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O AFEGÃO / Frederick Forsyth
O AFEGÃO / Frederick Forsyth

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O AFEGÃO

 

     SE O JOVEM GUARDA-COSTAS TALIBÃ SOUBESSE que aquela ligação de celular iria matá-lo, não a teria feito. Mas como não sabia, fez a ligação e morreu em seguida.

     Em 7 de julho de 2005, quatro homens-bomba detonaram mochilas carregadas com explosivos no centro de Londres. Cinqüenta e duas pessoas morreram, cerca de 700 ficaram feridas e pelo menos cem foram mutiladas.

     Três dos quatro homens-bomba nasceram e foram criados em solo britânico, porém filhos de paquistaneses. O quarto era um jamaicano naturalizado britânico e convertido ao islã. Ele e um dos outros ainda estavam na adolescência; o terceiro tinha 22 anos, e o líder do grupo, 30. Todos haviam sido radicalizados, ou convertidos ao fanatismo extremo, bem no coração da Inglaterra, depois de freqüentar mesquitas extremistas e ouvir pregadores fanáticos.

     Nas 24 horas que se seguiram às explosões, os homens foram identificados e associados a vários endereços na cidade e arredores de Leeds, norte da Inglaterra. Inclusive, todos haviam falado em intensidades diversas com sotaque de Yorkshire. O líder fora Mohammad Siddique Khan, professor em uma escola para alunos com necessidades especiais.

     Durante a busca nas casas e propriedades dos homens-bomba, a polícia encontrou um verdadeiro tesouro que preferiu não revelar à imprensa. Quatro recibos demonstravam que um dos integrantes mais velhos comprou celulares do tipo descartável, e aparelhos tri-band, que podem ser usados praticamente em qualquer parte do mundo. Cada um dos aparelhos continha um cartão pré-pago no valor de 20 libras esterlinas. Os celulares foram pagos em dinheiro e estavam desaparecidos. Mas a polícia logo identificou os números e classificou-os como suspeitos, de modo que seriam identificados caso voltassem a ser utilizados.

     Também foi descoberto que Siddique Khan e seu parceiro de maior confiança no grupo, um jovem punjabi chamado Shehzad Tanweer, passaram três meses no Paquistão em novembro do ano anterior. Não foi descoberta pista alguma sobre quem os dois teriam visitado, mas, semanas depois das explosões, a rede de televisão árabe Al Jazeera transmitiu uma gravação de Siddique Khan na qual ele anunciava sua morte. O vídeo certamente fora gravado durante aquela visita feita a Islamabad.

     Foi apenas em setembro de 2006 que também ficou comprovado que um dos homens-bomba levara, na viagem, um dos inocentes celulares desaparecidos e o presenteara ao seu organizador instrutor da al-Qaeda. (A polícia britânica já estabelecera que nenhum dos homens-bomba possuía habilidade técnica para fabricar as bombas sem instrução e auxílio.)

     Independentemente da identidade dessa autoridade superior, esta passara o presente adiante como um sinal de respeito a um membro da comitiva de elite reunida em torno da pessoa de Osama bin Laden, em seu esconderijo nas montanhas do Waziristão do Sul, ao longo da fronteira do Paquistão com o Afeganistão, a oeste de Peshawar. O aparelho seria utilizado apenas para emergências, já que todos os agentes da al-Qaeda são cautelosos no uso de celulares. Contudo, o doador não teria como saber que os fanáticos britânicos haviam cometido a estupidez de deixar o recibo do aparelho em sua escrivaninha em Leeds.

     A comitiva de Bin Laden apresenta quatro divisões, que lidam com as operações, as finanças, a propaganda e a doutrina da organização. Cada divisão possui um diretor, que responde apenas a Bin Laden e ao seu co-líder, Ayman Al-Zawahiri. Em setembro de 2006, o chefe de finanças do grupo terrorista era o egípcio Tewfik Al-Qur, conterrâneo de Zawahiri.

     Por motivos posteriormente esclarecidos, Tewfik Al-Qur encontrava-se disfarçado na cidade paquistanesa de Peshawar, em 15 de setembro, e não partia para uma viagem demorada e perigosa para longe do entorno das montanhas, mas retornava de uma. Aguardava a volta do guia que iria levá-lo aos picos waziris, e à presença do xeque em pessoa.

     Para protegê-lo em sua breve estada em Peshawar, foram-lhe designados quatro fanáticos locais, pertencentes ao movimento Talibã. Como é normal aos homens originários das montanhas do noroeste, eles eram tecnicamente paquistaneses, mas da tribo dos waziris. Falavam pashto melhor que urdu, e eram leais ao povo pashtun, do qual a tribo waziris é um sub-ramo.

     Todos foram içados da sarjeta numa madrassa, ou internato corânico de orientação extrema, aderindo à seita wahabi do islã, a mais severa e intolerante de todas. Não tinham conhecimento ou habilidade para qualquer coisa que não fosse recitar o Corão e, portanto, como milhões de jovens criados em madrassas, eram incapazes de obter emprego. Mas, caso recebessem qualquer tarefa do chefe de seu clã, morreriam para realizá-la. Naquele setembro, foram incumbidos de proteger o egípcio de meia-idade que falava árabe nilótico, mas dominava o suficiente do idioma pashto para se comunicar. Um dos quatro jovens era Abdelahi, e seu orgulho e alegria era seu telefone celular. Infelizmente o aparelho não estava funcionando, porque ele esquecera de recarregar a bateria.

     Isso foi depois do meio-dia. Uma hora perigosa demais para sair à rua e caminhar até uma mesquita local para rezar. Al Qur dissera todas as suas preces junto com seus guarda-costas, em seu apartamento no andar superior. Tinham feito uma refeição frugal e se recolhido para descansar um pouco.

     O irmão de Abdelahi vivia a centenas de quilômetros a oeste, na igualmente fundamentalista cidade de Quetta, e a mãe deles estava doente. Em busca de notícias da mãe, tentou falar com ele pelo celular. Não iria falar nada que fosse comprometedor; apenas uma parte dos trilhões de palavras inocentes que viajavam diariamente pelo éter de todos os cinco continentes. Mas seu celular não queria funcionar. Um de seus companheiros apontou a ausência de sinal no visor do aparelho e explicou o processo de carregamento. Então Abdelahi viu o celular sobressalente sobre a valise do egípcio, na sala de estar.

     Estava totalmente carregado. Sem ter idéia de como aquilo poderia causar qualquer problema, digitou o número do irmão e ouviu o toque da chamada para Quetta. E na toca de coelho de subterrâneos interconectados em Islamabad, que constituem o departamento de escuta do Centro Antiterrorista do Paquistão, uma pequena lâmpada vermelha começou a piscar.

     Muitos moradores de Hampshire consideram-no o condado mais bonito da Inglaterra. A costa sul, de frente para as águas do canal, abriga o imenso porto marítimo de Southampton e a doca de Portsmouth. Seu centro administrativo é a cidade histórica de Winchester, dominada por uma catedral com quase mil anos de idade.

     No coração do condado, longe de todas as estradas, e até mesmo das rodovias, fica o silencioso vale do rio Meon, um córrego agradável em cujas margens jazem aldeias que datam do tempo dos saxões.

     Uma única estrada corre de sul a norte, mas o resto do vale é uma rede de alamedas coleantes franjadas com árvores, cercas vivas e prados. É uma região de fazendas como nos velhos tempos, com poucos campos de mais de dez hectares e com um número ainda menor de fazendas de mais de quinhentos hectares. A maioria das casas de fazenda é muito antiga, e algumas servidas por agrupamentos de celeiros grandes, antigos e belos.

     O homem empoleirado no cume de um dos celeiros desfrutava de um panorama do vale Meon e de uma visão geral da aldeia mais próxima, Meonstoke, que ficava a menos de um quilômetro e meio de distância. No momento em que, a vários fusos horários para leste, Abdelahi fez a última chamada telefônica de sua vida, o telhador enxugou um pouco de suor da testa e reiniciou seu trabalho: remover com cuidado as telhas de barro que tinham sido postas ali havia centenas de anos.

     Deveria ter chamado uma empresa especializada em reparo de telhado, que teria envolvido o celeiro inteiro com andaimes. Seria mais rápido e seguro trabalhar desse modo, embora muito mais caro. E o problema era esse. O homem empunhando o martelo de telhador era um ex-soldado, aposentado depois de 25 anos de carreira, e que usara a maior parte do soldo para comprar este sonho; um lugar no campo para chamar de lar. Um lar que já fora um celeiro, e do qual, para chegar à cidade mais próxima, era preciso seguir uma trilha e depois uma estrada.

     Mas soldados nem sempre sabem lidar com finanças. As firmas especializadas haviam orçado em cifras de tirar o fôlego a conversão do celeiro medieval em casa de campo e lar aconchegante. Daí a decisão de fazer isso sozinho, a despeito de quanto tempo fosse necessário.

     O lugar era idílico. Em sua imaginação, podia ver o teto restaurado à sua glória anterior, quando não tinha vazamentos, com noventa por cento das telhas originais preservadas e os outros dez por cento comprados de uma barraca que vendia material de demolição. As vigas mestras do telhado ainda estavam sólidas como no dia em que foram cortadas do carvalho, mas a laje teria de ser retirada e substituída por um impermeabilizante de teto.

     Olhando para baixo, e vendo as antigas baias de feno empoeiradas, podia imaginar a sala de estar, a cozinha, o escritório, os corredores. Teria de recorrer a serviços profissionais para a rede elétrica e o encanamento, mas já fora à Escola Técnica de Southampton matricular-se em cursos noturnos de alvenaria, gessagem, carpintaria e vidraçaria.

     Um dia haveria ali um pátio calçado com pedras e uma horta. A trilha seria revestida com paralelepípedos e haveria ovelhas pastando. Todas as noites, acampado no padoque enquanto a natureza brindava-o com uma brisa quente de fim de verão, ele refazia os cálculos e lembrava que, com paciência e muito trabalho, seria capaz de sobreviver com seu orçamento modesto.

     Tinha 44 anos, pele olivácea, cabelos e olhos negros e corpo magro e musculoso. E estava cansado. Cansado de desertos e florestas, de malária e sanguessugas, de noites de frio congelante, de comida ruim e pernas e braços doloridos. Conseguiria um emprego nas proximidades, e depois um labrador ou um casal de Jack Russells para compartilhar sua vida. E, talvez, até uma mulher.

     O homem no telhado removeu mais uma dúzia de telhas, guardou as dez inteiras, jogou fora os fragmentos das quebradas, e uma lâmpada vermelha piscou em Islamabad.

 

     Muita gente pensa que, com um celular pré-pago, todas as contas futuras são evitadas. Isso é verdade para o comprador e usuário, mas não para a operadora. A não ser que o aparelho seja usado apenas dentro da área de operação na qual foi comprado, ainda há um acerto a ser realizado, entre as empresas de telefonia, e são seus computadores que cuidam disso.

     Quando o irmão de Abdelahi atendeu ao telefone em Quetta, a chamada utilizava-se de uma antena situada nos arrabaldes de Peshawar. A torre pertence à Pak Tel. Assim, o computador da companhia começou a procurar pelo vendedor original do celular na Inglaterra, com a intenção de dizer, eletronicamente: Um dos seus clientes está usando meu tempo e espaço aéreo, de modo que você está me devendo.

     Contudo, há anos o Centro Antiterrorista (CAT) do Paquistão requerera que tanto a Pak Tel quanto sua rival, a Mobi Tel, passassem cada chamada emitida ou recebida por suas redes para a sala de escuta do CAT. E, a pedido dos britânicos, o CAT inseriria em seus computadores um software de interceptação programado para determinados números. Um deles subitamente estava ativo.

     Um jovem sargento paquistanês de idioma pashto monitorava o painel. Ele apertou um botão e um oficial superior entrou na linha. Depois de vários segundos na escuta, o oficial perguntou:

     — O que está dizendo?

     O sargento ouviu e respondeu:

     — O homem que ligou está dizendo alguma coisa sobre a mãe dele. Acho que está falando com o irmão.

     — De onde?

     Outra checagem.

     — Do transmissor de Peshawar.

     Não era preciso dizer mais nada ao sargento. A chamada completa seria automaticamente gravada para análise futura. A tarefa imediata era localizar o emissor. O major do CAT de serviço naquele dia duvidava que uma chamada curta possibilitaria isso. E certamente o idiota não iria permanecer muito tempo na linha.

     Em seu posto bem acima dos pavimentos subterrâneos, o major apertou três botões em sua mesa. Uma ligação foi efetuada para o chefe de seção do CAT, em Peshawar.

     Anos antes, e decerto antes do evento hoje conhecido como 11 de Setembro, isto é, a destruição do World Trade Center em 2001, o Departamento de Serviços Internos de Inteligência do Paquistão, conhecido como ISI, fora infiltrado por muçulmanos fundamentalistas do Exército paquistanês. Esse era seu problema e o motivo para sua completa falta de confiança na luta contra o Talibã e a al-Qaeda.

     Mas o presidente do Paquistão, general Musharraf, tivera pouca escolha senão ouvir o conselho vigoroso dos Estados Unidos para limpar a casa. Parte do programa fora a transferencia dos oficiais extremistas do ISI para deveres militares normais; a outra fora a criação do Centro Antiterrorista, uma agência de elite composta por uma nova geração de oficiais jovens sem qualquer inclinação pelo terrorismo islâmico, por mais devotos que fossem à sua religião. O coronel Abdul Razak, previamente comandante de carros de combate, era um desses oficiais. Comandava o CAT em Peshawar, e atendeu a chamada às 14:30.

     O coronel escutou atentamente seu colega da capital federal, e então indagou:

     — Quanto tempo?

     — Até agora, cerca de três minutos.

     O coronel Razak tinha a sorte de seu escritório estar localizado a meros 730 metros da antena da PakTel, dentro do raio de 900 metros, normalmente necessário para que seu localizador de direção funcionasse com eficácia. Acompanhado por dois técnicos, correu até o terraço do edifício para começar a operar o localizador. O aparelho varreria a cidade, fechando cada vez mais a área, até localizar a fonte do sinal.

     Em Islamabad, o sargento na escuta disse ao seu superior:

     — A conversa terminou.

     — Merda — disse o major. — Três minutos e 44 segundos. Não podíamos esperar mais do que isso.

     — Mas parece que ele não desligou o aparelho — informou o sargento.

    

     Num apartamento de um prédio na cidade velha de Peshawar, Abdelahi cometera seu segundo erro. Ao ouvir o egípcio sair de seu quarto, Abdelahi desligara imediatamente a chamada para seu irmão e enfiara o celular debaixo de uma almofada. Mas se esquecera de desligar o aparelho. A 800 metros dali, os varredores do coronel Razak aproximavam-se cada vez mais.

    

     Tanto o SIS (Serviço Secreto de Inteligência) britânico quanto a CIA (Agência Central de Inteligência) americana mantêm operações de grande porte no Paquistão por motivos óbvios. Trata-se de uma das principais zonas de guerra na luta contra o terrorismo atual. Parte da força da aliança ocidental, que data de 1945, deve-se à habilidade de cooperação de ambas as agências.

     Houve momentos de divergência, principalmente depois do surto de traidores britânicos, que começara em 1951 com Philby, Burgess e Maclean. Mais adiante, quando os americanos descobriram que também mantinham uma galeria de traidores a serviço de Moscou, a CIA perdeu o preconceito para com o SIS. Em 1991, o fim da Guerra Fria conduziu à conclusão estúpida, da parte de políticos de ambos os lados do Atlântico, de que a paz finalmente chegara, e para ficar. Foi precisamente o momento em que a nova Guerra Fria, silenciosa e oculta nas profundezas do islã, estava experimentando as dores do nascimento.

     O 11 de Setembro pôs fim a toda rivalidade entre as agências. A regra se tornou: se nós sabemos, é melhor vocês saberem também. E vice-versa. Diversas agências estrangeiras prestavam sua contribuição à luta, mas nenhuma delas possuía a precisão dos coletores de informação anglo-americanos.

     O coronel Razak conhecia ambos os chefes de seção em sua cidade. Em termos pessoais, era mais íntimo de Brian O'Dowd, o homem do SIS, e o celular dos terroristas foi originalmente uma descoberta britânica. Assim, ao descer do terraço, foi para O'Dowd que ele telefonou com a notícia.

     Nesse momento, o Sr. Al Qur foi ao banheiro e Abdelahi enfiou a mão debaixo da almofada para pegar o celular e colocá-lo de volta em cima da valise, onde o encontrara. Com uma pontada de culpa, viu que ainda estava ligado. Desligou-o imediatamente. Temia gastar a bateria. Em todo caso, estava com oito segundos de atraso. O localizador de direção fizera seu trabalho.

     — Como assim, você descobriu? — perguntou O'Dowd. Seu dia subitamente se tornara Natal e vários aniversários num só.

     — Não tem dúvida, Brian. A chamada veio de um apartamento no andar superior de um prédio de cinco andares na cidade velha. Dois dos meus agentes disfarçados estão indo até lá para averiguar e planejar a aproximação.

     — Quando vão invadir?

     — De madrugada. Gostaria que fosse às três da manhã, mas o risco é grande demais. Eles podem fugir...

     O coronel Razak, que estudara inglês durante um ano na Inglaterra, na Escola de Comando e Estado-Maior, em Camberley, com uma bolsa oferecida pelo governo britânico, orgulhava-se de seu domínio do idioma.

     — Posso participar?

     — Você gostaria?

     — E você já viu macaco recusar banana? — retorquiu o irlandês.

     Razak gostou da piada, e riu alto.

     — Sendo um crente do único Deus verdadeiro, eu não tenho como saber — disse ele. — Muito bem. No meu escritório às seis. Mas à paisana, e estou dizendo à nossa paisana.

     Ele quis dizer que ninguém estaria de uniforme, mas também não em roupas ocidentais. Na cidade velha, e especialmente no bazar Qissa Khawani, apenas trajes compostos por calças folgadas e blusas de mangas compridas passavam sem ser notados. Ou os turbantes dos clãs das montanhas. E isso também se aplicava a O'Dowd.

     O agente britânico chegou um pouco antes das seis, em seu Toyota Land Cruiser preto com vidros fume. Um Land Rover britânico teria sido mais patriótico, mas a Toyota era a marca favorita dos fundamentalistas locais, de modo que não chamaria atenção. Ele também levou uma garrafa de uísque Chivas Regal. Era a bebida favorita de Abdul Razak. Certa vez brincara com seu amigo paquistanês a respeito de seu gosto pela bebida alcoólica escocesa.

     — Eu me considero um bom muçulmano, mas não um muçulmano obsessivo — disse Razak. — Não como carne de porco, mas também não vejo mal nenhum em dançar ou em fumar um bom charuto. A proibição dessas coisas é uma das características do fanatismo talibã com o qual não concordo. E quanto às bebidas à base de uva, ou até de grãos, tomava-se muito vinho durante nossos primeiros califados. Se um dia chegar ao Paraíso, serei repreendido por uma autoridade mais alta que todas, e então rogarei clemência ao todo-poderoso Alá. Enquanto isso, não me encha a paciência.

     Talvez fosse estranho que um piloto de carros de combate tivesse se tornado um policial excelente, mas assim era Abdul Razak. Tinha 36 anos, era culto, casado e com dois filhos. Também possuía uma capacidade criativa, para a sutileza e para as táticas com que o mangusto encara a cobra em vez de investir contra o elefante. Queria tomar o apartamento no topo do edifício sem uma troca de tiros violenta. E por isso sua abordagem seria discreta e silenciosa.

     Peshawar é uma cidade muito antiga, e nenhuma de suas partes é tão velha quanto o bazar Qissa Khawani. Por muitos séculos, caravanas em viagem para o Afeganistão pela Grande Estrada, que atravessa a imensa e intimidadora montanha Khyber, pararam ali para dar água a homens e camelos. E como qualquer grande bazar, o Qissa Khawani sempre proveu as necessidades básicas do homem: cobertores, xales, tapetes, artefatos de bronze, bacias de cobre, bebida e comida. É assim até hoje.

     É um lugar multiétnico e multilíngüe. O olhar experiente nota os turbantes de afridis, waziris, ghilzais e paquistaneses das proximidades, em contraste com os chapéus de Chitral, cidade mais ao norte, e aos gorros de inverno franjados com pele dos tadjiques e uzbeques.

     Nesse labirinto de ruas estreitas onde um homem pode se esconder de qualquer perseguidor, há lojas e barracas de comida, o bazar de relógios, o bazar de cestas, cambistas, o mercado de pássaros e o bazar dos contadores de histórias. Nos dias imperiais, os britânicos chamavam Peshawar de a Piccadilly da Ásia Central.

     O apartamento identificado pelos varredores como a fonte da chamada telefônica ficava num daqueles edifícios altos e estreitos munidos de sacadas. Tinha quatro pavimentos acima de um depósito de tapetes, numa rua cuja largura permitia a passagem de um carro apenas. Devido ao calor do verão, todos os prédios tinham terraços aos quais os moradores podiam subir para tomar ar fresco, e escadarias abertas que começavam a partir da rua. O coronel Razak liderou sua equipe em silêncio e a pé.

     Ele enviou quatro homens, todos em vestimentas tribais, para o telhado de um prédio a uma distância de quatro casas do alvo. Chegaram ao terraço e se puseram a caminhar com calma de telhado em telhado até alcançar o prédio desejado. Ali aguardaram o sinal. O coronel conduziu seis homens pelas escadas a partir do nível da rua. Todos carregavam pistolas automáticas escondidas sob as túnicas, com exceção do batedor, o punjabi musculoso que portava o aríete.

     Quando estavam todos posicionados na escadaria, o coronel fez um sinal com a cabeça para o batedor, que recuou o aríete e estilhaçou a fechadura. A porta cedeu e a equipe entrou apressadamente. Três dos homens no telhado desceram pelas escadas de acesso; o quarto permaneceu isolado, em prontidão para o caso de alguém tentar escapar por cima.

     Mais tarde, quando Brian O'Dowd tentava recordar o ataque, tudo parecia extremamente rápido e borrado em sua memória. Essa também foi a impressão dos ocupantes do apartamento.

     O esquadrão de ataque não tinha a menor idéia de quantos homens estariam no interior do apartamento, ou do que iriam encontrar. Poderia ter sido um pequeno exército ou uma família bebericando chá, Eles não conheciam a configuração do apartamento; em Nova York ou Londres, a planta do arquiteto estaria arquivada na prefeitura, mas não no bazar Qissa Khawani. Tudo que sabiam era que uma chamada fora feita de um celular.

     Com efeito, encontraram quatro rapazes assistindo a televisão. Por dois segundos, o esquadrão acreditou ter invadido um lar inocente. Então registraram que os rapazes estavam profusamente barbados. Eram todos montanheses e um deles, o mais rápido a reagir, estava enfiando a mão debaixo da túnica para sacar uma arma. Seu nome era Abdelahi e ele morreu com quatro projéteis de uma Heckler & Koch MP5 no peito. Os outros três foram dominados antes que pudessem lutar. O coronel Razak fora bem claro; se possível, queria todos vivos.

     A presença do quinto homem foi anunciada por um ruído vindo do quarto. O punjabi largara seu aríete, mas seu ombro deu conta do recado. A porta ruiu, e dois homens do CAT invadiram o cômodo, seguidos pelo coronel Razak. No meio do quarto estava um árabe de meia-idade, olhos arregalados de medo ou ódio. Estava congelado no movimento de pegar o laptop que arremessara contra o piso de cerâmica, na tentativa de destruí-lo.

     Compreendendo que não teria tempo para isso, virou-se e correu até a janela, que estava aberta.

     — Agarrem-no! — gritou o coronel Razak ao soldado paquistanês mais próximo.

     Mas o egípcio, que fora flagrado nu da cintura para cima devido ao calor, estava com a pele escorregadia. O paquistanês não conseguiu segurá-lo. O egípcio nem subiu na balaustrada; simplesmente saltou sobre ela, caindo 12 metros da varanda até os paralelepípedos da rua. Numa questão de segundos o corpo estava cercado por curiosos, mas o tesoureiro da al-Qaeda tossiu duas vezes e morreu.

     O prédio e a rua tinham se tornado um caos de silhuetas gritando e em fuga. Usando seu celular, o coronel chamou pelos 50 soldados uniformizados que postara nos furgões de vidro fume a quatro ruas dali. Entraram correndo no beco para restaurar a ordem, se é que se pode definir assim a criação de ainda mais caos. Mas serviram ao seu propósito; eles lacraram o edifício. Mais tarde Abdul Razak interrogaria todos os vizinhos e, principalmente, o proprietário, o vendedor de tapetes no térreo.

     O cadáver na rua foi cercado pelo Exército e coberto com um lençol. Uma maca chegaria logo. O morto seria levado para o necrotério do Hospital Geral de Peshawar. Até então, ninguém fazia a menor idéia de quem ele era. Estava claro apenas que preferira a morte à atenção carinhosa dos americanos no campo Bagram, no Afeganistão, onde certamente seria trocado em Islamabad pelo chefe do escritório da CIA no Paquistão.

     O coronel Razak deu as costas para a varanda. Os três prisioneiros foram algemados e encapuzados. Uma escolta armada iria retirá-los dali; aquele era um território fundo. A rua tribal não ficaria do lado dele. Depois que os prisioneiros e o corpo tivessem sido retirados, ele passaria horas vasculhando o apartamento em busca de cada pista possível sobre o homem com o celular rastreado.

     Brian O'Dowd fora instruído a aguardar na escadaria durante o ataque. Agora ele estava no quarto segurando o laptop Toshiba danificado. Ambos sabiam que certamente este era o grande prêmio. Cada passaporte, celular e pedaço de papel, por mais insignificante que parecesse, juntamente com todos os prisioneiros e vizinhos, seriam levados para um lugar seguro e esmiuçados. Mas primeiro o laptop...

     O egípcio morto fora otimista. Pensara que amassando o gabinete do Toshiba destruiria seu conteúdo precioso. Nem mesmo a tentativa de apagar os arquivos teria funcionado. A Inglaterra e os Estados Unidos possuíam técnicos com poderes mágicos, que iriam desnudar o drive até recuperar cada palavra que o Toshiba havia ingerido.

     — Que pena termos perdido o Sei-Lá-Quem — disse o agente do SIS.

     Razak grunhiu. Sua escolha fora lógica. Se tivesse aguardado alguns dias, o homem poderia ter desaparecido. Se tivesse passado horas espionando o prédio, seus agentes teriam sido identificados. Assim, optara por um assalto violento e rápido, e se tivesse disposto de mais cinco segundos, teria algemado o suicida misterioso. Ele iria preparar um pronunciamento público, afirmando que um criminoso desconhecido morrera numa queda enquanto resistia à prisão. Até que o corpo fosse identificado. Caso se descobrisse que o indivíduo era um figurão da al-Qaeda, os americanos iriam insistir em proclamar o triunfo numa conferência de imprensa com toda pompa e circunstância. Ele ainda não tinha a menor idéia do quão elevada era a posição ocupada por Tewfik Al-Qur na hierarquia da al-Qaeda.

     — Fique um pouco aqui embaixo — disse O'Dowd. — Posso lhe fazer o favor de providenciar para que o laptop seja levado em segurança para o seu QG?

     Felizmente, Abdul Razak possuía um humor seco. Em sua linha de trabalho, isso era um refresco. No mundo da espionagem, o humor era a única qualidade capaz de salvar um homem da loucura. A palavra que ele achara engraçada fora segurança .

     — Seria muita gentileza da sua parte — disse Razak. — Vou lhe dar uma escolta de quatro homens de volta até o seu veículo. Só por precaução. Quando isso tudo tiver acabado, iremos dividir a garrafa de pura perdição que você trouxe.

     Apertando a carga preciosa contra o peito, cercado pelos quatro lados por soldados paquistaneses, o homem do SIS foi conduzido de volta até seu Land Cruiser. A tecnologia da qual ele necessitava já estava a bordo, protegendo maquinaria e veículo: seu motorista, um membro da tribo sikh que lhe era extremamente leal.

     Seguiram até um lugar nas cercanias de Peshawar, onde O'Dowd conectou o Toshiba ao seu laptop Tecra, maior e mais poderoso. O computador abriu uma janela no ciberespaço até o QG de Comunicações do governo britânico em Cheltenham, Inglaterra, em meio às colinas Cotswold,

     Embora soubesse como operá-la, O'Dowd ainda ficava atônito com a magia fascinante (para um leigo) da cibertecnologia. Em poucos segundos, a milhares de quilômetros de distância, Cheltenham copiava todo o conteúdo do disco rígido do Toshiba. Ele estripara o laptop com a mesma eficácia com que uma aranha sorve o suco de uma mosca capturada.

     O chefe de seção levou o computador até o quartel-general da CAT e entregou-o em mãos confiáveis. Antes de chegar ao prédio da agência paquistanesa de antiterrorismo, Cheltenham já compartilhara o tesouro com a NSA (Agência de Segurança Nacional) em Forte Meade, Maryland. Era plena madrugada em Peshawar, início da noite em Cotswold e meio da tarde em Maryland. Não importava. No QG da NSA e da agência britânica, o sol jamais brilha; não existe dia ou noite.

     Nos dois imensos complexos de prédios, instalados na zona rural, a escuta estende-se de pólo norte a pólo sul, e a todos os pontos intermediários. Os trilhões de palavras proferidos pela raça humana todos os dias nas 500 línguas e mais de mil dialetos são ouvidos, selecionados, classificados, rejeitados, retidos e, quando interessantes, estudados e rastreados.

     E isso é apenas o começo. As duas agências codificam e decodificam centenas de linguagens de códigos, e cada uma mantém departamentos dedicados a recuperar arquivos e investigar crimes por computador, Enquanto o planeta girava para mais um dia e mais uma noite, as agências começaram a derrubar todas as medidas tomadas por Al-Qur para obliterar seus arquivos pessoais.

     Alguém já comparou o processo ao de um hábil restaurador de pinturas. Com cuidado imenso, as camadas externas de verniz ou tinta posterior são descoladas da tela original para exibir a obra de arte oculta. O Toshiba do Sr. Al-Qur começou a revelar documentos e mais documentos que ele julgara ter apagado ou ocultado.

     Obviamente, Brian O'Dowd alertara seu próprio colega e superior, o chefe de seção em Islamabad, antes mesmo de acompanhar o coronel Razak na ação. O integrante do SIS informara seu primo, o chefe de seção da CIA. Os dois homens estavam aguardando avidamente notícias. Em Peshawar, ninguém estava dormindo.

     À meia-noite o coronel Razak voltou do bazar com o tesouro guardado em várias bolsas. Os três guarda-costas sobreviventes estavam presos em celas no porão do prédio de Razak. Ele jamais teria confiado esses homens a uma prisão comum, onde certamente conseguiriam auxílio para fuga ou suicídio. Islamabad agora tinha seus nomes, e sem dúvida estava regateando com a Embaixada dos Estados Unidos, que abrigava a seção da CIA. O coronel suspeitava que acabariam em Bagram, onde seriam interrogados durante meses, embora achasse que eles nem soubessem o nome do homem a quem haviam servido como guarda-costas.

     O celular proveniente de Leeds, Inglaterra, fora achado e identificado. Pouco a pouco, estava ficando claro que o estúpido Abdelahi apenas tinha-o tomado emprestado sem permissão. Estava sobre uma mesa do necrotério com quatro balas no peito, mas com o rosto intocado. O corpo vizinho tivera o rosto quase destruído na queda, mas o melhor cirurgião facial da cidade estava tentando recompô-lo. Depois que tivesse feito o melhor possível, uma foto seria tirada. Uma hora mais tarde, o coronel Razak telefonou para O'Dowd. Mal conseguia ocultar sua empolgação. Como todas as agências de antiterrorismo operando em colaboração na luta contra grupos terroristas islâmicos, o CAT do Paquistão mantém uma imensa galeria de fotos de suspeitos.

     O fato de o Paquistão ficar muito longe do Egito não significa nada. Os terroristas da al-Qaeda provêm de pelo menos 40 nacionalidades e o dobro desse número de grupos étnicos. E eles viajam. Razak passara a noite em seu escritório, olhando a galeria de fotos no grande monitor de plasma de seu computador. E sempre voltava a um rosto.

     A julgar pelos passaportes apreendidos, 11 no total, todos falsificados com qualidade extraordinária, o egípcio estivera viajando, e para isso ele nitidamente modificara sua aparência. E mesmo assim, o rosto daquele homem que poderia entrar num banco ocidental sem chamar a atenção, mas que era possuído por ódio a tudo e a todos que não pertencessem à sua fé distorcida, parecia ter algo em comum com a cabeça estraçalhada na mesa de mármore.

     Ao telefonar para O'Dowd, Razak pegou-o durante o café-da-manhã, que ele estava compartilhando com seu colega da CIA americana em Peshawar. Ambos largaram seus ovos mexidos e correram até o quartel-general do CAT. Eles também olharam para o rosto e compararam-no com a fotografia do necrotério. Será que era verdade? E os dois tinham uma prioridade: contar ao Escritório Central a descoberta extraordinária de que o corpo na mesa de mármore era ninguém menos que Tewfik Al-Qur, o tesoureiro-chefe da al-Qaeda.

     No meio da manhã um helicóptero do Exército paquistanês chegou para levar tudo. Os prisioneiros, acorrentados e encapuzados; dois cadáveres; e as caixas de provas recolhidas no apartamento. Felizmente elas eram profusas, mas Peshawar é apenas um posto avançado; o centro de gravidade estava se movendo e rápido. Na verdade, já chegara a Maryland.

     Em meio às conseqüências da tragédia agora conhecida simplesmente como 11 de Setembro, uma coisa ficou clara, uma coisa que ninguém poderia negar seriamente. A evidência de que não apenas alguma coisa estava em andamento, mas fosse o que fosse, estava em andamento havia muito tempo. E como é de praxe no ramo da inteligência, os indícios não estavam reunidos num belo embrulho de presente, mas esmigalhados e espalhados por toda parte. Sete ou oito das 19 principais agências de inteligência ou segurança tinham os pedacinhos. Mas elas jamais falavam umas com as outras.

     Desde o 11 de Setembro ocorrera uma mudança drástica. Agora existem seis dirigentes, para quem tudo deveria ser revelado num estágio inicial. Quatro são políticos: o presidente, o vice-presidente e os secretários de Defesa e Estado. Os dois profissionais são o presidente do NSC (Conselho de Segurança Nacional), Steve Hadley, supervisionando o DHS (Departamento de Segurança Interna) e as 19 agências. E, no topo da lista, o diretor da Inteligência Nacional, John Negroponte.

     A CIA ainda é o principal órgão de inteligência fora dos Estados Unidos, porém o diretor da agência não é mais um pistoleiro solitário. Todos reportam para cima, e as três palavras de ordem são: combinar, combinar e combinar. Entre os gigantes, a NSA ainda é a maior, em orçamento e pessoal, e a mais secreta. Ela não mantém qualquer canal de comunicação com o público ou com a mídia. Opera no escuro, mas escuta, decodifica, traduz e analisa tudo. Mas parte do material escutado, gravado, baixado da rede, traduzido e estudado é tão impenetrável que a agência também emprega os serviços de comitês especializados de fora da casa. Um desses é o Comitê Corão.

     Enquanto o tesouro de Peshawar chegava, eletrônica ou fisicamente, outras agências também arregaçavam as mangas para trabalhar. Identificar o morto era vital, e a tarefa foi designada ao FBI. Vinte e quatro horas depois, o FBI reportou que era certo. O homem que pulara da varanda em Peshawar realmente era o principal arrecadador de finanças para a al-Qaeda, e um dos raros amigos íntimos do próprio Laden. A conexão fora feita através de Ayman Al-Zawahiri, seu colega egípcio. Fora ele quem localizara e perseguira o banqueiro fanático.

     O Departamento de Estado pegou os passaportes. Eles eram num surpreendente número de onze. Dois jamais tinham sido usados, mas estavam cobertos de vistos de entrada e saída por toda a Europa e o Oriente Médio. Ninguém ficou surpreso ao ver que seis eram belgas, todos com nomes diferentes e absolutamente genuínos, exceto pelos detalhes que apresentavam.

     A comunidade mundial de inteligência conhecia a Bélgica como um balde furado. Desde 1990, um número atordoante de 19 mil passaportes belgas em branco vinha sendo declarado roubado, isso segundo o próprio governo belga. Na verdade, foram simplesmente vendidos por funcionários públicos. Alguns tinham sido recuperados. Quarenta e cinco pelo consulado belga em Estrasburgo, França, e 20 pela embaixada belga em Haia, Holanda. Os dois usados pelos assassinos marroquinos do combatente da resistência anti-Talibã Ahmad Shah Massoud pertenciam ao último conjunto. E também um dos seis usados por Al-Qur. Os outros cinco deviam pertencer aos 18.935 ainda desaparecidos.

     A FAA (Administração Federal de Aviação) americana, usando seus contatos e imensa influência no mundo da aviação internacional, verificou as passagens de avião e as listas de passageiros. Era cansativo, mas os vistos de entrada e saída apontavam os vôos a serem checados.

     Lenta mas precisamente, as peças começaram a se encaixar. Tudo indicava que Tewfik Al-Qur fora incumbido de arrecadar grandes somas de dinheiro não rastreável para fazer compras não explicadas. Não havia nenhuma prova de que ele tivesse feito alguma pessoalmente, de modo que a única dedução lógica era que ele tinha passado esses fundos para terceiros, e estes fariam as compras. As autoridades americanas teriam dado qualquer coisa para saber com exatidão com quem Al-Qur havia se encontrado. Os nomes provavelmente revelariam toda uma rede de terrorismo através da Europa e do Oriente Médio. O único alvo notável que o egípcio não visitara foram os Estados Unidos.

     Foi finalmente em Forte Meade que o trem de revelações chegou à estação. Setenta e três documentos tinham sido recuperados do Toshiba encontrado no apartamento em Peshawar. Alguns eram simples horários de linhas aéreas, e não se sabia quais dos vôos listados neles Al-Qur realmente tomara. Outros eram relatórios financeiros de domínio público que aparentemente haviam interessado ao financista, que os marcou para leitura posterior. Mas eles não ofereciam nenhuma pista.

     A maior parte dos documentos estava em inglês, alguns em francês ou alemão. Sabia-se que Al-Qur falava as três línguas com fluência, além do árabe nativo. Os guarda-costas capturados, que estavam cantando animadamente na base Bagram, tinham revelado que o homem falava um pouco de pashto, indicando que ele devia ter passado algum tempo no Afeganistão, embora o Ocidente não tivesse nenhuma pista a respeito de quando ou onde.

     Foram os textos árabes que causaram a inquietação. Constituindo-se basicamente de uma enorme base do Exército, Forte Meade está sob a liderança do Departamento de Defesa. O oficial comandante da NSA é sempre um general de quatro estrelas. Foi no gabinete deste soldado que o chefe do Departamento de Traduções Árabes requisitou uma entrevista.

     A atenção dedicada pela NSA ao idioma árabe já era grande durante os anos 1990, quando o terrorismo islâmico, a despeito do interesse constante evocado pela situação Israel-Palestina, começou a crescer. Expandiu subitamente com o atentado de Ramsi Yousef ao World Trade Center com um caminhão-bomba em 1993. Mas depois do 11 de Setembro a ordem passou a ser: Queremos conhecer cada palavra existente nessa língua. Assim, o Departamento de Traduções Árabes hoje é imenso e envolve milhares de tradutores, em sua maioria árabes por nascimento e educação, com um punhado de intelectuais não-árabes.

     O árabe não é apenas um idioma. Além do árabe clássico do Corão e dos meios acadêmicos, ele é falado por meio bilhão de pessoas, com pelo menos 50 dialetos e sotaques diferentes. Quando a pessoa fala rápido e apresenta sotaque, com acento local, e a qualidade da gravação é ruim, geralmente é necessário um tradutor da mesma área para captar cada significado e nuance.

     A língua árabe é bastante floreada, e utiliza muitas imagens, lisonjas, exageros, símiles e metáforas. Além disso, é elíptica, com significados mais insinuados que abertamente ditos. É completamente diferente do inglês.

     — Estamos trabalhando nos dois últimos documentos — disse o chefe do Departamento de Traduções Árabes. — Parecem ter sido escritos por pessoas diferentes. Acreditamos que um foi redigido pelo próprio Ayman Al-Zawahiri, e o outro por Al-Qur. O primeiro parece possuir uma fraseologia característica de Zawahiri, conforme vimos em seus discursos e vídeos. É claro que, com áudio, podemos ter cem por cento de certeza. A resposta parece ser de Al-Qur, mas não temos nenhum texto registrado da forma como ele escreve em árabe. Como banqueiro, ele falava e escrevia principalmente em inglês. Mas ambos os documentos possuem referências repetidas ao Corão e a passagens dele. Estão citando as bênçãos de Alá a alguma coisa. Tenho muitos especialistas em árabe, mas a linguagem e os significados sutis do Corão são especiais. Foram escritos há 400 anos. Acho que devemos convocar o Comitê Corão para dar uma olhada.

     O comandante-geral concordou com a cabeça.

     — Certo, professor, farei isso. — Ele olhou para seu ajudante-de-ordens. — Chame os nossos especialistas em Corão, Harry. Mande eles virem. Sem atrasos nem desculpas.   

    

     HAVIA QUATRO HOMENS NO COMITÊ CORÂO: TRÊS AMERICANOS E um acadêmico britânico. Todos eram professores, nenhum deles era árabe, mas cada um dedicara a vida inteira ao estudo do Corão e de milhares de obras e artigos científicos sobre esse livro sagrado.

     Um era professor da Columbia University, em Nova York; seguindo ordens de Forte Meade, um helicóptero militar foi despachado para levá-lo até a NSA. Dois pertenciam respectivamente à Rand Corporation e ao Instituto Brookings, ambos em Washington. Carros do Exército foram enviados para buscá-los.

     O quarto e mais jovem era o Dr. Terry Martin, transferido temporariamente da Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS), em Londres, para a Georgetown University, em Washington. Pertencente à London University, a SOAS desfruta de reputação mundial por seu ensino da língua árabe.

     Em termos de estudo de assuntos árabes, o inglês tivera um bom começo. Nascera e fora criado no Iraque, filho de uma contadora com um grande executivo de uma companhia petrolífera. Seu pai não o enviara para a escola anglo-americana, preferindo uma academia particular que ensinava os filhos da elite da sociedade iraquiana. Aos 10 anos, ele podia, ao menos em termos lingüísticos, passar-se por um menino árabe. Apenas o rosto corado e os cabelos ruivos impediam-no de parecer realmente um árabe.

     Nascido em 1965, o menino estava com 11 anos quando o Sr. Martin decidiu sair do Iraque e retornar para a segurança do Reino Unido. O partido Baath estava de volta ao poder, que verdadeiramente não provinha do presidente Bakr, e sim de seu vice-presidente, que promovia um extermínio cruel dos inimigos políticos, reais e imaginários.

     Os Martin já haviam vivido tempos turbulentos nos anos 1950, quando o rei-menino Feisal estava no trono. Tinham visto o massacre do jovem rei e de seu premiê pró-ocidental, Nuri Said, o assassinato igualmente sanguinolento transmitido pela televisão de seu sucessor, o general Kassem, e o aparecimento do também brutal partido Baath. Esse, por sua vez, fora derrubado, para retomar ao poder em 1968. Durante sete anos, o Sr. Martin observou o poder crescente do psicótico vice-presidente Saddam Hussein. Em 1975, ele decidiu que era hora de partir.

     Seu filho mais velho, Mike, estava com 13 anos e pronto para estudar num internato britânico, Ele obtivera um bom cargo na Burmah, em Londres, indicado por um certo Denis Thatcher, cuja esposa Margaret acabara de se tornar líder do partido Conservador. No Natal, todos os quatro — o pai, a Sra. Martin, Mike e Terry — estavam de volta ao Reino Unido.

     O cérebro brilhante de Terry já havia sido notado. Passara em provas para alunos dois ou até três anos mais velhos com a mesma facilidade com que uma faca atravessa a manteiga. Presumia-se, como quase se tornou verdade, que uma série de bolsas de estudo iria atraí-lo para Oxford ou Cambridge. Mas ele queria estudos em árabe. Enquanto ainda estava na escola, inscrevera-se na SOAS, comparecendo à entrevista na primavera de 1983. Aprovado, matriculou-se no outono do mesmo ano, estudando História do Oriente Médio.

     Formou-se com honras em três anos, e estudou mais para obter o doutorado, especializando-se no Corão e nos primeiros quatro Califados. Tirou um ano sabático para prosseguir seus estudos do Corão no famoso Instituto Al Azhar, no Cairo. Ao voltar, com apenas 27 anos recebeu um convite para ministrar aulas, uma honra, considerando a dificuldade da língua árabe e o fato de a SOAS ser uma das escolas mais severas do mundo. Aos 34 anos foi promovido a professor assistente, já preparado para chegar a professor-emérito aos 40. Tinha 41 anos na tarde em que a NSA veio pedir sua ajuda. Estava passando um ano como professor visitante em Georgetown, porque naquela mesma primavera de 2006 sua vida havia sido estraçalhada.

     O emissário de Forte Meade encontrou-o num auditório concluindo uma palestra sobre os relevantes ensinamentos do Corão à era contemporânea.

     Podia-se ver, da coxia, que os alunos gostavam dele. O auditório estava lotado. Ele fazia com que suas palestras tivessem o sabor de uma conversa longa e civilizada entre iguais. Raramente consultando notas, ficava andando de um lado para o outro sem paletó, o corpo baixo e gorducho irradiando entusiasmo. Falava em linguagem leiga, procurando encurtar ao máximo a palestra para ter tempo de responder às perguntas dos alunos com calma e seriedade. Estava nesse ponto quando o agente de Forte Meade apareceu na coxia.

     Um rapaz de camisa vermelha, na quinta fila, levantou uma das mãos.

     — O senhor disse que discorda do termo fundamentalista para se referir à filosofia dos terroristas. Por quê?

     Devido a toda publicidade recebida pelas questões árabes, islâmicas e corânicas nos Estados Unidos desde o 11 de Setembro, as perguntas variavam da erudição teórica a questões contemporâneas.

     — Porque o termo é incorreto — disse o professor. — O termo implica de volta ao básico. Mas aqueles que colocam bombas em trens, shopping centers e ônibus não estão voltando ao básico do islã. Estão escrevendo um roteiro novo e, então argumentando retroativamente, tentando achar passagens corânicas que justifiquem sua guerra. Existem fundamentalistas em todas as religiões. Monges cristãos que se isolam em mosteiros e fazem votos de pobreza, castidade e obediência. Essas pessoas são fundamentalistas. Ascetas existem em todas as religiões, mas eles não advogam assassinatos em massa de homens, mulheres e crianças. Analise atentamente todas as religiões e seitas. Verá que elas querem retornar aos ensinamentos básicos. E esses não incluem terrorismo, porque nenhuma religião, incluindo o islã, possui mandamentos que defendam assassinato em massa.

     Na coxia, o homem de Forte Meade tentou atrair a atenção do Dr. Martin. O professor olhou de lado e notou o rapaz de cabelos bem cortados e terno escuro. Todo o seu corpo parecia exalar a palavra governo. Apontou para o relógio em seu pulso. Martin assentiu com a cabeça.

     — Então, como você chamaria os terroristas de hoje? Jihadistas?

     A pergunta veio de uma jovem sentada mais ao fundo. A julgar por seu rosto, o Dr. Martin achou que seus pais provinham do Oriente Médio: Índia, Paquistão, talvez Irã. Mas não usava na cabeça o véu hejab que a indicaria como muçulmana devota.

     — Até jihad é uma palavra errada. Ê claro que o jihad existe, mas ele possui regras. Cada jihad é um combate de um indivíduo consigo próprio para se tornar um muçulmano melhor, mas nesse caso é completamente não-agressivo. Ou pode significar guerra santa, conflito armado em defesa do islã. É isso que os terroristas alegam que fazem. Mas eles escolheram apagar as regras do texto. Por exemplo, o verdadeiro jihad só pode ser declarado por uma autoridade corânica legítima de reputação provada e aceita. Bin Laden e seus acólitos são famosos pela falta de estudo acadêmico. Mesmo se o Ocidente houvesse atacado, ferido, humilhado e menosprezado o islã e portanto todos os muçulmanos, ainda haveria regras e o Corão é absolutamente específico quanto a elas. É proibido atacar e matar aqueles que não ofenderam nem feriram você. É proibido matar mulheres e crianças. É proibido tomar reféns e é proibido maltratar, torturar ou matar prisioneiros. Os terroristas da al-Qaeda e seus seguidores fazem as quatro coisas de forma regular. E não podemos nos esquecer de que eles mataram muito mais companheiros muçulmanos que cristãos ou judeus.

     — Mas, então, como o senhor chama a campanha deles? O homem na coxia estava ficando agitado. Um general dera-lhe uma ordem. Não queria ser o último a se apresentar de volta.

     — Eu a denomino de Novo Jihad, porque eles inventaram uma guerra não-santa fora das leis do Sagrado Corão e, portanto, do verdadeiro islã. O verdadeiro jihad não é selvagem, mas aquilo que esses homens praticam é. Só posso responder a mais uma pergunta, lamento informar.

     Livros e cadernos começaram a ser guardados, uma movimentação que marcava o fim da sessão. A mão de alguém se levantou numas das fileiras da frente. Sardas, camisa branca de um grupo de rock estudantil.

     — Todos os homens-bomba alegam ser mártires. Como eles justificam isso?

     — Mal — disse o Dr. Martin. — Porque foram enganados, por mais bem instruídos que sejam alguns deles. É perfeitamente viável morrer como um shahid, ou seja, um mártir, lutando pelo islã num jihad verdadeiramente declarado. Mas novamente existem regras, e elas são muito específicas no Corão. O guerreiro não deve morrer por sua própria mão, embora ele tenha se apresentado como voluntário para uma missão sem volta. Ele não pode conhecer o momento e o lugar da própria morte. É exatamente isso que os suicidas fazem. E o suicídio é especificamente proibido. Quando vivo, Maomé recusou-se terminantemente a abençoar o cadáver de um suicida, ainda que o homem tenha terminado a própria vida para evitar a agonia debilitante de sua doença. Aqueles que cometem assassinato em massa de inocentes seguido pelo suicídio não estão destinados ao paraíso, mas ao inferno. Os falsos pregadores e infames que os iludiram a tomar essa trilha irão se juntar a eles lá. E agora, temo dizer, precisamos retornar ao mundo de Georgetown e dos hambúrgueres. Obrigado pela atenção.

     A platéia aplaudiu de pé. Envergonhado, o professor pegou o paletó e caminhou até a coxia.

     — Perdão por interrompê-lo, professor — disse o homem de Forte Meade. — Mas o general precisa do Comitê Corão lá no Forte. O carro está à sua espera.

     — Estamos com pressa?

     — É para ontem, senhor. Caráter emergencial, senhor.

     — Faz alguma idéia do que seja? — indagou Martin.

     — Não, senhor.

     Obviamente. A necessidade de saber. A regra inquebrantá-vel. Se você não precisa saber, faça seu trabalho, eles não vão lhe contar. A curiosidade de Martin teria de esperar. O carro era o seda escuro de sempre, com a antena no teto. O veículo precisava estar em contato permanente com a base. O motorista era um cabo. Embora Forte Meade seja uma base do Exército, o homem estava à paisana. Também não havia necessidade de fazer publicidade.

     O motorista abriu a porta do carro para o Dr. Martin, que sentou no banco de trás. Sua escolta ocupou o assento do passageiro e o carro começou a seguir até a rodovia Baltimore.

    

     Muito a leste dali, o homem que estava convertendo o celeiro em um retiro para sua aposentadoria sentou ao lado da fogueira em sua horta. Sentia-se perfeitamente feliz daquele jeito. Se podia dormir em rochas e montes de neve, certamente podia dormir na grama macia debaixo das macieiras.

     Combustível para fogueira de acampamento não era problema. Ele tinha tábuas de madeira apodrecida suficientes para toda uma vida. A chaleira chiava em cima das brasas enquanto ele preparava uma caneca de chá fumegante e muitíssimo bem-vinda. Bebidas sofisticadas tinham seu tempo e lugar, mas depois de um dia de trabalho duro, a recompensa de um soldado é uma caneca de chá quente.

     Na verdade, ele havia tirado uma tarde de folga da tarefa no telhado e caminhara até Meonstoke para visitar o mercado e comprar provisões para o fim de semana.

     Era claro que todos sabiam que ele havia comprado o celeiro e que estava tentando restaurá-lo sozinho. Isso era bom. Londrinos ricos que gostam de exibir seu talão de cheques e querem bancar o senhor feudal são tratados com educação pela frente, mas com desprezo pelas costas. Mas os aldeões consideravam o solteiro de cabelos negros, que morava numa tenda em sua horta e fazia todo o trabalho braçal sozinho, um bom sujeito.

     Segundo o carteiro, ele recebia poucas cartas, exceto por alguns envelopes de aparência oficial, que ele pedia que fossem entregues na taverna Bucks Head para poupar o entregador de uma caminhada longa pela trilha enlameada; gesto muito apreciado pelo carteiro. As cartas eram endereçadas ao coronel , mas ele jamais mencionava isso, nem mesmo quando tomava uma bebida no bar ou comprava jornal ou comida no mercado. Apenas sorria e agia com muita educação. O apreço crescente dos moradores locais pelo homem era regado com uma gota de curiosidade. A maioria dos estrangeiros era agitada e tagarela. Quem era ele, de onde viera e por que escolhera acomodar-se em Meonstoke?

     Naquela tarde, em seu passeio pela cidadezinha, ele visitara a antiga igreja de St. Andrew e encontrara e conversara com o pastor, o reverendo Jim Foley.

     O ex-soldado estava começando a achar que apreciaria a vida em qualquer lugar que tivesse decidido assentar. Ele podia pedalar sua velha mountain bike até Droxford pela estrada de Southampton, para comprar comida direto da horta na feira de produtores. Podia explorar a miríade de estradas que avistava de seu telhado e provar cerveja nos velhos pubs que elas revelariam.

     Mas dentro de dois dias, ele teria de comparecer à missa matutina na penumbra silenciosa das pedras antigas de St. Andrew, e rezaria, como fazia com freqüência.

     Rogaria perdão ao Deus no qual acreditava devotadamente. Perdão por todos os homens que matara e descanso para suas almas. Pediria por descanso eterno para todos os companheiros que tinham morrido ao seu lado. E então agradeceria por jamais ter matado mulheres ou crianças, nem ninguém de paz, e rezaria para um dia ser perdoado por seus pecados e entrar no Reino dos Céus.

     Então voltaria para a encosta da colina e retomaria seu trabalho. Agora restavam apenas mais mil telhas.

    

     Por maior que seja, o complexo de edifícios da NSA ocupa apenas uma pequena fração de Forte Meade, uma das maiores bases militares nos Estados Unidos. Situado seis quilômetros a leste da Interstate 95, e a meio caminho entre Washington e Baltimore, o Forte Meade é o lar de cerca de 10 mil militares e 25 mil funcionários civis. É uma cidade com vida própria, que possui todos os recursos básicos para sua manutenção. A parte secreta fica dentro de uma zona de segurança muitíssimo bem protegida, a qual o Dr. Martin jamais visitara.

     O carro que o levava trespassou a base como uma flecha, sem que ninguém o detivesse até que chegasse à zona de segurança. No portão principal, passes foram verificados e rostos examinados através das janelas do veículo enquanto seu guia responsabilizava-se pelo professor. Menos de um quilômetro depois, o carro parou diante da porta lateral de um prédio imenso, e o Dr. Martin e sua escolta entraram. Havia ali uma mesa guardada por militares. Mais checagens; alguns telefonemas; polegares espremidos contra sensores; reconhecimento de íris; admissão final.

     Depois do que pareceu mais uma maratona através de corredores, chegaram a uma porta anônima. A escolta bateu e eles entraram. Martin descobriu-se finalmente diante de rostos conhecidos e reconheceu amigos, colegas e alguns integrantes do Comitê Corão.

     Como muitas salas de conferência do serviço governamental, aquela era anônima e funcional. Não havia janelas, mas o ar refrigerado mantinha o ambiente fresco. Uma mesa circular e cadeiras acolchoadas de encosto alto. Numa das paredes tinha uma tela, presumivelmente para o caso de exibições e gráficos serem necessários. Mesas laterais com bules de café e bandejas de comida para o insaciável estômago americano.

     Os anfitriões eram claramente dois oficiais não-acadêmicos do serviço de inteligência, que se apresentaram com cortesia. Um era o vice-diretor da NSA, enviado pelo próprio general. O outro, um oficial sênior, da Segurança Interna em Washington.

     E havia os quatro acadêmicos, o Dr. Martin incluído. Todos conheciam uns aos outros. Antes de concordar em participar daquele comitê secreto baseado em suas especialidades em um livro e uma religião, eles haviam conhecido indiretamente uns aos outros através de seus artigos publicados, e pessoalmente por meio de seminários, palestras e conferências. O mundo do estudo profundo do Corão não é grande.

     Terry Martin cumprimentou os doutores Ludwig Schramme da Columbia, Nova York; Ben Jolley, da Rand, e Harry Harrison, do Brookings, que decerto possuía outro nome de batismo, mas que sempre fora conhecido como Harry. O mais velho e, provavelmente, mais experiente, era Ben Jolley, um homem grande e barbudo que logo — a despeito do olhar reprovador do vice-diretor — sacou um cachimbo de raiz de árvore, o qual, ao ser aceso, esfumaçou como uma fogueira de acampamento. Acima de suas cabeças, a tecnologia de extração de fumaça da Westinghouse esforçou-se ao máximo para purificar o ambiente, mas não conseguiu.

     O vice-diretor foi direto ao assunto. Distribuiu aos acadêmicos cópias de dois documentos, cada um numa pasta. Eram os originais em árabe resgatados do laptop do tesoureiro da al-Qaeda, e as traduções realizadas pelo Departamento Árabe. Os quatro homens preferiram ler as versões originais, o que fizeram em silêncio. O Dr. Jolley fumando seu cachimbo; o homem da Segurança Interna franzindo o nariz. Os quatro terminaram quase ao mesmo tempo.

     Em seguida leram as traduções inglesas para ver o que tinham deixado de entender e por quê. Jolley levantou os olhos para os dois oficiais de inteligência.

     — Bem?

     — Bem... o quê, professor?

     — Qual foi o problema que nos trouxe aqui? — indagou o arabista.

     O vice-diretor apontou para uma parte da tradução para a língua inglesa.

     — O problema é este. Aqui. O que isso significa? Sobre o que eles estão falando?

     Todos os quatro haviam visto a referência corânica no texto em árabe. Não tinham precisado de tradução. Cada um deles vira a frase muitas vezes, e estudara todos os diversos significados possíveis. Mas isso em textos eruditos. A citação estava em letras modernas. Três referências em uma das letras, uma referência separada da outra.

     — Al-Isra? Deve ser algum tipo de código. Refere-se a um episódio na vida do profeta Maomé.

     — Então perdoe nossa ignorância — disse o homem da Segurança Interna. — O que é Al-Isra?

     — Explique você, Terry — disse o Dr. Jolley.

     — Bem, cavalheiros, a citação se refere a uma revelação na vida do profeta — disse Terry Martin. — Até hoje os pesquisadores debatem se ele vivenciou um milagre divino genuíno ou se fez uma viagem astral. Resumindo, certa noite, um ano antes de emigrar de Meca, sua cidade natal, até Medina, Maomé teve um sonho. Ou uma alucinação. Ou um milagre divino. Para simplificar as coisas, daqui em diante vou me referir à experiência apenas como um sonho. Em seu sonho, Maomé foi transportado das profundezas da moderna Arábia Saudita através de desertos e montanhas até a cidade de Jerusalém, até então uma cidade sagrada apenas para cristãos e judeus.

     — Quando? Em nosso calendário?

     — Cerca de 622 a.C.

     — O que aconteceu, então?

     — Ele achou um cavalo selado, um cavalo com asas. Deveria montar nele. O cavalo voou para o céu, e o profeta se encontrou com Deus em pessoa. Deus instruiu Maomé sobre todos os rituais de oração que um Crente Verdadeiro deveria realizar. Ele decorou os rituais. Mais tarde, ditou-os a um escriba da forma como se tornaram parte integral do 6666. Esses versículos tornaram-se, e permanecem até hoje, a base do islã.

     Os outros três professores assentiram, concordando.

     — E eles acreditam nisso? — perguntou o vice-diretor.

     — Não vamos agir com superioridade — Harry Harrison interrompeu-os bruscamente. — No Novo Testamento é dito que Jesus Cristo fez jejum de 40 dias e 40 noites e então se encontrou com o Diabo em pessoa. Depois desse período sozinho e sem qualquer comida, um homem certamente teria uma alucinação. Mas os Crentes Verdadeiros do cristianismo não podem duvidar disso, porque está na Escritura Sagrada.

     — Tudo bem. Aceitem minhas desculpas. Então Al-Isra é o encontro com o arcanjo?

     — De forma alguma — disse Jolley. — Al-Isra é a jornada propriamente dita, uma jornada mágica. Uma jornada divina, empreendida sob as instruções do próprio Alá.

     O Dr. Schramme interveio:

     — É conhecida como a jornada pelas trevas até a grande iluminação...

     Estava citando um comentário antigo. Os três demais pesquisadores conheciam a citação e concordaram.

     — Então, o que um muçulmano moderno e um agente de alto escalão da al-Qaeda quiseram dizer com isso?

     Foi a primeira vez que os acadêmicos receberam um indício sobre a fonte dos documentos. Não uma interceptação, mas uma captura.

     — A mensagem era bem guardada? — perguntou Harrison.

     — Dois homens morreram tentando nos impedir de vê-la.

     — Ah, bem, sim. Compreensível. — O Dr. Jolley estava estudando seu cachimbo com grande atenção. Os outros três baixaram os olhos. — Creio que seja uma referência a algum tipo de projeto, alguma operação. E não uma pequena.

     — Alguma coisa grande? — perguntou o homem da Segurança Interna.

     — Senhores, os muçulmanos, principalmente os fanáticos, encaram com muita seriedade o Al-Isra, Para eles, foi algo que mudou o mundo. Se conferiram o nome Al-Isra a alguma coisa, é porque se trata de um projeto de grande impacto.

     — E alguma indicação sobre o que possa ser?

     O Dr, Jolley correu os olhos pela mesa. Seus três colegas deram com os ombros.

     — Nenhuma indicação. Ambos os redatores clamam bênçãos divinas ao seu projeto, e é tudo. Dito isso, acho que posso falar por todos nós ao sugerir que vocês descubram a que eles estão se referindo. Jamais dariam um nome como Al-Isra a uma bomba numa mochila ou à destruição de um clube noturno ou um ônibus.

     Ninguém fazia anotações. Não era preciso. Cada palavra estava sendo gravada. Este, afinal de contas, era o prédio conhecido no ramo como O Palácio Quebra-Cabeças .

     Dentro de uma hora, os profissionais de inteligência receberiam transcrições da conversa e virariam a noite preparando um relatório conjunto. Este sairia do prédio antes do amanhecer, lacrado e protegido por guardas armados, e então subiria. Subiria muito. Subiria tanto quanto é possível subir nos EUA, que é a Casa Branca.

    

     Terry Martin voltou para Washington numa limusine, junto com Ben Jolley. Era um veículo maior do que aquele no qual ele viera, com uma divisória entre os compartimentos frontal e traseiro. Através do vidro podiam ver a cabeça de duas pessoas: a do motorista e a do jovem oficial que fazia a escolta.

     Com o cachimbo misericordiosamente guardado no bolso, o americano velho e rabugento estava olhando pensativo para a paisagem, um mar de folhas de outono arroxeadas e douradas. O britânico, mais jovem, olhava pela outra janela, também imerso em pensamentos.

     Em toda a sua vida, Terry Martin amara realmente apenas quatro pessoas, e perdera três nos últimos dez meses. No começo do ano, seus pais, que haviam tido os filhos por volta dos 30 anos, e que chegaram a mais de 70, morreram quase ao mesmo tempo. Câncer da próstata matara seu pai, e sua mãe foi vítima de coração partido. Ela escreveu uma carta comovente para cada um dos filhos, tomou um vidro inteiro de soníferos, encheu a banheira com água quente, adormeceu e então, em suas próprias palavras, foi juntar-se a papai.

     Terry Martin ficara arrasado, mas apoiara-se na força de dois homens, os outros dois que ele amara mais que a si próprio. Um fora seu parceiro por 14 anos, o corretor da Bolsa alto e bonito com quem dividira sua vida. E então, numa insana noite de março, viera um motorista bêbado dirigindo em alta velocidade, o choque do metal contra um corpo humano, o cadáver na mesa de mármore, e o terrível funeral com os conservadores pais de Gordon desaprovando seu desespero patente.

     Terry considerara seriamente pôr fim à própria vida, mas Mike, seu irmão mais velho, parecera ler seus pensamentos. Mike mudara-se por uma semana para sua casa e conversara com ele durante toda a crise. Terry idolatrava o irmão desde que os dois eram meninos no Iraque, e também durante os anos na escola britânica em Haileybury, nas cercanias da cidade-mercado de Hertford.

     Mike sempre fora o modelo para Terry. Enquanto este era pálido, gorducho, lento e cauteloso, Mike era magro, vigoroso, rápido e corajoso. Sentado na limusine rodando veloz através de Maryland, Terry permitiu que seus pensamentos retornassem àquela última partida de rúgbi contra Tonbridge, com a qual Mike pusera fim aos seus cinco anos em Haileybury.

     Quando os dois times saíram do campo, Terry estava de pé do outro lado da passagem delimitada por cordas, sorrindo. Mike estendera a mão e cofiara o cabelo dele.

     — Bem, nós conseguimos, irmão — disse ele.

     Terry sentira os joelhos tremerem quando chegou o momento de dizer ao irmão que agora ele sabia que era gay. O homem mais velho, a esta altura oficial do Regimento de Pára-quedistas e recém-chegado do combate nas ilhas Falkland, pensara durante um momento sobre o que dizer. Finalmente sorrira e citara a última fala de Joe E. Brown no filme Quanto mais quente melhor, — Bem, ninguém é perfeito.

     Daquele dia em diante, a idolatria de Terry por seu irmão mais velho não tinha limites.

    

     Em Maryland, o sol se pôs. Como Cuba está no mesmo fuso horário, também estava anoitecendo lá, e na península sudoeste conhecida como Guantánamo, um homem estendeu seu tapete de orações, virou-se para leste, ajoelhou e começou a rezar. Do lado de fora da cela, um guarda observava, impassível. Ele vira isso muitas vezes, mas suas instruções eram para nunca, jamais, relaxar sua vigília.

     O homem que orava estava na prisão, anteriormente conhecida como Raio-X, agora Campo Delta, e na base norte-americana na baía de Guantánamo, também apelidada de Gitmo, há quase cinco anos. Passara pelas brutalidades e privações iniciais sem chorar ou gritar. Tolerara inúmeras humilhações a seu corpo e fé sem emitir um som, mas quando fitara seus algozes, até eles tinham lido o ódio implacável nos olhos negros acima da barba preta, de modo que fora espancado mais ainda. Mas sua força de vontade permaneceu inabalável.

     Durante o período em que os prisioneiros são encorajados a denunciar seus companheiros em troca de favores, ele permanecera calado e não recebera um tratamento melhor. Vendo isso, outros haviam-no denunciado em troca de concessões, mas como as denúncias tinham sido completamente inventadas, ele não as havia negado ou confirmado.

     Na sala cheia de pastas mantidas pelos interrogadores como prova de sua perícia, havia muita coisa a respeito do homem que rezava naquela noite, mas quase nada confessado por ele, quando respondera educadamente a perguntas que tinham lhe sido feitas anos antes, por um dos interrogadores que tinham optado por uma abordagem humana. Era apenas graças a isso que existia um registro superficial de sua existência.

     Mas o problema ainda era o mesmo. Nenhum dos inquisidores entendia uma palavra sequer de seu idioma, de modo que sempre precisavam de intérpretes, que os acompanhavam por toda parte. Mas os intérpretes também possuíam seus próprios interesses. Como também recebiam favores em troca de revelações interessantes, tinham motivos para inventá-las.

     Depois de quatro anos, o homem que estava rezando foi taxado como não cooperativo, o que simplesmente significava inquebrantável. Em 2004, ele foi transferido para o novo Campo Eco, uma unidade de isolamento permanente, onde as celas eram menores, com paredes brancas. Exercícios eram permitidos apenas à noite. Durante um ano o homem não vira a cor do sol.

     Nenhum familiar buscara notícias suas; nenhum governo responsabilizara-se por ele; nenhum advogado defendera seu caso. Outros detentos daquele lugar tinham perdido a razão e haviam sido retirados para serem submetidos a terapia. Ele simplesmente permanecera calado, lendo o Corão. Do lado de fora, guardas eram trocados enquanto ele rezava.

     — Árabe filho-da-puta — disse o homem cujo turno estava terminando. Seu substituto meneou a cabeça negativamente.

     — Ele não é árabe. É afegão.

    

     — E então, Terry? O que acha de nosso problema?

     Ben Jolley, que acabara de emergir de seus pensamentos, estava fitando Martin do outro lado do banco traseiro da limusine.

     — Não parece coisa boa, não é mesmo? — retrucou Terry Martin. — Viu as caras dos nossos dois amigos? Sabiam que estávamos apenas confirmando o que eles haviam suspeitado, mas definitivamente não estavam felizes quando saímos.

     — Mas não há outro veredicto. Eles precisam descobrir o que é essa tal operação Al-Isra.

     — Mas como?

     — Já faz um bocado de tempo que convivo com esses agentes. Tenho prestado a melhor consultoria que posso sobre questões do Oriente Médio, desde a Guerra dos Seis Dias. Eles possuem muitos recursos: fontes internas, agentes duplos, escutas telefônicas, recuperação de dados. Além disso, o aperfeiçoamento da informática tem ajudado muito; hoje eles podem fazer em minutos cruzamentos de dados que há alguns anos levavam semanas. Acho que vão encontrar uma forma de descobrir o que é esse projeto e detê-lo. Não esqueça que aprendemos muito desde que Gary Powers foi abatido sobre Sverdlovsk, em 1960, e que uma aeronave U2 tirou aquelas fotografias dos mísseis cubanos, em 1962. Acho que você ainda não havia nascido, não é?

     Quando Terry Martin fez que não com a cabeça, riu de sua própria antigüidade.

     — Talvez eles tenham alguém dentro da al-Qaeda— sugeriu Terry.

     — Duvido muito — disse o homem mais velho. — A esta altura, uma pessoa tão bem posicionada teria nos dado a localização da sede do grupo, e nós teríamos acabado com ela usando bombas inteligentes.

     — Bem, talvez eles pudessem infiltrar alguém na al-Qaeda para descobrir essas coisas.

     Mais uma vez, o homem mais velho balançou a cabeça com total convicção.

     — Vamos, Terry, nós dois sabemos que isso é impossível. Um árabe nativo muito provavelmente mudaria de lado e passaria a operar contra nós. Quanto a um não-árabe, esqueça. Você sabe tão bem quanto eu que todas as famílias árabes têm raízes enormes, que se estendem por clãs e tribos. Uma pergunta sobre a família, e o impostor seria imediatamente desmascarado. Portanto, ele teria de dispor de um currículo impecável. Além disso, precisaria parecer e falar como um nativo e, o mais importante, representar seu personagem. Uma sílaba errada em meio àquele monte de rezas, e pronto, ele seria desmascarado pelos fanáticos. Eles são capazes de rezar cinco vezes por dia sem errar uma pausa.

     — É verdade — disse Martin, sabendo que suas hipóteses não se sustentaram, mas gostando da elucubração. — Mas um agente poderia ser capaz de ler passagens do Corão e inventar uma família impossível de ser localizada.

     — Esqueça, Terry. Nenhum ocidental pode se passar por árabe entre os árabes.

     — Meu irmão pode — disse o Dr. Martin.

     Quase no mesmo instante em que disse isso, ele sentiu vontade de morder a língua. Mas estava tudo bem. O Dr. Jolley resmungou uma coisa qualquer, esqueceu o assunto, e passou a se concentrar nos arrabaldes de Washington. Nenhuma das duas cabeças na frente, do outro lado do vidro, moveu-se um centímetro. Ele deixou escapar um suspiro de alívio. Não deveria haver microfones ligados no carro. Ele estava errado.

    

     O RELATÓRIO DE FORTE MEADE SOBRE AS DELIBERAÇÕES DO COMITÊ Corão estava pronto ao amanhecer daquele sábado, e jogou por terra vários planos para o fim de semana. Um dos prejudicados foi Marek Gumienny, vice-diretor de Operações da CIA. Na noite de sábado ele foi convocado a se apresentar imediatamente ao seu gabinete sem que lhe fosse dito o porquê.

     O porquê estava sobre sua mesa. Ainda não havia nem amanhecido em Washington, mas os primeiros indícios do sol iluminavam as colinas distantes do condado de Prince George, onde o rio Patuxent desemboca para juntar-se ao Chesapeake.

     O gabinete de Marek Gumienny é um dos poucos no sexto e último andar do prédio grande e oblongo, em meio ao emaranhado que compõe o QG da CIA, conhecido apenas como Langley. Recentemente fora rebatizado como Prédio Velho para se distinguir de seu gêmeo Prédio Novo, que abrigava a expansão da agência após o 11 de Setembro.

     Na hierarquia da CIA, o diretor da agência é tradicionalmente um político nomeado, mas a verdadeira força reside em seus dois vice-diretores. O vice-diretor de Operações lida com a coleta de informações, enquanto o vice-diretor de Inteligência fica responsável pela compilação e análise do material, para montar um quadro significativo.

     Logo abaixo desses dois estão a contra-ínteligência (para manter a agência livre de espionagem e traidores internos) e o antiterrorismo (que tornara o setor mais importante, à medida que o foco da agência desviara-se da velha URSS para as novas ameaças do Oriente Médio).

     Desde o começo da Guerra Fria, por volta de 1945, os vice-diretores de Operações sempre foram especialistas da Divisão Soviética e da SE (Satélites e Europa Oriental), o que abria caminho para algum ambicioso oficial de carreira. Marek Gumienny era o primeiro arabista a ser nomeado vice-diretor de Operações. Quando jovem, passara anos como agente no Oriente Médio, dominara duas de suas línguas (árabe e farsi, os idiomas do Irã) e conhecia bem sua cultura.

     Mesmo naquele prédio em funcionamento 24 horas por dia, a madrugada não era um bom momento para conseguir um café preto quente e cheiroso, do jeito que ele gostava. Assim, fez seu próprio. Enquanto o café passava, Gumienny abriu o pacote em sua mesa, retirando uma pasta fina, selada com cera.

     Sabia o que esperar. Forte Meade poderia estar à frente da recuperação de dados, tradução e análise, mas fora a CIA, em colaboração com os britânicos e com o CAT paquistanês que tinha feito o trabalho de campo. As seções da agência em Peshawar e Islamabad haviam apresentado um grande número de relatórios para manter o chefe bem informado.

     A pasta continha todos os documentos baixados do computador do tesoureiro da al-Qaeda, mas as duas cartas, que totalizavam três páginas, eram o principal. O vice-diretor de Operações falava com rapidez e fluência o árabe urbano, mas como a leitura é sempre mais difícil, ele repetidamente recorreu às traduções.

     Leu o relatório do Comitê Corão, preparado conjuntamente pelos dois oficiais de inteligência na reunião, mas o texto não apresentou nenhuma surpresa. Para ele estava claro que as referências ao Al-Isra, a jornada mágica do Profeta através da noite, só poderia ser o código para um projeto muito importante.

     Agora, o projeto precisava de um nome interno para a comunidade de inteligência americana. Não poderia ser Al-Isra, porque entregaria tudo o que haviam descoberto. Abriu o arquivo de criptografia, em busca de uma palavra para descrever futuramente como ele e todos seus colegas chamariam o projeto da al-Qaeda, fosse ele qual fosse.

     Códigos são gerados por computador através de um processo de seleção aleatória, com o objetivo de não deixar passar nenhuma informação acidentalmente. Naquele mês, o processo de nomeação da CIA estava usando peixes; o computador escolheu stingray (arraia), e assim nasceu o Projeto Stingray.

     A última folha daquela pasta fora acrescentada durante a noite de sábado. Era breve e curta. Fora escrita por um homem que não gostava de desperdiçar palavras, um dos seis diretores, o diretor de Inteligência Nacional. Claramente a pasta emitida por Forte Meade seguira direto para o Comitê de Segurança Nacional (Steve Hadley), para o diretor de Inteligência Nacional e para a Casa Branca. Marek Gumienny imaginou que deveria haver luzes acesas na Sala Oval.

     A folha estava impressa com o cabeçalho pessoal do diretor de Inteligência Nacional. Dizia, em letras de imprensa:

     O QUE É AL-ISRA?

     É NUCLEAR, BIOLÓGICO, QUÍMICO, CONVENCIONAL?

     DESCOBRIR O QUÊ, QUANDO E ONDE. PRAZO: AGORA. RESTRIÇÕES: NENHUMA. PODERES: ABSOLUTOS.

     JOHN NEGROPONTE

     Havia uma assinatura rabiscada. A carta escrita à mão por Marek Gumienny concedia-lhe autoridade sobre as 19 agências de inteligência do país. Ele correu os olhos de volta para o topo da folha. Estava endereçada pessoalmente a ele. Alguém bateu à porta.

     Entrou um jovem SG15, trazendo mais uma entrega. Serviço Geral é simplesmente uma escala salarial, e um 15 representa um funcionário bem abaixo na hierarquia. Gumienny deu ao rapaz um sorriso encorajador; ele claramente jamais estivera num andar tão alto neste prédio. Gumienny estendeu a mão, assinou o documento na prancheta para confirmar o recebimento e esperou até estar sozinho novamente.

     O novo arquivo era uma cortesia dos colegas em Forte Meade. Era a transcrição de uma conversa entre dois dos especialistas no Corão durante o percurso de carro de volta a Washington. Um deles era britânico. Alguém em Forte Meade sublinhou sua última frase com tinta vermelha e colocou um ponto de interrogação ao seu lado.

     Durante o período que passara no Oriente Médio, Marek Gumienny tivera muito contato com os britânicos. Ao contrário de alguns de seus compatriotas que haviam tentado sobreviver por quatro anos naquele inferno que era o Iraque, Marek não se orgulhava muito de admitir que o maior aliado naquilo que Kipling chamara de o Grande Jogo era um monte de conhecimento arcano sobre os desertos que se estendiam entre o rio Jordão e o Hindu Kush.

     Durante um século e meio, como soldados ou administradores do antigo império, ou como exploradores excêntricos, os britânicos tinham percorrido desertos e cordilheiras na zona que agora era a bomba-relógio da inteligência. Os britânicos apelidavam a CIA de os Primos ou a Companhia , e os americanos chamavam o Serviço Secreto de Inteligência baseado em Londres como Os Amigos ou A Firma. Para Marek Gumienny, um desses amigos era um homem com quem compartilhara bons momentos, momentos não tão bons e momentos absolutamente perigosos durante a época em que ambos eram agentes de campo, Agora ele estava atrás de uma mesa em Langley e Steve Hill fora retirado do trabalho de campo e elevado a controlador do Oriente Médio no quartel-general da Firma em Vauxhall Cross.

     Gumienny decidiu que uma conferência não faria mal, e talvez até fizesse algum bem. Não havia nenhum problema de segurança. Os britânicos sabiam tanto quanto ele. Eles também tinham transmitido as entranhas do laptop de Peshawar para seu próprio QG de escuta e criptografia em Cheltenham. Eles ainda haviam examinado o laptop e impresso seu conteúdo. Eles também tinham analisado as estranhas referências ao Corão contidas nas cartas codificadas.

     O que Marek Gumienny sabia, que Londres provavelmente não sabia, era o comentário bizarro feito por um acadêmico britânico no banco traseiro de um carro no coração de Maryland. Ele digitou um número no painel em sua mesa. A telefonia central do complexo funcionava bem, mas graças à tecnologia moderna, qualquer alto executivo podia conectar-se mais rápido através de um celular via satélite.

     Um número tocou numa casa modesta em Surrey, subúrbio de Londres. Oito da manhã em Langley, uma da tarde em Londres; as pessoas na casa estavam se preparando para comer rosbife no almoço. Uma voz atendeu no terceiro toque. Steve Hill havia desfrutado de seu golfe e estava prestes a desfrutar de seu rosbife.

     — Alô?

     — Steve? Sou eu, Marek.

     — Meu velho amigo! Onde você está? Nas proximidades, espero.

     — Não, no meu escritório. Podemos passar para o modo seguro?

     — Claro. Me dê dois minutos... — E ao fundo: — Querida, segure o rosbife.

     O telefone desligou.

     Na chamada seguinte a voz vinda da Inglaterra estava um pouco mais abafada, mas impossível de ser interceptada.

     — Devo presumir que alguma coisa bateu no sistema de ventilação perto da sua orelha? — indagou Hill.

     — Caiu por toda a minha camisa limpa — admitiu Gumienny. — Creio que você recebeu o mesmo material de Peshawar que eu.

     — Espero que sim. Acabei de ler ontem. Estava me perguntando quando você ia telefonar.

     — Steve, eu tenho uma coisa que você talvez não tenha. Estamos hospedando um professor de Londres. Ele fez um comentário acidental sexta à tarde. Vou direto ao ponto. Conhece um homem chamado Martin?

     — Martin de quê?

     — Não, esse é o sobrenome dele. O nome do irmão dele é Dr. Terry Martin. Isso lhe diz alguma coisa?

     Steve Hill fora pego de surpresa. Ficou sentado, telefone na mão, olhando para o vazio. Sim, ele conhecia o irmão de Terry. Durante a Guerra do Golfo, de 1990-91, quando ele integrou a equipe de controle na Arábia Saudita, o irmão do acadêmico entrara sorrateiramente em Bagdá e vivera lá como um jardineiro humilde, debaixo dos narizes da polícia secreta de Saddam Hussein. Dessa posição, transmitira dados vitais obtidos com uma fonte dentro do gabinete do ditador.

     — Talvez — concedeu. — Por quê?

     — Acho que devemos conversar — disse o americano. — Cara a cara. Posso voar até aí. O Grumman está à minha disposição.

     — Quando você quer vir?

     — Hoje à noite, Posso dormir no avião. Estarei em Londres para o café-da-manhã.

     — Certo. Vou providenciar tudo com Northolt.

     — Ah, sim. Steve, enquanto estiver voando, você poderia desencavar a ficha inteira desse tal Martin? Explicarei tudo quando nos encontrarmos.

    

     A oeste de Londres, na estrada para Oxford, fica a base da Força Aérea britânica (RAF) de Northolt. Durante alguns anos depois da Segunda Guerra Mundial, ela funcionou como aeroporto civil de Londres enquanto Heathrow era construído às pressas. Depois, foi relegada a campo de pouso secundário, e finalmente a um aeroporto para jatos particulares e executivos. Mas como permanece como propriedade da RAF, vôos de chegada ou saída do país podem ser providenciados em segurança absoluta e sem as formalidades usuais.

     A CIA possui seu próprio aeroporto perto de Langley e uma pequena frota de jatos executivos. O documento que concedia autoridade absoluta a Marek Gumienny assegurou-lhe o Grumman V, no qual dormiu em conforto absoluto durante o vôo. Steve Hill estava em Northolt para recebê-lo.

     Ele levou seu convidado, não até o zigurate verde e bege em Vauxhall Cross, na margem sul do Tamisa, ao lado da ponte de Vauxhall, lar do SIS, mas ao bem mais calmo Hotel Cliveden, que anteriormente fora uma mansão particular, instalado no meio de uma grande propriedade a 50 quilômetros do aeroporto. Ele reservara uma pequena suíte de conferências com serviço de quarto e privacidade.

     Ali ele leu o relatório do Comitê Corão americano, notavelmente semelhante ao de Cheltenham, e a transcrição da conversa no banco traseiro do carro.

     — Filho-da-mãe — murmurou ao chegar ao fim. — O outro arabista tem razão. Não pode ser feito. O problema não é apenas a língua, mas todos os outros testes. Nenhum estrangeiro poderia passar neles.

     — Então, considerando minhas ordens do Altíssimo, o que você sugere?

     — Capture um membro da al-Qaeda e arranque tudo dele — disse Hill.

     — Steve, se tivéssemos alguma idéia do paradeiro de qualquer indivíduo importante na al-Qaeda, nós já o teríamos pego. No momento, não temos nenhum alvo como esse na mira.

     — Espere e vigie. Alguém vai usar a frase de novo.

     — Meu pessoal tem de presumir que se o Al-Isra vai ser o próximo evento espetacular, o alvo serão os Estados Unidos. Washington não vai permitir que fiquemos de braços cruzados, aguardando um milagre. Além disso, a essa altura a al-Qaeda já deve saber que estamos com o laptop. Tudo indica que eles jamais irão usar a frase de novo, a não ser pessoalmente.

     Hill pensou um pouco e então disse:

     — Bem, poderíamos plantar a notícia, nos lugares onde sabemos que eles vão ouvir, dizendo que sabemos tudo e estamos fechando o cerco. Eles podem interromper a operação.

     — Talvez sim, talvez não. Mas nós jamais iremos saber. Ainda estaríamos no limbo, sem saber se o Projeto Stingray foi suspenso ou não. E se não for suspenso? E se funcionar? Como meu chefe disse: é nuclear, bioquímico, convencional? Onde e quando? O seu agente Martin realmente pode se passar por árabe entre árabes? Ele é realmente tão bom assim?

     — Ele costumava ser — disse Hill, e passou uma pasta para o amigo americano. — Veja por conta própria.

     Era uma pasta muito grossa, em cartolina padrão. A capa trazia simplesmente as palavras: Coronel Mike Martin.

     O avô materno dos Martin foi agricultor de chá em Darjee-ling, Índia, entre as duas guerras mundiais. Enquanto estava lá, fez uma coisa que na época ninguém tinha ouvido falar: casou-se com uma moça indiana.

     O mundos dos agricultores britânicos de chá era pequeno, remoto e esnobe. Noivas eram trazidas da Inglaterra ou escolhidas entre as filhas da classe de oficiais do Raj. Os rapazes tinham visto fotos de seu avô, Terence Granger: um homem alto, de rosto rosado, bigode louro, cachimbo na boca e arma na mão, parado diante de um tigre abatido.

     E também as fotografias da Srta. Indira Bohse, gentil, encantadora e muito bonita. Quando viu que Terence Granger não seria dissuadido, a companhia de chá, em vez de criar um novo escândalo demitindo-o, encontrou uma solução. Enviou o jovem casal para as profundezas de Assam, na fronteira da então Birmânia, hoje Mianmar.

     Se era para ter sido um castigo, não funcionou. Granger e sua jovem esposa adoraram aquela vida: um campo selvagem, fervilhando com caça e tigres. E ali nasceu Susan, em 1930. Em 1943, a guerra chegara a Assam, com os japoneses avançando através da Birmânia até a fronteira. Terence Granger, velho o bastante para evitar o serviço militar, insistiu em se apresentar como voluntário. Em 1945, Granger morreu atravessando o rio Irrawaddy.

     Com uma pequena pensão de viúva da companhia, Indira Granger foi para o único lugar possível: de volta para sua cultura. Dois anos depois, mais problemas: a Índia estava em guerra civil pela independência. Ali Jinnah insistia em seu Paquistão muçulmano ao norte, Pandit Nehru estabeleceu a Índia principalmente hindu ao sul. Ondas de refugiados cresciam para norte e sul e conflitos violentos irromperam.

     Temendo pela segurança da filha, a Sra. Granger enviou Susan para a Inglaterra, para ficar com o irmão caçula de seu falecido marido, um arquiteto muito próspero em Haslemere, Surrey. Seis meses depois, a mãe morreu durante uma manifestação popular.

     Susan Granger comemorou seus 17 anos na terra natal de seu pai, na qual jamais estivera antes. Passou um ano numa escola de meninas e três como enfermeira no Farnham General Hospital. Aos 21 anos, a menor idade permitida, foi admitida como comissária de bordo pela British Overseas Airways Corporation. Era belíssima, com longos cabelos castanhos, os olhos azuis do pai e uma pele de menina inglesa com bronzeado dourado.

     Devido à sua fluência em hindi, a companhia aérea colocou-a na rota Londres-Bombaim. Naquela época a rota era longa e demorada: Londres-Roma-Cairo-Basra-Manama-Karachi e Bombaim. Nenhuma tripulação seria capaz de cumpri-la inteiramente; a primeira mudança de equipe e escala era em Basra, sul do Iraque. Foi num country club na cidade que ela conheceu, em 1951, Nigel Martin, um contador de uma companhia petrolífera. Eles se casaram no ano seguinte.

     Houve uma espera de dez anos até o nascimento do primeiro filho do casal, Mike, e mais três pelo segundo, Terry. E os dois não poderiam ser mais diferentes um do outro.

     Marek Gumienny olhou para a foto na pasta. Compleição naturalmente morena, olhos e cabelos negros. Compreendeu que os genes da avó tinham se repetido uma geração depois, no neto; ele não era nem remotamente parecido com o irmão, o acadêmico de Georgetown, que herdara do avô o rosto róseo e os cabelos ruivos.

     Ele se lembrou das objeções do Dr. Ben Jolley. Qualquer infiltrado com uma chance de sobreviver dentro da al-Qaeda teria de parecer e falar como um nativo. Gumienny voltou a ler sobre a infância dos Martin.

     Ambos haviam freqüentado sucessivamente a escola da companhia petrolífera Anglo-Iraq e aprendido também com seu pai, ou com sua babá, a muçulmana gorducha e gentil do interior do país, que acabou retornando para sua tribo com economias suficientes para conseguir um homem jovem como marido.

     Havia uma referência que só poderia ter vindo de uma entrevista com Terry Martin: o irmão mais velho vestido em roupas iraquianas, correndo pelo quintal da casa em Saadun, um subúrbio de Bagdá, fazendo os convidados de seu pai rirem e comentarem:

     — Nigel, esse aí até parece um dos nossos!

     Até parece um dos nossos, pensou Marek Gumienny. Dois dos quatro critérios de Ben Jolley estavam preenchidos: ele parecia e poderia falar como um árabe. Será que com um treinamento intensivo não poderia dominar os rituais de oração?

     O homem da CIA continuou lendo. Em 1972, quando o vice-presidente Saddam Hussein começou a nacionalizar as companhias petrolíferas estrangeiras, e isso incluiu a Anglo-Iraq, Nigel Martin permaneceu no país por mais três anos antes de levar toda a família para casa, em 1975. O menino Mike tinha 13 anos, e estava preparado para ingressar na escola de Haileybury. Marek Gumienny precisava de uma pausa e um café.

     — Ele seria capaz — disse ele quando voltou do banheiro. — Com treinamento e apoio, realmente seria capaz. Onde está agora?

     — Descontando duas temporadas trabalhando para nós quando o pegamos emprestado, ele passou a carreira militar entre os Pára-quedistas e as Forças Especiais. Aposentou-se no ano passado, depois de completar vinte e cinco anos de serviço. E não, ele não aceitaria o trabalho.

     — Por que não, Steve? Ele tem tudo.

     — Menos os antecedentes. Os pais, a família, o local de nascimento. Não dá para simplesmente entrar na al-Qaeda, exceto como voluntário jovem para uma missão suicida; um zé-ninguém. Uma pessoa suficientemente confiável para se aproximar de um projeto desse calibre deveria ter anos de experiência nas costas. Esse é o problema, Marek, o grande problema. A não ser...

     Ele se calou por alguns instantes, mergulhado em pensamentos. Então fez que não com a cabeça.

      — A não ser o quê? — inquiriu o americano.

     — Não, é absurdo demais — disse Hill.

     — Vamos, pode falar.

     — Estava pensando num sósia. Um homem cujo lugar ele poderia tomar. Um duplo. Mas isso também é complicado. Se o indivíduo real ainda estiver vivo, a al-Qaeda irá tê-lo em suas fileiras. Se estiver morto, eles saberão. Assim, ficamos na mesma.

     — É uma pasta grande — disse Marek Gumienny. — Posso levá-la comigo?

     — É uma cópia, claro. Olha, isso é confidencial!

     — Você tem minha palavra, meu velho. Ninguém vai colocar os olhos, vai direto para o meu cofre pessoal. Ou para o incinerador.

     O vice-diretor de Operações retornou para Langley, mas uma semana depois ele telefonou novamente. Steve Hill recebeu a chamada à sua mesa em Vauxhall Cross.

     — Acho que devo voar até aí de novo — disse o vice-diretor sem preâmbulos. Ambos os homens sabiam a essa altura que o primeiro-ministro inglês dera ao seu amigo na Casa Branca sua palavra de que colaboraria completamente com o lado britânico do Projeto Stingray.

     — Sem problemas, Marek. Pode me adiantar alguma coisa? — Steve Hill estava intrigado. Com a tecnologia moderna, não havia nada que não pudesse ser passado da CIA para o SIS em segredo absoluto e numa questão de segundos. Assim, por que voar dos EUA para a Inglaterra?

     — O sósia — disse Gumienny. — Acho que o encontrei. Dez anos mais jovem, mas parece mais velho. Altura e corpo. Mesmo rosto moreno. Veterano da al-Qaeda.

     — Parece adequado. Mas por que ele não está com os bandidos?

     — Porque está conosco. Está em Guantánamo. Há cinco anos.

     — É árabe? — Hill estava surpreso por não saber nada a respeito de um árabe da al-Qaeda, preso em Gitmo durante os últimos cinco anos.

     — Não, é afegão. Chama-se Izmat Khan. Estou indo.

    

     Uma semana depois, Terry Martin ainda não estava conseguindo dormir por causa daquele comentário estúpido. Por que não ficara de bico calado? Por que tivera de contar vantagem sobre seu irmão? E se Ben Jolley tivesse dito alguma coisa? Afinal de contas, Washington era uma enorme vila de fofoqueiros. Sete dias depois de fazer o comentário no banco traseiro da limusine, Terry telefonou para o irmão.

     Mike Martin estava levantando o último punhado de telhas intactas de seu telhado precioso. Finalmente poderia começar a aplicar o impermeabilizante de teto e os sarrafos para sustentá-lo. Dentro de uma semana, seu telhado seria à prova d'água. Ele ouviu seu celular emitir as notas agudas de Lillibolero. O aparelho estava no bolso de seu colete, dependurado em um prego próximo. Moveu-se centímetro a centímetro sobre tábuas perigosamente frágeis para alcançá-lo. A tela de cristal líquido indicava que a ligação era de seu irmão, em Washington.

     — Oi, Terry.

     — Mike, sou eu. — Ele não havia se acostumado ao fato de a pessoa do outro lado já saber quem estava telefonando. — Fiz uma tremenda burrada e quero te pedir desculpas. Faz mais ou menos uma semana, disse uma coisa que não devia ter dito.

     — Fantástico. O que você disse?

     — Deixa para lá. Ouça, se você receber uma visita de homens de terno... você sabe de quem estou falando... mande eles para aquele lugar. O que eu disse foi uma estupidez. Se alguém visitar...

     De seu ninho de águia, Mike Martin viu o Jaguar cinza-carvão subir lentamente a trilha que ia da estrada até o celeiro.

     — Está tudo bem, mano — disse gentilmente. — Acho que eles já chegaram.

     Os dois agentes sentaram-se em cadeiras de acampamento dobráveis enquanto Mike Martin acomodava-se num tronco que estava prestes a ser cerrado em pedaços para fornecer lenha. Martin ouviu a exposição do americano e levantou a sobrancelha ao olhar para Steve Hill.

     — Você é quem sabe, Mike. Nosso governo ofereceu cooperação total à Casa Branca em qualquer coisa que eles quisessem ou precisassem, mas isso não inclui pressionar ninguém a uma missão sem retorno.

     — E esta se encaixaria nessa categoria?

     — Achamos que não — afirmou Marek Gumienny. — Se conseguirmos descobrir o nome e o paradeiro de um único integrante da al-Qaeda que soubesse o que está acontecendo lá, retiraremos você e faremos o resto. Só ouvir as conversas e os boatos já deve ser suficiente.

     — Mas me fazer passar por... Eu não sei se conseguiria mais passar por árabe. Quinze anos atrás, em Bagdá, eu me tornei invisível bancando um jardineiro humilde que morava num barraco. Eu não fui submetido a nenhum interrogatório. Mas desta vez eu teria de responder muita coisa. Afinal, alguém que passou cinco anos em poder dos americanos pode ter se tornado um vira-casaca.

     — Sim, certamente eles iriam interrogar você. Mas, com sorte, o inquisidor será um membro da cúpula, chamado para fazer o serviço. Nesse ponto, você foge e aponta o sujeito para a gente. Estaremos de tocaia a poucos metros.

     Martin remexeu a pasta do homem preso na cela em Guantánamo.

     — Este homem é um afegão. Ex-talibã. Isso significa que ele é um pashtun. Nunca fui fluente em pashto. Eu seria descoberto pelo primeiro que aparecesse.

     — Você será submetido a meses de aprendizado, Mike — disse Steve Hill. — Você não irá enquanto não sentir que está pronto. Nem enquanto não sentir que dará certo. E você estará muito longe do Afeganistão. Os afegãos nunca se afastam muito de seu território.

     — Acha que consegue falar um árabe sofrível com o sotaque de um pashtun de pouca instrução?

     Mike Martin fez que sim.

     — É possível. E se os cabeças de turbante mandarem buscar um afegão que realmente conheça esse cara?

     Os dois homens mergulharam em silêncio profundo. Se isso acontecesse, todos que estavam sentados em torno daquela fogueira sabiam como seria o fim.

     Enquanto os dois agentes olhavam para os pés em vez de explicar o que aconteceria a um agente desmascarado no coração da al-Qaeda, Martin abriu a pasta em seu colo. O que ele viu tirou seu fôlego.

     O rosto era cinco anos mais velho, marcado por sofrimento e por dez anos em sua idade natural. Mas ainda era o menino das montanhas, o quase-cadáver em Qala-i-Jangi.

     — Eu conheço este homem — disse baixo. — Seu nome é Izmat Khan.

     O americano fitou-o boquiaberto.

     — Como você pode conhecê-lo? Está trancado em Gitmo há cinco anos, desde que foi capturado.

     — Eu sei, mas muitos anos antes nós lutamos juntos contra os russos em Tora Bora.

     Os homens de Londres e Washington lembraram da pasta de Martin. É claro, aquele ano no Afeganistão, ajudando os mujahedins em sua luta contra a ocupação soviética. Era difícil, mas não impossível, que os dois homens houvessem se conhecido. Durante dez minutos eles lhe fizeram perguntas sobre Izmat Khan para ver com o que mais ele poderia colaborar. Martin devolveu a pasta.

     — Como ele está agora? Ele mudou nos cinco anos que passou com seu pessoal no Campo Delta?

     O americano de Langley deu com os ombros.

     — Izmat Khan é durão, Mike. Chegou com um ferimento muito feio na cabeça e uma concussão dupla. Foi ferido durante a captura. No começo os médicos acharam que ele fosse, bem..., um pouco... retardado. Mas acabamos descobrindo que ele estava desorientado. Por causa da concussão e da viagem. Isso foi no começo de dezembro de 2001, logo depois do atentado às Torres Gêmeas. O tratamento dele foi... como eu poderia dizer... nada gentil. Depois a natureza seguiu seu curso e ele se recuperou o suficiente para ser interrogado.

     — E o que ele contou?

     — Não muita coisa. Apenas as informações básicas sobre si mesmo. Resistiu aos interrogatórios e a qualquer tipo de negociação. Fica apenas fitando a gente, e o que se vê naqueles olhos negros não é amor fraternal. Mas, através de terceiros, nós descobrimos que ele fala um pouco de árabe, aprendeu dentro do Afeganistão, e antes disso passou anos numa madrassa aprendendo o Corão. E dois voluntários da al-Qaeda nascidos na Inglaterra que estavam com ele, e que agora já foram libertados, disseram que o ensinaram a falar um pouquinho de inglês. Martin olhou fixamente para Steve Hill.

     — Esses homens precisam ser recapturados e mantidos em quarentena — disse Martin.

     Hill fez que sim com a cabeça.

     — É claro. Isso pode ser providenciado.

     Marek Gumienny levantou-se para caminhar em torno do celeiro enquanto Martin estudava a pasta. Ele fitou o fogo, e nas profundezas das chamas, viu uma encosta de colina sombria e desmatada num lugar muito distante. Dois homens, um amontoado de rochas e o helicóptero soviético Wind manobrando para o ataque. Um sussurro do rapaz de turbante: vamos morrer, inglês? Gumienny retornou, acocorou-se no chão e atiçou o fogo. A imagem se desfez numa nuvem de fagulhas.

     — Belo projeto você tem aqui, Mike. Eu diria que isto era trabalho para uma equipe de profissionais. Está fazendo tudo sozinho?

     — Tanto quanto posso. Pela primeira vez em 25 anos disponho de tempo.

     — Mas não de dinheiro, não é?

     Martin sorriu, em nítido tom de escárnio.

     — Há milhares de empresas de segurança por aí, caso eu queira um emprego. A guerra do Iraque gerou um número imenso de profissionais de segurança, mas mesmo assim ainda existe mercado. Eles ganham mais em uma semana trabalhando para vocês no Triângulo Sunita do que recebiam como soldados em um semestre inteiro.

     — Mas isso significaria voltar para a poeira, a areia, o perigo, a morte prematura. Você não buscou distância disso quando se aposentou?

     — E o que você está me oferecendo? Férias com a al-Qaeda na Flórida?

     Marek Gumienny teve humor suficiente para rir.

     — Mike, acusa-se os americanos de muitas coisas, mas não de falta de generosidade para com aqueles que os ajudam. Estou pensando em um cargo de consultor a um salário de, digamos, 200 mil dólares anuais, durante um a cinco anos. Pagos em dinheiro, sem necessidade de informar ao Imposto de Renda. Na verdade, sem nem mesmo precisar comparecer ao trabalho. Sem necessidade de colocar o pescoço em risco de novo.

     Mike Martin pensou em como aquilo parecia com uma cena de seu filme favorito de todos os tempos. T.E. Lawrence ofereceu dinheiro a Auda Abu Tayi para juntar-se a ele no ataque a Aqaba. Martin se lembrou da resposta genial: Auda não cavalgará até Aqaba pelo ouro britânico; ele cavalgará até Aqaba porque isso lhe agrada. Ele se levantou.

     — Steve, quero que minha casa seja envolvida com uma lona do chão até o telhado. Quando voltar, quero encontrá-la exatamente como a deixei.

     O controlador do Oriente Médio concordou.

     — Combinado — disse ele.

     — Vou pegar meus pertences. Não é muita coisa. Tudo vai caber direitinho na mala do carro.

     E assim a resposta ocidental ao Projeto Stingray foi combinada debaixo das macieiras da horta de Hampshire. Dois dias depois, um computador selecionou aleatoriamente o nome crowbar (pé-de-cabra), originando assim a Operação Crowbar.

     Se fosse descoberto, Mike Martin não seria capaz de se defender. Mas em todos seus relatos sobre  que um dia chamara de amigo, Martin escondeu um detalhe.

     Talvez achasse que a necessidade de saber era uma rua de mão dupla. Talvez achasse que o detalhe não era importante. Tinha relação com uma conversa murmurada nas sombras de um hospital em uma caverna, administrado por árabes num lugar chamado Jaji.

    

     A DECISÃO NA HORTA DE HAMPSHIRE CONDUZIU A UMA TOMADA de decisão veloz da parte dos dois agentes. Para início de conversa, ambos precisavam buscar a aprovação de seus superiores.

     Fazer isso parecia fácil, mas não era. Porque a primeira condição de Mike Martin fora de que não mais de uma dúzia de pessoas saberia a respeito da Operação Crowbar. Sua preocupação era completamente compreensível.

     Se 50 pessoas soubessem uma coisa tão interessante, uma acabaria dando com a língua nos dentes. Mesmo sem intenção ou maldade, esse seria um acontecimento inevitável.

     Todo agente que já estivera disfarçado conhecia a tensão de precisar confiar na própria habilidade para não cometer um erro e ser capturado. A preocupação de ser entregue por um erro imprevisível representa um estresse constante. Mas o pesadelo final é saber que a captura e a morte longa e agonizante que vem em seguida foi causada por algum idiota que se gabou com a namorada num bar, e foi ouvido por acaso — esse era o pior de todos os medos. Assim, a condição de Martin foi aceita prontamente.

     Em Washington, John Negroponte concordou que seria o único a par da missão, e deu sinal verde. Steve Hill jantou com um homem do governo britânico e obteve o mesmo resultado. Isso somava quatro pessoas.

     Mas cada homem tinha consciência de que não poderia estar pessoalmente no caso 24 horas por dia. Cada um precisava de um assistente para as tarefas diárias. Marek Gumienny designou um arabista em ascensão na Divisão de Antiterrorismo da CIA: Michael McDonald largou tudo, explicou à família que precisava trabalhar no Reino Unido durante algum tempo e voou para o leste, enquanto Marek Gumienny voltava para casa.

     Steve Hill escolheu seu assistente no Gabinete do Oriente Médio, Gordon Phillips. Antes de se despedirem, os dois chefes concordaram que cada aspecto da Crowbar precisaria ser muito bem acobertado, com uma história plausível, de modo a impedir que qualquer pessoa abaixo dos dez principais soubesse que um agente ocidental estava para ser infiltrado na al-Qaeda.

     Tanto Langley quanto Vauxhall Cross foram informados de que os dois funcionários que iriam perder tinham recebido licença de aperfeiçoamento acadêmico, e que ficariam afastados de suas atividades normais durante aproximadamente seis meses.

     Steve Hill apresentou os dois homens que trabalhariam juntos, e contou a eles o que a Crowbar tentaria fazer. Tanto McDonald quanto Phillips mantiveram-se em silêncio absoluto. Hill hospedou ambos não no edifício do QG às margens do Tamisa, mas num abrigo, um dos muitos que a Firma mantinha no interior.

     Depois que ambos haviam desfeito as malas e estavam reunidos na sala de visita, Steve Hill entregou uma pasta grossa a cada um.

     — A busca de um QG de Operações começa amanhã — disse ele. — Vocês têm 24 horas para decorar isto. Este é o homem que vai entrar. Vocês trabalharão com ele até esse dia, e por ele depois disso. — Ele jogou na mesinha de café uma pasta mais fina. — Este é o homem que ele irá substituir. Nós sabemos muito pouco sobre ele. Isso é tudo que os inquisidores americanos conseguiram extrair dele em centenas de horas de interrogatório em Gitmo. Decorem isso também.

     Depois que seu superior se retirou, os dois homens mais jovens pediram aos funcionários da casa um bule grande de café e começaram a ler.

     Foi durante uma ida ao Show Aéreo de Farnborough, no verão de 1977, que o então estudante Martin se apaixonou. Tinha 15 anos. Seu pai e seu irmão caçula estavam com ele, fascinados com os caças e os bombardeiros, vôos acrobáticos e protótipos. Para Mike, o ponto alto foi a apresentação do Red Devils, o grupo acrobático do Regimento de Pára-quedistas, descendo em queda livre de pontinhos no céu para se arremeterem até a terra e, abrindo seus pára-quedas no último momento, pousar em cheio nos alvos no solo. Foi naquele instante que Mike soube o que queria fazer.

     Em 1980, escreveu uma carta pessoal ao Regimento de Pára-quedistas durante o último período em Haileybury e foi chamado para uma entrevista no Depósito Regimental em Aldershot para setembro daquele mesmo ano. Chegou e ficou olhando para o velho Dakota — do qual seus predecessores haviam saltado para tentar capturar a ponte em Arnhem — até o sargento escoltar o grupo de cinco ex-estudantes até a sala de entrevistas.

     Ele se classificou na escola como um estudante apenas razoável, porém um atleta soberbo. Para o Regimento de Pára-quedistas, era um ótimo perfil. Martin foi aceito e começou a treinar no fim do mês. Foram 22 semanas extenuantes que levariam os sobreviventes até abril de 1981.

     Houve quatro semanas de treinamento básico, manejo de armas de fogo, camuflagem e treinamento físico; depois, mais duas semanas que incluíram também primeiros socorros, comunicações e QBN (treinamento contra armas químicas, bacteriológicas e nucleares).

     A sétima semana foi de mais treinamento físico, cada vez mais rígido; mas não tão ruim quanto as semanas oito e nove — marchas de resistência através da cordilheira Brecon em Gales no meio do inverno, onde homens em excelentes condições físicas já morreram de hipotermia ou exaustão. As baixas logo começaram.

     A semana dez consistiu no curso de tiro em Hythe, Kent. Ali, Martin, que acabara de completar 19 anos, foi classificado como atirador de elite. As semanas 11 e 12 foram as de teste — apenas subir e descer correndo por colinas arenosas carregando troncos de árvore na lama, sob chuva e granizo.

     — Semanas de teste? — murmurou Phillips. — O que foram as outras?

     Depois das semanas de teste, os rapazes remanescentes obtiveram as cobiçadas boinas vermelhas. Depois, passaram mais três semanas em Brecons fazendo exercícios de defesa, patrulhamento e tiro real. A essa altura, fim de janeiro, a cordilheira Brecons estava escura e congelante. Os homens dormiam ao relento, sem o luxo de fogueiras.

     As semanas 16 a 19 cobriram aquilo que atraíra Mike Martin; o curso de pára-quedismo na RAF de Abingdon, onde mais alguns rapazes pularam fora— e não apenas do avião. No final veio a parada das asas, quando as insígnias de pára-quedista foram alfinetadas nos uniformes. Naquela noite, o velho clube 101 em Aldershot abrigou mais uma festa de arromba.

     Houve mais duas semanas dedicadas a um exercício de campo conhecido como última cerca, e alguns exercícios de aperfeiçoamento em campo de parada. A semana 22 assistiu a Formatura, quando pais orgulhosos finalmente viram seus rapazinhos surpreendentemente transformados em soldados.

     Desde o começo o recruta Mike Martin fora classificado como oficial em potencial. Em abril de 1981, Martin ingressou num novo curso na Royal Military Academy, em Sandhurst, formando-se em dezembro como segundo-tenente. Se ele achava que a glória o aguardava, estava redondamente enganado.

     Existem três batalhões no Regimento de Pára-quedistas, e Martin foi designado para o Terceiro, que não fazia saltos regulares.

     Durante três anos em cada nove, ou uma temporada em cada três, todos os batalhões são dispensados do pára-quedismo e usados como soldados de infantaria. Os pára-quedistas odiavam o Terceiro.

     Martin, comandante de pelotão, foi designado para o Pelotão de Recrutas, submetendo os recém-chegados aos mesmos sofrimentos pelos quais passara. Poderia ter permanecido no Terceiro Regimento pelo restante da temporada se não fosse um cavalheiro chamado Leopoldo Galtieri. No dia 2 de abril de 1982, o ditador argentino invadiu as ilhas Falkland, ou Malvinas, como eram chamadas pelos argentinos. O Terceiro de Pára-quedistas recebeu instruções para se preparar para a viagem.

     No período de uma semana, conduzida pela implacável Margaret Thatcher, uma força-tarefa britânica seguiu para o sul numa frota com destino ao outro lado do Atlântico, onde os aguardava o inverno rigoroso, com mares agitados e chuva inclemente.

     A jornada foi percorrida no navio Canberm, com uma primeira parada em Ascensão, ilhota açoitada por vento constante. Ali houve uma pausa enquanto, muito longe, os últimos esforços diplomáticos eram empreendidos para persuadir Galtieri a retirar suas tropas ou Margaret Thatcher a recolher seus navios. Os dois lados sabiam que cedendo correriam o risco de cair do poder. O Canberra voltou a navegar, seguindo o único porta-aviões da expedição, o Ark Royal.

     Quando ficou claro que a invasão era inevitável, Martin e sua equipe foram transferidos de helicóptero do Canberra para uma barcaça de desembarque. Assim perderam as condições de vida decentes do navio. Na mesma noite tempestuosa em que Martin e seus homens foram transferidos em um helicóptero Sea King, outro aparelho idêntico caiu e afundou, matando 19 soldados do Regimento SAS (Serviço Aéreo Especial). Foi a maior perda do grupamento em uma só noite.

     Martin conduziu seus 30 homens para a praia com o restante do Terceiro no porto de San Carlos. Ficava a quilômetros da capital da ilha, Porto Stanley, mas justamente por isso eles não encontraram resistência. Sem nenhuma pausa, o Regimento de Pára-quedistas e os fuzileiros navais iniciaram a árdua marcha através de lama e chuva para o leste, até a capital.

     Carregavam mochilas Bergen tão pesadas que tinham a impressão de levar outro homem nas costas. A aparição de um Skyhawk argentino exigia um mergulho na lama, mas os argentinos estavam mais preocupados com os navios na costa do que com os homens na lama. Se as embarcações fossem afundadas, os homens em terra estariam mortos.

     O verdadeiro inimigo era o frio, o frio constante e congelante, o passeio exaustivo por um terreno que não sustentava uma única árvore. Até monte Longdon.

     Parando debaixo das colinas, o Terceiro Regimento de Pára-quedistas acantonou-se numa fazenda chamada Estância House e se preparou para fazer aquilo pelo qual seu país fizera-os viajar por 11 mil quilômetros. Era a noite de 11 para 12 de junho.

     Era para ter sido um ataque noturno silencioso. Permaneceu assim até o cabo Milne pisar numa mina. Depois disso, ficou barulhento. As metralhadoras argentinas abriram fogo e chamas iluminaram as colinas, fazendo parecer que havia amanhecido no vale. Os soldados do Terceiro Regimento de Pára-quedistas podiam correr para se proteger ou entrar no fogo e tomar Longdon, o que resultou em 23 mortos e mais de 40 feridos.

     Foi a primeira vez, enquanto as balas varavam o ar em torno de sua cabeça e homens caíam ao seu lado, que Mike Martin sentiu aquele gosto de cobre na língua, o sabor do medo.

     Mas nada o tocou. De seu pelotão de 30 homens, incluindo um sargento e três cabos, seis foram mortos e nove feridos.

     Os soldados argentinos que protegiam a cordilheira eram recrutas convocados, rapazes dos pampas ensolarados — os filhos dos ricos podiam evitar o serviço militar — e queriam ir para casa, sair da chuva, frio e lama. Saíram de seus abrigos antiaéreos e trincheiras e recuaram para buscar refúgio em Port Stanley.

     Ao amanhecer, Mike Martin pôs-se de pé no topo da cordilheira Wireless, olhou para a cidade e o sol nascente a leste, e redescobriu o Deus de seus ancestrais, de quem se afastara havia muitos anos. Fez suas preces e jurou jamais esquecer de fazer isso de novo.

    

     Na época em que Mike Martin, então com dez anos, estava se fingindo de árabe no quintal do pai em Saadun, Bagdá, para o deleite dos convidados iraquianos, um menino nascia a quilômetros dali.

     A oeste da estrada, seguindo do Peshawar paquistanês até o Jalalabad afegão, fica a cordilheira de Spin Gahr, as montanhas Brancas, dominadas pela imensa Tora Bora.

     Vistas de longe, essas montanhas parecem uma barreira entre os dois países. Sombrias e frias, têm os cumes cobertos por neve durante o ano inteiro, à exceção do inverno, quando ficam completamente cobertas.

     A cordilheira Spin Gahr estende-se para dentro do Afeganistão com a cordilheira Safed no lado do Paquistão. Descendo até as planícies corre uma miríade de riachos que escoam a neve derretida e a chuva de Spin Gahr, e essas formam muitos vales onde em pequenas áreas de terra podem se cultivar hortas ou servir pasto a rebanhos de ovelhas.

     A vida ali é dura, e com os serviços essenciais sendo tão esparsos, as comunidades dos vales são pequenas e espalhadas. As pessoas nascidas nessa região são aquelas que o antigo Império Britânico conhecia e temia, chamando-os de pathans, agora pashtuns. Nessa época eles haviam lutado por trás de sua proteção rochosa com mosquetes compridos de cano de bronze chamados jezail, com os quais cada homem possuía a precisão de um atirador moderno.

     Rudyard Kipling, o poeta do antigo Raj, resumiu em apenas quatro linhas o poder letal dos montanheses rudes nos combates contra os soldados ingleses altamente educados:

    

     Uma escaramuça num posto de fronteira,

     E com um disparo do alto da montanha,

     Duas mil libras de educação,

     Tombam diante de um jezail de dez rupias.

    

     Em 1972, num daqueles vales altos, havia uma aldeia chamada Malokozai, batizada, como tantas outras, em honra de um fundador-guerreiro morto há muito tempo. Havia cinco assentamentos cercados de muros na aldeia, cada qual lar de uma família de cerca de 20 pessoas. O chefe da aldeia era Nuri Khan, e foi em seu assentamento, e em torno de sua fogueira, que os homens reuniram-se certa noite de verão para bebericar um chá fumegante sem leite ou açúcar.

     Como acontecia com todos os assentamentos, as residências e os estábulos eram construídos contra os muros, de modo que eram voltados para dentro. As fogueiras reluziam, enquanto o sol punha-se muito longe no oeste, e a escuridão acobertava as montanhas, trazendo frio até no alto verão.

     Dos cômodos das mulheres vinham gritos abafados, mas se um fosse especialmente alto, os homens cessariam sua conversa alegre e esperariam para ver se receberiam notícias. A esposa de Nuri Khan estava parindo o quarto filho e seu marido rezou para que Alá lhe desse um segundo homem. Era bom ter filhos do sexo masculino para cuidar do rebanho e defender o assentamento quando se tornasse adulto. Nuri Khan tinha um menino de oito anos e duas filhas.

     A escuridão era completa, e apenas as chamas iluminavam os rostos com narizes aduncos e barbas negras, quando uma parteira chegou correndo das sombras. Ela sussurrou na orelha do pai e seu rosto de mogno quebrou num sorriso faiscante.

     — Allahu akhbar, eu tenho um filho! — gritou. Seus parentes homens e seus vizinhos levantaram-se todos de uma só vez, e o ar crepitou e rugiu com o som de seus fuzis atirando para o céu noturno. Houve muitos abraços, congratulações e agradecimentos ao misericordioso Alá, que concedera um filho ao seu servo.

     — Como irá chamá-lo? — perguntou um pastor que residia nas vizinhanças.

     — Vou chamá-lo Izmat em homenagem ao meu avô, que sua alma repouse em paz eterna — disse Nuri Khan. E assim foi feito quando, alguns dias depois, um imame chegou à aldeia para a cerimônia de nomeação e circuncisão.

     Não houve nada de extraordinário na criação do menino. Quando pôde engatinhar, ele engatinhou, e quando pôde correr, correu furiosamente. Como todo garoto da zona rural, queria fazer coisas que os meninos mais velhos faziam, e aos 5 anos lhe foi confiada a responsabilidade de ajudar a conduzir os rebanhos até os pastos elevados no verão, e vigiá-los enquanto as mulheres cortavam forragem para o inverno.

     Ele desejava ser libertado da casa das mulheres, e no dia de maior orgulho de sua vida, finalmente recebeu permissão para juntar-se aos homens em torno do fogo e ouvir as histórias de como os pashtuns tinham derrotado os ingleses de casaca vermelha naquelas montanhas, havia mais de 150 anos, como se tivesse sido ontem.

     Seu pai era o homem mais rico da aldeia, da única forma que um homem poderia ser rico — em vacas, ovelhas e bodes.

     Os animais, tratados com cuidado e trabalho duro, forneciam carne, leite e couro. Plantações de milho ofereciam mingau e pão; os pomares e as nogueiras produziam frutas e óleo de nozes.

     Não havia necessidade de sair da aldeia, de modo que Izmat Khan não o fez durante os primeiros 8 anos de vida. As cinco famílias dividiam a pequena mesquita e reuniam-se às sextas-feiras para cerimônias comunitárias. O pai de Izmat era devoto mas não fundamentalista, e decerto não fanático.

     Além daquela montanha, o Afeganistão chamava a si mesmo de República Democrática do Afeganistão. O nome era inadequado. O governo era comunista e fortemente apoiado pela URSS. Em termos religiosos, isso era estranho, porque o povo do interior era tradicionalmente composto de muçulmanos devotos para quem o ateísmo era inaceitável.

     Mas de forma igualmente tradicional, os afegãos das cidades eram moderados e tolerantes — o fanatismo seria imposto a eles mais tarde. As mulheres eram instruídas, e poucas cobriam os rostos. Cantar e dançar não apenas era permitido como comum. E a temida polícia secreta perseguia os suspeitos de oposição política, sem se preocupar com a negligência religiosa.

     Dos dois elos que a aldeia de Maloko-zai mantinha com o mundo exterior, um era o ocasional grupo de nômades kuchi que passava por eles com um comboio de mulas carregado de contrabando, evitando a grande estrada Trunk através da passagem Khyber, com suas patrulhas e guardas de fronteira, procurando pela trilha para a cidade de Parachinar, no Paquistão.

     Os nômades traziam notícias das planícies e das cidades, do governo na longínqua Cabul e do mundo além dos vales. E havia o rádio, uma antigüidade guardada como um tesouro, que chiava e apitava até finalmente murmurar palavras que podiam ser compreendidas. Esses murmúrios eram da rádio em pashto da BBC, levando aos pashtuns uma versão não-comunista do mundo. O menino teve uma infância pacífica. Então vieram os russos.

     Para os aldeões de Maloko-zai, pouco importava quem estava certo ou errado. Não sabiam nem se incomodavam com o fato de seu presidente comunista ter desagradado seus mentores em Moscou, porque não conseguia controlar as províncias. Importava apenas que, proveniente do Uzbequistão soviético, um exército inteiro de Moscou cruzara o rio Amu Darya, atravessara a passagem Salang e tomara Cabul. O caso não era (ainda) a respeito do islã contra o ateísmo; era um insulto.

     A educação de Izmat Khan tinha sido extremamente básica. Aprendera os versículos do Corão necessários para as preces, embora fossem numa língua chamada árabe, que ele não conseguia compreender. O imame local não era residente. Na verdade, era Nuri Khan quem conduzia as preces. Ele ensinara aos meninos da aldeia os rudimentos da leitura e da escrita, mas apenas em pashto. Foi o pai de Izmat Khan quem lhe ensinou as regras do pukhtunwali, o código segundo o qual um pashtun deve viver. Honra, hospitalidade, a necessidade da vendetta para vingar insultos — essas eram as regras do código. E Moscou as insultara.

     Foi nas montanhas que a Resistência começou, e eles se autodenominaram guerreiros de Deus, mujahedins. Mas primeiro os montanheses precisavam de uma conferência, uma shura, para decidir o que fazer e quem iria liderá-los.

     Eles nada sabiam sobre a Guerra Fria, mas então lhes foi dito que tinham amigos poderosos, os inimigos da URSS. Isso fazia perfeito sentido. Aquele que é inimigo de meu inimigo... O primeiro deles era o Paquistão, que estava bem ao lado e era regido por um ditador fundamentalista, o general Zia-ul-Haq. Apesar da diferença religiosa, ele era aliado do poder cristão chamado América do Norte, e sua amiga, a Inglaterra, que um dia fora sua inimiga.

    

     Mike Martin havia provado a ação e gostado dela. Ele cumpriu uma temporada na Irlanda do Norte, operando contra o IRA, mas as condições eram miseráveis, e apesar do perigo constante de levar uma bala de fuzil nas costas, as patrulhas eram tediosas. Ele ficou atento para oportunidades e, na primavera de 1986, candidatou-se ao SAS.

     Uma proporção alta dos membros do SAS provém do Regimento de Pára-quedistas porque seu treinamento e modo de combate são similares, mas o SAS alega que os deles são mais rigorosos. Os documentos de Martin passaram de mão em mão pela Secretaria de Registros, em Hereford, onde sua fluência em árabe foi notada com interesse. Mike foi convidado para um curso básico.

     O SAS alega que recebem homens em forma e então começam a trabalhar neles. Martin fez o curso inicial de seis semanas junto com outros oriundos do Regimento de Pára-quedistas, infantaria, cavalaria, blindados, artilharia e até engenheiros. O SAS era bem aberto, ao contrário de outras unidades de elite, como o SBS (Esquadrão Especial de Barcos), que aceitava apenas fuzileiros navais.

     O curso inicial do SAS é simples, baseado num único preceito. No primeiro dia, um sargento sorridente disse a todos eles:

     — Aqui não tentamos treinar vocês. Nós tentamos quebrar vocês.

     E realmente faziam isso. Apenas dez por cento dos candidatos passavam no curso inicial . Isso economizava tempo. Martin passou. Então veio o treinamento de aperfeiçoamento; treinamento de selva em Belize, e mais um mês extra na Inglaterra, dedicado à resistência a interrogatório. Resistência significa tentar permanecer em silêncio enquanto algumas práticas extremamente desagradáveis são infligidas. A boa notícia é que tanto o integrante do SAS quanto o voluntário têm o direito de insistir, uma vez a cada hora, em retornar à sua unidade.

     No verão de 1986, Martin começou a trabalhar como comandante de tropa no posto de capitão. Optou por um Esquadrão A, os pára-quedistas, uma escolha natural para um ex-membro do Regimento de Pára-quedistas.

     Se no Regimento de Pára-quedistas o domínio de árabe de Martin não tivera uso, no SAS tinha, dado seu relacionamento longo e íntimo com o mundo árabe. O SAS foi formado no Deserto Ocidental em 1941, e jamais perdeu sua empatia com as areias árabes.

     O SAS tinha a reputação de ser a única unidade do Exército que dava lucro. Isso não era verdade, mas era quase. Os homens do SAS são os guarda-costas e treinadores de guarda-costas mais cobiçados do mundo. Por toda a Arábia, os sultões e emires sempre procuraram uma equipe do SAS para treinar seus próprios guardas pessoais, e pagavam bem por isso. No verão de 1987, Martin cumpria sua primeira missão, com a Guarda Nacional Saudita, em Riad, quando foi chamado para casa.

     — Não gosto desse tipo de coisa — disse o oficial-comandante em seu gabinete em Sterling Lines, o QG do Regimento em Hereford. — Não gosto mesmo. Mas os vermes verdes querem você emprestado. Tem a ver com o fato de você falar árabe.

     Ele usara a expressão ocasionalmente amistosa reservada por soldados para definir o pessoal da inteligência. Ele se referiu ao SIS — A Firma.

     — Eles não têm ninguém que fale árabe? — indagou Martin.

     — Sim, escritórios cheios deles. Mas não é apenas uma questão de falar. E não é realmente a Arábia. Eles querem alguém que vá para trás das linhas soviéticas no Afeganistão e trabalhe com a Resistência, os mujahedins. O ditador militar do Paquistão decretou que nenhum soldado ocidental receberia permissão de entrar no Afeganistão através do Paquistão. O ditador não disse isso, mas sua própria inteligência militar, o ISI, administrara o apoio americano aos mujahedins, e ele não queria que um soldado americano ou britânico, infiltrado através do Paquistão, fosse capturado pelos russos e exibido como troféu.

     Mas, durante a ocupação soviética, os britânicos decidiram que deveriam oferecer seu apoio não a Hekmatyar, o homem escolhido pelo Paquistão, mas ao tadjique Shad Massoud. Em vez de se esconder na Europa ou no Paquistão, Massoud estava causando danos reais aos invasores. O problema era levar esse apoio até ele. Seu território ficava muito ao norte.

     Assegurar bons guias com as unidades knas proximidades da passagem Khyber não era problema. Como na época do Raj, algumas peças de ouro abriam muitas portas. Havia um aforismo que dizia que não era possível comprar a lealdade de um afegão, mas era possível alugá-la.

     — Capitão, a palavra-chave em cada estágio é negabilidade — haviam dito a Martin no QG do SIS, que nessa época era uma casa com um século de idade perto do bairro de Elephant and Castle. — É por causa disso que você terá de dar baixa do Exército. É apenas uma formalidade, porque quando voltar — ele teve a gentileza de dizer quando, e não se — você será completamente reintegrado.

     Mike Martin sabia perfeitamente que dentro de suas fileiras o SAS já possuía a ultra-secreta Ala de Luta Revolucionária, cuja missão era causar o máximo de problema possível para os regimes comunistas no mundo inteiro. Ele mencionou isso.

     — Esta missão é ainda mais secreta — disse o oficial superior. — Nós demos à unidade o nome Unicórnio... porque ela não existe. Ela nunca conta com mais de 12 homens, e no momento só tem quatro. Nós realmente precisamos penetrar no Afeganistão através da passagem Khyber, obter um guia local e seguir para o norte até o vale Panjshir, onde opera o Shah Massoud.

     — Vamos levar presentes? — perguntou Martin.

     — Apenas lembranças, sinto dizer. É uma questão do que um homem pode carregar. Mas depois poderemos adotar comboios de mulas e mais equipamento, caso Massoud envie seus próprios guias para o sul da fronteira. É uma questão de primeiro contato, compreende?

     — E o presente?

     — Tabaco, ele gosta de nosso tabaco. Ah, sim, e dois lança-mísseis terra-ar Blowpiper. Ele tem tido muitos problemas com ataques aéreos. Você terá de ensinar os homens dele a usarem os lança-mísseis. Calculo que você ficará fora seis meses. Como se sente a respeito?

     Antes de a invasão completar seis meses, estava claro que os afegãos não fariam a única coisa que sempre lhes fora impossível: unir-se. Depois de semanas de conversa em Peshawar e Islamabad, com o Exército paquistanês insistindo que só distribuiria recursos e armas americanos aos resistentes de sua confiança, o número de grupos de resistência rivais foi reduzido a sete. Cada um deles tinha um líder político e um comandante de guerra. Esses eram os Sete de Peshawar.

     Apenas um não era pashtun — o professor Rabbani e seu carismático líder de guerra Ahmad Shah Massoud, ambos tadjiques do norte distante. Dos outros seis, três logo foram apelidados de Comandantes Gucci porque raramente apareciam no Afeganistão já ocupado, preferindo usar vestimentas ocidentais quando estavam no exterior.

     Dos outros três, dois, Sayyaf e Hekmatyar, eram simpatizantes fanáticos da Irmandade Muçulmana do Ultra-Islã, o último tão cruel e vingativo que no fim acabou executando mais afegãos que russos.

     O homem que controlava as tribos na província de Nangarhar, onde Izmat Khan nascera, era o mula Maulvi Younis Khalè. Era um intelectual e sacerdote, mas tinha um brilho no olhar que transmitia gentileza, em contraposição à crueldade de Hekmatyar, que o odiava.

     Embora fosse o mais velho dos sete, com mais de 60 anos, durante os dez anos seguintes, Younis Khalès empreendeu incursões ao Afeganistão ocupado para comandar pessoalmente seus homens. Quando não estava lá, seu comandante era Abdul Haq.

     Em 1980, a guerra chegara aos vales de Spin Gahr. Os soviéticos estavam espalhados em grande número por Jalalabad, abaixo das montanhas, e sua força aérea iniciara ataques às vilas nas montanhas. Nuri Khan jurara aliança a Younis Khalès como seu comandante militar e recebera o direito de formar seu próprio lashkar, uma milícia de proprietários de fazendas.

     Ele poderia abrigar grande parte da riqueza animal de sua aldeia nas inúmeras cavernas naturais das montanhas Brancas, e seu pessoal também poderia abrigar-se ali, quando começassem os ataques aéreos. Mas ele decidiu que era hora de as mulheres e crianças cruzarem a fronteira para buscar refúgio no Paquistão.

     Obviamente, o pequeno comboio precisaria de um homem para guiá-lo na jornada e na estada em Peshawar, por mais que ela demorasse. Como mahram, designou o próprio pai, que tinha mais de 60 anos e era meio manco. Burros e mulas foram providenciados para a viagem.

     Contendo as lágrimas pela vergonha de ser despachado como se fosse uma criança, Izmat Khan, então com oito anos, foi abraçado por seu pai e seu irmão, segurou a rédea da mula que carregava sua mãe e se dirigiu para os picos altos e o Paquistão. Passariam sete anos antes que ele retornasse do exílio, e quando voltasse seria para lutar contra os russos com uma ferocidade fria.

     Para se legitimarem aos olhos do mundo, os comandantes militares concordaram que cada um formaria um partido político. O de Younis Khalès foi chamado Hizb-Islami, e todos sob sua regência deveriam afiliar-se a ele. Fora de Peshawar, uma profusão de cidades de tendas brotara sob os auspícios de uma tal Organização das Nações Unidas, embora Izmat Khan jamais tivesse ouvido falar dela. A ONU concordara que cada comandante militar, agora travestido de líder de partido, deveria ter seu próprio campo de refugiados, ao qual só poderiam ser admitidos os membros do próprio partido.

     Havia outra organização distribuindo comida e cobertores. Sua insígnia era uma cruz vermelha. Izmat Kahn também jamais vira uma dessas, mas sabia o que era sopa quente, e depois da travessia árdua pelas montanhas, ele tomou a que lhe foi oferecida. Havia mais uma condição exigida dos habitantes dos campos e daqueles que se beneficiavam da generosidade do Ocidente, afunilada pela ONU e pelo general Zia-ul-Haq: os meninos deveriam ser educados na madrassa, em cada campo de refugiados. Esta seria a única educação. Eles não aprenderiam matemática, ciências, história ou geografia. Eles aprenderiam apenas a recitar os versículos do Corão. De resto, eles assimilariam apenas sobre guerra.

     A maioria dos imames das escolas corânicas recebia salários pagos pela Arábia Saudita, e muitos deles eram sauditas. Traziam consigo a única versão do islã permitida na Arábia Saudita: wahabismo, o credo mais rígido e intolerante dentro do islã. E assim, à vista do símbolo de cruz que fornecia alimentos e remédios, toda uma geração de jovens afegãos sofreu lavagem cerebral para se tornarem fanáticos.

     Nuri Khan visitava sua família tantas vezes quanto podia, duas ou três vezes ao ano, deixando seu lashkar nas mãos do filho mais velho. Mas era uma jornada árdua, e Nuri Khan parecia mais velho a cada visita. Ao chegar em 1987, parecia abatido e doente. O irmão mais velho de Izmat morrera num bombardeio, enquanto conduzia outras pessoas até a segurança das cavernas. Izmat tinha 15 anos e seu peito quase explodiu com orgulho quando seu pai lhe deu ordens para voltar, juntar-se à resistência e tornar-se um mujahid.

     É claro que as mulheres choraram, assim como seu avô, que não sobreviveria a mais um inverno na planície fora de Peshawar.

     Então Nuri Khan, seu filho sobrevivente, e os oito homens que trouxera para verem suas famílias, voltaram-se para oeste a fim de cruzar os picos da província de Nangarhar, e para a guerra.

     O menino que retornou era diferente e a paisagem que encontrou estava dilacerada. Nos vales, não sobrara de pé um único casebre de pedras. Os caças Sukhoi e os helicópteros Hind, equipados com metralhadoras, haviam devastado os vales das montanhas Panjshir ao norte, onde Shah Massoud tinha sua zona de combate, até o Paktia e a cordilheira Shinkay. O povo das planícies podia ser controlado ou intimidado pelo exército ou pela Khad, a polícia secreta disciplinada pela KGB soviética.

     Mas o povo das montanhas e aqueles das planícies e cidades que haviam escolhido juntar-se a eles eram irrastreáveis, e, como se revelou mais tarde, inconquistáveis. Apesar da cobertura aérea, que os britânicos jamais haviam tido, os soviéticos estavam passando por uma coisa parecida com o destino da coluna britânica reduzida a pedaços na marcha suicida de Cabul e Jalalabad.

     As estradas eram perfeitas para emboscadas e as montanhas, inalcançáveis, exceto pelo ar. E a entrega, em mãos mujahedins, de mísseis americanos Stinger, desde setembro de 1986, forçara os soviéticos a voarem mais alto, alto demais para serem precisos, ou correrem o risco de serem abatidos. As perdas soviéticas aumentavam, com baixas devido a ferimentos e doenças, e mesmo numa sociedade controlada como a União Soviética, a moral estava afundando como uma pedra no rio.

     Era uma guerra de selvageria cruel. Faziam-se poucos prisioneiros, e os mortos eram os felizardos. Os clãs das montanhas odiavam os pilotos russos que, se capturados vivos, podiam ser pregados ao sol com um pequeno corte na parede do estômago para verem suas entranhas fritarem ao calor até serem abençoados com a morte. Ou podiam ser entregues às mulheres com suas facas de despelar.

     A reação soviética era atingir com bomba, foguete ou balas qualquer coisa que se movesse: homem, mulher, criança ou animal. Semearam as montanhas com uma quantidade sem precedentes de minas lançadas dos caças; milhões de minas, que acabariam por criar uma nação de muletas e próteses. Antes que a guerra acabasse, haveria um milhão de afegãos mortos, um milhão de mutilados e cinco milhões de refugiados.

     Izmat Khan aprendera tudo sobre armas no campo de refugiados. Sua favorita, é claro, era o AK-47. Era uma ironia suprema o fato de que esta arma soviética, o fuzil de assalto favorito de cada movimento dissidente e terrorista do mundo, agora estivesse sendo usado contra eles. Mas os americanos estavam fornecendo as armas por um motivo: todos poderiam encontrar munição compatível na mochila de um russo morto.

     Além do fuzil de assalto, a arma preferida era a RPG (granada propelida por foguete). Era uma arma simples, fácil de usar e recarregar, e mortal quando disparada a curto ou médio alcance. Ela também era fornecida pelo Ocidente.

     Grande para seus 15 anos, e tentando desesperadamente cultivar uma barbicha, Izmat Khan estava sendo transformado num homem bruto por aquelas montanhas. Testemunhas viram montanheses pashtuns moverem-se como bodes através de seu próprio terreno, pernas aparentemente imunes à exaustão, respirando com facilidade onde outros homens mal conseguiam obter ar para se manter vivos.

     Convocado pelo pai, Izmat Khan voltara para casa por um ano. Encontrara um estranho ao lado de seu pai: um homem de rosto queimado pelo sol, barba preta, usando a típica túnica afegã, o shalwar kameez, por cima de um colete sem mangas e calçado com botas de caminhada. No chão estava a maior mochila que o menino vira em sua vida, além dos lança-mísseis embrulhados em couro de ovelha. Na cabeça, usava um turbante pashtun.

     — Este homem é um hóspede e um amigo — disse Nuri Khan. — Ele veio nos ajudar e lutar conosco. Ele precisa levar suas armas até Shah Massoud, no Panjshir, e você irá guiá-lo até lá.

    

     O JOVEM PASHTUN FITOU O ESTRANHO. ELE NÃO PARECERA entender o que Nuri Khan dissera.

     — Ele é afegão? — perguntou Izmat Khan.

     — Não, ele é inglês.

     Izmat Khan ficou estupefato. Aquele era o inimigo antigo. Além disso, ele era o que o imame na madrassa condenara com ardor e constância. Ele devia ser kafir, um descrente, um nasrani, um cristão, destinado a queimar no fogo do inferno por toda a eternidade. E ele deveria escoltar aquele homem por centenas de quilômetros até um grande vale no norte? Passar dias e noites em sua companhia? E seu pai, um homem bom, um muçulmano devoto, tinha-o chamado de amigo. Como era possível?

     O inglês levou a mão ao peito, perto do coração.

     — Salaam aleikhem, Izmat Khan — disse ele.

     O pai não falava árabe, embora agora houvesse muitos voluntários árabes na cordilheira. Os árabes mantinham-se à parte, trabalhando o tempo inteiro, de modo que não havia motivo para misturar-se com eles e aprender um pouco de sua língua. Mas Izmat lera o Corão várias vezes; ele era escrito apenas em árabe; e seu imame falava apenas árabe da Arábia Saudita. Izmat detinha um bom conhecimento dessa língua.

     — Aleikhem as-salaam— respondeu. — Qual é seu nome?

     — Mike — disse o homem.

     — Ma-iqui — tentou dizer Izmat. Nome estranho.

     — Bom, vamos tomar chá — disse o pai.

     Estavam abrigados na entrada de uma caverna a cerca de 16 quilômetros das ruínas de sua aldeia. Mais para o interior da caverna ardia uma pequena fogueira, longe o bastante da entrada para que sua fumaça não saísse, atraindo assim uma aeronave soviética.

     — Dormiremos aqui esta noite. Pela manhã vocês seguirão para o norte. Irei para o sul, juntar-me a Abdul Haq. Haverá mais uma operação contra a estrada Jalalabad-Candahar.

     Comeram carne de bode e mordiscaram bolinhos de arroz. Depois dormiram. Antes do amanhecer, os dois que iam para o norte foram acordados e partiram. A jornada conduziu-os por um labirinto de vales onde existiam alguns abrigos. Mas entre os vales havia cadeias de montanhas, e as encostas eram íngremes e cobertas de rochas e cascalho, não proporcionando quase nenhum abrigo. O mais sensato seria escalar as montanhas ao luar e permanecer nos vales durante o dia.

     Tiveram azar no segundo dia. Para aumentar a velocidade da marcha, deixaram o acampamento noturno antes do amanhecer, e assim que clareou viram-se forçados a atravessar uma ampla extensão de terreno coberto por rochas e cascalho para se abrigar na espinha dorsal da colina mais próxima. Esperar significaria passar o dia inteiro escondido, até o anoitecer. Izmat Khan insistiu que fizessem a travessia à luz do dia. Na metade do caminho, ouviram um rugido de hélices.

     O homem e o menino mergulharam no chão e ficaram imóveis, mas já era tarde. Por trás do penhasco à frente surgiu, ameaçador como uma libélula, um MiL 24 D soviético, conhecido simplesmente como o Hind. Um dos pilotos talvez tenha visto um movimento ou um brilho metálico no terreno rochoso, porque o Hind alterou o curso e seguiu em direção a eles. O rugido dos dois motores Isotov aumentou em seus ouvidos, assim como o som inconfundível das hélices principais.

     Cabeça enterrada nos antebraços, Mike Martin arriscou uma olhada rápida. Não teve dúvida de que haviam sido localizados. Os dois pilotos soviéticos, sentados um atrás do outro com o segundo em um patamar mais elevado, estavam olhando diretamente para ele enquanto o Hind preparava-se para o ataque. Ser pego por um helicóptero em campo aberto e sem qualquer abrigo é o pesadelo de qualquer soldado de infantaria. Martin olhou em torno. A 90 metros dali havia um único grupo de rochas; não eram altas, mas tinham o tamanho exato para proteger um homem agachado. Com um grito para o menino, ele estava de pé e correndo, deixando para trás sua mochila de 50 quilos, mas carregando os lança-mísseis que tanto intrigaram seu guia.

     Ouvia o menino correndo atrás dele, as batidas do próprio coração e o Hind aproximando-se. Jamais teria corrido se não tivesse visto algo no helicóptero que lhe dera uma pontada de esperança. Os suportes de foguetes estavam vazios e ele não estava carregando bombas. Martin respirou fundo o ar fino e torceu para ter razão. E tinha.

     Simonov, o piloto, e Grigoriev, o co-piloto, tinham estado numa patrulha sobre um vale estreito onde agentes haviam relatado um esconderijo dos mujahedins. Eles largaram suas bombas de uma grande altitude, e então desceram para explodir o penhasco com foguetes. Alguns bodes haviam saído da fenda nas montanhas, indicando que realmente existia vida humana escondida ali. Simonov matara os bichos com seu canhão antiaéreo de 30mm, gastando a maior parte da munição.

     O helicóptero voltara para uma altitude segura e estava seguindo de volta para a base soviética nas cercanias de Jalalabad quando Grigoriev avistara um pequeno movimento na encosta da montanha abaixo e a bombordo. Assim que viu as figuras começarem a correr, preparou as armas para atirar e mergulhou. As duas pessoas correndo lá embaixo estavam tentando alcançar um amontoado de rochas. Simonov estabilizou o Hind a 2.000 pés, observou os dois vultos arremessarem-se contra as rochas e disparou. Os canos duplos do GSH estremeceram enquanto atirava, e então parou. Simonov xingou ao ver que estava sem munição. Usara quase toda a munição nos bodes, e agora havia mujahedins para matar, e nenhuma munição. Levantou o nariz do Hind num arco amplo para evitar o penhasco da montanha e sobrevoou o vale.

     Martin e Izmat Khan agacharam-se atrás do amontoado de rochas. O menino observou o inglês abrir rapidamente o embrulho de couro de ovelha e tirar um tubo curto. Estava vagamente cônscio de que alguém o socara na coxa direita, mas não sentia dor. Apenas entorpecimento.

     O que o homem do SAS estava montando tão rápido quanto seus dedos permitiam era um dos lança-mísseis Blowpipe que estava tentando levar para Shah Massoud em Panjshir. Não era tão bom quanto o Stinger americano, porém mais simples e leve.

     Alguns mísseis terra-ar são guiados até o alvo por um radar baseado no solo. Outros levam no nariz seu próprio radar. Alguns emitem raio infravermelho. Há ainda aqueles que são atraídos pelo calor emitido pelos motores de uma aeronave, e seguem em sua direção. O Blowpipe é bem mais simples. Seu sistema chamado de CLOS (Comando por Linha de Visada) exige que o atirador se mantenha de pé e oriente o foguete até o alvo, enviando sinais de rádio de um pequeno controle remoto até as aletas móveis na cabeça do míssil.

     A desvantagem do Blowpipe é que o homem precisa ficar a descoberto diante de uma aeronave de combate. Isso gera uma alta taxa de operadores mortos. Martin enfiou o míssil de dois estágios no tubo de lançamento, acionou a bateria, o giroscópio e olhou através da mira, percebendo o Hind retornando, vindo em sua direção. Estabilizou a imagem na mira e disparou. Com um chiado de gases de exaustão, o foguete saiu do tubo em seu ombro e seguiu às cegas para o céu. Como não era automático, precisava então de ser controlado para subir ou descer, virar para a esquerda ou para a direita. Ele estimou o alcance em 1.300 metros e reduziu depressa. Simonov abriu fogo com sua metralhadora.

     No nariz do Hind os quatro cilindros arremessando uma cortina de balas de metralhadora do tamanho dos dedos começaram a girar. Então o piloto soviético viu a pequena chama tremeluzente do Blowpipe vindo em sua direção. Tornou-se um duelo de nervos.

     Balas atingiram rochas, expelindo estilhaços de pedra em todas as direções. Durou dois segundos, mas com dois mil disparos por minuto, cerca de 70 balas atingiram as pedras antes de Simonov tentar evadir, desta forma desviando para um lado a saraivada de balas.

     Está provado que, durante uma emergência instintiva, uma pessoa geralmente dá uma guinada para a esquerda. É por isso que dirigir no lado esquerdo da rodovia é mais seguro, embora restrito a alguns poucos países. Um motorista em pânico sai da estrada para o acostamento, evitando uma colisão frontal. Simonov entrou em pânico e virou o Hind para a esquerda.

     O Blowpipe perdera seu primeiro estágio e atingia velocidade supersônica. Martin mudou a trajetória para sua direita um segundo antes de Simonov desviar. Foi um bom palpite. O Hind expôs a parte inferior e foi atingido em cheio. O míssil possuía um pouco mais de dois quilos, e o Hind é imensamente forte. Mas o míssil a 1.600 quilômetros por segundo gerou um impacto poderoso. Ela rachou a armadura base, perfurou o helicóptero e explodiu.

     Coberto de suor junto à encosta gelada, Martin viu o monstro inclinar com o impacto, começar a deixar um rastro de fumaça e a mergulhar contra o solo do vale lá embaixo.

     Quando o helicóptero atingiu o leito do rio, o ruído parou. Uma língua de fogo se ergueu, seguida por uma coluna de fumaça preta. Isso bastaria para chamar a atenção dos russos em Jalalabad. Por mais árdua e longa que fosse a jornada por terra, ela duraria poucos minutos para um caça Sukhoi.

     — Vamos — disse Martin em árabe para seu guia. O menino tentou se levantar mas não conseguiu. Então Martin viu a mancha de sangue em sua coxa. Sem dizer uma palavra, baixou o lança-mísseis, correu até sua mochila e a trouxe de volta.

     Usou sua faca K-bar para cortar as calças compridas da vestimenta do menino. O buraco era limpo e pequeno, mas parecia profundo. Se viera de um dos projéteis, então era apenas um fragmento de metal, ou talvez um fragmento de rocha, mas ele não sabia o quanto estava próximo da artéria femoral.

     Martin treinara na ala de Acidentes e Emergências em Hereford, e seu conhecimento em primeiros socorros era bom; mas a encosta de uma montanha no Afeganistão, com os russos se aproximando, não era lugar para uma cirurgia complexa.

     — Vamos morrer, anglês? — perguntou o menino.

     — Inshallah, hoje não, Izmat Khan. Hoje não — repetiu. Estava diante de um péssimo dilema. Precisava de sua mochila e de tudo que ela continha. Tinha de escolher entre levar a mochila ou o menino, não os dois.

     — Você conhece esta montanha? — perguntou Martin enquanto procurava o estojo de primeiros socorros.

     — É claro — disse .

     — Então, eu vou voltar com outro guia. Você precisa explicar a ele como vir. Vou enterrar a mochila e os foguetes.

     Ele abriu uma caixa de metal achatada e retirou uma seringa hipodérmica. O menino observou-o, pálido.

     Que seja, pensou Izmat Khan. Se o infiel quiser me torturar, que o faça. Não darei um pio.

     O inglês inseriu a agulha na coxa de Izmat. Ele não gritou. Segundos depois, quando a morfina começou a fazer efeito, a agonia em sua coxa começou a diminuir. Encorajado, ele tentou se levantar. O inglês retirara da mochila uma pequena pá dobrável e estava cavando um buraco entre as rochas. Depois que acabou, cobriu o lança-mísseis e a mochila com pedras, até que nada mais pudesse ser visto. Mas ele havia decorado a forma do monte de pedras. Se pudesse voltar até aquela encosta, conseguiria recuperar o equipamento.

     O menino protestou que podia caminhar, mas Martin simplesmente jogou-o por cima de um dos ombros e começou a marchar. Sendo puramente pele e ossos, músculos e tendões,  não pesava mais que a mochila Bergen, com seus 50 quilos. Mesmo assim, subir para um ar ainda mais rarefeito e contra a gravidade não era uma alternativa razoável. Escolheu um caminho lateral sobre os cascalhos, descendo na direção do vale. Isso depois se revelou uma escolha sábia.

     Aeronaves soviéticas caídas sempre atraíam pashtuns ansiosos por saquear o que pudesse ser de utilidade ou valor. A coluna de fumaça ainda não fora avistada pelos soviéticos, e a transmissão final de Simonov fora um grito sem sentido. Mas a fumaça atraíra um pequeno grupo de mujahedins de outro vale. Eles os avistaram a cerca de 300 metros acima do nível do terreno.

     Izmat Khan explicou o que acontecera. Os homens das montanhas sorriram de felicidade e começaram a dar tapinhas nas costas do homem do SAS. Martin insistiu que seu guia precisava de ajuda além de uma xícara de chá em alguma chai-khana nas colinas. Um dos mujahedins conhecia o dono de uma mula nas colinas e foi procurá-lo. Isso demorou até o cair da noite. Martin administrou uma segunda injeção de morfina.

     Com um novo guia e Izmat Khan finalmente sobre o lombo de uma mula, seguiram através da noite. Ao amanhecer, chegaram à encosta sul de Spin Gahr, e o guia parou. Ele apontou para a frente.

     — Jaji — disse ele. — Árabes.

     Ele também queria a mula de volta. Martin carregou o menino durante os últimos três quilômetros. Jaji era um complexo de 500 cavernas, e além de ser o nome como eram chamados os árabes afegãos que estavam trabalhando na região havia três anos, alargando, aprofundando, escavando e equipando-as para transformá-las numa grande base guerrilheira. Embora Martin ignorasse, dentro do complexo havia um quartel, uma mesquita, uma biblioteca com textos religiosos, cozinhas, armazéns e um hospital equipado.

     Enquanto se aproximava, Martin foi interceptado por um grupo de sentinelas. Estava claro o que ele fazia ali: carregava um ferido nas costas. Os homens discutiram entre si sobre o destino a ser dado aos dois, e Martin reconheceu o árabe falado na África do Norte. Foram interrompidos pela chegada de um homem do alto escalão que falava como um saudita. Martin compreendeu tudo, mas considerou que não seria sensato dizer alguma coisa. Com linguagem de sinais, indicou que o amigo precisava de uma cirurgia de emergência. O saudita concordou, fez um sinal para que o seguissem e caminhou na frente.

     Izmat Khan foi operado em uma hora. Um fragmento de projétil foi extraído de sua perna.

     Martin aguardou até o rapaz acordar. Acocorou-se, ao estilo local, no canto da ala médica, e todos julgaram-no ser um simples montanhês pashtun que trouxera o amigo para ser socorrido.

     Uma hora depois, dois homens entraram na ala médica. Um era jovem, muito alto, barbado. Usava turbante branco e uma jaqueta camuflada por cima de um manto árabe. O outro era baixo, gorducho, também com não mais de 35 anos, um nariz achatado em cuja ponta empoleiravam-se óculos redondos. Usava um jaleco cirúrgico. Depois de examinar dois dos seus próprios homens, o par caminhou até ele. O homem alto falou em árabe saudita.

     — E como está se sentindo o jovem soldado?

     — Inshallah, estou muito melhor, xeque — respondeu Izmat em árabe, fazendo uma reverência ao homem alto, que ficou alegremente surpreso.

     — Ah, você fala árabe, e ainda tão jovem! — disse com um sorriso.

     — Passei sete anos numa madrassa em Peshawar. Retornei no ano passado para lutar.

     — E por quem você luta, filho?

     — Luto pelo Afeganistão — disse o menino.

     O rosto do saudita pareceu escurecer-se.  Compreendeu que não dissera o que aquele homem quisera ouvir.

     — E também luto por Alá, xeque — acrescentou.

     O rosto do saudita pareceu clarear, iluminado por um novo sorriso. O saudita inclinou-se para dar um tapinha amistoso no ombro do jovem.

     — Chegará o dia em que você não será mais útil ao Afeganistão, mas Alá sempre precisará de um bom guerreiro. Agora, como está o ferimento de nosso amigo?

     Ele dirigiu a pergunta ao doutor, de aparência ingênua.

     — Vejamos — disse o doutor e começou a retirar a atadura. O ferimento estava limpo, fechado por seis pontos e sem qualquer infecção. Ele sorriu de satisfação e tornou a cobrir a sutura.

     — Você estará andando em uma semana — disse o Dr. Ayman al-Zawahiri. E então ele e Osama bin Laden saíram da ala médica. Ninguém reparou no mujahedin suado e sujo, acocorado no canto com a cabeça nos joelhos, como se estivesse dormindo.

     Martin levantou e caminhou até a cama do rapaz.

     — Preciso ir — disse ele. — Os árabes cuidarão de você. Procurarei seu pai e pedirei um guia novo. Fique com Alá, meu amigo.

     — Tome cuidado, Ma-iqui — disse o menino. — Esses árabes não são como nós. Você é kafir, infiel. Eles são como o imame da minha madrassa. Eles odeiam todos os infiéis.

     — Então ficarei grato se você não lhes disser quem eu sou — disse o inglês.

     Izmat Khan fechou os olhos. Preferiria morrer sob tortura do que trair seu novo amigo. Quando abriu os olhos, o anglês sumira. Soube depois que o homem chegara a Shah Massoud no Panjshir, mas jamais o viu novamente.

     Depois de seis meses atrás das linhas soviéticas no Afeganistão, Mike Martin voltou para casa através do Paquistão, sem ter sido identificado e com fluência em pashto somada ao seu currículo. Recebeu uma dispensa, foi reintegrado ao Exército e, ainda a serviço do SAS, foi posicionado novamente na Irlanda do Norte. Mas desta vez foi diferente.

     Os homens do SAS eram aqueles que realmente aterrorizavam o IRA, e matar, ou melhor ainda, capturar vivo, torturar e então matar o que eles chamavam de sassman era o maior sonho de um membro do IRA. Mike Martin descobriu-se trabalhando com a 14a Companhia de Inteligência, conhecida como o Destacamento , ou o Det.

     Eles observavam, rastreavam, ouviam. Seu trabalho era ficarem ocultos, sem serem vistos, para assim descobrir onde os assassinos do IRA atacariam em seguida. Para cumprir sua missão, conseguiam alguns feitos notáveis.

     As casas dos líderes do grupo irlandês eram invadidas pelos telhados, e as escutas eram plantadas no sótão. Elas também eram colocadas nos caixões dos homens do IRA, porque os chefões tinham por hábito realizar conferências enquanto fingiam prestar seus respeitos ao falecido. Câmeras de longo alcance capturavam imagens das bocas em movimento, e leitores de lábios decifravam as palavras. Microfones ultra-sensíveis gravavam conversas através de portas fechadas. Quando o Det descobria algo realmente valioso, a informação era passada para os homens linha dura.

     As regras de engajamento eram rígidas. Os homens do IRA precisavam disparar primeiro, e contra o SAS. Se os homens do IRA largassem as armas, deviam ser tomados como prisioneiros. Antes de disparar, tanto os homens do SAS quanto os do Regimento de Pára-quedismo precisavam tomar imenso cuidado. É uma tradição recente dos políticos e advogados britânicos permitirem direitos civis aos inimigos da pátria, mas não aos seus soldados.

     Não obstante, nos 18 meses que Martin passou como capitão do SAS, em Ulster, ele participou de emboscadas na calada da noite. Em cada uma, um grupo de homens do IRA foi pego de surpresa. Em todas as ocasiões cometeram a tolice de sacar e apontar armas, e foi a polícia local que encontrou os cadáveres na manhã seguinte.

     Mas foi no segundo tiroteio que Martin foi ferido. Ele teve sorte. O ferimento foi superficial no bíceps esquerdo, mas o suficiente para mandá-lo de avião de volta à Inglaterra, para convalescer em Headley Court, Leatherhead. Foi então que conheceu a enfermeira Lucinda, que, depois de um breve namoro, se tornou sua esposa.

     Retornando ao Regimento de Pára-quedistas na primavera de 1990, Mike Martin foi alocado no Ministério da Defesa, em Whitehall, Londres. Fixou residência num chalé alugado perto de Chobham, para que Lucinda pudesse prosseguir a carreira. Martin descobriu-se pela primeira vez na vida como um trabalhador de terno, pegando o trem de manhã para Londres. Com a graduação de funcionário de nível três, trabalhou no gabinete da MOSP (Operações Militares — Unidade de Projetos Especiais). Mais uma vez, foi preciso um agressor estrangeiro para tirá-lo de lá.

     Em 2 de agosto daquele ano, Saddam Hussein invadiu o vizinho Kuait. Mais uma vez, Margaret Thatcher decidiu não ficar de braços cruzados, e o presidente americano George Bush concordou. Em uma semana, havia planos em furiosa preparação para criar uma coalizão multinacional para contra-atacar e libertar o pequeno Estado rico em petróleo.

     Embora estivesse trabalhando no MOSP, o alcance e a influência do SIS foi suficiente para localizá-lo e sugerir que ele fosse se encontrar para almoçar com alguns amigos .

     O encontro foi num clube discreto em St. James, e seus anfitriões eram dois veteranos da Firma. Também à mesa estava um analista nascido na Jordânia e naturalizado britânico, trazido do QG, em Cheltenham. Seu trabalho era ouvir e analisar conversas de rádio captadas no mundo árabe. Mas seu papel à mesa do almoço era diferente.

     Ele conversou com Mike Martin em árabe e Martin retrucou. Finalmente acenou com a cabeça para os dois agentes da Century House.

     — Nunca ouvi nada assim — comentou. — Com esse rosto e voz, ele pode passar.

     Dito isso, ele se levantou da mesa, claramente tendo acabado de realizar seu serviço. O mais velho dos dois veteranos disse a Martin:

     — Ficaríamos tremendamente gratos se você fosse ao Kuait e visse o que está acontecendo por lá.

     — E quanto ao Exército? — perguntou Martin.

     — Acho que eles irão entender nosso ponto de vista — murmurou o outro.

     Mais uma vez, o Exército reclamou mas emprestou Martin. Semanas depois, passando-se por um beduíno condutor de camelos, Martin cruzou a fronteira saudita com o Kuait ocupado pelo Iraque. Na zona norte da capital, ele encontrou várias patrulhas iraquianas, que não notaram o nômade barbado que conduzia dois camelos ao mercado. Os beduínos são tão arraigadamente apolíticos que durante milênios viram invasores varrerem a Arábia sem jamais intervir. Assim, os invasores deixavam quase todos eles em paz.

     Ao longo de várias semanas dentro do Kuait, Martin contatou e assistiu à nascente resistência kuaitiana, ensinou-lhes os truques do ofício, estudou as posições iraquianas, determinando seus pontos fortes e fracos, e então saiu de novo.

     Sua segunda incursão durante a Guerra do Golfo foi ao próprio Iraque. Seguiu até a fronteira saudita a oeste e simplesmente pegou um ônibus iraquiano que estava seguindo para Bagdá. Seu disfarce era de um simples camponês, com um balaio de vime cheio de galinhas.

     De volta a uma cidade a qual conhecia intimamente, assumiu a posição de jardineiro numa mansão rica e passou a viver num barraco no fundo do jardim. Sua missão foi agir como coletor de mensagens e intermediário. Para cumprir o propósito, recebeu uma antena parabólica pequena e portátil, cujas mensagens embaralhadas não podiam ser interceptadas pela polícia secreta iraquiana, mas conseguiam alcançar Riad.

     Um dos segredos mais bem guardados da guerra foi de que a Firma tinha uma fonte, um recurso dentro do governo de Saddam. Martin jamais se encontrou com ele; simplesmente pegava as mensagens em caixas de correio combinadas previamente e as enviava para a Arábia Saudita, onde o QG da Coalizão, liderado por americanos, ficava a um só tempo surpreso e grato. Saddam se rendeu em 26 de fevereiro de 1991, e Mike Martin saiu de Bagdá apenas para quase ser baleado pela Legião Estrangeira Francesa ao atravessar a fronteira na escuridão.

     Na manhã de 15 de fevereiro de 1989, o general Boris Gromov, comandante do 40° Exército soviético, o exército de ocupação do Afeganistão, caminhou pela ponte da Amizade sobre o rio Amu Darya, rumo ao Uzbequistão soviético. Ele fora precedido por seu Exército inteiro. A guerra chegara ao fim.

     A euforia não durou muito. A União Soviética tivera seu próprio Vietnã, que acabou em desastre. Os países-satélites de Moscou em toda a Europa, havia muito inquietos, estavam se rebelando, e sua economia estava se desintegrando. Em novembro os berlinenses haviam derrubado o Muro, e o império soviético simplesmente ruiu.

     No Afeganistão, os soviéticos haviam deixado para trás um governo que a maior parte dos analistas previa não duraria muito, visto que os comandantes vitoriosos estavam formando um governo estável e se preparando para tomar o poder. Mas os intelectuais estavam enganados. O governo do presidente Najibullah,  apreciador de uísque que os soviéticos tinham abandonado em Cabul, permaneceu por dois motivos: um era que o Exército, mais forte do que qualquer outra força no país, apoiado pela polícia secreta Khad, era capaz de controlar as cidades e portanto a maioria da população.

     Mais importante, os comandantes militares simplesmente desintegraram-se numa colcha de retalhos de oportunistas que, longe de se unir para formar um governo estável, fizeram o oposto; eles criaram uma guerra civil.

     Nada disso afetou Izmat Khan. Com o pai ainda no comando da família, embora adoentado e envelhecido prematuramente, e com o auxílio de vizinhos, ele ajudou a reconstruir a aldeia de Maloko-zai. Rocha por rocha, pedra por pedra, eles limparam os destroços deixados pelas bombas e foguetes e refizeram o assentamento da família perto das amoreiras e romãzeiras.

     Com a perna completamente recuperada, ele voltara para a guerra e assumira extra-oficialmente o comando do lashkar que era de seu pai. Os homens seguiram-no, porque ele tivera seu sangue derramado. Quando a paz chegou, seu grupo de guerrilha encontrou e tomou um grande arsenal que os soviéticos não tinham se importado de levar para casa.

     Carregaram as armas pelo Spin Gahr até Parachinar, no Paquistão, uma cidade que não passa de um bazar de armas. Ali eles trocaram as sobras soviéticas por vacas, bodes e ovelhas para reiniciar os rebanhos.

     Se a vida fora difícil antes, começar de novo era ainda mais difícil, mas ele gostava do trabalho braçal e da sensação de triunfo de saber que Maloko-zai viveria de novo. Um homem precisava ter raízes, e as suas estavam ali. Com apenas 20 anos, fazia o chamado e conduzia as preces na mesquita da aldeia às sextas-feiras.

     Os nômades kuchi de passagem traziam-lhe histórias funestas sobre as planícies. O Exército da República Democrática do Afeganistão, leal a Najibullah, ainda ocupava as cidades, mas os comandantes militares infestavam o campo, e eles e seus homens comportavam-se como bárbaros. Pedágios eram criados arbitrariamente nas estradas principais e os viajantes eram destituídos de seu dinheiro ou espancados cruelmente.

     O Paquistão, através do Diretório ISI, estava apoiando Hekmatyar para controlar todo o Afeganistão, e as áreas que ele governava estavam mergulhadas no terror. Todos que haviam formado os Sete de Peshawar para combater os soviéticos então estavam lutando uns contra os outros, e quem sofria era o povo. De heróis, os mujahedins passaram a ser vistos como tiranos. Izmat Khan agradeceu ao misericordioso Alá ter sido poupado do sofrimento das planícies.

     Com o término da guerra, os árabes haviam praticamente desaparecido das montanhas e de suas cavernas preciosas. Aquele que no fim tornara-se o líder sem coroa, o saudita alto do hospital-caverna, também partira. Cerca de 500 árabes tinham permanecido, mas não eram muito populares; estavam espalhados pela região, vivendo como mendigos.

     Também aos 20 anos, Izmat Khan estava visitando um vale vizinho quando viu uma garota lavando as roupas da família num córrego. Ela não ouviu o cavalo de Izmat por causa do som da água corrente, e antes que pudesse puxar o hejab para cobrir o rosto, ele viu os olhos dela. A jovem fugiu, assustada e constrangida. Mas ele vira que ela era linda.

     Izmat fez o que qualquer homem jovem teria feito. Consultou sua mãe. Ela ficou deliciada e logo conspirava alegremente com duas de suas irmãs para encontrar a garota e persuadir Nuri Khan a entrar em contato com o pai para providenciar a união. Seu nome era Maryam, e o casamento ocorreu no fim da primavera de 1993.

     Claro que foi ao ar livre, cheio de flores sendo sopradas das árvores. Houve um banquete, e a noiva chegou de sua vila num cavalo ornamentado. Tinha música de flautas e dança attan debaixo das árvores, mas isso, obviamente, apenas para os homens. Educado numa madrassa, Izmat protestou contra o canto e a dança, mas seu pai, rejuvenescido, convenceu-o a deixar que a festa prosseguisse. Assim, por um dia, Izmat rejeitou seu treinamento wahabi rígido e também dançou na clareira, com os olhos de sua esposa seguindo-o por toda parte.

     O intervalo entre o primeiro vislumbre no córrego e o casamento fora necessário, tanto para providenciar os detalhes do dote quanto para construir uma casa nova para os recém-casados dentro do assentamento de Khan. Foi ali que Izmat tomou sua noiva depois que a noite caíra e os aldeões exaustos tinham voltado para casa. A menos de 40 metros de distância, a mãe de Izmat sorriu de satisfação quando um único grito de menina na noite disse-lhe que sua nora tornara-se mulher. Três meses depois, ficou claro que ela daria à luz uma criança nas neves de fevereiro.

     Enquanto Maryam estava grávida, os árabes retornaram. O saudita alto que os liderava não estava mais entre eles; encontrava-se em algum lugar muito longe, chamado Sudão. Mas ele mandou muito dinheiro e, pagando tributo aos comandantes militares, foi capaz de estabelecer campos de treinamento. Em Khalid ibn Walid, Al-Farouk, Sadeek, Khaldan, Jihad Wai e Darunta, milhares de novos voluntários de todo o mundo árabe vinham para ser treinados para a guerra.

     Mas qual guerra? Até onde Izmat Khan podia ver, eles não tomaram partido nas guerras civis entre os sátrapas tribais. Assim, contra quem estavam sendo treinados para lutar? Soube que tudo acontecia porque o homem alto, chamado de Emir por seus seguidores, havia declarado jihad contra seu próprio governo na Arábia Saudita e contra o Ocidente.

     Mas Izmat Khan não tinha nada contra o Ocidente. O Ocidente ajudara, com armas e dinheiro, a derrotar os soviéticos, e ele só conhecera um único kafir, que salvara sua vida. Aquela guerra santa, aquele jihad, não era seu, decidiu Izmat Khan. Sua preocupação residia em seu país, cuja situação estava se deteriorando para o caos.

    

     TENDO RECEBIDO ORDENS, O REGIMENTO DE PARA-QUEDISTAS acabou aceitando Martin de volta, que já estava adquirindo uma reputação de ser meio excêntrico. Duas faltas ao dever inexplicadas, cada uma de seis meses, no decorrer de quatro anos, causariam olhares desconfiados durante o rancho em qualquer unidade militar. Em 1992, ele foi enviado para a Escola de Comando e Estado-Maior em Camberley e de lá de volta para o ministério, mas como major.

     Desta vez foi novamente para o DMO (Diretoria de Operações Militares), mas como oficial do Estado-Maior da 2a Seção no Departamento Três, os Bálcãs. A guerra ainda fervilhava, com os sérvios sob o domínio de Milosevic e o mundo revoltado com os massacres conhecidos como limpeza étnica. Irritado com a falta de qualquer chance de ação, Martin passou dois anos andando de terno e gravata pelos subúrbios de Londres.

     Oficiais que serviram no SAS podem retornar, mas apenas sob convite. Mike Martin recebeu seu telefonema de Hereford no fim de 1994. Foi o presente de Natal que estava esperando. Mas Lucinda não gostou. Eles não haviam tido filhos; havia duas carreiras seguindo em direções opostas. Lucinda recebera a oferta de uma grande promoção, a chance de sua vida, mas significava trabalhar em Midlands. O casamento estava em risco, e as ordens de Mike eram de assumir o comando do Esquadrão B 22 do SAS e seguir secretamente para a Bósnia. Para todos os efeitos, eles fariam parte da Unprofor, uma força de manutenção de paz da ONU. Na verdade, eles iriam caçar e capturar criminosos de guerra. Ele não tinha permissão para contar os detalhes a Lucinda, apenas que iria partir novamente. Foi a gota d'água. Ela presumiu que era uma transferência de volta para a Arábia e lhe deu um ultimato: você pode ter o Regimento de Pára-quedistas, o SAS e o seu maldito deserto, ou pode ir para Birmingham e continuar o casamento. Martin pensou no assunto e escolheu o deserto.

    

     Fora da reclusão dos vales altos das montanhas Brancas, seu velho líder de partido Younis Khalès morreu, e o partido Hizbi-Islami ficou inteiramente sob o controle de Hekmatyar, a quem Izmat odiava por ter uma reputação de crueldade.

     Quando o bebê de Izmat nasceu em fevereiro de 1994, o presidente Najibullah caíra mas ainda estava vivo, confinado a uma casa de hóspedes da ONU, em Cabul. Ele supostamente fora sucedido pelo professor Rabbani, que era um tadjique, e como tal não aceito pelos pashtuns. Fora de Cabul, apenas os comandantes militares governavam seus domínios, mas os verdadeiros mestres eram o caos e a anarquia.

     Mas outra coisa também estava ocorrendo. Depois da guerra soviética, milhares de jovens afegãos haviam retornado às madrassas paquistanesas para completar sua educação. Outros, jovens demais para ter lutado na guerra, foram até a fronteira para obter uma educação, independentemente da sua natureza.

     O que receberam foram anos de lavagem cerebral wahabi. Agora estavam retornando, mas eram diferentes de Izmat Khan.

     Como o velho Younis Khalès, embora ultradevoto, possuía alguma dose de moderação, suas madrassas nos campos de refugiados haviam ensinado o islã com uma pitada de racionalidade. Outras se concentravam apenas nas passagens ultra-agressivas dos versículos da Espada, encontradas no Corão Sagrado. E o velho Nuri Khan, ainda que também devoto, era humano e não via mal algum em cantar, dançar, praticar esportes e demonstrar alguma tolerância para com o próximo.

     Mas os jovens que estavam retornando eram ignorantes, instruídos por imames semi-analfabetos. Não sabiam nada sobre a vida, sobre mulheres (a maioria vivia e morria virgem) ou sobre as próprias culturas tribais, coisas que Izmat aprendera com o pai. Além do Corão, eles conheciam apenas uma coisa: guerra. A maioria vinha do sul do Afeganistão, onde eram professadas as variantes mais rígidas do islã.

     No verão de 1994, Izmat Khan e um primo desceram o vale e seguiram para Jalalabad. Foi uma visita breve, mas longa o suficiente para que testemunhassem o massacre selvagem que seguidores de Hekmatyar infligiram a uma aldeia que finalmente se recusara a pagar-lhes mais tributo. O dois viajantes encontraram os homens torturados e chacinados, as mulheres espancadas, a aldeia queimada. Izmat ficou enjoado. Em Jalalabad descobriu que o que vira eram bem mais comum.

     Então alguma coisa aconteceu no sul. Desde a queda de qualquer coisa semelhante a um governo central, os soldados do velho Exército oficial simplesmente puseram-se às ordens do comandante militar local que pagasse melhor. Fora de Candahar, alguns soldados capturaram duas adolescentes e as levaram até seu acampamento, onde foram estupradas por todos os homens.

     O religioso da aldeia das moças, que também possuía a própria escola religiosa, foi até o acampamento do Exército com 30 estudantes e 16 fuzis. Apesar de todas as chances em contrário, derrotaram os soldados e enforcaram o comandante do bando pendurando-o no cano de um carro de combate. O religioso chamava-se Mohammad Omar, ou mula Omar. Ele perdeu o olho direito na batalha.

     A notícia se espalhou. Outros rogaram ajuda a Ornar. Seu grupo cresceu em número e atendeu os apelos. Eles não tomavam dinheiro, não roubavam colheitas, não estupravam mulheres, não pediam recompensas. Tornaram-se heróis locais. Em dezembro de 1994, 12 mil homens haviam se juntado a eles, adotando o turbante negro do mula Omar. Eles se autodenominavam estudantes. Em pashto, estudante é talib, e o plural é taliban. De vigilantes de aldeias, os talibãs tornaram-se um movimento e, depois que capturaram a cidade de Candahar, um governo alternativo.

     O Paquistão, através de seu serviço de inteligência com suas tramóias incessantes, vinha tentando derrubar o tadjique Rabbani em Cabul por meio de um apoio a Hekmatyar, mas fracassando sucessivamente. Com o ISI profundamente infiltrado por muçulmanos ultra-ortodoxos, o Paquistão voltou seu apoio para o Talibã. Com a captura Candahar, o novo movimento herdou um arsenal imenso de armas, carros blindados, caminhões, canhões, seis Mig 21 (caças de combate da extinta União Soviética) e seis helicópteros de combate. Eles começaram a se movimentar para o norte. Em 1995, Izmat Khan abraçou a esposa, deu um beijo de despedida em seu bebê e desceu das montanhas para juntar-se ao Talibã.

     Mais tarde, no chão de uma cela em Cuba, Izmat se lembraria dos dias no vale, em companhia da esposa e do filho, como os mais felizes de sua vida. Tinha 23 anos.

     Izmat Khan descobriu, tarde demais, que o Talibã tinha um lado sombrio. Em Candahar, embora tivessem sido devotos antes, os pashtuns foram submetidos ao regime mais rígido já visto no mundo do islã.

     Todas as escolas femininas foram fechadas prontamente. As mulheres foram proibidas de sair de casa, salvo em companhia de um parente do sexo masculino. A burca, que envolve completamente o corpo, deveria ser usada todo o tempo. O som produzido por sandálias femininas nos ladrilhos foi proibido por decreto; foi julgado sensual demais.

     Atividades como cantar, dançar, tocar música, praticar esportes, e até soltar pipa, que é um passatempo nacional, foram proibidas. As preces deveriam ser entoadas as cinco vezes exigidas por dia. O uso de barba era obrigatório para os homens. A obediência a essas regras era garantida por adolescentes fanáticos de turbantes pretos, que haviam aprendido apenas os Versículos da Espada, crueldade e guerra. De libertadores tornaram-se os novos tiranos, mas era impossível detê-los. Sua missão era destruir o domínio dos comandantes militares, e como esses eram odiados, o povo aceitou as novas regras. Pelo menos havia lei e ordem. Não existia mais corrupção, estupros ou crimes; apenas ortodoxia fanática.

     Mula Omar era um sacerdote-guerreiro, e nada mais. Tendo iniciado sua revolução enforcando um estuprador no cano de um carro de combate, tornou-se um recluso em sua fortaleza sul, em Candahar. Seus seguidores pareciam saídos da Idade Média, e entre as muitas coisas que não conheciam estava o medo. Idolatravam o caolho mula Omar, e antes que o Talibã caísse, 80 mil morreriam por ele. Muito longe dali, no Sudão, o saudita alto, que agora controlava 20 mil árabes e estava baseado no Afeganistão, observava e aguardava.

     Izmat Khan juntou-se a um lashkar de homens oriundos da própria província, Nangarhar. Rapidamente tornou-se respeitado porque era maduro e lutara contra os russos.

     O braço Talibã não era realmente um exército; não tinha comandante-geral, estado-maior-geral, oficiais, postos ou infra-estrutura. Cada lashkar era semi-independente sob as ordens de seu líder tribal, que geralmente mantinha a posição através de sua personalidade e coragem em combate, além de sua devoção religiosa. Como os guerreiros muçulmanos dos primeiros califados, destruiam os inimigos com sua coragem fanática, que lhes concedia uma reputação de invencibilidade, tanta que os oponentes geralmente rendiam-se sem um único tiro. Quando finalmente se chocaram com soldados de verdade, as forças do líder carismático tadjique Shah Massoud, tiveram perdas imensas. Como não mantinham médicos militares, os feridos simplesmente morriam à margem da estrada. Mesmo assim, continuaram avançando.

     Nos portões de Cabul, negociaram com Massoud, mas ele se recusou a aceitar seus termos e se retirou para suas próprias montanhas do norte, onde fora vitorioso contra os russos. Assim começou a nova guerra civil, entre o Talibã e a Aliança do Norte, formada pelo tadjique Massoud e pelo uzbeque Dostum. Era 1996. Apenas o Paquistão (que o organizara) e a Arábia Saudita (que o financiara) reconheceu o novo estranho governo do Afeganistão.

     Para Izmat Khan, os dados foram lançados. Seu antigo aliado, Shah Massoud, era agora seu inimigo. Longe, ao sul, um avião pousou. Trazia de volta o saudita alto que falara com ele oito anos antes, numa caverna em Jaji, e o doutor gorducho, que retirara estilhaços da artilharia soviética de sua perna. Ambos os homens mostraram obediência ao mula Omar, oferecendo um imenso tributo em dinheiro e equipamento, portanto assegurando sua lealdade vitalícia.

     Depois de Cabul, houve uma pausa na guerra. Praticamente o primeiro ato do Talibã foi arrancar o ex-presidente deposto, Najibullah, de sua prisão domiciliar, e então torturá-lo, mutilá-lo e executá-lo antes de pendurar seu cadáver num poste. A medida deu o tom do governo que viria. Izmat Khan não gostava de crueldades. Lutara com tanto afinco na conquista de seu país que fora alçado de voluntário para comandante de seu próprio lashkar, que cresceu à medida que os elogios à sua liderança espalharam-se pelas quatro divisões do Exército talibã. Depois pediu permissão para retornar à sua terra natal, Nangarhar, e foi designado governador de província. Em Jalalabad, podia visitar sua família, esposa e filho.

     Nunca ouvira falar de Nairóbi ou de Dar-es-Salaam. Nunca ouvira falar de alguém chamado William Jefferson Clinton. Mas escutara falar muito de um grupo, então com base em seu país, chamado al-Qaeda, e sabia que seus integrantes haviam declarado jihad global contra todos os infiéis e, especialmente, o Ocidente, e acima de tudo um lugar chamado América do Norte. Mas aquele jihad não era dele.

     Estava combatendo a Aliança do Norte para unir sua terra natal de uma vez por todas, e a Aliança fora reduzida a dois enclaves pequenos e obscuros. Um era um grupo de resistência da tribo hazara, sitiado nas montanhas de Darai-Suf, e o outro o próprio Massoud, no impenetrável vale Panjshir e na região noroeste chamada Badakshan.

     Em 7 de agosto de 1998, bombas explodiram diante das embaixadas americanas de duas capitais africanas. Ele não sabia nada a respeito disso. Ouvir rádios estrangeiras agora era proibido. Em 20 de agosto, os Estados Unidos da América lançaram 70 mísseis Tomahawk contra o Afeganistão. Foram disparados dos navios de guerra Cowpen e Shiloh no mar Vermelho, e dos destróieres Bríscoe, Elliot, Hayler e Milius, além do submarino Columbia. Todas essas embarcações estavam posicionadas no golfo Arábico, ao sul do Paquistão.

     Os mísseis foram apontados contra os campos de treinamento da al-Qaeda e as cavernas de Tora Bora. Um míssil desgarrado entrou na boca de uma caverna vazia na montanha de Maloko-zai. A detonação em suas profundezas fez uma face inteira da montanha ruir. Dez milhões de toneladas de rocha desabaram no vale abaixo.

     Quando Izmat Kahn chegou à montanha, não havia mais nada. O vale inteiro fora soterrado. Não existia mais córrego, fazenda, pomares, cercados de animais, ou complexos habitacionais. Toda a sua família e vizinhos tinham morrido. Pais, tios, tias, irmãs, esposa e filho, mortos debaixo de milhões de toneladas de cascalho. Não havia onde cavar nem motivo para cavar. Ele se tornara um homem sem raízes, pais ou clã.

     No sol poente de agosto, ele se ajoelhou no monte que agora era a imensa sepultura da família e, virado para oeste na direção de Meca, abaixou a cabeça até o chão e rezou. Mas foi uma prece diferente; um juramento poderoso, uma declaração de vendetta, um jihad pessoal até a morte, contra as pessoas que tinham feito aquilo. Ele declarou guerra aos Estados Unidos da América.

     Uma semana depois, havia renunciado de seu posto de governador e retornado para o front. Durante dois anos combateu a Aliança do Norte. Enquanto estivera afastado, o taticamente brilhante Massoud contra-atacara e, mais uma vez, causara perdas imensas para o menos competente Taliba. Ocorreram massacres em Mazar-i-Sharif, onde primeiro a tribo Hazara revoltara-se e matara 600 talibãs. Em busca de vingança, os talibãs tinham retornado e chacinado mais de dois mil civis.

    

     O Acordo de Dayton fora assinado; tecnicamente, a Guerra da Bósnia estava terminada. Mas o que ela deixara para trás era um pesadelo. A Bósnia muçulmana fora o principal teatro de guerra, com bósnios, sérvios e croatas envolvidos. Tinha sido o conflito mais sangrento na Europa desde a Segunda Guerra Mundial.

     Os croatas e sérvios, de longe os mais bem armados, haviam infligido a maioria das brutalidades. Chocada e envergonhada, a Europa estabeleceu um tribunal de crimes de guerra em Haia, Holanda, e esperou as primeiras acusações. O problema era que os culpados não iriam se apresentar de mãos para o alto. Milosevic não ofereceria nenhuma ajuda; inclusive, estava preparando novos sofrimentos para outra província muçulmana, Kosovo.

     Parte da Bósnia, o terço exclusivamente sérvio, declarara a si mesma República Sérvia, e a maioria dos criminosos de guerra estava escondida lá. Essa era a missão: identificá-los, capturá-los e levá-los a julgamento. Vivendo principalmente nos campos e florestas, o SAS passou todo o ano de 1997 caçando o que eles chamavam de PIFWICs — sigla em inglês para pessoas indiciadas por crimes de guerra .

     Em 1998, Martin estava de volta ao Reino Unido e ao Regimento de Pára-quedistas, então tenente-coronel e instrutor da Escola de Comando e Estado-Maior, em Camberley. No ano seguinte, foi promovido a oficial de Comando do Primeiro Batalhão, conhecido como Pára-Um. Os aliados da Otan mais uma vez intervieram nos Bálcãs, dessa vez um pouco mais rápido que antes, e novamente para prevenir um massacre grande o bastante para fazer a mídia empregar uma palavra cada vez mais comum: genocídio.

     O setor de inteligência convencera os governos britânico e americano de que Milosevic pretendia limpar a província rebelde de Kosovo, e fazer isso integralmente. O meio seria a expulsão da maior parte do 1,8 milhão de cidadãos a oeste para a vizinha Albânia. Sob a bandeira da OTAN, os aliados deram um ultimato a Milosevic. Ele o ignorou, e colunas de kosovares chorosos e destituídos foram conduzidas através de passagens montanhosas até a Albânia.

     A reação da OTAN não foi de invasão ao território, mas bombardeios que duraram 78 dias e reduziram a ruínas tanto Kosovo quanto a própria Iugoslávia. Com o país destruído, Milosevic finalmente cedeu e a OTAN entrou em Kosovo para tentar governar as ruínas. O militar encarregado era o general Mike Jackson, membro da Brigada de Pára-quedismo desde o começo de sua carreira, e o Pára-Um o acompanhou.

     Essa provavelmente seria a última ação de Mike Martin, não fosse a turma do Oriente Médio.

    

     Em 9 de setembro de 2001, espalhou-se por todo o Exército talibã uma notícia que fez os soldados gritarem repetidamente Allahu-akhbar (Alá é Grande). O ar acima do acampamento de Izmat Khan, nas cercanias de Bamiyan, estalava com tiros disparados num delírio de alegria. Alguém assassinara Ahmad Shah Massoud. Seu inimigo estava morto. O homem cujo carisma sustentara a causa do inútil Rabbani, cuja astúcia como guerrilheiro fizera os soviéticos reverenciá-lo e reduzira as forças talibãs a pedaços, não existia mais.

     Na verdade, ele fora assassinado por dois homens-bomba, marroquinos ultrafanáticos com passaportes belgas roubados que se fingiram de jornalistas e foram enviados por Osama bin Laden como um favor ao seu amigo mula Omar. O saudita não traçara o plano; fora o astuto egípcio Ayman al-Zawahiri que compreendera que se a al-Qaeda prestasse o favor a Omar, o caolho não iria condená-los pelo que estava para acontecer.

    

     Em 11 de setembro, quatro aviões de passageiros foram seqüestrados na costa leste dos Estados Unidos. Em 90 minutos, dois destruíram o World Trade Center, em Manhattan, um devastou o Pentágono, e o quarto, graças aos passageiros, que se rebelaram e invadiram a cabine de comando para arrancar os seqüestradores dos controles, caiu numa plantação.

     Em poucos dias a identidade dos 19 seqüestradores foi revelada; mais alguns dias e o novo presidente americano deu ao mula Omar um ultimato simples: entregue os líderes ou assuma as conseqüências. Por causa de Massoud, Omar não podia capitular. Era o código.

     Em Serra Leoa, uma sucursal do inferno na África Ocidental, anos de guerra e barbárie reduziram a antes riquíssima colônia britânica a uma região infestada por caos, banditismo, sujeira, doenças, pobreza e braços e pernas mutilados. Anos antes, os britânicos decidiram intervir e persuadiram a ONU a enviar 15 mil soldados que, na maioria das vezes, simplesmente ficavam sentados em suas tendas na capital, Freetown. A selva além dos limites da cidade era considerada perigosa demais. Mas a força da ONU incluía um elemento do Exército britânico, e este pelo menos patrulhava o interior.

     No fim de agosto, uma patrulha de 11 homens do Royal Irish Rangers, regimento de infantaria britânico, foi atraída para fora da estrada principal e por uma trilha até a aldeia que funcionava como QG de um bando de rebeldes que se autodenominavam West Side Boys. Na verdade, eram psicopatas descontrolados — estavam sempre bêbados com aguardente caseira; esfregavam cocaína nas gengivas ou laceravam os braços para passar a droga nos cortes e assim ficar doidões mais depressa. Os horrores que infligiram aos camponeses de uma grande área do país são impronunciáveis. Os West Side Boys eram 400 homens, e estavam armados até os dentes. Os Rangers foram rapidamente capturados e mantidos reféns.

     Mike Martin, depois de uma temporada em Kosovo, levara o Pára-Um a Freetown, onde estavam acantonados no Acampamento Waterloo. Depois de negociações complexas, cinco deles foram libertados sob resgate, os outros seis pareciam destinados ao esquartejamento. Em Londres, o chefe do Gabinete de Defesa, Sir Charles Guthrie, deu a ordem: vão até lá e retirem-nos à força.

     A força-tarefa era composta por 48 homens do SAS, 24 do SBS e 90 homens do Pára-Um. Dez pára-quedistas do SAS em camuflagem de selva foram deixados na região uma semana antes do ataque e passaram a viver na selva nas cercanias da aldeia dos rebeldes, observando e escutando sem serem vistos. Tudo que os West Side Boys diziam e faziam era ouvido pelos homens do SAS escondidos na vegetação, e retransmitido para a base. Foi assim que os britânicos souberam que não havia qualquer esperança de resgate pacífico.

     Mike Martin seguiu para o local com o segundo grupo, depois que um morteiro rebelde acidentalmente feriu seis integrantes do Pára-Um, inclusive o comandante do primeiro grupo, que teve de ser evacuado imediatamente.

     A aldeia dos rebeldes — na verdade as aldeias gêmeas de Gberi Bana e Magbeni — estendia-se à margem de um rio lodoso e fedorento chamado riacho Rokel. Os 70 homens do SAS tomaram Gberi Bana, onde os reféns estavam localizados, resgataram todos eles e resistiram a uma série de contra-ataques enfurecidos. Os 90 do Pára-Um tomaram Magbeni. Ao amanhecer, havia cerca de 200 West Side Boys em cada aldeia.

     Seis prisioneiros foram capturados, amarrados e levados de volta até Freetown. Alguns deles escaparam para a selva. Não se tentou contar os corpos, nem nas ruínas das duas aldeias nem na selva circundante, mas ninguém questionou uma estimativa de 300 mortos.

     O SAS e o Pára tiveram 12 feridos e um dos SAS, Brad Tinnion, morreu devido aos ferimentos. Mike Martin, tendo perdido o comandante do primeiro grupo, chegou no segundo e liderou o ataque final a Magbeni. Foi um combate à moda antiga, com tiros à queima-roupa e luta corpo a corpo. No lado sul do riacho Rokel, o Pára perdera seu rádio para a mesma explosão de morteiro que matara o líder do ataque. Assim os helicópteros circulando acima de suas cabeças não podiam avisar sobre os morteiros, e a selva densa não permitia vê-los cair.

     No fim das contas, os integrantes do Pára simplesmente avançaram, gritando e xingando até que os West Side Boys, felizes por terem torturados camponeses e prisioneiros, fugiram, morreram, fugiram de novo e morreram até não restar um só deles.

     Seis meses depois de Martin voltar para Londres, seu café-da-manhã foi interrompido por aquelas imagens inacreditáveis na tela de TV: aviões cheios de passageiros com os tanques de combustível repletos, voando direto contra as Torres Gêmeas. Uma semana depois, estava claro que os EUA teriam de entrar no Afeganistão para perseguir os responsáveis, com ou sem a concordância do governo de Cabul.

     Londres imediatamente concordou em fornecer tudo o que fosse necessário de seus próprios recursos. Os pedidos imediatos foram de aviões de reabastecimento aéreo e Forças Especiais. O chefe de seção do SIS em Islamabad disse que precisaria de todo o apoio que pudesse obter.

     Era um trabalho para Vauxhall Cross, mas o adido de Defesa em Islamabad também pediu ajuda. Mike Martin foi retirado de sua escrivaninha no QG do Regimento de Pára-quedistas e posto no vôo seguinte para Islamabad, como oficial de ligação das Forças Especiais.

     Ele chegou exatamente duas semanas depois da destruição do World Trade Center e no dia dos primeiros ataques aliados.

    

     IZMAT KHAN AINDA ESTAVA COMANDANDO NO NORTE, NO FRONT de Badakhshan, quando as bombas choveram sobre Cabul. Enquanto o mundo estudava Cabul e táticas de distração eram efetuadas no sul, as forças especiais americanas infiltraram-se em Badakhshan para ajudar o general Fahim, que assumira o Exército de Massoud. Ali ocorreria o verdadeiro combate: o resto seria decoração de vitrine para a mídia. Os pontos fortes seriam as forças de solo da Aliança do Norte e o poderio aéreo americano.

     Sem jamais decolar, a pífia força aérea afegã foi evaporada. Seus tanques e artilharia, quando localizados, eram extirpados. O uzbeque Rashid Dostum que passara anos em segurança do outro lado da fronteira, foi persuadido a retornar e abrir uma segunda frente de combate no noroeste para eqüivaler à frente de Fahim no nordeste. E em novembro começou a grande fuga. O segredo residia na marcação de alvos, a tecnologia revolucionária introduzida na Guerra do Golfo, em 1991.

     Ocultos entre as forças aliadas, especialistas das Forças Especiais olhavam por seus binóculos de longo alcance para identificar os postos, canhões, carros de combate, arsenais, depósitos de suprimentos e abrigos de comando do inimigo. Cada um era marcado ou pintado com um ponto infravermelho emitido por um projetor apoiado no ombro do especialista. Por rádio, um ataque aéreo era convocado.

     O Exército talibã sofreu ataques desferidos do sul, onde os porta-aviões americanos estavam posicionados na costa, ou de aviões A-10, que decolavam do bem recompensado Uzbequistão. Unidade por unidade, com bombas e foguetes que não podiam errar ao seguirem o raio infravermelho, o Exército talibã foi destruído e os tadjiques atacaram, triunfantes.

     Izmat Khan recuou e recuou, enquanto uma posição depois da outra era devastada e destruída. O Exército talibã do norte começou com mais de 30 mil soldados, mas perdia mil por dia. Não dispunha de medicamentos ou médicos. Os feridos faziam suas preces e morriam como moscas. Eles gritavam Allahu-akhbaf e investiam contra muralhas de projéteis.

     Os voluntários do Exército talibã já tinham sido empregados nas batalhas desde o começo. Restavam poucos. Esquadrões de recrutamento talibãs pressionavam dezenas de milhares a ingressarem em suas fileiras, mas muitos não queriam lutar. Os verdadeiros fanáticos estavam morrendo. E mesmo assim Izmat Khan precisava ordená-los a recuarem, cada vez mais convencido de que, estando na frente de cada combate, ele não sobreviveria a mais um dia. Em 18 de novembro eles haviam alcançado a cidade de Kunduz.

     Por um capricho da História, Kunduz é um pequeno enclave de sulistas de Gilzai, todos pashtuns, num mar de tadjiques e hazaras. Portanto o Exército talibã poderia buscar refúgio no local. E foi ali que concordaram em se render.

     Para os afegãos, não há nada de desonroso em uma rendição negociada, e que depois de acertada tem seus termos sempre respeitados, O Exército talibã inteiro rendeu-se ao general Fahim, e para a fúria dos americanos, Fahim aceitou.

     Dentro do Talibã havia dois grupos não-afegãos. Havia 600 árabes, todos devotados a Osama bín Laden, que os mandara para lá. Bem mais de três mil árabes haviam morrido, e os americanos não derramariam lágrimas salgadas se o restante também fosse encontrar Alá.

     Também havia cerca de dois mil paquistaneses que claramente iriam se tornar um constrangimento imenso para Islamabad se fossem descobertos. Depois do 11 de Setembro, o soberano do Paquistão, general Musharraf, não tinha mais dúvida de que tinha uma escolha: tornar-se um aliado dedicado dos EUA, com bilhões e bilhões de dólares em auxílio de guerra; ou continuar a apoiar (através do ISI) o Talibã, e portanto Bin Laden, e arcar com as conseqüências diretas. Ele escolheu os EUA.

     Mas o ISI ainda tinha um pequeno exército de agentes dentro do Afeganistão. Durante três noites, uma ponte aérea secreta transferiu de volta para o Paquistão a maior parte dos voluntários paquistaneses que lutavam contra o Talibã.

     Em outro acordo secreto, cerca de quatro mil prisioneiros foram vendidos por somas variadas, de acordo com o nível de interesse, para os EUA e para a Rússia. Os russos estavam interessados sobretudo nos chechenos.

     O exército que se rendeu era de mais de 14 mil homens, mas seus números caíram vertiginosamente. Finalmente, a Aliança do Norte anunciou à imprensa mundial que afluía para o norte para cobrir a guerra verdadeira, que tinha em seu poder apenas 8 mil prisioneiros.

     Depois decidiu-se entregar mais 5 mil ao comandante uzbeque, o general Dostum. Ele queria levá-los para oeste, até Sheberghan, no interior do próprio território. Eles foram transportados em contêineres de aço, sem comida ou água, tão espremidos que podiam apenas ficar de pé, esticando-se para usufruir do ar acima de suas cabeças. Em algum lugar na estrada para oeste, concordou-se em fazer buracos de respiração. Eles foram feitos com metralhadoras que continuaram atirando até que os gritos parassem.

     Dos 3.015 restantes, foram separados os árabes. Eles provinham das diversas partes do mundo muçulmano: eram sauditas, iemenitas, marroquinos, argelinos, egípcios, jordanianos e sírios. Os ultra-radicais uzbeques tinham sido encaminhados para Tashkent, a capital do Uzbequistão, bem como a maioria dos chechenos, mas uns poucos conseguiram ficar. Durante a campanha, os chechenos conquistaram a reputação de serem os mais ferozes, cruéis e suicidas.

     Cerca de 2.400 ficaram para trás, em mãos tadijques, e desses não se ouviu mais falar desde então. Um dos responsáveis pela seleção dirigiu-se a Izmat Khan em árabe. Como respondeu em árabe, foi considerado árabe. Ele não portava distintivos de posto, estava imundo, deprimido, faminto e exausto. Quando foi empurrado por um dos homens, estava tão cansado que não esboçou qualquer reação. Assim acabou como um dos doze afegãos no grupo destinado a ser enviado para oeste até Mazar-i-Sharif, para as mãos de Dostum e seus uzbeques. A essa altura, a mídia ocidental estava atenta, e os prisioneiros receberam da recém-chegada ONU uma garantia de salvo-conduto.

     Conseguiram-se caminhões em algum lugar, e 600 homens foram embarcados na longa jornada para oeste pela acidentada estrada até Mazar. Mas seu destino final não seria a cidade propriamente dita, e sim uma imensa fortaleza-prisão 16 quilômetros mais a oeste.

     Assim chegaram ao portão do inferno, mas todos o chamavam de forte de Qala-i-Jangi.

     A conquista do Afeganistão, se medida desde a primeira bomba até a queda de Cabul nas mãos da Aliança do Norte, demorou aproximadamente 50 dias, mas as Forças Especiais de ambos os países aliados estavam operando dentro do Afeganistão desde bem antes disso. Mike Martin queria partir com os outros, mas o Alto Comissariado Britânico em Islamabad foi irredutível em sua posição de que precisava dele no local para operar em conjunto com os oficiais do Exército paquistanês.

     Até Bagram. Tendo pertencido anteriormente aos soviéticos, a vasta base aérea ao norte de Cabul prometia tornar-se uma das principais bases aliadas durante a ocupação. As aeronaves talibãs baseadas no local tinham sido reduzidas a destroços, e a torre de controle estava em ruína. Contudo, o tamanho da pista de decolagem, os numerosos e imensos hangares e as acomodações que um dia acolheram a guarnição soviética podiam ser restaurados com tempo e dinheiro.

     A base foi capturada na terceira semana de novembro e uma equipe de homens do SBS mudou-se para lá, denominando-a domínio britânico. Mike Martin usou a notícia como a desculpa perfeita para pegar uma carona com os norte-americanos no aeroporto de Rawalpindi para ir dar uma olhada no local.

     O lugar era sombrio e desconfortável, mas o SBS havia liberado um hangar antes que os americanos tomassem a maior parte, e estavam recolhidos no fundo do local, o mais longe possível do vento gelado.

     Soldados possuem um talento notável para transformar os lugares mais horríveis em locais acolhedores. Os membros das Forças Especiais são especialistas no assunto porque costumam ir parar nos piores lugares do mundo. A unidade SBS, composta por 20 homens, saíra em seus Land Rovers em longas expedições, durante as quais se apoderara de uma série de contêineres de aço, os quais arrastaram para dentro do galpão.

     Com tambores, tábuas e muito engenho, os contêineres estavam sendo transformados em camas, sofás, mesas, e o mais importante, em um fogão no qual se poderia aquecer água para o chá.

     Foi na manhã de 26 de novembro que o comandante da unidade disse aos seus homens:

     — Parece que está acontecendo alguma coisa num lugar chamado Qala-i-Jangi, a oeste de Mazar. Aparentemente, alguns prisioneiros se revoltaram, tomaram as armas dos guardas e agora estão lutando contra eles. Acho que devemos ir até lá, dar uma olhada.

     Seis fuzileiros foram escolhidos e dois Land Rovers alocados e abastecidos. Quando estavam prontos para partir, Martin perguntou:

     — Posso ir junto? Vocês podem precisar de um intérprete. O comandante da pequena unidade do SBS era um capitão dos fuzileiros navais. Martin era um coronel do Regimento de Pára-quedistas. Não houve objeção. Ele embarcou no segundo veículo, ao lado do motorista. Atrás dele estavam dois fuzileiros acocorados sobre uma metralhadora calibre 30. Seguiram para o norte num percurso de seis horas, atravessando a passagem Salang até as planícies do norte, a cidade de Mazar e o forte de Qala-i-Jangi.

     Até hoje não se sabe ao certo que incidente deu origem ao massacre dos prisioneiros em Qala-i-Jangi. Mas existem pistas contundentes.

     A mídia ocidental, com sua tendência a divulgar informações erradas, afirmou que os prisioneiros eram talibãs. Eles eram o oposto disso. Tratava-se, na verdade, com exceção dos seis afegãos incluídos por acidente, do exército derrotado da al-Qaeda. Tinham ido ao Afeganistão especificamente para realizar seu jihad, lutar e morrer. As pessoas enviadas para oeste de Kunduz eram os 600 homens mais perigosos na Ásia.

     O que eles encontraram em Qala foi uma centena de uzbeques parcialmente treinados sob um comandante incompetente. O próprio Rashid Dostum estava longe; no comando estava seu imediato, Safed Kamel.

     Entre os 600 estavam cerca de 60 de três categorias não-árabes. Havia chechenos que, tendo suspeitado ainda em Kunduz de que serem remetidos para os russos era uma receita para a morte, evitaram o massacre. Havia uzbeques anti-Tashkent que também tinham descoberto que apenas uma morte miserável os aguardava no Uzbequistão, e assim se esconderam. E existiam paquistaneses que, erroneamente, evitaram ser repatriados para o Paquistão, onde teriam sido libertados.

     Os outros eram árabes. Ao contrário de muitos membros do Talibã deixados para trás em Kunduz, eram todos voluntários, e não recrutas. Todos ultrafanáticos. Tinham passado pelos campos de treinamento da al-Qaeda; sabiam como lutar com ferocidade e perícia. E todos tinham pouco desejo de viver. Haviam rogado a Alá pela chance de levar alguns ocidentais, ou amigos de ocidentais, junto com eles, e assim morrerem como shahid, ou mártires.

     O forte de Qala não é construído como um forte ocidental. É um imenso complexo de 40 mil metros quadrados com espaços abertos, árvores e construções de um só andar. O lugar é cercado por um muro de 15 metros, e cada lado é inclinado de modo que um homem pode subir pela rampa e chegar até o alto.

     O muro grosso abraça um labirinto de quartéis, armazéns e passagens. E, abaixo de tudo isso, outro emaranhado de túneis e depósitos. Os uzbeques tinham-no capturado havia apenas dez dias e pareciam não saber que existia um arsenal talibã na ala sul. Foi onde eles puseram os prisioneiros.

     Em Kunduz, os cativos tinham sido privados de seus fuzis e granadas, mas ninguém os revistara. Caso os tivessem revistado, os captores teriam descoberto que praticamente cada homem possuía uma ou duas granadas escondidas sob seus mantos. Foi assim que chegaram no comboio de caminhões em Qala.

     A primeira pista surgiu na noite do sábado no qual chegaram. Izmat Khan estava no quinto caminhão e ouviu o estrondo a algumas centenas de metros. Um dos árabes, reunindo vários uzbeques ao seu redor, detonou sua granada, reduzindo a si próprio e a cinco uzbeques a cinzas. A noite estava caindo, e não havia iluminação. Os homens de Dostum decidiram fazer revistas corporais na manhã seguinte. Conduziram os prisioneiros para o complexo, sem comida ou água, e deixaram-nos acocorados no chão, cercados por homens armados, explicitamente nervosos.

     Ao amanhecer começaram as revistas. Os prisioneiros, ainda dóceis devido à fadiga da batalha, permitiram que as mãos fossem amarradas às costas. Como não havia cordas, os uzbeques usaram os turbantes dos prisioneiros. Mas turbantes não são cordas.

     Um a um, os prisioneiros foram postos de pé e revistados. Encontrou-se pistolas, granadas... e dinheiro. Quando a pilha de dinheiro cresceu muito, Sayid Kamel e seu segundo em comando levaram-na para uma sala lateral. Um pouco mais tarde, um soldado uzbeque olhou pela janela e viu os dois homens embolsando o dinheiro. O soldado entrou para protestar mas recebeu uma ordem bem clara para sair. Ele saiu, mas voltou com um fuzil.

     Dois prisioneiros viram a cena e conseguiram desatar as mãos. Entraram na sala depois do soldado, tomaram o fuzil e usaram a coronha para martelar os três uzbeques até a morte. Como não houve disparos, nada foi notado, mas o complexo estava se tornando um barril de pólvora.

     Os americanos da CIA, Johnny Mike Spann e Dave Tyson haviam entrado na área. Mike Spann iniciou uma série de interrogatórios em campo aberto. Estava cercado por 600 fanáticos cuja única ambição antes de se encontrarem com Alá era matar um americano. Então um guarda uzbeque viu o árabe armado e gritou em alerta. O árabe disparou e o matou. O barril de pólvora explodiu.

     Izmat Khan estava acocorado no chão, esperando sua vez. Como os outros, ele libertara as mãos. Quando o uzbeque baleado caiu, outros postados no alto dos muros abriram fogo com metralhadoras. O abate começou.

     Mais de uma centena de prisioneiros morreram de mãos amarradas e foram encontrados dessa maneira quando o local finalmente estava seguro para a entrada dos observadores da ONU. Outros desataram as mãos dos companheiros para que pudessem lutar. Izmat Khan liderou um grupo, incluindo os cinco amigos afegãos, todos correndo curvados e em ziguezague através das árvores até o muro sul onde, devido a uma visita anterior quando o forte estava em mãos talibãs, ele sabia existir um arsenal.

     Vinte árabes próximos de Mike Spann caíram sobre ele e o espancaram até a morte com punhos e pés. Dave Tyson esvaziou sua pistola na turba, matou três, ouviu o clique do cão da arma batendo na câmara vazia e teve sorte de alcançar o portão principal bem a tempo.

     Em dez minutos, o complexo estava vazio, com exceção dos cadáveres e dos feridos, que ficaram deitados, gritando até morrerem. Com os uzbeques agora do outro lado do muro, o portão principal foi derrubado e os prisioneiros estavam do lado de dentro. O cerco havia começado; duraria seis dias e ninguém estava nem um pouco interessado em tomar prisioneiros. Cada lado estava convencido de que o outro rompera os termos de rendição, mas a essa altura isso não importava mais.

     A porta do arsenal foi derrubada rapidamente e o tesouro distribuído. Aqueles 500 homens estavam com armas suficientes para formar um pequeno exército. Havia fuzis, granadas, lançadores, RPGs e morteiros. O grupo se dispersou pelos túneis e passagens até dominar toda a fortaleza. Cada vez que um uzbeque punha a cabeça sobre o parapeito, um árabe, disparando através de uma fenda no complexo, levava um tiro.

     Os homens de Dostum não tinham outra coisa a fazer além de pedir ajuda, urgentemente. Ela veio na forma de centenas de uzbeques do general Dostum, que correram até Qala-i-Jangi. Os Boinas Verdes norte-americanos também a caminho estavam na forma de quatro homens de Forte Campbell, Kentucky, além de um oficial da Força Aérea americana para assistir na coordenação aérea e seis da 10a Divisão Montanha. Basicamente seu trabalho era observar, reportar e convocar ataques aéreos para romper a resistência.

     No meio da manhã, vindos da base em Bagram, ao norte da recém-capturada capital Cabul, chegaram dois Land Rovers com seis oficiais das forças especiais do SBS e um intérprete, o tenente-coronel Mike Martin, do SAS.

     A terça-feira assistiu ao contra-ataque uzbeque tomar forma. Protegidos por um carro de combate simples, eles entraram novamente no complexo e começaram a identificar as posições rebeldes. Izmat Khan fora reconhecido como comandante de alto escalão e incumbido de uma ala da face sul. Quando o carro de combate abriu fogo, Izmat ordenou que seus homens entrassem nos depósitos. Quando o bombardeio parou, eles saíram novamente.

     Izmat Khan sabia que era apenas uma questão de tempo. Não havia como fugir ou obter misericórdia. Não que ele quisesse. Aos 25 anos, Izmat encontrara o lugar onde ia morrer, e era um lugar tão bom quanto qualquer outro.

     A terça-feira também presenciou a chegada de uma aeronave de ataque americana. Os quatro Boinas Verdes e o oficial da Força Aérea estavam deitados diante do parapeito no topo da rampa externa, escolhendo alvos para os caças-bombardeiros. Trinta ataques aconteceram naquele dia, dos quais 28 atingiram o prédio onde os rebeldes estavam escondidos, matando cerca de cem homens, grande parte soterrada. Duas bombas não foram tão eficientes.

     Mike Martin estava diante do muro, a cerca de cem metros dos Boinas Verdes, quando a primeira bomba errou o alvo. O artefato caiu no meio do círculo formado pelos cinco americanos. O fato de todos terem sobrevivido com tímpanos estourados e alguns ossos quebrados foi um milagre.

     A bomba era uma JDAM, projetada para penetrar fundo numa construção antes de detonar. Ao cair com o nariz para baixo no solo, a JDAM perfurou 12 metros antes de explodir.

     Os americanos viram-se em cima de um terremoto, foram chacoalhados, mas sobreviveram.

     O segundo erro de alvo foi ainda mais infeliz. A bomba atingiu o carro de combate uzbeque e o posto de comando por trás dele.

     Na quarta-feira, a imprensa ocidental havia chegado e estava espalhada por todo o forte, ou pelo menos pela parte externa. Eles podiam não estar se dando conta, mas sua presença era o único fator que inibia os uzbeques de exterminarem os rebeldes até o último homem.

     No decorrer dos seis dias, 20 rebeldes arriscaram a vida tentando escapar na escuridão da noite e fugir pelo campo. Cada um deles foi capturado pelos camponeses e linchado. Os camponeses eram da tribo hazara, que não haviam esquecido do massacre cometido pelos talibãs contra seu povo, três anos antes.

     Mike Martin estava deitado no topo da rampa, olhando através do parapeito para o complexo aberto, abaixo. Os cadáveres dos primeiros dias ainda estavam espalhados, e o cheiro era insuportável. Os americanos, com seus gorros de lã preta, já haviam descoberto os rostos, que já tinham sido bem documentados pelos operadores de câmera. Os sete britânicos preferiam manter-se anônimos. Eles usavam o shemagh, o manto de algodão que protege contra moscas, areia e detritos. Na quarta-feira essa indumentária servia a mais um propósito: filtro contra o cheiro de decomposição dos cadáveres.

     Um pouco antes do pôr-do-sol, o sobrevivente da CIA, Dave Tyson, que retornara depois de um dia em Mazar-i-Sharif, demonstrou ousadia ao entrar no complexo com uma equipe de TV desesperada para ganhar o prêmio Emmy. Martin os viu se arrastando ao longo do muro do lado oposto. O fuzileiro J estava deitado ao lado dele. Enquanto observavam, um pelotão de rebeldes emergiu do muro por uma porta, agarrou os quatro ocidentais e os levou para dentro.

     — Alguém devia tirá-los de lá — comentou o fuzileiro J em tom de conversa. Olhou em torno. Seis pares de olhos o estavam fitando sem falar nada.

     Ele pronunciou um sincero puta merda, pulou o muro, desceu a rampa interna e correu pelo espaço aberto. Três homens do SBS juntaram-se a ele. Os outros dois e Martin ficaram no muro, dando cobertura com os fuzis. A esta altura os rebeldes estavam confinados na parte sul do muro. A loucura da atitude dos quatro fuzileiros pegou os rebeldes de surpresa. Não houve troca de tiros até eles terem alcançado a porta no muro do lado oposto.

     O fuzileiro J foi o primeiro a entrar. Os soldados do SAS e do SBS recebem treinamento para a recuperação de reféns, até serem capazes de agir nessas situações sem hesitar. Em Hereford, o SAS possui uma casa da morte; em seu QG, em Poole, o SBS mantém uma instalação semelhante.

     Os quatro homens do SBS entraram correndo pela porta, identificaram os três rebeldes por suas roupas e barbas, e dispararam. O procedimento é chamado de toque duplo: duas balas bem no rosto. Os três árabes não dispararam um único tiro; na verdade, estavam virados na direção errada. David Tyson e a equipe de TV britânica concordaram, naquele lugar e momento, em jamais mencionar o incidente, e nunca o fizeram.

     Na noite de quarta-feira, Izmat Khan compreendeu que ele e seus homens não permaneceriam muito tempo no local. A artilharia chegara, e estava começando a reduzir a face sul do complexo a destroços. Os porões eram o último recurso. Os rebeldes sobreviventes tinham sido reduzidos a menos de trezentos.

     Alguns desses decidiram não descer ao subsolo, mas morrer sob o céu. Realizaram um contra-ataque suicida que funcionou no espaço de cem metros, matando um bom número de uzbeques pegos de surpresa e com pouco tempo para reagir. Mas então a metralhadora do carro de combate sobressalente dos uzbeques abriu fogo, esfarrapando os árabes. Eles eram, em sua maioria, iemenitas, com alguns chechenos.

     Na quinta-feira, sob o conselho dos americanos, os uzbeques pegaram barris de diesel de seu carro de combate e derramaram seus conteúdos nos porões. E atearam fogo.

     Izmat Khan não estava nessa seção do porão, e o cheiro dos cadáveres suplantou o cheiro do diesel, mas ele ouviu o vum do fogo instantâneo e sentiu o calor. Mais rebeldes morreram, mas os sobreviventes saíram cambaleando da fumaça em direção a ele. Estavam todos tossindo e vomitando. No último porão, com aproximadamente 150 homens ao seu redor, Izmat Khan fechou e aferrolhou a porta para manter a fumaça do lado de fora. Do outro lado da porta, os gemidos dos moribundos enfraqueceram até finalmente pararem. Acima deles, bombas explodiram nas salas vazias.

     O último porão conduzia a uma passagem, de cujo fundo vinha uma corrente de ar fresco. Os rebeldes foram verificar se havia uma saída, mas constataram que o ar era proveniente de uma sarjeta acima deles. Naquela noite, Din Muhammad, o novo comandante uzbeque, teve a idéia de redirecionar uma vala de irrigação para aquela tubulação. Depois das chuvas de novembro, a vala estava cheia, e a água, congelante.

     À meia-noite, os homens remanescentes estavam com água até a cintura. Debilitados por fome e exaustão, começaram a escorregar e a se afogar.

     No nível do solo, a ONU estava no comando, e as instruções eram de fazer prisioneiros. Através dos destroços dos prédios em ruínas acima, os últimos rebeldes ouviram o megafone ordenando-os a sair, desarmados e com as mãos para o alto. Depois de 12 horas, o primeiro homem começou a cambalear até as escadas. Outros o seguiram. Finalmente, derrotado, Izmat Khan, o últim sobrevivente, foi com eles.

     Na superfície, tropeçando nos blocos de pedra que um dia formavam a face sul do forte, os derradeiros 86 rebeldes viram-se de frente para uma floresta de armas e foguetes apontados contra eles. À luz da alvorada de sábado, os homens pareciam espantalhos de um filme de terror. Sujos, fedorentos, enegrecidos por fuligem de cordite, rasgados, barbados e hipotérmicos, tropeçaram, e alguns caíram. Um desses foi Izmat Khan.

     Descendo uma pilha de pedras, ele tropeçou, estendeu a mão para se equilibrar e agarrou uma rocha. Ao recolher a mão, um pedaço de pedra veio junto. Pensando que estava sendo atacado, um jovem e nervoso uzbeque disparou seu lança-granadas.

     O artefato passou voando perto da orelha dele, para atingir uma rocha às suas costas. A enorme estrutura estilhaçou, e um pedaço do tamanho de uma bola de beisebol atingiu-o com força devastadora na parte de trás da cabeça.

     Izmat não estava usando turbante. O pano fora empregado para amarrar suas mãos seis dias antes, e jamais recuperado. A pedra teria esfarelado o crânio caso o tivesse atingido em 90 graus. Mas ela ricocheteou, nocauteando-o praticamente a um estado de coma. Izmat caiu entre os cascalhos, com o sangue esguichando da ferida. Os outros homens foram obrigados a marchar até os caminhões que os aguardavam do lado de fora.

     Uma hora depois, os sete soldados britânicos se retiraram do complexo, fazendo anotações. Mike Martin, como oficial sênior, embora tecnicamente o intérprete da unidade, teria um longo relatório a fazer, Ele estava contando os mortos, mesmo ciente de que havia muitos, talvez 200, ainda no subterrâneo. Um corpo chamou sua atenção; ainda estava sangrando. Cadáveres não sangram.

     Ele virou o corpo de barriga para cima. A roupa estava errada. Era uma veste pashtun. Não deveria haver nenhum pashtun ali. Tirou o shemagh da cabeça do homem e limpou o rosto sujo de fuligem. Havia alguma coisa levemente familiar nele.

     Quando Martin sacou sua faca, um uzbeque que estava próximo sorriu. Se o estrangeiro queria se divertir, qual era o problema? Martin cortou a perna da calça do homem na altura da coxa direita.

     Ainda estava ali, enrugada pelos seis pontos, a cicatriz no local onde o fragmento de uma bomba soviética alojara-se 13 anos antes. Pela segunda vez na vida, ele jogou Izmat Khan sobre um dos ombros, como fazem os bombeiros, e o carregou. No portão principal, encontrou um Land Rover com a insígnia da ONU.

     — Este homem está vivo, mas ferido — disse ele. — Está com um ferimento muito grave na cabeça.

     Dever cumprido, Martin embarcou no Land Rover do SBS para o percurso de volta até Bagram.

     Três dias depois, a equipe de investigação americana encontrou  no hospital de Mazar e o levou para interrogatório. Foram de caminhão até Bagram, direto para a área americana da base aérea. Dois dias depois, Izmat Khan recobrou-se lentamente no chão de uma cela improvisada, com frio e algemado, mas vivo.

     Em 14 de janeiro de 2002, os primeiros detentos chegaram à baía de Guantánamo, Cuba, trazidos de Candahar. Estavam vendados, algemados, famintos, sedentos e sujos. Izmat Khan era um deles.

    

     O coronel Mike Martin retornou para Londres na primavera de 2002 para passar três anos como vice-chefe de Pessoal, no QG da Diretoria das Forças Especiais, Quartel Duque de York, Chelsea. Foi descomissionado em dezembro de 2005, depois de uma festa na qual um grupo de amigos, que incluíam Jonathan Shaw, Mark Carleton-Smith, Jim Davidson e Mike Jackson, tentou embebedá-lo, mas sem sucesso. Em janeiro de 2006, ele comprou um celeiro no vale Meon, Hampshire, e no final do verão começou a reformá-lo e transformá-lo numa casa de campo.

     Mais tarde, os registros da ONU demonstraram que 514 fanáticos da al-Qaeda morreram em Qala-i-Jangi e 86 sobreviveram, todos feridos. Os sobreviventes foram para a baía de Guantánamo. Sessenta guardas uzbeques também morreram. O general Rashid Dostum tornou-se ministro da Defesa do novo governo.

    

     A PRIMEIRA TAREFA DA OPERAÇÃO CROWBAR ERA ESCOLHER UMA história, o disfarce para que mesmo aqueles que estivessem trabalhando nela não soubessem nada a respeito de Mike Martin, ou mesmo da idéia de infiltrar um sósia dentro da al-Qaeda.

     A lenda escolhida foi de que a operação seria uma ação conjunta anglo-americana contra uma ameaça crescente representada pelo ópio que saía de plantações afegãs e seguia para refinarias no Oriente Médio. De lá, a heroína era infiltrada no Ocidente, tanto para destruir vidas quanto para gerar fundos para mais terrorismo.

     Segundo o roteiro, os esforços ocidentais para interromper o suprimento de fundos a terroristas através de bancos internacionais tinham induzido os fanáticos a recorrerem a drogas para gerar dinheiro.

     E finalmente, embora o Ocidente já tivesse agências poderosas como a DEA americana e a sua congênere britânica engajadas na luta contra os narcóticos, a Crowbar fora idealizada por ambos os governos como uma operação específica, de alvo único, preparada para usar forças alheias à cortesia diplomática para atacar e destruir quaisquer instalações encontradas, em qualquer país estrangeiro que estivesse fazendo vista grossa para o negócio.

     O modus operanti como a equipe da Operação Crowbar ficaria sabendo à medida que fosse convocada, consistiria em usar a mais alta tecnologia de vigilância para identificar criminosos influentes, rotas, armazéns, refinarias, navios e aeronaves que estivessem envolvidos. Como logo se constatou, ninguém da equipe duvidou de uma única palavra da história inventada.

     E todo o discurso contra instalações clandestinas seria mantido até que não houvesse mais necessidade. Mas depois da conferência em Forte Meade, os mestres da inteligência ocidental não estavam dispostos a arriscar tudo na Operação Crowbar. Esforços frenéticos, embora ultradiscretos, prosseguiriam em outra parte até descobrir a que poderia se referir o código Al-Isra.

     Mas as agências de inteligência estavam diante de um dilema. Elas mantinham legiões de informantes no mundo do fundamentalismo islâmico, alguns dispostos a colaborar, ao passo que outros eram coagidos.

     A questão era: até onde podemos ir antes que os verdadeiros líderes descubram que sabemos sobre o Al-Isra? Havia vantagens claras em permitir que a al-Qaeda acreditasse que nada fora tirado do laptop do tesoureiro morto em Peshawar.

     Isso foi confirmado quando as primeiras menções da frase em conversa com os especialistas no Corão, reconhecidos como simpatizantes do extremismo, geraram apenas respostas corteses ou vazias.

     Quem quer que soubesse o verdadeiro significado da frase, a al-Qaeda mantivera esse círculo extremamente fechado, e ficou rapidamente claro que não incluíra nenhum informante do Ocidente. Assim tomou-se a decisão de responder ao segredo com segredo. A contramedida do Ocidente seria a Crowbar, e apenas a Crowbar.

     A segunda tarefa do projeto era encontrar e estabelecer um QG novo e remoto. Tanto Marek Gumienny quanto Steve Hill concordaram em se afastar de Londres e de Washington. Seu segundo acordo foi estabelecer a base da Crowbar em algum lugar das ilhas britânicas.

     Depois da análise do que seria necessário em termos de tamanho, acomodações, espaço e acesso, chegou-se ao consenso de utilizar uma base aérea desativada. Esses lugares costumam ficar bem afastados das cidades e abrigam refeitórios, cantinas, cozinhas e acomodações em grande número. Some a isso hangares e uma pista para pouso e decolagem de visitantes secretos. A não ser que a desativação tenha sido efetuada há muito tempo, a reforma poderia ser realizada com rapidez pela divisão de manutenção de propriedades de uma das forças armadas — no caso, a Força Aérea britânica.

     Quando chegou a hora de escolher qual seria a base, foi selecionada uma antiga instalação americana, uma das várias que a Guerra Fria plantara em solo britânico. Quinze foram listadas e examinadas, incluindo Chicksands, Alconbury, Lakenheath, Fairford, Molesworth, Bentwaters, Upper Heyford e Greenham Common. Todas foram vetadas.

     Algumas estavam operacionais, e seria impossível calar os funcionários em serviço. Outras estavam nas mãos de empresários do ramo imobiliário. Duas ou três haviam tido suas pistas de pouso aradas e readaptadas à agricultura. Duas ainda estavam sendo usadas como sítios de treinamento para serviços de inteligência. A Crowbar queria um terreno só para ela.

     Phillips e McDonald escolheram a base da RAF em Edzell e pediram a aprovação de seus respectivos superiores.

     Embora a RAF jamais tivesse perdido a propriedade da base em Edzell, ela estava havia anos arrendada para a Marinha dos Estados Unidos, ainda que ficasse a muitos quilômetros do mar. Na verdade, estava situada no condado escocês de Angus, ao norte de Brechin e a noroeste de Montrose, no limite sul das Highlands.

     Edzell fica bem afastada da rodovia A90, que liga Forfar a Stonehaven. A cidadezinha propriamente dita é composta por um pequeno número de casas espalhadas por uma área florestal ampla, com o North Esk fluindo através dela.

     A base, quando os dois oficiais executivos foram visitá-la, revelou-se perfeita para todos os propósitos. Era tão inacessível a olhos curiosos quanto desejavam; contava com duas boas pistas de pouso com torre de controle e todos os prédios necessários para os militares residentes. Tudo o que seria acrescentado era uma série de domos brancos, em forma de bolas de golfe, que esconderiam antenas de escuta capazes de ouvir o bater de asas de um besouro do outro lado do mundo, e a conversão do bloco de operações da Marinha americana no novo centro de comunicações.

     O complexo manteria links codificados com o QG, em Cheltenham, e com a NSA, em Maryland; linhas diretas e seguras para Vauxhall Cross e Langley, que permitiriam contato instantâneo com Marek Gumienny e Steve Hill; e uma alimentação permanente de mais oito agências de Informação de ambas as nações, sendo a principal delas o NRO (Escritório de Reconhecimento Nacional), em Washington, que tinha acesso aos principais satélites espaciais americanos.

     Com a permissão concedida, uma equipe da RAF colocou a mão na massa e iniciou uma operação emergencial para reativar Edzell. A pacata cidadezinha de Edzell notou que alguma coisa estava em andamento, mas com trocas de piscadelas e gestos de boca de siri, concordaram que se tratava de algo altamente secreto, como nos velhos tempos. O taberneiro local aumentou o estoque de cerveja e uísque, torcendo para que os negócios revertessem para seu estado anterior ao fechamento da base. Afora isso, ninguém disse nada.

    

     Enquanto os pintores corriam seus rolos de tinta pelas paredes das acomodações de uma base aérea escocesa, o escritório da firma Siebart & Abercrombie, numa modesta rua da City londrina chamada Crutched Friars, recebeu uma visita.

     O Sr. Ahmed Lampong chegara para um encontro marcado em trocas de e-mails entre Londres e Jacarta e foi conduzido ao gabinete do Sr. Siebart, filho do fundador. O corretor de remessas navais não sabia, mas Lampong é simplesmente o nome de uma das línguas faladas na ilha de Sumatra, de onde seu visitante indonésio viera. E era uma alcunha, embora seu passaporte, uma falsificação impecável, confirmasse o nome.

     O inglês do Sr. Ahmed Lampong era igualmente impecável. Em resposta aos elogios de Alex Siebart, admitiu ter aperfeiçoado seu domínio da língua para obter o mestrado em economia, na London School of Economics. O Sr. Ahmed era um homem calmo e simpático; mais importante, tinha perspectiva de negócios. Nada em sua pessoa sugeria que fosse um membro fanático da organização terrorista islâmica Jemaat Islamiya, responsável por uma série de atentados a bomba em Bali.

     Suas credenciais como sócio sênior da Sumatra Trading International estavam em ordem, assim como suas referências bancárias. Quando pediu permissão para apresentar seu problema, o Sr. Siebart prestou total atenção. Como preâmbulo, o Sr. Lampong pousou solenemente uma folha de papel na frente do corretor britânico.

     A folha continha uma lista comprida. Começava com Alderney, uma das ilhas do canal britânico, e continuava por Anguila, Antígua e Aruba. Essas eram apenas os As. Havia 43 nomes, terminando com Uruguai e Vanuatu.

     — São paraísos fiscais, Sr. Siebart — disse o indonésio. — E todos praticam segredo bancário. Gostemos ou não, alguns empreendimentos extremamente questionáveis, inclusive criminosos, abrigam seus segredos financeiros em lugares como esses. — Ele mostrou uma segunda lista. — E estas são as marinhas mercantes mais propensas a propósitos questionáveis.

     Antígua estava outra vez no topo da lista, juntamente com Barbuda, Bahamas, Barbados, Belize, Bermuda e Bolívia. Havia 27 nomes na lista, terminando com São Vicente, Sri Lanka, Tonga e Vanuatu.

     Havia países africanos como a Guiné Equatorial, pontinhos quase invisíveis no mapa-múndi como São Tome e Príncipe, a República Federal Islâmica Comores e o atol de corais Vanuatu. Entre os lugares mais encantadores estavam Luxemburgo, Mongólia e Camboja, países de fronteira seca, sem acesso ao mar. O Sr. Siebart estava perplexo, embora nada fosse novidade para ele.

     — Somando as duas, o que temos? — perguntou o Sr. Lampong, triunfante. — Fraude, meu caro senhor. Fraude em grande e crescente escala. Atividade que, lamentavelmente, prevalece na parte do mundo onde eu e meus sócios operamos. Foi por causa disso que decidimos que no futuro lidaremos apenas com a instituição renomada por sua integridade, a City de Londres.

     — É muita gentileza sua — murmurou o Sr. Siebart. — Café?

     — Roubo de carga, Sr. Siebart. Constante e crescente... Não, obrigado, acabo de tomar o café-da-manhã. Cargas são despachadas, cargas valiosas, e então desaparecem. Nenhum sinal do navio, dos fretadores, dos corretores, da tripulação, da carga e muito menos dos proprietários. Tudo escondido em meio a essa floresta de marinhas mercantes e bancos, em sua maioria altamente corruptos.

     — Lamentável — concordou Siebart. — Em que posso ajudar?

     — Meus parceiros e eu concordamos que estamos cansados disso. É verdade, custará um pouco mais. Mas no futuro queremos lidar apenas com navios da marinha mercante britânica, saídos dos portos britânicos sob um capitão britânico e atestado por um corretor londrino.

     — Excelente — disse Siebart com um sorriso. — Uma escolha sábia. E, obviamente, não podemos esquecer da cobertura de seguro total para a embarcação e para a carga, garantida pelo Lloyds de Londres. Que cargas vocês querem transportar?

     Combinar cargueiros com cargas e cargas com cargueiros é precisamente o que faz um corretor de remessas, e a Siebart & Abercrombie era, havia muito, um dos pilares da antiqüíssima companhia de navegação da City de Londres, a Baltic Exchange.

     — Fiz uma pesquisa cuidadosa — disse o Sr. Lampong, apresentando mais cartas de recomendação. — Temos negociado com esta companhia: exportadores de limusines britânicas e carros esporte para Cingapura. Da nossa parte, remetemos madeiras finas para mobílias, como jacarandá e álamo branco da Indonésia para os Estados Unidos. Elas vêm de Bornéu do Norte, mas seria um meio frete, com o restante consistindo em contêineres no convés com sedas de Surabaia, Java, também com destino aos Estados Unidos. — Ele pousou na mesa uma última carta. — Aqui estão os detalhes de nossos amigos em Surabaia. Todos concordamos que queremos negociar com os britânicos. Claramente, esta seria uma viagem triangular para qualquer cargueiro britânico. Você poderia nos conseguir um cargueiro adequado, registrado no Reino Unido, para essa tarefa? Eu tenho em mente uma parceria regular e contínua.

     Alex Siebart tinha certeza de que poderia encontrar uma dúzia de navios de bandeira britânica que poderia levar a carga. Ele precisaria saber o tamanho da embarcação, o preço e as datas desejadas.

     Finalmente, ficou acertado que ele entregaria ao Sr. Lampong um cardápio de embarcações adequadas para fretes duplos. Depois de consultar os sócios, o Sr. Lampong ofereceria uma lista de datas desejadas nos dois portos do Extremo Oriente e no porto de entrega nos Estados Unidos. Os dois homens se despediram com expressões mútuas de confiança e boa vontade.

     Depois de ouvir o relato enquanto almoçavam no Rules, o pai de Alex Siebart comentou:

     — Como é agradável negociar com cavalheiros civilizados!

    

     Se havia um lugar onde Mike Martin não poderia mostrar seu rosto era a base aérea de Edzell. Para solucionar o problema, Steve Hill colocou em ação aquela coleção de contatos que existe em qualquer ramo, a rede de veteranos.

     — Não estarei em casa durante a maior parte do inverno — disse seu convidado enquanto almoçavam no Clube das Forças Especiais. — Vou tentar aproveitar o sol do Caribe. Creio que você possa usar o lugar.

     — Pagaremos um aluguel, é claro — disse Hill. — Tanto quanto meu orçamento modesto permita.

     — E será cuidadoso, espero — comentou o convidado. — Tudo bem, então. Quando posso tê-lo de volta?

     — Esperamos ficar lá apenas até meados de fevereiro. Usaremos apenas para alguns seminários de instrução. Tutores indo e voltando, uma coisa desse tipo. Não haverá nada... físico.

     Martin voou de Londres até Aberdeen e foi recebido por um ex-sargento do SAS a quem ele conhecia bem. Era um escocês durão que claramente retornara para seu hábitat natural depois de se aposentar.

     — Como vai, chefe? — perguntou ele, empregando o velho jargão dos homens do SAS ao se dirigirem a um oficial. Guardou a bolsa de viagem de Martin no porta-malas e conduziu o carro para fora do estacionamento do aeroporto. Virou para o norte nas cercanias de Aberdeen e pegou a rodovia A96 na direção de Inverness. Depois de alguns quilômetros, foram abraçados pelas montanhas das Highlands escocesas. Onze quilômetros depois da curva, o carro saiu da estrada principal.

     A placa dizia simplesmente: Kemnay. Atravessaram a aldeia de Monymusk e chegaram à estrada Aberdeen-Alford. Cinco quilômetros à frente, o Land Rover virou à direita, atravessou Whitehouse em alta velocidade e seguiu para Keig. Havia um rio ao lado da estrada; Martin perguntou-se se ali existia salmão, truta ou nenhum dos dois.

     Um pouco antes de Keig, a trilha passou pelo rio e fez uma subida longa e coleante. Finalmente, depararam-se com um antigo castelo, pousado de modo majestoso contra uma vista deslumbrante de colinas e clareiras.

     Dois homens saíram da entrada principal do castelo e se apresentaram.

     — Gordon Phillips. Michael McDonald. Bem-vindos ao castelo Forbes, lar da família de lorde Forbes. Fez boa viagem, coronel?

     — É Mike, e vocês estavam me esperando. Como? Meu amigo Angus, aqui, não deu nenhum telefonema.

     — Bem, tínhamos um homem no avião. Apenas como medida de precaução — disse Phillips.

     Mike Martin grunhiu. Não percebera o agente; estava claramente fora de forma.

     — Tudo bem, Mike — disse McDonald, o homem da CIA. — O importante é que você está aqui. Agora, teremos muitos tutores dedicando-se exclusivamente a você durante 18 semanas. Por que não vai tomar um banho? Depois do almoço teremos a primeira reunião.

    

     Durante a Guerra Fria, a CIA mantivera uma rede de casas seguras por todos os EUA. Algumas eram apartamentos em áreas urbanas, nos quais se realizavam conferências discretas quando era aconselhável que seus participantes não fossem vistos no QG, Outros eram retiros rurais, como casas de fazenda reformadas, onde os agentes, após retornar de uma missão estressante e perigosa, podiam descansar enquanto eram interrogados detalhadamente.

     E havia alguns lugares escolhidos por sua obscuridade, onde um desertor soviético podia ser mantido sob vigilância enquanto eram feitas checagens sobre sua autenticidade, e onde uma vingativa KGB, operando a partir da embaixada ou consulado soviético, não podia alcançá-lo.

     Os veteranos da agência ainda estremeciam ao se lembrar do coronel Yurchenko, que desertou em Roma e recebeu permissão para jantar fora, em Georgetown, com seu oficial de interrogatório. Ele foi ao banheiro masculino e nunca mais voltou. Na verdade, ele fora contatado pela KGB, que lhe comunicou o que aconteceria à sua família em Moscou. Cheio de remorso, conseguiu uma promessa de anistia e mais uma vez mudou de lado. Jamais se ouviu falar dele novamente.

     Marek Gumienny tinha uma pergunta simples para o pequeno escritório de Langley que gerencia e mantém as casas seguras: qual é a instalação mais obscura e de acesso difícil que nós temos?

     A resposta de seu colega do setor de propriedades foi imediata.

     — Nós a chamamos de A Cabana. Fica longe de toda raça humana, em algum lugar da floresta Pasayten, na cordilheira Cascades.

     Gumienny pediu cada detalhe e cada foto disponível. Trinta minutos depois de receber o arquivo, tinha feito sua escolha e recebido suas ordens.

     A leste de Seattle, nas florestas do estado de Washington, fica a cordilheira de montanhas cobertas de árvores (e de neve, no inverno) conhecida como Cascades. Dentro de sua fronteira ficam três zonas: o Parque Nacional, a floresta madeireira e a floresta Pasayten, As duas primeiras zonas possuíam estradas de acesso e algumas habitações.

     Todos os anos, centenas de milhares de visitantes vão aos parques enquanto ele está aberto. Seu interior abriga um emaranhado de trilhas, adequadas para passeios a pé ou a cavalo, além de pequenas estradas, ideais para veículos com tração nas quatro rodas. E os guardas-florestais conheciam cada centímetro delas.

     A floresta madeireira é interditada ao público por razões de segurança, mas ela também conta com uma rede de trilhas através das quais caminhões arrastam os troncos tombados até os pontos de entrega para as serrarias. No meio do inverno, ambas as zonas são fechadas, porque a neve impossibilita a maioria dos deslocamentos.

     Mas a leste das duas zonas, subindo até a fronteira canadense, está localizada a floresta virgem. Ali não há estradas, apenas uma ou duas trilhas, e somente no extremo sul do terreno, e perto da passagem Hart, há umas poucas cabanas de troncos.

     Os proprietários de cabanas tendem a passar o verão na floresta, e depois trancam suas propriedades e se retiram para suas mansões na cidade. Provavelmente, não existe nos EUA lugar mais sombrio ou remoto no inverno, com a possível exceção da área ao norte de Vermont conhecida simplesmente como O Reino, onde um homem pode desaparecer e ser encontrado na primavera, ainda congelado.

     Anos antes, uma cabana de troncos remota fora posta à venda, e a CIA a comprara. Fora uma compra de impulso, lamentada posteriormente, embora de vez em quando a propriedade fosse usada pelos oficiais de alto escalão para suas férias. Em outubro, quando Marek Gumienny fez sua pergunta, ela estava fechada e trancada, A despeito do inverno e dos custos, ele exigiu que ela fosse reaberta e sua transformação iniciada.

     — Se é isso que você quer, por que não usa o Centro de Detenção Noroeste, em Seattle?

     Apesar de estar falando com um colega, Gumienny não teve escolha senão mentir.

     — Não é apenas uma questão de manter um recurso de valor elevado longe de olhos curiosos, nem de impedir que ele escape. Preciso considerar também a segurança dele. Já vimos fatalidades mesmo em prisões de segurança máxima.

     O chefe das casas seguras tinha razão. Pelo menos, achava que tinha. O lugar era completa e inteiramente invisível, completa e inteiramente à prova de fugas. Ele trouxe a equipe que idealizara a segurança na temível prisão de segurança máxima da baía Pelican, na Califórnia.

     Para início de conversa, a cabana era quase inacessível. Uma estrada muito simples seguia por alguns quilômetros para o norte da cidadezinha de Mazama e depois desviava, para seguir mais 16 quilômetros. Não havia outra forma de chegar lá que não fosse por via aérea. Ele precisaria de um helicóptero, para ser usado intensamente. Com o poder que lhe fora investido, Marek Gumienny pediu à base da Força Aérea McChord, a sul de Seattle, um helicóptero Chinook, que seria usado o tempo todo, para qualquer tipo de serviço.

     A equipe de construção veio da engenharia do Exército. Materiais de construção foram comprados no local, sob a consultoria da polícia estadual. Ninguém recebia mais informação do que a necessária para a tarefa; a lenda era de que A Cabana estava sendo convertida num centro de pesquisa de segurança máxima. Na verdade, estava sendo transformada numa prisão para uma só pessoa.

    

     No castelo Forbes, o treinamento começou e estava se tornando cada vez mais intenso. Mike Martin foi ordenado a trocar as roupas ocidentais pelo manto e pelo turbante de um membro da tribo pashtun. Sua barba e seu cabelo teriam de crescer tanto quanto o tempo permitisse.

     A governanta recebeu permissão para ficar. Ela não nutria o menor interesse pelos hóspedes do castelo. Hector, o jardineiro, também não. O terceiro residente remanescente era Angus, o ex-sargento do SAS que se tornara o administrador das propriedades de lorde Forbes. Com Angus à espreita, somente uma pessoa muito insensata tentaria entrar na propriedade.

     Quanto aos outros, hóspedes iam e vinham, salvo duas pessoas que seriam permanentes. Uma era Najib Qureshi, afegão nativo, ex-professor em Candahar, refugiado que recebera asilo na Grã-Bretanha, naturalizado cidadão e tradutor do QG de Cheltenham. Ele fora dispensado de seus deveres e transferido para o castelo Forbes. Era o tutor de idioma e instrutor de todos os hábitos de comportamento que seriam esperadas de um pashtun. Ensinava linguagem corporal, gestos, como acocorar nos calcanhares, comer, caminhar e as posturas adotadas para orações.

     A outra pessoa era a Dra. Tamian Godfrey; cerca de 65 anos, cabelos cinzentos amarrados em um coque, ela fora casada durante muitos anos com um alto oficial do serviço secreto britânico, o MI5, até sua morte, dois anos antes. Sendo uma de nós, como Steve Hill costumava dizer, estava acostumada a procedimentos de segurança, ao culto do saber-apenas-o-necessário, e a não ter a menor intenção de mencionar sua presença na Escócia a qualquer outra pessoa.

     Além disso, ela poderia deduzir, sem que ninguém precisasse lhe dizer, que o homem que seria seu pupilo iria vivenciar uma situação de alto risco, e ficou determinada a não permitir que ele fracassasse por causa de algum detalhe que ela pudesse esquecer. Sua especialidade era o Corão; seu conhecimento sobre o assunto era enciclopédico, e seu árabe, impecável.

     — Já ouviu falar de Muhammad Asad? — perguntou ela a Martin.

     Ele admitiu que não.

     — Então devemos começar com ele. Nasceu como Leopold Weiss, um judeu alemão. Converteu-se ao islã e se tornou um de seus maiores estudiosos. Ele é autor do que talvez seja o melhor tratado sobre o Al-Isra, a jornada da Arábia para Jerusalém, e de lá para o paraíso. Essa foi a experiência que instituiu as cinco orações diárias, a pedra fundamental da fé. Você teria aprendido isso na sua madrassa quando era menino, e o seu imame, sendo um wahabi, teria acreditado totalmente que essa jornada era real, física, e não apenas um sonho. Portanto, você acredita na mesma coisa. E agora, as preces diárias. Diga depois de mim...

     Najib Qureshi estava impressionado. Ela conhece o Corão melhor que eu, pensou ele.

     Como exercício, eles vestiam roupas quentes e iam caminhar pelas colinas, seguidos por Angus, equipado com seu fuzil de caça.

     Embora soubesse árabe, Mike Martin compreendeu a imensa quantidade de coisas que precisava aprender. Najib Qureshi ensinou-o a falar árabe com sotaque pashtun, porque a voz de Izmat Khan, falando árabe com colegas prisioneiros no Campo Delta, fora gravada secretamente para o caso de ele ter segredos para divulgar. Ele não tinha, mas para o Sr. Qureshi, a gravação era valiosíssima. Com ela, poderia ensinar seu aluno a imitar o sotaque de Izmat Khan.

     Ainda que Mike Martin tivesse passado seis meses com os mujahedins nas montanhas durante a ocupação soviética, isso fora há 18 anos, e desde então ele esquecera muita coisa. Qureshi instruiu-o na linguagem pashto, embora tivesse sido acordado desde o início que Martin jamais poderia passar-se por pashtun entre outros pashtuns.

     Mas eram principalmente duas coisas: as orações e o que acontecera a ele na baía de Guantánamo. A CIA era o principal fornecedor de interrogadores no Campo Delta; Marek Gumienny descobrira três ou quatro que haviam mantido contato com Izmat Khan desde o momento de sua chegada.

     Michael McDonald voou de volta até Langley para passar dias com esses homens, arrancando deles cada detalhe que poderiam recordar, além das anotações e gravações que tivessem feito. Michael contou a eles uma história de que o governo estava pensando em libertar Izmat Khan, mas Langley queria certificar-se de que ele não representava mais perigo.

     Todos os interrogadores frisavam que o guerreiro montanhês pashtun e comandante talibã era o homem mais difícil da prisão. Contara pouco, não se queixara a respeito de nada, quase não cooperara, aceitara todas as privações e punições com estoicismo. Mas, todos eles concordavam que, quando se fitava os olhos negros de Izmat Khan, tinham certeza de que ele adoraria arrancar fora suas cabeças.

     Depois que McDonald concluiu seu trabalho, todos eles voaram de volta no jato CIA Grumman e pousaram na base aérea de Edzell. De lá, um carro levou McDonald para o norte até o castelo Forbes, onde repassou as informações para Mike Martin.

     Tamian Godfrey e Najib Qureshi concentraram-se nas preces diárias. Como Martin precisaria dizê-las na frente de outras pessoas, era melhor que o fizesse corretamente. Segundo Najib, havia um fio de esperança. Martin não era árabe de nascimento, e a única linguagem do Corão era o árabe clássico. Uma palavra errada sempre poderia ser atribuída a uma falha de pronúncia, mas para um menino que passara sete anos numa madrassa, uma frase inteira errada seria inadmissível. Assim, com Najib prostrado no tapete, levantando e abaixando ao lado de Martin, e Tamian Godfrey (devido aos seus joelhos enrijecidos) sentada numa cadeira, eles recitaram. E recitaram. E recitaram.

    

     Também estava havendo progresso na base aérea de Edzell, onde uma equipe de técnicos anglo-americanos realizava instalações e conexões para vincular todos os serviços britânicos e americanos de inteligência.

     Quando a Marinha americana usara a base, havia ali, além das acomodações e estações de trabalho, pista de boliche, salão de beleza, delicatessen, quadra de basquete, correio, ginásio e teatro. Gordon Phillips, ciente de seu orçamento e da supervisão atenta de Steve Hill, deixou os luxos mais ou menos como estavam: fora de uso.

     A RAF enviou uma equipe de catering, e o Regimento da RAF assumiu a segurança do perímetro. Ninguém duvidou que a base estava sendo transformada num posto de escuta para traficantes de ópio.

     Dos Estados Unidos, chegaram voando os gigantes Galaxies e Starlifters com monitores de escuta que poderiam, e iriam, perscrutar o mundo. Não foram trazidos tradutores de árabe, porque essa atribuição ficaria a cargo do QG de Cheltenham e Forte Meade; ambas as agências permaneceriam em contato constante e seguro com Crowbar, nome de código do novo posto de escuta.

     Antes do Natal, os 12 computadores foram instalados e conectados. Eles forneciam o centro nervoso, e seis operadores passariam dia e noite diante de suas telas.

     O Centro Crowbar jamais foi projetado como uma nova agência de inteligência, mas simplesmente uma operação dedicada (ou seja, com um único propósito) e de curto prazo, com a qual todas as agências britânicas e americanas iriam, graças à autoridade de John Negroponte, cooperar sem hesitação ou atraso.

     Para possibilitar isso, os computadores do Centro Crowbar foram equipados com linhas ISDN Brent ultra-seguras e duas chaves Brent para cada computador. Cada um deles possuía seu próprio HD removível, que seria tirado quando não em uso, e armazenado num cofre.

     Além disso, os computadores do Centro estariam ligados diretamente aos sistemas de comunicação do Escritório Central, como era chamado o QG do SIS em Vauxhall Cross, e do Grosvenor, o termo empregado para a estação da CIA na embaixada americana em Grosvenor Square, Londres.

     Para isolar a operação de qualquer interferência indesejada, o endereço do Centro Crowbar para suas comunicações foi escondido sob um código de acesso STRAP3 com uma lista Bigot limitada ao conhecimento de uns poucos oficiais de alto escalão.

     Em seguida, o Centro começou a ouvir cada palavra falada no Oriente Médio, na língua árabe e no mundo do islã. A central fazia apenas o que já vinha sendo feito por diversos órgãos, mas a farsa precisava ser mantida.

     Quando o Centro Crowbar entrou em operação, ele teve mais um acesso. Além de escuta, estava interessado em visão. À obscura base da Força Aérea escocesa também estavam sendo encaminhadas as imagens que o NRO americano recebia de seus satélites Keyhole KH-11, posicionados sobre o mundo árabe, e dos aviões não tripulados Predator, cada vez mais empregados e cujas imagens de alta definição obtidas de 20 mil pés eram enviadas de volta para o comando central do Exército americano, ou Centcom, cujo QG ficava em Tampa, Flórida. Algumas das mentes mais perspicazes em Edzell compreenderam que o Centro Crowbar estava preparado e aguardando por alguma coisa, mas que coisa era essa eles não sabiam.

    

     Um pouco antes do Natal de 2006, o Sr. Alex Siebart voltou a entrar em contato com o Sr. Lampong em sua companhia na Indonésia para propor, como adequado ao seu propósito, um de dois cargueiros de transporte registrados em Liverpool. Ambos eram de propriedade de uma pequena companhia naval, cujos serviços a firma de Siebart & Abercrombie empregara anteriormente para seus clientes, com imensa satisfação. A McKendrick Shipping era uma empresa familiar; estava na Marinha Mercante havia um século. O chefe da companhia era o patriarca, Liam McKendrick; ele comandava o Countess of Richmond e o filho dele era o capitão do outro navio.

     O Countess of Richmond pesava, oito mil toneladas, ostentava a bandeira comercial inglesa, tinha um preço razoável e estaria disponível para uma nova carga nos portos britânicos a partir de 1o de março.

     O que Alex Siebart não contou foi que ele havia recomendado veementemente o contrato a Liam McKendrick, e que o velho capitão concordara. Se Siebart Abercrombie pudessem conseguir para ele uma carga de volta dos EUA para o Reino Unido, aquela viagem seria uma triangulação bastante lucrativa.

     Sem que os dois soubessem, o Sr. Lampong fez contatos com alguém na cidade britânica de Birmingham, um acadêmico da Universidade Aston, que se dirigiu a Liverpool. O Countess of Richmond foi examinado em detalhes por binóculos superpotentes, e uma lente de longo alcance tirou mais de cem fotografias de seus mais diversos ângulos. Uma semana depois, o Sr. Lampong respondeu ao e-mail. Pediu desculpas pelo atraso, explicando que havia se ausentado para visitar sua serraria, mas que o Countess of Richmond parecia extremamente adequado. Seus amigos em Cingapura entrariam em contato sobre os detalhes da carga de limusines a ser levada do Reino Unido para o Extremo Oriente.

     Na verdade, os amigos em Cingapura não eram chineses, mas malaios, e não simplesmente muçulmanos, e sim os islâmicos ultrafanáticos. Tinham recebido dinheiro de uma conta recém-criada nas Bermudas pelo último Sr. Tewfik al-Qur, que, antes de fazer a transferência, havia deixado o dinheiro em um pequeno banco no Vietnã, que de nada desconfiara. Nem mesmo pretendiam ter prejuízo com as limusines, mas recuperar ó investimento vendendo-as depois que o objetivo fosse alcançado.

    

     A explicação de Marek Gumienny aos interrogadores da CIA, de que Izmat Khan poderia vir a ser julgado, não era uma inverdade. Pretendia providenciar exatamente isso e assegurar-lhe anistia e liberação.

     Em 2005, uma Corte de Apelação dos Estados Unidos decretara que os direitos dos prisioneiros de guerra não se aplicavam aos membros da al-Qaeda. A Corte Federal apoiara a intenção do presidente Bush de incumbir a tribunais militares especiais os julgamentos de suspeitos de terrorismo. Isso, pela primeira vez em quatro anos, concedeu aos detentos a chance de empregarem um advogado de defesa. Gumienny pretendia que a defesa de Izmat Khan fosse de que ele jamais pertencera a al-Qaeda, tendo sido um oficial do Exército, embora a serviço do Talibã, e sem qualquer relação com o 11 de Setembro ou com o terrorismo islâmico. E ele esperava que o tribunal aceitasse isso.

     Para tal, seria preciso que John Negroponte, como diretor da Inteligência Nacional, requisitasse ao seu colega Donald Rumsfeld, que era secretário de Defesa, uma palavrinha com os juízes militares do caso.

    

     A perna de Mike Martin estava ficando boa. Ele notara, ao ler a pasta fina sobre Izmat Khan depois do encontro em sua horta, que o homem jamais descrevera como adquirira a cicatriz na coxa direita. Martin também não viu nenhum motivo para mencionar isso. Mas quando Michael McDonald voltou de Langley com as anotações mais abundantes obtidas durante os diversos interrogatórios de Izmat Khan, ele ficara preocupado com a possibilidade de os interrogadores terem pressionado  por uma explicação pela cicatriz e jamais terem recebido uma. Caso a existência da cicatriz fosse, de algum modo, conhecida por alguém dentro da al-Qaeda, e Mike Martin não a apresentasse também, ele seria descoberto.

     Assim, um cirurgião fora trazido de Londres para Edzell, e de lá, até o gramado do castelo Forbes, no recém-adquirido helicóptero Bell Jetranger. Ele era o cirurgião de Harley Street, com autorização plena de segurança, que podia ser chamado ocasionalmente para remover uma bala sem comunicar a ninguém.

     A operação foi feita inteiramente com anestesia local. A incisão foi fácil, pois não havia bala ou fragmento para ser extraído. O problema não era fazer com que a cicatriz se formasse em algumas semanas, mas fazer com que ela parecesse bem mais antiga que isso.

     O cirurgião, James Newton, extirpou uma quantidade de tecido abaixo e em torno da incisão para fazê-la parecer mais profunda, como se alguma coisa tivesse saído, e criar uma concavidade na carne. Suas suturas foram pontos grandes e desajeitados, aproximando as extremidades do ferimento de modo que elas iriam enrugar enquanto curassem. Tentou fazer com que os seis pontos parecessem ter sido feitos num hospital militar instalado numa caverna.

     — É bom que você saiba uma coisa — disse o médico enquanto se preparava para sair. — Se um cirurgião vir isso, provavelmente vai perceber que não pode ter 15 anos. Um homem sem formação médica pode aceitar sem problemas. Mas vai precisar de 12 semanas para ficar bom.

     A operação foi realizada no começo de novembro. No Natal, a natureza e o corpo de um homem de 44 anos em boa forma física tinham feito um trabalho excelente. Não havia mais inchaço ou vermelhidão.

    

     — MlKE, MEU RAPAZ, SE VOCÊ ESTÁ INDO AONDE EU ACHO QUE você está indo, terá de dominar os diversos níveis de agressividade e fanatismo que deverá encontrar — disse Tamian Godfrey, durante uma das caminhadas diárias. — O âmago de tudo é o suposto jihad, ou Guerra Santa, mas diversas facções chegam a ele através de várias rotas e se comportam de diversas formas. E todas essas facções são muito diferentes umas das outras.

     — Parece começar com o wahabismo — disse Martin.

     — De certa forma, sim, mas não podemos esquecer que o wahabismo, uma corrente do islamismo, é a religião nacional da Arábia Saudita e que Osama bin Laden declarou guerra ao establishment saudita por considerá-lo herético. Existem muitos grupos na ala extremista além dos ensinamentos de Muhammad Al Wahab. Ele foi um pregador do século XVIII que veio de Nejd, a região mais sombria e inclemente da península saudita. Seu legado foi a mais rígida e intolerante das muitas interpretações do Corão. Isso foi naquela época. Hoje, ele já foi superado. O wahabismo saudita não declarou guerra ao Ocidente, ou à cristandade. O wahabismo saudita não se propõe a realizar assassinatos em massa, principalmente de mulheres e crianças. O que Wahab legou foi a semente da intolerância total que os atuais mestres do terrorismo plantam nos meninos antes de transformá-los em assassinos.

     — Então, como eles ainda não estão confinados à península árabe? — indagou Martin.

     Foi Najib Qureshi quem respondeu a essa pergunta:

     — Porque durante 30 anos a Arábia Saudita usou seus petrodólares para financiar a internacionalização de seu credo nacional, e isso inclui cada país muçulmano no mundo, e também o lugar onde nasci. Não temos motivo para pensar que a Arábia Saudita soubesse que estava libertando um monstro, ou que esse credo seria usado para justificar assassinatos em massa. Inclusive, hoje temos grandes motivos para acreditar que a Arábia Saudita sente um medo profundo da criatura que ela fortaleceu por três décadas.

     — Então, por que a al-Qaeda declarou guerra na fonte de seu credo e de sua fundação?

     — Porque surgiram novos profetas, ainda mais intolerantes. Esses profetas pregaram não apenas a intolerância contra qualquer coisa não islâmica, como também o dever de atacar e destruir. Condenaram o governo saudita por ter negociado com o Ocidente, permitindo a entrada de tropas americanas em seu solo sagrado. E isso se aplica também a todos os governos muçulmanos seculares. Para os fanáticos, eles são tão culpados quanto os cristãos e os judeus.

     — Então, quem você acha que eu encontrarei em minhas viagens, Tamian? — indagou Martin. A acadêmica encontrou uma pedra do tamanho de uma cadeira e sentou nela para descansar as pernas.

     — Existem diversos grupos, mas dois estão no centro. Conhece a palavra salafi?

     — Já ouvi falar — admitiu Martin.

     — Eles constituem uma brigada do retorno às origens. Querem realmente restaurar a era dourada do islã. Voltar aos quatro primeiros califados, que ocorreram há mais de mil anos. Barbas grandes, sandálias, mantos, o rigoroso código legal Sharia, rejeição da modernidade e do Ocidente que a trouxe. É claro que não existe esse paraíso na Terra, mas fanáticos jamais se deixam desanimar pela realidade. Na perseguição de seus sonhos maníacos, nazistas, comunistas, maoístas e seguidores de Pol Pot chacinaram centenas de milhares de pessoas, metade delas de sua própria nação e raça por não serem extremistas o bastante. Pense nas purificações empreendidas por Stalin e Mao... em todos os comunistas que eles mataram por serem apóstatas.

     — Quando descreve os salafis, você está descrevendo os talibãs — comentou Martin.

     — Entre outros. Eles são os homens-bomba, os crentes simples; aqueles que acreditam cegamente em seus mestres, que seguem seus guias espirituais, que não são muito inteligentes, mas que são absolutamente obedientes e acreditam que todo o seu ódio insano agrada ao poderoso Alá.

     — Eles são piores? — indagou Martin.

     — São sim — disse Tamian Godfrey, voltando a caminhar, mas direcionando o grupo de volta ao castelo, cuja torre podia ser vista a dois vales de distância.

     — Os ultra, os verdadeiros ultra, eu designaria com uma palavra: Takfir . Seja lá o que esse nome significava na época de Wahab, mudou. Os verdadeiros salafi não fumam, jogam ou dançam. Eles não aceitam música em sua presença, não bebem álcool nem mantêm relações com mulheres ocidentais. Com suas vestes, aparência e devoção religiosa, o takfir é imediatamente identificável pelo que ele é. Do ponto de vista da segurança interna, a capacidade de identificar o inimigo é metade da batalha. Mas alguns adotam costumes do Ocidente, por mais que os odeiem, para se passar por completamente ocidentalizados e, portanto, inofensivos. Todos os 19 homens-bomba do 11 de Setembro tinham conseguido passar despercebidos porque pareciam e agiam como seus personagens. O mesmo ocorreu com os quatro homens-bomba de Londres; aparentemente rapazes normais, que freqüentavam a academia de ginástica e jogavam críquete, eram prestativos, um deles era professor de portadores de necessidades especiais, e sorriam constantemente. E o tempo todo estavam planejando um atentado. São pessoas assim que devem ser vigiadas. Muitos são instruídos, possuem um bom diploma, andam barbeados e bem-vestidos. Esses são os mais perigosos; preparados para negar sua fé para poderem cometer assassinatos em massa em nome dela. Graças a Deus, chegamos. Minhas pernas velhas estavam exaustas. É hora das preces do meio-dia. Mike, você vai fazer o chamado, e em seguida nos liderar na prece. Podem lhe pedir que faça isso. É um grande privilégio.

    

     Logo depois do Ano-novo, um e-mail foi enviado do escritório da Siebart & Abercrombie para Jacarta. O Countess of Richmond, com uma carga cheia de automóveis Jaguar para Cingapura, partiria de Liverpool em primeiro de março. Depois de descarregar em Cingapura, o navio seguiria com lastro para Bornéu do Norte para trazer em seus porões uma carga de madeira, antes de seguir para Surabaia e recolher para seu convés a carga de caixotes com peças de seda.

    

     A equipe de construção trabalhando dentro da floresta Pasayten viu-se profundamente aliviada ao terminar o serviço no fim de janeiro. Para manter o ritmo de trabalho, os homens tinham optado por operar em turnos duplos e, até o aquecimento central começar a funcionar, as noites tinham sido extremamente frias. Mas os benefícios eram grandes e tentadores. Eles enfrentaram o desconforto e terminaram dentro do cronograma.

     A olho nu, a Cabana parecia a mesma, porém maior. Na verdade, fora transformada. Para acomodar uma equipe de dois oficiais, os quartos de dormir seriam suficientes; para que os oito guardas extras mantivessem um regime de vigilância 24 horas, uma outra casamata fora construída, assim como um refeitório ao seu lado.

     A espaçosa sala de estar foi mantida como era, mas fora criado ainda mais um anexo para abrigar uma sala de recreação com mesa de bilhar, biblioteca, TV de plasma e uma ampla seleção de DVD's. Todos esses novos cômodos tinham sido construídos com toras de pinheiro revestidos com isolamento térmico.

     O terceiro anexo parecia ser feito com as toras rústicas usuais. As paredes externas na verdade eram revestidas com troncos partidos ao meio; por dentro, as paredes eram reforçadas em concreto. A ala penitenciária inteira era extremamente sólida, e não permitia qualquer chance de fuga.

     Chegava-se à ala penitenciária através dos cômodos dos guardas, por uma única porta de metal munida de uma portinhola para entrega de comida e um olho mágico invertido. Do outro lado da porta ficava um cômodo simples, mas espaçoso. Abrigava uma cama de armação de metal presa no soalho de concreto. Jamais poderia ser removida sem o uso de alguma ferramenta: um pé-de-cabra. Nem ela nem as prateleiras na parede, que eram integradas ao concreto.

     Não havia tapetes, e o calor provinha de grelhas no chão, que não podiam ser abertas. O cômodo também contava com uma porta na parede oposta à porta de metal, e esta o detento poderia abrir ou fechar à vontade, pois conduzia a uma sala de exercícios.

     E a sala era totalmente desprovida, salvo por um banco de concreto fora do alcance das paredes, que tinham três metros de altura e eram lisas como uma mesa de bilhar. Nenhum homem seria capaz de alcançar o teto, nem havia na sala algo capaz de ser deslocado, empurrado contra a parede ou no qual se pudesse subir.

     Para fins sanitários, havia um recesso a partir da sala de estar quarto de dormir, com um único buraco no chão para funções fisiológicas e um chuveiro cujos controles estavam nas mãos dos guardas no lado de fora.

     Como todos os materiais novos tinham chegado de helicóptero, o único acréscimo externo visível era um heliporto sob a neve. Afora isso, a Cabana ficava em um terreno de dois quilômetros quadrados, cercada por todos os lados por pinheiros, lariços e abetos, embora todas as árvores num raio de 90 metros tivessem sido cortadas.

     Quando chegaram, os dez guardiões daquela que provavelmente era a prisão mais cara e inacessível do país, eles eram dois agentes de nível médio da CIA, vindos de Langley, e oito funcionários juniores que tinham completado todos os testes mentais e físicos na escola de treinamento da Firma e estavam torcendo para receber uma primeira missão empolgante. Em vez disso, foram mandados para uma floresta nevada. Mas estavam todos em excelentes condições físicas e ansiosos por impressionar.

    

     O julgamento militar na baía de Guantánamo começou um pouco antes do fim de janeiro e foi realizado numa das salas maiores do bloco de interrogatório. Se alguém esperava um quase enlouquecido coronel Jessup, ou qualquer uma das histrionices retratadas no filme Questão de honra, ficou profundamente decepcionado. Os procedimentos foram discretos e organizados.

     Oito detentos estavam tendo sua libertação considerada por não representarem mais perigo, e sete declararam-se solenemente inofensivos. Apenas um deles manteve silêncio escarninho. Seu caso foi o último a ser ouvido.

     — Prisioneiro Khan, em que língua o senhor gostaria que esses procedimentos fossem traduzidos? — perguntou o coronel presidindo o inquérito.

     O coronel estava entre um major e uma capitão, no palanque no fundo da sala sob o brasão dos Estados Unidos da América. Todos os três eram do departamento jurídico dos fuzileiros navais.

     O prisioneiro estava de frente para eles, obrigado a ficar de pé pelos fuzileiros que o flanqueavam. Mesas voltadas umas para as outras tinham sido ocupadas pelos advogados de acusação e defesa; o primeiro, militar; o segundo, civil. O prisioneiro deu de ombros e olhou para a capitão durante vários segundos. Então seu olhar repousou na parede acima dos juizes.

     — Este tribunal está ciente de que o prisioneiro compreende árabe, de modo que é a linguagem escolhida. O advogado de defesa tem alguma objeção?

     O advogado fez que não com a cabeça. Ele fora alertado sobre o cliente quando aceitara o caso. Pelo que ouvira, tinha certeza de que não teria a menor chance. Sua defesa seria baseada nos direitos civis, e sabia o que os fuzileiros ao seu redor pensavam dos heróis do movimento pelos direitos civis. Um cliente prestativo teria sido bom. Mesmo assim, raciocinou o advogado, a atitude d pelo menos servira para desconcertar o advogado de acusação. Nenhuma objeção, árabe seria ótimo.

     O intérprete de árabe avançou e se posicionou perto dos fuzileiros. Foi uma escolha sábia; havia apenas um intérprete pashtun e ele passou maus bocados com os americanos porque não conseguira extrair nada dele. Agora ele não tinha nada a fazer, e via a aproximação do fim de um estilo de vida muito confortável.

     Apenas sete pashtuns haviam estado em Gitmo e foram incluídos erroneamente entre os combatentes estrangeiros em Kunduz cinco anos antes. Quatro haviam retornado, rapazes de fazenda muito simples que renunciaram a todo o extremismo muçulmano com entusiasmo considerável; e os outros dois tinham sofrido abalos nervosos tão profundos que ainda estavam sob cuidados psiquiátricos. O comandante talibã era o último.

     O advogado de acusação começou seu discurso, e o intérprete pronunciou um jorro de árabe sibilante. A essência do que foi dito é que os ianques vão te mandar de volta para a prisão e jogar foras as chaves, seu talibã arrogante. Izmat Khan lentamente abaixou o olhar para fixá-lo no intérprete. Os olhos diziam tudo. O americano nascido no Líbano não precisava de nenhuma tradução literal. O homem podia estar vestido num macacão laranja ridículo, com mãos e pés acorrentados, mas com bastardos como esse todo cuidado era pouco.

     O advogado de acusação não demorou muito. Enfatizou cinco anos de silêncio virtual, recusa em apontar os nomes de colaboradores na guerra do terrorismo contra os EUA e o fato de o prisioneiro ter sido capturado num levante de prisão no qual um americano fora chutado brutalmente até a morte. Então ele se sentou. Não tinha qualquer dúvida sobre qual seria o resultado. O homem ainda permaneceria anos sob custódia.

     O advogado dos direitos civis demorou um pouco mais. Estava feliz com o fato de que o prisioneiro não tinha relação nenhuma com a atrocidade do 11 de Setembro. Nessa época, estivera lutando numa guerra civil completamente afegã, sem nenhuma relação com os árabes por trás da al-Qaeda. Quanto a mula Omar e o governo protegendo Bin Laden e seus comparsas, essa era uma ditadura à qual o Sr. Khan servira como oficial, mas da qual não fizera parte.

     — Rogo a este tribunal que admita a realidade — disse ele. — Se este homem é um problema, ele é um problema afegão. Lá agora existe um governo democraticamente eleito. Deveríamos enviar o prisioneiro de volta para seu país, para que seja julgado por seu próprio governo.

     Os três juizes se retiraram. Ficaram fora durante 30 minutos. Quando retornaram, a capitão estava rosada de raiva. Ainda não acreditava no que acabara de ouvir. Apenas o coronel e o major haviam se reunido com o presidente do Estado-Maior Conjunto, e sabiam suas ordens.

     — Prisioneiro Khan, levante-se. Este tribunal foi informado de que o governo do presidente Karzai concordou que se você for devolvido à sua terra natal, será sentenciado lá à prisão perpétua. Sendo assim, este tribunal decidiu que os contribuintes americanos não devem mais sustentar o senhor. Serão tomadas providências para enviá-lo de volta a Cabul. O senhor retornará como chegou... acorrentado. É só. Corte dispensada.

     A capitão não era a única pessoa chocada com aquilo. O advogado de acusação se perguntou como aquilo iria repercutir em suas perspectivas de carreira. O advogado de defesa estava se sentindo levemente inebriado. O intérprete entrou em pânico por um instante, temendo que o coronel ordenasse que as algemas do prisioneiro fossem abertas, caso no qual ele, o bom filho de Beirute, sairia correndo para pular pela janela.

    

     O gabinete britânico das Relações Exteriores fica situado na King Charles Street, bem perto de Whitehall, com vista para a Parliament Square, na qual o rei Charles I fora decapitado. À medida que o feriado de fim de ano reduzia-se a uma vaga lembrança, a pequena equipe de protocolo que fora estabelecida no verão anterior retomou seu trabalho.

     Este era combinar com os americanos os detalhes cada vez mais complexos da próxima conferência do G8, em 2007. A reunião de 2005 dos governos dos oito países mais ricos do mundo fora realizada no Hotel Gleneagles, Escócia, e fora um sucesso até certo ponto. A questão era que a multidão de manifestantes que apresentava problemas estava cada vez pior. Em Gleneagles, a paisagem de Perthshire fora desfigurada por quilômetros e mais quilômetros de cerca de arame para isolar a propriedade inteira. A estrada de acesso também teve de ser protegida com cercas e sentinelas.

     Liderado por duas estrelas decadentes da cultura pop, o chamado fora para que um milhão de pessoas protestassem contra a pobreza do mundo marchando por Edimburgo, cidade próxima da sede do evento. E essa foi apenas a brigada anti-pobreza. Depois os detratores da globalização haviam atirado suas bombas de farinha e brandido seus cartazes.

     — Esses malucos não compreendem que o comércio global gera a riqueza que combate a pobreza? — perguntou um diplomata irritado. A resposta foi: aparentemente, não.

     Gênova foi lembrada com um arrepio. Era por causa disso que a idéia da Casa Branca, que seria a anfitriã em 2007, era considerada simples, elegante, brilhante. Uma locação suntuosa mas absolutamente isolada; protegida, inalcançável, segura e em controle total. O que preocupava a equipe de protocolo era a massa de detalhes; isso e a antecipação para o meio de abril. Alguma relação com as prévias eleitorais. Assim, a equipe britânica aceitou o que fora acertado e anunciado e mergulhou em suas tarefas administrativas.

    

     Muito longe dali, a sudoeste, dois imensos Starlifters da Força Aérea americana começaram a descer no Sultanato de Omã. Eles vinham da costa leste dos EUA com apenas um reabastecimento em pleno ar por um avião-tanque sobre os Açores. Os dois gigantes voadores desceram ao pôr-do-sol para as colinas Dhofari, seguindo para leste e pedindo instruções de pouso à base anglo-americana no deserto de Thumrait.

     Em seus imensos interiores, os dois gigantes continham uma unidade militar inteira. Um carregava todos os recursos de subsistência da equipe técnica de 15 pessoas, desde bangalôs, geradores de eletricidade, condicionadores de ar e antenas de televisão, até saca-rolhas. O outro avião de carga carregava o que é conhecido como a menina dos olhos. Dois aviões automatizados de reconhecimento Predator, seu equipamento de orientação e captação de imagens, e os homens e as mulheres capacitados a operá-los.

     Uma semana depois, eles estavam instalados. Numa das extremidades da base aérea, proibida a pessoas não autorizadas, os bangalôs estavam montados, os condicionadores de ar zumbiam, as latrinas estavam escavadas, a cozinha produzia comida; e sob seus abrigos cercados os dois Predators aguardavam até receber sua missão. A vigilância aérea também estava sendo retransmitida para Tampa, na Flórida, e Edzell, na Escócia. Algum dia eles receberiam suas ordens sobre o que deveriam vigiar, dia e noite, fizesse sol ou chuva, fotografando e transmitindo. Até lá, os homens e as máquinas aguardavam no calor.

     A instrução final de Mike Martin demorou três dias inteiros, e era vital que Marek Gumienny viesse voando no Grumman da agência. Steve Hill veio de Londres e os dois agentes juntaram-se a seus oficiais-executivos McDonald e Phillips.

     Eram só os cinco na sala, pois Gordon Phillips operava sozinho o que ele chamava de show de slides. Bem mais avançado que os projetores de slides de outrora, o demonstrador exibia uma sucessão de fotografias num televisor de plasma de alta definição em cores e detalhes perfeitos. A um toque no controle remoto, a imagem poderia ser fechada em qualquer detalhe e ser ampliada para encher a tela.

     O objetivo da reunião era mostrar a Mike Martin cada informação obtida por toda a gama de agências ocidentais a respeito dos fatos com os quais teria de lidar.

     A fontes não eram apenas as agências anglo-americanas. Agências de mais de 40 nações estavam despejando suas descobertas nos bancos de dados centrais. Afora os estados terroristas, Irã, Síria e os estados fracassados como Somália, governos do planeta inteiro estavam compartilhando informações sobre terroristas do credo islâmico ultra-agressivo.

     Rabat foi inestimável em apontar os próprios marroquinos; Aden apresentou nomes e rostos do Iêmen do Sul; Riad engoliu seu constrangimento e proveu colunas de rostos de sua própria lista saudita.

     Martin olhou para todos aqueles rostos, exibidos um depois do outro. Algumas fotografias eram retratos policiais tirados em delegacias; outras tinham sido obtidas com lentes teleobjetivas em ruas ou hotéis. As variações possíveis dos rostos eram exibidas: com ou sem barba, em vestes árabes ou ocidentais; cabelos compridos, curtos ou barbeados.

     Eram mulas e imames de várias mesquitas extremistas; jovens que provavelmente eram apenas mensageiros; simpatizantes da causa, que ajudavam com dinheiro, transporte e casas.

     E também estavam ali os figurões, aqueles que controlavam as diversas divisões globais e tinham acesso ao topo.

     Alguns estavam mortos, como Mohammed Atef, primeiro diretor de Operações, morto por uma bomba americana no Afeganistão; seu sucessor, cumprindo prisão perpétua sem condicional; o sucessor deste, também morto; além daquele que se acreditava ser o atual chefe.

     Em algum lugar ali estava o rosto reconstruído de Tewfik Al-Qur, que mergulhara de uma varanda, cinco meses antes. E também o rosto de Saud Hamud Al-Utaibi, novo chefe da al-Qaeda na Arábia Saudita, e presumivelmente muito vivo.

     E havia também os vazios, o contorno de uma cabeça, preto sobre branco. Entre esses estavam o chefe da al-Qaeda no Sudeste da Ásia, sucessor de Hanbali e provavelmente o homem por trás dos últimos atentados a bomba a resorts luxuosos no Oriente Médio. E surpreendentemente o chefe da al-Qaeda no Reino Unido.

      — Até uns seis meses atrás, sabíamos quem ele era — disse Gordon Phillips. — Então ele fugiu. Bem a tempo. Está novamente no Paquistão, caçado dia e noite. Cedo ou tarde o ISI vai capturá-lo...

     — E mandá-lo para nós lá em Bagram — resmungou Marek Gumienny.

     Todos eles sabiam que dentro da base americana ao norte de Cabul havia uma instalação muito especial, na qual todos acabavam cantando.

     — Você deve ficar de olho neste — disse Steve Hill, quando o rosto sorumbático de um imame apareceu na tela. Era uma foto tirada sorrateiramente e vinha do Paquistão. — E neste.

     Era um homem idoso, parecendo calmo e educado; também era uma foto batida sem o conhecimento do retratado, em algum cais, com uma massa de água azul brilhando ao fundo. A fotografia provinha das Forças Especiais dos Emirados Árabes Unidos, em Dubai.

     Fizeram uma pausa, almoçaram, dormiram e recomeçaram. Phillips só desligara o televisor quando a governanta entrara na sala com bandejas de comida. Durante esse período, Tamian Godfrey e Najib Qureshi permaneceram em seus quartos ou caminharam juntos pelas colinas. Finalmente, acabou.

     — Amanhã voaremos — disse Marek Gumienny.

     A Sra. Godfrey e o analista afegão foram até o heliporto para ver Martin partir. Ele era jovem o bastante para ser filho dos especialistas em Corão.

     — Cuide-se, Mike — disse ela, e xingou ao perceber que estava quase chorando. — Merda, que estúpida. Que Deus te guie, rapaz.

     — E se tudo o mais falhar, que Alá cuide de você — desejou Qureshi.

    

     O Jetranger poderia levar apenas os dois controladores e Martin. Os dois oficiais executivos seguiriam de carro até Edzell e reiniciariam sua missão.

     O Bell pousou bem longe dos olhos curiosos, e o grupo de três pessoas correu até o Grumman V da CIA. Uma tempestade de neve escocesa obrigou todos eles a se abrigarem sob capas seguradas acima de suas cabeças, de modo que ninguém viu que um dos homens não estava trajado como um ocidental.

     A tripulação do Grumman estava acostumada com alguns passageiros de aparência estranha e sabia se conter para não lançar olhares desconfiados para  o homem de barba densa que o vice-diretor de Operações estava escoltando sobre o Atlântico junto com um convidado britânico.

     Não voaram para Washington, mas para uma península remota na costa sudoeste de Cuba. Logo depois do amanhecer de 14 de fevereiro, o avião pousou em Guantánamo e taxiou direto até um hangar cujas portas fecharam prontamente.

     — Sinto muito, mas você terá de ficar no avião, Mike — disse Marek Gumienny. — Tiraremos você daqui quando escurecer.

     A noite cai depressa nos trópicos. Às 19 horas, estava escuro como breu. Foi quando quatro agentes de missões especiais da CIA entraram na cela de Izmat Khan. Ele se levantou, sentindo que alguma coisa estava errada. Os guardas haviam saído do corredor de sua cela meia hora antes. Isso jamais acontecera até então.

     Embora não fossem violentos, os quatro homens não estavam dispostos a ouvir não como resposta. Dois o agarraram, um pelo tronco com os braços para trás; o outro, pelas coxas. O chumaço com clorofórmio levou apenas 20 segundos para fazer efeito. O prisioneiro parou de espernear.

     Foi colocado numa maça e em seguida transferido para uma outra com rodas. Um lençol de tecido de algodão cobriu o corpo, e a maca do prisioneiro foi empurrada para fora. O caixote estava esperando. Não havia nenhum guarda no bloco inteiro do presídio. Alguns segundos depois do seqüestro,  estava dentro do caixote.

     Não era um caixote mal equipado. Do lado de fora parecia apenas uma caixa de madeira, do estilo usado para transporte de cargas. Até as marcas eram completamente autênticas.

     O interior fora isolado para ficar à prova de som. No teto havia um pequeno painel removível para a entrada de ar, mas não seria retirado antes que o caixote estivesse voando. Havia duas cadeiras de braços confortáveis soldadas ao piso e uma lâmpada cor de âmbar de baixa voltagem.

     Izmat Khan foi posto na cadeira que já estava equipada com amarras. Sem cortar a circulação para os membros, o prisioneiro foi amarrado de modo a poder relaxar, mas não sair da cadeira. Ainda estava adormecido.

     Finalmente satisfeito, o quinto agente da CIA, aquele que viajaria dentro do caixote, fez um sinal com a cabeça para seus colegas. A lateral foi então fechada. Uma empilhadeira levantou o volume do solo e o conduziu pelo campo de pouso até onde o Hércules aguardava. Era um AC-130 Talon das Forças Especiais, equipado com tanques extragrandes para chegar até seu destino sem reabastecer.

     Vôos misteriosos para dentro e para fora de Gitmo eram comuns; a torre autorizou a decolagem, e o Hércules seguiu para a base McChord, estado de Washington.

     Uma hora depois, um carro fechado chegou ao Campo Echo. Dentro da cela aberta estava um homem vestido num macacão laranja.  inconsciente fora fotografado antes de ser coberto e removido. Com a orientação da fotografia instantânea, alguns pequenos cortes foram feitos na barba e no cabelo do substituto. Cada tufo aparado foi coletado e removido.

     Quando a operação terminou, houve algumas despedidas e o grupo se retirou, trancando a cela. Vinte minutos depois, os soldados estavam de volta, intrigados, mas não curiosos. O poeta Tennyson definira bem ao dizer que não lhes cabia questionar.

     Olharam para a figura familiar de seu prisioneiro importante e esperaram o amanhecer.

    

     O sol da manhã banhava os picos de Cascades quando o AC-130 desceu em sua base em McChord. O comandante local fora informado de que aquela era uma remessa da CIA para sua nova instalação de pesquisa na floresta virgem. Apesar de seu posto, ele não precisava saber mais nada, de modo que não perguntou mais nada. Os papéis estavam em ordem e o Chinook ficou de prontidão.

     Durante o vôo,  acordara. O painel do teto se encontrava aberto e o ar no interior do Hércules estava completamente pressurizado e fresco.  foi cumprimentado com um sorriso simpático por sua escolta, que em seguida lhe ofereceu comida e bebida. O prisioneiro aceitou tomar um refrigerante de canudinho.

     Para surpresa do agente da CIA, o prisioneiro disse algumas palavras em inglês, claramente aprendidas ao escutá-las por cinco anos em Guantánamo. Perguntou as horas duas vezes durante o percurso. Em seguida abaixou a cabeça o máximo que conseguiu e murmurou suas preces. Afora isso, não disse mais nada.

     Um pouco antes da aterrissagem o painel do teto foi recolocado e o condutor da empilhadeira não suspeitou que não estava retirando uma carga ordinária da rampa traseira do Hércules e conduzindo-a até o Chinook.

     Mais uma vez, as portas da rampa foram fechadas. A pequena lâmpada-piloto mantida por bateria dentro do caixote permaneceu acesa, mas invisível por fora, assim como todos os sons internos mantinham-se inaudíveis. E o prisioneiro, conforme seu guarda informaria mais tarde a Marek Gumienny, foi manso como um gatinho. Absolutamente nenhum problema, senhor.

     Considerando que estavam em meados de fevereiro, deram sorte com o clima. O céu estava limpo, apesar da baixa temperatura. No heliporto, diante da cabana, o grande Chinook de hélices duplas pousou e abriu as portas traseiras. Mas o caixote permaneceu do lado de dentro. Era mais fácil desembarcar os dois passageiros do caixote direto para a neve.

     Ambos os homens tremeram de frio quando a parede traseira do caixote foi removida. A equipe de Guantánamo viera a bordo do Hércules e estava parada diante do Chinook, aguardando a última formalidade.

     As mãos e os pés do prisioneiro foram acorrentados antes das amarras serem removidas. Em seguida, ele teve de se levantar e descer a rampa para a neve. Os oficiais residentes, todos os dez, estavam de pé em semicírculos, apontando suas armas.

     Com uma escolta tão grande que eles mal conseguiram passar pelas portas, o comandante talibã foi obrigado a caminhar através do heliporto até as acomodações que o aguardavam. Quando a porta foi fechada, isolando o ar cortante, ele parou de tremer.

     Na cela grande, o prisioneiro viu-se cercado por seis guardas, enquanto as correntes finalmente eram removidas. Caminhando de costas, saíram da cela e bateram a porta de metal. O prisioneiro olhou em torno. Era uma cela melhor, mas ainda era uma cela. Lembrou-se da sala do tribunal. O coronel dissera-lhe que ele seria devolvido ao Afeganistão. Mais uma vez, haviam mentido.

    

     Era o meio da manhã e o sol brilhava sobre Cuba quando outro Hércules pousou. O aparelho também estava equipado para vôos de longa distância, mas ao contrário do Talon, não estava armado até os dentes e não pertencia às Forças Especiais. Vinha da Mats, a divisão de transportes da Força Aérea. Seu objetivo era transportar um único passageiro através do globo.

     A porta da cela foi aberta.

     — Prisioneiro Khan, levante-se. De frente para a parede. Em posição!

     O cinto foi passado em torno do seu corpo; correntes desceram até as argolas do tornozelo e mais um conjunto para os pulsos, mãos unidas e na frente da cintura. A posição permitia caminhar arrastando os pés, não mais que isso.

     Houve uma caminhada curta até o fim do bloco com seis guardas armados. O caminhão de alta segurança tinha degraus na traseira, tela de arame entre os prisioneiros e o motorista, e janelas escuras.

     Quando recebeu autorização para sair para o campo de pouso, o prisioneiro ficou cego pela luz forte do sol.

     Balançou a cabeça e pareceu desorientado. Enquanto seus olhos se acostumavam à luz, olhou em torno e viu o Hércules que o aguardava, e um grupo de americanos olhando para ele. Um deles avançou e o chamou com um gesto.

     Caminhou humildemente pelo asfalto ardente. Apesar de algemado, seis guardas armados cercavam-no o tempo inteiro.

     Virou para ver uma última vez o lugar onde estivera encerrado por cinco anos miseráveis. Arrastando os pés, embarcou no helicóptero.

     Numa sala a um lance de escadas abaixo do deque de operações da torre de controle, dois homens se levantaram e olharam para ele.

     — Lá vai o seu homem — disse Marek Gumienny.

     — Se descobrirem quem é realmente, que Alá tenha piedade de sua alma — disse Steve Hill.

    

     FOI UMA JORNADA LONGA E CANSATIVA. NÃO HOUVE REABASTECIMENTOS em vôo, pois eram muito caros. Aquele Hércules era apenas uma aeronave-prisão, prestando um favor ao governo, que deveria ter pego seu prisioneiro em Cuba, mas não dispunha de nenhum veículo para fazer o serviço.

     Eles voaram através das bases americanas no Açores e em Ramstein, Alemanha, e foi no fim da tarde do dia seguinte que o C-130 desceu na grande base aérea de Bagram, na extremidade sul da sombria planície Shomali.

     A tripulação de vôo mudara duas vezes, mas o pelotão de escolta permanecera, jogando cartas, tirando cochilos em turnos, enquanto a aeronave prosseguia cada vez mais para o leste. O prisioneiro permaneceu acorrentado. Ele também tentou dormir tanto quanto pôde.

     Enquanto o Hércules manobrava para a área cimentada ao lado dos hangares imensos que dominavam a zona americana dentro da base Bagram, o grupo de recepção estava esperando. O major superintendente americano do grupo ficou feliz ao ver que os afegãos não estavam correndo riscos. Além do furgão da prisão, havia 20 soldados das Forças Especiais do Afeganistão, liderados pelo comandante de unidade, brigadeiro Yusuf.

     O major desceu a rampa para preencher a documentação antes de entregar sua carga. Isso levou alguns segundos. Em seguida, cumprimentou seus colegas com um aceno de cabeça. Eles desacorrentaram  da fuselagem e o conduziram, arrastando os pés, para fora, onde o aguardava o inclemente inverno do Afeganistão.

     Os soldados o envolveram, arrastaram-no até o veículo e o empurraram para dentro. A porta foi batida e trancada. O major americano decidiu que nem em mil anos aceitaria trocar de lugar com ele. Prestou continência para o brigadeiro, que respondeu.

     — Fique de olho nele, senhor — disse o americano. — Esse é um homem muito durão.

     — Não se preocupe, major — disse o oficial afegão. — Ele vai passar o resto da vida na prisão de Pul-i-Charki.

     Minutos depois o furgão saiu, seguido pelo caminhão com os soldados das Forças Especiais do Afeganistão. O veículo pegou a estrada sul até Cabul. Só quando a escuridão estava completa foi que o furgão e o caminhão se separaram, no que mais tarde foi descrito como um acidente infeliz. O furgão prosseguiu sozinho.

     Pul-i-Charki é um edifício funesto a leste de Cabul, perto do desfiladeiro no lado leste da planície Cabul. Durante a ocupação soviética, o local era controlado pela polícia secreta de Khad, e constantemente quem estivesse nas proximidades ouvia os gritos dos torturados.

     Durante a guerra civil, dezenas de milhares de pessoas não saíram vivas do lugar. As condições tinham melhorado desde a criação da nova e eleita República do Afeganistão, mas os gritos de seus fantasmas ainda pareciam ecoar por suas ameias, corredores e masmorras.

     Felizmente, o furgão da prisão jamais chegou até ela.

     Dezesseis quilômetros depois de se afastar da escolta militar, uma picape saiu de uma estrada lateral e assumiu posição atrás do furgão. Quando a picape piscou os faróis, o motorista do furgão parou no acostamento da estrada, atrás de um aglomerado de árvores. Ali ocorreu a fuga.

     O prisioneiro teve as algemas retiradas tão logo o furgão saíra da última checagem de segurança no perímetro de Bagram. Mesmo com o furgão em movimento, ele pusera uma shalwar kameez de lã cinza e botas. Um pouco antes da parada, ele enrolara em torno da cabeça o temido turbante negro do Talibã.

     O brigadeiro Yusuf, que descera da cabine do furgão para embarcar na picape, então assumiu o comando. Havia quatro corpos deitados na traseira aberta do veículo.

     Todos tinham recém-chegado ao necrotério. Dois eram barbados, e tinham sido vestidos em trajes talibãs. Na verdade eram operários de construção que tinham subido num andaime que caíra, matando a ambos.

     Os outros dois foram vítimas de acidentes de automóvel. As estradas afegãs são tão esburacas que o lugar mais plano para se dirigir é pelo canteiro entre as pistas. Como se considera efeminado desviar porque alguém está vindo na direção contrária, a quantidade de fatalidades é impressionante. Os dois cadáveres de rosto liso foram vestidos com uniformes de serviço da prisão.

     Os oficiais da prisão seriam encontrados com armas sacadas, mas mortos; as balas foram disparadas aqui e ali nos corpos. Os talibãs que teriam feito a emboscada foram espalhados pelo acostamento, também atingidos pelas pistolas dos guardas.

     A porta do furgão foi arrombada com uma picareta e deixada aberta. Seria assim que encontrariam o furgão em algum momento no dia seguinte.

     Quando o cenário estava montado, o brigadeiro Yusuf sentou no banco da frente da picape ao lado do motorista. O ex-prisioneiro subiu na traseira com os dois homens das Forças Especiais que tinham vindo com ele. Todos os três puxaram a ponta de seus turbantes em torno dos rostos, para abrigar-se do frio.

     A picape saiu da cidade de Cabul e atravessou o campo até cruzar com a rodovia sul para Ghazni e Candahar. Ali aguardaram, como em toda noite, a longa coluna daquilo que a Ásia inteira conhece como os caminhões badalantes.

     Pareciam ter sido construídos havia um século. Rangem e chiam por cada estrada do Oriente Médio e do Extremo Oriente, vomitando colunas de fumaça preta. Freqüentemente, são vistos quebrados no acostamento, enquanto seu motorista caminha por muitos quilômetros para encontrar e comprar a peça necessária.

     Mas eles conseguiam atravessar passagens entre montanhas e percorrer trilhas de colinas que eram praticamente intransponíveis para outros veículos. Algumas vezes, a carcaça de um desses caminhões podia ser vista caída num desfiladeiro à margem de uma estrada. Mas eles constituem a força vital do comércio de um continente, carregando uma variedade estrondosa de suprimentos até as aldeias menores e mais isoladas, além de transportar as pessoas que nelas residiam.

     Os britânicos tinham-nos apelidado de caminhões badalantes havia muitos anos, devido às suas decorações. Eram pintados cuidadosamente em cada espaço disponível com cenas de religião e história. Eram representações do cristianismo, islã, hinduísmo, siquismo e budismo, freqüentemente misturados gloriosamente. Eram decorados com laços, fitas e até sinos. Portanto, eles badalavam.

     Ao longo do acostamento da rodovia ao sul de Cabul havia uma fila com várias centenas de caminhões badalantes estacionados. Os caminhoneiros dormiam em suas cabines, esperando o amanhecer. A picape parou ao lado da fila. Mike Martin saltou da traseira e caminhou até a cabine. O motorista tinha seu rosto escondido por um shebagh de tecido xadrez.

     Sentado ao lado do motorista, o brigadeiro Yusuf cumprimentou Martin com um meneio de cabeça, mas não disse nada. Fim da estrada. Começo da jornada. Ao dar as costas para o caminhão, ouviu o motorista falar:

     — Boa sorte, chefe.

     Novamente, o termo. Apenas os homens do SAS chamavam seus oficiais de chefe. Ao fazer a entrega, além de não saber quem era seu prisioneiro, o major superintendente também não soubera que, desde a posse do presidente Hamid Karzai, as Forças Especiais do Afeganistão tinham sido criadas e treinadas pelo SAS.

     Martin começou a caminhar ao longo da fila de caminhões estacionados. Atrás dele, as lanternas traseiras da picape distanciavam-se enquanto ela retornava para Cabul. Na cabine, o sargento do SAS fez uma chamada de celular para um número em Cabul. Foi atendido pelo chefe de estação. O sargento pronunciou duas palavras e desligou.

     O chefe do SIS para todo o Afeganistão também fez uma chamada numa linha segura. Eram quatro da manhã em Cabul, onze da noite na Escócia. Uma mensagem de uma linha apareceu numa das telas. Phillips e McDonald já estavam na sala, torcendo para ver o que eles viram. Crowbar em andamento.

     Numa rodovia extremamente fria, Mike Martin permitiu-se uma última olhada para trás. As lanternas traseiras da picape tinham sumido. Virou-se e continuou andando. Depois de caminhar uns cem metros, ele havia se tornado apenas um vulto.

     Sabia o que estava procurando, mas teve de passar por cem caminhões antes de achar. Uma placa da cidade de Karachi, Paquistão. O motorista de um caminhão como aquele dificilmente seria pashtun, de modo que não perceberia seu domínio imperfeito do idioma pashto. Provavelmente seria um balúchi seguindo para casa, na província de Baluchistão, no Paquistão.

     Era cedo demais para os caminhoneiros estarem acordando, e eria insensato acordar o motorista do caminhão escolhido; homens cansados não ficavam em seu melhor humor quando acordados subitamente, e Martin precisava dele num humor generoso. Durante duas horas, ele ficou enrodilhado debaixo do caminhão, tremendo.

     Por volta das seis a paisagem leste ficou rosada. No acostamento alguém acendeu uma fogueira e pôs um bule para ferver. Na Ásia central, grande parte da vida se passa em torno da casa de chá, a cahi-khana, que pode ser criada até com uma fogueira, um bule de chá e um grupo de homens. Martin se levantou, caminhou até a fogueira e aqueceu as mãos.

     O homem que estava fazendo o chá era pashtun, mas taciturno, o que convinha a Martin. Ele tirara o turbante, desenrolara-o e guardara-o na bolsa que pendia de seu ombro. Seria insensato da parte de Martin anunciar que era talibã antes de saber se o homem era um simpatizante. Com um punhado de moedas afegãs, comprou uma xícara fumegante e bebeu grato. Minutos depois o membro da tribo balúchi desceu sonolento de sua cabine e caminhou até a fogueira, para tomar seu chá.

     O dia amanheceu. Alguns dos caminhões começaram a voltar à vida, exalando lufadas de fumaça preta. O balúchi caminhou de volta até o caminhão. Martin seguiu-o.

     — Saudações, meu irmão.

     O balúchi respondeu, mas com alguma suspeita.

     — Por acaso você está indo para o sul, até a fronteira, até a cidade de Spin Boldak?

     Se o homem estava seguindo de volta para o Paquistão, a pequena fronteira ao sul de Candahar seria o lugar por onde passaria. Mas Martin sabia que a essa altura haveria um preço por sua cabeça. Teria de evitar a pé os guardas de fronteira.

     — Se Alá quiser — disse o balúchi.

     — Então, em nome do Todo-Piedoso, você daria carona a um pobre homem que está tentando voltar para sua família?

     O balúchi pensou. Geralmente seu primo o acompanhava nessas viagens longas até Cabul, mas ele adoecera em Karachi. O balúchi vinha dirigindo sozinho na viagem, e estava sendo muito cansativo.

     — Você sabe dirigir um destes? — perguntou o balúchi.

     — Na verdade, fui caminhoneiro durante muitos anos.

     Eles dirigiram para o sul em silêncio cordial, ouvindo música popular oriental no velho rádio de plástico acomodado sobre o painel. O aparelho zumbia e chiava, mas Martin não teve certeza se devido à estática ou à melodia.

     O dia se arrastou enquanto rodavam por Ghazni e em direção a Candahar. Na estrada, pararam para tomar chá e comer, o prato costumeiro de carne de bode com arroz, e encheram o tanque. Martin ajudou a pagar com seu punhado de moedas afegãs, e o balúchi tornou-se muito mais amistoso.

     Embora Martin não falasse nem o dialeto urdu nem o balúchi, e o homem de Karachi dominasse apenas um pouco de pashto, uma linguagem de sinais e um pouco de árabe do Corão serviram bem.

     Fizeram um pequeno pernoite ao norte de Candahar, porque o balúchi recusava-se a dirigir na escuridão. Estavam na província Zabol, terra selvagem e povoada por homens selvagens. Era mais seguro dirigir à luz do dia com centenas de outros caminhoneiros à frente e atrás, e ainda outros seguindo para o norte. Os bandoleiros prefeririam agir à noite.

     Ao passarem pelos subúrbios ao norte de Candahar, Martin alegou precisar de um cochilo e se enrascou no banco de trás, que o balúchi fazia de cama. Candahar fora quartel-general e fortaleza do Talibã, e Martin não queria que um talibã reformado pensasse ter visto um antigo amigo num caminhão de passagem.

     Ao sul de Candahar, Martin novamente rendeu o balúchi ao volante. Ainda estava no meio da tarde quando chegaram a Spin Boldak; Martin alegou morar no subúrbio norte, despediu-se de seu anfitrião com palavras de gratidão, e foi deixado a alguns quilômetros do posto de controle da fronteira.

     Como não falava pashto, o balúchi manteve seu rádio sintonizado numa estação de música popular e não ouviu as notícias. Na fronteira, as filas estavam mais longas que o normal, e quando ele finalmente chegou à barreira, mostraram-lhe uma fotografia. O rosto de um talibã de barba preta olhou para ele.

     Ele era um homem honesto e trabalhador. Queria chegar em casa para rever sua esposa e seus quatro filhos. A vida já era muito difícil. Por que passar dias, talvez semanas, numa prisão afegã tentando explicar que ele tinha sido totalmente ignorante?

     — Pelo profeta, juro que não o vi — perjurou, e deixaram-no ir.

     Nunca mais, pensou enquanto seguia para o sul pela estrada de Quetta. Ele podia vir da cidade mais corrupta da Ásia, mas lá pelo menos você sabia que estava em sua própria cidade natal. Os afegãos não eram seu povo; por que se envolver? Tentou imaginar o que o talibã fizera.

     Martin fora alertado de que o seqüestro do furgão da prisão, o assassinato dos dois supostos guardas e a fuga de um prisioneiro da baía de Guantánamo não poderiam ser encobertos. Para início de conversa, a embaixada americana ia fazer um escândalo.

     A cena do assassinato fora descoberta por patrulhas enviadas para a estrada de Bagram quando o furgão não voltara para a prisão. A separação do furgão de sua escolta militar foi atribuída à incompetência. Mas a libertação do prisioneiro fora claramente realizada por uma gangue de remanescentes do Talibã. As autoridades iriam empreender uma caçada a eles.

     Infelizmente, a embaixada americana ofereceu ao governo Karzai uma fotografia, que não podia ser recusada. Os chefes locais da CIA e do SIS tentaram acalmar as coisas, mas não tinham muito o que fazer. Quando todos os postos de fronteira haviam recebido uma fotografia por fax, Martin ainda estava ao norte de Spin Boldak.

     Embora não soubesse nada disso, Martin estava determinado a não correr riscos na travessia da fronteira. Ele subiu as colinas acima de Spin Boldak e esperou pela noite. De lá, podia ver o contorno da paisagem e a rota que tomaria na marcha noturna que o aguardava.

     A cidadezinha estava oito quilômetros à frente e um quilômetro e meio abaixo dele. Podia ver a estrada coleando e os caminhões seguindo por ela. Podia ver o imenso forte antigo que servira um dia de fortaleza para o Exército britânico.

     Sabia que a captura do Forte, em 1919, fora a última vez em que o Exército britânico usara escadas medievais de escalada. Os soldados haviam se aproximado secretamente à noite e, descontando os relinchos das mulas, foram silenciosos como tumbas para não acordar os defensores.

     Mas quando suas escadas se revelaram três metros curtas demais, os soldados britânicos caíram no fosso seco. Felizmente, os defensores pashtuns, acocorados por trás das muralhas, presumiram que a Força atacante era enorme, e fugiram pela porta dos fundos, para buscar abrigo nas colinas. Assim, os ingleses tomaram o Forte sem um único disparo.

     Antes da meia-noite, Martin passara silenciosamente por suas muralhas, atravessara a cidade e entrara no Paquistão. O nascer do sol pegou-o depois de percorrer 16 quilômetros da estrada de Quetta. Ali encontrou um chai-khana e esperou até que passasse um caminhão que aceitasse passageiros pagantes. O motorista concordou em levá-lo até Quetta. Por fim o turbante negro do talibã, instantaneamente reconhecido naquelas bandas, era uma vantagem em vez de um estorvo. E assim foi.

     Se Peshawar é uma cidade islâmica extremista, Quetta é ainda mais, superada apenas por Miram Shah em sua simpatia feroz pela al-Qaeda. Essas cidades ficavam dentro das províncias da fronteira norte, onde prevalecem as leis das tribos locais. Embora tecnicamente do outro lado da fronteira do Afeganistão, o povo pashtun ainda prevalece, assim como a linguagem pashto e a devoção extrema ao islã ultratradicionalista. Um turbante talibã é a marca de um homem com quem você pode contar.

     Ainda que a estrada principal para o sul a partir de Quetta leve até Karachi, Martin fora aconselhado a fazer o percurso mais curto por uma rodovia até o miserável porto de Gwadar.

     O porto fica quase na fronteira iraniana na região oeste do Baluchistão. Anteriormente uma aldeia de pescadores sonolenta e fedorenta, Gwadar desenvolvera-se para um porto e depósito importante, alegremente dedicado ao contrabando, especialmente de ópio. O islã pode condenar o uso de narcóticos, mas apenas para os muçulmanos. Se os infiéis do Ocidente querem se envenenar e pagar bem por esse privilégio, isso não é da conta dos verdadeiros servos do Profeta.

     Portanto, cultivam-se papoulas no Irã, Paquistão e, principalmente, no Afeganistão. A flor é refinada localmente para morfina básica e contrabandeada mais para oeste, para tornar-se heroína e morte. Neste negócio sagrado, Gwadar desempenha seu papel.

     Em Quetta, evitando conversar com pessoas que falassem pashto e que, portanto, poderiam desmascará-lo, Martin encontrara outro caminhoneiro balúchi indo para Gwadar. Foi apenas em Quetta que soube que havia um prêmio de cinco milhões de afeganes por sua cabeça... mas apenas no Afeganistão.

     Foi na terceira manhã depois de ter ouvido as palavras boa sorte, chefe, que ele saltou do caminhão e se serviu de uma xícara de chá verde adocicado numa lanchonete de rua. Ele era esperado, mas não por nativos.

    

     O primeiro dos Predators havia decolado de Thumrait 24 horas antes. Voando em turnos, os veículos aéreos não tripulados manteriam uma patrulha constante dia e noite sobre a área que lhes fora designada para vigiar.

     Fabricado pela General Atomics, o UAV-RQ1L Predator não chama atenção por sua beleza. Parece uma engenhoca montada no quintal de um aeromodelista.

     Mede apenas oito metros de comprimento e é fino como um lápis. Suas asas de gaivota possuem uma envergadura de 14 metros. Na sua traseira, um único motor Rotax de 113 cavalos de força move as hélices que o empurram para a frente, e o motor simplesmente suga combustível de seu tanque de 454 litros.

     Mesmo com esse impulso mínimo, o Predator pode alcançar até 117 nós ou planar a 73. Sua permanência máxima no ar é de 40 horas, mas suas missões mais normais requerem voar até um raio de 400 milhas náuticas de sua base, operar durante 24 horas e voar de volta para casa.

     Sendo um aparelho impulsionado por motor traseiro, seus controles direcionais ficam na frente. Eles podem ser operados manualmente por seu controlador ou por um programa computadorizado que fará o que for necessário até que receba novas instruções.

     A genialidade do Predator reside em seu nariz bulboso, o módulo aviônico destacável Skyball.

     Todo o módulo de comunicações fica voltado para cima para se comunicar com os satélites no espaço. Os satélites recebem todas as foto-imagens e conversas captadas pelo Predator, retransmitindo-as para a base.

     A parte que fica voltada para baixo é o radar Lynx Synthetic Aperture e a unidade fotográfica L-3 Wescam. Versões mais modernas, como os dois usados sobre Omã, podem superar noite, nuvens, chuva, granizo e neve com o sistema de alvo multi-espectral.

     Depois da invasão do Afeganistão, quando os alvos mais suculentos eram localizados mas não podiam ser atacados a tempo, o Predator voltou para seus fabricantes e uma nova versão foi disponibilizada. Esta portava o míssil Hellfire, concedendo à pequena aeronave uma variação armada.

     Dois anos depois, o líder da al-Qaeda no Iêmen saiu de seu complexo no interior do país com quatro companheiros num Land Cruiser. Ele não sabia, mas vários pares de olhos americanos estavam-no observando numa tela em Tampa.

     Bastou um simples comando, e o Hellfire saiu das entranhas do Predator, e segundos depois o Land Cruiser e seus ocupantes simplesmente foram vaporizados. Tudo foi testemunhado em cores vivas num televisor de plasma na Flórida.

     Os dois Predators que decolaram de Thumrait não estavam armados. Sua tarefa consistia em patrulhar a 20 mil pés, fora de vista, inaudíveis e imunes a radar, e observar o solo e o mar abaixo.

    

     Havia quatro mesquitas em Gwadar, mas inquéritos britânicos do ISI paquistanês apontavam que a quarta, e menor, era um berço de agitação fundamentalista. Como a maioria das mesquitas pequenas no islã era um local de adoração que contava com um imame, sobrevivendo de doações dos fiéis, e fora criada e era dirigida por Abdullah Halabi.

     Halabi conhecia bem sua congregação e, ao conduzir as preces de sua cadeira elevada, percebeu o visitante. Mesmo ao fundo da mesquita, o turbante talibã preto chamou sua atenção.

     Mais tarde, antes que o estranho de barba negra pudesse calçar de novo suas sandálias e se perder na multidão na rua, o imame puxou sua manga.

     — Que as graças de nosso Senhor misericordioso estejam com você — murmurou o imame. Ele disse a frase em árabe, e não urdu.

     — E com você, imame — respondeu o estranho.

     O imame notou que, embora dominasse o árabe, o estranho falava com sotaque pashto. Suspeita confirmada: o homem provinha dos territórios tribais.

     — Meus amigos e eu vamos nos reunir na madafa — disse o imame. — Gostaria de participar conosco e tomar um pouco de chá?

     O pashtun considerou o convite durante um segundo, e então inclinou solenemente a cabeça. A maioria das mesquitas possuía uma madafa anexada, um clube mais relaxado e particular para orações, fofocas e ensinamentos religiosos. No Ocidente, a conversão de adolescentes em ultra-extremistas costuma ser realizada nas madafas.

     — Sou o imame Halabi. O nosso novo adorador possui um nome?

     Sem hesitação, Martin disse o primeiro nome do presidente afegão e o segundo do brigadeiro das Forças Especiais.

     — Sou Hamid Yusuf— disse ele.

     — Então seja bem-vindo, Hamid Yusuf — disse o imame. — Notei que você ousa vestir o turbante do Talibã. Você foi um deles?

     — Desde 1995, quando me juntei ao mula Omar, em Candahar.

     Havia uma dúzia de homens na madafa, um barraco desmazelado atrás da mesquita. Chá foi servido. Martin notou um dos homens olhando para ele. Em seguida, o mesmo homem puxou o imame para um canto e pôs-se a sussurrar freneticamente. Ele jamais assistia à televisão e suas imagens sujas, explicou, mas passara diante de uma loja de eletrônicos com um aparelho ligado na vitrine.

     — Tenho certeza de que é ele — sussurrou. — Ele escapou de Cabul há três dias.

     Martin não entendia o dialeto urdu, principalmente o de sotaque balúchi, mas presumiu o que estava sendo falado. O imame poderia deplorar todas as coisas ocidentais e modernas, mas como a maioria das pessoas, considerava um celular um acessório tremendamente conveniente, mesmo se ele tivesse sido fabricado pela Nokia na Finlândia, um país cristão. O imame pediu a três amigos que puxassem conversa com o estranho e que não o deixassem sair. Em seguida, retirou-se para seus aposentos humildes e fez várias chamadas. Retornou muito impressionado.

     Ter sido um talibã desde o começo; ter perdido a família e o clã inteiros para os americanos; ter comandado metade do front norte na invasão dos ianques; ter invadido o arsenal em Qala-i-Jangi; ter sobrevivido anos numa prisão americana; ter escapado das garras do regime de Cabul, que se curvava a Washington — este homem não era um fugitivo, e sim um herói.

     O imame Halabi podia ser paquistanês, mas nutria um ódio ardente pelo governo de Islamabad devido à sua colaboração com os Estados Unidos. Suas simpatias eram inteiramente para com a al-Qaeda. Para ser justo com ele, a recompensa de cinco milhões de afeganes, que iria deixá-lo rico pelo resto da vida, não o tentou nem um pouco.

     Ele voltou para a sala e chamou pelo estranho.

     — Eu sei quem você é — sussurrou. — É aquele a quem chamam fugitivo. Você está seguro comigo, mas não em Gwadar. Há agentes do ISI por toda parte, e existe um prêmio pela sua cabeça. Onde estão suas coisas?

     — Não tenho nada. Acabo de chegar do norte — disse Martin.

     — Eu sei de onde você veio. Está tudo nos jornais. Você deve ficar aqui, mas não por muito tempo. Você tem de sair de Gwadar, vai precisar de documentos, identidade nova, um transporte seguro para fora daqui. Talvez eu conheça alguém que possa ajudar.

     Ele mandou um garoto de sua madrassa correr até o cais. O barco que procurou não estava no porto. Chegou 24 horas depois. O menino ainda estava esperando pacientemente na doca em que a embarcação sempre aportava.

     Faisal bin Selim nascera na tribo catariana. Filho de pescadores pobres, fora criado num barraco na beira de um córrego lamacento perto da vila que acabou se tornando a próspera capital Doha. Mas isso foi depois da descoberta do petróleo, da criação dos Emirados Árabes Unidos a partir dos Estados em Trégua, da partida dos britânicos, da chegada dos americanos, e muito antes de o lugar ser inundado por dinheiro.

     Em sua infância, conhecera a pobreza e desenvolvera a deferência imediata aos estrangeiros de pele branca. Mas desde a idade mais tenra, bin Selim fora movido pela determinação de subir na vida. A trilha que escolheu foi a que ele conheceu: o mar. Fez-se grumete num cargueiro costeiro, e à medida que seu navio percorria a costa da ilha Masirah e de Sallah, na província Dhofari de Omã, passando pelos portos de Kuait e Barein no golfo Pérsico, ele aprendeu muitas coisas com sua mente ágil.

     Aprendeu que sempre havia alguém preparado para vender alguma coisa, e preparado para vendê-la barato. E que havia outra pessoa, em algum lugar, preparada para comprar essa mesma coisa, pagando mais.

     Entre essas duas pessoas estava a instituição conhecida como Alfândega. Faisal bin Selim tornou-se próspero com o contrabando.

     Em suas viagens, conheceu muita coisa que passou a admirar: tecidos e tapeçarias finos, arte islâmica, cultura religiosa, coroes antigos, manuscritos preciosos e a beleza das grandes mesquitas. E conheceu muita coisa que passou a desprezar: ocidentais ricos, rostos porcinos, peles queimadas pelo sol, mulheres execráveis em biquínis ínfimos, bêbados arrogantes, todo aquele dinheiro imerecido.

     O fato de que os regentes dos Estados do Golfo também se beneficiavam do dinheiro que simplesmente brotava em jorros negros das areias do deserto não escapava a ele, e como adotavam os hábitos ocidentais, bebiam álcool importado, dormiam com as prostitutas douradas, também passou a desprezá-los.

     Quando estava na casa dos 40, duas décadas antes de um pequeno menino balúchi esperar por ele na doca de Gwadar, duas coisas haviam acontecido a Faisal bin Selim.

     Ganhara e economizara dinheiro suficiente para comprar e pagar os impostos para operar um soberbo dhow, um barco de madeira com velas, construído pelos melhores artesãos em Sur in Oman. Batizou a embarcação de Rasha, pérola. E se tornara um wahabi fervoroso.

     Quando os novos profetas surgiram para seguir os ensinamentos de Maududi e Sayyid Qutb, declararam jihad contra as forças da heresia e da degeneração. E Faisal bin Selim os apoiara. Quando rapazes foram combater os soviéticos ateus no Afeganistão, suas preces foram com eles; quando outros conduziram aviões de passageiros contra as torres do deus ocidental do dinheiro, ele se ajoelhou e rezou para que eles entrassem nos jardins de Alá.

     Para o mundo ele permanecia um homem cortês, de vida frugal, que possuía e comandava o Rasha. Fazia seus negócios ao longo de toda a costa do Golfo e pelo mar Arábico. Não procurava problemas, mas se um Crente Verdadeiro pedisse sua ajuda, fosse na forma de caridade ou de uma passagem para a segurança, ele fazia o que estivesse ao seu alcance.

     Faisal bin Selim chamara a atenção das forças de segurança ocidentais porque um ativista da al-Qaeda, capturado em Hadramaut, ao ser interrogado numa cela em Riad, deixou escapar que mensagens destinadas ao próprio Bin Laden, tão secretas que só poderiam ser confidenciadas a um mensageiro capaz de memorizá-las ao pé da letra e que estivesse disposto a morrer para não ser capturado, ocasionalmente saíam da península saudita de barco. O emissário era embarcado na costa balúchi, de onde levava sua mensagem para o norte, para as cavernas desconhecidas do Waziristão, onde residia o xeque. O barco era o Rasha. Com a aceitação e assistência do ISI, o barco não era interceptado, apenas observado.

     Bin Selim chegou em Gwadar com uma carga de mercadorias da Zona Franca de Dubai. Geladeiras, máquinas de lavar, fornos de microondas e televisores eram vendidos por uma fração do preço de revenda fora da zona franca.

     Estava compromissado a voltar para o Golfo levando uma carga de tapetes paquistaneses, tricotados pelos dedos finos de menininhos escravos, destinados aos pés de ocidentais ricos que compravam mansões luxuosas em ilhas nas costas de Dubai e Catar.

     Ouviu solenemente o menininho passar a mensagem, assentiu com a cabeça, e duas horas depois, com sua carga desembarcada e a salvo da Alfândega do Paquistão, deixou o Rasha a cargo de seu grumete omani e caminhou serenamente por Gwadar até a mesquita.

     Depois de anos negociando no Paquistão, o árabe cortês falava bem urdu, e ele e o imame conversaram nessa língua.

     Bebericou o chá, comeu bolinhos doces e enxugou os dedos num lencinho de cambraia. O tempo todo, ele assentiu e olhou para . Quando soube da sua fuga do furgão da prisão, sorriu em sinal de aprovação. Então disse em árabe:

     — E você deseja sair do Paquistão, irmão?

     — Não há lugar para mim aqui — disse Martin. — O imame tem razão. A polícia secreta vai me encontrar e me entregar de volta para os cães de Cabul. Mas porei fim à minha vida antes que isso aconteça.

     — Seria uma lástima — murmurou o catariano. — Que grande vida... até aqui. Se eu o levar para os Estados do Golfo, o que você fará?

     — Tentarei encontrar outros Crentes Verdadeiros e oferecer o que posso.

     — O que seria isso? O que você pode fazer?

     — Posso lutar. E estou preparado para morrer na Guerra Santa de Alá.

     O capitão cortês pensou por um momento.

     — O embarque dos tapetes será ao amanhecer — disse ele. — Levará muitas horas. Serão colocados nos deques mais inferiores, para não serem estragados pela maresia. Depois eu vou zarpar, velas baixas. Deverei passar perto da beirada do quebra-mar. Se um homem saltasse do concreto para o convés, ninguém notaria.

     Depois das saudações rituais, Mike se retirou. Em meio à escuridão, foi conduzido pelo menino até a doca. Ali estudou o Rasha, para que pudesse reconhecê-lo de manhã.

     O barco passou pelo quebra-mar um pouco antes das onze. A distância era de dois metros e meio, que depois de uma pequena corrida, Martin conseguiu saltar com vários centímetros de folga.

     O omani estava ao leme. Faisal bin Selim saudou Martin com um sorriso gentil. Ofereceu ao seu convidado água fresca para lavar as mãos e tâmaras deliciosas das palmeiras de Muscat.

     Ao meio-dia, o homem idoso estendeu dois tapetes no convés de carga. Lado a lado, os dois homens ajoelharam-se para fazer as preces do meio-dia. Para Martin foi a primeira ocasião em que rezou fora de uma multidão, na qual uma única voz era abafada por todas as outras. Pronunciou cada palavra com perfeição.

    

     Quando um agente está fora, no frio, num trabalho obscuro e perigoso, seus controladores ficam ávidos por algum sinal de que ele esteja bem, ainda vivo, ainda em liberdade, ainda atuando. Esta indicação pode vir do próprio agente, por telefone, uma mensagem colocada nos classificados de um jornal ou rabiscada com giz numa parede previamente combinada. Pode vir de um observador, que não faz contato mas olha com atenção e volta com a informação. No meio, chama-se isso de sinal de vida. Depois de dias de silêncio, os controladores ficam muito ansiosos, aguardando um sinal de vida.

     Era meio-dia em Thumrait; hora do café na Escócia; madrugada em Tampa. Omã e Estados Unidos podiam ver o que o Predator podia ver, mas não conheciam sua significação. É o modus operandi da necessidade de saber; eles não sabiam. Mas a base aérea de Edzell sabia.

     Alternadamente abaixando a cabeça para o convés e levantando-a para olhar para o céu,  estava fazendo suas preces no Rasha. Os operadores na sala de operações iniciaram uma discussão. Segundos depois, Steve Hill recebeu uma chamada à mesa do café e deu à sua esposa um beijo ardente e inesperado.

     Dois minutos depois, Marek Gumienny recebeu um telefonema na cama na velha Alexandria. Ele levantou, ouviu, sorriu, murmurou já estou indo e voltou a dormir.  Ainda estava escuro.

    

     FAVORECIDO PELO VENTO SUL, O RASHA IÇOU AS VELAS, DESLIGOU os motores, e o ronco foi substituído pelos sons calmos do mar: a água beijando a proa, o suspiro do vento nas velas, o ranger dos cordames.

     O dhow, seguido pelo Predator, invisível seis quilômetros acima, singrou lentamente as águas da costa sul do Irã e entrou no golfo de Omã. Ali virou para estibordo, recolheu um pouco as velas quando o vento passou a soprar com força sua popa e seguiu para a fenda estreita entre o Irã e a Arábia, conhecida como estreito de Ormuz.

     Através dessa pequena brecha, onde a ponta da península Musandani de Omã fica apenas a 12 quilômetros do litoral persa, um fluxo constante de navios-tanque imensos passou por eles; alguns de casco baixo, repletos de petróleo cru para o Ocidente faminto de energia, outros de casco alto, subindo para o Golfo, para encher seus porões com petróleo saudita ou kuaitiano.

     Os barcos menores, como o dhow, permaneciam mais perto da costa, concedendo aos gigantes a liberdade do canal profundo. Quando se depara com alguma coisa em seu caminho, um supertanque simplesmente não consegue parar.

     O Rasha, sem a menor pressa, passou uma noite de velas baixas, parado entre as ilhas a leste da base naval omani, em Kumzar. Sentado no convés de popa na noite quente, ainda claramente visível numa tela de plasma numa base aérea escocesa, Martin viu duas superlanchas à luz da lua e escutou o rugido de seus imensos motores externos enquanto saíam velozes das águas omanis para fazer a travessia até o sul do Irã.

     Eram os contrabandistas sobre os quais ouvira falar; sem dever aliança a país algum, seus operadores dedicavam-se ao contrabando. Em alguma praia vazia iraniana ou balúchi, fariam contato ao amanhecer com os receptores, descarregariam a carga de cigarros e levariam para bordo, surpreendentemente, bodes angorá, que eram valiosíssimos em Omã.

     Num mar calmo, esses barcos finíssimos de alumínio, com sua carga acomodada na parte central e a tripulação segurando-se como podia, seriam impulsionados por dois imensos motores externos de 250 HP para alcançar até 50 nós. Eram virtualmente inalcançáveis, e seus tripulantes conheciam cada baía ou enseada da costa, e estavam acostumados a navegar sem luzes e na escuridão completa, nos rastros dos navios-tanque.

     Faisal bin Selim sorriu, tolerante. Ele também era contrabandista, mas muito mais digno que os vagabundos do Golfo, que estava ouvindo ao longe.

     — E depois que eu levar você para a Arábia, meu amigo, o que você vai fazer? — perguntou baixinho. O grumete omani estava no porão de proa, tentando fisgar um bom peixe para o café-da-manhã. Ele se juntara aos outros dois para as preces da noite. Agora era a hora para conversas agradáveis.

     — Eu não sei — admitiu . — Tudo que sei é que sou um homem morto em meu próprio país. O Paquistão está fechado para mim, porque eles são cachorrinhos dos ianques. Espero encontrar os Crentes Verdadeiros e pedir para lutar com eles.

     — Mesmo? Mas não há luta alguma nos Emirados Árabes Unidos. Eles também são aliados do Ocidente. O interior é da Arábia Saudita, onde você será encontrado e enviado de volta imediatamente. Assim... — deu de ombros.

     — Quero apenas servir a Alá. Eu vivi a minha vida. Deixarei meu destino aos cuidados Dele.

     — E você diz que está preparado para morrer por Ele — disse o catariano cortês.

     Mike Martin recordou de sua infância e de quando estudara em Bagdá. A maioria dos alunos eram meninos iraquianos, filhos da nata da sociedade cujos pais queriam que eles falassem inglês perfeito e chegassem a dirigir grandes empresas, negociando com Londres e Nova York. O currículo era em inglês, que incluía o aprendizado de poesia inglesa tradicional.

     Martin sempre tivera uma poesia favorita: a história de como Horácio de Roma defendeu a última ponte contra o exército invasor da Casa deTarquínio, enquanto os romanos destruíam a ponte atrás dele. Havia um verso que os meninos costumavam cantar juntos:

    

     Para cada homem sobre a terra,

     A morte chegará um dia

     E não há melhor modo de morrer

     Que lutando em imensa desvantagem

    

     Pelas cinzas de seus ancestrais E pelos templos de seus deuses.

     — Seu eu puder morrer shahid, a serviço do jihad de Alá é claro — retrucou.

     O capitão do dhow pensou durante algum tempo e mudou de assunto.

     — Você está usando as roupas do Afeganistão — disse ele. — Vai ser localizado numa questão de minutos. Espere um pouco.

     Ele desceu e voltou pouco depois com um manto recém-lavado, branco, de tecido de algodão, que cai reto dos ombros até os calcanhares.

     — Troque-se — ordenou. — Jogue esse shalwar kameez e o turbante talibã na água.

     Depois que Martin tinha trocado de roupas, Bin Selim deu-lhe um novo turbante, o keffiyeh salpicado de vermelho de um árabe do Golfo e a cordinha que o mantém no lugar.

     — Melhor assim — disse o velho, depois que seu convidado terminara a transformação. — Você vai conseguir se passar por um árabe do Golfo, desde que se mantenha de boca fechada. Mas existe uma colônia de afegãos na área de Jidá. Eles estão na Arábia Saudita há gerações, mas falam como você. Diga que veio de lá, e os estranhos acreditarão em você. Agora vamos dormir. Teremos de acordar ao amanhecer para nosso último dia de viagem.

     O Predator viu o dhow levantar âncora e sair das ilhas, velejando então gentilmente em torno dos rochedos de Al Ghanam e seguindo para sudoeste pela costa dos Emirados Árabes Unidos.

    

     A Federação dos Emirados Árabes Unidos é composta por sete emirados, mas ele se lembrava apenas dos nomes dos maiores e mais ricos, Dubai, Abu Dhabi e Charjah. Os outros quatro eram bem menores, mais pobres e quase anônimos. Dois desses, Ajman e Umm Al Qaiuain, fazem fronteira com Du-bai, cujas riquezas petrolíferas tornaram-no o mais rico e desenvolvido dos sete emirados.

     Fujairah fica sozinho do outro lado da península, com a parte leste voltada para o golfo de Omã. O sétimo é Ras-al-Khaimah. Ele está localizado na mesma costa de Dubai, um pouco mais ao norte da costa, em direção ao estreito de Ormuz. É um emirado pobre e ultratradicionalista. Por esse motivo ele tem aceitado com sofreguidão os presentes da Arábia Saudita, incluindo mesquitas e escolas... todas ensinando o wahabismo. Ras-al-K, como é conhecido pelos ocidentais, é a sede local do fundamentalismo e nutre simpatia pela al-Qaeda e pelo jihad. A bombordo do dhow, Ras-al-K seria o primeiro emirado que eles alcançariam. Isso ocorreu ao pôr-do-sol.

     — Você não tem documentos — disse o capitão ao seu convidado. — E eu não posso lhe conseguir isso. Mas tudo bem, eles sempre foram uma impertinência ocidental. A coisa mais importante é o dinheiro. Tome.

     Ele enfiou na mão de Martin um maço de dirrãs dos Emirados Árabes Unidos. À luz tênue do entardecer, eles estavam passando a um quilômetro e meio da costa da cidade. As primeiras luzes começaram a piscar entre os edifícios.

     — Eu vou desembarcar você mais adiante — disse Bin Selim. — Você vai encontrar a estrada da costa e caminhar de volta. Eu conheço uma pequena pensão na cidade velha. É barata, limpa e discreta. Hospede-se lá. Não saia. Você estará seguro e, inshal-lah, eu tenho amigos que talvez o ajudem.

     Estava completamente escuro quando Martin viu as luzes da casa de hóspedes e o Rasha começou a se aproximar da costa. Bin Selim conhecia-a bem; o Forte Hamra, que tinha um clube de praia para seus convidados estrangeiros, contava com um cais, que ficava abandonado à noite.

    

     — Ele está desembarcando do dhow — disse uma voz na sala de operações na base aérea de Edzell. A despeito da escuridão, o captador termográfico de imagens do Predator a 20 mil pés viu a figura ágil saltar da embarcação para o cais, e o comerciante reverter seu motor e recuar para águas mais profundas, em direção ao mar.

     — Esqueçam o barco. Acompanhem a figura em movimento — disse Gordon Phillips, debruçando-se sobre o ombro do operador.

     As ordens seguiram paraThumrait, e o Predator foi instruído a acompanhar a imagem térmica de um homem caminhando ao longo da estrada da costa, em direção a Ras-al-Ki.

     Foi uma caminhada de mais de sete quilômetros, mas Martin alcançou a seção da cidade velha por volta da meia-noite. Ele perguntou duas vezes e foi direcionado ao endereço da pensão. Ficava a 400 metros da casa da família de Al-Shehhi, da qual viera Marwan al-Shehhi, o homem que pilotara o avião de passageiros até a Torre Sul do World Trade Center, em 11 de setembro de 2001. Ele ainda era um herói local.

     O proprietário mostrou-se grosseiro e desconfiado até Martin mencionar Faisal bin Selim. A menção ao nome e a visão de um maço de dirrãs foram suficientes para quebrar o gelo. Ele foi convidado a entrar e levado até um quarto simples. Aparentemente, havia apenas mais dois hóspedes pagantes, que não estavam no local àquela hora.

     Firme em sua atitude, o dono da pensão convidou Martin a tomar uma caneca de chá antes de dormir. Martin teve de explicar que vinha de Jidá, mas que era de origem pashtun.

     Com sua pele morena, barba preta cheia e as referências repetidas a Alá típicas de um verdadeiro devoto, Martin convenceu seu anfitrião de que também era um Crente Verdadeiro. Eles se despediram com votos mútuos de uma boa noite de sono.

    

     O capitão do dhow velejou dia e noite. Seu destino era o porto conhecido como Riacho, no coração de Dubai. Um dia fora simplesmente isso, um riacho lamacento que fedia a peixes mortos, no qual pescadores lançavam suas redes sob o calor do dia. Agora havia se tornado a mais recente atração pitoresca da capital, de frente para o soukh dourado — o mercado árabe —, abaixo das janelas dos altíssimos hotéis ocidentais. Ali os dhows comerciais ficam ancorados lado a lado e os turistas vão olhar para a última porção da antiga Arábia.

     Bin Selim chamou um táxi e instruiu o motorista a levá-lo por quatro quilômetros e meio costa acima até o Sultanato de Ajman, o menor e o segundo mais pobre dos sete. Ali dispensou o táxi e entrou num soukh coberto, percorrendo um labirinto de becos para despistar qualquer pessoa que o estivesse perseguindo, caso alguém o fizesse.

     Não era o caso. O Predator estava concentrado numa pensão no coração de Ras-al-Khaimã. O capitão do dhow saiu do soukh para uma pequena mesquita e pediu para falar com o imame. Um menino foi correndo para a cidade e voltou com um rapaz que era um estudante da escola técnica local. Ele também formara-se no campo de treinamento Darunta, que até 2001 fora mantido e administrado pela al-Qaeda nas cercanias de Jalalabad.

     O velho sussurrou no ouvido do jovem, que fez que sim e agradeceu. Então o capitão do dhow voltou através do mercado coberto, fez sinal para um táxi e retornou para seu cargueiro no Riacho. Ele fizera tudo que estava a seu alcance. Agora tudo estava nas mãos de homens mais jovens. Inshallah.

    

     Na mesma manhã — um pouco mais tarde, devido ao fuso horário — o Countess of Richmond saiu do estuário de Mersey e entrou no mar da Irlanda. O capitão McKendrick estava no comando e conduziu seu cargueiro para o sul. Em pouco tempo, mantendo Gales à sua esquerda, a embarcação sairia do mar da Irlanda e de Lizard Point para encontrar o canal da Mancha e o Atlântico leste. Então rumaria para o sul, passando por Portugal, através do Mediterrâneo até o canal de Suez, e dali para o oceano Índico. Abaixo de seu convés, à medida que os mares gélidos de março varriam a proa do Countess, estava uma carga de automóveis da Jaguar cuidadosamente protegida em contêineres, destinada às feiras automobilísticas de Cingapura.

    

     Quatro dias se passaram até  o hospedado em Ras-al-Khaimã receber suas visitas. Seguindo instruções, não saíra nem para ir até a rua. Mas ele pegara ar no pátio fechado nos fundos da casa, protegido das ruas por portões duplos com quase três metros de altura. Ali chegavam e saíam diversos furgões de entregas.

     Nas vezes em que estivera no pátio, fora visto pelo Predator, e seus controladores na Escócia notaram a mudança de vestes.

     Seus visitantes, quando eles chegaram, não vieram para entregar comida, bebida ou roupas lavadas, mas para fazer uma coleta, O furgão manobrou em marcha à ré até chegar perto da porta do prédio. O motorista permaneceu ao volante; os outros três entraram na casa.

     Os dois hóspedes estavam no trabalho, e o proprietário saíra para fazer compras. Os três homens tinham suas instruções. Seguiram depressa até a porta apropriada e entraram sem bater. A figura sentada, lendo o Corão, levantou-se para dar de cara com uma pistola empunhada por um homem treinado no Afeganistão. Todos os três estavam encapuzados.

     Foram silenciosos e eficazes. Martin sabia o bastante sobre soldados para reconhecer que seus visitantes tinham noção do que estavam fazendo. O capuz foi posto sobre sua cabeça e caiu sobre os ombros. Suas mãos foram puxadas para trás e presas com algemas plásticas. Em seguida, foi conduzido para fora do quarto, através do corredor azulejado e para o interior de um furgão. Foi deitado de lado, ouviu a porta ser batida, sentiu o veículo sair num solavanco e pegar a rua.

     O Predator registrou tudo, mas os controladores julgaram que era apenas mais uma entrega de lavanderia. Numa questão de minutos o furgão sumiu de vista. Há muitos milagres que a tecnologia moderna de espionagem pode realizar, mas mesmo assim controladores e máquinas podem ser enganados. O esquadrão de captura não tinha a menor idéia de que havia um Predator acima deles, mas o fato de terem preferido o meio da manhã ao meio da noite enganou os observadores em Edzell.

     Foram necessários três dias para que eles se dessem conta de que seu homem não aparecia mais diariamente no pátio para dar sinal de vida. Em suma, ele desaparecera. A Escócia estava vigiando uma casa vazia. E não tinha a menor noção de qual dos furgões o havia levado.

     Na verdade, o furgão não fora muito longe. Os arredores de Ras-al-K são um deserto selvagem e rochoso, que sobe até as montanhas de Rus-al-Jibal. Nada pode viver ali além de bodes e salamandras.

     Apenas para o caso de o homem que eles haviam seqüestrado estar sendo vigiado, com ou sem seu conhecimento, os seqüestradores não estavam correndo riscos. Havia trilhas que subiam as colinas, e eles pegaram uma delas. Na traseira do furgão, Martin sentiu o veículo deixar a estrada de terra e começar a sacolejar pela trilha acidentada.

     Caso estivessem sendo seguidos por um veículo, ele teria sido avistado. Mesmo se estivesse fora de vista, seria delatado pela coluna de pó de deserto que levantaria. Um helicóptero de vigilância teria sido ainda mais óbvio.

     O furgão parou a oito quilômetros da trilha para as colinas. O líder, o homem com a arma, pegou binóculos poderosos e perscrutou o vale e a costa, até a cidade antiga, da qual tinham vindo. Ninguém os estava seguindo.

     Satisfeito, o homem mandou o furgão dar meia-volta. Seu destino verdadeiro era uma mansão no meio de um complexo murado nos subúrbios da cidade. Com os portões da mansão novamente fechados, o furgão deu marcha à ré até uma porta aberta e Martin foi conduzido para fora e para baixo por outra passagem azulejada.

     As algemas plásticas foram retiradas de seus pulsos e uma argola de metal frio envolveu o esquerdo. Sabia que haveria uma corrente ligada a uma argola na parede, que ele não conseguiria desprender. Quando o capuz foi retirado, eram os seqüestradores quem estavam agora com as cabeças cobertas. Recuaram de costas e a porta foi batida. Ele ouviu ferrolhos encaixarem nos soquetes.

     Não era uma cela no sentido verdadeiro da palavra. Era uma sala no andar térreo, que fora fortificada. A janela estava lacrada com tijolos, e embora Martin não pudesse notar, uma pintura de janela adornava a parede externa para enganar quem olhasse para o complexo através de binóculos.

     Considerando todas as coisas que sofrerá durante o curso de resistência a interrogatório no SAS, aquele quarto era até confortável. No teto havia uma única lâmpada, protegida por uma estrutura de arame. A luz era fraca, mas adequada.

     Havia uma cama de campanha e folga suficiente em sua corrente para permitir que se deitasse. A sala também dispunha de uma cadeira de encosto alto e de uma privada química. Tudo ao seu alcance, mas em direções diferentes.

     Contudo, havia em seu pulso esquerdo uma pulseira de aço atada a uma corrente, que se ligava a um suporte na parede. Ele não podia alcançar a porta pela qual seus interrogadores entrariam, por acaso com comida e água, e um visor na porta significava que eles poderiam observá-lo sempre que quisessem, mas que ele não poderia vê-los ou ouvi-los.

     No castelo Forbes tinham ocorrido discussões longas e passionais a respeito de um problema: ele deveria estar com algum tipo de dispositivo de rastreamento?

     Hoje em dia existem transmissores de rastreamentos tão pequenos que podem ser injetados sob a pele sem que nem mesmo fosse necessário cortar a epiderme. São do tamanho de uma cabeça de alfinete. Aquecidos pelo sangue, dispensam qualquer outra fonte de energia. Mas o alcance é limitado. Pior ainda, existem também sensores ultra-sensíveis que podem detectá-los.

     — Essa gente não é nem um pouco estúpida — afirmara Phillips. Seu colega do Departamento de Antiterrorismo da CIA concordou.

     — A maioria teve uma educação excepcional — dissera McDonald. — Alguns, inclusive, possuem um domínio extraordinário de alta tecnologia, e em especial de informática.

     Ninguém em Forbes duvidava de que se Martin fosse submetido a um exame hipertecnológico e alguma coisa fosse encontrada, ele estaria morto numa questão de minutos.

     A decisão final fora: sem bipe implantado. Sem emissor de sinais.

     Uma hora depois, os seqüestradores vieram buscá-lo. Mais uma vez, estavam encapuzados.

     A revista corporal foi longa e completa. Primeiro ele foi deixado totalmente nu, e as roupas foram levadas para serem examinadas em outro cômodo.

     Eles não introduziram nenhuma sonda em sua garganta ou ânus. O scanner cuidou de tudo. O aparelho foi passado sobre seu corpo centímetro a centímetro. Emitiria um bipe caso descobrisse uma substância que não fosse um tecido vivo. Isso aconteceu apenas em sua boca. Eles a abriram à força e examinaram cada obturação. Afora isso... nada.

     Devolveram suas roupas e se preparaxam para sair.

     — Meu Corão ficou na pensão — disse o prisioneiro. — Não tenho nem relógio nem tapete, mas deve ser a hora da oração.

     O líder fitou-o através dos orifícios ern seu capuz. Não disse nada, mas dois minutos depois retornou com um tapete e um Corão. Martin agradeceu-lhe solenemente.

     Comida e água eram trazidas regularmente. Cada uma das vezes ele era ordenado a recuar com um aceno de pistola, e a bandeja era depositada em um lugar onde poderia ser alcançada depois que tivessem se retirado. O sanitário químico era trocado da mesma forma.

     Passaram-se três dias até que seu interrogatório começasse. Encapuzado para não olhar pelas janelas foi conduzido pelos corredores. Quando o capuz foi removido, ele ficou atônito. O homem à sua frente, sentado calmamente por trás de uma mesa de refeitório, parecia um empresário preparado para entrevistar um candidato a emprego. Era jovial, elegante, civilizado, urbano e tinha o rosto descoberto. Falava com fluência e perfeição em árabe do Golfo.

     — Não vejo motivos para máscaras ou nomes ridículos — disse o homem. — O meu, a propósito, é Dr. Al-Khattab. Não farei mistério. Se eu ficar convencido de que você é quem diz ser, será bem recebido entre nós. Mas se não me convencer, sinto dizer que vai ser morto imediatamente. Portanto não finjamos, Sr. Izmat Khan. Você é realmente a quem chamam de Izmat Khan?

     Eles estarão preocupados com duas coisas, alertara-o Gordon Phillips durante uma das aulas intermináveis no castelo Forbes. Se você é realmente Izmat Khan e se é o mesmo Izmat Khan que lutou em Qala-i-Jangi. Ou os cinco anos que passou em Guantánamo o transformaram em outra coisa?

     Martin fitou os olhos do árabe sorridente. Recordou-se dos conselhos de Tamian Godfrey. Não dê bola para os homens barbados que só sabem gritar. Mas tome cuidado com aqueles que forem bem barbeados e capazes de fumar, beber e se relacionar com mulheres para se passarem por um de nós. Os totalmente ocidentalizados. Eles são camaleões humanos, escondendo o ódio. São totalmente mortais. Existe uma palavra para defini-los: takfir.

     — Existem muitos afegãos — disse ele. — Quem me chama de Izmat Khan?

     — Ah, você esteve isolado do mundo por cinco anos. Depois de Qala-i-Jangi, falou-se muito a seu respeito. Você não sabe nada sobre mim, mas eu sei muita coisa sobre você. Alguns dos nossos foram libertados do Campo Delta. Eles falaram muito bem de você. Disseram que você nunca cedeu. É verdade?

     — Eles fizeram perguntas a meu respeito. Isso eu respondi.

     — Mas nunca denunciou outros? Não mencionou nomes? É isso que os outros dizem a seu respeito.

     — Eles destruíram a minha família. A maior parte do meu ser morreu com eles. Como se pode punir um homem que já está morto?

     — Uma boa resposta, meu amigo. Então, vamos conversar sobre Guantánamo. Conte-me sobre Gitmo.

     Martin fora instruído durante muitas horas a respeito do que lhe acontecera na península cubana. Chegara em 14 de janeiro de 2002, com fome e sede, as roupas urinadas, rosto vendado e pulsos algemados tão fortemente que tinham ficado anestesiados por semanas. Tivera a barba e os cabelos raspados, fora vestido com macacão laranja, e então encapuzado e empurrado para a escuridão...

     O Dr. Al-Khattab fazia longas anotações, escrevendo num bloquinho amarelo com uma velha caneta-tinteiro. Quando chegava a uma passagem que conhecia todas as respostas, parava e contemplava seu prisioneiro com um sorriso gentil.

     No fim da tarde, ele mostrou uma fotografia.

     — Conhece este homem? — perguntou. — Já viu?

     Martin fez que não com a cabeça. A fotografia era do general Geoffrey D. Miller, sucessor como comandante de campo do general Rick Baccus. O segundo assistira aos interrogatórios, mas o general Miller deixara isso a encargo das equipes da CIA.

     — Completamente certo — disse Al-Khattab. — Ele te viu, segundo um dos nossos amigos libertados, mas você estava sempre encapuzado como punição por não cooperar. E quando as condições começaram a melhorar?

     Eles conversaram até o pôr-do-sol, e então o árabe se levantou.

     — Tenho muitas coisas para conferir — disse ele. — Se está me dizendo a verdade, nós continuaremos durante alguns dias. Se não está, acho que terei de passar as instruções apropriadas a Suleiman.

     Martin foi levado de volta para a cela. O Dr. Al-Khattab emitiu ordens rápidas para os guardas e saiu. Ele dirigiu um modesto carro alugado e voltou ao Hotel Hilton, na cidade de Ras-al-Khaimã, cujo prédio dominava elegantemente o porto de águas profundas de Al Saqr. Passou a noite e foi embora no dia seguinte. Estava usando um terno tropical creme, de corte impecável. Quando se apresentou no check in da British Airways no Aeroporto Internacional de Dubai, seu inglês foi impecável.

     Na verdade, Ali Aziz al-Khattab nascera no Kuait, filho de um diretor de banco. Segundo os padrões do Golfo, isso significava que sua juventude fora tranqüila e privilegiada. Em 1989, seu pai foi mandado para Londres como vice-diretor do Bank of Kuwait. A família foi junto, e assim acabou poupada da invasão de sua terra natal por Saddam Hussein, em 1990.

     Ali Aziz, então já com um domínio muito bom da língua inglesa, foi matriculado numa escola britânica aos 15 anos. Três anos mais tarde formou-se com notas excelentes e um inglês absolutamente sem sotaque. Quando a família voltou para casa, ele decidiu ficar e estudar no Loughborough Technical College. Quatro anos depois, recebeu o diploma em engenharia química e iniciou o doutorado.

     Não foi no golfo Árabe, e sim em Londres, que começou a freqüentar a mesquita administrada por um pregador fervoroso e cheio de ódio pelo Ocidente, e se tornou aquilo que a mídia gosta de definir como um radical. Na verdade, aos 21 anos ele sofrerá uma lavagem cerebral completa, e era um defensor fanático da al-Qaeda.

     Um caçador de talentos sugeriu que talvez ele gostasse de visitar o Paquistão, Al-Khattab aceitou. Passou seis meses num campo de treinamento de terroristas da al-Qaeda. Já tinha sido selecionado para ser um sleeper, um agente que ficaria aguardando discretamente na Inglaterra, sem jamais chamar a atenção das autoridades.

     Em Londres, ele fez o que todos eles faziam; contou à sua embaixada que perdera seu passaporte e recebeu um novo que não continha o visto de entrada no Paquistão, o que acabaria levantando suspeitas. Para quem quisesse ouvir, diria que fora visitar familiares e amigos no Golfo e que jamais estivera perto do Paquistão, quanto mais do Afeganistão. Em 1999, conseguiu um cargo de professor na Aston University, em Birmingham. Dois anos depois, forças anglo-americanas invadiram o Afeganistão.

     Viveu várias semanas com medo de que restassem indícios de sua permanência nos campos de treinamento de terroristas, mas em seu caso, o chefe de pessoal da al-Qaeda, Abu Zubaydah, fizera um trabalho perfeito. Não havia pistas de que Al-Khattab estivera lá. Assim, permaneceu sem ser descoberto e ascendeu a agente comandante da al-Qaeda no Reino Unido.

    

     Enquanto o avião de passageiros no qual viajava o Dr. Al-Khattab decolava com destino a Londres, o Java Star saía de seu porto no Sultanato de Brunei, na costa do Bornéu do Norte indonésio, e seguiu para mar aberto.

     O destino do navio era o porto de Fremantle, a oeste da Austrália, e para seu capitão norueguês, Knut Herrmann, aquela seria uma jornada como todas as outras: rotineira e sem acidentes.

     Sabia que os mares daquela região continuavam sendo as águas mais perigosas do mundo; mas não devido a bancos de areia, marés altas, rochas, tempestades, recifes ou tsunamis. O perigo eram os ataques de piratas.

     Todo ano, entre o estreito de Malaca, no oeste, e o mar Celebes, no leste, ocorrem mais de 500 ataques a navios mercantes e mais de 100 seqüestras. Ocasionalmente, a tripulação é liberada após o pagamento do resgate pelos proprietários do navio; ocasionalmente, são todos mortos e deles jamais se ouve falar; nesses casos, a carga é roubada e vendida ao mercado negro.

     Se o capitão Herrmann singrava despreocupado por aquele trajeto rotineiro até Fremantle, era porque estava convencido de que sua carga era inútil para os bandidos do mar. Mas dessa vez estava enganado.

     A primeira parada de seu curso era ao norte, longe do destino final. Ele demorou seis horas para passar pela cidade em ruínas de Kudat e contornar a ponta norte de Sabah e a ilha de Bornéu. Só então ele pôde seguir para sudoeste, em direção ao arquipélago Sulu.

     O capitão pretendia atravessar as ilhas de coral e de selva pegando o estreito de águas profundas entre Tawitawi e as ilhas Joio. Ao sul das ilhas haveria um percurso completamente desobstruído pelo mar Celebes até o sul, e finalmente a Austrália.

     Sua partida de Brunei fora observada, e uma chamada de celular realizada. Mesmo se tivesse sido interceptada, a ligação referia-se apenas à recuperação de um tio doente que receberia alta em 12 dias. Isso significava: 12 horas para interceptar.

     A chamada foi recebida numa enseada da ilha Joio. O homem que a recebeu teria sido reconhecido pelo Sr. Alex Siebart, da Crutched Friars, da City de Londres. Era o Sr. Lampong, que não se parecia mais com um homem de negócios de Sumatra.

     Os 12 homens que comandava naquela abafada noite tropical eram assassinos, que tinham sido bem pagos e permaneceriam obedientes. Descontando a criminalidade, eram também extremistas muçulmanos. O movimento de Abu Sayyaf, nas Filipinas do sul, cuja última península fica apenas a algumas milhas da Indonésia, no mar Sulu, possui uma reputação não apenas de abrigar extremistas religiosos, como também assassinos de aluguel. A oferta do Sr. Lampong possibilitara àqueles homens que exercessem ambas as funções.

     Ao amanhecer, eles ocuparam duas lanchas, que assumiram posição entre as duas ilhas e aguardaram. Uma hora depois, o Java Star aproximou-se para passar do mar Sulu para o Celebes. Abordar o Java Star foi uma tarefa simples para aqueles piratas experientes.

     O capitão Herrmann assumira o leme à noite e ao amanhecer passara-o para seu primeiro-oficial indonésio e descera para seu camarote. A tripulação de dez lascares também estava em seus beliches.

     A primeira coisa que o primeiro-oficial indonésio viu foi um par de lanchas aproximando-se pela popa, uma de cada lado. Homens morenos, descalços e ágeis saltaram sem esforço dos barcos para o deque e correram pela superestrutura até alcançar o passadiço. O indonésio teve tempo apenas de apertar o botão de emergência da cabine do capitão, antes dos assaltantes invadirem a cabine de comando. Então uma faca foi encostada em sua garganta e uma voz gritou:

     — Capitão... capitão...

     Nem precisava chamar. Um exausto Knut Herrmann já estava subindo para verificar o que estava acontecendo. Ele e o Sr. Lampong chegaram juntos ao passadiço. Lampong empunhava uma mini Uzi. O norueguês sabia que era melhor não resistir. O resgate seria negociado entre os piratas e a sede de sua companhia em Fremantle.

     — Capitão Herrmann...

     O desgraçado sabia seu nome. Fora tudo premeditado.

     — Por favor, pergunte ao seu primeiro-oficial se por acaso ele fez uma transmissão de rádio nos últimos cinco minutos.

     Nem precisava perguntar. Lampong estava falando em inglês. Para o norueguês e seu oficial indonésio, aquela era uma língua comum. O primeiro-oficial gritou que não havia tocado o botão do transmissor de rádio.

     — Excelente — disse Lampong, e emitiu uma torrente de ordens no dialeto local. Então o primeiro-oficial compreendeu e abriu a boca para gritar. O norueguês não sabia uma palavra daquele dialeto, mas compreendeu quando o pirata que segurava seu primeiro-oficial puxou a cabeça do marinheiro para trás e abriu sua garganta com um único corte. O indonésio esperneou, estremeceu, curvou-se e morreu. Em seus 40 anos de mar o capitão Herrmann não enjoara uma única vez, mas dessa vez ele se debruçou contra o leme e esvaziou o estômago.

     — Duas poças de sujeira para limpar — disse Lampong. — Agora, capitão, para cada minuto que o senhor recusar a obedecer às minhas ordens, isso vai acontecer a um de seus homens. Fui claro?

     O norueguês foi escoltado até a pequena estação de rádio atrás do passadiço, onde selecionou o canal 16, freqüência internacional de chamada e socorro. Lampong deu ao capitão uma folha com um texto escrito.

     — O senhor não vai ler isto numa voz calma, capitão. Quando eu apertar transmitir e acenar com a cabeça, o senhor vai gritar esta mensagem com pânico na voz. Ou os seus homens morrerão, um a um. Está pronto?

     O capitão Herrmann fez que sim. Ele nem precisaria fingir pânico.

     — Mayday, Mayday, Mayday. Java Star, Java Star... incêndio catastrófico na sala de máquinas... Não posso salvar o barco... minha posição...

     Ele sabia que a posição estava errada: uma centena de milhas ao sul no mar Celebes. Mas não iria discutir, e leu como estava escrito. Lampong cortou a transmissão. Levou o norueguês sob a mira do revólver de volta para o passadiço.

     Dois de seus marinheiros tinham sido postos para limpar freneticamente o sangue e o vômito do soalho do passadiço. Os outros oito foram aglomerados num grupo aterrorizado, com seis piratas a vigiá-los.

     Mais dois seqüestradores permaneceram no passadiço. Os outros quatros estavam jogando botes e coletes salva-vidas em uma das lanchas. Era a embarcação com tanque de combustível extra.

     Quando estavam prontos, a lancha desencostou da lateral do Java Star e rumou para o sul. Num mar tropical calmo ela alcançaria com facilidade 15 nós, e estaria a cem milhas dali em sete horas, e dez horas depois de volta à enseada dos piratas.

     — Novo curso, capitão — disse Lampong ao norueguês. Seu tom de voz era gentil, mas seus olhos implacáveis não transmitiam qualquer sinal de humanidade.

     O novo curso era novamente para noroeste, para longe do aglomerado de ilhas que compunham o arquipélago Sulu, e através da linha nacional até águas filipinas.

     A província sul da ilha de Mindanao é Zamboanga, e parte dela é simplesmente área restrita para as forças do governo filipino. Aquele é o território de Abu Sayyaf. Ali eles estão seguros para recrutar, treinar e armazenar as mercadorias pilhadas. O Java Star certamente era um grande espólio, embora não fosse comercializável. Lampong conferenciou no idioma local com o pirata mais experiente. O homem apontou à frente para a entrada de uma enseada estreita, flanqueada pela selva impenetrável.

     O que ele perguntou foi:

     — Consegue conduzir o barco por ali?

     O pirata fez que sim. Lampong gritou ordens para o grupo em torno dos marinheiros lascares na proa. Sem responder, conduziram os marinheiros até a amurada e abriram fogo. Os homens gritaram e caíram na água morna. Em algum lugar em suas profundezas, tubarões viraram-se ao farejar sangue.

     Isso pegou o capitão Herrmann tão de surpresa que ele precisaria de dois ou três segundos para reagir. Mas era tarde demais. A bala de Lampong atingiu-o em cheio no peito, e o capitão também cambaleou para trás para cair pela amurada e mergulhar no mar. Meia hora depois, puxado por dois pequenos rebocadores que tinham sido roubados semanas antes, o Java Star estava em sua nova doca ao lado do quebra-mar.

     A selva envolvia o navio por todos os lados. Duas oficinas compridas também estavam ocultas, com telhados de estanho, que abrigavam placas de aço, cortadores, soldadores de oxiacetileno, tinta e um gerador de força.

     O último grito de desespero do Java Star no canal 16 fora ouvido por uma dúzia de embarcações, porém a mais próxima era um navio-frigorífico que transportava frutas frescas altamente perecíveis para o mercado americano através do Pacífico. Era comandado por um capitão finlandês, que prontamente mudou de rumo para o local. Ali ele encontrou pequenas tendas no oceano, que na verdade eram os salva-vidas, que haviam aberto e inflado automaticamente, conforme o projeto original. O finlandês circulou uma delas e viu os cintos salva-vidas e duas jaquetas infláveis. Todas estavam marcadas com o nome: MV Java Star. Segundo a lei marítima, que ele respeitava, o capitão Raikkonen cortou a força dos motores e baixou uma lancha para olhar o interior dos botes. Como estavam vazios, ordenou que fossem afundados. Perdera várias horas e não podia se demorar mais. Não havia sentido.

     Com um coração pesado, ele transmitiu por rádio que o Java Star estava perdido com todos seus marinheiros. Muito longe, em Londres, a notícia foi anotada por seguradores do Lloyd's Internacional, e em Ipswich, Reino Unido, o Registro de Remessa Marítima do Lloyd's contabilizou a perda. Para o mundo, o Java Star simplesmente deixara de existir.

    

     NA VERDADE, O INTERROGADOR FICOU AFASTADO POR UMA SEMANA. Martin permaneceu na cela com apenas o Corão por companhia. Tinha a impressão de que em breve estaria na ilustre companhia daqueles que tinham decorado cada um de seus 6.666 versículos. Mas os anos nas Forças Especiais tinham finalmente lhe concedido um dom raro entre humanos: a capacidade de permanecer imóvel por períodos excepcionalmente longos e vencer o tédio e a necessidade de se mexer.

     Assim, mais uma vez forçou-se a adotar a vida interior contemplativa, que era o único recurso que um homem em confinamento solitário poderia empregar para não enlouquecer.

     Esse talento não impedia que as pessoas na sala de operações da base aérea de Edzell ficassem muito tensas. Tinham perdido seu agente secreto, e Marek Gumienny em Langley, e Steve Hill em Londres, estavam cada vez mais insistentes em suas perguntas. O Predator tinha uma missão dupla: observar Ras-al-Khaimã para o caso de Crowbar aparecer de novo, e monitorar o dhow Rasha quando ele aparecesse no Golfo e atracasse em alguma parte dos Emirados Árabes Unidos.

     O Dr. Al-Khattab retornou depois de ter confirmado cada aspecto da história no que dizia respeito à baía de Guantánamo. Não fora fácil. Não tinha a menor intenção de se trair perante qualquer um dos quatro prisioneiros britânicos que tinham sido mandados de volta para casa. Todos haviam declarado repetidamente que não eram extremistas, e que tinham sido capturados na rede americana por acidente. Embora não fosse possível saber o que os americanos pensavam disso, a al-Qaeda poderia confirmar que era tudo verdade.

     Para dificultar ainda mais, Izmat Khan passara tanto tempo na solitária por não cooperar, que nenhum outro detento conhecera-o bem. Admitia que havia aprendido um pouco de inglês, mas isso se devera aos interrogatórios intermináveis, nos quais ouvira um agente da CIA e em seguida a tradução proferida por um intérprete que falava pashto.

     Até onde Al-Khattab conseguira descobrir, seu prisioneiro não falhara nem uma vez. O pouco que pudera ser aferido com o Afeganistão indicara que a fuga do furgão entre Bagram e a prisão de Pul-e-Charki realmente fora genuína. O que ele não podia saber era que esse trabalho fora realizado pelo competentíssimo gabinete do chefe de seção do SIS dentro da embaixada britânica. O brigadeiro Yusuf fingira raiva de forma muito convincente, e os agentes do então renascido Talibã estavam convencidos. E foi o que disseram quando perguntados pela al-Qaeda.

     — Vamos retornar aos primeiros dias, em Tora Bora — propôs ao recomeçar o interrogatório. — Fale-me de sua infância.

     Al-Khattab era um homem inteligente, mas não sabia que, embora o homem à sua frente fosse um sósia, Martin conhecia as montanhas do Afeganistão melhor que ele. Os seis meses que o kuaitiano passara no campo de treinamento de terroristas fora exclusivamente entre conterrâneos árabes, não entre montanheses pashtuns. Ele fez muitas anotações, até dos nomes das frutas nos pomares de Maloko-zai. Sua mão corria pelo bloquinho, cobrindo uma página depois da outra.

     No terceiro dia da segunda sessão, a narrativa chegara à data que se revelara crucial na vida de Izmat Khan: 20 de agosto de 1998, o dia em que os mísseis Tomahawk atingiram as montanhas.

     — Ah, sim — murmurou. — Realmente trágico. E estranho, porque você deve ser o único que não possui nenhum parente vivo que possa confirmar sua história. É uma coincidência espantosa, e como cientista, eu odeio coincidências. Que efeito isso exerceu sobre você?

     Em Guantánamo, Izmat Khan recusara-se a falar sobre seu motivo para odiar os americanos com tanto ardor. Essa lacuna fora preenchida pelas informações oferecidas pelos outros combatentes que haviam sobrevivido a Qala-i-Jangi e chegado ao Campo Delta. No Exército talibã, Izmat Khan tornara-se um ícone. Seu nome era sussurrado em torno de fogueiras, reverenciado como um homem imune ao medo. Os outros sobreviventes haviam contado aos inquisidores americanos a história da família aniquilada.

     Al-Khattab fez uma pausa e fitou seu prisioneiro. Ele ainda nutria reservas, mas de uma coisa tinha certeza. O homem realmente era Izmat Khan. Suas dúvidas residiam na segunda questão: teria sido ele transformado pelos americanos?

     — Então você alega que declarou uma espécie de guerra particular? Um jihad muito pessoal? E que nunca cedeu? Mas o que você fez realmente em seu jihad?

     — Lutei contra a Aliança do Norte, os aliados dos americanos.

     — Mas não até outubro e novembro de 2001 — disse Al-Khattab.

     — Até então não havia americanos no Afeganistão — argumentou Martin.

     — É verdade. Então você lutou pelo Afeganistão... e perdeu. Agora deseja lutar por Alá.

     Martin assentiu e disse:

     — Como o xeque predisse.

     Pela primeira vez, o Dr. Al-Khattab se viu deserdado de todo seu autocontrole. Durante 30 segundos ficou de boca aberta, caneta no ar, imóvel. Finalmente disse num sussurro:

     — Você... realmente conheceu o xeque?

     Apesar de ter passado semanas no campo de treinamento, Al-Khattab jamais conhecera pessoalmente Osama bin Laden. Apenas uma vez vira um Land Cruiser de vidro fume passar, sem parar. Mas ele teria, literalmente, empunhado um facão de carne e decepado a mão esquerda se isso tivesse lhe valido a chance de ver o homem a quem mais admirava em todo o mundo. Martin fitou seus olhos e assentiu. Al-Khattab recobrou o equilíbrio.

     — Você vai começar do início desse episódio e descrever o que aconteceu realmente. Não deixe nada de fora, descreva tudo nos mínimos detalhes.

     Então Martin contou. Contou que quando adolescente servira ao lashkar de seu pai como mensageiro, logo depois que voltara da madrassa nas cercanias de Peshawar. Falou a respeito da patrulha que fizera junto com outros, e de como tinham sido capturados na encosta de uma montanha com apenas algumas rochas para servir de abrigo.

     Não fez nenhuma menção a um oficial britânico, nem ao míssil Blowpipe, ou à destruição do helicóptero de combate Hind. Falou apenas sobre a metralhadora no bico do helicóptero. Contou como fragmentos de balas e de rocha tinham voado ao seu redor até que o Hind, que Alá seja louvado, ficasse sem munição e fosse embora.

     Narrou como sentira uma dor na coxa, como se tivesse sido atingido por um martelo. Explicou que fora carregado por seus camaradas através de vales, até acharem um homem com uma mula e confiscarem o animal.

     E contou como fora levado até um complexo de cavernas em Jaji, onde fora entregue aos sauditas que viviam e trabalhavam no local.

     — Mas o xeque... Conte sobre o xeque — insistiu Al-Khattab.

     Então Martin contou. O kuaitiano anotou palavra por palavra.

     — Repita isso, por favor.

     — Ele me disse: Chegará o dia em que você não será mais útil ao Afeganistão, mas Alá sempre precisará de um bom guerreiro.

     — E então, o que aconteceu?

     — Ele mudou o curativo em minha perna.

     — O xeque fez isso?

     — Não. O médico que estava com ele. O egípcio.

     Dr. Al-Khattab recostou-se e deixou escapar um suspiro longo. É claro, o doutor, Ayman al-Zawahiri, companheiro e confidente, o homem que unira as forças do jihad islâmico egípcio às do xeque para criar a al-Qaeda. Ele começou a arrumar seus papéis.

     — Preciso deixá-lo novamente. Vai levar uma semana, talvez mais. Você terá de ficar aqui. Acorrentado, infelizmente. Você viu demais, sabe demais. Mas se for realmente um Crente Verdadeiro, e se for realmente Izmat Khan, irá se juntar a nós como um recruta de honra. Se não for...

     Martin foi devolvido à sua cela quando o kuaitiano partiu. Dessa vez Al-Khattab não retornou direto para Londres. Ele foi até o Hilton e passou um dia e uma noite inteiras escrevendo. Quando terminou, fez vários telefonemas num celular novo e limpo, que em seguida foi arremessado no porto de águas profundas. Na verdade, ele não estava sendo ouvido; mas se estivesse, suas palavras teriam significado muito pouco. Mas o Dr. Al-Khattab ainda estava em liberdade justamente por ser um homem muito cauteloso.

     Telefonemas foram feitos, e ele marcou um encontro com Faisal bin Selim, o capitão do Rasha, que estava atracado em Dubai. Naquela tarde, dirigiu o carro alugado até Dubai e conversou com o velho capitão, que pegou uma carta longa e pessoal e escondeu sob o manto. E o Predator continuava voando a 20 mil pés.

    

     Os grupos de terrorismo islâmico já perderam muitos agentes de alto nível que não haviam se dado conta de quão perigosos são os celulares e telefones via satélite. Os recursos de interceptação, escuta e decodificação do Ocidente são simplesmente bons demais. Outro erro fatal é transferir grandes somas de dinheiro através do sistema bancário normal.

     Para evitar o segundo risco, eles usavam o sistema hundi que, com variação, é tão velho quanto o primeiro Califado. Hundi baseia-se no conceito de confiança total, que seria desaconselhado por qualquer advogado. Mas funciona porque qualquer um que faz lavagem de dinheiro que traia seu cliente logo será retirado dos negócios... ou pior.

     O pagante entrega a quantia em dinheiro vivo ao homem hundi no Ponto A e pede que seu amigo no Ponto B receba o equivalente, menos a percentagem do homem hundi.

     O homem hundi tem um parceiro de confiança, geralmente um parente no Ponto B. Ele informa seu parceiro e o instrui a disponibilizar a quantia toda, em dinheiro vivo, ao amigo do pagador, que irá se identificar de uma maneira pré-combinada.

     Considerando as dezenas de milhões de muçulmanos que mandam dinheiro para suas famílias em seu velho país, e levando em conta que lá não existem nem computadores nem mesmo extratos bancários; considerando que toda quantia é transmitida em dinheiro vivo e que tanto os pagantes quanto os receptores podem usar pseudônimos, a movimentação é virtualmente impossível de ser interceptada ou rastreada.

     Para fins de comunicação, a solução reside em esconder as mensagens terroristas em códigos de três algarismos que podem ser enviados por correio eletrônico ou por celular, via SMS. Só o receptor com a lista de decodificação de até 300 desses grupos numéricos pode compreender a mensagem. Isso funciona com instruções breves e com avisos. Ocasionalmente um texto longo e exato precisa viajar meio mundo.

     Só o Ocidente está sempre com pressa. O Oriente tem paciência. Não importa se vai demorar. O Rasha partiu naquela noite e retornou para Gwadar. Ali, um emissário local, alertado por uma mensagem de texto em Karachi, chegara em sua motocicleta. Ele pegou a carta e seguiu para o norte, através do Paquistão, até Miran Shah, uma cidade pequena e berço de fanáticos.

     Ali, o homem suficientemente confiável para ir até os picos altos do Waziristão do Sul estava aguardando na chai-khana pré-combinada. E o envelope lacrado mais uma vez mudou de mãos. A resposta retornou da mesma forma. Ao todo, levou dez dias.

     Mas o Dr. Al-Khattab não permaneceu no golfo Árabe. Ele voou até o Cairo e seguiu para o Marrocos. Ali entrevistou e selecionou os quatro norte-africanos que iriam se tornar parte da segunda equipe. Como ainda não estava sob vigilância, a jornada do Dr. Al-Khattab não apareceu no radar de ninguém.

     Quando as cartas foram distribuídas, o Sr. Wei Wing Li recebeu duas. Baixo, atarracado e parecido com um sapo, tinha os ombros encimados por uma cabeça redonda como uma bola de futebol, e um rosto salpicado por manchas de varíola. Mas era bom no que fazia.

     Ele e sua tripulação haviam chegado à enseada escondida na península de Zamboanga dois dias antes do Java Star. A jornada a partir da China, onde faziam parte do submundo de Gwangdong, não envolvera a inconveniência de passaportes ou vistos. Simplesmente haviam embarcado num cargueiro cujo capitão fora fartamente recompensado. Ao chegarem à ilha Joio, embarcaram em duas lanchas vindas do litoral filipino.

     O Sr. Wei saudara seu anfitrião, o Sr. Lampong, e o chefe local, Abu Sayyaf, que o recomendara. O Sr. Wei inspecionara as acomodações de seus 12 tripulantes, recebera adiantados os 50 por cento de sua comissão e pedira para ver as oficinas. Depois de uma inspeção longa, contou os tanques de oxigênio e acetileno e se mostrou satisfeito. Em seguida, estudou as fotografias tiradas em Liverpool. Quando o Java Star finalmente chegou à enseada, o Sr. Wei sabia o que precisava ser feito e já estava pronto.

     Transformar navios era sua especialidade, e mais de 50 navios de carga singrando pelos mares do sudoeste da Ásia com formas, nomes e documentos falsos tinham a assinatura do Sr. Wei. Ele dissera que precisava de duas semanas e recebera três, e nem uma hora a mais. Nesse tempo o Java Star iria se tornar o Countess of Richmond. O Sr. Wei não sabia disso. E não precisava saber.

     Nas fotografias que estudou, o nome verdadeiro do navio havia sido apagado. O Sr. Wei não se importava com nomes ou documentos. Ele se importava apenas com formas.

     Haveria partes do Java Star que seriam retiradas, e outras que seriam recortadas. Em alguns pontos, seria preciso pintar por cima do aço. Contudo, o mais importante seria a criação de seis contêineres de metal longos que, em três pares, ocupariam o convés desde o passadiço até a dianteira do navio.

     Mas os contêineres não seriam reais. Vistos de todos os lados, pareciam autênticos, contando até com a logomarca da Hapag-Lloyd. Passariam por qualquer inspeção a poucos metros de distância. Entretanto, eles não possuiriam paredes internas; constituiriam uma longa galeria com um teto com dobradiças e acesso através de uma porta que seria cortada no tabique abaixo do passadiço, e em seguida disfarçada para ficar invisível para todos, exceto para aqueles que soubessem onde ficava o puxador.

     O Sr. Wei e sua equipe não fariam a pintura. Os terroristas filipinos cuidariam disso, e o novo nome do navio seria pintado depois que ele tivesse ido embora.

     No dia em que ele acionou seus soldadores de oxiacetileno, o Countess of Richmond estava atravessando o canal de Suez.

    

     Quando Ali Aziz al-Khattab retornou para a mansão, era um outro homem. Ordenou que os grilhões de seu prisioneiro fossem removidos e o convidou a juntar-se a ele à mesa para almoçarem. Seus olhos reluziam com empolgação.

     — Eu me comuniquei com o xeque em pessoa — vangloriou-se. Estava claramente consumido por essa honra. A resposta não fora escrita. Fora confidenciada verbalmente nas montanhas ao mensageiro, que a memorizara. Essa também é uma prática comum nos escalões mais elevados da al-Qaeda.

     O mensageiro fora trazido até o golfo Árabe, e quando o Rasha aportou, a mensagem fora passada, palavra por palavra, ao Dr. Al-Khattab.

     — Há uma última formalidade — disse ele. — Você poderia, por favor, levantar a bainha do seu manto até o meio da coxa.

     Martin obedeceu. Não sabia nada sobre qual seria a disciplina científica de Al-Khattab; apenas que ele possuía um doutorado. Rezou para que não fosse em dermatologia. O kuaitiano examinou a cicatriz com atenção. Ficava onde lhe fora dito que ficaria. Há 18 anos, um homem a quem ele idolatrava havia suturado aqueles seis pontos numa caverna em Jaji.

     — Obrigado, meu amigo. O xeque enviou suas saudações pessoais. Que honra incrível. Ele e o doutor se lembraram do jovem guerreiro e das palavras proferidas. Ele me autorizou a incluir você numa missão que irá infligir ao Grande Satã um golpe tão terrível que até a destruição das torres parecerá insignificante. Você ofereceu sua vida a Alá. A oferta foi aceita. Você vai morrer gloriosamente, um verdadeiro shahid. Você e seus companheiros mártires serão lembrados por mil anos.

    

     Depois de três semanas de tempo perdido, o Dr. Al-Khattab estava apressado. Todos os recursos da al-Qaeda nas redondezas foram convocados. Um barbeiro veio aparar a juba desmazelada em um corte de estilo ocidental. Ele também se preparou para raspar a barba. Martin protestou. Como muçulmano e afegão, queria sua barba. Al-Khattab concedeu que fosse mantida uma barbicha fina na ponta do queixo, e não mais que isso.

     O próprio Suleiman tirou fotos de rosto e, 24 horas depois, apareceu com um passaporte perfeito mostrando que o proprietário era um engenheiro naval de Barein, conhecido como um sultanato fortemente pró-Ocidente.

     Um alfaiate veio, tirou medidas e reapareceu com sapatos, meias, gravata e um terno cinza-escuro, juntamente com uma pequena mala de viagem para guardá-los.

     A equipe preparou-se para partir no dia seguinte. Suleiman, que se revelou ser de Abu Dhabi, iria até o fim, acompanhando. Os outros dois eram apenas guarda-costas, recrutados localmente, e por isso dispensáveis. A mansão servira a seu propósito; agora seria incendiada e abandonada.

     Enquanto se preparava para partir antes deles, o Dr. Al-Khattab virou-se para Martin.

     — Tenho inveja de você, Afegão. Jamais saberá o quanto. Você lutou por Alá, sangrou por Ele, sofreu dores e humilhações por Ele. E agora irá morrer por Ele. Como eu gostaria de acompanhar você!

     Ele estendeu a mão, ao estilo inglês, mas então se lembrou de que era um árabe e o abraçou. À porta, virou-se mais uma vez.

     — Você vai chegar ao Paraíso antes de mim, Afegão. Guarde um lugar para mim nele. Inshallah!

     E então se retirou. Sempre estacionava o carro alugado a várias centenas de metros da mansão. Ao sair dos portões da casa, ele se agachou, como sempre fazia, para amarrar um cadarço, enquanto olhava para ambas as direções da estrada. Não viu nada além de uma garota a cerca de 200 metros, tentando dar a partida numa lambreta que se recusava a pegar. Era uma moradora local, com um jilbab que lhe cobria os cabelos e metade do rosto. Ainda assim, sentia-se ofendido por ver uma mulher dirigindo qualquer tipo de veículo motorizado.

     Ele se virou e caminhou até o carro. A garota com o motor engasgado inclinou-se para a frente e falou com alguma coisa dentro da cesta acima do pára-lama dianteiro. Ela aprendera seu inglês claudicante no Cheltenham Ladies College.

     — Mongoose Um, em movimento — disse ela.

    

     Qualquer um que já tenha se envolvido com aquilo que Kipling chamou de O Grande Jogo e o que James Jesus Angleton, da CIA, referia-se como sendo o mundo da fumaça e dos espelhos, decerto concordará que o maior de todos os inimigos é o imprevisto.

     O imprevisto provavelmente arruinou mais missões secretas do que atos de traição ou de manobras brilhantes de con-tra-inteligência por parte do opositor. E foi o imprevisto que praticamente pôs fim à Operação Crowbar. E tudo começou porque todos os envolvidos estavam tentando ser prestativos.

     As fotografias dos dois Predators que sobrevoavam os Emirados Árabes Unidos e o mar Árabe estavam sendo enviadas de Thumrait para a base aérea de Edzell, que sabia exatamente por quê, e para o Centcom do Exército americano em Tampa, Flórida, que achava que os britânicos simplesmente haviam requisitado alguma vigilância aérea rotineira. Martin insistira que não mais de 12 pessoas deveriam saber que ele estava no frio, e o número ainda era de apenas dez. E eles não estavam em Tampa.

     Sempre que os Predators pairavam sobre os Emirados, suas imagens mostravam uma massa de árabes, não-árabes, carros, táxis, docas e casas. Eram elementos demais para serem checados um a um. Mas o dhow e seu capitão idoso eram conhecidos.

     Assim, quando o Rasha estava aportado, qualquer pessoa que o visitasse era também considerada de interesse.

     Mas a embarcação era visitada por um grande número de pessoas. Precisava ser reabastecida com provisões. O marinheiro omani que limpava o Rasha costumava trocar gentilezas com transeuntes no cais. Turistas aproximavam-se para admirar um autêntico dhow, construído com a tradicional madeira de teca. O capitão era visitado a bordo por seus agentes locais e amigos. Quando um jovem árabe de barba feita e manto branco conversava com Faisal bin Selim, ele era apenas um dentre muitos.

     A sala de operações em Edzell tinha um catálogo de mil rostos de agentes — confirmados e suspeitos — e simpatizantes da al-Qaeda. Cada imagem enviada pelos Predators era comparada eletronicamente com o catálogo. O Dr. Al-Khattab não chamou a atenção porque era desconhecido. Assim, Edzell deixou-o passar; esse tipo de coisa acontece.

     O árabe jovem e magro que visitou o Rasha também não chamou a atenção em Tampa, mas o Exército mandou as fotografias, como cortesia, para a NSA, em Forte Meade, Maryland, e ao NRO, responsável pelos satélites espiões, em Washington. A NSA ofereceu essas fotos para seus parceiros britânicos no QG de Cheltenham, que deram uma boa e longa olhada, não se importaram com Al-Khattab, e enviaram as imagens para o serviço secreto britânico responsável pela contra-inteligência, mais conhecido como MI5, na casa do Tamisa, a uma pequena distância das casas do Parlamento.

     Ali, um jovem estagiário, ansioso por impressionar, comparou os rostos de todos os visitantes do Rasha com o banco de dados de reconhecimento de rostos.

     Não faz muito que o reconhecimento de rostos humanos dependia de agentes talentosos, que trabalhavam na penumbra, examinando com lupas as imagens granuladas para tentar responder a duas perguntas: quem é o homem mulher nesta foto; e nós já os vimos antes? Sempre fora uma jornada solitária, e um examinador solitário levava anos para desenvolver o sexto sentido que recordaria que o chapa na foto comparecera a um coquetel diplomático vietnamita em Délhi cinco anos antes, e que por esse motivo certamente pertencia à KGB.

     Então veio o computador. Surgiram softwares preparados para reduzir o rosto humano a mais de 600 medidas minúsculas e armazená-las. Aparentemente, cada rosto humano no mundo pode ser identificado por meio de medidas. Pode ser a distância exata (até o último mícron) entre as pupilas dos olhos, a largura do nariz a sete pontos entre as sobrancelhas e a ponta, 22 medidas apenas para os lábios, e as orelhas...

     Ah, as orelhas. Analistas faciais adoram orelhas. Cada protuberância e reentrância, ruga e curva, dobra e lóbulo, é diferente. Orelhas são como digitais. Mesmo aquelas nos lados esquerdo e direito da cabeça não são iguais. Os cirurgiões plásticos as ignoram, mas dê a um bom observador de rostos ambas as orelhas numa boa definição, e ele encontrará seu par.

     O software tinha um banco de dados bem maior que os mil rostos armazenados em Edzell. Continha criminosos condenados sem nenhuma convicção política aparente, porque até eles podem trabalhar para terroristas quando o preço é justo. Armazenava imigrantes, legais e ilegais, e não necessariamente convertidos muçulmanos. Milhares e milhares de rostos fotografados por câmeras ocultas em passeatas, enquanto os manifestantes brandiam seus cartazes e entoavam palavras de ordem. E o banco de dados não se restringia ao Reino Unido. Em suma, possuía mais de três milhões de faces humanas do mundo inteiro.

     O computador decompôs o rosto que estava falando com o capitão do Rasha. Para compensar o ângulo oblíquo, escolheu a única imagem na qual o homem levantara a cabeça para olhar um jato decolando do aeroporto de Abu Dhabi, obteve suas 600 medidas e começou a comparar. O computador podia até mesmo realizar ajustes, acrescentando ou retirando pêlos faciais.

     Embora operasse rápido, o computador ainda assim demorou uma hora. Mas encontrou seu homem.

     Era um rosto numa multidão diante de uma mesquita, logo depois do 11 de Setembro, aplaudindo entusiasticamente tudo que o orador dizia. O orador em questão era conhecido como Abu Qatada, simpatizante fanático da al-Qaeda na Grã-Bretanha, e a multidão à qual ele estava se dirigindo naquela tarde de setembro de 2001 era o Al-Muhajiroun, grupo extremista que apoiava o jihad.

     O estagiário retirou o rosto do arquivo e o levou ao superior. De lá, o rosto seguiu para a formidável dama que geria o MI5, Eliza Manningham-Buller. Ela ordenou que o homem fosse rastreado. Nesse momento, ninguém sabia que o estagiário havia descoberto o chefe da al-Qaeda na Grã-Bretanha.

     Levou mais algum tempo, mas surgiu outro par: o homem recebendo o doutorado numa cerimônia acadêmica. Seu nome era Ali Aziz-al-Khattab, acadêmico altamente ocidentalizado com um cargo na Aston University, Birmingham.

     Com o que as autoridades tinham, ele ou era um sleeper de longa data, altamente bem-sucedido, ou um insensato que, em seus dias de estudante, flertara com a política extremista. Se cada cidadão nessa categoria fosse preso, as prisões ficariam abarrotadas.

     Com toda certeza, ele aparentemente não chegara nem perto de extremistas desde aquele dia diante da mesquita. Mas um radical regenerado não é visto conversando com o capitão do Rasha no porto de Abu Dhabi. Assim... ele se enquadrava na primeira categoria: sleeper até prova em contrário.

     Checagens adicionais discretas mostraram que ele estava de volta à Grã-Bretanha, retomando seu trabalho laboratorial em Aston. A questão era: prendê-lo ou observá-lo? O problema era: uma fotografia aérea que não podia ser tornada pública não era garantia de condenação. Assim, decidiu-se manter o acadêmico sob vigilância, por mais oneroso que fosse.

     O dilema foi resolvido uma semana depois, quando o Dr. Al-Khattab comprou uma passagem de volta para o golfo Árabe. Foi então que o SRR (Regimento de Reconhecimento Especial) foi acionado.

     Havia anos a Grã-Bretanha possuía uma das melhores unidades de rastreamento do mundo. Era conhecida como a 14a Companhia de Inteligência, ou o Destacamento, ou mais simplesmente, o Det. E era extremamente secreta. Ao contrário do SAS e do SBS, não fora projetada como uma unidade de supercombatentes. Seus talentos eram disfarce extremo e capacidade de plantar escutas, tirar fotografias a longa distância, vigiar e perseguir. A unidade era particularmente eficaz contra o IRA, na Irlanda do Norte.

     Em muitos casos era a informação provida pelo Det que possibilitava ao SAS montar uma emboscada para uma unidade de ataque terrorista e dizimá-la. Ao contrário das unidades de combate, o Det empregava principalmente mulheres. Como rastreadoras, tinham mais chances de se fazer passar por inofensivas. Mas as informações que colhiam podiam causar muitos danos.

     Em 2005, o governo britânico decidiu expandir e aprimorar o Det. Ele se tornou o SRR. Em seu desfile inaugural, todos, inclusive o general, foram fotografados apenas da cintura para baixo. Seu QG permanece secreto, e se o SAS e o SBS são discretos, o SRR é invisível. Mas Dama Eliza requisitou seu serviço, e foi atendida.

     Quando o Dr. Al-Khattab embarcou no avião de passageiros de Heathrow para Dubai, havia seis membros do SRR a bordo, disfarçados entre 300 passageiros. Um deles era a jovem contadora na fila atrás do kuaitiano.

     Como era apenas uma operação de perseguição, não houvera motivos para requisitar a cooperação das Forças Especiais dos Emirados Árabes Unidos. Desde que fora descoberto que um dos terroristas no ataque ao World Trade Center, Marwan al-Shehhi, viera dos Emirados Árabes, e principalmente desde o vazamento de que a Casa Branca cogitara bombardear a estação de TV da Al-Jazeera no Catar, os Emirados Árabes estavam extremamente cautelosos em relação ao extremismo islâmico. E a mais cautelosa de todas suas instituições eram suas Forças Especiais, cujo QG ficava em Dubai.

     Assim, dois carros e duas scooters alugados estavam disponíveis à equipe do SRR no aeroporto, para o caso de alguém vir pegar o Dr. Al-Khattab. Fora notado que ele estava apenas com bagagem de mão. Eles não precisavam ter-se preocupado; o Dr. Al-Khattab alugou um carro compacto japonês, o que lhes conferiu tempo para assumir posições.

     Primeiro, o Dr. Al-Khattab foi seguido do aeroporto até a enseada em Dubai, onde mais uma vez o Rasha estava ancorado após o retorno de Gwadar. Dessa vez ele não se aproximou do barco, preferindo estacionar o carro a cem metros, descer e ficar parado até que Bin Selim o visse.

     Minutos depois, um jovem desconhecido saiu dos conveses inferiores do Rasha, atravessou a multidão e sussurrou algo no ouvido do kuaitiano. Era a resposta do homem nas montanhas do Wazaristão retornando. O rosto de Al-Khattab registrou surpresa.

     Em seguida, ele dirigiu pelo tráfego intenso da estrada até a costa, através de Ajman e Umm-Al-Qaiuain, até entrar em Rasai- Khaimã. Ali seguiu até o Hilton para se registrar e trocar de roupas. Foi muita gentileza da parte dele, porque permitiu às três jovens da equipe do SRR usar o banheiro feminino para trocar suas roupas por jilbabs que cobriam completamente seus corpos, e então retornar aos seus veículos.

     O Dr. Al-Khattab surgiu em seu manto árabe branco e conduziu o carro pela cidade. Al-Khattab adotou várias manobras que tinham como objetivo despistar um perseguidor, mas não teve a menor chance. No golfo Árabe as scooters estão por toda parte, dirigidas por ambos os sexos e, sendo as roupas as mesmas, todos os pilotos são parecidos. Quando recebera a missão, a equipe estudara mapas rodoviários de todos os sete Emirados Árabes até decorar cada avenida e rua. Foi assim que o Dr. Al-Khattab foi seguido até a mansão.

     Todas as dúvidas de que o Dr. Al-Khattab era inocente caíram por terra. Homens inocentes não realizam manobras antiperseguição. Ele não passou a noite na mansão, e a agente do SRR seguiu-o de volta até o Hilton. Os três homens encontraram no topo de uma colina uma posição da qual se podia ver a mansão-alvo e manter vigília durante a noite inteira. Ninguém entrou ou saiu.

     O segundo dia foi diferente. Houve visitantes. Os observadores não tinham como saber disso, mas os visitantes trouxeram os novos passaportes e as novas roupas. As placas de seus veículos foram anotadas e um de seus motoristas seria seguido e preso depois. O terceiro era o barbeiro, que também seria seguido mais tarde.

     No final do segundo dia, Al-Khattab saiu para a última tarefa. Foi então que Katy Sexton, fingindo lidar com um defeito em sua scooter, alertou seus colegas de que o alvo estava em movimento.

     No Hilton, o acadêmico kuaitiano revelou seus planos quando, ao falar de seu quarto, no qual tinham instalado escutas em sua ausência, reservou uma passagem para o vôo matutino de Dubai para Londres. Ele foi acompanhado durante todo o percurso até Birmingham, sem jamais suspeitar de nada.

     O MI5 fizera um trabalho excelente, e sabia disso. O feito foi comunicado em memorandos classificados como confidenciais para apenas quatro homens na comunidade britânica de inteligência. Um deles foi Steve Hill, que tomou o maior susto de sua vida.

     O Predator foi realinhado para vigiar a mansão no subúrbio à margem do deserto, em Ras-al-Khaimã. Mas era o meio da manhã em Londres, tarde no Golfo. O avião viu apenas os limpadores entrando. E o ataque.

     Era tarde demais para impedir que as Forças Especiais dos Emirados Árabes enviassem seu próprio esquadrão comandado por um ex-oficial britânico, Dave de Forest. Hill foi avisado pelo chefe de seção do SIS em Dubai, que era seu amigo pessoal. Imediatamente espalhou-se a notícia de que a batida fora realizada em decorrência de uma denúncia anônima de um vizinho meio paranóico.

     Os dois limpadores não sabiam de nada; eles trabalhavam para uma agência, tinham sido pagos previamente e recebido as chaves por meio de um mensageiro. Contudo, não haviam terminado, e uma grande quantidade de cabelos pretos havia sido amontoada em uma pilha, evidentemente oriundos tanto de couro cabeludo quanto de barba — a textura era diferente.

     Afora isso, não havia nenhuma pista dos homens que haviam morado ali. Os vizinhos relataram um furgão fechado, mas nenhum deles conseguiu se lembrar da placa. Quando o veículo foi encontrado abandonado, descobriu-se que ele tinha sido roubado, mas era tarde demais para que a informação tivesse qualquer utilidade.

     O alfaiate e o barbeiro foram uma aquisição mais valiosa. Eles não hesitaram em falar, mas tudo que puderam fazer foi descrever os cinco homens na casa. Al-Khattab já era conhecido. Suleiman foi descrito e em seguida identificado a partir de fotografias policiais por constar de uma lista local de suspeitos. Os dois moradores foram descritos, mas não foi possível identificá-los.

     De Forest, com seu domínio absoluto do idioma árabe, concentrou-se no quinto homem, O chefe de seção do SIS ficou sentado, assistindo. O alfaiate e o barbeiro sauditas provinham de Ajman e eram simples profissionais.

     Ninguém naquela sala sabia nada a respeito deles simplesmente pegaram uma descrição completa e a passaram para Londres. Ninguém sabia nada a respeito de passaportes, porque Suleiman preparara todos os documentos sozinho. Ninguém sabia por que Londres estava ficando histérica a respeito de um homem grande com cabelos negros desgrenhados e barba cheia. Tudo que podiam reportar era que ele agora estava de cabelo e barba feitos, e possivelmente usando um terno de duas peças escuro, de pêlo de cabra angorá.

     Mas foi a última informação obtida com o alfaiate que deixou Steve Hill, Marek Gumienny e a equipe em Edzell absolutamente extasiados.

     Os sauditas estavam tratando o agente secreto como um convidado de honra. Ele estava sendo claramente preparado para partir numa viagem. Não era um cadáver caído num soalho azulejado no golfo Árabe.

     Em Edzell, Michael McDonald e Gordon Phillips estavam igualmente felizes... e intrigados. Sabiam que seu agente passara em todos os testes e fora aceito como um Jihad Verdadeiro. Depois de semanas de preocupação haviam obtido o segundo sinal de vida.

     Mas teria seu agente descoberto alguma coisa a respeito do Stingray, o objeto do exercício inteiro? Para onde ele fora? Haveria alguma forma de entrar em contado com ele?

     Mas suas curiosidades não seriam saciadas nem se eles pudessem falar com seu agente. Ele também não sabia.

     E ninguém sabia que o Countess of Richmond estava descarregando os Jaguares em Cingapura.

    

     EMBORA O GRUPO EM VIAGEM NÃO SOUBESSE QUE ESTAVA SENDO perseguido,  a fuga fora um golpe de sorte.

     Caso tivessem seguido para a costa que margeava os seis emirados, provavelmente teriam sido capturados. Na verdade, seguiram para leste, pelo istmo montanhoso em direção ao sétimo emirado, Fujairah, no golfo de Omã.

     Eles logo saíram da última estrada asfaltada e pegaram as trilhas acidentadas que se perdiam entre as colinas amarronzadas de Jebel Yibir. Da passagem no alto da cordilheira, desceram até o pequeno porto de Dibbah.

     Bem ao sul na mesma costa, a polícia da cidade de Fujairah recebeu uma requisição e uma descrição completa de Dubai e montou um bloqueio de estrada na entrada para a cidade. Muitos furgões foram parados, mas nenhum deles levava os quatro terroristas.

     Dibbah não é grande coisa; apenas um amontoado de casas brancas, uma mesquita de domo verde, um pequeno porto para barcos de pesca e ocasionalmente um iate alugado por ocidentais que vinham praticar mergulho. A duas enseadas dali, um bote de alumínio aguardava, com o imenso motor externo levantado para fora da água. Seu espaço de carga a meia-nau estava ocupado por tanques de combustível extras acorrentados ao convés. A tripulação de dois homens protegia-se do sol à sombra de um único cobertor de pele de camelo entre as rochas.

     Para os dois rapazes da localidade, aquele era o fim da estrada. Eles levariam o furgão roubado até as colinas e então iriam abandoná-lo. Depois iriam simplesmente desaparecer nas mesmas ruas que haviam produzido Marwan al-Shehhi. Suleiman e Mike, estavam com as roupas ocidentais ainda guardadas em bolsas para protegê-las da maresia, ajudaram a empurrar a embarcação estreita de volta para a água, que batia na altura de suas cinturas.

     Com ambos os passageiros e a tripulação a bordo, o barco de contrabando subiu a costa bem devagar, chegando até quase a ponta da península Musandamn. Seria em meio à escuridão que os contrabandistas fariam a travessia do estreito.

     Vinte minutos depois do pôr-do-sol, o timoneiro mandou seus passageiros se segurarem e ligou o motor. O barco saltou das águas rochosas da última ponta da Arábia e se arremeteu para o Irã. Com 500 cavalos de força na parte traseira, a lancha levantou o nariz e começou a espumar. Martin julgou que eles estavam rasgando a superfície da água a quase 50 nós. A menor variação na água era o mesmo que bater num tronco, e um forte jorro os açoitava. Todos os quatro, que tinham embrulhado seus keffiyehs em torno dos rostos para protegê-los do sol, agora mantinham-nos para protegê-los da água.

     Em menos de 30 minutos, as primeiras luzes da costa persa estavam visíveis a bombordo, e a lancha de contrabando correu para leste em direção a Gwadar e ao Paquistão. Era a rota que Martin fizera durante a viagem calma do Rasha um mês antes. Agora estava retornando numa velocidade dez vezes maior.

     Diante das luzes de Gwadar, a embarcação reduziu sua velocidade e parou. Foi um alívio bem-vindo. Com rolamentos e músculos, conduziram os tambores até a popa e reabasteceram cada motor até a borda. Eles teriam de se virar para encontrar onde reabastecer para a viagem de volta.

     Faisal bin Selim dissera a Martin que os contrabandistas atravessavam das águas omanis até Gwadar numa única noite e estavam de volta com uma carga nova ao amanhecer. Dessa vez, tudo indicava que estavam indo ainda para mais longe e teriam também de viajar de dia.

     A alvorada encontrou o barco em águas paquistanesas, perto o bastante da praia para ser confundido com um barco de pesca, sendo que àquela velocidade jamais pegariam nenhum peixe. Contudo, a guarda costeira do Afeganistão não deu sinal de vida, e a costa amarronzada logo foi deixada para trás. Ao meio-dia, Martin concluiu que seu destino devia ser Karachi. Com que propósito, não tinha idéia.

     Reabasteceram mais uma vez à noite e, enquanto o sol morria a oeste às suas costas, foram desembarcados numa fedorenta aldeia de pescadores nas proximidades do maior porto do Paquistão.

     Suleiman podia não ter estado ali antes, mas recebera um relatório de alguém que estivera e fizera um reconhecimento. Martin sabia que a al-Qaeda fazia pesquisas meticulosas, a despeito de tempo e gastos; era uma das poucas coisas na organização que ele conseguia admirar.

     O árabe procurou pelo único veículo para alugar na aldeia e negociou um preço. O fato de que dois estranhos tinham desembarcado de uma lancha de contrabando sem qualquer sugestão de legalidade não causou nenhum estranhamento. Ali era o Baluchistão; as regras do Karachi eram para os idiotas.

     O carro fedia a peixe e suor, e o motor barulhento não conseguia alcançar mais de 60 quilômetros por hora.

     As estradas também não ajudavam. Mas eles encontraram a rodovia e chegaram ao aeroporto com tempo de sobra.

      Martin demostrou-se apropriadamente pasmo e desajeitado. Viajara apenas duas vezes pelo ar, sempre num Hércules C-130 americano, e sempre como um prisioneiro algemado. Não sabia nada sobre balcões de check-in, passagens, controles de passaporte. Com um sorriso zombeteiro, Suleiman mostrou-lhe como agir.

     Em algum lugar na vasta massa humana que circula pelo saguão principal do Aeroporto Internacional de Karachi, o árabe encontrou o balcão da Malaysian Airlines e comprou duas passagens de ida na classe econômica para Kuala Lumpur. Havia formulários compridos para preencher; Suleiman encarregou-se da tarefa, em inglês. Pagou em dólares americanos, a moeda corrente do mundo.

     A viagem foi a bordo de um Airbus 330 e levou seis horas, além das duas devido à mudança de fuso horário. O avião pousou às oito e meia da manhã, depois das comissárias terem servido um pequeno desjejum. Pela segunda vez, Martin ofereceu seu novo passaporte bareinita e se perguntou se ele convenceria. Convenceu; era perfeito.

     Da área de desembarque internacional, Suleiman caminhou na frente até o setor de embarque doméstico e comprou duas passagens. Somente quando teve de entregar seu cartão de embarque Martin viu para onde estavam indo... a ilha de Labuan.

     Ouvira falar de Labuan apenas vagamente. Situada ao norte de Bornéu, pertencia à Malásia. Embora sua publicidade turística falasse de uma ilha cosmopolita com belíssimos recifes de coral nas águas internacionais, seu submundo criminoso pintava outra reputação, mais sombria.

     Labuan já fizera parte do Sultanato de Brunei, a 20 milhas aquáticas da costa de Bornéu. Os britânicos tomaram-na em 1846 e a mantiveram por 117 anos, menos os três que passou sob ocupação japonesa na Segunda Guerra Mundial. Em 1963, Labuan foi entregue pela Grã-Bretanha ao Estado de Sabab como parte do processo de descolonização, e então cedida à Malásia, em 1984.

     É uma daquelas aberrações que não possuía qualquer economia visível dentro de seu território de 80 quilômetros quadrados, de modo que criou uma. Com um status de centro financeiro costeiro, zona franca e Meca do contrabando, Labuan tem atraído alguns clientes extremamente dúbios.

     Martin deu-se conta de que estava voando para o coração da maior indústria do mundo de seqüestro de navios, roubo de carga e assassinatos de tripulações. Martin precisava fazer contato com a base para dar um sinal de vida, e ele precisava descobrir como. Depressa.

     Houve uma pequena parada em Kuching, primeira estação na ilha de Bornéu, mas os viajantes que não tinham aquele lugar como destino nem chegaram a descer do avião.

     Quarenta minutos depois, o avião decolou para oeste, circulou o mar e seguiu para noroeste em direção a Labuan. Muito abaixo do avião em manobra, o Countess of Richmond, com os porões de carga preenchidos com lastro, seguia para Kota Kinabalu para pegar sua carga de sequóia e pau-rosa.

     Depois da decolagem, a comissária distribuiu os cartões que deveriam ser preenchidos com os dados do viajante, e entregues à Imigração logo após a aterrissagem. Suleiman pegou ambos e começou a preenchê-los. Martin teve de fingir que não sabia ler nem escrever em inglês, e que podia falar apenas o básico. Mas podia ouvir tudo que era dito ao seu redor. Além disso, embora ele e Suleiman tivessem trocado de roupas, agora vestidos em camisas e terno, Martin não dispunha de uma caneta ou de uma desculpa para pedir uma emprestada. Para todos os propósitos, eles eram um engenheiro bareinita e um contador omani de viagem para Labuan, sob contrato com a indústria do gás natural, e era isso que Suleiman estava preenchendo.

     Martin murmurou que precisava ir ao banheiro. Levantou e caminhou até onde havia dois. Um estava vago, mas fingiu que ambos estavam ocupados, virou-se e seguiu em frente. Havia um sentido nisso. O Boeing 737 abrigava duas classes: econômica e executiva. Separando as duas havia uma cortina, e Martin precisava passar por ela.

     Parando diante da porta do banheiro da classe executiva, fez sinal para a comissária que distribuíra os cartões, exprimiu desculpas e tirou do bolso superior da blusa dela um cartão em branco e sua caneta. A porta do banheiro abriu e ele entrou. Houve tempo apenas para rabiscar uma mensagem curta no verso do cartão, dobrá-lo no bolso, sair do banheiro e devolver a caneta. Então voltou para seu lugar.

     Podiam ter dito a Suleiman que era confiável, mas ele o seguia como uma sombra. Talvez Suleiman quisesse evitar que cometesse erros, devido à sua ingenuidade ou inexperiência; talvez fosse devido aos seus anos de treinamento na al-Qaeda, mas ele jamais relaxava em sua vigilância, nem mesmo durante as preces.

     O aeroporto de Labuan era um contraste com o de Karachi: pequeno e vazio. Martin ainda não sabia exatamente para onde estavam indo, mas suspeitou que o aeroporto podia ser sua última chance de deixar a mensagem e torceu por um golpe de sorte.

     Foi um momento fugaz que se passou na calçada do lado de fora. As instruções memorizadas de Suleiman deviam ter sido extraordinariamente precisas. Ele conduzira ambos por meio mundo e era claramente um viajante experiente. Martin não podia saber que o árabe estava com a al-Qaeda havia dez anos e que servira ao movimento no Iraque e no Oriente Médio, particularmente na Indonésia. Também não tinha como saber qual era a especialidade de Suleiman.

     Suleiman estava seguindo a rua de acesso até o prédio que servia tanto a chegadas quanto a partidas em um pavimento, e estava procurando por um táxi quando apareceu um vindo na direção deles. Estava ocupado, mas claramente prestes a desembarcar seus passageiros na calçada.

     Eram dois homens, e Martin percebeu o sotaque inglês imediatamente. Eram grandes e musculosos; usavam shorts caqui e bermudas floridas. Estavam suados devido ao sol e à umidade, 30 graus de calor pré-monções. Um pagou o taxista com dinheiro malásio, o outro retirou as bagagens do porta-malas. Eram mochilas de equipamento de mergulho. Os dois tinham passado algum tempo mergulhando nos recifes da costa a serviço da revista britânica Sport Diver.

     O homem ao lado do porta-malas pegou todas as quatro bolsas, duas de roupas, duas de equipamento. Antes que Suleiman pudesse dizer uma palavra, Martin ajudou o mergulhador carregando uma das mochilas de equipamento tia rua para a calçada. Ao ajudá-lo, o cartão de pouso dobrado entrou num dos diversos bolsos laterais da mochila.

     — Obrigado, amigo — disse o mergulhador, e os dois homens seguiram para o check-in de partida para encontrar seu vôo para Kuala Lumpur com uma conexão para Londres.

     As instruções de Suleiman para o taxista malásio foram em inglês; uma agência de navegação no coração das docas. Ali finalmente os viajantes encontraram alguém esperando para recebê-los. Como os recém-chegados, ele não suscitava curiosidade usando roupas ostentosas ou pêlos faciais. Como eles, era takfir. O homem se apresentou como Sr. Lampong e levou-os até um cruzador de 50 pés, disfarçado de barco pesqueiro. Numa questão de minutos tinham saído do porto.

     O cruzador manteve a velocidade em dez nós e virou para noroeste, na direção de Kudat, o acesso para o mar Sulu e o esconderijo terrorista na província Zamboanga das Filipinas. Fora uma jornada cansativa, durante a qual eles haviam apenas tirado cochilos nos aviões. O embalo do mar era sedutor, e a brisa, depois do calor de sauna de Labuan, refrescante. Os dois passageiros adormeceram. O timoneiro pertencia ao grupo terrorista Abu Sayyaf; ele sabia o caminho; estava indo para casa. O sol se pôs e a escuridão tropical não estava mais para trás. Os motores do cruzador continuaram funcionando por toda a noite, passando pelas luzes de Kudat, atravessando o estreito de Balabac e a fronteira invisível para águas filipinas.

    

     O Sr. Wei terminara sua tarefa antes do tempo e já estava seguindo para casa, sua terra natal, China. Não via a hora de chegar. Mas pelo menos estava num navio chinês, comendo boa comida chinesa em vez das porcarias que os marujos serviam no acampamento da enseada.

     A respeito do que deixara para trás, o Sr. Wei nada sabia, nem se importava. Ao contrário dos assassinos Abu Sayyaf ou dos dois ou três indonésios fanáticos que rezavam de joelhos, testas encostadas no tapete, cinco vezes por dia, Wei Wing Li era um membro da tríade Snakehead e não rezava por nada.

     Na verdade, os resultados de seu trabalho eram uma réplica, até o último rebite, do navio Countess of Richmond, criada a partir de um navio de tamanho, tonelagem e dimensões semelhantes. Não sabia o nome da embarcação original, nem qual seria o nome da nova. Tudo que importava para ele era o maço gordo de dólares de alto valor, sacados de um banco em Labuan contra uma linha de crédito providenciada pelo falecido Sr. Tewfik al-Qur, que anteriormente estivera no Cairo, Peshawar e no necrotério.

    

     Ao contrário do Sr. Wei, o capitão McKendrick rezava. Não com a freqüência com que deveria, reconhecia ele, mas fora criado como um bom católico irlandês de Liverpool; havia uma imagem da Virgem Maria no passadiço imediatamente à frente do leme, e em sua cabine ele possuía um crucifixo preso à parede. Antes de navegar, o capitão McKendrick sempre rezava por uma boa viagem e, ao voltar, agradecia ao Senhor pelo regresso seguro.

     Não precisou rezar enquanto o piloto malásio reduzia a velocidade do Countess ao passarem pelos recifes e ocupar sua posição no ancoradouro em Kota Kinabalu, que anteriormente fora um porto colonial de Jesselton onde negociantes britânicos, nos tempos em que ainda não existia refrigeração, só dispunham de manteiga derretida, que serviam de uma pequena jarra.

     O capitão McKendrick recolocou sua bandana em torno do pescoço e agradeceu ao piloto. Finalmente, ele podia fechar todas as portas e escotilhas e desfrutar de ar refrigerado. E uma cerveja também cairia bem, pensou. O lastro de água seria evacuado de manhã. Podia ver a carga de toras sob as luzes da doca; com uma boa equipe de carregamento, poderia estar de volta ao mar na noite do dia seguinte.

    

     Os dois jovens mergulhadores, tendo trocado de aviões em Kuala Lumpur, estavam num jato da British Airways com destino a Londres. Como aquele não era um avião abstêmio, os mergulhadores tinham consumido cerveja suficiente para cair num sono profundo. O vôo poderia durar 12 horas, mas eles ganhariam sete devido ao fuso horário e pousariam em Heathrow ao amanhecer. As malas de armação de metal estavam no compartimento de carga e as mochilas de equipamento estavam acima de suas cabeças enquanto dormiam. Elas continham pés-de-pato, máscaras, roupas de mergulho, reguladores e jaquetas de controle de flutuabilidade. Apenas as facas de mergulho iam dentro das malas no compartimento de carga. Uma das mochilas também continha o cartão de Mike, ainda não descoberto.

    

     Numa enseada na península de Zamboanga, trabalhando à luz dos holofotes de uma plataforma instalada sobre a popa, um pintor habilidoso estava afixando o último D no nome do navio atracado. De seu mastro adejava uma bandeira vermelha. A cada lado de sua popa e em torno de sua proa estavam as palavras Countess of Richmond e, apenas na popa, a palavra Liverpool por baixo. Quando o pintor desceu e as luzes foram apagadas, a transformação estava completa.

     Ao amanhecer, um cruzador disfarçado de barco pesqueiro entrou lentamente na enseada. Trazia os últimos dois membros da nova tripulação do navio que fora o Java Star, aqueles que conduziriam o navio na sua última viagem... e deles também.

    

     O carregamento do Countess of Richmond começou ao amanhecer, quando o ar ainda estava frio e agradável. Em três horas ele retornaria para seu habitual calor de sauna. Os guindastes da doca não eram exatamente ultramodernos, mas os estivadores sabiam o que estavam fazendo, e toras de madeira rara amarradas por correntes foram içadas para bordo e armazenadas no porão de carga pela tripulação.

     No calor do meio-dia, até os nativos de Bornéu tiveram de parar, e durante quatro horas os trabalhadores dormiram às sombras que conseguiram encontrar no velho porto de carregamento. Faltava apenas um mês para a monção da primavera, e a umidade, nunca a menos de 90%, estava beirando os cem.

     O capitão McKendrick estaria mais feliz no mar, mas o carregamento e a reposição das coberturas de convés foram terminado ao pôr-do-sol, e o piloto subiria a bordo apenas de manhã, para guiar o cargueiro de volta para mar aberto. Significava mais uma noite na sauna, de modo que McKendrick suspirou e mais uma vez encontrou refúgio no ar condicionado dos deques inferiores.

     O agente local subiu a bordo com o piloto às seis da manhã, e os novos documentos foram assinados. Então o Countess se fez ao mar do sul da China.

     Como o Java Star fizera antes, o Countess rumou para noroeste para contornar a ponta de Bornéu, e em seguida para o sul, através do arquipélago Sulu para Java, onde o capitão acreditava que seis contêineres cheios de sedas orientais aguardavam-no em Surabaia. Ele não sabia que não havia, nem jamais tinha havido, sedas em Surabaia.

    

     O cruzador depositou sua carga num velho quebra-mar a meio caminho enseada acima. O Sr. Lampong caminhou na frente até uma casa comprida sobre palafitas. O local serviria como dormitório e refeitório para os homens que aguardavam para partir na missão que Martin conhecia como Stingray e Lampong como Al-Isra. Outros que estavam na casa comprida seriam deixados para trás. Tinham sido eles quem haviam preparado o seqüestro ào Java Star.

     Era uma mistura de indonésios do Jemaat Islamiya, grupo que plantara as bombas de Bali, indonésios de outras ilhas do arquipélago e filipinos do Abu Sayyaf. Os idiomas variavam do tagalo local ao dialeto javanês com ocasionalmente um pouco de árabe murmurado por aqueles que provinham mais do Oriente. Martin conseguiu identificar os tripulantes um a um, assim como as atribuições especiais de cada um deles.

     Os engenheiros, navegadores e operadores de rádio eram todos indonésios. Suleiman revelou que sua especialidade era a fotografia. Independentemente do que fosse acontecer, o trabalho dele, antes de morrer como um mártir, seria fotografar o clímax numa câmera digital e usar um laptop para transmitir a imagem para a emissora de TV Al-Jazeera.

     Tinha um adolescente que parecia paquistanês, embora Lampong tenha se dirigido a ele em inglês. Quando respondeu, o menino revelou que só podia ser inglês de nascimento e criação, filho de paquistaneses. O sotaque era do norte da Inglaterra; Martin calculou que pertencesse à área de Leeds Bradford. Não conseguiu deduzir qual seria a função do rapaz, embora possivelmente fosse o cozinheiro.

     Assim restavam três: o próprio Martin, cuja presença era considerada um presente pessoal de Osama bin Laden; um engenheiro químico e presumivelmente especialista em explosivos; e o comandante da missão. Mas ele não estava presente. Todos iriam encontrá-lo depois.

     No meio da manhã, Lampong, o comandante local, recebeu uma chamada em seu celular via satélite. Foi breve e discreto. O Countess of Richmond zarpara de Kota Kinabalu e estava no mar. O navio chegaria entre as ilhas Tawitawi e Jolo mais ou menos na hora do pôr-do-sol. As tripulações das lanchas que iriam interceptá-lo só precisariam partir em quatro horas. Suleiman e Martin haviam trocado os ternos ocidentais por calças compridas, camisas floridas e sandálias típicas da região. Receberam permissão para descer os degraus até as águas rasas da enseada e tomar banho antes das preces e de um jantar de arroz e peixe,

     Tudo que Martin podia fazer era observar, compreendendo muito pouco, e esperar.

     

     Os dois mergulhadores deram sorte, A maioria de seus colegas passageiros provinham da Malásia e foram encaminhados para a fila de passaportes não-britânicos, deixando para os poucos britânicos acesso fácil ao controle de imigração. Estando entre os primeiros a desceram até a esteira de bagagens, eles podiam pegar suas malas e caminhar até o salão de nada a declarar .

     Podem ter sido as cabeças raspadas, o cavanhaque em seus queixos ou os braços morenos emergindo de camisas floridas numa manhã de março fria, mas um dos oficiais da Alfândega chamou-os até o guichê de exames.

     — Por favor, posso ver seus passaportes?

     Era uma formalidade. Estavam em ordem.

     — E de onde vocês acabam de chegar?

     — Malásia.

     — Propósito da visita?

     Um dos rapazes apontou para a mochila de equipamento. Sua expressão indicou o quanto aquela pergunta era estúpida, considerando que as mochilas ostentavam a logomarca de uma companhia de equipamentos famosa. Contudo, é um grave erro escarnecer de um oficial de imigração. Seu rosto permaneceu impassível, mas em sua longa carreira ele interceptara grandes quantidades de fumos exóticos ou drogas injetáveis oriundos do Extremo Oriente. Ele gesticulou na direção de uma das mochilas de equipamento.

     Dentro da mochila não havia nada além de equipamento de mergulho padrão. Enquanto puxava o zíper da mochila, correu os dedos pelos bolsos laterais. De um deles, retirou um cartão dobrado, olhou para ele e o leu.

     — Onde conseguiu isto, senhor?

     O mergulhador estava genuinamente intrigado.

     — Não sei. Nunca vi isso antes.

     A alguns metros dali, outro inspetor alfandegário sentiu a tensão crescente, indicada pela cortesia excessiva, e se aproximou.

     — O senhor poderia ficar aqui, por favor? — disse o primeiro, e entrou numa porta às suas costas. Aqueles espelhos grandes nos corredores das alfândegas não estão lá para servir à vaidade dos passageiros. São espelhos falsos, atrás dos quais membros da segurança interna — no caso da Grã-Bretanha, MI5 — alternam-se em turnos.

     Numa questão de minutos, ambos os mergulhadores, com suas bagagens, estavam em salas de interrogatório separadas.

     Os inspetores alfandegários vasculharam a bagagem, pé-de-pato por pé-de-pato, máscara por máscara, camisa por camisa. Não havia nada ilegal.

     O homem à paisana estudou o cartão, então desdobrado.

     — Alguém deve ter posto isso aí — protestou o mergulhador. — Não tenho nada a ver com isso.

    

     Eram nove e meia. Steve Hill estava à sua mesa em Vauxhall Cross quando seu telefone particular, que não constava em nenhum catálogo telefônico, tocou.

     — Com quem estou falando? — perguntou uma voz. Hill ficou furioso.

     — Talvez eu deva fazer a mesma pergunta. Acho que você deve ter ligado para o número errado — retrucou.

     O oficial do MI5 lera o texto da mensagem encontrado na mochila de equipamento do mergulhador. Ele tendia a acreditar na explicação do homem. Portanto, nesse caso...

     — Estou falando de Heathrow, Terminal Três. Escritório de segurança interna. Interceptamos um passageiro do Extremo Oriente. Alguém enfiou uma mensagem escrita em letra miúda. Crowbar significa alguma coisa para vocês?

     Para Steve Hill aquilo foi como um soco no estômago. Não era engano, não era linha cruzada. Ele se identificou por serviço e posto, requisitou que ambos os homens fossem detidos e disse que estava a caminho. Em cinco minutos, seu carro saltou do estacionamento subterrâneo, atravessou a ponte Vauxhall e virou na Cromwell Road em direção ao aeroporto de Heathrow.

     Para os mergulhadores, foi um tremendo azar perderem a manhã inteira, mas depois de uma hora de interrogatório, Steve Hill teve certeza de que eram inocentes. Pediu para os dois um café-da-manhã completo no refeitório do aeroporto e lhes pediu que escavassem seus cérebros por uma pista sobre quem teria colocado o bilhete dobrado no bolso lateral.

     Eles recordaram de todos com quem haviam se encontrado desde que tinham feito as malas. Finalmente, um deles disse:

     — Mark, você se lembra do sujeito com cara de árabe que te ajudou com as malas no aeroporto?

     — Cara de árabe? — perguntou Hill.

     Os dois descreveram o homem da melhor forma possível. Cabelos e barba com fios negros e bem cortados. Olhos negros, compleição morena. Cerca de 45 anos, em boa forma física. Terno escuro. Hill tinha as descrições obtidas com o barbeiro e o alfaiate de Ras-al-Khaimã. Era Crowbar. Ele agradeceu com sinceridade aos dois homens e pediu que um chofer os levasse de volta para casa em Essex.

     Quando ligou para Gordon Phillips, em Edzell, e Marek Gumienny, em Washington, Hill pôde revelar a mensagem rabiscada no papel. Dizia simplesmente:

    SE VOCÊ AMA SEU PAÍS, VÁ PARA CASA E TELEFONE PARA XXXXXXXXX. APENAS FALE PARA ELES QUE CROWBAR DISSE QUE SERÁ ALGUM TIPO DE NAVIO.

     — Prioridade máxima: vasculhar o mundo em busca de um navio desaparecido — disse a Edzell.

    

     Assim como fizera o capitão Herrmann do Java Star, Liam McKendrick optara por conduzir pessoalmente seu navio em torno dos diversos pontais, entregando-o apenas depois de sair do estreito entre as ilhas de Tawitawi e Joio. À frente jazia a vastidão do mar de Celebes, e o curso diretamente para o sul rumo ao estreito de Makassar.

     Ele contava com uma tripulação de seis homens; cinco indianos de Kerala, todos cristãos, leais e eficazes, e seu primeiro-oficial, um gibraltarino. Entregara o leme e descera quando as lanchas surgiram pela popa. Exatamente como ocorrera com o Java Star, a tripulação não teve a menor chance. Numa questão de segundos, dez piratas tinham pulado o balaústre e estavam correndo até o passadiço. O Sr. Lampong, ao comando do seqüestro, mostrou-se mais calmo.

     Dessa vez não havia necessidade para cerimônia ou ameaças de violência, a não ser que as instruções fossem desobedecidas. A única tarefa que o Countess of Richmond precisava executar era desaparecer, com sua tripulação e para sempre. Sua carga valiosa, que os atraíra até aquele lugar, seria completamente perdida, o que era triste mas inevitável.

     A tripulação simplesmente foi conduzida em marcha até o balaústre da popa e executada a rajadas de metralhadora. Seus corpos, estremecendo em protesto contra a injustiça da morte, caíram direto no mar. Nem era preciso pesos ou lastro para mandá-los para o fundo. Lampong conhecia seus tubarões.

     Liam McKendrick foi o último a ir, rugindo seu ódio contra os assassinos, chamando Lampong de porco pagão. Como o muçulmano fanático não gostava de ser chamado de porco, garantiu que o marinheiro de Liverpool estivesse ferido, mas ainda vivo, ao bater na água.

     Os piratas de Abu Sayyaf já tinham afundado navios suficientes para saber onde ficavam as válvulas. Quando o porão de carga começou a inundar, eles saíram do Countess e se afastaram em suas lanchas, parando a uma certa distância para observar o navio empinar sobre sua popa e deslizar lentamente para o fundo do mar de Celebes. Quando o navio sumiu por inteiro, os assassinos deram meia-volta e retornaram a toda velocidade para casa.

    

     Para o grupo na casa comprida da enseada filipina, foi outro telefonema breve, feito por Lampong em alto-mar, que estabeleceu a hora da partida. Eles embarcaram em fila no cruzador. Enquanto faziam isso, Martin percebeu que aqueles que ficaram para trás não estavam demonstrando qualquer sinal de alívio, apenas inveja profunda.

     Em sua carreira nas Forças Especiais, Martin jamais conhecera realmente um homem-bomba. Agora estava cercado por eles, e se tornara um deles.

     No castelo Forbes lera profusamente sobre o quadro psicológico do homem-bomba: a convicção absoluta de que o atentado seria feito em nome de uma causa sagrada; de que ele seria automaticamente abençoado pelo próprio Alá; que receberia uma passagem garantida e imediata para o paraíso; e que isso era imensamente maior que qualquer amor que pudesse ter pela vida.

     Martin também aprendera a respeito do nível e da profundidade do ódio que deveria ser imbuído no shahid, juntamente com o amor de Alá. Um apenas não funciona. O ódio precisa ser um ácido corrosivo dentro da alma, e ele estava cercado por isso.

     Vira esse ódio nos rostos dos integrantes do Abu Sayyaf, que aproveitavam cada oportunidade de matar um ocidental; vira nos corações dos árabes quando rezavam por uma chance de matar o maior número possível de cristãos, judeus e muçulmanos seculares no momento de suas próprias mortes; e, principalmente, ele vira o ódio nos olhos de Al-Khattab e Lampong, precisamente porque eles se conspurcavam para passar despercebidos entre os inimigos.

     Enquanto eles entravam lentamente na enseada, a selva fechando-se de cada lado do barco e começando a cerrar o céu acima deles, Martin estudou os companheiros de viagem. Todos compartilhavam do mesmo ódio e fanatismo. Cada um considerava-se mais abençoado do que qualquer outro Crente Verdadeiro na Terra.

     Martin estava convencido de que todos os homens ao seu redor não sabiam mais do que ele a respeito da natureza exata do sacrifício que os esperava; para onde estavam indo, qual era o alvo e com o que iriam atacá-lo.

     Sabiam apenas, porque tinham se oferecido para morrer, e sido aceitos e selecionados com cuidado, que iriam atingir o Grande Satã de uma forma que seria comentada por uma centena de anos. Eles, como o Profeta tantos anos antes, iriam partir numa grande jornada para o paraíso; a jornada chamada Al-Isra.

     Mais adiante, a enseada bifurcou-se. O cruzador ronronante tomou o braço mais amplo e, ao fazer uma curva, um navio ancorado surgiu. Estava voltado a favor da corrente, pronto para partir para mar aberto. Seu convés de carga aparentemente estava armazenado nos seis contêineres que ocupavam seu convés de vante. O nome do navio era Countess of Richmond.

     Por um momento, Martin se viu tentado a escapar para a selva que o cercava. Passara por semanas de treinamento na selva em Belize, a escola de treinamento de selva do SAS. Mas concluiu que não teria a menor chance. Não conseguiria avançar nem um quilômetro e meio sem bússola ou facão, e o grupo de perseguição o alcançaria em uma hora. Então viriam dias de agonia inimaginável, enquanto os detalhes de sua missão lhe seriam arrancados. Não havia sentido em tentar. Teria de esperar por uma oportunidade melhor, se surgisse alguma.

     Um a um subiram a escada para o convés do cargueiro: o engenheiro, o navegador e o operador de rádio, todos indonésios; o químico e o fotógrafo, ambos árabes; o paquistanês do Reino Unido com sotaque do norte, caso alguém insistisse em falar com o Countess por rádio; e, que poderia ser ensinado a segurar o leme e manter o curso. Em todo seu treinamento em Forbes, em todas as horas estudando rostos de suspeitos conhecidos, jamais vira nenhum daqueles. Quando chegou ao convés, o homem que iria comandar a todos em sua missão para a glória eterna estava lá para recebê-los. Ele, o ex-membro do SAS, reconheceu. Da galeria de vilões que lhe fora mostrada no castelo Forbes, sabia que estava olhando para Yusuf Ibrahim, segundo no comando e braço direito de Al-Zarqawi, seu amigo homicida jordaniano.

     O rosto pertencera ao time principal que lhe fora mostrado no castelo Forbes. O homem era baixo e atarracado, conforme ele esperava, e seu braço esquerdo inválido pendia ao lado. Lutara no Afeganistão contra os soviéticos e vários fragmentos de bombas tinham se alojado em seu braço durante um ataque. Em vez de aceitar uma amputação limpa, preferiu deixar o braço pendendo, inútil.

     Haviam corrido rumores de que ele morrera lá; não eram verídicos. Fora remendado nas cavernas, e em seguida levado para o Paquistão para ser submetido a cirurgias mais avançadas. Depois da evacuação soviética, ele desaparecera.

     O homem do braço esquerdo atrofiado reaparecera depois do ataque da Coalizão ao Iraque, em 2003, tendo passado o tempo intermediário como chefe de segurança em um dos campos da al-Qaeda sob o regime Taliba.

     Para Mike Martin, o momento foi tenso, porque ele temeu que o homem reconhecesse Izmat Khan daqueles dias no Afeganistão e quisesse conversar com ele. Mas o comandante da missão simplesmente o fitou com olhos reluzentes como pérolas negras.

     Durante 20 anos este homem matara e matara, amando cada momento. No Iraque, como auxiliar de Musab al-Zarqawi, ele cortara cabeças diante de câmeras e adorara isso. Tivera prazer em ouvir suas vítimas gritarem e implorarem. Martin fitou os olhos vazios, maníacos, e fez a saudação habitual. Que a paz esteja convosco, Yusuf Ibrahim, Açougueiro de Karbala.

    

     O NAVIO QUE HAVIA SIDO O JAVA STAR EMERGIU DA ENSEADA FILIPINA 12 horas depois da destruição do Countess of Richmond. Ele saiu do golfo de Moro e seguiu para o mar de Celebes, indo para o sul pelo sudoeste para juntar-se à rota marítima que o Countess teria feito através do estreito de Makassar.

     O timoneiro indonésio se encontrava ao leme, e ao lado dele estavam o adolescente britânico paquistanês a quem ele instruiu sobre como manter um curso firme.

     Havia anos as agências de antiterrorismo sabiam que, para espanto do mundo da Marinha Mercante, naquelas águas freqüentemente navios eram seqüestrados, conduzidos em círculos por horas com sua tripulação toda trancada, e por fim abandonados.

     O motivo era simples: assim como os seqüestradores do 11 de Setembro tinham adquirido sua perícia em escolas de pilotagem americanas, os seqüestradores marítimos do Oriente Médio vinham praticando como conduzir um grande navio em alto-mar. O indonésio ao leme do novo Countess era um desses homens.

     O engenheiro que estava na parte inferior da embarcação realmente fora engenheiro da Marinha antes de o navio no qual trabalhava ter sido seqüestrado por Abu Sayyaf. Para não morrer, concordara em juntar-se aos terroristas e tornar-se um deles.

     O terceiro indonésio aprendera tudo a respeito de procedimentos navais enquanto trabalhava no escritório de um ancoradouro comercial de Bornéu do Norte, até ter-se convertido ao islã e ser aceito nas legiões do Jemaat Islamiya, mais tarde ajudando a plantar as bombas na discoteca de Bali.

     Dos oito homens, os três eram os únicos que precisavam deter conhecimento técnico a respeito de navios. O químico árabe ficaria encarregado da detonação da carga; Suleiman, o homem dos Emirados Árabes, enviaria pela internet as imagens que abalariam o mundo; caso fosse necessário, o jovem paquistanês imitaria o sotaque do norte da Inglaterra do falecido capitão McKendrick; e  iria se revezar com o timoneiro durante os dias de navegação que os aguardavam.

    

     Estavam no fim de março, mas a primavera nem mesmo tentara tocar a cordilheira Cascades. Ainda fazia um frio terrível e uma camada de neve grossa jazia na floresta do outro lado dos muros da Cabana.

     No lado de dentro estava quente e acolhedor. O inimigo, a despeito de televisão 24h, DVDs, música e jogos, era o tédio. Como faroleiros, os homens não tinham muito a fazer, e o período de seis meses era um grande teste para a capacidade de solidão interna e auto-suficiência.

     Os guardas podiam calçar esquis ou sapatos de neve e andar pela floresta para se manter em forma e tirar uma folga da penitenciária, do refeitório e da sala de jogos. Para o prisioneiro, imune à fraternização, a tensão era bem maior.

     Izmat Khan ouvira o presidente da Corte Militar em Guantánamo pronunciá-lo livre para ir embora, e estava convencido de que a prisão de Pul-i-Charki não iria contê-lo por mais de um ano. Após ser levado para aquela vastidão solitária — na qual, até onde sabia, ficaria para todo o sempre —, ficou difícil sufocar a raiva que ardia em seu peito.

     Assim, vestiu a jaqueta com forro de paina que haviam lhe dado, saiu para a área de exercícios e se pôs a caminhar pelo pátio murado. Dez passos de comprimento, cinco passos de largura. Podia caminhar de olhos fechados e jamais chocar-se contra a parede. A única variação era ocasionalmente o céu acima.

     A maior parte do céu era uma nuvem cinza-chumbo, da qual a neve descia. Mas antes, naquele período no qual os cristãos decoram árvores e cantam canções, fizera muito frio, mas o céu tinha estado azul.

     Depois ele vira águias e corvos rodopiando no alto. Pássaros menores tinham pousado no topo do muro e olhavam para ele, como se perguntando por que não saía para juntar-se a eles na liberdade. Mas o que mais gostava de olhar eram os aviões.

     Alguns, ele sabia, eram aviões de guerra, embora jamais tivesse ouvido falar nem da cordilheira Cascades onde ele estava, nem da base da Força Aérea McChord, que ficava 80 quilômetros a oeste. Mas, no norte do Afeganistão, vira uma aeronave de combate americana manobrar para fazer um bombardeio, e notou que era o mesmo tipo de avião.

     E também havia os aviões de passageiros. Apresentavam cores diferentes, com desenhos variáveis nas caudas, mas ele tinha conhecimento suficiente para ter certeza de que não eram emblemas nacionais, e sim logomarcas de companhias. Exceto pela folha de bordo. Alguns dos aviões sempre tinham estampado a folha na cauda. E esses sempre vinham do norte.

     Era fácil identificar o norte; a oeste ele podia ver o sol se pôr, e rezava no lado oposto, em direção a Meca, bem longe no leste. Suspeitava estar nos EUA porque o sotaque dos guardas era claramente americano. Mas então, por que vinham do norte aviões com um emblema nacional? Só podia ser porque existia em algum lugar ao norte uma outra terra, uma terra onde as pessoas rezavam para uma folha vermelha num campo branco. Assim, continuou caminhando no pátio, pensando na terra da folha vermelha. Na verdade, estava vendo os vôos da Air Canada decolarem de Vancouver.

    

     Num bar na região portuária de Port of Spain, Trinidad, dois marinheiros mercantes foram atacados por uma gangue local e deixados à morte. Ambos tinham sido esfaqueados com perícia.

     Quando a polícia chegou, as testemunhas sofriam de uma amnésia temporária, conseguindo lembrar apenas que tinham sido cinco agressores que haviam provocado a briga no bar, e que eram todos ilhéus. A polícia jamais descobriria nada mais do que isso, nem efetuaria qualquer prisão.

     Na verdade, os assassinos eram bandidos locais que nada tinham a ver com terrorismo islâmico. Mas o homem que os contratara era um dos principais terroristas do Jamaat-al-Muslimeen, o maior grupo partidário da al-Qaeda em Trinidad.

     Mantendo-se o mais distante possível da mídia ocidental, o Jamaat-al-Muslimeen vinha crescendo continuamente nos últimos anos, assim como outros grupos da bacia caribenha. Numa área conhecida por seu cristianismo, o islã vinha crescendo discretamente com a imigração do Oriente Médio, Ásia Central e subcontinente indiano.

     O dinheiro pago pelo Jamaat-al-Muslimeen pelos assassinatos viera de uma linha de crédito criada pelo falecido Sr. Tewfik al-Qur. As ordens específicas tinham vindo de um emissário do Dr. Al-Khattab, que ainda estava na ilha.

     Como não se tentara roubar as carteiras dos homens mortos, a polícia de Port of Spain identificou-os rapidamente como cidadãos venezuelanos de um navio também de bandeira venezuelana, que então estava aportado.

     O mestre, o capitão Pablo Montalban, ficou chocado e entristecido ao ser informado sobre a perda dos tripulantes. Contudo, não poderia esperar por muito tempo no porto.

     Enquanto a embaixada e o consulado da Venezuela cuidavam dos detalhes do traslado dos corpos para Caracas, o capitão Montalban contatou o agente local para substituir os marinheiros. O homem fez alguma pesquisa, mas logo deu sorte. Encontrou dois jovens indianos educados e ávidos por trabalho. Tinham vindo de Kerala trabalhando em troca de suas passagens, e embora carecessem de documentos de naturalização, tinham registros de marinheiro.

     Aceitos a bordo, juntaram-se aos outros quatro marinheiros que compunham a tripulação, e o Dona Maria se lançou ao mar com apenas um dia de atraso.

     O capitão Montalban sabia vagamente que a maior parte da Índia era hindu, mas não tinha a menor idéia de que o país também abrigava 150 milhões de muçulmanos. Não estava a par de que a conversão dos muçulmanos indianos fora tão vigorosa quanto no Paquistão, ou que Kerala, que um dia fora uma região altamente comunista, tornara-se particularmente receptiva ao extremismo islâmico.

     Os dois novos tripulantes realmente tinham vindo da Índia como grumetes, mas sob ordens e para obter experiência. Por fim, o venezuelano católico não tinha a menor idéia de que, embora nenhum dos dois tivesse o suicídio em mente, trabalhavam com e para o Jamaat-al-Muslimeen. Os marujos tinham sido assassinados justamente para abrir vagas para os dois fanáticos em seu navio.

    

     Marek Gumienny decidiu voar pelo Atlântico quando ouviu o relatório do Extremo Oriente. Mas levou consigo um especialista numa outra disciplina.

     — Os especialistas árabes serviram bem a seu propósito, Steve — disse ele a Hill antes de decolar. — Agora precisamos de gente que conheça o mundo da Marinha Mercante.

     O homem que ele levou era do Departamento de Alfândega e Proteção de Fronteiras americano, divisão da Marinha Mercante. Steve Hill saiu de Londres para o norte acompanhado por outro de seus colegas; ele provinha da divisão de antiterrorismo do SIS, seção marítima.

     Em Edzell os dois jovens se conheceram: Chuck Hemingway, de Nova York, e Sam Seymour, de Londres. Ambos tinham ouvido falar um do outro por meio de documentos e relatórios da comunidade antiterrorista. Haviam recebido um comunicado de que tinham 12 horas para se reunir e preparar uma avaliação de ameaça e um plano de como lidar com ela. Quando se dirigiram a Gumienny, Hill, Phillips e McDonald, Chuck Hemingway foi o primeiro a falar.

     — Isto não é apenas uma caçada, é uma busca por uma agulha num palheiro. Uma caçada possui um alvo conhecido, tudo que temos é que estamos atrás de uma coisa que flutua. Talvez. Deixem-me explicar melhor. Neste momento há 46 mil navios mercantes operando nos oceanos do mundo. Metade deles ostenta bandeiras de conveniência, que podem ser trocadas praticamente de acordo com a vontade do capitão. Oitenta e cinco por cento da superfície do mundo é coberta por oceano, em uma área tão vasta que literalmente milhares de navios passam a maior parte do tempo fora do alcance visual de terra ou de outras embarcações. Oitenta por cento do comércio mundial ainda é realizado pelo mar, e isso significa algo um pouco abaixo de seis bilhões de toneladas. E há quatro mil portos mercantes viáveis em todo o mundo. Finalmente, vocês procuram uma embarcação. Mas não sabem o tipo, tamanho, tonelagem, forma, contornos, idade, propriedade, bandeira, capitão ou nome. E para localizar esse navio... nós chamamos esse tipo de embarcação de navio fantasma... vamos precisar de muito mais dados do que esses; ou de uma dose imensa de sorte. Vocês podem nos oferecer uma das duas coisas?

     Um silêncio depressivo baixou na sala.

     — Isso é desalentador — disse Marek Gumienny. — Sam, há por acaso um fio de esperança?

     — Chuck e eu concordamos que pode haver uma forma de identificar o tipo de alvo que os terroristas podem estar visando e em seguida checar todos os navios que estejam seguindo em direção a esse alvo e exigir uma inspeção armada da embarcação e da carga — disse Seymour.

     — Estamos todos ouvindo — disse Hill. — Que tipo de alvo é mais possível que eles estejam visando?

     — Faz anos que as pessoas em nosso ramo estão preocupadas com situações como essa. Os oceanos são um parque de diversões para terroristas. Na verdade, não faz o menor sentido que a al-Qaeda tenha escolhido para seu primeiro grande atentado um ataque pelo ar. Eles queriam apenas destruir quatro andares das torres do World Trade Center, mas deram uma sorte incrível. E todo o tempo, o mar esteve de braços abertos para eles.

     — A segurança dos portos aumentou imensamente — disse Marek Gumienny. — Eu sei disso; vi os orçamentos.

     — Com todo o respeito, senhor, não é o suficiente. Temos notícias de que os seqüestros de navios em águas ao redor da Indonésia... ou seja, em todas as direções... vêm aumentando constantemente desde a virada do milênio. Alguns desses seqüestros foram simplesmente para fazer dinheiro para os cofres terroristas. Mas outros eventos no mar desafiam a lógica.

     — Tais como?

     — Houve dez casos de piratas que roubaram rebocadores. Alguns jamais foram recuperados. Eles não possuem qualquer valor para revenda porque são difíceis de serem disfarçados. Para que eles queriam os rebocadores? Achamos que poderiam ser usados para puxar um superpetroleiro capturado até um porto internacional muito movimentado, como Cingapura.

     — E então explodi-lo? — perguntou Hill.

     — Não seria preciso. Apenas afundá-lo com as escotilhas de carga abertas. O porto ficaria fechado por uma década.

     — Certo — disse Marek Gumienny. — Então... alvo possível número um. Seqüestrar um superpetroleiro e usá-lo para fechar um porto comercial. Isso é espetacular? Parece bem banal, exceto para o porto em questão... Não há baixas.

     — Fica pior — alertou Chuck Hemingway. — Há outras coisas que podem ser destruídas com um grande navio, com grandes danos à economia mundial. No vídeo de outubro de 2004, o próprio Bin Laden disse que estava mudando de estratégia, para infligir danos à economia. Ninguém lá fora nos shopping centers ou postos de gasolina se dá conta de como o comércio mundial hoje depende de entregas just-in-time, ou seja, imediatas. Ninguém deseja mais armazenar ou estocar. A camiseta feita na China, vendida em Dallas na segunda-feira, provavelmente chegou ao porto na sexta-feira anterior. O mesmo ocorre com a gasolina. E quanto ao canal do Panamá? Ou o de Suez? Feche-os e a economia mundial inteira entrará em caos. Estamos falando em prejuízos de centenas de bilhões de dólares. Há outros estreitos tão vitais que o afundamento de um cargueiro ou um petroleiro realmente grande iria fechá-los.

     — Muito bem — disse Marek Gumienny. — Olhe, eu tenho um presidente e mais cinco superiores a quem me reportar. Você, Steve, tem um primeiro-ministro. Não podemos nos contentar com essa mensagem de Crowbar. Nem podemos nos debulhar em lágrimas. Precisamos propor medidas concretas. Nossos superiores vão querer agir, serem vistos fazendo alguma coisa. Portanto, liste as possibilidades e sugira algumas contra-medidas... Mas que droga, nós não estamos sem recursos de defesa.

     Chuck Hemingway mostrou um documento no qual ele e Seymour haviam trabalhado.

     — Certo, senhor. Nós sentimos que a probabilidade um é o seqüestro de uma embarcação muito grande... petroleiro, cargueiro de minério... e seu afundamento numa passagem marinha estreita mas vital. Contramedidas? Identificar todas as passagens estreitas e colocar navios de guerra em cada extremidade. Todas as embarcações que entrarem na passagem devem ser abordadas por fuzileiros navais.

     — Meu Deus! — exclamou Steve Hill. — Isso seria um caos. Todos vão nos acusar de estarmos agindo como piratas. E quanto aos proprietários das águas anfitriãs? Eles não vão dizer nada?

     — Se os terroristas forem bem-sucedidos, tanto os outros navios quanto os países costeiros serão arruinados. Não pode haver atrasos. Os fuzileiros devem abordar cada cargueiro assim que ele reduzir a velocidade. E, francamente, os terroristas a bordo de qualquer navio fantasma não permitirão a abordagem. Irão reagir com tiros, e vão acabar se expondo. Acho que os proprietários de navios verão a situação sob o mesmo ângulo que nós.

     — Probabilidade dois? — inquiriu Steve Hill.

     — Conduzir o navio fantasma, abarrotado com explosivos, até uma grande instalação como uma ilha artificial de oleodutos ou uma plataforma de petróleo, e explodi-la em pedacinhos. Isso causará um dano ecológico imenso e uma ruína econômica por anos. Saddam Hussein fez isso no Kuait. Ele queimou todos os poços de petróleo à medida que a Coalizão avançava, para deixá-la vivendo de terra calcinada. Contra-medida: de novo, a mesma. Identificar e interceptar cada embarcação que se aproxime da instalação. Obter identificação positiva para todas as embarcações num raio de dez milhas, gerando um cordão de isolamento.

     — Não temos navios de guerra suficientes! — protestou Steve Hill. — Cada refinaria de petróleo, cada plataforma marítima?

     — É por isso que as nações proprietárias deverão repartir os custos. E não precisam ser navios de guerra. Ao disparar contra algum interceptor, o navio fantasma irá se expor, e assim poderá ser afundado do ar.

     Marek Gumienny correu a mão pela testa.

     — Mais alguma coisa?

     — Há uma possível terceira probabilidade — disse Seymour. — O uso de explosivos para causar um terrível massacre humano. Nesse caso, o alvo certamente seria um resort na costa. É uma perspectiva horrível, semelhante à destruição de Halifax, Nova Escócia, em 1917, quando um navio-paiol explodiu no coração do porto. A cidade foi varrida do mapa. Até hoje ainda é considerada a maior explosão não-nuclear da História.

     — Eu preciso relatar, Steve, e não vou gostar disso — disse Gumienny, enquanto o grupo trocava apertos de mãos na pista de pouso. — A propósito, se contramedidas forem efetuadas, e terão de ser, não haverá como manter a mídia afastada. Precisamos pensar numa ótima história para os terroristas não desconfiarem do coronel Martin. Mas, como sabem, por mais que eu tire meu chapéu para ele, vocês precisam aceitar a realidade. As chances são de que ele não esteja mais entre nós.

    

     Protegendo os olhos contra o brilho do sol do Arizona, o major Larry Duval maravilhou-se, como sempre fazia, diante da visão do F-15 Strike Eagle que o aguardava. Pilotara a versão F-15 durante dez anos, e o considerava o amor de sua vida.

     Durante sua carreira ele também pilotara aeronaves como o F-l11 Aardvark e o F-G Wild Weasel, e considerava ambos peças maravilhosas de maquinaria. Mas, depois de 20 anos como piloto da Força Aérea americana, ele podia dizer com total convicção: o Eagle era o melhor de todos.

     O caça que iria pilotar naquele dia, da base da Força Aérea de Luke até Washington, ainda estava sendo trabalhado. Imune a amor ou desejo, ódio ou medo, posava silencioso em meio à equipe de homens e mulheres de macacão que engatinhavam sobre a fuselagem. Larry Duval invejou seu Eagle; apesar de toda a complexidade, ele não sentia nada. Portanto, jamais conheceria o medo.

     O avião que estava sendo preparado para o teste aéreo daquela manhã estivera na base aérea de Luke para uma revisão geral. A regra ditava que depois de um período longo na oficina, a aeronave deveria ser submetida a um vôo de teste.

     Assim ela aguardava ao sol reluzente da manhã no Arizona; 19 metros de comprimento, 5,5 de altura e 12 de envergadura, pesando 18 toneladas vazio e podendo decolar com até 36 toneladas de peso total. Larry Duval virou-se quando seu WSO, como é mais conhecido o oficial que opera os sistemas de armas, capitão Nicky Johns, aproximou-se após ter terminado a checagem do equipamento. No Eagle, o WSO viaja atrás do piloto, cercado por milhões de dólares em instrumentos. Durante um vôo longo até a base aérea de McChord, ele iria testar cada um deles.

     Um utilitário aberto conduziu os dois homens pelos 600 metros que os separavam do caça. Eles passaram dez minutos realizando checagens de vôo, por mais escassas que fossem as chances da equipe de solo ter deixado passar alguma coisa.

     Uma vez a bordo, afivelaram os cintos de segurança e cumprimentaram a tripulação de solo com um último aceno. Os técnicos retribuíram o cumprimento e se retiraram da pista.

     Larry Duval acionou os dois poderosíssimos motores F-100, a cúpula desceu sibilando e o Eagle começou a andar. A aeronave se virou contra a brisa suave que soprava pela pista, parou, recebeu liberação para decolar e fez um teste final nos freios. As turbinas expeliram chamas de nove metros, e o major Duval liberou a potência total da aeronave.

     O Eagle percorreu 1.600 metros pela pista até que, a 185 nós, as rodas do trem de pouso desprenderam-se do asfalto e a aeronave decolou. Trem de pouso recolhido, flaps erguidos, afogadores acionados para reduzir o consumo de combustível e o poderio militar ativado. Duval estabeleceu um ritmo ascendente de 5 mil pés por minuto. Atrás dele, o oficial de sistema de armas passou-lhe uma orientação de navegação por bússola. A 30 mil pés de altitude num céu azul puro, o Eagle nivelou e apontou o nariz para o norte, em direção a Seattle. As montanhas rochosas, cobertas por um lençol de neve, permaneceriam abaixo deles por todo o percurso.

    

     No gabinete de Relações Exteriores da Grã-Bretanha, os detalhes finais para o transporte do governo britânico e de seus consultores para a reunião do G8 de abril estavam quase completos. A delegação inteira embarcaria num avião de passageiros fretado e voaria do aeroporto Heathrow ao JFK, em Nova York. Lá seriam recebidos formalmente pelo secretário de Estado americano.

     As outras seis delegações estrangeiras iriam voar de seis capitais diferentes até o mesmo aeroporto.

     Todas as delegações permaneceriam no interior do aeroporto, a um quilômetro e meio dos manifestantes mais próximos, grudados ao perímetro de isolamento. O presidente não ia permitir que aquela gente a quem ele chamava de maluquinhos gritasse insultos ou ameaças de qualquer espécie a seus convidados. Não queria uma reprise de Seattle e Gênova.

     O traslado para fora do JFK seria através de uma ponte aérea de helicópteros que desembarcariam seus passageiros num segundo ambiente completamente isolado, De lá eles caminhariam até a sede da conferência, onde estariam isolados em luxo e privacidade durante cinco dias. Um esquema simples e impecável.

     — Não sei como ninguém teve essa idéia antes — disse um dos diplomatas ingleses. — É brilhante. Talvez devamos fazer a mesma coisa.

     — Sabe o que é ainda melhor? — murmurou um colega mais velho e experiente. — Depois de Gleneagles vai levar anos até ser nossa vez de novo. Vamos deixar que outros cuidem da segurança por uns tempos.

    

     Tão cedo Marek Gumienny não estaria pessoalmente com Steve Hill. Aquele fora escoltado pelo diretor de sua própria agência até a Casa Branca e explicara aos seis diretores as deduções que haviam sido obtidas após o recebimento de uma mensagem bizarra da ilha de Labuan.

     — Eles disseram o mesmo de sempre — reportou Gumienny. — O que quer que seja, onde quer que seja, encontre e destrua.

     — O mesmo com meu governo — disse Steve Hill, — Sem restrições. Destruir ao avistar. E eles querem que nós trabalhemos juntos nisto.

     — Sem problemas. Mas, Steve, meu pessoal está convencido de que o alvo provável são os Estados Unidos da América. Assim, a nossa proteção costeira assume precedência sobre todo o resto... Oriente Médio, Ásia, Europa. Nós temos prioridade total em todos os nossos recursos: satélites, navios de guerra, tudo. Mas se localizarmos o navio fantasma em algum lugar fora de nossa costa, desviaremos os recursos para destruí-lo.

    

     O diretor de Inteligência Nacional americana, John Negroponte, autorizou a CIA a informar seus colegas britânicos, em caráter confidencial, sobre as medidas que os Estados Unidos pretendiam tomar.

     A estratégia de defesa seria baseada em três estágios: vigilância aérea, identificação de embarcações e checagem. Qualquer explicação insatisfatória, qualquer desvio não explicado, de curso e trajetória, geraria uma interceptação física. Qualquer resistência implicaria a destruição no mar.

     Para estabelecer um território marítimo, uma linha foi desenhada para criar um círculo completo de 300 milhas em torno da ilha de Labuan. Da curva norte do círculo, uma linha foi traçada através do Pacífico até a cidade de Anchorage, na costa sul do Alasca. Uma segunda linha foi estabelecida do arco sul do círculo indonésio, atravessando o Pacífico, até a costa do Equador.

     A área coberta envolvia principalmente o oceano Pacífico. Abrangia toda a costa oeste do Canadá, EUA e México até o Equador, incluindo o canal do Panamá.

     A Casa Branca decidiu que ainda não havia necessidade de anunciar a ação, mas pretendia-se monitorar cada navio nesse triângulo, seguindo para leste até a costa americana. Nenhuma embarcação que saísse do triângulo ou rumasse para a Ásia seria importunada. Todas as outras seriam identificadas e vistoriadas.

     Graças a anos de pressão exercida por algumas entidades freqüentemente classificadas como excêntricas, a operação contava com um aliado logístico. As principais companhias de navegação americanas haviam concordado em passar a registrar planos de rota, assim como fazem rotineiramente as companhias aéreas. Setenta por cento dos navios na zona de verificação tinham suas rotas registradas, e as companhias proprietárias podiam entrar em contato com seus capitães. Sob as novas regras, também havia um acordo de que os capitães marítimos sempre usariam uma determinada palavra, conhecida apenas por seus proprietários, caso estivessem seguros. O não-pronunciamento da palavra poderia significar que o capitão estava com problemas.

    

     Passadas 72 horas depois da conferência na Casa Branca, o primeiro satélite KH-11 Keyhole assumiu posição no espaço e começou a fotografar o círculo indonésio. Os computadores tinham sido instruídos para fotografar, qualquer que fosse a direção da rota, todo navio da Marinha Mercante num raio de 3 mil milhas da ilha de Labuan. Como computadores obedecem instruções, ele fez isso. Enquanto o satélite começava a fotografar, o Countess of Richmond seguindo para sul pelo estreito de Makassar, estava a 310 milhas ao sul de Labuan. Não foi fotografado.

    

     Para Londres, a obsessão da Casa Branca em relação a um ataque pelo Pacífico era apenas metade do quadro. Os alertas da conferência de Edzell foram submetidos ao Reino Unido e aos EUA para análise adicional, mas as descobertas foram amplamente endossadas.

     Foi preciso um telefonema longo e pessoal pela linha direta entre Downing Street e a Casa Branca para se chegar a um acordo sobre as duas vias mais importantes a leste de Malta. O pacto ditava que a Marinha Real britânica, em parceria com os egípcios, monitoraria a extremidade sul do canal de Suez para interceptar todos os navios, à exceção das pequenas embarcações, vindos da Ásia.

     Os navios de guerra da Marinha americana no golfo Pérsico, mar Árabe e oceano Índico iriam patrulhar o estreito de Ormuz.

     Ali a ameaça seria representada apenas pelo único e imenso navio, capaz de afundar no canal de águas profundas que segue pelo centro do estreito. O tráfego principal de Ormuz era de superpetroleiros, que chegavam vazios do sul e retornavam cheios de óleo cru depois de serem abastecidos em uma das muitas ilhas espalhadas pelas costas do Irã, Catar dos Emirados Árabes, Barein, Arábia Saudita e Kuait.

     A boa notícia para os americanos era que as companhias proprietárias das embarcações se resumiam a um pequeno número e estavam dispostas a cooperar para prevenir um desastre comum. Pousar um pelotão de fuzileiros navais americanos descidos de um helicóptero Sea Stallion no convés de um super-petroleiro a caminho do estreito, ainda que a 300 milhas de distância, e fazer uma inspeção rápida do passadiço tomava pouquíssimo tempo e não retardava a embarcação.

     Quanto às ameaças dois e três, cada governo da Europa com um grande porto marítimo foi alertado quanto à possível existência de um navio fantasma sob o comando de terroristas. Cabia à Dinamarca proteger Copenhagen; a Suécia cuidaria de Estocolmo e Gotemburgo; a Alemanha ficaria de olho em qualquer coisa que entrasse em Hamburgo ou Kiel; a França foi alertada para defender Brest e Marselha. Aviões da Marinha britânica baseados em Gibraltar começaram a patrulhar o estreito entre as Colunas de Hércules, entre Gibraltar e Marrocos, para identificar qualquer coisa vinda do Atlântico.

     Durante todo o percurso sobre as montanhas rochosas, o major Duval submetera o Eagle a uma série de testes, a aeronave passara com louvor. Abaixo dele, o clima mudara.

     O céu azul sem nuvens do Arizona deixava à mostra alguns fiapos de nuvens carregadas, que adensaram à medida que o jato saía de Nevada para Oregon. Quando Duval cruzou o rio Columbia sobre o estado de Washington, a nuvem abaixo estava sólida do topo até sua base, 20 mil pés acima do solo, e se estendia até a fronteira canadense ao norte. A 30 mil pés, Duval ainda flanava num céu azul, mas a descida envolveria um percurso considerável através de vapor denso. Quando faltavam 200 milhas, chamou a base da força aérea de McChord e requisitou uma aterrissagem controlada do solo.

     O operador em McChord pediu-lhe que permanecesse a leste, manobrasse para o interior de Spokane e descesse navegando por instrumentos. O Eagle estava fazendo uma volta para a esquerda em direção a McChord quando aquela que estava para se tornar a chave de fenda mais cara da Força Aérea escorregou do lugar onde fora enfiada entre duas linhas hidráulicas no motor de estibordo. Quando o Eagle nivelou, a chave de fenda deslizou para dentro da turbina.

     O primeiro resultado foi um estrondo metálico emitido de algum lugar nas entranhas do motor F-100 a estibordo quando as pás da turbina, afiadas como facões de açougueiro, começaram a distorcer. Cada lâmina retorcida espremeu-se contra as demais. Em ambas as carlingas uma luz vermelha piscou em resposta ao grito de Que porra foi essa? de Nicky Johns.

     À frente dele, Larry Duval estava ouvindo alguma coisa dentro de sua cabeça gritar: Desliga tudo.

     Depois de anos de vôo, os dedos de Duval faziam o trabalho quase sozinhos; desligando uma chave depois da outra: combustível, circuitos elétricos, linhas hidráulicas. Mas o motor de estibordo estava em chamas. Os extintores de incêndio internos foram acionados automaticamente, mas tarde demais.

     O F-1OO de estibordo estava lacerando a si mesmo em pedacinhos, no que é conhecido como falha de motor catastrófica.

     Atrás de Duval, o oficial de sistema de armas estava dizendo a McChord:

     — Mayday, mayday, mayday, motor de estibordo em chamas...

     Foi interrompido por outro rugido às suas costas. Em vez de desligar, uma das pás da turbina rasgara a fuselagem e estava danificando o lado esquerdo do avião. Mais luzes vermelhas piscaram. O segundo motor também pegara fogo. Mesmo com o combustível reduzido, e com um único motor em funcionamento, Larry Duval poderia ter conseguido aterrissar. Mas com ambos os motores apagados, um caça moderno não plana como aqueles de outrora; ele mergulha com a velocidade de uma bala.

     Mais tarde, o capitão Johns diria no inquérito que a voz de seu piloto permaneceu calma e inalterada. Ele ajustara o rádio em transmitir, para que o controlador de tráfego aéreo em McChord não precisasse ser informado; ele estava ouvindo em tempo real.

     — Perdi os dois motores — informou o major. — Preparar para ejeção.

     O oficial de sistema de armas olhou uma última vez para seus instrumentos. Altura: 24 mil pés. Mergulhando, ângulo cada vez mais fechado. Do lado de fora o sol ainda brilhava, mas a massa de nuvens coleava em direção a eles. O oficial de sistema de armas olhou em torno, sobre seu ombro. O Eagle era uma tocha, inflamado de ponta a ponta. Ele ouviu a mesma voz calma vindo da frente.

     — EJETAR, EJETAR.

     Os dois homens abaixaram os braços até a maçaneta ao lado do assento e a puxaram. Era tudo que precisavam fazer. Os modernos ejetores de assentos são tão automatizados que até se o piloto estiver inconsciente, os dispositivos fazem tudo por ele.

     Nem Larry Duval nem Nicky Johns chegou realmente a ver a morte de seu avião. Com segundos de sobra, seus corpos foram arremessados para a estratosfera congelante através da cúpula que se estilhaçava. O assento segurou as pernas e braços para que seus membros não se debatessem e quebrassem. O assento protegeu seus rostos da rajada de vento que poderia empurrar os malares através dos crânios.

     Ambos os ejetores em queda foram estabilizados por aletas diminutas e mergulharam para o solo. Num segundo eles estavam perdidos na massa de nuvens. Embora pudessem enxergar através dos visores, os dois tripulantes só conseguiam ver nuvens cinzentas passando por eles.

     Os assentos possuíam sensores para detectar que estavam próximos o bastante do solo para liberar seus passageiros. Os cintos de segurança simplesmente se abriram e os homens, agora separados um do outro por um quilômetro e meio, separaram-se de seus assentos, que mergulharam pela paisagem abaixo.

     Os pára-quedas, também automáticos e munidos de um dispositivo para estabilizar no ar o homem em queda, de repente abriram-se. Cada um dos homens sentiu um puxão violento quando a velocidade extrema de 193 quilômetros por segundo foi reduzida para aproximadamente vinte.

     Começaram a sentir o frio intenso através do náilon de seus macacões de vôo. Tinham a impressão de estar num estranho limbo úmido e cinzento, entre o céu e o inferno, até colidirem contra copas de pinheiro e abeto.

     Na sombra projetada por uma nuvem, o major pousou numa clareira, com a queda amortecida por galhos de coníferas caídos no chão. Depois de vários segundos atordoado e sem fôlego, abriu a fivela principal do pára-quedas e se levantou. Então começou a transmitir um sinal de rádio, para que a equipe de resgate pudesse localizá-lo.

     Nicky Johns também caíra entre as árvores, mas não numa clareira; caíra em cheio nelas. À medida que se chocava com os galhos, foi encharcado pela neve acumulada neles. Esperou pelo choque contra o chão, que nunca chegou. Acima dele, na escuridão congelante, ele conseguiu ver que seu pára-quedas aberto estava preso nas árvores. Abaixo, conseguia divisar o chão. Neve e folhas de pinheiro, pensou, uns cinco metros abaixo. Respirou fundo, apertou o botão de liberação e caiu.

     Com sorte ele teria pousado e se levantado. Contudo, sentiu a perna esquerda partir exatamente na tíbia ao deslizar entre dois galhos endurecidos sob a neve. Era o sinal de que o frio e o choque começariam a devorar suas forças sem misericórdia. Ele também acionou seu transmissor.

     O Eagle tentara voar durante alguns segundos depois de ser abandonado por sua tripulação. Apontou o nariz para baixo, mergulhou, rodopiou, recomeçou seu mergulho e, ao entrar na massa de nuvens, simplesmente explodiu. As chamas tinham alcançado os tanques de combustível.

     Enquanto a aeronave se desintegrava, os dois motores desprenderam-se e caíram. Vinte mil metros abaixo, cada motor — cinco toneladas de metal rugindo a 800 quilômetros por hora — atingiu a floresta de Cascades. Um deles destruiu 20 árvores. O outro, causou ainda mais destruição.

     O oficial de Operações Especiais da CIA que comandava a guarnição na Cabana demorou dois minutos para recuperar a consciência e se levantar do soalho do refeitório onde estivera almoçando. Estava tonto e enjoado. Encostou-se na parede da cabana de toras em meio à poeira e gritou pelos companheiros. Foi respondido com gemidos. Vinte minutos depois, ele tinha feito um levantamento. Os dois homens jogando sinuca estavam mortos. Três outros estavam feridos. Os sortudos foram aqueles que tinham saído para passear fora do complexo. Estavam a cem metros quando o meteorito, porque era isso que achavam que fosse, acertara a Cabana. Depois de confirmar que 12 agentes da CIA haviam morrido, três necessitavam de hospitalização de emergência, dois que tinham saído para passear estavam ilesos, e que os cinco restantes encontravam-se muito abalados, eles foram ver como o prisioneiro estava.

     Mais tarde eles seriam acusados de lentidão em suas responsabilidades, mas o inquérito acabaria determinando que haviam tido razão em cuidar primeiro de si próprios. Uma olhada através do visor do quarto revelou que havia luz demais lá dentro. Ao entrar, constataram que a porta que dava para o pátio de exercícios estava aberta. O quarto propriamente dito, feito de concreto reforçado, sobrevivera intacto.

     A parede do complexo não teve a mesma sorte. Concreto ou não, o motor F-100 dera uma mordida de um metro e meio na parede antes de ricochetear para os aposentos da guarnição. E  tinha desaparecido.

    

     ENQUANTO OS AMERICANOS FECHAVAM SUA ARMADILHA EM TORNO das Filipinas, Bornéu e Indonésia ocidental, por toda a extensão do Pacífico até a costa americana, o Countess of Richmond saía do mar de Flores, através do estreito de Lombok, entre Bali e Lombok, e entrava no oceano Índico. Dali ele mudou de curso para oeste, em direção à África.

    

     O chamado de socorro do Eagle moribundo fora ouvido por pelo menos três postos de escuta. A base da força aérea de McChord obviamente tinha tudo gravado, porque seu operador falara com a tripulação. A estação aeronaval na ilha de Whibbey, ao norte de McChord, também mantivera vigília no canal 16, assim como a unidade da Guarda Costeira americana em Bellingham. Segundos depois do chamado eles entraram em contato, para dizer que estavam a postos para triangular as posições dos tripulantes.

     Já se foi o tempo em que pilotos passavam dias vagando pelo deserto ou perdidos numa floresta esperando que alguém os encontrasse. Os tripulantes modernos contam com um colete munido com um emissor de sinal pequeno e poderoso, além de um transmissor que permite comunicação de voz.

     Os sinais foram captados imediatamente e os três postos de escuta estabeleceram as posições dos homens com uma margem de erro de poucos metros. O major Duval estava no coração da parte selvagem e o capitão Johns caíra na floresta madeireira. O acesso a ambas ainda estava fechado devido ao inverno.

     A cobertura de nuvens, não muito acima das copas das árvores, impediria a extração por helicóptero, a forma mais rápida e eficaz. A base da nuvem iria forçar um resgate à moda antiga. Veículos off-road conduziriam os grupos de busca até o ponto mais próximo ao longo de uma das trilhas; de lá até o tripulante as únicas ferramentas seriam músculos e suor.

     O inimigo agora era a hipotermia, e no caso de Johns com a perna quebrada, o traumatismo. O xerife do condado de Whatcom entrou em contato via rádio para dizer que seus auxiliares estavam preparados para agir, e que dentro de meia hora iriam se encontrar na cidadezinha de Glacier, na beira da floresta. Eles estavam mais próximos do oficial de sistemas de armas, Nicky Johns, que quebrara a perna. Alguns lenhadores moravam nas redondezas de Glacier e conheciam cada estrada de transporte de madeira através da floresta. Ele recebeu a posição exata de Johns com uma margem de poucos metros e partiu.

     Para manter a moral do ferido, a base de McChord conectou o xerife com o comunicador preso no colete do oficial de sistemas de armas; assim o xerife podia falar palavras de encorajamento ao tripulante à medida que seu grupo se aproximava dele.

     O serviço dos parques nacionais de Washington optou pelo major Duval. Eles tinham experiência de sobra; todo ano precisavam resgatar quem se perdia pelo caminho. Eles conheciam cada estrada através do parque, cada trilha. Eles seguiram em snowmobiles e triciclos motorizados. Como o homem não estava ferido, com sorte não seria necessário transportá-lo numa maça.

     Mas à medida que os minutos se arrastavam, a temperatura corporal dos tripulantes começou lentamente a cair, e mais rápido com Johns, que não podia se mover. A corrida era para suprir os dois homens com luvas, botas, cobertores térmicos e sopa quente antes que morressem de frio.

     Ninguém disse aos grupos de busca, porque ninguém sabia, que havia outro homem na floresta naquele dia, um homem muito perigoso.

    

     A salvação da equipe da CIA na Cabana destruída era que seus equipamentos de comunicação não tinham sido atingidos. O comandante tinha apenas um número para telefonar, mas era o número. A chamada seguiu em linha segura até a mesa do vice-diretor de Operações Marek Gumienny, em Langley. Três zonas de fuso horário a leste, um pouco depois das 16 horas, ele recebeu o telefonema.

     Ouviu completamente em silêncio. Não se queixou ou praguejou, embora estivesse recebendo a notícia de um grande desastre da Companhia. Antes que seu colega de posto inferior na floresta de Cascades terminasse, ele já estava analisando a catástrofe. Em temperaturas congelantes, os dois cadáveres teriam de esperar um pouco. Os três feridos precisavam de atendimento médico urgente. E o fugitivo precisava ser caçado.

     — Um helicóptero pode chegar aí para pegar vocês?

     — Não, senhor. Temos nuvem roçando as copas das árvores, e está ameaçando nevar mais.

     — Qual é a cidade mais próxima, alcançável por trilha?

     — Mazama. Fica fora da floresta, mas tem uma trilha que liga a cidade à passagem Hart. Fica a um quilômetro e meio daqui. Não há nenhuma trilha de lá até aqui.

     — Vocês são uma instituição de pesquisas secreta, entendeu? Vocês sofreram um grande acidente. Chame o xerife em Mazama e mande ele ir até aí com tudo que tiver. Carros e snowmobiles que possam chegar até o mais perto possível de vocês. Esquis, sapatos de neve e trenós para o último quilômetro e meio. Leve esses homens até o hospital. Enquanto isso, vocês conseguem se manter aquecidos?

     — Sim, senhor. Duas salas foram destruídas, mas temos três isoladas. O aquecimento central não está funcionando, mas estamos empilhando toras na lareira.

     — Certo. Quando o grupo de resgate alcançar vocês, tranquem tudo e destruam todos os equipamentos de comunicação codificada. Peguem todos os códigos e saiam junto com os feridos.

     — Senhor...?

     — Sim.

     — E...?

     — Deixe-o por minha conta.

     Marek Gumienny pensou na carta-branca que John Negroponte dera-lhe no começo da Operação Crowbar. Poderes plenos. Sem limites. Era hora de fazer o Exército valer os dólares que ganhava através dos impostos. Ele ligou para o Pentágono.

     Graças a anos na Companhia e ao novo espírito de compartilhamento de informações, ele possuía contatos fortes dentro do Ministério da Defesa, que por sua vez eram os melhore amigos das Forças Especiais. Vinte minutos depois, ele descobriu que tivera sua primeira colher de chá num dia muito ruim

    

     A não mais de seis quilômetros da base da força aérea de McChord fica o Forte Lewis. Embora seja um imenso campo militar, o Lewis possui uma zona restrita, que é o lar do Primeiro Grupo das Forças Especiais, conhecido por seus raros amigos como Destacamento Operacional Alpha 143. O terminal 3 significa uma companhia de operação em montanhas, ou esquadrão A. Seu comandante de operações era o capitão Michael Linnet.

     Quando recebeu o telefonema do Pentágono, o adjunto da unidade não pôde ser muito prestativo, embora estivesse falando com um general de duas estrelas.

     — Senhor, neste momento eles não se encontram na base. Estão envolvidos num exercício tático em monte Rainer.

     O general, baseado em Washington, jamais ouvira falar dessa montanha sombria no condado de Pierce, muito ao sul de Tacoma.

     — Tenente, é possível providenciar que eles voltem de helicóptero para a base?

     — Sim, senhor. Creio que sim. O teto de nuvem está na altura mínima para isso.

     — Eles podem voar até um lugar chamado Mazama, perto da passagem Hart, na beira da floresta virgem?

     — Terei de verificar isso, senhor.

     O general esperou na linha por três minutos até o tenente voltar.

     — Não, senhor. O teto de nuvem de lá está roçando nas copas das árvores, e pode haver uma tempestade de neve a qualquer momento. A única forma de chegar até lá seria de caminhão.

     — Bem, leve-os até lá, pela rota mais rápida possível. Você disse que eles estão fazendo manobras?

     — Sim, senhor.

     — Estão portando tudo de que precisariam para operar na floresta virgem de Pasayten?

     — Tudo que é preciso para operar em terreno acidentado e sob temperaturas abaixo de zero, general.

     — Estão com munição real?

     — Sim, senhor. A manobra era uma simulação de caçada a terroristas no Parque Nacional de Rainer.

     — Bem, tenente, não é mais uma simulação. Mande a unidade inteira para o posto policial de Mazama. Mande falarem com um agente da CIA chamado Olsen. Fique em contato contínuo com Alpha e me mantenha informado sobre o progresso.

     Para poupar tempo, o capitão Linnett, ciente de que havia algum tipo de emergência enquanto descia o monte Rainer, requisitou retirada por ar. O Forte Lewis possuía o próprio helicóptero de transporte de tropas Chinook, que 30 minutos depois recolheu o esquadrão Alpha do estacionamento de visitantes vazio no sopé da montanha.

     O Chinook levou o esquadrão até o máximo ao norte que foi permitido pelas nuvens. Deixou-os num pequeno campo de pouso a oeste de Burlington. O caminhão, que passara uma hora seguindo pela estrada, chegou ao campo de pouso quase ao mesmo tempo.

     De Burlington, a Interestadual 20 segue um percurso coleante à margem do rio Skagit até entrar nos Cascades. O acesso às montanhas fica fechado durante o inverno, exceto para veículos dotados de equipamento especial. O caminhão das Forças Especiais estava preparado para qualquer tipo de terreno bem como para alguns ainda não existentes. Mas o progresso foi lento. Passaram-se quatro horas até que o motorista exausto parasse na cidadezinha de Mazama.

    

     A equipe da CIA também estava cansada, mas pelo menos seus colegas feridos, dopados com morfina, estavam em ambulâncias seguindo para serem recolhidos por um helicóptero e levados ao hospital Tacoma Memorial.

     Olsen contou ao capitão Linnett o que julgou ser suficiente. Linnett frisou que precisava de mais informações.

     — Esse fugitivo está usando roupas e calçados de neve?

     — Não. Botas de caminhadas, calças compridas bem forradas, casaco leve.

     — Sem esquis nem sapatos de neve? Está armado?

     — Não, não está.

     — Mas está escuro... Ele possui óculos de visão noturna? Qualquer coisa que o ajude a se mover?

     — Não, certamente não. Ele era um prisioneiro confinado.

     — Ótimo! — exclamou Linnett. — Nesta temperatura, avançando através de um metro de neve e sem bússola, só pode estar andando em círculos. Vamos pegá-lo.

     — Tem mais uma coisa. Ele é um montanhês. Nasceu e foi criado nas montanhas.

     — Nesta região?

     — Não. Em Tora Bora. Ele é um afegão.

     Linnett fitou-o pasmo. Ele lutara em Tora Bora. Estivera na primeira invasão ao Afeganistão quando Forças Especiais da Coalizão, americanas e britânicas, vasculharam a cordilheira de Spin Gahr em busca de um grupo de sauditas fugitivos, um deles medindo um metro e noventa e três de altura. E ele voltara para tomar parte na Operação Anaconda, que também não tinha sido nada agradável. Alguns homens bons foram perdidos na Anaconda. Linnett tinha contas a acertar com os pashtuns de Tora Bora.

     — Vamos partir! — gritou ele, e o esquadrão embarcou de novo no caminhão.

     O caminhão iria levá-los pelo restante da trilha até a passagem Hart. Depois disso, seu meio de transporte se resumiria a esquis e sapatos de neve.

     Enquanto eles saíam, o xerife informou por rádio que ambos os tripulantes tinham sido encontrados e resgatados, com frio, mas vivos. Os dois estavam num hospital em Seattle. A notícia era boa, mas um pouco tardia para um homem chamado Lemuel Wilson.

    

     Os investigadores anglo-americanos da Marinha Mercante que tinham assumido a Operação Crowbar ainda estavam se concentrando na Ameaça Um, a idéia de que a al-Qaeda estaria planejando fechar uma via mundial na forma de uma passagem estreita.

     Nesse caso, o tamanho da embarcação era vital.

     A natureza da carga não era importante, exceto pelo fato de que, expelindo óleo, a embarcação praticamente impossibilitaria o trabalho dos mergulhadores. Eles estavam se comunicando com todas as partes do mundo, tentando identificar qualquer navio de grande tonelagem que estivesse navegando.

     Obviamente, os navios realmente imensos eram raros, e a maioria pertencia a companhias respeitáveis e gigantescas. Os 500 principais cargueiros grandes e ultragrandes, os ULCC e os VLCC, conhecidos como superpetroleiros, foram checados. Constatou-se que as companhias mantinham comunicação constante com todos eles. Em seguida, as tonelagens foram reduzidas em módulos de dez mil toneladas, completamente carregados. Depois que todas as embarcações de 50 mil toneladas para cima tinham sido checadas, o pânico do bloqueio a estreitos começou a diminuir.

     A lista de remessas navais do Lloyd's provavelmente ainda é o arquivo mais completo do mundo, e a equipe em Edzell estabeleceu uma linha direta com a empresa, que estava sendo acionada constantemente. A conselho do Lloyds, concentraram-se nas embarcações com bandeiras de conveniência e naquelas registradas em portos de propriedade de indivíduos suspeitos. Tanto o Lloyd's quanto o serviço de inteligência da Marinha juntaram esforços com a CIA e a Guarda Costeira americana numa operação que visava impedir, sem o conhecimento de seus capitães ou proprietários, que 200 navios se aproximassem da costa. Mas até então nada anormal fora constatado.

    

     O capitão Linnett conhecia suas montanhas e estava ciente de que nenhum homem sem calçados especiais, tentando avançar através da neve por um terreno salpicado com árvores, raízes, fendas e valas conseguiria caminhar mais de 600 metros por hora.

     Esse homem provavelmente tropeçaria na neve e cairia num riacho, e então, com os pés molhados, começaria a perder temperatura corporal a um ritmo alarmante, o que conduziria à hipotermia e ao congelamento dos dedos.

     A mensagem de Olsen proveniente de Langley não deixara espaço para dúvidas: eles não poderiam permitir, sob nenhuma circunstância, que o fugitivo colocasse os pés no Canadá. Ou, apenas para garantir, que ele colocasse as mãos em um telefone.

     Linnett tinha poucas dúvidas. Sem uma bússola, seu alvo vagaria em círculos. Tropeçaria e cairia a cada dois passos.

     Não conseguiria ver em meio à escuridão projetada pelas árvores, que nem mesmo a lua, se não estivesse oculta pela nuvem densa a 20 mil pés, conseguiria penetrar.

     Era verdade que o homem tinha uma vantagem de cinco horas, mesmo em linha reta, que em distância lhe daria menos de quatro quilômetros e meio de terreno coberto.

     O capitão Linnett tinha razão sobre os esquis. Do ponto de parada do caminhão no final da trilha, ele alcançou as ruínas da cabana da CIA em menos de uma hora. Linnett e seus homens examinaram-na rapidamente para ver se o fugitivo retornara para procurar equipamentos melhores. Não havia qualquer sinal. Os dois cadáveres, rígidos no frio, estavam deitados, mãos cruzadas sobre os peitos, dentro do refeitório, a salvo dos animais selvagens. Teriam de esperar que as nuvens se dispersassem, possibilitando o pouso de um helicóptero.

     Doze homens compõem o esquadrão A, Linnett era o único oficial, e seu adjunto era um sub-tenente. Os outros dez eram todos homens alistados, sendo de segundo-sargento a patente mais baixa entre eles.

     Eles se dividiram em dois engenheiros (para demolição), dois operadores de rádio, dois médicos, um terceiro-sargento (não uma, mas duas especialidades), um sargento de inteligência e dois atiradores. Enquanto Linnett estava dentro da cabana arruinada, seu terceiro-sargento, que era um rastreador experiente, analisou o terreno externo.

     A tempestade de neve que ameaçava cair ainda não começara. A área em torno do heliporto e da porta da frente, por onde a equipe de resgate de Mazama chegara, estava coberta por várias pegadas. Mas saindo da parede ruída do complexo havia uma única trilha de pegadas seguindo para o norte.

     Coincidência?, pensou Linnett. Era a única direção que o fugitivo não deveria ter tomado. Levava ao Canadá, a 35 quilômetros dali. Mas para, 44 horas de caminhada. Ele jamais conseguiria, ainda que andasse em linha reta. Em todo caso, a equipe Alpha o alcançaria no meio do caminho até lá.

     Foi necessário mais uma hora para cobrir o quilômetro e meio seguinte, usando sapatos de neve. Foi então que eles acharam outra cabana. Ninguém havia mencionado as outras duas ou três cabanas que existiam na floresta de Pasayten construídas antes da proibição. A vidraça arrebentada e a pedra caída no chão não deixaram dúvida.

     O capitão Linnett foi o primeiro a entrar, carabina destravada em punho. Posicionados em torno do vidro estilhaçado, os homens deram cobertura. Levaram menos de um minuto para ter certeza de que não havia ninguém na cabana, no depósito de lenha ou na garagem. Mas os sinais estavam por toda parte. O capitão tentou acender a luz, mas a energia certamente vinha de um gerador que funcionava quando o proprietário estava na residência. E o gerador ficava fechado, isolado atrás da garagem. A equipe recorreu às suas lanternas.

     Ao lado da lareira na sala de estar havia uma caixa de fósforos e vários atiçadores para acender as toras de madeira. Havia também um punhado de velas, para a eventualidade de falha do gerador. O intruso usara tanto os fósforos quanto as velas para caminhar dentro da casa. O capitão Linnett virou-se para um de seus sargentos de comunicações.

     — Ligue para o xerife do condado e descubra quem é o dono da cabana — disse ele.

     Ele começou a vasculhar o local. Nada estava destruído, mas o lugar fora revistado.

     — É um cirurgião de Seattle — reportou o sargento. — passou as férias de verão aqui, e quando chega o outono, fecha tudo.

     — Ele deve ter deixado o nome e o telefone de contato com o xerife. Descubra.

     O sargento descobriu, e foi instruído a contatar Forte Lewis e mandar que telefonassem para a casa do cirurgião e o colocassem na linha. O fato de o dono da cabana ser cirurgião era um golpe de sorte; ele certamente tinha um bipe para casos de emergência. E aquela situação definitivamente se encaixava nessa categoria.

    

     O navio fantasma jamais passou perto de Surabaia. Não havia nenhuma carga de sedas orientais caríssimas para ser trazida a bordo, e os seis contêineres falsos do Countess of Richmond ficavam posicionados no deque de vante, onde era seu lugar.

     A embarcação pegou a rota ao sul de Java, passou pela ilha Christmas e seguiu para o oceano Índico. Para Mike Martin, as rotinas de bordo tornaram-se um ritual.

     O psicopata Ibrahim ficava quase todo o tempo em sua cabine, e a boa notícia era que ele vinha passando muito mal. Dos sete homens restantes, o engenheiro cuidava dos motores, funcionando a plena potência apesar do gasto de combustível. Para onde quer que estivesse indo, o Countess não precisaria de combustível para uma viagem de volta.

     Para Martin, os enigmas permaneciam sem resposta. Para onde o navio estava indo, e que poder explosivo jazia abaixo de dos conveses? Ninguém parecia saber, com a possível exceção do engenheiro químico. Mas ele jamais falava, e o assunto nunca era comentado.

     O especialista em rádio, que mantinha uma vigília de escuta, devia ter-se informado a respeito de uma busca marítima em andamento no Pacífico e nas entradas para o estreito de Ormuz e o canal de Suez. Ele deve ter reportado isso a Ibrahim, mas não mencionado nada aos outros.

     Os outros cinco homens revezavam-se em turnos na cozinha do navio para devorar um prato depois do outro de comida enlatada, e também ao leme. O navegador estabelecia a rota — sempre para o leste, depois para o sul, e finalmente a leste do cabo da Boa Esperança.

     Quanto aos outros, eles rezavam cinco vezes por dia, de acordo com as escrituras, reliam o Corão e admiravam o mar.

     Martin considerou tentar tomar o navio. Ele não dispunha de nenhuma arma além da chance de roubar uma faca de cozinha, e teria de matar sete homens, sendo que Ibrahim provavelmente tinha uma ou mais armas de fogo. E os terroristas estavam espalhados pelo navio, da cabine de rádio ao castelo de proa. E quando se aproximassem de um alvo evidente na praia, Martin sabia que teria de ajudá-los. Mas ele podia adiar esse momento enquanto viajava através do oceano Índico.

     Martin não sabia se a mensagem na mochila de equipamento de mergulho fora encontrada ou jogada em algum porão sem ser lida; e também não sabia que havia acionado uma caçada global a um navio.

    

     — É com o Dr. Berenson que estou falando? — Michael Linnett pegou o fone do aparelho nas costas do sargento e mentiu. — Sou do posto policial de Mazama — disse ele. — Neste momento estou na sua cabana na floresta. Sinto informar que houve um arrombamento.

     — Mas que droga. E fizeram muitos estragos? — perguntou a voz que vinha de Seattle.

     — A pessoa invadiu quebrando a janela da frente com uma pedra, doutor. Parece ter sido o único dano estrutural. Eu quero verificar com o senhor se houve furtos. O senhor mantinha alguma arma de fogo aqui?

     — Nenhuma. Possuo dois fuzis de caça e um revólver, mas trago eles comigo quando volto para casa.

     — Certo. Agora, roupas. O senhor tem um armário com roupas pesadas de inverno?

     — Claro. Fica à direita da porta do armário.

     O capitão Linnett acenou com a cabeça para seu terceiro-sargento, que liderou o caminho com uma lanterna. O closet era espaçoso e estava cheio de roupas de inverno.

     — Também guardo lá um par de botas de neve, além de calças e um casaco com capuz forrados com pele.

     Tudo havia sumido.

     — Esquis ou sapatos de pele, doutor?

     — Ambos. Na mesma prateleira.

     Também tinham sumido.

     — Algum outro tipo de arma? Bússola?

     Deveria haver uma grande faca de caça, guardada em sua bainha, pendurada do lado de dentro da porta do armário, e uma bússola e uma lanterna nas gavetas da escrivaninha. Elas tinham sido levadas. O fugitivo também vasculhara a cozinha mas o cirurgião não deixara comida fresca lá, para não estragar. Uma lata aberta de feijões cozidos, aberta e esvaziada, e o abridor jaziam no balcão com duas latas de refrigerante vazias. Havia um vidro de picles vazio que estívera cheio de moedas, mas ninguém sabia disso.

      — Obrigado, doutor. Se eu fosse o senhor, assim que o tempo clareasse viria aqui com uma equipe para instalar uma janela nova e preencheria uma queixa de roubo.

     O líder do esquadrão Alpha cortou a conexão e olhou em torno para sua unidade.

     — Vamos — foi tudo que ele disse. Ele sabia que a cabana e o que  levara reduziam suas chances de ser pego. Calculou que o fugitivo, que deveria ter passado uma hora na cabana contra os 30 minutos de Linnett, deveria estar com uma dianteira de três horas, mas agora se movendo muito depressa.

     Engolindo seu orgulho, decidiu levar alguma cavalaria. Pediu uma pausa e falou novamente com o Forte Lewis.

     — Diga a McChord que quero um Spectre, agora. Empregue toda a autoridade de que precisar; Pentágono, se for preciso. Quero o Spectre sobre os Cascades e falando diretamente comigo.

     Enquanto esperavam pelo seu novo aliado, os 12 homens do Alpha 143 apertaram o passo. O sargento rastreador estava na frente, a lanterna encontrando as pegadas dos sapatos do fugitivo na neve congelada. Estavam avançando o mais rápido que podiam, mas carregando mais equipamento que o homem à sua frente. Linnett estimava que eles estavam avançando depressa, mas estariam ganhando terreno? Então a neve começou a cair. Foi uma bênção e uma maldição. Caindo das coníferas ao redor dos soldados, os flocos de neve cobriram rochas e tocos, permitindo mais uma pausa rápida para trocar de sapatos para esquis, que eram mais rápidos. Mas também apagaram a trilha.

     Linnett precisava de uma mão que o guiasse do céu, e ela chegou logo depois da meia-noite na forma de um avião de ataque Lockheed-Martin AC-130 Hércules, voando a 20 mil pés, acima da camada de nuvens, mas olhando diretamente através dela.

     Entre os muitos brinquedos que as Forças Especiais ganham, o avião de ataque Spector é, do ponto de vista do inimigo no solo, o mais odioso de todos.

     O avião de transporte Hércules original tivera seu interior esvaziado para acomodar uma profusão de dispositivos tecnológicos projetados para localizar e matar um oponente no solo. Eram más notícias num valor de 70 milhões de dólares.

     Em seu primeiro papel, de localizar, não faz diferença se a missão for à luz do dia ou à noite, ou sob chuva, vento, neve, ou granizo. O Sr. Raytheon tivera a gentileza de prover um radar e um captador térmico de imagens, que poderiam reconhecer num terreno qualquer objeto que emita calor corporal. Além disso, a imagem não é um borrão indistinto; e é nítida o bastante para diferenciar um animal de quatro patas de um de duas. Mas não podia compreender a excentricidade do Sr. Lemuel Wilson.

     Ele também tinha uma cabana, bem nos limites da floresta Pasayten, nas colinas mais baixas de monte Robinson. Ao contrário do cirurgião de Seattle, ele se orgulhava de sua capacidade de passar o inverno lá em cima, porque não dispunha de nenhuma casa alternativa urbana.

     Assim, sobrevivia sem eletricidade, com uma lareira para se aquecer e lampiões de querosene para iluminar o ambiente. Todo verão ele caçava pequenos animais e salgava a carne para o inverno. Cortava a própria lenha e catava forragem para seu resistente cavalo montanhês. Mas ele tinha outro hobby.

     Mantinha um equipamento de radioamador, alimentado por um pequeno gerador, para passar as horas de inverno ouvindo as ondas curtas da polícia e dos serviços de emergência. Foi assim que ele ouviu o relato dos dois tripulantes caídos na floresta e das equipes de busca que estavam tentando chegar ao local.

     Lemuel Wilson considerava-se um cidadão responsável, embora as autoridades preferissem o termo enxerido. Assim que os dois aviadores transmitiram seus pedidos de socorro, e as autoridades forneceram suas posições exatas, Lemuel Wilson selou o cavalo e partiu. Pretendia cruzar a metade sul da floresta para alcançar o parque e resgatar o major Duval.

     Como seu equipamento de radioamador era grande demais para ser transportado, não ouviu que os dois aviadores tinham sido resgatados. Mas fez contato humano.

     Ele não viu o homem vir em sua direção. Num segundo estava tocando seu cavalo através de um monte de neve mais profundo que o normal, e no seguinte achou que estava sendo vítima de uma avalanche. Mas era apenas um homem vestido com roupas térmicas prateadas, como um astronauta.

     Um braço em torno de seu pescoço puxou-o do cavalo; enquanto caía, sentiu a lâmina penetrar sua caixa torácica e rasgar seu coração.

     Um captador térmico de imagens funciona bem para detectar calor corporal, mas o cadáver de Lemuel Wilson, largado numa fenda a nove metros do local de sua morte, perdeu rapidamente o calor. Trinta minutos mais tarde, quando o AC-130 Spectre iniciou sua rota circular acima dos Cascades, Lemuel Wilson não foi rastreado por seus sensores.

     — Aqui é Spectre Echo Foxtrot, chamando Esquadrão Alpha, copia, Alpha?

     — Situação cinco — respondeu o capitão Linnett. — Somos 12 aqui embaixo; pode nos ver?

     — Dê um sorriso bonito para eu tirar sua foto -— disse o Operador de infravermelho, seis quilômetros acima deles.

     — Vamos deixar as piadinhas para depois — disse Linnett. — Temos um fugitivo cinco quilômetros ao sul. Sozinho, seguindo para o norte em esquis. Confirma?

     Houve uma pausa.

     — Negativo. Nenhuma imagem — disse a voz no céu.

     — Impossível — argumentou Linnett. — Ele está em algum ponto à nossa frente.

     Os últimos bordos e tamargas tinham ficado bem para trás.

     Eles emergiram da floresta para uma base rochosa, sempre subindo para o norte. Ali a neve caía sem o anteparo dos galhos, Muito atrás deles, engolidos pela escuridão, estavam a montanha Lake e o pico Monument. Os homens de Linnett pareciam figuras fantasmagóricas, mortos-vivos brancos numa paisagem branca. Se Linnett estava tendo dificuldades,  certamente também estaria. Só havia uma explicação para o fato de não ter sido captada qualquer imagem:  buscara abrigo numa caverna ou num buraco coberto de neve. Os esquis estavam deslizando com facilidade pela encosta da montanha e havia mais floresta adiante.

     O Spectre fixou sua posição. A 32 quilômetros da fronteira canadense. A cinco horas da alvorada, ou o que se passava por alvorada naquela terra de neve, picos, rochas e árvores.

     Linnett deu mais uma hora ao Spectre, que circulou e observou, mas não detectou nada para reportar.

     — Cheque de novo — requisitou o capitão Linnett.

     Ele estava começando a pensar que havia alguma coisa errada, Teria  morrido ali em cima? Possivelmente, e aquilo explicaria a ausência de detecção de calor. Estaria escondido numa caverna? Era possível, mas ele só tinha como opções morrer lá ou sair e fugir. E então...

    

     Izmat Khan, obrigando o cavalo arisco e cansado a descer a base rochosa, conseguira aumentar a dianteira. A bússola indicava que estava indo para o norte.

    

     — Estou fazendo uma varredura num arco de 90 graus a partir de vocês — disse o operador do captador de imagens. — Direto até a fronteira. Nesse arco posso ver oito animais. Quatro gamos, dois ursos pretos, cujos sinais estão muito fracos porque estão hibernando em grutas, um possível leão da montanha perambulando e um único alce trotando para o norte. Cerca de seis quilômetros à frente de vocês.

     O problema era que as roupas térmicas do cirurgião funcionavam bem demais. O cavalo, à beira da exaustão, estava suando; mas o homem que o montava, debruçado para a frente ao longo do pescoço do animal para fazê-lo avançar, estava tão bem isolado que se mesclava ao cavalo.

     — Senhor — disse um dos sargentos-engenheiros. — Eu sou de Minessota.

     — Guarde seus problemas para o capelão — esbravejou Linnett.

     — O que quero dizer, senhor — insistiu o rosto coberto de neve ao seu lado —, é que um alce não subiria uma montanha num tempo como este. Ele desceria para o vale para pastar. Não pode ser um alce.

     Linnet ordenou uma parada. Era bem-vinda. Olhou para a neve que caía à sua frente. Não tinha a menor idéia de como o homem conseguia avançar. Talvez outra cabana isolada, cujo dono era um idiota amante de invernos que tinha um estábulo. De algum modo,  conseguira um cavalo e o estava usando para ganhar terreno.

    

     Seis quilômetros à frente, de volta à mata cerrada, Izmat Khan, que emboscara Lemuel Wilson, então teve sua vez de sofrer uma emboscada. O puma era velho, um pouco lerdo para caçar gamos, mas astuto e deveras faminto. Ele saltou de uma pedra entre duas árvores; se não estivesse exausto, o cavalo malhado teria sentido seu cheiro.

     A primeira coisa que percebeu foi que alguma coisa veloz e marrom-amarelada atingira o cavalo e estava descendo pelo lado. O cavaleiro teve tempo de sacar o fuzil da bainha ao lado do cabeçote da sela e se jogar para trás. Desmontou, virou-se, apontou e disparou.

     Teve sorte que o puma investira não contra ele, e sim contra seu cavalo. Contudo,  perdeu a montaria. O animal ainda estava vivo, mas rasgado em torno da cabeça e do dorso por garras com 65 quilos de músculos furiosos. Ele não ia se levantar. Uma segunda bala pôs fim ao seu sofrimento. O cavalo desmoronou, caindo meio de lado sobre o corpo do puma. Não fazia diferença, mas o dorso e as pernas dianteiras da fera estavam debaixo do cavalo.

     Ele desenganchou os sapatos de neve de trás da sela, encaixou-os nas botas, pôs a correia do fuzil no ombro, verificou a bússola e caminhou em frente. Cem metros à frente havia uma protuberância rochosa. Parou para desfrutar brevemente de um abrigo contra a neve.  Não sabia, mas a rocha mascarou sua emissão de calor.

     — Elimine o alce — ordenou o capitão Linnett. — Acho que é um cavalo com o fugitivo em cima dele.

     O operador tornou a estudar a imagem.

     — Tem razão — disse ele. — Posso ver seis pernas. Ele parou para descansar. Agora vai descansar para sempre.

     A seção de destruição do Spectre é provida de três sistemas. O mais pesado de todos é o Howitzer M102 105mm, que é tão poderoso que usá-lo contra um único ser humano seria um pouco excessivo.

     Em seguida vem o canhão Bofors 40mm, derivado da artilharia antiaérea sueca, um repetidor rápido com força suficiente para reduzir prédios ou tanques a fragmentos. A tripulação do Spectre, informada de que seu alvo era um homem a cavalo, escolheu a metralhadora automática Gatling Gau-12 U. Aquele horror dispara 1.800 balas por minuto, cada qual constituindo-se de um projétil de 25mm, e apenas uma é suficiente para dilacerar o corpo de um ser humano. O disparo da metralhadora automática de cinco canos é tão intenso que se fosse usada num campo de futebol americano por 30 segundos, não sobraria nada maior que um camundongo. E o camundongo morreria de choque.

     A altitude máxima para a metralhadora é de 12 mil pés. Assim, o vôo circular do Spectre caiu para 10 mil pés, focou no alvo e disparou por dez segundos, despejando 300 projéteis no corpo do cavalo na floresta.

     — Não restou nada — comentou o operador de captação de imagens. — Homem e animal, ambos mortos.

     — Obrigado, Echo Foxtrot — disse Linnett. — Vamos assumir agora.

     O Spectre, missão cumprida, retornou para a base da força aérea de McChord.

     A tempestade parou. A camada de neve recente possibilitou aos esquis a velocidade atingida por atletas habilidosos, e o esquadrão Alpha logo alcançou os restos do cavalo. Poucos fragmentos eram maiores que o braço de um homem, mas eles definitivamente pertenciam a um cavalo, e não a um humano. Com exceção dos pedaços com pêlo castanho.

     Linnett passou dez minutos procurando fragmentos de casacos, botas, fêmures, crânio, faca de caça, barba ou sapatos de neve.

     Os esquis haviam sido abandonados com um dos pés quebrado. Aquilo fora causado pela queda do cavalo. Havia uma manga de pele de ovelha, mas nenhum sinal de fuzil. Nenhum sapato de neve. Nenhum Afegão.

     Duas horas para a alvorada, e a perseguição tornara-se uma corrida. Um homem usando sapatos de neve, contra 12 em esquis. Todos exaustos, desesperados. O esquadrão Alpha contava com o sistema de posicionamento GPS. Quando o céu começou a clarear um pouco a leste, o terceiro-sargento murmurou:

     — Fronteira a 800 metros.

     Vinte minutos depois chegaram a um penhasco que dava para um vale que ocupava o horizonte da esquerda à direita. Abaixo havia a estrada madeireira que delimitava a fronteira canadense. Bem à frente havia outro penhasco, com uma área devastada próxima a um aglomerado de cabanas de troncos; era uma instalação que seria usada por lenhadores canadenses quando as concessões madeireiras retornassem depois da estação nevada.

     Linnet acocorou-se, estendeu os braços e estudou a paisagem através de binóculos. Nada se movia. A iluminação aumentou.

     Sem esperar por ordens, os francos-atiradores de Linnett retiraram as armas das bainhas onde ficaram guardadas durante toda a missão. Fixaram as miras telescópicas, inseriram uma bala em cada carro e se deitaram de bruços para olhar o vale por meio de suas miras.

     No Exército, os francos-atiradores são uma classe à parte. Jamais se aproximam do homem a quem devem matar, mas os vêem com clareza e proximidade aparentemente maior do que qualquer outro soldado. Com o combate corpo a corpo praticamente extinto, a maioria dos homens morre não pelas mãos dos inimigos, e sim pelo computador deles. Eles são explodidos por um míssil disparado a um continente de distância ou de algum ponto sob o mar. Eles são exterminados por uma bomba inteligente despejada por uma aeronave em uma altitude que não pode ser vista ou ouvida. Eles morrem porque alguém dispara uma bala a dois bairros de distância. Na situação de maior proximidade, assassinos, descarregando de uma metralhadora num helicóptero em vôo rasante, vêem-nos apenas como formas indistintas, correndo, tentando disparar em resposta. Mas não como pessoas de verdade.

     Mas o franco-atirador vê suas vítimas como seres humanos. Deitado em silêncio absoluto, completamente imóvel, observa seu alvo como um homem com barba de três dias, que se espreguiça e boceja, que derrama feijões de uma lata, que abre a braguilha e olha na direção de uma lente que ele não pode ver, porque está a um quilômetro e meio. E então morre. Francos-atiradores são especiais... dentro da cabeça.

     Também vivem num mundo particular. Tornam-se tão obcecados por precisão que mergulham num silêncio povoado apenas por projéteis, potências variadas de cargas de pólvora, o desvio que a força do vento causará na bala, o quanto ela cairá ao longo de distâncias diversas e se mais algum pequeno ajuste pode ser feito no fuzil.

     Como todos os especialistas, eles têm suas paixões particulares por peças de equipamento. Certos francos-atiradores gostam de balas realmente minúsculas, como a M700 de um fuzil Remington 308. A M700 é um projétil tão pequeno que, para ser introduzida no cano, precisa ser acondicionada numa bainha destacável.

     Outros preferem o M21, a versão para francos-atiradores do fuzil de combate padrão Ml4. O mais pesado de todos é o Barrett Light Fifty, um monstro que cospe um projétil do tamanho de um dedo através de um quilômetro e meio com força suficiente para fazer um corpo humano explodir.

     Deitado ao lado dos pés do capitão Linnett estava seu principal franco-atirador, o primeiro-sargento Peter Bearpaw. Ele era um mestiço de índio sioux com mãe espanhola. Viera das favelas de Detroit e o Exército era a sua vida. Tinha molares ressaltados e olhos estreitos como os de um lobo. E era o melhor atirador que os Boinas Verdes tinham.

     Ele estava olhando pela mira de um Cheyenne calibre 408 Cheytac, de Idaho. Apesar de ser uma arma de desenvolvimento muito recente, tornara-se sua preferida devido ao alto desempenho. Era um fuzil manual, o que ele apreciava porque o travamento total de um ferrolho fechado concedia-lhe uma pequeníssima estabilidade a mais no momento da detonação.

     Ele inserira um único projétil, muito longo e fino, depois de polir sua ponta para erradicar a menor vibração em vôo. Ao longo do topo da culatra corria uma mira telescópica Jim Leatherwood X24.

     — Eu tenho ele, capitão — sussurrou.

     Os binóculos não haviam encontrado o fugitivo, mas a mira telescópica sim. Do outro lado do vale, entre as cabanas, com três paredes de madeira e uma única porta de vidro, havia uma cabine telefônica.

     — Alto, cabelos compridos desgrenhados, barba preta cerrada?

     — Positivo.

     — O que ele está fazendo?

     — Está numa cabine telefônica, senhor.

    

     Izmat Khan tivera pouco contato com seus colegas prisioneiros em Guantánamo, mas um com quem passara muitos meses no mesmo bloco de solitárias fora um jordaniano que lutara na Bósnia em meados dos anos 1990, antes de retornar para se tornar treinador nos campos da al-Qaeda. Era linha-dura.

     Quando a segurança afrouxara durante o período de Natal, eles descobriram que podiam sussurrar de uma cela para outra. Se um dia você sair daqui, dissera-lhe o jordaniano, tenho um amigo. Estivemos nos campos de treinamento juntos. Ele é seguro. Ele ajudará um Crente Verdadeiro. Mencione meu nome.

     Havia um nome. E um número de telefone, embora Izmat Khan não soubesse onde seu proprietário morava. Não tinha muita idéia sobre as complexidades de um telefonema a longa distância, para o qual ele dispunha de moedas suficientes. Ele só não conhecia o código de discagem para fora do Canadá. Assim, introduziu uma moeda e pediu para falar com a telefonista.

     — Para que número está tentando ligar, senhor? — disse a telefonista canadense invisível.

     Ele disse.

     — É um número no Reino Unido — disse a telefonista. — O senhor está usando moedas americanas?

     — Sim.

     — Elas são aceitas. Introduza oito moedas e eu completarei a sua ligação. Quando ouvir os bipes, introduza mais moedas caso queira prosseguir a chamada.

    

     — Adquiriu o alvo? — perguntou Linnett.

     — Sim, senhor.

     — Dispare.

     — Ele está no Canadá, senhor.

     — Dispare, sargento.

     Peter Bearpaw respirou lenta e profundamente, segurou o ar nos pulmões e puxou o gatilho. O alcance era de 1.920 metros em ar parado, sem vento. Quase dois quilômetros.

    

     Izmat Khan estava enfiando moedas na ranhura. Ele não estava olhando para cima. O vidro da cabine desintegrou-se em cacos ínfimos e o projétil arrancou o topo do restante de sua cabeça.

     A telefonista foi o mais paciente que conseguiu. O homem na comunidade de lenhadores inserira apenas duas moedas e então deixara o fone dependurado e aparentemente retirara-se da cabine. Por fim, ela não teve escolha senão desligar a ligação e cancelar a chamada.

     Devido às possíveis conseqüências do disparo através da fronteira, nenhum relatório oficial foi feito.

     O capitão Linnett reportou ao seu oficial-comandante, que falou com Marek Gumienny em Washington. Nada mais foi ouvido.

     O corpo foi encontrado no degelo, quando os lenhadores retornaram. O fone dependurado estava desconectado. O legista não pôde fazer muita coisa além de registrar um veredicto aberto. O falecido usava roupas americanas, o que na fronteira não era estranho. Não carregava qualquer documento de identidade; ninguém na região o reconheceu.

     Oficiosamente, a maioria das pessoas do Instituto Médico Legal presumiu que o homem fora vítima da bala perdida de um caçador de gamos; mais uma morte trágica devido a um disparo descuidado ou ricochete. Foi sepultado como indigente.

     Como ninguém ao sul da fronteira queria chamar a atenção para o caso, jamais se pensou em perguntar para que número o fugitivo pedira para ligar. Simplesmente fazer a pergunta iria denunciar a fonte do disparo. Assim, não se fez isso.

     Na verdade, o número que ele queria era o de um pequeno apartamento nas cercanias do campus da Aston University, em Birmingham. Era a casa do Dr. Ali Aziz al-Khattab, e o telefonema estava sob escuta do MI5 britânico. Tudo que eles estavam esperando era por prova suficiente para justificar uma invasão e prisão. Teriam aquela prova dali a um mês. Mas naquela manhã  tentara telefonar para o único homem a oeste de Suez que conhecia o nome do navio fantasma.

    

     DEPOIS DE DUAS SEMANAS, O ENTUSIASMO PELA CAÇADA A UM navio fantasma que aparentemente não existia estava começando a diminuir, e Washington expressou desânimo.

     Mais quanto tempo, problemas e tesouro poderiam ser despendidos por causa de um bilhete vago rabiscado num cartão e enfiado numa mochila de equipamento de mergulho numa ilha da qual ninguém ouvira falar? Marek Gumienny voara até Londres para conferenciar com Steve quando o especialista do SIS em terrorismo mercante, Sam Seymour, ligou do escritório do Registro de Remessa Marítima do Lloyd's, em Ipswich, e piorou ainda mais a situação. Ele mudara de idéia. Hill ordenou-lhe ir até Londres para se explicar.

     — A opção da al-Qaeda usar uma embarcação imensa para bloquear a passagem de uma área vital para arruinar o comércio local sempre foi a mais provável — disse Seymour, — Mas nunca foi a única.

     — Por que você acha que foi a opção errada a tomar? — perguntou Marek Gumienny.

     — Porque, senhor, cada embarcação no mundo grande o bastante para conseguir isso foi verificada. Todas estão seguras. Isso nos deixa as opções dois e três, que são praticamente intercambiáveis, mas com alvos diferentes. Acho que agora devemos pensar na opção três: assassinato em massa numa cidade costeira. A declaração pública de Bin Laden, de que desviaria seu alvo para a economia, pode ter sido uma fraude. Ou ele pode ter mudado de idéia.

     — Certo, Sam, convença-me. Steve e eu temos chefes, políticos exigindo resultados ou nossas cabeças. Que tipo de navio não é uma embarcação de bloqueio?

     — Na número três a carga é ainda mais importante que a embarcação. Não precisa ser tão grande quanto é absolutamente mortal. O Lloyd's tem uma divisão de cargas perigosas... obviamente, isso muda o prêmio.

     — Navio de munição? — perguntou Hill. — Outra devastação, como a de Halifax?

     — Segundo os especialistas, navios militares simplesmente não explodem mais desse jeito. O material moderno precisa de um estímulo imenso para sair do casco. A explosão de uma fábrica de fogos de artifício seria maior, mas não mereceria a palavra espetacular , como no 11 de Setembro. O vazamento químico da cidade de Bhopal foi muito pior, e aquilo foi dioxina, um destruidor mortal de vida vegetal.

     — Explodir com Semtex um caminhão-tanque carregado com dioxina em plena Park Avenue também seria terrível — propôs Hill.

     — Mas esses produtos químicos são fortemente guardados dentro de sua base de fabricação e armazenagem — objetou Gumienny. — Como eles pegariam a carga sem que ninguém notasse?

     — Além disso, nos foi dito especificamente que um navio seria o portador — disse Seymour. — Qualquer seqüestro de uma carga como essa geraria retaliação imediata.

     — Exceto em algumas partes do Terceiro Mundo, que são virtualmente sem lei — disse Gumienny.

     — Mas essas regiões não produzem mais toxinas superletais, senhor.

     — Então, voltamos para um navio? — disse Hill. — A explosão de um superpetroleiro?

     — Petróleo cru não explode — comentou Seymour. — Quando o Torrey Canyon teve seu casco rasgado na costa francesa, foi preciso usar bombas de fósforo para fazer com que o óleo pegasse fogo. O vazamento de um petroleiro causaria danos à ecologia, mas não assassinato em massa. Mas um pequeno navio-tanque de gás poderia fazer isso. Gás líquido, concentrado para transporte.

     — Gás natural, forma líquida? — perguntou Gumienny. Ele estava pensando na quantidade de portos americanos que importavam gás para energia industrial, e o número era atordoante. — Mas, com toda certeza, as docas usadas para esse fim ficam a quilômetros de qualquer concentração populacional.

     — É muito difícil gás natural líquido explodir — discordou Seymour. — É armazenado a 160 graus Celsius negativos em embarcações de casco duplo. Mesmo abrindo uma dessas embarcações, o material teria de vazar para a atmosfera durante horas antes de se tornar combustível. Mas, segundo os especialistas, existe um tipo de gás que é realmente assustador: gás liqüefeito de petróleo, ou GLP. Ele é tão perigoso que um navio-tanque muito pequeno, se incendiado dez minutos depois de uma ruptura catastrófica, iria liberar o poder de 30 bombas de Hiroshima, a maior explosão não-nuclear que já houve neste planeta.

     Fez-se silêncio absoluto na sala sobre o Tâmisa. Steve Hill se levantou, caminhou até a janela e olhou para o rio que reluzia ao sol de abril.

     — Em termos leigos, o que você veio dizer aqui, Sam?

     — Acho que talvez tenhamos procurado o navio errado no oceano errado. Nossa única colher de chá é que esse é um mercado pequeno e muito especializado. Mas os Estados Unidos são o maior importador de GLP. Eu sei que a opinião corrente em Washington é de que estamos correndo atrás do nosso próprio rabo. Os EUA podem checar cada petroleiro de GLP esperado em suas águas, e não apenas do Extremo Oriente. E detê-los até serem abordados. O Lloyd's pode me informar sobre cada carga de GLP no mundo, a partir de qualquer ponto do globo.

     Marek Gumienny pegou o vôo seguinte para Washington. Tinha conferências às quais comparecer e trabalho para fazer. Enquanto decolava de Heathrow, o Countess of Richmond contornava o cabo Agulhas, África do Sul, e entrava no Atlântico.

     O navio fizera uma boa velocidade, e seu navegador, um dos três indonésios, estimava que a corrente Agulhas e a corrente Benguela, que fluía para o norte, concederiam ao Countess um dia extra e tempo suficiente para alcançar seu destino.

     Mais ao longe, nos mares que cercavam o cabo Agulhas, e para o interior do Atlântico, outros navios saíam do oceano Índico seguindo para a Europa ou para a América do Norte. Alguns eram imensos cargueiros de minério; outros eram navios de cargas transportando produtos asiáticos em quantidade cada vez maior, à medida que as indústrias terceirizavam a fabricação para as oficinas de baixo custo do Oriente. Havia ainda os superpetroleiros, grandes demais até para o canal de Suez, seus computadores seguindo a linha de cem braças de leste para oeste enquanto seus tripulantes jogavam cartas.

     Todos eles eram observados. Lá em cima, onde a visão não alcançava, os satélites vagavam pelo espaço, as câmeras retransmitindo para Washington cada palmo de suas estruturas e os nomes em suas popas. Além disso, de acordo com a legislação recente, todos portavam transmissores que emitiam seu chamado individual para quem estivesse na escuta. Cada identificação era verificada, e isso incluía o Countess of Richmond, garantido pelo Lloyd's e pelo Siebart & Abercrombie como um pequeno cargueiro registrado em Liverpool que estava transportando uma carga legítima numa rota prevista de Surabaia para Baltimore. Para os EUA, não havia motivo para investigar mais a fundo; o navio estava a milhares de quilômetros da costa americana.

     Poucas horas depois do retorno de Marek Gumienny a Washington, foram feitas alterações nas precauções americanas. No Pacífico, o cordão de checagem e exame foi movido até uma faixa de 1.600 quilômetros da costa. Um isolamento similar foi estabelecido no Atlântico, de Labrador até Porto Rico, e através do mar do Caribe até a península de Yucatã, no México.

     Sem alarde ou anúncio, a ênfase deixou de ser nos petroleiros e cargueiros gigantes (que a essa altura já haviam sido checados) e passou a ser a miríade de petroleiros menores que singram as águas da Venezuela ao rio Saint Lawrence. Cada EP-3 Orion disponível foi colocado em patrulha costeira, sobrevoando centenas de quilômetros quadrados de mar tropical e subtropical em busca de pequenos navios-tanque, especialmente aqueles que estivessem transportando gás.

     A indústria americana cooperou integralmente, suprindo detalhes sobre cada carga esperada, e onde e quando elas eram aguardadas. Todos os dados eram cruzados com a referência visual dos navios no mar. Os navios-tanque de gás tinham permissão para aportar, mas apenas depois de receber a bordo um grupo de marinheiros, fuzileiros navais ou patrulheiros da Guarda Costeira, que os escoltavam por 320 quilômetros até o porto.

     O Dona Maria estava de volta a Port of Spain, onde os dois terroristas que ele abrigava viram o sinal que haviam sido instruídos a esperar. E então agiram conforme suas ordens. A República de Trinidad e Tobago é um dos principais fornecedores de produtos petroquímicos para os Estados Unidos da América. O Dona Maria estava aportado no terminal de petróleo, uma ilha artificial afastada da costa, construída para permitir que petroleiros grandes e pequenos colhessem suas cargas sem se aproximar da cidade. O Dona Maria era um dos petroleiros menores, parte daquela frota de navios que atendem às ilhas cujas instalações não precisavam ou não podiam acomodar os gigantes. As embarcações grandes traziam o óleo cru venezuelano, que é refinado em suas diversas frações na refinaria na costa, e depois conduzido por oleoduto até a ilha artificial, de onde era carregado para os navios.

     Juntamente com dois outros petroleiros pequenos, o Dona Maria estava numa seção especialmente remota do terminal de petróleo. Afinal de contas, sua carga era toda de GLP, e ninguém queria estar por perto durante o carregamento. A tarde estava no fim quando o Dona Maria terminou de ser carregado e o comandante Montalban preparou-se para zarpar.

     Ainda restavam duas horas de luz tropical no instante em que o Dona Maria desprendeu seus cabos de ancoragem e se afastou do quebra-mar. A um quilômetro e meio da costa, ele passou perto de uma lancha inflável rígida, na qual havia quatro homens sentados com varas de pescar. Era o sinal aguardado.

     Os dois indianos saíram de seus postos, desceram correndo até seus armários e retornaram com pistolas. Um deles seguiu até o poço do petroleiro, onde os embornais ficavam mais próximos da água. Seria por ali que os piratas abordariam o navio.

     O outro indiano foi até o passadiço e apontou sua arma direto para a têmpora do capitão Montalban.

     — Por favor, comandante, não faça nada — disse o indiano com grande cortesia. — Não há motivo para reduzir a velocidade. Meus amigos abordarão em poucos minutos. Não tente enviar nenhuma mensagem, senão terei de atirar em você.

     O comandante simplesmente estava estupefato demais para desobedecer. Ele chegou a olhar para o rádio que ficava num canto do passadiço, mas o indiano flagrou seu olhar e fez que não com a cabeça. Foi o suficiente para sufocar qualquer resistência. Dentro de minutos, os quatro terroristas estariam a bordo e qualquer oposição seria inútil.

     O último homem a sair do barco inflável cortou-o com uma faca, para que afundasse. Os outros três já estavam seguindo à popa, tentando não tropeçar no emaranhado de canos, tubos e escotilhas que definem o convés de vante de um petroleiro.

     Apareceram no passadiço segundos depois dois argelinos e dois marroquinos, aqueles que o Dr. Al-Khattab enviara havia mais de um mês. Eles falavam apenas árabe mouro, e os dois indianos, ainda corteses, traduziram. Os quatro tripulantes sul-americanos deviam ser convocados ao convés de vante, onde teriam de esperar. Uma nova rota marítima seria calculada e seguida.

     Uma hora depois do anoitecer, os quatro tripulantes foram assassinados a sangue-frio. Em seguida, os piratas amarraram correntes aos tornozelos dos corpos e os fizeram ao mar. Se o capitão Montalban nutrira ainda algum espírito de resistência, aquele foi seu fim. As execuções foram mecânicas. Em sua terra natal, os dois argelinos haviam pertencido ao Grupo Islâmico Armado e chacinado centenas de fellagha, fazendeiros do interior que tinham sido assassinados apenas como uma mensagem ao governo em Argel. Homens, mulheres, crianças, enfermos e velhos: eles mataram todos, muitas vezes. Portanto, os quatro tripulantes foram apenas uma formalidade.

     Durante toda a noite o Dona Maria seguiu para o norte, mas não mais para Porto Rico, seu destino marcado. A bombordo ele tinha o litoral caribenho, contínuo até o México. A estibordo, bem perto, estavam os dois arquipélagos chamados de ilhas Windward e Leeward, cujos mares mornos costumam ser considerados apenas pontos turísticos, mas fervilham com centenas de pequenos cargueiros e petroleiros que mantêm as ilhas abastecidas e vivas para os turistas.

     Em meio a esse enxame de cargueiros e ilhas, o Dona Maria iria desaparecer e permanecer desaparecido até que seu atraso fosse registrado em Porto Rico.

     Quando o Countess of Richmond alcançou a região de calmarias próxima ao equador, Yusuf Ibrahim emergiu de sua cabine. Estava pálido e enfraquecido pelo enjôo, mas os olhos negros cheios de ódio eram os mesmos quando ele deu as ordens. A tripulação foi até o depósito que ficava na casa das máquinas e pegou uma lancha. Quando estava completamente pronta, ela foi suspensa pelos dois guindastes acima da popa.

     Foram necessários seis homens, suando e arfando, para erguer o motor externo de 100HP do convés de carga e encaixá-lo na traseira da lancha que, em seguida, foi abaixada para as águas.

     Tanques de combustível foram abaixados e presos com ganchos. Depois de vários alarmes falsos, o motor deu sinal de vida. O navegador indonésio estava ao leme e conduziu a lancha num círculo rápido em torno do Countess.

     Finalmente os outros seis homens desceram até a lancha, deixando apenas o assassino aleijado ao leme. Era evidente que se tratava de um ensaio geral.

     O objetivo do exercício era conduzir o operador de câmera, Suleiman, até 300 metros do cargueiro, para que ele o fotografasse com seu equipamento inteiramente digital. Quando ligado através de seu laptop com o celular com conexão de satélite Mini-M, suas imagens seriam enviadas para um site no outro lado do mundo, para então serem gravadas e retransmitidas.

     Mike Martin sabia ao que estava assistindo. Para o terrorismo, a internet e o espaço virtual haviam se tornado armas de propaganda extremamente úteis. Na visão deles, é bom quando uma atrocidade é comentada num telejornal, mas é maravilhoso quando ela é vista por milhões de jovens muçulmanos em 70 países. É assim que nascem os novos recrutas: jovens vendo acontecer e desejando imitar.

     No castelo Forbes, Martin assistira a gravações transmitidas do Iraque, com os homens-bomba sorrindo para a câmera antes de saírem de carro para cometer suicídio em nome de uma causa. Nessas ocasiões, o operador de câmera sobrevivera; mas no caso da lancha em sua trajetória circular em torno do navio, era claro que o alvo também deveria estar no campo de visão, e a gravação deveria prosseguir até a lancha ser destruída juntamente com os sete tripulantes. Ao que tudo indicava, apenas Ibrahim permaneceria ao leme.

     Contudo, Martin não sabia quando e onde seria o atentado, ou que horror jazia no interior dos contêineres. Ele considerou a idéia de ser o primeiro a voltar para o Countess, deixar o barco inflável à deriva, matar Ibrahim e tomar o cargueiro. Não havia a menor chance de conseguir isso. A lancha era muito mais rápida, e numa questão de segundos os seis homens estariam abordando o navio.

     Quando o exercício terminou, a veloz embarcação foi trazida de volta para bordo e deixada dependurada nos guindastes. O engenheiro aumentou a força dos motores e o Countess seguiu para o norte para contornar a costa do Senegal.

     Recuperado do enjôo, Yusuf Ibrahim passava mais tempo no passadiço, onde os tripulantes reuniam-se para comer. A presença de Ibrahim contribuía para intensificar ainda mais a tensão que vinha pairando no ar.

     Cada homem a bordo tomara a decisão de morrer como shahid, mártir. Mas isso não impedia que a espera e o tédio corroessem seus nervos. Apenas orações constantes e leituras obsessivas do Corão Sagrado permitiam-lhes manter a calma e a crença no que estavam fazendo.

     Ninguém, além do engenheiro de explosivos e Ibrahim, sabia o que havia debaixo dos contêineres de metal que cobriam o convés de vante do Countess of Richmond, desde a frente do passadiço até quase o pico de vante. E apenas Ibrahim parecia saber o destino do navio e o alvo planejado. Restava aos outros sete acreditar que sua glória seria eterna.

     Depois de algumas horas de convívio constante com o comandante da missão, Martin percebeu que vinha sendo o alvo constante do olhar vazio e insano de Ibrahim. E Martin não seria humano se não ficasse inquieto com aquilo.

     Questões inquietantes começaram a assombrá-lo. Teria Ibrahim visto Izmat Khan no Afeganistão? Estaria Ibrahim prestes a lhe fazer algumas perguntas que ele simplesmente não conseguiria responder? Teria Martin errado algumas palavras durante a recitação incessante das preces? Iria Ibrahim testá-lo pedindo para recitar passagens que ele não estudara?

     Na verdade, estava certo em uma parte, errado em outra. O psicopata jordaniano do outro lado da mesa do refeitório jamais vira Izmat Khan, embora tivesse ouvido falar sobre o lendário guerreiro talibã. E não houvera um único erro nas preces de Martin. Ibrahim simplesmente odiava o pashtun por sua reputação em combate, algo que jamais adquirira. Desse ódio nascera um desejo de que  fosse, afinal de contas, um traidor. Porque assim ele poderia ser desmascarado e morto.

     Mas manteve seu ódio sob controle por um dos motivos mais antigos do mundo. Ele temia o homem das montanhas. Embora portasse uma pistola numa bainha debaixo do manto, e houvesse jurado morrer, Ibrahim não conseguia deixar de se sentir intimidado pelo homem de Tora Bora. Assim, ele se manteve a fitá-lo, aguardando, analisando.

    

     Pela segunda vez, a busca do Ocidente pelo navio fantasma, se é que ele realmente existia, redundara em frustração absoluta. Steve Hill estava sendo bombardeado com pedidos de informação, qualquer coisa que pudesse aplacar a frustração em Downing Street.

     O controlador do Oriente Médio não podia oferecer qualquer resposta às quatro questões que lhe eram despejadas pelo primeiro-ministro britânico e pelo presidente americano. O navio existe? Se existe, como é, onde está, e qual cidade será o alvo? As conferências diárias estavam se tornando um inferno na Terra.

     O chefe do SIS, que jamais fora chamado de nenhuma outra forma além de C, mantinha silêncio penoso. Depois de Peshawar, todas as autoridades superiores concordaram que havia um espetáculo terrorista em preparação. Mas no mundo de fumaça e espelhos não existe clemência para aqueles que falham com seus chefes políticos.

     Desde que a alfândega descobrira a mensagem rabiscada no cartão, Crowbar não dava sinais de vida. Estaria morto ou vivo? Ninguém sabia, e alguns estavam deixando de se importar. Já haviam se passado quatro semanas desde o último contato, e a cada novo dia aumentava a tendência de se referir a Crowbar no tempo passado.

     Alguns murmuravam que ele cumprira sua missão, fora capturado e morto, mas conseguira fazer os terroristas cancelarem a operação. Apenas Hill aconselhava cautela e o prosseguimento da procura pela fonte de uma ameaça ainda desconhecida. Um pouco melancólico, Hill guiou o carro até Ipswich para conversar com Sam Seymour e os dois especialistas do Registro do Lloyd's que o estavam ajudando a pensar em cada possibilidade, por mais estranha que fosse.

     — Você usou uma frase bem assustadora lá em Londres, Sam. Trinta vezes a bomba de Hiroshima. Como diabos um petroleiro pequeno pode ser pior do que todo o projeto Manhattan?

     Sam Seymour estava exausto. Aos 32 anos, podia ver uma carreira promissora na inteligência britânica culminando com uma posição nos arquivos do Registro Central, embora estivesse incumbido de um trabalho que a cada dia parecia mais impossível de realizar.

     — Steve, com uma bomba atômica, o dano chega em quatro ondas. O clarão é tão intenso que pode cauterizar a córnea de qualquer espectador que não esteja usando óculos escuros. Depois vem o calor, tão forte que faz tudo em seu rastro se auto-incinerar. A onda de choque derruba prédios a quilômetros, e a radiação gama é de longo prazo, causando carcinoma e deformações. Com a explosão do GLP, você pode esquecer três dessas ondas — a explosão é só calor. Mas é um calor tão poderoso que fará aço escorrer como mel e concreto esfarelar. Já ouviu falar da bomba de combustão aérea? É tão poderosa que faz uma bomba de napalm parecer fraca, embora ambas tenham a mesma fonte: petróleo. O gás liqüefeito de petróleo é mais pesado que o ar. Durante o transporte ele não é mantido a uma temperatura extremamente baixa; é mantido sob pressão, É por causa disso que os navios-tanque de GLP possuem cascos duplos. Se o casco se romper, o gás irá jorrar e se misturar com o ar. Como ele é mais pesado que o ar, ficará rodopiando em torno do local de onde veio, formando uma imensa bomba de combustão aérea. Acenda isso, e a carga inteira explodirá em chamas, chamas terríveis, subindo rapidamente até cinco mil graus centígrados. E então começará a se espalhar. Ela teria seu próprio vento. Ela rolará para longe da fonte, numa onda de fogo, consumindo tudo que estiver em seu caminho até consumir a si mesma. E então, como se fosse a chama de uma vela, diminuirá até morrer.

     — Até onde a bola de fogo alcançará? — perguntou Hill.

     — Bem, segundo meus novos amigos cientistas, um pequeno petroleiro de, digamos, 8 mil toneladas, completamente aberto e incendiado, consumiria tudo e extinguiria toda a vida humana num raio de cinco quilômetros. Uma última coisa. Eu disse que a explosão cria seu próprio vento. Suga o ar da periferia para o centro, alimenta a si mesma, de modo que até humanos que se encontrem dentro de um abrigo a cinco quilômetros do epicentro irão morrer de asfixia.

     Steve Hill visualizou uma cidade construída em torno de uma região portuária sendo vitimada por uma explosão daquela magnitude. Nem os subúrbios sobreviveriam.

     — Esses petroleiros estão sendo verificados?

     — Cada um deles. Grandes, pequenos e minúsculos. A equipe de Carga Perigosa daqui é composta de apenas dois sujeitos, mas eles são bons. Inclusive, estão agora trabalhando no último punhado de navios-tanque de GLP. Quanto aos cargueiros gerais, eles são tão numerosos que tivemos de nos restringir àqueles com mais de dez mil toneladas. Exceto quando entram na zona proibida americana ao longo do litoral. Então os ianques os avistam e investigam. Quanto ao resto, cada grande porto no mundo foi informado de que a Inteligência Ocidental acredita que pode haver um navio seqüestrado, um navio fantasma em alto-mar. De posse dessa informação, todos eles podem tomar suas próprias precauções. Mas, francamente, qualquer porto que a al-Qaeda tenha escolhido para um massacre deve pertencer a um país ocidental e desenvolvido. E que não seja muçulmano, hindu ou budista. Isso reduz nossa lista não-americana de portos possíveis a menos de trezentos.

     Houve uma batida na porta, que foi aberta. Entrou um homem muito jovem, de faces rosadas, chamado Conrad Phipps.

     — Chegamos ao último, Sam. O Wilhelmina Santos, originário de Caracas, levando GLP para Galveston, confirma que está OK. Os americanos estão se preparando para abordar o navio.

     — É isso? — perguntou Hill. — Todos os navios-tanque do mundo que transportam gás liqüefeito de petróleo foram verificados?

     — Eles são poucos, Steve — disse Seymour.

     — Ainda assim, parece que a idéia do GLP era um beco sem saída — disse Hill. Ele se levantou para sair e voltar para Londres.

     — Há mais uma coisa que me preocupa, Sr. Hill — disse o especialista de cargas.

     — Me chame de Steve — disse Hill. Os membros do SIS sempre mantiveram a tradição de se dirigirem uns aos outros, do mais alto ao mais humilde, pelo nome de batismo. A única exceção era reservada ao chefe. A informalidade é uma das características específicas da agência.

     — Bem, há três meses um navio-tanque de GLP foi perdido com todos os tripulantes.

     — Sim?

     — Ninguém viu o navio afundar. Seu comandante usou o rádio para emitir uma mensagem. Disse que sua casa das máquinas estava em incêndio catastrófico e não achava possível salvar o navio. E então... nada. O nome do navio era Java Star.

     — Nenhum destroço? — indagou Seymour.

     — Bem, sim. Alguns. Antes de sair do ar, o comandante deu sua posição exata. O primeiro a chegar à cena foi um navio-frigorífico vindo do sul. Seu comandante reportou ter achado barcos infláveis em chamas, bóias e alguns destroços. Nenhum sinal de sobreviventes. Não tivemos nenhuma notícia do comandante ou da tripulação.

     — Trágico, mas e daí? — indagou Hill.

     — Foi onde aconteceu, senhor... isto é... Steve. No mar de Celebes. A 300 quilômetros de um lugar chamado ilha de Labuan.

     — Droga! — exclamou Steve Hill, e partiu para Londres.

    

     Enquanto ele estava dirigindo, o Countess of Richmond cruzou o equador. Estava seguindo para o norte por noroeste, e apenas seu navegador sabia exatamente para onde. Ele estava seguindo para um ponto a 1.200 quilômetros a oeste de Açores e 3.200 quilômetros a leste da costa americana. Caso se estendesse para oeste, sua trilha o levaria a Baltimore, no topo da vastamente povoada baía de Chesapeake.

     Algumas das pessoas a bordo do Countess iniciaram seus preparativos para entrar no paraíso. Isso envolvia raspar cada pêlo do corpo e escrever seus testamentos de fé. Essas coisas foram feitas diante das lentes da câmera, e os testamentos foram lidos por cada redator. Martin também fez o mesmo, mas optou por falar em pashto. Devido à época em que passara no Afeganistão, Yusuf Ibrahim sabia algumas palavras da língua e se esforçou para entender, mas mesmo se ele tivesse sido fluente não teria encontrado uma palavra errada sequer.

     O homem de Tora Bora falou sobre a destruição de sua família por um foguete americano e do quanto estava feliz por saber que em breve reveria seus parentes, e ao mesmo tempo levaria justiça ao Grande Satã. Enquanto falava, ele se deu conta de que nada daquilo jamais chegaria a qualquer lugar em forma física. Tudo seria transmitido por Suleiman através de um fluxo de dados, antes que ele e seu equipamento também fossem varridos da face da Terra.

     O que ninguém sabia era como eles iriam morrer e que justiça seria feita aos Estados Unidos. As únicas exceções eram o especialista em explosivos e o próprio Ibrahim. Mas eles não revelaram nada.

     Considerando que a tripulação estava sobrevivendo à base de comida enlatada, ninguém notou que um facão de carne de 18 centímetros havia sumido da cozinha do navio.

     Quando não estava sendo observado, Martin afiava silenciosamente sua lâmina com a pedra de amolar na gaveta. Considerou usar a calada da noite para pular a popa para cortar as cordas do guindaste que seguravam o barco, mas rejeitou a idéia.

     Estava com quatro homens que dormiam em beliches no castelo de proa. Sempre havia um timoneiro ao leme, que ficava ao lado do ponto de acesso para se descer pela popa por uma corda. O especialista em rádio vivia em seu pequeno compartimento de comunicações, atrás do passadiço. E o engenheiro estava sempre na casa das máquinas, que ficava abaixo do passadiço na popa. Qualquer um desses podia olhar para fora e vê-lo.

     E o dano seria notado. Um sabotador seria identificado imediatamente. A perda do barco seria um empecilho, mas não o suficiente para abortar a missão. E talvez houvesse tempo para reparar os danos. Martin desistiu da idéia mas manteve a faca, embrulhada num pano e amarrada às suas costas. A cada turno no passadiço, ele tentava descobrir para qual porto estavam indo e o que havia dentro dos contêineres que poderia tentar sabotar. Não obteve nenhuma resposta, e o Countess manteve o curso para o norte por noroeste.

    

     A caçada global foi modificada e estreitada. Todos os gigantes do mar, todos os petroleiros e navios-tanque de gás foram checados e verificados. Os transmissores de identificação responderam da forma esperada; os cursos corresponderam às suas jornadas previstas; três mil comandantes de navio comunicaram-se verbalmente com seus escritórios centrais e agentes, oferecendo dados pessoais que confirmavam suas identidades e o fato de que não estavam sob o domínio de seqüestradores.

     Os EUA, sua Marinha, fuzileiros navais e a Guarda Costeira, exigidos ao máximo de sua capacidade sem licenças ou folgas, estavam abordando e escoltando cada navio de carga que tencionasse ancorar num dos portos principais. Isto estava causando inconveniência econômica, mas não grande o bastante para gerar danos reais à maior economia do planeta.

     Depois da sugestão de Ipswich, a origem e a propriedade do Java Star foram checadas minuciosamente. Como era pequena, a companhia proprietária do navio escondia-se por trás de uma empresa de fachada alojada num banco que se revelou uma placa de metal num paraíso fiscal no Extremo Oriente. A refinaria de Bornéu que provera aquela carga era legítima, mas sabia muito pouco a respeito do navio em si. Seus construtores foram rastreados — ele tivera seis proprietários em sua existência — e forneceram plantas. Um navio gêmeo foi encontrado e invadido por americanos com fitas métricas. Com computação gráfica, técnicos produziram uma réplica exata ao Java Star.

     Os inspetores foram visitar o governo da bandeira de conveniência que o Java Star usava da última vez que fora avistado. Mas era uma república polinésia e os inspetores logo ficaram convencidos de que o navio nunca estivera lá.

     O mundo ocidental precisava de respostas a três perguntas: o navio estava realmente desaparecido? Se não estava, onde se encontrava então? E qual era seu novo nome? Os satélites KH-11 foram instruídos a estreitar sua busca para alguma embarcação que se assemelhasse ao Java Star.

     Na primeira semana de abril, a operação conjunta na base da força aérea de Edzell, na Escócia, estava paralisada. Não havia nada que ela pudesse fazer que não estivesse sendo feito mais oficialmente pelas principais agências ocidentais de inteligência.

    

     Michael McDonald retornou aliviado para sua Washington natal. Ele permaneceu com a caçada ao navio fantasma, mas a partir de Langley. Parte da missão da CIA era de interrogar novamente todos os prisioneiros de qualquer um de seus centros de detenção que pudessem, antes de sua captura, ter ouvido alguma coisa a respeito de um projeto chamado Al-Isra. E eles recorreram a todas as fontes que tinham no mundo sombrio do terrorismo islâmico. Não descobriram nada. A frase que se referia à jornada mágica através da noite até a grande iluminação parecia ter nascido e morrido com o egípcio financiador do terrorismo que em outubro pulara da sacada de um prédio em Peshawar.

     Lamentavelmente, presumia-se que o coronel Mike Martin estava desaparecido em ação. Ele nitidamente fizera tudo que estivera ao seu alcance, e se o Java Star ou outra bomba flutuante fosse descoberta em rota para os Estados Unidos, ele seria considerado bem-sucedido. Mas ninguém esperava vê-lo novamente. Simplesmente fazia tempo demais desde seu último sinal de vida por meio da mochila de equipamento de um mergulhador em Labuan.

    

     Três dias antes da reunião do G8, a paciência do alto escalão finalmente chegou ao fim, particularmente com a busca global baseada na orientação dos britânicos. Marek Gumienny, em seu escritório em Langley, telefonou para Steve Hill por uma linha segura e deu as notícias.

     — Steve, sinto muito. Sinto muito por você e ainda mais por seu agente, Mike Martin. Mas a opinião geral aqui é de que ele esteja morto. Além disso, depois da maior caçada global por navios mercantes de todos os tempos, também acham que ele estava errado.

     — E a teoria de Sam Seymour? — indagou Hill.

     — Mesma coisa. Nós já verificamos cada petroleiro no planeta, em todas as categorias. Falta localizar cerca de 50 petroleiros, e então estará acabado. Qualquer que fosse o significado dessa frase Al-Isra, nós jamais iremos descobrir, ou a operação que levava esse nome foi descontinuada. Espere um pouco... Tem alguém na outra linha.

     Depois de alguns instantes, ele voltou.

     — Tem um navio atrasado. Saiu de Trinidad para Porto Rico. Era para ter chegado ontem. Nunca apareceu. E não responde aos chamados.

     — Que tipo de navio? — perguntou Hill.

     — Tanque. Três mil toneladas. Olhe, ele pode ter ido a pique. Mas vamos checar agora.

     — O que estava carregando? — perguntou Hill.

     — Gás liqüefeito de petróleo — foi a resposta.

     Foi um satélite Keyhole KH-11 que achou o navio, seis horas depois da queixa de Porto Rico ao escritório central dos proprietários da refinaria, baseada em Houston, ter-se transformado numa situação de alarme.

    

     Varrendo o leste do Caribe com suas câmeras e sensores de escuta checando uma área de 800 quilômetros de mar e ilhas, o Keyhole ouviu um sinal de transmissor vindo lá de baixo, e seu computador confirmou que ele era emitido pelo navio desaparecido, o Dona Maria.

     A informação foi repassada instantaneamente para uma variedade de agências, motivo pelo qual Marek Gumienny foi interrompido durante seu telefonema para Londres. Outras instituições no circuito incluíam o QG do Socom em Tampa, Flórida, a Marinha americana e a Guarda Costeira. Todos receberam a localização exata do navio desaparecido.

     Por não terem desligado o transmissor de sinal, os seqüestradores ou foram muito estúpidos ou contaram com a sorte. Na verdade, apenas seguiram ordens. Com o transmissor emitindo, informavam seu nome e posição. Com o aparelho desligado, tornavam-se imediatamente suspeitos de serem um possível navio pirata.

     O pequeno navio-tanque de GLP ainda estava sendo navegado e conduzido por um aterrorizado comandante Montalban, há quatro dias sem dormir, salvo alguns cochilos antes de ser acordado a chutes. O navio passara por Porto Rico em meio à escuridão, passara a oeste das ilhas Turk e Caico e durante algum tempo perdera-se em meio à miríade de 700 ilhas que compõem as Bahamas.

     Quando foi encontrado pelo Keyhole, o Dona Maria rumava para oeste, logo ao sul de Bimini, a ilha mais a oeste do arquipélago.

     Em Tampa, seu curso foi analisado e projetado para a frente. Seguia direto para a boca aberta do porto de Miami, uma via aquática que conduz ao coração da cidade.

     Em dez minutos, o pequeno navio-tanque estava atraindo companhia verdadeira. Um P-3 Orion, que decolara da estação aeronaval em Key West, encontrou o Dona Maria, baixou alguns milhares de pés e começou a circular, filmando-o de todos os ângulos possíveis. Apareceu numa imensa tela de plasma na penumbra da sala de operações em Tampa, quase em tamanho real.

     — Deus do céu, olha só aquilo — murmurou um operador.

     Enquanto o navio estava no mar, alguém fora até a popa com um pincel e pintara uma faixa branca sobre a letra i em Maria. Fora uma tentativa de rebatizá-lo de Dona Marta, mas a mancha branca era tão tosca que não enganaria nenhum observador por mais de alguns segundos.

     Há duas lanchas da Guarda Costeira operando a partir de Charleston, Carolina do Sul, ambas da classe Hamilton e ambas no mar. São o 717 USCG Mellon e seu navio gêmeo, o Morgenthau. Encontrando-se mais próximo, o Mellon manobrou em direção ao fugitivo seqüestrado, passando de velocidade de cruzeiro para velocidade de perseguição. O navegador rapidamente calculou a interceptação para dali a 90 minutos, imediatamente antes do pôr-do-sol.

     A palavra lancha não faz justiça ao Mellon; com seus 150 metros de comprimento e 3.300 toneladas de sobrecarga, alcança o desempenho de um pequeno destróier. Enquanto varava as ondas de começo de abril do Atlântico, a tripulação preparava seu armamento... apenas por precaução. O navio-tanque desaparecido já estava classificado como possivelmente hostil .

     O arsenal do Mellon é considerável. O mais leve de seus três sistemas é a metralhadora Gatling 20mm que expele uma rajada de projéteis tão impressionante que costuma ser usada como arma antimísseis. Teoricamente, mesmo um foguete em rota de colisão seria destroçado ao voar em direção àquele enxame de projéteis. Mas o canhão Phalanx não pode ser usado contra mísseis; ele é capaz de destroçar praticamente qualquer coisa, mas precisa estar bem próximo ao alvo.

     A embarcação também carregava dois canhões Bushmaster 25mm, não tão rápidos, porém mais poderosos e suficientes para estragar completamente o dia de um pequeno navio-tanque. E ele também abrigava, montado no convés, um canhão Oto Melara 76mm de disparo rápido. Quando o Dona Maria apareceu como um pontinho no horizonte, todos os três sistemas estavam preparados. Eram armas que até então tinham sido usadas apenas para treinamento, e se obrigados a dizer a verdade, cada um de seus operadores admitiria estar louco para usá-las numa ação real.

     Com o Orion acima deles, fornecendo todos os dados em tempo real e repassando as imagens para Tampa, o Mellon contornou a popa do navio-tanque e apareceu à frente dele, reduzindo a velocidade de cruzeiro a menos de 200 metros do alvo.

     Então o Mellon usou seu megafone para chamar pelo Dona Maria.

     — Navio-tanque não identificado, aqui é o navio Mellon da Guarda Costeira dos Estados Unidos. Parem. Repito, parem. Vamos subir a bordo.

     Binóculos poderosos puderam captar a figura que estava ao leme do navio; mais duas figuras flanqueavam o homem. Não houve resposta. O navio-tanque não reduziu sua velocidade. A mensagem foi repetida.

     Depois da terceira mensagem, o comandante ordenou que um único projétil fosse disparado no mar à frente da proa do navio-tanque. Quando um jorro de água se derramou sobre o pico de vante, encharcando as lonas com as quais alguém tentara, em vão, esconder a rede de canos e tubos que traíam o propósito de um navio-tanque, os homens no pico de vante do Dona Maria devem ter entendido a mensagem. Mesmo assim, o navio não parou.

     Então duas pessoas apareceram na porta do castelo de proa, logo atrás do passadiço. Um empunhava uma metralhadora M60. Era um gesto inútil que acabou selando o destino do navio-tanque. O homem era claramente de aparência norte-africana, e estava nítido ao sol poente. Disparou uma rajada curta que passou por cima do Mellon, e então levou no peito uma bala de uma das quatro carabinas M-16 empunhadas pelos homens no convés do Mellon.

     Foi o fim das negociações. Enquanto o corpo do argelino caía para trás e alguém fechava a porta de ferro pela qual ele saíra, o comandante do Mellon pediu permissão para afundar o navio fugitivo. Mas a permissão foi negada. A mensagem da base foi inequívoca.

     — Afaste-se do navio inimigo. Faça distância agora e faça rápido. Ele é uma bomba flutuante. Reassuma posição a um quilômetro e meio do navio-tanque.

     A contragosto, o Mellon deu meia-volta, assumiu pleno vapor e deixou o navio-tanque entregue ao seu destino. Os dois Falcons F-16 já estavam no ar, e a três minutos de distância.

     Há um esquadrão na base da força aérea de Pensacola no cabo da Flórida que se mantém em prontidão para combate 24 horas ao dia. É usado principalmente contra traficantes de drogas que tentam penetrar na Flórida e nos estados circunvizinhos, pelo ar e às vezes pelo mar, transportando (principalmente) cocaína.

     Eles saíram do sol poente para um céu negro e limpo, travaram suas miras no navio-tanque a oeste de Bimini e armaram seus mísseis Maverick. Os instrumentos do piloto mostraram que os mísseis inteligentes estavam travados no alvo. A morte do navio-tanque seria muito mecânica, muito precisa, muito desprovida de emoção.

     O líder emitiu uma ordem curta e ambos os Mavericks desprenderam-se de seus suportes abaixo dos caças de combate e seguiram em direção a seus alvos. Segundos depois, duas ogivas envolvendo 135 quilos de más notícias acertaram o navio-tanque.

     Embora a carga do Dona Maria não estivesse misturada com ar para obter potência máxima, as detonações dos Mavericks nas profundezas do petroleiro foram suficientes.

     A um quilômetro e meio de distância, os tripulantes do Mellon observaram o Dona Maria inflamar como uma tocha. Ficaram muito impressionados. Sentiram a lufada de calor em seus rostos e o fedor de gasolina concentrada em chamas. Foi rápido. Não restou nada para ficar fumegando na superfície. A popa e a proa do navio-tanque desceram como duas peças separadas de lixo derretido. O restante de seu combustível pesado tremeluziu por cinco minutos, e então o mar o clamou por inteiro.

     Exatamente conforme o plano de Ali Amin Al-Khattab.

    

     No espaço de uma hora, o presidente dos EUA foi interrompido num banquete oficial com uma mensagem breve ao pé do ouvido. Ele fez que sim com a cabeça, exigiu um relatório verbal completo na Sala Oval na manhã seguinte e voltou a tomar sua sopa.

     Às cinco para as oito, o diretor da CIA foi conduzido à Sala Oval, acompanhado por Marek Gumienny, que estivera naquela sala duas vezes antes, e ainda ficava impressionado com ela. O presidente e os outros cinco ou seis diretores estavam lá.

     As formalidades foram breves. Marek Gumienny foi instruído a reportar sobre o progresso e o término de um longo exercício de antiterrorismo conhecido como Crowbar.

     Ele foi sucinto, ciente de que o homem sentado debaixo da janela redonda que dava vista para o Rose Garden, com seus 15 centímetros de vidro à prova de balas, odiava explicações longas. A regra era sempre 15 minutos, e então cale a boca. Marek Gumienny resumiu as complexidades do Crowbar a doze.

     Quando parou, houve silêncio.

     — Então o palpite dos britânicos estava certo? — finalmente disse o vice-presidente.

     — Sim, senhor. O agente que eles infiltraram na al-Qaeda, um oficial muito corajoso que eu tive o privilégio de conhecer no último outono, presumivelmente está morto. Se não estivesse, teria demonstrado sinal de vida a esta altura. Mas ele transmitiu a mensagem. A arma terrorista era realmente um navio.

     — Eu não fazia a menor idéia de que havia cargas táo perigosas sendo transportadas diariamente ao redor do mundo — confessou o secretário de Estado no silêncio que se seguiu.

     — Nem eu — disse o presidente. — Agora, em relação à Conferência do G8, que conselho vocês me dão?

     O secretário de Defesa olhou para o diretor da Segurança Nacional e assentiu com a cabeça. Eles claramente já haviam planejado o passo seguinte.

     — Senhor presidente, temos todos os motivos para acreditar que a ameaça terrorista a este país, que nitidamente visava à cidade de Miami, foi destruída ontem à noite. O perigo acabou. Quanto ao G8, durante toda a conferência o senhor estará sob a proteção da Marinha, que deu sua palavra de que nada de mal irá lhe acontecer. Portanto, o nosso conselho é que dê prosseguimento ao G8 sem nenhuma preocupação na cabeça!

     — Ora, é exatamente isso o que vou fazer — disse o presidente dos EUA.

    

     PARA DAVID GUNDLACH, SEU TRABALHO ERA O MELHOR DO MUNDO. Bem, pelo menos o segundo melhor. Ostentar aquela quarta medalha de ouro na manga ou na dragona e ser o comandante do navio seria ainda melhor. Mas estava muito feliz em ser o imediato.

     Numa noite de abril, de pé na ala de estibordo do passadiço imenso, baixou os olhos para ver a multidão que fervilhava na doca do novo terminal Dois do Brooklyn, 60 metros abaixo. O Brooklyn não estava acima dele; como se estivesse no topo de um prédio de 23 andares, podia ver a maior parte do bairro.

     O píer 12 no canal Buttermilk, que estava sendo inaugurado naquela exata manhã, não é uma doca pequena, mas aquele navio de passageiros ocupava sua maior parte. Com 345 metros de comprimento, com até 40 metros de largura de casco e 30 metros de casco abaixo d água — o que requisitara que o canal fosse inundado ao máximo para que ele pudesse passar —, a embarcação era, por uma ampla margem, o maior navio de passageiros em operação. Quanto mais o imediato Gundlach, em sua primeira viagem desde que fora promovido, olhava para o navio, mais magnífico ele parecia.

     Abaixo e ao longe, na direção das ruas além dos prédios do terminal, o imediato conseguia divisar as faixas dos manifestantes frustrados e furiosos. A polícia de Nova York demonstrara uma competência incrível ao estabelecer um cordão de isolamento em torno do terminal inteiro. Os barcos da polícia portuária contornavam o terminal no nível do mar para garantir que nenhum manifestante pudesse aproximar-se de barco.

     Mesmo se pudessem aproximar-se, isso não lhes adiantaria de nada. O casco de aço do navio de passageiros simplesmente avultava-se muito acima da superfície da água, com as escotilhas inferiores a mais de 15 metros de altura. Portanto, as pessoas que iriam embarcar naquela noite poderiam fazê-lo em absoluta privacidade.

     Não que elas interessassem aos manifestantes. Até agora o navio de passageiros estava recebendo a bordo apenas os participantes de nível inferior: estenógrafos, secretárias, diplomatas juniores, consultores especiais e todas as formigas humanas sem as quais os grandes e poderosos do mundo não poderiam discutir fome, pobreza, segurança, barreiras comerciais, defesa e alianças.

     Quando a noção de segurança lhe passou pela mente, David Gundlach franziu a testa. Ele e seus colegas oficiais haviam passado o dia escoltando um número imenso de agentes do Serviço Secreto americano por cada centímetro do navio. Todos tinham a mesma aparência; todos mantinham expressões de curiosidade absoluta, todos falavam com suas mangas, onde havia microfones escondidos, e todos recebiam suas respostas naqueles fones de ouvido sem os quais se sentiam nus. Gundlach finalmente concluiu que eles eram paranóicos profissionais... e não haviam encontrado nada errado.

     Os antecedentes dos 1.200 tripulantes tinham sido checados, sem que nenhuma evidência negativa tivesse sido achada contra qualquer um deles. O apartamento grand dúplex, reservado para o presidente dos EUA e para a primeira dama, já estava trancado e guardado pelo Serviço Secreto, tendo sido vasculhado centímetro por centímetro.

     Foi somente depois de ver o apartamento que o imediato David Gundlach teve uma noção real do casulo que envolvia aquele presidente todo o tempo.

     Ele olhou o relógio. Faltavam duas horas para completar o embarque dos três mil passageiros, antes que fosse a vez de chegarem os oito chefes de estado ou governo. Como os diplomatas em Londres, o imediato estava admirando a simplicidade da idéia de fretar o maior e mais luxuoso navio de passageiros do mundo para sediar a maior e mais prestigiosa conferência de todos os tempos; e fazer isso durante uma travessia de cinco dias pelo Atlântico, de Nova York até Southampton.

     A inovação surpreendeu todas as forças que todos os anos buscavam levar o caos à Conferência do G8. Melhor que uma montanha, melhor que uma ilha, com acomodação para 4.200 almas, o Queen Mary II era intocável.

     Gundlach ficaria ao lado de seu comandante enquanto as sirenas Typhoon soassem seu dó gravíssimo para se despedir de Nova York. Ele faria os ajustes necessários aos seus quatro motores, e o comandante, usando apenas um pequeno joystick no painel de controle, poria o navio em movimento para o East River e em seguida manobraria para o Atlântico. Os controles do Queen Mary II eram tão delicados, e seus dois motores de popa tão versáteis, que ele não precisava de rebocadores para sair do terminal.

    

     Muito a leste, o Countess of Richmond estava passando pelas ilhas Canárias, a estibordo. As ilhas de turismo para tantos europeus que buscavam afastar-se da neve e do gelo de suas terras natais, para encontrar o sol de dezembro ao longo da costa africana, estavam fora de vista. Mas o cume do monte Tiede podia ser visto no horizonte com binóculos.

     O navio tinha à frente mais dois dias de viagem até seu encontro com a História. O navegador indonésio instruíra seu compatriota na casa de máquinas a cortar força para reduzir a velocidade, e estava se movendo a um ritmo lento pelas ondas gentis da noite de abril.

     O cume do monte Tiede saiu de vista e o timoneiro desviou mais alguns graus para o porto onde, a 2.500 quilômetros, jazia a costa americana. Lá do espaço, ele foi avistado mais uma vez; e novamente, quando consultados, os computadores leram seu transmissor de sinal, checaram os registros, consideraram sua posição em alto-mar inofensiva e repetiram seu nível de segurança: navio mercante legítimo, nenhum perigo.

    

     A primeira comitiva nacional a chegar foi a do primeiro-ministro japonês. Conforme o combinado, eles haviam voado diretamente de Tóquio para o aeroporto Kennedy. Permanecendo fora da visão e longe do barulho dos manifestantes, o primeiro-ministro e sua comitiva foram transferidos para as cabines de passageiros de uma pequena frota de helicópteros que os conduziram direto para fora da baía Jamaica até o Brooklyn.

     A zona de pouso encontrava-se dentro do perímetro dos grandes salões e galpões que compunham o novo terminal. Do ponto de vista dos japoneses, os manifestantes do outro lado das barreiras, gritando silenciosamente suas mensagens, sumiram de vista. Enquanto o estrondo das hélices abaixava para um zumbido gentil, a delegação foi saudada pelos oficiais do navio ao longo do túnel coberto até a entrada na lateral do casco; e dali para uma das suítes reais.

     Os helicópteros partiram para o Kennedy a fim de recolher os canadenses que haviam acabado de chegar.

     David Gundlach permaneceu no passadiço, 45 metros de lado a lado com imensas janelas panorâmicas para o mar. Embora o passadiço estivesse a 60 metros acima do mar, os limpadores na frente de cada janela revelavam que quando a proa do Queen atingia as ondas de 18 metros do Atlântico no meio do inverno, o jorro de água chegava àquela altura.

     Mas segundo a previsão do tempo, aquela travessia seria tranqüila, com ondas pequenas e ventos leves. O navio de passageiros faria a rota do Grande Círculo, sempre mais popular entre os hóspedes por seu clima e mar mais amenos. O navio seguiria em arco pelo Atlântico em seu ponto mais curto e mais ao sul, logo ao norte de Açores.

     Os russos, franceses, alemães e italianos sucederam uns aos outros em seqüência, e a noite caiu quando os britânicos, proprietários do Queen Mary II, usaram os últimos vôos de helicóptero.

     O presidente dos EUA, o anfitrião do jantar inaugural, que se daria um pouco depois das oito da noite, chegou às seis em ponto no helicóptero azul-escuro da Casa Branca. Uma banda da Marinha reunida no cais tocou Hail to the Chief enquanto o presidente entrava no navio, para que as portas de aço o isolassem do mundo exterior. Às seis e meia, as últimas amarras foram soltas e o Queen, todo enfeitado e aceso como uma cidade flutuante, começou a se mover para o East River.

     As pessoas que estavam nas embarcações menores no rio e nas ruas externas assistiram à saída do navio e acenaram. Muito acima deles, por trás de vidros reforçados, os líderes das oito nações mais ricas do mundo acenaram em resposta. A Estátua da Liberdade, iluminada em toda a sua glória, passou deslizando, as ilhas se afastaram e o Queen aumentou pouco a pouco sua potência.

     Os dois cruzadores de mísseis da Marinha americana que escoltariam o Queen assumiram suas posições a aproximadamente um quilômetro a cada lado do navio, e se anunciaram ao comandante. A bombordo estava o USS Leyte Gulfe a estibordo o USS Monterey. De acordo com o protocolo marítimo, o comandante do Queen Mary reconheceu sua presença e agradeceu. Então saiu do passadiço e foi se trocar para o jantar. David Gundlach tinha o leme e o comando.

     Não haveria submarino de escolta, porque aquele não era um grupo de cargueiros, e o submarino estaria ausente por dois motivos. Nenhuma nação possuía um submarino que pudesse fugir à capacidade de detectar e afundar de um cruzador de mísseis, e o Queen era rápido demais para ser acompanhado por qualquer submarino.

     Quando as luzes de Long Island começaram a sumir no horizonte, o imediato Gundlach aumentou a potência das máquinas. Os quatro motores, com seus 157 mil cavalos de força somados, podiam empurrar o Queen até 30 nós, caso necessário. A velocidade normal do Mary é de 25 nós, e os cruzadores precisariam forçar seus motores ao máximo para acompanhá-lo.

     No céu surgiu a escolta aérea: um Hawkeye E-2C da Marinha americana, com sensores de radar que varreriam a superfície do Atlântico por 800 quilômetros em qualquer direção em torno do comboio. E um Prowler EA-6B capaz de interferir em qualquer sistema de armamento ofensivo que ousasse seguir o comboio e destruí-lo com mísseis HARM.

     A cobertura aérea seria reabastecida no ar até ser substituída por aviões idênticos vindos da base americana em Açores. Esses continuariam patrulhando até serem rendidos por aviões britânicos. Tudo fora previsto.

     O jantar foi um sucesso triunfal. Os estadistas sorriram, as esposas brilharam, a comida foi soberba e taças de cristal foram enchidas com vinhos das melhores safras.

     Seguindo o exemplo do presidente americano, os convidados retiraram-se cedo, para se recuperar dos longos vôos daquele dia.

     Na manhã seguinte a Conferência foi iniciada. O Royal Court Theatre fora transformado para acomodar as oito delegações, com o pequeno exército de lacaios que cada uma parecia precisar.

     A segunda noite foi como a primeira, salvo que o anfitrião foi o primeiro-ministro britânico no Queen's Grill, o restaurante com capacidade para 200 pessoas. As de menor eminência espalharam-se pelo imenso restaurante Britannia ou pelos diversos pubs e bares que também serviam comida. Os mais jovens, livres de seus labores diplomáticos, compareceram depois do jantar ao Queen's Ballroom ou ao clube noturno G32.

     Acima deles, a maioria das luzes estava apagada no passadiço que David Gundlach comandava durante a madrugada. Aberta à frente dele, logo abaixo das janelas de vante, estava a série de telas de plasma que descreviam cada sistema no navio.

     De todos esses, o principal era o radar do navio, lançando seu olhar por 40 quilômetros em todas as direções. Ele podia ver os bipes emitidos pelos dois cruzadores a cada um de seus lados, e para além deles, os bipes de outras embarcações cuidando de seus negócios.

     O Queen Mary também tinha à sua disposição um sistema de identificação automática que leria o transmissor de sinal de qualquer embarcação a muitos quilômetros, e um computador de cruzamento de dados baseado nos registros do Lloyd's identificaria não apenas o nome do navio, como também a rota e carga, além de seu canal de rádio.

     A cada lado do Queen, também em passadiços escurecidos, operadores de radar dos dois cruzadores debruçavam-se sobre suas telas com as mesmas tarefas. Seu dever era garantir que nada remotamente ameaçador chegasse perto do monstro imenso entre eles. Mesmo para um cargueiro inofensivo e identificado, o limite de aproximação era de três quilômetros. Naquela noite não havia nada a menos de dez quilômetros.

     A imagem captada pelo Hawkeye E-2C era inevitavelmente maior devido à sua altitude. Era como um imenso foco circular movendo-se sobre o Atlântico de oeste a leste. Mas grande parte do que ele via estava a quilômetros de distância e nem um pouco próximo ao comboio. O que ele podia fazer era criar um corredor de 16 quilômetros à frente dos navios em movimento, e dizer aos cruzadores o que havia adiante. Para propósitos de realismo, ele também escolheu um limite para essa projeção. Era de 40 quilômetros, ou uma hora de navegação.

     Um pouco depois das 11, na terceira noite, o Hawkeye soou um alerta de nível baixo.

     — Há um pequeno cargueiro 40 quilômetros à frente, 4 quilômetros ao sul da trajetória pretendida. Parece imóvel na água.

    

     O Countess of Richmond não estava completamente imóvel. Os motores estavam ajustados para meia-nau, de modo que suas hélices encontravam-se inertes na água. Mas havia uma corrente de quatro nós que dava ao Countess impulso suficiente para manter seu curso para o oeste.

     O bote inflável estava na água, amarrado a bombordo do navio, com uma escada de cordas e tábuas descendo do costado até o mar. Quatro homens já estavam no bote, embalados pela corrente ao lado do casco do cargueiro.

     Os outros quatro estavam no passadiço. Ibrahim se encontrava ao leme, olhando o horizonte, procurando pelo primeiro brilho das luzes em aproximação.

     O especialista em rádio indonésio estava ajustando o microfone transmissor para aumentar sua potência e clareza. Ao seu lado estava o adolescente paquistanês nascido e criado num subúrbio da cidade de Leeds, Inglaterra. O quarto era Martin. Quando o especialista em rádio se deu por satisfeito, dirigiu um meneio de cabeça ao rapaz, que retribuiu o gesto e sentou numa banqueta ao lado do painel do navio. Ficaria ali, esperando pelo chamado.

     Ele veio do cruzador varando o mar a um quilômetro e cem metros a estibordo do Queen.

    

     David Gundlach ouviu alto e claro, assim como todos que estavam na vigília noturna. O canal usado era a freqüência comum para navios no Atlântico Norte. A voz tinha sotaque do sul dos Estados Unidos.

     — Countess of Richmond, Countess of Richmond, aqui é o cruzador da Marinha dos Estados Unidos, Monterey. Você me copia?

     A voz que retornou estava ligeiramente distorcida pelo equipamento de rádio ultrapassado do velho cargueiro. E a voz tinha as vogais graves características de Lancashire ou talvez Yorkshire.

     — Sim, Monterey. Countess aqui.

     — Você parece estar à deriva. Esclareça sua situação.

     — Countess of Richmond. Tivemos um superaquecimento... consertando... o mais rápido... podemos...

     Houve um silêncio breve no passadiço do navio de passageiros. Então...

     — Diga novamente, Countess of Richmond, eu repito, diga de novo...

     A resposta chegou e o sotaque estava mais carregado que nunca. No passadiço do Queen, o imediato tinha o bipe entrando em sua tela de radar ligeiramente a sul e para a frente, e a 50 minutos de percurso. Outro mostrador dava todos os detalhes do Countess of Richmond, incluindo confirmação de que seu transmissor de sinal era genuíno e preciso. Ele entrou na comunicação de rádio.

     — Monterey, este é o Queen Mary II. Deixe-me tentar.

     David Gundlach nascera e fora criado no condado de Cheshire, a menos de 80 quilômetros de Liverpool. Ele calculou que a voz do Countess tinha um sotaque de Yorkshire ou Lancashire, que era vizinho de sua nativa Cheshire.

     — Countess of Richmond, aqui é o Queen Mary II. Ouvi que vocês tiveram um aquecimento do motor principal e que estão realizando reparos no mar. Confirme.

     — Sim, isso mesmo — disse a voz no alto-falante, com seu sotaque quase incompreensível. — Devemos terminar dentro de uma hora.

     — Countess, dê seus detalhes, por favor. Porto de registro, porto de partida, destino, carga.

     — Queen Mary, estamos registrados em Liverpool, oito mil toneladas, cargueiro de cargas gerais, vindo de Java com bordados e madeiras orientais, seguindo para Baltimore.

     Gundlach correu os olhos pelas informações na tela, fornecidas pelo escritório central da Companhia de Remessa McKendrick, Liverpool; agentes Siebart & Abercrombie, Londres; seguradores Lloyd's. Tudo correto.

     — Por favor, com quem falo? — perguntou.

     — Aqui é o comandante McKendrick. Quem é você?

     — Imediato David Gundlach falando.

     O Monterey, acompanhando a conversa com dificuldade, devido aos sotaques carregados de ambas as partes, retornou à comunicação.

     — Monterey, Queen. Você quer alterar o curso?

     Gundlach consultou as telas. O computador do passadiço estava guiando o Queen ao longo da trajetória pré-planejada, e iria se ajustar a qualquer mudança de mar, vento, corrente ou ondas. Realizar um desvio de trajetória significaria passar para o modo manual ou reiniciar a programação e então retornar ao curso original. Ele iria passar pelo cargueiro à deriva em 41 minutos, e estaria três quilômetros a estibordo dele.

     — Não é preciso, Monterey. Passaremos por ele dentro de 40 minutos. Mais de três quilômetros de mar entre nós.

     Em formação com o Queen, o Monterey estaria a uma distância menor que essa, mas ainda haveria amplo espaço. Lá em cima, o Hawkeye e o EA6 perscrutaram o cargueiro indefeso em busca de qualquer sinal de travamento de míssil, ou qualquer tipo de atividade eletrônica. Não havia nenhuma, mas eles manteriam a vigilância até o Countess estar bem atrás do Comboio. Dois outros navios também estavam na área de segurança, mas muito à frente, e esses poderiam ser requisitados a se desviar para a esquerda e para a direita.

     — Entendido — disse o Monterey.

     

     Tudo aquilo fora ouvido no passadiço do Countess. Ibrahim gesticulou com a cabeça, mandando que o deixassem sozinho. O engenheiro de rádio e o rapaz desceram a escada até o bote e todos os seis no inflável esperaram pelo sinal.

     Ainda convencido de que o jordaniano louco iria religar o motor e tentar arremeter-se contra um dos navios em aproximação, Martin sabia que não podia desembarcar do Countess of Richmond. Sua única esperança era tomá-lo depois de matar a tripulação.

     Martin desceu a escada de corda. Na popa do barco, Suleiman estava preparando seu equipamento de fotografia digital. Havia uma corda amarrada à amurada do Countess. Um dos indonésios estava de pé perto da proa do bote, segurando a corda para que não fosse arrastada pelo fluxo da corrente que passava pela lateral do navio.

     Martin manteve a mão esquerda firme na escada, virou-se, estendeu a mão direita para baixo e fez um corte de l,80m no tecido cinza e duro como rocha. A ação foi tão rápida e inesperada que por dois ou três segundos ninguém reagiu, apenas o mar. O escapamento de ar produziu um ronco baixo e, com seis pessoas a bordo, aquele lado do inflável imergiu e o barco começou a fazer água.

     Debruçando-se ainda mais, Martin desferiu um golpe de faca contra a corda de retenção. Errou, mas fez um talho no antebraço do indonésio, Os homens reagiram. Mas o indonésio ferido soltou a corda, e eles foram puxados pelo mar.

     Havia mãos vingativas estendidas para Martin, mas o bote, já bastante desinflado, dobrou para trás. O peso do grande motor externo puxou a popa para baixo, e mais água salgada entrou. Os restos do inflável afastaram-se da popa do cargueiro e se perderam na negritude da noite atlântica. Em algum lugar contra a corrente, o bote simplesmente afundou. À luz da popa do navio, Martin viu mãos agitando-se na água, e num instante elas também haviam sumido. Ninguém é capaz de nadar contra quatro nós. Martin voltou a subir a escada.

     Nesse momento, Ibrahim puxou um dos três controles que o especialista em explosivos deixara para ele. Enquanto escalava, Martin ouviu uma série de estalidos agudos enquanto cargas diminutas explodiam.

     Quando o Sr. Wei construíra a galeria disfarçada como seis contêineres ao longo do convés do Java Star, do passadiço até a proa, ele criara o teto, ou tampa, do espaço vazio abaixo como uma peça de aço única comprimida por quatro pontos de contenção.

     A esses pontos de contenção o especialista em explosivos encaixara cargas moldadas e ligara todas as quatro a fios que captavam sua energia através dos motores do navio. Quando eles explodiram, a placa de metal que tampava a caverna abaixo levantou vários metros. A potência das cargas era assimétrica, de modo que um lado da placa levantou mais alto do que a outra.

     Martin estava no topo da escada de corda, faca nos dentes, quando as cargas explodiram. Ele se agachou enquanto a imensa placa de metal deslizava de lado para o mar. Em seguida guardou a faca e entrou no passadiço.

     O assassino da al-Qaeda estava de pé diante do leme, olhando para a frente através do vidro. No horizonte, aproximando-se a uma velocidade de 20 nós, estava a cidade flutuante, 17 conveses e 150 mil toneladas de luzes, aço e pessoas. Imediatamente abaixo do passadiço, a galeria estava aberta para as estrelas. Pela primeira vez, Martin compreendeu seu propósito. Não era para conter alguma coisa; era para esconder alguma coisa.

     As nuvens descobriram a lua minguante, e o convés de vante inteiro do navio que um dia fora o Java Star reluziu à sua luz. Pela primeira vez, Martin compreendeu que aquele não era um cargueiro contendo explosivos. Era um navio-tanque. Correndo a partir do passadiço havia um emaranhado de canos, tubos, torneiras e rodas de hidrantes que delatavam seu propósito de vida.

     Espacejados igualmente pelo convés em direção ao pico de vante estavam seis discos circulares de metal — as escotilhas de ventilação — acima de cada um dos tanques de carga abaixo do convés.

     — Você devia ter ficado no barco, Afegão — disse Ibrahim.

     — Não havia espaço, irmão. Suleiman quase caiu ao mar. Eu fiquei na escada. Eles todos já se foram. Agora eu morrerei aqui com você, inshallah.

     Ibrahim parecia satisfeito. Olhou para o relógio do navio e puxou a segunda alavanca. Fios corriam do controle até as baterias do navio, de onde tiravam sua energia, e dali avançavam para a galeria onde o especialista em explosivos, passando pela porta secreta, trabalhara durante seu mês no mar.

     Mais seis cargas detonaram. As seis escotilhas explodiram acima dos tanques. O que se seguiu foi invisível a olho nu.

     Caso fosse possível ver, seis colunas verticais levantaram-se dos domos como vulcões à medida que a carga começou a ventilar. A nuvem de vapor ascendente alcançou uma altura de 30 metros, perdeu seu ímpeto e a gravidade assumiu. A nuvem invisível, misturada furiosamente com o ar noturno, caiu de volta ao mar e começou a se expandir a partir da fonte, em todas as direções.

     Martin havia perdido e sabia disso. Estava atrasado demais e sabia disso também, o suficiente para compreender que estivera viajando numa bomba flutuante desde as Filipinas e que aquilo que estava jorrando das seis escotilhas abertas era morte invisível que não podia mais ser controlada.

     Sempre presumira que o Countess of Richmond, agora novamente o Java Star, iria navegar até algum porto interno e detonar o que estivesse carregando abaixo de seus conveses.

     Presumira que o navio iria arremeter-se contra alguma coisa valiosa enquanto explodia. Durante 30 dias ele esperara em vão por uma chance de matar sete homens e assumir o comando. A chance não havia aparecido.

     Agora, tarde demais, ele compreendia que o Java Star não ia entregar uma bomba; ele era a bomba. E com sua carga ventilando depressa, não precisava mover-se um centímetro. O navio de passageiros em aproximação precisava apenas passar a três quilômetros para ser consumido.

     Martin ouvira a comunicação no passadiço entre o rapaz paquistanês e o oficial do Queen Mary II. Ficou sabendo tarde demais que o Java Star não iria acionar seus motores. Os cruzadores de escolta jamais permitiriam isso, mas o Java Star não precisava de seus motores.

     Havia um terceiro controle perto da mão direita de Ibrahim, um botão para ser apertado. Os olhos de Martin seguiram os fios até uma pistola sinalizadora, montada imediatamente à frente das janelas do passadiço. Um disparo, uma única faísca...

     Através das janelas, a cidade de luzes estava acima do horizonte. Oitenta quilômetros, 30 minutos de percurso, tempo mais que necessário para uma excelente mistura de combustível-ar.

     Os olhos de Martin correram até o alto-falante de rádio no painel. Uma última chance de gritar um aviso. Sua mão direita deslizou até a bainha debaixo do manto no qual estava a faca, Amarrada à coxa.

     O jordaniano flagrou o olhar e o movimento. Não teria sobrevivido ao Afeganistão, a uma prisão jordaniana e à implacável caçada dos americanos caso não tivesse desenvolvido os instintos de um animal selvagem.

     Alguma coisa lhe disse que, a despeito da linguagem fraternal,  não era seu amigo. Ódio puro encheu a atmosfera carregada do pequeno passadiço como um grito silencioso.

     A mão de Martin deslizou para dentro de seu manto até a laça. Mas Ibrahim foi mais rápido. A arma estivera escondida debaixo do mapa na mesa de cartografia. Estava apontando direto para o peito de Martin. A distância que os separava era de três metros e meio. Três a mais do que seria adequado para Martin.

     Um soldado é preparado para estimar possibilidades e fazê-lo depressa. Martin passara boa parte de sua vida fazendo isso. No passadiço do Countess of Richmond, envolvido por sua própria nuvem de morte, havia apenas duas: ir até o homem, ir até o botão. Para nenhuma das duas possibilidades haveria sobrevivência.

     Algumas palavras vieram à sua mente, palavras de um tempo longínquo, num poema de estudante:

     Para cada homem sobre a Terra,

     a morte chegará um dia...

     E ele se lembrou de Ahmad Shah Massoud, o Leão de Panjshir, falando diante da fogueira.

     — Todos estamos sentenciados a morrer, inglês. Mas apenas um guerreiro abençoado por Alá tem permissão para escolher como!

     O coronel Mike Martin fizera sua escolha...

     Ibrahim percebeu o que ia acontecer. Conhecia o brilho nos olhos de um homem prestes a morrer. O assassino gritou e disparou. O homem arremetendo-se para a frente recebeu a bala no peito e começou a morrer. Mas acima da dor e do choque sempre há a perseverança. Apenas o bastante para mais um segundo de vida.

     E no fim desse segundo, tanto os dois homens quanto o navio foram consumidos numa eternidade rosada.

    

     David Gundlach testemunhou apalermado. Vinte e quatro quilômetros à frente, onde o maior navio de passageiros do mundo estaria em 35 minutos, um gigantesco vulcão de chamas irrompeu do mar. Dos outros três homens em vigília vieram gritos de o que foi isso?

     — Monterey para Queen Mary II. Desvie para bombordo, repito, desvie para bombordo. Estamos investigando.

     A sua direita, Gundlach viu o cruzador americano passar a velocidade de ataque e mover-se em direção às chamas. Enquanto observava, as chamas começaram a estremecer e morrer na água. Estava claro que o Countess of Richmond sofrerá alguma espécie de acidente terrível. Seu trabalho era permanecer afastado; se houvesse homens na água, o Monterey iria encontrá-los. Mas ainda era aconselhável chamar o comandante. Quando o mestre do navio chegou ao passadiço, seu imediato explicou o que vira. Estavam agora a 28 quilômetros do ponto estimado e afastando-se depressa.

     A bombordo, o USS Leyte permanecia com eles. O Monterey estava seguindo direto para a bola de fogo quilômetros à frente. O comandante concordou que cabia ao Monterey procurar sobreviventes, embora considerasse altamente improvável que houvesse algum.

     Enquanto os dois homens observavam da segurança de seu passadiço, as chamas começaram a tremeluzir e morrer. As últimãs manchas incandescentes no mar deveriam ser os resíduos do combustível do navio desintegrado. Toda a carga hiper-volátil sumiu antes que o Monterey chegasse ao local.

     O comandante do navio de passageiros ordenou aos computadores que reassumissem o curso para Southampton.

   

     HOUVE UM INQUÉRITO. CLARO. DEMOROU QUASE DOIS ANOS. Coisas assim jamais são feitas em algumas horas, exceto na televisão.

     Uma equipe acompanhou a trajetória do verdadeiro Java Star, desde a limpeza de sua quilha até o momento em que ele zarpara de Brunei carregado com GLP, com destino a Fremantle, Austrália Ocidental.

     Foi confirmado por testemunhas independentes e sem razões para mentir que o comandante Herrmann estava ao comando. Depois disso o navio fora visto por dois outros comandantes de navio contornando a ponta da ilha de Bornéu. Precisamente devido à natureza de sua carga, ambos os mestres de navio notaram que o Java Star estava bem afastado deles e registraram seu nome em seus diários de bordo.

     A única gravação da última mensagem de socorro do comandante Herrmann foi tocada para um psiquiatra norueguês, que confirmou que a voz era de um conterrâneo falando inglês fluente, mas que parecia sob coação.

     O comandante do navio de frutas que anotara a posição do Java Star e desviara para o local foi localizado e interrogado. Ele repetiu o que ouvira e vira. Mas especialistas em incêndio náutico calcularam que se o incêndio na casa de máquinas do Java Star fora catastrófico a ponto de impossibilitar o comandante Herrmann de salvar o navio, o fogo teria em algum momento inflamado a carga. Nesse caso não teria botes salva-vidas de tecido flutuando na água no ponto em que o navio afundou.

     Soldados filipinos realizaram um ataque, apoiado por helicópteros de combate americanos, à península Zamboanga, ostensivamente a bases de Abu Sayyaf. Capturaram dois batedores de selva que ocasionalmente trabalhavam para terroristas, mas que não estavam dispostos a enfrentar um pelotão de fuzilamento por causa deles.

     Os batedores contaram ter visto um navio-tanque médio numa enseada, sendo reformado por homens com maçaricos de oxiacetileno.

     A equipe de investigação do Java Star entregou o relatório em um ano. O documento declarava que o Java Star não afundara devido a um incêndio, mas que fora seqüestrado intacto. Além disso, pessoas haviam tido muito trabalho para persuadir o mundo marítimo de que o Java Star não mais existia, quando de fato ele existia. Embora já tivesse sido presumido que a tripulação inteira estava morta, isso ainda precisava ser confirmado.

     Devido ao caráter confidencial do caso, todos os membros do inquérito estavam trabalhando nos aspectos variados sem saber por quê. Eles haviam acreditado quando lhes fora dito que se tratava de uma investigação de seguro.

     Outra equipe acompanhou a sorte do verdadeiro Countess of Richmond. Eles saíram do gabinete de Alex Siebart em Crutched Friars, na City de Londres, até Liverpool, e conversaram com parentes e tripulantes. Todos confirmaram que tudo estivera em ordem quando o Countess descarregara seus Jaguares em Cingapura. O comandante McKendrick encontrara-se tom um amigo de Liverpool na doca e eles tomaram umas cervejas antes de partir. E ele telefonara para casa.

     Testemunhas independentes confirmaram que o Java Star estava sob as ordens de seu fiel comandante quando carregou madeiras valiosas em Kinabalu.

     Mas uma visita a Surabaia, Java, revelou que o Java Star jamais parará lá para pegar a segunda parte de seu carregamento de sedas asiáticas. Contudo, o escritório em Londres da Siebart & Abercrombie recebera confirmação dos remetentes de que o carregamento fora realizado. Portanto, isso fora forjado.

     Um retrato-falado do Sr. Lampong foi feito. A polícia indonésia reconheceu-o como um suspeito de ser financiador do Jemaat Islamiya. Uma busca foi empreendida, mas o terrorista desaparecera na maré humana do sudeste da Ásia.

     A equipe concluiu que o Countess of Richmond fora abordado e seqüestrado no mar de Celebes. Com todos seus documentos, códigos de identificação de rádio e transmissor de sinal roubados, o navio foi afundado com seus tripulantes. Os parentes das vítimas foram notificados.

     As informações conclusivas foram obtidas com o Dr. Ali Aziz al-Khattab. As escutas nos telefones do Dr. Al-Khattab revelaram que ele estava marcando uma viagem para o Oriente Médio. Depois de uma conferência na Casa do Tâmisa, sede do MI5, ficou decidido que era hora de prendê-lo. A polícia de Birmingham e o Departamento Especial arrombaram a porta do acadêmico kuaitiano quando os vigilantes confirmaram que ele estava no banho. Foi retirado de casa vestido num roupão de banho.

     Mas al-Khattab era inteligente. Uma revista total de seu apartamento, carro e escritório, celular e laptop não revelou um único detalhe incriminador.

     Ele permaneceu calmo e sorridente, e seu advogado protestou, embora, segundo a lei, a polícia britânica tivesse o direito de manter preso por 28 dias um suspeito sem uma acusação formal. Mas o sorriso de Al-Khattab sumiu quando, ao sair da prisão de Sua Majestade em Belmarsh, foi preso novamente, desta vez com uma ordem de extradição do governo dos Emirados Árabes Unidos.

     Sob esta legislação, não havia limite de tempo. Al-Khattab seguiu direto de volta para sua cela. Dessa vez seu advogado apresentou um apelo vigoroso contra a extradição. Sendo um kuaitiano, ele nem era cidadão dos Emirados Árabes Unidos, mas essa não era a questão.

     O Centro de Antiterrorismo em Dubai conseguira apropriar-se de um maço de fotografias. Elas mostravam Al-Khattab conversando com um mensageiro da al-Qaeda reconhecido, um capitão de dhow que já estava sob vigilância. Outras mostravam-no chegando e saindo de uma mansão nas cercanias de Ras-aí-Khaimã, um notório esconderijo terrorista. O juiz de Londres ficou impressionado e concedeu a extradição.

     Al-Khattab apelou... e perdeu novamente. Confrontado com o charme duvidoso da prisão de Sua Majestade em Belmarsh ou um interrogatório vigoroso por parte das Forças Especiais dos Emirados Árabes Unidos em sua base secreta no Golfo, ele pediu para permanecer como hóspede da rainha Elizabeth.