mesmo, sob um pretexto qualquer, fez alguns se aproximarem.

            Swann pediu para ser apresentado a todos, até ao velho amigo dos Verdurin, Saniette, cuja timidez, simplicidade e bom tom, conseguiram fazer que perdesse em toda parte a consideração que lhe valeram seu conhecimento dos arquivos, sua grande fortuna e a distinta família a que pertencia falar, enrolava adoravelmente as palavras e sentia-se que aquilo trazia melhor defeito da língua que uma qualidade da alma, como um resto de inocência da primeira idade que ele jamais perdera. Todas as consoantes que não podia pronunciar, eram como outras tantas durezas de que se mostrava incapaz na vida. Ao ser apresentado ao Sr. Saniette, Swann deu à Sra. Verdurin a impressão de inverter os papéis (a ponto que, em resposta, ela disse, acentuando a dizer: "Senhor Swann, quer ter a bondade de me permitir apresentar-lhe o nosso Saniette"), mas fez nascerem Saniette uma simpatia calorosa que, aliás, os Verdurin nunca revelaram a Swann, pois Saniette os aborrecia um pouco e eles interessavam em conseguir-lhe amigos. Mas, em compensação, Swann os deu infinitamente, julgando dever pedir logo que o apresentassem à tia de vestido preto, como sempre, porque achava que de preto a gente está sempre bem, e é o que há de mais distinto, tinha o rosto excessivamente rubro como a vez que acabava de comer. Inclinou-se diante de Swann com respeito, mas veio erguer-se como majestade. Como não possuísse nenhuma instrução e temia ter erros de francês, pronunciava as frases de modo confuso, pensando se errasse a pronúncia, ficaria o erro esfumado em tal vacuidade que não seria distingui-lo com certeza, de modo que sua conversação não passava de um rouquejar indistinto do qual emergiam, de vez em quando, os raros vocábulos de que ela se sentia segura. Swann achou que não faria mal zombar levemente dela ao falar ao Sr. Verdurin, que, pelo contrário, ficou ressentido.

            "É uma mulher excelente", respondeu. "Concordo que não é deslumbrante; mas asseguro-lhe que é agradável quando se conversa a sós com ela." - "Não duvido", apressou-se a conceder Swann. "Eu queria dizer que ela não me parecia 'eminente"', acrescentou, destacando o adjetivo, "e enfim é antes um cumprimento!"-"Veja", disse o Sr. Verdurin, "eu vou deixá-lo espantado, ela escreve de forma encantadora. Nunca ouviu o seu sobrinho? É admirável, não é mesmo, doutor? Quer que lhe peça para tocar alguma coisa, senhor Swann?"-"Seria uma felicidade ...", começava a responder Swann, quando o doutor o interrompeu com ar de troça. De fato, tendo aprendido que, numa conversa, estava fora de moda o emprego da ênfase, das formas solenes, quando ouvia uma palavra grave dita em tom sério, como o acabava de ser o vocábulo "felicidade", julgava que aquele que o pronunciara se mostrava pedante. E se essa palavra se achasse, por acaso, naquilo a que denominava uma velha chapa, aliás, por mais corrente que a palavra fosse, o doutor supunha que a frase começada era ridícula e terminava-a ironicamente com o lugar-comum que parecia acusar seu interlocutor de ter desejado empregá-lo, embora este nem tivesse pensando em tal coisa.

            - Uma felicidade para a França! gritou maliciosamente, erguendo os braços com ênfase.

            O Sr. Verdurin não pôde deixar de rir.

            - De que está rindo todo esse pessoal aí? Parece que nesse cantinho não há lugar para a melancolia exclamou a Sra. Verdurin. - Se acham que estou me divertindo, sozinha de castigo... acrescentou em tom despeitado, com jeito de criança.

            Ela estava sentada numa alta cadeira sueca de pinho envernizado, presente de um violinista daquele país, e que ela conservava, conquanto parecesse ter a forma de um escabelo e não combinasse com os belos móveis antigos que ela possuía; mas ela timbrava em pôr em evidência os presentes que os fiéis costumavam lhe fazer de tempos em tempos, para que os doadores tivessem o prazer de reconhecê-los quando vinham. Assim, tentava convencê-los a se restringirem às flores e aos bombons, que pelo menos são perecíveis; mas não o conseguia e sua casa virava uma coleção de aquecedores, almofadas, pêndulos, biombos, barômetros, vasos orientais, numa acumulação de repetições e num disparate de presentes.

            Daquele posto elevado, a Sra. Verdurin participava com animação da conversa dos fiéis e se divertia com suas "troças", mas desde o acidente ocorrido com sua mandíbula renunciara ao esforço de dar gargalhadas de verdade, e, em vez disso, entregava-se a uma mímica convencional que significava, sem fadiga nem que ela ria até as lágrimas. A menor piada soltada por um habitué contra um "maçante", ou contra um velho habitué relegado ao grupo dos "maçantes" -e maior desespero do Sr. Verdurin, que durante longo tempo tivera a pretensão" tão amável como a esposa, mas que ria abertamente, logo perdendo o fôlego, e afastado e vencido por aquela astúcia de uma disparidade incessante e fictícia, soltava um gritinho, fechava completamente os olhos de pássaro que começava a cegar, e de súbito, como se só tivesse tido tempo de evitar um escuso indecente ou um ataque mortal, escondendo o rosto nas mãos que sem deixar mais ver coisa alguma, aparentava se esforçar para reprimir, naquilo um riso que, se a ele se abandonasse, a teria levado ao desmaio. Assim, até pela alegria dos fiéis, ébrio de camaradagem, de maledicência e de assentimento a Sra. Verdurin, do alto do seu poleiro, à semelhança de um pássaro a quem tive mergulhado o biscoito em vinho quente, soluçava de gentileza.

            Entretanto, o Sr. Verdurin, depois de ter pedido a Swann licença para acender o cachimbo ("aqui ninguém se incomoda, estamos entre amigos"), solicitou ao jovem pianista que se sentasse ao piano.

            - Vamos, não o incomodes, ele não está aqui para ser atormentado - gritou a Sra. Verdurin - não consinto que o atormentem.

            - Mas porque achas que isso vai aborrecê-lo?- indagou o Sr. Verdurin- o Sr. Swann talvez não conheça a sonata em fá sustenido que descobrimos para nos tocar o arranjo para piano.

            -Ah, não! Nada da minha sonata! -exclamou a Sra. Verdurin.- Não quero que me venha, de tanto chorar, um refluxo com nevralgias do rosto, como da última vez. Obrigada pelo presente, não desejo recomeçar; vocês são muito carinhosos, mas já se vê que não são vocês que ficariam de cama durante oito dias.

            Esse pequeno drama, que se renovava todas as vezes que o piano tocava, encantava os amigos como se fosse novo, como prova da originalidade sedutora da "Patroa" e de sua sensibilidade musical. Os que estavam perto; faziam sinal aos que, mais distantes, fumavam ou jogavam cartas, para que se aproximassem, pois se passava algo, dizendo-lhes, como se faz no Reichst momentos interessantes: "Escutem, escutem."

            E no dia seguinte sentiam daqueles que não tinham podido vir, dizendo-lhes que a cena fora ainda mais maçada que de costume.

            -Muito bem, fica entendido - disse o Sr. Verdurin-, ele só tocará o andante.

            - Que andante! Ora essa exclamou a Sra. Verdurin. - Pois se é justo o andante que me deixa destroçada. Essa do Patrão é boa! É como se na hora dissesse: só ouviremos o final, ou nos Mestres, a abertura.

            No entanto, o doutor insistia com a Sra. Verdurin para que deixasse o pianista tocar, não que julgasse fingidos os contratempos que a música lhe vale, reconhecia naquilo alguns sintomas de neurastenia -, mas devido a hábito de muitos médicos, de diminuírem logo a severidade de suas prescrições, desde que esteja em jogo, o que lhes parece muito mais importante, alguma recepção mundana da qual fazem parte e de que um dos fatores fundamentais é a pessoa a quem aconselham esquecer por uma vez a sua dispepsia.

            - Não ficará doente desta vez, vai ver. - disse-lhe o doutor, procurando sugestioná-la com o olhar. - E, se ficar doente, cuidaremos bem da senhora.

            -Verdade? - respondeu a Sra. Verdurin, como se diante da esperança de um tal favor não restava senão capitular. Também, talvez, de tanto dizer que ficaria doente, havia momentos em que não se lembrava mais que aquilo era uma mentira e tornava-se intimamente enferma. Ou então esses doentes que, cansados de sempre serem obrigados a fazer depender de seus conhecimentos a raridade dos acessos, preferem crer que poderão fazer impunemente tudo aquilo que lhes agrada e geralmente lhes faz mal, sob a condição de se colocarem nas mãos de uma criatura poderosa que, sem que nada tenham a perder, os ponha novamente de pé com uma palavra ou uma pílula.

            Odette fora sentar-se num canapé forrado de tapeçaria, perto do piano:

            -Sabe que tenho o meu santinho - disse à Sra. Verdurin.

            Esta, vendo Swann numa cadeira, pediu que se levantasse.

            - O senhor não está bem aí, venha sentar-se ao lado de Odette. Não é verdade, Odette, que você vai arranjar um lugarzinho para o Sr. Swann?

            -Que belo Beauvais - disse Swann antes de se sentar, querendo ser amável.

            -Ah, fico satisfeita que aprecie meu canapé - respondeu a Sra. Verdurin. Previno-lhe desde já que, se quiser ver outro tão bonito, pode ir desistindo. Nunca fizeram nada igual. As cadeirinhas também são umas belezas. Daqui a pouco, vai observar tudo isso. Cada figura de bronze corresponde como símbolo ao tema do assento; se quiser passar um bom momento de diversão, venha ver tudo. Só os pequenos frisos das bordas, veja só! E as folhinhas de parra em fundo vermelho de O Urso e as Uvas. Não é bem desenhado? Que me diz o senhor, acho que eles é que sabiam desenhar! Não são apetitosas estas vinhas? Meu marido afirma que não gosto de frutas porque como menos frutas que ele. Mas não, sou mais gulosa que os senhores todos, mas não preciso pô-las na boca, pois desfruto-as com os olhos. De que é que estão todos rindo? Perguntem ao doutor, ele lhes dirá que essas uvas me deixam indisposta. Outros fazem temporadas de cura em Fontainebleau, mas eu faço a minha pequena cura de Beauvais. Mas, senhor Swann, não sairá daqui sem ter tocado os pequenos bronzes do espaldar. Não é bem suave como pátina? Mas não assim, de leve, toque-os com a mão inteira.

            - Ah, se a Sra. Verdurin começa a apalpar os bronzes, não ouviremos música esta noite disse o pintor.

            -Cale-se, o senhor é mau. No fundo disse ela virando-se para Swann - "bem-nos a nós, mulheres, coisas menos voluptuosas que isto. Mas não existe cadeira que se compare a esta. Quando o Sr. Verdurin me dava a honra de ter ciúmes de mim... Vamos, pelo menos procura ser polido; não me diga que nunca tiveste...

            -Mas não estou dizendo nada. Olhe, doutor, tomo-o por testemunha: que eu disse alguma coisa?

            Swann apalpava os bronzes por polidez e não ousava parar logo.

            -Vamos, poderá acariciá-los mais tarde; agora é o senhor que vai ser apreciado, e acariciado no ouvido; gosta disto, suponho; eis um rapazinho que vou encarregar de tal.

            Depois que o pianista tocou, Swann foi ainda mais amável com ele do que com as outras pessoas que ali se achavam. Eis a razão: no ano anterior, era a recepção, ele ouvira uma peça musical tocada ao piano e violino. A princípio admirara a qualidade material dos sons secretos tirados pelos instrumentos, aquilo já fora uma grande satisfação; eis senão quando, por baixo da linha menor do violino, tênue, resistente, densa e dominadora, ele vira de súbito elevar-se, marulho líqüido, a massa da parte do piano, multiforme, indivisa, plana, entrechocada como a malva agitação das vagas que o luar encanta e memoriza em um dado momento, sem poder distinguir com nitidez um contorno, dar nome ao que lhe agradava, subitamente arrebatado, buscara recolher a frase harmonia ele mesmo não o sabia que passava e que lhe abria a alma largamente, como certos aromas de rosas que circulam no ar úmido da noite têm a propriedade de dilatar nossas narinas. Talvez porque não conhecia a música, pudera experimentar uma impressão tão confusa, uma dessas impressões que, no entanto, talvez sejam as únicas puramente musicais, não-extensas, inteira originais, irredutíveis a todo gênero diverso de impressões. Uma impressão do tipo, durante um momento, é por assim dizer sine materia. E claro que as notas então ouvimos, já se inclinam, segundo a altura e a quantidade, a cobrir dias nossos olhos superfícies de dimensões variadas, a traçar arabescos, sensações de largura, continuidade, estabilidade e capricho. Mas as notas de cem antes que essas sensações estejam bem formadas em nós para não se emergirem diante daquelas que as notas seguintes ou simultâneas já despertam essa impressão continuaria a envolver com sua liqüidez e o seu "fundo" os mesmos por instantes emergem, mal discerníveis, para logo mergulhar e desaparecer, conhecidos apenas pelo prazer particular que proporcionam, impossíveis descrever, de serem lembrados, denominados, inefáveis se a memória, com operário que trabalha para estabelecer fundações duradouras em meio às máquinas fabricando para nós fac-símiles dessas frases fugitivas, não nos permitisse compara-Ias às que as sucedem e diferenciá-las. Assim, mal havia expirado a sensação preciosa que Swann sentira, a sua memória lhe fornecera, de imediato, uma transação sumária e provisória, mas sobre a qual já lançara ele os olhos enquanto continuava a ser tocado, se bem que, quando a mesma impressão voltara disto, ela já não era inatingível. Ele lhe concebia a extensão, os grupamentos simétricos a grafia, o valor expressivo; tinha diante de si essa coisa que já não é mais música pura, que faz parte do desenho, da arquitetura, do pensamento, e que permite recordar a música. Desta vez havia distinguido nitidamente um trecho que se elevava por alguns instantes acima das ondas sonoras. Esse trecho lhe propusera logo volúpias especiais, que nunca imaginara antes de ouvi-lo, e percebia que somente ele lhe podia fazer conhecê-las, e sentiu por aquela frase como que um amor desconhecido.

            Num ritmo lento, ela o dirigia primeiro para um lado, depois para outro, depois mais adiante, para uma felicidade nobre, precisa e ininteligível. E de repente, no ponto em que ela chegara e de onde ele se preparava para segui-la, depois de uma pausa de um segundo, mudava de direção bruscamente e, com um novo movimento, mais rápido, miúdo, permanente, melancólico e suave, ela o arrastava consigo para perspectivas desconhecidas. Depois, desapareceu. Ele desejou apaixonadamente revê-la uma terceira vez. E ela reapareceu, de fato, mas sem lhe falar mais claramente, causando-lhe mesmo uma volúpia menos profunda. Mas, chegando em casa, teve necessidade dela, era como um homem em cuja vida uma mulher, mal entrevista por um momento, acaba de fazer entrar a imagem de uma beleza nova, que dá à sua sensibilidade um valor maior, sem que ele saiba sequer se poderá rever algum dia aquela que ele já ama e da qual ignora até o nome.

            Mesmo esse amor por uma frase musical pareceu, por um instante, trazer a Swann a possibilidade de uma espécie de renovação. Decorrera tanto tempo que havia desistido de aplicar sua vida a um objetivo ideal e limitava-a a perseguir satisfações do dia-a-dia, que julgava, sem nunca o afirmar formalmente, que aquilo não se modificaria até sua morte; ainda mais, já não sentindo idéias elevadas no espírito, deixara de crer na realidade delas, sem todavia não poder negá-las de todo. Assim, adquirira o hábito de se refugiar em pensamentos desimportantes que lhe permitissem deixar de lado o fundo das coisas. Assim como não cuidava de indagar de si mesmo se não seria melhor freqüentar a sociedade, mas, em compensação, sabia com certeza que se aceitasse um convite devia comparecer e que, se não fizesse visitas, deveria deixar um cartão, assim também, na conversação, esforçava-se para nunca exprimir sinceramente uma opinião íntima sobre as coisas, e sim de fornecer detalhes materiais que de certa forma valessem por si mesmos, evitando que os avaliasse em toda a medida. Era extremamente preciso quanto a uma receita culinária, quanto à data de nascimento ou morte de um pintor, quanto à nomenclatura de suas obras. Às vezes, apesar de tudo, permitia-se emitir uma opinião sobre uma obra, sobre uma forma de compreender a vida, mas então dava a suas palavras tom irônico, como se não aceitasse inteiramente o que dizia. Ora, como certos extraordinários a quem, de súbito, uma região aonde chegam, um regime diverso, à uma evolução orgânica, espontânea e misteriosa, parecem trazer uma regressão do mal de que sofrem, e começam a admitir a possibilidade inesperada de principiar, ainda que tarde, uma vida completamente diferente; Swann encontrou em si, na lembrança da frase que ouvira, em certas sonatas que mandava tocar ver se a descobria, a presença de uma dessas realidades invisíveis em que deixa de acreditar e às quais, como se a música tivesse tido, sobre a secura moral de que ele sofria, uma espécie de influência eletiva, sentia de novo o desejo e quase a de consagrar a vida. Porém, não tendo conseguido saber quem era o compositor da melodia que ouvira, não pudera procurá-la e a acabara esquecendo. Encontrou naquela semana algumas pessoas que, como ele, se achavam nessa recepção a interrogar; mas vários tinham chegado após a música, e outros saíram antes no entanto, alguns lá estavam durante a execução da peça, mas tinham ido comer em outro salão, e outros, que ficaram para ouvir, só tinham escutado as primeiras notas. Quanto aos donos da casa, sabiam que se tratava de uma obra nova que os artistas contratados tinham pedido para tocar; tendo estes partido para uma festa, Swann não pôde saber mais nada. Contava com muitos amigos músicos embora recordasse o prazer especial e intraduzível que lhe dera a frase, vendo dos olhos as formas que ela desenhava, era todavia incapaz de cantá-la para depois, mas deixou de pensar naquilo.

            Ora, somente alguns minutos depois que o jovem pianista começou a tocar na casa da Sra. Verdurin, eis que de repente, depois de uma nota alta longa sustentada durante dois compassos, Swann viu se aproximar, escapando-se dessa sonoridade prolongada e tensa, como uma cortina sonora para ocultar o mistério de sua incubação, reconhecendo, secreta, sussurrante e fragmentária a frase aérea e perfumada que amava. E ela era tão particular, tinha um charme individual e que nenhuma outra poderia substituir, que aquilo foi para Swann como se houvesse encontrado num salão amigo, uma pessoa que admirara, e que esperava encontrar de novo. Por fim, a frase se afastou, indicadora, cuidadosa, por entre as ramificações de seu perfume, deixando no rosto de Swann o resto de seu sorriso.

            Mas, agora, ele podia perguntar o nome de sua desconhecida disseram-lhe que se tratava do andante da Sonata para piano e violino, de Vinteuil, e podia tê-la consigo o quanto quisesse e tentar apreender a sua língua e o seu segredo.

            Assim, quando o pianista acabou, Swann se aproximou dele para expressar seu reconhecimento com uma vivacidade que muito agradou à Sra. Verdurin - Que fascinante, não acha?-disse ela a Swann.-Como entende bem sua sonata, o patifezinho! O senhor não sabia que o piano chegasse a tanto; que é tudo, menos piano! Cada vez que o ouço, parece-me uma orquestra. E melhor que uma orquestra, mais completo.

            O jovem pianista se inclinou e, sorrindo, sublinhando as palavras como se dissesse uma frase espirituosa:

            -A senhora é muito condescendente comigo - disse.

            E enquanto a Sra. Verdurin dizia ao marido: "Vamos, dá-lhe uma laranjada, que ele bem fez por merecer", Swann contava a Odette como se enamorara daquela frase musical.

            Quando a Sra. Verdurin disse, um pouco longe: "Veja só! Parece que estão a fim de lhe dizer coisas bonitas, Odette", esta replicou: "Sim, muito bonitas", e Swann achou deliciosa a sua simplicidade. Entretanto, ele pedia informações acerca de Vinteuil, sobre sua obra, sobre a época da vida em que compusera aquela sonata, sobre o que teria podido significar para ele a pequena frase, e era isto, principalmente, o que desejava saber.

            Mas todas aquelas pessoas que confessavam admirar o músico (quando Swann dissera que a sonata era verdadeiramente bela, a Sra. Verdurin exclamara: "Claro que é bela!

            Mas não se confessa desconhecer a sonata de Vinteuil, ninguém tem o direito de ignorá-la", e o pintor acrescentara: "Ah, é realmente uma grande composição, não é mesmo? Se quiserem, não se trata, é certo, de uma obra 'cara' e 'pública', não é? Mas que grande impressão causa nos artistas", tais pessoas pareciam jamais ter questionado o assunto, pois foram incapazes de responder.

            Até uma ou duas observações particulares feitas por Swann sobre sua frase preferida:

            - Certo, é engraçado, nunca tinha prestado atenção; digo-lhe que não gosto muito de esmiuçar as coisas nem procurar agulha em palheiro; aqui não se perde tempo em cortar um fio de cabelo em dois, não é o gênero da casa respondeu a Sra. Verdurin, a quem o Dr. Cottard olhava, com uma admiração beata e um zelo estudioso, enquanto ela se agitava no meio daquelas ondas de frases feitas. Aliás, ele e a Sra. Cottard, com uma espécie de bom senso como o de certa gente do povo, evitavam dar uma opinião ou fingir admiração por uma música que confessavam um ao outro, logo que voltaram para casa, não compreender mais que a pintura do "Senhor Biche". Como o público só conhece, do encanto, da graça, e das formas da natureza aquilo que pôde absorver nas imitações de uma arte lentamente assimilada, e um artista original começa por rejeitar essas imitações, o Sr. e a Sra. Cottard, que nisso eram imagem do público, não achavam nem na sonata de Vinteuil, nem nos quadros do pintor, o que constituía para eles a harmonia da música e a beleza da pintura. Quando o pianista executava a sonata, parecia-lhes que ele arrancava, ao acaso, do piano algumas notas que não se uniam na verdade conforme as medidas a que estavam acostumados, e que o pintor lançava ao acaso as cores na tela. Quando em uma destas podiam reconhecer uma forma, achavam-na pesada e vulgar (ou seja, desprovida da elegância da escola de pintura através da qual viam na rua até mesmo os seres vivos), e sem verdade, como se o Sr. Biche não soubesse mesmo se fazia um ombro e as mulheres não tivessem cabelos cor de malva.

            No entanto, tendo-se dispersado os fiéis, o doutor sentiu que havia uma ocasião favorável e, enquanto a Sra. Verdurin dava uma última palavra sobre a data de Vinteuil, como um nadador principiante que se atira n'água para aprender, mas escolhe um momento em que não há muita gente para observá-lo, exclama numa súbita resolução:

            - Então é o que se chama um músico di primo cartello!

            Swann ficou sabendo apenas que o recente surgimento da sons Vinteuil havia causado grande impressão numa escola de tendências muito avançadas, mas ela era inteiramente desconhecida do grande público.

            - Conheço alguém que se chama Vinteuil informou ele, professor de piano das irmãs de minha avó.

            -Talvez seja ele - exclamou a Sra. Verdurin.

            - Ah, não! - respondeu rindo Swann. - Se o tivessem conhecido por minutos, nem formulariam a pergunta.

            - Então, formular a pergunta é resolvê-la? observou o doutor.

            - Mas poderia ser um parente continuou Swann -, seria muito bom, mas, enfim, um homem genial pode ser primo de um pobre diabo. Se for ele, confesso que faria os maiores sacrifícios para que esse pobre diabo me apresentasse ao autor da sonata: em primeiro lugar, o suplício que seria entrar em contato com o pobre-diabo, que seria horrível.

            O pintor sabia que Vinteuil estava muito doente e que o Dr. Potain temia não poder salvá-lo.

            - Como! gritou a Sra. Verdurin. - Ainda há gente que se entrega, aos cuidados de Potain?

            -Ah, Sra. Verdurin-disse Cottard, num tom afetado-, lembre-se que falando de um de meus aconfrades, deveria dizer um de meus mestres.

            O pintor ouvira dizer que Vinteuil estaria ameaçado de alienação mental, assegurava que era possível percebê-lo em algumas passagens da sonata. Swann não achou absurda a observação, mas ela o perturbou; pois uma obra musical pura, não contendo nenhuma das relações lógicas cuja alteração de língua denuncia a loucura, a loucura reconhecida numa sonata lhe parecia algo tão misterioso como a loucura de uma cadela ou de um cavalo, que entretanto são demais observadas.

            - Não me venha com seus mestres; sabe o senhor dez vezes mais que respondeu a Sra. Verdurin ao Dr. Cottard, num tom de pessoa que tem a coragem, de suas opiniões e enfrenta com bravura os que se lhe opõem. - O senhor ao menos não mata seus doentes!

            - Mas, minha senhora, ele pertence à Academia replicou o doutor num tom irônico. - Se um doente prefere morrer às mãos de um dos príncipes ciência... É muito mais chique poder dizer: "Estou sendo tratado por Potain.''

            - Ah, então é mais chique? retrucou a Sra. Verdurin. - Pois agora existe chique nas doenças? Eu não sabia disso... Como o senhor é engraçado! -exclama ela de repente, escondendo o rosto nas mãos. - E eu, grande imbecil, que disse com seriedade sem perceber que o senhor estava a fim de me irritar.

            Quanto ao Sr. Verdurin, achando ser meio cansativo pôr-se a rir por tão pouco, contentou-se em tirar uma baforada do cachimbo, pensando com tristeza que não mais podia atingir a mulher em matéria de amabilidade.

            -Saiba que seu amigo nos agrada bastante - disse a Sra. Verdurin a Odette no momento em que esta lhe dava boa-noite. - Ele é simples, encantador; se você tiver de nos apresentar sempre amigos como este, pode trazê-los quando quiser.

            O Sr. Verdurin observou que, no entanto, Swann não gostara da tia do pianista.

            - Ele se sentiu um pouco deslocado respondeu a Sra. Verdurin. - Não haverias de querer que ele já se portasse como íntimo da casa, como o Dr. Cottard, que faz parte do nosso pequeno clã há vários anos. A primeira vez não conta, é útil para início de conversa. Odette, combinamos que ele virá encontrar-se conosco amanhã, no Chatelet. Que tal você ir buscá-lo em casa?

            -Ah, não. Ele não quer.

            - Oh, enfim, façam como quiserem. Contanto que ele não vá desertar na última hora.

            Para grande espanto da Sra. Verdurin, Swann jamais desertou de ajuntar-se a eles fosse onde fosse, às vezes nos restaurantes do subúrbio, ainda pouco freqüentados, por ser ainda fora de época, mais amiúde no teatro, de que a Sra. Verdurin gostava muito; e como um dia dissera, diante dele, que para as estréias de gala lhes seria muito útil um passe livre, e que fora bem aborrecido não terem um no dia do enterro de Gambetta. Swann, que nunca falava de suas brilhantes relações, mas só daquelas mal consideradas que teria julgado pouco delicado esconder, e em cujo número adquirira o hábito, no bairro de Saint-Germain, de incluir as relações com a sociedade oficial, respondeu:

            - Prometo-lhe ocupar-me disso, a senhora terá seu passe livre a tempo para ver a reprise dos Danicheff; exatamente amanhã, estarei almoçando com o chefe de polícia no Elysées.

            - Como? No Elysées? exclamou o Dr. Cottard, com voz atroadora.

            - Sim, na casa do Sr. Grévy. - respondeu Swann, um pouco sem jeito com o efeito que sua frase causara.

            E o pintor disse ao médico, em tom de gracejo:

            - Isso lhe acontece com freqüência?

            Em geral, após dada a explicação, Cottard dizia:

            "Ah, muito bem, tudo certo" e não mostrava mais qualquer emoção. Mas desta vez, as últimas palavras de Swann, em vez de lhe trazerem o sossego de costume, levaram ao auge o seu espanto de que um homem com quem estava jantando, que não tinha cargos oficiais, nem distinção de qualquer espécie, fosse íntimo do chefe de Estado.

            -Como o Sr. Grévy? O senhor conhece o Sr. Grévy? - perguntou a Swann com ar estúpido e incrédulo de um guarda municipal a quem um desconhecido pede para ver o Presidente da República e que, compreendendo por essas palavras "com quem está falando", como dizemos jamais, assegura ao pobre demente será recebido logo e o encaminha à enfermaria especial da Detenção.

            -Conheço-o ligeiramente, temos amigos comuns (não ousou dizer que se tratava do Príncipe de Gales); ademais, ele faz convites com muita facilidade posso lhe garantir que esses almoços não têm nada de divertido; são, aliás, simples, nunca há mais de oito à mesa. - Respondeu Swann, que buscava diminuir o que pudesse haver de muito estrondoso, aos olhos de seu interlocutor, nas ações com o Presidente da República.

            E logo Cottard, reportando-se às palavras de Swann, adotou, a respeito o valor dos convites do Sr. Grévy, a opinião de que eram pouco procurados, andavam aos montes por aí. Desde então, não se espantou mais que Swann, como outra pessoa, freqüentasse o Elysées, e até o lamentava um tanto, por ter almoço, que o próprio convidado confessava serem aborrecidos.

            - Ah, muito bem, tudo certo disse Cottard com um tom de guarda há pouco desconfiado, mas, que depois de nossas explicações, dá alfândega, à visto e nos deixa passar sem abrir as malas; julgo que não são divertidos esses almoços e que o senhor faz.

            -Ah, sacrifício enorme em comparecer a eles - disse a Sra. Verdurin, a quem o Presidente da República parecia ser um "maçante" particularmente temível, porque dispunha de meios de sedução e coação que, empregados relativamente aos fiéis, teriam sido capazes de fazê-los abandonarem o "clã". - Parece que é surdo como porta e que come com os dedos.

            - Então, na verdade o senhor não deve divertir-se muito lá - disse com uma sombra de piedade; e, lembrando-se do número de oito convivas: - Almoços íntimos? - perguntou com vivacidade, demonstrando ainda mais uma de lingüista, do que uma curiosidade de embasbaque.

            Mas o prestígio que o Presidente da República tinha a seus olhos, no entanto, por triunfar sobre a humildade de Swann e a má vontade da Sra. Verdurin; em todos os jantares Cottard perguntava interessado:

            -Veremos esta noite o Swann? Ele se relaciona pessoalmente com o Sr. Grévy. É isto o que se deve a um gentleman, certo?-Chegou mesmo a lhe oferecer um convite para a Expo- Odontológica.

            - O senhor será admitido com as pessoas que estiverem em sua companhia, mas lá não deixam entrar cães. Compreende, digo-lhe isto porque tiveram os que não o sabiam e ficaram com as mãos abanando.

            Quanto ao Sr. Verdurin, percebeu ele o mau efeito que tivera sobre mulher a descoberta de que Swann tinha amigos poderosos de que jamais seriam, não conseguira uma diversão fora, era na casa dos Verdurin que se encontrava o pequeno núcleo, mas só comparecia à noite e quase nunca aceitava jantar, apesar da insistência de Odette.

            _ Poderia até jantar a sós com você, se preferir - dizia ela. -E a Sra. Verdurin?

            -Ora, muito simples. Basta que eu diga que minha roupa não ficou pronta, que meu carro chegou atrasado. Há sempre um meio de ajeitar as coisas.

            -Você é gentil.

            Mas dizia Swann consigo que, se mostrasse a Odette (apenas consentindo em encontrá-la após o jantar) que havia prazeres que preferia ao de estar com ela, bem cedo se saciaria o gosto que ela sentia por ele. E, por outro lado, preferindo infinitamente, à beleza de Odette, a de uma pequena operária fresca e gordinha como uma rosa, de quem se achava enamorado, gostaria mais passar com ela o começo da noite, estando certo de que veria Odette a seguir. Por esses mesmos motivos é que não aceitava nunca que Odette viesse buscá-lo para ir aos Verdurin. A pequena operária o esperava perto da casa dele, numa esquina da rua que seu cocheiro Remi conhecia, e subia para o lado de Swann e permanecia em seus braços até o momento em que o carro chegava à porta dos Verdurin. A sua entrada, enquanto a Sra. Verdurin, mostrando as rosas que ele enviara pela manhã, dizia: "Estou zangada", e lhe indicava um lugar ao lado de Odette, o pianista tocava, para os dois, o pequeno trecho musical de Vinteuil, que era como que a ária nacional do seu amor. Ele começava com os trêmulos dos sustenidos no violino, que durante alguns compassos era só o que se ouvia, ocupando todo o primeiro plano; depois, de repente, pareciam se afastar e, como nesses quadros de Pieter De Hooch, que aprofundam o quadro estreito de uma porta entreaberta, ao longe, com uma cor bem diversa, no aveludado de uma luz interposta, o pequeno trecho aparecia, dançante, pastoral, intercalado, episódico, como se pertencesse a outro mundo. Passava em plissados simples e imortais, distribuindo aqui e ali os dons de sua graça, com o mesmo sorriso inefável; mas Swann julgava distinguir ali agora um tom de desencanto. O trecho musical parecia conhecer que aquela felicidade, cujo caminho mostrava, era vã. Em sua graça leve, possuía algo de completo, como o desinteresse que sucede à mágoa.     Mas pouco lhe importava, considerando-o menos em si mesmo no que podia exprimir para um músico que ignorava a existência tanto dele como de Odette quando o compusera e para todos aqueles que o ouviriam pelos séculos a vir do que como um penhor, uma recordação de seu

amor que, mesmo para os Verdurin, para o jovem pianista, fazia pensar nele e em Odette ao mesmo tempo; e os unia; a tal ponto que, como Odette, por capricho, lhe pedira, renunciara ele a mandar tocar por um artista a sonata inteira, da qual continuava a conhecer apenas aquela passagem. "Que necessidade tem do resto?", dissera Odette. "E o nosso trecho musical."

            E sofrendo ao imaginar que, no momento em que a frase passava tão próximo e ao mesmo tempo no infinito, enquanto se encaminhava para eles, contudo não os conhecia. Swann quase lamentou que se tivesse um sentido, uma beleza intrínseca e fixa, estranha a ambos, como nas jóias que damos, ou até nas cartas escritas por uma mulher que reclamamos da água da gema e dos termos da linguagem por não serem feitas apenas da essência de uma ligação efêmera e de uma criatura determinada.

            Muitas vezes ocorria que ele se atrasava tanto com a jovem operária, de ir à casa dos Verdurin, que tão logo o pianista acabava de tocar o pequeno musical, Swann se dava conta de que em breve chegaria a hora de Odette voltar à casa. Ele a levava até a porta da sua residência, na rua de La Pérouse, atrás do Triunfo. E talvez por isso, para não lhe pedir todos os favores, é que ele sacrificava o prazer, que lhe era menos necessário, de vê-la mais cedo, de chegar aos Verdurin com ela, ao exercício do direito, que ela lhe reconhecia, de saírem juntos, e ao Swann dava mais importância porque, graças a isto, sentia a impressão de que ninguém a via, ninguém se interpunha entre os dois, nem a impedia de estar com ele depois que a tivesse deixado.

            Portanto, ela voltava no carro de Swann; uma noite, após descer, enquanto ele se despedia, Odette colheu precipitadamente no jardinzinho da casa um último crisântemo e o ofereceu antes que Swann fosse embora; manteve contra os lábios durante a volta e, quando dias depois a flor murchou, guardou-a cuidadosamente em sua escrivaninha.

            Porém nunca entrava em casa de Odette. Duas vezes apenas, à tarde; participar de uma operação, de importância capital para ela: "tomar chá". O cimento e o vazio daquelas ruas curtas (quase todas compostas de pequenos pontos contíguos, de onde, subitamente, vinha romper a monotonia um sinistro para testemunha histórica e resíduo sórdido do tempo em que esses quarteirões tinham má fama), a neve que ficava no jardim e nas árvores, a desordem delas e a vizinhança da natureza conferiam algo de mais misterioso ao calor e às flores que Swann encontrava ao entrar.

            Deixando à esquerda, no térreo de nível superior ao da calçada, o quarto de dormir de Odette, cujos fundos davam para uma ruazinha paralela, uma escada entre paredes pintadas de cores sombrias e de onde pendiam estofos orientais, de rosários turcos e uma grande lanterna japonesa suspensa a um cordão de (mas que, para não privar os visitantes dos últimos confortos da civilização ocidental, era iluminada a gás), subia para o salão e o pequeno salão, os quais precedidos por um vestíbulo estreito, cuja parede, quadriculada com um grande jardim, porém dourada, era margeada em todo o comprimento por uma caixa guiar onde florescia, como numa estufa, uma fileira desses grandes crisântemos, ainda raros àquela época, mas bem longe, no entanto, daqueles que os horticultores conseguiram obter mais tarde. Swann se irritava com a moda que grassava o ano anterior, mas desta vez sentira o prazer de ver a penumbra da peça zebrosa, laranja e branco pelos raios odoríferos desses astros efêmeros que sucedem nos dias cinzentos. Odette o recebera de chambre de seda cor-de-rosa, e os braços despidos. Fizera-o sentar-se a seu lado num dos inúmeros e misteriosos remansos arrumados no desvão da sala, protegidos por imensas palmas em vasos chineses ou por biombos, aos quais estavam afixados fotografias, leques e laços de fitas. Dissera-lhe:

            "Assim, você não está confortável, espere, vou já acomodá-lo", e, com o risinho vaidoso que teria para qualquer invenção particular sua, instalara atrás da cabeça de Swann e debaixo de seus pés, coxins de seda japonesa que amassava como se fosse pródiga daquelas riquezas e não se preocupasse com o seu valor. Mas quando o criado de quarto ia trazendo sucessivamente as numerosas lâmpadas que, quase todas fechadas em potiches chineses, queimavam isoladas ou aos pares, todas em móveis diversos como sobre altares, e que no crepúsculo, já quase noturno daquele fim de tarde invernal, tinham feito reaparecer um pôr-de-sol mais duradouro, mais róseo e mais humano; fazendo talvez sonhar, na rua, algum apaixonado, parado diante do mistério da presença que, ao mesmo tempo, denunciava e escondia as vidraças iluminadas-, Odette vigiava severamente, com o canto do olho, o criado, para ver se ele os colocava bem no lugar consagrado. Achava que se pusesse um só num local onde não era necessário, o efeito de conjunto de seu salão ficaria arruinado, e seu retrato, posto num cavalete oblíquo forrado de pelúcia, seria mal iluminado. Portanto, seguia febrilmente os movimentos daquele homem grosseiro e reprimiu-o rudemente por ter passado muito perto de duas jardineiras que ela mesma se reservava o direito de limpar com medo que as quebrassem e que foi logo examinar para ver se o empregado não lhes causara nenhum dano. Achava todos os seus bibelôs chineses de formas "engraçadas", assim como as orquídeas, e principalmente os canteiros, que eram, com os crisântemos, suas flores preferidas, por terem o grande mérito de não parecerem flores, mas sim feitas de seda ou de cetim.

            "Esta parece ter sido recortada do forro do meu casacão", disse ela a Swann mostrando-lhe uma orquídea, com um tom de estima. Por essa flor tão chique, por essa irmã elegante e imprevista que a natureza lhe dava, tão distante dela na escala dos seres e, no entanto, tão requisitada, mais digna que muitas mulheres de que lhe desse um lugar no seu salão. Mostrando-lhe aqui umas quimeras de línguas de fogo que decoravam um potiche, ou bordadas numa tela, ali as corolas de um buquê de orquídeas, mais adiante um dromedário de prata esmaltada com olhos incrustados de rubis, que era vizinho, na lareira, de um sapo de jade. Odette afetava ora temer a maldade dos monstros, ora zombar de seu aspecto grotesco, ou corar diante da indecência das flores ou sentir um desejo irresistível de ir beijar o dromedário e o sapo, a quem chamava de "queridos". E tal tentação, contrastava com a sinceridade de algumas de suas devoções, especialmente a dedicada a Nossa Senhora de Laghet, que outrora, quando ela morava em outro lugar, a curara de uma doença fatal; trazia sempre consigo uma medalhinha de ouro atribuía-lhe poder ilimitado.

            Odette preparou o "seu" chá para Swann, e perguntou:

            "Limão ou creme?"; e como ele respondesse:

            "Creme", disse-lhe rindo:

            "Uma nuvem!" E como ele o achasse bom:

            "Já vê que sei bem do que você gosta.''

            De fato, o chá parecera a Swann, como também a ela, algo muito precioso; e o tem tanta necessidade de descobrir uma justificativa, uma garantia de durabilidade nos prazeres que, ao contrário, sem ele não o seriam, e que com ele terminam quando Swann a deixou às sete horas para voltar para casa e se vestir. Durante o trajeto no coupé, não podendo conter a alegria que aquela tarde lhe causou repetindo:

            "Como seria agradável ter assim uma pessoa em cuja casa se pudesse encontrar essa coisa tão rara, um bom chá".

            Uma hora depois, recebeu um de Odette e reconheceu logo a caligrafia graúda onde uma afetação de britânica impunha uma aparência de disciplina aos caracteres informes que; os olhos menos avisados, teriam talvez significado desordem de pensamento, educação imperfeita, falta de sinceridade e de ação. Swann esquecera sua figa na casa dela.

            "Pena que também não tivesse esquecido o coração, que eu não o teria devolvido."

            Uma segunda visita que Swann lhe fez teve talvez mais importância para a casa dela, naquele dia. Swann, como todas as vezes em que devia delineava na mente a sua imagem; e a necessidade em que se achava para fazer bonito o seu rosto, para limitar aos pômulos róseos e frescos as faces que freqüentemente se mostravam amarelas e lânguidas, às vezes crivadas de pontinhos vermelhos, afligia-o como uma prova de que o ideal é inacessível e a felicidade uma coisa medíocre.

            Levava-lhe uma gravura que ela queria ver; Odette sentindo-se adoentada; recebeu-o de peignoir de crepe da China de cor malva, trazendo sobre-peito, como um casacão, um estofo ricamente bordado. De pé ao lado dele, deixou cair ao longo das faces a cabeleira solta, dobrando uma perna em atitude lindamente dançante para poder se debruçar sem cansaço sobre a gravura que copiava, inclinando a cabeça, com seus grandes olhos, tão fatigados e inexpressivos, quando nada a empolgava, ela impressionou pela semelhança com a figura de Séfora, a filha de Jetro, que se vê em um afresco da capela Sistina.

            Swann sempre o gosto especial de descobrir na pintura dos mestres não só os caracteres gerais da realidade que nos abrange, como aquilo que parece, ao contrário, suscetível de generalização, os traços individuais dos rostos que conhece assim, na matéria de um busto de Loredano, por Antonio Rizzo; as saltadas maçãs do rosto, a obliqüidade das sobrancelhas, enfim, a semelhança com seu cocheiro Remi; sob as cores de um Ghirlandajo, o nariz do Sr. de Pal em um quadro de Tintoretto, a invasão das bochechas pela implantação dos primeiros pêlos das suíças, o desvio do nariz, o olhar penetrante, as pálpebras do Dr. du Boulbon.

            Talvez também, tendo sempre guardado um pouco de remorso por ter se deixado limitar a tal ponto, pela vida mundana, pela conveniência julgasse achar uma espécie de remissão indulgente que os grandes artistas concediam, no fato de que também eles haviam encarado com prazer e admiração em sua obra tais fisionomias; que dão a esta um singular certificado de vida e realidade, um sabor moderno; talvez também, de tal maneira deixara-se invadir pela frivolidade das pessoas mundanas que sentia necessidade de encontrar numa obra antiga essas alusões antecipadas e rejuvenescedoras de nomes próprios de hoje.

            Talvez ao contrário, conservara suficiente natureza de artista para que essas características individuais lhe causassem prazer, adquirindo um sentido mais genérico, desde que as percebesse desenraizadas, livres, na semelhança de um retrato mais antigo com um original que o não representava. Seja como for, e talvez porque a plenitude de impressões que desfrutava desde algum tempo, e embora lhe tivesse chegado antes com o amor da música, houvesse enriquecido até o seu gosto pela pintura, o prazer foi mais profundo e deveria exercer sobre Swann uma influência duradoura, como o prazer que encontrou naquele momento na semelhança de Odette com a Séfora daquele Sandro di Mariano, a quem se dá mais facilmente o nome popular de Botticelli, desde que este evoca, em vez da obra verdadeira do pintor, a idéia banal e falsa que dela se vulgarizou. Não mais apreciou o rosto de Odette de acordo com a melhor ou pior qualidade de suas faces ou a doçura puramente carnal que supunha fosse lhes encontrar ao tocá-las com os lábios se um dia ousasse beijá-la, mas como uma meada de linhas sutis e belas que seus olhares dobravam, seguindo a linha de seu encaracolamento, reunindo a cadência da nuca à efusão dos cabelos e à flexão das pálpebras, como num retrato dela no qual seu tipo se tornasse claro e inteligível.

            Olhava-a; um fragmento do afresco aparecia no seu rosto e no seu corpo, e desde então procurou captá-lo sempre que estivesse com Odette, ou apenas quando nela pensava; e embora com certeza se limitasse à obra-prima florentina porque nela a reencontrava, contudo tal semelhança também conferia a Odette uma beleza, tornando-a mais preciosa.

            Swann censurou a si mesmo por ter desconhecido o valor de uma pessoa que teria parecido encantadora ao grande Sandro e felicitou-se pelo fato de que o prazer que sentia ao ver Odette encontrava uma justificativa em sua própria cultura estética. Disse consigo que, associando a idéia de Odette à seus sonhos de felicidade, não estava se resignando a algo tão imperfeito; acreditara até então, pois, ela contentava-lhe os mais requintados gostos artísticos. Esquecia-se de que, nem por isso, era Odette uma mulher segundo os seus desejos, já que seu desejo se orientara sempre, exatamente, num sentido oposto aos seus gostos estéticos.

            O termo "obra florentina" prestou grande serviço a Swann. Permitiu-lhe, como um título, introduzir a imagem de Odette, em um mundo de sonhos, ao qual ela não tivera acesso, até então e onde se banhou em nobreza. Ao passo que a visão puramente carnal que tivera dessa mulher, renovando perfeitamente suas dúvidas sobre a qualidade de seu rosto, de seu corpo, de toda beleza, enfraquecia seu amor, tais dúvidas foram eliminadas e esse amor unido, quando teve por base os dados de uma estética precisa; sem considerar que o beijo e a posse, que pareciam naturais e medíocres se obtidos através de uma carnação murcha, vinham coroar a adoração de uma peça de museu, parecendo ser sobrenaturais e deliciosos.

            E quando se sentia tentado a lastimar, que durante meses não fazia outra coisa, senão ver Odette, pensava ser razoável despender muito do seu tempo numa obra-prima inestimável, moldada agora em uma matéria diversa e estritamente saborosa, em um exemplar raríssimo que ele contemplava ora com a idade, a espiritualidade e o desinteresse de um artista, ora com o orgulho, o movimento e a sensualidade de um colecionador.

            Em sua mesa de trabalho, Swann pôs, como uma fotografia de uma reprodução da filha de Jetro. Admirava os grandes olhos, o rosto delicado deixava adivinhar a pele imperfeita. Os maravilhosos caracóis dos cabelos ao das faces cansadas; e, adaptando o que achava belo, até então do ponto de vista estético, à idéia de uma mulher de carne e osso, transformava-o em méritos físicos felicitando-se por encontrá-los reunidos em uma pessoa a quem poderia desposar.       Essa vaga simpatia que nos leva para uma obra-prima que contemplamos, que ele conhecia o original carnal da filha de Jetro, tornou-se um desejo o que no começo não lhe inspirara o corpo de Odette. Após ter contemplado muito tempo esse Botticelli, pensava no seu Botticelli, que considerava ainda belo e, apertando contra si a fotografia de Séfora, supunha apertar Odette com o coração.

            E, no entanto, não era só o cansaço de Odette que ele se preocupava, era às vezes, o seu próprio cansaço; sentindo que, desde que Odette dispunha de todas as facilidades para vê-lo, não parecia ter algo a lhe dizer, temia que as palavras um tanto insignificantes, monótonas e como que definitivamente fixadas, eram agora as suas, quando ele e Odette estavam juntos, acabassem por matar aquela esperança romanesca de que um dia ela lhe declarasse a sua paixão, fator que o fizera e conservara apaixonado. E para renovar um pouco pela moral, bastante entorpecido, de Odette, e do qual temia se cansar, escrevia de súbito uma carta cheia de decepções fingidas e de cóleras simuladas, que pretendia entregar após o jantar. Sabia que ela se sentiria apavorada, lhe responderia com raiva que, no choque que o medo de perdê-lo causaria à sua alma, fazendo-a brotariam palavras que ela jamais pronunciara antes; e, de fato, foi desse modo que obteve as mais ternas cartas que ela lhe escreveu, uma das quais, enviada no dia da Maison Dorée (era o dia da festa de Paris-Múrcia, em favor dos flagelados de Múrcia), começava com estas palavras: "Meu amigo, minha mão treme; portanto, mal posso escrever", e ele a guardara na mesma gaveta onde se achava o ramo seco.

            Ou então, se ela não tinha tempo de lhe escrever, quando ele chamava aos Verdurin ela iria vivamente a seu encontro e diria: "Tenho que lhe falar'', contemplaria com curiosidade, em seu rosto e nas suas palavras, o que escondera até ali do seu coração.

            Tão logo se avizinhava da casa dos Verdurin, ao avistar, iluminadas pelas lâmpadas, as grandes janelas cujos postigos nunca eram fechados, enternecia-se ao pensar na criatura encantadora que ia ver desabrochada em meio àquela luz de ouro. Às vezes as sombras dos convidados se destacavam, delgadas e negras, em tela, diante das lâmpadas, como essas gravuras que se intercalam de espaço a espaço em um abajur translúcido, cujas demais abas estão imersas em claridade. Buscava distinguir a silhueta de Odette. Depois, assim que entrava, sem se dar conta, seus olhos brilhavam com tal alegria que o Sr. Verdurin dizia ao pintor: "Acho que a coisa está esquentando." E a presença de Odette, com efeito, dava àquela casa, ao ver de Swann, algo que faltava em todas as outras onde era recebido: uma espécie de aparelho sensitivo, de rede de nervos, que se ramificava em todos os aposentos e lhe trazia ao coração excitamentos constantes.

            Assim, o mero funcionamento daquele microcosmo social, que era o pequeno clã, proporcionava, automaticamente a Swann, encontros diários com Odette e lhe permitia fingir uma indiferença ao vê-ia, ou até desejos de não a ver mais, que não o fazia correr grandes riscos, visto que, embora lhe houvesse escrito durante o dia, iria vê-la forçosamente à noite e a levaria para casa.

            Mas certa vez, imaginando com aborrecimento aquele regresso inevitável em sua companhia, acabou por levar até o Bois, a jovem operária, para atrasar o momento de ir à casa dos Verdurin e chegou tão tarde que Odette, julgando que não viesse mais, havia ido embora. Vendo que ela já não se achava no salão, Swann sentiu um aperto no coração; tremia por se ver privado de um prazer que pela primeira vez avaliava, tendo até ali a certeza de encontrá-la quando quisesse, o que diminui, ou mesmo nos impede, de ver quanto vale um prazer.

            -Viste a cara que ele fez quando percebeu que ela já tinha ido?-perguntou o Sr. Verdurin à mulher. - Creio que se pode dizer que ele está agarrado.

            -A cara que ele fez? - indagou o Dr. Cottard com violência. Tinha ido ver um doente, voltara para apanhar a esposa e não sabia do que se falava.

            - Como! Não encontrou à porta um dos mais belos Swann... - Não, O Sr. Swann veio?

            - Ora, por um momento apenas. Tivemos um Swann agitado, muito nervoso. Compreende, Odette já se fora.

            -Quer dizer que eles andam na maior intimidade e já chegaram a ver o que Teresa perdeu na horta - disse o doutor, experimentando com prudência o sentido dessa expressão.

            - Não, não; não há absolutamente nada e, cá entre nós, acho que Odette procede mal e se porta como uma grande tola, que afinal ela não passa disso.

            -Ora , ora - disse o Sr. Verdurin. - Como sabes que não há nada? Não vamos xeretar, não é mesmo?

            -A mim, ela teria dito - replicou a Sra. Verdurin com altivez. -Afirmo que ela me conta todas as suas intimidades. Como está sem ninguém no momento, eu lhe sugeri que fosse para a cama com ele. Ela diz não poder, que tem forte atração por ele, mas ele é tímido com ela, e isso por sua vez a intimida, disse que não é desse modo que o ama, que ele é uma criatura ideal, e ela teme deflorar o sentimento que tem por ele, e que sei eu! Entretanto, seria mesmo melhor para ela.

            - Hás de permitir que não seja da tua opinião - disse o Sr. Verdurin: Não vou muito com esse senhor; parece-me posudo demais.

            A Sra. Verdurin se imobilizou, assumiu uma expressão inerte coral estivesse transformada numa estátua, fantasia que lhe permitiu passar como se tivesse ouvido aquela palavra insuportável, posudo, que dava a impressão de que alguém poderia fazer pose com eles, e que portanto era "mais do que eles".

            -Afinal de contas, se não há nada, não creio que seja porque esse cavalheiro a julgue virtuosa disse com ironia o Sr. Verdurin. - E depois, quem sabe parece julgá-la inteligente. Não sei se chegaste a ouvir as coisas que ele lhe disse outra noite, a respeito da sonata de Vinteuil; amo Odette de todo o coração, para lhe fazer dissertações de estética é preciso ser mesmo um idiota como ela.

            - Que é isso? Não fale mal de Odette, ela é encantadora disse a Verdurin bancando a criança.

            - Mas isso não impede que seja encantadora; não estamos falando dela, dizemos somente que não se trata de uma virtude nem de uma inteligência. No fundo - disse ele ao pintor - faz você tanta questão de que ela seja virtuosa. Tornar-se-ia talvez muito menos encantadora, quem sabe?            No patamar, Swann fora abordado pelo mordomo que ali não se entrava no momento em que ele chegara e tinha sido encarregado por Odette de lhe impedir - mas fazia já uma hora, pelo menos-, caso ele ainda viesse, que provavelmente iria tomar chocolate no Prévost antes de voltar para casa. Swann partiu à Prévost, mas a cada passo o seu carro era parado por outros ou por pedestres que atravessavam a rua, odiosos obstáculos que ele teria o prazer de derrubar, inquérito do agente não o atrasasse ainda mais do que a passagem do pedestre, contando o tempo que levava, acrescentava alguns segundos a todos os minutos para estar certo de não os ter feito muito curtos, o que poderia levar a considerar maiores do que na realidade as suas possibilidades de chegar a tempo e encontrar Odette.

            E em certo momento, como um doente febril que acaba de dormir e toma consciência do absurdo dos sonhos que ruminava sem os distanciar com nitidez de si mesmo, Swann percebeu de súbito dentro dele a estranheza aos pensamentos que o assaltavam desde o momento em que lhe haviam dito, na casa dos Verdurin, que Odette se fora, a novidade do aperto no coração, que sentia, e que constatou apenas como se acabasse de acordar. O quê? Toda aquela gente, porque só veria Odette no dia seguinte, precisamente o que havia desejado ficar hora antes, quando ia para a casa da Sra. Verdurin? Foi obrigado a ver nesse mesmo carro que o levava para o Prévost, ele já não era o mesmo, e que não estava sozinho, pois um novo indivíduo permanecia ali com ele, aderente, amalgamado a ele, do qual no entanto não podia se livrar e com quem seria forçado a utilizar estratagemas, como um professor ou um enfermo. Entretanto, a partir do momento em que sentira que uma nova pessoa se ajustara a ele daquele modo, sua vida lhe parecera mais interessante. Era como se ele dissesse que aquele possível encontro no Prévost (cuja espera confundia e eliminava a tal ponto os momentos que a precediam que ele não achava mais uma só idéia, uma só lembrança em que pudesse repousar o espírito) era no entanto provável, se ocorresse, que fosse como os outros, uma coisa de pouca monta. Como todas as noites, desde que estava com Odette, lançando furtivamente sobre seu rosto mutável um olhar logo desviado, de modo que ela visse nele a insinuação de um desejo e não acreditasse mais no seu desinteresse, não deixaria de pensar nela, muito ocupado em achar pretextos que lhe permitissem não largá-la imediatamente e de se assegurar, sem dar a impressão de fazer questão disto, que a reencontraria no dia seguinte em casa dos Verdurin: ou seja, prolongar naquele instante e renovar um dia a mais a decepção e a tortura que lhe traziam a vã presença daquela mulher, de quem se aproximava sem ousar apertá-la nos braços.

            Ela não estava no Prévost; ele quis procurar em todos os restaurantes dos bulevares. Para ganhar tempo, enquanto visitava uns, enviou a outros o seu cocheiro Rémi (o doge Loredano de Rizzo), que foi esperá-lo a seguir não tendo encontrado ninguém no local que havia marcado. O carro não voltava e Swann prefigurava o instante que se aproximava, ora aquele em que Rémi lhe diria: "A dama aí está", ora aquele em que Rémi lhe diria: "A dama não está em nenhum dos bares".

            E assim se via o fim da noitada à sua frente, uma e no entanto alternativa, precedida ora pelo encontro de Odette, que eliminaria a sua angústia, ora pela renúncia forçada a encontrá-la naquela noite, pela aceitação de voltar para casa sem a ter visto.

            O cocheiro regressou mas, no momento em que parou diante de Swann, este não lhe disse: "Encontrou a dama?" e sim "Lembre-se amanhã de encomendar lenha, creio que a provisão já está no fim".

            Talvez dissesse consigo que se Rémi houvesse encontrado Odette em um bar onde o estivesse esperando, o fim da noite nefasta já estaria aniquilado pela realização do começo do fim da noite afortunada e que não haveria necessidade de se apressar para alcançar uma felicidade capturada e em local seguro, e que não teria mais como se escapar. Mas o fazia igualmente por inércia; trazia na alma a falta de robustez que certas pessoas têm no corpo, as que no momento de evitar um choque, de afastar uma chama da roupa, de fazer um movimento rápido, levam tempo, começando por permanecer um segundo só a situação em que estavam antes, como se ali encontrassem o seu ponto de apoio, encontrasse ainda em vida, se o cocheiro o tivesse interrompido dizendo: "Ela está!" ele teria respondido:

            "Ah, sim, é verdade, o pedido que lhe fiz, vejam só, quem diria" e teria continuado a falar da provisão de lenha para lhe ocorrer a emoção que sentiria e ter tempo de acabar com a inquietação e entregar-se à felicidade.

            Mas o cocheiro voltou para lhe dizer que não a encontrara em parte alguma, e acrescentando sua opinião de velho criado:

            - Creio que o senhor não tem outra coisa a fazer senão voltar para casa. Mas a indiferença que Swann facilmente mostrava quando Rémi não ia mudar em mais nada a resposta que lhe trazia desapareceu quando o viu; ao fazer renunciar à sua esperança e à sua procura.

            - De modo algum - exclamou -, é necessário que encontremos essa é da mais alta importância. Ela ficaria bastante aborrecida; é um caso de necessidade e mesmo poderia se ofender se não nos víssemos.

            - Não vejo como essa dama poderia ficar ofendida - respondeu - pois foi ela quem se retirou sem esperar pelo senhor, foi ela quem disse que iria ao Prévost e não estava lá.

            Aliás, as luzes principiavam a se apagar por toda a cidade. Sob as das avenidas, numa obscuridade misteriosa, erravam os passantes mais eram reconhecíveis. Às vezes, a sombra de uma mulher que dele se aproximava, murmurando-lhe algo ao ouvido, pedindo que a levasse junto, fazia Swann estremece tocava de leve, ansiosamente, todos aqueles corpos obscuros como se por fantasmas dos mortos, no reino das trevas, estivesse procurando Eurídice.

            De todas as formas de produção do amor, de todos os agentes de distração, do mal sagrado, um dos mais efetivos é esse turbilhão agitado que depois passa por nós. Então, o ser com quem nos divertimos nesse instante -após lançada- há de ficar sendo a pessoa amada. Nem há necessidade que até momento nos tenha agradado mais que as outras. Precisava era que o nosso por ela se tornasse exclusivo. E semelhante condição se realiza no momento em que ela nos fez falta-a busca de prazeres que sua convivência nos é, de repente, substituída em nós por uma necessidade angustiosa, que objeto essa mesma pessoa, uma necessidade absurda, que as leis deste tornam de satisfação impossível e de difícil cura: a precisão insensata e dolo possuí-lo.

            Swann se fez levar aos últimos restaurantes; era a única hipótese da cidade que havia admitido com calma; agora, já não escondia sua agitação, o que atribuía àquele encontro e prometeu que, em caso de êxito, o cocheiro teria uma recompensa, como se, inspirando-lhe o desejo de sair-se bem, ajuntasse ao que ele próprio sentia, pudesse fazer com que Odette, desde que tivesse voltado para dormir, se encontrasse, no entanto em algum restaurante bulevar. Chegou até a Maison Dorée, entrou duas vezes no Tortoni sem a ver, e saía do Café inglês a passos apressados, com ar carrancudo, à procura que o esperava na esquina do bulevar dos Italianos, quando deu com uma pessoa que vinha em sentido contrário: era Odette; ela lhe explicou, mais tarde, que, não tendo encontrado lugar no Prévost, fora cear na Maison Dorée, num recanto onde ele não a vira, e que agora ia para o carro.

            Ela achara tão imprevisto o encontro que teve um sobressalto. Quanto a Swann, andara correndo por Paris não porque julgasse possível um encontro e sim porque era-lhe muito cruel renunciar a ele. Porém aquela alegria, que sua razão não deixara estimar irrealizável nessa noite, parecia-lhe agora tanto mais real; pois, não tendo colaborado com a previsão das verossimilhanças, ela lhe permanecia como que exterior; não tinha ele necessidade de extrair do espírito para lhe fornecer -dela mesma é que emanava, ela mesma é que projetava para ele-aquela verdade que irradiava a ponto de dissipar, como um sonho, o isolamento que havia temido, e sobre o qual apoiava, repousava, sem pensar, o seu devaneio feliz. Da mesma forma um viajante, chegado ao Mediterrâneo por um belo tempo, não tendo certeza dos lugares que acaba de deixar, consente, em vez de olhar, que a vista seja ofuscada pelos raios que para ele emite o azul luminoso e resistente das águas.

            Subiu com ela para o carro que ela dissera ser o seu e disse a seu cocheiro que o seguisse.

            Odette tinha na mão um buquê de catléias, e Swann viu, sob o véu de renda que lhe cobria os cabelos, que ela trazia nos cabelos flores dessa mesma orquídea ligadas a uma aigrette de plumas de cisne. Debaixo da mantilha, trajava um largo vestido de veludo negro que, num trançado oblíquo, descobria o amplo triângulo de uma saia de seda branca e permitia ver o forro, da mesma seda branca, na abertura do corpinho decotado, onde estavam seguras outras catléias. Mal se recobrara do susto que Swann lhe causara quando um obstáculo fez o cavalo se desviar. Foram violentamente sacudidos, ela soltou um grito e ficou palpitante, sem fôlego.

            -Não é nada, não tenha medo-disse ele. E segurou-a pelo ombro, apoiando-a contra si para sustentá-la; depois disse: - Principalmente não fale, só me responda por sinais para não ficar ainda mais afogueada. Não se incomoda que arrume as flores que se desmancharam no seu corpinho por causa do choque? Receio que as perca, vou enfiá-las um pouco mais.

            Odette, que não estava acostumada a ver os homens com tantos rodeios com ela, respondeu sorrindo:

            - Não, não me incomoda de jeito algum.

            Porém ele, intimidado com tal resposta, talvez também por ter parecido sincero quando invocara esse pretexto, ou até mesmo já começando a crer que o fora, exclamou:

            -Oh, não, principalmente não fale, vai sufocar de novo, pode me responder por sinais, compreenderei perfeitamente. Com toda a sinceridade, não estou incomodando? Olhe, há um pouco... acho que é pólen que se espalhou por, permite que o afaste com a mão? Não vou bater com muita força, não estarei um pouco bruto? Estou fazendo cócegas? Mas é que não queria tocar o veludo do vestido para não amarrotá-lo. Mas olhe, de fato era necessário prendê-las, iam cair; e, desse jeito, eu mesmo empurrando um pouco... Falando sério, estou sendo desagradável? E se as cheirasse, para ver se não têm mesmo, nunca o senti. Posso? Diga a verdade.

            Sorrindo, Odette ergueu de leve os ombros, como se dissesse:

            "Não bobo, é claro que isto me agrada."

            Swann passava a outra mão pelo rosto de Odette; ela o encarou fixo com o ar lânguido e grave das mulheres do mestre florentino com as quais achara parecida; à flor das pálpebras, seus olhos brilhantes, grandes e finos, daquelas pareciam prontos a se soltar, como duas lágrimas. Ela inclinou o pescoço, como se vê fazer em todas elas, tanto nas cenas pagãs como nos quase religiosos. E, numa atitude que certamente lhe era habitual, que sabia ser apoiada para aqueles momentos, e que cuidava em não se esquecer de assumir, necessitar de todas as forças para reter seu rosto, como se uma força invisível a atraísse para Swann. E foi este quem, antes que ela o deixasse cair, como que querer, sobre os lábios dele, reteve-o por um instante, a uma certa distância, com as mãos. Gostaria Swann de deixar ao pensamento o tempo de acorrer, de reconhecer o sonho que tão longamente acalentara e de assistir à sua realização, como parenta que é chamada para compartilhar do êxito de uma criança a quem amou.

            Talvez também, Swann quisesse olhar o rosto de Odette ainda nem sequer beijada por ele, e que via pela última vez, esse olhar com o qual, na despedida, gostaríamos de levar uma paisagem que deixaremos para mais.

            Mas era tão tímido com ela que, tendo acabado por possuí-la naquela noite, começando por arrumar as suas catléias-fosse por medo de parecer respectivamente ter mentido, fosse por falta de audácia para formular uma exigência maior que aquela (e que poderia renovar, pois não incomodara Odette da primeira vez) -, nos dias seguintes utilizou-se sempre do mesmo pretexto. Se ela trouxesse catléias no corpinho, ele dizia: "É uma pena que as catléias, esta noite, não podem ser arrumadas, não foram desmanteladas como da outra vez; no entanto, não está bem colocada. Posso ver se perfumam menos que as outras então, se ela não as trazia: "Oh, nada de catléias esta noite, é impossível dedicar-se aos seus arranjos." De modo que, durante algum tempo, não se mudou das coisas que ele havia seguido na primeira noite, principiando pelos contornos dos dedos e de lábios na garganta de Odette, e era sempre por ali que se inicia carícias; e bem mais tarde, quando o arranjo (ou o simulacro ritual do arranjo de catléias já caíra há muito em desuso, a metáfora "fazer catléia", transformou-se em simples expressão empregada sem pensar quando queriam se referir ao ato de posse sexual -no qual, aliás, não se possui nada-sobreviveu na linguagem deles àquele uso esquecido, e no qual ela o comemorava. E talvez essa maneira particular de dizer "fazer amor" não significasse exatamente o mesmo que seus sinônimos; por mais cansado que alguém esteja das mulheres, considerar a posse das mais diversas mulheres como sendo sempre a mesma e antecipadamente conhecida torna-se ao contrário um prazer novo, se se dá com mulheres bem difíceis - ou tidas como tais por nós para que sejamos obrigados a fazê-la nascer de algum episódio imprevisto de nossas relações com elas, como o fora da primeira vez, para Swann, o arranjo das catléias.

            Esperava, trêmulo, naquela noite (mas Odette, pensava consigo, não poderia saber de sua

artimanha, se conseguisse iludi-la) que era a posse daquela mulher que iria sair dentre as amplas pétalas cor de malva das catléias; e o prazer que ele já sentia e que Odette talvez apenas tolerasse, pensava, porque não o reconhecera, parecia-lhe por isso-como pôde parecer ao primeiro homem que o desfrutou entre as flores do paraíso terrestre um prazer que até ali não existira, que ele procurava criar, um prazer bem como o nome especial que lhe conferiu guardou-lhe o traço -absolutamente novo e particular.

            Agora, todas as noites, quando a levava até em casa, precisava entrar e com freqüência ela voltava a sair de chambre, levava-o até o carro e beijava-o diante do cocheiro dizendo:

            "Que é que tem, que me importam os outros?"

            Nas noites em que ele não ia aos Verdurin (o que às vezes acontecia desde que podia vê-la de outra forma), nas noites cada vez mais raras em que ia a alguma reunião da sociedade, Odette lhe pedia que chegasse até a casa dela antes de se recolher, fosse qual fosse a hora.

            Era primavera, uma primavera pura e fria. Saindo de uma reunião, Swann subia para a sua vitória, estendia uma manta sobre as pernas, respondia aos amigos que partiam ao mesmo tempo que ele e o convidam para irem juntos, dizendo que não podia, que não ia para o mesmo lado, e o cocheiro saía a trote acelerado sabendo perfeitamente para onde se encaminhava. Eles se espantavam e, de fato, Swann já não era o mesmo. Já não recebiam mais cartas dele em que ele pedia para ser apresentado a uma mulher. Não prestava mais atenção a nenhuma, evitava ir aos locais onde se achavam. Em um restaurante, no campo, assumia a atitude oposta àquela que, ainda ontem, o fazia ser reconhecido e que parecia dever sempre ser a sua. De tal maneira uma paixão é para nós como um caráter temporário e diferente, que substitui o outro e elimina os signos, até então invariáveis, pelos duais ele se exprimia! Em compensação, o que se fazia agora invariável era que, onde quer que se achasse, Swann não deixava de se juntar a Odette. O trajeto dela era o que ele percorria inevitavelmente, e era como que o próprio declive, irresistível e rápido, de sua vida. Na verdade, demorando-se por vezes numa mundana, teria preferido ir imediatamente para casa, sem cumprir o longo curso, e vê-la apenas no dia seguinte; mas o próprio fato de deixar suas comodidades numa hora tão anormal para ir vê-la, de adivinhar que os amigos mudavam ao largá-lo:

            "Está muito ocupado, com certeza tem uma mulher que o recebe à casa dela a qualquer hora", o fazia sentir que levava a vida dos homens, com um caso de amor em sua vida, e que o sacrifício que fazem de seu sossego, seus interesses, a uma fantasia voluptuosa lhe confere um encantamento. Depois, sem que se desse conta, a certeza de que ela o esperava, de que estava alhures com outros, de que não regressaria sem a ter visto, neutralizava a angústia esquecida mas sempre prestes a renascer, que ele experimentara nas em que Odette não estava mais na casa dos Verdurin e cujo apaziguamento era tão suave que aquilo bem poderia se chamar felicidade. Talvez a semana de angústia devesse Swann a importância que Odette assumira para ele. De hábito os seres são tão indiferentes para nós que, quando conferimos a um deles tal possibilidade de dor e de alegria, este parece-nos pertencer a outro universo, cheio de poesia; faz de nossa vida como que enorme e emocionante, onde estará mais ou menos próximo de nós.            Swann não podia indagar de si mesmo, sem estremecer, em que se tornaria Odette para ele nos vindouros. Às vezes, ao ver da sua vitória, nessas belas noites frias, a lua brilhante, que espalhava sua claridade entre seus olhos e as ruas desertas, pensava na outra figura clara e levemente rosada como a da lua, que um dia surgira pensamento e, desde então, projetava sobre o mundo a luz cheia de mistério que ele a via.

            Se chegava depois da hora em que Odette mandava os empregados dormir, antes de tocar à porta do jardinzinho ele primeiro ia à rua que dava, no andar térreo, entre as janelas todas iguais, porém às escuras, dos vizinhos, a janela, a única iluminada, do quarto dela. Batia à vidraça e ela, já respondia e ia esperá-lo do outro lado da porta de entrada. Swann encontrara abertas, sobre o piano, algumas partituras de músicas que ela preferia: a Vã Rosas ou Pobre Louco, de Tagliafico (que, de acordo com a última vontade devia ser tocada por ocasião do seu enterro), e, em vez delas, pedia-lhe que a pequena frase da sonata de Vinteuil, embora Odette a tocasse muito mal; mais bela imagem que nos fica de uma obra é muitas vezes a que se eleva os sons errados extraídos por dedos inábeis de um piano desafinado. A frase continuava, para Swann, a se associar ao amor que sentia por Odette. Percebia ele perfeitamente que esse amor era algo que não correspondia no exterior, nada que pudesse ser verificado por outros que não ele; de que as qualidades de Odette não justificavam que valorizasse tanto os tempos passados junto dela. E muitas vezes, quando o que predominava a inteligência positiva, desejava ele cessar de sacrificar tantos interesses iguais e sociais a semelhante prazer imaginário. Mas a pequena frase, logo que sabia tornar livre, dentro dele, o espaço necessário para ela, e as proporções de Swann se encontravam mudadas; uma margem era reservada a um tempo, pouco correspondia a um objeto exterior e que, no entanto, em vez de ser puramente individual como o do amor, impunha-se a Swann como uma realidade acima das coisas concretas.

            Esta sede de encanto desconhecido, a pequena frase a despertava nele, porém nada de preciso lhe trazia para estancá-la. De forma que essas porções da alma de Swann onde a pequena frase havia apagado a preocupação com os interesses materiais, as considerações humanas e válidas para todos, ela as havia deixado vazias e em branco; e ele estava livre para aí inscrever o nome de Odette. Depois, ao que o afeto de Odette pudesse ter de menor e decepcionante, a pequena frase vinha acrescentar, amalgamar sua essência de mistérios. Contemplando-se o rosto de Swann enquanto ele ouvia a frase, poder-se-ia dizer que ele estava em vias de ingerir um anestésico que dava mais amplitude à sua respiração. E o prazer que lhe dava a música e que em breve iria criar nele uma verdadeira necessidade, de fato se parecia, nesses momentos, com o prazer que ele teria em experimentar perfumes, em entrar em contato com um mundo para o qual não somos feitos, que nos parece informe porque nossos olhos não o distinguem, e sem significado porque escapa à nossa inteligência, e que só conseguimos alcançar através de um único sentido.

            Grande descanso, misterioso renovar para Swann -para ele, cujos olhos, embora delicados amantes da pintura, cujo espírito, apesar de fino observador de costumes, levavam para sempre a marca indelével da aridez de sua vida-o de se sentir transformado em uma criatura estranha à humanidade, cega, desprovida de faculdades lógicas, quase um fantástico licome, uma criatura quimérica, só percebendo o mundo pelo ouvido. E, no entanto, como na pequena frase ele buscava um sentido a que sua inteligência não lograva baixar, que sobriedade estranha o possuía para despojar sua mais interna alma de todos os auxílios da razão e em fazê-la passar sozinha pelo corredor, no filtro obscuro do som! Começava a perceber tudo aquilo que aí havia de doloroso, talvez mesmo de secretamente desassossegado no fundo da doçura dessa frase, mas não podia sofrer por isso.

            Que importava que ela lhe dissesse que o amor é frágil, o seu era tão forte! Distraía-se com a tristeza que ela espalhava, sentia-a passar acima dele, porém como uma carícia que fazia mais doce e mais profundo o sentimento que tinha de sua felicidade. Fazia com que a tocasse de novo, dez, vinte vezes, exigindo ao mesmo tempo que ela não parasse de beijá-lo. Cada beijo chama outro beijo. Ah, naqueles primeiros tempos, em que a gente ama, os beijos nascem tão naturalmente! Chegam tão apertados uns contra os outros; e a gente teria tanta dificuldade em contar os beijos trocados numa hora quanto as flores de um campo no mês de maio. Então, fazia menção de parar, dizendo: "Como quer que eu toque, se está me segurando. Não posso fazer tudo ao mesmo tempo, decida ao menos o que quer, devo ir a frase ou fazer carícias?"

            Ele se zangava e ela desatava a rir um riso que se ova e caia sobre ele numa chuva de beijos. Ou então ela o olhava com ar sério. Via um rosto digno de figurar na Vida de Moisés de Botticelli, onde o situava, e dava ao pescoço de Odette uma inclinação conveniente; e logo que a via desse modo, à têmpera, no século XV, sobre a parede da Capela Sistina, a de que ela, todavia, permanecia ali, junto ao piano, no presente, pronta para ser beijada e possuída, a idéia de sua materialidade e de sua vida vinha embrulhada com tanta força que, de olhar esgazeado, as mandíbulas estendidas com devorar, ele se precipitava sobre essa virgem de Botticelli e punha-se a beliscar as faces.

            Depois, logo que a deixava, não sem ter voltado para beijá-la ainda, esquecera de levar na lembrança alguma característica do seu odor ou de traços, punha-se a caminho de volta na vitória, abençoando Odette por lhe permitir aquelas visitas diárias, que, sentia, não deveriam dar a ela uma grande alegria que, preservando-o do ciúme -tirando-lhe a oportunidade de novamente passar o mal que se declarara nele na noite em que não a encontrara na casa dos Vendurin -, auxiliariam-no a atingir, sem outras daquelas crises das quais a primeira, tão dolorosa e ficara sendo a única, o final dessas horas singulares dessas horas quase encantadas, à maneira daquelas em que ele atravessava Paris ao, verificando, no regresso, que o astro agora se achava deslocado relativamente e quase no limite do horizonte, sentindo que seu amor obedecia, do mesmo modo a leis imutáveis e naturais, perguntava-se se esse período em que entrara duraria ainda muito tempo, se em breve o pensamento não mais veria o rosto dela, senão ocupando uma posição longínqua e diminuída, e a ponto de cessar de talhar o seu charme. Pois, desde que se apaixonara, encontrava um charme nas coisas como nos tempos em que, adolescente, se considerava artista; um charme que já não era o mesmo, era somente Odette que o atribuía às coisas. Ele sentia renascerem dentro de si as inspirações da juventude, que uma vida havia dissipado, mas todas traziam o reflexo, a marca de uma criatura particular, nas longas horas quando sentia agora um prazer delicado em passar em sozinho com sua alma em convalescença,

voltava aos poucos a ser ele, porém com outra alma. 

            Swann só ia à casa dela à noite, e nada sabia de como ela emprega tempo durante o dia, menos ainda de seu passado, a ponto de lhe faltar um mínimo dado inicial que, permitindo que imaginemos aquilo que nos é desconhecido, nos dá desejos de o conhecer. Desse modo, não indagava de si mesmo, nem poderia fazer, nem o que havia sido a sua vida. Sorria às vezes ao pensar que anos antes, quando não a conhecia, tinham lhe falado de uma mulher que, se lembrava, devia com certeza ser Odette, como de uma jovem, de uma cortesã sustentada, uma dessas mulheres a que ele atribuía ainda, devido à intimidade que lhes tinha, o caráter monolítico, basicamente perverso, com que adotou durante muito tempo a imaginação de alguns romancistas. Achava muitas vezes, considerar às avessas a reputação que a sociedade engendra julgar com exatidão uma pessoa, quando, a um tal caráter, ele opunha o de boa, ingênua, idealista, quase tão incapaz de mentir que, tendo-lhe pedido certa vez, para jantar a sós com ela, que escrevesse aos Verdurin dizendo que estava adoentada. Vira-a no dia seguinte, diante da Sra. Verdurin, que lhe perguntava se estava melhor, enrubescer, balbuciar, refletindo, sem querer, no rosto o desgosto, o suplício que lhe causava o fato de mentir e, enquanto ela multiplicava na resposta os pormenores inventados sobre a pretensa indisposição da véspera, ter o ar de pedir perdão, com os olhos em súplica e a voz desolada, pela falsidade de suas palavras.

            No entanto, em certos dias, raros porém, ela ia à sua casa à tarde, interromper seus devaneios ou um estudo sobre Vermeer, ao qual voltara a se dedicar ultimamente.

            Vinham dizer a Swann que a Sr. de Crécy estava na saleta. Ele ia a seu encontro e, quando abria a porta, no rosto rosado de Odette, logo que o vislumbrava-mudando-lhe o formato da boca, a mirada dos olhos, o modelo das faces-, vinha espalhar-se um sorriso. Sozinho, Swann recordava aquele sorriso, e outro que ela tivera no dia anterior, ainda outro com o qual o recebera em tal ou qual ocasião, o que lhe dera em resposta, no carro, quando ele lhe perguntara se estava sendo desagradável ao arranjar-lhe as catléias; e a vida de Odette no restante do tempo, como a ignorasse totalmente, lhe surgia com seu fundo neutro e incolor, semelhante a essas folhas de estudos de Watteau nas quais se vê, aqui e ali, em todos os pontos e em todos os sentidos, desenhados a três cores sobre o papel pardo, inúmeros sorrisos.

            Às vezes, porém, num recanto dessa vida que Swann via inteiramente vazia, conquanto seu espírito lhe dissesse que não o era, pois não podia imaginá-lo assim, algum amigo que, desconfiando que eles se amavam, só se arriscava a dizer insignificâncias a respeito dela, descrevendo-lhe o vulto de Odette que havia visto na mesma manhã, subindo a pé a rua Abbatucci com uma "visita" guarnecida de skunks, debaixo de um chapéu à Rembrandt e um buquê de violetas no seio. Este simples croqui perturbava Swann, pois o fazia perceber de súbito que Odette tinha uma vida que não era totalmente sua; desejaria saber a quem ela buscava agradar com aquela toalete que ele não conhecia; prometia a si mesmo que iria lhe perguntar aonde ela ia naquele momento, como se em toda a vida incolor quase inexistente, por lhe ser invisível de sua amante houvesse apenas uma coisa além dos sorrisos a ele dirigidos: aquela saída de Odette debaixo de um chapéu à Rembrandt, com um buquê de violetas no seio.

            Exceto o pedido para que tocasse a pequena frase de Vinteuil, em vez da Valsa das Rosas, Swann não procurava fazê-la tocar as músicas que preferia e, nem na música nem na literatura, tentava corrigir seu mau gosto. Percebia muito bem que ela não era inteligente. Ao dizer a Swann que gostaria muito de que ele lhe falasse de grandes poetas, Odette pensara que iria logo conhecer cópias heróicas e pescas do tipo das do visconde de Borelli, ou ainda mais emocionantes. Quando, perguntou a Swann se o pintor havia sofrido por alguma mulher, uma mulher quem o havia inspirado; tendo-lhe dito Swann que nada sabia a respeito, Odette se desinteressou de todo pelo pintor. Dizia muitas vezes: ''poesia... Não tenho dúvidas de que não haveria nada mais belo se fosse verdade se os poetas pensassem tudo aquilo que dizem. Porém, muitas vezes, não há ninguém mais interesseiro do que eles. Sei disso, eu tinha uma amiga apaixonou por um tipo de poeta. Nos seus versos ele só falava do amor, das estrelas. Ah, que de nada adiantou a ela! Ele lhe roubou mais de trezentos francos."

            Se então Swann procurava lhe ensinar em que consistia a beleza, a de que modo seria preciso admirar os versos ou os quadros, ao cabo de um instante, ela deixava de ouvir, dizendo:        "Sim... eu não pensava que era desse jeito''

            Swann sentia que Odette experimentava tal decepção que ele preferia mentir afirmando que tudo aquilo ainda eram ninharias, que ele não tinha tempo de absorver fundo, que havia outra coisa. Mas Odette replicou vivamente: "Outra coisa o quê?... Diga, então", mas ele não dizia nada, sabendo o quanto aquilo lhe parecia insignificante e diverso do que ela esperava, menos sensacional e menos emocionante, e receava que, desiludida da arte, também se desiludisse do amor.

            E, de fato, ela achava Swann intelectualmente inferior ao que acrescentava antes: "Sempre conservas teu sangue-frio, não posso te definir."

            O que espantava era a indiferença de Swann em relação ao dinheiro, sua gentileza com qualquer um, sua delicadeza. E na verdade acontece muitas vezes, com pessoas mais importantes que Swann, com um sábio, com um artista, quando é apresentado pelos que o rodeiam; que o sentimento, que prova, que a superioridade do, inteligência se impôs a eles, não é a admiração por suas idéias, pois estas fogem, e sim o respeito por sua bondade.

            Era também respeito o que sentia pela situação de Swann na sociedade, mas ela não queria que ele procurasse dizê-la naquele meio. Talvez sentisse que ele não poderia consegui-lo, e até mesmo temesse que, apenas falando do seu nome, ele fosse causar revelações e evitava. E o fato é que o fizera prometer jamais pronunciar seu nome. O motivo pelo qual não queria freqüentar a sociedade, segundo dissera a Swann, era um desentendimento que tivera outrora com uma amiga que, para se vingar, andara falando dela.

            Swann objetara: "Mas ninguém conhece a tua amiga."

            "Mas sim, coisas se espalham como mancha de azeite, o mundo é tão mau."

            Por um lado Swann não entendeu essa história, mas, por outro, sabia que aquelas expressões "o mundo é tão mau" e "uma intenção caluniosa é como uma mancha de azeite'' são tidas em geral como verdadeiras; deveria haver casos a que elas se aplicavam. Seria um deles o de Odette? Ele se indagava, mas não por muito tempo, igualmente sujeito a essa canseira de espírito que baixava sobre seu pai quando pensava num problema difícil. Além disso, a sociedade que tanto medo inspira em Odette, talvez não lhe provocasse grandes desejos, pois estava muito afastado daquela que conhecia para que pudesse representá-la com nitidez. No entanto, permanecido de fato bastante simples em certos pontos (por exemplo, conservava como amiga uma pequena costureira aposentada, subindo, quase todos os dias, a escada íngreme, escura e fedorenta da casa dela), tinha avidez das coisas chiques, mas não lhes atribuía a mesma idéia que as pessoas da sociedade. Para estas, chique é uma emanação de certas pessoas, pouco numerosas, que o projetam até um grau bem distante e mais ou menos enfraquecido à medida que a gente se afasta do centro de sua intimidade ,no círculo de seus amigos, ou dos amigos de seus amigos, cujos nomes formam uma espécie de repertório. As pessoas da sociedade o conservam na memória e têm sobre tais assuntos uma erudição de onde extraem uma espécie de gosto e de tato, apesar de que Swann, por exemplo, sem precisar apelar para seu saber mundano, caso lesse num jornal os nomes das pessoas que se achavam em um jantar, poderia dizer imediatamente o matiz de chique daquela reunião, como um literato, à simples leitura de uma frase, aprecia com exatidão a qualidade literária de seu autor. Mas Odette fazia parte dessas pessoas (bastante numerosas, apesar do que pensa a respeito a alta sociedade) que não possuem tais noções, imaginam um chique bem diverso, que assume vários aspectos conforme o meio a que pertencemos, mas que tem como característica especial - seja o chique com que sonhava Odette, seja aquele a que se inclinava a Sra. Cottard -o fato de ser diretamente acessível a todos. O outro, o das pessoas da alta sociedade, também o é, mas leva algum tempo. Odette dizia de alguém:

            -Só vai aos lugares chiques.

            E se Swann perguntasse o que ela entendia por "lugares chiques", ela respondia com um certo desdém:

            -Ora, os lugares chiques! Se na tua idade é preciso te ensinar quais são os lugares chiques, que queres que te diga? Por exemplo, aos domingos de manhã a Avenida da Imperatriz, às cinco horas a torre do Lago, às quintas o Teatro Éden, às sextas o Hipódromo, os bailes...

            -Porém, quais bailes?

            - Ora, os bailes que se dão em Paris, os bailes chiques quero dizer. Veja, Herbinger, sabes, o que trabalha com um agiota? Sim, deves saber, é um dos homens mais em moda em Paris, um rapaz louro, alto, que é tão esnobe, e tem sempre uma flor na botoeira, uma raia nas costas, e usa paletós claros; anda com aquela velha que leva a todas as estréias. Muito bem, ele deu um baile, na outra noite, e compareceu tudo o que havia de chique em Paris. Como eu gostaria de ter ido. Mas, era necessário apresentar o convite à porta e eu não pude consegui-lo. No fundo, preferi mesmo não ter ido, havia lá tanta gente que eu não teria podido ver. Seria mais para poder dizer que estivera na casa de Herbinger. Sabes, é a verdade. Afinal, podes acreditar, de cem pessoas que contaram ter estado lá, cerca da metade estava mentindo. Mas o que me espanta é que tu, um homem tão fehuk não estavas lá.

            Mas Swann não tentava de forma alguma fazer com que Odette mudasse. Aceito de chique; pensando que o seu não era mais verdadeiro, era também imbecil como o dela, desprovido de importância, não sentia nenhum interesse instruir a amante, embora, depois de alguns meses, ela só se interessasse pelas relações de Swann, quanto às entradas que ele poderia obter para o hipódromo, as estréias teatrais. Desejava que ele cultivasse relações tão úteis, mas, por lado, tendia a considerá-las pouco chiques, desde que vira passar na rua a marquesa de Villeparisis de vestido de lã negro, com uma touca de fitas.

            - Mas ela tem o ar de uma operária, de uma velha porteira, darling, uma marquesa? Eu não sou marquesa, mas seria preciso que me pagasse caro para me fazerem sair dessa maneira!

            Odette não compreendia que Swann morasse na casa do cais de Orleans que, sem ousar confessá-lo, achava indigno dele.

            Certamente, ela tinha a pretensão de amar as "antigüidades"; e fazia um ar deslumbrado e cheio de finura para dizer que adoraria passar um dia inteiro a "bisbilhotar", a procurar bricabraques, coisas "antigas". Embora teimasse, por questão de ponto de honra (e parecesse praticar algum preceito de família), ela não ia responder jamais às perguntas nem "prestar contas" do emprego de seus amigos - falou certa vez a Swann de uma amiga que a convidara e em cuja residência era "de época". Porém, Swann não logrou fazer com que dissesse de que época tratava. Entretanto, após refletir um pouco, ela respondeu que era "medieval". Isso, dava a entender que havia revestimento de madeira nas paredes. Algum tempo depois, Odette voltou a falar nessa amiga e acrescentou, num tom hesitante, entendido das pessoas que citam alguém com quem jantaram na véspera e que o nome jamais ouviram antes, mas que os anfitriões pareciam considerar alguém célebre, que se espera que o interlocutor saiba perfeitamente de quem se trate, ''tinha uma sala de jantar... do... século dezoito!" Aliás, achava aquilo horroroso despido, como se a casa não estivesse pronta, as mulheres pareciam horrenda, moda que nunca haveria de pegar. Enfim, numa terceira vez, ela voltou a falar da amiga naquele tom e mostrou a Swann o endereço do homem que fizera aquela sala de jantar, ela desejava mandar buscar, quando tivesse dinheiro, para ver se não podia fazer, não uma igual, mas aquela dos seus sonhos e que, infelizmente, as salas de seu pequeno apartamento não comportavam, com grandes guarda-móveis renascentistas e lareiras como as do castelo de Blois.

            Nesse dia, deixou escapar, diante de Swann, o que pensava do seu aposento do cais de Orléans; se ele criticasse que a amiga de Odette desse agora, não para o estilo Luís XVI dizia ele, embora seja coisa que já não se fabrique, pode muito bem ser um estilo, mas para o falso antigo:    "Não haverias de querer que ela vivesse como tu, de móveis quebrados e tapetes gastos", retrucou ela, visto que em respeito à burguesia, ainda uma vez predominava nela sobre o diletantismo da cocote.

            Dentre os que apreciavam objetos de arte, que amavam os versos, contabilizavam os cálculos vis, sonhavam com a honra e o amor, ela formava um minoria superior ao restante da humanidade. Não era preciso que tivessem de fato aqueles gostos, desde que os afirmassem; de um homem que lhe confessara, no jantar, que gostava de andar à toa, de sujar os dedos nas velhas lojas, que nunca seria apreciado por este século mercantil, pois não se preocupava com os interesses desta época e portanto, pertencia a outro tempo, dizia ela ao voltar: "É uma alma adorável, uma pessoa sensível, eu não tinha desconfiado disso!" e sentia por ele uma imensa e repentina amizade. Mas em compensação, aqueles que, como Swann, tinham tais gostos mas não os externavam, deixavam-na indiferente. Certo, era forçada a confessar que Swann não ligava para o dinheiro, mas acrescentava com ar entediado: "Mas no caso dele, é outra coisa"; e, de fato, o que falava à sua imaginação não era a prática do desinteresse, e sim o seu vocabulário.

            Percebendo que muitas vezes não podia realizar o que ela imaginava, Swann pelo menos procurava que ela se sentisse agradavelmente em sua companhia, e não contrariava suas idéias vulgares, o seu mau gosto que se espelhava em todas as coisas, e que, aliás, ele apreciava como a tudo que vinha dela, que o encantavam mesmo, pois eram aspectos particulares graças aos quais a essência de Odette lhe surgia, tornava-se visível. Assim, quando Odette mostrava-se feliz porque iria à Reine Topaze, ou quando o olhar se fazia sério, inquieto e voluntarioso, se temia perder a festa das flores ou simplesmente a hora do chá, com muffins e toasts, no "Chá da Rue Royale", onde ela julgava ser indispensável a assiduidade para consagrar a reputação de elegância de uma mulher, Swann, transportados como somos nós pela naturalidade de uma criança ou pela veracidade de um retrato que só falta falar, tão bem sentia a alma de sua amante aflorar-lhe ao rosto que não podia resistir em tocá-lo com os lábios.

            "Ah, quer dizer que a pequena Odette deseja fazer-se admirar; muito bem, vamos levá-la, temos que aceder a seus desejos."

            Como fosse um tanto fraco da vista, Swann teve de se resignar a usar pince-nez para trabalhar em casa e andar de monóculo em público, o que o desfigurava menos. Da primeira vez que o viu com ele, Odette não coube em si de alegria:

            "Acho que para um homem, não há o que dizer, é muito, muito chique! Como ficas bem assim! Pareces um verdadeiro gentleman. Só te falta um título!", acrescentou, com um tom de pesar.

            Swann gostava que Odette fosse assim mesmo, exatamente como, se estivesse apaixonado por uma bretã, teria ficado feliz ao vê-la de touca e ouvi-la dizer que acreditava em espectros. Até então, como em muitos homens cujo gosto pelas artes se aprofunda independentemente da sensualidade, existira uma estranha disparidade entre as satisfações que ele atribuirá a uma coisa e outra; desfrutando da companhia de mulheres cada vez mais rudes, a sedução de obras cada vez mais requintadas; por exemplo, levando uma empregadinha para um camarote reservado para assistir à representação de uma peça decadentista, que tinha vontade de ir a uma exposição de pintura impressionista, convencido, aliás, que uma da sociedade intelectualizada não entenderia muito mais do que a criada, mas não teria sabido ficar calada com tanta gentileza. Ao contrário, porém, do que amava Odette era-lhe tão gratificante simpatizar com ela, tentar possuir só uma alma para os dois, que procurava gostar das coisas que ela apreciava, e encontrar um prazer tanto mais profundo, não só em imitar seus hábitos, mas em adotar opiniões, que, como não tinham nenhum fundamento em sua própria inteligência recordavam-lhe somente o seu amor, pelo qual lhes dava preferência. Se vai para ver Serge Panine, se procurava

uma ocasião para ver Olivier Métra na regência, era pela doçura de ser iniciado nas concepções de Odette, de se sentir participante de todos os seus gostos. Esse encanto de o aproximar dela, que tinham as obras lugares que ela amava, parecia-lhe mais misterioso que o encanto intrínseco coisas mais belas, mas que não lhe recordavam Odette.

            Além disso, tendo deixado enfraquecerem as crenças intelectuais da juventude, e seu ceticismo de homem mundano tendo penetrado até elas à sua revelia, Swann pensava (ou, pelo menos havia pensado durante tanto tempo que ainda o afirmava) que os objetos de, seus gostos não têm em si mesmo um valor absoluto, mas que tudo é uma questão de época, de classe, consistindo em modas, e as mais vulgares valem tanto quanto as que passam por serem as mais distintas. E como julgasse que a importância atribuída por Odette à obtenção de convites para a vernissage não era em si ridícula; que o prazer que ele tinha outrora em almoçar com o Príncipe de Gales, assim também, não achava que a admiração que ela professava por Monte-Carlo, pelo Righi, fosse mais despropositada que o gosto que ele sentia pela Holanda, ela imaginava detestável, e por Versalhes, que ela considerava triste. Portanto, lembrava-se desses lugares, tendo satisfação em dizer consigo, que o fazia por ela; somente com ela desejava sentir e amar as coisas.

            Como tudo aquilo que rodeava Odette e que era, de certa forma, apenas o modo pelo qual podia vê-la e conversar com ela, Swann gostava da sociedade dos Verdurin. Ali, como no fundo de todos os divertimentos, jantares, música, ceias à fantasia, passeios pelo campo, noites de teatro, e até os raros "grandes saraus" em honra dos "maçantes", Odette estava presente, ele falava com Odette via Odette; dom inestimável que os Verdurin faziam a Swann ao convidá-lo, e a sentia ali melhor do que em qualquer outro ponto do "pequeno núcleo", ao buscava atribuir méritos reais, pois pensava assim que, por seu gosto, o freqüentaria pelo resto da vida. Ora, não se atrevendo a confessar, por receio de não aceitar, que amaria Odette para sempre, pelo menos supondo que freqüentaria sem Verdurin (proposição que, a priori, levantava menos objeções de princípio por de sua inteligência), Swann via-se no futuro a encontrar-se com Odette todas as noites; o que talvez não quisesse dizer, absolutamente, o mesmo que a amaria sempre, mas no momento, enquanto a amava, tudo o que pedia era acreditar que não a deixaria de ver um só dia na vida.

            "Que ambiente encantador", dizia Swann "e como é verdadeira, no fundo, a vida que ali se leva! Como ali se é mais inteligente, mais artista do que na alta sociedade! Como a Sra. Verdurin, apesar de pequenos exageros um tanto risíveis, tem um amor sincero pela pintura, pela música, que paixão pelas obras, que desejo de agradar aos artistas! Ela se faz uma idéia inexata das pessoas da sociedade; mas com isto, a sociedade tem uma idéia ainda mais falsa dos ambientes artísticos! Talvez eu não tenha grandes necessidades intelectuais a saciar nas conversações, porém dou-me perfeitamente com Cottard, embora ele faça trocadilhos infames. E quanto ao pintor, se seu ar pretensioso é desagradável quando procura causar efeito, em compensação é uma das mais belas inteligências que já conheci. E depois, principalmente, a gente se sente livre ali, faz o que quer sem se constranger, sem cerimônia. Como se gasta bom humor por dia naquele salão! Decididamente, a não ser algumas raras exceções, eu jamais irei senão a esse ambiente. É ali que formarei, cada vez mais, os meus hábitos e minha vida."

            E, como as qualidades que acreditava intrínsecas aos Verdurin eram apenas o reflexo, sobre ele, dos prazeres desfrutados pelo seu amor por Odette naquela casa, tais qualidades tornaram-se mais sérias, mais profundas, mais vitais, quando os prazeres também o eram. Como a Sra. Verdurin dava às vezes a Swann o que, sozinho, poderia constituir para ele a felicidade; como, na noite em que ele se sentia angustiado porque Odette conversara com um convidado mais do que com outro, e em que ele, irritado com ela, não quisera tomar a iniciativa de lhe indagar se voltariam juntos para casa, a Sra. Verdurin lhe trouxera a paz e a alegria dizendo espontaneamente:

            "Odette, vai voltar com o Sr. Swann, não é?", como, às vésperas do veraneio, inquieto, primeiro se perguntara se Odette se ausentaria sem ele, se poderia continuar a vê-la todos os dias; a Sra. Verdurin os convidara a ambos para passar os dias em sua casa de campo, Swann, deixando sem querer que o reconhecimento e a gratidão se infiltrassem em sua inteligência e influíssem sobre suas idéias, chegava ao ponto de afirmar que a Sra. Verdurin era uma grande alma. De algumas pessoas requintadas ou ilustres a que se referiam certos antigos camaradas seus da Escola do Louvre, ele dizia:

            "Prefiro mil vezes os Verdurin." E, com uma solenidade que era nova nele:

            "São criaturas magnânimas, e a magnanimidade é, no fundo, a única coisa que de fato importa e que nos distingue neste mundo. Veja, só há duas classes de pessoas: os magnânimos e os outros; e cheguei a uma idade em que é preciso tomar partido, decidir de uma vez por todas a quem amar, e a quem desdenhar; juntar-se àqueles a quem amamos e, para recuperar o tempo perdido com os outros, não mais deixá-los até a morte. Pois bem!", acrescentava com a leve emoção que experimentamos quando, mesmo sem nos apercebermos bem disso, dizemos uma coisa, não porque seja verdadeira, mas porque temos prazer em dizê-la e a escutamos com nossa própria voz como se viesse de outrem, a sorte está lançada, eu escolhi gostar dos únicos seres magnânimos e viver amenas na magnanimidade. Você me pergunta se a Sra. Verdurin é de fato inteligente, asseguro-lhe que ela me deu provas de uma nobreza de coração, de uma altivez de alma que não se atinge senão com idêntica altivez de pensamento. É claro que tem uma profunda compreensão das artes. Mas não é talvez nisto que ela seja mais admirável; e tal ou qual ação engenhosa, delicadamente boa, que para mim, tal ou qual atenção de gênio, ou tal ou qual gesto familiarmente superior revelam uma compreensão mais profunda da existência que todos os tratados de filosofia."

            Ele poderia, entretanto, dizer consigo que havia velhos amigos de pais tão simples como os Verdurin, companheiros de juventude também apreciadores da arte, que conhecia outras pessoas de grande coração, e que, desde que ele optara pela simplicidade, pelas artes e pela magnanimidade, não os veria jamais. Mas estes não conheciam Odette e, se a tivessem conhecido, não se incomodariam em aproximá-la dele.

            Assim, não havia com certeza, em todo o meio dos Verdurin, um único que os amasse ou julgasse amar tanto como Swann. E no entanto, quando Verdurin dissera que Swann não lhe agradava, não só exprimira o próprio pensamento, mas adivinhara o de sua mulher. Sem dúvida, Swann externava por um afeto muito particular e do qual não se dignara em fazer a Sra. Verdurin confidente do dia-a-dia: claro, a própria discrição com que se valia da hospitalidade dos Verdurin, evitando muitas vezes comparecer a um jantar por uma razão da qual eles não faziam a menor idéia, e em lugar do qual eles viam o desejo de não recusar um convite dos "maçantes"; claro, também, e apesar de todas as precauções que Swann tomara para lhes ocultar a descoberta progressiva que faziam de semelhante posição na sociedade, tudo isto contribuía para a irritação deles contra. Mas o motivo mais profundo era outro. É que haviam sentido nele, e bem dependente um espaço reservado, impenetrável, onde ele continuava a professar, silenciosamente, para si próprio, que a princesa de Sagan não era grotesca e que as graças de Cottard não tinham graça nenhuma; enfim, embora ele jamais deixasse a amabilidade e nunca se revoltasse contra os seus dogmas, a impossibilidade de impô-los a ele, de convertê-lo por completo, como nunca haviam encontrado em qualquer pessoa.

            Poderiam lhe ter perdoado que freqüentasse os "maçantes'' (os quais, do fundo do coração, aliás, Swann preferia mil vezes os Verdurin e pequeno núcleo), se houvesse consentido,

para dar o exemplo, em renegá-lo a presença dos fiéis. Mas aquilo era uma abjuração que compreenderam não lhe arrancar.

            Que diferença em relação a um "novo" que Odette lhes pedira para dar, conquanto só o tivesse encontrado poucas vezes, e no qual depositavas tantas esperanças, o conde de Forcheville. (Ocorria que se tratava exatamente do cunhado de Saniette, o que encheu de espanto os fiéis: o velho arquivista de modos tão humildes que eles sempre o julgaram pertencer a um nível social inferior ao seu e não esperavam que fizesse parte de um mundo rico e relativamente aristocrático.) Sem dúvida, Forcheville era grosseiramente esnobe, ao passo que Swann não o era; como Swann, sem dúvida, estava bem longe de colocar o meio dos Verdurin acima de todos os outros. Mas, não possuía a delicadeza natural, que impedia Swann, de se associar às críticas, visivelmente falsas, que a Sra. Verdurin dirigia às pessoas que ele conhecia. Quanto às tiradas pretensiosas e vulgares que o pintor lançava em certos dias, às graçolas de caixeiro-viajante que Cottard arriscava, as quais Swann, que simpatizava com os dois, desculpava facilmente, mas, não tinha a coragem e a hipocrisia de aplaudir, Forcheville, ao contrário, era de um nível intelectual que lhe permitia espantar-se e encantar-se com umas, aliás sem entendê-Ias, e deleitar-se com as outras.

            E justamente o primeiro jantar em casa dos Verdurin a que compareceu, Forcheville evidenciou todas estas diferenças, fez salientar suas qualidades e precipitou a queda de Swann. Nesse jantar havia, além dos convivas de costume, um professor da Sorbonne, Brichot, que conhecera os Verdurin na estação de águas e que, se seus trabalhos universitários e obras de erudição não lhe tornassem bem raros os instantes de liberdade, compareceria de bom grado mais vezes; pois possuía a curiosidade, a superstição da vida que, unida a um certo ceticismo relativamente ao assunto de seus estudos, resulta, em qualquer profissão, no caso de alguns homens inteligentes, em médicos descrentes da medicina, professores de ginásio que não crêem no tema latino, dando-lhes reputação de espíritos arejados, brilhantes e até mesmo superiores.        Na casa dos Verdurin, ao falar de filosofia e de história, evitava procurar suas comparações no que havia de mais atual, primeiro porque achava que tais temas são apenas uma preparação para a vida e supunha encontrar naquele ambiente de "pequeno clã" o que até então só conhecera nos livros; depois, talvez também porque, como antigamente lhe haviam feito criar respeito bem grande a certos assuntos, respeito que havia conservado sem saber, julgava despir-se de sua condição de universitário, tomando com esses assuntos liberdades que, pelo contrário, não lhe pareciam liberdades senão porque permanecia universitário.

            Desde o princípio da refeição, como o Sr. de Forcheville, sentado à direita da Sra. Verdurin que, em atenção ao "novato", muito cuidara da toalete, lhe dissesse:

            "É bem original esse vestido branco", o doutor, que não cessara de observá-lo, tão curioso se mostrava para saber como era que ele chamaria um "de", e que procurava uma oportunidade de atrair sua atenção e entrar mais em contato com o conde, colheu no ar a palavra "branco" e, sem erguer a cara do prato, disse: "branca? finca de Castela?" e depois, sem mover a cabeça, lançou furtivamente, à direita e à esquerda, olhares incertos e risonhos. Enquanto Swann, pelo esforço vão e doloroso que fez para sorrir, testemunhava considerar idiota aquele trocadilho, Forcheville mostrava ao mesmo tempo que apreciava a finura do mesmo e que sabia viver, -tendo nos devidos limites uma alegria cuja franqueza encantara a Sra. Verdurin.

            -Que me diz de um sábio como este? - perguntara a Forcheville.- Não há de conversar a sério dois minutos com ele. Será que o senhor tem essas tiradas no hospital? acrescentara voltando-se para o doutor. - Desse jeito deve ser muito aborrecido lá, todos os dias. Estou vendo que terei de pedir que o internem.

            - Creio ter ouvido que o doutor falava daquela velha harpia, Branca de Castela, se ouso me expressar desse modo. Não é verdade, madame?- perguntou Brichot à Sra. Verdurin que, sem fôlego, olhos fechados, mergulhou o rosto nas mãos, de onde se escaparam gritos sufocados. -         -Meu Deus, madame, não queria alarmar as almas respeitosas, se existe alguma em torno desta mesa sub rosa... Aliás, reconheço que nossa inefável república ateniense-e quanto a honrar naquela obscurantista Capeto o primeiro dos chefes de polícia de verdade, meu caro anfitrião, é bem verdade, prosseguiu com sua voz bem timbrada, que destacava cada sílaba, em resposta a uma objeção do Sr. Verdurin. Crônica de Saint-Denis, cuja segurança de informação não podemos contestar, não deixa dúvida alguma a respeito, mulher nenhuma poderia ser mais bem escolhida, como padroeira por um proletariado laicizante, do que essa mãe de um santo quem, de resto, fez passar maus momentos, como diz Suger e outros S. Bernardo, pois com ela cada um tinha o seu.

            -Quem é este senhor?- perguntou Forcheville à Sra. Verdurin. - Parece-me de primeira.

            - Como, o senhor não conhece o famoso Brichot? É célebre em toda Europa.

            -Ah, é Bréchot! - exclamou Forcheville, que não ouvira bem. - Que está me dizendo?-acrescentou, encarando o homem célebre com olhos arregalados. É sempre interessante jantar com um homem que está em evidência. Mas, só convidam gente escolhida? Pelo jeito, ninguém se aborrece nesta casa?

            -Oh, o que sucede - disse a Sra. Verdurin com modéstia - é quem sente à vontade. Falam do que querem, e a conversa se faz verdadeira, esfuziante. E Brichot não está hoje nos seus melhores dias; já o vi extraordinário aqui em casa, da gente se pôr de joelhos diante dele; muito bem, na casa dos outros não é o mesmo homem, deixa de ter espírito, é necessário arrancarem-lhe as palavras, chega a ser tedioso.

            -Curioso - replicou Forcheville espantado.

            Um gênero de espírito como o de Brichot seria tomado como pura ignorância no grupo em que Swann havia passado a juventude, embora seja compatível de uma inteligência verdadeira. E a do professor, vigorosa e bem nutrida, teria provavelmente causado inveja a muitas pessoas da sociedade que Swann considera espirituosas. Porém, de tal forma estas tinham logrado imbuí-lo de seus gostos e suas repugnâncias, ao menos em tudo aquilo que diz respeito à vida mundana e até numa de suas partes anexas que pertenceria antes ao domínio da inteligência, ou seja, a conversação, que Swann só pôde achar os gracejos de Brichot pedantes, vulgares e intolerantemente rudes. Depois, sentia-se chocado, no seu hábito de boas maneiras, pelo tom áspero e militar que afetava para com todos o ardoroso acadêmico. Por fim, talvez Swann perdesse principalmente, naquela noite, sua indulgência ao ver a amabilidade com que a Sra. Verdurin tratava aquele Forcheville, que Odette tivera a singular idéia de trazer. Um pouco incomodada em face de Swann, ela lhe perguntara ao chegar:

            - Então, que tal meu convidado?

            E ele, percebendo pela primeira vez que Forcheville, a quem de há muito conhecia, poderia ser agradável a uma mulher e era um homem bem bonito, respondera: "Imundo!"

            Certo, não imaginava ter ciúmes de Odette, mas não se sentia tão feliz como de hábito e quando Brichot, tendo começado a contar a história da mãe de Branca de Castela que "vivera vários anos com Henrique Plantageneta antes de desposa-lo", quis que Swann o confirmasse, indagando:

            "Não é mesmo, Sr. Swann?", com um tom marcial que se emprega para pôr-se ao alcance de um camponês ou dar ânimo a um soldado; Swann cortou o efeito de Brichot, para grande fúria da dona da casa, respondendo que o desculpassem por pouco se importar com Branca de Castela, mas que tinha algo a perguntar ao pintor. Este, de fato, fora de tarde visitar a exposição de um artista, amigo da Sra. Verdurin, recentemente falecido, e Swann queria saber por intermédio dele (pois apreciava o seu gosto) se de fato havia em suas últimas obras mais do que o incrível virtuosismo que já assombrava nas anteriores.

            -Sob este aspecto era extraordinário, mas não me parecia uma arte, conforme se diz, muito "elevada" disse Swann sorrindo.

            -Elevada... ao pináculo da fama - interrompeu Cottard, erguendo os braços com gravidade fingida.

            Toda a mesa rebentou de riso.

            - Quando eu dizia que a gente não pode ficar séria com ele. - disse a Sra. Verdurin a Forcheville. - No momento em que menos se espera, lá vem ele com uma das suas.

            Mas reparou que Swann fora o único a não ter rido. Aliás, ele não estava nada contente que Cottard gracejasse à sua custa diante de Forcheville. Mas o pintor, em vez de responder de modo que interessasse a Swann, o que provavelmente teria feito se estivessem a sós, preferiu fazer-se admirar pelos convivas com uma tirada sobre a habilidade do mestre falecido.

            -Aproximei-me daquela coisa - disse ele para ver como era feita, e meti o nariz. Qual! Não se podia dizer se era feito com cola, rubis, com sabão, com bronze, com o sol ou com meleca!

            - Onze e um doze - exclamou o doutor um pouco tarde demais; sua interrupção não ficou entendida por ninguém.

            - Não se parece com nada prosseguiu o pintor mas não é possível o truque a não ser em A Ronda ou Os Regentes, e é ainda mais forte do que Rembrandt ou Hals. Mais asseguro que da exposição tenho todos.

            Foi interrompido por Forcheville, que interpelava Swann. De fato, ao passo que a Sra. Cottard falava de Franciilon, Forcheville externava à Sra. Verdurin a sua admiração pelo que chamara o pequeno speech do pintor.

            - Este senhor tem uma facilidade para falar, uma memória tal. - dissera à Sra. Verdurin, quando o pintor acabou - como raramente tenho visto. Quem me dera algo assim. Daria um excelente pregador. Pode-se dizer que, com Bréchot, a senhora tem aqui dois números que se eqüivalem, e até nem sei se, em matéria de palavreado, este não levaria o professor de vencida. É mais natural, menos rebuscado. Embora tenha dito de passagem algumas coisas meio realistas (mas está no gosto da moda), poucas vezes vi alguém manter uma conversa com tanta destreza, como dizíamos no regimento, onde, entretanto, tive um camarada que esse senhor justamente me faz lembrar um pouco. A propósito de qualquer coisa, nem sei o que lhe dizer, este copo, por exemplo, ele podia discorrer durante horas, não, não a propósito deste copo, o que digo é bobagem; mas a propósito da batalha de Waterloo, de tudo o que a senhora quiser, e, de passagem, falava-nos de coisas em que nunca teríamos pensado. Aliás, Swann estava no mesmo regimento; deve tê-lo conhecido.

            -O senhor vê o Sr. Swann muitas vezes?- perguntou a Sra. Verdurin.

            -Oh, não. - respondeu o Sr. de Forcheville e, como desejasse ser agradável a Swann, para poder mais facilmente se aproximar de Odette, querendo aproveitar a ocasião para lisonjeá-lo, referiu-se às suas boas relações, porém como homem mundano, em tom de crítica cordial e sem parecer felicitá-lo por um êxito imprevisto:

            - Não é mesmo, Swann, que nunca nos vemos? Além do mais, como fazer para vê-lo? Esse animal está o tempo todo metido na casa dos La TrémoiIle, na casa dos Laumes, na casa de todo mundo dessa laia!...

            Imputação tanto mais falsa, aliás, porquanto fazia um ano que Swann não ia senão à casa dos Verdurin. Mas a pura menção de pessoas que não conheciam era por eles acolhida com um silêncio de reprovação. O Sr. Verdurin, temendo a penosa impressão que esses nomes de "maçantes", sobretudo lançados assim sem tato algum à face de todos os fiéis, deveria produzir sobre a esposa, lançou-lhe de soslaio um olhar de inquieta solicitude. Viu então que, em sua resolução de não tomar nenhuma atitude, de não se abalar pela novidade que lhe fora notificada, de não só permanecer muda, mas também surda, como fingimos quando um amigo em falta procura introduzir na conversa uma desculpa que poderíamos parecer estar aceitando se a escutássemos sem protesto, ou quando pronunciam à nossa frente o nome proibido de um ingrato, a Sra. Verdurin, para que seu silêncio não fosse tido como consentimento, mas parecesse o silêncio ignorante das coisas inanimadas, despojara de repente o rosto de qualquer sinal de vida, de toda motilidade; sua fronte arqueada era apenas um belo estudo de alto-relevo onde o nome desses La Trémoille, em cuja casa Swann andava sempre enfurnado, não pudera penetrar; seu nariz, levemente franzido, mostrava uma chanfradura que parecia calcada sobre o natural.    Dir-se-ia que sua boca entreaberta ia falar. Não passava de um molde de cera, uma máscara de gesso, uma maquete para um monumento, um busto para o Palácio da Indústria, diante do qual o público certamente haveria de parar a fim de admirar de que forma o escultor, exprimindo a imprescritível dignidade dos Verdurin, oposta à dos La Trémoille e dos Laumes que, certamente como todos os maçantes da terra, não estão à sua altura, conseguira atribuir uma majestade quase papal à brancura e à rigidez da pedra. Mas o mármore acabou por se animar e deu a entender que era necessário ser indelicado para com a casa dessas pessoas, pois a mulher estava sempre bêbada e o marido era tão ignorante que dizia "pobrema" em vez de problema.

            -Nem que me pagassem bem caro, eu deixaria essa gente entrar na minha casa...-concluiu a Sra. Verdurin, encarando Swann com um ar imperioso.

            É claro que ela não esperava que Swann se submetesse ao ponto de imitar a santa simplicidade da tia do pianista que acabava de exclamar:

            - Estão vendo? O que me espanta é que ainda encontrem pessoas que consintam em conversar com eles! Creio que teria medo! Quando menos a gente espera, nos fazem alguma! Como é que há gente tão boba que ainda corre atrás deles?

            Mas que respondesse pelo menos como Forcheville:

            "Senhora, trata-se de uma duquesa; há pessoas a quem isto ainda impressiona", o que teria permitido, ao menos, que a Sra. Verdurin replicasse:

            "Bom proveito lhes faça".

            Em vez disso, Swann se contentou em rir, com ar que indicava que sequer podia levar a sério semelhante extravagância.

            O Sr. Verdurin, continuando a lançar olhares furtivos à mulher, via com tristeza e compreendia muito bem que ela experimentava a cólera de um grande inquiridor que não consegue extirpar a heresia; e para tentar levar Swann a uma retratação, já que a coragem das próprias opiniões sempre parece uma covardia e um cálculo aos olhos daqueles contra quem se dialogue, o Sr. Verdurin o interpelou:

            - Diga com franqueza o seu pensamento, que não iremos repetir a eles.

            Ao que Swann respondeu:

            - Mas não é por medo da duquesa absolutamente, se é que estão falando dos LaTrémoïlle. Asseguro-lhes que todos gostam de freqüentar a casa dela. Não digo que ela seja "profunda" (pronunciou a palavra como se se tratasse de um termo ridículo, pois sua linguagem conservava os hábitos do espírito, que uma certa renovação, marcada pelo amor à música, fizera-o perder momentaneamente – às vezes exprimia suas opiniões com calor) mas, sinceramente, ela é inteligente e o marido é um verdadeiro letrado. São pessoas encantadoras.

            Desse modo, a Sra. Verdurin, sentindo que por esse único infiel não conseguiria efetivar a unidade moral do pequeno núcleo, não pôde evitar, em sua raiva contra aquele obstinado que não via o quanto suas palavras a faziam sofrer, de lhe gritar do fundo do coração:

            -Ache o que bem entender, mas pelo menos não venha dizê-lo a nós.

            -Tudo depende do que quer dizer com inteligência - disse Forcheville, desejava brilhar por seu turno. -Vejamos, Swann, o que entende por inteligência...

            - Eis aí! exclamou Odette. - Aí estão as grandes coisas sobre as quais peço que me fale, mas ele nunca diz nada.

            - Mas como não?... protestou Swann.

            - Nada, nada... disse Odette.

            - Quem nada é peixe interpôs-se o doutor.

            -Para o senhor - volveu Forcheville - a inteligência é o mexerico da sociedade, as pessoas que sabem se insinuar?

            -Acabe logo, para que possam retirar seu prato - disse a Sra. Verdurin tom áspero, dirigindo-se a Saniette, que parara de comer, envolto em suas reflexões. E talvez um tanto envergonhada com o tom que assumira:

            - Não tem importância, esteja à vontade, estou falando assim por causa dos outros, porque isso impede de servir.

            -Existe - disse Brichot, martelando as sílabas - uma definição bem desta inteligência nesse bom anarquista, o Fénelon...

            -Ouçam! -disse a Sra. Verdurin para Forcheville e o doutor.-Ele vai dar a definição da inteligência por Fénelon; é interessante, nem sempre há oportunidade de aprender coisas assim.

            Mas Brichot esperava que Swann desse a sua definição. Este não respondeu e, pondo-se de lado, fez gorar a brilhante disputa que a Sra. Verdurin se regozijava em oferecer a Forcheville.

            - Naturalmente, é o mesmo que faz comigo - disse Odette em tom doido - Não me incomodo de não ser a única pessoa que ele não considera a sua altura...

            - Esses de La Trémouaïlle, que a Sra. Verdurin nos apresentou são pouco recomendáveis perguntou Brichot, articulando com força -, desce por ventura dos que a boa esnobe Sra. de Sevigné confessava ser feliz em conhecer, porque isso a elevava no conceito de seus camponeses? É verdade que a marquesa tinha outro motivo, e que para ela deveria ser o principal, pois literata até 83 como era, punha a forma escrita acima de tudo. Ora, no diário que enviava primeiramente à filha, era a Sra. de La Trémoille, bem documentada por suas grandes alianças, quem fazia a política do exterior.

            -Mas não, não creio que seja da mesma família - disse casualmente Verdurin.

            Saniette que, desde que entregara, precipitadamente ao mordomo, o prato ainda cheio, voltara a mergulhar num silêncio pensativo, desperta para contar, rindo, a história de um jantar na companhia do duque da La Trémoille, do qual resultara que este não sabia que Georges Sand era o pseudônimo de uma mulher. Swann, que simpatizava com Saniette, julgou dever lhe dar, sobre a cultura do duque, pormenores, que mostravam que semelhante ignorância da parte deste era materialmente impossível; mas de súbito se interrompeu, pois acabava de perceber que Saniette não tinha necessidade daquelas provas e sabia que a história era falsa, pela simples razão de que acabara de inventá-la momentos antes. Aquele excelente homem se desgostava por ser considerado tão tedioso pelos Verdurin; e tendo consciência de ter sido ainda mais sem graça naquele jantar do que de costume, não quisera deixá-lo terminar sem ter conseguido tornar-se divertido. Capitulou tão depressa, com um aspecto de tanta infelicidade por ver fracassado o efeito que esperava obter e respondeu a Swann, num tom de tal modo acovardado, para que este não se encarniçasse numa réplica agora inútil:

            "Está bem, está bem; de qualquer forma, mesmo que eu esteja enganado, não se trata de um crime, acho", que Swann gostaria de lhe poder dizer que a história era verdadeira e deliciosa.           O doutor, que os ouvira, teve a impressão de que era o caso de dizer se non é vero, mas não tinha muita certeza quanto às palavras e temia se atrapalhar.

            Depois do jantar, Forcheville encaminhou-se para o doutor.

            - Ela não deve ter sido nada feia, a Sra. Verdurin; e além disso, é uma mulher com quem se pode conversar, e isto para mim é o que importa. Evidentemente, ela começa a virar uma pipa. Mas a Sra. de Crécy, eis aí uma mulherzinha bem inteligente, caramba! A gente vê logo que ela tem olho vivo! Estamos falando da Sra. de Crécy - disse ele ao Sr. Verdurin, que se aproximara de cachimbo na boca. -Creio que como corpo de mulher...

            -Antes encontrá-lo no meu leito do que encontrar o demo - disse Cottard com precipitação, pois há instantes esperava em vão que Forcheville tomasse fôlego para dizer esse velho gracejo, com medo de perder a oportunidade se a conversa se desviasse para outros assuntos, e pronunciando-o com o excesso de espontaneidade e segurança que busca disfarçar a frieza e o nervosismo inseparáveis de um recitativo. Forcheville conhecia o gracejo, compreendeu-o e divertiu-se muito. Quanto ao Sr. Verdurin, não poupou sua hilaridade, pois achara havia pouco uma forma de simbolizá-la, muito diferente da que usava sua mulher, mas também simples e clara. Mal começara a fazer o movimento da cabeça e dos ombros de alguém que não agüenta mais, logo se punha a tossir como se, rindo com muita força, tivesse engolido a fumaça do cachimbo. E, conservando-o sempre no canto da boca, prolongava indefinidamente o simulacro da sufocação e da hilaridade. Assim, ele e a Sra, Verdurin, a qual, em frente, ouvindo o pintor narrar-lhe uma história, fechava os olhos antes de mergulhar o rosto nas mãos, davam ambos a impressão de duas máscaras de teatro que figurassem diversamente a alegria.

            O Sr. Verdurin, aliás, fizera muito bem em não tirar o cachimbo da boca, pois Cottard, que precisava se afastar por um instante, disse a meia voz uma frase que aprendera recentemente e que repetia toda vez que ia ao mesmo local:

            "Preciso ir falar um instante com o duque de Aumale" o que provocou novo aceso de tosse do Sr. Verdurin.

            - Vamos, tira esse cachimbo da boca, estás vendo que vais te afogar; ficas contendo o riso desse jeito - disse a Sra. Verdurin, que vinha oferecer licor.

            - Que homem encantador o seu marido, tem espírito como quanto declarou Forcheville à Sra. Cottard.

            -Obrigado, madame. Um velho soldado e que eu, jamais recusaria.

            - O Sr. de Forcheville acha Odette encantadora. - disse o Sr. Verdurin à esposa.

            - Mas justamente ela gostaria de almoçar um dia com o senhor. Vamos combinar isso, mas não é preciso que Swann fique sabendo. O senhor entende, dá uma certa frieza. Isto não o impedirá de vir jantar, naturalmente, esperamos o senhor apareça com freqüência. Com o bom tempo que vai chegar agora, muitas vezes jantamos ao ar livre. Não se incomodaria em jantar no Bois? Muito bom, muita gentileza sua. E você, não vai trabalhar no seu ofício?-gritou ela para o, pianista, para mostrar, diante de um novato do calibre de Forcheville, ao mesmo tempo seu espírito e seu poder tirânico sobre os fiéis.

            -O Sr. de Forcheville estava em vias de falar mal de ti - disse a Sra. Cottard ao marido quando este retornou ao salão.

            E Cottard, mantendo a idéia da nobreza de Forcheville que o preocupou desde o começo do jantar, disse-lhe:

            - No momento, estou cuidando de uma baronesa, a baronesa Putb Putbus estavam nas Cruzadas, não é mesmo? Na Pomerânia, eles possuem lago, que é dez vezes maior que a Praça da Concórdia. Cuido da sua artrite seca. É uma mulher fascinante. Aliás, creio que ela conhece a Sra. Verdurin.

            O que permitiu a Forcheville, quando se encontrou, momentos depois a sós com a Sra. Cottard, completar o juízo favorável que fizera a respeito do marido dela:

            - E depois, é interessante ver que ele conhece tantas pessoas. Pois sabem tanto esses médicos!

            -Vou tocar a frase da sonata para o Sr. Swann - anunciou o pianista.

            - Bolas, que ao menos fosse a Serpent à sonates - disse o Sr. de Forcheville para fazer efeito.

            Mas o doutor Cottard, que jamais escutara esse trocadilho, não o estendeu e o julgou um engano de Forcheville. Aproximou-se com vivacidade a corrigi-lo:

            - Não é ''serpent à sonates'' que se diz, e sim ''serpent a sonnettes''! - com um tom zeloso, impaciente e triunfal.

[Trocadilho intraduzível em português. ''Serpent à sonnettes'' é cascavel. (N. do T)]

            Forcheville lhe explicou o trocadilho. O doutor enrubesceu.

            - Confesse que é engraçado, doutor.

            - Oh, eu já o conhecia há muito tempo - respondeu Cottard.

            Porém calaram-se; sob a agitação dos tremolos de violino, que a protegiam com seu ligeiro frêmito a duas oitavas de distância - e como numa região montanhosa, detrás da aparente imobilidade vertiginosa de uma cascata, percebe se, duzentos pés abaixo, o vulto minúsculo de uma passeante -, a pequena frase acabava de surgir, longínqua, graciosa, protegida pelo longo desfraldar da cortina transparente, incessante e sonora. E Swann, do fundo do coração, dirigiu-se a ela como a uma confidente de seu amor, como a uma amiga de Odette que deveria lhe dizer que não se preocupasse com esse Forcheville.

            -Ah, o senhor chegou tarde. - disse a Sra. Verdurin a um fiel que só fora convidado como um "palito" -, tivemos "um" Brichot incomparável, de uma eloqüência! Mas já foi embora. Não é mesmo, Sr. Swann? Creio que é a primeira vez que o senhor se encontra com ele. - disse ela para fazê-lo notar que era a ela que Swann devia o ter conhecido. - Não é verdade que esteve delicioso o nosso Brichot?

            Swann se inclinou polidamente.

            - Não? Ele não o interessou? - inquiriu a Sra. Verdurin com secura.

            - Claro que sim, madame. Muito mesmo, fiquei deslumbrado. Ele talvez seja um tanto peremptório e um pouco jovial para o meu gosto. Preferia que tivesse, às vezes, um pouquinho de hesitação e de suavidade, mas a gente percebe que ele conhece tantas coisas e dá a impressão de ser um homem excelente.

            Todos se retiraram bem tarde. As primeiras palavras de Cottard à mulher foram:

            - Raras vezes vi a Sra. Verdurin com tanta verve como hoje.

            -O que é exatamente essa Sra. Verdurin, uma mulher desfrutável?-indagou Forcheville ao pintor, a quem convidara para saírem juntos.

            Odette viu-o se afastar com pena. Não teve coragem de não regressar em companhia de Swann, mas foi de mau humor no carro e, quando ele perguntou se devia entrar na casa dela, lhe disse:

            "É claro", dando de ombros com impaciência.

            Quando todos os convidados haviam saído, a Sra. Verdurin disse ao marido:

            -Notaste como Swann riu sem graça quando falamos da Sra. Trémoille

            Ela havia reparado que diante desse nome Swann e Forcheville tinham algumas vezes suprimido a partícula. Não duvidando que aquilo se devia a que eles mijavam, mostrar que não se intimidavam com os títulos, ela aspirava a imitar-lhes a altivez, mas não percebera bem por que forma gramatical deveria traduzi-lo. E como sua viciosa forma de falar podia mais que sua intransigência republicana, Waaindaos "de La Tremoille", ou melhor, com uma abreviatura em uso nas letras e canções de café-concerto e nas legendas dos caricaturistas e que dissimulava MI em "os d'LaTrémoille", mas logo caía em si, dizendo:

            "Madame La Trémoïlle".

            -A duquesa, como diz Swann - acrescentou com ironia, num riso que provava nada mais fazia que citar e não contestava uma denominação tão ingênua e ridícula. - Digo que o achei extremamente bobo.

            E o Sr. Verdurin respondeu:

            - Não é franco, é um sujeito cauteloso, sempre entre o sim e o não, sempre poupara cabra e a couve. Que diferença de Forcheville! Pelo menos, um homem que diz na cara tudo o que pensa. Agrade ou não agrade. Não é o outro, que nunca é branco nem preto. Aliás, Odette parece ter uma certa simpatia por Forcheville, e lhe dou toda a razão. E além disso, já que Swann quer bancar o aristocrata com a gente, o defensor das duquesas, ao menos o outro tem o seu título, sempre será conde de Forcheville acrescentou sutilmente, como se, a história desse condado, lhe avaliasse minuciosamente o teor particular.

            -Afirmo-disse a Sra. Verdurin-que ele julgou dever lançar contra algumas insinuações venenosas e bem ridículas. Naturalmente, com motivo, Brichot era querido na casa, aquilo era uma forma de nos atingir, de arruinar o jantar. Imagine o que não dirá de nós ao sair.

            - Mas já te disse respondeu o Sr. Verdurin. - É um fracassado, sujeitinho que tem inveja de tudo o que é um pouco grande.

            Na realidade, não havia um só fiel que não fosse mais malévolo que Swann, porém todos tinham o cuidado de temperar suas maledicências com gracejos sabidos, com uma ponta de emoção e de cordialidade; ao passo que a reserva que Swann se permitia, despojada das fórmulas convencionais de "Não é por mal que falo, mas...", e às quais não se dignava abaixar-se, pareciam; perfídia.

            Existem autores originais em quem a menor ousadia causa revolta, eles antes não tiveram o cuidado de lisonjear os gostos do público e não serviram os lugares-comuns a que ele está habituado; da mesma forma à Swann indignava o Sr. Verdurin. No caso de Swann, como no daqueles autores; o novo da linguagem, que fazia com que acreditassem na perversidade das intrigas. Swann ainda ignorava a desgraça que o ameaçava em casa dos Verdurin e continuava a ver os ridículos do casal com bons olhos, através do seu Odette.

            Na maioria das vezes, só se encontrava com Odette à noite; mas tendo medo de cansá-la indo a sua casa, queria pelo menos não deixar de lhe ter os pensamentos, e em todos os instantes buscava uma oportunidade de fazer-se lembrado, porém de modo que fosse agradável a ela. Se, na vitrina florista ou de um joalheiro, a visão de um arbusto ou de uma jóia o encanto; pensava em enviá-los a Odette, imaginando que o prazer que sentira ao ver, igualmente o sentiria, e viria aumentar o afeto que sentia por ele, e tratava de enviar imediatamente para a rua La Pérouse a fim de não retardar o momento que, quando Odette recebia algo de sua parte, pudesse ele se sentir de qualquer forma perto dela. Queria sobretudo que ela os recebesse antes de sair, para que o reconhecimento que experimentava lhe valesse uma acolhida mais carinhosa quando se encontrassem nos Verdurin, ou até, quem sabe, se o entregador fosse bastante rápido, talvez um bilhete que ela lhe mandaria antes do jantar, ou mesmo a sua vinda em pessoa à casa dele, numa visita suplementar de agradecimento. Como antigamente, quando sentia as reações do despeito em Odette, procurava extrair dela as de gratidão, parcelas íntimas de um sentimento que Odette ainda não revelara.

            Muitas vezes ela estava com embaraços financeiros e, pressionada por uma dívida, pedia-lhe auxílio. Swann ficava feliz com isso, como com tudo o que pudesse dar a Odette uma grandiosa idéia do amor que lhe tributava, ou simplesmente uma grande idéia de sua influência, do quanto útil lhe poderia ser. Sem dúvida, se lhe houvessem dito no começo:

            "É a tua situação que lhe agrada", e agora:

            "É pela tua fortuna que ela te ama", ele não o teria acreditado, embora não ficasse muito aborrecido pelo fato de imaginarem que estivesse presa a ele-que os sentissem unidos um ao outro por algo tão forte como o esnobismo ou o dinheiro. Mas, mesmo que imaginasse fosse verdade, talvez não tivesse sofrido ao descobrir, no amor de Odette, esse estado mais duradouro que o carinho ou as qualidades que ela pudesse achar nele: o interesse, que jamais deixaria chegar o momento em que ela pudesse ser tentada a não vê-lo em definitivo. Por enquanto, acumulando-a de presentes, prestando-lhe favores, Swann podia repousar nas vantagens exteriores à sua pessoa, à sua inteligência, do cuidado exaustivo de lhe agradar por si mesmo. E essa volúpia de estar apaixonado, de viver apenas de amor, de cuja realidade às vezes duvidava, o preço que em resumo lhe custava, como diletante de sensações imateriais, aumentava-lhe ainda mais o valor como se vêem pessoas, incertas quanto à delícia do espetáculo do mar e o rumor das ondas, se convencerem disto tão logo, bem como da rara qualidade de seus gostos desinteressados, ao alugarem por cem francos diários o aposento do hotel que lhes permita desfrutá-los.

            Um dia em que reflexões desse tipo lhe recordavam ainda outra vez o tempo em que lhe haviam falado de Odette como de uma mulher sustentada e em que mais uma vez se divertia contrastando essa personificação estranha, a mulher sustentada ondulando amálgama de elementos desconhecidos e diabólicos, engrinaldado, como uma aparição de Gustave Moreau, de flores venenosas entrelaçadas a pedras preciosas, e aquela Odette em cujo rosto ele vira passarem os mesmos sentimentos de piedade por um desgraçado, de revolta contra uma injustiça de gratidão por um benefício, que outrora vira sentirem sua própria mãe e seus perigos, aquela Odette, cujas frases tantas vezes se referiam às coisas que ele conhecia melhor, às suas coleções, ao seu quarto, ao seu velho criado, ao  cargo a quem confiara seus títulos, ocorreu que esta última imagem do banqueiro lhe recordou que precisava tirar dinheiro do banco. De fato, se naquele não fosse tão prodigamente em auxílio de Odette como no mês anterior, que lhe dera cinco mil francos, e não lhe ofertasse o colar de diamantes que ela levava, não renovaria nela essa admiração pela sua generosidade, esse reconhecimento que o deixavam tão feliz, e até se arriscaria a fazê-la crer que seu amor por ela diminuído, pelo fato de se tornarem menores as suas manifestações. E súbito perguntou-se se aquilo não seria exatamente "sustentá-la" (como sem efeito, a noção de sustentar pudesse se extrair de elementos não misteriosos, perversos, mas que pertencessem ao substrato cotidiano e privado da sua vida, como aquela nota de mil francos, doméstica e familiar, rasgada e colada da que o seu criado, depois de pagar o aluguel e as contas do mês, havia fechado na gaveta da velha escrivaninha em que Swann a fora pegar para enviá-la com quatro a Odette) e se era possível aplicar-se a ela, desde que a conhecera (não suspeitou por um momento sequer que ela pudesse alguma vez ter recebido dinheiro de outra pessoa antes dele), essa designação, que julgara tão inconsistente com ela, de "mulher sustentada".

            Não pôde aprofundar essa idéia, pois a preguiça de espírito, congênito nele, veio naquele instante extinguir toda a sua inteligência, da mesma forma tão brusca com que, mais tarde, quando instalou em toda parte a iluminação elétrica, se pôde cortar a eletricidade da casa. Seu pensamento tateou por um instante na escuridão, ele tirou os óculos, enxugou as lentes, esfregou os olhos e só reviu a luz quando se achou próximo de uma idéia completamente diversa, ou seja, que era necessário tentar enviar no mês seguinte, seis ou sete mil francos a Odette em vez de cinco, devido à surpresa que aquilo lhe daria.

            De noite, quando não ficava em casa a esperar a hora de se encontrar com Odette nos Verdurin, ou melhor, em algum dos restaurantes de verão do Saint-Cloid de que tanto gostavam, ia jantar numa dessas casas elegantes fora outrora um conviva habitual. Não desejava perder o contato com pessoas, sabe-se lá, poderiam talvez ser úteis a Odette um dia, e graças às quais; conseguia muitas vezes ser-lhe agradável. E depois, o costume antigo de frequentar a sociedade e de exigir seu luxo lhe haviam dado, junto com o desdém, a necessidade de tais coisas, de modo que a partir do momento em que lhe surgisse no mesmo plano os prédios mais modestos e as mansões mais principescas, seus sentidos estavam de tal forma acostumados às segundas que Swann teria experimentado um certo mal-estar em se achar nos primeiros. Tinha a mesma colocação no grau de identidade, que não acreditariam pelos pequenos boatos, que davam um baile num quinto andar, escada D, porta à esquerda, e  a princesa de Parma que dava as mais belas festas de Paris; porém não, sensação de estar no baile quando ficava com os pais de família no quarto da casa, e a vista dos lavabos cobertos de toalhas, das camas transformadas em vestiários e onde se amontoavam capas e chapéus, lhe dava a mesma sensação de sufoco que pode causar hoje em dia, a pessoas acostumadas a vinte anos de eletricidade, o cheiro de uma lâmpada que fumega, ou de uma vela que escorre.

            No dia em que jantava na cidade, mandava atrelar o carro para estar pronto às sete e meia; vestia-se pensando sempre em Odette e assim não se sentia só, pois a lembrança constante de Odette dava aos momentos em que estava longe dela o mesmo encanto particular que o daqueles em que estavam juntos. Subia para o carro, porém sentia que essa lembrança igualmente subira e se instalava sobre seus joelhos como um animal de estimação que se leva a toda parte e que será conservado à mesa com o dono, à revelia dos convivas. Acariciava-a, aquecia-se nela e, sentindo uma espécie de languidez, deixava-se possuir de um leve frêmito que lhe arrepiava o pescoço e o nariz, e era novo para ele, enquanto ia fixando na botoeira o ramo de ancólias. Desde algum tempo sentindo-se triste e indisposto, sobretudo depois que Odette apresentara Forcheville aos Verdurin, Swann teria preferido descansar um pouco no campo. Mas não teria coragem de abandonar Paris um só dia, enquanto aí estivesse Odette. O ar estava quente; eram os mais belos dias de primavera. E embora cruzasse uma cidade de pedra para meter-se em algum recinto fechado, o que não deixava de ter diante dos olhos era um parque de sua propriedade nos arredores de Combray, onde, desde as quatro da tarde, antes de chegar à plantação de aspargos, graças ao vento que sopra dos campos de Méséglise, era possível gozar, debaixo de uma latada, de tanta frescura como à beira do tanque rodeado de miosótis e gladíolos, e onde, quando jantava, corriam em torno da mesa, enlaçadas pelo jardineiro, ramos de groselhas e de rosas.

            Depois do jantar, se o encontro no Bois ou em Saint-Cloud era para logo, ele saía tão depressa da mesa; principalmente se a chuva ameaçava cair, obrigando os "fiéis" a voltarem mais cedo para casa; que certa vez a princesa de Laumes (uma vez em que se jantara bem tarde em sua casa e Swann fora embora sem esperar que servissem o café, para se encontrar com os Verdurin na ilha do Bois) observou:

            - Francamente, se Swann fosse trinta anos mais velho e doente da bexiga, agente poderia desculpá-lo por correr assim. Mas desse jeito já é fazer pouco de nós.

            Swann dizia para si mesmo que o encanto da primavera, que não podia ir desfrutar em Combray, ele o encontraria pelo menos na ilha dos Cisnes, ou em Saint-Cloud. Mas, como só podia pensar em Odette, nem mesmo sabia se sentira o odor das folhas, ou se houvera luar. Era acolhido pela pequena frase da Sonata, tocada no jardim pelo piano do restaurante. Se ali não houvesse piano, os Verdurin teriam enorme trabalho para mandar descer um de um quarto ou de uma sala de jantar. Não que Swann tivesse caído de novo em suas boas graças, pelo contrário. Mas a idéia de organizar um engenhoso prazer para alguém que não lhes agradava, despertava-lhes, nos momentos necessários a tais preparativos, sentimentos efetivos e ocasionais de simpatia e cordialidade. Às vezes Swann pensava que era mais uma noite de primavera que passava, e constrangia-se a atentar nas estrelas no céu. Porém a agitação que lhe causava a presença de Odette, e também a indisposição febril que não o largava há algum tempo, privavam-no do sol e do bem-estar que são o fundamento indispensável às impressões, que a nada pode oferecer.

            Uma noite em que Swann aceitara jantar com os Verdurin, como disse durante a refeição que no dia seguinte iria a um banquete com antigos amigos e Odette lhe respondera diante de todos, diante de Forcheville, que era agora fiéis, diante do pintor, diante de Cottard:

            - Sim, eu sei que você tem o seu banquete, de forma que só não irá em minha casa; mas não vá muito tarde.

            Conquanto Swann nunca se sentisse enciumado, a sério, com as conversas de amizade que Odette dava a um ou outro dos fiéis, experimentou uma profunda ternura ao ouvi-la confessar assim, diante de todos, com aquele ar tranqüilo de seus encontros diários à noite, a situação privilegiada que desfrutava em segredo; e a preferência que isso implicava. Certo, Swann pensara muitas vezes que não era de modo algum uma mulher notável, e a supremacia que ele exercia uma criatura que lhe era tão inferior nada tinha que lhe parecesse tão lisonjeiro, assim proclamado em face dos "fiéis"; mas desde que percebera que para os homens Odette parecia uma mulher encantadora e desejável, o encanto que o corpo lhe trazia, despertara-lhe uma necessidade dolorosa de admirá-lo inteiramente nas partes mais íntimas do seu coração. E começara a dar um valor inestimável aos momentos passados na casa dela à noite, onde sentava-a em seus joelhos e fazia dizer o que estava pensando sobre uma coisa ou outra, quando recordava-se dos únicos bens a cuja posse agora se apegava neste mundo. Assim, depois do jantar, chamou-a de parte e não deixou de lhe agradecer com efusão, por fazer com que compreendesse, de acordo com os graus da gratidão que testemunhava, a escala dos prazeres que ela poderia lhe causar, o maior dos quais, garanti-lo contra os acessos de ciúme, enquanto durasse o seu amor e, em conseqüência, a vulnerabilidade em que estaria a tal sentimento.

            Quando saiu do banquete, na noite seguinte, chovia a cântaros e tinha a sua vitória à disposição; um amigo sugeriu levá-lo até em casa. Como Odette, pelo fato de lhe haver pedido que comparecesse, dera-lhe a certeza de que não esperava ninguém, era de ânimo tranqüilo e coração em festa que em vez de sair assim na chuva, entraria em casa para se deitar. Mas, Odette, vendo que ele não fazia questão de passar sempre com ela, sem o fim da noite, não negligenciaria reservá-la para ele, justamente, uma vez que estivesse particularmente desejoso de tal.

            Swann chegou à casa dela depois das 11 da noite e, como sentia de não ter podido vir mais cedo, Odette se queixou de que na verdade a tempestade a deixara indisposta, tinha dores de cabeça e o preveniu de que não o reteria mais de meia hora, pois à meia-noite o mandaria embora. E pouco depois, alegou que estava cansada e ia dormir.

            - Então, nada de catléias esta noite? indagou ele. - E logo eu que esperava uma boa catleiazinha.

            E ela, com ar um tanto amuado e nervoso, respondeu:

            - Não, meu querido, nada de catléias esta noite, não está vendo que estou indisposta?

            - Isso poderia até lhe fazer bem, mas enfim não vou insistir.

            Odette lhe pediu que apagasse a luz antes de ir-se, e ele próprio fechou as cortinas da cama e saiu. Mas quando chegou em casa, veio-lhe bruscamente a idéia de que talvez Odette esperasse alguém aquela noite, que simplesmente simulara o cansaço e que só lhe pedira que apagasse a luz para que julgasse que iria dormir; e, que logo que ele partisse, acendera de novo as luzes e fizera entrar aquele que deveria passara noite com ela. Olhou a hora. Fazia mais ou menos uma hora e meia que a deixara. Tornou a sair, pegou um fiacre e parou perto da casa dela, numa ruazinha perpendicular à que ficava atrás da sua residência, e onde ele ia às vezes bater à janela do seu quarto para que ela viesse abrir; desceu do carro, tudo estava negro e deserto no quarteirão, bastaram-lhe alguns passos para se achar quase diante da casa dela. No meio da escuridão de todas as janelas, há muito apagadas na rua, viu uma única de onde fluía-dentre os postigos que lhe apertavam a polpa misteriosa e dourada a luz que enchia o quarto e que, em outras tantas noites, por mais longe que a avistasse ao chegar ao princípio da rua, de súbito o alegrava ao anunciar-lhe:

            "Aí está ela te esperando", e que agora o torturava ao dizer: "lá está ela com aquele a quem esperava". Ele queria saber de quem se tratava; deslizou ao longo da parede até a janela, mas entre as tabuinhas oblíquas dos postigos não distinguia nada; ouvia apenas, no silêncio da noite, o murmúrio de uma conversação. Certamente sofria por ver aquela claridade em cuja atmosfera de ouro se movia, por detrás dos postigos, o casal invisível e detestado; por ouvir aquele murmúrio que revelava a presença daquele que viera após a sua partida, a falsidade de Odette, o prazer que ela iria gozar com esse sujeito.

            E no entanto Swann estava contente por ter vindo: o tormento que o migara a sair de casa já perdera em acidez o que ganhara em precisão, agora que a outra vida de Odette, de que tivera naquele momento a brusca e impotente suspeita, tinha-a ali, iluminada em cheio pela lâmpada, prisioneira sem o saber daquele - o no qual, quando quisesse, entraria para surpreendê-la e capturá-la; ou meteria bater nos postigos como fazia muitas vezes quando chegava muito tarde; pelo menos, Odette ficaria sabendo que ele percebera tudo, que vira a luz e a conversa; e ele, que há pouco a imaginara rindo com o outro de suas ingenuidades, era agora ele quem os via, confiantes no seu engano, em suma enganados por ele a quem julgavam estar longe dali e que já sabia que ia bater nos postigos, talvez o que sentisse naquele momento de quase agradável também fosse coisa que não o apaziguamento de uma dúvida e de uma dor: um prazer de inteligência. Se, desde que estava apaixonado, as coisas tinham recuperado para pouco do delicioso interesse que lhes encontrava antigamente, mas apenas iluminadas pela lembrança de Odette, agora era uma outra faculdade; juventude estudiosa que seu ciúme despertava, a paixão pela verdade, uma verdade que também se interpusesse entre ele e sua amante, só recebe dela, verdade bem individual, cujo único objetivo, de um valor infinito e que uma beleza desinteressada, eram as ações de Odette, suas relações, seus parentes, seu passado. Em qualquer outra época da sua vida, os acontecimentos sem importância e os gestos cotidianos de uma pessoa sempre tinham parecido sentimental para Swann; caso viessem lhe trazer mexericos, julgava-os insignificantes; quanto ouvia, era somente sua mais vulgar atenção que mostrava interesse dos momentos em que se sentia mais medíocre. Mas nesse estranho período de amor, o individual assume algo de tão profundo que essa curiosidade, que, despertar dentro dele em relação às menores ocupações de uma mulher era a mesma que tivera antigamente pela História. E tudo aquilo de que até então tinha vergonha, espiar por uma janela, quem sabe amanhã talvez sondar habilmente indiferentes, subornar os criados, escutar às portas, já não lhe parecia, tanto a decifração de textos, a comparação de testemunhos e a interpretação de pensamentos, senão formas de investigação científica de um genuíno valor inteligente, apropriadas à pesquisa da verdade.

            A ponto de bater nos postigos, teve um momento de vergonha a de que Odette iria saber que ele tinha suspeitas, que voltara, que estava pela rua. Muitas vezes ela falara do horror que lhe causavam os ciumentos, os que espionam. Era bem ridículo o que ia fazer, e ela o detestaria daí em diante, ao passo que naquele momento, enquanto não batia, talvez mesmo que o enganasse ela o amava ainda.

            Quantas venturas possíveis não sacrificamos dessa impaciência de um prazer imediato! Mas o desejo de saber a verdade era tanto que lhe pareceu mais nobre. Sabia que a realidade das circunstâncias, a cuja ação exata teria dado a própria vida, era legível por detrás daquela janela esta luz, como debaixo da capa de um desses preciosos manuscritos, iluminada e a cuja riqueza artística não pode ficar indiferente o sábio que os consultou com grande volúpia em conhecer a verdade que o apaixonava naquele exemplo efêmero e precioso, de uma matéria translúcida, tão cálida e bela. A vantagem que sentia, que tinha tanta necessidade de sentir, sobre eles, menos de saber, do que de poder mostrar-lhes que sabia. Ergueu-se nos pés. Bateu. Não o ouviram. Bateu com mais força, a conversa parecia masculina, que ele procurou descobrir a qual dos amigos de Odette, perguntou:

            -Quem está aí?

            Swann não tinha certeza de conhecê-la. Bateu outra vez. Abriram a janela, depois os postigos. Agora, não havia mais como recuar e, já que ela ia saber de tudo, para não parecer muito infeliz, muito ciumento e curioso, ele se contentou em gritar num tom negligente e alegre:

            - Não se incomode, eu passava por aqui, vi a luz e quis saber se você já não estava indisposta.

            Olhou. Diante dele, dois velhos senhores estavam à janela, um empunhando uma lâmpada, e então viu o quarto, um quarto desconhecido. Tendo o hábito, quando ia à casa de Odette às dez horas, de reconhecer sua janela por ser a única iluminada entre as janelas iguais, enganara-se e batera na janela seguinte que era da casa vizinha.

            Afastou-se com escusas e voltou para casa, feliz porque a satisfação da curiosidade mantivera intacto o seu amor e, depois de ter simulado há tanto tempo, face a Odette, uma espécie de indiferença, por não lhe ter dado, devido ao ciúme, aquela prova de que a amava demais, a qual, entre dois amantes, dispensa, para todo o sempre, de amar bastante aquele que a recebe. Não lhe falou desse episódio mal-aventurado, nem mesmo pensou mais nele. Mas, por momentos, um movimento de suas idéias vinha encontrar a lembrança daquilo, feria-o, aprofundava-o mais, e Swann chegava a sentir uma dor súbita e profunda. Como se tratasse de uma dor física, os pensamentos de Swann não podiam minorá-la; mas pelo menos a dor física, por ser independente do pensamento, este pode se fixar nela, constatar que diminuiu, que cessou temporariamente.

            Mas aquela dor, era bastante relembrá-la, para que o pensamento a criasse outra vez. Querer não pensar nela era pensá-la ainda, sofrê-la ainda. E quando, conversando com amigos, esquecia-se do seu mal, de súbito uma palavra dita por alguém, fazia-o mudar de fisionomia, como um ferido que um desajeitado acaba de tocar sem cuidado no membro dolorido. Quando deixava Odette sentia-se feliz, tranqüilo, lembrava-se dos sorrisos dela, zombeteiros ao falar de um ou outro, eternos para ele, o peso da sua cabeça que ela destacava do eixo para incliná-la, deixá-la cair, quase sem querer, sobre os lábios dele, como fizera da primeira vez no carro, os olhares lânguidos que lhe lançara enquanto estava em seus braços, sempre apertando medrosamente contra seu ombro a cabeça inclinada.

            Mas logo o ciúme, como se fosse a sombra do amor, se completava com a duplicidade daquele novo sorriso que ela lhe dirigira naquela mesma noite-e que, inverso agora, zombava de Swann e enchia-se de amor por outro-, daquela inclinação da cabeça voltada para outros lábios e, dadas a um outro, de todas as marcas de ternura que ela tivera para com ele. E todas as lembranças voluptuosas que ele tinha da casa dela eram outros tantos esboços, "projetos" semelhantes aos que promete um decorador, e que permitiam a Swann se fazer uma idéia das escolhas ardentes, ou lânguidas, que ela poderia ter com outros. De modo que ele chegava a lamentar todo prazer que desfrutara com ela, toda carícia inventada; a doçura que tivera a imprudência de lhe apontar, toda graça que lhe descobria, pois que um instante após iria enriquecer de novos instrumentos seu suplício.

            Este se tornava tanto mais cruel ainda quando lhe vinha a recordação de um breve olhar que havia surpreendido, alguns dias antes, e pela primeira vez nos olhos de Odette. Fora depois do jantar, na casa dos Verdurin. Seja porque Forcheville, sentindo que Saniette, seu cunhado, não estava de favores entre os Verdurin, tomá-lo como bode expiatório, e brilhar à sua custa diante deles, seja que estivesse irritado por uma frase infeliz, que Saniette acabava de dizer e que, aliás, passava despercebida dos assistentes, que não sabiam que alusão malcriada podia contra a vontade daquele que a pronunciara sem qualquer malícia, seja enfim, buscasse há algum tempo uma oportunidade para fazer expulsar da casa, a que o conhecia tão bem, e que ele sabia ser muito delicado para que sua prática não o incomodasse em certas ocasiões, Forcheville respondeu às palavras de Saniette com tamanha grosseria que, pondo-se a insultá-lo, animou-se cada vez mais, à medida que vociferava, com o pasmo, a mágoa e as súplicas do outro, com que o infeliz, depois de ter perguntado à Sra. Verdurin se devia permanecer, ou não tendo recebido resposta, retirou-se balbuciando, com lágrimas nos olhos. Odette assistira impassível à cena, mas quando a porta se fechou sobre si mesmo, fazendo descer de certo modo, em vários graus, a expressão costumeira, para poder nivelar-se na baixeza de Forcheville, ela acendeu um sorriso martelando as pupilas, felicitando-o pela audácia que tivera, e de ironia por aquele que se fazia de vítima; lançara-lhe um olhar de cumplicidade no mal, que bem desejava dizer uma execução, ou não entendo disso.

            -Viu o aspecto dolorido dele?

            Ele achando que Forcheville, quando seus olhos encontravam aquele olhar, repentinamente despido da cólera, ou do simulacro de cólera, que ainda o aquecia, sorriu e respondeu:

            -Seria bastante que fosse amável, e ainda estaria aqui. Um bom ódio faz bem em qualquer idade.

            Um dia em que Swann tinha saído no meio da tarde, para fazer uma visita, não tendo achado em casa a pessoa que esperava encontrar, teve a idéia de ir à casa de Odette, naquela hora em que jamais fora visitá-la, mas que sabia que achava sempre recolhida para fazer a sesta ou escrever cartas, antes da hora e ele teria o prazer de vê-la um pouco sem incomodá-la. O porteiro lhe disse, achava que ela estava em casa; Swann tocou a campainha, julgou ouvir um, passos, mas ninguém abriu. Ansioso, irritado, ele foi para a ruazinha para o outro lado do prédio, e ali se postou, diante da janela do quarto de cortinas, impediam-no de ver coisa alguma, bateu com força nas vidraças, ninguém atendeu. Percebeu que os vizinhos o olhavam. Foi embora, por que, depois de tudo, talvez se enganasse ao julgar ouvir passos; mas preocupado que não podia pensar em outra coisa. Passada uma hora; encontrou-a; ela lhe disse que estava em casa há pouco, quando ele tocara, porém dormia; a campainha a despertara, ela adivinhara que fosse Swann, correra para encontrá-lo mas ele já se fora. Ouvira perfeitamente as batidas na vidraça. Swann reconheceu imediatamente nessas palavras um desses fragmentos de um fato correto que os mentirosos, em aperto, se consolam em fazer entrar na narração de fatos falsos, que eles inventam, julgando que assim têm alguma vantagem e furtam sua semelhança à Verdade. Claro que quando Odette acabava de fazer algo que não desejava revelar, escondia-o no fundo de si mesma. Mas desde que se encontrasse em presença daquele a quem queria enganar, era tomada de uma perturbação, todas as suas idéias lhe fugiam, suas faculdades de invenção e de raciocínio ficavam paralisadas, ela não encontrava na cabeça senão o vazio; no entanto, era preciso dizer alguma coisa, e ela achava em suas mãos, exatamente, aquilo que desejara dissimular e que, sendo verdade ficara ali sozinho.

            Destacava um pedacinho, desimportante em si mesmo, dizendo consigo que, enfim, era melhor desse jeito, visto que era um detalhe verdadeiro, que não oferecia os mesmos perigos de um detalhe falso.

            "Pelo menos isto é verdade", dizia para si mesma, "é sempre uma vantagem, ele pode se informar, vai reconhecer que é verdade, não será isto que vai me trair." Ela se enganava, era aquilo exatamente o que a traía, pois não se dava conta de que esse detalhe verdadeiro apresentava ângulos que só podiam se encaixar nos detalhes contíguos do fato verdadeiro, do qual o destacara de forma arbitrária e que, fossem quais fossem os detalhes inventados entre os quais ela o colocasse, revelariam sempre pela matéria excedente e os vazios não preenchidos que ali não era o seu posto.

            "Ela confessa que me ouviu tocar a campainha, depois bater, e que julgara fosse eu, que tinha vontade de me ver", dizia Swann consigo. "Mas isto não combina com o fato de não me ter aberto a porta."

            Porém não lhe assinalou essa contradição, pois pensava que entregue a si mesma, Odette talvez inventasse alguma mentira que seria um fraco indício da verdade; ela falava; ele não a interrompia, acolhia com uma piedade ávida e dolorosa, as palavras que ela dizia e que ele sentia (justamente porque ela, ao falar, a ocultava por trás delas) conservarem vagamente, como um véu sagrado, a forma, delinearem o molde impreciso dessa realidade infinitamente preciosa e infelizmente incontrolável; o que fazia Odette às três horas, quando ele havia chegado, da qual ele jamais possuiria senão essas mentiras, vestígios divinos e ilegíveis, e que existia na lembrança escamotadora dessa criatura que a contemplava sem saber apreciá-la, mas que nunca a revelaria. Certo, em alguns momentos suspeitava que os atos diários de Odette não eram por si sós, apaixonadamente interessantes, e que as relações que ela pudesse ter com outros homens não faziam emanar, naturalmente, de um modo universal e para todo ser pensante, uma tristeza mórbida; capaz de ocasionar a febre do suicídio. Então percebia que semelhante interesse por essa tristeza, só existia nele como uma doença e que, quando fosse curada, os atos de Odette, os beijos que ela pudesse dar, se tornariam inofensivos, com tantas outras mulheres.             Mas que a curiosidade dolorosa que Swann sentia, não tivesse causa senão em si mesmo, não era motivo para que considerasse irracional, achar essa curiosidade importante e de se empenhar para satisfazer, que Swann chegara a uma idade cuja filosofia; favorecida pela da época, do meio em que tanto vivera, desse grupo da princesa des Laumes, o convencionara que alguém é inteligente na medida em que duvida de tudo; só se achava o real e o incontestável nos gostos de cada um; já não à juventude, e sim uma filosofia positiva, quase médica, de homens que, então exteriorizarem os objetos de suas aspirações, tentam tirar dos anos passados, resíduo fixo de hábitos, de paixões, que possam considerar, neles, como característicos e permanentes, e aos quais, de forma deliberada, hão de querer, para que o tipo de vida que levam possa satisfazer. Swann julgava sensato aceitar a parte de sofrimento que sentia por ignorar o que havia feito Odette, contava a parte de agravamento, que um clima úmido causava ao seu eczema; prever no seu orçamento uma quantia respeitável para obter dados relativos ao emprego, dos dias por Odette, sem o que se sentiria bastante infeliz, da maneira como reservava dinheiro para outras despesas que sabia lhe iriam proporcionar prazer, pelo menos antes de se apaixonar, como o gosto das coleções de boa culinária.

            Quando quis despedir-se de Odette a fim de voltar para casa, ela pediu que ficasse ainda um pouco e o reteve até com vivacidade, pegando o seu momento em que ele ia abrir a porta para sair. Porém, Swann não o percebeu na multidão de gestos, frases e pequenos incidentes que preenchem uma conversação, é inevitável que deixemos passar, sem notar coisa alguma que a nossa atenção, aqueles que escondem uma verdade, que nossas suspeitas não eram ao acaso, e que, pelo contrário, nos fixemos nos que onde nada existe, repetia o tempo todo:

            "É uma pena que tu, que nunca vens à tarde, eu não tenha podido te ver exatamente na única vez que vieste."

            Swann, percebia muito, ela não estava tão enamorada dele, para demonstrar mágoa tão grande, por ter falhado tal visita, mas como ela era bondosa, e desejava agradar-lhe, e ficava muito triste quando ele a contrariava, achou natural que agora também se entristecesse por havê-la privado do prazer de passarem juntos uma hora de prazer, não para ela e sim para ele.             Entretanto, era uma coisa de tão pouca importância, que Swann por fim se espantou com o ar dolorido que Odette continuava ter. Daquele modo, Odette lembrava, ainda mais que de costume, as figuras nas do pintor da Primavera. Naquele momento, tinha a mesma face dolorosa, como que sucumbindo ao peso de uma dor por demais pesada; simplesmente, quando deixam o Menino Jesus brincar com uma romã, olhavam Moisés derramar água numa tina. Já lhe vira uma vez semelhante tristeza, não sabia mais quando. E de repente, lembrou-se: fora quando Odette mentira, ao falar à Sra. Verdurin no dia seguinte daquele jantar a que não comparecera sob o pretexto de que estava adoentada, na verdade, para poder ficar com Swann. Certo que mesmo que fosse a mais escrupulosa das mulheres, não poderia ter remorsos por uma tão inocente mentira. Mas as mentiras costumeiras de Odette eram menos inocentes e serviam para impedir descobertas que lhe poderiam criar dificuldades terríveis com outras pessoas. Assim, quando ela mentia, tomada de pânico, sentindo-se mal armada para se defender, incerta quanto ao êxito, tinha vontade de chorar de cansaço, como ocorre com certas crianças que não dormiram. Além disso, sabia que sua mentira lesava de ordinário o homem a quem a pregava, ficando à sua mercê caso mentisse mal. Então, sentia-se ao mesmo tempo, humilde e culpada diante dele. E, quando precisava dizer uma mentira insignificante, mundana, por uma questão de associação de

sensações e lembranças, ela experimentava o mal-estar de um esgotamento e a mágoa de uma malvadeza.

            Que mentira deprimente estaria ela em vias de dizer a Swann para que ostentasse aquele olhar doloroso, aquela voz lamurienta que parecia se abater sob o esforço que a si mesma se impunha, e pedir perdão? Swann imaginou que era não apenas, a verdade acerca do incidente da tarde; mas, que ela se esforçava por esconder também algo mais atual, talvez ainda não ocorrido e bastante próximo, e que poderia esclarecê-lo quanto a essa verdade. Naquele momento, ouviu um toque de campainha. Odette não parava mais de falar, mas suas palavras não passavam de um gemido: sua pena de não ter visto Swann à tarde, de não lhe ter aberto a porta, se transformara num legítimo desespero.

            Ouviu-se a porta de entrada se fechar de novo e o rumor de um carro, como se alguém tivesse ido embora, provavelmente, alguém que Swann não deveria encontrar e a quem teriam dito que Odette saíra. Então, pensando que bastava ter vindo numa hora que não lhe fosse habitual para atrapalhar tantas coisas que ela não queria que soubesse, Swann sentiu-se invadido por um desânimo, quase desespero. Porém, como amava Odette, como tivesse o hábito de voltar para ela todos os pensamentos, a compaixão que poderia ter sentido por si mesmo, foi por ela que a sentiu, e murmurou:

            "Pobre querida!"

            Quando a deixou, Odette pegou várias cartas que estavam sobre a mesa e lhe pediu que as pusesse no correio. Swann as levou e, logo ao chegar em casa, viu que ainda trazia as cartas consigo. Voltou ao correio, tirou-as do bolso e, antes de as depositar na caixa, leu os endereços. Eram todas para fornecedores, salvo uma para Forcheville. Segurou-a na mão, dizendo para si: "Se consigo ver o que está aí dentro, saberei como ela o chama, como lhe fala, se existe algo entre os dois. Talvez mesmo, não a lendo, cometa uma indelicadeza com Odette, pois, é a única forma de me livrar de uma suspeita, quem caluniosa para ela, destinada, em todo caso, a fazê-la sofrer e que nada mais `a destruir tão logo a carta seja remetida."

            Voltou para casa ao deixar o correio, mas guardara consigo a última. Acendeu uma vela e lhe aproximou o envelope que não tivera a coragem de princípio nada pôde ler, mas o envelope era delgado e, apertando-o contra o interior, pôde ler as últimas palavras devido à transparência. Era uma forma de despedida, bastante fria. Se, em vez de ser ele quem estivesse lendo uma carta de Forcheville, fosse este quem lesse uma carta a Swann, veria expressões muito ternas! Manteve imóvel a carta que dançava dentro do envelope, bem maior depois, fazendo-a deslizar com o polegar, foi trazendo sucessivamente as linhas para a parte do envelope que não era forrada, a única através da qual era possível ler.

            Apesar disso, não distinguia bem; aliás, isto não queria dizer nada, vira o suficiente para ter certeza de que se tratava de uma coisa sem importância, que de modo algum se referia a relações amorosas; era algo que se ligava a Odette. Swann lera muito bem no começo da linha:           "Fiz bem em", entendia o que Odette fizera bem, quando de súbito, uma palavra que a primeira não conseguira decifrar apareceu e iluminou o sentido da frase inteira:

            "Fiz abrir, era meu tio."

            Abrir! Então Forcheville lá se achava quando Swann tocava a campainha, e ela o mandara embora; de onde o rumor que ouvira.

            Então leu toda a carta; no fim, ela se desculpava por ter agido com cerimônia com Forcheville, e lhe dizia que ele havia esquecido seus cigarros na casa dela, a mesma frase que escrevera a Swann numa das primeiras vezes que a fora visitar. Mas para Swann ela havia acrescentado:

            "Se tivesse deixado o coração, eu não o teria devolvido."

            Para Forcheville nada semelhante: nenhuma alusão que desse a entender uma relação entre eles. Aliás, para falar a verdade, tudo aquilo o mais enganado era Forcheville, visto que Odette lhe escreveu para convencê-lo de que o visitante era seu tio. Em suma, era ele, Swann, o homem quem ela dava mais importância e por quem mandara embora o outro. E no entanto, se nada havia entre ela e Forcheville, por que não abrira logo, por que:

            "Fiz bem em abrir, era meu tio"?

            Se nada fazia de mal naquela ocasião, com o mesmo Forcheville poderia explicar a si próprio que ela não tivesse explicado a ele. Swann ficou ali, desolado, confuso e no entanto feliz, diante daquele envelope que Odette lhe confiara sem temor, tão absoluta era a confiança que depositava, a delicadeza; mas através de cuja transparente vidraça a ele se revelava, como quando de um episódio que nunca julgaria possível conhecer, um pouco da Odette, como em uma estreita fenda luminosa aberta em pleno desconhecido, além disso, seu ciúme se alegrava com tal fato, como se tivesse uma vida  independente, egoísta, voraz de tudo o que o alimentava, mesmo às expensas dores de Swann. Agora, o ciúme tinha um alimento e Swann ia poder começara investigar todos os dias com as visitas que Odette receberia às cinco da tarde, aonde se achava Forcheville a essa hora. Pois a ternura de Swann continuava com o mesmo caráter que lhe imprimira desde o princípio, ao mesmo tempo a ignorância em que se encontrava acerca do emprego do dia por Odette e a preguiça cerebral que o impedia de suprir a ignorância com a imaginação.

            No começo, não se sentiu enciumado de toda a vida de Odette, mas apenas dos momentos em que uma circunstância, talvez mal interpretada, o levara a supor que Odette pudesse enganá-lo. Seu ciúme, como um polvo que lança um primeiro tentáculo, depois um segundo e um terceiro, se fixava solidamente àquele momento de cinco horas da tarde, depois a um outro, depois a um terceiro ainda. Mas, Swann não sabia inventar seus sofrimentos. Estes eram apenas a recordação, a permanência de um sofrimento que lhe vinha de fora.

            Porém tudo que vinha de fora lhe causava sofrimento. Quis afastar Odette de Forcheville, levá-la por alguns dias para o sul. Mas achava que Odette era desejada por todos os homens que se encontrassem no hotel e que ela mesma os desejava. De forma que ele, que antigamente, nas viagens, procurava novas pessoas, os grupos numerosos, era visto agora como um selvagem, fugindo ao convívio dos homens como se eles o tivessem ferido cruelmente. E como não seria misantropo, se em todo homem que via enxergava um amante possível para Odette? E assim o ciúme de Swann, mais ainda que o fizera o prazer voluptuoso e risonho que tivera no começo por Odette, alterava o caráter dele e transformava por completo, aos olhos dos outros, o próprio aspecto dos sinais exteriores pelos quais esse caráter se manifestava.

            Um mês depois do dia em que lera a carta dirigida por Odette a Forcheville, Swann foi a um jantar que os Verdurin ofereciam no Bois. No momento em que se preparavam para sair, ele notou conciliáveis entre a Sra. Verdurin e vários dos convidados e julgou compreender que recomendavam ao pianista que não deixasse de comparecer no dia seguinte a uma reunião no Chatou; ora, ele, Swann, não fora convidado.

            Os Verdurin só haviam falado a meia voz e em termos vagos, mas o pintor, sem dúvida distraído, exclamou:

            - Não será preciso luz nenhuma e que ele toque a Sonata ao Luar para, no escuro, iluminar melhor as coisas.

            A Sra. Verdurin, vendo que Swann estava a dois passos, assumiu a expressão em que o desejo de fazer calar quem fala e de manter um ar inocente aos olhos de quem ouve se neutraliza numa intensa nulidade do olhar, onde o signo imóvel da inteligência do cúmplice se dissimula sob os sorrisos do ingênuo e que, por fim, comum a todos os que se apercebem de uma gafe, revela-a instantaneamente, se àqueles que a cometem, ao menos àquele que lhe serviu de objetivo.            Odette assumiu de repente o ar de uma desesperada que renuncia a lutar contra as dificuldades esmagadoras da vida, e Swann contava ansiosamente os minutos que o observavam do momento em que, após ter deixado aquele restaurante, durante a companhia dela, iria poder lhe pedir explicações, conseguir dela que não fosse no dia seguinte a Chatou; ou que ela o fizesse ser convidado, e apaziguasse em seus braços a angústia que experimentava. Enfim, chamaram os carros: Verdurin disse a Swann:

            "Então, adeus, até breve, não é mesmo?", tenta a amabilidade do olhar e a força do sorriso, impedir que Swann percebesse; não lhe dizia, como sempre o fizera até ali:

            "Até amanhã em Chatou, amanhã lá em casa."

            O Sr. e a Sra. Verdurin fizeram que Forcheville embarcasse com o carro de Swann que estava atrás do deles, cuja partida ele esperava por Odette no seu.

            -Odette, vamos levar você - disse a Sra. Verdurin -, temos um lugar para você ao lado do Sr. de Forcheville.

            -Sim, senhora - respondeu Odette.

            - Mas como, eu julgava que ia levar você de volta - gritou Swann, e sem dissimular, as palavras necessárias, pois a portinhola estava aberta, os modos eram contados e ele não podia voltar sem ela do jeito em que estava.

            - Mas a Sra. Verdurin me pediu...

            -Ora, o senhor pode muito bem voltar sozinho, nós o temos deixado uma porção de vezes-disse a Sra. Verdurin.

            - Mas é que eu tenho uma coisa importante para dizer a Odette...

            - Muito bem, escreva-lhe...

            -Adeus - disse Odette, estendendo-lhe a mão.

            Swann tentou sorrir, mas tinha um aspecto apavorado.

            -Viste os modos que Swann se permite ter agora conosco? - disse a Sra. Verdurin ao marido ao chegarem em casa. - Pensei que fosse me esquecer que levávamos Odette. Francamente, é de uma inconveniência! É melhor, que diga que mantemos um bordel! Não compreendo como é que Odette agüenta suas maneiras. Ele dá impressão de estar dizendo: você me pertence. Vou dizer o meu modo de pensar e espero que ela compreenda.

            E ainda acrescentou, um momento depois, cheia de cólera:

            -Não gosto desse excomungado! empregando, sem saber, talvez obedecendo ao obscuro desejo de se justificar (como Françoise, em Combray, quando o frade queria morrer), as palavras que as últimas convulsões de um animal que agoniza, arrancam ao camponês prestes a matá-lo. E quando o carro da Sra. Verdurin partiu e o de Swann avançou, o olhando-o, perguntou se ele não estaria doente ou se lhe acontecera alguma graça.

            Swann mandou-o embora, queria caminhar, e foi a pé pelo Bois sozinho, em voz alta, e no mesmo tom artificial que assumira até ali quando observava os encantos do pequeno núcleo e exaltava a magnanimidade dos jardins.

            Mas assim como as palavras, os sorrisos e os beijos de Odette serem tão odiosos como outrora os achara doces, se dirigidos a outras pessoas que iam ao salão dos Verdurin, que ainda há pouco lhe parecera agradável, respirando um verdadeiro gosto pela arte e até uma espécie de nobreza moral, agora que era um outro, que Odette ali iria encontrar e amar livremente, manifestava-lhe toda a sua imbecilidade, seus ridículos e sua ignomínia.

            Imaginava com desgosto a reunião do dia seguinte em Chatou. "Primeiro, essa idéia de ir a Chatou! Como comerciantes que acabam de fechar sua loja! Na verdade, essas pessoas são sublimes na sua burguesia, não devem existir de fato, devem sair do teatro de Labiche!"

            Lá estariam os Cottard, talvez Brichot. "É bem grotesca, essa vida de pessoas insignificantes, que não conseguem viver uns sem os outros, que se julgariam perdidos, palavra, se não fossem amanhã a Chatou!" Infelizmente, lá estaria também o pintor que gostava de "arrumar casamentos", que convidaria Forcheville com Odette ao seu ateliê. Via Odette com um vestido luxuoso demais para uma reunião no campo, "pois ela é tão vulgar, pobrezinha, e sobretudo tão idiota!".

            Ouvia os gracejos que a Sra. Verdurin faria após o jantar, os gracejos que, fosse qual fosse o maçante a que tivessem por alvo, tinham-no divertido sempre, pois via Odette a rir, rir com ele, quase dentro dele. Agora sentia que talvez fosse dele que iam fazer rir Odette. "Que alegria fétida!", dizia, dando à boca um esgar de desgosto tão intenso que ele próprio teve a sensação muscular de sua careta, até no pescoço retorcido contra o colarinho da camisa.

            "E como é que uma criatura, cujo rosto é feito à imagem de Deus, pode se divertir com esses gracejos nauseantes? Toda narina um pouquinho delicada se revoltaria com horror para não se deixar invadir por semelhantes emanações. Na verdade, é inacreditável pensar que um ser humano possa não compreender que, permitindo-se sorrir de um semelhante que lhe estendeu lealmente a mão, está se degradando até um lamaçal de onde não será mais possível, mesmo com a melhor boa vontade do mundo, reerguê-lo. Moro a muitos milhares de metros acima da escória onde grulham e gralham essas sujas verborréias, para que possa ser respingado com as gracinhas de um Verdurin", exclamou, erguendo a cabeça e retesando orgulhosamente o peito. "Deus é testemunha de que sinceramente quis arrancar Odette de lá, e educá-la numa atmosfera mais nobre e pura. Mas a paciência humana tem limites, e a minha está acabando", disse consigo, como se essa missão de arrancar Odette a uma atmosfera de sarcasmos datasse de muito tempo e não de poucos minutos, e como se não se impusera semelhante tarefa, apenas quando imaginara, que tais sarcasmos talvez, tivessem ele próprio como objeto e cujo propósito seria afastar Odette dele.

            Via o pianista prestes a tocar a Sonata ao Luar e os esgares da Sra. Verdurin, "Assustada com os males que a música de Beethoven ia causar a seus nervos: idiota, mentirosa!", exclamou. "E essa mulher crê amar a Arte!" Ela diria a Odette, de lhe ter insinuado habilmente algumas palavras elogiosas sobre Forcheville, com muitas vezes fizera com ele:

            "Você vai reservar um lugarzinho a seu lado para o Sr. de Forcheville."-"E na escuridão! Intrometida, alcoviteira!" "Alcoviteiro também o nome que ele dava à música que os convidava a se calarem, e juntos, a se contemplarem, a se darem as mãos. E dava razão à severidade das artes demonstrada por Platão, por Bossuet, e pela velha educação francesa. Em suma, a vida que se levava nos Verdurin e que ele tantas vezes tinha à "vida verdadeira" parecia-lhe a pior de todas, e o pequeno núcleo, o último dos ambientes. "Na verdade", dizia consigo, "é o que existe de mais baixo no social, é o último círculo de Dante. Não há dúvidas de que o texto augusto será aos Verdurin! No fundo, como as pessoas aristocratas, das quais se pode dizer mas que assim mesmo são algo bem diverso, desses grupos de gente vulgar, encontra sua sabedoria profunda em recusar-se a conhecê-los, até mesmo tocar com eles as pontas dos dedos! Que poder de adivinhação nesse limitante bairro de Saint-Germain!"

            Há muito já deixara as alamedas do Bois, estava quase chegando em casa e, ainda sofrendo a dor e o brotar da insinceridade, cuja embriaguez era renovada com abundância a cada instante pelas entonações mentirosas da sonoridade artificial de sua própria voz, continuava ainda a discursar em voz baixa no silêncio da noite:

            "As pessoas da alta sociedade têm seus defeitos, ninguém reconhece melhor que eu, mas enfim, trata-se de gente com quem algumas, não são impossíveis. Aquela mulher elegante que eu conheci estava longe de ser esta, mas afinal ainda assim havia nela um fundo de delicadeza, uma lealdade de comportamento que a fariam incapaz, acontecesse o que acontecesse,  menospreza-lo e que era suficiente para cavar um abismo entre ela e uma megera! Verdurin. Verdurin! Que nome! Ah, pode-se dizer que são completos, que são do seu gênero! Graças a Deus já era tempo de não mais condescender naquela vacuidade com essa infâmia, com tais baixezas." 

            Mas, como as virtudes que ele atribuía há pouco aos Verdurin não tivessem bastado, mesmo se as possuíssem de verdade, se não tivessem favorecida proteção ao seu amor, para provocarem Swann semelhante embriaguez, enternecia a respeito da magnanimidade do casal e que, mesmo alardeado de outras pessoas, só poderia lhe chegar por meio de Odette - ou mesmo a imoralidade, ainda que real, que agora ele encontrava nos Verdurin, seria insensatez se eles não tivessem convidado Odette com Forcheville e sem ele, para desencadear a indignação de Swann e fazê-lo ver gastar a "sua infâmia". E sem dúvida, Swann tinha mais clarividência que ele próprio, ao se recusar a pronunciar palavras cheias de nojo pelo grupo dos Verdurin e de alegria de ter acabado aquilo, a não ser num tom artificial e como que escolhidas antes para apaziguar a cólera do que para expressar seu pensamento. De fato, este, enquanto entregava às invectivas, estava provavelmente, sem que ele se apercebesse ocupado com um assunto inteiramente diverso, pois logo que chegara, mal fechara a porta, bateu de súbito na testa e, abrindo a porta de novo, gritando agora com voz natural:

            "Acho que encontrei um meio de ser convidado amanhã a jantar em Chatou!"

            Porém esse meio deveria ser ruim, pois Swann não foi convidado. O doutor Cottard que, chamado à província por um caso grave, não via os Verdurin há vários dias e não pudera ir a Chatou, comentou, no dia seguinte a esse jantar, ao sentar-se à mesa com eles:

            - Não veremos o Sr. Swann esta noite? É bem o que se chama um amigo pessoal do...

            - Espero que não! exclamou a Sra. Verdurin. - Deus nos preserve de tal coisa. Ele é um maçante, um tolo, mal-educado.

            A estas palavras, Cottard manifestou ao mesmo tempo o seu espanto e a sua submissão, como diante de uma verdade contrária a tudo o que havia acreditado até então, porém de uma evidência irresistível; e, baixando o nariz para o prato, com ar emocionado e medroso, contentou-se em responder:

            "Ah, ah, ah, ah!", atravessando aos recuos, em sua retirada de boa ordem, até ao fundo de si mesmo, ao longo de uma escala descendente, todo o registro de sua voz. E não se falou mais em Swann entre os Verdurin.

            E então aquele salão, que reunira Swann e Odette, se transformou num obstáculo a seus encontros. Ela já não lhe dizia, como nos primeiros tempos de seus amores:

            "Em todo caso, nós nos veremos amanhã à noite, há uma ceia nos Verdurin" e sim:

            "Não podemos nos ver amanhã à noite, há uma ceia nos Verdurin."

            Ou então os Verdurin deviam levá-la à Ópera-Cômica para ver Uma Noite de Cleópatra, e Swann lia nos olhos de Odette o medo de que ele lhe pedisse para não ir, que antigamente não se conteria em beijar de passagem no rosto da amante e que agora o exasperava.

            "Não é raiva, entretanto", dizia consigo, "o que sinto ao ver a vontade dela de ir ciscar naquela música estercorária. É desgosto, não certamente por mim, mas por ela; desgosto de ver que depois de ter vivido mais de seis meses em contato diário comigo, ela não conseguiu tornar-se uma mulher bem diversa, para eliminar espontaneamente Victor Massé! Principalmente por não ter chegado a compreender que há noites em que uma criatura de essência um pouquinho delicada, deve saber renunciar a um prazer, quando lhe pedem. Ela deveria saber dizer 'não irei', nem que fosse apenas por cálculo, já que é baseado em sua resposta que se pode classificar, de uma vez por todas, a qualidade de sua alma." E, persuadindo-se de que, era somente para fazer um juízo mais favorável, acerca do valor espiritual de Odette, que ele desejava que naquela noite ela ficasse em sua companhia em vez de ir à ópera-Cômica, expunha-lhe o mesmo raciocínio, com o mesmo grau de insinceridade que a si mesmo, e talvez até num grau a mais, pois então obedecia também ao desejo de retê-la por uma questão de amor-próprio.

            -Juro-te -dizia ele, um pouco antes que ela saísse para o teatro-que, ao ir que não vás, todos os meus anseios, se eu fosse egoísta, seriam para que ficasses, pois tenho mil coisas a fazer esta noite e cairei eu mesmo na própria armadilha e ficarei bem aborrecido se, contrato da expectativa, me responde que não irás. Porém minhas ocupações, meus prazeres, não são tudo, devo pedir a ti. Poderá chegar um dia em que, vendo-me separado de ti para sempre, não tenha direito de me censurares, por não ter te avisado nos minutos decisivos errantes; sentia que ia fazer a teu respeito um desses juízos severos aos quais resisti muito tempo. Vê, Uma Noite de Cleópatra (que título!) não conto nada para o caso. O que interessa saber é se tu és esta criatura que se põe no último degrau do espírito, e até do encanto, o ser desprezível que é ficando a renunciar a um prazer. Então, se és isto, como seria possível te amar, chegas sequer a ser uma pessoa, uma criatura definida, imperfeita mas pelo menos impassível de perfeição? Tu és uma água informe que corre segundo a inclinação se lhe oferece; um peixe sem memória e sem raciocínio que, enquanto vivinho no aquário, há de se ferir mil vezes contra o vidro que continuará a ser água. Compreende que tua resposta, não quero dizer que terá como efeito que deixarei de te amar imediatamente, é claro, mas vai te tornar menos sob meus olhos quando eu compreender que não és uma pessoa, que estás acima de todas as coisas e não saberei colocar-te acima de coisa alguma? Evidentemente, preferiria pedir-te, como algo sem importância, que renunciasses a uma Cleópatra (já que me obrigas a sujar os lábios com esse nome abjeto), na espera de que no entanto fosses. Porém, decidido a passar tudo a limpo, a tirar e conseqüências da tua resposta, achei que era mais leal te prevenir.

            Fazia alguns momentos que Odette dava sinais de emoção e apesar de não entender o sentido daquele discurso, percebia que podia ao gênero comum da "lenga-lenga" e das cenas de recriminações; sendo que a experiência que tinha dos homens lhe permitia, sem se ater a lhes dar palavras, concluir que não as pronunciariam se não estivessem apaixonados e que, no momento em que estavam apaixonados, era inútil obedecer-lhes; ficariam mais apaixonados depois. E, assim, teria escutado Swann com tranqüilidade se não percebesse que a hora passava e que, por pouco que falasse, ela iria, como ele o dissera com um sorriso terno, obstinado e "acabar por faltar à ouverture!"

            Em outras ocasiões, Swann lhe dizia que o que, acima de tudo, para que ele deixasse de amá-la, seria que ela não quisesse desistir dele, "Mesmo do simples ponto de vista da coquetaria", dizia-lhe, "então não cuidas o quanto perdes de tua sedução, abaixando-te para mentires? Como são, quantas faltas não seriam perdoadas? Na verdade, és bem menos do que eu supunha!"

            Mas era em vão que Swann lhe expunha assim motivos que ela teria para não mentir; pois teriam podido arruinar, em sistema geral de mentira; mas Odette não possuía sistema algum; apenas, diante de uma situação em que desejasse que Swann permitisse ignorância do que ela fizera, em nada lhe dizer. Assim a mentira era, para Odette, um expediente de ordem particular; e a única coisa que podia decidi-la se deveria ou não, servir-se dela, ou contar a verdade, era uma razão de ordem particular também, a maior ou menor probabilidade de que Swann descobrisse que ela não dissera a verdade.

            Fisicamente, ela atravessava uma fase ruim; e o encanto expressivo e dolente, os olhares espantados e sonhadores que tivera outrora, pareciam ter desaparecido com a primeira juventude. De modo que tão querida se tornara a Swann no momento, por assim dizer, em que precisamente ele a achava bem menos bonita. Encarava-a longamente para tentar descobrir nela o charme que lhe conhecera, e não o encontrava. Mas saber que sob esta nova crisálida era sempre Odette que vivia, sempre a mesma vontade fugaz, inatingível e sorrateira, era suficiente para que Swann continuasse com o mesmo ardor na tentativa de captá-la. Depois, olhava as fotos de dois anos antes, lembrava-se de como fora deliciosa. E isso o consolava um pouco de sofrer tanto por ela.

            Quando os Verdurin a levavam a Saint-Germain, a Chatou, a Meulan, muitas vezes, se fazia bom tempo, propunham que todos pernoitassem ali mesmo e só voltassem no dia seguinte.          A Sra. Verdurin tentava acalmar os escrúpulos do pianista, cuja tia ficara em Paris.

            -Ela ficará encantada em se livrar de você por um dia. E por que haveria de se inquietar, se sabe que está conosco? Aliás, assumo toda a responsabilidade. Mas, se não conseguisse o que queria, o Sr. Verdurin saía a campo, encontrava um posto telegráfico ou um mensageiro, e perguntava quais os fiéis que tinham alguém que devesse ser prevenido. Mas Odette agradecia, dizendo que não tinha despacho telegráfico para ninguém, pois dissera a Swann, de uma vez por todas, que ficaria comprometida aos olhos de todos se lhe enviasse um despacho. Às vezes, se ausentava por vários dias, os Verdurin a levavam para ver as tumbas de Dreux, ou para Compiegne, a fim de admirar, a conselho do pintor, os ocasos do sol na floresta, e seguiam até o castelo de Pierrefonds.

            "E pensar que ela poderia visitar monumentos de verdade comigo, que estudei arquitetura durante dez anos e que seguidamente sou tentado a conduzir a Beauvais ou a Saint-Loup-de-Naud pessoas de alto valor e só o faria por ela, e em vez disso ela vai, com os últimos brutos, extasiar-se sucessivamente diante das dejeções Luís Filipe e de Viollet-le-Duc! Parece-me que não é preciso ser artista para tanta água, mesmo sem ter um olfato especialmente fino, ninguém vai tirar férias em Danas para ter melhores condições de aspirar excrementos!"

            Mas quando ela partia para Dreux ou Pierrefonds, infelizmente, sem perceber que ele fosse, como por acaso, pois "isto teria um efeito deplorável", dizia ela – e mergulhava no mais embriagador dos romances de amor, o guia das estradas que lhe ensinava os meios de ir juntar-se a ela, à tarde, à noite, naquela mesmo! O meio? Quase mais: a autorização. Pois enfim o guia e os próprios trens não eram feitos para cães. Se faziam saber ao público, por meio de impresso que às oito da manhã partia um trem, que chegava a Pierrefonds às dez, que então ir a Pierrefonds era um ato lícito, para o qual a permissão de supérflua e também era um ato que podia ter um motivo bem diverso que o de encontrar Odette, já que as pessoas que não a conheciam o praticavam entre dias, em número bastante grande para que aquilo valesse a pena de aquelas locomotivas.

            Em suma, ela sequer poderia impedi-lo de ir a Pierrefonds se ele tivesse vontade! Ora, justamente estava sentindo que tinha vontade de ir, e que se tivesse conhecido Odette certamente iria até lá. Fazia muito tempo que uma idéia mais precisa dos trabalhos de restauração de Viollet-le-Duc. Há tempo que fazia, experimentava o desejo imperioso de um passeio pela flor Compiegne.

            E, na verdade, era muito pouca sorte que ela lhe proibisse o único dia que o tentava hoje. Hoje! Se lá chegasse, apesar da sua proibição, poderia ver mesmo! O problema é que se Odette encontrasse em Pierrefonds algum interesse, lhe diria com júbilo:

            "Oh, o senhor aqui!"

            E o convidaria para ir vê-la no hotel em que se hospedara com os Verdurin; pelo contrário, se encontrasse Swann, constrangida, diria que estava sendo seguida, passaria a amá-lo menos, talvez desviasse dele, encolerizada, ao avistá-lo.

            "Então, não tenho mais direito?''- e indagaria ela na volta, ao passo que, em resumo, era ele quem não tinha mais de viajar.

            Por um momento teve a idéia, para não parecer que ia a Compi Pierrefonds a fim de encontrar Odette, de ser levado até lá a convite de um amigo, o marquês de Forestelle, que possuía um castelo nas vizinhanças. Este, ainda dera ciência de seu projeto sem lhe confessar o motivo, não cabia em si e ficara deslumbrado que Swann, pela primeira vez em 15 anos, consentisse em visitar sua propriedade e, conquanto, segundo dizia, não pretendesse prometeu ao menos que fariam excursões e dariam passeios juntos durante dias. Swann já se imaginava lá com o Sr. de Forestelle. Mesmo antes de ver se não conseguisse vê-la, que felicidade seria andar a pé naquele lugar, não sabendo localizar Odette com exatidão por enquanto, sentia palpitar parte a possibilidade de sua brusca aparição: no pátio do castelo, que agradecer parecia mais bonito porque fora vê-lo devido a Odette; em todas as ruas que lhe parecia romanesca; em cada trilho da floresta, rosada por um ocaso ameno; asilos inumeráveis e alternativos, onde vinha simultaneamente refugiar, na incerta ubiqüidade de suas esperanças, seu coração feliz, vagando multiplicado.

            "Sobretudo", diria ao Sr. de Forestelle, "tenhamos o cuidado de dar com Odette ou os Verdurin. Acabo de saber que estão justamente Pierrefonds. Temos bastante tempo para nos vermos em Paris, não vamos deixá-la para não poder dar um passo sem nos toparmos uns com os outros." E seu amigo não entenderia por que, uma vez se achando lá, Swann mudaria vinte vezes de planos, inspecionaria os refeitórios de todos os hotéis de Compiegne sem se decidir sentar-se em nenhum deles, onde, no entanto, não vira sinal dos Verdurin, dando a impressão de procurar aqueles de quem dizia querer fugir e, aliás, fugindo tão logo os tivesse encontrado, pois se encontrasse o pequeno grupo dele se afastaria com afetação, contente por ter visto Odette e que ela o tivesse visto, principalmente que o tivesse visto despreocupado dela. Mas não, ela bem que adivinharia que era por sua causa que ele ali se achava. E, quando o Sr. de Forestelle foi procurá-lo para partirem, Swann lhe disse:

            "Infelizmente não, não posso ir hoje a Pierrefonds, Odette se encontra bem ali," E Swann estava feliz, apesar de tudo, por sentir que, se entre todos os mortais era o único a não ter o direito de ir a Pierrefonds, era porque, de fato, para Odette, ele era alguém diferente dos outros, seu amante, e que essa restrição particular ao direito universal de livre circulação não era mais que uma dessas formas dessa escravatura, desse amor que lhe era tão caro. Decididamente, valia mais não arriscar uma briga com ela, ter paciência, esperar o seu regresso. Passava os dias debruçado a um mapa da floresta de Compiegne como se fosse o mapa do Sentimento, rodeava-se de fotografias do castelo de Pierrefonds. Quando chegou um dia em que era possível que ela regressasse, Swann voltou a abrir o guia, calculou que trem ela tomaria, e, se ela se atrasasse, aqueles que ainda restariam.

            Não saiu de medo de perder um telegrama, não se deitou para o caso em que, tendo vindo no último trem, ela tivesse querido lhe fazer a surpresa de ir vê-lo no meio da noite. Justamente ouvia baterem à porta da rua, parecia-lhe que demoravam a atender, queria acordar o porteiro, punha-se à janela para chamar Odette se fosse ela, pois apesar das recomendações que fizera ao descer mais de dez vezes em pessoa, eram capazes de lhe dizer que não se encontrava em casa. Era um criado que voltava.

            Notou o rodar interminável dos carros que passavam, a que nunca prestara atenção antes. Escutava cada um vir ao longe, aproximar-se, ultrapassar o seu portão sem parar e levar além uma mensagem que não era para ele. Esperou a noite inteira inutilmente, pois tendo os Verdurin antecipado o seu regresso, Odette estava em Paris desde o meio-dia; não tivera a idéia de preveni-lo; não sabendo o que fazer; passara a noite sozinha no teatro e fazia muito que voltara para casa, e já estava dormindo.

            E que nem ao menos pensara nele. E esses momentos em que até se esquecia da existência de Swann eram mais úteis a Odette, serviam melhor para prende-lo a ela que toda a sua coqueteria. Pois, assim Swann vivia naquela agitação toda, que já fora bem possante para fazer eclodir o seu amor, quando não encontrava Odette na casa dos Verdurin e a procurara a noite inteira. E ele tinha, como tivera na minha infância, dias felizes que fizessem esquecer os sofrimentos seriam à noite. Durante os dias, Swann passava-os sem Odette; e por momentos dizia a si mesmo que deixar sair sozinha em Paris uma mulher bonita, era tão imprudente como depor um escrínio cheio de jóias no meio da rua. Então indignava-se contra todos os transeuntes como se fossem outros ladrões. Mas a fisionomia coletiva e informe destes escapava à sua imaginação, não alimentava o seu ciúme. Aquilo cansava o pensamento de Swann, e passando a mão pelos olhos, exclamava:

            "Seja o que Deus quiser", como quando depois de se encarniçarem em abranger o problema da realidade do mundos, ou da imortalidade da alma, concedem ao cérebro exausto a trégua de um ato. Mas, a lembrança da ausente estava sempre mesclada indissoluvelmente ao mais simples da vida de Swann: almoçar, receber o correio, sair, deitar-se, a própria tristeza que sentia em cumpri-los sem ela, como essas iniciais de Ph - o Belo, que, na igreja de Brou, por causa da mágoa que por ele sofria, Margas Áustria mandara entrelaçar por toda parte às suas. Certos dias, em vez de ficar em casa, Swann ia almoçar num restaurante próximo, cuja boa cozinha apreciara, e onde agora já não ia senão por uma destas razões, a um tempo misteriosos e extravagantes, que se denominam romanescas; é que o restaurante (que, existe) trazia o mesmo nome que a rua em que morava Odette: Lapérouse. Às vezes, quando ela estava ausente por pouco tempo, era só depois de vários dias, pensava em fazê-lo ciente de que voltara a Paris. E dizia-lhe, muito simples sem mais ter o cuidado, como outrora, de se resguardar ao acaso com um retirado à realidade, que voltara naquele mesmo instante, pelo trem da manhã e as palavras eram mentirosas; pelo menos para Odette eram mentirosas, inconstantes, não tendo, caso fossem verdadeiras, um ponto de apoio na lembrança chegada à estação; ela até se achava impedida de representá-las no momento em que as dizia, pela imagem contraditória daquilo que fizera de totalmente diverso, no momento em que pretendia ter saído do trem.

            Mas no espírito de Swan ao contrário, tais palavras não encontravam qualquer obstáculo e vinham adquirir a inamovibilidade de uma verdade tão isenta de dúvida, que se alguém lhe dissesse ter vindo pelo mesmo trem e não ter visto Odette ele se convencesse de que o amigo é que se enganava no dia ou na hora, já que sua afirmação combinava com as palavras de Odette. Estas só lhe pareceriam mentirosas se no começo já tivesse desconfiado que o fossem. Para que acreditasse que ela, uma suspeita prévia, era a condição necessária. Aliás, era uma condição. Então, tudo o que Odette dissesse lhe pareceria suspeito.

            Ouvindo-a citar certamente seria o de um dos amantes; uma vez levantada essa hipótese, semanas a se lastimar. Certa ocasião, chegou até a contratar uma agência de investigações para saber o endereço e o emprego do tempo do desconhecido. Deixava respirar quando tivesse viajado, e que acabou por descobrir ser o amigo de Odette, falecido há vinte anos.

            Conquanto, Odette em geral, não permitisse que ele a abordasse em público, dizendo que aquilo daria o que falar, ocorria que se encontravam, às vezes, numa reunião para a qual ambos tinham sido convidados na casa de Forcheville, na do pintor, ou num baile de caridade num ministério. Via-a, mas não ousava ficar com medo de irritá-la, dando a impressão de que estivesse a espioná-Ia, a ver os prazeres que ela desfrutava com os outros; ao passo que voltava solitário e ia deitar-se ansioso; como eu mesmo o faria alguns anos depois, nas noites em que havia visitas em casa, em Combray; lhe pareciam ilimitados porque não lhe vira o fim. E uma vez ou outra, ele conheceu, nessas noites, as alegrias que seríamos tentados, não fosse o sofrer com tanta violência o choque da brusca parada da inquietação, a denominar alegrias tranqüilas, pois consistem num apaziguamento: fora passar por um instante numa reunião na casa do pintor e já se preparava para ir embora; deixava ali Odette mudada numa ilustre desconhecida, no meio de homens a quem seus olhares e sua alegria, que não eram para ele, Swann, pareciam falar de alguma volúpia a ser desfrutada ali ou em outra parte (talvez no "Baile dos Incoerentes", aonde receava que ela fosse logo após) e que provocava em Swann maior ciúme do que a própria união carnal, pois que a imaginava com maior dificuldade. Já estava prestes a passar pela porta do ateliê quando ouviu que o chamavam com estas palavras (que, retirando à festa aquele final que o aterrorizava, tornavam-na retrospectivamente inocente, transformando a volta de Odette em algo não mais tremendo e inconcebível, porém suave e conhecido, que ficaria a seu lado no carro, parecendo um pouco de sua vida diária, e despojava a própria Odette de sua aparência por demais brilhante e alegre, mostrando que era apenas um disfarce que pusera por um instante, para ele mesmo, e não tendo em vista prazeres misteriosos, e do qual já se sentia cansada), estas palavras que Odette lhe lançava, quando ele já transpunha a soleira da porta:

            "Espere uns cinco minutos, estou saindo, podemos voltar juntos e você me deixaria em casa."

            É verdade que um dia Forcheville pedira para ser levado de volta ao mesmo tempo, porém, como tivesse chegado à porta de Odette e solicitasse permissão para também entrar, Odette lhe respondera mostrando Swann:

            -Ah, isso depende deste senhor, peça-lhe. Enfim, entre um instante, se o desejar, mas não por muito tempo, pois previno-o de que ele gosta de conversar tranqüilamente comigo, e que não lhe agradam visitas quando vem. Ah, se conhecesse essa pessoa como eu conheço! Não é mesmo, my love, não é verdade que só eu é que o conheço bem?

            E Swann ainda mais se comovia, talvez, ao vê-la dirigir, desse modo a ele em presença de Forcheville, não apenas estas frases de ternura, de predileção, mas certas críticas, como:

            "Estou certa de que você ainda não respondeu a seus amigos sobre o jantar de domingo. Não vá, se não quiser, mas seja ao menos delicado", ou:

            "Não terá deixado aqui o seu estudo sobre Vermeer para poder adiantá-lo um pouco amanhã? Que preguiçoso! Vou fazê-lo trabalhar", o que provava que se mantinha ao corrente de seus convites sociais e de seus estudos de arte, e que de fato possuíam os dois uma vida em comum. E dizendo aquilo, endereçava um sorriso no fundo do qual ele a sentia completamente sua. Então nesses momentos, enquanto ela preparava a laranjada, de como quando um refletor mal regulado projeta primeiro na parede, em todo o objeto, grandes sombras fantásticas que a seguir vêm incidir e se anular nele; as idéias terríveis e indecisas que ele fazia de Odette, se desvaneciam, junto ao corpo atraente que Swann tinha diante de si. Sentia a brusca suspeita dessa hora passada com Odette, à luz da lâmpada, talvez não fosse uma hora para uso dele (destinada a mascarar aquela coisa tremenda e deliciosa e pensava sem cessar, não podendo imaginá-la bem, uma hora da verdadeira Odette, da vida de Odette; quando ele não se achava presente), com a ceia de teatro e frutas feitas de papelão, mas era talvez uma hora mesmo da Odette, e se ele não estivesse ali, ela teria oferecido a mesma poltrona a Forcheville; e lhe teria preparado não uma bebida desconhecida e sim aquela mesma do lar; pois, o mundo em que Odette morava não era esse outro universo aterrorizante, sobrenatural onde ele passava o tempo a situá-la e que talvez só existisse na imaginação; mas, o universo real, sem qualquer tristeza especial, comportando mesa onde ele ia poder escrever e aquela bebida que lhe seria permitida; todos os objetos que contemplava não só com curiosidade e admiração, também com gratidão idêntica, pois, se o haviam livrado de seus sonhos, em compensação tinham se enriquecido com eles, mostrando-lhe a sua ação palpável, e interessavam seu espírito e ganhavam relevo a seus olhos ao mesmo tempo que acalmavam-lhe o coração.

            Ah, se o destino permitisse que eles tivessem apenas uma só morada; que ele, estando em casa de Odette, como em seu próprio apartamento; se, perguntando ao criado o que havia para almoçar, obtivesse como resposta o cardápio de Odette; se quando Odette quisesse ir passear de manhã na alameda Bois de Boulogne, seu dever de bom marido obrigasse, mesmo sem vontade, a acompanhá-la, carregando-lhe o casaco se ela estivesse com calor; e, à noite, depois do jantar, se ela sentisse vontade de ficar em casa, de chambre; se ele fosse forçado a ficar ali junto dela, a fazer desejasse; então, como os nadas da vida de Swann, que lhe pareciam tão grandes assumiriam, ao contrário, porque ao mesmo tempo fariam parte da vida dele, mesmo os mais familiares como esta lâmpada, esta laranjada, esta poltrona, continham tantos sonhos, materializavam tantos desejos; uma espécie de rã excessiva de uma densidade misteriosa.

            No entanto, duvidava que aquilo que assim lastimava fosse sossegada atmosfera de paz que favorecesse o seu amor. Quando Odette deixasse ele uma criatura sempre ausente, desejada, imaginária; quando o sentimento que tivesse por ela já não fosse aquela mesma perturbação misteriosa que lhe fazia a frase da sonata, mas somente afeição e reconhecimento; quando sem entre eles relações normais, que pusessem fim à sua loucura e à sua tristeza, então sem dúvida os atos da vida de Odette lhe pareceriam pouco interessantes em si mesmos, como já diversas vezes o suspeitara. Por exemplo, no dia em que lera através do envelope a carta dirigida a Forcheville. Considerando seu mal com tanta sagacidade, como se o tivesse inoculado em si próprio para estudá-lo, dizia consigo que, quando estivesse curado, seria indiferente ao que Odette pudesse fazer.

            Mas do íntimo de seu mórbido estado, por assim dizer, tinha medo, como à morte, dessa cura, que de fato seria a morte de tudo o que ele era no momento.

            Depois daquelas noites de sossego, as suspeitas de Swann se acalmaram; abençoava Odette e, na manhã seguinte, mandava para a casa dela as mais belas jóias, pois, as atenções dela na véspera haviam excitado ou a sua gratidão, ou o desejo de vê-las se renovarem, ou um paroxismo de amor, que precisava se expandir. Mas em outras ocasiões o sofrimento lhe voltava, e ele imaginava que Odette era amante de Forcheville e que, quando os dois o tinham visto, do fundo do jantar dos Verdurin, no Bois, na véspera da festa de Chatou; para a qual não fora convidado, pedir-lhe sem êxito, que voltasse com ele, com aquele ar de desespero que até seu cocheiro percebera, voltando depois solitário e derrotado, ela devia ter dito, mostrando-o a Forcheville:

            "Como está furioso, hein!" com aquele olhar brilhante, malicioso, baixo e oblíquo, como no dia em que Forcheville expulsara Saniette da casa dos Verdurin. Então Swann a detestava.

            "Mas também eu sou muito idiota", dizia consigo, "estou pagando com meu dinheiro o prazer dos outros. Bem faria ela em tomar cuidado e não puxar tanto a corda, pois posso muito bem não lhe dar mais nada. Em todo caso, renunciemos por enquanto às gentilezas suplementares! E pensar que, ainda ontem, como ela dissesse ter vontade de assistir à temporada de Bayreuth, fiz a asneira de lhe propor alugar, para nós ambos, um dos lindos castelos do rei da Baviera, nas redondezas. E aliás ela não pareceu muito encantada, ainda não falou nem sim nem não; queira Deus que ela recuse! Ouvir Wagner durante quinze dias com ela, que se preocupa com aquilo tanto quanto um peixe com uma maçã, seria engraçado!"

            E seu ódio, bem como seu amor, tendo necessidade de se manifestar e de agir, fazia com que ele se comprouvesse em levar cada vez mais longe suas pérfidas imaginações, porque, devido às perfídias que atribuía a Odette, detestava-a mais. Poderia, se descobrisse que eram verdadeiras - o que tentava imaginar-, ter ocasião de castigá-la e de extravasar sobre ela sua raiva crescente. Assim, ia ao ponto de supor que receberia uma carta dela, em que lhe pedisse dinheiro para alugar aquele castelo perto de Bayreuth, mas prevenindo-o de que ele não poderia, porque prometera convidar Forcheville e os Verdurin. Ah, como teria gostado de que ela fosse tão audaciosa!

            Que alegria teria em recusar, em redigir a resposta relativa, cujos termos se comprazia em escolher, em enunciar em voz alta, como se de fato tivesse recebido essa carta! Foi o que aconteceu bem no dia seguinte. Ela lhe escreveu. Os amigos tinham manifestado o desejo de assistir à tais representações dos Verdurin e suas apresentações da obra de Wagner e que, se fizesse o favor de enviar o dinheiro, ela teria recebido na casa deles, o prazer de convidá-los depois de ter sido tantas vezes sua vez. Não dizia uma só palavra a respeito dele, ficava subentendido que a presença dos Verdurin excluía a sua.

            Aquela terrível resposta que havia redigido, palavra por palavra. Então, apesar de esperar que jamais pudesse ter serventia, teria ele na véspera, de mandar entregar a Odette. Infelizmente, sentia muito bem que com o dinheiro poderia mesmo alugar casa; que arranjaria facilmente, que ela possuía, ou não sabia distinguir entre Bach e Clapisson. Mas, apesar dos Bayreuth, ela que viveria mais modestamente. Não teria meios de organizar todas as noites, desta vez algumas cédulas de mil francos para o castelo (a não ser que lhe enviasse e ocorresse a fantasia que imaginava, aquelas ceias refinadas após as quais talvez tivesse ocorrido ainda; de cair nos braços de Forcheville. E pelo impossível não seria ele, Swann, quem haveria de pagar! Ah, se, essa viagem execrada, se pudesse impedi-la! Se ela torcesse o pé antes de partir! Se o cocheiro do carro a qualquer preço, que ia conduzi-la; trocasse por quem levasse à estação, concordasse em ser seqüestrada por algum tempo, aquela mulher pérfida; ela permaneceria iluminada por um sorriso de cumplicidade endereçado a Forcheville, que era para Swann nas últimas 48 horas!

            Mas ela não o era assim por muito tempo; ao fim de alguns dias, aquela imagem de um brilho e a duplicidade; brilhante e falso perdia o execrada dizendo a Forcheville:

            ''Como está furioso!" começava a empalidecer – e brilhando docemente, a fisionomia iria apagar-se. Então, aos poucos aparecia  e se elevava, também dirigia um sorriso a Forcheville, de outra Odette, daquela que fizera para Swann, quando ela dizia:

            "Não fique com um sorriso onde só havia ternura, pois este senhor não gosta de que eu receba visitas quando quer ficar comigo. Se o conhecesse como eu conheço!", o mesmo sorriso comigo. Ah, se conhecesse essa pessoa, tinha para agradecer a Swann algum sinal de sua delicadeza, delatando as graves circunstâncias, em que algum conselho que lhe pedira não se confiava.

            Agora que, após semelhante oscilação, Odette voltara naturalmente ao posto de onde a afastara por um momento, ao ângulo do qual a achava encantadora, figurava-a cheia de ternura, com um olhar de consentimento, tão bonita assim, que ele não podia evitar estender-lhe os lábios como se Odette estivesse ali e ele a pudesse beijar; e conservava-lhe tanto reconhecimento, por aquele olhar encantador e bom, como se ela acabasse de lhe dirigir de verdade, e não a sua imaginação apenas que o pintara para satisfazer o seu desejo naquele instante.

            Como deveria tê-la magoado! É claro que descobria motivos válidos para seu ressentimento contra ela; porém, tais motivos não lhe inspirariam tanto ódio se não a amasse muito. Não tinha tido queixas igualmente graves contra outras mulheres, às quais, não obstante, prestaria serviços hoje de boa vontade, sem qualquer ódio por elas, justo por ter deixado de lhes sentir amor? Se algum dia devesse encontrar-se no mesmo grau de indiferença quanto a Odette, compreenderia que somente o ciúme é que o fizera achar algo de atroz e imperdoável nesse desejo, no fundo tão natural, resultado de um pouco de infantilidade e também de uma certa delicadeza de alma, e depor sua vez, já que a ocasião se apresentava, poder retribuir as gentilezas dos Verdurin, fazer o papel de dona de casa.

            Voltava àquele ponto de vista oposto ao do amor e do ciúme, e no qual se postava, às vezes, por uma espécie de eqüidade intelectual e para jogar com as diversas probabilidades do qual tentava julgar Odette como se não a tivesse amado, como se, para ele, se tratasse de uma mulher como as outras, como se a vida de Odette, quando ele já não estava em sua companhia, não fosse diversa, tramada às escondidas dele, urdida contra ele.

            Por que acreditar que ela gozaria, com Forcheville ou com outros, os prazeres embriagadores que não conhecera com ele e que somente o ciúme forjava em todos os detalhes?

            Em Bayreuth, como em Paris, se acontecesse que Forcheville nele pensasse, só poderia ser como alguém que valia muito na vida de Odette, a quem seria obrigado a ceder o lugar quando ambos se encontrassem na casa dela. Se Forcheville e Odette julgavam um triunfo estarem em Bayreuth contra a vontade dele, era ele próprio o culpado ao procurar inutilmente impedi-los de viajar, ao passo que se tivesse aprovado o projeto de Odette, aliás defensável, ela daria a impressão de lá se achar a conselho seu, iria sentir-se enviada por ele, alojada por ele, e o prazer que teria experimentado em receber essas pessoas que tanto a haviam recebido, era a Swann que o devia agradecer. E em vez de ir brigada com ele, sem ter voltado a vê-lo; se lhe enviasse dinheiro, se a animasse a semelhante viagem e se se preocupasse em torná-la confiável a Odette, ela iria acorrer, feliz, agradecida, e ele teria aquela alegria de vê-Ia, de que não desfrutara há quase uma semana e que nada podia substituir, tão logo; Swann podia imaginá-la sem horror, e que revia a bondade do seu coração, se o desejo de arrebatá-la a qualquer outro não se somava ao seu amor por ciúme; esse amor se tornava sobretudo um gosto, pelas sensações que lhe proporcionava a pessoa de Odette, pelo prazer que sentia em admirar, ou em interrogar; como um fenômeno, o erguer-se de um de seus olhos; a formação de um de seus sorrisos, a emissão de uma entonação de sua voz. E prazer, diferente de todos os outros, acabara por criar nele uma necessidade que somente ela poderia satisfazer com sua presença, ou suas cartas, as quais desinteressadas, quase tão artística, tão perversa, como a outra necessidade; caracterizava esse novo período da vida de Swann, onde a secura e a depressão anos anteriores haviam cedido a uma espécie de plenitude espiritual, se soubesse mais a que deveria esse enriquecimento inesperado de sua vida; do que uma pessoa de saúde delicada que, a partir de certo momento, engorda e parece, durante algum tempo, se encaminhar para uma cura; contra esta outra necessidade, que também se desenvolvia fora do mundo real, ao ouvir e conhecer música.

            Assim, pela própria química do seu mal, depois de produzir ciúme seu amor, recomeçava a produzir ternura e piedade por Odette. Ela se foi de novo a boa e encantadora Odette. Sentia remorsos por ter sido duro com ela; que ela se aproximasse dele, porém antes desejava dar-lhe algum prazer, para reconhecimento iluminar-lhe o rosto e modelar o seu sorriso. E assim Odette, certa de tê-lo de volta dentro de alguns dias, tão submisso como antes, pedindo-lhe a reconciliação, acostumava-se a não temer desagradá-lo e até de o irritar, recusando-lhe, quando lhe aprouve favores que ele mais desejava.

            Talvez não soubesse o quanto Swann fora sincero, durante a briga, dizer-lhe que não mandaria dinheiro e tentaria lhe fazer todo o mal possível; talvez também não soubesse de sua sinceridade, senão com ela, ao menos consigo mesmo; em outros casos em que, no interesse do futuro de sua ligação, para com Odette que era capaz de passar sem ela, que sempre seria possível um rompimento; decidia Swann passar algum tempo sem visitá-la.

            Às vezes, ocorria depois de alguns dias em que ela não lhe causara uma nova preocupação; e como sabia que, nas visitas seguintes que lhe faria, podia extrair nenhuma grande alegria mas sim, com toda a probabilidade, desgosto que poria fim à tranqüilidade em que se encontrava. Swann escreve dizendo que, por estar muito ocupado, não poderia ir vê-la em nenhum dos jantares que havia prometido.

            Ora, uma carta dela, cruzando-se com a sua, rogava-lhe que adiasse um encontro. Ele se perguntava por que; suas suspeitas e a dor, voltavam a magoá-lo. Já não podia se manter, nesse novo estado de agitação; se achava, a decisão tomada no estado anterior de relativo sossego, corria até à casa dela e exigia vê-la todos os dias seguintes. E mesmo se ela não fosse a primeira a escrever, se apenas respondesse, concordando com seu pedido para uma curta separação, isso teria bastado para que ele já não mais pudesse ficar sem vê-la. Pois, contrariamente ao cálculo de Swann, o consentimento de Odette mudara tudo dentro dele. Como todos aqueles que possuem algo, Swann, para verificar o que aconteceria se deixasse um instante de possuí-lo, tirara-o do espírito, deixando tudo ali no mesmo estado em que se encontrava quando o possuía. Ora, a ausência de uma coisa não é somente isso, não é apenas uma falta parcial, é uma subversão de todo o resto, um estado novo impossível de prever no antigo.

            Mas de outras vezes, ao contrário -Odette estava prestes a sair de viagem -, era depois de uma pequena rusga, cujo pretexto ele inventara, que Swann se decidia a não lhe escrever e a não revê-la antes do seu regresso, dando assim as aparências e esperando pelas vantagens de um sério rompimento, que ela acreditaria ser definitivo; a uma separação, cuja maior parte era inevitável devido à viagem e que ele apenas fazia principiar um pouco mais cedo. Já imaginava Odette inquieta, aflita por não ter recebido nem visita, nem carta; e essa imagem, acalmando o seu ciúme, tornava-lhe fácil desacostumar-se de vê-la. É claro que, por uns instantes, bem no limite do espírito, para onde a sua resolução a afastava, graças a todo o espaço interposto de três semanas de separação aceita, era com prazer que considerava a idéia de rever Odette quando ela regressasse; mas era também com tão pouca impaciência, que começava a indagar-se se não duplicaria voluntariamente a duração de uma abstinência tão fácil. E essa ausência ainda não datava de três dias, tempo muito inferior ao que já passara muitas vezes sem ver Odette, e sem planeja-lo como agora. E, no entanto, eis que uma ligeira contrariedade ou um mal-estar físico; estimulando-o a considerar o tempo presente como um momento excepcional, fora de série, em que a própria sabedoria admitiria acolher o apaziguamento que traz o prazer e daria trégua à vontade, até a retomada útil do esforço; suspendia a ação desta, que deixaria de exercer sua compressão; ou, ainda menos, a recordação de um esclarecimento que esquecera de pedir a Odette, se ela escolhera a cor de que tencionava pintar seu carro, ou quanto a um determinado valor da Bolsa, se eram ações ordinárias, ou preferenciais o que ela desejava adquirir (seria muito bonito mostrar-lhe que podia ficar sem vê-la; mas depois de tudo, se fosse preciso repintar o carro ou se as ações não dessem dividendos, nada teria adiantado), eis que, como se solta um elástico distendo, ou como o ar em uma máquina pneumática que se entreabre, a idéia de revê-la, das distâncias em que se mantinha, voltava de um salto para o terreno do presente e das possibilidades imediatas.

            Voltava-lhe sem mais achar resistência, e, além disso, tão irresistível que sentia menos dor ao se aproximarem, um a um, os quinze dias que deveria tecer separado de Odette, do que esperar os dez minutos que seu cocheiro levava para atrelar o carro que o iria levar à casa dela, e que ele passava em horas de impaciência e de alegria, e retomava mil vezes, com ternura, a idéia de torna-la, que, por uma reviravolta tão brusca, no momento em que a julgava tão digna, Odette encontrava-se de novo perto dele, na sua mais próxima consciência; desaparecera, como obstáculo, o desejo de tentar lhe resistir de imediato, não existia em Swann desde que provara a si mesmo - era o que acreditava; menos - que aquilo lhe era tão fácil, que não via mais inconveniente algum em uma tentativa de separação que estava certo agora de pôr em andamento se quisesse. É também que essa idéia de revê-la lhe voltava com um toque de sedução, dotada de uma virulência que o hábito havia desgastado, mas se haviam retemperado naquela privação não de três, mas de quinze dias. A duração de uma renúncia deve ser calculada, por antecipação, de acordo termo fixado, e daquilo que, até então, tinha sido um prazer esperado que facilitasse sacrifica, fizera uma felicidade inesperada contra a qual não se tem;  que, por fim, voltava embelezada pela ignorância de Swann quanto ao que ter pensado; ou talvez feito a Odette, vendo que ele não dava sinais de vida, que o que ele ia encontrar era a revelação apaixonante de uma Odette quase desconhecida.

            Porém ela, assim como julgara que a recusa de enviar dinheiro não passava de um engodo, não via senão um pretexto na informação que Swann vir, pedir sobre a pintura do carro ou o valor a comprar. Pois não reconstituía as duas fases de semelhantes crises que Swann atravessava e, na idéia que ela formava de tudo isso, deixava de compreender-lhe o mecanismo, acreditando apenas que conhecia de antemão, ou seja, a fatal, infalível e sempre a mesma conclusão incompleta, e talvez por isso mais profunda se a considerarmos do ponto de vista de Swann, que certamente se julgaria incompreendido por Odette à um morfinômano; ou um tuberculoso, convencidos que foram detidos, um acontecimento exterior no momento em que ia livrar-se de seu hábito investe outro, por uma indisposição acidental, no instante em que ia enfim ser reabilitado se sentem incompreendidos pelo médico, que não atribui a mesma importância que eles a essas pretensas contingências, simples disfarces, segundo ele, de revestir o vício ou o estado mórbido para novamente se fazerem sensíveis doentes, e que, de fato, não deixaram de pesar incuravelmente sobre eles, e se embalavam em sonhos de cura ou regeneração. E, na verdade, o amor de chegar àquele grau em que o médico e, em certas afecções, o cirurgião ousado, perguntam a si mesmos se privar um doente do seu vício, seu mal ainda será razoável, ou até mesmo possível.

            Certamente Swann não tinha consciência direta da amplitude desse, quando buscava medi-lo, parecia-lhe às vezes que diminuíra, estava quase a ser nada; por exemplo, o pouco de gosto, quase o desgosto, que lhe haviam sofrido, antes de amar Odette, seus traços expressivos, sua pele sem frescor, voltavam-lhe em certos dias. ''Verdadeiramente há um progresso sensível", pensava no dia seguinte, "para colocar as coisas com exatidão, eu quase não sentia prazer nenhum, ontem, em estar na cama com ela: é curioso, achava-a até feia."

            E decerto estava sendo sincero, mas seu amor se estendia muito além das regiões do desejo físico. A própria pessoa de Odette não ocupava um grande lugar nesse amor. Quando via o retrato de Odette sobre sua mesa, ou quando ela vinha vê-lo, ele custava a identificar a figura de carne ou de cartão com a constante e dolorosa perturbação que o habitava. Dizia consigo, quase com espanto:

            "É ela", como se de repente nos mostrassem, exteriorizada diante de nós, uma de nossas doenças e que não a achássemos semelhante àquela de que sofremos. "Ela", ele tentava indagar de si mesmo o que seria; pois é uma parecença com o amor e a morte, mais do que essas, tão fluidas, que se repetem sempre: a de nos fazer interrogar mais à frente, de medo que se escape sua realidade, o mistério da personalidade. E essa doença, que era o amor de Swann, multiplicara-se de tal maneira, estava tão estreitamente unida a todos os seus hábitos, a todos os seus atos, seu pensamento, sua saúde, seu sono, sua vida, até ao que ele desejava depois da morte, formava de tal modo um todo só com ele, que não seria possível arrancá-lo de Swann sem o destruir quase por inteiro: como se diz em cirurgia, seu amor não era mais operável.

            Por causa desse amor, Swann fora de tal forma destacado de seus interesses, que quando, por acaso, voltava à sociedade, dizendo consigo que suas relações, como uma cravação elegante que aliás, ela não saberia estimar com exatidão, podiam lhe render algum proveito aos olhos de Odette (o que talvez fosse verdadeiro, de fato, se não tivessem sido aviltados por esse mesmo amor, que, para Odette, depreciava todas as coisas que tocava devido a que parecia proclamá-las menos preciosas), experimentava ali, junto com o abandono de estar nesses locais, no meio de pessoas que ela não conhecia, o prazer descompromissado que teria em ter um romance, ou em ver um quadro em que são pintados os divertimentos de uma classe ociosa; como, em casa, agradava-lhe considerar o funcionamento de sua vida doméstica, a elegância do seu guarda-roupa e da criadagem, o bom investimento do seu dinheiro, da mesma maneira que ler em Saint-Simon, que era um de seus escritores prediletos, a mecânica dos dias, o cardápio das refeições de Mme. de Maintenon, ou a prudente avareza e a suntuosidade de Lulli. E na frágil medida em que semelhante destacar-se não era absoluto, a razão desse novo prazer, que Swann desfrutava, consistia em poder emigrar, durante um momento, para as raras partes de si mesmo que permaneciam quase estranhas a seu amor e ao seu desgosto. Sob tal aspecto, a personalidade que lhe atribuía a minha tia-avó, de "filho de Swann", distinta de sua personalidade, mais individual de Charles Swann, era aquele que ele agora mais se comprazia.

            Um dia em que, pelo aniversário da princesa (e porque ela poderia muitas vezes ser indiretamente agradável a Odette, obtendo-lhe convites para espetáculos de gala e comemorações), quisera lhe dar umas frutas, não sabendo como encomendá-las, encarregou disso uma de sua mãe que, encantada por lhe prestar um serviço, escrevera-lhe comunicando que não comprara todas as frutas no mesmo local: as uvas no Crapote, por sua especialidade, os morangos no Jauret, as peras no Chevet, onde eram bonitas, etc., "cada fruta visitada e examinada uma a uma por mim". E de fato, os agradecimentos da princesa, Swann pudera avaliar o perfume dos morangos e a maciez das peras. E, sobretudo, "cada fruta visitada e examinada uma a uma por mim" tinha sido um alívio à sua mágoa, reportando-lhe a consciência para a região aonde ele ia raramente, conquanto lhe pertencesse por direito, na condição de herdeiro de uma família da rica e boa burguesia, em que se conservavam contrariamente, prontos a se porem a seu serviço assim que o desejasse, o conhecimento dos "bons endereços" e a arte de bem saber fazer uma encomenda.

            De fato, esquecera há muito que era o "filho de Swann" para que sentisse, quando tornava a sê-lo por um instante, um prazer mais vivo do que pudera experimentar no restante do tempo e a respeito dos quais já estava entediado; e se a amabilidade dos burgueses, para os quais continuara principalmente um Swann, era menos viva que a da aristocracia (porém, aliás elogiosa, pois ao menos entre eles nunca se separada a consideração), uma alteza, alguns divertimentos principescos, que esta lhe propusesse, não lhe seria tão agradável, como a que lhe pedisse para testemunhar, ou apenas a um casamento na família de velhos amigos de seus pais, alguns dos quais continuavam a vê-lo como meu avô que, no ano anterior, convidara-o para o casamento da minha mãe - e outros que mal o conheciam pessoalmente, mas só estavam obrigados pela polidez para com o filho, digno sucessor do falecido Sr. Swann.

            Mas, pelas intimidades já velhas que tinham entre eles, as pessoas da sociedade, em certa medida, faziam também parte de sua casa, de sua criação, de sua família. Sentia, considerando suas brilhantes amizades, o mesmo externo, o mesmo conforto, que em olhar as terras bonitas, a bela prataria, jogo de mesa que lhe chegara dos seus. E a idéia de que, se caísse em casa de um ataque, seria naturalmente ao duque de Chartres, ao príncipe e duque de Luxemburgo e ao barão de Charles que seu criado recorreria, dava o mesmo consolo que à nossa velha Françoise, o fato de saber que seria morto em finos lençóis de sua propriedade, marcados, não cerzidos (ou cerzidos habilmente, que poderiam dar a mais alta idéia do trabalho da costureira), mas de cuja imagem freqüente ela extraía uma certa satisfação, se não bem menos de amor-próprio. Mas sobretudo, como em todas as ações e pensa sobre Odette, Swann estava constantemente dominado e dirigido pelo senso in confesso de que lhe era, talvez não menos caro, porém menos agradável que qualquer um, que o mais tedioso fiel dos Verdurin - quando se reportavam ao mundo onde era tido como pessoa distinta por excelência, onde faziam tudo para atraí-lo, onde ficavam tristes por não vê-lo, e recomeçava a crer na existência de uma vida mais feliz, quase experimentando-lhe o apetite, como se dá com um enfermo acamado, há meses em dieta, e que lê num jornal o cardápio de um almoço oficial, ou o anúncio de uma excursão à Sicília.

            Se era obrigado a dar desculpas às pessoas da sociedade para não visitá-Ias, era justamente de visitá-la que procurava escusar-se com Odette. Tais visitas, ainda as pagava (perguntando-se no fim do mês, por pouco que tivesse abusado da paciência de Odette, indo vê-la amiúde, se bastava enviar-lhe quatro mil francos), e para cada uma encontrava um pretexto, um presente para lhe dar, uma informação de que ele precisava, o Sr. de Charles, a quem encontrara no meio da rua indo à casa dela e exigira que Swann o acompanhasse. E à falta de pretexto, pedia ao Sr. de Charles que corresse à casa de Odette, e lhe dissesse espontaneamente, durante a conversação, que se lembrava de ter falado com Swann e que ela, Odette, fizesse o favor de mandar chamá-lo de imediato; porém, no mais das vezes, Swann esperava em vão e o Sr. de Charles lhe dizia, à noite, que seu ardil fracassara. De forma que Odette, além de se ausentar agora com freqüência, mesmo em Paris, via-o poucas vezes, e ela, que, quando o amava, costumava dizer-lhe:

            "Estou sempre livre" e "Que me importa a opinião alheia", agora, a cada vez que ele desejava vê-la, recorria às conveniências ou pretextava estar ocupada. Quando Swann falava em ir a uma festa de caridade, a uma vernissage, a uma estréia a que ela iria comparecer, Odette retrucava que ele queria proclamar a sua ligação; que a tratava como uma mulher à toa. A tal ponto que, para não se ver em toda parte privado de encontrá-la, Swann, que sabia que ela conhecia e gostava muito de meu tio-avô Adolphe, de quem também fora amigo, foi vê-lo um dia no seu pequeno apartamento da rua de Bellechasse, a fim de pedir-lhe que usasse sua influência sobre Odette. Como ela sempre assumisse ares poéticos, ao falar a Swann sobre meu tio, dizendo:

            "Ah, ele não é como você; é coisa muito mais bela, tão imensa, tão bonita a sua amizade para mim! Não seria ele a me dar tão pouco valor, a ponto de se mostrar comigo em todos os lugares públicos", Swann ficava embaraçado e não sabia que tom adotar para falar sobre ela ao meu tio. Primeiro, estabeleceu a excelência, a priori, de Odette, o axioma de sua supra-humanidade seráfica, a revelação de suas virtudes não demonstráveis e cuja noção não podia derivar da experiência.

            "Quero lhe falar. O senhor bem sabe que mulher superior a todas, que criatura adorável, que anjo é Odette. Mas sabe o que é a vida de Paris. Nem todos conhecem Odette sob os "Pactos que a conhecemos, o senhor e eu. Então, há pessoas que acham que desempenho um papel um tanto ridículo; ela não admite sequer que a encontre no teatro. O senhor, em quem ela deposita tanta confiança, não poderia dizer-lhe umas palavras a meu favor, e dar-lhe a certeza de que está exagerando, o mal que pode lhe causar um cumprimento de minha parte?"

            Meu tio aconselhou que Swann passasse uns dias sem ver Odette - faria aumentar o amor dela, e a Odette que deixasse que Swann a encontrasse quando lhe aprouvisse. Dias depois, Odette dizia a Swann que acabava de se decidir, ao ver que meu tio era igual a todos os homens, pois tentara possuí-la. Acalmou Swann, que no primeiro instante quis ir desafiar meu tio, e recusar apertar-lhe a mão quando o encontrou de novo. Swann tanto mais lastimou rompimento com meu tio Adolphe, pois desejara, se o houvesse visto as vezes, conversar confiadamente com ele, e tentar esclarecer alguns fatos relativos à vida que Odette levara outrora em Nice. Ora, meu tio Adolphe passava o inverno em Nice e Swann pensava que fora ali talvez que ele tivesse coagido Odette. O pouco que escapara a alguém diante dele, em relação a um homem, teria sido amante de Odette, abalara Swann profundamente. Mas as coisas que antes de as conhecer, teria considerado mais terríveis de saber e mais impossível de acreditar, tão logo as conhecia eram incorporadas para sempre à sua mente e admitia-as, não mais podia compreender que não tivessem acontecido. Certa vez acreditou mesmo compreender que essa leviandade do costume de Odette, da qual não suspeitara, era bem conhecida e que, em Bade, quando ela ali passara antigamente alguns meses, adquirira uma notoriedade. Swann buscou aproximar-se de certas pessoas, para interrogá-las; porém sabia que elas conheciam Odette; e depois, Swann tinha medo de as trazer perto de novo dela, de pô-los no seu rastro. Mas ele, a quem até então nada parecia aborrecido do que tudo o que se referisse à vida cosmopolita de Bade ou sabendo que Odette levara uma vida de festas nessas cidades de prazeres, ele nunca devesse descobrir se era apenas para satisfazer necessidades de que, graças a ele, Odette já não tinha, ou caprichos que poderiam renascer agora se debruçava com angústia impotente, cega e vertiginosa, sobre o sem fim aonde tinham ido se engolfar esses anos do começo do Sept [Septenato: na França republicana, período de sete anos do governo de um presidente. No caso, pode aludir ao governo de Mac-Mahon (1873-1879). (N. do T)] durante os quais passava-se o inverno no Passeio dos Ingleses, e o verão nas tílias de Bade, e encontrava-lhes uma esplêndida porém dolorosa profundidade a que lhes teria atribuído um poeta; e teria se empenhado em reconstitui-los nos fatos da crônica da Côte d'Azur da época, se ela o pudesse ajudar a conceder algo dos sorrisos ou dos olhares de Odette. Entretanto, tão simples e com mais paixão que o esteta que interroga os documentos, subsiste Florença do século XV, para penetrar mais profundamente no espírito da Praça da bela Vanna, ou da Vênus, de Botticelli. Muitas vezes, sem lhe dizer nada, pensativo; ela dizia:

            "Como estás triste."

            Não fazia muito tempo que, da idéia de que ela era uma pessoa bondosa, semelhante às melhores que conhecia, Swann passara à idéia de que Odette era uma mulher sustentada; de modo inverso, sucedera-lhe depois voltar, da Odette de Crécy; talvez bem conhecida dos aproveitadores, dos mulherengos, àquela fisionomia de expressão por vezes tão doce, àquela natureza tão humana. Pensava:

            "Que significa isso de que em Nice todo mundo sabe quem é Odette de Crécy? Essas

reputações, mesmo sendo verdadeiras, são estabelecidas com as idéias alheias"; pensava que essa lenda, mesmo que fosse autêntica, era exterior à Odette, não fazia parte dela como uma personalidade irredutível e malfeitora; que a criatura que pudera ser levada a proceder mal era uma pessoa de olhos bonitos, coração cheio de piedade pelos sofrimentos, uma mulher de corpo suave que ele havia possuído, que apertara nos braços e manejara, uma mulher que um dia poderia chegar a possuir inteiramente, se conseguisse tornar-se indispensável a ela. Ali estava ela, muitas vezes cansada, o rosto por um momento vazio da preocupação febril e alegre das coisas desconhecidas que faziam Swann sofrer; ela afastava os cabelos com as mãos; sua testa e seu rosto pareciam mais amplos; então, de súbito, alguma idéia simplesmente humana, um bom sentimento como os que há em todas as criaturas, quando, num instante de repouso ou de recolhimento, se entregam a si mesmas, brotava de seus olhos como um raio amarelo de ouro. E logo toda a sua fisionomia se iluminava como uma campina cinzenta, coberta de nuvens que subitamente se afastam, para sua transfiguração no momento do sol poente. A vida que estava em Odette nesse momento, e até o futuro que ela parecia contemplar sonhadoramente, Swann teria podido compartilhá-los com ela; nenhuma agitação malsã parecia ter deixado qualquer resíduo ali. Por mais raros que se tornassem, tais momentos não foram inúteis. Por meio da recordação, Swann ligava essas parcelas, abolia os intervalos, fundia como em ouro uma Odette de bondade e calma para a qual fez mais tarde (como veremos na terceira parte desta obra) sacrifícios que a outra Odette não teria conseguido. Mas como eram raros tais momentos e como ele a via pouco agora! Mesmo quanto aos seus encontros à noite, ela só dizia no último minuto se poderia estar com ele, pois, certa de que Swann estaria sempre livre, ela primeiro queria ter certeza de que nenhuma outra pessoa lhe proporia ir visitá-la. Odette alegava que era obrigada a esperar uma "Posta da máxima importância'' e até mesmo se, depois de mandar vir Swann, já no começo da noite, amigos seus lhe pediam que os encontrasse no teatro ou num restaurante, ela dava um salto de alegria e começava a se arrumar às pressas. À medida que adiantava a toalete, cada movimento que fazia aproximava Swann do instante em que teria de deixá-la, em que ela fugiria num ímpeto irresistível. Quando, pronta enfim, mergulhava uma vez mais no espelho os olhares tensos e iluminados pela atenção, recomeçava a pôr um pouco de batom nos lábios, fixava a mecha de cabelos na testa e pedia sua capa de azul-celeste com borlas de ouro. Swann tinha uma cara tão triste, que ela não podia reprimir um gesto de impaciência e dizia:

            "É assim que me agradeces por ter te deixado ficar comigo até o momento. E eu que julgava ter feito algo gentil. É bom saber disso para a vez!"

            Às vezes, arriscando-se a enfurecê-la, Swann prometia a si mesmo para saber aonde ela fora, imaginava uma aliança com Forcheville, que talvez lhe desse informações. Aliás, quando sabia com quem Odette saíra à noite, era bem não pudesse achar entre seus amigos alguém que conhecesse, mesmo intimamente, o homem que a acompanhara, e lhe pudesse obter algum esclarecimento, enquanto ele escrevia a um dos amigos para pedir que procurasse esclarecer aquele ponto, experimentava a necessidade de descansar e deixar de perguntas sem respostas, e de transferir a outros a fadiga de proceder a um interrogatório. É verdade que Swann não ficav