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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NOITES PERVERSAS / Gena Showalter
NOITES PERVERSAS / Gena Showalter

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

 

Líder do exército mais poderoso dos céus, Zacharel é considerado quase muito perigoso, muito cruel e se não tomar cuidado, perderá suas asas. Mas esse guerreiro com coração de gelo não será dissuadido de suas missões por nada... até um ser humano vulnerável tentá-lo com um prazer carnal que nunca conheceu antes.

Acusada de um crime que não cometeu, Annabelle Miller passou quatro anos numa instituição para criminosos insanos. Demônios acompanham cada movimento seu, e nada impedirá seu rei de tê-la. Zacharel é sua única esperança de sobrevivência, mas será o anjo brutal com um toque tão quente como o inferno sua salvação ou sua condenação definitiva?

 

 

 

 

Na manhã de seu aniversário de dezoito anos, Annabelle Miller acordou com a sensação do sonho mais incrível, e logo sentiu como se seus olhos fossem arrancados, mergulhados em ácido e empurrados de volta em suas órbitas. Tornou-se consciente da sensação aos poucos, sua mente ainda enevoada pelo sono. Quando finalmente atingiu plena consciência, todo seu corpo ficou tenso e se curvou, um grito saindo livre de sua garganta.

Ela ergueu suas pálpebras inchadas, mas... não havia luz nascente. Recebeu apenas escuridão.

A dor se espalhou, montando as ondas muito rápidas em suas veias e ameaçando explodir através de sua pele. Ela esfregou o rosto, o agarrou mesmo, esperando remover o que estava provocando o problema, mas não havia nada fora do comum. Nem caroços, nem arranhões. Não... Espere. Havia algo. Um líquido quente agora revestia suas mãos.

Sangue?

Outro grito a deixou, seguido de outro e outro, cada um parecendo um pedaço de vidro raspando a garganta crua. Em segundos, o pânico a mastigou e cuspiu. Estava cega, sangrando — e morrendo?

O lamento de dobradiças, a batida de saltos altos contra o piso de madeira.

—Annabelle? Está bem? — Uma pausa, em seguida, um silvo de respiração. —Oh, querida, seus olhos. O que aconteceu com seus olhos? Rick! Rick! Depressa!

A maldição foi seguida por pisadas duras, rápidas. Um segundo depois, um suspiro horrorizado encheu seu quarto.

—O que aconteceu com seu rosto? — berrou seu pai.

—Não sei, não sei. Estava assim quando acordei.

—Annabelle, querida. — Seu pai, agora tão suave e carinhoso. —Pode me ouvir? Pode me dizer o que aconteceu com você?

Annabelle tentou falar.

—Papai, me ajude, por favor, me ajude — mas as palavras se tornaram diamantes duros e muito irregulares para engolir. E oh, querido céu, migraram para o peito queimando, chamas cintilantes cada vez que seu coração batia.

Braços fortes deslizaram sob ela, um em seus ombros, o outro em seus joelhos e ela foi levantada. O movimento, medido como fosse, a balançou, ampliando sua dor e ela gemeu.

—Tenho você, querida — assegurou seu pai. —Vamos levá-la para o hospital e tudo ficará bem. Prometo.

Nitidamente seu pânico diminuiu. Como não podia acreditar? Nunca fez uma promessa que não conseguisse manter, e se ele achava que tudo ficaria bem, tudo ficaria bem.

Seu pai a levou para o SUV na garagem e a colocou no banco de trás enquanto os soluços da mãe ecoavam. Seu pai não se incomodou com o cinto, apenas fechando a porta e prendendo Annabelle lá dentro. Esperava que sua porta em seguida abrisse, depois a de sua mãe. Esperava que seus pais entrassem e a levassem ao hospital, como prometido, mas... nada.

Annabelle esperou... e esperou... segundos tiquetaqueando com lentidão excruciante, a irregularidade de suas inalações se prendendo pelo odor de ovos podres, fétidos e afiados o suficiente para beliscar suas narinas. Ela se encolheu, confusa e assustada pela mudança no ar.

—Papai? — disse ela. Seus ouvidos se contraíram enquanto ouvia atentamente sua resposta, mas tudo que ouviu foram... abafadas vozes através do vidro.

O ranger estridente de metal sendo riscado.

Uma risada sinistra... um grunhido de agonia.

—Vá para dentro, Saki — seu pai gritou em tom apavorado que Annabelle nunca o ouviu usar antes. —Agora! — Saki, sua mãe gritava agora.

Fazendo caretas através da dor, Annabelle conseguiu lutar para ficar sentada. Milagrosamente o incêndio insuportável nos olhos finalmente desapareceu. Quando enxugou o sangue, pequenos raios de luz perfuraram sua linha de visão. Um segundo se passou, dois e, em seguida, a propagação da luz, as cores aparecendo, azul aqui, amarelo ali, até que estava vendo o contorno completo da garagem.

—Não estou cega! — ela gritou, mas o alívio durou pouco.

Viu seu pai protegendo sua mãe contra a parede oposta, seu olhar indo e voltando, mas nunca focando em nada específico. Cortes terríveis marcavam suas bochechas, gotejando sangue... pingando de cada um.

Choque e horror se misturaram, se tornando uma avalanche incontrolável caindo através de cada centímetro dela. O que aconteceu com ele? Não havia ninguém no pequeno recinto e...

Um homem se materializou na frente de seus pais.

Não, não era um homem, mas um... um... O que era isso?

Annabelle se empurrou atrás, batendo do outro lado do carro. O recém-chegado não era um homem, mas uma criatura arrancada do fundo do seu pior pesadelo. Outro grito se formou, este alojado na garganta ressecada. De repente não conseguia respirar, só podia olhar com repulsa.

A... coisa era assustadoramente alta, o topo de sua cabeça roçando o teto que ela não poderia alcançar com uma escadinha. Ele possuía ossos bárbaros e dentes enormes que apenas leu em romances de vampiros, com a pele mais escura sombreada de carmim e tão lisa como vidro. Garras nas pontas dos dedos escorriam com sangue. Asas pretas retorcidas se estendiam em suas costas e chifres pequenos se projetavam ao longo da sua coluna. Uma cauda longa e fina se enrolava na base, terminando numa ponta de metal encharcada de sangue que rangia contra o piso de concreto, enquanto ele se agitava ida e volta, ida e volta.

Fosse o que fosse, suspeitava que havia causado os ferimentos de seu pai — e que só causaria mais.

O medo superou todas as outras emoções dentro dela, mas ainda assim avançou, batendo seu punho contra a janela e forçando a voz a funcionar.

—Deixe meus pais sozinhos!

A besta olhou para ela com olhos incrivelmente lindos que lembravam rubis recém-cortados. Ele mostrou as afiadas presas numa paródia de sorriso — antes de enfiar suas garras na garganta de seu pai.

Num instante rasgou a carne e o sangue pulverizou numa linha fina na janela do carro. Seu pai caiu... bateu no chão... suas mãos se envolveram em torno de sua garganta, gemendo com sua boca aberta enquanto engasgava pelo ar que não podia, não conseguia achar.

Um soluço a deixou, formado pela incredulidade, mas afiado pela raiva.

Sua mãe gritou, explorando a garagem com olhos arregalados, como seu pai fez, como se não tivesse ideia da ameaça vindo. Suas mãos estavam sobre sua boca e lágrimas escorriam por seu rosto, manchadas pelo sangue salpicado lá.

—N-não nos machuque — ela gaguejou. —Por favor, não.

Uma língua bifurcada desviou para fora, como se provando seu medo.

—Gosto da maneira que implora, fêmea.

—Pare! — Annabelle gritou. Tinha que ajudá-la, tinha que ajudá-la. Ela abriu a porta do carro e voou para fora, só para escorregar numa piscina de sangue de seu pai — não. Não, não, não. — Engasgando, lutou para ficar de pé. —Tem que parar!

—Corra, Annabelle. Corra!

Mais da risada estranha — antes que aquelas garras golpeassem, silenciando sua mãe. Sua mãe, que entrou em colapso.

Chocada, Annabelle parou de lutar. Caiu no chão, indiferente de como o oxigênio explodia de seus pulmões. Sua mãe... em cima de seu pai... se contorcendo... se acalmando.

—Isso não pode estar acontecendo — ela balbuciou. —Isto não está acontecendo.

—Oh, sim — disse a criatura numa profunda e rouca voz. Ela notou o tom de diversão, como se o assassinato de seus pais não fosse nada mais que um jogo.

Assassinato.

As.sas.si.na.to.

Não. Não assassinato. Não podia aceitar essa palavra. Foram atacados, mas escapariam. Tinham que escapar. Seu coração batia contra suas costelas, bile abrindo caminho por seu peito e depois por sua laringe.

—O-os policiais estão a caminho — ela mentiu. Não era o que diziam todos os especialistas em reality shows de sobrevivência que devia fazer para salvar a si mesma? Dizer que a ajuda estava a caminho? —Vá. Saia. Não quer mais p-problemas, q-quer?

—Humm, amo o som de mais problemas. — O monstro virou, a enfrentando totalmente, seu sorriso se expandindo. —Vou provar isso. — Começou a golpear... rasgar... rasgar os corpos... roupas e pele se rasgando, ossos quebrando, polpa e tecido voando.

Não podia processar.

Não podia... Mas ah, realmente podia. Sabia. Se seus pais tinham qualquer chance de sobreviver, essa chance agora tinha murchado até as cinzas.

Fique de pé! Vai deixar essa coisa mutilar as pessoas que ama. Vai permitir que a mutile, também? E seu irmão, lá em cima, sozinho, provavelmente dormindo e despreparado para o massacre?

Não e não! Com um rugido que brotou de uma jovem alma triturada pela dor, Annabelle se lançou no peito enorme e quadrado e socou aquela cara feia. O monstro caiu atrás, mas rapidamente se recuperou, a girando e prendendo. As asas se esticaram, cortando o resto do mundo, para que apenas os dois existissem.

Ela ainda socava e socava e socava. Por algum motivo, a criatura nunca encostou sua garra nela. Na verdade, desviava suas mãos e tentava... beijá-la? Rindo, rindo, nunca parando o riso, pressionou seus lábios contra os dela, soprou seu hálito fétido em sua boca e estremeceu com prazer sublime.

—Pare — ela gritou, e ele enfiou sua língua tão terrivelmente profunda que ela engasgou de novo.

Quando ele levantou sua cabeça, deixou uma gosma incandescente atrás, a substância repugnante cobrindo a parte inferior de seu rosto. Êxtase brilhava em seus olhos.

—Agora, isso vai ser divertido — ele disse, e então se foi, desaparecendo num sopro de fumaça podre.

Por um longo tempo, Annabelle se sentiu paralisada na mente e no corpo. Apenas suas emoções estavam em movimento, e cresciam num ritmo alarmante. O medo... o choque... a dor... cada uma pressionando contra seu peito, quase a sufocando.

Faça alguma coisa! Finalmente, a cintilação de um pensamento. Ele podia retornar a qualquer momento.

A percepção deu-lhe a força para se libertar da prisão. Escorregando e deslizando, abriu caminho para os corpos de seus pais. Corpos que não podia juntar novamente, não importa o quanto tentasse.

Embora tudo dentro dela se rebelasse com o pensamento, tinha que deixá-los se esperava salvar seu irmão.

—Brax! — ela gritou. —Brax! — Ela tropeçou seu caminho para a casa e ligou para o 911. Depois de uma explicação precipitada, deixou cair o telefone e correu lá em cima, gritando novamente por seu irmão. O encontrou em seu quarto, dormindo pacificamente.

—Brax. Acorde. Tem que acordar. — Não importava o quão forte o balançasse, ele apenas murmurou sobre querer mais alguns minutos.

Ela permaneceu com ele, o protegendo, até que os socorristas chegaram. Ela mostrou a garagem, mas eles não podiam juntar seus pais de novo, nenhum deles.

A polícia chegou logo depois — e dentro de uma hora, Annabelle foi culpada pelos assassinatos.

 

                   Quatro anos mais tarde

—Como isso a faz se sentir, Annabelle? — A voz masculina permanecia sobre a sensação das palavras, adicionando uma camada nojenta de sujeira.

Mantendo os outros pacientes do "círculo de confiança" em sua periferia, Annabelle inclinou sua cabeça de lado e encontrou o olhar do Dr. Fitzherbert, também conhecido como Fitzpervertido. Ao redor dos quarenta anos, o médico tinha cabelos grisalhos, olhos castanhos escuros e um bronzeado perfeito, embora a pele estivesse ligeiramente esticada. Era esguio e tinha 1,78m, apenas 3 cm mais alto que ela.

Em geral, era moderadamente atraente. Se ignorasse a escuridão de sua alma, é claro.

Quanto mais olhava para ele, em silenciosa rebeldia, mais seus lábios subiam com diversão. Ah, como era agradável — não que nunca o deixasse saber. Nunca de bom grado faria qualquer coisa para agradá-lo, mas também nunca se esconderia em sua presença. Sim, era o pior tipo de monstro, com fome de poder, egoísta e ignorante da verdade, e sim, podia machucá-la. E o faria.

Já fez.

Na noite passada a drogou. Bem, ele a drogava todos os dias desde seu emprego há dois meses na instituição Moffat County para criminosos insanos. Mas na noite passada ele a sedou com o propósito expresso de despi-la, tocar de maneiras que não devia e tirar fotos.

Uma menina tão bonita, ele disse. Lá fora no mundo real, uma beleza como você me faria batalhar por algo tão simples como um encontro para jantar. Aqui, está completamente à minha mercê. É minha para fazer o que eu quiser... e quero muito.

A humilhação ainda queimava, quente e profunda, um incêndio em seu sangue, mas não ia trair um momento de fraqueza. Era mais esperta.

Nos últimos quatro anos os médicos e enfermeiros responsáveis pelos seus cuidados mudaram mais vezes do que seus companheiros, alguns deles brilhantes estrelas em sua profissão, outros simplesmente atravessando os movimentos, fazendo o que precisava ser feito, enquanto uns poucos seletos eram piores que os criminosos condenados que supostamente deviam tratar. Quanto mais ela cedia, mais esses empregados abusavam dela. Assim, sempre se mantinha na defensiva.

Uma coisa que aprendeu durante seu encarceramento era que podia confiar apenas em si mesma. Suas queixas de tratamento abominável eram ignoradas, porque a maioria dos superiores acreditavam que ela merecia o que tinha — quando acreditavam nela.

—Annabelle — Fitzpervertido repreendeu. —O silêncio não será tolerado.

Bem, então.

—Sinto que estou cem por cento curada. Provavelmente deveria me deixar ir.

Pelo menos a diversão acabou. Ele franziu a testa com exasperação.

—É muito esperta para responder minhas perguntas tão levianamente. Não a ajuda a lidar com suas emoções ou problemas. Isso não ajuda ninguém aqui a lidar com suas emoções ou problemas.

—Ah, então pareço com você então. — Como se ele se preocupasse em ajudar alguém, exceto ele mesmo.

Vários pacientes riram. Um casal simplesmente babava, bolhas espumosas caindo do balbucio dos lábios e grudando nos ombros de seus vestidos. A careta de Fitzpervertido se transformou numa carranca, a pretensão de estar aqui ajudando desaparecendo.

—Essa boca inteligente vai te colocar em apuros.

Não uma ameaça. Uma promessa. Não importa, disse a si mesma. Vivia com constante medo do ranger de portas, sombras e pegadas. Das drogas e pessoas e... coisas. De si mesma. O que era uma preocupação a mais? Embora... neste ritmo, suas emoções seriam o que finalmente iam enterrá-la.

—Gostaria muito de dizer como me sinto, Dr. Fitzherbert — disse o homem ao seu lado.

Fitzpervertido correu sua língua sobre os dentes antes de girar sua atenção para o incendiário serial que incendiou um prédio inteiro, juntamente com homens, mulheres e crianças que viviam dentro dele.

Enquanto o grupo discutia sentimentos e impulsos e maneiras de controlar os dois, Annabelle se distraia com um estudo de seu entorno. A sala era tão triste quanto suas circunstâncias. Havia feias manchas amarelas de água no teto apainelado, as paredes eram de um cinza desbotado e o chão coberto com um tapete marrom desfiado. As cadeiras de metal desconfortáveis onde os ocupantes sentavam eram a única mobília. Naturalmente, Fitzpervertido se deleitava sobre uma almofada especial.

Enquanto isso, Annabelle tinha as mãos algemadas nas costas. Considerando a quantidade de sedativos bombeando seu sistema, estar algemada era um exagero. Mas ei, há quatro semanas ela lutou brutalmente com um grupo de companheiros pacientes e há duas semanas, uma de suas enfermeiras deixou claro que ela era muito ameaçadora para ficar solta, não importa que estivesse apenas tentando se defender.

Nos últimos treze dias foi mantida no buraco, um escuro e acolchoado quarto onde a privação dos sentidos lentamente a deixava (genuinamente) insana. Ela estava carente de contato e pensou que qualquer interação serviria — até Fitzpervertido a drogar e fotografar.

Esta manhã, ele organizou sua libertação do confinamento solitário, seguido por este passeio. Não era estúpida; sabia que esperava suborná-la para aceitar seus maus-tratos.

Se mamãe e papai pudessem me ver agora... Ela reprimiu um súbito soluço, o asfixiando. A jovem e doce menina que amaram estava morta, o fantasma de alguma forma viva dentro dela, a assombrando. Nos piores momentos, se lembrava de coisas que não devia lembrar.

Prove isso, querida. Será a melhor coisa que já comeu!

Uma cozinheira horrível, sua mãe. Saki gostava de aprimorar receitas para as "melhorar".

Viu só? Outro gol para os Sooners!

Fã inflexível de futebol, o pai dela. Assistiu O.U. em Oklahoma por três semestres e nunca cortou os laços.

Não podia se permitir pensar neles, na sua mãe e pai e como foi maravilhoso... e... não pode impedir que isso acontecesse.... A imagem de sua mãe se formou, tomando o lugar central em sua mente. Viu a cascata de cabelo tão negro que as ondas pareciam azuis, iguais às da própria Annabelle. Olhos puxados e dourados, como os de Annabelle costumavam ser. A pele mistura cremosa de mel e canela e sem uma única falha. Saki Miller — uma vez Saki Tanaka — nasceu no Japão, mas cresceu em Georgetown, Colorado.

Os pais tradicionais de Saki se assustaram quando ela e o tão-branco-como-podia-ser Rick Miller se apaixonaram irremediavelmente e se casaram. Ele veio de férias de verão da faculdade, a conheceu e voltou para ficar com ela.

Annabelle e seu irmão eram uma combinação da heranças dos pais. Compartilhavam o cabelo de sua mãe e a pele, o formato do seu rosto, mas tinham a altura de seu pai e eram esbeltos.

Embora os olhos de Annabelle já não pertencessem a Saki ou Rick.

Depois daquela manhã horrível em sua garagem, depois de sua prisão por seus assassinatos, após sua condenação, sua condenação ao longo da vida nesta instituição para criminosos insanos, finalmente encontrou coragem para olhar a si mesma num espelho. O que viu a assustou. Olhos da cor do inverno gelado, bem no coração de uma tempestade de neve no Ártico, estranhos e cristalinos, quase azuis sem nenhum indício de humanidade. Pior, podia ver coisas com esses olhos, coisas que ninguém deveria ver.

E oh, não, não, não. Quando o círculo de confiança começou a se lamentar, duas criaturas atravessaram a parede oposta, parando para se orientar. Seu coração disparou, Annabelle olhava para seus companheiros pacientes, esperando ver expressões de terror. Ninguém mais pareceu notar os visitantes.

Como não podiam? Uma criatura tinha o corpo de um cavalo e o torso de um homem. Em vez de pele, estava coberto por prata reluzente... metal? Seus cascos eram ferrugem e possivelmente algum tipo de metal, bem como, afiados em pontos mortais.

Seu companheiro era mais baixo, com ombros curvados sob o peso dos espinhos, chifres salientes, e pernas torcidas na direção errada. Usava uma tanga e nada mais, o peito peludo, musculoso e cicatrizado.

O cheiro de ovos podres encheu a sala, tão familiar quanto horrível. A primeira onda de pânico e raiva queimou através dela, uma mistura tóxica que não podia permitir que a controlasse. Destruiria sua concentração e retardaria os reflexos de suas únicas armas.

Precisava de armas.

As criaturas vinham de todas as formas e tamanhos, todas as cores, de ambos os sexos, e talvez algo entre eles, mas tinham uma coisa em comum: sempre vinham por ela.

Cada médico que já a tratou tentou convencê-la que os seres eram apenas fruto da sua imaginação. Alucinações complexas, disseram. Apesar das feridas que as criaturas sempre deixavam para trás, eram ferimentos que os médicos diziam que ela conseguia se auto infligir, e às vezes acreditava. Isso não a impedia de lutar, apesar de tudo.

Nada podia.

Brilhantes olhares vermelhos finalmente pousaram sobre ela. Ambos os homens sorriram, seus dentes afiados, as presas gotejantes se mostrando.

—Minha — disse Horsey.

—Não. Minha! — Horns soltou.

—Existe apenas uma maneira de resolver isto. — Horsey lambeu os lábios em antecipação. —A maneira divertida.

—Divertida — Horns concordou.

Divertida, a palavra código para "aterrorizar Annabelle." Pelo menos não iam tentar estuprá-la.

Não vê, senhorita Miller? Um dos médicos certa vez disse a ela. O fato que essas criaturas não vão te estuprar prova que são nada mais que alucinações. Sua mente os impede de fazer algo que não pode manipular.

Como se ela pudesse lidar com qualquer parte do resto. Como explica as lesões que recebo quando confinada?

Encontramos as ferramentas que escondeu em seu quarto. Uma haste, um martelo que ainda estamos tentando descobrir como conseguiu, cacos de vidro. Devo seguir em frente?

Sim, mas esses eram para sua proteção, não mutilação.

—Quem vai primeiro? — Horsey perguntou, a puxando da lembrança deprimente.

—Eu.

—Não, eu.

Continuaram a discutir, mas o indulto não duraria muito tempo. Nunca durava. A adrenalina subiu através dela, fazendo seu corpo tremer. Não se preocupe. Tem isso.

Embora outros pacientes não estivessem cientes do que estava acontecendo, eram todos sensíveis à sua mudança de humor. Grunhidos e gemidos brotaram em torno dela. Homens e mulheres, jovens e velhos, se contorciam em seus lugares, querendo fugir.

Os guardas se postaram na única saída, tensos, em alerta, mas inseguros de quem era a culpa.

Fitzpervertido sabia, atrelando Annabelle com sua careta patenteada rei-do-mundo.

—Parece conturbada, Annabelle. Por que não nos diz o que a está incomodando, humm? Está lamentando seu desabafo anterior?

—Vá se danar, Fitzpervertido. — Seu olhar voltou para suas metas. Eram a maior ameaça. —Sua vez chegará.

Ele puxou uma respiração.

—Não pode falar desse jeito.

—Está certo. Desculpe. Quis dizer, vá se ferrar, Dr. Fitzpervertido. — Desarmada não significava impotente, disse a mesma, e nem presa; hoje, provaria para as criaturas e Fitzpervertido.

—Determinada — Horsey disse com um aceno alegre.

—Tão divertida de quebrar — Horns gargalhou.

—Desde que eu seja o único a quebrá-la!

E assim começou uma nova rodada de discussão.

Pelo canto do olho, viu o movimento do bom médico a um dos guardas da frente, e sabia que o cara pegaria sua mandíbula num aperto inexorável e enfiaria sua bochecha contra seu estômago para mantê-la no lugar. Uma posição degradante e sugestiva que a humilhava enquanto a intimidava, a impedindo de morder quando Fitzherbert a fosse injetar com outro sedativo.

Tenho que agir agora. Não posso esperar. Não se permitindo sequer parar e pensar, ela levantou, puxando os joelhos para o peito, deslizando seus braços presos por baixo de sua bunda e sobre seus pés. As aulas de ginástica não falharam. Com as mãos agora na frente dela, se torceu, agarrou e dobrou a cadeira, posicionando o metal como um escudo.

Tempo perfeito. O guarda a alcançou.

Ela virou para a esquerda, batendo seu escudo em seu estômago. Ar jorrou de sua boca quando ele se curvou. Outro balanço e acertou o lado da sua cabeça, o enviando para o chão num monte inconsciente.

Alguns pacientes gritaram de angústia, e outros a aplaudiram. Os dribles continuaram vazando. Fitzpervertido correu para a porta para forçar o guarda restante a agir como sua reserva, bem como convocar mais guardas com o simples apertar de um botão. Um alarme voltou à vida, lançando os pacientes já desconcertados em mais que um frenesi.

Não contentes em brigar nos bastidores, as criaturas vieram em sua direção, lentos e constantes, a provocando.

—Oh, as coisas que vou fazer com você, garotinha.

—Oh, como vai gritar!

Mais perto... mais perto... quase a pouca distância... totalmente a pouca distância... Ela balançou. Falhou. O par riu, se separando e se unindo ao se aproximar dela.

Usou a cadeira para afastar suas mãos para longe, mas não podia acompanhar os dois adversários ao mesmo tempo, e o outro conseguiu arranhar seu ombro. Ela estremeceu, mas ignorou a dor, girando de volta — para atingir o ar, apenas ar.

Os risos cresceram em volume, as criaturas correndo em círculos em torno dela, balançando constantemente para ela.

Posso lidar com isso. Quando Horsey estava na frente dela, golpeou o topo da cadeira sob seu queixo, batendo os dentes juntos e jogando seu cérebro, se tivesse um, na parte detrás de seu crânio. Ao mesmo tempo, chutou com uma perna, atingindo Horns que estava atrás dela, no estômago. Ambas as criaturas tropeçaram para longe dela, seus sorrisos finalmente desaparecendo.

—É tudo que vocês têm, meninas? — ela incitou.

Mais dois minutos, isso era tudo que tinha, e, em seguida, os guardas convocados entrariam e lidariam com ela, derrubando-a, Fitzpervertido a prendendo e espetando com sua agulha. Queria essas criaturas acabadas.

—Vamos descobrir — sussurrou Horsey. Abriu a boca e rugiu, sua respiração terrível de alguma forma criando um vento forte, incontrolável que empurrou o incendiário em Annabelle.

Para todos os outros, provavelmente parecia que o cara pulou nela por sua própria vontade, com intenção de impedi-la. Outro balanço e a cadeira que ele estava sentado passou voando através de corpo de Horsey e sua bunda, como se a criatura não fosse mais substancial que a névoa. Para o menino de fogo, não era. As criaturas só eram visíveis para ela e tudo que tocasse.

Em algum momento durante o intercâmbio, Horns se moveu além da sua periferia. Agora conseguiu se deslocar por trás dela e raspar suas garras contra seu ombro já sangrando.

Quando se virou, ele se virou com ela, mais uma vez a golpeando com suas garras.

A dor... Ah, a dor. Já não era possível de ignorar.

Estrelas piscaram na sua linha de visão. Ouviu risos atrás dela e sabia que Horns estava lá, pronto para arranhá-la novamente. Ela correu para a frente, para fora do caminho e tropeçou.

Horsey a pegou pelos antebraços, a impedindo de cair. Ele a deixou ir — somente para socá-la no rosto. Mais dor, mais estrelas, mas quando levantou sua mão para um segundo golpe, ela estava pronta. Empurrou a cadeira até pregar sob a mandíbula e girou para que ele atingisse os dedos no assento da cadeira, ao invés de sua bochecha. Seu uivo encheu o ar.

Passos atrás dela. Chutou atrás, se conectando com Horns. Antes de apoiar sua perna, girou e chutou com a outra, apertando seus dois tornozelos na sua barriga.

Quando ele caiu, chiando no peito por ar, ela virou a cadeira de cabeça para baixo e o acertou, o aro de metal atingindo sua traqueia.

Sangue negro se juntou e borbulhou em torno dele, espumando e crepitando enquanto ele queimava o piso. Vapor se ergueu, ondulando através do ar.

Um minuto para acabar.

Dano máximo, ela pensou.

Horsey a chamou de um nome muito rude, todo seu corpo tremendo com sua intenção irada. Ele se aproximou com passos duros e a arremeteu com braços como toras. Sem garras, apenas punhos. A brincadeira acabou, ela achava. Ela o bloqueou, se abaixando e curvando de volta para garantir que os martelos de carne nunca pegassem a cadeira. Ao mesmo tempo o socou com o metal amassado, vários golpes o atingindo.

—Por que veio por mim? — ela exigiu. —Porquê?

Um brilho de presas manchadas de sangue.

—Apenas para diversão. Por que mais?

Sempre perguntava, e sempre recebia a mesma resposta, não importava o quanto cada um de seus adversários fosse diferente. As criaturas vinham uma vez, apenas uma vez e depois de chover destruição, criar o caos, desapareciam para sempre. Se sobrevivessem.

Ela chorou depois de sua primeira luta — e sua segunda e terceira — apesar do fato que as criaturas sempre queriam machucá-la. Havia algo tão terrível sobre tomar uma vida, não importava o motivo para fazê-lo. Ouvir o último som da respiração... assistir a luz sumir nos olhos de alguém... e saber que foi responsável... Pensava sempre em seus pais. Em algum lugar ao longo do caminho, seu coração endureceu num bloco de pedra e parou de chorar.

Os guardas de apoio finalmente chegaram, três corpos duros batendo nela por trás e a jogando no chão. Quando caiu, caiu duro, ferindo sua bochecha já lesionada no piso. Ela experimentou um acentuado lance de dor como antigas moedas de um centavo enchendo sua boca, revestindo sua língua. Mais uma daquelas estrelas muito brilhantes piscou através de sua visão, a coisa corrosiva crescendo... crescendo... a cegando.

A cegueira a deixou em pânico, a lembrando daquela manhã fatídica e terrível há muito tempo.

—Deixe-me ir! Estou falando sério!

Joelhos inflexíveis seguraram seus sangrentos ombros, suas costas e suas pernas e dedos ásperos pressionaram até o osso.

—Fique quieta.

—Eu disse para me deixar ir!

Horsey devia ter fugido porque o cheiro da podridão de repente foi substituído pelo cheiro de bacon e creme pós-barba, respiração quente acariciando seu rosto. Não se permitiu encolher, não se permitiu revelar sua aversão pelo médico que agora pairava sobre ela.

—É o suficiente, Annabelle — Fitzpervertido disse num tom de admoestação.

—Nunca é suficiente — ela respondeu, se forçando a se acalmar. Inspiração profunda, exalação profunda. Quanto mais emoção exibisse, mais sedativo ele teria que usar.

—Tsk, tsk. Deveria bancar a agradável. Eu poderia ajudar você. Durma agora — ele murmurou.

—Você não ouse... — sua mandíbula ficou solta um segundo após o esperado aperto no pescoço. Num piscar de olhos, houve um ardor em sua veia, se espalhando tão rapidamente como estrelas.

Embora desprezasse este sentimento de impotência e soubesse que Fitzpervertido estaria fazendo uma visita mais tarde, embora lutasse com todos os pedaços de sua força restante, Annabelle escorregou na escuridão a sua espera.

 

—Olhe para mim, Zacharel! Olhe como estou voando alto.

—Está indo tão bem, Hadrenial. Estou orgulhoso de você.

—Acha que posso virar sem cair no chão?

—Claro que pode. Pode fazer qualquer coisa.

Uma risada tão doce como badalar de sinos ecoou através do céu.

—Mas eu já caí três vezes.

—O que significa que agora sabe o que não fazer.

 

—Senhor? Sua Alteza grande e poderosa? Está me ouvindo?

A voz masculina chamou Zacharel do passado e da única luz brilhante numa vida escura, trazendo-o diretamente ao presente. Olhou para Thane, o autonomeado segundo no comando de seu exército angelical. Uma promoção que não disputou, apesar da atitude do guerreiro. O fato era que Thane era o melhor do lote — o que na verdade não dizia muito.

Cada anjo em seu exército forçou a Divindade, seu rei, ultrapassando o limite de sua paciência. Cada um quebrou tantas regras, contornou tantas leis, que era um milagre que ainda tivessem suas asas... e um milagre ainda maior que Zacharel tolerasse os guerreiros desde que chegou.

Ele limpou sua garganta.

—Estou ouvindo, sim. — Agora.

—Minhas mais humildes desculpas se o entediei antes. — foi a resposta irreverente de Thane.

—Aceito.

Um aperto no queixo do anjo quando percebeu que Zacharel não foi insultado.

—Perguntei se estava pronto para nos atacar.

—Ainda não.

Thane pairou ao lado dele, a grande extensão de suas asas estendidas, mas sem o tocar. Nenhum deles gostava de ser tocado. Claro, Thane sempre abria exceções para as fêmeas que dormia, mas Zacharel não fazia tais exceções a ninguém.

—Estou ansioso para lutar, Majestade. Todos estamos.

—Já disse antes para não me chamar por esse título. Quanto ao seu pedido, vai esperar como ordenado. Todos vocês. — Desobedecer era ser punido — um conceito com que Zacharel agora estava intimamente familiarizado.

Começara a poucos meses atrás, quando foi convocado para o Templo da Divindade, o santuário sagrado que alguns anjos tinham o privilégio de visitar. Durante esse encontro sem precedentes, flocos de neve começaram a cair das penas das asas de Zacharel, uma tempestade constante e um sinal do descontentamento frio de sua divindade. E as palavras da Divindade, embora baixinhas, foram tão cortantes como a caída da neve.

Aparentemente, o "grave descolamento da emoção" de Zacharel o fez ignorar "danos colaterais" durante suas batalhas com os demônios. Em várias ocasiões a Divindade cobrou, mas Zacharel escolheu matar seu inimigo em detrimento da vida humana inocente. Naturalmente, tal comportamento era "inaceitável".

Ele pediu desculpas, mesmo que não estivesse arrependido de suas ações, apenas por ter irritado o que tinha o poder de destruí-lo. Na verdade, não entendia a atração — ou utilidade — dos humanos. Eram fracos e debilitados, alegando que tudo que faziam era por amor.

Amor. Zacharel zombou. Como se meros mortais soubessem algo sobre o amor altruísta, o que dá vida. Nem mesmo Zacharel sabia. Hadrenial sim — mas Zacharel não pensaria mais sobre ele.

Suas desculpas não significavam nada, sua divindade disse. Na verdade, menos que nada, já que sua Divindade podia ver a lama escura do seu peito, onde seu coração devia bater com emoção — mas não o fazia.

Devia tomar suas asas e sua imortalidade e bani-lo para a terra, onde não será capaz de ver os demônios que vivem entre nós. Se não pode vê-los, não pode combatê-los, como está acostumado a fazer. Se não pode lutar contra eles, não pode matar os humanos em torno deles. É isso que quer, Zacharel? Viver entre os mortos e lamentar a vida que já teve?

Não, não queria nada do tipo. Zacharel vivia para matar demônios. Se não pudesse ver e lutar contra eles, era melhor estar morto. Novamente, manifestou sua contrição.

Já pediu desculpas ao Alto Conselho celestial por este crime muitas vezes no passado, Zacharel, mas nunca mudou suas maneiras. Mesmo assim, meus consultores de confiança recomendaram clemência. Depois de tudo que já sofreu, esperavam que, com o tempo, encontraria seu caminho. Mas outra vez falhou em fazer como o Conselho pediu, e não podem mais fechar os olhos para suas transgressões. Agora devo intervir, por que eu, também, estou perante um poder superior — e suas ações refletem mal em mim.

Nesse momento Zacharel soube, não haveria como fugir de sua sentença. E estava certo.

As palavras são tão facilmente ditas, como já provou, a divindade continuou, mas tão raramente são apoiadas com ação. Agora vai carregar a expressão física da minha infelicidade, para que nunca esqueça este dia.

Como desejar, ele respondeu.

Mas, Zacharel... não tenha dúvida que algo pior o espera se me desobedecer novamente.

Ele agradeceu sua Divindade pela chance de fazer melhor e tinha a intenção — até sua próxima batalha. Ele magoou e matou vários humanos sem um pensamento ou misericórdia, porque machucaram e mataram Ivar, um dos Sete da Elite da Divindade. Um guerreiro de inimaginável força e capacidade.

Não importava o fato que as ações de Zacharel foram em nome da vingança —realmente prejudicou sua causa. O Altíssimo decidia como lidar com tal situação, e como Ele era o maior poder da Deidade a que Zacharel respondia, sua palavra era lei. Zacharel devia ter mostrado paciência.

No dia seguinte, a Divindade o chamou novamente.

Ele esperava que, apesar do que fez, seria escolhido como o próximo na Elite, mas em vez disso, descobriu que ganhou outro castigo. "Pior", ele descobriu, era exatamente isso.

Por um ano, Zacharel levaria um exército de anjos como ele. Que ninguém mais queria sob seu comando. Os rebeldes. Os torturados. Sua missão: ensinar o respeito que ele próprio ainda tinha que demonstrar — para a Divindade, para a santidade da vida humana. E para garantir que levasse sua responsabilidade a sério, arcaria sozinho com as consequências das ações de seus guerreiros.

Se qualquer um dos seus anjos matasse um humano, ele sofreria uma surra.

Ele já sofreu oito.

No final do ano, se as boas obras de Zacharel superassem as más, ele e todos os seus anjos seriam permitidos a permanecer nos céus. Se o mal superasse o bem, ele e todos os seus anjos perderiam suas asas e seu lugar no céu.

Claramente, Zacharel ponderou, a divindade estava limpando a casa. Desta forma, podia livrar os céus de cada espinho ao seu lado com uma só penada, e ninguém no seu Conselho podia chamá-lo de cruel e injusto, por que ele lhes deu um ano inteiro de chances para se redimir.

Então aqui estavam Zacharel e seu exército, encarregados de lidar com tarefas muito abaixo de seu nível de habilidade. Na maior parte do tempo isso significava encontrar uma maneira de libertar humanos possuídos, ajudar aqueles que foram influenciados imoralmente e participar de uma batalha insignificante ocasionalmente.

Esta noite marcava a décima nona atribuição de seu exército — embora apenas sua terceira rodada de combate — e cada uma terminou pior que a anterior. Não importava o quanto ameaçasse, os anjos pareciam gostar de desrespeitar suas ordens. Estavam contra ele. Eles o irritavam. Riam na sua cara.

Ele não os entendia. Este ano era sua última chance, também. Tinham tanto a perder. Não deveriam buscar seus favores?

—Agora? — Thane perguntou ansiosamente, sua voz mais fumacenta que substância. Uma vez sua garganta foi cortada... cortada e cortada até as cicatrizes se tornarem um colar permanente.

—Ainda não. Estou falando sério.

—Se deixar de soar o grito da batalha em breve...

Eles agiriam de qualquer maneira.

—Ninguém se importa que vão sofrer minha ira? — ele reclamou. Ele olhou abaixo para a Instituição para Criminosos Insanos do Condado de Moffat, escondida nas montanhas do Colorado. O edifício era alto e largo, com uma cerca de arame farpada elétrica e guardas armados andando pelo parapeito e jardim. Halogênios emitiam luz brilhante em cada canto, embora perseguissem sombras.

O que os guardas não podiam ver, não importa o quão intensa fosse sua iluminação, eram os asseclas do demônio rastejando sobre todas as paredes, desesperados para entrar.

Mas como os guardas, os demônios não podiam ver a ameaça ao seu redor. Os vinte soldados sob comando de Zacharel permaneciam ocultos. Suas asas, geralmente da cor branca com ouro, eram agora ônix marcadas por estrelas, um espelho dos céus. A fácil alteração foi feita com apenas um único comando mental. Mais que isso, suas vestes angelicais eram agora camisas e calças que cobriam seus corpos musculosos, pretas e prontas para o combate.

—Por que demônios escolheriam invadir este lugar? — Zacharel perguntou. E tentavam fazer isso há anos, aparentemente. Outros exércitos foram enviados, mas nenhum fez algum progresso real. Assim que um conjunto de lacaios era cuidado, outra nova safra chegava.

Havia apenas dois motivos para que nenhum outro exército pensasse em descobrir o porquê. Um deles, não se importavam em ajudar os humanos no interior do edifício. Ou dois, seu trabalho terminou com a batalha. De qualquer forma, Zacharel não ia cometer o mesmo erro. Não podia.

Com os cabelos dourados ondulando inocentemente em torno de uma face que de alguma forma era mais diabólica que santa, Thane deu um perverso olhar safira em sua direção. O contraste entre inocente e carnal podia ser fascinante, ou assim Zacharel ouviu falar. As fêmeas humanas e imortais por igual se lançavam sobre Thane — que não fazia segredo de seus desejos sexuais quando se revelava para aqueles que não deveriam saber que estava lá. Especialmente se seus desejos beirassem o perigoso... o aceitável.

A maioria dos anjos pertencentes à sua Divindade, tanto do tipo guerreira como portadores de alegria, eram tão imunes às paixões da carne como Zacharel. Mas a maioria não foi capturada por uma horda de demônios, presa e torturada por semanas, como Thane foi.

Quando viveu tanto como eles, como deveriam, especialmente quando esses anos foram gastos na guerra, eram mais propensos a descobrir o verdadeiro significado da dor e procurar refúgio em qualquer prazer que pudesse encontrar.

Xerxes e Bjorn, iguais a Thane em termos de força e astúcia, foram presos e torturados, também. Os três eram inseparáveis agora, o trauma e o horror da experiência os ligando. Os deformando — sim, como também foi provado por seu lugar dentro das fileiras de seu exército, mas os unindo, no entanto.

—O Mal anseia por companhia de outro mal, desesperado por destruir tudo que vale a pena salvar — disse Thane, com sabedoria, substituindo sua irreverência anterior. —Talvez alguém dentro os esteja convocando.

Talvez. Se fosse assim, a batalha se tornava apenas um dilema. A convocação dos demônios era estritamente proibida, um crime punível apenas com a morte. Morte que não seria dano colateral, mas intencional, e ainda assim, Zacharel não estava certo de como a Deidade reagiria a tal assassinato.

Os humanos, ele pensou, abanando a cabeça com nojo. Nada além de problemas. Não tinham ideia do poder escuro com que dançavam. Um poder que podia parecer emocionante primeiro, mas que apenas comeria sua humanidade.

—Nenhum dos demônios realmente entrou no edifício — ele disse. —Estou curioso para saber por quê.

A cabeça de Thane se inclinou de lado, seu estudo dos demônios se intensificando.

—Não tinha notado, mas agora vejo que está correto. Majestade. — Nenhuma reação.

—Capturem um dos demônios e o tragam para minha nuvem para interrogatório.

—Será um prazer. — Tanto como Thane gostava de suas amantes, gostava mais de torturar demônios. —Qualquer outra coisa, Senhor Nosso?

Nenhuma reação.

—Sim. Ao meu sinal, o exército pode atacar, mas quero Bjorn trazendo o demônio mais selvagem que possa encontrar no telhado da instituição. Rapidamente. — Zacharel podia — devia — dar as ordens dentro da mente de seus soldados, como todos os comandantes podiam fazer, mas fazer isso seria convidar suas vozes em sua mente, o que era uma intimidade que não permitiria.

Um sorriso de prazer brilhou, os brancos dentes retos revelados.

—Considere feito.

Antes que Thane pudesse sair, Zacharel, acrescentou:

—Estou certo que não preciso lembrar que nenhum humano deverá ser machucado durante a batalha. Se tiver que renunciar a matar um demônio para salvar uma vida humana, faça-o. Certifique-se que os outros saibam.

Primeiro não esteve preocupado quando seus homens optavam por destruir um humano para alcançar um demônio. Após sua terceira chicotada por um crime que não cometeu, começou a se importar.

Uma batida de silêncio, duas. Em seguida:

—Sim, claro, Líder dos Supremamente Indignos. — Com esse golpe de despedida, Thane desapareceu numa explosão de movimento para alertar os outros que agora mesmo circundavam o edifício.

Escassos minutos mais tarde, espadas de fogo apareceram na mão de cada anjo, as chamas mais intensas, muito mais puras que qualquer uma encontrada no inferno. Ameaçadores fragmentos de luz âmbar lambiam sobre determinadas expressões e músculos duramente... e as luzes começaram a arquear abaixo numa sucessão rápida, gritos de dor — e suspiros finais de respiração — ecoando em breve. Corpos caindo, retorcidos e sem cabeça agora choviam das paredes.

Tudo para aguardar o sinal de Zacharel. Isso teria que ser tratado mais tarde.

Embora tivesse gostado de matar demônios ao lado de seus homens, esperou para buscar uma presa maior esta noite. Um caminho eventualmente limpo, e ele deslizou abaixo... abaixo... e pousou normalmente na borda plana do telhado. Dobrou suas asas em suas costas.

—O demônio selvagem, como solicitou, magnífico Rei — uma voz familiar disse ao lado dele. —Rapidamente.

Uma besta enorme caiu aos pés de Zacharel. Veneno frisava o final de suas garras. Grandes chifres se projetavam de seus ombros, e manchas na pele e escamas formavam um padrão de dupla hélice em suas pernas.

Pequeno problema. O demônio estava sem cabeça.

—Esse demônio está morto — disse ele.

Apenas a mais básica pausa antes de Bjorn responder.

—Thane retransmitiu sua ordem textual. Nesta, não foi sábio o suficiente para especificar uma preferência.

—Verdade. — Ele absolutamente deveria saber melhor.

Bjorn, pairando ao lado do edifício, disse:

—Devo trazer outro ou pretende me repreender por seu erro, Rei Glorioso? — As palavras carregavam uma borda amarga.

Bjorn era um homem bruto com pele bronzeada, com veios de ouro e brilhantes, olhos com várias tonalidades de roxo, rosa, azul e verde. Um contraste surpreendente.

Logo após seu resgate das garras dos brutais demônios — e sua fúria subsequente da morte através dos céus, onde ninguém estava a salvo de sua ira indiscriminada — o Alto Conselho Celestial declarou Bjorn instável e inapto para o serviço. A queda era uma punição muito branda, disseram, e então foi condenado a uma morte verdadeira, seu espírito, o poder que alimentava sua vida, sua alma, a personificação de suas emoções e seu corpo físico sendo apagados inteiramente da existência.

Thane e Xerxes protestaram, exigindo que o guerreiro fosse reintegrado e prometendo que seriam responsáveis pelos problemas que surgissem. Também prometeram garantir que morreriam da morte verdadeira se fossem separados de seu amigo.

O Conselho relutou. Com a quantidade de atividades demoníacas assolando o mundo, guerreiros de seu calibre estavam em alta demanda. Ainda assim, Zacharel duvidava que essa ameaça funcionaria novamente.

—Não vai haver nenhuma repreensão — ele disse, e Bjorn piscou de surpresa.

O olhar de Zacharel se fixou no demônio serpente até deslizar sobre os trilhos numa tentativa de fuga prévia. Serpes possuía cabeça e torso de homem, mas a parte inferior do seu corpo era uma serpente e mais temperamental que os dois juntos.

Se inclinando, Zacharel agarrou a grossa cauda de chocalho e a empurrou. Serpes se torceu, mostrou os dentes, os braços levantando para atacar quem se atreveu a detê-lo. Zacharel manteve um aperto forte, enrolando seu comprimento ao longo de seu antebraço enquanto usava sua mão livre para agarrar o pescoço do demônio. Apertou.

Olhos vermelhos se arregalaram com alarme quando a garra na ponta dos dedos o cortou.

—Zacharel, não qualquer um, massss Zacharel! Vou voltar, vou voltar, eu juro. — Finalmente, o respeito pela sua autoridade.

—Vou fazer isto — disse a Bjorn. —Pode continuar com seus deveres.

O anjo inclinou a cabeça mesmo enquanto seus olhos vidraram com perplexidade. Mas não disse nada mais, em vez disso, saltou para a batalha.

—Por favor! Eu vou!

Os demônios podiam ser incapazes de entrar no prédio por qualquer motivo, mas Zacharel não tinha esse problema. Comandou seu corpo, bem como Serpes, a névoa, e os dois afundaram através da pedra. Segundos mais tarde, Zacharel estava no andar de baixo do edifício.

Esquecendo que ele o prendia, Serpes suspirou com felicidade e estendeu a mão para o teto.

—Tempo para minha diversão...

Zacharel jogou o demônio no piso recém-polido do átrio. Vários guardas de segurança patrulhavam a área e várias fêmeas humanas ocupavam a mesa, mas nenhum deles percebeu os intrusos em seu meio.

Serpes escapuliu pelas paredes acima, fantasmagórico através do teto e desaparecendo de vista. Mostrou-se fácil segui-lo. Zacharel se moveu para cada andar, um mero passo atrás. Finalmente Serpes parou de subir, entrou num dos quartos do nível quatorze.

No interior, as paredes estavam cobertas com preenchimento preto. Não havia janelas. Um único respiradouro no teto permitindo uma brisa única e o frio. O quarto era estéril, com exceção de uma solitária peça de mobiliário. Uma maca de hospital, com... uma jovem amarrada em cima.

Cada músculo de seu corpo apertou. Por um momento, o passado ameaçou crescer e o engolir inteiro. Mate-me, Zacharel. Tem que me matar. Por favor.

Há muito tempo construiu uma barragem para manter suas memórias no passado, uma barreira que precisava desesperadamente. Sempre necessário, ao que parecia. Refortificou esta barreira agora, anulando de sua mente qualquer coisa, exceto o presente.

À primeira vista, a mulher parecia estar dormindo. Mas, em seguida, sua cabeça pendeu para o lado, sua atenção aparentemente ludibriada pelo demônio, que não deveria ser capaz de ver. Horror, raiva e medo de repente pulsaram dela.

Tinha ela, uma mera humana, como sentir Serpes?

Zacharel considerou. Ela usava um vestido de tecido fino, sujo e rasgado, sua estrutura esguia trêmula. O cabelo comprido se enrolava em torno de um rosto delicado, as mechas tão pretas que pareciam ser de um deslumbrante azul meia-noite. Olheiras estragavam a frágil pele sob os olhos e as bochechas eram mais fundas do que deveriam ser, para não mencionar como estava terrivelmente ferida e arranhada. Seus lábios estavam vermelhos, rachados. Seus olhos eram azul gelo, e em suas profundezas, ele viu uma tempestade sem fim de dor, que nenhum humano estava equipado para suportar.

Não, aqueles olhos não pertenciam a uma mortal, percebeu. Pertenciam à consorte de um demônio.

Em algum lugar lá fora estava um Alto Senhor demônio — o mais perigoso dos demônios do inferno — que considerava esta humana sua propriedade exclusiva. Sua para possuir, sua para... torturar e desfrutar de qualquer forma que desejasse. O demônio envenenou seus olhos, a marcando, garantindo que pudesse ver o mundo espiritual que coexistia ao lado do mortal. Seu mundo. Assim, ele chamou a atenção de outros demônios, também.

Ela tinha que ser uma participante voluntária em sua marcação, pois os humanos não podiam ser forçados. Seduzidos, sim. Enganados, absolutamente. Ansiosos para mexer com as artes escuras, além de qualquer dúvida.

Mas nunca forçados.

O Alto Senhor se cansou dela? Por isso estava aqui sem ele? Não, Zacharel decidiu um segundo mais tarde. Um demônio nunca se cansava de seu humano. Ele o prendia ao redor até o final amargo, sangrento — ou até que o humano fosse sensato e se obrigasse a sair.

Mas... Por que não matá-la e tentar esconder seu crime? Emparelhamento de demônios e mortais eram proibidos, a lei determinando sentença de morte. Do demônio e do humano. Não que Zacharel ou qualquer um de seus homens fossem matar esta. Ainda não estava no cardápio de hoje. Não haveria nenhum dano colateral.

—Fique longe de mim — disse ela, e Zacharel foi atraído para fora de sua mente. Sua voz era rouca, fosse pelas drogas ou tensão. Ou era seu tom natural? —Sou uma inimigo terrível par se ter.

Para alguém que concordou em unir sua vida a um demônio, não parecia feliz com os resultados. Estava disposto a apostar que foi seduzida ou induzida, e agora se arrependia.

Os humanos raramente aprendiam até que fosse muito tarde, mas não tinha que ser assim.

—Vou te machucar se chegar mais perto. — Ela claramente possuía ascendência japonesa, mas sua voz não trazia nenhuma sugestão de sotaque. Estranha de certa forma, mas ainda mais exótica, por essa falta. Suave e cadenciada, e o contraste perfeito para seus traços marcantes.

—Me machuque, fêmea. Por favor... — A cauda chocalhou num ritmo fatal, Serpes deslizando em torno da cama. Sua língua bifurcada disparou entre seus dentes. —Disssto que eu gosto — antes de cada lanche.

O subalterno a queria, não por causa dela, mas porque criaturas do submundo amavam mais que tudo se rebelar contra seus irmãos. Divulgação de direitos eram tão valiosos como ouro, como se fossem superiores. Bem, e a emoção de arruinar alguém que deveria estar sob a proteção dos céus.

Enrijecendo, a mulher disse:

—Me toque apenas uma vez, apenas uma e vou encontrar uma saída destas restrições. Vou arrancar sua cabeça. Já decapitei seu tipo antes, sabe. Talvez até mesmo alguns amigos seus, hein?

Uma resposta interessante, indo mais fundo que mero arrependimento.

As bravas palavras ganharam um silvo de antecipação.

—Você mente, você mente, me deliccccia que você minta. Apenassss deliciossso.

—Estou falando sério! Se pensa que essas pequenas algemas vão me parar, está com o cérebro mais danificado do que pensava. E últimas notícias — pensei que seu QI estivesse na casa de um dígito.

Ela olhou à esquerda, à direita, como se procurasse alguém para ajudá-la. Enquanto a fêmea podia ver Serpes, não podia ver Zacharel. O que não era exatamente uma revelação — se não quisesse ser percebido, não poderia ser percebido; não por um demônio ou um demônio consorte, nem mesmo por outros anjos.

Curioso sobre sua reação a ele, Zacharel se materializou em sua forma natural, ao mesmo tempo criando uma espada de fogo do nada, apenas do ar. Seu olhar nunca deixando a fêmea, ele cortou, decapitando o demônio e terminando com sua existência miserável. Sim, matar era tão fácil para ele. Desfez as chamas.

—O que... como... — os olhos cristalinos o encontraram e se arregalaram. Seus dentes começaram a bater. —E-estou sonhando? As drogas... Estou enganada. Ou sonhando, talvez. Sim, isso faz sentido.

—Não, não está.

—Tem certeza? Parece o Príncipe que uma vez... uh, não importa.

Ela uma vez... o que?

—Estou certo que sim.

—Então q-quem é você? O que é você? Como conseguiu chegar aqui?

Apesar de suas perguntas, ela parecia saber que ele não era como a criatura que derrotou. Demônios faziam seu melhor para evocar medo. Anjos faziam seu melhor para evocar uma sensação de calma. Ou melhor, deveriam.

—O que é você? — A fêmea perguntou novamente. —Está aqui para me matar?

Mate-me, Zacharel. Tem que me matar. Por favor. Não posso viver mais assim. É muito, muito difícil. Por favor!

Novamente o passado ameaçou subir e consumi-lo. Novamente apagou de sua mente. Embora não devesse à fêmea nenhuma explicação, embora ela fosse consorte de um demônio e não pudesse ser confiável, se encontrou dizendo.

—Não vou matar você. Sou um anjo.

Como anjo da Deidade, a voz de Zacharel carregava um inegável anel da verdade. Típico de sua espécie, ela se encolheu com sua pureza — mas não podia duvidar dele. Piscando rapidamente, ela disse:

—Um anjo. Como um anjo do céu, defensor de tudo que é bom e certo?

Talvez ela pudesse duvidar dele. Seu tom foi sarcástico. Mas achou interessante que não vomitasse com ele o mesmo ódio que vomitou com o demônio. Como companheira de um Alto Senhor, devia desprezar Zacharel acima de todos os outros. Que ela não... Definitivamente estava enganado.

—Bem?

—Sim, sou do céu, embora provavelmente não seja o tipo do anjo que está familiarizada. — Ele esticou suas asas. Flocos de neve continuavam a cair dele. Suas penas estavam novamente peroladas, tingidas de ouro cintilante entre cada uma. Ele franziu a testa quando percebeu que o ouro estava mais grosso que antes.

Milhares de anos se passaram, e suas penas nunca mudaram de cor, por que essa alteração geralmente indicava uma elevação de status nas obras. Para aqueles a serviço da Deidade, só a Elite dos Sete eram abençoada com asas de ouro maciço. Portadores da alegria eram caracterizados por asas de branco sólido. Guerreiros como Zacharel possuíam o branco com meros vestígios de ouro. Mas o que ele tinha agora era mais que um vestígio.

Tinha que haver alguma outra explicação. Tanto como esperava de outro modo, sua Deidade não disse nada a ele sobre chegar ao nível da Elite. E dificilmente estava na posição de ser considerado um avanço, quando lutava tão firmemente para manter o título que tinha.

—Há mais de um tipo? — ela perguntou depois de olhar para ele. —Não se preocupe. Não entenda errado, mas... não é um homem de boa aparência. E não estou falando do fator de sensualidade.

—Não. Não sou bom. — Os humanos frequentemente retratavam anjos como seres suaves, fofinhos, que brincavam na flor do sol, feitos de rosas e pintando arco-íris no céu. Ele sabia disso. E alguns anjos o eram, mas não muitos.

—O que posso fazer por você, Sr. Meio Termo?

Não devia ter permitido que a curiosidade levasse a melhor sobre ele. Não devia ter aberto esta linha de conversa.

Que agora terminava.

—Já basta, humana. Carrega mais problemas que pode, no momento. Sugiro que não procure mais algum.

—Bem, o que você sabe? — ela disse com uma risada desprovida de diversão. A ponta rosa de sua língua lambeu sobre seus lábios. —Os médicos finalmente estão certos. Estou alucinando. Somente em minha mente um anjo trataria alguém tão mal.

—Não te tratei mal e não está alucinando.

—As drogas estão afetando meu cérebro, então — ela insistiu.

—Não estão.

—Mas... não pode ser um anjo. Apenas o mal vem aqui.

—Errado de novo. — Pelo menos hoje.

—E-eu...E-eu... Certo, posso lidar com isso. Quer dizer, por que não? Vamos dizer que é de fato real...

—Sou.

—...e que é um dos bons, desde que não está aqui para me matar. Está aqui para... me libertar?

Ela fez a pergunta com tal doce hesitação, que ele soube que ela não ousava ter esperança que fosse resgatá-la, ainda que com cada grama de seu ser, quisesse acreditar na fuga iminente.

Talvez outro homem fosse movido por seu sofrimento, mas não Zacharel. Ele viu o sofrimento em todas as suas formas. Causou sofrimento em todas as suas formas. Viu seu amigos, imortais que deviam viver para sempre, morrer.

Viu seu irmão gêmeo morrer.

Hadrenial, seu irmão gêmeo, seu único tesouro, agora descansando numa urna na sua mesa de cabeceira. Foi idêntico à Zacharel na aparência, com o mesmo cabelo preto e olhos verdes, o mesmo rosto esculpido e corpo forte. No entanto, emocionalmente eram completamente opostos. Embora apenas minutos mais novo, Hadrenial parecia anos mais jovem. Tão inocente e doce, tão amável e solidário, amado por todos.

—Não suporto ver os humanos chorando, Zacharel. Devemos ajudá-los. De alguma forma, de alguma maneira.

—Esse não é nosso propósito, irmão. Somos guerreiros, não portadores da alegria.

—Por que não podemos ser ambos?

As mãos de Zacharel se apertaram em punhos. Devia parar de pensar nele. Refletir sobre o que aconteceu não mudaria um único detalhe. Era o que era. Bonito e feio. Terrível e maravilhoso.

Forçou sua mente para a fêmea e sua situação — mas decidiu não responder à pergunta sobre sua libertação.

—Sabe o nome do demônio que marcou você? — Decepção, misturada com aceitação amarga brilhou em seus olhos.

—Talvez você seja real — disse ela. —Seria necessário um lado escuro que eu não tenho para criar alguém como você.

—Esqueceu de dizer “sem ofensa” antes de fazer essa declaração.

—Não, não esqueci. Quis ofender.

Humanazinha ousada, não era?

—Devo repetir minha pergunta? — ele perguntou, no caso dela não ter entendido da primeira vez.

—Não. Eu me lembro. Quer saber se sei o nome do... — seus olhos se arregalaram, a decepção e aceitação mudando para choque. Ela sussurrou —Demônio — a revelação parecendo afetá-la muito mais forte do que quando descobriu suas origens. —Como um demônio que pertence ao inferno?

—Sim.

—Um ser vil, cujo único objetivo é arruinar vidas humanas?

—Sim.

—Uma criatura horrível sem um pingo de luz, apenas escuridão e mal?

—Exatamente.

—Deveria saber — ela respirava. —Demônios. Todo esse tempo tenho lutado com demônios e nunca percebi isso. — Alívio se juntou ao choque, ambos escorrendo de suas palavras. —Não sou louca, e não estamos sozinhos. Disse a eles, mas as duas únicas pessoas que acreditaram em mim foram o esquizofrênico raptado por alienígenas e seu amigo invisível. Eu disse a eles!

—Humana, vai me responder agora.

—Eu disse — ela continuou alegremente. —Só não tinha ideia que estava lutando contra demônios. Deveria ter adivinhado, contudo, mas fiquei presa em vampiros e monstros mitológicos e em seguida, alucinações, assim eu...

—Humana! — Não levantou sua voz para ela. Não haveria como explicar à sua Divindade que ele não fez isso para assustá-la até a morte.

Ela balançou a cabeça, saindo claramente dos pensamentos confusos com a mesma determinação que ele usou. Para seu crédito, parecia longe de estar intimidada por ele.

—Não posso te responder porque não tenho ideia do que está falando. Um demônio me marcou? Como? Por quê?

Genuína confusão. Sabia disso, pois as mentiras que outros diziam sempre tinham um gosto amargo em sua língua, e agora a única coisa que sentia era... a doçura do seu perfume? Um toque sutil de rosa e bergamota escorrendo de sua pele, aquela suave extensão creme bronzeada.

Que notasse esse detalhe tão insignificante o irritou.

—Não se lembra de acordar acasalada com um demônio, por meios lícitos ou ilícitos? — perguntou ele.

—Nunca! — Os longos cílios pretos se fundiram, seu olhar o alfinetando. —E agora é minha vez de uma resposta. Está aqui para me salvar ou não?

Se era forte o suficiente para insistir numa resposta, quando já tinha adivinhado a verdade, era forte o suficiente para ouvir a resposta.

—Não, não estou. — Mas gostaria de permanecer com ela tempo suficiente para resolver o mistério da sua marcação. Quando isso aconteceu? Quem fez isso? Como ela foi enganada? Os detalhes não importavam. O resultado final era importante.

Ela engasgou com uma risada tão amarga como sua aceitação anterior.

—Obviamente não está. Por que deveria ter esperado o contrário?

Dobradiças rangeram quando a porta de aço de repente foi aberta. Zacharel se protegeu dos olhares curiosos, e a fêmea ficou tensa. Um guarda com um bastão se afastou para permitir que um homem entrasse no quarto, uma grossa pasta na mão. Era de estatura média para um humano, faltando um pouco de cabelo e tinha uma expressão falsamente simpática. Um casaco branco cobria sua constituição magra, o tecido com pequenas manchas de sangue seco.

—Ela apresenta uma boa luta — disse o homem —mas está presa e não pode me machucar. Não dê atenção ao que ouvir. Além disso, esta sessão de terapia vai demorar algum tempo, então não volte até eu alertá-lo.

O guarda lançou à fêmea um olhar simpático, mas no final, balançou a cabeça.

—Como quiser, Doutor. — Ele fechou a porta, deixando o recém-chegado dentro.

Zacharel disse a si mesmo para sair. Nem mesmo os portadores de alegria, que eram os mais ativos com os seres humanos, interferiam no livre arbítrio. Além disso, os aspectos mais importantes do mistério de hoje à noite foram resolvidos. Os demônios vinham pela menina, inexoravelmente atraídos por ela, se deliciando em ferir o que pertencia a outro de sua espécie.

Quanto a ela, encontraria liberdade apenas na morte.

Sim, realmente devia sair. Mas se encontrou persistente. Medo e repulsa agora flutuavam dela, criando... Certamente não. Mas, sim, não havia como negar sua presença. Criando a mais ínfima fissuras no gelo e escuridão que vivia no interior de seu peito. Criando uma cintilação de... culpa?

Ele não entendia. Por que aqui? Por que agora?

Por que ela?

Instantaneamente a resposta caiu no lugar, e embora quisesse fugir como fez antes, não podia. Ela o lembrava de Hadrenial. Não a atitude — era muito cheia de fogo — mas as circunstâncias.

Hadrenial morreu enquanto estava amarrado na sua cama.

Não importa. Deve ir embora. As emoções não eram nada mais que um desperdício. Zacharel lamentou seu irmão ao longo dos séculos. Chorou, se enfureceu e buscou a morte, mas nada que fez aliviou sua culpa ou sua vergonha. Somente quando cortou todas as emoções foi que experimentou algum alívio.

E agora...

Agora, os cristais gelados pesando e escorrendo de suas asas provavam ser uma bênção, lembrando seu status — Comandante — seu dever — defender as leis celestiais — e seu objetivo — vitória contra os demônios sem nenhum dano colateral. A menina não podia, não iria importar.

—Tão previsível, Fitzpervertido, — Ela provocou. —Sabia que viria por mim.

—Como se eu pudesse ficar longe da minha doce gueixinha. Afinal, precisamos discutir seu comportamento de hoje. — Luxúria vidrava os olhos do homem quando examinou seu corpo esguio, persistindo ao longo de suas curvas muito femininas.

Seu olhar disparou entre o humano e Zacharel. Ele sabia que ela já não podia vê-lo, e que estava simplesmente tentando pensar se ele saiu ou ainda estava lá. E soube no momento que ela decidiu que sim, que ele ainda estava lá, que as aljavas da humilhação a atravessaram.

—Por que não podemos discutir seu comportamento em vez disso? — Uma pontinha de desespero desmentia sua bravata. —Deveria ajudar seus pacientes, não prejudicá-los ainda mais.

Um sorriso lascivo se juntou às suas palavras.

—O que podemos fazer juntos não tem que doer. Se me fizer sentir bem, vou fazer você se sentir muito bem. — Ele jogou a pasta no chão, tirando sua jaqueta. —Vou provar isso.

—Não faça isso. — Suas narinas alargaram pela força de sua respiração. —Vai ser pego, perder seu emprego.

—Querida, quando vai aprender? É sua palavra contra a minha. — Retirando a seringa do bolso da calça, ele avançou. —Sou um profissional de saúde altamente respeitado. Você é uma garota que vê monstros.

—E estou vendo um agora!

Ele riu.

—Eu fazê-la mudar de ideia.

—Desprezo você — ela disse, e Zacharel viu como juntava seu juízo, mais uma vez. —Não percebe que isso vai voltar para assombrá-lo? Se planta sementes da destruição, terá que viver com a colheita do que crescer, espinhos e tudo.

—Como é bonito. Uma lição de vida de uma das mais violentas detentas da instituição. Mas até que venha minha colheita...

Ela olhou para longe do humano, onde Zacharel estava e olhou para algum lugar mais longe. Lágrimas brilharam nos olhos sobrenaturais antes dela piscar as afastando. Não se quebraria esta noite; e realmente este homem não iria quebrá-la por muitos meses ou mesmo anos. Mas esta noite ia doer. Muito.

 

No momento que Zacharel voou para fora da sala, a fissura dentro de seu peito se alongou, e poderia jurar que ouviu gelo rachando. Será que algumas palavras com o médico realmente seriam consideradas interferência? Ele se questionava, retardando sua volta para baixo. Depois disso, podia retornar para sua nuvem, esquecer a fêmea e continuar o caminho que sempre trilhou, sozinho, não afetado e despreocupado. Da maneira que gostava. Da forma como sua Divindade provavelmente preferia.

Muito bem. Estava decidido.

Zacharel voltou ao quarto e se materializou na frente do macho humano. Um homem que merecia morrer por seus crimes. Mas Zacharel não seria o único a prejudicá-lo. Podia apenas se contentar ao saber que o médico um dia colheria uma safra de todo o mal que semeou. Todo mundo sempre fazia.

Antes que o homem pudesse entrar em pânico, Zacharel o olhou profundamente em seus olhos e disse friamente.

—Tem algo melhor a fazer.

O médico se encolheu e, enlaçado pelo anel de verdade no tom de Zacharel, respondeu:

—Algo melhor. Sim. Tenho.

Viu? Zacharel não estava interferindo tanto quanto ajudando o médico a redescobrir... tudo que considerava melhor que prejudicar um de seus pacientes.

—Vai deixar este quarto. Não vai voltar. Não vai lembrar desta noite.

Um aceno de cabeça e o homem girou em seus calcanhares, batendo na porta.

Zacharel se fechou dentro de uma bolsa de ar quando um guarda surpreso entrou no quarto e olhou para a menina.

—Tudo feito, Dr. Fitzherbert? Pensei que disse que demoraria um tempo.

—Sim, acabei — foi a resposta monótona. —Vou sair agora. Tenho algo melhor para fazer.

—C-certo.

Zacharel mais uma vez se encontrou sozinho com a menina. Ele saiu do seu abrigo.

—Pensei que não veio para me salvar — ela sussurrou, ainda procurando em algum lugar fora do quarto. O que ela via com aqueles olhos?

Olhos bonitos, caso se preocupasse com esse tipo de coisa — o que não fazia.

—Perguntou se eu vim salvá-la, e eu não vim. Vim por outra razão.

—Oh. — Ela limpou sua garganta, engolindo. —Bem, obrigada de qualquer maneira. Por mandá-lo embora, quero dizer.

Huh. Zacharel gostou de ouvir o agradecimento de seus lábios. Tão enferrujado como seu tom estava, suspeitava que ela não proferia essas palavras muitas vezes. Talvez simplesmente por não tivesse razão — e por que seu peito estava doendo novamente?

—O que ele faria com você?

Silêncio.

—Ia feri-la, então. — Isso, Zacharel já tinha adivinhado. —Ele a machucou antes?

Mais silêncio.

—Isso é um sim. — Matar humanos não era algo que Zacharel geralmente apreciava, mas não era algo que detestava, tampouco. Fazia qualquer coisa a qualquer um e nunca experimentava um momento de remorso. No entanto, arrancar o coração do médico de seu peito daria a ele uma pequena emoção. —Correto?

E ainda mais silêncio.

Estou sendo propositadamente ignorado. Nunca antes foi desconsiderado. Nem mesmo pelos seus homens! Selvagens como eram, até mesmo eles o ouviam — antes de desobedecer descaradamente.

E seu antigo líder, Lysander, levava cada palavra sua em consideração. Além do mais, os únicos seres fora de sua espécie que contava como... o que? Não amigos, mas também não potenciais alvos para eliminação eram os imortais possuídos, conhecidos como Senhores do Submundo que lutaram ao lado dele e ganharam seu respeito por resistir ao mal de seus demônios tão vigorosamente. Sempre os observava com fascínio absorto. Os poucos humanos que o viram ao longo dos séculos ficaram completamente hipnotizados.

Que esta pequena penugem de nada o descartasse tão facilmente era desconcertante.

Antes que pudesse decidir a melhor forma de lidar com isso, Thane atravessou a parede oposta. Fúria estalava sobre sua expressão no momento que viu a menina. Não fez caso de Zacharel, no entanto. Uma pequena benção.

—Os demônios foram eliminados, Majestade e o que solicitou foi levado para sua nuvem. Vivo. — Sua voz fumacenta continha os mesmos traiçoeiros estalos. Lentamente a mulher virou sua cabeça, partes do cabelo emaranhado caindo sobre a testa e cobrindo seus olhos. Ela afastou as mechas e estudou Thane.

—Estou certamente popular hoje à noite. É um anjo, também? — ela perguntou, seu olhar acariciando sobre as imóveis asas pretas do homem.

Zacharel notou que Thane não suscitou a dúvida que tinha. Por quê?

—Sim. — Thane farejou o ar, franziu a testa e voltou seu olhar para Zacharel. —Pretende libertá-la?

—Não. — Por que ele achava isso?

A carranca se aprofundou.

—Mas porquê... Deixe para lá. Se mudar de ideia sobre ela, vou levá-la comigo.

Quando não sabia por que está aqui ou o que ela fez?

—Não — ele repetiu.

Thane se curvou, como se fosse um escravo humilhado por seu mestre.

—Naturalmente não, Majestade. Como ouso desejar algo tão bobo. Ninguém num lugar como este merece compaixão, correto?

Seus homens simplesmente nunca o obedeceriam sem duvidar?

—Humanos foram prejudicados durante a batalha? — ele perguntou. A menina não era a única cujas perguntas ia ignorar.

Erguendo a cabeça, Thane respondeu através dos dentes apertados.

—Um dos guardas. Uma espada de fogo cortou através dele pelo meio.

Zacharel se encontrou apertando as mãos em punhos pela segunda vez naquele dia. Desobediência direta — novamente.

—Uma espada de fogo não corta um humano por acaso. — Enquanto os anjos operavam no plano espiritual, nem mesmo suas armas podiam ser percebidas — ou sentidas — pelos seres humanos. Portanto, o anjo teria que fazer esta ação deliberadamente entrando no Reino mortal.

—O guarda estava possuído por um demônio e precisava morrer — disse Thane.

—E ainda assim era humano. Quem desobedeceu minhas ordens?

Thane correu sua língua sobre os dentes.

—Talvez tenha sido eu.

Familiarizado com os truques que podiam ser usados para contornar o anel da verdade, Zacharel sabia que Thane não era culpado.

—Quem? Vai me dizer ou vai me ver punir Bjorn e Xerxes. — Verdade. Faria isso sem um único receio.

Outra pausa, esta de vários segundos mais.

—Jamila.

Jamila. Uma das quatro fêmeas em seu exército, mas a que ele tinha mais confiança. Era a única que nunca desafiou sua autoridade. Mas agora, por causa dela, receberia outras chicotadas.

—Você — a mulher na cama disse, seu timbre sombreado pela irritação. —Mocinho Novo. Garoto Anjo. Coronel Cachos, ou como quiser ser chamado. Eu pedi, mas agora estou ordenando. Liberte-me.

Zacharel realmente teve que lutar contra um desejo de sorrir. Ele. Sorrindo. O absurdo era impressionante. Mas ela chamava seu guerreiro por vários nomes insultuosos, da mesma forma que o guerreiro frequentemente chamava Zacharel, o insultando com os nomes.

Thane relaxou, uma risada suave escapando.

—Coronel Cachos. Gosto disso. Mas, minha humana linda, me pediu para salvá-la, não para libertá-la.

—É a mesma coisa — disse ela, exasperada.

—São bastante diferentes, garanto. Mas o que vai fazer se eu não prestar atenção às suas ordens, hmm?

Ela soltou um sedoso:

—Acredite, não quer saber.

Zacharel franziu seus lábios, não mais divertido. Ela estava flertando? Era melhor não estar flertando. Ele e Thane estavam numa missão.

—Porque saber não vai me deter? — Thane perguntou insinuante.

—Porque é tão horrível que até mesmo ouvir vai fazer você vomitar.

Thane tossiu — ou encobriu um grunhido. Era muito difícil de dizer.

—Ouviu isso? — perguntou ele a Zacharel, pela primeira vez falando com ele como se fossem amigos, como se estivessem compartilhando um momento de compreensão. —Ela me ordena a obedecer suas ordens, então ameaça me ferir se eu não obedecer.

—Tenho ouvidos — ele respondeu secamente. —Ouvi. — Mas por que ela não fez o mesmo a Zacharel?

—E ela realmente acredita no seu sucesso — continuou Thane, perplexo.

—Não tem que soar tão impressionado — Zacharel disse, não gostando da ideia a qualquer nível. Impressionado, Thane desejaria a mulher... talvez nada o detesse para tê-la.

Thane franziu a testa para ele.

—Estou simplesmente curioso. E, muito bem, vou perguntar o que não é da minha conta. Por que a reinvindicou como sua se planeja deixá-la aqui?

—Não a reinvindiquei. — Zacharel não conseguia encontrar as palavras rápido o suficiente.

—Então por que espalhou toda a sua Essentia sobre ela?

—Não toquei nela.

—E ainda assim sua pele tem sua coloração.

—Não é minha. — A Essentia, uma substância que girava no interior dos corpos de cada um, às vezes escoava através dos poros das suas mãos para se tornar um pó fino, permitindo que reivindicassem qualquer objeto que consideravam sua propriedade exclusiva. Demônios produziam uma substância semelhante, só que a deles era contaminada.

A atenção de Zacharel voltou para a fêmea.

—Nunca reivindiquei um humano. — E nunca teve tanto desejo de fazê-lo. —Ela não brilha. — Ele não via nada fora do comum sobre sua pele.

Ela o olhou descaradamente, e quase moveu seus pés. Ele. Se movendo. Inconcebível!

—Juro a você — disse Thane, — o brilho é muito fraco, mas está aí, e definitivamente é um aviso para outros machos não tocarem o que te pertence.

Ele? Impossível.

—Está enganado, isso é tudo.

—Argh! — a garota interrompeu. —Estou cansada de ouvir esta conversa sem sentido. Equipe Asas é uma merda! Apenas esqueçam que estou aqui. Oh, espere. Já o fizeram. Então aqui está uma ideia: saiam.

Ela tinha mais coragem que até Zacharel percebeu, e ele estava tentando não ficar impressionado, ou perplexo, consigo mesmo.

—Vá — ele disse ao seu guerreiro. —Quero você e meus outros conselheiros — o que incluía Jamila — esperando na minha nuvem. Não, espere. Não você. Vá e encontre todos os detalhes sobre esta humana que puder. — A necessidade de descobrir mais sobre ela continuava o alfinetando. Melhor prestar atenção que se arrepender de não fazê-lo.

—Tudo que disser, glorioso líder. — Thane saiu da sala. Pouco antes de desaparecer, deu uma olhada final à menina, fazendo com que as mãos de Zacharel se apertassem em punhos. Quantas vezes mais faria isso num único dia, quando antes levou anos sem fazê-lo uma única vez?

—Se quer saber sobre mim — ela aproveitou o momento que estava sozinha com Zacharel —, pode apenas me perguntar.

—E te dar a oportunidade de mentir?

Dor cascateou ao longo de seus traços, mas apenas por um segundo. O orgulho tomou seu lugar e permaneceu.

—Está certo. Sou uma mentirosa sem-Deus, e você é o Sr. Verdade. Então por que está aqui, Sr. Verdade? Deixou muito claro o fato que não é para me salvar ou me libertar.

Não havia nenhuma razão para não contar a ela.

—Me disseram para destruir a horda de demônios tentando alcançar o interior do edifício.

Uma onda de pânico.

—Horda, como no exército?

—Sim, mas eles não são qualquer tipo de ameaça. Meu exército foi bem sucedido contra eles.

Lentamente ela exalou.

—Eles me queriam, certo?

—Sim.

Outra onda de pânico antes dela ceder contra a cama.

—Mas por que eu?

Ela não tinha ideia do que fizeram a ela. Nenhuma. Mas se lembraria de ser enganada... ou seduzida. Então, como o demônio conseguiu marcá-la?

—Bem? — ela exigiu.

A ignorando, Zacharel pegou a pasta ainda caída no chão, a que o médico derrubou e folheou as páginas.

Ela bateu a cabeça dela contra seu travesseiro uma vez, duas vezes.

—Muito bem. Finja que não estou falando. O que quiser. Estou acostumado a isso. Mas por favor, Glorioso Líder, me permita poupar seu trabalho de escavar através dos pequenos detalhes, uma vez que mesmo uma mentirosa como eu não teria nenhuma necessidade de enganar. — Sem pausa para permitir sua resposta, ela acrescentou, —para começar, meu nome é Annabelle Miller.

A verdade, confirmada nas notas. Annabelle. Latim, amável.

—Sou chamado de Zacharel. — Não que isso fosse importante.

—Bem, Zachie, e...

—Líder Glorioso — apressou-se a soltar. —Pode me chamar de Líder Glorioso.

—Não há como eu te chamar assim — ela disse, apesar do fato que já o tinha feito —mas é o suficiente para saber sua opinião exaltada de si mesmo. Estou aqui porque matei meus pais. Eu os esfaqueei até a morte, ou assim me disseram.

Ele olhou para cima e viu outro desses tremores duros a balançando. Talvez devesse buscar um cobertor.

Buscar um cobertor? Sério? Sua carranca retornou. Seu conforto não lhe dizia respeito.

—Então, foi dito? Não lembra? — ele perguntou, permanecendo no lugar.

—Oh, eu me lembro. — A amargura voltou à sua voz, agora mais espessa. —Vi uma criatura... um demônio o fazendo, tentei pará-lo, tentei salvá-los, e quando disse às autoridades o que realmente aconteceu, fui considerada criminalmente insana e presa aqui para o resto da minha vida.

Novamente, ele sabia que ela falava com sinceridade. Não apenas porque os detalhes que mencionou estavam digitados, rabiscados e repetidos ao longo das páginas na pasta — embora nenhum de seus médicos acreditasse nela —, mas porque sentia apenas os sabores de rosa e bergamota, ambos frágeis, delicados que gostava. Ímpares. Nunca se importou com odores ou gostos antes. Eram o que eram, e não tinha nenhuma preferência.

—Por que esses demônios me alvejaram? — perguntou ela novamente. —Por quê? E só para que saiba, me dizer é a única forma que eu pare de importunar você sobre isso.

—O que não é exatamente verdade. Eu poderia sair e, assim não seria capaz de me incomodar com nada. — Ao invés de ignorá-la mais uma vez, porém, decidiu que não havia nenhuma razão para não fornecer essa informação, ou qualquer uma. A reação dela o interessava.

Fogo do inferno, mas algo devia estar errado com ele. Nada o interessava.

—Pouco antes de seus pais serem mortos — disse ele, —você convidou um demônio para sua vida.

—Não. De jeito nenhum. — Violentamente, ela balançou a cabeça, entrelaçando os fios azuis escuros em torno de suas têmporas. —Nunca convidaria uma dessas coisas para qualquer lugar. Exceto, talvez, uma festa vamos-queimar-a-casa.

Como ela expressava tal dúvida inegável sobre algo que ele dizia, com o anel da verdade maduro como sempre no seu tom de voz? Sim, haviam seres humanos que possuíam dúvidas mais poderosas que o anel, mas Annabelle não encaixava no tipo.

—Os humanos não conseguem perceber como é fácil acolher demônios. Palavras negativas que fala, as detestáveis coisas que faz. Proferir uma mentira, meditar sobre ódio, entreter o desejo de cometer violência, assim como pode soar o sino do jantar.

—Não me importa o que você diz. Nunca acolhi um demônio.

Como ele poderia se fazer entender?

—Demônios são o equivalente dos entregadores espirituais. Suas palavras e ações podem ser um pedido de encomenda. Em outras palavras, uma maldição. Vêm à sua porta, batendo. É sua escolha ou não abrir essa porta e aceitar. Você o fez.

—Não — ela insistiu.

—Já jogou o tabuleiro de Ouija? — ele perguntou, tentando alcançar seu núcleo teimoso por um ângulo diferente.

—Não.

—Visitou um médium?

—Não.

—Fez algum feitiço? Qualquer magia?

—Não, certo? Não!

—Mentiu, enganou ou roubou um vizinho? Odiou alguém, alguma coisa? Temia alguma coisa, qualquer coisa?

O próximo tremor deslizando pelo comprimento do seu corpo se mostrou mais forte que os outros, bloqueando sua mandíbula, a silenciando e sacudindo a cama inteira. No momento que ela se calou, sua raiva foi drenada e irradiava uma desolação que de alguma forma aumentou a fissura no peito por mais um mínimo grau.

—Acabei minha conversa com você — ela disse calmamente.

Significava sim, ela tinha. Já tinha visto provas de ódio e medo.

—Mas não terminei a minha com você. Espiritualmente, todas as coisas que mencionei permitem que seu inimigo a ataque.

—Mas como uma pessoa pode se impedir de sentir medo?

—Não é o que sente que realmente importa, mas o que diz e como age enquanto se sente dessa forma.

Um momento se passou enquanto ela absorvia suas palavras. Em última análise, ela suspirou.

—Certo, olhe. Estou cansada, e foi gentil o suficiente para garantir que Fitzpervertido não voltasse. Esta será minha única chance de descansar sem alguém aprontando para mim. Apenas vá, certo? Se não pode fazer o que preciso, então me deixe aqui. Odeio que me veja assim. Vá, por favor. Pela primeira vez, me ouça e obedeça. Vá!

Ele apertou os dentes. Não pensaria sobre seu irmão.

—Vou, sim — ele disse —, mas e você? O que vai fazer?

—O mesmo de sempre. — Seu tom era tão sem emoção como o dele, e não tinha certeza se gostava disso. Preferia muito mais sua coragem. —Vou sobreviver. — Mas por quanto tempo?

Por alguns minutos, Zacharel debateu o que fazer com ela — e se espantou sobre ser necessário um debate. Se a levasse com ele, ela poderia causar problemas. Disso não havia dúvida. Estaria interferido na vida de um ser humano, muitas vidas, e com certeza seria castigado. Agora mesmo, já tinha um chicoteamento à vista sobre sua cabeça. Jamila. Mas se deixasse Annabelle para trás, ela finalmente se quebraria. O pensamento dela chorando e implorando como seu irmão fez o perturbava.

Podia visitá-la uma vez por semana, supunha. A verificar, proteger. A menos que fosse chamado para a batalha, é claro. Ou ferido. E nesse meio tempo, enquanto estava fora? O que podia acontecer com ela?

Um contra-argumento despertou para a vida. Se a ajudasse, ele não ia interferir. Não realmente. A protegeria totalmente, e era por isso que estava aqui afinal. Isso era o que sua Divindade queria fazer: proteger os seres humanos a qualquer custo. Zacharel seria recompensado, não repreendido. Com certeza.

Bem, então, decisão tomada.

Quando cortou a distância entre eles, ele... enfim discerniu o brilho que Thane mencionou. Uma luz suave e gentil do mesmo tom dos olhos de Zacharel se infiltrava nela, a cobrindo, a inundando com um brilho sutil.

Mas... ele não a tocou. Nenhuma vez.

—Teve contato com outro anjo? — ele perguntou, embora dois anjos não produzissem o mesmo tom de Essentia. Mas um demônio não podia fazer isso. Não havia como a epítome do mal produzir uma cor magnífica.

—Não.

Verdade. Tinha que haver uma explicação. Talvez... talvez o brilho fosse todo dela, natural. Só porque nunca ouviu falar de tal coisa não queria dizer que era impossível.

—O que está planejando fazer comigo? — Ela encontrou seu olhar, o surpreendendo com a ferocidade depositada lá, desafiando-o a fazer... algo.

—Vamos descobrir juntos. — Ele estendeu a mão, com a intenção de soltar um dos punhos, e ela se encolheu.

—Não! — disse ela.

A percepção o alcançou. Foi abusada, e esperava o mesmo tratamento dele.

Prometer nunca machucá-la de qualquer forma era, talvez, mentir para ela, e não podia mentir. Os seres humanos eram seres sensíveis, seus sentimentos e corpos facilmente feridos. Acidentes aconteciam. Não havia como dizer se ela se magoaria na sua relação.

Apenas quanto tempo pretende ficar com ela?

—Agora, pretendo apenas soltá-la e tirá-la deste lugar. — ele disse. —Certo?

Esperança piscou nos olhos cristalinos.

—Mas você disse...

—Mudei de ideia.

—Sério?

—Sério.

—Obrigada — ela soltou correndo. —Obrigada, obrigada, obrigada, mil vezes obrigada. Não vai se arrepender, prometo. Não sou um perigo para qualquer pessoa. Só quero ir para algum lugar e ficar sozinha. Não vou causar nenhum problema. Prometo! E sério, obrigada!

Ele abriu a primeira algema, caminhou até o outro lado e repetiu todo o processo.

Lágrimas enchiam seus olhos quando ela puxou as mãos apertadas em seu peito e esfregou seus pulsos. Não de dor, ele não achava, mas de alegria.

—Aonde vai me levar?

—Para minha nuvem, onde estará a salvo dos demônios.

Uma agitação de cabeça, como se não tivesse certeza que ouviu corretamente.

—Sua... nuvem? Assim como, uma nuvem no céu?

—Sim. Poderá tomar banho, trocar de roupa, comer. O que quiser. — E depois... ele ainda não tinha ideia.

—Mas — e me detenha se isso soar louco —quero ficar em terra firme, onde não vou mergulhar através da névoa e cair um zilhão de metros só para me espatifar.

Ele soltou uma braçadeira do tornozelo.

—Se eu a levar a qualquer lugar na terra, seria perseguida por seu próprio povo... para não mencionar outros demônios. Estará segura na minha nuvem, prometo. — Ele soltou o outro tornozelo.

No momento que ela ficou livre se ergueu, jogou as pernas sobre a cama e ficou em pé. Embora balançasse, conseguiu se manter em pé.

—Apenas me tire do prédio, e podemos seguir nossos caminhos separados. Terá feito uma boa ação, e vou ficar escondida para sempre.

Recusava-se a obedecer, quando ele finalmente decidiu ajudá-la. Ela estava tentando o enrolar?

—Não posso libertar você sem supervisão, pois eu seria responsabilizado por qualquer dano causado por você.

—Não vou...

—Quero dizer, eu sei. Mas você vai.

—Apenas me dê uma chance!

Isso era o que estava tentando fazer.

—Tem duas escolhas, Annabelle. Ficar aqui ou ir para minha nuvem. Nada mais será considerado.

Seu queixo se levantou, um quadro de muito teimosia.

—Posso ficar com o outro anjo, então? O loiro.

Thane?

—Por quê? — ele exigiu.

—Não me leve a mal, mas gosto mais dele do que gosto de você.

Havia uma maneira certo de aceitar essa afirmação?

Honestidade era para ser elogiada, mas Zacharel repente lutava contra uma necessidade inexplicável de sacudi-la.

—Não pode saber de quem gosta mais. Só passou alguns segundos na sua companhia.

—Às vezes alguns segundos é o suficiente.

Alargou-se a fissura no peito. Nenhuma culpa desta vez, mas uma dose de... raiva? Oh sim. Raiva. Zacharel foi quem impediu o médico de violá-la. Zacharel foi o único que a libertou. Devia gostar dele.

—Sou um guerreiro tão feroz quanto ele. Mais feroz, até.

Um tremor a sacudiu.

Tal reação...

—Talvez não queira alguém feroz — disse ele, mais para si do que para ela. Talvez ela quisesse o que claramente não encontrava neste lugar. Bondade.

—Olha, Maravilha Alada. Tire-me daqui, então vamos discutir os detalhes sobre onde ficarei hospedada. Certo?

—Maravilha Alada — ele disse, balançando a cabeça. —Acho que não me importo com isso. Se encaixa.

—Capitão Modéstia encaixa melhor — ela murmurou.

—Discordo. Maravilha Alada é claramente a melhor escolha para um homem como eu, e discutiremos os detalhes agora. — Mal podia acreditar que estava tendo uma conversa assim. —Não quero você tendo um chilique depois, porque houve algum mal-entendido entre nós. Estou tratando com o suficiente já. — Seu olhar a prendeu no lugar. —Me diga por que deseja permanecer com Thane.

Ela engoliu, mas disse.

—Me sinto mais segura com ele, isso é tudo. E, além disso, a neve não estava caindo de suas asas. Por que está caindo das suas?

—A resposta não pertence a você. Quanto à sua segurança, já prometi que ficará ilesa na minha nuvem. Portanto, os requisitos e os detalhes estão cumpridos. Vai ficar comigo. Venha. Não vou mais perder tempo com argumentos.

Ela não podia voar, não podia relampejar de um local ao outro com apenas um pensamento, o que significava que teria que tocá-la. Não gostaria sequer de um segundo do contato, estava certo, mas suportaria isso, no entanto. Estendeu a mão, fez um gesto com os dedos.

—Última chance. Fica ou vai?

Logo estarei livre deste buraco infernal, Annabelle pensou, querendo rir e chorar ao mesmo tempo. Queria dançar de alívio e, em seguida, se esconder debaixo das cobertas pelo pânico. Escapar... finalmente... mas seria o céu que tinha implorado — ou outra versão do inferno?

Será que isso importa? Estarei livre de Fitzpervertido, sem essa gaiola, livre das drogas e dos outros pacientes e enfermeiros... livre dos demônios.

Todo esse tempo ela lutou contra seres malignos do inferno. Nenhum de seus pais acreditava na vida após a morte. A criaram para ser cética, também. Bem, estavam errados, ela estava errada e agora tinha muito a aprender.

—Annabelle — Zacharel perguntou, novamente apontando os dedos.

Este homem podia ensiná-la, ela pensou. Este homem celestial que parecia tão diabólico, como um sonho escuro, sedutor, destinado a atrair uma fêmea direto às tentações da meia-noite. Perigoso... Sim, este homem era perigoso...

As palavras eram um sussurro suave, erótico contra sua carne. Um sussurro que ouviu e sentiu desde o momento que ele entrou no quarto.

Ainda assim ela disse:

—Eu... opto por ir.

Ficar com ele por mais tempo que o necessário era outra história, no entanto. Podia lembrar o Príncipe de conto de fadas escuro que sonhou tanto tempo atrás, na noite antes do seu aniversário, mas este homem não era encantado.

Trêmula, envolveu os dedos em torno dos dele. No momento do contato, ele puxou uma respiração, como se ela de alguma maneira o queimasse e ela quase se afastou. Firme.

Zacharel chamou a si mesmo de anjo, mas ela não tinha ideia do que aquilo significava ou no que implicava o material padrão do "bom e direito". Mais, não tinha ideia de onde ele ia levá-la — uma nuvem? Realmente? — ou do que planejava fazer com ela, quando chegasse lá.

—Você está bem?

—Eu... preciso de um momento para me ajustar — ele disse, tensão em sua voz.

Bom, porque ela precisava de um momento também.

—Leve todo o tempo que precisar, Capitão Modéstia.

—Sou Maravilha Alada, e vou. Não se mova.

—Uh, isso pode ser um problema. — Mesmo com o frio que estava, sua pele parecia ainda mais fria. Em breve os arrepios a atravessariam.

Ele não ofereceu nenhuma resposta. Apenas olhou abaixo para ela através das pálpebras estreitadas, como se estivesse a culpando por algo catastrófico.

Ela podia confiar nele? Talvez sim, talvez não. Mas queria a liberdade e ele podia lhe dar. E sim, também queria focar por conta própria, confiando apenas em si mesma. Um dia, ficaria. Por agora, a fuga seria suficiente.

Se tentasse machucá-la, quando chegassem a... onde quer que a levasse, lutaria da maneira que sempre lutou — sujo — fosse um anjo ou não.

—Este contato — disse Zacharel. Ele franziu a testa, a curva descendente de seus lábios certamente uma expressão padrão, que não podia controlar. Não, nenhuma vez ela o viu sorrir. Havia qualquer coisa que o divertisse, ou mesmo o chocalhasse?

—O que tem isso? — ela se forçou a perguntar.

—Esperava que certas sensações desaparecessem, mas não o fizeram. — Seu punho apertou sua mão, como se sentisse que ela estava se afastando. Ele a puxou mais perto, mais perto, até que seu corpo foi jogado contra o dele. —Isso não é o que eu imaginava.

Quando ele envolveu seu braço livre em volta da sua cintura, olhou abaixo para ela com aqueles olhos da cor das esmeraldas. Sua pedra zodiacal. Uma vez sua pedra favorita, de fato, mas seu aniversário a tornou sinônimo de morte e destruição, e, bem, ela decidiu esquecer as esmeraldas.

Mas não podia negar que seus olhos eram lindos. Cílios longos e grossos emolduravam íris de tons que não tinham qualquer indício de emoção, suavizando seus traços incrivelmente cruéis para o talvez-eu-apenas-te-faça-gritar-um-pouco-antes-de-te-matar.

Tinha cabelo sedoso que lembrava uma noite sem estrelas. E ah, há quanto tempo não via o céu? Sua testa não era nem muito longa nem muito grande, as maças do rosto escavadas como se fossem esculpidas pelo mestre escultor. Seus lábios tão exuberantes e vermelhos que uma mulher precisava de apenas um único olhar para fantasiar para o resto da eternidade.

Se apenas fosse baixo. Mas, não. Era alto, pelo menos 1,95m, com ombros largos e a massa muscular mais soberba que já viu. E suas asas? Ma-ra-vi-lho-sas. Arqueavam-se sobre seus ombros e cascateavam até o chão. Penas do branco mais puro brilhavam com a essência do mais puro arco-íris, grossos fios de ouro formando um padrão hipnótico que iam até embaixo.

O outro cara, o loiro, era visualmente delicioso também, mas apesar do depravado brilho nos seus olhos azul-celeste, achava que podia lidar com ele. Pelo menos melhor do que poderia lidar com este.

Tarde demais para isso. E talvez fosse melhor, ela decidiu então. Estava tão cheia de ódio, raiva, desespero e desamparo — cada um, aparentemente, um afrodisíaco para os demônios — que a frieza de Zacharel seria uma mudança refrescante.

—Assim, uh, o que imaginou? — ela finalmente perguntou.

—Nada que vá te falar. Agora, coloque seus braços em volta do meu pescoço —Zacharel ordenou, sua voz áspera pela expectativa. Alguém já lhe disse não? Ela se perguntava enquanto juntava os dedos na sua nuca.

—Bom. Agora feche os olhos.

—Porquê?

—Você e suas perguntas. — Ele suspirou. —Pretendo levá-la através das paredes e até o céu. O modo como isso vai acontecer pode desconcertar você.

—Vou ficar bem. — Fechar os olhos a deixaria muito mais vulnerável do que já estava.

Se ele ficou impressionado com sua coragem, não demonstrou. Seus lábios, aqueles lindos lábios vermelhos, se franziram, enquanto suas asas explodiam à sua volta deslizando acima e abaixo, lento e suave. Hipnotizante.

—Também — acrescentou —não quero olhar em seus olhos e ver a mácula do demônio.

Ela tinha olhos de um demônio? Era por isso que sua íris ficou azul?

—Mas não posso ser um demônio — ela engasgou. —Simplesmente não posso ser.

—Você não é. Está contaminada por um. Como eu disse.

Gradualmente ela se acalmou — apesar do fato que seu tom gritava, se tivesse escutado, teria percebido isso.

—Qual a diferença?

—Os humanos podem ser influenciados, reivindicados ou possuídos por demônios, mas não podem se tornar um. Você foi reivindicada.

—Por quem? — Pelo que matou seus pais? Se fosse assim, ela... o que? O que podia fazer realmente?

—Não sei.

Se ele não sabia, não havia nenhuma esperança para ela.

—Bem, não me importo se acha meus olhos repelentes. — Mas se importava. Não gostava do fato que uma parte sua parecesse demoníaca. —Pode lidar com isso.

Passaram vários segundos em silêncio. Em seguida, ele balançou a cabeça e disse:

—Muito bem. Só poderá culpar a si mesma.

Uma sensação estranha a atravessou, o sangue gelando outro grau e cobrindo sua pele. O piso sob ela desapareceu. De repente estava no ar, vendo sala após sala passando por ela, e em seguida, o telhado do edifício, depois o céu, pontilhado de luzes espalhadas em todas as direções.

Ah, meu Deus. Lágrimas de felicidade jorraram nos olhos dela. Estava liberada do que parecia ser uma vida de tortura sem fim. Estava verdadeiramente livre. E pela primeira vez em anos, tinha algo a olhar na frente, em vez de algo a temer. Inundada de alegria como nunca conheceu, consumida. Isso era... isso... era demais.

O puro esplendor da noite a esmagou, e lágrimas espirraram nas bochechas. O mais incrível dos perfumes perfumava o ar. Flores do campo e hortelã, orvalho e grama recém-cortada. Leite e mel, chocolate e canela. O toque mais sutil de fumaça, ondulando numa brisa suave.

—Eu tinha esquecido — ela sussurrou, o cabelo chicoteando contra seu rosto. Mas mesmo isso era uma delícia. Era livre, estava livre, estava finalmente livre.

—Esqueceu o que? — Zacharel perguntou, e havia algo estranho em sua voz. O primeiro sinal de emoção, talvez.

—Como o mundo é belo. — Um mundo que seus pais deixaram muito breve. Um mundo que nunca mais seus pais desfrutariam.

Tristeza se enfiava através da alegria.

Foi de vítima impotente do suspeito assassinato para condenada atormentada muito rapidamente para lamentar o falecimento de sua mãe e pai. Não podia evitar, mas se perguntava como teriam reagido a este momento. Sem dúvida, Zacharel deixaria os dois boquiabertos. Não apenas por causa do que era, mas porque foram emocionais, um casal volátil e lutavam tão apaixonadamente como se amavam. Eles não saberiam o que fazer com sua frieza. Mas isto... isso seria acolhedor. Um voo pelas estrelas brilhantes, respirando o ar que escorria com a liberdade, enquanto deslizava na direção de um futuro agora iluminado pela esperança.

Esqueça a tristeza. Mais tarde, lidaria com isso. Agora, simplesmente desfrutaria. Pela primeira vez em quatro anos, Annabelle jogou a cabeça atrás e riu.

 

Zacharel soltou a garota no momento que foi capaz, depositando-a no centro de uma sala vazia e se afastando de seu calor tentador, da doçura do seu perfume e da suave carícia de seu cabelo contra sua pele. Gostava de tocá-la. Não devia a qualquer nível, mas não importava quantos sermões desse a si mesmo, isso só se intensificava.

Durante o voo, as mudanças em seu rosto expressivo o extasiaram. A viu ir do arrebatamento à tristeza e, em seguida, voltar ao arrebatamento novamente. Ele, que por tanto tempo lutou contra suas emoções até que já não as experimentava, realmente se encontrou com inveja de sua vontade de revelar tudo que pensava e sentia.

Parecia tão desinibida, totalmente presa no momento. E quando ela riu... Ah, céu doce. O som correu sobre ele, o envolvendo, o abraçando.

Ela o intrigava, deixava perplexo, paralisava e estava maravilhado para saber o que trouxe essas alterações rápidas, mas era muito orgulhoso para perguntar.

Era a consorte de um demônio, seu inimigo. Não por escolha, não, mas uma consorte, no entanto. Também era uma humana e, portanto, abaixo dele; suas emoções não podiam importá-lo.

Não devia tê-la trazido aqui, percebeu. Não devia ter aceitado o prazer de tê-la em seus braços.

Não devia estar olhando para ela agora, querendo saber se o prazer que encontrou no céu à meia-noite se estendia à sua casa. Não devia querer seu prazer.

—Por que está rindo? — perguntou ele. Tanto por seu orgulho. Tinha que saber o motivo.

—Estou livre, estou livre, estou finalmente livre — ela respondeu, com um giro.

O longo cabelo dela voou ao seu redor, golpeando seu rosto. Ele quase não reprimiu o desejo de agarrar os fios e os esfregar entre os dedos, só para se lembrar de como podiam ser suaves.

A cabeça se inclinou para o lado quando ela olhou para ele.

—O quê foi?

—O que quer dizer com o que foi?

—Está carrancudo comigo.

—Fico carrancudo com todo mundo.

—Bom saber. Então esta é sua nuvem, né? — Suas sobrancelhas franziram em confusão. Estudou as paredes que pareciam não mais substanciais que névoa. O chão era tão grosso como o nevoeiro da manhã, se agarrando aos seus tornozelos e apenas aparentemente tão frágil.

—Esta é minha casa, sim.

—Tenho que dizer, é exatamente como eu previa.

Era escárnio em seu tom?

—O que quer dizer? — ele perguntou, tentando não se revelar insultado como estava. Outra reação, agora? Quando não a estava tocando? Verdadeiramente?

—Névoa, névoa e mais névoa. Só estou surpresa que a base seja sólida.

—O recinto inteiro é sólido.

Ela estendeu o braço para o lado. Reverência cobriu seus traços quando os dedos dela desapareceram dentro da névoa.

—Sólido... mas não. Fascinante.

Você é fascinante.

Não. Não! Ela não era.

Ele teve fêmeas aqui antes. Colegas guerreiras e até mesmo portadoras-da-alegria que considerava amigas, assim como a Siena uma vez humana, agora imortal, que apenas era a nova rainha dos deuses Titãs — imortais que se consideravam governantes do mundo inteiro. Ela gostava de aparecer, sem aviso prévio, e ele gostava de chutá-la para fora.

Também a esposa de Lysander, Bianka, uma Harpia que ninguém se atrevia a contrariar. Ela mantinha o coração do seu líder em suas mãos e sua felicidade era dele, mas ainda assim Zacharel nunca podia se livrar dela rápido o suficiente. E ainda assim, ver Annabelle aqui afetava Zacharel estranhamente. Estava aqui, cercada por seus muros, abrigada em seu mundo, segura, porque ele fez isso. Ele e nenhum outro.

O pensamento não deveria enchê-lo de satisfação, mas o fazia.

Tempo de deixá-la, ele decidiu. De verdade. A distância faria algo bom. O colocaria de volta em seu jogo e o entorpeceria, da maneira que preferia.

—Quero que fique à vontade, Annabelle — ele disse. —Demônios não se atreveriam a tentar entrar.

Seu alívio era tangível.

—Bom.

—Tenho negócios que devo atender, mas não vou estar longe. Apenas alguns quartos à frente. —Não tinha intenção de ser abrupto, não sabia que era capaz de ser, mas foi. —No entanto, você permanecerá neste.

Agora, seu semblante mudou. Estreitou os olhos e os lábios franziram.

—Está me dizendo que sou sua prisioneira? Negociei uma cela por outra?

Forçado a dizer a verdade por milhares de anos, descobriu maneiras de contornar a verdade.

—Como pode se considerar prisioneira quando todos os seus desejos serão concedidos enquanto está aqui?

—Isso não é uma resposta.

Humana desconfiada, espinhosa. Era irritantemente perceptiva.

—Mas aborda algumas de suas preocupações, tenho certeza.

Ela bateu o pé, cada centímetro uma criança voluntariosa — mas que não o irritou como deveria.

—Não serei mantida em cativeiro. Nunca mais.

Suas palavras, por outro lado... Um brilho de raiva se formou dentro da fissura, queimando no centro do seu peito. Muitas pessoas questionavam sua autoridade ultimamente, e chegou ao fim da sua tolerância.

—Prefere morrer, Annabelle?

—Sim!

Ela própria piscou pela sua veemência, assim como ele.

—Sim — ela disse suavemente.

A alegação era falsa, mesmo que não pudesse provar uma mentira. Com certeza.

—Percebe que eu poderia esmagá-la em segundos, sim?

—Acredite em mim, neste momento, a morte seria uma misericórdia. Assim me esmague se não pode tolerar o que está sendo dito, porque nunca serei uma prisioneira cooperativa. Vou brigar com você para sempre se necessário.

Morte seria uma misericórdia. Outra pessoa proferiu essas palavras para ele, e a morte na verdade foi uma misericórdia então. Para Hadrenial, mas não para Zacharel. Ele sofreria eternamente pelo que aconteceu naquela noite terrível.

Devia parar de comparar Annabelle ao seu irmão.

Agora, tinha duas opções. Convencer a fêmea que não era prisioneira, o que levaria tempo, que não tinha, ou deixá-la ir. Também não o agradava. Talvez houvesse uma terceira opção, contudo. Uma que nunca antes tentou. Cortesia.

Valia a pena arriscar, supunha.

—Humildemente peço que permaneça aqui. O que desejar, só tem que pedir, e será seu. — No momento que ele falou, se lembrou da sua preferência por Thane. A pequena chama de raiva se intensificou, e juraria que ouviu um gotejamento, pingando. —Exceto um macho. Não pode convocar um homem.

Zacharel a salvou. Zacharel cuidaria dela.

A luz no quarto bateu num ângulo diferente, e viu os hematomas estragando a pele macia sob os olhos, as cavidades profundas de seu rosto. Tão frágil, esta humana.

—Não entendo. Tem funcionários que vão me trazer o que quero?

—Sem funcionários. Mostrarei como funciona. O que deseja? Além de um macho. — ele se apressou a adicionar.

—Um chuveiro. — Respondeu sem hesitar. —Sem ninguém me observando.

—Chuveiro privado — ele disse, e em seguida, acenou atrás dela.

Com expressão de descrença, ela girou. Névoa começou a engrossar e tomar forma, até que um chuveiro ficou alto e orgulhoso. Estava envolto por vidro fumê e tinha vários botões e um ralo no chão.

Ela engasgou por partes iguais de descrença e prazer.

—Comida — disse ela em seguida, incomensurável prazer em seu tom.

Gotejando, pingando. Exceto... que já não era raiva no centro da chama. Não estava certo do que era.

Um beicinho curvou sua boca abaixo.

—Nada aconteceu.

—Deve ser específica — ele instruiu.

Sua língua surgiu, percorrendo ao longo de seus lábios.

—Quero lagosta, macarrão-com-queijo, biscoitos e molho de carne, risoto de aspargos, enchiladas de carne, bife de frango frito, bolinhos com cobertura, bolinhos sem cobertura, torta de amora com sorvete de baunilha, peru e molho, e... e.. e...

Ao lado dele apareceu uma mesa grande e redonda, com asas esculpidas em suas pernas. Em seguida, uma elegante toalha branca que cobria perfeitamente seu tamanho. Os pratos solicitados apareceram próximos, um de cada vez, até que a superfície estava coberta pelo vapor das tigelas e pratos perfeitamente dispostos.

As pernas instáveis a trouxeram para frente. Ela se agarrou na borda da mesa, fechou os olhos e respirou profundamente, arrebatamento consumindo suas feições encantadoras.

—Não sei por onde começar — ela admitiu.

—Comece de um lado e abra caminho até o outro.

Ela lambeu os lábios.

—Está com fome? Quer alguma coisa? Se sim, precisarei convocar mais.

Mais?

—Não, obrigado. Vou comer depois.

Ele nunca comia antes da batalha, e não terminou completamente sua missão. Mas gostaria de olhá-la, pensou. Testemunhar seu prazer, sua paixão e — o que está fazendo?

—Ninguém irá perturbá-la.

Ela não deu nenhuma resposta, estava alcançando o sorvete.

Ele se virou em seus calcanhares e atravessou a névoa. Quando se voltou, a névoa bloqueava sua visão dela — mas tão insubstancial quanto parecia, parecia a prender em seu interior.

Ele estendeu sua mão e comandou que o contorno da porta selasse. Só ele seria capaz de abri-la. Só ele seria capaz de entrar — ou sair. Além do mais, Annabelle não ouviria nada do que acontecesse fora do seu quarto.

Isso feito, continuou pelo corredor, o chão se estendendo diante de cada passo. Após seu quarto — seu santuário privado — ficava o compartimento de detenção, onde os cinco mais confiáveis guerreiros do seu exército aguardavam por ele. Confiável sendo um termo relativo, claro.

Thane, Bjorn e Xerxes estavam de lado, juntos como sempre e de algum modo separados dos outros. Ao contrário da maioria dos outros anjos, Xerxes carecia de perfeição física. Tinha longo cabelo branco puxado para trás num diadema de joias. Sua pele era sem cor, como se a morte estivesse assentada sob a superfície, com pequenas cicatrizes, formando padrões de três. Três linhas, uma lacuna, três linhas, uma lacuna, três linhas. Os olhos vermelhos observavam o mundo com inteligência — e raiva — acompanhadas por alguns.

Mas agora, aqueles olhos demoníacos estavam fixos no demônio menor que agora estava preso por tentáculos de nuvem que se agarravam em seus retorcidos pulsos e tornozelos como hera, o mantendo no lugar sem nenhuma esperança de escapar.

Ao seu lado estava o anjo caído igualmente preso que Zacharel trouxe aqui há meses. O macho se recusava a se comportar, causando problemas para a nova rainha dos Titãs, e então Zacharel, a quem foi pedido um favor, tinha que contê-lo.

A atenção de Zacharel se moveu para os outros anjos. No canto mais distante, Koldo limpava sua espada em forma de gancho, aparentemente alheio ao resto do mundo. Tinha a pele banhada pelo sol e os olhos negros profundos e insondáveis como um poço de desespero. Também possuía uma espessa barba negra e longos cabelos negros que caíam abaixo de suas costas em várias tranças.

Quando criança, demônios arrancaram suas asas. E por causa de sua pouca idade, seus poderes regenerativos ainda não eram fortes, então essas asas nunca cresceram e nunca cresceriam. Em vez disso, seus ombros, costas e pernas eram tatuadas com penas vermelhas retratando as asas que sentia falta com cada gama do seu ser. Não que jamais se queixasse. Koldo era um homem de poucas palavras, e as que proferia eram profundas, roucas e de gelar a alma.

Jamila passeava na frente do demônio. Com sua pele escura e os longos cachos pretos cascateando em suas costas e os olhos do mais doce mel, foi uma portadora da alegria originalmente, promovida a guerreira somente depois que se aventurou no inferno, sozinha, para resgatar um dos seus animais humanos.

Semanas se passaram antes que ela aparecesse, e embora salvasse o espírito do ser humano, não salvou a si mesma. Algo lá em baixo a mudou. Não ria mais facilmente ou deslizava pela vida sem preocupação. Ninguém olhava sobre seu ombro mais que Jamila, como se esperasse que o mal estivesse à espera em cada esquina.

Até a batalha de hoje à noite, porém, Zacharel não tinha entendido por que ela foi entregue aos seus cuidados. Agora sabia. Claramente, tinha um problema em seguir ordens... para não mencionar o fato que não mais valorizava a vida humana.

Teria que ser punida. Provavelmente ia chorar.

Deveria ter escolhido Axel como meu quinto. O macho era irreverente, sempre rindo, obcecado em causar estragos, mas não soltaria uma única lágrima quando Zacharel pronunciasse sua sentença.

Xerxes o notou primeiro e se endireitou. Os outros seguiram o exemplo.

—A menina humana — Thane disse. —Gostaria de voltar por ela.

Ele ainda estava pensando nela?

—Não há necessidade. Ela está aqui comigo — ele respondeu com uma borda inesperada em seu tom de voz. —Pode me dizer o que descobriu sobre ela, assim que terminar com o demônio.

Um brilho satisfeito cobriu os olhos do Thane e, mais do que qualquer outra coisa nesse dia, deixou Zacharel irritado. Esperava conquistá-la?

—Ainda tenho que descobrir algumas coisas. Não houve tempo.

Outra ordem despercebida.

—Fará esse tempo quando sair.

Algo em seu tom de voz deve ter alcançado Thane. Em vez de emitir uma de suas habituais réplicas, ele balançou a cabeça.

—Eu vou.

—Que garota humana estamos discutindo? — Jamila perguntou.

Zacharel acenou afastando a pergunta.

—O único ser humano que importa para você é o que matou durante a batalha.

—Sim. E então? E então se matei um? — ela retrucou e ele ouviu o não dito “você também”. Por isso aqui estavam.

Seus olhos se estreitaram nela, lanças de resolução.

—Quantas vezes nos últimos três meses eu disse para não matar um demônio se for prejudicar um ser humano com isso?

Ele poderia a ter puxado de lado, a castigar em privado, mas ela cometeu seu pecado na frente dos outros e agora lidaria com as consequências na frente dos outros.

Vermelho impregnou seu rosto. Ela olhou para seus pares antes de se concentrar em Zacharel.

—Há cerca de trinta dias num mês, e deve ter mencionado isso pelo menos uma vez por dia. Então meu palpite é noventa.

O número não era um exagero.

—E ainda assim, o matou de qualquer forma.

Ela levantou seu queixo em rebeldia arrogante, os olhos quase pretos nas sombras expressas pelos seus cílios. Olhos completamente secos.

—Eu o fiz. Ele me provocou através do ser humano.

Muitas fêmeas levantaram seu queixo para ele hoje. Na verdade, uma já era muito. A Annabelle foi permitido porque era humana e não sabia, e não tinha nenhuma outra maneira de expressar seu descontentamento com ele. E estava estranhamente... encantado com ela. Que não era o caso em questão.

—Um bom soldado sabe ignorar os insultos que jogam nele. Sua rebelião me ganhou outras chicotadas. Não em você. Em mim. — E talvez esse fosse o problema. Jamila não pensava nas represálias. Nenhum deles o fazia.

—Sinto muito — ela soltou.

Exatamente o que disse sua Divindade, mas certamente não dessa mesma maneira irritante.

—Não se desculpa por suas ações, mas apenas por que encontrei sua falha. — No momento que suas palavras se registraram dentro de sua mente, ele fez uma careta.

Sua Divindade estava rindo agora? Ele disse essas mesmas palavras para Zacharel.

O rumo dos acontecimentos. Zacharel foi um rebelde exemplar, simplesmente para continuar lutando contra os seres responsáveis pela tortura de seu irmão. Bem, seus soldados descobririam que ele faria muito pior para eles do que a Divindade fez a ele.

Os lábios de Jamila se apertaram numa linha teimosa, sem resposta futura.

—Se isso acontecer novamente, Jamila, vou te fazer sofrer de maneiras que ainda não pode imaginar, e por qualquer punição que eu tomar, voltarei a você com uma cem vezes maior. — Após estas próximas chicotadas, ele poderia. Por enquanto, um exemplo deveria ser feito. —Esta noite vai visitar cada membro do meu exército e se desculpar por suas ações. Vai implorar seu perdão — por que você será a razão por que vão passar a manhã de amanhã em forma humana — "suas asas escondidas dos olhos de mortais" — limpando cada beco e rua no Condado de Moffat. — A cena do crime.

Humilhante para ela, irritante para eles. Todo mundo ia aprender.

Ela inclinou a cabeça, mas não chorou.

Bom.

—Qualquer pessoa que se recusar a obedecer essa ordem será mantido em minha nuvem, como meu prisioneiro até o final do ano. Não vou tolerar seu desrespeito por mais tempo. — Ele encarou cada guerreiro.

Recebeu acenos relutantes. Relutantes, sim, mas um aceno de cabeça era um aceno de cabeça.

—Agora, vamos falar mais disso. — disse ele.

Xerxes apontou o polegar na direção do anjo caído.

—Quem é ele, e por que está aqui? — Uma pausa. —Se posso perguntar — acrescentou.

A mudança de assunto era bem-vinda. —Seu nome é McCadden, e agora ele é sua responsabilidade. — McCadden havia cometido crimes contra seus anjos companheiros, assim como seres humanos, para ficar com uma mulher que nem sequer o queria.

Mas por que foi considerado inapto para os céus, despojado de suas asas e chutado para a terra, enquanto Zacharel e estes cinco anjos não foram, era um mistério. Na superfície, McCadden não parecia diferente de qualquer um dos outros homens de Zacharel. Tingiu o cabelo de rosa pálido, tatuou lágrimas de sangue sob seus olhos e acrescentou piercings de prata nas sobrancelhas. Subjacente a tudo isso, devia ser uma fossa de escuridão.

—Quando terminamos aqui, vai levá-lo da minha nuvem e mantê-lo trancado em sua casa em todos os momentos — disse Zacharel. Não queria o ex-anjo no mesmo local com Annabelle. —E agora, não vou ser responsabilizado por eventuais crimes que cometer. Você vai.

Xerxes rangeu os dentes, mas não ofereceu nenhuma queixa.

Thane riu, e Bjorn enfiou os nós dos dedos no bíceps de Xerxes.

—Boa sorte.

—Agora, ao demônio capturado — disse Zacharel.

Prazer brilhava em cada corpo angelical, inclusive o dele. Em uníssono, os seis se viraram e encararam o ser em questão. Ela se contorcia contra suas amarras, a névoa se estendendo sobre sua testa e dentro de sua boca, a segurando imóvel, a mantendo em silêncio. Névoa também prendia suas orelhas, bloqueando o som de suas vozes.

Era uma serva da Doença. Sua pele estava afundada, como papel fino, e coberta por feridas. No seu corpo esquelético faltavam músculos e não tinha nenhum indício de gordura. Os poucos dentes que tinha eram amarelos, como os nódulos em sua pele, e tão aguçados e curvados como suas garras.

—Permita que nos ouça — Zacharel comandou a nuvem. Os plugs se diluíram, dissipando completamente. —Permita que fale. — Rapidamente a névoa que cobriu a boca fina se dissipou.

Ela sussurrou uma terrível maldição.

—No caso de não ter conhecimento de como isso funciona — ele disse, ignorando seu chicoteante insulto ineficaz —irei instruí-la.

—Não Zacharel — ela gemeu. —Não qualquer um, mas Zacharel. — Um cheiro de podridão flutuava dela, provando sua súbita explosão de medo.

Sua propensão a torturar seu inimigo era bem conhecida.

—Vai morrer neste dia, Assecla. Esse resultado não será alterado. O método de sua execução será a única variável que pode controlar. — Demônios, ele sabia, eram mais suscetíveis ao anel da verdade que os seres humanos; este se encolhia toda vez que terminava uma frase. —Tenho perguntas para você, e cada uma será respondida honestamente.

—Sabe que vamos saborear suas mentiras — disse Thane.

—Saborear e repreender — Bjorn adicionou.

—Por que estava fora da instituição de Moffat County esta noite? — Detalhes eram mais que importantes; eram necessários. Sem quantificadores, demônios podiam deduzir qualquer coisa que desejassem e responder em conformidade.

Seus lábios finos se levantaram nos cantos.

—Pela mesma razão que os outros demôniosss fazem isso, eu juro. — Verdade sem contexto suficiente para ser útil. Bonito.

—Por que razão os outros demônios permanecem fora da instituição de Moffat County? — ele perguntou. —Não terá outra chance de responder esta pergunta.

—Essstou feliz de resssponder. Elesss esssperam fora pela messsma razão que eu espero fora. É a verdade, tem minha palavra.

Zacharel alcançou uma bolsa de ar e retirou seu frasco de água do Rio da Vida. Até mesmo para pisar perto da costa do rio escondido no interior do templo, dado à Divindade pelo Altíssimo, um anjo devia sacrificar a pele das costas — literalmente. Para capturar um único frasco do líquido precioso, que salvava vidas? O anjo devia sacrificar muito, muito mais.

Zacharel tinha apenas algumas gotas, mas considerou que o tormento de um demônio valia a perda.

—Acho que sua verdade não satisfaz minha curiosidade, então sou obrigado a me satisfazer de outra maneira. Receberá uma punição de cada um de nós, como advertido.

Ao seu aceno, seus soldados sabiam o que ele queria fazer. Talvez trabalhassem juntos apenas por um curto período de tempo, mas no caso em questão, desejavam a mesma coisa.

Koldo se moveu atrás do demônio e segurou a cabeça dela contra seu peito enorme, seus dedos longos, grossos, aplicando pressão sobre sua testa. Xerxes e Thane se adiantaram evocando duas lâminas de metal. Em uníssono, a esfaquearam no intestino. Quando sangue negro surgiu de ambas as feridas, ela soltou um grito profano de agonia. As feridas não seriam fatais, mas iam doer e a enfraquecer.

Enquanto os seres humanos deviam ser protegidos, aos demônios nunca foi estendida a mesma cortesia.

Bjorn e Jamila substituíram Xerxes e Thane na frente dela. Depois que Bjorn abriu sua boca, Jamila produziu um fino bisturi para remover todos os dentes remanescentes do demônio.

No momento que cinco terminaram, o demônio só podia implorar por misericórdia. Nunca mostrou às suas próprias vítimas misericórdia. Zacharel não tinha misericórdia. Asseclas da doença propositadamente infectavam corpos humanos com a doença, alimentando sua fragilidade crescente e desespero, sua dor, seu pânico e amavam cada momento disso.

Ele foi o próximo a ficar na frente dela.

—Eu avisei — ele disse.

—Não minto, digo apenasss a verdade, — a Assecla falou devagar, graças ao tratamento de canal improvisado de Jamila.

—Brincou com a verdade. Comigo.

Ela parou de se contorcer, outro sorriso misterioso levantando os cantos da boca, sangue preto escorrendo de seus lábios.

—E não gosssta de brincar, anjo? Duvido. Fede à fêmea humana agora. Vai brincar com ela? — As palavras estavam ainda mais distorcidas do que antes, mas Zacharel foi capaz de decifrar seu significado.

Acenou para Thane.

O guerreiro voltou sua lâmina para seu intestino — e a deixou lá.

Um grunhido. Um gorgolejo de sangue de sua boca. Através de respirações ofegantes, ela disse:

—Tudo bem, tudo bem. Não gosssta de brincar. Talvez possssa mudar de ideia. Me dê cinco minutosss, e vou fazer coisssasss ao seu corpo... coisssasss que vai sonhar por anosss.

Enquanto falava, ele abriu o frasco que segurava, permitindo que uma única gota de água molhasse a ponta do seu dedo.

—Ah, mas em cinco minutos acredito que terá as mais prementes questões na sua mente. Chegou a minha vez. — Ele estendeu a mão e enfiou o dedo em sua boca, forçando a gota abaixo por sua garganta.

O grito estridente, quebrado que se seguiu transformou em paródia aquele que veio antes, a água atacando a doença, perpetuamente continuando, espalhando saúde e vitalidade.

Ela pinotou contra Koldo com tanta força que vários dos seus ossos saíram do lugar.

Quando finalmente se acalmou, lágrimas desciam pelo seu rosto sem caroços, o cheiro pútrido da sua podridão desaparecendo.

Zacharel disse com calma:

—Decidi ser benevolente e dar-lhe uma última chance. Por que permanecia fora da instituição esta noite?

Houve a mais básica pausa antes dela oferecer baixinho:

—Não era... minha hora... de entrar. — Suas palavras estavam pontuadas por suspiros da dor residual.

—De acordo com quem?

Uma pausa mais longa enquanto considerava o que mais Zacharel podia fazer com ela. No final, decidiu que uma evasão não valia a pena.

—Burden.

Burden. Um demônio que foi o segundo no comando do Alto Senhor da Ganância e amplamente considerado como um dos guerreiros mais ferozes do inferno. Atualmente estava sem mestre. Foi ele que marcou Annabelle?

—Onde está Burden agora?

—... Não sei.

Não detectou nenhuma mentira neste momento, qualquer uma.

—Como Burden a contata?

—Doença muito ocupado... com humanosss... Tinha que me alinhar... com alguém. Burden era... o maisss poderoso... dasss minhasss opçõesss.

—Quais eram suas ordens?

—O que... acha que... eram?

Ele acenou para Thane.

Thane torceu a faca.

A Assecla grunhiu através da dor renovada.

—Estávamosss... nosss divertindo... com uma fêmea humana. Naquele momento... cheirando seu... manto.

—Por quê?

—Não... perguntei. Não... importava.

Verdade.

—Ganhou sua morte, Assecla. Ela é toda sua — ele disse aos seus soldados.

Thane removeu a lâmina, e ela cedeu contra suas amarras. Um segundo depois, cinco espadas de fogo apareceram, e no próximo segundo, a Assecla estava sem sua cabeça e todos os seus membros. Demônios gostavam de fogo sim, e podiam suportar as chamas. Mas o fogo no inferno eram o fogo da condenação. As espadas dos soldados possuíam o fogo da Justiça, e isso os demônios não podiam suportar.

Seus guerreiros encostaram as pontas de suas espadas contra cada pedaço da Assecla, até que carne e osso pegaram fogo, carbonizados a cinzas e afastados numa brisa repentina. Zacharel tinha as respostas que procurava. A questão agora era o que fazer com elas.

 

Tanto para apenas desfrutar de uma mudança de cenário, Annabelle pensou.

Bem, isso não era exatamente verdade. Ela desfrutou. Primeiro.

Depois que devorou todos os seus alimentos favoritos, seu estômago tão cheio que podia estourar, ela se lavou, se sentindo mais limpa do que nos últimos quatro anos. Se apenas se sentisse mais limpa do que nunca, mas não. Havia uma camada de sujeira sob sua pele, no sangue dela, que era incapaz de limpar.

Há, há, o que quer que fosse. Sem lamentações. Agora não. Vestia um colante e macias calças fluíam, como ela solicitou. Então ficou lá. Apenas ficou lá, a exaustão a sobrecarregando completamente. Ela pediu à nuvem — nuvem! — uma cama. Uma monstruosidade King-Size com lençóis de seda lindos apareceu e rastejou ao topo com gratidão. Mas... era incapaz de dormir, com medo de ficar vulnerável, muito preocupada com os pesadelos que a afligiam — e também presa por pensamentos de Zacharel.

Onde ele foi? Quem estava com ele? O que estava fazendo? Por que era importante para ela?

Pela manhã pequenas dores em seu corpo apareceram e se esqueceu de tudo sobre sua curiosidade. Logo depois, começou a tremer e a suar. O uso contínuo de drogas por tantos anos e agora, tanto frio... provavelmente não era a mais sensata ação. E sim, podia pedir à nuvem um sedativo, mas resistia à ideia com cada fibra do seu ser. Nunca faria a si mesma o que os médicos fizeram com ela.

No segundo dia, vomitou repetidas vezes, até que não havia nada dentro do seu estômago, exceto — certamente — cacos de vidro e pregos enferrujados. E talvez uma manada de búfalos a pisoteando.

No terceiro dia, voltou a tremer e a suar, tão fraca que mal podia levantar a cabeça ou mesmo abrir os olhos.

Eventualmente, o sono golpeou atravessando todas as paredes de resistência que ergueu e ela escorregou na terra dos sonhos. Seus pais a abraçavam e beijavam, dizendo o quanto a amavam. Seu irmão mais velho, Brax, esfregava os dedos em seu cabelo. Ah, como sentia falta dele. Desde sua prisão, ele deixou sua aversão por ela muito clara.

Uma vez, ameaçou qualquer menino que quisesse namorar com ela. Ele sorria para ela todas as manhãs, preparava seu café da manhã, seus pais já tendo ido para o trabalho. No caminho para a escola, discursava sobre estudar mais duro e manter suas notas para que pudesse entrar numa boa faculdade e ter o melhor futuro possível.

O que não era possível agora. O homem que Brax se tornou não acreditava que Annabelle não se lembrava daquela fatídica manhã. Não confiava nela, e certamente não a adorava e queria o melhor para ela.

Melhor? Qual era o melhor para alguém como ela? Apesar da euforia que sentiu logo que saiu da instituição, apesar de seu desejo de viver sozinha, feliz e despreocupada, a verdade era agora inevitável. O único futuro que tinha era de fugitiva da lei.

O sonho se transformou, seus pais e Brax empurrados para o fundo da sua mente e substituídos pelos demônios com quem lutou ao longo dos anos. Viu pisos encharcados de sangue, que ninguém mais podia ver, seus pés escorregando e deslizando em poças enquanto ela gritava por ajuda, que nunca ia receber.

Felizmente, esse sonho se transformou, também. Estava deitada ao lado de Zacharel, e ele colocava suas mãos frias sobre ela, delicadamente tirando seus cabelos de seu rosto enquanto resmungava sobre seres humanos problemáticos. Ele enfiava doces e suculentos pedaços de fruta abaixo por sua garganta, e de alguma forma ela encontrou energia para esbofeteá-lo por ser tão bosta sobre o assunto.

No quarto dia, tudo mudou. Seu sono se acalmou, sua mente se apagou. As dores desapareceram. Finalmente, Graças a Deus, até mesmo os tremores e a transpiração aliviaram e a força voltou ao seu corpo. Ela se esticou e se esforçou para sentar, a tontura esperando à margem da sua mente, pronta para devorar todo o seu ser.

Ela olhou ao seu redor — estava ainda dentro da nuvem — então para si mesma. Estava vestida com uma túnica branca tão suave como cashmere e limpa da cabeça aos pés, apesar do período de tempo que passou. Quem a trocou? A banhou?

Zacharel?

Seu rosto se cobriu de calor. Sim, Zacharel. Parte não foi sonho, afinal de contas, mas pura realidade. Que... legal da parte dele.

Zacharel não parecia ser do tipo que se preocupava com o sofrimento dos outros, especialmente à custa de seu próprio conforto, mas arriscou alguns tapas de uma fêmea maluca apenas para garantir que ela comesse.

Pobre rapaz. Provavelmente lamentava libertá-la.

Ela jogou as pernas sobre o lado da cama e se levantou, balançando. Era hora de caçar Zacharel, agradecer e descobrir seu próximo passo.

 

—Humana desagradável — Zacharel murmurou enquanto passeava pelo centro de sua nuvem. Nunca antes cuidou de um ser humano doente, ou mesmo um anjo doente. Claramente. Sob seus cuidados, Annabelle só tinha piorado.

E ela bateu nele! Várias vezes! Nem mesmo sua Divindade nunca ousou uma coisa dessas. O chicotear, sim. Zacharel ainda estava se recuperando de sua última rodada com a pulseira de couro, mas o estapear? Nunca. Não que as ações insignificantes o tivessem magoado. Era o princípio da coisa. Ele usou tempo do seu dia para cuidar dela, precioso tempo que devia ser dedicado ao seu novo exército e suas várias missões, e ela não podia agradecer?

—Típica mortal — ele resmungou agora. Sua raiva dela não resultava de preocupação, estava certo dele. Esfregou a palma de sua mão descendo ao centro do seu peito e estalou os lábios, encolhendo pelo gosto amargo na boca.

Não disse uma mentira, mas certamente entreteve uma em sua própria mente.

Annabelle viveria ou morreria, e Zacharel não ia se preocupar de uma forma ou outra por mais tempo. Não ia.

Ele fez uma careta quando o gosto amargo se intensificou. Chega disso! Faria o que qualquer outro homem faria nesta situação. Convocaria uma mulher para assumir. Jamila. Sim, Jamila garantiria a segurança de Annabelle.

—Informe Jamila que preciso de sua presença — ele disse à nuvem.

Quanto tempo levaria para voar aqui? Levaria menos de um minuto para empurrar Annabelle em seus braços e chutar as duas para fora de sua casa. Estava cansado de pensar sobre Annabelle, cansado de saber o quanto estava machucada, se iria sobreviver a qualquer doença que a golpeou. Cansado de alcançar o bolso de ar contendo seu frasco de água do Rio da Vida, apenas para se afastar antes que fizesse contato com ele. Sequer considerar dar a gota restante era ridículo.

—Mais ameaças? — Jamila perguntou no momento que chegou.

Enfim. Ele girou para enfrentá-la.

—Está atrasada.

Os olhos dourados brilharam com... raiva? Não podia ser. Havia calor, mas nada de raiva.

—Como posso estar atrasada? Não me deu um período de tempo. — Suas asas estavam dobradas ao seu lado e cachos escuros caíam sobre os ombros pela extensão suave de seus braços. —Além disso, não sinto necessidade de correr para outra bronca.

—Não tenho intenção de brigar ainda mais com você. Desobedeceu na noite da batalha, e proclamei sua punição. Esse assunto está encerrado.

Ela pegou um dos seus cachos o girando em torno de seu dedo.

—Então por que estou aqui?

—É mulher.

Um ligeiro capricho em sua boca.

—Bom que perceba.

—Quero que você... Preciso de você para... — Ele franziu seus lábios, massageando sua língua contra o céu da boca. Tentou falar novamente. Falhou. As palavras se recusavam a deixá-lo.

Se colocasse Annabelle aos cuidados de Jamila, não seria capaz de vê-la sem mendigar um convite para a casa do anjo. Nunca saberia o que acontecia com ela. E Jamila era tão impulsiva e tão frequentemente controlada por suas emoções. E se Annabelle a irritasse? Annabelle possuía temperamento e nem sempre se importava com suas palavras. Como Jamila reagiria a uma réplica espinhenta de um humilde ser humano? Não bem, pelo muito que sabia.

Não posso colocar Annabelle sob seus cuidados.

Um tipo estranho de alívio caiu sobre ele, levantando um debilitante peso de seus ombros e algo leve e brilhante piscou em seu coração. Não, não alívio. Não podia ser. Sentia-se irritado com estes acontecimentos, certamente. Estava onde começou, onde não desejava estar.

O anjo estava olhando para ele com expectativa.

—O que as fêmeas exigem? — ele perguntou, se recusando a mudar de ideia mais uma vez. Annabelle ficaria, e era isso. Jamila se moveu para o lado, seu manto ondulando com o movimento.

—Exige para o que?

—Para atender suas necessidades.

Seus olhos se arregalaram, suas pupilas queimando e engolindo todo o ouro. Rosa cobriu seu rosto, seus lábios suavizando, se abrindo.

—Não tinha ideia que começava a sentir desejo, Zacharel. Deveria ter dito algo mais cedo. Poderia ter lhe dito que preciso apenas de sua cooperação.

Enquanto ele tentava processar suas palavras, ela se aproximou, seus braços envolvendo seu pescoço e se levantando na ponta dos pés. Então colou sua boca na dele e forçou sua língua a passar por seus dentes.

 

C-certo. O ultrafrio Zacharel era capaz de emoção. Desejo. Mas isso não fazia dele menos idiota.

Annabelle queria saber onde ele estava, não porque se preocupasse com o homem — não ela — mas porque ele fez algo para a nuvem a impedir de sair do seu quarto. Enfurecida, exigiu que a nuvem mostrasse a ela onde ele estava e o que estava fazendo e ele — ele? ela? — o fez.

A tela como uma TV apenas apareceu na frente dela, composta de nada mais que ar. Viu, suas mãos se apertando, seus olhos se estreitando, como uma atraente morena com cabelo ondulado se enroscava em Zacharel, moldando os dois juntos e alimentando um beijo decadente. Seu temperamento fervendo não era sobre inveja, mas sobre suas circunstâncias. Estava presa, e ele estava brincando lá fora.

Agora viu como Zacharel empurrou a garota longe. Ele rosnou.

—O que está fazendo?

Novamente a bonita cortou a distância, tentando voltar a colocar a boca sobre a dele.

—Estou beijando você. Agora me beije de volta.

—Não. — Carrancudo, ele a afastou dele, e desta vez, a manteve no lugar. Suas asas estavam dobradas em seus lados, embora se arqueassem para trás, longe da fêmea. Flocos de neve caiam de suas pontas, minúsculos cristais que formavam pequenas estacas no chão. —Por que está me beijando?

A confiança da sensual garota morreu de uma morte lenta, torturante.

—Porque está faminto por mim como estou faminta por você nestes últimos meses? — Uma pergunta quando provavelmente queria que fosse uma declaração.

—Não tenho fome por você, Jamila.

Ai. Havia tal honestidade brutal em seu tom, que mesmo Annabelle se encolheu.

—Mas você disse... — Jamila afundava. —Pensei que...

Ah, querida. Apenas vá embora antes que ele pise mais em seu orgulho, Annabelle pensou, a simpatia pela menina momentaneamente substituindo sua raiva de Zacharel.

—Não disse nada para fazer você pensar que a desejava — afirmou com a mesma frieza que sempre infundia em suas palavras. —Você simplesmente assumiu. Portanto, agora vou te dizer claramente. Não quero você. Nunca quis você, e nunca vou querer você.

Certo então, errada novamente. O homem não tinha nenhuma emoção.

Um soluço separou os lábios da mulher, e ela girou em seus calcanhares, suas asas se expandindo numa explosão de movimento. As dela possuíam muito menos ouro que as de Zacharel, mas eram lindas, no entanto. Ela se atirou no ar e saiu da nuvem.

Ele encarou a tela que Annabelle assistia ainda, e ela sabia que estava indo para seu quarto. Não querendo ser pega espiando, acenou para afastar a tela da TV.

—Vá! — O ar diluiu, até que apenas a parede de nuvem permaneceu.

Um segundo depois, Zacharel passava por essa parede, parecendo sair de um sonho proibido à meia-noite muito melhor que os que ela se divertia. Cabelo preto grosso sedoso caia abaixo de uma testa impecável e um olhar que a estudava com intensidade inabalável. Embora seus traços fossem pintados pelo pincel da juventude, parecia além de antigo, o inverno verde dos seus olhos vendo tudo, não perdendo nada.

Uma longa túnica branca drapeava dele, de alguma forma exibindo sua força incrível e, oh, oh, oh, mas ele trazia o frio do Ártico com ele. Ergueu seus braços em torno de seu corpo procurando calor.

Ele a olhou. Algo passou por sua expressão, algo que ela não conseguia ler, antes que cuidadosamente a apagasse de suas feições.

—Você está bem.

Não serei intimidada e absolutamente não ficarei admirada por sua aparência. Annabelle se forçou a desencadear a ira que sentia antes.

—E você é um desmiolado. Fez-me prisioneira, depois que eu disse que prefiro morrer!

Longe de se intimidar, ele disse:

—De nenhuma maneira fale comigo assim, Annabelle. Estou com um humor perigoso.

E ela não estava?

—Bem, bem, o poderoso Zacharel realmente sente alguma coisa — ela disse impertinente. —É um milagre de Natal.

—Não é Natal, e sugiro que adoce seu tom. Caso contrário, poderia levá-la ao pé da letra e matá-la. Que tal isso?

Ela engasgou, se afastando até atingir a borda da cama e quase cair.

—Não ousaria. Não depois que teve tanta dificuldade para me salvar.

Resoluta auto-aversão escureceu seus olhos.

—Matei meu próprio irmão, Annabelle. Não há ninguém que eu não derrube.

Espere, espere, espere. Ele fez o que?

—Está mentindo. — Tinha que estar mentindo.

Ele mostrou seus dentes para ela, a lembrando um animal ferido com muita dor para aceitar a ajuda de ninguém.

—Não minto. Não preciso. As pessoas mentem porque se preocupam sobre as consequências em admitir a verdade. Nada me preocupa mais. As pessoas mentem porque querem impressionar aqueles ao redor. Não procuro impressionar ninguém. Seria sábio se lembrar disso.

Como este podia ser o mesmo homem que a cuidou tão docemente?

—Por que matou seu irmão?

—Não é da sua conta.

Ela persistiu.

—Como matou seu irmão?

Silêncio.

—Um acidente?

—Annabelle!

Um castigo, se já ouviu um. Multa. Deixaria o assunto por enquanto. A coisa do animal ferido fazia sentido, contudo. Tudo o que ele fez, sofreu por isso.

—Por que me deixa ficar em sua nuvem — ela disse —quando isso claramente o assusta? E o assusta, não importa o que diga. Por que mais me trancaria?

Uma pulsação de tranquilidade, parecendo drenar sua ira.

—Quer me pescar com essa pergunta, acho. Espera me embaraçar para pedir desculpas, e prometer nunca trancá-la novamente.

—Não. — Bem, talvez um pouco.

—Deseja deixar minha nuvem?

—Queria sair do quarto.

—E falhou em sua tentativa.

—Sua nuvem falhou, não eu.

Ele revirou os olhos.

—Por que deseja sair?

Ao invés de mentir — ou tapeá-lo novamente como tão ricamente merecia — ela jogou suas palavras anteriores de volta para ele.

—Não é da sua conta.

Estavam se contraindo os cantos dos lábios?

—Queria me ver? Falar comigo?

Cada palavra fazia o calor aprofundar em seu rosto.

—Não vou responder essas perguntas, qualquer uma.

—Menina inteligente. Já percebeu que é melhor se recusar do que mentir para mim. Mas com suas faltas de reposta, me disse o que eu queria saber. Sim, queria me ver, falar comigo. Mas sobre o que?

Anjo irritante.

—Olhe. Prometeu nunca me trancar novamente, ou eu escaparia mais cedo ou mais tarde. E percebo que não é realmente um impedimento para você, mas essas são as únicas opções que estou disposta a aceitar.

—Muito bem. Nunca mais trancarei você neste quarto.

Ele ofereceu o voto tão facilmente, que ela momentaneamente ficou surpreendida.

—Bem, certo, então.

—Vai ficar?

—Sim.

Por um pouco mais, porque não tinha certeza de onde ir... ou como retornar para a terra sem derramar suas entranhas.

—Mas é o suficiente sobre mim — ela disse, não querendo que ele mudasse de ideia. —Por que teve que ser tão má com aquela mulher?

Tanta coisa para esconder o fato que esteve espiando.

Seu olhar se desviou para o espaço vazio ao seu lado, se estreitou e voltou para ela.

—Você me viu. — As palavras eram veludo macio, provavelmente de uma forma que não tinha intenção. Ao mesmo tempo, o rubor cobrindo seu rosto, acrescentando o fator erótico-sonho.

Isto não é da sua conta, Miller. E ainda assim ela assentiu com a cabeça para encorajá-lo a continuar.

—Eu o fiz — disse ela, e o cheiro dele... de repente se agarrou a cada centímetro seu... quase a derrubando de joelhos. Como ela não viu seu fascínio antes deste momento?

Uma de suas sobrancelhas se arqueou, escorregando sob a caída de cabelo.

—Como fiz mau à ela? Simplesmente disse a verdade.

—Disse a verdade, claro, mas fez isso sem nenhuma preocupação com seus sentimentos. — Não estendeu a mão e empurrou o cabelo longe.

—Sim, e ela me beijou sem nenhuma certeza dos meus sentimentos.

Está bem. Tudo bem. Isso mudava tudo. Annabelle foi beijada à força antes, e odiou cada momento disso. Ela atacou o culpado, também. Sua reação era compreensível.

—Na verdade — ele acrescentou —, se fosse dizer algo a ela, e não estou admitindo que diria, seria para poupar seus sentimentos no futuro. Agora sabe como penso sobre o assunto, sem qualquer dúvida. Não vai cometer o mesmo erro duas vezes. Além disso, a verdade pode machucar, mas quando usada corretamente, nunca é propositadamente cruel.

Que tipo de mulher pegaria este homem? Ela meditou. Uma corajosa, certamente. E por que estava mesmo se divertindo com tais pensamentos? Seu perfume estúpido devia estar afetando seu cérebro.

—É casado? — A ideia não devia incomodá-la, mas o fazia. Mas só porque se sentiria culpada por achá-lo tão atraente quando pertencia a outra mulher, com certeza.

—Não, não sou casado — ele disse.

—Namora alguém? — Embora a palavra namoro parecesse demasiado mundana para ser aplicada ao ser celestial na frente dela.

—Não.

—Quis namorar alguém?

—Não. Basta de perguntas.

—Já namorou alguém?

Ele apertou sua mandíbula em irritação.

—Nunca namorei ninguém, e nem quis namorar ninguém.

Seus olhos se arregalaram.

—Mas isso significaria...

—O beijo de Jamila foi o meu primeiro, sim.

De jeito nenhum. De jeito nenhum foi o primeiro beijo deste belo homem. Apesar de nada amigável, alguém teria tentado seduzi-lo até agora.

—Você gostou? — Ah, não, não, não. Ela não perguntou isso.

—Claramente que não. — Ele se moveu ao seu redor, os dedos tocando a seda dos lençóis jogados sobre a cama. Muito casualmente, ele perguntou: —Você já foi beijada?

Ela suspirou enquanto memórias a assaltavam. O bom, o mau e o miseravelmente feio. Antes da instituição, os beijos que experimentou foram com um menino de sua escolha.

Alguns foram doces, outros passionais, mas todos bem-vindos. Após a instituição... Ela estremeceu com repulsa.

—Sim. — Zacharel pensaria menos dela agora?

—Gostou?

Não havia nenhuma condenação em sua voz, que foi a única razão por que ela respondeu com:

—Depende de qual beijo estamos falando.

Ele soltou o tecido e a encarou, uma das mãos apertando o poste da cama.

—Mais de uma pessoa beijou você?

Ainda sem julgamento, mas havia algo em seu tom. Algo quente. Tão quente, na verdade, que a neve parou de cair de suas asas, de alguma forma repentinamente sugadas do frio.

Bem, porcaria. Ela mudou de ideia pela terceira vez. Não podia ser sem emoção. Fúria crua se misturava com sensualidade, irradiando dessas pálpebras pesadas até a boca exuberante, cheia e brilhante, do pulso martelando no seu pescoço, para a onda lenta de seus dedos.

—Sim — ela disse. —Mas apenas um realmente conta. Antes do meu confinamento, eu tinha um namorado. Estávamos juntos há mais de um ano e fazíamos coisas juntos. Daqueles beijos eu gostei. — Ou pensava isto na épica. —Após o assassinato dos meus pais, ele terminou comigo e nunca veio me visitar.

Ela deu de ombros, como se não se importasse.

A verdade era que se importava. Precisava que alguém que conhecia acreditasse nela, acreditasse nela e mostrasse um pouco de apoio ou compreensão. A deserção de Heath a cortou mais fundo que a do seu irmão, a deixando vazia e desmotivada. Ela confiava nele, e ainda assim ele se afastou tão facilmente dela. Agora tinha que viver com o fato que ele a viu nua.

—Quem mais? — Zacharel perguntou.

—Algumas vezes, quando estava presa, um paciente ou um médico... — Outro encolher de ombros, este duro e irregular.

Enquanto falava, ele perdeu essa pitada de sensualidade, a frieza retornando. Encontrou conforto nisso. Como ela, ele odiava pensar em outros sendo forçados.

—O que fazia os beijos com seu namorado tão bons?

—Nós nos amávamos. Bem, eu o amava. Acontece que ele só estava me usando pelo que eu daria a ele. Gostaria de saber se é coisa de adolescente, ou apenas uma coisa de Heath. — Ela mordeu seu lábio inferior, sua mente ainda presa na confissão de Zacharel de abstinência total e completa. —Quantos anos tem, de qualquer maneira?

—Mais do que pode imaginar.

Por favor.

—Cem? Duzentos?

Ele balançou a cabeça.

Seu queixo caiu.

—Quinhentos? Mil... — Quando ele deu outro aceno, ela disse —De jeito nenhum. Não tem como. Não pode ter mais de mil anos.

Ele arqueou uma sobrancelha.

—Você tem — ela engasgou. —Realmente tem.

—Tenho milhares de anos.

Milhares, como mais de um. Ela apertou suas mãos sobre a barriga se retorcendo.

—E realmente nunca beijou alguém? Por seu próprio livre arbítrio, quero dizer.

Ele invadiu seu espaço pessoal, dizendo baixinho:

—Esta dúvida que expressa a respeito das minhas confissões é tão ofensiva como desconcertante. — Um sopro frio caminhou sobre o rosto, limpo e doce. —Nunca, em todos os meus séculos, falei uma mentira.

Não vou me afastar nenhuma polegada. Não vou mostrar fraqueza.

—Desculpe, é apenas que está ao redor dos seres humanos há tanto tempo, que provavelmente já viu de tudo. — Ela fez uma pausa, à espera de sua confirmação. Confirmação que ele deu com um único aceno de cabeça. —Estou surpresa.

Ele pegou uma mecha de seus cabelos entre os dedos, esfregando os fios juntos. O contraste entre o azul-negro dos fios e a doçura de sua pele beijada pelo sol era magnífica, quase mágica.

Se ela não tivesse cuidado se atiraria sobre ele. E se encontraria sendo rejeitada e envergonhada, assim como a outra garota.

Tinha que se lembrar que não estava interessada num emaranhado romântico agora. Depois de tudo que passou, não tinha certeza de como ia reagir aos avanços de um homem.

Enquanto o estupro nunca aconteceu, muitas outras coisas sim. Mãos vagando. Dedos massageando. Línguas lambendo. Seu total desamparo a haviam revoltado e enojado. E o fato que Fitzpervertido tirou fotos dela...

Podia vomitar. Se mostrou a alguém? Será que às vezes ria da dor que causou a ela?

—O que há de errado? — Zacharel perguntou.

Ela forçou sua mente a voltar para a nuvem e o anjo imóvel à frente dela. Ele soltou seu cabelo, e se afastou dela. Neve, mais uma vez chovia desde as pontas de suas asas, o ar agora tão frio que pequenos arrepios surgiam por todo o corpo.

—Nada há de errado — ela murmurou.

Ele estalou os lábios como se provasse a falta de alguma coisa.

—Está mentindo.

—E daí? — Viu? Memórias sombrias já afetavam suas relações com um homem, contaminando tudo.

—E daí? Eu digo a verdade, mas você mente para mim. Isso é intolerável, Annabelle, e não vou permitir isso.

E como planejava detê-la?

—Vamos apenas dizer que, se algo está errado, não é da sua conta. — Agora só uma coisa importava. Respostas. —Antes, me disse que fui marcada por um demônio.

Ele aceitou a mudança de assunto com um suave "Sim".

—E ele fez isso para me reivindicar como sua propriedade? — Ela se lembrava de acordar com queimação nos olhos. Lembrava-se da criatura em sua garagem, agarrando seus pais até a morte. Lembrava-se da maneira que a beijou — o pior beijo da sua vida.

— Sim. Deve ter visto você, te desejado e decidiu mantê-la, mesmo que não pudesse levá-la com ele. Ele disse qualquer coisa a você?

— Apenas o material clássico de filme B. Sabe, amo o som de problemas. E isso vai ser divertido.

—Não pediu para pertencer a ele, e você não disse sim?

—Dificilmente. Mas ele vai voltar por mim, não é? — Ela sempre se perguntava. Sempre temia. E, de acordo com Zacharel, o medo era um atrativo para todos os tipos de mal. Um sim mais hesitante foi oferecido neste momento.

Não ia mais ter medo. Ia se preparar.

—Bem, pretendo matá-lo quando ele me encontrar. Então, na mesma nota, tenho mais uma pergunta para você. Vai me dar um dessas espadas de fogo?

 

Zacharel olhou a mulher humana que o fez sentir mais no espaço de cinco minutos que alguém nos séculos desde a morte de seu irmão. Não entendia isso, ou a ela, ou o que estava acontecendo com ele.

Aqueles olhos azuis sobrenaturais estavam cheios de tantos segredos, segredos assombrados. Ele queria sondar suas profundezas e descubrir tudo que ela tentava esconder. E queria... tocá-la. Sua pele era macia e suave como parecia? Ele a abraçou, porém a roupa o impediu de saber a textura de sua pele. Seu calor escoaria passando pelas camadas de frio que o prendiam e consumiam?

Queria beijá-la, para descobrir se seu gosto coincidia com o suculento cheiro dela. Queria saber se seu beijo seria diferente do de Jamila. Queria saber se ela gostaria do beijo dele tanto quanto gostou do ex-namorado. E odiava que outros a tivessem tocado e beijado sem permissão, o conhecimento abanando para a vida cintilante, um desejo de mutilar e matar os culpados.

Não se perguntara sobre essas coisas antes, não se preocupava com quem fez o quê a quem. Ele, que viu os seres humanos se envolvendo em cada ato sexual imaginável, nunca sequer contemplou uma fêmea de forma erótica. Nunca se importou o suficiente com alguém para experimentar qualquer tipo de ciúme.

Até agora. Até Annabelle. Esta menina era corajosa quando devia se acovardar, vulnerável quando devia estar endurecida, gentil quando devia ser fria. Exatamente como Hadrenial.

Mas outros eram corajosos, vulneráveis e gentis também, e no entanto, Zacharel nunca reagiu desta forma a qualquer um deles. E o fato que continuava o lembrando de seu irmão devia ter encharcado quaisquer chamas de excitação.

No entanto, as chamas não estavam encharcadas.

Embora nunca tivesse preferido um tipo "físico" antes, claramente o fazia agora. No topo da lista do achava irresistível? Cabelo azul escuro, olhos cristalinos e macios lábios rosa. Ah, e pele que parecia estar mergulhada em bronze e polvilhada com pó de diamante.

A atração de Zacharel por ela estava dirigindo seus pensamentos, sabia disso, mas não tinha armas para combatê-la. Ele era muito inexperiente, nunca lutou contra nada parecido com isso. De alguma forma, porém, devia encontrar uma maneira de resistir a ela. Ele também sabia que, uma vez que um homem festejava na mesa da tentação, nunca a deixaria, estaria se saciando novamente e novamente.

Mas... ela não era uma tentação que devia resistir para permanecer nos céus, era? E por que seria tão ruim se banquetear com ela, descobrindo como seria ter seu corpo mais macio pressionado contra o seu mais duro? Ela não estava expressamente proibida a sua facção.

Ele apertou os dentes. Já estava um passo mais perto.

A estudou mais atentamente. Cores não eram algo que jamais se preocupasse, a menos que pertencessem à camuflagem, mas o rosa que ela usava agora complementava sua ascendência asiática perfeitamente. Ele sabia o que o esperava sob essas roupas, a tinha despido durante sua doença. Mas não prestou nenhuma atenção em suas curvas femininas. Agora, se perguntava...

Mais um passo.

—O que está pensando? — ela perguntou, desconfiada. —Acho que não é sobre a arma que pedi.

Seu rosto esquentou pelo embaraço e ele girou para longe dela. Não podia mentir, mas não ia dizer a verdade, tampouco. Portanto, a ignoraria.

—Zacharel?

Mesmo sua voz o agradava. Suave, lírica, firme mesmo suplicando. Ele notou antes, mas agora... Sim, agora tudo havia mudado. No entanto, outra etapa.

—A espada — disse ele. —Diz que quer uma, mas realmente poderia tirar uma vida?

—Sim — respondeu ela, a afirmação feita sem qualquer hesitação. —Fiz antes. Vida de demônios, não de humanos, vamos deixar claro.

Era surpreendente que encontrasse força para derrotar um inimigo que sua espécie não podia ver e muitas vezes negava.

—Mesmo assim, não te darei uma espada de fogo. Não posso, apenas minha espécie pode segurá-las.

—Ah — ela disse, desapontada.

—Mas há outras maneiras.

Imediatamente ela se iluminou.

—Vai me ensinar?

Ele não tinha tempo. Tinha um exército a treinar, suas próprias batalhas para lutar. E não gostava de pensar nela lutando contra uma raça de criaturas sem limites para sua depravação. Mas quem a marcou a queria de volta, se deixasse, voluntariamente ou não — especialmente quando soubesse que Zacharel a tinha. Mais do que derrotar uns aos outros, os demônios viviam para derrotar anjos. E esse demônio não hesitaria em ferir Annabelle da mais vil das maneiras para fazê-lo. Nenhum demônio o faria.

Como sequer sobreviveu por tanto tempo, Zacharel não estava certo.

—Sim — ele se encontrou dizendo. —Vou te ensinar como matar demônios.

 

Thane voltou para a nuvem de Zacharel com um dossiê muito curto sobre a vida muito miserável de Annabelle Miller. O novo líder do Exército da Desgraça, como muitos de seus pares começaram a chamá-los, aceitou com sua delicadeza habitual. Significado, nenhum. Zacharel estava tão frio como sempre, sem oferecer murmúrios de agradecimento, mas dando um aceno curto de despedida.

Mais e mais, Thane realmente gostava da franqueza do guerreiro. Gostava de Zacharel também, e esse era um fato que o chocava até a medula de seus ossos. Não era parte de um exército real há mais de cem anos e nunca se juntaria a outro se sua Divindade não ordenasse seguir Zacharel... ou outra coisa.

Primeiro, Thane ferveu. Como alguém ousava dizer-lhe como passar seu tempo? Se queria descansar na cama, seduzir qualquer mulher que chamasse sua atenção e lutar com cada demônio que encontrasse, o faria. Mas o que ele decidisse, seus meninos decidiriam. Era um por todos e todos por um, ou como os seres humanos o diziam. Que era como as coisas funcionavam com os três. Ele, Bjorn e Xerxes estavam nesta juntos, o que quer que isso fosse, e não podia permitir se rebelar porque não podia se permitir sofrer as consequências. Thane podia suportar tudo, menos isso.

Agora, três meses em seu novo arranjo, estava subitamente feliz por não se rebelar. Bem, se rebelou contra Zacharel com uns poucos insultos aqui e ali, mas também entrou para o exército ao invés de cair. Percebeu que a falta de liderança e estrutura o deixou cru, que sua vida era nada, exceto uma confusão caótica e precisava de ordem em algum lugar.

Thane voou para o The Downfall, uma casa de recreação na seção da Divindade dos céus. Ao longo dos séculos, mais e mais Anjos da Deidade sucumbiram às tentações da carne. Precisavam de um lugar para entrar sem nenhum julgamento, exceto o deles mesmos, e então Thane lhes deu um.

The Downfall era seu. Ele, Bjorn e Xerxes viviam lá, assim como as amantes imortais que mantinham. Amantes que nunca duravam muito tempo, pois cada macho preferia as novas e diferentes. Apesar desta propensão, ainda não chegaram à queda final, embora Thane soubesse que estavam à beira.

Anjos da facção da Deidade caíam em desgraça porque acolhiam o mal em seus corações, pois habitualmente enganavam, roubavam, mentiam — sim, era possível — ou se comprometiam em assassinatos a sangue-frio. Porque sucumbiam às loucuras do ódio, inveja, medo ou orgulho, ou porque se recusavam a se afastar de algum tipo de depravação.

Nunca ajudaram um demônio, ou buscaram vingança contra outro anjo por uma ofensa percebida. Levavam suas queixas ante o Alto Conselho celestial.

Desde a fuga de Thane de uma prisão de demônios, centenas de anos atrás, ele e seus meninos fizeram de tudo, exceto ajudar uma criatura das Trevas. Não tinha certeza do por que foi dada esta oportunidade.

Se não conseguissem corrigir seu comportamento, seus pecados eventualmente os apanhariam. Sabia disso. Mas ainda assim, Thane não podia se obrigar a mudar. Ele era o que os demônios fizeram dele.

Estrelas piscavam ao redor dele quando pousou no telhado do edifício imponente. Escolheu tijolo e argamassa, em vez de uma nuvem, por que suspeitava que muitos patronos levariam vantagem, comandando a nuvem para produzir todos os tipos de coisas ilícitas. Além disso, as nuvens eram caras. Enquanto podia pagar uma e poderia optar por viver separadamente do clube, se conhecia bem o suficiente para saber que ele, também, teria tomado partido.

Duas portas eram acessíveis do telhado. Uma levava ao clube em si e a outra aos seus aposentos privados. Dois guardas angelicais se situavam atentos de cada lado de ambas. Ele acenou para o par na frente de sua porta de entrada pessoal, e eles se moveram de lado. Um comando mental fez a dupla porta larga deslizar aberta.

A batida lenta da música ecoou por baixo quando caminhou pelo corredor vazio para sua sala de estar, onde Bjorn e Xerxes esperavam. Ambos reclinados em cadeiras de veludo e tomando um gole da bebida de sua escolha.

Thane parou no bar e derramou um copo de absinto. Virou-se, inclinando-se contra o balcão de mármore. Este santuário era um estudo de indulgência, pensou, enquanto examinava a sala. Em todos os lugares que olhava via tesouros dados a ele por reis, rainhas, Imortais e mesmo seres humanos. Mesas complexamente esculpidas, polidas com um brilho lustroso. Sofás e cadeiras cobertas com tecidos luxuosos, cada uma no tom de joia diferente. O mais raro dos tapetes, candelabros pingando gemas preciosas ao invés de cristais.

—Zacharel já começou a transar com o ser humano? — Bjorn perguntou. Ele era, talvez, um dos anjos mais bonitos já criados, com sua pele dourada, seus olhos como um mosaico das mais caras ametistas, safiras, esmeraldas e turmalinas.

Mas Thane se lembrava de um tempo quando o guerreiro não parecia tão bonito. Seus captores prenderam Thane no chão sujo de sua cela e amarraram Bjorn acima dele. Nos dias que se seguiram, esses mesmos demônios arrancaram a pele do corpo de Bjorn, cuidadosos, muito cuidadosos para não danificar a carne. Sangue chovia sobre Thane num fluxo contínuo, o encharcando.

Ah, como o guerreiro gritou... primeiro. No final, seus pulmões esvaziaram e sua garganta não era nada além de polpa. Os demônios então se revezavam vestindo sua pele como um casaco, rindo, fingindo ser Bjorn durante a execução de todos os tipos de atos obscenos.

Xerxes estava acorrentado na parede em frente a eles, seu estômago pressionado na pedra, seus braços acorrentados sobre sua cabeça, suas pernas erguidas abertas. Foi forçado a ouvir tudo que era feito para seus amigos, mas incapaz de ver. E talvez isso fosse o pior. Nunca sabia o que acontecia em volta dele, quando seria chicoteado e... quando outras coisas seriam feitas a ele.

O horror dessa época na cela apagou todas as cores de seu cabelo — uma vez ruivo — e da pele cor de pêssego, deixando-o branco como leite. Vasos sanguíneos estouraram em seus olhos uma vez âmbar, deixando a íris vermelha.

Nenhum deles nunca falou de sua prisão e tortura, mas Thane sabia exatamente como seus amigos realmente se sentiam. Após cada luta, Bjorn entrava numa espiral fora de controle. Após cada encontro sexual, Xerxes vomitava. Mas nenhum desistiria da luta ou da cama.

Thane aprendeu a abraçar este lado de si mesmo.

—Alguém está perdido em seus pensamentos — disse Bjorn. A espiral desta última batalha ainda não o tinha atingido... mas iria. Sempre o fazia.

—Alimente seus dentes — Xerxes sugeriu. —Ele vai responder, prometo.

Fizeram uma pergunta, não... sobre Zacharel e o ser humano, ele lembrou.

—O que acha? — respondeu ele, finalmente. —Zacharel estava em seu escritório, escrevendo um relatório sobre algo. Nosso desempenho, provavelmente.

—Acha que ele nunca vai descongelar? — Bjorn perguntou.

Thane estremeceu.

—Vamos esperar que não.

Xerxes esfregou as cicatrizes no pescoço. Todos assumiam que sua imortalidade falhava e ele de alguma forma acabou parecendo um quebra-cabeça mal-montado, mas a verdade é que seu corpo simplesmente estava sempre no processo de cura pelos danos que se infligia constantemente.

—Matei dezesseis demônios na instituição — disse ele. Este era um dos tópicos de conversa que gostava.

—Vinte e três — Bjorn disse, um fio de escuridão em seu tom.

Thane adicionou sua contagem em sua cabeça — nunca esquecia quem matava.

—Apenas dezenove para mim.

Bjorn sorriu, mas não havia luz na sua expressão.

—Venci.

Xerxes se virou para sair.

—Como um mau perdedor. — Thane disse. —E agora uma babá, também. Então, onde está o Caído que foi encarregado de vigiar? Não o mencionou desde que assumiu seus cuidados e alimentação.

Ele viu um clarão de pânico nos olhos carmesim, rapidamente mascarado.

—Está preso no meu quarto.

O pânico quase partiu o coração de Thane, pois sabia que Xerxes jamais prenderia alguém voluntariamente, exceto um prisioneiro demônio.

—O que você vai fazer com ele?

—Eu... não... Comprar uma nuvem, suponho. Mantê-lo trancado lá.

—Não recomendo isso, meu amigo. Se acha que ele é capaz de cuidar de si mesmo, nunca iria verificá-lo. — Sua culpa não deixaria.

—E o problema com isso?

—Os Caídos são praticamente mortais. Ele poderia decidir morrer de fome, definhando. — E culparia apenas a si mesmo.

Xerxes confrontou a precisão que irradiava de Thane.

—Você está certo.

—Não estou sempre?

—Vou deixá-lo aqui por agora. O verificar uma vez por dia. Forçá-lo a comer, se necessário.

—Enquanto está nisso, fale com ele — Bjorn sugeriu. —Descubra por que caiu.

Seus dois meninos sabiam que era apenas uma questão de tempo antes que eles, também, perdessem suas asas e imortalidade. Atrasaria o inevitável por tanto tempo quanto pudessem, por isso sua cooperação agora, mas como Thane, nunca voltariam ao caminho.

Os demônios se certificaram disso.

Thane bebeu o resto de sua bebida, derramou outra e bebeu, rápido. O potente álcool queimava abaixo, mas quando chegou ao seu estômago se resfriou a uma doce droga, morna. E ainda assim, a agradável sensação não fez nada para diminuir a tensão dentro dele.

—Encontraram garotas para a noite? — não perguntou a ninguém em particular.

—Sim — respondeu Bjorn. —Nos esperam agora.

—Qual a minha? Vampira? Shifter? — Não que se importasse. Uma mulher era uma fêmea.

—É uma Fênix.

Tudo bem, talvez se importasse. Emoção se juntou à tensão que sempre cantarolava dentro dele, o iluminando de dentro para fora. Tantas raças imortais caminhavam sobre a terra e vários reinos dos céus. As Harpias, as Fae, os Elfos, as Górgonas, as Sereias, os Shifters e deuses e deusas gregos e Titãs — ou assim que gostavam de se chamar, quando na verdade não eram nada mais que reis e rainhas a quem foi permitido exaltar suas opiniões orgulhas de si mesmos — e de inúmeros outros. Os Fênix eram os segundos mais perigosos.

Shifters Serpentes eram os primeiros.

Ainda assim, os Fênix eram sedentos de sangue e cruéis, tirando alegria da destruição. Viviam e prosperaram no fogo, e podiam forçar os mortos a se levantar de seus túmulos — e aqueles que levantavam, em seguida, eram obrigados a servi-los, escravizados pelo resto da eternidade.

Thane colocou seu copo vazio no bar e se esticou.

—Não quero deixá-la esperando por mais tempo.

Bjorn e Xerxes levantaram. Seis passos longos e estava entre eles. Eles o seguiram à frente e, em seguida, se separaram, indo para três quartos distintos. Só o silêncio emanava do dele. Suas mãos estavam surpreendentemente estáveis quando empurrou a porta dupla. A fechou.

Ouviu o clique suave das portas dos seus amigos enquanto considerava sua — em breve — conquista.

A mulher estava reclinada sobre a cama, um monte de almofadas em volta. Estava gloriosamente nua, os cabelos de ouro e escarlate como chamas tórridas caindo sobre um ombro. Mesmo desta distância, Thane podia sentir o calor dela, o calor o lambendo. Correntes finas, forjadas por um ferreiro imortal circulavam seus pulsos e tornozelos, a tornando escrava dos comandos do seu captor, o metal de alguma forma a convencendo a obedecer ordens.

Bjorn devia tê-la comprado no mercado do sexo.

—Você quer isso? — ele exigiu. —Me quer? Fale a verdade.

Ela lambeu os lábios.

—Oh, sim.

—Não se sente forçada? — Havia apenas uma linha que Thane não cruzaria no quarto, que era forçar a outra. —Não importa o que acontecer entre nós, estará livre para deixar este lugar.

—Não, não estou sendo forçada. Disseram-me que eu seria paga.

Ah. Ela queria dinheiro, não ele. Estava absolutamente bem com isso, já passou por isso antes.

—Será.

—Então por que eu sairia, quando a riqueza me espera se eu ficar? — perguntou ela, prendendo uma madeixa de cabelo atrás de sua orelha. Uma orelha com uma ponta no final.

—Excelente pergunta.

Ela sorriu, e ele viu que seus dentes eram presas como as de um vampiro. Seu corpo um estudo de beleza, uma riqueza de sensualidade. Embora não pudesse ver suas costas, sabia que estaria coberta por tatuagens que suportavam a marca de sua tribo.

—Disseram o que seria exigido de você? — ele perguntou.

—Sim, o que significa que toda esta conversa é apenas desperdício do meu tempo e do seu dinheiro.

—Não queremos isso. — Com um único puxão, seu manto caiu longe de seu corpo, deixando-o nu. O material era tão leve que não fez nenhum som quando pousou no chão.

Thane rastejou pelo colchão, a borda afundando com seu peso musculoso. Um momento depois, a fêmea estava sobre ele. Por um longo tempo não sentiu nada, apenas o ardor de suas unhas e o raspar de seus dentes. Então pequenas gotas de fogo começaram a se infiltrar por seus poros, empolando apenas o correto, espremendo gemido após gemido requintado dele. Adorou tanto quanto odiou.

Ela cumpriu cada ato terrível que ele exigiu sem hesitação e ele brincou com a ideia de mantê-la muito mais tempo que já tinha mantido outra. Geralmente terminava após dois ou três jogos de cama, não querendo ver a repulsa latente nos olhos que deviam ser preenchidos com desejo. Porque, depois de um tempo, as fêmeas sempre davam lugar à repulsa. Pensavam sobre o que faziam, o que ele fazia e se arrependiam de tudo. Mas esta fêmea ria com prazer genuíno enquanto obedecia, e estava disposto a apostar que sempre o faria. Sua ganância por dinheiro não permitiria nada menos.

Quando acabou, Thane ficou imóvel, tentando recuperar o fôlego, apreciando a sensação de queimação de dentro para fora.

Através da parede à sua esquerda —propositadamente fina para que ele e seus meninos ouvissem se necessário — ouviu o eco devastador de Xerxes vomitando no banheiro, como sempre fazia depois do sexo.

Queria mais para seu amigo. Melhor. Mas não tinha nenhuma ideia de como ajudar.

Vestiu-se e deixou a Fênix exausta na cama. Bjorn já estava na sala, sozinho e olhando fixamente um copo de vodka gelada. Thane caiu numa cadeira. Bjorn não olhou para cima, também perdido em sua cabeça, na escuridão que finalmente o alcançou.

Xerxes saiu de seu quarto, pálido e trêmulo e evitando o olhar de Thane. Ele, também, caiu numa cadeira.

Thane amava estes homens. O fazia. Morreria feliz por eles — mas não os deixaria morrer. Não assim. Não em miséria.

Se arrastaram para fora daquele calabouço juntos, e de alguma forma, de alguma maneira, ele os arrastaria para fora de seu inferno auto imposto.

 

Na manhã seguinte, Zacharel sentou-se nú à beira de sua cama e rolou a urna de seu irmão em suas mãos. Era uma jarra clara, em forma de ampulheta, a substância no interior um líquido espesso tão transparente quanto a urna, com apenas a menor das manchas de arco-íris brilhando na luz.

Esta urna era o maior tesouro de Zacharel. Seu único tesouro. Agora e para sempre, protegeria esta urna como não protegeu seu irmão.

—Eu te amo, Zacharel.

—Eu amo você, também, Hadrenial. Muito.

—Você?

—Sabe que o faço.

—E faria qualquer coisa por mim?

—Qualquer coisa.

—Mate-me, então. Uma morte verdadeira. Por favor. Não pode me deixar assim.

“Assim" era quebrado, sangrento e violado de maneiras indizíveis.

—Tudo menos isso. Vai se recuperar. Um dia ainda será feliz de novo.

—Não quero me recuperar. Quero deixar de existir, agora e para sempre. É a única maneira de acabar com meu tormento.

—Vamos fazer os demônios pagar pelo que fizeram a você. Juntos. Então poderemos falar sobre isso novamente. — E Zacharel mais uma vez ia negar.

—Se não me matar, eu vou me matar. Sabe o que vai me acontecer então.

Sim, ele sabia. Não poderia processar a verdadeira morte sobre si mesmo. Hadrenial seria capaz de matar seu próprio corpo, mas seu espírito, escuro como estava no momento, viveria e seria lançado no inferno. O que não influenciou Zacharel. Ainda assim disse não. Mas no final, Hadrenial permaneceu fiel à sua promessa. Tentou se matar repetidamente. Sempre Zacharel o trazia de volta com a água da vida.

Naqueles anos, toda a sua existência foi gasta correndo atrás de seu irmão, salvando seu irmão e, finalmente, matando seu irmão para finalmente acabar com sua dor. Foi uma decisão que Zacharel lamentava neste dia, com esta urna contendo tudo que restava de Hadrenial.

Zacharel extraiu do interior profundo do peito de seu irmão a essência de todo o amor que nunca sentiria e, em seguida, o envenenou com a água da morte, extraída do fluxo que corria ao lado do Rio da Vida da Divindade. A água era a única maneira de matar um imortal, de uma vez por todas.

Para obter o menor dos frascos, um anjo tinha que passar pelo mesmo processo da água da vida: uma surra para provar sua determinação, seguida de uma reunião com o Conselho Superior celestial, onde a permissão era concedida ou negada. Se concedida, um sacrifício à escolha do Conselho devia ser feito.

Zacharel passou por tudo isso — depois que seu irmão foi negado — mas hesitou no interior do templo. Os dois rios corriam lado a lado, vida e morte, felicidade e tristeza. A escolha pertencia a ele. Podia ter tomado a vida. Devia pegar a vida. Mas tudo que faria seria curar o corpo de seu irmão, não sua mente.

Passar um tempo na presença do Altíssimo seria necessário para salvar sua mente, o Altíssimo poderia acalmar e salvar qualquer um, mas Hadrenial se recusou a tentar. Ainda queria um final.

—Como pode pedir isso a mim? — ele exigiu. —Como eu poderia fazer isso?

Claro, não houve nenhuma resposta. Nunca houve.

Zacharel derramou a morte na garganta de seu irmão. Viu a vida escorrer dele, a luz apagar em seus olhos. Em seguida, queimou seu corpo com uma espada de fogo. Viu seu irmão virar cinzas e flutuar.

Seguiu os pedaços de cinzas por dias.

Agora, olhou abaixo para a mancha preta crescendo em seu peito. No dia da morte de seu irmão, Zacharel removeu seu próprio sentimento de amor, uma parcela bem menor que Hadrenial tinha, a colocando dentro da urna e a misturando com tudo que restava de seu irmão. Lá, pelo menos, continuavam juntos.

Uma semana depois, um pequeno ponto preto apareceu no local exato onde tirou essa parte, e ao longo dos anos o ponto lentamente, mas firmemente, aumentou de tamanho. No entanto, após a nomeação de Zacharel com a Divindade, quando a neve começou a escorrer de suas asas, a taxa de aumento tinha quadruplicado.

Sabia o que significava, qual seria o resultado final, mas não estava preocupado. Estava realmente feliz. Se falhasse em sua missão este ano e fosse expulso dos céus, não sofreria muito.

—Pergunto-me se Annabelle teria fascinado você, também.

Ele fez uma pausa, imaginando os dois juntos. Sim, a coragem de Annabelle teria encantado o suave Hadrenial. Lutariam por ela? Não, ele decidiu. Porque Zacharel teria recuado. Planejava fazê-lo agora, na verdade, depois que sua obrigação fosse cumprida.

Com muito cuidado, Zacharel colocou a urna sobre sua mesa de cabeceira e levantou. Poderia esconder isso num bolso de ar, o arrastando com ele onde quer que fosse. Mas outros anjos cheirariam seu irmão e não tinha nenhum desejo de responder perguntas. Demônios o cheirariam também, e tentariam destruí-lo de novo.

Ele puxou um manto antes de ir para a porta de Annabelle. Lá fez uma pausa, inseguro ou não se devia entrar. Ontem, ficou irritado consigo mesmo por concordar em ajudá-la a aprender a lutar contra demônios e a deixou com seus próprios equipamentos.

Como prometido, não a prendeu no quarto. Esperava que ela o caçasse, mas ela ficou onde estava — o que o deixou mais irritado.

O que ela estava fazendo com ele? Geralmente, era um homem sem temperamento. Por séculos foi conhecido por sua frieza por dentro e por fora, mas ao redor dela se sentia como se oscilasse numa borda muito afiada de perigo. Mesmo agora, estava tenso, sua mandíbula doendo pelo aperto constante de seus dentes.

Toda a noite se imaginou a beijando. Beijando-a mais profundo, mais duro, melhor que o homem que veio antes dele, sucumbindo finalmente à tentação que continuava tentando convencer a si mesmo que verdadeiramente não era tentação. Por quê? Ela não era especial. Era um incômodo, um fardo, por apenas um breve espaço de tempo. Havia milhares como ela.

Havia realmente?

Ontem, olhou abaixo para aqueles lábios rosa exuberantes e ansiou. Nunca antes implorou. Talvez porque tivesse o gosto de outra mulher na sua boca, seu interesse no ato formigou, acendendo um desejo de comparar o que foi forçado com o que era dado. Talvez não.

O relatório trazido por Thane fez Zacharel querer Annabelle mil vezes mais. Ela sofreu vários espancamentos tanto de humanos como de demônios, ainda que não tivessem diminuído sua audácia. Ela tinha um irmão mais velho, que escreveu cartas terrivelmente dolorosas, a chicoteando por suas ações, mas ela respondeu apenas com bondade e compreensão. Os médicos a trancaram, super-medicaram, a prejudicaram irrevogavelmente, mas ela lutou com cada pedacinho de sua força.

Não, não havia milhares como ela.

Devia se afastar dela agora, antes que decidisse mudar seus planos, abandonar o bom senso e mantê-la — e depois perdê-la. Antes que causasse danos colaterais de propósito, simplesmente para vingá-la.

Zacharel só precisava ficar com ela um pouco mais. Algumas semanas, talvez alguns meses — não mais que um ano — e ela seria capaz de combater o mal que a caçava. Tinha certeza disso. Poderia, então, partir, e ele nunca mais teria que pensar sobre ela... embora não tinha ideia de onde a levaria ou como se absolveria de sua responsabilidade aos olhos da Deidade, mas aqueles eram detalhes para outro dia.

Determinado, entrou no quarto.

Estava sentada na borda da cama. Quando o viu, pulou em pé, seu rabo de cavalo azul escuro balançando para a frente e para trás.

—Acho que será melhor se terminamos nossa aliança agora — foram as primeiras palavras que saíram de sua boca.

Então devia ter usado algo mais, ele pensou, atordoado enquanto bebia dela. Lá se foram o colante e calças suaves, fluídas. Em vez disso, ela usava um corpete de couro preto que revelava a vale entre os seios mais que escondia, e calças de couro preto que moldavam a ágil força dela.

Subitamente autoconsciente, passou um pé de bota no outro.

—Pedi à nuvem vestuário para batalha, e foi isso que recebi. Há fendas em toda a calça, para fácil acesso as armas, estou descobrindo. Mas o corpete me deixou perplexa. A menos que, naturalmente, a nuvem ache que meu decote vai atordoar meus adversários até a estupidez. — Carrancuda, apoiou suas mãos em seus quadris e balançou a cabeça. —Minha roupa não importa. Me leve de volta ao Colorado.

—Não, não importa, e não, eu não vou. Pensei que tínhamos chegado a um acordo.

—Sim, mas... — Seu olhar caiu aos seus pés, só para subir de novo e se estreitar.

—O quê?

—Você é além de frustrante — ela resmungou. —Por que não pode fazer o que peço sem a emissão de um milhão de perguntas primeiro?

—Poderia dizer o mesmo para você.

—Eu não — Argh. — Ela levantou um punho para ele. —Talvez eu faça um monte de perguntas. E daí? Qualquer um na minha posição faria o mesmo. Além disso, sou uma menina e esse é meu trabalho. Você é um menino. Deveria martelar seu peito com seus punhos pesados e, em seguida, fazer tudo em seu poder para me agradar.

—Dificilmente. O homem que acabou de descrever é mais suscetível a bater na sua cabeça com uma clava e arrastá-la pelos cabelos.

A cada palavra sua, diversão crescia naquele olhar azul.

A mostra de seu temperamento, e o humor subsequente, o encheu de prazer. Mas só um pouco, ele se assegurou, e só porque não podia adivinhar o que ela faria ou diria em seguida.

—Como está se sentindo? — ele perguntou, a estudando mais uma vez. Ainda tinha hematomas sob seus olhos, seus lábios estavam rachados por ser mordidos e seu corpo trêmulo. —Sente dor novamente?

—Ainda estou sofrendo de abstinência, isso é tudo.

Zacharel lembrou da longa lista de medicamentos prescrita. Tais retiradas seriam substanciais. Poderia dar-lhe a última gota da água do Rio da Vida, mas — sua mandíbula apertou. Considerar essa opção antes, enquanto ela estava de cama, ele podia justificar. Não sabia se ela viveria ou morreria e para exatamente isso a água servia. Vida e morte. Não para aliviar algumas dores e mal-estares.

—Vou ficar bem — ela acrescentou, provavelmente para preencher o silêncio repentino. —Agora. Por favor, pode me levar de volta? Sem fazer mais perguntas.

—Poderia ser além de frustrante... — na verdade, quase tinha certeza que o nome Zacharel significava bastardo em várias línguas — ...mas está mais segura comigo do que com qualquer outra pessoa.

—Mais segura com o cara que ameaçou me matar?

Ah. Agora ele entendeu. Após uma noite de sono, a cabeça finalmente ficou clara, e lembrou do que havia dito a ela — poderia matá-la agora — e queria fugir.

—Não a ameacei. — Verdade. Apenas declarou um fato. Podia matá-la a qualquer momento.

—Mas você disse...

—Sei o que disse. Mas digo agora, novamente, que está mais seguro comigo do que com qualquer outra pessoa. — Mesmo se a machucasse, mesmo se decidisse matá-la, ainda estava mais segura com ele. Todo mundo faria muito pior.

Pela primeira vez acreditando em sua palavra, ela puxou uma respiração profunda e balançou a cabeça.

—Tudo bem, vou ficar. Por agora.

Ele sentiu um estranho impulso de agradecer, mas conseguiu trazer as palavras de volta.

—Você é simplesmente boa demais para mim.

Ela cruzou os braços sobre sua cintura.

—Isso é sarcasmo? Acho que detecto sarcasmo.

—Tem certeza que ainda sei o que significa essa palavra?

Ela estalou sua língua.

—Outra pergunta sem resposta.

A cabeça inclinou de lado e o estudou pela primeira vez desde que ele entrou, a leitura visual um toque sussurrando ao longo de todo seu corpo.

—Suas asas...

—Sim? — Ele estendeu uma, depois a outra, examinando seu comprimento. Neve ainda escorria de cada uma, mas os cristais brilhantes eram menores que o habitual.

—Estão mais ouro do que branco. Ontem o oposto era verdadeiro.

Ela estava certa. A quantidade de ouro aumentou mais uma vez. O que só podia significar... estava evoluindo para uma das elites, sua Divindade teria falado com ele sobre isso ou não.

Mas... mas... só podia significar que sua Divindade estava satisfeita com ele, e que Zacharel seria escolhido para substituir Ivar. Não havia nenhuma outra explicação que fizesse sentido.

Mas por quê?

Porque Zacharel salvou um ser humano, apesar do risco para si mesmo? Porque finalmente se encarregava de seu exército, finalmente estava ganhando o respeito de seus homens? Se assim fosse, isso significaria que sua Divindade nunca quis que ele falhasse, que a promoção deveria ser seu prêmio.

—Bem? — Annabelle perguntou. —E não ache que estou reclamando. Suas asas estão muito bonitas.

Muito? A palavra não devia ter ofendido, mas o fez. Estavam magníficas, obrigado.

Ele não devia nenhuma explicação sobre isso e devia parar de oferecer detalhes tão livremente. Quando se separassem, e o fariam, ela podia ser capturada, poderia dar informação ao seu inimigo. Mas ainda assim ele fez isso. Ainda assim, disse. Sua formação garantiria que nunca fosse capturada. Com certeza.

—Uma p-promoção. Que legal — ela disse por entre os dentes de repente vibrando. Névoa rodou na frente de seu rosto. —Sem querer mudar de assunto, mas, uh, está frio aqui para você?

Zacharel lembrou do primeiro encontro com ela, como ficou congelada, e decidiu que não ia mais aceitar ou ficar grato pelo frio que carregava com ele. Annabelle sofria, e ele não gostava. Teria que pedir clemência neste assunto à sua Divindade. E talvez conseguisse, agora que sabia que havia um caminho de volta às boas graças de seu líder.

—Um casaco — ele disse agora, e os olhos de Annabelle reluziram com antecipação.

—Deveria ter pensado nisso.

—Tenho certeza que o faria. — Ele estendeu a mão e um casaco branco de peles artificiais apareceu.

—Obrigada — ela disse. —Sabe, você é uma contradição enorme. Num momento é mesquinho, então bom no próximo. Ameaçando num momento e, em seguida, protegendo.

— Quer me ofender, como fez antes na instituição?

—Não desta vez.

—Mas não parece satisfeita com isso.

—Bem, não estou. É muito difícil e obter uma leitura de você.

—Não sou um livro — ele disse.

Ela balançou a cabeça.

—Exatamente.

—Mas...

—Fique com a mesquinhez e a ameaça — Ela o interrompeu. —Não quero gostar de você. — Uma conversa mais confusa do que nunca teve.

—Porquê?

—Eu invoco a quinta emenda.

Ele já não gostava dessa estratégia evasiva dela.

—Não pode se recusar a responder todas as minhas dúvidas.

—Uh, não é verdade. Posso totalmente.

Como já tinha provado.

—Então temos que pensar em algum tipo de recompensa para quando responder. — Embora isso cheirasse a corrupção — porque era — e explicitava que ele se importava — o que fazia. Não havia mais como negar isso, supunha. Mas a admissão não mudaria nada.

Uma de suas sobrancelhas arqueou numa paródia da expressão que ele deu a ela mais de uma vez.

—E uma palmada quando não?

—Não seja boba. Nunca poderia te espancar por um delito menor, Annabelle. — Ele gostava de seu nome nos lábios. Gostava do som dele, da sensação. —Por algo maior... talvez. Mas nunca faria nada que pudesse causar danos permanentes. Não é um dos meus soldados. Mais que isso, é humana. Não poderia suportar muito.

—Pode ser surpreendido por minha coragem.

Ele queria responder, realmente queria, mas de repente foi fisgado por um desejo de passar seus dedos sobre seu rosto, seus lábios, saber se ela o iria queimar, se seu pulso estaria martelando fora de controle, como suspeitava que fazia o seu próprio. Queria saber se ela ia se aproximar dele ou se afastar.

Você não é escravo de tais desejos mortais. Não ia tocá-la, e não consideraria sua resposta. Mas enquanto podia lutar contra o físico — e vencer — descobriu que não podia lutar contra sua mente. Sua curiosidade sobre ela era grande demais e se encontrou dizendo:

—Sua mãe era japonesa, mas seu nome não é.

Annabelle aceitou a mudança de assunto com um erguer aliviado dos seus ombros.

—Ela passou a maior parte de sua vida nos Estados Unidos. E foi em homenagem à minha avó paterna, Anna Bella. — Ela puxou a gola do casaco mais apertada e satisfez sua própria curiosidade. —Estive pensando. Você é como os anjos da Bíblia? Eu, uh, pedi uma à nuvem na última noite. Li algumas passagens, e... bem...

—Viu diferenças entre mim e os anjos sobre quem leu. — terminou para ela.

—Exatamente. E me lembro de você dizendo que era parte de uma raça diferente... ou algo assim.

Ele não pode evitar espetar.

—Eu poderia me recusar a responder, como você tem feito comigo.

—Mas isso seria equivalente a uma palmada — ela apontou —e você, que nunca mente, não faria isso comigo.

Uma menina muito inteligente, sua Annabelle. Espere. Sua Annabelle?

—O que leu é verdade. Em termos humanos, minha Divindade é um rei. Governa apenas uma determinada parcela dos céus e serve ao Altíssimo, que governa cada centímetro dos céus, mesmo os gregos e os Titãs afirmando serem eles — mas isso é outra história. E não somos como os anjos do Altíssimo porque não fomos criados para os mesmos fins.

Ela soltou as mãos.

—Então por que são chamados de anjos?

—Somos alados, e lutamos contra o mal. É um rótulo, e pegou.

—Argh! Mas se luta contra o mal, como é diferente?

Ele raramente interagia com seres humanos, e nunca teve que explicar esse tipo de coisa.

—Todos os seres humanos são seres vivos sim, e compartilham muitas semelhanças, mas nem todos têm a mesma finalidade. Alguns constroem. Outros entretêm. Alguns ensinam.

Nem bem terminou de falar e as paredes da nuvem escureceram, engrossaram, pequenos relâmpagos golpeando e detonando dentro, mas crescentes na duração e na intensidade. Confuso, procurou outras diferenças, nada encontrando.

Annabelle estendeu a mão, com intenção de passar seus dedos sobre os relâmpagos. Ele agarrou seu pulso e a calou.

—Nuvem? — disse ele. —Qual o problema?

Demônios... Um sussurro dentro de sua cabeça. Atacando...

Impossível. Certo? Mas... e se não fosse? Zacharel convocou sua espada de fogo. Demônios raramente se aventuravam nos céus, muito menos na residência de um anjo, mas poderia ser feito.

Toda a cor drenou do rosto de Annabelle.

—O que está errado? O que está acontecendo?

—Estamos sob ataque. — Os demônios não tinham ideia que esta nuvem era sua, ou a vontade de conseguir Annabelle era muito grande, sua capacidade de rastreá-la muito maior do que antecipou.

A nuvem os manteria, mas, eventualmente, falharia. Nuvens como esta eram projetadas para o conforto, em vez da batalha, algo que nunca o incomodou antes. Na verdade, em qualquer outro momento, Zacharel apreciaria esse desafio, a possibilidade de vitória. Agora, experimentava o mais ínfimo fragmento de medo. Annabelle podia ser ferida. Não passou os últimos dias cuidando de sua sobrevivência só para perdê-la para o mal do seu inimigo.

—Mostre-me — ele comandou a nuvem.

Ao lado dele, uma porção de ar engrossou, uma infinidade de cores piscando à vida, se fundindo. Ele enrijeceu. Annabelle engasgou. Pelo menos quinze demônios rodeavam sua casa, se agarrando às paredes externas num esforço para entrar. Trabalhavam em frenesi, espumando pela boca, desesperados, suas unhas pontudas com veneno.

—Vieram por mim — ela disse, inexpressiva.

Zacharel serpenteou a mão livre em torno da cintura dela e a puxou para a linha de seu corpo.

—Me abrace e não me solte em qualquer circunstância.

—Mas posso ajudá-lo a combatê-los. — Bom. Havia uma camada de determinação agora.

Ainda assim, ele latiu:

—Pode voar? Ou cairá na terra sem mim? — Ambos sabiam a resposta disso.

Não hesitando, envolveu seus braços em volta do pescoço dele, os dedos fechados apertados na sua nuca. Seios macios se aconchegaram contra sua pulsação, e a parte inferior de seus corpos foram pressionadas juntas. Ele inalou agudamente, espantado que sequer notasse essas sensações num momento como este.

Foco.

—Isso não é bom o suficiente — disse ele. Sua mão se abaixou ao lado, e ele a ergueu. —Pernas. — As pernas dela se envolveram em torno de sua cintura.

Seus olhos se encontraram, um choque verde contra aquele azul do outro mundo — um azul atualmente velado pela determinação que ouviu, bem como pelo terror que percebia. Mas ela assentiu, pronta para a batalha.

Menina corajosa.

—Pelo menos você parou de nevar — ela disse.

Ele parou? Sua Divindade devia ter ouvido seu desejo indizível e respondeu, um gesto que Zacharel não esqueceria de agradecer.

—Gostaria que houvesse outra maneira — disse ele. Nesta posição, Annabelle serviria como seu escudo. Desprezava isso em todos os níveis, mas não tinha nenhuma outra solução. Não podia piscá-la para fora e retornar — se mover de um local a outro com apenas um pensamento — porque não podia piscar. Apenas alguns raros podiam, como o Koldo sem asas.

O que Zacharel podia fazer era camuflar seu corpo, para que ninguém pudesse vê-lo ou senti-lo. Mas não conseguiria camuflar Annabelle nesse mesmo grau, de modo que ficou à vista, também.

Preciso de você —projetou primeiramente para Koldo, porque ele poderia ser a maior ajuda agora, então para todos os outros membros de seu exército. Nunca fez isso antes, e não tinha certeza se ia funcionar, e amaldiçoou a si mesmo por não praticar falar dentro de suas mentes. Demônios. Minha nuvem. Batalha.

Não havia tempo para esperar suas respostas, se eles sequer soubessem como responder dessa forma.

—Se eu a entregar a um homem chamado Koldo, não lute com ele. Vai levá-la para a segurança.

—E você?

Excelente pergunta.

—Agora — ele disse para a nuvem, a ignorando —quero que deixe esse local. Vá para algum lugar que os demônios não possam alcançá-la e guarde a urna. Vou voltar para o céu e encontrar você.

Vupt.

A nuvem foi embora, a Fundação ficando em pé, também. Annabelle engasgou e o apertou mais forte. A Luz solar da brilhante manhã de repente brilhava com intensidade cegante. Demônios os cercavam, suas asas irregulares se agitando freneticamente enquanto se esforçavam para entender o que aconteceu apenas. Zacharel balançou sua espada e decapitou o mais próximo dele. Com a cintilação das chamas e o som liso de osso soltando do osso, os outros perceberam que suas presas estavam à vista.

Convergiram em massa. Esquivando, mergulhando e se retorcendo, Zacharel abriu caminho através deles. Dois corpos mais caíram, irrompendo em chamas enquanto caíam na direção da terra. Doze restantes. Não lutavam honrosamente, mas ele sabia disso e soube neutralizar seus movimentos.

—Tenho que soltar você — disse a Annabelle. —Não relaxe seu aperto.

—Vá.

Quando quatro o atacaram ao mesmo tempo, passando por fora, ele rolou através do céu, soltando Annabelle conforme bloqueava os dois demônios vindo da esquerda, e usando a espada para decapitar os dois demônios vindo pela direita.

O chocando, ela soltou uma perna da sua cintura e chutou os demônios que ele tinha bloqueado, o salto afiado de sua bota atingindo um no olho.

—Annabelle!

—O quê? Não relaxei meu aperto — ela disse. —Não o das minhas mãos.

Um demônio apertou seu tornozelo antes que ela pudesse se endireitar, e ela gritou.

Zacharel rodou o pulso atrás, então cortou para a frente, indo abaixo... abaixo... se movendo com o demônio — e finalmente o destruindo. Outra cabeça caiu através do sangue de ar, pulverizando preto.

—Atrás de você! — Annabelle gritou.

Ele girou rapidamente — mas não rápido o suficiente. As garras do demônio deslizaram por seu pescoço afora e atingiram o lado de uma das asas, causando uma dor afiada que ecoou através dele... e congelou seu apêndice no lugar.

Zacharel apertou seus dentes quando mergulhou através da luz do dia. Annabelle soltou um estridente grito de terror. Cada pedaço de sua força e determinação foram necessários para forçar a asa ferida a voltar a se movimentar. Primeiro, não conseguia mantê-la firme. Finalmente, porém, pegou um corrente de ar, deu um solavanco e parou.

—Foi perto — ela disse, claramente lutando contra a vontade de vomitar.

Muito perto.

—O resultado final é tudo que importa.

—O que posso fazer para ajudar?

—Se mantenha viva. — Não haviam outros anjos à vista. Estavam engajados em suas próprias batalhas em outro lugar, ou foi mal sucedido em convocá-los.

—Bem, você também.

Os demônios os encontraram, mais uma vez atacando de todos os ângulos. Sua espada brilhou através do ar, e porque não estava tão rápido como antes, outro conjunto de garras logo conseguiu cortar sua asa.

Ele caiu e desta vez, não teve como parar seu impulso. Um tendão estava separado. O rabo de cavalo de Annabelle estapeou seu rosto, seus lábios, o interior de sua boca.

—Zacharel! — A força do vento conseguiu arrancá-la de seu abraço, seu corpo caindo extremidade por extremidade.

Cacarejando de alegria, vários demônios a seguiram.

Zacharel pensou rápido. Anjos da Deidade podiam morrer fisicamente por causa de lesões corporais sim. O impacto poderia espatifar seus órgãos sem dúvida, mas mesmo assim podia se regenerar. Annabelle era humana. Não havia dúvida sobre se ia ou não se regenerar. Não ia.

Dobrou sua asa boa à sua volta e disparou em sua direção. Ela encarava o chão, longe dele, seu cabelo voando atrás dela. Ele cortou a distância em questão de segundos, retirou as estrelas dos bolsos de ar onde as armazenou e pregou cada demônio a alcançando.

Gritos de dor ecoaram quando mãos foram cortadas, e um por um os seres caíram longe dela. Quase lá... tão perto... contato! Zacharel colocou seus braços ao seu redor e a dobrou em seu peito.

Seus cotovelos o atingiram, e as pernas o chutaram.

—Deixe-me ir, seu doente, nojento pedaço de...

—Tenho você — ele disse, e naquele momento soube. Havia apenas uma coisa que podia fazer para garantir que ela vivesse. Instantaneamente ela se acalmou.

—Zacharel? — Se torcendo, ela envolveu seus braços em torno do seu pescoço. —Agradeço a Deus!

—Sim. Sou eu. — Ele produziu seu frasco com a Água da Vida. Apenas uma única gota restava, mas era uma questão de vida ou morte. Não permitiu que ela questionasse ou negasse. Simplesmente virou a borda sobre seus lábios para que a gota pudesse encontrar caminho em sua boca. —Beba.

Com os olhos arregalados, ela engoliu. Pronto. Não importava o que acontecesse depois, ela iria viver. Poderia desejar o contrário, mas viveria.

 

Era o fim, Annabelle pensou, um delicioso calor a inundando, espumando em suas veias como champanhe e contrariando completamente a sensação de desesperança gritando em sua mente. Vento chicoteava através de seu cabelo, cortando a pele já rachada. E... e... misericórdia, uma dor afiada rasgava através de seu peito, seu coração espremido por um punho cruel. O calor e a espuma foram esquecidos. Ficando rígida, soltou um grito de dor.

—Agora devagar, Annabelle.

—O que está errado... O que fez... Argh!

—A água pode machucá-la enquanto você se cura.

Demônios horríveis, causando tudo isso.

—Mas, não estou... ferida.

—Deve estar. A adrenalina poderia estar escondendo tudo que está errado.

—Pode... nos aterrissar? — Ah, mas ela mal podia falar através da agonia. Esses demônios deviam ter feito mais que a arranhar.

—Não, não posso. O impacto vai doer e não vou mentir, essa dor será a pior que já experimentou.

Não grite, não grite, realmente, realmente não vai gritar.

—Qualquer boa notícia?

—A dor não vai durar. Em breve não vai sentir mais nada, eu juro.

—Porque... eu vou estar... morta. — Respire, apenas respire. Mas até isso causava um aperto no seu coração. Suor cobria sua pele, enquanto seu sangue engrossava como cristais de gelo. O impacto seria realmente um alívio, ela decidiu.

—Garanto que vai viver. — Os braços de Zacharel eram cinturões fortes ao seu redor, oferecendo conforto. Uma de suas asas a envolvia, como se para oferecer uma almofada quando aterrissassem. Sua outra asa se agitava na brisa, pronta para ser arrancada a qualquer momento.

Desejava que seu coração apenas fosse em frente e saltasse para fora de seu peito. O que quer que fosse que deu para ela beber era pior que qualquer pouso e... Ah, outra onda de agonia a atravessou.

Sim, era isso. O fim. Após todas as batalhas que sobreviveu, todas as dificuldades, odiava terminar desta maneira. Com um grande estrondo, ha ha. Não teria oportunidade de visitar os túmulos de seus pais. Não destruiria o demônio que os matou, porque ele nunca retornou até ela e presa na instituição, como estava, não foi capaz de caçá-lo. Não que soubesse como. Não chegaria a dizer adeus ao seu irmão, mesmo que ele não desse uma palavra em resposta.

A terra que se aproximava estava cada vez mais estreita. Tão verde, tão encantadora, zombando de sua forçada calma. Seus olhos queimavam, rasgavam. O peito apertava. Mais perto... a qualquer momento...

—Sinto muito — disse Zacharel antes de se torcer, virando de costas para o chão e focando sobre o céu, uma bonita névoa azul e branca. Nuvens espessas, inchadas em todas as direções. —A dor que está prestes a sofrer será transitória... Me desculpe — ele repetiu.

—Não sinta. Fez tudo que podia…

Ele ficou tenso, e ela sabia. O impacto.

Boom! Bateram em árvore após árvore, os empurrando de lado e, em seguida, outra, tirando suas respirações, se misturando, até que nada ficou para exalar — Oh, espere, uma beijoca mais dura que antes provou que estava errada, esvaziando completamente seus pulmões.

Ela e Zacharel rolaram abaixo, abaixo, batendo em galho após galho, sem realmente perder o impulso antes que... boom! O impacto final se provou muito mais chocante, mais duro, mais difícil. Mas, em seguida, pararam. Simplesmente pararam.

Uma teia de aranha preta teceu através de sua visão. Ela se concentrou em recuperar o uso de seus pulmões, inalar, exalar, rápido demais no início, mas gradualmente diminuindo, normalizando.

Minutos se estenderam a horas, horas em eternidade, antes que encontrasse força para sentar. Um erro. Uma maré de tontura a varreu, virando seu mundo de cabeça para baixo. Estava molhada, encharcada na verdade. E oh, querida, aqui estava a dor prometida. Um caleidoscópio de ardor, dor e latejar.

Estremecendo, verificou a área circundante.

Os muitos galhos de árvore quebrados forneciam um caminho perfeito para o sol, permitindo que os raios quentes lambessem sobre ela, a destacando. Na frente dela, a floresta se aproximava. Folhas esmeralda orvalhadas juntas, e flores silvestres perfumando o ar.

Ao lado dela... ao seu lado Zacharel jazia, seus olhos fechados, seu corpo imóvel. Suas duas asas dobradas em ângulos estranhos, o manto que usava não mais branco, mas vermelho.

Sangue, muito sangue. Em todos os lugares. Todo sobre ela — mas dele. Vazava de sua boca, escorria de seus ouvidos, e onde o tecido do seu manto estava rasgado, riachos corriam, lembrando da água corroída de uma bica. Seu tronco estava mutilado, uma de suas coxas aberta. O tornozelo quebrado. O osso saía através de sua pele, as bordas irregulares, faltando pedaços.

Seus pais rasgados, olhando para o nada.

Seus pais, deitados numa piscina congelada.

Uma risada histérica borbulhou dela. Mais uma vez Annabelle sairia de uma cena horrível sem muito dano a si mesma. Não e Não! pensou então. Não deixaria Zacharel assim. Não o deixaria morrer.

Já está morto, o bom senso canalizou.

Não! Seu núcleo teimoso respondeu. Não o conhecia há muito tempo, mas duas vezes salvou sua vida. Ele tomou conta dela. Ele, o homem que alegava ter matado seu próprio irmão. Ele, o homem que disse que podia matá-la sem hesitação. Ele, o homem que nunca mentia. Não cairia na armadilha de tentar humanizá-lo, atribuindo-lhe razões aceitáveis para ameaçá-la, mas não o deixaria também. Ele fez seu melhor para protegê-la.

Annabelle ficou pesadamente de joelhos e verificou seu pulso. A batida estava fraca, mas lá. Havia esperança!

Deus, se estiver me ouvindo, obrigada! Agitando as mãos, ela virou Zacharel o melhor que pode, engasgando, chorando. Apenas... fique com a gente um pouco mais. Ele precisa de ajuda.

—Você vai se curar — ela disse a Zacharel. —Vai sobreviver a isso.

Seu olhar perscrutou a floresta circundante. Se construísse um trenó, podia arrastá-lo... para onde? Não tinha ideia de onde estavam. Não importava. Ela o arrastaria até que encontrassem alguém que pudesse pedir ajuda.

—O que você fez com ele?

A voz áspera cortou através do ar atrás dela, a atingindo com tanto ódio e raiva, que caiu de suas mãos. Sangue se espalhou. Rapidamente ela se endireitou, girando. A tontura... quase muita, as teias de aranha retornando e intercalando com alfinetadas de luz.

Uma besta homem aparecia a poucos metros de distância.

Tremendo, alcançou através das fendas em suas calças de couro novas e espalmou duas das lâminas que a nuvem deu a ela. Bom. Não as perdeu na queda. Quando ficou em pé, lutando para permanecer na posição vertical, apontou ambas as armas ao recém-chegado assustador.

—Não chegue mais perto. Vou fazer você se arrepender.

Abrasões irregulares cobriam suas bochechas, as bordas chamuscadas, mas o resto da sua pele lembrava mel polvilhado com açúcar — uma contradição chocante. Seus olhos eram negros e preenchidos com o mesmo ódio e raiva que ouviu em seu tom, seu cabelo escuro, longo e frisado, e embora usasse uma túnica branca, não era um anjo. Não podia ser um anjo. Não tinha asas arqueadas sobre seus ombros maciços.

Ele olhou abaixo para ela, em seguida, para Zacharel. Quando aqueles olhos sem fundo, em seguida a olharam, estavam estreitados e crepitando com chamas laranja-ouro. De alguma forma, aquelas chamas eram muito piores que emoções.

Ela piscou, e, em seguida, ele estava de pé na frente dela — sem nunca ter dado um passo. Dedos longos e grossos envolveram seus pulsos, apertando. Ainda assim ela manteve as armas.

—Deixe-me ir! — ela exigiu, tentando acertar seu joelho entre as pernas dele.

Ele girou, evitando o contato.

—Solte as lâminas.

E se deixar ela e Zacharel impotentes?

—Nunca!

Seu aperto aumentou. Mesmo quando a dor de ossos fraturados agonizou deslizando até seus braços, manteve seu domínio sobre os punhos.

Suportou pior. Rangendo os dentes, lutou com a tontura e as teias de aranha de agora engrossando e se misturando com as luzes avivando e encontrou força para tentar pela segunda vez empurrar seus testículos para sua garganta. Ele devia ter assumido que a dor a esmagaria e que se submeteria, fazendo com que ele baixasse a guarda, porque ela conseguiu conectar seu joelho na sua virilha neste momento.

Ele não se curvou, mas a jogou longe dele, seu corpo já machucado atingindo um tronco de árvore e deslizando inutilmente para o chão.

—Fique aí. — A mantinha à vista enquanto se agachava ao lado de Zacharel.

—Não! Não vou deixar que você o machuque — ela gritou e pesadamente ficou em pé. E... Muito obrigada, Deus! Segurava ainda os punhais. Suas mãos estavam inchadas e doendo insuportavelmente, mas era um preço pequeno a pagar pela proteção de Zacharel.

Surpresa iluminou os olhos traiçoeiros. Por causa de suas palavras, ou sua persistência? Seja qual fosse o motivo, a surpresa deslizou através dela quando ele levantou suavemente Zacharel em seus braços. Tal gentileza em alguém que parecia mais monstro que homem devia ser impossível.

Ainda assim, ela apontou uma das lâminas para ele.

—Não sei quem você é ou o que está fazendo aqui, mas como disse, não vou deixar que o machuque.

—Sou Koldo e nunca iria machucá-lo.

Seus joelhos quase se dobraram de alívio. Koldo. Reconheceu o nome. Podia não ser um anjo, mas era amigo de Zacharel. Seu guerreiro disse para não lutar com ele antes de comandar sua nuvem a desaparecer.

—Onde o está levando? O que pretende fazer com ele?

—Para longe. Salvar.

Aquela voz dura deve ter empurrado a mente de Zacharel para a atividade, porque suas pálpebras vibraram abertas. Lutou pela liberdade, dizendo:

—A garota.

Ele tossiu, sangue borbulhando de sua boca.

Ele ainda estava vivo!

Um soluço de alívio escapou de Annabelle quando correu para frente. Só que nunca chegou a ele. Os dois homens desapareceram como se fossem nada mais que hologramas subitamente desligados. Ela experimentou uma onda de pânico e dor, girando ao redor em busca de qualquer sinal deles — e não encontrou nada.

Isto era o melhor. Koldo daria a Zacharel o tratamento médico que precisava. Sem ela, os demônios ficariam longe dele e...

Braços fortes se envolveram em torno dela e ela empurrou contra um peito igualmente forte. Por instinto chutou, e se debateu, atingindo a cabeça no queixo do seu captor. Ele grunhiu, mas seu aperto nunca diminuiu. Em seguida, uma cortina branca caiu sobre a floresta, quase a cegando. Em seguida não sentiu mais a grama sob seus pés. Por alguns segundos comoventes não conseguia respirar, não podia se mover, uma terrível sensação de nada correndo sobre ela.

O pânico voltou, mais forte agora, a consumindo, mas quando abriu a boca para gritar, um novo mundo se pintou ao seu redor. Um conto de fadas. Havia um teto abobadado composto por cristais de luz rosa com um lustre cravejado de diamantes pendurado no centro. As paredes eram texturizadas com os mais ricos veludos, as janelas de vidro fumê com cortinas brancas que pareciam... não tinha certeza, podia ver somente escuridão por trás do painel. O piso polido de mogno estava coberto com vários tapetes de pelúcia pastel.

Não havia muito espaço, a sala estava dividida em várias partes. A área de dormir; a sala de estar, onde um sofá floral formava um meio círculo de um lado com uma mesa de vidro quadrada, enquanto três cadeiras arredondadas ficavam do outro lado; e a cozinha. Flores frescas derramavam de um vaso de cristal no centro da mesa de jantar, docemente perfumando o ar.

Quanto ao quarto, o mesmo material pendia em cascata abaixo dos lados das janelas envolvendo a maior cama que já tinha visto. Cama. A palavra ecoou em sua mente, um lembrete dos horrores que podiam ser experimentados lá... e agora estava sozinha com seu captor. Não fique parada. Lute!

Com uma onda de adrenalina dando sua força, Annabelle estendeu a mão e girou, impulsionando seu punho inchado no olho do seu captor. Seus braços caíram longe dela, e ela girou, pretendendo acertar sua garganta e deixá-lo ofegando por ar. Ela ficou cara a cara com Koldo, mas no momento que sua identidade foi registrada, não havia como parar seu impulso. Já tinha se lançado, as lâminas que esqueceu visando sua jugular, prontas para cortar.

Mas ele deve ter antecipado o movimento, porque se arqueou para trás, fora de perigo.

Obrigada mais uma vez, Deus. Sério. Seus braços se juntaram fortemente dos lados.

—Me desculpe, sabia, não podia parar. Onde está Zacharel? — As palavras saíram sem uma única pausa para respirar.

—Guarde suas armas primeiro — ele ordenou. Sua voz ainda fervia com uma fúria entranha, que ele não conseguia esconder, provavelmente não queria esconder. Era todo emoção, não deixando espaço para mais nada.

—Tudo bem. Sim. — Embora não estivesse com medo dele — muito — seu coração trovejava contra suas costelas enquanto lutava para obedecer. Mas não importa o quanto tentasse, os dedos dela permaneciam petrificados nos punhos da lâmina, muito inchados para se mover.

—Mulher! Agora.

—Não posso — ela disse, as palavras quebradas. Ele já tinha provado que faria qualquer coisa para proteger seu amigo. Como, por exemplo, jogar uma mulher estranha numa floresta após quebrar seus pulsos. —Minhas mãos não estão cooperando.

Um gemido soou da cama, prendendo sua atenção. Os lençóis se contorceram, o material primitivo lembrando de repente uma violenta tempestade de neve.

Não, não eram lençóis, ela percebeu. Zacharel. Deitado no centro. Ela não percebeu porque sua veste era branca como o acolchoado, o sangue de alguma forma sendo lavado nos minutos que ficaram separados. Ela correu para a frente.

Koldo estendeu um braço, ela parou.

Ela levantou as lâminas, pronta para atacá-lo, apesar do fato que estavam do mesmo lado, mas ele usou a mão livre para retirar as armas de seu aperto. Só então se afastou.

Tentando não colocar peso nas palmas de suas mãos, ela se arrastou para a cama, cuidadosa, então mais cuidadosa para não empurrar o colchão.

—Estou aqui, e vou proteger você, enquanto puder — ela murmurou, quando alcançou Zacharel, e para sua surpresa, ele se calou. —Mas não sei quanto tempo isso vai ser — ela acrescentou, mais para benefício de Koldo. —Os demônios são atraídos por mim, e aparentemente podem me encontrar onde estiver. —Zacharel não pode suportar outro ataque. Não como este.

Suas asas ainda estavam quebradas, e sem o sangue contra elas, podia ver que as manchas onde suas penas faltavam. Sua pele era branco-giz, a única cor escura eram as contusões sob seus olhos. Um grande furo decorava o centro do lábio inferior. A ponta de um galho devia ter atravessado direto por sua gengiva.

—Como pude sair sem um arranhão, enquanto ele ficou assim? — ela perguntou baixinho.

Koldo assumiu o posto ao pé da cama.

—Bebeu alguma coisa antes de caírem?

Ela relembrou e recordou como Zacharel forçou aquela única gota de água em sua boca e o calor que se espalhou por seu corpo, a dor.

—Sim. Não muito, entretanto.

—Não muito foi o bastante.

Excelente ponto.

—O que era aquilo?

Ao invés de responder sua pergunta, Koldo mudou de assunto. Devia ser uma coisa de anjo.

—Ele não se acalmou até que assegurei que você estava viva. Também me fez jurar mantê-la ao seu lado.

Mas... mas... por que Zacharel faria uma coisa dessas?

—Existe alguma maneira de acelerar sua recuperação?

—Sim.

Quando Koldo não ofereceu mais nada, ela deu um olhar exasperado.

—Bem? O que? A água que ele me deu? — A água que ele esvaziou nela antes de jogar fora o frasco.

As feições endurecidas num campo de batalha não exibiam qualquer indício de emoção, mas não eram o bastante para esconder o fogo depositado em seus olhos.

—Essa informação não é algo que vou compartilhar com um ser humano, muito menos a consorte de um demônio.

—Não sou nada!

—Não vou sequer compartilhar informações com uma consorte de demônio que Zacharel decidiu proteger — acrescentou com uma carranca, como se apenas agora percebesse algo estranho.

Conseguir respostas de um anjo era como rolar uma pedra acima de um monte, ela ponderou — um monte de trabalho, sem muita recompensa.

—Este segredo é algo que vai acelerar a recuperação de Zacharel. Pode obtê-lo? Ou já tem isso?

—Sim, posso obtê-lo. Não, não tenho isso.

Silêncio.

Uma pedra com espinhos.

—Bem, então, obtenha!

—Não.

Eeee mais silêncio.

—A menos que — acrescentou — milagre dos milagres — sem qualquer solicitação dela —você jure manter Zacharel nos céus por um mês, sem contar sobre nosso negócio. A única exceção seria se ele fosse convocado para a batalha.

—Por que quer que ele fique longe? — E por que Koldo assumia que ela podia forçar Zacharel a fazer algo? O anjo queria que ela ficasse com ele, sim. Ele também prometeu a ensinar como lutar contra os demônios, então, sim, ela tinha o fique-ao-meu-lado preso e amarrado. Mas isso não significava que faria tudo o que ela desejava.

Além do mais, ousaria se prender a Zacharel por um período de tempo específico? Como ela disse, perigo sombreava atualmente seus passos e esse perigo quase o matou. Uma boa menina o deixaria na primeira oportunidade.

Koldo apertava as mãos atrás das costas, as pernas afastadas. Uma pronta postura de batalha que ela reconhecia, porque assumiu essa posição mesma quase toda as vezes que viu demônios na instituição.

—Tudo que preciso de você é um sim ou um não, fêmea. Nada mais.

Seu olhar voltou atrás para Zacharel, sua dor tão óbvia como o brilho de suas lâminas no chão. Seus lábios estavam retorcidos numa careta e agora tendiam para a cor azul. Seus dedos quebrados estavam retorcidos sobre o acolchoado, ainda muito fracos para torcer o tecido. Precisava do "algo" de Koldo, o que quer que fosse, ou morreria.

Melhor viver com ela e com o perigo que morrer sem ela.

—Sim — ela disse. Devo a Zacharel, e sempre pago minhas dívidas. Pelo menos, era seu lema. —Minha resposta é sim. — Podia confiar em Koldo para manter sua parte no trato, contudo? Ela realmente tinha outra escolha?

Koldo acenou uma vez, uma inclinação forte e áspera de sua cabeça, fazendo com que as pontas em sua barba se juntassem.

—Muito bem. Agora, uma última pergunta. Quando deixar você, o que vai fazer a Zacharel?

Deixá-la? Fazer dela, agora, praticamente a única proteção de Zacharel?

—Quanto tempo ficará fora?

—Não sei.

O que podia significar seis horas ou seis dias. Ou até seis anos.

—Vou cuidar dele da melhor maneira que puder.

—A frase “cuidar dele” pode ter muitos significados, como matá-lo, salvá-lo ou vingá-lo. Mesmo abandoná-lo. Exijo que seja mais específica.

Claro que exigia. Ele e Zacharel dividiam esse traço, esse desejo por detalhes enquanto se recusavam a partilhar com os outros.

—Quero dizer, vou vigiá-lo, olhar por ele. Nunca iria feri-lo propositalmente, e não vou deixá-lo sozinho, desamparado.

Ele estalou os lábios, como se estivesse tentando provar a verdade de sua afirmação, antes de concordar.

—Ele iria odiá-la por chamá-lo de desamparado — disse ele, e então desapareceu. Ei!

—Koldo? Guerreiro?

Nada, nenhuma resposta.

Frustração a corroeu. Não tinha ideia de quanto tempo ficaria desaparecido, onde ela estava ou o que fazer se os demônios a encontrassem antes que ele retornasse. Especialmente agora que suas lâminas desapareceram com ele! Tão desconfiado.

Mas estava acostumada que duvidassem dela, acostumada a ser ignorada, e se recusava a permitir que isso ferisse seus sentimentos. Então, ao invés de chafurdar, ficaria de guarda sobre Zacharel. O anjo que salvou sua vida. O homem a quem devia. A primeira pessoa que olhou para ela como se fosse mais que uma assassina.

Tudo que fosse preciso, faria para defendê-lo.

 

—Como vai minha menina?

—Bem, bem, eu juro... ssse não ssse importar que esssteja com o anjo, uh, bem... Zacharel. — Medo e temor encharcavam o nome.

Sorrindo, o Alto Senhor Demônio Sem Perdão se reclinou no seu trono, engenhosamente construído de ossos retirados dos muitos guerreiros anjos que foram mortos ao longo dos séculos. A mudança em sua expressão fez seu servo de quatro patas tremer. Normalmente, quando ele sorria, estava no processo de matar alguém.

Mas então, isso era quase tão bom. O fato de Annabelle estar com Zacharel emocionava Sem Perdão até as profundezas de sua negra alma podre. Foi por isso que a marcou como sua — para ganhar a atenção do guerreiro.

Ele começava a se perguntar se o guerreiro nunca a encontraria. Começava a se arrepender de não ceder ao seu desejo de torturar Annabelle quando teve chance. Agora estava feliz por sua contenção.

Agora poderia torturá-la e a Zacharel.

O sorriso alargou, e Sem Perdão esfregou duas garras pontudas ao longo de sua mandíbula. Todos os dias, aparava as unhas para evitar matar sua presa antes que ele estivesse pronto. Porque, quando a sede de sangue o atingia, perdia o controle do seu entorno, suas ambições e simplesmente se empanturrava. Esquecia que o alimento tinha um gosto melhor se fosse envelhecido durante alguns meses, o interminável terror a perfeita marinada.

—Precisssa de algo mais de mim, sssenhor? — o servo perguntou, ainda encolhido lá sobre os degraus do estrado.

—Sim.

—O-o que?

—Vai se ajoelhar diante de mim e vou arrancar sua cabeça. Seu cheiro me ofende. — Assim como o fato de ter mostrado tal admiração por Zacharel.

Um soluço estourou dos lábios muito finos do servo, mas ele não negou o pedido de Sem Perdão. Fazer isso apenas lhe renderia um bom tormento antes de sua morte inevitável.

—Isssso ssseria... meu prazer, sssenhor.

Ele assumiu a posição.

Sem Perdão espalmou sua espada, a balançou. A cabeça do servo rolou pelos degraus. E nem mesmo se levantou. Ele retornou sua espada ao seu lugar contra seu trono e estendendo o braço apontou vários outros servos à frente. Eles cobriam as paredes da câmara, alguns altos, outros baixos, mas todos feios e aqui para servir cada retorcido desejo seu.

—Você, limpe o sangue. Você, alimente com o corpo meu exército. Você, me traga um pedaço para comer. Desta vez, um bom, ou vai se juntar ao seu amigo sem cabeça.

Eles se apressaram a obedecer. Ele quase desejava que um — ou todos — o desafiassem. O que certamente aliviaria o tédio do dia. Ou melhor, dos séculos. Pelo menos por um tempo.

Sem Perdão estava preso aqui. Somente quando um ser humano conseguia convocá-lo podia sair, mas mesmo então, só podia permanecer na terra durante o tempo necessário para completar qualquer tarefa profana para que o ser humano o convocou, ou até que o homem morresse. O que viesse primeiro e para ser honesto — algo que nunca foi — o ser humano geralmente morria.

Isso começava a lhe entediar também... até que finalmente tropeçou com a companheira de Zacharel. Oh sim. Ele reconheceu o que ela era, e com quem deveria estar instantaneamente.

Talvez dissesse a Zacharel... talvez não. De qualquer forma, Zacharel, o anjo guerreiro que não tinha nada a perder, o soldado que não amava nada e nem ninguém, tinha algo que valia a pena lutar.

Agora a diversão real começaria.

Finalmente, Zacharel pagaria por enviar Sem Perdão aqui para baixo.

Altos Senhores Demônio eram anjos caídos que receberam o mal em seus corações. Sim, Sem Perdão acolheu todo o mal por conta própria, mas não tinha a intenção de fazê-lo. Como podia saber que a menor pitada recebida sem querer, causaria tal enxurrada dentro dele até que nenhuma bondade permanecesse?

Uma vez que percebeu o que estava acontecendo, lutou, tentou salvar a si mesmo. Mas o mal era insidioso, uma doença que crescia dentro de você, às vezes tão lentamente que não tinha ideia que estava lá. Sem uma adequada limpeza, no entanto, ficava lá, pronto para atacar, e no final, você sucumbia sob seu peso.

Ah, podia chorar com sua primeira morte, mas a segunda, terceira e quarta eram mais fáceis, e logo não soltava mais qualquer lágrima. Logo, não defendia a vida sob qualquer forma. Em breve, era apenas uma casca de seu antigo eu.

Mas Zacharel sabia tudo isso e podia salvá-lo. Deveria o ter salvo. Em vez disso, Zacharel o traiu.

—Seu pedaço, sssenhor. — A voz do servo se misturava aos soluços da fêmea humana maldita que arrastava para a frente.

Sem Perdão piscou para focar. A fêmea foi empurrada pelos degraus e forçada a se ajoelhar entre suas pernas abertas. Jovem, com cabelos castanhos e um rosto delicado, lembrava Annabelle.

Cada Alto Senhor mantinha alguns servos às portas do inferno. Quando a carne fresca foi trazida para dentro, os servos lutavam pela posse. Aqui embaixo, esse direito se igualava.

Sem Perdão implorava algo mais amargo e endurecido que machos e fêmeas, e os tinha. Ninguém desafiava seus servos, porque ninguém queria lidar com ele. Mas de vez em quando, descobria uma beleza morena como esta.

Lágrimas rastreavam seu rosto. Seus olhos eram avelã, um profundo verde salpicado com marrom dourado.

Ele capturou uma das lágrimas com seu dedo, e ela se encolheu para longe dele. Esperava a reação, até mesmo gostava. Uma vez, ele foi um estudo de magnificência. As fêmeas o olhavam com admiração. Agora, com suas escamas carmesim, presas manchadas de sangue, chifres muito afiados e cauda cravada, era um estudo de horror.

—Já posso provar seu medo — ele disse.

Soluços sacudiam toda a sua estrutura.

—Por favor. Não me machuque, eu peço.

Ela não tinha a coragem e o fogo de Annabelle. Que decepcionante.

Mas... só de pensar no nome de sua Annabelle o enchia de emoção. O quanto ela queria Zacharel? O que ele faria para salvá-la?

A que estaria disposto para salvá-la?

Os servos que Sem Perdão enviou atrás dela não estavam autorizados a estupro ou matá-la. Sem Perdão teria o privilégio. E Zacharel teria que assistir tudo, antes de finalmente ingressar em sua morte. Bem, morte do corpo, por que Sem Perdão não iria conceder a Zacharel a verdadeira morte: Espírito, alma e corpo. Não, queria o anjo aqui, transformado num Alto Senhor Demônio, suas ações um ácido em sua pele, a perda e o fracasso de seus companheiros como um filme ao longo da vida.

—Por favor — disse a humana, atraindo-o de volta ao presente.

Uma mente vagando o mataria. Sem Perdão enrolou os dedos em volta do pescoço da fêmea e puxou seu rosto na direção do dele.

—Por favor o que?

—Deixe-me ir — ela engasgou.

Seus lábios se enrolaram em outro sorriso, este lento e escuro como sua alma.

—Por que faria isso? Devo manter minha força. E sabe como mantenho minha força, minha preciosa?

Tremor, tremor.

—N-não.

Talvez não, mas ela suspeitava.

—Bem, será meu prazer mostrar a você.

 

Quando um dia deslizou num segundo, Annabelle se lembrou das alegrias da casa de Zacharel e convocou algumas armas. Uma garota tinha que estar preparada quando monstros a perseguiam. Infelizmente, nada apareceu em suas mãos — agora chocantemente curadas — ou em qualquer outro lugar, o que significava que ela não estava em outra nuvem. Chatice. Já tinha procurado em cada canto, cada peça de mobiliário, mas não encontrou nada. Nem mesmo uma muda de roupa.

Agora batia nas paredes, sondando por quaisquer entradas que os demônios pudessem tentar entrar, mas não havia sequer uma emenda, como se a única maneira de entrar ou sair fosse através de... tele transporte? Era o que Koldo fazia, piscando dentro e fora, como fazia?

E por que o cara queria Zacharel fora dos céus? Ela se perguntou pela milésima vez. Esperava não estar cometendo um erro fatal com sua troca.

Fatal. O pensamento voltou sua atenção para Zacharel. Sangue fresco embebia seu manto novo, fazendo com que o tecido se apegasse ao seu corpo, o vermelho obsceno contra a pureza do branco. No banheiro, juntou os poucos panos restantes e uma pequena bacia com água. Mas no momento que alcançou o anjo ferido, o sangue já tinha desaparecido.

Como ele fazia isso? O fenômeno aconteceu várias vezes antes, e esperava que seus ferimentos de alguma forma se curassem. Mas, antes, a esperança foi em vão. Suavemente levantou a borda do manto, descobrindo suas pernas — decepção a atravessou. Ainda estava machucado, partes dele ainda torcidas em ângulos estranhos. Tinha profundos cortes por toda parte e seu abdômen... Ah, pobre Zacharel. Não, seus ferimentos não se curavam neste momento, qualquer um deles. Estava morrendo.

Seus pais morrendo... mortos. Sem salvação, desaparecidos para sempre.

Ah, não. Não ia por aí.

Ela se forçou a pensar em outra coisa. Como, como, que pela primeira vez em quatro anos tinha uma finalidade, um objetivo atingível, uma rede de segurança, e se fosse completamente honesta com ela, uma atração gigantesca por um homem. A beleza hipnótica de Zacharel a hipnotizava. Sua insistência na verdade a enchia de prazer. Sua força a fascinava. Ele a protegeu, e intrigou durante suas poucas conversas. Não era sorridente, mas suspeitava que chegou muito perto de estar divertido algumas vezes.

Quero que ele viva. Ele era... Ela era... Ela...

Tinha adormecido, percebeu, acordando para encontrar seu queixo pressionado contra seu esterno. Com uma exaustão esmagadora, assumiu o cargo ao pé da cama, pronta para pular em ação, se alguém entrasse na sala.

Onde está, Koldo? O silêncio na sala era quebrado apenas pela aspereza de sua respiração. Desprezou esse silêncio — até que Zacharel começou a soltar gemido atormentado após o outro.

Ela voltou para o seu lado, balbuciando para ele, mas seus gemidos apenas aumentaram de volume. Ele se debatia, o sangue impregnando seu manto e o acolchoado debaixo dele. Logo, praticamente flutuava numa piscina de substâncias.

Quanto mais podia ele podia perder?

—Mate-os — ele soltava. —Deve matá-los.

Matar os demônios? Provavelmente. Fizeram isso a ele, afinal.

—Mate-os.

—Não se preocupe. Você o fez. Os matou — ela disse suavemente.

Ela tinha nenhum conhecimento médico, nenhuma ideia do que fazer para ajudar Zacharel. Aplicar pressão sobre a ferida era a única coisa que sabia quando alguém estava sangrando, mas não ajudaria neste caso. Poderia pressionar diretamente... ela engasgou... e podia fazer mais dano.

—Mate-os!

—Você fez, doçura. Você o fez. — Annabelle abriu o casaco de pele artificial que Zacharel deu a ela na cama e se estendeu ao lado dele, passando seus dedos sobre sua testa. Sua pele queimava com febre, o frio indo embora. Ele se inclinou ao toque, sua careta aliviando um pouquinho.

—Salve-a.

Ela — Annabelle? Não estava tão certa disso.

—Você o fez. A salvou.

—Eu... voltei — uma voz quebrada disse pela sala.

Ela se sacudiu em surpresa e, em seguida, quase gritou de horror, quando espiou Koldo. Ou, mais precisamente, o que restava de Koldo.

Suas mãos apertavam o peito, os dedos grandes envolvidos em torno de algo claro e fino. Quando caiu de joelhos, não foi capaz de suportar seu próprio peso, o sangue escorrendo de sua cabeça raspada agora. Estava sem seu manto. Sem camisa, com as calças frouxas, penduradas em suas pernas.

Annabelle deslizou da cama para correr ao seu lado.

—O que aconteceu com você?

—Faça... ele... beber. — Koldo caiu primeiro de rosto no chão, os braços estendendo algo claro e fino — um frasco — sem soltar. Suas costas. Ah, doce misericórdia, suas costas. Não havia nenhuma carne à vista, apenas músculos arruinados e ossos fraturados.

—Não... para... mim. — Seus olhos se fecharam, como se suas pálpebras estivessem muito pesadas para manter abertas. —Só para ele.

Náusea agitou seu estômago. Ela estava (um pouco) acostumada para considerar o que ela lidou nestas últimas vinte e quatro horas sangrentas, e estava totalmente acostumada à violência. Mas isto... tanto em tão curto espaço de tempo... assim como no passado... subia até a consumir...

Por um momento ficou petrificada no lugar, as memórias a inundando, a afogando, devastando. De alguma forma encontrou um bote salva-vidas — Zacharel — que a puxou, puxou, puxou para a superfície.

Faça-o beber, Koldo disse. Tremendo, abriu o frasco e retornou ao lado de Zacharel. A rolha provou ser um problema, e lutou para removê-la, sentindo-se como uma idiota quando puxou e falhou, puxou e falhou.

—Isso é a mesma coisa que ele me deu? — A mesma coisa que a machucou antes de salvá-la?

—Sim — disse Koldo.

Finalmente Annabelle conseguiu e a cortiça ficou livre. Tão instável como estava, derramou várias gotículas ao lado da sua mão.

—Me desculpe, Zacharel — ela sussurrou. Porque não tinha ideia de quanto seria necessário para um homem grande como ele, especialmente quando era um imortal, ao invés de um ser humano —muito causaria uma overdose e o machucaria, ou seria melhor ir lentamente? —derramou metade da garrafa goela abaixo.

Passou um momento, e depois outro e nada aconteceu.

Bem, o que esperava? Ele...

Rosnou, curvando seu corpo. Bateu os punhos contra a cabeceira da cama, rachando a madeira. Em seguida socou o colchão com tanta força que Annabelle saltou para o chão, mais líquido se derramando da garrafa que ainda segurava.

Esforçou-se para ficar em pé, à espera de ver suas feridas se curando, mas... ele continuou se debatendo, sangrando, rosnando.

Fúria ardente fluiu através de suas veias, não deixando nada além de cinzas na sua esteira. Não admirava que Koldo dissesse para não dar-lhe nada do líquido. Era veneno! E era tão estúpida que confiou nele? Bem, faria...

Tão rapidamente como Zacharel entrou em erupção, se acalmou. Seu corpo cedeu contra a cama, e soltou um suspiro suave. Diante de seus olhos os ossos estalaram no lugar. A pele voltou a se tecer junta, até que ele não tinha um único hematoma ou arranhão. Seu olhar caiu na garrafa. O que era este material?

—Água da vida. — Zacharel se empurrou sentado, verificando seu entorno, parecendo ver tudo ao mesmo tempo. —Onde estamos?

—Você está curado. — As palavras explodiram dela, montando as ondas de choque.

Olhos esmeralda pousaram sobre ela, tão claros quanto o líquido — água da vida? — e totalmente livres da dor. Mais uma vez possuía um rosto esculpido a partir de sonhos e afiados por fantasias, lindo de uma maneira que nenhum mortal jamais poderia esperar ser.

Sua respiração ficou presa e seu sangue aqueceu com algo diferente da fúria. Queria gritar de alegria e se jogar em seus braços. Queria dançar e cantar pela maravilha deste milagre poderoso. Queria... mais do que estava disposta a admitir.

—Você sobreviveu — ele disse.

Toda emoção estava apagada de sua voz, não oferecendo nenhuma dica de como se sentia.

—Sim. Por sua causa, então, obrigada. Eu sei que não é pagamento adequado. Tomou o peso do impacto para si mesmo, e tudo que posso dizer são palavras. Desculpe-me. — Ela estava balbuciando, sabia que estava balbuciando, mas não conseguia parar. —Se eu tivesse mais, te daria mais.

—Gostaria de dizer que foi um prazer. Sim, gostaria de dizer isso, mas o impacto machucou.

Ela engasgou novamente com uma risada.

—Está fazendo uma piada?

—Uma piada, quando falei apenas a verdade? — Ele acenou com os dedos para ela. —Água da vida — ele repetiu. —Me dê isso.

—Oh. Aqui. — Ela estendeu a garrafa.

Lentamente, com cuidado, ele removeu a garrafa do seu aperto.

—Quem deu isso a você?

—Koldo.

Em seus olhos, ela viu um clarão de choque que até mesmo o estoico Zacharel não conseguiu esconder.

Uh-oh. O outro guerreiro tinha quebrado algum tipo de regra?

—Mas eu assumo plena responsabilidade — acrescentou. —Pedi para fazê-lo. Portanto, qualquer sanção deve ser minha.

Koldo teve mais do que merecia vindo por ela e Zacharel. Ela lhe devia, e de acordo com seu novo lema, devia pagar de volta.

—Onde está ele?

Tanto quanto gostava de Zacharel, tanto quanto lhe devia também, não o conhecia, não de verdade e não ia jogar o outro cara direto no fogo.

—O que você pretende fazer com ele?

Um músculo assinalou em sua mandíbula.

—Não prejudicaria um homem que me ajudou, se é isso que está insinuando.

Muito bem. Apontou para o guerreiro ainda inconsciente no chão.

—Não o machuquei, tampouco. Saiu e voltou assim. — Zacharel levantou, seu manto caindo aos seus pés. Substituiu a rolha da garrafa; um momento depois, tudo desapareceu.

—Como fez isso? — ela não pôde evitar perguntar. O que ele fez?

—Escondi o frasco num pequeno bolso de ar que agora obrigatoriamente vai me seguir. — Ele a ignorou, cuidando para não tocá-la, como se fosse de repente tóxica.

Mensagem recebida. Ele não queria mais nada a ver com ela. E seus sentimentos não estavam feridos. O que era uma rejeição a mais, de qualquer maneira? Ela era uma aberração, uma assassina, uma garota louca que via monstros, ou isso era que um milhão de pessoas lhe dizia. E daí que passou um dia inteiro se preocupando sobre a saúde deste homem. Um homem que sabia a verdade sobre ela. Um homem que antes a protegeu. Por que a mudança repentina?

Ouviu um silvo de respiração quando se agachou ao lado do macho ferido, deslizando a palma da mão sobre o couro cabeludo recentemente tosquiado.

—Como pôde deixá-los cortar seu cabelo, guerreiro? Por quê?

Annabelle podia adivinhar a resposta para a segunda pergunta, mas prometeu a Koldo que nunca discutiria os detalhes de seu acordo. Assim, permaneceu em silêncio. O que queria saber era por que Zacharel parecia mais chateado pela calvície recém-descoberta de seu amigo do que pela condição das costas do cara.

Porque os dois homens eram guerreiros até seus núcleos? Porque a dor física pouco importava para eles, já que tinham sofrido muito? Porque perder algo que valorizavam, como Koldo devia valorizar seus cachos, era muito pior que qualquer ferida?

E sim, sabia que ele gostava desses cachos. A complexidade dos trançados revelava tempo e atenção que deu a cada mecha.

—Só o conheço há três meses, mas a primeira coisa que descobri sobre ele foi seu amor ao seu cabelo. Em todos os seus séculos, nunca o cortou — Zacharel disse, seu tom recoberto de tristeza. —Nem mesmo uma trança. Não sei porque, mas desde que a Divindade me contou sobre ele, suspeito que tem algo a ver com seu pai.

Tantas perguntas deslizavam através de sua mente.

—Seu pai? Então os anjos nascem?

—Alguns Anjos da Deidade foram... nascem, sim, mas alguns foram criados totalmente formados pelo Altíssimo.

—Qual você é?

—Nascido. — Com ternura, levantou Koldo em seus braços. Cada passo cuidadoso, medido, levou a besta enorme para a cama e o deitou de bruços. —Seu cabelo nunca vai crescer de volta, sabe.

—Mas por quê?

—Um sacrifício foi feito e aceito. Se seu cabelo crescer de volta, seu sacrifício não teria significado nada.

E eu pedi que fizesse isso. Culpa se estabeleceu pesadamente sobre seus ombros, quase a derrubando de joelhos.

—Tem certeza?

—Não, inteiramente não, mas conheço o Conselho. Sei como funcionam.

Bem, então.

—Vou tomar isso como uma chance que seu cabelo volte a crescer. Agora, ele me disse para não dar-lhe qualquer... água — ela disse, — mas certamente iria ajudá-lo. Aliviar sua dor.

—Beber agora o destruiria da pior maneira possível, por que não podemos nos curar com a água da vida, quando as feridas que recebemos foram para conseguir a água. Outros anjos também estão proibidos de ajudar de alguma forma durante o processo de cura.

Pobre Koldo.

—Ele é um anjo?

—Sim. Perdeu suas asas há muito tempo.

—E agora perdeu seu cabelo. — Lágrimas brotavam em seus olhos. Não admira que Zacharel não tivesse vontade de tocá-la. Era uma ameaça, arruinando a vida de todos ao seu redor. Sempre foi.

Suspirando, Zacharel arrastou seus dedos sobre o couro cabeludo sangrento. A cabeça de Koldo não foi raspada, ela percebeu após uma inspeção mais próxima, mas arrancada.

—Ele vai te odiar se tiver pena dele — ele disse. Um aviso para ambos?

Koldo disse algo parecido sobre Zacharel. Se os dois não fossem cuidadosos, o orgulho os levaria a perder o melhor tipo de mimos.

—Não, ele não vai, porque nunca vai saber. Se puder nos tirar daqui, quero dizer. Não posso ficar. Estive aqui muito tempo e os demônios... — Koldo não estava em condições de combatê-los agora.

—Vão, eventualmente, encontrar você, e seria melhor se não conseguissem encontrar o esconderijo secreto de Koldo — terminou para ela.

—Exatamente.

—Não importa o quão forte atraía os demônios, não deveriam te encontrar na minha nuvem. Não deviam ter vindo por você.

—O que exatamente os atrai? — Na instituição, ele mencionou ódio, mentiras e desejo de cometer violência, mas ela fez seu melhor para se concentrar apenas em coisas boas.

—O que eu disse antes ainda é verdade — ele disse, como se lesse sua mente —mas você é um caso especial. Seu corpo carrega a Essentia do demônio que a marcou, e essa Essentia irradia de você.

Ela piscou de surpresa. Tal resposta simples, mas mudava totalmente sua vida. Não havia nada que pudesse fazer para impedir que irradiasse essa essência que não podia nem mesmo sentir.

—Como ele me marcou?

Zacharel seguiu para o aparador e procurou através das gavetas, finalmente, retirando uma túnica.

Urgência a bombardeava, e mal conseguia evitar apertar seus ombros e o sacudir.

—Diga-me! Ele me beijou e me lambeu, mas eu devo ter entrado em contato com ele antes da mudança em meus olhos acontecer, e como me disse uma vez, tão docemente, meus olhos pertencem a um demônio.

Ele não disse nada.

Ela continuou.

—Na manhã de seu ataque, meus olhos pareciam como se estivessem crus e branqueados. E depois disso, meus pais... Esse primeiro demon... — Ela limpou sua garganta. —Não entendo por que ele veio. Era meu aniversário, e acabava de ter o sonho mais incrível. Devia ser um dia perfeito.

Zacharel enrijeceu.

—Sonho?

—Sim.

—Você se lembra?

—É claro. O tenho revivido mil vezes. — Tinha a esperança de descobrir o que estava errado nele. Primeiro, o amava. Mas quanto mais a cena passava através de sua mente, mais percebia que algo estava... fora.

—Diga-me.

—Um enevoado príncipe encantado me salvou de dragões cuspidores de fogo e me perguntou se estava disposta a ajudá-lo. Eu disse “sim”. Ele disse “eu te amo e quero ficar com você”, então eu disse “como você é doce” e ele me disse “você vai ser minha mulher”, e eu disse “sim” e ele disse, “então somos um”. Então acordei com a dor mais agonizante.

Zacharel correu sua língua sobre os dentes.

—O príncipe era o demônio e levou você a concordar com sua reivindicação.

—Uh, não. Era apenas um sonho. — Um sonho que a prendia há anos...

—Não, apenas achava que era um sonho. Ele manipulou sua mente, vulnerável, quando dormia. Quando pediu para ser sua mulher, e você concordou, tornou-se sua escrava.

—Mas o que... Não quis dizer... nunca... Eles podem fazer isso com as pessoas? — ela guinchou.

—Se um ser humano permitir, sim.

—Mas... como eu poderia saber o que estava acontecendo?

—Poderia, se fosse treinada para distinguir a verdade da mentira. — Quando ele ficou na frente dela, puxou o manto sobre a cabeça dela. —Para mantê-la limpa e quente. — O material a cobriu, caindo pelos braços até seus pés.

—Deseja remover o couro? — perguntou ele.

—Sim. — Uma vez que o manto cobria seu corpo, foi capaz de se contorcer e desta forma tirar a roupa suja.

Quando terminou, percebeu que sua pele formigava e suas células crepitando, como se centenas de borboletas estivessem dando-lhe um banho de esponja. Era a sensação mais estranha, e não tinha certeza se era o manto ou a proximidade de Zacharel o responsável.

Ele levantou seu cabelo da gola, os dedos roçando sua nuca, a fazendo tremer. Sua proximidade. Definitivamente sua proximidade. Não se afastou como ela esperava, mas falou devagar.

—Macio.

Bem, quem sabe, ela pensou. Não estava em oposição a tocá-la, afinal.

—Por que evitou me tocar antes? — perguntou ela, desviando do assunto dos demônios. Agora, sua mente precisava de uma pausa. —E não tente dizer que não foi intencional. Basicamente se contorceu para se manter à distância, um movimento que eu mesma usava para estabelecer limites com outros pacientes.

—Perco o controle de tudo que é importante quando você está perto de mim — ele resmungou.

Tudo o que é importante, ele disse. Ou seja, ela não era. Bom.

—Tão romântico — ela murmurou, estendendo sua mão. —Tem sorte que eu não seja uma dessas meninas que irrompem em lágrimas a cada pequeno insulto.

—Não era um insulto. — Ele franziu a testa e ela sabia que ele não imaginava que sua expressão era sensual, que sua falta de frio causava apenas isso, um pulsar erótico dentro dela, onde se misturava com o desejo. —E não estou tentando ter um romance com você.

—Acredite, eu sei.

A careta se aprofundou, e ele se afastou dela, cortando o último contato.

—Quer romance comigo?

Sim.

—Não. — Não gosta muito de homens agora, lembra? Homens anjo nem sequer são sexy.

—Então como estávamos dizendo... — Zacharel limpou sua garganta, e mesmo assim continuava impregnado com sua inata sensualidade. —Devemos matar o demônio que fez essa reinvindicação por você. — Demônios novamente. A pausa acabou.

—Quando concordou em ser sua escrava — ele continuou —, deu-lhe permissão para fazer tudo que ele quisesse com você. No entanto, quando ele morre a marcação desaparece e os outros, os servos mais fracos, vão perder o interesse em você.

—Então... a caça deve se tornar o caçador?

—Exatamente. Se não o fizermos, você nunca encontrará paz.

Espere.

—Você disse nós.

—Sim.

—Está disposto a me ajudar? — Ele prometeu treiná-la sim, mas isso era mais que formação. Isto era dedicação à uma causa que não era verdadeiramente a sua.

—Sim — ele repetiu.

Gratidão quase a esmagou.

—Devo-lhe, não o contrário. Por que você... — ela apertou seus lábios juntos. Se continuasse ao longo desta linha, podia convencê-lo a ajudá-la. —Obrigada. Apenas... obrigada.

—De nada. Uma vez que esteja livre da Essentia do demônio, poderá viver uma vida longa e feliz em seu próprio país. Não estou dizendo que nunca haverá outra tempestade; essas são simplesmente parte da vida. Mas nunca mais experimentará trovões como estes.

Com suas palavras, a resposta para sua pergunta inacabada deslizou no lugar. Zacharel queria se livrar dela. Isso doía, mas não ia reclamar. Auxílio era auxílio, não importava a razão por trás disso.

—Sei que está indo muito além do dever, mas preciso de algo além da sua ajuda — ela disse, olhando abaixo para seus pés. —Pode... bem, uh, pode passar o próximo mês comigo... longe dos céus, a menos que tenha uma batalha a travar? Sem me perguntar por que?

Uma pausa.

Uma pausa muito longa.

Ela olhou para cima.

Fúria e prazer brilhavam nos olhos de Zacharel.

Por que fúria? Aliás, por que prazer?

Não importava.

—Por favor — disse ela.

—Não vou perguntar por que me quer fora dos céus. Não é necessário. Conheço os anjos, e posso adivinhar. Quero saber se você negociou. — ele disse bruscamente.

—Negociou o que? — perguntou ela, se fazendo de inocente. Mas espere. Algo que aprendeu com Zacharel e Koldo era que, quando não queria responder uma pergunta e a evasão não funcionava, tinha que fazer um pedido de sua preferência. —Não se preocupe. Vai passar o próximo mês comigo.

—Ou o quê? — Num piscar de olhos estava na frente dela, sua mão mais uma vez envolvida em torno de sua nuca. Ele a puxou mais perto, sem tempo para protestar ou resistir.

—Ou... uh...Sequer posso falar disso, é tão terrível!

—Uma mentira. Não vai fazer nada, isso sim. Mas, muito bem. Vou te dar uma resposta de qualquer forma... e um mês do meu tempo. — Ele disse as palavras sedosamente, revestidas de indulgência fria e determinação em sua voz. —Por um preço. Como vê, sei como negociar.

 

Vou ter essa mulher, pensou Zacharel. Por apenas uma vez, vou tê-la. Finalmente saberei seu gosto, e nunca mais terei que me perguntar qual é.

Quando o corpo de Annabelle encostou nele, a abraçou com suas asas, forçando-a cada vez mais perto. Sua recém-curada pele e tendões protestaram contra o movimento, um pouco doloridos e latejantes, mas isso não o impediu. Nada o faria.

—Qual é seu preço? — perguntou ela baixinho. O doce perfume dela deslizava para seu nariz, enchia seus pulmões, o marcando. Seu beijo. Sua rendição. Mas disse as palavras em voz alta? Não.

Queria saber que tipo de acordo ela fez com Koldo — um acordo que exigia que ficasse com Zacharel por um mês. Um acordo que proporcionou a água da vida. Também queria saber por que Koldo o queria fora dos céus assim, por tanto tempo.

Mas, novamente, manteve seu silêncio. Gostou do resultado, portanto, não pressionaria Annabelle por respostas que ainda não estava pronta a dar. Ainda não, pelo menos. Isso viria; tinha certeza disso.

Sim, vou tê-la. Apesar de sua expectativa pela ação, a raiva, no entanto, se enrolava no interior de seus ossos. Ainda que não quisesse a querer, a culpava por reduzi-lo a isso... um homem disposto a esquecer seu dever e renunciar à sua honra simplesmente para provar o gosto de uma mulher.

—Vamos discutir os termos, uma vez que chegarmos em nossa nova localização — disse ele mais duramente do que tinha intenção. —Quanto mais tempo ficarmos aqui, mais perigo meu guerreiro enfrentará.

Ela estudou seus traços por um momento, procurando por... o que?

—Tudo bem. Vamos adiar nossa negociação. — O alcançando, prendeu seis dedos por trás do pescoço dele.

Ela sempre o surpreendia. Quando esperava que ela protestasse, ela cedia. Quando esperava que ela desabasse, lutava contra ele. Quando esperava... Pensamentos descarrilando... realinhando... Ela estava ainda mais perto dele agora, como se fossem duas metades de um todo. A própria ideia aqueceu seu sangue, fazendo com que seu interior queimasse e sua pele suasse.

Zacharel.

A voz masculina ecoou em sua mente, nenhuma memória brotando na sua própria mente.

Thane? Imediatamente perguntou, preocupado.

Sim.

Está bem? E os outros?

Não fomos atacados, mas emboscamos os demônios te perseguindo.

Bom. Ficou algum vivo?

Após a menor hesitação, ele ouviu, Sim.

Como se Zacharel fosse protestar contra a tortura próxima, que era exatamente por que o demônio ainda vivia.

Descubra quem enviou os servos. Vieram para levar Annabelle.

Como ela está?

Bem. Mas a única maneira de mantê-la segura é escondendo-a. Portanto, vou me esconder com ela. Me contacte quando tiver uma resposta. E, Thane, acrescentou antes que o soldado encerrasse a conexão. Verifique Koldo quando tiver chance.

Por quê? Qual o problema?

—Zacharel? — Annabelle disse. —Não quero criticar, mas só está aí de pé, olhando para mim.

—Não para você, mas preciso de um momento — ele respondeu, mas a distração cortou a ligação. Tentou reabri-la, mas falhou. —Passou o momento. Tudo bem.

Embora ela irradiasse confusão, disse:

—Então, hum, mais uma vez, como propõe deixar este lugar?

Concentrando-se nela, ele disse:

—Da mesma forma que saímos da instituição. Minha pergunta é, apreciará este passeio de novo?

Ele apertou seus corpos e voou com ela através do teto e, em seguida, camada após camada de pedra. Odiava abandonar Koldo, mas já tinha contornado a borda do aceitável, colocando o guerreiro na cama.

Fossem quais fossem suas razões, Koldo — um guerreiro enviado a ele porque transformou seu último comandante numa polpa sangrenta — o ajudou e, também a Annabelle. Zacharel não imaginava nunca vir a admirar os homens e mulheres sob sua liderança, mas não podia negar que as fissuras no seu peito estavam se expandindo, abrindo espaço para mais que apenas Annabelle e desejo.

Ergueram-se acima da superfície de grama e flores, árvores altas e um céu no meio da manhã, o sol meio escondido atrás de um espesso escudo de nuvens. Aves voavam em todas as direções, seus gritos estridentes bem-vindos.

—Nunca vou me acostumar com a beleza — Annabelle engasgou, respeito e temor em seu tom.

Sim, estava curtindo este passeio, tanto quanto o outro. Como reagiria a outras coisas que as mulheres livres podiam fazer? Coisas como fazer compras, dançar e namorar.

—Não acha que é bonito? — perguntou ela.

—Acreditava que era sim, e assumia que a beleza nunca murcharia.

—Nós nascemos neste mundo incrível, Zacharel. Estamos destinados a proteger esta terra e seu povo.

—Tudo que vejo é o sangue de nossos pais, pulverizado sobre os oceanos e a grama.

—Morreram lutando contra demônios. — Não era possível recuperar a extensão de suas feridas. —Não há nenhuma honra maior que isso. Quantas vezes já disse essas palavras para mim? Por que também não pode focar a pureza e a inocência brilhando em nós e esquecer a mácula do passado?

Nem ele nem seu irmão conheceram os eventos que se desdobrariam meras semanas depois daquela conversa. A captura de Hadrenial, a tortura e depois de um ano de procura, o "resgate" dele por Zacharel. Hadrenial já não pensava no mundo como um lugar de esplendor e glória a aquecer. Viu a feiura, andou mão a mão com o mal, e começou a temer e odiar.

—Você está bem? — Annabelle perguntou. —Ficou tenso.

Pela primeira vez, Zacharel queria mentir. Dar voz aos pensamentos nadando em sua cabeça... ele também explodiria? Ou pior, choraria? Contou a Annabelle sobre a morte de seu irmão, mas não sobre suas razões para esse golpe final. Se o fizesse, ela iria explodir e chorar? Lágrimas femininas não eram algo que pudesse aguentar agora.

—Bem? Está?

—Shh — ele disse. —Devo manter o foco. — Verdade. Caso contrário, ele faria algo que se arrependeria.

—Cale-me novamente, eu te desafio.

Seus lábios se contraíram dessa forma que estava vindo a esperar em sua presença. Adiante, procurou, mas não havia demônios se escondendo nas proximidades. Ainda assim, não queria arriscar a levá-la para um lugar público. Asseclas muitas vezes seguiam os seres humanos inocentes. Devia levá-la para uma ilha privada no Pacífico, não descoberta e intocada pelo homem, como planejado, mas... mudou de ideia.

Por mais de uma hora deslizou através da vastidão azul, indo alto, em seguida, baixo, então alto novamente, mantendo um constante zig zag impossível para qualquer pessoa bloquear.

—Desde que não quer me dizer o que está errado com você, e posso dizer que ainda está incomodado por algo — Annabelle disse —por que não pode me dizer por que não acredita na beleza da terra?

Nuvens do mais puro branco apareceram, cada montanha coberta de neve. Campos de grama verde e ricos prados com flores orvalhadas. Água tão azul que parecia manter mil segredos em cada ondulação. Não imaginava os pedaços de seus pais espalhados em diferentes partes do mundo. Não imaginava o horror de seu irmão nos últimos dias, mas mesmo assim...

—O ambiente do homem muitas vezes está contaminado por suas memórias.

Seu suspiro quente acariciou seu pescoço.

—Verdade. Depois do meu julgamento, meu irmão vendeu a casa dos meus pais, assim como tudo dentro dela. Não queria lembretes do horror que eu causei.

—Mas você não causou esse horror.

—Não, mas ele nunca vai acreditar nisso. — Sua tristeza era um fio desencapado, crepitante e perigoso.

—Palavras atadas com fé tem poder, Annabelle, mesmo palavras negativas. Se quer que ele mude de ideia, comece a falar e agir como se ele fosse.

—Sobre seu livre arbítrio? E não confirmaria que ele acredita que estou mentindo?

—Mentes podem ser alteradas — por sua própria vontade. E não, não estaria mentindo. —Você fala isso, e porque as palavras têm poder, sua fé se torna mais real.

—Mas não tenho nenhuma fé nesse assunto.

—Tem, mas é pequena. Como vê, fé é mensurável. Crê como pensa e medita sobre uma verdade espiritual. E não agite sua cabeça para mim. O que digo é verdade. Existem leis naturais como a gravidade, e existem leis espirituais, como esta. Você pode ter o que diz se acreditar que o tem antes de realmente ver que tem. Isso é fé.

Ela pensou sobre isso por um momento.

—Tudo bem, então ele quer reatar comigo.

—Bom. Continue dizendo isso. Fique pensando nisso. A qualquer hora que um pensamento contrário apenas tentar entrar em sua mente, force-o a sair. Um dia, vai realmente acreditar em espírito, alma e corpo.

—E assim ele vai buscar um relacionamento comigo?

—Como você vai liberar um poder espiritual, contrário a qualquer coisa que já conheceu. — Ele só queria ter aplicado estas verdades em sua própria vida. Confissões de fé total podiam levar tempo, mas se um homem não tinha paciência, podia arruinar tudo.

—Tudo bem. Certo. Vou pensar e meditar sobre essas coisas. — Ela descansou a cabeça em seu ombro. Tanto tempo passou que ele achou que cumpria sua promessa e adormeceu. Até que ela disse: —Então onde estamos?

—Nova Zelândia. — Na base de uma das montanhas estava a entrada para a caverna de Thane. A maioria dos anjos mantinham casas em todo o mundo, porque um guerreiro nunca sabia onde acabaria a caça de um demônio em particular, ou quando estaria ferido e precisaria de descanso. Como tantos outros, Thane escolheu um lugar onde garantia tão pouca interação humana como possível.

Zacharel a levaria lá. Mais tarde.

—Sempre quis viajar — disse ela.

—E agora está fazendo isso em grande estilo.

Uma risada calorosa a deixou, um som que ameaçava sobrecarregar seus sentidos de prazer.

—Não posso negar isso.

Ele contornou a caverna e passou por Whangaparaoa Bay e Auckland. Lá, desembarcou num beco abandonado. Odiava a liberação de sua passageira, mas se forçou a fazê-lo.

Com um único comando mental, transformou suas vestes numa camisa e calça, ambas negras.

—Como fez isso? — perguntou ela, puxando o tecido em sua cintura. —E como o material é tão macio?

Ele queria que esses dedos sobre ele, sobre sua pele. Em breve.

—Isso não foi nada, e sou capaz de fazê-lo porque as vestes estão sob meu comando, assim como a nuvem. — Enquanto falava, escondeu suas asas dentro de uma bolsa de ar.

Com expressão perplexa, como se não pudesse se convencer a acreditar no que estava vendo — ou não — ela estendeu a mão, parou e mordeu seu lábio.

—Posso?

Seus dedos em suas asas... ainda melhor. Sua garganta de repente ficou muito apertada para falar, assim balançou a cabeça, forçando suas asas a alcançar a borda da bolsa, para que ficassem sólidas para ela.

Contato. Amanteigados suaves dedos acariciaram o arco de uma, então a outra, correntes elétricas o atravessando.

—Ainda estão aí — ela disse, claramente impressionada. Para ela, mas só para ela.

Ela o acariciou por um instante mais, quase arrancando gemidos de prazer dele, antes de se afastar.

—Então o que estamos fazendo aqui? — Ele lamentou sua perda.

—Vamos comprar suprimentos. Roupas, sapatos e tudo mais que vamos precisar nos próximos dias.

A mão dela vibrou sobre seu coração.

—Você disse a palavra compras sem vacilar?

—Sim. E daí?

—Então, isso deve ser um recorde. É um fato em todo o mundo que homens odeiam fazer compras.

—Como posso odiar quando nunca fiz isso?

Seus lábios se curvaram num sorriso lento, bonito.

—Se já não fosse um anjo, diria que é um santo. Pobre rapaz. Não tem ideia do que está por vir.

 

Annabelle teve o momento de sua vida.

Os edifícios eram tão bonitos como as montanhas circundantes, leves, com muito vidro e sinais brilhantes. A água tão azul como o céu, misturadas uma com a outra, as nuvens acima, uma réplica dos veleiros abaixo. Mas foram as arcadas e colunas ao longo das ruas e as pessoas em todas as direções que consumiu sua atenção.

Uma vez, encarou esse tipo de coisa como normal. Durante anos, quando queria fazer compras, seus pais a levavam ao shopping. Experimentava roupas, e eles a criticavam. As "críticas" constituíam-se sempre de elogios.

—Nunca pareceu mais bonita, querida.

—Todos os meninos vão ficar loucos por você, docinho.

—Definitivamente herdou o estilo de sua mãe, meu bem.

Annabelle piscou longe uma chuva fresca de lágrimas. Quando ficou mais velha, ela e seus amigos passavam muitos fins de semana comprando jeans e camisetas, vestidos e sapatos, depois bebendo café, fofocando e rindo enquanto admiravam todos os meninos.

Uma onda de saudade a varreu, seguida pela tristeza do que perdeu nos últimos anos, e em seguida, determinação. Estava livre agora. Não deixaria o que poderia ser — o que deveria ser — manchar este momento com Zacharel. Olhe o que tinha acontecido com ele. Permitiu que o passado o maculasse e já não podia apreciar a beleza da terra.

Além disso, Zacharel não fez esse tipo de coisa antes. Ela deveria estar no seu melhor, para que não decidisse cair fora, sem terminar a experiência, da maneira que os namorados das amigas muitas vezes ameaçavam fazer.

—Não está gostando? — Zacharel exigiu.

—Estou, juro.

Ele balançou a cabeça, embora não parecesse convencido.

—Vou provar! — E assim começou a maratona para finalizar todas as compras. Primeiro, enquanto vasculhava prateleira após prateleira, não tinha certeza se as pessoas podiam ver Zacharel, mesmo em seu estado alterado. Então, notou a maneira que as mulheres olhavam para ele, não importando sua idade, boquiabertas.

É isso mesmo. Ele está comigo. Ela estava se sentindo muito bem sobre si mesma, na verdade... até que percebeu que os homens de alguma maneira se mantinham distantes dela, até mesmo os vendedores. Mas... mas... por que? Não havia um pôster de procurada pendurada em cada parede. Certo?

Olhou Zacharel. Olhava fixamente um homem um pouco atrás — um homem que se virava agora, saindo da loja.

Certo, então, problema resolvido. Mas realmente não podia castigá-lo. Era mais que um guarda-costas; era um Caixa Eletrônico. Quando achava algo que queria, uma camiseta, um par de calças, botas, uma bolsa, não importava, Zacharel de repente tinha dinheiro.

—Está infeliz ainda? — ela perguntou quando ele escondeu suas compras da mesma forma que escondeu suas asas.

—Eu...

—Guarde esse pensamento! — Ela acabava de ver um balcão de cookies! Mudou de direção e ignorou Zacharel, ansiosamente saltando acima e abaixo na frente do balcão, a boca cheia de água. —Gotas de Chocolate — ela disse para a senhora com luvas, esperando para atendê-la. —Duas delas.

Já tinha pensado em fazer algo assim novamente, algo puramente frívolo? Não. E ela... ela podia cair de joelhos e chorar. Engraçado como lutava mais contra as lágrimas desde sua libertação da instituição, do que durante os quatro anos que passou lá.

—Não quero uma — disse Zacharel.

—Oh, uh, sim, porque a segunda seguramente é para você.

Ele estalou os lábios enquanto pagava a conta.

—Pequena mentirosa, Annabelle.

Um olhar circunspecto provou que não estava zangado sobre isso. Chocante. Geralmente bufava e inchava. Mas o calor, o que quer que fosse, ainda estava em sua expressão.

Com os bolinhos na mão, retomou sua viagem através do centro comercial. Cinco degraus e tinha meio cookie abaixo. Outros cinco e ele foi embora, nem as migalhas restando. Agora, isso era viver!

Ela mordiscou o segundo, determinada a saborear cada pedacinho dele. Retardou o passo e forçou Zacharel a manter o ritmo ao seu lado e não atrás dela.

—Está tratando essa coisa como se fosse um grande tesouro — disse ele.

Bem, sim. Porque era.

—Tem algo contra cookies?

—Não poderia dizer, nunca comi um.

Espere. O que?

—Nunca, como nunca?

—Há outro significado para a palavra nunca que eu não saiba?

Ha ha.

—Mas isso é um crime!

—Mal.

—Mas... por que nunca não provou um?

—Porque eu opto por consumir apenas alimentos que irão me fortalecer.

—Não tenho certeza se você percebe o quão ridículo soa. Mas felizmente para você, Annabelle Miller está aqui neste caso, e não vai deixar você mais um minuto sem saber a perfeição que é o êxtase do chocolate. — Ela parou, beliscou um pedaço da borda que restava do segundo e o levou até os lábios de Zacharel. —Abra. Está prestes a descobrir o verdadeiro significado de delicioso.

O calor se intensificou, e seus lábios suavizaram. Ele sempre ia parecer um guerreiro — com esses músculos, como não o faria? — mas agora estava mais um sedutor. O Príncipe de seu sonho... só que, não era um miserável demônio disfarçado.

—Você é como Eva com a maçã — ele disse.

—Isso é um insulto ou um elogio?

—Ambos.

—Então estou só meio ofendida. — Ela traçou uma linha de chocolate derretido em seu lábio inferior. —Abra. Não me faça mandar novamente. — Ele abriu.

Ela passou o pedaço em sua língua, mas antes que pudesse tirar os dedos, ele fechou os lábios em torno deles e os sugou. Um suspiro foi arrancado dela, todo o calor que notava a envolvendo, se espalhando através dela, fazendo-a estremecer.

Ele não quis dizer nada com isso ela sabia, e lentamente se afastou dele. Ele não tinha experiência, não tinha ideia no que tal ação explicitava. Ele comeu o cookie e lambeu seus lábios, seu olhar preso nela. Tais cílios bonitos, ela pensou, um olhar tão dinâmico.

Um homem tão bonito.

—Você está certa — disse ele. Seu tom de voz nada mostrando. —Delicioso.

Tentando uma resposta irreverente, ela disse:

—É péssimo para você que não pediu um. — em seguida, enfiou o resto do cookie em sua boca.

Para sua total surpresa, ele sorriu. Sorriu! Lábios se curvando, dentes brancos se revelando, covinhas em plena glória. Sim, covinhas. A consciência a queimou e empolou, uma tempestade dentro dela. Era... Era... absolutamente magnífico.

—Poderia tirar o pedaço de você agora, apenas o roubando de sua boca. O que faria então, pequena brava Annabelle? — Ela engoliu antes de engasgar.

—Que nojo? — Uma pergunta, quando deveria ser uma declaração.

—Hmph — ele disse, seu sorriso desaparecendo.

Por um momento sentiu como se o sol se pusesse, reinasse a escuridão e a luz possivelmente nunca voltasse.

—Não quis dizer que ia odiar se você...

—Esqueça. Venha, vamos terminar suas compras. — Ele agarrou a mão dela e a empurrou em frente.

E por querer, falou devagar.

—Muito bem. Mas só porque está pagando — ela resmungou.

—Não se preocupe. Vai me reembolsar.

—Vou? Como?

O olhar que ele deu a ela só podia ser descrito como latente.

—Vai ver.

 

—Mantenha sua cabeça baixa. — Zacharel dobrou suas asas em suas costas, arremessando abaixo por um túnel estreito, sinuoso. Voaram pelo que parecia para sempre, mas ele finalmente viu seu destino. Annabelle apertou seu punho e enterrou seu rosto no oco do seu pescoço.

Finalmente terminou o túnel, se abrindo numa enorme caverna cristalizada. Ele fechou suas asas, diminuindo seu ímpeto e pousando suavemente Annabelle no chão. Seus joelhos sacudiram, e por um momento, ela se agarrou a ele. Então soltou e se afastou para que nenhuma parte de seus corpos se tocasse. Mais uma vez ele chorou a perda dela — algo que o levou a ranger os dentes em irritação.

Esteve obcecado por ela todo o dia. Cada ponto de contato, todos os problemas em sua respiração, cada olhar que ela dava em sua direção fazia a tensão dentro dele se afiar.

Cada mudança em suas emoções o confundia. De feliz para triste, de brincalhona para rabugenta. Queria puxá-la em seus braços e segurá-la até que tudo que sentisse fosse felicidade. Mas não se permitiu fazer isso. Cada vez que ela ria, sentia seu sangue fervendo um grau mais quente. Não seria capaz de se contentar com simplesmente abraçá-la.

E quando o alimentou com o cookie? Quando pôs os dedos na sua boca? Teve que lutar contra o desejo de despi-la, se despir e finalmente descobrir porque tantos seres humanos apreciavam o que acontecia quando duas pessoas estavam nuas.

Um dia, muito em breve, a provaria, para conhecer as curvas do seu corpo, permitir e experimentar esse tipo de paixão. Mas não ansiaria por mais, não se tornaria viciado numa mulher que era mortal e consorte de um demônio. Mataria sua curiosidade e retornaria à vida que conhecia — e gostava. Era errado talvez, mas essa era a única opção disponível para ele.

Um anjo guerreiro não podia manter um ser humano. A brutal guerra entre anjos e demônios era muito perigosa para tal carne frágil. E a guerra fermentando entre anjos, gregos e Titãs? Já podia sentir a tensão no ar, ouvir os sussurros de uma revolta vindo. Mais que isso, suas esperanças de vida eram muito diferentes.

—O que é este lugar? — Um estremecimento de aflição a sacudiu quando olhou seus novos arredores.

Mesmo sem olhar, sabia o que ela via. Uma prateleira com algemas para pulsos e tornozelos de alguém. Uma cama com lençóis pretos para esconder alguma coisa que derramasse. Uma parede de instrumentos que nunca teve vontade de usar.

Podia ter escolhido outra caverna que pertencesse a um anjo como ele, um homem que nunca antes experimentou o desejo. Mas escolheu a habitação de Thane, onde sabia que encontraria essas coisas, porque tinha a esperança de enojar e envergonhar a si mesmo por abandonar seu caminho atual.

Mas não, ainda queria Annabelle. Queria fazer coisas com ela...

Seus olhos estavam foscos, quase o congelando no lugar. Ele, que conheceu um frio diferente de qualquer outro.

—Qual seu preço para ficar comigo? Disse que poderia me dizer quando chegássemos em nossa nova localização. Bem, estamos aqui e não posso dizer que estou impressionada.

E ele que nunca mentiu, o fez.

—Está mais que “não impressionada”. Está revoltada. Sim?

—Sim. — Ela acenou uma mão em direção ao arsenal diante deles. —Pode me culpar depois de tudo que passei? Posso adivinhar o que quer fazer comigo.

Sua resposta era negra, e ele franziu a testa. Será que o problema era com os instrumentos — ou com ele?

—Primeiro, nunca usaria essas coisas em você ou pediria que as usasse em mim. Em segundo lugar, peço apenas que voluntariamente se entregue a mim.

Por um longo tempo, ela simplesmente o olhou boquiaberta. Então fez um exame rápido e engoliu. Então balançou a cabeça violentamente, essa cascata de cabelo escuro e lindo tapando seu rosto.

—Se procura meu corpo como forma de pagamento, então o sexo não será consensual, não importa como compatíveis parecemos ser. Realmente não vou me entregar a você. Em vez disso, vai se forçar a mim. Como Fitzpervertido!

Raiva explodiu em seus ossos, preenchendo cada parte dele.

—Não sou como ele.

Se Zacharel estava se afogando de desejo por ela, estaria condenado se não a levasse com ele.

—Você me deseja? — ele exigiu.

Ela lambeu os lábios, engoliu novamente.

—Estou atraída por você, sim.

Isso aliviou os tópicos mais quentes de sua emoção.

—Como eu estou.. atraído por você. — Atraído. Uma palavra tão suave para os desejos constantemente o bombardeando. —Então, qual é o problema?

Por um momento sua raiva superou a dele, as chamas emanando dela com o calor do sol.

—Não serei forçada a fazer nada, nunca mais. Não vou ter minhas mãos amarradas — literalmente ou figurativamente.

Ele percebeu seu erro e quase amaldiçoou. Não devia a ter trazido para um lugar como este, mesmo se fosse adequado a seus próprios fins, e não deveria ter tentado empurrar o problema. Devia ter permitido que coisas evoluíssem naturalmente.

Mas... inexperiente como era nesta área, não sabia nada sobre "naturalmente".

—Disse a você. Não sou como o médico. Não sou como os outros homens que conhece. Por que eu a salvaria apenas para machucá-la? Mas muito bem, se não pode confiar em mim, vamos negociar. Avisei você que sabia como.

Isso a tranquilizou um pouco.

—Muito bem. Estou ouvindo.

—Vou ficar com você por um mês — e muito mais tempo, acrescentou silenciosamente, se ainda não tivesse acalmado sua curiosidade. Porque apenas então, percebeu que a queria mais uma vez. Queria tudo que ela tivesse para oferecer. Queria experimentar tudo com ela. Só então a deixaria ir. —Se prometer me beijar sempre que tiver vontade. — Certamente o resto partiria daí.

—Mas a garota... que beijou você sem permissão...

—A situação com você não é a mesma. Você tem minha permissão. Tem um convite aberto. — Seu tom de voz se aprofundou, tornando-se áspero, cada sílaba coberta com sua fome.

—Porque está atraído por mim — ela reiterou entrecortada, brincando com as pontas de seu cabelo.

—Sim.

—Mas se eu nunca quiser te beijar?

—Então não vai. — Mas ela ia querer; tinha certeza disso.

Ela olhou para baixo e, em seguida para ele, abaixo, para ele. Aqueles olhos expressivos revelavam uma mistura de apreensão e esperança e... algo ardente.

—Sim. Concordo com seus termos.

 

Concordar parecia uma boa ideia, mas agora, algumas horas após seu negócio ser fechado, Annabelle estava em chamas pela energia nervosa. Teria a coragem de seguir adiante? Ou não?

Era tudo que foi capaz de pensar.

—Você está quente — disse Zacharel. Estava à toa em torno da cozinha, fazendo um sanduíche.

Ela sabia que ele não quis dizer a palavra quente, como qualquer outra pessoa faria.

—Estou. — O manto que se moldou ao seu corpo, tornando-se uma camiseta e calças, voltou para sua forma disforme, pouco antes dela e Zacharel chegarem aqui, cobrindo-a do pescoço aos pés. —Odiaria usar um chuveiro. Sozinha.

—A túnica limpa seu portador de dentro para fora. Agora está mais limpa do que já esteve.

—Oh. Isso é legal. — E que resposta manca. Precisava se recompor. —Quero dizer, notei sua capacidade de limpeza quando você estava ferido. — Apenas não juntou dois e dois.

—Talvez devesse vestir sua roupa nova.

—Acho que vou. — Apenas não da maneira que ele provavelmente pensava.

Ele colocou as sacolas na entrada. Ela procurou através de cada uma, até que encontrou o que queria. Em seguida, da mesma forma que se despojou de seu couro, com o manto a protegendo, agora se vestiu.

—Injusto — ela pensou ouvir Zacharel murmurar.

Somente quando seu novo sutiã e calcinha, camiseta, jeans e botas estavam no lugar — e ela cortou com êxito através dos bolsos para fácil acesso das lâminas ainda amarradas nas pernas —finalmente removeu o manto.

O olhar de Zacharel vagueou sobre ela de cima a baixo — em seguida, novamente acima.

—Aprovo. E agora vai comer. — Colocou um prato na mesa de madeira pequena, sentou e acenou para ela se juntar a ele.

—E vamos falar — disse ela.

—Claro.

Ela tinha intenção de continuar sua negociação, mas ele começou a atormentar para obter informações — e ela não podia evitar o atormentar de volta. Por que uma caverna? Por que os brinquedos sexuais? A resposta para a primeira: porque sim. A resposta à segunda: porque sim.

Tão informativo seu anjo.

Ela se moveu desconfortavelmente. Nenhuma das cadeiras possuía recosto, e parecia que ia cair cada vez que se movia, mas ele estava perfeitamente à vontade, a falta de recosto permitindo que posicionasse confortavelmente suas asas.

—O demônio que matou seus pais — disse ele, apontando para ela dar outra mordida no sanduíche mais delicioso que já tinha comido. Macio, úmido e repleto de sabores doces e picantes. —Como se parecia?

—Se eu dissesse feio e parasse por aí? — Dois podiam jogar esse jogo reticente.

—Eu iria pressionar.

—Pensei isso. — Ela mastigou, engoliu, tentando não imaginar a besta que assombrava seus pesadelos por todos estes anos. Com apenas o menor tremor em seu tom, descreveu os olhos vermelhos, o rosto humanoide e os dentes de vampiro. A pele suave, carmesim, os chifres que se projetavam de sua espinha. A cauda que se enrolava numa ponta de metal.

Todo o tempo Zacharel franzia a testa. Viu? Sua expressão padrão.

—Poderia ser qualquer número de demônios, mas definitivamente não foi quem ditou quais demônios podiam ou não podiam entrar em sua instituição. Ainda assim, vamos encontrar Burden, falar com ele. — Burden. Que nome terrível. —Ele será honesto com você?

—Com um pouco de persuasão, talvez. Mas às vezes você pode discernir a verdade, ouvindo a mentira.

—Desde que esteja certo. E só para que saiba, posso lidar com o perigo. Não pense sequer em me deixar para trás.

Ele estreitou os olhos, embora não conseguisse esconder as chamas verdes cintilantes vindo à vida.

—Poderia absolutamente deixá-la para trás, Annabelle, e não há nada que você possa fazer para me impedir.

—Poderia odiar você — ela ferveu. —Bem, não te odeio, pois agora me recuso a odiar alguém, mas poderia ficar muito zangada com você!

—E acha que iria me incomodar? — Tal pergunta soltou calmamente, como se não se preocupasse com a resposta.

Mas se preocupava, e não havia como esconder esse fato. Não mais. Ele queria seu corpo, tentou consegui-lo como forma de pagamento, e quando ela disse não, decidiu se contentar com seus beijos.

Não tenho que ficar nervosa sobre nosso acordo, ela percebeu, assustada, impressionada. Feliz. Ele estava tão desesperado para tê-la, que pegaria qualquer coisa que pudesse obter. Mesmo sobras.

—Uma pequena dica para você, Maravilha Alada. Não ameace a mulher que deseja seduzir. —Annabelle assumiu o controle.

Ele estendeu a mão, roçando suavemente a ponta do seu dedo ao longo de sua clavícula.

—Se isso significa salvar sua vida, vou fazer mais que ameaçá-la. Vou prosseguir. Melhor perceber agora, ao invés de chorar mais tarde.

O toque, embora leve e bloqueado pelo tecido, a eletrizou. Viu Zacharel assumir o controle dela.

—Quero um homem para ser meu igual, não meu chefe.

Ele mostrou os dentes para ela, seu braço caindo pesadamente do seu lado.

—Nunca serei seu igual. Serei sempre mais forte, mais rápido.

Melhor?

Sim, estava lá, mas não estava, ela pensou, um tiro de confiança completamente crepitante. O sanduíche parecia compacto dentro do seu estômago, tornando-se uma bola de chumbo.

—Não sei por que ainda quer me beijar. Faz-me soar como um verdadeiro prêmio. Talvez, apenas esqueça nosso acordo completamente.

Ele bateu um punho na superfície da mesa.

—O acordo permanece intacto.

O desabafo atípico a espantou, fazendo com que os olhos se arregalassem. Devia o ter surpreendido também, porque no momento que percebeu o quanto de força usou, lambeu os lábios e adicionou sem problemas:

—Caso contrário, posso abandoná-la a qualquer momento, não é? E não quer isso, ou quer, Annabelle?

Não, porque ele seria capaz de retornar aos céus. E por essa única razão ela decidiu capitular. Realmente.

—Muito bem. O acordo permanece intacto. Mas quanto mais falar, mais não gosto de você. Sabe, né?

—Será meu prazer remediá-lo. Em primeiro lugar, não é sua força ou sua velocidade que me atrai. É seu... tudo. Seu riso, sua inteligência, suas emoções e a maneira como se alteram. Sua coragem, sua doçura, seu prazer obsessivo por cookies. Em segundo lugar, é realmente um prêmio. Fez-me querer o que ninguém nunca conseguiu. Uma comunhão de corpos.

Uh, nunca mais diria a este homem que não tinha ideia de como seduzir uma mulher. Suas palavras a afetaram, profundamente e inexoravelmente. Uma comunhão de corpos. Sua. Dele. Deles, como um. Apenas o pensamento causou arrepios sobre sua pele. E não havia mais nenhum nervosismo. Não de todo. Ele apenas a lembrou que o ato era feito para ser especial, não vergonhoso, entre duas pessoas destinadas a ficar juntas.

Poderia ser? Você e Zacharel?

Ele achatou suas mãos sobre a mesa e se inclinou para a frente.

—Terceiro. O anjo loiro, Thane, o que pretendia gostar mais do que de mim. Esta é sua caverna e essas são suas ferramentas.

Com uma inclinação de cabeça, ele acenou para a prateleira que a fez se lembrar da maca do hospital.

—Sei que vai usá-las em você, caso se ligue a ele. Então não vai se ligar a ele.

Certo, isso soava como ciúme. E a mudança nele, de distante e ameaçador para possessivo e carente, foi tão surpreendente quanto seu punho na mesa. Ela vacilou, com mais poder ainda.

—Está certa — disse ele, antes que ela pudesse responder. —Falar não é bom. Coma.

Bem, maldição. Cada vez que achava que estava ganhando, ele vinha e arruinava tudo.

—Sim, papai — ela resmungou e colocou outro pedaço de pão na boca. O que lhe rendeu um olhar ardente.

Quando terminou o alimento, observou Zacharel através das pálpebras semicerradas, tentando não ser óbvia em seu estudo dele. Apesar de sua mudança de humor, podia ter saído de uma pintura, tão marcante era seu rosto. Ela nunca se acostumaria com a beleza dele?

Afinal, seu cabelo sempre seria preto, sua pele sem rugas. Ele nunca mudaria. Sempre ficaria desta forma, enquanto ela envelheceria. Ugh. Envelheceria, não era?

A única coisa diferente sobre ele eram suas asas. Agora, estavam principalmente ouro com partículas brancas enfiadas através das penas. Se estivesse certo, e estivesse evoluindo para a Elite, o que isso significava, estava evoluindo rapidamente.

—Só para que saiba — ela disse quando percebeu que o silêncio estava tão tenso quanto suas palavras. —Não desejo Thane.

Ele balançou a cabeça, satisfeito.

—Então, quanto tempo vai ficar aqui?

—Não mais que quatro dias. Preciso saber se os demônios podem sentir você quando está no subterrâneo. A resposta ditará nosso próximo curso de ação.

Tempo de sobra para ele a ensinar um pouco sobre a luta contra os demônios. Claro, uma lição que envolvesse contato físico e o contato físico provavelmente faria seus hormônios enlouquecerem. Ela gostaria de beijá-lo, o que significava, de acordo com seu trato — que ele não deixou ela terminar — ela teria de beijá-lo.

Ela encontraria coragem?

Pergunta estúpida, que a assolava.

E se gostasse — do tipo ruim de gostar? E se ficasse o beijando para sempre? E se ela surtasse? Ou, se gostasse? E se quisesse mais? E se ele se recusasse a dar-lhe mais? E se a repreendesse como fez com a outra fêmea? Aquela anjo linda com cabelo escuro e encaracolado? Apesar do fato que afirmou desejar Annabelle.

Ou, se ele quisesse mais que um beijo, mas Annabelle se recusasse a dar-lhe mais? Será que ele, então, decidiria que não valia a pena o esforço e a abandonaria em algum lugar?

Não, pensou em seguida. Ele não era escroto. Podia ser frio e insensível, mas não era mentiroso, também. Concordou em ficar com ela por um mês, e assim o faria... não importava o quê. Será que lamentava essa promessa, contudo? Ou estaria feliz?

Havia apenas uma maneira de descobrir as respostas para todas as suas perguntas...

Bônus adicional: depois da primeira vez, o nervosismo a deixaria de uma vez por todas. Bem, aquilo resolvia a questão.

—Zacharel — disse ela sem ar.

Seu olhar a perfurou até sua própria alma.

—O que está pensando, Annabelle? — A voz rouca perguntou, um carinho para cada um dos seus sentidos. Como ele, ela não podia mentir. Não desta vez, a verdade já comprovada pela suavidade dos seus lábios.

—Em beijar você.

Seu olhar caiu imediatamente nos lábios, suas pupilas devorando suas íris.

—Por quê?

Porque você acha que sou um prêmio. Porque, quando olha para mim, sinto-me valorizada e não inferior.

—Acredito que já sabe minha resposta.

Lentamente, os cantos de sua boca subiram.

—Então o que está esperando? Sabe o que deve fazer.

 

Zacharel esperava, tenso, enquanto Annabelle lentamente se levantava e cortava a distância entre eles. Ficou ainda mais tenso quando ela finalmente se posicionou entre suas pernas.

Parte dele gritava para detê-la, para parar com isso. Após o primeiro gosto, não haveria como voltar atrás. Sabia, o conhecimento uma parte dele. O resto gritava por mais. Por tudo.

O resto dele ganhou.

Sua curiosidade era muito grande, mas mais que isso, sua necessidade de prazer por esta mulher em particular era muito grande. Seu perfume era o mais doce dos afrodisíacos. Suas curvas feitas para suas mãos, e só dele, como logo confirmaria. Envolveu os dedos ao redor de seus quadris pequenos, frágeis, assim que ela espalmou as mãos em seus ombros. No momento do contato, seu suspiro aquecido encheu o espaço entre eles.

—Mais perto — ele falou rouco, a puxando até que estavam encaixados. Porque estava sentado, estavam agora olhos nos olhos. Boca a boca. Tinha que provar...

Mas não lhe deu o que ele queria.

—Se não gostar, diga-me para parar, certo? Não fique todo homem das cavernas e me empurre ou me xingue ou me culpe.

—Vou gostar, e vai me ensinar o que fazer.

—Mas se não...

—Está parada. — Zacharel deslizou uma mão até sua coluna vertebral e outra em seus cabelos, os fios sedosos o instando cortar o resto da distância.

—Você tem certeza?

Ele pressionou seus lábios contra os dela. Lábios tão diferentes dos dele; suaves, tão suaves como as pétalas de rosa, mais cheios, o fazendo apenas acariciar primeiro. Afastou-se, maravilhado, e, em seguida, se aproximou novamente... maravilhado novamente pela decadência dela...então novamente e desta vez, gemendo, ela se abriu para ele.

Sua língua rolou contra a dele, trazendo consigo o gosto do verão: sementes mergulhadas em creme, a recente floração de rosas e a sensual meia-noite.

Concentrado nela como estava, foi capaz de seguir sua liderança. Quando sentiu o impulso de sua língua, soube como revidar. Quando ela retirou sua língua, sabia que devia persegui-la. Apreciava cada nova experiência, rosnando seu desejo por mais.

Seus dedos deslizaram através de seu cabelo, decadentes sensações dançando sobre seu couro cabeludo, fazendo cócegas na pele que nunca antes foi tocada pelas mãos de outra.

—Não sei você, mas eu gosto disso — Ela respirou, parecendo surpresa.

—Sim. — Seu sangue esteve gelado por tanto tempo, com apenas o piscar ocasional de calor para impedi-lo de congelar. Calor, que só sentia com ela. Agora seu sangue estava fundido, chamuscando através de suas veias, o aquecendo. Suor cobria sua testa, entre as omoplatas e escorria abaixo de seu estômago.

Até mesmo sua respiração queimava, chamuscando seus pulmões e raspando em sua garganta. Havia apenas uma cura para a febre, e instintivamente sabia o que era. Tinha que ficar mais perto dela, tinha que tocá-la toda. Tinha que ter tudo dela.

—Levante. — Um comando.

Quando ela não conseguiu obedecer imediatamente, Zacharel envolveu seu traseiro e a levantou, forçando-a a se abrir, a encostar seu peso contra ele. E oh, céus doces, sim, era exatamente o que ele precisava. Prazer disparou através dele, uma bela espécie de tortura.

Ela gemia em sua boca, as unhas afundando em seu couro cabeludo, parecendo querer segurá-lo no lugar. Como se estivesse preocupada que ele tentaria fugir. Nunca faria uma coisa dessas. Estava perdido, apenas ligado à mulher em seu colo e muito feliz por isso. Exceto...

Exceto que a nova posição não era mais a bênção que pensava.

—Annabelle. — Doía e precisava de algum tipo de alívio.

—Zacharel.

Ouvir seu nome nos lábios dela, proferido tão ofegante, o encheu de um sentimento de posse. Minha.

—Faça..mais — ele suplicou.

—Tudo bem. Está bem. Sim.

Mas ela não fez, e ele teve que espalmar suas mãos em seus quadris para se impedir de tentar acariciá-la em todos os lugares, tudo de uma só vez.

—Que mais você quer? — ela sussurrou.

—Tudo que me der.

—Eu não... talvez... esteja desequilibrada.

Desequilibrada... sim. Beijou e beijou e beijou, ele se arqueando contra ela. Para frente, para trás, buscando, recuando. Cada ponto de contato arrancava um gemido dela e um rosnado dele. O prazer se turvava com a dor, tão insuportável como necessário.

Como ficou sem isso por tanto tempo? Como resistiu a isso? Não admira que tantos seres humanos estivessem dispostos a guerrear com seus irmãos só para ter ou mesmo salvar o que cobiçavam. Este senso de conexão... Zacharel nunca experimentou seu gosto. Ele não era apenas Zacharel, era o homem de Annabelle e feliz por isso.

—Zacharel?

Os seios esmagados contra seu peito, causando uma nova dor. Tinha que senti-la contra ele, pele com pele, sem barreiras. Ele a soltou tempo suficiente para arrancar seu manto pelo meio e livrar seus braços do tecido, permitindo que ele se amontoasse em torno de sua cintura. Em seguida arrancou o top de algodão de Annabelle, a deixando boquiaberta e ela inalou agudamente.

Ele arrancou seu sutiã também, e ela era bonita. Ah, era bonita. Ele estava tremendo quando provou seus seios, se maravilhando que pudessem ser tão pesados e ainda tão macios.

Muito... gostosos...

—Espere — ele pensou a ouvir dizer.

Não. Sem espera. Poderia tê-la agora.

Sua mente estava embaçada com mais prazer glorioso quando mergulhou abaixo e beijou um deles, depois o outro. Annabelle arqueou as costas, se afastando dele, mas ele não gostou disso, por que libertou uma das mãos para mantê-la no lugar.

—Zacharel!

—Annabelle. — Névoa espessava em sua mente, e não conseguia registrar as mãos delicadas agora empurrando seus ombros, tentando o afastar. Por que ele se negou este tipo de contato por tanto tempo? Perguntou-se novamente. E como se convenceu que um único sabor desta mulher seria suficiente? Teria isso já, teria Annabelle pelo menos uma vez por dia, decidiu, até que se cansasse do ato.

Podia nunca se cansar disso.

Algo afiado raspou abaixo por sua bochecha, uma, duas vezes, arrancando sangue. Soltou Annabelle para golpear isso longe, o que quer que fosse. Não podia deixá-lo machucá-la. No momento que o fez, ela fugiu para trás, caindo de bunda. Quando levantou, ele saltou. Seu manto permaneceu preso em torno de sua cintura, enquanto a alcançava. Mas... pouco antes do contato, ela o socou no nariz com tanta força que a cartilagem se partiu. Sangue escorreu pelo seu rosto.

Ele franziu a testa, ainda estendendo a mão para ela. Intenso.

—Annabelle. Beije-me.

—Beije isso, ratinho tinhoso! — Ela o acertou entre as pernas com tanta força que ele provavelmente precisaria de seus testículos removidos cirurgicamente de dentro do seu abdômen.

A dor irradiou através dele, arrancando sua respiração e ele se debruçou. A névoa em sua mente limpou e ele olhou para cima, confuso pela sua violência. Foi quando ela o acertou duas vezes na bochecha, e seus joelhos cederam. Ele caiu no chão, estrelas brilhantes piscando através de sua linha de visão... mas não o suficiente para bloquear os olhos vidrados de medo ou a rápida ascensão e queda do seu peito.

—Annabelle — ele disse, segurando seus braços para impedir que provocasse mais dano.

—Não! — Achando que ia tentar agarrá-la, ela se abaixou e — na verdade o esfaqueou do lado. Ela trocou de roupa, mas não tinha lhe dado armas para amarrar em suas coxas. Devia saber.

—Nunca me toque novamente — ela cuspiu.

Ele grunhiu, sabendo que ela tinha cortado seu rim.

Ela se endireitou, deixou cair a faca sangrenta como se a queimasse. Com uma mão num punho de nós de dedos brancos, puxou os lados de sua camisa juntos. Com a outra, esfregava freneticamente o ponto acima de seu coração. Tremendo, se afastou dele.

—Me ouviu? Nunca mais!

Ele fez isso com ela, percebeu. A reduziu a isto.

A vergonha o cobriu enquanto levantava. O corte do seu lado latejava, mas não prestou nenhuma atenção. Logo iria se curar.

—Annabelle.

Acelerou seus passos, e ela não parou de recuar até atingir a parede da caverna distante. Mas mesmo isso não era suficiente para ela. Estendeu um braço para afastá-lo.

—N-não chegue mais perto! — Pânico revestia sua voz, as bordas afiadas o suficiente para cortar através do osso. Um momento depois, se dobrou, um grito de dor brotando dela. Preocupado, Zacharel correu em sua direção. Ela o sentiu, se endireitou e voou para a direita, evitando o contato.

—Pare! Estou falando sério. — Ela varreu seu olhar sobre ele, provavelmente procurando o local mais vulnerável para socá-lo e suspirou. —Realmente você tem um coração negro.

Ele parou como ordenado, e olhou para si mesmo. Seu peito estava nu, a mancha negra sobre seu coração visível e maior, muito maior, agora uma hemorragia na clavícula e tronco.

Mais do que seu espírito tinha morrido.

Não admira que Annabelle o quisesse fora de seu abraço.

A partir do momento que percebeu o que significava a mancha, que finalmente vivia com um relógio, que estava morrendo pouco a pouco, ficou bem com o resultado final, e viu isso como uma apólice de seguro — mas não estava bem com isso agora. Se o impossível acontecesse e ele se fosse antes de Annabelle, ela não teria ninguém para supervisionar sua proteção.

Apressadamente arrumou seu manto, o tecido se juntando para proteger sua falha auto infligida. Ele ergueu as mãos, as palmas para fora, uma posição que orou para tranquilizar Annabelle que no momento não a ameaçava.

—Lamento te machucar. Não foi minha intenção.

Passo a passo medido, se aproximou dela.

Ela balançou a cabeça violentamente, o cabelo que ele apertou apenas momentos atrás agora pendurava embaraçado. Ao mesmo tempo, continuava a esfregar seu peito.

—Disse que você não chegasse mais perto. Fique atrás!

Agora faria qualquer coisa que ela pedisse — exceto isso. Caso se afastasse, ela nunca mais confiaria nele e em algum nível profundo que não entendia, precisava que ela confiasse nele. Ela construiria paredes entre eles, que ele nunca poderia esperar violar, por que seriam fortalecidas por este terror e um crescente sentimento de fúria. Discerniu isso nesse mesmo nível profundo, onde o instinto rodava com sua necessidade primitiva de protegê-la. Ele acelerou o passo, disposto a não prolongar isso um minuto a mais.

No momento que chegou nela, ela irrompeu, lutando com ele com todos os pedaços de sua força. Pelo menos optou por não usar as outras lâminas.

Levou mais tempo que teria imaginado, mas finalmente conseguiu capturar suas mãos e girá-la de costas, e embora ele desprezasse a necessidade de suas próximas ações, tirou sua camisa rasgada. Prendeu seus pulsos acima dela com uma mão e alcançou uma bolsa de ar para reivindicar a camisa que guardou para ela. A que ele tinha tirado de sua sacola porque era sua favorita, um azul cintilante do mesmo tom de seus olhos.

Gritando, ela rebolava contra ele e chorava, com lágrimas jorrando balançava a cabeça. Enfiou o material sobre sua cabeça e através de seus braços. Ao mesmo tempo, sussurrava no ouvido de Annabelle.

—Não vou machucar você. Está segura comigo. Não tem nada a temer de mim.

Estava muito entranhada em seu terror para ouvi-lo.

Não seria capaz de alcançá-la desta forma, de nenhuma maneira, ele percebeu. Não sabendo o que fazer, Zacharel abriu suas asas e os levou voando à boca da caverna. Duas vezes ele quase a deixou cair, tão selvagem ela estava se debatendo, mas no final foi capaz de colocar seus pés no chão. No segundo que a soltou, ela fugiu rápido, correndo através do túnel, para longe dele.

Apenas quando ele próprio ficou invisível, a seguiu, apenas voando. Constantemente, ela dava olhares de pânico por cima do ombro, o procurando. Embora nunca o visse, nunca o sentisse, ela nunca abrandou. Correu e correu e correu, sibilando e chorando. Quando avistou os raios luminosos do sol empurrando através da entrada da caverna, aumentou sua velocidade.

Ela soluçava a luz do dia, tropeçando numa pedra grande. Um gemido de dor escapou dela, mas se ergueu e continuou. Ele sentiu o cheiro de seu sangue e soube que seus joelhos estavam esfolados.

Aves levantaram voo enquanto ela corria, e os animais da floresta se afastavam. Ela espirrou pelo meio de uma poça, então tropeçou novamente numa raiz de árvore neste momento. Suas palmas detiveram o impacto da queda, esfolando sua carne e seu tornozelo torceu, mas nem isso a abrandou. Galhos batiam nela, cortando seu rosto. Folhas prendiam no cabelo.

Em breve ela cansaria. Ele a deixaria correr para onde queria então. Quando não quisesse mais, ele a pegaria. Ela tinha que prestar atenção nele para que pudesse convencê-la do seu remorso, tranquilizá-la que nada assim aconteceria novamente.

Que não sabia exatamente o que fez de errado. Ela gostou de seus beijos e seu toque. Sim?

—Como eles — ela chorou, esfregando, esfregando, e ainda esfregando seu peito. —Por que ele tinha que ser como eles? Disse a ele para parar, mas não e agora eu... Agora eu...

Com suas palavras, ficou claro o entendimento. Depois de tudo que sofreu na instituição, ele a forçou rápido demais. Ele destruiu suas roupas, como aqueles que a forçaram provavelmente fizeram. Ele não atendeu seus protestos, apenas tentou tomar o que desejava.

Ela estava certa — ele era exatamente como eles. Havia uma maneira de corrigir isso? Uma maneira de convencê-la que não era o monstro que agora considerava? No passado, quando alguém o enganou de tal maneira, Zacharel nunca foi do tipo de perdoar e esquecer.

Ela não é como você. É mais suave, melhor.

E não era irônico? Ele era o anjo, ela o ser humano, e ainda assim ele precisava de perdão.

Um cacarejar de riso malvado soou acima adiante, dispersando seu interesse. Medo e raiva o consumiram num único piscar de olhos. Zacharel acelerou sua velocidade, movendo-se na frente de Annabelle. Ela foi encontrada. Mas onde estavam... então os avistou. Uma horda de demônios esperava nas árvores, atrás dos troncos e acima das pedras, rindo alegremente e claramente com intenção de emboscá-la.

Rapidamente a encontraram, e Zacharel teria que lidar com eles — mas agora Annabelle não confiava nele mais do confiava nos demônios. Ainda podia lutar com ele enquanto ele lutava contra eles.

Se saísse desta vivo, seria um milagre.

 

—O que aconteceu com você? — Thane apenas voou na casa subterrânea de Koldo em Half Moon Bay enquanto espiava o guerreiro deitado sobre a cama, a cabeça raspada e as costas cortadas em tiras.

Crostas juntamente com manchas de sangue se partiam, e os olhos escuros, vidrados, se esforçavam para se concentrar nele.

—Água da vida — foi a resposta resmungada.

Devia ter adivinhado. Só uma vez Thane suplicou ao Alto Conselho celestial permissão para se aproximar do Rio. Exigiram que primeiro vivesse como um mortal, entre os seres humanos, por um mês. Ele não precisava considerar sua resposta. Recusou-se, e assim seu pedido foi negado. Ser mortal era ficar impotente e nada valia isso.

Cruzou os braços sobre o peito, dizendo:

—Eles levaram seu cabelo.

Uma afirmação óbvia, mas seu choque era inigualável.

—Sim.

—E você deixou.

—Sim.

—Porquê?

Koldo fechou os olhos.

—Por que está aqui, guerreiro?

Thane não estava surpreso pela evasão. Koldo não era de compartilhar seus problemas. Nenhum deles era. Mas ficou surpreso pela facilidade com que Koldo estava falando com ele. Normalmente, não conseguia arrancar mais que um brusco "Sim" ou "não" do anjo.

—Zacharel me mandou vir.

—Acabou de perdê-lo. Estava aqui com a menina.

Outro fato surpreendente. Zacharel voluntariamente carregando uma fêmea humana ao redor do mundo. Thane só podia imaginar o que viria a seguir.

—Estavam bem?

—Sim — Koldo disse novamente, mas desta vez hesitou sobre a palavra. —Ele a queria com ele, na sua vista. Não gostou do fato de eu a tocar, mesmo inocentemente. — Essa era uma longa sequência de palavras. A dor devia ter abolido suas inibições.

Mas não podia ofuscar o que foi dito. Zacharel estava possessivo e ciumento, quando nunca mostrou a menor emoção antes.

Que outras emoções humanas desencadearia seu líder? Especialmente quando perdesse a menina. E iria perdê-la. Mortais eram delicados, facilmente esmagados; não eram anjos.

—Onde estão seus rapazes? — Koldo perguntou. —Geralmente não estão muito atrás de você.

—Bjorn está caçando Jamila. Deixou a nuvem de Zacharel algumas noites atrás e não foi vista desde então. Xerxes está examinando os restos de uma horda de demônio encontrado sob essa mesma nuvem.

—E você está caçando Zacharel para atender seu comando.

—Não exatamente. — Já tinha falado dentro da mente de Zacharel, como Zacharel falou dentro da dele. Podia fazê-lo novamente, podia perguntar onde Zacharel estava e se estava bem ou precisava de ajuda, mas não ia. Esse tipo de conexão perturbava qualquer um, menos Bjorn e Xerxes, e suspeitava que perturbava Zacharel.

—Ele disse aonde ia? Ou quais eram seus planos?

—Se o fez, eu estava muito ocupado inconsciente para perceber.

Thane não se conteve; sorriu. Humor, do sério Koldo, era tão desconcertante como a nova obsessão de Zacharel pela menina. E levava Thane a fazer algo que sabia que não devia.

Caminhou para a cozinha e colocou no balcão todos os itens necessários para fazer um sanduíche. Devia estar seguindo outro demônio para torturar. Infelizmente, o que ele capturou não deu todos os detalhes, não importava o que ele fizesse, apenas estoicamente suportou a dor. Devia alertar os outros membros do exército para estes novos desenvolvimentos. Mas queria aliviar Koldo, de alguma forma, de alguma maneira.

—Não pode me alimentar — disse Koldo, da cama.

Não, não podia, tanto quanto desejava o contrário. Quem o fizesse seria forçado a suportar a dor que esperavam amenizar — pelo resto da eternidade.

—Estou com fome e precisando de um lanche. Se quiser o que sobrar, é com você. — Como estava aprendendo, havia sempre uma maneira de contornar a regra.

Thane mordeu o sanduíche de peru e queijo enquanto caminhava de volta para a cama. Deu outra mordida, e, em seguida, outra, antes de colocar o que restava do sanduíche na mesa de cabeceira. Em seguida, voltou para a cozinha e encheu um copo com suco de laranja. Bebeu metade do conteúdo do copo também, e o colocou na mesa de cabeceira.

Koldo estudou o alimento por um momento longo, silencioso antes de mover seu olhar para Thane.

—Direi por que queria a água se você jurar nunca dizer uma palavra do que ouvir.

Os votos eram sagrados entre sua espécie. Thane, muitas vezes se sentia como se fosse um homem sem qualquer tipo de honra, que não havia nada que não iria fazer, nenhuma linha que não cruzaria, mas isso não era exatamente verdade. Nunca quebrou os votos, e nunca o faria.

—Assim juro.

Uma batida de silêncio estridente, então:

—Zacharel estava morrendo. A moça jurou mantê-lo fora dos céus durante um mês, se eu o curasse. Sabia que a água era a única coisa que podia salvá-lo, e então a adquiri para ele.

Ele absorveu as palavras do guerreiro, tentando raciocinar, e falhando.

—Por que um mês?

—Precisava de tempo para me curar. Tempo para pesquisar... e agir.

A potência do prazer do guerreiro não deixava nenhuma dúvida que o "ato", o que quer que fosse, envolvia derramamento de sangue.

—Diga-me.

—Seu juramento de segredo se estende a isto?

Ou seja, não mencionaria essa discussão nem mesmo para Bjorn ou Xerxes.

—Sim.

Koldo deu o menor de acenos.

—Todo mundo acha que um demônio arrancou minhas asas em todos esses anos, e permiti que pensassem isso, porque não quero responder a quaisquer perguntas sobre a verdade.

—Mas a verdade é... o que? — Thane perguntou a Koldo sabendo a resposta. Não porque deu seu voto de silêncio, mas porque a verdade era um veneno dentro dele, um veneno que estava desesperado para expurgar.

—Uma anjo levou minhas asas, e pretendo matá-la.

Thane se questionava por que o estoico Koldo, o guerreiro sereno, inflexível e que qualquer pessoa podia depender, foi atribuído a este exército da última chance. Ouviu rumores sobre um suposto espancamento feito por Koldo, mas nunca viu o macho em qualquer tipo de perda de controle. Agora encaixava algumas peças do quebra-cabeça. Se o espancamento aconteceu ou não, Koldo era parte do exército de Zacharel devido a finalidade vingativa em seu coração.

—Se Zacharel sequer suspeitar, tentará impedi-lo.

—Sim.

—E não acha que vou tentar e impedir você?

Não havia nenhuma hesitação quando Koldo respondeu.

—Não, não acho. Sabe o valor da retaliação.

Na verdade, conhecia a desesperança. Após seu resgate da caverna, depois que seu corpo se curou, Thane, Bjorn e Xerxes retornaram. Três dias e três noites foram gastos envolvidos numa batalha viciosa para tomar esse calabouço. Oh, poderiam matar os demônios dentro, incendiar o lugar e terminar as coisas em uma hora, mas não queriam isso. Não queriam que seus captores morressem rapidamente ou facilmente.

E assim não o fizeram. Os três tomaram o calabouço, deixando todos dentro vivos. Os gritos de dor, por vezes, ainda ecoavam na mente de Thane. Mas não se sentiu melhor sobre o passado... e sabia que seus rapazes não se sentiam melhores sobre si mesmos.

—Vai fazer o que acha que deve. — ele disse finalmente. —Não vou contar a Zacharel. — Ele fez uma pausa, inclinando a cabeça de lado. —Quem é ela, essa mulher que te traiu?

—Isso não vou te dizer.

—Porque acha que eu iria protegê-la. Interessante. Preciso conhecê-la. Não importa, no entanto. Aqui está uma coisa que tenho certeza que vai descobrir sobre mim. Amo dois homens, e nenhum outro. — Não havia espaço nas pequenas câmaras do seu coração para mais ninguém. —As fêmeas são nada para mim.

Silêncio.

Ele suspirou.

—Vai me deixar saber se existe algo que eu possa fazer para ajudá-lo em sua busca.— Um pedido.

—Não há nada. Devo fazer isso sozinho. Ela se esconde de mim, e não vou permitir que ninguém mais a arraste das sombras. Serei o único a descobri-la.

Entendido.

—Muito bem. Vou deixar você... — Ele parou quando um sentimento de mau presságio de repente golpeou, seguido por um flash de imagens através de sua mente. Ele e Zacharel deviam manter uma forte ligação mental, porque podia sentir o medo de seu líder e sua fúria.

Zacharel, disse ele, projetando sua voz na mente de seu líder. Tanto para manter a sua distância mental. Nada, nenhuma resposta.

Zacharel, o que está acontecendo?

Mais uma vez sem resposta.

Estava Zacharel o ignorando? Ou muito ferido para responder?

—Devo ir — ele disse a Koldo. Teria que acompanhar o anjo à maneira antiga.

—Algum problema?

—Não se preocupe, isso não é algo que diga respeito a você — ele soltou. Não preocuparia o homem quando não havia nada que pudesse fazer. —Vou voltar quando puder.

 

Annabelle estava no centro da matança, sem fôlego e ainda repleta de adrenalina. Sangue negro formava vários rios ao seu redor. Esfregou seu peito, na esperança de finalmente aliviar a queimadura que começou dentro da caverna, quando estava com Zacharel... Quando ele... Mas o ardor aumentava, e ela esfregou mais forte.

Não pense nisso. Agora, demoníacos corpos estavam empilhados ao seu redor, o cheiro de ovos podres engrossando o ar, pungente o bastante para fazê-la engasgar. Sim. Pensaria nisso.

Era muito mais agradável.

Zacharel produziu sua espada de fogo e foi atrás de cada um dos monstros, não permitindo que nenhum escapasse. Para sua surpresa, também colocou duas lâminas em suas mãos quando a dela caiu, a última, permitindo que continuasse a lutar.

E ela lutou, as pontas de metais afiadas deslizando jugulares, cinturas e até mesmo atrás de joelhos, desestabilizando sua presa para tornar mais fácil a eliminação. O que não tinha de habilidade, tinha em determinação e criatividade.

—Está ferida? — Zacharel exigiu, pisando nos corpos sem cabeça imóveis para alcançá-la.

Antes que pudesse pensar em retomar suas lâminas, ela as empurrou através das fendas em seus bolsos e nas bainhas amarradas em suas coxas.

—Estou bem. — Sim, estava cortada e sangrando e sim, um dos seus tornozelos estava torcido e latejando, mas se machucaria assim para sempre, se isso significasse derrotar seu inimigo.

—E você?

Ele a olhou, julgando a verdade em suas palavras para si mesmo. Ao mesmo tempo, ela o olhou. Estava tão embebido em sangue como ela, com suor escorrendo de suas têmporas, seu manto embebido colado em sua pele.

—Estou bem o suficiente. Venha, deve se limpar. — Ele ofereceu a mão para ela.

Para seu crédito, não a forçou a entrelaçar os dedos com os dele, mas esperou que iniciasse o contato por si mesma. Ela lambeu seus lábios, desejando que houvesse alguma outra maneira de sair deste lugar. Mas ele proferiu as únicas palavras que podiam fazer a diferença. Limpar. O sangue enegrecido chamuscava sua pele, e já tinha equimoses.

Com expressão em branco, ele disse:

—Me desculpe pelo que fiz com você, Annabelle, realmente sinto. Não quis... Fui pego... Desculpe-me — ele repetiu.

Tal sinceridade dele devia tê-la surpreendido, mas isso não aconteceu.

—Sei que não quis — disse ela. E realmente sabia, agora que sua mente estava livre da escravidão do medo. Que foi seu primeiro beijo, e foi pego pelas sensações, tal como ela... até que ele arrancou seu top e mostrou seus seios, e as memórias de Fitzpervertido e sua câmera de vergonha a inundaram. —Mas só para que saiba, não vou querer beijá-lo novamente.

Essa parte de seu relacionamento acabou. Zacharel não quis machucá-la, mas o fez. Abusou da confiança muito frágil que construiu com ele. Não parou quando ela pediu, e não podia arriscar que algo parecido voltasse a acontecer.

Músculos assinalaram sob os olhos verdes de gelo, um testemunho de um temperamento mal controlado.

—Vai mudar de ideia.

Se ele nunca a soltasse...

—Não, não vou, e não vou deixar você até que aceite. E a propósito, sabia que está nevando novamente?

Primeiro ele não teve nenhuma reação às suas palavras, ou sua rejeição. Em seguida, com um poderoso encolher de ombros, deflagrou suas asas, estudou as penas de uma e, em seguida, as penas da outra.

—Devo ter feito alguma coisa para incentivar o descontentamento da minha Divindade. E posso adivinhar o que foi esse algo.

Decepção suavizava seus traços, o fazendo parecer um menino como quando dentro dessa caverna, quando a quis tão desesperadamente. Não vou amolecer. Mas, finalmente, a bendita queimadura desapareceu do peito.

—Por que toda essa neve? — disse ela. —Por que ele está tão descontente com você?

—Matei seres humanos a fim de matar demônios. Seres humanos valem a pena salvar, embora não tenha percebido isso na época. Pessoas que poderiam ser como você. Estou feliz por não julgar que você era culpada e exterminá-la sem um pensamento. — Zacharel cortou o resto do espaço entre eles, não mais esperando que ela tomasse sua mão. Encostou seu corpo contra o dela, e ela tropeçou atrás até realmente tropeçar no membro de um demônio e cair, cair de bunda. —Que pena teria sido.

Ela ficou em pé e se apoiou para aumentar a distância entre eles, mas não ganhou qualquer terreno e finalmente se viu pressionada contra um tronco de árvore. Seu coração tocava bateria contra suas costelas, mas não estava com medo. Talvez porque sabia que ele não estava mais perdido na luxúria, ou talvez porque ele lutou incansavelmente ao lado dela, atacando quem tentava acertá-la enquanto estava distraída lutando contra outro.

Ele mesmo se permitiu ser ferido, apenas para impedi-la de ser ferida.

—O que está fazendo? — perguntou ela.

Fogo verde a golpeou.

—Vai me beijar novamente, Annabelle, porque dou minha palavra que não vou perder o controle pela segunda vez. Aprendi minha lição e aprendi isso bem.

— Suas palavras são otimistas, cheias de fé, mas não funcionarão comigo.

—Não vão? Não tente me dizer que já não me deseja. Sei que sim. Sou novo nisso sim, mas não sou estúpido. Suas pupilas estão dilatadas, seu pulso saltando na base do pescoço e gostou do que eu estava fazendo a você antes de ir longe demais. Ainda ouço seus gemidos em meus ouvidos.

Ela engoliu, considerando mentir, mas o pensamento a apertou e disse a verdade.

—Gostei. Está certo sobre isso. Mas depois realmente não gostei.

—Pelo seu tom, só posso supor que pensa em se negar a chance de provar de novo. — Ele se inclinou uma fração mais perto. Muito perto, sua respiração como a mais decadente das carícias contra sua pele. —É muito tempo para me punir. Bem, vou aceitar a punição. Por pouco tempo.

Ela engoliu.

—Mas vai confiar em mim novamente, Annabelle. Vai me querer novamente, e ficaremos juntos. Vou me comportar. Vai ver.

Sua arrogância devia irritá-la, mas saber que ele a queria tanto, que estava disposto a fazer qualquer coisa para ficar com ela, era mais afrodisíaco que um estorvo. E se alguém possuía a força necessária para ficar à beira de satisfação, ou de qualquer coisa, aliás, era Zacharel. De agora em diante, iria se controlar.

Talvez suas palavras repletas de fé tivessem funcionado.

—Não sei por que queremos um ao outro — ela resmungou.

—Nem eu, mas a verdade é que queremos um ao outro.

—Talvez seja apenas superficial. Você é muito bonito.

—Por enquanto, isso serve.

Homem irritante. Não podia entender um insulto quando o ouvia. Com um suspiro, Annabelle envolveu seus braços em volta do pescoço.

—Tudo bem, vou com você. — Satisfação dominou sua expressão quando a ancorou contra a força de seu corpo e a levou para o ar.

—Espere! Meus pacotes — ela disse quando percebeu que não ia voltar para a caverna.

—Não quero me arriscar a voltar e encontrar mais demônios. Vamos comprar coisas novas para você.

Outra viagem de compras?

—Isso soa meio como um suborno.

—O que for preciso.

Ela quase riu. Quase.

—Dois podem jogar esse jogo. Espere gastar milhares — sem uma recompensa.

—Desde que a gente compre cookies e também roupas, estou bem com isso.

Cookies. Anjo sorrateiro, sempre acabava lá, lembrando-a de sua satisfação, seu prazer sensual.

Ele disse:

—Hora do seu banho. Prenda a respiração — e voou abaixo, mergulhando num lago claro antes que ela pudesse exigir saber o porquê.

A água gelada instantaneamente a envolveu, mais fria até mesmo que suas asas, fazendo-a suspirar de choque e se arrepiar. Apenas quando pensou que não podia aguentar mais, ele deslizou para fora e atrás das nuvens.

O fato que subiu tão facilmente, apesar do estado inundado de suas asas, falou de sua incrível força.

—Da próxima vez... avise... antes — ela disse entre uma tossida e outra.

—Minhas desculpas. Quanto tempo mais gostaria?

—Uma hora, talvez. Possivelmente duas. — Embora nenhuma quantidade de tempo pudesse prepará-la para tal mergulho gelado.

—Muito bem. Mas devo admitir que cuidar de uma mulher é mais difícil do que eu sequer imaginava.

—Ei! Não sou difícil de cuidar. Sou corajosa.

Seu olhar encontrou o dela por um segundo prolongado.

—Para um homem que passou séculos atendendo apenas suas próprias necessidades, é realmente difícil de cuidar, mas estou achando que não me importo de cuidar de você.

 

Zacharel considerou suas opções. Os demônios encontraram Annabelle nas nuvens. A encontraram na caverna. Claramente mantê-la subterrânea não era mais resposta que mantê-la nos céus. Assim o que restava... o que?

Deixá-la inconsciente? Ninguém a atacou enquanto dormia. Ou... Espere.

—Quanto tempo esteve na instituição antes dos demônios te encontrarem?

—Um mês, talvez.

Um mês. Seu perfume e fascínio deviam ser mascarados pelas pessoas ao seu redor. Pessoas, então. As pessoas não eram uma ameaça, mas uma chave.

Com isso em mente, voou para um hotel movimentado dos seres humanos nos arredores da Nova Zelândia. Não foi difícil conseguir um quarto. Simplesmente entrou com ela através das paredes até espiar o que queria: um espaço desocupado, com hóspedes de ambos os lados, acima e abaixo.

—Chuveiro. Se aquecer — ele disse a ela, depois foi direto conseguir alimentos e roupas. Mais que o banho improvisado, ela teve que lidar com sua temperatura em declínio.

Na cozinha do hotel adquiriu frango e arroz para ela e frutas para si mesmo e roubou um uniforme limpo da pilha perto, certificando-se de deixar dinheiro suficiente para cobrir mais que o custo do alimento, da roupa e do quarto em si.

Deixou o uniforme no banheiro, não gostando como ia parecer grosso contra sua pele. Arranharia, e o pensamento não caía bem. Desejava ter outro manto escondido, mas deixou o extra na caverna com suas compras. Poderia ter voado para outro local, encontrado algo mais suave, mas não podia sair do hotel para adquirir algo melhor.

Quando ela surgiu numa nuvem de vapor, viu que a roupa era muito curta para ela. Ela não parecia se importar, porém, e para ser honesto, ela parecia adorável. Sem uma palavra, ela colocou um punhal sob um travesseiro na cama e outro na mesa de cabeceira.

—Com fome? — ele perguntou.

—Com fome.

Comeram em silêncio, seu cheiro limpo de sabão era um fio que os ligava. Seu cabelo estava molhado e penteado para trás num rabo de cavalo apertado, os fios sedosos de um negro reluzente. O estilo deixava seu rosto nu, nada escondendo daqueles inclinados olhos cristalinos, das afiadas bochechas rosa ou dos lábios em forma de coração. Na verdade, adorável não era a palavra certa. Era a beleza personificada.

Como ficaria espalhada sobre a cama, o cabelo dela um derrame de veludo, seus olhos com as pálpebras pesadas, as bochechas coradas de paixão e seus lábios separados, o respirando?

—Obrigada pela comida — Annabelle disse por fim, cortando o silêncio. Sua voz tinha traços de cansaço, euforia e... outra coisa, algo que não conseguia identificar.

—De nada.

Seu olhar encontrou o dele, firme, mas vítreo.

—Então o que agora?

—Agora você relaxa. Muito tempo se passou desde que descansou.

—Consegui dormir um pouco na caverna de Koldo, bem como durante o voo até aqui, e realmente, não estou cansada. — A afirmação foi desmentida pelo bocejo que se seguiu. —Certo, então talvez esteja. Minha mente está muito ligada para qualquer tipo de descanso, contudo.

Compreensível. Mas... de perto, podia ver as sombras florescendo sob seus olhos. Não levaria muito tempo para acalmar sua mente, mas talvez ela não quisesse que ele a acalmasse. Depois desse dia, pesadelos seriam a praga dela. Perguntou-se se ele seria a estrela deles.

—O que normalmente faz para ajudá-la a relaxar?

—Gostaria de saber. Na instituição, me davam drogas.

E então era forçada a fazer o que quer que seus médicos desejassem. Podia tolerar esse conhecimento cada vez menos.

—Suba na cama e encontre algo para assistir. Distraia-se. — Isso era o que ele viu muitos seres humanos fazendo ao longo dos anos.

—Senhor, sim, Senhor. — De olho nele, ela deitou na cama e ligou a TV, carrancuda, mudando os canais. Eventualmente, desistiu e desligou, então jogou de lado o controle. —O que vai fazer? Porque estou supondo que tem algo a fazer, ou não estaria me forçando para me distrair.

Ele devia manter-se em estado de alerta, a guardando... pensando.

—Vou passar instruções para meu exército. — Sim, isso, também.

—Não precisa de nenhum sono? — Ela se aconchegou nas cobertas, afofou os travesseiros e olhou mais para ele, a suspeita deslizando dela. Esperava que ele a atacasse?

—Um pouco — ele disse —, mas não muito.

—Que sorte. Desprezo o fato que preciso dormir.

Porque ficava vulnerável.

—Já disse que não tem nada a temer de mim. Sabe que não minto. — Uma batida de silêncio. Um suspiro.

—Eu sei.

—Sabe? — ele perguntou, a olhando fixamente. Agora tinha uma ideia de como ela parecia na cama, embaixo dele — e era quase mais que podia suportar.

Ele andou até a mesa, a bloqueando de sua visão periférica e sentou-se. A cadeira provou ser um erro, o recosto alto, machucando suas asas... que já não nevavam, ele percebeu. Por quê?

—Sim — ela finalmente disse. —Realmente.

Ainda podia vê-la pelo canto do seu olho. Macia, quente e convidativa.

—Bom. — Até que ficou em pé e foi para a única janela da sala, olhando através da abertura das cortinas.

O sol se convertia em raios rosas, roxos e azuis no horizonte. Abaixo, viu árvores formando arcos, exuberantes, verde grama e um colorido de flores. Esteve aqui uma vez antes. Tinha pensado em sobrevoar, mas parou para assistir um casamento nos jardins.

Duas pessoas se comprometendo a amar um ao outro pelo resto de suas vidas, na doença e na saúde. Annabelle já sonhou fazê-lo? Com seu namorado da escola, talvez? Zacharel pressionou sua língua no céu da boca.

—Então... comanda todo o exército de anjos — ela disse no meio de outro bocejo.

—Sim. Existem três facções de Anjos da Deidade. A Elite Sete, que foram criados em vez de nascidos, os Guerreiros e os Portadores da Alegria.

—Você é um guerreiro.

—Sim, mas como disse, acredito que estou evoluindo para uma das elites. — Ele questionou se a metamorfose ia parar, se não conseguisse continuar agradando sua divindade. Sim. Sim, provavelmente. Provavelmente, não ganharia o título da Elite até o final de seu ano de serviço — se sobrevivesse.

A testa de Annabelle enrugou com confusão.

—Como pode ganhar um título se você nasceu?

—Um dos Sete foi morto recentemente, e alguém deve tomar seu lugar, nascido ou criado. — Uma vez Zacharel se considerou uma escolha sábia. Agora? Nem tanto.

—Então vocês o que? — Annabelle perguntou. —Se reúnem e marcham para a batalha, matando demônios?

—Basicamente, sim. Recebo minhas ordens da Divindade, convoco meu exército, e os soldados vêm para minha nuvem. Retransmito as ordens para eles, e saímos voamos.

— Mas não é o único exército que faz isso, não é?

—Certo. Existem muitos exércitos angelicais sob o comando da Deidade. A maioria dos guarda patrulha uma determinada cidade e são enviados numa batalha de pleno direito, duas vezes por mês. Ao meu não foi atribuído um determinado local, mas viajamos pelo mundo. Ajudamos os seres humanos, lutamos com hordas de demônios e qualquer outra coisa que nos mandam.

Não estava certo do que faria quando ele e seus soldados recebessem sua próxima missão. Pensar em deixar Annabelle sozinha o arrasava. Não que ela estaria impotente. A maneira feroz como lutou o surpreendeu — e impressionou.

—Durante o intervalo — ele acrescentou —nos curamos se precisamos, treinamos, caçamos demônios individuais ou, se necessário, ajudamos outros exércitos que solicitam apoio.

—Por que você e seus homens recebem mais tarefas que os outros exércitos? Porque são mais fortes e mais propensos a ganhar?

Ou porque temos menos a perder, ele meditou.

—Teria que perguntar à minha Divindade. Ainda não revelou essa resposta para mim.

Ela soltou seu cabelo do rabo de cavalo e o penteou com os dedos. Ele não devia notar, mas tinha inclinado seu corpo em sua direção, a buscando espontaneamente.

—Talvez eu faça — ela disse. —Então como encontra os demônios que caça individualmente?

—Podemos seguir seus caminhos do mal e da destruição, mas na maioria das vezes, como acontece com você, nossa Divindade nos aponta a direção certa.

—Por que ele não enviou um exército para a instituição mais cedo?

—Ele fez. Muitas vezes. Mas logo depois que os demônios eram mortos, outros encontravam você.

—Uau. Estava sendo ajudada durante todo o tempo e não tinha ideia. Sempre assumi que estava sozinha, que não podia contar com ninguém, exceto eu mesma.

—O Altíssimo e, também a Divindade, sempre desejam ajudar os seres humanos.

—Amo saber disso. É reconfortante. Mas sabe, mesmo outros sendo enviados, você foi o primeiro anjo a me visitar. — E ele nunca ficaria mais feliz por qualquer outra coisa. Esperava que ela também.

As cobertas balançaram quando ela rolou para o lado dele, e ah, céu doce, daria qualquer coisa para se juntar a ela.

—Várias vezes, a palavra consorte foi mencionada, mas ninguém me disse exatamente o que isso significa. Eu posso adivinhar, mas já que está sendo tão complacente e informativo, e desde que me deve uma grande, vai finalmente dizer as coisas para mim? Por favor.

Ele se virou para ela totalmente. Suas mãos descansavam em sua bochecha e o cabelo longo caía sobre seu braço. Seu desejo por ela engrossou.

Não, não podia suportar isso.

Vai agir como um cavalheiro.

—Não está acima da manipulação, pelo que vejo.

—Nem sequer um pouco.

Ele cortou seu sorriso antes que pudesse se formar.

—Uma menina tem que usar o que pode como armas.

E ele desfrutaria do uso dessas armas, pensou.

—Ser uma consorte é equivalente a usar um anel, quando você se casa com outro ser humano. Isso significa que pertence ao seu parceiro... que carrega seu nome.

Ela fugiu para uma posição sentada. Aqueles olhos de gelo escureceram pela primeira vez, com fúria, uma estrela de cor.

—Não pertenço a ninguém!

—Nunca?

—Não, nunca.

Com toda a diversão perdida, ele apertou sua mandíbula.

—Entenda uma coisa, Annabelle. Enquanto temos nosso... acordo, você, na verdade, pertence a mim. Não estará com outro homem. Não vou compartilhar. — Ele esperou, mas ela não ofereceu nenhuma resposta. —Quero ouvir você concordar.

Ela se inclinou atrás, sustentando seu peso em seus cotovelos para ter uma melhor imagem dele.

—Estou muito ocupada me recuperando.

Se ela, voluntariamente, se desse a outro homem... Não. Ela não iria. Seria sua e só sua. Fim da história.

—Vou fingir que não é um homem das cavernas — ela disse. —E prometo não ficar com outro homem... Enquanto me prometer não ficar com outra mulher.

Que ela pedisse sua fidelidade, depois de tudo o que aconteceu o encheu de prazer.

—Prometido. E essa é uma das razões por que temos que encontrar e matar este Alto Senhor, que acha que reclamou você. — Ele não vai ter o que é meu.

—Sabe onde ele está?

—Não, mas saberei assim que descobrir quem ele é.

—Você vai. Vamos.

Gostava de sua fé nele.

—Estou curioso para saber por que a abandonou após a marcação. — Zacharel não faria isso. Não podia imaginar alguém que quisesse fazê-lo. —Pode se lembrar de mais alguma coisa sobre ele? Algo que ainda não me disse?

Ela caiu para trás contra os travesseiros, apertando os olhos fechados como se quisesse bloquear as imagens dentro de sua mente.

—Eu disse tudo. Ele veio, conquistou, desapareceu.

—E não tentou levá-la com ele?

—Não.

—Impressionante. — O olhar de Zacharel caiu sobre ela, tentando ver através das cobertas as curvas suculentas que descansavam abaixo. Não vá por aí. Ela está cansada, estressada, e é muito cedo.

Ele se levantou e foi ao banheiro. Lá, tomou um banho quente, certificando-se de despejar um pouco de sabonete do hotel na água. Aroma de flores silvestres em vapor logo deslizou através do ar. Ela já tinha tomado banho, mas seres humanos gostavam de banhos mais do que para se limpar, não? Colocou uma toalha ao lado da cuba e balançou a cabeça, satisfeito que estava tudo em ordem.

No quarto, foi cuidadoso em não olhar muito de perto Annabelle. Ele mentalmente a despiu, a imaginando luxuriosa dentro da banheira e, em seguida, ele iria atacar, dando vida à sua preocupação anterior.

—O banho está pronto para você.

As cobertas balançaram.

—Para mim?

—É claro. Certamente não quero cheirar a flores.

—Minha pele provavelmente vai soltar depois de toda esta água, mas um banho é simplesmente irresistível, considerando que não tive um a quatro anos! — Ela ficou em pé e correu para ele num piscar de olhos. A porta fechou e trancou atrás dela. Ele permaneceu onde estava, se torturando com o som de roupa caindo, salpicos de água e misturados gemidos de prazer.

Se a queria antes, realmente a queria mais agora. A queria nua e molhada, flexível e ansiosa. Quanto tempo antes de seu desejo por ele voltar? Quanto tempo antes de ela confiar nele novamente? Ah, ela confiava nele em algum nível, ou não estaria aqui com ele. Mas sexo, como estava descobrindo, precisava de mais.

Quando finalmente ela saiu, estava deliciosamente perfumada que antes e vestida no uniforme.

—Obrigada — ela respirou, se atirando na cama. Virou-se para encará-lo, sua pele orvalhada e lavada, viva com saúde. O outro mundo azul de seus olhos brilhava como gelo derretido no sol do verão, a imagem mais forte por causa de seu cheiro novamente de manhã-no-prado. —Não tinha ideia do quanto precisava disso.

Sob sua fome por ela estava uma satisfação que suas ações a trouxeram a este ponto: relaxada, descansada e feliz.

—Ficou parado aí o tempo todo? — perguntou ela.

Um aceno de cabeça duro.

—Mas estive lá por mais de uma hora.

Ele sabia. Não fez nada, exceto contar os segundos. Havia três mil, seiscentos segundos em uma hora, e ela passou três mil, cento e quarenta e sete segundos lá.

Ela fez uma pausa, mordiscando seu lábio inferior, como ele percebeu que ela tinha propensão a fazer. Era uma ação que traia um sentimento de nervosismo. Não podia evitar olhar. Queria seus próprios lábios nela, acalmando qualquer ferida que ela causasse.

—Gostaria de me beijar? — perguntou ela.

—Gostaria, sim. — ele disse.

Ela engoliu.

—Não acredito que ainda estou pensando nisso, depois que disse a mim mesma — e a você! — que nunca o faria. Mas está sendo tal carinhoso que não consigo evitar.

Cada músculo em seu corpo ficou tenso.

—Quer dizer...?

—Sim. Quero dizer. Tenho uma pergunta primeiro.

—Faça. — Qualquer coisa.

—Me deixará...bem, amarrá-lo?

Seu sangue, já aquecido, se fundiu.

—Se quiser, mas deve saber que não há correntes que possam me segurar. Estaria preso ligado simplesmente para facilitar sua mente.

—Bem, realmente não facilita saber que poderia se livrar! — Um momento depois, os ombros caíram contra o monte de almofadas. —Não seria capaz de fazê-lo, de qualquer maneira.

Ele mal conseguiu cortar seu rugido de negação.

—Me beijar?

—Não, prendê-lo.

—Porque odiava ser presa. — Uma declaração, não uma pergunta. Estava aprendendo com ela.

—Exatamente. — Houve uma eternidade de silêncio antes que ela desse um suspiro suave. —Mas tudo bem, tudo certo. Podemos tentar a coisa de beijar novamente. Mas eu estou no comando — ela disse rápido. —Tem que fazer o que eu disser, quando disser.

Exaltação surgiu através da fissura ainda crescente em seu peito, seguida rapidamente por determinação. Faria isto certo. Tinha que conseguir acertar. Ela não lhe daria outra chance.

—Não vou decepcionar você.

Um tremor se moveu através dela.

Um tremor de apreensão? Embora cada célula que possuía gritasse para diminuir a distância entre eles, balançou atrás em seus calcanhares, ficando no lugar, dando-lhe tempo para digerir o que aconteceria em breve.

—O que convenceu você?

Seu olhar baixou e ela sussurrou:

—O banho. Estava deitada na banheira, amando o calor da água, mas tudo que conseguia pensar era no fato que estava sozinha. Imaginei como seria se estivesse lá comigo, lavando meu cabelo, esfregando meus ombros. Só... não sei, me abraçando apertado.

A fantasia foi admitida com tanto desejo que ele não pôde se conter mais.

Zacharel se aproximou da cama. Ela o observava, lambeu seus lábios, espalmou suas mãos na cama, em seu estômago, em seguida na cama novamente, como se não conseguisse decidir qual era melhor. Ele colocou um joelho no colchão, se inclinou para frente. Sua respiração acelerou. Lento e fácil. Arrastou-se sobre ela, delicadamente a apertou pela cintura e rolou a ambos, cintilando suas asas quando a colocou em cima dele. Ela engasgou pela rapidez de seus movimentos, mas não se afastou. No entanto, sentou, se recusando a se inclinar contra ele.

Ele estava lá, esperando, pensando se ela ia relaxar. Seus olhos estavam fechados, o longo comprimento de seus cílios lançando sombras sobre seu rosto. A cada segundo que passava, no entanto, ela ficava um pouco mais tensa.

—Annabelle.

—Sim.

—Olhe para mim — disse ele.

Essas pálpebras espremidas, apertadas.

—Não.

—Annabelle. Por favor.

—Agora diz por favor?

—Annabelle.

—Meus olhos — ela sussurrou. —Odeia a mácula neles.

Ele pertencia às profundezas do inferno por dizer uma coisa.

—São lindos.

—Mas você disse...

—Um erro. Difícil imaginar, mas os cometo, também.

—Tudo bem. — Uma pausa e, em seguida, suas pálpebras se abriram, e aquele azul bonito estava olhando para ele.

—Obrigado.

Finalmente se recostou contra ele, e ele sentiu sua boca curvar num sorriso.

—De nada.

—Vou colocar meus braços em torno de você — disse ele. Quando ela não ofereceu nenhum protesto, ele foi da palavra à ação. Um suspiro delicado a deixou. —Então... o que estamos fazendo?

—Levando um momento para desfrutar um do outro. — Ele passou os dedos ao longo de sua coluna. —Pelo menos, eu estou. Você está?

— Sim. Eu... seu coração está batendo — ela disse, parecendo surpresa. O ouvido dela descansava diretamente sobre a batida.

—Só você tem esse efeito em mim.

—Bem, somos dois, então.

Passaram minutos, talvez horas. Cada novo segundo era uma tortura arrebatadora. Ele a respirava, alegremente se afogando no seu calor, e prometeu permanecer assim a noite toda se isso fosse o que ela preferia — mas para seu deleite, ela começou a se mover contra ele, pedindo para fazer... algo. As pontas dos dedos traçaram o cume de seu umbigo.

—Zacharel?

Ele a soltou para alcançar e segurar a cabeceira da cama.

—Não vou deixar me levar. — Não desta vez, não importava o tanto que queria tocá-la. —Vai controlar tudo, exatamente como desejou.

Ainda, ela hesitou.

—Sério. Mesmo se eu quebrar a cama, não vou soltar a cabeceira. Não até que me diga o contrário.

—Agora está jogando certo.

Ela levantou de joelhos, montou sua cintura e se acomodou contra ele. Um requintado prazer-dor pela sensação o fez inalar.

Se apenas pudesse afastar seu manto...

Abaixo, abaixo ela se inclinou.

—Beijo — ela disse. Sua boca alegou a dele, a língua deslizando pelos seus dentes para duelar com a dele. E ah, a doçura do seu gosto o intoxicava muito mais que qualquer outra coisa.

Por um longo tempo, ela alternou entre beijá-lo e parar para olhar para ele, como se julgasse seu controle. Tudo que viu em sua expressão conseguiu tranquilizá-la, porque mergulhava de volta para outro.

Ele não tinha certeza de como conseguiu esconder a força de sua excitação dela. Sentia-se como um elástico muito esticado, pronto para soltar a qualquer momento. O que podia fazer para impulsioná-la a esse ponto? Mover-se contra ela, como ela se movia contra ele?

Ele se moveu um pouco, roçando contra ela — mas isso não era suficiente e apenas alimentou mais seu desejo. Mas... um gemido escapou dela e então, oh, finalmente, abençoadamente em seguida, ela parou de perder tempo em olhar para ele, parou de procurar seu rosto e deu um beijo que ardeu em sua alma, sua mente aparentemente tão perdida quanto a dele estava.

Seus dedos entrelaçaram em seu cabelo, dobrando a cabeça para um contato mais profundo, melhor. E este novo beijo, mais quente, continuou até que mordiam um ao outro, gemendo e choramingando e dizendo coisas incoerentes. Ele queria mais, muito mais, e seus músculos tensionaram e apertaram devido ao seu controle.

Então ela começou a raspar contra ele, seu corpo todo se esfregando, esfregando, esfregando contra o dele. Estava desesperado para chegar mais perto dela, tão perto como um homem podia estar com uma mulher.

Queria, precisava disso tanto.

—Zacharel, eu quero... Eu preciso...

Exatamente o que ele queria e precisava, orou.

—Qualquer coisa. Diga o que e dou a você.

—Role para seu lado.

Ele obedeceu num instante, para que ficassem cara a cara, corpo a corpo. Cada exalação sua se misturava à dela, misturando respiração, tornando-os um, mesmo de uma pequena forma.

—As mãos... em mim — ela ordenou. —Mas só se quiser. Quero dizer, podemos parar se você...

—Sem parar — ele soltou e, em seguida, se obrigou a dizer mais lentamente —eu quero. Quero. Mais que tudo. Mas não estou com pressa. — Em algum nível — provavelmente. —Vou lento e suave. — Ele forçaria a si mesmo.

—Certo, sim. Por favor. Lento.

Soltou apenas uma mão para levantar a bainha de sua camisa. Sua pele era um bronze hipnotizante com um brilho dourado; um contraste delicioso, inflamando a centelha de seu desejo a mais um grau febril.

—Você é tão bonita, Annabelle.

—Sério?

Sim, oh, sim.

—Sua mente...

—É você, só você. Ou estava tentando me dizer como minha mente é bela? — ela perguntou com uma risadinha.

Uma agradável mistura de alívio e satisfação subiu através dele. Ele a fez rir, na cama.

—O que quer me fazer?

—O que está querendo fazer? — Ela respirou.

Despir-se, despi-la, tocar, provar, consumir, descobrir, saber, não reter nada — coisas que ela não estava pronta ainda. Firme.

—Vou colocar minhas mãos em você, como exigiu. — Ele analisou seu seio, uma pausa, esperando a reação dela. Ela gemeu de prazer, para excitação dele. Sua mão começou a arder, arder tão deliciosamente, mais quente que o resto dele quando o amassou.

Outro gemido a deixou.

Simmmmm. Mais.

—Sua pele é como fogo — disse a ela num gemido.

—É mau?

—Maravilhoso.

Ele apertou seu seio, permitindo que os dedos traçassem o pequeno grânulo rosa no centro novamente. Até que ela engasgou.

—Zacherel, posso lidar com a próxima etapa. Juro.

Acreditando em sua palavra, ele dobrou sua cabeça, abaixo, ainda mais abaixo, mas quando seus lábios pairavam diretamente sobre ela, fez uma pausa, esperando novamente. Embora ela ofegasse e gemesse, nunca se afastou dele, ou tentou afastá-lo.

Firme. Sua língua saiu em missão exploratória. Tão doce, o doce contato quase o desfez. Ter o calor de sua pele em sua língua... o gosto em sua boca... existia qualquer coisa melhor?

—Estou aqui com você — ela prometeu.

Ele permitiu que sua língua brincasse, rastreando de um lado ao outro e então atrás novamente. Algo que aprendeu nos minutos que se seguiram: quanto mais jogasse com ela, mais súplicas ganhava. Cada uma o enchia de prazer, aumentando seu próprio desejo. Não estava claro quanto mais podia ter.

Com muito cuidado, arrastou as mãos ao longo do plano estômago e abriu suas calças. Seus gritos de aprovação não pararam, por isso permitiu que seus dedos descessem pelo túnel... abaixo... Ela não usava qualquer calcinha.

—Espere — disse entrecortada, suas pernas se apertando juntas.

Ele congelou.

Com as bochechas rosadas, ela perguntou.

—Você... é. Você sabe... o que esperar?

Não estava expressando preocupação com o que estava acontecendo, mas preocupação com sua mentalidade.

—Sei.

—E está bem com isso?

—Querida, estou mais que bem com isso.

Uma pausa.

—Me chamou de querida — ela sussurrou. Gradualmente, as pernas se separaram. —Gosto disso.

—Então vou fazer isso novamente. —Ele continuou sua jornada e ah, ela era perfeita. Tão absolutamente perfeita. Ela gostou de seus beijos e carícias — e gostava do que estava fazendo agora, se os sopros curtos de seu hálito fossem qualquer indicação.

Por muito tempo ele simplesmente descobriu suas reações e ela o ensinou o que mais gostava. Ele amava quando ela ficava tensa contra ele, amava quando murmurava inarticuladamente. Adorava saber que ele causava essa reação tão forte nela.

—Você é a criatura mais decadente já criada, querida. — ele disse. Ele retirou as mãos dela, mãos que ainda queimavam de uma forma que nunca experimentou e ela gritou em angústia.

—Estou aqui — ele assegurou —e não vou a qualquer lugar. Só quero te elevar, só quero ser capaz de ir mais fundo.

Ele colocou um travesseiro sob seu quadril e voltou para o que fazia. Logo ela estava ofegante, rolando os quadris na sua direção, tocando-o tão intimamente como ele a tocava... deixando-o selvagem... provocando uma fome que não entendia.... fome tão desesperada...

Ele estava com dor, mas não conseguia parar isso. Precisava de mais, tinha que ter mais.

A mesma névoa que experimentou antes estava prestes a rolar, a consumi-lo, mas ele resistiu. Sim, seu sangue esquentou, tornando-se fogo, chamuscando todo o caminho até os ossos.

Sim, os dentes estavam apertados e seus músculos tensos mais dolorosamente que nunca. Mas era mestre de seu corpo, não o desejo. Faria isto especial para Annabelle. Não ia estragar tudo.

Pelo menos, era o que dizia a si mesmo — antes que ela levantasse seu manto e pegasse seu comprimento na mão e ele quase se sacudiu fora da cama. Ela o acariciou de cima a baixo. Ele adorou. Ele odiou. Precisava de mais, mais, mais, mas não podia suportar mais. Ia morrer, com certeza.

Quanto mais rápido ela movia sua mão sobre ele, mais rápido ele movia seus dedos nela. Estava... Estava... acontecendo. Algo estava acontecendo com ele.

Ela gritou, arqueando seu corpo contra ele, prazer absoluto ofuscando todos os pedaços de sua dor, começando pelo meio de sua coluna vertebral e deslizando abaixo e abaixo, afetando cada centímetro dele. Seus quadris se curvaram na direção dela, e seu próprio grito rouco encheu o quarto.

Tudo que podia fazer era segurar Annabelle, rezar que nunca o deixasse ir e desejar morrer mil pequenas mortes, cada uma o fazendo subir novamente um homem diferente, alguém mais forte e melhor, mais fraco e pior. Porque nesse momento de vulnerabilidade absoluta, total, nada parecia importar, apenas a mulher que lhe deu tal bem-aventurança divina, e percebeu que já estava viciado no que ela o fazia sentir.

Desistir dela?

Não. Nunca.

 

Annabelle nunca antes passou uma noite inteira nos braços de um homem, nunca imaginou, já que Heath sempre tinha que saltar pela janela de seu quarto para que seus pais não o pegassem. Mas na noite passada, permaneceu abrigada ao lado de Zacharel. Quente e forte, a abraçava, a acalmando para dormir quando sonhos ruins se atreviam a se intrometer.

Acordou bem descansada, livre das drogas e pronta para o que viesse. Ou assim pensava. Após escovar os dentes e tomar banho, tinha que enfrentar Zacharel e seus nervos quase levaram a melhor sobre ela.

As coisas que ele fez a ela... Era um homem que lhe deu mais prazer que qualquer outro, queimando os terrores do passado, deixando lembranças novas, surpreendentes para suspirar pelos próximos anos. Queria isso novamente. Mas... será que ele queria?

Provavelmente não, pensou quando saiu do banheiro, mais uma vez vestindo o uniforme de empregada, porque ele não parecia feliz em vê-la. Embora, se fosse honesta, seu olhar infeliz correspondia muito bem a todos os seus outros olhares. Com exceção de seu sorriso, quando aquelas covinhas lindas apareciam.

Realmente quero ver aquelas covinhas novamente.

Estava na frente da cama, sua túnica branca pura, sem rugas e seus musculosos braços cruzados sobre o peito. Cheirava a céu da manhã e sol, seu cabelo escovado para trás num brilho lustroso.

—O que deixou você no modo todo irritado? Nenhum demônio nos atacou ontem à noite — ela disse, indo para a bravata ao invés da tímida insegurança. —E observe que usei a palavra irritado e não irritante, mesmo que isso seja o que estou pensando.

—Não estou nesse modo — ele respondeu. —Talvez esteja apenas superado pela minha primeira experiência sexual.

Ah... bem. Certo, então. Sangue correu em seu rosto, aquecendo sua pele. ,

—Certamente não parecia um novato — ela admitiu.

—Obrigado. Além disso — ele continuou alegremente, —,estou contente. Estava certo. Você é mais difícil de encontrar no meio de outros seres humanos a cercando, o que significa que agora sei como protegê-la.

—Aceito mudar de assunto — ela murmurou.

—Não era minha intenção. — Austero, seu olhar esmeralda, movendo-se apenas por cima do ombro, como se alguém tivesse se intrometido.

Ela se virou, olhando, mas não encontrou nada fora do comum. Quando ela virou, ele estava fazendo cara feia para ela.

—Seu brilho está mais acentuado — ele disse —, e a causa não é a lâmpada. Deixei minha marca na sua pele. Minha Essentia.

O coração tamborilando no seu peito, ela levou o braço até a luz, virou à esquerda, depois à direita.

—Não vejo nada.

—Tem brilhado desde o primeiro dia que te conheci, mas o fato do brilho agora ser mais pronunciado me diz que não é natural.

—Não fui tocada por outro anjo, se é isso que está insinuando.

—Não estou. Nenhuma Essentia é igual, e você definitivamente carrega a minha. Gostaria de saber... poderia ter nascido com a minha, para mim e só para mim? Nunca ouvi falar de tal coisa, de uma marca que aparece antes de uma reivindicação, mas... tudo é possível, suponho. — Enquanto falava, sacudiu as asas. —Vou verificar...

Ela perdeu o controle de suas palavras, sua mente enredada pela beleza dessas asas... tão fortes, tão majestosas, tão maravilhosamente douradas.

—Já te dei permissão para tocar minhas asas, Annabelle.

Agora ele parecia irritado.

—Eu sei.

—Então por que suas mãos estão apertadas do seu lado, em vez de mim?

—Porque parece tão entusiasmado com a ideia.

Ele abriu a boca, depois a fechou.

—Sarcasmo?

—Boa resposta.

Seu pequeno suspiro ecoou entre eles.

Os dedos se soltaram e traçaram o arco das asas de ouro. Eram tão duras como ferro e estriadas — até que encontrava as penas. Ah, bebê, as penas eram mais suaves que as de ganso. Acariciou as pontas, se maravilhando quando uma se soltou e caiu em sua palma.

Zacharel agarrou seu pulso, mas não afastou a mão dela ou reivindicou a pena dourada como sua propriedade. Toda ponta de diversão se foi, e ele disse:

—Me olhe, Annabelle. — Uma onda trepidante a varreu quando obedeceu. Ela fez algo errado?

—Nunca poderá fazer isso com outro anjo. Entende?

Sua testa franziu pela confusão.

—É contra as regras? — Mas... sexo não era. Obviamente. Tocar não deveria ser, tampouco.

—Aqueles que não experimentam o desejo sexual não gostam de ser manipulados de nenhuma forma, especialmente por seres humanos. Aqueles que já experimentaram desejo verão sua atenção como um pedido de cama.

E, assim, arruinou qualquer bom humor que ela conseguiu alcançar.

—Não vou tocar em ninguém, apenas você, prometo.

Houve uma batida pesada de silêncio.

—Esse homem, Dr. Fitzherbert, a tocou sem permissão. Da maneira como a toquei na noite passada?

Agora mesmo uma nuvem escura, pegajosa tentou envolvê-la. Os ombros apertaram quando todas as emoções que experimentou dentro da instituição a inundaram. Medo, vergonha, ódio, culpa, impotência, tristeza, dor. Mas tão rapidamente como vieram, desapareceram. Ela absolutamente se recusava a se debruçar sobre elas e atirou em cada uma, uma bala mental, as matando. Aquelas coisas agiam como um sino do jantar para os demônios, e se recusava a fornecer um buffet.

—Sim — ela disse.

—Talvez seja hora que colha o que plantou — disse Zacharel.

—... O que significa?

—Vou forçar algo terrível sobre ele.

Ao invés de impressioná-la, o voto a preocupou. Queria Fitzpervertido fora de uma posição de autoridade e incapaz de ferir alguém, mas queria muito mais Zacharel seguro. Já trouxe problemas suficientes à sua porta.

—É seu trabalho? — perguntou ela, embora já soubesse a resposta.

—Não. — Ele resmungou.

—Então terá grandes problemas se o fizer. E não tente negar. Lembro que me disse que não estava autorizado a prejudicar os seres humanos.

—Algumas ações valem a pena o que trazem.

Duvidoso!

—Continue fazendo todo o dano possível aos demônios. São puro mal, nunca sentem remorsos pelas coisas terríveis que fazem, e nunca vão mudar, sempre tentarão magoar as pessoas. Mas prejudicar um ser humano não é necessário. Isso não faria você melhor que, bem, Fitzpervertido. Ele me machucou só porque podia. — Fogo brilhava em seus olhos, mas ainda assim persistiu. —Um dia vou fazer o que for necessário para deixar o mundo saber o monstro que é Fitzpervertido, prometo. Mas vou fazer isso da maneira certa. Então, quero que me diga que vai desistir disso, Zacharel... seja qual for seu sobrenome. Tem um sobrenome?

—Vamos — ele disse, ignorando seu orgulho, sua demanda e sua pergunta. Soltou seu pulso, somente para passar seu braço em volta da cintura dela e a aproximar.

—Zacharel Vamos. É um sobrenome terrível. Sinto muito por sua esposa, se decidir se casar.

Ele contraiu os lábios, e pensou, eu executei esse pequeno milagre. A fiz dar um sorriso.

—Temos muito a fazer hoje, Annabelle.

—E daí? O avisei. Não vou sair até que prometa.

Ele deslizou a mão até suas costas para brincar com as extremidades de seu cabelo. Em seguida:

—Dê-me tempo para pensar. —ele disse, pelo menos. —Não vou mentir para você, o que significa que deve me permitir tempo para considerar todas as minhas opções.

Lógica soava. Também irritante e irrefutável.

—Muito bem. — Mas ela venceria, e era isso, pensou ela, prendendo a ponta da pena na parte superior do seu espartilho. O ouro brilhava lindamente contra o azul.

Os olhos de Zacharel queimavam com um calor diferente de antes.

Raiva?

—As coisas que temos que fazer? — perguntou ela. Se ele era louco, era louco. Ele ia resolver.

—Primeiro, temos a loja. — Sua voz praticamente escorria com cristais de gelo.

Cer-to, claramente estava puto com ela. O que continuava causando essas alterações numa fração de segundo com ele? Annabelle se afastou dele e cruzou seus braços na cintura.

—Tenho outra condição para minha partida — disse ela, amarrando as bainhas da lâmina em seus tornozelos. —Tem que me dizer o que está incomodando você.

Comandando um anjo guerreiro, Miller? Gostaria de vê-la seguindo este caminho.

—Não tenho que fazer seu jogo, Annabelle.

Uma vez antes ele apontou as diferenças em suas habilidades. Governava pela força e o poder da espada. Ela era uma pedrinha corajosa, num grande jogo. Ele podia forçá-la a sair com ele, e não haveria nada que pudesse fazer para detê-lo.

Mas na noite passada ele deu a ela o direito de questionar — e desafiá-lo.

—Fará — ela disse com toda a determinação que sentia.

Ele mostrou seus dentes numa carranca e encostou na borda da cama. Descansou suas mãos em suas coxas. Para parar de tremer?

—Não vai gostar do que tenho a dizer.

Pavor apertou seu estômago.

—Diga assim mesmo. Sou uma menina grande. Posso aguentar. — Talvez. Não. Não, ela não podia. Ele parecia muito grave.

—Espera minha clemência agora, mas não posso dá-la a você. Devemos controlar um Alto Senhor Demônio, e minha atenção não pode ser dividida. Ainda agora, enquanto estou aqui com você, tudo que posso pensar é como é macia quando a abraço, quanto gostei de seus gritos nos meus ouvidos e como seria fácil despi-la e tomá-la aqui e agora.

Ah... Meu Deus.

—Zacharel, amo ouvir isso. — Estava fraca por causa disso.

—Realmente? — Seu olhar encontrou o dela, e ela viu o fogo lá depositado. —Porque não vai estar lidando com seu amante neste dia, mas seu líder. Quando eu emitir uma ordem, vou esperar que a obedeça sem hesitar.

—Olá. Realmente... — espere. Na superfície, o que pedia parecia razoável. Só quando cavou mais fundo foi capaz de discernir que dependendo de como interagissem hoje poderia determinar como interagiriam de agora em diante. Sempre haveria outro demônio a caçar. E, ela lá fora... como consorte, estaria sempre em perigo.

Não que ficariam sempre juntos.

De qualquer forma. Se agisse como o soldadinho obediente hoje, Zacharel sempre esperaria que fosse um soldadinho obediente. Talvez até mesmo na cama. Nunca seriam iguais.

—Certo, ouça — ela disse. —Há quatro anos me dizem o que fazer, o que vestir, o que comer, quais medicamentos tomar, quando sair do meu quarto e quando ficar no meu quarto. Se desobedecia, era disciplinada duramente e, em seguida, obrigada a fazer o que me neguei. Não quero esse tipo de relacionamento com você. Prefiro não ter nenhuma relação.

—Veja só. Isso era o que eu suspeitava que aconteceria. — Os nós dos dedos estavam sem cor, e suspeitava que estava pressionado seus músculos da coxa com tanta força que teria hematomas por dias, a rapidez de sua cura não era páreo para a extensão do dano. —Se um dos meus homens ousasse me desafiar, eu o faria...

—O quê? O espancaria? — ela terminou para ele. —Bem, não sou um de seus homens.

—O espancaria, sim. Tenho feito isso. Fiz pior. E quer ser um dos meus homens. Pediu-me para treiná-la.

—E até agora não me ensinou uma única coisa.

Silêncio, pesado e opressivo.

—Muito bem. Vamos remediar isso. — Ele levantou um instante mais tarde, seus braços serpenteando ao seu redor e a levantando do chão. Ela experimentou essa estranha sensação de imponderabilidade, como se a levasse através de parede após parede até o jardim exterior.

Sem qualquer preâmbulo, a derrubou sentada. Ar saiu de seus lábios, seu cérebro chocalhando contra seu crânio. Pessoas andavam ao longo do caminho de cascalho, ela observou, mas não prestavam nenhuma atenção a ela e Zacharel.

—Ter público não muda como vou tratá-lo — ela resmungou baixinho. —Se alguma coisa, ganhará um total ataque feminino.

—Não podem nos ver ou ouvir — disse ele.

Não podiam?

—Ei, você — ela gritou, olhando ao redor. Ninguém sequer se contraiu. Uau, realmente não podiam. —Falando nisso, se não fui clara, acho que você é um bosta — ela murmurou, saltando em pé.

—Queria treinar e assim treinaremos. — Enquanto falava, seu manto foi transformado num par de calças pretas soltas. Sem camisa. —Mas primeiro...

O sol beijava sua pele que escurecia... escurecia... indo a uma matiz carmesim. Chifres brotaram de seus ombros, suas asas se transformaram em algo horrível, uma fina membrana umedecida com sangue, e uma cauda cresceu entre as pernas, uma ponta de metal em sua extremidade.

Um grito rasgou da garganta de Annabelle. Retirou as lâminas de suas bainhas e agindo por instinto, se lançou na direção da criatura saída direto das profundezas de seus pesadelos, o cortando. Terror, traição e choque jatearam através dela, seu sangue se transformando em lama tóxica. Essa coisa era um demônio, e a tinha enganado. Todo esse tempo a enganou, mesmo na cama.

—Você me dá nojo! — ela gritou enquanto ia para sua garganta.

Facilmente ele prendeu seus pulsos, a girou e prendeu contra o duro comprimento do seu corpo.

—Acalme-se e pense, Annabelle. — Apesar de sua aparência grotesca, sua voz era a mesmo, era Zacharel, e o conhecimento fez um pouco do seu pânico sumir. —Ainda se sente segura comigo — ele continuou. —Não sente o zumbido do mal. Não mudei; simplesmente mudei sua percepção sobre mim. — Ainda assim, ela lutou contra ele, desesperada para se libertar.

Ele manteve um aperto constante.

—Acalme-se — ele repetiu. —Pense. Viu-me mudar minhas roupas num piscar de olhos. Já me viu mudar a cor das minhas asas tão rapidamente. Sou eu, Zacharel, o homem que a segurou em meus braços, que a beijou e tocou em você.

O resto do seu pânico fugiu e a percepção finalmente a atingiu. Seus movimentos se retardaram... acalmaram... e ela puxou uma respiração profunda... expirou....

Quando os demônios vinham, exalavam um cheiro podre e uma película pegajosa do mal que não podia arrancar de sua pele. Com Zacharel, havia apenas essa fragrância de céu-rico e a carícia morna da carne do macho.

—Por que... mudou sua... aparência? — Sua mente podia reconhecer a verdade, mas seu corpo ainda se recuperava, a respiração arranhando seus pulmões.

—Não posso treiná-la para observar uma cauda se não tiver uma cauda. E lembra quando eu disse que é possível superar o medo com a ação, que como age é mais importante do que o que sente? Quero que aprenda a agir contra um demônio, mesmo que seu coração esteja acelerado e os joelhos batendo juntos.

Tudo bem. Certo, podia fazer isso.

—Pode me soltar agora. Vou me comportar.

—Começamos agora? — Ele a empurrou o suficiente para fazê-la tropeçar. Ela se torceu, o enfrentando, mantendo os punhais do lado. Seus olhos ainda eram um verde hipnotizante e a ajudaram a se ancorar na realidade, ao invés de afundar no passado quando essa cauda cravada de metal rolou para frente e para trás, para frente e para trás.

Seu olhar baixou e viu a coisa deslizar ao longo do chão, incapaz de se impedir.

—Isso é apenas uma piada, Zacharel?

—Você me diz.

De repente a cauda disparou, enrolando em torno de seu tornozelo e repuxando, mas de alguma forma não cortando sua pele. Ela caiu, duro e olhou feio para ele.

—Devia ter pulou imediatamente e jogado uma de suas adagas em mim — disse casualmente. —Poderia atacá-la agora, e não teria nenhuma defesa.

Uh, ela podia esfaqueá-lo — porque ainda tinha seus punhais. Ele não foi inteligente o suficiente para tirá-los, assim estavam lá.

—Bem, para começar, não me disse que tinha permissão para derramar suas tripas.

—E um demônio vai dizer uma coisa dessas? Dar tal aviso?

Um ponto excelente. Envergonhada por sua debilidade e estupidez, ela pesadamente levantou e resmungou:

—Então é assim que ensina? Por tentativa e erro?

—Não gostaria do meu outro método. Agora. Desta vez, quando vir que estou vindo, aja primeiro.

Pronto. Ela esperou, observando como sua cauda agitava... agitava... e se lançava em sua direção. Conforme as instruções, saltou, jogando a lâmina dançando através do ar. Mas ele esperava que ela fizesse isso e a cauda mudou de direção, dardejando de volta para ela novamente, enrolando em torno de seus tornozelos e a jogando de bunda.

—Caramba! Só para que saiba, geralmente sou melhor. O fato que estou viva deve convencê-lo disso.

—Não, o fato que está viva me convence que os demônios não estavam na verdade tentando matá-la. E só para que saiba, duas vezes agora matei você — ele disse. —No campo de batalha, demônios sempre jogam sujo. Golpeiam por trás, chutam quando você está caída, batem onde dói mais.

—Certo. — Ela levantou. —Todos os demônios podem fodê-lo, então da próxima vez que vir por mim, vou pegá-lo.

—Bom. — Ele não ofereceu nenhum aviso além desse, a atacando, sua cauda raspando, falhando, passando novamente, falhando novamente.

Com esse último salto, ela angulou apenas o suficiente para pousar em sua cauda, ganhando um grito de dor dele. Sorrindo, ela disse:

—Mesmo que seja um professor horrível, acho que vou gostar desta lição.

Seus lábios subiram numa sugestão nua de um sorriso, uma ondulação lá e sumindo, antes que arqueasse essas asas bestiais para ela. Pular não faria nenhum bem desta vez. O estúpido apêndice era muito grande. Ela fez a única coisa que podia. Girou abaixo, palmeando seu punhal e cortando o tecido.

Ele sussurrou uma respiração e empurrou a asa de volta ao seu lado. Sangue escorria das penas de ouro — penas logo substituídas por tecido preto quando fortificou sua imagem. Por um momento, Annabelle se preocupou por ter ido longe demais.

Em seguida, Zacharel assentiu com satisfação.

—Excelente. Não sou um professor horrível, afinal.

—Na verdade, meus instintos me fizeram esfaqueá-lo, não sua tutela majestosa.

Outra mostra de sorriso.

—Vou tentar fazer melhor.

—Quer dizer que eu sou a primeira a me queixar?

—Não. Mas as suas são duas das queixas que estou disposto a prestar atenção.

—Que coisa doce de dizer. Mas isso não vai me impedir de feri-lo durante a próxima rodada. E a outra veio de...?

—Meu irmão.

Até agora, toda vez que mencionava seu irmão ele se fechava logo depois. Depois da noite passada, esperava que confiasse a ela com detalhes sobre o que aconteceu.

—O irmão que... você matou? — Ela queria saber mais sobre ele, este homem que veio para sua cama.

—Sim. — Ele não disse mais nada, mas a tristeza em seu tom disse o suficiente.

Pelo menos não mudou de assunto.

—Por que fez isso? — Antes, ela especulava que foi um acidente. Agora que o conhecia melhor, tinha grandes dúvidas. Zacharel não era alguém propenso a acidentes. Era muito cauteloso, muito cuidadoso. Teria um motivo.

O gelo cobriu seu olhar esmeralda.

—Era o melhor.

Claramente isso marcava o fim da conversa. Mas... agora se perguntava se o irmão estava doente. Geralmente era o que estava implícito em melhor. Pobre Zacharel.

—Bem, sinto muito pela sua perda.

Antes que a última palavra saísse de sua boca, ele estava sobre ela, suas mãos com garras a empurrando abaixo, mas não a cortando. Surpresa, se debateu quando caiu, soltando seu domínio sobre um dos punhais.

Entre um piscar e outro, seu peso a prendia no lugar, sua mão apertando seus braços acima de sua cabeça, tornando a arma que ela tinha inútil. Argh! Ela se contorceu uma vez, duas vezes, mas não conseguiu movê-lo.

—Se eu realmente fosse um demônio — ele disse com a mesma frieza que vislumbrou em seus olhos —, o que faria para escapar agora?

—O morderia quando se inclinasse para baixo. — Como teve que fazer na instituição antes.

—E se arriscar a engolir o sangue contaminado do demônio?

Sentiu um tijolo no estômago, suas bordas afiadas.

—O que acontece quando engole sangue contaminado de demônio?

—Você adoece.

Seu tom explicitava que podia morrer. Tentando não entrar em pânico, lembrou-se dos últimos quatro anos. As únicas vezes que ficou doente foram devido a overdose de drogas que o pessoal forçou nela. Assim, não devia ter engolido nado do sangue. Certo?

—Preste atenção em mim. — Ele agarrou seus ombros e sacudiu. —Para libertar-se, deve esfaquear um dos meus chifres.

—Certo, mas nem todos os demônios têm chifres.

—E te mostrarei como combater os sem chifres da próxima vez. Hoje, aprenderá a lidar com chifres. — Em outras palavras, se concentre no aqui e agora.

—Mas está segurando minhas mãos presas.

—E não pode de alguma forma me enganar para soltar meu aperto?

Bem, sim. Ele, podia. Mas outra pessoa?

—Digamos que eu consiga. O punhal apenas não ficaria preso lá, me deixando sem qualquer tipo de arma? — Os dentes já não eram uma opção — nunca mais.

—Sim, e esse é o ponto. O duro escudo exterior protege um centro macio, vulnerável. Se cortar os nervos corretamente, pode paralisar o demônio por vários segundos, às vezes até minutos.

Agora, havia uma dica que podia usar.

—Tudo bem. Vamos testar esta sua teoria.

Enquanto ela se preparava para enganá-lo para soltá-la de seu aperto, três enormes sombras caíram sobre eles e Zacharel pulou longe dela. Pensando que os demônios a tinham encontrado, se esforçou para ficar em pé. Ao invés de uma horda inimiga disforme, no entanto, viu o guerreiro loiro da instituição — Thane. Ele apareceu e pousou à esquerda, as asas brancas manchadas com ouro estendidas.

À sua direita apareceu um guerreiro com cabelo e cicatrizes na pele no mesmo tom de branco que vestia. A única cor que possuía eram os olhos vermelho gritantes, que continuavam a fitando.

Diretamente à sua frente estava o maior macho vivo — possivelmente já criado — sua pele da mais luxuriosa máscara de ouro que já tinha visto, seus olhos um arco-íris de cores brilhantes.

—Estivemos procurando você, Zacharel — disse Thane. —Tentamos alcançá-lo mentalmente, mas não respondeu.

Interessante ele reconhecer Zacharel, mesmo sob esta forma. Interessante, também, que chamasse seu anjo por seu nome ao invés de majestade, como fez na instituição.

—Eu me fechei para receber.

Como desligar um telefone?

—Devemos alterar nosso rosto, e assim aderir à festa? — Thane olhou sobre a pele de demônio de Zacharel e franziu a testa. —Está sangrando. — Ele se virou para seus companheiros. —Ele está sangrando.

—Ela o cortou — disse o cara-de-olho-arco-íris, sua incredulidade incomparável. —Sua lâmina ainda pinga. — O cara cicatrizado deu um passo ameaçador em sua direção.

Ela afastou suas pernas, pronta para cumprimentá-lo.

—Quer provar minha lâmina, também? Porque vou deixar, se tentar me desafiar.

Zacharel ficou na frente dela. Num piscar de olhos, o rosto do demônio foi embora, seu cabelo escureceu, a pele beijado pelo sol e manto retornaram.

—Ninguém toca a garota. Nunca. Qualquer um que fizer, vai morrer.

—Sim — ela disse, pulando na frente dele — apenas para ser empurrada para trás. —Ele vai morrer. — Será que qualquer um que olhasse para ela pensava que era inocente?

Todos os três homens olharam boquiabertos primeiro para Zacharel, em seguida, para ela. Em seguida, um por um assentiu. E se não estava enganada, lançaram uns aos outros olhares maliciosos, divertidos. A diversão a deixou perplexa.

—Dois choques em um dia — Thane, disse. —Primeiro, a preocupação com meu comandante. Em segundo, ver um pequeno cotoco de nada agir como sua protetora. Tem vergonha, Zacharel? — Zacharel lançou um olhar culpado.

Ela deu de ombros, não se arrependendo, em absoluto.

—Bem, agora que sabemos que Zacharel está tão bem guardado — o guerreiro dos olhos de arco-íris disse num tom sarcástico —Temos negócios a atender. — Qualquer diversão persistente desapareceu. —Pensamos que gostaria de saber que os demônios que atacaram sua nuvem foram enviados por Burden e agora temos sua localização.

Zacharel recuou e apertou a mão de Annabelle, como se precisasse se assegurar que ela estava lá e estava bem.

Aquele com olhos vermelhos mediu Annabelle de cima a baixo antes de ignorá-la.

—Está no Black Veil. O localizamos, mas não tivemos oportunidade de lutar com ele. Informou-nos que tem Jamila e, em seguida, exigiu “a fraca e vulnerável Annabelle” como troca... E não tente negar, fêmea — acrescentou sem olhar na sua direção. —Você é.

—Não sou — ela resmungou. Ela era sim, quando comparada com essas criaturas.

Zacharel continuava com a mandíbula apertada,

—Ele também disse que, se for com uma escolta de anjos, vai decapitar Jamila. Caso se recuse a ir, vai decapitar Jamila. — Annabelle traduziu: em essência, Zacharel estava ferrado.

 

O Black Veil era um nightclub humano localizado no coração pulsante de Savannah, Georgia. Zacharel tinha caçado muitos demônios ao longo dessas ruas sufocantes à meia-noite, e não era surpreendente Burden ter feito uma casa lá, ou que possuísse o corpo do ser humano que possuía o clube, apenas para alimentar-se da turbulência dos frequentadores.

Intensamente quente nesta época do ano, a umidade de Savannah era tão grossa que deixava uma película na pele — mesmo na pele do anjo. Se não fosse por Annabelle, Zacharel teria pedido a Divindade pelo retorno da neve.

Ele não estava com sua túnica habitual, mas usava uma roupa justa colante de malha preta, calças pretas de couro e botas de combate gastas. Para adicionar à aparência, espetou seu cabelo debaixo até o centro, num moicano, como os humanos chamariam o estilo, e contornou suas pálpebras com kohl. Tatuagens cobriam seus braços como mangas, e mais uma vez suas asas estavam escondidas dos olhos humanos. Todas as mudanças necessárias.

Para reunir a ajuda dos únicos homens que podiam deslizar dentro de tal clube e agir como seu apoio sem o conhecimento de Burden, teve que jurar se vestir assim e deixar o mundo inteiro vê-lo. Era ridículo. Se houvesse outra maneira, teria machucado homens — e crianças! — de maneiras que não podia imaginar, até mesmo por atreverem-se a sugerir uma coisa dessas.

Annabelle alternadamente estava maravilhada pela mudança nele e a luminosidade da lua cheia. Outros seres humanos deram-lhe amplo espaço, quase se achatando contra a construção de muros para alargar a distância entre eles.

Annabelle dançou em volta dele, sorrindo.

—Posso dizer que está um bad boy agora?

— Claro que pode. Você acabou de fazer.

—Não, quero dizer. Oh, não importa, você estragou tudo – seus lábios mergulharam em um beicinho.

Um beicinho que queria beijar. Podia parecer totalmente bad boy — mas ela parecia... comível. Seu cabelo ondulava pelas costas em devassos cachos negros azulados. Ele a vestiu num vestido xadrez preto e branco, amarrado com laços na parte superior e plissado na parte inferior, de modo que ninguém questionaria sua associação. A bainha caia logo abaixo dos joelhos, mostrando suaves pernas nuas e saltos com tiras vermelhas. Ela parecia uma dona de casa gótica dos anos setenta, pronta para esperar o marido com uma bebida fortificante.

Além disso, quanto mais inocente ela parecesse, mais Burden iria subestimá-la. E sim, isso significava que Zacharel estava operando sob a suposição de que Burden e Annabelle lutariam, apesar do fato que Zacharel desistiria de todos os seus membros para impedir que os dois respirassem o mesmo ar.

Acima de tudo, a queria segura. Estava desesperado para mantê-la segura.

Para um homem que não sentiu nada por séculos, Zacharel de repente sentia como se estivesse se afogando na emoção, e não apenas no desespero. Sentia-se preocupando com a segurança de Annabelle. Sentia um intenso desejo acima de tudo pela última experiência que ela lhe deu, antes que fosse tarde demais. Sentia preocupação pela segurança de Jamila. Sentia culpa pela forma como a tratou. E tão irracional quanto era, sentia raiva por ela ter-se permitido ser capturada.

Ela estivera sob o controle de Burden durante dias. Muita coisa podia ser feita a um anjo, uma mulher, nesta quantidade de tempo.

Anteriormente, tentou projetar sua voz em sua mente, mas ela nunca respondeu. Sua Divindade, no entanto, tinha.

Estou descontente. Ela é sua carga, sua responsabilidade. Vai lidar com isso.

Ele faria. Mas... devia ter deixado Annabelle atrás, pensou. Ainda podia. Não era tarde demais.

Mas se o fizesse, iria odiá-lo. Ela não disse que preferia morrer a ser trancada? E para deixá-la atrás, teria que trancá-la longe. Não podia fazer isso com ela. Nem mesmo ele seria tão frio.

Além disso, e se fosse aquilo que Burden queria? Que Annabelle fosse deixada sozinha, desprotegida, para que pudesse prendê-la? Mas não, isso não podia estar certo. O Alto Senhor não podia saber o que o ser humano passou a significar para ele. Assumiria que a interação era de negócios como de costume, que Zacharel ligaria mais para seu anjo que o ser humano.

Portanto, se Zacharel chegasse sem ela, somente proclamaria que ela significava mais para ele que seu dever, sua vingança e seu exército. Ela se tornaria mais alvo do que já era. Então, novamente, descobririam de qualquer jeito.

O fato de Annabelle estar coberta atualmente pela Essentia de Zacharel apenas proclamaria que ele estivera com ela. Mas só isso, pensou em seguida. Não que ela significasse algo para ele.

Muito bem, então. Estava decidido. Ela ficaria com ele.

—Se lembra de tudo o que eu disse? — perguntou ele. —Como se comportar?

—Depois do jeito que martelou tudo em minha cabeça? Ficar ao seu lado, não falar, não perder o foco, não, não, não. Não, não esqueci — disse ela alegremente. —O que não sei é o plano.

Ela confiava nele para resgatar Jamila sem negociá-la, e teria que ser suficiente. Ele não podia arriscar dizer o resto.

—Tem alguma pergunta para mim? Fora aquelas sobre o plano?

—Bem, sim. Agora que sabe onde esse cara Burden está, por que não pode apenas investir sobre ele e lutar, enquanto o resto de seus amigos secretos — que ainda espero que me conte sobre eles — em seguida salvam Jamila?

Os guerreiros que alistou faziam parte do "resto." Não podia contar sobre eles, mesmo quando a batalha terminasse e a poeira baixasse.

—Burden, covarde como é, possuiu o corpo de um ser humano. Estou limitado nas coisas que posso fazer com ele.

—E se ele te atacar?

—Ainda não vou machucá-lo. Muito.

—Mas isso não é justo!

—Uma semelhança entre nossos mundos. Nada parece ser — Mas todas as coisas, não importa o quão terrível, podiam ser trabalhadas para o bem dele, Zacharel aprendeu. —Embora não seremos capazes de destruir o ser humano, ele não sairá ileso. Dançar com um demônio só traz sofrimento, que é uma lei espiritual, e vai aprender a verdade disso hoje à noite.

         —Muito bem. Mas temos certeza que esse cara Burden não é a pessoa que matou meus pais, mesmo sendo o único que mandou os outros demônios me machucar?

—Sim. Há classes entre os demônios, e Burden não é de grau elevado o suficiente para se manifestar na presença de seres humanos.    

—Certo, então me responda isso. Como Burden possuiu o ser humano?

—O homem permitiu, dando a ele um caminho de entrada de uma maneira ou de outra.

—Como um sonho...?

—Às vezes. Às vezes um demônio vigia um ser humano, esperando o momento perfeito para atacar. Se isso não acontece, o demônio tenta criar uma abertura. Ele irá sussurrar no ouvido do ser humano. Diga essa mentira... diga uma coisa cruel... faça esta coisa odiosa... faça aquela coisa selvagem. Se o ser humano deixar de repreender o demônio, o demônio vai ficar mais forte, permitindo finalmente à criatura rastejar dentro de sua mente.

—Mas como se repreende um demônio? Como devemos saber como supostamente repreendemos um demônio?

—Confie em mim, há um caminho e vou te ensinar. Mas não agora — Ela precisava de fé, que ainda não possuía. A fé que não brotaria somente de palavras. Ela precisaria de tempo que eles não tinham, tempo para ouvir uma lição divina não apenas com seus ouvidos, mas com todo o seu ser. Se ele tentasse ensiná-la, apesar disso, se assustaria, o que tornaria tudo pior.

—Por que os demônios não possuem os anjos de sua Divindade? Vocês parecem ter falhas como muitos de nós — ela resmungou.

—Eles nos atormentam, também. Nunca duvide disso.

Ele apertou seu ombro no dela, manobrando-a em um beco escuro. O odor de urina e salmoura flutuava através do ar. Poderia ter voado direto para a porta do clube, mas não queria que Burden soubesse que estava a caminho. Espiões do demônio iriam localizá-lo — na verdade, ele viu três subordinados nos últimos cinco minutos, espreitando nos cantos de prédios adiante, rastejando pelos lados e correndo para longe.

—Bem, bem, o que temos aqui? — Um adolescente humano deu um passo das sombras. Ele estava em processo de fechar as calças, e Zacharel podia adivinhar que estava usando um dos edifícios como vaso sanitário. Cheirava a álcool e cigarros. — Uma pequena gata quente chinesa e uma amolação que é melhor correr, se quiser continuar respirando.

—Eu não sou chinesa. — Annabelle rosnou.

—Tanto faz. É quente, e isso é tudo que importa — Dois outros adolescentes sairam das sombras e se alinharam ao lado dele.

Nenhum deles estava possuído por demônios, mas todos os três eram estúpidos. Zacharel era o dobro do seu tamanho, mas porque tinham armas — dois tinham facas, ele discerniu, as pontas de prata brilhando ao luar, e um, o líder, tinha uma arma — se consideravam invencíveis.

—O que tem sob o vestido, hein?

—Seja uma boa menina e nos dê uma espiada.

Oh, sim. Eles eram estúpidos.

Zacharel sentiu a pulsação de medo de Annabelle, antes dela reprimi-la, a determinação tomando seu lugar.

—Estão me deixando irritado— disse ele — e não querem me deixar irritado.

Todos os três rapazes riram.

—Por quê? Porque vai se transformar num corpulento monstro verde? — Disseram sarcásticos.

Mais risadinhas abundaram.

—Por que não cai fora, antes que eu bata em você? — Disse o líder.

Outro acrescentou:

—Pode ter sua garota de volta quando terminamos com ela — antes de rir. —Prometo.

—Oh, não devia ter dito isso — disse Annabelle muito mais calma que teria imaginado possível. Para ele, ela acrescentou: —Ensine a eles uma pequena lição Zacharel. Por favor.

—Tudo que desejar — Zacharel puxou Annabelle na frente dele e passou os braços ao seu redor para protegê-la do que estava prestes a acontecer. Abriu suas asas do bolso de ar e, em segundos, foi capaz de criar um vento forte. Cada garoto logo se encontrou de bruços no chão sujo.

Lutaram para levantar, mas o vento os prendia no lugar. Podia ter agarrado seus pescoços antes que percebessem que se movimentou. Podia ter rasgado seu peito e derramado suas entranhas. Na verdade, apenas podia. Sempre podia reanimá-los antes da morte reivindicar seu pedido, salvar-se de uma surra — ou pior.

Bateu as asas mais forte, mais rápido, o vento aumentou de velocidade, o silvo encobrindo os gritos de dor que se seguiram. A pressão estava crescendo, Zacharel sabia, quebrando ossos e esguinchando órgãos.

Mas matar um ser humano não é necessário. Isso faria com que você não seja melhor que, bem, Fitzpervertido. Ele me magoou só porque podia. As palavras de Annabelle voltaram para assombrá-lo. Por que os demônios não possuem os anjos de sua Divindade? Vocês parecem ter falhas como muitos de nós.

Não. Não faria isso. Não queria destruir esses garotos só porque podia, e não cederia ao impulso de cometer atos violentos. Isso seria uma falha.

Annabelle colocou os dedos em torno de seus pulsos e apertou.

—Certo, chega. Vai ficar em apuros, e eu meio que preciso de você esta noite. E realmente, seu bem-estar é mais importante do que dar a estes garotos o que merecem.

—Já estava parando. — ele admitiu, acalmando suas asas e aliviando a pressão.

Os rapazes permaneceram no chão, soluçando.

—Tem alguma coisa a dizer a ela? — Ele exigiu.

—Desculpe, homem. Desculpa de verdade — meleca corria do nariz do falante. — Nunca mais vou fazê-lo novamente, juro.

—Por favor, deixe-nos ir. Eu vou te pagar. Eu tenho dinheiro.

—Chega — Zacharel forçou os garotos a se levantarem. Primeiro se encolheram, em seguida, balançaram. —Vão direto à delegacia de polícia mais próxima e vão confessar seus crimes. Se não fizerem isso, vou voltar atrás de vocês.

Por mais que Annabelle tivesse duvidado dele recentemente, ele meio esperava que os garotos fizessem o mesmo. No entanto, reagiram ao toque da verdade do jeito que ele estava acostumado, seus olhos vidrados, suas cabeças balançando. Não havia necessidade de exibir o rosto de uma besta verde corpulenta, então.

—Por que ainda estão aqui? — Ele rosnou. —Vão!

Eles correram para longe dele.

Annabelle deu uma tapinha no ombro dele.

—Bom trabalho Z. Realmente um trabalho impressionante aqui.

— Sarcasmo?

—Não desta vez, Maravilha Alada.

Ele a enfrentou e sorriu.

—Obrigado.

—Não há de quê.

Esta mulher conseguia diverti-lo, não importava a situação, e, mais que tudo, revelava as profundezas de sua atração por ela. E não tinha medo de tal admissão, não desta vez. Ele estava se acostumando a seus sentimentos por ela.

—Sabe, é bonito quando sorri. — disse ela, batendo no lado de seu rosto.

—Feroz, mulher. Eu sou feroz.

—Se você diz…

Ele a arrastou o resto do caminho através do beco, satisfeito quando ela não ofereceu nenhum protesto. No final, virou à direita, a empurrou abaixo por outro beco, em seguida, virou à esquerda, e ninguém tentou impedi-lo. Finalmente, a entrada para o clube ficou visível.

Dois seguranças possuídos por demônios estavam de sentinela, uma fila de seres humanos virando na rua na esperança de conseguir entrar. Rock pesado bombeava através das frestas nas portas, embora houvesse uma batida subjacente de sensualidade. Uma que podia não ter reconhecido antes de Annabelle. Agora sabia quão suave dois corpos podiam se mover em tal ritmo, quando se esfregavam antes de se separarem, já ansiosos por mais.

Os machos engoliram em seco quando o viram e moveram-se rapidamente de lado, permitindo que Zacharel entrasse a passos largos sem incidentes. Ele empurrou as portas duplas.

—O menino de rua tem crédito — Annabelle murmurou, seja lá o que significasse, quando alguém na multidão gritou:

—Ei! Como entraram tão facilmente quando... — As portas se fecharam rapidamente, cortando o resto da queixa.

Uma garçonete passou deslizando, uma bandeja de bebidas na mão. Machos e fêmeas se contorciam juntos na pista de dança, assim como ele imaginou, bocas se procurando, mãos vagando. Em cima dos ombros de vários homens e mulheres estavam subordinados. A maioria eram criaturas pequenas e símios, com pelo marrom escuro e longas caudas balançando.

—Pode ver os demônios sentados em seus ombros, sussurrando em seus ouvidos? — Ele perguntou à Annabelle. —Influenciando seus pensamentos e ações, tentando criar uma fortaleza?

—Onde?

—Aqui.

—N-não.

E não gostava de não poder, ele supôs.

—Meu palpite é que só pode ver os demônios de um certo nível e superior.

—Devemos, não sei, combatê-los? E o que é uma fortaleza?

—Nós? Não. Isso cabe aos humanos. E uma fortaleza é o que eu estava falando lá fora, um lugar permanente na vida de um mortal, dentro da mente do mortal, onde qualquer maldade do demônio consome cada pensamento, cada ação.

—E como repreender essas coisas? Eles têm que ser ensinados a lutar contra o que não podem ver.

— Sim. Devem aprender as verdades espirituais e as leis e agir em conformidade.

Além dos dançarinos estavam as mesas. Copos e garrafas vazias de cerveja estavam espalhados por toda parte. Seu olhar cortou o mormaço do escuro para ver o dinheiro trocado por drogas, prostitutas que estudavam suas unhas enquanto seus seios eram acariciados, mas não encontrou nenhum sinal de seus ajudantes.

—Ei, cara, você tem fogo? — Uma voz masculina disse.

Zacharel sacudiu sua atenção. O homem parou na frente dele, um cigarro equilibrado entre os lábios.

Era tão alto quanto Zacharel, com o cabelo tão grosso e luxuoso que qualquer mulher iria cobiçá-lo. A massa era uma sinfonia de cores, tons de linho intercalados com caramelo, chocolate e café. Seus olhos eram de um azul profundo, insondáveis, e o rosto assombrosamente encantador de um catálogo — ou do céu — e completamente em desacordo com o corpo de guerreiro.

Finalmente.

Annabelle ofegou como se visse algo precioso, e Zacharel só pôde ranger os dentes em irritação.

—Cigarros podem matar. — Foi tudo que Zacharel disse ao homem. Não pode socá-lo. Realmente não pode socá-lo. Especialmente porque pedi que ele viesse aqui.

—Mas um monte de coisas pode. — resmungou. Ele puxou para fora o cigarro, jogou a ponta, seu olhar cortante sobre Annabelle, a avaliando. —Muito feminina. Ela é sua?

— Sim. — o tom de Zacharel gritava para recuar.

Paris, o guardião do demônio da Promiscuidade, sorriu lentamente e com uma satisfação que só aumentou a irritação de Zacharel.

—Ela é muda?

— Não. — Embora ela certamente parecia assim. Sua boca estava aberta, mas nenhum som saía.

Uma risada rouca saiu de Paris, e Zacharel só podia se maravilhar pela mudança nele. Poucos meses atrás, ninguém era mais miserável que este macho. Mas, então, a mulher certa podia trazer alguém de volta à vida, não podia?

—Tente não se ofender. Ela não pode evitar. — Assobiando baixinho, Paris caminhou para longe.

—Tem algo a dizer sobre tudo. — Zacharel disse a Annabelle — e ainda assim fica abalada sem falar na frente dele?

—É seu perfume... — respondeu ela descaradamente, olhando Paris se movendo pelas costas enquanto ele desaparecia no meio da multidão. —Nunca senti nada parecido. Chocolate e coco e champanhe, e absolutamente delicioso.

—Está possuído pelo demônio da Promiscuidade — Zacharel deixou escapar.

—O quê! De jeito nenhum.

—Sim, possuído.

—Possuído — ela repetiu baixinho.

Boa. Nunca mais olharia para Paris, com tal forma de desejo. Mesquinho, ele? Talvez. Será que ele se importava? Não.

—A maioria do povo aqui está diabolicamente influenciado, como eu disse, mas alguns estão realmente possuídos. Burden os emprega, os demônios, quero dizer, e paga-os para tentar qualquer um dos patrocinadores do Black Veil que ainda não estão tão maldosamente inclinados.

Seus dedos apertaram os dele, e sabia que ela esperava tirar força dele.

—Então o que devemos fazer agora?

—Agora vamos esperar.

 

Felizmente, não tiveram que esperar muito tempo. Uma mulher separou as massas na pista de dança, em seguida, lentamente caminhou na direção de Zacharel. Uma das mulheres mais bonitas que já viu, tinha uma cascata de cabelo sedoso claro, a pele um pouquinho rosada e os olhos dourado como o luar lá fora.

Seios grandes estavam mal disfarçados num vestido de couro vermelho, pedaços de material cortado dos lados para revelar quadris perfeitamente largos. A bainha do vestido parava logo abaixo do seu bumbum, deixando claro que não havia calcinha para proteger o ápice dessas pernas com quilômetros de comprimento.

Bonita, sim. Mas também uma das possuídas por demônios.

Podia sentir o bater da alma humana às portas de sua mente, desesperada para escapar do porão do demônio. Era uma posse recente, então. Poucos dias, provavelmente. Ela parou na frente dele, mas seu olhar focou diretamente sobre Annabelle.

—Se não é minha pequena doce gueixa. Como te procurei.

—Do que acabou de me chamar? — Annabelle ofegou.

O macho humano, Fitzherbert, dissera aquelas palavras exatas para ela, Zacharel lembrou. Pequena doce gueixa. Zacharel não acreditava em coincidências. O demônio que agora possuía a mulher na frente dela devia ter possuído uma vez alguém na instituição. Não Fitzherbert — Zacharel teria percebido isso, — mas alguém que passou uma grande parte de tempo dentro do prédio. Um paciente, muito provavelmente, o que fazia sentido. Asseclas, que criavam uma fortaleza dentro de uma mente humana podiam convencer seus anfitriões a fazer quase tudo. Burden quisera ter um com acesso fácil a Annabelle, assistindo e ouvindo, outros provavelmente ainda incentivando a machucá-la, em seguida, relatar de volta.

Brilhantes lábios rosados ​​se curvaram num sorriso sedutor.

—Sente minha falta também, pequena gueixa? Poderia tirar fotos minhas e dá-las a você. Dessa forma, sempre que partir, pode olhá-las e pensar em mim.

Por alguma razão, o comentário enfureceu Annabelle. Ela pegou e lançou dois de seus punhais. Ambos foram se cravar no peito da outra mulher.

—Gostaria de uma foto sua exatamente assim. — rosnou Annabelle. —Você leu meus pensamentos?

A fêmea soltou um grito de choque e dor... então desencadeou uma torrente de negros palavrões, terminando com: Vou assassinar você.

Alguns dos bailarinos perceberam a violência e gritaram, correndo para a porta. Outros apenas continuaram se balançando e se esfregando.

—Você não fará nada disso. — disse Zacharel.

A mulher cerrou os dentes e tirou as lâminas agora gotejando com um empurrão forte.

—Controle seu animal de estimação, anjo.

—Ao contrário de você, demônio, não me rebaixo a controlar seres humanos.

E se sua Divindade pensasse em repreender Annabelle, ficaria na frente e suportaria o castigo por ela. Engraçado que reclamasse por tal coisa há poucos dias. Ainda mais engraçado que estivesse mais que disposto — feliz — por fazê-lo agora.

—Desculpe por isso. — Annabelle murmurou. — A fúria levou a melhor sobre mim.

Ele entrelaçou a mão com a dela, apertando-a.

—Por causa da carga demoníaca no ar, será mais fácil sucumbir. Proteja suas emoções.

—Chega — gritou o demônio. Seus olhos se estreitaram... olhos agora de um vermelho brilhante. Era evidente que não gostava de ser ignorada. —Por aqui. — Com isso, ela se virou e os levou através do clube, parando para olhar presunçosamente sobre seu ombro. —Mas não espere que Burden seja tão acolhedor quanto eu fui.

 

Annabelle se esforçou para manter uma fachada calma durante todo o percurso para o escritório principal. Os três se moveram num vôo sinuoso pelas escadas e através da neblina esfumaçada da sala VIP. Ela conseguiu manter a cabeça erguida, mesmo quando as pessoas paravam o que estavam fazendo — sexo, cheirando cocaína, furando veias — para olhar ela e Zacharel. Demônios deviam estar descansando em seus ombros, como Zacharel disse, mas ela não podia vê-los.

Quando finalmente o trio entrou num paraíso aparente, sua luta pela compostura saltou para o próximo nível. Tudo parecia tão normal, mas no fundo sabia que era oh, tão errado. A sala era espaçosa, com paredes brancas e um tapete branco felpudo intercalado com preto, criando quadrados hipnotizantes. Estantes alinhadas na parede atrás de uma mesa em forma de meia-lua. Um lustre pendurado no alto, posicionado no centro a três níveis do teto.

Agradável, certo? Mas por trás da mesa estava sentado um belo homem de cabelos dourados em seus trinta e poucos anos, o encosto alto de sua cadeira de couro subindo alguns centímetros acima da cabeça, estilo Dr. Evil. Ele era muito magro, uma magreza doentia, mas a pose era sobretudo casual, os cotovelos apoiados nos braços da cadeira, os dedos em triângulo sobre sua boca. Ainda assim, ele não conseguia esconder o ar de crueldade.

Quem era ele? A última linha de segurança antes de chegarem ao demônio?

Seus olhos eram de um tom mais escuro de azul que o da própria Annabelle e desinteressados, seus cílios marrons com pontas douradas. A sombra de uma barba escurecia sua mandíbula. Ele usava um terno azul marinho listrado e cheirava a dinheiro, musk e pungente álcool.

Os dois guardas armados atrás dele vestiam camisetas colantes e calças de couro, suas expressões expectantes. Sem dúvida, eram do tipo de atirar primeiro e perguntar depois.

A bela moça loira do clube, que Annabelle havia esfaqueado, pulou num sofá ao lado da porta, murmurando sobre as melhores maneiras de torturar seres humanos irritantes enquanto consertava a si mesma.

—Olá Burden. — Zacharel disse.

Burden. Este era Burden? O homem possuído pelo demônio que ordenou que todos os outros demônios a atacassem dentro da instituição? Eu não deveria ter perdido minhas últimas duas facas na garota.

O sorriso do Dr. Evil tornou-se ainda mais acolhedor e muito mais sinistro.

—Ah, Zacharel — disse Burden. —Estou tão feliz que recebeu meu convite.

—Vou ver Jamila agora. — Seu anjo respondeu, claramente sem gentileza.

— Suas maneiras... que vergonha — a voz de Burden era toda satisfação e potentes desejos. —Negócios primeiro? Que rude. Podemos oferecer uma bebida? Uma prostituta? Uma tragada?

Silêncio.

—Não? E quanto a você, minha querida? — Seu olhar azul marinho moveu-se para Annabelle, deslizou sobre seu corpo e mentalmente tirou sua roupa. —Gostaria de alguma coisa?

Zacharel enrijeceu quando ela disse:

— Para começar, sua cabeça no chão, separada de seu corpo. Depois disso, podemos falar sobre minhas próprias exigências. — Ele disse a ela para manter a boca fechada e as mãos para si enquanto estivessem ali e ela falhou em ambos. Então o que?

Você já é um alvo. Não tente obter mais um, ele disse.

Isso teria sido o grande conselho... quando se tratasse de alguém além de um demônio. Ela não podia sair como fraca.

Demônios aproveitavam fraquezas, explorando-as. Mas se controlaria a partir de agora, prometeu. Zacharel tinha um plano, sabia que tinha. Ele e os outros três anjos ficaram de frente uns aos outros, em silêncio, durante meia hora, suas expressões faciais mudando a cada poucos minutos. De alguma forma, de alguma maneira, se comunicavam uns com os outros. Não que alguém explicasse nada para ela quando terminaram.

A risada de Burden ecoou pelo escritório, fria e suave.

—Sua sede de sangue deixa meu coração orgulhoso, Annabelle. Mas me pergunto ... está escondendo mais alguma arma? — outro exame rápido se sucedeu. —Oh, sim, acho que está.

Não estava, mas sim, desejava estar.

Ele apontou para um dos guardas, e obviamente era uma ordem para revistá-la.

Zacharel se moveu num piscar de olhos, uma espada de fogo na mão e pronta na garganta do demônio.

—Ninguém a toca. — Os guardas não fizeram nenhum movimento para impedi-lo. Ou estavam com muito medo dele, ou tinham suas próprias ordens para obedecer.

Burden se remexeu em seu assento, mas qualquer desconforto que sentiu foi rapidamente mascarado com um ar de superioridade.

—Se me atacar, meu povo matará Jamila.

—Não seria nenhum tipo de líder se proteger uma das minhas responsabilidades acima das outras. Portanto, repito, ninguém toca a garota. Nunca.

Esse é meu homem.

—Muito bem. Ninguém vai tocá-la enquanto estiver aqui. — Burden permitiu, evidentemente, nem um pouco chateado que sua autoridade fosse questionada.

—Concordo.

Espere. O quê?

A espada de Zacharel desapareceu.

O sorriso do demônio voltou.

—Porque sou tão generoso, vou permitir que sua mulher mantenha suas armas.

—Isso é tão doce de você. — disse Annabelle, agindo como se ela, de fato, tivesse algumas surpresas escondidas. Agora é hora de se mover, Miller, e deixar Zachie fazer a sua coisa. Lembra?

Burden a ignorou, mas disse a Zacharel com um tom de voz mais áspero:

— Ela vai descobrir que eu não sou tão fácil de machucar como a bela Driana. —Ele acenou com a cabeça brevemente para a mulher ainda curando suas feridas no sofá.

—Esta conversa está cansativa — Zacharel flexionou os dedos ao seu lado, antes de enrolar as mãos em punhos. —Vamos seguir em frente.

Burden levantou uma caneta de sua mesa e a girou de uma maneira, depois outra.

—Impaciente como sempre, eu vejo. Para ser honesto — ele riu de suas próprias palavras — estou um pouco surpreso que viesse. Devia saber que eu não manteria minha parte do acordo para devolver Jamila a você.

Zacharel o olhou impassível.

—Isso é evidente.

Espere. Ele sabia que estavam indo para uma armadilha? Então o que diabos estavam fazendo aqui?

—Então por que está aqui, meu anjo? — Burden perguntou.

—Vou dizer. Depois de ver a prova que Jamila ainda vive.

Burden se encolheu na camada de verdade na voz de Zacharel.

—Algumas coisas nunca mudam, suponho. É reconfortante saber que continua desconfiado e o quanto é impaciente.

—E você, por sua vez, é tão confiável quanto é repulsivo.

O demônio inclinou a cabeça em reconhecimento, como se tivesse acabado de receber um elogio.

—Obrigado. Mas por que não posso animar as coisas e fazer o inesperado? Vou te dar sua prova — disse ele — após ter sua palavra que nenhum outro guerreiro anjo está aqui ou nas proximidades.

Ele tinha guardas por todo o clube e, provavelmente, câmeras, também. Já devia saber a resposta.

—Por que deveria acreditar em você neste momento, quando já admitiu ter mentido? — Annabelle exigiu. Burden riu.

—Garota inteligente. Mas ele acredita em mim, porque pode provar a verdade das minhas palavras.

Zacharel passou a língua sobre os dentes.

—Posso. E concordo com seus termos. Meus anjos não estão aqui.

—Algum outro anjo?

—Não. Sou o único anjo que vai lidar.

Burden apertou os lábios, ponderou a situação, em seguida, assentiu.

—Isso é um pouco decepcionante. Esperava que o poderoso Zacharel apresentasse algum tipo de luta, no mínimo. Agora tenho que perguntar por que está tão calmo sobre isso. Sabia que não podia salvar Jamila. Sabia que estava trazendo a humana para a zona de perigo.

—E sabe que segundo nosso acordo, não estou obrigado a lhe dar essa informação.

—É verdade, mas tinha que tentar. Tenho certeza que entende — O demônio se inclinou para a frente e apoiou os cotovelos sobre a mesa. —Aqui está o que vai acontecer. Vou te mostrar seu anjo precioso, como concordei. Então, sairá do meu clube sem derramamento de sangue ou vai ficar e assistir como meus homens e eu gostamos de humanos.

O coração traiçoeiro de Annabelle falhou uma batida. Zacharel não ia embora. Não a deixarei ou deixarei que esses homens te machuquem. Mais que isso, não vai deixar que esses homens te machuquem.

Zacharel sorriu, mas era um sorriso cruel, cheio de gelo, cortado com uma promessa fornecer dor.

—Realmente acha que você e seus homens, ou até mesmo um exército de homens, poderiam me levar?

— Talvez sim, talvez não, mas sua Jamila vai morrer enquanto lutamos.

Zacharel encolheu os ombros, aparentemente despreocupado.

—Mostre-me o que prometeu mostrar.

Apenas a determinação de Annabelle para ver isso a deteve no local quando o pânico ameaçou dominá-la. Confiava em Zacharel. Certo? Mas estava tão frio agora que a neve podia estar caindo de suas asas. Basta lembrar, ele disse a todos para deixá-lo sozinho, o que devia contar para alguma coisa.

Burden bateu em algumas teclas no computador de alta tecnologia em sua mesa, em seguida, fez uma pausa. Seus olhos vidraram com satisfação.

—Tem certeza que quer ver isso? — Se Zacharel sentiu qualquer mau pressentimento no tom presunçoso do demônio, escondeu bem.

—Sim.

Ele fez o monitor girar.

Os joelhos de Anabelle quase falharam. A imagem na tela... Ah, misericórdia, a imagem. Jamila estava amarrada a uma cama, seu estômago pressionado no colchão ensanguentado e coberto de penas, suas costas uma bagunça de músculos rasgados e carne mutilada.

Estava viva, como Burden prometeu, mas alguém tinha cortado suas asas.

—É uma gritadora, um presente. — Burden disse, seu prazer palpável. Ele virou a tela para si e se reclinou em seu assento. —Acho que vou deixá-la se curar, e quando suas asas voltarem a crescer, removê-las uma segunda vez. E uma terceira.

Oh, não. Não, não. Não! Annabelle esteve lá e fizeram essa coisa toda, a submetendo e forçando. Não permitiria que o mesmo acontecesse à responsabilidade de Zacharel.

—Vai pagar por isso — disse ela.—Onde ela está? Diga-nos. Agora!

Ignorando-a, o demônio se dirigiu a Zacharel.

—É sempre um prazer fazer negócios com você, Zacharel, mas acredito que os termos de nosso acordo estão cumpridos e concluídos. Viu a prova que o anjo ainda vive, e em troca me presenteou com esta jovem humana maravilhosa. Vou manter minha parte do acordo, mais uma vez, e não tocá-la até que esteja fora do edifício. E se for um bom menino e sair sem nenhum incidente, serei o único a tê-la hoje. Se não, vou permitir que cada homem dentro do clube a tenha.

Ele acenou para Driana, que ainda estava sentada no sofá.

—Mostre a ele a saída.

— Eu? — A endemoninhada fêmea disse. —Mas estou...

—Mostre. A. Saída. — Embora falasse calmamente, não havia dúvida que Burden a machucaria se ousasse questioná-lo novamente.

—Sim, senhor. — Foi a resposta acovardada.

—Vá com eles. — Ele disse aos guardas. —Se ele tentar alguma coisa ou falar com ninguém, mate-o.

Mas Zacharel permaneceu no local.

—Por que me deixar ir embora sem, no mínimo, tentar me machucar?

Espere, espere, espere. Ele não ia dizer nada sobre deixá-la para trás? Não ia protestar, até mesmo um pouco? Provavelmente era apenas parte de seu plano. A qualquer segundo agora, ia explodir num herói espadachim e Burden seria o único a se esconder.

—Não me interprete mal. Gostaria de te matar, então matar sua pequena doce Jamila, mas então haveria um julgamento e quem tem tempo? Desta forma, não há nada que possa fazer, exceto lembrar do seu fracasso.

Zacharel parou por um instante, depois outro, em silêncio, duro. Annabelle esperou que ele agisse, que finalmente mostrasse ao asqueroso que havia consequências por agir desta forma. Exceto... que virou as costas e foi embora.

Ele ia voltar e atacar. Bastava assistir.

Driana abriu a porta. Os guardas saíram primeiro, parando fora da entrada para esperar Zacharel no corredor. Zacharel seguiu em seus calcanhares.

O pânico de Annabelle bateu às portas da sua mente, desesperado para escapar.

—Zacharel — ela disse numa voz fraca e trêmula.

Seus ombros ficaram rígidos, mas nunca se virou. Ia realmente deixá-la?

Impossível.

—Zacharel — ela rosnou.

Ele fez uma pausa. Sua cabeça virou, mostrando seu perfil. Ele não disse nada.

Driana passeou por trás dele.

—Vou cuidar bem de você, olhos verdes. Prometo.

Não faça isso, Annabelle silenciosamente gritou, mas ele não prestou nenhuma atenção. Mas... mas...

Driana a encarou, sorriu e acenou. A porta fechou com um clique doentio.

Os portões na mente de Annabelle balançaram, se escancarando para o pânico derramando através dela. Ele fez isso. A atraiu ali sob falsos pretextos. A entregou aos homens — inimigos que tentariam destruí-la — escolhendo a segurança de Jamila sobre a de Annabelle, apesar de suas palavras bonitas para Burden sobre a valorização de todas as suas responsabilidades de forma igual. A enganou. A usou.

Não há nada que possa fazer sobre isso. Agora não.

Agora tinha que encontrar uma maneira de sair disto.

Burden riu.

—E então somente nós dois. O que acha disso, menina?

Annabelle encontrou seu olhar com toda a ousadia a que pôde mostrar.

—Acho que é hora de acabar com isto. Você e eu, aqui, agora, o vencedor leva tudo.

Ele esfregou uma muito longa unha do dedo mindinho entre os dentes, antes de dizer:

—Vejo agora por que ganhou tanto interesse. Acho que admiro sua coragem, tola como é... e sei que vou submetê-la e apreciar. É o que vou fazer, antes de acompanhá-la até seu novo mestre.

—Ohhh, um novo mestre. Assustador. Por que não me mantém, ao invés disso? — Ela sugeriu. —Pode me levar para uma excursão pelo clube — posso dar uma joelhada nas suas bolas e correr. —Iremos conhecer melhor um ao outro e... Quem sabe o que mais.

—Querida é impossível me enganar. Eu sou...

A porta se dividiu ao meio. De repente as asas em volta dela protegeram sua visão da sala.

—Estou aqui. — disse Zacharel. —Só tinha que pegar os guardas fora do escritório.

Oh, doce misericórdia! Zacharel nunca teve intenção de deixá-la sozinha, percebeu, sempre teve seus melhores interesses no coração. Deveria ter vergonha de si mesma por imaginar o contrário, mas no momento estava simplesmente muito grata.

—Pensei... — Suas palavras foram cortadas quando o fogo da artilharia explodiu. O barulho horrível de metal contra metal e, em seguida, avançando através da carne e osso. Grunhidos e gemidos soavam. Choque e confusão dinamitavam por ela, a mantendo imóvel. A guerra eclodiu, mas tudo que Annabelle podia fazer era ficar lá, segurando a gola da túnica de Zacharel.     

Túnica? Sim, percebeu. As roupas de rua derreteram, voltando o drapejar fluído do tecido.

—Seus amigos? — perguntou ela.

—Sim. O timing deixa algo a desejar. Deviam ter estourado no escritório mais cedo. — Ele acrescentou mais alto.

—Ei — disse alguém. —Chegamos aqui o mais rápido que pudemos.

—Então precisa de mais treinamento. — Zacharel rosnou.

Annabelle lhe deu uma sacudida.

—O que posso fazer para ajudar? — Ela lhe devia. Porque realmente, tudo isso aconteceu por causa dela. Não queria machucar ninguém por sua causa. Uma pausa quando Zacharel analisou a sala.

—Não há necessidade de fazer qualquer coisa. Burden já está contido.

—É verdade. Acabamos, cara grande. Muito obrigado, por sinal — disse uma voz rouca que ela reconheceu.

Uma voz que ela nunca esqueceria, porque através dela tremia uma força natural. Claro, os aromas de champanhe e chocolate flutuaram para seu nariz, confirmando suas suspeitas.

O homem possuído pelo demônio da Promiscuidade estava aqui.

Annabelle teria assumido uma posição defensiva —ou talvez ofensiva, — mas Zacharel a segurava firme.

—Não termina até limpar a bagunça. — Ele anunciou duramente.

Espere. Estavam trabalhando juntos?

Não presuma o pior. Não desta vez. Resmungou, então.

—O que disser, bolo de anjo. — Disse uma mulher. — Tenho direito a dizer aos outros o que é para limpar.

— Kaia — um homem gemeu. —Você é uma moleca.

—Está apenas com ciúmes por não ter pensado nisso antes.

—É verdade.

Sons diferentes logo encheram os ouvidos de Annabelle. Algo sendo arrastado. Um corpo? Um saco de lixo sendo aberto. Coisas pesadas caindo dentro, indo ao chão. Resmungos de reclamação. Ela bloqueou cada um.

—Por que não me contou o seu plano?

—Porque os demônios podem saborear o medo.

—E ele precisava provar o meu para acreditar em você. — ela terminou por ele.

—Não necessariamente. Mesmo que esteja aprendendo a olhar além dessas emoções, precisava de suas reações, para ser honesto — Finalmente, as asas Zacharel baixaram.

Annabelle girou. Manchas de sangue cobriam as paredes e o chão, e se ela pudesse dizer a alguém, tentaria limpá-las de qualquer maneira. Fora isso, não havia sinal que a batalha aconteceu. Quatro guerreiros machos manchados de sangue e três mulheres estavam no centro da sala, cada um a estudando com ávido interesse.

Ela os teria estudado de volta, mas então viu Burden, ainda em sua mesa, seu rosto pressionado contra a superfície e uma lâmina equilibrada no centro de seu pescoço, entre dois sulcos da coluna vertebral.

Um homem com uma horrível cicatriz sustentava a lâmina com mão firme.

—O que quer que eu faça com ele, anjo?

— Meus homens virão buscá-lo. Temos perguntas, e ele tem as respostas.

—Disse que seus homens não estavam aqui. — Burden rangeu para fora.

Zacharel sorriu o mais cruel de seus sorrisos.

—E não estão. Ainda. Disse que não trouxe anjos comigo, e ao contrário de você, sou um homem de palavra. Mas não fiz nenhuma promessa sobre demônios, fiz? Permita-me apresenta-lo aos Senhores do Submundo.

 

Thane, Xerxes e Björn entraram no escritório, mas não disseram uma palavra, e não ficaram no cômodo. Recolheram Burden e o levaram. Todo mundo assistia, em silêncio.

Enquanto seus passos ecoavam, Zacharel apresentou Annabelle ao grupo que salvou o dia. A maioria era possuída por demônios, mas claramente Zacharel os conhecia, gostava deles — e não a deixaria feri-los. Lucien carregava a Morte. Strider carregava Derrota. Amun era detentor de Segredos e, claro, Paris, o cara que precisou de fogo para o cigarro, era possuído pela Promiscuidade.

O melhor que podia fazer era inclinar a cabeça para reconhecer que ouviu falar de seus nomes. Demônios eram demônios, não importava como os trabalhasse. Não queria nada com eles.

As mulheres não estavam possuídas, mas pareciam igualmente perigosas — se não mais. Kaia era uma harpia ruiva, independente do que isso significasse. Anya era uma linda loira estonteante e a deusa menor da anarquia, e Haidee era ... indubitavelmente alguma coisa, embora ninguém dissesse o quê.

A pele bronzeada de Haidee brilhava com saúde e vitalidade, um blush rosado em suas bochechas coradas e um sorriso iluminando seu rosto. Balançava os realces rosa em seu cabelo, seus braços eram cobertos com tatuagens, e usava um vestido adorável da Hello Kitty. Zacharel se recusou sequer a olhar em sua direção, sequer a reconhecendo, mas Annabelle lutou contra o impulso de ir até lá e abraçá-lo.

Por quê?

Uma pergunta melhor: Harpias, deusas, humanas com aparência de meninas de origem misteriosa, o que mais havia ali? O que mais Annabelle ignorava???

Um brilho de prata chamou sua atenção e Annabelle se abaixou para pegar... um punhal. Encantador! A batalha acabou sim, mas era melhor prevenir que remediar, considerando o que a cercava.

—Estava olhando para meus amigos, e agora está armada. Por que está olhando para meus amigos, humana... Garota... Pessoa? — A ruiva entrou no espaço pessoal de Annabelle, afirmando seu aviso ao subir na ponta dos pés para dar tapinhas no topo de sua cabeça. —Não se preocupe, posso adivinhar. Acha que porque estão possuídos, são pura maldade. Bem, notícia de última hora, boneca chinesa. Os demônios são maus, mas os caras da casa são como marshmallows. Sou o verdadeiro pesadelo aqui.

Annabelle se ergueu sobre seus 1,75m, elevando-se sobre a garota. Ela ergueu o olhar para Zacharel, que estava tão inflexível quanto uma grade de ferro, em silêncio. Perguntou-se se teria problemas se ela batesse em Kaia ali. Será que ninguém sabia a diferença entre chinesa e japonesa?

Ele deu um aceno negativo com sua cabeça.

—Nunca mexa com uma Harpia.

—Ainda não tenho ideia do que é uma Harpia. — Annabelle apontou.

—Uma máquina da morte, é o que é. — Kaia disse.

—Mas...

—Nada de mas, Annabelle — Zacharel olhou para a ruiva. —E, Kaia. Comporte-se.

—Muito bem. Mas só porque você de alguma forma transformou essa sombria noite num dia de luz brilhante, então vou obedecer firmemente. Quer saber como fez isso, hein, hein? Bom, vou te dizer — Ela mal parou para estourar uma bolha com seu chiclete. —Você costumava encher Lysander sobre o namoro com minha irmã querida, mas olhe para você agora. Está dando uma de Paris namorando uma Caçadora, não é, e eles são o pior dos piores!

Dando uma de Paris? Uma Caçadora?

Zacharel deve ter percebido a confusão de Annabelle.

—Os Caçadores são matadores fanáticos de paranormais. Fariam qualquer coisa, até mesmo destruir uma cidade inteira de inocentes, para atingir seus objetivos.

—Não sou uma Caçadora. — ela retrucou.

—Isso é o que todos dizem, querida.

Zacharel lançou um longo suspiro sofrido.

—Pare, Kaia. — Disse ele. — Annabelle ainda não descobriu que um homem não é o mesmo que o demônio que o atormenta, que um homem pode lutar contra o mal e vencer, e que muitas pessoas acreditam em agir sobre o que sentem e vêem ao invés de acreditar que podem ter mais, fazer melhor, como os Senhores. E não posso culpá-la. Só recentemente eu mesmo aprendi essa lição.

Assim, os Senhores lutavam contra o mal de seus demônios e ganhavam? Essa vitória devia custado um preço terrível, pensou ela, lembrando do número de batalhas que lutou e perdeu. O respeito por eles floresceu, e se forçou a deslizar cuidadosamente o punhal — apenas para perceber que Kaia envolveu a mão em volta do seu pulso, as garras afundando e atravessando sua pele, provavelmente até ao osso. Escaldante calor irradiava a partir dela.

—Você é muito quente. — Annabelle rangeu. Mais quente que as mãos de Zacharel às vezes eram.

A fêmea pequena sorriu descaradamente.

—Eu sei, tá! Mas minha irmã gêmea é muito mais quente, garanto.

Gêmea? Havia duas delas?

—Kaia — Zacharel começou, quando Annabelle disse:

—Solte-me, Pequena criança. Agora.

—Pequena criança. Bonito. Mas qual é a palavra mágica?

—Kaia — Zacharel e Strider disseram em uníssono.

—Não. Não é isso.

Annabelle deixou escapar uma grosseira:

— Vou chutar seus peitos, senhora, se não me soltar.

—Bingo! — Uma por uma, Kaia ergueu as unhas, soltando-a, deixando pequenos vergões vermelhos na pele de Annabelle.

—Acho que é a pessoa mais estranha que já conheci. — Annabelle reclamou.

—E você a mais doce. Então me diga. — Kaia disse, e estalou outra bolha. —Zacharel é um bom amante? Porque ganharei muito dinheiro se a resposta for não. Sim, tem mãos grandes, e realmente sabe o que fazer com elas num campo de batalha, mas já tentou brincar com ele? O cara é um ignorante. Acho que a falta de noção se estende até mesmo ao sexo.

—Uh... — De repente, todo mundo na sala estava olhando para ela. Incluindo Zacharel. —Ele é, uh, excelente? — Nunca se sentiu mais desconfortável.

—Oh, cara. — Os ombros de Kaia caíram.

Strider, o guardião do demônio da Derrota, gritou e agitou o punho no ar.

—Eu te disse, boneca. Eu te disse.

Kaia girou, perfurando-o com o olhar.

—O fato que ganhou uma aposta sobre a sexualidade de outro homem não é algo para se gabar, seu idiota.

Ele soprou um beijo.

—Você é sexy quando é uma má perdedora.

Ela se animou, afofou o cabelo.

—Claro que sou, mas o desafio a provar isso.

—Com muito prazer. — Os dois meio que pularam um para o outro, beijando-se como se a outra boca armazenasse uma fonte salvadora de oxigênio. Alguém achou aquilo bizarro? Aparentemente não. Uma conversa rápida e contínua se seguiu entre o resto dos homens.

Zacharel: —O Clube?

O guerreiro com cicatriz, o guardião da Morte: —Limpo.

Zacharel: —Os humanos?

O lindo Promiscuidade: —Ilesos, conforme solicitado.

Zacharel: —Demônios e possuídos por demônio?

A deusa da Anarquia juntou-se, agitando seu punho em direção ao teto como Strider tinha feito.

—Matei os mortos.

Zacharel: —Como?

Anya, fazendo beicinho: —Bem. Só mato mortos em minha mente. Tinha Lucien prendendo-os, como mandou. Feliz agora?

O grande guerreiro sombrio com olhos escuros disse algo através de linguagem gestual antes de lançar seu braço em torno da garota de cabelo rosa. Amun e Haidee estavam namorando... ou seja o que era chamado quando dois humanos estavam envolvidos?

Zacharel agarrou os ombros de Annabelle e forçou-a a encará-lo. Quando ela encontrou seu olhar, o resto da sala deixou de existir. Havia apenas seu anjo e seus olhos de esmeralda. Ele disse:

—Deixarei você aqui, com os guerreiros e suas mulheres. Não vão machucá-la, e não vai machucá-los.

Primeiro, ela experimentou uma nova onda de pânico — ele está deixando você de novo! — Então raiva — não precisa dele, pode cuidar de si mesma! — Então determinação. Quem melhor para ensinar a ela sobre os diferentes tipos de demônios que os demônios em si? Não foi por isso que Zacharel tinha se transformado num durante sua lição de luta em primeiro lugar? Embora... podia realmente acreditar em qualquer coisa que essas pessoas dissessem?

—Bom, que seja — disse ela, tentando um tom leve. —Então, onde vai? — Ele ignorou a pergunta.

—Prometa.

Ela suspirou.

—Não vou ferir seus amigos, a menos que me ataquem. Juro. Agora, onde está indo?

—Para baixo. Não vou deixar o clube sem você, e ninguém nesta sala vai atacá-la. — disse em voz alta, para que todos pudessem ouvir. —Vão mantê-la segura, colocando suas vidas em risco, se necessário. Mesmo que não confiem em você. Não é mesmo?

Silêncio.

—Não é mesmo? — Ele gritou.

Uau. Ela nunca o ouviu levantar a voz assim.

Murmúrios de acordo ecoaram.

—Só para você saber, eu sou de confiança. — ela resmungou.

—Você? — Ele lhe deu uma sacudidela. —É muito ruim não dizer o mesmo sobre mim. Você pensou que eu queria trocá-la e a abandonaria aqui. Realmente pensou que eu a deixaria para Burden e seus homens feri-la, para salvar outro anjo.

A raiva irradiava dele, envergonhando-a.

—Não era isso que queria que eu pensasse?

—Sim, mas não tinha que fazê-lo.

—Bem. Humm. Talvez eu não o fiz. Quer dizer, realmente não me lembro de alguma vez dizer nada sobre o plano idiota que se recusou a compartilhar comigo até ser tarde demais.

— Pensou isso. Não há como negar.

Estar com um homem incapaz de dizer uma mentira — bastante impressionante. Estar com um homem que podia provar quando você mentia — uma grande droga.

—Desculpe, certo? Nunca tive alguém me protegendo antes. Isso é novo para mim.

Ele se aproximou de seu rosto, seu hálito quente se misturando com o dela.

—Realmente sente muito por suas crenças erradas, ou está apenas pesarosa por que deduzi a verdade? Pense nisso enquanto estamos separados. E quando vier me ver, me peça desculpas de novo e diga. — Com isso, saiu da sala, Amun e Haidee seguindo atrás dele.

Annabelle estudou os ocupantes remanescentes. Imediatamente todos giraram inocentemente afastados, alguns até mesmo assobiando sob sua respiração, outros verificando suas cutículas.

Isso seria divertido.

E sim, isso era sarcasmo no seu melhor.

 

Eu mereço isso, Zacharel pensou sombriamente. Merecia uma mulher que lhe daria tanta dificuldade e sofrimento quanto deu à sua Divindade. Mas seu novo exército deveria lhe ensinar esta lição, e não sua amante.

E era sua amante, apesar do fato que ainda não tinham consumado seu relacionamento. Não toleraria nada menos. Mas oh, quanto perdeu nos dias de ignorante felicidade, quando não conhecia o prazer encontrado num corpo macio e quente. Quando não conhecia a força motriz da raiva.

Sim, raiva.

A raiva era como medo, e não tinha que agir sobre ela. Podia ignorá-la. Havia ignorado, na maior parte. Mas a fissura dentro de seu peito estava perto de romper. Annabelle tinha duvidado de sua integridade, e queria tanto espancá-la. Talvez gritar com ela. Em vez disso, se encolheu pela ideia de ferir seus sentimentos e fazê-la chorar, e por isso não fez nada.

—Tenho um pequeno conselho para você — Haidee manteve o ritmo ao lado dele. Uma vez Caçadora e detentora do Ódio, agora carregava uma pitada de amor de Hadrenial, tudo por causa da decisão de fração de segundos de Zacharel para salvá-la.

Um erro, talvez. Olhar para ela agora machucava. Mas queria que ela vivesse, sua perda seria demais para Amun suportar, a dor do guerreiro lembrando Zacharel da sua própria, depois da morte de Hadrenial, e “compartilhar o amor” como os seres humanos gostavam de dizer, foi o único caminho.

—Não tenho nenhuma necessidade do seu conselho — disse ele.

Desceram batendo a escada VIP até a parte principal do clube, onde Thane, Xerxes e Bjorn esperavam com Axel. Axel, outro dos guerreiros de Zacharel.

—Ouvi dizer que é tempo de festa — disse ele com seu habitual sorriso irreverente.

—Só se você considerar a tortura de alguém uma festa.

—Uh, não é essa a definição clássica?

Até Jamila ser encontrada, este homem seria seu substituto. Talvez não a escolha mais sábia, Zacharel pensava agora.

Concentre-se. Burden estava preso à parede com adagas. Um pedaço de tecido enchia sua boca, mas seu olhar vigilante falava por ele. Odiava Zacharel, e daria qualquer coisa para matá-lo.

Logo, Burden gostaria de matar a si mesmo. Os demônios não podiam ser mortos se possuíam um ser humano, mas uma das armadilhas era que podiam ser facilmente amarrados, e podiam sentir dor. Montes e montes de dor.

—Só um segundo. — Haidee disse, dando um passo na frente de Zacharel para reivindicar sua atenção. —Decidi te dar meu conselho incrível de qualquer maneira, porque te devo uma. E antes que decida duvidar de mim, não importa o que eu digo, vou dizer que Amun leu a mente de sua Annabelle.

Amun, o guardião de Segredos. Ele podia falar, mas não o fazia, porque todos os segredos que descobriu ao longo dos séculos se derramariam de seus lábios espontaneamente.

—Não prejudicou a mente de Annabelle? — Ele exigiu. Amun podia fazer mais que ler mentes, podia roubar lembranças, as arrancando de seus hospedeiros. O guerreiro balançou a cabeça, em seguida se virou. Não havia necessidade de intérprete. Ele não gostava que Zacharel questionasse sua honra.

—Diga-me o que quer, Haidee, mas faça isso rápido. — Zacharel olhou para ela.

Sempre gentil, ela segurou seu rosto.

—Posso ler a mente de Amun, o que significa que sei o que ele sabe, e que ele sabe é que sua mulher precisa ser uma das coisas mais importantes em sua vida. Acima de seu trabalho, com certeza. Seu irmão virou as costas para ela, e seu namorado a abandonou. Ela não experimenta amor incondicional há muito tempo, e vai esmagá-la se a mantiver sem se comprometer com ela.

—Já a comprometi — protestou ele. Depois do que fizeram na cama, ele mais do que se comprometeu. Decidiu mantê-la. —Além disso, seu espírito é forte. Ninguém pode. — Eu poderia, ele percebeu. Annabelle confiou a ele sua maior fraqueza — até que ele se afastou, — algo que ela não faria se alguma parte de seu coração não estivesse envolvida. Estava se apaixonando por ele, assim como ele estava se apaixonando por ela.

Se não fosse cuidadoso com ela, a machucaria pior do que ela já foi ferida, com compromisso ou não.

—Vou considerar suas palavras.

—Bom. Se não o fizer, vou envolvê-la com Kane. Ou Torin. Gosto dela, e ambos os homens precisam de uma boa mulher. — Zacharel apertou os dentes para ela antes de perseguir por toda a pista de dança até seus homens e sua presa.

Vejo que os Senhores vieram através de você, Thane disse dentro de sua cabeça.

—Não há necessidade de esconder nossas palavras agora. — Ele respondeu em voz alta. —Amun pode ouvir o que pensamos.

Horror desceu sobre as expressões de Thane, Xerxes e Björn. Axel mexeu as sobrancelhas para Amun e disse:

—Gosta do que ouve? Estou tendo pensamentos especiais só para você.

Amun fez uma careta.

Antes que a guerra pudesse irromper, Zacharel disse:

—Amon não vai bisbilhotar, e enquanto mantiver sua mente em branco, não vai ouvir nada de você — Amun acenou com a cabeça para apoiar sua afirmação.

Após uma longa pausa, três dos homens concordaram, embora apenas dessem um aceno rígido de suas cabeças. Axel soprou um beijo para Haidee.

Maravilhoso.

—Agora, então. Vamos fazer o que viemos fazer — Zacharel estendeu a mão e retirou o tecido da boca de Burden.

—Você parece com ele, sabe. — disse o demônio, sem preâmbulo, presunçoso, tão presunçoso. —Me pergunto... gritará como ele?

Não mordeu a isca.

—Quem? — Viu-se perguntando, apesar do fato que sabia a resposta. Certamente, o demônio não se atreveria a ir até lá. —Quem mais?

Seu irmão. Burden ousara, sugerindo que ele estava lá quando Hadrenial foi torturado. Sabia o que aconteceria ao invocar um demônio dessa forma. E agora, tudo que podia pensar era o fato que era possível. Hadrenial nunca disse os nomes de seus algozes.

Fúria se espalhou como uma nova vida em seu peito. Como seria fácil afundar uma lâmina em sua vulnerável garganta humana. O corpo morreria, mas Burden seria libertado, capturado e devolvido ao inferno.

Talvez fosse isso que Burden queria, no entanto. Provocar Zacharel até que reagisse violentamente, permitindo que o demônio levasse seus segredos com ele.

Ele olhou para Amun. Sua habilidade para descobrir a verdade era uma das razões que Zacharel especificamente solicitou a presença do guerreiro aqui. Oh, Zacharel podia sentir uma mentira, mas desta forma, não teria que se preocupar com um interrogatório, não teria que arriscar perturbar a Divindade. Amun podia simplesmente cavar dentro da mente do demônio e encontrar seus segredos.

Seus pensamentos são uma bagunça confusa, Amun gesticulou. Uma mistura do ser humano e os seus próprios.

—Preciso saber onde está mantendo Jamila, uma guerreira minha. Também preciso saber para quem está trabalhando. — Zacharel disse. —Alguém disse a ele para caçar e torturar Annabelle, e quero saber quem é esse alguém.

Esteve pensando bastante sobre a anjo, Jamila. Lamento ser aquele a dizer isso, anjo, mas ela já está morta.

Apesar de ter experimentado a verdade, Zacharel lutou contra ela. Dez minutos atrás, ele nos mostrou sinal de vídeo dela. Ao vivo.

As imagens foram gravadas anteriormente. Amun deu um tapinha no ombro dele. Realmente sinto muito, mas já a matou. Seus ferimentos eram muito graves para se recuperar.

Por um momento, seu coração bateu como um martelo contra as costelas em vez do órgão responsável por sua vida. Tentou se confortar com o conhecimento que o sofrimento de Jamila acabou, mas não ajudou. Estava morta, partiu, porque ele falhou em protegê-la.

A vergonha e a culpa que sentia... eram piores que ter balas no peito, pele, músculo e osso devastados. A Divindade o penalizaria, é claro, e aceitaria sem protestos. Tudo que lhe fosse infligido, merecia.

Vou sondar sua mente sobre o outro, seu líder, Amun gesticulou, mas isso pode levar algum tempo.

Tempo era a única coisa que Zacharel não tinha. Frustração se juntava à gama de emoções, arranhando-o.

—Faça o que for preciso, exceto a morte. E quando descobrir, Lucien já terá me localizado.

—Enquanto isso — Haidee disse, dando um passo à frente. Gotas de gelo brotaram de seus poros, transformando-a numa escultura viva. —Vou ajudar meu homem aqui, não se preocupe.

—O-o que é ela? — Burden gaguejou com súbito horror.

—Ela é exatamente o que você merece. — Zacharel rangeu. Haidee podia congelar um demônio até seu núcleo, e para os seres que viviam entre as chamas do inferno, não era uma sensação agradável. Os gritos de Burden ecoariam nos dias vindouros.

Ou não.

Quando ele abriu a boca para soltar o primeiro, Haidee traçou a ponta do dedo entre as extremidades de seus lábios. O gelo se espalhou de uma orelha a outra, silenciando-o. Em qualquer outro momento, Zacharel ficaria para assistir. Desta vez, dispensou seus homens e disse a Amun:

—Se alguma vez você ou seus irmãos quiserem ficar livres de seus demônios, venha me ver. Descobri como posso ajudar.

Com isso, se afastou para pegar sua mulher.

Havia mais um lugar onde podia ir atrás de respostas.

 

Thane e seus rapazes passaram o resto do dia procurando pelo espírito de Jamila, o que se revelou infrutífero, procurando a prisão onde seu corpo foi mantido, determinados a queimá-la até o chão. Mas Burden a escondeu muito bem, pois não encontraram nenhum sinal do edifício nos céus ou na terra.

A necessidade de salvar o que restou dela era forte em Thane, como era a fúria e um sentimento de impotência. Cada minuto gasto cuidando de um demônio danificava seu espírito, alma e corpo, e odiava que Jamila morresse sem um único raio de esperança.

Não trabalhou com ela muito tempo, mas gostava dela, e admirava sua força. Se vivesse para ser libertada, a experiência a teria mudado e não para melhor, mas não conseguia encontrar consolo nisso.

Zacharel culpava um Alto Senhor mexendo os pauzinhos para Burden, e estava a caminho de falar com alguém que podia saber exatamente quem era esse Alto Senhor. Por agora, não havia mais nada que Thane pudesse fazer. Precisava de uma distração.

Precisava de uma nova amante.

Vagava pela sala principal de Downfall. Viu guerreiros e portadores da alegria se misturando, bebendo e rindo. Nem tudo era diversão e brincadeiras, no entanto. Em cantos sombrios, vampiros bebiam de vítimas dispostas. Algumas Harpias ocupavam lugares no bar. Uma shifter Fênix que se parecia com a que já possuíra girava na pista de dança, gesticulando com o dedo para ele, mas a ignorou. Sua Fênix não havia se recuperado de suas paixões ainda, e a teria ao invés de uma de seus parentes. Se tomasse outra, não teria permissão para tocar a primeira, não importa o quanto pagasse.

A Fênix era possessiva — e egoísta como os outros de sua raça — assim, até que ela estivesse pronta para ele, tentaria outro tipo de criatura.

Várias outras fêmeas o convocaram, mas as ignorou também. Hoje à noite queria alguém que pudesse sobrecarregar seus sentidos e fazê-lo esquecer seus fracassos do dia. Queria algo diferente das outras que já tivera.

Descobriu que alguém travava uma conversa com uma sereia macho. Thane fechou a distância e simplesmente se ergueu ao lado de sua mesa, esperando ser notado. Só demorou alguns segundos para que o homem olhasse para cima.

—Desculpe... Oh Thane — o sereia macho disse, sua voz tão linda quanto uma sinfonia. —Tem alguma coisa errada?

Ele cruzou os braços sobre o peito.

—Ela está comprometida esta noite. Você pode encontrar outra pessoa.

—Mas... — Mais uma vez o sereia se conteve. Olhou atrás de Thane para os guardas deixando seus lugares nas paredes para flanquear seus lados. Mesmo que o homem soubesse que Thane não podia matá-lo sem ter consequências, o mesmo não podia ser dito sobre os guardas. —Está certo. Eu vou.

A cadeira rangeu sobre o chão de azulejos quando o sereia se endireitou e afastou-se, cuidando para não roçar Thane. Thane facilmente deslizou no lugar.

Cario, uma mulher de origens questionáveis ​​que frequentava seu clube, muitas vezes ultimamente, olhou para ele. Thane mantinha o controle sobre todos os frequentadores.

—Eu gostava dele — disse ela.

Quando sempre deixava o clube sozinha?

—Ele nunca teve uma chance com você e sabe disso — Ao invés de derreter sob o encanto de sua voz, ela fez uma careta para ele.

—Não pode saber disso.

—Sei que você vai gostar mais de mim.

—Tampouco não tem como você saber disso.

—Espere. Desculpe-me, não fui claro. Isso não foi uma sugestão, mas uma ordem.

Finalmente, a reação que ele ansiava. Lentamente, ela sorriu. Ela se recostou na cadeira e cruzou os braços sobre o peito, imitando sua posição anterior.

—Por que eu gostaria de um homem que se refere a mim como uma mulher de origens questionáveis​​?

—Não me refiro a você como tal.

—Não, em voz alta não, mas em sua mente.

Thane franziu a testa. O único ser que devia ser capaz de ler sua mente era Zacharel, porque Zacharel era seu comandante. E depois, claro, o guardião de Segredos, Amun — Ainda assim Thane não gostava. Mas uma mulher? Nunca!

Podia ir embora, supôs. Devia ir embora. Dois leitores de mente já era muito para uma vida inteira, o que dirá num único dia. Mas ficou. Ninguém mais prendeu seu interesse.

Cario não era bonita no sentido clássico. Não era bonita, em qualquer sentido, realmente, mas era forte, com o cabelo platinado na altura do queixo, traços fortes e músculos definidos. Ele apreciaria vê-la se submeter.

—Não posso adivinhar sua raça — ele disse finalmente. —Parece humana, mas tem o comportamento de uma Harpia. Portanto, suas origens são de fato questionáveis. — Seu sorriso derreteu numa carranca.

—Vocês anjos e sua sinceridade. É além de chato.

—E ainda assim nunca terá que perguntar se realmente quero dizer o que digo — Ele sinalizou ao garçom por outra bebida para ela. Uma dose de ambrosia misturada com vodka, pelo cheiro. O copo salpicando chegou poucos minutos depois.

Ela bebeu o conteúdo e bateu o copo sobre a mesa entre eles.

—Humm, é muito bom.

—Somente o melhor para minhas amantes.

—Não sou sua amante.

—Mas poderia ser.

Ela revirou os olhos.

—Quer saber o que é melhor, Cario, numa mulher de origens questionáveis​​?

Uma sobrancelha escura se arqueou, a expressão de alguma forma suavizando as feições.

—Se disser seu pênis, vou vomitar — Ele deu de ombros, e tentou não sorrir.

—Então não vou dizer.

—Bem, não vou me envolver sexualmente, só para que saiba. Não com você, e nem com algum de seus amigos. Seus gostos são lendários, e nada semelhantes aos meus.

— Você faria.

— Gostaria se experimentasse, blá blá blá, mas a resposta ainda é não. Mas aqui vai uma pergunta para você — Sua cabeça se inclinou de lado, como se ela se perdesse no pensamento. —Se eu disser que sim, que me envolveria com um de vocês, quem escolheria? Você ou um de seus amigos? Talvez a resposta certa possa mudar minha opinião.

Ele imediatamente se excluiu da corrida. Podia precisar da distração, mas os rapazes precisavam mais e sempre, sempre, colocava suas necessidades acima das dele.

Quando se separaram ao chegar ao clube, Bjorn ostentava avermelhados olhos e linhas de tensão ao redor da boca. Podia usar uma liberação. Xerxes se absteve de sexo na noite passada, e apesar dele não gostar de se envolver com toques, ainda precisava do contato. E dos dois, Bjorn tinha mais facilidade em escolher — e ganhar — uma fêmea.

—Assim vai ser Xerxes. Muito bem, aceito. Ficarei com ele. — Cario disse com um aceno de cabeça, e havia um brilho em seus olhos. Um de intriga e antecipação, e ele pensou que talvez ela houvesse desejado o anjo o tempo todo e essa era a razão pela qual vinha aqui com tanta frequência.

Tão feliz como estava com sua suposta mudança de atitude, ele apertou os molares.

—Gostaria que ficasse de fora da minha cabeça.

— Isso é legal — ela respondeu, e ele sabia que não planejava parar.

Bem, então, se não podia mantê-la fora, talvez pudesse fazê-la se lamentar pelo que ouviria.

Por que quer Xerxes? O viu de longe e se apaixonou por ele? É por isso que vem para cá com tanta frequência? É por isso que nunca vai para casa com outro homem? Certamente percebe o quão impossível é esse amor.

—Cale a boca — ela retrucou. —Eu não o amo.

—Deve sentir alguma coisa. Certamente se inscreveu para o sexo bastante rápido. — Ele quis dizer sem nenhum desrespeito, estava apenas apontando outra verdade, bem como expressando sua curiosidade. Além disso, era tão fácil quanto ela e não tinha espaço para julgar.

—Eu não vou falar sobre ele.

—Vai tentar machucá-lo?

—Não. Nunca.

Verdade. Num movimento fluido, ele se levantou e estendeu a mão.

—Vamos, então. — Ele a levaria para Xerxes, então ele e Bjorn beberiam até um estado de estupor.

Cario hesitou apenas um minuto antes de entrelaçar seus dedos. Ele a puxou em pé e a conduziu para fora da sala, subindo as escadas, passando um guarda após outro em seu corredor pessoal, onde o luxo se misturava com conforto.

—Nunca estive aqui — disse ela, seu tom não deixando nada transparecer.

—Nem nunca vai estar novamente.

—Uma coisa única, hein?

Para ela?

—Sim — Uma leitora de mentes seria tolerada apenas tempo suficiente para o clímax ser alcançado.

Xerxes, assim como Thane, tinham as emoções mais suaves lançadas fora deles. E um relacionamento contínuo entre dois seres endurecidos como Xerxes e Cario nunca poderia funcionar.

Os dois matariam um ao outro. Embora... Se um dos endurecidos fosse destruído...

Olhe para Zacharel. Depois de frio como gelo, agora queimava em brasa, colocando Annabelle e seu bem-estar acima do seu.

A entrada para sala de Thane se abriu, os sensores reconhecendo sua identidade. Bjorn deve tê-lo visto na parede de monitores, porque o guerreiro estava de prontidão, com duas bebidas na mão.

—Onde está Xerxes? — Perguntou Thane, aceitando um dos copos e bebendo todo o conteúdo.

O olhar de Bjorn deslizou sobre Cario, e ele acenou com aprovação.

—Verificando suas responsabilidades.

—Vou pegar McCadden e enviar Xerxes para você — Ele deu a mulher um empurrãozinho para Bjorn e entrou no salão, fechando a porta atrás dele. No final do corredor ele espreitou. A porta de Xerxes estava fechada, mas as vozes acaloradas escorriam para fora.

— Me trancar. Estou cansado disso!

A voz era desconhecida para ele, o que significava que o orador era McCadden.

—Seus sentimentos pouco importam. Não me disseram para fazer você feliz. Disseram-me para mantê-lo seguro e fora de problemas.

—Bem, eu disse. Vou deixar os Senhores do Submundo sozinhos. Vou ficar longe da minha deusa.

—Ela não é sua deusa. — gritou Xerxes.

—Ela é! Apaixonei-me por ela. A desejo e sei que ela anseia por mim.

—E isso é exatamente o motivo pelo qual vai ficar aqui, neste quarto.

Um palavrão sombrio foi lançado, e depois o som de corpos lutando eclodiu. Oh, não, não, não. McCadden pagaria por se atrever a desafiar Xerxes. E se o guerreiro vomitasse após isto...

Com a mandíbula apertada, Thane abriu a portas — por que elas se abriam automaticamente apenas para Xerxes, — mas parou quando viu o resultado da briga.

Xerxes tinha McCadden preso, uma mão no pescoço do cara, a outra segurando seus pulsos acima de sua cabeça. O guerreiro estava respirando pesadamente, olhando nos olhos de McCadden com determinação.

—Vai se render?

—Nunca.

—Tolo.

—Não, apenas provando um ponto. Agora saia de cima de mim. — McCadden soltou. —Agora!

Xerxes pulou do homem com um rosnado baixo. Ele passou a mão pelos cabelos, mas não vomitou.

—Que ponto estava tentando provar?

—Que não pode me forçar a fazer nada.

—Eu posso e faço. Eu vou.

—Se pensa assim, então está tão iludido quanto afirma que estou sobre minha deusa.

Thane não tinha certeza de como Xerxes podia tolerar o toque do outro, quando todos os outros o incomodavam.

—Posso interromper? — Perguntou ele. Xerxes se virou rapidamente para enfrentá-lo, rubor inundando seu rosto.

—Vou espanca-lo até a submissão, se precisar. — ele murmurou.

—Tanto faz. — McCadden se afastou e bateu a porta do quarto atrás dele.

Thane arqueou uma sobrancelha, mas não mencionou nada sobre o desafio do Caído.

—Encontrei uma mulher, meu amigo.

Xerxes lançou seu olhar para os pés, escondendo qualquer emoção que surgiu nos olhos vermelhos.

—Hoje não. Estou muito cansado.

—Mas...

—Não. Não posso. Simplesmente não posso.

Alguma coisa estava acontecendo com ele. Algo mais que o habitual.

—Vou dá-la a Bjorn, então — Um aceno conciso do guerreiro.

Ele devia sair. Thane sabia que devia sair, mas não tinha coragem de abandonar seu melhor amigo. Quão atormentado Xerxes parecia. Tinha que haver algo que pudesse dizer para ajudar.

—Eu apreciaria companhia. Vem se juntar a mim?

—Eu... Sim — Ele lançou um olhar sobre o ombro para a porta de McCadden. —Tudo bem.

Cortaria a si mesmo antes de recusar. Xerxes o amava demais para negá-lo. Thane sabia que seu amigo preferia ficar aqui, tentando conquistar o voto de comportar-se do anjo caído, mas não tinha certeza se era sábio. Os dois lutariam de novo, e como Xerxes estava no limite, podia fazer algo que ia se arrepender. Como matar a primeira pessoa que tinha... não amizade, não era a palavra. Talvez... tolerado, desde sua tortura.

—Eu te amo, sabe. — disse o guerreiro no meio do corredor. —Não importa o que, eu te amo.

— Como eu te amo.

Quando Thane entrou de novo em seu quarto, ficou surpreso ao encontrar Cario e Bjorn em frente um do outro, silenciosos, com os punhais cruzados.

De uma cena quente para outra. Bem, certamente encontrou a distração que desejava, que não teve.

—Algo errado? — Perguntou Thane.

Ambos jogaram-lhe uma carranca, mas apenas Cario respondeu.

—Não. Nada. Apenas desfrutando... da sagacidade do seu amigo... — Seu olhar parou em Xerxes. Ela lambeu os lábios, passou de um pé ao outro. —Olá — disse ela, a voz agora um sussurro cintilante.

Seu amigo não teve nenhuma reação.

O gosto amargo de sua mentira chamou a atenção de Thane. Ela não gostou nada. Fazendo careta, ele caminhou até o bar e encheu três copos com uísque de malte. Pegou o seu e levou aos amigos os dele, sabendo que odiavam o sabor sujo da mentira tanto quanto ele. Aceitaram com gratidão.

—Não posso ficar com essa criatura. — disse Bjorn, deixando claro seu desgosto.

—Você nunca esteve no menu. — Ela respondeu acidamente, contemplando ainda Xerxes. Tão resistente quanto parecia no bar, agora parecia uma menina pequena ansiosa no Natal, pronta para abrir seus presentes.

—Que dia abençoado este acabou por ser, então. — disse Bjorn secamente.

—Como meninos como você no café da manhã. Acredite, não vai querer mexer comigo.

Bjorn foi rápido para rosnar de volta.

— Na verdade, não há mais nada que prefira fazer do que mexer com você. E duvido que tenha comido tanto quanto se deleitado em seus cadáveres em decomposição.

Ela perdeu o entusiasmo. Na verdade pareceu insultada.

—Não faço banquete dos mortos.

—Tem certeza disso?

Seu cotovelo foi atrás, em seguida, golpeou na frente. Se Bjorn não possuísse reflexos incríveis, ela teria quebrado seu nariz. Como era, foi capaz de pegar seu punho no ar, evitando qualquer dano.

—É uma fracote. — disse Bjorn com mais que desgosto. Nojo agora se ligava à superioridade convencida.

—É mesmo? — Ela bateu na testa na dele, e desta vez não pôde evitar. Um grunhido saiu quando a soltou. Ele oscilou em seus pés. A raiva cresceu dentro de Thane.

—Não pode ferir meus amigos, fêmea. Nunca. Me disse que não o faria, e ouvi a verdade em sua reivindicação.

O nariz foi para o ar.

—Devo ter mentido.

Não. Ele perceberia isso. Mas era evidente que ela mudou de ideia.

—Vai sair agora. — disse Thane. Como se isso ainda estivesse em questão. Ela teve sorte, ainda estava viva. —Vou acompanhá-la para fora.

—Me acompanhar como uma quantidade de lixo? Acho que não. — Ela girou nos calcanhares e fixou nele o ardor de sua carranca. —Eu mesma me mostrarei a saída.

— Sinta-se livre. — Ele se afastou de lado.

Ela lançou a Xerxes outro olhar, como se esperasse que ele fizesse ou dissesse alguma coisa. O guerreiro não fez. Finalmente, passou por Thane, logo após Xerxes — com cuidado para não tocá-lo. A porta bateu fechada atrás dela.

Quantas portas seria forçado a substituir antes desta noite acabar?

Manteve o olhar nos monitores, garantindo que ela, de fato, deixaria o clube. Uma chamada rápida, e acrescentou seu nome à lista de pessoas que não teriam permissão para retornar.

—Há algo que eu possa fazer por você? — Ouviu Bjorn perguntar a Xerxes.

—Não — A única palavra soava como se fosse empurrada através de uma caverna de vidro quebrado.

—Minhas desculpas pela pobre escolha. — Thane disse. —Se quiser alguém, eu posso...

— Não! — disseram em uníssono.

Bastante justo.

—O que ela disse para você depois que eu saí? — Perguntou ele.

Bjorn massageava a parte de trás do pescoço.

—Ela é uma leitora da mente.

Os olhos de Xerxes se arregalaram quando recuou, em direção à porta, como se quisesse caçá-la e matá-la por tal habilidade.

—Eu sei — disse Thane. — Achei que era um preço que valia a pena pagar por uma hora de seu tempo. Além disso, não ia conseguir muito de nós. Apenas pensamentos sexuais — Os olhos de arco-íris brilharam com raiva sobrenatural, e Bjorn estalou:

—Ela mencionou o que aconteceu conosco. Sabia todos os detalhes.

—Impossível — Apenas três deles sabiam o pior das informações, e não havia nenhuma maneira que ela pudesse ter desenterrado algo tão sepultado profundamente, mesmo com semanas de contato constante.

—No entanto, ela sabe.

Devia tê-la matado. Thane pegou o telefone pela segunda vez e disse ao vampiro, no outro extremo:

—Mudei de ideia. Se a mulher chamada Cario retornar, não a mande embora. Detenha-a. — Ele bateu o receptor de volta em seu berço e lutou por calma. —O que devemos fazer com o resto da noite? — Não passavam uma noite sequer sem um deles estar com uma mulher há anos, mas agora mais que nunca, estava desesperado por uma distração.

—Quero discutir formas de resgatar o corpo de Jamila para que possamos dar-lhe um adeus apropriado. — disse Xerxes. De ombros caídos, Bjorn resmungou.

—Se há algo que resta dela.

—Não saberemos até encontrá-la. — Thane disse. —Temos que procurar em todos os esconderijos de demônio possíveis.

—Mas vamos colocar nossas vidas em risco por uma mulher morta. —Bjorn foi rápido em acrescentar. Procurar esconderijos era como foram capturados todos aqueles anos antes.

—Algumas vidas. De todas as maneiras que contam, já estamos mortos. — Xerxes respondeu suavemente.

 

Annabelle andou de um lado ao longo do seu mais novo quarto de hotel, enquanto Zacharel se deitava preguiçosamente na cama. Depois que ela se desculpou (e estava falando sério), ele voou pelo mundo todo. Dias se passaram, quase todo esse tempo passaram voando enquanto se assegurava que nenhum demônio os seguia e ele merecia um descanso. Mas permanecer inalterado enquanto ela pirava? Não era legal.

— Estamos em Denver. — Ela disse. — Apenas alguns minutos da casa do meu irmão. — Foram lá primeiro, mas não havia ninguém em casa. Uma bênção ou uma maldição, não tinha certeza.

— Sim.

É claro que isto era tudo que ele ia dizer, o idiota. Por que não estava dizendo que ficaria tudo bem, que seu irmão daria boas-vindas de braços abertos e ela sairia muito mais feliz do que quando chegou?

— Vou vê-lo, falar com ele. — E perguntar sobre os dias antes do assassinato dos seus pais. Dedos frios de medo correram pela sua espinha. Poderia fazer isso? Teria coragem? Ela podia enfrentar demônios sem problemas. Mas seu irmão?

As últimas frases em sua última carta brincaram em sua mente.

Nunca mais quero falar com você. Você levou as únicas pessoas que amei e nunca te perdoarei por isto. Pelo que me diz respeito, você pode apodrecer no inferno.

— Ele não vai nos ajudar. — ela adicionou, seu tom inexpressivo.

— Ele vai. Agora ouvirei você dizer isso.

Não vou suspirar.

— Isto é aquela coisa de fé?

— Sim.

— Certo. Ele vai. — Ela deu uma olhada de relance para seu anjo e... parou de se mover. Ele tirou totalmente seu fôlego. Cabelos escuros despenteados, olhos verdes iluminados de desejo.

Desejo. Ele tinha desejo. Por... mim?

Um fogo decadente a consumiu em segundos, queimando-a. Lembrou-se de quanto seu toque foi bom antes e como era quente, e oh, misericórdia, queria sentir aquelas coisas novamente…

— Vou manter nossa barganha. — ela soltou.

O peito dele se acalmou como se ela tirasse sua respiração, e suas mãos se achataram no edredom.

— Não posso detê-la.

Espere.

— Quer me deter? — Ela praticamente gritou.

— Não. Mas acho que está muito vestida.

Borbulhou uma risada furtiva e provocadora do anjo.

— Bem, então vejamos o que posso fazer sobre isto. — Tremendo, ela estendeu as mãos para as lapelas do roupão do hotel que colocou depois de tomar banho e o deslizou de seus ombros. O cabelo cascateou no lugar, agradando sua pele nua e seu corpo ficou tenso.

— O resto, querida. — Um zumbido de excitação veio dele, atraindo-a, sempre a atraindo. — Tire o resto.

Ele a queria nua, ela percebeu. Vulnerável. Sua para fazer o que desejasse. Só que ela concordava inteiramente com isto.

Ela enganchou os dedos nas extremidades da calcinha que comprou na loja de presentes, hesitou só um instante, então empurrou o minúsculo pedaço de pano pelas pernas abaixo. Requereu um esforço enorme se endireitar e manter seus braços dos lados, em vez de em suas curvas. Ela estava certa, mas também nervosa sobre sua reação.

— Você é tão bonita, Annabelle. Uma obra de arte. — Lentamente Zacharel se acocorou, suas asas se esticando atrás dele. Ele tirou seu roupão e engatinhou até a beirada da cama.

Oh, bebê. Ele era a obra de arte. Cada polegada de seu corpo era recortada por músculos duros e nervos potentes. A pele acariciada pelo sol brilhava com a luminosidade de diamante moído. Mas…a mancha preta em seu tórax, bem acima de seu coração se espalhava, pequenos riachos saindo em várias direções diferentes.

Não era uma tatuagem, não podia ser.

— Zacharel. — ela disse, sua preocupação por ele obscurecendo seu desejo.

— Não tem nada a temer de mim por estarmos sozinhos.

Ele compreendeu mal sua preocupação.

— Zacharel…

— Venha cá, querida. Por favor.

Querida. Como podia resistir a tal carinho? E o por favor? Sim. Completamente desamparado. Podiam discutir a mancha mais tarde.

Muito mais tarde.

Um passo mais perto dele… Outro… Ela parou.

— Sei que essa será sua primeira vez. Não quero que se preocupe se...

— Não faremos sexo. — ele disse, a força de sua determinação roçando duramente contra sua pele. — Não hoje.

— Mas… por quê? — E esse tom choroso era seu?

— Quando finalmente estivermos juntos, não terá medo de mim de nenhuma forma.

— Mas não estou... não...

Ele acenou sua mão no ar que estava estalando de tensão.

— Pensei muito nisso. Nunca fiz nada com uma mulher, mas agora farei tudo com você. E na prática, aprenderemos juntos até chegar ao sexo.

Uh, o que aquele “tudo” envolvia?

Certo, talvez estivesse um pouco assustada. Mas isso não a impediria.

— Quero você, Annabelle. — ele disse num tom sedoso.

— Eu quero você também. — Um sussurro dolorido.

— Então venha o resto do caminho.

Outro passo, e mais outro… até que ele pôde envolver suas asas ao redor dela e a puxar a distância que faltava. As penas faziam cócegas da forma mais deliciosa, mais suave que seda, mais decadente que pele.

Como se não pudesse se segurar, ele apertou seus lábios nos dela, alimentando-se de um suave e ardoroso beijo de conforto que ela jamais esqueceria.

— Gosto disso. — ele disse.

— Sim.

— Acho que gostarei muito mais do resto.

Seus batimentos cardíacos aceleraram.

— Vamos descobrir.

— Se você tem certeza...

— Tenho.

Zacharel a guiou para trás e rolou sobre ela, então se posicionou entre suas pernas.

Nas horas que se seguiram… dias… talvez semanas… ele explorou cada pedacinho dela, lentamente, diligentemente. Aprendeu sobre ela. Nada era tabu, nada era errado. Tudo que ela pôde fazer foi gritar pelo prazer incrível. Ele estava hesitante a princípio, cuidadoso com suas mãos, suas carícias suaves. Mas isso logo mudou, seu aperto ficando mais forte enquanto massageava seus seios…enquanto ele explorava mais abaixo.

Ele usou seus dedos… e ela percebeu que não podia fazer nada além de gritar de prazer. Podia se contorcer. Podia arranhar suas costas, tirando sangue.

— Desculpe. — ela conseguiu ofegar.

— Não desculpo. — Esse tom tão gutural. A terra tremeu. — Faça novamente.

Ela queria… necessitava, ele, apenas ele, mas ele se acalmou, percebeu. Acabou com todo o contato. Estava ajoelhado, examinando-a lá embaixo… e lambendo os lábios.

— Zacharel?

Ele se debruçou, e oh, era como se começasse tudo de novo porque estava mais uma vez conhecendo seu corpo — só que dessa vez estava usando a boca. Ele beijou cada parte dela, conseguindo arrancar um orgasmo atrás do outro dela, até que ela estava implorando que ele parasse.

Ele parou, tudo bem — para se reposicionar, prendendo-a na cama com seu peso.

— Sem palavras… não posso te dizer… Adorei. — Um estrondo de necessidade surgiu de dentro dele enquanto se aproximou e devorou sua boca, inclinando sua cabeça de modo a prová-la de cada ângulo possível. Seu prazer expandiu, o fogo nela queimando ainda mais quente. Seu mundo inteiro ficou enfocado no homem tão dedicado ao seu corpo.

— Anna… toque-me. Sua vez.

Anna. Ele encurtou seu nome, fez como um carinho, uma maldição e uma oração. Um comando. Um comando que ela atendeu. Tão lentamente e tão atentamente quanto ele conheceu seu corpo, ela agora conhecia o dele. E porque nada fora tabu pra ele, nada era tabu pra ela.

Com cada toque, cada lambida, ele gemia encorajando-a. Sua força a encantava. A textura suave de sua pele a instigava. Não possuía nenhum pelo em seu corpo. Era lindo e perfeito e cada pincelada de seus dedos, cada deslizar de sua boca contra a dele era uma revelação. Era assim que o sexo deveria ser, sem importar até onde iriam. Era sobre isso que ele falava. Uma união de corpos.

Finalmente quando ele não podia mais aguentar, fechou as mãos em seu cabelo para guiar sua boca de volta para ele.

Ela se esticou ao lado dele, deu-lhe um beijo, dois, então baixou o olhar o perscrutando. Perdido de paixão como estava não era mais o anjo refinado, polido que estava acostumada a lidar. Ele estava desgrenhado. Tenso. Abrindo e fechando suas pernas, fazendo movimentos de tesoura, rosnando e se esfregando nela.

— Quero que sinta prazer novamente. — ele disse entredentes.

— Estou muito perto, mas quero que você sinta… preciso que sinta isso também.

— Eu vou. Estou sentindo. — Ele moveu sua mão entre suas pernas com seus dedos quentes, e ela estava imediatamente chegou lá, estrelas piscando atrás de seus olhos fechados, seus pulmões não mais trabalhando.

Ela perdeu totalmente o controle, até mesmo de Zacharel, flutuando longe, retornando, só pra partir e flutuar um pouco mais. Mas ele deve ter chegado lá também, tão firmemente ela esteve apertando-o, porque seu rugido de satisfação a trouxe de volta para a cama.

Forçou suas pálpebras a se separarem, aquele rugido ainda soando em seus ouvidos. Seus pulmões começaram a trabalhar menos, mas suas respirações surgiram muito superficialmente. Seu corpo estava tremendo, uma deliciosa letargia a envolvendo.

De alguma maneira ela encontrou forças para erguer sua cabeça e olhar para Zacharel. Estava deitado ao lado dela, sua face corada, suas pálpebras semifechadas. Seus lábios estavam inchados por terem sido mordidos, e seu tórax estava subindo e descendo com a velocidade de sua respiração. Ele estava tremendo também.

— Anna… deite-se aqui… — Ele bateu levemente na mancha preta logo cima do seu coração.

— Esse é um comando que obedecerei sem questionar. — ela disse, estendendo-se em cima dele.

Pele suada se fundiu com pele suada, e seus corações bateram em uníssono, muito rápido, muito forte, ainda assim era um ritmo que a confortava.

— Gostei disso. — ele disse.

— Qual parte? — Ela arreliou.

—Todas. Quando nosso mês longe dos céus terminar, conhecerei seu corpo melhor do que o meu. Não haverá nada que eu não faça por você, nada que nós não tentemos.

Quando nosso mês longe dos céus terminar, ele disse e ela imediatamente ficou séria. Este relacionamento não era permanente para ele. Ela sabia desde o início; ele não fez nenhum segredo disso. E ela inclusive considerou todas as razões por que estavam melhor separados. Mas…

Sim. Mas.

Ela acabou querendo mais.

— Eu te assustei com minhas palavras? — Ele perguntou, entendendo mal sua reação. Traçou os dedos pelos sulcos de sua coluna.

— Não. — E isso era verdade. Ele a machucou, cortando profundamente em sua alma, mas não a assustou. Bem, ela o tinha agora. Isso teria que ser suficiente. E quando chegasse a hora de se separarem, seria ela quem iria embora. Tantas pessoas a deixaram, ela não veria outra pessoa fazer isso.

Nunca mais novamente.

 

Zacharel nunca experimentou nada tão consumidor quanto estar com Annabelle. Independente do que fizessem, enquanto estavam juntos, tocando-se, procurando-se, era arrebatado, desfeito. Refeito.

Depois, a apreensão tentava superá-lo.

Ela o fazia sentir muito. A queria também desesperadamente. Um relacionamento nunca poderia funcionar, não da forma permanente como ele desejava — como queria por tanto tempo quanto fosse possível. Quando seu mês na terra acabasse, pediria que se mudasse à sua nuvem. Ela diria sim. Não aceitaria outra resposta.

—Então, o que agora? — Perguntou em meio a um bocejo.

—Dormimos.

—Não. Desculpe, mas já sabia a resposta e não é essa. Agora vamos conversar. Quero saber mais coisas sobre você.

Essa pele macia, suave que ela tinha. Seu olhar, seu aroma floral lançando uma rede de seda em volta dele, os fios diáfanos de alguma forma mais fortes que qualquer coisa que ele jamais encontrou.

—Tais como?

—Bem, aqui está o que já sei. Você nasceu, em vez de ser criado. Tinha um irmão gêmeo, mas por algum motivo que não vai explicar, teve que matá-lo — Ele esperou que ela continuasse.

Ela suspirou.

—Certo, então não está pronto para aceitar minha isca e falar sobre ele ainda. O que mais sei? Oh, sim. Tem uma mancha negra que cresce em seu peito, e isso me preocupa. Lidera um exército de anjos, e acho que está descobrindo agora o quanto respeita seus próprios homens.

—Primeiro, não se preocupe com a mancha. Em segundo lugar, o que a faz pensar que respeito meus homens?

—Boa tentativa. Como se eu não percebesse que me diria para não me preocupar com a mancha, só que não estou interessada. Conheço seus truques, camarada.

— Isso não vai mudar minha resposta.

—Mesmo assim. Desde o dia na instituição até o dia em que os três anjos nos encontraram na Nova Zelândia, seu comportamento e sua maneira de falar mudou com eles. Bem, mudou um pouco. Mas com você, pequeno é grande.

Muito observadora, sua Annabelle.

—Sim, sei respeitar meus homens. Quando mais precisei, vieram até mim. Me foi dito que eram impróprios para os céus, que eram muito violentos, muito irreverentes para lidar com seus deveres, mas já não acredito que seja assim. Cada um deles sofreu de alguma forma, e lidaram com a dor da única maneira que sabiam — como o fazem.

—Estou com você. Só conheci alguns dos caras, e admito, todos pareciam muito perigosos, mas havia algo de extraordinário sobre eles. Algo que vale a pena lutar. — Ele gostava que ela defendesse aqueles sob seu comando.

—O que mais sabe sobre mim?

—Só uma outra coisa. Que é amigo de um grupo de guerreiros possuídos por demônios.

—E quer saber mais? — Ele pesava tudo que ela disse que sabia sobre ele contra tudo que ela deu a entender que queria saber. —O que quer saber primeiro? A diferença entre anjos nascidos e criados, ou como minha associação com os possuídos por demônios veio a acontecer?

Outro suspiro a deixou, este quente e doce e maduro pela compreensão. Ela entendeu que ele afastava seu irmão completamente da conversa, mas não pressionou.

—A diferença entre nascer e ser criado, por favor.

Ele não devia compartilhar seus segredos. E feliz e de bom grado, quando tantos perigos os rodeavam? Pior ainda. Mas queria compartilhar tudo que era, de modo que, por sua vez, ela compartilharia tudo que era.

As palavras anteriores de Haidee de repente atravessaram sua mente. Sua mulher precisa ser uma das coisas mais importantes na sua vida. Acima de seu trabalho, com certeza. Seu irmão virou as costas para ela, e seu namorado a abandonou. Ela não experimenta amor incondicional há muito tempo, vai esmagá-la se a mantiver sem se comprometer com ela.

Como disse a Haidee, estava comprometido. Só não tinha certeza de como mostrar a Annabelle quão importante era para ele. Ele tinha que colocar seu exército em primeiro lugar. Ele tinha que colocar em primeiro lugar seu dever.

—Uh, Zachie?

A que ponto ele chegou para gostar da versão abreviada do seu nome, desde que saísse dos lábios dessa mulher?

—Os nascidos são apenas uma parte das tropas da Divindade e devem ser protegidos na primeira década de suas vidas — disse ele. —São fracos, e devem ser ensinados a comer, a andar, a voar.

—Olhe para mim, Zacharel! Olha como estou voando alto!

—Você está indo tão bem, Hadrenial. Estou orgulhoso de você.

—Como seres humanos — Annabelle disse. —Menos a parte de voar, claro.

—Sim — Ele brincou com uma mecha de seu cabelo. —O criado é forte desde o momento que abre os olhos pela primeira vez, mas nunca aprendem completamente que foram destinados a proteger os seres humanos. Mas é para isso que tanto os nascidos quando os criado são úteis. Se destacam em diferentes áreas, um cobrindo o outro.

—Quem os criou?

—O Altíssimo.

Apesar de seu status, Zacharel nunca chegou a compreender ou simpatizar com os seres humanos. Cresceu fora de sua fraqueza, mas o ser humano nunca parecia fazê-lo. Eles o lembravam de grãos de areia — lá, mas facilmente perdidos nas massas e esquecidos.

E sobre o ser humano em seus braços? Ela não é fraca, e nunca vai esquecê-la. Não, ela não era, e não, não a esqueceria.

O calor de seu hálito acariciava seu peito.

—Estou tentando imaginar Zacharel pequeno. Podia brincar como uma criança?

—Não. Hadrenial e eu tínhamos deveres, até então. Quando não estávamos treinando, agíamos como mensageiros e escoteiros, e às vezes até servíamos como escolta para os espíritos humanos à sua casa eterna.

Hadrenial odiava essa parte da sua vida.

—Veja como seus entes queridos choram por sua perda. Não posso suportar ver tanta dor.

—Eles os verão outra vez. Um dia.

—Será? E se um for para o céu, e o outro para o inferno?

—Não seremos culpados. Eles sim.

—Certamente há algo que podemos fazer para ajudá-los, para ter certeza.

Zacharel queria assumir o dever de acompanhar os espíritos completamente, mas não se permitiu fazê-lo. Esperava que seu irmão viesse a se tornar insensível a isso, que deixaria de sentir a ternura que sombreava todos os aspectos de sua vida.

Estava errado.

—Estou tão triste. — Annabelle disse, puxando-o de volta ao presente.

Ele ficou tenso, com medo que tivesse falado acidentalmente de muito tempo atrás em voz alta.

—Por quê?

—Você era carente. Toda criança, mesmo um anjo guerreiro em treinamento, merece relaxar e se divertir — Um riso quente a deixou. —Meu irmão e eu costumávamos brincar de esconde-esconde em casa, e uma vez me escondi um pouco bem demais. Ele me procurou por mais de uma hora, e, finalmente, adormeci. Ele pediu ajuda para meus pais, e da forma que contam isso, destruíram a casa procurando por mim. Quando não puderam me encontrar, nenhum deles, chamaram a polícia, pensando que fui sequestrada.

A alegria em sua voz... Eu quero fazê-la se sentir assim.

—Onde você estava?

—Na secadora, aconchegada com as toalhas ainda quentes — Outra risada, cintilando como champanhe. —Talvez um dia você e eu possamos brincar. Nós... — Ela parou.

Supondo que algo estava errado, Zacharel estendeu a mão, preparando-se para chamar a espada de fogo, enquanto ao mesmo tempo escaneava o cômodo. Nenhum demônio saltou das sombras ou névoas através das paredes, e relaxou.

—Não se preocupe — disse ela. —De qualquer forma, como se tornou amigo desses homens possuídos?

Ela interrompeu a si mesma porque queria falar do futuro, seu futuro, mas pensou melhor.

—Você vai ficar comigo, Annabelle — disse ele.

—Por agora. — ela respondeu.

—Muito mais.

—Eu sei. Até o nosso mês.

Isso soou como o início de um discurso de rejeição.

—Está planejando me deixar depois? — Ele rangeu.

—Bem, sim. E por que está de repente tão irritado? Meu plano deve fazê-lo feliz.

—Não estou feliz.

—Mas disse que queria se separar após o nosso mês na terra.

—Não disse tal coisa. Vai ficar comigo e ponto final.

—Na verdade, não, eu...

Falava sobre ela.

—Agora vou contar a minha história — Ele não parou, não deu a ela uma chance de falar sobre ele. —Um dos guerreiros estava sendo atormentado por centenas de asseclas demoníacos. Por causa disso, estava inadvertidamente envenenando aqueles em torno dele. Eu fazia parte de outro exército na época, e que foi enviado para salvá-lo, ou matá-lo se não conseguisse. Seus amigos... protestaram. Nunca havia interagido com sua espécie, e logo percebi que lutavam contra seus demônios, ainda lutam contra os demônios todos os dias, de alguma forma corajosa, melhor, mais digna que outros que encontrei. Eles nunca permitiriam que o mal dominasse suas vidas.

—Bem, você é corajoso e honrado, também, Zacharel.

Ele não provou uma mentira. Ela realmente pensava assim.

—Então por que quer me deixar?

— Porque sim — era tudo que a mulher teimosa diria.

Porque não sabia a verdade sobre ele?

Ele nunca falou dos acontecimentos que levaram à morte de Hadrenial. Não a outro anjo, nem mesmo à sua Divindade. Mas diria a Annabelle, decidiu. Contaria tudo. Ela finalmente saberia, e poderiam construir algum tipo de futuro a partir daí.

—Meu irmão foi sequestrado. Estávamos juntos, acompanhando um espírito para os céus quando uma horda de demônios nos atacou. Lutei contra eles, e pensei que Hadrenial conseguiu conduzir o espírito para segurança. Mas... — Ele engoliu um bocado de amargo arrependimento. —Embora o espírito chegasse aos céus, Hadrenial não. Ele simplesmente desapareceu.

Ela traçou um coração sobre a mancha no peito.

—Não saber o que aconteceu deve ter sido torturante.

—Sim. O procurei. Por um ano inteiro procurei, mas nunca houve um sinal dele. Interrogava todos os demônios que podia, e sempre negaram saber dele. Mas então, um dia, cheguei em casa e ele estava lá. Apenas... lá, amarrado à minha cama. Era uma mera casca de si mesmo, por que seus captores o subjugaram pela fome e o espancaram. Pior, tinham corroído sua moral contra sua necessidade de sobrevivência. Para cada pedaço de comida, todos os dias sem um soco no rosto ou no intestino, ele tinha que fazer algo repreensível, como ferir um ser humano que jogavam dentro da cela com ele.

Líquido morno pingou sobre seu peito, e sabia que as lágrimas estavam descendo pelas bochechas de Annabelle.

—Estou tão triste — disse ela novamente.

— Não fui o único forçado a suportar tanta miséria.

—Mas você estava miserável.

—Não como meu irmão.

—Dor é dor — Ela beijou o centro do coração que tinha desenhado. —Você permaneceu celibatário todos esses anos por causa do que ele sofreu? Ele não encontrou nenhum prazer na vida, e assim não faria isso, ou qualquer um dos dois?

—Não. Claro que não... — disse ele, aceitando afinal. Nunca pensou nisso dessa maneira, mas declarado sem rodeios assim, achava difícil negar.—Não sei.

—Quando fui presa e levada para a instituição, não revidava quando outros pacientes me assediavam. Não discutia com meus médicos, e tomei cada pílula entregue a mim. Queria ficar insensível, mas mais do que isso, vi o quanto meus pais sofreram e sabia que tinha falhado com eles em todos os sentidos, então senti que merecia qualquer coisa ruim que me acontecesse.

—Você era uma criança. O que mais poderia ter feito?

—Como você era uma criança quando seu irmão gêmeo foi levado?

Sua mandíbula se apertou dolorosamente. Ela estava tentando absolvê-lo de seus próprios erros. Embora gostasse que ela tentasse, havia uma diferença em suas histórias. Ela lutou pela vida de seus pais; ele tomara a do seu irmão.

—Hadrenial me pediu para matá-lo. Eu não podia fazê-lo, no entanto. Não em primeiro lugar. Eu o amava com tudo que era, e o tinha finalmente de volta. Pensei que ele se curaria, e fisicamente ele o fez. Mas estava determinado a morrer e continuou ferindo a si mesmo das piores maneiras. Continuava a magoar os outros, numa tentativa de forçá-los a agir contra ele. Eu sabia que um dia ele teria sucesso e se isso acontecesse, seu espírito seria lançado no inferno. E nunca mais o veria.

—Então, finalmente fez isso — A voz dela estava mergulhada em tristeza.

—Sim. O matei para salvá-lo.

Ele esperava nojo. Esperava horror. Ao invés, Annabelle calmamente perguntou:

—E também garantiu que um dia estariam juntos?

— Não — ele resmungou. —Ele não queria viver, mesmo na vida após a morte. Assegurei que experimentasse a morte verdadeira. Envenenei seu espírito.

—Não entendo.

—Como os humanos, temos espíritos, a fonte da vida. Temos uma alma, ou a personificação da nossa lógica e as emoções e vivemos num corpo.

— Então... o que é o espírito, se não é a própria alma?

—A alma é intermediária, por assim dizer, entrelaçada com o espírito e o corpo. Sem o espírito, o corpo não poderia sobreviver, pois o espírito é a saída, onde a eletricidade aguarda, a alma é a tomada, e o corpo é o que é impelido a agir. Faz sentido?

—Sim.

—Para uma verdadeira morte, deve destruir todos os três. Derramei a água do rio da morte em sua garganta, matando o espírito e a alma, e depois queimei seu corpo. — E, no entanto, uma pequena parte de Zacharel ainda esperava o melhor, imaginando que Hadrenial não tivesse realmente morrido mesmo assim, mas que seu espírito houvesse passado para o reino do Altíssimo, onde esperaria a morte de Zacharel para que pudessem se reunir um dia.

— Sinto muito, Zacharel. A agonia de tal escolha... a dor de uma perda tão...

Se ele dissesse mais, se quebraria. Ele sentiu a dor agitando profunda em seu intestino, pronta para derramar.

—Durma agora, Annabelle — Ele beijou o topo de sua cabeça. —Amanhã tem que enfrentar seu irmão.

 

Pela manhã, ter Annabelle presa em seus braços havia aguçado a recente necessidade de Zacharel à uma extremidade mortal. Ela se virava na cama, esfregando seu corpo contra o dele, passando as mãos sobre ele.

Ele não fez nada a respeito. E não faria, não até que tivesse seu compromisso de permanecer com ele.

Enquanto ela tomava banho e ele lutava contra a vontade de se juntar a ela, convocou Thane e comandou o guerreiro a obter para ela uma camiseta rosa e um par de jeans, bem como roupas novas. Também rosa. Zacharel queria vê-la na cor feminina, e assim seria. Era tão simples como isso.

Para sua perplexidade absoluta, Thane já tinha a roupa desejada numa bolsa de ar. Quando Zacharel removeu as etiquetas, se perguntou se os itens eram destinados para as amantes do homem.

—Tem um conjunto extra?

— Por acaso sim.

—Claro. — Thane entregou a roupa, e Zacharel colocou a roupa extra numa bolsa.

— Ela vai precisar delas também, tenho certeza — Thane disse, entregando duas lâminas ornadas com joias.

Ele afirmou, dizendo:

—Espere aqui — Deixando Thane na varanda, depositou o primeiro conjunto de roupas no banheiro, o ar denso e enevoado cheirando a xampu floral. Igualmente doce, Annabelle estava cantando fora do tom.

—Ama como um furacão, algo, algo, algo, dobrando sob o peso, algo, algo, piedade.

Ela não sabia todas as palavras, ele percebeu, e teve que lutar com um sorriso. Adorável. Mas o que parecia mais profundo era que ela parecia... feliz.

Ele saiu antes que ela o pegasse ouvindo — e apreciando — e voltou para a varanda. A porta ainda estava aberta, o frio da madrugada escoando para dentro. Thane estava à beira do parapeito, pronto.

—Sua próxima missão é o alimento para ela. — Zacharel disse.

—Sou o criado dela, agora?

—Não. Você é meu.

Uma pausa.

—Por que não estou ofendido por isso? — Murmurou o guerreiro. —Por que estou realmente me divertindo? — Asas brancas entremeadas com dourado explodiram em movimento, e Thane desapareceu no ar. Não passou muito tempo, dez minutos no máximo, então voltou carregando um saco repleto de pães, queijos e frutas.

—Obrigado.

Um brilho de surpresa nos olhos safira de Thane, seguido por uma inclinação respeitosa de sua cabeça.

—A qualquer hora. Acho.

Zacharel recitou um endereço.

—Certifique-se se o proprietário está em casa. Se não estiver, espere por ele. Depois de verificar sua presença e eu ter tomado seu lugar, estará livre pelo resto do dia.

Outro agradecimento, e Thane novamente desapareceu.

E assim quando Annabelle saiu do banheiro quinze minutos depois, ele sussurrou em sua cabeça “Ele está em casa.”.

Ele queria dizer que reconhecia as palavras, e teria, se não ficasse mudo. Só podia olhar para Annabelle. O vapor formava uma nuvem ao seu redor, criando uma névoa de sonho. Ela secou seus cabelos, a massa caindo por seus braços, retos como uma tábua. Algodão cor de rosa se agarrava aos seios exuberantes. Tive minha boca sobre eles. O jeans beijava seus pés com abandono erótico. Não tinha certeza de como Thane acertou seu tamanho.

Ela parecia tão jovem e fresca, tão... inocente.

—Você gosta? — perguntou ela.

—Muito. Está bonita.

—Não posso levar todo o crédito. É o rosa.

—É a mulher.

Lentamente, ela sorriu.

—Alguém está em seu melhor comportamento hoje — Ela olhou para a mesa empilhada com a comida, depois de volta para ele. —Estou muito nervosa para comer.