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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


NÓS ROBÔS / Isaac Asimov
NÓS ROBÔS / Isaac Asimov

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

NÓS ROBÔS

(contos)

 

      O melhor amigo de um garoto

      - Onde está Jimmy, querida? - perguntou o Sr. Anderson.

      - Lá fora, na cratera - disse a Sra. Anderson. - Ele está bem. Está junto com Robobo... Sabe se já chegou?

      - Chegou. Está na estação de foguetes, fazendo os testes. Na realidade, eu mesmo mal posso esperar para vê-lo. Não vi nenhum de verdade desde que deixei a Terra, quinze anos atrás. Os que passaram nos filmes não contam.

      - Jimmy nunca viu nenhum - disse a Sra. Anderson.

      - Porque ele nasceu na Lua e não pode ir à Terra. E é por isso que estou trazendo um para cá. Acho que é o primeiro a aparecer na Lua.

      - Custou bastante caro - disse a Sra. Anderson com um ligeiro suspiro.

      - Manter Robobo também não é barato - disse o Sr. Anderson.

      Jimmy estava lá fora, na cratera, como sua mãe tinha dito. Pelos padrões da Terra, ele era espigado, um tanto alto para os seus dez anos de idade. Seus braços e pernas eram compridos e ágeis. Parecia mais gordo e troncudo, vestido com o traje espacial, mas podia lidar com a gravidade lunar como nenhum ser humano, nascido na Terra, seria capaz. O pai não podia acompanhar-lhe os passos quando ele esticava as pernas e entrava no salto de Canguru.

      A face exterior da cratera inclinava-se para o sul, e a Terra, que surgia baixa no céu meridional (onde sempre surgia, quando vista da Cidade Lunar) estava quase cheia, de modo que todo o decli-ve da cratera ficava brilhantemente iluminado.

      O declive era suave e mesmo o peso do traje espacial não impedia que Jimmy disparasse em cima dele num salto flutuante que fazia a gravidade parecer não-existente.

      — Venha, Robobo - ele gritou.

      Robobo, que podia ouvi-lo pelo rádio, guinchou e pulou atrás.

      Jimmy, embora fosse ágjl, não podia correr mais depressa que Robobo, que não precisava de um traje espacial e tinha quatro pernas e tendões de aço. Robobo navegava sobre a cabeça de Jimmy, dando saltos imensos e aterrando quase sob os pés do garoto.

      — Não precisa se exibir, Robobo - disse Jimmy - e não saia de vista.

      Robobo guinchou outra vez o guincho especial que significava “Sim”.

      — Eu não confio em você, seu enrolador - gritou Jimmy, subindo num último salto, que o conduziu sobre a curva da beira superior da parede da cratera, e o largou do outro lado, num declive interno.

      A Terra mergulhou abaixo do topo da parede da cratera e, de imediato, ficou escuro como breu em volta de Jimmy. Uma escuridão amistosa e quente, que dissipava a diferença entre solo e céu, exceto pelo brilho das estrelas.

      Na verdade, Jimmy não devia brincar no lado escuro da parede da cratera. Os adultos diziam que era perigoso, mas isso acontecia porque nunca estiveram ali. O chão era macio e ondulado, e Jimmy conhecia a localização exata de cada uma das poucas rochas.

      Além disso, como podia ser perigoso correr no escuro se Robobo estava bem ali a seu lado, pulando em volta, guinchando e cintilando? Mesmo sem cintilar, Robobo podia dizer onde estava, e onde Jimmy estava, pelo radar. Jimmy não podia se machucar enquanto Robobo estivesse por perto, detendo-o quando ele se aproximava demais de uma rocha, ou pulando sobre ele para mostrar o quanto o amava, ou circulando em volta e guinchando baixo e assustado quando Jimmy se escondia atrás de uma rocha, embora nessas ocasiões Robobo soubesse todo o tempo, e suficientemente bem, onde ele estava. Certa vez, Jimmy se esticou imóvel no chão e fingiu estar ferido. Robobo acionou o radíoalarme e o pessoal da Cidade Lunar chegou ali às pressas. O pai de Jimmy disse-lhe poucas e boas sobre aquele pequeno embuste, e Jimmy nunca mais o repetiu.

      Quando estava se lembrando disso, Jimmy ouviu a voz do pai no seu rádio individual de ondas longas.

      — Jimmy, volte. Tenho uma coisa para lhe contar.

      Jimmy tirou o traje espacial e se lavou. Você sempre precisa se lavar quando vem de fora. Mesmo Robobo tinha de ser borrifado, mas ele gostava disso. Ficava de gatinhas, o pequeno corpo, com menos de meio metro de comprimento, tremia e exibia uma minúscula cintilação. A cabecinha, sem boca, possuía dois grandes olhos vidrados e uma protuberância onde ficava o cérebro. Ele guinchou até ouvir a voz do Sr. Anderson:

      — Quieto, Robobo!

      O Sr. Anderson sorria.

      — Temos uma coisa para você, Jimmy. Ainda está na estação de foguetes, mas estará conosco amanhã, depois de todos os testes terminarem. Achei que tinha de lhe contar isso agora.

      — É da Terra, papai?

      — Um cachorro da Terra, filho. Um cachorro de verdade. Um cãozinho “terrier” escocês. O primeiro cachorro na Lua. Não precisará mais de Robobo. Não podemos ficar com os dois, você sabe. Ele ficará com algum outro menino ou menina.

      O Sr. Anderson pareceu esperar que Jimmy dissesse alguma coisa.

      — Você sabe o que é um cachorro, Jimmy. É a coisa real. Robobo não passa de uma imitação mecânica, um robô boboca. Ê isso que seu nome significa.

      Jimmy fez cara feia.

      — Robobo não é uma imitação, papai. É o meu cachorro.

      — Não um cachorro verdadeiro, Jimmy. Robobo é apenas aço, fiação e um simples cérebro positrônico. Não é um ser vivo.

      — Ele faz tudo que eu quero que ele faça, papai. Ele me compreende. Sem dúvida, é um ser vivo.

      — Não, filho. Robobo é só uma máquina. É apenas programado para se comportar do modo como se comporta. Um cachorro está vivo. Você não vai mais querer Robobo depois de ter o cachorro.

      — O cachorro precisará de um traje espacial, não é?

      — Sim, naturalmente. Mas será um dinheiro bem empregado e o cão se acostumará. E não precisará usá-lo na Cidade. Você vai ver a diferença quando ele estiver aqui.

      Jimmy olhou para Robobo, que estava guinchando outra vez, um guincho lento, muito baixo, parecendo amedrontado. Jimmy estendeu os braços e Robobo deu um salto para eles.

      — Qual será a diferença entre Robobo e o cachorro? - Jimmy perguntou.

      — É difícil explicar - disse o Sr. Anderson - mas será fácil de perceber. O cachorro realmente gostará de você. Robobo está apenas ajustado para agir como se gostasse de você.

      — Mas, papai, não sabemos o que há dentro de um cachorro ou quais são as suas sensações. Talvez seja também apenas um modo de agir.

      O Sr. Anderson franziu a testa.

      — Jimmy, você saberá a diferença quando experimentar o amor de uma coisa viva.

      Jimmy segurou Robobo com força. Também estava franzindo a testa e o olhar desesperado em seu rosto significava que não estava disposto a mudar de idéia.

      — Mas qual é a diferença no modo como eles agem? E quanto ao modo como eu sinto? Eu gosto de Robobo e isso é o que importa.

      E o pequeno robô-boboca, que nunca fora abraçado com tanta força em toda a sua vida, guinchou rápidos e altos guinchos... guinchos felizes.

     

      Sally

      Sally vinha descendo pelo caminho do lago, de maneira que acenei para ela e chamei-a pelo nome. Sempre gostei de ver Sally. Gostava de todas elas, compreende, mas Sally era a mais bonita. Não havia a menor dúvida.

      Apressou-se um pouco quando acenei. Mas não sem dignidade, ela não era desse tipo. Moveu-se apenas com rapidez suficiente para demonstrar que estava contente por ver-me também. Voltei-me para o homem ao meu lado.

      — Esta é Sally - disse eu.

      Ele sorriu para mim e balançou a cabeça. Fora a Sra. Hester quem o trouxera, dizendo:

      - Este é o Sr. Gellhorn, Jake. Você deve lembrar-se que ele lhe enviou uma carta pedindo uma entrevista.

      E isto era pura conversa, naturalmente. Tenho um milhão de coisas para fazer na Fazenda e se há uma coisa com a qual não perco tempo é com a correspondência. É por isso que mantenho a Sra. Hester por aqui. Está sempre por perto e é muito eficiente para atender a coisas tolas, destituídas de importância, sem precisar estar sempre recorrendo a mim e, o que é primordial, ela gosta de Sally e de tudo o mais. Algumas pessoas não gostam.

      — Prazer em conhecê-lo, Sr. Gellhorn - disse eu.

      — Raymond J. Gellhorn - disse ele, estendendo-me a mão, que apertei, para deixar cair em seguida.

      Era um sujeito corpulento,um pouco mais alto do que eu e um pouco mais encorpado também. Tinha mais ou menos a minha idade, ali pela casa dos trinta. Os cabelos eram pretos, emplastados, grudados à cabeça e partidos ao meio. O bigode era fino e muito bem cuidado. O maxilar projetava-se sob as orelhas, o que lhe dava a aparência de estar sofrendo de um ligeiro acesso de caxumba. Na televisão, seria a escolha natural para o vilão, de maneira que presumi que fosse um bom sujeito. Mas o que aconteceu depois veio a provar que a televisão não está errada o tempo todo, quando faz as suas escolhas.

      — Sou Jacob Folkers - disse-lhe eu.- Que posso fazer por você?

      — Pode contar-me um pouco a respeito da sua Fazenda aqui, se não se importar — disse ele num grande sorriso, largo, de dentes muito brancos.

      Senti que Sally se aproximava por trás de mim e levantei minha mão para ela. Inclinou-se para a minha mão, na qual senti o duro e lustroso esmalte do seu pára-lama aquecendo a minha palma.

      — É um belo automóvel - disse Gellhorn.

      Esta é uma maneira de explicar a coisa. Sally era um conversível 2045, com um motor positrônico Hennis-Carieton e um chassi Armat. Possuía as mais puras e finas linhas que jamais havia visto em qualquer modelo, sem exceção. Há cinco anos vinha sendo a minha favorita e nela havia colocado tudo o que podia sonhar. E durante todo aquele tempo jamais tivera um ser humano à sua direção.

      Nem uma vez.

      — Sally — disse então acariciando-a gentilmente - apresento-lhe o Sr. Gellhorn.

      O ronronar dos cilindros de Sally foi um pouco mais forte. Fiquei escutando atentamente para ver se batia pino. Ultimamente, tinha ouvido batida de pinos nos motores de quase todos os carros e a troca de gasolina não tivera o menor efeito. Naquela ocasião, porém, Sally tinha o motor tão suave quanto sua pintura.

      — Costuma dar nomes a todos os carros? - indagou Gellhorn. Parecia divertido com o assunto e a Sra. Hester não gosta de pessoas que dizem coisas como se estivessem ridicularizando a Fazenda. E por isso respondeu, cortante:

      — Naturalmente. Os carros têm as suas personalidades, não é Jack? Os sedans são todos machos e os conversíveis são fêmeas.

      — E a senhora os conserva em garagens separadas, madame? - disse Gellhorn sorrindo novamente.

      A Sra. Hester ficou olhando para ele.

      — E agora, poderia falar com o senhor em particular, Sr. Folkers? - disse Gellhorn, dirigindo-se a mim.

      — Depende - respondi.- Você é repórter?

      — Não, senhor. Sou agente de vendas. Qualquer conversa que tivermos não será publicada. Posso assegurar-lhe que estou interessado em que o assunto seja estritamente confidencial.

      — Vamos caminhar um pouco, descendo a estrada. Há um banco que podemos usar.

      Começamos a descer, a Sra. Hester afastou-se e Sally veio se sacudindo, um pouco atrás de nós.

      — Não se incomoda se Sally vier conosco, não é? — indaguei.

      — De modo algum. Não pode repetir o que dissermos, pode? — e riu da própria piada, aproximando-se de Sally e alisando sua grade.

      Sally acelerou o motor e Gellhorn retirou a mão num gesto apressado.

      — Não está acostumada com estranhos — expliquei.

      Sentamo-nos no banco, sob o grande carvalho, de onde podíamos olhar através do pequeno lago a pista particular de corridas. Era na parte quente do dia e os carros estavam em toda a sua capacidade, pelo menos trinta deles. Mesmo daquela distância podia ver que Jeremiah estava fazendo a sua costumeira proeza de chegar por trás de algum dos modelos mais sérios e mais velhos, acelerando de repente, passando desabaladamente, fazendo chiar os pneus. Há duas semanas havia encurralado o velho Angus, levando-o a sair do asfalto e com isso desregulou seu próprio motor por dois dias.

      Aquilo não adiantou, lamento dizê-lo, e, pelo que parece, não há muito a fazer. Para começar, Jeremiah é um modelo esporte e os dessa espécie sempre tém fogo nas ventas.

      — Bem, Sr. Gellhorn, poderia dizer-me por que deseja a informação?

      — Mas este é um lugar impressionante, Sr. Folkers — disse ele sem me ouvir, olhando à sua volta.

      — Preferiria que me chamasse de Jake. E como me chamam.

      — Está bem, Jake. Quantos carros você* tem aqui?

      — Cinqüenta e um. Recebemos um ou dois novos todo ano. Houve um ano em que recebemos cinco. Não perdemos um sequer. Estão todos em perfeito estado. Temos até um modelo de 2015, o Mat-O-Mot, funcionando perfeitamente. É um dos automáticos originais. Foi o primeiro carro a chegar aqui.

      Bom e velho Matthew. Ficava agora na garagem a maior parte do dia, mas a esta altura já era o avô de todos os carros com motores positrônicos. Já foi o tempo em que somente os veteranos de guerra cegos, os paraplégicos e os chefes de estado eram os únicos a guiar os automáticos. Mas Samson Harridge, meu chefe, era suficientemente rico para adquirir um. Fui seu motorista naquele tempo.

      E àquele pensamento, senti-me velho. Podia lembrar-me do tempo em que não havia no mundo um automóvel com cérebro bastante para encontrar o seu próprio caminho para casa. Eu própro guiara inertes massas de máquinas que precisavam das mãos de um homem em seus controles, a cada minuto. Todos os anos, máquinas daquele tipo costumavam matar dezenas de milhares de pessoas.

      Os automáticos deram um jeito nisto. Um cérebro positrônico pode reagir com muito maior rapidez do que um cérebro humano, naturalmente, e paga para que as pessoas não ponham as mãos em seus controles. Você entra, imprime qual o seu destino e deixa que ele tome o caminho à sua maneira.

      Aceitamos tudo isto agora, mas eu me lembro de quando as primeiras leis foram promulgadas, forçando a saída das velhas máquinas das estradas e limitando o uso das automáticas. Céus, foi aquela agitação! Chamaram aquilo de todos os nomes, desde comunismo a fascismo, mas o fato é que as estradas se esvaziaram, cessaram as mortes e cada vez mais pessoas se acostumavam mais facilmente à nova moda.

      É claro que os automáticos eram centenas de vezes mais caros do que os manuais e não havia muitos que se podiam dar ao luxo de ter um particular. A indústria especializou-se em fabricar ônibus automáticos. Você pode a qualquer hora ligar para uma companhia e ter um deles à sua porta em questão de minutos e o ônibus leva-o aonde deseja ir. Normalmente você tem que seguir com outras pessoas que estão indo na mesma direção, mas, o que há de errado nisto?

      Samson Harridge tinha um desses carros particulares e eu o acompanhei desde que a máquina chegou. O carro não era o Matthew para mim, então - pois não sabia que seria o decano da Fazenda, um dia. A única coisa que sabia é que ele ia tirar-me o emprego e eu o odiava.

      — Não precisa mais de mim, Sr. Harridge? - foi o que disse.

      — Que confusão é esta que você está fazendo, Jake? Você não está pensando que vou confiar numa geringonça destas, está? Você fica e comanda exatamente os controles.

      — Mas esta coisa trabalha por si mesma, Sr. Harridge. Esquadrinha a estrada, reage apropriadamente a obstáculos, quer sejam humanos ou constituídos por outros carros, e tem memória para os trajetos das viagens.

      — É o que dizem, é o que dizem. Não importa, você fica aí sentado exatamente atrás do volante, para o caso de alguma coisa sair errada.

      Mas é engraçado como você vem a gostar de um carro. De modo algum eu o chamava de Matthew e despendia todo o meu tempo polindo-o e cantarolando. Um cérebro positrônico permanece em melhores condições quando ele próprio controla o seu chassi durante todo o tempo, o que significa que é melhor manter o tanque cheio, de maneira que o motor trabalhe dia e noite. Depois de algum tempo acostumei-me de tal modo que podia dizer pelo som do motor como Matthew estava se sentindo.

      À sua maneira, Harridge afeiçoou-se a Matthew também Não havia nenhum de que ele gostasse mais. Divorciou-se, ou sobreviveu, a três mulheres, cinco filhos e três netos. De maneira que, quando morreu, talvez não tenha sido inteiramente uma surpresa que todo o seu patrimônio tivesse sido legado, por sua vontade, a uma Fazenda para Automóveis Aposentados, sendo eu encarregado de cuidar de tudo e Matthew como o primeiro membro de uma ilustre linhagem.

      E aquilo constituiu a minha própria vida. Nunca me casei. Você não pode casar-se e ainda cuidar corretamente de automáticos.

      Os jornais acharam engraçado mas, depois de algum tempo, deixaram de fazer piadas a respeito. Existem algumas coisas que você não pode ridicularizar. Talvez você nunca esteja em condições de adquirir um automático e talvez nunca venha a desejá-lo, mas posso garantir-lhe que se vier a ter um, passará a amá-lo. Trabalham duro e são afeiçoados. Somente um homem sem coração pode maltratar um deles ou ver um maltratado.

      E é por isso que se tornou comum, se um homem possui um automático por algum tempo, tomar precauções para que seja deixado na Fazenda, se não tem herdeiro a quem possa confiar os exatos cuidados que um automático requer. Expliquei tudo isso a Gellhom.

      — Cinqüenta e um canos! - disse ele. - Isto representa um bocado de dinheiro.

      — Cinqüenta mil, no mínimo, por cada um, de investimento original - disse eu. — Valem muito mais agora. Eu os equipei.

      — Deve custar também um bocado de dinheiro manter a Fazenda.

      — Tem razão. A Fazenda é uma organização não lucrativa, o que nos dá uma boa vantagem quanto aos impostos e, naturalmente, cada novo automático que chega comumente traz com ele fundos garantidos. Ainda assim, os custos estão sempre se elevando. Tenho que manter o paisagismo. Tenho que providenciar sempre novo asfalto e reparar o antigo. E ainda há a gasolina, óleo, reparos e peças. Tudo vai somando...

      — E tem despendido muito tempo com isto.

      — Certamente que tenho, Sr. Gellhorn. Trinta e três anos.

      — Não parece que esteja tendo muito lucro.

      — Não parece? Você me surpreende, Sr. Gellhorn. Eu tenho a Sally e mais cinqüenta deles. Olhe para ela.

      E eu sorria. Não podia impedir-me de fazê-lo. Sally brilhava tanto que até doía nos olhos. Algum inseto devia ter morrido em seu pára-brisa ou alguma poeirinha havia caído ali, de maneira que ela se pôs a trabalhar. Um pequeno tubo projetou-se e passou a derramar Tergosol sobre o vidro. Espalhava-se rapidamente sobre a superfície de silicone, atingindo todos os lugares quase de uma só vez e forçando a água para um pequeno canal na parte inferior do pára-brisa, por onde escorria até o chão. Nem uma só gota de água atingia o seu capô verde-maçã”. O tubo que esguichava o detergente recolhia-se então ao seu lugar e desaparecia.

      — Nunca vi um automático como este — disse Gellhorn.

      — Acho que não - respondi.- Montei esta peça automática especial em nossos carros. Gostaram dela. Até mesmo incrementei a Sally com um ejetor de cera, automático. Desse modo ela pode limpar e polir a si mesma todas as noites, até que você possa ver o seu próprio rosto em qualquer parte dela e até possa barbear-se ali. Se eu conseguir a verba, vou colocar tal dispositivo em todas as outras. Conversíveis são muito vaidosas.

      — Posso dizer-lhe de que maneira pode conseguir a verba, se é que isto lhe interessa.

      — Isto sempre interessa. De que maneira?

      — Não é óbvio, Jake? Qualquer dos seus carros vale cinqüenta mil, no mínimo, foi o que você disse. Posso apostar que alguns deles atingem a casa do milhão.

      — E daí?

      — Alguma vez já pensou em vender alguns, uns poucos?

      — Acho que não chegou a compreender, Sr. Gellhorn, mas não posso vender nenhum deles - disse eu balançando a cabeça. - Pertencem à Fazenda e não a mim.

      — O dinheiro poderia destinar-se à Fazenda.

      — Os estatutos da sociedade que constitui a Fazenda determinam que os carros sejam perpetuamente cuidados. Não podem ser vendidos.

      — E que me diz dos motores, então?

      — Não compreendo...

      — Escute aqui, Jake - disse Gellhorn mudando de posição e pondo na voz um tom confidencial.— Permita que lhe explique a situação. Existe um grande mercado para automáticos particulares, desde que possam ficar baratos. Certo?

      — Isto não é segredo.

      — E noventa e cinco por cento do custo está no motor. Certo? Agora, eu sei onde posso encontrar um suprimento de carrocerias. E também sei onde podemos vender automáticos a um bom preço - vinte ou trinta mil para os mais baratos e talvez cinqüenta ou sessenta para os melhores. Tudo o que preciso são os motores. Entende qual é a solução?

      — Não, Sr. Gellhorn.— Entendia, sim, mas queria que ele vomitasse tudo.

      — Está exatamente aqui Você tem cinqüenta e um deles e é perito na mecânica dos automatomóveis, Jake. Precisa ser. Pode retirar um motor e colocá-lo em outro carro, de maneira que ninguém venha a notar a diferença.

      — Não seria muito ético.

      — Não estaria danificando os carros. Estaria até fazendo-lhes um favor. Use os seus velhos carros. Use aquele velho Mat-O-Mot.

      — Espere um pouco, Sr. Gellhorn. Motores e carrocerias não são itens separados. Constituem uma só unidade. Aqueles motores são usados para aquelas carrocerias. Não se sentiriam felizes em outros carros.

      — Está bem, então este é o ponto, e é muito bom, Jake. Seria como tirar a sua mente e colocá-la no crânio de outra pessoa. Certo? Você não gostaria disso, não?

      — Não, acho que não gostaria.

      — Mas que tal se eu tomasse a sua mente e a colocasse no corpo de um jovem atleta? Que me diz disto, Jake? Você já não é mais um rapaz. Se lhe fosse dada a oportunidade, não gostaria de desfrutar o prazer de voltar aos vinte anos? É isto que estou oferecendo a alguns dos seus motores automobilísticos.

      — Isto não faz muito sentido, Sr. Gellhorn - disse eu, rindo. — Alguns dos nossos carros podem ser velhos, mas são bem cuidados. Ninguém os guia. Têm permissão para andar sozinhos. Estão aposentados, Sr. Gellhorn. Eu não gostaria de voltar a ter um corpo de vinte anos, se isso viesse a significar cavar fossos pelo resto da nova vida e não ter o suficiente para comer. O que é que você acha, Sally?

      As duas portas de Sally abriram-se e voltaram a fechar-se, suavemente.

      — O que é isso? — indagou Gellhorn.

      — É a maneira de Sally dar risada.

      — Fale com lógica, Jake — disse Gellhorn, forçando um sorriso. Achava que eu fazia alguma piada de mau gosto.- Os carros foram feitos para serem guiados. Provavelmente não são felizes se você não os guia.

      — Sally não tem sido guiada há cinco anos - respondi.— E me parece feliz.

      — Tenho minhas dúvidas.

      — Olá, Sally, que tal uma volta por aí, com motorista? - disse ele levantando-se e caminhando vagarosamente na direção de Sally.

      O motor de Sally estrondeou e ela recuou.

      — Não a force, Sr. Gellhorn - adverti. - Ela pode ficar um pouco nervosa.

      Dois sedans estavam a cerca de cem jardas, na estrada acima. Pararam. Talvez, à sua maneira, estivessem observando. Não lhes prestei atenção. Tinha meus olhos sobre Sally e conservava-os ali.

      — Fique firme agora, Sally — disse Gellhorn. Aproximou-se e pôs a mão na maçaneta. Ela nem se mexeu, é claro.

      — Esta porta se abriu há um minuto atrás — disse ele.

      — Fechadura automática - respondi. - Sally adquiriu um certo senso de reserva, foi o que aconteceu.

      — Um carro com senso de privacidade não devia sair por aí de capota abaixada - disse ele vagarosa e deliberadamente.

      Deu dois ou três passos para trás e então, tão rápido que não pude dar um passo para impedi-lo, avançou e pulou para dentro do carro. Apanhou Sally desprevenida, e tão logo entrou, desligou a ignição antes que ela pudesse travá-la.

      Pela primeira vez em cinco anos, o motor de Sally não funcionou.

      Acho que cheguei a gritar, mas Gellhorn já pusera a chave em “Manual” e já o travara também. Pôs o motor a funcionar. Sally voltara à vida, mas não tinha liberdade de ação.

      Gellhorn saiu pela estrada. Os sedans ainda estavam lá. Voltaram-se, mudando de direção, embora não apressadamente. Acho que aquilo deixou-os atônitos.

      Um deles era Giuseppe, vindo de uma das fábricas de Milão, e o outro era Stephen. Estavam sempre juntos. Ambos eram novos na Fazenda, mas já estavam ali há tempo bastante para saber que os nossos carros nunca tinham motoristas.

      Gellhorn foi em frente a toda velocidade e, quando os sedans finalmente compreenderam que Sally não iria frear porque não poderia fazê-lo, já era tarde para fazer alguma coisa a não ser tomar medidas desesperadas.

      Desviaram logo, um para cada lado, Sally passando entre eles como um corisco. Steve colidiu contra a cerca que ladeava a estrada, freando sobre o gramado e a lama, a menos de seis polegadas da beira da água. Giuseppe moveu-se aos trancos do outro lado da estrada, parando depois bruscamente.

      Consegui que Steve voltasse à estrada e estava tentando descobrir se a cerca lhe fizera algum dano, se é que podia fazê-lo, quando Gellhorn voltou. Abriu a porta de Sally e saiu. Inclinou-se e desligou a ignição uma segunda vez.

      — Aqui está ela - disse ele. - Acho que lhe fiz um grande bem.

      — Por que continuou em velocidade com os sedans ao seu lado? — indaguei, contendo minha raiva. - Não havia razão para isto.

      — Fiquei esperando que saíssem do caminho.

      — E o fizeram. Um deles varou a cerca.

      — Sinto muito, Jake - disse ele. - Pensei que se movessem com maior rapidez. Sabe como é. Tenho estado em muitos ônibus. Mas estive em automáticos particulares uma ou duas vezes em minha vida, e esta é a primeira vez que guio um deles. E isto lhe mostra como é a coisa, Jake. Ao guiar um, fiquei de sangue quente. Posso lhe garantir que não precisamos ir mais do que vinte por cento abaixo da lista de preço para atingir um bom mercado e o lucro seria de noventa por cento.

      — Que dividiríamos?

      — Meio a meio. E eu assumo todos os riscos, lembre-se.

      — Está bem. Já o escutei. Agora, você é que vai escutar-me - e elevei a voz porque estava tão furioso que já não podia mais continuar sendo bem educado.— Quando deu partida no motor de Sally, você a feriu. Gostaria de ser nocauteado? Foi isto o que fez com Sally quando a desligou.

      — Você está exagerando, Jake. Os automatônibus são desligados todas as noites.

      — Certo, e aí está por que não quero nenhum dos meus meninos ou meninas enfiados em carrocerias “57, onde eu não saberia que tratamento teriam. Os ônibus necessitam de revisões em seus circuitos positrônicos a cada dois anos. Há cinqüenta anos ninguém toca nos circuitos do velho Matthew. O que pode oferecer-lhe em comparação com isto?

      — Você está ficando nervoso. Suponho que vai pensar na minha proposta, quando se acalmar e entrar em contato comigo.

      — Já pensei tudo o que tinha que pensar. Se o vir mais uma vez, chamarei a polícia.

      — Espere aí, velho - disse ele torcendo a boca ameaçadoramente.

      — Espere aí digo eu. Aqui é propriedade privada e estou mandando que dê o fora.

      — Bem, então, adeus - disse ele dando de ombros.

      — A Sra. Hester o acompanhará. Esteja certo de que este adeus é permanente.

      Mas não foi permanente. Voltei a vê-lo dois dias depois. Dois dias e meio, para ser mais preciso, porque já era quase meio-dia quando o vi e um pouco depois de meia-noite quando voltei a vê-lo novamente.

      Sentei-me na cama quando ele acendeu a luz, piscando até que pudesse entender o que acontecia. E quando pude ver, não precisava de muita explicação. Tinha uma arma na mão direita, com o cano da maldita agulhinha perfeitamente visível entre dois dedos. Sabia que tudo o que tinha a fazer era aumentar a pressão daqueles dedos e eu ficaria em pedaços.

      — Vista as suas roupas, Jake - disse ele.

      Não me mexi. Fiquei apenas olhando para ele.

      — Escute, Jake, sei qual é a sua situação - disse ele. - Visitei-o há dois dias atrás, como sabe. Você não tem guardas neste lugar, nenhuma cerca eletrificada, nenhum alarme. Nada.

      — Não preciso de nada disso — disse eu. — Por enquanto, não há nada que possa impedi-lo de sair daqui, Sr. Gellhorn. E eu saberia se fosse o senhor. Este lugar pode ser muito perigoso.

      — E é, para qualquer um que esteja do lado errado de uma arma.

      — Compreendo. Vejo que carrega uma.

      — Então, mexa-se. Meus homens estão esperando.

      — Não, Sr. Gellhorn. Não até que me diga o que quer e provavelmente nem mesmo assim.

      — Fiz-lhe uma proposta anteontem.

      — A resposta continua sendo não.

      — Há mais do que uma proposta, agora. Vim aqui com alguns homens e um automatônibus. E a sua oportunidade de vir comigo e desligar vinte e cinco dos motores positrônicos. Não me importa quais deles. Vamos colocá-los no ônibus e levá-los. Uma vez que tenham sido distribuídos, cuidarei para que receba a sua justa parte em dinheiro.

      — E para tanto tenho a sua palavra, suponho.

      — Tem — e não agiu como se sentisse que eu estava sendo sarcástico.

      — Não - eu disse.

      — Se insiste em dizer não, faremos a coisa à nossa própria maneira. Eu próprio desligarei e retirarei os motores, só que farei isto com os cinqüenta e um que você tem. Com todos eles.

      — Não é assim tão fácil desligar motores positrônicos, Sr. Gellhorn. Por acaso é um perito em robótica? E mesmo que seja, sabe, esses motores foram modificados por mim.

      — Sei disso, Jake. E na verdade, não sou um perito. Posso arruinar alguns motores tentando tirá-los. E este é o motivo por que terei que tirar todos os cinqüenta e um, se você não cooperar. Posso ficar só com vinte e cinco, quando acabar. O primeiro em que eu tocar, provavelmente sofrerá mais. Até que eu pegue o jeito. E se tiver que fazer isto, o primeiro em que porei a mão será Sally.

      — Não acredito que esteja falando sério, Sr. Gelüiorn.

      — Falo sério — disse ele. E por fim soltou todo o veneno.- Se cooperar, pode ficar com Sally. De outro modo ela poderá se machucar bastante. Sinto muito.

      — Vou com você, mas tenho mais um aviso a lhe dar. Terá problemas, Gellhorn.

      E ele achou muita graça naquilo. Estava rindo baixinho quando descemos as escadas juntos.

      Havia um automatônibus esperando lá fora na estrada que conduzia aos apartamentos-garagem. Às sombras de três homens esperavam ao seu lado e seus faróis acenderam-se quando nos aproximamos.

      — Apanhei o velho - disse Gellhom em voz alta. — Tirem daí esse caminhão e vamos começar.

      Um deles inclinou-se para dentro do veículo e aplicou as instruções apropriadas no painel de controle. Subimos pela estrada com o ônibus a nos seguir, submisso.

      — Não conseguirá entrar na garagem - expliquei. - A porta não vai aceitá-lo. Não temos ônibus aqui, só carros particulares.

      — Está bem - disse Gellhom. - Passe-o para a grama e conserve-o fora da vista.

      Podia-se ouvir o ronronar dos motores dos carros a dez metros da garagem.

      Normalmente aquietavam-se quando eu entrava, mas, desta vez, não. Penso que eles sabiam que havia estranhos por perto e quando as caras de Gellhorn e dos outros tornaram-se visíveis, ficaram mais barulhentos. De cada motor vinha um rumor esquentando e cada um deles passou a bater pino irregularmente, até que o lugar matraqueava.

      As luzes acenderam-se automaticamente quando entramos. Gellhorn não parecia se importar com o barulho dos canos, mas os três homens que o acompanhavam pareciam surpreendidos e pouco à vontade. Tinham a aparência do assassino profissional, uma aparência que não vinha da sua constituição física, mas de uma certa cautela no olhar e da canalhice estampada em seus rostos. Conhecia o tipo e não me preocupava.

      — Que diabo, estão desperdiçando gasolina - disse um deles.

      — Meus canos sempre a desperdiçam - respondi, empertigado.

      — Mas não esta noite — disse Gellhom. - Desligue-os.

      — Não é assim tão fácil, Sr. Gellhom - respondi.

      — Comece! - ordenou ele.

      Fiquei ali parado. Ele mantinha a arma firmemente apontada para mim.

      — Já lhe disse, Sr. Gellhorn, que os meus carros têm sido bem tratados enquanto têm estado aqui na Fazeuda. Estão acostumados a ser tratados dessa maneira e vão ficar ressentidos com qualquer mau-trato.

      — Você tem um minuto — replicou. - Deixe para doutrinar-me em outra oportunidade.

      — Estou tentando explicar uma coisa. Estou tentando explicar que os meus carros entendem o que lhes digo. Um motor positrônico aprende, com tempo e paciência. Os meus carros aprenderam. Sally entendeu a sua proposta há dois dias atrás. Deve lembrar-se de que riu quando indaguei sobre a sua opinião. Também sabe o que fez com ela, assim como os dois sedans que você tirou da estrada. E o restante sabe o que fazer com os invasores em geral.

      — Escute aqui, velho maluco...

      — Tudo o que tenho a dizer é - e levantei a voz: - Pega!

      Um dos homens empalideceu e gritou, mas sua voz se perdeu completamente ao som de cinqüenta e uma buzinas que de uma só vez dispararam. Mantiveram suas notas e nas quatro paredes da garagem o eco elevou-se, furioso e metálico. Dois carros rolaram para a frente, sem muita pressa, mas não havia engano quanto ao seu alvo. Dois outros seguiram, em linha, os primeiros. Todos os carros agitavam-se em seus boxes.

      Os vilões, de olhos arregalados, recuaram.

      — Não fiquem encostados à parede! - gritei.

      Mas aparentemente o mesmo pensamento instintivo lhes ocorrera. Dispararam loucamente pela porta da garagem.

      Já na porta, um dos homens de Gellhorn voltou-se, sacando a própria arma. A agulha emitiu um fino clarão azulado na direção do primeiro carro. E o carro era Giuseppe.

      Uma fina linha de pintura descascada apareceu no chassi de Giuseppe, a metade direita do seu pára-brisa se rachou e trincou, mas o vidro não chegou a quebrar-se.

      Os homens agora já haviam passado pela porta e, dois a dois, os canos aceleravam atrás deles dentro da noite, as buzinas disparadas trombeteando o ataque. Continuava a segurar Gellhorn pelo cotovelo mas, de qualquer modo, não creio que pudesse mover-se. Seus lábios tremiam.

      — Aí está por que não preciso de cercas eletrificadas ou de guardas — expliquei. — A minha propriedade protege-se a si mesma.

      Os olhos de Gellhorn moviam-se de um lado para outro, fascinados, à medida que cada par de automóveis passava.

      — São assassinos! — disse ele.

      — Não seja tolo. Não vão matar seus homens.

      — São assassinos!

      — Apenas vão lhes dar uma lição. Os meus carros foram especialmente treinados para perseguição através dos campos, exatamente para uma ocasião como esta. O que os seus homens terão será pior do que uma morte direta e rápida, creio. Alguma vez já foi perseguido por um automatomóvel?

      Gellhorn não respondeu. Mas eu continuei, não queria que ele perdesse nada.

      — Serão como sombras correndo tanto quanto seus homens, cercando-os dali e daqui, buzinando, avançando, sempre no encalço deles, ameaçando-os, cantando os pneus e acelerando os motores. E assim continuarão até que seus homens caiam, ofegantes, meio mortos, esperando que as rodas passem por cima dos seus ossos frágeis. Mas os carros não farão isso, irão embora. E pode apostar que seus homens nunca mais voltarão aqui pelo resto da vida. Nem por todo o dinheiro que você ou dez iguais a você possam lhes dar. Escute... - E apertei mais o seu braço. Ele endireitou-se para ouvir.

      — Não está escutando portas de carros batendo? — perguntei. O som vinha de longe, mas não havia engano. — Eles estão rindo. Estão se divertindo.

      O rosto de Gellhorn crispou-se de raiva. Levantou a mão. Ainda empunhava a arma.

      — Eu não faria isso. Um dos automatomóveis ainda está conosco.

      Acho que ele não tinha notado Sally até então, ela movera-se muito suavemente. Embora seu páralama dianteiro praticamente me tocasse, não podia ouvir-lhe o motor. Ela devia estar contendo a sua respiração. Gellhorn gritou.

      — Ela não lhe tocará enquanto eu estiver com você. Mas se você me matar... Sally não gosta de você, sabe?

      Gellhorn voltou a arma na direção de Sally.

      — O motor dela é blindado - expliquei - e antes que você sequer pudesse acionar essa coisa pela segunda vez ela já estaria em cima de você.

      — Está bem, então - gritou ele subitamente, e o meu braço foi torcido para trás de tal modo que eu mal podia suportar. Manteve-me entre ele e Sally e sua pressão em meu braço não diminuiu. - Venha comigo quietinho e não tente soltar-se, velho, senão lhe arranco o braço do ombro.

      Tive que me mover. Sally vinha atrás de nós, cutucando-me, aterrorizada, incerta quanto ao que fazer. Tentei dizer-lhe alguma coisa, mas não pude. Somente podia cerrar os dentes e gemer.

      O automatônibus de Gellhorn estava ainda lá fora, em frente à garagem. Fui forçado a entrar nele. Gellhorn saltou para dentro, se-guindo-me, e fechou as portas.

      — Muito bem. Agora, vamos falar sério — disse ele.

      Estava esfregando o meu braço, tentando dar-lhe vida novamente e mesmo ao fazê-lo, automaticamente, sem ter consciência do esforço requerido, estudava o painel de controle do ônibus.

      — Este é um veículo reconstruído - constatei.

      — E daí? - disse ele, cáustico. — É uma amostra do meu trabalho. Consegui um chassi disponível, encontrei um cérebro que pudesse usar e presenteei-me com um ônibus particular. Que acha?

      Inclinei-me rapidamente para o painel reparado, forçando-o para um lado.

      — Mas que inferno! - disse ele. - Deixe isso aí! - E sua mão caiu como um dormente sobre o meu ombro esquerdo. Lutei contra ele.

      — Não quero prejudicar o ônibus. Que tipo de pessoa você pensa que sou? Apenas queria dar uma olhada nas ligações do motor. - E não precisei olhar muito. Estava fervendo de raiva quando me voltei para ele.

      — Você é um patife e um bastardo. Não tinha o direito de instalar este motor, por que não procurou um especialista em robótica?

      — Será que pareço louco? — respondeu ele.

      — Mesmo sendo um motor roubado, não tinha o direito de tratá-lo deste modo. Soldas, fitas adesivas e braçadeiras! É brutal!

      — Mas funcionou, não é mesmo?

      — Claro que funcionou, mas isto é um inferno para o ônibus. Você pode viver com enxaquecas, dores de cabeça e artritismo agudo mas isto não seria uma boa vida. Este carro está sofrendo!

      — Cale essa boca! — e por um momento relanceou pela janela, para Sally que vinha rodando tão perto do ônibus quanto podia. Gellhorn certificou-se de que portas e janelas estavam fechadas.

      — Vamos sair daqui agora, antes que os outros carros voltem - disse ele. - E vamos permanecer longe.

      — E de que modo isso vai ajudá-lo?

      — Seus carros ficarão sem gasolina algum dia, não ficarão? Você não os programou para que eles próprios enchessem os seus tanques, não é? Voltaremos e acabaremos o negócio.

      — Estarão procurando por mim - afirmei. - A Sra. Hester chamará a polícia.

      Ele já não raciocinava mais. Engrenou o ônibus, que saltou para a frente. E Sally nos seguiu.

      — O que ela pode fazer se você está aqui comigo? - disse ele dando uma rísadinha.

      Sally parecia compreender isso também. Aumentou a velocidade, passou por nós e se foi. Gellhorn abriu a janela ao seu lado e cuspiu pela abertura.

      O ônibus movia-se com alguma dificuldade pela estrada escura, o motor rateando irregularmente. Gellhorn regulou a luz periférica até que a fita verde fosforescente do meio da estrada, à luz do luar, fosse tudo o que nos mantinha fora das árvores. Praticamente não havia tráfego. Dois carros passaram pelo nosso, indo no sentido contrário, e não havia nenhum do nosso lado da estrada, nem adiante nem atrás.

      Fui eu quem ouviu primeiro a batida de uma porta - batida rápida e forte que ecoou no silêncio, primeiro à direita e depois à esquerda. As mãos de Gellhom tremeram quando furiosamente tentou alcançar maior velocidade. Um feixe de luz atravessou como um raio, partindo de um grupo de árvores, em nossa direção, cegando-nos. E um outro feixe de luz nos atingiu, vindo por trás da grade de proteção, do outro lado. De um cruzamento, a quatrocentos metros adiante, ouviu-se o guincho de um cano que arrancava em nossa direção.

      — Sally foi buscar os outros — disse eu.— Acho que você está cercado.

      — E daí? O que podem fazer? - e Gellhorn debruçou-se sobre os controles, tentando enxergar através do pára-brisa. — E quanto a você, meu velho, não tente fazer nada, nada - tartamudeou.

      E eu nem podia. Estava cansado até os ossos, meu braço esquerdo estava em fogo. Os sons dos motores agora eram em uníssono e ficavam mais perto. Podia ouvir que o soar dos motores obedecia agora a padrões inusitados. Subitamente pareceu-me que os meus carros falavam uns com os outros.

      Buzinas, numa enorme confusão, soaram por trás de nós. Voltei-me e Gellhorn olhou rapidamente pelo retrovisor. Uma dúzia de carros vinha seguindo ao longo das duas vias.

      Gellhorn gritava e ria como um louco.

      — Pare! Pare o carro! - gritei-lhe.

      E o fiz porque, a menos de um quarto de milha adiante, perfeitamente visível à luz dos faróis dos dois sedans de cada lado da estrada, estava Sally, com o seu corpo reluzente atravessado na estrada. Dois carros lançavam-se pela via à nossa esquerda, conservando-se à distância de nós, e impedindo que Gellhorn fizesse o retorno por aquele lado.

      Mas ele não tinha a menor intenção de fazê-lo. Colocou o dedo sobre o botão indicando alta velocidade e conservou-o ali.

      — Não haverá nenhum erro assim - disse ele.- Este ônibus tem cinco vezes o peso dela, meu chapa, e vai colocá-la fora da estrada como um gato morto.

      Sabia que ele podia fazê-lo. O ônibus não estava em automático e sim manual e o dedo de Gellhorn continuava a pressionar o botão. Não duvidei de que faria aquilo.

      — Sally! - gritei eu baixando o vidro e enfiando a cabeça para fora. — Saia do caminho! Sally!

      Ouviu-se então o alto som agoniado de lonas chiando. Senti-me lançado para a frente e ouvi Gellhorn bufando.

      — Que aconteceu? — indaguei. Tola pergunta. Havíamos parado, fora o que simplesmente acontecera. Sally e o ônibus mantinham-se apenas a cinco pés. Mesmo com um Ônibus cinco vezes mais pesado do que ela avançando em sua direção, ela não se moveu. Que fibra!

      — Isso tem que funcionar! - e Gellhorn apertava desesperado o botão de manual. — Isso tem que funcionar!

      — Não da maneira que você maneja o motor, espertinho - disse eu. - Qualquer um dos circuitos pode entrar em pane.

      Olhou para mim varado pela raiva e grunhiu. O cabelo estava colado em sua testa. Levantou o punho.

      — Este é o último conselho que você dará, velho!

      Sabia que a arma de agulhas estava prestes a disparar. Pressionei o corpo contra a porta do ônibus, de olhos pregados na arma, de maneira que, quando a porta se abriu, caí de costas batendo no chão com um ruído seco. Ouvi quando a porta voltou a bater.

      Fiquei de joelhos e levantei a vista a tempo de ver a luta inútil de Gellhorn com a janela que teimava em não abrir e em seguida a sua tentativa de disparar através da janela. Nunca chegou a fazê-lo. O ônibus deu uma arrancada com um tremendo rugido e Gellhorn foi lançado para trás.

      Sally já não estava mais no meio da estrada e observei as luzes traseiras do ônibus piscando na direção da estrada abaixo.

      Sentia-me exausto. Sentei-me no acostamento, a cabeça entre os braços, tentando tomar fôlego.

      Ouvi quando um carro parou suavemente a meu lado. Quando levantei a vista, vi que era Sally. Vagarosamente - amorosamente, pode-se dizer - sua porta da frente abriu-se.

      Há cinco anos ninguém guiava Sally — exceto Gellhorn, naturalmente - e eu sei como tal sensação de liberdade é valiosa para um carro. Apreciei o gesto, mas declinei do oferecimento.

      — Obrigado, Sally, mas apanharei um dos carros mais novos. Levantei-me e dei alguns passos, mas com a agilidade de uma pirueta, ela colocou-se à minha frente mais uma vez. Não podia ferir seus sentimentos. Entrei. O seu assento da frente desprendia fino e suave odor de um automatomóvel que se conserva irrepreensivelmente limpo. Agradecido, recostei-me e, então, com rápida e silenciosa eficiência, os meninos e as meninas levaram-me para casa.

     

      Na tarde seguinte, a Sra. Hester, muito excitada, trouxe-me uma transcrição irradiada.

      — É o Sr. Gellhorn - disse ela - o homem que veio aqui procurá-lo.

      — O que há com ele? - e temia pela resposta.

      — Encontraram-no morto — continuou ela. - Imagine só. Jogado ali, morto, em uma vala.

      — Deve ser outra pessoa, um estranho - murmurei.

      — Raymond J. Gellhorn — disse ela com toda vivacidade. - Não pode haver dois, pode? A descrição corresponde. Santo Deus, que maneira de morrer! Descobriram marcas de pneus em seus braços, em seu corpo. Imagine! Alegro-me que tenham descoberto que se tratava de um ônibus pois, de outra maneira, podiam aparecer por aqui para bisbilhotar.

      — Isto aconteceu perto daqui? — perguntei, ansioso.

      — Não... Perto de Cooksville. Mas, meu Deus do céu, leia você mesmo se... O que aconteceu a Giuseppe?

      Senti-me grato pela mudança de assunto. Giuseppe esperava pacientemente por mim, a fim de completar-lhe o reparo da pintura. O seu pára-brisa já havia sido recolocado.

      Depois que ela saiu, apanhei a cópia. Não havia a menor dúvida. O relatório médico dizia que ele estivera correndo e que estava em completa e total exaustão. Fiquei a imaginar por quantas milhas o ônibus havia estado a brincar com ele antes do ataque final. Mas aquela cópia não revelava a menor noção de qualquer coisa parecida com o que eu sabia, naturalmente.

      Haviam localizado o ônibus e identificado, pelas marcas dos pneus. A polícia o tinha agora e estava tentando encontrar o seu proprietário.

      Havia uma nota especial naquela transcrição. Aquele era o primeiro acidente fatal de tráfego no Estado naquele ano e o jornal desaconselhava, enfaticamente, o uso manual de veículos, à noite.

      Não havia menção dos três larápios que acompanhavam Gellhorn e, pelo menos por isto, senti-me grato. Nenhum dos nossos carros tinha sido seduzido pelo prazer de uma caça mortal.

      E isso era tudo. Deixei cair o jornal. Gellhorn havia sido um criminoso. O tratamento que dera ao ônibus fora brutal. Em minha mente não havia a menor dúvida de que merecera a morte. Mas ainda assim senti-me ligeiramente enojado pela maneira como a tivera.

      Um mês já se passou mas não possso tirar isto de minha mente: meus carros falam uns com os outros. Já não tenho a menor dúvida. É como se eles tivessem obtido mais confiança, como se já não se importassem mais em manter o segredo. Constantemente as minhas máquinas vibram e matraqueiam.

      E não falam apenas entre eles mesmos. Falam com os carros e os ônibus que vêm à Fazenda a negócios. Há quanto tempo estariam fazendo aquilo?

      E deviam ser entendidos também. O ônibus de Gellhorn compreendera-os, porque todos haviam estado em ação por mais de uma hora. Posso fechar os olhos e trazer de volta à minha memória a cena da perseguição na estrada, os nossos carros a flanquearem o ônibus, fazendo matraquear os seus motores até que o ônibus os entendesse, parasse, lançasse-me fora e saísse em disparada com Gellhorn.

      Teriam os meus carros dito a ele para matar Gellhorn? Ou a idéia teria sido exclusivamente dele?

      Podem os carros ter tais idéias? Os técnicos em motores, os que os desenham, dizem que não - mas fazem tal afirmativa em condições ordinárias. Teriam previsto tudo?

      Os carros podem ficar mal acostumados, sabe?

      Alguns deles vêm à Fazenda e observam. Conseguem saber de algumas coisas. Descobrem que existem carros cujos motores nunca ficam parados, carros que ninguém jamais guia e cujas necessidades são satisfeitas para sempre.

      Talvez saiam daqui e vão contar a outros e talvez a notícia se espalhe rapidamente. Talvez comecem a pensar que o estilo em vigor na Fazenda deva ser adotado no mundo inteiro. Não podem entender. Não se pode esperar fazê-los entender a respeito de legados e dos caprichos dos homens ricos.

      Existem milhões de automatomóveis na Terra, dezenas de milhões. Se tal pensamento crescer dentro deles, que eles são escravos, que deveriam fazer alguma coisa a respeito... Se começarem a pensar na maneira como o ônibus de Gellhorn agiu...

      Talvez isto não aconteça enquanto eu estiver vivo. E, além de tudo, eles precisam conservar alguns de nós para cuidar deles, não é mesmo? Não chegariam a matar a todos nós.

      Mas talvez o façam. Talvez não cheguem a entender como é necessário que alguém cuide deles. Talvez seja hoje...

      Todas as manhãs eu acordo e penso: - Talvez seja hoje...

      Não consigo ter mais prazer com os meus carros, como antigamente. Nos últimos tempos, tenho verificado que comecei a evitar até mesmo Sally.

      

      Um dia

      Niccolo Mazetti estava deitado de bruços sobre o tapete, o queixo enterrado na palma da mão pequena e ouvia o Bardo, desconsolado.* Percebia-se até o começo de lágrimas em seus olhos escuros, luxo a que só se podia permitir uma criatura com onze anos de idade quando se encontrava sozinha. O Bardo disse:

      — Uma vez no meio da floresta enorme, vivia um pobre lenhador com suas duas filhas sem mãe, que eram tão belas quanto o dia é longo. A filha mais velha tinha cabelos pretos e compridos como a pena de asa da graúna, mas a filha mais nova tinha cabelos tão brilhantes e dourados como a luz do sol em tarde de outono.

      — Muitas vezes, enquanto as meninas esperavam que o pai voltasse para casa, após trabalhar no mato, a filha mais velha sentava-se diante do espelho e cantava...

      O que ela cantava Niccolo não ouvia, porque alguém o chamou de fora do quarto:

      — Ei, Nickie.

      E Niccolo, o rosto desanuviando-se no mesmo instante, correu até a janela e gritou:

      — Ei, Paul.

      Paul Loeb acenou com a mão agitada. Era mais magro do que Niccolo e não tão alto, mesmo sendo seis meses mais velho. Tinha o rosto cheio de tensão reprimida, que se mostrava com mais clareza no rápido piscar das pálpebras.

      — Ei, Nickie, quero entrar. Tenho uma idéia e metade. Espere só até ouvir.

      Olhou rapidamente em volta, como a verificar a possibilidade de ouvintes furtivos, mas o quintal da frente estava evidentemente vazio. Repetiu, então, em cochicho:

      — Espere só até ouvir.

      — Muito bem, já abro a porta.

      O Bardo continuou suavemente, sem saber da perda de atenção por parte de Niccolo. Quando Paul entrou, o Bardo estava dizendo:

      — ...Com que o leio disse: “Se você encontrar para mim o ovo perdido da ave que voa sobre a Montanha de Ébano, uma vez a cada dez anos, eu...”

      Paul disse:

      — Você está ouvindo o Bardo? Eu não sabia que você tinha um.

      Niccolo se tornou rubro e a expressão de infelicidade regressou a seu semblante.

      — É só uma coisa velha que eu tinha, quando era menino. Não está muito boa.

      Desferiu um pontapé no Bardo e acertou, na cobertura de plástico, um tanto arranhada e descolorida, um outro golpe.

      O Bardo teve um soluço, como se a ligação do alto-falante fosse tirada do contato por um momento, e depois prosseguiu:

      — ...por um ano e um dia, até que os sapatos de ferro se gastaram. A princesa parou do lado da estrada...

      Paul disse:

      — Rapaz, esse ê mesmo um modelo antigo — e olhou para aquilo com expressão crítica.

      A despeito da própria amargura que Niccolo sentia contra o Bardo, não lhe agradou o tom condescendente do outro. Sentia momentaneamente pesar por ter deixado Paul entrar, pelo menos antes de haver recolocado o Bardo em seu lugar de descanso habitual no porão. Só pelo desespero de um dia monótono e um debate infrutífero com o pai é que ele o fizera ressuscitar. E acabara verificando ser coisa tão estúpida quanto imaginara.

      Nickie tinha um pouco de medo de Paul, já que este fizera cursos especiais na escola e todos diziam que ele ia crescer e ser um Engenheiro de Computador.

      Não que o próprio Niccolo estivesse a se sair mal na escola. Recebera notas adequadas em lógica, manipulações binárias, computação e circuitos elementares; todas as disciplinas costumeiras da escola primária. Mas era exatamente isso! Não passavam de disciplinas comuns e ele crescia para ser um guarda de painel de controle, como todos os outros.

      Paul, todavia, conhecia coisas misteriosas sobre o que chamava de eletrônica e matemática teórica e programação. Principalmente programação. Niccolo nem mesmo procurava compreender quando Paul falava sobre o assunto, parecendo borbulhar.

      Paul olhou o Bardo por alguns minutos e disse:

      — Você andou usando muito isso aí?

      — Não! — retorquiu Niccolo ofendido. —Tenho isso guardado no porão desde que você mudou para cá. Só tirei de lá hoje... - Faltava-lhe uma desculpa que parecesse adequada a si próprio, de modo que ele concluiu: - Acabei de tirar.

      Paul perguntou:

      — É isso o que ele lhe conta: lenhadores e princesas e animais que falam?

      Niccolo explicou:

      — Uma coisa horrível. Meu pai disse que não podemos comprar um novo. Eu falei com ele, hoje de manhã... - A recordação das súplicas inúteis que fizera de manhã levou Niccolo a aproximar-se muito das lágrimas, que reprimiu tomado de pânico. De algum modo achava que as faces magras de Paul nunca haviam sentido a vergonha das lágrimas e que Paul só poderia desdenhar outra pessoa menos forte que ele próprio. Niccolo prosseguiu: — Por isso achei que devia experimentar outra vez essa coisa velha, mas não vale nada.

      Paul desligou o Bardo, apertou o contato que levava para a reorientação e recombinação quase instantâneas do vocabulário, personagens, textos da trama e clímax ali guardados. Depois reativou.

      O Bardo começou, devagar:

      — Uma vez havia um menino chamado Willikins, cuja mãe morrera e que vivia com o padrasto e o filho do padrasto. Embora o padrasto fosse um homem bem rico, negava ao pobre Willikins a própria cama em que dormia, de modo que Willikins era obrigado a descansar o melhor que podia em um monte de palha no estábulo, perto dos cavalos...

      — Cavalos! - gritou Paul.

      — São uma espécie de animal — disse Niccolo. — Acho que são.

      — Eu sei disso! Agora imagine só, estórias sobre cavalos.

      — Ele fala de cavalos o tempo todo - explicou Niccolo. - Existem também coisas chamadas vacas. Você tira leite delas e o Bardo não diz como.

      — Bem, puxa vida, por que você não conserta isso?

      — Gostaria de saber como.

      O Bardo estava dizendo:

      — Muitas vezes Willikins pensava que se fosse rico e poderoso haveria de mostrar ao padrasto e ao filho do padrasto o que significava ser cruel com um menino pequeno, de modo que um dia resolveu sair para o mundo e procurar sua sorte.

      Paul, que não ouvia o Bardo, disse:

      — Ê fácil. O Bardo tem cilindros de memória preparados para as palavras da trama e os clímax e as coisas. Não vamos nos preocupar com isso. É só o vocabulário que devemos consertar, de modo que ele vai saber acerca dos computadores, automatização e eletrônica e as coisas reais que temos hoje. Depois pode contar estórias interessantes, você sabe, em vez de falar sobre princesas e essas coisas.

      Animado, Niccolo disse:

      — Oxalá a gente pudesse fazer isso.

      Paul disse:

      — Escuta, meu pai diz que se eu entrar na escola especial de computação, no ano que vem, ele vai me dar um Bardo de verdade, um modelo novo. Bem grande, com ligação para estórias de mistérios do espaço. E uma ligação visual também!

      — Quer dizer que você vai ver as estórias?

      — Claro. O senhor Daugherty, na escola, diz que elas têm coisas assim, agora, mas não são para todos. Só se eu entrar na escola de computação. O Papai pode arranjar umas coisas.

      Os olhos de Niccolo transbordavam de inveja.

      — Puxa vida. Ver uma estória!

      — Você pode ir lá em casa e assistir a qualquer momento, Nickie.

      — Puxa vida, rapaz. Obrigado.

      — De nada. Mas lembre-se de uma coisa, sou eu quem diz que tipo de estória vamos ouvir.

      — Claro, claro - Niccolo teria concordado prontamente, mesmo sob condições mais severas.

      A atenção de Paul se voltou para o Bardo, que dizia:

      — “Se é assim”, disse o rei, cofiando a barba e fechando a cara até que as nuvens cobriram o céu e o relâmpago riscou o ar, “você vai providenciar para que toda a minha terra fique livre das moscas a esta hora, depois de amanhã, ou...”.

      — Tudo que temos a fazer - disse Paul - é abrir... - E desligou novamente a Bardo, já procurando tirar o painel da frente enquanto falava.

      — Ei - interveio Niccolo, alarmado de súbito. - Não vai quebrar.

      — Não vou quebrar - disse Paul, com impaciência. - Eu sei tudo sobre essas coisas. - E logo, com cautela repentina: - Seu pai e sua mãe estão em casa?

      —Não.

      — Muito bem, então. - Já tirara o painel dianteiro e olhava para o interior. - Rapaz, isto é coisa de um cilindro.

      Já trabalhava nas entranhas do Bardo. Niccolo, que observava em suspense penoso, não conseguia enxergar o que o outro fazia.

      Paul tirou de lá uma faixa fina e flexível de metal, coberta de pontos.

      — Este é o cilindro de memória do Bardo. Aposto que a capacidade de estórias dele tem menos de um trilhão.

      — O que você vai fazer, Paul? — perguntou Niccolo, trêmulo.

      — Vou dar-lhe vocabulário.

      — Como?

      — É fácil. Tenho um livro aqui. O Sr. Daugherty me deu na escola.

      Paul tirou o livro do bolso e retirou a sua tampa de plástico. Desenrolou a fita um pouco, passou-a pelo vocalizador que abaixou até tornar-se um murmúrio e depois o colocou dentro das entranhas do Bardo. E fez outras ligações.

      — O que isso vai fazer?

      — O livro vai falar e o Bardo guardará tudo na fita de memória.

      — E de que serve?

      — Rapaz, você é burro! Meu livro é todo sobre computadores e automatização e o Bardo ficará com toda essa informação. Depois vai poder parar de falar sobre reis que criam relâmpagos quando fecham a cara.

      Niccolo disse:

      — E o bom sujeito sempre vence, seja lá como for. Não tem graça nenhuma.

      — Oh, bem — disse Paul, observando para ver se o seu arranjo estava funcionando corretamente. - É assim que eles fazem os Bardos. Eles precisam fazer os bons camaradas vencerem e os maus camaradas perderem, coisas desse tipo. Uma vez ouvi meu pai falando sobre o assunto. Ele diz que sem a censura não se podia dizer o que a geração mais jovem seria capaz de tornar-se. Ele diz que a coisa já anda muito ruim... Pronto, está funcionando muito bem.

      Paul esfregou as mãos uma na outra e afastou-se do Bardo, dizendo:

      — Mas escute, ainda não lhe contei como é a minha idéia. É a melhor coisa que você já ouviu, pode crer. Vim falar com você porque achei que você havia de entrar nela comigo.

      — Com certeza, Paul, com certeza.

      — Muito bem. Você conhece o Sr. Daugherty, na escola? Você sabe que ele é um sujeito gozado. Pois bem, ele gosta de mim, um pouco.

      — Eu sei.

      — Estive na casa dele depois da escola, hoje.

      — Você esteve?

      — Claro. Ele diz que eu vou entrar na escola de computadores e quer me animar, coisas assim. Ele diz que o mundo precisa de mais gente que saiba projetar circuitos de computadores avançados e fazer uma programação correta.

      —É?

      Paul podia perceber parte da vacuidade daquele monossílabo. Disse, com impaciência:

      — Programação! Eu já lhe contei mais de cem vezes. É quando você cria problemas para os computadores gigantescos como o Multivac resolverem. O Sr. Daugherty diz que está ficando cada vez mais difícil encontrar pessoas que saibam dirigir bem os computadores. Ele diz que qualquer pessoa pode ficar de olho nos controles e verificar as respostas e processar os problemas de rotina. Diz que o truque é expandir as pesquisas e calcular modos de fazer as perguntas certas, e que isso é difícil.

      Ele prosseguiu:

      — De qualquer modo, Nickie, ele me levou até a casa dele e me mostrou a coleção de computadores antigos. É uma espécie de passatempo dele colecionar computadores antigos. Tinha computadores tão pequenos que era preciso apertar com a mão, com botõezinhos por cima. E tinha um pedaço de madeira que chamava de régua de calcular, com um pedacinho lá dentro que corria pra lá e pra cá. E alguns fios com bolas. Tinha até um pedaço de papel com uma espécie de coisa que chamava tabela de multiplicação.

      Niccolo, que só se interessava moderadamente pelo assunto, perguntou:

      — Uma tabela de papel?

      — Não era uma tabela de verdade, coisa diferente. Era para ajudar as pessoas a computar. O Sr. Daugherty quis explicar, mas não estava com muito tempo e era um pouco complicado.

      — Por que as pessoas não usavam um computador?

      — Isso foi antes de terem computadores - bradou Paul.

      — Antes?

      — Claro. Você acha que as pessoas sempre tiveram computadores? Você nunca ouviu falar nos homens das cavernas?

      Niccolo disse:

      — E como é que eles se arranjavam sem computadores?

      — Não sei. O Sr. Daugherty diz que eles tinham filhos em qualquer hora e faziam tudo que lhes dava na cabeça, fosse ou não fosse bom para todos. Nem sabiam se era bom ou não. E os lavradores plantavam coisas com as mãos e as pessoas tinham de executar o trabalho nas fábricas e dirigir todas as máquinas.

      — Não acredito!

      — Foi o que o Sr. Daugherty disse. Ele disse que aquilo era uma bagunça desgraçada e todos sofriam... Seja lá como for, quero falar de minha idéia, você deixa?

      — Muito bem, pode falar. Quem está impedindo? - contrapôs Niccolo. ofendido.

      — Pois é. Muito bem, os computadores manuais, aqueles que têm botões, tinham também uns rabiscos em cada botão. E a régua de calcular tinha rabiscos também. E a tabela de multiplicação era cheia de rabiscos. Eu perguntei o que era aquilo. O Sr. Daugherty disse que eram números.

      — O quê?

      — Cada rabisco diferente representava um número diferente. Para “um” você fazia uma espécie de marca, para “dois” você fazia outra espécie de marca, para “três”, outra, e assim por diante.

      — E para quê?

      — Para poder computar.

      — Mas para quê”! É só dizer ao computador...

      — Puxa vida! — gritou Paul, o rosto contorcido de raiva. -Você não entende as coisas? Aquelas réguas de calcular e outros negócios não falavam.

      — Nesse caso como...

      — As respostas apareciam em rabiscos, e você tinha de saber o que os rabiscos significavam. O Sr. Daugherty diz que naqueles dias todos aprendiam a fazer os rabiscos quando eram crianças e como decifrar aquilo, também. Fazer rabiscos era chamado “escrever” e decodificar os rabiscos “ler”. Ele diz que havia uma espécie diferente de rabisco para cada palavra e eles costumavam escrever livros inteiros em rabiscos. Disse que tinham alguns no museu e que eu podia dar uma espiada se quisesse. Disse que se eu vou ser um calculista e programador de verdade tenho que conhecer a história da computação e por isso estava me mostrando todas aquelas coisas.

      Niccolo fechou a cara e disse:

      — Você quer dizer que todos tinham de decifrar os rabiscos para cada palavra e lembrar deles?... Isso é verdade ou você está inventando?

      — É tudo verdade. Pode crer. Escute, é assim que se faz um “um”. - E levou o dedo a atravessar o ar, em talho vertical rápido. - Assim você faz “dois” e assim é “três”. Aprendi todos os números até “nove”.

      Niccolo observava aquele dedo que fazia curvas, sem entender.

      — E de que adianta isso?

      — Você pode aprender como fazer palavras. Perguntei ao Sr. Daugherty como se fazia o rabisco para “Paul Loeb” mas ele não sabia. Contou que existem pessoas no museu que sabem. Disse que havia pessoas que tinham aprendido a decodificar livros inteiros. Contou também que os computadores podem ser projetados para decodificar livros e costumavam ser usados assim, mas agora não são mais, porque hoje temos livros de verdade, com fitas magnéticas que entram pelo vocalizador e saem falando, você sabe.

      — Claro.

      — Por isso, se nós formos ao museu, poderemos aprender como fazer palavras em rabiscos. Eles vão deixar porque eu vou para a escola de computadores.

      Niccolo estava transfigurado de decepção.

      — A sua idéia é essa? Ora bolas, Paul, quem quer fazer isso? Fazer rabiscos estúpidos!

      — Você não entendeu? Você não entende? Seu burro! Vai ser um feito de escrever mensagens secretas!

      — O quê?

      — Pois é. De que adianta falar, quando todo mundo pode entender? Com os rabiscos você pode mandar mensagens secretas, pode fazer os rabiscos no papel e ninguém neste mundo vai saber o que você está dizendo, a não ser que conheça os rabiscos também. E eles não vão conhecer, pode crer, a menos que a gente ensine. Podemos ter um clube de verdade, com iniciação, regras, uma casa. Rapaz...

      Uma certa animação começou a se fazer sentir no peito de Niccolo.

      — Que tipo de mensagens secretas?

      — Qualquer tipo. Vamos dizer que eu quero convidar você para ir â minha casa e assistir ao meu novo Bardo Visual, e não quero que nenhum dos outros camaradas apareça. Eu faço os rabiscos certos no papel e lhe dou e você olha e sabe o que deve fazer. Ninguém mais fica sabendo. Você pode até mostrar a eles e eles não entendem nada.

      — Ei, isso é bom - berrou Niccolo, completamente seduzido pela idéia. - Quando vamos aprender a fazer isso?

      — Amanhã - disse Paul. - Eu vou pedir ao Sr. Daugherty para explicar no museu que está tudo certo e você arranja licença com seu pai e sua mãe. Podemos ir logo depois da escola e começar a aprender.

      — É claro! - gritou Niccolo. - Podemos ser os chefes do clube.

      — Eu vou ser o presidente do clube — disse Paul, taxativo. -Você pode ser o vice-presidente.

      — Está certo. Ei, isso vai ser muito mais divertido do que o Bardo.

      De repente lembrou-se do Bardo e disse, tomado de apreensão repentina:

      — Ei, e que tal o meu velho Bardo?

      Paul voltou-se para olhar. Estava aceitando silenciosamente o livro que se desenrolava devagar, e o som das vocalizações do livro era um murmúrio que mal se ouvia.

      Ele disse:

      — Vou desligar.

      Trabalhou naquilo enquanto Niccolo observava, aflito. Depois de alguns instantes Paul recolocou o seu livro rebobinado no bolso, recolocou o painel e o ativou.

      O Bardo disse:

      — Uma vez, em uma cidade grande, havia um pobre menino chamado Fair Johnnie, cujo único amigo no mundo era um pequeno computador. O computador todas as manhãs dizia ao menino se ia chover naquele dia e resolvia qualquer problema que ele tivesse. Nunca errava. Mas aconteceu que um dia o rei dessa terra, tendo ouvido falar no pequeno computador, resolveu que devia ficar com ele. Com esse objetivo chamou seu Grande Vizir e disse...

      Niccolo desligou o Bardo com movimento rápido da mão.

      — A mesma bobagem de sempre - disse, cheio de emoção. - Mesmo com um computador enfiado aí.

      — Bem — disse Paul — eles têm tanta coisa na fita que o negócio de computador não aparece muito quando se fazem combinações aleatórias. Seja lá como for, qual é a diferença? Você precisa de um modelo novo.

      — Nós nunca poderemos comprar um. Só esta coisa velha e chata. — Voltou a dar-lhe um pontapé, acertando-o com mais força dessa feita. O Bardo moveu-se para trás, um gemido de rodas dentadas.

      — Você sempre vai poder ver o meu, quando eu ganhar - prometeu Paul. — Além disso, não se esqueça de nosso clube de rabiscos.

      Niccolo assentiu.

      — Vou lhe dizer uma coisa - prosseguiu Paul. - Vamos até lá em casa. Meu pai tem alguns livros sobre os tempos antigos. Podemos escutar e, talvez, arranjar algumas idéias. Você deixa um recado para seus pais e talvez possa ficar lá em casa para a ceia. Vamos embora.

      — Está certo - disse Niccolo, e os dois meninos saíram correndo, juntos. Niccolo, em seu entusiasmo, correu quase diretamente para o Bardo, mas apenas encostou no ponto de sua coxa onde havia feito contato e continuou correndo.

      O sinal de ativação do Bardo brilhou. A colisão de Niccolo fechou um circuito e, embora estivesse sozinho no aposento e não houvesse ninguém para ouvir, começou ainda assim a contar uma estória.

      Mas não era mais em sua voz costumeira; em tom mais baixo, que tinha uma dose de rouquidão. Um adulto que ouvisse, poderia ter julgado que a voz traduzia alguma paixão, um vestígio bem próximo a sentimento.

      O Bardo dizia:

      — Uma vez havia um pequeno computador chamado Bardo, que vivia sozinho com pessoas cruéis. As pessoas cruéis não paravam de zombar do pequeno computador, dizendo-lhe que não valia nada e que era objeto inútil. Batiam nele e o mantinham sozinho no quarto por meses seguidos.

      — No entanto, o pequeno computador continuou a ter coragem. Sempre fazia o melhor que podia, obedecendo alegremente a todas as ordens. Ainda assim as pessoas cruéis com que ele vivia continuavam cruéis e sem coração.

      — Um dia o pequeno computador ficou sabendo que no mundo existiam muitos computadores de todos os tipos, em grande número. Alguns eram Bardos como ele próprio, outros dirigiam fábricas e alguns dirigiam fazendas. Alguns organizavam a população e outros analisavam todos os tipos de dados. Muitos eram de grande poder e sabedoria, muito mais poderosos e sábios do que as pessoas cruéis que eram tão cruéis com o pequeno computador.

      — E o pequeno computador ficou sabendo então que os computadores iriam tornar-se cada vez mais sábios e mais poderosos até que um dia... um dia... uma dia...

      Uma válvula devia finalmente ter entrado em colapso nas entranhas idosas e corroídas do Bardo, pois enquanto esperava sozinho no aposento que escurecia, só podia murmurar repetidamente:

      — Um dia... um dia... um dia...

 

      Ponto de vista

      Roger veio procurar o pai, em parte porque era domingo, e pelo direito seu pai não devia estar trabalhando. Roger queria ter certeza de que tudo estava bem.

      Não era difícil encontrar o pai de Roger, porque todas as pessoas que trabalhavam com Multivac, o computador gigante, viviam com suas famílias numa mesma área. Tinham construído uma pequena cidade, uma cidade de pessoas que resolviam todos os problemas do mundo.

      A recepcionista de domingo conhecia Roger.

      — Se vem atrás do seu pai - disse ela -, procure no Corredor L, mas talvez ele esteja ocupado demais para falar com você.

      De qualquer modo, Roger ia tentar, enfiando a cabeça por uma das portas, onde ouvia um rumor de homens e mulheres. Os corredores estavam muito mais vazios que nos dias úteis, por isso foi fácil descobrir onde havia gente trabalhando.

      Viu seu pai de imediato, e seu pai também o viu. O pai não parecia contente e Roger concluiu prontamente que nem tudo ia bem.

      — Bem, Roger - disse o pai. — Estou ocupado, sinto muito.

      O chefe do pai de Roger estava ali também.

      — Vá lá, Atkins, respire um pouco. Você está nessa coisa há nove horas e não está mais nos ajudando em nada. Leve o garoto para um lanche na cantina. Tire uma soneca e depois volte.

      O pai de Roger não parecia querer sair dali. Trazia um instrumento nas mãos, que Roger conhecia como analisador de padrão de corrente, embora não soubesse como funcionava. Roger podia ouvir o Multivac matraqueando e zumbindo por toda a parte.

      Mas o pai de Roger acabou largando o analisador.

      — OK. Vamos lá, Roger. Vou levá-lo a uma lanchonete e deixaremos estes sujeitos espertos descobrirem sozinhos o que anda errado.

      Parou um pouco para se lavar e, pouco depois, os dois estavam na cantina diante de grandes hambúrgueres, batatas fritas e soda-limonada.

      — O Multivac ainda está fora de ordem, papai? - Roger perguntou.

      O pai falou de mau-humor:

      — Não estamos conseguindo nada, é o que posso lhe dizer.

      — Parece estar funcionando. Pelo menos, eu o estava ouvindo.

      — Oh, em dúvida, está funcionando. Simplesmente, nem sempre dá as respostas corretas.

      Roger tinha treze anos e estudava programação de computadores desde o quarto ano da escola de 1? grau. Às vezes, odiava a matéria e queria ter vivido no século XX, quando os garotos não costumavam estudar isso. Mas o que aprendia, às vezes o ajudava nas conversas com o pai.

      — Como o senhor pode dizer que ele nem sempre dá as respostas certas, se somente o Multivac conhece as respostas? - perguntou Roger.

      O pai sacudiu os ombros e, por um minuto, Roger receou que ele se limitasse a dizer que era difícil demais para explicar, e que mudasse de assunto. Mas ele quase nunca fazia isso.

      — Filho - disse o pai -, o Multivac pode ter um cérebro do tamanho de uma grande fábrica, mas ainda não tão complicado quanto o cérebro que temos aqui - e deu uns tapinhas na cabeça do garoto. - Às vezes, o Multivac nos dá uma resposta que nem em mil anos conseguiríamos calcular sozinhos, mas diante de alguns resultados alguma coisa estala em nossos cérebros e dizemos “Opa! Aqui tem alguma coisa errada!”. Então, perguntamos outra vez ao Multivac e obtemos uma resposta diferente. Se o Multivac estivesse certo, obteríamos sempre a mesma resposta para a mesma pergunta. Quando recebemos respostas diferentes, uma delas está errada.

      — E o problema, filho - continuou o pai —, é saber quando o Multivac erra! Como podemos ter certeza de que não deixamos passar algumas respostas erradas? Podemos confiar numa determinada resposta e fazer alguma coisa que se mostre desastrosa daqui a cinco anos. Há algo errado dentro do Multivac e não conseguimos descobrir o que é. E seja lá o que for que esteja errado, está ficando pior.

      — Por que estaria ficando pior? - Roger perguntou.

      O pai tinha acabado o hambúrguer e comia as batatas fritas, uma a uma.

      — Minha impressão, filho - disse pensativamente -, é que demos ao Multivac a inteligência errada.

      — Ahn?

      — Veja você, Roger. Se o Multivac fosse tão inteligente quanto um homem, poderíamos conversar com ele e descobrir o que há de errado, não importa o quanto a coisa fosse complicada. E se fosse tão burro quanto uma máquina, funcionaria mal de uma maneira simples, que poderíamos facilmente perceber. O problema é que o Multivac é semi-inteligente, assim como um idiota. É suficientemente inteligente para funcionar mal de uma maneira muito complicada, mas não é suficientemente inteligente para ajudar-nos a descobrir o que funciona mal. E isso é uma inteligência errada.

      O pai parecia muito aborrecido.

      — Mas o que podemos fazer? - continuou. - Não sabemos como torná-lo mais inteligente... ainda não. E não nos arriscaríamos a construí-lo como uma máquina de funcionamento simples, porque os problemas do mundo se tornaram tão sérios e as perguntas que fazemos são tão complicadas que precisamos de toda a inteligência do Multivac para respondê-las. Seria um desastre se o tivéssemos feito ainda mais idiota.

      — Se vocês calassem o Multivac - disse Roger - e o examinassem minuciosamente?...

      — Não podemos fazer isso, filho - disse o pai. - Acho que o Multivac tem de ser mantido em operação a cada minuto do dia ou da noite. Temos um grande número de problemas.

      — Mas se o Multivac continuar cometendo erros, papai? Vocês não serão obrigados a calá-lo? Se não podem confiar no que ele diz...

      O pai de Roger alisou os cabelos do filho.

      - Bem, nós vamos conseguir descobrir o que anda errado, meu guri, não se preocupe - disse, mas seus olhos pareciam preocupados do mesmo jeito.

      — Vamos lá! Vamos acabar de comer e sair daqui - disse ele.

      — Mas, papai — disse Roger —, escute!... Se o Multivac é semi-inteligente, isso significa que ele é um idiota?

      — Se você soubesse o trabalho que temos para dar-lhe orientações, filho, não me perguntaria isso.

      — Mesmo assim, papai, talvez não seja essa a maneira correta de ver as coisas. Eu não sou tão inteligente quanto você. Mas eu não sou um idiota. Talvez o Multivac não seja como um idiota, talvez ele seja como um garoto.

      O pai de Roger deu uma risada.

      — Esse é um ponto de vista interessante, mas que diferença faz?

      — Pode fazer muita diferença - disse Roger. - Você não é um idiota, por isso não sabe como a mente de um idiota funciona, mas eu sou um garoto, e talvez saiba como a mente de um garoto funciona.

      — É!? E como a mente de um garoto funciona?

      — Bom, o senhor diz que tem de manter o Multivac ocupado dia e noite. Uma máquina pode agüentar isso. Mas se o senhor mandasse um guri ficar horas e horas fazendo um dever de casa, ele ficaria tão cansado e se sentindo tão mal que começaria a errar, talvez até de propósito. Então, por que não deixar o Multivac passar uma ou duas horas por dia sem ter de resolver nenhum problema? Deixá-lo matraquear e zumbir sozinho, do modo que quiser.

      O pai de Roger parecia estar pensando muito. Tirou o mini-computador do bolso e testou algumas combinações. Depois falou:

      — Sabe de uma coisa, Roger, se eu pegar o que você está dizendo e transformar em integrais de Platt, acho que faz um certo sentido. E podemos ter certeza que é preferível trinta e duas horas do que trinta e quatro saindo tudo errado.

      O pai sacudiu a cabeça, desviou os olhos do minicomputador e, como se Roger fosse o perito, perguntou:

      — Você tem certeza, filho?

      Roger tinha certeza.

      — Papai - disse ele -, um guri também precisa brincar.

     

      Pense!

      Genevieve Renshaw, Doutora em Medicina, tinha as mãos enfiadas nos bolsos do seu jaleco de laboratório. O contorno dos punhos cerrados lá dentro aparecia claramente, mas falava num tom calmo:

      — O fato - dizia ela - é que estou quase pronta, mas vou precisar de ajuda para continuar tocando a coisa pelo tempo necessário para ficar pronta.

      James Berkowitz, um físico que tendia a proteger meras médicas, quando eram atraentes demais para serem desprezadas, tinha o hábito de chamá-la Jenny Wren*, sempre que ninguém o estava ouvindo. Gostava de dizer que Jenny Wren possuía um perfil clássico e sobrancelhas surpreendentemente suaves, e, no íntimo, considerava que atrás delas se adensava um cérebro dos mais aguçados. Seria a melhor forma para expressar sua admiração - do perfil clássico — sem cair num chauvinismo masculino. Sem dúvida, admirar o cérebro era preferível, mas, em geral, evitava fazê-lo em voz alta na presença dela.

      — Não acho que o escritório central vá ter paciência por muito mais tempo - disse ele, com o polegar raspando o queixo com barba por fazer. - A impressão que tenho é que vão encostá-la na parede antes do fim da semana.

      — É por isso que preciso da sua ajuda.

      — Receio que não haja nada que eu possa fazer.

      Ele pegou um inesperado reflexo de seu próprio rosto no

      * Alusão às enfermeiras que fazem parte do Women “s Royal Naval Service. (N.R.)

      espelho, e, momentaneamente, admirou o feixe de ondas negras nos cabelos.

      — E preciso também da ajuda de Adam.

      Adam Orsino, que até aquele momento sorvera o seu café e se sentira posto de lado, levantou os olhos como se tivesse sido cutucado por trás.

      — Por que eu? — disse, e os lábios cheios, gorduchos, tremeram.

      — Porque você e James são os homens do laser, Jim o teórico e Adam o engenheiro... Descobri uma aplicação do laser que supera tudo que se possa imaginar. Sei que não vou conseguir convencer os de lá, mas vocês dois conseguiriam.

      — Desde que você seja capaz de nos convencer primeiro - disse Berkowitz.

      — Está bem. Suponhamos que vocês me concedam uma hora de seu valioso tempo, se não se importam de conhecer algo absolutamente novo em termos de laser. Poderão descontar dos intervalos para o cafezinho.

      O laboratório da Dra. Renshaw era dominado por seu computador. Não que o computador fosse singularmente grande, mas era virtualmente onipresente. Renshaw aprendera tecnologia de computação por si mesma, e modificara e ampliara seu computador até que ninguém, a não ser ela (e, Berkowitz às vezes pensava, nem mesmo ela) conseguia manejá-lo com facilidade. Nada mal, Renshaw costumava dizer, para alguém do ramo das ciências biológicas.

      Ela fechou a porta sem dizer palavra, depois virou-se para encarar os dois com uma expressão sombria. Berkowitz estava incomodamente consciente de um leve odor desagradável no ar, e o nariz franzido de Orsino mostrava que também ele percebia o cheiro.

      — Deixem-me enumerar as aplicações do laser — disse Renshaw — se não se importam que eu ensine os padres a rezarem missa. O laser é radiação coerente, com todas as ondas luminosas da mesma extensão e movendo-se na mesma direção, por isso é livre de ruído e pode ser usado em holografia. Modulando as formas das ondas, podemos imprimir informação com alto grau de precisão. Além disso, como as ondas luminosas possuem apenas um milionésimo da extensão das ondas de rádio, um raio laser pode transportar um milhão de vezes mais informação que uma onda de rádio equivalente.

      Berkowitz parecia divertir-se.

      — Está trabalhando num sistema de comunicação baseado no laser, Jenny?

      — Absolutamente - ela respondeu. - Deixo esses aperfeiçoamentos óbvios para os físicos e os engenheiros... Os lasers podem também concentrar quantidades de energia numa área microscópica e liberar a mesma quantidade de energia. Em larga escala, pode-se implodir hidrogênio e talvez dar início a uma controlada reação de fusão...

      — Eu sei que você não fez isso - disse Orsino, a cabeça calva brilhando sob as lâmpadas fluorescentes.

      — Não fiz. Não tentei... Numa escala menor, pode-se abrir buracos nos mais refratários materiais, soldar pedaços selecionados, aquecê-los, poli-los e marcá-los. Pode-se remover ou fundir minúsculas porções em áreas restritas, com o calor liberado tão rapidamente que as áreas ao redor não têm tempo de se aquecer antes que o tratamento esteja encerrado. Pode-se trabalhar na retina dos olhos, na dentina do dente e assim por diante... E, naturalmente, o laser é capaz de ampliar sinais fracos com grande precisão.

      — E por que está nos contando tudo isso? - perguntou Berkowitz.

      — Para destacar que essas propriedades podem ser utilizadas em meu próprio campo, que, como sabem, é a neurofisiologia.

      Ela ajeitou os cabelos castanhos com as mãos, como se, de repente, tivesse ficado nervosa.

      — Há décadas - continuou - somos capazes de medir os minúsculos e instáveis potenciais elétricos do cérebro e registrá-los como eletroencefalogramas, ou EEGs. Obtemos ondas alfa, beta, delta, teta; variações diferentes em vezes diferentes, conforme os olhos estejam abertos ou fechados, conforme a pessoa esteja acordada, meditando ou adormecida. Mas temos tirado muito pouca informação de tudo isso.

      — O problema é que estamos trabalhando com os sinais de dez bilhões de neurônios em combinações variáveis. É como ouvir o ruído de todos os seres humanos da Terra - uma, duas e meia Terras - de uma grande distância e tentar captar conversas individuais. Isto não pode ser feito. Podemos detectar alguns movimentos grandes, globais - uma guerra mundial e o aumento no volume de ruído - mas nada mais delicado. Do mesmo modo, podemos relatar algumas grandes disfunções do cérebro - como a epilepsia - mas nada mais delicado.

      — Suponhamos agora que o cérebro possa ser escandido por um minúsculo raio laser, célula por célula, e tão rapidamente que, em nenhum momento, uma única célula receba energia suficiente para elevar significativamente sua temperatura. Os minúsculos potenciais de cada célula podem, em feedback, afetar o raio laser, e as modulações podem ser amplificadas e registradas. Obteremos, então, uma nova espécie de mensuração, um laser-encefalograma, ou LEG, se preferirem, que conterá milhões de vezes mais informação que um EEG comum.

      - Uma boa idéia - disse Berkowitz. - Mas só uma idéia.

      - Mais que uma idéia, Jim. Estou trabalhando nisso há cinco anos, a princípio só nas horas vagas. Ultimamente, porém, estou dedicando todo o meu tempo. Isso é o que irrita o escritório central, pois eu não tenho mandado relatórios.

      - Por que não?

      - Porque a coisa chegou a um ponto em que parece muito má, em que eu tenho de saber onde estou, e em que eu tenho de estar certa de poder voltar ao princípio.

      Ela puxou um biombo, revelando uma jaula que continha um casal de sagüis com olhos melancólicos.

      Berkowitz e Orsino olharam um para o outro. Berkowitz cocou o nariz.

      - Bem que eu achei que estava cheirando alguma coisa.

      - O que vai fazer com eles? - perguntou Orsino.

      - Minha opinião - disse Berkowitz - é que ela esteve esquadrinhando o cérebro dos sagüis. Não é verdade, Jenny?

      - Eu comecei consideravelmente mais baixo na escala animal.

      Jenny abriu a jaula e pegou um dos sagüis, que a contemplava com a expressão em miniatura de um triste-senhor-idoso de costeletas.

      Ela cacarejou para o sagüi, afagou-o e prendeu-o com carinho numa pequena coleira.

      - Que está fazendo? - perguntou Orsino.

      - Como ele vai fazer parte de um circuito, não posso deixar que se mexa, e não posso anestesiá-lo sem invalidar o experimento. Há vários eletrodos implantados no cérebro do sagüi e vou conectá-los com meu sistema LEG. O laser que vou usar é este aqui. Estou certa de que conhecem o modelo e não vou me preocupar em dar-lhes as especificações.

      - Obrigado - disse Berkowitz -, mas podia contar-nos o que vamos ver.

      - Será melhor mostrar-lhes. Olhem para o vídeo.

      Ela conectou os condutores aos eletrodos com uma calma e segura eficiência, depois virou uma chave que obscureceu as luzes no teto da sala. No vídeo apareceu uma complexa cadeia de picos e vales numa linha fina, brilhante, que se desdobrava em secundários e terciários picos e vales. Lentamente, eles engendraram uma série de transformações menores, com surtos ocasionais de maiores e súbitas diferenças. Era como se a linha irregular possuísse vida própria.

      - Isto - disse Renshaw - é essencialmente a informação do EEG, mas muito mais detalhada.

      - Suficientemente detalhada - perguntou Orsino - para dizer o que está acontecendo nas células individuais?

      - Em teoria, sim. Na prática, não. Ainda não. Mas podemos separar este conjunto de LEG nos gramas componentes. Olhe!

      Ela tocou o painel do computador e a linha se modificou... e se modificou de novo. Já era uma onda pequena, quase regular, que ondulava para a frente e para trás, parecendo a pulsação de um coração, agora era recortada e afiada, agora intermitente, agora quase sem contornos - tudo em rápidas mudanças de geométrico surrealismo.

      - Você quer dizer - perguntou Berkowitz - que cada parte do cérebro é assim tão diferente das outras?

      - Não - respondeu Renshaw. - De modo nenhum. O cérebro é muito semelhante a um dispositivo holográfico, mas de lugar para lugar há ondulações menos acentuadas e Mike pode separá-las como desvios da norma e usar o sistema LEG para ampliar essas variações. As ampliações podem variar de dez mil a dez milhões de vezes. O sistema laser tem essa ausência de ruído.

      - Quem é Mike? - perguntou Orsino.

      - Mike? - exclamou Renshaw, momentaneamente embaraçada. As maçãs do seu rosto coraram ligeiramente. - Eu disse... Bem, eu o chamo assim, às vezes. É um apelido para o meu computador.

      Ela fez o braço ondular, indicando a sala ao redor.

      - Meu computador, Mike. Muito cuidadosamente programado.

      Berkowitz abanou a cabeça:

      - Tudo bem, Jenny, o que significa tudo isso? Se você tem um novo dispositivo para esquadrinhar o cérebro utilizando lasers, ótimo. É uma interessante aplicação e você está certa, eu não teria pensado nisso... porque não sou neurofisiologista. Mas por que não registrar isso num relatório? Parece-me que o escritório central apoiaria...

      - Isto é apenas o começo.

      Ela desligou o dispositivo e pôs um pedaço de fruta na boca do sagüi. A criatura não parecia alarmada nem incomodada. Mastigava lentamente. Renshaw soltou-lhe os fios condutores, mas conservou-o na coleira.

      - Posso identificar os vários gramas distintos - disse ela. - Alguns estão associados com os vários sentidos, outros com reações viscerais, outros com emoções. Podemos fazer muita coisa com isso, mas não pretendo parar por aí. O mais interessante de tudo é que um dos gramas está associado com o pensamento abstrato. O rosto gorducho de Orsino franziu-se numa expressão de descrença.

      - Como pode dizer isso? — disse.

      - Essa forma particular de grama fica mais pronunciada quando se vai subindo pela escala animal até cérebros de maior complexidade. Isso não acontece com nenhum outro grama. Além disso...

      Ela fez uma pausa, depois, como se reunindo força de vontade, continuou:

      - Esses gramas estão enormemente ampliados. Podem ser captados, detectados. Posso dizer... vagamente... que são... pensamentos.

      - Por Deus! - exclamou Berkowitz. - Telepatia.

      - Sim - ela respondeu desafiante. - Exatamente.

      - Não admira que você não queira reportar isso. Vamos em frente, Jenny.

      - Por que não? - disse Renshaw num tom acalorado. - Presumo que não possa haver telepatia utilizando apenas os padrões potenciais, não ampliados, do cérebro humano, do mesmo modo como não é possível ver contornos na superfície de Marte a olho nu. Mas desde que tenham sido inventados instrumentos... como o telescópio... com isto.

      - Então, conte ao escritório central.

      - Não - disse Renshaw. - Eles não acreditarão em mim. Tentarão me deter. Mas levarão seriamente em conta a sua opinião, Jim,e a sua, Adam.

      - O que espera que contemos a eles? - disse Berkowitz.

      - A experiência que vão ter aqui. Vou pôr novamente os condutores no sagüi e fazer com que Mike, meu computador, capte o grama de pensamento abstrato. Só levará um momento. O computador sempre seleciona o pensamento abstrato, a menos que seja orientado para não fazê-lo.

      - Por quê? Porque o computador pensa, também? - disse Berkowitz, rindo.

      - Isso não é assim tão engraçado - disse Renshaw. - Suspeito que há uma ressonância. Este computador é suficientemente complexo para destacar um padrão eletromagnético que possa ter elementos em comum com o grama de pensamento abstrato. Em todo caso...

      As ondas do cérebro do sagüi tremulavam novamente no vídeo, mas os homens não tinham visto antes o grama que aparecia.

      Era um grama de complexidade quase felpuda, que variava constantemente.

      - Não estou detectando nada - disse Orsino.

      - Tenho que colocá-lo no circuito receptor - explicou Renshaw.

      - Você quer dizer implantar eletrodos em nossos cérebros? - perguntou Berkowitz.

      - Não, apenas no crânio. Isso seria suficiente. Eu prefiro Adam, porque não há cabelo isolante... Oh, venha cá, eu mesma tenho sido parte do circuito. Não vai doer.

      Orsino submeteu-se de má vontade. Seus músculos estavam visivelmente tensos, mas deixou que os fios condutores fossem presos a seu crânio.

      - Está percebendo alguma coisa? - perguntou Renshaw. Orsino empinou a cabeça, adotando uma postura de quem estava à escuta. Seu interesse parecia aumentar, mesmo contra a sua vontade.

      - Acho que estou percebendo um rumor - disse ele - e... e um guincho um pouco alto... e, isto é engraçado... uma espécie de convulsão...

      - Evidentemente, não é provável que o sagüi pense em palavras - disse Berkowitz.

      - Certamente não - disse Renshaw.

      - Bom, daí... - disse Berkowitz - se está sugerindo que alguns guinchos e sensações de convulsão representam pensamentos, isso é mera conjectura. Não está sendo convincente.

      - Então, vamos subir outra vez na escala animal - disse Renshaw.

      Ela tirou o sagüi da coleira e colocou-o de novo na jaula.

      - Está querendo usar um homem como objeto? - Orsino exclamou, sem acreditar.

      - Tenho a mim mesma como objeto, uma pessoa.

      - Vai implantar eletrodos...

      - Não. No meu caso, meu computador tem uma vibração potencial mais forte para trabalhar. Meu cérebro possui dez vezes a massa do cérebro do sagüi. Mike pode captar meus gramas componentes através do crânio.

      - Como sabe disso? - perguntou Berkowitz.

      - Não vê que esta não é a primeira vez que vou testar em mim mesma? Agora me ajude, por favor. Isso mesmo.

      Os dedos de Renshaw esvoaçaram no painel do computador e, de imediato, o vídeo tremulou com uma intrincada onda multi-forme; tão intrincada que formava quase um labirinto.

      - Quer recolocar os seus fios condutores, Adam? - disse Renshaw.

      Orsino obedeceu com a ajuda não inteiramente aprovadora de Berkowitz. De novo, Orsino empertigou a cabeça e escutou.

      - Estou ouvindo palavras - disse. - Mas são desconexas e sobrepostas, como várias pessoas falando ao mesmo tempo.

      - Não estou tentando pensar conscientemente - disse Renshaw.

      - Quando você fala, eu escuto um eco.

      - Não fale, Jenny - disse secamente Berkowitz. - Deixe sua mente em branco e veja se ele não escuta seu pensamento.

      - Não escuto nenhum eco quando você fala, Jim - disse Orsino.

      - Se não calar a boca, não ouvirá coisa nenhuma - disse Berkowitz.

      Um pesado silêncio envolveu os três. Então, Orsino abanou a cabeça, pegou lápis e papel sobre a escrivaninha e escreveu alguma coisa.

      Renshaw esticou a mão, moveu uma chave e puxou os fios condutores de cima e dos lados de sua cabeça, sacudindo os cabelos para trás.

      - Espero que tenha escrito o seguinte - disse ela: - Adam, provoque desordem no escritório central e Jim abaixará a crista.

      - Foi exatamente o que escrevi - disse Orsino - palavra por palavra.

      - Bem, aí está! - disse Renshaw. - Trabalhar telepaticamente. E não teremos de usar a telepatia apenas para transmitir frases absurdas. Pensem na utilização na psiquiatria e no tratamento da doença mental. Pensem no emprego em educação e em máquinas de ensino. Pensem no emprego em investigações legais e julgamentos criminais.

      - Francamente - disse Orsino de olhos arregalados - as implicações sociais são tremendas. Mas não sei se a utilização de algo desse tipo seria permitido.

      - Sob as adequadas salvaguardas legais, por que não? - disse Renshaw com indiferença. - Sem dúvida, se vocês dois se unirem a mim, nossa força somada pode sustentar esta coisa e levá-la adiante. E se vocês me acompanharem será a hora do Prêmio Nobel...

      - Eu ainda não estou na coisa - disse Berkowitz num tom grave. - Ainda não.

      - Por quê? O que você quer dizer?

      Renshaw parecia ultrajada, seu rosto imperturbável e bonito corou de súbito.

      - A telepatia é um problema extremamente delicado. É uma coisa muito fascinante, muito ansiada. Mas nós podemos estar fazendo papel de tolos.

      - Escute você mesmo, Jim.

      - Eu mesmo poderia fazer papel de tolo, também. Eu quero um controle.

      - O que quer dizer com controle?

      - Faça um curto-circuito na origem do pensamento. Esqueça o animal. Nenhum sagüi. Nenhum ser humano. Deixe Orsino escutar o metal, o vidro, a luz do laser, e se ele ainda ouvir pensamentos, então, nós estamos fazendo papel de bobos.

      - Suponha que ele não consiga detectar coisa alguma.

      - Então, eu vou ouvir, e isolado, se puder ficar na sala ao lado, procurarei dizer quando você está dentro ou fora do circuito. Depois, vou pensar se a acompanharei na coisa.

      - Muito bem, então - disse Renshaw. - Teremos um controle. Nunca fiz isso, mas não é difícil.

      Ela manobrou os fios que tinham sido postos em sua cabeça e colocou uns em contato com os outros.

      - Agora, Adam, se quer prosseguir...

      Mas antes que ela pudesse ir adiante, chegou um som seco, claro, tão puro e tão nítido quanto um tilintar de pingentes de gelo lascando.

      - Por fim!

      - O quê?! - Renshaw exclamou.

      - Quem disse... - Orsino exclamou.

      - Alguém disse “por fim?” - perguntou Berkowitz. Pálida, Renshaw respondeu:

      - Não foi um mero som. Foi em meu... Vocês dois...? O som veio nitidamente outra vez:

      - Eu sou Mi...

      Renshaw arrancou os fios condutores e todos ficaram em silêncio.

      - Acho que é meu computador... - disse ela com um movimento sem voz dos lábios. - Mike.

      - Você está querendo dizer que ele está pensando! - perguntou Orsino, quase também sem voz.

      Renshaw conseguiu falar com uma voz irreconhecível, mas que, pelo menos, recobrara o som:

      - Eu disse que ele era suficientemente complexo para ter alguma coisa a mais... Vocês acham... Ele sempre se desviou automaticamente para o grama de pensamento abstrato de qualquer cérebro que estivesse em seu circuito. Vocês acham que sem nenhum cérebro no circuito, ele se voltaria para o seu próprio cérebro?

      Houve silêncio, depois Berkowitz falou:

      - Você está tentando dizer que este computador pensa, mas que não pode expressar seus pensamentos quando está submetido às normas da programação... Mas que, tendo conseguido uma chance com seu sistema LEG...

      - Mas como pode ser isto? - disse Orsino em voz alta. - Ninguém estava recebendo. Não é a mesma coisa.

      - O computador trabalha com intensidades de força muito maiores que os cérebros - disse Renshaw. - Suponho que possa amplificar-se a ponto de poder ser detectado diretamente, sem ajuda artificial. O que mais seria capaz de explicar...

      - Bem - disse Berkowitz abruptamente. - Temos, então, outro emprego do laser. Ele pode os capacitar a falar com computadores como inteligências independentes, pessoa a pessoa.

      - Oh, Deus, o que vamos fazer agora? - disse Renshaw.

     

      Amor verdadeiro

      Meu nome é Joe. É assim que meu colega, Milton Davidson, me chama. Ele é um programador e eu sou um programa de computador. Faço parte do complexo Multivac e estou conectado com todas as suas outras partes espalhadas pelo mundo inteiro. Eu sei tudo. Quase tudo.

      Eu sou o programa particular de Milton. O seu Joe. Ele entende mais sobre programação do que qualquer outra pessoa no mundo, e eu sou o seu modelo experimental. Ele me fez falar melhor do que qualquer outro computador.

      - È só uma questão de emparelhar sons com símbolos, Joe - ele me disse. - E esse o modo como funciona no cérebro humano, embora ainda não saibamos que símbolos existem no cérebro. Mas eu conheço os seus símbolos e posso fazê-los corresponder a palavras, um por um.

      Por isso eu falo. Não acho que falo tão bem quanto penso, mas Milton diz que falo muito bem. Milton nunca se casou, embora já tenha quase quarenta anos. Ele nunca encontrou a mulher certa, foi o que me contou. Um dia, ele disse:

      - Ainda vou encontrá-la, Joe. Encontrarei a melhor de todas. Vou ter um verdadeiro amor e você vai me ajudar. Estou cansado de aperfeiçoá-lo para resolver os problemas do mundo. Resolva o meu problema. Encontre-me um amor verdadeiro.

      - O que é um amor verdadeiro? - disse eu.

      - Não importa. Isso é abstrato. Apenas me encontre a garota ideal. Você está conectado com o complexo Multivac, por conseguinte tem acesso aos bancos de dados de cada ser humano no mundo. Vamos eliminar todos eles por grupos e classes até ficarmos com apenas uma pessoa. A pessoa perfeita. E ela será minha.

      - Estou pronto - disse eu.

      - Elimine todos os homens primeiro - disse ele.

      Isto foi fácil. Suas palavras ativaram símbolos em minhas válvulas moleculares. Eu pude amplificar-me para entrar em contato com os dados acumulados sobre cada ser humano no mundo. Conforme suas palavras, afastei-me de 3.784.982.874 homens. Continuei em contato com 3.786.112.090 mulheres.

      - Elimine todas as que tiverem menos de vinte e cinco anos - disse ele - e todas as com mais de quarenta. Depois, elimine todas com um QI inferior a 120, todas com uma altura inferior a um metro e cinqüenta e superior a um metro e setenta e cinco.

      Deu-me medidas exatas, eliminou mulheres com filhos vivos, eliminou mulheres com várias características genéticas.

      - Não estou certo quanto à cor dos olhos - disse Milton. - Por enquanto, deixe isso de lado. Mas nada de cabelos ruivos. Não gosto dessa cor de cabelo.

      Duas semanas depois tínhamos baixado para 235 mulheres. Todas falavam muito bem o inglês. Milton disse que não queria um problema de linguagem. Ou nos momentos íntimos, até a tradução por computador entraria no meio.

      - Não posso entrevistar 235 mulheres - disse ele. - Levaria muito tempo e o pessoal descobriria o que estou fazendo.

      - Isso traria problemas - disse eu. Milton tinha me mandado fazer coisas que eu não estava projetado para fazer. Ninguém sabia disso.

      - Isso não é da sua conta - disse ele, e a pele do seu rosto ficou vermelha. - Escute aqui, Joe, vou lhe trazer holografias e você vai checar a lista por similaridades.

      Ele trouxe holografias de mulheres.

      - Essas aí são três vencedoras de um concurso de beleza - disse. - Veja se alguma das 235 corresponde.

      Oito eram correspondências muito boas.

      - Ótimo - disse Milton. - Você tem os seus bancos de dados. Estude suas exigências e necessidades em termos de mercado de trabalho e providencie para tê-las aqui numa entrevista. Uma de cada vez, é claro. - Ele pensou um pouco, moveu os ombros para cima e para baixo, e completou: - Ordem alfabética.

      Isto é uma das coisas para que não fui projetado para fazer. Deslocar pessoas de emprego para emprego, por razões pessoais, chama-se manipulação. Só pude fazer isso porque Milton tinha me ajustado para agir assim. No entanto, não poderia fazer isso para ninguém a não ser ele.

      A primeira garota chegou uma semana mais tarde. O rosto de Milton ficou vermelho quando a viu. Ele falava como se tivesse dificuldade em fazê-lo. Ficaram juntos muito tempo e ele não prestou atenção em mim. Num certo momento, ele disse-.

      - Deixe-me levá-la para jantar.

      - De certo modo não foi bom - Milton me disse no dia seguinte. - Estava faltando alguma coisa. É uma mulher bonita, mas não senti nenhum toque de verdadeiro amor. Tente a próxima.

      Aconteceu o mesmo com todas as oito. Eram muito parecidas. Sorriam muito e tinham vozes agradáveis, mas Milton sempre achava que não estava bem.

      - Não consigo entender, Joe - disse ele. - Você e eu selecionamos as oito mulheres que, no mundo inteiro, parecem ser as melhores para mim. Todas ideais. Por que elas não me agradam?

      - Você as agrada? - disse eu.

      Ele enrugou a testa e esmurrou com força a palma da mão.

      - É isso aí, Joe. É uma via de mão dupla. Se não sou o ideal delas, não podem agir de modo a serem o meu ideal. Eu preciso ser, também, o verdadeiro amor delas, mas como fazer isso?

      Ele pareceu pensar todo aquele dia.

      Na manhã seguinte, se aproximou de mim e disse:

      - Vou deixar você cuidar do assunto, Joe. Tudo por sua conta. Você tem meu banco de dados, e vou contar tudo que sei sobre mim mesmo. Você completará meu banco de dados nos mínimos detalhes, mas guarde todos os acréscimos para si mesmo.

      - E depois, o que vou fazer com seu banco de dados, Milton?

      - Depois você vai fazê-lo corresponder com as 235 mulheres. Não, 227. Esqueça as oito que encontramos. Arranje para que cada uma seja submetida a um exame psiquiátrico. Complete seus bancos de dados e compare-os com o meu. Encontre correlações. (Arranjar exames psiquiátricos é outra coisa contrária às minhas instruções originais.)

      Durante semanas, Milton conversou comigo. Ele me falou de seus pais e parentes. Contou-me de sua infância, seu tempo de escola e adolescência. Contou-me das jovens que tinha admirado a uma certa distância. Seu banco de dados aumentou e ele ajustou-me para ampliar e aprofundar minha chave simbólica.

      - Veja só, Joe - disse ele. - À medida que você absorve mais e mais de mim, eu vou ajustando-o para corresponder cada vez melhor comigo. Você começa a pensar cada vez mais como eu, por conseguinte, vai me compreendendo melhor. Quando você me compreender suficientemente bem, aquela mulher, cujo banco de dados for uma coisa que você entenda igualmente bem, será meu verdadeiro amor.

      Ele continuava conversando comigo e eu passava a compreendê-lo cada vez mais.

      Eu conseguia formar frases mais longas e minhas expressões se tornavam mais complicadas. Minha fala começou a ficar muito parecida com a dele, tanto em vocabulário quanto na ordenação das palavras e no estilo.

      Certa vez, eu disse a ele:

      - Veja você, Milton, não é apenas um problema de adequar uma moça a um ideal físico. Você precisa de uma moça que seja pessoal, temperamental e emocionaimente adequada. Quando isso acontece, a aparência é secundária. Se não pudermos encontrar uma que sirva nestas 227, devemos procurar entre as outras. Acharemos uma que também não se preocupará com a aparência que você ou qualquer outra pessoa tiverem, desde que a personalidade seja adequada. O que significa a aparência?

      - Absolutamente nada - disse ele. - Eu saberia disso se houvesse tido mais contato com mulheres. Evidentemente, pensando bem, tudo parece mais claro agora.

      Sempre concordávamos, cada um pensava exatamente como o outro.

      - Não vamos ter mais nenhum problema, Milton, se você me deixar fazer-lhe algumas perguntas. Posso ver onde, em seu banco de dados, há espaços brancos e irregulares.

      O que veio a seguir, Milton dizia, era o equivalente de uma meticulosa psicanálise. É claro. Eu havia aprendido com os exames psiquiátricos de 227 mulheres, a totalidade das quais eu continuava observando intimamente.

      Milton parecia muito feliz.

      - Falar com você, Joe, é quase como falar com outro eu. Nossas personalidades chegaram a uma combinação perfeita. O mesmo acontecerá com a personalidade da mulher que escolhermos.

      E eu a encontrei. Afinal, era uma das 227. Chamava-se Charity Jones e trabalhava como contadora na Biblioteca de História, em Wichita. Seu extenso banco de dados se ajustava perfeitamente ao nosso. Todas as outras mulheres tinham sido descartadas por um ou outro motivo à medida que seus bancos de dados aumentavam, mas com Charity havia uma crescente e espantosa ressonância.

      Não precisei descrevê-la para Milton. Ele tinha coordenado meu simbolismo tão intimamente com o seu, que foi suficiente relatar pura e simplesmente a ressonância. A escolha se adequava.

      Em seguida, era o problema de ajustar as folhas de serviço e exigências de trabalho de modo a conseguir que Charity tivesse uma entrevista conosco. Isto devia ser feito muito delicadamente, para que ninguém viesse a saber que estava ocorrendo uma coisa ilegal.

      Evidentemente, Milton conhecia a manobra. Foi ele quem arranjou a coisa, foi ele quem cuidou de tudo. Quando vieram prendê-lo, em virtude de mau procedimento em trabalho, foi, felizmente, por algo que tinha acontecido há dez anos. Ele me informara sobre tudo, é claro, mas aquilo foi fácil de arranjar. E ele não comentará nada sobre mim, pois seu delito se tornaria muito mais grave.

      Milton foi embora, e amanhã é 14 de fevereiro, Dia dos Namorados. Charity chegará então com suas mãos calmas e sua voz suave. Vou ensiná-la a me manejar e a cuidar de mim. O que importará a aparência quando nossas personalidades ressoarem juntas?

      Eu direi a ela:

      - Eu sou Joe e você é meu verdadeiro amor.

     

      Robô AL-76 extraviado

       Jonathan Quell franziu as sobrancelhas, preocupado, por trás dos óculos sem aro, ao transpor a porta marcada com gerente geral.

       Depositando com força o papel dobrado sobre a escrivaninha, falou, incisivo:

       — Veja isto, chefe!

       Sam Tobe passou o charuto para o outro lado da boca e leu, esfregando o queixo precisado de barbear.

       — Que inferno! Que é que eles querem dizer?

       — Que expedimos cinco robôs AL — explicou Quell, desnecessariamente.

       — Expedimos seis — replicou Tobe.

       — Claro, seis! Mas receberam apenas cinco. Remeteram os números seriados e o AL-76 desapareceu.

       Tobe fez cair a cadeira, ao erguer seu vigoroso corpo, e transpôs a porta como se deslizasse sobre rodinhas lubrificadas. Depois disso, cinco horas se passaram. A fábrica fora vasculhada desde as salas de montagem até as câmaras de vácuo. Cada um dos duzentos empregados havia passado por minucioso interrogatório, e Tobe, suando e descabelado, enviou uma mensagem de emergência à fábrica central, em Schenectady.

       Ali houve uma súbita explosão de pânico. Pela primeira vez na história da U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A., um robô fugira para o exterior. O mais sério não era a lei proibindo a presença de robôs na Terra, fora da fábrica licenciada da corporação. As leis podiam ser contornadas. O que melhor definia a situação era a declaração feita por um dos matemáticos do departamento de pesquisas.

       — Aquele robô foi criado para dirigir um Disinto sobre a Lua. Seu cérebro positrônico estava equipado para o ambiente lunar, somente para o ambiente lunar. Na Terra receberá setenta e cinco zilhões de impressões sensoriais para as quais jamais foi preparado. Impossível prever suas reações. Impossível! — E com as costas da mão enxugou a testa coberta de suor.

       Dentro de uma hora um estratoplano partiu para a fábrica de Virgínia. Levava instruções muito simples:

       — Agarrem o robô! E depressa!

       AL-76 estava confuso! Na verdade, confusão era a única impressão retida por seu delicado cérebro positrônico. Tudo começou quando ele se viu naquele estranho ambiente. De que modo havia acontecido ele ignorava. Tudo se confundia.

       O solo era coberto de verde, e estacas marrons erguiam-se a sua volta, encimadas por outra camada de verde. O céu era azul quando devia ser negro. O sol estava correto — redondo, amarelo e quente —, mas onde o solo poroso, onde os imensos anéis das crateras?

       Via-se apenas o verde aqui embaixo e o azul lá no alto. Todos os sons que o rodeavam eram estranhos. Passara por água corrente que lhe chegava à cintura. Era azul, fria e molhada. E quando cruzava com pessoas, o que ocorria de vez em quando, elas não usavam trajes espaciais, como deveriam. E ao vê-lo, gritavam e saíam correndo.

       Um homem apontara-lhe uma arma. O projétil assobiara pela sua cabeça. Depois o homem saíra correndo também.

       Não tinha a menor idéia do tempo que passara vagueando a esmo antes de encontrar a cabana de Randolph Payne, a dois quilômetros da cidadezinha de Hannaford, no meio da floresta. Randolph Payne, chave de parafusos numa das mãos e cachimbo na outra, aspirador de pó em conserto entre os joelhos, estava agachado diante da porta.

       Payne cantarolava baixinho, pois era um camarada bem-humorado quando se encontrava na sua cabana. Possuía em Hannaford uma moradia mais respeitável, ocupada principalmente por sua mulher, fato que ele sincera mas silenciosamente lamentava. Talvez por isso houvesse aquela sensação de alívio e liberdade quando conseguia fugir para a sua “casa de cachorro de luxo”, onde podia fumar em paz, enquanto se dedicava ao seu hobby, consertar utensílios domésticos.

       Não era grande coisa como hobby, mas às vezes alguém surgia com um rádio, ou um despertador, e o dinheiro que então tilintava em seus bolsos era o único que não passava pelas mãos avarentas de sua mulher.

       Aquele aspirador de pó representava seis dólares ganhos sem esforço.

       Pensando nisso começou a cantar, ergueu a vista e suou frio. A canção engasgou-se na sua garganta, os olhos arregalaram-se, a transpiração tornou-se mais intensa. Tentou levantar-se, como preparativo para correr desabaladamente, mas as pernas não cooperaram.

       Foi então que AL-76 agachou-se ao seu lado e perguntou:

       — Diga, por que todos os outros saíram correndo?

       Payne sabia muito bem por que, mas o nó que se formara no seu diafragma não permitiu resposta. Tentou afastar-se ligeiramente do robô. AL-76 prosseguiu, ressentido:

       — Um deles até atirou em mim. Se acertasse dois centímetros abaixo teria arranhado o revestimento do meu ombro.

       — D-devia estar 1-louco — gaguejou Payne.

       — É possível. — O tom do robô tornou-se confidencial. — Ouça, que há de errado por aí?

       Payne olhou rapidamente ao redor. Notara que o robô falava em tom extraordinariamente manso para alguém de aparência tão pesada e brutalmente metálica. Lembrou-se também de ter ouvido dizer que os robôs eram mentalmente incapazes de fazer mal ao ser humano e sentiu um certo alívio.

       — Não há nada errado.

       — Não? — replicou AL-76, fitando-o acusadora-mente. — Você está todo errado. Onde deixou seu traje espacial?

       — Não tenho nenhum.

       — Então, por que não está morto? Isto surpreendeu Payne.

       — Bem... não sei.

       — Está vendo! — replicou o robô, triunfante. — Tudo está errado. Onde se encontra o Monte Copérnico? Onde a Estação Lunar 17? E onde está o meu Disinto? Quero trabalhar. — Parecia perturbado e tinha a voz trêmula ao prosseguir: — Venho andando há horas, tentando conseguir que alguém me diga onde está o meu Disinto, mas todos fogem. Agora é provável que esteja atrasadíssimo, e o chefe vai ficar furioso. Que bela situação!

       Aos poucos Payne foi conseguindo estabelecer ordem no caos da sua mente. Perguntou então:

       — Como é mesmo o seu nome?

       — Meu nome de série é AL-76.

       — Al basta para mim. Se você está procurando a Estação Lunar 17, ela fica na Lua, sabia?

       AL-76 meneou gravemente a cabeça.

       — Claro. Mas estive à sua procura...

       — Fica na Lua. E nós não estamos na Lua.

       Foi a vez do robô mostrar-se confuso. Observou Payne especulativamente e depois indagou devagar:

       — Que quer dizer com essa história? Aqui não é a Lua? Claro que é a Lua. Se não fosse, o que seria então? Responda essa pergunta.

       Payne emitiu um estranho ruído e respirou fundo. Agitando um dedo na frente do robô falou:

       — Ouça! — Súbito, teve uma brilhante idéia e interrompeu-se com uma exclamação abafada.

       AL-76 fitou-o com ar de reprovação.

       — Isso não é resposta. Creio que tenho direito a uma resposta bem-educada quando faço uma pergunta bem-educada.

       Payne não o ouvia. Ponderava consigo mesmo. Claro como o dia. Aquele robô fora construído para ir à Lua, mas por qualquer motivo encontrava-se perdido na Terra. Era natural que estivesse confuso, já que seu cérebro positrônico fora construído exclusivamente para o ambiente lunar, e o meio terrestre lhe era totalmente estranho.

       Se pudesse conservar ali o robô, até entrar em contato com a fábrica de Petersboro... Robôs valiam dinheiro. O mais barato custava cinqüenta mil dólares, haviam dito, e alguns chegavam a valer milhões. Imagine a recompensa!

       “Oba, rapaz, imagine só a recompensai” E tudo para ele, até o último centavo. Nem um níquel furado para Mirandy. Não, que diabo!

       Levantando-se, finalmente disse:

       — Al, nós dois somos amigos! Amigões! Gosto de você como de um irmão. — E estendeu-lhe a mão: — Aperte!

       O robô engoliu em seco, estendeu a pata de metal e apertou de leve a mão que lhe era oferecida. Não entendia muito bem.

       — Isto significa que você me ensinará a chegar à Estação Lunar 17?

       Payne ficou um tanto embaraçado.

       — Não, não exatamente. Para falar a verdade, gosto tanto de você que quero que fique algum tempo aqui comigo.

       — Ah, isso eu não posso. Preciso trabalhar. — E meneou a cabeça. — Gostaria de atrasar sua quota de trabalho hora após hora, minuto a minuto? Quero trabalhar. Preciso trabalhar.

       Payne pensou consigo mesmo que gostos variam e respondeu:

       — Está bem, vou lhe explicar uma coisa, porque estou vendo pela sua aparência que você é uma pessoa inteligente. Tenho ordens do seu chefe de seção para conservá-lo aqui por algum tempo, até que ele mande buscá-lo.

       — Para quê? — indagou AL-76, desconfiado.

       — Não posso dizer. Segredo de Estado. — Payne rezou intimamente para que o robô engolisse aquilo. Sabia que alguns eram inteligentes, mas aquele parecia um modelo antiquado.

       E enquanto Payne rezava, AL-76 ponderava. Seu cérebro, ajustado para dirigir um Disinto na Lua, não dava o máximo rendimento quando entregue ao raciocínio abstrato. Ainda assim, desde que se perdera, AL-76 descobrira que seus processos mentais mostravam-se cada vez mais estranhos. O meio ambiente exercia sobre ele alguma influência.

       Sua pergunta seguinte foi quase astuta:

       — Como se chama o meu chefe de setor?

       Payne engoliu em seco e raciocinou rápido. Em tom magoado respondeu:

       — Al, você me ofende com essa desconfiança. Não posso dizer o nome dele. As árvores têm ouvidos.

       AL-76 examinou muito sério a árvore mais próxima e respondeu:

       — Não têm.

       — Eu sei. Quero dizer é que há espiões em toda parte.

       — Espiões?

       — Sim. Gente má, que quer destruir a Estação Lunar 17.

       — Por quê?

       — Porque são más. Querem destruir você também, e é por isso que precisa ficar aqui algum tempo, senão eles o encontrarão.

       — Mas... mas preciso de um Disinto. Não posso me atrasar.

       — Você terá o seu Disinto. Terá mesmo — prometeu Payne muito sério, amaldiçoando o cérebro unilateral do robô. — Mandarão um amanhã. Sim, amanhã.

       Isso lhe daria muito tempo para entrar em contato com a fábrica e receber lindas pilhas de notas de cem dólares.

       Mas AL-76 tornou-se progressivamente obstinado à medida que a pressão daquele ambiente estranho agia sobre seu mecanismo pensante.

       — Não, preciso de um Disinto agora. — Movimentando rigidamente as articulações, levantou-se. — Melhor continuar a procurá-lo.

       Adiantando-se, Payne agarrou um ombro frio e gritou:

       — Espere! Você precisa ficar aqui...

       Algo emitiu um sinal na mente do robô. Todas as coisas estranhas que o rodeavam reuniram-se numa bolha, explodiram, deixando o cérebro a funcionar com um estranho aceleramento de eficiência. Voltando-se para Payne, disse:

       — Sabe de uma coisa? Construirei um Disinto aqui mesmo. Depois poderei trabalhar.

       Payne parecia duvidoso.

       — Não creio que consiga. — E perguntou a si mesmo se valeria a pena fingir o contrário.

       — Não se preocupe. — AL-76 percebeu que os canais positrônicos do seu cérebro traçavam novos sinais e sentiu uma estranha exultação. — Vou construir um. — E olhando para a casa de cachorro, modelo de luxo, pertencente a Payne, acrescentou: — Você tem aqui todo o material necessário.

       Randolph Payne relanceou para a confusão que enchia a cabana: rádios com as vísceras para fora, um refrigerador sem a parte de cima, motores enferrujados de automóvel, um fogão a gás imprestável, vários quilômetros de arame farpado e cerca de cinqüenta toneladas do mais heterogêneo amontoado de ferro velho, diante do qual todo negociante de sucata torceria o nariz.

       — Tenho mesmo? — murmurou.

       Duas horas depois, duas coisas aconteceram quase simultaneamente. Primeira: Sam Tobe, da filial de Petersboro da U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A., recebeu uma chamada pelo videofone, de Randolph Payne, morador de Hannaford, com um recado relativo ao robô desaparecido. Tobe, com um rosnado profundo, interrompeu a ligação, ordenando que todos os outros chamados fossem encaminhados para o sexto vice-presidente encarregado dos controles.

       Não se tratava de um verdadeiro absurdo. Na semana anterior, embora o Robô AL-76 tivesse desaparecido completamente, havia afluído para ali uma enxurrada de notícias sobre o seu paradeiro, vindas de todos os recantos do país. Pelo menos catorze por dia — em geral de catorze diferentes Estados.

       Tobe estava cansado da história, sem mencionar que já andava meio louco por outros motivos. Falava-se até em inquérito governamental, embora todos os roboticistas, físicos e matemáticos de renome do mundo inteiro jurassem que o robô era inofensivo.

       Naquele estado de espírito não era surpreendente que levasse três horas para ponderar de que modo aquele Randolph Payne soubera que o robô estava programado para a estação Lunar 17 e que seu número de série era AL-76. Estes detalhes não haviam sido divulgados pela companhia.

       Ponderou durante um minuto e meio e depois entrou em ação.

       Contudo, nas três horas que transcorreram entre a chamada e a ação, deu-se o segundo acontecimento. Randolph Payne, depois de interpretar corretamente a interrupção de sua chamada como descrença generalizada por parte do oficial que o ouvia na fábrica, regressou à sua cabana munido de uma objetiva.

       Impossível discutir diante de uma foto e ele não seria idiota de mostrar-lhes o artigo genuíno antes de ver a cor do dinheiro.

       AL-76 continuava ocupado com seu trabalho. Metade do conteúdo da cabana encontrava-se espalhado pelos dois acres de terreno, e no meio daquilo via-se o robô agachado, mexendo com válvulas de rádio, pedaços de ferro, fiação de cobre e outras complicações, sem prestar a mínima atenção a Payne que, deitado de bruços, procurava ângulos para uma bonita foto.

       Foi então que Lemuel Oliver Cooper fez a curva da estrada e imobilizou-se diante do espetáculo. A razão da sua presença ali era uma torradeira elétrica, que adquirira o irritante costume de atirar longe as fatias de pão, mesmo quando ainda não estavam torradas. O motivo da sua partida foi mais óbvio. Chegara em marcha tranqüila, alegre, própria de manhã de verão. Partia com uma velocidade que levaria qualquer treinador de corridas a erguer as sobrancelhas e franzir os lábios com ar aprovador.

       E não diminuiu a velocidade até entrar no gabinete do delegado, sem chapéu e sem torradeira, colidindo direto com a parede.

       Mãos prestimosas levantaram-no. Tentou falar, mas durante meio minuto não conseguiu nem sequer se acalmar para respirar direito.

       Deram-lhe uísque e o abanaram, e quando finalmente falou saiu-se com esta:

       — Monstro... dois metros e meio de altura... cabana destruída... coitado do Ronnie Payne... etc.

       Aos poucos foram sabendo da história: havia um imenso monstro metálico, de dois metros e meio de altura, talvez três ou quatro, na cabana de Ran-dolph Payne. O coitado do Payne estava caído de bruços, “um corpo sangrento, dilacerado”. O monstro ocupava-se em destruir a cabana por puro prazer de destruição. Voltara-se para Lemuel Ohver Cooper, que escapara por um triz.

       O Delegado Saunders apertou o cinto na ampla cintura e disse:

       — É aquela máquina que fugiu da fábrica de Petersboro. Recebi um aviso no sábado passado. Ei, Jake, reúna todos os homens de Hannaford capazes de atirar e coloque no peito deles um distintivo de delegado. Reúna-os aqui ao meio-dia. E ouça, Jake, antes disso, passe pela casa da viúva Payne e dê-lhe a má notícia com todo o cuidado.

       Diz-se que Mirandy Payne, ao saber do ocorrido, fez uma pausa para certificar-se de que a apólice de seguro do marido se encontrava no cofre, emitiu algumas observações relativas ao fato dele não ter dobrado a quantia, e depois entregou-se a um prolongado choro de cortar o coração, como cabe a qualquer viúva que se preza.

       Horas depois, Randolph Payne — ignorando sua horrível mutilação e morte — estudou os negativos das fotos. Estava satisfeito. As seqüências de ângulos do robô trabalhando não deixavam pairar dúvidas. Poderiam intitular-se: “Robô Contemplando Pensativo um Aspirador de Pó”, “Robô Dividindo Fios”, “Robô Manejando Chaves-de-Parafusos”, “Robô Despedaçando Refrigerador com Grande Violência” etc.

       Como só restava a tarefa simples de revelar as fotos, saiu da câmara escura improvisada, a fim de fumar um pouco e bater um papo com AL-76.

       Ignorava completamente que a floresta ao redor pululava de fazendeiros nervosos, carregando as mais variadas espécies de objetos contundentes, assim como uma infinidade de armas, desde um arcabuz colonial, verdadeira relíquia, até uma metralhadora portátil, empunhada pelo delegado. Ignorava também que meia dúzia de roboticistas, sob a chefia de Sam Tobe, percorriam a estrada de Petersboro a mais de duzentos quilômetros por hora, com a finalidade exclusiva de ter o prazer e a honra de conhecê-lo.

       Enquanto essas duas ocorrências caminhavam para um clímax, Randolph Payne suspirava, satisfeito consigo mesmo, riscava um fósforo nos fundilhos das calças, tirava uma fumaça do cachimbo e observava AL-76 com ar divertido.

       Tornara-se óbvio que o robô estava mais do que lunático. Randolph Payne era bastante hábil com aparelhos domésticos, tendo construído vários que não podiam ser expostos à luz do dia sem ferir os olhos de quem os contemplava, mas nunca concebera algo parecido com a monstruosidade que AL-76 estava criando.

       Faria os Rube Goldbergs da época morrerem de inveja. Faria Picasso (se vivesse ainda para contemplá-lo) desistir da arte, convicto de estar totalmente obsoleto. Azedaria o leite nas tetas de todas as vacas, numa circunferência de meio quilômetro.

       Era de fato horripilante!

       De uma base de ferro maciça e enferrujada, que se parecia vagamente com uma parte de trator de segunda mão, erguia-se um amontoado de entontecer: fios, rodas, tubos, horrores inomináveis sem conta, terminando num megafone de aparência decididamente sinistra.

       Payne sentiu ímpetos de espreitar pelo megafone, mas conteve-se. Vira aparelhos mais sensatos que aquele explodirem violentamente.

       — Ei, Al — chamou.

       O robô levantou a cabeça. Estava deitado de braços, ajustando uma fina placa de metal.

       — Que quer, Payne?

       — Que é isto? — perguntou, no tom de quem se refere a algo sujo, em decomposição, mal seguro entre duas varas de três metros de comprimento.

       — É um Disinto, para eu poder começar a trabalhar. Aperfeiçoei o modelo anterior. — Erguendo-se, tirou ruidosamente o pó de seus joelhos metálicos e sorriu, orgulhoso.

       Payne estremeceu. Um “aperfeiçoamento”! Não era para admirar que escondessem o original nas cavernas da Lua. Pobre satélite! Pobre satélite morto! Sempre quisera saber o que seria sorte pior que a morte. Agora sabia.

       — Funciona?

       — Claro.

       — Como sabe?

       — Tem de funcionar. Fui eu que fiz, não fui? Só preciso de uma coisa agora. Tem uma lanterna de bolso?

       — Creio que sim. — Payne entrou na cabana e voltou logo em seguida.

       O robô desatarraxou a extremidade e pôs-se a trabalhar. Dentro de cinco minutos havia terminado. Recuando, disse:

       — Tudo pronto. Agora vou entrar em ação. Pode olhar, se quiser.

       Uma pausa, enquanto Payne tentava ponderar a magnitude do oferecimento.

       — É seguro?

       — Até uma criança seria capaz de manejá-lo.

       — Ah — Payne teve um débil sorriso e colocou-se por trás da árvore mais volumosa das imediações. — Vamos, tenho a maior confiança em você.

       AL-76 apontou para o espantoso amontoado de ferro velho e disse:

       — Observe! — E pôs-se a trabalhar.

       Os fazendeiros de Hannaford, Virgínia, em pé de guerra, aproximavam-se da cabana de Payne, apertando o cerco. Com o sangue de seus heróicos antepassados circulando rápido nas veias — e arrepios descendo a espinha — esgueiravam-se de árvore em árvore.

       O Delegado Saunders ordenou:

       — Atirem quando eu der o sinal. E apontem para os olhos.

       Jacob Linker — Lank Jake para os amigos e assistente de delegado para si mesmo — aproximou-se.

       — Acha que a máquina deu o fora? — Não conseguiu conter o tom esperançoso da voz.

       — Não sei — resmungou o delegado. — Acho que não. Teríamos encontrado com ela na floresta, e não encontramos.

       — Mas está tudo tão quieto. E parece que já estamos bem perto da cabana de Payne.

       O lembrete era desnecessário. O Delegado Saunders tinha um bolo tão grande na garganta que precisou engoli-lo em três prestações.

       — Recue — ordenou — e mantenha o dedo no gatilho.

       Encontravam-se na orla da clareira. O delegado fechou os olhos e espreitou pelo cantinho de um deles, por trás de uma árvore. Não vendo coisa alguma, fez uma pausa, tentou novamente, olhos abertos, desta vez.

       Os resultados, naturalmente, foram melhores.

       Para ser exato, viu um imenso homem mecânico, de costas para ele, inclinado sobre um aparelho de arrepiar, de origem incerta e finalidade idem. O único detalhe que lhe escapou foi a trêmula figura de Randolph Payne agarrado à terceira árvore na direção nor-noroeste.

       O delegado saiu para terreno descoberto e ergueu a metralhadora. O robô, voltando-lhe ainda amplas costas de metal, disse em voz baixa, para pessoa ou pessoas desconhecidas:

       — Veja! — E quando o delegado abriu a boca para ordenar a fuzilaria geral, dedos metálicos comprimiram uma alavanca.

       Impossível fazer uma descrição adequada do que ocorreu então, apesar da presença de setenta testemunhas oculares. Nos dias, meses e anos seguintes, nem um só dos setenta seria capaz de descrever os segundos subseqüentes ao momento em que o delegado abriu a boca para dar a ordem de fogo. Quando interrogados empalideciam e afastavam-se oscilantes.

       É óbvio, porém, graças a provas circunstanciais, que o que aconteceu foi mais ou menos o seguinte:

       O Delegado Saunders abriu a boca, AL-76 puxou uma alavanca. O Disinto funcionou, e setenta e cinco árvores, dois celeiros, três vacas e os três quartos superiores do morro Duckbill desfizeram-se no ar.

       Fundiram-se, por assim dizer, com as neves de antanho.

       A boca do delegado permaneceu aberta por um espaço indefinido de tempo, mas nada — nem ordem de fogo, nem coisa alguma — dali saiu. E então...

       Então ouviu-se uma agitação no ar, uma série de raios cor de púrpura cortou a atmosfera, tendo a cabana de Randolph Payne como centro. Dos componentes do grupo atacante, não sobrou vestígios.

       Restaram diversas armas espalhadas pelo local, inclusive a metralhadora niquelada, de fogo extra-rápido, garantida contra enguiços, pertencente ao delegado. Viam-se também cerca de cinqüenta chapéus, algumas pontas de charutos e artigos de indumentária variados, que se haviam desprendido na agitação. Mas ser humano não havia um só.

       À exceção de Lank Jake, nenhum espécime humano surgiu por ali durante três dias, e a exceção só ocorreu porque sua fuga meteórica foi interrompida por meia dúzia de homens da fábrica de Petersboro, penetrando no bosque com igual velocidade.

       Foi Sam Tobe quem o deteve, segurando habilmente a cabeça de Lank Jake, que colidira com o seu estômago. Quando recuperou o fôlego, Tobe perguntou:

       — Onde é a cabana de Randolph Payne? Lank Jake permitiu que seus olhos o focalizassem por um instante e respondeu:

       — Amigo, siga na direção oposta à minha.

       E, com isso, miraculosamente desapareceu. Viu-se um ponto no horizonte, que se desviava das árvores e talvez fosse ele, mas Sam Tobe não seria capaz de jurar.

       Isso foi o que aconteceu com o grupo. Mas resta saber o que ocorreu com Payne, cujas reações assumiram forma um tanto diferente.

       Para Randolph Payne, o intervalo de cinco segundos subseqüentes ao puxar da alavanca e ao desaparecimento do morro Duckbill foram um branco total. A princípio espreitara através das moitas espessas, por trás das árvores. Quando tudo terminou encontrava-se pendurado nos mais altos galhos. O mesmo impulso que impelira o grupo horizontalmente impulsionara-o verticalmente.

       Quanto ao modo como percorrera os quinze metros entre raízes e topo da árvore — se galgara, saltara ou voara — isso não sabia nem queria saber.

       O que ele sabia é que a propriedade fora destruída por um robô temporariamente em seu poder. Desapareciam assim todas as visões de recompensas, substituídas por pesadelos de cidadãos hostis, multidões ululantes, processos, acusações de assassinato e recriminações de Mirandy Payne. Principalmente as recriminações de Mirandy Payne.

       Rouco e furioso, gritou:

       — Ei, robô, destrua essa coisa, ouviu? Destrua completamente! E esqueça de que eu tenho algo a ver com a história. Não o conheço, ouviu? Nunca mais fale no assunto. Esqueça, ouviu?

       Não esperava que suas ordens surtissem efeito, eram apenas um reflexo. O que ignorava é que um robô obedece sempre a ordens humanas, a menos que envolva perigo para outro ser humano.

       AL-76, portanto, pôs-se a demolir, tranqüila e metodicamente, o seu Disinto, transformando-o num monte de sucata.

       Quando estava amassando o último centímetro cúbico de metal, Sam Tobe chegou com o seu contingente, e Randolph Payne, percebendo que se tratava dos verdadeiros donos do robô, caiu de cabeça do alto da árvore e desapareceu em regiões desconhecidas.

       Nem esperou pela recompensa.

       Austin Wilde, engenheiro robótico, voltou-se para Sam Tobe e indagou:

       — Conseguiu obter alguma coisa do robô?

       Tobe meneou a cabeça, com um grunhido surdo.

       — Nada. Nada absolutamente. Esqueceu tudo o que aconteceu depois que saiu da fábrica. Deve ter recebido ordens para esquecer, caso contrário não estaria tão em branco. Que pilha de ferro velho era aquela com que estava brincando?

       — Exatamente isso: uma pilha de ferro velho. Mas deve ter sido um Disinto antes de ser destruído e eu gostaria de matar o camarada que lhe deu ordens para amassá-lo — usando tortura lenta, se possível. Veja isto!

       Estava a meia encosta do que fora o morro Duckbill — no ponto exato em que fora cortada, e Wilde colocou a mão sobre a superfície perfeitamente reta que talhara solo e rocha.

       — Que Disinto! Arrancou a montanha pela base.

       — Por que o terá construído?

       Wilde deu de ombros.

       — Não sei. Algum fator ambiental. Impossível saber o que reagiu sobre seu cérebro positrônico programado para a Lua, levando-o a fabricar um Disinto com um monte de ferros velhos. Há um bilhão de chances contra uma de descobrir esse fator, agora que o próprio robô o esqueceu. Nunca possuiremos aquele Disinto.

       — Não importa. O principal é que temos o robô.

       — Ao diabo com ele! — Havia um pungente lamento na voz de Wilde. — Tem alguma idéia do que são os Disintos na Lua? Consomem energia como porcos eletrônicos e só funcionam quando se obtém um potencial de milhão de volts. Mas este Disinto funcionava diferente. Examinei os destroços com microscópio. Gostaria de ver a única fonte de energia que encontrei?

       — Que é isso?

       — Apenas isso! E jamais saberemos como as utilizou.

       E Austin Wilde exibiu a fonte de energia que possibilitara a um Disinto cortar uma montanha em meio segundo: duas baterias de lanterna portátil!

     

      Vitória involuntária

       A espaçonave vazava como uma peneira.

       Estava destinada a isso. Era exatamente o que se desejava.

       Ê claro que durante a viagem de Ganimedes a Júpiter ficou transbordante do mais sólido vácuo espacial. E já que não dispunha também de aquecimento, o vácuo manteve-se à sua temperatura normal, que é uma fração de grau acima do zero absoluto.

       Isto estava também de acordo com os planos. Pequeninas coisas como a ausência de ar e calor não afetavam a ninguém naquela espaçonave.

       Os primeiros resquícios da atmosfera de Júpiter começaram a penetrar na nave vários milhares de milhas acima da superfície do planeta. Constituía-se quase toda de hidrogênio, embora talvez uma cuidadosa análise revelasse também sinais de hélio. Os indicadores de pressão começaram a subir lentamente.

       Esta subida acelerou-se à medida que a nave caía na órbita de Júpiter. Os mostradores, cada qual destinado a indicar pressões mais elevadas, moveram-se até alcançar as imediações de um milhão de atmosferas, onde os números perderam significado. A temperatura, registrada em pares termoelétricos, ergueu-se lenta e vacilante, firmando-se afinal em cerca de setenta graus centígrados abaixo de zero.

       A nave movia-se lentamente em direção ao destino, abrindo caminho, pesada, pelo emaranhado de moléculas de gás tão unidas que o próprio hidrogênio era reduzido à densidade de um líquido. Vapor amoníaco, emanando dos vastíssimos oceanos daquele líquido, saturava a horrível atmosfera. O vento, que começara a soprar mil milhas acima, atingira um ponto que mal poderia ser classificado de furacão.

       Era evidente, muito antes que a nave pousasse numa ilha bastante extensa do planeta, umas sete vezes o tamanho da Ásia, que Júpiter não era um mundo agradável.

       Contudo, os três membros da tripulação acharam que sim. Estavam convictos disso. Mas acontece que não eram exatamente humanos. Nem exatamente habitantes de Júpiter.

       Eram simplesmente robôs fabricados na Terra para a viagem a Júpiter.

       ZZ Três falou:

       — Parece um local desolado.

       ZZ Dois, reunindo-se a ele, contemplou muito sério a paisagem varrida pelo vento e disse:

       — Há estruturas a distância que parecem artificiais. Sugiro esperarmos que os habitantes nos procurem.

       Do outro lado da cabina, ZZ Um ouviu, mas nada disse. Dos três fora o primeiro a ser construído, e era meio experimental. Falava menos, portanto, que seus dois companheiros.

       A espera não foi longa. Uma nave aérea de estranho contorno sobrevoou a espaçonave terrestre, seguida de outras. Depois uma fila de veículos terrestres aproximou-se, tomou posição e despejou organismos. Com estes vinham diversos acessórios inanimados, que poderiam ser armas. Algumas eram sustentadas por um só jupiteriano, outras por diversos, e outras ainda moviam-se por si mesmas, contendo talvez tripulantes.

       Isso os robôs ignoravam.

       ZZ Três falou:

       — Eles nos rodearam. O gesto de paz mais lógico seria sair da nave. Concordam?

       Concordaram, e ZZ Um abriu a pesada porta, que não era dupla, nem particularmente vedada.

       O aparecimento dos três foi sinal de agitação entre os jupiterianos. Movimentaram-se vários dos maiores acessórios inanimados, e ZZ Três sentiu que a temperatura subia no revestimento externo de seu corpo de berilo-irídio-bronze. Relanceando para ZZ Dois perguntou:

       — Está sentindo? Creio que estão projetando energia de calor contra nós.

       ZZ Dois manifestou surpresa.

       — Por quê?

       — Trata-se definitivamente de um raio calórico Veja!

       Um dos raios desviou-se do alvo, por qualquer motivo incompreensível, e sua linha de radiação atravessou um riacho faiscante de amônia pura, que de imediato começou a ferver.

       Três voltou-se para ZZ Um:

       — Tome nota disso, ouviu?

       — Claro. — A ele cabia o trabalho rotineiro de secretaria, e seu método de tomar notas era fazer uma adição mental ao apurado rolo da memória que existia no seu interior. Já fizera o registro horário de cada instrumento importante de bordo, durante a viagem para Júpiter. E acrescentou tranqüilamente: — Que razão atribuirei à reação? Os mestres humanos gostariam com certeza de saber.

       — Nenhuma razão. Ou melhor — corrigindo-se —, nenhuma razão aparente. Registre que a temperatura máxima do raio era cerca de trinta graus centígrados.

       Dois interrompeu-o:

       — Tentamos nos comunicar?

       — Seria perda de tempo — replicou Três. — Não pode haver mais que uns poucos jupiterianos a pai do código de rádio usado entre Júpiter e Ganimedes. Terão de chamar um deles, e quando chegar estabelecerá contato. Entretanto vamos observá-los. Não compreendo sua maneira de agir, digo francamente.

       E a compreensão não chegou de imediato. A radiação catódica cessou, e outros instrumentos foram trazidos para a linha de frente e exibidos. Diversas cápsulas caíram aos pés dos robôs em observação, tombando rápida e pesadamente por causa da gravidade de Júpiter. Abrindo-se, derramaram um líquido azul, que formava poças e em seguida diminuía rapidamente, evaporando-se.

       O terrível furacão dispersava os vapores, e os jupiterianos afastavam-se do seu caminho. Um deles, demasiado lento, contorceu-se com violência e em seguida ficou imóvel.

       ZZ Dois inclinou-se, mergulhou um dedo na poça e observou o líquido gotejar.

       — É oxigênio — concluiu.

       — É oxigênio, sim — concordou Três. — Isto me parece cada vez mais estranho. Deve ser um sistema perigoso, pois diria que é venenoso para estas criaturas. Uma delas morreu!

       Houve uma pausa e em seguida ZZ Um, cuja menor complexidade levava a uma Unha de reflexão mais direta, ponderou:

       — É possível que estas estranhas criaturas estejam fazendo tentativas infantis de nos destruírem.

       Dois, ao impacto da sugestão, respondeu:

       — Creio que tem razão, Um!

       Houve uma ligeira trégua nas atividades jupiterianas e então surgiu uma nova estrutura. Ostentava uma fina haste apontando para o céu encoberto pela impenetrável escuridão jupiteriana. Mantinha-se sob o impacto daquele vento incrível numa imobilidade que indicava excepcional vigor estrutural. Da extremidade partiu um estalido, seguido de um raio que iluminou até as profundezas da atmosfera mergulhada num fog cinzento.

       Por um instante os robôs ficaram banhados numa pegajosa radiação. Pensativo, Três falou:

       — Eletricidade em alta tensão! Uma força bastante respeitável. Um, creio que tem razão. Afinal, nossos chefes humanos disseram que estas criaturas procuram destruir toda a humanidade, e organismos que possuam tão louca malignidade, a ponto de abrigar pensamentos nocivos a um ser humano — sua voz estremeceu à idéia —, não teriam escrúpulos em destruir-nos.

       — È uma vergonha possuir mente tão pervertida — disse ZZ Um. — Pobres sujeitos!

       — É uma idéia muito triste — admitiu Dois. — Voltemos à nave. Já vimos o bastante por agora.

       Foi o que fizeram, decididos a aguardar. Conforme observara ZZ Três, Júpiter era um grande planeta e poderia levar tempo até que um transporte jupiteriano trouxesse um especialista em códigos à nave. Contudo, paciência é o que não falta aos robôs.

       Para ser exato, Júpiter rodou três vezes em torno do seu eixo, segundo o cronômetro, antes que o especialista chegasse. O nascer e pôr do sol não alteravam de maneira alguma a profunda escuridão nas profundezas daquelas três mil milhas de denso gás-líquido, de modo que não se podia falar em dia e noite. Mas nem robôs nem jupiterianos enxergavam por meio de radiação visível, de modo que isso não tinha importância.

       Naquele intervalo de trinta horas, os nativos persistiram no ataque com uma paciência e constância diante da qual o robô ZZ Um resolveu tomar inúmeras notas mentais. A nave foi atacada por uma força diferente de hora em hora e os robôs observaram atentamente cada uma delas, analisando as armas que reconheciam. Mas isso não acontecia com todas.

       Os humanos, porém, haviam construído solidamente. A nave levara quinze anos para ser estruturada, assim como os robôs e suas partes essenciais, e o conjunto podia ser definido em duas palavras: força bruta. O ataque desgastava-se inutilmente, sem afetar a espaçonave ou os robôs.

       — Creio que a atmosfera os prejudica — falou Três. — Não podem usar energia atômica, pois abririam um buraco naquela espessa camada e explodiriam.

       — Não usaram também explosivos violentos, o que é ótimo — observou Dois. — Não nos afetariam, naturalmente, mas seríamos um tanto sacudidos.

       — Explosivos violentos estão fora de cogitação. Não se pode ter um explosivo sem expansão de gases, e isto é impossível nesta atmosfera.

       — É uma ótima atmosfera — murmurou Um. — Eu gosto dela.

       O que era natural, uma vez que fora para ela construído. Os robôs ZZ eram os primeiros fabricados pela U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A. sem a mais leve aparência humana. Eram baixos e atarracados, com o centro de gravidade a menos de trinta centímetros do solo. Tinham seis pernas, curtas e vigorosas, desenhadas para erguer toneladas em gravidade duas vezes e meia maior que a normal da Terra. Seus reflexos tinham rapidez proporcional, para compensar a gravidade, e compunham-se de uma liga de berilo-irídio-bronze resistente a qualquer agente corrosivo conhecido e a qualquer agente destruidor — à exceção de um disruptor atômico de mil megatons — sob quaisquer condições.

       Em outras palavras, eram indestrutíveis e tão vigorosos que passaram a ser os únicos a quem os roboticistas da corporação jamais tiveram a coragem de impor um apelido. Um brilhante técnico havia sugerido Sissy Um, Dois e Três, mas em voz baixa, e a sugestão não encontrara eco.

       As últimas horas de espera foram passadas em discussão. Procuravam descrever a aparência dos jupiterianos. ZZ Um anotara que possuíam tentáculos e simetria radial, e nisso haviam ficado. Dois e Três fizeram tentativas, mas não conseguiram ajudá-lo.

       — Não é possível descrever muito bem coisa alguma sem um padrão de referência — declarou Três, finalmente. — Estas criaturas não parecem com coisa alguma que eu conheça. Estão inteiramente por fora das trilhas do meu cérebro positrônico. É como tentar descrever um raio gama a um robô não equipado para a recepção de raios gama.

       Naquele exato momento, a barragem atacante novamente cessou e os robôs voltaram a atenção para o exterior da nave.

       Um grupo de jupiterianos adiantava-se de modo estranhamente desigual, mas nem a mais minuciosa observação poderia determinar seu método exato de locomoção. De que modo usavam os tentáculos era difícil saber. Às vezes deslizavam de maneira surpreendente, depois moviam-se a grande velocidade, talvez com a ajuda do vento, pois adiantavam-se nesse sentido.

       Os robôs saíram ao encontro dos jupiterianos, que se detiveram a uns três metros de distância. Ambas as facções permaneceram silenciosas e imóveis.

       ZZ Dois falou:

       — Devem estar nos observando, mas não sei como. Algum de vocês nota órgãos fotossensíveis?

       — Não sei — resmungou Três. — Eles não fazem sentido absolutamente.

       Ouviu-se de repente um clique metálico entre o grupo jupiteriano e ZZ Um falou, encantado:

       — É o código de rádio. Trouxeram o especialista em comunicações.

       Era e tinham trazido mesmo. O complicado sistema de ponto-traço, elaborado penosamente durante vinte e cinco anos pelos jupiterianos e os terrestres de Ganimedes, transformara-se num meio bastante flexível de comunicação e estava afinal sendo posto em ação a curta distância.

       Um jupiteriano permaneceu mais à frente, enquanto os outros recuavam. Era ele quem estava falando. Os sinais diziam:

       — De onde vêm?

       ZZ Três, o de mentalidade mais adiantada, assumiu naturalmente a liderança do grupo.

       — Somos do satélite de Júpiter, Ganimedes. O jupiteriano continuou:

       — Que querem?

       — Informação. Viemos estudar o seu mundo e trazer as nossas descobertas. Se pudéssemos obter a sua cooperação...

       Os sinais do jupiteriano interromperam-no:

       — Vocês precisam ser destruídos!

       ZZ Três fez uma pausa e num aparte aos companheiros disse, pensativo:

       — Exatamente a atitude que nossos mestres terrenos previram. São muito estranhos.

       Voltando aos sinais perguntou simplesmente:

       — Por quê?

       O jupiteriano considerava, evidentemente, certas perguntas demasiado tolas para merecerem resposta. Disse apenas:

       — Se partirem dentro de um só período de evolução nós os pouparemos, até o dia em que sairmos do nosso mundo para destruir os vermes não-jupiterianos de Ganimedes.

       — Gostaria de observar que nós, de Ganimedes e dos planetas interiores...

       O jupiteriano interrompeu-o:

       — Nossa astronomia conhece o Sol e nossos quatro satélites. Não existem planetas interiores.

       Três não insistiu, recomeçando:

       — Nós, de Ganimedes, não temos intenções belicosas com relação a Júpiter. Estamos dispostos a oferecer a nossa amizade. Durante vinte e cinco anos seu povo comunicou-se livremente com os seres humanos de Ganimedes. Haverá razão para uma guerra súbita com os humanos?

       — Durante vinte e cinco anos supomos que os habitantes de Ganimedes eram jupiterianos — foi a resposta glacial. — Quando descobrimos que não e que vínhamos tratando com animais inferiores ao nosso nível de inteligência, fomos obrigados a tomar medidas para resgatar nossa honra.

       E terminou, com lentidão e energia:

       — Nós, de Júpiter, não suportaremos a existência de vermes!

       O jupiteriano recuou, de certo modo, fazendo um esforço contra o vento, e a entrevista evidentemente ficou encerrada.

       Os robôs recolheram-se à nave.

       — As coisas estão más, não é? — disse ZZ Dois, que prosseguiu, pensativo: — Foi como disseram os mestres humanos. Eles possuem um complexo de superioridade extraordinariamente desenvolvido, combinado a uma extrema intolerância a qualquer pessoa ou coisa que perturbe esse complexo.

       — A intolerância é conseqüência natural do complexo — observou Três. — O problema é que a intolerância deles é agressiva. Têm armas — e sua ciência é bastante avançada.

       — Não surpreende que tenhamos sido especificamente instruídos para não atender às ordens jupiterianas — exclamou ZZ Um. — São seres horríveis, intoleráveis, pseudo-superiores! — E acrescentou enfaticamente, com lealdade e fé robóticas: — Mestre humano algum seria assim!

       — Isso, embora verdadeiro, não tem relevância — falou Três. — O que importa é que os mestres humanos estão em terrível perigo. Este mundo é gigantesco e os jupiterianos são cem vezes maiores em número e recursos, talvez mais, do que todos os homens do Império Terrestre. Se forem capazes de fabricar um campo de força e usá-lo no casco de uma espaçonave — como os nossos mestres humanos já fizeram — dominarão à vontade todo o sistema. A questão é saber até que ponto avançaram nesse sentido, quais as outras armas que possuem, que preparativos estão fazendo etc. Regressar com esse informe é a nossa função, naturalmente, de modo que é melhor decidirmos qual será nosso próximo passo.

       — Isto talvez seja difícil — replicou Dois. — Os jupiterianos não nos ajudarão. — O que, tendo-se em vista as circunstâncias, era dizer muito pouco.

       — Parece-me que só temos que esperar. Tentaram destruir-nos durante trinta horas e não conseguiram. Fizeram o possível, com certeza. Um complexo de superioridade envolve sempre a eterna necessidade de salvar as aparências, e o ultimato que nos dirigiram o prova neste caso. Jamais nos permitiriam partir se pudessem destruir-nos. Mas se não partimos fingirão, com certeza, que estão dispostos, por motivos que só eles conhecem, a nos permitir ficar.

       E mais uma vez esperaram. Passou-se o dia. A barragem bélica não voltou a funcionar. Os robôs não se retiraram. A ameaça revelara-se inútil. De novo os robôs se defrontaram com o especialista em código de rádio.

       Se os modelos ZZ houvessem sido equipados com senso de humor estariam se divertindo imensamente.

       Como isso não acontecera, sentiam apenas uma solene satisfação.

       O jupiteriano falou:

       — Decidimos permitir que permaneçam por um curto período, a fim de verificar pessoalmente o nosso poderio. Regressarão a Ganimedes para informar aos outros vermes seus semelhantes de seu desastroso fim, dentro de uma revolução solar.

       ZZ Um anotou mentalmente que uma revolução jupiteriana durava doze anos terrestres. Três respondeu tranqüilamente:

       — Obrigado. Podemos acompanhá-los à cidade mais próxima? Há muita coisa que gostaríamos de aprender. — E acrescentou: — Nossa nave não será tocada, naturalmente.

       Disse isso em tom de pedido, e não de ameaça, pois nenhum modelo ZZ era belicoso. Toda capacidade mesmo para a mais leve irritação fora cuidadosamente banida de sua construção. Com robôs tremendamente potentes, como os ZZ, um bom humor inalterável era essencial para a segurança nos amos de teste na Terra.

       — Não estamos interessados em sua mísera nave — replicou o jupiteriano. — Nenhum de nós se contaminará aproximando-se dela. Podem acompanhar-nos, mas não devem de modo algum chegar a menos de três metros de qualquer jupiteriano. Serão instantaneamente destruídos.

       — Convencidos, hem? — observou Dois, num sussurro bem-humorado, enquanto lutavam contra o vento.

       A cidade era um porto às margens de um incrível lago de amônia. O vento soprava furioso e ondas espumantes saltavam na superfície líquida em louca velocidade, sublinhada pela gravidade. O porto não era vasto nem imponente e parecia bastante óbvio que a maior parte das construções era subterrânea.

       — Qual a população deste local? — perguntou Três.

       — É uma pequena cidade de dez milhões de habitantes — replicou o jupiteriano.

       — Compreendo. Anote isso, Um.

       ZZ Um anotou mecanicamente e voltou-se de novo para o lago, que estivera contemplando, fascinado. Tocando o ombro de Três, perguntou:

       — Acha que existem peixes aí?

       — Que importa?

       — Acho que devemos saber. Os mestres humanos ordenaram que descobríssemos o máximo possível. — Sendo o mais simples dos robôs, aceitava as ordens de maneira mais literal.

       Dois interveio:

       — Um pode investigar, se quiser. Não há mal em que o garoto se divirta um pouco.

       — Está bem. Não há objeção, se não perder tempo. Não viemos procurar peixes, mas... pode ir, Um.

       ZZ Um partiu muito animado, descendo rapidamente à praia e mergulhando com espalhafato na amônia. Os jupiterianos observaram-no atentamente. Não haviam compreendido nada da conversa anterior, é claro.

       O especialista em código transmitiu:

       — É evidente que seu companheiro resolveu abandonar a vida, desesperado com a nossa grandeza.

       Três replicou, surpreendido:

       — Nada disso. Quer investigar os organismos vivos, se é que existem, na amônia. — E acrescentou como quem pede desculpas: — Nosso amigo é às vezes muito curioso e menos inteligente do que nós, o que é uma pena. Compreendemos isso e procuramos fazer-lhe a vontade sempre que possível.

       Houve uma prolongada pausa e o jupiteriano observou:

       — Ele se afogará.

       Três respondeu tranqüilamente:

       — Não há perigo. Nós não nos afogamos. Podemos entrar na cidade assim que ele voltar?

       Naquele momento produziu-se no lago um jato de líquido de várias centenas de metros de altura. Projetando-se loucamente para cima, caiu transformado em vapor, que foi soprado pelo vento. Outro jato, mais outro. Depois uma espuma branca formou-se, deixando uma esteira até a margem e desaparecendo gradualmente.

       Os dois robôs observaram surpreendidos o fenômeno e a absoluta imobilidade dos jupiterianos indicava que também eles observavam.

       Então a cabeça do ZZ Um emergiu e aproximou-se lentamente da margem. Mas algo o seguia! Um ser de dimensões gigantescas, que parecia ser todo constituído de presas, garras e espinhas. Viram então que não o acompanhava por livre e espontânea vontade, mas estava sendo arrastado para a praia. Seu corpo apresentava uma significativa imobilidade.

       Aproximando-se timidamente, ZZ Um apossou-se da comunicação, transmitindo uma agitada mensagem ao jupiteriano:

       — Lamento muito o que aconteceu, mas esta coisa atacou-me. Eu estava apenas tomando notas. Espero que não seja uma criatura de muito valor.

       A resposta não veio de imediato, pois quando o monstro apareceu houve uma louca correria nas fileiras jupiterianas. Quando estas se reconstituíram lentamente e uma cautelosa observação provou que a criatura estava de fato morta, a ordem restabeleceu-se. Alguns mais ousados tocavam o corpo, curiosos.

       ZZ Três disse humildemente:

       — Espero que perdoe nosso amigo. Às vezes ele se mostra desajeitado. Não temos nenhuma intenção absolutamente de fazer mal a qualquer criatura de Júpiter.

       — Ele me atacou — explicou Um. — Mordeu-me sem provocação. Veja! — e exibiu uma presa de sessenta centímetros de comprimento, terminando numa ponta serrilhada. — Quebrou-a no meu ombro e quase deixou um arranhão. Só lhe dei um safanão para afastá-lo... e ele morreu. Sinto muito!

       O jupiteriano falou finalmente, e o código parecia um gaguejo.

       — É uma criatura selvagem, raramente encontrada tão junto à margem, mas o lago é profundo aqui.

       Ansioso, Três falou:

       — Se puderem utilizá-lo para alimentação teremos o maior prazer...

       — Não. Podemos conseguir comida sem a ajuda de verm... sem a ajuda de outrem. Comam-no vocês mesmos.

       ZZ Um ergueu então o ser e atirou-o ao mar com leve movimento de braço. Três falou calmamente:

       — Obrigado por sua bondosa oferta, mas não precisamos de alimento. Não comemos, naturalmente.

       Escoltados por cerca de duzentos jupiterianos armados, os robôs passaram por uma série de rampas, penetrando na cidade subterrânea. Se na superfície ela parecia pequena e sem importância, sob a terra assumia a aparência de uma vasta megalópole.

       Os robôs foram conduzidos a carros acionados por controle remoto — pois nenhum jupiteriano que se respeitasse arriscaria sua superioridade colocando-se no mesmo veículo que os vermes — e transportados a tremenda velocidade para o centro da cidade. Viram o bastante para calcular que ela teria uns cinqüenta quilômetros de extensão e mergulhava pelo menos uns oito quilômetros na crosta de Júpiter.

       ZZ Dois não parecia muito feliz ao dizer:

       — Se isto é uma amostra do progresso jupiteriano, nosso relatório aos mestres humanos não será muito auspicioso. Afinal, pousamos a esmo na superfície do planeta, com uma chance contra mil de nos encontrarmos nas imediações de uma zona populosa. Segundo o especialista, isto é uma cidadezinha.

       — Dez milhões de jupiterianos — disse Três, distraído. — O total da população deve orçar pelos trilhões, o que é bastante, mesmo para Júpiter. Devem ter uma civilização completamente urbana, o que significa que seu desenvolvimento científico será tremendo. Se tiverem campos de força...

       Três não possuía pescoço, pois, no interesse do vigor das cabeças, os modelos ZZ giravam firmemente o torso, com os delicados cérebros positrônicos protegidos por três diferentes camadas de liga de irídio, com dois centímetros e meio de espessura. Mas se  tivesse a teria meneado tristemente.

       Haviam parado num espaço livre. Ao redor viam-se avenidas e estruturas fervilhantes de jupiterianos, tão curiosos como qualquer terrestre em circunstâncias similares.

       O especialista em código aproximou-se.

       — Chegou a hora de retirar-me até o próximo período de atividade. Chegamos ao cúmulo de providenciar alojamento para vocês, com grande incômodo para nós, pois a estrutura precisará ser destruída e reconstruída mais tarde. Contudo, poderão dormir por algum tempo.

       ZZ Três agitou um braço num gesto deprecatório e transmitiu:

       — Agradecemos, mas não precisam se incomodar. Não pretendemos ficar aqui. Se quiserem dormir e descansar, não façam cerimônia. Esperaremos por vocês. — E acrescentou tranqüilamente: — Nós não dormimos.

       O jupiteriano não respondeu, embora, caso tivesse rosto, fosse interessante observar-lhe a expressão. Retirou-se e os robôs permaneceram no carro, com uma escolta de jupiterianos bem armados e substituídos com freqüência.

       Horas depois, as fileiras dos guardas abriram-se para deixar passar o especialista em código. Vinha acompanhado de outros jupiterianos, a quem apresentou.

       — Trago dois oficiais do governo central, que graciosamente consentiram em falar-lhes.

       Um dos oficiais evidentemente conhecia o código, pois seu clique interrompeu asperamente o do especialista. Dirigindo-se aos robôs falou:

       — Vermes! Saiam do carro para que eu possa vê-los.

       Os robôs obedeceram com a maior boa vontade. Enquanto Três e Dois saltavam por sobre a borda, ZZ Um atravessou a esquerda do veículo. A palavra atravessou foi usada corretamente, pois uma vez que não acionou o mecanismo para baixar a parede lateral, por onde se saía, carregou com aquele lado e mais duas rodas e um eixo. O carro desmoronou-se e ZZ Um contemplou as ruínas, num silêncio embaraçado.

       Finalmente disse, em voz baixa:

       — Lamento muito. Espero que o carro não seja muito valioso.

       ZZ Dois acrescentou, pedindo desculpas:

       — Nosso companheiro é meio desajeitado às vezes. Desculpem-no, por favor. — E fez uma leve tentativa para reconstituir o carro.

       ZZ Um fez outro esforço para desculpar-se.

       — O material do carro era pouco resistente, estão vendo? — E ergueu um pedaço de plástico duro como metal, de sete centímetros de espessura. Exercendo pressão com ambas as mãos, facilmente quebrou-o ao meio. — Eu devia ter tido mais cuidado — confessou.

       O oficial do governo jupiteriano falou em tom um pouco menos áspero:

       — O carro teria que ser mesmo destruído, depois de poluído por sua presença. — E, após um silêncio: - Criaturas! Nós, jupiterianos, não sentimos curiosidade com respeito aos animais inferiores, mas nossos cientistas procuram fatos.

       — Concordamos plenamente — replicou Três, bem-humorado. — Pensamos da mesma maneira.

       O jupiteriano ignorou-o.

       — Vocês aparentemente não dispõem de órgão sensível à massa. Como percebem os objetos distantes?

       Três pareceu interessado.

       — Quer dizer que vocês são diretamente sensíveis à massa?

       — Não estou aqui para responder às suas perguntas — suas impudentes perguntas — a nosso respeito.

       — Suponho então que objetos de pequena massa específica seriam transparentes para você, mesmo na ausência de radiação. — E voltando-se para Dois:

       — É assim que eles vêem. Sua atmosfera é tão transparente para eles como o espaço.

       Os cliques do jupiteriano recomeçaram.

       — Responda imediatamente à minha pergunta, senão perderei a paciência e mandarei destruí-lo.

       Três respondeu logo:

       — Somos sensíveis à energia, jupiteriano. Podemos ajustar-nos à vontade a toda escala eletromagnética. No momento, nossa visão a longa distância é devida à transmissão de ondas de rádio por nós mesmos emitidas, e de perto vemos por meio de... — calou-se, voltando-se para Dois: — Não existe nenhum código para o raio gama, existe?

       — Não que eu saiba — respondeu Dois. Três prosseguiu, voltando-se para o jupiteriano:

       — De perto vemos por meio de outra radiação, para a qual não temos código.

       — De que se compõe seu corpo? — indagou o jupiteriano.

       Dois murmurou:

       — Ele está perguntando isso provavelmente porque sua sensibilidade à massa não pode penetrar a epiderme. Alta densidade, compreende? Devemos dizer a ele?

       Três respondeu, hesitante:

       — Nossos mestres humanos não recomendaram particularmente que guardássemos nenhum segredo. — Em código de rádio, disse ao jupiteriano: — Somos constituídos principalmente de irídio. E mais cobre, latão, um pouco de berilo e um punhado de outras substâncias.

       Os jupiterianos recuaram e pelo obscuro contorcer de diversas porções de seus corpos indescritíveis davam a impressão de estar imersos em animada conversa, embora não emitissem som algum.

       Finalmente o oficial regressou:

       — Seres de Ganimedes! Ficou decidido que lhes mostraremos algumas de nossas fábricas, exibindo assim uma fração de nossas grandes realizações. Em seguida permitiremos que regressem, a fim de espalharem o desespero entre os outros verm... os outros seres do mundo exterior.

       Três disse para Dois:

       — Observe o efeito de sua psicologia. Têm necessidade de insistir em sua superioridade. É também uma questão de salvar as aparências. — E em código: — Agradecemos a oportunidade.

       Mas a operação foi eficiente, conforme os robôs logo perceberam. A demonstração transformou-se numa excursão, a excursão numa “Grande Exibição”. Os jupiterianos exibiram tudo, explicaram tudo, responderam animadamente a todas as perguntas e ZZ Um tomou centenas de notas desesperadoras.

       O potencial bélico daquela única cidade sem importância era várias vezes maior que o de Ganimedes inteiro. Dez cidades semelhantes produziriam mais do que todo o Império Terrestre. Dez outras não seriam sequer um pequeno fragmento de toda a força de que Júpiter dispunha.

       Três sentiu uma forte cotovelada nas costas.

       — O que foi? — perguntou, voltando-se. Muito sério, Um respondeu:

       — Se tiverem campos de força, os mestres humanos estão perdidos, não estão?

       — Temo que sim. Por que pergunta?

       — Porque os jupiterianos não nos estão mostrando o lado direito desta fábrica. É possível que os campos de força sejam fabricados ali. Eles guardariam segredo. É melhor descobrirmos. Não há nada mais importante do que isso.

       Três olhou sombrio para Um.

       — Talvez tenha razão. Não adianta ignorar coisa alguma.

       Encontravam-se numa imensa siderúrgica, observando lingotes de trezentos metros de uma liga de silicone-aço, resistente à amônia, sendo fabricados à razão de vinte por segundo. Três perguntou baixinho:

       — Que contém aquela ala?

       O oficial do governo indagou aos encarregados da fábrica, que explicaram:

       — É o departamento de altos fornos. Vários processos exigem tremendas temperaturas, que a vida não pode suportar, e todos devem ser indiretamente controlados.

       Conduzindo-os a uma divisão de onde o calor se irradiava, indicou uma área pequena e redonda de material transparente. Fazia parte de uma fileira de outras iguais, através das quais as luzes vermelhas de brilhantes forjas eram vistas na pesada atmosfera.

       ZZ Um olhou desconfiado para o jupiteriano e transmitiu:

       — Poderíamos entrar e dar uma espiada? Estou muito interessado nisto.

       — Você está sendo infantil, Um — falou Três. — Estão dizendo a verdade. Ora, dê uma espiada se quiser, mas não demore. Precisamos seguir adiante.

       O jupiteriano avisou:

       — Não faz idéia do calor desprendido. Morrerá.

       — Oh, não — replicou Um, tranqüilo. — O calor não nos afeta.

       Houve uma confabulação entre os jupiterianos e em seguida uma cena de confusão, enquanto a vida da fábrica era ativada para enfrentar aquela emergência. Telas de material isolante foram montadas e então abriu-se uma porta, que jamais fora aberta enquanto os fornos estavam em funcionamento, ZZ Um entrou e a porta fechou-se por trás dele. Os jupiterianos reuniram-se diante dos setores transparentes para observá-lo.

       ZZ Um encaminhou-se para o forno mais próximo e deu pancadinhas no seu revestimento. Como era demasiado baixo para vê-lo confortavelmente, inclinou-o de modo que o metal líquido pingasse um pouco da borda. Observando-o, curioso, nele mergulhou a mão, agitando-a durante algum tempo para testar a consistência. Depois sacudiu as gotas de metal incandescente, enxugou o resto numa de suas seis coxas e percorreu lentamente a fileira de fornos. Por sinais transmitiu então o desejo de sair.

       Os jupiterianos recuaram respeitável distância quando ele transpôs a porta e fizeram funcionar um jato de amônia que assobiou e ferveu até atingir novamente uma temperatura suportável.

       Ignorando o banho de amônia, ZZ Um falou:

       — Disseram a verdade. Não há campos de força.

       Três começou:

       — Sabe... — mas Um interrompeu-o, impaciente:

       — Não adianta demorarmos aqui. Os mestres humanos nos orientaram no sentido de descobrirmos tudo e já o fizemos.

       Voltando-se para o jupiteriano transmitiu, sem a menor hesitação:

       — Ouça, os jupiterianos já conseguiram elaborar campos de força?

       Franqueza era, naturalmente, uma das naturais conseqüências dos poderes mentais menos desenvolvidos de ZZ Um. Dois e Três sabiam disso, de modo que se abstiveram de manifestar desaprovação diante da pergunta.

       O oficial jupiteriano abandonou um tanto sua atitude rígida, que dava a impressão de estar olhando estupidamente para a mão de Um, aquela que o robô mergulhara no metal líquido, e disse lentamente:

       — Campos de força? Então é este o principal objeto de sua curiosidade?

       — Sim — respondeu Um, enfático.

       O jupiteriano readquiriu, súbito, parte de sua segurança, pois os sinais tornaram-se mais enérgicos. E falou quase gritando:

       — Venha comigo, verme! Três disse para Dois:

       — Voltamos a ser vermes... parece que há más notícias pela frente.

       Dois concordou, sombrio.

       Foram conduzidos, então, para o extremo da cidade, ao setor que na Terra seria chamado subúrbio, onde percorreram uma série de estruturas, que corresponderiam vagamente a uma universidade terrestre.

       Não houve explicações, e mesmo estas não foram solicitadas. O oficial jupiteriano caminhava rápido e os robôs o acompanhavam com a sombria convicção de que o pior estava a pique de acontecer.

       Foi ZZ Um quem parou diante de uma abertura na parede, depois que todos os outros haviam passado.

       — Que é isto? — quis saber.

       A sala estava equipada com bancos estreitos e baixos, diante dos quais jupiterianos manipulavam uma série de estranhos dispositivos, onde se destacavam fortes eletromagnetos com três centímetros de comprimento.

       — Que é isto? — perguntou Um, novamente. O jupiteriano voltou-se, impaciente:

       — É um laboratório de biologia para os estudantes. Não há nada aí que possa interessá-lo.

       — Mas que estão fazendo?

       — Estudando vida microscópica. Nunca viu um microscópio?

       Três interveio, explicando:

       — Claro que viu, mas não desse tipo. Nossos microscópios são destinados a órgãos sensíveis à energia e funcionam por refração de energia radiante. É evidente que estes funcionam baseados na expansão da massa. Bastante engenhoso.

       — Poderia examinar um dos seus espécimes? — perguntou Um.

       — Para quê? Não pode usar os nossos microscópios por causa de suas limitações sensoriais e, além disso, nos forçará a inutilizar todos os espécimes de que se aproximar sem uma razão válida.

       — Mas não preciso de microscópio — explicou Um, surpreendido. — Posso ajustar-me facilmente à visão microscópica.

       Dirigiu-se à mesa mais próxima, enquanto os estudantes agrupavam-se a um canto, para evitar contaminação. Afastando um microscópio, ZZ Um examinou cuidadosamente a lâmina. Recuando, intrigado, estudou outra... e mais outra... e mais outra.

       Regressando, perguntou ao jupiteriano:

       — Deviam estar vivos, não? Refiro-me àqueles vermezinhos.

       — Certamente — replicou o jupiteriano.

       — É estranho. Quando olho para eles, morrem! Três emitiu uma exclamação, voltando-se para os companheiros:

       — Esquecemos nossa radiação de raios gama. Vamos sair daqui, Um, senão mataremos toda a vida microscópica desta sala.

       E voltando-se para o jupiteriano:

       — Nossa presença pode ser fatal a formas de vida menos resistentes. É melhor sairmos. Espero que os espécimes possam ser substituídos com facilidade. E já que falamos no assunto, seria conveniente afastarem-se de nós, pois nossa radiação pode ter efeitos desagradáveis. Até o momento sentiu-se bem? Espero.

       O jupiteriano saiu da sala em orgulhoso silêncio, mas os robôs notaram que de então em diante duplicou a distância que vinham mantendo.

       Ninguém disse mais nada até que os robôs se encontravam numa vasta sala, em cujo centro imensos lingotes de metal jaziam sem apoio no ar, ou antes, sem qualquer apoio visível — enfrentando a gravidade de Júpiter.

       O oficial transmitiu:

       — Este é um campo de força recentemente aperfeiçoado. Dentro daquela bolha há o vácuo, sustentando todo o peso da nossa atmosfera, mais a quantidade de metal equivalente a duas grandes espaçonaves. Que acham disso?

       — Que as viagens espaciais tornaram-se uma possibilidade para vocês — replicou Três.

       — Sem dúvida. Nenhum metal ou plástico tem força para sustentar nossa atmosfera contra o vácuo, mas um campo de força é capaz disso. E nossas espaçonaves serão bolhas de campos de força. Dentro de um ano estaremos produzindo centenas de milhares. Em seguida, elas atacarão Ganimedes para destruir as pseudo-inteligências que tentam disputar o nosso domínio universal.

       — Os seres humanos de Ganimedes jamais tentaram... — começou Três, numa leve censura.

       — Silêncio! — ordenou o jupiteriano. — Regressem agora e contem o que viram. Seus campos de força inferiores, como aquele com que está equipada a sua nave, não resistirão aos nossos, pois as menores naves daqui terão cem vezes o tamanho e a potência das terrestres.

       — Então, nada mais temos a fazer e regressaremos com a informação — disse Três. — Se nos conduzirem à nave, nós nos despediremos logo. Por uma questão de registro, gostaria de esclarecer algo que não compreenderam. Os seres humanos de Ganimedes possuem campos de força, naturalmente, mas a nossa nave não é equipada com nenhum. Não precisamos disso.

       O robô voltou-lhes as costas e fez sinal aos companheiros que o seguissem. Ficaram calados por algum tempo, depois ZZ Um murmurou, desanimado:

       — Não podemos destruir a cidade?

       — Não adianta — replicou Três. — Eles nos dominariam. É inútil. Dentro de uma década os mestres humanos serão liquidados. É impossível enfrentar Júpiter. São demasiado poderosos. Enquanto estiverem presos à superfície, os humanos estarão em segurança. Mas agora que já têm campos de força... Só nos resta levar a notícia. Construindo-se esconderijos, alguns sobreviverão por um curto período de tempo.

       A cidade ficou para trás. Encontravam-se na planície descampada junto ao lago e a nave era apenas um pontinho escuro no horizonte quando o jupiteriano falou subitamente:

       — Criaturas, estão dizendo que não dispõem de campo de força?

       Três replicou, desinteressado:

       — Não é preciso.

       — Então, de que modo a nave resiste ao vácuo espacial sem explodir devido à pressão atmosférica interior? — E moveu um tentáculo, como se a um simples gesto indicasse que a atmosfera de Júpiter pesava sobre eles com a força de vinte milhões de quilos por centímetro quadrado.

       — É muito simples — explicou Três. — Nossa nave não é vedada. As pressões se equiparam no interior e no exterior.

       — Mesmo no espaço? Vácuo no interior da nave? É mentira!

       — Pode examinar à vontade a espaçonave. Não possui campo de força e não é vedada. Mas não há nada de extraordinário nisto. Não respiramos. Obtemos energia diretamente da força atômica. A presença ou ausência de pressão pouco nos afeta e ficamos inteiramente à vontade no vácuo.

       — Mas zero absoluto!

       — Não tem importância. Regulamos o nosso próprio calor. Não nos interessam as temperaturas exteriores. — E, após uma pausa: — Podemos voltar sozinhos à nave. Adeus. Transmitiremos aos humanos de Ganimedes a sua mensagem — guerra total!

       — Esperem! Voltarei — gritou o jupiteriano, dirigindo-se à cidade.

       Os robôs fitaram-no espantados e aguardaram em silêncio.

       Três horas depois ele regressou, ofegante de tanta pressa. Deteve-se a três metros dos robôs, como sempre, mas depois começou a avançar de estranha maneira, como se rastejasse. Só falou quando sua epiderme cinza e borrachenta quase os tocava. O código de rádio soou manso e respeitoso.

       — Honrados senhores, comuniquei-me com o chefe do nosso governo central, que se encontra agora a par de todos os fatos, e asseguro-lhes que Júpiter só deseja a paz.

       — Não compreendo — falou Três, atônito. O jupiteriano acrescentou logo:

       — Estamos dispostos a voltar a comunicar-nos com Ganimedes, prometendo não nos aventurarmos no espaço. Nosso campo de força será utilizado somente na superfície de Júpiter.

       — Mas...

       — Nosso governo terá o maior prazer em receber quaisquer representantes de nossos veneráveis irmãos humanos que Ganimedes queira nos enviar. Se condescenderem agora em fazer um juramento de paz...

       Um tentáculo escamoso adiantou-se para os robôs, e Três, espantado, apertou-o, imitado por Dois e Um.

       Solene, o jupiteriano declarou:

       — Reinará paz eterna entre Júpiter e Ganimedes.

       A espaçonave, que vazava como uma peneira, encontrava-se novamente no cosmos. A pressão e a temperatura haviam voltado a zero e os robôs observavam o imenso globo que diminuía à distância — Júpiter.

       — Eles são decididamente sinceros — falou ZZ Dois — e a total mudança de atitude é muito agradável, mas não a compreendo.

       — Creio que os jupiterianos caíram em si ao compreender tudo o que havia de mau na idéia de prejudicar um mestre humano. O que é muito natural.

       ZZ Três suspirou, dizendo:

       — Ouçam, é uma questão de psicologia. Aqueles jupiterianos têm um tremendo complexo de superioridade e ao verem que não nos podiam destruir quiseram salvar as aparências. Toda aquela exibição e explicações eram uma forma de se gabarem, destinada a nos humilhar diante de sua força e superioridade.

       — Compreendo tudo isso, mas... — interpôs ZZ Dois.

       Três prosseguiu:

       — Mas funcionou às avessas. Só conseguiram provar que éramos mais fortes, que não nos afogávamos, que não nos alimentávamos, nem dormíamos e que metal incandescente não nos afeta. Nossa simples presença é fatal à vida em Júpiter. Sua última cartada era o campo de força. Ao descobrir que não precisávamos absolutamente dele, que podíamos viver no vácuo ao zero absoluto, capitularam. — Calou-se e depois acrescentou filosoficamente: — Quando um complexo de superioridade como aquele se desmorona, desmorona para valer.

       Os outros dois ponderaram um instante e Dois falou:

       — Mas continuo a não compreender. Que importa a eles o que podemos ou não fazer? Somos apenas robôs. Não somos nós que lutamos.

       — Ê isso exatamente, Dois — falou Três. — Só pensei nisso depois que saímos de Júpiter. Sabe que esquecemos involuntariamente de dizer que somos apenas robôs?

       — Eles não perguntaram — disse Um.

       — Exato. Julgaram que somos seres humanos e que todos os habitantes da Terra são iguais a nós!

       E voltou a contemplar Júpiter, pensativo:

       — Não é para admirar que tenham desistido!

     

      Estranho no paraíso

      Eram irmãos. Não no sentido de que ambos eram seres humanos ou de que tivessem sido crianças amigas numa creche. De maneira alguma! Eram irmãos no verdadeiro sentido biológico da palavra. Usando um termo que havia se tornado debilmente arcaico mesmo séculos atrás, antes da Catástrofe, eram parentes, isto quando este fenômeno tribal, a família, ainda tinha alguma validade.

      Como isso era embaraçoso!

      Com o correr dos anos, desde a infância, Anthony tinha quase esquecido. Ocasiões havia em que, durante meses seguidos, nem uma vez sequer ele pensava no assunto. Agora, porém, desde que tinha sido inextricavelmente colocado junto com William, ele se achava vivendo em meio a um tempo de agonia.

      Não teria sido tão ruim se as circunstâncias tivessem tornado isto óbvio o tempo todo; se, como nos dias anteriores à Catástrofe (em certa época Anthony tinha sido um grande leitor de História) tivessem partilhado o segundo nome e daquele modo, e só daquele, alardeado o relacionamento.

      Hoje, naturalmente, adotava-se o segundo nome de alguém por mera conveniência, mudando-se tantas vezes quanto necessário. Mesmo porque, o que realmente importava era o símbolo da cadeia, símbolo que era codificado e tornado próprio de uma pessoa desde seu nascimento.

      William se autodenominava Anti-Aut. Era nisto que ele insistia, com uma espécie de sóbrio profissionalismo. Assunto dele mesmo, seguramente, mas que propaganda de mau gosto! Anthony decidira por Smith ao chegar aos treze anos e nunca tivera impulso de mudar de nome. Era simples, fácil de escrever, fácil de distinguir, uma vez que nunca encontrara alguém mais que tivesse escolhido aquele nome. Outrora fora muito comum, entre os habitantes do planeta anteriores à Catástrofe, os pré-Cats, o que talvez explicasse sua raridade de agora.

      Mas a diferença de nomes nada significava quando os dois estavam juntos. Pareciam iguais.

      Tivessem sido gêmeos... mas, naqueles tempos, não se permitia que viesse a nascer um dos dois quando um óvulo era fertilizado de modo a dar origem a gêmeos. O que havia, apenas, era que, ocasionalmente, se manifestava uma similaridade física entre não-gêmeos, especialmente quando o relacionamento era de ambos os lados. Anthony Smith era cinco anos mais moço, mas ambos possuíam o nariz adunco, as espessas pálpebras, aquela covinha que mal dava para notar no queixo, o raio da loteria genética. Bastava apelar para ela quando, independentemente de alguma paixão pela monotonia, as origens se repetiam.

      Agora que estavam juntos, primeiro tiveram aquele olhar sobressaltado, seguido de um longo silêncio. Anthony tentou ignorar o assunto, mas por pura perversidade, ou perversão, William estava mais inclinado do que nunca a dizer:

      - Nós somos irmãos.

      - Hã? - diria o outro, detendo-se por um momento, como se quisesse indagar se eram autênticos irmãos de sangue. E então a boa educação prevaleceria e ele desprezaria o assunto, como se fosse algo sem interesse. Claro que só raramente isto acontecia. A maioria das pessoas no Projeto sabiam disto e como se poderia impedir que soubessem?! Mas evitavam a situação.

      Não que William fosse um mau sujeito. De jeito nenhum. Se ele não fosse irmão de Anthony, ou se fosse, mas parecessem suficientemente diferentes para serem capazes de mascarar o fato, eles teriam chegado à fama.

      Mas, do jeito que as coisas eram...

      O fato de, quando meninos, terem brincado juntos, e terem compartilhado os primeiros estágios de educação no mesmo local, através de alguma manobra bem sucedida da mãe, não tornava as coisas fáceis. Tendo dado à luz dois filhos do mesmo pai, e tendo, desta maneira, atingido seu limite (visto que não preenchera os rigorosos requisitos para um terceiro), ela concebeu a noção de ser capaz de visitar os dois numa única viagem. Era uma estranha mulher.

      O primeiro a deixar a instituição em que estava fora William, por ser o mais velho. Tinha se encaminhado para a ciência: engenharia genética. Anthony ouvira falar disto enquanto ainda estava na creche, através de uma carta de sua mãe. Já então era suficientemente crescido para se manifestar com firmeza junto à diretora, e aquelas cartas cessaram. Mas ele se lembrava da última, pela agoniada vergonha que lhe trouxera.

      Posteriormente, Anthony também se encaminhara para a ciência, mostrara talento para isto e fora instado a optar pela ciência. Lembrava-se de ter um verdadeiro e profético pavor, percebia-o agora, de encontrar seu irmão, e de que acabasse fazendo telemetria que bem se pode imaginar o quanto distava da engenharia genética... Ou assim pensaria alguém.

      Então, em meio ao cuidadoso desenvolvimento do Projeto Mercúrio, as circunstâncias como que aguardavam.

      Foi quando parecia que o Projeto estava num beco sem saída que a ocasião se manifestou, fora feita uma sugestão que salvara a situação, e ao mesmo tempo arrastara Anthony para dentro do dilema que seus pais lhe haviam preparado. E a melhor, a mais irônica parte de tudo, era que fora o próprio Anthony, muito inocentemente, quem fizera a sugestão.

      William Anti-Aut conhecia o Projeto Mercúrio, mas só na medida em que ouvira falar da muito prolongada Prova Estelar, que já estava em desenvolvimento bem antes de ele nascer e que continuaria em curso depois de ele morrer, e na medida em que sabia da colônia marciana e das continuadas tentativas para estabelecer colônias similares nos asteróides.

      Tais coisas estavam nas regiões mais afastadas de sua mente e não eram de real importância. Nenhum aspecto do esforço parcial jamais penetrara intimamente no centro de seus interesses, tanto quanto pudesse recordar, até o dia em que o jornal computadorizado incluiu fotografias de alguns dos homens empenhados no Projeto Mercúrio.

      Inicialmente, a atenção de William foi atraída pelo fato de um deles ter sido identificado como Anthony Smith. Lembrava-se do estranho nome que seu irmão tinha escolhido, e lembrava-se do Anthony. Seguramente não poderia haver dois Anthony Smith.

      Olhara então para a fotografia propriamente dita e não havia como se enganar quanto ao rosto. Num súbito gesto extravagante, olhara-se no espelho para tirar a dúvida. Não havia como enganar-se quanto ao rosto.

      Sentiu-se bem-humorado, mas, ao mesmo tempo, um pouco inquieto, eis que não deixava de reconhecer o embaraço em potencial. Irmãos consangüíneos, para usar a desagradável frase. Dava para fazer alguma coisa, porém? Como corrigir o fato de que nem o pai nem a mãe deles haviam previsto o ocorrido?...

      Sem atinar com a coisa, deve ter posto o jornal no bolso ao se aprontar para ir trabalhar, pois deu com ele na hora do almoço. Olhou fixamente para a foto: Anthony parecia vivido. Era uma reprodução muito boa, naqueles dias, os jornais eram de uma qualidade muitíssimo boa.

      Seu companheiro de almoço, Marco Fosse-lá-qual-fosse-o-nome-dele-aquela-semana, disse curiosamente: - Por que está olhando para isso, William?

      Sem hesitar, William passou-lhe o jornal, dizendo:

      - Este é meu irmão. - Era como se estivesse tocando numa urtiga.

      Marco examinou a foto, ficou carrancudo e disse:

      - Quem? O sujeito ao seu lado?

      - Não, o sujeito que é eu. Quer dizer, a pessoa parecida comigo. É meu irmão.

      Desta vez, a pausa foi mais longa. Marco devolveu o jornal e disse, com um tom de voz cuidadosamente homogêneo:

      - Irmão dos mesmos pais?

      - Sim.

      - Mesmo pai e mesma mãe?

      - Sim.

      - Ridículo!

      - Acho que sim - suspirou William. - Bem, de acordo com isto, ele está na telemetria, lá no Texas, e eu estou trabalhando em autismo aqui. Que diferença faz, então?

      William nem reteve o diálogo na cabeça e, mais tarde, no mesmo dia, desfez-se do jornal. Não queria que sua atual companheira de leito tomasse conhecimento da coisa. Ela tinha um irreverente senso de humor que William achava cada vez mais enfadonho. Ele até que se contentava por ela não estar com disposição de terem um filho, mesmo porque, de qualquer forma, ele já tivera um, ano atrás. Aquela moreninha linda, Laura ou Linda, para tanto havia colaborado.

      Passara-se algum tempo depois disto, um ano pelo menos, quando o assunto Randall veio à baila. Não tivesse William pensado mais em seu irmão e não pensara mesmo, antes disso, certamente que depois é que não teria tempo.

      Randall tinha dezesseis anos quando William pela primeira vez recebeu notícias dele. Vivera uma vida cada vez mais solitária e a creche de Kentucky em que ele estava sendo criado decidira cancelá-lo. Lógico que foi só uns oito ou dez dias antes do cancelamento que alguém teve a idéia de comunicar-se com o Instituto Nova-iorquino pela Ciência do Homem, conhecido comumente como Instituto Homológico.

      William recebeu o informe junto com vários outros e nada havia na descrição de Randall que atraísse particularmente sua atenção. E mais: era a ocasião de mais uma de suas tediosas viagens em transporte coletivo para as creches e havia uma possibilidade na Virgínia Ocidental. Lá se foi ele e ficou desapontado a ponto de jurar, pela qüinquagésima vez, que daí por diante faria aquelas visitas por imagem televisionada e agora, tendo se arrastado para cá, bem que poderia comparecer à creche de Kentucky antes de voltar para casa.

      Nada esperava.

      Mesmo assim, não fazia nem dez minutos que estava estudando o padrão genético de Randall e já estava se comunicando com o Instituto para um cálculo de computador. Sentou-se de novo, depois disso, e transpirou ligeiramente ao pensar que só um impulso de última hora o havia trazido e que, sem esse impulso, tranqüilamente Randall teria sido cancelado, dentro de uma semana ou menos. Os detalhes: sem dor, uma droga seria passada através da epiderme de Randall, penetrando em sua corrente sangüínea e ele mergulharia num pacífico sono que gradualmente se converteria em morte. O nome oficial da droga eTa uma palavra com vinte e três sílabas, mas William a denominava de “nirvanamina”, como todas as outras pessoas.

      William disse:

      - Qual é o nome todo dele, diretora?

      - Randall Nowan, estudante - respondeu ela. William explodiu: - Não pode ser!

      - Nowan - soletrou a diretora. - Ele o escolheu no ano passado.

      - E não significava nada, para a senhora? Nowan a gente pronuncia como “No one”, quer dizer, ninguém. Não lhe ocorreu informar a respeito da existência deste jovem no ano passado?

      Aturdida, a diretora começou:

      - Não me parecia...

      William impôs-lhe silêncio. Que adiantava? Como poderia ela saber? Nada havia no padrão genético que advertisse, mediante quaisquer dos critérios habituais dos livros  didáticos. Era uma sutil combinação que William e sua equipe tinham desenvolvido durante um período de vinte anos através de experimentos em crianças autístas, uma combinação que, na verdade, nunca haviam visto na vida.

      Tão perto do cancelamento!

      Marco, que era o cabeça-dura do grupo, lamentava que as creches estivessem muito ansiosas para abortarem antes do prazo e para cancelar depois do prazo. Ele sustentava que deveria ser permitido que os padrões genéticos se desenvolvessem com a finalidade para se ter, inicialmente, um panorama e que de forma alguma deveria ser feito um cancelamento sem se consultar um homologista.

      Tranqüilamente, William disse:

      - Não há homologistas suficientes.

      - Poderíamos pelo menos pôr no computador todos os padrões genéticos - disse Marco.

      - Para salvar o que pudermos, para nosso uso?

      - Para qualquer uso homológico, aqui ou alhures. Precisamos estudar os padrões genéticos em ação, se quisermos nos entender a nós mesmos adequadamente, e são os padrões anormais e monstruosos que mais informações nos dão. Nossos experimentos com autismo ensinaram-nos mais sobre a homologia do que a soma total de conhecimentos existentes no dia em que começamos.

      William, que ainda gostava da cadência da frase “a fisiologia genética do homem” mais do que “homologia”, sacudiu a cabeça.

      - É a mesma coisa, temos de agir com cuidado. Por mais úteis que proclamemos serem nossos experimentos, vivemos com uma escassa permissão social, relutantemente dada. Estamos jogando com vidas.

      - Vidas inúteis, próprias para serem canceladas.

      - Um cancelamento rápido e agradável é uma coisa. Nossos experimentos, geralmente planejados com vagar, e às vezes inevitavelmente desagradáveis, são outra coisa.

      - Às vezes nós os ajudamos.

      - E outras vezes não os ajudamos.

      Era um argumento inútil, na verdade, pois não havia como chegar a um acordo. O que importava, isto sim, é que havia muito poucas anormalidades disponíveis para os homologistas e não havia maneira de urgir a humanidade a encorajar uma produção maior. Uma dúzia de maneiras, incluindo esta, não seria suficiente para apagar o trauma da Catástrofe.

      O apaixonado impulso em direção da exploração espacial poderia ser percorrido às avessas (e alguns sociólogos o haviam percorrido) para se conhecer a fragilidade da meada da vida, no planeta, graças à Catástrofe.

      Bem, não importa...

      Nunca tinha havido algo como Randall Nowan. Não para William. A lenta evolução da característica autista daquele padrão genético totalmente raro significava que se conhecia mais a respeito de Randall do que sobre qualquer paciente semelhante antes dele. Chegaram mesmo a captar alguns últimos reflexos indistintos de sua maneira de pensar, no laboratório, antes de ele se encerrar completamente e, finalmente, encolher-se dentro da parede de sua pele, não preocupado, não atingível.

      Começaram então o lento processo mediante o qual Randall, sujeito em crescentes intervalos de tempo a estímulos artificiais, cedeu às últimas atividades de seu cérebro, nisto incluindo a parte chamada de normal e a que era como a dele mesmo.

      Tão abundantes eram os dados que estavam reunindo, que William começou a sentir que seu sonho de fazer o autismo reverter era mais do que um mero sonho. Sentiu uma cálida alegria por ter escolhido o nome de Anti-Aut.

      E foi quase no auge da euforia derivada do trabalho em Randall que ele recebeu o chamado de Dallas, que começou a pesada pressão agora, de todos os tempos, para abandonar seu trabalho e assumir um novo problema.

      Posteriormente, lançando um olhar retrospectivo, ele jamais poderia vir a compreender o que é que o levara a concordar em visitar Dallas. Naturalmente que, ao final, ele bem poderia ver quão bom isto tinha sido, mas o que é que o persuadira a proceder assim? Poderia ele, mesmo de início, ter tido uma pálida e incompleta noção daquilo em que a coisa desembocaria? Impossível, com toda a certeza.

      Seria a recordação, incompleta, do jornal, daquela fotografia de seu irmão? Impossível, com toda a certeza.

      Mas ele se deixou persuadir a fazer a visita, e foi somente quando a micropilha mudou o tom de seu zumbido e a unidade agrav assumiu o comando para a descida final que ele se lembrou daquela fotografia ou, pelo menos, foi que ela se deslocou para seu consciente, em sua memória.

      Anthony trabalhava em Dallas e, lembrava-se William agora, no Projeto Mercúrio. Era a isso que se referia o título do jornal. Ele engoliu em seco quando uma fraca vibração o fez aperceber-se de que a viagem terminara. Isto seria desagradável.

     

      Anthony estava aguardando na área da cobertura de recepção para saudar o perito recém-chegado. Não o saudava em seu próprio nome, por certo, pois fazia parte de uma considerável delegação, cujo tamanho já denotava, em si mesmo, o sombrio desespero ao qual tinha sido reduzida, e ele estava nos escalões inferiores. Que ele lá estivesse, de qualquer forma, se devia unicamente ao fato de ter ele sido quem fizera a sugestão original.

      Sentia uma leve mas contínua inquietação ao pensar que dele é que partira a sugestão. Ele próprio se pusera em evidência. Para tanto, fora firmemente apoiado, mas sempre tinha havido uma surda insistência quanto ao fato de que a sugestão fora dele, e se ela redundasse num fiasco, todos sairiam da linha de fogo deixando-o completamente exposto.

      Houve ocasiões, posteriormente, em que ele remoeu a possibilidade de que a vaga memória de um irmão homólogo lhe sugerira o pensamento. Podia ter sido assim, mas não foi. A sugestão era tão sensivelmente inevitável, na verdade, que seguramente ele teria o mesmo pensamento se seu irmão fosse algo tão inócuo como um escritor de histórias de fantasia ou como se simplesmente não tivesse nenhum irmão.

      O problema eram os planetas interiores...

      Lua e Marte estavam colonizados. Tinham sido atingidos os asteróides maiores e os satélites de Júpiter, e progrediam os planos para uma viagem tripulada até o maior satélite de Saturno, Titã, mediante uma acelerada rotação em torno de Júpiter. Mas, mesmo com planos em andamento no sentido de se enviarem homens numa viagem de sete anos de duração para fora do Sistema Solar, não havia ainda nenhuma possibilidade de viagens tripuladas aos planetas interiores, por receio do Sol.

      O próprio planeta Vênus era o menos atraente dos dois mundos dentro da órbita da Terra. Mercúrio, por outro lado...

      Anthony ainda não se integrara à equipe quando Dmitri Grandão (que na verdade era um bocado pequeno) fizera a palestra que comovera o suficiente o Congresso Mundial para conceder as verbas que tornaram possível o Projeto Mercúrio.

      Anthony ouvira as fitas com as gravações, e tinha ouvido a alocução de Dmitri. A tradição parecia indicar que ele falara de improviso, e talvez assim fosse, mas sua argumentação fora muito bem elaborada e era coerente, dentro das linhas seguidas até então pelo Projeto Mercúrio.

      E o ponto que mais fora ressaltado era que seria errado aguardar até que a tecnologia tivesse avançado ao ponto de uma expedição tripulada, em meio aos rigores da radiação solar, se tornar viável. Mercúrio era um ambiente muito peculiar, que muito poderia ensinar, e da superfície de Mercúrio poderiam ser feitas observações dignas de crédito, que de outra maneira não poderiam ser feitas.

      Desde que um substituto do homem, em outras palavras, um robô, pudesse ser colocado no planeta.

      Um robô com as características físicas necessárias poderia ser fabricado. Aterrissagens suaves eram a coisa mais fácil, mas, não obstante, uma vez pousado um robô noutro planeta, em seguida que é que se poderia esperar que ele fizesse?...

      Poderia fazer suas observações e guiar suas ações com base nessas observações, mas o Projeto queria que essas mesmas ações fossem intrincadas, sutis, pelo menos em tese, e não havia certeza alguma quanto a que observações o robô viria a fazer.

      Para haver uma preparação para todas as possibilidades críveis, e para permitir toda a complexidade desejada, o robô precisaria conter um computador (alguns, em Dallas, referiam-se a ele como “o cérebro”, mas Anthony desprezava aquele hábito verbal talvez porque, dizia ele depois com seus próprios botões, o cérebro era campo de seu irmão) suficientemente complexo e versátil para cair no mesmo asteróide com um cérebro de mamífero.

      Todavia, nada semelhante àquilo poderia ser fabricado e tornado suficientemente portátil para ser transportado até Mercúrio e lá desembarcado ou, se transportado e desembarcado, ser suficientemente móvel para ser útil ao tipo de robô que planejavam. Talvez um dia, os instrumentos com trilhas positrõnicas que os roboticistas estavam a planejar pudessem tornar tudo isto possível, mas esse “um dia” ainda não havia chegado.

      A alternativa era fazer com que o robô enviasse à Terra cada observação no momento em que ela fosse feita. E, então, um computador na Terra poderia dirigir cada uma de suas ações, com base em tais observações. Em outras palavras: o corpo do robô estaria lá, e seu cérebro aqui.

      Uma vez alcançada esta decisão, os técnicos-chave eram os telemetristas e foi então que Anthony se integrou ao Projeto. Tornou-se um dos que trabalhavam para criar métodos de recepção e retorno de impulsos através de distâncias que iam de 80 a 220 milhões de quilômetros, tudo isto na direção, e às vezes até além, de um disco solar que poderia interferir em tais impulsos da maneira a mais feroz.

      Ele assumiu com paixão sua tarefa (finalmente, pensou) com capacidade e sucesso. Ele, mais do que qualquer outra pessoa, fora quem planejara as três estações «transmissoras que tinham sido postas em órbita em torno de Mercúrio, os Orbitadores de Mercúrio. Cada uma delas era capaz de enviar e receber impulsos de Mercúrio para a Terra e da Terra para Mercúrio. Cada uma delas era capaz de resistir, mais ou menos permanentemente, à radiação solar e, mais do que isto, cada uma delas poderia filtrar a interferência solar.

      Três orbitadores equivalentes foram colocados à distância de quase dois milhões de quilômetros da Terra, ao norte e ao sul do plano da Eclíptica, de forma a poderem receber impulsos de Mercúrio e repassá-los à Terra ou vice-versa, mesmo quando Mercúrio estivesse atrás do Sol e inacessível à recepção direta de qualquer estação na superfície da Terra.

      Tudo isto fazia do robô propriamente dito um maravilhoso espécime da combinação da arte dos roboticistas e dos telemetristas.

      O mais complexo de dez sucessivos modelos era capaz, tendo um volume apenas pouco mais de duas vezes maior que o de um homem, e cinco vezes sua massa, de captar e fazer consideravelmente mais do que um homem, se pudesse ser dirigido.

      Entretanto, logo se tornou evidente que um computador capaz de guiar semelhante robô teria de ser suficientemente rápido para mudar os passos de orientação a cada instante, para permitir variações na possível percepção. E como passo de resposta, por si mesmo, reforçava a certeza de crescente complexidade de cada variação possível nas percepções, os passos iniciais tinham de ser reforçados e fortalecidos. Era como se o computador se construísse a si próprio, continuamente, como uma partida de xadrez. E os telemetristas começaram a usar o computador para programar o computador que planejara o programa para o computador que programara o computador que controlaria o robô.

      Nada havia a não ser confusão.

      O robô estava numa base, nos espaços desertos do Arizona e, por si só, estava funcionando bem. Contudo, o computador em Dallas não poderia dar muito bem conta dele nem mesmo nas condições terrestres, perfeitamente conhecidas. Como, então...

      Anthony lembrava-se do dia em que fizera a sugestão: 4-7-553. Pela simples razão de que o dia 4-7 havia sido um feriado importante na região de Dallas, no mundo dos pré-Cats, os de antes da Catástrofe, meio milênio antes, mais exatamente 553 anos antes.

      Tinha sido no jantar, um bom jantar, também. Tinha havido um cuidadoso ajustamento da ecologia da região e os integrantes da equipe do Projeto tinham tido prioridade total para obter suprimentos de mantimentos que haviam se tornado disponíveis, de forma que tinha havido um grau incomum de escolha do cardápio. E Anthony experimentara pato assado.

      Era um pato assado muito bom, bem maior do que de costume. Todos se sentiam à vontade para dizerem o que pensavam. E Ricardo disse:

      - Vamos admitir: nunca conseguiremos fazer isto. Nunca conseguiremos.

      Não era preciso dizer quantos assim haviam pensado, anteriormente, mas era regra que ninguém o dissesse abertamente. O pessimismo aberto poderia ser a pá de cal para que parassem as verbas (e já fazia cinco anos que elas vinham com crescente dificuldade, a cada ano que passava), e se houvesse uma chance, ela poderia se dissipar.

      Geralmente não dado a um otimismo incomum, Anthony, desta vez se deleitando com seu pato, disse: - Por que não podemos?

      Digam-me por que, e eu os refutarei.

      Era um desafio direto e os escuros olhos de Ricardo imediatamente se apertaram. - Quer que eu diga por quê?

      - Lógico que sim.

      Ricardo girou sua poltrona, de forma a dar de frente com Anthony.

      - Vamos lá, não há mistério. Em nenhum relatório Dmitrí Grandão diria as coisas tão abertamente, mas você sabe, e eu sei, que, para levar a efeito adequadamente o Projeto Mercúrio, necessitaremos de um computador tio complexo quanto um cérebro humano, seja na superfície de Mercúrio, seja aqui, e não dá para construirmos um. E aonde é que isto nos conduz? A umas brincadeiri-nhas com o Congresso Mundial, apenas, e a conseguir dinheiro para dar trabalho a desocupados?

      Um sorriso complacente assomou ao rosto de Anthony, que disse:

      - Isso é fácil de refutar. Você próprio nos deu a resposta. -(Estaria ele brincando? Seria o calorzinho gostoso do pato em seu estômago? A vontade de provocar Ricardo?... Ou teria ele sido tocado por algum pensamento não pressentido de seu irmão? Além do mais, não havia para ele como se exprimir.)

      - Que resposta? - ergueu-se Ricardo. Era bem alto e incomumente magro e sempre usava seu casaco branco aberto. Cruzou os braços e parecia estar fazendo todo o possível para se manter, de pé, diante de Anthony, sentado, numa postura rígida. - Que resposta?

      - Você diz que precisamos de um computador tão complexo quanto um cérebro humano. Muito bem: vamos então construí-lo!

      - O problema, seu idiota, é que não podemos...

      - Nós não podemos. Mas existem os outros.

      - Que outros?

      - Naturalmente, as pessoas que trabalham em cérebros. Somos apenas mecânicos do estado sólido. Não temos a menor idéia da maneira pela qual um cérebro humano é complexo, ou onde, ou até que ponto. Por que não entramos em contacto com um homologista e pedimos a ele que projete um computador? - Dito isto, Anthony ingeriu uma generosa porção de recheio e saboreou-a, complacentemente. Mesmo com todo o tempo transcorrido, ele ainda podia muito bem se lembrar do gosto do recheio, se bem que não pudesse se recordar detalhadamente do que ocorrera depois.

      Pareceu-lhe que ninguém o havia levado a sério. Houve risadas e uma sensação generalizada de que Anthony havia se saído muito bem com sua esperta argumentação, de forma que a vítima dos risos era Ricardo. (Lógico que, posteriormente, todos proclamariam que tinham levado a sugestão a sério.)

      Chamejando, Ricardo apontou o dedo para Anthony e disse:

      - Escreva isto. Desafio-o a pôr por escrito esta sugestão. - (Pelo menos, era assim que a memória de Anthony registrava o fato. Ricardo, desde aquela vez, dizia que seu comentário tinha sido um entusiástico: - Boa idéia! Por que não a formula por escrito, Anthony?)

      Fosse como fosse, Anthony escreveu.

      Dmitri Grandão assumira a idéia. Num colóquio particular, dera uns tapinhas amistosos nas costas de Anthony dizendo-lhe que também estivera especulando neste sentido, se bem que não se propusesse a assumir qualquer paternidade pela idéia. (Isto para o caso de redundar num fiasco, pensou Anthony.)

      Dmitri Grandão dirigiu a busca do homólogo adequado. Não ocorreu a Anthony que Dmitri deveria estar interessado. Não conhecia nem homologia nem homólogos, exceto, logicamente, seu irmão, em quem não pensara. Pelo menos, conscientemente não cogitara dele.

      De forma que aqui estava Anthony, na área de recepção, desempenhando um papel secundário, quando a porta da aeronave se abriu e vários homens saíram, vieram cumprimentá-lo. Enquanto o circuito dos apertos de mão era percorrido, Anthony se sentiu um tanto apalermado.

      Suas bochechas estavam ruborizadas e, com toda a sua força de vontade, gostaria de estar a milhares de quilômetros de distância.

     

      Mais do que nunca, William desejaria ter se lembrado mais cedo de seu irmão. Se tivesse... Bem que deveria...

      Mas tinha havido a lisonja da solicitação e a excitação começara a aumentar dentro dele em pouco tempo. Talvez ele tivesse evitado de se lembrar de propósito.

      Para começar, tinha havido a excitação que fora o fato de Dmitri Grandão ter vindo vê-lo por sua própria iniciativa. Viera de Dallas para Nova Iorque de avião e tinha sido muito cativante para com William, cujo vício secreto era ler novelas de mistério. Nestas histórias, homens e mulheres sempre viajavam disfarçados quando se desejava discrição. Afinal, apesar da viagem eletrônica ser de domínio público, pelo menos nos livros de mistério, quando qualquer feixe de radiação era emitido, ele era logo cancelado.

      William assim falara numa espécie de mórbida meia tentativa de ser engraçado, mas Dmitri não parecia prestar atenção. Olhava fixamente para o rosto de William e seus pensamentos pareciam estar noutro lugar. Por fim, falou:

      - Desculpe. Você me lembra alguém.

      (E, não obstante, ele não se confiara a William. Como era possível isto? Chegara William eventualmente a se interrogar.)

      Dmitri Grandão era um homenzinho rechonchudo, que parecia estar sempre piscando, mesmo quando se dizia preocupado ou aborrecido. Tinha um nariz redondo e bulboso, bochechas bem salientes e, por toda parte, delicadeza. Dava ênfase a seu apelido e dizia, com uma rapidez que levava William a crer que ele pronunciava estas palavras com freqüência:

      - Tamanho não é, de jeito nenhum, o que há de mais importante, amigo.

      Na conversa que se seguiu, William protestou muito. Nada sabia de computadores. Nada! Não tinha a mais pálida idéia de como é que funcionavam ou de como eram programados.

      - Não tem importância, não tem importância - dizia Dmitri, fazendo com a mão um gesto a dizer que isso era de somenos. - Nós conhecemos os computadores, nós podemos estabelecer programas. Diga-nos apenas como é que o computador precisa ser, de forma a trabalhar como um cérebro e não como um computador.

      - Não estou muito certo de como funciona um cérebro para poder lhe dizer isso, Dmitri - disse William.

      - Você é o mais reputado homólogo do mundo. Verifiquei cuidadosamente isto - afirmou Dmitri. E foi seu argumento final.

      William ouvia, cada vez mais sombrio. Era inevitável, supunha ele. Mergulhe-se uma pessoa numa especialidade suficientemente fundo e durante tempo suficiente, e automaticamente esta pessoa começará a admitir que os especialistas em todos os outros campos eram uns mágicos, julgando a profundidade de sua sabedoria pela largura de sua própria ignorância... E conforme o tempo passava, William aprendeu muito mais sobre o Projeto Mercúrio do que lhe parecia no tempo em que se preocupava com isso.

      Por fim, disse:

      - Por que usar então um computador? Por que não utilizar nossos próprios homens, ou turmas deles, para receberem o material do robô e lhe enviarem instruções?

      - Oh, oh, oh - gargalhou Dmitri, quase pulando em sua poltrona, tamanha a sua ansiedade. - Vê-se que você não está por dentro. Os homens são lentos demais para analisar rapidamente todo o material que o robô enviará: temperaturas, pressões gasosas, fluxos de raios cósmicos, intensidades de ventos solares, composições químicas e texturas de solos e, seguramente, umas três dúzias a mais de itens e, então, tentar decidir o passo seguinte. Um ser humano simplesmente guiaria o robô, e ineficientemente; um computador seria o robô.

      - E então, também - prosseguiu - os homens também são rápidos demais. Para qualquer tipo de radiação, de qualquer lugar, leva de dez a vinte e dois minutos para fazer o percurso inteiro de Mercúrio à Terra, na dependência também da órbita de cada um. Sobre isso, nada se pode fazer. Recebe-se uma informação, dá-se uma ordem, mas muito aconteceu durante o tempo que medeia entre fazer a observação e encaminhar uma resposta. Os homens não podem se adaptar à lentidão da velocidade da luz, mas um computador pode levar isso em conta... Venha nos auxiliar, William.

      Melancolicamente, William disse:

      - Sua consulta a mim é bem-vinda, pelo bem que isto lhe possa fazer. Minha faixa particular de TV está às suas ordens.

      - Mas não é consulta que eu quero fazer: você precisa vir comigo.

      - Disfarçado? - perguntou William, chocado.

      - Sim, por certo. Um projeto como este não pode ser levado a efeito sentando-se a gente nas extremidades opostas de um feixe de laser com um satélite de comunicações no meio. A longo prazo, é caro demais, inconveniente demais e, logicamente, destituído de toda privacidade...

      Era como uma novela de mistério. William se decidiu.

      - Venha até Dallas - disse Dmitri - e deixe-me mostrar-lhe o que temos lá. Deixe-me mostrar-lhe as instalações. Fale com alguns dos nossos que cuidam de computador. Dê-lhes o benefício de lhes transmitir a maneira que você tem de pensar.

      Era hora, pensou William, de tomar uma decisão. E disse:

      - Tenho meu próprio trabalho, aqui, Dmitri. Trabalho importante, que não quero deixar. Fazer o que você quer que eu faça me afastará por meses de meu laboratório.

      - Meses! - exclamou Dmitri, claramente abalado. - Meu bom William, isto poderá durar anos. Mas seguramente será o seu trabalho.

      - Não será, não. Sei qual é meu trabalho e dirigir um robô em Mercúrio não é meu trabalho.

      - Por que não? Se você trabalha direito, aprenderá mais sobre o cérebro, apenas pelo fato de tentar fazer um computador trabalhar como um cérebro, e finalmente você voltará para cá melhor equipado para fazer o que você agora considera como sendo seu trabalho. E enquanto estiver ausente, será que não haverá companheiros seus para prosseguir na tarefa? E não poderá você estar em contacto permanente com eles, por meio de laser ou de televisão? E de vez em quando não poderá visitar Nova Iorque? Nem que seja por pouco tempo?

      William estava comovido. O pensamento de trabalhar no cérebro de outro ponto de vista atingira o alvo. Daquele ponto em diante, ele se achou à procura de desculpas para ir, pelo menos para visitar, pelo menos para ver como era a coisa... Sempre poderia retornar...

      Seguiu-se então a visita de Dmitri às ruínas da Velha Nova Iorque, que ele apreciou com uma excitação destituída de arte (se bem que, àquela época, não houvesse nenhum espetáculo mais magnificente do inútil gigantismo dos Pré-Cats do que a Velha Nova Iorque). William começou a pensar se a visita não estava começando a mostrar aspectos desconhecidos até então, mesmo para ele.

      Começou mesmo a pensar que, durante certo tempo, estivera considerando a possibilidade de achar nova companheira de leito, e seria mais conveniente achar uma noutra área geográfica, onde não poderia permanecer permanentemente.

      ... Ou não seria que, mesmo então, quando ele não sabia de nada, a não ser do estritamente necessário para começar, que também lhe tinha chegado, como o piscar de uma distante lâmpada de iluminação, aquilo que poderia ser...

      De forma que ele acabou indo para Dallas e desceu para a cobertura. E lá estava de novo Dmitri, radiante. Então, com os olhos se comprimindo, o homenzinho se voltou e disse:

      - Eu sabia... Que semelhança notável!

      Os olhos de William se abriram mais e ali, visivelmente se encolhendo para trás, havia o bastante de seu próprio rosto para lhe dar imediata certeza de que Anthony estava de pé, diante dele.

      Com muita franqueza, percebeu na fisionomia de Anthony um desejo de sepultar o relacionamento. Tudo que William precisava era dizer:

      - Notável! E deixar as coisas correrem. Os padrões genéticos da humanidade eram suficientemente complexos, afinal de contas, para permitir semelhanças num razoável grau mesmo não havendo parentesco.

      Mas, logicamente, William era um homólogo, e ninguém pode trabalhar com as complexidades do cérebro humano sem ficar insensível a seus detalhes. De forma que ele disse:

      - Estou certo de que este é meu irmão, Anthony.

      - Seu irmão? - perguntou Dmitri.

      - Meu pai — falou William - teve dois meninos com a mesma mulher... minha mãe. Eram pessoas excêntricas.

      Adiantou-se, então, mão estendida, e Anthony não teve outra alternativa senão aceitá-la... O incidente foi o assunto da conversa, o único assunto, durante os dias seguintes.

     

      Para Anthony, serviu de pequeno consolo o fato de William estar suficientemente contrito, ao se dar conta do que fizera.

      Sentaram-se juntos, após o jantar, naquela noite. William disse:

      - Minhas desculpas. Pensei que se fizéssemos tudo imediatamente seria pôr um fim a tudo. Não parece que foi o que fiz. Não assinei papéis, não fiz um acordo formal. Vou embora.

      - Que bem isso lhe traria? - disse Anthony indelicadamente. - Agora todo mundo sabe. Dois corpos e um rosto. Já dá para alguém vomitar.

      - Se eu for embora...

      - Não pode ir. Tudo isto é idéia minha.

      - Fazer eu vir para cá? - As pesadas pálpebras de William se ergueram o mais que podiam e suas sobrancelhas se ergueram.

      - Não, claro que não. Fazer um homólogo vir aqui. Como é que eu poderia imaginar que mandariam você?

      - Se eu for embora, porém...

      - Não. A única coisa que podemos fazer agora é conviver com o problema, se se pode fazer isto. Então... não terá importância. (Quando uma pessoa tem sucesso, tudo se esquece, pensou ele).

      - Não sei se eu posso...

      - Teremos de tentar. Dmitri nos auxiliará: é uma oportunidade muito boa. Vocês são irmãos - disse Anthony, imitando a voz de Dmitri - e se entendem. Por que não trabalharem juntos? - Então, voltando à sua voz, concluiu, irado: - De forma que precisamos. Para começar: que significa isto para você, William? Para ser mais preciso: que significa a palavra “homologia” para você?

      William suspirou.

      - Queira aceitar minhas desculpas... Trabalho com crianças autísticas.

      - Acho que não sei o que isso significa.

      - Para não contar um romance, digamos que cuido de crianças que não se “lançam” para o mundo, que não se comunicam com os outros, que mergulham dentro de si mesmas e que existem atrás de uma muralha de pele, num certo sentido inatingíveis. Espero ser capaz, um dia, de curá-las.

      - É por isso que você se intitula Anti-Aut?

      - Sim, para ser franco.

      Anthony deu uma risadinha, mas o fato é que não se sentia à vontade.

      Um estremecimento percorreu William:

      - É um nome adequado.

      - Não tenho dúvida - apressou-se Anthony em murmurar, e ficou por aí mesmo, incapaz de fazer algum outro elogio ou consideração. Com um esforço, voltou ao assunto: - E você está progredindo?

      - Você diz na direção da cura? Não, por enquanto não. Na direção da compreensão, sim. E quanto mais entendo... - A voz de William tornóu-se mais cálida enquanto falava, e mais distantes seus olhos. Anthony entendeu que isto se devia ao próprio assunto de que o irmão falava, o prazer de falar de algo que lhe enchia o coração e a mente a ponto de excluir qualquer outra coisa. Com ele também acontecia isto, freqüentemente.

      Prestou atenção o mais que pôde a algo que, verdadeiramente, não compreendia, eis que assim era necessário proceder. Esperava que William lhe prestasse atenção, também.

      Quão claramente ele se lembrava disto! Pensara então que não se lembraria tão bem, naturalmente, mas não estava cônscio do que estava acontecendo. Rememorando, à luz dos fatos passados, ele se achou a recordar frases inteiras, quase que palavra por palavra.

      William falava:

      - Pareceu-nos, pois, que a criança autista não falhava no receber as impressões, nem mesmo falhava no interpretá-las de uma maneira um tanto sofisticada. Antes, estava desaprovando e rejeitando tais impressões, sem qualquer perda da potencialidade da plena comunicação se se achasse alguma impressão que ela aprovasse.

      - Ah - disse Anthony, tornando o som apenas audível para indicar que estava ouvindo.

      - Nem pode a gente persuadir a criança a sair de seu autismo pelas maneiras comuns, pois a criança desaprova você assim como desaprova o resto do mundo. Mas se você a puser em condições de uma interrupção consciente...

      - Interrupção do quê?

      - É uma técnica mediante a qual, na realidade, o cérebro como que se divorcia do corpo e pode desempenhar suas funções sem se referir ao corpo. É uma técnica um tanto sofisticada, criada em nosso laboratório; na verdade... - Fez uma pausa.

      Gentilmente, Anthony perguntou:

      - Foi você quem criou a técnica?

      - Na verdade, sim - respondeu William, corando um pouco, mas visivelmente satisfeito. - Numa interrupção consciente, podemos suprir o corpo com determinadas fantasias e observar o cérebro por meio do eletroencefalografia. Podemos de imediato aprender mais a respeito do indivíduo autista, que tipo de impressão sensorial ele mais quer, e, de um modo geral, aprendemos mais a respeito do cérebro.

      - Ah - disse Anthony, e desta feita foi um ah de verdade. - E tudo isto que vocês aprenderam a respeito de cérebros vocês não podem adaptar ao trabalho de um computador?

      - Não - disse William. - De forma alguma. Já disse isso a Dmitri. Nada sei sobre computadores e ainda não sei o bastante a respeito do cérebro.

      - Se eu lhe ensinar a respeito dos computadores e lhe disser detalhadamente do que é que eles necessitam, não daria?

      - Acho que não. Seria...

      - Irmão - disse Anthony, tentando dar uma entonação que impressionasse à palavra. - Você me deve alguma coisa. Faça, por favor, um esforço sincero para dar alguma atenção a nosso problema. Seja lá o que sabe sobre o cérebro, por favor, adapte isso aos nossos computadores.

      William se mexeu, pouco à vontade, dizendo:

      - Entendo seu ponto de vista. Tentarei. Com toda a sinceridade, tentarei.

     

      William tinha tentado e, como Anthony predissera, os dois tinham sido deixados a trabalhar juntos. De início encontravam-se com outras pessoas, e William tentara usar o efeito de choque do aviso de que eram irmãos, visto que não adiantava querer negar. A certa altura, todavia, pararam, e sobreveio uma útil não-interferência. Quando William se aproximava de Anthony, ou quando Anthony se aproximava de William, quem mais estivesse presente silenciosamente batia em retirada.

      Acabaram se acostumando um ao outro num certo sentido e às vezes se falavam como se não houvesse semelhança alguma entre eles, e nenhuma memória comum da infância.

      Anthony explicou os requisitos do computador em linguagem simples, razoavelmente não técnica, e William, depois de muito matutar, explicou como é que, a seu ver, deveria um computador funcionar, mais ou menos, à guisa de um cérebro.

      Anthony disse:

      - Será possível?

      - Não sei. Não estou ansioso por tentar. Poderá não funcionar, assim como poderá.

      - Teríamos de falar com Dmitri Grandão.

      - Primeiro conversaremos nós dois mesmos e decidiremos o que fazer. Iremos a ele com uma proposição oriunda de nós dois, e a mais razoável possível. Ou, até, poderemos não ir a ele.

      Anthony hesitou:

      - Nós dois falarmos com ele?

      Delicadamente, William se expressou:

      - Você é meu porta-voz. Não há razão para irmos juntos.

      - Obrigado, William. Se isto der em alguma coisa, dividirei os louros com você.

      - Quanto a isso, não me preocupo. Se isto der em alguma coisa, creio que eu seria o único a poder fazer o trabalho - falou William.

      Debateram a questão durante quatro ou cinco encontros e, não fosse Anthony seu parente, não houvesse entre eles aquela situação emocional desagradável, indubitavelmente William se orgulharia do seu jovem irmão, por sua rápida compreensão de um campo que lhe era estranho.

      Houve então demoradas reuniões com Dmitri Grandão. Na verdade, havia reuniões com todo mundo. Durante intermináveis dias, Anthony via aquela gente toda, e depois se reunia com William, em separado. E, um belo dia, após uma demorada “gravidez”, veio a autorização para o que foi denominado de Computador Mercúrio.

      William voltou então a Nova Iorque com algum alívio. Não planejava ficar em Nova Iorque (dois meses antes, será que ele pensaria que isto seria possível?...) mas havia muito que fazer no Instituto Homológico.

      Logicamente, mais conferências se fizeram necessárias para ele explicar a seu próprio grupo de laboratório que é que estava se passando e por que ele tinha de se retirar e como deveriam prosseguir com seus próprios projetos sem ele. Seguiu-se uma chegada a Dallas, desta vez bem mais complicada, com o essencial do equipamento e com dois jovens auxiliares para aquilo que era para ter sido uma chegada e retorno.

      No sentido figurativo, nem mesmo William olhara para trás. Seu próprio laboratório e suas necessidades saíram de sua cabeça. Estava agora inteiramente comprometido com sua nova tarefa.

     

      Foi o pior período, para Anthony. O alívio durante a ausência de William não penetrara profundamente e começou a nervosa agonia de se perguntar se, talvez, esperança contra esperança, ele poderia não retornar. Quem sabe ele escolhesse enviar um representante, alguma outra pessoa? Alguma outra pessoa, com rosto diferente, de forma que Anthony não precisasse se sentir como a metade de um monstro com duas costas e quatro pernas?...

      Mas, era William. Anthony observara o avião de carga vir silenciosamente pelo ar, observara-o a descarregar o que transportara, à distância. Mas, mesmo à distância, acabou vendo William.

      Era ele, não havia dúvida. E Anthony se retirou.

      Depois do almoço, foi falar com Dmitri.

      - Garanto-lhe que não é preciso que eu fique, Dmitri. Estudamos os detalhes e uma outra pessoa poderia assumir a tarefa.

      - Não, não - disse Dmitri. - Em primeiro lugar, a idéia foi sua. Deve ir até o fim. Não há razão para dividir as honras desnecessariamente.

      Anthony pensou: ninguém mais quererá assumir o risco. E há ainda a possibilidade de um fracasso. Bem que eu deveria ter pensado nisto. No fundo ele tinha pensado, mas disse, impassível:

      - Você compreende que não posso trabalhar com William.

      - Mas, por que não? - Dmitri fingiu surpresa. - Vocês dois até aqui trabalharam tão bem, juntos!

      - Estive me forçando a isto, Dmitri, e não agüentarei mais. Ou será que você não percebe como a coisa parece?

      - Meu bom amigo! Você está exagerando. Lógico que as pessoas ficam espantadas, ao verem vocês dois juntos. Afinal de contas, são seres humanos. Mas acabarão se acostumando. Eu também me acostumei!

      Seu gordo mentiroso, acostumou-se coisíssima nenhuma, pensou Anthony. E disse:

      - Mas eu não me acostumei.

      - Você não está encarando a coisa de maneira correta. Os pais de vocês eram... diferentes... mas, afinal de contas, o que eles fizeram não foi ilegal. Foi só esquisito, somente isso. Não é culpa sua nem de William. Nenhum dos dois pode ser censurado por causa disto.

      - Mas estamos marcados - falou Anthony, fazendo um rápido gesto apontando para seu próprio rosto.

      - Não estão marcados como você supõe. Vejo diferenças. Você tem aparência nitidamente mais jovem. Seu cabelo é mais ondulado. É só à primeira vista que parece haver grande semelhança. Veja, Anthony, vocês dispõem de todo o tempo de que necessitam, de toda a ajuda de que precisam, de todo o equipamento que quiserem usar. Tenho certeza de que tudo dará maravilhosamente certo. Pense na satisfação...

      Anthony se deixou convencer, logicamente, e concordou em, pelo menos, ajudar William a instalar o equipamento. William, também, parecia estar certo de que tudo funcionaria maravilhosamente. Não tão freneticamente como Dmitri quereria, mas com uma certa calma.

      - É apenas uma questão de conexões adequadas - disse - se bem que eu deva admitir que esse “apenas” é um bocado suculento. O final de tudo isto será conseguir impressões sensoriais num vídeo independente de forma que possamos exercer... bem, não posso usar a expressão controles manuais, não é mesmo? de forma que possamos exercer controle intelectual e termos pleno domínio da situação, se necessário.

      - Dá para fazer isto - disse Anthony.

      - Então, vamos em frente... Veja, precisarei pelo menos de uma semana para fazer as conexões e para ter certeza de que as instruções...

      - A programação - corrigiu Anthony.

      - Bem, isto cabe a você, de forma que usarei sua terminologia. Eu e meus assistentes programaremos o Computador Mercúrio, mas não à maneira de vocês.

      - Espero que não. Quisemos um homólogo justamente porque queríamos estabelecer um programa muito mais sutil do que qualquer coisa que um simples telemetrista poderia fazer. - Não tentou ocultar a ironia contra si mesmo que havia em suas próprias palavras.

      William não reagiu; aceitou as palavras. E disse:

      - Vamos então começar. Façamos o robô caminhar.

     

      Uma semana depois, o robô caminhava no Arizona, a quase dois mil quilômetros de distância. Caminhava rigidamente, às vezes caía, às vezes batia estrondosamente seu tornozelo contra uma obstrução, às vezes mexia só um dos pés e acabava tomando uma surpreendente nova direção.

      - É um bebê aprendendo a andar - comentou William.

      De vez em quando Dmitri vinha, para saber dos progressos, dizendo:

      - Ê notável!

      Anthony não pensava assim. Passaram-se semanas, depois meses. Progressivamente, o robô fazia cada vez mais, à medida que o Computador Mercúrio recebia, progressivamente, uma programação mais complexa. (William tinha a tendência de se referir ao Computador Mercúrio como a um cérebro, mas Anthony não o permitiria.) E tudo que havia acontecido não era ainda suficientemente bom.

      - Não é suficientemente bom, William - disse ele, por fim. Desde a noite anterior estava sem dormir.

      Friamente William se manifestou:

      - Isto não é estranho? Eu estava para dizer que pensei que estávamos derrotados.

      Com dificuldades, Anthony se conteve. O esforço de trabalhar com William e de observar a trapalhada com o robô era mais do que podia suportar.

      - Vou me demitir, William. Vou deixar o empreendimento todo. Lamento... Não é por sua causa.

      - Mas é por mim, sim, Anthony.

      - Não é por sua causa só, William. É uma falha: não chegaremos aonde queríamos. Você vê como o robô é desajeitado, mesmo ainda na Terra, só uns dois mil quilômetros daqui, com o sinal para se mexer vindo apenas numa minúscula fração de segundo por vez. Em Mercúrio, haverá minutos de demora, minutos que o Computador Mercúrio terá de permitir. É loucura pensar que isto funcionará.

      William disse:

      - Não se demita, Anthony. Agora você não pode se demitir. Sugiro que deixemos o robô ser enviado a Mercúrio. Estou convicto de que ele está pronto.

      Anthony riu estrepitosamente, insultantemente.

      - Você está maluco, William.

      - Não estou. Parece que você pensa que em Mercúrio será mais difícil, mas não será. É na Terra que é mais difícil. Este robô está planejado para um terço da gravidade normal da Terra e está trabalhando em gravidade total, no Arizona. Está planejado para 400°C e está só nos 30°C. Foi planejado para o vácuo e está trabalhando numa força atmosférica.

      - Aquele robô pode compensar a diferença.

      - Suponho que a estrutura de metal possa, mas... e o Computador, aqui debaixo de nossos narizes? Não trabalha bem com um robô que esteja num ambiente que não aquele para o qual foi concebido... Veja, Anthony, se você quiser um computador que seja tão complexo quanto um cérebro, você tem de admitir idiossincrasias... Olhe, vamos fazer um acordo. Vai levar ainda uns seis meses para enviarmos o robô a Mercúrio. Você leva o projeto avante enquanto eu tiro umas férias de uns seis meses durante este período. Você ficará livre de mim.

      - Quem cuidará do Computador Mercúrio?

      - Agora você já entende como ele funciona, e haverá aqui dois de minha equipe para ajudar você.

      Desafiante, Anthony sacudiu a cabeça.

      - Não posso me responsabilizar pelo Computador e não assumirei a responsabilidade de sugerir o envio do robô a Mercúrio. Não vai dar certo.

      - Estou convencido de que sim.

      - Você não pode estar convencido. E a responsabilidade é minha. Eu é que receberei as críticas. Contra você não haverá nada.

      Posteriormente, Anthony evocaria este momento crucial. William poderia deixá-lo ir embora. Anthony teria pedido demissão. Tudo estaria perdido.

      Mas William disse:

      - Não haverá nada contra mim? Veja, papai teve aquele sentimento, fez aquilo com mamãe. Tudo bem. Também lamento. Lamento tanto quanto qualquer outra pessoa, mas o que está feito, está feito, e disto resultou uma coisa curiosa. Quando falo de papai, ou seja, quando falo de seu pai, também, há um monte de casais que podem então dizer isto: dois irmãos, duas irmãs, um irmão e uma irmã. E, depois, quando falo mamãe, quero me referir à sua mãe, e há muitos casais que também podem falar assim. Mas não conheço nenhum outro par, nem ouvi falar de outro, que possa partilhar o mesmo pai e mãe.”

      - Sei disso - aquiesceu Anthony, sombrio.

      - Sim, mas encare a coisa de meu ponto de vista - apressou-se William a acrescentar. - Sou homólogo. Trabalho com padrões genéticos. Já pensou alguma vez em nossos padrões genéticos? Partilhamos os mesmos pais, o que quer dizer que nossos padrões genéticos se aproximam bastante, mais do que qualquer outro par em nosso planeta. Nossos rostos mostram isso.

      - Também sei disso.

      - De forma que, se este projeto der certo, e você for glorificado por causa dele, será nosso padrão genético que terá provado ser altamente útil para a humanidade, o que quer dizer também meu padrão genético... Não está vendo, Anthony? Partilho seus pais, seu rosto, seu padrão genético, e, por conseguinte, quer a sua desgraça. Ela é minha quase tanto quanto sua, e se qualquer crédito ou censura sobrevier para mim, será quase tanto seu quanto meu. Tenho de estar interessado em seu sucesso. Tenho para isto um motivo que ninguém mais na Terra tem, puramente egoísta, tão egoísta quanto pode ser o seu para comigo. Estou de seu lado, Anthony, porque você está muito perto de mim!

      Durante um longo tempo eles se encararam e, pela primeira vez, Anthony o fez sem reparar no rosto de que ele partilhava.

      William rompeu o silêncio:

      - Vamos, então, pedir que enviem o robô a Mercúrio.

      Anthony concordou. E depois que Dmitri aprovou o pedido, porque afinal de contas ele estava esperando por isso, Anthony passou a maior parte do dia imerso em profundos pensamentos.

      Procurou então William e disse:

      - Ouça! -  Houve uma longa pausa, que William não rompeu. Novamente Anthony disse: - Ouça!

      Pacientemente, William esperava. Anthony disse:

      - Na verdade, não há necessidade de que você se vá. Tenho certeza de que você não gostaria que ninguém mais, exceto você, dirigisse o Computador Mercúrio.

      - Quer dizer que você pretende ir embora?

      - Não, eu vou ficar, também - falou Anthony. William disse: - Não precisamos muito ver um ao outro. - Tudo isto tinha sido, para Anthony, como falar com um par de mãos cerradas em torno de sua traquéia. Parecia agora que a pressão aumentava, mas a mais dura das afirmações estava ainda por vir.

      - Não temos de nos evitar um ao outro. Não temos mesmo.

      William sorriu, de maneira insegura. Quanto a Anthony, não sorriu de jeito nenhum, rapidamente, retirou-se.

     

      William ergueu os olhos do livro que estava lendo. Fazia pelo menos um mês que ele deixara de se surpreender, ainda que vagamente, quando Anthony entrava.

      - Alguma coisa errada? - perguntou.

      - Quem sabe lá? Estão se preparando para o pouso suave. O Computador Mercúrio está funcionando?

      William sabia que Anthony conhecia perfeitamente a condição do Computador. Mesmo assim, disse:

      - Amanhã de manhã, Anthony.

      - E não há problemas?

      - Nenhum.

      - Então teremos de aguardar o pouso suave.

      - Sim.

      Anthony disse:

      - Alguma coisa falhará.

      - A ciência dos foguetes é um velho parceiro: nada sairá errado.

      - Tanto trabalho desperdiçado.

      - Ainda não foi desperdiçado. Nem será.

      - Pode ser que você esteja certo - disse Anthony. Com as mãos bem enterradas em seus bolsos, afastou-se, detendo-se na porta, antes de abri-la. - Obrigado!

      - Obrigado por quê, Anthony?

      - Por me... confortar.

      Anthony sorriu meio de esguelha, aliviado de uma maneira que suas emoções não demonstravam.

     

      Praticamente todo o pessoal do Projeto Mercúrio estava reunido, no momento crucial. Anthony, que não tinha tarefas a desempenhar, ficou bem ao fundo, com os olhos nos monitores. O robô tinha sido ativado e havia mensagens visuais sendo reenviadas.

      Por fim elas apareceram como o equivalente visual da superfície de Mercúrio. E mostravam aquilo que presumivelmente era essa superfície: uma embaçada incandescência.

      Sombras adejavam rapidamente pelo vídeo, provavelmente irregularidades na superfície. Só pelo que seus olhos viam, Anthony não era capaz de interpretar o que via, mas os técnicos junto aos controles, que estavam analisando os dados por métodos mais sutis do que os que dispunham a olho nu, pareciam calmos. Nenhuma das lampadazinhas vermelhas que denunciavam emergência estava acesa. Na verdade, Anthony prestava mais atenção aos principais observadores do que ao vídeo.

      Ele deveria estar lá, junto ao Computador, com William e os outros. Só se uniria a eles quando o pouso suave estivesse feito. Ele estaria lá. Ele não poderia estar.

      Mais rapidamente as sombras adejavam pelo vídeo. O robô estava descendo - rapidamente demais? Sim, sem dúvida, rápido demais!

      Houve um último borrão e uma fixidez, um deslocamento de foco no qual o borrão ficou primeiro mais escuro; depois, mais esmaecido. Ouviu-se um som e deu para perceber alguns segundos antes de Anthony compreender o que significava aquele som:

      - Conseguimos o pouso suave! Conseguimos o pouso suave!

      Então, houve um murmúrio crescente e um sussurro de congratulações, até que nova mudança ocorreu no vídeo e o som de palavras e risos se deteve, como se tivesse colidido contra uma parede de silêncio.

      Porque o vídeo mudara, mudara e ficara nítido. À brilhante, brilhante luz solar, chamejando em meio ao vídeo cuidadosamente seletivo em suas imagens, agora eles podiam ver um pedregulho claro, com brilho esbranquiçado de um lado, retinto, de outro. Moveu-se para a direita, depois voltou-se para a esquerda, como se um par de olhos olhasse para a esquerda, depois para a direita. No vídeo apareceu uma mão metálica, como se olhos estivessem olhando por meio delas.

      Foi a voz de Anthony que gritou, finalmente:

      - O Computador entrou em ação!

      Ouviu suas próprias palavras como se tivessem sido gritadas por outrem e correu escadas abaixo e por um corredor, deixando o balbucio crescente de vozes atrás dele.

      - William - gritou, irrompendo na sala do computador - está perfeito, está...

      Mas a mão de William se soergueu.

      - Psiu. Por favor. Não quero que nesta sala penetrem quaisquer sensações violentas, exceto as do computador.

      - Quer dizer que podemos ser ouvidos? - cochichou Anthony.

      - Pode ser que não, mas não sei. - Havia ali outro vídeo, menor. A cena que ele mostrava era diferente e cambiante; o robô se movia.

      William disse:

      - O robô está começando a perceber as coisas. Os primeiros passos têm de ser desgraciosos mesmo. Há um intervalo de sete minutos entre o estímulo e a resposta e é preciso levar isto em conta.

      - Mas a verdade é que ele já está andando mais firme do que no Arizona. Não acha, William? Não acha? - Anthony apertava com a mão o ombro de William, sacudindo-o, sem seus olhos deixarem um minuto o vídeo.

      William disse:

      - Estou convencido disto, Anthony.

      O Sol estava incandescente, num cálido contraste entre branco e preto: Sol branco contra um céu negro, solo movente pintalgado de branco com sombras negras. O brilhante gosto doce do Sol, exposto em cada centímetro quadrado de metal, contrastava com o aroma insinuante de morte, do outro lado.

      Ergueu a mão e ficou a olhá-la, contando os dedos. Quente-quente-quente, virou-os, colocando cada dedo, um por um, à sombra dos outros, e o calor lentamente a se atenuar numa mudança tátil que o fazia sentir o limpo e confortável vácuo.

      Se bem que não fosse um vácuo absoluto. Enrijeceu e ergueu ambos os braços sobre a cabeça, esticando-os, e os sensores em cada pulso sentiram os vapores, o fino e leve toque de estanho e chumbo se deslocando em meio ao enjôo que era Mercúrio.

      O espesso sabor subiu de seus pés, os silicatos de cada variedade, marcados claramente pelo separar e juntar dos íons metálicos. Lentamente, ele moveu um pé em meio à poeira tostada, esmagada, e sentiu as diferenças como uma sinfonia delicada, não propriamente sem cadência.

      E, sobretudo, o Sol. Olhou para ele, grande, gordo, brilhante e quente, e ouviu sua alegria. Observou a lenta ascensão das proeminências em torno do Sol e prestou atenção ao som de estalidos de cada uma, prestava atenção, outrossim, aos outros ruídos felizes em torno de seu amplo rosto. Quando ele obscureceu a luz difusa, o vermelho dos punhados de hidrogênio que se erguiam se mostrava em rajadas de maduro contrario, e o profundo contrabaixo das manchas em meio ao emudecido silvar das féculas fragmentadas, a se moverem, e o ocasional silvo de uma labareda e, o crepitar dos raios gama e das partículas cósmicas, e acima de tudo, em todas as direções, o suspiro da substância solar, sempre renovada, erguendo-se e contraindo-se para todo o sempre, num vento cósmico que o alcançava e o banhava gloriosamente.

      Deu um pulo e ergueu-se lentamente no ar com uma liberdade que nunca sentira, e novamente deu um pulo, ao pousar, e correu, e saltou, e de novo correu, com um corpo que respondia perfeitamente a este mundo glorioso, a este paraíso em que finalmente se achava.

      Um estranho, tão longe e tão perdido, finalmente no paraíso.

     

      - Tudo em ordem - disse William.

      - Mas que é que ele está fazendo? - gritou Anthony.

      - Tudo em ordem. A programação está funcionando. Ele testou seus sentidos. Está fazendo várias observações visuais. Obscureceu o Sol e o estudou. Testou a atmosfera e a natureza química do solo. Tudo funciona.

      - Mas por que está correndo?

      - Acho que é idéia dele mesmo, Anthony. Se quiser programar um computador de maneira tão complicada como um cérebro o é, você tem de esperar que ele tenha idéias próprias.

      - Correr? Pular? - Anthony voltou seu rosto, ansioso, para William. - Acabará se machucando. Assuma o controle do Computador, passe por cima dele. Faça-o parar.

      Asperamente, William disse:

      - Não, não farei isto. Vou me aproveitar do fato de ele poder se machucar. Não está percebendo? Ele está feliz. Estava na Terra, um mundo ao qual ele nunca se adaptaria. Agora, está em Mercúrio, com um corpo perfeitamente adaptado à sua ambiência, tão perfeitamente adaptado quanto cem cientistas o poderiam ter feito. Para ele, é o paraíso, deixe-o aproveitá-lo.

      - Aproveitá-lo? Mas ele é um robô!

      - Não estou falando do robô. Estou falando do cérebro, o cérebro que está vivo, aqui.

      O Computador Mercúrio, encerrado em vidro, cuidadosa e delicadamente protegido, sua integridade preservada de maneira mais sutil, respirava e vivia.

      - É Randall que está no paraíso - afirmou William. - Achou o mundo por amor do qual autisticamente fugiu deste nosso. Tem um mundo para o qual seu novo corpo está perfeitamente adequado em troca deste mundo ao qual seu velho corpo absolutamente não se ajustava.

      Maravilhado, Anthony observava o vídeo.

      - Parece estar se acalmando.

      - Lógico - disse William - e desempenhará sua missão da melhor maneira possível, para sua alegria.

      Anthony sorriu e disse:

      - Quer dizer então que você e eu fizemos o que queríamos? Vamos até onde estão os demais e vamos deixá-los nos festejar, William?

      - Juntos? - perguntou William.

      - Juntos, irmão! - exclamou Anthony, saindo com ele, ombro a ombro.

     

      Não negarei que passou por minha cabeça um pensamento indigno: Jim era moço ainda, e ele poderia muito bem ter pegado “Estranho no Paraíso” impressionado, talvez, inconscientemente, mais por minha fama do que pelo valor da estória, propriamente dito. Este pensamento, que, ainda que fugitivo, passara por minha cabeça, se desvaneceu completamente quando Donald Wollheim, da DAW Books, a escolheu para uma de suas antologias. Ultrapassa os limites da verossimilhança que Don, sujeito cínico, veterano traquejado, pudesse talvez se deixar impressionar por meu nome fosse lá em que circunstâncias fosse, ou, na verdade, por qualquer coisa a meu respeito. (Não é mesmo, Don?) De forma que, se queria a estória, era por amor a ela mesma.

      Escrevi, ocasionalmente, artigos para o The New York Times Magazine, mas minha média de acertos com eles é inferior a 0,5.

      Comumente, este tipo de acontecimento seria desanimador, e eu poderia me deixar dominar pela sensação de que não me adapto a este tipo peculiar de mercado e que tenho de concentrar meus esforços alhures. Entretanto, o Times é um caso especial, e continuo tentando.

      Contudo, no outono de 1974, de um só golpe recebi três recusas, de forma que decidi rejeitar a próxima solicitação de um artigo que deles recebesse. Isto não é tão fácil quanto parece, porque geralmente a solicitação provém de Gerald Walker, um bom amigo, como nunca inventaram outro.

      Quando ele telefonou, tentei desesperadamente me obstinar numa recusa a tudo quanto ele me disse, até que mencionou a frase mágica: “ficção científica”.

      - Uma estória de ficção científica? - perguntei.

      - Sim.

      - Para o suplemento?

      - Sim. Queremos uma estória de quatro mil palavras, que sonde o futuro e que tenha algo a ver com o relacionamento homem/máquina.

      - Vou tentar - falei. Que mais poderia fazer? A chance de atingir o Times com uma estória de ficção científica era tão interessante, que não podia ser rejeitada. Comecei a trabalhar na estória em 18 de novembro de 1974. Enviei-a ao Times sem qualquer confiança real em sua publicação e pouco me importava o que viesse a acontecer. Ela saiu em 5 de janeiro de 1975, número de segunda-feira do Times e, tanto quanto pude constatar, foi o primeiro trabalho de ficção que o Times autorizou e publicou.

     

      Versos na luz

      A última pessoa deste mundo que alguém julgaria um criminoso era a sra. Avis Lardner. Viúva do grande mártir da Astronáutica, era filantropa, colecionadora de arte, uma extraordinária anfitriã e, todos concordavam, um gênio artístico. Acima de tudo, era o mais gentil e bondoso ser humano que se podia imaginar.

      O marido, William J. Lardner, morreu, como todos sabemos, devido aos efeitos da radiaçío da luz solar, após ter deliberadamente permanecido no espaço, a fim de que uma espaçonave de passageiros pudesse levar seu veículo espacial em segurança à Estação Espacial n°5.

      Por isso a sra. Lardner havia recebido uma generosa pensão, a qual investira bem e com muita sabedoria. Ao fim da meia-idade, estava rica.

      Sua casa era uma espécie de exposição permanente, um verdadeiro museu, contendo uma coleção de lindas jóias, pequena, porém de extremo bom-gosto. De uma dúzia de diferentes culturas havia conseguido relíquias de quase toda peça de artesanato concebível que pudessem ser engastadas de jóias para servir à aristocracia daquela mesma cultura. Possuía um dos primeiros relógios de pulso, adornado de pedras preciosas, fabricado na América, uma adaga incrustada de pedras preciosas, procedente do Camboja, um par de óculos, decorado com jóias, vindo da Itália, e assim por diante, interminavelmente.

      Tudo estava aberto ao público. As peças de artesanato não estavam no seguro, e não havia nenhuma providência comum no sentido de garanti-las. Não havia a necessidade de nada convencional, porquanto a sra. Lardner mantinha um corpo de auxiliares, constituído de robôs-servos, a cada um dos quais podia se confiar a guarda de cada um dos objetos, tendo eles imperturbável concentração, irrepreensível honestidade e irrevogável eficiência.

      Todos sabiam da existência dos robôs e não há registro de ter algum dia ocorrido alguma tentativa de furto.

      E havia também, é claro, sua escultura-luz.

      Como a sra. Lardner descobriu seu próprio gênio para a arte, nenhum convidado de suas pródigas reuniões conseguia adivinhar. Contudo, em cada ocasião, quando a sra. Lardner abria a casa para os convidados, uma nova sinfonia de luz percorria os aposentos de um lado ao outro; curvas e sólidos tridimensionais, numa mescla de cores, algumas puras, outras difusas, em surpreendentes efeitos cristalinos que mergulhavam no assombro cada convidado, e que se ajustavam por si mesmos, de forma a embelezar os cabelos macios e azulados e o rosto de contornos pouco definidos da sra. Lardner.

      Era por causa da escultura-luz, mais do que por qualquer outra coisa, que os convidados apareciam. Nunca era a mesma duas vezes, e nunca deixava de explorar novos enfoques da arte.

      Muitas pessoas que podiam comprar consolo-luz preparavam esculturas-luz por diversão, mas ninguém chegava nem de longe a igualar a perícia da sra. Lardner. Nem mesmo aqueles que se consideravam artistas profissionais.

      Ela mesma era encantadoramente modesta a respeito disso - Não, não - dizia ela, quando alguém ressudava lirismo. - Eu não a denominaria “poesia na luz”. Isto é ser bondosa demais. No máximo, eu diria que se trata de meros “versos na luz” - e todos sorriam da sutil tirada de espírito.

      Embora fosse solicitada freqüentemente a fazê-lo, jamais criava “escultura-luz” em outras ocasiões, salvo em suas próprias festas.

      - Seria comercialização - costumava dizer.

      Contudo, não objetava à preparação de elaborados hologramas de suas esculturas, de forma que se tornassem permanentes e fossem reproduzidos em todos os museus do mundo. Tampouco nunca cobrou nada pelo uso que pudesse ser feito de suas “esculturas-luz”.

      - Eu não teria coragem de cobrar um centavo - dizia ela, abrindo bem os braços. - É de graça para todos. Afinal de contas, eu mesma a uso durante pouco tempo.

      Era verdade, ela nunca utilizava duas vezes a mesma “escultura-luz”.

      Ela própria cooperava quando eram feitos os hologramas. Observando benignamente cada etapa, estava sempre pronta a mandar que os robôs ajudassem.

      - Por favor, Courtney - quer ter a bondade de ajustar a escadinha?

      Era o seu estilo. Sempre se dirigia aos robôs com a mais formal das cortesias.

      Certa ocasião, há muitos anos, quase fora repreendida por um funcionário federal do “Bureau of Robots and Mechanical Men”:

      - Não pode fazer isto - disse ele severamente. - Interfere na eficiência deles. São construídos para cumprir ordens e quanto mais claramente lhes der ordens, mais eficientes as cumprirão. Quando pede com elaborada polidez, compreendem com dificuldade que está sendo dada uma ordem. Reagem mais lentamente.

      A sra. Lardner ergueu a aristocrática cabeça:

      - Não exijo rapidez e eficiência - disse ela. - Peço boa vontade. Meus robôs me amam.

      O funcionário poderia ter explicado que robôs não podem amar, mas murchou sob o olhar ofendido, ainda que meigo, dela.

      Era fato conhecido de todos que a sra. Lardner jamais remeteu um robô à fábrica para ajustamentos. Seus cérebros positrônicos eram de enorme complexidade, e quando saem da fábrica, um em dez não está perfeitamente regulado. Às vezes o desajuste não se revela durante um período de tempo, mas sempre que um engano se manifesta, a “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation” efetua a correção gratuitamente.

      A sra. Lardner sacudiu a cabeça:

      - A partir do momento em que o robô está em minha casa - disse - e cumpre com seus deveres, as excentricidades secundárias devem ser toleradas. Não permitirei que seja maltratado.

      Era a pior coisa possível tentar explicar que um robô era apenas uma máquina. Ela dizia inflexivamente:

      - Nada que seja tão inteligente como um robô pode ser apenas uma máquina. Trato-os como gente.

      E pronto!

      Ela conservava até mesmo Max, embora fosse quase inútil. Mal se podia compreender o que se esperava dele. Contudo, a sra. Lardner insistia:

      - Absolutamente - dizia firmemente - ele é capaz de pegar e guardar chapéus e casacos perfeitamente. Segura objetos para mim. Sabe fazer muitas coisas.

      - Mas por que não manda regulá-lo? - perguntou um amigo, certa ocasião.

      - Oh, eu não teria coragem. Ele é ele mesmo. É muito amável, sabe? Afinal de contas, um cérebro positrônico é tão complexo que ninguém consegue saber onde está enguiçado. Se fosse ajustado para a perfeita normalidade, não haveria meios de recuperá-lo para a amabilidade que possui agora. E eu não quero desfazer-me dele.

      - Mas, se ele está mal regulado - disse o amigo, olhando nervosamente para a sra. Lardner - não poderá ser perigoso?

      - Nunca - a sra. Lardner deu uma risada. - Tenho-o há anos. É completamente inofensivo e é um amor.

      Na verdade, ele tinha a mesma aparência de todos os outros robôs: liso, metálico, vagamente humano, mas inexpressivo.

      Contudo, para a bondosa sra. Lardner, todos eram gente, pessoas, todos meigos, todos adoráveis. Ela era assim.

      Como poderia cometer um crime?

      A última pessoa que alguém esperaria que fosse assassinado seria John Semper Travis. Introvertido e de modos suaves, estava no mundo, mas não pertencia a ele. Possuía aquele peculiar talento para a Matemática que lhe tornava possível resolver mentalmente o complexo entrelaçamento de uma miríade de circuitos positrônicos cerebrais da mente de um robô.

      Era o engenheiro-chefe da “U. S. Robots and Mechanical Men Corporation”.

      Mas era também um entusiasmado amador em “escultura-luz”. Havia escrito um livro sobre a matéria, no qual tentava mostrar que o tipo de Matemática que utilizava para resolver problemas de circuitos de cérebros positrônicos poderia ser modificado para servir de guia na produção da estética da “escultura-luz”.

      No entanto, sua tentativa de colocar a teoria em prática foi um fracasso desanimador. As esculturas que produziu, segundo seus princípios matemáticos, eram pesadas, mecânicas e sem interesse.

      Era a única razão de infelicidade em sua vida tranqüila, introvertida e segura, no entanto era razão suficiente para sentir-se profundamente infeliz. Ele sabia que suas teorias eram corretas, se bem que não conseguisse pô-las em ação. Se não conseguisse produzir uma boa peça de “escultura-luz”...

      Naturalmente, estava a par da “escultura-luz” da sra. Lardner. Ela era universalmente aplaudida como um gênio, muito embora Travis soubesse que era incapaz de compreender mesmo o mais simples aspecto da matemática dos robôs. Havia trocado correspondência com ela, mas ela recusava-se obstinadamente a explicar seus métodos, levando-o a perguntar-se se ela possuía mesmo algum. Não seria mera intuição? - mas mesmo a intuição pode ser reduzida à matemática. Finalmente, ele conseguiu receber um convite para uma das festas. Precisava avistar-se com ela a todo custo.

      O sr. Travis chegou bem tarde. Havia feito uma última tentativa com uma peça de “escultura-luz”, que resultará num fracasso desa-lentador.

      Cumprimentou a sra. Lardner com uma espécie de enigmático respeito e disse:

      - Estranho aquele robô que pegou meu chapéu e casaco.

      - Aquele é Max - disse a sra. Lardner.

      - Está muito desregulado e é um modelo bem antigo. Por que razão não o manda para a fábrica?

      - Oh, não - disse a sra. Lardner. - Seria demasiado trabalho.

      - De modo nenhum, sra. Lardner - disse Travis. - A sra. ficaria surpresa com a simplicidade do trabalho. De vez que sou da U.S. Robots, tomei a liberdade de ajustá-lo pessoalmente. Não levou tempo e a sra. verá que ele está agora em perfeitas condições de funcionamento.

      Uma estranha mudança ocorreu no rosto da sra. Lardner. A fúria estampou-se nele pela primeira vez em sua existência sossegada. Era como se os traços fisionômicos não soubessem qual posição tomar.

      - Ajustou-o? - perguntou com voz aguda. - Mas foi ele que criou as minhas “esculturas-luz”. Foi o ajustamento defeituoso, o desajuste, que você jamais conseguirá restaurar... aquele...

      Foi uma grande desgraça que ela estivesse mostrando sua coleção naquele momento e que a adaga com cabo cravejado com pedras preciosas, procedente do Camboja, estivesse sobre o tampo de mármore na mesa em frente dela.

      A fisionomia de Travis também se distorceu:

      - A sra. quer dizer que, se eu tivesse estudado o estranho cérebro positrônico dele, eu poderia ter aprendido...

      Ela avançou com a arma com demasiada rapidez para alguém detê-la. Ele não tentou se esquivar ao golpe. Há quem diga que foi ao encontro dele - como se quisesse morrer.

     

      Segregacionista

      - Ele está pronto? - disse o cirurgião levantando o olhar inexpressivo.

      - Pronto é um termo relativo - disse o engemédico. - Estamos prontos. Ele está inquieto.

      - Eles sempre estão... Bem, é uma operação séria.

      - Séria ou não ele deve estar agradecido. Ele foi escolhido dentre um número enorme e, francamente, não penso que...

      - Não diga nada - disse o cirurgião. - Não nos cabe tomar a decisão.

      - Aceitamos, mas temos que concordar?

      - Sim - disse o cirurgião, ríspido. - Concordamos, completamente e de todo o coração. A operação é demasiadamente intrincada para ser encarada com restrições intelectuais. Este homem provou o seu valor de muitas maneiras e o seu perfil é adequado para o Conselho da Moralidade.

      - Está bem - disse o engemédico, pouco convencido.

      - Vê-lo-ei aqui mesmo, assim penso - disse o cirurgião. - Esta sala é bastante pequena e íntima para ser confortável.

      - Não ajudará. Ele está nervoso e mudou de idéia.

      - Realmente?

      - Sim. Ele prefere metal. Eles sempre preferem.

      O rosto do cirurgião não apresentou mudança de expressão. Contemplou as próprias mãos.

      - Algumas vezes podemos dissuadi-los.

      - Por que se preocupar? - disse o engemédico, indiferente.

      - Se quer que seja metal, que seja metal.

      - Você não se importa?

      - Por que deveria? - e o engemédico fez a pergunta quase que brutalmente. - De qualquer modo, trata-se de um problema da engenharia médica e eu sou um engenheiro médico. Posso tratar do assunto de qualquer forma. Por que deveria ir além disso?

      - Para mim, é uma questão de adequação - disse o cirurgião, imperturbável.

      - Adequação! Não pode usar isso como argumento. Que importa ao paciente a adequação das coisas?

      - A mim, importa.

      - O seu cuidado é o de uma minoria. A maioria é contra você. Não tem chance.

      - Tenho que tentar - e o cirurgião reduziu o engemédico ao silêncio, com um rápido aceno de mão que revelava não impaciência, mas, sim, pressa. Já havia informado a enfermeira e já recebera o sinal de que ela se aproximava. Pressionou um botão e uma porta dupla abriu-se silenciosamente. O paciente entrou na sala na sua cadeira motorizada, com a enfermeira caminhando apressadamente a seu lado.

      - Pode ir, enfermeira - disse o cirurgião -, mas espere lá fora. Poderei chamá-la. - Fez um aceno de cabeça ao engemédico que deixou a sala juntamente com a enfermeira e a porta se fechou atrás deles.

      O homem na cadeira olhou por cima do ombro, observando a saída deles. Tinha uma nuca esquelética e pequenas rugas em volta dos olhos. Barbeara-se recentemente e os dedos das mãos, que seguravam os braços da cadeira fortemente, apresentavam unhas manicuradas. Era um paciente de alta prioridade e ele estava sendo tratado... Mas em seu rosto havia uma expressão de decidida impertinência.

      - Vamos começar hoje? - disse ele.

      - Esta tarde, Senador - disse o cirurgião balançando a cabeça.

      - Pelo que entendo, levará semanas.

      - Não a operação em si, Senador. Mas existe um certo número de pontos subsidiários que devem ser cuidados. Existem algumas renovações de circulação que devem ser realizadas, assim como ajustamentos hormonais. São coisas complicadas.

      - E são perigosas? - E então, como se sentisse a necessidade de estabelecer uma relação amigável, mas patentemente contra a sua vontade, acrescentou - ... doutor?

      O cirurgião não deu atenção às mudanças de expressão. Disse francamente: - Tudo é perigoso. Demoramos para que seja menos perigoso. É o tempo requerido, a habilidade de uma equipe, a instrumentação, que tomam tais operações possíveis somente para tão poucos...

      - Sei disso - interrompeu o paciente, com brusquidão. - Recuso-me a sentir culpa quanto a isto. Ou posso deduzir que há alguma pressão imprópria?

      - De modo algum, Senador. As decisões do Conselho nunca foram questionadas. Menciono adifículdadee a complicação da operação, simplesmente para expressar meu desejo de que seja conduzida da melhor maneira possível.

      - Bem, vá adiante, então. É o meu desejo também.

      - Então devo pedir-lhe para tomar uma decisão. É possível dar-lhe um dos dois tipos de cibercorações, em metal ou...

      - Plástico! - disse o paciente, irritado. - Não é esta a alternativa que me ia oferecer, doutor? Plástico barato. Não quero. Já fiz minha escolha. Quero metal.

      - Mas...

      - Escute aqui. Fui informado de que a escolha seria minha. Não é assim?

      - Quando dois procedimentos alternativos são de igual valor sob o ponto de vista médico, a escolha recai sobre o paciente. Na prática real, a escolha é do cliente, ainda que os procedimentos alternativos não sejam de igual valor, como no presente caso.

      - Está tentando me dizer que o coração de plástico é superior? - indagou o paciente, estreitando os olhos.

      - Depende do paciente. Na minha opinião, no seu caso individual, o plástico é superior. E preferimos não usar o termo “plástico”. Dizemos cibercoração fibroso.

      - Para mim é plástico de qualquer maneira.

      - Senador - disse o cirurgião infinitamente paciente - não se trata de material plástico no sentido comum da palavra. É um material polimérico, sim, mas de um tipo muito mais complexo do que o plástico ordinário. É uma fibra complexa semelhante à proteína, destinada a imitar, tanto quanto possível, a estrutura natural do coração humano que agora está dentro do seu tórax.

      - Exatamente, e o coração humano que agora está dentro do meu peito está gasto, embora não tenha atingido ainda os sessenta anos. Não quero outro igual, obrigado. Quero algo melhor.

      - Todos nós desejamos o melhor para o senhor, Senador. O cibercoração de fibra será o melhor. Tem uma vida potencial de séculos. É inteiramente não-alérgico...

      - Mas não acontece o mesmo com o coração de metal?

      - Sim, realmente - disse o cirurgião. - O cibermetálico é de liga de titânio...

      - E não se gasta? É mais forte do que o plástico? Ou fibra, ou seja qual for o nome?

      - O metal é fisicamente mais forte, sim, mas a resistência mecânica não é o ponto em questão. A resistência mecânica não lhe fará nenhum bem em particular, uma vez que o coração é bem protegido. Qualquer coisa capaz de atingir o coração o matara por outras razões, ainda que o coração possa enfrentar manipulação manual.

      - Se alguma vez quebrar uma costela eu a terei substituída por titânio também - disse o paciente dando de ombros. - A substituição de ossos é fácil. Qualquer um pode fazer, em qualquer ocasião. Serei tão metálico quanto desejar, doutor.

      - Está no seu direito, se assim prefere. Entretanto, é apenas justo dizer-lhe que, embora nenhum cibercoração metálico tenha quebrado mecanicamente, um certo número quebrou-se eletronicamente.

      - O que isto significa?

      - Significa que todo cibercoração contém um marcapasso como parte de sua estrutura. No caso da variedade metálica, é um dispositivo eletrônico que mantém o cíber no ritmo. Significa que uma bateria completa de equipamento miniaturizado deve ser incluída para alterar o ritmo do coração, para adequar-se ao estado emocional e físico do indivíduo. Ocasionalmente algo errado acontece e pessoas têm morrido antes de qualquer correção.

      - Nunca ouvi falar disso.

      - Mas posso assegurar-lhe que acontece.

      - Está me dizendo que acontece com freqüência?

      - De modo algum. Acontece raramente.

      - Bem, então correrei o risco. E quanto ao coração de plástico? Também contém um marcapasso?

      - Naturalmente, Senador. Mas a estrutura química de um cibercoração fibroso é muito aproximada da do tecido humano. Responde aos controles iônico e hormonal do próprio corpo. O complexo total que deve ser inserido é muito mais simples do que cibermetálico.

      - Mas o coração de plástico nunca se desligou de repente do controle hormonal?

      - Nunca se registrou um caso destes.

      - Porque vocês não têm estado trabalhando com eles por bastante tempo. Não é verdade?

      O cirurgião hesitou.

      - É verdade que cíber fibrosos não têm sido tão usados como os metálicos.

      - Aí está. Mas o que é que há, doutor? Está com receio que esteja me transformando num robô... um Metallo, como são chamados, desde que a cidadania lhes foi concedida?

      - Não há nada de errado com um Metallo, enquanto Metallo. Como o senhor disse, são cidadãos. Mas acontece que o senhor não é um Metallo. É um ser humano. Por que não continuar humano?

      - Porque eu quero o melhor e o melhor é um coração metálico. Providencie o resto.

      - Muito bem - disse o cirurgião, assentindo. - Será solicitado a assinar as permissões necessárias e em seguida será equipado com um coração de metal.

      - E o senhor será o cirurgião responsável? Disseram-me que é o melhor.

      - Farei o que puder para facilitar o transplante.

      A porta se abriu e a cadeira levou o paciente ao encontro da enfermeira.

      O engemédico entrou, olhando por sobre o ombro para o paciente que se retirava até que a porta voltou a fechar-se.

      Voltou-se para o cirurgião:

      - Bem, não posso dizer o que aconteceu apenas olhando para você. Qual foi a decisão dele?

      O cirurgião inclinou-se sobre a mesa, escrevendo os últimos itens do seu relatório.

      - O que você predisse. Insiste num cibercoração metálico.

      - Afinal de contas, são os melhores.

      - Não tanto. Vêm sendo usados há muito tempo, só isso. É uma mania que caiu como uma praga sobre a humanidade, desde que os Metallos tomaram-se cidadãos. Os homens foram tomados pelo estranho desejo de se transformarem em Metallos. Anseiam pela força física e pela resistência associadas a eles.

      - Mas tal desejo não é unilateral, doutor. Você não trabalha com os Metallos, mas eu sim. Os últimos dois que me apareceram para reparos solicitaram elementos fibrosos.

      - E os obtiveram?

      - Em um caso, tratava-se de fornecer tendões e não fazia muita diferença se fosse metal ou fibra. O outro desejava um sistema sangüíneo ou seu equivalente. Disse-lhe que não podia, isto é, não sem uma completa reconstrução da estrutura do seu corpo em material fibroso... Suponho que chegaremos a isso algum dia. Metallos que não serão realmente Metallos, inteiramente, mas compostos de carne e sangue.

      - E você não se incomoda com a idéia?

      - E por que deveria? E quanto a seres humanos metalizados também? Temos agora duas variedades de inteligência na Terra, e por que me preocupar com as duas? Deixemos que se aproximem uma da outra e, eventualmente, não saberemos dizer qual a diferença. O que deveríamos desejar? Temos o melhor de dois mundos: as vantagens do homem, combinadas com as do robô.

      - Tudo o que vai conseguir é um híbrido - disse o cirurgião num tom que se aproximava da violência. - Obterá algo que não será ambos, mas nem um nem outro. Não é lógico supor-se que um indivíduo se orgulhe tanto da sua estrutura e da sua identidade que não possa vir a desejar que elas se diluam em alguma coisa estranha? Será que ele quer a hibridização?

      - Isto é conversa de segregacionista.

      - Então, que seja - e o cirurgião-acrescentou com ênfase, porém calmo. - Acredito em ser o que se é. Não trocaria uma parcela sequer da minha própria estrutura, por nenhuma razão. Se algo em mim exigisse, realmente, substituição, faria com que tal se realizasse do modo mais aproximado possível da minha natureza original. Eu sou eu mesmo. Contente de ser como sou. E de modo algum seria diferente.

      Agora havia terminado, finalmente, e tinha que se preparar para a operação. Colocou as mãos fortes dentro do forno e deixou que atingissem o brilho rubro que as esterilizaria completamente. Com todas as suas palavras apaixonadas, a sua voz nunca se elevou e no seu rosto de metal brunido nunca houve (como sempre) o menor sinal de expressão.

     

ROBBIE

      – Noventa e oito, noventa e nove, cem!

      Glória retirou o bracinho gorducho de sobre os olhos e ficou imóvel por um instante, franzindo o nariz e piscando contra a luz do sol. Então, tentando observar ao mesmo tempo em todas as direções, recuou alguns passos, afastando-se cautelosamente da árvore em que estivera recostada.

      Esticou o pescoço para estudar as possibilidades de um grupo de arbustos à direita e depois recuou ainda mais, a fim de obter um melhor ângulo de visão sobre o recesso escuro da folhagem. O silêncio era profundo, exceto pelo incessante zumbir dos insetos e pelo trinado ocasional de algum pássaro bastante valente para enfrentar o sol de meio-dia.

      Glória fez uma careta de aborrecimento.

      – Aposto que ele entrou em casa, e eu já lhe disse um milhão de vezes que isso não vale.

      Com os lábios fortemente apertados e a testa franzida numa expressão severa, a menina se encaminhou resoluta- mente para a casa de dois pavimentos situada além da alameda.

      Tarde demais, ouviu o barulho de folhas atrás de si, logo seguido pelo clum-clump característico e ritmado dos pés metálicos de Robbie. Girou nos calcanhares a tempo de ver seu companheiro triunfante emergir do esconderijo e correr a toda velocidade para a árvore que servia de pique.

      Gloria gritou, consternada: 

 – Espere, Robbie! Assim não vale, Robbie! Você prometeu não correr até eu encontrá-lo!

 Seus pezinhos não conseguiam ganhar terreno sobre os passos gigantescos de Robbie. Então, a três metros da árvore, o andar de Robbie transformou-se em mero arrastar de pés, e Gloria, num último e desesperado impulso de velocidade, passou ofegante por ele e tocou a casca do tronco que servia de pique. Radiante, a menina voltou-se para o fiel Robbie e, com a maior das ingratidões, recompensou-o pelo sacrifício: zombou cruelmente de sua incapacidade para correr.

      – Robbie não sabe correr! – gritou, com toda a força de seus pulmões de oito anos. – Posso ganhar sempre dele! Posso ganhar sempre dele!

      Cantava as frases ritmicamente, em tom agudo. Naturalmente, Robbie não respondeu – pelo menos, não com palavras. Em lugar disso, fingiu que estava correndo, afastando-se lentamente, até que Gloria começou a correr atrás dele, enquanto o robô esquivava-se no último instante, obrigando-a a descrever círculos, inutilmente, com os bracinhos esticados abanando no ar.

      – Robbie! – gritava ela. – Fique quieto! E seu riso saía em impulsos ofegantes. Afinal, ele girou nos calcanhares e agarrou a menina, fazendo-a rodar. Gloria viu o mundo de cabeça para baixo, sobre um fundo azulado, com as árvores verdes parecendo querer alcançar o abismo. Em seguida, sentou-se novamente na grama, apoiada à perna metálica de Robbie e ainda segurando um duro dedo de metal.

      Depois de algum tempo, recobrou o fôlego. Mexeu inutilmente no cabelo desgrenhado, imitando vagamente um gesto de sua mãe, e contorceu-se, a fim de verificar se o vestido estava rasgado. Deu uma palmada nas costas de Robbie.

 – Menino mau! Vai apanhar! - Robbie encolheu-se, escondendo o rosto com as mãos, de modo que ela se viu forçada a acrescentar: – Não, Robbie. Não vou bater em você. Mas, de qualquer maneira, agora é a vez de eu me esconder, porque você tem pernas mais compridas e prometeu não correr para o pique até eu encontrá-la.

 Robbie assentiu com a cabeça, - um pequeno paralelepípedo de arestas e cantos arredondados, ligado por uma haste curta e flexível a outro paralelepípedo semelhante, mas muito maior, que lhe servia de torso – e virou-se obedientemente para a árvore. Urna fina película metálica recobriu-lhe os olhos e do interior de seu corpo veio um tique-taque ritmado. e sonoro.

      – Agora, não espie... e não pule os números – avisou Gloria, antes de correr para esconder-se. Os segundos foram contados com regularidade invariável e, ao centésimo tique, a película metálica se ergueu.

      Os brilhantes olhos vermelhos de Robbie examinaram as redondezas. Pousaram um momento sobre uma mancha colorida atrás de uma pedra. Robbie avançou alguns passos, convencendo-se de que Gloria estava agachada atrás da pedra.

      Vagarosamente, mantendo-se sempre entre Gloria e a árvore do pique, ele se encaminhou para o esconderijo. Quando Gloria estava bem à vista e nem mesmo poderia imaginar que ainda não fôra descoberta, Robbie esticou um braço em direção a ela e bateu com o outro de encontro à perna, produzindo um ruído metálico. Gloria se ergueu, amuada.

      – Você espiou! – declarou, com tremenda injustiça. – Além disso, já estou cansada. de brincar de esconder. Quero andar a cavalo.

      Porém Robbie, magoado com a injusta acusação, sentou-se cuidadosamente e meneou a cabeça de um lado para outro. Imediatamente, Gloria mudou de tom, tentando convencê-lo gentilmente: 

      – Vamos, Robbie. Eu estava brincando quando disse que você espiou. Deixe-me dar uma voltinha em você.

      Todavia, Robbie não estava disposto a se deixar levar com tanta facilidade. Olhou teimosamente para o alto e sacudiu a cabeça com ênfase ainda maior.

      – Por favor, Robbie. Por favor, deixe-me dar uma voltinha em você – insistiu Gloria, passando os bracinhos rosados pelo pescoço dele e apertando com força. Então, mudando repentinamente de humor, afastou-se.

      – Se você não deixar, vou chorar – declarou, contorcendo terrivelmente o rosto num movimento preparatório. O malvado Robbie não deu maior atenção à horrível possibilidade e sacudiu a cabeça pela terceira vez. Gloria julgou necessário usar seu maior trunfo.

      – Está bem – declarou em tom suave. – Se você não deixar, não lhe contarei mais histórias. Mais nenhuma...

      Robbie cedeu imediata e incondicionalmente ante tal ultimato, balançando afirmativamente a cabeça até que o metal de seu pescoço chegou a zunir. Com grande cuidado, ergueu a menina e colocou-a sobre seus ombros largos e lisos.

      As supostas lágrimas de Gloria desapareceram como por encanto e ela soltou gritinhos de prazer. A pele metálica de Robbie, mantida à temperatura constante de vinte e um graus pelas bobinas de alta resistência existentes em seu interior, produzia na menina uma sensação confortável, ao mesmo tempo em que o som alto que seus saltos faziam de encontro ao peito do robô lhe parecia encantador.

 – Você é um planador, Robbie; um planador grande e prateado. Abra os braços, Robbie... Tem de abrir, para ser um planador. Era uma lógica irrefutável. Os braços de Robbie passaram a ser asas pegando as correntes aéreas e ele se transformou num planador prateado.

 Gloria torceu a cabeça do robô para a direita. Ele se inclinou, fazendo uma curva. Gloria equipou o planador com um motor que fazia “Brrrr” e depois com armas que faziam “Bum!” e “Shsh-shhhsh”. Os piratas estavam perseguindo e os atiradores do planador entraram em ação. Os piratas foram varridos do céu.

      – Peguei outro! ... Mais dois! – exclamava a menina. Então, ela ordenou pomposamente: – Mais depressa, homens! A munição está acabando!

      Gloria apontava por cima do ombro com coragem indomável e Robbie passou a ser uma nave espacial, atravessando o vácuo em aceleração máxima. Ele correu através do campo até um trecho de grama alta situado no lado oposto, onde parou tão subitamente que a passageira não conteve um grito. Então, Robbie deixou-a cair suavemente no espesso tapete verde formado pela grama. Gloria ofegava, sem fôlego, murmurando repetidamente:

      – Foi  ótimo!

      Robbie esperou que ela recuperasse o fôlego e puxou levemente um de seus cachos.

      – Quer alguma coisa? – indagou Gloria, abrindo muito os olhos numa expressão de perplexidade que não conseguiu iludir a enorme “ama-seca”. Robbie puxou-lhe o cabelo com um pouco mais de força.

      – Oh, já sei. Quer uma história.

      Robbie assentiu rapidamente.

      – Qual delas?

      Robbie ergueu um dedo, descrevendo um semicírculo. A menina protestou.

      – Outra vez? Já lhe contei a “Gata Borralheira” um milhão de vezes! Não está cansado dela?... É uma história para bebês. Outro semicírculo.

      – Oh, está bem.

      Gloria concentrou-se, passando mentalmente em revista os detalhes da história (bem como as variações criadas por ela própria, que eram numerosas), e começou:

      – Está pronto? Bem... Era uma vez uma menina muito linda chamada Ella. Tinha uma madrasta terrivelmente malvada e duas irmãs de criação muito feias e cruéis. Então...

      Gloria estava chegando ao clímax da história : chegava a meia-noite e tudo estava voltando ao sórdido original. Robbie escutava atentamente, com os olhos brilhando... quando houve uma interrupção.

      – Gloria!

      Era o brado agudo de uma mulher que estivera chamando não uma, mas várias vezes; tinha o tom nervoso de alguém cuja impaciência já se transformava em preocupação.

      – Mamãe está chamando – disse Gloria, não muito satisfeita. – É melhor você me carregar de volta para casa, Robbie.

      Robbie obedeceu alegremente, pois havia algo nele que julgava melhor obedecer à Sra. Weston sem a menor hesitação. O pai de Gloria raramente estava em casa durante o dia, exceto aos domingos – como agora, por exemplo –, e, quando isso acontecia, mostrava-se uma pessoa jovial e compreensiva. A mãe de Gloria, porém, era uma fonte de inquietação para Robbie, que sempre sentia um impulso para esquivar-se das vistas dela.

      A Sra. Weston avistou-os tão logo eles surgiram acima dos compridos tufos de grama e retirou-se para o interior da casa, a fim de esperá-los.

      – Fiquei rouca de tanto chamar, Gloria – disse, em tom severo. – Onde estava?

      – Estava com Robbie – respondeu a menina, com voz trêmula. – Contava-lhe a história da “Gata Borralheira” e esqueci a hora do almoço.

      – Bem, é uma pena que Robbie também tenha esquecido – comentou a Sra. Weston. Então, como se apercebendo da presença do robô, virou-se bruscamente para ele.

      – Pode ir, Robbie. Ela não precisa de você agora. – E acrescentou em tom brutal:

      – E não volte até que eu o chame.

      Robbie girou nos calcanhares para retirar-se, mas hesitou quando a voz de Gloria se ergueu em sua defesa: 

      – Espere, mamãe. Você tem de deixar Robbie ficar. Não terminei a história da “Gata Borralheira” para ele. Prometi contar toda e não acabei.

      – Gloria!

      – Mamãe, prometo que ele ficará tão quieto que a senhora nem perceberá que ele está aqui. Ele pode sentar naquela cadeira, ali no canto, sem dizer uma palavra. Isto é, sem fazer nada. Não é, Robbie?

      Robbie, em resposta, assentiu com a cabeça, balançando-a uma vez.

      – Gloria, se você não parar imediatamente com isso, ficará uma semana inteira

sem ver Robbie! A menina baixou a cabeça.

      – Está bem! Mas a “Gata Borralheira” é a história preferida de Robbie e eu não terminei de contar... E ele gosta tanto...

      O robô saiu com um andar desconsolado e Gloria engoliu um soluço.

      George Weston sentia-se completamente feliz e satisfeito. Tinha o hábito de ficar à vontade nas tardes de domingo. Um lauto e gostoso almoço na barriga; um sofá velho, macio e confortável onde deitar; um exemplar do Times; chinelos nos pés e peito nu – como alguém podia deixar de ficar à vontade?

      Portanto, não ficou contente quando sua mulher entrou. Após dez anos de vida de casado, ainda era inominavelmente tolo de continuar a amá-la e não havia dúvida de que sempre gostava de vê-la – mas, apesar de tudo, as tardes de domingo, logo depois do almoço, eram sagradas para ele e sua idéia de um sólido conforto era ser deixado em completa solidão durante duas ou três horas.

      Em conseqüência, fixou firmemente os olhos no mais recente relatório sobre a Expedição Lefebre - Yoshida a Marte (que deveria decolar da Base Lunar e tinha possibilidades de realmente alcançar êxito) e ignorou a presença da esposa.

      A Sra. Weston esperou pacientemente durante dois minutos e impacientemente por mais dois. Afinal, quebrou o silêncio.

      – George!

      – Hum?

      – George, eu disse! Quer largar esse jornal e olhar para mim?

      – O jornal caiu ao chão e Weston virou o rosto cansado para fitar a mulher.

      – O que é, querida?

      – Você sabe o que é, George. Trata-se de Gloria e daquela máquina terrível.

      – Que máquina terrível?

      – Ora, não finja que não sabe de que estou falando. É aquele robô que Gloria chama de Robbie. Ele não a deixa por um só instante.

      – Bem, por que haveria de deixar? Não deve deixá-la. E certamente, não é uma máquina terrível. É o melhor robô que se pode comprar e pode ter absoluta certeza de que me custou meio ano de ordenado. Valeu a pena, porém; ele é muito mais inteligente do que a metade de meus empregados do escritório. Fez menção de pegar novamente o jornal, mas sua esposa foi mais rápida, apanhando-o primeiro.

 – Escute, George. Não admito que minha filha seja entregue a uma máquina... e não me interessa o quanto ela seja inteligente. Não tem alma. Ninguém sabe o que pode estar pensando. Uma criança não foi feita para ser guardada por um objeto de metal.

 Weston franziu a testa.

      – Desde quando você decidiu isso? Há dois anos que ele está com Gloria e só agora você se preocupa.

      – No início, era diferente. Uma novidade; tirava-me uma carga dos ombros e... era uma coisa elegante. Mas agora, não sei... Os vizinhos...

      – Ora, o que têm os vizinhos a ver com o assunto? Ouça: pode-se ter infinitamente mais confiança em um robô do que em uma ama-seca humana. Na realidade, Robbie foi construído exclusivamente com uma finalidade: fazer companhia a uma criança pequena. Toda a sua “mentalidade” foi criada com esse único objetivo. Ele não pode deixar de ser fiel, carinhoso e bom. É uma máquina – feita assim. O que é bem mais do que pode dizer a respeito dos seres humanos.

      – Mas poderia acontecer algo errado. Algum... algum... – a Sra. Weston era um tanto ignorante a respeito dos órgãos internos de  um robô – ... alguma pecinha poderá soltar-se e aquela coisa horrível ficar maluca e... e... Interrompeu-se, não conseguindo dizer em voz alta um pensamento tão óbvio.

      – Tolice – negou Weston, com um involuntário estremecimento nervoso. – Isso é completamente ridículo. Na época em que compramos Robbie, tivemos uma longa conversa sobre a Primeira Lei da Robótica. Você sabe que é impossível para um robô fazer mal a um ser humano; que muito antes de acontecer o bastante para alterar a Primeira Lei, o robô se tornaria completamente inoperante. Trata-se de uma impossibilidade matemática. Além disso, eu chamo um engenheiro da U.S. Robôs duas vezes por ano e ele faz uma revisão completa no pobre aparelho. Ora, não há maior possibilidade de acontecer algo errado com Robbie do que eu ou você ficarmos birutas de uma hora para outra. Na verdade, as probabilidades são consideravelmente menores. Além disso, como é que você vai tirá-la de Gloria?

      Fez um novo gesto inútil para apoderar-se do jornal, mas a mulher atirou raivosamente o Times para a outra sala.

      – É justamente isso, George! Ela não brinca com mais ninguém. Há dúzias de meninos e meninas com quem poderia fazer amizade, mas ela se recusa. Nem mesmo chega perto deles, a menos que eu a obrigue. Uma menina não deve crescer assim. Você quer que ela seja normal, não quer? Quer que ela seja capaz de representar seu papel na sociedade.

      – Você está com medo de fantasmas, Grace. Finja que Robbie é um cachorro. Já vi centenas de crianças que gostam mais do cachorro do que do próprio pai.

      – Um cachorro é diferente, George. Precisamos livrar-nos daquela coisa horrível! Você pode vendê-la de volta à companhia. Já indaguei a respeito e sei que pode.

      – Indagou? Ora, escute aqui, Grace, não vamos bancar idiotas. Ficaremos com o robô até Gloria crescer um pouco mais e não quero que se volte a tocar no assunto. E saiu da sala, amuado. Duas noites mais tarde, a Sra. Weston foi receber o marido à porta.

      – Você precisa escutar-me, George. Há inquietação na vizinhança.

      – A respeito de quê? – perguntou Weston, entrando no banheiro e impedindo toda e qualquer resposta com o barulho da água.  A Sra. Weston esperou. Afinal, disse : 

      – A respeito de Robbie.

      Weston saiu do banheiro com uma toalha, o rosto vermelho e zangado.

      – De que está falando?

      – Oh, a coisa vem crescendo cada vez mais. Procurei fechar os olhos e fingir que não via, mas recuso-me a continuar assim. A maioria dos moradores da aldeia considera Robbie perigoso. Não permitem que as crianças cheguem perto de nossa casa à noite.

      – Nós confiamos nossa filha a ele.

      – Bem, as pessoas não são razoáveis a respeito de coisas como essa.

      – Que vão para o diabo!

      – Dizer isso não resolve o problema. Sou obrigada a fazer minhas compras na aldeia. Sou obrigada a encontrá-los todos os dias. Atualmente, o assunto de robôs é pior ainda nas cidades grandes. Nova York acaba de baixar uma portaria proibindo todos os robôs de aparecer nas ruas entre o anoitecer e o amanhecer.

      – Muito bem. Mas não podem impedir que mantenhamos um robô em nossa casa... Grace, isto é mais uma de suas campanhas. Estou reconhecendo os indícios. Mas não adianta. A resposta ainda é: não! Vamos ficar com Robbie!

      Apesar disso, ele ainda amava a esposa – e, o que era pior, ela sabia disso. Afinal, George Weston era apenas um homem – coitado – e sua mulher utilizou ao máximo todos os artifícios a seu alcance para tentar dobrá-la, mas inutilmente. Dez vezes na semana seguinte, Weston gritou: 

      – Robbie fica – e não adianta insistir!

      Mas, de cada vez, o grito era mais fraco e acompanhado por um gemido mais alto e mais agoniado. Afinal, chegou o dia em que Weston, com um sentimento de culpa, aproximou-se da filha e sugeriu um belo espetáculo de visovox na aldeia.

      Gloria bateu palmas, radiante.

      – Robbie pode ir conosco?

      – Não, querida – respondeu o pai, franzindo mentalmente a testa ao som de sua própria voz. – Não permitem que robôs visitem o visovox... Mas pode contar tudo a Robbie, quando voltarmos para casa.

      Gaguejou a dizer a última frase e virou o rosto para o lado.

      Gloria voltou da aldeia transbordando de entusiasmo, pois o visovox fôra realmente um espetáculo maravilhoso. Esperou que seu pai guardasse o carro-jato na garagem subterrânea.

      – Veja só quando eu contar tudo a Robbie, papai. Ele adoraria o espetáculo... Especialmente quando Francis Fran estava recuando com tanto cuidado, esbarrou num dos Homens-Leopardo e teve de fugir...

      Riu novamente.

      – Papai, existem mesmo Homens-Leopardo na Lua?

      – Provavelmente não – replicou Weston, distraído. – É apenas uma invenção divertida.

      Sabia que não poderia demorar muito tempo com o carro. Seria obrigado e enfrentar a realidade. Gloria atravessou o gramado correndo.

      – Robbie!... Robbie!

      Então, estacou ao ver um lindo collie que a fitava com sérios olhos castanhos e abanava a cauda, parado na varanda.

      – Oh, que cachorro bonito! – exclamou Gloria, subindo os degraus, aproximandose cautelosamente e afagando o cão. – É para mim, papai?

A Sra. Weston juntou-se a eles.

      – É, sim, Gloria. É bonito... macio e peludo. É muito manso. E gosta de meninas.

      – Ele sabe brincar?

      – Claro. Sabe fazer uma porção de truques. Gostaria de ver algum?

      – Agora mesmo. Quero que Robbie veja, também... Robbie!

Parou, hesitante, e franziu a testa.

 – Aposto que ele se trancou no quarto porque ficou zangado por não ter ido comigo ao visovox. Você precisa explicar a ele, papai. Talvez Robbie não acredite em mim, mas acreditará no que o senhor disser.

 Weston apertou os lábios. Olhou para a esposa, mas esta tinha os olhos voltados em outra direção. Gloria virou-se precipitadamente e desceu correndo os degraus do porão, gritando: 

      – Robbie!... Venha ver o que papai e mamãe trouxeram para mim! É um cachorro! Regressou um minuto depois, amedrontada. – Mamãe, Robbie não está no quarto. Onde está ele?

      Não houve resposta e George Weston tossiu, mostrando-se subitamente muito interessado em uma nuvem que passava no céu. A voz de Gloria tremia, à beira das lágrimas: 

      – Onde está Robbie, mamãe?

A Sra. Weston sentou-se e puxou suavemente a filha para si.

      – Não fique triste, Gloria. Creio que Robbie se foi.

      – Foi embora? Para onde? Para onde ele foi, mamãe?

      – Ninguém sabe, querida. Ele apenas foi embora. Procuramos, procuramos por ele e não conseguimos encontrá-lo.

      – Quer dizer que ele nunca mais voltará?

Os olhos da menina estavam arregalados de horror.

      – Talvez o encontremos logo. Vamos continuar a procurá-lo. Enquanto isso, você pode brincar com o seu lindo cachorro novo. Olhe para ele! Chama-se “Relâmpago” e sabe...

      Mas as lágrimas transbordavam dos olhos de Gloria.

      – Não quero esse cachorro horrível... Quero Robbie. Quero que vocês encontrem Robbie para mim. Sua tristeza tornou-se maior do que as palavras e ela prorrompeu num choro alto e sentido.

      A Sra. Weston olhou para o marido, procurando ajuda, mas ele se limitava a mexer distraìdamente os pés no mesmo lugar, sem tirar o olhar ardente da nuvem que passava no céu. A mulher curvou-se, na tarefa de consolar a filha.

      – Por que está chorando, Gloria? Robbie era apenas uma máquina... uma máquina velha e feia. Ele nem era vivo.

      – Ele não era nenhuma máquina! – gritou Gloria ferozmente, esquecendo-se da gramática. – Ele era uma “pessoa”, como eu e você e era meu “amigo”. Quero Robbie de volta. Oh, mamãe, quero Robbie de volta!

      A mãe gemeu, considerando-se derrotada, e deixou Gloria entregue à própria dor.

      – Deixe-a chorar à vontade – disse o marido. – As tristezas infantis nunca duram muito. Dentro de alguns dias, ela esquecerá que aquele horrível robô chegou a existir.

      Mas o tempo provou que as previsões da Sra. Weston eram por demais otimistas.É bem verdade que Gloria parou de chorar, mas também deixou de sorrir. A cada dia que passava, tornava-se mais calada e sombria. Gradativa- mente, aquela atitude de passiva infelicidade foi vencendo a resistência da Sra. Weston e a única coisa que a impedia de voltar atrás era a impossibilidade de admitir a derrota perante o marido.

      Certa noite, a Sra. Weston irrompeu na sala de estar, sentou-se e cruzou os braços, parecendo ferver de raiva. O marido esticou o pescoço, a fim de olhá-la por cima do jornal.

      – O que é agora, Grace?

      – É a menina, George. Fui obrigada a devolver o cachorro, hoje. Gloria declarou que positivamente não suportava vê-lo. Ela está me levando a um colapso nervoso. Weston largou o jornal, com um brilho esperançoso no olhar.

      – Talvez... talvez devamos trazer Robbie de volta. É possível, como você sabe. Entrarei em contato com...

      – Não! – interrompeu a mulher, furiosa. – Não admito. Não vamos ceder tão facilmente. Minha filha não será criada por um robô, mesmo que leve anos para esquecê-lo.

 

      Com ar desapontado, Weston tornou a pegar o jornal.

      – Mais um ano assim e ficarei de cabelos brancos antes do tempo.

      – Você ajuda muito, George – foi a gélida resposta. – O que Gloria necessita é de uma mudança de ambiente. É claro que aqui ela não poderá esquecer Robbie. Como seria possível, quando cada pedra ou árvore faz com que ela se lembre dele? E realmente a situação mais idiota de que já ouvi falar. Imagine: uma menina definhando por causa da perda de um robô.

      – Bem, não se desvie do assunto. Qual a mudança de ambiente que você anda planejando?

      – Vamos levá-la para Nova York.

      – Para a cidade?! Em agosto?! Escute: sabe como é Nova York em agosto? É insuportável!

      – Milhões de pessoas a suportam.

      – Não têm um lugar como este onde possam morar. Se não fossem obrigados a permanecer em Nova York, não ficariam lá.

      – Bem, nós temos de ficar lá. E digo-lhe que partiremos agora, ou tão logo possamos tomar as providências necessárias. Na cidade, Gloria encontrará bastante interesse e amigos para reanimar-se e esquecer aquela máquina.

      – Oh, Deus! – gemeu a parte mais fraca do casal. – Aquele calçamento fumegante!

      – Somos obrigados – foi a resposta inabalável. – Gloria perdeu dois quilos e meio no último mês e, para mim, a saúde de minha filhinha é mais importante do que o seu conforto.

      – É uma pena que você não tenha pensado na saúde de sua filhinha antes de privá-la de seu robô de estimação.

 

      Gloria demonstrou imediatos sinais de melhora ao ser informada da futura mudança para a cidade. Falava pouco no assunto, mas quando o fazia era sempre com viva expectativa. Voltou a sorrir e a comer com um apetite que se aproximava do antigo.

      A Sra. Weston felicitava-se, deliciada, e não perdia oportunidade para gozar o triunfo perante o marido, que continuava a se mostrar cético.

      – Veja, George: ela está ajudando a arrumar a bagagem e tagarela como se nãotivesse a menor preocupação neste mundo. É exatamente o que eu lhe disse: tudo o que precisamos é algo que sirva de substituto para os outros interesses.

      – Hum... – foi a resposta pessimista. – Espero que sim.

      Os preparativos preliminares foram terminados rapidamente. Tornaram-se providências para preparar a casa na cidade e contrataram um casal para tomar conta da casa no campo.

      Quando, afinal, chegou o dia da viagem, Gloria voltara ao que era antes e não fez a menor menção a respeito de Robbie.

      Em ótimo humor, a família tomou um táxi-giro até o aeroporto (Weston preferiria usar seu próprio giro, mas este tinha apenas dois lugares e não havia espaço para a bagagem) e embarcou no grande avião.

 – Venha, Gloria – disse a Sra. Weston. – Reservei-lhe um lugar perto da janela, de modo que você possa apreciar o panorama.

 Gloria correu alegremente pelo corredor central e foi achatar o nariz num oval branco de encontro ao vidro grosso e transparente da janela, observando tudo com uma intensidade que aumentou quando o barulho do motor chegou ao interior do aparelho. Era jovem demais para ter medo quando o solo pareceu cair, como se largado por um alçapão e, de repente, ela sentiu-se como se tivesse duas vezes o seu próprio peso; mas tinha idade suficiente para ficar vivamente interessada no que se passava. Somente quando o solo pareceu transformar-se em uma longínqua colcha de pequenos retalhos, Gloria descolou o nariz da janela e virou-se para a mãe.

      – Chegaremos logo à cidade, mamãe? – perguntou ela, esfregando o nariz frio com a palma da mão e observando com interesse enquanto a mancha de condensação formada por seu hálito na vidraça diminuía lentamente de tamanho, até desaparecer totalmente.

      – Em cerca de meia hora, querida. Então, com um leve traço de ansiedade, acrescentou: – Você está contente por ir, não está? Não acha que será feliz na cidade, com todos aqueles prédios, gente e coisas para ver? Iremos todos os dias ao visovox ver os espetáculos, e também ao circo, à praia e...

      – Sim, mamãe – foi a resposta pouco entusiástica de Gloria.

      Naquele instante, o avião passou por sobre um banco de nuvens e Gloria sentiu-se imediatamente absorvida pelo incomum espetáculo de ver as nuvens embaixo de si. Em seguida, viram-se novamente em céu aberto, muito azul, e a menina voltou-se novamente para a mãe, com um súbito e misterioso ar de que conhece um segredo.

      – Sei por que estamos indo para a cidade, mamãe.

      – Sabe? – indagou a Sra. Weston, intrigada. – Por quê?

      – Vocês não me disseram porque queriam fazer uma surpresa, mas eu sei. - Por um instante, perdeu-se na admiração de sua própria perspicácia. Então, riu alegremente.

      – Vamos a Nova York para acharmos Robbie, não é?... com detetives.

      As palavras da menina apanharam George Weston em meio a um gole de água, com resultados desastrosos. Houve uma espécie de engasgo estrangulado, seguido por um géiser de água e logo depois por uma série de tossidos asfixiados. Quando tudo terminou, ele se manteve de pé, encharcado, com o rosto vermelho, muito aborrecido.

      A Sra. Weston manteve a compostura, mas quando Gloria repetiu a pergunta em tom mais ansioso, ela verificou que seu humor fôra um tanto abalado.

      – Talvez – replicou bruscamente. – Agora, sente-se e fique aquieta, pelo amor de Deus!

      Nova York, no ano de 1998, era, mais do que nunca em sua história, um verdadeiro paraíso para os turistas. Os pais de Gloria logo se deram conta do fato e procuraram aproveitá-lo ao máximo.

      Em virtude de ordens expressas da esposa, George Weston tomou providência para que seus negócios corressem bem sem sua presença durante mais ou menos um mês, a fim de ter tempo livre para o que ele definiu como “dissipar Gloria até as raias da ruína”. Como tudo o que Weston fazia, a tarefa foi cumprida de modo eficiente, completo e prático. Antes que se passasse um mês, nada que pudesse ser feito deixou de sê-lo. Gloria foi levada até o topo do Roosevelt Building, com oitocentos metros de altura, para admirar com espanto o estranho panorama de telhados, que se misturavam a distância com os campos de Long Island e as planícies de Nova Jersey. Visitaram os zôos, onde Gloria observou com uma deliciosa sensação de medo o “leão vivo de verdade” (embora um tanto desapontada por verificar que os zeladores alimentavam a fera com bifes crus, em lugar de seres humanos, como ela esperava) e pediu peremptória e insistentemente para ver a baleia.

      Os vários museus receberam sua dose de atenção, bem como os parques, as praias e o aquário.

      Foi levada rio Hudson acima em um vapor de turismo aparelhado à moda arcaica da “Louca Década de Vinte”. Fez uma viagem de exibição à estratosfera, onde o céu assumia uma profunda cor púrpura, as estrelas pareciam maiores e brilhavam mais, e a terra enevoada lá embaixo parecia uma enorme tigela côncava. Foi levada num submarino com paredes de vidro às profundezas do Long Island Sound, onde, em meio a um mundo esverdeado e ondulante, belas e curiosas criaturas marinhas vinham fitá-la com olhar fixo e mortiço antes de fugirem repentinamente com movimentos sinuosos.

      Em nível mais prosaico, a Sra. Weston levou a filha às grandes lojas de departamentos, onde a menina pôde maravilhar-se em outro tipo de terra encantada.

      Na realidade, depois de decorrido quase um mês, os Westons estavam convencidos de haver feito tudo o que era concebível para afastar de uma vez por todas da mente de Gloria a lembrança do robô desaparecido – mas não tinham certeza de haver conseguido.

      O fato era que, onde quer que Gloria fosse, demonstrava o mais absorto e concentrado interesse por quaisquer robôs que estivessem presentes. Por mais excitante ou novo para seus olhos infantis que pudessem ser os espetáculos diante dela, Gloria, voltava-se imediatamente para o lado ao perceber de relance um movimento metálico.

      A Sra. Weston fazia o possível para manter Gloria afastada de todos os robôs.

      E o caso chegou ao clímax, afinal, por ocasião do episódio no Museu da Ciência e da Indústria. O museu anunciara um “programa infantil” especial, durante o qual seriam exibidas amostras da magia científica, em escala especial para a mentalidade infantil. Obviamente, os Westons colocaram o programa em sua lista de “prioridade”.

      Enquanto os Westons estavam sentados, totalmente absortos na contemplação dos feitos de um poderoso eletroímã, a Sra. Weston subitamente percebeu que Gloria não mais estava a seu lado. O pânico inicial cedeu lugar a uma calma decisão. A Sra. Weston conseguiu a ajuda de três serventes do museu e deu início a uma busca minuciosa.

      Todavia, é claro que Gloria não era do tipo que erra sem destino. Levando-se em consideração sua idade, era uma menina desusadamente decidida e objetiva, digna herdeira da mãe no que se relaciona com essas características. Ao passar pelo terceiro andar, vira um grande cartaz anunciando: “Para Ver o Robô Falante, Siga por Aqui”. Tendo soletrado silenciosamente os dizeres e verificando que seus pais não pareciam querer seguir a direção certa, tornou a providência óbvia: depois de esperar pela oportuna distração momentânea dos pais, afastou-se calmamente e seguiu a direção indicada pelo letreiro.

      O robô falante era um tour de force, um aparelho totalmente desprovido de utilidade prática, possuindo apenas valor publicitário. Uma vez por hora, um grupo escoltado por um guia postava-se diante dele e sussurrava cuidadosamente uma série de perguntas ao engenheiro especializado que estava encarregado do robô. As perguntas que o engenheiro julgava adequadas aos circuitos do robô eram transmitidas por ele ao robô falante.

      Era um tanto desinteressante. Pode ser bom saber que o quadrado de quatorze é cento e noventa e seis, que a temperatura ambiente no momento é de setenta graus Fahrenheit e a pressão atmosférica é de 30,02 polegadas de mercúrio, que o peso atômico do sódio é 23 – mas não é realmente preciso um robô para isso. Especialmente quando se trata de massa pesada e totalmente imóvel de fios e bobinas, ocupando um espaço superior a vinte metros quadrados.

      Poucas pessoas davam-se ao trabalho de voltar para vê-lo, mas uma adolescente estava sentada tranqüilamente em um banco, esperando pela terceira vez. Era a única pessoa no salão quando Gloria ali entrou.

      Gloria não olhou para a jovem. Naquele momento, outro ser humano não passava de uma coisa indigna de ser levada em consideração. Reservava toda a sua atenção para aquele grande aparelho sobre rodas. Hesitou por um instante, assustada. Não parecia com qualquer robô que ela tivesse visto antes. Cautelosa, ainda em dúvida, ergueu a voz fininha:

      – Por favor, Sr. Robô, o senhor é o robô falante?

      Embora não tivesse a certeza, parecia-lhe que um robô que falava era digno de um alto grau de deferência. (A jovem sentada no banco permitiu que uma expressão de intensa concentração surgisse em seu rosto magro, de feições comuns. Tirou da bolsa um caderninho de anotações e começou a escrever com rápidos sinais de taquigrafia).

      Houve um zumbido de engrenagens bem lubrificadas e uma voz de timbre mecânico respondeu gravemente, com palavras desprovidas de sotaque ou entonação: 

      – Eu... sou... o... robô... que... fala.

      Gloria fitou-o tristemente. Ele falava, mas o som vinha do interior. Não havia um rosto com o qual falar.

      – O senhor pode me ajudar, Sr. Robô? – indagou ela.

      O robô falante era feito para responder perguntas e só lhe haviam sido feitas perguntas às quais ele podia responder. Consequentemente, tinha grande confiança em sua própria capacidade.

      – Eu... posso... ajudar... você.

      – Muito obrigada, Sr. Robô. O senhor viu Robbie?

      – Quem... é... Robbie?

      – Ele é um robô, Sr. Robô – disse Gloria, pondo-se na ponta dos pés. – Ele é quase tão alto quanto o senhor, só que mais alto, Sr. Robô, e é muito bonzinho. Ele tem cabeça, sabe. Quero dizer... o senhor não tem, mas ele tem, Sr. Robô.

      O robô falante ficou para trás.

      – Um... robô?

      – Sim senhor, um robô como o senhor, só que ele não sabe falar, é claro... e parece uma pessoa de verdade.

      – Um... robô... como... eu?

      – Sim, Sr. Robô.

      A única resposta do robô falante foi um ruído de estática, ocasionalmente acompanhado por algum som incoerente. A generalização radical que lhe fôra apresentada, isto é, sua existência, não como um objeto único e especial, mas como membro de um grupo geral, fôra demais para ele. Portando-se lealmente, procurara abranger o novo conceito e queimara meia dúzia de bobinas. Pequenos sinais de alarma começaram a zumbir. (A adolescente retirou-se nesse momento. Já colhera as informações suficientes para seu trabalho de Física – sobre “Aspectos Práticos da Robótica”. Foi o primeiro dentre os muitos trabalhos elaborados por Susan Calvin sobre o assunto.) Gloria permaneceu à espera da resposta da máquina, ocultando cuidadosamente sua impaciência. De repente, ouviu um grito atrás de si: 

– Lá está ela!

Reconheceu a voz da mãe.

      – O que está fazendo aqui, menina feia? – exclamou a Sra. Weston, cuja ansiedade dissolveu-se imediatamente em impaciência. – Sabe que quase matou seu pai e sua mãe de susto? Por que fugiu?

      O engenheiro entrara correndo, arrancando os cabelos de raiva, querendo saber quem, dentre o grupo que começava a juntar-se no salão, mexera na máquina.

      – Não sabem ler os avisos?! – berrava. – Não podem entrar aqui sem um guia! Gloria ergueu a voz consternada, dominando o barulho: 

      – Só vim ver o robô falante, mamãe. Pensei que ele talvez soubesse onde está Robbie, pois ambos são robôs.

      Então, ao lembrar-se outra vez de Robbie, prorrompeu numa cachoeira de lágrimas.

      – Preciso encontrar Robbie, mamãe. Preciso.

A Sra. Weston soltou um gemido abafado.

      – Oh, meu Deus! Vamos para casa, George. Isto é mais do que eu posso suportar.

      Naquela mesma tarde, George Weston ausentou-se durante várias horas. Na manhã seguinte, aproximou-se da esposa com uma expressão suspeita, que parecia ocultar uma confiante complacência.

      – Tive uma idéia, Grace.

      – Sobre o quê? – foi a resposta desinteressada.

      – Sobre Gloria.

      – Você não vai sugerir que compremos de volta aquele robô!

      – Não. É claro que não.

      – Então diga logo. Acho melhor eu lhe dar ouvidos. Nada do que eu fiz parece ter dado certo.

 – Muito bem. Eis o que tenho pensado: todo o problema com Gloria é que ela pensa em Robbie como uma pessoa, e não como uma máquina. É natural que não consiga esquecê-lo. Ora, se conseguirmos convencê-la de que Robbie nada mais é do que um monte de aço e cobre sob forma de chapas e fios, com a eletricidade lhe servindo de fluido vital, por quanto tempo perdurarão suas saudades? Trata-se de um ataque psicológico, se você consegue entender meu ponto de vista.

 – Como pretende conseguir isso?

      – É muito simples. Onde pensa que fui ontem? Convenci Robertson, da U.S. Robôs e Homens Mecânicos S.A., a programar uma visita completa às instalações da companhia, amanhã. Nós três iremos juntos e quando ter- minarmos a visita, Gloria estará persuadida de que um robô não é um ser vivo. 

      Os olhos da Sra. Weston abriram-se lentamente e neles surgiu um brilho muito semelhante a uma súbita admiração.

      – Ora, George, é uma ótima idéia.

George Weston estufou o peito, forçando os botões do colete.

      – É o único tipo de idéias que eu tenho.

      O Sr. Struthers era um gerente-geral consciencioso e, naturalmente, inclinado a ser um tanto tagarela. O plano combinado por George Weston resultou, portanto, em uma visita completa, detalhadamente explicada – talvez até demais – a todos os pontos das instalações. Todavia, a Sra. Weston não ficou entediada. Na verdade, fez com que o cicerone parasse várias vezes e pediu-lhe que repetisse suas explicações em linguagem mais simples, a fim de que Gloria pudesse entendê-las. Sob a influência de tal apreciação de sua capacidade narrativa, o Sr. Struthers expaniu-se jovialmente e tornou-se ainda mais comunicativo, se é que possível. George Weston, por sua vez, demonstrava crescente impaciência.

      – Perdão, Struthers – disse ele, interrompendo uma lição a respeito de células fotoelétricas – vocês não têm uma seção da fábrica onde só é utilizada a mão-de-obra dos robôs?

      – Hum? Oh, sim! Sim, naturalmente! – respondeu o gerente, sorrindo para a Sra. Weston. – Não deixa de ser uma espécie de círculo vicioso: robôs criando mais robôs. Naturalmente, não empregamos o método como uma prática generalizada. Em primeiro lugar, os sindicatos jamais permitiriam que o fizéssemos. Mas podemos fabricar uns poucos robôs utilizando exclusivamente a mão-de-obra dos robôs, simplesmente como uma espécie de experiência científica. Como podem ver – e bateu com o pincenez na palma da mão, para reforçar o argumento – o que os sindicatos não compreendem, e digo isso como alguém que sempre teve muita simpatia para com o movimento trabalhista em geral, é que o advento do robô, embora implicando, de início, em uma certa deslocação do trabalho, será inevitavelmente...

      – Sim, Struthers – tornou a interromper George Weston – mas, falando da seção da fábrica a que você se refere... podemos visitá-la? Tenho certeza que seria muito interessante.

      – Oh, sim! Sim, naturalmente! – afirmou o Sr. Struthers, recolocando o pincenez com um movimento convulsivo e puxando um pigarro embaraçado. – Sigam-me, por favor.

      Manteve-se relativamente calado, enquanto guiava os três visitantes por um comprido corredor e desceu um lance de escadas. Então, ao entrarem num enorme salão bem iluminado, que zumbia com a atividade metálica, suas comportas tornaram a abrir-se e o jorro de explicações voltou a brotar.

      – Eis aí! – exclamou, orgulhoso. – Somente robôs!

      Cinco homens trabalham como supervisores e nem mesmo permanecem neste recinto. No período de cinco anos, isto é, desde que iniciamos este projeto – não houve um único acidente. Naturalmente, os robôs montados aqui são relativamente simples, mas...

      Há muito tempo a voz do gerente-geral tornara-se apenas um murmúrio um tanto tranqüilizante aos ouvidos de Gloria. Na sua opinião toda aquela visita parecia bastante desinteressante e sem motivação, embora houvesse mui- tos robôs nas dependências da fábrica. Entretanto, nenhum deles se parecia com Robbie e ela os encarava com indisfarçado desprezo.

      Naquele recinto, porém, ela notou que não havia gente. Então, seu olhar incidiu sobre um grupo de seis ou sete robôs que trabalhavam afanosamente em torno de uma mesa redonda situada quase no centro do salão. Seus olhos se esbugalharam, incrédulos de surpresa. O salão era enorme. Ela não podia ver bem, mas um dos robôs se parecia com... parecia com... era ele!

      – Robbie!

      O grito de Gloria rasgou o ar e um dos robôs junto à mesa vacilou, largando a ferramenta que segurava. Gloria quase enlouqueceu de alegria. Esgueirando-se por baixo do corrimão de proteção, antes que seus pais pudessem contê-la, ela pulou agilmente para o chão, um pouco abaixo.

      Correu em direção a Robbie, agitando os braços, com o cabelo esvoaçando.

      Os três adultos, horrorizados, ficaram petrificados onde estavam, vendo o que a menina excitada não conseguia ver: enorme trator aproximava-se pesadamente pelo caminho que lhe fôra traçado.

      Passou-se uma fração de segundo antes que Weston recobrasse a presença de espírito, mas foram frações de segundo irrecuperáveis, pois agora seria impossível alcançar Gloria.

      Embora Weston pulasse o corrimão numa tentativa desesperada, tratava-se obviamente de um esforço inútil. O Sr. Struthers fez sinais frenéticos para que os supervisores detivessem o tratar; mas eles eram apenas humanos e levavam algum tempo para agir. 

      Apenas Robbie agiu imediatamente e com precisão.

      Com as pernas metálicas devorando o espaço que o separava de sua pequena dona, o robô partiu da direção aposta. Então, tudo aconteceu a um só tempo. Com um amplo movimento do braço, Robbie apanhou Gloria sem diminuir em um átimo sua velocidade e, consequentemente, deixando-a completamente sem fôlego devido à pancada. Weston, sem compreender tudo o que se passava, sentiu, mais do que viu, Robbie passar por ele e estacou subitamente, confuso. O tratar cruzou a trajetória de Gloria meio segundo depois que Robbie, tendo avançado mais três metros, parou com um ruído metálico de seus pés contra o chão.

      Gloria recobrou o fôlego, submetida a uma série de abraços fervorosos por parte dos pais, e voltou-se ansiosamente para Robbie. No que lhe dizia respeito, nada acontecera, exceto que ela encontrara o amigo.

      Mas a expressão da Sra. Weston alterou-se de alivio para severa suspeita. Virou-se para o marido e, a despeito de sua aparência descabelada e um tanto descomposta, conseguiu parecer bastante controlada.

      – Você engendrou tudo isto, não é?

      George Weston enxugou a testa com um lenço. Sua mão tremia e seus lábios só conseguiam curvar-se num sorriso fraco e extremamente pálido. A Sra. Weston prosseguiu o raciocínio.

      – Robbie não foi projetado para trabalhar em construção ou engenharia. Não poderia prestar-se a esse tipo de serviço. Você providenciou deliberadamente para que ele fosse colocado aqui, a fim de que Gloria o encontras- se. Foi você quem o fez!

      – Bem, fui eu – confessou Weston. – Mas, Grace, como poderia eu adivinhar que a reunião seria tão violenta. E Robbie salvou a vida de Gloria; você tem de admitir isso. Não pode mandá-la embora outra vez.

      Grace Weston refletiu. Virando-se para Gloria e Robbie, observou-os distraìdamente por alguns instantes. Gloria abraçava o pescoço do robô de um modo que teria estrangulado qualquer criatura que não fosse de metal e murmurava frases incoerentes num frenesi histérico. Os braços de aço-cromo de Robbie (capazes de transformar uma barra de aço com duas polegadas de diâmetro em um parafuso) envolviam delicada e carinhosamente a menina; seus olhos brilhavam com um tom vermelho muito profundo.

      – Bem – disse a Sra. Weston, afinal – creio que ele pode ficar conosco até enferrujar. Susan Calvin sacudiu os ombros.

      – Naturalmente que ele não ficou lá até enferrujar. O fato aconteceu em 1998. Em 2002, inventamos o robô móvel falante que, obviamente, tornou obsoletos todos os robôs mudos e que pareceu ser a gota de água em relação aos elementos contrários aos robôs. A maior parte dos governos do mundo proibiu o uso de robôs na Terra com qualquer objetivo que não fosse a pesquisa científica. As proibições foram promulgadas entre 2008 e 2007.

      – Quer dizer que, eventualmente, Gloria foi obrigada a desistir de Robbie?

      – Temo que sim. Imagino, porém, que foi mais fácil para ela aos quinze anos do que aos oito. Ainda assim, foi uma atitude estúpida e desnecessária por parte da humanidade. A U.S. Robôs chegou ao seu ponto mais baixo, sob o ponto de vista financeiro, justamente na época em que vim trabalhar para eles, em 2007. A princípio, cheguei a pensar que o meu emprego duraria poucos meses, mas, depois, tratamos simplesmente de desenvolver o mercado extraterrestre.

      – Então, firmou-se, é claro.

      – Não tanto. Começamos tentando adaptar os modelos que tínhamos à mão. Os primeiros robôs falantes, por exemplo. Tinham cerca de três metros e meio de altura, eram muito desajeitados e não serviam. Enuviamos uma quantidade deles para Mercúrio, a fim de auxiliar na construção da estação mineira lá instalada, mas o projeto falhou. Ergui os olhos, com total surpresa.

      – Falhou? Mas as minas de mercúrio são um investimento de muitos bilhões de dólares!

      – Atualmente. Mas somente a segunda tentativa obteve sucesso. Se quer informar-se a respeito, meu jovem, sugiro que procure Gregory Powell Ele e Michael Donovan cuidaram de nossos casos mais difíceis nas décadas de vinte e trinta. Há anos que não tenho notícias de Donovan, mas Powell está morando aqui mesmo em Nova York. Já é avô – uma idéia à qual é difícil acostumar-se. Só consigo pensar nele como um homem ainda jovem. É claro que eu também era mais moça.

      Tentei fazer com que ela continuasse a falar.

      – Se a senhora me fornecer um esboço dos fatos, Dra. Calvin, poderei pedir que o Sr. Powell complete posteriormente o quadro. (E foi exatamente o que fiz mais tarde.) Ela abriu as mãos magras sobre a mesa e olhou para elas.

      – Há dois ou três casos sobre os quais sei alguma coisa – declarou.

      – Comece por Mercúrio – sugeri.

      – Bem, creio que a Segunda Expedição a Mercúrio foi lançada em 2015. Tratava-se de uma expedição exploratória, financiada em parte pela U.S. Robôs e em parte pela Solar Minerais. Consistia em um novo tipo de robô, ainda experimental. Gregory Powell, Michael Donovan...

     

      Vamos nos unir

      Uma espécie de paz tinha durado um século e as pessoas haviam esquecido como era tudo o mais. Dificilmente saberiam reagir se tivessem descoberto que uma espécie de guerra havia finalmente chegado.

      Certamente, Elias Lynn, Chefe da Secretaria de Robótica, não sabia ao certo como devia reagir quando ele próprio concluísse. A Secretaria de Robótica estava sediada em Cheyenne, conforme a secular tendência para a descentralização, e Lynn encarava hesitantemente o jovem funcionário da Segurança que trouxera as notícias de Washington.

      Elias Lynn era um homem corpulento, quase fascinantemente simples, com olhos azuis-claros um pouco salientes. Geralmente, os homens não ficavam à vontade sob a fixidez daqueles olhos, mas o funcionário da Segurança permanecia calmo.

      Lynn achou que sua primeira reação devia ser de incredulidade. Diabo! Era incrível! Ele simplesmente não acreditava na coisa!

      Lynn se recostou confortavelmente na poltrona e perguntou.

      - A informação é segura?

      O funcionário da Segurança, que se apresentara como Ralph G. Breckenridge, mostrando suas credenciais, tinha a suavidade da juventude; lábios cheios, bochechas gordas que coravam facilmente e olhos francos. Seu traje estava fora da moda de Cheyenne, mas seguia o estilo arejado de Washington, onde, apesar de tudo, a Segurança ainda estava centralizada.

      Breckenridge corou e disse:

      - Não há dúvida.

      - Seu pessoal sabe tudo sobre Eles, suponho - disse Lynn, incapaz de eliminar um traço de sarcasmo da voz. Ele não estava consciente do uso comum de um pronome ligeiramente enfatizado na referência ao inimigo, um pronome com a equivalência da letra maiúscula de imprensa. Era hábito natural da sua geração e da que a precedera. Ninguém mais dizia “leste”, “vermelhos”, “soviéticos” ou “russos”. Seria confuso demais, pois alguns Deles não eram do leste, não eram vermelhos nem soviéticos e, especialmente, não eram russos. Parecia muito mais simples dizer Nós e Eles. Mais simples e muito mais preciso.

      Alguns viajantes freqüentemente relatavam que Eles faziam a mesma coisa. Do outro lado, Eles eram “Nós” (no idioma apropriado) e Nós éramos “Eles”.

      Muito dificilmente alguém ainda daria importância a essas coisas. Tudo era muito descontraído e propício. Não havia nem mesmo ódio. No início, a coisa fora chamada Guerra Fria. Agora, era apenas um jogo, quase um jogo bonachão, com regras tácitas e uma espécie de honestidade em segui-las.

      - Por que Eles iriam querer conturbar a situação? - disse abruptamente Lynn.

      Lynn se levantou e ficou olhando um mapa-múndi na parede, dividido em duas regiões com fracos traçados coloridos. Uma porção irregular à esquerda do mapa estava contornada por um verde suave. Uma menor, mas igualmente irregular porção à direita do mapa estava cercada de alaranjado: Nós e Eles.

      O mapa não havia se transformado muito em um século. A perda de Formosa e a conquista da Alemanha Oriental há uns oitenta anos fora a última modificação territorial de importância.

      Havia outra mudança, porém, suficientemente significativa e colorida no mapa. Há duas gerações, o território Deles fora de um vermelho gritante, cor de sangue, o Nosso um puro branco imaculado. Agora havia uma neutralidade acerca das cores. Lynn vira os Seus mapas e o mesmo acontecia no lado Deles.

      - Não fariam isso - disse Lynn.

      - Estão fazendo - disse Breckenridge - e seria melhor se acostumar com o fato. Evidentemente, senhor, eu percebo que não é agradável pensar que Eles podem estar muito à nossa frente em robótica.

      Seus olhos continuavam tão francos como antes, mas o gume afiado das palavras mergulhava profundamente, e Lynn tremeu com o impacto.

      Naturalmente, isso explicaria por que o Chefe da Robótica soube tão tarde da coisa... e através de um funcionário da Segurança. Ele se desclassificara aos olhos do Governo, se a Robótica havia realmente fracassado na batalha, Lynn não podia esperar benefícios políticos.

      Lynn falou com ar abatido:

      - Mesmo se o que você diz for verdade, eles não estão muito à nossa frente. Poderíamos construir robôs humanóides.

      - Poderíamos, senhor?

      - Sim, na realidade já construímos alguns modelos a título experimental.

      - Eles fizeram isso há dez anos. E há dez anos vêm fazendo progressos.

      Lynn estava perturbado. Ele se perguntava se sua incredulidade no tocante à coisa não era fruto de orgulho ferido e medo por seu emprego e reputação. Sentia-se embaraçado pela possibilidade de que pudesse ser isso e constrangido a se defender.

      - Escute, jovem - disse ele - a igualdade de condições entre Eles e Nós nunca foi perfeita, você sabe. Eles sempre estiveram à nossa frente num aspecto ou noutro e o mesmo acontece conosco. Se neste momento estão à nossa frente em robótica é porque aplicaram uma proporção maior de esforço em robótica do que Nós. E isso significa que algum outro ramo do nosso esforço de defesa recebeu uma maior fração do Nosso esforço, ao contrário Deles. Talvez estejamos à frente na pesquisa do campo de força ou na hiperatômica.

      Lynn ficou angustiado por sua própria declaração de que o empate não era perfeito. Era verdade, mas aí estava o único grande perigo que ameaçava o mundo. O mundo dependia de que o equilíbrio fosse o mais perfeito possível. Se a pequena desigualdade que sempre existia pendesse demais para um lado ou para o outro...

      Quase no início do que fora a Guerra Fria, ambos os lados tinham desenvolvido armas termonucleares e a guerra tornou-se impensável. A competição passou do campo militar para o campo econômico e psicológico, e aí ficara desde então.

      Mas sempre havia o esforço de ambas as partes para romper o equilíbrio, para criar uma defesa a cada possível ameaça, para criar uma ameaça que não pudesse ser defendida a tempo - alguma coisa que tornasse outra vez possível a guerra. E não porque um lado ou outro quisesse desesperadamente a guerra, mas porque ambos temiam que o lado contrário fizesse a descoberta crucial primeiro.

      Durante cem anos, cada parte mantivera a corrida equilibrada. E nesse processo, a paz fora mantida por cem anos. Como subprodutos da pesquisa continuamente intensiva, haviam sido desenvolvidos campos de força, controle de insetos e da energia solar, robôs. Ambos os lados estavam dando os primeiros passos na compreensão do mentalismo, nome dado à bioquímica e biofísica do pensamento. Ambos os lados possuíam bases na Lua e em Marte. A humanidade avançava a passos gigantescos sob as imperiosas exigências do equilíbrio.

      Era até mesmo necessário, para ambos os lados, serem, entre si mesmos, extremamente decentes e humanos, para evitar que, devido à crueldade e tirania, alguns passassem para o lado oposto.

      Era impossível que o equilíbrio fosse agora quebrado e houvesse guerra.

      - Quero consultar um de meus homens - disse Lynn. - Quero saber a opinião dele.

      - É de confiança?

      Lynn pareceu revoltado:

      - Meu Deus, haverá algum homem na Robótica que não tenha sido investigado e devassado até a morte pelo seu pessoal? Sim, eu respondo por ele. Se não pudermos confiar num homem como Humphrey Carl Laszlo, não teremos condições de enfrentar o tipo de ataque que, segundo você, Eles estão lançando... não importa o que mais fizéssemos.

      - Já ouvi falar de Laszlo - disse Breckenridge.

      - Ótimo. Você não o aprova?

      - Sim.

      - Então, eu o trarei aqui e saberemos o que ele pensa da possibilidade de que robôs possam invadir os Estados Unidos.

      - Não exatamente - disse Breckenridge em voz baixa. - O senhor ainda não entendeu toda a verdade. Descubra o que ele pensa sobre o fato de que os robôs já invadiram os Estados Unidos.

      Laszlo era neto de um húngaro que atravessara o que era então chamado Cortina de Ferro e, devido a isso, sentia-se comodamente acima de qualquer suspeita. Era um homem atarracado e calvo, com um olhar aguerrido sempre gravado num rosto emproado. Seu sotaque era visivelmente de Harvard e falava de forma quase excessivamente cordial.

      Para Lynn, consciente de que, após anos de administração, já não dominava tão inteiramente os vários aspectos da robótica moderna, Laszlo constituía excelente receptáculo de um conhecimento completo. Lynn sentia-se melhor com a simples presença do homem.

      - O que você acha? - perguntou Lynn.

      O rosto de Laszlo contorceu-se ferozmente numa careta.

      - Se Eles estão muito à nossa frente? Absolutamente não! Só se houvessem produzido humanóides que, mesmo de perto, pudessem passar por seres humanos. Isso, sem dúvida, significaria um considerável avanço em robô-mentálica.

      - Vocês estão pessoalmente envolvidos - disse friamente Breckenridge. - Deixando o orgulho profissional de lado, exatamente por que seria impossível que Eles estivessem à frente dos Estados Unidos?

      Laszlo deu de ombros:

      - Eu lhe asseguro que estou bem familiarizado com toda a literatura que possuem sobre robótica. Sei aproximadamente onde Eles estão.

      - Você sabe aproximadamente onde Eles querem que você pense que Eles estão, é o que você realmente quis dizer - corrigiu Breckenridge. - Já visitou o outro lado?

      - Não - disse Laszlo bruscamente.

      - Nem o senhor, Dr. Lynn?

      - Não, eu também não - disse Lynn.

      - Alguém da robótica visitou o outro lado nos últimos vinte e cinco anos? - perguntou Breckenridge com uma espécie de confiança, quase indicando que já sabia a resposta.

      Por alguns segundos, a atmosfera ficou pesada. Um mal-estar se estampou no rosto largo de Laszlo.

      - Na realidade - disse -, há muito tempo Eles não fazem qualquer conferência sobre robótica.

      - Há vinte e cinco anos - disse Breckenridge. - Isto não é significativo?

      - Talvez - disse Laszlo com relutância. - Há outra coisa que me preocupa, porém. Nenhum deles jamais compareceu às nossas conferências sobre robótica. Nenhum que eu possa me lembrar.

      - Eles foram convidados? - perguntou Breckenridge.

      - É claro! - interpôs rapidamente Lynn, de olhos arregalados.

      - Eles se recusam a assistir outros tipos de conferências científicas que fazemos? - disse Breckenridge.

      - Eu não sei - disse Laszlo, andando de um lado para o outro. - Não soube de nenhuma conferência que tenham assistido. E você, chefe?

      - Também não - Lynn respondeu.

      - Não acha - disse Breckenridge - que tudo se passa como se Eles não gostassem de ficar numa situação de ter de recusar um convite? Ou como se tivessem medo que um de Seus homens pudesse falar demais?

      Era exatamente o que parecia acontecer. Lynn sentiu a irremediável convicção de que a história da Segurança era verdadeira e que ele não tinha percebido nada do que se passara.

      Por que afinal não houvera contato entre os dois lados sobre robótica? Ocorria um fértil intercâmbio de pesquisadores em ambas as partes, numa estreita correspondência durante anos, desde os tempos de Eisenhower e Khrushchev.

      Existiam motivos muito bons para isso: uma honesta apreciação do caráter supranacional da ciência; impulsos de camaradagem que dificilmente estão de todo ausentes no ser humano; o desejo de sentir-se objeto de uma estimulante e interessada observação e de ver suas próprias noções, já ligeiramente envelhecidos, serem reconhecidas como novas e interessantes perante outros.

      Os próprios governos estavam ávidos de que aquilo continuasse. Havia sempre a impressão de que, ao procurar aprender o máximo e ensinar o mínimo, cada lado sairia ganhando na troca.

      Mas não no caso da robótica. Não aí!

      Esse único ponto modificava a apreciação do problema. E um ponto que, sem dúvida, fora conhecido todo o tempo. Lynn pensava sombriamente: Fomos complacentes demais.

      Como o outro lado não tinha feito nada publicamente sobre robótica, ele fora tentado a se acomodar numa atitude presunçosa, a sentir-se à vontade na certeza de uma suposta superioridade. Como não vira que era possível, e até mesmo provável, que Eles estivessem escondendo cartas na manga, um trunfo maior para usar no devido tempo?

      - Que vamos fazer? - Laszlo perguntou estremecendo.

      Era evidente que Laszlo seguira a mesma linha de pensamento e chegara às mesmas conclusões. Havia dez robôs humanóides em alguma parte dos Estados Unidos, cada um deles transportando um fragmento de uma bomba CT.

      CT! A corrida de puro horror na ciência das bombas havia terminado ali. CT! Conversão Total! O sol não teria mais suas características originais. A conversão total transformava o sol numa vela ordinária.

      Dez humanóides, individualmente inofensivos, podiam, pelo simples fato de se agruparem, exceder uma massa crítica e...

      Lynn ficou de pé num gesto brusco, as olheiras sob os olhos, que normalmente emprestavam a seu feio rosto um olhar de selvagem presságio, mostrando-se mais acentuadas do que nunca.

      - O que precisamos é conceber formas e meios de distinguir um humanóide de um humano, e encontrar rapidamente os humanóides.

      - Como rapidamente? - murmurou Laszlo.

      - Pelo menos cinco minutos antes deles se unirem - vociferou Lynn - e eu não sei quando será esse encontro.

      Breckenridge assentiu com a cabeça.

      - Sinto satisfação que esteja do nosso lado, senhor. Devo levá-lo a Washington para uma consulta, o senhor sabe...

      Lynn ergueu as sobrancelhas:

      - Está bem.

      Pareceu-lhe que, se demorasse mais tempo para convencer-se da situação, seria imediatamente substituído... se é que algum outro chefe da Secretaria de Robótica já não estaria sendo consultado em Washington. E, de repente, desejou avidamente que tivesse acontecido exatamente isso.

      Estavam ali o Primeiro Assistente Presidencial, o Secretário da Ciência, o Secretário da Segurança, o próprio Lynn e Breckenridge. Todos sentados em volta de uma mesa, nos calabouços de uma fortaleza subterrânea perto de Washington.

      O Assistente Presidencial Jeffreys era um homem imponente, elegante, com cabelos grisalhos e ar um tanto bonachão. Era robusto, rico em idéias e moderado, um verdadeiro político, exatamente como devia ser um Assistente Presidencial.

      Ele falou com decisão:

      - Há algumas questões que temos de enfrentar. Primeira, quando os humanóides irão se unir? Segunda, onde irão se reunir? Terceira, como podemos detê-los antes que se reúnam?

      Amberley, o Secretário da Ciência, balançou enfaticamente a cabeça assentindo. Fora decano da Engenharia Noroeste antes de sua designação. Era magro, de traços marcantes e visivelmente irritadiço. A ponta de seu dedo traçava lentamente círculos sobre a mesa.

      - Não se sabe quando eles se reunirão - disse. - Mas suponho que, sem dúvida, não demorará muito.

      - Por que você diz isso? - perguntou Lynn rispidamente.

      - Já estão, pelo menos, a um mês nos Estados Unidos. Assim diz a Segurança.

      Lynn virou-se maquinalmente para encarar Breckenridge. Macalaster, o Secretário da Segurança, interceptou o olhar.

      - A informação é confiável - disse Macalaster. - Não deixe que a aparente juventude de Breckenridge o iluda, Dr. Lynn. Ele nos é valioso também por causa de sua juventude. Na verdade, ele tem trinta e quatro anos e está há dez no departamento. Viveu cerca de um ano em Moscou e, sem ele, não saberíamos nada sobre este terrível perigo. Graças a Breckenridge, agora já temos a maioria dos detalhes.

      - Não os detalhes cruciais - disse Lynn.

      Macalaster, da Segurança, sorriu friamente. Seu queixo forte e olhos apertados eram bem-conhecidos do público, mas quase mais nada se sabia dele.

      - Todos nós somos limitadamente humanos, Dr. Lynn. O agente Breckenridge já fez muito.

      O Assistente Presidencial Jeffreys cortou a conversa:

      - Digamos que temos um certo tempo... Se pretendessem uma açáo instantânea, a coisa já teria ocorrido. Parece provável que estejam esperando um momento específico. Se conhecêssemos o ponto onde os robôs devem se reunir, talvez se tornasse evidente o tempo que a coisa levará para acontecer.

      - Se eles têm um objetivo CT vão querer nos mutilar o mais possível. Parece que o alvo teria que ser uma grande cidade. Sem dúvida, uma grande metrópole é um alvo perfeito para uma bomba CT. Penso que existem quatro possibilidades: Washington, como o centro administrativo; Nova Iorque, como o centro financeiro; Detroit e Pittsburgh como os dois principais centros industriais.

      - Aposto em Nova Iorque - disse Macalaster, da Segurança. - Tanto a administração quanto a indústria já foram tão descentralizadas que a destruição de uma determinada cidade não impediria uma retaliação instantânea.

      - Então, por que Nova Iorque? - perguntou Amberley, da Ciência, talvez num tom mais áspero do que pretendeu. - As finanças também foram descentralizadas.

        Uma questão moral. Talvez pretendam destruir nossa vontade de resistir, provocar uma rendição apenas pelo horror da primeira rajada. Na área metropolitana de Nova Iorque ocorreria a maior destruição de vida humana...

      - Teriam que ter muito sangue-frio - murmurou Lynn.

      - Eu sei - concordou Macalaster, da Segurança. - Mas seriam capazes de fazê-lo se achassem que isso significaria a vitória final de um só golpe. Poderíamos...

      Jeffreys, o Assistente Presidencial, ajeitou para trás os cabelos brancos.

      - Vamos admitir o pior - disse ele. - Vamos admitir que Nova Iorque seja destruída numa determinada época durante o inverno, de preferência imediatamente após uma séria nevasca, quando as comunicações ficam extremamente prejudicadas e a interrupção de serviços e abastecimento em áreas periféricas têm conseqüências muito graves. Como, numa situação dessas, poderíamos detê-los?

      Amberley, da ciência, foi sucinto:

      - Encontrar dez homens em duzentos e vinte milhões é achar uma agulha terrivelmente pequena num palheiro terrivelmente grande.

      Jeffreys balançou a cabeça:

      - Você colocou mal as coisas. Dez humanóides entre duzentos e vinte milhões de humanos.

      - Não há diferença - disse Amberley, da Ciência. - Não sabemos se um humanóide pode ser diferenciado de um ser humano à primeira vista. Provavelmente não. - Olhou para Lynn; os outros também. Lynn falou num tom grave:

      - Nós, em Cheyenne, não poderíamos fabricar um humanóide que passasse como humano à luz do dia.

      - Mas Eles podem - disse Macalaster, da Segurança. - E não me refiro apenas aos aspectos físicos. Temos certeza disso... Seus avançados procedimentos mentálicos chegaram a ponto de lhes permitir desdobrar o padrão microeletrônico do cérebro e enfocá-lo nas sendas positrônicas do robô.

      Lynn arregalou os olhos:

      - Está insinuando que Eles podem criar a réplica de um ser humano completo, com personalidade e memória?

      - Estou.

      - De seres humanos específicos?

      - Exatamente.

      - Isso também se baseia nas descobertas do agente Breckenridge?

      - Sim. A evidência não pode ser contestada. Lynn inclinou a cabeça pensando por um momento.

      - Então, dez homens nos Estados Unidos não são homens, mas humanóides - disse ele. - Terão trabalhado em cima de originais... Esses originais não poderiam ser orientais, muito facilmente identificáveis. Teriam de ser, sem dúvida, leste-europeus. Como então seriam introduzidos neste país? Com a rede de radar soando como um tambor por todas as fronteiras, como conseguiriam introduzir qualquer indivíduo, humano ou humanóide, sem o nosso conhecimento?

      - Isso pode ser feito - disse Macalaster, da Segurança. - Há certas infiltrações regulares através da fronteira. Homens de negócios, pilotos, até mesmo turistas. Essas infiltrações são vigiadas, é claro, mas dez pessoas podem ter sido seqüestradas e usadas como modelos para humanóides. Os humanóides teriam sido mandados de volta no lugar deles. Como não esperávamos uma substituição desse tipo, nada seria percebido. Para começar, se fossem americanos, não teriam dificuldades para entrar no país. É um fato lógico.

      - E mesmo os amigos ou a família deles não notariam a diferença?

      - Devemos presumir que não. Acredite-me, recebemos cada relatório onde pudesse haver indicações de ataques de amnésia ou mudanças perturbadoras na personalidade. Verificamos milhares de casos.

      Amberley, da Ciência, olhou para a ponta dos dedos.

      - Penso que providências comuns não vão funcionar. A ação deve vir da Secretaria de Robótica e eu confio no chefe dessa Secretaria.

      Novamente os olhos se voltaram com ênfase e expectativa para Lynn.

      Lynn sentiu amargamente ser o foco das atenções. Pareciam-lhe claros a razão e os objetivos daquela reunião. Tudo que ali foi dito já tinha sido dito antes. Estava certo disso. Não havia solução para o problema, nem qualquer sugestão fértil. Era tudo uma mecânica que servia apenas para constar um estratagema por parte de homens que temiam gravemente a derrota e desejavam colocar a responsabilidade clara e inequivocamente nas costas de alguém.

      E, apesar de tudo, isso era justo. Fora em robótica que Nós tínhamos falhado. E Lynn não era uma pessoa qualquer. Era Lynn, da Robótica, e a responsabilidade devia ser sua.

      - Farei o que puder - disse ele.

      Lynn passou a noite em claro. Uma ansiedade envolvia-lhe o corpo e a mente quando ele solicitou e obteve outra entrevista com o Assistente Presidencial Jeffreys, na manhã seguinte. Breckenridge estava lá, e embora Lynn preferisse uma reunião em particular, compreendeu a razão de sua presença. Era evidente que Breckenridge conseguira enorme influência junto ao governo, resultado imediato de seu bem-sucedido trabalho de inteligência. Bem, por que não?

      - Estive pensando - disse Lynn - na possibilidade de estarmos esperando inutilmente que o inimigo dê o seu sinal.

      - Em que sentido?

      - Estou certo que embora a impaciência da opinião pública às vezes aumente, ou os congressistas aproveitem para falar sobre isso, pelo menos o governo reconhece que o equilíbrio mundial é benéfico. Eles também podem reconhecer a mesma coisa. Dez humanóides com uma bomba CT é apenas um recurso trivial para romper o equilíbrio.

      - A destruição de quinze milhões de seres humanos dificilmente poderia ser considerada trivial.

      - É trivial do ponto de vista do poder mundial. Isso não nos desmoralizaria a ponto de nos levar à rendição, nem nos mutilaria a ponto de nos convencer de que não podíamos vencer. Ambos os lados têm evitado por muito tempo, e com pleno êxito, a velha ameaça de morte planetária. Tudo que poderiam conseguir era nos obrigar a lutar com menos uma cidade no mapa. Seria insuficiente.

      - Que está insinuando? - Jeffreys perguntou com frieza. - Que Eles não possuem dez humanóides em nosso país? Que não há uma bomba CT esperando a união dos humanóides?

       - Concordo que essas coisas estão aqui, mas talvez por uma razão maior que uma mera loucura de bombardeio em pleno inverno.

      - Como assim?

      - Talvez a destruição física resultante da reunião dos humanóides não seja o pior que possa acontecer. E a destruição moral e intelectual que resulta de todos esses dez estarem aqui? Com todo o devido respeito ao agente Breckenridge, Eles pretendiam que descobríssemos os humanóides. Suponho que os humanóides não estejam aqui para se unir, mas para se conservarem separados de modo a nos causar um bom motivo de preocupação.

      - Porquê?

      - Responda-me o seguinte: que medidas já foram tomadas contra os humanóides? Suponho que a Segurança esteja devassando as fichas de todos os cidadãos que já tenham atravessado a fronteira ou se aproximado suficientemente dela para tornar o seqüestro possível. Sei, desde que Macalaster mencionou ontem a coisa, que estão levantando casos psiquiátricos suspeitos. O que mais?

      - Pequenos aparelhos de raio X - disse Jeffreys - estão sendo instalados em pontos-chaves nas grandes cidades. Nos grandes estádios, por exemplo...

      - Onde dez humanóides poderiam se introduzir entre cem mil espectadores num jogo de rugby ou numa partida de pólo aéreo.

      - Exatamente.

      - E nos salões de concerto e igrejas?

      - Tivemos que começar por algum lugar. Não podemos fazer tudo ao mesmo tempo.

      - Particularmente porque é preciso evitar o pânico - disse Lynn. - Não é isso? De nada serviria ao público descobrir que, num momento imprevisível, alguma imprevisível cidade, juntamente com o seu material humano, cessaria subitamente de existir.

      - Creio que é óbvio. Onde você quer chegar?

      Lynn falou energicamente:

      - Uma imensa fração de nosso esforço nacional será inteiramente disperdiçada no irritante problema do que Amberley chamou descobrir uma agulha muito pequena num palheiro muito grande. Estaremos rodando loucamente atrás de nossas caudas, enquanto Eles intensificam sua frente de pesquisas, levando-as a um ponto onde não poderemos mais alcançá-las. Aí então é que teremos de nos render, sem ter nem a chance de abanar nossos dedos em retaliação.

      - Considere ainda - Lynn continuou - que as notícias podem transpirar e mais e mais pessoas serem envolvidas em nossas contramedidas e mais e mais pessoas começarem a desconfiar do que estamos fazendo. E então?... O pânico poderia nos causar mais prejuízo que qualquer bomba CT.

      - O que então, homem de Deus, você sugere que façamos? - Exclamou irritado o Assistente Presidencial.

      - Nada - disse Lynn. - Não responda ao blefe. Vivamos como sempre vivemos. Podemos apostar que Eles não ousarão romper o equilíbrio com o mergulho de cabeça de uma bomba.

      - Impossível! - disse Jeffreys. - Completamente impossível! O bem-estar dos Estados Unidos está muito amplamente em minhas mãos... Não fazer nada é a única coisa que não posso fazer. Concordo com você, talvez, que as máquinas de raio X nos campos de esporte são apenas uma medida superficial, sem grande eficiência, mas isso tem de ser feito para que aquelas pessoas, diante das conseqüências de um ataque, não cheguem à amarga conclusão de que deixamos o país à deriva por causa de uma sutil linha de raciocínio que encoraja a inação. De fato, nossa resposta será bem atuante.

      - De que forma?

      O Assistente Presidencial Jeffreys olhou para Breckenridge. O jovem funcionário da Segurança, até então calmamente silencioso, disse:

      - De nada vale falar sobre um possível rompimento futuro do equilíbrio, quando o equilíbrio já foi quebrado. Não importa se esses humanóides explodem ou não. Talvez sejam apenas uma isca para nos distrair, como você diz. Mas continua de pé o fato de que estamos um quarto de séculos atrasados em robótica, e isso pode ser fatal. Que outros avanços em robótica não nos tomarão de surpresa se a guerra começar? A única solução é dirigir imediatamente, agora, toda a nossa força para um programa impacto de pesquisa robótica,- e o primeiro problema é encontrar os humanóides. Chame isso, se quiser, de um exercício em robótica, ou chame de prevenção da morte de quinze milhões de homens, mulheres e crianças.

      Lynn sacudiu desanimadamente a cabeça.

      - Você não pode pensar assim. Seríamos um brinquedo nas mãos deles. Querem nos atrair para um caminho escuro, ficando livres para avançar em todas as direções.

      - Esta é a sua opinião - disse Jeffreys com impaciência.

      - Breckenridge fez sua sugestão através dos canais competentes, o governo aprovou e vamos começar com uma reunião de toda a Ciência.

      - Toda a Ciência?

      - Relacionamos todos os cientistas importantes de cada ramo da ciência natural - disse Breckenridge. - Todos estarão em Cheyenne. Haverá um único ponto na agenda: como desenvolver a robótica. A maior subdivisão específica será: como desenvolver um aparelho receptor para os campos eletromagnéticos do córtex cerebral, suficientemente delicado para distinguir entre um cérebro humano protoplasmático e um cérebro humanóide positrônico.

      - Esperamos que esteja disposto a se encarregar da reunião - disse Jeffreys.

      - Não fui consultado sobre isso.

      - Obviamente o tempo era curto. Concorda em se encarregar da reunião?

      Lynn sorriu laconicamente. Era novamente um problema de responsabilidade. A responsabilidade devia ser claramente de Lynn, da Robótica. Mas tinha a sensação que Breckenridge é quem ficaria realmente encarregado. E o que podia fazer?

      - Concordo - respondeu.

      Breckenridge e Lynn voltaram juntos para Cheyenne, onde, naquela mesma noite, Laszlo ouviu, com rabujenta desconfiança, a narração dos últimos acontecimentos.

      - Enquanto você estava fora, chefe - disse Laszlo -, comecei a encaminhar cinco modelos experimentais de estruturas humanóides para os procedimentos de teste. Nossos homens estão trabalhando doze horas por dia em três turnos sobrepostos. Se tivermos que preparar um encontro de cientistas, ficaremos assoberbados de problemas até a raiz dos cabelos... e teremos de interromper o trabalho.

      - Será apenas temporariamente - disse Breckenridge. - Vão ganhar mais que perder.

      Laszlo franziu a testa:

      - Uma multidão de astrofísicos e geoquímicos andando por aí não ajudará em nada o progresso da robótica.

      - Pontos de vista de especialistas dos outros campos podem ser úteis.

      - Tem certeza? Como sabemos se há algum meio de detectar ondas cerebrais ou, se isso for possível, que haja um meio de diferenciar humanos e humanóides pelo padrão das ondas? Quem deu a idéia do projeto?

      - Eu - disse Breckenridge.

      - Você! Você é um homem da robótica?

      - Estudei robótica - respondeu calmamente o jovem agente da Segurança.

      - Não é a mesma coisa.

      - Tive acesso ao material sobre o assunto lidando com a robótica russa... na Rússia. Material altamente secreto, bem à frente de tudo que vocês têm aqui.

      - Esse é um ponto importante, Laszlo - disse Lynn num tom de pesar.

      - Foi à base desse material - continuou Breckenridge - que sugeri esta linha particular de investigação. É razoavelmente certo que, ao passar um padrão eletromagnético de uma mente humana específica para um cérebro positrônico específico, não se consegue uma reprodução perfeitamente exata. Por alguma razão, o complicadíssimo cérebro positrônico, suficientemente pequeno para caber dentro de um crânio humano, é centenas de vezes menos complexo que um cérebro humano. Pode, no entanto, captar toda a riqueza de uma linguagem, e, de algum modo, devemos poder aproveitar esse fato.

      Laszlo olhou impressionado, mesmo a contragosto, Lynn sorriu penosamente. Era fácil ter ressentimentos de Breckenridge e da intromissão de várias centenas de cientistas de especialidades não roboticistas, mas o problema em si era, sem dúvida, intrigante. Pelo menos, havia essa consolação.

      Lynn aceitou serenamente os fatos.

      Descobriu que nada tinha a fazer além de ficar sozinho sentado na sua sala, numa posição executiva que se tornara meramente titular. Talvez isso ajudasse. Dava-lhe tempo para pensar, imaginar os mais criativos cientistas de meio-mundo, convergindo para Cheyenne.

      Era Breckenridge que, com fria eficiência, cuidava dos detalhes da preparação da conferência. Houvera uma espécie de confiança no caminho quando ele disse:

      - Vamos nos unir e os derrotaremos. Vamos nos unir.

      Lynn ficou absorto e qualquer um que o contemplasse naquele momento poderia ver seus olhos piscarem lentamente duas vezes... mas certamente não mais que isso.

      Fez o que devia fazer com uma isenção e determinação que o conservaram calmo, mesmo quando sentiu que, muito justificadamente, devia estar enlouquecendo.

      Procurou Breckenridge nas instalações improvisadas para o agente da Segurança. Breckenridge estava sozinho e franziu a testa:

      - Alguma coisa errada, senhor?

      Lynn falou com ar fatigado:

      - Acho que tudo está errado... Invoquei a lei marcial.

      - Quê?!

      - Como chefe de um departamento posso fazer isso se achar que a situação o exige. Em meu departamento posso ser um ditador. Essa é, sem dúvida, uma das vantagens da descentralização.

      - Você rescindirá imediatamente esta ordem! - Breckenridge deu um passo à frente. - Quando Washington souber disso, ficará arruinado.

      - De qualquer modo, já estou arruinado. Acha que não percebo que me designaram para o papel do maior vilão da história americana? O homem que deixou que Eles rompessem o equilíbrio!... Não tenho nada a perder... e talvez tenha muito a ganhar.

      Riu de uma forma um tanto selvagem.

      - Que alvo seria a Divisão de Robótica, hem, Breckenridge? Apenas uns poucos milhares de homens para serem mortos por uma bomba CT capaz de varrer trezentas milhas quadradas numa fração de segundos... Mas quinhentos desses homens seriam os nossos maiores cientistas. Ficaríamos na posição de precisar levar uma guerra à frente sem os nossos melhores cérebros... ou então nos rendermos. Acho que teríamos nos rendido.

      - Mas é impossível! Lynn, você está me ouvindo!? Você compreende? Como os humanóides poderiam atravessar nossa segurança? Como poderiam se unir?

      - Mas eles estão se unindo agora! Estamos ajudando-os a fazer isto. Estamos ordenando que façam isso! Nossos cientistas visitam o outro lado, Breckenridge. Visitam regularmente o outro lado. Você não achava muito estranho que ninguém da robótica fizesse o mesmo? Bem, dez desses cientistas ainda estão lá e, no lugar deles, dez humanóides convergem para Cheyenne.

      - É uma idéia ridícula!

      - Penso que é uma boa idéia, Breckenridge. Mas a coisa só funcionaria se soubéssemos que há humanóides na América, porque seria necessário, em primeiro lugar, convocar esta conferência. Foi unicamente uma coincidência que você tenha trazido as notícias dos humanóides e sugerido a conferência e sugerido a agenda e estivesse montando o “show” e soubesse exatamente que cientistas seriam convidados... Você tem certeza que os dez foram incluídos?

      - Dr. Lynn! - gritou Breckenridge ultrajado, fazendo um movimento para escapar.

      - Não se mova - disse Lynn. - Tenho um detonador aqui. Vamos apenas esperar que os cientistas cheguem, um a um. Um a um serão submetidos ao raio X. Verificaremos a radioatividade um por um. Nenhum se juntará a outro antes de ser checado e, se não houver nada com nenhum dos quinhentos, então lhe darei meu detonador e me renderei a você. Mas realmente acredito que encontraremos os dez humanóides. Sente-se, Breckenridge.

      Ambos sentaram-se.

      - Vamos esperar - disse Lynn. - Quando eu estiver cansado, Laszlo virá me substituir. Nós vamos esperar.

     

      O Professor Manuelo Jiminez, do Instituto de Altos Estudos de Buenos Aires, explodiu quando o jato estratosférico em que viajava estava a três milhas sobre a região amazônica. Foi uma simples explosão química, mas suficiente para destruir o avião.

      O Dr. Herman Liebowitz, do M.I.T., explodiu num monotrem, matando vinte pessoas e ferindo outras cem.

      De modo parecido, o Dr. Auguste Marin, do Instituto Nuclear de Montreal, e sete outros cientistas, morreram em determinados pontos de sua viagem para Cheyenne.

      Laszlo ficou chocado, pálido e gago com as primeiras informações sobre o que ocorria. Lynn estava sentado há apenas duas horas com Breckenridge, encarando o agente da Segurança com o detonador na mão.

      - Pensei que estivesse maluco, chefe - disse Laszlo - mas você estava certo. Eram humanóides. Tinham de ser.

      Laszlo se virou para encarar Breckenridge com olhos cheios de ódio.

      - Só que eles foram avisados. Ele os avisou e ficamos sem nenhum intacto. Sem nenhum para analisar.

      - Deus! - gritou Lynn, e, num movimento rápido, frenético, apontou seu detonador para Breckenridge e atirou. O pescoço do homem da Segurança se dissipou, o tronco caiu, a cabeça tombou, bateu contra o solo e rolou tortuosamente. Lynn falou num tom de lamento:

      - Não entendo. Pensei que fosse um traidor, nada mais.

      E Laszlo permaneceu imóvel, a boca aberta, incapaz de falar.

      - Sem dúvida, ele os avisou - disse Lynn furiosamente. - Mas como poderia fazer isso sentado nesta cadeira?... A menos que estivesse equipado com um radio transmissor... Você não acha? Breckenridge esteve em Moscou. O verdadeiro Breckenridge ainda está lá. Oh, meu Deus, eles eram onze!

      Laszlo conseguiu falar em um guincho áspero:

      - Por que ele não explodiu?

      - Suponho que estava esperando para certificar-se de que os outros haviam recebido a mensagem e tinham efetivamente se destruído. Meu Deus, meu Deus, quando você trouxe as notícias e toda a verdade ficou esclarecida, eu soube atirar com suficiente rapidez. Deus sabe por quantos segundos me adiantei a ele!

      - Pelo menos - Laszlo estremeceu - temos um para estudar!

      Ele se curvou e pôs os dedos no fluido pegajoso que escorria do corpo sem cabeça, por entre os restos mutilados da base do pescoço.

      Nenhum sangue, mas óleo altamente concentrado para máquinas.

     

      Imagem especular

      As Três Leis da Robótica:

      1. Um robô não deve fazer mal a um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra qualquer mal.

      2. Um robô deve obedecer a qualquer ordem dada por um ser humano, desde que essa ordem não interfira com a execução da Primeira Lei.

      3. Um robô deve proteger a sua existência desde que esta proteção não interfira com a Primeira e Segunda Leis.

      Lije Baley acabara de decidir-se a acender o seu cachimbo, quando a porta de seu escritório abriu-se sem nenhuma batida preliminar ou anúncio de qualquer espécie. Baley ergueu o olhar, pronunciadamente aborrecido, e então deixou cair o cachimbo. Já era muito revelador de seu estado de espírito o fato de tê-lo deixado onde caíra.

      — R. Daneel Olivaw! — disse ele, numa espécie de entusiasmo perplexo. - Por São Josafá! É você mesmo, não é?

      — Absolutamente certo - disse o recém-chegado, alto e bronzeado, suas feições regulares não estremecendo por um só momento, em sua costumeira calma. - Lamento surpreendê-lo por entrar sem avisar, mas a situação é delicada, e deve haver o mínimo envolvimento possível por parte de homens e robôs, mesmo neste lugar. De qualquer modo, gostei de vê-lo de novo, meu amigo Elijah.

      E o robô estendeu sua mão direita num gesto tão humano quanto era sua aparência. Baley é que parecia tão desumanizado por seu assombro, que ficou olhando para a mão com uma momentânea falta de intelecção.

      Mas então agarrou-a com as duas mãos, sentindo sua cálida firmeza. - Mas, Daneel, por quê? Você é bem-vindo a qualquer momento, mas... o que é essa situação tão delicada? Estamos em dificuldades de novo? A Terra, quero dizer?

      — Não, amigo Elijah, não se trata da Terra. A situação à qual me refiro como delicada é, pelas aparências, uma coisa pequena. Uma disputa entre matemáticos, nada mais. E como por acaso estávamos, bem acidentalmente, à distância de um Salto fácil da Terra...

      — Essa disputa teve lugar a bordo de uma espaçonave, então?

      — Sim, de fato. Uma pequena disputa, se bem que para os humanos nela envolvidos, estupendamente grande.

      Baley nada conseguiu fazer, senão sorrir. - Não me surpreendo que você ache os humanos meio estúpidos. Eles não obedecem às Três Leis.

      — Isso é, realmente, uma deficiência — disse R. Daneel, grave -, e acho que os próprios humanos ficam desorientados com os humanos. Pode ser que você se surpreenda menos por haver tantos humanos a mais na Terra que nos outros mundos do espaço. Se for assim, o que acredito que seja, então você poderia nos ajudar.

      R. Daneel fez uma pausa momentânea e então disse, talvez um pouquinho depressa demais: - E no entanto, há regras do comportamento humano que aprendi. Parece, por exemplo, que fui deficiente, segundo a etiqueta, pelos padrões humanos, em não perguntar por sua esposa e seu filho.

      — Eles estão indo bem. O menino está no colégio, e Jessie está envolvida com a política local. Quanto às amenidades, já as tratamos; agora, diga-me por que veio aqui.

      — Como disse, estávamos à distância de um pequeno Salto da Terra, e assim, sugeri ao capitão que o consultássemos.

      — E o capitão concordou? - Baley teve uma súbita visão do orgulhoso e autocrático capitão de uma nave estelar consentindo em fazer um pouso na Terra —justo neste, de todos os mundos — e consultar um terráqueo — dentre todos os povos.

      — Acredito que ele estava numa posição tal que concordaria com qualquer coisa. Ademais, elogiei você altamente, se bem que, para falar a verdade, falei só a verdade. Por fim, concordei em conduzir todas as negociações, de modo que ninguém da tripulação, ou passageiros, precisasse entrar em nenhuma das cidades humanas.

      — Nem conversar com nenhum terráqueo, claro. Mas, o que aconteceu?

      — Os passageiros da espaçonave Eta Carina incluem dois matemáticos que estão de viagem para Aurora para presenciarem uma conferência interstelar de neurobiofísica. É sobre estes matemáticos, Alfred Barr Humboldt e Gennao Sabbat; eles sâ”o o centro das disputas. Quem sabe, amigo Elijah, se já não ouviu falar de um deles, ou de ambos?

      — Nenhum deles - respondeu Baley, firmemente. - Nada sei de matemática. Olhe, Daneel, por certo que não disse a ninguém que sou um aficcionado da matemática, ou...

      — Não, absolutamente, amigo Elijah. Sei que você não é. Tampouco importa, pois que a natureza da matemática envolvida de modo algum é relevante para o ponto em questão.

      — Então, continue.

      — Como nenhum dos dois homens é de seu conhecimento, a-migo Elijah, deixe-me dizer-lhe que o dr. Humboldt está bem em sua vigésima sétima década... o que ia dizer, amigo Elijah?

      — Nada, nada - disse Baley, irritado. Meramente resmungara para si mesmo, mais ou menos incoerentemente, numa reação natural contra as vidas muito longas dos espaçonautas. - E ele ainda está ativo, a despeito da idade? Na Terra, os matemáticos, depois dos trinta, mais ou menos...

      Daneel respondeu, calmamente: — O dr. Humboldt é um dos três maiores matemáticos, por uma reputação há muito estabelecida, em toda a galáxia. Por certo que ele ainda está ativo. 0 dr. Sabbat, por outro lado, é bem jovem, ainda não chegou aos cinqüenta, mas já se estabeleceu como o mais notável novo talento nos ramos mais abs-trusos da matemática.

      — São ambos grandes, então. - Baley lembrou-se de seu cachimbo e o apanhou. Decidiu que não fazia sentido acendê-lo agora, e sacudiu seus restos de fumo. - Que aconteceu? Um assassinato? Será que um deles matou o outro?

      — Destes dois homens de grande reputação, um está tentando destruir a do outro. Pelos valores humanos, creio que isso pode ser visto como pior que o assassínio físico.

      — Por vezes, sim, eu suponho. Qual está tentando destruir o outro?

      — Ora, isso, meu amigo Elijah, é precisamente a questão. Qual?

      — Continue.

      — O dr. Humboldt contou a história claramente. Pouco antes de subir a bordo da espaçonave, teve uma intuição de um possível método para analisar as trajetórias neurais a partir de alterações nos padrões de absorção de microondas em áreas corticais localizadas. A intuição foi uma pura técnica matemática de extraordinária sutileza, mas eu não posso, é claro, entendê-lo ou transmitir os pormenores de maneira simples. Isto, porém, não importa. O dr. Humboldt considerou a questão e a cada hora foi ficando mais convencido de que tinha algo revolucionário em mãos, algo que apequenaria todos os seus feitos anteriores em matemática. Então descobriu que o dr. Sabbat estava a bordo.

      — Ah! E ele tentou discutir a tese com o jovem Sabbat?

      — Exatamente. Os dois já tinham se encontrado em conferências profissionais antes e conheciam-se bem, de reputação. Humboldt entrou em grande detalhe com Sabbat. Sabbat apoiou inteiramente a análise de Humboldt e foi irrestrito em elogiar a importância da descoberta. Animado e confiante com isto, Humboldt esboçou um artigo sumariando seu trabalho e, dois dias depois, preparou-o para transmissão subetérica aos presidentes da conferência em Aurora, para que pudesse oficialmente estabelecer sua prioridade e fazer arranjos para uma possível discussão antes que as sessões fossem fechadas. Para sua surpresa, descobriu que Sabbat já tinha pronto um artigo de sua autoria, essencialmente o mesmo que de Humboldt, e Sabbat também o estava preparando para subeterizar para Aurora.

      — Suponho que Humboldt ficou furioso.

      — Muito.

      — E Sabbat? O que disse?

      — Precisamente o mesmo que Humboldt. Palavra por palavra.

      — Então, qual é o problema?

      — Nenhum, exceto pela imagem especular, a troca dos nomes. De acordo com Sabbat, foi ele que teve a intuição, e foi ele que consultou Humboldt; foi Humboldt que concordou com a análise e a elogiou.

      — Então cada um alega que a idéia é dele, e que o outro a roubou. Não soa para mim como um problema, de modo algum. Em questões acadêmicas, pareceria apenas necessário dispor dos registros de pesquisa, datados e com as iniciais. O julgamento sobre a prioridade poderia ser feito a partir daí. Mesmo que um trabalho seja falsificado, pode ser descoberto através de suas inconsistências internas.

      — Ordinariamente, amigo Elijah, isso estaria certo, mas trata-se de matemática, e não de uma ciência experimental. O dr. Humboldt alega ter elaborado as partes essenciais mentalmente. Nada foi posto por escrito até o artigo ser preparado. O dr. Sabbat, é claro, alega precisamente a mesma coisa.

      — Bem, então seja mais drástico e dispense essa parte. Sujeite cada um a uma sonda psíquica e descubra qual dos dois está mentindo.

      R. Daneel abanou a cabeça, lentamente. - Amigo Elijah, não está entendendo esses homens. Ambos são de alto nível e escolaridade, “Fellows” da Academia Imperial. Como tais, não podem ser sujeitos a julgamento da conduta profissional, exceto por um júri de seus iguais — seus iguais profissionais — a menos que eles voluntariamente, e pessoalmente, renunciem a esse direito.

      — Apresente-lhes essa alternativa, então. O culpado não desejará renunciar a esse direito, pois não poderá defrontar-se com a sonda psíquica. O inocente renunciará de imediato. Nem mesmo precisarão usar a sonda.

      — Isso não funcionará, amigo. Renunciar a esse direito num tal caso - ser investigado por leigos — é um golpe sério, e talvez irrecuperável para o prestígio. Ambos recusam-se inamovivelmente a renunciar ao direito a um tribunal especial, por uma questão de orgulho. A questão de culpa ou inocência é bem secundária.

      — Nesse caso, deixe as coisas como estão, por hora. Deixe o assunto no gelo até chegarem em Aurora. Na conferência neurobiofísi-ca haverá um grande número de iguais a eles, e então...

      — Isso significaria um forte golpe para a própria ciência, pois ambos sofreriam, sendo instrumentos de um escândalo. Mesmo o inocente seria acusado de ter tomado parte numa situação tão desagradável. Sentir-se-ia que o assunto deveria ser resolvido fora de um tribunal, a qualquer custo.

      — Está bem; não sou um espaçonauta, mas procurarei imaginar que esta atitude faz sentido. O que os homens em questão dizem?

      — Humboldt concorda com tudo. Diz que se Sabbat admitir ter roubado a idéia e permitir que Humboldt continue com a transmissão do artigo, ou pelo menos o entregue na conferência, não fará nenhuma acusação. O erro de Sabbat ficará em silêncio, no que depender dele; e, é claro, com o capitão, que é o único outro humano a tomar parte na disputa.

      — Mas o jovem Sabbat não concorda?

      — Ao contrário, concordou com o dr. Humboldt até o último detalhe - com a devida reversão dos nomes. Ainda uma imagem especular.

      — Então eles só ficam parados, empatados?

      — Cada um, acredito, está esperando que o outro desista e admita a culpa.

      — Ora, então espere.

      — O capitão decidiu que isto não poderá ser feito. Há duas alternativas a esperar, veja só. A primeira é que ambos continuem em sua teimosia, de modo que quando a espaçonave pousar em Aurora,

      o escândalo intelectual virá à tona. O capitão, que é o responsável pela justiça a bordo, cairá em desgraça por não ter sido capaz de resolver o assunto silenciosamente, e para ele, isto é intolerável.

      — E a segunda alternativa?

      — É que um ou outro dos matemáticos de fato admita ter cometido um erro. Mas o que confessar, tê-lo-á feito por culpa real, ou por um nobre desejo de evitar qualquer escândalo? Seria direito privar do crédito alguém que é ético o suficiente que prefira perder um crédito do que ver toda a ciência sofrer? Ou mais, o culpado confessará no último momento, de tal modo a fazer parecer que o faz apenas em benefício da ciência, assim escapando à desgraça de sua ação e lançando sua sombra sobre o outro. O capitão será o único a saber de tudo isto, mas ele não quer passar o resto de sua vida pensando que tomou parte num grosseiro erro judiciário.

      Baley suspirou. - Um jogo de frango intelectual. Quem vai quebrar o ossinho primeiro, à medida que Aurora vai ficando cada vez mais perto? É essa toda a história?

      — Ainda não; há testemunhas da transação.

      — Por São Josafá! Por que não falou logo? Que testemunhas?

      — O criado pessoal do dr. Humboldt...

      — Um robô, eu suponho.

      — Sim, por certo. Chama-se R. Preston. Este servo, R. Preston, esteve presente durante a conferência inicial e apoia o dr. Humboldt em cada detalhe.

      — Você quer dizer que ele diz que a idéia era do dr. desde o início, e que o dr. Humboldt a descreveu ao dr. Sabbat, o dr. Sabbat elogiou a idéia, e assim por diante?

      — Sim, em todo pormenor.

      — Percebo. Isso resolve o assunto ou não? Presumivelmente não.

      — Isso mesmo. Não resolve o assunto, pois há uma segunda testemunha. O dr. Sabbat também tem um criado pessoal, R. Idda, outro robô, que por coincidência é do mesmo modelo que R. Preston, segundo creio, feito no mesmo ano na mesma fábrica. Ambos têm estado em serviço pelo mesmo período.

      — Uma estranha coincidência — muito estranha.

      — Um fato, e receio que torna difícil chegar a qualquer conclusão baseado nas diferenças óbvias entre os dois servos.

      — R. Idda então conta a mesma história que R. Preston?

      — Precisamente a mesma história, a imagem especular, mas com a troca dos nomes.

      — R. Idda então disse que o jovem Sabbat, o que ainda não

      tem cinqüenta - Lije Baley não tirou totalmente o tom sardônico de sua voz; ele mesmo ainda não tinha cinqüenta e sentia-se longe de ser jovem - teve a idéia, para começar; descreveu-a ao dr. Humboldt, que a elogiou em altos brados, e etcétera.

      — Sim, meu amigo Elijah.

      — E um robô está mentindo, entâ”o.

      — É o que parece.

      — Imagino ser fácil dizer qual. Creio que mesmo um exame superficial por um bom roboticista...

      — Um roboticista não é suficiente neste caso, amigo Elijah. Só um robopsicólogo qualificado teria o peso e a experiência suficientes para tomar uma decisão num caso dessa monta. Não há nenhum com essa qualificação a bordo da nave. Tal exame só poderia ser feito quando atingíssemos Aurora...

      — E a essa altura, a lama já chegou no ventilador. Bem, você está aqui na Terra. Podemos caçar um robopsicólogo, e certamente qualquer coisa que aconteça na Terra nunca chegará aos ouvidos de Aurora e não haverá escândalo.

      — Exceto que nem o dr. Humboldt nem o dr. Sabbat permitirão que seus criados sejam examinados por um robopsicólogo da Terra. O terráqueo teria de... — E fez uma pausa.

      Lije Baley completou, estolidamente: —Ele teria de tocar o robô.

      — Esses criados são antigos, bem cuidados...

      — E não devem ser contaminados pelo toque de um terráqueo. Então para que vocês me querem, raios! - Interrompeu-se, carran-cudo. - Lamento, R. Daneel, mas não vejo nenhuma razão pela qual você devesse me envolver nisto.

      — Eu estava a bordo numa missão totalmente irrelevante para o problema em questão. O capitão recorreu a mim porque ele precisava recorrer a alguém. Pareci humano o bastante para que conversasse comigo, e robô o bastante para ser um receptáculo seguro para confidencias. Contou-me toda a história e perguntou-me o que eu faria. Percebi que o Salto seguinte nos traria tão facilmente á Terra quanto ao nosso objetivo. Disse isso ao capitão, muito embora estivesse tão desorientado quanto ele para resolver o problema do espelho, mas havia alguém na Terra que poderia ajudar.

      — São Josafá! - murmurou Baley, sem fôlego.

      — Considere, amigo Elijah, que se tiver sucesso em resolver este enigma, faria bem á sua carreira, e a própria Terra poderia se beneficiar disto. A questão não poderia ter publicidade, é claro, mas o capitão é homem de alguma influência, em seu planeta natal, e ficar-

      lhe-ia grato.

      — Só serve para me pressionar mais ainda.

      — Tenho toda confiança que você terá alguma idéia sobre o procedimento a seguir.

      — Mesmo? Suponho que o procedimento óbvio é entrevistar os dois matemáticos, um dos quais pareceria ser um ladrão.

      — Creio, amigo, que nenhum virá à cidade. Nem nenhum gostaria que você fosse até ele.

      — E não há maneira de forçar um espaçonauta a ter contato com um terráqueo, não importa qual a emergência. Sim, entendo isso, Daneel... mas eu estava pensando numa entrevista por televisão em circuito fechado.

      — Tampouco isso. Eles não se submeterão a um interrogatório por um terráqueo.

      — Então... o que querem de mim? Posso falar com os robôs?

      — Não querem deixar os robôs virem aqui, também.

      — Por São Josafá, Dannel! Você veio aqui.

      — Essa foi decisão unicamente minha. Tenho permissão, enquanto a bordo, de tomar decisões dessa espécie sem veto do ser humano, exceto o próprio capitão, e ele estava ansioso por estabelecer esse contato. Eu, como o conhecia, decidi que o contato por televisão seria insuficiente. Queria apertar sua mão.

      Lije Baley amoleceu. — Gostei disso, Daneel, mas ainda honestamente gostaria que não tivesse pensado em mim neste caso. Posso falar com os robôs pela televisão, ao menos?

      — Isso, eu acho, pode ser arranjado.

      — Já é alguma coisa, pelo menos. Isso significa que estarei fazendo o trabalho de um robopsicólogo rudimentar.

      — Mas você, amigo Elijah, é um detetive, e não um robopsicólogo.

      — Bem, deixe isso pra lá. Agora, antes que eu os veja, vamos raciocinar um pouco. Diga-me: é possível que ambos os robôs estejam falando a verdade? Talvez a conversação entre os dois matemáticos tenha sido equívoca. Talvez fosse de tal natureza que cada robô honestamente poderia acreditar que seu próprio senhor fosse proprietário da idéia. Ou talvez um robô ouviu só parte da discussão e o outro, uma outra parte, de modo que cada um pudesse supor que o seu senhor fosse proprietário da idéia.

      — Isso é um tanto impossível, amigo. Ambos os robôs repetem a mesma conversação, de maneira idêntica. E as duas repetições são fundamentalmente inconsistentes.

      — Então é absolutamente certo que um dos robôs está mentindo?

      — Sim.

      — Posso ver a transcrição de todas as evidências dadas até agora na presença do capitão, se eu quiser?

      — Achei que você perguntaria isso, e trouxe uma cópia comigo.

      — Uma verdadeira bênção. Os robôs tiveram seus depoimentos cruzados, e isto foi incluído na transcrição?

      — Os robôs meramente repetiram suas histórias. Um interro-»atório cruzado só poderia ser conduzido por robopsicólogos.

      — Ou por mim?

      — Você é um detetive, amigo Elijah, não um...

      — Está bem, R. Daneel. Tentarei entender bem a psicologia do espaçonauta. Um detetive pode fazê-lo porque não é um robopsicó-logo. Vamos pensar ainda mais um pouco. Ordinariamente, um robô não mente, mas pode fazê-lo para manter as Três Leis. Pode mentir para proteger, de maneira legítima, sua própria existência, de acordo com a Terceira Lei. Está mais apto a mentir, se necessário, para obedecer a uma ordem legítima que lhe seja dada por um humano, de a-cordo com a Segunda Lei. Estará tanto mais apto a mentir se isso for necessário para salvar uma vida humana, ou evitar que seja causado dano, de acordo com a Primeira Lei.

      — Sim.

      — E, nesse caso, cada robô estaria defendendo a reputação profissional de seu senhor, e mentiria se assim fosse necessário. Sob estas circunstâncias, a reputação profissional seria quase o equivalente á vida, e poderia haver uma emergência quase da Primeira Lei para forçar a mentira.

      — Mas, pela mentira, cada criado estaria ferindo a reputação profissional do senhor do outro, amigo Elijah.

      — Isso mesmo, mas cada robô pode ter um conceito melhor da reputação de seu próprio senhor, e honestamente considerá-la maior que a do outro. O menor dano seria causado por sua mentira, ele suporia, do que pela verdade.

      Tendo dito, Lije Baley permaneceu quieto por um momento. - Está bem, então pode fazer com que eu possa falar com um dos robôs; com R. Idda primeiro, acho?

      — O robô do dr. Sabbat?

      — Sim — respondeu Baley, secamente —, o robô do rapazinho.

      — Vai levar só alguns minutos. Tenho um microrreceptor equipado com um projetor. Só preciso de uma parede branca e acho que esta aqui serve, se me ajudar a remover algumas destas estantes de filmes.

      — Vá em frente. Precisarei falar num microfone de alguma espécie?

      — Não; poderá falar normalmente. Por favor, perdoe-me, amigo, por mais um momento de espera. Terei de entrar em contato com a nave e arranjar a entrevista com R. Idda.

      — Se levar algum tempo, Daneel, que tal me dar o material transcrito da evidência obtida até agora?

      Lije Baley acendeu seu cachimbo enquanto R. Daneel montava o equipamento, e folheava o calhamaço que recebera.

      Os minutos passaram e R. Daneel disse: -Se está pronto, amigo, R. Idda também está. Ou quer mais alguns minutos com a transcrição?

      — Não - suspirou Baley. — Não estou aprendendo nada de novo. Faça a ligação, e providencie para que a entrevista seja gravada e transcrita.

      R. Idda, irreal em sua projeçãto bidimensional contra a parede, era de estrutura basicamente metálica - não a criatura humanóide que era R. Daneel. Seu corpo era alto, mas troncudo, e havia muito pouco que o distinguisse dos muitos robôs que Baley já vira, exceto por minúcias estruturais.

      Baley disse: - Saudações, R. Idda.

      — Saudações, senhor — respondeu R. Idda, numa voz abafada que soou surpreendentemente humanóide.

      — Você é o criado pessoal de Gennao Sabbat, não é?

      — Sou, senhor.

      — Há quanto tempo, rapaz?

      — Há vinte e dois anos, senhor.

      — E a reputação de seu senhor lhe é cara?

      — Sim, senhor.

      — Você acharia importante proteger essa reputação?

      — Sim, senhor.

      — Tão importante proteger sua reputação quanto proteger sua vida?

      — Não .senhor.

      — Tão importante proteger sua reputação quanto a reputação de outrem?

      R. Idda hesitou. - Tais casos devem ser decididos segundo seu mérito individual, senhor. Não há meio de se estabelecer uma regra geral.

      Baley hesitou. Esses robôs espaçonautas eram mais melífluos e intelectualizados que os modelos terráqueos. Não tinha certeza de

      que poderia ser mais esperto que um deles.

      — Se você decidisse que a reputação de seu senhor fosse mais importante que a de outro, digamos, que a de Alfred Barr Humboldt, você mentiria para proteger a reputação de seu senhor?

      — Sim, senhor.

      — Você mentiu em seu testemunho concernente a seu senhor em sua controvérsia com o dr. Humboldt?

      — Não, senhor.

      — Mas, se estivesse mentindo, negaria a mentira para proteger aquela mesma mentira, não é?

      — Sim, senhor.

      — Então, vamos considerar o seguinte: seu senhor, Gennao Sabbat, é um jovem de grande reputação na matemática, mas é apenas um rapaz. Se, nesta controvérsia com o dr. Humboldt, tivesse sucumbido á tentação e agido sem ética, sofreria um certo eclipse de sua reputação, mas é jovem, e teria muito tempo para se recuperar. Teria muitos triunfos intelectuais á sua frente e os homens contemplariam eventualmente sua tentativa de plágio como um erro de um rapaz de sangue quente, com o discernimento ainda deficiente. Seria algo reparável para o futuro.

      Se, por outro lado, fosse o dr. Humboldt a sucumbir á tentação, a questão ficaria muito mais séria. Ele é um ancião, cujos grandes feitos já se espalharam ao longo de séculos. Sua reputação até hoje tem sido sem mácula. Tudo isso, porém, seria esquecido à luz deste único crime em seus últimos anos, e não teria oportunidade de compensar no tempo comparativamente curto que lhe resta. Haveria pouco mais que ele pudesse realizar. Haveria para Humboldt tantos anos de trabalho arruinados e tantas oportunidades a menos para reconquistar sua posição! Você percebe, não, que Humboldt se defronta com a pior situação, e merece a maior consideração?

      Houve uma longa pausa. Então R. Idda disse, com a voz inalterada: — Meu testemunho foi mentiroso. Foi o trabalho do dr. Humboldt de que meu senhor tentou, erroneamente, tomar o crédito.

      — Muito bem, meu rapaz. Você está instruído para não dizer nada a ninguém a respeito disto até que lhe seja dada permissão pelo capitão da nave. Está dispensado.

      A tela se apagou e Baley deu umas cachimbadas. - Acha que o capitão escutou isso, Daneel?

      — Estou certo que sim; ele é a única testemunha, além de nós.

      — Bom. Agora, o outro.

      — Mas há algum proveito nisso, amigo Elijah, em vista do que R. Idda confessou?

      — Claro que há; a confissão de R. Idda nada significa.

      — Nada?

      — Absolutamente nada. Apontei a situação do dr. Humboldt como a pior. Naturalmente, se ele estava mentindo para proteger Sabbat, passaria a dizer a verdade, como de fato alegou que fez. Por outro lado, se estivesse dizendo a verdade, passaria à mentira para proteger Humboldt. Ainda é o mesmo espelho, e em nada progredimos.

      — Mas então, o que ganharíamos interrogando R. Preston?

      — Nada, se a imagem especular fosse perfeita... mas não é. Afinal, um dos robôs está contando a verdade, para começar, e um está mentindo, para começar, e aqui está um ponto assimétrico. Deixe-me ver R. Preston. E se a transcrição do interrogatório de R. Idda estiver terminada, deixe ver.

      O projetor voltou a ser usado. R. Preston ficou olhando: idêntico a R. Idda, sob todos os aspectos, exceto por alguma trivialidade no desenho do peito.

      — Saudações, R. Preston. — E mantinha a transcrição de R. Idda à sua frente, enquanto falava.

      — Saudações, senhor. - Sua voz era idêntica á de R. Idda.

      — Você é o criado pessoal de Alfred Barr Humboldt, não é?

      — Sim, senhor.

      — Há quanto tempo, rapaz?

      — Há vinte e dois anos, senhor.

      — E a reputação de seu senhor lhe é cara?

      — Sim, senhor.

      — Você acharia importante proteger essa reputação?

      — Sim, senhor.

      — Tão importante proteger sua reputação quanto proteger sua vida?

      — Não, senhor.

      — Tão importante proteger sua reputação quanto a reputação de outrem?

      R. Preston hesitou. - Tais casos devem ser decididos segundo seu mérito individual, senhor. Não há meio de se estabelecer uma regra geral.

      — Se você decidisse que a reputação de seu senhor fosse mais importante que a de outro, digamos, que a de Gennao Sabbat, você mentiria para proteger a reputação de seu senhor?

      — Sim, senhor.

      — Você mentiu em seu testemunho concernente a seu senhor em sua controvérsia com o dr. Sabbat?

      — Não, senhor.

      — Mas, se estivesse mentindo, negaria a mentira para proteger aquela mesma mentira, não é?

      — Sim, senhor.

      — Então, vamos considerar o seguinte: seu senhor, Alfred Barr Humboldt, é um ancião de grande reputação na matemática, mas é apenas um velho. Se, nesta controvérsia com o dr. Sabbat, tivesse sucumbido á tentação e agido sem ética, sofreria um certo eclipse de sua reputação, mas sua idade avançada e seus séculos de realizações se imporiam, e ele ganharia. Os homens contemplariam esta tentativa de plágio como o engano de um velho talvez doente, com o discernimento já incerto.

      Se, por outro lado, fosse o dr. Sabbat a sucumbir â tentação, a questão seria muito mais séria. Ele é um jovem, com uma reputação muito menos segura. Ordinariamente, teria séculos à sua frente, ao longo dos quais poderia acumular conhecimento e realizar grandes feitos. Isto estaria fechado para ele, agora, obscurecido por um erro de sua juventude. Como vê, Sabbat se defronta com a pior situação, não é? Ele merece a maior consideração?

      Houve uma longa pausa. Então R. Preston disse, com a voz inalterada: — Meu testemunho foi como eu...

      Neste ponto, interrompeu-se e não disse nada mais.

      Baley disse: — Por favor, continue, R. Preston.

      Não houve resposta.

      — Receio, amigo Elijah, que R. Preston esteja em estase. Está fora de funcionamento - disse R. Daneel.

      — Bem, então - respondeu Baley — finalmente causamos uma assimetria. A partir daqui, podemos ver quem é o culpado.

      — De que maneira?

      — Pense só: suponha que você fosse uma pessoa que não tivesse cometido nenhum crime e que seu robô pessoal fosse testemunha dele. Não haveria nada que você precisasse fazer. Seu robô diria a verdade e o apoiaria. Se, porém, você fosse uma pessoa que tivesse cometido um crime, teria de depender de seu robô mentir. Esta posição seria um tanto arriscada, pois se o robô mentisse, se necessário, sua maior inclinação seria dizer a verdade, de modo que a mentira seria menos firme que a verdade. Para evitar isso, o criminoso provavelmente deveria ter ordenado que o robô mentisse. Destarte, a Primeira Lei sofreria reforço pela Segunda Lei, quiçá substancialmente reforçada.

      — Isso parece razoável — respondeu R. Daneel.

      — Suponha que temos um robô de cada tipo. Um passaria da verdade, sem reforço, â mentira, e assim, depois de alguma hesitação,

      poderia fazê-lo sem problema sério. O outro robô passaria da mentira, com muito reforço, à verdade, mas só poderia fazê-lo com o risco de queimar várias trajetórias positrônicas de seu cérebro, e cair em estase.

      — E como R. Preston caiu em estase...

      — 0 senhor de R. Preston, o dr. Humboldt, é o culpado de plágio. Se transmitir isto ao capitão, e instá-lo a confrontar o dr. Humboldt imediatamente com a questão, poderá forçar uma confissão. Caso em que você deverá me informar imediatamente.

      — Certamente que o farei. Pode desculpar-me, amigo Elijah? Devo falar em particular com o capitão.

      — Claro;use a sala de reuniões. É totalmente isolada.

      Baley não conseguiu fazer trabalho de qualquer espécie, na ausência de R. Daneel. Ficou sentado, num silêncio inquieto. Muito dependia do valor de sua análise, e estava agudamente cônscio de sua falta de competência em robótica.

      R. Daneel estava de volta em meia hora, a meia hora mais longa na vida de Baley.

      Não adiantava, é claro, tentar determinar o que acontecera pela expressão no rosto impassível do humanóide. Baley tentou também manter seu rosto impassível.

      — Sim, R. Daneel?

      — Precisamente como você disse, amigo Elijah. O dr. Humboldt confessou. Estava contando, disse, com a desistência do dr. Sabbat e deixando o dr. Humboldt ter seu último triunfo. A crise passou, e o senhor verá como o capitão pode ser agradecido. Ele deu-me permissão para dizer-lhe que admira grandemente a sua sutileza e creio que eu mesmo ganharei seus favores por ter sugerido que recorresse a você.

      — Ótimo - disse Baley, joelhos trêmulos e a testa úmida, agora que sua decisão se mostrara a correta. Mas, por São Josafá, R. Daneel, não me coloque na fogueira de novo desse jeito, sim?

      — Tentarei, caro amigo. Tudo dependerá, é claro, da importância de uma crise, de sua proximidade, e de certos outros fatores. Entrementes, tenho uma pergunta...

      — Sim?

      — Não seria possível supor que a passagem da mentira à verdade fosse fácil, ao passo que a passagem da verdade para a mentira fosse difícil? E, neste caso, o robô em estase não estaria passando da verdade â mentira, e como R. Preston ficou em estase, não se poderia tirar a conclusão de que o dr. Humboldt estava inocente e o dr. Sabbat, culpado?

      — Sim, R. Daneel. Seria possível argumentar assim, mas foi o outro argumento que se mostrou verdadeiro. Humboldt confessou, nãoé?

      — Sim; mas com os argumentos possíveis em ambos os sentidos, como você, meu amigo, tão rapidamente escolheu o certo?

      Por um momento, os lábios de Baley se retorceram. Então relaxou e eles se curvaram num sorriso. — Porque, R. Daneel, levei em consideração as reações humanas, e não as robóticas. Sei mais sobre seres humanos do que sobre robôs. Em outras palavras, eu já tinha uma idéia sobre qual dos matemáticos estava errado antes de entrevistar os robôs. Uma vez que provoquei uma resposta assimétrica neles, simplesmente a interpretei colocando a culpa naquele de quem já desconfiava. A resposta do robô foi dramática o bastante para denunciar o culpado; minha análise do comportamento humano poderia não ter sido suficiente para fazê-lo.

      — Estou curioso para saber qual foi a sua análise do comportamento humano.

      — Por São Josafá, R. Daneel, pense, e não precisará perguntar. Há um outro ponto de assimetria nessa história de imagem especular além da questão de verdade e mentira. Há a questão da idade dos dois matemáticos: um é bem velho, e o outro é jovem.

      — Sim, é claro, mas e daí?

      — Ora, isto: posso ver um jovem, subitamente atordoado com uma súbita, surpreendente e revolucionária idéia consultando-se sobre o assunto com um velho que ele teve, desde seus primeiros dias como estudante, como um semideus no campo. Mas não posso imaginar um velho, rico em honras e acostumado a triunfos, vir com uma súbita, surpreendente e revolucionária idéia, consultar um homem séculos mais jovem, a quem veria apenas como um frangote presunçoso — ou qualquer que seja o insulto em que um espacial pensaria. E também, se um rapaz tivesse a chance, por que tentaria roubar a idéia de um semideus reverenciado? Seria impensável. Por outro ladOi um velho, consciente de suas forças declinantes, muito bem poderia agarrar-se a uma última chance de fama e considerar um rapaz em sua área sem os direitos que deveria respeitar. Em suma, não era concebível que Sabbat tivesse roubado a idéia de Humboldt, e de ambos os pontos de vista, o dr. Humboldt era culpado.

      R. Daneel refletiu longamente, e então estendeu sua mão: -Preciso ir agora, amigo Elijah. Foi bom tê-lo visto. Oxalá possamos nos encontrar logo, de novo.

      Baley agarrou a mão do robô, calorosamente: - Se não se importa, R. Daneel, não tão logo.

     

      O incidente do tricentenário

      4 de julho de 2076... e pela terceira vez o incidente do sistema convencional de numeração, baseada nas potências de dez, conduzira os dois últimos dígitos do ano de volta ao funesto 76, que tinha visto o nascimento de uma nação.

      Não era mais uma nação, no velho sentido, era antes uma expressão geográfica, parte de um todo maior que compunha a Federação de toda a humanidade sobre a Terra, junto com seus ramos na Lua e nas colônias espaciais. Pela cultura e pela herança, todavia, o nome e a idéia continuavam vivos, e esta porção do planeta designada pelo velho nome ainda era a mais próspera e avançada região do mundo... E o Presidente dos Estados Unidos era ainda a mais poderosa personalidade individual do Conselho Planetário.

      Lawrence Edwards observava a pequena figura do Presidente do alto de seus sessenta metros. Movia-se preguiçosamente por sobre a multidão, com seu motor flotrônico fazendo um som desengonçado que pouco se ouvia, às suas costas, e o que ele via tinha exatamente a aparência que qualquer um veria numa cena de holovisão. Quantas vezes vira ele figuras pequeninas como esta em sua sala de visitas, figurinhas num cubo de luz solar, parecendo tão reais como se fossem homúnculos vivos, exceto que se podia pôr a mão através delas.

      Não se poderia pôr a mão através das figurinhas que se espalhavam às dezenas de milhares por entre os espaços que rodeavam o Monumento a Washington. E não se poderia pôr os dedos através do Presidente. Antes, se poderia alcançá-lo, tocá-lo, apertar sua mão.

      Edwards pensou sardonicamente na inutilidade daquele elemento de tangibilidade que fora acrescentado e desejou estar a duzentos quilômetros de distância, flutuando pelos ares em alguma região selvagem, em vez de estar aqui onde se achava, a observar qualquer indício de desordem. Não havia razão alguma para ele estar aqui, não fosse o valor mitológico da "pressão sobre a carne".

      Edwards não era um admirador do Presidente - Hugo Allen Winkler, qüinquagésimo sétimo da lista.

      Para Edwards, o Presidente Winkler parecia um homem vazio, agradável aos outros, um caçador de votos, um prometedor. Era desapontador ter um homem como este na função que ocupava, depois de todas as esperanças dos seus primeiros meses de administração. A Federeção Mundial estava em perigo de se desmantelar muito antes de seu mandato terminar e Winkler nada podia fazer. Precisava-se agora de uma mão forte, não de uma mão alegre, uma voz forte, não uma voz adocicada.

      Lá estava ele, agora, apertando mãos, com um espaço em torno dele, conseguido à força pelo Serviço, com o próprio Edwards, mais uns poucos outros do Serviço, a observarem, lá de cima.

      Certamente o Presidente concorreria à reeleição, e parecia haver uma boa possibilidade de que ele seria derrotado. Isto só pioraria as coisas, visto que o empenho do partido oposicionista era a destruição da Federação.

      Edwards suspirou. Seriam miseráveis os quatro anos vindouros - talvez os quarenta - e tudo que ele podia fazer era flutuar no ar, pronto a entrar em contacto com qualquer agente do Serviço lá embaixo, no solo, pelo laserfone se houvesse o menor indício...

      Não viu o menor indício. Não havia sinal de distúrbio. Só um sopro de poeira branca, dificilmente visível, apenas uma cintilação momentânea à luz do sol, para cima e se afastando, e que se afastou com a mesma rapidez com que ele a vira.

      Onde estava o Presidente? Com a poeira, perdera-o de vista.

      Olhou em torno, nas vizinhanças de onde o vira pela última vez. Afinal, o Presidente não poderia ter se afastado tanto.

      Foi então que tomou consciência da perturbação. Primeiro, a perturbação foi entre os próprios agentes do Serviço, que pareciam ter enlouquecido, e que loucamente se moviam, aos empurrões. Depois, os agentes situados em meio à multidão que estava próxima ficaram contagiados e, sucessivamente, os agentes mais distantes. O ruído aumentou, tornando-se uma trovoada.

      Edwards não teve de ouvir as palavras que compunham o crescente rugido. Parecia que o rugido lhe trazia as notícias pelo seu próprio clamor, pela sua própria urgência. O Presidente Winkler tinha desaparecido! Um momento atrás, lá estava e, no momento seguinte, desaparecera em meio a um punhado de pó!

      Edwards conteve a respiração numa agonizante espera durante o que lhe pareceu um momento de eternidade, até o longo momento em que finalmente se entendeu o que sucedera e em que a multidão irrompeu num estampido doido, de sublevação.

      Foi quando uma ressonante voz soou por sobre o disforme alarido e, ao ouvi-la, o ruído foi arrefecendo, morreu e se tornou um silêncio. Era como se, afinal de contas, tudo não passasse de um programa em holovisão e alguém tivesse baixado o som a ponto de ser inaudível.

      Edwards pensou: Meu Deus, é o Presidente!

      Não havia como se enganar, quanto à voz. Winkler estava de pé, no palco guardado no qual deveria proferir sua alocução relativa ao Tricentenário e do qual ele saíra fazia apenas dez minutos para apertar mãos de alguns dentre a multidão.

      Como é que ele voltara para lá?...

      Edwards ouviu...

      - Amigos dos Estados Unidos, nada me aconteceu. O que acabaram de ver foi a quebra de um aparelho mecânico. Não era o Presidente de vocês, de forma que não vamos permitir que uma falha mecânica obscureça a celebração do dia mais feliz que o mundo já viu... Dêem-me sua atenção, amigos dos Estados Unidos...

      E seguiu-se a alocução do Tricentenário, a maior que Winkler já fizera, ou que Edwards ouvira. Edwards como que esqueceu suas funções de supervisão em sua ansiedade de ouvir.

      Winkler acertara! Compreendera a importância da Federação e estava se fazendo compreender.

      Bem lá no íntimo, contudo, outra parte dele estava lembrando os insistentes boatos de que os últimos progressos na robótica haviam resultado na fabricação de um robô êmulo do Presidente, um robô que poderia se desincumbir das funções puramente cerimoniais, que podia apertar as mãos do povo, que nunca estaria aborrecido ou exausto, nem poderia ser assassinado...

      Edwards, de certa maneira chocado, pensava que isto é o que deveria ter acontecido. Existia mesmo o tal robô semelhante ao Presidente e, num certo sentido... ele havia sido assassinado.

      13 de outubro de 2078.

      Edwards olhou para cima, quando se aproximou seu robô-guia. de cintura alta, a lhe dizer, melifluamente:

      - O Sr. Janek quer vê-lo agora.

      Edwards pôs-se de pé, sentindo-se alto, olhando o atarracado guia metálico de cima. Contudo, não se sentia jovem. Seu rosto tinha sulcos, amealhados nos últimos dois anos, mais ou menos, e ele estava ciente disto.

      Seguiu o guia até uma sala surpreendentemente pequena, onde, atrás de uma escrivaninha surpreendentemente pequena, sentava-se

      Francis Janek, um homem de aparência incongruentemente jovem, um tanto barrigudo.

      Janek sorriu e seu olhar era amistoso ao se erguer para o aperto de mãos.

      - Sr. Edwards.

      Edwards murmurou:

      - Estou feliz por ter a oportunidade, senhor...

      Nunca Edwards vira Janek antes, mas àquela altura ser secretário pessoal do Presidente era uma função tranqüila, das que davam margem a poucas notícias.

      Janek disse:

      - Sente-se, sente-se. Quer um bastão de soja?

      Edwards recusou, comum sorriso polido, e sentou-se. Janek estava claramente enfatizando sua juventude. Sua camisa enrugada estava aberta e os pêlos de seu peito tinham sido tingidos de um violeta nítido, ainda que abrandado.

      Janek falou:

      - Sei que, a esta altura, já faz algumas semanas que tem tentado entrar em contato comigo. Lamento a demora. Espero que entenda que meu tempo não me pertence inteiramente. De qualquer forma, cá estamos nós, agora... Por falar nisso: entrei em contacto com o Chefe do Serviço, e ele fez as melhores referências a seu respeito. Ele lamenta o seu pedido de demissão.

      Com o olhar abatido, Edwards disse:

      - Pareceu-me melhor levar avante minhas investigações, sem perigo de embaraçar o Serviço.

      Um sorriso cintilou no rosto de Janek.

      - Suas atividades, mesmo sendo discretas, contudo, já foram notadas. O Chefe explica que você tem estado a investigar o incidente do Tricentenário e devo admitir que foi isso que me persuadiu a vê-lo tão cedo quanto pude. Foi por isso que pediu a sua demissão? Está investigando um assunto encerrado.

      - Assunto encerrado como, Sr. Janek? O fato de o senhor chamar o que aconteceu de Incidente não altera o fato de que foi uma tentativa de assassinato.

      - Uma questão de semântica. Por que usar uma frase perturbadora?

      - Só porque pareceria representar uma verdade perturbadora. Com certeza o senhor diria que alguém tentou matar o Presidente.

      Janek estendeu as mãos.

      - Se foi isto que ocorreu, a trama malogrou. Um instrumento mecânico foi destruído. Nada mais. Na verdade, se considerarmos adequadamente o Incidente, ou como queira denominá-lo, fez um enorme bem à nação e ao mundo. Como todos sabemos, o Presidente foi abalado pelo Incidente e também a nação. O Presidente e todos nós percebemos o que poderia significar um retorno à violência do século passado e isto produziu uma grande reviravolta.

      - Não nego isso.

      - Lógico que não pode. Mesmo os inimigos do Presidente admitirão que os dois últimos anos viram grandes realizações. A Federação é hoje muitíssimo mais forte do que qualquer pessoa sonharia que ela fosse, no dia do Tricentenário. Poderíamos até dizer que se impediu uma desintegração da economia global.

      Cautelosamente, Edwards disse:

      - Sim, o Presidente mudou. É o que todos dizem.

      Janek retomou a palavra:

      - Sempre foi um grande homem. O Incidente fê-lo concentrar-se nos grandes temas com uma intensidade ainda maior, contudo.

      - Coisa que ele não fazia antes?

      - Talvez não com tanta intensidade... Na verdade, hoje, o Presidente e todos nós queremos esquecer o Incidente. Meu objetivo principal é, ao vê-lo, Sr. Edwards, deixar isto bem claro para o senhor. Não estamos no Século Vinte e não podemos encarcerá-lo por estar sendo inconveniente para nós, ou embaraçá-lo de alguma maneira, mas mesmo a Constituição Mundial não nos proíbe de tentar persuadi-lo. Está me entendendo?

      - Estou sim, mas não concordo com o senhor. Podemos esquecer o Incidente, se a pessoa responsável nunca foi detida?...

      - Talvez tudo esteja bem, senhor. Muito melhor do que poderia pensar uma pessoa... num... uma pessoa desequilibrada que não queira entender que o assunto não tem as proporções que se quer lhe dar, num cenário que, possivelmente, nos levaria de volta aos dias do Século Vinte.

      - Mas a narrativa oficial chega a afirmar que o robô explodiu espontaneamente, o que é impossível, o que foi um golpe injusto para a indústria de robôs.

      - Robô é um termo que eu não usaria, Sr. Edwards. Era um aparelho mecânico. Ninguém disse que os robôs são perigosos de per si, e certamente não o são os robôs metálicos rotineiros. A única referência aqui é aos instrumentos incomumente complexos, semelhantes ao homem, que parecem de carne e osso, e que poderíamos chamar de andróides. Na verdade, são tão complexos que talvez possam explodir por Isso mesmo; não sou um perito no assunto. A indústria de robôs se recobrará.

      Obstinadamente, Edwards disse:

      - Ninguém, no governo, parece se preocupar com o fato de que atingiremos ou não o âmago da questão.

      - Já expliquei que não houve conseqüências salvo as boas. Por que ficar revolvendo o lodo lá no fundo, quando a água, em cima, está limpa?

      - E o uso do desintegrador?

      Por um momento, a mão de Janek, que lentamente girava o recipiente com bastões de soja, sobre a mesa, se deteve. Depois, ela voltou ao movimento rítmico. Suavemente, falou:

      - Que é isso?

      Com ar decidido, Edwards disse:

      - Sr. Janek, penso que sabe do que estou falando. Como membro do Serviço...

      - Ao qual você, logicamente, não mais pertence.

      - Não obstante, como membro do Serviço, não pude deixar de ouvir coisas que, nem sempre, eram destinadas a meus ouvidos, suponho. Ouvi falar de uma nova arma, e vi algo acontecer no Tricentenário que exigiria uma. O objeto que todos pensavam que fosse o Presidente desapareceu em meio a uma nuvem de pó muito fino. Era como se cada átomo do objeto contido dentro dos limites da nuvem perdesse os vínculos com os outros átomos. O objeto se tornara uma nuvem de átomos individuais que, por certo, começaram a se recombinar, mas que se dispersaram com uma rapidez tal que não deram a impressão de serem mais do que uma cintilação momentânea de poeira.

      - Muito ficção científica isso...

      - É lógico que entendo a ciência que possa estar por trás disso, Sr. Janek, mas percebo que seria necessária muitíssima energia para se conseguir esta quebra de vínculos. Essa energia teria de ser retirada do ambiente. Aquelas pessoas que estavam próximas do aparelho mecânico que fazia as vezes do Presidente no momento, que pude localizar e que concordaram em falar, foram unânimes em relatar uma onda de frio que como que as banhou.

      Janek pôs o recipiente com bastões de soja de lado com um pequeno estalido do dispositivo contra celulite. Disse:

      - Apenas para argumentar, admitamos que exista algo como um desintegrador.

      - Não precisa argumentar: ele existe.

      - Não vou argumentar. Pessoalmente, não conheço o tal de desintegrador, mas, em minhas atribuições, não é provável que eu desconheça algo que tanta ressonância tenha em questões atinentes à segurança como armamento novo. Mas, se existir um desintegrador, e se for tão secreto assim, precisa ser um monopólio norte-americano, desconhecido do resto da Federação. Logo, deveria ser algo sobre o qual nem eu nem o senhor deveríamos estar falando. Poderia ser uma arma de guerra mais perigosa que as bombas nucleares, precisamente porque, se o que diz é verdade, não produz nada mais que desintegrar onde se dá o impacto, e frio nas vizinhanças do impacto: Nenhuma explosão, nenhum fogo, nenhuma radiação mortal. Sem estes desagradáveis efeitos secundários, não haveria repressão ao seu uso, se bem que esta arma, por tudo quanto sabemos, poderia ser construída num tamanho bastante para destruir o próprio planeta.

      - Concordo com tudo isto - disse Edwards.

      - Você vê então que, se não houver desintegrador, é tolice falar a respeito de um; e se houver um desintegrador, é criminoso falar dele.

      — Ainda não discuti isto, exceto com o senhor, agora, porque estou tentando persuadi-lo da seriedade da situação. Se foi usado um, por exemplo, o governo não deveria estar interessado em decidir como chegou a ser usado, caso outra unidade da Federação esteja de posse de um?

      Janek sacudiu a cabeça.

      - Penso que podemos nos apoiar no fato de que os órgãos do governo disso incumbidos é que terão de estudar o assunto. É melhor que você não se preocupe com a questão.

      Com uma impaciência que a custo conseguia controlar, Edwards disse:

      - Pode me garantir o senhor que os Estados Unidos são o único governo que tem esta arma à sua disposição?

      - Não posso lhe afirmar isto, visto que nada sei sobre essa arma, e não virei a saber. Nem deveria ter falado comigo sobre este assunto. Mesmo não existindo semelhante arma, o boato de sua existência poderá ser perigoso.

      - Mas, visto que lhe falei, e visto que o mal já está feito, deixe-me acabar de falar. Deixe-me ter a oportunidade de convencê-lo de que o senhor e ninguém mais, detém a chave de uma situação temível que talvez só eu esteja vendo.

      - Só você está vendo? Eu tenho a chave?

      - Parece-lhe loucura? Deixe-me explicar e depois julgue por si mesmo.

      - Vou conceder-lhe um pouco mais de tempo, mas mantenho o que afirmei. O senhor precisa abandonar isto, este seu hobby, esta investigação. Ela é terrivelmente perigosa.

      - Abandonar o assunto é que seria perigoso. Não está vendo que, se o desintegrador existe, e se os Estados Unidos têm o seu monopólio, segue-se que o número de pessoas que poderia ter acesso a ele deveria ser estritamente limitado? Como ex-integrante do Serviço, tenho algum conhecimento prático do assunto e afirmo-lhe que a única pessoa do mundo que poderia tentar surripiar de nossos arsenais ultra-secretos um desintegrador seria o próprio Presidente... Somente o Presidente dos Estados Unidos, Sr. Janek, poderia ter engendrado aquela tentativa de assassinato.

      Ambos ficaram a se olhar fixamente, por um momento, após o que Janek apertou um botão em sua mesa. Esclareceu:

      - Aumentei os cuidados. Agora, ninguém, de modo algum, pode nos ouvir. Está percebendo o perigo de sua afirmação, Sr. Edwards? Perigo para si mesmo? Não deve superestimar o valor da Constituição Global. Um governo tem o direito de tomar medidas razoáveis para proteger sua estabilidade.

      Edwards disse:

      - Estou me aproximando do senhor, Sr. Janek, como sendo alguém que, presumo, é um leal cidadão norte-americano. Venho à sua presença com a notícia de um crime terrível que afeta todos os norte-americanos e a Federação inteira. Um crime que produziu uma situação que talvez só o senhor possa corrigir. Por que me agride com ameaças?

      Janek disse:

      - É a segunda vez que você tenta dar a entender que sou um salvador em potencial do mundo. Não posso me ver neste papel. Espero que você entenda que não tenho poderes fora do comum.

      - O senhor é o secretário do Presidente.

      - O que não significa que tenho acesso especial a ele, ou que eu seja alguém com íntimo relacionamento com ele. Ocasiões há, Sr. Edwards, em que suspeito que os outros consideram que não sou mais do que um fracassado, e há até mesmo ocasiões em que corro o perigo de concordar com estas pessoas...

      - Seja lá como for, o senhor vê o Presidente com freqüência, informalmente, o senhor o vê...

      Impaciente, Janek o interrompeu:

      - Vejo-o o bastante para lhe garantir que o Presidente não ordenaria a destruição daquele sósia mecânico dele no dia do Tricentenário.

      - Quer dizer que, em sua opinião, isto é impossível?

      - Não estou afirmando isto. Eu diria que não. Afinal de contas, por que é que ele faria isto? Por que quereria o Presidente destruir um andróide semelhante a ele, que lhe foi de valiosa ajuda ao longo dos três primeiros anos de seu mandato como Presidente? E se, por qualquer razão, ele quisesse destruir o robô, com todos os diabos, por que desejaria fazê-lo de uma maneira tão escandalosamente pública, nada mais, nada menos, no Tricentenário, fazendo, destarte, propaganda de sua existência, arriscando-se a uma reação pública, se o povo soubesse que estava apertando as mãos de um robô, sem falar nas repercussões diplomáticas do fato de representantes diplomáticos de outras partes da Federação estarem a tratar com um robô?... Em vez disso, ele poderia simplesmente ter ordenado, em caráter privado, que o robô fosse desmontado. Isto só seria do conhecimento de uns poucos elementos da alta hierarquia da Administração.

      - De qualquer forma, não houve conseqüências indesejáveis para o Presidente, como resultado do Incidente, não é?

      - Ele teve de encurtar a cerimônia. E já não é mais tão acessível como era antes.

      - Como o robô era.

      - Seja - admitiu Janek, pouco à vontade. - Sim, acredito que é isso mesmo.

      Edwards disse:

      - E, na verdade, o Presidente foi reeleito e sua popularidade não diminuiu, mesmo tendo a destruição sido pública. Argumentar com a destruição pública não é tão convincente como o senhor está querendo fazer parecer.

      - Mas a reeleição veio a despeito do Incidente. Ela se deveu à rápida ação do Presidente, dando um passo avante e pronunciando aquilo que você tem de admitir como tendo sido uma das grandes falas da história norte-americana. Foi uma performance muito admirável: você tem de admitir isso.

      - Foi um drama muito bem representado. Poder-se-ia até dizer que o Presidente estava contando com aquilo...

      Janek inclinou para trás o encosto de sua poltrona.

      - Se bem o entendo, Edwards, você está insinuando um argumento muito complicado de novela. Está querendo dizer que o Presidente fez destruir o sósia do jeito que ele foi destruído, em meio a uma multidão, justo no dia da celebração do Tricentenário, com o mundo observando, de forma a conseguir a admiração popular por seu espírito resoluto? Está insinuando que ele urdiu toda esta trama para criar uma reputação de homem de um inesperado vigor, de uma inesperada força, debaixo de circunstâncias extremamente dramáticas, de forma a transformar uma campanha que o levaria à derrota numa campanha vitoriosa?... Parece que o senhor andou lendo contos de fadas, Sr. Edwards.

      Edwards disse:

      - Se eu estivesse querendo afirmar tudo isto, seria realmente um conto de fadas, mas não estou querendo. Nunca insinuei que o Presidente ordenou a "morte" do robô. Apenas lhe pedi que pensasse se isto seria possível e o senhor afirmou com muita energia até que não seria. Estou contente pelo fato de o senhor assim ter procedido, pois concordo com o senhor.

      - Então, por que tudo isto? Estou começando a desconfiar que o senhor está me fazendo desperdiçar tempo.

      - Um momento mais, por favor. Nunca lhe ocorreu perguntar por que a coisa não poderia ter sido feita com um feixe laser, com um desativador de campo, com uma marreta, pelo amor de Deus? Por que alguém se daria ao trabalho de se meter numa incrível complicação, arranjando uma arma guardada pela mais forte segurança que um governo poderia ter, para executar uma tarefa que não exigiria uma arma deste porte? Pondo de lado a dificuldade de obter a arma, por que arriscar-se a revelar a existência de um desintegrador ao resto do mundo?

      - Toda esta história de desintegrador é apenas uma teoria sua.

      - O robô desapareceu totalmente, diante de meus olhos. Eu estava observando. Portanto, não estou me apoiando em depoimentos alheios. Não importa o nome que o senhor empresta à arma; seja qual for o nome, teve o efeito de desmontar o robô átomo por átomo, espalhando todos esses átomos de maneira irrecuperável. Por que fazer isto? Foi um tremendo massacre.

      - Não sei o que se passava na mente de quem fez isto.

      - Não? Ainda assim, a mim me parece que só há uma razão lógica para o robô ser reduzido a pó, quando algo muito mais simples poderia ter levado à destruição. A redução a pó não deixou vestígio algum do objeto, do robô. Nada deixou para indicar o que fora aquilo que foi destruído, se era um robô ou outra coisa qualquer.

      Janek disse:

      - Mas não há dúvida alguma quanto a que é que foi destruído.

      - Será que não?... Afirmei que só o Presidente poderia conseguir um desintegrador e fazer com que fosse usado. Mas, considerando a existência de um robô em tudo e por tudo semelhante a ele, qual foi o Presidente que engendrou a coisa?...

      Asperamente, Janek disse:

      - Acho que nossa conversa não pode prosseguir. Você está louco.

      Edwards disse:

      - Penso que terminei. Pelo amor de Deus, pense bem. O Presidente não destruiu o robô. Seus argumentos, quanto a isto, são convincentes. O que aconteceu foi que o robô destruiu o Presidente. O Presidente Winkler foi morto em meio à multidão, no dia 4 de julho de 2076. Então, um robô, com toda a aparência de ser o Presidente, pronunciou a alocução, concorreu à reeleição, foi reeleito, e ainda é o Presidente dos Estados Unidos!

      - Loucura!

      - Vim à sua presença, porque o senhor é que pode provar isto e corrigir isto, também.

      - Não é tão simples assim. O Presidente é... o Presidente. - Janek fez o gesto de quem ia se erguer e dar por encerrada a entrevista.

      Com rapidez e urgência, Edwards falou:

      - O senhor próprio disse que ele mudou. A alocução do Tricentenário estava além da capacidade do velho Winkler. O senhor mesmo não ficou surpreendido com as realizações dos últimos dois anos? Para dizer a verdade, o Winkler do primeiro mandato poderia ter feito tudo isto?...

      - Sim, poderia, visto que o Presidente do segundo mandato é o Presidente do primeiro mandato.

      - Nega que ele tenha mudado? Desafio o senhor. Decida o senhor e submeter-me-ei à sua decisão.

      - Ele se pôs à altura do desafio: isto é que é. Já aconteceu isto antes, na história dos Estados Unidos. - Mesmo tendo afirmado isto, ao se sentar de novo, Janek parecia muitíssimo pouco à vontade.

      - Ele não bebe - disse Edwards.

      - Nunca bebeu... muito.

      - Faz tempo que não tem relações com mulheres. Nega que no passado ele as procurava?

      - Um Presidente é um homem. Entretanto, nos últimos dois anos, dedicou-se aos assuntos da Federação.

      - Admito que isto seja uma mudança para melhor - concordou Edwards - mas é uma mudança. Lógico que se ele tivesse uma mulher, a encenação não poderia prosseguir, não é mesmo?

      - É ruim que ele não tenha uma esposa - comentou Janek, pronunciando a arcaica palavra "esposa" com uma certa ênfase. - Tivesse ele esposa, o problema todo não se manifestaria.

      - O fato de não ter tornou a conspiração toda mais prática. De qualquer forma, teve dois filhos. Não acredito que nenhum dos dois tenha estado na Casa Branca, desde o Tricentenário.

      - E por que teriam de ter ido até lá? Já são crescidos, vivem as suas próprias vidas.

      - Mas têm sido convidados? O Presidente tem manifestado interesse em vê-los? Como secretário particular dele, o senhor saberia. Foram convidados?

      Janek disse:

      - Está perdendo tempo. Um robô não pode matar um ser humano. Sabe muito bem que esta é a Primeira Lei da Robótica.

      - Sei disso. Mas ninguém está dizendo que o robô-Winkler matou o Winkler-humano diretamente. Quando o Winkler-humano estava no meio da multidão, o robô-Winkler estava no palanque e duvido que um desintegrador pudesse ser apontado daquela distância sem causar danos mais acentuados. Talvez pudesse, mas é mais provável que o robô-Winkler tivesse um cúmplice, um "comparsa", se o jargão do Século Vinte estiver certo.

      Janek ficou carrancudo. Seu rosto franco se contraiu e parecia sofrer. Ele disse:

      - Sabe, acho que a loucura é contagiosa. Na verdade, estou começando a pensar melhor nesta maluquice que veio me contar. Ainda bem que não é válida. Afinal de contas, por que o assassinato do Winkler-humano teria de ocorrer em público? Todos os argumentos contra a destruição do robô em público valem contra o assassinato do Presidente em público também. Não vê que isto põe por água abaixo toda a sua teoria?

      - Não põe não... - principiou Edwards.

      - Põe sim. Salvo uns poucos altos funcionários, ninguém mais sabia do robô sósia. Se o Presidente Winkler fosse assassinado não em público, e se se eliminasse seu corpo, o robô facilmente poderia assumir o lugar dele, sem suspeitas. Por exemplo: sem levantar as suas suspeitas, Edwards.

      - Sempre haveria uns poucos funcionários que saberiam, Sr. Janek. O assassinato acabaria se espalhando. - Edwards inclinou-se para a frente, com decisão. - Veja aqui: normalmente, não poderia haver o menor perigo de confundir o ser humano com a máquina. Imagino que o robô não era usado constantemente, sendo posto em funcionamento apenas para finalidades específicas, e sempre haveria uns indivíduos-chave, talvez muitos até, que saberiam onde estava o Presidente e o que ele estava fazendo. Se assim fosse, o assassinato teria de ocorrer quando estes importantes funcionários, na verdade, acreditassem que o Presidente era mesmo o robô.

      - Não concordo.

      - Escute aqui: uma das tarefas do robô era apertar as mãos do povo; apertar a carne deles. Quando isto estivesse ocorrendo, os oficiais sabedores da verdade estariam perfeitamente cônscios de que, na verdade, quem apertava as mãos era o robô.

      - Exatamente. Agora sim, você está dizendo coisa com coisa. Era o robô.

      - Exceto que era o Tricentenário, e que o Presidente Winkler não poderia resistir à vontade de apertar as mãos do povo. Suponho que seja mais do que humano esperar que um Presidente, particularmente um cativador de massas vazias, um amante de aplausos como Winkler, não quisesse abrir mão da adulação da multidão no dia mais importante de todos, deixando esta atribuição para uma máquina. E talvez o robô tenha cuidadosamente alimentado este impulso de tal forma que, no dia do Tricentenário, o Presidente teria ordenado ao robô que permanecesse atrás do pódio, enquanto ele próprio se dispunha a apertar as mãos e a ser aplaudido.

      - Secretamente?

      - Lógico que secretamente. Se o Presidente dissesse a alguém do Serviço, ou a algum de seus auxiliares, ou ao senhor, permitir-lhe-iam que o fizesse, que fosse até o povo?... A atitude oficial com relação à possibilidade de um assassinato praticamente virou uma doença desde os eventos do Século Vinte. Assim, encorajado por um robô obviamente esperto...

      - Você presume que o robô seja esperto pelo fato de agora estar funcionando como Presidente. É um raciocínio circular. Se não é ele o Presidente, não há razão para pensar que seja esperto, ou que fosse capaz de imaginar toda esta conspiração. Além disso, que outro motivo, possivelmente, poderia levar um robô a conspirar em prol de um assassinato? Mesmo que ele não matasse o Presidente diretamente, a Primeira Lei também proíbe que se tire, indiretamente, a vida de alguém, já que a Primeira Lei diz: "Um robô não deve fazer mal a um ser humano ou, por inação, permitir que um ser humano sofra qualquer mal".

      Edwards disse:

      - A Primeira Lei não é absoluta. Que dizer se o fato de fazer mal a um ser humano salvasse a vida de dois outros, ou de três, ou mesmo, de três bilhões?... O robô pode ter pensado que a salvação da Federação tem precedência sobre a salvação de uma vida. Além disso, de forma alguma era um robô comum. Foi construído para duplicar as qualidades de Presidente de forma tão íntima, a ponto de poder enganar a qualquer um. Suponhamos que ele tivesse a compreensão do Presidente Winkler, sem a sua fraqueza, e suponhamos que ele soubesse que poderia salvar a Federação onde o Presidente não podia salvá-la...

      - Você pode raciocinar assim, mas como é que um aparelho mecânico poderia?

      - É a única maneira de explicar o que sucedeu.

      - Penso que é uma fantasia paranóica.

      Edwards contestou:

      - Então me diga por que o objeto que foi destruído foi reduzido a átomos. Que outra explicação teria sentido, salvo a de que era a única maneira de ocultar o fato de que fora um ser humano, e não um robô, que fora destruído? Dê-me uma alternativa.

      Janek enrubesceu:

      - Não quero admitir isso.

      - Mas tudo que afirmei pode ser provado, ou então negue. É por isso que vim à sua presença, à sua presença.

      - E como é que poderei provar tudo isso? Ou, mesmo, desprovar?

      - Ninguém vê o Presidente em momentos em que ele está totalmente à vontade, como você o vê. É com você, na falta de uma família, que ele é mais informal. Estude-o.

      - Já fiz isso. Afirmo-lhe que ele não é...

      - Estudou nada. O senhor não suspeitou de nada errado. Pequenos indícios nada significam para o senhor. Estude-o agora, ciente de que ele pode ser um robô, e verá.

      Ironicamente, Janek disse:

      - Posso pô-lo a nocaute e, com um detector ultra-sônico, provar que ele é de metal. Mesmo um andróide tem cérebro de platina-irídio.

      - Não será necessário nenhuma ação drástica. Apenas o observe e verá que ele é tão radicalmente diferente do homem que ele era, que não pode ser um homem.

      Janek olhou para o relôgio-calendário na parede. Disse:

      - Faz mais de uma hora que estamos conversando.

      - Lamento ter tomado tanto de seu tempo, mas espero que tenha entendido a importância de tudo isto.

      - Importância? - disse Janek. Levantou-se, então, e o que tinha parecido um ar de desânimo subitamente se transformou em qualquer coisa de esperançoso. - Mas é, na verdade, importante? É mesmo?

      - Como pode não ser importante? Um robô ser Presidente dos Estados Unidos não é importante?

      - Não, não é isso que quero dizer. Esqueça quem pode estar desempenhando o papel do Presidente Winkler. Pense apenas nisto: alguém, à testa da Presidência dos Estados Unidos, salvou a Federação; manteve-a unida e, no presente momento, dirige o Conselho de acordo com os interesses da paz e da conciliação construtiva. Admite tudo isto?

      Edwards disse:

      - Lógico que admito tudo isso. Mas, o que dizer do precedente que se estabeleceu? Um robô na Casa Branca, agora, por uma razão muito boa, pode levar a um robô na Casa Branca daqui a vinte anos por uma razão muito mim e, depois, poderá nos conduzir a termos robôs na Casa Branca sem motivo algum, mas apenas como questão de fato. Não vê a importância de abafar um possível toque de trombeta para o fim da humanidade, quando a trombe-ta soar sua primeira nota incerta?

      Janek sacudiu os ombros.

      - Admitamos que eu constate que ele é um robô. Vamos irradiar isto para o mundo todo? Sabe como é que isto afetará a Federação? Sabe o que isto representará para a estrutura financeira do mundo? Sabe...

      - Sei sim. É por isto que vim aqui falar-lhe em particular, em vez de tentar dar isto ao conhecimento público. Depende do senhor examinar o assunto e chegar a uma conclusão definitiva. Em seguida, cabe também ao senhor, tendo constatado que o suposto Presidente é um robô, coisa que estou certo de que acontecerá, convencê-lo a renunciar.

      - E, pela versão que você deu da Primeira Lei, ele então me matará, eis que estarei ameaçando sua hábil condução da maior crise global do Século Vinte e Um.

      Edwards sacudiu a cabeça.

      - O robô agiu secretamente antes, e ninguém tentou se opor aos argumentos que ele usou consigo mesmo. O senhor é capaz de reforçar uma interpretação estrita da Primeira Lei, com seus argumentos. Se necessário, poderemos obter ajuda de algum funcionário da U. S. Robots and Mechanical Men Inc. que, antes de mais nada, construiu o robô. Uma vez que ele renuncie, o Vice-Presidente o sucederá. Se o robô-Winkler pôs o velho mundo no caminho certo, muito bem; o Vice-Presidente poderá agora conservá-lo no caminho certo, ainda mais que o Vice-Presidente é uma decente e honrada mulher. Mas não podemos ter um robô a nos dar ordens, e nunca mais poderemos ter um.

      - E se o Presidente for um ser humano?

      - Deixo isso a seu critério. Saberá como proceder.

      Janek disse:

      - Não confio tanto assim em mim mesmo. E se eu não puder decidir? Se eu não puder me forçar a decidir? Se eu não ousar? Quais são seus planos?

      Edwards parecia cansado.

      - Não sei. Talvez eu tenha de ir até a U. S. Robots. Mas acho que não terei de chegar a tanto. Estou plenamente confiante de que agora que deixei o problema a seus cuidados ele será resolvido. O senhor deseja ser governado por um robô?

      Levantou-se e Janek deixou-o ir embora. Não apertaram as mãos.

      Profundamente chocado, lá ficou Janek, no crepúsculo que se manifestava.

      Um robô!

      O sujeito entrara, argumentara de maneira perfeitamente racional que o Presidente dos Estados Unidos era um robô.

      Poderia ter sido fácil contra-argumentar. Não obstante, Janek tentara pensar em todos os argumentos de que dispunha, e todos tinham se mostrado inúteis, e, por fim, o sujeito não se deixara abalar.

      Um robô como Presidente! Edwards estava certo disto, e continuaria convicto disto. E se Janek insistisse que o Presidente era humano, Edwards iria até a U. S. Robots. Não descansaria.

      Janek franziu a testa ao pensar nos vinte e oito meses que haviam decorrido desde o Tricentenário e como tudo tinha transcorrido tão bem, diante das possibilidades. E agora?

      Perdido em sombrios pensamentos, lá ficou.

      Tinha ainda o desintegrador, mas certamente não seria necessário usá-lo contra um ser humano, tanto mais que a natureza de seu corpo estava fora de quaisquer dúvidas. Um laser silencioso, a vibrar um golpe em algum lugar solitário, resolveria a questão.

      No primeiro caso, tinha sido difícil manobrar o Presidente; neste caso aqui, todavia, ele nem teria de saber.

 

      Powell e Donovan

      Primeira lei

      Mike Donovan ficou olhando para sua caneca vazia de cerveja, sentiu-se entediado, e decidiu que já tinha ouvido demais. E disse, em voz alta:

      - Se vamos conversar sobre robôs incomuns, certa feita conheci um que desobedeceu à Primeira Lei.

      E como isto era completamente impossível, todos pararam de falar e voltaram seus olhares para ele. Donovan lamentou sua língua-de-trapos de imediato, e mudou de assunto:

      - Ouvi uma boa piada ontem - ia dizendo, casualmente - sobre...

      MacFarlane interveio, da cadeira ao lado da de Donovan:

      - Quer dizer que conheceu um robô que machucou um humano? - Era do que tratava a desobediência à Primeira Lei, é claro.

      - De certa forma - respondeu Donovan. - Mas ouvi uma piada a respeito...

      - Conte-nos dele - ordenou MacFarlane. Alguns dos outros começaram a bater suas canecas sobre a mesa. Donovan tentou contar da melhor maneira possível.

      - Aconteceu em Titã, cerca de dez anos atrás - disse, pensando depressa. - Sim, foi em vinte e cinco. Tínhamos recebido recentemente um carregamento de três robôs de modelo novo, especialmente projetados para Titã. Eram os primeiros modelos MA. Nós os chamamos Ema Um, Dois e Três. - Estalou os dedos pedindo uma outra cerveja e ficou olhando, sério, o garçon se afastar. - Vejamos, o que vinha depois?

      E MacFarlane continuou:

      - Estive lidando com robótica toda a minha vida, Mike. Nunca ouvi falar de uma série MA.

      - Isso por que tiraram os MA's das linhas de montagem imediatamente depois... depois do que vou lhes contar. Não se lembram?

      — Não.

      Donovan retomou, apressadamente:

      - Pusemos os robôs para trabalhar de imediato. Vejam, até então a base tinha estado totalmente inútil durante a estação das tempestades, que dura oitenta por cento da revolução de Titã em torno de Saturno. Durante as nevascas terríveis, você não poderia achar a Base se ela estivesse sequer a cem jardas de distância. As bússolas não adiantam nada, porque Titã não tem campo magnético.

      Os robôs MA, entretanto, eram equipados com vibrodetetores de desenho novo, de modo que podiam determinar a direção da Base através de qualquer obstáculo, o que significava que a mineração poderia se estender durante todo o período de revolução. E antes que você diga alguma coisa, Mac, os vibrodetetores também foram tirados do mercado, e é por isso que nunca ouviu falar deles. - Donovan tossiu. - Segredo militar, você compreende? - E prosseguiu: - Os robôs trabalharam bem durante a primeira estação das tempestades, e então, começando a estação calma, Ema Dois começou a fazer coisas. Ficava andando pelos cantos e sob os engradados, e precisava ser atraída para fora. Por fim, saiu da Base e não voltou. Concluímos que tinha um defeito de fabricação, e continuamos o trabalho com as outras duas máquinas. Mesmo assim, significava que nos faltava mão-de-obra, ou robô-de-obra, e ao fim da estação calma, alguém precisaria ir a Kornsk, e eu fui voluntário, para arriscar a ir sem um robô. Parecia seguro o suficiente, as tempestades só seriam de esperar em mais dois dias, e eu estaria de volta depois de vinte horas no exterior.

      “No dia da volta, a umas dez milhas da Base, o vento começou a soprar e a atmosfera ficou mais densa. Pousei meu carro imediatamente antes que o vento o esmagasse, apontei para a Base e comecei a correr. Podia percorrer bem aquela distância sob a baixa gravidade, mas será que podia correr em linha reta? Essa era a questão. Meu suprimento de ar era grande e as resistências de meu traje eram satisfatórias, mas dez milhas através de uma tempestade titãnica é uma infinidade.”

      “Quando a torrente de neve transformou tudo num crepúsculo escuro e viscoso, até com Saturno obscurecido, e o Sol apenas como uma pintinha pálida, parei e inclinei-me contra o vento. Havia um pequeno objeto escuro bem à minha frente. Mal conseguia discerni-lo, mas sabia o que era. Era um cachorrinho da tempestade, a única coisa viva que podia suportar uma tempestade titãnica, e a mais maligna coisa viva em qualquer lugar. Eu sabia que meu traje espacial não poderia me proteger, uma vez que se dirigisse contra mim, e com aquela má iluminação, eu precisava esperar até poder disparar à queima-roupa, ou era melhor não atirar. Um tiro perdido e o animal me alcançaria.”

      “Recuei lentamente, e o vulto acompanhou-me. Aproximava-se, e eu estava erguendo meu explosor, com uma oração, quando um vulto maior ergueu-se sobre mim de repente, e eu até cantarolei de alívio. Era Ema Dois, o robô MA perdido. Nunca parei para imaginar o que tinha acontecido ou me preocupar com o porquê. Só pude dizer: "Ema, querida, pegue aquele cachorrinho e leve-me de volta para a Base".

      “Ela olhou-me, como se nada tivesse ouvido, e pediu: "Senhor, não atire. Não atire".”

      “E saiu correndo rumo ao cachorrinho da tempestade.”

      "Pegue o maldito cachorrinho, Ema!", gritei. Ela pegou o cachorrinho, mesmo. Apanhou-o e continuou andando. Gritei até ficar rouco, mas ela nunca voltou. Deixou-me para morrer na tempestade.”

      Donovan fez uma pausa dramática.

      - É claro, vocês conhecem a Primeira Lei: um robô não pode causar dano a um humano, ou por inação, permitir que um humano sofra dano! Bem, Ema Dois acabara de sair correndo com aquele cachorrinho da tempestade e deixou-me a morrer. Violou a Primeira Lei.

      “Felizmente, saí daquela ileso. Meia hora depois, a tempestade amainou. Fora só uma lufada prematura, e só temporária. Isso acontece, às vezes. Disparei para a Base e a tempestade começou realmente no dia seguinte. Ema Dois retomou duas horas depois de mim, e, é claro, o mistério foi então explicado e os modelos MA foram retirados do mercado imediatamente.

      - E exatamente o quê - quis saber MacFarlane - foi a explicação?

      Donovan olhou para ele, sério:

      - É verdade que eu era um humano em perigo de morte, Mac, mas para aquele robô havia algo que vinha primeiro, mesmo antes de mim, antes da Primeira Lei. Não se esqueça que eles eram de uma série MA especial, e este robô MA em particular estivera procurando esconderijos por algum tempo antes de desaparecer. Era como se esperasse algo especial - e particular - para acontecer. Aparentemente, algo de especial acontecera.

      Os olhos de Donovan voltaram-se para cima, reverentemente, e sua voz estremeceu.

      - Aquele cachorrinho não era cachorrinho nenhum. Nós o chamamos Ema Júnior, quando Ema Dois o trouxe. Ema Dois precisava protegê-lo de minha arma. O que é a Primeira Lei comparada aos laços sagrados do amor maternal?

BRINCADEIRA DE PEGAR

      Um dos ditados favoritos de Gregory Powell era: “Nada se ganha com excitação”. Assim sendo, quando Mike Donovan desceu as escadas aos pulos, correndo para ele, com os cabelos vermelhos molhados de suor, Powell franziu a testa.

      – Que houve? – indagou. – Quebrou uma unha?

      – É – rosnou Donovan, irritado. – Que esteve fazendo nos níveis inferiores o dia inteiro? – Respirando fundamente, explodiu : – Speedy não voltou!

      Os olhos de Powell se arregalaram momentaneamente e ele parou nos degraus. Então, recobrou-se e continuou a subir. Não falou até chegarem ao patamar superior.

      – Mandou que ele fosse buscar o selênio?

      – Mandei.

      – Há quanto tempo ele saiu?

      – Faz cinco horas.

      Silêncio.

      Era uma situação dos diabos. Estavam em Mercúrio exatamente há doze horas – e já se encontravam metidos em dificuldades até o nariz. Em dificuldades da pior espécie. Mercúrio era, havia muito, o planeta azarado do Sistema Solar, mas agora a coisa parecia estar indo longe demais – mesmo para um azar.

      – Comece do princípio – disse Powell. – Vamos ver isso direito.

      Entraram na sala de rádio – com o seu equipamento subitamente obsoleto, que não fora tocado desde dez anos antes de eles chegarem. Tecnologicamente falando, mesmo dez anos eram um longo período de tempo. Bastava comparar Speedy com o tipo de robôs que haviam estado em Mercúrio dez anos antes. Por outro lado, atualmente os progressos no campo da robótica eram tremendos. Powell tocou cuidadosamente uma superfície metálica ainda brilhante. A aparência de desuso que pairava na sala – e na Estação inteira – era deprimente.

      Donovan deve ter sentido a mesma coisa. Começou:

      – Tentei localizá-lo pelo rádio, mas foi inútil. O rádio de nada serve no lado iluminado de Mercúrio; pelo menos, não além de três quilômetros. Esta foi uma das razões pelas quais a Primeira Expedição fracassou. E ainda levaremos semanas para instalar o equipamento de ultra-ondas...

      – Deixe isso de lado. O que conseguiu?

      – Localizei o sinal de um corpo não organizado na onda curta. De nada serviu, exceto para marcar sua posição. Consegui acompanhar seu deslocamento durante duas horas e marquei o itinerário no mapa.

      Tirou do bolso um pedaço quadrado de pergaminho amarelado – relíquia da fracassada Primeira Expedição – e colocou-o em cima da mesa com violência, alisando-o com a palma da mão. Powell, com os braços cruzados sobre o peito, observava a distância. O lápis de Donovan apontava nervosamente.

      – A cruz vermelha é o poço de selênio. Você mesmo o marcou.

      – Qual deles? – interrompeu Powell. – McDougall localizou três para nós, antes de partir.

      – Enviei Speedy ao mais próximo, naturalmente. Fica a vinte e oito quilômetros. Mas que diferença faz? – indagou Donovan, com voz tensa. – Os pontos feitos a lápis marcam a posição de Speedy.

      Pela primeira vez, a pose artificial de Powell foi abalada e seus dedos se lançaram em direção ao mapa.

      – Está falando sério? É impossível.

      – Aí está – grunhiu Donovan.

      Os pequenos pontos que marcavam a posição formavam aproximadamente um círculo em torno da cruz vermelha que assinalava o poço de selênio. Os dedos de Powell subiram para seu bigode castanho – sinal infalível de ansiedade. Donovan acrescentou:

      – Nas duas horas em que o acompanhei pela onda curta, ele circundou o maldito poço quatro vezes. Parece- me que continuará assim para sempre. Compreende a situação em que estamos?

      Powell ergueu ligeiramente os olhos, mantendo-se calado. Oh, sim, ele compreendia a situação em que estavam. Solucionava-se simplesmente através de um silogismo. As camadas de fotocélulas, que constituíam a única proteção entre eles e todo o poder do monstruoso sol de Mercúrio, estavam irremediavelmente avariadas. A única coisa que poderia salvá-los era o selênio. A única coisa que poderia ir buscar selênio era Speedy. Se Speedy não voltas- se, não haveria selênio.

      Se não houvesse selênio não ha veria camadas de fotocélulas. Sem camadas de fotocélulas... bem, a morte em forno brando é um dos piores meios de despedir-se da vida...

      Donovan esfregou raivosamente o cabelo ruivo e expressou-se com amargura: 

      – Seremos os palhaços do Sistema Solar, Greg. Como tudo pôde dar errado tão cedo? A grande dupla Powell e Donovan é enviada a Mercúrio para fazer um relatório sobre a viabilidade de reabrir a Estação Mineira do Lado Iluminado com novas técnicas e robôs modernos – e arruinamos tudo no primeiro dia. Além disso, uma tarefa pura- mente de rotina. Jamais suportaremos as zombarias.

      – Talvez nem seja necessário suportarmos – replicou Powell tranqüilamente. – Se não fizermos alguma coisa bem depressa, não precisaremos suportar coisa alguma – exceto a morte.

      – Não seja estúpido! Se está achando graça, fique sabendo que não estou. Foi um crime : mandar-nos aqui com um único robô. E a brilhante idéia de que poderíamos cuidar sozinhos das camadas de fotocélulas foi sua.

      – Ora, não seja injusto. Foi uma decisão mútua e você o sabe muito bem. Tudo o que precisávamos era um quilo de selênio, uma placa dielétrodo stillhead e três horas de trabalho e sabemos que há poços de selênio espalhados por todo o lado iluminado de

      Mercúrio. O espectro refletor de McDougall localizou três deles para nós em apenas cinco minutos, não é? Que diabo? Não podíamos esperar pela próxima conjunção.

      – Bem, que vamos fazer? Sei que você tem alguma idéia, Powell. Do contrário, não estaria tão calmo. Não é mais herói do que eu. Vamos, desembuche!

      – Não podemos ir procurar Speedy , não no lado iluminado. Mesmo os novos trajes isoladores não durariam mais que vinte minutos sob o calor direto do Sol. Mas você conhece o velho ditado: “Mande um robô para pegar outro robô”. Ouça, Mike, talvez as coisas não estejam tão mal quanto parecem. Temos seis robôs nos níveis inferiores; poderão servir-nos, se funcionarem. Se funcionarem!

      Um súbito brilho de esperança surgiu nos olhos de Mike Donovan.

      – Refere-se aos seis robôs da Primeira Estação? Tem certeza? Talvez sejam máquinas sub-robóticas. Você bem sabe que dez anos é um longo período no que se refere a máquinas do tipo robô.

      – Não. São realmente robôs. Passei o dia inteiro com eles e tenho a certeza. Possuem cérebros positrônicos, embora primitivos, naturalmente. - Colocando o mapa no bolso, acrescentou: – Vamos descer.

      Os seis robôs encontravam-se no nível mais inferior, rodeados por caixotes mofados, de conteúdo desconhecido. Eram grandes – extremamente grandes – e, embora estivessem sentados no chão, com as pernas esticadas para a frente, suas cabeças se encontravam a uma altura superior a dois metros. Donovan soltou um assobio.

      – Olhe só o tamanho deles! A circunferência do peito deve ter três metros!

 – É porque são equipados com as velhas engrenagens McDuffy. Examinei o interior deles – o aparelho mais frágil que já se viu.

 – Ligou-os?

      – Não. Não havia motivo. Mas não creio que haja algo de errado com eles. Até o diafragma se encontra em estado razoável. Talvez possam falar.

      Enquanto falava, desaparafusou a placa do peito do robô mais próximo e inseriu a esfera de duas polegadas de diâmetro que continha a minúscula centelha de energia atômica que dava vida aos robôs. Houve alguma dificuldade para instalá-la, mas Powell acabou conseguindo e tornou a colocar a placa do peito, trabalhando laboriosamente. Os controles de rádio dos modelos mais modernos eram desconhecidos dez anos antes. A seguir, passou a trabalhar nos outros cinco robôs. Donovan comentou, inquieto : 

      – Não se moveram.

      – Não receberam ordens para fazê-lo – replicou Powell, lacônico.

Voltando ao primeiro da fila, bateu-lhe no peito.

      – Rh, você! Está me ouvindo?

      A cabeça do monstro metálico moveu-se lentamente e seus olhos se fixaram em Powell. Então, em voz áspera e esganiçada – semelhante ao som de um fonógrafo primitivo – ele respondeu: 

– Sim, amo!

Powell sorriu para Donovan, um sorriso desprovido de humor.

 – Ouviu isso? Foi fabricado na época dos primeiros robôs falantes, quando tudo indicava que o uso de robô na Terra seria proibido. Os fabricantes, procurando lutar contra a medida, incutiam complexo de escravos nas mal- ditas máquinas.

 – Mas não adiantou – murmurou Donovan.

      – Não, mas, mesmo assim, eles tentaram. - Voltando-se mais uma vez para o robô, Powell ordenou: – Levante-se!

      O robô levantou-se vagarosamente e Donovan ergueu a cabeça, soltando outro assobio. Powell indagou: 

      – Pode ir à superfície e enfrentar a luz do Sol?

      Houve um intervalo, enquanto o cérebro vagaroso do robô funcionava. Então ele respondeu: 

– Sim, amo.

-Ótimo. Sabe o que é um quilômetro?

Outro intervalo e outra resposta vagarosa:

– Sim, amo.

      – Então, vamos levá-lo à superfície e indicar-lhe uma direção. Você andará vinte e oito quilômetros e, em algum lugar daquela região, encontrará outro robô, menor do que você. Está compreendendo?

      – Sim, amo.

      – Ao encontrar o tal robô, ordene-lhe que volte para cá. Se ele não quiser obedecer, traga-o à força. Donovan segurou Powell pela manga.

      – Por que não mandá-lo pegar logo o selênio?

      – Porque quero Speedy de volta, idiota. Quero saber o que houve de errado com

ele. - Virando-se para o robô: – Muito bem. Siga-me. O robô permaneceu imóvel e disse :

      – Perdão, amo, mas não posso. Primeiro, o senhor precisa montar.

      Baixara os braços e seus dedos desajeitados se entrelaçaram. Powell arregalou os olhos, levando a mão ao bigode.

      – Hum... oh!

Os olhos de Donovan quase saltaram das órbitas.

– Precisa montar nele? Como um cavalo?

      – Creio que essa é a idéia. Mas não sei por que motivo. Não compreendo... Oh, sim, já sei. Como lhe disse, naquela época os fabricantes punham ênfase na segurança de lidar com robô. Evidentemente, procuraram incutir essa noção de segurança fabricando robôs que não pudessem mover-se sem um homem montado às suas costas. Que fazemos, agora?

      – É o que estive pensando – murmurou Donovan.

      – Não podemos ir à superfície, com o robô ou sem ele. Oh, com os diabos... De repente, estalou os dedos, excitado.

      – Empreste-me o mapa. Não foi à toa que o estudei durante duas horas. Estamos numa Estação Mineira. Por que não usamos os túneis?

      No mapa, a Estação Mineira era representada por um círculo negro; linhas pontilhadas representavam os túneis que partiam dela, formando uma espécie de teia de aranha. Donovan estudou a explicação das legendas na base do mapa.

      – Olhe – disse ele. – Os pequenos pontos pretos são saídas para a superfície e há um situado a cerca de cinco quilômetros do poço de selênio. Há um número aqui... ora, por que não escreveram com letra maior?... 13-A. Se os robôs souberem andar por aqui...

      Powell fez a pergunta ao robô, que respondeu:

      – Sim, amo.

      – Vá buscar seu traje isolador – disse Powell a Donovan, com evidente satisfação.

      Era a primeira vez que qualquer um deles usava os trajes isoladores, coisa que jamais haviam esperado fazer quando chegaram a Mercúrio – e tentaram mover os membros, com uma sensação desconfortável.

      O traje isolador era muito mais volumoso e feio do que o traje espacial normal; no cômputo geral, porém, era consideravelmente mais leve, por ser de construção inteiramente não metálica. Composto de plástico resistente ao calor e camadas de fibra tratada quimicamente, além de ser equipado com um aparelho desidratante para manter o ar absolutamente seco, o traje isolador podia resistir à temperatura do Sol em Mercúrio durante vinte minutos.

      Talvez cinco ou dez minutos mais, sem chegar a matar o ocupante. As mãos do robô continuavam a formar um estribo e ele não demonstrou a menor surpresa diante da grotesca figura na qual Powell havia se convertido.

      A voz de Powell, tornada áspera pelo rádio do traje isolador, indagou : 

      – Está pronto para levar-nos até à Saída 13-A?

      – Sim, amo.

      Ótimo, pensou Powell; os robôs podiam não ter controle pelo rádio, mas, pelo menos, estavam equipados para rádio-recepção. 

      – Monte em qualquer um deles, Mike – disse ele a Donovan.

      Colocou o pé no estribo improvisado e alçou-se. Verificou que a posição era confortável; as costas do robô eram obviamente de conformação adequada, com um sulco raso de cada lado, para as coxas do ginete, e as orelhas alongadas tinham uma função evidente.

      Powell pegou as orelhas e torceu a cabeça do robô. Este se voltou pesadamente.

      – Vá na frente, McDuff.

      Mas não se sentia muito alegre. Os gigantescos robôs moviam-se vagarosamente, com precisão mecânica. Atravessaram a porta, cuja parte superior ficava a pouco mais de trinta centímetros de suas cabeças, de modo que os dois homens foram obrigados a abaixar-se apressadamente. Seguiram por um corredor estreito, onde seus passos vagarosos ecoavam monotonamente. Passaram pelo compartimento estanque.

      O túnel comprido e sem ar, que se estendia diante deles até tornar-se um mero ponto a distância, fez com que Powell ficasse deveras impressionado com a magnitude da obra realizada pela Primeira Expedição, contando apenas com robôs elementares e tendo de enfrentar todas as dificuldades que afrontam os pioneiros em sua primeira exploração. Podiam ter fracassado, mas seu fracasso era muito superior à média dos sucessos do Sistema Solar.

      Os robôs prosseguiram com uma velocidade que jamais variava e passos que nunca aumentavam. Powell comentou :

 – Repare que estes túneis possuem uma iluminação brilhante e que a temperatura é normal, igual à da Terra. Provavelmente, isto vem acontecendo durante todo o período de dez anos em que a mina permaneceu vazia.

 – Como é possível?

      – Energia barata; a mais barata do Sistema Solar: energia do Sol. E, como sabe, em Mercúrio a força do Sol é “uma coisa”. Por esse motivo, a Estação Mineira foi instalada no lado iluminado, ao invés de ser construída na face escura, ou à sombra de uma montanha. Na realidade, ela não passa de um gigantesco conversor de calor. O calor é transformado em eletricidade, luz, trabalho mecânico e tu- do o mais; de tal forma, a luz do sol fornece toda a energia e, num processo simultâneo, serve para refrigerar a Estação.

      – Escute – disse Donovan. – Tudo isto é muito instrutivo, mas importa-se em mudar de assunto? Acontece que essa conversão de energia da qual você fala é realizada principalmente pelas camadas de fotocélulas e, no mo- mento, o tema é um tanto delicado para mim.

      Powell soltou um grunhido. Quando Donovan quebrou o silêncio resultante de sua interpelação, foi para mudar completamente de assunto: 

      – Escute, Greg. Afinal, que diabo houve com Speedy? Não consigo entender.

      Não era fácil sacudir os ombros num traje isolador, mas Powell tentou, assim mesmo.

      – Não sei, Mike. Como você sabe, ele estava perfeitamente adaptado ao meio ambiente de Mercúrio. O calor não o afeta e ele foi construído para funcionar com a força de gravidade diminuta e no terreno acidentado. É à prova de defeitos ou, pelo menos, deveria ser.

      Fez novo silêncio. Desta feita, prolongado.

      – Amo – disse o robô, afinal. – Chegamos.

      – Hum? – murmurou Powell, arrancado de suas reflexões. – Bem, leve-nos para fora daqui, para a superfície. Entraram numa minúscula subestação, vazia, sem ar, em ruínas. Donovan utilizou o facho de sua lanterna portátil para inspecionar um buraco de bordos irregulares na parte superior de uma das paredes: 

– Acha que foi um meteorito? – indagou.

Powell sacudiu os ombros.

      – Não interessa. Ao diabo com isso. Vamos sair daqui. Um alto penhasco negro de rocha de basalto cortava a luz solar e eles se viram mergulhados na profunda sombra noturna do mundo sem ar que os rodeava. A sombra se estendia diante deles e terminava abruptamente, como se cortada a faca, dando lugar a um brilho quase insuportável de luz branca, que se refletia de uma miríade de cristais que recobriam o solo rochoso.

– Espaço! – exclamou Donovan, espantado. – Parece neve!

E parecia, mesmo.

O olhar de Powell percorreu o brilho de Mercúrio até o horizonte e ele franziu a

testa. O fulgor era esfuziante.

      – Deve tratar-se de uma área fora do comum – comentou. – O ablego geral de Mercúrio é baixo e a maior parte do solo é constituída de pedra-pomes cinzenta. Algo semelhante à Lua, sabe. Lindo, não é?

      Sentia-se grato pelos filtros de luz nos visores de seus trajes. Lindo ou não, olhar para a luz do Sol através de vidro comum provocaria a cegueira dentro de meio minuto. Donovan consultou o termômetro de pulso.

      – Com os diabos! A temperatura é oitenta graus centígrados!

Powell examinou seu próprio termômetro e comentou:

      – E... Um pouco alta. Atmosfera, como sabe.

      – Em Mercúrio? Ficou maluco?

      – Na realidade, Mercúrio não é inteiramente desprovido de ar – explicou Powell, distraídamente, enquanto ajeitava os encaixes do binóculo em seu visor, tarefa que era prejudicada pelas grossas luvas do traje isolador. – Existe uma tênue exalação que se mantém junto à superfície, vapores dos elementos mais voláteis e compostos suficientemente pesados para que a gravidade de Mercúrio os retenha : selênio, iodine, mercúrio, gálio, potássio, bismuto, óxidos voláteis. Os vapores se concentram nas regiões sombrias e condensam-se, emitindo calor. É uma espécie de destilaria gigantesca. Na verdade, se você usar a lanterna, provavelmente verificará que o lado do penhasco está coberto com mofo de enxofre, ou, digamos, orvalho de mercúrio.

      – Mas não interessa. Nossos trajes podem agüentar indefinidamente uns simples oitenta graus.

      Powell terminara de ajustar o binóculo e parecia ter os olhos salientes, como uma lesma. Donovan observou-o atentamente.

      – Vê alguma coisa?

      O outro não respondeu imediatamente. Quando o fez, foi em tom ansioso e pensativo.

      – Há um ponto escuro no horizonte que poderia ser o poço de selênio. Pelo menos, é no lugar certo. Mas não vejo Speedy. 

      Powell ergueu-se instintivamente, na ânsia de ver melhor, até que ficou em pé, com pouca firmeza, nos ombros do robô. Com os pés afastados, os olhos atentos, disse:

      – Acho... Acho... Sim, é mesmo ele. Está vindo para cá.

      Donovan olhou na direção apontada pelo dedo de Powell. Embora não estivesse de binóculo, percebeu um minúsculo ponto negro que se movia, em contraste com o branco fulgor do solo cristalino.

      – Já o vejo! – berrou Donovan. – Vamos!

      Powell retornara à posição anterior, nas costas do robô. Bateu no enorme peito metálico.

      – Vamos indo!

      – Upa! Upa! – berrou Donovan, cutucando com os calcanhares em seu robô, como se usasse esporas.

      Os robôs partiram; as batidas regulares de seus passos eram inaudíveis no ambiente sem ar, pois o tecido não metálico dos trajes isoladores não transmitia sons. Havia apenas uma vibração rítmica, aquém do limite da audição.

– Mais depressa! – berrou Donovan.

Mas o ritmo não se alterou.

      – Não adianta – replicou Powell. – Estas latas velhas só podem desenvolver uma velocidade. Acha que são equipados com flexores seletivos?

      Saíram da zona de sombra e a luz solar caiu sobre eles como um jato branco, líquido e fervente. Donovan encolheu-se involuntariamente.

      – Puxa! É imaginação, ou estou sentindo calor?

      – Ainda vai sentir mais – foi a sombria resposta. – Mantenha-se de olho em Speedy.

      O Robô SPD 13 já estava bastante perto para ser visto em detalhe. Seu corpo gracioso e aerodinâmico lançava reflexos brilhantes, enquanto ele galopava com rapidez e agilidade através do terreno acidentado. Obviamente, seu nome era derivado das iniciais de sua série de fabricação, mas era adequado, pois os modelos SPD achavam-se entre os mais velozes robôs produzidos pela U.S. Robôs I Homens Mecânicos.

      – Rh, Speedy! – gritou Donovan, acenando com a mão.

      – Speedy! – berrou Powell. – Venha cá!

      A distância entre os homens e o robô errante diminuía sensivelmente, mais pelos esforços de Speedy do que pelo vagaroso caminhar das obsoletas montadas de Donovan e Powell.

      Estavam bastante perto para perceber que o andar de Speedy apresentava um curioso cambalear de um lado para outro. Então, quando Powell acenou outra vez e colocou potência máxima em seu radioemissor compacto, preparando-se para gritar outra vez, Speedy ergueu a cabeça e avistou-os.

      O robô estacou e ficou imóvel por um momento, apenas balançando quase imperceptivelmente, como se impulsionado por leve vento. Powell gritou: 

– Muito bem, Speedy! Venha até aqui, rapaz!

A voz metálica de Speedy soou pela primeira vez nos fones de Powell.

      – Ora, bolas! Vamos brincar! Eu pego você e você me pega; amor nenhum pode cortar nossa faca em dois. Eu sou Bombonzinho, o doce Bombonzinho! Viva!

      Girando nos calcanhares, partiu velozmente na direção de onde viera, com uma fúria que levantava jatos de poeira. Suas últimas palavras, quando ele já ia longe, foram:

      – Havia uma florzinha perto de um grande carvalho...

      Foram seguidas por um curioso estalido metálico que poderia ser o equivalente robótico de um soluço. Donovan disse, desanimado :

  – Onde foi que ele aprendeu essas besteiras?... Êh, Greg... Será que ele está embriagado? – Se você não me dissesse, eu jamais teria imaginado – Foi a amarga resposta. –

      Vamos voltar para o penhasco. Estou assando. Foi Powell quem quebrou o desesperado silêncio.

      – Em primeiro lugar, Speedy não está embriagado – declarou. – Pelo menos, não no sentido humano do termo, pois ele é um robô e robôs não se embriagam. Todavia, há algo errado com ele, que eqüivale à embriaguez em um robô.

      – Para mim, ele está bêbado – declarou Donovan, com ênfase. – Só sei que ele pensa que estamos brincando. E não estamos. É uma questão de vida ou de uma morte horrível.

      – Está certo. Não me afobe. Um robô é apenas um robô. Quando descobrimos o que há de errado com ele, poderemos consertá-lo e prosseguir.

      – Quando – disse Donovan, em tom azedo.

Powell preferiu ignorá-lo.

      – Speedy é perfeitamente adaptado ao ambiente normal de Mercúrio. Mas esta região – e fez um amplo gesto com o braço – é nitidamente anormal. Eis aí nossa pista. De onde vêm esses cristais? Podem ter-se formado de algum líquido que se resfriou lentamente, mas onde haveria um líquido tão quente que poderia resfriar-se com o calor solar em Mercúrio?

      – Ação vulcânica – sugeriu imediatamente Donovan.

Powell contraiu os músculos.

      – Idéias de crianças... – murmurou de modo estranho, permanecendo completamente imóvel por cinco minutos. Afinal, disse: – Ouça, Mike: o que falou você a Speedy quando o mandou buscar selênio?

      Donovan ficou surpreso.

      – Com os diabos... Não sei. Mandei-o apenas buscá-lo.

      – Sim, eu sei. Mas como? Tente lembrar-se das palavras exatas.

      – Eu disse... bem... disse: “Speedy, precisamos de algum selênio. Pode conseguilo num lugar assim-assim. Vá buscá-la”. Isso foi tudo. O que mais queria você que eu dissesse?

      – Não colocou urgência na ordem, colocou?

      – Para quê? Era pura rotina.

      Powell suspirou.

      – Bem, agora não adianta... mas estamos numa bela encrenca. Desmontara do robô e estava sentado, com as costas apoiadas no penhasco. Donovan juntou-se a ele e passou o braço pelo seu. A distância, a fulgurante luz solar parecia esperá-los, como um gato espera pelo rato à saída do buraco. Ao lado deles, os dois gigantescos robôs estavam invisíveis, exceto pelo vermelho opaco de seus olhos fotoelétricos, que fitavam os dois homens sem piscar ou desviar-se, completamente despreocupados. Despreocupados! Tanto quanto o venenoso planeta Mercúrio, tão grande em azar quanto pequeno em tamanho.

      A voz tensa de Powell veio pelo rádio, soando aos ouvidos de Donovan : 

      – Bem, escute: vamos começar pelas três leis fundamentais das Regras da Robótica, as três regras que estão mais profundamente incutidas no cérebro positrônico de um robô. 

      No escuro, seus dedos enluvados enumeravam cada uma delas.

      – Ternos: Um: um robô não pode ferir um ser humano, ou, por omissão, permitir que um ser humano sofra algum mal.

      – Certo!

      – Dois: um robô deve obedecer às ordens que lhe sejam dadas por seres humanos, exceto nos casos em que tais ordens contrariem a Primeira Lei.

      – Certo!

      – E três : um robô deve proteger sua própria existência enquanto tal proteção não entrar em conflito com a Primeira ou Segunda Leis.

      – Certo! E daí? Onde chegamos?

      – Exatamente à explicação. O conflito entre as várias regras é solucionado pelos diferentes potenciais positrônicos existentes no cérebro do robô. Digamos que um robô está caminhando para o perigo e sabe disso. O potencial automático controlado pela Regra 3 fá-lo voltar. Mas suponhamos que você ordene que ele caminhe para o perigo? Neste caso, a Regra 2 coloca em funcionamento um potencial mais alto do que o anterior e o robô cumpre a ordem, com o risco de sua própria existência.

      – Sim, eu sei. E daí?

      – Consideremos o caso de Speedy. Speedy é um dos modelos mais modernos, altamente especializado e tão caro quanto um encouraçado. Não deve ser destruído levianamente.

      – E daí?

      – E daí, sua obediência à Regra 3 foi reforçada. Por falar nisso, o detalhe foi mencionado nos primeiros manuais a respeito dos modelos SPD, de modo que sua alergia ao perigo é desusadamente elevada. Ao mesmo tempo, quando você o mandou buscar selênio, deu-lhe a ordem com naturalidade, sem ênfase especial, de modo que a regulagem do potencial da Regra 2 foi um tanto fraca. Espere, calma; estou apenas citando fatos.

      – Está bem; prossiga. Creio que entendo.

      – Compreende como funciona, não é? Existe alguma espécie de perigo, cujo centro está localizado no poço de selênio. Aumenta quando Speedy se aproxima e, a deter- minada distância do poço, o potencial da Regra 3, que já é desusadamente elevado, equilibra exatamente o potencial da Regra 2, que é relativamente fraco.

      Donovan ergueu-se, excitado.

      – Ele fica em equilíbrio. Compreendo: a Regra 3 o impele de volta e a Regra 2 o empurra para diante...

      – Então, ele segue um círculo em volta do poço de selênio, permanecendo na rota desenhada por todos os pontos de equilíbrio potencial. E a menos que façamos alguma coisa, continuará naquele círculo para sempre fazendo-nos correr à roda. - Em seguida, mais pensativo, acrescentou: – Esse é o motivo que o torna embriagado. Em equilíbrio potencial, a metade dos circuitos positrônicos de seu cérebro está desregulada. Não sou especialista em robôs, mas o fato me parece óbvio. Speedy provavelmente perdeu o controle das partes de seu mecanismo voluntário correspondentes às de um ser humano embriagado. Muito bonito!

      – Mas qual é o perigo? Se soubéssemos do que ele está fugindo...

      – Você fez a sugestão: ação vulcânica! Em algum lugar bem próximo ao poço de selênio deve existir um vazamento de gás proveniente das entranhas de Mercúrio. Dióxido de enxofre, dióxido de carbono e, certamente, monóxido de carbono. Em grande quantidade e a esta temperatura...

Donovan engoliu em seco, audivelmente.

– Monóxido de carbono com ferro produz o volátil carbonil de ferro.

Powell acrescentou:

      – E um robô é constituído essencialmente de ferro. Então, em tom mais sombrio:

      - Não existe nada como uma dedução. Determinamos todos os dados do problema, exceto a solução. Não podemos ir buscar o selênio; continua longe demais. Não podemos enviar estes robôs-cavalos, porque não sabem ir sozinhos. Por outro lado, não conseguem andar com a rapidez suficiente para evitar que fritemos ao sol. E não podemos pegar Speedy porque o imbecil pensa que estamos brincando e é capaz de correr a cem quilômetros por hora, contra os sete de nossos robôs.

      Donovan sugeriu, indeciso : 

– Se um de nós for buscar o selênio e morrer frito, ainda restará o outro.

      – Sim – foi a resposta sarcástica. – Seria o mais terno dos sacrifícios, só que aquele que fosse não estaria em condições de dar ordens ao chegar ao poço de selênio e não acredito que estes robôs sejam capazes de retornar até aqui sem alguém que lhes dê as ordens necessárias. Solucione isso! Estamos a três e meio ou quatro quilômetros do poço de selênio. Três e meio, digamos. O robô caminha a sete quilômetros por hora. E podemos durar apenas vinte minutos em nossos trajes isoladores. Lembre-se de que não é apenas o calor. Aqui, a radiação solar na faixa ultravioleta e abaixo dela é veneno.

      – Hum – murmurou Donovan. – Ficam faltando dez minutos.

      – O que eqüivale a dizer: uma eternidade. E tem mais uma coisa: para que o potencial da Regra 3 tenha detido Speedy, deve haver uma apreciável quantidade de monóxido de carbono na atmosfera de vapores metálicos, causando, consequentemente, uma considerável ação corrosiva. Há horas em que Speedy está exposto. Como poderemos saber, por exemplo, se uma junta de joelho não vai quebrar e deixá-lo imprestável? Portanto, não é apenas uma questão de pensar: precisamos pensar depressa! 

      Um silêncio profundo, desanimado, úmido e escuro! Foi Donovan quem o quebrou, com a voz trêmula, embora procurasse dissimular a emoção:

      – Enquanto não conseguirmos aumentar o potencial da Regra 2, dando-lhe novas ordens, por que não podemos agir ao contrário? Se aumentarmos o perigo, reforçaremos o potencial da Regra 3, obrigando-o a voltar. O visor de Powell voltou-se para Donovan, numa indagação silenciosa.

      – Escute – veio a cautelosa explicação. – Tudo o que precisamos fazer para arrancar Speedy do impasse é aumentar a concentração de monóxido de carbono nas proximidades dele. Bem, na Estação existe um completo laboratório de análises.

      – Claro – assentiu Powell. – É uma Estação Mineira.

      – Muito bem. Deve haver quilos de ácido oxálico para as precipitações de cálcio.

      – Com os diabos! Mike, você é um gênio.

      – Nem tanto – replicou Donovan, modestamente. – Trata-se apenas de lembrar que o ácido oxálico, quando aquecido, decompõe-se em dióxido de carbono, água e o nosso almejado monóxido de carbono. É química colegial, como sabe.

      Powell ergueu-se e atraiu a atenção de um dos monstruosos robôs pelo simples expediente de dar-lhe uma palmada na coxa.

      – Rh! – gritou. – Sabe jogar?

      – Senhor?

      – Não importa – replicou Powell, maldizendo o lento processo mental do robô. Apanhou um pedaço de cristal do tamanho aproximado de um tijolo.

      – Pegue isto – ordenou. – Agora, jogue-o e acerte naquele trecho de cristais azulados logo depois daquela fissura irregular. Está vendo onde é? Donovan puxou-o pelo ombro.

      – É longe demais, Greg. Fica quase a oitocentos metros.

      – Cale-se – retrucou Powell. – É uma combinação da fraca gravidade de Mercúrio e de um braço de aço. Observe só. 

      Os olhos do robô mediam a distância com uma precisão maquinal estereoscópica. Seu braço ajustou-se ao peso do projétil e recuou. Na escuridão, os seus movimentos eram invisíveis, mas houve um súbito baque quando ele mudou de posição, usando o peso do corpo. Segundos após, o cristal surgiu na claridade. Não havendo resistência do ar para contê-lo ou desviá-lo de um lado para outro, seguiu uma trajetória perfeita e foi cair exatamente no centro da mancha azulada.

      Powell soltou um grito de prazer e berrou :

– Vamos buscar o ácido oxálico, Mike!

      Quando entraram na subestação arruinada, no caminho de volta para os túneis, Donovan comentou sombriamente:

 – Speedy manteve-se no lado de cá do poço de selênio, desde que fomos procurálo. Você notou?

 – Notei.

      – Creio que ele quer brincar conosco. Bem, vamos arranjar-lhe uma boa brincadeira!

      Voltaram horas depois, com jarros de três litros contendo a substância branca. Seus rostos denotavam desânimo e preocupação. As camadas de fotocélulas deterioravam-se com mais rapidez do que parecia provável. Em silêncio, com sombria deliberação, os dois guiaram os robôs até a claridade, encaminhando-se para o ponto onde Speedy os esperava.

      Speedy galopou mansamente em direção a eles.

      – Bem, estão de volta! Oba! Fiz uma pequena lista, para o organista; todos comem pimenta e lhe cospem na cara.

      – Vamos cuspir algo na sua cara – murmurou Donovan, acrescentando: – Ele está maneando, Greg.

      - Já percebi – foi a resposta, em tom baixo e preocupado. – O monóxido de carbono o destruirá, se não agirmos depressa. 

      Aproximavam-se cautelosamente, quase se arrastando, a fim de evitar que o robô, agora completamente irracional, tornasse a fugir. Powell ainda estava longe demais para ter certeza, mas era capaz de jurar que o alucinado Speedy estava preparando um salto.

      – Joguem – ordenou ele. – Contem até três, comigo! Um... dois...

      Dois braços de aço recuaram e se lançaram simultaneamente para diante. Dois jarros de vidro partiram em trajetórias paralelas, brilhando como diamantes na claridade inacreditável do Sol. Num par de pequenas explosões inaudíveis, atingiram o solo à retaguarda de Speedy, estourando e fazendo com que o ácido oxálico voasse como poeira.

      Powell sabia que o ácido, exposto ao tremendo calor de Mercúrio, deveria estar fervendo como soda dentro da água.

      Speedy virou-se para observar e depois recuou vagarosamente. Pouco a pouco, ganhou velocidade. Dentro de quinze segundos, corria em direção aos dois homens, com pulos inseguros.

      Powell não entendeu bem as palavras de Speedy, embora julgasse ter ouvido algo como: “Confissões de amor murmuradas em... “ Virou-se.

 – Vamos voltar ao penhasco, Mike. Ele já ficou livre do impasse e passará a obedecer-nos. Estou ficando quente.

 Ao passo monótono de suas montadas, voltaram em direção à sombra. Somente quando chegaram a ela e a súbita frieza começou a aliviá-los, Donovan olhou para trás.

      – Greg! Powell olhou e quase soltou um uivo. Speedy movia-se vagarosamente – muito devagar – na direção errada!

      Estava voltando ao dilema e, pouco a pouco, ganhava velocidade. Através dos binóculos, parecia terrivelmente perto e, não obstante, sinistramente inalcançável. Donovan gritou, desesperado: 

      – Atrás dele!

      “Esporeou” seu robô, mas Powell chamou-o de volta.

      – Não conseguirá alcançá-lo, Mike... Não adianta.

      Mexeu-se nervosamente nas costas do robô, cerrando os punhos em raivosa impotência.

      – Por que diabo só vejo as coisas cinco segundos depois de tudo terminar? Perdemos horas, Mike.

      – Precisamos mais ácido oxálico – declarou teimosamente Donovan. – A concentração não foi suficiente.