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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O Amuleto / Nora Roberts
O Amuleto / Nora Roberts

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O Amuleto

 

James Lassiter tinha quarenta anos de idade, era um homem de boa estatura com uma beleza rude, estava na flor da idade e gozava da mais perfeita saúde. Em uma hora, estaria morto.

Do convés do seu barco, ele não via nada, a não ser a agitação clara e sedosa do azul, os verdes luminosos e os marrons mais profundos do grande recife que cintilavam como ilhas sob a superfície do mar de Coral. Mais ao longe, para oeste, as ondas espumantes do mar se erguiam e batiam contra a falsa costa de corais.

De onde estava, a bombordo, ele podia ver as formas e as sombras dos peixes se lançando como flechas vivas através do mundo no qual havia nascido para com eles partilhar.

A costa da Austrália já havia se perdido a distância, e só havia a imensidão.

O dia estava perfeito. O brilho da água, claro que nem o das jóias, irrompia em raios brancos de luz lançados pelo brilho dourado e repentino do sol. A sugestão provocante de uma brisa não carregava nenhum indício de chuva.

Sob os seus pés, o convés balançava suavemente, como um berço no meio do mar calmo. Ondas pequenas marulhavam musicalmente contra o casco. Abaixo, bem mais abaixo, havia um tesouro esperando para ser descoberto.

Eles estavam garimpando os destroços do Estrela do Mar, um navio mercante inglês que encontrara sua ruína na Grande Barreira de Recifes há dois séculos. Durante mais de um ano, enfrentando o mau tempo, danos no equipamento e outros inconvenientes, eles trabalharam quase sempre até a exaustão, para colher as riquezas que o Estrela havia deixado para trás.

Ainda havia riquezas, e James sabia. Mas seus pensamentos viajavam para além do Estrela do Mar, rumo ao norte daquele recife espetacular e perigoso que dava nas águas cálidas das índias Ocidentais. Para outro navio naufragado, para outro tesouro.

Para a Maldição de Angelique.

Ele se perguntava se era o amuleto ricamente incrustado de jóias que era amaldiçoado, ou a mulher, a bruxa Angelique, cujo poder - conforme se reputava - ainda era grande sobre os rubis, os diamantes e o ouro. A lenda conta que ela o usara, pois havia sido um presente do marido, o qual dizia-se que ela havia assassinado, no dia em que fora queimada na fogueira.

A idéia o fascinava; a mulher, o colar, a lenda. A busca pelo amuleto, que em breve ele começaria, estava se tornando uma obsessão. James não queria simplesmente as riquezas, a glória. Queria a Maldição de Angelique e a lenda que ela carregava.

Ele crescera ouvindo falar das buscas, das histórias de navios naufragados e das recompensas que o mar acumulou. Durante toda a sua vida, Lassiter mergulhara e sonhara. Tais sonhos lhe custaram uma esposa e lhe deram um filho.

James deu as costas para a amurada a fim de pensar no garoto. Matthew estava agora com quase dezesseis anos. Havia crescido, mas ainda tinha que ganhar corpo. Havia um certo potencial ali, refletia James, pensando na compleição magra e nos músculos desenvolvidos. Os dois tinham o mesmo cabelo escuro e desgrenhado,embora o garoto se recusasse a cortar o seu, de modo que, nesse instante, enquanto Matthew checava o equipamento de mergulho, ele caía sobre o seu rosto como se fosse uma cortina.

Sua face era angulosa, pensou James. Ela havia se afinado nos dois últimos anos, e havia perdido o formato rechonchudo da infância. Era um rosto angelical, como havia dito certa vez uma garçonete, o que deixou o garoto desconcertado, com as bochechas coradas e fazendo caretas.

Ele tinha um ar mais demoníaco agora, e aqueles olhos azuis que passara para Matthew eram, notadamente, mais quentes do que frios. Era o temperamento dos Lassiter, a sorte dos Lassiter, pensou James balançando a cabeça. Uma herança pesada para um garoto que ainda não havia acabado de crescer.

Um dia, pensava ele, um dia que não tardaria a chegar, James teria como dar ao seu filho todas as coisas que um pai poderia esperar. A chave para tudo jazia calmamente nas águas tropicais das índias Ocidentais.

Um colar de rubis e diamantes sem preço, carregado de história, cuja lenda era misteriosa e manchada de sangue.

A Maldição de Angelique.

A boca de James se retorceu num leve sorriso. Quando ele o tivesse, a má sorte que perseguia os Lassiter iria mudar. Só precisava ser paciente.

- Corra com essas garrafas, Matthew. O dia logo vai acabar. O rapaz olhou para cima, tirando o cabelo que caía sobre os olhos. O sol se erguia por trás das costas do pai, emitindo uma luz trêmula a sua volta. Para Matthew, ele parecia um rei se preparando para a batalha. Como sempre, amor e admiração brotavam e o surpreendiam com a sua intensidade.

- Substituí o seu manômetro. Quero dar uma olhada no antigo.

- Tenha cuidado com o seu pai. - James passou o braço em volta do pescoço de Matthew, fingindo que estava brigando. - Hoje vou lhe trazer uma fortuna lá de baixo.

- Deixe-me descer com você. Deixe eu ficar no turno da manhã no lugar dele.

James conteve um suspiro. Matthew ainda não havia desenvolvido a sabedoria para controlar as emoções. Especialmente em relação àquilo de que não gostava.

- Você sabe como as equipes trabalham. Você e Buck irão mergulhar hoje à tarde. Eu e VanDyke faremos o mesmo trabalho agora de manhã.

- Não quero que você mergulhe com ele. - Matthew sacudiu o braço afável do seu pai. - Ouvi vocês dois discutindo na noite passada. Ele o detesta. Dá para sentir isso em sua voz.

Era um sentimento mútuo, pensou James, mas tolerado.

- Parceiros normalmente discordam um do outro. No fim das contas, VanDyke está investindo a maior parte do dinheiro. Deixe o sujeito se divertir, Matthew. Para ele, esse negócio de caça ao tesouro é apenas um hobby para um homem de negócios rico e entediado.

- Ele não sabe mergulhar direito. - Isso, na opinião de Matthew, dava a medida de quanto valia um homem.

- Ele é bom o suficiente. Só não tem muito estilo a doze metros de profundidade. - Cansado da discussão, James começou a colocar seu traje de mergulho. - Buck deu uma olhada no compressor?

- Sim, ele desfez os nós. Pai...

- Desista, Matew.

- Só hoje - teimou o rapaz. - Não confio naquele filho-damãe afeminado.

- Seu linguajar está cada vez pior. - Silas VanDyke, elegante e pálido apesar do sol forte, sorria enquanto saía da cabine atrás de Matthew. Ele se sentiu quase tão entretido quanto incomodado ao perceber o sorriso de desprezo do garoto. - Seu tio precisa da sua ajuda lá embaixo, jovem Matthew.

- Quero mergulhar com o meu pai hoje.

- Creio que isso vai criar um inconveniente para mim. Como você pode ver, já estou vestindo o meu equipamento de mergulho.

- Matthew. - Havia um tom impaciente e de comando na voz de James. - Vá ver do que Buck precisa.

- Sim, senhor. - com o olhar desafiador, ele desceu as escadas que davam no convés inferior.

- O garoto teve uma atitude infeliz e modos piores ainda, Lassiter.

- Ele não vai com a sua cara - disse James, satisfeito. - Diria que ele tem uma boa intuição.

- Essa expedição está chegando ao fim - devolveu VanDyke. - Assim como a minha paciência e generosidade. Se não fosse por mim, vocês ficariam sem dinheiro em uma semana.

- Talvez. - James fechou o zíper do seu traje. - Talvez não.

- Quero o amuleto, Lassiter. Você sabe que ele está lá embaixo, e acredito que saiba onde. Eu o quero. Eu o comprei. Eu comprei você.

- Você comprou o meu tempo e a minha perícia. Você não me comprou. Regras de salvamento, VanDyke. O homem que encontrar a Maldição de Angelique será o dono da Maldição de Angelique. - E ela não seria encontrada, disso ele tinha certeza, no Estrela do Mar. James levantou um dedo na direção do peito de VanDyke. - Agora saia da minha frente.

O controle que tinha, e que exercia em salas de reunião de diretorias, impedia VanDyke de atacá-lo. Ele sempre vencia seus assaltos com paciência, dinheiro e poder. O sucesso nos negócios, como ele bem sabia, era uma simples questão de quem detinha o controle.

- Você irá se arrepender por tentar me trair. - Ele agora falava num tom suave, com uma leve sugestão de sorriso nos lábios. - Eu prometo.

- Diabos, Silas, estou gostando disso. - Calmo, porém rolando de rir, James adentrou a cabine. - Vocês estão vendo revistas de mulher pelada ou o quê? Venham para cá.

Movendo-se rapidamente, VanDyke foi mexer nas garrafas de mergulho. Tudo aquilo não passava de negócios. Quando os Lassiter voltaram para o convés, ele estava amarrando o seu próprio equipamento.

Todos os três, pensou VanDyke, eram pateticamente inferiores. com certeza eles haviam esquecido quem e o que ele era. Ele era um VanDyke, um homem que havia recebido ou conseguido tudo o que sempre desejou. Uma pessoa que pretendia continuar fazendo a mesma coisa ao longo da vida, enquanto pudesse ter lucro. Será que os três achavam que ele estava ligando para o fato de terem estreitado seu pequeno triângulo e o excluído? Já havia passado da hora de demiti-los e contratar uma nova equipe.

Buck, refletia ele, era atarracado, já estava ficando careca, e por isso era o oposto perfeito do seu belo irmão. Leal como um cachorro vira-lata e tão inteligente quanto.

Matthew, jovem e ganancioso, era impetuoso e provocador. Um pequeno e detestável verme que VanDyke teria o prazer de esmagar.

E James, é claro, pensou enquanto os três Lassiter estavam um ao lado do outro, jogando conversa fora. Era duro e mais sagaz do que Vandyke havia suposto. Mais do que a simples ferramenta que havia esperado que ele fosse. James julgava que havia levado a melhor sobre Silas VanDyke.

James Lassiter achava que iria encontrar e tomar posse da Maldição de Angelique, o legendário amuleto de poder. Usado por uma bruxa, cobiçado por muitos. E isso fazia dele um idiota. VanDyke havia investido tempo, dinheiro e esforço para adquirir a peça, e Silas VanDyke nunca fazia investimentos que não dessem lucro.

- Vamos ter uma boa caça hoje. - James prendeu as suas garrafas às costas. - Posso sentir isso. Silas?

- Estou com você.

James apertou bem o seu cinto, ajustou a máscara e mergulhou.

- Papai, espere...

Mas James apenas o saudou e desapareceu sob a superfície.

O mundo era silencioso e atordoante. O azul das águas era quebrado por raios de luz do sol que trespassavam a superfície do mar e emitiam uma luz clara e sutil. Cavernas e castelos de coral se espalhavam formando mundos secretos.

Um tubarão de recife, com os olhos negros e cansados, virou o corpo e deslizou pela água, indo para longe.

Sentindo-se mais em casa aqui do que a céu aberto, James mergulhava fundo com VanDyke nos seus calcanhares. Os destroços já estavam bem expostos, com trincheiras abertas a sua volta e escavadas em busca de tesouros. Os corais tomaram a proa destruída e transformaram a madeira numa fantasia de cores e formas, que parecia estar enfeitada com ametistas, esmeraldas e rubis.

Este era o tesouro vivo, o milagre da arte criada pela água marinha e pelo sol.

Era, como sempre, um prazer contemplá-lo.

Quando eles começaram a trabalhar, a sensação de bem-estar de James aumentou. A sorte dos Lassiter o perseguia, pensou, sonhador. Logo ele ficaria rico e famoso. E por isso sorria sozinho. Afinal de contas, dera de cara com a pista, e passara dias e horas pesquisando e montando o quebra-cabeça da trilha percorrida pelo amuleto.

Sentia até um pouco de pena daquele idiota do VanDyke, já que seriam os Lassiter que o tirariam do fundo do mar, de outras águas, em sua própria expedição.

Ele se viu estendendo a mão para afagar uma crista de coral como se fosse um gato.

Balançou a cabeça, mas não conseguia entender o que havia acontecido. O alarme soou em alguma parte do seu cérebro, distante e de um jeito vago. Mas ele era um mergulhador experiente e reconheceu os sinais. Já havia tido um ou dois episódios de narcose provocada por nitrogênio. Nunca numa profundidade tão baixa, pensou vagamente. Os dois deviam estar mais ou menos a uns trinta metros da superfície.

A despeito disso, ele bateu nas garrafas. VanDyke já o estava observando, com os olhos frios, avaliando a situação por trás da máscara. James fez um sinal indicando que os dois deveriam subir para a superfície. Quando VanDyke o puxou de volta, apontando na direção dos destroços, ele só estava levemente confuso. Mais uma vez sinalizou para que ambos subissem, e de novo VanDyke o conteve.

Ele não entrou em pânico. James não era o tipo de homem que se desesperava facilmente. Sabia que havia sido sabotado, embora sua mente estivesse muito confusa para fazer conjecturas. VanDyke era um amador neste mundo, lembrou-se James, e não percebia a extensão do perigo. Por isso, ele teria que mostrá-lo. Seus olhos se apertaram, determinados. O experiente mergulhador girou o corpo, por pouco deixando de alcançar o respirador de VanDyke.

A luta debaixo d’água era lenta, determinada e sinistramente silenciosa. Os peixes debandavam como se fossem tecidos de seda colorida, e depois se reuniam novamente para ver o drama do predador e de sua presa. James sentia que estava perdendo as forças, enquanto a tontura e a desorientação aumentavam à medida que o nitrogênio era bombeado para dentro do seu corpo. Ele lutava, e conseguia ganhar mais três metros no esforço que fazia para voltar à tona.

Então, ele se perguntou por que queria subir. Começou a rir, e as bolhas brotavam e subiam rapidamente enquanto o êxtase o puxava para baixo. James abraçou VanDyke numa espécie de dança lenta e giratória, para partilhar o seu deleite. Era tão lindo o cenário criado pela luz azul e dourada, com jóias e pedras preciosas de mil cores impossíveis, simplesmente esperando para serem apanhadas.

Ele havia nascido para mergulhar nas profundezas.

Logo a alegria de James Lassiter iria se transformar em inconsciência. E numa morte tranqüila e confortante.

VanDyke tentava abrir espaço enquanto James começava a se debater. A falta de coordenação era apenas mais um sintoma. Um dos últimos. Num ímpeto, VanDyke conseguiu soltar o tubo do respirador. Perplexo, James piscava os olhos enquanto se afogava.

 

Tesouro. Dobrões de ouro e moedas de prata de oito reales. com sorte, eles poderiam ser colhidos do fundo do mar tão facilmente quanto pêssegos de uma árvore. Ou pelo menos era isso que seu pai havia dito, pensava Tate enquanto mergulhava.

Ela sabia que era preciso muito mais do que sorte, como dez anos de busca já haviam provado. Era necessário dinheiro, tempo e um esforço exaustivo. Requeria prática, meses de pesquisa e muito equipamento.

Mas enquanto nadava na direção do local onde estava o seu pai, atravessando o mar azul e cristalino do Caribe, a moça estava mais do que disposta a entrar no jogo.

Não era uma privação passar o verão do seu vigésimo aniversário mergulhando na costa de St. Kitts, deslizando sobre a água deliciosamente morna, entre peixes de matizes vistosos e esculturas multicores de corais. Cada mergulho representava a sua própria expectativa. O que poderia haver no meio da areia branca, escondido entre corais e plantas marinhas, enterrado sob formaçõesengenhosamente retorcidas?

Não era o tesouro, ela sabia. Era a busca.

E, de vez em quando, você tinha sorte.

Ela se lembrava muito bem da primeira vez em que levantou uma colher de prata do meio da areia fina do fundo do mar. O choque e a emoção de segurar aquele talher enegrecido, imaginando quem o havia usado para tomar sopa. Quem sabe o comandante de algum galeão suntuoso qualquer. Ou a sua esposa.

E do tempo em que sua mãe entalhava com disposição um pedaço de conglomerado, o material formado por centenas de reações químicas no fundo do mar. O som do seu grito, depois o da gargalhada de prazer de quando Maria Beaumont encontrou um anel de ouro.

A sorte ocasional permitia que os Beaumont passassem alguns meses por ano fazendo outras buscas. Atrás de mais sorte e mais tesouros.

Enquanto nadavam lado a lado, Raymond Beaumont bateu de leve no braço da filha e apontou. Juntos, os dois viram uma tartaruga marinha nadando preguiçosamente.

O olhar risonho do seu pai dizia tudo. Ele trabalhou duro a vida toda e agora estava tirando proveito das recompensas. Para Tate, um momento como aquele valia ouro.

Eles nadavam juntos, ligados pelo amor que sentiam pelo mar, pelo silêncio e pelas cores. Um cardume de sargentos passou velozmente e suas listras negras e douradas cintilavam. Por puro prazer, Tate girou lentamente o corpo e ficou vendo a luz do sol incidindo na superfície. Tal liberdade fez com que uma gargalhada brotasse sob a forma de bolhas que assustaram uma garoupa curiosa.

Ela mergulhou mais fundo, seguindo as fortes batidas das pernas do seu pai. A areia podia guardar segredos. Qualquer montículo podia ser uma tábua de madeira carcomida de um galeão espanhol. Aquela mancha escura podia estar encobrindo o esconderijo ondeum pirata guardara a sua prata. Ela lembrou a si mesma que deveria prestar atenção, não nas formações ou nos grandes pedaços de coral, mas nos vestígios de tesouros submersos.

Os Beaumont estavam aqui, nas águas cálidas das índias Ocidentais, em busca do sonho de todo caçador de tesouros. Os destroços jamais encontrados de um navio que, supostamente, guardavam o tesouro de um rei. Este primeiro mergulho serviu para que os dois se familiarizassem com o território que haviam pesquisado meticulosamente em livros, mapas e gráficos. Ambos iriam testar as correntes marinhas e aferir as marés. E talvez - quem sabe - viessem a ter sorte.

Visando um pequeno banco de areia, ela começou a agitar rapidamente as mãos. Seu pai a havia ensinado esse método simples de escavação quando Tate o encantou com o grande interesse que despertou pelo novo hobby dele: o mergulho autônomo, com cilindros de ar.

Ao longo dos anos ele lhe ensinou muitas outras coisas. A respeitar o mar e aqueles que nele viviam. E o que estava escondido nas profundezas. A esperança que ela alimentava com mais carinho era a de que um dia pudesse descobrir algo para o pai.

A moça agora o observava atentamente, prestando atenção no jeito como ele examinava uma baixa cadeia de corais. Por mais que sonhasse com os tesouros feitos pelos homens, Raymond Beaumont amava os tesouros feitos pelo mar.

Sem encontrar nada no montículo, Tate se afastou e saiu em busca de uma bela concha listrada. Dos cantos dos olhos, ela percebeu uma mancha que vinha em sua direção, rápida e silenciosamente. A princípio, pensou que se tratava de um tubarão, e seu coração disparou. Ela se virou, do jeito que lhe havia sido ensinado, esticou-se para pegar a faca de mergulhador e se preparou para defender o pai e a si própria.

Tal vulto se transformou em outro mergulhador. Era liso e veloz como um tubarão, mas era um homem. A respiração da jovem sibilava num jato de bolhas antes de ela se lembrar de regularizá-la. O sujeito lhe fez um sinal e depois um outro para o homem que vinha nadando atrás.

Tate se viu máscara a máscara com aquele rosto que sorria indiferente, cujos olhos eram tão azuis quanto o mar a sua volta. O cabelo negro se movia ao sabor da corrente. Dava para ver que o sujeito ria na sua direção, pois sem dúvida havia adivinhado qual fora a sua reação à companhia inesperada. Ele ergueu as mãos, num gesto de paz, até a moça guardar a faca. Depois, piscou e dirigiu a Ray uma lenta saudação.

Enquanto todos trocavam cumprimentos silenciosos, Tate estudou os recém-chegados. Seu equipamento era bom e incluía os itens necessários para o caçador de tesouros. O saco de apetrechos, a faca, a bússola de pulso e o relógio de mergulhador. O primeiro homem era jovem e aparentava ser magro com seu macacão negro. Suas mãos expressivas possuíam palmas grandes, dedos longos, e carregavam os cortes e as cicatrizes de um explorador veterano. O segundo era careca e parrudo, porém ágil como um peixe quando se movia dentro d’água. Tate percebeu que ele estava chegando a alguma espécie de acordo silencioso com o seu pai. Ela queria protestar. Aquele era o ponto deles. Afinal de contas, haviam chegado ali primeiro.

Mas ela não podia fazer mais nada, a não ser franzir as sobrancelhas enquanto seu pai fazia um sinal de ”o.k.” com os dedos. Os quatro se espalharam para explorar o terreno.

Tate voltou até onde havia outro monte de areia para cavar. A pesquisa feita por seu pai indicou que quatro navios da frota espanhola haviam afundado ao norte de Névis e St. Kitts durante o furacão de 11 de julho de 1733. Dois deles, o São Cristóvão e o Vaca, haviam sido descobertos, tiveram seus objetos resgatados há anos, e jaziam destruídos nos recifes perto da baía de Dieppe. Isso deixava, escondidos e intocados, o Santa Margarida e o Isabela.

Documentos e manifestos alardeavam que tais navios levavam muito mais do que suas cargas de açúcar das ilhas. Havia jóias, porcelanas e mais de dez milhões de pesos em ouro e prata. Além disso, de acordo com o costume da época, haveria as reservas guardadas pelos passageiros e marujos.

Ambos os destroços certamente continham uma verdadeira fortuna. Mais do que isso, tal descoberta seria um dos maiores achados do século.

Nada encontrando, Tate seguiu em frente, rumo ao norte. A competição com os outros mergulhadores deixou seus olhos e seu instinto em alerta. Um cardume de peixes que brilhavam como jóias em forma de ”V” cruzou por ela; uma fatia colorida num mundo colorido. Encantada, ela nadou em meio às suas bolhas.

Estando ou não numa competição, ela sempre iria gostar das coisas pequenas. Costumava fazer suas explorações incansavelmente, abanando a areia e estudando os peixes com o mesmo entusiasmo.

À primeira vista parecia uma rocha. Contudo, o treinamento fez com que a moça nadasse em sua direção. Estava a menos de um metro quando algo passou com muita rapidez ao seu lado. com uma certa irritação, viu aquela mão cheia de cicatrizes e dedos longos apontando para baixo e tomando posse da pedra.

Que idiota, pensou ela, prestes a dar as costas para a cena quando viu que o sujeito estava tentando soltar a pedra. No fim das contas não era uma pedra, mas o cabo coberto de crostas de uma espada que ele puxou da bainha do mar. Sorrindo em volta do bocal do respirador, a tal mão o levantou.

E teve sangue-frio para saudá-la com a peça, como se estivesse cortando um pedaço de tecido dentro d’água. Quando ele subiu, Tate foi atrás. Os dois chegaram à superfície, um atrás do outro.

Ela cuspiu o seu bocal.

- Eu a vi primeiro.

- Acho que não. - Ainda sorrindo, ele levantou a máscara. - De qualquer maneira, você foi lenta e eu não. Achado não é roubado.

- Regras de salvamento - afirmou a moça, esforçando-se para manter a calma. - Você estava no meu espaço.

- Na minha opinião, você é que estava no meu. Tenha mais sorte da próxima vez.

- Tate, querida. - Do convés do Aventura, Maria Beaumont acenava e gritava. - O almoço está pronto. Convide o seu amigo e subam a bordo.

- Não ligue se eu o fizer. - com algumas braçadas mais fortes ele chegou à proa do Aventura. A espada caiu no convés fazendo ruído, seguida pelos pés-de-pato.

Amaldiçoando o começo lamentável do que antes prometia ser um verão maravilhoso, Tate emergiu. Ignorando a mão que o rapaz estendeu de um jeito galante, ela subiu no barco no mesmo instante em que seu pai e o outro mergulhador vieram à tona.

- Bom te conhecer. - Ele passou a mão no cabelo molhado e sorriu de um jeito encantador para Maria. - Matthew Lassiter.

- Maria Beaumont. Bem-vindo a bordo. - A mãe de Tate devolveu o sorriso sob a longa aba do seu chapéu florido, que protegia seu rosto dos raios de sol. Ela era uma mulher que chamava a atenção, com sua pele que parecia porcelana e formas graciosas que se anteviam sob a blusa flutuante e as calças largas. Maria tirou os óculos escuros para cumprimentá-lo.

- Vejo que já conheceu a minha filha, Tate, e o meu marido, Ray.

- Por assim dizer. - Matthew tirou o cinto de lastro e a máscara, e colocou ambos num canto. - Que capricho isso aqui.

- Oh, sim, obrigada. - Maria parecia orgulhosa enquanto circulava pelo convés. Ela não era muito fã de serviços domésticos, mas não havia nada de que gostasse mais do que manter o Aventura limpo e brilhante. - E aquele ali é o seu barco - disse ela enquanto apontava para além da proa. - O Demônio do Mar.

Tate bufou ao ouvir o nome. com certeza era adequado, pensou a moça, para o homem e a embarcação. Ao contrário do Aventura, o Demônio do Mar não brilhava. O velho barco de pesca precisava urgentemente de uma pintura. Visto de longe, não era muito diferente de uma banheira flutuando na travessa cristalina do oceano.

- Não tem luxo nenhum - dizia Matthew -, mas pelo menos funciona. Ele deu um passo à frente, a fim de oferecer uma mão para os outros dois mergulhadores.

- Que olho, garoto. - Buck Lassiter deu um tapinha nas costas de Matthew. - Este menino nasceu com jeito para o negócio - disse para Ray com uma voz áspera que nem vidro rachado e depois, com um certo atraso, lhe estendeu a mão. - Sou Buck Lassiter, e este é o meu sobrinho, Matthew.

Ignorando as apresentações que estavam sendo feitas no convés, Tate guardou seu equipamento e depois arrancou a roupa de mergulho. Enquanto os outros admiravam a espada, ela adentrou a cabine principal e se enfiou em seus aposentos.

Não era nada incomum, admitiu enquanto pegava uma camiseta enorme. Seus pais estavam sempre fazendo amizades com estranhos, convidando-os para subir a bordo e preparando-lhes refeições. Seu pai, simplesmente, jamais demonstrou ter a conduta cautelosa e desconfiada de um caçador de tesouros veterano. Muito pelo contrário, os dois irradiavam a conhecida hospitalidade sulista.

Normalmente ela achava tal característica afetuosa. Mas queria que ambos fossem um pouco mais seletivos.

Tate ouviu seu pai cumprimentar Matthew calorosamente pela descoberta e rangeu os dentes.

Maldição, ela a havia visto antes.

Que garota mal-humorada, concluiu Matthew enquanto oferecia a espada para que Ray a examinasse. Era uma característica tipicamente feminina. E não havia dúvida de que a pequena ruiva era do sexo feminino. Seu cabelo da cor do cobre podia ser tão curto quanto o de um garoto, mas com certeza ela tinha um bom pretexto para usar biquíni.

E era bem bonita, cismou o garoto. Seu rosto podia ser um tanto anguloso, com malares afiados o bastante para cortar o dedo abusado de um homem mais atrevido, mas ela tinha olhos verdes, grandes e deliciosos. Olhos que, pelo que o rapaz se lembrava, haviam lançado pequenos dardos afiados na sua direção, dentro e fora d’água.

Isso só fazia com que irritá-la se tornasse algo cada vez mais interessante.

Como os dois iam ficar mergulhando na mesma piscina por um tempo, ele tinha mais é que aproveitar.

Matthew estava sentado de pernas cruzadas no convés superior dianteiro quando Tate saiu novamente. A moça deu uma rápida olhada para o rapaz e havia quase se livrado do seu mau humor. A pele do rapaz estava bronzeada e este trazia no peito uma moeda de prata de oito reales pendurada numa corrente. Ela quis lhe perguntar sobre o objeto e saber onde o havia encontrado e como.

Mas ele sorria maliciosamente em sua direção. Seus modos, orgulho e curiosidade se chocaram contra uma muralha que a mantinha artificialmente em silêncio enquanto a conversa fluía a sua volta.

Matthew deu uma mordida num dos generosos sanduíches de presunto de Maria.

- Que maravilha, Sra. Beaumont. Muito melhor do que a lavagem com a qual Buck e eu estamos acostumados.

- Coma um pouco dessa salada de batata. - Lisonjeada, ela serviu uma porção generosa no prato de papel do rapaz. - E pode me chamar de Maria, querido. Tate, venha almoçar.

- Tate. - Matthew manteve os olhos meio fechados na direção do sol enquanto a estudava. - Que nome incomum.

- É o nome de solteira de Maria. - Ray passou um braço por trás dos ombros da sua esposa. Ele se sentou com a sunga molhada para aproveitar o calor e a companhia. Seu cabelo grisalho se agitava no meio da brisa suave. - A Tate aqui mergulha desde pequena. Eu não podia desejar uma parceira melhor. Maria ama o mar, adora navegar, mas raramente dá uma braçada.

Com uma risadinha, Maria encheu novamente os copos grandes de chá gelado.

- Eu gosto de olhar para a água. Estar dentro dela é algo completamente diferente. - A matriarca se sentou serenamente com sua bebida. - Logo que passa da altura dos joelhos, eu entro em pânico. Sempre me pergunto se já me afoguei numa vida anterior. Por isso fico feliz por tomar conta do barco nesta.

- E ele é dos bons. - Buck já havia estimado o valor do Aventura. Tratava-se de um navio de trinta e oito pés com tudo em ordem, convés de teca e partes metálicas de qualidade. Ele supunha que o barco contivesse dois camarotes e uma cozinha completa. Sem a máscara facial que lhe havia sido receitada, ainda podia contemplar as enormes janelas da casa do leme. Ele gostaria que seus dedos fossem levados para dar um passeio dentro do motor e da estação de controle.

Uma olhada em volta estava nos planos para mais tarde, depois que estivesse com seus óculos. Mesmo sem eles, era possível calcular que o diamante no dedo de Maria era um bom cinco quilates e que o anel dourado em sua mão direita era uma antigüidade.

Buck sentia cheiro de dinheiro.

- Então, Ray... - Casualmente, ele largou seu copo. - Eu e Matthew já estamos mergulhando aqui há algumas semanas. Não havíamos visto vocês.

- Mergulhamos hoje pela primeira vez. Viemos velejando da Carolina do Norte e saímos no dia em que Tate começou suas férias de meio de ano.

Universitária. Matthew tomou um bom gole de chá gelado. Ele desviou os olhos das pernas da moça de forma deliberada para se concentrar no almoço. E concluiu que suas apostas haviam ido definitivamente por água abaixo. Já estava com quase vinte e cinco anos e não queria se envolver com universitárias arrogantes.

- Vamos passar o verão aqui - prosseguiu Ray. - Talvez fiquemos mais algum tempo. No último inverno, mergulhamos ao longo da costa do México durante algumas semanas. Há alguns bons restos de navios por lá, mas a maioria deles já foi muito explorada. Conseguimos, no entanto, uma ou duas coisas de lá. Alguns belos objetos de cerâmica, uns cachimbos de argila.

- E aqueles belos frascos de perfume - acrescentou Maria.

- Já esteve por lá faz tempo, não é? - sugeriu Buck.

- Há dez anos. - Os olhos de Ray brilhavam. - Quinze anos depois da primeira vez em que mergulhei. - Ele se inclinou para a frente, de caçador para caçador. - Um amigo meu me persuadiu a ter aulas de mergulho. Depois que terminei o curso, fui com ele para Diamond Shoals. Só precisei cair na água uma vez para ser fisgado.

- Agora ele passa todos os seus minutos livres mergulhando, planejando um mergulho ou conversando sobre o último mergulho que deu. - Maria soltou sua gargalhada vigorosa. Seus olhos, que tinham a mesma cor verde dos de sua filha, se reviraram. - Foi assim que aprendi a lidar com barcos.

- Eu, por minha vez, já venho buscando tesouros há mais de quarenta anos. - Buck comeu sua última garfada da salada de batata. Ele não comia tão bem assim havia mais de um mês. - Está no sangue. com meu pai era a mesma coisa. Pegamos tudo a que tínhamos direito na costa da Flórida, antes do governo ficar tão rígido. Eu, meu pai e meu irmão. Os Lassiter.

- Sim, é claro. - Ray bateu com a mão em seu joelho. - Já li sobre vocês. Seu pai era o grande Matt Lassiter. Encontraram o El Diablo perto de Conch Key em 1964.

- Em 1963 - corrigiu Buck com um sorriso. - Nós encontramos o navio e a fortuna que nele havia. O tipo de ouro com o qual um homem sonha, jóias, lingotes de prata. Segurei em minhas mãos uma corrente de ouro com a figura de um dragão. Um maldito dragão de ouro - disse ele antes de parar, ruborizado. - Aceite minhas desculpas, senhora.

- Não precisa. - Fascinada com a imagem, Maria rapidamente lhe preparou outro sanduíche. - Como é que ele era?

- Não parecia nada com que você possa imaginar. - Novamente à vontade, Buck deu uma mordida no sanduíche. - Seus olhos eram rubis, havia esmeraldas em sua cauda. - Ele olhou com amargura para as suas mãos naquele instante e as encontrou vazias. -- Ele valia umas cinco fortunas.

Maravilhado, Ray olhava fixamente.

- Sim, eu vi fotos dele. O Dragão do Diablo. Você o trouxe à tona. Extraordinário.

- O Estado fechou o cerco - continuou Buck. - Freqüentamos o tribunal durante anos. Alegaram que o limite de três milhas começava no final do recife, não na costa. Os filhos-da-mãe nos extorquiram antes da história acabar. No final ficaram com tudo e nós perdemos. Não foram nem um pouco diferentes de piratas - afirmou, antes de beber tudo que havia em seu copo.

- Que terrível para vocês - murmurou Maria. - Trabalharam tanto só para serem roubados.

- Isso partiu o coração do meu velho. Ele nunca mais mergulhou novamente. - Buck mexeu os ombros. - Bem, há outros navios naufragados. Outros tesouros. - Ele ficou olhando para Ray e deu um tiro no escuro: - Como o Santa Margarida e o Isabela.

- Sim, eles estão aqui. - Os olhos de Ray se fixaram nos de Buck. - Estou certo disso.

- Pode ser. - Matthew pegou a espada e a virou em suas mãos. - Ou então ambos foram arrastados mar adentro. Não há registro de sobreviventes. Só se sabe que dois navios colidiram com o recife.

Ray levantou um dedo.

- Ah, mas testemunhas alegam que viram o Isabela e o Santa Margarida afundando. Sobreviventes de outros navios viram as ondas subindo e furando os seus cascos.

Matthew levantou o olhar na direção de Ray e balançou a cabeça.

- Talvez.

- Matthew é um incrédulo - comentou Buck. - Não estou nem aí. Vou te dizer uma coisa, Ray - ele se inclinou para a frente, com seus olhos azuis e penetrantes -, tenho feito pesquisas por conta própria. com alguma freqüência ao longo dos últimos cinco anos. Há três, eu e o garoto aqui passamos mais de seis meses vasculhando essas águas; principalmente a faixa de duas milhas que vai de St. Kitts até Névis e a área da península. Encontramos uma coisa e outra, mas não vimos nenhum sinal daqueles dois navios. Mas sei que estão aqui.

- Bem... - Ray puxou o lábio inferior, um gesto que indicava a Tate que ele estava refletindo. - Acho que vocês estavam olhando no lugar errado, Buck. Não que eu queira dizer que conheço melhor a região. Os navios partiram de Névis, mas, pelo que pude supor, os destroços perdidos estão mais ao norte, logo depois do pontal de St. Kitts.

Os lábios de Buck se curvaram.

- Penso a mesma coisa. O mar é muito grande, Ray. - Ele lançou um olhar na direção de Matthew e foi recompensado com um encolher de ombros de indiferença. - Tenho quarenta anos de experiência e o garoto mergulha desde que aprendeu a andar. O que eu não tenho é apoio financeiro.

Por ter trabalhado e galgado degraus até se tornar diretor-executivo de uma grande firma de corretagem antes de se aposentar prematuramente, Ray conhecia uma oportunidade de negócios quando esta lhe aparecia em cima da mesa.

- Você está em busca de um parceiro, Buck. Teríamos que conversar sobre isso. Discutir termos, porcentagens. - Enquanto se levantava, Ray deu um sorriso. - Por que não vamos para o meu escritório?

- Muito bem. - Maria sorriu enquanto seu marido e Buck adentravam a cabine principal. - Acho que vou me sentar à sombra, ler e cochilar um pouco. Vocês, crianças, podem se divertir sozinhas. - Ela foi para baixo de uma tenda listrada e se acomodou com seu chá gelado e seu romance de bolso.

- Acho que vou colocar em ordem a minha parte dos despojos. - Matthew se esticou e alcançou um enorme saco plástico. - Posso pegar isso emprestado? - Sem esperar uma resposta, ele colocou os apetrechos no seu interior e depois ergueu os tanques. - Quer me dar uma ajuda?

- Não.

Ele levantou uma sobrancelha.

- Imaginei que você poderia querer ver como faço para limpar isso. - Ele fez um gesto com a espada e ficou esperando para ver se a curiosidade de Tate seria maior do que a sua irritação. Não precisou esperar muito tempo.

Com um resmungo, a moça pegou o saco plástico e desceu com ele pela escada para nadar até o outro lado.

O Demônio do Mar parecia pior visto de perto. Tate calculou com precisão o seu balanço no meio da corrente e se lançou por sobre a amurada. Ela logo sentiu um leve cheiro de peixe.

O equipamento de mergulho estava cuidadosamente arrumado e guardado. Mas o convés precisava de uma faxina, assim como de uma pintura. As janelas na pequena casa do leme, onde havia uma rede pendurada, estavam sujas e manchadas de sal e fuligem. Um par de baldes virados de cabeça para baixo e uma segunda rede serviam como assentos.

- Isto aqui não é o Queen Mary. - Matthew guardou as suas garrafas de mergulho. - Mas também não é o Titânio. Não é bonito, mas serve para navegar.

Ele pegou o saco que estava com a moça e guardou seu macacão demergulho numa enorme lata de lixo de plástico.

- Quer beber alguma coisa?

Tate deu mais uma lenta olhada em volta.

- Você tem alguma coisa esterilizada?

O rapaz abriu a tampa de um isopor cheio de gelo e tirou uma Pepsi. Tate logo a pegou e se sentou num dos baldes.

- Vocês estão vivendo a bordo.

- Isso mesmo, - Ele foi para a casa do leme. Quando percebeu que Matthew estava fazendo barulho, ela se esticou para afagar a espada que havia sido deixada sobre o outro balde.

Será que já havia ornado o cinto de algum comandante espanhol com renda no punho das mangas e atrevimento na alma? Será que ele a havia usado para assassinar bucaneiros ou só a ostentava por uma questão de estilo? Talvez ele a tivesse empunhado cheio de tensão e ansiedade enquanto as ondas batiam no navio.

E ninguém sentira o seu peso desde então.

Ela olhou para cima e viu Matthew em pé no vão da porta da casa do leme, observando-a. Furiosamente embaraçada, Tate colocou a mão para trás e tomou um gole da sua Pepsi.

- Temos uma espada em casa - disse a moça calmamente. - Do século dezesseis. - Ela só não acrescentou que sua família só tinha o cabo, e que este estava quebrado.

- Bom para você. - Ele pegou a espada e se acomodou com ela sobre o convés. E já estava lamentando o fato de tê-la convidado de forma tão impulsiva. Não lhe fazia muito bem ficar repetindo para si próprio que ela era muito jovem. Não enquanto a moça usasse aquela camiseta molhada modelando o seu corpo e aquelas pernas brancas recém-queimadas pelo sol parecessem mais longas do que deviam. E aquela voz - meio áspera, meio afetada - não pertencia a uma criança, e sim a uma mulher. Ou deveria pertencer.

Ela franzia as sobrancelhas enquanto o observava trabalhar pacientemente para tirar a corrosão da peça. Tate não esperava que aquelas mãos calejadas e cheias de cicatrizes fossem pacientes.

- Por que vocês querem parceiros? Ele nem sequer olhou para cima.

- Eu não disse isso.

- Mas o seu tio...

- Buck é assim. - Matthew levantou um ombro. - É ele quem cuida do negócio.

Ela apoiou os cotovelos nos joelhos e o queixo nos pulsos.

- E você cuida do quê?

Nesse instante, o rapaz olhou para cima e seus olhos, agitados apesar da paciência das suas mãos, se encontraram com os dela.

- Da busca.

Ela entendeu perfeitamente e lhe sorriu com uma avidez que ignorava a espada que estava entre ambos.

- É maravilhoso, não? Pensar no que pode estar lá embaixo, e que você pode vir a ser a pessoa que fará tal descoberta. Onde foi que encontrou a moeda? - Tate sorriu e Matthew olhou, perplexo, enquanto a moça se esticava para tocar o disco prateado em seu peito. - A moeda de oito reales.

- Foi o meu primeiro mergulho para resgatar objetos - disse ele, na esperança de que a garota não se mostrasse tão atraente e amigável. - Na Califórnia. Moramos lá por um tempo. O que você está fazendo aqui buscando tesouros quando deveria estar levando um universitário qualquer à loucura?

Tate jogou a cabeça para trás e experimentou agir com alguma sofisticação.

- Os garotos são muito fáceis - disse ela com a fala arrastada, enquanto deslizava para se sentar em frente a ele no convés. - Eu gosto de desafios.

Uma rápida guinada nas entranhas dele lhe serviu de aviso.

- Cuidado, garotinha - murmurou Matthew.

- Tenho vinte anos - disse ela com todo o orgulho forçado da condição feminina que florescia. Ou teria, como retificou, até o final do verão. - Por que você está aqui, mergulhando em busca de um tesouro, em vez de trabalhar para ganhar uns trocados?

Dessa vez ele sorriu.

- Porque sou bom. Se você tivesse sido melhor, estaria com isto aqui e eu não.

Em vez de lhe dar uma resposta, ela tomou outro gole de Pepsi.

- Por que o seu pai não está aqui? Ele desistiu de mergulhar?

- De certa forma, sim. Ele está morto.

- Oh. Desculpe.

- Foi há nove anos - prosseguiu Matthew enquanto continuava limpando a espada. - Estávamos fazendo umas buscas na Austrália.

- Foi um acidente de mergulho?

- Não. Ele era bom demais para ter sofrido um acidente. - O rapaz pegou a lata que havia colocado no convés e tomou um gole. - Ele foi assassinado.

Tate demorou um tempo para absorver a informação. Matthew havia falado de um jeito tão prosaico que ela não registrou a palavra ”assassinado”.

- Meu Deus, como...

- Não sei exatamente. - Nem ele sabia por que havia lhe contado aquilo. - Ele entrou no mar e, quando o trouxemos à tona, estava morto. Passe-me aquele pano.

- Mas...

- Chega de falar sobre isso - disse o rapaz, enquanto se esticava para pegar o pano. - Não adianta ficar discorrendo sobre o passado.

Ela sentia uma ânsia de encostar sua mão na dele, mas julgou, corretamente, que o rapaz poderia quebrar o seu pulso.

- Que afirmação estranha vinda de um caçador de tesouros.

- Meu bem, o que vale é o que isso traz para você. E não é mau.

Distraída, ela olhou de novo para o cabo da espada. Enquanto Matthew esfregava, dava para começar a ver o brilho.

- Prata - murmurou Tate. - É prata. Uma marca de patente. Eu sabia.

- É uma bela peça.

Esquecendo-se de tudo, exceto da descoberta, ela se inclinou para mais perto e deslizou os dedos pelo brilho da lâmina.

- Acho que é do século dezoito. Ele olhou de modo agradável.

- Você acha?

- Estou me especializando em arqueologia marinha. - Impaciente, ela jogou para trás a franja que lhe caía sobre a testa. - Pode ter pertencido ao capitão.

- Ou a qualquer outro oficial - disse Matthew secamente. - Mas ela vai fazer com que eu tenha cerveja e camarão por um bom tempo.

Atordoada, Tate se empertigou.

- Você vai vendê-la? Vai simplesmente vendê-la? Por dinheiro?

- Não vou trocá-la por conchas de marisco.

- Mas você não quer saber de onde ela veio, a quem pertencia?

- Particularmente, não. - Ele virou a parte do cabo que estava limpa na direção do sol e ficou vendo-a brilhar sob a luz. - Há um negociante de antigüidades em Saint Barts que irá me propor um bom negócio.

- Isso é horrível. Isso é... - Ela pensou no pior insulto que podia dizer. - Ignorante. - Num instante a moça já estava de pé. - Só por vendê-la dessa maneira. Como você bem sabe, ela pode ter pertencido ao comandante do Isabela ou do Santa Margarida. Isso seria uma descoberta histórica. Poderia vir a pertencer a um museu.

Amadores, pensou Matthew com desgosto.

- O lugar dela é onde eu a colocar. - Ele se ergueu determinadamente. - Fui eu que a encontrei.

Tate sentiu um aperto no coração ao pensar na possibilidade de que a peça viesse a parar numa loja de antigüidades cheia de poeira, ou pior, fosse comprada por um turista descuidado qualquer que resolvesse pendurá-la na parede da sua espelunca.

- Eu dou cem dólares por ela. Seu sorriso faiscava.

- Ruiva, eu poderia conseguir mais do que isso derretendo o cabo.

Tal possibilidade fez com que a jovem ficasse pálida.

- Você não faria isso. Não teria coragem. - Ao vê-lo levantar a cabeça, ela mordeu o lábio. O aparelho de som que pretendia colocar no seu quarto dentro do alojamento da faculdade teria que esperar. - Duzentos dólares, então. É tudo que tenho guardado.

- Vou arriscar minhas fichas em Saint Bart’s.

As faces de Tate começaram a ficar coradas novamente.

- Você não passa de um oportunista.

- Tem razão. E você é uma idealista. - Ele ria enquanto a moça estava em pé na sua frente, com os punhos cerrados e os olhos cuspindo fogo. Às suas costas, ela percebeu uma movimentação no convés do Aventura. - Por bem ou por mal, ruiva, parece que somos parceiros.

- Só se for sobre o meu cadáver.

Ele a pegou pelos ombros. Por um minuto de medo, ela achou que o rapaz fosse jogá-la no mar. Mas Matthew simplesmente a virou para que encarasse o seu próprio barco.

Seu coração foi a pique enquanto via seu pai e Buck Lassiter apertando as mãos.

 

 Um pôr-do-sol luminoso lançou tons dourados e rosados que atravessavam o céu e sumiam no mar. Depois de tal esplendor veio, num estalar de dedos, aquele crepúsculo tão comum nos trópicos. Por sobre as águas calmas vinha o som arranhado de um rádio portátil, a bordo do Demônio do Mar, que fazia pouca justiça ao ritmo animado do reggae. O peixe frito podia estar exalando um cheiro delicioso, mas Tate não estava num bom astral.

- Não vejo por que precisamos de parceiros. - Tate apoiava os cotovelos na mesa estreita que ficava na cozinha do navio e olhava com uma expressão carrancuda para sua mãe, que estava de costas.

- Seu pai se deu bem com Buck. - Maria salpicou alecrim moído na frigideira. - É bom que ele tenha um homem da sua idade para poder conversar.

- Ele tem a nós - rosnou Tate.

- É claro que sim. - Maria sorriu enquanto olhava para trás. - Mas homens precisam de homens, querida. Eles precisam cuspir e arrotar de vez em quando.

Tate bufou ao pensar que seu pai, cuja educação era impecável, poderia ter esse tipo de atitude.

- O problema é que não sabemos nada sobre eles. Quer dizer, eles simplesmente apareceram no nosso pedaço. - Ela ainda estava bastante irritada. - Papai passou meses pesquisando esses navios naufragados. Por que deveríamos confiar nos Lassiter?

- Porque eles são os Lassiter - disse Ray enquanto entrava na cozinha. Ele se curvou e deu um beijo estalado na testa da filha. - Nossa menina é muito desconfiada, Maria. - Ele piscou para sua esposa e, depois, pelo fato de ser sua vez de cuidar da cozinha, começou a arrumar a mesa. - Até certo ponto isso é bom. Não é sensato acreditar em tudo que se vê e se ouve. Mas, às vezes, você precisa agir de acordo com os seus instintos. Os meus me dizem que os Lassiter são exatamente de quem precisamos para incrementar essa pequena aventura.

- Como? - Tate apoiou o queixo no punho. - Matthew Lassiter é um sujeitinho arrogante, com falta de visão e...

- Jovem - emendou Ray com um piscar de olhos. - Maria, isso está cheirando muito bem. - Ele passou os braços em volta da cintura da esposa e começou a acariciar o seu pescoço. Ela exalava um aroma de loção bronzeadora e de Chanel.

- Então vamos nos sentar para comer.

Mas Tate não estava disposta a deixar o assunto morrer.

- Papai, quer saber o que ele está planejando fazer com a espada? Vai vendê-la para um negociante qualquer.

Ray se sentou e franziu os lábios.

- A maior parte dos exploradores de restos de naufrágios vende o que encontra. É assim que eles ganham a vida.

- Tudo bem. - Tate pegou mecanicamente a travessa que sua mãe a ofereceu e se serviu. - Mas a espada deveria ser datada e avaliada antes. Ele não está nem ligando para o que ela é e a quem pertenceu.

De acordo com aquele sujeito, não passa de algo que vai ser trocado por um engradado de cervejas.

- Que lástima - suspirou Maria enquanto Ray se servia de uma dose de vinho. - Sei como você se sente, querida. As Tate sempre foram defensoras da história.

- E os Beaumont também - acrescentou o marido. - É assim que os sulistas agem. Você tem o seu ponto de vista, Tate - gesticulou Ray com a faca. - E eu simpatizo com ele. Mas também entendo o lado de Matthew. O pouco tempo que ele gasta para realizar suas tarefas, o lucro pequeno que obtém pelos seus esforços. Se o avô dele tivesse seguido esse caminho, teria morrido rico. Em vez disso, ele optou por partilhar suas descobertas e acabou sem nada.

- Tem que haver um meio-termo - insistiu Tate.

- Não para algumas pessoas. Mas acredito que Buck e eu o encontramos. Se encontrarmos o Isabela ou o Santa Margarida, vamos solicitar um arrendamento, caso não estejamos fora do limite. De qualquer maneira, iremos dividir o que recuperarmos com o governo de Saint Kitts e Névis, termo com o qual ele concordou relutantemente. - Ray levantou seu copo e ficou olhando para o vinho. - Buck concordou com isso porque temos algo de que ele precisa.

- O quê? - quis saber Tate.

- Temos um suporte financeiro forte o bastante para que continuemos nessa operação por algum tempo, obtendo ou não resultados. Temos tempo de sobra, já que você concordou com a possibilidade de trancar a faculdade no próximo semestre. E se isso vier a ser um problema, poderemos adquirir o equipamento necessário para uma ampla operação de resgate de objetos perdidos.

- Então eles estão nos usando. - Irritada, Tate empurrou seu prato para o lado. - Esse é o meu ponto de vista.

- Numa parceria, cada parte deve fazer bom uso da outra. Longe de estar convencida, Tate se levantou para se servir de um copo de limonada. Na teoria, ela não era contra a parceria.

Desde que era bem nova lhe foi ensinado o valor do trabalho em equipe. Era com essa equipe em especial que a moça estava preocupada.

- E o que eles irão trazer para a parceria?

- Em primeiro lugar, ambos são profissionais. Nós somos amadores. - Ray acenou com a mão quando Tate começou a protestar. - Por mais que eu goste de sonhar o contrário, jamais encontrei os destroços de navio algum; só explorei aqueles que foram encontrados e salvos por outros. Bem, tivemos sorte algumas poucas vezes. - Ele pegou na mão de Maria e passou o polegar em volta do anel de ouro que a esposa usava. - Eu trouxe à tona bugigangas das quais outros sequer tomaram conhecimento. Desde o meu primeiro mergulho eu sonhava em encontrar um navio que nunca tivesse sido descoberto.

- E você irá - afirmou Maria na mais pura fé.

- E pode ser desta vez. - Tate passou a mão no cabelo. Por mais que amasse os seus pais, a falta de praticidade deles a desconcertava. - Papai, todas as pesquisas que você fez, os arquivos, os manifestos, as cartas. O seu jeito de trabalhar com os dados sobre tempestades, marés e tudo o mais. Você investiu muito da sua energia nisso.

- Investi mesmo - concordou ele. - E por causa disso estou muito interessado no fato de grande parte da pesquisa de Buck ter muito a ver com a minha. Posso aprender muito com esse convívio. Você sabia que ele trabalhou durante três anos no Atlântico Norte, em profundidades de cento e cinqüenta metros ou mais? Águas geladas e escuras. Ele já recuperou objetos perdidos na lama, no meio de corais e em áreas onde tubarões se alimentavam. Imagine só.

Tate podia muito bem ver como seu pai estava, no jeito que seus olhos se desfocavam e seus lábios se curvavam com sonhos. com um suspiro, ela colocou a mão no seu ombro.

- Papai, só porque ele teve mais experiências...

- Uma vida a mais. - Ray se esticou para trás e bateu de leve na mão da filha. - É isso que ele nos traz. Experiência, perseverança, a mente de um caçador. E algo tão básico quanto energia de trabalho. Duas equipes, Tate, são mais eficientes do que uma só. - Ele fez uma pausa. - Tate, é importante para mim que você entenda a minha posição. Se não puder aceitá-la, vou dizer para Buck que o acordo está desfeito.

E isso iria lhe custar muito, pensou Tate, arrasada. Orgulho, pois já dera a sua palavra. Esperança, porque já estava contando com o sucesso dessa nova equipe.

- Eu entendo - disse a moça, deixando de lado a sua aversão particular. - E posso aceitar isso. Só mais uma pergunta.

- Diga lá - incitou Ray.

- Como podemos ter certeza de que, quando eles mergulharem sozinhos, não irão ficar com o que encontrarem?

- Porque iremos separar as parcerias. - Ele se levantou para limpar a mesa. - Eu mergulharei com Buck. E você com Matthew.

- Isso não é uma ótima idéia? - disse Maria aos risos perante a expressão horrorizada da filha. - Quem quer um pedaço de bolo?

A aurora surgia projetando raios cor de bronze e rosados que espelhavam o céu. O ar era puro como prata e deliciosamente cálido. A distância, a costa íngreme de St. Kitts despertava para a luz em tons verdes e marrons enevoados. Mais para o sul, o vulcão que dominava a pequena ilha de Névis estava envolto por nuvens. As praias de areia branca que nem açúcar estavam desertas.

Um trio de pelicanos passou mais acima e depois mergulhou, com três esguichos rápidos e quase inaudíveis, que jogaram a água para o alto produzindo uma cascata de gotas distintas. Eles emergiram, voaram e mergulharam de novo, com uma uniformidade cômica. Pequenas ondas quebravam preguiçosamente contra o casco.

Lenta e lindamente, a luz ficou mais forte, e a água assumiu um tom safira.

O cenário não levantou o ânimo de Tate enquanto ela se vestia. A jovem checou seu relógio de mergulhador, a bússola de pulso e a calibragem das garrafas. Enquanto seu pai e Buck tomavam café e conversavam na coberta de proa, ela prendia sua faca de mergulho na panturrilha.

Ao seu lado, Matthew fazia a mesma coisa.

- Não estou nem um pouco mais feliz do que você com isso - murmurou ele, enquanto suspendia os tanques da moça e a ajudava a amarrá-los.

- Isso levanta o meu astral.

Ambos afixaram cintos de lastro, olhando um para o outro com uma desconfiança mútua.

- Tente apenas seguir em frente e fique longe do meu caminho. Vamos nos dar bem.

- Sério? - Ela bafejou dentro da máscara, esfregou e lavou.

- Por que você não sai do meu caminho? - Tate deu um sorriso forçado enquanto Buck e seu pai passeavam pelo convés.

- Pronta? - perguntou Ray, enquanto checava as presilhas da garrafa da filha. Ele olhou para o recipiente de plástico laranja berrante que servia como bóia e balançava tranqüilamente no mar calmo. - Lembre-se da sua direção.

- Norte a noroeste... que nem no filme com Cary Grant. – (Tate refere-se ao filme North by Northwest, cujo título em português é Intriga InternacionaL (N. T.) Tate beijou o rosto do pai, que exalava o aroma da sua loção de barbear. - Não se preocupe.

Não estou preocupado, dizia Ray para si próprio. É claro que não. Só que era raro ver a filha mergulhando sem a sua companhia.

- Divirta-se,

Buck enganchou os polegares na cintura do short. Suas pernas eram curtas, grossas, e tinham joelhos salientes. Cobrindo a careca, havia um boné de interceptador dos Dodgers manchado de óleo. Ele usava óculos com lentes coloridas.

Tate achou que ele se parecia com um gnomo malvestido e acima do peso. Por algum motivo, ela o achou simpático.

- Vou ficar de olho no seu sobrinho, Buck.

Ele riu, e sua gargalhada se assemelhava a cascalhos se chocando.

- Faça isso, menina. E boa busca.

Com um meneio de cabeça, Tate debruçou-se na amurada de costas para o mar e mergulhou. Ficou esperando por Matthew, como uma parceira responsável. No momento em que o viu entrando na água, a moça se virou e nadou para o fundo.

Corais lilases tremulavam graciosamente com a corrente. Os peixes, assustados pela intrusão, fugiam para longe, num fluxo colorido de vida e movimento. Se ela estivesse com seu pai, poderia se deter mais algum tempo para aproveitar o momento, aquela transição atordoante de criatura do ar para uma do mar.

Ela poderia aproveitar e pegar umas conchas bonitas para a sua mãe ou ficar parada tempo bastante para persuadir um peixe a se aproximar e inspecionar os recém-chegados.

Mas com Matthew encurtando a distância, Tate estava menos tocada por aquelas maravilhas do que pelo puro espírito de competição.

Vamos ver se ele consegue manter o ritmo, pensou a moça, que, batendo as pernas com força, deslizava para oeste. A água ia ficando mais fria à medida que a jovem ia mais para o fundo, mas continuava agradável. Era uma pena, pensou Tate, que eles estivessem longe dos recifes e jardins de coral mais interessantes, mas havia o suficiente para agradar os sentidos - a própria água, o balanço das formações de coral em forma de leque, um peixe que cintilava.

Ela ficou de olho nas protuberâncias e nas descolorações da areia. De jeito nenhum perderia algo e o deixaria vir à tona com um novo triunfo.

Tate se esticou para pegar um pedaço de coral quebrado, o examinou e o descartou. Matthew nadava ao seu lado e tomou a frente. Embora a garota ficasse se lembrando de que a alternância de posições era um procedimento básico no mergulho, ela ficou aflita até conseguir mais uma vez ficar na frente.

Os dois só se comunicavam quando era extremamente necessário. Depois de concordarem em se espalhar, um mantinha o outro sob vigilância. Tanto por motivos de segurança como por suspeita, pensou Tate.

Durante uma hora, os dois varreram a área onde haviam encontrado a espada. A sensação inicial de antecipação de Tate começou a minguar quando perceberam que não descobririam mais nada. Num dado instante, ela estava espalhando a areia, e seu coração começou a bater mais forte quando notou um brilho. Sua visão de uma antiga fivela de sapato ou baixela de prata murchou quando encontrou uma lata de Coca-Cola do século vinte.

Desencorajada, ela nadou mais para o norte. De repente, um vasto jardim submarino com conchas e corais brilhantemente moldados, cheio de peixes velozes se alimentando, se descortinou. Era um jardim de coral cheio de lindas ramificações, frágeis demais para sobreviverem à ação das ondas rasas, que brotavam e se propagavam em tons de rubi, esmeralda e mostarda. Era o lar de dezenas de criaturas que se escondiam e se nutriam em seu interior, mas que na verdade o alimentavam.

Uma sensação de prazer a invadiu enquanto observava uma lesma com sua concha cor-de-abóbora rastejando com dificuldade sobre a rocha. Um peixe-palhaço se lançava rapidamente por entre os tentáculos de extremidade púrpura de uma anêmona, imune que era ao seu veneno. Um trio de magníficos peixes-anjo deslizava numa formação em busca do desjejum.

Parecia uma criança numa loja de doces, pensou Matthew enquanto a observava. Ela mantinha a sua posição com movimentos lentos, e seus olhos se mexiam com rapidez enquanto tentava absorver tudo aquilo de uma só vez.

Ele gostaria de pensar que a moça era uma tola, mas também estava apreciando o teatro marinho. Tanto o drama quanto a comédia continuaram a sua volta - peixes limpadores dourados e amarelos que nem o sol, dedicados que nem damas de companhia, se ocupavam limpando os exigentes peixes-gancho rainha. Lá no fundo, rápida e letal, uma moréia que estava à espreita saiu rápido da sua caverna para abocanhar uma garoupa desavisada.

Tate não se afastou do lugar onde estava, colada naquela cena de morte iminente, mas a estudou. E ele tinha que admitir que a moça era uma boa mergulhadora. Forte, com prática, sensível. Não gostava de trabalhar com Matthew, mas estava segurando as pontas.

O rapaz sabia que a maior parte dos amadores se sentia desencorajada se não desse de cara com uma moeda ou um artefato qualquer no espaço de uma hora. Mas ela era sistemática e aparentemente incansável. Duas outras peculiaridades que ele admirava numa companheira de mergulho.

Se os dois teriam que ficar presos um ao outro, pelo menos por uns dois meses, seria bom que Matthew desse o melhor de si.

O que considerou como um gesto de trégua, ele nadou até onde Tate estava e lhe deu um tapinha no ombro. Ela olhou por cima, com uma expressão imperturbável por trás da máscara. Matthew apontou para trás e viu aqueles olhos brilharem de aprovação quando avistaram um cardume de pequenas carpas prateadas. Num balançar cintilante, elas deram uma guinada a menos de quinze centímetros da mão esticada da moça e desapareceram.

Ela ainda estava sorrindo quando viu a barracuda.

Talvez estivesse a um metro dali, pairando imóvel com seus dentes salientes e olhos fixos. Desta vez foi Tate que apontou. Quando Matthew percebeu que ela estava mais entretida do que apavorada, continuou sua busca.

Tate olhava para trás ocasionalmente, para se certificar de que seus movimentos não iriam atrair sua expectadora. Mas a barracuda permaneceu serenamente a distância. Algum tempo depois, quando Tate se virou mais uma vez, o peixe já havia sumido.

Ela viu o conglomerado assim que a mão de Matthew se fechou sobre ele. Aborrecida e certa de que sua desatenção a impediu de encontrá-lo antes, ela nadou mais alguns metros para o norte.

Irritava-lhe o jeito dele de trabalhar tão sob controle. Se ela não conseguia ficar de olho no parceiro, ele estava praticamente sobre os seus ombros. com um gesto de quem estava se despedindo, ela se afastou, lixando-se para o fato de ele pensar que aquele pedaço disforme de rocha poderia tê-la interessado, por mais promissora que fosse sua superfície em forma de seixo.

Foi quando ela encontrou a moeda.

A pequena extensão de areia enegrecida a atraiu para mais perto. Ela abanou a areia mais por hábito do que por entusiasmo, imaginando que provavelmente fosse desenterrar o troco que caiu do bolso de alguém ou uma lata enferrujada que havia sido jogada de um barco que estava de passagem. Mas o disco enegrecido estava a apenas dois centímetros sob o lodo. No momento em que o arrancou ela sabia que estava segurando uma lenda.

Moedas de oito reales, pensou a moça, tonta com a descoberta. A canção de um pirata, a pilhagem de um bucaneiro.

Ao perceber que estava prendendo a respiração, um erro perigoso, ela começou a respirar lentamente enquanto raspava a sujeira com o polegar. Havia um resplendor embotado em volta daquela moeda de formas irregulares.

Olhando cautelosamente para trás, a fim de se certificar de que Matthew estava ocupado, ela a enfiou na manga da sua roupa de mergulho. Agora satisfeita, Tate começou a procurar por mais sinais.

Quando uma checada na calibração e no relógio indicou que seu tempo estava se esgotando, ela anotou sua posição e se virou na direção do parceiro. Ele, por sua vez, acenou com a cabeça e fez um sinal de positivo com o polegar. Ambos começaram a nadar para o leste, e aos poucos foram subindo à tona.

Matthew apontou para o seu saco de apetrechos cheio de coleta antes de gesticular indicando que o da parceira estava vazio. Ela lhe dirigiu o equivalente a um encolher de ombros e chegou à superfície na sua frente.

- Que azar, ruiva.

Ela segurou um sorriso de superioridade enquanto ambos subiam.

Talvez sim. - Assim que agarrou a escada do Aventura, ela jogou seus pés-de-pato no ponto em que seu pai esperava. - Talvez não.

- Como é que foi? - Assim que sua filha chegou ao convés, Ray a aliviou ajudando-a a tirar o cinto de lastro e as garrafas. Ao notar sua sacola vazia, esforçou-se para disfarçar a decepção. - Não havia nada que valesse a pena trazer, não é?

- Eu não diria isso - comentou Matthew. Ele deu a Buck um saco cheio antes de abrir o zíper do seu traje. Água pingava do seu cabelo e formava uma poça aos seus pés. - Pode ser que haja alguma coisa que valha a pena quando garimparmos isso.

- O garoto tem um sexto sentido em relação a essas coisas. - Buck colocou o saco em cima de um banco. Seus dedos já estavam coçando para trabalhar com o martelo no conglomerado.

- Deixem que eu faço isso - ofereceu-se Maria. Ela estava usando o seu chapéu florido e um vestido de verão amarelo-canário, que ressaltava o seu cabelo cor de fogo. - Só quero pegar alguns vídeos antes. Tate, você e Matthew vão à cozinha comer e beber alguma coisa gelada. Quero que esses dois desçam lá embaixo e arrisquem a sorte.

- Claro. - Tate tirou o cabelo molhado do rosto. - Ah, e por falar em sorte. - Ela puxou o punho da manga da sua roupa de mergulho. Meia dúzia de moedas caíram retinindo no convés. - Creio que tive um pouco.

- Filha-da-mãe. - Matthew se agachou. Pelo peso e pela forma, ele sabia o que a moça havia encontrado. Enquanto os outros ficaram esfuziantes, ele esfregou uma moeda entre os dedos e olhou friamente para o sorriso de Tate, típico de quem estava satisfeito consigo mesmo.

O rapaz não invejou a descoberta. Mas com certeza detestou o fato de a garota tê-lo feito fazer papel de idiota.

- Onde você as encontrou?

- A uns dois metros ao norte de onde você estava coletando as suas rochas. - Ela resolveu que o jeito dos seus olhos se apertarem por causa do desgosto, quase compensava a espada. - Você estava tão ocupado que eu não quis interrompê-lo.

- Sim. Posso apostar.

- É espanhola. - Ray ficou olhando para a moeda aninhada na sua palma. - Mil setecentos e trinta e três. Pode ser. A data está certa.

- Pode ser de outros navios - respondeu Matthew. - Tempo, corrente, tempestades... fazem com que as coisas se espalhem.

- Também pode muito bem ser do Isabela ou do Santa Margarida. - Os olhos de Buck se arregalaram. - Ray e eu iremos nos concentrar na área onde vocês encontraram as moedas. - Ele se levantou de onde estava agachado e deu uma moeda para Tate. - Essas irão para o bolo. Mas acho que você podia ficar com uma para você. Tudo bem, Matthew?

- Claro. - Ele encolheu os ombros antes de se virar para o isopor de gelo. - Não tem nada de mais.

- Para mim tem - murmurou Tate enquanto aceitava a moeda dada por Buck. - É a primeira vez que eu encontro moedas. De oito reales. - Ela deu uma gargalhada e se inclinou para dar um beijo impulsivo em Buck. - Que demais.

Suas bochechas rosadas se ruborizaram. As mulheres sempre foram um mistério para ele e, na maior parte do tempo, se mantinham a distância.

- Apegue-se a ela... a essa sensação. Às vezes demora muito tempo para que você possa tê-la novamente. - Ele deu um tapinha nas costas de Ray. - Vamos nos aprontar, parceiro.

Trinta minutos depois, a segunda dupla já estava a caminho. Maria havia estendido uma toalha de plástico e estava ocupada garimpando o conglomerado. Tate adiou o almoço para limpar as moedas de prata.

Matthew se sentou por perto no convés e devorou seu segundo sanduíche de bacon, tomate e alface.

- Vou contar uma coisa, Maria, adoraria levar você para trabalhar no meu navio. Você sabe como preparar um rango.

- Qualquer um pode fazer um sanduíche. - O som do seu martelo fazia contraponto com sua voz melosa. - Você precisa jantar conosco, Matthew. Aí verá o que é cozinhar.

Ele tinha certeza de que ouviu os dentes de Tate rangendo.

- Eu adoraria. Posso ir até Saint Kitts se você precisar de mantimentos.

- Isso é muito gentil da sua parte. - Ela havia trocado de roupa, colocado uma bermuda e uma camisa folgada, e estava suando. De algum modo, ainda conseguia ficar parecida com uma jovem sulista planejando um chá de fim de tarde. - Posso precisar de um pouco de leite fresco para fazer uns biscoitos.

- Biscoitos? Maria, para comer biscoitos caseiros eu voltaria nadando da ilha trazendo a vaca junto.

Ele se sentiu recompensado com sua gargalhada intensa e contagiante.

- Uns quatro litros serão suficientes. Mas não precisa ir agora - disse ela, empurrando-o de volta na hora em que ele começava a se levantar. - Temos tempo de sobra. Aproveite o almoço e a luz do sol.

- Pare de tentar agradar a minha mãe - disse Tate em voz baixa.

Matthew se aproximou rapidamente da moça.

- Eu gosto da sua mãe. Você tem o cabelo dela - murmurou.

- Os olhos também. - O rapaz mordeu outro pedaço do sanduíche. É uma pena que não tenha mais nada a ver com ela.

- Também possuo uma compleição delicada - disse Tate com um sorriso trincado.

Matthew voltou ao seu estudo.

- É, creio que sim.

Subitamente pouco à vontade, ela se deslocou alguns centímetros para trás.

- Você está me empurrando - reclamou. - Do mesmo jeito que faz quando mergulha.

- Tome, dê uma mordida. - Ele estendeu o sanduíche, quase que o enfiando dentro da sua boca, para que a moça não tivesse escolha a não ser aceitar. - Decidi que você é o meu talismã.

Em vez de ficar sufocada, ela engoliu.

- O que você disse?

- Há uma bela fluência sulista na sua maneira de dizer isso - observou o rapaz. - Um traço de gelo sob o mel. Meu talismã da sorte - repetiu ele. - Porque você estava por perto quando encontrei a espada.

- Você estava por perto quando eu a encontrei.

- Tanto faz. Há duas coisas para as quais eu não dou as costas. Um homem com ganância nos olhos, uma mulher com fogo nos dela. - Ele ofereceu mais um pedaço do seu sanduíche para Tate. - É sorte. Boa ou má.

- Acho que seria mais inteligente se você se afastasse da má sorte.

- Encará-la é melhor. E é sempre mais rápido assim. Os Lassiter já tiveram a má durante um bom tempo. - Ele encolheu os ombros e terminou o sanduíche sozinho. - Parece que você me trouxe um pouco da boa.

- Fui eu que encontrei as moedas.

- Talvez eu traga algumas para você também.

- Tenho uma coisa aqui - gritou Maria. - Venham ver. Matthew se levantou e, depois de um instante de hesitação, esticou a mão. com a mesma cautela, Tate a segurou e permitiu que o rapaz a levantasse do convés.

- Pregos - disse Maria, gesticulando com uma mão enquanto esfregava um lenço no rosto úmido com a outra. - Eles parecem velhos. E isso... - Ela pegou um pequeno disco no meio do entulho. - Parece com alguma espécie de botão. Talvez seja de cobre ou de bronze.

Com um grunhido, Matthew se agachou. Havia dois pregos de ferro, uma pilha de fragmentos de cerâmica e um pedaço de metal quebrado que podia ter sido uma espécie de fivela ou broche. Mas foram os pregos que mais o interessaram.

Maria tinha razão. Eram antigos. O rapaz pegou um deles, revirou-o nos dedos, imaginando que outrora ele havia sido afixado a tábuas que estavam condenadas a tempestades e vermes marinhos.

- É de latão - anunciou Tate com prazer enquanto removia a corrosão com o solvente e um pedaço de pano. - É um botão. Tem uma estampa gravada a água-forte, uma flor. Uma pequena rosa. Provavelmente estava no vestido de uma passageira.

Tal pensamento a deixou triste. A mulher, ao contrário do botão, não sobreviveu.

- Talvez. - Matthew olhou rapidamente para o botão. - São muito grandes as chances de que tenhamos atingido um ponto de impacto.

Tate pegou seus óculos de sol para bloquear a luz ofuscante.

- O que é um ponto de impacto?

- Exatamente o que parece. Provavelmente encontramos o ponto onde um navio bateu enquanto estava sendo carregado pelas ondas. Os destroços estão em outro lugar. - Ele levantou o olhar e esquadrinhou o mar até o horizonte. - Em outro lugar - repetiu.

Mas Tate balançou a cabeça. - Você não irá me desencorajar depois disso. Não subimos com as mãos vazias, Matthew. Em um só mergulho já conseguimos tudo isso. Moedas e pregos...

- Cerâmica quebrada e um botão de latão. - Matthew jogou o prego que segurava de volta na pilha. - Uma miséria, ruiva. Até mesmo para um amador.

Ela esticou a mão e segurou a moeda que estava pendurada no pescoço do rapaz.

- Onde há alguma coisa, há mais. Meu pai acredita que temos a chance de fazer uma descoberta maior. Eu também.

Tate estava pronta para estremecer de raiva, como Matthew bem notou. Ela levantou o queixo, pontudo como os pregos aos seus pés, enquanto seu olhar endurecia e esquentava.

Meu Deus, por que ela sempre tem que agir como uma colegial? Ele moveu o ombro e, deliberadamente, deu-lhe um tapinha de leve no rosto.

- Bem, isso nos manterá entretidos. Mas é muito mais preciso dizer que onde há alguma coisa, isso é tudo. - Ele esfregou as mãos e se levantou. - Deixa que eu limpo isso para você, Maria.

- Você é um sujeito bastante otimista, Lassiter. - Tate tirou a camiseta. Por algum motivo, no jeito que ele a olhou, apenas por um instante, sua pele esquentou. - Vou nadar um pouco. - Ela foi para o lado e mergulhou por sobre a amurada.

- Puxou ao pai - disse Maria com um sorriso tranqüilo. - Está sempre certa de que, no fim das contas, o trabalho duro, a perseverança e um bom coração irão compensar tudo. A vida é mais difícil para eles do que para aqueles que sabem que essas coisas nem sempre são o suficiente. - Ela deu um tapinha no braço do rapaz. - Deixe que eu arrumo as coisas, Matthew. Tenho o meu próprio sistema. Vá em frente e tente me conseguir aquele leite.

 

Tate achava o pessimismo uma covardia. Para ela, tal sentimento parecia simplesmente uma desculpa para que uma pessoa jamais tivesse que encarar a frustração.

Era ainda pior quando o pessimismo prevalecia.

Depois de duas semanas de mergulho a dois, da alvorada até o crepúsculo, eles não encontraram nada, a não ser alguns outros pedaços de metal corroído. Ela disse a si própria que não se sentia desestimulada e, durante os seus turnos, fez buscas com mais cuidado e entusiasmo do que era permitido.

Durante as noites, a moça estudava atentamente os gráficos do seu pai, as cópias que ele havia feito de suas pesquisas. Quanto mais Matthew demonstrava o seu desdém, mais Tate se mostrava determinada a provar que seu parceiro estava errado. Ela queria os destroços já, de um jeito passional. Pelo menos para superá-lo.

A jovem tinha que admitir que a semana não havia sido totalmente em vão. O clima estava ótimo e os mergulhos foram espetaculares. O tempo que passou na ilha quando sua mãe insistiu para que todos fizessem uma pausa foi preenchido com idas a shoppings, passeios e piqueniques na praia. Ela fez buscas em cemitérios e antigas igrejas, na esperança de que pudesse encontrar outra pista para o segredo dos naufrágios de 1733.

Mas, acima de tudo, adorou ver o seu pai com Buck. Os dois formavam uma dupla curiosa - um era gordo, rechonchudo e tinha uma careca que parecia uma bola branca de bilhar; o outro era aristocraticamente esguio com sua cabeleira loura e cintilante.

Seu pai falava com o jeito lento e arrastado do litoral da Carolina, enquanto a conversa de Buck era apimentada com juras ditas numa velocidade tipicamente ianque. Contudo, os dois juntos pareciam velhos amigos que haviam se reencontrado.

Normalmente, quando vinham à tona depois de um mergulho, eles riam como garotos que haviam acabado de cometer um pequeno delito. E um parecia sempre ter uma história para contar sobre o outro.

Era esplendoroso para Tate ver tal amizade florescendo e crescendo tão rápido. Na terra firme, os colegas do seu pai eram homens de negócios, uma brigada bem-sucedida de engravatados, com um sucesso moderado e uma herança sulista que estava no sangue.

Aqui ela o via bronzeando-se com Buck, compartilhando cervejas e sonhos de prosperidade.

Maria de vez em quando fotografava a ambos ou sacava sua onipresente câmera de vídeo, chamando-os de dois velhos marujos.

Enquanto Tate se preparava para o mergulho matinal, ela viu os dois discutindo sobre beisebol enquanto tomavam café e saboreavam croissants.

- O que Buck sabe sobre beisebol você poderia engolir de uma vez só - comentou Matthew. - Ele vem estudando intensivamente para poder discutir com Ray.

Tate se sentou para colocar seus pés-de-pato.

- Acho isso bacana.

- Eu não disse que não era.

Você nunca diz nada que seja agradável.

O rapaz se sentou ao lado da moça.

- O.k., é bacana. Andar com o seu pai tem sido bom para Buck. Ele teve muitos problemas nos últimos anos. Não o vejo se divertir tanto desde que... há muito tempo.

Tate deixou escapar um longo suspiro. Era difícil revolver uma mágoa com sinceridade e franqueza.

- Sei que você se importa com ele.

- É claro que sim. Ele sempre esteve ao meu lado. Faria qualquer coisa por Buck. - Matthew apertou a máscara contra o rosto. - Diabos, estou mergulhando com você, não? - Dito isso, o moço rolou para dentro d’água.

Em vez de se sentir insultada, ela sorriu e mergulhou atrás dele.

Os dois seguiram a marca que estava mais abaixo. Eles vinham deslocando sua busca para o norte. Cada vez que adentravam um novo território, Tate sentia aquela tensão acelerada da expectativa. Cada vez que mergulhavam, ela dizia a si mesma que aquele poderia ser o dia.

A água estava com uma temperatura fresca e agradável, pelo que Tate podia sentir na pele exposta de suas mãos e seu rosto. Ela adorava o jeito com que o mar fluía pelo seu cabelo ao descer.

Os peixes haviam se acostumado com ambos. Não era incomum que uma garoupa ou um peixe-anjo curioso tentasse olhar por dentro da máscara de Tate. Ela havia adquirido o hábito de levar consigo um saco plástico com torradas ou miolos de pão e de gastar alguns minutos no começo de cada mergulho para alimentá-los e fazer com que girassem a sua volta.

Invariavelmente, a barracuda que eles apelidaram de ”Dentinho” vinha chamar a atenção, sempre observando e mantendo uma certa distância. Como mascote, não era exatamente um animal animado, mas era leal.

Ela e Matthew desenvolveram uma prática corriqueira. Os dois trabalhavam um de olho no outro e raramente cruzavam a linha invisível que ambos reconheciam que separava os seus territórios. Ainda assim, partilhavam seus vislumbres da vida marinha. Um sinal com a mão, um tapa na garrafa, a fim de chamar a atenção para um cardume, o clarão que vinha de uma toca.

Tate concluiu que ele era mais fácil de ser tolerado no silêncio do mar do que na superfície. De vez em quando, tal paz era quebrada pelo ruído indistinto do motor de um barco de turistas que passava acima da dupla. A moça chegou até a ouvir o ecoar lúgubre de uma música que saía de um maldito rádio portátil, na qual a voz áspera de Tina Turner queria saber ”o que o amor tinha a ver com aquilo”.

Cantando mentalmente, Tate apontou para uma estranha formação de coral. Assustou uma garoupa, que lhe dirigiu um olhar fatal antes de sair dali deslizando. Entretida, ela olhou para trás. Matthew nadava para oeste, mas ainda estava no seu campo de visão. A jovem então se lançou para o norte, na direção dos tons vermelhos, marrons, belos e delicados da formação.

Tate estava sobre a formação antes de perceber que não se tratava de corais, e sim de pedras. Bolhas irromperam pelo bocal do respirador. Se ela estivesse acima da água, em vez de abaixo, poderia ter balbuciado.

Pedras de lastro. com certeza tinham que ser pedras de lastro. Pelo que estudou, ela sabia que a cor era um sinal de galeão. Escunas usavam um leve tom amarelo-acinzentado. O lastro de um galeão, pensou ela de um jeito sonhador e fantasioso. Ele havia sido perdido, esquecido. E agora foi encontrado.

Um dos navios naufragados de 1733 que haviam sido dados como perdidos estava aqui. E ela o havia encontrado.

Tate deu um grito que não fez nada mais do que projetar bolhas que borraram sua visão. Ela caiu em si, tirou sua faca da bainha e bateu com força na garrafa.

Deu uma volta em torno de si própria e viu a sombra do parceiro a metros dali. Achou que Matthew estava fazendo um sinal e, impaciente, bateu na garrafa outra vez.

Venha aqui, desgraçado.

Tate bateu uma terceira vez, insistindo ao máximo naquele sinal de um só tom. com satisfação e um princípio de convencimento, viu que ele nadava em sua direção.

Pode ficar o mais irritado que puder, espertalhão, pensou ela. E prepare-se para ser humilde.

Tate podia antever o momento em que ele reconheceria as pedras, uma leve hesitação no seu ritmo e, depois, o passo acelerado. Incapaz de se segurar, ela sorriu para o parceiro e tentou fazer uma pirueta dentro d’água.

Por trás da máscara, os olhos de Matthew eram azuis que nem cobalto, intensos, e expressavam uma negligência que fez com que o coração dela disparasse. Ele circundou a pilha uma vez e aparentemente ficou satisfeito. Quando pegou na mão dela, Tate apertou seus dedos rapidamente e de um jeito amigável. Esperava que ambos fossem à tona e anunciassem sua descoberta, mas ele a puxou para a direção de onde viera.

Tate o puxou de volta, balançando a cabeça, levantando o polegar. Matthew apontou para oeste. Ela revirou os olhos, gesticulou novamente na direção da pilha de lastro e começou a bater as pernas rumo à superfície.

Matthew agarrou o seu tornozelo, deixando-a chocada com a intimidade com que as mãos dele seguravam sua perna enquanto a arrastava para baixo. Ela considerou a possibilidade de se agitar para poder se livrar, mas logo Matthew pegou novamente o seu braço e a rebocou.

Aquilo não lhe deu outra opção a não ser se deixar levar e imaginar todas as coisas desagradáveis que iria lhe dizer assim que pudesse abrir a boca.

Foi então que Tate viu algo que fez seu queixo cair. Ela reajustou seu bocal, lembrou-se de respirar e olhou para os canhões com os olhos arregalados.

Eles estavam corroídos, cobertos de vida marinha e meio enterrados na areia. Mas estavam lá; armas enormes que outrora enfeitaram a frota espanhola, que a defendiam contra os piratas e os inimigos do rei. Ela podia ter chorado de alegria.

Em vez disso, Tate prendeu Matthew num abraço desajeitado e o circundou no que mais parecia uma dança da vitória. A água girava em torno dos dois e um cardume de peixes prateados roçou neles como se fossem lâminas. Suas máscaras se chocaram e ela borbulhou uma risadinha, ainda se segurando ao rapaz enquanto ambos nadavam rumo à superfície, que estava a doze metros de distância.

No momento em que chegaram à tona, ela levantou a máscara e deixou o bocal cair.

- Matthew, você o viu. Ele realmente está lá.

- Parece que sim.

- Fomos os primeiros a encontrá-lo. Depois de mais de duzentos e cinqüenta anos, fomos os primeiros.

O sorriso de Matthew estava radiante e suas pernas estavam enrascadas nas dela enquanto ambos flutuavam na água.

- São restos imaculados. E são todos nossos, ruiva.

- Não posso acreditar. Não é como das outras vezes. Uma outra pessoa sempre chegava antes, e nós simplesmente circulávamos a esmo pelo que já havia sido explorado ou deixado para trás. Mas isto... - Ela jogou a cabeça para trás e deu uma gargalhada. - Ó, Deus. É maravilhoso. Enorme.

Com outra risada, ela o abraçou, quase fazendo com que ambos afundassem, e apertou seus lábios contra os dele num beijo inocente de felicidade.

Os lábios dela estavam molhados, frios e arqueados. O choque de senti-los fez com que desse um branco na mente de Matthew durante uns três batimentos cardíacos. Ele não estava totalmente ciente de que havia forçado a jovem a abrir os lábios, enfiado a língua, provado o gosto da sua boca e mudado o beijo de inocente para faminto.

Ele sentiu que a parceira prendia a respiração e que seus lábios iam amolecendo. Até que a ouviu suspirar de um jeito sutil e cativante.

Erro. Tal palavra brilhava que nem néon em seu cérebro. Mas agora ela já havia se rendido ao beijo, numa entrega tão irresistível quanto inesperada.

Tate sentia o gosto de sal, de mar e de homem; e se perguntava se alguém já havia provado tantos sabores de uma vez só. A luz dourada lançada pelo sol, como diamantes dançando na água; a água fresca, suave e sedutora. Ela achou que seu coração havia parado, mas aquilo não parecia ter muita importância. Nada mais importava naquele mundo estranho e belo, a não ser o gosto e a textura da boca de Matthew.

Até que ela foi afastada, se debatendo, e as portas daquele mundo fascinante se fecharam na sua cara. Tate batia instintivamente as pernas para manter a cabeça acima do nível da água, e piscou para Matthew com olhos sonhadores e arregalados.

- Estamos perdendo tempo - vociferou ele, que se amaldiçoava. Quando ela encostou novamente os lábios para recapturar o beijo, ele conteve um suspiro e a amaldiçoou.

- O quê?

- Pare com isso. Alguém da sua idade já foi beijada antes.

O tom duro da voz do rapaz e o insulto nela embutido afastaram as névoas.

- É claro que sim. Foi apenas um gesto de felicitação. - Que não devia ter deixado tal sensação de vazio na boca do estômago da moça.

- Bem, deixa para lá. Temos que contar para os outros e deixar bóias sinalizadoras.

- Ótimo. - Ela seguiu na direção do barco com braçadas rápidas e eficientes. - Não sei o que o deixou tão irritado.

- Você não gostaria de saber - murmurou Matthew antes de começar a acompanhá-la.

Determinada a não deixar que ele estragasse o dia mais excitante da sua vida, Tate chegou gritando ao barco.

Maria estava sentada debaixo do toldo, fazendo as unhas. Uma das mãos já ostentava tons rosa-salmão. Ela olhou para a filha com um sorriso.

- Você chegou cedo, querida. Estávamos esperando que fosse chegar daqui a uma hora ou coisa parecida.

- Onde estão papai e Buck?

- Na casa do leme, estudando mais uma vez aquele velho mapa. - O sorriso de Maria começou a ruir. - Algo está errado. Matthew. - Ela se levantou com dificuldade da cadeira, com um olhar de pânico. Seu medo secreto e jamais declarado de tubarões se aferrou a sua garganta. - Ele está ferido? O que aconteceu?

- Ele está bem. - Tate soltou seu cinto de lastro. - Está vindo logo atrás de mim. - Ela ouviu os pés-de-pato de Matthew caindo em cima do convés, mas não lhe deu a mão para ajudá-lo a subir. Em vez disso, respirou fundo. - Não há nada de errado, mãe. Nada mesmo. Está tudo ótimo. Nós o encontramos.

Maria havia corrido para a amurada a fim de se certificar de que Matthew estava a salvo. Seu batimento cardíaco começou a normalizar quando o viu inteiro e ileso.

- Encontraram o quê, querida?

- Os destroços. - Tate passou a mão sobre o rosto, espantada com o fato de seus dedos estarem tremendo. Havia um ruído em seus ouvidos e uma palpitação em seu peito. - De um deles. Nós o encontramos.

- Jesus Cristo. - Buck apareceu na porta da casa do leme. Seu rosto que normalmente era corado ficou pálido e os olhos por trás das suas lentes estavam pasmos. - Qual deles? - perguntou com a voz cansada. - Qual deles você encontrou, garoto?

- Não dá para dizer. - Matthew encolheu os ombros para tirar as garrafas. Sua pulsação estava acelerada, mas ele sabia que isso tinha tanto a ver com o fato de que quase devorou Tate quanto com a possibilidade de ter encontrado o tesouro. - Mas ele está lá embaixo, Buck. Encontramos lastro, o lastro do galeão, e um canhão. - Ele olhou além de Buck para onde Ray estava, com os olhos esbugalhados. - O outro local é um ponto de impacto, como eu imaginava. Mas esta posição possui possibilidades reais.

- Qual... - Ray teve que pigarrear. - Qual era a posição, Tate?

Ela abriu a boca e a fechou novamente quando notou que ficara encantada demais para se lembrar de marcar a posição. Um rubor brotou em suas maçãs do rosto.

Matthew a olhou e lhe dirigiu um sorriso leve e superior antes de dar as coordenadas para Ray.

- Precisaremos colocar bóias para marcar o ponto exato. Se vocês se vestirem agora eu lhes mostro o que temos. - Depois, o rapaz sorriu. - Diria que teremos que colocar aquele novo e belo airlift de vocês para funcionar, Ray.

- Isso mesmo. - Ray olhou para Buck. Sua expressão estupefata começou a se desanuviar. - Diria que você tem razão. - com um grito ele agarrou Buck. Os dois se abraçaram, tremendo que nem dois homens bêbados.

Precisavam de um plano. Foi Tate que, depois das comemorações barulhentas daquela noite, foi a voz da razão. Era necessário um sistema que recuperasse os destroços e os preservasse. A concessão tinha que valer concreta e legalmente. E os artefatos tinham que ser precisamente catalogados.

Precisavam de uma boa câmera submarina para filmar o local e a posição dos artefatos que descobrissem, vários cadernos que servissem para catalogação, além de lousas e grafites para fazer esboços dos despojos.

- Costumava ser assim - lembrou Buck enquanto pegava outra cerveja - um homem encontrava os destroços de algum navio e tudo o que conseguia pegar era dele... contanto que conseguisse manter a distância os piratas e aqueles que não respeitavam o território dos outros. Você tinha que ser cuidadoso, saber como manter a boca fechada e estar disposto a lutar pelo que era seu.

Algumas de suas palavras eram engolidas enquanto ele gesticulava com a garrafa.

- Agora há regras e regulamentos, e um monte de gente sanguinolenta quer uma parte do que você encontra com o seu próprio esforço e a sorte que nos é dada por Deus. E há muitos que estão mais preocupados com tábuas de madeira carcomidas do que com um veio de prata.

- A integridade histórica dos restos de um navio naufragado é importante, Buck. - Ray, com um copo de cerveja na mão, viajava nas possibilidades. - Isso é valor histórico, a nossa responsabilidade para com o passado e o futuro.

- Merda. - Buck acendeu um dos dez cigarros que se permitia fumar num só dia. - Havia um tempo em que o explodiríamos e o mandaríamos para o além se isso fosse necessário para chegarmos ao veio principal. Não estou dizendo que isso é inteligente. - Ele soltou fumaça pela boca e seus olhos foram ficando turvos em meio a tais lembranças. - Mas com certeza era bem divertido.

- Não temos o direito de destruir uma coisa para ficar com outra - murmurou Tate.

Buck se voltou para Tate, sorrindo.

- Espere, garota, até sentir a febre do ouro. Ela provoca um certo efeito. Você vê aquele brilho vindo da areia. É cintilante e lustroso, diferente da prata. Pode ser uma moeda, uma corrente, um medalhão, uma bugiganga que um homem que morreu há tempos deu para sua esposa defunta. Ele está ali, na sua mão, real como no dia em que foi feito. Tudo em que você consegue pensar é em ter mais.

Curiosamente, ela balançou a cabeça.

- É por isso que você vive mergulhando? Se você encontrasse todo o tesouro do Isabela e do Santa Margarida... se o encontrasse e ficasse rico, você ainda continuaria mergulhando em busca de mais?

- Mergulharei até morrer. É tudo que eu sei. Tudo de que preciso. Seu pai era assim - acrescentou, gesticulando para Matthew. - Seja encontrando o veio principal ou voltando com nada além de uma bala de canhão, ele tinha que descer novamente. A morte o deteve. Era a única coisa capaz de fazer isso. - Sua voz foi ficando mais áspera enquanto ele olhava novamente para a sua cerveja. - Ele queria o Isabela. Passou os seus últimos meses de vida tentando descobrir como, onde e quando. E agora vamos encontrá-la para ele. A Maldição de Angelique.

- O quê? - As sobrancelhas de Ray se apertaram. - A Maldição de Angelique?

- Matou o meu irmão - disse Buck com o olhar turvo. - Maldita bruxaria.

Assim que reconheceu os sinais, Matthew se inclinou para a frente e arrancou a garrafa de cerveja quase vazia dos dedos do tio.

- Um homem o matou, Buck. Um homem de carne e osso. Não foi maldição nem feitiço. - O rapaz se levantou e arrastou Buck. - Ele fica sentimental quando bebe demais - explicou. - Daqui a pouco vai começar a falar sobre o fantasma do Barba-Negra.

- Eu o vi - murmurou Buck, sorrindo tolamente. Seus óculos escorregavam do nariz, de modo que estava míope quando olhava sobre eles. - Acho que o vi. Na costa de Ocracoke. Lembra-se, Matthew?

- Claro que me lembro. Temos um longo dia pela frente. É melhor voltar para o barco.

- Quer uma ajuda? - Ray se levantou e ficou surpreso, e um pouco desgostoso, ao descobrir que não estava totalmente sóbrio.

- Posso me virar. Vou apenas colocá-lo no bote inflável e remar até o barco. Obrigado pelo jantar, Maria. Jamais em minha vida provei uma galinha frita mais gostosa do que a sua. Esteja pronta ao amanhecer, menina - disse para Tate. - E para trabalhar de verdade.

- Estarei pronta. - Mesmo ele não tendo pedido ajuda, ela pegou Buck do outro lado, apoiando os braços do sujeito nos seus ombros. - Vamos, Buck, hora de ir para a cama.

- Você é uma doçura. - com um afeto de quem estava embriagado, ele lhe deu um abraço desajeitado. - Não acha, Matthew?

- Ela é uma flor de pessoa. Vou descer a escada na frente, Buck. Se você cair, vou deixar que se afogue.

- Não vejo a hora disso acontecer. - Buck riu à socapa, apoiando seu peso em Tate enquanto Matthew tremia do outro lado. - Esse garoto enfrentaria um cardume de tubarões para me salvar. Os Lassiter são inseparáveis.

- Eu sei. - Cuidadosamente, balançando um pouco por causa do peso que carregava, Tate conseguira erguer Buck por sobre a amurada. - Segure-se, agora. - O absurdo da situação fez com que ela desse uma risadinha enquanto ele envergava sobre a escada e Matthew rogava pragas embaixo. - Segure-se, Buck.

- Não se preocupe, menina. Ainda não fabricaram um bote no qual eu não possa embarcar.

- Maldição, você nos fará virar. Buck, seu idiota. - Enquanto o bote oscilava perigosamente, Matthew empurrava o tio para baixo. A água espirrava para dentro, molhando a ambos.

- Eu vou tirar a água, Matthew. - com uma risada espirituosa, Buck começou a tirar a água do fundo do bote com as mãos.

- Sente-se e fique quieto. - O jovem tirou os remos das amarras, olhou mais para cima e viu os Beaumont rindo do outro lado. - Devia tê-lo feito nadar por isso.

- Boa-noite, Ray. - Buck acenava alegremente enquanto Matthew remava. -Amanhã encontraremos dobrões de ouro. Ouro, prata e jóias brilhantes e reluzentes. Novos destroços, Matthew - murmurava enquanto encostava o queixo no peito. - Sempre soube que o encontraríamos. Foram os Beaumont que nos deram sorte.

- É. - Depois de amarrar os remos e as cordas, Matthew olhou de um jeito dúbio para o tio. - Você pode prender a escada, Buck?

- É claro que posso prender a escada. Não consigo me manter em pé e equilibrado nas maiores tempestades? - As pernas dele tremiam, assim como a pequena balsa que seguia costurando na direção da lateral do Demônio do Mar.

Mais por sorte do que intencionalmente, ele conseguiu agarrar um degrau e se erguer antes que pudesse virar o bote inflável. Molhado até os joelhos, Matthew se juntou ao tio no convés. Buck acenava entusiasmado para os Beaumont.

Alô, Aventura. Está tudo bem.

Vamos ver se você vai dizer isso amanhã de manhã - murmurou Matthew enquanto meio que carregava Buck para a casa do leme que mais parecia uma despensa.

- Eles são boa gente, Matthew. Antes estava achando que só iria usar o seu equipamento, enganá-los e depois ficar com a parte do leão. Seria fácil para nós mergulhar no meio da noite e resgatar a maior parte do que há lá embaixo. Não creio que eles perceberiam a diferença.

- Provavelmente não - concordou o rapaz, enquanto tirava as calças molhadas do tio. - Pensei um pouco sobre isso. Amadores normalmente merecem ser enganados.

- E já espoliamos alguns deles - disse Buck alegremente. - Mas não posso fazer isso com o bom e velho Ray. Encontrei nele um verdadeiro parceiro. Não tenho um amigo como ele desde que o seu pai morreu. E ainda há sua bela esposa e sua linda filha. Não. - Ele balançou a cabeça com algum remorso. - Não podemos roubar de alguém de quem gostamos.

Matthew reconheceu isso com um grunhido e olhou para a rede pendurada entre a parede da frente e a que ficava perto da popa. Ele rezava a Deus para que não tivesse que pôr Buck dentro dela.

- Você precisa deitar.

- Sim. Vou ser honesto com Ray. - Como se fosse um urso subindo na sua toca, Buck se ergueu. A rede balançava perigosamente antes dele se ajeitar. - Tenho que lhes contar sobre a Maldição de Angelique. Estou pensando nisso, mas nunca falei sobre isso para ninguém, a não ser você.

- Não se preocupe com isso.

- Talvez, se não lhes disser nada, eles não venham a ter má sorte. Não quero que nada aconteça com os Beaumont.

- Eles vão ficar bem. - Matthew abriu o zíper do seu jeans e tirou.

- Lembra-se daquele retrato que eu mostrei a você? Todo aquele ouro, os rubis, os diamantes. Não parece que algo tão lindo possa ser demoníaco.

- Porque não pode. - Matthew tirou a camisa e a jogou onde estava a calça. Tirou os óculos de Buck do nariz e os pôs de lado. - Tente dormir um pouco, Buck.

- Já faz mais de duzentos anos que enterraram aquela bruxa e as pessoas ainda morrem. Como James.

O maxilar de Matthew travou e seu olhar ficou mais sério.

- Não foi um colar que matou o meu pai. Foi um homem. Foi Silas VanDyke.

- VanDyke. - Buck repetiu o nome com uma voz indistinta de quem estava prestes a pegar no sono. - Isso nunca ficou provado.

- Basta saber que foi assim.

- Foi a maldição. A maldição da bruxa. Mas iremos acabar com ela, Matthew. Eu e você iremos vencê-la. - Buck começou a roncar.

Maldita seja essa maldição, pensou Matthew. Ele certamente iria encontrar o amuleto. Seguiria os passos do seu pai até obtê-lo. E, quando o fizesse, se vingaria do canalha que havia assassinado James Lassiter.

Vestido só de cueca, ele saiu da cabine no meio da noite estrelada e agradável. A lua estava suspensa, tal como uma moeda de prata partida ao meio. O rapaz ajeitou sua própria rede ao luar, longe o suficiente para que os roncos habituais do seu tio não passassem de um sussurro.

Havia um colar, uma corrente com elos dourados e pesados, e um pingente com nomes de amantes condenados gravados, enfeitado com rubis e diamantes. Ele havia visto os retratos e lido a documentação que seu pai havia esboçado e lhe deixado.

Conhecia a lenda tão bem quanto um homem poderia conhecer contos de fadas que lhe foram narrados quando era criança na hora de dormir. Uma mulher queimada na estaca, condenada por feitiçaria e assassinato. Sua última promessa foi a de que qualquer um que tivesse lucrado com a sua morte iria pagar na mesma moeda.

A ruína e o desespero que acompanharam a trilha do colar durante dois séculos. A ganância e a avidez que fizeram com que os homens matassem por ele e as mulheres conspirassem.

Ele podia até mesmo acreditar na lenda, mas isso significava apenas que a ganância e a avidez haviam causado a ruína e o desespero. Uma jóia inestimável não precisava de maldição alguma para levar os homens a cometerem assassinatos.

Disso ele tinha certeza. E sabia bem disso. A Maldição de Angelique havia sido o motivo por trás da morte do seu pai.

Mas fora um homem que a planejara e a executara.

Silas VanDyke. Matthew poderia evocar seu rosto se fosse necessário; a voz, a compleição, até mesmo o cheiro. Não importava quantos anos haviam se passado, ele não se esquecera de nada.

E sabia, como soubera quando era um adolescente indefeso e arrasado pelo pesar, que num belo dia encontraria o amuleto e o usaria contra VanDyke.

Por vingança.

Era estranho que, com tantos pensamentos sombrios e violentos pairando sobre sua cabeça enquanto pegava no sono, ele fosse sonhar com Tate.

Nadando em águas inacreditavelmente claras, livre de peso e de equipamento, liso e ágil como um peixe. Num lugar cada vez mais fundo, onde o sol não conseguia mais penetrar. As formações de coral em forma de leque acenavam, e moitas coloridas e salientes brilhavam como jóias, servindo de moradia para peixes cintilantes.

Ainda mais fundo, onde as cores - vermelho, laranja e amarelo - iam desbotando até virar um azul calmo e tranqüilo. No entanto não havia pressão, nenhuma necessidade de compensação, nenhum medo. Apenas uma sensação repentina de liberdade que amadureceu até gerar o mais completo e absoluto contentamento.

Ele poderia ficar ali para sempre, naquele mundo sem som, sem nada nas costas, nem garrafas, nem preocupações.

 Lá. Ali, embaixo dele, havia a imagem de um navio afundado, tirada de contos de fadas infantis. Os mastros, o casco, os estandartes esfarrapados vagando no meio da corrente. Ele estava enviesado num banco de areia, inacreditavelmente inteiro e nítido. Dava para ver os canhões, ainda apontados para antigos inimigos. E a roda do leme esperava que seu comandante fantasma viesse guiá-lo.

Encantado, o rapaz nadou em sua direção, em meio a turbilhões de peixes, passando por um polvo que enrolou os seus tentáculos, inflou e saiu voando, sob a sombra de uma raia gigante que dançava suspensa.

Ele circundou o convés do galeão espanhol e leu o orgulhoso letreiro que o batizava de Isabela. Havia uma plataforma de vigia rangendo acima, parecendo uma árvore ao vento.

Até que ele a viu. Como se fosse uma sereia, ela pairava fora de alcance, sorrindo como uma ninfa, gesticulando com mãos belas e graciosas. Seu cabelo era longo, não uma touca flamejante, mas longos laços de seda tremulando e girando sobre os seus ombros e seios nus. Sua pele era como uma pérola, branca e cintilante.

Seus olhos eram os mesmos, verdes e distraídos.

Como se uma onda o tivesse varrido, ele ficou sem ação para fazer qualquer coisa, a não ser seguir em sua direção.

Os braços da moça o envolveram, como correntes de cetim. Seus lábios se separaram para receber os dele e eram doces como mel. Quando Matthew a tocou, era como se tivesse esperado a vida toda por isso. A sensação da pele da musa deslizando sob a sua mão, a musculatura estremecendo enquanto ele a provocava. A pulsação sob a carne.

O gosto do suspiro de Tate estava na boca de Matthew. Depois, a maciez e o calor maravilhoso ocultos enquanto ele deslizava para dentro da sua musa, e enquanto suas pernas o envolviam e seu corpo se curvava para trás, a fim de que ele penetrasse mais fundo.

Todos esses eram movimentos relaxantes, sensações intermináveis. Os dois eram levados pela correnteza e rolavam pela água numa união silenciosa que o deixou fraco, atordoado e imerso na mais completa sensação de felicidade. Ele se sentia transbordando dentro da jovem.

Até que ela o beijou, suave e profundamente, com uma doçura incrível. Quando ele viu seu rosto novamente, Tate estava sorrindo. O rapaz tentou alcançá-la, mas ela balançou a cabeça e foi se afastando. Ele a perseguiu e ambos brincaram que nem crianças, correndo em volta do navio afundado.

Tate o levou até uma arca, rindo enquanto jogava a tampa para trás, e revelou a montanha de ouro. Moedas eram derramadas enquanto ela afundava a mão em seu interior. O brilho delas era que nem o da luz do sol, e havia jóias enormes espalhadas. Diamantes do tamanho do seu punho, esmeraldas maiores do que os seus olhos, e montes de safiras e rubis. Sua cor era deslumbrante em contraste com o mundo cinzento a sua volta.

Matthew pegou punhados de diamantes em forma de estrelas e derramou-os sobre o cabelo dela, fazendo-a rir.

Até que encontrou o amuleto, a pesada corrente de ouro, o sangue e as lágrimas que enfeitavam o pingente. Ele podia sentir o calor que emanava do objeto, como se tivesse vida própria. Nunca havia visto nada tão lindo e atraente em sua vida.

Matthew o segurou, olhou para o rosto deliciado de Tate através do elo da corrente, e então a colocou no seu pescoço. Ela riu, beijou-o e depois segurou o pingente nas mãos.

De repente, uma explosão flamejante brotou de dentro do amuleto, uma lança violenta de calor e luz que o empurrou para trás com força, como se tivesse desferido um golpe. Observava a cena aterrorizado enquanto o fogo crescia, em tamanho e intensidade, cobrindo-a com chamas. Tudo que ele podia ver eram os seus olhos, angustiados e apavorados

Matthew não tinha como alcançá-la. Embora ele lutasse e se esforçasse, a água que antes era tão calma e tranqüila se tornou um redemoinho de movimento e som. Um turbilhão de areia se afunilou, cegando-o. Ele ouviu o estrondo relampejante do mastro se partindo, o bramir do maremoto que irrompia através do banco de areia e o lodo dilacerando o casco do navio como se fosse um tiro de canhão.

Em meio a tudo isso ouviu gritos - os dela, os seus.

De repente, tudo desapareceu; as chamas, o mar, os destroços, o amuleto. Tate. O céu estava acima, com sua meia-lua e estrelas salpicadas. O mar estava calmo e negro como tinta, e mal sussurrava quando se chocava com o barco.

Matthew estava sozinho no convés do Demônio do Mar, suando em bicas e ofegante.

 

Tate tirou vinte e quatro fotos do lastro e dos canhões enquanto ela e Matthew exploravam a área. Ele fazia brincadeiras, posando perto da boca de uma arma corroída ou manejava a câmera para tirar fotos da parceira em meio a pedras e peixes pacientes. Juntos, os dois prenderam uma velha bala de canhão numa bóia e a enviaram para a segunda equipe.

Então, depois de um puxão no cabo, o trabalho começou. Manobrar bem um tubo de airlift requer destreza, paciência e trabalho de equipe. Era uma ferramenta simples, pouco maior do que um cano, com dez centímetros de diâmetro e mais ou menos uns três metros de comprimento com um respiradouro. O ar pressurizado corria dentro do cano, aumentando e criando uma sucção que iria aspirar água, areia e objetos sólidos. Era tão essencial para um caçador de tesouros quanto um martelo para um carpinteiro. Usado com muita rapidez ou com muita força, seria capaz de destruir. Usado com muita negligência, o cano ficaria entupido de conglomerado, conchas e coral.

Enquanto Matthew operava o airlift, Tate examinava e juntava as partículas que eram cuspidas do topo do cano. Era um trabalho difícil e monótono em ambos os lados. Fragmentos de luz e de areia giravam num turbilhão, ofuscando a visão através de uma nuvem suja que soprava a favor da corrente. Foram necessários um olhar aguçado e uma paciência infinita para examinar as partículas; separar pedaços pequenos, médios e grandes em baldes para que fossem içados até a superfície.

Matthew continuou a fazer buracos de teste num ritmo constante, quase tranqüilizante. Raias se esquentavam no meio das partículas, aparentemente aproveitando a massagem feita pela areia e pelos pedregulhos. Tate se permitia sonhar, imaginando uma grande quantidade de ouro brilhando e brotando do cano, como se fosse um prêmio de máquina caça-níqueis.

Fantasias à parte, ela juntou pregos fundidos, pedaços de conglomerado e fragmentos de cerâmica. Todos lhe eram tão fascinantes quanto barras de ouro. Os estudos na faculdade durante o ano passado fizeram com que aumentasse o seu amor pela história e pelos fragmentos de cultura enterrados no mar em constante movimento.

Suas ambições e metas a longo prazo eram muito claras. Ela iria estudar, se formar, absorver todo o conhecimento que poderia apreender de livros, palestras e, principalmente, da prática. Um dia, se juntaria às legiões de cientistas que singravam os oceanos e sondavam as profundezas para descobrir e analisar as relíquias de navios condenados.

Seu nome causaria um forte impacto, e suas descobertas, desde dobrões até cavilhas de ferro, fariam diferença.

Conseqüentemente, haveria um museu cheio de artefatos com o nome Beaumont.

De vez em quando, enquanto trabalhava, Tate percebia que ficava para trás porque havia parado para se maravilhar com uma xícara quebrada. O que ela continha na última vez em que alguém a usou para bebericar?

Quando cortou o dedo numa aresta afiada, Tate entendeu filosoficamente. A gota fina de sangue sumiu no turbilhão.

Matthew enviou um sinal para a parceira através da água turva. No buraco, talvez a uns trinta centímetros de profundidade, ela viu pregos cruzados como se fossem espadas. Preso no meio das suas pontas calcificadas havia uma travessa de estanho.

Doze metros água abaixo não evitaram que Tate expressasse sua alegria. Ela pegou a mão do parceiro e a apertou, para depois lhe dar um beijo. Rapidamente, tirou a câmera que estava presa em seu cinto e documentou a descoberta. Registros, como Tate bem sabia, eram essenciais para as descobertas científicas. Ela deve ter passado algum tempo examinando-a, exultando de um jeito nada científico com a peça, mas Matew já estava partindo para cavar outro buraco.

Havia mais. Cada vez que eles transferiam o airlift, acabavam fazendo uma nova descoberta. Um jogo de colheres cimentadas no coral, dois terços de uma tigela que mesmo assim fizeram com que o coração de Tate batesse contra as costelas.

O tempo e a fadiga deixaram de existir. Uma platéia de milhares observava o progresso da dupla, pequenos peixes que vasculhavam a área agitada em busca de iscas desprotegidas. Se um tivesse sorte, dezenas de outros correriam em busca de alimento num fluxo de movimento colorido.

A uma distância de praxe, a barracuda estava parada que nem uma estátua, olhando como mera espectadora, com um largo sorriso de aprovação.

Matthew manejava o airlift como um artista, pensou Tate. Sondando aqui e variando ali, com uma delicadeza que parecia que um grão era removido de cada vez. Ele afastava nuvens de lodo com um só movimento do tubo. Se o muro de areia estivesse seccionado por um objeto, Matthew afastava o airlift e trabalhava cuidadosamente para evitar danos.

Ela viu, com um olhar de deslumbramento, uma peça frágil de porcelana, uma tigela com botões de rosa graciosos enfeitando a sua borda.

Ele teria deixado para pegá-la depois, pois sabia que algo tão frágil cimentado ao coral ou a qualquer outro objeto poderia ser estilhaçado ao menor toque.

Mas os olhos de Tate haviam ficado muito arregalados, maravilhados, luminosos e deslumbrados. Ele quis dar a tigela para a parceira e ver a sua expressão ao segurá-la. Depois de lhe fazer um sinal, Matthew deu início ao processo cansativo e demorado de tirar a areia sem que sua parceira percebesse. Assim que ficou satisfeito, lhe passou o cano. Quando chegou a um ponto abaixo da tigela, no coral que a reivindicara, Matthew a soltou.

Aquilo havia lhe custado a pele, mas quando ele o ofereceu para Tate, os cortes e os arranhões logo foram esquecidos. Os olhos de Tate brilharam e depois ficaram tão inesperadamente saciados que os dois se fitaram. Desconcertado, Matthew pegou o tubo de volta e apontou o polegar para a superfície. Abriu uma válvula no cano do airlift e liberou uma torrente de bolhas. Juntos, nadaram para cima no meio dos borrifos.

Ela não falou nada, nem podia. Grata pelo airlift e seu último balde de conglomerado terem dificultado as coisas, alcançou a lateral do Aventura. Seu pai estava radiante.

- Vocês têm nos mantido ocupados. - Ele havia levantado a voz num volume acima do ruído ensurdecedor do compressor e se assustou quando Buck o desligou. - Temos dezenas de artefatos, Tate. - Ray puxou para cima o balde que ela lhe passou. - Colheres, garfos, baldes, moedas de cobre, botões... - Diminuiu o tom quando a filha lhe deu a tigela. - Meu Deus. Porcelana. Intacta. Maria. - Sua voz começou a falhar quando disse o nome da esposa. - Maria, venha cá dar uma olhada nisso.

Reverentemente, Ray tirou a tigela das mãos de Tate. Quando ela e Matthew já haviam embarcado, Maria estava sentada no convés, cercada por entulho, com a tigela florida no colo e a câmera de vídeo ao seu lado.

- Que linda peça - comentou Buck. Por mais casuais que fossem suas palavras, sua voz deixava evidente a sua empolgação.

Tate gostou dela. - Matthew olhou na direção de Tate. Ela estava em pé com a sua roupa de mergulho, enquanto as lágrimas que haviam ameaçado cair a doze metros de profundidade fluíam livremente.

- Há tantas coisas - conseguiu dizer Tate. - Papai, você não pode imaginar. Debaixo da areia. Todos esses anos debaixo da areia. Até que você as encontra. Coisas assim. - Depois de esfregar as mãos no rosto, ela se agachou ao lado da mãe e ousou passar a ponta dos dedos pela borda da tigela. - Nem uma lasca. Ela sobreviveu a um furacão, a mais de duzentos e cinqüenta anos, e está perfeita.

Tate se levantou. Seus dedos pareciam dormentes enquanto tentava puxar o zíper da sua roupa de mergulho. - Havia uma travessa de estanho. Estava presa entre dois pregos como se fosse uma escultura. Bastava fechar os olhos para vê-la cheia de comida e em cima de uma mesa. Nada que eu venho estudando se compara com a prática, com a possibilidade de ver tudo isso.

- Acho que chegamos à área da galera - afirmou Matthew.

- Vários utensílios de madeira, jarros de vinho, peças de louça quebradas. - Grato, aceitou o suco gelado que Ray lhe ofereceu.

- Cavei um monte de buracos de teste, ao longo de uma área de cerca de nove metros. Vocês dois podem querer se mover alguns graus mais ao norte.

- Vamos logo. - Buck já estava se vestindo. À vontade, Matthew dava uns passos à frente para se servir de mais suco.

- Vi um tubarão vagando a esmo - disse ele num tom de voz mais baixo. Era bem sabido entre os parceiros que Maria ficava pálida e entrava em pânico ao pensar em tubarões. - Não estava interessado em nós, mas não custa nada levar uns lança-arpões lá para baixo.

Ray olhou para a esposa, que documentava em vídeo e com reverência as últimas descobertas.

- É melhor agir com cautela do que sofrer depois - concordou ele. - Tate - gritou. - Quer colocar mais filme na câmera para mim?

Vinte minutos depois, o compressor estava bombeando novamente. Tate ficou trabalhando com a sua mãe na grande mesa de armar que ficava na cabine principal, catalogando cada item que ela e Matthew haviam trazido do navio naufragado.

- É do Santa Margarida. - Tate apontou para uma colher antes de colocá-la na pilha apropriada. - Encontramos a marca de ordenação em um dos canhões. Encontramos o nosso galeão espanhol, mamãe.

- O sonho do seu pai.

- E o seu?

- E o meu - concordou Maria com um sorriso demorado. - Costumava apenas seguir junto nas viagens. Era um hobby bacana e interessante, pensava eu. Permitia que tivéssemos férias cheias de aventura, e com certeza servia para quebrarmos a rotina dos nossos trabalhos banais.

Tate levantou os olhos, enrugando a testa por causa das sobrancelhas franzidas.

- Nunca soube que você achava o seu trabalho banal.

- Ah, ser uma secretária jurídica é legal, exceto quando você começa a se perguntar por que não teve iniciativa para ser a advogada. - Ela mexeu os ombros. - De acordo com a minha criação, Tate querida, uma mulher não transitava num mundo masculino, a não ser que fosse para aprender alguma coisa. Sua avó era uma mulher muito antiquada. Esperava que eu trabalhasse num lugar aceitável, até arrumar um marido adequado. - Ela riu e pôs de lado uma caneca de estanho sem a asa. - Na parte do marido eu tive sorte. Muita sorte.

Esta, também, foi uma nova descoberta.

- Você queria ser advogada?

- Nunca me ocorreu - admitiu Maria. - Até me aproximar dos quarenta, uma hora perigosa para a mulher. Não posso dizer que olhei para trás quando o seu pai decidiu se aposentar. Fiz o mesmo e achei que estava mais do que satisfeita por poder sair para navegar com ele, brincando de caça ao tesouro. Agora vendo essas coisas - ela pegou uma moeda de prata. - Percebo que estamos fazendo algo importante. Algo valioso por si só. Eu nunca achei que me sentiria realizada novamente.

- Novamente.

Maria levantou os olhos e sorriu.

- Senti-me realizada quando tive você. Isso aqui é maravilhoso e empolgante. Mas você sempre será um tesouro suficiente para mim e para o seu pai.

- Você sempre me fez sentir capaz de fazer qualquer coisa. Ser qualquer coisa.

- E pode. - Maria olhou por cima. - Matthew, venha se juntar a nós.

- Não quero interromper. - Ele se sentia um peixe fora d’água e estava pouco à vontade interferindo naquele momento familiar.

- Não seja tolo. - Maria já estava de pé. - Aposto que você gostaria de um pouco de café. Acabei de fazer. Tate e eu estamos organizando o tesouro encontrado.

Matthew examinou cuidadosamente os artefatos espalhados pela mesa.

- Acho que vamos precisar de mais espaço.

Maria riu enquanto voltava com o café.

- Oh, como eu gosto de um homem otimista.

- Realista - corrigiu Tate, batendo de leve no sofá e convidando-o para se sentar. - Meu parceiro de mergulho está longe de ser otimista.

Sem saber se devia rir ou se sentir insultado, Matthew se sentou ao seu lado e provou do café.

- Eu não diria isso.

- Mas eu diria. - Tate enfiou a mão na tigela de pretzeh que sua mãe havia servido. - Buck é o típico sonhador. Você gosta da vida... sol, mar, areia. - Enquanto beliscava, Tate foi se recostando. - Nada de responsabilidades ou laços de verdade. Você não espera encontrar uma arca coberta por uma crosta e cheia de dobrões de ouro, mas sabe como se virar com as bugigangas ocasionais. Elas bastam para você se encher de camarão e cerveja.

- Tate. - Maria balançou a cabeça, abafando uma risada. - Não seja rude.

- Não, ela está certa. - Matthew mordeu um pretzeL - Deixe-a terminar.

- Você não tem medo de trabalho duro porque sempre há tempo suficiente para poder deitar na rede e tirar uma soneca. Há a emoção do mergulho, da descoberta, e o valor da mercadoria está sempre em oposição ao valor intrínseco de um pequeno saque qualquer. - Ela lhe passou uma colher de prata. - Você é realista, Matthew. Por isso, quando diz que precisamos de mais espaço, eu posso acreditar.

- ótimo. - Ele percebeu que, independentemente do quanto pesou aquelas palavras, havia sido insultado. E então jogou a colher, que retiniu ao voltar para a pilha. - Acho que podemos usar o Demônio do Mar como depósito. - Quando ela curvou o queixo, apontando o nariz para baixo, ele a olhou com desprezo. - Buck e eu podemos dormir aqui, no convés. Podemos usar o Aventura como nossa estação de trabalho. Mergulhamos daqui, limpamos o conglomerado e os artefatos aqui, e depois os transportamos para o Demônio do Mar.

- Isso me parece bem sensato - concordou Maria. - Afinal de contas, temos dois barcos, podemos fazer uso completo de ambos.

- Tudo bem. Se papai e Buck concordarem, também ficarei de acordo. Enquanto isso, Matthew, por que você não me ajuda a trazer outro carregamento do convés?

- Claro. Obrigado pelo café, Maria.

- Ah, de nada, meu doce.

- Vou ter que correr para Saint Kitts mais tarde - começou a falar Tate enquanto os dois se levantavam. - Para revelar o filme. Quer vir comigo?

- Talvez.

Ela percebeu uma urgência na voz de Matthew e conteve um sorriso.

- Matthew. - Para deter o seu progresso, Tate tocou no braço do rapaz. - Você sabe por que eu acho que trabalhamos tão bem juntos lá embaixo?

- Não. - Ele se virou. A pele de Tate ainda estava inacreditavelmente branca, mesmo depois de semanas no mar. Ele podia sentir o cheiro do creme que ela usava para se proteger do sol e o perfume do sal e do ar do mar que se agarrava ao seu cabelo. - Mas você vai me dizer.

- Acho que é porque você é realista e eu sou idealista. Você é despreocupado e eu sou cautelosa. Há traços contraditórios dentro de nós e que se opõem. De algum modo, conseguimos manter um equilíbrio.

- Você realmente gosta de analisar as coisas, não é, ruiva?

- Acho que sim. - Na esperança de que ele não percebesse a coragem de que precisou para dizer aquilo, ela se aproximou mais. - Andei analisando por que você ficou tão irritado depois que me beijou.

- Não fiquei irritado - corrigiu Matthew no mesmo instan-’ te. - E foi você que me beijou.

- Eu comecei. - Determinada a acabar com aquela história, ela fixou os olhos nos do parceiro. - Você é que mudou a coisa, depois ficou furioso porque se surpreendeu. O que você sentiu o surpreendeu. E a mim também. - Ela levantou as mãos e as colocou sobre o peito dele. - Queria saber se ficaríamos surpresos agora.

Ele queria, mais do que qualquer coisa da qual pudesse se lembrar, mergulhar e roubar para si aquela boca sedenta e revigorante. O desejo de prová-la veio em ondas rápidas e ávidas, e fez com que suas mãos se enrijecessem enquanto prendiam os pulsos delicados dela.

- Você está entrando em águas perigosas, Tate.

- Mas não estou sozinha. - Ela não estava mais com medo, como bem percebeu. E não estava nem nervosa. - Sei o que estou fazendo.

- Não mesmo. - Ele a empurrou para trás, a uma certa distância, sem perceber que suas mãos ainda estavam segurando os pulsos de Tate. - Você imagina que não haverá conseqüências, mas haverá. Se não olhar para onde anda, terá que agüentá-las.

Um calafrio subiu pela espinha dela, deliciosamente.

- Não tenho medo de estar com você. Quero estar com você. Os músculos no estômago de Matthew se retorceram.

- É fácil dizer isso com a sua mãe na cozinha. Por outro lado, talvez você seja mais esperta do que parece. - Furioso, ele jogou as mãos de Tate para baixo e se afastou a passos largos.

A implicância fez com que as suas faces ficassem vermelhas. Ela percebeu que o incomodara. Provocando-o. Precisava saber se ele sentia ao menos metade da atração que estava sentindo por ele. Envergonhada e arrependida, Tate seguiu em seu encalço.

- Matthew, lamento. Na verdade, eu...

Mas, com um salpico, ele já estava do outro lado, nadando na direção do Demônio do Mar. Tate suspirou. Que desgraça, o mínimo que ele poderia fazer seria ouvir suas desculpas. Ela mergulhou atrás.

Quando se arrastou para o convés, Matthew estava abrindo uma cerveja,

- Vá para casa, garotinha, antes que eu a jogue no mar.

- Já disse que lamento muito. - Ela tirou o cabelo molhado da frente dos olhos. - Foi injusto e estúpido da minha parte, e queria me desculpar.

- Tudo bem. - A rápida nadada e a cerveja gelada não estavam ajudando muito. Na esperança de ignorá-la, ele começou a se balançar na rede. - Vá para casa.

- Não quero que você fique furioso. - Determinada a lhe dar uma satisfação, ela seguiu na direção da rede. - Só estava tentando... só estava testando.

Ele colocou a cerveja aberta no convés, - Testando - repetiu Matthew, e depois deu um bote antes que Tate pudesse respirar. E a puxou para que ficasse sobre ele, na rede, que balançava freneticamente enquanto ela se agarrava às laterais para não cair no chão. Seus olhos se arregalaram, chocados, quando as mãos dele apertaram seu traseiro com intimidade.

- Matthew!

Ele lhe deu um tapinha, que não era totalmente de amor, e depois a empurrou para fora. Tate caiu de bunda no chão, a mesma que ele havia acabado de explorar.

- Diria que agora estamos quites - afirmou ele, antes de se esticar para pegar sua cerveja.

O primeiro impulso da Tate foi partir para o ataque. Mas bastou a certeza absoluta de que o resultado seria humilhante ou desastroso para contê-la. Misturado a isso havia a sensação humilhante de que ela merecera o que acabara de receber.

- O.k. - com calma e dignidade, ela se levantou. - Estamos quites.

Ele estava esperando que sua parceira fosse atacá-lo. Que, no mínimo, abrisse o berreiro. O fato de ela ter se levantado ao seu lado, calma e serena, fez com que brotasse um lampejo de admiração em seus olhos.

- Está tudo bem, ruiva.

- Amigos novamente? - perguntou ela, estendendo a mão.

- De qualquer maneira, parceiros.  Crise evitada, pensou Tate. Pelo menos temporariamente.

- E então, você quer fazer uma pausa? Quem sabe mergulhar com snorkels?

- Talvez. Tenho duas máscaras com snorkels na casa do leme.

- Vou buscá-las. - Mas ela voltou com um caderno de esboços. - O que é isso?

- Uma gravata de seda. com o que se parece?

Sem tomar conhecimento do sarcasmo, ela se sentou na beirada da rede. - Foi você que fez esse desenho do Santa Margarida?

- Sim.

- Está bem legal.

- Sou um Picasso regular.

- Eu disse que está ”bem legal”. Teria sido demais vê-lo assim. Essas figuras são medições?

Ele suspirou novamente, pensando no quanto eles eram amadores.

- Se você quiser tentar calcular a área que os destroços ocupam, é necessário fazer alguns cálculos. Hoje chegamos à cozinha. - Ele balançou as pernas até se ajeitar ao lado de Tate. - Cabines dos oficiais, cabines dos passageiros. - Ele apontava para vários pontos do desenho. - Porão de carga do navio. A melhor maneira é imaginar a visão da perspectiva de uma gaivota. - Para demonstrar, ele virou uma página e começou a esboçar uma grade. - Aqui é o fundo do mar. Foi aqui que encontramos o lastro.

- Então o canhão está por aqui.

- Certo. - com movimentos rápidos e ágeis, ele os desenhou. - Agora cavamos buracos de teste daqui até aqui. Queremos seguir mais para o meio do navio, em busca do veio principal.

O ombro de Tate se chocou com o dele enquanto estudava o desenho.

- Mas queremos escavar tudo, certo?

Matthew levantou o olhar rapidamente, e depois continuou a desenhar.

- Isso poderia levar meses, anos.

- Bem, sim, mas o navio por si só é mais importante do que a carga que ele leva. Temos que escavá-lo e preservá-lo em sua integridade.

De acordo com o ponto de vista de Matthew, o navio era de madeira e não valia nada. Mas ele poderia animá-la.

- A estação dos furacões vai demorar a chegar. Pode ser que tenhamos sorte, mas vamos nos concentrar em tentar encontrar o veio principal. Depois você terá todo o tempo que quiser para descansar.

Para ele, bastava pegar sua parte e ir embora. com ouro tinindo no bolso, Matthew poderia ter tempo para construir o seu barco, a fim de terminar as pesquisas do seu pai sobre o Isabela.

A fim de encontrar a Maldição de Angelique e VanDyke.

- Acho que isso faz sentido. - Ela levantou os olhos, chocada com o brilho frio e distante que havia nos olhos de Matthew. - No que você está pensando? - Era uma tolice, evidentemente, mas Tate achou que parecia com algo relacionado a um assassinato.

Ele tremeu. O aqui e o agora, pensou o rapaz, era o que importava mais.

- Nada. É claro que faz sentido - continuou. - Em breve, a notícia de que descobrimos os restos de um novo navio naufragado irá se espalhar por aí. Teremos companhia.

- Repórteres? Ele bufou.

- Isso é o mínimo. Invasores.

- Mas nós temos o direito legal - afirmou Tate, que ficou muda quando seu parceiro começou a rir dela.

- Esse negócio de direito legal não quer dizer nada, ruiva, especialmente quando você tem que lidar com a sorte dos Lassiter. Teremos que começar a dormir da mesma forma que trabalhamos: em turnos - prosseguiu Matthew. - Se começarmos a encontrar mais ouro, ruiva, os caçadores sentirão o seu cheiro da Austrália até o mar Vermelho. Pode acreditar.

- Eu acredito. - E por confiar nele, a moça desceu pulando para pegar os snorkels. - Vamos ver papai e Buck. Depois quero levar o filme para revelar.

Na hora em que Tati estava pronta para ir para a praia, já tinha em mãos uma lista de incumbências, além de levar o filme para o laboratório.

- Já devia saber que mamãe iria me dar uma lista de compras Para fazer no mercado.

Matthew pulou com ela no pequeno escaler do Aventura e pôs o motor para funcionar.

- Não tem nada de mais.

Tate simplesmente ajeitou seus óculos de sol.

- Você não viu a lista. Olhe! - Ela apontou para oeste, onde um cardume de golfinhos pulava diante do sol que se punha. - Já nadei com um deles uma vez. Estávamos no mar de Coral e um cardume deles seguiu o barco. Eu tinha doze anos. - Ela sorriu e ficou vendo-os reluzir no horizonte. - Foi incrível. Eles têm um olhar tão dócil.

Tate se levantou enquanto Matthew reduzia a velocidade. Ela mediu a distância até o píer, retesou as pernas e segurou o cabo.

Uma vez que o bote estava firme, os dois começaram a caminhar pela faixa de areia da praia.

- Matthew, se chegássemos ao veio principal e você ficasse rico, o que faria?

- Gastaria a grana. A aproveitaria.

- Com o quê? Como?

- Coisas. - Ele mexeu os ombros, mas sabia que generalidades não iriam satisfazê-la. - Um barco. Irei construir o meu assim que tiver tempo e condições. Talvez comprasse uma casa numa ilha como essa.

Eles passaram por hóspedes de um hotel das redondezas, que se bronzeavam preguiçosamente à luz do sol que se punha. Vestidos com camisas floridas e shorts brancos, largados pela areia com bandejas cheias de drinques tropicais.

- Nunca fui rico - disse Matthew meio que para si mesmo. - Não deve ser muito difícil se acostumar com isso, viver assim. Belos hotéis, belas roupas, ter como pagar para não fazer nada.

- Mas você ainda mergulharia?

- Claro.

- Eu também. - Inconscientemente, ela pegou na mão de Matthew enquanto ambos andavam pelos jardins perfumados do hotel. - O mar Vermelho, a Grande Barreira de Recifes, o Atlântico Norte, o mar do Japão. Há tantos lugares para se ver. Assim que eu terminar a faculdade, irei conhecer todos eles.

- Arqueologia marinha, certo?

- Isso mesmo.

Matthew lançou um olhar sobre a amiga. Seu cabelo brilhava, mas estava desgrenhado por causa do sal e do vento. Ela usava calças largas e folgadas de algodão, uma camiseta justa e óculos escuros quadrados com aros negros.

- Você não se parece muito com uma cientista.

- A ciência exige que se tenha cabeça e imaginação, não que se cuide da aparência e se esteja na moda.

- É conveniente estar na moda.

Nem um pouco ofendida, ela encolheu os ombros. Apesar do desespero ocasional da sua mãe, Tate nunca pensou muito em roupas ou em estilo.

- Qual é a diferença, contanto que você tenha uma boa roupa de mergulho? Não preciso de um guarda-roupa para fazer escavações, e é isso que vou passar minha vida fazendo. Imagine ser paga para sair em busca de tesouros, para examinar e estudar artefatos.

- Ela balançou a cabeça, maravilhada. - Há tanto a aprender.

- Nunca pensei muito nesse negócio de estudar. - É claro, eles haviam mudado tanto de residência que ele nunca teve escolha.

- Sou mais um admirador do aprender fazendo.

- Com certeza já deu para perceber.

Os dois pegaram um táxi na cidade, onde Tate pôde colocar seu filme para revelar. Para o seu deleite, Matthew pareceu não se importar quando ela quis ficar olhando as lojas, perdendo tempo com enfeites. Ela suspirou rapidamente por causa de um pequeno medalhão de ouro com uma única pérola. Roupas serviam para se proteger do frio, mas jóias eram uma bela e inofensiva fraqueza.

- Não sabia que você gostava desse tipo de coisa - comentou ele, inclinando-se sobre o balcão ao seu lado. - Nunca a vi com nenhuma jóia.

- Ganhei um pequeno anel de rubi da mamãe e do papai no Natal, quando tinha dezesseis anos. Mas eu o perdi num mergulho. Aquilo realmente partiu o meu coração, por isso parei de usar jóias dentro d’água. - Ela desviou o olhar do medalhão delicado e puxou a peça de prata de Matthew. - Talvez eu pegue a moeda que Buck me deu e a use como um talismã.

- Comigo funciona. Você quer um drinque ou algo parecido? Ela encostou a língua no lábio superior.

- Sorvete.

- Sorvete. - Ele pensou bem. - Vamos.

Cada um com um sorvete de casquinha, os dois caminharam pela calçada, explorando ruas estreitas. Ele a cativou arrancando uma flor branca de hibisco e colocando-a cuidadosamente atrás da orelha de Tate. Enquanto faziam as compras que Maria havia pedido, ele fez com que sua companheira desse gargalhadas com a história de Buck e do fantasma do Barba-Negra. Tanto que Tate parecia estar fazendo um gargarejo.

- Estávamos perto de Ocracoke, no aniversário de Buck. O seu qüinquagésimo. O fato de ter meio século nas costas o deixou tão deprimido que ele matou meia garrafa de uísque. Eu o ajudei com outra metade.

- Posso apostar. - Tate escolheu um cacho de bananas maduras e o colocou em sua cesta.

- Ele estava falando sobre todos aqueles ”poderíamos ter”, você sabe o que eu quero dizer. Poderíamos ter encontrado aqueles destroços se tivéssemos procurado durante mais um mês. Se tivéssemos chegado lá primeiro, poderíamos ter encontrado o veio principal. Se o tempo firmasse, poderíamos ter tirado a sorte grande. Em meio ao uísque e ao fastio, desmaiei no convés. Este melão não está maduro. Que tal este?

Matthew trocou a fruta e escolheu as uvas sozinho.

- De qualquer maneira, pelo que pude ver depois, o motor estava roncando e o barco foi jogado para sudoeste a uns bons doze nós. Buck estava no leme, gritando alguma coisa sobre piratas. Aquilo me deixou aterrorizado. Levantei-me, tropecei e bati tão forte com a cabeça na amurada que vi estrelas. Quase fui ao mar quando ele virou a estibordo. Ele gritava comigo e eu o amaldiçoava, lutando para ficar em pé enquanto Buck fazia o barco rodar. Seus olhos estavam brancos e uns quinze centímetros projetados para fora do rosto. Você sabe que sem os óculos ele não consegue enxergar a um metro de onde está. Mas ficou apontando para o mar e gritando aquele velho jargão: ”Nossa, ai meu Deus.” Tate riu tanto que ficou tonta.

- Ele não disse ”ai meu Deus”.

- Bem, de fato não. Só fez com que quase virássemos de cabeça para baixo dançando uma jiga e cantando ”io, ho, ho”. - Tal lembrança fez com que brotasse um sorriso em sua boca. - Quase tive que nocauteá-lo para tirá-lo do leme. ”O fantasma, Matthew. O fantasma do Barba-Negra. Você não o vê?” Disse também que ele não veria mais nada depois que arrancasse os seus olhos. Meu tio retrucava que o sujeito estava ali, bem ali, a dez graus da proa. Não havia nada por perto, a não ser um espesso nevoeiro. Mas, para Buck, era a cabeça cortada do Barba-Negra, com fumaça saindo numa espiral pela barba. Ele alegou que era um sinal e, se mergulhássemos naquele local no dia seguinte, encontraríamos o tesouro do pirata, aquele que todo mundo acreditava que estava enterrado em terra firme.

Tate pagou pelas compras e Matthew pegou as sacolas.

- E vocês desceram no dia seguinte - afirmou Tate - porque ele pediu.

- Por isso e porque, se não o tivéssemos feito, ele jamais pararia de contar aquela história. Não encontramos nada, mas por certo Buck superou a crise dos cinqüenta.

Já estava quase anoitecendo quando os dois voltaram para a praia. Matthew guardou as sacolas, deu meia-volta e viu que Tate havia enrolado as barras das calças para que pudesse andar no meio da arrebentação.

A luz dourava o seu cabelo e a sua pele. De repente, Matthew se lembrou do sonho que teve e de como ela parecia incandescente dentro d’água. Do seu gosto.

- Está tão lindo aqui - murmurou Tate. - É como se nada mais existisse. Como pode haver alguma coisa errada com um mundo que tem lugares como este aqui? Quando há dias como o de hoje?

Ela tinha certeza de que seu parceiro não percebeu que aquele fora o dia mais romântico da sua vida. Bastaram coisas simples, como uma flor no cabelo e andar de mãos dadas no meio da praia.

- Talvez não devêssemos nunca sair daqui. - Rindo enquanto falava, Tate se virou. - Talvez devêssemos simplesmente ficar e...

Sua voz foi morrendo, e sua garganta se fechou enquanto ela fitava os olhos do rapaz. Eram tão escuros, intensos e, subitamente, concentraram-se nela. Apenas nela.

Tate não pensou nem hesitou, mas foi na direção dele. Suas mãos deslizaram pelo corpo de Matthew e se uniram atrás da sua cabeça. O olhar dele se fixou no dela e houve uma dúzia de batimentos frenéticos, até que Matthew a puxou para perto do seu corpo e acendeu uma fogueira no sangue de Tate.

Sim, ela já havia sido beijada antes. Mas sabia a diferença entre homem e rapaz. Era um homem que a estava segurando, que a havia puxado. Era um homem que ela queria. Ávida e ligeira, Tate apertou seu corpo contra o dele, passando os lábios pelo seu rosto com beijos desvairados, até encontrar os dele novamente em meio a um soluço de prazer.

Ela estava muito fraca, disposta e ansiosa para aceitar qualquer exigência. Derramava-se que nem água a cada roçar das mãos de Matthew, enquanto sua boca se agarrava vorazmente à dele. Cada hesitar e soluço de prazer que brotava da sua garganta penetrava pela dele; uma espada de fogo que trazia novas necessidades.

- Tate. - A voz de Matthew era áspera, quase desesperada. - Não podemos fazer isso.

- Podemos sim. E estamos fazendo. - Meu Deus, ela não conseguia respirar. - Beije-me novamente. Rápido.

Matthew colou sua boca na dela. Seu hálito provocou uma explosão dentro do rapaz. Tudo que dizia respeito àquela situação era doloroso, quase agonizante, como seria o calor depois do frio.

Isso é uma loucura - murmurou Matthew contra a boca da parceira. - Estou fora de mim.

- Eu também. Oh, quero você, Matthew. Eu quero você. Aquilo bateu fundo. Ele desgrudou de Tate, porém colocou as mãos nos ombros dela.

- Ouça, Tate... De que diabos você está rindo?

- Você também me quer. - Ela levantou a mão, a pôs delicadamente no rosto dele e quase o intimidou. - Por algum tempo eu achei que não. E isso doía porque eu o queria muito. Nem cheguei a gostar muito de você à primeira vista, mas mesmo assim o desejei.

- Jesus. - Para recuperar o autocontrole, ele encostou sua testa na dela. - Achei que você tinha dito que era a cautelosa.

- Não no que diz respeito a você. - Cheia de amor e confiança, ela se aninhou dentro do seu peito. Coração com coração. - Nunca no que lhe dizia respeito. Quando você me beijou pela primeira vez, sabia que era por alguém assim que eu estava esperando.

Ele não tinha bússola nem direção, mas sabia que era essencial mudar de curso.

- Tate, temos que falar sobre isso aos poucos. Você não está pronta para aquilo em que estou pensando. Acredite em mim.

- Você quer fazer amor comigo. - Seu queixo se levantou. Seus olhos, de uma vez só, eram os de uma mulher e tão misteriosos quanto. - Não sou criança, Matthew.

- Então sou eu que não estou pronto. E não estou disposto a fazer algo que magoaria os seus pais. Eles têm agido direito comigo e com Buck.

Orgulho, pensou ela. Orgulho, lealdade e integridade. Não era de espantar que ela o amasse. Os lábios da moça se curvaram.

- Tudo bem. Iremos aos poucos. Mas a coisa é entre nós, Matthew. O que decidirmos e o que quisermos. - Ela se inclinou para a frente e encostou seus lábios nos dele. - Eu posso esperar.

 

Tempestades começaram a varrer a costa e fizeram com que mergulhar fosse impossível durante os dois dias que se seguiram. Quando passou a primeira onda de impaciência, Tate se acomodou no convés do Aventura para limpar e catalogar as peças que seu pai e Buck haviam resgatado do Santa Margarida durante o último mergulho de ambos.

A chuva batia na lona suspensa e esticada. As ilhas haviam sumido no meio da neblina, deixando à vista apenas mares agitados e céus furiosos. Seu mundo havia sido reduzido à água e aos companheiros.

Na cabine principal, uma maratona de pôquer estava em curso. Vozes, uma risada e uma imprecação lhe vinham à mente em meio ao tamborilar monótono da chuva. Tate limpava a corrosão de uma cruz áspera de prata e sabia que nunca havia sido tão feliz em toda a sua vida.

Com uma caneca de café em cada mão, Matthew se enfiou embaixo da lona.

- Quer alguma ajuda?

Claro. - Bastava olhar para ele que o coração de Tate dava cambalhotas. - O jogo de pôquer acabou?

Não, mas a minha sorte sim. - Ele sentou ao seu lado e ofereceu uma caneca. - Buck desbancou o meu full house com um straight flush.

- Não tenho muita noção do que vale mais. Sou melhor com gjm - Ela mostrou a cruz, - Talvez o cozinheiro do navio tenha usado isso, Matthew. Devia ficar batendo no seu peito enquanto ele preparava a massa para os biscoitos.

- É. - Ele manuseou a prata. Era uma peça feia, que mais provavelmente fora cunhada por um ferreiro do que por um joalheiro. Nem sequer pesava muito. Matthew a descartou como algo de menor valor. - O que mais você tem aí?

- Esses fechos de cordame. Veja, ainda há vestígios de cabos neles. Imagine. - Ela manipulava o metal negro com reverência. - Como eles devem ter lutado para salvar o navio. O vento devia estar uivando, as velas em farrapos.

Ela olhou mais além, para dentro da bruma, e viu o que acontecera.

- Homens se agarrando a cabos e mastros enquanto o navio se inclinava. Passageiros aterrorizados. Mães segurando os seus filhos enquanto a embarcação arfava e tombava. E estamos encontrando o que sobrou deles.

Tate largou o crucifixo e levantou um cachimbo de argila com ambas as mãos.

- Um marujo guardava isso enfiado no bolso, e ficava no convés, depois do seu quarto, para acendê-lo e fumar em paz. E esta caneca devia estar cheia de cerveja.

- É uma pena que esteja faltando a asa. - Ele a arrancou da mão dela e a virou de cabeça para baixo. Não queria admitir que a visão de Tate o havia tocado. - Isso a desvaloriza.

- Você não pode pensar só no dinheiro. Matthew sorriu.

- É claro que posso, ruiva. Fique com o drama que eu fico com a grana.

- Mas... - Ele interrompeu sua objeção com um beijo rápido e furtivo.

- Você fica tão bonita quando está indignada.

- Sério? - Ela era muito jovem e estava apaixonada demais para se sentir lisonjeada. Enquanto pegava o seu café, dava uns goles, observando-o por sobre a borda da caneca. - Não acredito que você seja tão mercenário quanto finge ser.

- Pode acreditar. A história é bacana quando você se vale dela para fazer alguma coisa. Caso contrário, resume-se a um bando de sujeitos mortos. - Ele levantou o olhar, mal notando a expressão carrancuda da parceira. - A chuva está diminuindo. Vamos mergulhar amanhã.

- Está impaciente?

- Um pouco. O problema é ficar por aqui, vendo a sua mãe colocar um prato embaixo do meu nariz a cada vez que eu pisco. Vou acabar ficando mal-acostumado. - Ele levantou a mão e a passou no cabelo de Tate. - É um mundo diferente. Você é um mundo diferente.

- Não tão diferente, Matthew - murmurou ela, virando seus lábios na direção dos dele. - Talvez apenas diferente o bastante.

Os dedos de Matthew ficaram tensos e foram relaxando lentamente. Ela não conhecera o bastante do mundo, do mundo dele, para saber a diferença. Se fosse um homem bom e gentil, saberia que não deveria estar tocando-a agora, tentando a ambos rumo a um passo que só poderia dar em erro.

- Tate... - Ele estava dividido entre empurrá-la para longe e trazê-la para mais perto de si, quando Buck enfiou a cabeça por baixo da lona.

- Ei, Matthew, você... - Buck ficou de boca aberta enquanto o casal se separava. Suas bochechas com a barba por fazer ficaram ruborizadas. - Ah, desculpe. Ah, Matthew... - Enquanto Buck pensava no que ia dizer, Tate pegou calmamente sua caneta e catalogou o cachimbo de argila.

- Oi, Buck. - Tate lhe dirigiu um sorriso tranqüilo e luminoso enquanto os dois homens se encaravam cheios de dúvidas. - Ouvi que você estava tendo sorte na mesa de pôquer.

- É. Sim, eu, ah... - Ele enfiou as mãos nos bolsos e cruzou os pés. - A chuva está diminuindo - anunciou. - Eu e Matthew iremos levar essa tralha, armazená-la no Demônio do Mar.

- Estou terminando de catalogar. - Meticulosamente, Tate tampou sua caneta. - Vou dar uma mão para vocês.

- Não, não, deixe conosco. - Buck tirou a mão do bolso rápido o bastante para colocar os óculos de novo no nariz. - De qualquer maneira, eu e Matthew temos que fazer uns reparos no motor. Sua mãe disse algo sobre umas tarefas que você teria na cozinha hoje à noite.

- Ela tem razão - disse Tate com um suspiro. - Acho que é bom eu começar logo. - Então desdobrou as pernas e se levantou antes de enfiar seu caderno debaixo do braço. - Vejo vocês no jantar.

Os homens não disseram muita coisa enquanto embrulhavam e carregavam os despojos. A sugestão de Matthew de que poderiam precisar alugar uma sala ou uma garagem para servir de depósito foi recebida com um grunhido e um encolher de ombros. Buck esperou até ambos chegarem ao Demônio do Mar para. explodir.

- Você perdeu a cabeça, garoto? Matthew girou levemente o leme.

- Não preciso que você fique no meu rastro, Buck.

- Se eu precisar ficar no seu rastro para chegar ao seu cérebro, é isso que farei. - Ele se levantou calmamente quando Matthew desligou os motores. - Você não tem juízo o bastante para não se envolver com aquela jovenzinha?

- Não andei me envolvendo com ela - disse Matthew com os dentes cerrados, segurando o cabo. - Não do jeito que você está pensando.

- Graças a Deus. - Agilmente, Buck carregou a primeira lona nos ombros e enganchou o pé na escada. - Você não ganha nada brincando com a Tate, garoto. Ela não é uma mulher qualquer.

- Sei o que ela é, - Matthew puxava a segunda lona. - E sei o que não é.

- Então lembre-se disso. - Buck carregou sua lona para dentro da casa do leme e a desenrolou cuidadosamente no balcão. - Os Beaumont são pessoas boas e decentes, Matthew.

- E eu não.

Surpreso com a amargura no tom de voz do sobrinho, Buck levantou os olhos enquanto Matthew largava a sua lona.

- Nunca disse que você não era bom ou decente, garoto. Mas não somos como eles. Nunca fomos. Talvez você ache que não há problema em flertar com ela antes de partirmos, mas uma garota como aquela espera certas coisas na vida.

Ele puxou um cigarro e o acendeu, observando o sobrinho através da fumaça.

- Vai me dizer que está pensando em dá-las para ela? Matthew pegou uma cerveja e bebeu o suficiente para tirar parte da raiva que estava presa na garganta.

- Não vou dizer isso para você. Mas também não irei magoá-la. Buck jamais pensou que ele pudesse ter tal intenção.

- Mude a sua conduta, garoto. Há um monte de mulheres por aí, se você estiver a fim. - Buck viu a fúria brotar nos olhos de Matthew e a contrapôs na mesma intensidade. - Estou falando porque já aconteceu comigo. Se um homem se pendura na mulher errada, pode arruinar a ambos.

Lutando para manter a calma, Matthew pôs de lado a garrafa bebida até a metade.

- Como aconteceu com a minha mãe e com o meu pai.

- Isso é verdade - disse Buck, com a voz um pouco mais suave. - Eles mandavam farpas um para o outro, é claro. Acabaram se envolvendo antes que um dos dois pudesse pensar direito na coisa. E ambos ficaram muito estremecidos.

- Não creio que ela tenha derramado muito sangue - retrucou Matthew. - Ela o deixou, não foi? E a mim também. Nunca mais voltou. Até onde eu sei, nem sequer olhou para trás.

- Ela não podia abortar você. Pode perguntar, a maior parte das mulheres não consegue. Não adianta culpá-las por isso.

Mas Matthew podia.

- Não sou meu pai. Tate não é a minha mãe. Esse é o lance.

- Vou lhe dizer qual é o lance. - com os olhos pesados de preocupação, Buck amassou o cigarro. - Aquela garota ali está se divertindo e vivendo uma aventura que irá durar alguns meses. Você é um homem bem-apessoado, por isso é natural que faça parte desse clima de diversão e aventura. Mas quando tudo acabar ela irá para a faculdade, e acabará arrumando um bom emprego e um bom marido. Isso o deixará encalhado. Se você se esquecer disso e tirar vantagem do encantamento no olhar dela, os dois ficarão na pior.

- Não lhe ocorre que eu possa ser bom o suficiente para ela.

- Você é bom o suficiente para qualquer uma - corrigiu Buck - Melhor do que a maioria. Mas ser a pessoa certa para alguém é diferente.

- Essa é a voz da experiência.

- Talvez eu não entenda porcaria nenhuma de mulher. Mas conheço você. - Na esperança de que pudesse acalmar os ânimos, ele colocou a mão no ombro firme de Matthew. - Estamos com uma chance de ouro aqui, garoto. Homens como nós passam a vida inteira procurando, e só alguns encontram. Nós encontramos. Tudo que temos que fazer é pegar o que é nosso. Você poderá ser o que quiser com a sua parte. Assim que acabar com tudo isso, haverá tempo de sobra para mulheres.

- Claro. - Matthew pegou a sua cerveja e tomou uma talagada. - Sem dúvida.

- É isso. - Aliviado, Buck lhe deu um tapa no ombro. - Vamos dar uma olhada no motor.

- Já estou indo.

Sozinho, Matthew ficou olhando para a garrafa em sua mão até desejar ser possuído novamente pelo impulso furioso de quebrá-la em pedaços. Não havia nada que Buck tivesse lhe dito que ele mesmo não houvesse dito para si próprio. E com menos delicadeza.

Ele representava a terceira geração de caçadores de tesouros com um legado de má sorte que o perseguira que nem um cão de caça por toda a vida. O jovem vivera valendo-se de sua capacidade e do lado reverso de tal sorte. Não tinha laços com ninguém, exceto Buck, nenhuma propriedade além do que podia levar nas costas.

Era um sujeito errante, nada mais, nada menos. A perspectiva de encontrar uma fortuna a doze metros de profundidade fazia com que a jornada fosse mais confortável, mas isso não mudaria nada.

Buck tinha razão. Sem nenhum endereço fixo e com menos de quatrocentos dólares enfiados num maço de cigarros, Matthew Lassiter não tinha o direito de se imaginar ao lado de Tate Beaumont.

Tati tinha outras idéias. Era frustrante constatar que, ao longo dos dias que se seguiram, a única hora em que ela se via sozinha com Matthew era quando estavam embaixo d’água. Lá, a comunicação e o contato físico eram difíceis.

Ela mudaria isso, prometeu a si mesma enquanto examinava o material que vinha pelo tubo de airlift. E faria isso hoje. Afinal de contas, era o seu aniversário de vinte anos.

Cuidadosamente, a moça fazia uma triagem em meio a pregos, cavilhas, conchas, com os olhos atentos às preciosidades dispersas. Os móveis do navio, um sextante, uma caixa de metal pequena e com dobradiças, uma moeda de prata incrustada num pedaço de coral. Um crucifixo de madeira, um oitante e uma linda xícara de porcelana, delicadamente partida ao meio.

Ela juntou tudo aquilo, ignorando o sibilo dos fragmentos que batiam em suas costas e os pequenos cortes eventuais que apareciam em sua mão.

Um raio de luz dourada passou por Tate. Seu coração começou a se agitar dentro do peito enquanto ela esquadrinhava a nuvem em busca de um clarão revelador. O brilho rápido e pequeno fez com que se lançasse à frente, mergulhasse na direção da areia e fizesse com que os raios escondidos subissem num turbilhão.

Sua mente gritava por tesouros, dobrões, jóias muito valiosas e antigas. Mas quando sua mão se fechou em torno da peça de ouro, seus olhos começaram a girar.

Não era uma moeda nem uma jóia que fora enterrada há muito tempo pelas ondas. Não era um artefato de valor incalculável, mas, entretanto, era inestimável. Ela ergueu o medalhão de ouro com uma única pérola incrustada.

Quando Tate se virou, viu que Matthew estava apontando o airlift para longe e a observava. Ele traçou letras na água com o dedo.  Feliz aniversário. com uma risada em meio a murmúrios, ela nadou na direção de Matthew. Embaraçada pelas garrafas e tubos de borracha, pegou a mão do rapaz e a encostou em seu rosto.

Ele a deixou ali por um instante e depois acenou dizendo-lhe que podia ir embora. Seu sinal dizia, obviamente: ”Deixa de ser vadia.”

Mais uma vez o airlift começou a sugar a areia. Ignorando as partículas, Tate segurou cuidadosamente o colar, prendendo-o em volta do pulso. Ela voltou a trabalhar com um amor ainda maior no coração.

Matthew se concentrou na ponta do lastro que não estava muito distante da praia. Pacientemente, começou a levantar areia, criando um círculo com faces inclinadas cada vez maior. Logo, já estava trinta centímetros mais abaixo, depois sessenta, enquanto Tate trabalhava ativamente no meio das partículas. Um cardume de peixes-porco se lançava. Matthew levantou os olhos e viu, através da água turva, que a barracuda parecia sorrir para ele.

Num impulso, Matthew mudou de posição. Jamais se consideraria um sujeito supersticioso. Como um homem do mar, ele seguia sinais e se guiava por tradições. Os peixes dentuços pairavam no mesmo lugar dia após dia. Não doeria nada usar o mascote como ponto de referência.

Curiosa, Tate olhou para cima enquanto Matthew arrastava o tubo de airlift alguns metros para o norte, onde já estava cavando um novo buraco. A jovem desviou sua atenção e observou um caleidoscópio de peixes rodopiando em meio à água turva, caçando vermes marinhos desalojados pelo corte do tubo.

Algo bateu na sua garrafa. Habilmente, ela se virou para retomar suas tarefas. O primeiro raio de luz dourada mal ficou registrado. Ela olhou através da água turva para o banco de areia. Os lampejos de brilho se espalhavam a sua volta como flores que haviam acabado de se abrir. Pasma, Tate se abaixou e pegou um dobrão. O rei da Espanha, que morrera já há muito tempo, a encarou.

A moeda caiu dos seus dedos dormentes. Numa febre súbita, ela começou a catá-las, enfiando-as dentro da sua roupa de mergulho, entupindo seu saco para pegar lagostas e ignorando os objetos sólidos que caíam junto com uma espessa coluna de fragmentos. Chovia conglomerado, mas ela o ignorava enquanto varria o solo oceânico com o rosto abaixado, como se fosse um minerador garimpando ouro.

Cinco moedas, depois dez. Vinte e muito mais. Sua respiração se acelerava com gargalhadas estrepitosas. Ela parecia estar com problemas para respirar. Quando olhou para cima, viu Matthew sorrindo em sua direção, com os olhos sombrios e ansiosos. Por trás da máscara, seu rosto empalidecera.

Os dois haviam chegado ao veio principal.

Ele gesticulou. Como num sonho, Tate nadou em sua direção e sua mão trêmula foi em busca da do parceiro. A areia escoava para dentro do buraco de teste, mas deu para ver o brilho do cristal de uma taça perfeitamente preservada, com todo o resplendor de moedas e medalhões. Em toda parte era possível detectar as formas calcificadas dos artefatos. E a faixa escura de areia que para todo explorador significava um veio de prata.

Atrás deles, o lastro avolumava-se. E mais abaixo, o prêmio brilhante do galeão Santa Margarida e todo o seu tesouro.

Houve um estrondo nos ouvidos de Tate enquanto ela descia e segurava uma corrente grossa de ouro com as duas mãos. Lentamente, Tate a içou. Nela, estava dependurada uma cruz pesada coberta de vida marinha. E de esmeraldas.

Sua visão ficou embaçada enquanto passava tal artefato para Matthew. com uma súbita formalidade, ela levantou a corrente cuidadosamente por sobre a cabeça. A generosidade simples daquele gesto o tocou. Quem dera ele pudesse tocá-la, pensou Tate. Tudo que Matthew podia fazer era apontar o dedo para cima. Ele abriu a válvula do airlift e a acompanhou até a superfície.

Tate mal podia falar. Mesmo agora, todos os seus esforços estavam voltados para que o ar saísse e entrasse nos seus pulmões. Ela tremia como uma folha quando subiu a bordo do Aventura. Braços fortes a ergueram.

- Querida, você está bem? - O rosto de Buck, cujas feições demonstravam preocupação, se assomou sobre ela. - Ray, Ray, venha até aqui. Há algo errado com Tate.

- Não há nada errado. - Ela, enfim, conseguiu respirar.

- É só ficar quieta e deitada. - Aflito como uma galinha com seus pintinhos, ele afrouxou a máscara de Tate e quase estremeceu de alívio quando ouviu Matthew subindo no barco. - O que aconteceu lá embaixo? - exigiu saber sem olhar em volta.

- Nada de mais. - Matthew deixou cair o seu cinto de lastro.

- Nada de mais uma ova. A garota está branca como um lençol. Ray, traga um pouco de conhaque.

Mas Ray e Maria já vinham apressados. Vozes zumbiam na cabeça de Tate. Mãos a remexiam e a sondavam em busca de ferimentos. A moça recuperou o fôlego com uma risada e depois não conseguiu mais parar.

- Estou bem. - Ela teve que colocar as mãos na boca para segurar um ataque de riso. - Estou bem. Nós estamos bem, não é, Matthew?

- Mais do que bem - concordou. - Só ficamos um pouco animados.

- Vamos, querida, venha tirar essa roupa. - com alguma impaciência, Maria fuzilou Matthew com um olhar. - Que tipo de animação? Tate está tremendo.

- Eu posso explicar. - Tate tomou fôlego por trás das mãos. - Tenho que me levantar. Vocês me ajudam? - Lágrimas começaram a escorrer dos seus olhos enquanto ela lutava para controlar a gargalhada. Afastando as mãos que a restringiam, ela se levantou sem muita firmeza. Tremendo, com risadinhas arfantes, derrubou a sacola que levava e abriu sua roupa com um puxão.

Choveram moedas de ouro no convés.

- Porra - disse Buck em voz baixa antes de se sentar pesadamente.

- Encontramos o veio principal. - Tate jogou a cabeça para trás e gritou na direção do sol: - Encontramos o veio principal.

Ela envolveu o pai com abraços e rodopiou com ele numa dança, só para parar e envolver sua mãe no mesmo bailado. Deu um beijo estalado na careca de Buck, que permanecia sentado, olhando para as moedas aos seus pés.

Com vozes balbuciantes a sua volta, Tate deu um giro e se lançou nos braços de Matthew. No momento em que ele havia conseguido recuperar seu equilíbrio, a boca da parceira já estava grudada na sua.

As mãos dele se moveram na direção dos ombros de Tate. Ele sabia que devia afastá-la, fazer com que o beijo passasse como um fruto da excitação do momento. Mas um fluxo de impotência veio à tona, suas mãos deslizaram pelas costas da jovem mergulhadora e se cruzaram, abraçando-ª

Daí foi a vez dela de afastá-lo, com os olhos ainda brilhando e seu rosto ruborizado e cheio de ansiedade.

- Pensei que iria desmaiar. Quando olhei para baixo e vi as moedas, todo o sangue se esvaiu da minha cabeça. A única vez em que havia sentido isso foi quando você me beijou.

- Não somos uma má equipe. - Ele afagou o cabelo de Tate.

- Somos uma grande equipe. - Ela segurou a mão do parceiro e o arrastou para onde Buck e Ray já estavam se vestindo. - Você devia ter visto, pai. Matthew manobrava o tubo do airlift como se fosse uma varinha de condão.

Contando alegremente cada passo da descoberta, ela ajudou Buck e seu pai com as garrafas. Só Matthew percebeu que Maria permanecia em silêncio, e sua expressão calorosa havia esfriado por causa da preocupação.

- Vou descer para fotografar - anunciou Tate, enquanto colocava garrafas novas nas costas. - Temos que documentar tudo. Antes de terminarmos nossa tarefa, já teremos a capa da National Geographic.

- Não as divulgue ainda. - disse Buck, sentado na lateral, enquanto lavava a máscara. - Temos que manter isso em silêncio. - Ele olhou em volta, como se esperasse que uma dúzia de barcos iria se apressar para explorar a área. - Descobertas como essa são uma em um milhão, e há muita gente que faria tudo para abocanhar uma fatia do nosso bolo.

Tate apenas sorriu.

- Não sofra antes do tempo, Jacques Cousteau - disse ela, enquanto rolava para dentro d’água.

- Ponha um champanhe para gelar - gritou Ray para sua esposa. - Teremos uma comemoração em dose dupla hoje à noite. Tate fez por merecer uma bela festa de aniversário. - E lançou um sorriso para Buck. - Pronto, parceiro?

- Pronto e disposto, chefe. - Depois de baixar o airlift, os dois desapareceram sob a superfície.

Matthew abasteceu o compressor, murmurando um agradecimento enquanto Maria lhe trazia um copo grande de limonada gelada.

- Que dia excitante - comentou ela.

- É. Não se tem muitos assim.

- Não. Há vinte anos eu achava que isso seria o máximo de felicidade que poderia ter. - Ela se sentou numa cadeira no convés e inclinou o chapéu de sol para cobrir os olhos. - Mas ao longo dos anos tive muitos momentos felizes. Tate, desde sempre tem sido um orgulho para o seu pai e para mim. Ela é brilhante, viva, generosa.

- E você quer que eu mantenha distância dela - concluiu Matthew.

- Não tenho certeza - suspirou Maria, batendo com o dedo no seu copo. - Não sou cega, Matthew. Já percebi que está acontecendo algo entre vocês dois. Isso é natural. Vocês são pessoas saudáveis e atraentes, trabalhando e vivendo perto uma da outra.

Ele tirou a cruz e passou o polegar por sobre o resplendor das pedras esverdeadas. Iguais aos olhos de Tate, pensou, enquanto colocava a cruz de lado.

- Nada aconteceu.

- Fico feliz que esteja me contando isso. Mas, veja bem, se eu não tiver dado a base para que Tate saiba como tomar suas próprias decisões, então falhei como mãe. Não creio que isso tenha acontecido. - Ela deu um pequeno sorriso. - O que não impede que eu me preocupe. Ela tem muito pela frente. Não posso evitar de querer que minha filha tenha de tudo e na hora certa. Suponho que o que estou lhe pedindo é para que tenha cuidado. Se ela estiver apaixonada por você...

- Ainda não conversamos sobre isso - disse Matthew rapidamente.

Em outras circunstâncias, Maria poderia ter sorrido do pânico na voz do rapaz.

- Se ela estiver apaixonada por você - repetiu Maria -, isso irá bloquear todo o resto. Tate pensa com o coração. Ah, ela se julga prática, sensível. E é. Até que algo mexa com a sua emoção. Por isso, tenha cuidado com a minha filha.

Nesse exato momento ela sorriu de fato e se levantou.

- Vou preparar um almoço para você. - Colocando a mão no seu braço, Maria se levantou e o beijou no rosto. - Sente-se ao sol, querido, e aproveite o seu momento de triunfo.

 

Numa questão de dias, o fundo do mar estava cheio de buracos. O Santa Margarida cedeu suas provisões generosas  lentamente. Em meio ao tubo de airlift, às simplórias pás de carvão e às mãos expostas, o grupo escavava tanto o espetacular quanto o costumeiro. Uma tigela de madeira devorada pelos vermes, uma corrente de ouro deslumbrante, recipientes para guardar tabaco, colheres, uma cruz luxuosa cravejada de pérolas. Todos esses objetos foram erguidos do armazém subterrâneo e arenoso onde ficaram durante séculos e arrastados para a luz dentro de baldes.

De vez em quando, um barco de passeio passava e saudava o Aventura. Se Tate estava a bordo, costumava se inclinar sobre a amurada e conversar. Não havia disfarce para a nuvem escura que vinha do airlift que tingia a superfície. As notícias de que estava havendo uma escavação submarina se espalhavam. Eles tiveram o cuidado de depreciar o seu progresso. Mas, a cada dia, trabalhavam mais dura e rapidamente, à medida que aumentavam as perspectivas para a chegada de caçadores de tesouro rivais.

- Uma demarcação legal não significa nada para esses piratas - disse Buck para a jovem. Ele fechou o zíper da sua roupa de mergulho na altura do torso robusto. - Você precisa ficar alerta e tem que ser dura na queda. - Buck lhe deu uma piscada enquanto lhe passava os óculos. - E cautelosa. Vamos desenterrar esse veio principal, Tate, e exauri-lo.

- Sei que vamos. - Ela lhe passou a máscara de mergulho. - Já encontramos mais do que poderíamos imaginar.

- Você começa a pensar em algo maior. - Ele sorriu e deu uns tapinhas em sua máscara. - É bom ter uma dupla de jovens como você e Matthew conosco. Imagino que possam trabalhar vinte horas por dia se for necessário. Você é uma boa mergulhadora, garota. E uma boa exploradora.

- Obrigada, Buck.

- Não conheço muitas mulheres que tenham essa fibra.

A sobrancelha de Tate se levantou enquanto ele enxaguava sua máscara.

- Sério?

- Mas não venha me dizer essa mesma ladainha. Só estou mencionando um fato. Há muitas garotas que gostam de mergulhar, mas quando têm que contribuir com sua sorte numa escavação, elas não têm aquilo que é necessário. Você tem.

Ela refletiu sobre o que lhe foi dito e depois sorriu.

- Vou tomar isso como um elogio.

- E deve. É a melhor equipe com que trabalhei. - Ele ficou em posição e bateu no ombro de Ray. - Desde que eu explorava o mar com o meu pai e o meu irmão. É claro que, assim que tudo isso aqui terminar, vou ter que matar o garanhão aqui. - Buck sorria enquanto colocava a máscara. -Acho que vou surrá-lo até a morte com os seus pés-de-pato.

- Estou de olho em você, Buck. - Ray escorregou para o lado. - Já resolvi sufocar você com uma almofada do barco. O tesouro é meu. - Beaumont deixou escapar uma risada selvagem e demoníaca. - Meu, entendeu? Todo meu. - Revirando os olhos loucamente, Ray colocou o bocal e fez um mergulho de superfície.

- Estou atrás de você, garanhão. Vou atravessá-lo com uma pá de carvão - prometeu Buck, e se atirou na água.

- Eles estão loucos - concluiu Tate. - Como dois garotos levados matando aula. - Ela se voltou para Matthew e sorriu. - Nunca vi papai se divertir tanto.

- Buck só fica solto assim quando bebe um litro de uísque.

- Não é só o tesouro. - Tate lhe estendeu a mão para que ele pudesse ficar ao seu lado na amurada.

- Não, acho que não. - Olhando atento para o mar, Matthew uniu seus dedos aos dela. - Mas ajuda.

Tate inclinou a cabeça sobre o ombro do parceiro e riu.

- E não dói. Mas os dois teriam se entrosado sem isso. Assim como nós. - Ela virou o pescoço de modo que seus lábios pudessem roçar no maxilar dele. - Teríamos nos encontrado, Matthew. Estávamos predestinados.

- Como estávamos predestinados a encontrar o Margarida.

- Não. - Ela caiu em seus braços. - Assim.

Os lábios de Tate eram quentes e macios. Irresistíveis. Ele podia se sentir afundando neles, lenta e levemente, até estar totalmente imerso na sedução. Ela parecia estar cercando-o, com gostos e aromas tão únicos que o rapaz os teria reconhecido, e a reconhecido, mesmo se fosse cego, surdo e mudo.

Nunca houve outra mulher capaz de deixar seu organismo tão alterado a ponto de sentir tantos arrepios e nós na língua com um simples beijo. Ele a queria tão desesperadamente que aquilo o deixou apavorado.

Quando ela se afastou, com o olhar sonhador, seus lábios se curvaram, e Matthew sabia que não tinha mais noção das suas necessidades, do seu desespero e do seu terror.

- O que há de errado? - Tate levou a mão ao rosto dele. - Você parece tão sério.

- Não. Nada. - Controle-se, Lassiter. Ela não está pronta para o que você tem em mente. com algum esforço, Matthew sorriu - Só estava pensando que é muito ruim.

- O quê?

- Que depois de Buck dar cabo de Ray, eu terei que me livrar de você.

- Oh. - Disposta a jogar, ela inclinou a cabeça. - E como você pretende fazer isso?

- Pensei que poderia estrangulá-la. - Ele envolveu o pescoço de Tate com suas mãos. - Depois jogaria você ao mar. Iríamos, no entanto, deixar Maria viva. Acorrentá-la ao fogão. Um homem precisa comer.

- Muito prático da sua parte. É claro, isso só vai dar certo se eu não pegá-lo antes. - As sobrancelhas de Tate se agitaram e seus dedos cutucaram as costelas do rapaz.

Uma gargalhada o deixou sem ação e fez com que seus joelhos se dobrassem. Ele tentou agarrá-la sem fazer força, mas Tate já havia fugido. No momento em que recuperou o fôlego, ela já estava a estibordo da cabine principal.

- Quer jogar duro? - Ele investiu a bombordo para tentar interceptá-la. Quase fez uma reverência quando viu a parceira... e o balde. Antes que pudesse desviar, Tate o molhou com uma grande quantidade de água fria do mar.

Enquanto Matthew estava sufocado e pingando, ela se segurava. Mas, quando ele piscou e a água que o atormentara saiu dos seus olhos, Tate percebeu a intenção do parceiro. com um grito, foi buscar um refúgio.

Seu único erro foi ter deixado o balde para trás.

Maria saiu da cabine principal, onde estava limpando moedas de prata, e correu apressada na direção de Tate.

- Santo Deus. Está havendo uma guerra?

- Mamãe. - Tonta de tanto rir, Tate se enfiou atrás de sua mãe no momento exato em que Matthew dava voltas em torno da cabine, armado com um balde cheio d’água.

Ele deslizou pelo convés e parou.

- É melhor você sair da frente, Maria. As coisas podem ficar complicadas por aqui.

Quase sufocada de tanto rir, Tate abraçou sua mãe pela cintura, usando-a como escudo.

- Ela não irá a parte alguma.

- Crianças - disse Maria, batendo na mão da filha. - Comportem-se.

- Foi ela que começou - afirmou Matthew. Ele não conseguia tirar o sorriso do rosto. Fazia anos que não se sentia tão solto e tão bobo. - Vamos, sua covarde. Saia daí e venha tomar seu remedinho.

- De jeito nenhum. - Presunçosa, Tate olhou para o parceiro com desprezo. - Você perdeu, Lassiter. Jamais faria isso com a minha mãe no meio do caminho.

Ele apertou os olhos e franziu as sobrancelhas enquanto se voltava para o balde. Quando olhou de volta, Tate estava piscando com sarcasmo.

- Desculpe, Maria - disse o rapaz antes de molhar as duas. Gritos de mulher ecoavam nos seus ouvidos enquanto ele corria para a amurada em busca de mais munição.

Era uma batalha confusa, cheia de emboscadas e retaliações. Como Maria entrou na guerra com um entusiasmo que Matthew não havia previsto, ele logo se viu desarmado e encurralado.

Acabou fazendo o que era típico de um homem. Mergulhou no mar.

- Boa mira, mãe - conseguiu dizer Tate, antes de cair sem forças contra a amurada.

- Bem. - Maria ajeitou o cabelo embaraçado. - Fiz o que tinha que ser feito. - Ela havia perdido o chapéu em algum lugar durante a brincadeira e ficou com a blusa e o short amassados e completamente encharcados. Ainda assim, ela ainda conservava a afável hospitalidade sulista enquanto olhava atentamente para onde Matthew estava, flutuando cautelosamente dentro d’água. - Você desiste, ianque?

- Sim, senhora. Sei quando fui derrotado.

- Então suba novamente a bordo, querido. Estava começando a preparar um camarão com cerveja quando fui interrompida.

Ele nadou na direção da escada, mas dirigiu um olhar cauteloso para Tate.

- Trégua?

- Trégua - ela concordou e estendeu a mão. Quando os dedos de ambos se entrelaçaram, Tate semicerrou os olhos. - Nem pense nisso, Lassiter.

Ele tinha pensado. A idéia de puxá-la para dentro d’água tinha os seus méritos. Mas não chegava a ser tão engraçada por ela estar logo acima. A vingança podia esperar. Matthew caiu de leve no convés e tirou o cabelo da frente dos olhos.

- De qualquer maneira, aquilo nos esfriou.

- Nunca pensei que você fosse molhar a minha mãe. Ele sorriu e se ajeitou numa almofada do bote.

- Às vezes os inocentes têm que sofrer. Ela é ótima, sabe. Você tem sorte.

- É. - Tate se ajeitou ao lado do rapaz e esticou as pernas. Não se lembrava de ter estado tão feliz em toda a vida. - Você nunca chegou a me falar da sua mãe.

- Não me lembro muito dela. Ela se mandou quando eu era pequeno.

- Se mandou?

- Perdeu o interesse - disse o rapaz, encolhendo os ombros. -- Estávamos morando na Califórnia na ocasião, e meu pai e Buck estavam se virando, construindo barcos e fazendo reparos. As vacas estavam magras. Lembro-me de vê-los brigando muito. Um dia ela me deixou na casa dos vizinhos. Disse que tinha alguns compromissos e não queria me deixar sozinho. Jamais voltou.

- Que terrível. Lamento.

- Nós superamos isso. - Depois de tantos anos, a ferida havia cicatrizado, apesar das palpitações eventuais. - Depois que o meu pai morreu, encontrei os papéis do divórcio e a carta de um advogado datada de dois meses depois da sua partida. Ela não queria a custódia ou o direito de me visitar. Só queria a sua liberdade. E a conseguiu.

- Você não a viu? - Era incompreensível para Tate que uma mãe, qualquer mãe, pudesse se afastar com tanto desleixo de um filho que havia carregado, embalado e visto crescer. - Nem uma vez sequer desde então?

- Não. Ela tinha a sua vida, nós tínhamos a nossa. Mudávamos bastante de endereço. Subimos a costa, a Califórnia, as ilhas. Nos demos bem. De vez em quando, mais do que bem. Conseguíamos trabalho fazendo operações de salvamento em Maine, e meu pai estava ligado a VanDyke.

- Quem é esse sujeito?

- Silas VanDyke. O homem que o matou.

- Mas... - Ela se sentou, com o rosto pálido e tenso. - Se você sabe quem...

- Eu sei - disse Matthew calmamente. - Eles foram parceiros durante cerca de um ano. Bem, talvez não fossem tão parceiros assim, já que meu pai trabalhava para comer. VanDyke começou a mergulhar como hobby e, no decorrer, creio que começou a se interessar por buscas a tesouros. Ele é um daqueles magnatas donos de empresa que acha que pode comprar tudo o que quer. É assim que o sujeito vê os tesouros. Como algo para comprar. Ele estava procurando um colar. Um amuleto. E achou que o encontraria num navio que afundou na Grande Barreira de Recifes. Não era um grande mergulhador, mas tinha dinheiro, rios de dinheiro.

- Por isso contratou o seu pai? - deduziu Tate.

- Os Lassiter ainda tinham uma reputação na ocasião. Ele era o melhor e VanDyke queria o melhor. Meu pai o treinou, ensinou-lhe tudo e foi vítima da lenda. A Maldição de Angelique.

- Q que isso quer dizer? - Tate quis saber. - Buck estava falando sobre isso.

É o colar. - Matthew se levantou e foi até o isopor com gelo para pegar duas latas de Pepsi. - Supostamente ele pertenceu a uma feiticeira que foi executada no século dezesseis em alguma parte da França. Ouro, rubis, diamantes. São inestimáveis. Mas é o poder que diziam que ele detinha que chamou a atenção de VanDyke. O sujeito chegou a alegar que tinha uma espécie de vínculo familiar de longa data com a bruxa.

O rapaz se sentou novamente e lhe passou uma lata gelada.

- Papo furado, é claro, mas os homens matam por muito menos.

- Que tipo de poder?

- Mágico - respondeu o jovem com um sorriso sarcástico. - Ele possui uma maldição. Quem quer que o tenha e consiga controlá-lo terá riquezas e poderes incalculáveis... o que seu coração desejar. Mas se a pessoa em questão for controlada pelo colar, perderá o que lhe é mais precioso. Como eu disse - acrescentou, engolindo em seco -, é tudo conversa mole. Mas VanDyke é bastante controlador.

- Isso é fascinante. - Ela decidiu que, na primeira oportunidade, faria algum tipo de pesquisa sobre a tal lenda. - Nunca ouvi falar dessa história antes.

- Não existe muita documentação. Apenas alguns fragmentos. O colar tem circulado por aí, supostamente causando destruição e aumentando a sua reputação.

- Como o diamante Hope?

- É, se é que você acredita nesse tipo de coisa. - Ele a encarou. - Você acreditaria.

- É interessante - disse Tate com algum decoro. - Será que VanDyke o encontrou?

- Não, ele achou que o meu pai o tinha feito, Ficou com a idéia fixa de que meu velho estava sonegando informações. E tinha razão. - Matthew tomou um gole longo. - Buck disse que o meu pai havia encontrado uns papéis que o fizeram pensar que o colar havia sido vendido para um rico mercador espanhol, aristocrata ou coisa que o valha. Passou bastante tempo pesquisando, foi fundo nisso. Concluiu que a jóia estava no Isabela, mas deixou que isso ficasse entre ele e Buck.

- Pois não confiava em VanDyke.

- Ele devia ter confiado menos no sujeito. - A lembrança reluziu como uma espada nos olhos de Matthew. - Eu os ouvi conversando sobre isso na noite que antecedeu aquele último mergulho. VanDyke o acusou de estar escondendo o colar. Ele ainda pensava que o amuleto estava nos destroços que ambos estavam escavando. Meu pai simplesmente riu na sua cara. Disse que o sujeito havia enlouquecido. No dia seguinte, estava morto.

- Você nunca me contou como ele morreu.

- Afogou-se. Disseram que as garrafas de mergulho eram de má qualidade, que o equipamento não havia sido montado de forma apropriada. Isso é uma mentira deslavada. Eu estava tomando conta do equipamento. Não havia nada de errado quando o chequei naquela manhã. VanDyke sabotou tudo. E quando o meu pai estava a vinte e cinco metros de profundidade também estava inalando muito nitrogênio.

- Narcose por nitrogênio. Êxtase das profundezas - murmurou Tate.

- É. VanDyke alegou que tentou levá-lo à tona quando percebeu que algo estava errado, mas meu pai o rechaçou. De acordo com a história contada por VanDyke, houve uma luta, ele tentou subir para pedir ajuda, mas meu pai insistia em puxá-lo de volta. Desci assim que o desgraçado veio com essa história, mas meu velho já estava morto.

- Pode ter sido um acidente, Matthew. Um terrível acidente.

- Não foi um acidente. E não foi a Maldição de Angelique, como Buck gosta de pensar. Foi assassinato. Olhei para o rosto do desgraçado quando levei meu pai para cima. - Os seus dedos tensos esmagavam a lata. - Ele estava sorrindo.

Ah, Matthew. - Para confortá-lo, ela o abraçou. - Como deve ter sido horrível.

Um dia encontrarei o Isabela e o colar. VanDyke virá no meu encalço. Estarei à espera.

Ela tremeu.

- Não. Nem sequer pense nisso.

- Não penso com muita freqüência. - Na ânsia de mudar o astral, passou o braço por sobre os ombros dela. - Como eu disse, o passado é o passado. E o dia está muito bonito para ficarmos pensando nisso. Podíamos tirar umas horas de folga depois, ao longo da semana. Alugar uns esquis e tentar andar de parasail.

- Parasail. - Ela olhou para o céu, aliviada pelo fato de a voz do seu parceiro soar novamente despreocupada. - Você já praticou?

- Claro. A melhor coisa que existe depois de ficar debaixo d’água é voar acima dela.

- Se você quiser, estou nessa. Mas se pretendemos convencer o resto da tripulação a nos dar um dia de folga, é melhor voltarmos ao trabalho. Pegue o seu martelo, Lassiter. É hora de voltar à labuta.

Os dois mal haviam começado a trabalhar no conglomerado quando ouviram um grito vindo a bombordo. Tate largou o que tinha nas mãos e andou por todo o barco.

- Matthew - disse ela num tom de voz estridente. - Venha cá, mãe. - E pigarreou. - Mamãe! Venha aqui para fora. Traga a câmera. Ó, Deus! Depressa.

- Pelo amor de Deus, Tate, estou fritando camarões. - Exasperada, Maria foi para o convés com a câmera de vídeo pendurada no braço. - Não estou com tempo para filmar nada.

Tate, segurando a mão de Matthew, virou-se e riu que nem uma idiota.

- Acho que você vai querer ficar com uma dessas.

Maria correu para ficar ao lado da filha, e os três ficaram olhando por sobre a amurada.

Tanto Buck quanto Ray vieram à tona, com os rostos iluminados, como se fossem dois loucos varridos. Cada um segurava uma das alças de um balde que tremeluzia e estava abarrotado de dobrões de ouro.

- Jesus Cristo - murmurou Matthew. - Esse negócio está cheio?

- Até a boca - gritou Ray. - E enchemos mais dois lá embaixo.

- Você nunca viu nada como isso, garoto. Estamos ricos que nem reis. - A água escorria pelo rosto de Buck, e vinha dos seus olhos. - Há milhares delas, milhares, simplesmente largadas lá embaixo. Vocês vão pegar este balde ou querem que as joguemos para vocês uma de cada vez?

Ray urrava e gargalhava enquanto os dois batiam um na cabeça do outro. Moedas transbordavam do balde como se fossem peixes soltos no mar.

- Esperem, esperem, tenho que enquadrar vocês - dizia Maria, que manuseava de forma desajeitada o equipamento, falava palavrões e caía na gargalhada. - Diabos, não consigo encontrar o botão de ”gravar”.

- Deixa comigo. - Tate pegou a câmera e também se atrapalhou - Fiquem parados, rapazes, e sorriam.

- Eles vão afogar um ao outro. - Matthew agarrou o cabo e puxou o balde para cima. - Cristo, está pesado. Dê-me uma mão aqui.

Maria resmungou, quase apoiada na amurada, mas puxou o cabo junto com o rapaz enquanto Tate, radiante, registrava a cena.

- Vou até lá embaixo com a câmera submarina. - Admirada, ela enfiou a mão nas moedas assim que Matthew largou o balde no convés. - Meu Deus, quem teria imaginado? Estou com dobrões até o cotovelo.

- Eu disse para você pensar grande, garota - gritou Buck. - Maria, coloque o seu vestido mais bonito que vamos sair para dançar hoje à noite.

- Ei, a esposa é minha, camarada.

- Não depois que eu matar você, garanhão. Vou pegar outro balde.

- Não se eu chegar lá antes.

Tate levantou-se num só salto e saiu correndo atrás da sua roupa de mergulho.

- Vou descer com a câmera submarina. Quero que isso fique registrado em filme, e lhes darei uma ajuda.

- Eu vou com você. Maria. - Matthew estalou os dedos em frente aos olhos luminosos da mãe da parceira. - Maria, acho que o camarão está queimando.

- Oh. Ó meu Deus. - com um punhado de dobrões nas mãos, ela saiu correndo para a cozinha.

- Você sabe o que isso quer dizer? - perguntou Tate enquanto lutava para vestir o seu traje.

- Que estamos podres de ricos. - Matthew a pegou no colo e começou a girar.

- Pense no equipamento que podemos comprar. Um sonar, magnetômetros, um barco maior. - Ela lhe deu um beijo molhado antes de deslizar e se desvencilhar dos seus braços. - Dois barcos maiores. Vou comprar um computador para listar artefatos.

- Talvez seja necessário comprar um submarino enquanto tivermos bala para tal.

- Bom. Anota isso. Um submarino com recursos de robótica para que possamos escavar as profundezas na nossa próxima expedição.

Ele prendeu seu cinto de lastro.

- Que tal roupas bonitas, carros, jóias?

- Não é uma prioridade, mas vou pensar na idéia. Mãe! Vamos descer para dar uma mão a Buck e ao papai.

- Vejam se vocês conseguem trazer mais alguns camarões. - Maria colocou a cabeça para fora, segurando uma bandeja com uma massa negra e viscosa. - Esses aqui não servem para comer.

- Maria, vou comprar uma traineira cheia de camarão para você e outra de cerveja. - Num impulso, Matthew pegou o seu rosto com as mãos e lhe deu um beijo bem na boca. - Eu amo você.

- Podia tentar me dizer isso - murmurou Tate em voz baixa antes de pular dentro d’água. Ela ficou em pé primeiro, depois encolheu as pernas e começou a nadar. Seguindo o cabo, nadou no meio da água turva, na direção da claridade.

Ray e Buck estavam suspensos lá no fundo, com um segundo balde de ouro atrás, quebrando o minério. Ela tirou uma foto na qual Buck passava um tijolo escurecido para o seu pai, que na verdade era um lingote de prata.

Os peixes nadavam a sua volta, um carrossel vivo, enquanto os dois escavavam a areia. Medalhões, mais moedas, tijolos alongados de um prateado desbotado. Ray encontrou uma adaga, cujo cabo e lâmina estavam incrustados de vida marinha. Assumindo uma falsa pose de duelo, ele a apontou de brincadeira para Buck, que levantou um lingote e fingiu se defender.

Atrás de Tate, Matthew balançava a cabeça, passando o dedo em volta do ouvido.

Sim, pensou ela, os dois estavam malucos. E não era ótimo?

A moça nadava e se afastava para tirar suas fotos de ângulos diferentes. Queria uma boa composição da pequena pirâmide de lingotes, outra da estranha escultura de moedas e medalhas fundidas atrás do balde cintilante.

National Geographic, lá vou eu, pensou ela alegremente. O Museu Beaumont havia acabado de encontrar sua pedra fundamental.

Ela aceitou a adaga que seu pai a ofereceu. com sua faca de mergulhador, Tate raspou o cabo delicadamente. Seus olhos se reviravam com o brilho de um rubi. Assim como um bucaneiro, ela a enfiou no seu cinto de lastro.

Através de sinais, Buck avisou que ele e Matthew iriam puxar a leva seguinte para cima. Ray fez a pantomima de quem estava abrindo uma garrafa de champanhe e bebendo. Todos foram unânimes ao concordar com a idéia. Depois de dar um sinal de ”o.k.”, Matthew e seu tio foram à superfície puxando um balde.

Tate gesticulou com seu pai para que ficasse com um pé-de-pato em cima da pilha de lingotes e tirou fotos enquanto ele gesticulava alegre e artificialmente para a filha. Ela borbulhava de tanto gargalhar quando deixou a câmera cair.

E então notou o silêncio.

Era estranho, pensou distraidamente. Todos os peixes haviam sumido. Até mesmo Dentinho parecia ter se mandado. Nada se agitava dentro d’água e o silêncio havia subitamente ficado lúgubre e pesado.

Ela levantou os olhos por sobre as trevas e viu a sombra de Matthew e Buck enquanto eles carregavam sua carga preciosa para a superfície.

Até que Tate viu o pesadelo.

Ele veio tão rápida e calmamente que sua mente o rejeitou. Primeiro não havia nada, a não ser as silhuetas dos homens nadando no meio da água turva, o sol atravessando-as com filetes enevoados. E então a sombra surgiu do nada.

Alguém gritou. Mais tarde seu pai lhe diria que o som havia vindo dela e o alertara. Mas naquela hora a jovem já estava subindo.

O tubarão era maior do que um homem, talvez tivesse uns três metros. Para o seu horror, dava para ver que a mandíbula do animal já estava aberta para o ataque. Ela percebeu o momento em que entenderam que havia um perigo iminente e gritou novamente, pois sabia que era tarde demais.

Os homens se separaram, como se tivessem sido impelidos. Ouro jorrava no meio da água como se fosse uma chuva deslumbrante. com o terror a ameaçando como garras apertando o seu pescoço, Tate viu o tubarão pegar Buck com sua boca feroz e sacudi-lo como um cachorro faz com um rato. A força do ataque rasgou sua máscara e seu bocal enquanto o animal o dilacerava no meio da água turva de sangue. De algum modo, Tate ainda trazia a faca nas mãos.

O tubarão mergulhou, ainda se agitando, enquanto Matthew fincava sua faca na carne da fera, mirando, mas não acertando, o seu cérebro. O golpe desesperado deixou uma ferida profunda, mas o peixe, fora de si por causa do sangue, se ateve a sua vítima e atacou o agressor.

Com uma expressão de grande fúria, Matthew contra-atacou sua presa com a faca, desferindo golpes profundos. Buck estava morto. Ele sabia que Buck estava morto. E só pensava em matar. Os olhos negros, vítreos e esbranquiçados do tubarão se fixavam nos seus. O corpo de Buck flutuava livre no sangue em turbilhão enquanto o peixe buscava novas vítimas e uma vingança irracional.

Matthew se manteve onde estava, preparado para matar ou morrer. E Tate irrompeu do meio da escuridão medonha como se fosse um anjo vingador, com uma adaga antiga numa mão e uma faca de mergulhador na outra.

Ele achou que o seu medo havia chegado a um limite. Mas de repente dobrou de intensidade, quase o paralisando, enquanto o tubarão se virava na direção de onde havia movimento e começava a perseguir Tate. Cego de medo, ele começou a bater as pernas na direção da água turva pelo sangue, atacando violentamente o tubarão ferido para impedir o seu progresso. com uma força nascida do pânico intenso, Matthew cravou sua faca até o punho nas costas do bicho.

E rezou como nunca soubera que podia.

Inflexível, ele se agarrou ao animal enquanto este rolava e se debatia. O rapaz viu que sua lâmina havia acertado o alvo, assim como a de Tate, que havia aberto a barriga do peixe.

Matthew largou a carcaça e viu que Ray se aproximava fazendo um grande esforço, com a faca solta em uma das mãos enquanto subia rumo à superfície com o corpo claudicante de Buck. Sabendo que a água sangrenta poderia atrair outros predadores, Matthew arrastou sua parceira para cima.

- Entre no barco - ordenou. Mas o rosto de Tate estava pálido e seus olhos começavam a se revirar. Ele lhe bateu uma, duas vezes no rosto, até ela voltar a si. - Entre nessa porra de barco. Puxe a âncora. Rápido.

Tate acenou positivamente com a cabeça, respirando em meio a soluços, e nadava com braçadas desajeitadas enquanto ele mergulhava novamente. Suas mãos escorregavam insistentemente da escada e ela havia esquecido de tirar os pés-de-pato. Não conseguia puxar ar suficiente para poder gritar. Sua mãe havia ligado o rádio e Madonna alegava astutamente que era igual a uma virgem.

Suas garrafas caíram com um estrépito no convés, e o barulho fez com que Maria saísse de onde estava, a estibordo. Num instante, já estava agachada ao lado da filha.

- Mamãe. Tubarão. - Tate rolou para onde estavam as mãos e os joelhos de sua mãe e quase não conseguia falar. - Buck. Ó, Deus.

- Você está bem? - A voz de Maria era alta e estridente. - Ah, minha querida, você está bem?

- É o Buck. Hospital. Ele precisa ir para o hospital. Puxe a âncora. Rápido.

- Ray. Tate. O seu pai?

- Ele está bem. Rápido, chame alguém na ilha pelo rádio. Enquanto Maria se apressava, Tate fazia algum esforço para se levantar; ela arrancou o cinto, desviando o olhar do sangue que tinha nas mãos. Levantou-se, inclinou-se para o lado e mordeu o lábio com força para não desmaiar. Enquanto corria, livrou-se das garrafas.

- Está vivo - disse Ray enquanto se agarrava à escada. Ele e Matthew seguravam o corpo de Buck. - Ajude-nos a embarcá-lo. - Seu olhar, cheio de dor e temor, encontrou o da esposa. - Fique calma, querida.

Enquanto erguiam o corpo inconsciente de Buck para dentro do barco, ela entendeu por que o marido a havia alertado. O tubarão havia arrancado a canela de Buck.

A bílis subia pela garganta de Tate. Horrorizada, ela a engoliu, rangendo os dentes até que as náuseas e a tontura passassem. Ouviu sua mãe ofegante, mas, quando se virou, com movimentos lentos e morosos, viu que Maria se aproximava rapidamente.

- Precisamos de cobertores, Tate. E de toalhas. Muitas toalhas. Rápido. E do kit de primeiros socorros. Ray, já pedi ajuda pelo rádio. Estão nos esperando em Frigate Bay. É melhor você assumir o leme. - Ela tirou a blusa e por baixo usava um lindo sutiã branco de renda. Sem pestanejar, Maria usou o tecido de algodão para estancar o sangue no toco da perna de Buck.

- Boa menina - murmurou ela, quando Tate voltou correndo cheia de toalhas debaixo dos braços. - Matthew, enrole estas aqui em volta do ferimento. Segure-as bem firme. Matthew. - Sua voz era, ao mesmo tempo, calma e tranqüila, e ostentava firmeza o suficiente para manter a cabeça do rapaz no lugar. - Ele precisa de bastante pressão na perna, entenderam? Não vamos deixar Buck sangrar até morrer.

- Ele não está morto - disse Matthew com tristeza enquanto apertava as toalhas que ela havia colocado em cima do ferimento. Já havia uma repugnante poça de sangue surgindo no convés.

- Não, ele não está morto. E não vai morrer. Vamos precisar de um torniquete. - Seus olhos se arregalaram ao ver que Buck ainda estava usando o pé-de-pato esquerdo, mas suas mãos foram rápidas e eficientes. Elas não chegaram a tremer em momento algum enquanto Maria fixava o torniquete acima do coto ensangüentado da sua perna direita.

- Precisamos mantê-lo aquecido - disse ela calmamente. - Daqui a alguns minutos conseguiremos levá-lo até um hospital. Só mais alguns minutos.

Tate cobriu Buck com um cobertor e se ajoelhou no convés cheio de sangue para pegar na sua mão. Depois se esticou para pegar na de Matthew e juntar as três.

Ela se manteve firme enquanto o barco voava por sobre a água, na direção da praia.

 

Matthew se sentou no chão do corredor do hospital e tentou clarear os pensamentos. Se relaxasse, ao menos por um instante, voltaria para o turbilhão de água sangrenta, encararia os olhos de boneca do tubarão e veria as fileiras perversas de dentes rasgando Buck.

Ele sabia que veria aquilo centenas, milhares de vezes durante o sono - o grito abafado no meio das bolhas, homem e peixe se movendo violentamente, a lâmina da sua própria faca cravando e entalhando o animal.

A cada vez que a cena se desenrolava em sua cabeça, o que havia levado apenas alguns minutos se arrastava de forma medonha por horas a fio, e cada movimento passava lentamente com uma clareza apavorante. Ele podia ver tudo, desde o primeiro baque, quando Buck o empurrou para longe do raio de ação do tubarão, até a agitação e o barulho da sala de emergência.

Lentamente, ele levantou a mão e a flexionou. Lembrava-se de como os dedos de Buck a apertaram, a agarraram com força naquela corrida rumo à ilha. Naquele instante, Matthew soube que Buck estava vivo. De certo modo aquilo era pior, pois o rapaz não conseguia se convencer de que o tio ficaria daquele jeito.

Parecia que o mar se deleitava ao pegar as pessoas de que ele mais gostava.

Era a Maldição de Angelique, pensou cheio de culpa e mágoa. Talvez Buck estivesse certo. O maldito colar ainda estava lá embaixo, só esperando por uma vítima. A busca pelo amuleto havia levado duas pessoas que ele amava.

E não ia levar mais outra.

Matthew abriu a mão e a esfregou no rosto, como se estivesse acordando de uma longa noite de sono. Se continuasse a pensar dessa maneira, ele achava que poderia ficar um pouco maluco. Um homem havia assassinado o seu pai e um tubarão havia matado Buck. A defesa lamentável da tentativa fracassada de salvamento fazia com que ele culpasse um amuleto que jamais havia visto.

Por mais sanguinário que fosse aquele antigo colar e as tradições que o cercavam, Matthew sabia que não podia culpar nada nem ninguém além de si próprio. Se tivesse sido mais rápido, Buck ainda estaria inteiro. Se fosse mais esperto, seu pai ainda estaria vivo.

Como ele próprio estava vivo. Como ele próprio estava inteiro. Teria que carregar esse peso pelo resto da vida.

Por um instante, ele apoiou a testa nos joelhos e se esforçou para limpar a mente de novo. Sabia que os Beaumont estavam no final do corredor, na sala de espera. Eles haviam oferecido conforto, apoio, harmonia para ele. E Matthew teria que escapar. A compaixão comedida de Maria, Ray e Tate quase o havia destruído.

Matthew já sabia que se Buck tinha uma ínfima chance de sobrevivência, isso não se devia a ele e sim à maneira calma, tranqüila e firme que Maria encontrou para lidar com a situação. Foi ela que assumiu o controle de tudo, até quando lembrou a todos para que pegassem roupas no barco.

Ele nem sequer teve condições de preencher os formulários do hospital, e só os viu na hora em que ela lhe tirou a prancheta das mãos e, delicadamente, fez as perguntas e preencheu as lacunas sozinha.

Era assustador descobrir que ele era, essencialmente, inútil.

- Matthew. - Tate se agachou a sua frente, pegou suas mãos e fez com que elas segurassem uma xícara de café. - Entre e venha se sentar.

Ele balançou a cabeça. Só porque a xícara de café estava em suas mãos, tomou um gole. E podia ver que os olhos da garota estavam vermelhos e seu rosto continuava pálido e lustroso por causa do choque. Mas a mão que ela apoiava no seu joelho imóvel estava firme.

Num lampejo aterrorizante do passado, ele a viu se lançando no meio da água, na direção da mandíbula do tubarão.

- Afaste-se, Tate.

Em vez disso, ela se sentou ao seu lado e o abraçou.

- Ele vai conseguir, Matthew. Eu sei disso.

- Ora, você por acaso virou adivinha, além de tudo?

A voz dele era fria e lancinante. Embora tivesse ficado magoada, ela recostou a cabeça no ombro de Matthew.

- É importante acreditar. Acreditar ajuda.

Ela estava errada. Doía acreditar. Por causa disso, ele se afastou de Tate e se levantou.

- Vou dar uma caminhada.

- Eu vou com você.

- Não quero você. - Ele se desviou da parceira e deixou que todo o medo, a culpa e a mágoa explodissem em fúria. - Não quero você perto de mim.

Seu estômago se contorceu, seus olhos arderam, mas ela se manteve firme.

- Não vou deixá-lo sozinho, Matthew. É melhor se acostumar com isso.

- Não quero você - repetiu ele, e a surpreendeu ao colocar uma mão logo abaixo do pescoço dela e ao empurrá-la contra a parede. - Não preciso de você. Agora, por que não vai para o conforto da sua linda família e desaparece?

- Porque Buck é importante para nós. - Embora ela conseguisse engolir as lágrimas, estas deixavam sua voz mais áspera. - Assim como você.

- Vocês mal nos conhecem. - Algo dentro dele gritava para sair. Para que permanecesse oculto até mesmo de si próprio, Matthew a empurrou. Seu rosto, a alguns centímetros do dela, era duro, frio e impiedoso. - Só saíram para passear e tirar alguns meses de férias numa região ensolarada, a fim de brincar de busca ao tesouro. E tiveram sorte. Mal sabem o que é viajar um mês após o outro, ano após ano, e não ter nada para mostrar. Morrer e não ter nada.

Agora a respiração de Tate estava presa, por mais que ela se esforçasse para controlá-la.

- Ele não vai morrer.

- Ele já está morto. - A raiva em seus olhos se extinguia, como uma luz que ia se apagando, deixando-os brancos e vazios. - Estava morto no minuto em que me empurrou para fora do caminho. O desgraçado me empurrou para longe.

Lá estava o que houve de pior naquilo tudo reverberando pelo ar esterilizado do hospital. O jovem se virou, cobriu o rosto, mas não conseguia se livrar da lembrança.

- Ele me empurrou, ficou na minha frente. Em que diabos estava pensando? Em que você estava pensando? - interpelou Matthew, voltando-se novamente para Tate, com toda a raiva desamparada fluindo para dentro de si como uma maré revolta. - Vindo para nós daquele jeito. Você não sabe nada? Quando um tubarão tem sangue pela frente, ele ataca qualquer coisa. Você devia ter seguido na direção do barco. com tanto sangue na água, tivemos sorte de não atrair uma dúzia de tubarões famintos. Em que diabos você estava pensando?

- Em você - respondeu calmamente no lugar onde estava, encostada na porta. - Acho que tanto eu quanto Buck estávamos pensando em você. Não poderia lidar com aquilo se algo tivesse acontecido com você, Matthew. Não poderia viver com aquilo. Eu amo você.

Espantado, ele a encarou. Nunca houve ninguém, em toda a sua vida, que lhe tivesse dirigido aquelas três palavras.

- Então você é uma estúpida - conseguiu dizer Matthew antes de passar os dedos vacilantes no cabelo.

- Talvez. - Os lábios de Tate tremiam. Mesmo quando os apertava, eles vibravam com a força das suas emoções confusas. - Acho que você também foi bastante estúpido. E não deixou Buck para trás. Achou que ele estava morto e que poderia ter fugido enquanto o tubarão o detinha. E não o fez. Por que não se refugiou no barco, Matthew?

Ele só balançou a cabeça. Quando ela deu um passo à frente para envolvê-lo com seus braços, Matthew afundou o rosto nos cabelos ruivos.

- Tate.

- Está tudo bem - murmurou ela, afagando suavemente as costas firmes de Matthew. - Tudo vai dar certo. É só ficar aqui comigo.

- Eu só dou azar.

- Tolice. Você só está cansado e preocupado. Entre e venha se sentar. Vamos esperar todos juntos.

Ela ficou ao lado de MaTthew. As Hhoras se passavam inconscientemente, como era tão comum em hospitais. As pessoas iam e vinham. Ouvia-se o bater suave de solas de borracha nos ladrilhos do piso, enquanto enfermeiras passavam pelo vão da porta, e sentiam-se o aroma de café muito quente e o cheiro penetrante de anti-séptico que quase nunca disfarçava o odor oculto de doença. De vez em quando dava para ouvir um ruído sutil quando as portas do elevador se abriam e se fechavam.

Até que, suave e docemente, a chuva começou a tamborilar nas janelas.

Tate cochilava com a cabeça encostada no ombro de Matthew. Acordou e ficou alerta no instante em que o corpo do rapaz ficou tenso. Instintivamente, segurou a mão dele enquanto olhava para o médico.

Ele chegou calmamente ao recinto, um homem surpreendentemente jovem com rugas de fadiga em volta dos olhos e da boca. Sua pele, da cor de ébano polido, parecia seda preta amarrotada.

- Sr. Lassiter. - A despeito do evidente cansaço, sua voz era tão musical quanto a chuva do anoitecer.

- Sim. - Preparado para receber as condolências, Matthew se levantou.

- Sou o Dr. Farrge. Seu tio passou por uma cirurgia. Por favor, sente-se.

- O que você quer dizer com passou?

- Ele sobreviveu à operação. - Farrge sentou-se na ponta da mesa de café e esperou até Matthew se acomodar. - Seu estado é crítico. Você sabe que ele perdeu uma boa quantidade de sangue. Mais de três litros. Se tivesse perdido só mais um pouco, se vocês tivessem demorado dez minutos a mais para trazê-lo até aqui, não haveria a menor chance. No entanto, seu coração é muito forte. Estamos otimistas.

A esperança era muito dolorosa. Matthew simplesmente acenou com a cabeça.

- Você está me dizendo que ele vai sobreviver?

- Suas chances aumentam a cada hora.

- E que chances são essas?

Farrge perdeu mais alguns minutos para avaliar a situação do seu paciente. com algumas pessoas, a doçura não servia de consolo.

- Ele tem, provavelmente, quarenta por cento de chances de sobreviver a essa noite. Caso consiga, aumentarei a porcentagem. Tratamentos adicionais serão necessários, é claro, quando sua condição ficar estável e ele estiver mais forte. Quando chegar essa hora, posso recomendar alguns especialistas que possuem uma boa reputação no tratamento de pacientes com membros amputados.

- Ele está consciente? - perguntou Maria tranqüilamente.

- Não. Ficará em recuperação durante algum tempo e depois irá para a nossa Unidade de Tratamento Intensivo. Não creio que acorde nas próximas horas. Sugiro que vocês deixem na sala das enfermeiras um número de telefone onde possam ser encontrados. Entraremos em contato caso haja alguma mudança no quadro.

- Vou ficar aqui - disse Matthew simplesmente. - Quero vê-lo.

- Assim que ele for para a UTI, você poderá vê-lo. Mas só por um curto período de tempo.

- Vamos ficar num hotel. - Ray se levantou e colocou a mão no ombro de Matthew. - Nos revezaremos aqui em turnos.

- Não vou sair.

- Matthew - disse Ray, afagando-o carinhosamente. - Precisamos trabalhar como uma equipe. - Ele encarou sua filha e leu o que estava em seus olhos. - Eu e Maria iremos procurar quartos para todos nós, e faremos todos os preparativos. Voltaremos para substituir você e Tate daqui a algumas horas.

Buck estava imóvel na cama, ligado a muitos tubos serpenteantes. Máquinas faziam soar bipes e zumbidos. Do lado de fora da cortina fina, Matthew podia ouvir as enfermeiras murmurando bem baixinho e seus passos apressados enquanto se ocupavam com a tarefa de zelar por vidas.

Mas neste quarto, escuro e apertado, ele estava sozinho com Buck. O rapaz se forçou a olhar para o lençol, para o jeito estranho com que estava disposto. Pensou que teria que se acostumar com aquilo. Ambos teriam que se acostumar com aquilo.

Se Buck sobrevivesse.

Ele mal parecia estar vivo, com seu rosto apagado e seu corpo tão estranhamente coberto na cama. Buck era um sujeito estúpido, pelo que Matthew se lembrava; um homem que puxava e chutava os lençóis, que roncava de um jeito violento o bastante para raspar a tinta das paredes.

Mas ainda estava quieto e imóvel como um homem num caixão.

Matthew pegou a mão grande e cheia de cicatrizes do tio, um gesto que sabia teria desconcertado a ambos, caso Buck estivesse consciente. Ele a ficou segurando enquanto observava o rosto que julgava conhecer tão bem quanto o seu.

Será que havia notado o quanto eram grossas as sobrancelhas de Buck ou como os fios grisalhos as salpicavam? E quando foi que as rugas em volta dos seus olhos começaram a se cruzar daquela maneira? Não era estranho que sua testa, que se erguia sobre aquele crânio em forma de ovo, fosse tão lisa? Como a de uma garota?

Jesus, pensou Matthew, apertando os olhos. Sua perna havia sumido.

Controlando-se para não entrar em pânico, Matthew se curvou para baixo. Ele quase ficou aliviado com o som da respiração de Buck.

- Que idiotice você foi fazer. Cometeu um erro ficando na minha frente daquele jeito. Talvez tenha pensado que seria capaz de lutar com aquele tubarão, mas acho que você não é tão rápido quanto costumava ser. Agora, provavelmente está achando que eu lhe devo a vida. Bem, você precisa viver para se recuperar.

Ele apertou ainda mais a mão do tio.

- Ouça isso, Buck. Você precisa viver para se recuperar. Pense nisso. Se você me abandonar, vai perder e, ainda por cima, eu terei que repartir a sua parte do Margarida com os Beaumont. É o seu primeiro grande êxito, Buck, e se você não sair dessa, não conseguirá gastar nem a primeira moeda.

Uma enfermeira abriu a cortina, um aviso sutil de que o tempo havia acabado.

- Seria uma verdadeira vergonha se você não conseguisse aproveitar uma parte da fama e da fortuna que sempre quis, Buck. Tenha isso em mente. Estão me expulsando daqui, mas eu voltarei.

No corredor, Tate andava sem parar, tanto por nervosismo como pela necessidade de se manter acordada. No momento em que viu Matthew atravessar as portas, ela correu em sua direção.

- Ele já acordou?

- Não.

Enquanto pegava na mão do rapaz, Tate lutava contra os próprios medos.

- O médico disse que ele ainda não acordaria. Acho que todos estávamos esperando o contrário. Mamãe e papai vão ficar no nosso lugar agora. - No que ele começou a balançar a cabeça, Tate passar a apertar impacientemente os dedos do parceiro. - Matthew, me ouça. Somos todos parte disso. E acho que ele vai precisar de todos nós, por isso é bomque comecemos agora mesmo. Eu e você vamos para o hotel. Vamos fazer uma refeição e depois dormiremos por algumas horas.

Enquanto falava, ela o arrastava pelo corredor. Depois de sorrir positivamente para os pais, a moça guiou Matthew na direção dos elevadores.

- Vamos todos nos apoiar uns nos outros, Matthew. É assim que a coisa funciona.

- Tem que haver algo que eu possa fazer.

- Você está fazendo - disse ela delicadamente. - Voltaremos daqui a pouco. Você só precisa descansar um tempo. Assim como eu.

E então ele a encarou. A pele de Tate estava tão pálida que parecia que Matthew poderia atravessá-la com as mãos. Olheiras escuras descoloriam a sua visão. O moço percebeu que não vinha pensando nela. Nem sequer cogitou que Tate poderia ter precisado se apoiar nele.

- Você precisa dormir.

- Para mim bastam umas duas horas. - Segurando a mão do parceiro, Tate entrou no elevador e apertou o botão para o saguão principal, - Depois nós voltamos. Você vai poder ficar sentado com Buck até a hora que ele acordar.

- É. - Matthew olhava vagamente para os números descendentes. - Até ele acordar.

Lá fora, o vento soprava a chuva e roçava nas folhas das palmeiras. O táxi seguia aos solavancos ao longo das ruas estreitas e desertas, e os pneus jogavam água para os lados quando passavam em cima das poças. Era como dirigir no meio dos sonhos de uma outra pessoa - a escuridão, o amontoado de prédios desconhecidos se alternando sob o clarão dos faróis, o rangido monótono dos limpadores de pára-brisa.

Matthew tirou notas caribenhas da carteira enquanto Tate saía do carro. Em segundos, a chuva ensopou o cabelo dela.

- Papai me deu as chaves do quarto - afirmou ela. - Não é o Ritz. - A jovem tentou sorrir novamente enquanto ambos adentravam o diminuto saguão cheio de cadeiras de vime e plantas frondosas. - Mas fica perto do hospital. Estamos no segundo andar.

Os dois subiam os degraus, e as chaves retiniam nervosamente na mão de Tate.

- Este é o seu quarto. Papai me disse que seríamos vizinhos de porta. - Ela olhou para as chaves e examinou o número. - Matthew, posso entrar com você? Não quero ficar sozinha. - E passou a fitar o rapaz. - Sei que é meio idiota da minha parte, mas...

- Tudo bem. Entra. - Ele tirou a chave da mão da parceira e abriu a porta.

Havia uma cama com um cobertor cheio de flores vermelhas e laranja reluzentes e uma pequena cômoda. O abajur estava torto. Maria lhe havia trazido uma mochila do barco e a havia deixado no pé da cama. Matthew acendeu a luz. Seu brilho era amarelado por causa da cúpula torta do abajur. A chuva batia furiosamente contra a janela.

- Não é muito - murmurou Tate. Constrangida, ela se esticou para endireitar o abajur, como se aquele pequeno gesto de dona-de-casa fosse deixar o quarto menos triste.

- Creio que não é parecido com aquilo com que você está acostumada. - Matthew entrou a passos largos no banheiro adjacente e saiu com uma toalha pequena. - Quer secar o cabelo?

- Obrigada. Sei que você precisa dormir. Talvez seja bom deixá-lo sozinho.

Ele se sentou na beirada da cama e se inclinou para tirar os sapatos.

- Você pode dormir aqui se quiser. Não precisa se preocupar com nada.

- Eu não estou preocupada.

- Você devia. - com um suspiro, Matthew se levantou, pegou a toalha e a esfregou com força no cabelo de Tate. - Mas não precisa. Tire os sapatos e estique as pernas.

- Você vai deitar comigo?

Ele levantou os olhos enquanto Tate se sentava e desamarrava preguiçosamente os cadarços dos seus tênis. Sabia que poderia tê-la - bastava um toque, uma palavra. Poderia se deixar perder e aliviar toda essa desgraça com ela. Sabia que a companheira seria doce, delicada e condescendente.

E ele odiaria a si próprio.

Sem dizer nada, Matew dobrou o cobertor. Deitou sobre o lençol e estendeu a mão para a companheira. Sem hesitar, ela se deitou ao seu lado, curvou o corpo na direção do dele e apoiou a cabeça no ombro do rapaz.

Havia necessidade ardente no fundo das vísceras dele. Que se transformou em um desejo inerte enquanto ela descansava a mão em seu peito. Ele virou o rosto para o cabelo de Tate, que tinha cheiro de água da chuva, e encontrou uma mistura desnorteante de alívio e dor.

Segura, tranqüila por se sentir cuidada, ela deixou que seus olhos se fechassem.

- Tudo vai dar certo. Sei que tudo vai dar certo. Eu amo você, Matthew.

Ela pegou no sono tão facilmente quanto uma criança. Matthew ficou ouvindo a chuva e esperando o amanhecer.

O tubarão se lançava no meio da água, um projétil liso e cinzento armado com dentes em prontidão e um desejo ardente por sangue. A água estava vermelha e turva, e a sufocava enquanto ela lutava para escapar. A moça estava gritando, ofegante, em busca de um ar que não vinha. A mandíbula do animal estava aberta, terrivelmente larga. Depois se fechou sobre ela, provocando uma dor excruciante demais para ser classificada.

Ela acordou com um grito preso na garganta. Permanecendo deitada, abraçando as pernas e trazendo-as até o peito, Tate lutou para sair daquele pesadelo. Lembrou-se de que estava no quarto de Matthew. Estava a salvo. Ele estava a salvo.

E ela estava sozinha.

Ao levantar a cabeça, Tate viu a pálida luz do sol que entrava lentamente pela janela. Primeiro veio o medo de que, de algum modo, ele tivesse recebido a notícia da morte de Buck e voltado para’o hospital sem ela. Até que a jovem percebeu que aquilo que pensara ser chuva era o chuveiro.

A tempestade havia acabado e Matthew estava bem ali.

Por um bom tempo, respirou aliviada enquanto ajeitava o cabelo desgrenhado. Sentia-se grata por ele não estar ao seu lado quando teve o pesadelo. Matthew já estava com peso demais nas costas. Ela não queria oprimi-lo ainda mais. Seria corajosa e forte, e lhe daria todo o apoio de que precisasse.

Quando a porta do banheiro se abriu, Tate já tinha um sorriso pronto. Apesar de tantas preocupações, seu coração deu um pulo quando ela o viu, molhado do banho, com o peito nu e a calça jeans aberta de um jeito desleixado.

- Você acordou. - Matthew enfiou os polegares nos bolsos da frente e tentou não pensar em como ela podia estar sentada com os braços em volta dos joelhos no meio da cama. -Achei que você fosse dormir mais.

- Não, estou descansada. - Subitamente desajeitada, a moça umedeceu os lábios. - A chuva parou.

- Deu para notar. - Da mesma forma que reparou em como seus olhos haviam ficado grandes, meigos e suaves. - Vou voltar para o hospital.

- Vamos voltar para o hospital - corrigiu ela. - Vou tomar uma ducha e trocar de roupa. - E já estava pulando da cama e pegando sua chave. - Mamãe disse que há um restaurante do lado do hotel. Encontro você lá daqui a dez minutos.

- Tate. - Matthew hesitou e ela parou na porta antes de se virar. O que o rapaz poderia dizer? Como poderia dizer? - Nada não. Dez minutos.

Em meia hora os dois estavam de volta ao hospital. Tanto Ray quanto Maria se levantaram do banco que ficava do lado de fora da UTI, onde haviam feito a sua vigília.

Os dois estavam, de acordo com Matthew, amarrotados. Ele havia ficado impressionado com o fato de os Beaumont, independentemente das circunstâncias, estarem sempre tão limpos e elegantes. Agora, suas roupas estavam amarfanhadas. O rosto de Ray estava escuro por ele ter ficado uma noite sem fazer a barba. Em todas as semanas nas quais trabalharam juntos, o rapaz jamais vira Ray com a barba por fazer. Por motivos que Matthew não conseguia identificar, acabou se atendo àquele pequeno fato. Ray não havia feito a barba.

- Eles não nos dirão muita coisa - afirmou Ray. - Só que ele teve uma noite tranqüila.

- A cada hora nos deixam entrar por alguns minutos. - Maria pegou na mão de Matthew e a apertou. - Você descansou um pouco, querido?

- Sim. - Matthew pigarreou. Ela não havia escovado o cabelo, pensou tolamente. Ray não havia feito a barba e Maria não havia escovado o cabelo. - Queria dizer a vocês dois o quanto me sinto grato...

- Não me venha com insultos. - Maria o atacou deliberadamente, como se estivesse ralhando. - Matthew Lassiter, só use esse tom refinado nessa frase refinada com estranhos, e quando se sentir obrigado. Não com amigos que o amam.

Ele jamais havia conhecido alguém que pudesse envergonhá-lo e tocá-lo ao mesmo tempo.

- O que eu quis dizer é que estou feliz por vocês estarem aqui.

- Acho que sua cor está melhor. - Ray colocou um braço em torno da esposa e lhe deu um abraço breve e afetuoso. - Você não acha, Maria?

- Sim. A enfermeira e o Dr. Farrge irão examiná-lo daqui a pouco.

- Eu e Matthew assumiremos daqui em diante. Quero que vocês dois tomem um café da manhã caprichado e durmam um pouco.

Ray observou o rosto da filha, viu que ela estava disposta e acenou positivamente com a cabeça.

- Vamos fazer isso. Ligue para o hotel se houver alguma mudança. Caso contrário, voltaremos ao meio-dia.

Quando os dois ficaram sozinhos, Tate pegou na mão de Matthew.

- Vamos vê-lo.

Talvez sua cor pudesse estar melhor, pensou Matthew alguns instantes depois que se aproximou da cama do tio. O rosto de Buck ainda estava retorcido, mas aquela cor cinzenta havia desaparecido.

- Suas chances aumentam a cada hora - lembrou Tate, colocando a mão sobre a de Buck. - Ele sobreviveu à cirurgia, Matthew, e sobreviveu à noite.

O brilho opaco da esperança era mais doloroso do que desesperador.

- Ele é duro na queda. Veja aquela cicatriz ali. - com a ponta do dedo indicador, Matthew percorreu uma cicatriz entalhada no antebraço direito de Buck. - Barracuda. Yucatan. Eu estava manejando o tubo de airlift, quando Buck e o peixe se chocaram no meio da água turva. Ele veio à tona e fez os pontos em si próprio. Voltou para dentro d’água uma hora depois. Tem algo extraordinário no quadril, onde...

- Matthew. - A voz de Tate estava trêmula. - Matthew, ele apertou a minha mão.

- O quê?

- Ele apertou a minha mão. Veja. Olhe para os meus dedos. Eles se dobravam sobre os de Tate, curvando-se lentamente. A pele de Matthew esfriou e depois esquentou quando o rapaz encarou o tio. As pálpebras de Buck tremiam.

- Acho que ele está recobrando a consciência.

Uma lágrima escorria do olho de Tate enquanto ela respondia apertando a mão de Buck.

- Fale com ele, Matthew.

- Buck. - com o coração batendo forte no peito, Matthew se aproximou. - Maldição, Buck, sei que você está me ouvindo. Não vou perder meu tempo falando sozinho.

As pálpebras de Buck tremeram novamente.

- Merda.

- Merda. - Tate começou a chorar tranqüilamente. - Você ouviu isso, Matthew? Ele disse ”merda”.

- Ele diria isso. - Matthew segurou a mão de Buck enquanto sua garganta queimava. - Vamos lá, seu bundão. Acorda.

- Estou acordado. Jesus. - Buck abriu os olhos e viu borrões. Formas indistintas flutuavam e tremiam. Mas já enxergava suficientemente bem para identificar o rosto de Matthew. - Que diabos. Eu achei que tinha morrido.

- Somos dois.

- Ele não pegou você, pegou? - A voz de Buck soava inarticulada enquanto ele se esforçava para pronunciar as palavras direito. - Aquele desgraçado não o pegou?

- Não. -A culpa se abateu sobre Matthew como o aço frio e cortante. - Não, ele não me pegou. Era um tubarão-tigre, tinha quase três metros - contou tão logo entendeu que Buck queria ficar a par de tudo. - Nós o matamos, Tate e eu. Agora é isca de peixe.

- Muito bom.- Buck fechou os olhos novamente. - Odeio tubarões.

- Vou falar com a enfermeira - disse Tate calmamente.

- Eu os odeio - repetiu Buck. - Desgraçados repulsivos. Provavelmente se separou do cardume, mas certifique-se de que temos bastões e pedaços de pau.

Ele abriu os olhos novamente. Aos poucos, as máquinas e os tubos foram ficando em foco. Suas sobrancelhas se franziram.

- Não estamos no barco. Parecia que o coração de Matthew ia sair pela garganta.

- Não. Você está no hospital.

- Odeio hospitais. Malditos médicos. Garoto, você sabe que eu detesto hospitais.

- Eu sei. - Matthew se concentrou para aplacar o pânico que viu nos olhos de Buck. Só iria se preocupar com a sua própria reação mais tarde. - Tive que trazê-lo para cá, Buck O peixe o feriu.

- Uns dois pontos...

Matthew pôde perceber o momento em que Buck começou a se lembrar de tudo.

- Tenha calma, Buck. Você precisa ter calma.

- Me segura. - As sensações voltaram rapidamente, uma caindo em cima da outra como crianças levadas numa briga de rua. Medo, dor, horror e um temor difícil de lidar que triunfavam sobre o resto.

Ele se lembrou da agonia, da sensação de impotência que teve quando foi sacudido e dilacerado, sufocado e ofuscado pelo próprio sangue. A última coisa da qual se lembrava era daqueles olhos escuros e cheios de ódio revirando-se num frio deleite.

- Aquele filho-da-puta me pegou. - A voz de Buck estremecia enquanto brigava com Matthew para se levantar. - Que mal ele me fez, garoto?

- Fica quieto. Você precisa se acalmar. - Esforçando-se para ser dócil, Matthew segurou Buck na cama. Foi dolorosamente fácil.

- Se continuar agindo assim, vão acabar botando você para dormir novamente.

- Diga-me. - com pânico no olhar, Buck pegou Matthew pela camisa. Ele a agarrou com tão pouca força que o rapaz poderia ter se soltado com um encolher de ombros. Mas não teve coragem.

- Diga-me o que aquele miserável fez comigo.

De todas as coisas que aconteceram entre eles, nunca houve mentiras. Matthew cobriu as mãos de Buck com as suas e o encarou.

- Ele arrancou a sua perna, Buck. O escroto arrancou a sua perna.

 

- Você não vai ficar se culpando. Tate interrompeu seu caminhar agitado para se sentar ao lado de Matthew no banco que ficava do lado de fora da UTI. Havia se passado um dia inteiro desde que Buck recuperou a consciência. Quanto melhores eram as perspectivas de recuperação, mais Matthew se afundava em depressão.

- Não vejo mais ninguém aqui para culpar.

- Às vezes acontecem coisas que não são culpa de ninguém. Matthew... - Ela percebeu que deveria ter mais paciência. Seu mau humor não iria ajudá-lo. - O que aconteceu foi horrível, uma tragédia. Você não teve como impedir. E nem pode mudar as coisas agora. Tudo que pode fazer, tudo que podemos fazer, é ajudá-lo.

- Ele perdeu sua maldita perna, Tate. E a cada vez que olha para mim, ambos sabemos que eu deveria estar em seu lugar.

- Mas não foi o caso. - A idéia de que poderia ter sido a assombrava implacavelmente. - E pensar que poderia ter sido é uma estupidez. - Cansada de argumentar e de se esforçar para manter-se forte e apoiá-lo, ela passou a mão no cabelo. -Agora ele está com medo, furioso e deprimido. Mas não o está culpando.

- Não está? - Matthew levantou os olhos. A tristeza e a amargura brigavam em seus olhos.

- Não mesmo. Pois ele não é tão superficial e presunçoso quanto você. - Ela se levantou do banco num só pulo. - Vou vêlo. Você pode ficar aqui sozinho e se atolar na autopiedade.

Com a cabeça erguida, ela percorreu o corredor e atravessou as portas que davam na Unidade de Terapia Intensiva. Assim que ficou fora do campo de visão de Matthew, deu uma parada e levou algum tempo para se recompor. Depois de pôr no rosto um sorriso radiante, empurrou a cortina de Buck para o lado.

Os olhos dele se abriram quando ela entrou. Por trás das lentes grossas, seu olhar era melancólico.

- Ei. - Como se Buck a tivesse cumprimentado com uma piscadela e um aceno, ela se aproximou para beijar o seu rosto. - Ouvi dizer que você vai se mudar para um quarto normal daqui a um ou dois dias. Que terá uma TV e as enfermeiras mais bonitas.

- Disseram que pode ser. - Ele estremecia enquanto a dor em sua perna fantasma o incomodava. - Achava que você e o garoto haviam voltado para o barco.

- Não, Matthew está lá fora. Quer vê-lo?

Buck balançou a cabeça. E começou a amarfanhar o lençol com os dedos.

- Ray esteve aqui antes.

- Sim, eu sei.

- Disse que havia um especialista qualquer em Chicago ao qual devo ser encaminhado depois que me deixarem sair daqui.

- É. Dizem que ele é brilhante.

- Mas não é talentoso o suficiente para colocar a minha perna de volta.

- Eles lhe darão uma ainda melhor. - Ela sabia que sua voz estava exageradamente radiante, mas não dava para controlá-la. - Você já viu aquela série, Buck? Aquela com o homem biônico. Eu a adorava quando era pequena. Você será o ”Buck Biônico”. O canto da sua boca se contraiu rapidamente.

- Sim, claro, sou eu. Buck Biônico, o rei dos aleijados.

- Não vou ficar aqui se continuar a falar assim.

Ele encolheu um dos ombros. Estava cansado demais para discutir. Quase cansado demais para sentir pena de si mesmo.

- Era melhor que não tivesse vindo. Vocês deviam voltar para o barco. Têm que fazer aquela pilhagem antes que outra pessoa o faça.

- Você não devia se preocupar com isso. Temos nossa autorização.

- Você não sabe de nada - vociferou Buck. - Esse é o problema com amadores. As notícias já se espalharam. Já tinham se espalhado, ainda mais depois disso. Ataques de tubarão sempre são notícia, especialmente em águas freqüentadas por turistas. Eles aparecerão. - Seus dedos começaram a tamborilar no colchão, - Vocês esconderam bem o que já pegamos, não? Num lugar fechado e seguro?

- Eu... - Fazia dois dias que ela não pensava no tesouro. E duvidava que alguém o tivesse feito, - Claro. - Ela tinha que acreditar na mentira. - Claro, Buck, não se preocupe.

- Temos que descer rapidamente para pegar o resto. Será que comentei com Ray? - Seus olhos tremiam enquanto ele se esforçava para mantê-los abertos. - Será que eu lhe falei? Essa maldita medicação faz com que as coisas fiquem confusas na minha cabeça. Tenho que ir até lá pegá-lo. Todo aquele ouro. É como sangue para os tubarões. - Ele ria enquanto deitava no travesseiro. - Como sangue para os tubarões. Não foi um baita azar? Consegui o tesouro. E me custou uma maldita perna. Traga-o à tona e tranque-o, garota. Faça isso.

- O.k., Buck. - Delicadamente, ela acariciava sua testa. - Vou cuidar disso. Agora descanse,

- Não vá lá embaixo sozinha.

- Não, é claro que não - murmurou Tate enquanto tirava os óculos de Buck.

- A Maldição de Angelique. Ela não quer que ninguém vença. Tenha cuidado.

- Pode deixar. Descanse.

Quando se certificou de que ele havia adormecido, Tate saiu em silêncio. Matthew não estava mais no banco nem no corredor. Uma olhada para o relógio lhe disse que seus pais estariam ali em menos de uma hora.

Ela hesitou e depois seguiu decidida na direção dos elevadores. Cuidaria de tudo sozinha.

Sentiu-se em casa no momento em que embarcou no Aventura. Alguém, possivelmente sua mãe, havia limpado o convés. Não havia nenhum sinal de sangue, e o equipamento, mais uma vez, estava em ordem e guardado.

Em vez de tentar se lembrar do que eles haviam deixado a bordo antes do acidente de Buck, ela entrou na cabine principal e foi atrás do seu caderno.

No momento em que o fez, percebeu que algo estava errado.

Tudo estava muito arrumado. As almofadas estavam afofadas e a mesa cintilava. A cozinha que ficava depois da sala de estar estava impecável. Mas não havia caderno algum em cima da mesa. Nem artefatos cuidadosamente dispostos ali ou no balcão para serem limpos e catalogados.

Depois que a primeira onda de susto passou, Tate disse para si mesma que seus pais provavelmente haviam feito o que ela viera fazer. Recolheram as peças e as levaram para o hotel. Ou para o Demônio do Mar.

A moça concluiu que era mais lógico que tudo estivesse no barco. Eles deixariam tudo num local seguro. Não deixariam?

Ela olhou novamente para a praia e se perguntou se devia ir até lá para tentar encontrar os artefatos. Mas ali, sozinha, a urgência de Buck começou a lhe rasgar por dentro. Era uma viagem curta, do tipo que Tate podia facilmente fazer sozinha.

Mais calma agora que tinha uma meta, ela foi para a ponte de comando e levantou âncora. Uma hora, pensou. Nada mais do que isso para uma rápida viagem de ida e volta. Depois, poderia tranqüilizar Buck e dizer que tudo estava sob controle.

Enquanto cruzava o mar aberto, sua tensão se esvaía. A vida sempre lhe parecia tão simples quando havia um convés sob os pés. No ar, gaivotas mergulhavam e reclamavam, e o mar, com toda a sua extensão absolutamente azul, a chamava. com o vento no rosto e o leme nas mãos, ela se perguntava se teria descoberto esse mundo fascinante caso tivesse pais diferentes. Será que Tate sentiria alguma espécie de fascínio se tivesse sido criada de forma convencional, sem ouvir histórias do mar e de tesouros na hora de dormir?

Naquele instante, com o mar brilhando a sua volta, ela teve certeza que sim. Para ela, o destino era um mestre paciente. Ele esperava.

Tate supunha que já havia encontrado o seu, mais cedo do que a maioria das pessoas. Ela já podia ver sua vida ao lado de Matthew se desdobrando. Juntos os dois navegariam pelo mundo, desvendando segredos das galerias marinhas. Seriam parceiros de qualquer maneira, meditava Tate.

Em tempo ele viria a aprender que o valor do que fizeram ia além do brilho do ouro. Eles construiriam um museu e levariam a emoção e a vibração da história para centenas de pessoas.

Um dia os dois teriam filhos, constituiriam uma família e ela escreveria um livro sobre suas aventuras. Ele viria a entender que não haveria nada que não pudessem fazer, nada que não pudessem ser um com o outro.

Assim como o destino, Tate seria paciente.

Ela estava sorrindo por conta dos seus devaneios quando avistou o Demônio do Mar. O sorriso deu lugar à perplexidade. Um iate branco e cintilante estava ancorado a sua portinhola.

Era uma visão atordoante, trinta metros de luxo e brilho. Dava para ver gente no convés. Um homem uniformizado carregando uma bandeja cheia de copos, uma mulher tomando banho de sol preguiçosa e aparentemente nua, um marinheiro lustrando as partes metálicas da coberta de proa. O vidro que enfeitava a cabine principal e a ponte de comando refletiam a luz do sol.

Em circunstâncias diferentes, ela teria admirado a visão, as belas formas de algum modo femininas, os guarda-sóis e os toldos radiantes e listrados se agitando como numa celebração, mas a escuridão reveladora na superfície da água já havia chamado a sua atenção.

Alguém estava lá embaixo, manobrando um tubo de airlift.

Quase tremendo de raiva, Tate reduziu a velocidade e manobrou o Aventura a estibordo do Demônio do Mar. com rápida eficiência, a moça atracou a embarcação.

Agora ela podia sentir o cheiro, o aroma indisfàrçável de ovo podre que cheira a perfume para os exploradores de tesouros. Os gases que eram liberados pelos destroços. Sem hesitar, saiu correndo da ponte de comando. Perdendo tempo apenas para tirar os tênis, Tate mergulhou da amurada do barco e nadou até o Demônio do Mar.

Enquanto tirava o cabelo molhado dos olhos, ela subiu no convés. As lonas que Tate e Matthew haviam usado para cobrir a pilhagem do Santa Margarida estavam no lugar. Mas bastou uma rápida olhada para ver que muito do que eles haviam recuperado havia desaparecido.

Foi a mesma coisa na cabine. A cruz de esmeraldas, o balde que havia estado cheio de moedas de prata, a porcelana frágil, a travessa de estanho que ela e sua mãe haviam limpado com tanto cuidado. Tudo havia sumido. com os dentes cerrados, Tate olhou novamente para o iate.

Armada com calma e um senso de honradez, ela mergulhou novamente. Estava rosnando na hora em que subiu a escada que havia no lustroso convés de mogno do iate.

Uma loura, usando óculos de sol, fones de ouvido e sandálias baixas relaxava numa confortável espreguiçadeira.

Tate marchou em sua direção e bateu com força em seu ombro.

- Quem é que manda aqui?

- Quest-que cestí- Depois de um longo bocejo, a loura abaixou os óculos enormes e observou Tate com seus olhos azuis e entediados. - Qui lê diable es-tu?

- Quem diabos é você? - vociferou Tate de volta num francês fluente e furioso. - E que diabos você pensa que está fazendo com os meus destroços?

A loura moveu o ombro cheio de creme e tirou os fones de ouvido.

- Americana - sentenciou num inglês pobre e provocador. - Vocês americanas são um tédio só. Allez. Vá embora. Está pingando água em mim.

- Vou fazer mais do que pingar água em você daqui a um minuto, Fifi.

- Yvette. - com um sorriso distraído, ela tirou um cigarro longo e marrom do maço que estava perto do seu cotovelo e o acendeu com um isqueiro fino. - Ai, que barulho. - Ela se alongou, num movimento tão felino quanto o seu sorriso. - O dia inteiro e metade da noite.

Tate cerrou os dentes. O barulho do qual Yvette reclamava era o de compressor que estava ligado ao airlift.

- Temos uma autorização para explorar o Santa Margarida e você não tem o direito de trabalhar aqui.

- Margarida? Cest qui, cette Margarida? - Ela soltou uma baforada de fumaça perfumada. - Sou a única mulher por aqui. - Ela levantou uma sobrancelha e examinou Tate da cabeça aos pés. - A única - repetiu. Seu olhar desviou para longe da indesejável visitante e ficou mais afetuoso. - Mon cher, temos companhia.

- Estou vendo.

Tate se virou e viu um homem magro usando uma camisa amarela, calças largas e uma gravata com listras em tons pastéis amarrada elegantemente no pescoço. Ostentava displicentemente um chapéu-panamá sobre o cabelo grisalho. Ouro cintilava na sua pele bronzeada, no pulso e no pescoço. Seu rosto, tão liso quanto o de um garoto, estava corado e ostentava saúde e alegria. Era lindo de morrer com seu nariz longo e estreito, sobrancelhas prateadas nitidamente arqueadas e uma boca fina e curvada. Seus olhos, de um azul translúcido, eram brilhantes e atraentes.

A primeira impressão que Tate teve foi de dinheiro e bons modos. Ela sorriu e estendeu a mão de um jeito tão charmoso que quase aceitou os cumprimentos antes de se lembrar das razões que a levaram até ali.

- Este barco é seu?

- Sim, de fato. Bem-vinda a bordo do Triunfante. Não somos visitados freqüentemente por ninfas do mar. André - gritou o sujeito com um tom de voz refinado e vagamente europeu. - Traga uma toalha para a dama. Ela está bastante molhada.

- Não quero toalha nenhuma. Só quero que traga seus mergulhadores até aqui. Esses destroços são meus.

- Sério? Que estranho. Não quer se sentar, senhorita...

- Não vou me sentar, seu pirata ladrão.

Ele piscou, e seu sorriso não chegou a hesitar em momento algum.

- Parece que você está me confundindo com uma outra pessoa. Estou certo de que podemos resolver esse mal-entendido de uma maneira civilizada. Ah. - O sujeito pegou a toalha trazida por um mordomo que usava uniforme. - Precisamos de champanhe, André. Três taças.

- Vou ter que partir para a ignorância - alertou Tate -, se não desligar aquele compressor.

- Isso vai tornar nossa conversa difícil. - Ele acenou para o seu mordomo e depois se sentou. - Por favor, sente-se.

Quanto mais o sujeito falava naquele tom calmo e encantador, e sorria de um jeito tão fácil e charmoso, mais ela se sentia uma idiota. Como que para aplacar a sua dignidade, a moça se sentou formalmente numa espreguiçadeira. Tate resolveu que seria calma, racional e tão educada quanto seu anfitrião.

- Você tomou posse de coisas que estavam nos meus barcos - afirmou a jovem.

Ele levantou a sobrancelha e virou a cabeça na direção do Demônio do Mar.

- Aquele traste ali é seu?

- Pertence aos meus parceiros - murmurou Tate. Perto do Triunfante, o Demônio do Mar mais parecia uma barcaça de lixo de segunda mão. - Dei a falta de muitos objetos no Demônio do Mar e no Aventura. E...

- Minha querida. - Ele entrelaçou os dedos e sorriu de um jeito afável. Um diamante do tamanho de uma peça de damas brilhava no seu dedo mindinho. - Eu pareço com alguém que precisa roubar?

Ela ficou muda enquanto o mordomo abria uma garrafa de champanhe num espocar encorpado e ressonante. Sua voz era tão doce quanto a brisa.

- Nem todo mundo rouba porque precisa. Algumas pessoas simplesmente gostam de fazer isso.

Os olhos do sujeito se reviraram de alegria.

- Tão astuta quanto atraente. Atributos impressionantes para alguém tão jovem.

Yvette murmurou algo nada lisonjeiro em francês, mas ele só deu uma risadinha e bateu na mão da companheira.

- Ma belle, cubra-se. Você está perturbando a nossa convidada. Enquanto Yvette fazia um beiço e amarrava uma faixa azul- ferrete por cima dos seios deslumbrantes, ele oferecia a Tate uma taça de champanhe. Tate já segurava a base da taça quando percebeu que estava sendo manipulada.

- Ouça...

- Ficaria feliz - concordou ele, que suspirou quando o compressor silenciou. - Ah, assim é melhor. Bem, você estava dizendo que alguém tomou posse de coisas que eram suas?

- Você sabe muito bem disso. São artefatos do Santa Margarida. Estamos escavando há semanas. Temos uma autorização legítima.

Ele estudou o rosto de Tate com um interesse evidente. Era sempre um prazer observar uma pessoa tão animada e corajosa, especialmente quando ele já se dava como vitorioso. O sujeito tinha pena daqueles que não apreciavam o verdadeiro desafio que havia numa negociação e o verdadeiro triunfo da vitória.

- Deve estar havendo alguma confusão em relação a isso. A autorização. - Ele franziu os lábios e depois provou do seu champanhe. - Estamos em águas livres aqui. O governo normalmente duvida desse tipo de coisa, e foi por isso que eu entrei em contato com eles há alguns meses para notificá-los dos meus planos de cavar aqui. - O sujeito tomou outro gole. - Infelizmente vocês não foram informados. É claro que, quando eu cheguei, notei que alguém havia mexido por aqui. No entanto, não havia mais ninguém.

Alguns meses atrás o cacete, pensou Tate, que, no entanto, se esforçou para falar num tom mais calmo.

- Tivemos um acidente. Um dos membros da nossa equipe está no hospital.

- Oh, que lamentável. Explorar tesouros pode ser um negócio perigoso. Já é um hobby meu há alguns anos. No fim das contas, tenho tido sorte.

- O Demônio do Mar ficou aqui - prosseguiu Tate. - Deixamos bóias aqui. As regras de salvamento...

- Estou disposto a não tomar conhecimento dessa inconveniência.

Tate ficou de queixo caído.

- Você está disposto? - E mandou a calma para o inferno. - Você passa por cima dos nossos direitos, rouba artefatos e anotações dos nossos barcos...

- Não sei nada sobre essas coisas das quais você está dando falta - interrompeu ele com a voz firme, como faria com um serviçal de difícil trato. - Sugiro que entre em contato com as autoridades de Saint Kitts ou de Névis.

- Pode ter certeza de que o farei.

- É sensato da sua parte. - Ele tirou a garrafa do balde prateado, colocou um pouco mais de champanhe na sua taça e na de Yvette. - Não quer mais desse Taíttinger’s?

Tate largou a taça bruscamente.

- Você não vai escapar assim. Encontramos o Margarida, trabalhamos nele. Um dos nossos quase morreu. Você não vai ficar navegando por aí e pegando o que é nosso.

- O direito de propriedade em situações como essa é uma questão complicada. - Ele fez uma pausa para examinar o conteúdo da sua taça. E a propriedade, evidentemente, era o sentido da vida. - É claro que você pode disputá-lo, mas temo que ficará decepcionada com as conseqüências. Tenho uma reputação vitoriosa. - O sujeito sorriu para Tate e passou a ponta do dedo no braço bronzeado de Yvette. - Agora - disse antes de se levantar. - talvez você queira dar um passeio. Tenho muito orgulho do Triunfante. Ele tem características muito peculiares.

- Estou pouco me lixando se a proa do seu navio é de ouro maciço. - Seu próprio autocontrole a surpreendeu enquanto ela se levantava para encará-lo de cima para baixo. - Barcos luxuosos e sotaque europeu não negam a pirataria.

- Senhor. - O mordomo pigarreou educadamente. - Estão o chamando lá na frente.

- Irei daqui a instantes, André.

- Sim, Sr. VanDyke.

- VanDyke - repetiu Tate, e seu estômago se revirou. - Silas VanDyke.

- Minha reputação me precede. - Ele parecia ainda mais feliz por ela tê-lo reconhecido. - Que negligência da minha parte não ter me apresentado, senhorita...

- Beaumont. Tate Beaumont. Sei quem você é, Sr. VanDyke, e sei o que fez.

- Que lisonjeiro. - Ele levantou sua taça e propôs um brinde antes que terminasse seu espumante. - Mas também fiz muitas coisas.

- Matthew me falou de você. Matthew Lassiter.

- Ah, sim, Matthew. Tenho certeza de que ele não falou de mim de uma maneira muito gentil. E como o fez, você provavelmente deve saber que só há uma coisa que me interessa.

- A Maldição de Angelique. - Suas mãos podiam estar úmidas, mas Tate levantou o queixo. - Como você já matou por causa disso, roubar não deve ser um empecilho.

- Ah, o jovem Matthew deve estar enchendo a sua cabeça de bobagens - disse VanDyke com prazer. - É compreensível que o rapaz tenha que culpar alguém pelo acidente com o pai, especialmente quando sua própria negligência pode tê-lo provocado.

- Matthew não é negligente - vociferou de volta.

- Ele era jovem e não teve culpa. Devia ter me oferecido para ajudá-los financeiramente na época, mas temia que ele estivesse fora de alcance. - Silas moveu levemente os ombros. - É como eu disse, Srta. Beaumont, procurar tesouros é um negócio perigoso. Acidentes acontecem. No entanto, posso deixar uma coisa bem clara para todos nós. Se o amuleto estiver no Margarida, ele é meu. Como tudo o mais que está lá. - Seus olhos brilhavam ainda mais, corteses e indiferentes. - E eu sempre pego e guardo o que é meu. Não é verdade, ma belléí

Yvette passou a mão na sua coxa bronzeada.

- É sempre verdade.

- Você ainda não o tem, certo? - Tate seguiu na direção da amurada. - Vamos ver quem detém o direito de explorar o Santa Margarida.

- Tenho certeza de que veremos. - VanDyke virou a taça vazia que tinha nas mãos. - Ah, Srta. Beaumont, não se esqueça de dar as minhas lembranças aos Lassiter e minhas desculpas.

Tate o ouviu rindo enquanto mergulhava.

- Silas. - Yvette acendeu outro cigarro e se aconchegou em sua espreguiçadeira. - Sobre o que essa americana chata estava tagarelando?

- Você a achou chata? - com um sorriso de quem estava satisfeito, Silas ficou vendo Tate nadar vigorosamente na direção do Aventura. - Eu não. Achei-a fascinante... jovem, tola e audaciosa ao mesmo tempo, e docemente ingênua. Nas minhas rodas, raramente encontro alguém com essas qualidades.

- Então - disse Yvette, amuada, enquanto soprava a fumaça -, você a acha atraente com aquele corpo esquelético e o cabelo igual ao de um garoto.

Por estar alegre, VanDyke se sentou na beira da espreguiçadeira e se preparou para apaziguar os ânimos.

- Ela não passa de uma criança. São as mulheres que me interessam. - Encostou os lábios nos de Yvette, que ostentavam uma expressão mal-humorada. - É você que me fascina - murmurou, enquanto estendia o braço por trás para desatar o nó do seu top improvisado. - É por isso que você está aqui, ma chere amie.

E assim seria, pensou VanDyke enquanto segurava um dos seios perfeitos da companheira numa das mãos. Até ela começar a cansá-lo.

Depois de deixar Yvette mais calma, VanDyke se levantou. com um sorriso, ficou vendo Tate pilotar o Aventura rumo a St. Kitts.

Havia algo a ser dito sobre a juventude, pensou ele. Era algo que nem mesmo o seu dinheiro ou a sua perícia empresarial poderia comprar. Silas tinha a impressão de que levaria muito, mas muito tempo para que alguém tão estimulante quanto Tate Beaumont se tornasse cansativa.

Ele seguiu em frente, com uma expressão hesitante nos lábios. Seus mergulhadores espalharam a última leva do que havia sido coletado em cima de uma lona. Seu coração começou a cantar. O que estava ali, corroído, calcificado ou cintilando, era seu. Sucesso. Lucro do investimento. Era ainda mais sensacional que tudo aquilo havia pertencido aos Lassiter.

Ninguém falou nada quando VanDyke se ajoelhou e começou a examinar o saque com seus dedos bem-tratados e enfeitados com jóias. Era ainda mais satisfatório para ele saber que havia trazido à tona um tesouro, enquanto o irmão de James Lassiter estava lutando contra a morte.

”Isso simplesmente realçava a lenda, não?”, meditou VanDyke enquanto pegava uma moeda de formas irregulares e a revirava na mão. A Maldição de Angelique iria derrubá-los, abater a todos que a buscavam. Menos a ele.

Pois Silas se mostrou disposto a esperar, a aguardar o momento propício, para usar seus recursos. Por várias vezes, seu senso empresarial havia lhe dito para esquecer, diminuir suas perdas, que haviam sido consideráveis até agora. Contudo, o amuleto continuava sendo sempre lembrado.

Se não o encontrasse e o possuísse, ele teria falhado. E o fracasso era simplesmente inaceitável. Mesmo num hobby. Ele podia justificar o tempo e o dinheiro. Tinha mais do que o suficiente de ambos. E não havia se esquecido de que James Lassiter rira na sua cara e tentara ser mais esperto do que ele numa negociação.

Se a Maldição de Angelique o assombrava, havia um motivo para isso. Ela lhe pertencia.

Silas levantou os olhos. Seus mergulhadores o esperavam. A equipe o olhava em silêncio, pronta para obedecer a qualquer ordem. Tais coisas, pensou VanDyke com satisfação, o dinheiro podia comprar.

- Continuem a escavação. - Ele se ergueu e esfregou as calças arregaçadas, inquieto, os joelhos por cima das calças folgadas e meticulosamente dobradas. - Quero guardas armados, cinco no convés, cinco nos destroços. Negociem discretamente, mas com firmeza, caso haja alguma interferência. - Satisfeito, VanDyke lanÇou um olhar na direção do mar. - Não machuquem a garota caso ela retorne. Ela me interessa. Piper. - Curvando o dedo, ele gesticulou para seu arqueólogo marinho.

VanDyke seguiu rapidamente pelas portas dianteiras e adentrou o seu escritório, com Piper nos seus calcanhares como se fosse um cão fiel.

Como o resto do iate, o escritório flutuante de VanDyke era elegante e eficiente. As paredes eram feitas com painéis de pau-roa de alta qualidade, o piso brilhava com seu polimento de cera forte A mesa, firmemente presa, era uma antigüidade do século XDC que anteriormente havia decorado a residência de um lorde inglês.

Em vez de uma decoração tipicamente marinha, ele preferia a sensação de estar numa mansão completa, com um Gainsborough pendurado e cortinas pesadas de brocado. Devido ao clima tropical, a pequena lareira de mármore ostentava uma vicejante bromélia, em vez de toras estalantes. As cadeiras eram de couro macio em tons vermelho-escuro e auriverde. Antigüidades e artefatos inestimáveis estavam expostos com um bom gosto que simplesmente passava despercebido em meio a tanta opulência.

Fazendo uma concessão para a praticidade do século vinte, o escritório estava totalmente equipado com o que havia de melhor em equipamentos eletrônicos.

Sendo uma pessoa que não minimizava a importância do trabalho, VanDyke havia enchido a sua mesa com mapas, diários de bordo e cópias de documentos e manifestos que o guiavam na sua busca pelo tesouro. Fosse hobby ou negócio, conhecer era controlar.

VanDyke estava sentado atrás de sua mesa e esperou alguns instantes. Piper não se sentaria até que recebesse uma ordem. Aquela pequena e vital sensação de poder lhe agradava. Preparado para ser gentil, Silas pediu que ele se sentasse.

- Você terminou de transferir o conteúdo dos cadernos que lhe dei para o disquete?

- Sim, senhor. - As lentes grossas dos óculos de Piper realçavam a devoção canina em seus olhos castanhos. Ele tinha uma mente brilhante que VanDyke respeitava. E um vício em cocaína e jogo que VanDyke detestava e usava.

- Você não encontrou nenhuma menção ao amuleto?

- Não, senhor. - Piper apertou suas mãos sempre nervosas e as separou. - Contudo, quem estava catalogando isso aqui fez um trabalho de primeira. Tudo, até o último prego, está listado, datado.fotografias são excelentes, e as notas e esboços detalhando tudo são claros e concisos.

Eles não encontraram o amuleto, meditou Silas. Ele com certeza saberia disso em seu coração e suas entranhas. Mas preferia detalhes palpáveis.

Já é alguma coisa. Guarde o que possa vir a ser útil e destrua o resto. - Enquanto refletia, VanDyke ficava puxando a orelha. - Vou querer um relatório completo do que foi coletado hoje até as dez da manhã. Imagino que isso o manterá ocupado durante a maior parte da noite. - Ele abriu uma gaveta e tirou um pequeno frasco de pó branco. A necessidade superou o desgosto assim que Silas viu a expressão desesperada de gratidão no rosto de Piper. - Use isto com juízo, Piper, e reservadamente.

- Sim, Sr. VanDyke. - O frasco desapareceu no bolso folgado de Piper. - Tudo estará pronto pela manhã.

- Sei que posso contar com você, Piper. Por enquanto isso é tudo.

Sozinho, VanDyke se inclinou para trás. Seus olhos examinavam os papéis em sua mesa enquanto ele suspirava. Era possível que os Lassiter tivessem simplesmente topado por acaso com restos imaculados de um navio que não tinha nada a ver com o amuleto. Anos de vício no seu hobby, além da busca, lhe deram uma verdadeira noção do que era sorte.

Se esse fosse o caso, Silas simplesmente iria pegar o que eles encontraram e acrescentar a sua própria fortuna.

Mas se o amuleto estivesse no Santa Margarida, logo seria seu. Ele escavaria cada centímetro do seu interior e da areia em volta até ter certeza.

James havia encontrado algo, meditou, batendo com os dedos nos lábios. Algo que havia se recusado a partilhar. Como isso ainda o irritava! Depois de todo esse tempo, a busca pela Austrália e pela Nova Zelândia havia sido desanimadora. Havia documentos faltando. VanDyke tinha certeza disso.

James soubera de algo, mas será que teve tempo ou propensão a dividir tal informação com seu irmão idiota ou com o filho que deixou para trás?

Talvez não. Talvez tivesse morrido e guardado o segredo só para si. Ele detestava não ter certeza, detestava saber que poderia ter errado os cálculos. Tal fúria e a mínima chance de que pudesse ter se equivocado com seu homem fizeram com que VanDyke cerrasse suas mãos mal-acostumadas.

Seus olhos se turvaram enfurecidos, sua bela boca ficou mais fina e trêmula enquanto lutava contra o acesso de raiva, da mesma forma que um homem enfrentaria uma fera selvagem tentando abocanhar sua garganta. Ele reconheceu os sinais - os batimentos cardíacos fulminantes, o sangue que lhe subia à cabeça, por trás dos olhos, o zumbido em seus ouvidos.

Esses acessos de violência estavam lhe vindo com cada vez mais freqüência, como no tempo em que ele era menino e lhe era negado algum desejo.

Mas isso havia sido antes de ele aprender a usar sua força de vontade, antes de usar seu poder para manipular e vencer. Ondas de raiva malévolas e furiosas o percorriam e o provocavam para que batesse os calcanhares, gritasse e quebrasse alguma coisa. Qualquer coisa. Oh, como ele detestava se frustrar, como odiava perder o controle!

Contudo, resolveu que não se entregaria a emoções fracas e vãs. Iria, de qualquer maneira, permanecer controlado, calmo e lúcido. Perder o controle das emoções fazia com que um homem ficasse vulnerável e cometesse erros bobos. Era vital lembrar-se disso.

E lembrar-se de como sua mãe havia perdido tal batalha e vivera seus últimos anos trancada numa sala, babando em suas blusas de seda.

O corpo de Silas estremeceu num último esforço para rechaçar a fúria do passado. Ele respirou calma e longamente, ajeitou sua gravata e massageou as mãos tensas.

Era possível, pensou VanDyke com toda a tranqüilidade, que tivesse sido um pouco impaciente com James Lassiter. Era um erro que ele não cometeria com os outros. Anos de buscas só o haviam fortalecido e acrescentado sabedoria e conhecimento. E feito com que ele tivesse uma maior consciência do valor do prêmio, o poder que havia em possuí-lo.

Tal poder o esperava da mesma forma que Silas o esperava, lembrou-se, até perceber que suas mãos estavam, mais uma vez, perfeitamente firmes. Nem ele nem a Maldição de Angelique iriam tolerar tais intrusos. Mas intrusos poderiam ser usados antes de serem descartados.

O tempo iria dizer, pensou VanDyke enquanto fechava os olhos. Não havia mar, oceano ou lagoa onde os Lassiter pudessem navegar sem que ele estivesse a par de tudo.

Um dia eles o levariam até a Maldição de Angelique e à fortuna que continuava a lhe servir de referência.

 

Sem fôlego e pálida de tanta raiva, Tate entrou correndo no hospital. Viu seus pais e Matthew juntos no final do corredor e mal conseguiu conter o grito. Ela seguiu em sua direção a passos lentos, o que fez com que sua mãe se virasse e a olhasse.

- Tate, pelo amor de Deus, você parece que andou nadando com a roupa do corpo.

- Nadei mesmo. Temos problemas. Havia um barco. Eles estão escavando. Não houve nada que eu pudesse fazer para impedi-los.

- Calma - ordenou Ray, colocando ambas as mãos em seus ombros. - Onde você esteve?

- Fui até a nossa posição. Havia um barco por lá, uma embarcação enorme, um iate de luxo, totalmente equipado. Tinha equipamento para escavações de primeira classe. Eles estão trabalhando no Margarida. Vi a nuvem do airlift. - Ela parou por um segundo para respirar. - Temos que ir até lá. Eles estiveram a bordo do Aventura e do Demônio do Mar. As minhas anotações sumiram e muitos dos artefatos desapareceram. Sei que ele os pegou. Ele irá negar, mas eu sei.

- Quem?

Tate desviou o olhar de seu pai e voltou-se para Matthew.

- VanDyke. É Silas VanDyke.

Antes que ela pudesse falar novamente, Matthew a agarrou pelo braço e a virou para que o encarasse.

- Como você sabe?

- Seu mordomo o chamou pelo nome. - O medo que Tate experimentara a bordo do Triunfante não era nada comparado com a fúria assassina que brotava nos olhos do homem que amava. - Ele conhecia você. Sabia o que aconteceu com Buck. Disse... Matthew. - Um sobressalto fez sua voz estremecer enquanto o rapaz saía a passos largos pelo corredor. - Espera aí. - Ela conseguiu alcançá-lo e colocar-se na sua frente. - O que você vai fazer?

- O que devia ter feito há muito tempo. - Seus olhos estavam frios, vazios e ameaçadores. - Vou matá-lo.

- Pode ficar parado aí. - Embora Ray tivesse falado com calma, ele já havia segurado o braço de Matthew com uma força surpreendente. Tate reconheceu aquele tom de voz e soltou um pequeno suspiro de alívio. Pouca coisa ou nada conseguia passar pelo seu pai naquele estado. Nem mesmo uma fúria assassina. - Precisamos ter cuidado e juízo - prosseguiu. - É muito arriscado.

- Desta vez esse desgraçado não irá fugir.

- Nós vamos juntos. Maria, você e Tate esperem aqui. Matthew e eu vamos resolver essa situação.

- Não vou ficar esperando.

- Nenhuma de nós vai ficar aqui parada. - Maria se juntou à filha. - Isso é um trabalho de equipe, Ray. Se um vai, todos vão.

- Não tenho tempo para discussões familiares. - Matthew se soltou. - Eu vou agora. Você pode ficar por aqui e ver se consegue controlar suas mulheres.

- Seu ignorante...

- Tate. - Maria respirou fundo para manter a calma. - Vamos considerar as circunstâncias. - Ela desferiu um olhar para Matthew que poderia derreter aço. Quando falou novamente, o doce sotaque sulista de sua voz era imperceptível: - Você tem razão numa coisa, Matthew, estamos perdendo tempo. - com isso, ela seguiu na direção do elevador e apertou o botão para descer.

- Idiota - foi tudo o que Tate disse.

Quando estavam a bordo do Aventura, Tati se juntou a sua mãe na amurada. Ray e Matthew estavam na ponte de comando, pilotando o barco e, imaginava ela, discutindo uma estratégia. Aquilo era um insulto que fez o seu sangue ferver.

Mais amedrontada do que queria admitir, Maria se virou para a filha.

- Qual foi a sua impressão desse homem? Desse VanDyke?

- Ele é esperto. - Foi a primeira palavra que veio à mente de Tate. - E tem um quê de sordidez por trás do brilho. E é inteligente também. Sabia que não havia nada que eu pudesse fazer e se aproveitou disso.

- Ele a deixou apavorada?

- Ofereceu-me champanhe e um passeio de barco. É um excelente anfitrião. Foi razoável, até razoável demais. - Tate curvou-se sobre a amurada. - Sim, ele me apavorou. Dava para imaginá-lo como um imperador romano mordiscando uvas doces enquanto os leões retalhavam os cristãos. Ele gostaria de ver um show assim.

Maria segurou o arrepio. Afinal de contas, lembrou que sua filha estava ali, sã e salva. Mas colocou a mão no ombro de Tate por garantia.

- Você acredita que ele tenha assassinado o pai de Matthew?

- Matthew acredita nisso. Veja lá. - Ela levantou a mão e apontou. - Lá está o barco.

Na ponte de comando, Matthew estudou o Triunfante, Notou que era um barco novo, mais luxuoso do que a embarcação que usaram na Austrália. Até onde dava para ver, o convés estava deserto.

- Vou esmurrá-lo, Ray.

- Vamos dar um passo de cada vez.

- VanDyke já deu passos demais.

- Vamos saudá-los antes. - Ray manobrou o barco para que ficasse entre o Triunfante e o Demônio do Mar e desligou os motores.

- Leve as mulheres para a cabine de comando e deixe-as por lá. - Matthew pegou uma faca de mergulho.

- O que você vai fazer? - quis saber Ray. - Apertá-la entre os dentes e se balançar num cabo? Use a cabeça. - Na esperança de que o tom severo tivesse funcionado, ele deixou a ponte de comando. No convés, olhou para a esposa e a filha antes de seguir até a amurada.

- Chamem o Triunfante- gritou.

- Havia uma mulher - informou Tate. Os pêlos em seus braços e no pescoço começaram a se eriçar quando Matthew se juntou a elas. - Tripulação... marinheiros e um mordomo. Mergulhadores.

Agora o Triunfante se parecia com um navio fantasma, silencioso, exceto pelo bater dos toldos e das ondas se chocando contra o seu casco.

- Vou esmurrá-lo - disse Matthew novamente. Enquanto se preparava para mergulhar, VanDyke começou a passear pelo convés.

- Boa-tarde. - Sua bela voz era levada pelo mar. - Belo dia para velejar, não?

- Silas VanDyke.

Como se estivesse fazendo pose, VanDyke se inclinou sobre a amurada, com os tornozelos e os braços cruzados.

- Sim, isso mesmo. O que posso fazer por você?

- Sou Raymond Beaumont.

- Ah, é claro. - com um gesto galante, ele inclinou a aba do seu panamá. - Já conheci sua encantadora filha. É ótimo vê-la novamente, Tate. E você deve ser a Sra. Beaumont. - Silas se curvou levemente na direção de Maria. - Dá para ver de quem Tate herdou sua beleza juvenil e intrigante. E esse é o jovem Matthew Lassiter, não? Que interessante encontrá-lo por aqui.

- Já sabia que você era um assassino, VanDyke - gritou Matthew. - Mas não fazia idéia de que havia descambado para a pirataria.

- Você não mudou nada. - Os dentes de VanDyke reluziam. - Estou feliz. Seria uma pena se tivesse perdido essa rispidez. Convidaria todos vocês para subir a bordo, mas estamos bastante ocupados no momento. Talvez possamos combinar um pequeno banquete lá para o final da semana.

Antes que Matthew pudesse falar, Ray firmou a mão no seu braço, segurando-o.

- Obtivemos o direito de explorar o Santa Margarida antes de qualquer um. Nós o encontramos e estamos trabalhando nos destroços há algumas semanas. A papelada necessária foi obtida com o governo de Saint Kitts.

- Temo que não estejamos de acordo. - Elegantemente, Silas tirou um fino estojo de prata do bolso e pegou um cigarro. - Esteja à vontade para checar com as autoridades se achar necessário. É claro, estamos além do limite legal. E, quando chegamos, não havia ninguém por aqui. Apenas aquele barco vazio e infeliz.

- Meu parceiro foi seriamente ferido alguns dias atrás. Tivemos que interromper a escavação e adiá-la para depois.

- Ah. - VanDyke acendeu seu cigarro e, contemplativo, deu uma tragada. - Ouvi falar do acidente com o pobre Buck. Como deve estar sendo difícil para ele, para todos vocês. Sinto muito. No entanto, permanece o fato de que eu estou aqui e vocês não.

- Você tirou pertences dos nossos barcos - gritou Tate.

- Essa é uma acusação ridícula, a qual você terá muita dificuldade para provar. É claro, fique à vontade para tentar. - Ele fez uma pausa para observar e admirar um par de pelicanos em sua dança do céu para o mar e vice-versa. - Explorar tesouros é um negócio frustrante, não? - disse ele num tom cordial. - E normalmente envolve muito sofrimento. Dê os meus cumprimentos para o seu tio, Matthew. Espero que a má sorte que assola a sua família termine com você.

- Que se foda. - No momento em que Matthew saltou para a amurada, Tate deu um pulo para detê-lo. O rapaz mal havia se livrado dela quando Ray o empurrou para trás.

- Convés superior - murmurou. - Perto da proa.

Dois homens apareceram, cada um deles com um rifle nos ombros, fazendo mira.

- Creio que devo proteger minhas posses - explicou VanDyke. - Um homem na minha posição aprende que a segurança não é meramente um luxo, mas uma ferramenta empresarial vital. Raymond, estou certo de que você é um homem sensível, o bastante para impedir que o jovem Matthew se machuque por causa de umas bugigangas. - Bastante satisfeito com a situação, ele deu mais uma tragada no cigarro enquanto os pelicanos se estatelavam alegremente na água que os separava. - Ficaria arrasado se uma bala perdida o atingisse ou a uma das jóias preciosas que estão atrás de você. - Seu sorriso ficou ainda mais largo. - Matthew seria o primeiro a lhes dizer que acidentes trágicos acontecem.

Segurando na amurada, os dedos de Matthew estavam brancos como ossos. Tudo que havia dentro dele clamava para que corresse o risco e mergulhasse.

- Leve-as para dentro.

- Se ele atirar em você, como é que acha que Buck vai ficar? O sangue de Matthew lhe subiu à cabeça.

- Só preciso de dez segundos. De dez malditos segundos. - E de uma faca atravessando a garganta de VanDyke.

- Como é que Buck vai ficar?

- Você não vai pedir que eu me afaste do meu objetivo.

- Não, vou ordenar. - Medo e fúria ajudaram Ray a afastar Matthew à força da amurada. - A sua vida não vale isso. E com certeza as da minha filha e da minha mulher também não. Pegue o leme, Matthew. Vamos voltar para Saint Kitts.

Até mesmo pensar numa retirada o deixava mal. Se ele estivesse sozinho.,, Mas não estava. Sem dizer nada, virou-se abruptamente e Seguiu na direção da ponte de comando.

- Muito sábio da sua parte, Raymond - comentou VanDyke com um lampejo de admiração em sua voz. - Muito sábio. Temo que o garoto seja um pouco negligente, não tão sensível e maduro como nós que somos homens. Foi um prazer conhecer a todos. Sra. Beaumont, Tate. - Ele abaixou a aba do chapéu mais uma vez. - Boa partida.

- Oh, Ray. - Enquanto o barco dava meia-volta, Maria correu na direção do seu esposo com os joelhos bambos. - Eles iam nos matar.

Sentindo-se debilitado e impotente, Ray passou a mão no cabelo e ficou vendo a figura vistosa de VanDyke diminuindo a distância.

- Iremos às autoridades - disse ele calmamente.

Tate os deixou e correu para a ponte. Lá Matthew se agarrava ao leme, seguindo uma rota preestabelecida.

- Não havia nada que pudéssemos fazer - afirmou ela. Algo na postura do rapaz a alertou para que não o tocasse de maneira alguma. Ao ver que ele não dizia nada, Tate se aproximou ainda mais, mas manteve as mãos cruzadas. - Ele os mandaria atirar em você, Matthew. Ele queria isso. Vamos denunciá-lo assim que ancorarmos.

- Que porra você acha que isso vai adiantar? - Havia algo misturado com amargura na voz do rapaz. Algo que ela não reconheceu como vergonha. - O dinheiro fala mais alto.

- Seguimos todos os trâmites legais - insistiu Tate. - As atas...

Ele a interrompeu com um olhar veemente.

- Não seja estúpida. Não haverá ata nenhuma. Não haverá nada que ele não queira que haja. O desgraçado vai ficar com os destroços. Vai depredá-los e ficar com tudo. E eu deixei. Fiquei ali, do mesmo jeito que há nove anos, sem fazer nada.

- Não havia nada que você pudesse fazer. - Ignorando seus próprios instintos, ela colocou a mão nas costas do parceiro. - Matthew...

- Deixe-me em paz.

- Mas Matthew...

- Deixe-me sozinho, porra.

Magoada e desamparada, Tate fez o que ele pediu.

 

Aquela noite, ela se sentou sozinha em seu quarto. Imaginou que sentir-se estressada era isso. O dia havia sido uma sucessão de decepções, e terminou com o anúncio estremecido de seu pai de que não havia documento algum que provasse que eles tinham uma autorização. Nada da papelada que havia sido tão meticulosamente arquivada existia, e o escrevente com o qual Ray havia tratado pessoalmente negava tê-lo visto antes.

Não havia mais nenhuma dúvida de que Silas VanDyke havia vencido. Mais uma vez.

Tudo que eles fizeram, todo o trabalho, o sofrimento pelo qual Buck passou havia sido em vão. Pela primeira vez em sua vida, Tate tinha que encarar o fato de que estar certa e fazer as coisas da maneira correta nem sempre importava.

Ela pensou em todas as coisas lindas que teve nas mãos. A cruz de esmeraldas, a porcelana, os fragmentos de história que havia tirado debaixo do seu cobertor de areia e trazido à luz.

Ela jamais as tocaria novamente, as estudaria ou as veria cintilando por trás de uma vitrine num museu. Não haveria nenhum cartão discreto anunciando-as como peças da coleção BeaumontLassiter. Ela não veria o nome do seu pai na National Geographic nem as fotografias que ela mesma tirou naquelas páginas impressas em papel brilhante.

Tudo havia se perdido.

E era vergonhoso perceber o quanto ela queria aqueles momentos de glória. Imaginara que voltaria para a faculdade, impressionando seus professores e navegaria até a graduação numa onda de triunfo.

Ou simplesmente ficaria velejando com Matthew, seguindo pela corrente da sua vitória, rumo à próxima.

Mas agora não havia nada além do mais amargo fracasso.

Agitada demais para ficar em seu quarto, ela decidiu sair. Resolveu que iria andar pela praia. Tentar arejar a cabeça e fazer planos para o futuro.

Foi lá que o encontrou, em pé e voltado para o mar. Ele havia escolhido o mesmo lugar no qual ambos haviam desembarcado na ilha. Onde ela havia olhado, percebido que o rapaz a fitava e descoberto que o amava.

Seu coração se apertou de tristeza por causa dele e depois se acalmou. Pois agora estava segura do que iria fazer.

Tate caminhou até ficar ao lado dele, deixando que a brisa agitasse os seus cabelos.

- Lamento muito, Matthew.

- Isso não é novidade. A má sorte é a minha condição habitual.

- Teve a ver com embustes e roubos. Não com sorte.

- Sempre tem a ver com sorte. Se eu fosse menos azarado, teria chegado em VanDyke sozinho.

- E feito o quê? Abalroado o barco dele, o invadido, enfrentado sozinho sua tripulação armada?

Não importava agora o quão tolo ela fez aquilo tudo parecer.

- Eu teria feito alguma coisa.

- Teria levado um tiro - afirmou Tate. - Isso teria feito um bem danado a qualquer um de nós. Buck precisa de você. Matthew, eu preciso de você,

Ele curvou os ombros. Que defesa ridícula, pensou. Sentir-se necessário não lhe convinha,

- Vou ver Buck.

- Vamos vê-lo. Há outros destroços por aí, Matthew. Esperando. Quando ele estiver melhor, iremos encontrá-los, - Precisando fazer com que a esperança voltasse repentinamente, ela segurou as mãos do rapaz. - Ele até vai poder mergulhar novamente se quiser. Conversei com o Dr. Farrge. Estão fazendo coisas fantásticas com próteses. Poderemos levá-lo para Chicago na semana que vem. O especialista de lá fará com que se levante e ande o quanto antes.

- Certo. - Assim que descobrisse como pagar uma viagem para Chicago, um especialista, terapia.

- Quando ele receber alta, iremos para um lugar aconchegante onde Buck possa se recuperar. Isso nos dará tempo para pesquisar outro navio naufragado. O Isabela, se ainda for o que ele quiser. O que você quiser.

- Você não pode perder tempo pesquisando restos de navios naufragados na faculdade.

- Não Vou voltar para a faculdade.

- De que diabos você está falando?

- Não vou voltar. - Muito satisfeita com a sua decisão, ela jogou os braços em volta do pescoço de Matthew. - Não sei por que achava que precisava. Posso aprender tudo que preciso saber fazendo. Que diferença faz um diploma?

- Que estupidez, Tate. - Matthew levantou os braços para se livrar dos dela, mas a moça apertou seu corpo contra o dele.

- Não é não. É absolutamente lógico. Vou ficar com você e Buck em Chicago até decidirmos para onde ir. E depois iremos - e acrescentou, com os lábios encostados nos dele: - a qualquer parte. Contanto que fiquemos juntos. Você não vê, Matew, nós dois navegando para onde quisermos, quando quisermos, no Demônio do Mar!

- É. - O fato de que ele podia muito bem viver isso fez com que suas pernas ficassem bambas.

- Mamãe e papai irão se juntar a nós quando encontrarmos outro navio naufragado. E encontraremos um, melhor do que o Margarida. VanDyke não irá nos derrotar, Matthew, a não ser que deixemos.

- Ele já venceu.

- Não. - com os olhos fechados, Tate encostou o rosto contra o dele. - Porque estamos aqui, estamos juntos. E temos tudo pela frente. Ele quer o amuleto, mas não o possui. E sei, simplesmente sei que jamais o terá. Se vamos ou não encontrá-lo, Matthew, temos mais do que ele jamais poderá ter.

- Você está sonhando.

- E se estiver? - Ela se afastou e estava sorrindo novamente.

- Não é para isso que se fazem buscas a tesouros? Agora podemos sonhar juntos. Não ligarei caso jamais encontremos outro navio naufragado. Deixe que VanDyke fique com tudo, com cada um dos últimos dobrões. É você que eu quero.

Tate estava falando sério. Tal certeza fez com que Matthew ficasse tonto com a necessidade e amedrontado com a culpa. Bastava estalar os dedos que Tate o acompanharia para onde quer que ele fosse. Deixaria para trás tudo o que tivesse ou poderia ter.

E em breve Tate o detestaria quase tanto quanto ele odiava a si próprio.

- Parece que você não está pensando muito no que eu quero.

- A sua voz era fria enquanto tocava o queixo de Tate com as pontas dos dedos e lhe dava um beijo com desleixo.

- Não sei o que você está querendo dizer.

- Ouça, ruiva, minha vida virou um inferno. Trabalhei muito e vi o resultado do meu esforço escorrer pelos dedos. Isso já é uma merda, mas não é o pior que pode acontecer. Já estou sobrecarregado por ter que tomar conta de um aleijado. O que a faz pensar que vou tomar conta de você também?

O corte foi tão brusco e lancinante que ela mal o sentiu.

- Você não está falando sério. Ainda está magoado.

- Magoado é pouco. Se você e a sua família politicamente correta não tivessem se metido no nosso caminho, eu não estaria aqui com as mãos vazias. Ray teve que passar pelos canais competentes. Como diabos você acha que VanDyke nos localizou?

As maçãs do rosto de Tate se ruborizaram.

- Você não pode culpá-lo.

- O diabo que não posso. - Ele enfiou as mãos nos bolsos. - Eu e Buck agimos de maneira diferente. Mas vocês tinham a grana. Agora não temos mais nada. Tudo que me restou depois de meses de trabalho foi um tio claudicante.

- Isso é uma coisa horrível de se dizer.

- É fato - corrigiu Matthew, ignorando o desgosto que lhe descia pela garganta. - Vou levá-lo para se tratar em outro lugar. Eu lhe devo isso. Mas você e eu, ruiva, teremos outro tipo de problema. A fim de fazer passar o tempo durante algumas semanas, um pouco de diversão para quebrar a monotonia foi uma coisa. E foi divertido. Mas ter você pendurada no meu pescoço agora que o nosso acordo foi para o ralo... isso irá tolher a minha liberdade.

Ela se sentiu como se alguém a tivesse deixado oca com uma só cavucada. Matthew a olhava com um sorriso frouxo na boca e uma fria expressão de deleite nos olhos.

- Você está apaixonado por mim - insistia Tate.

- Está sonhando novamente. Ei, se você quiser inventar uma pequena fantasia romântica comigo no papel principal, tudo bem. Mas não espere que eu vá velejar ao pôr-do-sol.

Matthew resolveu que tinha que ser pior. Ele tinha que ser pior. Palavras por si só não iriam afastá-la, não a salvariam dele. Ao mesmo tempo que suas próprias atitudes o revoltavam, ele a segurou pelos quadris e a trouxe, intimamente, para mais perto de si.

- Não me importei em fazer o seu jogo, querida. Diabos, eu adorei cada minuto. Como as coisas acabaram tão mal, por que não tentamos alegrar um ao outro? Terminar tudo com uma transa de verdade.

Ele beijou Tate com sofreguidão. Não queria nada suave ou doce naquele beijo. Foi voraz, exigente e um pouco vil. Assim que ela começou a se debater, ele enfiou a mão por baixo da sua blusa e agarrou um dos seios.

- Não. - Aquilo estava errado, pensou Tate furiosamente. Não era para ser assim. Não podia ser assim. - Você está me Machucando.

- Vamos, meu bem. - Meu Deus, sua pele parecia feita de cetim. Queria acariciá-la, cheirá-la, seduzi-la. Em vez disso, ele a feriu, sabendo que quaisquer marcas que lá deixasse iriam sumir muito antes das que estava deixando em si mesmo. - Você sabe que ambos queremos isso.

- Não. - Soluçando, Tate o empurrou e o arranhou para se livrar. Num gesto de defesa, cruzou os braços bem apertados. - Não me toque.

- Só a estou provocando. - Ele forçou a barra para encarar seus olhos amedrontados. - É tudo conversa fiada e nada de ação, Tate?

Ela mal podia vê-lo por causa das lágrimas que caíam dos seus olhos.

- Você não liga nem um pouco para mim.

- É claro que ligo. - Matthew arfou e suspirou. - O que preciso para levar você para a cama? Poesia? Posso inventar alguns versos. É tímida demais para fazer aquilo na praia? Tudo bem. Eu tenho um quarto que o seu velho está pagando.

- Nenhum de nós significa nada para você. - Ei. Eu contribuí com a minha sorte.

- Eu amava você. Todos nós nos preocupamos.

Já estava usando o pretérito perfeito, pensou ele. Não era tão difícil matar o amor.

- Grande merda esse acordo. A parceria está dissolvida. Você e os seus pais que voltem para as suas vidas perfeitas e com tudo em ordem. Eu vou seguir com a minha. Agora você quer ficar pulando no colchão por um tempo ou será que eu devo encontrar uma outra pessoa?

Em parte ela se perguntava como ainda conseguia ficar em pé e falar, depois de ter seu coração partido por Matthew.

- Não quero vê-lo novamente. Quero que fique longe de mim e dos meus pais. Não quero que eles saibam o quanto você é falso.

- Não tem problema. Vá correndo para casa, garota. Tenho outros lugares para ir.

Ela disse a si mesma que iria sair dali de cabeça erguida. Mas, depois de alguns passos, fez exatamente o contrário do que pretendia. Tate fugiu com o coração em frangalhos, sangrando.

Depois que ela sumiu, Matthew se sentou na areia e apoiou a cabeça dolorida nos joelhos. Percebeu que havia concluído o primeiro gesto heróico da sua vida salvando a dela.

E enquanto a dor pulsava dentro de si, concluiu que não era talhado para ser herói.

 

Não consigo imaginar onde Matthew possa estar - disse Maria em voz baixa, queixando-se enquanto andava pelo corredor do hospital. - Não é do seu feitio deixar de visitar Buck. E especialmente hoje, quando estão transferindo-o para um quarto normal.

Tate encolheu os ombros. Mesmo magoada como estava, ela descobriu. Havia passado a noite inteira sem pegar no sono, condoendo-se por causa do seu coração partido, vertendo cada lágrima que havia dentro de si. Contudo, no fim das contas, havia recuperado o seu orgulho e agora se apoiava nele.

- Ele provavelmente encontrou uma maneira mais interessante de passar o dia.

- Bem, não é do seu feitio. - Maria levantou os olhos quando Ray saiu do quarto de Buck.

- Ele está se restabelecendo. - O sorriso benevolente da esposa pouco adiantou para apagar a inquietação que havia nos olhos de Ray. - Está um pouco cansado, não se sente à vontade para receber visitas. Matthew já chegou?

- Não. - Maria olhou para o corredor como se pudesse mandar o elevador abrir as portas e fazer com que Matthew saísse lá de dentro. - Ray, você já falou para ele sobre Silas VanDyke e o tesouro?

- Não tive coragem. - Cansado, Ray se sentou. Os últimos dez minutos com Buck haviam lhe tirado o vigor. - Acho que ele está começando a se dar conta de que perdeu a perna. Está furioso e amargurado. Nada do que eu disse parecia ajudar. Como poderia lhe dizer que todo o nosso esforço havia sido em vão?

- Isso pode esperar. - Sabendo que não havia muito mais que eles pudessem fazer, Maria se sentou ao seu lado. - Não comece a se culpar, Ray.

- Eu fico repassando esse momento na minha cabeça - murmurou ele. - Num instante estávamos voando. Éramos reis. Cinco Midas transformando tudo que tocávamos em ouro. E então veio o medo e o terror. Será que eu poderia ter feito alguma coisa, Maria, andado mais rápido? Não sei. Tudo aconteceu de repente. A Maldição de Angelique. - Ray levantou as mãos e as deixou cair. - Isso é o que Buck fica dizendo.

- Foi um acidente - insistiu Maria, embora um arrepio lhe tivesse percorrido. - Não tem nada a ver com maldições ou lendas. Você sabe disso, Ray.

- Sei que Buck perdeu a perna e que o sonho que estava nas pontas dos nossos dedos se transformou num pesadelo. Não há nada que possamos fazer em relação a isso. Isso é o pior de tudo. Não há nada que possamos fazer.

- Você precisa descansar. - Num só impulso, Maria se levantou e pegou o marido pelas mãos. - Todos precisamos. Vamos voltar para o hotel e tentar deixar isso de lado por algumas horas. Pela manhã, faremos tudo que precisa ser feito.

- Talvez você tenha razão.

- Vocês dois vão na frente. - Tate enfiou as mãos nos bolsos. A idéia de ficar sentada no seu quarto durante o resto da tarde estava longe de ser atraente. - Acho que vou dar uma caminhada, quem sabe me sentar na praia durante um tempo.

- Boa idéia. - Maria colocou um braço em volta dos ombros de Tate enquanto as duas andavam até os elevadores. - Vá pegar um pouco de sol. Todos nos sentiremos melhor depois de uma pequena pausa.

- Claro. - Tate conseguiu sorrir enquanto entrava com a mãe no elevador. Mas ela sabia que nada a faria se sentir melhor durante um bom tempo.

Assim que os Beaumont seguiram cada um para um lado, Matthew se sentou na sala do Dr. Farrge. Já naquele dia ele havia posto em prática algumas das decisões que havia tomado durante a noite. Decisões que ele achava que eram necessárias para todos.

- Preciso de você para entrar em contato com aquele médico do qual me falou, o de Chicago - disse Matthew. - Tenho que saber se ele vai tomar conta de Buck.

- Posso fazer isso por você, Sr. Lassiter.

- Fico grato. E preciso que calcule quanto que devo aqui, mais o que vou gastar para transferi-lo.

- Seu tio não possui seguro de saúde?

- Exatamente. - Matthew se recostou na cadeira. Era sempre humilhante dever mais do que se podia pagar. Ele duvidava que um caçador de tesouros profissional fosse um candidato em potencial para um empréstimo. - Darei o que eu tiver para você. Amanhã terei mais dinheiro. - Proveniente da venda do Demônio do Mar é da maior parte do equipamento. - Terei que fazer alguma espécie de crediário para pagar o resto. Fiz algumas ligações. Estou em vista de dois empregos. Sou bom nisso.

Farrge se recostou e esfregou um dedo na lateral do nariz.

- Estou certo de que podemos fazer uns arranjos. No seu país há alguns programas...

- Buck não ficará nas mãos da Previdência Social - interrompeu Matthew, com uma certa raiva na voz. - Não enquanto eu puder trabalhar. É só me dizer quanto vai ficar tudo. Deixa que eu resolvo.

- Como quiser. Sr. Lassiter, felizmente seu tio é um homem forte. Não tenho dúvidas de que irá se recuperar fisicamente. Ele poderia, de fato, voltar a mergulhar. Se quiser. Mas sua recuperação emocional e mental será mais lenta do que a física. Buck precisará do seu apoio. Você precisará de ajuda para...

- Deixa que eu resolvo - repetiu Matthew antes de se levantar. Naquele momento, ele não achava que poderia agüentar alguém falando de psiquiatras e assistentes sociais. - Do jeito que vejo a coisa, você salvou a vida dele, e lhe sou muito grato por isso. Mas agora tenho que tirá-lo daqui.

- É muita responsabilidade para assumir sozinho, Sr. Lassiter.

- As coisas mudam, não? - disse Matthew com frieza e indiferença. - Para o que der e vier, sou tudo o que ele tem.

Essa foi sua palavra final, pensou Matthew enquanto descia para o andar onde Buck estava. Ele era a única família que lhe restava. E os Lassiter, por mais que falhassem, pagavam as suas dívidas.

Bem, talvez ambos deixassem de pagar uma conta de bar ou outra quando as vacas estavam magras. E ele ficou conhecido por ter espoliado um ou dois turistas exagerando no preço e na história de um cachimbo de barro ou de um vaso quebrado. Se um idiota qualquer pagou uma quantia exorbitante por uma jarra de vinho estilhaçada, só porque um estranho alegou que ela pertenceu à coleção pessoal de Jean Lafitte, teve o que mereceu.

Mas havia questões de honra que não podiam ser abaladas. Por mais que fosse difícil, Buck era sua responsabilidade.

O tesouro havia desaparecido, pensou ele, enquanto esperava um instante no corredor, antes de entrar para ver Buck. O Demônio do Mar já era história. Tudo que lhe sobrava eram roupas, seu traje de mergulho, pés-de-pato, máscara e garrafas de ar.

Ele havia feito a venda de forma desleal. Tinha facilidade para persuadir alguém a comprar algo sem valor, pensou com um leve sorriso. O dinheiro no seu bolso os levaria a Chicago.

Depois disso... Bem, depois disso eles veriam.

Empurrou a porta do quarto de Buck e ficou aliviado ao ver que ele estava sozinho.

- Estava me perguntando se você viria. - Buck franziu a testa e segurou as lágrimas amargas que faziam os seus olhos arderem. - O mínimo que você podia fazer era ficar por perto enquanto eles ficaram me empurrando, cutucando e me levando para passear de cadeira de rodas por toda parte.

- Belo quarto. - Matthew olhou para a cortina que separava Buck do paciente da cama ao lado.

- É uma bosta. Não vou ficar aqui.

- Não por muito tempo. Vamos fazer uma viagem para Chicago.

- O que diabos há em Chicago para mim?

- Um médico que vai colocar uma perna nova em você.

 - Perna nova é o cacete. - A perna havia sumido e só havia aquela dor incômoda que servia para lembrá-lo que outrora ele ficava em pé que nem um homem. - Um pedaço de plástico com articulações.

- Podemos sempre amarrar uma perna de pau, se você quiser. - Matthew puxou uma cadeira dobrável para perto da cama e se sentou. Mal podia se lembrar da última vez em que realmente dormiu. Se conseguisse ficar acordado nas próximas duas horas, prometeu a si mesmo que iria apagar por outras oito. - Pensei que os Beaumont estavam por perto.

- Ray chegou a entrar. - Buck franziu as sobrancelhas e puxou o lençol. - Mandei-o pastar. Não preciso mais daquela sua fuça por aqui. Onde está a porra da enfermeira? - Buck ficou apalpando até encontrar o botão para chamá-la. - Estão sempre por perto quando você não precisa delas. Enfiando agulhas em você. Quero minhas pílulas - rosnou no instante em que a enfermeira entrou. - Estou com dor aqui.

- Depois da sua refeição, Sr. Lassiter - disse ela pacientemente. - Seu jantar estará chegando daqui a alguns instantes.

- Não quero mais comer aquela maldita lavagem.

Quanto mais ela tentava apaziguar as coisas, mais alto ele gritava, até que a moça saiu do quarto a passos largos, com os olhos vermelhos.

- Boa maneira de fazer amigos, Buck - comentou Matthew.

- Sabe, se eu fosse você, teria um pouco mais de cuidado com uma mulher que pode voltar até onde estou com uma agulha de quinze centímetros.

- Você não é que nem eu, certo? Tem duas pernas.

- É. -A culpa corroía as suas vísceras. - Tenho duas pernas.

- Grandes coisas que o tesouro vai poder fazer comigo agora - murmurou Buck. - Finalmente consegui todo o dinheiro que um homem poderia desejar, e ele não pode me deixar inteiro novamente. O que vou fazer? Comprar um barco enorme e ficar circulando dentro dele em uma cadeira de rodas? Isso é a Maldição de Angelique. Aquela feiticeira filha-da-mãe dá as coisas com uma mão e arranca o melhor que você tem com a outra.

- Não encontramos o amuleto.

- Está lá embaixo. com certeza está lá embaixo. - Os olhos de Buck começaram a luzir de amargura e ódio. - Ela nem mesmo teve a benevolência de me matar. Melhor se o tivesse feito. Não passo de um aleijado. Um mutilado rico.

- Você pode ser um aleijado se quiser - disse Matthew, aborrecido. - Isso depende dos seus esforços. Mas não vai ficar rico. VanDyke já cuidou disso.

- De que diabos você está falando? -A cor que a fúria havia bombeado para as faces de Buck se esvaiu como água. - O que tem VanDyke?

Faça isso agora, ordenou Matthew para si mesmo. Tudo de uma vez.

- Ele passou por cima dos nossos direitos. E ficou com tudo.

- Os destroços são nossos. Eu e Ray chegamos até a registrá-los.

- Engraçado você dizer isso. A única papelada que conseguiram encontrar foi a de VanDyke. Tudo que ele teve que fazer foi subornar um ou dois oficiais do cartório.

Perder tudo era impensável. Sem a sua parte do tesouro ele não seria apenas um aleijado, seria um paralítico desamparado.

- Você precisa detê-lo.

- Como? - disse Matthew em voz alta, segurando os ombros de Buck com força para que ele ficasse sentado na cama. - O sujeito possui uma tripulação inteira, armada. Estão trabalhando dia e noite. Posso garantir que já transportou o que trouxe à tona e o que roubou do Demônio do Mar e do Aventura.

- Você vai simplesmente deixar que ele fuja com tudo? - Estimulado pelo desespero, Buck agarrou Matthew pela camisa. - Vai simplesmente dar as costas e abandonar o que é nosso? Aquilo custou a minha perna.

- Sei o que custou a você. Mas é isso mesmo, estou abandonando. Não vou morrer por causa de um navio naufragado.

- Nunca pensei que você fosse virar um covarde. - Buck o soltou e virou a cara. - Se eu não estivesse aqui acamado...

Se você não estivesse aí acamado, pensou Matthew, eu não teria que abandonar nada.

- Parece que seria melhor se você se esforçasse para levantar e sair daí, a fim de que possa fazer as coisas do seu jeito. Enquanto isso, sou eu que estou mandando, e vamos para Chicago.

- Como diabos vamos chegar lá? Não temos nada. - Inconscientemente, ele se abaixou até onde sua perna devia estar. - Menos do que nada.

- O Demônio do Mar, o equipamento e algumas bugigangas renderam mil e tantos.

Branco que nem uma vela, Buck virou de frente.

- Você vendeu o barco? Que direito você tinha de vender o barco? O Demônio do Mar pertencia a mim, garoto.

- Era metade meu - disse Matthew, encolhendo os ombros. Quando vendi a minha parte, a sua foi junto. Estou fazendo o que deve ser feito.

- Fugindo - disse Buck enquanto virava novamente a cabeça. - E se vendendo.

- Isso mesmo. Agora estou indo comprar duas passagens para Chicago.

- Eu não vou para Chicago.

- Você irá para onde eu mandar. É assim que as coisas vão ser.

- Bem, estou mandando você ir para o inferno.

- Contanto que passemos por Chicago antes - disse Matthew antes de sair.

O buraco, como Matthew logo percebeu, era muito mais embaixo do que ele imaginara. Engolir o orgulho deixou sua garganta esfolada. Ele a aliviou com uma cerveja gelada enquanto esperava Ray no saguão do hotel.

Sua vida, reconheceu, não podia ficar pior. O engraçado é que, há alguns meses, ele praticamente não tinha nada. Um barco que já tivera dias melhores, um pouco de dinheiro numa lata, nada de planos ou problemas urgentes. Olhando para trás, supunha que já havia sido feliz o bastante.

Então, de repente, eis que ele passou a ter coisas demais. Uma mulher que o amava, a perspectiva de fama e fortuna. O sucesso, do tipo que jamais poderia acreditar que alcançaria, esteve por um breve período do seu lado. A vingança, com a qual vinha sonhando há nove anos, esteve quase ao seu alcance.

Agora ele havia perdido tudo; a mulher, as perspectivas e até mesmo os fragmentos de nada que outrora considerava como mais do que suficiente. Era muito mais difícil perder, uma vez que se havia vencido.

- Matthew.

Ele levantou os olhos na altura dos ombros. Ray se sentou no banquinho ao seu lado.

- Obrigado por ter vindo.

- Fico feliz. Vou tomar uma cerveja - disse para o garçom. - Outra para você, Matthew?

- Sim, por que não? - Era apenas o começo do que Matthew planejou para ser uma longa noite de bebedeira.

- Temos andado distantes um do outro nos últimos dias - afirmou Ray antes de bater de leve com sua garrafa na de Matthew, que estava mais gelada. - Ficávamos imaginando que iríamos dar de cara com você no hospital. Embora não tivéssemos ido tantas vezes até lá quanto queríamos. Buck não está muito sociável.

- Não mesmo. - Matthew levou o gargalo da garrafa aos lábios, deixando a cerveja gelada descer pela sua garganta. - Não está falando nem comigo.

- Lamento, Matthew. Ele está errado em descarregar tudo em cima de você. Não havia nada que você pudesse ter feito.

- Não sei o que está sendo mais difícil para ele. A perna ou o Margarida. - Matthew moveu um ombro. - Acho que isso não importa.

- Ele vai mergulhar novamente - afirmou Ray enquanto passava as pontas dos dedos na umidade da garrafa. - O Dr. Farrge me disse que ele está se recuperando muito rápido para a sua condição.

- Esta é uma das coisas sobre as quais eu gostaria de falar com você. - Não havia mais motivos para protelar as coisas, lembrou-se Matthew. Ele teria preferido encher a cara antes, mas aquele pequeno prazer teria que esperar. - Estou com a autorização para levá-lo a Chicago. Amanhã.

- Amanhã? - Dividido entre o prazer e o susto, Ray largou sua cerveja com um baque. - Foi muito rápido. Não tinha a menor idéia de que as providências já haviam sido tomadas.

- Farrge diz que não há motivo algum para adiarmos mais. Ele já está forte o suficiente para fazer a viagem e, quanto mais cedo estiver com esse especialista, melhor.

- Isso é ótimo, Matthew. Mesmo. Você vai manter contato, não vai? Deixe-nos a par do seu progresso. Maria e eu faremos uma viagem para vê-lo assim que você achar que ele está preparado para tal.

- Você é... você é o melhor amigo que ele já teve - disse Matthew com cuidado. - Significaria muito se pudesse vir visitá-lo quando puder. Sei que está sendo difícil lidar com ele agora, mas...

- Não se preocupe com isso - disse Ray calmamente. - Um homem que tem a sorte de fazer esse tipo de amizade não vai jogála fora porque o momento está difícil. Nós iremos, Matthew. Apesar de tudo, Tate decidiu que vai começar a faculdade em setembro. Mas estou certo de que ela irá querer nos acompanhar na sua primeira folga.

- Ela vai voltar para a faculdade em setembro - murmurou Matthew.

- Sim, Maria e eu estamos felizes por ela ter decidido não adiar seu retorno. Minha filha anda tão mal por causa de tudo que aconteceu que não dá para pensar em nada melhor do que fazê-la voltar para a rotina. Sei que ela não vem dormindo bem. Tate é jovem demais para encarar tudo o que encaramos nesses últimos dias. Concentrar-se nos seus estudos é o melhor que ela faz.

- É. Você tem razão.

- Não quero me intrometer, Matthew. Mas tenho a impressão de que você e Tate tiveram alguma espécie de divergência.

- Não foi nada de mais. - Matthew fez um sinal e pediu outra cerveja. - Ela vai ficar bem.

- Não tenho dúvidas. Tate é uma menina sensível e que tem muita força de vontade. - Ray franziu as sobrancelhas enquanto olhava para os círculos de umidade que sua garrafa deixou no bar. Anéis dentro de anéis, pensou ele. - Matthew, eu não sou cego. Sei que vocês dois estavam começando a se envolver.

- Rimos algumas vezes - interrompeu Matthew. - Nada de mais. - Ele olhou para Ray e respondeu à pergunta que não havia sido feita. - Não houve nada de mais - repetiu.

Aliviado, Ray acenou com a cabeça.

- Esperava poder contar com vocês para que fossem responsáveis. Sei que ela não é mais uma criança, mas um pai ainda se preocupa com esse tipo de coisa.

- E você não ia querer que ela se envolvesse com alguém como eu.

Ray levantou o olhar e percebeu uma frieza e um menosprezo em Matthew que o surpreendeu.

- Não, Matthew. Ficaria triste, nessa altura de sua vida, de vêla envolvida seriamente com alguém. com a motivação adequada, Tate jogaria para o espaço tudo que ela esperara realizar. Sinto-me grato por ela não estar fazendo isso.

- Ótimo. Excelente.

Ray deu um longo suspiro. Algo que ele nem sequer considerara antes havia saltado para fora e o atingido em cheio no rosto.

- Se Tate soubesse que você estava apaixonado, ela não estaria voltando para a Carolina do Norte.

- Não sei do que você está falando. Já lhe disse que só demos algumas gargalhadas. - Mas a compaixão nos olhos de Ray fez com que ele se virasse e colocasse as mãos na cabeça. - Merda. O que eu devia ter feito? Pedir que ela fizesse as malas e viesse comigo?

- Poderia ter feito isso - disse Ray calmamente.

- Não tenho nada para ela, a não ser momentos ruins e uma sorte pior ainda. Assim que levar Buck para Chicago, vou pegar um trabalho num barco de resgate na costa da Nova Escócia. As condições são péssimas, mas o pagamento é decente.

- Matthew...

Mas ele balançou a cabeça.

- O negócio, Ray, é que não vai ser o bastante em termos financeiros. Especialmente no começo. Posso muito bem me virar por aqui. Mas, nos Estados Unidos, com um médico e um tratamento de alto nível, será outra história. Farrge fez o que pôde para que nos dessem um desconto. Buck é meio que uma experiência - acrescentou com um sorriso de desdém. - E estão falando sobre Previdência Social, Medicaid, Medicare, um negócio desses. Mesmo assim... - Ele engoliu mais cerveja junto com o seu orgulho. - Preciso de dinheiro, Ray. Não há mais ninguém a quem eu possa recorrer, e devo dizer que não me é muito confortável ter que lhe pedir isso.

- Buck é meu parceiro, Matthew. E meu amigo.

- Foi o seu parceiro - corrigiu Matthew. - De qualquer maneira, preciso de dez mil.

- Tudo bem.

O tom suave o cortou que nem uma espada atravessando a garganta do seu orgulho.

- Não precisava concordar tão rápido. Maldição.

- Será que iria ajudar se eu o fizesse implorar? Se definisse termos e condições?

- Não sei. - Matthew segurou firme sua garrafa, contendo-se para não arremessá-la longe e ouvi-la se estilhaçando. Assim como o seu orgulho. - Vai demorar algum tempo para que eu consiga pagar essa dívida. Mas eu o farei - disse para si mesmo antes que Ray pudesse falar. - Preciso do suficiente para que Buck possa fazer a operação, a terapia e a prótese. E ele vai precisar de um lugar para morar depois. Mas eu tenho um trabalho e, quando ele terminar, irei atrás de outro.

- Sei que você tem condições de arrumar dinheiro, Matthew, da mesma forma que sabe que não precisa me pagar.

- Mas eu pagarei.

- Sim, eu entendo. Vou preencher um cheque com a condição de que você me deixe a par dos progressos de Buck.

- Vou aceitar o cheque. com a condição de que isso fique entre nós dois. Só nós dois, Ray. Isso é tudo.

- Em outras palavras, você não quer que Buck saiba. E não quer que Tate saiba.

- Isso mesmo.

- Você está sendo muito exigente consigo mesmo, Matthew.

- Talvez, mas é assim que eu quero.

- Tudo bem. - Se isso era tudo que podia fazer, ele o faria conforme lhe foi pedido. - Vou deixar o cheque para você na recepção.

- Obrigado, Ray. - Matthew estendeu a mão. - Por tudo. Na maior parte do tempo este foi um verão sensacional.

- Na maior parte do tempo foi. Haverá outros verões, Matthew. Outros navios naufragados. Chegará o momento em que iremos mergulhar juntos novamente. O Isabela ainda está lá no fundo.

- Com a Maldição de Angelique. - Matthew balançou a cabeça. - Não, obrigado. Ela custa muito caro, Ray. Do jeito que estou me sentindo agora, prefiro deixá-la para os peixes.

- O tempo irá dizer. Tenha juízo, Matthew.

- É. Diga... diga a Maria que vou sentir falta da sua comida.

- Ela irá sentir a sua falta. Todos iremos. E Tate? Há alguma coisa que você quer que eu diga para ela?

Havia muito para lhe dizer. E ao mesmo tempo nada. Matthew apenas balançou a cabeça.

Sozinho no bar, Matthew empurrou sua cerveja para o lado.

- Uísque - disse para o garçom. - E traga a garrafa.

Era a sua última noite na ilha. Ele não conseguia pensar num bom motivo para passá-la sóbrio.

 

Havia vinte e sete membros na tripulação do Nômade. Tate  estava feliz por ser um deles. Ela precisou passar cinco anos inteiros estudando e trabalhando para obter seu diploma de mestrado em arqueologia marinha. Os amigos e a família demonstraram freqüentemente a sua preocupação, pedindo que diminuísse o ritmo. Mas o tal diploma havia sido a única meta que ela sentia que estava sob o seu controle.

Tate conseguiu. E nos três anos que se seguiram, ela o usou. Agora, através da sua associação com o Instituto Poseidon e do seu trabalho com a SeaSearch a bordo do Nômade, estava dando o passo seguinte em busca do seu doutorado e da sua reputação.

O melhor de tudo era que ela estava fazendo o que mais amava.

A expedição visava, ao mesmo tempo, progressos científicos e a obtenção de lucros. Na cabeça de Tate, esse era o único grau de prioridade lógico e apropriado,

Os alojamentos da tripulação deixavam um pouco a desejar, mas os laboratórios e o equipamento eram de última linha. O velho navio de carga havia sido meticulosamente reaparelhado para explorar e escavar o fundo do mar. Talvez ele fosse lento e pecasse pela aparência como embarcação, cismou Tate, mas ela aprendera há muito tempo que uma camada externa atraente não significava nada em comparação com o que havia no interior.

Um verão de sonhos ingênuos havia lhe ensinado isso e muito mais.

O Nômade era muito grande por dentro. Estava repleto de cientistas e técnicos de primeira linha no campo da pesquisa oceânica.

E ela era um deles.

Ninguém poderia imaginar que o dia seria tão lindo. As águas do Pacífico brilhavam como uma jóia azulada. E lá embaixo, a braças de profundidade, onde a luz não chegava e o homem jamais conseguiria se aventurar, estava o vapor Justine e seu tesouro sem dono

Sentada numa cadeira no convés, Tate estava com o laptop apoiado nos joelhos enquanto terminava de escrever uma carta para os pais.

Nós o encontraremos. O equipamento deste navio é tão sofisticado quanto todos os que já vi. Dart e Bowers mal podem esperar para pôr seu robô para funcionar. Nós o apelidamos de ”Cantador”. Não sei bem por quê. Mas estamos pondo bastante fé no sujeitinho. Até encontrarmos o Justine e começarmos a escavar, minhas tarefas são fáceis. Todos estão trabalhando intensamente, mas por enquanto há muito tempo livre. E a comida, mamãe, é incrível. Estamos esperando um avião com suprimentos para hoje. Consegui algumas receitas com o cozinheiro, mas você terá que diminuir a dosagem dos ingredientes, pois elas servem para alimentar quase trinta pessoas.

Depois de quase um mês no mar, já houve algumas brigas. Do mesmo jeito que acontece em família, nos atacamos, brigamos e fazemos as pazes. Rolam até alguns romances. Acho que já lhes falei de Lorraine Ross, a química que divide a cabine comigo. O assistente de cozinha, George, está apaixonado por ela. É bem doce o que rola entre eles. Outros flertes são mais para passar o tempo, creio, e irão cessar assim que o trabalho de verdade começar.

Por enquanto, o tempo está do nosso lado. Fico imaginando como ele está por aí. Imagino que as azaléias irão florescer daqui a algumas semanas, junto com as magnólias. Sinto saudade delas e de vocês dois também. Sei que irão partir para a Jamaica em breve, por isso espero que esta carta os encontre antes do barco partir. Talvez possamos combinar de nos encontrarmos no outono. Se tudo der certo, minha dissertação estará completa. Seria divertido mergulhar um pouco na volta para casa.

Entretanto, preciso voltar ao trabalho. Hayden certamente virá ver os mapas novamente e estou certa de que precisará de uma pequena ajuda. Não teremos envios de correspondência até o final da semana, por isso esta mensagem não sairá daqui até lá. Escrevam de volta, o.k.? Cartas são que nem ouro por aqui. Eu amo vocês.

Tate

 

Tate percebeu que não havia mencionado o tédio, enquanto levava o laptop de volta para a cabine que dividia com Lorraine. E nem a solidão específica que podia vir sem aviso quando se está cercada por milhas e mais milhas de água. Tate sabia que grande parte da tripulação estava começando a perder as esperanças. Grandes quantidades de tempo, dinheiro e energia haviam sido investidos nessa expedição. Se falhassem, perderiam seus patrocinadores, sua parte no tesouro e, talvez o mais importante, sua chance de fazer história.

Assim que adentrou a cabine apertada, Tate automaticamente recolheu os shorts e as camisetas que estavam espalhados pelo chão. Lorraine podia ser uma cientista brilhante, mas fora do laboratório era tão desorganizada quanto uma adolescente. Tate empilhou as roupas em cima da cama desarrumada de Lorraine enquanto seu nariz se contraía com o perfume almiscarado que empesteava o ar.

Sua colega, concluiu Tate, estava determinada a enlouquecer o pobre George.

Ela ainda ficava estupefata e se divertia ao pensar em como ambas conseguiram ficar amigas. com certeza, não havia duas mulheres mais diferentes uma da outra. Onde Tate era limpa e meticulosa, Lorraine era descuidada e confusa. Tate era compulsiva, Lorraine era preguiçosa, de um jeito em que não era preciso fazer nenhuma apologia. Ao longo dos anos, desde a faculdade, Tate havia vivenciado uma relação séria que acabara amigavelmente enquanto sua colega de quarto passou por dois horríveis divórcios e inúmeros casos passageiros.

Lorraine era uma mulher pequena, parecida com uma fada, com um corpo cheio de curvas e um halo de cabelo dourado. Ela jamais acendia um bico de Bunsen, a não ser que estivesse totalmente maquiada e usando os acessórios apropriados.

Tate era alta, magra e havia apenas recentemente deixado seu cabelo liso e ruivo crescer até os ombros. Raramente se importava em usar maquiagem e era forçada a concordar com a afirmativa de Lorraine de que era avessa à moda.

 Ela sequer pensou em dar uma olhada no espelho enorme que Lorraine havia pendurado na porta atrás da cabeceira antes de sair da cabine.

Virando à esquerda, Tate seguiu pelas escadas de metal que a levariam para o convés seguinte. A algazarra e as respirações ofegantes vindas de cima a fizeram sorrir.

- Oi, Dart.

- Oi. - Dart parou com o rosto corado na base das escadas. Ao contrário do que poderia induzir seu nome (que significava dardo, ferrão), ele era tudo, menos magro e cortante. Atarracado, levemente arredondado em todas as extremidades do seu corpo, o sujeito se parecia com um são-bernardo acima do peso. Seu cabelo fino, da cor da areia, caía sobre os olhos castanhos e nada maliciosos. Quando sorria, Dart acrescentava outro queixo aos dois que ele habitualmente carregava. - Como vão as coisas?

- Devagar. Estava subindo para ver se Hayden precisa de alguma ajuda.

- Acho que ele está lá em cima, mergulhado nos livros. - Dart jogou novamente o cabelo para trás. - Bowers acabou de me substituir no Marco Zero, mas volto daqui a alguns minutos.

O interesse de Tate aumentou bastante.

- Algo interessante na tela?

- Não ojustine. Mas Litz está lá em cima tendo orgasmos múltiplos. - Dart se referiu ao biólogo marinho com um encolher de ombros. - Há várias criaturas interessantes quando você desce abaixo de seiscentos e dez metros. Um bando de caranguejos de íàto o inocenta.

- Esse é o trabalho dele - afirmou Tate, embora concordasse. Ninguém gostava do frio, e por isso exigiram Frank Litz.

- Isso não faz dele menos do que um verme. Até logo.

- O.k. - Tate seguiu na direção da sala de trabalho do Dr. Hayden Deel. Dois computadores estavam zumbindo. Uma mesa longa aparafusada no chão estava coberta de livros abertos, anotações, cópias de diários de bordo e manifestos. E mais livros segurando mapas para que estes permanecessem abertos.

Curvado sobre tudo aquilo e olhando através de óculos escuros com armações de tartaruga, Hayden fazia novos cálculos. Tate sabia que ele era um cientista brilhante. Havia lido seus ensaios, aplaudido suas conferências, estudado seus documentários. Era uma bênção, pensou ela, o fato de ele ser um homem tão gentil.

Tate sabia que ele tinha mais ou menos quarenta anos. Seu cabelo castanho-escuro estava salpicado de fios grisalhos e tendia a ficar encaracolado. Por trás das lentes, seus olhos tinham a cor do mel e quase sempre estavam distraídos. Havia linhas de expressão que enfatizavam seu caráter, em volta de seus olhos e em sua testa. Ele era alto, tinha ombros largos e era apenas um pouco desajeitado. Como de costume, sua camisa estava toda amarrotada.

Tate achava que ele lembrava um pouco Clark Kent se aproximando da meia-idade.

- Hayden?

Ele grunhiu. Como era mais do que esperado, Tate se sentou bem a sua frente, do outro lado da mesa, cruzou os braços e esperou até que ele terminasse de resmungar sozinho.

- Hayden? - repetiu ela.

- Há? O quê? - Pestanejando que nem uma coruja, ele levantou os olhos. Seu rosto ficava calmo e encantador quando sorria. - Oi. Não ouvi você entrando. Estou recalculando nossa direção. Acho que estamos fora da rota, Tate.

- Oh, quanto?

- Daqui não me parece muito. Decidi começar tudo de novo. - Como se estivesse se preparando para uma de suas concorridas palestras, juntou papéis e cruzou as mãos sobre eles.

- O vapor Justine deixou San Francisco na manhã de 8 de junho de 1857, rumo ao Equador. Levava cento e noventa e oito passageiros e uma tripulação de sessenta e um integrantes. Além dos pertences dos passageiros, ele carregava vinte milhões de dólares em ouro. Barras e moedas.

- Era uma época de prosperidade na Califórnia - murmurou Tate, Ela havia lido os manifestos. Mesmo para uma mulher que havia passado a maior parte da vida estudando e mergulhando em busca de tesouros, aquilo a havia deixado espantada.

- Ele pegou essa rota - continuou Hayden, apertando teclas para que os gráficos no monitor espelhassem a jornada do navio condenado rumo ao sul através do Pacífico. - Parou num porto em Guadalajara, alguns passageiros desceram e outros embarcaram. E partiu no dia 19 de junho, com duzentos e dois passageiros.

Ele ficou examinando cópias de antigos clippings com recortes de jornais.

- Era um navio radiante - citou -, e o clima era de comemoração. O tempo estava calmo e morno, o céu claro como vidro.

- Calmo demais - disse Tate, imaginando o clima de esperança em seu interior. Homens e mulheres elegantemente vestidos desfilavam nos conveses. Crianças riam, quem sabe olhando para o fmar, a fim de vislumbrar um golfinho saltando ou uma baleia esguichando

- Um dos sobreviventes notou o pôr-do-sol cintilante, de uma beleza quase impossível, na noite de 21 de junho - prosseguiu Hayden. - O ar estava parado e bastante pesado. Quente. A maioria alegou que isso se devia à proximidade do Equador.

- Mas o capitão teria percebido.

- Teria ou deveria ter. - Hayden mexeu os ombros. - Nem ele nem o diário de bordo sobreviveram. Mas, à meia-noite, depois daquele lindo poente, os ventos... e as ondas... vieram. Sua rota e velocidade o colocaram aqui. - Ele levou o Justine gerado por computador para o sul e para o oeste. - Temos que presumir que ele teria seguido rumo à terra firme, para a Costa Rica de acordo com a maior parte dos relatos, na esperança de que pudesse sobreviver. Mas com ondas de quinze metros batendo no casco, não havia muita chance.

- Ao longo de toda aquela noite e durante o dia seguinte eles lutaram contra a tempestade - acrescentou Tate. - Passageiros amedrontados, crianças chorando. Mal dava para diferenciar o dia da noite ou ouvir suas próprias orações. Fosse alguém bravo ou apavorado demais para olhar, tudo o que se via era muralha atrás de muralha de água.

- Lá pela noite do dia 22, o Justine começou a se despedaçar - continuou Hayden. - Não havia mais esperança de salvá-lo ou de alcançar a terra firme. Por isso, colocaram as mulheres, as crianças e os feridos nos barcos salva-vidas.

- Maridos se despedindo de suas esposas - disse Tate suavemente. - Pais segurando seus filhos pela última vez. E todos sabendo que seria necessário um milagre para que qualquer um deles sobrevivesse.

- Só quinze conseguiram se salvar. - Hayden coçou o rosto. Um dos barcos salva-vidas conseguiu levar a melhor sobre o furacão. Se não tivessem conseguido, não teríamos nem essas pequenas pistas de onde encontrá-lo. - Ele levantou a cabeça e notou, alarmado, que os olhos de Tate estavam marejados. - Foi há muito tempo, Tate.

- Eu sei. - Desconcertada, ela piscou os olhos e secou as lágrimas. - É tão fácil ver a situação, imaginar o que eles passaram, o que sentiram.

- Para você é. - Ele esticou o braço e bateu de leve e desajeitado na mão de Tate. - Isso é o que faz de você uma boa cientista. Todos sabemos como calcular fatos e teorias. A muitos de nós falta imaginação.

Ele gostaria de ter um lenço para lhe dar. Ou, melhor ainda, a coragem para enxugar aquela única lágrima que havia escapado e descido pelo rosto da colega. Em vez disso, Hayden pigarreou e voltou para os seus cálculos.

- Vou sugerir para que desviemos dez graus ao sul, sudoeste.

- Oh, por quê?

Feliz por ela ter perguntado, Hayden começou a explicar.

Tate se levantou e ficou atrás dele para ver os monitores e as anotações rabiscadas às pressas. De vez em quando ela se apoiava nos ombros de Hayden ou se inclinava mais no intuito de enxergar melhor ou de fazer uma pergunta.

Cada vez que ela o fazia, o coração do cientista balançava. Ele ficava se chamando de idiota, de tolo de meia-idade, mas isso não desatava o nó.

Dava para sentir o cheiro dela - da pele e do sabonete. Cada vez que Tate ria daquele jeito sutil, sexy e descontraído, sua mente se nublava. Ele amava tudo na colega, sua cabeça, seu coração e, quando se deixava fantasiar, seu corpo maravilhosamente esbelto e gracioso. Sua voz era que nem mel caindo sobre açúcar mascavo.

- Você ouviu isso?

Como ele poderia ouvir algo além daquela voz na qual estava quase nadando.

- O quê?

- Isso. - Ela apontou para cima, na direção de onde vinha um som de motores. Eram aviões, percebeu Tate, e sorriu. – Deve ser a comida descendo de pára-quedas. Levante-se daí, Hayden. Vamos lá para o topo, pegar um pouco de sol e ficar observando-os.

- Bem, eu ainda não acabei o meu...

- Vamos. - Rindo, ela pegou a mão dele e o obrigou a se levantar. - Você parece uma toupeira aqui dentro. Só alguns minutos no convés.

Ele a acompanhou, é claro, e se sentia uma toupeira atrás de uma borboleta. Tate tinha as pernas mais lindas que já vira. Sabia que não devia ficar olhando-as, mas elas eram da cor do alabastro. E havia aquela sarda pequena e encantadora bem acima da parte de trás do seu joelho direito.

Era lá que Hayden gostaria de colocar a boca. Quando pensava em fazer isso ou em talvez ser convidado para tal, sua cabeça flutuava.

Ele se amaldiçoava por ser tão idiota e ficava lembrando a si mesmo que era treze anos mais velho. Tinha responsabilidades perante ela e a expedição.

Tate estava a bordo do Nômade por ele ter concordado com a recomendação que havia vindo direto da Trident através da Poseidon. Ficara feliz por isso. Afinal de contas, ela vinha sendo sua melhor e mais brilhante aluna.

Não era maravilhoso o jeito com que o sol dourava o fulgor do seu cabelo?

- Lá vem mais um! - gritou e aplaudiu Tate junto com os outros membros da tripulação que haviam se juntado enquanto o pacote seguinte caía perto da popa.

- Hoje à noite iremos comer que nem reis. - Lorraine, com seu corpo pequeno e magnífico enfiado num corpete e short igualmente apertados, inclinava-se sobre a amurada. Mais embaixo, parte da tripulação embarcava num escaler. - Não deixem nada para trás, rapazes. Pedi que me mandassem um Fume Blanc, Tate. - Ela pestanejou e depois se virou para piscar os cílios dourados na direção de ”ayden. - Doutor, onde vocês dois andaram escondidos?

- Hayden estava fazendo novos cálculos. - Tate se inclinou sobre a amurada para gritar palavras de incentivo enquanto o escaler saía para recolher os suprimentos. - Espero que tenham se lembrado do chocolate.

- Você só come doces porque é reprimida.

- E você está com ciúmes porque os M&M’s vão direto para as suas coxas.

Lorraine franziu os lábios.

- Minhas coxas são maravilhosas. - E passou a ponta de um dos dedos por uma delas, enquanto olhava furtivamente para Hayden. - Não são, doutor?

- Deixe Hayden em paz - disse Tate, e depois gritou quando foi pega por trás.

- Intervalo. - Bowers, forte e vigoroso, a levantou. Enquanto outros aplaudiam, Bowers se lançava contra um dos cabos que eles haviam preparado. - Agora vamos nadar, minha doçura.

- Vou matar você, Bowers. - Ela sabia que seu especialista em robótica e informática, acima de tudo, gostava de brincar. Ainda rindo, Tate ficou lutando sem forças. - Dessa vez estou falando sério.

- Ela é louca por mim. - com um dos braços musculosos, ele prendeu o cabo. - É melhor agüentar firme, meu bem.

Tate olhou para baixo enquanto os olhos dele se reviravam em seu rosto liso e bronzeado. Bowers mostrou os dentes e a fez dar risadinhas e ficar sem ação.

- Por que você não pára de me atormentar?

- Porque ficamos muito bem juntos. Segure firme. Mim Tarzan, você Jane.

Tate agarrou o cabo e respirou fundo. com o grito de Tarzan de Bowers ecoando em seus ouvidos, ela se lançou com o colega no espaço. Gritou porque era bom gritar. O mar aberto pendia mais abaixo e, no que o cabo fez um arco, ela o largou. O ar soprava por cima dela e a água se aproximava rapidamente. Até que ouviu Bowers rindo que nem um mergulhão instantes antes de cair no mar.

A água estava fria e revigorante. Ela se banhou bastante antes de voltar para a superfície.

- Você só obteve um 8,4 do juiz japonês, Beaumont, mas sabe como eles são cruéis e exigentes. - Bowers piscou para a amiga e depois cobriu os olhos. - ó Cristo Todo-poderoso, lá vem Dart. Todo mundo saindo da piscina!

Da amurada, Hayden ficou vendo Tate e seus amigos brincando que nem crianças que haviam acabado de sair para o recreio. Aquilo fazia com que ele se sentisse velho e um pouco mais do que enfadonho.

- Vamos, doutor. - Lorraine lhe dirigiu seu sorriso intenso e galanteador. - Por que não damos um mergulho?

- Sou um péssimo nadador.

- Então use uma bóia, ou, melhor ainda, use Dart como bote salva-vidas.

Aquilo o fez sorrir. Naquele instante, Dart surgiu de repente no meio do Pacífico, como se fosse uma rolha de cortiça inchada.

- Acho que vou ficar só olhando.

Com o mesmo sorriso, Lorraine encolheu os ombros nus.

- Como quiser.

 

Há quase sempre cinco quilômetros de onde Tate fazia traquinagens no Pacífico, Matthew tremia nas águas frias do Atlântico Norte.

O fato de estar liderando a equipe de salvamento era um pequeno motivo de orgulho. Ele havia se empenhado na Fricke Salvamentos ao longo dos anos, aceitando qualquer serviço que pagasse bem. Agora era responsável pelas escavações submarinas e ficava com dez por cento dos lucros líquidos.

E odiava cada minuto daquilo.

Não havia nada mais vexatório para o orgulho de um explorador do que tripular um barco grande e feio apenas para pegar metal. Não havia ouro algum, nenhum tesouro para ser descoberto no Confiante. A embarcação da Segunda Guerra Mundial estava incrustada com a lama congelada do Atlântico Norte, e seu valor estava apenas no metal.

De vez em quando, quando seus dedos se pareciam com pingentes de gelo e a pele exposta em torno da sua boca ficava azul de tanto frio que fazia, Matthew sonhava com os dias em que mergulhava tanto por prazer quanto por lucro.

Na água quente e espelhada, na companhia de peixes que mais pareciam jóias. Ele se lembrava de como era ver o brilho do ouro ou um disco de prata enegrecido.

Mas sair em busca de tesouros era um empreendimento arriscado e ele era um homem com dívidas a pagar. Médicos, advogados, centros de reabilitação. Meu Deus, quanto mais ele trabalhava, mais devia. Dez anos antes, se um sujeito qualquer tivesse insinuado que sua vida se transformaria num ciclo de trabalho e contas a pagar, teria rido na cara dele.

Em vez disso, Matthew descobrira que era a vida que estava rindo na sua cara.

No meio da escuridão, ele fez um sinal para sua equipe. Era chegada a hora de começar a lenta subida à superfície. O desgraçadamente feio Confiante estava de lado, já meio detonado pela tripulação. Matthew tornava as coisas ainda piores, examinando-o enquanto parava no primeiro ponto de descanso.

Pensar que ele, antes, sonhava com galeões e homens em guerra. Um navio pirata com muito mais ouro e prata do que o esperado. O pior é que havia tido um só em toda a vida e acabou perdendo-o. E tudo o mais.

Agora estava numa situação um pouco melhor do que a de um cachorro de ferro-velho, recolhendo e acumulando refugo. Aqui o mar era uma caverna, escura, hostil, quase sem cor, fria como o sangue dos peixes. Um homem nunca se sentia muito humano por aqui - não livre e leve como um mergulhador em águas cheias de vida, mas distante e estrangeiro num lugar onde havia pouco para se ver que não estivesse comendo ou sendo comido.

Um movimento descuidado acabou lançando um jorro de água gelada na gola do seu traje, lembrando-o de que, gostando ou não, ele era humano.

Matthew nadou até o ponto seguinte e não foi estúpido o suficiente para se apressar. Por mais fria que estivesse a água, por mais monótono que fosse o mergulho, a biologia e a física reinavam ali. Uma vez, cinco anos atrás, ele havia visto um mergulhador descuidado desmaiar no convés e morrer dolorosamente de mal de descompressão por ter corrido para as paradas de descanso. Não era uma experiência pela qual Matthew pretendia passar.

Assim que subiu a bordo, pegou o café quente que um colega da cozinha do navio ofereceu. Quando seus dentes pararam de bater, Matthew começou a dar ordens para a equipe seguinte. E bem pretendia dizer para Fricke que os homens tinham que ganhar um bônus naquela viagem.

Estava feliz com o fato de Fricke, aquele desgraçado e muquirana, ter medo dele o bastante para enfiar a mão um pouco mais no fundo daqueles bolsos de sovina.

- Chegou correspondência. - O colega, um franco-canadense esquelético conhecido apenas como LaRue, segurou as garrafas de Matthew. - Coloque a sua na cabine. - Ele sorriu, exibindo um dente de ouro que brilhava bem na frente. - Uma carta, muitas contas. Eu. Recebo seis cartas de seis namoradas. Estou me sentindo tão mal, acho que vou dar uma para você. Marcela, que não é muito bonita, mas que na cama faz barba, bigode e cabelo, ha?

Matthew tirou o capuz da sua roupa de mergulho. O ar gelado do Atlântico soprou nos seus ouvidos.

- Vou escolher minhas próprias mulheres.

- Então por que não o faz? Você precisa dar uma ou duas por aí, Matthew. LaRue pode localizá-las.

Matthew meditou enquanto se voltava para o mar frio e cinzento.

- As mulheres por aqui são um pouco escassas.

- Venha comigo até Quebec, Matthew. Eu mostro a você onde poderá beber um bom drinque e dar uma boa trepada.

- Pára de pensar em sexo, LaRue. Nesse ritmo vamos ficar mais um mês por aqui.

- Se o único lugar em que consigo meter sexo é na cabeça, então é lá que ele vai ficar - gritou LaRue enquanto Matthew se afastava a passos largos. Rindo sozinho, tirou sua preciosa bolsa de tabaco para enrolar um dos seus estimados cigarros encorpados e fedorentos. O garoto precisava de orientação, da sabedoria de um homem mais velho e de uma boa foda.

O que Matthew queria eram roupas quentes e outro café. As primeiras ele encontrou em sua cabine. Depois de puxar uma suéter e uma calça jeans, remexeu nos envelopes que estavam seguros debaixo de uma pedra na pequena mesa que lhe servia como escrivaninha.

Contas, é claro. Médicas, o aluguel do apartamento de Buck na Flórida, o advogado que Matthew havia contratado para ajeitar as coisas depois que o tio deu prejuízos num bar em Fort Lauderdale, o último balanço do último centro de reabilitação para o qual o havia arrastado na esperança de que pudesse se livrar do alcoolismo.

Eles não iriam arruiná-lo, meditou. Mas com certeza não deixariam sobrar muito dinheiro para que pudesse se divertir. A única carta que veio lhe deu algum prazer.

Ray e Maria, pensou enquanto se sentava para saborear o resto do seu café. Eles nunca falhavam. Uma vez mais, fizesse sol ou chuva, onde quer que ele estivesse, os dois lhe enviavam uma carta.

Não o decepcionaram nenhuma vez em oito anos.

Como sempre, era uma carta enorme com várias folhas. A caligrafia feminina e arredondada de Maria compensava as notas e mensagens que Ray escrevia na forma de rabiscos apressados e ilegíveis nas margens. Quase cinco anos antes, eles haviam se mudado para os vales distantes da Carolina do Norte e construído um chalé na parte mais calma da ilha Hatteras. Maria costumava salpicar as cartas com descrições do que Ray vinha fazendo na casa; a sua sorte, boa ou má, com o jardim.  entremeava tudo com detalhes das suas aventuras no mar. As viagens que fizeram para a Grécia, o México, o mar Vermelho, seus mergulhos impulsivos na costa das Carolinas.

E, evidentemente, escreviam sobre Tate.

Matthew sabia que ela estava se aproximando dos trinta, trabalhava no seu doutorado e fazia parte de várias expedições. Contudo, ele a via como a garota daquele verão de tempos atrás. Jovem, pura e cheia de esperança. Ao longo dos anos, quando pensava nela, era num tom nostálgico, vagamente agradável. Em sua mente, Tate e os dias que passaram juntos haviam assumido nuanças de um brilho dourado. Quase perfeitos demais para serem reais.

Há muito tempo ele parara de sonhar com ela.

Havia dívidas a serem pagas e planos, ainda num futuro sombrio, a serem estabelecidos.

Matthew saboreava cada palavra de cada folha. O esperado convite para que fizesse uma visita tocou num ponto sensível, fazendo com que ficasse tanto saudoso quanto amargo. Três anos antes, intimidara Buck para que fizesse a viagem. A temporada de quatro dias foi um enorme sucesso.

Contudo, ele podia se lembrar de como se sentia sossegado na casa, olhando para as águas serenas do estreito, em meio ao movimento dos pinheiros e das árvores da enseada, sentindo o cheiro da comida de Maria, ouvindo Ray falar sobre o próximo navio naufragado e a próxima tentativa de encontrar ouro. Isso até Buck fazer um passeio até Ocracoke na balsa e cair de bêbado.

Não havia sentido em voltar, pensou Matthew. Não dava para ficar se humilhando, colocando os Beaumont naquela situação infeliz. As cartas já bastavam.

Quando virou a última folha, os garranchos de Ray falavam sobre Tate e aquele verão nas índias Ocidentais, com detalhes pungentes e dolorosos.

Matthew, tenho algumas preocupações que não partilhei com Maria. Irei fazê-lo, mas queria saber a sua opinião antes. Você sabe que Tate está no Pacífico, trabalhando para a SeaSearch. Ela está entusiasmada com o trabalho. Todos ficamos. Mas, há alguns dias, eu estava pesquisando algumas ações para um antigo cliente. Tive um impulso para investir, eu mesmo, na SeaSearch, uma espécie de tributo pessoal ao sucesso de Tate. Descobri que a empresa é um braço da Trident, que por sua vez faz parte da Corporação VanDyke. O nosso VanDyke. É óbvio que isso me preocupa. Não sei se Tate sabe disso. Duvido muito. Provavelmente não há por que eu me preocupar. Não creio que Silas VanDyke teria um interesse pessoal numa de suas arqueólogas marinhas. É muito improvável que ele se lembre dela ou que se importasse. Ainda assim, não me sinto à vontade sabendo que ela está tão distante e, mesmo que remotamente, associada a ele. Não resolvi se devo entrar em contato com Tate e lhe contar o que descobri ou deixá-la em paz. Gostaria muito de saber o que você acha disso.

Matthew, queria saber pessoalmente, se você puder vir até Hatteras. Tem algo mais que eu queria muito discutir com você. Fiz uma descoberta incrível há algumas semanas - algo que venho pesquisando há quase oito anos. Quero mostrar para você. Quando o fizer, espero que você compartilhe do meu entusiasmo. Matthew, vou voltar para o Isabela. Preciso de você e Buck comigo. Por favor, antes de rechaçar a idéia, venha até Hatteras e dê uma olhada no material que recolhi.

Ele é nosso, Matthew. Sempre foi nosso. É chegada a hora de reivindicá-lo.

Afetuosamente,

Ray

 

Jesus. Matthew voltou para o começo da folha e a leu novamente. Ray Beaumont não largava suas bombas com parcimônia. Em dois rápidos parágrafos ele havia feito revelações explosivas, indo de Tate a VanDyke, passando pelo Isabela.

Voltar? De repente furioso, Matthew jogou a carta em cima da mesa. Era difícil que fosse começar tudo de novo e evocar o seu mais completo e horrendo fracasso. Ele estava tocando a sua vida, não? Do mesmo jeito que sempre. Não precisava de antigos fantasmas tentando-o a voltar a perseguir o brilho do ouro.

Ele não era mais um explorador, pensou enquanto levantava da cadeira para andar de um lado para outro da pequena cabine. Não queria nem precisava. Alguns homens podiam viver de sonhos. Ele já o fizera - e não pretendia repetir a experiência.

Era de dinheiro que precisava, pensou, irritado, tempo e dinheiro. Quando ambos estivessem no seu bolso, ele terminaria o que começou quando estava com metade da sua idade, sobre o corpo do seu pai. Encontraria VanDyke e o mataria.

Quanto a Tate, ela não era mais problema seu. Matthew se lembrava de ter lhe feito um grande favor e olhou furioso para a carta em cima da mesa. O melhor favor de toda a sua vida. Se a moça havia se atrapalhado e fora fisgada por uma das maquinações de VanDyke, o problema era dela. Ela era uma mulher adulta agora, não? com uma educação refinada e belos diplomas. Maldição, ela lhe devia tudo isso e ninguém tinha o direito de fazê-lo se sentir responsável por aquela garota agora.

Mas ele podia vê-la, do jeito que era então, reverenciando uma simples moeda de prata, brilhando nos seus braços e atacando corajosamente um tubarão com uma faca de mergulhador.

Ele jurou de novo, cruelmente. E mais uma vez, com calma. Deixando a carta e a caneca onde estavam, seguiu para a sala do rádio. Precisava fazer algumas ligações.

Tati entrou na sala que a tripulação havia apelidado de ”Marco Zero”. Estava cheia de computadores, teclados, monitores. O disco do sonar brilhava com uma luz verde assim que a agulha passava. Controles remotos para as câmeras que tiravam estereofotos estavam facilmente à mão.

No momento, porém, a área era mais uma sala de recreação para adolescentes do que um laboratório científico.

Dart estava num canto com Bowers, aliviando o tédio enquanto derrotava o computador numa partida de Mortal Kombat.

Era tarde, quase meia-noite, e ela ficaria melhor se estivesse em sua cabine, tendo uma boa noite de sono ou trabalhando em sua dissertação. Mas Tate era muito agitada, e Lorraine, muito impaciente. A cabine parecia pequena demais para ambas.

Depois de pegar um punhado de balas com Dart, ela se acomodou para observar o monitor que dava uma varredura no solo oceânico.

Era tudo tão escuro, cismou. Frio. Pequenos peixes luminescentes procuravam comida. Moviam-se lentamente, cercados por pontos de fosforescência que lembravam estrelas. Os sedimentos do plano marinho não tinham traços característicos. Contudo, havia vida. Ela viu um anelídeo que vivia no fundo do mar, um ser que não passava de um estômago primitivo, deslizando pela extensão da lente da câmera. Os olhos grandes de um xistossomo a fizeram sorrir.

Era, do seu próprio jeito, uma espécie de reino encantado, pensou ela. Quase que a terra devastada que um número de oceanógrafos havia outrora imaginado. E com certeza não era o depósito de lixo que certas indústrias optaram por ver dessa maneira. Não tinha cor e era de verdade, mas aqueles peixes e animais magicamente transparentes e pulsantes o transformavam num misterioso milagre da natureza.

Aquilo aliviava Tate; a continuidade, os primórdios. O monitor a relaxou como um daqueles filmes velhos que passam no fim de noite e o deixam quase cochilando na cadeira.

Logo ela estava piscando, enquanto seu subconsciente lutava para transmitir aos seus olhos o que estava vendo.

Caranguejos de coral. Eles iriam colonizar qualquer estrutura que lhes estivesse à mão. E estavam ocupados nessa tarefa. Ela percebeu que o que se inclinava para a frente era madeira. Era o casco de um navio, incrustado de vida submarina.

- Bowers.

- Espera um minuto, Tate. Tenho que terminar de atormentar esse sujeito.

- Bowers, agora!

- Qual é a pressa? - com a testa enrugada, ele girou para onde Tate estava. - Ninguém vai a parte alguma. Diabos. - Olhando para o monitor, andou com a cadeira para a frente, acionando os controles necessários para interromper a varredura da câmera.

Exceto pelo bipe do equipamento, a sala estava silenciosa enquanto os três olhavam fixamente para a tela.

- Pode ser ele. - A voz de Tate estava fraca por causa da emoção.

- Pode ser - respondeu Bowers, e voltou a trabalhar. - Comece a digitar, Dart. Tate, sinalize para a ponte de comando e mande o navio parar.

Os três não se falaram novamente durante alguns instantes. Enquanto as fitas corriam, Bowers aproximou a câmera ainda mais e fez com que ela realizasse uma lenta varredura.

Os destroços se juntaram à vida marinha. Tate imaginava que Litz e os outros biólogos a bordo logo estariam cantando hinos de louvor. com os lábios apertados, ela segurava a respiração. Até que soltou tudo numa baforada explosiva.

- Ó, Cristo, olhe! Não está vendo?

A resposta de Dart foi uma risadinha nervosa.

- É a roda do leme. Olhe para aquela gracinha ali, só nos esperando aparecer para encontrá-la. É um vapor, Bowers. É o desgraçado e belo Justine,

Bowers parou a câmera.

- Crianças - disse enquanto se levantava, tremendo. - Num momento como este, creio que tenho que dizer algo profundo. - Ele colocou a mão no peito. - Nós conseguimos.

Com um grito selvagem, ele agarrou Tate e fez uma rápida dança. Gargalhadas e excitação fizeram com que lágrimas brotassem nos seus olhos.

- Vamos acordar o navio - decidiu Tate antes de sair apressada. Antes de mais nada, ela correu para sua própria cabine, para despertar uma Lorraine mal-humorada.

- Vá até o Marco Zero, agora.

- O quê? Estamos afundando? Vá embora daqui, Tate. Estou ocupada sendo seduzida por Harrison Ford.

- Ele terá que esperar. Vá até lá embaixo. - Para se certificar de que seria obedecida, Tate arrancou o lençol de cima do corpo nu e curvado de Lorraine. - Mas, pelo amor de Deus, ponha uma camisola antes.

Enquanto deixava Lorraine falando palavrões, ela saiu correndo pelo corredor na direção da cabine de Hayden.

- Hayden? - Esforçando-se para não rir, ela bateu em sua porta. - Vamos, Hayden, alerta vermelho, todo mundo no convés, vamos andando.

- O que foi? - com os olhos parecidos com os de uma coruja sem os óculos, o cabelo em pé e um modesto cobertor em volta da cintura, ele piscou para Tate. - Alguém se feriu?

- Não, todos estão ótimos. - Naquele momento, ela teve certeza de que ele era simplesmente o homem mais doce que já havia conhecido. Seguindo o seu instinto, jogou os braços em volta do colega, quase o derrubando, e o beijou. - ó, Hayden, mal posso esperar para...

O primeiro choque da boca de Hayden ao se fechar vorazmente contra a de Tate fez com que ela se acalmasse. Tate pressentia o desejo quando sentia seu gosto nos lábios de um homem, pressentia a necessidade quando a sentia tremendo nos braços de um homem.

Para ambos, ela relaxou, enquanto levava carinhosamente a mão ao rosto de Hayden até o beijo terminar.

- Hayden...

- Desculpe. - Assustado, ele deu um passo obstinado para trás. - Você me pegou desprevenido, Tate. Eu não devia ter feito isso.

- Está tudo bem. - Ela sorriu e colocou ambas as mãos nos ombros dele. - Sério, está tudo bem, Hayden. Diria que nos pegamos desprevenidos um ao outro, e foi bom.

- Como companheiros - disse ele, com medo de que pudesse gaguejar. - Como seu superior, eu não tinha o direito de avançar.

Ele conteve um suspiro.

- Hayden, foi apenas um beijo. E eu o beijei primeiro. Não creio que você vá me despedir por causa disso.

- Não, é claro que não. Só queria dar a entender...

- Você deu a entender que queria me beijar, o fez e foi bom.- Pacientemente, ela pegou na mão dele. - Não precisamos enlouquecer por causa disso. Especialmente porque temos muitos outros motivos para enlouquecer. Quer saber por que eu bati na sua porta, o arranquei da cama e me joguei sobre você?

- Bem, eu... - Ele pegou os óculos que não estava usando e cutucou o nariz. - Sim.

- Hayden, encontramos o Justine. Agora fica firme aí - avisou ela -, porque eu vou beijar você novamente.

 

O robô fez o trabalho. E era esse o problema. Depois de uma semana escavando o Justine, Tate se viu lutando contra uma vaga sensação de insatisfação.

Era tudo que eles poderiam esperar. O navio naufragado era farto em riquezas. Havia moedas e barras de ouro - algumas delas pesavam quase trinta quilos. Artefatos eram transferidos para a superfície em abundância. O robô trabalhava incansavelmente, cavando, deslocando a pilhagem, com Bowers e Dart manejando os controles no Marco Zero.

De vez em quando, Tate fazia uma pausa no seu trabalho para observar o monitor e ver como a máquina iria rebocar tal carga pesada com seus braços mecânicos, ou pegar delicadamente uma esponja do mar com seus torqueses para que os biólogos pudessem estudá-la.

A expedição foi um verdadeiro sucesso.

Tate estava sofrendo por causa da inveja profunda que sentia de um horroroso robô de metal.

Em sua estação numa cabine de proa, ela fotografou, examinou e catalogou os pedaços e fragmentos de vida de meados do século dezenove. Um broche de camafeu, pedaços de louça de barro, colheres, um tinteiro de estanho, um pião de madeira carcomido. E, é claro, as moedas. Tanto prata quanto ouro estavam amontoados na sua mesa de trabalho. Elas brilhavam, graças ao trabalho de Lorraine no laboratório, que as deixou como se tivessem acabado de ser cunhadas.

Tate pegou uma de ouro que valia cinco dólares, um belo e pequeno disco datado de 1857, o ano no qual o Justine afundou. Por quantas mãos ela havia passado?, perguntou-se. Talvez só algumas poucas. Devia estar enfiada na bolsa de uma dama ou no bolso de um cavalheiro. Talvez tenha sido usada para pagar uma garrafa de vinho ou um charuto cubano. Um chapéu novo. Ou talvez nunca tivesse sido usada e só estivesse sendo guardada preventivamente, para pagar um deleite qualquer no final da jornada.

Agora estava em sua mão e era parte de muitos tesouros perdidos.

- Bonito, não? - Lorraine entrou. Carregava uma bandeja cheia de artefatos que haviam acabado de ser descalcificados e limpos no seu laboratório.

- É. - Tate substituiu a moeda e a lançou em seu computador. - Há trabalho suficiente para um ano aqui.

- Você parece bastante feliz com isso. - Curiosa, Lorraine inclinou a cabeça. - Espera-se que cientistas fiquem satisfeitos quando têm trabalho de campo constante.

- Estou satisfeita. - Tate registrou meticulosamente o broche e o pôs de lado numa bandeja. - Por que não ficaria? Estou envolvida em uma das descobertas mais excitantes da minha carreira e faço parte de uma equipe de cientistas de ponta. Tenho o melhor equipamento à disposição e condições de vida e de trabalho mais do que razoáveis. - Ela pegou o pião. - Eu deveria estar maluca não satisfeita.

- Então por que você não me conta por que estaria maluca?

Com os lábios franzidos, Tate deu uma rápida girada no brinquedo.

- Você nunca mergulhou. É difícil explicar para alguém que nunca foi lá embaixo, nunca viu o mar.

Lorraine se sentou, apoiando os pés na ponta da mesa. A tatuagem de um unicórnio percorria a parte interna do seu tornozelo.

- Tenho algum tempo. Por que você não tenta?

- Isso não é busca ao tesouro - começou ela, com a voz fria e uma mágoa totalmente voltada para si própria. - São computadores, máquinas e robótica; e são maravilhosos por si só. Jamais teríamos conseguido encontrar o Justine ou teríamos tido condições de estudá-lo sem o equipamento, é óbvio.

Uma nova onda de inquietação fez com que Tate se levantasse da sua mesa de trabalho e seguisse para a escotilha que era a mísera visão que tinha do mar.

- Ele não poderia ser escavado ou estudado sem o maquinano. A pressão e a temperatura em tais profundezas fazem com que mergulhar seja impossível. Isso é biologia básica, física básica, eu sei. Mas que droga, Lorraine, eu queria ir lá embaixo. Queria tocá-lo. Queria abanar a areia e encontrar algum pedaço do passado. Os andróides de Bowers estão se divertindo sozinhos.

- É, ele fica sempre se gabando disso.

- Sei que parece estupidez. - Por ser, Tate conseguiu sorrir enquanto se virava. - Mas mergulhar em meio a destroços de navios afundados, estar lá embaixo, é sensacional. Tudo isso é tão estéril. Não imaginava que iria me sentir assim, mas toda vez que venho aqui para trabalhar lembro-me de como as coisas eram antes. Meu primeiro mergulho, meu primeiro navio naufragado, o manuseio do tubo de airlift, a extração de conglomerado. Todos os peixes, formações de coral, lama e areia. O trabalho, Lorraine, o esforço físico para realizá-lo. Você se sente como parte daquilo. - Ela abriu os braços e os deixou cair. - Isso, de algum modo, parece tão distante, tão frio e intrusivo.

- Tão científico? - interferiu Lorraine.

- Ciência sem participação, pelo menos na minha opinião. Lembro-me de quando encontrei a minha primeira moeda, de prata, oito reales. Tínhamos pela frente os restos de um navio afundado e que jamais havia sido explorado, nas índias Ocidentais. - Ela suspirou e se sentou novamente. - Eu estava com vinte anos. Foi um verão muito agitado. Encontramos um galeão espanhol e o perdemos. Apaixonei-me e tive o meu coração partido. Jamais me envolvi com nada ou ninguém daquele jeito novamente. Não quis.

- Por causa do homem ou do navio?

- Ambos. Em poucas semanas, experimentei a alegria e a tristeza absolutas. Uma jornada difícil de se viver aos vinte anos. Voltei para a faculdade naquele outono com metas muito bem definidas. Obteria o meu diploma e seria a melhor na minha área. Faria exatamente o que faço agora e manteria uma distância lógica e profissional. E aqui estou eu, oito anos depois, sem saber se cometi algum grande erro.

Lorraine levantou a sobrancelha.

- Você não gosta do seu trabalho?

- Amo o meu trabalho. Só estou tendo uma certa dificuldade para deixar que as máquinas façam a melhor parte por mim. Mantendo-me àquela distância lógica e profissional.

- Isso não me parece uma crise, Tate. Soa apenas como se você precisasse amarrar as suas garrafas e se divertir um pouco. - Ela olhou para as unhas que havia feito recentemente. - Se é assim que você define diversão. Quando foi a última vez em que tirou férias?

- Ah, vejamos... - Tate se inclinou para trás e fechou os olhos. - Deve ter sido há cerca de uns oito anos, a menos que nós contemos uns dois fins de semana e Natais que passei em casa.

- Nós, não - afirmou Lorraine, determinada. - A receita da Dra. Lorraine é muito simples. O que temos aqui é um típico caso de depressão. Tire um mês de férias depois que terminarmos o que viemos fazer aqui, vá para um lugar cheio de palmeiras e passe bastante tempo no meio dos peixes.

Lorraine desenvolveu um súbito e ávido interesse pelas suas mãos e ficou examinando o esmalte coral.

- Se você quiser companhia, Hayden aproveitará no ato a chance de ir com você.

- Hayden?

- Para usar um termo técnico, o cara está louco por você.

- Hayden?

- Sim, Hayden. - Lorraine se lançou para trás, de modo que os pés bateram com força no chão. - Meu Deus, Tate, presta atenção. Ele vem secando você há semanas.

- Hay... - disse Tate antes de perceber que estava errada. - Somos amigos, Lorraine, colegas de trabalho. - Foi então que se lembrou do jeito que ele a beijou na noite em que encontraram o Justine. - Bem... diabos.

- Ele é um homem sensacional.

- É claro que sim. - Confusa, Tate passou a mão no cabelo.

- É que eu nunca pensei nele dessa maneira.

- É desse jeito que ele está pensando em você.

- Não é uma boa idéia - murmurou Tate. - Não é uma boa idéia se envolver com um colega de trabalho. Eu sei.

- A escolha é sua - disse Lorraine negligentemente. - Só pensei que era hora de alguém dar uma folga para o cara e deixar você a par das coisas. Também devo lhe dizer que uns representantes da SeaSearch e da Poseidon estão vindo para examinar e transportar parte do saque. E estão trazendo uma equipe de filmagem.

- Uma equipe de filmagem. - Imediatamente, Tate arquivou o problema com Hayden no fundo da mente. - Achava que éramos nós que estávamos fazendo os registros em vídeo da expedição.

- Eles vão usar os nossos também. Vamos aparecer num documentário da TV a cabo, por isso não se esqueça de passar rimei e batom.

- Quando é que eles chegam?

- Já estão a caminho.

Quase sem perceber, Tate pegou o pião de madeira e o apertou na mão de um jeito possessivo.

- Eles não irão tirar nada que eu não tenha terminado de estudar e catalogar.

- Diga isso para eles, campeã. - Lorraine seguiu na direção da porta. - Mas, lembre-se, fomos contratados apenas para ajudar.

Contratados para ajudar, pensou Tate antes de largar cuidadosamente o brinquedo. Talvez esse fosse o ”x” do problema. De algum modo, ela havia deixado de ser uma mulher independente em busca de aventura e se transformado numa parasita competente que trabalhava para uma corporação sem rosto.

Isso tornou seu trabalho possível, lembrou a si mesma. Cientistas eram sempre indigentes. Contudo...

Tate percebeu que havia um monte de ”contudos” na sua vida. Ela precisaria de algum tempo para decidir quais deles tinham importância.

Matthew chegou a conclusão de que havia perdido a cabeça. Ele havia deixado o emprego. Um trabalho que ele odiava, mas que pagava as contas e permitia que economizasse um pouco para impedir que um ou dois pequenos sonhos morressem. Sem o emprego, o barco que vinha construindo pedaço por pedaço ao longo dos anos jamais ficaria pronto, seu tio seria forçado a viver da ajuda do governo e ele teria sorte se conseguisse fazer uma refeição decente depois de seis meses.

Ele não só havia largado o emprego como fizera uma manobra para levar LaRue junto. O homem simplesmente arrumou as malas e partiu com ele sem que fosse necessário nenhuma espécie de incentivo. Matthew percebeu que agora estava preso a dois dependentes, dois homens que passavam a maior parte do tempo discutindo um com o outro e apontando suas falhas.

Por isso lá estava ele, sentado do lado de fora de um trailer no sul da Flórida, querendo saber quando havia enlouquecido.

Foi a carta dos Beaumont que desencadeou tudo. As menções a Tate, a VanDyke e, é claro, ao Isabela. Elas trouxeram de volta muitas lembranças, fracassos e esperanças. Antes de se permitir pensar nas conseqüências, ele já estava arrumando o seu equipamento.

Agora que não havia mais como voltar, Matthew tinha bastante tempo para pensar. Que diabos iria fazer com Buck? As bebedeiras dele estavam mais uma vez fora de controle.

Grande surpresa, pensou Matthew. Todo ano ele voltava para a Flórida, e passava o mês no continente lutando para fazer com que seu tio largasse o vício. E todo ano voltava para o mar, cheio de culpa, remorso e mágoa por achar que jamais seria capaz de causar algum impacto.

Mesmo agora, ele podia ouvir a voz de Buck alçada na amargura da embriaguez. Não obstante a chuva que caía torrencialmente, encharcando tudo num ritmo constante, Matthew permanecia do lado de fora, debaixo do toldo mofado e cheio de goteiras.

- Que lavagem é essa? - perguntou Buck, fazendo ruídos dentro da diminuta cozinha.

LaRue nem se deu ao trabalho de tirar os olhos do livro que estava lendo.

- É uma bouillabaisse. Receita de família.

- Lavagem - repetiu Buck. - Lavagem francesa. - com a barba por fazer, usando as roupas com as quais havia dormido, Buck bateu com força na porta de um armário em busca de uma garrafa. - Não quero esse negócio empesteando a minha casa.

Como resposta, LaRue virou uma página.

- Onde diabos está o meu uísque? - Buck enfiou a mão dentro do guarda-louça, derrubando tudo e espalhando as poucas provisões. - Eu tinha guardado uma garrafa aqui, maldição.

- Prefiro um bom Beaujolais - comentou LaRue. - À temperatura ambiente. - Ele ouviu a porta corrediça se abrir e marcou a página do seu romance de Faulkner. O show da noite estava prestes a começar.

- Você andou roubando o meu uísque, seu canadense desgraçado?

No que os dentes de LaRue brilharam num rosnado, Matthew adentrou o recinto.

- Não há uísque nenhum. Eu me livrei dele.

Mais debilitado pela bebedeira da manhã do que pela prótese, Buck se virou para o sobrinho.

- Você não tem o direito de pegar a minha garrafa.

Quem era aquele homem, pensou Matthew, aquele estranho? Se havia alguma coisa de Buck naquele rosto inchado e com a barba por fazer, naqueles olhos vermelhos e embaçados, ele não conseguia ver.

- Estando certo ou errado, eu me livrei dela. Experimente tomar café.

Como resposta, Buck pegou o bule que estava no fogão e o lançou contra a parede.

- Então não experimente o café. - Tentado a cerrar os punhos, Matthew enfiou as mãos nos bolsos. - Se quiser beber, terá que fazer isso em outro lugar. Não vou ficar aqui vendo você se matar.

- O que eu faço só diz respeito a mim - resmungou Buck, pisando em cima dos cacos de louça e do café derramado.

- Não enquanto eu estiver por perto.

- Você nunca está por perto, não é? - Buck quase escorregou no piso molhado, mas logo se reequilibrou. Seu rosto ficou ruborizado por causa da humilhação. Cada passo que ele dava era um lembrete. - Você chega aqui quando quer e sai do mesmo jeito. Não tem o direito, garoto, de me dizer o que devo fazer na minha Própria casa.

- A casa é minha - disse Matthew delicadamente. - Você só está morrendo dentro dela.

Ele poderia ter se esquivado do soco. Levou o direto de Buck no queixo filosoficamente. Em alguma parte pervertida do seu cérebro, ficou feliz ao notar que seu tio ainda podia desferir um golpe.

Enquanto Buck o encarava, Matthew limpou o sangue da boca com as costas da mão.

- Estou saindo - disse ele antes de ir embora.

- Vá embora, saia daqui. - Buck cambaleou até a porta e gritou para o sobrinho no meio da tempestade: - Fugir é a melhor coisa que você faz. Por que não continua andando? Ninguém aqui precisa de você. Ninguém precisa de você.

LaRue esperou Buck cambalear até o seu quarto e depois se levantou para baixar o fogo do ensopado. Pegou sua jaqueta e a de Matthew e saiu rapidamente do trailer.

Eles só estavam na Flórida há três dias, mas LaRue sabia exatamente onde Matthew iria. Ajustou a aba do seu boné para que a chuva não batesse no rosto e seguiu na direção da marina.

Ela estava quase deserta e a porta da garagem de concreto que Matthew alugava estava destrancada. O sujeito o encontrou lá dentro, sentado na proa de um barco que estava quase finalizado.

Ele tinha um casco duplo, quase tão largo quanto longo. O primeiro vislumbre que LaRue teve da embarcação depois que ambos chegaram o impressionou. Era uma beleza; nem um pouco graciosa, porém forte e robusta. LaRue preferia que seus barcos, assim como suas mulheres, fossem assim.

Matthew havia projetado a secção do convés para que atravessasse o topo dos cascos, a fim de que pudesse ficar aberto em mares mais agitados. Cada proa tinha uma curva para dentro que serviria como amortecedor e permitiria não apenas uma viagem mais agradável como mais rápida também. Havia bastante espaço para armazenamento de provisões e muitos assentos. Mas o mais genial no projeto, na opinião de LaRue, eram os cinco metros e meio quadrados de convés aberto na frente.

Era a sala do tesouro, pensou LaRue.

Tudo o que faltava eram os toques finais. A pintura e as partes polidas, o equipamento da ponte, os dispositivos de navegação. E, pensou LaRue mais uma vez, um nome adequado.

Ele subiu a bordo, novamente impressionado com o visual cortante e afiado das proas. Imaginou como o barco iria dominar o mar. Iria voar.

- E então, quando é que você termina?

- Agora eu tenho tempo, não? - Matthew imaginou as amuradas. Latão e teca. - Tudo o que preciso é de dinheiro.

- Eu tenho um monte de grana. - Pensativo, LaRue sacou uma bolsa de couro e começou o lento e, para ele, prazeroso processo de enrolar um cigarro. - com o que eu o gasto além de mulheres? E elas não custam tanto quanto os homens pensam. Talvez eu lhe dê o dinheiro para terminá-lo e você me dá uma parte do barco.

Matthew deixou escapar uma risada azeda.

- Que parte você quer?

LaRue se recostou no descanso, fechando cuidadosamente o papel de seda em volta do tabaco.

- Um barco montado por um homem é um bom lugar para se ir quando ele quer meditar. Diga-me, Matthew, por que você deixou o seu tio bater em você?

- Por que não?

- Parece-me que ele ficaria melhor se você tivesse revidado.

- Certo. Seria ótimo. Faria muito bem para mim derrubar um...

- Aleijado? - finalizou LaRue suavemente. - Não, você nunca o deixa esquecer que não é mais o que era.

Furioso, surpreso e magoado, Matthew se inclinou subitamente nas pontas dos pés.

- Como é que você tem a coragem de dizer isso? Que diabos você sabe da minha vida? Fiz tudo que pude por ele.

- Fez. - LaRue acendeu um fósforo e queimou a ponta do cigarro recém-enrolado. - Você paga pelo teto que está sobre a cabeça dele, pela comida em seu estômago, pelo uísque com o qual está se matando. Tudo que isso lhe custa é o orgulho.

- Que diabos devo fazer? Jogá-lo no meio da rua? LaRue encolheu os ombros.

- Você não pede que ele seja um homem, por isso ele não é.

- Não se mete.

- Acho que você gosta da sua culpa, Matthew. Ela o impede de fazer o que quer e talvez de olhar. - LaRue só sorriu quando Matthew o pegou pelo colarinho. - Veja, você me trata como homem. - Ele levantou o queixo, sem ter certeza de que estaria quebrado nos próximos dez segundos. - Você pode me bater. Eu bato de volta. Quando terminarmos, faremos um acordo pelo barco.

- Que diabos você está fazendo aqui? - com desgosto, Matthew o empurrou para o lado. - Não preciso de companhia, não preciso de outro parceiro.

- Precisa sim. E eu gosto de você, Matthew. - LaRue se sentou novamente, batendo as cinzas do cigarro na palma da mão. - E tem mais. Você vai voltar para aquele barco do qual me falou uma vez. Talvez vá atrás desse VanDyke que tanto odeia. E quem sabe voltará para a mulher que deseja. Eu vou, porque não me importo se ficar rico. Gosto de ver uma boa briga e tenho um fraco por romances.

- Você é um babai, LaRue. Só Deus sabe por que cheguei a falar com você sobre essa porra toda. - Ele levantou as mãos e as esfregou no rosto. - Eu devia estar bêbado.

- Não, você nunca se deixa embebedar. Estava falando sozinho mon ami. Eu só estava por perto.

- Talvez eu vá atrás dos destroços. E, quem sabe, se tiver sorte, consiga cruzar com VanDyke mais uma vez. Mas não há mais nenhuma mulher.

- Sempre há uma mulher. Se não é uma, é outra. - LaRue encolheu seus ombros ossudos. - Não entendo por que os homens perdem a cabeça por causa de uma mulher. Quando uma vai embora, outra vem vindo. Mas um inimigo, para isso vale a pena trabalhar. E quanto ao dinheiro, bem, é mais fácil ser rico do que pobre. Por isso vamos terminar nosso barco, ha, e sair atrás de fortuna e vingança.

Cauteloso, Matthew ficou olhando para LaRue.

- O equipamento que eu quero não é barato.

- Nada que valha a pena é barato.

- Talvez nunca encontremos o navio naufragado. Mesmo se conseguirmos, escavá-lo será um trabalho difícil e perigoso.

- O perigo é que faz a vida ser interessante. Você se esqueceu disso, Matthew.

- Talvez - murmurou. E começou a sentir algo circulando novamente. Era o sangue que deixara esfriar e engrossar ao longo dos anos. Ele estendeu a mão. - Vamos terminar o barco.

 

Três dias depois, Buck foi ayé a garagem, ele havia conseguido uma garrafa em algum lugar, deduziu Matthew. O fedor azedo do uísque o cercava.

- Aonde, diabos, você pensa que vai levar essa banheira? Matthew continuou a lixar cuidadosamente a teca da amurada.

- Para começar, Hatteras. Vou me juntar aos Beaumont.

- Merda, amadores. - Andando com dificuldade, Buck seguiu na direção da popa. - Por que diabos você construiu um catamarã?

- Porque eu quis.

- Um só casco sempre foi bom o suficiente para mim. Era o bastante para o seu pai também.

- Este barco não é seu. Nem dele. É meu. Aquilo o magoou.

- Que cor é essa que você está usando para pintá-lo? Maldito azul de maricas.

- Azul caribenho - corrigiu Matthew. - Eu gosto dele.

- Provavelmente irá afundar na primeira vez em que pegar um temporal. - Buck deu uma fungada e parou de afagar um dos cascos. - Acho que tudo que você e Ray sabem fazer agora é navegar por prazer.

Para fazer um teste, Matthew passou ligeiro o polegar ao longo da madeira. Estava lisa como cetim.

- Estamos indo atrás do Isabela.

O silêncio que se seguia escondia uma raiva que faiscava. Matthew levantou a amurada polida com o ombro e se virou. Buck se apoiava agora com uma mão no barco, enquanto se balançava como se estivesse no mar.

- O diabo que vão.

- Ray resolveu ir. Ele descobriu algo que quer me mostrar. Assim que eu resolver tudo por aqui, vou me mandar. Independentemente do que Ray tenha em mente, irei atrás dele. Já devia ter feito isso há muito tempo.

- Você está fora de si, garoto? Sabe quanto isso vai nos custar? Quanto vai me custar?

Matthew colocou a amurada de lado para ser envernizada.

- Estou com uma excelente idéia.

- Você teve um tesouro, não teve? E o deixou escapar. Deixou que ele dançasse nas mãos daquele desgraçado do VanDyke. Você o perdeu por minha causa quando eu estava quase morto. Agora está achando que vai voltar ao mar e me deixar aqui apodrecendo?

- Vou. O que você vai fazer é problema seu. Apavorado, Buck bateu com o pulso no peito de Matthew.

- Quem vai cuidar do que eu preciso? Se você for embora, o dinheiro irá desaparecer em um mês. Você tem uma dívida comigo, garoto. Salvei a sua vida desprezível. Perdi minha perna por sua causa. Perdi tudo por sua causa.

A culpa ainda vinha, em ondas nas quais um homem forte poderia se afogar. Mas, desta vez, Matthew balançou a cabeça. Não iria se deixar levar novamente.

- Já não devo mais nada a você, Buck. Suei a camisa durante oito anos para que você pudesse beber até entrar em coma e me fazer pagar cada lufada de ar que eu respiro. Já chega. Vou atrás de uma coisa pela qual havia me convencido de que não poderia ter. E voa conseguir.

- Eles vão matá-lo. O Isabela e a Maldição de Angelique. E se não conseguirem, VanDyke o fará. E onde eu vou ficar?

- Bem onde está agora. Em pé sobre as suas duas pernas. Uma delas paga por mim.

Ele não levou nenhum golpe dessa vez. Em vez disso, segurou o punho de Buck dois centímetros antes de ele atingir o seu rosto. Sem pensar, empurrou o tio para trás, fazendo com que Buck tropeçasse na popa do barco.

- Tente fazer isso novamente que eu o arrebento, sendo velho ou não. - Matthew fincou os pés no chão, pronto para lutar caso Buck viesse dar outro bote. - Daqui a dez dias partirei para Hatteras com LaRue. Você pode tentar se emendar ou vai se foder sozinho. A escolha é sua. Agora sai daqui. Tenho muito o que fazer.

Com a mão tremendo, Buck passou-a na boca. Sua perna fantasma começou a palpitar, um fantasma sórdido e sorridente que nunca desistiu de assombrá-lo. Desamparado, saiu dali correndo atrás de uma garrafa.

Sozinho, Matthew levantou outra peça da amurada e começou a trabalhar como um homem possuído.

 

Conforme Silas VanDyke, Manzanillo era o único lugar para se passar os primeiros dias da primavera. Sua casa, que ficava num despenhadeiro na costa oeste do México, permitia que ele tivesse a vista mais espetacular do inquieto Pacífico. Não havia nada mais relaxante do que ficar em frente àquela muralha de janelas, vendo as ondas batendo na praia. O poder nunca deixava de fasciná-lo.

Como aquariano, ele considerava a água o seu elemento. Adorava vê-la, sentir seu cheiro, ouvir seu som. Embora viajasse incansavelmente, tanto por motivos de trabalho quanto para se divertir, jamais conseguia ficar muito tempo distante do seu elemento.

Todas as suas casas haviam sido compradas ou construídas perto de algum lugar com água. Sua casa de campo na ilha de Capri, sua plantação nas ilhas Fiji, seu bangalô na Martinica. Até mesmo sua casa feita com brownstones (Trata-se de um arenito castanho-avermelhado usado em construções. (N. T.) em Nova York tinha uma vista para o rio Hudson. Mas ele tinha uma certa predileção pelo seu refúgio no México.

Não que essa viagem em especial fosse de lazer. A ética de trabalho de VanDyke era tão disciplinada quanto o resto do seu ser. Recompensas eram merecidas - e ele havia merecido a sua. Silas acreditava no trabalho, tanto no exercício do corpo como no da mente. Era verdade que havia herdado grande parte da sua fortuna, mas ele não ficara de pernas para o ar ou desperdiçara seu dinheiro. Não, multiplicou-o com obstinação e astúcia, até triplicar facilmente o patrimônio que lhe havia sido transmitido.

Considerava-se discreto e digno. Longe de ser um Trump da vida, que busca publicidade a todo custo, VanDyke exercia seus afazeres particulares e empresariais tranqüilamente e com pouca ostentação, o que mantinha o seu nome longe dos jornais e das revistas.

A não ser que o divulgasse. A publicidade, quando conveniente, era capaz de mostrar as nuanças de uma negociação e mudar o equilíbrio de poder quando necessário.

Ele nunca havia se casado, embora admirasse muito as mulheres. O casamento era um contrato, e a anulação de tal contrato era freqüentemente complicada e pública. Herdeiros normalmente eram um resultado de tal contrato e poderiam ser usados contra um homem.

Em vez de firmar esse tipo de compromisso, Silas escolhia suas companhias com cuidado, e as tratava com o mesmo respeito e cortesia que dispensava a qualquer empregado. E quando uma mulher não o entretinha mais, era generosamente despachada.

Poucas reclamavam.

A pequena socialite italiana da qual o milionário havia recentemente se cansado causara um certo problema. Os diamantes que mais pareciam pedras de gelo que ele oferecera como presente de despedida não esfriaram a irritação da moça. Ela de fato o ameaçou. com algum desgosto, VanDyke fez com que sua ex-namorada aprendesse uma lição. Mas ele dera ordens expressas para que não ficassem cicatrizes visíveis.

Afinal de contas, ela tinha um belo rosto e um corpo escultural, que lhe deram bastante prazer.

Parecia a ele que a violência, impingida com perícia, era uma ferramenta que nenhum homem bem-sucedido podia ignorar. Nos últimos anos, Silas a usara de vez em quando e, na sua opinião, muito bem.

O mais estranho era que isso lhe dava muito mais prazer do que havia esperado. Uma espécie de lucro barato e emocional, concluiu. Na intimidade, ele podia admitir que, ao pagar por isso, normalmente aplacava a fúria incontrolável que o devastava.

Ele conhecia muitos homens. Homens que, como ele, controlavam grandes fortunas e assumiam incumbências, perdiam as estribeiras quando aceitavam certas falhas e faziam muitas concessões. Ou simplesmente se queimavam enquanto lutavam para permanecer no topo. Frustrações, segundo ele, contidas, corrompidas. Um homem sábio se remediava e sempre, sempre, contava os lucros.

Agora ele tinha negócios para cuidar e que iriam entretê-lo. No momento, sua prioridade era o Nômade, sua tripulação e sua brilhante descoberta.

Assim como havia ordenado, os relatórios estavam em sua mesa. Ele havia escolhido a dedo a equipe para a expedição, dos cientistas aos técnicos, e até o pessoal da cozinha. Estava feliz em saber que, mais uma vez, seus instintos estavam aguçados. Eles não lhe falharam. Quando a expedição estivesse terminada, VanDyke se certificaria de que cada um dos membros da equipe do Nômade receba uma recompensa.

Silas admirava tremendamente os cientistas, sua lógica, disciplina e visão. Estava mais do que satisfeito com Frank Litz, tanto como biólogo quanto como espião. O sujeito lhe deixava a par da dinâmica pessoal e das intimidades entre os tripulantes do Nômade.

Sim, ele achava que Litz havia sido uma feliz descoberta, especialmente depois da decepção que teve com Piper. O jovem arqueólogo tinha potencial, refletiu VanDyke. Mas aquela pequena falha de caráter o tornou uma pessoa repugnante.

Vícios levavam à falta de ordem. Ora, ele havia parado de fumar anos antes só porque achava importante fazer valer seu ponto de vista. Sua força interior se igualava à que exercia no ambiente pessoal. Era uma pena que faltasse força interior para Piper. No fim das contas, VanDyke não se arrependeu de ter lhe oferecido a cocaína pura que o matou.

Na verdade, fora bem emocionante. O fim definitivo de um empregado.

Enquanto se recostava, ele estudava os relatórios de Litz e sua equipe de biólogos marinhos sobre o ecossistema, as plantas e os animais que haviam colonizado os destroços do Justine. Esponjas, formações de coral douradas, anelídeos. Nada escapava ao interesse de VanDyke.

Tudo que lá havia podia ser colhido e usado.

Com o mesmo respeito e interesse, estudou os relatórios dos geólogos, da química e os dos representantes que havia enviado para observar a operação e os seus resultados.

Como fazia uma criança com um doce, deixou o relatório da arqueóloga para o final. Este estava meticulosamente organizado, claro e perfeito como um copo de vidro novo. Nenhum detalhe era omitido, até o último fragmento de louça. Cada artefato era descrito, datado e fotografado; cada item catalogado de acordo com a data e a hora em que foi descoberto. Havia referências ao relatório da química, relativas a como o artigo foi tratado, testado e limpo.

Um orgulho de pai invadiu VanDyke enquanto lia as páginas cuidadosamente digitadas. Estava plenamente satisfeito com Tate Beaumont e a considerava sua protegida.

Ela seria uma ótima substituta para o infeliz do Piper.

Talvez tenha sido um impulso que o impelira a fazer com que a educação de Tate fosse monitorada ao longo dos anos. Mas o impulso havia valido mais do que a pena. O jeito com que a moça o encarara a bordo do Triunfante, com fúria e inteligência ardendo em seus olhos. Ah, como ele admirava isso. A coragem era um recurso valioso, quando aliada a uma cabeça no lugar.

Tate Beaumont possuía ambas as características.

Profissionalmente, havia mais do que superado as expectativas anteriores. Formara-se em terceiro lugar na turma, e publicou seu primeiro ensaio no segundo ano. Sua tese de pós-graduação havia sido simplesmente brilhante. Ela iria obter seu doutorado antes da maioria dos seus colegas da faculdade.

Silas estava impressionado.

Tanto que havia aberto várias portas para ela ao longo dos anos. Portas que mesmo com a sua capacidade e tenacidade teriam sido difíceis de abrir. A oportunidade de fazer pesquisas num submarino de dois lugares na costa da Turquia, em profundidades de mais de cento e oitenta metros, veio através dele. Embora, como um tio tolerante, não considerasse aquilo mérito seu. Ainda não.

Sua vida pessoal também mereceu sua admiração. Inicialmente, o magnata ficou decepcionado por ela não ter mantido vínculos com Matthew Lassiter. Uma ligação constante teria sido mais uma maneira de ficar de olho no rapaz. Contudo, havia ficado feliz por Tate ter demonstrado um bom gosto patente ao se livrar de um homem tão claramente inferior.

Ela se concentrara em seus estudos e metas, como ele poderia esperar de sua própria filha, caso tivesse uma. Por duas vezes, experimentou novos relacionamentos. O primeiro não passou de uma rebeldia da juventude, na opinião de VanDyke. O rapaz ao qual ela havia se ligado nas semanas iniciais depois da sua volta à faculdade não passou de uma experiência, disso ele tinha certeza. E logo Tate iria dispensar aquele atleta cheio de músculos sem nada na cabeça.

Uma mulher como Tate requeria inteligência, estilo, educação.

Entretanto, depois da graduação, ela se juntara a um colega da pós-graduação que partilhava de muitos dos seus interesses. A relação durara pouco menos de dez meses e chegou a trazer alguma preocupação para VanDyke. Mas aquilo terminou quando ele fez arranjos para que o rapaz recebesse uma proposta de emprego no seu instituto de oceanografia na Groenlândia.

Para determinar precisamente qual era o seu potencial, Silas achava que Tate precisava limitar suas distrações, como ele havia feito ao longo dos anos. Casamento e família só iriam desviá-la das suas prioridades.

VanDyke estava feliz por ela estar trabalhando nos seus empreendimentos. Por enquanto, o empresário pretendia deixá-la à margem de tudo. com o tempo, se Tate continuasse a provar seu valor, ele a atrairia para o núcleo central.

Uma mulher com sua inteligência e ambição reconheceria a dívida que tinha e entenderia o valor do que ele poderia continuar a oferecer.

Um dia os dois iriam se encontrar novamente e trabalhar lado a lado.

Silas era um homem paciente e poderia esperar por ela. Assim como esperava pela Maldição de Angelique. Sua intuição lhe dizia que, quando chegasse a hora certa, uma coisa levaria à outra.

E então ele teria tudo.

VanDyke levantou os olhos quando seu fax começou a zumbir. Assim que se levantou, serviu-se de um copo grande de suco de laranja que havia acabado de ser preparado. Se não tivesse uma agenda tão lotada naquele dia, teria acrescentado um bocadinho de champanhe. Mas pequenos luxos como esse podiam esperar.

Ele levantou uma das sobrancelhas enquanto pegava o fax. Era o último relatório sobre os Lassiter. Silas soube então que Matthew havia abandonado o barco e voltado para o seu tio. Talvez fosse enfiar o beberrão em outro centro de reabilitação. Continuava a surpreendê-lo o fato de Matthew não ter deixado o velho chafurdando no próprio vômito e desaparecido.

Lealdade familiar, pensou, balançando a cabeça. Era algo que VanDyke sabia que existia, mas jamais havia experimentado. Se seu próprio pai não tivesse morrido convenientemente aos cinqüenta anos, VanDyke teria traçado planos para tomar o controle de tudo. Felizmente, ele não tinha irmãos para disputar a herança, e sua mãe havia definhado tranqüilamente num hospital psiquiátrico de aces só restrito, quando ele nem tinha completado treze anos de idade.

Enquanto bebericava o suco gelado, VanDyke constatou que só tinha apenas a si próprio. E sua fortuna. Valia muito a pena usar uma pequena parte dela para ficar de olho em Matthew Lassiter.

Lealdade familiar, pensou novamente com um pequeno sorriso. Se ela existisse de fato, o pai de Matthew teria encontrado uma maneira de passar o seu segredo para o filho. Mais cedo ou mais tarde, o herdeiro se sentiria forçado a sair em busca da Maldição de Angelique. E VanDyke, paciente que nem uma aranha, estaria esperando.

O mar tempestuoso atingiu o Nômade e fez com que as escavações fossem interrompidas durante quarenta e oito horas. A maré alta derrubou metade da tripulação, apesar dos comprimidos contra enjôo e das máscaras para proteger os olhos. Tate enfrentou a tempestade com uma garrafa térmica de café na mesa de trabalho.

Ela havia deixado a cabine para Lorraine, que estava com o rosto esverdeado e não parava de gemer.

O balançar do navio não impediu que ela catalogasse as novas adições ao tesouro.

- Achava que ia encontrar você aqui.

Ela levantou os olhos e ficou com os dedos parados no teclado enquanto sorria para Hayden.

- Pensei que você estava deitado. - Tate inclinou a cabeça.

- Ainda está um pouco pálido, mas perdeu aquela interessante coloração esverdeada. - Seu sorriso se abriu de um jeito maldoso.

- Quer um biscoito?

- Sua presunçosa. - Cautelosamente, ele desviou o olhar do prato de biscoitos em cima da mesa. - Ouvi dizer que Bowers está se divertindo a valer descobrindo novas maneiras de descrever para Dart o que é carne de porco.

Humm. Bowers e eu, além de alguns outros poucos, tomamos um café da manhã reforçado hoje de manhã. - Ela riu. - Fique tranqüilo, não vou descrevê-lo para você. Sente-se.

- É embaraçoso para o líder de uma equipe perder a dignidade dessa maneira. - Grato, ele se arriou numa cadeira dobrável. - Creio que seja tempo demais na sala de aula e pouca experiência no campo de batalha.

- Você está se saindo bem. - Feliz por ter companhia, ela deu as costas para o monitor. - Toda a equipe de filmagem está lá embaixo. Detesto quando fico feliz com a desgraça de alguém, mas é um alívio não tê-los andando para lá e para cá durante uns dois dias.

- Um documentário irá gerar interesse nesse tipo de expedição - afirmou ele. - Podemos tirar proveito da exposição e das subvenções.

- Eu sei. Não é sempre que você pode ter as vantagens de uma expedição bancada pela iniciativa privada ou tão bem-sucedida. Veja só, Hayden. - Ela pegou um relógio de ouro, com corrente, berloque e tudo o mais. - Lindo, não? Olha o detalhe da estampa na caixa. Você pode praticamente sentir o cheiro das rosas.

Carinhosamente, ela esfregou o polegar nos botões de flor delicadamente estampados, antes de abrir o gancho com cuidado.

- ”Para David, meu amado marido, que faz o tempo parar para mim. Elizabeth. 4/2/49.”

Seu coração bateu mais forte.

- Havia um David e uma Elizabeth MacGowan no manifesto - disse ela para Hayden com uma voz que havia engrossado. - E seus três filhos menores. Ela e a filha mais velha sobreviveram. Ela perdeu um filho, outra filha e seu amado David. O tempo parou para eles e nunca mais recomeçou.

Tate fechou o relógio delicadamente.

- Ele devia estar usando isso quando o navio afundou - murmurou. - Deve ter guardado com ele. Pode até tê-lo aberto, lido a dedicatória uma última vez depois de dizer adeus para a esposa e os filhos. Jamais se viram novamente. Por mais de cem anos, este símbolo do quanto ela o amava ficou esperando que alguém o encontrasse. E se lembrasse deles.

- É humilhante - disse Hayden pouco depois -, quando a aluna supera o professor. Você tem qualidades que eu jamais tive - acrescentou, fazendo com que Tate levantasse o olhar, surpresa. - Eu veria um relógio, o estilo, o fabricante. Iria reparar na inscrição, e ficaria feliz por ter uma data para confirmar meus cálculos de quando ele foi manufaturado. Até poderia pensar rapidamente em David e Elizabeth, e certamente teria procurado os seus nomes no manifesto. Mas eu não os veria. Não os sentiria.

- Isso não é científico.

- A arqueologia supostamente estuda a cultura. Muitas vezes nos esquecemos de que são as pessoas que fazem a cultura. Os melhores entre nós não. Os melhores entre nós fazem com que ela tenha importância. - Ele colocou a mão sobre a dela. - Como você.

- Não sei o que fazer quando essas coisas me deixam triste. - Ela virou a mão de um jeito que fez com que seus dedos se entrelaçassem com os de Hayden. - Se eu pudesse, pegaria isso aqui e iria atrás dos bisnetos dos seus tataranetos para poder dizer: ”Vejam, isso é uma parte de David e Elizabeth. Eles eram assim.” - Sentindo-se tola, Tate pôs o relógio de lado. - Mas ele não pertence a mim. Nem ao menos pertence a eles. Agora pertence à SeaSearch.

- Sem a SeaSearch, ele jamais teria sido encontrado.

- Eu entendo isso. Sério. - Sentindo a necessidade de tornar claros os seus sentimentos, ela se inclinou para mais perto do colega. - O que estamos fazendo aqui é importante, Hayden. O jeito que estamos fazendo é inovador e eficaz. Além da fortuna que estamos trazendo à tona, há conhecimento, descobertas e teorias. Estamos fazendo com que o Justine e as pessoas que nele morreram se tornem reais e importantes novamente.

- Mas?

- É aí que eu hesito. Para onde irá o relógio de David, Hayden? E as dezenas e dezenas de outros tesouros particulares que as pessoas carregavam? Não temos nenhum controle sobre eles, pois, não importa o quão importante é o nosso trabalho, somos empregados. Somos migalhas, Hayden, num enorme conglomerado. Da SeaSearch para a Poseidon, da Poseidon para a Trident e daí em diante.

Seus lábios se curvaram.

- A maior parte de nós passa a vida profissional inteira como migalhas, Tate.

- Você está satisfeito com isso?

- Suponho que sim. Tenho como trabalhar com o que amo, ensinar, fazer palestras, publicar meus escritos. Sem esses conglomerados, com suas parcelas de consciência social ou um olhar para as deduções nos impostos, eu jamais teria como me dedicar a esse tipo de trabalho de campo em que tenho que meter a mão na massa, e ainda estaria me alimentando sem nenhuma regularidade.

Era verdade, claro. E fazia todo o sentido. E ainda assim...

- Mas será que é o bastante, Hayden? Será que devia ser suficiente? Quanto estamos perdendo ficando aqui? Sem arriscar nada ou vivenciar a busca. Sem ter direito ou controle algum sobre o que fazemos, o que descobrimos? Será que estamos correndo o risco de perder a paixão que nos trouxe para isso em primeiro lugar?

- Você não está. - Seu coração começava a aceitar o que a sua cabeça já vinha lhe dizendo há tempos. Ela jamais estaria ao seu alcance. Era uma flor exótica demais para um zangão simples e trabalhador. - Você jamais perderá essa característica, pois é ela que a define.

Num adeus simbólico a um sonho absurdo, ele levantou a mão e apertou os lábios contra os nós dos dedos da colega.

- Hayden...

Ele podia ver o interesse, a tristeza e, dolorosamente, a afinidade em seus olhos.

- Não se preocupe. É apenas uma prova da admiração de colega para colega. Tenho a impressão de que não vamos trabalhar juntos durante um bom tempo.

- Ainda não decidi - disse ela apressadamente.

- Acho que sim.

- Tenho responsabilidades aqui. E devo muito a você, Hayden, por ter me recomendado para este cargo.

- Seu nome já estava na lista - corrigiu ele. - Eu simplesmente concordei com a escolha.

- Mas eu achava... - Sua testa se enrugou.

- Você fez por merecer, Tate.

- Agradeço por isso, Hayden, mas... Você disse que eu já estava na lista? A lista de quem?

- Da Trident. Os cabeças de lá ficaram impressionados com o seu currículo. De fato, tive a impressão de que havia, definitivamente, uma pressão para que você fosse escalada, vinda de um dos patrocinadores. Não que eu não tivesse ficado feliz em concordar com a recomendação.

- Entendo. - Por motivos que ela não podia explicar, sua garganta ficou seca. - Quem seria esse sujeito, o patrocinador?

- Como você disse, sou apenas uma migalha. - Ele encolheu os ombros enquanto se levantava. - De qualquer maneira, se resolver se demitir antes da expedição terminar, lamentaria perder você, mas a escolha é sua.

- Você está se adiantando. - Ela ficou nervosa ao perceber que havia, de algum modo, sido selecionada, mas sorriu para Hayden. - Mas obrigada.

Quando ele a deixou, Tate esfregou a boca com as mãos. Ela se perguntava de onde vinha aquela sensação fantasmagórica. Por que ela não sabia nada sobre lista alguma ou que seu nome havia sido incluído?

Ao se virar para o monitor, ela se pôs a trabalhar, com os olhos apertados na frente da tela. Trident, Hayden havia dito. Então ela iria ignorar a Poseidon e a SeaSearch por enquanto. Para descobrir onde estava o poder, em qualquer nível, era necessário ver de onde vinha o dinheiro,

- Ei, amigos e vizinhos. - Bowers adentrou o recinto, comendo uma coxinha de galinha. - O almoço já era, em mais de um sentido. - Ele mexeu as sobrancelhas na direção de Tate e esperou a colega começar a rir.

- Pode me dar uma mão aqui, Bowers?

- Claro, meu doce. Minha mão é a sua mão.

- É só fazer a sua mágica no computador. Quero descobrir quem são os grandes patrocinadores da Trident.

- Vai escrever bilhetes de agradecimento? - Colocando seu almoço de lado, ele limpou as mãos na frente da camisa e começou.

- Humm... muitas camadas aqui - murmurou depois de um tempo. - Ainda bem que eu sou o melhor nisso. Você está conectada com o sistema principal, por isso os dados dos quais precisa estão aí em algum lugar. Sempre estão. Está querendo a junta de diretores ou o quê?

- Não - disse ela lentamente. - Esquece. Propriedade do Nômade, Bowers, dentro da corporação. Quem é o dono do barco?

- Não deve ser difícil de descobrir. Não com a sua amiga tecnologia. A SeaSearch é dona dele, meu bem. Espera aí... doado. Meu Deus, adoro filantropos. Um sujeito chamado VanDyke.,

Tate ficou com os olhos fixos na tela.

- Silas VanDyke.

- É uma pessoa importante e um cara cheio de conversa. Você deve ter ouvido falar dele. Financia um monte de expedições. Devíamos dar um beijo grande e molhado no sujeito. - Seu sorriso sumiu na hora em que olhou para o rosto de Tate. - O que houve?

- Sou eu. -- Ela rangia os dentes para conter a fúria. - Aquele filho-da-puta me colocou aqui. Aquele... Bem, estou indo embora.

- Indo embora? -- Confuso, Bowers a encarou. - Embora de onde?

- Ele achou que podia me usar. - Quase cega de raiva, Tate olhou para os artefatos cuidadosamente arrumados na sua mesa de trabalho. O relógio de David e Elizabeth. - Para isso. Que o diabo o carregue.

Matthew desligou o telefone e pegou a xícara de café. Outra ponte queimada, pensou. Ou, quem sabe, talvez as duas primeiras tábuas colocadas no lugar de uma antiga.

Ele estava partindo para Hatteras pela manhã. Se não fosse nada, ponderou, seria um bom teste para as condições de navegação do Sereia.

O barco estava terminado, pintado, lixado e batizado. Ele e LaRue o haviam levado para fazer alguns pequenos passeios durante os últimos dias. Velejava que era uma beleza.

Matthew se recostou, feliz e cansado. Talvez ele tivesse finalmente terminado algo que iria durar.

Até mesmo o nome tinha um significado pessoal. Ele havia tido o sonho novamente, aquele com Tate no fundo e na escuridão do mar. Não precisava de Freud para explicá-lo. Esteve em freqüente contato com Ray ao longo das últimas semanas. O nome de Tate veio à tona, assim como o habela e as lembranças daquele verão.

Naturalmente, aquilo o fizera pensar e olhar para trás, por isso teve o sonho.

Tate podia ter sido nada mais do que uma lembrança saudosa, mas o sonho viera de um jeito tão imediato que Matthew se sentira compelido a batizar o barco inspirado nele. Ou, de uma forma indireta, supunha, nela.

Ele perguntava a si mesmo se a veria, mas duvidava. E permitindo-se relaxar, concluiu que aquilo não tinha a mínima importância.

A porta de tela se abriu, fazendo barulho, e bateu. LaRue entrou com pacotes para viagem que continham hambúrgueres e batatas fritas.

- Você fez a sua ligação? - perguntou.

- Sim. Disse para Ray que iríamos partir hoje de manhã. - Levantando as mãos sobre a cabeça, Matthew entrelaçou os dedos de uma mão nos da outra e se alongou. - O tempo parece bom. Não devemos demorar mais de três ou quatro dias se andarmos rápido. Isso nos dará a chance de testar o seu desempenho.

- Não vejo a hora de conhecer ele e Maria. - LaRue encontrou pratos descartáveis. - Ele não falou mais sobre o que descobriu?

- Ray quer me ver pessoalmente. - Subitamente voraz, Matthew serviu-se de um hambúrguer. - Ele pretende seguir para as índias Ocidentais lá pelo meio de abril. Disse-lhe que isso nos seria conveniente.

O olhar de LaRue se cruzou com o de Matthew e se deteve.

- Quanto mais cedo, melhor.

- Você está doido por querer voltar lá. - com uma expressão intratável no rosto, Buck saiu do quarto. - O lugar é amaldiçoado. O Isabela é amaldiçoado. Levou o seu pai, não foi? com passos lentos e calculados, ele se aproximou. - Quase me levou. Deveria ter levado.

Matthew salgou suas batatas o suficiente para que LaRue estremecesse.

- VanDyke levou o meu pai - disse ele calmamente. - Um tubarão levou a sua perna.

- Foi a Maldição de Angelique que provocou tudo isso.

- Talvez tenha sido. - Matthew estava pensativo enquanto mastigava. - E se foi, acredito que tenho direito a ela.

- Ela traz má sorte para os Lassiter.

- Já é hora de mudar a minha sorte.

Inseguro, Buck se apoiou na pequena mesa forrada de fórmica.

- Talvez ache que eu só ligue para o que acontece com você por causa do que vai acontecer comigo. A coisa não é bem assim. Seu pai esperava que eu tomasse conta de você. Fiz o melhor possível enquanto tive condições.

- Há muito tempo que não preciso de ninguém tomando conta de mim.

- Talvez não. E talvez eu tenha errado muito no que diz respeito a você e a mim nesses últimos anos. Você é tudo que eu tenho, Matthew. A verdade é que é a única coisa com a qual eu realmente me importo.

A voz de Buck mudou de tom, fazendo com que Matthew fechasse os olhos e se livrasse do menor indício de culpa,

- Não vou passar o resto da minha vida pagando por algo que não posso impedir ou ficar vendo você terminar o trabalho que o tubarão começou.

- Estou pedindo para que fique. Acredito que podemos começar um negócio. Levar turistas para passear, pescadores, esse tipo de coisa. - Buck engoliu em seco. - Desta vez eu faria a minha parte direito.

- Não posso fazer isso. - Já sem apetite, Matthew empurrou a comida para o lado e se levantou. - Vou atrás do Isabela, Se vou encontrá-lo ou não, o importante é que estou retomando a minha vida. Há um monte de navios naufragados por aí, e estarei condenado se resolver passar o resto dos meus dias recolhendo metal ou levando turistas para passear em vez de sair atrás de ouro.

- Não há nada que eu possa fazer para impedi-lo. - Buck olhou para as suas mãos trêmulas. - Não achava que haveria. - Ele respirou bem fundo, ajeitando os ombros. - Vou com você.

- Olha, Buck...

- Não tomo uma mísera dose há dez dias. - Buck cerrou os punhos e relaxou, à força. - Estou sóbrio. Talvez um pouco vacilante ainda, mas sóbrio.

Pela primeira vez, Matthew olhou para o seu tio. Havia sombras sob os seus olhos, mas ambos estavam claros. -- Você resolveu ir há dez dias, Buck.

- Sim, mas não por conta própria. Também tenho interesse nessa viagem, Matthew. Morro de medo de voltar lá. Mas, se você vai, eu vou. Os Lassiter são inseparáveis - conseguiu dizer antes que sua voz mudasse de tom novamente. - Quer que eu implore a você para que não me deixe aqui?

- Não. Deus. - Ele esfregou a mão no rosto. Havia uma dúzia de motivos lógicos e viáveis para dizer não. E só um para concordar. Buck era da família. - Não posso bancar a babá ou me preocupar se está bebendo escondido. Você precisa trabalhar e fazer por merecer o seu lugar no barco.

- Sei o que tenho que fazer.

- LaRue - Matthew se virou para o homem que estava jantando calmamente -, isso o interessa. O que você acha de tudo isso?

Educadamente, LaRue engoliu o que mastigava e limpou a boca com um guardanapo de papel.

- Para mim, acho que duas mãos a mais não vão atrapalhar em nada, contanto que estejam firmes. - Ele encolheu os ombros. - Caso tremam, você pode levá-lo para servir de lastro.

Humilhado, Buck trincou o maxilar.

- Farei a minha parte. James queria o habela. Vou ajudar você a trazê-lo para ele.

- Tudo bem - disse Matthew, acenando com a cabeça. - Arrume as suas coisas. Amanhã partiremos assim que o dia nascer.

 

O pequeno avião pousou na pista e acordou Tate, em meio a um cochilo. Durante as últimas trinta e oito horas ela ficara quase que em constante movimento, saindo de barcos para aviões, de aviões para táxis. Havia atravessado grande parte do Pacífico, um continente inteiro e todos os mais variados fusos horários.

Seus olhos lhe diziam que era dia, mas o corpo não fazia a menor idéia.

No momento, ela se sentia como se fosse feita de um vidro fino e frágil que iria se estilhaçar facilmente com um barulho mais alto ou uma desatenção que a fizesse sofrer um choque qualquer.

Mas estava em casa. Ou pelo menos mais perto, no pequeno aeroporto de Prisco, na ilha Hatteras. Só faltava um pequeno trecho a carro, e, depois, conforme jurou, iria evitar qualquer coisa que se movesse durante pelo menos vinte e quatro horas.

Mudando cuidadosamente de posição, Tate se abaixou para pegar a bagagem. A lata de sardinha com hélice que havia pego em Norfolk estava vazia, sem contar com ela e o piloto. Assim que parou, depois de taxiar, ele se virou e fez um sinal com o polegar, o qual Tate retribuiu com um gesto vago e um sorriso ainda mais indefinido.

Ela sabia que tinha muito no que pensar, mas sua mente simplesmente não conseguia funcionar direito. Desde que descobrira a conexão com VanDyke, ficou com muita pressa de voltar para casa. O destino havia feito a sua parte. Tate estava colocando seus apetrechos nas bolsas quando recebeu uma ligação do seu pai, pedindo para que voltasse tão logo conseguisse largar a expedição.

Bem, ela havia largado, pensou. Em tempo recorde.

Desde então, não fizera nada a não ser trabalhar e viajar, tirando algumas rápidas sonecas nos intervalos. Esperava que VanDyke já tivesse sido informado de que ela estava a milhares de quilômetros do seu posto. Esperava que ele soubesse que sua funcionária havia enfiado o dedo no seu nariz.

Com uma pasta numa mão e uma bolsa pendurada no ombro, Tate transpôs os degraus estreitos até pisar no macadame. Seus joelhos bambearam e ela se sentia grata pelos óculos escuros que bloqueavam o clarão do sol luminoso.

Ela os viu quase imediatamente, acenando felizes, enquanto esperava o piloto tirar sua mala do bagageiro.

Quão pouco eles haviam mudado, refletiu Tate. Talvez houvesse mais alguns fios grisalhos no cabelo do seu pai, mas os dois estavam muito bem, magros e bonitos. Ambos sorriam que nem bobos de mãos dadas enquanto acenavam loucamente.

Metade do cansaço que Tate sentia por causa da viagem desapareceu só ao olhar para eles.

Mas em que vocês se meteram desta vez?, perguntava ela a si própria. Segredos que não podiam ser compartilhados ao telefone. Intrigas, planos e aventuras. Aquele maldito amuleto, aqueles malditos destroços. Os malditos Lassiter.

Fora o entusiasmo de Ray em relação à possibilidade de se juntar aos Lassiter mais uma vez que pesou na balança para que a viagem de Tate tivesse Hatteras como destino, em vez do seu apartamento em Charleston. Só esperava que o pai a tivesse ouvido e desistido de entrar em contato com Matthew. Era incompreensível para ela que qualquer um dos envolvidos quisesse uma reprise daquele verão horroroso.

Bem, ela estava ali agora, constatou enquanto segurava a alça e puxava a bolsa para mais perto de si. E iria falar a sério com seus maravilhosos, porém ingênuos, pais.

- Oh, querida, como é bom vê-la. - Os braços de Maria a envolveram e a apertaram com força. - Há quanto tempo. Já faz quase um ano.

- Eu sei. Senti a falta de vocês. - com uma gargalhada, ela deixou a bolsa cair no chão para que pudesse abraçar o pai. - Senti a falta dos dois. Vocês estão ótimos. - Depois de se soltar, ela deu um passo para trás, a fim de examinar a ambos mais atentamente.

- Mãe, você está realmente ótima. E mudou o seu cabelo. Está quase tão curto quanto o meu costumava ser.

- Você gostou? - De um modo todo feminino, Maria deu uns tapinhas no seu penteado curto e original.

- Está demais. Totalmente fashion. - E de um jeito lisonjeiro e juvenil, Tate se perguntava como aquela mulher bonita e de pele lisa podia ser a sua mãe.

- Ultimamente tenho me ocupado muito com jardinagem. Sempre pensei que acabaria me dedicando a isso. Querida, você está tão magra. Anda trabalhando demais. - com a testa enrugada, Maria se virou para o marido. - Ray, eu já disse a você que ela anda trabalhando muito.

- Você me disse - concordou ele antes de revirar os olhos. - Várias e várias vezes. Como foi a viagem, meu bem?

- Interminável. - Tate girou os ombros para relaxá-los enquanto os três andavam pelo pequeno terminal onde Ray havia estacionado o seu jipe. Abafando um bocejo, ela balançou a cabeça.

- O que importa é que estou aqui.

- Estamos felizes com isso. - Ray colocou a bagagem na traseira do jipe. - Queríamos você nessa viagem, Tate, mas sinto-me culpado por saber que desistiu da sua expedição. Sei que ela era importante.

- Não tão importante quanto eu achava. - Ela subiu na traseira do jipe e deixou a cabeça cair para trás. Não queria trazer o assunto VanDyke à tona. Pelo menos não agora. - Fico feliz por ter sido parte daquilo. Realmente admirava as pessoas com as quais estava trabalhando, e ficaria entusiasmada para trabalhar com qualquer um deles novamente. E o processo como um todo foi fascinante. Mas tudo era muito impessoal. Na hora em que os artefatos chegavam às minhas mãos, já haviam passado por tantas outras que era quase como se eu estivesse tirando algo de uma vitrine de exposição para examinar. - Cansada, ela mexeu os ombros. - Vocês entendem?

- Sim. - Como Maria recomendara, Ray conteve sua necessidade de falar sem parar sobre os seus planos. Dê-lhe um tempo, insistira Maria. Vai devagar.

- Agora você está em casa - disse uma mãe atenciosa. - A primeira coisa que fará é comer uma boa refeição quente e tirar uma soneca.

- De jeito nenhum. Assim que eu desanuviar a cabeça, quero ouvir tudo sobre essa idéia de ir atrás do Isabela.

- Depois que você ler a minha pesquisa - disse Ray carinhosamente enquanto se virava na direção da vila de Buxton -, verá por que estou tão ansioso para partir. - Ele abriu a boca com o intuito de prosseguir, mas notou o olhar de advertência da esposa e se conteve. - Depois que você descansar um pouco, vamos organizar tudo para que obtenhamos os melhores resultados possíveis.

- Pelo menos me diga o que encontrou e o levou a querer retomar essa história - solicitou Tate enquanto ele virava numa brecha entre os pinheiros e seguia por uma viela de areia. - Ah, as azaléias estão florindo.

Tate foi fisgada e se inclinou para fora da Janela, a fim de provar do perfume dos pinheiros, da baía e das flores, misturado com o cheiro da maresia. Como Tate bem se lembrava, tudo aquilo parecía um conto de fadas.

Maria havia, engenhosamente, espalhado arbustos floridos entre as árvores, aclimatados com bulbos do verão e da primavera, de modo que manchas e fluxos de cores pareciam magnificamente selvagens e nada planejados.

Perto da casa de cedro de dois pavimentos com sua ampla varanda havia canteiros de flores levemente mais formais, onde árabis, prímulas e sálvias davam lugar a aqüilégias e esporas. As sazonais e perenes floresciam enquanto as outras esperavam pela sua estação.

- Você deu início a um jardim com flores e pedras - observou Tate, estendendo o pescoço enquanto o jipe virava numa entrada mais ampla que dava no canal.

- É o meu novo projeto. Há muitas sombras por aqui, e isso me obriga a ser bastante exigente. E você tem que ver o meu canteiro de ervas no quintal dos fundos, perto da cozinha.

- Tudo parece fabuloso. - Tate saiu do jipe e olhou para a casa. - E é tão silencioso - disse suavemente. - São só a água, os pássaros e a brisa no meio dos pinheiros. Não sei como vocês têm coragem de sair daqui.

- Sempre que voltamos de uma das nossas pequenas excursões amamos muito mais o nosso lar. - Ray pegou as malas da filha. - Será um grande lugar para passarmos a velhice. - Ele piscou para a esposa. - Quando estivermos prontos para nos aposentar.

- Esse será o dia. - Mais feliz do que havia imaginado que ficaria por estar lá, Tate começou a andar em meio às pedras de calçamento colocadas no leve declive. - Suponho que estarei pronta para me juntar a vocês muito antes de... - Ela parou na porta dos fundos. A rede colorida que havia comprado para seu pai durante uma viagem ao Taiti estava esticada bem no ponto onde batia sol. E estava ocupada. - Vocês têm companhia?

- Não é uma companhia qualquer. São velhos amigos. - Maria abriu a porta de correr.

- Eles chegaram ontem, pouco antes do anoitecer. Estamos cheios de viajantes cansados, não é, Ray?

- Estamos com a casa cheia deles.

Tate podia ver pouco mais do que um punhado de cabelos escuros que caíam sobre óculos espelhados e sinais de um corpo bronzeado e musculoso. Foi o suficiente para que seu estômago se retorcesse em vários nós dolorosos.

- Que velhos amigos? - perguntou num tom neutro e cauteloso.

- Buck e Matthew Lassiter. - Maria já estava na cozinha, dando uma olhada no ensopado de mariscos que esquentava para o almoço. - E seu colega de bordo, LaRue. Sujeito interessante, não é, Ray?

- Pode apostar. - Ray ostentava um sorriso radiante. Ele resolvera não mencionar a Maria a objeção que sua filha fazia à reedição da velha parceria, - Você vai gostar dele, Tate. Vou colocar suas coisas no quarto. - E escapou.

- Onde está Buck? - perguntou Tate a sua mãe. Embora tivesse ido para a cozinha, ela ficou de olho na rede atrás da janela.

- Ah, ele está por aí. - Maria provou o ensopado e acenou com a cabeça. - Parece bem melhor do que na última vez em que o vimos.

- Bebendo?

- Não. Nenhuma gota desde que chegou aqui. Sente-se, querida. Deixe eu lhe servir uma tigela.

- Ainda não. - Tate manteve os ombros firmes. -Acho que vou sair e me familiarizar um pouco mais com isso aqui.

- Que bom. Diga a Matthew que o almoço dele está pronto.

- Certo, - Ela pretendia lhe dizer muito mais do que isso.

A areia e a grama macia silenciaram os seus passos. Embora tivesse certeza de que ele não iria se mexer, mesmo se marchasse com uma orquestra de metais. A luz do sol se inclinava sobre Matthew. Lindamente, pensou ela, enfurecida.

Ele estava lindo. Não havia ressentimento ou desdém que pudesse negar isso. Seu cabelo estava desalinhado e obviamente não via um barbeiro há algum tempo. Dormindo, seu rosto estava relaxado, e aquela linda boca parecia ainda mais macia. Tate supôs que ele estava um pouco mais magro do que há oito anos, já que as covinhas nas bochechas estavam mais fundas. E aquilo apenas aumentava o vigor sexual instantâneo. Ele usava jeans rasgados e uma camiseta desbotada; era esbelto, musculoso e parecia duro que nem granito.

Ela se permitiu dar uma boa olhada, monitorando meticulosamente sua própria reação como faria com qualquer experiência num laboratório. Julgou que talvez tivesse havido um aumento inicial na pulsação. Mas isso era mais do que natural quando uma mulher se aproximava de um espécime muito atraente.

Tate estava grata por poder relatar que, depois de uma descarga visceral, não sentia nada além de aborrecimento, ressentimento, e a boa e velha raiva ao encontrá-lo deitado no seu pedaço.

- Lassiter, seu desgraçado.

Ele nem se mexeu; seu peito continuava a subir e descer no mesmo ritmo. com um sorriso fechado, ela fincou os pés no chão segurou firme na ponta da rede. Colocando as costas por baixo Tate se levantou.

Matthew acordou no meio do balançar. Teve um rápido vislumbre do chão se aproximando e esticou as mãos instintivamente para tentar se manter no ar. Ele resmungou quando bateu no chão e falou um palavrão no momento em que o espinho de um cardo espetou seu polegar. Grogue e desorientado, Matthew balançou a cabeça. Jogando o cabelo para trás, ajeitou-se até ficar sentado no piso.

A primeira coisa que viu foram pés pequenos enfiados em botas de caminhada confortáveis e folgadas. E então vieram as pernas. E que pernas. Longas, femininas e lindamente proporcionais, usando uma legging preta justa. Em outras circunstâncias, ele poderia passar um bom tempo examinando-as alegremente.

Levantando um pouco mais o olhar, ele deu de cara com uma camisa preta masculina por sobre quadris largos que, definitivamente, não pertenciam a um homem. Belos seios apontavam para cima e acrescentavam uma bela curva à blusa.

E então veio o rosto.

Ele sentiu a adrenalina percorrer todo o seu corpo.

Ela havia mudado um pouco, pensou. De um jeito deslumbrante. Apetitosamente. Se era nova, linda e doce aos vinte anos, a mulher que Tate se tornara era de parar o trânsito.

Sua pele era da cor do marfim, quase transparente e pura com um rubor rosado. Sua boca sem batom era cheia, sexy e fazia um biquinho de quem estava mal-humorada, que fez com que os lábios de Matthew ficassem completamente secos. Ela havia deixado o cabelo crescer, e este estava jogado para trás, amarrado num rabo-de-cavalo firme que deixava seu rosto sem nenhuma moldura. Por trás das lentes escuras, seus olhos estavam ardendo de raiva.

Percebendo que estava prestes a ficar olhando como um palerma, Matthew despertou. Para se defender, inclinou a cabeça e lhe lançou um sorriso rápido e desleixado.

- Oi, ruiva. Há quanto tempo.

- Que diabos você está fazendo aqui, envolvendo meus pais em mais um plano ridículo?

Numa manobra vacilante, ele se recostou numa árvore. Seus joelhos estavam bambos.

- É bom ver você também - disse Matthew secamente. - E vejo que entendeu tudo errado. Quem teve a idéia foi Ray. Vou apenas acompanhá-lo na viagem.

- Levando-o para fazer uma viagem é mais plausível. - O nível de desgosto aumentava. Não era possível engoli-lo por inteiro. - A parceria foi dissolvida há oito anos e vai continuar assim. Desfeita. Quero que você volte para o buraco de onde saiu.

- É você quem manda aqui, ruiva?

- Farei o que for necessário para proteger os meus pais de você.

- Nunca fiz nada a Ray ou a Maria. - Ele levantou a sobrancelha. - Nem mesmo a você. Embora nesse particular eu tenha tido muitas oportunidades.

As maçãs do rosto de Tate se inflamaram. Ela o odiou por dizer aquilo, odiava aqueles malditos óculos que escondiam os olhos dele e refletiam a sua própria imagem.

- Não sou mais uma garotinha deslumbrada, Lassiter. Sei exatamente o que você é. Um oportunista sem senso de lealdade ou responsabilidade. Não precisamos de você.

- Ray pensa de forma diferente.

- Ele tem o coração mole. - Tate levantou o queixo. - Eu não. Talvez você tenha feito a cabeça do meu pai para que ele colocasse o seu dinheiro num projeto maluco qualquer, mas estou aqui para impedir isso. Você não irá usá-lo.

- É assim que você vê a coisa? Que eu o estou usando?

- Você usa as pessoas desde que nasceu - disse ela suavemente,, feliz por conseguir manter o autocontrole. - Quando as coisas ficam difíceis, você se manda. Como largou Buck, deixando-o num estacionamento para trailers fora de mão na Flórida, enquanto ficava navegando por aí. Eu estive lá. - Quase tremendo de rancor, ela se aproximou. - Há quase um ano fui vê-lo. Vi a pocilga na qual você o enfiou. Ele estava completamente sozinho e doente. Quase não havia comida. Buck disse que mal podia se lembrar da última vez em que você andou por lá, pois estava mergulhando por aí.

- Isso é bem verdade. - Ele teria arrancado a língua com o seu próprio orgulho antes que pudesse lhe dizer algo diferente.

- Ele precisava de você, mas você estava muito envolvido com seus próprios assuntos para lhe dar alguma atenção. Deixou que ficasse sozinho até morrer. Se meus pais soubessem o quanto você é insensível, o quanto é realmente frio, teriam mandado você pastar.

- Mas você sabe.

- Sim, eu sei. Já sabia há oito anos, quando você teve a consideração de me mostrar, Essa é a única coisa que lhe devo, Matthew, e retribuirei dando-lhe a chance de se retirar dignamente desse negócio.

- De jeito nenhum. - Ele cruzou os braços. - Vou atrás do Isabela, Tate, de um jeito ou de outro. Tenho as minhas próprias dívidas para pagar.

- Você não vai usar os meus pais para pagá-las. - Ela se virou abruptamente e saiu dali a passos largos.

Sozinho, Matthew se deu um minuto para deixar a tempestade de emoções se assentar. Lentamente se sentou de novo na rede, apoiando os pés para evitar que ela balançasse.

Ele não esperava que Tate fosse cumprimentá-lo com os braços abertos e um sorriso radiante. Mas não poderia prever uma aversão tão profunda e absoluta. Lidar com isso seria difícil, porém necessário.

Contudo, aquilo não era o pior. De maneira alguma. Matthew tinha certeza de que já a havia esquecido. Durante anos, ela mal havia passado de uma lembrança passageira em sua vida. E foi um choque, um choque desagradável e devastador, perceber que, em vez de tê-la esquecido, ele estava desesperada e tolamente apaixonado por Tate.

Ainda.

Antes que Maria pudesse repetir seu convite para almoçar, Tate já havia passado voando pela cozinha, adentrado a sala de estar desarrumada e acolhedora, descido as escadas que davam no vestíbulo e saído pela porta da frente.

Ela precisava respirar.

Pelo menos havia conseguido manter a calma, disse a si mesma enquanto andava apressada sobre o solo arenoso, na direção do braço de mar. Não dera um soco nele como queria. E havia exposto a sua posição de forma clara e cristalina. Faria o necessário para que Matthew Lassiter fizesse as malas e partisse até o cair da noite.

Tate teve que respirar fundo novamente assim que pisou no pequeno embarcadouro. Atracado por lá estava o Novo Aventura, o cruzador de quarenta e dois pés que seus pais batizaram há apenas dois anos. Ele era uma beleza, e embora Tate só tivesse conseguido dar um rápido passeio a bordo, sabia que o barco era rápido e ágil.

Ela teria embarcado, só para passar alguns minutos sozinha com sua raiva, se não houvesse outro barco no outro lado do píer.

Tate ficou olhando para ele com uma expressão carrancuda, para suas linhas incomuns e seu casco duplo, quando Buck surgiu no convés.

- Olá, menina bonita!

- Olá, Buck. - Sorrindo, ela correu para o píer. - Peço permissão para subir a bordo, senhor.

- Permissão concedida, - Ele riu, estendendo a mão enquanto Tate pulava graciosamente.

Ela pôde ver, imediatamente, que seu amigo havia perdido parte do peso, e já não estava mais inchado por causa da bebida e da má alimentação. Buck estava corado de novo e seus olhos haviam recobrado o foco. Quando o abraçou, não havia mais aquele cheiro de uísque e suor.

- É bom vê-lo - disse Tate. - Você parece renovado.

- Vou levando. - Ele mudou de posição de um jeito desconfortável. - Você sabe o que dizem, que deve-se viver um dia de cada vez.

- Estou orgulhosa de você. - Ela encostou o rosto no de Buck, mas, sentindo seu embaraço, se afastou. - Bem, me conta tudo. -Tate abriu os braços como se quisesse abarcar toda a extensão do barco. - Há quanto tempo ele é seu?

- Matthew o finalizou alguns dias antes de cairmos no mar. Seu sorriso murchou; seus braços caíram para os lados.

- Matthew?

- Ele o construiu - disse Buck com um orgulho que transparecia em cada sílaba. - Projetou-o e ficou trabalhando nele de vez em quando durante anos.

- Matthew projetou e construiu o barco sozinho?

- Quase sem a ajuda de ninguém. Deixe-me mostrá-lo por dentro para você. - Enquanto a guiava pelo convés, da proa à popa, fazia comentários sobre o projeto, a estabilidade, a velocidade. De tempos em tempos, sua mão acariciava uma amurada ou encaixe com afeto.

- Eu disse coisas sobre o barco que o magoaram - admitiu Buck. - Mas o garoto provou que eu estava errado. Enfrentamos uma rajada de vento na costa da Geórgia e ele a suportou como um cavalheiro.

- Hum-Hum.

- Ele pode carregar setecentos e cinqüenta litros de água doce - prosseguiu, gabando-se como se fosse um pai coruja. - E, do jeito que o garoto o construiu, pode armazenar tanto quanto se vê num navio de sessenta pés. Tem motores separados, cento e quarenta e cinco cavalos de força.

- Parece que ele tem pressa - murmurou Tate. Quando adentrou a casa do leme, seus olhos se arregalaram. - Meu Deus, Buck, que equipamento.

Atordoada, ela circulou pelo ambiente, examinando tudo. Um sonar topo de linha, medidores de profundidade, um magnetômetro. A cabine do piloto tinha equipamentos de navegação de alta qualidade e sofisticação, um rádio transmissor, um localizador de sinais de rádio, um navegador para receber dados climáticos vindos da costa e, para o seu mais completo espanto, uma plotadora num monitor de cristal líquido.

- O garoto queria o melhor.

- Sim, mas... - Ela queria saber como Matthew havia pago tudo aquilo, mas temia que a resposta pudesse estar ligada aos seus pais. Em vez disso, respirou fundo e prometeu a si mesma que descobriria a resposta sozinha mais tarde. - É uma baita aparelhagem.

A cabine do piloto permitia uma total visibilidade e tinha acessos para estibordo e bombordo. Havia uma mesa de navegação ampla e plana, que naquele instante estava vazia, e um anexo com armários de metal para guardar coisas. Havia até um sofá-cama com um grosso estofamento azul-marinho sobre madeira que havia sido construído num canto.

Era um grande avanço em relação ao Demônio do Mar, refletiu Tate.

- Venha olhar as cabines. Diabos, acho que eu poderia chamálas de camarotes. Há duas delas com cabeceiras. Dá para dormir confortavelmente. A a cozinha é do tipo que deixaria até a sua mãe orgulhosa.

- É claro que adoraria vê-la, Buck - disse Tate enquanto os dois seguiam na direção da popa. - Há quanto tempo Matthew está planejando voltar para procurar o Isabela?

- Não dá para dizer. Provavelmente desde que deixamos o Margarida. Para mim, isso nunca saiu da cabeça dele. Tudo que lhe faltava eram tempo e recursos.

- Recursos - repetiu Tate. - Então ele começou a ganhar dinheiro?

- LaRue entrou como sócio.

- LaRue? Quem...

 - Será que ouvi meu nome?

Tate viu uma figura na base da escada que separava os conveses. Enquanto descia, ela divisou um homem magro e elegantemente vestido na faixa dos quarenta a cinqüenta anos. O ouro cintilava no seu sorriso enquanto ele dava a mão para ajudá-la a descer.

- Ah, senhorita, minha cabeça está rodando. - Ele arrastou a mão de Tate sobre os seus quadris.

- Não dê bola para esse canadense magricela, Tate. Ele se julga um galanteador.

- Um homem que reverencia e aprecia as mulheres - corrigiu LaRue. - Estou encantado em finalmente conhecê-la e em ter formosura enfeitando o nosso humilde lar.

Só de olhar, a limpa e arrumada cabine principal parecia tudo menos humilde. A madeira brilhava no balcão de jantar, onde assentos coloridos e acolchoados jaziam esperando. Alguém havia pendurado mapas emoldurados, amarelados com o tempo, nas paredes. Ela ficou surpresa ao ver um vaso com narcisos viçosos numa mesa.

- Creio que foi uma grande subida de padrão do Demônio do Mar para cá - comentou Buck.

- Do Demônio do Mar para o Sereia - sorriu LaRue. - Será que eu poderia lhe oferecer um pouco de chá, senhorita?

- Não. - Ela ainda estava piscando, chocada. - Obrigada, tenho que voltar. Há um monte de coisas que eu preciso conversar com os meus pais.

- Ah, sim. Seu pai estava vibrando por você ter resolvido vir conosco. Eu, de minha parte, fico feliz em saber que duas damas tão belas acrescentarão charme à jornada.

- Tate não é apenas uma dama - disse Buck. - É uma excelente mergulhadora, uma moça que nasceu para buscar tesouros e uma cientista.

- Uma mulher de muitos talentos - murmurou LaRue. - Sinto-me humilhado.

Confusa, ela o encarou.

- Você navegou com Matthew?

- Decerto. Foi uma provação para mim tentar incutir alguma. cultura dentro de sua vida.

Buck bufou.

- Merda com sotaque continua sendo merda. Desculpe, Tate.

- Tenho que voltar - repetiu, confusa. - Foi um prazer conhecê-lo, Sr. LaRue.

- Apenas LaRue. - Ele beijou sua mão novamente. - A bientôt.

Buck empurrou LaRue para o lado com os ombros.

- Eu levo você de volta.

- Obrigada. - Tate esperou até que voltassem ao píer e seguissem pela praia. - Buck, você disse que Matthew vinha trabalhando de vez em quando nesse barco há anos?

- Sim, sempre que ele tinha um pouco de tempo ou dinheiro sobrando. Deve ter feito uma dúzia de desenhos e esboços antes de optar por esse projeto.

- Entendo. - Esse tipo de ambição e tenacidade era mais do que ela podia esperar dele. A não ser que...

- Tudo bem. - Ela colocou a mão no braço de Buck de um jeito amigável. - Espero que você não me leve a mal, mas não estou certa de que isso é uma boa idéia.

- Você se refere ao fato de estarmos nos associando a Ray e Maria para voltar lá?

- Sim. Encontrar o Margarida foi praticamente um milagre. As chances de que isso aconteça duas vezes são muito remotas. Sei que demorou muito tempo para que todos superássemos a decepção anterior. Odeio constatar que vocês e os meus pais irão passar por tudo isso de novo.

Buck fez uma pausa para colocar seus óculos de volta no lugar.

- Não posso dizer que estou feliz com isso. - Num reflexo automático, ele se abaixou para esfregar a perna artificial. - Lembranças ruins, má sorte. No entanto, Matthew está determinado. E eu lhe devo muito.

- Isso não é verdade. É ele que está em débito com você. Ele lhe deve a vida.

- Talvez sim. - Buck fez uma careta. - O fato é que o fiz pagar por isso. Não salvei o seu pai. Não sei se poderia tê-lo feito, mas não o fiz. Nunca fui atrás de VanDyke. Não sei que bem isso poderia ter trazido, mas nada fiz. E então, quando chegou a minha hora de pagar, não encarei a coisa como um homem deveria encarar.

- Não fale assim. - Tate enganchou seu braço no do amigo de um jeito protetor. - Você está se saindo maravilhosamente bem.

- Agora. Há duas semanas. Isso não compensa todos os anos intermediários. Deixei o garoto assumir tudo, o trabalho e a culpa.

- Ele deixou você sozinho - retrucou Tate furiosamente. - Devia ter ficado ao seu lado. E o apoiado.

- Não fez nada, a não ser me dar apoio. Trabalhou num emprego que odiava só para que eu pudesse ter o que fosse necessário. Eu pegava, usava e jogava isso na sua cara a cada chance que tinha. Tenho vergonha disso.

- Não sei do que você está falando. Na última vez em que o visitei...

- Menti para você. - Ele olhou para baixo, sabendo que, em nome do seu respeito próprio, tinha que correr o risco de perder o afeto de Tate. - Quis dar a impressão de que ele tinha me abandonado, não aparecia nunca e não fazia nada por mim. Talvez não tivesse aparecido muito mesmo, mas é difícil culpá-lo. Ele me mandava dinheiro, tomava conta das coisas melhor do que eu seria capaz. Pagou minhas desintoxicações não sei quantas vezes.

- Mas eu achava...

- Queria que você pensasse assim. Queria que ele pensasse assim também, pois era mais fácil para mim se todos fôssemos um bando de infelizes. Matthew fez o melhor que pôde.

Longe de estar convencida, ela balançou a cabeça.

- Ele devia ter ficado com você.

- Ele fez o que tinha que fazer - insistiu Buck, enquanto Tate se curvava à inabalável lealdade familiar.

- Independentemente disso, esse novo distúrbio mental me parece impulsivo e perigoso. Vou dar o melhor de mim para convencer os meus pais a saírem dessa. Espero que você entenda.

- Não posso culpá-la por pensar duas vezes se deve ou não se ligar aos Lassiter novamente. Faça o que tiver que fazer, Tate, mas posso lhe garantir que o seu pai está com as cartas na mão.

- Então terei simplesmente que mudar o jogo.

 

Havia momentos em que o vento era constante, soprava forte e vencia até o marinheiro mais determinado. Tate tolerava a presença de Matthew no jantar. Ela conversava com Buck e LaRue na mesa grande de cor castanha. Ouvia suas histórias, ria de suas piadas.

Seu coração simplesmente não era duro o bastante para estragar o astral de celebração ou para ofuscar a luz do encanto nos olhos de Ray com lógica e fatos frios e duros.

Por ser inteligente o bastante para notar os olhares de preocupação que sua mãe lhe desferia às vezes, Tate tentou ser superficialmente cortês com Matthew, embora fizesse o máximo possível para limitar seu contato a frases obrigatórias, como ”me passa o sal”.

Quando terminou a refeição, ela manobrou a situação a seu favor ao insistir em lavar a louça sozinha com o pai.

- Aposto que você não tem uma refeição como essa há um tempo muito longo - comentou ele, sussurrando enquanto empilhava os pratos.

- Bota longo nisso. Lamento não ter agüentado comer a torta de nozes.

- Você pode experimentar mais tarde. Esse LaRue é uma figura, não? Num instante ele estava trocando receitas com a sua mãe, e no seguinte discutia política internacional, ao mesmo tempo em que desviava o assunto para beisebol e arte do século dezoito.

- Ele é um verdadeiro intelectual com cultura universal - murmurou Tate. Mas ela hesitava em fazer um julgamento de LaRue. Na sua opinião, qualquer amigo de Matthew requeria uma avaliação cuidadosa e minuciosa. Mesmo se fosse interessante, informado e encantador. Especialmente se fosse. - Ainda não descobri o que ele está fazendo com Matthew.

- Ah, acho que os dois combinam muito bem. - Ray encheu a pia com água ensaboada para as panelas enquanto Tate entupia a máquina de lavar louça. - Matthew sempre teve muitas oportunidades, mas nunca conseguiu ter a chance de aproveitá-las.

- Diria que ele é um homem que sabe como aproveitar ao máximo as oportunidades. Isso é algo que quero conversar com você.

- O Isabela, - com as mangas arregaçadas, Ray começou a atacar as panelas na pia. - Vamos falar sobre isso, querida. Assim que todos tiverem se aprontado para a noite. Fiquei me segurando para não contar nada aos outros até você chegar aqui.

- Papai, sei como se sentiu quando encontramos aquele navio naufragado e inexplorado há oito anos. Sei como me senti, por isso entendo que ache que voltar lá é uma boa idéia. Mas não estou certa de que você está considerando todos os detalhes, os perigos imprevistos.

- Pensei muito neles ao longo dos anos e em algumas outras coisas a mais nos últimos nove meses. Tivemos nossa quota de sorte, boa e má, da última vez. Mas temos muito mais a conseguir agora.

- Papai. - Tate colocou outro prato na máquina. - Se minhas informações estiverem corretas, Buck não mergulha desde o acidente e LaRue trabalhou como cozinheiro em navios. Ele jamais colocou garrafas nas costas em toda a sua vida.

- Tudo isso é verdade. Talvez Buck não possa ir até o fundo do mar, mas sempre iremos precisar de mais uma mão no convés. Quanto a LaRue, ele está disposto a aprender, e tenho a impressão de que será um aluno eficiente.

- Somos seis - prosseguiu Tate, tentando em vão minar o otimismo. - Só três sabem mergulhar. Eu mesma não mergulho para valer há quase dois anos.

- É como andar de bicicleta - disse Ray tranqüilamente enquanto colocava uma panela no escorredor. - De qualquer maneira, precisamos de gente para ler e operar o equipamento. Agora temos uma arqueóloga marinha profissional à mão, que não está mais em fase de treinamento. - Ele lhe dirigiu um sorriso radiante. - Talvez você venha a fazer sua tese nesta expedição.

- Não estou preocupada com a minha tese no momento - disse ela, esforçando-se para demonstrar paciência. - Estou preocupada com você. Você e mamãe passaram os últimos anos brincando de busca ao tesouro, papai. Explorando navios naufragados já descobertos, mergulhando por prazer, juntando conchas. Isso não é nada comparado ao trabalho fisicamente extenuante que será necessário para fazer o que você tem em mente,

- Estou em forma - afirmou Ray, sentindo-se um pouco insultado. - Exercito-me três vezes por semana, mergulho regularmente.

Tática errada, pensou Tate.

- O.k. E quanto ao sacrifício? Isso pode consumir meses do seu tempo, além do custo de suprimentos, equipamento. Você não está falando de férias ou de um hobby. Quem está bancando essa aventura?

- Eu e sua mãe estamos bem financeiramente.

- Bem. - Esforçando-se para manter a calma, ela pegou um pano de prato para bater na bancada. - Isso responde à minha última pergunta. Você está botando dinheiro, e isso quer dizer que está bancando os Lassiter.

- Não é questão de bancá-los, querida. - Genuinamente confuso, ele tirou as mãos da água e as secou. - É uma parceria, que nem antes. Qualquer diferença será descontada dos lucros assim que resgatarmos os destroços.

- E se não houver nenhum navio naufragado? - explodiu ela. - Não me importo que você queira desperdiçar seus últimos centavos num sonho. Quero que aproveite tudo pelo qual trabalhou durante a vida. Mas como posso ficar aqui parada enquanto deixa aquele desgraçado egoísta e oportunista levá-lo para passear?

- Tate. - Alarmado com a voz carregada da filha, ele bateu no seu ombro. - Não sabia que você estava magoada. Achava que estava comprometida com a idéia quando me disse que estava voltando.

- Voltei para tentar impedi-lo de cometer um erro.

- Não estou cometendo erro algum. - Pela expressão de seu rosto dava para ela saber que Ray estava sentido. - E há um navio naufragado. O pai de Matthew sabia disso, eu sei disso. O Isabela está lá e a Maldição de Angelique está junto.

- Não me venha novamente com esse amuleto.

- Venho sim. Era isso que James Lassiter estava procurando, o que Silas VanDyke quer e o que vamos ter.

- Por que isso é tão importante? Esse navio, esse colar?

- Porque perdemos algo naquele verão, Tate - respondeu calmamente. - Mais do que a fortuna que o ladrão nos roubou. Mais até do que a perna de Buck. Perdemos a alegria do que havíamos feito, do que poderíamos fazer. Perdemos a mágica do que poderia vir a ser. Chegou a hora de a recuperarmos.

Tate suspirou. Como poderia enfrentar os sonhos? Será que ela também não tinha os seus? O museu que havia planejado e esperado montar durante grande parte de sua vida. Algum dia os veria realizados. Quem era ela para tentar impedir que o único sonho constante de seu pai se realizasse?

- Tudo bem. Podemos voltar, só nós três.

- Os Lassiter fazem parte disso agora, do mesmo jeito que antes. E se alguém tem o direito de encontrar esses restos, além do amuleto, é Matthew.

- Por quê?

- Porque isso lhe custou a vida do pai.

Ela não quis pensar nisso. Não queria vislumbrar a imagem do jovem que sofrera indefeso perante o cadáver do pai.

- O amuleto não significa nada mais para ele do que um meio para se chegar a um fim, algo que será vendido para quem der o melhor lance.

- Isso é ele quem decide.

- Isso faz com que ele seja - corrigiu Tate - um pouco melhor do que VanDyke.

- Ele a magoou naquele verão. Matthew. - Delicadamente, Ray segurou o rosto da filha. - Eu percebi que havia algo entre vocês, mas não sabia que as cicatrizes eram tão profundas.

- Isso não tem nada a ver - insistiu ela. - Não tem nada a ver com quem e o que ele é.

- Oito anos é muito tempo, querida. Talvez seja necessário voltar atrás e ver a situação de outro ângulo. Enquanto isso, há coisas que eu preciso mostrar para vocês, todos vocês. Vamos reunir todo mundo no meu escritório.

Relutante, Tate se juntou ao grupo na sala quente e envidraçada onde seu pai fazia suas pesquisas e escrevia artigos para revistas de mergulho. Ela se instalou de propósito no canto oposto ao de Matthew e se sentou no braço da poltrona onde sua mãe estava.

Com as janelas abertas para os aromas e a música da enseada, era uma maravilha poder se deliciar com a lareira. Ray ficou andando atrás de sua mesa e pigarreou como se fosse um conferencista nervoso prestes a ler o seu discurso.

- Sei que todos estão curiosos para saber o que me levou a começar essa aventura. Todos nós sabemos o que aconteceu há oito anos, o que encontramos e o que perdemos. Todas as vezes em que mergulhei depois, pensei no que tinha acontecido.

- Meditou - corrigiu Maria com um sorriso. Ray sorriu de volta.

- Não conseguia tirar isso da cabeça. Achei, num dado instante, que havia conseguido, mas então vinha algo que me fazia lembrar das coisas e tudo começava de novo. Um dia tive uma gripe e Maria não me deixou sair da cama. Passei o tempo vendo um pouco de televisão, e acabei me deparando com um documentário sobre resgate de objetos submersos. Era um navio naufragado dos bons, na costa do cabo Horn. E quem estava financiando a operação, quem levava toda a glória, era ninguém menos do que Silas VanDyke.

- Desgraçado - murmurou Buck. - Provavelmente roubou esse também.

- Pode ser, mas o ponto é que ele resolveu filmar os procedimentos. O sujeito não aparecia muito em frente à câmera, mas falou um pouco sobre o mergulho que havia feito, e sobre outros restos de navios que descobriu. O filho-da-puta falou sobre o Santa Margarida. Nem chegou a mencionar que a embarcação já havia sido encontrada e escavada. Do jeito que falou, parecia que havia feito tudo sozinho, e depois, generoso como ele só, doou cinqüenta por cento dos lucros para o governo de Saint Kitts.

- Em subornos e propinas - concluiu Matthew.

- O meu sangue subiu. Comecei a pesquisar novamente na mesma hora. Decidi que ele havia conseguido os destroços de um, mas não teria os do outro. Passei a maior parte dos dois anos seguintes desencavando toda migalha de informação que conseguia encontrar sobre o Isabela. Nenhuma referência ao navio, à tripulação e à tempestade era pequena ou insignificante. Foi assim que o encontrei. Ou como achei duas peças vitais para resolver o quebra-cabeça. Um mapa e uma referência à Maldição de Angelique.

Cuidadosamente, ele puxou um livro que estava na prateleira superior. Sua capa estava despedaçada e colada com fita adesiva. Suas páginas estavam puídas e amareladas.

- Está caindo aos pedaços - disse Ray sem necessidade. - Encontrei-o num sebo de livros. A vida de um marinheiro. Foi escrito em 1846, pelo bisneto de um sobrevivente do Isabela.

- Mas não houve sobreviventes - afirmou Tate. - Esse é um dos motivos que fizeram com que encontrar os restos do Isabela se tornasse uma tarefa tão difícil.

- Nenhum sobrevivente registrado. - Ray afagou o livro como se fosse um filho muito amado. - De acordo com o que está aqui, histórias e lendas que o autor transcreveu a partir dos contos do seu avô, José Baltazar foi lançado à praia na ilha de Névis. Ele era marinheiro no Isabela, e o viu afundando enquanto se agarrava, semiconsciente, a uma tábua que provavelmente era do já destruído Santa Margarida. Matthew, acho que o seu pai havia seguido esta mesma pista.

- Se isso é verdade, o que ele estava fazendo na Austrália?

- Estava atrás da Maldição de Angelique. - Ray fez uma pausa para criar um suspense. - Mas estava uma geração atrasado. Um aristocrata britânico, Sir Arthur Minnefield, havia adquirido o amuleto com um mercador francês.

- Minnefield. - Buck apertou osolhos, concentrado. - Lembro-me de ter visto esse nome nas anotações de James. Uma noite antes de morrer, ele me disse que estava olhando no lugar errado. Comentou sobre como VanDyke estava sendo injusto, como aquele maldito colar o havia feito mudar de postura. Foi assim que ele falou, ”aquele maldito colar”, e estava agitado. Quando terminamos o que tínhamos para fazer no recife, ele me explicou como iríamos nos livrar de VanDyke; viraríamos o feitiço contra o feiticeiro antes que ele o virasse contra nós. Afirmou que devíamos ter cuidado com o sujeito e não nos movermos com muita rapidez. Ele tinha muito mais estudos e cálculos para fazer antes de irmos atrás do navio

- Minha teoria é de que ele encontrou outra referência ao amuleto ou a Baltazar. - Ray colocou o livro cuidadosamente em cima da mesa. - Vejam bem, o amuleto não afundou no recife; o navio e Minnefield sim, mas a Maldição de Angelique sobreviveu. Os detalhes são escassos durante os trinta anos seguintes. Talvez o colar tenha sido levado pelas ondas, ou alguém o tenha encontrado enquanto explorava os recifes. Não encontrei nenhuma menção a ele entre 1706 e 1733. Mas Baltazar o viu no pescoço de uma jovem espanhola que estava a bordo do Isabela. E o descreveu. Ele ouviu a lenda e a recontou.

Longe de estar convencida, Tate cruzou os braços.

- Se há uma referência ao amuleto que reconhece que ele estava no Isabela, por que VanDyke não a encontrou e foi atrás do navio sozinho?

- Ele tinha quase absoluta certeza de que estava na Austrália - disse-lhe Buck. - Estava inflamado e obcecado por sua causa. Colocou na cabeça que James sabia algo a mais e ficou à espreita.

- E o matou por causa disso - afirmou Matthew secamente.

- VanDyke teve equipes que vasculharam aqueles destroços e aquela área durante anos.

- Mas se meu pai encontrou uma referência que indica que o colar está em outro lugar - continuou Tate com uma lógica obstinada - e o seu pai encontrou uma referência, é bastante razoável que um homem com a ganância e os recursos de VanDyke a tenha encontrado também.

- Talvez o amuleto não quisesse que ele o encontrasse. - LaRue falava calmamente enquanto enrolava um cigarro.

- Trata-se de um objeto inanimado - replicou Tate.

- Assim como o diamante Hope - insistiu LaRue. - A pedra filosofal, a Arca da Aliança. Contudo, as lendas que os cercam são cheias de vida.

- O termo operante é ”lenda”.

- Todos esses diplomas a deixaram descrente - comentou Matthew. - Que pena.

- Acho que o ponto principal - cortou Maria, reconhecendo a luz de guerreira nos olhos da filha - é que Ray descobriu algo, não que o amuleto detém ou não alguma espécie de poder.

- Bem colocado. - Ray esfregou a lateral do nariz. - Onde eu estava? Baltazar ficou fascinado pelo amuleto, mesmo depois que começou a circular a história da maldição e a tripulação ficou inquieta. Ele acreditava que o navio havia afundado por causa da maldição e que sobrevivera para contar a história. E a contou bem - acrescentou Ray. - Copiei diversas páginas com suas reminiscências da tempestade. Vocês verão, quando as lerem, que se travou uma batalha infernal e desesperada contra os elementos. Desses dois navios, o Margarida sucumbiu primeiro. Enquanto o Isabela se despedaçava, os passageiros e a tripulação eram arrastados para o mar. Ele alega ter visto a senhora espanhola, o amuleto afundando como se fosse uma âncora adornada com jóias em volta do seu pescoço. Evidentemente, tal detalhe pode ter sido acrescentado para dar um efeito artístico.

Ray distribuiu cópias das páginas.

- Seja como for, ele sobreviveu. O vento e as ondas o carregaram para longe da terra firme, de Saint Kitts ou de Saint Christopher, como era conhecida então a localidade. Ele havia perdido todas as esperanças e a noção de tempo quando viu o contorno da ilha de Névis. Não acreditava que conseguiria chegar à praia, pois estava fraco demais para nadar. Mas, no fim das contas, conseguiu se deixar levar pela corrente. Um jovem nativo o encontrou. Ele ficou à beira da morte e tendo delírios durante semanas. Quando recobrou os sentidos, não tinha mais o menor desejo de servir à armada. Em vez disso, deixou que o mundo acreditasse que estava morto. Permaneceu na ilha, casou-se e passou adiante as histórias de suas aventuras no mar.

Ray tirou outro papel da sua pilha.

- E desenhou mapas. Um deles - prosseguiu - foi feito por uma testemunha e coloca o Isabela a vários graus a sul-sudoeste dos destroços do Margarida. Ele está lá. Esperando.

Matthew se levantou para pegar o mapa. Era rudimentar e escasso, mas dava para reconhecer os pontos de referência - o rabo da baleia da península de St. Kitts, o cone do monte Névis que se erguia.

Uma necessidade antiga e quase esquecida veio à tona. A necessidade de explorar. Quando levantou os olhos, o sorriso que brilhava era o mesmo da sua juventude. Audaz, despreocupado e irresistível.

- Quando partimos?

Tati não conseguiu dormir. diversos pensamentos passavam pela sua cabeça, nadando em seu sangue. Ela entendeu e se esforçou para aceitar que a força motriz não estava mais em suas mãos. Nada impediria o seu pai de seguir naquela jornada. Nenhuma lógica ou dúvidas pessoais que ela pudesse levantar iriam impedir que ele se juntasse aos Lassiter.

Pelo menos seu timing foi bom. Ela havia acabado de jogar fora um enorme avanço na carreira por causa de princípios. Isso lhe deu alguma satisfação. Como também a oportunidade de ajudar a preparar a expedição até o Isabela.

Pelo menos estando por perto ela poderia ficar de olho em todo mundo. Especialmente em Matthew.

E estava pensando nele quando saiu para ver a lua e sentir o vento que soprava no topo dos pinheiros.

Ela chegou a amá-lo. Ao longo dos anos, vinha dizendo a si mesma que fora apenas um flerte, a obsessão de uma jovem mulher por um rapaz bonito e selvagem e com um coração de aventureiro.

Mas era tudo bobagem.

Ela o havia amado, admitiu Tate enquanto fechava a jaqueta para enfrentar a brisa úmida da noite. Ou havia amado o homem que achava que ele era ou poderia ser. Antes de Matthew, nada e ninguém haviam cativado o seu coração de um jeito tão profundo. Da mesma forma que nada e ninguém o havia partido tão intensamente e com tanta insensibilidade.

Tate arrancou uma folha de louro perfumada e foi sentindo seu cheiro enquanto andava na direção do mar. Ela supunha se tratar de noite para reflexões. A lua, quase cheia, percorria um céu coberto de estrelas radiantes. O ar estava repleto de perfumes e promessas.

Antigamente, bastava isso para seduzi-la. Antes de o seu lado romântico ter sido estirpado. Tate se considerava uma mulher de sorte por poder agora aproveitar a noite pelo que era, e não para engendrar sonhos.

De uma certa maneira, ela sabia que tinha que agradecer a Matthew por ter aberto os seus olhos. De forma rude e dolorosa, mas ele os abriu. A bela mulher entendia agora que príncipes e piratas só serviam para os sonhos de garotas jovens e tolas. E possuía metas mais sólidas.

Se tivesse que colocar essas metas de lado por um tempo, ela o faria. Tudo que era, tudo que havia realizado, devia ao apoio e à crença dos seus pais. Não havia nada que Tate não faria para protegê-los. Mesmo se isso significasse ter que trabalhar lado a lado com Matthew Lassiter.

Ela parou perto da água, a sotavento de onde os barcos estavam ancorados. Seus pais haviam feito uma barreira ali com lentilhas d’água e gramíneas, para impedir a erosão. A água sempre roubava dá terra. A terra sempre se acomodava.

Era uma boa lição, supunha. As coisas lhe haviam sido roubadas. Ela havia se adaptado.

- Belo lugar, não?

Os ombros de Tate se retesaram ao som da voz de Matthew. Ela se perguntava como não o havia pressentido. Para um homem que havia passado a vida no mar, ele se movia silenciosamente sobre a terra.

- Achava que você tinha ido para a cama.

- Estamos dormindo num beliche dentro do barco. - Ele sabia que Tate não o queria por perto, mas era tão petulante que se aproximou até seus ombros quase se roçarem. - Buck ainda ronca que nem um cargueiro. Mas não chega a incomodar LaRue. Esse, então, dorme que nem um cadáver.

- Experimente tampões de ouvido.

- Acho que vou pendurar uma rede no convés. Como nos velhos tempos.

- Estes são novos tempos. - Ela respirou fundo antes de se virar na direção de Matthew. Como esperava, talvez temesse, Matthew estava extremamente atraente à luz da lua. Audaz, sedutor e até perigoso. Que sorte Tate tinha por não se deixar mais levar por traços e feições. - É melhor estabelecermos algumas regras básicas.

- Você sempre se ligou mais em regras do que eu. - Para se acomodar, ele se sentou num monte de lentilhas-d’água e bateu de leve no espaço ao seu lado, convidando-a. - Você começa.

Ela ignorou o convite e a garrafa de cerveja pela metade que ele ofereceu.

- Isto é um acordo de trabalho. Pelo que entendi, meus pais estão bancando a maior parte dos gastos. Pretendo fazer um controle constante e exato da sua parte.

Sua voz ainda carregava aquelas belas vogais brandas do sul, ele pensou, enquanto que as consoantes eram indistintas que nem sombras difusas.

- Tudo bem. Contabilidade é o seu departamento.

- Você irá pagá-los, Lassiter. Cada centavo. Ele tomou um gole de cerveja.

- Eu pago as minhas dívidas.

- Irei me certificar de que essa você pagará. - Tate fez uma pequena pausa antes de sair de uma questão prática e partir para outra. O reflexo da lua na água calma era de uma beleza estonteante, mas ela não deu a menor atenção para esse detalhe. - Percebi que você está ensinando LaRue a mergulhar.

- Venho trabalhando com ele. - Matthew moveu os ombros. - Está pegando o jeito.

- Buck irá mergulhar?

Mesmo nas sombras, ela viu seus olhos brilhando.

- Isso é com ele. Não o forçarei a nada.

- Nem gostaria que você fizesse isso. - Ela se derreteu a ponto de se aproximar mais um pouco. - Ele é importante para mim. F... fico feliz que esteja bem.

- Você está feliz porque ele largou a bebida.

- Sim.

- Já havia se afastado antes. Ficou um mês inteiro sem beber.

- Matthew. - Antes que notasse, ela havia colocado a mão em seu ombro. - Ele está se esforçando.

- Não estamos todos? - Abruptamente, ele agarrou a mão de Tate e a puxou. - Estou cansado de levantar os olhos para ver você. Além do mais, posso enxergá-la melhor aqui embaixo, à luz da lua. Você sempre gostou de ficar à luz da lua.

- Regra pessoal - disse ela num estalo. - Tire suas mãos de mim.

- Sem problema. Não preciso congelar os dedos. Você com certeza esfriou ao longo dos anos, ruiva.

- Simplesmente desenvolvi um gosto mais seletivo.

- Universitários. - Seu sorriso era de desprezo. - Sempre achei que você iria se dar bem com o tipo acadêmico. - Ele olhou deliberadamente para as mãos de Tate e depois se voltou para os seus olhos. - Nenhum anel. Como é que pode?

- Gostaria que não falássemos de nossas vidas pessoais.

- Isso não será fácil, visto que teremos que trabalhar muito próximos por algum tempo.

- Vamos dar um jeito. Quanto à metodologia de trabalho, quando mergulharmos, um membro da sua equipe irá lá para baixo com um dos nossos. Não confio em você.

- E escondeu isso muito bem - murmurou. - Está ótimo - continuou. - Para mim está certo. Gosto de mergulhar ao seu lado, Tate. Você traz boa sorte. - Ele se inclinou para trás, apoiou-se nos cotovelos e olhou para cima, na direção das estrelas. -Já faz tempo que não mergulho em águas cálidas. Já me cansei do Atlântico Norte. Você aprende a odiá-lo.

- Então por que foi mergulhar lá? Matthew lhe deu uma olhadela.

- Isso não cabe na definição de vida pessoal?

Ela desviou o olhar e rogou uma praga contra si própria.

- Sim, embora tenha sido uma curiosidade profissional que me fez perguntar.

Então ele lhe faria o favor de explicar.

- Ganha-se dinheiro recuperando destroços de metal. Caso você nunca tenha ouvido falar, a Segunda Guerra Mundial arrasou com um monte de navios.

- Achava que o único metal que lhe interessava era o ouro.

- Qualquer coisa que paguem, querida. Tenho a impressão de que essa viagem será muito lucrativa. - Pelo fato de ser tanto prazeroso quanto doloroso, ele continuou a estudar o seu perfil. - Você não está convencida.

- Não mesmo. Mas estou convencida de que isso é algo que o meu pai precisa fazer. O Isabela e o Santa Margarida o fascinam há anos.

- E a Maldição de Angelique.

- Sim, desde o instante em que ouviu falar dela pela primeira vez.

- Mas você não acredita mais em maldições. Ou em magia. Creio que se disciplinou para afastá-las do seu grupo de crenças.

Ela não podia lhe explicar por que doía ouvi-lo dizer o que era simplesmente a verdade.

- Acredito que o amuleto exista e, por conhecer o meu pai, que ele está a bordo do Isabela. Encontrá-lo é outra questão completamente diferente. Seu valor virá da sua idade, das suas pedras e do peso do seu ouro, não de uma superstição qualquer.

- Não resta mais nenhuma sereia em você, Tate. - Ele disse isso em voz baixa e se deteve antes que erguesse a mão para afagar o cabelo dela. - Você costumava me lembrar de algo fantástico que fazia com que eu me sentisse em casa, tanto no mar quanto no ar.

Com todas as espécies de segredos nos seus olhos e possibilidades infinitas brilhando a sua volta.

Sua pele tremia, não por causa da brisa leve e penetrante, mas do calor. Em defesa, sua voz era baixa e ponderada.

- No que me diz respeito, duvido muito que sua imaginação tenha dado vôos tão românticos. Ambos estávamos a par do que você sentia por mim.

- Achava você linda. E mais fora do alcance do que agora. Odiando notar que tais mentiras deslavadas estavam fazendo sua pulsação acelerar, ela se levantou rapidamente.

- Isso não vai dar certo, Lassiter. Não estou seguindo nessa viagem para entretê-lo. Somos parceiros de negócios. Cinqüenta por cento para cada lado, pois meu pai quer assim.

- Isso não é interessante? - murmurou Matthew, que largou a garrafa e se levantou lentamente até ambos ficarem frente a frente. Até que pudesse sentir o cheiro do cabelo de Tate. Até os dedos de Matthew palpitarem com a lembrança de como acariciavam a sua pele. - Eu ainda a atraio, não?

- Seu ego ainda está no mesmo lugar. - Ela controlou suas feições com o intuito de desprezá-lo sutilmente. - Logo abaixo do botão da sua calça jeans. Veja bem, Lassiter, se as coisas ficarem um pouco monótonas e eu ficar desesperada o bastante a ponto de fazer algo para quebrar o tédio, você irá ficar sabendo. Mas, até que ocorra esse evento improvável, tente não ficar atrapalhado.

- Não estou atrapalhado. - Ele sorriu para Tate. - Só curioso. - Na esperança de que pudesse soltar mais alguns nós em suas entranhas, Matthew se sentou novamente. - Mais alguma regra, ruiva?

Ela precisava de mais um minuto antes que pudesse confiar em sua voz. De algum modo, seu coração havia se alojado na garganta.

- Se, por algum milagre, encontrarmos o Isabela, irei, como arqueóloga marinha, catalogar, avaliar e preservar todos os artefatos. Tudo será lançado no diário de bordo, até o último prego.

- Ótimo. É bom usar todos esses diplomas para alguma coisa.

Seus pêlos se eriçaram por causa da óbvia falta de respeito  com seu ofício.

- É exatamente isso que eu pretendo fazer. Vinte por cento de tudo que encontrarmos irá direto para o governo de Saint Kitts e Névis. E embora seja justo colocar isso em votação, irei separar que artefatos julgar apropriados para doação.

- Vinte por cento é muito, ruiva.

- Que tal gozar de um pouco de fama junto com a fortuna, Lassiter? Se as coisas forem como eu espero, vou negociar com o governo para fundar um museu. O Museu Beaumont-Lassiter. Se os restos do navio tiverem tantas riquezas quanto se diz, você poderá separar dez por cento da sua parte e ainda assim não precisará nunca mais trabalhar na vida. Terá camarão e cerveja para sempre.

Mais uma vez Matthew sorriu largamente.

- Você ainda está cismada com aquela espada. Que surpreendente.

- Enquanto mantivermos as cartas na mesa, não haverá surpresas. Esses são os meus termos.

- Posso viver com eles. Ela acenou com a cabeça.

- Há mais um. Se encontrarmos a Maldição de Angelique, ela irá para o museu.

Ele pegou sua garrafa de cerveja e a esvaziou.

- Não. Você colocou os seus termos, Tate. Eu só tenho um. O amuleto é meu.

- Seu? - Ela teria rido se seus dentes não estivessem trincados. - Você não tem mais direito sobre ele do que ninguém. Seu valor em potencial é tremendo.

- Então pode avaliá-lo, catalogá-lo e deduzi-lo do resto da minha parte. Mas ele é meu.

- Para quê?

- Para pagar uma dívida. - Matthew se levantou e seu olhar fez com que ela desse um passo atrás antes que pudesse se conter.

- Vou enrolá-lo no pescoço de VanDyke e usá-lo para estrangular o desgraçado.

- Isso é uma tolice. - Sua voz tremia. - Uma loucura.

- Isso é fato. Você terá que viver com isso, Tate, porque é assim que as coisas vão ser. Você tem as suas regras. - Ele segurou o queixo de Tate e a fez tremer. Desta vez não era por causa do seu toque, e sim por conta do olhar assassino e ardente que nele fervia.

- Eu tenho as minhas.

- Você não pode esperar que todos nós fiquemos de prontidão enquanto planeja matar alguém.

- Não espero nada. - Ele deixara de esperar há muito tempo.

- Só não creio que seja muito inteligente ficar no meu caminho. Agora é melhor você dormir um pouco. Temos muito trabalho pela frente.

Ele se perdeu nas sombras das árvores quase que imediatamente. Para se precaver contra o frio, Tate cruzou os braços com força.

Matthew estava determinado. Não dava para Tate fingir que seria diferente. Mas era capaz de dizer para si mesma que ele perderia sua sede de vingança durante a jornada.

O mais provável era que eles jamais encontrassem o Isabela. E, se o fizessem, as chances de não encontrarem o amuleto seriam ainda maiores.

Pela primeira vez, ela se preparava para partir numa expedição esperando pelo fracasso.

 

Foi deliciosamente fácil voltar à velha rotina. Tate se viu  empurrando o objetivo da viagem para o fundo da mente e - simplesmente aproveitava o passeio.

Eles deixaram a ilha Hatteras para trás numa manhã cintilante de primavera com leves oscilações na maré. O vento era fresco o bastante para se botar um casaco, e ela havia puxado o cabelo através do buraco na parte de trás de um boné do time de beisebol do Durham Bulls. Devido à insistência do seu pai, ela havia sido a primeira a pegar no leme. E seguia pelo Atlântico.

Eles navegavam na direção de Ocracoke com seus piratas fantasmas, acenando para passageiros de uma balsa que passava ao largo, enquanto gaivotas mergulhavam e gritavam na sua esteira. Até que a terra firme se tornasse uma sombra a oeste e só houvesse mar.

- Que tal, capitã? - Ray chegou sorrateiro por trás da filha e passou o braço em volta dos seus ombros.

- Está ótimo. - Tate levantou o rosto na direção do vento que entrava pelas janelas parcialmente abertas da ponte de comando. - Acho que passei tempo demais sendo passageira.

- Às vezes eu e a sua mãe embarcamos e ficamos navegando para lugar nenhum durante um ou dois dias. Estava gostando disso. - com os olhos no horizonte, ele suspirou profundamente. - Mas com certeza é bom estar navegando para um destino específico. Já queria fazer isso há muito tempo.

- Pensava que você havia deixado o Isabela, e tudo o que lhe dizia respeito, num passado bem distante. Não imaginava que ainda o queria tanto.

- Nem eu, sério. - Meio desabituado, ele checou o curso. Ambos, o barco e sua filha, estavam no rumo certo. - Depois que perdemos o Margarida e você foi para a faculdade, simplesmente fiquei à deriva por um tempo. Parecia a coisa certa a fazer. Sentia-me tão desamparado por causa de Buck. Ele e Matthew lá longe em Chicago, sem que eu tivesse a mínima chance de entrar em contato com o meu amigo.

- Sei que isso lhe doeu - murmurou Tate. - Vocês ficaram tão próximos um do outro naquele verão.

- Ele perdeu uma perna. Eu perdi um amigo. Todos perdemos uma fortuna. Nem eu nem Buck lidamos muito bem com isso.

- Você fez o melhor que pôde - corrigiu Tate. Ela havia se apaixonado, pensou, se decepcionado, e também fez o melhor que pôde.

- Nunca soube o que dizer ou o que fazer. Às vezes pegava um dos vídeos que sua mãe fez durante aqueles meses... via e me lembrava. Ficava mais fácil lidar com a situação colocando uma carta no correio de vez em quando. Matthew jamais me falou sobre o quão mal ele estava. Jamais teríamos descoberto se não tivéssemos feito uma viagem para a Flórida e ido até o trailer.

Ray balançou a cabeça, lembrando-se do choque que sentiu quando viu seu amigo bêbado, tropeçando dentro de um trailer imundo, cercado de lixo, coberto de vergonha.

- O garoto devia ter nos falado sobre a situação difícil por que ele passava.

Matthew? - Ela olhou para trás, surpresa. - Parece que era Buck que estava com problemas. Matthew devia ter ficado e tomado conta do tio.

Se tivesse ficado, não poderia cuidar de Buck. Ele precisava trabalhar, Tate. Diabos, o dinheiro não fica flutuando sobre a maré. Ele deve ter demorado anos para pagar as contas do hospital. Na verdade, duvido que já o tenha feito.

- Há programas para pessoas na situação de Buck. Subsídios, assistência.

- Não para pessoas como Matthew. Ele pediria um empréstimo, mas jamais uma esmola.

Incomodada com a idéia, ela franziu as sobrancelhas.

- Isso é um orgulho besta.

- De qualquer maneira, é orgulho - concordou Ray. - Foi depois que vi Buck novamente que comecei a pensar no Isabela. Não conseguia afastar tal pensamento. Todas aquelas possibilidades. Por isso voltei para as minhas velhas pesquisas e comecei tudo de novo.

Ele olhou para longe, na direção de algo que não conseguia enxergar. Ou que se esquecera de procurar.

- Creio que comecei a pensar que, se conseguisse descobrir alguma nova pista, seria uma maneira de retribuir a Buck o que ele perdeu enquanto era meu parceiro.

- Papai, aquilo não foi culpa de ninguém.

- Não é uma questão de culpa, querida, e sim do que é certo. Deu-se uma volta completa, Tate. Algo me diz que isso era esperado. - Deixando de lado o mau humor, Ray sorriu para a filha. - Eu sei, tudo isso não tem lógica.

- Você não precisa ser lógico. - Ela ficou na ponta dos pés para beijá-lo. - Eu me encarrego dessa parte.

- E a sua mãe vai manter as coisas em ordem. - Acima das lembranças, o velho entusiasmo começou a ressurgir. - Formamos uma boa equipe, Tate.

- Sempre formamos.

- O Sereia está a bombordo da proa - murmurou ele. Estava mesmo, como Tate pôde ver. A moça tinha que admitir que era um barco muito bonito. Aqueles cascos gêmeos rasgavam o mar como os diamantes cortavam o vidro. Embora a luz do sol refletisse nas janelas da casa do leme, dava para ver que era Matthew quem estava com a mão no leme.

Ela jogou o barco para o lado até que ambos ficassem a meros três metros um do outro. Tate viu que Matthew virava a cabeça em sua direção e percebeu seu sorriso desafiador.

- Parece que ele quer apostar corrida - disse Ray.

- Será? - Fincando e afastando um pouco mais os pés, ela segurou a alavanca de pressão. - Bem, vamos lhe dar essa oportunidade.

- Essa é a minha garota. - com um grito ele saiu correndo da ponte de comando para avisar Maria.

- O.k., Lassiter - murmurou Tate para si mesma. - Você está frito.

Empurrou a alavanca com toda a força, enquanto virava o leme para deixar Matthew na sua esteira. A emoção da competição fez com que ela ficasse rindo em voz alta enquanto sentia o poder vibrando nas suas mãos. O Novo Aventura não era um cruzador domingueiro e, com o Atlântico se abrindo a sua frente, Tate deixou que ele seguisse o seu rumo.

A doze nós, o motor roncava.

Não se surpreendeu ao ver que o Sereia vinha bem ao lado. Ela queria uma corrida. Quando as proas emparelharam, Tate aumentou novamente a velocidade, correndo a quinze nós.

Mais uma vez ele veio lentamente, a alcançou e, de novo, Tate aumentou sua velocidade até a proa do Sereia ficar atrás da popa da sua embarcação. Em vez de caçoar do adversário, Tate ficou virando o leme de um lado para outro, de modo que o barco ficou dançando. Ela ria sozinha, toda convencida, até que o Sereia passou como uma bala.

Na hora em que fechou a boca, ele já estava uns quinze metros na frente. Tate forçou a alavanca para baixo e fez com que os motores funcionassem a toda potência. Dava para ouvir a gargalhada travessa e contemplativa da sua mãe. De tão contagiante, ela fez com que Tate desse risadinhas enquanto ganhava terreno. Mas, por mais que tentasse, ela não conseguia alcançar o Sereia.

- Isso é que é barco - disse para si mesma. - Um baita barco.

E embora tivesse certeza de que seria insultada quando Matthew deu uma volta completa no mar para emparelhar novamente, o que era previsto não aconteceu.

O desgraçado a havia feito sorrir.

Ao anoitecer do terceiro dia, eles ancoraram em Freeport, bem à frente de uma tempestade que trazia nuvens trovejantes e mares agitados. Um jantar em grupo a bordo do Sereia havia sido combinado, tendo o jambalaia de camarão de LaRue como prato principal.

No momento em que as segundas porções eram servidas, LaRue e Maria conversavam profundamente sobre teorias culinárias enquanto Buck e Ray retomavam o velho hábito de discutir sobre beisebol. Como nenhum dos tópicos era da alçada de Tate, ela se viu no desconforto de ter que conversar com Matthew.

Como manter o silêncio parecia covardia, Tate adotou uma conduta tipicamente sulista.

- Esqueci que você se interessava por construção naval - lembrou ela. - Buck me disse que projetou o Sereia sozinho.

- É. Brinquei com alguns desenhos ao longo dos anos. Este daqui servia para mim. - Ele se serviu mais uma vez do ensopado. - Sempre achei que iria voltar.

- Sério? Por quê?

Matthew não tirava os olhos de Tate, fixando-se no seu olhar.

- Porque nunca terminei o que comecei. Você deve ter pensado nisso de vez em quando.

- Não mesmo. - Modos à parte, mentiras eram mais seguras.

- Andei ocupada com outras coisas.

- Parece que a faculdade lhe fez bem. - Matthew notou que ela havia passado a prender o cabelo numa única trança que escorria pelas costas. Isso também lhe caiu bem. - Ouvi dizer que em breve teremos que chamá-la de ”doutora” Beaumont.

- Ainda tenho algum trabalho pela frente.

- Sua reputação deve ter aumentado muito com aquele lance do Instituto Smithsoniano uns dois anos atrás. - O olhar surpreso de Tate fez com que ele encolhesse os ombros. - Ray e Maria me contaram tudo. - Não fazia sentido mencionar que ele havia recebido uma cópia da revista e lido duas vezes o artigo de cinco páginas. - Eles ficaram animados ao saber que você estava identificando artefatos de um antigo navio grego.

- Eu era apenas mais uma contratada. Fazia parte de uma equipe. Hayden Deel chefiava o time de arqueólogos. Ele foi meu professor - acrescentou. - E é brilhante. Estive com ele no Nômade, minha última missão.

- Também ouvi falar disso. - Era irritante saber que ela havia feito parte de uma operação bancada por VanDyke. - Um vapor.

- Isso mesmo. Mas era um mar profundo demais para se mergulhar. Usamos computadores e robôs. - Sentindo-se à vontade com aquela conversa sobre trabalho, ela apoiou o queixo no punho.

- Fizemos filmagens incríveis de colônias animais e vegetais.

- Parece que foi bastante divertido.

- Foi uma expedição científica - disse ela friamente. - O prazer não era pré-requisito. O equipamento que foi desenvolvido para buscar e escavar o Justine teve um desempenho formidável. Tínhamos uma equipe de cientistas e técnicos de primeira linha. E - acrescentou com um certo veneno - além do valor e do conhecimento científico, mineramos ouro. Isso, com certeza, você entenderia. Uma fortuna em moedas e barras de ouro.

- Então VanDyke ficou mais rico.

Ele sabia, percebeu Tate, que sentiu seu rosto ficando frio e duro.

- Isso não vem ao caso. Os benefícios científicos e históricos são mais importantes...

- Besteira. Nada que VanDyke faça é irrelevante. - Ele ficou furioso ao ver que Tate havia mudado tanto a ponto de acreditar no que estava dizendo. - Você não liga para quem assina o seu cheque de pagamento?

- A SeaSearch...

- VanDyke é dono da Trident, que é dona da Poseidon, que por sua vez é dona da SeaSearch. - com um olhar de desprezo, ele levantou sua taça de vinho tinto e propôs um brinde. - Estou certo de que VanDyke está feliz com o seu trabalho.

Por alguns instantes, Tate só conseguiu ficar parada, olhando. Parecia que havia levado um soco na boca do estômago. Saber que Matthew fazia tão pouco caso dela, do seu caráter, da sua alma, doía mais do que a moça podia acreditar que doeria. Podia se ver de pé, molhada e hostil, encarando VanDyke no seu próprio iate. E se lembrava da fúria, do medo e da terrível sensação de perda.

Sem dizer nada, Tate se afastou da mesa e saiu para andar na chuva. Resmungando, Matthew empurrou sua tigela para o lado e foi atrás dela.

- É assim que você lida com as coisas quando alguém coloca um espelho na sua frente, ruiva? Fugindo?

Tate estava encostada na amurada a estibordo, segurando-a com força enquanto a chuva caía sobre ela. Mais ao norte, relâmpagos rasgavam o céu.

- Eu não sabia.

- Certo.

- Eu não sabia - repetiu. - Não quando me juntei à equipe. Se soubesse, não o faria... Jamais teria feito parte de nada ligado a VanDyke. Queria trabalhar com Hayden outra vez, fazer parte de um projeto importante e de grandes proporções. Por isso, não prestei atenção em nada além da oportunidade. - Ela agora estava envergonhada, como não havia demonstrado quando a raiva e o ressentimento eram maiores. - Devia ter feito isso.

- Por quê? Você teve uma chance e a aproveitou. É assim que são as coisas. - Ele enfiou os polegares nos bolsos para que não se sentisse tentado a tocá-la. - Você fez as suas escolhas, e daí? No fim das contas, VanDyke não é problema seu.

- O diabo que não é. - Uma fúria renovada fez com que ela se virasse abruptamente. A água da chuva encharcava seu cabelo, pingando pelo rosto. Trovões rosnavam ao longe. - Ele não é o seu demônio particular, Matthew, seja lá o que você pense. VanDyke roubou de todos nós.

- E então você pegou algo de volta. Ganhou um pouco de fama e fortuna com o Nômade. Como disse antes, você não ligava para quem pagava o seu salário.

- Maldito seja você, Lassiter, eu disse que não sabia. No minuto em que descobri, no minuto em que percebi que ele havia feito uma armação para que eu estivesse no barco, fiz minhas malas e me mandei.

- Você fez as malas e se mandou porque temia que eu fosse explorar os seus pais. Chega dessa merda, Tate. Sei que ele ligou para você e falou o que estava acontecendo. E você chegou a Hatteras em tempo recorde.

- Tem razão, e um dos motivos que me permitiu fazer isso foi já ter entregue o meu pedido de demissão e providenciado o transporte que me levaria até lá. Vá para o inferno - disse ela, cansada. - Não tenho que provar nada para você. Não tenho que lhe justificar nada.

Mas ela percebeu que tinha que justificar isso para si própria. Impaciente, Tate empurrou para trás o cabelo que caía no seu rosto.

- Achava que tinha conseguido o trabalho porque Hayden havia me recomendado.

Uma pequena semente de ciúme começou a brotar dentro do coração de Matthew.

- Você e esse tal de Hayden tinham alguma coisa?

- Ele é um colega - respondeu ela com os dentes cerrados. - Um amigo. Disse-me que meu nome estava na lista de aprovados antes de chegar às suas mãos.

- E daí?

- Siga a lógica, Lassiter. Eu segui. Por que alguém teria feito isso? Queria saber quem, quais eram os motivos, e descobri. VanDyke me escolheu. Ele não parece ser o tipo de homem que se esquece das coisas. Quantas Tate Beaumont com um mestrado em arqueologia marinha você acha que existem por aí?

Pelo fato de aquilo estar começando a fazer sentido, ele começou a se sentir um idiota.

- Chutando, eu diria uma.

- Certo. - Ela se virou novamente para a amurada. - Ele tinha que saber quem eu era - disse Tate calmamente. - E me queria no Nômade. Você pode ou não acreditar em mim, mas eu já estava deixando a expedição antes do meu pai me contactar.

Matthew suspirou e esfregou as mãos no seu rosto molhado.

- Acredito em você. Talvez tenha perdido as estribeiras, mas fiquei furioso com a idéia de que você pudesse ter trabalhado para ele apenas para melhorar a sua reputação. - O olhar frio e rápido que ela lhe lançou quando virou para trás fez com que Matthew se sentisse um verme. - Eu disse que perdi as estribeiras. Você devia ter percebido.

- Sim, devia mesmo. - Agora era ela que suspirava. Por que ele devia ter confiado?, perguntou a si mesma. Os dois realmente não se conheciam mais. - Não importa. De qualquer maneira, fico feliz por termos esclarecido as coisas. Ando me remoendo por causa disso. Não gosto de saber que ele me usou. E gosto ainda menos de saber que ele tem seguido os meus passos todos esses anos.

Essa era uma possibilidade que não havia ocorrido a ele. Enquanto tal idéia criava raízes, a emoção violenta que brotou encobriu o ciúme. Matthew a agarrou pelos braços, levantando-a até ficar nas pontas dos pés.

- Ele chegou a fazer contato com você, tentou alguma coisa?

- Não. - Para manter o equilíbrio, Tate estendeu as mãos sobre o peito de Matthew. A chuva caía sobre ambos em gotas grandes e mornas. - Não o vejo desde o dia em que ameaçou atirar em nós. Mas, obviamente, ele manteve-se informado sobre minhas atividades. Minha primeira expedição como pós-graduanda foi para a Poseidon, no mar Vermelho. Para a Poseidon - repetiu ela. - E agora tenho que ficar me perguntando em quantos projetos estive envolvida e nos quais ele colocou a mão. Quantas portas o desgraçado abriu para mim e por quê.

- Saber o porquê é fácil. Ele viu que você tinha potencial e que poderia usá-lo. - Matthew reconheceu a expressão no rosto de Tate e lhe deu uma rápida sacudida. - Não teria aberto portas se não tivesse certeza de que você poderia fazê-lo por conta própria. VanDyke não faz favores, ruiva. Você chegou aonde está porque é inteligente e foi atrás do que queria.

- Talvez. Mas isso não muda o fato de que ele esteve lá, por trás dos panos.

- Não mesmo. - O aperto de Matthew havia afrouxado um pouco. Ele não havia esquecido que a estava segurando. Passou pela sua cabeça que ela poderia não congelar caso a trouxesse para perto do seu corpo. Em vez disso, fez com que suas mãos escorregassem dos ombros para os pulsos. E a largassem. - Há uma outra coisa a considerar.

- O quê? - Distraída, Tate se esforçou para conter um arrepio. Aquele pequeno gesto descuidado fora tão familiar.

- Se ele sabia que você estava a bordo do Nômade, então sabe que você foi embora. Neste momento, já sabe que você se uniu a mim novamente e para onde vamos.

Naquele instante, ela já estava com frio. De fato, sentia-se congelada.

- O que vamos fazer em relação a isso?

- Vamos derrotá-lo.

- Como? - Ela lhe deu as costas novamente e segurou na amurada molhada. - Ele possui os recursos, os contatos, os meios.

- E iria, como percebeu Tate enquanto tremia por dentro, usá-la para chegar até Matthew. - Nossa maior esperança é despistá-lo. Se eu sair daqui e voltar para o Nômade, ou tomar outro destino, ele pode resolver seguir a minha trilha. Quem sabe se deixássemos vazar algo sobre você estar convencendo os meus pais a partir numa busca infrutífera rumo a Anguilla ou à Martinica? - Ela se virou e o encarou novamente. - Eu poderia desviá-lo da nossa rota.

- Não. Temos que ficar unidos.

- Isso faz todo o sentido do mundo, Matthew. Se ele me respeita profissionalmente, será que não acreditaria que esta expedição não vai levar a lugar algum, caso eu não demonstrasse interesse? VanDyke ficaria mais propenso a deixar vocês em paz.

- Temos que ficar unidos - repetiu Matthew. - E vamos derrotá-lo juntos. Encare as coisas, Tate, precisamos um do outro.

- Ele pegou o seu braço e a puxou.

- Aonde você está indo?

- Vamos até a cabine. Tem algo que quero mostrar para você.

- Temos que falar sobre isso para os outros. Eu devia ter contado antes. - Ela subiu o curto vão de escadas fazendo barulho. - Todos têm o direito de se posicionar, de tomar uma decisão.

- A decisão está tomada.

- Você não manda aqui, Lassiter.

Ele bateu a porta e pegou uma capa que estava pendurada atrás, num gancho.

- Se está achando que alguém vai votar para que você saia daqui por conta própria, então não é tão inteligente quanto parece. Ponha isso. - Matthew lhe jogou a capa. - Você está tremendo.

- Estou furiosa - corrigiu ela, mas enfiou os braços dentro da capa. - Não vou deixar que VanDyke me use para machucar você.

Ele parou enquanto se servia de uma dose de conhaque que havia pego dentro do armário.

- Não achava que isso iria incomodar você. Tate levantou o queixo.

- Não me importo de vê-lo ferido, mas preferiria fazer isso por conta própria, não como instrumento de alguém.

Os lábios de Matthew se curvaram. Ele então ofereceu um copo pequeno com dois dedos de conhaque para Tate.

- Sabe, ruiva, você sempre ficava linda assim molhada, especialmente, e ainda por cima, quando estava indignada. Do jeito que está agora. - Ele fez um brinde. - Sei que você gostaria de me partir ao meio e me usar como isca para peixe. Assim como sei que irá esperar terminarmos nossa missão.

- Jamais usaria você como isca, Lassiter. - com um sorriso, ela tomou um gole de conhaque. - Tenho muito respeito pelos peixes.

Ele riu e a desequilibrou, puxando delicada e levemente a sua trança molhada.

- Você sabe o que possui, Tate, além de uma boa cabeça, um forte senso de lealdade e uma lábia inflexível?

Ela mexeu os ombros e andou para a frente, a fim de ficar em pé perto do leme e ver a chuva.

- Integridade - murmurou ele. - Esse é o seu encanto. Enquanto fechava os olhos, ela se esforçava para conter uma onda de emoção. Matthew ainda possuía um jeito de vencer qualquer defesa e seduzir sua alma.

- Parece que você está me cortejando, Matthew. - Enquanto se apoiava, ela se virou novamente para encará-lo. - Por quê?

- Só estou dando nome para aquilo que vejo, Tate. E me perguntando se, com todas aquelas outras belas virtudes, você conseguiu se apegar a esse brilhante senso de curiosidade e empatia que a torna tão especial.

- Nunca fui especial para você.

- Sim, foi. - Ele encolheu os ombros novamente para encobrir a dolorosa verdade. - Se não tivesse sido, não teria deixado Saint Kitts virgem.

As bochechas de Tate começaram a ficar ruborizadas, como se fossem bandeiras de guerra.

- Ora, seu arrogante, convencido, desgraçado.

- Fatos são fatos - opôs-se Matthew, feliz por tê-la feito se esquecer da preocupação com VanDyke. Depois que largou seu copo de conhaque, ele se agachou para abrir um compartimento que ficava embaixo de um banco acolchoado. - Não saia daqui - disse com a voz suave enquanto Tate seguia na direção da porta. - Você vai querer ver isso. E pode acreditar... - Ainda agachado, ele virou a cabeça para fitá-la. - Não estou interessado em seduzi-la. Pelo menos não agora.

Os dedos de Tate apertavam o copo que ela se negava a largar. Era uma pena que só houvesse umas poucas gotas sobrando. Não o bastante para impressioná-lo caso resolvesse derramar o seu conteúdo na cabeça de Matthew.

- Lassiter, você tem tanta chance de me seduzir quanto uma jaritataca feroz tem de se tornar meu animal de estimação favorito. E não há nada que você tenha que eu possa querer ver.

- Algumas páginas do diário de Angelique Maunoir. Aquilo fez com que ela parasse onde estava, com a mão na porta.

- Angelique Maunoir. A Maldição de Angelique.

- VanDyke possui o diário original. Ele o descobriu há quase vinte anos e fez com que o traduzissem. - Matthew pegou uma pequena caixa de metal do compartimento e se acomodou. - Eu o ouvi contar para o meu pai que investigou os descendentes da criada de Angelique. A maior parte deles vivia na Bretanha. Foi lá que a lenda começou. Foi o pai de VanDyke que lhe falou sobre isso. Importação-exportação, remessa de mercadorias, muitas histórias e lendas circulam nessas indústrias. E eles tinham um interesse pessoal já que supostamente mantinham relações distantes com o sogro de Angelique. É por isso que VanDyke considera o amuleto como seu.

Embora percebesse que ela estava olhando para a caixa, Matthew se sentou e a pôs no colo.

- VanDyke gostava de achar que era descendente de um conde, mesmo que fosse um, ou talvez especialmente um, de péssima reputação. Pelo que VanDyke contou, o conde conseguiu o amuleto de volta. Para isso, ele teve que matar a criada, que era apenas uma criada. Ele ainda o tinha quando morreu, imagino, de sífilis, e na mais profunda miséria, um ano depois.

Os lábios de Tate se umedeceram. Ela não queria ficar fascinada.

- Se você sabia de tudo isso, por que não nos contou antes?

- Sabia de algumas coisas, de outras, não. Meu pai falou para Buck, que por sua vez escondeu o grosso das informações. E também guardou a maior parte dos papéis do meu pai. Nunca esbarrara com eles, até uns dois anos atrás, quando meu tio estava na clínica de reabilitação e eu revirava o trailer. Toda essa história o deixava muito assustado.

Matthew ficou a observando enquanto batia com um dedo na caixa.

- Veja, o problema foi que VanDyke contou coisas demais para o meu pai. A arrogância fez dele uma pessoa desatenta. Imagino que o desgraçado achava que estava perto de encontrar o amuleto e quis tripudiar. Contou para meu pai como rastreou o amuleto através da família do conde. Vários de seus membros morreram jovens e de forma violenta. Aqueles que sobreviveram sofreram com a pobreza. O amuleto foi vendido, começou sua jornada e desenvolveu sua reputação.

- Como foi que o seu pai copiou as páginas do diário?

- De acordo com os escritos que deixou, ele estava preocupado com VanDyke. Suspeitava de traição, ou coisa pior, e decidiu fazer algumas pesquisas por conta própria. Teve uma chance quando chegou o inverno e eles tiveram que dar uma pausa nos mergulhos. E usou o tempo que sobrou para trabalhar sozinho. Foi então que deve ter esbarrado com o Isabela. Suas anotações passaram a ser feitas em códigos a partir de então. Talvez temesse que VanDyke as encontrasse.

A velha frustração voltou e endureceu o seu coração.

- A maior parte disso é mera especulação, Tate. Eu era um garoto, houve muita coisa que ele não me contou. Droga, ele não me disse nada. Juntar as peças desse quebra-cabeça é como tentar decifrar quem ele era. Eu nem sequer tenho certeza de que sabia quem ele era.

- Matew. -A voz de Tate, agora, era gentil. com a aparência cansada, ela foi se sentar do seu lado e colocou sua mão sobre a dele. - Você era apenas um garoto. Não pode se culpar por não ter tido noção das coisas.

Ele olhou para as mãos dos dois, as dela estreitas e brancas, as dele grandes, calejadas e cheias de cicatrizes. Isso, supunha Matew, ilustrava bem as diferenças que havia entre eles, mais do que qualquer outra coisa.

- Não sabia o que ele estava planejando. Acho que sabia que algo estava acontecendo. Só sei que não queria que meu pai fosse para o fundo com Vandyke naquele dia. Ouvi os dois discutindo na noite anterior. Pedi para que ele não mergulhasse, ou pelo menos que me deixasse ir junto. Mas acabou não me dando atenção.

Matthew remexeu no fundo da memória.

- Mas isso não responde à sua pergunta. O máximo que consigo me lembrar é que meu pai entrou na cabine de VanDyke e procurou o diário. Acabou encontrando-o e copiou as páginas mais relevantes. Não deve ter sido muito antes da tragédia se consumar, porque esse foi um dos motivos que os levaram a discutir. O diário, o amuleto.

- Por que você está me contando isso, Matthew? Por que repassar algo tão doloroso e que não pode ser mudado?

- Porque sei que você não vai ficar aqui só porque estou pedindo.

Ela tirou a mão.

- Então isso não passa de um jogo para ganhar a minha solidariedade.

- É um background. Cientistas precisam de background, fatos e teorias, certo? Sei que você não acredita que iremos encontrar o Isabela. - Seu olhar avaliava o dela. - Não está convencida de que iremos um dia encontrar o amuleto, ou, caso consigamos, de que não passa de uma jóia antiga, valiosa e interessante.

- Tudo bem, é verdade. Nada do que você me disse me convence do contrário. Entendo por que precisa acreditar, mas isso não muda os fatos.

- Mas não estamos em busca de fatos, Tate. - Ele abriu a caixa e lhe passou papéis cheios de escritos apressados e ilegíveis. - Não creio que você tenha se esquecido disso. Se for o caso, talvez isto reavive a sua memória.

 

De Outubro de 1553. Pela manhã eles irão me matar. Só tenho mais uma noite na terra e a passo sozinha. Eles tiraram de mim até a minha querida Colette. Embora ela tenha ido dormir, acho que foi melhor assim. Nem mesmo as suas orações, por mais puras e abnegadas que sejam, podem me ajudar agora, e ela teria sofrido desnecessariamente nesta cela, esperando o amanhecer. Companheirismo. Eu já aprendi a viver sem ele. com a morte de Etienne há seis longas semanas, perdi não apenas a minha mais querida companhia, meu amor e minha alegria, como também o meu protetor.

Dizem que eu o envenenei, manipulando-o com uma das minhas poções de bruxa. Como são tolos. Eu teria dado a minha vida pela dele. De fato, estou fazendo exatamente isso. Sua doença era muito grave e estava além dos meus poderes curá-la. Ela lhe veio rapidamente, de forma tão violenta, a febre, a dor. Nenhuma poção ou oração que eu pudesse inventar poderia impedir a sua morte. Como sua esposa, estou condenada. Eu, que outrora tratei dos males e do sofrimento na aldeia, sou ultrajada como se fosse uma assassina. Como uma bruxa. Aqueles cujas febres curei, cujas dores aplaquei, se voltaram contra mim, gritando pela minha morte como feras uivando para a lua.

É o conde que os lidera. O pai de Etienne que me odeia e me deseja. Será que está olhando da janela do seu castelo enquanto montam a pira que será minha câmara ardente? Estou certa de que ele o está fazendo enquanto seus olhos vorazes brilham e seus dedos finos e perversos se entrelaçam numa oração. Embora eu vá ser queimada amanhã, ele arderá por toda a eternidade. Uma pequena vingança, porém conveniente.

Se eu sucumbisse a ele, se houvesse traído o meu amor mesmo depois de sua morte e fosse para a cama com o pai de Etienne, talvez conseguisse sobreviver. Pelo menos foi isso que ele prometeu. Encarei as torturas desta maldita corte cristã com mais alegria do que aquilo.

Ouço meus carcereiros rindo. Estão bêbados e entusiasmados com o que ocorrerá amanhã, Mas eles não riem quando vêm à minha cela. Seus olhos se arregalam e se amedrontam enquanto fazem com os dedos o sinal contra a bruxaria. Como são tolos em acreditar que um gesto tão pequeno e desprezível pode ser capaz de deter o poder verdadeiro.

Eles cortaram o meu cabelo. Etienne costumava chamá-lo de seu fogo angelical, e passava os dedos por toda a sua extensão. Ele era a minha vaidade, e até isso foi arrancado de mim. Minha carne está definhando por sobre os ossos, lacerada devido às torturas implacáveis. Durante esta última noite, irão me deixar em paz, Foi nisso que eles erraram.

Por mais que o meu corpo esteja fraco agora, meu coração está cada vez mais forte. Logo estarei com Etienne. Isso é um alívio. Não fico mais chorando ao pensar que vou deixar um mundo que se tornou cruel, que usa o nome de Deus para torturar, condenar e assassinar. Enfrentarei as chamas, e juro pela alma de Etienne que não gritarei pela misericórdia do impiedoso, ou para o Deus que eles usam para me destruir.

Colette contrabandeou o amuleto para mim. Eles o encontrarão e o roubarão, é claro. Mas hoje à noite eu o usarei em torno do meu pescoço, a corrente pesada de ouro, com seu rubi brilhante em forma de lágrima ornado com mais ouro, gravado com o meu nome e o de Etienne, e enfeitado com mais rubis e diamantes. Sangue e lágrimas. Fecho minha mão em torno dele e sinto Etienne perto de mim; dá até para ver o seu rosto.

E com isso amaldiçoe as Parcas que nos mataram, que irão matar o filho que só eu e Colette sabemos que se mexe dentro de mim. Uma criança que jamais conhecerá a vida, com seus prazeres e suas dores.

Para Etienne e nosso filho eu reúno as forças que tenho, clamo por quaisquer vozes que me ouçam, desato qualquer poder que eu detiver. Que aqueles que me condenaram sofram como nós sofremos. Que aqueles que tiraram de mim tudo que eu prezo jamais conheçam a felicidade. Amaldiçôo quem quer que venha arrancar este amuleto de mim, este último elo terreno entre mim e o meu amor. Rezo a todas as forças do céu e do inferno para que aquele que se apoderar do último presente que Etienne me deu conheça a discórdia, a dor e a tragédia. Aquele que buscar o lucro só irá perder o que lhe é mais precioso e mais querido. Esse é o meu legado para os meus assassinos e aqueles que os seguirem em gerações de desgraças.

Amanhã eles me queimarão como se eu fosse uma bruxa. Rezo para que estejam certos e que meus poderes, assim como o meu amor, sejam eternos.

Angelique Maunoir

 

Tati ficou sem conseguir falar por um instante. Devolveu os papéis para Matthew e se levantou para ir à janela. A chuva havia diminuído e quase parou sem que ela percebesse.

- Ela estava tão sozinha - murmurou Tate. - Que crueldade ter que ficar naquela cela, sabendo que iria morrer tão horrívelmente pela manhã. Ainda sofrendo pelo homem que amava, sem poder sentir alegria pela criança que carregava. Não é de espantar que ela rezava por vingança.

- Mas será que a teve?

Depois de sacudir a cabeça, Tate se virou e viu que ele também havia se levantado e estava em pé ao seu lado. Os olhos dela estavam marejados. As palavras escritas há tanto tempo partiram o seu coração. Mas quando Matthew levantou a mão e a pousou sobre o seu rosto úmido, ela deu um passo para trás.

- Não. - Tate viu os olhos dele perdendo o brilho antes que se afastasse. - Parei de acreditar em magia, seja branca ou negra, há muito tempo. O colar, obviamente, tinha uma importância vital para Angelique, já que era um elo com o homem que ela amava. Uma maldição é algo completamente diferente.

- Engraçado, eu pensaria que alguém que passa o seu tempo pesquisando e lidando com coisas antigas teria um pouco mais de imaginação. Você nunca pegou em algo que passou séculos enterrado e sentiu uma certa energia? O poder.

Com certeza. É claro que sim.

- O fato é - continuou, evasiva - que estou convencida. Vamos ficar juntos, derrotá-lo juntos. Vamos fazer o que for necessário para manter o amuleto longe das mãos de VanDyke.

Matthew agradeceu com um meneio de cabeça que era muito mais casual do que sua pulsação irregular.

- Essa é a resposta que eu queria. Estenderia a minha mão para que a apertasse, mas você não quer que eu lhe toque.

- Não mesmo. - Tate começou a andar em círculos, mas ele mudou de posição para bloqueá-la. O olhar dela ficou mais sério. - Olha, Matthew, não sejamos mais ridículos do que o necessário.

- Quando começarmos a mergulhar, você terá que tolerar o meu toque sempre que for necessário.

- Posso trabalhar com você. Só não quero que me empurre.

- Isso é o que você costumava dizer. - Ele recuou e gesticulou. - Há bastante espaço.

Tate aproveitou a deixa e andou na direção da porta. Tirou a capa que havia pego emprestado e a colocou de volta no gancho.

- Fico grata por você ter me mostrado os papéis, Matthew, e ter me dado um pouco mais de background.

- Somos parceiros.

Ela olhou para trás. Era estranha a solidão de Matthew ali, com o leme às suas costas e o mar mais atrás.

- Assim parece. Boa-noite.

 

Silas VanDyke ficou extremamente desapontado. Os relatórios que ele acabara de ler haviam estragado completamente a sua manhã. Ele tentou recuperar um pouco do charme do dia almoçando no pátio que dava vista para o mar.

Era com certeza um ponto privilegiado; o bater atordoante das ondas, Chopin saindo dos alto-falantes escondidos engenhosamente em meio à viçosa extensão dos jardins tropicais. Ele bebericava champanhe e se servia de uma suculenta salada de frutas, sabendo que sua companhia do momento voltaria em breve da expedição que fez ao shopping.

Naturalmente, ela estaria disposta a distraí-lo com uma tarde de sexo. Mas ele simplesmente não estava a fim.

Estava calmo, como garantiu a si próprio. Ainda permanecia no comando da situação. Mas se sentia simplesmente desapontado.

Tate Beaumont o havia traído. Ele levou a coisa para o nível pessoal. Afinal de contas, VanDyke a vira florescer como qualquer uma de suas flores bem cuidadas. Como um tio bondoso, dera à carreira da moça pequenos incentivos ao longo do caminho. Sempre de forma anônima, é claro. Não andava atrás de gratidão.

Apenas lealdade.

Seu trabalho no Nômade a teria feito ascender aos mais altos escalões no seu campo. com sua aparência, seu entusiasmo e sua juventude, teria superado cientistas reservados e respeitados como Hayden Deel. Então, quando Tate estivesse no auge, ele sairia de trás das sombras e lhe ofereceria o mundo.

Ela teria chefiado suas expedições. Seus laboratórios, recursos e melhores equipamentos estariam à sua disposição. Iria se juntar a ele na busca pela Maldição de Angelique. Desde aquele dia, há oito anos, quando ambos se encontraram no convés do Triunfante, ele soube intuitivamente que Tate era o seu elo com tudo aquilo. com o passar dos anos, Silas viera a perceber que o destino a havia colocado em seu caminho como um sinal, um símbolo. E ele a manteve lá, esperando pacientemente a chegada do momento propício.

Com ela VanDyke teria sucesso. Tinha certeza disso.

Mas Tate o havia traído. Deixado o seu posto.

Traído a sua confiança.

Seus dentes se trincavam enquanto o suor escorria pela sua pele. A fúria nublou sua visão e se apossou de tal maneira que ele acabou arremessando o cristal por sobre o quebra-mar e derrubou a mesa fazendo com que a louça, a prataria e as deliciosas frutas caíssem e se esparramassem no pátio.

Castigo, haveria um castigo. Deserção era uma ofensa altamente passível de punição. Uma ofensa mortal. Suas unhas faziam marcas vermelhas nas palmas das mãos. Ela teria que pagar por isso, e mais, pelo mau gosto de se aliar mais uma vez aos seus inimigos.

Eles achavam que o haviam logrado, dizia VanDyke enfurecido enquanto andava pomposo pelo pátio e puxava um hibisco branco como nata do galho ao lado. O erro foi deles, é claro. O erro foi de Tate.

Ela lhe devia lealdade, e Silas a teria. Exigia isso. com um sorriso malicioso nos lábios, ele arrancou a flor delicada. Depois arrancou outras e mais outras, até o arbusto ficar em frangalhos e seu terno todo amarfanhado.

Ofegante, com a cabeça latejando por causa da fúria vulcânica que havia dentro de si, ele foi se jogando cada vez mais para trás. Enquanto sua visão ia clareando, viu os restos espalhados do seu almoço delicioso, a destruição das suas posses. Sua cabeça doía de forma abominável e suas mãos estavam em carne viva.

Ele não se lembrava direito de ter provocado tal estrago, só da nuvem negra que o havia sufocado.

Por quanto tempo?, indagou com um pânico que o deixou nervoso. Por quanto tempo havia ficado fora de si?

Silas olhou desesperadamente para o seu relógio, cujo ouro cintilava no pulso, mas não conseguia se lembrar de quando seu estado de ânimo o levara a perder os sentidos.

Aquilo não importava, confortou-se. Os criados não iriam dizer nada, não pensariam nada, a não ser no que ele os mandasse pensar. Em todo caso, VanDyke não havia causado essa destruição vexatória de louça e prataria.

Foram eles que a haviam causado, lembrou-se. Os Lassiter. Os Beaumont. Silas simplesmente reagira, talvez um pouco impulsivamente, à sua profunda decepção. Mas já havia arejado a cabeça novamente. Como sempre fazia. Como sempre iria fazer.

Agora que estava mais calmo, iria pensar e fazer planos. Decidiu que lhes daria um tempo. Daria-lhes mais espaço. E depois acabaria com eles. Desta vez os arrasaria completamente por terem feito com que ele perdesse a sua dignidade.

VanDyke, como dizia para si mesmo, teria o controle, enquanto respirava longa e profundamente. Seu pai não teve condições de controlar a sua mãe. Sua mãe foi incapaz de controlar a si própria.

Mas ele havia aprendido o que era ter poder e força de vontade.

Silas os estava deixando escapar agora, e temia isso do mesmo jeito que uma criança tem medo dos monstros que se escondem no seu armário. Havia monstros, como ele bem se lembrava, e tinha que forçar a barra para impedir que seus olhos saíssem à sua cata. Em vão.

Ele estava perdendo o controle sobre si próprio, o qual havia lutado tanto para fomentar.

A Maldição de Angelique. Agora ele sabia, e tinha certeza de que o amuleto era a resposta. com ele em mãos, Silas seria forte, destemido e poderoso. Acreditava que a bruxa havia posto a sua alma no objeto. Ah, sim, ele acreditava nisso agora e se perguntava por que teria duvidado de tal assertiva, ou chegado a considerá-lo simplesmente uma bugiganga valiosa e muito desejada.

Era o seu destino, evidentemente. Ele ria um pouco, enquanto tirava um lenço de linho do bolso com a mão trêmula para limpar o rosto. Seu destino e talvez sua salvação. Sem ele, acabaria provando do fracasso e muito mais. Poderia se ver preso naquele mundo negro e entorpecido de fúria desenfreada, sem uma chave.

O amuleto era a chave. Delicadamente, agora, ele arrancou outra flor e a afagou para provar que era capaz.

Angelique havia colocado sua alma em metal e pedras. Ela o assombrara durante anos, o insultara e o provocara deixando-o apenas se aproximar e nada além disso.

Bem, ele a derrotaria, como fizera seu ancestral que estava morto há eras. Venceria porque era um homem que sabia como vencer.

Quanto a Tate... Ele esmagou a flor com as mãos, deixando suas unhas bem tratadas rasgarem as pétalas úmidas.

Ela havia feito a sua escolha.

 

As Índias Ocidentais, ilhas tropicais repletas de flores e palmeiras, cujos despenhadeiros dominavam a paisagem. A areia branca brilhava ao sol e era beijada pela água azul e dourada. Brisas perfumadas balançavam palmeiras majestosas. Era a imagem que todos têm do paraíso.

Assim que Tate pisou no convés, logo depois do nascer do sol, ela não era exceção à regra. O cone do vulcão adormecido de Névis estava envolto por brumas. Os jardins e as cabanas do recanto que haviam sido construídas depois da sua última visita também estavam em silêncio. Nada se mexia, a não ser as gaivotas.

Ela resolveu que iria ao continente durante a manhã para comprar mantimentos. Mas antes disso daria um mergulho calmo e solitário.

Tate entrou na água, deixando-se molhar até os ombros enquanto inclinava a cabeça para trás. Era muito gostoso poder se refrescar. Enquanto se movia preguiçosamente dentro d’água, traçou lentamente um círculo. Seu suspiro de deleite se transformou num arfar tão logo algo a agarrou pela perna e a puxou para baixo.

Ela nadou furiosa e arfante até a superfície. Por trás da máscara, os olhos de Matthew reluziram.

- Desculpe, foi difícil resistir. Estava nadando sem equipamento e vi essas pernas batendo na água. Você tem belas pernas, ruiva. De cima a baixo.

- O mar é muito grande, Matthew - disse ela de um jeito afetado. - Vá brincar em outro lugar.

- Por que você não pega uma máscara e desce comigo?

- Não estou a fim.

- Estou com um saco de biscoitos no bolso do meu calção de banho. - Ele estendeu a mão para tirar uns fios de cabelo molhado que caíam sobre o rosto dela. - Você não quer alimentar os peixes?

Ela queria, mas só se tivesse pensado nisso antes.

- Não. - Dando-lhe as costas, ela se afastou deliberadamente. Matthew deu um hábil mergulho de superfície, nadou sob ela e apareceu mais uma vez na sua frente.

- Você costumava ser mais divertida.

- E você costumava ser menos chato. Ele igualou sua velocidade à dela.

- É claro, você perdeu a prática de mergulhar, passando tanto tempo ao lado de computadores e robôs. Talvez seja por isso que usar um snorkel a deixe preocupada.

- Não estou preocupada. Mergulho tão bem quanto sempre mergulhei. Até melhor.

- Teremos que dar algumas nadadas enquanto estivermos procurando o Isabela. Estou dizendo que você precisa de prática.

- Não preciso praticar com o snorkel.

- Prove então - desafiou Matthew, que se afastou batendo as pernas.

Tate repreendeu a si mesma, amaldiçoou-o, mas acabou subindo novamente no barco para pegar a máscara e o snorkel. Matthew era um idiota, é claro, disse a si própria enquanto pulava na água novamente. Mas ele sabia que botões apertar. Sua única satisfação seria lhe mostrar o quanto ela continuava sendo boa.

Depois de ajustar o bocal, Tate deslizou pela superfície. Havia se esquecido, até o momento em que seu olhar percorreu a água e avistou os peixes e a areia, de quanto tempo fazia que ela não mergulhava - com ou sem equipamento - simplesmente por prazer.

Ela nadou como se estivesse num sonho, e já havia se esquecido do desafio. Até Matthew passar ao seu lado, rolando até ambos ficarem quase máscara a máscara. Ele estava sorrindo, antes da água jorrar para fora do tubo acima da superfície. Levantou a cabeça e gesticulou dizendo que iria descer. Sem esperar, mergulhou como se estivesse dobrando o corpo ao meio e a deixou para trás.

Era toda a motivação que ela precisava. Tate respirou fundo e saiu atrás de Matthew.

Aquele era um mundo que sempre morou em seu coração. Fragmentos oscilantes de solo marinho, água limpa, planícies e montes de areia. E quando Matthew liberou os biscoitos quebrados que estavam na sacola que carregava, cardumes de peixes vorazes se aproximaram.

Eles se aglomeraram em volta de Tate; corpos que brilhavam enquanto beliscavam e devoravam o banquete. Um ou dois foram curiosos o bastante para olhar o seu rosto através da máscara, antes de se lançarem para se juntar aos outros na briga pela comida. Seus pulmões estavam doendo antes dela bater as pernas para subir, soprar pelo tubo e inspirar.

Quase uma hora se passou até que ambos voltassem para a superfície. Tate tirou a máscara e deitou de barriga para cima no intuito de flutuar.

- Talvez você não tenha perdido o jeito da coisa - comentou Matthew.

- Não passei todo o meu tempo num laboratório.

Ao ver que os olhos da parceira estavam fechados, ele não resistiu e passou seus dedos por entre os cabelos ruivos e sedosos que flutuavam na água.

- Você não apareceu quando ancoramos em San Juan.

- Estava ocupada fazendo outras coisas. - Mas ela o vira, nadando vigorosamente, e trabalhando com LaRue em lições de mergulho.

- A sua tese.

- Isso mesmo. - Uma leve puxada em seu cabelo fez com que Tate jogasse a mão para trás. Os dedos de ambos se roçaram.

- Desculpe. Sobre o que é a sua tese?

Cautelosa, ela se deixou flutuar a alguns centímetros dali, onde Matthew batia as pernas.

- Você não se interessaria.

Por um instante ele nada disse, surpreso com o surto intenso de ressentimento.

- Provavelmente você tem razão.

Algo no seu tom de voz fez com que Tate abrisse os olhos novamente.

- Mal consegui passar pelos trabalhos de final de semestre do ensino médio. O que eu saberia sobre doutorados e teses?

- Não tive essa intenção. - Envergonhada consigo mesma, ela se esticou para pegar no braço de Matthew antes que ele pudesse afundar novamente. - Não mesmo. Só achava que você não iria dar muita importância para um texto técnico e cansativo, quando já fez, na prática, tudo que eu relato nos meus textos. A verdade é que quero acabar logo com isso.

- Pensava que você gostava desse negócio.

- E gosto. Eu... - Incomodada, ela flutuou e fechou os olhos novamente. - Não sei bem o que dizer. Minha tese é sobre o valor inerente em contraposição ao monetário dos artefatos. Não é totalmente original, mas achava que poderia me concentrar em uma peça, traçando sua trajetória desde os primórdios até sua descoberta e análise. Ou poderia rasgar tudo e voltar à minha primeira idéia sobre como os avanços tecnológicos foram aperfeiçoados e despersonalizaram a ciência da arqueologia marinha. Ou...

Ela abriu um olho.

- Você pode ver por que não me empolguei quando você tentou fazer com que eu chegasse a uma definição.

- Então você ainda não chegou a uma resolução. Qual é a pressa?

- Pensava que havia alguma. - Como ela poderia explicar que há anos vinha fazendo trabalhos monótonos? com certeza fora uma opção própria. Mas que ela havia abandonado súbita e impulsivamente. Tate não tinha onde se apoiar e não sabia como retomaria tudo aquilo quando chegasse a hora.

- Você sempre tinha um método, bem à mão, quando tentava se superar. - Ele deslizou as pontas dos dedos entre as sobrancelhas da colega.

Ela, então, empurrou a mão de Matthew para o lado.

- Cai fora daqui, Lassiter. Estou me divertindo enquanto fico remoendo uma crise profissional.

- Parece que você precisa reaprender a relaxar. - Ele colocou a mão na cabeça de Tate e a empurrou para baixo.

Ela afundou, mas foi rápida o suficiente para agarrá-lo enquanto isso. Conseguiu ficar com o queixo para fora da água, e teria respirado melhor se não estivesse rindo. No que Matthew segurou o tornozelo de Tate, ela bateu a outra perna e teve a satisfação de acertá-lo antes que a arrastasse novamente para o fundo.

Em vez de lutar, ela subia com dificuldade. No instante em que sua pegada afrouxou, Tate lhe deu uma cabeçada em cheio e se lançou na direção do barco. Não tinha certeza se ele fora mais rápido ou mais lento do que costumava ser, mas ela, por sua vez, não conseguiu dar quatro braçadas.

Assim que chegou novamente à superfície, Tate estava fraca e sem fôlego.

- Você está me afogando.

- Estou salvando-a - corrigiu. De fato, ele a estava segurando. Suas pernas estavam entrelaçadas, e por isso Matthew usou um braço para mantê-las boiando enquanto a outra envolvia Tate.

- Talvez eu esteja fora de forma. - Ela lutava para recuperar o fôlego e usava uma das mãos para tirar o cabelo da frente dos olhos.

- De onde estou nadando não parece mesmo.

Demorou um instante para que ele parasse de rir, um momento antes de Tate perceber que estava colada a ele, que o corpo de Matthew estava rígido, quase despido, e se comprimia contra o dela. Levou alguns instantes para que ela percebesse o desejo em seus olhos e para que a mesma sensação ecoasse naturalmente pelo seu corpo.

- Deixe-me ir, Matew.

Ele podia sentir que Tate tremia e havia empalidecido. Mas sabia que não era de medo. Ela costumava ficar exatamente assim antes. Quando o queria.

- Seu coração está batendo forte, Tate. Posso praticamente ouvi-lo.

- Eu disse...

Matthew se inclinou para a frente e mordeu de leve o lábio inferior dela, enquanto via os seus olhos se nublarem.

- Vá em frente - desafiou-a enquanto as duas bocas se colavam. - Diga isso novamente.

Matthew não lhe deu chance. Seus lábios devoravam os dela, primeiro prensando, depois mordiscando e, enfim, seduzindo-os para que se abrissem e ele pudesse levar o beijo para dentro das profundezas, da escuridão e do perigo.

Por Cristo, ele iria se deleitar. Foi isso o que pensou, mesmo enquanto sofria. Ela era tudo que Matthew lembrava e tentou esquecer. Tudo e muito mais. Mesmo quando afundavam sob a superfície e subiam à tona em busca de ar e presos um no outro, ele sabia que não era o mar que faria com que se afogasse. Mas seu desejo desesperado e infinito por ela.

Seu gosto, seu cheiro e a sensação. O som da sua respiração se agarrando a um prazer confuso. As lembranças do passado e a realidade do presente entrelaçados até que ele quase pudesse se esquecer do tempo que se passou nesse ínterim.

Ela não sabia que ainda podia se sentir assim. Tão faminta e fora de controle. Tate não queria pensar, não quando o seu corpo estava tão intensamente vivo e cada vez mais ansioso pêlo dele. Se arrepiava.

Era algo apenas físico. Ela poderia se apegar a isso tanto quanto o parceiro. A boca firme e suplicante, aquela carne úmida e escorregadia, um corpo rijo e de prontidão moldado ao dela. Não, Tate não queria pensar. Mas era preciso.

- Não.

Ela conseguiu pronunciar uma sílaba abafada antes que a boca de Matthew voltasse ao ataque e fizesse sua cabeça rodar novamente. Tate sentia sua vontade escorrendo e lutava tanto contra ele quanto contra si própria.

- Eu disse não.

- Eu a ouvi. - Uma dúzia de guerras distintas se travavam no interior dele. Matthew a queria e sabia, pelo jeito da sua boca se encaixar na dele, que poderia tê-la. Ele precisava de Tate, e podia ver o reflexo disso nos olhos entorpecidos da parceira. Se vontade e desejo fossem tudo, a guerra teria acabado rapidamente.

Mas ele a amava. E isso o tornava uma vítima que sangrava em seu próprio campo de batalha.

- Não fiz nada disso sozinho, Tate. Mas você pode fingir que fui eu se isso a fizer se sentir melhor.

- Não tenho que fingir nada. Largue-me.

Ele já o tinha feito. E isso ajudou seus lábios a se curvarem e tomarem a forma de algo parecido com um sorriso.

- Você está me segurando, querida. - Matthew tirou as mãos de dentro d’água, com as palmas voltadas na direção de Tate.

Com um juramento, ela soltou os braços que haviam, de algum modo, o envolvido.

- Conheço esse clichê, Lassiter, mas desta vez a história não irá se repetir. Trabalharemos juntos e mergulharemos juntos. Essas serão as únicas coisas que faremos lado a lado.

- A escolha é sua, ruiva. Sempre foi.

- Então não haverá nenhum problema.

- Problema algum. - Ele começou a nadar de costas, preguiçosamente. - A não ser que esteja preocupada de que não vá conseguir resistir a mim.

- Posso me controlar.

Ela teria ficado feliz em ver que a linha entre as suas sobrancelhas havia aparecido novamente. Murmurando sozinha, Tate mergulhou para esfriar a cabeça e depois nadou na direção oposta.

- Você não irá para o fundo novamente até passar no teste escrito. - Matthew empurrou um monte de papéis embaixo do nariz de LaRue. - É assim que vai ser.

- Não sou um aluno de colégio.

- É um estagiário. Sou seu instrutor e você irá passar por uma prova escrita. Se for aprovado, mergulha. Caso contrário, vai ficar no barco. A primeira parte é a identificação do equipamento. - Matthew se inclinou para a frente. - Você se lembra do que é um regulador, não, LaRue?

- Ele leva o ar da garrafa para o mergulhador. - LaRue empurrou os papéis para o lado. - E daí?

Matthew os empurrou de volta para onde estavam.

- E consiste em?

- Consiste em, consiste em... - Franzindo a testa, LaRue pegou o seu saco de tabaco. - Ha, do bocal, do tubo de borracha e do que mesmo? Estágios?

- O que é um estágio?

- É uma unidade de redução de pressão. Por que você está preocupado com isso?

- Você não irá mergulhar enquanto não conhecer o equipamento pelo avesso, até que eu tenha certeza de que está entendendo a física e a fisiologia da coisa. - Ele passou para LaRue um lápis. - Gaste todo o tempo que precisar, mas, lembre-se, você não irá mergulhar enquanto não terminar isso aqui. Buck, dê-me uma ajuda no convés.

- Claro, estou indo.

LaRue olhou para as folhas do seu teste e para Matthew, que lhe deu as costas enquanto se afastava.

- Qual é a lei de Boyle? - sussurrou para Buck.

- Quando a pressão...

- Sem trapacear - gritou Matthew. - Meu Deus, Buck.

- Desculpe, LaRue, agora é com você. - Envergonhado, Buck seguiu Matthew até o convés. - Só estava lhe dando uma pequena dica.

- Quem é que lhe dará uma pequena dica quando ele se esquecer das noções básicas a doze metros de profundidade?

- Você tem razão... mas o canadense está se saindo bem, não? Você disse que LaRue levava jeito para mergulhar.

- É praticamente um peixe lá embaixo - disse Matthew com um sorriso. - Mas não vai passar por cima dos detalhes.

Ele já estava vestindo seu traje de mergulho, e agora fechava o zíper. Deu uma última checada nas garrafas e nos manômetros e depois deixou que Buck o ajudasse a fechar o seu traje.

- Só vamos descer para fazer um pequeno reconhecimento da área - comentou Matthew enquanto ajeitava o seu cinto de lastro.

- O.k.

Buck sabia que o barco flutuava acima do local onde estava o Santa Margarida. Tanto ele quanto o sobrinho evitaram falar sobre aqueles destroços ou sobre o que havia acontecido. Buck evitou olhar para o sobrinho enquanto este se sentava para colocar os pés-de-pato.

- Tate quer tirar algumas fotos - disse Matthew, que não tinha nada melhor para falar. Todos queriam ver logo o que VanDyke havia deixado para trás.

- Claro. Ela sempre foi ótima fotógrafa. A menina cresceu e ficou bonita, não?

- Bastante. Não dê mais dicas para LaRue.

- Nem se ele implorar. - O sorriso de Buck desapareceu quando Matthew colocou sua máscara. O pânico lhe subiu à cabeça e o agarrou pela garganta. - Matthew...

Matthew fez uma pausa, com a máscara na mão, enquanto se preparava para mergulhar.

- O quê? - Ele viu a ansiedade no ar e se esforçou para menosprezá-la.

- Nada. - Buck esfregou a mão na boca, engoliu em seco, enquanto visões apavorantes com sangue e tubarões passavam pela sua cabeça. - bom mergulho.

Com um leve acenar de cabeça, Matthew caiu n’água. Ignorou a ânsia de mergulhar mais profundamente e se perder no silêncio e na solidão. Atravessou a distância que o separava do Novo Aventura, nadando em crawl com desenvoltura, e desistiu de gritar para saudar a tripulação.

- Está pronto para dar uma chegada lá embaixo?

- Quase. - Ray, já completamente vestido, veio até a amurada com um sorriso. - Tate está aprontando a câmera. - Ele acenou para Buck. - Como ele está?

- Vai ficar bem - disse Matthew. A última coisa que queria fazer era se estender falando dos temores do seu tio. Agora que estava ali, não via a hora de dar início aos trabalhos. - Vamos, ruiva! - gritou. -A manhã está acabando.

- Estou indo.

Ele a viu de relance antes que se sentasse para colocar os pés-de-pato. Alguns instantes depois, reparou na sua entrada graciosa. com os quadris curvados e as pernas esticadas num rápido mergulho, Matthew já a estava seguindo na hora em que Ray caiu dentro d’água.

Os três desceram juntos, quase lado a lado.

Matthew não esperava que as lembranças fossem fervilhar como os peixes velozes e cintilantes que os circundavam. Tudo que dizia respeito àquele verão voltou, espontânea e indesejavelmente. Ele se lembrava de como Tate estava quando a viu pela primeira vez. O olhar cauteloso e desconfiado, as rápidas explosões de raiva e ressentimento.

Oh, e ele se lembrou da atração imediata, a qual havia reprimido ou pelo menos tentado reprimir. A competição que existia quando ambos eram parceiros de mergulho, uma tensão que nunca chegou realmente a ser atenuada, mesmo depois que os dois passaram a ser um só.

Havia a emoção que ele vivenciara quando ambos encontraram os restos do navio naufragado. Aqueles momentos ao lado de Tate abriram tanto o seu coração quanto aumentaram suas esperanças, de um jeito que nada ou ninguém havia feito antes. Ou faria novamente. Todas as sensações de paixão, de trabalho em equipe, de descoberta e de promessa o envolveram à medida que se aproximavam da sombra da embarcação.

Assim como os sentimentos irritantes de horror e perda.

VanDyke havia deixado pouca coisa além do casco do galeão em frangalhos. Bastou uma olhada para que Matthew percebesse que seria uma completa perda de tempo descer com o airlift e cavar. Nada que pudesse ter algum valor havia sido deixado para trás. O navio naufragado fora completamente destruído e dilacerado na busca pelo último dobrão.

Ele se surpreendeu por ter sentido uma certa mágoa. com uma escavação cuidadosa, o Margarida teria sido salvo. Muito pelo contrário, o barco estava em pedaços, largado para que os vermes pudessem se fartar.

Quando olhou para Tate, Matthew podia ver claramente que qualquer vago desgosto que pudesse estar sentindo pelo navio não era nada em comparação com o que ela estava vivenciando.

Aquilo a despedaçou. Tate olhava para as tábuas dispersas sem se importar em tentar conter a tristeza. Ela deixou que tal sensação passasse para que pudesse senti-la profundamente.

Tate concluiu que VanDyke o havia matado. Não satisfeito com o estupro, ele havia destruído o Margarida. Ninguém teria a chance de ver como ele havia sido, o que significara. Por causa da ganância de um único homem.

Ela teria ido às lágrimas se não fosse tão inútil e inconveniente chorar. Em vez disso, livrou-se da mão que Matthew havia colocado no seu ombro para consolá-la e ergueu a câmera. Pelo menos iria documentar a devastação.

Para chamar a atenção de Matthew, Ray balançou a cabeça e gesticulou para que fossem nadar a uma curta distância dali.

Ainda havia beleza cercando o pouco que restou do navio. O coral, os peixes, as plantas que ondulavam. Mas isso não a deixou tocada enquanto filmava o local que outrora fora o cenário de tamanha alegria.

Ela admitiu que fazia sentido o fato do navio estar em ruínas, destruído, arrasado. Assim como o amor que antes havia oferecido a Matthew.

Foi nesse instante que Tate percebeu que aquele verão havia finalmente terminado e estava definitivamente encerrado. Já havia passado da hora de enterrá-lo e dar início a um novo.

Quando os três vieram à tona, a primeira coisa que ela viu foi o rosto pálido e ansioso de Buck recostado na amurada.

- Está tudo bem?

- Tudo bem - garantiu Tate. Por estar mais perto, ela se ergueu e subiu a bordo do Sereia. Parou, virou-se e acenou para sua mãe, que estava gravando o evento em vídeo a bordo do Novo Aventura. - Era exatamente o que esperávamos - disse a Buck depois de largar seu cinto de lastro.

- O desgraçado o estraçalhou, não?

- Sim. - Ela levantou os olhos quando Matthew subiu no convés.

- Ray quer seguir para o sul imediatamente. - Ele tirou a máscara e passou a mão no cabelo. - É melhor ficar onde está - disse para Tate antes que ela pudesse se levantar, - Não vai demorar muito. Buck?

Com um aceno de cabeça, Buck subiu até a ponte de comando e assumiu o leme.

- O melhor plano é fazermos alguns nados de superfície. - Depois de abrir o zíper do seu traje, Matthew se sentou ao lado dela. - Pode ser que tenhamos sorte.

- Você está se sentindo um sortudo, Lassiter?

- Não. - O dono do Sereia fechou os olhos enquanto o motor roncava. - Ele também significava algo para mim.

- Fama e fortuna?

As palavras saíram cortantes, mas não foram tão fundo quanto a rispidez em sua voz. Seu olhar, ardente e ferido, varreu o dela antes de Matthew se levantar e andar a passos largos na direção da escada que separava um deque do outro.

- Matthew. - A vergonha fez com que Tate pulasse atrás dele. - Desculpe.

- Esquece.

- Não. - Antes que ele pudesse subir os degraus, ela agarrou o seu braço. - Lamento muito. Isso foi difícil para todos nós... ir até lá embaixo, ver o que sobrou, Lembrar. Descontar em você é fácil, mas não ajuda em nada.

Sentindo-se impotente, com uma fúria contida, Matthew apertava o corrimão, fazendo com que suas mãos empalidecessem.

- Talvez eu pudesse tê-lo detido. Buck achava que sim.

- Buck não estava lá. - Ela manteve sua mão firme sobre o braço de Matthew até que este se virasse para encará-la novamente. Tate achou estranho não ter percebido que ele iria ficar se culpando. Ou que Matthew tinha espaço no coração frio que ela lhe atribuíra para sentir culpa. - Não havia nada que um de nós pudesse ter feito. Olhar para trás também não ajuda, e com certeza não muda nada.

- Não estamos falando só sobre o Margarida, certo?

Ela sentiu-se tentada a recuar, a fim de que suas palavras fossem vistas com indiferença. Mas evasivas eram vãs e ela esperava não agir mais como uma tola.

- Não, não mesmo.

- Eu não era o que você queria que eu fosse e a magoei. Também não posso mudar isso.

- Eu era jovem. Paixões nessa idade são passageiras. - De algum modo, a mão de Tate encontrou a de Matthew e a segurou. Ao perceber isso, ela soltou os dedos e deu um passo para trás. - Compreendi algo quando estava lá embaixo, olhando para o que sobrou do Margarida. Não resta mais nada, Matthew. O navio, aquele verão, aquela garota. Tudo se foi. Temos que começar com o que possuímos agora.

- Passar uma esponja no passado.

- Não sei se podemos ir tão longe. Vamos dizer que viramos uma página,

- O.k. - Ele estendeu a mão. Quando Tate a pegou, Matthew a levou inesperadamente até os seus lábios. - Vou persuadi-la, ruiva - murmurou,

- O quê?

- Você disse que viramos uma página. Acredito que tenho alguma responsabilidade pelo que será escrito nela. Por isso, irei persuadi-la. Na última oportunidade, você se jogou sobre mim.

- Não fiz nada disso,

- Claro que fez. Mas sou capaz de entender que desta vez terei que me esforçar. Mas tudo bem. - Ele passou o polegar de leve sobre as suas articulações antes de lhe soltar a mão. - Na verdade, acho que vou gostar muito disso.

- Não sei por que perco o meu tempo tentando fazer as pazes com você. Continua tão arrogante como sempre.

- Bem do jeito que você gosta de mim, meu doce.

Ela percebeu o brilho do sorriso de Matthew antes de se afastar. Por mais que tentasse, não conseguia deixar de fazer cara de pouco caso.

Era um inferno saber que Matthew tinha razão. Era exatamente desse jeito que ela gostava dele.

 

Os tais nados de superfície acabaram não dando em nada. Tate passou a maior parte da tarde enfurnada com seu pai e sua pesquisa enquanto Matthew levava LaRue, que havia acabado de ser aprovado em seus exames escritos, para um exercício de mergulho.

Ela já havia organizado pilhas de anotações, pequenos dados do Arquivo Nacional, mapas com restos de navios naufragados e o material que Ray havia selecionado no Archivo General de índias, em Sevilha.

Tate havia separado os mapas, gráficos, registros de tempestades, manifestos, diários. Agora estava concentrada nos seus cálculos.

Ela já havia avaliado e reavaliado tudo uma dúzia de vezes. Se suas informações estivessem corretas, eles com certeza estavam na área certa. O problema óbvio era que, até mesmo com uma locação determinada, encontrar os destroços de uma embarcação se assemelhava a encontrar uma agulha num palheiro.

O mar era tão amplo, tão vasto, que mesmo com os avanços na tecnologia as habilidades de um homem eram limitadas. Era altamente possível se estar a seis metros de um navio naufragado e nem notá-lo.

Eles deram uma sorte quase absurda com o Margarida. Tate não queria calcular os riscos de um raio cair no mesmo lugar duas vezes, não com a esperança e o entusiasmo que percebia sempre que olhava para os olhos do seu pai.

Todos ali precisavam do Isabela, pensou Tate. Todos mesmo, pelos mais diferentes motivos.

Ela sabia que o magnetômetro a bordo do Sereia estava sendo usado. Era uma maneira boa e eficiente de localizar destroços. Até então, o sensor que vinha rebocado atrás do barco de Matthew não havia captado leituras de ferro, como as que poderiam ser encontradas em canhões, cordames e âncoras.

Eles tinham marcadores de profundidade em ambas as pontes para que qualquer sinal de mudança na distância vertical causada por um navio naufragado fosse distinguido. E haviam colocado bóias na água para marcar o padrão de busca.

Se o Isabela estivesse lá embaixo, pensou Tate, eles o encontrariam.

Ela ficou na cabine principal depois que seu pai foi para estibordo.

- Aqui você não vai ficar com as maçãs do rosto bronzeadas, ruiva.

Ela olhou para cima e se surpreendeu quando Matthew lhe passou um copo de limonada feita pela sua mãe.

- Você voltou. Como foram os testes com LaRue?

- Ele é um bom parceiro de mergulho. Quantas vezes você irá repassar tudo isso?

Ela arrumou a papelada.

- Até eu terminar.

- Que tal dar uma pausa? - Ele se esticou e ficou brincando com a manga da camiseta de Tate. Matthew passou o dia inteiro tentando se aproximar, e ainda não tinha certeza de que estava fazendo a coisa certa. - Por que não damos um pulo em Névis, para jantar?

- Jantar?

- Isso mesmo. Você. - Ele puxou a manga. - E eu.

- Acho que não.

- Pensei que tínhamos virado a página.

- Isso não...

- Não sou muito bom no jogo que estão planejando para hoje à noite. Pelo que me lembro, você também não era boa no carteado. Lá no resort há uma banda de reggae tocando no terraço. Um jantar, um pouco de música. Não teremos muito tempo para isso quando encontrarmos o Isabela.

- Foi um dia longo.

- Você quer me fazer acreditar que tem medo de passar algumas horas comigo. - Os olhos de Matthew se focaram nos dela, azuis como o mar e tão altivos quanto. - É claro, se estiver com medo irá se jogar novamente em cima de mim.

- Isso é patético.

- Então tá. - Feliz por ter conseguido fazer sua tentativa, ele voltou para a escada de onde veio. - Use o seu cabelo solto, ruiva. Gosto dele assim.

Ela o amarrou, não para magoá-lo, garantiu a si própria. Mas porque queria. Tate colocou um vestido de verão da cor de mirtilo moído, que havia pego no guarda-roupa da mãe por insistência da própria Maria. A saia comprida com pregas na cintura facilitava a entrada e a saída do escaler.

Assim que Tate se ajeitou e o pequeno bote corria na direção da ilha, admitiu que não via a hora de comer num restaurante elegante, com um pouco de música agitada.

O ar estava perfumado e o sol ainda brilhava enquanto se punha a oeste. com seus óculos escuros, ela observava Matthew.

O cabelo de Matthew batia em seu rosto. Na cana do leme, sua mão era grande e apta para manobrar. Se não houvesse história alguma entre ambos, ela ficaria feliz por ter uma companhia tão atraente para passar a noite.

Mas havia uma história. Em vez de diluir o prazer, ela adicionava um limite. Mais uma vez haveria aquela competição. Se ele achava que Tate iria se render àquele charme rústico uma segunda vez, ela ficaria muito feliz em provar o contrário.

- O clima supostamente deve se firmar ao longo da semana - disse Tate para manter a conversa.

- Eu sei. Você continua não usando batom. - Quando ela passou, instintivamente, a língua nos lábios, Matthew teve que se segurar. - É uma pena que muitas pessoas não saibam o quanto é tentadora uma boca ao natural. Especialmente quando faz um beicinho.

Deliberadamente, ela relaxou os lábios outra vez.

- Vou adorar saber que ela o está deixando louco pelas próximas duas horas.

Tate voltou sua atenção para Névis. O cone da montanha estava enyolto por nuvens, fazendo um contraste notável e comovente com o azul brilhante do céu. Mais abaixo, a praia se expandia com seu tom lívido, emoldurando um mar calmo. A areia estava salpicada de pessoas, lindos guarda-sóis e espreguiçadeiras. Um windsurfista inexperiente lutava em vão para se manter em pé. Enquanto o via tombar na água novamente, Tate caía na gargalhada.

- Muito ruim. - Ela levantou uma sobrancelha para Matthew. - Você já tentou andar naquilo?

- Não.

- Eu já. Dá um baita trabalho, e é frustrante quando você acha que conseguiu e depois perde o equilíbrio e vira. Mas, quando você pega um bom vento e consegue sair, é maravilhoso.

- Melhor do que mergulhar?

- Não. - Ela continuou a sorrir, vendo o jovem lutar novamente em cima da sua prancha. - Nada é melhor do que mergulhar.

- As coisas melhoraram por aqui.

- Hummm. - Tate esperou enquanto ele manobrava na direção do píer e jogava o cabo para um rapaz que trabalhava no balneário. - Nem sabia que estavam planejando construir alguma coisa quando estivemos aqui da última vez. Ela segurou a mão que Matthew lhe ofereceu e subiu nas docas. - Agora parece que isso sempre esteve aqui.

- Névis não é mais o lugar misterioso que costumava ser. - Ele continuou a segurando pelo braço enquanto ambos andavam do píer para a praia.

Caminhos de pedra traçavam uma rota em meio a jardins viçosos e gramados verdes e luxuriantes, cheios de cabanas de dois andares. Os dois passaram pela piscina do restaurante e seguiram na direção das escadas de mármore que davam no prédio principal.

Tate olhou para trás.

- Não vamos comer aqui?

- Podemos fazer algo um pouco melhor do que uma simples refeição à beira da piscina. Dentro do restaurante há um terraço onde são servidos jantares. - Ele levou Tate para dentro, na direção de um tablado que estava reservado, onde uma mulher que usava a camiseta em cores vivas que era usada pelos funcionários lhe sorriu. - Lassiter.

- Sim, o senhor pediu o terraço.

- Isso mesmo. Liguei com antecedência - disse para Tate, que fez uma cara feia. Seu olhar ficou ainda mais carrancudo quando ele lhe puxou uma cadeira. De acordo com o que ela se lembrava, seus modos haviam sido passados a limpo, consideravelmente. - Você toma champanhe? - murmurou ele, inclinando-se para a frente de modo que sua respiração fez cócegas no ouvido de Tate.

- É claro, mas...

Ele pediu uma garrafa assim que se sentou na cadeira em frente à da companheira.

- Bela vista.

- Sim. - Ela desviou os olhos de Matthew e contemplou os jardins que davam no mar.

- Fale-me sobre os oito últimos anos, Tate.

- Por quê?

- Quero saber o que aconteceu. - Precisava saber. - Digamos que isso preencherá algumas lacunas.

- Estudei muito - começou ela. - Mais do que poderia esperar. Tinha a impressão de que já sabia de tudo. Mas, na verdade, meu conhecimento era muito limitado. Nos dois primeiros meses eu... - Estava perdida, infeliz, sentindo terrivelmente a sua falta. - Eu precisava me adaptar - disse com cuidado.

- Mas você pegou rápido o jeito da coisa.

- Suponho que sim. - Relaxada, ela se acomodou, se virou e voltou a olhar para ele. - Gostava da rotina, da disciplina. E queria realmente aprender.

Tate levantou os olhos quando a garçonete chegou à mesa com o champanhe para mostrar o rótulo.

- Deixe-a provar - pediu Matthew.

Prestativa, abriu a garrafa e serviu uma dose na taça de Tate.

- Está ótimo - murmurou Tate, sabendo muito bem que os olhos de Matthew não se afastavam do seu rosto.

Quando as taças de ambos estavam servidas, ela começou a beber novamente, mas Lassiter encostou um dedo no seu pulso. E fez um brinde de leve com a parceira.

- À próxima página - disse Matthew, sorrindo.

- Tudo bem. - Tate lembrou-se de que era uma mulher madura. E mais experiente agora. Possuía todas as defesas necessárias para resistir a um homem. Mesmo que fosse alguém como Matthew.

- Então você aprendeu - sugeriu ele.

- Sim. E sempre quando tive a oportunidade de usar o que havia aprendido numa expedição, usei.

- E o Isabela, não é uma oportunidade?

- Isso ainda veremos. - Ela abriu o seu cardápio, examinou-o rapidamente e o fitou com os olhos arregalados. - Matthew.

- Consegui guardar algum dinheiro ao longo dos anos - garantiu ele. - Além do mais, você sempre foi o meu talismã da sorte.

E pegou na mão dela. - Desta vez, ruiva, vamos voltar para casa ricos.

- Então esse ainda é o objetivo final? Tudo bem. - Ela encolheu os ombros. - A festa é sua, Lassiter. Se quer viver o hoje, faremos isso.

Enquanto ambos comiam e a bebida borbulhava em suas taças, o sol ia se pondo. Estava vermelho quando afundou no mar, brindando o céu com aquele breve e dolorosamente lindo crepúsculo dos trópicos. Naquele exato instante, começou a tocar uma música vinda do pátio anexo.

- Você não me falou nada sobre o que fez nos seus oito anos, Matthew.

- Nada muito interessante.

- Você construiu o Sereia. Isso é interessante.

- Ele é uma beleza. - Matthew olhou para o mar no qual seu barco balançava além do seu campo de visão. - Exatamente como o imaginei.

- Aconteça o que acontecer por aqui, você teria uma carreira pela frente no ramo de projetos e de construção naval.

- Nunca mais irei trabalhar apenas para pagar as contas - disse Matthew calmamente. - Nunca mais farei o que precisa ser feito e me esquecerei das coisas que desejo.

Aquela impetuosidade em seus olhos a deixou perplexa, de modo que ela se esticou para segurar a mão do parceiro.

- Foi isso que você fez?

Surpreso, ele olhou de volta. com um encolher de ombros descuidado, deixou que seus dedos se entrelaçassem com os dela.

- Não é o que estou fazendo. Isso é o que conta. Sabe de uma coisa, ruiva?

- O quê?

- Você é linda. Não. - Ele sorriu aos poucos enquanto Tate tentava soltar a mão. - Agora eu a tenho. Por agora - corrigiu. - É bom se acostumar.

- O fato de eu ter escolhido sair com você a jogar obviamente lhe subiu à cabeça.

- E ainda tem essa voz - murmurou ele, encantado com o jeito que a luz das velas tremeluzia e refletia nos olhos de Tate. -Lenta, suave e macia. Como mel misturado com a quantidade exata de uísque. Um homem poderia ficar bêbado apenas ouvindo você.

- Acho que o champanhe lhe deu uma certa vantagem. Deixe que eu conduzo o barco na volta.

- Tudo bem. Mas poderíamos dançar pelo menos uma vez. - Ele fez um sinal e pediu a conta.

Dançar um pouco não iria doer nada, pensou Tate. Pelo menos ela poderia usar o contato dos corpos para convencê-lo de que não estava disposta a se envolver no romance fugaz que o interessava.

Tate poderia tirar uma casquinha dele sem que perdesse a cabeça ou o entusiasmo desta vez. E se Lassiter sofresse um pouco não iria deixar de aproveitar tal situação também.

Para mostrar como aquilo pouco importava, ela se permitiu andar de mãos dadas com Matthew enquanto deixavam o terraço anexo na direção do pátio aberto lá embaixo.

A música era lenta, sedutora, e o vocalista dava uma interpretação provocante às letras das canções. Um casal estava sentado a uma mesa e se apertava no meio das sombras, mas não havia outros dançarinos quando Matthew tomou sua parceira nos braços.

Ele a trouxe para mais perto, de modo que seus corpos se acomodaram, e seu rosto não teve opção a não ser descansar no do parceiro. Sem pensar, Tate fechou os olhos.

Ela já devia saber que ele a levaria com facilidade e habilidade. Mas jamais poderia imaginar que ambos se entenderiam tão bem na pista de dança.

- Não sabia que você dançava tão bem.

Ele deslizou a mão pelas suas costas, até onde o tecido cedia lugar à carne, à pele que se arrepiava ao seu toque.

- Há muitas coisas que não sabíamos um sobre o outro. Mas eu conheço bem o seu cheiro. - Ele esfregou de leve o nariz na orelha de Tate. - E ele não mudou.

- Eu mudei - disse ela, lutando para não sucumbir enquanto o fogo se espalhava pela sua carne vulnerável.

- Você ainda sente a mesma coisa. - Ele esticou a mão para tirar os grampos do cabelo dela.

- Pare com isso.

- Eu gostava dele curto. - Sua voz era tão calma quanto a brisa, tão sedutora quanto. - Mas assim fica melhor. - Delicadamente, a boca de Matthew deslizou pela têmpora daquela bela mulher. - Algumas mudanças dão certo.

Ela estava tremendo e sentia aqueles arrepios rápidos e involuntários dos quais ele se lembrava tão bem.

- Somos pessoas diferentes agora - murmurou Tate. Ela queria que isso fosse verdade, precisava que fosse. Contudo, se este fosse o caso, como seria tão fácil ficar dentro daqueles braços como se não tivesse se passado nem um instante desde a última vez?

- Muitas outras coisas são exatamente do jeito que eram. Como o jeito que nos encaixamos.

Ela jogou a cabeça para trás e depois estremeceu quando os lábios de Matthew roçaram nos seus.

- Seu gosto ainda é o mesmo.

- Não sou a mesma. Nada é igual a antes. - Tate se afastou e correu na direção dos degraus que davam na praia.

Ela parecia não estar conseguindo respirar direito. A noite morna e balsâmica havia subitamente lhe traído, fazendo a sua pele se arrepiar. Era raiva - ela queria acreditar que havia sido a raiva que fez com que seu estômago se apertasse e seus olhos lacrimejassem. Mas sabia que era a necessidade, e não tinha como não detestá-lo por reacender uma faísca há tanto tempo apagada.

Quando Matthew a alcançou, estava certa de que iria atacá-lo, com arranhões e cuspindo na sua cara. De algum modo, seus braços o envolveram e sua boca buscou a dele.

- Eu o odeio por isso. Por Deus, eu o odeio por isso.

- Não estou nem ligando. - Ele puxou a cabeça de Tate como se ela fosse uma presa. Estava tudo ali, aquela energia, aquela vivacidade, aquela paixão. Matthew teve a idéia desenfreada e desesperada de arrastá-la para o matagal, para mergulhar no calor vibrante que vinha da parceira.

- Sei muito bem disso. - E era isso que ainda doía, uma cicatriz que palpitava debaixo de uma ferida recente. - Mas eu ligo.

Mais uma vez ela fugiu, levantando as mãos para detê-lo quando ele poderia trazê-la novamente para os seus braços. Tate lutava para estabilizar a respiração e resistir àquela luz temerária e atraente que vinha dos olhos de Matthew.

- Você queria provar que ainda podia acender uma faísca entre nós. - Meio insegura, ela pôs a mão no estômago. - Bem, você conseguiu. Mas sou eu que decidirei o que faremos ou não quanto a isso, Matew. E não estou preparada para fazer escolhas.

- Eu quero você, Tate. Quer que eu lhe diga isso? - Ele se aproximou um pouco mais, mas não a tocou. - Quer me ouvir dizer que eu não consigo dormir durante a noite de tanto que a quero?

As palavras, a entrega firme e impaciente giravam em sua cabeça, nadavam no seu sangue.

- Talvez eu queira, mas isso não muda o fato de que vou levar o tempo que for necessário para chegar a uma decisão. Outrora, eu seguiria com você para qualquer parte, teria feito tudo para ficar com você, Matew. Outrora. O que farei agora é por minha conta.

Ele enfiou as mãos tensas nos bolsos.

- Isso é justo. Porque, desta vez, o que eu farei também será por minha conta.

- Desta vez. - Ela riu rapidamente e passou os dedos no meio do cabelo solto. - Pelo que estou vendo, as coisas continuam as mesmas.

- Então você sabe com o que está lidando.

- Não tenho certeza se sei - disse ela de um jeito enfadonho. - Você continua mudando de atitude, Matthew. Não sei o que é real e o que é ilusão.

- Isto é real. - Ele colocou uma das mãos por trás do pescoço de Tate, levantando-a e tirando os seus pés do chão até as duas bocas se encontrarem.

- Sim, isto é real. - Enquanto se desvencilhava, ela suspirou. - Quero voltar agora para o barco, Matthew. Amanhã começaremos cedo.

Tati realmente não se importou com A DIVISÃO DAS equipes, de modo que seu pai e LaRue passaram a trabalhar juntos, deixando ela e Matthew como segunda equipe. Os dois sempre atuavam bem juntos debaixo d’água. Depois do primeiro mergulho da dupla, ela percebeu que ambos ainda tinham os mesmos ritmo e comunicação naturais e instintivos.

O equipamento eletrônico era o método mais eficaz de se localizar o Isabela, mas Tate se sentia grata por ter a chance de mergulhar, de fazer suas buscas usando a intuição e as mãos, do jeito que aprendeu a fazer.

Horas abanando areia não a entediavam. Nem mesmo trazer pedaços de conglomerado para a superfície para que sua mãe e Buck trabalhassem com os martelos. Até onde lhe dizia respeito, ela estava em casa novamente, tendo os peixes tanto como platéia quanto como companheiros. Cada bela escultura de coral era um colírio para os seus olhos. Até mesmo a decepção fazia parte do todo. Uma corrente enferrujada e uma lata de refrigerante podiam transformar um coração que batia acelerado num suspiro. Mas tudo isso fazia parte da busca.

E havia Matthew, sempre à mão para com ela partilhar de algumas daquelas delícias. Um jardim de plantas marinhas, uma garoupa amuada preocupada com a sua comida, o brilho repentino e prateado de um peixe em migração. Se ele se inclinasse para tocá-la um pouco de vez em quando, Tate dizia a si própria para aproveitar o ensejo.

Se ela era forte o suficiente para resistir à sedução, com certeza era capaz de resistir ao romance.

Os dias iam se passando e viraram semanas, mas ela não se sentia desanimada. O tempo transcorrido ali atenuava uma necessidade que não percebera que fazia parte do seu íntimo - de visitar novamente o mar que amava, não como cientista e observadora imparcial treinada para registrar dados. Mas como uma mulher que gozava da sua liberdade e da companhia de um homem que a intrigava.

Ela examinou uma formação de coral, abanando a areia para o lado. Olhando para trás, Tate viu Matthew enfiando conglomerado em seu saco de coleta. Começou a sorrir para ele, do jeito que reservava a si própria quando sabia que seu parceiro não estava olhando. Uma dor aguda apunhalou as costas da sua mão.

Aos solavancos, a moça saltou para trás, na mesma hora em que a cabeça de uma moréia voltou para dentro da fenda que era o seu lar no meio do coral. Pouco antes de Tate perceber o que lhe ocorrera e amaldiçoar seu próprio descuido, Matthew já estava lá, segurando os dedos da sua mão ferida, enquanto o sangue circulava na forma de um pequeno turbilhão debaixo d’água. O olhar alarmado dele era mais pungente do que a expressão de espanto de Tate. Ela começou a sinalizar dizendo que estava bem, mas ele já estava com o braço em volta de sua cintura, batendo as pernas rumo à superfície.

- É só relaxar - pediu Lassiter no instante em que tirou seu bocal. - Vou levar você para dentro do barco.

- Estou bem. - Mas a dor lancinante fazia seus olhos lacrimejarem. - Foi só um corte, sério.

- Relaxe - repetiu Matthew. Seu rosto estava tão pálido quanto o dela no momento em que alcançou a escada. Enquanto chamava por Ray, ele começou a desamarrar as garrafas de Tate.

- Matthew, pelo amor de Deus, foi só um arranhão.

- Cala a boca. Ray, maldito seja.

- O quê? Qual é o problema?

- Ela foi mordida. Moréia. - Matthew jogou as garrafas da parceira no convés. - Ajudem-na a subir.

- Meu Deus, parece que eu tive metade do meu corpo arrancada por um tubarão - murmurou, e depois se retraiu quando percebeu o que havia dito. - Estou bem - apressou-se a dizer enquanto sua mãe vinha correndo.

- Deixa eu ver. Oh, querida. Ray, pegue o estojo de primeiros socorros para que eu possa limpar isso.

- Foi só um corte - insistia Tate enquanto sua mãe a arrastava para um banco. - A culpa foi toda minha. - Tate suspirou e viu Matthew subir a bordo. - Não há por que todo mundo ficar tão alvoroçado, Lassiter.

- Deixa eu ver como está. - Num movimento que fez com que Maria piscasse surpresa, ele a empurrou para o lado, pegou a mão de Tate e limpou o sangue do ferimento superficial com o polegar. - Parece que não vai precisar de pontos.

- É claro que não. É só... Tate parou no meio da frase enquanto ele arrancava o estojo de primeiros socorros das mãos de Ray. Quando a molhou com o anti-séptico, o som que ela produziu em seguida foi o de um grito. - Você não é exatamente um médico.

A pressão de Matthew ia gradualmente se equilibrando enquanto conseguia dar uma boa olhada no ferimento limpo.

- Provavelmente foi uma escoriação. - O aborrecimento era uma emoção mais simples do que o medo, por isso ele fechou a cara. - Estúpida.

- Ouça, isso poderia ter acontecido com qualquer um.

- Não se estivesse prestando atenção.

- Eu estava.

 - Você estava era tendo devaneios novamente.

Ray e Maria trocavam olhares enquanto a discussão e a medicação prosseguiam.

- Parece que você nunca levou uma mordida. Suas mãos estão cheias de cicatrizes.

- Estamos falando de você. - O fato de aquelas mãos belas e pequenas estarem feridas o deixava enfurecido.

Ela deu uma fungada e dobrou os dedos. O curativo ficou pequeno, limpo e eficiente. Teria preferido morder a língua antes do que disse a seguir.

- Você não vai beijá-la para que melhore?

- Claro. - Como resposta, ele a ajudou a se levantar. Enquanto seus pais, atônitos, faziam o papel de meros espectadores, a boca de Matthew se encontrou com a da parceira num beijo longo, firme e caprichado.

Quando Tate pôde falar de novo, resolveu pigarrear escrupulosamente.

- Você errou - disse ela enquanto levantava a mão envolvida por uma gaze.

- Não mesmo. É a sua boca que precisa de um trato, querida.

- Sério? - Seus olhos se apertaram até ficarem semicerrados. - Agora você é especialista naquilo que eu preciso?

- Eu sempre soube do que você precisa, ruiva. Toda vez que você quiser... - De repente, ele se lembrou de que não estavam exatamente sozinhos. Tentando conter-se um pouco, Matthew deu um passo atrás. - Acho que você devia tomar umas duas aspirinas par” aliviar a dor.

O queixo de Tate estava empinado que nem uma espada.

- Não está doendo.

Ela se virou e pegou suas garrafas.

- Para onde você acha que está indo?

- Estou voltando para o fundo.

- O diabo que vai.

- Então tente me impedir.

No momento em que Ray ia intervir, Maria bateu de leve em seu braço.

- Deixe que eles decidam, querido - murmurou a Sra. Beaumont. - Parece que isso já está há um tempo a ponto de estourar.

- Você quer que eu tente impedir. O.k. - Deixando que seu ânimo o guiasse, Matthew tirou as garrafas das suas mãos e as jogou no mar. - Isso deve resolver.

Por um instante, tudo o que Tate conseguiu fazer foi abrir a boca, embasbacada.

- Seu idiota. Seu filho-da-puta ignorante. É melhor enfiar o seu rabo dentro d’água para recuperar as minhas garrafas.

- Vá pegá-las você. Não está ansiosa para mergulhar?

Dar as costas para ela foi um pequeno erro. Pelo qual ele acabou pagando. Tate se lançou sobre o seu dorso. No último instante, Matthew percebeu a sua intenção. Num esforço para se salvar, deslocou-se para o lado. Mas ela fez o mesmo. O choque fez com que ambos fossem parar dentro d’água.

- Será que não devíamos fazer alguma coisa, Maria? - perguntou Ray, enquanto estavam em pé na amurada.

- Acho que estão indo bem. Ah, veja, ela quase o acertou com aquele soco. E era com a mão machucada.

Matthew desviou do golpe no último instante. Mas não conseguiu evitar outro murro no meio da barriga. Mesmo tendo sua intensidade diminuída pela água, o golpe conseguiu arrancar dele um grunhido.

- Pára com isso - avisou Lassiter, segurando a mão machucada de Tate na altura da cintura. - Você vai se machucar.

- Vamos ver quem vai se machucar. Vá pegar as minhas garrafas.

- Você não irá descer enquanto não tivermos certeza de que a mordida provocou alguma reação.

- Vou lhe mostrar a minha reação - prometeu Tate, e o acertou com um direto no queixo.

- O.k., já chega. - Ele a afundou na água uma vez e depois a ergueu com o braço debaixo do seu queixo numa posição de resgate não muito delicada. Toda vez que ela o arranhava ou lhe rogava alguma praga, ele a afundava dentro d’água. No momento em que alcançaram a escada, Tate estava ofegante. - Está cansada?

- Desgraçado.

- Acho que mais um bom mergulho...

- Olá, Aventura!

Matthew a largou um pouco enquanto seu tio o saudava do Sereia. Ele vinha em boa velocidade da sua posição para sudoeste, onde Buck e LaRue vinham explorando o terreno com o sensor.

- Olá - gritou Buck novamente da ponte. LaRue se inclinou, todo convencido, da amurada na proa. - Encontramos algo.

- Suba a bordo - murmurou Matthew para Tate, praticamente carregando-a até a escada.

Buck guiou o Sereia para que ambos os barcos emparelhassem e desligou o motor.

- Os sensores indicaram que há um monte de metal empilhado lá embaixo. O marcador de profundidade também mostra algo. Marcamos o ponto com uma bóia... sudoeste, trinta graus. Jesus, acho que o encontramos.

Tate respirou fundo.

- Quero minhas garrafas, Matthew. - Seus olhos brilhavam enquanto se viravam na direção do parceiro. - Nem pense em me impedir de ir lá embaixo agora.

 

Havia várias maneiras de marcar a posição de um navio afundado para que se pudesse voltar para o ponto exato. Entre os métodos tradicionais estavam medições feitas a partir de três oBjetos fixos com um sextante, marcações feitas com bússola num raio de nove graus ou simplesmente situar os destroços usando objetos distantes como alças de mira. Matthew já havia usado todos eles.

Embora Buck houvesse usado uma única bóia como marco, Matthew sabia que esse método tinha suas desvantagens. Uma bóia podia afundar ou ser arrastada. Ou, mais importante neste caso, uma bóia podia ser vista por outras partes interessadas. Para manter o sigilo, ele anotou as marcações da bússola no diário de bordo, divisou o distante monte Névis como alça e depois pediu para Buck mover a bóia para bem longe da posição estimada dos destroços.

- Vamos manter a bóia na mesma linha daquele grupo de árvores na extremidade da ilha - disse a Ray, passando o binóculo para que seu parceiro pudesse verificar a posição baseado no ponto mais extremo de Névis.

Eles estavam em pé no convés do Novo Aventura, Matthew com seus equipamentos de mergulho, Ray com calças de algodão e óculos polarizados. O pai de Tate já estava ocupado com a sua bússola, marcando a posição no diário de bordo do seu navio.

- Não vamos ancorar aqui - Matthew desviou o olhar para o mar enquanto observava o belo catamarã que carregava turistas num cruzeiro que ia de Névis até St. Kitts. O som alegre da banda que tocava no convés era levado pela água num clima de festa. - Vamos usar a bóia como linha e nos aproximar da costa na direção do monte Névis.

Enquanto Ray acenava positivamente com a cabeça e anotava as marcações, Matthew prosseguia:

- Tate pode fazer desenhos do fundo, e poderemos usá-los como referência enquanto prosseguimos.

Ray pendurou o binóculo em volta do pescoço e avaliou a expressão determinada de Matthew.

- Você está pensando em VanDyke.

- Exatamente. Se ele souber onde estamos, não será capaz de descer até onde estão os destroços. Não saberá as distâncias nem quais são os pontos de referência que selecionamos, ou até mesmo se estamos mergulhando perto da costa ou além da bóia. Isso lhe dará inúmeras possibilidades e fará com que não saiba exatamente onde procurar.

- E nos dará tempo - concordou Ray. - Caso isso não seja o Isabela...

- Logo iremos descobrir - interrompeu-o Matthew. Ele não queria especular. Queria saber. - De um jeito ou de outro, tomamos precauções. - Matthew colocava seus pés-de-pato enquanto falava. - Vamos, ruiva, rápido,

- Eu preciso recarregar minha câmera.

- Esqueça a câmera. Não vamos revelar filme algum.