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O ADVERSÁRIO SECRETO / Agatha Christie
O ADVERSÁRIO SECRETO / Agatha Christie

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O ADVERSÁRIO SECRETO

 

Eram duas horas da tarde do dia 7 de Maio de 1915. Atingido por dois torpedos consecutivos, o Lusitânia afundava-se rapidamente, enquanto arriavam os escaleres, com a maior prestreza possível. Em fila, as mulheres e crianças aguardavam a sua vez. Algumas ainda se agarravam, em desespero, aos maridos e aos pais; outras estreitavam os filhos contra o peito. Uma jovem estava sozinha, um pouco afastada dos outros. Muito jovem, não teria mais de dezoito anos. Não aparentava temor e os seus olhos eram graves e resolutos.

 

Desculpe...

 

A jovem voltou-se, sobressaltada por ouvir uma voz masculina a seu lado. Vira aquele homem mais de uma vez entre os passageiros da primeira classe. Rodeava-o uma aura de mistério. Não falava com ninguém. Se alguém falava com ele, dava-se pressa em recusar o tácito convite para a conversa. E tinha também um modo nervoso de espreitar por cima do ombro, com um olhar rápido e desconfiado.

 

A jovem percebeu que ele agora se encontrava muito agitado. Pingos de suor brotavam-lhe da fronte. Estava, sem dúvida, tomado de pânico avassalador. No entanto, a jovem não o julgaria o tipo de homem capaz de temer o encontro com a morte.

 

Que   há? Os   olhos   graves   da   rapariga   fixaram, inquiridores, os do homem.

 

Ele ficou a contemplá-la, numa espécie de indecisão desesperada.

 

Tem de ser!murmurou de si para consigo. Sim... é a única forma. Alterou a voz e perguntou abruptamente: A senhora é americana?

 

Sou.

 

E é patriota? Ela corou.

 

Acho que não tem o direito de me perguntar uma coisa dessas! Claro que sou!

 

Não se zangue. Não’ o faria se soubesse como é sério o assunto que está em jogo. Mas sou forçado a confiar em alguém... e esse alguém tem de ser uma mulher.

 

Porquê ?

 

Porque «primeiro as mulheres e crianças». Relanceou um olhar em torno de si e baixou a voz: Trago comigo uns papéis, documentos de importância vital.   Podem ter um significado decisivo para os aliados, na guerra. Compreende? Estes papéis têm de ser salvos! Há maiores probabilidades com a senhora do que comigo. Quer levá-los?

 

A jovem estendeu a mão.

 

Espere...   Devo preveni-la.   Pode haver perigo,   caso me tenham seguido. Acho que não, mas nunca se pode ter a certeza. Se me seguiram, a missão será arriscada. Terá a necessária fibra para a levar a cabo?

 

A rapariga sorriu.

 

Não tenha dúvidas. Sinto-me verdadeiramente orgulhosa por ter sido eu a escolhida. Que devo fazer com os documentos ?

 

Fique atenta aos jornais. Publicarei um anúncio na coluna de avisos do Times sob o título «Companheiro de viagem». Se não sair no prazo de três dias... bem, então é sinal que fui posto fora de combate. Nesse caso, leve o pacote à embaixada americana e entregue-o ao embaixador. compreendido ?

 

Perfeitamente.

 

Então,   adeus.Apertou   na   sua   a   mão   da jovem. Adeus! Felicidades! disse em voz mais forte.

 

A mão da rapariga comprimiu o pacote de oleado que ele lhe confiara.

 

O Lusitânia afundava-se, inclinado para estibordo. Obedecendo a uma ordem breve a jovem avançou afim de ocupar o seu lugar no escaler.

 

A   EMPRESA JOVENS   AVENTUREIROS, LTDA

 

Tommy!

 

Tuppence!

 

Os dois jovens cumprimentaram-se com efusão e, por instantes, interromperam o trânsito à saída da estação de Dover Street.

 

Há   séculos   que   a   não   vejoprosseguiu   o   rapaz.

 

Aonde vai? Venha saborear um café. Estamos a atrapalhar a passagem. Vamos embora.

 

A jovem concordou. Principiaram a descer Dover Street, em direcção a Piccadilly.

 

Agora, vejamos disse Tommy. Aonde iremos?

 

A vaga ansiedade que transparecia na sua voz não escapou ao ouvido subtil de Miss Prudence Cowley, conhecida na intimidade, por alguma razão misteriosa, como «Tuppence». Percebeu logo:

 

Tommy, você está pronto!

 

Nada disso declarou Tommy, sem muita convicção.

 

Ando a nadar em dinheiro.

 

Você foi sempre um horrível mentiroso replicou Tuppence com severidade apesar de que, em certa ocasião, convenceu a Irmã Greenbank de que o médico lhe prescrevera cerveja como tónico. Não se recorda?

 

Tommy deu uma risadinha abafada.

 

Creio que sim. Excelente hospital... Sem dúvida, foi desmobilizado, como tudo mais?

 

Tuppence suspirou.

 

Sim. Você também?

Tommy inclinou a cabeça afirmativamente. Há dois meses.

 

E a gratificação?lembrou Tuppence. Já a gastei.

 

-Oh, Tommy!

 

Não, minha querida, não foi em dissipações libertinas! O custo da vida...

 

Ora, meu caro interrompeu Tuppence nada há que eu não saiba a respeito do custo da vida. Eis-nos aqui no Lyons e cada um pagará a sua parte. Está combinado! E Tuppence começou a subir as escadas.

 

A sala estava repleta e ambos vaguearam a esmo à procura de uma mesa, escutando fragmentos de conversas. («E, imagine, sentou-se e chorou quando eu disse que ela não conseguiria o apartamento de forma alguma.» «Verdadeira pechincha, minha filha! Igualzinho àquele que a Mabel Lewis trouxe de Paris...»).

 

Coisas engraçadas que a gente ouve sem querer! murmurou Tommy. Passei hoje na rua por dois sujeitos que palestravam a respeito de uma pessoa chamada Jane Finn. Você já ouviu falar nesse nome ?

 

Nesse momento, duas senhoras idosas levantavam-se e recolhiam os seus embrulhos, e Tuppence destramente ocupou uma das cadeiras vagas.

 

Tommy encomendou chá e brioches. Tuppence pediu chá e torradas com manteiga.

 

E não se esqueça de trazer o chá em bules separados acrescentou a rapariga energicamente.

 

Tommy sentou-se diante dela. com a cabeça descoberta, o rapaz punha à mostra os cabelos vermelhos e bastos, alisados para trás de uma forma esquisita. O rosto era de uma fealdade simpáticafeições bizarras mas que revelavam, sem possibilidade de equívoco, um gentleman e um desportista. Envergava um fato castanho bem talhado, mas ameaçando perigosamente ficar no fio.

 

Ali sentados, formavam ambos um par de aspecto moderno. Tuppence não alimentava pretensões à beleza, mas o seu pequenino rosto de garoto possuía individualidade e encanto, com um queixo largo e voluntarioso, olhos cinzentos e bem separados um do outro, sob as sobrancelhas negras e rectas. Usava um chapeuzinho de aba curta, verde e lustroso, sobre os negros cabelos; e uma saia bastante curta e um tanto sovada que deixava ver um par de tornozelos delicados como poucos. O seu aspecto denotava um valoroso esforço para se fazer elegante.

 

Veio o chá, por fim, e Tuppence, despertando de uma abstracção meditativa, deitou-o na chávena.

 

Agora disse Tommy, pegando num bom pedaço de brioche coloquemo-nos em dia um com o outro. Lembre-se de que eu não a vejo desde aquela ocasião no hospital, em 1916.

 

Muito bem. Tuppence serviu-se da torrada com manteiga.

Resumo biográfico de Miss Prudence Cowley, a quinta filha do arcediago Cowley, de Little Missendell, Suffolk. Miss Cowley abandonou os encantos (e a lufa-lufa) da vida doméstica no começo da guerra e veio para Londres, onde se empregou num hospital para oficiais. Primeiro mês: lavou seiscentos e quarenta e oito pratos por dia. Segundo mês: promovida para limpar os supraditos pratos. Terceiro mês: promovida para descascar batatas. Quarto mês: promovida para cortar o pão em fatias e barrá-las de manteiga. Quinto mês: promovida para o andar de cima com os deveres de criada da enfermaria, munida de esfregão e balde. Sexto mês: promovida para servir à mesa. Sétimo mês: a sua simpatia pessoal e correcção de maneiras tornam-se tão notórias que ganha a promoção para servir as Irmãs! Oitavo mês: ligeira marcha atrás na carreira. A irmã Bond comeu o ovo preparado para a irmã Westhaven! Vasto escarcéu! A culpabilidade da criada da enfermaria é evidente. Toda a repreensão é pouca num caso de negligência em assuntos de tamanha importância. Esfregão e balde outra vez! Como caem os fortes! Nono mês: promovida para varrer a enfermaria, onde encontra um amigo de infância na pessoa do tenente Thomas Beresford (incline-se, Tommy!), o qual não via há cinco longos anos. O encontro foi afectuoso! Décimo mês: repreendida pela superiora por ir ao cinema em companhia de um dos doentes, isto é, o supramencionado tenente Thomas Beresford. Undécimo e duodécimo meses: reintegração nos deveres de criada de sala, com êxito integral. No fim do ano deixa o hospital ,tocada de um resplendor de glória. A seguir, a inteligente Miss Cowley, sucessivamente, guiou um carro para entrega de mercadorias, um caminhão e um general. O último foi o mais agradável. Era um general muito novo!

 

Quem era esse ferido de guerra?indagou Tommy.

 

Esqueci-me do nome dele confessou Tuppence. Voltando ao assunto, esse período foi, de certo modo, o ápice da minha carreira. Depois, ingressei numa repartição do governo. Participámos de inúmeros chás sociais, sumamente agradáveis. Eu pretendia fechar o ciclo da minha carreira, tornando-me   condutora   de   autocarro mas   sobreveio   o Armistício! Grudei-me à repartição como um molusco, porém, acabei por ser dispensada. Desde então, procuro emprego. Aí tem. Agora é a sua vez.

 

Na minha história não há tantas promoções disse Tommy, com pesare muito menos variedade. Regressei à França, como você sabe. Mandaram-me depois à Mesopotamia, fui ferido pela segunda vez e hospitalizado lá mesmo. A seguir, estagiei no Egipto, até que ocorreu o Armistício; fiquei por lá mais algum tempo e, para concluir, como lhe disse, fui desmobilizado. E durante dez longos e fatigantes meses tenho andado à cata de emprego! Não há empregos de espécie alguma! E mesmo que houvesse não seriam para mim. Que valho eu? Que entendo eu de negócios? Nada.

 

Tuppence meneou a cabeça melancolicamente.

 

E com referência às colónias? Tommy sacudiu a cabeça.

 

Penso que não gostaria das colóniase tenho a absoluta certeza de que elas tampouco gostariam de mim.

 

E parentes ricos?

 

De novo, Tommy sacudiu a cabeça.

 

Oh, Tommy, nem mesmo uma tia-avó?

 

Tenho um tio que era mais ou menos rico, mas não serve.

 

Porquê?

 

Uma vez ele quis adoptar-me. Recusei. Acho que sei qualquer coisa a esse respeito explicou Tuppence devagar. Você recusou por causa de sua mãe... Tommy corou.

 

Sim, teria sido um desgosto para a mamã. Como sabe, eu era tudo o que ela possuía. O velhote odiava-a, queria separar-me dela. Apenas uma questão de despeito.

 

Sua mãe faleceu, não ? indagou Tuppence, suavemente Tommy fez que sim, com um gesto.

 

Os grandes olhos cinzentos de Tuppence pareciam nublados.

 

Você é um bom rapaz, Tommy. Nunca me enganei.

 

Ora!fez Tommy, com impaciência. Bem, esta é a minha situação. Sinto-me meio-doido.

 

E eu também. Já resisti o mais que pude. Bati a muitas portas. Respondi a anúncios. Tentei toda a sorte de expedientes.   Poupei, economizei,   comprimi.   De nada valeu.   Vou regressar à casa paterna.

 

E você quer voltar?

 

Está visto que não quero! Que adianta ser sentimental ? Meu pai é muito bom quero-lhe muito mas você não faz ideia de quanto sou incómoda para ele. com as suas ideias antiquadas entende que é uma imoralidade usar saia curta e fumar. Você pode imaginar que pedra no sapato eu represento para ele. Suspirou de alívio quando a guerra me trouxe para cá. Você compreende, somos sete em casa. É um inferno! Todo o serviço doméstico e as reuniões da mamã! Não, não quero voltar, mas... oh, Tommy, que outra coisa posso fazer?

 

Tommy meneou a cabeça, condoído. Seguiu-se uma pausa, e depois Tuppence explodiu:

 

Dinheiro, dinheiro, dinheiro!   Penso em dinheiro de manhã, de tarde e de noite! Chego a acreditar que é espírito mercenário da minha parte, mas a verdade é esta...

 

O mesmo ocorre comigo conveio Tommy, com pesar.

 

Parafusei em todas as maneiras imagináveis de conseguir dinheirocontinuou   Tuppence. Só   há   três:   herdando, casando ou ganhando. A primeira, exclui-se por si mesma. Não tenho parentes ricos e velhos. Se tenho algumas parentas, estão recolhidas a asilos para fidalgas arruinadas. Ajudo sempre as senhoras idosas a atravessar as ruas e apanho pacotes para os respeitáveis anciãos que os deixam cair, na esperança de que algum deles seja um milionário excêntrico. Mas ainda não aconteceu que algum perguntasse o meu nome e a maioria nem sequer disse «muito obrigado». Houve uma pausa.

 

É claro prosseguiu Tuppence que o casamento é a minha melhor oportunidade. Fiz planos de casar por dinheiro quando muito jovem.   O   mesmo   acontece com  qualquer garota que pense! Não sou sentimental, você sabe. Silêncio.

 

Fale, você não pode dizer que sou sentimental acrescentou vivamente.

 

É claro disse Tommy, impaciente. Ninguém seria capaz de, mentalmente, associar o sentimento à sua imagem.

 

Não é muita cortesia da sua parte replicou Tuppence.

 

Mas reconheço que falou com acerto. Bem, é isso! Estou pronta e decidida mas nunca encontrei um ricaço. Todos os rapazes que conheço são mais ou menos tão pobretões como eu!

 

E o tal general ? indagou Tommy.

 

Creio que é dono de uma casa de bicicletas em tempo de paz explicou Tuppence. Negativo, aí está! Você é que poderia casar com uma jovem de dinheiro.

 

Só confio em você. Não conheço nenhuma.

 

Não importa. Pode vir a conhecer. Eu, se vejo um homem de casaca sair do Ritz, não posso correr para ele e dizer: «Olhe, o senhor é rico. Eu gostaria de o conhecer.»

 

Sugere que eu proceda assim em relação a uma mulher enfiada num casaco de peles?

 

Não seja ingénuo. Você segue-lhe os passos, apanha o lenço dela ou qualquer coisa semelhante. Se ela percebe que você quer travar relações, ficará lisonjeada e tratará de facilitar as coisas.

 

Você superestima os meus encantos masculinos murmurou Tommy.

 

Por outro lado prosseguiu Tuppence o meu milionário, em tais circunstâncias, pôr-se-ia em fuga desabalada. Não, o casamento acarreta muitas dificuldades. Resta: ganhar dinheiro.

 

Foi o que   tentámos fazer, e fracassámos recordou Tommy.

 

Tentámos utilizando métodos ortodoxos, admito. Mas suponhamos a adopção de outros métodos. Tommy, tornemo-nos aventureiros!

 

Aceito replicou Tommy, alegremente. Como principiaremos ?

 

Aí é que está a dificuldade. Se pudéssemos conseguir alguma celebridade, não faltariam pessoas que nos contratassem para praticar crimes em lugar delas.

 

Óptimo!exclamou Tommy. Especialmente pelo facto de a ideia partir da filha de um sacerdote...

 

A culpabilidade moral seria dos clientes, não nossa. Você terá de convir que há diferença entre roubar um colar de diamantes para si mesmo e ser contratado para o roubar.

 

Não haveria a mínima diferença se você ao roubar fosse presa.

 

Talvez. Mas eu não seria presa. Sou muito esperta.

 

A modéstia sempre constituiu o seu maior pecado observou Tommy.

 

Não me recrimine. Olhe, Tommy, vamos trabalhar de verdade? Vamos formar uma sociedade comercial?

 

Fundar uma empresa para exploração de roubos de colares de diamantes?

 

Isso foi apenas um exemplo. Deixe ver... Que entende você de contabilidade?

 

Nada. Disso nunca entendi patavina.

 

Eu já pratiquei, um pouco... Mas fazia sempre os lançamentos do «haver» na coluna do «dever» e vice-versa... O resultado é que me puseram no olho da rua. Oh, esplêndido! Companheiros de façanhas! Soa ao meu ouvido como uma frase romântica a vibrar por entre bolorentos vultos da antiguidade. Companheiros de façanhas!

 

Entrar na praça sob a denominação de «Jovens Aventureiros, Lda.»? É essa a sua ideia, Tuppence?

 

É motivo bastante para risos, mas pressinto que a ideia pode conter algo de aproveitável.

 

Como pretende entrar em contacto com os prováveis clientes ?

 

Por meio de anúncios na Imprensa replicou Tuppence prontamente. Você tem aí um pedaço de papel e um lápis ? Parece-me que os homens andam sempre munidos desses objectos.   Tal como nós carregamos ganchos e borlas de pó de arroz.

 

Tommy passou à rapariga uma caderneta de apontamentos, com uma surrada capa verde, e Tuppence principiou a escrever diligentemente.

 

Vejamos o começo: «Jovem oficial, duas vezes ferido na guerra...»

 

Nada disso.

 

Está bem, meu caro amigo. Mas afianço que assim poderíamos comover o coração de alguma solteirona decrépita que se resolvesse a perfilhá-lo. E você não teria necessidade de se converter em jovem aventureiro.

 

não quero ser perfilhado.

 

- Oh, esqueci-me de que você tem preconceitos a esse respeito. Quis apenas mortificá-lo. Os jornais andam cheios até às margens com histórias desse género. Agora, escute: que acha disto? «Dois jovens aventureiros oferecem os seus serviços. Dispostos a tudo, prontos a ir a qualquer parte. A remuneração deve ser compensadora.» (Isto convém ficar bem esclarecido desde o começo). Creio que se pode acrescentar: «Não se recusa nenhuma proposta razoável»tal como é usado tratando-se de apartamentos e mobílias.

 

Na minha opinião, qualquer proposta que nos venha em resposta a um anúncio desses terá de ser, forçosamente, o menos razoável possível.

 

Tommy! Você é genial! Inspirou-me uma fórmula muito mais chique. «Não se recusa nenhuma proposta uma vez que os honorários sejam satisfatórios.» Que tal?

 

Eu não tornaria a mencionar a questão do pagamento. Dá uma ideia de avidez...

 

Não pode dar ideia de avidez maior que a minha. Mas talvez você tenha razão. Agora vou ler tudo junto: «Dois jovens aventureiros   oferecem   os   seus   serviços.   Dispostos   a   tudo, prontos a ir a qualquer parte. A remuneração deve ser conpensadora. Não se recusa nenhuma proposta.» Que impressão teria você ao ler um anúncio assim?

 

A impressão de que se tratava de uma brincadeira ou coisa de louco.

 

O rosto de   Tommy   coloriu-se de   um vermelho mais intenso.

 

Mas vamos, de verdade, levar a coisa para a frente? disse por fim. Será que convém, Tuppence? Só para nos divertirmos ?

 

Tommy, você sabe brincar! Eu tinha a certeza de que não recusaria. Um brinde ao nosso êxito. Deitou uns restos de chá frio nas duas chávenas.

 

À saúde dos companheiros de façanhas e que possam prosperar!

 

À Empresa «Jovens Aventureiros, Ltda.»respondeu Tommy.

 

Depuseram as chávenas sobre a mesa e riram frouxamente. Tuppence levantou-se.

 

Tenho que voltar aos meus sumptuosos aposentos na pensão.

 

Talvez seja boa hora para rondar o Ritzdisse Tommy, com um sorriso. Onde nos encontraremos? E quando?

 

Amanhã ao meio-dia. Na estação do metropolitano de Piccadilly. A hora não é imprópria para você?

 

Sou senhor do meu tempo replicou Mr. Beresford, majestosamente. ,

 

Adeus,   então.

 

Adeus, minha jóia.

 

Saíram ambos para rumos opostos. A pensão de Tuppence situava-se na zona a que chamam, por caridade, de Southern Belgravia. Por motivo de economia, ela não quis tomar um autocarro.

 

Achava-se a meio caminho, ao cruzar o St. James’s Park, quando uma voz de homem, atrás dela, lhe provocou um arrepio.

 

Desculpe disse o homem. A senhora permite-me uma palavra ?

 

A PROPOSTA DE MR. WHITTINGTON

 

Tuppence voltou-se rapidamente, mas conteve as palavras que lhe afloravam à ponta da língua, porque o aspecto e as maneiras do homem não correspondiam ao que ela presumira. Hesitou. Como se lesse os pensamentos da jovem, o homem apressou-se a dizer:

 

Pode ficar tranquila que não tenho intenção de lhe faltar ao respeito.

 

Tuppence acreditou. Instintivamente sentiu que o homem não inspirava simpatia ou confiança, mas estava propensa a absolvê-lo da intenção que a princípio lhe atribuíra. Mirou-o da cabeça aos pés. Era um homenzarrão, de barba rapada e com uma cara enorme, com uns olhinhos miúdos e astutos que evitavam o olhar directo de Tuppence.

 

Bem, de que se trata?perguntou ela. O homem sorriu.

 

Por casualidade, ouvi parte da palestra que a senhora manteve com aquele rapaz, no «Lyon’s».

 

-Sim. E daí?

 

Nada, a não ser que, na minha opinião, eu posso ser-lhe útil.

 

O senhor seguiu-me?

 

Tomei essa liberdade.

 

E de que modo julga o senhor que me possa ser útil?

 

O homem tirou um cartão do bolso e ofereceu-o à jovem, com uma mesura. ,,

 

Tuppence segurou o cartão e inspeccionou-o atentamente. Continha a inscrição: «Mr. Edward Whittington». Abaixo do

nome, liam-se as palavras «Companhia de Artigos de Vidro Estónia» e o endereço de um escritório no centro da cidade. Mr. Whittington tornou a falar:

 

Se me fizer uma visita amanhã às onze horas da manhã, exporei com pormenores a minha proposta.

 

Às onze horas?disse Tuppence,   indecisa.

 

Às onze horas. Tuppence   dicidiu-se.

 

Pois bem. Irei.

 

Muito obrigado. Boa noite.

 

Tirou o chapéu com um floreio e afastou-se. Tuppence ficou por alguns minutos a contemplá-lo. Depois, encolheu os ombros de um modo curioso, à semelhança de um cachorrinho a sacudir-se.

 

Começaram as aventuras sussurrou para si mesma. Que será que o homem deseja de mim? Há qualquer coisa na sua pessoa, Mr. Whittington, que não me agrada nada. Mas, por outro lado, não tenho medo algum do senhor. E, como já disse uma vez, e, sem dúvida, tornarei a dizer, a menina Tuppence sabe cuidar de si, muito obrigada!

 

E, com um rápido e lesto meneio de cabeça, avançou em passadas vigorosas. Mas, como resultado de reflexões subsequentes, mudou de rumo e penetrou numa estação de correio. Ali meditou por alguns instantes, com um impresso de telegrama na mão. A ideia de que o gasto dos cinco xelins talvez fosse despesa inútil incitou-a à acção. Resolveu correr o risco de desperdiçar nove pence.

 

Desdenhando a pena perfurante e a viscosa tinta fornecida por um governo solícito, Tuppence puxou do lápis de Tommy, que conservara consigo, e escreveu rapidamente: «Não publique anúncio. Amanhã explicarei.» Endereçou para o clube de cujo quadro social Tommy se desligaria dentro de um mês, salvo se os bons fados lhe permitissem acertar as suas contas com a tesouraria.

 

É possível que o telegrama o encontre lá murmurou Tuppence. De qualquer maneira, vale a pena tentar.

 

Depois de entregar o telegrama ao empregado por sobre o balcão, dirigiu-se para casa a toda a pressa. Deteve-se numa confeitaria onde comprou alguns brioches.

 

Mais tarde, recolhida ao seu minúsculo cubículo quase no desvão da casa, mastigava os brioches e pensava no futuro. Que vinha a ser a «Companhia de Artigos de Vidro Estónia» e porque cargas de água necessitaria dos seus serviços? Um estremecimento de emoção pôs Tuppence a vibrar. Fosse como fosse, a paróquia rural colocara-se à margem das suas cogitações. O amanhã anunciava-se cheio de possibilidades.

 

Nessa noite decorreram muitas horas antes que Tuppence conciliasse o sono e, quando por fim conseguiu dormir, sonhou que Mr. Whittington a mandava lavar uma pilha de objectos de vidro marca «Estónia», os quais acusavam incrível semelhança com os pratos do hospital...

 

Faltavam cinco minutos para as onze no momento em que Tuppence alcançou o conjunto de edifícios em que se situavam os escritórios da «Companhia de Artigos de Vidro Estónia». Chegar antes da hora aprazada pareceria excesso de impaciência. Por isso, Tuppence resolveu ir até ao fim da rua e voltar. Foi o que fez. Ao bater das onze, penetrou no edifício. A Companhia de Artigos de Vidro Estónia achava-se instalada no último andar. Havia um elevador, mas Tuppence deu preferência às escadas.

 

Quase arquejante, parou diante de uma porta envidraçada em que havia o letreiro: «Companhia de Artigos de Vidro Estónia».

 

Tuppence bateu. Atendendo a uma voz vinda de dentro, fez girar a maçaneta e entrou numa sala de espera pequena e um tanto suja.

 

Um empregado de meia-idade desceu de um tamborete alto junto de uma mesa perto da janela e dirigiu-se para a recém-chegada com visível curiosidade.

 

Tenho um encontro marcado com Mr. Whittington disse Tuppence.

 

Venha por aqui, tenha a bondade, Encaminhou-se para uma porta interna com a inscrição «Particular», bateu, depois abriu a porta e pôs-se de lado para a deixar passar.

 

Mr. Whittington achava-se sentado por trás de uma mesa enorme, coberta de papéis. Tuppence sentiu que se confirmava o seu prévio juizo acerca do homem. Havia qualquer coisa de desagradável em Mr. Whittington. A sua aparente prosperidade associada aos seus olhos manhosos não produzia resultado atraente.

 

Ergueu os olhos e acenou com a cabeça.

 

De modo que resolveu vir? Muito bem. Não quer sentar-se ?

 

Tuppence acomodou-se numa cadeira, diante do homem. Parecia singularmente pequenina e tinha uns ares de ilusória modéstia naquela manhã. Tomou uma postura humilde, de olhos baixos, enquanto Mr. Whittington classificava com ruído os seus papéis. Afinal, colocou-os de lado e inclinou-se sobre a escrivaninha.

 

Agora, minha prezada senhora, vamos ao assunto. O seu rosto enorme alargou-se num sorriso. Está disposta a trabalhar ? Bem, tenho um trabalho para lhe oferecer. Que lhe parece receber cem libras adiantadamente e todas as despesas pagas?Mr. Whittington recostou-se na cadeira, enfiando os polegares nas cavas do colete.

 

Tuppence fitou-o cautelosamente.

 

E a natureza do serviço?interrogou.

 

Formal, puramente formal. Uma viagem agradável: eis tudo.

 

Aonde ?

 

Mr. Whittington tornou a sorrir.

 

Paris.

 

Oh! exclamou Tuppence,   pensativa.   Dizia para si mesma: «É claro que se meu pai ouvisse isto sofreria um colapso!   Mas,   de   certo   modo,   não   posso   compreender Mr. Whittington no papel de um divertido intrujão.»

 

Sim continuou Whittington. Poderia haver algo mais agradável ? Fazer o relógio do tempo dar algumas voltas para trás não muitas, estou certo e reingressar num desses encantadores pensionnats de jeunes filies que em Paris abundam...

 

Tuppence interrompeu-o,

 

Um pensionnat?

 

Sim. O de Madame Colombier, na Avenida de Neuilly. Tuppence conhecia aquele nome muito bem. Não se podia desejar nada mais selecto. Contava diversas amiguinhas norte-americanas que lá se encontravam. Aquilo deixava-a muito intrigada.

 

O     senhor     quer     internar-me     no   colégio     de Madame Colombier? Por quanto tempo?

 

Depende. Talvez três meses.

 

E isso é tudo? Não existem outras condições?

 

Nenhumas, absolutamente. É lógico que a senhora irá na qualidade de minha pupila e não poderá comunicar-se com os seus amigos. Sou obrigado a exigir sigilo completo durante esse período. A propósito, a senhora é inglesa, não?

 

Sim.

 

Contudo, fala com ligeiro sotaque americano.

 

A minha melhor companheira, quando trabalhei no hospital, era uma pequena norte-americana. Acho que da convivência com ela me adveio o sotaque. Mas isto desaparece com um pequeno esforço.

 

Ao contrário, convém conservá-lo, pois assim torna-se-lhe mais fácil passar por americana. Mais difícil talvez será dar verosimilhança aos pormenores da sua vida na Inglaterra. Sim, penso que seria muito melhor. Depois...

 

Um momento, Mr. Whittington! O senhor parece estar convencido de que aceitei a oferta.

 

Whittington mostrou-se surpreso.

 

Certamente a senhora não pensa em recusar, não é? Garanto que o colégio de Madame Colombier é um estabelecimento dos mais austeros e de primeiríssima classe. E as cláusulas são as mais vantajosas possíveis.

 

Sem dúvida disse Tuppence. É por isso mesmo. As cláusulas são quase vantajosas demais, Mr. Whittington.

 

Não consigo atinar com a maneira por que eu possa merecer o seu dinheiro.

 

Não? inquiriu Whittington suavemente. Bem. eu lhí direi. Sem dúvida, poderia conseguir outra pessoa por muito menos. Mas não me importo de pagar mais tratando-se de uma jovem com suficiente inteligência e presença de espírito para desempenhar bem o seu papel e também com a necessária discrição para não fazer mais perguntas.

 

Tuppence esboçou um sorriso. Sentiu que Whittington marcara um tento.

 

Outra coisa. Até agora não se fez menção de Mr. Beresford. Em que cena entra ele?

 

Mr. Beresford?

 

É o meu sócio disse Tuppence, com dignidade. O senhor viu-nos juntos, ontem.

 

Ah, sim. Parece-me que não necessitaremos dos serviços dele.

 

Então   é   assunto   liquidado. Tuppence   ergueu-se. Ou nós dois ou nenhum. Sinto muito, mas não pode ser de outra maneira. Passe bem, Mr. Whittington.

 

Espere um momento. Vamos ver se é possível fazer qualquer coisa. Torne a sentar-se, Miss... Fez uma pausa, olhando-a interrogativamente.

 

Tuppence sentiu uma dorzinha na consciência, ao lembrar o arcediago. Fisgou com açodamento o primeiro nome que lhe veio à mente.

 

Jane Finndeclarou com precipitação. Depois calou-se, boquiaberta ante o efeito produzido por essas duas palavras.

 

Toda a afabilidade se sumira do rosto de Whittington. Estava rubro de cólera, as veias da fronte entumescidas. E por trás disso tudo- dissimulava-se uma espécie de desapontamento incrédulo. Debruçou-se sobre a mesa e sibilou:

 

Ah, então é esse o seu jogo, heim?

 

Tuppence, embora visivelmente embaraçada, não perdeu a calma. Não fazia a menor ideia sobre o assunto a que se referia o homem, mas ficou naturalmente de espírito alerta e julgou imprescindível «não entregar os pontos», como ela mesma dizia.

 

Whittington continuou:

 

Pelo que vejo, a menina esteve a brincar comigo todo este tempo, como o gato com o rato? Sabia desde o começo porque lhe fiz a proposta mas levou adiante a comédia. Não é assim ? Recobrava a serenidade. O rubor do rosto esmaecia. Fitava-a penetrantemente. Quem foi que deu com a língua nos dentes? Não foi a Rita?

 

Tuppence meneou a cabeça. Não sabia até que ponto poderia sustentar aquele equívoco, mas compreendeu a importância de não arrastar para o caso uma Rita desconhecida.

 

Não replicou, limitando-se a dizer a verdade. Rita nada sabe a meu respeito.

 

Os olhinhos do homem cravavam-se nela como verrumas.

 

Até onde vai o seu conhecimento do assunto?gritou ele.

 

Sei muito pouca coisa, para usar de franqueza respondeu Tuppence, satisfeita por notar que a inquietação de Whittington crescia em vez de abrandar. Se começasse com bazófias de que sabia muita coisa, despertaria duvidas no espírito do homem.

 

Seja como for rosnou WHITTINGTON sabia o bastante para vir aqui e desfechar esse nome.

 

Podia ser o meu verdadeiro nome sugeriu Tuppence. Não é provável que existam duas jovens com um nome igual ?

 

Ou podia eu tê-lo pronunciado por acaso continuou Tuppence, animada com os bons resultados que colhia ao falar a pura verdade.

 

Mr. Whittington deu um murro na mesa.

 

Não diga asneiras! Que sabe a senhora? E quanto quer? As   três   últimas   palavras   causaram forte   impressão   à

 

fantasia de Tuppence, especialmente após o magro «breakfast» e o jantar de brioches da véspera. A sua posição agora era de aventureira a agir por conta própria e não a serviço de outrem, mas não podia negar que se ofereciam possibilidades. Empertigou-se e sorriu com uns ares de quem tem toda a situação nas suas mãos.

 

Meu caro Mr. Whittington disse coloquemos sem subterfúgios as nossas cartas na mesa. E por favor não se encolerize tanto. O senhor ouviu-me dizer ontem que estava disposta a viver da minha astúcia. E parece-me que agora provei possuir alguma astúcia para dela viver! Admito que conheço um certo nome, mas os meus conhecimentos talvez terminem aí.

 

Sim;   e   talvez   não regougou   Whittington,   furiosamente. Deixe-se de tolices e vamos ao assunto. Não pode fingir de inocente comigo. Sabe muito mais do que quer admitir.

 

Tuppence calou-se um momento para admirar a própria sagacidade e depois falou com doçura:

 

Eu não gostaria de o contradizer, Mr. Whittington.

 

E assim, chegamos à pergunta do costume: quanto ? Tuppence   estava   num   dilema.   Até   agora   enganara Whittington com todo o êxito; mencionar, porém, uma soma flagrantemente impossível despertaria suspeitas. Uma ideia atravessou-lhe o cérebro.

 

Que   lhe   parece   um   pequeno   adiantamento   agora, deixando   para  depois   uma   discussão   mais   completa   do assunto ?

 

Whittington lançou-lhe um olhar sinistro.

 

Chantagem, heim? Tuppence sorriu docemente.

 

Oh, não! Porque não diremos pagamento por conta de serviços ?

 

Whittington soltou um grunhido.

 

--O senhor compreende explicou Tuppence, com a maior suavidade eu sou louca por dinheiro!

 

A senhora é quase incrível, isso é que a senhora é resmungou Whittington, numa espécie de admiração involuntária. Enganei-me   redondamente   a seu   respeito. Julguei-a uma mera rapariguita,   apenas com a inteligência suficiente para servir aos meus propósitos.

 

A vida sentenciou Tuppence é pródiga em surpresas.

 

Mesmo assim continuou Whittington alguém deve ter falado. A senhora diz que não foi Rita. Foi...? Oh, pode entrar!

 

O empregado, depois de. bater discretamente, entrou na sala e depositou uma folha de papel diante do patrão.

 

Um recado telefónico para o senhor. Whittington tomou o papel e leu-o. Enrugou a testa.

 

Está bem, Brown. Pode ir.

 

O empregado retirou-se, fechando a porta atrás de si. Whittington voltou-se para Tuppence.

 

Volte amanhã à mesma hora. Estou ocupado agora. Aqui estão cinquenta libras para prosseguirmos.

 

Prontamente escolheu algumas notas e entregou-as a Tuppence por sobre a mesa; depois levantou-se, com sinais de impaciência para que ela se fosse embora.

 

A jovem contou o dinheiro, meteu-o na bolsa e levantou-se.

 

Passe bem,   Mr. Whittington saudou com polidez. Ou talvez seja melhor dizer «Au revoir».

 

Exactamente! «Au revoir»!Whittington parecia de novo quase amável, numa transmutação que inspirava a Tuppence vago temor. Au revoir, minha inteligente e encantadora jovem!

 

Tuppence desceu lentamente as escadas. Empolgava-a um sentimento de ardorosa altivez. Um relógio das vizinhanças demonstrou-lhe que faltavam cinco minutos para o meio-dia.

 

Vou   fazer   uma   surpresa   a   Tommy! murmurou Tuppence, e chamou um taxi.

 

O carro estacou junto à estação do metro, a cuja porta, exactamente, se encontrava Tommy. Os olhos do rapaz arregalaram-se a mais não poder enquanto ele corria para ajudar Tuppence a descer. Ela sorriu-lhe afectuosamente e observou, com ligeira afectação na voz:

 

Pague a corrida, sim, meu caro amigo? A menor nota que tenho é de cinco libras!

 

UM RETROCESSO

 

O momento não foi glorioso como devia. Para começar, os recursos existentes nos bolsos de Tommy eram um tanto limitados. Por fim, a dama viu-se constrangida a reunir miseráveis tostões a fim de perfazer o preço da corrida. E o motorista, conservando ainda na mão a profusa variedade de moedas, persuadiu-se a seguir adiante, não sem antes escutar uma última interpelação impertinente do cavalheiro que indagava se o homem fora pago para ficar plantado ali...

 

Acho que você lhe deu dinheiro demais, Tommydisse Tuppence, com uma intonação de inocência na voz. com certeza, ele quer devolver o excedente... com toda a probabilidade, foi essa última observação que induziu o motorista a ir-se embora.

 

Bem disse Mr. Beresford, sentindo-se por fim capaz de relaxar a tensão. Por que cargas dágua teve você a esdrúxula ideia de tomar um taxi?

 

Receei chegar atrasada, obrigando-o a esperar replicou Tuppence, gentilmente.

 

Receou... chegar... atrasada! Oh, Deus misericordioso! Esta é demais!

 

E é a pura verdade continuou Tuppence, abrindo muito os olhos, que não tenho nenhuma nota de valor menor que cinco libras.

 

Você representou a cena muito bem, mas, mesmo assim, o homem não acreditou na história nem por um momento!

 

Não assentiu   Tuppence,   pensativa. Ele não   acreditou. É o que há de curioso nesta questão de falar a verdade.

 

Ninguém acredita. Foi o que descobri esta manhã. Agora, vamos almoçar. Que me diz do Savoy?  Tommy riu.

 

Porque não o Ritz?

 

Sem segundas intenções, prefiro o Piccadilly. É mais perto. Não teremos necessidade de tomar outro taxi. Vamos!

 

É um novo género de humorismo? Ou a sua cabeça está deveras avariada? interrogou Tommy.

 

A sua última suposição é certa. Arranjei dinheiro e o choque foi demasiado forte para mim! Para esse tipo de perturbação mental, um médico eminente recomenda uso ilimitado de hors d’oevvre, lagosta à l’américaine, frango à Neuburg e pêssegos Melba! Vamos regalar-nos!

 

Tuppence, minha amiga, diga-me com seriedade o que lhe aconteceu?

 

Oh, uma coisa inacreditável! Tuppence escancarou a bolsa com um repelão. Olhe para aqui, olhe para aqui, olhe para aqui!

 

Deus do céu! Minha boa menina, não remexa assim nessas notas de libra!

 

Não são de libra. São cinco vezes melhor que as de libra e esta aqui é dez vezes melhor!

 

Tommy soltou um gemido.

 

Acho que bebi demais! Estou a sonhar Tuppence, ou vejo de facto enorme quantidade de notas de cinco libras agitadas de uma maneira perigosa diante de mim ?

 

Você está a ver de facto! Agora, vamos almoçar?

 

Irei a qualquer parte. Mas, diga-me, que fez você? Assaltou um banco?

 

Tudo a seu tempo. Que lugar perigoso é Piccadilly Circus! Lá vem um autocarro enorme na nossa direcção. Seria por demais terrível se atropelasse as notas de cinco libras!

 

Vamos ao grill room?perguntou Tommy, quando chegaram, sãos e salvos, ao passeio do outro lado.

 

No outro salão gasta-se mais objetou Tuppence.    

 

Apenas desperdício inútil e iníquo. Desçamos.

 

Tem a certeza de que lá poderei encontrar tudo o que quero?

 

Que indigesto «menu» está você a planear ? Está claro que encontrará o que quero e que você gosta, pelo menos.

 

E agora conte-mepediu Tommy, incapaz de conter por mais tempo a curiosidade represada, no momento em que se abancaram faustosamente rodeados pelos inumeráveis hors d'oeuvres dos sonhos de Tuppence.

 

Miss Cowley narrou os acontecimentos.

 

E o mais interessante concluiu a rapariga é que eu na verdade inventei o nome de Jane Finn! Não quis usar o meu verdadeiro nome por causa de meu paina eventualidade de que me envolvesse em algum assunto suspeito.

 

Como talvez o seja disse Tommy, lentamente. Mas você não inventou o nome.

 

Como ?

 

Não inventou. Fui eu quem lho disse. Não se recorda que lhe disse ontem que ouvira dois sujeitos conversarem a respeito de uma mulher chamada Jane Finn ? Por isso é que o nome lhe acudiu tão prontamente à memória.

 

com efeito, você disse-me... Recordo-me agora. Que coisa   extraordinária! Tuppence   mergulhou no   silêncio. De súbito, despertou. Tommy?

 

- Pronto!

 

Que aparência tinham os dois homens que você encontrou?

 

Um deles era um sujeito gordo e grande. Barba rapada, parece-me moreno.

 

Que me enforquem se não é ele! exclamou Tuppence, num grito pouco elegante. É Whittington! E o outro homem como era?

 

Não me lembro. Não prestei muita atenção. A singularidade do nome é que me despertou interesse.

 

E há gente que diz que não acontecem coincidências! Tuppence serviu-se dos pêssegos Melba com o rosto iluminado de felicidade.

 

Mas Tommv tornara-se sisudo.

 

Olhe Tuppence, minha amiga, que resultará disso?

 

Mais dinheiro replicou a rapariga.

 

Eu sei. Você tem uma única ideia na cabeça. Quero referir-me ao passo seguinte. Como pretende você levar adiante a farsa?

 

Oh! Tuppence deixou cair a colher. Você tem razão, Tommy, estou a fazer o papel de uma impostora.

 

E, sobretudo, você não poderá iludi-lo indefinidamente. Mais cedo ou mais tarde, deixar-se-á apanhar. E, de qualquer maneira, não estou certo de que isto não seja passível de acção judicial: chantagem, você sabe.

 

Tolice. Chantagem é quando alguém recebe dinheiro para não contar certas coisas que sabe. No caso presente, eu nada poderia contar porque em verdade nada sei.

 

Hum!fez Tommy, com ares de dúvida. Bem, seja lá como for, que deveremos fazer? Whittington, esta manhã, apressou-se em se livrar de você, mas da próxima vez quererá saber algo mais antes de cair com o dinheiro. Exigirá que você conte o que sabe, onde obteve informações e muitas outras coisas que não poderá dissimular. Que fará você ?

 

Tuppence enrugou a testa gravemente.

 

Temos de pensar. Peça um pouco de café turco, Tommy. Estimular o cérebro. Ah, meu caro, comi como um lobo!

 

Você quase ultrapassou os limites! O mesmo fiz eu, mas parece-me que fui mais sensato que você na escolha dos pratos. (Voltou-se para o criado). Dois cafés! Um turco e um francês.

 

Tuppence beberricou o seu café com um ar de profunda reflexão e repreendeu Tommy quando este lhe dirigiu a palavra.

 

Silêncio. Estou pensando.

 

Achei! exclamou   Tuppence   por   fim. Tenho   um plano. Evidentemente, o que temos a fazer é descobrir mais alguma coisa a respeito do caso.

 

Tommy aplaudiu, batendo palmas,

 

Não zombe. O que pudermos descobrir terá de ser por intermédio de Whittington. Precisamos de saber onde ele mora, o que faz, seguir-lhe a pista, em suma. Mas eu não me posso encarregar dessa tarefa porque ele conhece-me; no entanto, ele viu-o a si apenas por um minuto ou dois no Lyons. Não é provável que o reconheça. No fim de contas um rapaz parece-se muito com outro rapaz.

 

Discordo formalmente do seu ponto de vista. Tenho a certeza de que as minhas feições simpáticas e o meu aspecto distinto me colocariam em destaque no meio de qualquer grupo.

 

O meu plano é o seguinte: prosseguiu Tuppence, com toda a calma. Irei sozinha, amanhã. Hei de embair o homem do mesmo modo que o fiz hoje. Não importa que não obtenha mais dinheiio. Cinquenta libras durarão alguns dias.

 

Ou mesmo mais!

 

Você ficará rondando do lado de fora. Quando eu sair não lhe falarei, caso ele fique à espreita. Mas postar-me-ei nas proximidades, e quando ele sair do edifício acenarei com o lenço ou outro objecto qualquer e você entrará em acção.

 

Entrarei em acção... como?

 

Seguindo-o, naturalmente, «seu» ingénuo! Que tal acha a ideia?

 

É o tipo de episódio que se lê em livros. Tenho o pressentimento de que na vida real a gente há-de ficar um pouco com cara de asno ao permanecer na rua durante horas sem ter nada que fazer. Os passantes hão-de formular as suas conjecturas sobre as minhas ocultas intenções.

 

Não no centro da cidade. Andam todos com tamanha pressa! O mais provável é que nem dêm pela sua presença.

 

É a segunda vez que você faz uma observação dessas. Não importa, perdoo-lhe. De qualquer forma, é apenas brincadeira. Que pretende fazer esta tarde ?

 

Deixe verdisse Tuppence, pensativa. Estive a pensar em chapéus! Ou talvez meias de seda! Ou talvez...

 

Calma! aconselhou   Tommy.As   cinquenta   libras têm limites! Mas teremos um jantar e um teatro esta noite, aconteça o que acontecer.

 

Óptimo.

 

O dia decorreu agradável. A noite ainda mais. Duas das notas de cinco libras acharam o seu fim irreparável.

 

Na manhã seguinte, encontraram-se conforme haviam combinado na véspera e encaminharam-se para o centro da cidade. Tommy conservou-se no passeio oposto enquanto Tuppence penetrava no edifício.

 

Tommy avançou a passos lentos até ao fim da rua, de onde retornou. Estava quase confrontando o edifício quando Tuppence irrompeu na rua.

 

Tommy!

 

Aqui estou. Que aconteceu?

 

O   escritório está fechado.   Ninguém me soube dar notícias.

 

É estranho.

 

Não acha? Venha comigo e tentemos mais uma vez.

 

Tommy seguiu-a. Ao passarem pelo terceiro andar, encontraram um jovem empregado que saía de um escritório. O jovem hesitou um momento, depois dirigiu-se a Tuppence.

 

Procuram a Companhia Estónia?

 

Sim.

 

Está fechada. Desde ontem, à tarde. A companhia está em liquidação, ao que me disseram. Pessoalmente, não ouvi nem li notícias alguma a esse respeito. Seja como for, a sala do escritório está para alugar.

 

Obr...   obrigada gaguejou   Tuppence. O   senhor, por acaso, não sabe o endereço de Mr. Whittington ?

 

Lamento mas não sei. Eles saíram muito repentinamente.

 

Muitíssimo   obrigado disse   Tommy. Vamos,   Tuppence.

 

Mais uma vez desceram para a rua, onde se contemplaram mutuamente na maior confusão.

 

O plano frustrou-se- disse Tommy, por fim.

 

E eu nunca suspeitei istodeplorou Tuppence.

 

Ânimo, minha amiga! Não se podia evitar tal coisa.

 

Não   importa! O   pequenino   queixo   de   Tuppence sobressaiu provocadoramente. Você pensa que isto é o fim? Se pensa, está enganado. É apenas o começo!

 

O começo de quê?

 

Da nossa aventura! Tommy, não compreende que se eles apanharam tamanho susto a ponto de fugir, é porque essa história de Jane Finn sem dúvida envolve grossa maroteira ? Bem, chegaremos ao âmago desse problema. Vamos desmascará-los! Vamos seguir as pistas encarniçadamente!

 

Sim, mas não há pista nenhuma a seguir.

 

Não. E por isso é que temos de recomeçar tudo, desde o princípio. Empreste-me esse lápis. Obrigada. Espere um minuto e não me interrompa. Tome!Tuppence devolveu-lhe o lápis e examinou, com satisfação, o pedaço de papel em que estivera a escrever.

 

Que é isso?

 

Um anúncio.

 

Ainda se interessa por isso depois do que houve?

 

Não, é um anúncio diferente. Entregou-lhe o papel. Tommy leu em voz alta:

 

«PRECISA-se qualquer informação a respeito de Jane Finn. Dirigir-se a Y. A.»

 

QUEM É JANE FINN?

 

O dia imediato decorreu com lentidão. Era necessário encurtar os gastos. Poupadas cuidadosamente, quarenta libras poderiam durar muito. Por felicidade, o tempo estava magnífico e «caminhar é barato», como dizia Tuppence. Um cinema de bairro proporcionava-lhes recreação à noite.

 

O dia da decepção fora uma quarta-feira. Na quinta, o anúncio aparecera. Era de se esperar que na sexta-feira as cartas começassem a chegar à casa de Tommy.

 

Ele comprometera-se solenemente a não abrir a correspondência que por acaso chegasse, devendo encaminhar-se à Xatinnal Gallery, onde a sua colega o encontraria às dez horas.

 

Tuppence foi a primeira a chegar ao local do encontro. Afundou-se numa poltrona de veludo vermelho e ficou a contemplar com olhar abstrato as telas de Turner até ao momento que viu o vulto familiar do rapaz penetrar no salão.

 

E então?

 

Tudo bemrespondeu Mr. Beresford, com uma calma irritante. Qual é o quadro da sua predilecção?

 

Não seja perverso. Não veio nenhuma resposta? Tommy balançou a cabeça com uma melancolia profunda e algo exagerada.

 

Eu não queria causar-lhe uma decepção, minha boa amiga, tocando directamente no assunto. É uma desgraça! Dinheirinho atirado à rua. Suspirou. Sim, é isso mesmo. O anúncio apareceu e... chegaram apenas duas respostas!

 

- Tommy, demónio em figura de gente! disse Tuppence.

 

quase aos berros. Dê-me as cartas. Como pode ser tão mesquinho!

 

Modere a linguagem, Tuppence, modere a linguagem! Não soa bem na National Gallery. Isto é do governo, você sabe. Sendo filha de um sacerdote...

 

Devo falar como se estivesse no palco!concluiu Tuppence, com sarcasmo.

 

Não digo isso. Mas se você está certa que já experimentou a total sensação de alegria após o desespero que por bondade lhe porporcionei gratuitamente, abramos a nossa correspondência, como se costuma dizer.

 

Tuppence arrebatou-lhe das mãos, sem cerimónia, os dois preciosos envelopes e examinou-os com a maior atenção.

 

Papel encorpado, este. Parece provir de gente rica. Abramos o outro em primeiro lugar.

 

Tem razão. Um, dois e... três!

 

O minúsculo polegar de Tuppence rasgou o envelope e ela retirou o conteúdo.

 

Prezado Senhor,

 

com referência ao seu anúncio do jornal matutino de hoje, poderei ser-lhe útil nalguma coisa. Talvez V. S. possa visitar-me no endereço acima indicado amanhã, às onze horas da manhã.

 

Sinceramente,

 

  1. Cárter.

 

Carshalton Gardens, n.º 27 disse Tuppence, aludindo ao endereço.Vai-se pela Gloucester Road. Muito tempo se leva no metro para chegar até lá!

 

Vou apresentar disse Tommy um plano de acção. É a minha vez de tomar a ofensiva. Conduzido à presença de Mr. Carter, ele e eu desejamo-nos bons dias, como é da praxe. Ele diz então: «Tenha a bondade de sentar-se Mister...?» Ao que eu respondo, pronta e significativamente: «Edward Whittington!» com isto, purpureia-se o rosto de Mr. Carter que pergunta, arquejante: «Quanto?» Guardando no bolso as cinquenta libras da tabela, reúno-me a você na rua e marchamos para o endereço seguinte, onde repetiremos a cena.

 

Não seja absurdo, Tommy! Agora, a outra carta. Olá, esta vem do Ritz!

 

Nesse caso, cem libras em vez de cinquenta!

 

Vou ler:

 

Prezado Senhor,

 

com referência ao seu anúncio, muito gostaria que me fizesse uma visita, por volta da, hora do almoço.

 

Sinceramente,

 

Julius P. Hersheimmer.

 

Hum! fez Tommy.Não será um «boche»? Ou apenas um milionário americano de desgraçada ascendência? Seja como for, a visita será à hora do almoço. É divertido quase sempre, no fim da palestra, dois almoçarem de graça.

 

Tuppence concordou, com um aceno de cabeça.

 

Agora, vamos ao Cárter. Precisamos andar muito depressa.

 

Verificaram que Carshalton Terrace era um irrepreensível renque de «casas com fisionomia de matronas», como as denominava Tuppence. Tocaram a campainha no número 270 uma impecável criada atendeu-os à porta. Tinha uns ares tão respeitáveis que Tuppence sentiu desfalecer-lhe o coração. Tommy perguntou por Mr. Carter e a mulher introduziu-os num pequeno gabinete do andar térreo, onde os deixou. Não decorreu um minuto, entretanto, quando uma porta se abriu e um homem alto, com uma chupada cara de falcão e aspetto fatigado, penetrou na saleta.

 

Mr. Y. A. ? disse ele, sorrindo. O seu sorriso era francamente cativante. Sentem-se.

 

Obedeceram. O homem ocupou uma cadeira diante de Tuppence e olhou-a com um sorriso encorajador. No seu sorriso havia qualquer coisa que privava a jovem do seu desembaraço habitual.

 

Uma vez que ele não parecia inclinado a dar início à palestra, Tuppence foi obrigada a começar.

 

Nós precisamos saber... quer dizer, o senhor poderia ter a bondade de nos contar alguma coisa a respeito de Jane Finn ?

 

Jane Finn? Ah! Mr. Carter pareceu reflectir. Bem, a questão é: que sabe a senhora sobre o assunto?

 

Tuppence empertigou-se.

 

Não percebo o que é que uma coisa tem a ver com a outra.

 

Não? Mas tem, pode crer que tem. Sorriu mais uma vez na sua maneira cansada, e continuou reflexivamente: E assim, voltamos atrás. Que sabe a senhora sobre Jane Finn ?

 

Vamosprosseguiu, visto que Tuppence se mantinha em silêncio. Deve   saber   alguma   coisa,   senão   porque   teria publicado o anúncio? Inclinou-se um pouco para a frente, com um acento de persuasão na voz fatigada. Suponhamos que a senhora me conte...

 

Havia uma qualidade magnética na personalidade de Mr. Carter. Tuppence parecia ter-se desenvencilhado dela com esforço, quando disse:

 

Não podemos fazer isso, não é, Tommy?

 

Mas, para sua surpresa, o rapaz não corroborou as suas palavras. Tinha os olhos fixos em Mr. Cárter, e quando falou foi num tom respeitoso que não lhe era peculiar.

 

Acredito que o pouco que sabemos não lhe será de nenhuma utilidade, senhor. Mas isso não impede que o relatemos, com prazer.

 

Tommy! bradou Tuppence, surpresa.

 

Mr. Cárter voltou-se na sua cadeira. Transluzia nos seus olhos uma interrogação muda.

 

Tommy fez sinal afirmativo com a cabeça.

 

Sim, reconheci-o num relance. Tive oportunidade de o ver na França, quando eu trabalhava para o Serviço Secreto. Mal o senhor penetrou nesta sala, conheci...

 

Mr. Cárter ergueu a mão.

 

Não mencione nomes, por obséquio. Aqui sou conhecido como Mr. Carter. Esta casa é de minha prima, por sinal. Ela empresta-me a casa sempre que aparece um trabalho fora das normas estritamente oficiais. Muito bem. Agora olhou para o rapaz e para a jovem qual dos dois me vai contar a história ?

 

Tem a palavra, Tuppence ordenou Tommy.--É o seu conto da Carochinha.

 

Sim, minha jovem, vamos ao caso.

 

Obediente, Tuppence começou a falar, contando a história toda, desde a fundação da empresa «Jovens Aventureiros, Lda.» ate aos factos subsequentes.

 

Mr. Cárter escutou em silêncio, recaindo na sua maneira cansada. De quando em quando, passava a mão pelos lábios, como a dissimular um sorriso. Quando a rapariga concluiu, abanou gravemente a cabeça.

 

Não é muito. Mas é sugestivo. Muito sugestivo. Se me permitem a expressão, ambos constituem um parzinho bastante curioso. O que não sei é se conseguirão triunfar onde outros têm fracassado... Eu acredito na sorte, é bem de ver, mas...

 

Calou-se por um momento, depois continuou:

 

Enfim, que se poderá fazer? Andam à cata de aventuras. Gostariam de trabalhar para mim? Tudo absolutamente extra-oficial, entenda-se. Despesas pagas e um módico salário. Que dizem?

 

Tuppence mirou-o, a boca entreaberta, os olhos cada vez mais esgazeados.

 

E o que deveríamos fazer?sussurrou ela. Mr. Carter sorriu.

 

Apenas prosseguir no que estão fazendo agora. Descobrir Jane Finn.

Sim, mas... quem é Jane Finn?

Mr. Carter abanou gravemente a cabeça.

 

Sim, estão credenciados a saber, creio. Recostou-se na cadeira, cruzou as pernas, uniu as pontas

 

dos dedos e começou, num tom de voz baixo e monótono:

 

A diplomacia secreta (que, por sinal, está sempre muito próxima da pior política.) não lhes interessa. Será suficiente dizer que nos primeiros dias de 1915 começou a existir um certo documento. Era o projecto de um acordo secreto, um tratado chamem-no como quiserem. O projecto, que estava pronto para receber a assinatura de vários representantes, fora concluído na América que, na época, era país neutro. Foi remetido para a Inglaterra por um emissário especial, escolhido para essa missão, um rapaz chamado Danvers. Nutria-se a esperança de que o caso todo se conservara tão secreto que nada seria possível transpirar. Esperanças como essa em geral causam decepção. Há sempre alguém que fala!

 

«Danvers viajou para a Inglaterra a bordo do Lusitânia, Conduzia os preciosos papéis num pacote de oleado que trazia junto à própria pele. Precisamente nessa viagem, o Lusitânia foi torpedeado e afundado. Danvers figurou na lista dos desaparecidos. Mais tarde o seu cadáver deu à praia, sendo identificado sem quaisquer possibilidades de engano. Mas o pacote de oleado desaparecera!

 

«Surgiu, pois, a questão: alguém lhe tirara os papéis ou ele próprio os passara a outrem para os salvar? Alguns incidentes corroboravam a possibilidade da última teoria. Depois que o torpedo atingiu o navio, nos escassos instantes do lançamento dos escaleres, Danvers foi visto a conversar com uma jovem americana. Ninguém o viu realmente entregar qualquer coisa à jovem, mas é possível que o tenha feito. Parece-me muito provável que ele tenha confiado os papéis a essa jovem, na crença de que ela, sendo mulher, teria maiores probabilidades de os conduzir a terra com segurança.

 

«Mas, se assim foi, onde se encontraria a jovem e que teria feito aos papéis ? Um posterior aviso da América indicava que provavelmente Danvers fora seguido de perto durante toda a viagem. Dar-se-ia o caso de que a jovem pactuasse com os inimigos ? Ou ela mesma, por seu turno, se vira perseguida e induzida, pela astúcia ou pela força, a entregar o precioso pacote?

 

«Encetámos o trabalho para descobrir a pista da rapariga. A tarefa apresentou dificuldades invulgares. O seu nome era Jane Finn e, na devida forma, apareceu na lista dos sobreviventes, mas a jovem em pessoa parecia haver-se sumido por completo. Os inquéritos para apurar os seus antecedentes pouco ajudaram. Era órfã e dedicara-se ao mister de professora primária, como dizemos aqui, numa pequena escola rural do Oeste. Ela tirou passaporte para Paris, onde ia trabalhar num hospital. Oferecera voluntariamente os seus serviços e, após uma troca de correspondência, fora aceite. Uma vez que seu nome figurou na lista dos sobreviventes do Lusitânia, os dirigentes do hospital ficaram muito surpreendidos, como é natural, por ela não aparecer, a fim de assumir o seu posto e por não receberem notícia alguma a seu respeito.

 

«Em suma, dispenderam-se todos os esforços para achar a jovemporém, tudo em vão. Procurámos-lhe a pista através da Irlanda, mas nenhuma notícia se conseguiu depois que ela pôs os pés na Inglaterra. Não utilizaram para nada o projecto de tratadoComo o poderiam ter feito com a maior facilidade e, em vista disso, chegámos à conclusão de que Danvers, afinal, o havia destruído. A guerra entrou noutra fase, o seu aspecto diplomático modificou-se concomitantemente e não se pensou mais em refazer o projecto do tratado. Os boatos sobre a sua existência foram enfaticamente desmentidos. Esqueceu-se o desaparecimento de Jane Finn e o caso todo caiu no olvido.»

 

Mr. Carter calou-se e Tuppence indagou:

 

Mas porque é que agora volta à baila? A guerra terminou.

 

As maneiras de Mr. Carter entremostraram sinais de vigilância.

 

Porque parece que, apesar de tudo, os papéis não foram destruídos e podem ressurgir hoje com um significado novo e fatal.

 

Tuppence mirou o com assombro. Mr. Carter balançou a cabeça.

 

Sim, há cinco anos, o projecto de tratado constituía uma arma nas nossas mãos; hoje, é uma arma contra nós. A ideia do tratado foi um erro palmar. Se os seus termos viessem a público, seria um desastre... Era capaz de provocar , nova guerranão contra a Alemanha, desta vez! É uma possibilidade remota, que eu mesmo não reputo plausível, mas o que rnão padece dúvida é que o documento compromete alguns dos nossos homens públicos aos quais não se pode permitir, sob nenhuma hipótese, que caiam em descrédito no actual momento. Seria uma arma política de força irresistível em favor dos trabalhistas e, no meu entender, um governo trabalhista na situação presente viria entravar o comércio britânico, se bem que, isso valha zero em face do verdadeiro perigo.

Fez uma pausa e depois disse mansamente:

Devem ter ouvido ou lido que há influência bolchevista actuando por trás da presente agitação trabalhista?

Tuppence fez afirmativamente um sinal de cabeça.

Pois é a verdade. O ouro bolchevista derrama-se neste país com o objectivo específico de provocar uma revolução. E existe um certo homem, um homem cujo nome nos é desconhecido, que age na sombra para atingir os seus próprios fins. Os bolchevistas acham-se por trás da agitação trabalhista mas esse homem acha-se por trás dos bolchevistas. Quem é ele? Não o sabemos. Sempre que a ele se referem, usam o modesto título de «Mr. Brown». Uma coisa, porém, é certa: ele é o maior criminoso da nossa época. Dirige uma organização maravilhosa. A maior parte da propaganda pacifista durante a guerra foi por ele inspirada e financiada. Os seus espiões estão em toda a parte.

É um alemão naturalizado?perguntou Tommy. Ao contrário, tenho razões para acreditar que é inglês.

Foi partidário dos Alemães como o poderia ter sido dos boers. Ignoramos o que ele pretende conseguirtalvez o poder supremo para si, de uma forma sem paralelo na história. Não possuímos nenhuma pista que leve à sua verdadeira personalidade. A esse respeito, diz-se que mesmo os seus sequazes nada sabem. Onde topamos com vestígios seus, ele desempenhou sempre um papel secundário. Algum outro se encarrega da parte principal. Mas no fim descobrimos que havia um ínfimo subalterno, um criado ou um empregado, que passava despercebido no último plano; e também que o esquivo Mr. Brown nos escapava mais uma vez.

 

Oh! Tuppence deu um pulo.Eu acho...

 

O quê?

 

Recordo-me do escritório de Mr. Whittington. O empregado... ele chamou-o pelo nome de Brown. O senhor não é de opinião que...

 

Pensativo, Mr. Carter inclinou a cabeça.

 

É muito provável. Uma particularidade curiosa é que o nome em geral é mencionado. Uma mania pessoal. A senhora saberá descrevê-lo?

 

Para falar a verdade, não lhe prestei muita atenção. Era um tipo comum, exactamente igual a qualquer outro.

 

Mr. Carter suspirou na sua maneira fatigada.

 

É a descrição invariável de Mr. Brown! Levou um recado telefónico ao tal Whittington, não ? Viu algum telefone na ante-sala?

 

Tuppence pensou,

 

-Não, acho que não vi.

 

Perfeitamente. Esse «recado» foi o meio utilizado por Mr. Brown para transmitir uma ordem ao seu subordinado. Ele escutou toda a conversa, é claro. Foi depois disso que Whittington lhe entregou o dinheiro e lhe pediu que voltasse no dia seguinte?

 

Tuppence respondeu afirmativamente, com um sinal de cabeça.

 

Sim, sem a menor dúvida aí está a mão de Mr. Brown. Mr.   Carter calou-se.Pois bem. Posto isto, percebem contra quem se vão lançar ? Talvez o criminoso de mais lúcido intelecto da nossa época. Isto não me agrada nada, fiquem sabendo. São ambos criaturas jovens. Lamentaria muito se lhes acontecesse alguma coisa.

 

Nada acontecerágarantiu Tuppence, positivamente. Eu cuidarei dela, senhorprometeu Tommy.

 

E eu cuidarei de você - retrucou Tuppence, abespinhada com a promessa de protecção masculina.

 

Bem, nesse caso cada qual cuidará do outro disse Mr. Carter, sorrindo. Agora, voltemos ao assunto Há um mistério em relação a esse projecto de tratado que ainda não conseguimos sondar. Fomos ameaçados com ele em termos simples e inequívocos. Os elementos revolucionários dão a entender que o têm em seu poder e que pretendem divulgá-lo em determinado momento. Por outro lado, percebe-se claramente que eles ignoram muitas das suas cláusulas. O governo considera a ameaça simples burla da parte dele» e, certa ou erradamente, persiste na política de negativa absoluta. Eu não estou tão certo disso. Têm surgido indirectamente, alusões indiscretas, que parecem indicar que a ameaça é verdadeira. A situação apresenta-se mais ou menos como se eles houvessem conseguido um documento comprometedor que não conseguem ler por estar em cifra (mas sabemos que o projecto de tratado não está em cifra), de sorte que, incapazes de se inteirar do seu conteúdo, os papéis para eles perderam o valor. Mas há alguma coisa. Naturalmente, a julgar pelo que sabemos, Jane Finn talvez tenha morrido, mas tal não é a minha opinião. O que há de interessante no caso é que eles tentam obter de nós informações sobre a jovem!

 

Como ?

 

Sim. Um ou dois sinais denunciadores vieram à tona. E a sua história, minha filha, confirma a minha ideia. Eles sabem que andamos à procura de Jane Finn. Pois bem, apresentarão uma Jane Finn inventada por eles e, digamos, num colégio de Paris. Tuppence abriu a boca, arquejante, e Mr. Carter sorriu. Ninguém sabe que aparência a jovem possui, de sorte que tudo poderá correr bem. Industriada com uma história fictícia a tarefa que lhe incumbe é obter de nós tantas informações quantas forem possíveis.   Compreende?

 

Então   o senhor   quer   dizer  que   era no papel de Jane Finn que eles precisavam de mim para ir a Paris?

 

Mr. Carter sorriu, mais fatigado que nunca.

 

Eu acredito em coincidências, é claro disse ele.

 

  1. JULIUS P. HERSHEIMMER

 

Simdisse Tuppence, voltando a siparece-me que, na verdade, não pcderia ser de outro modo.

 

Cárter moveu a cabeça.

 

Compreendo o que a senhora quer dizer. Sou supersticioso. Acredito na sorte. O destino parece ttêla escolhido para a envolver neste caso.

 

Tommy deu uma risadinha.

 

Por Deus! Não me admira que Whittington tenha dado o cavaco quando Tuppence   pronunciou   um   nome   como aquele! Eu faria o mesmo. Mas, Mr. Carter, estamos a roubar o seu precioso tempo, O senhor não terá alguma informação confidencial   para   nos   fornecer   antes   que  nos   retiremos?

 

Creio que não. Os meus técnicos, trabalhando com os seus métodos imutáveis, fracassaram. Vocês darão à tarefa o influxo da imaginação e do cérebro arejado que possuem. Não desanimem se mesmo assim não obtiverem resultados. A única recomendação que lhes poderei fazer é apressarem a marcha.

 

Tuppence franziu a testa, sem compreender.

 

Quando a senhora teve a entrevista com Whittington, eles dispunham de bastante tempo pela frente. Chegaram-me informações revelando que o grande coup estava marcado para princípios do próximo ano. Mas o governo projecta uma legislação para se contrapor com eficácia à ameaça de greve. É um assunto que entrará brevemente em debate, se não entrou já, sendo possível que venha a pôr termo a este estado de coisas.   Pessoalmente, é a minha esperança. De sorte que quanto menos tempo eles tiverem para executar os seus planos, tanto melhor. Quero apenas preveni-la que não dispõem de muito tempo pela frente e que não há motivo para ficarem abatidos em caso de fracasso. A incumbência não tem nada de fácil. Isto é tudo. Tuppence levantou-se.

 

Penso que devemos falar em termos de negócio. Até que ponto, Mr. Carter, podemos contar com o senhor?

 

Crisparam-se ligeiramente os lábios de Mr. Carter, mas ele replicou de modo sucinto:

 

Podem contar com numerário, dentro de limites razoáveis, com informações detalhadas sobre qualquer questão e nenhuma garantia oficial. Em outras palavras, se se virem em dificuldades com a polícia, não poderei oficialmente prestar-lhes auxílio. Agirão por contra própria.

 

Tuppence meneou a cabeça prudentemente.

 

Compreendo-o. Redigirei uma lista das questões que preciso conhecer, quando tiver tempo para pensar. E agora... a respeito de dinheiro...

 

Sim, Miss Tuppence. Quer dizer quanto?

 

Não é bem isso. Temos o suficiente para as necessidades imediatas, mas quando precisarmos de mais...

 

Estará à sua disposição.

 

Sim, mas...   Sem pretender usar de desconsideração para com o governo, a que o senhor está vinculado, deve reconhecer quanto tempo se perde ao tratar de qualquer assunto junto às repartições! E se tivermos de fazer um requerimento, encaminhá-lo e, ao cabo de três meses, eles no-lo devolvem informando que é preciso mais um ou dois selos, e assim por diante... bem, será de pouca utilidade, não acha?

 

Mr. Carter riu com gosto.

 

Não se preocupe, Miss Tuppence. A senhora formulará um pedido pessoal a mim, para este endereço, e o dinheiro, em moeda corrente, ser-lhe-á remetido na volta do correio. No tocante ao salário, que lhe parecem trezentas libras por ano? E igual soma para Mr. Beresford, está visto.

 

A fisionomia de Tuppence iluminou-se.

 

Que maravilha! O senhor é muito bondoso. Sou maluca por dinheiro! Farei uma bela escrituração das nossas despesas: o débito e o crédito, o balanço no lado direito, uma linha vermelha traçada em diagonal, com os totais idênticos em baixo. Eu, de facto, sei fazer tudo certinho, quando me resolvo a isso.

 

-- Estou certo de que sabe. Pois então, adeus e felicidades para ambos.

 

Apertaram-se as mãos e, um minuto depois, o rapaz e a jovem desciam as escadas do n.º 27 de Garshalton Terrace, com a cabeça a rodopiar.

 

Tommy! Diga-me sem mais demora quem é «Mr. Carter»?

 

Tommy murmurou um nome ao ouvido da rapariga.

 

Oh! exclamou Tuppence, impressionada.

 

E posso afirmar-lhe, minha filha, que é ele em pessoa!

 

Oh! tornou   Tuppence.   Depois   acrescentou,   pensativa:Gosto dele. E você? Ele mostra-se tão espantosamente cansado e aborrecido e, não obstante, sob essa aparência, percebe-se que ele é como o aço, todo agudeza e penetração. Oh!A moça deu um pulo. Belisque-me, Tommy, belisque-me! Não posso crer que isto seja real!

 

Mr. Beresford sentiu-se no dever de lhe satisfazer o pedido. Ai! Agora já chega! Sim, não estamos a sonhar! Temos um emprego!

 

E que emprego!   Os companheiros de façanhas   na verdade começaram a fazer das suas.

 

É mais respeitável do que o que eu imaginaradisse Tuppence, pensativa.

 

Por sorte, eu não tenho a sua inclinação para o crime! Que horas são? Vamos almoçar... oh!

 

Um mesmo pensamento brotou no cérebro de ambos. Tommy foi o primeiro a dar voz à ideia:

 

Julius P. Hersheirnmcr!

 

Não falámos a Mr. Carter a respeito dele.

 

Sim. Mas não havia muita coisa para dizer, pelo menos até que vejamos o homem. Vamos! É melhor tomarmos um taxi.

 

Agora quem é que está a ser perdulário?

 

Todas as despesas pagas, não se esqueça. Entremos.

 

Em todo o caso, faremos melhor figura chegando neste carro observou Tuppence, recostando-se com vaidade na almofada. Tenho a certeza de que os chantagistas nunca chegam de   autocarro.

 

Já não somos chantagistasadvertiu Tommy.

 

Não estou muito convencida de que o tenha sido disse Tuppence, com certa melancolia.

 

Mr. Julius P. Hersheimmer era muito mais novo do que o haviam imaginado Tommy e Tuppence. A jovem calculou que ele teria uns trinta e cinco anos. Era de altura mediana e de construção quadrada para combinar com o queixo. Tinha um rosto belicoso mas simpático. Quanto à nacionalidade, ninguém lhe atribuiria outra senão a americana, embora falasse com muito leve sotaque.

 

Receberam o meu bilhete? Sentem-se e contem tudo o que sabem a respeito de minha prima.

 

Sua prima?

 

Sim. Jane Finn. . É sua prima?

 

- Meu pai e sua mãe eram irmão e irmã explicou meticulosamente Mr. Hersheimmer.

 

Oh! exclamou Tuppence. Então sabe onde ela está?

Não! Mr.   Hersheimmer deu   um murro na mesa.

 

Diabos me levem se eu sei! E a senhora?

 

Nós publicámos o anúncio para receber e não para prestar   informações replicou   Tuppence, com  severidade.

 

Não ignoro isso. Sei ler. Mas julguei que talvez fosse a sua história passada que lhes interessasse e que soubessem onde ela se encontra agora.

 

Não fazemos questão de conhecer o passado dela disse Tuppence, cautelosa.

 

Mas Mr. Hersheimmer deu mostras de súbita desconfiança.

 

Escutem declarou. Isto aqui não é a Sicília! Não me venham com exigência de resgate ou com ameaças de cortarem as orelhas da menina se eu recuso. Estamos nas Ilhas Britânicas. Assim, deixem-se de brincadeiras senão grito por aquele belo e forte polícia britânico que estou vendo ali fora, no Piccadilly.

 

Tommy deu-se pressa em explicar.

 

Não raptámos sua prima. Ao contrário, fazemos esforços para a encontrar. Fomos contratados para isso.

 

Mr. Hersheimmer reclinou-se na cadeira.

 

Expliquem-sedisse   lacònicamente.

 

Tommy conformou-se com o pedido e assim expôs uma cauta versão do desaparecimento de Jane Finn e da possibilidade de a jovem se ter envolvido inadvertidamente num «caso político». Aludiu a Tuppence e a si próprio como «investigadores particulares» encarregados de a encontrar e acrescentou que, em vista disso, ficariam muito satisfeitos com qualquer detalhe que Mr. Hersheimmer lhes pudesse fornecer.

 

O cavalheiro fez um sinal de aprovação com a cabeça.

 

Acho que está tudo muito certo. Fui apenas um pouco precipitado. Mas acontece que Londres me atordoa! Conheço apenas a minha pequenina e amável Nova York. Assim, façam as perguntas e responderei.

 

Por um instante, essas palavras imobilizaram os «Jovens Aventureiros»; porém, Tuppence, refazendo-se do assombro, meteu-se ousadamente à tarefa com uma reminiscência colhida numa história policial.

 

Quando foi que o senhor viu pela última vez a falec... a sua prima, quero dizer?

 

Nunca a vi respondeu Mr. Hersheimmer.

 

Como? indagou Tommy, atónito. Hersheimmer voltou-se para o rapaz.

 

Não, senhor. Como já disse, meu pai e sua mãe eram irmão e irmã, como o poderiam ser o senhor e esta jovem Tommy não corrigiu esta suposição sobre o seu parentesco com Tuppence mas nem sempre se mantiveram unidos. E quando minha tia decidiu casar-se com Amos Finn, pobre mestre-escola rural do Oeste, meu pai ficou furioso Declarou que se conseguisse acumular um pecúlio, como era de crer ante as favoráveis condições que se lhe ofereciam, a irmã não veria um centavo sequer do seu dinheiro. Sobreveio o epílogo quando a tia Jane seguiu para o Oeste e nunca mais tivemos notícias dela.

 

«O velho fez dinheiro. Meteu-se em negócios de petróleo, passando para os do aço, lidou um pouco com caminhos de ferro e posso afirmar que fez Wal Street tremer! Silêncio. Depois, ele faleceu no Outono passado e eu fiquei rico. Pois bem, acreditem-me, a consciência começou a incomodar-me! Batia à porta e dizia: «Que é feito da tua tia Jane, lá do Oeste ?» Fiquei preocupado. Eu imaginava que Amos Finn não teria progredido. Não era homem para isso. Acabei por contratar um homem para descobrir minha tia. Resultado: ela morrera, Amos Finn morrera, mas tinham deixado uma filha Jane que naufragara no Lusitânia em viagem para Paris. Ela salvara-se mas deste lado do mar não sabiam dar notícias do seu paradeiro. Desconfiei que não estavam a procurá-la com muito afinco e resolvi vir até cá para acelerar a busca. Telefonei para Scotland Yard e para o Almirantado em primeiro lugar. O Almirantado por pouco que não me mandou enforcar, mas na Scotland Yard foram mais corteses: declararam que realizariam investigações e mandaram um homem procurar-me esta manhã para eu lhe dar uma fotografia da desaparecida. Vou a Paris amanhã, apenas para ver o que a perfeitura está fazendo. Acho que se eu os espicaçar constantemente, hão-de fazer alguma coisa!»

 

A energia de Mr. Hersheimmer era tremenda. Tommy e Tuppence curvaram-se diante dela.

 

Digam-me agora concluiu ele não andam a procurá-la por algum motivo especial ? Menosprezo às instituições ou qualquer outra coisa britânica? Uma americana altiva pode achar enfadonhas as suas regras e regulamentos em tempo de guerra e rebelar-se contra tudo isso. Se se trata de um caso assim e se neste país existe algo semelhante a suborno, saibam que estou pronto a pagar.

 

Tuppence tranquilizou-o.

 

Muito bem. Então podemos trabalhar de comum acordo. Mas vamos almoçar? Mamdo servir aqui ou descemos até ao restaurante?

 

Tuppence manifestou preferência pela última sugestão e Julius submeteu-se à decisão da rapariga.

 

Mal haviam as ostras cedido lugar ao linguado à Colbert, quando vieram apresentar um cartão de visita a Hersheimmer. O inspector Japp, do Departamento de Investigações Criminais. De novo a Scotland Yard. Mas desta vez é outro homem. Pensará ele que lhe poderei contar algo que não tenha contado ao outro? Faço votos para que não tenham extraviado a fotografia. A casa do fotógrafo do Oeste ardeu, todos os negativos foram destruídos, de maneira que aquela é a única cópia existente. Foi-me oferecida pela directora do colégio.

 

Um temor não manifesto passou por Tuppence.

 

O senhor... o senhor não sabe o nome do homem que veio esta manhã?

 

Sim, sei. Não, não sei. Um momento. Estava neste cartão. Oh, descobri! Inspector Brown. Um indivíduo calado e despretensioso.

 

UM PLANO DE CAMPANHA

 

Na Scotland Yard não conheciam ninguém pelo nome de «Inspector Brown». A fotografia de Jane Finn, que seria do mais alto valor para a polícia na procura da jovem, perdera-se sem possibilidade de recuperação. Mais uma vez «Mr. Brown» triunfara.

 

O resultado imediato deste contratempo foi efectuar um rapprochement entre Julius Hersheimmer e os Jovens Aventureiros. Todas as barreiras desabaram com estrondo e Tommy e Tuppence sentiram-se como se houvessem conhecido o rapaz americano toda a vida. Abandonaram a reticência discreta de «investigadores particulares», revelaram a Julius a história completa dos companheiros de façanhas, ao que o rapaz declarou que «a barriga lhe doía de tanto rir.»

 

Voltou-se para Tuppence, finalizada a narrativa.

 

Sempre imaginei as jovens inglesas como algo anacrónico. Supunha-as antiquadas e ternas, receosas de sair à rua sem a companhia de um lacaio ou de uma velha tia. Parece-me que estou um pouco atrasado...

 

O remate dessas confidências foi que Tommy e Tuppence transferiram o seu domicílio para o Ritz, afim de. como referiu Tuppence, se conservarem em contacto com o único parente vivo de Jane Finn.

 

Num caso destesacrescentou ela a Tommy em tom confidencial ninguém vacilaria em gastar mais um pouco!

 

E o facto é que «ninguém» vacilou...

 

E agora disse a rapariga na manhã imediata à instalação no hotel mãos à obra!

 

Mr. Beresford pôs de lado o Daily Mail, que estava a ler, aplaudiu-a batendo palmas um tanto fortes demais. com toda a polidez, a colega recomendou-lhe que não fosse idiota.

 

Tem de se convencer, Tommy, que precisamos fazer alguma coisa para merecer o dinheiro que ganhamos.

 

Tommy suspirou.

 

Sim, suponho que nem mesmo o querido governo será capaz de nos sustentar no Ritz em ociosidade perpétua.

 

Portanto, como já disse, devemos fazer alguma coisa.

 

Pois   bem disse   Tommy,   pegando novamente   no Dally Mail faça. Não a deterei.

 

Você   compreende continuou   Tuppence estive   a pensar...

 

Foi interrompida por nova salva de palmas.

 

É muito interessante você ficar aí sentado a fazer gracinhas, Tommy, mas creio que não haveria inconveniente em pôr o seu fraco cérebro a trabalhar também.

 

É por causa do meu sindicato, Tuppence, do meu sindicato! Não me permite trabalhar antes das onze da manhã.

 

Tommy, quer que eu lhe atire alguma coisa acima? É absolutamente essencial que elaboremos sem demora um plano de campanha.

 

Eu sei, eu sei!

 

Então, mãos à obra!

 

Por fim, Tommy pôs de lado o jornal.

 

Em você, Tuppence, nota-se aquela simplicidade dos intelectos verdadeiramente grandes. Tem a palavra. Sou todo ouvidos.

 

Para começar disse Tuppence quais são os elementos de que dispomos?

 

Nenhum, absolutamente respondeu Tommy com ar divertido.

 

Engana-se!Tuppence agitou no ar um dedo enérgico. Contamos com duas pistas distintas.

 

Quais são?

 

Primeira pista: conhecemos um membro da quadrilha. Whittington?

 

Sim. Sou capaz de o reconhecer em qualquer parte. Hum fez Tommy, com ar de dúvida não considero isso propriamente uma pista. Você não sabe onde o ir procurar e há uma possibilidade entre mil de o encontrar por acaso.

 

Quanto a isso, não estou bem certa replicou Tuppence, pensativa. Tenho observado que as coincidências quando começam a acontecer repetem-se da maneira mais extraordinária. Trata-se, ao que suponho, de uma lei natural ainda não descoberta. Mas, como você disse, não nos podemos fiar em tal probabilidade. Entretanto, existem lugares em Londres onde toda a gente aparece, mais cedo ou mais tarde. O Piccadilly Circus, por exemplo. Uma das minhas ideias era postar-me lá o dia inteiro com um tabuleiro de flores.

 

E porque   não   de   comestíveis?indagou   o prático Tommy.

 

Que homem! Que é que os comestíveis têm que ver com o caso?

 

Muito. Neste momento você acaba de sair de um copioso «breakfast». Mas ninguém possui melhor apetite que você, Tuppence, e, pela hora do chá, começará a comer as flores, alfinetes e o resto. Honestamente, não deposito muita esperança nessa sua ideia. É possível que Whittington não esteja em Londres.

 

Tem razão. Sem embargo, acredito que a pista n.º 2 é mais prometedora.

 

Vamos a ela.

 

Não é grande coisa. Apenas um nome de baptismo: Rita. Whittington mencionou-o naquele dia.

 

É sua intenção publicar um terceiro anúncio: «Precisa-se de uma mulher misteriosa chamada Rita»?

 

Não. A minha intenção é raciocinar com lógica. O tal Danvers foi vigiado durante toda a viagem, não é ? E é muito mais provável que o tenha sido por uma mulher que por um homem...

 

Não sei porquê, francamente.

 

Tenho a absoluta certeza de que foi uma mulher e bonita replicou Tuppence, com toda a calma.

 

Em pontos técnicos como esse, submeto-me à sua decisão murmurou Mr. Beresford.

 

E é evidente que essa mulher, seja ela quem for, se salvou.

 

Como se chega a tal conclusão?

 

De outro modo, como saberiam eles que Jane Finn recebeu os papéis?

 

Tem razão. Continue, sr.» Sherlock!

 

E assim resta uma mera probabilidade (admito que é uma probabilidade apenas) de que a mulher seja «Rita».

 

E se for?

 

Se for, procuraremos os sobreviventes do Lusitânia até a encontrarmos.

 

Nesse caso, antes de mais nada, temos que obter uma lista dos sobreviventes.

 

Já a obtive. Organizei um rol das coisas que eu precisava saber e enviei-o a Mr. Carter. Recebi a resposta hoje pela manhã e entre os objectos enviados figura a relação oficial dos náufragos salvos do Lusitânia. Merece boa nota a inteligência da menina Tuppence?

 

Dou grau dez pela argúcia, zero pela modéstia. Mas o principal é saber se há alguma «Rita» na lista.

 

Isso é o que eu não seiconfessou Tuppence.

 

Não sabe?

 

Sim. Olhe. Inclinaram-se ambos sobre a lista. Como você vê, há muito poucos nomes de baptismo. Na maioria são sobrenomes precedidos de «Mrs.» ou «Miss».

 

Isto vem complicar as coisasmurmurou o rapaz, pensativo.

 

Tuppence encolheu os ombros, na sua habitual sacudidela de cachorrinho.

 

Bem, temos de tirar isso a limpo. Começaremos na área de Londres. Você fique tomando nota de todas as mulheres que residem em Londres e arredores enquanto ponho o chapéu.

 

Cinco minutos após o jovem par surgia em Piccadilly e, dentro de alguns segundos, um carro conduzia-os aos «Laurels», a Glendower Road n.º 7, residência de Mrs. Edgar

 

Keith, cujo nome figurava em primeiro lugar numa lista de sete que Tommy anotara na sua caderneta de apontamentos. «Laurels» era o nome de uma casa arruinada, afastada do caminho, com uns pavorosos arbustos que pretendiam dar a ideia de um jardim de frente. Tommy pagou o taxi e acompanhou Tuppence até à porta. Ela estava para premir o botão quando o rapaz a impediu, segurando-lhe o braço.

 

Que é que você tenciona dizer?

 

Que tenciono dizer? Ora, vamos ver... Ah, meu caro, não sei! É muito desconcertante.

 

Bem, como eu pensava disse Tommy com satisfação. Veja o que é ser mulher! Não prevêem nada! Fique aí no seu canto e observe como um simples homenzinho domina a situação. Tocou à campainha. Tuppence retirou-se para conveniente distância.

 

Uma criada em desalinho, de cara suja em extremo e com um par de olhos desiguais, atendeu-os à porta.

 

Tommy sacara do bolso a caderneta de apontamentos e um lápis.

 

bom dia! exclamou com vivacidade e bom humor.

 

Sou do Conselho Distrital de Hampstead. O novo registo de eleitores... Mrs. Edgar Keith mora aqui, não?

 

Mora respondeu   a criada.

 

Qual é o primeiro nome dela?perguntou Tommy, com o lápis pronto para entrar em acção.

 

Da patroa ? Eleanor Jane.

 

E-l-e-a-n-o-r soletrou Tommy.Tem filhos ou filhas maiores de vinte e um anos ?

 

-Não.

 

Muito obrigado. Tommy fechou a caderneta com um forte estalo. Passe bem.

 

A criada permitiu-se fazer a sua primeira observação:

 

Pensei que o senhor vinha por causa da conta do gás, declarou veladamente e fechou a porta.

 

Tommy reuniu-se à sua cúmplice.

 

Viu, Tuppence? observou. É uma brincadeira de crianças para um cérebro de homem.

 

Admito-o, sem reservas, já que você se saiu às mil maravilhas. Nunca me ocorreria um expediente desses.

 

Boa piada, não é? E podemos repeti-la quantas vezes quisermos.

 

A hora do almoço veio encontrar o jovem par atacando com avidez um bife com batatas numa hospedaria modesta. Haviam coligido uma Gladys Mary e uma Marjorie, sofreram uma decepção com uma mudança de endereço e foram constrangidos a escutar comprida dissertação sobre o sufrágio universal feita por uma exuberante senhora americana cujo nome de baptismo descobriram que era Sadie.

 

Ah!fez Tommy, sorvendo um longo trago de cerveja. Sinto-me melhor. Quais os próximos endereços?

 

A caderneta de apontamentos estava sobre a mesa, entre ele e a jovem. Tuppence abriu-a.

 

Mrs,   Vandermeyer leu   Tuppence South   Audley Mansions, n.º 20. Miss Wheeler, Clapington Road, n.º 20, Battersea. Esta é uma dama de companhia, se bem me lembro, sendo provável que não esteja em casa, e além disso parece difícil que seja quem procuramos.

 

Então a dama de Mayfair está claramente indicada para ser o primeiro porto de escala.

 

Tommy,   estou desanimada.

 

Ânimo, minha amiguinha. Nunca ignorámos que isto era uma possibilidade extrema. E, no fim de contas, mal começámos. Se nada descobrirmos em Londres, abre-se para nós a perspectiva de uma bela viagem pela Inglaterra, Irlanda e Escócia.

 

Tem razão disse Tuppence, recobrando o optimismo. E com todas as despesas pagas! Mas, Tommy, eu gosto quando as coisas acontecem rapidamente. Até agora, uma aventura sucedia a outra, porém, esta manhã um aborrecimento sucedeu a outro.

 

Você precisa de acabar com esse gosto pelas sensações vulgares, Tuppence. Lembre-se que se Mr. Brown corresponde de facto ao retrato que dele pintam, é de estranhar que até este momento não nos tenha levado à mansão dos mortos. Esta frase é boa, possui um sabor literário.

 

Você em verdade é mais pretensioso do que eue menos desculpável! Sim, senhor! Mas, sem dúvida, causa espécie que Mr. Brown ainda não tenha exercido contra nós a sua vingança. (Veja que eu também sei arredondar uma frase). Palmilhamos ilesos o nosso caminho...

 

Talvez ele nos considere muito insignificantes para que se preocupe connosco lembrou o rapaz com simplicidade.

 

Tuppence acolheu a observação com muito desagrado.

 

Você é horroroso, Tommy. Então não valemos nada?

 

Desculpe, Tuppence. O que eu quis dizer é que nós trabalhamos como toupeiras no escuro e ele nem suspeita dos nossos abomináveis planos. Ah, ah!

 

Ah, ah! imitou -o Tuppence, com um ar de aprovação, ao levantar-se.

 

<South Audley Mansions» era um edifício de apartamentos de aspecto imponente, bem próximo de Park Lane. O n.º 20 situava-se no segundo andar.

 

Já agora, Tommy demonstrava a desenvoltura que a prática proporciona. Recitou a fórmula de apresentação à velhota que lhe abriu a porta, a qual parecia mais uma governanta do que criada.

 

Primeiro nome?

 

Margaret.

 

Tommy soletrou-o, mas a mulher interrompeu-o.

 

Não, não é assim. É g-u-e.

 

Ah, sim. Marguerite. À maneira francesa, compreendo.

 

Calou-se e depois acrescentou de chofre, atrevidamente:

 

Nós havíamos registado o nome de Rita Vandermeyer, mas acho que está errado...

 

É como lhe chamam, senhor, mas o nome dela é Marguerite.

 

Muito obrigado. O serviço está feito. Passe bem.

 

Mal podendo conter a excitação que o invadiu, Tommy voou pelas escadas abaixo. Tuppence esperava no canto do corredor.

 

Você ouviu?

 

Sim. Oh, Tommy!

 

Tommy apertou-lhe o braço com simpatia.

 

Compreendo o seu entusiasmo, minha amiga. O mesmo sinto eu.

 

É... é tão bom a gente imaginar uma coisa... e depois acontecer realmente! -exclamou Tuppence vibrante.

 

Tommy ainda prendia na sua mão a da rapariga quando chegaram ao vestíbulo da entrada. Perceberam ruídos de passos na escada, acima deles, e vozes.

 

De súbito, para completa surpresa de Tommy, Tuppence arrastou-o para o pequeno espaço ao lado do elevador, onde a sombra era mais densa.

 

O que... -Pst!

 

Dois homens desceram a escada e transpuseram a porta. A mão de Tuppence apertou com mais força o braço de Tommy.

 

Depressa: siga-os. Eu não me atrevo. Ele talvez me reconheça. Não sei quem é o outro, mas o mais alto dos dois é Whittington.

 

A CASA EM SOHO

 

Whittington e o seu companheiro caminhavam numa marcha regular. Tommy pôs-se em perseguição imediatamente, a tempo de os ver dobrar a esquina da rua. com as suas passadas vigorosas, o rapaz poderia em breve aproximar-se deles e no momento em que, por sua vez, alcançou a esquina, a distância encurtara sensivelmente. As ruas da pequena Mayfair achavam-se relativamente desertas e ele julgou prudente contentar-se com mantê-los ao alcance da sua vista.

 

Os dois homens seguiam uma trajectória em ziguezague, escolhida para os levar com a maior rapidez possível a Oxford Street. Aí chegados, prosseguiram na direcção do nascente e Tommy acelerou um pouco a marcha. A pouco e pouco, acercou-se dos homens. No passeio regorjitante, pouco provável seria que eles dessem pela aproximação do rapaz, que ardia por captar uma ou duas palavras da conversa. Este intento frustrou-se por completo: os homens falavam em voz baixa e as suas palavras diluíam-se totalmente no rumor do tráfego.

 

Em frente da estação do metro de Dover Street, os homens atravessaram a rua, alheios à persistente presença de Tommy no seu encalço, e entraram no Lyon’s. Subiram ao primeiro andar e sentaram-se a uma mesa pequena junto da janela. Era tarde e o movimento estava reduzido naquela dependência do estabelecimento. Tommy ocupou uma mesa ao lado da dos homens, sentando-se exactamente por trás de Whittington afim de prevenir a eventualidade de ser reconhecido. Em compensação, podia contemplar à vontade o outro homem e analisá-lo com toda a atenção. Era louro, com um rosto magro e antipático e, ao que Tommy deduziu, de nacionalidade russa ou polaca. Contava cinquenta anos presumíveis, encolhia um pouco os ombros ao falar e os seus olhinhos astutos estavam sempre em movimento.

 

Tendo almoçado bem, Tommy contentou-se com pedir um café e uma torrada com queijo derretido. Whittington encomendou um almoço substancial para ele e para o seu companheiro; depois, quando a «garçonnette» se retirou, arrastou a cadeira mais para junto da mesa e começou a falar com o maior interesse, em voz baixa. O outro homem imitou-o. De ouvido à escuta, Tommy apenas percebia uma ou outra palavra. Mas a essência do diálogo parecia ser instruções ou ordens que o homem alto transmitia ao companheiro e das quais o último parecia discordar de quando em quando. Whittington dava ao outro o nome de Boris.

 

Tommy captou a palavra «Irlanda» várias vezes e também «propaganda», mas não fizeram qualquer menção de Jane Finn. De súbito, sobrevindo uma pausa no zunzum da sala, o rapaz apanhou uma frase inteira. Era Whittington quem falava.

 

Ah, mas você não conhece Flossie. Ela é uma maravilha. Um arcebispo juraria que ela era a sua própria mãe. Ela fala sempre com acerto e isso na realidade é o principal.

 

Tommy não ouviu a resposta de Boris mas, quando Whittington tornou a falar, julgou perceber estas palavras: «É claro... somente num caso de emergência...»

 

Tornou a perder o fio da conversa. A certa altura, porém, as frases tornaram-se nítidas mais uma vez, ou porque os homens falassem mais alto ou porque o ouvido de Tommy se tornara mais apurado, o que o rapaz não sabia ao certo. A verdade é que duas palavras exerceram o mais estimulante efeito sobre o ouvinte. Saíram dos lábios de Boris e eram: «Mr. Brown».

 

Whittington pareceu censurar o companheiro, mas este limitou-se a rir.

 

Porque não, meu amigo? É um nome dos mais respeitáveise dos mais corriqueiros. Ele não o escolheu por esse motivo? Ah, eu gostaria de me encontrar com ele, com Mr. Brown.

 

A voz de WHITTINGTON. adquiriu um timbre metálico quando ele replicou:

 

Quem sabe? Talvez você já o tenha encontrado.

 

Ora! retorquiu o outro. Isso é uma historieta infantil, uma fábula para a polícia. Sabe o que eu penso às vezes? Que o homem é uma fábula inventada pelos chefes secretos, um fantasma para nos amedrontar. Talvez seja isso.

 

E talvez não seja.

 

Eu fico a matutar... Será possível que ele ande connosco, no meio de nós, desconhecido de todos, com excepção de uns poucos escolhidos? Se é assim, ele guarda bem o segredo. E a ideia é óptima, sem dúvida. Nunca estamos seguros. Contemplamo-nos mutuamente - um de nós é Mr.   Brown; mas qual ? Ele dá ordensmas também as cumpre. Entre nós... no meio de nós... E ninguém sabe qual é ele... com esforço, o russo abandonou os caprichos da fantasia. Consultou o relógio.

 

Sim disse WHITTINGTON. Podemos ir embora. Chamou a «garçonnette» e pediu a conta. Tommy fez o mesmo e poucos minutos depois seguia os dois homens que desciam a escada.

 

Fora, Whittington fez sinal a um taxi e ordenou ao motorista que os levasse à estação de Waterloo.

 

Havia taxis em abundância e antes que o de Whittington se pusesse em movimento, outro encostava ao passeio em obediência à chamada peremptória de Tommy.

 

Siga aquele taxidisse o rapaz ao motorista. Não o perca de vista.

 

O homem não demonstrou o mínimo interesse. Limitou-se a soltar um grunhido e a recolher a bandeirinha com o sinal «livre». A corrida efectuou-se sem incidentes. O taxi de Tommy chegou à plataforma da estação pouco depois do de Whittington. O rapaz colocou-se atrás de Whittington na bilheteira. O homem comprou uma passagem simples de primeira classe para Bournemouth e Tommy fez o mesmo. Quando Whittington se reuniu ao companheiro, Bons observou, relanceando um olhar ao relógio:

 

Ainda é muito cedo. Você ainda dispõe de uma meia hora.

 

As palavras de Boris originaram outra ordem de ideias na mente de Tommy. Evidenciava-se que Whittington viajaria só, enquanto o outro permanecia em Londres. Restava-lhe pois escolher qual dos dois seguiria. Estava visto que não poderia seguir a ambos, a não ser que... Como Boris, consultou o relógio e depois o quadro indicador do movimento dos comboios. O comboio para Bournemouth partia às três e meia. Eram três e dez. Whittington e Boris passeavam de um lado para o outro em frente do quiosque da estação. Tommy lançou-lhes um olhar indeciso e depois precipitou-se para uma cabina telefónica contígua. Não se arriscou a perder tempo tentando comunicar com Tuppence. com toda a probabilidade, ela ainda se encontrava nas vizinhanças de «South Audley Mansions». Mas reatava outro aliado. Ligou para o Rilz e chamou Julius Hersheimmer. Escutou um zumbido. Ah, se o rapaz americano não se encontrasse no quarto! Um «alo» de sotaque iniludível chegou por fim através do fio.

 

É você, Hersheimmer ? Daqui fala Beresford. Estou na estação de Waterloo. Segui Whittington e outro homem até aqui. Whittington parte para Bournemouth às três e meia. Poderá você vir até cá antes dessa hora?

 

A resposta foi tranquilizadora.

 

Claro.   Apressar-me-ei.

 

Tommy desligou com um suspiro de alívio. Na sua opinião, era notável o dinamismo de Julius. Pressentiu instintivamente que o americano chegaria a tempo.

 

Whittington e Boris estavam ainda no mesmo lugar. Se Boris ficasse para assistir à partida do amigo, tudo estaria bem. Depois, Tommy, pensativo, mergulhou os dedos nas algibeiras. A despeito de lhe haverem conferido carta branca, ainda não adquirira o hábito de trazer consigo uma soma considerável de dinheiro. A compra da passagem de primeira classe para Bournemouth deixara-o apenas com alguns níqueis no bolso. Fazia votos para que Julius não viesse tão desprevenido.

 

Entrementes, escoavam-se os minutos: três e quinze, três e vinte, três e vinte e sete. Já acreditava que Julius não chegaria a tempo. Três e vinte e nove... Portas batiam. Tommy sentia ondas geladas de desespero a percorrerem-lhe o corpo. Depois, uma mão pousou-lhe no ombro.

 

Aqui estou, rapaz. O seu tráfego britânico é algo de indescritível! Mostre-me os dois piratas.

 

Aquele é Whittington: o que está a embarcar, aquele moreno e alto. O outro é o tal estrangeiro com quem ele conversa.

 

Vamos a isto. Qual dos dois me toca?

 

Tommy já reflectira sobre essa questão.

 

Você trouxe dinheiro?

Julius balouçou a cabeça e Tommy empalideceu.

 

Calculo que não tenho mais que trezentos ou quatrocentos dólares neste momento explicou o americano.

 

Tommy soltou uma discreta exclamação de alívio. Ah, meu Deus! Vocês, milionários... Não falam a mesma língua dos outros! Embarque, embarque. Eis aqui a sua passagem. Você encarrega-se de Whittington.

 

E encarrego-me de verdade! disse Julius em tom de ameaça. O comboio começava a movimentar-se quando ele se arremessou para uma carruagem:Até breve, Tommy. O comboio deslizou para fora da estação.

 

Tommy respirou fundo. Boris vinha ao longo da plataforma na sua direcção. Tommy deixou-o passar e depois retomou mais uma vez a perseguição.

 

Da estação, Boris seguiu no metropolitano até Piccadilly Circus. Daí prosseguiu a pé pela Shaftesbury Avenue e por fim enveredou para o labirinto de ruelas ao redor do Soho. Tommy seguia-o a prudente distância.

 

Finalmente, chegaram a uma pequena praça em ruínas. As casas apresentavam um aspecto sinistro com a sua imundície e decadência. Boris olhou em torno e Tommy refugiou-se sob a protecção de um pórtico providencial. O lugar estava quase deserto. Tratava-se de um beco sem saída e por consequência nenhum veículo transitava por ali. O modo furtivo por que o outro olhara em torno estimulara a imaginação de Tommy. Do seu abrigo no vão da porta, viu-o subir os degraus de uma casa de aspecto sinistro e bater incisivamente, com um ritmo peculiar, à porta. Abriram prontamente, o homem disse uma palavra ou duas ao porteiro e entrou. A porta tornou a fechar-se.

 

Foi neste momento que Tommy perdeu a cabeça. O que ele devia fazer, o que faria qualquer homem em seu juízo perfeito, era permanecer com paciência onde estava e aguardar que o homem tornasse a sair. A atitude que assumiu foi inteiramente alheia ao bom senso sereno que sempre constituiu a sua característica principal. Ele teve a impressão, conforme o declarou, de que alguma coisa lhe estalara no cérebro. Sem um momento de pausa para reflexão, subiu também a escada e imitou o melhor que pôde o bater característico.

 

Abriram a porta com a mesma prestreza de minutos antes. Um homem com cara de rufia, de cabeça rapada, surgiu no vão da porta.

 

Que   deseja? rosnou.

 

Nesse instante, Tommy alcançou a compreensão exacta da loucura que estava cometendo. Mas não se entregou a hesitações. Lançou mão das primeiras palavras que lhe vieram à mente.

 

Mr. Brown?disse.

 

Para sua surpresa, o homem pôs-se de lado.

 

Lá em cima explicou, sacudindo o polegar sobre o ombro do rapaz no segundo andar, à esquerda.

 

AS AVENTURAS DE TOMMY

 

Embora embaraçado com as palavras do homem, Tommy não hesitou. Se a audácia o levara com bom êxito até ali, era de supor que o levaria do mesmo modo mais adiante. Silenciosamente penetrou na casa e começou a subir os degraus soltos da escada. Ali dentro reinava uma porcaria indescritível, O papel encardido que forrava as paredes, cujo desenho se tornara impossível de distinguir, pendia em festões frouxos em diversos lugares. Em todos os cantos se acumulava uma massa cinzenta de teias de aranha.

 

Tommy avançava devagar. No momento em que atingia o topo da escada, percebeu que o homem lá de baixo desaparecia numa divisão das traseiras. Era evidente que não lhe adviera ainda qualquer desconfiança. Chegar à casa e perguntar por Mr, Brown parecia com efeito um facto natural.

 

No alto da escada, Tommy parou para reflectir no passo seguinte. À sua frente, abria-se um corredor estreito, com portas de um e de outro lado. De uma das portas mais próximas partia surdo rumor de vozes. Era a divisão que o homem indicara. Mas o que lhe fascinou o olhar foi um pequeno vão que lhe ficava imediatamente à direita meio dissimulado por uma cortina rasgada de veludo. Defrontava directamente a porta da esquerda e, devido ao seu ângulo, também proporcionava nítida visão da parte superior da escada. Era ideal como esconderijo para um ou, em caso de apuros, dois homens, pois media cerca de dois pés de fundo por três de largura. Exerceu logo poderosa atracção sobre Tommy. O rapaz ponderou as coisas, com o seu raciocínio lento e firme, e concluiu que a referência a «Mr. Brown» não servia para designar uma pessoa mas com toda a probabilidade, era uma senha usada pela quadrilha. Empregando-a fortuitamente, Tommy conseguira admissão. Até agora não despertara suspeitas. Mas cumpria decidir com rapidez o passo seguinte.

 

Considerou a hipótese de entrar ousadamente na sala à esquerda do corredor. Seria suficiente o simples facto de haver conseguido acesso à casa ? Talvez exigissem nova senha ou até mesmo uma prova de identidade. O porteiro por certo não conhecia de vista todos os membros da quadrilha, mas ali em cima podia ser diferente. Em suma, a sorte ajudara-o bastante até aquele momento, mas não convinha confiar demasiado nela. Entrar na sala seria um perigo colossal. Não confiava em que pudesse desempenhar o seu papel indefinidamente: mais cedo ou mais tarde trair-se-ia, desperdiçando uma extraordinária oportunidade em simples tolice.

 

Soaram mais uma vez na porta em baixo as pancadinhas convencionais e Tommy, já resolvido, deslizou com rapidez para o vão e correu a cortina que o escondeu por inteiro. Havia numerosos rasgões e furos no pano velho da cortina, os quais lhe permitiam boa visibilidade. Assistiria ao desenrolar dos acontecimentos e, no momento que julgasse oportuno, poderia reunir-se ao grupo, modelando a sua conduta pela daquele recém-chegado.

 

O homem, que vinha subindo a escada num passo furtivo e vagaroso, era absolutamente desconhecido de Tommy. Não havia dúvidas de que pertencia à escória da sociedade. A testa saliente, o queixo de criminoso, a bestialidade de toda a fisionomia constituíam uma novidade para o rapaz, conquanto se tratasse de um tipo que a Scotland Yard reconheceria de relance.

 

O homem passou junto ao vão, respirando pesadamente. Deteve-se na porta fronteira onde repetiu o bater convencional. Uma voz lá dentro berrou qualquer coisa, o homem abriu a porta e entrou, permitindo assim a Tommy uma vista momentânea do interior da sala. Calculou que havia quatro ou cinco indivíduos sentados em torno de uma mesa que ocupava a maior parte do espaço, mas a sua atenção concentrou-se num homem alto, de cabelos cortados rente, barba curta e ponteaguda como a de um marinheiro, o qual estava sentado à cabeceira da mesa, tendo uns papéis à sua frente. Lançou um olhar ao recém-chegado e, com pronúncia correcta mas estranhamente precisa, que chamou a atenção de Tommy, perguntou:

 

O seu número, companheiro?

 

- Catorze, chefe respondeu o outro.

’’   Está certo.

A porta tornou a fechar-se.

 

Se este sujeito não é alemão, eu sou holandêsdisse Tommy de si para consigo. E os homens têm números que são anotados e verificados! Por sorte não tentei entrar na sala. Teria dado um número errado e seria o diabo! Não, o meu lugar é aqui mesmo. Olá, vem aí outro conviva!

 

Este novo visitante diferia radicalmente do último. Tommy percebeu logo que se tratava de um membro do «Sinn Fein», o partido revolucionário irlandês. Sem dúvida, a organização de Mr. Brown era uma empresa de vasto raio de acção. O criminoso comum, o «gentleman» irlandês, o russo lívido e o eficiente mestre de cerimónias alemão! Na verdade, que bando estranho e sinistro! Quem era o homem que fechava na sua mão a curiosa variedade de elos de uma cadeia desconhecida ? com o novo visitante repetiu-se a mesma cena. A batida na porta, a exigência do número e a resposta: «Está certo».

 

Duas pancadas se repetiram em rápida sucessão na porta de baixo. O primeiro dos homens que então chegaram era de todo desconhecido de Tommy, que presumiu tratar-se de um empregado de escritório. Era um indivíduo silencioso, de fisionomia inteligente, vestido com muita modéstia. O segundo pertencia à classe operária e o seu rosto pareceu vagamente familiar a Tommy.

 

Três minutos depois chegou outro, um homem de aspecto autoritário, vestido bizarramente, evidenciando ser pessoa bem nascida. Mais uma vez, Tommy julgou que esta fisionomia não lhe era estranha, embora de momento não pudesse recordar o nome da nova personagem.

 

A isto seguiu-se longo lapso de espera. Por tal motivo, Tommy concluiu que o grupo se completara; e estava para emergir, com toda a cautela, do seu esconderijo, quando novas pancadas à porta o fizeram recuar.

 

O novo recém-chegado subiu as escadas com tanta discreção que chegou quase ao pé de Tommy antes que o rapaz desse pela sua presença.

 

Era um homem alto, muito pálido, com uns ares gentis, quase femininos. O ângulo dos malares denunciava-lhe a ascendência eslava, mas não havia qualquer outro sinal que lhe indicasse a nacionalidade. Ao passar pelo esconderijo de Tommy, voltou a cabeça vagarosamente. Os olhos, de estranho brilho, pareciam chamejar através da cortina; Tommy mal podia crer que o homem ignorasse a sua presença ali e, a seu pesar, teve um estremecimento. Não era mais imaginativo que a maioria dos rapazes ingleses, porém, não se pôde furtar à impressão de que uma força de extraordinária potência emanava do homem. Aquele indivíduo lembrava-lhe uma serpente venenosa.

 

Um instante depois a impressão confirmou-se. O recém-chegado bateu à porta do mesmo modo que os outros, porém, a sua recepção foi diferente. Ao vê-lo, o homem da barba levantou-se, no que foi imitado por todos os demais. O alemão avançou para o receber com um aperto de mão. Bateu os tacões.

 

É uma honra para nós disse. Uma grande honra. Julguei que não seria possível.

 

O outro respondeu em voz baixa e um pouco sibilante:

 

Surgiram   dificuldades.   Outra   vez   será   impossível. Uma  reunião,   porém,   é essencialpara   definir   a   minha política. Nada posso fazer sem Mr. Brown. Ele está cá?

 

com perceptível alteração no timbre de voz, o alemão respondeu após ligeira hesitação:

 

Recebemos um recado. É-lhe impossível estar presente, em pessoa. Calou-se, dando a curiosa impressão de haver deixado a frase incompleta.

 

Um sorriso lento distendeu o rosto do interlocutor. Olhou em torno e viu um círculo de fisionomias inquietas.

 

Ah! Compreendo. Li algo sobre os seus métodos. Ele age na sombra e não confia em ninguém. Mesmo assim, é possível que ele esteja entre nós, agora... Olhou em torno mais uma vez; e mais uma vez aquela expressão de susto se estampou no rosto dos homens. Cada um deles parecia mirar o vizinho com desconfiança.

 

O russo bateu ao de leve na face.

 

Assim é. Continuemos.

 

O alemão, ao que parecia, também estava abalado. Indicou o lugar que ocupara à cabeceira da mesa. O russo opôs objecções, mas o outro insistiu.

 

É o único lugar possível disse para o «Número Um,» O «Número Catorze» poderá fechar a porta?

 

Instantes depois, Tommy tinha mais uma vez diante de si os painéis da porta, de madeira nua, e as vozes no interior declinavam para um murmúrio indistinto. Tommy impacientou-se. com a conversa que escutara recrudescera-lhe a curiosidade. Entendia que precisava de ouvir mais.

 

De baixo não vinha rumor algum e não parecia provável que o porteiro subisse a escada. Depois de escutar atentamente por um minuto ou dois, enfiou a cabeça para fora da cortina. O corredor estava deserto. Agachou-se, tirou os sapatos, colocou-os por trás da cortina e, conservando as meias nos pés, avançou cautelosamente e, ajoelhando-se junto à porta fechada, encostou o ouvido à fresta. com enorme espanto, não conseguiu ouvir quase nada; apenas uma palavra ocasional, aqui e ali, quando uma voz se alteava, o que servia apenas para lhe exacerbar ainda mais a curiosidade.

 

Olhou para a maçaneta da porta, pensando numa tentativa. Poderia rodá-la aos poucos de maneira tão suave e imperceptível que lá dentro ninguém o notasse? Convenceu-se de que, com muito cuidado, poderia fazê-lo. com a maior lentidão, fez girar a maçaneta, contendo a respiração. Um pouco mais... mais um pouquinho ainda... nunca chegaria ao fim? Ah! Afinal, completou a volta.

 

Deteve-se por um ou dois minutos para respirar profundamente e fez leve pressão para abrir. A porta não se moveu. Tommy perturbou-se. Se empregasse muita força era quase certo que produziria um rangido. Esperou até que o rumor das vozes se fizesse mais intenso e realizou nova tentativa. Nenhum resultado obteve, ainda dessa vez. Aumentou a pressão. A maldita porta estaria colada ? Por fim, em desespero, empurrou-a com toda a força. Mas a porta permaneceu firme e só então descobriu a verdade. Estava fechada por dentro. Por instantes, a indignação impediu-o de tomar qualquer outra iniciativa.

 

Ora! É de enlouquecer! disse. Que logro idiota! Serenada a cólera, preparou-se para encarar a situação. Era claro que a primeira coisa a fazer era repor a maçaneta na primitiva posição. Se a largasse de repente, os homens, lá dentro, percebê-lo-iam; por isso, com a mesma penosa paciência, inverteu a táctica há pouco empregada. Tudo decorreu bem e. com um suspiro de alívio, o rapaz pôs-se de pé. Tencionava escutar ainda o que discutiam na sala fechada. Se um plano falhara, cabia-lhe descobrir outro.

 

Lançou um olhar em torno. Ao longo do corredor, havia outra porta à esquerda. Avançou para ela em passadas silenciosas. Ficou à escuta por instantes, depois experimentou a maçaneta. A porta cedeu e ele entrou.

 

Achou-se numa sala desocupada, com mobília de quarto. Como tudo o mais, naquela casa, os móveis estavam a cair aos pedaços.

 

Mas o que interessou Tommy foi encontrar ali o que esperava: uma porta de comunicação entre os dois aposentos, à esquerda da janela. com todo o cuidado, fechou a porta do corredor atrás de si, aproximou-se da outra e examinou-a atentamente. Estava fechada à chave. A fechadura, bastante ferrugenta, indicava que estivera fora de uso por algum tempo. Num movimento muito suave, para um e outro lado, Tommy conseguiu fazê-la funcionar sem demasiado ruído. Depois, repetiu a primitiva manobra com a maçaneta desta vez com êxito integral. Abriu a porta uma fresta, apenas, mas o suficiente para ouvir. Havia uma portière de veludo no lado interno da porta que o impedia de ver o que se passava, mas podia reconhecer as vozes com razoável precisão. Falava o partidário do «Sinn Fein». A tonalidade irlandesa da sua voz era inconfundível.

 

Tudo isso está muito bem. Mas é preciso mais dinheiro. Não havendo dinheiro, não há resultados!

 

Outra voz, que Tommy julgou ser a de Boris, replicou:

 

Você garante que haverá resultados?

 

Daqui a um mêsmais cedo ou mais tarde, conforme queiramhaverá uma tal onda de terror na Irlanda que abalará o Império Britânico.

 

Seguiu-se uma pausa e depois soaram as palavras macias e sibilantes do «Número Um»:

 

bom! Você terá o dinheiro. Boris, providencie nesse sentido.

 

Boris formulou uma pergunta:

 

Por intermédio dos irlando-americanos e de Mr. Potter, como de costume?

 

Creio   que   sim! disse   outra   voz, com  intonação transatlântica. Apesar de que eu gostaria de avisar aqui e neste momento que as coisas estão a ficar difíceis. Já não contamos com a mesma simpatia de outrora e acentua-se a tendência de deixar os Irlandeses resolverem os seus próprios assuntos, sem interferência da América.

 

Tommy presumiu que Boris encolhera os ombros ao responder:

 

Que importa, uma vez que o dinheiro só nominalmente vem dos Estados Unidos?

 

A dificuldade maior é o desembarque de muniçõesdisse o revolucionário irlandês. O   dinheiro transporta-se com bastante facilidade graças aqui ao nosso colega.

 

Outra voz, que Tommy calculou ser do homem alto com ares autoritários, cujo rosto lhe parecera familiar, disse:

 

Aluda aos sentimentos de Belfast, se eles o escutarem!

- Então essa parte está resolvida disse a voz sibilante.

 

Agora, quanto à questão do empréstimo a um jornal inglês, você arranjou tudo satisfatoriamente, Boris?

 

Creio que sim.

 

Bem. Virá um desmentido oficial de Moscow, se for necessário.

 

Mais uma pausa e depois a voz clara do alemão interrompeu o silêncio:

 

Recebi instruções de Mr. Brown para apresentar ao senhor os resumos dos informes dos diversos sindicatos. Esse dos mineiros   é   bastante satisfatório.   Temos   de   embaraçar   os caminhos de ferro. Poderá haver complicações.

 

Por longo tempo reinou silêncio, interrompido apenas pelo rumor dos papéis e uma ocasional palavra de explicação do alemão. Depois, Tommy ouviu o leve crepitar de dedos tamborilando na mesa.

 

E... a data, meu amigo?perguntou o «Número Um».

 

Dia 29.

 

Dir-se-ia que o russo estava a ponderar.

 

É muito cedo.

 

Eu sei, mas foi decidido pelos principais líderes trabalhistas e não convém dar a ideia de que interferimos demais. Eles devem acreditar que o negócio é só deles.

 

O russo riu frouxamente, como que divertido.

 

Sim, sim declarou. Isso é verdade. Não devem suspeitar que nos utilizamos deles para atingir os’ nossos objectivos. São homens honestos e aí é que reside o seu valor para nós. É interessante... mas não se pode fazer uma revolução sem   homens   honestos.   O   instinto   do   povo   é   infalível.

 

Calou-se, e depois repetiu, como se a frase lhe agradasse: Toda a revolução tem os seus homens honestos. Depois, são depostos sem demora.

 

A sua voz tomara uma inflexão sinistra.

 

Clymes deve desaparecer. Vê longe demais. O «Número Catorze» cuidará disso.

 

Seguiu-se um murmúrio rouco.

 

Muito bem, chefe. E, ao cabo de alguns instantes:

 

E se me apanharem?

 

Terá os advogados mais inteligentes empenhados na sua defesa replicou o alemão calmamente. Mas, por via das dúvidas, você usará umas luvas que deixam as impressões digitais de um conhecidíssimo arrombador. Não há motivo para receio.

 

Oh, não tenho medo, chefe. Tudo pela causa. O sangue correrá   nas   ruas,   disseram. Falou   num tom  temível. Às vezes sonho com isso. Diamantes e pérolas rolando na sarjeta para quem quiser apanhá-los!

 

Tommy ouviu arrastarem uma cadeira. O «Número Um» falou:

 

Então, está tudo combinado. Podemos ter a certeza do sucesso

 

Eu... creio que sim. Mas o alemão falou com menos confiança que de costume.

 

A voz do «Número Um» adquiriu de súbito uma entonação perigosa:

 

Que se pode temer?

 

Nada, mas...

 

Mas... o quê?

 

Os líderes trabalhistas. Sem eles, nada podemos fazer. Se eles não declararem a greve geral no dia 29...

 

Porque não hão-de declará-la?

 

Como o senhor disse, são honestos. E, a despeito de tudo o que fizemos para desacreditar o governo a seus olhos, não estou certo de que eles não possuam confiança nos governantes.

 

Mas...

 

Eu sei. Os abusos não cessam. Mas em geral, a opinião pública pende para o lado do governo.

 

Mais uma vez, os dedos do russo tamborilaram na mesa. Vamos ao caso, meu amigo. Disseram-me que há um certo documento cuja existência nos garante o êxito.

 

Assim é. Exibindo-se o documento aos líderes, o resultado seria imediato. Eles divulgá-lo-iam por toda a Inglaterra e tomariam o partido da revolução sem hesitação. O governo seria afinal derrubado.

 

Então, que mais quer?

 

Quero   o   documento respondeu   o   alemão   bruscamente.

 

Ah! Não está em seu poder? Mas sabe onde se encontra?

 

Não.

 

Ninguém sabe? -, Uma só pessoa talvez.

 

Quem é essa pessoa? Uma rapariga.

 

Tommy continha a respiração.

 

Uma rapariga?A voz do russo adquiriu um tom de desprezo. E não a obrigaram a falar?

 

Este caso é diferente disse o alemão, soturno.

 

Como?   Diferente? Calou-se   um   momento,   depois prosseguiu: Onde se encontra a pequena agora?

 

A pequena? ,

 

Sim. -Está...

 

Mas Tommy não pôde ouvir mais. Uma forte pancada na cabeça e tudo mergulhou na sombra.

 

TUPPENCE EMPREGA-SE COMO CRIADA

 

Quando Tommy partiu na pista dos dois homens, Tuppence apelou para toda a sua capacidade de autodomínio afim de se abster de o acompanhar. Todavia, conteve-se o melhor que pôde, consolando-se com a ideia de que os acontecimentos confirmavam os seus raciocínios. Os homens haviam sem dúvida saído do apartamento do segundo andar e aquele frágil indício do nome «Rita» colocara mais uma vez os «Jovens Aventureiros» na pista dos raptores de Jane Finn.

 

O problema agora consistia em descobrir o que convinha fazer. Tuppence odiava a inacção. Tommy encontrara ocupação e, impossibilitada de se reunir a ele, a jovem sentia-se como uma alma perdida. Voltou até ao vestíbulo da entrada do edifício de apartamentos. Ali encontrava-se agora o pequeno do elevador, ocupado em polir as peças de latão.

 

O garoto relanceou um olhar a Tuppence, quando ela entrou. Talvez a jovem conservasse uns restos do espírito infantil, mas o certo é que sempre se saía bem ao lidar com crianças. Dir-se-ia que um vínculo de simpatia se estabelecia instantaneamente. Ela reflectiu que um aliado no campo do inimigo, por assim dizer, não era para desprezar.

 

Olá,   William disse   alegremente. Isso está   a ficar brilhante, hein?

 

O pequeno sorriu. Albert,   miss corrigiu.

 

Albert, seja disse Tuppence. Olhou com uns ares de mistério ao redor do vestíbulo. Inclinou-se para o garoto e falou em tom de segredo:

 

Preciso dizer-lhe uma coisa, Albert.

 

Albert interrompeu o serviço e entreabriu a boca.

 

Olhe! Sabe o que é isto? com um gesto dramático, abriu a aba esquerda do casaco e exibiu uma pequena insígnia de metal. Era muito pouco provável que Albert soubesse o que significava aquilo e se o soubesse teria sido fatal para os planos de Tuppence, pois a insígnia em questão não passava de um distintivo de um corpo de treino fundado pelo arcediago nos primeiros dias da guerra. A sua presença no casaco de Tuppence devia-se ao facto de o utilizar para prender flores. Mas os olhos aguçados de Tuppence entreviram uma novela policial barata a emergir parcialmente de um bolso de Albert e   o seu   imediato   arregalar   de   olhos   convenceu-a de que a táctica servia e que o peixinho ia morder a isca.

 

Força Americana de Detectives! ciciou a jovem. Albert deixou-se empolgar.

 

Deus do Céu! murmurou em êxtase.

 

Tuppence fez um sinal de cabeça para ele, com o ar de quem estabeleceu entendimento perfeito.

 

Sabe quem procuro? perguntou com a maior amabilidade.

 

Albert, ainda de olhos esgazeados, indagou sem fôlego:

 

Alguém dos apartamentos?

 

Tuppence fez um sinal afirmativo com a cabeça e apontou para as escadas.

 

Do   n.º   20.   Chama-se   Vandemeyer.

 

Vandemeyer! Ah! Ah!

 

A mãozita de Albert enterrou-se no bolso.

 

Uma ladra? perguntou com ansiedade.

 

Ladra? Sim... Rita Perigosa é como lhe chamam nos Estados Unidos.

 

Rita Perigosa repetiu Albert em delírio. Oh, é como no cinema!

 

Certamente. Tuppence era frequentadora assídua do cinema.

 

Annie afirma que ela é mácontinuou o rapaz.

 

Quem é Annie? perguntou Tuppence.

 

A criada. Ela vai-se embora hoje. Muitas vezes Annie me disse: «Tome nota do que lhe digo, Albert não me admiraria se a polícia viesse procurá-la qualquer dia destes.» Como veio a acontecer agora. Mas quem olha para ela fica encantado.

 

Sim, ela é bonita declarou Tuppence descuidadamente.

 

Isso é de utilidade para os seus planos, você compreende. A propósito, ela não tem usado umas esmeraldas?

 

Esmeraldas? Umas pedras verdes, não é? , Tuppence acenou afirmativamente com a cabeça.        

 

Por isso é que andamos a procurá-la. Conhece o velho Rysdale ?

Albert abanou a cabeça.

Peter B. Rysdale, o rei do petróleo?

Parece que o nome não me é estranho.

 

São dele as pedras. A mais preciosa colecção de esmeraldas do Mundo. Vale um milhão de dólares!

 

Ufa!foi a exclamação extática de Albert. Cada vez se parece mais com o cinema.

 

Tuppence sorriu, satisfeita com o êxito dos seus esforços.

 

Ainda não dispomos de provas concludentes. Mas estamos na pista da mulher. E piscou um olho significativamente

 

creio que ela não escapará desta vez.

 

Albert soltou outra exclamação de deleite.

 

Agora, tome cuidado, rneu pequeno disse Tuppence.

 

Sobre este assunto, nem uma palavra a ninguém. Não sei se fiz bem em lhe contar, mas nos Estados Unidos conhecemos um rapaz inteligente ao primeiro olhar.

 

Não direi uma sílaba prometeu Albert com ardor.

 

E não haverá alguma coisa que eu possa fazer? Espiar, talvez ?

 

Tuppence fingiu reflectir, depois abanou a cabeça.

 

De momento, não. Mas, sendo preciso, não me esquecerei de si, filho. E a respeito da pequena que você disse que se vai embora?

 

Annie? com essa patroa as criadas não param. Como disse Annie, as criadas hoje em dia já são alguém e têm de ser mais bem tratadas. E, como ela se encarrega de espalhar a má fama da patroa, não será fácil arranjar outra. Não? disse Tuppence, pensativa. Eu acho...

 

Esboçava-se-lhe uma ideia na mente. Pensou um ou dois minutos, depois bateu no ombro de Albert.

 

Olhe, meu filho! E se você dissesse que tem uma prima que podia ocupar o lugar?

 

Por certo respondeu   prontamente   Albert. Deixe isso por minha conta, miss!

 

Você tem qualidades! comentou Tuppence com um gesto de aprovação. Diga que a prima pode vir imediatamente. Avise-me e, se tudo correr bem, virei amanhã às onze.

 

E onde poderei avisá-la?

 

Ritzreplicou Tuppence lacònicamente. Pelo nome de Cowley.

 

Albert contemplou-a com inveja.

 

Deve ser bom emprego, esse de detective.

 

Está   visto   que   é disse   Tuppence especialmente quando o velho Rysdale paga as despesas. Mas não se aflija. Se isto correr bem, você pisará o primeiro degrau.

 

com essa promessa, despediu-se do novo aliado e retirou-se de South Audley Mansions, bastante satisfeita com o trabalho da manhã.

 

Entretanto, não havia tempo a perder. Voltou ao Ritz e escreveu breves palavras a Mr. Carter. Remetido o bilhete e uma vez que Tommy não regressara o que não a surpreendia resolveu sair para fazer umas compras. Afora um intervalo para um chá com biscoitos, as lojas ocuparam-na até muito depois das seis horas, quando voltou ao hotel, cansada mas satisfeita com as suas compras. Começando numa casa de artigos de vestuário baratos e passando por um ou dois estabelecimentos de mercadorias em segunda mão, terminou o seu dia num conhecido cabeleireiro. A aquisição feita nesse último estabelecimento foi a que primeiro examinou, logo ao chegar ao quarto. Cinco minutos depois, sorria satisfeita ao mirar a própria imagem no espelho. com um lápis de actriz alteara ligeiramente a linha das sobrancelhas; e isto, apreciado em conjunto com um novo e luxuriante chapéu no alto da cabeça, transformava-lhe de tal maneira a fisionomia que estava certa de que mesmo encontrando Whittington frente a trente ele não a reconheceria. Usaria sapatos com saltos mais altos e a touca e o avental constituiriam ainda disfarces mais valiosos.

 

O jantar foi uma refeição solitária. Tuppence surpreendia-se um pouco com a demora de Tommy. Julius ausentara-se também, o que, no entender de Tuppence, se explicava mais facilmente. As «dinâmicas» actividades do americano não se restringiam a Londres e os «Jovens Aventureiros» aceitavam-lhe as bruscas aparições e desaparições como parte do trabalho diário. Não seria inadmissível que Julius P. Hersheimmer houvesse de repente seguido para Constantinopla se imaginara que lá encontraria a pista da priminha desaparecida. O enérgico rapaz já conseguira tornar a vida insuportável a numerosos homens da Scotland Yard e as telefonistas do Almirantado conheciam agora muito bem o seu familiar «alo!», que as deixava em pânico. Ele passara três horas em Paris importunando a perfeitura e voltara a com a ideia de que a verdadeira pista do mistério se encontraria na Irlanda.

 

Suponho que ele agora partiu para lá pensou Tuppence. Aqui estou eu transbordante de novidades e sem ter ninguém a quem possa contá-las! Tommy podia ter telegrafado. Onde teria ele ido ? De qualquer forma, com certeza não «perdeu a pista», como ele diz. Isto faz-me lembrar... E Miss Cowley interrompeu as suas meditações e chamou um garoto do hotel.

 

Dez minutos mais tarde a dama, que mergulhara confortàvelmente no leito, fumava cigarros e absorvia-se na leitura de Garnaby Williams, o menino detective que, com outros livros baratos de ficção fantástica, mandara comprar. Ela sentia, e com razão, que antes do esforço de tentar relações mais intimas com Albert, convinha munir-se de um bom sortido de «cor local».

 

Pela manhã, veio um bilhete de Mr. Carter:

 

Prezada Miss Tuppence:

 

A senhora fez um trabalho esplêndido e apresento-lhe os meus parabéns. Contudo, gostaria de lembrar os perigos a que se expõe, em especial se prosseguir no caminho que indicou. Aquela gente é incapaz de misericórdia ou piedade. Já nos proporcionou informações de valor e se resolver retirar-se agora ninguém a censurará. De qualquer modo, pense muito bem no caso antes de decidir.

 

Se, apesar das minhas advertências, resolver continuar, encontrará tudo arranjado. A senhora morou dois anos com Miss Dujferin, da mansão «The Parsonage», em Llanelly, à qual Mrs. Vandemeyer pode dirigir-se para pedir referências.

 

Permite-me uma ou duas palavras de conselho? Conserve-se tão próxima da verdade quanto possível’, reduzirá ao mínimo o perigo de «escorregadelas». Sugiro que diga ser o que de facto é, uma ex-voluntária dos serviços de guerra, que escolheu os serviços domésticos como profissão. Há muitas em idêntica situação no presente momento. E assim será explicável qualquer incongruência na conversa ou nas maneiras, o que de outro modo despertaria suspeitas.

 

Qualquer que seja a resolução que tomar, aceite os meus votos de felicidades.

 

Seu amigo sincero,

Mr. Carter

 

O entusiasmo de Tuppence dilatou-se como mercúrio. Não deu apreço às advertências de Mr. Carter. Depositava demasiada confiança em si mesma para que desse ouvidos a conselhos.

 

com alguma relutância, pôs de lado o seu projecto de encarnar na vida real uma personagem da sua própria invenção, de acordo com a interessante história que imaginara. Embora não tivesse a mínima dúvida quanto à sua capacidade de desempenhar o papel, dispunha de bom senso suficiente para reconhecer a força dos argumentos de Mr. Carter.

 

Não chegara ainda nenhum recado de Tommy; mas, pela manhã, o correio trouxera um postal bastante sujo contendo as palavras: «Tudo bem».

 

As dez e meia, Tuppence examinava com orgulho um baú de folha, contendo os seus novos pertences. A caixa estava artisticamente amarrada com uma corda. Foi com leve rubor que tocou a campainha e ordenou que colocassem o baú num taxi. Seguiu no carro para a estação de Paddington e deixou a caixa no depósito de bagagens. Depois, com uma maleta na mão, encaminhou-se para o lavabo das senhoras. Dez minutos depois, uma Tuppence metamorfoseada abandonava gravemente a estação e tomava o ónibus.

 

Eram onze e dez quando Tuppence entrou mais uma vez no vestíbulo de «South Audley Mansions». Albert estava de atalaia, cumprindo as suas obrigações de forma um pouco irregular. Não reconheceu Tuppence imediatamente. Quando percebeu de quem se tratava, não disfarçou o assombro.

 

Macacos me mordam se a conheci! Isto é um colosso!

Alegra-me que você tenha gostado replicou Tuppence modestamente. E que me diz: sou sua prima ou não?

 

Até a voz modificou! exclamou o rapazinho extasiado. Nem parece americana! Não, disse que um conhecido meu tinha uma amiguinha. Annie não gostou muito. Ela resolveu ficar na casa até hoje. Diz ela que por obrigação, mas não é senão para lhe falar mal da patroa.

 

Bela pequena disse Tuppence. Albert não percebeu a ironia.

 

É uma pequena elegante e sabe mostrar os dentes, mas, cá para mim, não tem muito bom génio. A senhora vai lá agora, miss? Levo-a no elevador. N.º 20, não? E o garoto piscou os olhos.

 

Tuppence admoestou-o com um olhar severo e entrou no elevador. Ao tocar a campainha no n.º 20, percebeu os olhinhos de Albert a descerem lentamente sob o nível do soalho.

 

Uma rapariga veio abrir a porta.

 

Vim para tratar do emprego disse Tuppence.

 

É um emprego pavoroso declarou a rapariga sem hesitação. O demónio da velhota implica com tudo. Acusou-me de bisbilhotar as cartas dela. Eu! Mas retirou o insulto, em parte. E nunca mais deixou nada no cesto de papéis: queima tudo. Traja bem, mas não é uma pessoa distinta. A cozinheira sabe qualquer coisa a respeito dela, mas não diz nada morre de medo. E como é desconfiada a velha! Não perde de vista uma empregada que esteja a falar com alguém. Posso garantir-lhe...

 

Mas Tuppence não estava destinada a saber o que quer que fosse que Annie ia contar, pois nesse momento uma voz clara, com um característico timbre metálico, chamou:

 

Annie!

 

A esperta rapariga pulou como se lhe houvessem dado um tiro.

 

Pronto, patroa.

 

com quem está a falar?

 

É a pequena que veio tratar do emprego, patroa.

 

Nesse caso, quero vê-la. Imediatamente.

 

Pois sim, patroa.

 

Conduziu Tuppence a uma sala à direita do comprido corredor. De pé, junto à lareira, estava uma mulher. Já passara há muito da primeira juventude e a beleza que inegavelmente possuía tornara-se áspera e grosseira. Na mocidade fora com certeza deslumbrante. Os cabelos de ouro pálido desciam-lhe em caracóis até ao pescoço; os olhos, de um penetrante azul, pareciam possuir a faculdade de perfurar a alma da pessoa que fitavam. Envolvia-lhe a delicada figura um maravilhoso vestido cor de anil. E todavia, apesar da sua graça embaladora, da beleza quase etérea do seu rosto, sentia-se instintivamente a presença de algo inflexível e ameaçador.

 

Pela primeira vez Tuppence sentiu medo. Não o sentira em presença de Whittington, mas com esta mulher o caso era diferente. Como que fascinada, fitava a linha longa e cruel daquela boca vermelha e sinuosa, e mais uma vez experimentou a mesma sensação de pânico. A habitual confiança em si mesma abandonou-a. Vagamente, sentia que ludibriar esta mulher seria muito diverso do que ludibriar Whittington. Veio-lhe à mente a advertência de Mr, Carter. Aqui, com efeito, não poderia esperar misericórdia.

 

Dominando a sensação de pânico que lhe aconselhava a voltar as costas e pôr-se em fuga sem demora, Tuppence enfrentou o olhar da dama, firme e respeitosamente.

 

Como que satisfeita com o primeiro exame a que submeteu a jovem, Mrs. Vandemeyer indicou uma cadeira.

 

Sente-se. Como soube que eu precisava de uma criada ?

 

Por intermédio de um amigo que conhece o rapaz do elevador deste edifício. Ele achou que o emprego me serviria.

 

Mais uma vez, os olhinhos de pedra pareciam penetrá-la.

 

Você fala como uma rapariga de boa educação. com bastante fluência, Tuppence discorreu sobre a sua carreira imaginária, conforme as linhas gerais sugeridas por Mr. Carter. Teve a impressão, no decorrer da narrativa, que afrouxava a tensão na atitude de Mrs. Vandemeyer.

 

Compreendoobservou por fim a mulher. Há alguém a quem eu possa escrever solicitando referências?

 

Ultimamente, morei com Miss Dufferin, da mansão «The Parsonage», em Llanelly. Estive lá dois anos.

 

Então suponho que vem para Londres com a intenção de ganhar mais ? Bem, quanto a isso não me importo. Pagar-lhe-ei cinquenta libras... ou sessenta... o que quiser. Pode começar imediatamente?

 

Hoje mesmo, se a senhora quiser. O meu baú está na estação de Paddington.

 

Vá buscá-lo num taxi, então. O serviço não é muito. Passo fora de casa boa parte do tempo. A propósito, como se chama ?

 

Prudence Cooper.

 

Muito bem,   Prudence.   Vá buscar a sua   bagagem. Almoçarei fora. A cozinheira lhe   mostrará   o   lugar   das coisas.

 

Obrigada, patroa.

Tuppence retirou-se. A esperta Annie não estava à vista. No vestíbulo de baixo, um imponente porteiro relegara Albert para um plano inferior. Tuppence nem sequer olhou para ele ao sair com toda a humildade.

 

A aventura começara, mas ela sentia-se menos entusiasmada do que pela manhã. Atravessou-lhe a mente a ideia de que, se a desconhecida Jane Finn caíra nas mãos de Mrs. Vandemcyer, sem dúvida padecera bastante.

 

APARECE SIR JAMES PEEL EDGERTON

 

Tuppence não se mostrou desajeitada nos seus novos deveres. As filhas do arcediago eram bem adestradas nas tarefas domésticas.

 

Tuppence, por conseguinte, pouco receava de se revelar ineficiente. A cozinheira de Mrs. Vandemeyer deixava-a intrigada. Evidentemente, a mulher tinha um medo pânico da patroa. Mrs. Vandemeyer esperava um hóspede para o jantar e Tuppence preparou a reluzente mesa para dois. Entretanto formulava as suas conjecturas sobre quem seria o visitante. com forte probabilidade, talvez fosse WHITTINGTON. Conquanto se sentisse muito confiante de que ele não a reconheceria, ficaria mais satisfeita se o conviva fosse absolutamente estranho.

 

Pouco depois das oito, retiniu a campainha da porta da frente e Tuppence foi abrir. Foi um alívio verificar que o visitante era o segundo dos dois homens que Tommy se dispusera a seguir.

 

Deu o nome de Conde Stepanov. Tuppence anunciou-o e Mrs. Vandemeyer ergueu-se do divã em que se sentava, com um ligeiro murmúrio de satisfação.

 

Que prazer, Boris Ivanovitch! disse ela.

 

Prazer maior é vê-la, madame! Inclinou-se sobre a mão da dama.

 

Tuppence voltou para a cozinha.

 

O Conde Stepanov, ou   outro que tal-observou e, afectando uma curiosidade franca e ingénua: Quem é ele ?

 

Um cavalheiro russo, creio.

 

Vem aqui muitas vezes?

 

De quando em quando. Porque deseja saber?

 

Imaginei que ele talvez estivesse apaixonado pela patroa, nada maisexplicou a rapariga, acrescentando, com mau humor aparente:Como você é nervosa!

 

Não estou muito tranquila a respeito do soufflé explicou a outra.

 

Tu sabes alguma coisa pensou Tuppence consigo mesma; mas em voz alta disse apenas: Ponho no prato agora? Muito bem.

 

Enquanto servia, Tuppence não perdia uma palavra da conversa. Lembrava-se de que aquele homem era um dos que Tommy começara a seguir da última vez que o vira. Agora, embora não o quisesse admitir, principiava a preocupar-se por causa do sócio. Onde estaria ele? Porque não recebera dele uma palavra sequer ? Deixara instruções no Ritz para enviarem por mensageiro especial todas as cartas e recados a uma papelaria das redondezas, onde Albert ia com frequência. Na verdade, fora apenas na véspera pela manhã que se separara de Tommy e ela dizia consigo mesma que seria absurda qualquer ansiedade sobre o procedimento do rapaz. Contudo, estranhava que ele não lhe mandasse nem uma palavra.

 

Escutava o que podia, mas a palestra não oferecia pista alguma. Boris e Mrs. Vandemeyer conversavam sobre assuntos triviais: peças de teatro que haviam visto, novas danças e os últimos mexericos da sociedade. Após o jantar, dirigiram-se para o minúsculo «boudoir», onde Mrs. Vandemeyer, estirada no divã, parecia mais perversamente bela que nunca. Tuppence levou-lhes o café e os licores e retirou-se. Ao sair, ouviu Boris perguntar:

 

É nova aqui, não?

 

Veio hoje. A outra era um demónio. Esta pequena parece atilada.

 

Tuppence demorou-se mais um pouco junto à porta que, de propósito, não chegara a fechar por completo, e ouviu-o dizer:

 

Não haverá perigo com ela?

 

Na verdade, Boris, você chega a ser absurdo de tão desconfiado. Parece-me que ela é prima do porteiro do edifício ou coisa que o valha. E ninguém sonha sequer que eu tenha ligação com o nosso amigo comumMr. Brown.

 

Pelo amor de Deus, tenha cuidado, Rita. Aquela porta não está bem fechada.

 

Pois então feche-a riu-se a mulher. Tuppence movimentou-se com toda a velocidade.

 

Não ousou afastar-se mais das traseiras da casa, mas levantou a mesa e lavou a louça com a diligente rapidez adquirida no hospital. Depois, deslizou furtivamente para a porta do «boudoir». A cozinheira ocupava-se ainda na cozinha e, dando pela ausência da outra, suporia apenas que ela andava a passar revista aos quartos.

 

Oh! A conversa no interior do aposento mantinha-se num tom baixo demais para permitir que ela ouvisse algo. Não se atrevia a reabrir a porta. Mrs. Vandemeyer sentava-se quase defronte e Tuppence respeitava a capacidade de observação dos olhos de lince da patroa.

 

Sem embargo, sentia-se disposta a pagar bom preço só para ouvir o diálogo. Talvez, se algo imprevisto ocorrera, pudesse obter notícias de Tommy. Por momentos reflectiu desesperadamente; depois o seu rosto iluminou-se. Avançou lèpidamente pelo corredor até ao quarto de Mrs. Vandemeyer, o qual possuía portas que abriam para uma sacada que corria a todo o comprimento do apartamento. Chegando à sacada, Tuppence agachou-se e arrastou-se sem ruído até alcançar a janela do «boudoir», a qual, como previra, estava entreaberta; assim, as vozes lá dentro tornavam-se claramente audíveis.

 

Tuppence escutou com a maior atenção, mas não mencionaram nada que se pudesse relacionar com Tommy. Mrs. Vandemeyer e o russo pareciam divergir em algum assunto e, por fim, o último exclamou amargamente:

 

com os seus descuidos persistentes, você acabará por nos arruinar!

 

Ora!riu-se a mulher. A notoriedade da decência é

o melhor meio de desarmar as suspeitas. Você compreenderá isso talvez mais cedo do que pensa!

 

E, entrementes, você vai a toda a parte com Peel Edgerton. Ele não é somente o mais famoso advogado da Inglaterra!   Tem   especial   predilecção   pela   criminologia! É uma loucura!

 

A sua eloquência tem salvo muita gente da forca disse Mrs. Vandemeyer com a maior calma. Talvez venha a necessitar dos serviços dele, nesse particular. Se tal acontecer, será uma sorte contar com um amigo desses para me defender.

 

Boris começou a andar de um lado para o outro. Estava muito agitado.

 

Você é uma mulher inteligente, Rita; mas, ao mesmo tempo, é tola! Guie-se por mim e ponha de lado Peel Edgerton.

 

Mrs. Vandemeyer abanou a cabeça, suavemente.

 

Creio que não.

 

Recusa?Havia um acento sinistro na voz do russo.

 

Sim.

 

Por Deus rosnou o russo. Veremos...

 

Mas Mrs. Vandemeyer também se pôs de pé, de olhos fuzilantes.

 

Você esquece-se, Boris disse ela de que não estou subordinada a ninguém. Só recebo ordens de Mr. Brown.

 

O outro ergueu os braços, em desespero.

 

Você é impossívelmurmurou. Impossível! Talvez já seja tarde demais. Dizem que Peel Edgerton é capaz de descobrir um criminoso pelo cheiro! Como saberemos o que se esconde por trás do seu repentino interesse por você ? Talvez ele já alimente suspeitas. Ele desconfia...

 

Mrs. Vandemeyer olhou-o com desdém.

 

Asseguro-lhe, meu caro Boris, de que ele de nada suspeita. Fugindo ao seu habitual cavalheirismo, você parece esquecer que me têm na conta de uma mulher bonita. Asseguro-lhe que é só isso o que interessa a Peel Edgerton.

 

Boris abanou a cabeça com ar de dúvida.

 

Ele estudou o crime como nenhum outro homem neste reino. Você pensa que o engana?

 

Mrs. Vandemeyer cerrou os olhos.

 

Se ele é tudo o que você diz, gostaria imenso de experimentar!

 

Por Deus, Rita...

 

Além dissoacrescentou Mrs. Vandemeyerele é extremamente rico. Não sou das que desprezam dinheiro. As «forças da guerra», como você sabe, Boris!

 

Dinheiro, dinheiro! Isso é um perigo, Rita. Você venderia a alma por dinheiro. Acredito... Calou-se e depois, num tom de voz baixo e sinistro, disse lentamente:Às vezes, acredito que você nos venderia!

 

Mrs. Vandemeyer sorriu e encolheu os ombros.

 

O preço, em todo o caso, teria que ser enorme disse ligeiramente. Estaria além das possibilidades de pagamento de qualquer um, excepto um milionário.

 

Ah! rosnou o russo. Vê que eu tinha razão?

 

Meu caro Boris, você não entende um gracejo?

 

Era gracejo?

 

Claro,

 

Então, tudo o que posso dizer é que as suas ideias de humor são bastante peculiares, minha prezada Rita.

   Mrs. Vandemeyer sorriu.

 

Deixemo-nos de discussão, Boris. Toque a campainha. Vamos beber qualquer coisa.

 

Tuppence bateu em retirada. Deteve-se um momento para se mirar no enorme espelho de Mrs. Vandemeyer e certificou-se de que tudo estava bem na sua aparência. Depois atendeu gravemente à chamada.

 

A palestra que ouvira, apesar de interessante por comprovar sem margem de dúvida a cumplicidade de Rita e Boris, projectava bem pouca luz sobre as preocupações do momento. Nem sequer se haviam referido a Jane Finn.

 

Na manhã seguinte, breves palavras trocadas com Albert informaram-na de que nada havia para ela na papelaria. Parecia incrível que Tommy, se tudo correra bem, não lhe mandasse nem uma palavra. Sentiu como que uma mão de gelo apertar-lhe o coração... Quem sabe...? Sufocou com bravura os seus temores. Não devia preocupar-se. Mas pulou de contente com uma oportunidade que lhe ofereceu Mrs. Vandemeyer.

 

Qual é habitualmente o seu dia de folga, Prudence?

 

Sempre foi à sexta-feira, patroa.

 

Mrs. Vandemeyer ergueu as sobrancelhas.

 

E hoje é sexta-feira! Mas não creio que você queira sair hoje, visto que chegou ontem.

 

Eu ia pedir-lhe para sair, patroa.

 

Mrs. Vandemeyer olhou-a por um momento e depois sorriu.

 

Eu gostaria que o Conde Stepanov ouvisse isto. Ele ontem à noite fez uma sugestão a seu respeito. O seu sorriso tornou-se mais largo, felino. O seu pedido é bastante típico. Estou satisfeita. Você não compreende nada disto, mas pode sair hoje. Não me faz diferença, porque não jantarei em casa.

 

Muito obrigada, patroa.

 

Tuppence experimentou uma sensação de alívio quando se viu livre da presença da mulher. Mais uma vez reconhecia que tinha medo, um medo horrível, da bela mulher dos olhos cruéis.

 

Estava a limpar as pratas quando ouviu tocar a campainha da porta da frente e foi ver quem chegava. Desta vez o visitante não era Whittington nem Boris, mas um homem de aspecto notável.

 

De estatura pouco acima de mediana, dava sem embargo a impressão de um homem bastante alto. No rosto escanhoado e estranhamente móvel estampava-se uma expressão de poder e força muito acima do comum. O magnetismo parecia irradiar-se dele.

 

Por instantes, Tuppence ficou sem saber se seria um actor ou um advogado, mas as dúvidas dissiparam-se quando ele declinou o nome: Sir James Peel Edgerton.

 

A jovem coutemplou-o com renovado interesse. Então era este o famoso causídico cujo nome era popular em toda a Inglaterra!

 

Tuppence, pensativa, voltou à copa. O grande homem impressionara-a. Compreendia a agitação de Boris. Peel Edgerton não seria homem fácil de enganar.

 

Cerca de um quarto de hora depois, a campainha tilintou e Tuppence correu ao «hall» afim de acompanhar o visitante. Antes de sair, ele dirigiu à jovem um olhar perscrutador.

- Ao alcançar-lhe o chapéu e a bengala, percebeu que os olhos do homem a examinavam cuidadosamente. Quando abriu a porta o homem parou no umbral.

 

Está aqui há pouco tempo, não?

 

Tuppence ergueu os olhos, atónita. Notou que no olhar do homem transparecia bondade e algo mais difícil de penetrar.

 

Ele meneou a cabeça como se a rapariga houvesse respondido.

 

Ex-voluntária, acossada pelas dificuldades, não é assim?

 

Mrs. Vandemeyer contou-lhe? perguntou Tuppence desconfiada.

 

Não, minha filha. O seu olhar é que me contou. É bom o serviço aqui?

 

Muito bom, obrigada, senhor.

 

Ah, mas há muitos bons empregos hoje em dia. Uma mudança, às vezes, não faz mal a ninguém.

 

O senhor quer dizer... ?começou Tuppence.

 

Mas Sir James já se encontrava na escada. Volveu para a jovem os olhos bondosos e perspicazes.

 

Apenas uma ideia disse ele. Eis tudo. Tuppence voltou para a copa, mais pensativa que nunca.

 

JULIUS CONTA UMA HISTÓRIA

 

Trajada adequadamente, Tuppence saiu para gozar a sua «tarde de folga». Como Albert não estava de serviço àquela hora, Tuppence foi pessoalmente à papelaria para se certificar de que nada chegara para ela. Verificado esse ponto, correu para o Ritz. Aí fez indagações e soube que Tommy não voltara ainda. Era a resposta que esperava, mas não deixava de ser mais um prego no esquife das suas esperanças. Resolveu apelar para Mr. Carter, contando-lhe onde e quando Tommy iniciara as suas pesquisas e pedindo-lhe para fazer algo no sentido de descobrir o rapaz. A perspectiva do auxílio de Mr. Carter restituiu-lhe o ânimo expansivo e, a seguir, perguntou por Julius P. Hersheimmer. Em resposta, disseram-lhe que o americano regressara ao hotel cerca de meia hora antes, mas tornara a sair em seguida.

 

Tuppence reanimou-se ainda mais. Ver Julius já seria alguma coisa. Talvez ele tivesse um plano para descobrirem o que era feito de Tommy. Escreveu o bilhete a Mr. Carter na sala de estar de Julius e estava a metê-lo no envelope quando a porta se abriu bruscamente.

 

Que diabo!... começou Julius, mas conteve-se abruptamente. Desculpe,   Miss Tuppence. Aqueles idiotas lá de baixo disseram-me que Beresford não está... que não aparece desde quarta-feira. É verdade?

 

Tuppence fez um sinal afirmativo com a cabeça.

 

Você não sabe onde é que ele está?perguntou ela com desânimo.

 

Eu ? Como posso saber ? Não recebi uma única palavra dele, embora lhe tenha telegrafado ontem pela manhã.

 

Creio que o seu telegrama se encontra intacto na portaria.

 

Mas onde está ele?

 

Não sei. Julguei que você soubesse.

 

Já lhe disse que não recebi uma só palavra dele, desde que nos separámos na estação, quarta-feira.

 

Qual estação?

 

Waterloo. Linha de Londres e Sudoeste. Waterloo?fez Tuppence, franzindo a testa.

Sim. Ele não lhe contou nada?

 

Não   o   vi   maisreplicou   Tuppence,   impaciente. Continue a falar sobre a estação. Que faziam lá ?

 

Ele chamou-me pelo   telefone.   Pediu-me para ir lá depressa. Disse que estava a seguir dois piratas.

 

Oh!exclamou   Tuppence,   arregalando   os   olhos. Compreendo. Continue.

 

Saí a toda a pressa. Beresford estava lá. Mostrou-me os dois tratantes. Encarreguei-me de seguir o mais alto, o sujeito que você ludibriou. Tommy meteu-me uma passagem na mão e mandou-me embarcar. Ele perseguiria o outro patife. Julius fez uma pausa. Eu tinha como certo que você sabia de tudo isto.

 

Juliusdisse Tuppence com firmeza. Pare com essas caminhadas de lá para cá. Deixa-me aturdida. Sente-se naquela poltrona e conte-me a história toda com o mínimo possível de rodeios.

 

Mr. Hersheimmer obedeceu.

 

Clarodisse ele. Por onde devo começar?

 

De onde partiu. Waterloo. !

 

Bem principiou   Julius. Alojei-me   num   dos   antiquados compartimentos de primeira classe. A composição começava a movimentar-se. A primeira coisa que me aconteceu é que veio um guarda informar-me com a maior polidez de que não podia fumar. Dei-lhe meio dólar e as coisas arranjaram-se. Olhei para o corredor e na carruagem seguinte, Whittington lá estava muito lampeiro. Quando vi o malandro, com a sua cara gorda e lisa, e imaginei a pobrezinha da Jane nas suas garras, senti não levar o revólver comigo. Teria dado cabo do patife.

 

«Chegámos sem novidade a Bournemouth. Whittington tomou um carro e deu o nome de um hotel. Fiz o mesmo e chegámos com três minutos de diferença um do outro. Alugou um quarto e eu outro. Até agora tudo correra com facilidade. Ele não tinha a mais remota noção de que alguém o seguia. Conservou-se no «hall» do hotel, a ler jornais até à hora do jantar. Não revelava pressa ou preocupação.

 

«Pensei que ele viajasse apenas por motivos de saúde, mas recordei que o homem não mudara de fato para o jantar, embora o hotel se considerasse de primeira ordem, e julguei bastante provável que planeasse sair logo em seguida para tratar do assunto que na realidade o levara ali.

 

«com toda a calma, às nove horas, pouco mais ou menos, ele saiu. Tomou um carro que atravessou a cidade e depois pagou a corrida e começou a andar ao longo dos pinheiros no topo do penhasco. Eu seguia-o, é claro. Caminhámos, talvez, durante meia hora. Passámos por muitas casas de campo no caminho, as quais gradativamente se tornavam mais afastadas umas das outras e, no fim, chegámos a uma que parecia a última. Era uma casa grande, cercada de pinheiros.

 

«A noite estava muito escura e o carreiro que levava à casa estava envolvido em completa escuridão. Eu podia ouvir o homem à minha frente, embora não o pudesse ver. Dobrei uma curva e vi-o tocar a campainha e entrar na casa. Começou a chover e dentro em pouco achava-me ensopado como um pinto. O frio tornava-se cruel. Whittington não voltara a aparecer e, aos poucos, fui-me impacientando e comecei a caminhar pelas redondezas. Todas as janelas do pavimento térreo se achavam bem trancadas, mas no primeiro andar (a casa era de dois andares) notei uma janela iluminada, cujas gelosias não estavam descidas.

 

«Em frente da janela erguia-se uma árvore. Esta ficava talvez a uns trinta pés distante da casa, e veio-me à cabeça a ideia de que se eu trepasse à árvore poderia enxergar o interior da sala iluminada. É claro que eu não via razão para que Whittington se encontrasse exactamente naquela sala e não noutra qualquer o mais certo, na verdade, é que ele estivesse numa das salas de visitas. Comecei a subir.

 

«Não era fácil a proeza! A chuva tornara os galhos muito escorregadios e encontrava com muita dificuldade um lugarzinho para firmar o pé. Mas aos poucos, muito devagar, fui trepando, até chegar ao nível da janela.

 

«Mas fiquei desapontado. O ponto em que me colocara ficava muito desviado para a esquerda. Eu só podia olhar obliquamente para a sala. Um pedaço de cortina e uma jarda de papel de parede era tudo o que eu enxergava. De nada me valera o sacrifício, e já estava prestes a desistir e descer ignominiosamente ,quando alguém se moveu no interior da sala e projectou a sua sombra no trecho de parede ao alcance dos meus olhos e, com todos os diabos, era Whittington!

 

«Depois disso, o meu sangue correu mais depressa. Notei, então, que havia um galho comprido que se prolongava para a direita. Se eu conseguisse arrastar-me até à metade do galho, o problema estaria resolvido. Mas não tinha muita certeza de que resistisse ao meu peso. Resolvi arriscar-me. com o maior cuidado, polegada a polegada, rastejei ao longo do galho, que estalou e oscilou de uma maneira bastante desagradável, mas consegui chegar são e salvo ao ponto que queria alcançar.

 

«A sala era de tamanho médio, mobilada de maneira sóbria e higiénica. Ao centro, havia uma mesa com uma lâmpada, junto da qual se sentava Whittington. Conversava com uma enfermeira. Ela estava sentada com as costas voltadas para mim e não lhe podia ver o rosto. Embora as gelosias se achassem levantadas, os vidros da janela estavam fechados, não me permitindo apanhar uma só palavra do que diziam. Ao que parecia, era Whittington quem falava e a mulher limitava-se a escutar. De quando em quando, inclinava a fronte ou abanava a cabeça, como que a responder a perguntas. Ele parecia muito enfático: uma ou duas vezes bateu com o punho na mesa. A chuva cessara e o céu principiava a clarear, de maneira repentina, como às vezes acontece.

 

«Julguei que a conversa chegava ao fim. Whittington ergueu-se e a mulher imitou-o. Ele avançou para a janela e perguntou qualquer coisa à mulher suponho que indagou se ainda chovia. O certo é que ela também se aproximou e olhou para fora. Nesse instante, a lua surgia numa aberta das nuvens. Receei que a mulher me visse, pois o luar batia-me em cheio. Tentei recuar um pouco. O movimento que fiz foi muito forte para aquele galho velho e podre. com um ruidoso estalo, o galho veio abaixo e com ele a pessoa de Julius P. Hersheimmer!»

 

Oh,   Julius! exclamou   Tuppence. É   sensacional! Continue.

 

Bem, por sorte mergulhei num canteiro de terra macia, mas mesmo assim era o bastante para me pôr fora de acção por algum tempo. Depois disso, a primeira coisa que recordo é que dei por mim num leito, com uma enfermeira (não aquela de Whittington) ao meu lado e um homenzinho de barba negra e óculos de aros de ouro, o tipo acabado de médico, do outro lado. Ele esfregou as mãos e ergueu as sobrancelhas, ao fitar-me.

 

«Ah! disse ele. O nosso amiguinho está a voltar a si. Óptimo. Óptimo.»

 

«Manifestei o espanto de estilo. Perguntei: «Que aconteceu?» «Onde estou?» Mas sabia muito bem a resposta à última pergunta. Não havia teias de aranha na minha cabeça.

 

Creio que não   necessito de si de momento disse o homenzinho, e a enfermeira saiu   do quarto de um modo lesto. Mas percebi que ela me dirigia um olhar de intensa curiosidade ao transpor a porta.

 

«O olhar dela sugeriu-me uma ideia.

 

«Agora, doutor disse, e tentei sentar-me no leito, mas sobreveio-me uma dor no pé direito.

 

«Uma pequena luxaçãoexplicou o médico. Nada de sério. Em poucos dias estará bom.

 

«Como aconteceu isto? tornei a perguntar. Ele respondeu secamente:

 

«O senhor caiu sobre um dos meus canteiros de flores.

 

«Gostei do homem. Parecia possuir senso de humor. Fiquei certo de que ele pelo menos era um sujeito decente.

 

«Está bem doutordisse, lamento muito os estragos na árvore e receio que as suas flores venham a brotar-me no corpo. Talvez o senhor gostasse de saber o que eu fazia no seu jardim?

 

«Creio que os factos reclamam uma explicação replicou o médico.

 

«Bem. Para começar, eu não estava com um grão na asa. «Ele sorriu.

 

«Foi a minha primeira teoria. Mas logo a abandonei. Uma coisa: o senhor é americano, não ? «Disse-lhe o meu nome.

 

«E o senhor ?

 

«Sou o dr. Hall e, como o senhor sabe sem dúvida, estamos no meu sanatório particular.

 

«Eu não sabia, mas não o deixei perceber. Fiquei-lhe grato pela informação. Gostava do homem e sentia que ele era decente, mas não quis revelar-lhe a verdadeira história. Se o fizesse, ele não acreditaria.

 

«Reflecti com a maior rapidez.

 

«Bem, doutor disse-lhe, creio que pratiquei rematada tolice, mas não pense que me meti numa aventura de Bill Sikes.

 

Depois continuei, tecendo uma história a a respeito de uma pequena. Introduzi na fábula um tutor feroz, arranjei um esgotamento nervoso para a menina e expliquei, por fim, que presumira haver reconhecido a jovem entre as doentes do sanatório e daí as minhas aventuras nocturnas.

 

«Era o género de história que ele esperava.

 

«Muito romântico disse com amabilidade, quando concluí.

 

«Agora, doutor continuei, o senhor vai usar de franqueza para comigo. Não está, ou não esteve em qualquer época, internada aqui uma jovem chamada Jane Finn?

 

«Ele repetiu o nome, pensativo.

 

«Jane Finn? disse. Não.

 

«Fiquei desolado e julgo que o demonstrei.

 

«Tem a certeza?

 

«Certeza absoluta, Mr. Hersheimmer. É um nome pouco vulgar e não seria provável que o esquecesse.»

 

«Bem, eram palavras categóricas. Foi o que me pareceu por alguns momentos. Chegava ao termo a esperança de resultados na pesquisa.

 

«É isso disse eu, por fim. Agora, outro assunto. Quando me encontrava abraçado àquele malfadado galho, julguei reconhecer um velho amigo meu a conversar com uma das suas enfermeiras.

 

«De propósito, não mencionei nomes, pois Whittington, poderia ser conhecido ali por outro apelido, mas o médico respondeu prontamente:

 

«Mr. Whittington, talvez?

 

«É ele respondi. Que fazia aqui? Não me diga que ele também está com os nervos desarranjados!

 

«O dr. Hall riu-se.

 

«Não. Ele veio visitar uma das minhas enfermeiras, a enfermeira Edith, que é sua sobrinha.

 

«Quem o diria! exclamei. Ele ainda se encontra aqui?

 

«Não, voltou para a cidade logo em seguida.

 

«Que lástima! queixei-me. Mas   talvez   eu pudesse falar com a sobrinha, a enfermeira Edith não é assim que ela se chama ?

 

O médico abanou a cabeça.

 

«Também   é   impossível.   A   enfermeira   Edith   foi-se embora esta noite.

 

«Parece-me muita falta de sorte observei. O senhor tem o endereço de Mr. Whittington na cidade? Gostaria de o visitar.

 

«Não sei qual é o endereço dele. Posso escrever à enfermeira Edith nesse sentido, se o senhor quiser.

 

Manifestei os meus agradecimentos.

 

«Mas não diga quem é que deseja saber o endereço. Gostaria de lhe proporcionar uma surpresa.

 

«Era tudo o que eu podia fazer no momento. Naturalmente, se a jovem era de facto sobrinha de Whittington, seria de sobejo inteligente para que caísse na armadilha, mas valia a pena tentar. Em seguida, mandei um telegrama a Beresford informando onde me encontrava, contando que estava de cama com um pé torcido e pedindo que fosse até lá, se não se achasse muito ocupado. Tive que usar de reserva. Contudo não recebi notícias dele. O meu pé ficou bom dentro em pouco. E assim, disse hoje adeus ao bom do doutorzinho, pedi-lhe que me mandasse um bilhete se recebesse notícias da enfermeira Edith e voltei directamente para a cidade. Que há, Miss Tuppence ? A senhora está tão pálida!

 

É por causa de Tommy declarou Tuppence. Que lhe terá acontecido?

 

Não se preocupe; ele deve estar bem. Talvez tenha ido ao estrangeiro com o seu perseguido.

 

Tuppence abanou a cabeça.

 

Não poderia ir sem passaporte. Acresce que, depois disso, eu vi o homem. Jantou ontem com Mrs. Vandemeyer.

 

Mrs. Van... o quê?

 

Tinha-me esquecido. É claro que você nada sabe a este respeito.

 

Sou todo ouvidos disse Julius. Vá contando... Tuppence relatou os acontecimentos dos últimos dois dias.

 

Julius não podia esconder o assombro e a admiração.

 

Esta é das boas!   Imagine! Você, criada... Ah! Ah! Depois   acrescentou com  seriedade: Mas,   isso   não   me agrada, Miss Tuppence. Você é tão destemida como eles, mas eu gostaria de a ver fora do alcance dessa gente. São bem capazes de a liquidar.

 

Pensa que eu tenho medo?disse Tuppence, com um ar indignado.

 

Já disse que você é muito destemida. Mas isso não altera os factos.

 

Oh,   não me aborreça! disse Tuppence com impaciência. Pensemos no que pode ter sucedido a Tommy. Escrevi a Mr. Carter a esse respeito acrescentou; e expôs a Julius o conteúdo da carta.

 

Julius abanou a cabeça gravemente.

 

Foi boa ideia.   Mas,   quanto a nós,   temos que agir prontamente, fazer qualquer coisa.

 

Que podemos fazer?perguntou Tuppence, recobrando ânimo.

 

Creio que o melhor é continuar na pista de Boris. Você disse que ele costuma aparecer em casa da sua patroa. Ele não tornará a ir lá?

 

Talvez. Na verdade, não sei.

 

Compreendo. Bem, penso que o mais acertado é comprar um automóvel,   dos melhores, fardar-me de motorista e postar-me nas proximidades da casa. Se Boris aparecer, você fará um sinal e eu segui-lo-ei. Que diz?

 

Explêndido, mas ele talvez leve semanas sem aparecer.

 

Esperaremos. Alegra-me que tenha gostado do plano. Ergueu-se.

 

Aonde vai?

 

Comprar   o   carro,   naturalmente respondeu   Julius, surpreso. Qual o tipo que prefere? Creio que terá oportunidade de passear nele...

 

Oh! disse   Tuppence   timidamente. Eu   prefiro   os Rolls-Royces, mas...

 

Muito   bem concordou Julius. Seja!   Vou   comprar um.

 

Mas não o conseguirá! exclamou Tuppence. Há pessoas que esperam séculos.

 

Isso não acontece com Julius afirmou Mr. Hersheimmer. Não   se   preocupe.   Voltarei   dentro   de   meia   hora.

 

Você é estupendo, Julius. Mas não posso evitar o pressentimento de que isso é uma esperança vã. Na realidade, deposito a minha confiança em Mr. Carter.

 

Eu não o faria.

 

Porquê ?

 

É cá uma ideia minha, apenas.

 

Oh, mas ele deve fazer alguma coisa.   Não há outro processo. A propósito, esqueci-me de lhe contar um curioso caso que aconteceu esta manhã.

 

E narrou-lhe o encontro com Sir James Peel Edgerton. Julius interessou-se.

 

Que quereria esse sujeito? perguntou.

 

Não sei bem respondeu Tuppence, pensativa. Mas creio que tentava advertir-me de uma forma ambígua, legal.

 

E porquê?

 

Não   sei confessou   Tuppence. Mas   ele   possui   um olhar bondoso e é de uma inteligência extraordinária. Eu seria capaz de o procurar e de lhe contar tudo.

 

Julius opôs-se com decisão à ideia.

 

Olhe disse   ele, não   precisamos   meter   advogados nesta história. Esse sujeito não nos poderá ajudar em nada.

 

Pois   bem,   acredito   que poderia reiterou Tuppence, teimosa.

 

Tire isso da ideia. Até logo. Voltarei dentro de meia hora.

 

Trinta e cinco minutos haviam decorrido quando Julius voltou. Travou do braço de Tuppence e levou-a à janela.

 

-Ei-lo!

 

Oh! exclamou Tuppence, com uma   nota de reverência na voz, ao contemplar o automóvel.

 

Um devorador de distâncias, afirmo-lhe disse Julius complacentemente.

 

Como o conseguiu ? murmurou Tuppence.

 

O vendedor estava a mandar levá-lo a casa de um sujeito importante.

 

E então?

 

Fui a casa do tal sujeito importante disse Julius. Declarei-lhe que pelos meus cálculos um carro assim valia vinte mil dólares. Depois disse-lhe que para mim valeria cinquenta mil dólares, uma vez que ele desistisse do carro.

 

E então?disse Tuppence, aflita.

 

Então retorquiu Julius, ele desistiu, eis tudo.

 

UM AMIGO EM APUROS

 

Sexta-feira e sábado decorreram sem novidade. Tuppence recebeu lacónica resposta ao seu apelo a Mr. Carter. Dizia o homem que os «Jovens Aventureiros» haviam encetado o trabalho por sua conta e risco, não lhes faltando advertências quanto aos perigos. Se algo acontecera a Tommy, lamentava profundamente, mas nada podia fazer.

 

Frígido consolo. Sem Tommy, ia por água abaixo o sabor da aventura e pela primeira vez Tuppence duvidou do triunfo. Tudo começara como uma página de romance. Agora, desfeito o encantamento, transformava-se em realidade terrível. Tommy era só o que importava. Muitas vezes, durante o dia, Tuppence contivera resolutamente as lágrimas.

 

O tempo passava e nada de vestígios de Boris.

 

Ele não mais voltou ao apartamento, e Julius e o automóvel esperavam em vão. Tuppence entregou-se a novas reflexões. Conquanto admitindo a verdade das objecções de Julius, não abandonara inteiramente a ideia de apelar para Sir James Peel Edgerton. Na verdade, já se dera ao cuidado de procurar o seu endereço no guia telefónico. Ele quisera preveni-la naquele dia? Em caso afirmativo, porquê? Sem dúvida, assistia-lhe ao menos o direito de pedir uma explicação. O homem olhara-a com tanta bondade! Talvez o advogado revelasse algo a respeito de Mrs. Vandemeyer, que conduzisse a uma pista do paradeiro de Tommy.

 

De qualquer modo, Tuppence decidiu, com a habitual sacudidela de ombros, que valia a pena tentar. Domingo à tarde estaria de folga. Encontraria Julius, convertê-lo-ia ao seu ponto de vista e iriam ambos enfrentar o leão na própria caverna.

 

Chegado o dia, Julius não se deixou convencer senão à força de copiosos argumentos. «Não nos trará nenhum prejuízo»repetia ela sempre. Por fim, Julius capitulou e seguiram para Carlton House Terrace.

 

Um mordomo impecável abriu a porta. Tuppence sentia-se um pouco nervosa. Resolveu não perguntar se Sir James estava «em casa»; mas adoptou uma atitude mais pessoal.

 

Poderá perguntar a Sir James se poderei falar-lhe por alguns instantes? Tenho um recado importante para lhe transmitir.

 

O mordomo afastou-se e voltou pouco depois.

 

Sir James espera-a. Queira acompanhar-me.

 

E dizendo isto conduziu-os a uma biblioteca. Tuppence observou que as estantes de toda uma parede eram dedicadas a obras sobre crime e criminologia. Viam-se várias poltronas de couro, de estofo macio, e uma lareira de estilo antigo. Perto da janela, o dono da casa sentava-se diante de uma enorme escrivaninha de tampa, juncada de papéis.,

 

Ergueu-se quando os visitantes entraram.

 

Tem um recado para mim ? Ah! reconheceu Tuppence com  um   sorriso. É   a   senhora?   Trouxe   um   recado   de Mrs. Vandemeyer, não?

 

Não   exactamente disse   Tuppence. Para   falar   a verdade, referi-me ao recado somente para ter a certeza de que seria recebida. Oh, por falar nisso, apresento-lhe Mr. Hersheimmer, Sir James Peel Edgerton.

 

Muito prazer disse o americano, apertando a mão do outro.

 

Não querem sentar-se ? perguntou Sir James. Colocou duas cadeiras perto da escrivaninha.

 

Sir James disse Tuppence, ferindo o assunto audaciosamente,creio que é um atrevimento vir à sua presença desta forma. Porque, na verdade, o senhor nada tem a ver com o caso e, além disso, o senhor é uma pessoa muito importante, ao passo que Tommy e eu somos gente sem importância. Calou-se para tomar fôlego.

 

Tommy?indagou Sir James, dirigindo um olhar ao americano.

 

Não,   esse é Juliusexplicou Tuppence. Estou um pouco nervosa e por isso falo atarantadamente. O que eu de facto desejo saber é o significado das palavras que o senhor me   dirigiu   há   dias.   O   senhor  quis   prevenir-me   contra Mrs. Vandemeyer, não foi?

 

Minha prezada senhora, recordo-me que apenas me referi à existência de outros bons empregos e noutros lugares.

 

Bem sei. Mas foi uma insinuação, não?

 

Talvez admitiu Sir James com gravidade.

 

Pois desejo saber mais. Quero saber porque é que o senhor fez tal insinuação.

 

Sir James sorriu ante a energia da moça.

 

E se a sua patroa me mover um processo por difamação ?

 

Compreendo disse Tuppence. Bem sei que os advogados são sempre muito cautelosos. Mas não poderíamos falar «sem prevenções» e dizer o que queremos ?

 

Pois bem disse Sir James, ainda a sorrirentão, «sem prevenções», declararei que se eu tivesse uma irmã jovem, necessitada de trabalhar para seu sustento, não gostaria de a ver ao serviço de Mrs. Vandemeyer. Não é lugar para uma jovem inexperiente. É tudo o que lhe posso dizer.

 

Compreendo disse Tuppence, pensativa. Muito obrigada. Na realidade, porém, não sou tão inexperiente como o senhor pensa. Sabia muito bem que ela não era boa pessoa quando fui para lá na verdade, justamente por saber é que fui... Interrompeu-se, ao notar o espanto que se estampava na   fisionomia   do   advogado,   e prosseguiu: Creio   que   o melhor é contar-lhe toda a história, Sir James. Que acha você, Julius ?

 

No ponto a que a coisa chegou, o melhor é ir logo aos factos respondeu o americano, que até então se conservara em silêncio.

 

Sim,   conte-me tudo disse   Sir James. Quero saber quem é Tommy.

 

Assim encorajada, Tuppence mergulhou na sua história, que o advogado escutou com profunda atenção.

 

Muito interessante disse, quando a jovem terminou. Grande parte do que contou, minha filha, já eu sabia. Concebi certas teorias a respeito dessa Jane Finn. Até agora, têm agido extraordinariamente bem, mas é de lamentar que Mr. Carter haja metido   duas   criaturas   tão jovens   num caso dessa espécie. Uma coisa: como é que Mr. Hersheimmer ingressou no caso ? A senhora esclareceu esse ponto ?

 

Sou primo de Jane em primeiro grau explicou Julius correspondendo ao olhar penetrante do advogado.

 

-Ah!

 

Oh,   Sir James irrompeu   Tuppence, que   pensa   o senhor que tenha acontecido a Tommy?

 

Hum. O   advogado   ergueu-se   e   começou   a   andar lentamente de um lado para o outro. Quando a senhora chegou, eu estava justamente a preparar-me para ir à Escócia, à pesca. Entretanto, há diversas espécies de pescaria. Tenho bons motivos para ficar; tentarei descobrir a pista do seu jovem amigo.

 

Oh! exclamou Tuppence, unindo as mãos, extática.

 

Mesmo assim,   como já disse,   é de lamentar que... Mr. Carter haja metido duas crianças num caso desses. E não se ofenda Miss...?

 

Cowley. Prudence Cowley. Mas os meus amigos chamam-me Tuppence.

 

Pois bem, Miss Tuppence. Não se ofenda por lhe dizer que a senhora é muito jovem. A juventude só é defeito quando se prolonga até à idade madura... Agora, no que diz respeito ao seu amigo Tommy... as coisas não parecem muito boas para   ele.   Andou   a   meter-se nalgum   lugar   onde   não foi chamado. Quanto a isso, não tenho dúvidas. Mas não perca a esperança.

 

E o senhor pode de facto ajudar-nos? Aí está, Julius! Ele não queria vir comigoacrescentou, à guisa de explicação.

 

Hummurmurou o advogado, fustigando Julius com outro olhar perfurante. E porquê?

 

Calculei que não ficaria bem incomodá-lo com um caso tão insignificante.

 

Compreendo. Calou-se por um momento. Este caso insignificante,   como o senhor   diz, baseia-se directamente noutro   maior,   muito   maior   talvez   do   que   o   senhor   ou Miss Tuppence imagina. Se o rapaz está vivo, talvez tenha informações   sobremodo   valiosas   para   nos   dar.   Portanto, precisamos   encontrá-lo.

 

Sim, mas como ? exclamou Tuppence. Tentei pensar em tudo...

 

Sir James sorriu.

 

E, no entanto, existe uma pessoa bem ao seu alcance que com toda a probabilidade sabe onde ele está ou, de qualquer forma, onde é provável que esteja.

 

Quem é? perguntou Tuppence intrigada.

 

Mrs. Vandemeyer.

 

Sim, mas ela nunca nos dirá.

 

Ah, essa é a parte que me toca. Julgo que serei capaz de fazer com que Mrs. Vandemeyer me diga tudo o que eu quero.

 

Como ? interrogou Tuppence, esbugalhando os olhos.

 

Oh, fazendo umas perguntinhas retorquiu Sir James sossegadamente. É como se costuma fazer.

 

Tamborilou com os dedos na mesa e Tuppence mais uma vez sentiu o intenso poder que irradiava do homem.

 

--E se ela não disser ? perguntou   Julius,   de   novo.

 

Creio que dirá. Tenho uma ou duas alavancas poderosas. E, em último caso, resta sempre a possibilidade do suborno.

 

Claro! E essa é a parte que me toca! berrou Julius, dando um murro na mesa. O senhor pode contar comigo! Pode dispor de um milhão de dólares!

 

Sir James sentou-se e submeteu Julius a um exame atento.

 

Mr. Hersheimmer disse por fim isso é uma soma muito grande.

 

Mas não poderá ser menos. A essa espécie de gente não se podem oferecer tostões.

 

Ao câmbio actual, eleva-se a muito mais de duzentas e cinquenta mil libras.

 

Sim. Talvez o senhor pense que isto é basófia, mas posso entrar com o dinheiro e ainda sobrará bastante para os seus honorários.

 

Sir James corou um pouco.

 

Não há questão de honorários, Mr. Hersheimmer. Não sou um detective particular.

 

Desculpe. Creio que fui um pouco precipitado, mas às vezes fico contrariado com essa questão do dinheiro. Quis oferecer uma gratificação a quem desse notícias de Jane, há alguns dias, mas a vetusta Scotland Yard desaprovou a ideia. Considerou-a prejudicial.

 

E provavelmente tinha razãodisse Sir James secamente.

 

Mas não tenha dúvidas sobre a fortuna de Julius esclareceu Tuppence. Tem dinheiro aos montes.

 

O velho legou-mo em larga escala explicou Julius. Agora, vamos ao que interessa. Qual é a sua ideia?

 

Sir James meditou por instantes.

 

Não há tempo a perder. Quanto mais cedo lançarmos o ataque, melhor. Voltou-se para Tuppence. Sabe se Mrs. Vandemeyer janta fora hoje ?

 

Sim, creio   que sim,   mas   não voltará muito   tarde. De contrário, teria levado a chave do trinco.

 

bom. Irei visitá-la às dez horas. A que horas pensa que ela voltará?

 

Entre as nove e meia e as dez, mas eu poderia voltar mais cedo.

 

Não deve fazê-lo, de forma alguma. Despertaria suspeitas se não permanecesse fora até à hora habitual. Volte pelas nove e meia. Chegarei às dez. Mr. Hersheimmer aguardará cá em baixo, talvez num taxi.

 

Ele comprou um Rolls-Royce novo disse Tuppence, com orgulho.

 

Tanto melhor. Se a sua patroa nos revelar o endereço, iremos imediatamente, levando Mrs. Vandemeyer connosco, se necessário. Compreende?

 

Sim. Tuppence   ergueu-se,   pulando   de   contente. Oh, sinto-me muito melhor!

 

Não fique esperançosa demais,   Miss Tuppence. Vá sossegada.

 

Julius voltou-se para o advogado.

 

Escute. Posso vir buscá-lo às nove e meia. Concorda?

 

Será o melhor, por certo. Eliminará a necessidade de ficarem dois carros à espera. Agora, Miss Tuppence, o meu conselho é que vá saborear um bom jantar. E evite pensar nos próximos acontecimentos.

 

Apertou a mão dos visitantes que saíram em seguida.

 

Não é uma maravilha?perguntou Tuppence, extasiada, ao descer saltitante a escadaria. Oh, Julius, não é simplesmente uma maravilha?

 

Reconheço que o homem arranjou as coisas da melhor maneira. E eu equivoquei-me ao julgar que seria inútil recorrer a ele. Bem, voltamos ao Ritz ?

 

Creio que devo caminhar um pouco. Sinto-me tão entusiasmada. Deixe-me no parque, sim? A não ser que você queira vir comigo...

 

Julius abanou a cabeça.

 

Tenho de comprar gasolina explicou, E enviar um ou dois cabogramas.

 

Muito bem. Encontrar-nos-emos no Ritz, às sete. Jantaremos lá em cima. Não quero exibir-me nestes trapos.

 

Combinado. Até logo.

 

Tuppence olhou para o relógio. Eram seis horas aproximadamente. Caminhou até Kensington Gardens e depois voltou devagar sobre os seus passos, sentindo-se muito melhor com o ar fresco e o exercício. Não era fácil seguir o conselho de Sir James e alijar da mente os possíveis acontecimentos da noite. À medida que se aproximava da esquina de Hyde Park, a tentação de voltar a «South Audley Mansions» tornava-se quase irresistível.

 

Em todo o caso pensou não haveria prejuízo algum em ir apenas contemplar o edifício. Talvez assim se resignasse a esperar com paciência até às dez horas.

 

«South Audley Mansions» oferecia o mesmo aspecto de sempre. Tuppence estava prestes a voltar quando ouviu um assobio estrídulo e o fiel Albert saiu a correr do edifício para se reunir a ela.

 

Tuppence franziu a testa. Não fazia parte do programa chamar a atenção para a sua presença nas vizinhanças, mas Albert estava rubro de entusiasmo.

 

Miss! Ela vai-se embora!

 

Quem? perguntou Tuppence, com Ímpeto.

 

A ladra. Rita Perigosa. Mrs. Vandemeyer. Arranjou as malas e mandou-me chamar um taxi.

 

Quê ? Tuppence segurou o braço do garoto.

 

É verdade, miss. Julguei que nada soubesse a tal respeito.

 

Albert exclamou Tuppence você é um colosso! Se não fosse você, ela teria escapado!

 

Albert enrubesceu de satisfação.

 

Não há tempo a perder disse Tuppence, atravessando a rua. Temos de detê-la. Custe o que custar, preciso retardar-lhe a partida até que... Interrompeu-se. Albert, há um telefone aqui, não?

 

O garoto abanou a cabeça.

 

A maioria dos apartamentos têm os seus próprios telefones, miss. Mas há uma cabina na esquina.

 

Vá até lá, então, e ligue para o Hotel Ritz. Pergunte por Mr. Hersheimmer e diga-lhe que vá buscar   Sir James e   venham   imediatamente   porque   Mrs.   Vandemeyer   está tentando uma retirada.   Se não conseguir comunicar com Mr. Hersheimmer, telefone para Sir James Peel Edgerton. Encontrará o número na lista. Conte-lhe o que está a acontecer. Não esquecerá os nomes?

 

Albert repetiu-os fluentemente.

 

Tenha confiança em mim, miss. Tudo sairá bem Mas, e a senhora? Não tem medo de enfrentar a ladra sozinha?

 

Não, não, pela minha parte nada há que temer. Vá e telefone. Depressa.

 

Depois de respirar fundo, Tuppence entrou no edifício e subiu a correr até à porta do n.º 20. Como poderia deter Mrs. Vandemeyer até à chegada dos dois homens, não o sabia, mas tinha de fazer alguma coisa e cumpria-lhe realizar sozinha a tarefa. Que teria ocasionado esta partida precipitada? Mrs. Vandemeyer desconfiaria de Tuppence?

 

Suposições eram ociosas. Tuppence comprimiu com firmeza o botão da campainha. Poderia saber algo por intermédio da cozinheira.

 

Ninguém veio atender e, ao cabo de alguns minutos de espera, Tuppence tornou a tocar a campainha, conservando o dedo no botão demoradamente. Por fim, ouviu ruído de passos lá dentro e pouco depois Mrs. Vandemeyer em pessoa abriu a porta. Ergueu as sobrancelhas ao ver a jovem.

 

-Você?

 

Deu-me uma dor de dentes disse Tuppence fluentemente. Assim, julguei melhor voltar para casa, para ter uma noite de descanso.

 

Mrs. Vandemeyer nada disse, recuou e deixou que Tuppence entrasse no hall.

 

Que falta de sorte, a sua disse com frieza. É melhor ir para a cama.

 

Oh, na cozinha estarei bem. A cozinheira...

 

A cozinheira saiu disse Mrs. Vandemeyer, um pouco aborrecida. Mandei-a sair. Assim, bem vê que o melhor é ir para a cama.

 

De súbito, Tuppence teve medo. A voz de Mrs. Vandemeyer adquirira um timbre que a inquietava. Além disso, a mulher impelia-a lentamente para o corredor. Tuppence voltou-se no vão da janela.

 

Não quero...

 

Então, num relance, um cano de aço frio tocou-lhe a têmpora e a voz de Mrs. Vandemeyer ergueu-se, gélida e ameaçadora:

 

Idiota!   Pensa que eu não sei? Não,   não responda. Se lutar ou gritar, matá-la-ei como um cão!

 

A pressão do cano de aço tornou-se mais forte.

 

Portanto, avanteprosseguiu Mrs. Vandemeyer. Por aqui... lá para o meu quarto. Depois de eu lhe dar o tratamento adequado, irá para a cama quando eu mandar. E você dormirá... sim, minha espiazinha, você vai dormir muito!

 

Havia nas últimas palavras uma espécie de falsa amabilidade que bastante afligiu Tuppence. No momento, nada podia fazer e caminhou obedientemente para o quarto de Mrs. Vandemeyer. A pistola conservou-se sempre apontada à sua fronte. O quarto encontrava-se num estado de terrível desordem, roupas espalhavam-se para um lado e outro, vendo-se uma mala de vestidos e uma caixa de chapéus, ainda não fechadas, no meio do soalho.

 

Tuppence cobrou ânimo, com esforço. A voz tremeu-lhe um pouco, mas falou com ânimo.

 

Ora, vamos! disse. Isto é ridículo. A senhora não me pode dar um tiro. Todos no edifício ouviriam o estampido

 

Arrisco-me a isso respondeu vivamente Mrs. Vandemeyer. Mas se você não tentar gritar por socorro, não haverá necessidade de medidas extremas e não creio que você queira fazer asneiras. É uma rapariga inteligente. Você enganou-me com perfeição. Não desconfiava de você! Assim, não tenho dúvidas de que compreende muito bem que me encontro agora em situação de superioridade em relação a você. Portanto, sente-se na cama. Ponha as mãos sobre a cabeça e, se tem amor à vida, não se mexa.

 

Tuppence obedeceu passivamente. O bom senso dizia-lhe que nada mais lhe restava fazer senão aceitar a situação. Se bradasse por socorro, haveria escassas probabilidades de que alguém a ouvisse e abundantes probabilidades de que Mrs. Vandemeyer atirasse. Nesse meio tempo, cada minuto de demora que ganhasse seria valioso.

 

Mrs. Vandemeyer depôs o revólver na borda do lavatório, ao alcance da mão e, ainda fitando Tuppence com olhos de lince para o caso de que a jovem se mexesse, retirou um pequeno frasco de vidro e deitou um pouco do seu conteúdo num copo que acabou de encher de água.

 

Que é isso?perguntou Tuppence, num ímpeto.

 

Uma coisa que faz dormir profundamente. Tuppence empalideceu um pouco.

 

A senhora quer envenenar-me?perguntou num sussurro.

 

Talvez respondeu Mrs. Vandemeyer, sorrindo com agrado.

 

Então   não   beberei disse   Tuppence com  firmeza. Prefiro que me dê um tiro. Não quero que me matem em silêncio, como um cordeiro.

 

Mrs. Vandemeyer bateu com os pés no chão.

 

Não seja idiota! Se tem um pouco de senso, compreenderá que o envenenamento não me livraria de culpabilidade. É um hipnótico, nada mais. Você despertará amanhã de manhã, sem o mínimo distúrbio. Quero apenas poupar-me o incómodo de a amarrar e amordaçar. É a alternativa que lhe resta e você não gostará nada, posso garantir! Sou bastante grosseira quando quero. Assim, beba isto como uma boa menina e não sofrerá o menor prejuízo.

 

No íntimo, Tuppence acreditou. Os argumentos da mulher tinham visos de verdade. Era um método simples e seguro de se desembaraçar dela pelo tempo necessário. Contudo, a jovem não aceitou de bom grado a ideia de se deixar adormecer docilmente antes de resistir em prol da sua libertação. compreendia que se Mrs. Vandemeyer escapasse, estaria perdida a derradeira esperança de encontrar Tommy.

 

Tuppence raciocinara com celeridade. Todas essas reflexões lhe passaram pela mente num relance e, ao perceber que restava uma esperança, aliás bem problemática, resolveu arriscar tudo num esforço supremo.

 

Dessa forma, pulou da cama inopinadamente e caiu de joelhos aos pés de Mrs. Vandemeyer, agarrando-lhe a barra da saia num frenesi.

 

Não   acredito soluçou. É   veneno...   eu   sei   que   é veneno. Oh, não me obrigue a bebê-lo a voz converteu-se num grito agudo não me obrigue a bebê-lo!

 

Mrs. Vandemeyer, de copo na mão, baixou os olhos e franziu os lábios diante deste colapso.

 

Levante-se, idiota! Não posso saber como teve coragem para desempenhar o seu papel da maneira como o fez. Levante-se, já disse.

 

Mas Tuppence continuou agarrada à mulher, soluçante, intercalando entre os soluços incoerentes pedidos de misericórdia. Cada minuto ganho era uma vantagem. Além disso, de rojo no chão, movia-se imperceptivelmente para perto do seu objectivo.

 

Mrs. Vandemeyer soltou aguda exclamação de impaciência e ergueu a rapariga, que ficou de joelhos.

 

Bebe   sem   demora! Autoritariamente,   comprimiu   o copo contra os lábios da jovem.

 

Tuppence deu um último gemido de desespero.

 

A senhora jura que isto não me vai causar mal algum ? contemporizou.

 

É claro que não causará mal nenhum. Não seja tola. A senhora jura ?

 

Sim, simdisse a mulher, impaciente. Juro.  

Tuppence ergueu a mão esquerda para o copo.

Muito bem. Abriu a boca com humildade. - Mrs. Vandemeyer deu um suspiro de alívio, afrouxando avigilância por um momento. Então, rápida como um raio, Tuppence sacudiu o copo no ar com quanta força pôde. O líquido espalhou-se pelo rosto de Mrs. Vandemeyer; e, aproveitando o estupor momentâneo da mulher, Tuppence estendeu a mão direita e tirou o revólver da borda do lavatório. No momento seguinte recuara um passo, o revólver apontado directamente ao peito de Mrs. Vandemeyer, sem qualquer vacilação na mão que o empunhava.

 

No instante do triunfo, Tuppence deixou-se arrastar por uma vanglória pouco leal.

 

Agora, quem é que está em situação de superioridade? exclamou com jactância.

 

O rosto da mulher convulsionou-se de cólera. Por instantes, Tuppence pensou que a mulher ia agredi-la, o que teria colocado a jovem em desagradável dilema, pois só em caso extremo pretendia disparar o revólver. Todavia, Mrs. Vandemeyer conteve-se, com um esforço, e, por fim, um sorriso lento e perverso distendeu-lhe os músculos do rosto.

 

Não é tola, então, no fim de contas! Agiu bem, menina! Mas você vai pagar tudo isto... Ah! Vai pagar! Tenho boa memória!

 

Tuppence contemplou-a, pensativa, por instantes. Recordava várias coisas. As palavras de Boris«Às vezes, acredito que você nos venderia!»e a resposta«O preço, em todo o caso, teria de ser enorme»... Fora uma resposta em tom de brincadeira, sem dúvida, mas não teria um substrato de verdade? Muito antes, Whittington não perguntara: «Quem é que deu com a língua nos dentes? Não foi Rita?» Talvez Rita fosse o ponto vulnerável na armadura de Mr. Brown.

 

Conservando os olhos fixos com firmeza no rosto da outra, Tuppence respondeu calmamente:

 

Sobre dinheiro...

 

Mrs.   Vandemeyer sobressaltou-se.   Evidentemente,   não esperava por aquela resposta. Que quer dizer?

 

Explicarei. Você acabou de me dizer que tem boa memória. Uma boa memória não tem nem a metade da utilidade de uma boa bolsa! Suponho que fica mais tranquila ao imaginar mil e um castigos para me infligir, mas isso tem utilidade prática? Vingança é coisa bem pouco satisfatória. É o que todos dizem sempre. Mas o dinheiro... Bem, com respeito ao dinheiro, nada há de insatisfatório, não é assim?

 

Você pensa disse Mrs. Vandemeyer com desdémque eu pertenço à classe de mulheres que vendem os seus amigos?

 

Sim respondeu Tuppence prontamente se o preço for suficiente.

 

Umas miseráveis centenas de libras, mais ou menos! Nãocontrariou Tuppence. Eu diria: cem mil libras! Uma onda de rubor subiu ao rosto de Mrs. Vandemeyer.

 

Que diz você?perguntou, os dedos a brincarem nervosamente com um alfinete que ostentava no peito. Naquele instante, Tuppence compreendeu que o peixe mordera a isca

e, pela primeira vez, horrorizou-se do seu próprio amor ao dinheiro. .

 

Cem mil librasrepetiu Tuppence.

 

Apagou-se o brilho nos olhos de Mrs. Vandemeyer. Reclinou-se na cadeira.

 

Ora! disse. Você não tem esse dinheiro.

 

Não admitiu Tuppence. Não tenho... mas conheço alguém que tem.

 

-Quem é?

 

Um amigo meu.

 

Deve   ser   milionário observou   Mrs.   Vandemeyer, incrédula.

 

Na verdade, é milionário. É um americano. Ele pagará essa importância sem pestanejar. Pode ter a certeza de que lhe faço uma proposta perfeitamente garantida.

 

Mrs. Vandemeyer tornou a empertigar-se.

 

Estou inclinada a dar-lhe créditodeclarou em voz lenta. Reinou silêncio entre as duas, por certo tempo; depois, Mrs. Vandemeyer ergueu os olhos.

 

E que deseja ele saber, esse seu amigo?

 

Tuppence travou momentânea luta íntima, mas como o dinheiro era de Julius, os interesses dele estavam em primeiro lugar.

 

Quer saber onde está Jane Finn disse ousadamente. Mrs. Vandemeyer não demonstrou surpresa.

 

Não sei ao certo onde ela se encontra no presente momento respondeu.

 

Mas poderia descobrir o seu paradeiro?

 

Sim retorquiu Mrs.   Vandemeyer, descuidadamente. Quanto a isso, não haveria dificuldade.

 

Depoisa voz de Tuppence tremeu um pouco há o caso de um rapaz, um amigo meu. Receio que alguma coisa lhe haja acontecido, por obra do seu amigo Boris.

 

Como se chama ele ? Tommy Beresford.

 

Nunca tinha ouvido falar nesse nome. Mas perguntareiao Boris. Ele me dirá o que souber.

 

- Obrigada. Tuppence   sentia-se   animada.   O sucesso impelia-a a esforços mais audaciosos. Há ainda outra coisa.

-Que é?

 

Tuppence inclinou-se para a frente e baixou o tom de voz:

 

Quem é Mr. Brown ?

 

Os seus olhos sagazes perceberam o repentino empalidecer do rosto formoso. com um esforço, Mrs. Vandemeyer dominou-se e tentou retomar a primitiva atitude. Mas a tentativa resultou em simples paródia.

 

Encolheu os ombros.

 

Você não está muito bem informada a nosso respeito se ignora que ninguém sabe quem é Mr. Brown...

 

--Você sabe disse Tuppence com calma.

 

Mais uma vez o rosto da mulher perdeu a cor.

 

Em que se baseia para dizer tal coisa?

 

Não sei disse a jovem. Mas tenho a certeza.

 

Mrs. Vandemeyer ficou por longo tempo a olhar com espanto para a interlocutora.

 

Sim disse roucamente eu sei. Eu era muito bonita, você compreende... muito bonita...

 

Ainda é disse Tuppence, com admiração. Mrs. Vandemeyer sacudiu a cabeça. Que estranho brilho irradiavam aqueles olhos de um azul eléctrico!

 

Bonita mas não o bastante declarou numa voz de perigosa mansidão. Bonita... mas não o bastante! Nos últimos tempos, tenho tido medo às vezes... É perigoso saber demais! Debruçou-se sobre a mesa. Jure que o meu nome não será envolvido nisto que nunca ninguém ficará sabendo.

 

Juro. E, uma vez que ele seja capturado, você não correrá mais nenhum perigo.

 

Um olhar aterrador luziu na fisionomia de Mrs. Vandemeyer.

 

Não? Nunca mais?Agarrou o braço de Tuppence. Tem a certeza quanto ao dinheiro?

 

Certeza absoluta.

 

Quando o receberei? Não pode haver demora.

 

O meu amigo não tardará a chegar. Ele pode enviar cabogramas ou coisa que o valha. Masnão demorará nada; ele é de um dinamismo terrível,

 

Mrs, Wandermeyer tinha um olhar resoluto,

 

Estou resolvida, É uma grande soma e além disso um sorriso curioso distendeu-lhe os lábiosnão é prudente deixar escapar uma mulher como eu!

 

Por alguns momentos continuou a sorrir, batendo ao de leve com os dedos na mesa. De repente sobressaltou-se; o seu rosto tornou-«se lívido.

 

Que é isto?

 

Não ouvi nada,

 

Mrs. Vandemeyer esbugalhou os olhos e olhou em torno, atemorizada.

 

Se alguém estivesse a escutar-nos...

 

Tolice. Quem poderia ser?

 

Até as paredes ás vezes têm ouvidos murmurou a mulher. Confesso que estou com medo. Você não o conhece!

 

Pense nas cem mil librasdisse Tuppence com doçura.

 

Mrs. Vandemeyer passou a língua pelos lábios secos.

 

Você não o conhece repetiu em voz rouca,Ele,,. Ah!

 

com um grito agudo de terror ergueu-se de um salto. A mão estendida apontava para a cabeça de Tuppence. Depois cambaleou e caiu ao chão com uma síncope.

 

Tuppence olhou para ver o que a assustara.

 

No umbral da porta estavam Sir James Peei Edgerton e Julius Hersheímmer.

 

A VIGÍLIA

 

Sir James passou por Julius e inclinou-se pressurosamente sobre a mulher desfalecida.

 

É o coraçãodisse vivamente. Aguardente... depressa!

 

Julius precipitou-se para o lavatório.

 

Aí não disse Tuppence por cima do ombro. No licoreiro da sala de jantar, segunda porta do corredor.

 

Sir James e Tuppence ergueram Mrs. Vandemeyer e conduzíram-na para o leito. Borrifaram-lhe o rosto, mas sem resultado. O advogado tomou-lhe o pulso.

 

Muito fraco...murmurou. Espero que esse rapaz se apresse com a aguardente.

 

Nesse momento, Julius entrou no quarto com um copo que entregou a Sir James. Enquanto Tuppence soerguia a cabeça da mulher, o advogado tentava introduzir um pouco da bebida entre os lábios fechados. Por fim, a mulher abriu os olhos dèbílmente. Tuppence levou-lhe o copo aos lábios.

 

Mrs. Vandemeyer aquiesceu. A aguardente devolveu-lhe a cor às faces lívidas e reanimou-a de maneira admirável. Tentou sentar-se depois tornou a cair, com um gemido, a mão pendente de um lado.

 

É o meu coração murmurou. Não devo falar.

 

Deitou-se de costas, com os olhos fechados.

 

Sir James continuou a tomar-lhe o pulso por mais uns instantes, depois soltou-o e meneou a cabeça.

 

Está bem, agora.

 

Afastaram-se os três e conservaram-se juntos conversando em voz baixa.

 

Tuppence relatou como Mrs. Vandemeyer manifestara vontade de desvendar a identidade de Mr. Brown e como comsentira em descobrir e revelar-lhes o paradeiro de Jane Finn. Julius apresentou congratulações à jovem.

 

Muito bem, Miss Tuppence. Explêndido! Creio que cem mil libras parecerão tão apetecíveis pela manhã à dama como o foram à noite. Não há motivo para preocupação. Ela não falaria a não ser por dinheiro, aposto!

 

Havia uma certa dose de bom senso nessas palavras e Tuppence sentiu-se mais confortada.

 

O que o senhor diz é verdade concordou Sir James, pensativo. Devo confessar, entretanto, que eu desejaria que não houvéssemos causado uma interrupção no momento em que chegámos. Não posso evitar esta queixa, se bem que agora é só questão de esperar até ao amanhecer.

 

Contemplou a figura inerte sobre o leito. Mrs. Vandemeyer jazia em atitude de inteira passividade, os olhos cerrados. O advogado abanou a cabeça.

 

Bem disse Tuppence, numa tentativa de jovialidade devemos esperar até ao amanhecer, eis tudo. Mas creio que não devemos abandonar o apartamento.

 

E se deixássemos de guarda o inteligente rapazinho de que nos falou?

 

Albert? E se ela se reanimar e lhe pregar uma peça? Albert não poderia detê-la.

 

Creio que ela não seria capaz de renunciar aos dólares prometidos.

 

Talvez. Ela pareceu-me muito apavorada com o tal «Mr. Brown».

 

Quê? Terá mesmo muito medo dele?

 

Sim. Olhou ao redor e disse que até as paredes têm ouvidos.

 

Miss Tuppence tem razão declarou Sir James calmamente. Não devemos abandonar o apartamento, e não só por causa de Mrs. Vandemeyer.

 

Julius encarou-o com espanto.

 

O senhor pensa que ele poderia vir procurá-la? Mas como poderia ele saber?

 

O senhor esquece a hipótese de um dictafone respondeu Sir James secamente. Temos   um adversário formidável. Acredito que, se exercermos a devida vigilância, se oferecerá excelente oportunidade para ele nos cair nas mãos. Mas não podemos   negligenciar   nenhuma   precaução.   Temos   uma testemunha importante, mas deve ser salvaguardada. Eu sugeriria que Miss Tuppence se recolhesse para dormir, ficando eu e o senhor,   Mr.   Hersheimmer,   de vigília alternadamente.

 

Tuppence ia protestar, mas ao olhar por acaso para o leito viu Mrs. Vandemeyer de olhos semi-abertos, com uma tal expressão no rosto, misto de temor e malevolência, que as palavras lhe morreram nos lábios.

 

Por um momento imaginou se o desmaio e o ataque de coração não seriam um formidável embuste, mas recordou a palidez mortal que muito dificilmente se poderia simular. Ao olhar mais uma vez, a expressão desaparecera como por encanto e Mrs. Vandemeyer jazia inerte e imóvel como antes. Por instantes, a jovem imaginou que aquilo com certeza fora sonho. Sem embargo, decidiu ficar alerta.

 

Então disse Julius creio que o melhor é a gente sair daqui.

 

Os outros aceitaram a sugestão. Sir James mais uma vez tomou o pulso de Mrs. Vandemeyer.

 

Perfeitamente   satisfatóriodisse   em   voz   baixa   a Tuppence. Estará completamente boa depois do repouso da noite.

 

A jovem hesitou um momento ao pé do leito. A intensidade da expressão que surpreendera na fisionomia da mulher causara-lhe forte impressão. Mrs. Vandemeyer ergueu as pálpebras. Parecia fazer esforços para falar. Tuppence curvou-se sobre ela.

 

Não... saia... não teve forças para continuar, murmurando apenas mais umas palavras que Tuppence julgou ser: «com sono». Depois fez nova tentativa.

 

Tuppence inclinou-se mais ainda. A voz era apenas um sopro.

 

Mr. B... Brown...A voz emudeceu.

 

Mas os olhos semicerrados pareciam ainda enviar uma mensagem angustiosa.

 

Movida por um impulso repentino, a jovem disse rapidamente :

 

Não sairei do apartamento. Ficarei aqui toda a noite. Uma centelha de alívio luzia-lhe sob as pálpebras que se fecharam mais uma vez. Na aparência, Mrs. Vandemeyer dormia. Mas as suas palavras causaram nova inquietação a Tuppence. Que pretendera ela dizer com aquele débil murmúrio«Mr. Brown»? Tuppence deu por si a olhar nervosamente por cima do ombro. O enorme guarda-roupa erguia-se com um aspecto sinistro diante dos seus olhos. Havia espaço de sobra para um homem se ocultar ali... Um pouco envergonhada de si mesma, Tuppence abriu-o de inopino e olhou para dentro. Ninguémnaturalmente! Agachou-se e olhou para baixo da cama. Não havia outro esconderijo possível. Tuppence deu a habitual sacudidela de ombros. Era absurdo ceder assim aos nervos! Lentamente saiu do quarto. Julius e Sir James conversavam em voz baixa. Sir James voltou-se para ela.

 

Feche a porta por fora, Miss Tuppence, e tire a chave. Não devemos deixar qualquer possibilidade de alguém penetrar nesse quarto.

 

Escutem disse Julius de súbito temos ainda o inteligente garoto de Tuppence. Acho que convém descer até lá e tranquilizá-lo.

 

Como entraram aqui?indagou Tuppence de repente. Esqueci-me de perguntar.

 

Albert   explicou-me   tudo   muito   bem   pelo   telefone. Fui em busca de Sir James e viemos logo. O rapaz estava de atalaia, à nossa espera, e bastante preocupado com o que lhe teria acontecido a si. Escutou à porta do apartamento, mas não conseguiu ouvir nada. O facto é que ele sugeriu transportar-nos no elevador de serviço em lugar de tocar a campainha.

 

E, com a maior segurança fomos ter à cozinha e daí directamente à sala em que você se encontrava. Albert ainda está lá em baixo e a esta hora deve estar doente de ansiedade. Dizendo isto, Julius saiu abruptamente.

 

Miss Tuppence disse Sir James a senhora conhece melhor a casa que eu. Onde sugere que estabeleçamos o nosso acantonamento ?

 

Tuppence reflectiu por instantes.

 

Creio que o «boudoir» de Mrs. Vandemeyer é a sala que oferece mais conforto disse por fim.

 

Sir James olhou em derredor, com ares de aprovação.

 

Aqui ficaremos muito bem. E agora, minha prezada senhora, recolha-se e durma um pouco.

 

Tuppence sacudiu a cabeça com resolução.

 

Não posso, Sir James. Sonharia com Mr. Brown toda a noite!

 

Mas está cansada, minha filha.

 

Não, não quero. Prefiro ficar acordada de facto.     O advogado não insistiu.

 

Julius reapareceu ao cabo de poucos minutos, depois de tranquilizar Albert e recompensá-lo fartamente pelos seus serviços. Não conseguindo, por seu turno, convencer Tuppence a ir dormir, disse com ar decidido:

 

Em todo o caso, você pode arranjar algo para comer. Onde é a despensa?

 

Tuppence ensinou-lhe o caminho e o americano voltou dentro de poucos minutos com um pastel frio e três pratos.

 

Depois de uma refeição reconfortante, a jovem sentiu-se inclinada a lançar ao desprezo as fantasias de meia hora antes. A força do dinheiro não poderia falhar.

 

E agora, Miss Tuppence disse Sir James queremos ouvir as suas aventuras.

 

Outro tanto digo euconcordou Julius. Tuppence narrou as suas aventuras com um pouco de modéstia. Julius de quando em quando exclamava com admiração :

 

Esta é boa!

 

Sir James nada disse até ao final, quando o seu «Muito bem, Miss Tuppence» deixou a jovem corada de satisfação.

 

Uma coisa não compreendi muito bemdisse Julius. Porque é que ela resolvera ir-se embora?

 

Não sei confessou Tuppence.

Sir James bateu no queixo, pensativo.

 

O quarto encontrava-se em grande desordem. Parece indicar que a partida não fora premeditada. Dir-se-ia que ela recebeu um aviso inopinado de alguém.

 

De Mr. Brown, suponho disse Julius, num ar de mofa. O advogado contemplou-o deliberadamente por um ou dois minutos.

 

Porque não?disse. Lembre-se que o senhor mesmo foi vencido por ele uma vez.

 

Julius corou, vexado.

 

Quase   enlouqueço quando   penso que lhe entreguei como um cordeiro a fotografia de Jane. Ah, se eu tornar a pôr as mãos no retrato, agarrar-me-ei a ele como... como o diabo!

 

Essa é, com toda a probabilidade, uma contingência remota disse o advogado secamente.

 

Creio que o senhor tem razão respondeu Julius com franqueza. E, de qualquer modo, é o original que eu procuro. Onde pensa o senhor que ela esteja, Sir James ?

 

O advogado abanou a cabeça.

 

Impossível dizer. Mas tenho uma ideia sobre onde ela esteve.

 

O senhor? Onde? Sir James sorriu.

 

O cenário das suas aventuras nocturnas, o sanatório de Bournemouth.

 

Lá? Impossível. Eu perguntei.

 

Não, meu jovem. O senhor perguntou se alguém, de nome Jane Finn, lá estivera. Mas se internaram a pequena no estabelecimento, foi com certeza com um nome suposto.

 

Esta é óptima! exclamou Julius. Nunca pensei nisso!

 

Era óbvio declarou o outro.

 

Talvez o médico também esteja implicado no caso lembrou Tuppence.

 

Julius abanou a cabeça.

 

Não sou dessa opinião. Impossível que me tenha enganado com ele. Não, tenho absoluta certeza de que o dr. Hall é um homem às direitas.

 

Hall, foi o que o senhor disse?perguntou Sir James. É curioso.

 

Porquê?inquiriu Tuppence.

 

Porque acontece que eu me encontrei com ele hoje pela manhã. Mantivemos relações de cortesia por alguns anos e esta manhã esbarrei com ele em plena rua. Disse-me que está no Metrópole. Voltou-se para Julius. Ele   não lhe   disse que pretendia vir à cidade?

 

Julius fez um sinal afirmativo com a cabeça.

 

É curioso cismou Sir James. O senhor não me falou nele esta tarde, senão eu recomendaria que lhe fosse solicitar maiores informações, levando um cartão meu de apresentação.

 

Desconfio que sou um parvo disse Julius com excepcional humildade. Eu devia ter pensado no truque do nome falso.

 

Como pensar seja em que for depois de cair de uma árvore ? disse   Tuppence. Estou   certa   de   que   qualquer outra pessoa teria feito o mesmo.

 

Enfim,   creio que   isso   agora já   não interessa disse Julius. Temos Mrs. Vandemeyer presa por uma corda e é tudo quanto necessitamos.

 

Simdisse Tuppence, mas não com muita convicção. Reinou silêncio no pequeno grupo. A pouco e pouco, omistério da noite principiou a exercer influência sobre eles. Ouviam-se repentinos estalos nos móveis, imperceptíveis sussurros nas cortinas. De súbito, Tuppence deu um pulo e pôs-se de pé com um grito.

 

Não o posso evitar! Sei que Mr. Brown se encontra neste apartamento.   Sinto-o!

 

Ora, Tuppence, como poderia ele estar aqui? Esta porta abre para o hall. Ninguém poderia entrar pela porta da frente sem ser visto ou ouvido por nós.

 

Não o posso evitar. Sinto que ele se encontra aqui! Contemplou Sir James como num apelo e o advogado respondeu gravemente: com o   devido   respeito   aos   seus   pressentimentos, Miss Tuppence (e também aos meus, nesse caso), não compreendo como seja humanamente possível que alguém se encontre neste apartamento sem nosso conhecimento.

 

A jovem ficou mais confortada com essas palavras.

 

Passar a noite sem dormir causa sempre depressão confessou.

 

Sim disse Sir James. Estamos em condições idênticas as das pessoas que se acham numa sessão espírita. Se contássemos com a presença de um «médium», talvez conseguíssemos resultados prodigiosos.

 

O senhor acredita no espiritismo ? perguntou Tuppence abrindo desmesuradamente os olhos.

 

O advogado encolheu os ombros.

 

A doutrina possui o seu conteúdo de verdade, não resta dúvida. Mas a maior parte do que afirmam a tal respeito não resiste a provas testemunhais.

 

Escoavam-se as horas. Aos primeiros e ténues clarões da madrugada, Sir James descerrou as cortinas. Contemplaram um espectáculo que poucos londrinos presenciam a lenta ascensão do Sol sobre a cidade adormecida. De certo modo, depois que a luz surgiu, as apreensões e ideias fantásticas da noite passada pareciam absurdas. O ânimo de Tuppence voltou ao normal.

 

Ora! disse ela. Vamos ter um dia bonito. E encontraremos Tommy. E Jane Finn. E tudo será maravilhoso.

 

Às sete horas, Tuppence resolveu preparar um pouco de chá. Voltou com uma bandeja contendo um bule e quatro chávenas.

 

Para quem é a quarta chávena?perguntou Julius.

 

Para a prisioneira, é claro. Não acha que podemos acordá-la ?

 

Parece-me justo dar-lhe um pouco de chá declarou Julius, pensativo.

 

Sim admitiu Tuppence. Talvez queiram vir também, para o caso que ela me agrida ou cometa outra inconveniência. Não sei com que disposição ela vai despertar.

 

Sir James e Julius acompanharam-na até à porta.

 

Onde está a chave? Ah, tenho-a comigo, é claro. Tuppence meteu a chave na fechadura, fê-la girar e deteve-se.

 

E se, depois de tudo, ela fugiu?--murmurou.

 

Absolutamente   impossível replicou Julius com  confiança.

 

Sir James, porém, nada disse.

 

Tuppence respirou fundo e entrou. com um suspiro de alívio viu Mrs. Vandemeyer deitada no leito.

 

bom dia . - saudou com  vivacidade. - Trouxe-lhe   um pouco de chá.

 

Mrs. Vandemeyer não respondeu. Tuppence depôs a chávena sobre a mesa de cabeceira e afastou-se para abrir as cortinas. Quando voltou, Mrs. Vandemeyer continuava deitada sem fazer o menor movimento. Sentindo um repentino aperto no coração, Tuppence precipitou-se para junto do leito. A mão que ergueu entre as suas estava fria como gelo... Agora, Mrs. Vandemeyer nunca mais falaria...

 

O grito de Tuppence atraiu os homens. Bastaram poucos instantes. Mrs. Vandemeyer morrera havia já algumas horas. Evidentemente, morrera em pleno sono.

 

É a mais cruel infelicidade! urrou   Julius, em desespero.

 

O advogado conservou-se mais calmo, mas em seus olhos luzia um brilho singular.

 

Já é falta de sorte replicou. Quase que leva a pensar que... mas não, é de todo impossível que alguém tenha entrado aqui.

 

Não disse   o   advogado. Não   vejo   como   alguém pudesse entrar. E, no entanto, quando ela estava a ponto de atraiçoar Mr. Brown... morre de repente. Será mero acaso?

 

     Mas de que maneira...

 

Sim,   de que maneira?! É o que temos de descobrir. Ficou   de pé,   em silêncio. Temos   de   descobrir disse, calmamente, e Tuppence sentiu que se ela fosse Mr. Brown não gostaria do tom daquelas simples palavras.

 

Julius olhou para a janela.

 

A janela está aberta observou. Não será o caso... Tuppence abanou a cabeça.

 

A sacada prolonga-se apenas até ao «boudoir». E nós estávamos lá.

 

   Ele poderia ter deslizado... sugeriu Julius. Sir James,   porém,   interrompeu-o.

 

Os métodos de Mr. Brown não são tão simples. Devemos chamar um médico; antes, porém, não será conveniente ver se existe neste quarto alguma coisa de utilidade para nós?

 

Rapidamente, lançaram-se os três à busca. Um amontoado de restos carbonizados na grade da lareira indicava que Mrs. Vandemeyer queimara papéis na véspera da fuga. Não sobrou nada de importância, embora eles estendessem a busca aos demais aposentos da casa.

 

Aquilo ali disse Tuppence de súbito, apontando para um cofre pequeno e antigo embutido na parede. É o guarda-jóias, ao que me parece, mas talvez contenha mais alguma coisa.

 

A chave encontrava-se na fechadura e Julius abriu a porta do cofre e examinou-lhe o interior. Demorou-se um pouco nesse trabalho.

 

E então?perguntou Tuppence, impaciente.

 

Reinou um instante de silêncio antes que Julius respondesse; depois, retirou a cabeça do interior do cofre e fechou a porta.

 

Nada disse.

 

Em cinco minutos chegou um médico jovem e vivaz, chamado com urgência. Mostrou-se muito atencioso paracom Sir James, a quem logo reconheceu.

 

Colapso cardíaco ou talvez uma superdose de algum soporífero. Farejou o ambiente. Ainda há no arum cheiro de cloral.

 

Tuppence lembrou-se do copo que derramara. E outro pensamento impeliu-a para o lavatório. Encontrou o pequeno frasco de que Mrs. Vandemeyer tirara algumas gotas.

 

O frasco ficara com dois terços do conteúdo. E agora... estava vazio.

 

UMA CONSULTA

 

Nada foi mais surpreendente e desnorteante para Tuppence do que a facilidade e simplicidade com que tudo se arranjou, graças à habilidade de Sir James. O médico aceitou sem rebuço a teoria de que Mrs. Vandemeyer tomara por descuido uma dose excessiva de cloral. Não acreditava que fosse necessária uma investigação judicial. Mas se fosse, notificaria Sir James. Foi-lhe explicado que Mrs. Vandemeyer se achava em vésperas de partida para o estrangeiro, já tendo despedido os criados. Sir James e os seus jovens amigos tinham ido visitá-la; ela fora acometida de um mal súbito e os visitantes resolveram passar a noite no apartamento, receando deixá-la sozinha. Sabiam se ela tinha parentes? Não sabiam, mas Sir James referiu-se ao procurador de Mrs. Vandemeyer.

 

Pouco depois chegou uma enfermeira para tomar conta do caso, e os demais abandonaram aquela casa de mau agouro.

 

E agora?perguntou Julius, com um gesto de desespero. Creio que tudo se foi por água abaixo.

 

Sir James bateu no queixo, pensativo.

 

Não respondeu com calma. Resta ainda a possibilidade de que o dr. Hall nos possa dizer alguma coisa.

 

Tem razão.

 

A possibilidade é mínima, mas nem por isso devemos desprezá-la. Parece-me que já contei que ele está hospedado no Metrópole. No meu entender, devemos fazer-lhe uma visita o mais breve possível. Talvez depois do banho e do pequeno almoço.

 

Ficou combinado que Tuppence e Julius voltariam ao Ritz, indo depois buscar Sir James no automóvel. O programa foi executado fielmente e, pouco depois das onze horas, apeavam-se os três em frente do Metrópole. Perguntaram pelo dr. Hall e um empregado saiu à procura do homem. Poucos minutos depois, o doutorzinho correu pressuroso ao encontro dos visitantes.

 

Pode conceder-nos uns instantes de atenção, dr. Hall? perguntou   Sir James,   afável. Deixe-me   apresentar-lhe Miss Cowley. Mr. Hersheimmer, se me não engano, o senhor já conhece.

 

Um brilho zombeteiro cintilou nos olhos do médico ao apertar a mão de Julius.

 

Ah, sim, o meu jovem amigo do episódio da árvore! O tornozelo já está bom ?

 

Está curado graças ao seu eficiente tratamento, doutor.

 

E o sofrimento do coração? Ah! Ah!

 

Continuo a procura rretorquiu Julius, lacònicamente.

 

Quanto ao motivo que aqui nos traz, poderíamos falar-lhe em particular? perguntou Sir James.

 

Sem dúvida. Ao que me parece, há aqui uma sala onde não seremos perturbados.

 

Pôs-se em marcha e os outros acompanharam-no. Chegados à saleta, sentaram-se e o médico fitou Sir James interrogativamente.

 

Dr. Hall, estou muito ansioso por encontrar uma certa jovem com o fim de conseguir um depoimento dela. Tenho razões para supor que ela esteve algum tempo internada no seu estabelecimento de Bournemouth. Creio que não transgredirei a ética profissional ao fazer-lhe perguntas sobre o assunto...

 

Trata-se de depoimento para fins judiciais ?

 

Sir James hesitou um momento; depois respondeu:

 

Sim.

 

Terei muito prazer em lhe fornecer qualquer informação que esteja ao meu alcance. Como se chama ela? Mr. Hersheimmer falou-me, recordo...Voltou-se para Julius.

 

O nome disse Sir James bruscamente interessa muito pouco. É quase certo que ela foi internada sob um nome suposto. Eu gostaria de saber, porém, se o senhor mantém relações com Mrs. Vandemeyer.

 

Mrs. Vandemeyer, de South Audley Mansions, n.º 20.? Conheço-a vagamente.

 

Não sabe o que aconteceu?

A que se refere?

 

Não sabe que Mrs. Vandemeyer morreu?

 

Meu Deus, não tinha a menor ideia a esse respeito! Quando foi?

 

Tomou uma superdose de cloral a noite passada.

 

Propositadamente ?

 

Por descuido, supomos. Pela minha parte, não posso garantir. Seja como for, encontraram-na morta esta manhã.

 

Lamentável. Uma mulher de singular beleza. Penso que era pessoa de sua amizade, uma vez que o senhor sabe de todos esses pormenores.

 

Sei todos os pormenores porque... bem, fui eu quem a encontrou morta.

 

Não me diga!fez o médico, num sobressalto.

 

Sim respondeu Sir James, batendo no queixo, pensativo.

 

São notícias bem tristes, mas não compreendo qual a relação que o assunto tem com o seu inquérito.

 

Relaciona-se do seguinte modo: não é verdade que Mrs. Vandemeyer confiou uma parenta jovem aos seus cuidados ?

 

Julius inclinou-se para a frente com ansiedade.

 

É verdade respondeu o médico, com toda a calma.

 

E a jovem chamava-se...?

 

Janet Vandemeyer. Disseram-me que era sobrinha de Mrs. Vandemeyer.

 

Quando é que a levaram para o sanatório?

 

Se bem me recordo, em Junho ou Julho de 1915.

 

Era um caso de perturbação mental?

 

A jovem não era uma alienada, se é isso o que o senhor quer saber. Mrs. Vandemeyer referiu-me que a jovem se encontrava no Lusitânia quando o malogrado navio foi a pique, e sofreu em consequência um choque fortíssimo.

 

Estamos no caminho certo, não?Sir James lançou um olhar aos companheiros.

 

Como já disse, sou um parvo! retorquiu Julius. O médico contemplou os três com curiosidade.

 

O   senhor   declarou   que   deseja   um depoimento   da jovemdisse. E no caso de ela o não poder prestar?

 

Quê? O senhor não acabou de nos dizer que ela se encontra em seu juízo perfeito?

 

Sim. No entanto, se o senhor quiser dela um depoimento relativo a qualquer acontecimento anterior a 7 de Maio de 1915, ela não estará em condições de o prestar.

 

Todos fixaram o homenzinho, atónitos. Ele abanou a cabeça, com satisfação.

 

É uma pena declarou. É uma pena, em especial porque, pelo que vejo, o assunto se reveste de importância. Mas a verdade é que ela não será capaz de lhe dizer nada.

 

Mas porquê, homem? Deixe-se de rodeios e responda: porquê ?

 

O homenzinho dirigiu um olhar benevolente ao irritado rapaz americano.

 

Porque Janet Vandemeyer sofre de uma perda total da memória.

 

-O quê?

 

Exactamente. Um caso interessante, um caso muito interessante. E não tão esporádico como poderiam pensar. Há inúmeros paralelos, muito conhecidos. É o primeiro caso do género

que tive sob a minha observação pessoal e devo admitir que - o achei de um interesse absorvente. Havia qualquer coisa de vampiresco na satisfação do homenzinho.

 

E ela não se lembra de nada?perguntou Sir James em voz arrastada.

 

Nada anterior a 7 de Maio de 1915. Depois dessa data, a sua memória é tão boa como a sua ou a minha.

 

Qual é, então, a primeira coisa que recorda?

 

O desembarque com os sobreviventes. Antes disso, é tudo como uma página em branco. Ela não sabia sequer o próprio nome, de onde vinha ou onde se encontrava. Não podia mesmo falar a lingua materna.

 

Mas, com toda a certeza, um caso assim não é nada comum observou Julius.

 

Engana-se, meu caro jovem. Nas circunstâncias em que ocorreu, é perfeitamente normal. Choque muito forte para o sistema nervoso. A perda da memória sobrevêm quase sempre com as mesmas características. Eu, é bem de ver, sugeri o concurso de um especialista. Há em Paris um brilhante colega realiza   estudos   sobre   casos   dessa   natureza mas Mrs. Vandemeyer opôs-se ante a ideia da publicidade que talvez resultasse de tal procedimento.

 

Compreendo a atitude dela disse Sir James com ironia.

 

Concordei com ela. Casos assim adquirem sempre certa notoriedade. E a rapariga era muito jovem dezanove anos, presumo. Seria de lamentar que a sua enfermidade se convertesse em objecto de comentários, ameaçando assim arruinar-lhe o futuro. Além disso, não existe um tratamento especial para seguir em tais casos. O único remédio é esperar.

 

Esperar ?

 

Sim. Mais cedo ou mais tarde a memória voltará, tão repentinamente como se foi. Mas com toda a probabilidade a jovem esquecerá por completo o período intermediário e recomeçará a vida normal no ponto em que a interrompeu : no afundamento do Lusitânia.

 

E quando acontecerá isso, na sua opinião? O médico encolheu os ombros.

 

Não sei dizer. Às vezes é questão de meses, outras vezes chega a levar vinte anos! Não raro, outro choque produz a cura. Um restaura o que o outro destruiu.

 

Outro choque, não?disse Julius, pensativo.

 

Sim. Registou-se um caso no Colorado... A conversa do homenzinho enveredou   por   esse   rumo,   volúvel, num entusiasmo comedido.

 

Julius parecia não escutar. Mergulhara nos seus pensamentos e tinha um vinco na testa. De repente, emergiu da funda concentração mental e o seu punho golpeou a mesa com um murro estrepitoso que fez todos pularem, o médico mais que todos.

 

Achei! Doutor, peço a sua opinião profissional para o plano que Vou expor. Suponhamos que Jane mais uma vez cruze o oceano e que se repitam os mesmos acontecimentos. O submarino, o afundamento do navio, a corrida para os escaleres e assim por diante. Isto não provocaria o choque? Não seria um poderoso golpe sobre o ego subconsciente, que faria recuperar o funcionamento normal?

 

Uma lucubração muito interessante, Mr. Hersheimmer. Na minha opinião, teria o mais completo êxito. É pena que não haja possibilidade de se repetirem as condições conforme o senhor sugere.

 

Não por meios naturais, talvez, doutor. Mas eu refiro-me à repetição do facto por meios artificiais.

 

Artificiais?

 

Sim. Porque não? Qual é a dificuldade? Aluga-se um paquete de carreira...

 

Um paquete! murmurou o médico, em voz desfalecida.

 

Contratam-se alguns passageiros, aluga-se um submarino essa é a única dificuldade, no meu entender. Os governos costumam esconder muito as suas máquinas de guerra. Não venderão uma ao primeiro que aparecer. Mesmo assim, pode levar-se a cabo o empreendimento. O senhor já ouviu falar na palavra «suborno»? Pois com suborno arranja-se tudo. Acredito que não haverá necessidade de lançar um torpedo de verdade. Se toda a gente simular agitação, berrando com todas as forças que o navio está a afundar-se, isso deve ser o suficiente para uma jovem inocente como Jane. No mesmo instante, ela equipa-se com um cinto salva-vidas e será impelida para um escaler, enquanto uma equipa de actores se encarregará de produzir um alarido histérico no convéstudo porque ela deve recomeçar no ponto em que se encontrava em Maio de 1915. Que acham deste resumido plano?

 

O dr. Hall dirigiu um olhar a Julius. Tudo o que ele no momento foi incapaz de dizer se exprimiu com eloquência naquele olhar.

 

Nãodisse Julius, em resposta ao olhar do médico. Não estou louco. A coisa é perfeitamente possível. Nos Estados Unidos, coisas assim fazem-se todos os dias para o cinema. Não tem visto colisões de comboios na tela ? Que diferença existe entre comprar um comboio e comprar um navio? Conseguindo os elementos necessários, estará tudo arranjado!

 

O dr. Hall recuperou a voz.

 

Mas, e as despesas, meu caro jovem!A sua voz tornou-se mais intensa. As despesas! Seriam colossais!

 

Dinheiro não me preocupa explicou Julius com simplicidade.

 

O dr. Hall voltou-se como num apelo para Sir James, que sorriu ligeiramente.

 

Mr. Hersheimmer é muito rico... muito rico, na verdade. Voltando-se para Julius, o olhar do médico adquirira umaqualidade nova e subtil. Já não se tratava de um rapaz excêntrico, com o hábito de cair das árvores. Os olhos do médico manifestavam a deferência devida a um homem verdadeiramente rico.

 

O plano é notável. Muito notável murmurou. O cinema, os filmes é claro! Muito interessante. Creio apenas que nós, ingleses, estamos ainda um pouco atrasados nos nossos métodos. E o senhor pretende de facto executar o seu notável   plano ?

 

O senhor pode apostar o seu derradeiro dólar em como o executarei.

 

O médico acreditou na afirmativa do rapaz prestava assim uma homenagem à sua nacionalidade. Se fosse um inglês a sugerir semelhante coisa, não teria dúvidas em diagnosticar um caso de loucura.

 

Não posso garantir que com isso a jovem se restabeleça declarou. Devo deixar isto bem claro.

Sim, não há dúvidadisse Julius. Entregue-me Jane e deixe o resto por minha conta.

 

-Jane?

 

Ou Miss Janet Vandemeyer. Podemos telefonar para o Seu sanatório pedindo que a mandem para cá. Ou é melhor irmos até lá para a trazer no meu automóvel?

 

O médico fitou-o com espanto.

 

Desculpe, Mr. Hersheimmer. Pensei que o senhor havia compreendido.

 

Compreendido o quê?

 

Que Miss Vandemeyer já não se encontra sob os meus cuidados.

 

TUPPENCE PEDIDA EM CASAMENTO

 

Julius deu um pulo. O quê?

 

Pensei que o senhor tinha percebido...

 

Quando foi que ela partiu?

 

Deixe ver. Hoje é segunda-feira, não? Foi, se não me engano, na quarta-feira passada... interessante... sim. foi na mesma noite em que o senhor caiu da minha árvore...

 

Naquela noite? Antes ou depois?

 

Deixe ver... Ah, sim, depois. Chegou um recado urgentíssimo de Mrs. Vandemeyer. A jovem e a enfermeira que tratava dela partiram pelo comboio da noite.

 

Julius caiu para trás na sua cadeira.

 

A enfermeira Edith... partiu com uma doente... eu lembro-memurmurou. Meu Deus, dizer que ela esteve tão perto de mim!

 

O dr. Hall fitou-o com espanto.

 

Não compreendo. A jovem não se encontra em companhia da tia?

 

Tuppence sacudiu a cabeça. Ia falar quando um olhar de advertência de Sir James a obrigou a deter-se. O advogado ergueu-se.

 

Fico-lhe muito obrigado, Hall. Muito grato por tudo o que nos contou. Estamos de novo em posição de seguir as pegadas de Miss Vandemeyer. E a enfermeira que a acompanhou? Não sabe onde ela se encontra?

 

O médico abanou a cabeça.

 

Não recebemos notícias da enfermeira Edith. Creio que deve ter ficado com Miss Vandemeyer por algum tempo. Mas que pode ter acontecido? Por certo, a jovem não foi raptada.

 

Isso é o que resta ver disse Sir James com gravidade. O médico hesitou.

 

Acha que devo comunicar à polícia?

 

Não, não. com toda a probabilidade, a jovem acha-se na companhia de outros parentes.

 

O médico não ficou muito satisfeito, mas percebeu que Sir James não estava disposto a dizer mais nada e compreendeu que tentar obter maiores informações do famoso advogado seria desperdício inútil de tempo. Assim, apertou a mão aos visitantes, que deixaram o hotel. Poucos instantes depois, os três conversavam junto do automóvel.

 

É de enlouquecer exclamou Tuppence. Pensar que Julius esteve de facto com ela sob o mesmo tecto, por algumas horas.

 

Sou um idiota chapado murmurou Julius com tristeza.

 

Você não podia saber consolou-o Tuppence. Podia ? Apelou para Sir James.

 

Aconselho-o a que não se preocupe disse com bondade o advogado. Não adianta chorar sobre o leite entornado, como sabe.

 

O que importa é saber o que faremos em seguida acrescentou Tuppence, prática.

 

Sir James encolheu os ombros.

 

Pode publicar-se um anúncio chamando a enfermeira que acompanhou a jovem. É só o que posso sugerir e confesso que não deposito nisso muita esperança. Nada mais se pode fazer.

 

Nada?perguntou Tuppence, confusa. E... Tommy?

 

Devemos esperar pelo melhor disse Sir James. Sim, devemos continuar a esperar.

 

Mas, por cima da cabeça curvada da rapariga, os olhos do advogado encontraram os de Julius e, quase imperceptivelmente, Sir James balouçou a cabeça. Julius compreendeu. O advogado considerava o caso sem esperanças. O rosto do rapaz americano tornou-se grave. Sir James tomou a mão de Tuppence.

 

Deve comunicar-me tudo que venha a saber. As cartas serão sempre expedidas para onde eu estiver.

 

Tuppence encarou-o, confusa.

O senhor vai viajar?

Já lho disse. Não se recorda ? Para a Escócia.

 

Sim, mas eu pensei... Hesitou. Sir James encolheu os ombros.

 

Minha prezada jovem, nada mais posso fazer, sinto dizê-lo. Todas as nossas pistas se desfizeram no ar. Dou-lhe a minha palavra em como nada mais resta fazer. Se surgir alguma novidade, ficarei muito satisfeito se me avisar como puder.

 

As suas palavras causaram a Tuppence um sentimento de extraordinária desolação.

 

Acho que o senhor tem razãodisse ela. De qualquer modo, agradeço-lhe muito por haver tentado ajudar-nos. Adeus!

 

Julius encontrava-se junto do automóvel. Momentânea compaixão transluziu nos olhos penetrantes de Sir James ao contemplar o rosto deprimido da jovem.

 

Não fique tão desconsolada, Miss Tuppence disse em voz baixa. Recorde-se de que as férias nem sempre servem apenas para divertimentos. Às vezes, servem também para trabalhar.

 

O tom em que falou fez com que Tuppence levantasse os olhos vivamente. O homem abanou a cabeça com um sorriso.

 

Não, não direi mais nada. É grave erro falar demais. Lembre-se disso. Nunca conte a ninguém tudo o que sabe nem mesmo à pessoa que melhor conheça. Compreende? Adeus!

 

Afastou-se. Tuppence ficou a contemplá-lo. Começava a compreender os métodos de Sir James. Já uma vez, anteriormente, ele lhe fizera uma insinuação da mesma maneira cautelosa. Repetia-se o caso agora? Que sentido se ocultaria por trás daquelas breves palavras? Quereria ele dizer que, apesar de tudo, não abandonara o caso; que, em segredo, continuaria   a   trabalhar,   enquanto...

 

Julius interrompeu-lhe as reflexões, convidando-a a entrar no automóvel.

 

Você parece muito pensativa observou o rapaz, ao partirem. O homem disse mais alguma coisa?

 

Tuppence abriu a boca num impulso, depois tornou a fechá-la. Soaram-lhe ao ouvido as palavras de Sir James: «Nunca conte a ninguém tudo o que sabe nem mesmo à pessoa que melhor conheça». E, como um relâmpago, veio-lhe à mente outra lembrança: Julius diante do cofre, no apartamento, a pergunta dela e o silêncio do rapaz antes de responder: «Nada». Não haveria de facto nada? Ou ele encontrara alguma coisa que desejava guardar para si? Se ele se permitia uma tal reserva, o mesmo poderia ela fazer.

 

Nada   de   extraordinário replicou.

 

Sentiu, mais do que viu, Julius lançar-lhe um olhar de soslaio.

 

Vamos dar um giro pelo parque?

 

Como quiser.

 

Por alguns momentos o carro deslizou sob as árvores e eles conservaram-se em silêncio. O dia estava bonito. A ardente vibração do ar restituiu o bom humor a Tuppence.

 

Escute,   Miss Tuppence,   acha que encontrarei Jane algum dia?

 

Julius falou com voz desanimada. Era nele uma atitude tão estranha que Tuppence se voltou e o contemplou surpresa. Ele abanou a cabeça.

 

É isso. Estou descoroçoado. Sir James hoje não deu qualquer esperança, como pude perceber. Não gosto dele nem sempre as nossas opiniões coincidem mas é muito inteligente e acho que ele não desistiria se vislumbrasse qualquer possibilidade de êxito, não acha?

 

Tuppence sentiu um pouco de remorsos, mas, persuadida de que Julius ocultara dela alguma coisa, ficou firme.

 

Ele sugeriu o anúncio para encontrar a enfermeira lembrou.

 

Sim, com um acento de «derradeira esperança» na voz! Não. Já estou farto. Estou quase resolvido a regressar imediatamente aos Estados Unidos.

 

Oh, não! exclamou Tuppence. Temos de descobrir Tommy.

 

Ora, esquecia-me de Beresfor ddisse Julius, arrependido. Com efeito. Temos de o encontrar. Mas depois... bem, eu tenho andado a sonhar de olhos abertos desde que comecei esta viagem... e esses sonhos nada valem. Vou abandoná-los. Escute, Miss Tuppence, gostaria de lhe perguntar uma   coisa.

 

-Sim?

 

Você e Beresford. Que há entre ambos?  

 

Não o compreendo replicou Tuppence, com dignidade, acrescentando de modo muito incoerente: E, seja como for, você está enganado!

 

Não há uma espécie de sentimento afectuoso entre um e outro?

 

Claro que nãodisse Tuppence com calor. Tommy e eu somos amigos, nada mais.

 

Creio que todos os parzinhos de namorados dizem a mesma coisa observou Julius.

 

Tolice exclamou Tuppence. Você acha que eu sou o tipo de rapariga que se apaixona por todos os homens que encontra?

 

Você não. Você é o tipo de rapariga que pode fazer muitos homens apaixonarem-se!

 

Oh!fez Tuppence, reclinando-se na almofada. Creio que é um galanteio?

 

Por certo. Agora, vamos ao caso. Suponha que não torna a encontrar Beresford e... e...

 

Muito bem... diga! Tenho forças para enfrentar os factos. Suponha que ele... morreu! Não é isso?

 

E, assim, termine toda esta complicação. Que faria você?

 

Não sei disse Tuppence, desolada.

 

Ficaria numa triste solidão, pobre pequena.

 

Ficarei muito bem exclamou Tuppence, com o seu habitual ressentimento ante qualquer espécie de piedade que lhe votassem.

 

E a respeito de casamento?perguntou Julius. Não tem opinião sobre o assunto?

 

Pretendo casar-me, é claro replicou Tuppence. Isto é, no caso de... calou-se, afastou um momentâneo desejo, e depois descarregou as suas armas com bravura: Posso encontrar um homem bastante rico para valer a pena... Bastante franqueza, não acha? Creio que você me desprezará por isto.

 

Jamais desprezo o instinto comercial disse Julius. Que tipo especial tem você em mente?

 

Tipo?perguntou   Tuppence,   intrigada. Você   quer dizer alto ou baixo?

 

Não. Refiro-me ao dinheiro à renda.

 

Oh, eu... eu ainda não me dei ao trabalhe» de meditar nisso.

 

Que acha de mim?

-Você?

-Claro.

 

Oh, para mim seria impossível!

 

Porquê?

 

Afirmo-lhe que seria impossível.

 

Mais uma vez: porquê?

 

Pareceria muito desleal.

 

Não vejo nada de desleal no caso. Vejo apenas franqueza da sua parte. Admiro-a imensamente, Miss Tuppence, mais do que a qualquer outra jovem que tenha conhecido. É muito valorosa. Nada mais quero do que proporcionar-lhe uma vida na verdade agradável e feliz. Diga que sim e daqui mesmo iremos a uma joalheria de primeira classe para tratar da questão do anel.

 

Não posso ciciou Tuppence.

 

-Por causa de Beresford?

Não, não, não!

 

Então, porquê?


Tuppence continuou apenas a abanar a cabeça violentamente.

 

Não pode razoavelmente esperar mais dólares do que os que tenho.

 

Oh, não é isso ofegou Tuppence, com uma risada quase histérica. Mas, agradecendo-lhe muito, e tudo o mais, julgo que é melhor responder: não.

 

Ficaria muito grato se me fizesse o favor de pensar no assunto até amanhã.

 

É inútil.

 

Mesmo assim convém deixarmos o caso no pé em que está.

 

Muito bem disse Tuppence, com humildade.

 

Nem um nem outro falaram até chegarem ao Ritz.

 

Tuppence subiu para os seus aposentos. Sentia-se moralmente abatida depois da luta com a vigorosa personalidade de Julius. Sentando-se diante do espelho, mirou por instantes a própria imagem.

 

Tola sussurrou Tuppence por fim, fazendo uma careta. Tolinha. Tudo o que queres, todas as coisas com que sempre sonhaste... e soltas um «não» como uma idiota. É a tua oportunidade. Porque não aproveitá-la ? E agarrá-la ? E arrebatá-la com sofreguidão? Que mais queres?

 

Como em resposta às suas próprias perguntas, os seus olhos caíram sobre uma pequena fotografia de Tommy que se encontrava no toucador, em velha moldura. Por instantes, lutou pelo autodomínio e depois, abandonando toda a impostura, apertou o retrato contra os lábios e prorrompeu em soluços.

 

Oh,   Tommy,   Tommy! exclamou. Amo-o   tanto   e talvez nunca mais o torne a ver...

 

Ao cabo de cinco minutos Tuppence sentou-se, limpou o nariz e arrepelou os cabelos para trás.

 

É istoobservou com firmeza. Encaremos os factos frente a frente. Parece que me apaixonei por um rapaz idiota para quem eu talvez nada signifique. Calou-se. Seja como for recomeçou, como que a argumentar com um adversário invisível não sei quais são os sentimentos dele a meu respeito.

 

É bastante reservado nesse particular. E eu sempre zombei do sentimento... e agora aqui estou mais sentimental que ninguém. Como são idiotas as raparigas! Foi sempre o que pensei. Acho que vou dormir com a fotografia dele sob o travesseiro e sonhar com ele toda a noite. É horrível a gente sentir que transgride os seus próprios princípios.

 

Tuppence sacudiu a cabeça com tristeza, ao pensar na sua apostasia.

 

Não sei o que dizer a Julius, francamente. Oh, como me sinto estúpida! Terei que dizer alguma coisa; ele é americano e portanto insistirá em que a razão está do seu lado. Acho que se ele encontrou alguma coisa naquele cofre...

 

As reflexões de Tuppence tomaram outra direcção. Reviu os acontecimentos da noite anterior, cuidadosa e persistentemente. De certo modo, pareciam ter ponto final nas palavras enigmáticas de Sir James...

 

De súbito, estremeceu num forte sobressalto fugiram-lhe as cores do rosto. Fascinada, mirava no espelho os seus próprios olhos esgazeados, as pupilas dilatadas.

 

Impossível! murmurou. Impossível! Devo estar louca só por pensar em semelhante coisa...

 

Seria monstruoso mas, sem embargo, explicaria tudo...

 

Depois de reflectir alguns momentos, sentou-se e escreveu um bilhete, pesando cada palavra. Por fim, inclinou a cabeça num ar de satisfação e meteu a folha de papel num sobrescrito que endereçou a Julius. Foi pelo corredor até à sala de estar dos aposentos do americano e bateu à porta. Como esperava, a sala estava vazia. Deixou o sobrescrito em cima da mesa.

 

Ao voltar, aguardava-a à porta do seu quarto um garoto empregado do hotel.

 

Telegrama para a senhora, miss.

 

Tuppence tirou o telegrama da salva e abriu-o com cuidado. Deu um grito. O telegrama era de Tommy!

 

NOVAS AVENTURAS DE TOMMY

 

Tommy recuperou lentamente os sentidos, arrastando-os do fundo de uma escuridão ponteada de repentinos clarões palpitantes para a luz da vida. Quando por fim abriu os olhos, não tinha consciência de nada, a não ser de uma dor Cruciante nas têmporas. Teve uma vaga noção de que o rodeava um ambiente desconhecido. Onde estava? Que acontecera? Piscou os olhos, dèbilmente. Aquilo não era o seu quarto de dormir no Ritz. E porque lhe doía tanto a cabeça?

 

Diabo!exclamou Tommy, tentando sentar-se. Recordara-se. Estava na casa sinistra de Soho. Soltou um gemido e caiu para trás. Através das pálpebras semicerradas procedeu a um cuidadoso reconhecimento do ambiente.

 

Está a voltar a siobservou uma voz muito perto do ouvido de Tommy. Reconheceu a voz, que era a do alemão eficiente, e conservou-se inerte, em atitude artística. compreendeu que seria insensatez recuperar os sentidos cedo demais; e enquanto a dor de cabeça não se tornasse menos aguda, estaria absolutamente incapaz de coordenar as ideias. Penosamente, tentou configurar o que acontecera. Sem dúvida, alguém se esgueirara por trás dele, enquanto estava à escuta, e lhe vibrara um golpe na cabeça. Consideravam-no agora um espião e não usariam de benignidade.   Encontrava-se, na certa, em apuros. Ninguém sabia onde ele estava, portanto não podia esperar auxílio exterior e devia confiar apenas na sua esperteza.

 

bom, lá vai-murmurou Tommy de si para consigo, e repetiu a observação anterior.

 

Diabo!falou, e desta vez conseguiu sentar-se.

 

Em questão de momentos, o alemão inclinou-se e colocou-lhe um copo nos lábios com a ordem breve:

 

-Beba.

 

Tommy obedeceu. O sorvo, bastante forte, sufucou-o mas clareou-lhe a mente de forma estupenda.

 

Achava-se deitado num canapé na sala em que se realizara a reunião. A um lado viu o alemão; e a outro o porteiro com cara de rufia que lhe permitira entrar. Os outros agrupavam-se a pequena distância. Mas Tommy deu pela falta de uma cara. O homem conhecido como «Número Um» já não se encontrava entre o bando.

 

Sente-se melhor? perguntou o alemão ao retirar o copo vazio.

 

Sim, obrigado respondeu Tommy, alegremente. Ah, meu amiguinho, é uma sorte para si possuir umcrânio tão duro. O bom do Conrad bateu-lhe com força. Indicou com um gesto o porteiro de cara perversa.

 

O homem sorriu.

 

Tommy voltou a cabeça com esforço.

 

Ohdissecom   que   então   você   é   Conrad,   hein? Acho que a natureza do meu crânio foi uma sorte para si também. Quando olho para a sua cara quase lamento não ter contribuído para o mandar para as mãos do carrasco.

 

O homem resmungou e o alemão disse com calma:

 

Quanto a isso, ele não correu o mínimo perigo.

 

Como queira replicou Tommy. Sei que é moda não ligar importância à polícia. Eu mesmo pouco acredito nela.

 

As suas maneiras eram indiferentes em extremo. Tommy Beresford era um desses jovens ingleses que não se distinguem por nenhum talento especial, mas que brilham quando se encontram «em apuros», como se costuma dizer. Então, despem como uma luva a desconfiança e a prudência inatas. Tommy compreendia perfeitamente que a única esperança de fuga dependia só da sua esperteza e por trás da sua atitude negligente o cérebro funcionava-lhe com precipitação.

 

O alemão, com a sua voz frígida, recomeçou a conversa:

Não tem nada a dizer antes que o mandemos matar como espião?

 

Tenho, e aos montes replicou Tommy, com a mesma civilidade de antes.

 

Nega que estava a escutar à porta?

 

Não. Devo em verdade pedir desculpas, mas a conversa que mantinham era tão interessante que venceu os meus escrúpulos.

 

Como entrou?

 

Aqui o prezado Conrad... Tommy sorriu com ar depreciativo para o homem. Hesito em sugerir a aposentadoria para um criado fiel, mas na verdade vocês precisam de um cão de guarda melhor.

 

Conrad resmungou, impotente, e disse, de mau humor, quando o alemão se voltou para ele:

 

Deu a senha. Como poderia eu saber?

 

Sim disse Tommy, com ironia. Como poderia ele saber? Não o censurem. O seu acto precipitado proporcionou-me o prazer de os ver a todos cara a cara.

 

Imaginava que essas palavras causassem alguma confusão no grupo, mas o vigilante alemão tranquilizou-os com um gesto.

 

-   Os mortos não falam disse.

Ah! retorquiu Tommy. Mas eu ainda não morri.

 

Mas não tardará muito, meu amiguinho declarou o alemão.

 

Um murmúrio de assentimento partiu do grupo. O coração de Tommy bateu acelerado, mas sem afectar a tranquila jovialidade exterior.

 

Creio   que   não declarou   com    firmeza. Haveria muitos inconvenientes na minha morte.

 

Conseguiu embaraçá-los, ao que pôde observar numa olhadela ao rosto do seu captor.

 

Existe alguma razão por que não devemos mandar matá-lo? interrogou o alemão.

 

Existem   muitas redarguiu   Tommy.     Escutem. Têm-me feito inúmeras perguntas. Deixem-me fazer uma, em troca. Porque não me mataram antes que eu recuperasse os sentidos?

 

O alemão hesitou e Tommy aferrou-se à vantagem obtida.

 

Porque não sabem até onde vai o meu conhecimento das vossas actividades e onde adquiri esse conhecimento. Se me matarem agora, nunca o saberão.

 

Mas aqui a perturbação de Boris recrudesceu a tal ponto que não a pôde conter.

 

Espião   do   inferno! berrou. Não   teremos   condescendência. Matem-no! Matem-no!

 

Ergueu-se do grupo um clamor de aplausos.

 

Ouviu? perguntou o alemão com os olhos postos em’ Tommy. Que diz a isto ?

 

Eu?Tommy encolheu os ombros. Súcia de idiotas. Eles que façam a si mesmos algumas perguntas. Como penetrei nesta casa? Recorde o que disse o velho Conrad entrei porque dei a senha certa, não é ? E de que modo vim a saber qual era a senha ? Julgam que bati à porta por casualidade e que disse a primeira palavra que me veio à boca ?

 

Tommy sentiu-se satisfeito com as palavras finais do discurso. Lamentava apenas que Tuppence não se achasse presente para a apreciar na plenitude do seu sabor.

 

- É verdade disse o operário de repente. Companheiros, fomos atraiçoados!

 

Ouviu-se no grupo horrível murmúrio. Tommy sorriu para os homens, estimulando-os.

 

Assim é melhor. Como podem esperar êxito em qualquer iniciativa se não usam a cabeça?

 

Você nos dirá quem nos traiu declarou o alemão. Mas isso não o salvaráoh, não! Contar-nos-á tudo o que sabe. Boris conhece métodos excelentes para fazer as pessoas falarem!

 

Ora!fez Tommy com  desdém,   dominando   uma sensação bastante desagradável na boca do estômago. Não me torturarão nem me matarão.

 

Porquê?indagou Boris.

 

Porque seria o mesmo que matar a galinha dos ovos de ouro replicou Tommy com toda a calma.

 

Seguiu-se curto silêncio. Parecia que a tranquilidade persistente de Tommy começava a produzir resultados. Eles já não se achavam completamente senhores de si mesmos. O homem de roupa andrajosa contemplava Tommy com olhos perscrutadores.

 

Ele está a pregar-lhe uma peça,   Boris disse, com calma.

 

Naquele momento, Tommy odiou-o. Teria o homem penetrado no seu íntimo?

 

O alemão, com um esforço, voltou-se rudemente para Tommy.

 

Que quer dizer você?

 

Que pensa que eu quero dizer?esquivou-se Tommy, enquanto escarafunchava a mente em desespero.

 

Inopinadamente, Boris avançou um passo e vibrou uma bofetada em Tommy.

 

Fale, inglês de uma figa... Fale!

 

Não seja tão irascível, meu caro disse Tommy calmamente. Isto é o que vocês, estrangeiros, têm de pior. São incapazes de manter a calma. Agora, pergunto, poderia eu conservar-me tão firme se pensasse existir a mínima probabilidade de me matarem?

 

Olhou em derredor confiantemente, satisfeito porque eles não podiam ouvir as teimosas pancadas do coração que lhe desmentiam as palavras.

 

Nãoconveio Boris por fim, de mau humor. Não poderia.

 

«Graças a Deus, ele é incapaz de ler o pensamento»

 

pensou Tommy. Em voz alta, continuou:

 

E porque estou tão confiante? Porque sei algo que me coloca em posição de propor uma permuta.

 

Uma permuta?O alemão olhou-o vivamente.

 

Sin: uma permuta. A minha vida e liberdade contra...

 

Calou-se.

 

Contra o quê?

 

O grupo avançou. Podia-se ouvir a queda de um alfinete.

 

Tommy falou devagar.

 

Os papéis que Danvers trouxe da América no Lusitânia.

 

O efeito das suas palavras foi como uma descarga eléctrica. Todos se puseram de pé. O alemão, com um gesto, obrigou-os a recuar. Inclinou-se para Tommy, o rosto rubro de excitação.

 

Himmel! Você tem os papéis, então?

 

com calma magnificente, Tommy abanou a cabeça.

 

Sabe onde estão?insistiu o alemão. Mais uma vez abanou a cabeça.

 

Não tenho a menor ideia.

 

Então... então...furioso e desapontado, não conseguiu encontrar palavras.

 

Tommy olhou em torno. Viu a cólera e o assombro estampados em todas as fisionomias, mas a sua absoluta tranquilidade dera resultados: ninguém duvidava que algo se ocultava por trás das suas palavras.

 

Não sei onde estão os papéis... mas creio que posso encontrá-los. Tenho uma teoria...

 

Ora!

 

Tommy ergueu a mão e reduziu ao silêncio os brados de decepção.

 

Digo teoria mas tenho plena confiança nos factos do meu conhecimento, factos que não são conhecidos por mais ninguém a não ser eu. De qualquer forma, que têm a perder ? Se eu conseguir os papéis, dar-me-ão em troca a vida e a liberdade. Não é uma permuta?

 

E se recusarmos?disse o alemão com calma. Tommy reclinou-se no canapé.

 

O dia 29 disse, pensativo chegará em menos de uma quinzena...

 

Por um momento, o alemão hesitou. Depois, fez um sinal a Conrad.

 

Leve-o para a outra sala.

 

Durante cinco minutos Tommy sentou-se na cama do escuro quarto contíguo. O coração pulsava-lhe com violência. Arriscara tudo naquela cartada. Que resolveriam eles?

 

E, enquanto esta pergunta aflitiva lhe torturava o íntimo, não cessou de falar com petulância a Conrad, enfurecendo o martirizado porteiro a ponto de lhe produzir delírio homicida. Por fim, a porta abriu-se e o alemão ordenou autoritariamente a Conrad que voltasse.

Espero que o juiz não ponha o capelo negro foi a frívola observação de Tommy. Está bem, Conrad, leve-me. O cavalheiro vai para o banco dos réus, cavalheiros.

 

O alemão sentava-se mais uma vez por trás da mesa. Fez um sinal a Tommy para se sentar à sua frente.

 

Aceito disse o alemão com severidade sob certas condições. Deve entregar-nos os papéis antes de recuperar a liberdade.

 

Idiota! exclamou Tommy amavelmente. Como pensa que posso procurá-los se me mantêm aqui amarrado por uma perna?

 

Que quer, então?

 

Preciso   de   liberdade   para   agir   consoante   os   meus próprios   métodos.

 

O alemão riu-se.

 

Pensa que somos crianças para lhe permitir sair daqui, deixando-nos uma linda história cheia de promessas?

 

Não disse Tommy, pensativo. Embora assim as coisas se simplificassem muito para mim, não creio que concordassem com o plano. Temos de assumir um compromisso mútuo. E se destacassem Conrad para vigiar os meus passos? É um companheiro fiel e bastante rápido no punho.

 

Preferimos declarou o alemão com frieza que você permaneça aqui. Um dos nossos executará as suas instruções meticulosamente. Se o trabalho for complicado, voltará aqui trazendo informes e poderá receber novas instruções.

 

Isso é o mesmo que deixar-me de mãos atadas queixou-se Tommy. Trata-se de assunto muito delicado. E se o outro indivíduo, mesmo sem o querer, fizer uma asneira, que me acontecerá? Não acredito que um de vocês possua o mínimo do tacto que o caso requer.

 

O alemão bateu na mesa.

 

São essas as condições. Ou isso ou a morte! Tommy reclinou-se na cadeira, com enfado.

 

Gosto desse estilo. Conciso mas atraente. Pois seja assim, então. Uma coisa, porém, é essencial: devo ver a jovem.

 

Que jovem?

 

Jane Finn, é claro.

 

O alemão fitou-o com curiosidade por alguns minutos, depois disse vagarosamente, como a escolher com cuidado as palavras:

 

Não sabe que ela nada pode dizer ?

 

O coração de Tommy pulsou em ritmo acelerado. Conseguiria encontrar frente a frente a quem procurava?

 

Não lhe vou pedir que me diga seja o que forrespondeu Tommy com calma. Isto é, não em muitas palavras.

 

Então porque deseja vê-la? Tommy retardou um pouco a resposta.

 

Para observar o rosto dela quando eu lhe fizer uma pergunta redarguiu por fim.

 

Mais uma vez, o alemão lhe dirigiu um olhar que Tommy não pôde compreender.

 

Ela não poderá responder à sua pergunta.

 

Não importa. Poderei ver-lhe o rosto quando perguntar ?

 

E você pensa que com isso poderá descobrir algo? Soltou curta risada de desagrado. Mais do que nunca, Tommy sentiu que havia um ponto qualquer que ele não compreendia. O alemão fitava-o perscrutadoramente.

 

Estou a pensar se, no fim de contas, você estará tão bem informado quanto pensamos!declarou com mansidão.

 

Tommy pressentiu que a sua ascendência já não tinha a mesma firmeza de momentos antes. A presa resvalara-lhe um pouco da mão. Intrigava-o o caso, porém. Que erro teria praticado? Resolveu falar de acordo com o impulso do momento.

 

Há muitos pormenores que vocês conhecem e eu não. Não pretendo estar a par de todos os detalhes do vosso negócio. Mas, do mesmo modo, eu também sei de algumas particularidades que vocês ignoram. Disso é que pretendo tirar partido. Danvers era um homem de uma inteligência tremenda...

 

Interrompeu-se, como se houvesse falado demais.

 

Mas a fisionomia do alemão iluminou-se um pouco.

 

Danversmurmurou. Compreendo... Calou-se por instantes e depois fez um sinal a Conrad. Leve-o. Lá para cima, como sabe.

 

Espere um momento disse Tommy. E a respeito da rapariga?

 

Isso talvez se arranje.

 

É imprescindível.

 

Trataremos do assunto. Somente uma pessoa o pode resolver.

 

Quem ? perguntou Tommy. Mas sabia qual seria a resposta.

 

Mr. Brown...

Poderei vê-lo?

Talvez.                                  

Vamos! ordenou Conrad, com aspereza.

 

Tommy levantou-se, obediente. O carcereiro ordenou-lhe com um gesto que subisse as escadas. Seguiu o prisioneiro de perto. No andar de cima, Conrad abriu uma porta e Tommy penetrou num pequeno aposento. Conrad acendeu um bico de gás e saiu. Tommy ouviu o ruído da chave a girar na fechadura.

 

Começou a examinar a prisão. Era menor que a sala de baixo e com uma atmosfera em que se tornava sensível a insuficiência de ar. Compreendeu então que não existia nenhuma janela. Caminhou em roda. Nas paredes a porcaria acumulava-se, como em toda a casa. Quatro quadros, representando cenas do «Fausto», penduravam-se de través nas paredes. Margarida com o cofre de jóias, a cena da igreja, Siebel com as suas flores e Fausto e Mefistófeles. O último fez com que Mr. Brown retornasse à lembrança de Tommy. Naquele quarto hermeticamente cerrado, com uma porta pesada e sem frinchas, sentia-se segregado do Mundo e o poder sinistro do arquicriminoso parecia-lhe mais real. Mesmo que gritasse, ninguém o poderia ouvir. Aquilo era um túmulo...

 

com esforço, Tommy recuperou a calma. Afundou-se na cama e entregou-se à reflexão. Doía-lhe terrivelmente a cabeça; também tinha fome. O silêncio tornava-se desalentador.

 

Seja como for disse Tommy, tentando reanimar-se verei o chefe, o misterioso Mr. Brown e, com um pouco de sorte no embuste, verei também Jane Finn. Depois disso...

 

Depois disso, Tommy viu-se forçado a reconhecer que as perspectivas se mostravam lúgubres.

 

ANNETTE

 

As contrariedades futuras, todavia, em breve se desvaneceram ante as contrariedades do presente. E destas, a mais imediata e premente era a fome. Tommy possuía um apetite sadio e vigoroso. Tinha a impressão de que o bife com batatas que comera ao almoço pertencia a outra década. com pesar, reconheceu o facto de que não obteria nenhum êxito numa greve da fome.

 

Vagueou em roda da prisão, sem qualquer objectivo. Uma ou duas vezes pôs a dignidade de lado e bateu na porta. Mas ninguém atendeu ao chamamento.

 

Que os leve o diabo! rugiu Tommy com indignação.

 

com   certeza   não   pretendem   matar-me   de   inanição.

 

Assaltou-o o novo temor de que aquele talvez fosse um dos «métodos excelentes» de fazer um prisioneiro falar, nos quais Boris era especializado, ao que disseram. Mas, reflectindo melhor, rejeitou a ideia.

 

Isto é coisa desse patife do Conrad da cara azeda concluiu. Gostaria de me vingar desse sujeito qualquer dia destes. Não é senão despeito da parte dele. Garanto.

 

Meditações subsequentes convenceram-no de que seria agradável em extremo arremessar qualquer coisa que batesse de golpe na cabeça de ovo que Conrad possuía. Tommy afagou com delicadeza a própria cabeça e entregou-se ao prazer da imaginação. Por fim, uma ideia brilhante lhe iluminou o cérebro. Porque não converter a imaginação em realidade? Sem dúvida, Conrad era o morador da casa. Os outros, com a possível excepção do alemão da barba, usavam a casa como simples local de reunião. Portanto, porque não aguardar Conrad de emboscada atrás da porta e, quando ele entrasse, vibrar-lhe com uma cadeira ou um dos quadros vetustos, com toda a agilidade, na cabeça ? Tomaria cuidado, é claro, para não o ferir demais. Depois depois, simplesmente sair a passo! Se encontrasse alguém nas escadas, bem... Tommy animou-se ao pensamento de um combate com os seus punhos. Quadrava-se muito melhor à sua pessoa do que o combate verbal daquela tarde. Embriagado com o seu plano, Tommy retirou suavemente da parede o quadro do Diabo e Fausto e colocou-se em posição. Nutria muitas esperanças. O plano parecia-lhe simples mas excelente.

 

Escoava-se o tempo mas Conrad não aparecia. Naquela prisão não se diferençava o dia da noite, mas o relógio de pulso de Tommy, com apreciável grau de precisão, informou-o de que eram nove horas da noite. Tommy reflectiu com melancolia que se a ceia não chegasse depressa teria com certeza que esperar pelo pequeno almoço do dia imediato. Às dez horas as esperanças abandonaram-no, e ele afundou-se no leito para procurar consolo no sono. Em cinco minutos esquecera os inimigos.

 

O ruído da chave girando na fechadura despertou-o. Não pertencendo ao tipo de heróis famosos por despertarem na plena posse das suas faculdades, Tommy apenas mirou o tecto com olhos piscos, com vaga noção do local em que se achava. Em seguida lembrou-se e consultou o relógio. Eram oito horas.

 

Ou é o chá matutino ou o pequeno almoço deduziu o rapaz. Praza aos Céus que seja o último!

 

Abriu-se a porta. Tarde demais recordou o plano de se desembaraçar do antipático Conrad. Um momento depois felicitava-se pelo esquecimento, pois não foi Conrad quem entrou, mas uma rapariga. Trazia uma bandeja que depôs sobre a mesa.

 

À débil luz do bico de gás Tommy examinou-a. Concluiu prontamente que era uma das criaturas mais belas que já vira. O cabelo era de um castanho opulento, com bruscos reflexos de ouro. O rosto era de um róseo silvestre. Os olhos, bem separados, eram castanhos, de um castanho dourado que recordava raios de Sol.

 

Um pensamento delirante cruzou o cérebro de Tommy.

 

Você é Jane Finn?perguntou, sem fôlego. A jovem abanou a cabeça, admirada.

 

O meu nome é Annette, «monsieur». Falava um inglês hesitante, incorrecto.

 

Oh! disse   Tommy,   desanimado.Française? aventurou.

 

Oui, monsieur. Monsieur parle français ?

 

Não o suficiente para uma conversa longa respondeu Tommy. Que é isso? O pequeno almoço?

 

A jovem inclinou a cabeça afirmativamente. Tommy pulou da cama e foi inspeccionar o conteúdo da bandeja. Consistia em um pão, margarina e um bule de café.

 

A vida aqui não é como no Ritzobservou com um suspiro. Mas por tudo o que houver por bem de me conceder, o Senhor me torna verdadeiramente grato. Amem.

 

Puxou uma cadeira e a rapariga voltou-se para a porta.

 

Espere   um   momento gritou   Tommy. Tenho   um milhão de perguntas para lhe fazer, Annette. Que faz você nesta casa ? Não me diga que é sobrinha ou filha de Conrad, ou qualquer outra coisa semelhante, porque não acredito.

 

Eu faço o serviço, monsieur. Não sou parenta de ninguém.

 

Compreendo disse Tommy. Você sabe o que lhe perguntei há pouco. Já ouviu falar naquele nome ?

 

Creio que ouvi alguém falar em Jane Finn.

 

Sabe onde ela está? Annette abanou a cabeça.

 

Não está nesta casa, por exemplo?

 

Oh, não, monsieur. Agora devo ir, eles estão à minha espera.

 

Saiu a toda a pressa. A chave girou na fechadura.

 

Calculo quem são «eles»cismou Tommy, enquanto os seus dedos prosseguiam em incursões sobre o pão.

- Com um pouco de sorte, talvez essa pequena me ajudasse a sair daqui. Ela não se parece com nenhum da quadrilha.

 

À uma hora, Annette reapareceu com outra bandeja, mas desta vez Conrad acompanhava-a.

 

bom dia disse Tommy com amabilidade. Vejo que não fez uso de sabão de barba.

 

Conrad   resmungou   ameaças.

 

Não tem nada a dizer, minha bonequinha? Ora, ora, nem sempre o talento pode emparelhar com a formosura. Que temos para o almoço ? Guisado ? Como o descobri ? É elementar, meu caro Watson: o cheiro das cebolas é inconfundível.

 

Vá falando grunhiu Conrad. Não disporá, talvez, de muito tempo para brincar.

 

A observação não sugeria nada de agradável, mas Tommy fez como se não a tivesse ouvido. Sentou-se à mesa.

 

Pode ir, criadinha disse, com um gesto. A loquacidade não é o seu melhor atributo.

 

Nessa noite, Tommy sentou-se no leito e meditou profundamente. Conrad tornaria a acompanhar a rapariga ? E se não a acompanhasse, conviria tentar fazer dela uma aliada? Chegou à conclusão de que não devia desprezar nenhuma possibilidade. A sua situação era desesperada.

 

Às oito horas pôs-se de pé ao ouvir o ruído familiar da chave. A rapariga chegou só.

 

Feche a porta ordenou. Preciso de lhe falar. Ela obedeceu.

 

Escute, Annette, preciso que me ajude a sair daqui. Ela abanou a cabeça.

 

Impossível. Há três homens lá em baixo.

 

Oh! Tommy, no íntimo, ficou grato pela informação. Mas você ajudar-me-ia se pudesse?

 

Não, «monsieur». -Porquê?

 

A jovem hesitou.

 

Eu acho...   eles são a minha gente.   O senhor veio espiá-los. Têm razão em o prender aqui.

 

Essa gente é má, Annette. Se você me ajudar, levá-la-ei daqui e livrá-la-ei deles. E provavelmente você receberá um bom quinhão de dinheiro.      

 

Mas a rapariga limitou-se a sacudir a cabeça.

 

Não me atrevo, «monsieur». Tenho medo deles.” Voltou-se.

Você nada faria para ajudar outra rapariga?perguntou Tommy. Ela é mais ou menos da sua idade. Não quer salvá-la das garras desses homens?

 

Refere-se a Jane Finn?

 

-Sim.

Veio procurá-la?

Sim.

 

A rapariga contemplou-o, depois passou a mão pela fronte. Jane Finn. Ouço sempre esse nome. Já me acostumei. Tommy avançou, com ardor.

 

Deve saber alguma coisa a respeito dela? Mas a jovem levantou-se abruptamente.

 

Nada sei apenas o nome. Caminhou para a porta. De repente deu um grito. Tommy olhou. Annette pusera os olhos no quadro que ele encostara à parede na noite anterior. Por momentos divisou um brilho de terror nos olhos da rapariga. Da mesma forma inexplicável transformou-se depois numa expressão de alívio. Então, bruscamente, ela saiu do quarto. Tommy não sabia o que pensar sobre o incidente. Imaginara a rapariga que ele pretendia agredi-la com o quadro? Por certo que não. Tornou a pendurar o quadro na parede,   pensativo.

 

Três dias decorreram em torturante inactividade. Tommy sentia a tensão que se acusava nos seus nervos. Não via ninguém, a não ser Conrad e Annette e a jovem tornara-se muda. Falava somente por monossílabos. Uma espécie de surda desconfiança transparecia-lhe nos olhos. Tommy percebia que se o seu isolamento se prolongasse por mais tempo, acabaria louco. Soube, por intermédio de Conrad, que aguardavam ordens de «Mr. Brown». Talvez, pensou Tommy, o homem andasse no estrangeiro ou o que quer que fosse, e viam-se obrigados a aguardar o regresso.

 

Mas na noite do terceiro dia despertaram-no rudemente.

 

Ainda não seriam sete horas quando ouviu rumor de passos no corredor. Momentos depois a porta abriu-se de chofre. Conrad entrou. Vinha com ele o «Número Catorze» de cara perversa. Ao vê-los, o coração de Tommy desfaleceu.

 

Boa noite, chefe disse o homem, com um olhar malicioso. Trouxe as cordas, companheiro?

 

O silencioso Conrad puxou uma corda fina e comprida. Instantes depois, as mãos do «Número Catorze», terrivelmente destras, enrolavam a corda ao redor dos membros do rapaz, enquanto Conrad o segurava.

 

Que história é...?principiou Tommy.

 

Mas o sorriso lento e mudo do silencioso Conrad sufocou as palavras na garganta de Tommy.

 

«Número Catorze» continuou o trabalho, com energia. Em questão de minutos, Tommy não era mais que um simples fardo imóvel. Então, Conrad falou por fim:

 

Pensou que nos embrulhava, não? com o que sabia e com o que não sabia. Propondo permutas! E era tudo conversa! Conversa! Você sabe menos que um gato! Mas agora você está atado como merece, seu... porco!

 

Tommy guardou silêncio. Nada havia a dizer. Fracassara. De um modo ou de outro, o omnipotente Mr. Brown enxergara através das suas pretensões. De súbito, ocorreu-lhe um pensamento.

 

Bonito discurso, Conrad disse com ar de aprovação.

 

Mas por que motivo usam cordas e cadeias? Porque é que este bondoso cavalheiro não me corta o pescoço sem mais delongas ?

 

Ora!disse   inesperadamente   o   «Número   Catorze».

 

Pensa que somos tão trouxas que o liquidemos aqui e tenhamos depois a polícia a farejar a vizinhança ? Nada disso. Chamaremos a carruagem para vossa excelência amanhã de manhã.

 

Nada retrucou Tommy poderia ter mais ingenuidade do que as suas palavras com excepção do seu próprio rosto.

 

Explique-sedisse o «Número Catorze».

 

com prazer redarguiu Tommy. Cometem um triste engano mas os prejudicados serão vocês mesmos.

 

Você não nos engana de novo disse o «Número Catorze». Fala como se ainda estivesse no deslumbrante Ritz., não?

 

Tommy não deu resposta. Preocupava-se em imaginar como Mr. Brown descobrira a sua identidade. Concluiu que Tuppence, em transes de ansiedade, recorrera à polícia e, tornando-se público o seu desaparecimento, a quadrilha não tardara a saber de tudo.

 

Os dois homens partiram, batendo a porta com força. Tommy ficou entregue às suas meditações. com aquela gente não se brincava. Já sentia nos membros caimbras e rigidez. Achava-se no mais completo abandono e sem qualquer esperança.

 

Decorreu cerca de uma hora quando ouviu a chave correr suavemente e a porta abriu-se. Era Annette. O coração de Tommy bateu descompassado. Esquecera a rapariga. Seria possível que ela viesse ajudá-lo?

 

De repente, ouviu a voz de Conrad:

 

Saia daí, Annette. Ele não precisa de ceia esta noite.

 

Oui, oui, je sais bien. Mas devo levar a outra bandeja. Precisamos destes objectos.

 

Então, ande depressa resmungou Conrad.

 

Sem olhar para Tommy, a jovem dirigiu-se à mesa e agarrou na bandeja. Ergueu uma mão e apagou a luz.

 

Ora, bolas! Conrad chegou à porta. Porque faz isso?

 

Apago sempre a luz. Acho que foi o senhor mesmo quem deu a ordem. Quer que acenda de novo, Monsieur Conrad?

 

Não.   Venha   daí.

 

Lê beau petit monsieur exclamou Annette,   detendo-se ao pé da cama, no escuro. Amarrou-o bem, hein? Parece um frango entrouxado! O tom francamente divertido da sua voz vibrou por sobre o rapaz; mas, nesse instante, para seu espanto, sentiu a mão da jovem correr ao de leve pelas cordas que o prendiam, ao mesmo tempo que um objecto pequeno e frio se comprimiu na palma da sua mão.

 

Vem, Annette.

 

Mais me voilà.

 

A porta fechou-se. Tommy ouviu Conrad dizer:

 

Feche e dê-me a chave.

 

O rumor dos passos apagou-se na distância. Tommy jazia petrificado de assombro. O objecto que Annette lhe colocara na mão era um pequeno canivete, com a lâmina aberta. Pelos modos por que ela calculadament evitou fitá-lo, além da manobra com a luz, Tommy chegou à conclusão de que vigiavam o quarto. com certeza, existia nas paredes um buraco para espreitarem. Recordando as maneiras tão reservadas da rapariga, compreendeu que com toda a probabilidade estivera sob vigilância durante todo o tempo. Pronunciara ele alguma frase ou palavra comprometedora? Decerto que não. Manifestara o desejo de fugir e o de encontrar Jane Finn, mas nada que pudesse dar a pista da sua identidade. Na verdade, a pergunta formulada a Annette revelara que ele não conhecia pessoalmente Jane Finn, mas nunca pretendera afirmar o contrário. O problema que agora se apresentava era: Annette realmente saberia mais ? As suas negativas não teriam antes a intenção de enganar os escutas ? Sobre esse ponto Tommy não logrou chegar a uma conclusão.

 

Impunha-se, porém, à sua consideração, problema mais vital, que afastou todos os demais. Poderia ele, amarrado como se encontrava, cortar as cordas que o prendiam ? Tentou, com cuidado, friccionar a lâmina aberta, para cima e para baixo, na corda que unia os seus dois pulsos. Era uma operação desajeitada e arrancou-lhe um abafado «ai!» de dor, quando a faca rasgou a pele do pulso. Mas, lenta e brutalmente, continuou o movimento de vai-vem. A lâmina cortava-lhe a carne de um modo penoso, mas por fim sentiu a corda afrouxar. com as mãos livres, o resto tornou-se fácil. Cinco minutos depois, punha-se de pé com alguma dificuldade, devido às caimbras nos membros. O seu primeiro cuidado foi atar o pulso que sangrava. Depois, sentou-se na borda da cama para pensar. Conrad levara a chave da porta e assim pouco auxílio mais poderia esperar de Annette. A única saída do quarto era a porta e, em consequência, teria por força de esperar até que os dois homens voltassem a buscá-lo. Quando voltassem... Tommy sorriu! Movendo-se com extrema cautela na escuridão do quarto, achou e retirou da parede o famoso quadro. com um prazer de pessoa económica, compreendeu que o seu primeiro plano não se desperdiçaria. Nada havia a fazer senão esperar. Esperou.

 

A noite passou vagarosamente. Tommy viveu uma eternidade em horas, mas por fim ouviu ruído de passos. Pôs-se de pé, respirou fundo e segurou o quadro com firmeza.

 

Abriu-se a porta. Ténue claridade veio de fora. Conrad avançou direito ao bico de gás para o acender. Tommy lamentou profundamente que fosse aquele o primeiro a entrar. Teria prazer em ajustar contas com Conrad. Seguia-o o «Número Catorze». Quando se deteve no umbral, Tommy vibrou-lhe o quadro com tremenda força na cabeça. O Número Catorze» caiu no meio de um estrepitoso estalar de vidro partido. Em questão de momentos, Tommy deslizou para fora do quarto e bateu com a porta. Viu a chave na fechadura. Fê-la girar e retirou-a no instante em que Conrad se arremessava contra a porta, pelo lado de dentro, com uma saraivada de pragas.

 

Por momentos Tommy hesitou. Ouviu barulho no andar de baixo. Depois, a voz do alemão subiu pela escada:

 

Gott im Himmel! Conrad, que é isso?

 

Tommy sentiu uma mãozinha empurrar a sua. A seu lado estava Annette. Apontou para uma frágil escada de mão que, segundo parecia, levava ao sótão.

 

Depressa suba por aqui!Arrastou-o para a escada. Dentro de poucos instantes chegavam a uma poeirenta água-furtada atulhada de   móveis   velhos.   Tommy   olhou   em redor.

 

Isto não serve. É uma maravilha perfeita. Não há por onde sair.

 

Pst! Espere.A rapariga levou o indicador aos lábios. Rastejou até ao topo da escada e escutou.

 

Os murros e pancadas na porta aterrorizavam. O alemão e o outro tentavam arrombar a porta para entrar. Annette explicou num sussurro:

Pensam que você ainda está lá dentro. Não podem ouvir o que diz Conrad. A porta é muito grossa.

 

Mas eu julguei que era possível ouvir o que se passa no interior do quarto.

 

Há um   orifício para   espreitar,   no quarto contíguo. Você foi inteligente ao desconfiar. Mas eles agora nem pensarão em tal coisa... estão ansiosos por entrar.

 

Sim... mas diga-me...

 

Deixe o caso comigo. Annette curvou-se. com espanto, Tommy viu que ela amarrava a extremidade de um comprido pedaço de cordão à asa de uma enorme jarra rachada. Executou o trabalho com todo o cuidado e depois voltou-se para Tommy.

 

Tem a chave da porta?

 

Sim.

 

Dê-me a chave. Ele entregou-lha.

 

you descer. Acha que pode vir até meio dos degraus e depois atirar-se para trás da escada, de modo que não o vejam ?

 

Tommy inclinou afirmativamente a cabeça.

 

Há um armário grande na sombra do patamar. Coloque-se por trás dele. Leve na mão a ponta deste cordão. Quando eu deixar os homens saírem puxe o cordel!

 

Antes que Tommy pudesse perguntar mais alguma coisa, ela deslizou velozmente pela escada abaixo e foi ter ao meio do grupo com um forte grito:

 

Mon Dieu! Mon Dieu! QiCest-ce qu’il y a?

 

O alemão voltou-se para ela com uma praga.

 

Não se meta nisto. Vá para o seu quarto!

 

com o maior cuidado, Tommy jogou-se para trás da escada do sótão. Enquanto os homens não resolvessem voltar, tudo estaria bem. Agachou-se por trás do armário. Os homens ainda se encontravam entre ele e a escada do andar térreo.

 

Ah! Annette pareceu tropeçar nalguma coisa. Abaixou-se. Mon Dieu, voilà la clef!

 

O alemão arrebatou-lhe a chave. Abriu a porta. Conrad saltou para fora aos berros.

 

Onde está ele? Agarraram-no?

 

Não vimos ninguémdisse o alemão vivamente. Empalideceu. Que quer dizer?

 

Conrad soltou outra praga. Ele fugiu.          

 

Impossível. Teria passado por nós.

 

Nesse momento, com um sorriso extasiado, Tommy puxou o cordel. Um estrondo de louça de barro a quebrar-se em pedaços fez-se ouvir em cima, no sótão. Num instante, os homens empurravam-se uns aos outros, subindo pela frágil escada, e desapareciam na escuridão de cima.

 

Rápido como um relâmpago, Tommy ergueu-se do esconderijo e precipitou-se para a escada do andar térreo, arrastando a jovem consigo. Não havia ninguém no «hall». Remexeu no ferrolho e na corrente. Por fim cederam e a porta escancarou-se. Voltou-se. Annette desaparecera.

 

Tommy ficou estarrecido. Havia ela subido as escadas de novo? Que loucura a possuira? Ardia de impaciência, mas quedou-se no mesmo lugar. Não iria sem ela.

 

De súbito, ouviu um grito, uma exclamação do alemão e depois a voz de Annette, clara e forte:

 

Ma foi, ele fugiu! E a toda a pressa! Quem o pensaria ? Tommy   manteve-se   ainda   plantado   no mesmo   lugar.

 

Aquilo equivalia a uma ordem para se ir embora ? Julgava que sim.

 

E então, mais alto ainda, as palavras desceram até ele:

 

Esta casa é terrível. Quero voltar para junto de Marguerite. De Marguerite. Marguerite!

 

Tommy voltara a correr à escada. Queria que ele se fosse e a deixasse? Mas porquê? A todo o custo devia tentar levá-la consigo. Depois, desfaleceu-lhe o coração. Conrad descia a escada e soltou um grito selvagem ao vê-lo. Atrás vinham os outros.

 

Tommy deteve o ímpeto de Conrad com um golpe directo do seu punho. Acertou-lhe na ponta do queixo e o homem caiu como um barrote. O segundo homem tropeçou no corpo de Conrad e rolou no chão. No topo da escada faiscou um clarão e uma bala raspou a orelha de Tommy. Compreendeu que se quisesse salvar a pele devia sair daquela casa o mais depressa possível. com referência a Annette, nada podia fazer. Vingara-se de Conrad, o que constituía uma satisfação. O soco fora dos bons.

 

Pulou para a porta, batendo-a com força atrás de si. A praça estava deserta. Em frente da casa, viu uma carroça de padeiro. Evidentemente pretendiam conduzi-lo para fora de Londres naquele veículo e o seu cadáver seria encontrado a muitas milhas da casa de Soho. O cocheiro saltou para o chão e tentou barrar o caminho a Tommy. Mais uma vez o punho de Tommy entrou em acção e o cocheiro estendeu-se no passeio.

 

Tommy girou nos calcanhares e correue já era tempo. A porta da frente abriu-se e uma salva de balas acompanhou-o. Ele dobrou a esquina.

 

Não podem continuar a atirar pensou. Se o fizessem, a polícia iria atrás deles. Julgo que não se atrevem a tanto.

 

Ouviu rumor de passos dos seus perseguidores atrás de si e acelerou a marcha. Uma vez fora daqueles becos, estaria salvo. Teria de haver algum polícia em qualquer parte não que na realidade ele quisesse invocar o auxílio da polícia, se pudesse passar sem ela. Demandaria explicações, com a habitual incompreensão. Daí a instantes teve motivo para bendizer a sorte. Tropeçou num vulto caído sobre o passeio: o indivíduo ergueu-se num sobressalto e, com um brado de alarme, precipitou-se rua afora. Tommy esgueirou-se para um vão de porta. Ao cabo de alguns minutos teve o prazer de ver os seus perseguidores, dos quais um era o alemão, muito empenhados em seguir a pista do pobre ébrio...

 

Tommy sentou-se calmamente na soleira da porta e deixou que se escoassem alguns momentos, enquanto recuperava o fôlego. Depois, caminhou devagar na direcção oposta. Consultou o relógio. Passavam poucos minutos das cinco da madrugada. O dia clareava rapidamente. Na primeira esquina passou por um polícia. Este deitou-lhe um olhar desconfiado. Tommy sentiu-se um pouco ofendido. Em seguida, passando a mão pelo rosto, riu-se. Havia três dias que não se barbeava nem se lavava! com que aspecto não estaria!

 

Dirigiu-se sem mais demora para um estabelecimento de banhos turcos, que sabia ficar aberto toda a noite. Daí emergiu em plena luz do dia, com a sensação de que novamente voltava a ser ele mesmo, tornando-se capaz de formular planos.

 

Antes de mais nada, precisava de uma refeição completa. Não comia nada desde o meio-dia da véspera. Entrou num dos estabelecimentos «A. B. C.» e pediu ovos, toucinho e café. Enquanto comia, leu um jornal da manhã aberto à sua frente. De repente, empertigou-se. Encontrou longo artigo a respeito de Kramenin, descrito como o «homem que há por trás do Bolchevismo» na Rússia e que acabava de chegar a Londres mais   ou   menos   na   qualidade   de   enviado   extra-oficial. O   articulista   delineava-lhe   a   carreira   em   traços   rápidos e asseverava com firmeza que aquele homem, e não os líderes de fachada, fora o autor da Revolução Russa.

 

No centro da página o jornal publicava o retrato do homem.

 

De sorte que já sabemos quem é o «Número Um»

 

disse Tommy, com a boca cheia de ovos e toucinho. Não há dúvida quanto a isso; assim, vamos tocar para a frente.

 

Pagou a despesa e encaminhou-se para Whitehall. Aí, deu o nome e acrescentou o recado de que se tratava de assunto urgente. Poucos minutos depois achava-se na presença do homem que ali não atendia pelo nome de «Mr. Carter». Rugas vincavam-lhe o rosto.

 

Escute, o senhor não pode vir aqui perguntar por mim deste modo. Pensei que essa particularidade ficara bem clara.

 

E ficou. Mas julguei importante não perder tempo. E tão breve e sucintamente quanto possível, pormenorizou os acontecimentos dos últimos dias.

 

Estava a meio da história quando Mr. Carter o interrompeu para transmitir algumas ordens enigmáticas pelo telefone.

 

Todos os sinais de descontentamento se lhe sumiram da fisionomia. Balouçou a cabeça com energia quando Tommy chegou ao fim.

 

Muito bem. Todos os minutos são preciosos. Receio que cheguemos tarde demais, mesmo assim. Eles não perderão tempo.   Sairão   imediatamente.   Entretanto,   talvez   deixem algo que sirva de pista. Reconheceu que o «Número Um» é Kramenin? É importante. Precisamos de colher elementos que nos habilitem a agir contra ele, para evitar uma queda do gabinete resultante dos seus movimentos assaz desembaraçados. E quanto aos outros? Julga que duas caras não lhe eram estranhas? Um deles é trabalhista, em sua opinião? Examine estas fotografias e veja se o identifica.

 

Um minuto depois Tommy suspendeu uma fotografia. Mr. Carter demonstrou certa surpresa.

 

Ah, Westway! Quem haveria de dizer! Aparenta ser bem moderado. No tocante ao outro sujeito, creio que posso oferecer uma boa contribuição. Entregou outro retrato a Tommy e sorriu ante a exclamação do rapaz. Tenho razão, então.   Quem é? Irlandês. Destacado parlamentar sindicalista. Tudo isso é apenas um disfarce, é claro. Suspeitávamos, mas não podíamos obter uma prova. Sim, você realizou um bonito trabalho, rapaz! Dia 29 é a data, diz você. Resta-nos pouco tempo... bem pouco tempo, na verdade.

 

Mas... Tommy hesitou.

 

Mr. Carter leu-lhe os pensamentos.

 

Não podemos reprimir a ameaça de greve geral, creio eu. É uma agitação, mas proporciona-nos oportunidade de caça! Mas se o projecto de tratado vier a lumeestaremos em maus lençóis. A Inglaterra mergulhará na anarquia. Ah, que é isto ? O automóvel?   Venha, Beresford.   Daremos uma olhadela à casa.

 

Dois polícias montavam guarda em frente da casa do Soho. Um inspector prestou informações a Mr. Carter em voz baixa. O último voltou-se para Tommy.

 

Os malandros fugiram, como pensávamos.   Devemos revistar a casa.

 

Percorrendo a casa deserta, parecia a Tommy participar da natureza de um sonho. Tudo estava como o havia deixado. O quarto-prisão com os quadros pendurados, a jarra quebrada no sótão, a saleta de reuniões com a mesa comprida. Mas nem vestígio dos papéis. Coisas dessa espécie haviam sido destruídas ou levadas. E nem sinal de Annette.

 

O que me contou sobre a jovem deixa-me intrigado disse   Mr.   Carter. Acredita   que   ela   voltou   deliberadamente ?

 

Parece-me que sim. Subiu as escadas a correr, enquanto eu abria a porta.

 

Hum! Deve pertencer ao bando, então. Mas, sendo mulher, não gostaria de contribuir para a morte de um rapaz simpático. É evidente que ela está do lado deles, do contrário não   teria voltado.

 

Não acredito que ela na realidade esteja do lado deles. Ela...   pareceu-me tão diferente...

 

Bonita, não? perguntou Mr. Carter com um sorriso que fez Tommy corar até à raiz dos cabelos.

 

Admitiu a beleza de Annette, bastante perturbado.

 

A propósito observou Mr. Carter ainda não se apresentou a Miss Tuppence? Ela tem-me bombardeado com cartas a seu respeito.

 

Tuppence? Receei que ela fizesse um alvoroço. Não foi à polícia?

 

Mr. Carter abanou a cabeça.

   Então, não sei como me identificaram.

 

Mr. Carter fitou-o interrogativamente e Tommy entrou em explicações. O homem meneou a cabeça, pensativo.

 

Na verdade, é um ponto bastante curioso. A não ser que a menção ao Ritz fosse uma observação acidental?

 

Talvez. Mas, de algum modo descobriram de repente qualquer coisa a meu respeito.

 

Bom disse Mr. Carter, olhando em derredor. Nada mais há a fazer aqui. Não quer almoçar comigo?

 

Agradeço imensamente. Mas acho melhor voltar e ir ter com Tuppence.

 

É claro. Apresente-lhe os meus cumprimentos e diga-lhe que, da próxima vez, não receie que o matem com muita facilidade.

 

Tommy sorriu.

 

Não me faltaram oportunidades de ser morto.

 

Compreendo disse   Mr. Carter secamente. Bem, adeus. Não esqueça que você agora é um homem marcado e acautele-se.

 

Obrigado, senhor.

 

Tommy chamou um taxi e partiu alegremente. Enquanto o carro o conduzia com rapidez ao Ritz, embalava-o a agradável antecipação de surpreender Tuppence.

 

Que estará ela a fazer? Sem dúvida a espiar «Rita». Por pensar nisso, era talvez essa mulher que Annette designava com o nome de Marguerite. Na ocasião não me ocorreu isso. O pensamento entristeceu-o um pouco, pois assim parecia evidenciar-se a intimidade entre Mrs. Vandemeyer e a rapariga.

 

O taxi chegou ao Ritz. Tommy transpôs com entusiasmo os portais sagrados, mas sofreu um abalo. Informaram-no de que Miss Cowley saíra cerca de um quarto de hora antes.

 

O TELEGRAMA

 

Confuso no momento, Tommy dirigiu-se ao restaurante e encomendou um almoço de príncipe. A reclusão de quatro dias ensinara-lhe a dar novo valor aos bons alimentos.

 

Achava-se com uma bem escolhida porção de sole à la Jeannette a meio caminho da boca, quando deu com os olhos em Julius que entrava no salão. Tommy sacudiu a lista no ar, alegremente, e logrou atrair a atenção do americano. Ao ver Tommy, os olhos de Julius pareciam querer saltar das órbitas. Atravessou a sala e sacudiu a mão de Tommy de uma maneira que pareceu ao último vigorosa demais.

 

Justos Céus! exclamou. É você mesmo?

 

Claro. Porque não?

 

Porquê? Sabe que foi dado por morto?

 

Quem pensou tal coisa? perguntou Tommy. Tuppence.

 

Ela esqueceu aquele provérbio: «vaso ruim não quebra». A propósito: onde está Tuppence?

 

Não está aqui?

 

Não. Disseram-me na portaria que ela acabara de sair.

 

com certeza foi fazer algumas compras. Trouxe-a para cá no carro há coisa de meia hora. Mas olhe: você não pode pôr   de lado essa   calma   britânica e entrar   no   assunto? Que andou fazendo neste Mundo de Deus durante tanto tempo ?

 

Se você vai almoçar aqui replicou Tommy escolha o menu. A história é comprida.

 

Julius puxou uma cadeira, sentou-se em frente de Tommy.

 

Chamou um criado e pediu os pratos que desejava. Depois voltou-se para Tommy.

 

Vá contando... Creio que você se meteu em aventuras.

 

Uma   ou   duas redarguiu   Tommy com  modéstia, e começou a história.

 

Julius escutava maravilhado. Por fim, soltou um longo suspiro.

 

Essa é muito boa. Parece uma novela barata.

 

E agora é a sua vez disse Tommy, estendendo a mão para um pêssego.

 

bom disse Julius devagar. Não nego que me meti também em algumas aventuras.

 

Assumiu, por seu turno, o papel de narrador. Começando pelas pesquisas em Bournemouth, referiu o regresso a Londres, a compra do automóvel, a ansiedade crescente de Tuppence, a visita a Sir James e as sensacionais ocorrências da noite anterior.

 

Mas   quem   matou   a   mulher? perguntou   Tommy.

 

Não compreendo bem.

 

O médico ilude-se ao dizer que ela ingeriu a droga por descuido replicou Julius secamente.

 

E Sir James ? Qual é a opinião dele ?

 

Sendo um luminar do direito, é uma ostra humana respondeu Julius. Deve ter a sua «opinião reservada».

 

Prosseguiu com o relato dos acontecimentos da manhã.

 

Desmemoriada,   heim? disse   Tommy com interesse.

 

Por Deus! Explica-se porque me fitavam de maneira tão singular quando falei em interrogá-la.

 

Não deram a mínima indicação sobre o lugar onde se encontrava Jane?

 

Tommy abanou a cabeça com pesar.

 

Nem uma palavra. Sou um pouco estúpido, como você sabe. Se o não fosse, poderia ter descoberto mais alguma coisa.

 

Acho que já é muita sorte estar aqui agora. O logro em que meteu aqueles patifes foi trabalho excelente. Fico assombrado por lhe terem ocorrido ideias tão apropriadas para a ocasião.

 

O medo era tanto que eu tinha de pensar nalguma coisa

 

disse Tommy com simplicidade.

 

Calaram-se por um momento; depois, Tommy voltou a falar na morte de Mrs. Vandemeyer.

 

Não há dúvidas de que se tratava de cloral?

 

Creio que não. Pelo menos, disseram ser colapso cardíaco provocado por uma superdose de cloral. Está certo. Não quisemos incomodar-nos com um inquérito   judicial. Mas desconfio que Tuppence e eu, e até mesmo o culto Sir James, temos uma opinião comum a este respeito.

 

Mr. Brown? perguntou Tommy.

-Claro.

Tommy abanou a cabeça.

Mesmo assim disse, pensativo Mr. Brown não tem asas. Não compreendo como possa ter entrado e saído.

 

Que me diz dessa história de transmissão de pensamento por alguém que tenha aptidões bem desenvolvidas? Alguma influência magnética que impeliu irresistivelmente Mrs. Vandemeyer a suicidar-se?

 

Tommy encarou-o com respeito.

 

Essa é boa, Julius. Muito boa. Em especial a fraseologia. Mas não me entusiasma. Eu anseio por um Mr. Brown real, de carne e osso. Na minha opinião, os detectives bem dotados devem trabalhar com afinco, examinar entradas e saídas, e dar palmadas na testa até descobrir a solução do mistério. Iremos ao teatro do crime. E gostaria de encontrar Tuppence. O Ritz gozaria o expectáculo de uma reunião alegre.

 

Indagações na portaria revelaram que Tuppence ainda não voltara.

 

Não obstante, convém ver lá em cima disse Julius.

 

Talvez ela se encontre na minha sala de estar. Desapareceu.

 

De súbito, um dos garotos empregados do hotel inclinou-se para Tommy:

 

A senhora... eu acho que ela foi tomar o comboio, senhor.

 

Quê? Tommy voltou-se para o rapaz.

 

O garoto ficou mais róseo que antes.

 

O taxi, senhor. Eu ouvi-a dizer ao motorista: «Charing Cross», com olhos muito brilhantes.

 

Tommy fitou-o com os olhos esgazeados de surpresa. Encorajado, o pequeno continuou:

 

Foi o que eu pensei, porque ela pediu um horário de comboios e um guia ferroviário.

 

Tommy interrompeu-o:

 

-Quando é que ela pediu a tabela e o guia?

 

Quando eu lhe levei o telegrama, senhor.

 

Telegrama ?

 

Sim, senhor.

 

A que horas foi isso?

 

Ao meio-dia e meia hora, senhor.

 

Conte-me exactamente o que aconteceu. O rapaz inspirou profundamente.

 

Levei um telegrama ao n.º 891; a senhora estava lá. Ela leu o telegrama, abriu a boca e disse, muito contente: «Traga-me uma tabela dos horários de comboios e um guia ferroviário. E avie-se, Henry». O meu nome não é Henry, mas...

 

Não importa o seu nome disse Tommy, impaciente. Continue.

 

Sim, senhor. Levei-lhe o que ela me pediu e mandou-me esperar, enquanto procurava qualquer coisa. Depois olhou para o relógio e disse: «Não há tempo a perder. Mande chamar um taxi.» Ficou a ajeitar o chapéu diante do espelho e desceu em seguida, logo depois de mim. Quando ela saiu e entrou no táxi ouvi-a dar o endereço ao motorista.

 

O garoto calou-se e encheu os pulmões. Tommy continuou a contemplá-lo. Nesse momento, Julius reuniu-se a Tommy. Trazia uma carta aberta na mão.

 

Mais   esta,   HersheimmerTommy   voltou-se   para   o americano.Tuppence   partiu   para   fazer   pesquisas   por conta própria.

 

Não me diga!

 

Sim, senhor. Tomou um taxi para a estação de Charing

 

Cross depois de ter recebido um telegrama. Os seus olhos caíram sobre a carta que Julius tinha na mão. Oh, ela deixou um bilhete para você. Muito bem. Para onde foi ?

 

Quase inconscientemente estendeu a mão para a carta, mas Julius dobrou a folha de papel e guardou-a no bolso. Parecia um pouco embaraçado.

 

Acho que a carta não tem nada que lhe interesse. É sobre outro assunto...

 

Oh!Tommy mostrou-se bastante admirado. Parecia esperar maiores esclarecimentos.

 

Escute disse Julius de súbito. É melhor contar-lhe tudo. Eu pedi Miss Tuppence em casamento hoje pela manhã.

 

Oh exclamou  Tommy   maquinalmente.   Sentiu-se confuso. As palavras de Julius eram absolutamente inesperadas. Por momentos, entorpeceram-lhe o cérebro.

 

Gostaria de lhe dizercontinuou Julius que antes de falar no assunto a Miss Tuppence, deixei bem claro que não queria interferir de qualquer modo entre ela e você...

 

Tommy   despertou.

 

Está certo disse rapidamente. Tuppence e eu temos sido camaradas há muitos anos. Nada mais. Acendeu um cigarro; a sua mão tremia um pouco. Está muito bem. Tuppence dizia sempre que andava à procura de...

 

Calou-se abruptamente.

 

Oh, creio que você quer referir-se à questão da fortuna. Miss Tuppence falou-me sem rodeios a esse respeito. com ela não há mal entendidos. Entendemo-nos muito bem.

 

Tommy olhou-o com curiosidade por alguns instantes. Tuppence e Julius! Bem, porque não ? Ela não lamentara o facto de não conhecer homens ricos? Não declarara com a maior franqueza a sua intenção de casar por interesse, se encontrasse uma oportunidade? O encontro com o jovem milionário americano oferecera-lhe a oportunidade e seria pouco provável que a não aproveitasse. Era louca por dinheiro, conforme sempre o declarara. Porque censurá-la se mantivera fidelidade ao seu credo?

 

Sem embargo, Tommy censurava-a.   Empolgava-o um ressentimento apaixonado e inteiramente ilógico. Uma pequena de verdade jamais casaria por dinheiro. Tuppence tinha um coração de pedra e era absolutamente egoísta. Ele ficaria satisfeito se nunca mais a visse! E este Mundo não valia coisa alguma!

 

A voz de Julius interrompeu-lhe as reflexões.

 

Sim, entendemo-nos muito bem. Ouvi dizer que uma jovem recusa sempre o pretendente da primeira vez é uma espécie de convenção.

 

Tommy travou-lhe o braço.

 

Recusa? Você disse recusa?

 

Claro! Não foi isso que eu disse? Respondeu com um «não» injustificado... O «eterno feminino»...

 

Tommy interrompeu-o.

 

Que diz o bilhete ? indagou ferozmente.

 

Julius viu-se coagido a entregar-lhe o papel rabiscado por Tuppence.

 

O bilhete rezava:

 

Meu caro Julius:

 

É sempre melhor pôr o preto no branco. Não me julgo capaz de pensar em casamento enquanto Tommy não for encontrado. Deixemos o caso para depois.

 

Afectuosamente,

 

Tuppence

 

Tommy, com os olhos brilhantes, devolveu a folha de papel. Os seus sentimentos passaram por viva reacção. Compreendia agora que Tuppence era toda nobreza e desinteresse. Não recusara Julius sem hesitação? Na verdade ,o bilhete denotava sinais de fraqueza que ele julgou desculpável. Constituía quase uma espécie de suborno para estimular Julius nos seus esforços em busca de Tommy, mas ele acreditava que não fora essa a intenção de Tuppence. Querida Tuppence, não havia no Mundo uma jovem que a igualasse! Quando tornasse a vê-la...   Repentino   choque   lhe   interrompeu   o   curso   dos pensamentos.

 

Como você disse observou, tornando à realidade não vem aqui a mínima indicação sobre a viagem. Henry!

 

O rapazinho veio obedientemente. Tommy tirou cinco xelins do bolso.

 

Mais uma coisa. Recorda-se do que a senhora fez ao telegrama ?

 

Henry abriu a boca e disse:

 

Amarrotou-o numa bola e jogou-o à grade da lareira; e soltou uma espécie de grito, assim como «Viva!»

 

Reprodução fiel,   Henrydisse   Tommy. Aqui   estão cinco xelins. Vamos, Julius. Precisamos de descobrir o telegrama.

 

Subiram as escadas com precipitação. Tuppence deixara a chave na porta. O quarto estava como o deixara. Na lareira via-se uma bola amarfanhada, alaranjada e branca. Tommy desemaranhou e alisou o papel do telegrama.

 

«Venha imediatamente, Moat House, Ebury, Yorkshire, grandes acontecimentos Tommy».

 

Olharam um para o outro, estupefactos. Julius foi o primeiro a falar:

 

Não foi você quem mandou isso?

 

Claro que não. Que significa isto?

 

Creio que não significa coisa boa declarou Julius com calma. Eles   apanharam-na.

 

-O quê?

 

Claro! Assinaram o seu nome e ela caiu na armadilha como um patinho.

 

Meu Deus! Que faremos?

 

Mãos à obra e vamos atrás dela! Já! Não há tempo a perder. Foi uma sorte tremenda ela não ter levado o telegrama. De contrário,   talvez nunca mais encontrássemos qualquer vestígio. Mas precisamos de agir! Onde está essa tal tabela de horários?

 

A energia de Julius era contagiosa. Se estivesse só, Tommy ter-se-ia sentado para pensar meia hora antes de delinear um plano de acção. Mas com Julius Hersheimmer nas proximidades, o dinamismo tornava-se inevitável.

 

Depois de algumas imprecações em voz baixa, entregou a tabela a Tommy, mais versado nos seus mistérios. Tommy abandonou-a em favor do guia ferroviário.

 

Aqui está. Ebury, Yorkshire. Partidas de King’s Cross. Ou St. Pancras.   (corn certeza o garoto enganou-se. Era King’s Cross e não Charing Cross). Às 12,50 partiu o comboio em que ela foi; o das 14,10 já saiu; o próximo é o das 15,20. E é lento demais.

 

E se fôssemos no automóvel? Tommy abanou a cabeça.

 

Pode mandar o carro para lá, se quiser, mas para nós o melhor é ir de comboio. O essencial é manter a calma.

 

Julius resmungou.

 

Sim. Mas aflige-me pensar que a pobre pequena está em perigo.

 

Tommy balouçou a cabeça, abstracto. Estava pensando. Ao cabo de alguns momentos, disse:

 

Escute, Julius: o que pretendem eles com este rapto?

 

Hein? Parece-me que não o entendi...

 

Quero dizer que eles não têm por objectivo causar qualquer dano a Tuppence explicou Tommy, enrugando a testa com o esforço mental. Ela é um refém, nada mais. Não se encontra em perigo imediato, porque se empreendermos alguma acção contra eles, Tuppence ser-lhes-á da maior utilidade. Quanto mais tempo a retiverem, tanto mais defendidos estarão contra nós. Compreende?

 

Claro disse Julius, pensativo. Tem razão.

 

Além disso acrescentou Tommy tenho muita fé em Tuppence.

 

A viagem foi enfadonha, com muitas paragens, carruagens superlotadas. Fizeram dois transbordos, um em Doncaster e outro num pequeno entroncamento. Ebury era uma estação solitária, com um porteiro solitário, a quem Tommy se dirigiu:

 

Pode informar-me qual o caminho para Moat House?

 

Moat House? É perto daqui. A casa grande em frente ao mar, não é?

 

Tommy respondeu que sim, com prontidão. Depois de escutar as meticulosas e confusas explicações do porteiro, prepararam-se para deixar a estação. Começava a chover e eles levantaram a gola do casaco enquanto avançavam com dificuldade pela estrada lamacenta. De súbito, Tommy parou.

 

Espere um momento. Correu de novo à estação e falou ao porteiro mais uma vez.

 

Escute. Lembra-se de uma senhora que chegou no comboio das 12,50, de Londres? com certeza ela perguntou-lhe qual o caminho de Moat House.

 

Descreveu Tuppence o melhor que pôde, mas o porteiro abanou a cabeça. Chegara muita gente no comboio em questão. Ele não se podia recordar de uma jovem em particular. Mas tinha a plena certeza de que ninguém lhe perguntara pelo caminho para Moat House.

 

Tommy reuniu-se a Julius e deu explicações. O desânimo caía sobre ele como um peso de chumbo. Estava convencido de que a pesquisa teria resultado infrutífero. O inimigo levava uma dianteira de três horas. Três horas eram mais que suficiente para Mr. Brown. Este não ignoraria a possibilidade de o telegrama ser encontrado.

 

A estrada parecia não ter fim. A certa altura entraram num atalho errado e andaram cerca de meia milha fora do rumo. Passava das sete horas quando um garoto os informou que Moat House ficava justamente na primeira curva.

 

Um portão de ferro enferrujado rangeu lugubremente nos gonzos. Deparou-se-lhes uma álea de árvores copadas, chão fofo de folhas. Envolvia a casa uma atmosfera que gelou o coração dos dois rapazes. Avançaram pela alameda deserta. As folhas abafavam-lhes o ruído dos passos. O dia estava a findar. Era como caminhar num reino de fantasmas. Acima das suas cabeças os ramos das árvores farfalhavam, num murmúrio plangente. De quando em quando uma folha húmida caía sem ruído, provocando-lhes um arrepio com o seu frio contacto no rosto.

 

Numa curva da alameda divisaram a casa. Parecia, também, vazia e abandonada. Janelas fechadas, o musgo a crescer nos degraus da porta. Fora, na realidade, àquele lugar desolado que haviam atraído Tuppence? Parecia difícil acreditar que, pelo espaço de muitos meses, um ser humano houvesse por ali andado.

 

Julius sacudiu o bolorento cabo da campainha. Um badalar desagradável soou desafinado, ecoando pelo interior deserto. Ninguém veio atender. A campainha tornou a funcionar por várias vezes mas não houve sinal de vida. Então caminharam e contornaram a casa. Por toda a parte o silêncio, fechadas todas as janelas. A dar crédito ao testemunho dos seus olhos, não havia ninguém na casa.

 

Aqui não há nada a fazerdisse Julius. Voltaram sobre os seus passos, vagarosamente, até ao portão.

 

Deve existir um vilarejo aqui por perto continuou o americano. Seria melhor indagar por lá.   Poderão saber alguma coisa sobre esta casa e se alguém morou aqui ultimamente, Sim. É uma boa ideia.

 

Avançando pela estrada, em breve chegaram a uma pequena aldeia. Já estavam bem perto quando encontraram um operário que caminhava a sacudir na mão a maleta de ferramentas e Tommy deteve-o com uma pergunta.

 

Moat   House?   Está   desocupada.   Há   muitos   anos. Mrs. Sweeny tem a chave, se os senhores quiserem ver a casa. É ali adiante, passando o correio.

 

Tommy agradeceu a informação. Depressa acharam o correio, que era ao mesmo tempo confeitaria e loja de artigos de fantasia, e bateram à porta da casa seguinte. Recebeu-os uma senhora asseada, com ares de pessoa rica. Prontamente apresentou a chave de Moat House.

 

Duvido que a casa sirva para os senhores. Está muito estragada. Entra água pelo tecto, e assim por diante. Seria preciso muito dinheiro para a reparar.

 

Obrigado disse Tommy alegremente. Acho que será preciso fazer uma boa limpeza, mas as casas hoje em dia andam escassas.

 

Sim declarou a mulher cordialmente. Minha filha e o meu genro procuram um domicílio decente há não sei quanto tempo. É por causa da guerra. A vida tornou-se difícil de maneira horrível. Mas, se me desculpa, acho que está muito escuro para que possam examinar a casa hoje. Não seria melhor esperar até amanhã?

 

- Tem razão. Daremos uma olhadela ainda hoje, de qualquer modo. Devíamos ter chegado mais cedo, mas perdemo-nos no caminho. Qual o melhor lugar daqui para se passar a noite?

 

Mrs. Sweeny mirou-o, na dúvida.

 

Há uma hospedaria, Yorkshire Arms», mas não é recomendável a pessoas distintas como os senhores.

 

Oh, essa mesma servirá. Muito obrigado. E, antes que me esqueça, não veio hoje aqui uma jovem pedir a chave?

 

A senhora abanou a cabeça.

 

Há muito tempo que ninguém manifesta interesse por aquela casa.

 

Muito obrigado.

 

Voltaram a Moat House. A porta emperrada cedeu, rangendo altos protestos, e Julius riscou um fósforo para examinar cuidadosamente o soalho. Depois sacudiu a cabeça.

 

- Juro que por aqui não passou ninguém. Olhe o pó. Está alto. Nem sombra de pegadas.

 

Percorreram a casa deserta. Por toda a parte, a mesma coisa. O pó acumulava-se espessamente, sem guardar nenhum sinal.

 

Isto   horroriza-me disse Julius. --Não   acredito   que Tuppence tenha estado nesta casa.

Mas ela devia ter vindo.

Julius abanou a cabeça sem responder.

- Passaremos outra busca amanhã disse Tommy. Talvez à luz do dia possamos descobrir algo mais.

 

Na manhã seguinte reencetaram a pesquisa e, com relutância, chegaram à conclusão de que, por considerável espaço de tempo, ninguém entrara naquela casa. Teriam abandonado a aldeia prontamente se não fosse uma feliz descoberta de Tommy. Quando se encaminhavam de novo para o portão, Tommy soltou um grito inesperado e baixou-se para agarrar alguma coisa dentre as folhas, entregando-a a Julius. Era um pequenino alfinete de ouro.

 

É de Tuppence! Tem a certeza? Absoluta. Usava-o muitas vezes. Julius suspirou.

 

Creio que isto explica o que houve. Ela veio até aqui, de qualquer modo.   Devemos instalar-nos na povoação e investigar meticulosamente. Alguém deve ter visto Tuppence.

 

Desde então começou a luta. Tommy e Julius trabalhavam separados ou juntos, mas o resultado era o mesmo. Nenhuma pessoa correspondendo à descrição de Tuppence fora vista nas vizinhanças. Sentiam-se frustrados mas não desanimaram. Por fim, mudaram de táctica. Tuppence, por certo, não se demorara muito nas proximidades de Moat House. Talvez alguém a houvesse aguardado ali, subjugando-a e levando-a num carro. Renovaram as indagações. Ninguém vira um carro parado nas proximidades de Moat House naquele dia? Mais uma vez, nenhum resultado.

 

Julius telegrafou para a cidade pedindo que lhe mandassem o automóvel e usaram o veículo para explorar as redondezas com persistente cuidado.

 

Cada dia que surgia encontrava-os empenhados em nova pesquisa. Julius estava como um cão pela trela. Perseguia a pista mais insignificante. Andaram em busca de todos os automóveis que haviam passado pelo povoado no dia fatídico. Abriam caminho através de propriedades rurais e submetiam os donos de automóveis a apertados interrogatórios. Os pedidos de desculpa faziam parte dos seus métodos e raramente falhavam em desarmar a indignação das vítimas; sucediam-se os dias, porém, e estavam tão longe de descobrir o paradeiro de Tuppence como no começo. O rapto fora tão bem planeado que a jovem parecia ter desaparecido no ar.

 

E outra preocupação pesava no espírito de Tommy.

 

Sabe há quanto tempo estamos aqui? perguntou uma manhã a Julius, ao sentarem-se um diante do outro à mesa do pequeno almoço. Uma semana! Não temos esperança de encontrar Tuppence e no próximo domingo é o dia 29!

 

Céus! exclamou Julius, pensativo. Eu já quase me esquecera do dia 29. Não pensei em nada senão em Tuppence.

 

O mesmo me sucedeu a mim. Pelo menos, se não esqueci o dia 29, não me parecia assunto tão importante como descobrir Tuppence. Mas hoje é 23 e o tempo urge. Se é que temos de a encontrar, terá de ser antes do dia 29porque daí em diante a vida dela estará em perigo. Já não terão interesse em conservar um refém. Começo a pensar que não procedemos como convinha. Perdemos tempo e nada conseguimos.

 

Concordo. Fomos um par de idiotas que nos metemos numa bota que não conseguimos descalçar. Vou-me embora e já!

 

Que pretende fazer?

 

Eu explico. Vou fazer o que deveríamos ter feito há uma semana. Vou direito a Londres colocar o caso nas mãos da polícia inglesa. Quisemos brincar aos detectives. Detectives! Rematada tolice! Estou farto! Isto não é para mim. Vou à Scotland Yard!

 

Tem razão disse Tommy lentamente. Era o que devíamos ter feito há mais tempo.

 

Antes tarde do que nunca. Estivemos a brincar às escondidas. Agora, vou directamente à Scotland Yard pedir-lhes que me digam o que devo fazer. Acho que o profissional acaba sempre por derrotar o amador. Você vem comigo ?

 

Tommy abanou a cabeça.

 

Para quê? Um é suficiente. Posso ficar por aqui a farejar por mais algum tempo. Pode acontecer alguma coisa. A gente nunca sabe.

 

Sim. Bem, então adeus. Voltarei sem muita demora com alguns inspectores da polícia. Pedirei que mobilizem o pessoal mais   qualificado.

 

Mas, naturalmente, os acontecimentos não seguiram o curso que Julius traçara. Mais tarde, naquele mesmo dia, Tommy recebeu um telegrama:

 

«Vá encontrar-se comigo no Midland Hotel de Manchester. Notícias importantes Julius.»

 

Às sete e meia da noite Tommy descia de um vagaroso comboio que cortava os campos. Julius aguardava-o na plataforma.

 

Previ que você viria neste comboio, se não estivesse ausente ao chegar o meu telegrama.

 

Tommy travou-lhe do braço.

 

Que aconteceu? Encontraram Tuppence? Julius sacudiu a cabeça.

 

Não. Mas encontrei isto à minha espera em Londres. Tinha acabado de chegar.

 

Entregou o telegrama a Tommy, que arregalou os olhos ao ler:

 

«Jane Finn encontrada. Venha imediatamente ao Midland Hotel de Manchester Peel Edgerton.»

 

Julius tornou a agarrar no telegrama e dobrou-o.

 

Veja disse, pensativo. Eu julgava que o advogado resolvera desertar.

 

JANE FINN

 

O meu comboio chegou há meia hora explicou Julius, ao saírem da estação. Calculei, antes de deixar Londres que você viria neste e telegrafei a Sir James nesse sentido. Ele reservou aposentos para nós e iremos jantar às oito.

 

Porque pensou que ele deixara de se interessar pelo caso ? perguntou Tommy com curiosidade.

 

Pelo que ele mesmo disse respondeu Julius secamente. O homem é fechado como uma ostra! Como todos os da sua profissão, gosta primeiro de tirar tudo a limpo para depois se manifestar.

 

Estou a pensar...disse Tommy com ar meditativo. Julius voltou-se para ele.

 

A pensar em quê?

 

Se será esse o verdadeiro motivo.

 

Claro. Aposto que é.

 

Tommy abanou a cabeça, pouco convencido.

 

Sir James» chegou pontualmente às oito horas e Julius apresentou-o a Tommy. Sir James apertou com calor a mão do rapaz.

 

Tenho o maior prazer em o conhecer pessoalmente, Mr. Beresford. Miss Tuppence falou-me tantas vezes a seu respeito sorriu involuntariamente que tenho a impressão de que já o conheço bem.

 

Obrigado,   senhor - respondeu   Tommy, com  o   seu sorriso jovial. Contemplou o advogado perscrutadoramente. Como Tuppence, sentiu o magnetismo da personalidade do homem. Fazia lembrar Mr. Carter. Os dois homens, tão dissemelhantes no físico, causavam a mesma impressão. Sob a atitude cansada de um e a reserva profissional do outro, a mesma qualidade de intelecto, afiado como uma lança.

 

Nesse interim, percebeu o olhar penetrante de Sir James que o examinava. Quando o advogado baixou os olhos, o rapaz teve a impressão de que o homem lera nele como num livro aberto. Mal podia imaginar qual fora o juízo formulado, mas pouca esperança havia de o descobrir.

 

Logo após os cumprimentos, Julius desatou num fluxo de perguntas ansiosas. Como conseguira Sir James descobrir a jovem? Porque não declarara que continuava a trabalhar no caso? E assim por diante.

 

Sir James batia no queixo e sorria. Disse afinal:

 

É isso, é isso. bom, a jovem foi encontrada. E isso é o que importa, não é”? Então! Diga, não é o mais importante?

 

Claro. Mas como descobriu o senhor a pista ? Miss Tuppence e eu pensámos que o senhor tinha posto o caso de parte.

 

Ah! O advogado lançou ao americano um olhar relampejante e recomeçou as pancadinhas no queixo. Foi o que o senhor pensou, não? De facto? Ah, meu caro.

 

Mas a conclusão a que chego é que nos enganámos prosseguiu Julius.

 

Bom, não sei se eu iria ao ponto de fazer tal afirmação. Mas sem dúvida é uma sorte que tenhamos logrado encontrar a jovem.

 

Mas onde está ela? -perguntou Julius, desviando os pensamentos para outro lado. -Pensei que o senhor a traria consigo.

 

Não seria possível disse Sir James com gravidade.

 

Porquê?

 

Porque a jovem sofreu um acidente de viação e recebeu ferimentos leves na cabeça. Foi conduzida a um hospital e ao recuperar os sentidos deu o nome de Jane Finn. Quando ah! tive notícia do facto, consegui que fosse removida para a casa de saúde de um médico... um amigo meu. E telegrafei-lhe em seguida ao senhor. Ela recaiu em estado inconsciente e desde então não mais falou.

 

Os ferimentos não são graves?

 

Oh, apenas alguns arranhões. Na verdade, sob o ponto de vista médico, é absurdo que ferimentos tão leves tenham produzido tais sintomas. O seu estado, com toda a probabilidade, deve atribuir-se ao choque mental consequente da recuperação da memória.

 

A memória voltou? exclamou Julius, excitado. Sir James bateu na mesa, um tanto impaciente.

 

Sem dúvida, Mr. Hersheimmer, uma vez que pôde dizer o nome verdadeiro. Julguei que percebera esse ponto.

 

E por casualidade   o senhor estava no localdisse Tommy. Não parece um conto de fadas?

 

Mas Sir James era por demais prudente para se deixar levar.

 

Coincidências são coisas curiosas disse secamente. Contudo, Tommy agora adquirira a certeza do que antesapenas suspeitara. A presença de Sir James em Manchester não era acidental. Longe de abandonar o caso, conforme Julius supusera, o advogado, usando de meios do seu exclusivo conhecimento, colocara-se na pista da jovem desaparecida. Só o que intrigava Tommy era o motivo de tanto sigilo. Julius continuava a falar.

 

Depois   do jantar anunciou sairei   para   ver Jane.

 

Não será possível, creio eudisse Sir James. É muito pouco provável que ela tenha permissão de receber visitas a esta hora da noite. Eu preferia sugerir que fosse amanhã, pelas dez horas da manhã.

 

Julius corou. Qualquer coisa em Sir James lhe estimulava o antagonismo. Era o conflito de duas personalidades poderosas.

 

Mesmo assim, acho que irei esta noite, afim de ver se consigo escapar aos tolos regulamentos.

 

Será inútil, Mr. Hersheimmer.

 

Essas palavras brotaram dos lábios do advogado como um estampido de pistola e Tommy ergueu os olhos, sobressaltado. Julius estava nervoso e excitado. A mão com que ergueu o copo aos lábios tremia um pouco, mas os seus olhos enfrentaram os de Sir James num desafio. Por momentos, a hostilidade entre os dois homens ameaçou degenerar em explosão inflamada, mas, por fim, Julius baixou os olhos, derrotado.

 

De momento, creio que o senhor detém o comando.

Obrigado respondeu   o jurista. Então,   às   dez   da manhã? Com uma consumada distinção de maneiras, voltou-se para Tommy. Devo confessar, Mr. Beresford, que constitui para mim uma surpresa vê-lo aqui esta noite. A última vez que ouvi falar no senhor, os seus amigos achavam-se tomados de grande ansiedade por sua causa. Havia dias que não recebiam notícias suas e Miss Tuppence inclinava-se a acreditar que o senhor enfrentava dificuldades.

 

E não se enganava!Tommy sorriu às suas reminiscências. Foram os mais sérios apuros em que me meti nesta vida.

 

com a ajuda das perguntas de Sir James, apresentou um relato abreviado das suas aventuras. O advogado contemplou-o com renovado interesse, quando ele chegou ao fim da história.

 

O senhor safou-se muito bem de apuros disse, com gravidade. Os meus parabéns. Demonstrou bastante inteligência e desempenhou o seu papel muito bem.

 

Tommy corou, o seu rosto adquiriu um matiz semelhante à cor do lagostim, provocado pelo elogio.

 

Eu não teria escapado se não fosse a jovem, senhor. Não. Sir James sorriu um pouco. Foi uma sorte para o senhor que ela tenha... simpatizado com a sua pessoa. Tommy quis protestar, mas Sir James continuou: Não há dúvida de que ela também pertence à quadrilha?

 

Creio que não, senhor. Julguei que talvez eles a retivessem lá pela força, o que não está de acordo com a maneira por que se portou. Como o senhor já sabe, ela voltou para junto deles quando podia escapar!

 

Sir James meneou a cabeça, pensativo.

 

Que disse ela? Deu a entender que queria voltar para junto de Marguerite?

 

Sim. Creio que se referia a Mrs. Vandemeyer.

 

- Ela costumava assinar-se Rita Vandemeyer. Todos os amigos lhe chamavam Rita. Contudo, talvez a jovem tenha adquirido o hábito de a chamar pelo nome inteiro. E, no momento em que clamava por ela, Mrs. Vandemeyer estava morta ou a expirar! Curioso! Um ou dois pontos parecem-me obscuros: a repentina mudança de atitude da rapariga para com o senhor, por exemplo. A propósito, a casa foi revistada, não?

 

Sim, senhor, mas tinham fugido todos.

 

É claro disse Sir James secamente.

E não deixaram a mínima pista.

 

Eu acredito...- O advogado bateu no queixo, perdido em reflexões.

 

O tom da sua voz fez Tommy levantar os olhos. O homem vislumbraria algum raio de luz onde eles só encontraram trevas? Falou impulsivamente:

 

Eu gostaria que o senhor estivesse presente quando revistámos a casa!

 

Eu também declarou Sir James com calma. Guardou silêncio por momentos. Depois, ergueu os olhos. E depois? Em que se ocupou»?

Por momentos, Tommy contemplou-o. Ocorreu-lhe então que o advogado ainda ignorava um facto importante.

 

Esqueci-me de lhe falar a respeito de Tuppence disse lentamente. Voltou-lhe a mesma dolorosa ansiedade, esquecida por momentos na excitação de saber que Jane Finn fora por fim encontrada.

 

O advogado largou a faca e o garfo vivamente.

 

Aconteceu alguma coisa a Miss Tuppence? A sua voz era como um gume afiado.

 

Ela desapareceu disse Julius.

Quando?

-Há uma semana.

Como ?

 

As perguntas de Sir James explodiam. No intervalo delas, Tommy e Julius narraram-lhe os acontecimentos da última semana e as suas pesquisas inúteis.

 

Sir James tocou imediatamente no âmago do assunto.

 

Um telegrama assinado com o seu nome? Para tanto tinham de contar com suficientes conhecimentos a respeito de ambos. Não sabiam a extensão das descobertas que o senhor fizera na casa. O rapto de Miss Tuppence é o movimento em oposição à sua fuga. Se for preciso, eles selarão os seus lábios com a ameaça do que   pode acontecer a Miss Tuppence.

 

Tommy inclinou a cabeça. -É exactamente o que penso, senhor.

 

Sir James fitou-o perscrutadoramente.

 

- O senhor chegou à mesma conclusão ? Muito bem, muito bem mesmo. O interessante é que eles por certo nada sabiam a seu respeito quando o fizeram prisioneiro. Tem a certeza de que não incorreu em nenhum descuido capaz de revelar a sua identidade?

 

Tommy sacudiu a cabeça.

 

Portanto disse Julius -calculo que alguém os avisou, e não antes de domingo à tarde.

 

Sim, mas quem?

 

O omnisciente Mr. Brown, é claro!

 

Havia um tom de zombaria na voz do americano, que fez com que Sir James erguesse os olhos vivamente.

 

O senhor não acredita em Mr. Brown, Mr. Hersheimrner ?

 

Não, senhor, não acredito retorquiu o americano com ênfase. Não como o descrevem, bem entendido. Creio que se trata de uma lenda, apenas um nome de fantasma para assustar crianças.   O verdadeiro chefe desse negócio é esse sujeito russo, Kramenin. Considero-o bem capaz de deflagrar revoluções em três países de uma só vez, se o quiser! O tal Whittington é talvez o chefe da sucursal inglesa.

 

Não concordo com o senhordisse Sir James, lacónico. Mr. Brown existe. Voltou-se para Tommy. Não observou de onde passaram o telegrama?

 

Não, senhor. Creio que não.

 

Hum. Tem-no aí?

 

Está lá em cima, na mala.

 

Gostaria de passar os olhos pelo telegrama. Não há pressa. Já desperdiçaram uma semana Tommy baixou a cabeça de forma que um dia a mais não faz diferença. Tratemos primeiro de Miss Jane Finn. Depois, trabalharemos para resgatar Miss Tuppence do cativeiro. Não creio que se encontre em perigo imediato. Isto é, ao menos enquanto eles ignorarem que descobrimos Jane Finn e que esta recuperou a memória. Precisamos de guardar sigilo a todo o custo. Compreendem ?

 

Ambos concordaram e, depois de combinarem o encontro do dia seguinte, o grande advogado despediu-se.

 

Às dez horas, os dois rapazes encontravam-se no lugar designado. Sir James reuniu-se a eles nos degraus da porta. Era o único que denotava calma. Apresentou-os ao médico.

 

Mrs. Hersheimmer...   Mr. Beresford...   Dr. Roylance. Como vai a doente?

 

Está passando bem. É evidente que não tem a noção de que o tempo passa. Perguntou esta manhã quantas pessoas se salvaram do Lusitânia. E se os jornais ainda traziam notícias do torpedeamento. Era o que se podia esperar, naturalmente Parece preocupada, contudo.

 

Acho que podemos minorar-lhe a ansiedade. Permite-nos subir?

 

Pois não.

 

O coração de Tommy pulsava mais rápido enquanto seguiam o médico, subindo as escadas. Jane Finn, afinal! A distinta, a misteriosa, a esquiva Jane Finn! Como se lhe afigurara impossível encontrá-la! E ali naquela casa, com a memória recuperada quase milagrosamente, encontrava-se a jovem que tinha nas mãos o futuro da Inglaterra. Uma espécie de gemido escapou-se dos lábios de Tommy. Ah, se Tuppence se achasse a seu lado para partilhar da conclusão triunfante da aventura comum! Depois, resolutamente colocou à margem a lembrança de Tuppence. Crescia-lhe a confiança em Sir James. Era um homem que iria ter, sem desvios, ao paradeiro de Tuppence. Entrementes, Jane Finn! E, então, repentino temor lhe apertou o coração. Parecia fácil demais... E se a encontrassem morta... derrubada pela mão de Mr. Brown?

 

Ao cabo de alguns instantes, ele ria-se destas fantasias melodramáticas. O médico abriu a porta de um quarto e entraram. No leito branco, com ligaduras em volta da cabeça, estava a jovem. Havia em toda a cena um toque de irrealidade. Correspondia com tamanha exactidão ao que se esperava que dava a ideia de uma linda encenação.

 

A rapariga olhou de um para outro, com olhos admirados. Sir James foi o primeiro a falar.

 

Miss   Finndisse, este é seu primo,   Mr. Julius   P. Hersheimmer.

 

Fraco rubor subiu às faces da jovem no momento em que Julius avançou e lhe tomou a mão.

 

Como está, prima Jane ? disse ele alegremente. Mas Tommy percebeu-lhe um tremor na voz.

 

É na verdade filho do tio Hiram?perguntou a jovem, admirada.

 

A sua voz, com o leve calor do sotaque do Oeste, possuía uma qualidade quase emocionante. Parecia vagamente familiar a Tommy, mas pôs de lado essa impressão como impossível.

 

Verdade absoluta.

 

Líamos nos jornais notícias a respeito do tio Hiram continuou a jovem, na sua voz grave. Mas nunca pensei que o encontraria algum dia. A mamã dizia que o tio Hiram continuava zangadíssimo com ela.

 

O velho era assim admitiu Julius. Mas julgo que com a geração nova tudo é diferente. Rixas de família são inconvenientes. A primeira coisa em que pensei, logo que a guerra terminou, foi em vir procurá-la.

 

Uma sombra passou pelo rosto da rapariga.

 

Contaram-me certas coisas...   coisas pavorosas...   que perdi a memória,   que decorreram muitos anos dos quais nada sei... anos perdidos da minha vida...

 

E você sente-se capaz de compreender tudo isso?

 

Não. A impressão que tenho é de que não houve intervalo de tempo desde que nos precipitámos naqueles escaleres. Poderei compreender tudo agora? Fechou os olhos, num estremecimento de medo.

 

Julius dirigiu um olhar a Sir James, que abanou a cabeça.

 

Não se preocupe. Isso não quer dizer nada. Agora, escute, Jane. Há uma coisa que desejamos saber. Havia um homem a bordo que conduzia importantes papéis e gente influente deste país foi informada de que os papéis lhe foram entregues.   É verdade?

 

A jovem hesitou, olhando de um homem para outro. Julius compreendeu.

 

Mr. Beresford foi contratado pelo governo britânico para descobrir os documentos. Sir James Peei Edgerton é membro do Parlamento da Inglaterra e poderia, se quisesse, ser figura de destaque do gabinete. É devido a isso que a procurámos até a encontrar. Assim não tenha receio e conte-nos toda a história. Danvers entregou-lhe os papéis ?

 

Sim. Disse que ficariam mais seguros comigo, porque salvariam primeiro as mulheres e as crianças.

 

Tal como pensámos disse Sir James.

 

Disse-me que eram de grande importância: poderiam ter um significado decisivo para os aliados. Mas, se há ja tanto tempo e se a guerra terminou, que importam agora?

 

Creio que a história se repete, Jane. Primeiro houve um escarcéu por causa desses papéis,   depois passou,   agora o alarido   recomeçapor   motivos   diferentes.   Pode   então entregar-nos os documentos?

 

Não posso.

-O quê?

 

Não os tenho.

 

Não... os tem?Julius destacou as palavras com pequenas pausas intermediárias.

 

Não. Perdi-os. Perdeu-os?

 

Sim. Fiquei inquieta. Parecia que me vigiavam. Tive medo, o que lamento. Levou a mão à cabeça. É quase a última coisa que recordo, depois que despertei no hospital...

 

Continue... disse Sir James, com a sua voz calma e penetrante. De que se lembra?

 

Ela voltou-se para ele, obedientemente.

 

Eu estava em Holyhead. Tomei aquele caminho, não me lembro porquê...

 

Isso não importa. Continue.

 

Na confusão do cais esgueirei-me para a rua. Ninguém me viu. Tomei um automóvel. Disse ao motorista que me conduzisse para fora da cidade. Fiquei alerta ao chegarmos a uma estrada solitária. Nenhum outro automóvel nos seguia. Divisei um caminho ao lado da estrada. Ordenei ao homem que parasse. Fez uma pausa, depois continuou. O caminho levou-me ao penhasco e daí até ao mar, por entre grandes moitas de urzes amarelas: pareciam chamas de ouro. Olhei ao redor. Não havia viva alma à vista. Bem à altura da minha cabeça notei um buraco na rocha. Era bem pequeno, mal dava para introduzir a minha mão, mas bastante fundo. Desprendi do pescoço o pacote de oleado e escondi-o ali com a maior rapidez   possível.   Depois,   arranquei   umas   urzes   eoh!   é angustiante! e tapei o buraco, de modo a não deixar uma fenda sequer. Depois, observei com toda a atenção o lugar, gravando-o na mente, para que pudesse encontrá-lo de novo. Havia uma esquisita pedra arredondada no caminhoassemelhava-se a um cachorrinho empinado sobre as patas trazeiras. Então voltei até à estrada. O automóvel aguardava-me e regressei. Mal tive tempo de tomar o comboio. Eu envergonhava-me de estar a imaginar coisas, mas tinha quase a certeza de que o homem sentado à minha frente piscava os olhos para uma mulher que se achava perto de mim; mais uma vez, assaltou-me o medo e senti-me satisfeita por os papéis estarem a salvo. Saí ao corredor para tomar um pouco de   ar.   Pensei   em   mudar   de   carruagem.   Mas   a   mulher chamou-me, disse que eu deixara cair alguma coisa e quando me abaixei, deram-me uma pancada... aqui. Levou a mão à parte posterior da cabeça. Não me lembro de mais nada, até que despertei no hospital.

 

Seguiu-se o silêncio.

Muito obrigado, Miss Finn. Foi Sir James quem falou. Não se fatigou?

 

Oh, não. Doi-me um pouco a cabeça mas quanto ao mais sinto-me bem.

 

Julius acercou-se do leito e tomou a mão da jovem.

 

Até logo, prima Jane. Vou procurar esses papéis, mas voltarei em dois tempos, levá-la-ei a Londres e logo que se restabeleça, voltaremos aos Estados-Unidos. Assim, trate de ficar boa depressa.

 

TARDE DEMAIS

 

Na rua, realizaram um conselho de guerra sem formalidades. Sir James tirou o relógio do bolso.

 

O comboio que leva aos barcos para Holyhead pára em Chester às doze e catorze. Se os senhores se puserem em marcha imediatamente, poderão apanhá-lo.

 

Tommy olhou-o, intrigado. -Para quê tanta pressa, senhor? Hoje é apenas 24.

 

Sou de opinião que todo o trabalho deve ser começado cedo disse Julius, antes que o advogado tivesse tempo de responder. Iremos daqui directamente à estação.

 

Sir James enrugou a testa.

 

Eu gostaria de os acompanhar. Mas tenho uma reunião ao meio-dia. É uma pena.

 

O tom de relutância da sua voz era evidente. Por outro lado, estava bem claro que Juhus se dispunha com firmeza a passar sem a companhia do homem.

 

Este negócio não tem complicação nenhuma observou. É apenas uma brincadeira, nada mais.

 

Faço votos de que assim sejadisse Sir James.

 

E é. Que mais pode ser ?

 

O senhor ainda é muito jovem,   Mr.   Hersheimmer. Quando tiver a minha idade talvez aprenda a lição: «Nunca subestime o adversário».

 

A gravidade da sua voz impressionou Tommy, mas pouco efeito exerceu sobre Julius.

 

O senhor pensa que Mr. Brown é capaz de fazer uma aparição? Se fizer, estou pronto para o esperar. Deu uma palmada no bolso. Tenho arma. O «canhão de algibeira» acompanha-me a toda a parte. Puxou uma automática de aspecto homicida e acariciou-a afectuosamente antes de a guardar. Mas nesta viagem não precisarei de a usar. Ninguém pode ter avisado Mr. Brown.

 

O advogado encolheu os ombros.

 

- -Ninguém podia ter avisado Mr. Brown de que Mrs. Vandemeyer pretendia traí-lo. Contudo, Mrs. Vandemeyer morreu sem falar.

 

Julius calou-se e Sir James acrescentou, em voz mais alegre:

 

Quis apenas adverti-los. Adeus e felicidades. Não corram perigos desnecessários, uma vez os papéis nas vossas mãos. Se   tiverem   motivos   para   acreditar   que   são   perseguidos, destruam-nos imediatamente. Felicidades. Apertou a mão dos rapazes.

 

Dez minutos depois os dois jovens sentavam-se numa carruagem de primeira classe, en route para Chester.

 

Por longo tempo nenhum deles falou. Quando por fim Julius interrompeu o silêncio, foi com uma observação totalmente inesperada.

 

Escute observou,   pensativo,você   nunca   fez   de idiota chapado por causa de um rosto de mulher ?

 

Tommy, após uns momentos de espanto, conseguiu pensar.

 

Não me recordo, replicou por fim. Não me posso recordar. Porquê?

 

Porque nos últimos dois meses não fiz outro papel senão o do pateta sentimental por causa de Jane! No instante em que pus os olhos no retrato dela, o meu coração manifestou todos os sintomas que a gente lê nos romances. Envergonho-me um pouco de o confessar, mas vim para cá resolvido a encontrá-la, arranjar as coisas e levá-la de novo como Mrs. Julius Hersheimmer!

 

Oh! exclamou Tommy   admirado.

 

Julius   descruzou   as  pernas   bruscamente   e   continuou:

 

Isto demonstra como um homem se pode tornar idiota! Bastou um olhar dirigido à pequena em pessoa e fiquei curado!

 

Sentindo-se com a língua mais atada que nunca, Tommy exclamou «Oh!» novamente.

 

Sem desfazer em Jane, entenda-se continuou o americano.É de facto uma criatura bonita e não faltará quem se apaixone por ela.

 

Achei-a muito bonita disse Tommy, readquirindo a fala.

 

com efeito. Mas não é como no retrato, nem de longe. Suponho que é ela, de certo modo... deve ser... porque a reconheci logo. Se a visse numa multidão eu diria. «Aqui está a jovem cujo rosto eu conheço» com todo o acerto e sem qualquer   hesitação.   Mas   havia   qualquer   coisa   naquele retrato...Julius sacudiu a cabeça e soltou um suspiro. Romantismo é uma coisa esquisita, julgo eu.

 

Deve   ser disse   Tommy com  frieza,se   você   vem para cá apaixonado por uma pequena e pede outra em casamento ao cabo de uma quinzena.

 

Julius condescendeu que se achava desconcertado.

 

bom, você compreende, tive uma espécie de pressentimento de que nunca encontraria Jane... e aquilo foi pura tolice, de qualquer modo. E, depois... ora, vamos! Os franceses, por exemplo, são muito mais sensatos na maneira por que encaram as coisas. Eles consideram romances e casamento como coisas distintas...

 

Tommy corou.

 

Ora bolas! Quer dizer então...

 

   Julius apressou-se a interrompê-lo.

 

Não se precipite. Não quero dizer o que você pensa. Creio que os americanos têm um conceito mais elevado de moralidade do que mesmo vocês. O que eu quis dizer é que os franceses encaram o casamento em termos quase comerciais: duas pessoas que gostam uma da outra, cuidam do problema financeiro   e   resolvem   tudo   praticamente, com  espírito mercantil.

 

Se não me engano disse Tommy, todos somos mercantis demais hoje em dia. Estamos sempre a perguntar: «Que ganharemos?» Os homens são bastante maus e as mulheres ainda piores! Sinto-me exaltado.

 

Acalme-se. Não se exalte.

 

Julius achou melhor não dizer mais nada.

 

Todavia, Tommy teve tempo de sobra para se acalmar até que chegassem a Holyhead e o alegre sorriso voltou-lhe à fisionomia quando desembarcaram na estação de destino.

 

Alugaram um taxi sem mais delongas e seguiram pela estrada que vai a Treaddur Bay. Recomendaram ao motorista que conservasse marcha vagarosa e observavam com atenção para não perderem o caminho transversal a que aludira Jane. Não havia muito que haviam saído da cidade quando descobriram um caminho nas condições descritas. Tommy imediatamente mandou parar o carro, perguntou ao homem, como por casualidade, se aquela vereda levava ao mar e, obtida a resposta, pagou a corrida em belo estilo.

 

Momentos depois, o taxi rodava lentamente de regresso a Holyhead. Tommy e Julius contemplaram-no até o perderem de vista e depois encaminharam-se para a estreita vereda.

 

É por aqui,creio eu disse Tommy com ar de dúvida. Talvez haja milhares de caminhos como este nas redondezas.

 

Está visto que é aqui, sim. Olhe as urzes. Lembra-se do que Jane disse ?

 

Tommy contemplou as densas sebes, cobertas de flores douradas, que delimitavam o caminho de um lado e de outro, e convenceu-se.

 

Desceram um atrás do outro, Julius à frente. Por duas vezes, Tommy voltou a cabeça, inquieto. Julius olhou para trás.

 

-Que há?

 

Não sei. Talvez o vento. Continuo a imaginar que alguém nos segue.

 

Não pode ser disse Julius, positivo. Teríamos visto. Tommy era obrigado a reconhecer essa verdade. Contudo, aumentava-lhe a inquietação. A contragosto, acreditava na onnisciência do inimigo.

 

Eu só queria   que o   tal sujeito viesse disse Julius. Bateu no bolso. O canhão de algibeira está morto por entrar em acção!

 

Você leva-o para toda a parte?perguntou Tommy, com inflamada curiosidade.

 

Quase sempre. A gente nunca sabe o que pode acontecer. Tommy guardou respeitoso silêncio.   Impressionava-o o

 

canhão de algibeira. Parecia afastar a ameaça de Mr. Brown. O caminho agora costeava a borda do rochedo, paralelo ao mar. Em dado momento, Julius parou tão de repente que Tommy esbarrou nele.

 

Que há? perguntou.

 

Olhe. Isto é de fazer bater o coração!

 

Tommy olhou. Sobressaindo e quase obstruindo o caminho, via-se enorme pedra arredondada que por certo se assemelhava a um cãozinho «em pé».

 

Bomdisse Tommy, recusando-se a partilhar a emoção de Julius, era o que esperávamos encontrar, não era?

 

Julius fitou-o com tristeza e disse, abanando a cabeça:

 

Fleuma britânica! Sem dúvida, é o que esperávamos; mas bole-me com os nervos mesmo assim, encontrá-lo ali, exactamente onde prevíamos!

 

Tommy, cuja calma talvez fosse mais simulada que natural, avançou com impaciência.

 

Vamos. Onde está a tal abertura?

 

Examinaram meticulosamente a superfície do rochedo. Tommy ouviu-se a dizer tolamente:

 

As urzes não devem estar no mesmo lugar, depois de tantos anos.

 

E Julius respondeu com solenidade:

 

Tem razão.

 

Tommy, de repente, apontou para um lado com a mão a tremer.

 

E aquela fenda ali?

 

Julius respondeu com voz aterrada:     ..

 

É ali. Não há dúvida. Olharam-se um ao outro.

 

Tommy contemplou a rocha com uma espécie de paixão agónica.

 

Diabo!gritou.É   impossível!   Cinco   anos!   Pense nisso! Garotos em busca de ninhos de pássaros, milhares de pessoas a passarem! Não pode estar ali! As possibilidades são de uma contra cem. É absolutamente contrário à razão!

 

Na verdade, julgava impossível-mais, talvez, porque não cria no seu triunfo onde tantos outros haviam fracassado. Tudo parecia fácil demais e, portanto, não podia ser. O buraco, por força estava vazio.

 

Julius contemplou-o com um largo sorriso.

 

Agora acho-o melhor declarou alegremente. Bom, lá vai! - Enfiou a mão na abertura e fez uma careta.

 

É estreito. A mão de Jane deve ser muitas vezes menor que a minha. Não toco em nada... não... oh, que é isto? Céus!

 

Agitou   no   ar um  pequeno pacote desbotado. São   os papéis. Envólucro de oleado. Segure-o enquanto procuro o meu canivete.

 

Acontecera o inacreditável. Tommy segurou ternamente o precioso pacote com ambas as mãos. Haviam triunfado!