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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O BAILE DOS DEUSES / Nora Roberts
O BAILE DOS DEUSES / Nora Roberts

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblio VT

 

 

 

O Círculo dos Seis se prepara para a batalha final contra o exército escuro da vampira Lilith. Na Irlanda, um círculo de pedra serve como um portal e deve levá-los para um lugar e tempo antigos.

É no Geall que todos encontraram seus destinos: O Feiticeiro, A Bruxa, O Erudito, Aquele Shifter e Aquele que Foi Perdido. E quando sua coragem é testada, seus corações estarão unidos como nunca antes...

 

 

 

 

Quando o sol descendeu quase de tudo no céu, irradiando os últimos vestígios de seu fogo, os meninos se apinharam para escutar a seguinte parte da história. Para o ancião, seus rostos ansiosos e esperançosos e seus olhos tão abertos iluminavam a habitação. A história que tinha começado a lhes contar uma tarde de chuva continuaria agora, enquanto a escuridão começava a hospedar-se ao seu redor.

O fogo crepitava na lareira, o único som que se ouvia enquanto ele bebia seu vinho e procurava as palavras adequadas em sua mente.

—Agora já conhecem a origem do Hoyt, o Feiticeiro, e da Bruxa que chegou de além de seu tempo. Sabem como nasceu o vampiro, e como a Erudita e o Shifter[1] chegaram do mundo do Geall, através do Baile dos Deuses, à terra da Irlanda. Sabem como se perderam um irmão e um amigo, e como a Guerreira se uniu a eles.

—Uniram-se —disse um dos meninos com os olhos muito abertos — para lutar, para salvar todos os mundos.

—É verdade e isto é o que ocorreu. Essas seis pessoas, esse círculo de valor e esperança, através de sua mensageira Morrigan, recebeu o encargo dos deuses de combater contra o exército de vampiros dirigido por Lilith, sua ambiciosa Rainha.

—Eles lutaram e derrotaram aos vampiros —disse um dos menores, e o ancião soube que o menino via a si mesmo como um desses seis valentes, empunhando a espada e a estaca para destruir o mal.

—Isso também é verdade, e isto é o que aconteceu. À noite em que o Feiticeiro e a Bruxa celebravam seu compromisso, quando se prometeram mutuamente o amor que tinham descoberto nesses tempos terríveis, o círculo de seis derrotou aos demônios. Seu valor não pode ser questionado. Mas se tratou só de uma batalha, no primeiro mês dos três que lhes tinham sido concedidos para salvar os mundos.

—Quantos mundos há?

—Não podem ser contados —respondeu o ancião. — Do mesmo modo que não podem contar às estrelas que há no céu, mas todos estavam ameaçados. Porque se eles fossem derrotados, esses mundos mudariam como um homem ao que convertessem em um demônio.

—Mas o que passou depois?

O ancião sorriu enquanto o fogo que ardia na lareira projetava sombras sobre seu rosto curtido pelos anos.

—Bem, contarei-lhes isso. Depois da noite da batalha chegou o amanhecer. Uma aurora aprazível e nebulosa, a calma depois da tempestade. A chuva tinha lavado o sangue, tanto de humanos como de demônios, mas ali onde tinham atuado as espadas flamejantes, a terra estava queimada. E mesmo assim, as pombas arrulhavam e as águas do arroio cantavam. As folhas e as flores molhadas pela chuva brilhavam com a primeira luz da manhã.

—Era por isso —lhes disse o ancião —, para preservar essas coisas simples e cotidianas pelo que eles lutavam. E assim, juntos, começaram sua viagem.

  

Larkin coxeava através da casa, silenciosa como uma tumba. O ar era doce, invadido pela fragrância que se desprendia das flores, profusamente distribuídas para a celebração do compromisso a noite anterior.

O sangue tinha sido eliminado; as armas limpas. Tinham brindado por Hoyt e Glenna com o champanhe e tinham comido bolo. Mas atrás dos sorrisos, espreitavam os horrores da batalha que tinham liberado contra os vampiros. Um convidado indesejado.

Esse dia, imaginou Larkin, estaria dedicado ao descanso e a mais preparação. Tinha que fazer um esforço para não mostrar-se impaciente com o treinamento, com o planejamento. Ao menos, a noite anterior tinha tido a oportunidade de lutar, pensou enquanto se levava uma mão à coxa, ferido por uma flecha. Tinham conseguido abater a um grande número desses demônios, o qual era fantástico.

Quando chegou à cozinha abriu a geladeira e tirou uma garrafa da Coca-cola. Tinha desenvolvido uma especial predileção por essa bebida e tinha substituído com ela seu habitual chá das manhãs.

Fez girar a garrafa, maravilhado ante o engenho demonstrado na fabricação desse recipiente, tão suave, tão transparente e duro. E o líquido que continha em seu interior... Isso era algo que jogaria muito de menos quando retornassem ao Geall.

Agora reconhecia que não tinha acreditado uma só palavra de sua prima Moira quando esta lhe tinha falado de deuses e demônios, de uma guerra liberada entre mundos. Aquele dia, durante o triste enterro da mãe da Moira, ele só a tinha acompanhado para cuidar dela. Moira não era somente de seu sangue, a não ser uma amiga, e logo seria a Rainha do Geall.

Mas cada palavra que lhe havia dito a poucos passos da sepultura de sua mãe, tinha sido a pura verdade. Ambos tinham ido até o Baile dos Deuses e se colocaram no centro do círculo. E então tudo tinha mudado.

Não só o momento e o lugar onde se encontravam, recordou enquanto abria a garrafa e bebia esse primeiro gole tonificante, a não ser tudo. Em um instante estavam os dois sob o sol da tarde, no Geall, e de repente apareceram a luz e o vento, e um som estrondoso.

Em seguida tinha caído a noite e estavam na Irlanda... Um lugar que ele sempre tinha pensado que só existia nos contos de fadas.

Larkin nunca tinha acreditado em contos de fadas, nem em monstros e, apesar do dom que possuía, sempre tinha olhado a magia com desconfiança.

Entretanto esta existia, agora o reconhecia. Do mesmo modo que existia a Irlanda e os monstros. Esses demônios os tinham atacado, irrompendo das sombras do bosque, com seus olhos vermelhos e suas presas afiadas. Com forma humana, pensou, mas não eram humanos.

Vampiros.

Os vampiros existiam para alimentar-se dos humanos. E agora se reuniram todos ao redor de sua Rainha para destruir o mundo.

O estava aí para freá-los a qualquer preço. Ele estava aí enviado pelos deuses para salvar os mundos dos homens.

Arranhou-se ociosamente a coxa ferida e decidiu que dificilmente podia esperar-se que salvasse à humanidade com o estômago vazio.

Cortou uma parte de bolo para acompanhar a Coca-cola e lambeu o açúcar dos dedos. Até o momento, e com distintos estratagemas, tinha conseguido evitar as lições de cozinha da Glenna. Gostava de comer, disso não cabia dúvida, mas preparar a comida era um assunto completamente distinto.

Larkin era um homem alto e magro, com uma farta juba de cabelo amarelo tostado. Seus olhos, quase da mesma cor do cabelo, eram grandes como os de sua prima, e quase tão penetrantes. Tinha uma boca larga, que sorria com facilidade, mãos ágeis e um caráter aprazível.

Aqueles que o conheciam o tinham por um homem generoso com seu tempo e seu dinheiro, e um bom elemento para tê-lo à costas no pub ou em uma briga.

Tinha sido bento com uma aparência bem cinzelada e atrativa, umas costas largas e uma mão forte. E com o poder de trocar sua forma humana pela de qualquer ser vivo.

Deu uma generosa dentada à parte de bolo, mas na casa havia muito silêncio e tranqüilidade para seu gosto. Ele queria, necessitava, atividade, som, movimento. Posto que não podia dormir, decidiu que tiraria o cavalo de Cian a dar um passeio matutino.

Sendo um vampiro, Cian dificilmente podia fazê-lo.

Saiu da grande casa de pedra pela porta traseira. O ar era frio, mas levava postos o pulôver e os jeans que Glenna lhe tinha comprado no povo. E calçava suas próprias botas. Do pescoço lhe pendurava a cruz de prata que Glenna e Hoyt tinham forjado com sua magia.

Viu as zonas onde a terra estava queimada, onde se via pisoteada. Os rastros de seus próprios cascos que tinham ficado impressos na terra empapada quando tinha galopado através do campo de batalha com a forma de um cavalo.

E nesse momento viu também à mulher que tinha levado em seu lombo a noite anterior, semeando a destruição com uma espada flamejante.

Ela se movia entre a névoa, lentamente e com graça, no que ele teria tomado por uma dança, de não ter sabido que esses movimentos, o completo controle que exercia sobre eles, eram em realidade uma forma de treinamento de combate.

Seus largos braços e pernas fendiam o ar com tanta suavidade que logo que perturbavam a neblina. Larkin podia ver o tremor de seus músculos quando adotava uma postura e a mantinha durante um tempo quase infinito, já que seus braços estavam nus, embelezada como ia com uma cômoda camisa branca que nenhuma mulher do Geall teria levado fora de seu dormitório.

Ela levantou uma perna no ar, para trás e dobrada pelo joelho, e com uma mão se agarrou o pé descalço. A camisa se elevou sobre seu torso revelando mais pele.

Larkin decidiu que seria um homem arrependido aquele que não desfrutasse de semelhante espetáculo.

A moça levava o cabelo curto, tinha-o negro e brilhante; e os olhos mais azuis que os lagos de Fonn. Em seu mundo não a tivessem considerado uma beleza, já que carecia de arredondamento, e de acentuadas e suaves curvas, mas ele encontrava muito atrativa a força de suas formas, interessantes e únicos os marcados ângulos de seu rosto e o arco bem desenhado de suas sobrancelhas.

Ela baixou a perna, estendeu-a para um lado e logo parou com os braços paralelos ao chão.

—Sempre toma tanto açúcar pela manhã?

Sua voz o sobressaltou. Ele tinha permanecido imóvel e em silencio, e acreditava que ela não tinha reparado em sua presença. Devia ter imaginado que não era assim. Mordeu uma parte do bolo que tinha esquecido que tinha na mão.

—Está muito bom.

—Aposto que sim. —Blair baixou os braços e se ergueu. — Levantaste-te mais cedo do habitual, verdade?

—Não podia dormir.

—Sei ao que te refere. Foi uma briga condenadamente boa.

—Boa? —Larkin jogou outra olhada à terra queimada e pensou nos gritos, o sangue, a morte-. — Não foi precisamente uma noite no pub.

—Entretanto, foi entretida. —Blair também olhou a seu redor como o tinha feito ele, mas com uma expressão dura nos olhos. — Chutamos o rabo a alguns vampiros, que melhor maneira pode ter que passar a noite?

—Me ocorrem umas quantas.

—Tudo foi muito rápido. —Eliminou de seus ombros qualquer vestígio de tensão enquanto olhava para a casa. — E não esteve nada mal isso de passar de uma cerimônia de compromisso a uma briga e volta ao ponto de partida... Como ganhadores. Especialmente se tivermos em conta a alternativa.

—Suponho que tem razão.

—Espero que Glenna e Hoyt estejam desfrutando da lua de mel porque, em geral, como reunião social foi uma merda.

Com esse andar comprido, quase líquido, que ele tinha chegado a admirar, Blair se afastou por volta da mesa que usavam durante o treinamento diurno para deixar as armas e as provisões. Agarrou a garrafa de água que tinha deixado ali e bebeu avidamente.

—Tem uma marca de realeza.

—Como diz?

Larkin se aproximou e lhe tocou brandamente o omoplata com a ponta do dedo. Tinha a marca de uma cruz como a que ele tinha pendurada do pescoço, mas de cor vermelha sangue.

—É só uma tatuagem.

—No Geall só o rei pode levar uma marca no corpo. Quando se coroa ao novo rei ou Rainha, quando tiram a espada da pedra, a marca aparece. Aqui. —aplaudiu-se o bíceps direito. — Não o símbolo da cruz, a não ser o claddaugh[2], colocado ali, dizem, pelo dedo dos deuses.

—Legal. Excelente —esclareceu Blair quando o viu franzir o cenho.

—Eu nunca o vi pessoalmente.

Ela elevou a cabeça.

—E ver é acreditar?

Larkin se encolheu de ombros.

—Minha tia, a mãe da Moira, tinha uma dessas marcas. Mas a coroaram Rainha antes que eu nascesse, de modo que não vi quando lhe apareceu.

—Nunca tinha ouvido essa parte da lenda. —Blair passou um dedo pelo recobrimento de açúcar do bolo dele, e logo o chupou. — Suponho que não se podem saber todas as coisas.

—Como conseguiu a tua?

«Um cara divertido —pensou Blair. — Uma natureza curiosa. Olhos maravilhosos. Perigo, Will Robinson[3]», disse-se. Essa classe de combinação só podia supor problemas. E ela não estava feita para as complicações... Era algo que tinha aprendido da maneira difícil.

—Paguei para que me fizessem isso. Muita gente leva tatuagens. Se poderia dizer que é uma espécie de afirmação pessoal. Glenna também tem um. —Bebeu outro gole de água, lhe observando enquanto se aplaudia a região lombar. — Aqui. Um pentagrama. Vi-o quando Moira e eu a estávamos ajudando a vestir-se para a cerimônia de compromisso.

—Ou seja que essas marcas são para as mulheres.

—Não somente para as mulheres. Por que, quer uma?

—Acredito que não.

Larkin se esfregou a perna com ar ausente.

Blair recordou o momento em que lhe tinha extraído a flecha da coxa e que Larkin não tinha emitido nem um gemido. Além dos olhos maravilhosos e sua natureza curiosa, aquele cara tinha um par de bolas. Não se arredava na luta e não se queixava depois da batalha.

—Está-te dando problemas a perna?

—Tenho-a um tanto rígida e me dói um pouco. Glenna é uma boa curadora. E a tua?

Blair dobrou a perna para trás até tocá-la nádega com o calcanhar e logo a lançou para frente a modo de prova.

—Está bem. Minhas feridas cicatrizam depressa... Faz parte da herança familiar. Não tanto como um vampiro —acrescentou —, mas os caçadores de vampiros se curam mais rápido que o humano normal.

Agarrou a jaqueta que tinha deixado em cima da mesa e a pôs para proteger do frio da manhã.

—Gosta de um café.

—Eu não gosto do café. Prefiro a Coca-cola. —Logo esboçou um sorriso natural, encantado. — Vais preparar o café da manhã?

—Dentro de um momento. Primeiro tenho que fazer algumas coisas.

—Talvez não te importe preparar suficiente para dois.

—Talvez. —Um cara preparado, além disso, pensou. Sua forma sagaz de conseguir as coisas merecia respeito. — Tem algo que fazer agora?

Ao Larkin levou um momento responder. Todos os dias tratava de passar algum tempo diante dessa máquina maravilhosa chamada televisor. Sentia-se orgulhoso ao pensar que estava aprendendo novos idiomas.

—Tinha previsto sair a dar um passeio no cavalo de Cian, e logo lhe dar de comer e asseá-lo.

—Ainda há muita luz, mas não deveria entrar no bosque sem levar armas.

—Cavalgarei pelos campos. Glenna me pediu que não fosse a cavalo só ao bosque, e não quero que se preocupe. Quer vir comigo?

—Acredito que já tive suficiente com o de ontem à noite, mas obrigada. —Blair, divertida, deu - lhe um ligeiro golpe no peito. — É muito veloz, vaqueiro.

—Bom, é que você é uma amazona ligeira e firme. —Jogou outra olhada à terra pisoteada. — Tem razão, foi uma boa briga.

—Condenadamente certo. Mas a próxima não será tão fácil.

Larkin arqueou as sobrancelhas.

—E a de ontem à noite foi fácil?

—Comparada com a que nos espera, pode apostar o rabo.

—Bom, então, que os deuses nos ajudem. E se não te importa preparar uns ovos com bacon, isso estaria muito bem. Poderíamos nos fartar de comer enquanto ainda conservemos nossos estômagos.

Um pensamento alegre, pensou Blair enquanto entrava na casa. Um pensamento realmente reconfortante. Ela nunca tinha conhecido a ninguém que se mostrasse tão espontâneo e natural ante a vida e a morte. Não resignado —a ela sim a tinham criado para resignar-se —, a não ser uma espécie de confiança em que ele viveria como tinha escolhido viver até que deixasse de fazê-lo.

Blair admirava esse ponto de vista.

Tinham-lhe ensinado que o monstro que se ocultava debaixo da cama era real, e que só estava esperando a que te relaxasse para te cortar o pescoço.

Tinham-na treinado para atrasar esse momento tanto tempo como fosse capaz de resistir e lutar, de cortar e queimar, e de fazer todo o humanamente possível. Porque debaixo da força, o engenho e o interminável treinamento, estavam a certeza de que algum dia, algum dia, ela não seria o bastante rápida, o bastante preparada, o bastante afortunada.

E o monstro ganharia.

Mesmo assim, sempre tinha havido uma sorte de equilíbrio nisso: demônio e caçador, cada um mutuamente a presa do outro. Mas agora as apostas tinham subido condenadamente alto, pensou enquanto preparava café. Agora já não se tratava só do dever e a tradição que tinham ido passando de geração em geração até chegar a seu sangue, durante quase todo um ferrado milênio.

Agora se tratava de uma guerra para salvar à humanidade.

E ela estava ali, com aquela estranha e pequena banda —dois dos membros, o vampiro e o Feiticeiro, tinham resultado ser seus antepassados — para liberar a mãe de todas as batalhas.

Faltavam dois meses, pensou, para a celebração do Halloween.

Para o Samhain e a confrontação decisiva que tinha profetizado a deusa. Tinham que estar preparados, decidiu enquanto se servia a primeira taça de café, porque a alternativa, simplesmente, não era uma opção.

Levou o café a sua habitação, no piso superior.

Ali, em seu quarto, percebia-se o mesmo aroma de batalha que impregnava o apartamento de Chicago onde tinha fixado sua base durante o último ano e meio.

A cama dessa outra habitação onde agora estava, tinha uma cabeceira alta, flanqueada por dragões esculpidos. Uma mulher podia sentir-se como uma princesa encantada nesse leito... Tinha-se uma natureza fantasiosa.

Embora essa casa pertencia a um vampiro, na habitação havia um grande espelho emoldurado em mogno. Por sua parte, o armário podia conter três vezes a quantidade de roupa que Blair havia trazido consigo, de modo que o utilizava para guardar as armas auxiliares, enquanto a cômoda lhe servia para colocar a roupa de viagem.

As paredes estavam pintadas de cor ameixa escuro e delas penduravam quadros com cenas campestres à hora do crepúsculo ou o amanhecer, de modo que, se as cortinas estavam corridas, a habitação parecia estar em permanente penumbra. Mas não lhe importava. Ela tinha passado grande parte de sua vida entre sombras.

Entretanto, agora abriu as cortinas para que entrasse a luz da manhã e logo se sentou a magnífica e pequena escrivaninha para comprovar seus e-mails no notebook.

Não pôde evitar uma pequena chama de esperança, nem impedir que esta se extinguisse imediatamente ao comprovar que ainda não havia nenhuma mensagem de resposta de seu pai.

«Nada novo», recordou-se a si mesma, e se reclinou na cadeira. O último que tinha sabido dele era que estava viajando por alguma parte da América do Sul. E sabia por que seu irmão o tinha dito.

Já tinham transcorrido seis meses desde que tinham estado em contato por última vez, o que tampouco era nada novo. Na opinião de seu pai, sua obrigação para ela estava cumprida desde fazia muitos anos. E possivelmente tivesse razão. Tinha-lhe ensinado, tinha-a treinado, embora ela jamais tenha sido o bastante boa para merecer sua aprovação.

Blair simplesmente era a pessoa equivocada: sua filha e não seu filho. A decepção que seu pai sentiu quando viu que tinha sido ela a que tinha herdado o dom, era algo que ele jamais se preocupou com ocultar.

O cuidado e a delicadeza nunca tinham formado parte do estilo de Sean Murphy. Desentendeu-se claramente dela quando Blair cumpriu os dezoito anos.

Agora se sentia envergonhada de lhe enviar uma segunda mensagem quando seu pai nunca tinha respondido ao primeiro. Blair lhe tinha mandado aquele primeiro e-mail, antes de viajar a Irlanda, para lhe dizer que estava ocorrendo algo, que algo se estava cozendo em alguma parte e que queria seu conselho.

Depois de ter chegado a Irlanda e ver que o assunto era gordo, voltava a tentá-lo de novo.

Ele tinha sua própria vida, é obvio, e nunca o tinha oculto. Era problema dela, sua própria carência, que ainda procurasse sua aprovação. Fazia muito tempo que tinha renunciado a ganhar seu amor.

Desligou o notebook, colocou uma malha e se calçou, e logo decidiu ir ao andar de cima a tirar frustração e abrir o apetite com uma boa sessão de levantamento de pesos.

Naquela casa, conforme lhe tinham explicado, tinham nascido Cian e Hoyt. No começo do século XII. Naturalmente, tinha sido modernizada, lhe tinham acrescentado algumas partes, mas vendo a estrutura original, podia-se ver que os MAC Cionaoiths tinham sido uma família de posição folgada.

Cian, por sua parte, tinha tido quase um milênio para fazer sua própria fortuna e voltar a comprar a casa de seus antepassados. Embora, por isso tinha podido deduzir, não vivia nela.

Blair não tinha costume de conversar com os vampiros... Simplesmente os matava. Mas com Cian estava fazendo uma exceção. Por razões que para ela não estavam do todo claras, ele estava lutando contra os vampiros, inclusive financiando em certa medida sua pequena partida de guerreiros.

Além disso, tinha-o visto lutar a noite anterior com uma ferocidade desumana. Sua aliança podia ser o elemento que decantasse a balança em seu favor.

Um momento depois, subiu a escada de pedra para o que uma vez tinha sido o grande salão e, em anos posteriores, um salão de baile. E que agora se converteram em seu salão de treinamento.

Deteve-se em seco quando viu que Moira, a prima do Larkin, estava realizando extensões peitorais com pesos de dois quilogramas.

A princesa do Geall levava seu cabelo castanho recolhido em uma grossa trança que lhe chegava à cintura. Gotas de suor caíam por suas têmporas e outras empapavam as costas da camiseta branca que levava posta. Seus olhos, cor cinza névoa, olhavam fixamente à frente, concentrados, supôs Blair, no que fosse que o ajudasse a realizar a série de exercícios.

Moira, segundo os cálculos de Blair depois de havê-la arrastado para fora de um lago, media ao redor de um metro e sessenta e pesava possivelmente cinqüenta quilogramas. Mas era uma garota valente. Uma garota valente que tinha ganhado uns quantos pontos na escala de Blair.

O que esta inicialmente tinha julgado como acanhamento, era, em realidade, uma atitude concentrada. Aquela mulher o absorvia tudo.

—Pensei que ainda estaria na cama —disse Blair quando entrou no salão.

Moira baixou a barra dos pesos e se enxugou o suor da frente com o antebraço.

—Acabei de levantar. Quer usar o salão para treinar?

—Sim, mas aqui há espaço suficiente para as duas. —Blair escolheu uma barra com pesos de cinco quilogramas. — Esta manhã não te enterrou entre os livros.

—Eu... —Com um suspiro, Moira estendeu os braços como lhe tinham ensinado. Talvez desejasse os ter tão fortes e torneados como os de Blair, mas ninguém podia dizer já que os seus fossem brandos.

—Começo o dia aqui, antes de ir à biblioteca. Habitualmente, antes que outros se levantem.

—Estupendo. —Blair estudou a Moira com curiosidade enquanto trabalhava seu tricípite. — E por que o mantém em segredo?

—Não é um segredo. Não exatamente. —Moira agarrou uma garrafa de água e lhe tirou o plugue. — Sou a mais fraca de todos nós. Não necessito que você ou Cian me digam isso... Embora qualquer de vocês dois se encarreguem de me recordar isso com certa regularidade.

Algo deu um pequeno tombo no estômago de Blair.

—O qual não é nada agradável. E te direi que sinto muito, porque sei bem o que se sente quando, em que pese a que está dando o melhor de ti, amassam-lhe.

—Mas o melhor de mim não quer dizer bom, verdade? Não, não estou procurando compaixão —disse Moira antes que Blair pudesse lhe responder. — É duro que lhe digam que tem debilidades, mas isso é o que eu tenho... Por agora. De modo que venho aqui todas as manhãs cedo e levanto estas malditas coisas como você me ensinou. Deixarei de ser a fraca do grupo, aquela pela que o resto deve preocupar-se.

—Ainda não desenvolveste muita musculatura, mas ganhaste velocidade. E é um fodido gênio com o arco. Se não fosse tão boa com ele, ontem à noite as coisas tinham acontecido de outra maneira.

—Trabalhar em meus pontos débeis, e em minha resistência, a meu ritmo. Isso foi o que me disse que devia fazer... E me zanguei.

Até que fui capaz de ver a sabedoria de suas palavras. Já não estou zangada. É muito boa no treinamento. King era... Ele era mais complacente comigo, possivelmente, porque era um homem. Um homem muito grande, além disso —acrescentou agora Moira com a tristeza aparecendo nos olhos. — Alguém que sentia afeto por mim, acredito, porque eu era a menor de todos.

Blair não tinha chegado a conhecer o King, o amigo de Cian que tinha sido capturado pelos vampiros e logo assassinado pela Lilith. Continuando, converteu-o em vampiro e o enviou de volta como tal.

—Eu não serei complacente contigo —prometeu Blair.

Para quando teve acabado a sessão com os pesos e tomado uma ducha rápida, Blair já tinha apetite. Decidiu deleitar-se com um de seus bocados favoritos e começou a preparar uma fatia de pão empapada em leite e ovo que logo fritaria e untaria com mel.

Atirou umas fatias de bacon em uma frigideira para acrescentar proteínas a sua dieta e selecionou Grenn Doy em seu MP3. Música para acompanhar a comida.

Serviu-se de sua segunda taça de café antes de quebrar vários ovos em um pote.

Estava batendo-os quando Larkin entrou na cozinha. Deteve-se e olhou o MP3.

—E isso o que é?

—É uma... —Como explicá-lo?. — Uma forma de assobiar enquanto trabalha.

—Não, não estou falando da máquina. Há tantas que não posso me lembrar de todas. O que é esse som?

—OH. Hummm, música popular? Rock... Duro.

Agora Larkin sorria com a cabeça erguida enquanto escutava.

—Rock. Eu gosto.

—E a quem não? Esta manhã passo dos ovos fritos. Estou preparando uma torrada especial.

—Torrada? —A decepção se apropriou do rosto dele, apagando o agradável prazer da música. — Só pão cozido?

—Não só. Além disso, quando estou ao mando dos fogões, come-se o que eu faço ou prepare você mesmo sua forragem.

—É muito amável ao cozinhar, é obvio.

Seu tom era tão suficiente, que Blair teve que tragar a risada.

—Te relaxe e confia em mim, vi-te comer com vontade, vaqueiro. Isto te vai gostar tanto como o rock, especialmente depois de que o unte com manteiga e mel. Terei-o preparado em um minuto. Por que não lhes dá a volta a essas fatias de bacon?

—Primeiro devo me lavar. Estive trabalhando no estábulo e ainda não estou preparado para tocar nada.

Blair elevou uma sobrancelha quando Larkin se foi. Já lhe tinha visto evitar toda classe de tarefas na cozinha e, tinha que reconhecê-lo, era muito engenhoso.

Com um gesto de resignação, deu volta às fatias de bacon e logo pôs a esquentar uma segunda frigideira. Estava a ponto de colocar nela a primeira fatia de pão quando ouviu vozes. Deu-se conta de que os recém casados se levantaram, e se dispôs a preparar torradas também para eles.

Estilosa, sem esforço, assim era Glenna, pensou Blair. Aquela entrou na cozinha vestida com um pulôver cor verde salvia e alguém nos cubra negros, com sua impressionante cabeleira ruiva lisa solta. Estilo urbano com um toque campestre, supôs Blair. Se a isso se acrescentava o bonito rubor de uma mulher que, obviamente, tinha tido sua queda matutino, o resultado era impressionante.

Naqueles momentos, Glenna não parecia uma mulher capaz de arremeter contra um pelotão de vampiros enquanto lançava gritos de guerra e brandia uma tocha de combate, mas isso era exatamente o que tinha feito a noite anterior.

—Hummm, torrada empanada? Deve me haver lido o pensamento. —Enquanto se aproximava da cafeteira, Glenna tocou levemente ao Blair no braço. — Dou-te uma mão?

—Não, já está. Você já tem feito muito até agora, e eu me dirijo melhor com o café da manhã que com o jantar. Não ouvi também ao Hoyt?

—Justo detrás de mim. Está falando com o Larkin sobre o cavalo. Acredito que Hoyt se sente um pouco molesto por não haver-se feito cargo do Vlad antes que Larkin. O café está muito bom. Que tal dormiste?

—Como se me tivesse ficado inconsciente durante um par de horas. —Blair empapou a fatia de pão na mescla de ovo e leite, e a seguir a colocou na frigideira. — Logo, não sei, estava muito intranqüila. Inquieta. —Olhou a Glenna. — E não tinha onde pôr o excesso de energia, a diferença da noiva.

—Devo reconhecer que esta manhã me sinto bastante frouxa e relaxada. Exceto por uma coisa. —Encolhendo-se um pouco, Glenna se massageou o bíceps direito. — Sinto os braços como se me tivesse passado toda a noite agitando um martelo gigante.

—A tocha de combate é pesada. Fez um bom trabalho com ela.

—Trabalho não é a palavra que me vem à mente. Mas não vou pensar nisso... Ao menos não antes de me haver satisfeito. —Glenna se voltou e abriu um armário para procurar uns pratos. — Sabe quantas vezes em minha vida tomei o café da manhã assim, pão frito, bacon, antes que começasse tudo isto?

—Não.

—Nunca. Absolutamente nunca —acrescentou com uma meio sorriso. — Vigio meu peso como se, bom, como se o destino do mundo dependesse disso.

—Está-te treinando muito duro. —Blair deu a volta ao pão na frigideira. — Necessita o combustível, os carboidratos. Se ganhares uns quilogramas, posso te assegurar que serão de puro músculo.

—Blair —Glenna olhou para a porta para assegurar-se de que Hoyt ainda não tinha entrado —, você tem mais experiência nisto que qualquer de nós. Entre você e eu, ao menos por agora, como o fizemos ontem à noite?

—Conseguimos sobreviver —respondeu Blair categórica, e seguiu cozinhando, colocando o pão já frito em um prato e encharcando mais fatiadas. — Essa é a conclusão.

—Mas...

—Glenna, direi-lhe isso sem rodeios. —Blair se voltou, apoiando-se na bancada durante um momento, enquanto o pão fritava na frigideira e perfumava o ar. — Nunca antes tinha estado metida em algo assim.

—Mas estiveste fazendo isto, caçando vampiros, durante anos.

—Isso é verdade. Mas nunca tinha visto tantos deles em um lugar ao mesmo tempo; nunca os tinha visto tão organizados.

Glenna deixou escapar o ar.

—Essa não pode ser uma boa notícia.

—Boa ou má, é um fato. Não é próprio da natureza da besta, nunca o foi segundo minha experiência, viver, trabalhar e lutar formando parte de grandes grupos. Pus-me em contato com minha tia e ela me confirmou isso. Os vampiros são assassinos e podem trabalhar caçar e inclusive viver em bandos. Bandos pequenos, e pode haver um alfa, masculino ou feminino. Mas nunca algo como o que vimos ontem.

—Não como um exército —murmurou Glenna.

—Não. E os de ontem à noite não eram mais que um pelotão... Uma pequena porção de um exército. A questão é que estão dispostos a morrer por ela, pela Lilith. E essa é uma razão muito poderosa.

—Está bem. De acordo —comentou Glenna enquanto preparava a mesa. — É o que mereço por dizer que queria as coisas claras.

—Huh, te anime. Conseguimos sobreviver, recorda? Isso é uma vitória em toda regra.

—Bom dia —disse Hoyt a Blair ao entrar na cozinha.

Logo seu olhar foi diretamente para Glenna.

Ela e Hoyt, seu tio avô de muitas gerações atrás, compartilhavam a cor de pele, pensou Blair. Ela, o Feiticeiro e seu irmão gêmeo, o vampiro, compartilhavam a cor de pele, os antepassados, e agora essa missão, supunha.

O destino era sem dúvida um bode retorcido.

—Vocês dois estão deslumbrantes —disse Blair quando Glenna elevou a cara para beijar ao Hoyt. — Virtualmente necessito meus óculos de sol.

—Servem para proteger os olhos do sol e são uma manifestação de moda sexy —disse Hoyt fazendo-a rir.

—Por favor, sentem-se. —Desligou a música e logo levou a fonte loja de comestíveis de comida à mesa. — Tenho feito suficiente para alimentar a um exército, considerando que isso é o que somos.

—Tem uma pinta muito bom. Obrigado.

—Só faço minha parte, a diferença de alguns de nós, que se mostram um tanto escorregadios —comentou meneando a cabeça ante a chegada perfeitamente calculada do Larkin. —Bem a tempo.

A expressão do Larkin era de uma vez inocente e afável.

—A comida já está pronta, pois? Demorei um pouco mais em voltar porque fui dizer a Moira que estavam preparando o café da manhã. E miúdo espetáculo maravilhoso.

—Olhe e come. —Blair lhe serviu quatro fatias de pão frito empanado com ovo e leite em um prato. — E logo, você e sua prima lhes encarregarão de esfregar os pratos.

 

Talvez fosse a inquietação posterior à batalha, mas Blair não podia sossegar-se. Depois de outra sessão com Glenna, as feridas de todos estavam melhores, de modo que podiam treinar. Deviam treinar, disse-se.

Possivelmente o suor e o esforço a ajudassem a dissipar essa sensação de desassossego.

Mas teve outra idéia.

—Acredito que deveríamos sair —disse.

—Sair? —Glenna comprovou sua lista de tarefas domésticas e viu (que Deus lhes ajudasse) que esse dia tocava ao Hoyt encarregar-se da penetrada. — Estamos escassos de alguma coisa?

—Não sei. —Blair estudou as listas colocadas de forma destacada na porta da geladeira. — Ao parecer tem as listas controladas de provisões e tarefas... Chefa de Intendência.

—Humm. Intendência. —Glenna olhou ao Blair e lhe piscou os olhos um olho. — Eu gosto. Crê que posso conseguir uma insígnia?

—Verei o que posso fazer a respeito. Mas quando digo que deveríamos sair, estou pensando mais em uma expedição de exploração que em uma saída para procurar provisões. Deveríamos ir jogar uma olhada à base de operações da Lilith.

—Essa sim que é uma grande idéia. —Larkin se voltou da pia, com as mãos cobertas de sabão; não parecia nada contente. — Dar-Lhe uma pequena surpresa, para variar.

—Atacar ao Lilith? —Moira se interrompeu em sua tarefa de carregar a lava-louça. — Hoje?

—Não hei dito que fôssemos atacar lhes. Relaxe — aconselhou Blair ao Larkin. — Superam em número com grande diferencia, e não acredito que os habitantes da zona fossem capazes de entender um banho de sangue a plena luz do dia. Mas nisto, a chave é precisamente a luz do dia.

—Temos que ir para o sul, ao Chiarrai —interveio Hoyt com voz tranqüila —, aos escarpados e as cavernas, enquanto ainda brilha o sol.

—Exato. Eles não podem sair de dia. Não podem nos fazer nada enquanto rondamos pela zona e jogamos uma olhada. E seria uma bonita continuação a havê-los posto em fuga ontem à noite.

—Guerra psicológica. —Glenna assentiu. — Sim, entendo-o.

—Isso —conveio Blair — e, além disso, possivelmente possamos reunir alguns dados interessantes. Vamos ver o que vemos, exploramos algumas rotas de entrada e saída. E nos encarregamos de lhe fazer saber à Lilith que estamos ali. Ou que estivemos ali.

—Se pudéssemos atrair a alguns fora. Ou entrar o suficiente para lhes causar alguns problemas. Fogo —continuou Larkin. — Tem que haver alguma maneira de que possamos iniciar um fogo nas cavernas.

—Não é uma má idéia. —Blair o pensou durante um momento. — A essa vadia não iria nada mal uma boa surra. Vamos preparados e armados. Mas faremos o que seja em silêncio e com muita cautela. Não queremos que algum turista ou alguém da zona chame à polícia. Logo teríamos que explicar por que viajamos em uma caminhonete cheia de armas.

Hoyt se levantou.

—Glenna e eu nos encarregaremos do fogo.

—Por quê? —perguntou Blair.

Por toda resposta, Glenna estendeu a mão. Uma bola incandescente começou a arder em sua palma.

—Bonito —decidiu Blair.

—E o que passa com Cian? —perguntou Moira enquanto continuava colocando os pratos na lava-louça. — Ele não poderá abandonar a casa.

—Então ficará aqui —concluiu Blair categoricamente. — Larkin, se já terminaste aqui, vá carregar algumas armas.

—Na torre temos algumas coisas que nos poderiam ser úteis. —Glenna acariciou o braço do Hoyt com as pontas dos dedos. — Hoyt?

—Não podemos deixar a Cian aqui sem lhe dizer o que planejamos.

—Quer despertar a um vampiro a esta hora do dia? —Blair se encolheu de ombros. — Muito bem. Você primeiro.

A Cian não lhe importou ser incomodado durante seu período de descanso. Imaginava que uma porta fechada com chave seria, para qualquer, um claro sinal de que desejava privacidade. Mas esse tipo de detalhes não parecia ser nunca um impedimento para seu irmão.

De modo que agora estava acordado, sob a tênue luz, escutando os planos para esse dia.

—Assim, se não te entendi mal, despertaste-me para me dizer que pensam viajar ao Kerry para bisbilhotar nas cavernas da Lilith.

—Não queríamos que despertasse e te encontrasse com que nos tínhamos ido.

—Esse é meu sonho mais desejado. —Cian fez um gesto para desprezar o comentário — Ao parecer, a boa e sangrenta briga de ontem à noite não é suficiente para a guerreira.

—Acredito que ir ali é uma boa estratégia.

—A última vez que fomos, as coisas não saíram muito bem,verdade? — Hoyt permaneceu um momento em silêncio, pensando no King e em sua perda.

—E tampouco para ti e para mim a vez anterior a essa —acrescentou Cian. — Você acabou quase incapaz de dar um passo e eu me caí de cabeça pelo ferrado escarpado. Não é uma de minhas lembranças mais felizes.

—Esses tempos eram completamente diferentes, e você sabe muito bem. Agora é de dia e, esta vez, Lilith não poderá saber que vamos. Mas, como é de dia, você tem que ficar em casa.

—Se crê que me zangarei por isso, está muito equivocado. Tenho muitas coisas que fazer para me manter ocupado. Chamadas e e-mails que desatendi estas últimas semanas. Ainda tenho negócios que requerem minha atenção, e aos que poderia me dedicar agora, posto que me tiraste da cama em metade do maldito dia. Permita-me acrescentar que será um grande prazer para eu ter a cinco ruidosos humanos fora da casa durante algumas horas, isso lhe posso assegurar.

Cian se levantou, foi até seu escritório e escreveu algo em uma caderneta.

—Posto que vão acima e abaixo, necessitaria que fosse a esta direção. É um açougueiro do Ennis que te venderá sangue. Sangue de porco —acrescentou Cian com um leve sorriso enquanto lhe entregava o papel a seu irmão. — Chamarei para que saiba que alguém passará a recolher o pedido. Pelo pagamento não há problema, tenho conta no açougue.

Hoyt advertiu que, nesse tempo, a letra de seu irmão tinha trocado. Muitas coisas tinham trocado.

—E esse açougueiro não se pergunta por que...?

—Se o fizer, é o bastante inteligente como para não dizê-lo. E não cabe dúvida de que está encantado de receber uns euros extras. Essa é agora a moeda aqui.

—Aye[4], Glenna me explicou isso. Estaremos de volta antes do pôr-do-sol.

—Mais vos vale —murmurou Cian quando Hoyt se foi.

 

Fora da casa, Blair colocou uma dúzia de estacas em um saco plástico. Na caminhonete já tinham carregado espadas, tochas e foices. Toda a variedade. Resultaria muito interessante ter que explicá-lo se alguém os parava pelo caminho, mas ela não pensava explorar o ninho de um vampiro sem ir armada até os dentes.

—Quem quer conduzir? —perguntou a Glenna.

—Eu conheço o caminho.

Blair decidiu tomar o controle; subiu à caminhonete e se sentou no assento de detrás da Glenna enquanto outros se uniam a ela.

—Bem, Hoyt, estiveste alguma vez nessas cavernas? Imagino que essa classe de coisas não trocam muito em uns quantos centenas de anos.

—Muitas vezes. Mas agora são diferentes.

—Os dois estivemos nelas —explicou Glenna. — Mediante a magia. Hoyt e eu fizemos um encantamento antes de abandonar Nova York. Foi muito intenso.

—Me dê os detalhes.

Blair escutou o que lhe contava Glenna enquanto uma parte de seu cérebro ia marcando a rota, pontos sobressalentes, pautas de movimento...

Em nenhuma parte tinha visto o que Glenna descrevia. Um labirinto de túneis, câmaras fechadas com grosas portas, cadáveres empilhados como se fossem lixo. Pessoas encerradas em jaulas como gado em um curral. E os sons —Blair podia ouvi-los no fundo de sua cabeça —: os soluços, os gritos, as preces.

—Uma urbanização de luxo para vampiros —murmurou. —Quantas entradas há?

—Não poderia dizê-lo —respondeu Hoyt. — Em meus tempos, os escarpados estavam cheios de cavernas. Algumas eram pequenas, outras o bastantes grandes como para que um homem coubesse de pé. Mas agora há mais túneis, mais largos e altos que os que eu recordo.

—Ou seja, Lilith escavou. Teve muito tempo para converter o lugar em um lugar caseiro.

—Se pudéssemos deixá-los encerrados —começou a dizer Larkin, e Moira se voltou para ele com uma expressão de horror.

—Há gente ali dentro. Pessoas prisioneiras em jaulas, como se fossem animais. Cadáveres empilhados sem nem sequer um enterro decente.

Larkin cobriu a mão da Moira com a sua e não disse nada. Blair interveio.

—Não podemos tirá-los dali. Isso é o que Larkin se cale. —«Mas terei que dizer-se», pensou Blair. — Embora alguns de nós tentássemos uma ação suicida, isso é exatamente o que seria. Nós morreríamos e eles morreriam. O resgate é impossível. Sinto muito.

—Um encantamento —insistiu Moira. — Algo para cegar ou atar, só até que possamos liberar as pessoas às que capturaram.

—Já tentamos deixar cega ao Lilith uma vez. —Glenna procurou os olhos da Moira através do espelho retrovisor. — E fracassamos. Possivelmente pudéssemos tentá-lo com um encantamento de transporte. —Agora seu olhar se dirigiu ao Hoyt. — Crê que seria possível transportar a seres humanos?

—Nunca o tenho feito. Os riscos...

—Essas pessoas morrerão ali. Muitas já morreram. —Moira se incorporou em seu assento para agarrar ao Hoyt do ombro. — Que risco é maior que a morte?

—Poderíamos lhes fazer dano. Usar conjuros que poderiam machucá-los...

—Ou salvá-los. O que você crê que escolheriam eles? O que escolheria você?

—Ela tem razão —conveio Blair. «Se é que podiam consegui-lo», pensou. Mas se podiam salvar embora só fosse a um dos prisioneiros, teria merecido a pena. E seria uma boa chute no rabo da Lilith. — Há alguma possibilidade?

—Para fazê-lo, é preciso ver o que vais transladar —explicou Hoyt. — E há mais possibilidades de êxito quanto mais perto está do objeto que quer transportar. Neste caso, seria através de uma parede de rocha, e portanto não veríamos nada.

—Não necessariamente —o contradisse Glenna. — Pensemos nisso, discutamo-lo.

Enquanto eles falavam —argumentavam, discutiam — Blair deixou que tudo fosse cozendo-se em um rincão de sua mente. «Bonito dia», pensou com expressão ausente. O sol brilhando sobre todo aquele verde. O extenso e encantador terreno ondulado onde pastavam ociosamente as vacas. Os turistas deviam estar fora,dando voltas por aí e desfrutando do dia luminoso depois da tormenta do dia anterior. De compras no povo ou visitando boquiabertos os Penhascos do Mohr, tomando fotos e gravando vídeos dos dólmenes[5] no The Burren.

Ela tinha feito isso mesmo uma vez.

—Geall se parece em algo a esta paisagem?

—Bastante, em realidade —respondeu Larkin. —Isto é muito parecido a nosso lar exceto, bom, as estradas, os carros, a maior parte dos edifícios... Mas, aye, a terra é muito similar à nossa.

—O que faz ali?

—Fazer? A que te refere exatamente?

—Bom, um cara tem que ganhar a vida, verdade?

—OH. Trabalhamos a terra, é obvio. E temos cavalos, para criá-los e vendê-los. Excelentes cavalos. Deixei a meu pai escasso de ajudantes. Neste momento não deve estar muito contente comigo.

—Se finalmente acaba salvando o mundo, seu pai o entenderá.

Deveria ter sabido que Larkin trabalhava com as mãos, pensou Blair. Tinha-as fortes e duras, e seu próprio aspecto era o de um homem que passava a maior parte do tempo ao ar livre. Todas essas mechas desbotadas pelo sol, a cor dourada de sua pele.

Uau, tranqüilas, hormônios. Larkin era só outro membro da equipe do que ela formava parte. Era algo positivo saber todo o possível sobre quem lutava a seu lado. E uma estupidez te permitir sentir desejo por algum deles.

—De modo que é um granjeiro —continuou Blair.

—Sim, no fundo o sou.

—E como é que um granjeiro sabe usar a espada como você?

—Ah. —Larkin se voltou para olhá-la mais diretamente. Por um momento, só por um instante, esqueceu o que ia dizer. Seus olhos eram tão azuis e profundos.... — É que também organizamos torneios. Jogos? Eu gosto de participar deles. Eu gosto de ganhar.

Blair também podia entender isso. Embora provavelmente imaginasse mais tipo Hollywood que Geall.

—Sim, também eu gosto de ganhar.

—De modo que você gosta dos jogos?

Nessa pergunta havia uma segunda intenção zombadora, festivamente sexy. Teria que ter estado clinicamente morta para não havê-la percebido. Clinicamente morta desde fazia um mês, pensou, para não sentir esse pequeno zumbido.

—Não muito, mas sempre ganho quando participo.

Larkin passou um braço pelo respaldo do assento de Blair com um movimento natural.

—Em alguns jogos, ambos os bandos ganham.

—Talvez. Mas em geral, quando eu luto, não se trata de um jogo.

—O jogo equilibra a luta, não crê? E nossos torneios, bom, ao parecer nos serviram como uma espécie de preparação para aquilo ao que teremos que nos enfrentar. No Geall há muitos homens, e também algumas mulheres, que têm muita habilidade no uso da espada e da lança. Se a guerra se livrar ali, como nos hão dito, teremos um bom exército para fazer frente a essas coisas.

—Necessitaremo-lo.

—E você o que faz? —perguntou Larkin. — Glenna diz que aqui as mulheres devem trabalhar para ganhar a vida. Ou que a maioria delas o fazem. Pagam-lhe para caçar vampiros?

—Não. —Larkin não a estava tocando, e não podia dizer que estivesse tratando de ligar com ela, mas Blair sentia como se o estivesse fazendo. — As coisas não funcionam desse modo. Minha família tem um pouco de dinheiro. Quero dizer, não é que nademos na abundância nem nada pelo estilo, mas não passamos apuros econômicos. Temos pubs. Chicago, Nova York, Boston. Coisas assim.

—Pubs? Eu gosto de um bom pub.

—E a quem não? De todos os modos, também estou acostumado a trabalhar como garçonete. E às vezes como treinadora pessoal.

Larkin arqueou as sobrancelhas.

—Treinamento? Para lutar?

—Não exatamente. É mais uma questão de saúde e vaidade. Ajudar às pessoas a ficar em forma, perder peso, tonificar-se. Não necessito muito dinheiro para viver, de modo que a coisa me funciona. E me deixa também certa liberdade para me largar quando o necessito.

Blair desviou a vista dele. Moira estava olhando por seu guichê como uma mulher apanhada em um sonho. No assento dianteiro, Hoyt e Glenna continuavam falando de magia. Blair se aproximou um pouco mais ao Larkin e disse quase em sussurros:

—Olhe, talvez nosso casal de apaixonados possam conseguir este assunto do transporte e talvez não. Se Glenna e Hoyt não o obtêm, terá que te encarregar de dirigir a sua prima.

—Eu não posso fazer isso.

—Com certeza que sim. Se existir alguma possibilidade de entrar nessas cavernas, ou de provocar um incêndio, temos que aproveitá-la.

Agora seus rostos estavam muito juntos e suas vozes eram pouco mais que sussurros.

—E o que passa com a gente que há dentro? Queimaremo-los vivos ou os sepultaremos com outros? Moira não o aceitará. E eu tampouco.

—Tem idéia acaso das torturas que estão sofrendo agora mesmo?

—Isso não é nossa culpa.

—Enjaulados e torturados. —Blair manteve o olhar fixo nele, e sua voz era grave e monocórdia. — Obrigados a olhar quando um deles é puxado para fora da jaula para ser comido por esses monstros. Aterrados enquanto se perguntam qual deles será o seguinte. Talvez desejando sê-lo para acabar de uma vez com essa tortura.

Agora não havia nada de diversão no rosto do Larkin; nem em seu tom de voz, quando disse:

—Sei o que fazem.

—Crê que sabe. Possivelmente não bebem tudo seu sangue, não a primeira vez. Pode que tampouco a segunda. Esses monstros voltam a colocá-los nas jaulas depois de mordê-los. E a mordida queima terrivelmente. Se conseguir sobreviver a ela, queima. A carne, o sangue, o osso; um aviso da dor insuportável sentida quando essas presas se cravaram em seu pescoço.

—Como sabe?

Blair girou o pulso para que ele pudesse ver a pálida cicatriz.

—Eu tinha dezoito anos, estava chateada por alguma coisa e me descuidei. Estava em um cemitério em Boston, esperando a que um desses monstros se levantasse. Tinha ido ao colégio com esse cara. Tinha estado em seu funeral e ouvido o suficiente para saber que lhe tinham mordido. Tinha que averiguar se também o tinham transformado, de modo que fui ao cemitério e esperei.

—Ele fez isto?

Larkin percorreu a cicatriz com um dedo.

—Teve ajuda. É impossível que um vampiro recente possa fazê-lo. Mas o vampiro que o tinha convertido retornou. Mais velho, mais ardiloso, mais forte. Eu cometi alguns enganos, e ele não.

—Por que estava sozinha?

—Porque sempre saio sozinha de caça —lhe recordou ela. — Mas neste caso tinha saído para lhe demonstrar algo a alguém. Não tem importância, mas isso foi o que fez que me descuidasse. O vampiro velho não me mordeu, mas sim me imobilizou no chão enquanto o outro se arrastava para mim.

—Espera. Essa é a forma em que se comporta um vampiro que o converteu? Proporciona-te...

—Comida?

—Aye, essa seria a palavra adequada, não?

Blair pensou que era uma boa pergunta; estava bem que Larkin queria compreender a psicologia e a patologia do inimigo.

—Às vezes. Não sempre. Isso depende, diria eu, de por que o vampiro decide te transformar em um deles em lugar de limitar-se a te deixar sem uma gota de sangue. Pode que queiram estabelecer um vínculo, ou desejem um companheiro de caçada. Ou simplesmente contar com um vampiro mais jovem que se encarregue do trabalho sujo. Já sabe, que trabalhem para eles.

—Entendo. De modo que o vampiro maior te reteve no chão para que o jovem pudesse alimentar-se primeiro. —«Que aterrador deve ter sido isso», pensou Larkin. Estar ali imobilizada, provavelmente ferida. Ter dezoito anos e estar sozinha enquanto algo que tinha o rosto de alguém a quem uma vez conheceu, vinha por ti.

—Podia cheirar a tumba em meu antigo companheiro de colégio, tão afresco estava. Sentia-se muito faminto para ir morder-me no pescoço, de modo que o fez aqui. Isso foi um engano por parte deles, porque a dor despertou. É algo que não se pode expressar com palavras.

Blair ficou calada durante um momento. A forma em que Larkin lhe passou os dedos pela cicatriz como se queria atenuar a dor de uma antiga ferida, fez-lhe perder o fio. Não podia recordar a última vez que alguém a havia tentado consolá-la.

—De algum modo, consegui agarrar a cruz que levava a pescoço e a cravei no olho desse bode, que me tinha sujeitado no chão. Deus, como gritou. O outro estava tão ocupado tratando de comer que não lhe preocupava nada mais. Era uma presa fácil. Ambos o eram depois disso.

—Mas você era só uma garota.

—Não. Eu era uma caçadora de vampiros, e também uma estúpida. —Olhou ao Larkin aos olhos para que visse que o consolo e a compaixão não se agüentavam ante o julgamento e a estratégia. — Se ele tivesse ido por meu pescoço, eu estaria morta. Sim, provavelmente estaria morta e agora não estaríamos mantendo esta conversa. Sei o que senti quando vi essa coisa aproximar-se para mim, vestido com o traje negro que sua mãe tinha escolhido para que o enterrassem. Sei o que sentem as pessoas que estão dentro dessas cavernas, ao menos uma parte do que sentem. Se não puderem ser salvas, a morte é melhor que o que os espera.

Larkin fechou sua mão sobre o pulso de Blair, cobrindo completamente a cicatriz, e surpreendendo-a com a suavidade de seu tato.

—Você amava a esse menino?

—Sim. Bom, ao menos da maneira em que amas quando tem essa idade. —Ela quase o tinha esquecido, quase tinha esquecido quão triste se havia sentido, inclusive a pesar da dor. — O único que pude fazer por ele foi eliminá-lo, e o mesmo com o vampiro que o tinha matado.

—Custou-te algo mais que isto. —Larkin lhe levantou a mão e roçou a cicatriz com os lábios. — Mais que a queimadura e a dor.

Blair se deu conta também de que quase tinha esquecido o que significava que alguém o compreendesse.

—Talvez sim, mas me ensinou algo muito importante. Não pode salvá-los a todos.

—Essa é uma lição triste. Não crê que, inclusive embora saiba que não pode fazê-lo, deve tentá-lo de todos os modos?

—Isso é o que diria um aficionado. Isto não é um jogo ou uma competição. Se lhe derrotarem, está morto.

—Bom, Cian não está aqui para nos dar sua opinião, mas você gostaria de viver para sempre?

Blair deixou escapar uma breve risada.

—Demônios, não.

Havia gente naquela solitária extensão de escarpado e mar, mas não tanta como Blair tinha esperado. As vistas eram impressionantes, embora supunha que havia outras, igualmente espetaculares e mais facilmente acessíveis.

Estacionaram e agarraram aquelas ferramentas e armas que podiam esconder com maior facilidade. Alguém poderia descobrir sua espada na capa que levava às costas, debaixo do comprido casaco de couro, pensou Blair. Mas para isso teria que estar olhando.

Embora, se isso acontecia, o que foram fazer a respeito?

Estudou a configuração do terreno, a estrada, os outros carros que tinham estacionado no lugar. Um casal de meia idade tinha subido até algumas das rochas plainas da base do escarpado, onde agora se encontrava a estrada. Olhavam o mar... Absolutamente ignorantes do pesadelo que vivia debaixo.

—Muito bem, assim, é do quebra-mar para baixo. Terá que molhar-se —concluiu Blair olhando a estreita franja de xisto e logo os dentes das rochas, onde a água se formava redemoinhos e formava charcos de espuma. Olhou a seus companheiros. — Poderão fazê-lo?

Larkin, por toda resposta, deslizou-se pela parede. Ela começou a lhe gritar que esperasse, que aguardasse um maldito minuto, mas ele já estava descendo pela rochosa dentada que dava ao mar.

Não se converteu em um lagarto, observou Blair, mas não cabia dúvida de que podia deslizar-se como um deles. Merecia-se um sobressalente em ovos e agilidade.

—Muito bem, Moira. Tome o com calma. Se escorregar, seu primo deveria impedir sua queda.

Quando Moira começou o descida, Blair olhou a Glenna.

—Nunca tenho feito isto —murmurou . — Nunca lhe tinha encontrado o fodido ponto até hoje. Bom, suponho que sempre há uma primeira vez.

—Tudo irá bem —a tranqüilizou Blair. Continuando, Blair observou o progresso da Moira e se sentiu aliviada ao comprovar que era quase tão ágil como seu primo. — A queda daqui não é má. Não te matará.

Blair não acrescentou que sim lhe romperia em troca uns quantos ossos. Não fazia falta. Hoyt e Glenna iniciaram juntos a descida, e Blair os seguiu.

Descobriu que havia alguns cabos razoavelmente bons... Sempre que não se preocupasse a manicura. Concentrou-se na tarefa que tinha por diante e ignorou as salpicaduras salgadas e frite enquanto continuava deslizando-se pela parede do escarpado.

Umas mãos a agarraram da cintura e a ajudaram a salvar os últimos metros.

—Obrigado —disse ao Larkin —, mas posso fazê-lo sozinha.

—É um pouco complicado com a espada. —Larkin elevou a vista para a estrada. — Embora divertido.

—Devemos estar alerta. Provavelmente tenham guardas para proteger as cavernas. Possivelmente alguns servos humanos... Embora deve ser difícil dispor de seres vivos se ali dentro houver tantos vampiros como você diz.

—Eu não vi nenhum humano vivo fora das jaulas —disse Glenna —, não ao menos então, quando jogamos uma olhada.

—Esta vez a coisa é em direto, de modo que se realmente contam com alguns humanos, será a eles a quem enviará primeiro. Hoyt, será melhor que você vá diante, já que conhece a zona.

—É diferente, tudo é tão distinto de antes. —Algo do que sentia nesse momento, a emoção e a tristeza, filtrava-se em sua voz. — A natureza e o homem se encarregaram disso. Essa estrada que há ali acima, e o muro, e a torre com a luz.

Elevou a vista e pôde ver os escarpados, a cornija que lhe tinha salvado a vida quando lutou contra aquilo no que Cian se converteu. Uma vez, pensou, ele tinha estado ali acima e tinha chamado ao raio com a mesma naturalidade com que um homem chama a seu cão.

Tudo tinha trocado, não podia negá-lo. Mas, mesmo assim, no coração de todo aquilo, estava seu lugar. Abriu-se passo entre as rochas e por cima delas, através dos respingos das ondas.

—Aqui teria que haver uma cova. E só há... —Apoiou as mãos na terra e a pedra. — Isto não é real. É falso.

—Talvez está algo confuso —disse Blair.

—Espera. —Glenna se aproximou do Hoyt e apoiou as mãos junto às dele. — Uma barreira.

—É um encantamento —conveio Hoyt — para que tenha o aspecto e o tato da terra, mas não o é. Isto não é terra nem rocha. É uma ilusão.

—Pode romper o encantamento? —perguntou Larkin ao tempo que golpeava a pedra com o punho.

—Esperem. —Com o cenho franzido, Blair se passou a mão pelo cabelo. — Ou Lilith tem suficiente magia para conseguir isto, ou ali dentro há alguém que pode fazê-lo; em realidade não sabemos do que dispõe. Isto é muito engenhoso. —Blair provou a parede. — Realmente engenhoso. Ninguém pode entrar a menos que ela queira. E ninguém pode sair a menos que ela o permita.

—Ou seja que vamos? —perguntou Larkin.

—Eu não hei dito isso.

—Há mais aberturas, outras cavidades na rocha. Havia —se corrigiu Hoyt. — Trata-se de um encantamento muito poderoso.

—E ninguém sente curiosidade, a gente que vem aqui, os que vivem aqui, a respeito deles. —Blair assentiu. — Isso também é muito poderoso. Ela quer sua intimidade. Temo-me que teremos que decepcioná-la.

Voltou-se, com as mãos apoiadas nos quadris, procurando.

—Huh, Hoyt, podem Glenna e você gravar uma mensagem nessa grande rocha que há ali?

—Pode fazer-se.

—Que mensagem? —perguntou Glenna.

—Tenho que pensá-lo; parece-me “que te dêem um chute na bunda, vadia”» é um pouco ordinário.

—Trema —murmurou Moira, e Blair assentiu a modo de aprovação.

—Excelente. Breve, direto, e só um pouco arrogante. Encarregue-lhes disso, de acordo? Logo seguiremos com o resto.

—O que é o resto? —quis saber Larkin, que deu uma chute de frustração contra a parede de pedra. — Uma mensagem mais poderosa seria romper este encantamento.

—Sim, isso é verdade, mas o que estou pensando é que Lilith não sabe que estamos aqui. E isso poderia ser uma vantagem. Nesse momento, ouviu-se algo parecido a uma pequena explosão de pólvora e ao voltar-se viram a palavra Trema profundamente gravada na rocha. Debaixo havia um desenho, deste modo esculpido na pedra, pelo que supuseram que era Lilith, com uma estaca cravada no coração.

—Huh, bom trabalho. Realmente eu gosto da ilustração que acompanha o texto.

—Um pouco jactancioso —Glenna se sacudiu as mãos — mas pinto, e não pude resistir.

—O que necessita para realizar o encantamento de transporte?

Glenna soprou.

—Tempo, espaço, concentração e um montão de ferrada sorte.

—Aqui não. —Hoyt meneou a cabeça. — Os escarpados são meus. As cavernas são dela. Não importa quanto tempo tenha passado, os escarpados seguem sendo meus. Faremos o encantamento de acima. —voltou-se para Glenna - Primeiro temos que ver. Não podemos transportar às cegas. É provável que Lilith nos sinta e faça todo o possível por nos deter.

—Talvez não imediatamente. Desta vez não estaremos procurando-a, a não ser às pessoas a que tem prisioneiras. Possivelmente não compreenda o que estamos fazendo e nos dê o tempo que necessitamos. Hoyt tem razão, é melhor fazê-lo no topo —disse Glenna ao Blair. — Em qualquer caso, se conseguimos tirar algum deles, não quereremos transportá-los aqui.

—Uma boa observação. —Talvez não conseguissem muito dessa expedição, refletiu Blair, mas possivelmente não se fossem com as mãos totalmente vazias. — Bem, o que faremos com eles se o conseguirmos?

—Pô-los a salvo. —Glenna elevou as mãos. — Um passo cada vez.

—Eu posso tratar de ajudá-los. Não tenho muita magia —acrescentou Moira —, mas poderia tentar ajudar.

—Qualquer ajuda é boa —respondeu Glenna.

—Muito bem, vocês três vão ao topo do escarpado. Larkin e eu ficaremos aqui, se por acaso... Bom, no caso de. Algo que apareça por este lado para nos causar problemas tem que ser humano. Encarregaremo-nos disso.

—Isso poderia levar um pouco de tempo —lhe advertiu Glenna.

Blair estudou o céu.

—Ainda fica muita luz.

Esperou a que os três começassem a ascensão antes de falar com o Larkin.

—Não podemos entrar. Se este encantamento mágico abrir as cavernas, não podemos entrar. Falo a sério. —Deu-lhe um leve golpe no braço. — Posso ver o que está pensando.

—OH, a sério pode vê-lo?

—Entrar na carreira, tirar uma ou dois jovens em perigo, e sair apitando como um herói.

—Equivoca-te quanto à parte do herói. Isso não é o que estou procurando. Entretanto, uma jovem em perigo é algo muito difícil de resistir para um homem.

—Pois resiste. Não conhece estas cavernas, não sabe onde oculta Lilith aos prisioneiros, e tampouco sabe quantos vampiros há ou como estão equipados. Escuta, não te nego que uma parte de mim gostaria de entrar aí a saco se esta parede se abrir, provocar algum dano e possivelmente salvar a alguém. Mas jamais conseguiríamos sair com vida, e, por conseguinte, tampouco o conseguiria ninguém mais.

—Temos as espadas que encantaram Hoyt e Glenna. As espadas de fogo.

Blair lutou contra sua frustração. Era tão irritante ter que explicar estratégia básica...

—E com elas carregaríamos a uns quantos vampiros, disso não cabe dúvida. Logo, eles nos agarrarão e as espadas.

—Entendo o sentido de suas palavras, mas resulta difícil ficar quieto e não fazer nada.

—Se a equipe de magos consegue seu propósito, não será não ter feito nada. É muito bom brigando como para que lhe percamos por tentar fazer algo que não funcionará.

—OH, um elogio. Não saem muitos elogios de seus lábios. —Larkin lhe sorriu enquanto as gotas de água de mar brilhavam em seu cabelo. — Não entrarei nas cavernas. Tem minha palavra. —Tendeu a mão e quando Blair a agarrou, ele a apertou levemente. — Mas nada nos impede de provocar um bom fogo no buraco se esta fodida rocha se abrir. É o que você chamaria fazer uma declaração, verdade?

—Suponho que sim. Não fique arrogante, Larkin.

—Temo-me que nasci assim. O que posso fazer, depois de tudo?

Larkin se voltou para a parede e se apoiou em uma das rochas molhadas enquanto recebia as gotas de espuma. Parecia tão depravado, pensou Blair, que poderia ter estado sentado no salão, junto ao fogo.

—Bom, é provável que disponhamos de um pouco de tempo, assim, me diga, como soube pela primeira vez que foste ser caçadora de vampiros?

—Quer que te conte a história de minha vida? Agora?

Larkin se encolheu de ombros.

—Seria uma maneira de passar o tempo. E reconheço que sinto certa curiosidade. Antes de ir do Geall, não me acreditava nada de tudo isto, no fundo não. E agora, bom... —Olhou pensativo a parede de pedra e terra. — O que posso fazer? —repetiu.

Blair decidiu que o que Larkin dizia tinha sentido. Moveu-se para aproximar-se dele, dobrando o corpo de modo que pudesse controlar uma curva da parede do escarpado enquanto ele se encarregava de vigiar a outra.

—Tinha quatro anos.

—Foi muito pequena —disse ele. — Muito pequena para poder compreender questões tão escuras e reais. Quero dizer assuntos que não são sombras que uma menina imagina que são monstros.

—As coisas são um tanto diferentes em minha família. Eu pensava que seria meu irmão. Estava ciumenta. Suponho que isso é bastante natural, a rivalidade entre irmãos. —Deslizou as mãos dentro dos bolsos de seu casaco de couro negro, jogando com a garrafa de plástico com água benta que tinha guardado ali antes de abandonar a casa. — Ele devia ter seis anos ou seis e meio. Meu pai tinha estado trabalhando com ele. Acrobacias simples, artes marciais e armamento básico. Naquela época, em minha casa havia muita tensão. O matrimônio de meus pais estava desmoronando.

—Como?

—São coisas que passam. —Talvez em seu mundo o céu fora rosa e o amor durasse para sempre. — A gente se sente insatisfeita, os sentimentos trocam. Além disso, minha mãe estava farta daquela vida, pelo que fazia que meu pai se ausentasse de casa. Ela queria uma existência normal, e cometeu o engano de casar-se com alguém que nunca poderia lhe dar essa classe de vida. De modo que se dedicava a lhe montar broncas a meu pai enquanto ele a ignorava e trabalhava com meu irmão.

«O que significava —pensou Larkin —, que ninguém emprestava atenção a ela. Pobre corderito.»

—Assim que eu sempre estava perseguindo a meu pai, para que me treinasse também, ou tratando de fazer algumas das coisas que fazia meu irmão.

—Meu irmão pequeno também me seguia como uma sombra quando fomos meninos. Suponho que acontece o mesmo em todos os mundos —disse Larkin.

—Chateava-te? Incomodava-te?

—OH, às vezes me voltava louco. Outras vezes não me importava muito; se estava perto, resultava mais fácil lhe jogar a bronca. Em outros momentos, em troca, era uma boa companhia.

—É muito parecido ao que ocorria entre meu irmão e eu. Então, um dia, estávamos na zona de treinamento; um espaço da casa onde a maioria das famílias teria uma sala de estar. Ali tínhamos uma equipe bastante completa: pesos, um cavalo, barras assimétricas, argolas. Um espelho cobria toda uma parede.

Ela ainda podia ver perfeitamente o reflexo de seu pai e de seu irmão, no espelho, tão juntos, enquanto ela permanecia a um flanco. Sozinha.

—Eu lhes observava no espelho; eles não sabiam que estava ali. Meu pai lhe estava jogando ao Mick, meu irmão, uma boa bronca, porque Mick não podia realizar um dos movimentos. Saltar para trás —murmurou —, tornar-se ao chão, rodar sobre o ombro e lançar a estaca ao branco. Mick não o conseguia e meu pai estava empenhado em que devia fazê-lo. Finalmente, meu irmão se cansou e atirou a estaca.

Deteve-se quase roçando seus dedos, recordou. Como se tivesse estado feita para suas mãos.

—A estaca chegou rodando até mim. Eu sabia que podia fazê-lo, e queria demonstrar-lhe a meu pai. Só queria que ele me olhasse, de modo que o tentei. «Olhe-me, papai», disse-lhe, e fiz o que lhe tinha visto fazer a ele uma e outra vez tratando de que Mick entendesse a seqüência do movimento.

Fechou os olhos um momento porque ainda podia ver-se a si mesmo; ainda era capaz de sentir aquele momento em seu interior. Como se o mundo se deteve e, durante aqueles breves segundos, só ela tivesse estado em movimento.

—Fiz branco no coração. Foi sobre tudo sorte, mas a estaca se cravou no coração do boneco. Eu me sentia tão feliz... Tinha-o conseguido! Ao Mick os olhos lhe saíam das órbitas,logo... Logo esboçou um leve sorriso... Só um leve sorriso. Então não soube o que significava, só pensei que estava contente de ver o que eu tinha feito, porque ambos nos levávamos bastante bem. Meu pai não disse nada durante uns segundos, me pareceu uma hora, e pensei que ia gritar-me.

—Por ter feito algo bem?

—Por me entremeter. Embora em realidade não se tratasse de que gritasse. Meu pai jamais elevava a voz; era uma questão de controle. Pensei que ia dizer-me que retornasse com minha mãe. Já sabe, que fosse dali. Mas não o fez. Disse ao Mick que se fosse acima,e ficamos sozinhos ele e eu. Só meu pai e eu, e finalmente me olhou.

—Devia sentir-se muito orgulhoso, muito satisfeito.

—Não, nada disso. —Blair soltou uma risada breve e carente de todo humor. — Estava decepcionado. Isso foi o que vi em seus olhos quando finalmente me olhou. Estava decepcionado de que fosse eu e não Mick. Já não poderia desfazer-se de mim.

—Certamente ele... —Larkin se interrompeu quando ela se voltou e o olhou fixamente. — O sinto. Lamento que sua falta de visão te fizesse mal.

—Não pode trocar o que é. —Essa era outra lição que tinha aprendido da maneira difícil. — De modo que se dedicou a me treinar e Mick se dedicou ao beisebol. Esse tinha sido o significado de seu sorriso. Alívio, alegria. Mick jamais tinha querido o que meu pai queria para ele. Ele se parece mais a minha mãe. Quando ela partiu, quando pediu o divórcio, quero dizer, levou-se ao Mick e eu fiquei com meu pai. Consegui o que queria, mais ou menos. — Ficou tensa quando Larkin lhe passou um braço pelos ombros, mas quando quis afastar-se, ele a estreitou ainda mais em um abraço de consolo.

—Não conheço seu pai e tampouco a seu irmão, mas, certamente, prefiro estar aqui contigo que com algum deles. Lutas como um anjo vingador. E cheira muito bem.

Larkin lhe arrancou uma gargalhada, uma gargalhada autêntica, e ela se relaxou contra a rocha úmida, com seu braço ainda ao redor dos ombros.

 

Formaram o círculo sobre os escarpados. de vez em quando se ouvia o som de um carro que passava pela estrada. Mas ninguém caminhava por ali, ou fazia fotos, ou ficava naquele promontório ermo.

Talvez, pensou Hoyt, os deuses tentavam ajudar como podiam.

—Hoje é um dia tão claro. —Moira elevou a vista ao céu. —Mal há nuvens. Tão claro que pode ver até o Gaillimh através da água.

—Galway. —Glenna estava a seu lado, tratando de fazer provisão de forças e coragem. — Sempre quis visitar esse lugar, ver a baía. Passear pelo Shop Street.

—E isso faremos. —Agora Hoyt lhe agarrou ambas as mãos. —depois de que passe Samhain. Agora olharemos e procuraremos. Está segura do lugar aonde vamos enviar os se podemos transportá-los?

Glenna assentiu.

—Mais me valerá está-lo. —Agarrou a Moira da mão. — Concentre-se —lhe disse. — E pronuncia as palavras.

Sentiu que do Hoyt surgia esse primeiro rugido de poder abrindo-se passo para o exterior. Glenna se uniu a ele na invocação, e Moira com ela.

—Neste dia e esta hora, invocamos o sagrado poder de Morrigan, a deusa, e lhe rogamos que nos conceda sua graça e valentia. Em seu nome, Mãe, procuramos a visão, pedimos que nos guie para a luz.

—Senhora —disse agora Hoyt. — Mostre-nos aqueles que estão retidos debaixo desta terra contra sua vontade. Ajude-nos a encontrar o que se perdeu.

—Cega às bestas que procuram matar. —Moira se esforçou por concentrar-se enquanto o ar começava a formar redemoinhos ao redor deles. — Que nenhum inocente pague o preço.

—Deusa e Mãe —disseram os três ao uníssono — nosso poder se une para trazer por volta do dia aquilo que está apanhado na noite. Procuraremos e veremos. Que assim o façamos, que assim seja.

Escuridão, sombras e ar úmido, junto com a fetidez da morte e a decomposição. De repente um resplendor luminoso e vislumbres de formas entre a penumbra. Ouviu-se o som de um pranto, áspero, humano, e os gemidos e palavras incoerentes daqueles que já não têm lágrimas que derramar.

Os três flutuaram através do labirinto de túneis e sentiram o frio, como se seus corpos caminhassem realmente por ali. E suas mentes se estremeceram ante o que viam seus olhos.

Jaulas, de um metro de fundo e metro e meio de alto, empilhadas, apinhadas em uma cova banhada por uma nauseabunda luz verde. Mas suas mentes eram capazes de ver através dela o sangue que formava atoleiros no chão, os rostos dos aterrados e os dementes. Enquanto olhavam, um vampiro abriu uma das jaulas e arrastou à mulher que havia em seu interior. O som que ela proferiu foi apenas um lamento, e seus olhos pareciam estar já mortos.

—Lora está aborrecida —disse o monstro enquanto arrastava pelo cabelo à mulher através do chão imundo. — Quer algo com que jogar.

Em uma das jaulas, um homem começou a gritar ao tempo que esmurrava os barrotes.

—Bastardos! Bastardos!

A lágrima que se deslizou pela bochecha da Glenna estava fria.

—Hoyt.

—Tentaremo-lo. Ele, o homem que está gritando, é forte e pode nos ajudar. Olha-o. Não olhe nada mais. Posto que necessitavam as palavras tanto como a visão.

Glenna começou a cantar. A voz da Moira se uniu a dela. E a terra tremeu.

 

Larkin estava cantando. Algo a respeito de uma moça merena de Dará. Ao Blair não importava lhe escutar; Larkin tinha uma voz clara e agradável. A classe de voz, pensou, de um homem acostumado a cantar em um pub ou enquanto caminhava pelos campos. E resultava muito relaxante ouvir essa melodia junto com o rugido constante do mar e a carícia cálida dos raios do sol.

Além disso, a simples companhia era toda uma mudança para ela. Habitualmente quando esperava, o fazia sozinha.

—Por acaso não levará contigo essa coisa pequena? Isso que tem música dentro?

—Não. Sinto muito. Assim que possa me comprarei um par dessas Oakley Thumps, uns óculos de sol, que levam o MP3 incorporado. —Imitou o gesto de ficar um par de óculos... E lhe ocorreu que Larkin teria um aspecto estupendo com elas. — Com a coisa pequena de música incorporada nelas.

—Poder transportar a música. —O rosto do Larkin se iluminou. — Que mundo milagroso é este.

—Eu não sei nada a respeito de milagres, mas está cheio de tecnologia. Quem me dera houvesse o trazido comigo. —A música seria mais fácil que toda aquela conversa. Ela estava acostumada a esperar sozinha, droga. E não a andar por aí com um companheiro, trocando fofocas e contando-a vida.

Todo isso contribuía a que se sentisse ansiosa e impaciente.

—Bom, não importa. Também seria agradável ter minha pipa.

—Pipa? — Blair voltou a cabeça. Não associava a idéia de uma pipa com aquele rosto dourado de deus irlandês. — Fuma em cachimbo?

—Fumar? Não, nada disso. —Larkin se pôs-se a rir, trocando o peso do corpo enquanto ficava as mãos diante da boca ao tempo que movia os dedos. — Pipa. Tocar. De vez em quando.

—Ah, tá. — As íris dele eram da cor do mel puro. Poderia estar muito atrativo com um par do Oakley, refletiu, mas seria uma lástima esconder aqueles olhos atrás de uns óculos sol.

—Você toca algo? Musicalmente?

—Eu? Não. Nunca tive tempo de aprender. A menos que conte redobrar sobre a pele dos vampiros. —E fez a sua vez gestos como de golpear o ar com os punhos. Ao parecer, ambos se entendiam muito bem.

—Bom, não cabe dúvida de que sua espada canta. —Deu-lhe um golpe amistoso no ombro. — Acredito que nunca antes ouvi coisa parecida, e estou pensando que este seria um bom lugar para liberar uma batalha. —Fez tamborilar os dedos ritmicamente no punho da espada. — O mar, as rochas, o sol brilhante. Aye, um bom lugar.

—Seguro, se não te importar não ter uma rota de fuga, ou perder pé nas rochas escorregadias. Afogar-te.

Larkin lhe lançou um olhar compassivo e suspirou.

—Não tem em conta o ambiente, o ar dramático de todo o cenário. Os vampiros podem afogar-se? —perguntou.

—Não acredito. Eles... Notaste isso?

Blair se separou da rocha ao tempo que a terra vibrava abaixo de seus pés.

—Sim. Possivelmente o encantamento esteja funcionando —disse Larkin, e tirou a espada ao tempo que examinava a parede do escarpado. — Talvez agora apareçam as cavernas que há debaixo.

—Se isso acontecer, você não entrará. Deste sua palavra.

—E a mantenho. —A irritação bateu as asas em seu rosto. Aí estava o soldado, advertiu ela, não o camponês que tocava a flauta. — Mas se algum desses monstros aparece a cabeça, embora só seja um pouco... Vê algo? Para mim não há nada distinto a antes.

—Não, nada. Talvez se trate do mágico trio dos acantilados.Parece que tiveram tempo suficiente para fazer algo. —Manteve a mão apoiada na estaca que levava sujeita ao cinturão enquanto se aproximava o máximo possível ao lugar onde rompiam as ondas. — Daqui não posso ver nada. Pode fazê-lo você, em forma de pássaro? Como um falcão ou algo parecido? Pode jogar uma olhada lá encima?

—Posso fazê-lo, é obvio. Mas eu não gosto de te deixar sozinha aqui embaixo.

A irritação subiu por sua coluna vertebral. E aí estava ela, explicando-o de novo.

—Estou a plena luz, os vampiros não podem sair. Além disso, trabalhei sozinha durante muitos anos. Consigamos um relatório de como vai a magia. Eu não gosto de não saber onde estou.

Larkin pensou que podia fazê-lo rapidamente. Podia subir até o topo e retornar em questão de minutos. E do céu também poderia vê-la, e a algo que lhe aproximasse, além de ao grupo que estava no topo dos escarpados.

Assim, deixou- sua espada ao Blair e pensou no falcão. Em sua forma, em sua vista e em seu coração. A luz brilhou em seu interior e ainda por cima dele. Durante a transformação, enquanto os braços lhe convertiam em asas, quando os lábios adotavam forma de bico e seus calcanhares se projetavam para fora, curvando-se, sentiu uma dor súbita e extrema.

Logo liberdade.

Elevou-se para o céu, um falcão dourado que dominava o ar e descrevia um círculo sobre Blair com um grasnido de triunfo.

—Uau —exclamou ela contemplando seu vôo; o poder e a majestade puros dele. Ela já o tinha visto transformar-se antes; tinha cavalgado sobre seu lombo quando Larkin adotou a forma de um cavalo durante a batalha. E mesmo assim, ficou-se sem fala.

—É tão excitante...

Enquanto a terra continuava tremendo, agarrou a espada do Larkin e tirou também a sua. E, com o mar rugindo a suas costas, encarou-se à parede lisa do escarpado.

No céu, o falcão sulcava o ar por cima dos escarpados. Podia ver com a suficiente acuidade para distinguir as folhas de erva, as pétalas das austeras flores silvestres que se abriam passo através das gretas das rochas para procurar o sol.

Viu a larga cinta da estrada, a extensa lâmina do mar e, mais à frente, onde a terra voltava a unir-se à água.

O falcão ansiava voar, caçar. O homem que havia em seu interior impôs sua vontade a esse desejo enquanto planejava pelo céu.

Podia ver sua prima, à Bruxa e ao Feiticeiro abaixo, com as mãos unidas, imóveis sobre o terreno estremecido. Havia luz neles e ao redor deles; uma luz selvagem e branca, um círculo giratório que se elevava em forma de torre para sacudir o ar ao mesmo tempo em que a terra.

Esse vento o alcançou, e atirou de suas asas como dedos vorazes. Nele pôde ouvir suas vozes, fundindo-se em uma única, e pôde sentir também seu poder, uma corrente quente que atravessava o ar formado redemoinhos.

Então a força do ar o golpeou lançando-o para baixo em uma queda vertiginosa.

Blair ouviu o grito do falcão, viu como caía descrevendo uma trajetória em espiral. O coração lhe subiu à garganta, e ali ficou enquanto Larkin dava voltas pelo ar. E ali permaneceu, como uma bola dura e palpitante, enquanto o falcão conseguia remontar com as asas estendidas e logo se lançava em picado até aterrissar brandamente a seus pés.

Por um momento, Blair pôde ver a combinação de ambos, homem e falcão. Continuando, teve ao Larkin de pé diante dela, com a respiração agitada e o rosto pálido.

—Que demônios foi isso? Que demônios passou? Acreditava que foi a estelar lhe contra o chão. Sangra-te o nariz.

A voz de Blair soou metálica a seus próprios ouvidos e agitou a cabeça para esclarecê-la.

—Não é de se estranhar —respondeu ele, e se limpou o sangue com o dorso da mão. — Lá encima está acontecendo algo, ao parecer um pouco muito poderoso. A maldita luz quase me deixa cego e o vento é muito forte. Não pude ver, não com segurança, se tiverem problemas. Mas acredito que o melhor será que subamos para nos assegurar.

—De acordo.

Blair foi devolver lhe a espada e então a terra se levantou. A súbita elevação do terreno a fez perder o equilíbrio e cair para frente. Larkin conseguiu agarrá-la, mas o impulso de Blair o lançou contra a rocha e a ponto esteve de lhes enviar a ambos ao mar.

—Sinto muito, sinto-o —se desculpou ela, mas era sujeitar-se dele ou cair à água. — Está ferido?

—Deixaste-me sem fôlego, isso é tudo.

A seguinte onda ao romper os empapou de cima abaixo.

—Merda. Será melhor que saiamos daqui.

—Estou de acordo. Agora, com cuidado.

Agarraram-se o um ao outro pela cintura, lutando por permanecer erguidos. Pedras e terra começaram a cair da parede do escarpado, convertendo a idéia de subir por ela em muito pouco atrativa, por não dizer impossível.

—Posso conseguir que subamos até onde se encontram Glenna, Hoyt e Moira —propôs Larkin. — Só terá que te agarrar e eu...

Interrompeu-se quando a parede começou a oscilar, a mudar. A abrir-se.

—Vá, vá —murmurou —, o que temos aqui?

—O encantamento se quebrou ou o quebraram. Pode que haja problemas.

—Isso espero.

—Estou contigo —disse Blair.

Não tinha terminado de pronunciar essas palavras quando uns indivíduos irromperam através da parede. Grandes, corpulentos e armados com espadas.

—Como podem...?

—Não são vampiros. —Blair se separou do Larkin e firmou os pés no chão. Supôs que o tremor da terra era tanto um problema para o inimigo como para o Larkin e ela. — Agora lutemos, as explicações mais tarde.

Blair elevou a espada e bloqueou o primeiro golpe. A força percorreu seu braço ao tempo que o chão se estremecia sob seus pés, aproveitou o movimento, agachando-se e bloqueando outro golpe enquanto tirava uma das estacas de seu cinturão.

Cravou-a na perna de seu atacante. O monstro tropeçou, lançou um uivo e ela o rematou com a espada.

«Um menos», pensou, e se negou a sentir comiseração por sua vítima. Girou sobre si mesma, esteve a ponto de cair quando a terra se levantou, e entrechocou o aço com a espada do inimigo que acabava de saltar a suas costas.

Com a extremidade do olho, viu que Larkin eliminava a dois ao mesmo tempo.

—Garra de urso! —gritou-lhe.

—Essa é uma boa idéia.

O braço dele se fez mais largo e mais grosso, com negras garras curvadas. Fez girar esse braço enquanto brandia a espada com a outra mão.

Estavam mantendo suas posições, pensou Blair, mas nada mais. Não havia espaço para manobrar, não quando um passo em falso podia lhes enviar a ambos de cabeça ao mar. Se espatifariam contra as rochas, seriam arrastados mar dentro. Pior que uma espada. Mesmo assim, não podiam escalar o escarpado, não de momento. Não havia mais alternativa que ficar e lutar.

Blair caiu ao chão, rodou e uma espada se cravou entre as pedras, a escassos milímetros de sua cara. Lançou uma chute com força e jogou em seu oponente ao mar.

Eram muitos, muitos, pensou, enquanto se levantava cambaleando-se. Mas podia ser pior. Podia...

De repente a luz trocou, debilitou-se. Com a falsa penumbra, chegaram as primeiras gotas de chuva.

—Meu deus. Lilith está provocando a escuridão.

E com esta, os vampiros começaram a sair da cova. O mar e uma morte horrível, afogados entre as ondas, pareceu de repente a melhor alternativa.

Blair fez um cálculo rápido e enviou uma língua de fogo através da folha de sua espada. Podiam lhes bloquear com fogo, conter a alguns deles, destruir a outros. Mas mesmo assim, muitos conseguiriam passar.

—Não podemos ganhar esta briga, Larkin. Converta-te novamente em falcão, voa para outros e tira os daqui. Eu reterei a estes todo o tempo que possa.

—Não seja estúpida. Suba. —Lançou-lhe sua espada. — Segure firme.

Larkin trocou de forma, mas não era um falcão o que agora havia junto a ela. As asas douradas do dragão se estenderam e, quando retrocedeu, sua cauda abateu ao primeiro inimigo que saía da cova.

Blair não o pensou um segundo, simplesmente saltou sobre seu lombo, afirmando as pernas ao redor de seu corpo sinuoso. Lançou um cutilada para sua esquerda, derrubando a um dos monstros que carregava contra eles. Continuando, deu-se conta de que estavam ascendendo, atravessando a penumbra e a névoa.

Sem que ela pudesse fazer nada, pudesse detê-lo. Deixou escapar um grito de absoluto deleite, jogando a cabeça para trás enquanto lançava estocadas ao céu com ambas as espadas e fazia que ambas se cobrissem de chamas.

O vento soprava a seu redor e o chão se afastava rapidamente de debaixo de seus pés. Embainhou uma das espadas para poder passar a mão pelo dragão. As escamas, brilhando como se fossem de ouro, pareciam jóias lustradas, suaves e esquentadas pelo sol. Ao olhar para baixo, viu a terra e o mar; e densos bancos de névoa que cobriam as fauces das rochas.

Então, no alto do escarpado, viu três figuras tendidas sobre a erva úmida e áspera.

—Baixa. Desce para ali, depressa!

Ela sabia que Larkin podia ouvi-la e entender o que lhe dizia, fosse qual fora a forma que tivesse adotado, mas nessa ocasião podia haver-se economizado o fôlego.

O impulso da velocidade a lançou para trás quando Larkin enfiou para onde estavam os outros. Blair saltou a terra enquanto o aterrissava e começava a recuperar sua forma humana.

O medo era uma adaga de prata parecido em seu estômago, mas viu que Hoyt fazia um esforço para sentar-se e estendia um braço para a Glenna. Sangrava-lhe o nariz, e a Glenna também. Quando Larkin se aproximou da Moira e lhe deu a volta, Blair viu que tinha sangue nos lábios.

—Temos que nos mover, temos que nos largar daqui. Poderiam nos seguir e, se quiserem, podem mover-se muito depressa. —Ajudou a Glenna a ficar de pé. — Temos que nos mover mais rápido que eles.

—Estou aturdida. Sinto muito, eu...

—Te apóie em mim. Larkin...

Mas ele já tinha tomado suas decisões. Blair se apartou o cabelo úmido enquanto empurrava a Glenna para o cavalo em que Larkin se converteu.

—Suba. Moira e você. Hoyt e eu iremos justo detrás de vocês. Pode caminhar? —perguntou ao Hoyt.

—Posso. —Embora suas pernas tremiam, ainda se moviam; e velozmente, enquanto Larkin galopava. — Aconteceu muito rápido.Já anoiteceu.

—Não, foi ela. Lilith o tem feito. Tem mais poder do que eu imaginava.

—Não. Não, não foi ela. —Hoyt se viu obrigado a passar o braço sobre o ombro de Blair para sustentar-se. — Lilith tem a alguém ou algo poderoso para fazer isto.

—Já o averiguaremos. —Blair o levou quase a rastros até a caminhonete onde Larkin já estava ajudando a subir a Glenna e Moira. — Glenna, as chaves. Eu conduzirei.

Esta as tirou do bolso com certa dificuldade.

—Necessito só um minuto, uns poucos minutos para me recuperar. Isso foi... Foi selvagem. Moira?

—Estou bem. Só um pouco enjoada, isso é tudo. Eu nunca… nunca tinha participado de algo assim.

Blair conduziu velozmente para por uma distancia suficiente, ao tempo que olhava pelo espelho retrovisor para comprovar se alguém os seguia.

—Terremoto, um falso crepúsculo, relâmpagos. Vá viagem!

—Reduziu a velocidade quando o sol começou a aparecer novamente entre as nuvens. — Bom, parece que Lilith decidiu nos deixar em paz. Por agora. Ninguém está ferido? Só abalado?

—Não, feridos não. —Hoyt atraiu a Glenna para ele e secou nos seus lábios as lágrimas que corriam por suas bochechas. — Não. A ghrá[6], não chore.

—Havia tantos. Tantos deles. Gritando.

Blair respirou profundamente um par de vezes antes de falar.

—Não lhes martirizem assim. Tentastes, destes o melhor de vocês. Sempre foi uma possibilidade remota que conseguiram tirar alguém dessas cavernas.

—Mas o conseguimos. —Glenna girou o rosto para o ombro do Hoyt. — Cinco. Conseguimos tirar cinco, logo não pudemos resistir mais.

Blair, assombrada, deteve-se no borda e se voltou para o assento traseiro.

—O que tirastes cinco? E onde estão?

—No hospital. Pensei que...

—Glenna pensou —disse Moira olhando-as mãos vazias — que se conseguíamos tirá-los dali, bem poderíamos transportá-los a um lugar onde estivessem a salvo e os cuidassem.

—Engenhoso. Realmente engenhoso —comentou Blair. — Dessa maneira, obtém-se para eles atenção médica imediata e se evita ter que responder a perguntas embaraçosas. Felicidades.

Glenna levantou a cabeça; em seus olhos se via a desolação.

—Havia tantos. Tantos mais.

—E cinco deles estão vivos e a salvo.

—Sei, tem razão, sei. —ergueu-se no assento e se secou as bochechas com as mãos. — Só estou emocionada.

—Fizemos o que tínhamos vindo a fazer —disse Blair.

—O que eram essas coisas? —perguntou-lhe Larkin. — O que eram essas coisas contra as que lutamos você e eu? Há dito que não eram vampiros.

—Meio vampiros. Seguem sendo humanos. Foram mordidos, provavelmente em muitas vezes, mas não os deixaram totalmente sem sangue. E não lhes permitiu mesclá-la; não os transformaram.

—Então, por que nos atacaram?

—Estão controlados. O termo mais correto, suponho, seria servo. Estão subjugados e fazem o que lhes ordenam. Contei sete, todos eles tipos muito fornidos. Acabamos com quatro deles. Provavelmente Lilith não tenha mais; ou não muitos mais. Deve ser muito difícil mantê-los sob controle.

—Houve uma briga? —perguntou Glenna.

Blair voltou para a estrada.

—As cavernas se abriram. Lilith enviou uma primeira onda de meio vampiros. Logo levou a cabo seu pequeno truque com a luz.

—Acreditava que te deixaria ali —interrompeu Larkin. — Acreditastes que te deixaria a mercê deles?

—A prioridade é permanecer com vida.

—Talvez seja assim, mas eu não abandono a um amigo ou a um companheiro de armas. Que classe de homem crê que sou?

—É uma boa pergunta.

—A resposta é que não sou um covarde —prosseguiu Larkin com voz tensa.

—Não o é e está muito longe de sê-lo. —O teria abandonado ela? Não, reconheceu. Não poderia havê-lo feito, e lhe teria parecido um insulto que alguém lhe sugerisse que partisse. — É o que me ocorreu para manter com vida ao resto de nós, para impedir que ela ganhasse. Como podia saber que tinha um dragão em seu repertório?

Glenna se engasgou no assento traseiro.

—Um dragão?

—Lamento que lhe tenha perdido isso. Foi algo realmente selvagem. Mas Deus, Larkin, um dragão? Alguém deve te haver visto. Naturalmente, se o contar, todos pensarão que está louco, mas mesmo assim.

—Por quê?

—Por que? Porque se trata de um dragão, e todo mundo sabe que não existem.

Larkin, fascinado, deu-se a volta no assento.

—Não têm dragões aqui?

Blair desviou o olhar para ele.

—Não —lhe respondeu lentamente.

—Pois é uma lástima. Moira, ouviste isso? Na Irlanda não têm dragões.

Sua prima abriu seus olhos cansados.

—Acredito que, o que quer dizer, é que não há dragões em nenhum lugar deste mundo.

—Vamos, isso não pode ser. Ou sim?

—Não há dragões —lhe confirmou Blair. — Nem unicórnios, nem cavalos alados, nem centauros.

—Ah, bom. —Larkin estirou a mão e lhe aplaudiu o ombro. —Mas têm carros e som muito interessantes. Morro de fome —disse um momento depois. — Não têm fome? Todas essas mudanças me deixaram vazio. Crê que poderíamos parar em alguma parte e comprar essas batatas fritas que vão em umas bolsas?

Comer batatas fritas com sal e vinagre e beber refrescos diretamente da garrafa não foi exatamente um festim da vitória, mas lhes bastou até chegar a casa.

Uma vez ali, Blair se guardou as chaves do carro no bolso.

—Vocês três entrem na casa. Larkin e eu podemos nos encarregar das armas. Ainda estão muito pálidos.

Hoyt agarrou a bolsa com o sangue que lhe tinha comprado ao açougueiro.

—Levarei-lhe isto a Cian.

Blair ficou esperando a que os três tivessem entrado na casa.

—Teremos que falar com eles —disse ao Larkin. — Estabelecer alguns parâmetros, alguns limites.

—Aye, assim é. —E se apoiou na caminhonete olhando para a casa. Era bom, e em certo modo curioso, a maneira como se entendiam às vezes, sem necessidade de palavras. — Estamos de acordo. Não devem empregar essa classe de magia; ao menos não freqüentemente, e só quando não houver outra alternativa.

—Hemorragias nasais, enjôos, enxaquecas. —Blair tirou as armas pela porta traseira da caminhonete. «Se tiver uma equipe —pensou —, tem que te ocupar de seus membros. Não há escolha». — Com apenas olhar a Moira se vê o mal que se encontra. Essa classe de esforço físico não pode ser bom para eles.

—Ao princípio, quando os vi ali tendidos, bom, pensei...

—Sim. —Blair deixou escapar um suspiro comprido e entrecortado. —Sim, eu também.

—Nesses momentos hei sentido muitas coisas pelo Hoyt e Glenna, e por Cian também, embora não estivesse. Um pouco mais forte, mais profundo inclusive que a amizade. Talvez mais que o parentesco. Quanto a Moira... Ela sempre foi minha, já sabe. Não sei como poderia viver se algo lhe ocorresse. Se eu não o impedisse.

Blair apartou as armas e se impulsionou para cima até sentar-se na parte traseira da caminhonete.

—O que diz não pode ser. Que a ela, ou a qualquer de nós, ocorresse-lhe o pior porque você não pudesse impedi-lo. Depende de cada qual que façamos o que devemos para poder sobreviver, e todo o possível por nos cobrir mutuamente as costas. Mas...

—Você não o entende —a cortou Larkin, e seus olhos brilhavam com intensidade quando os fixou nos de Blair. — Moira forma parte de mim.

—Não, não o compreendo porque nunca tive a ninguém assim em minha vida. Mas acredito que a entendo o bastante bem para saber que se sentiria ferida, talvez inclusive de saco cheio, se pensasse que se sente responsável por ela.

—Responsável não. Isso seria uma obrigação, e não o é. É amor. Sabe o que é isso, verdade?

—Sim, sei o que é isso. —Blair, molesta, começou a baixar-se da parte posterior da caminhonete, mas Larkin se moveu, girando o corpo até bloqueá-la.

—Crê, acaso, que não sentia nada por ti quando estávamos de costas ao mar e com todos aqueles monstros saindo da escuridão? Acreditava que não sentia nada, e que portanto iria e me poria a salvo só porque me há dito que o fizesse?

—Eu não sabia que foste tirar um dragão da cartola, de modo que...

Blair se interrompeu; continuando, quando ele estendeu a mão e lhe agarrou o queixo entre os dedos, ficou rígida.

—Crê que não sentia nada? —voltou a perguntar e seus olhos eram profundos e dourados, e pensativos. — Que não sinto nada agora?

«Mas que droga», pensou Blair. Colocou-se ela sozinha na armadilha.

—Não te estou perguntando por seus sentimentos —começou a dizer.

—Pois eu lhe digo isso embora não me tenha perguntado isso. —Larkin se aproximou um pouco mais, as pernas separadas e colocadas uma a cada lado das de Blair, os olhos fixos em seu rosto, com curiosidade. — Não posso dizer que sei o que sinto, pois não acredito havê-lo sentido antes, mas há algo quando lhe olho, como agora. Quando te vejo combater. Ou quando te observo, como o tenho feito esta manhã, te movendo como algo mágico entre a névoa.

Como ela havia sentido também algo, reconheceu, quando entrou em batalha montada sobre ele. Quando viu como se iluminava seu rosto com a música.

—Isto é realmente uma má idéia.

—Ainda não hei dito que tivesse uma idéia. Mas tenho sentimentos; tantos que não sou capaz de separar um de outros para examiná-lo atentamente. Assim...

Jogou a cabeça para trás quando Larkin inclinou a sua para ela. Com a mão aferrou o pulso do homem.

—OH, te esteja quieta um momento —disse ele com um sorriso —e deixa que o tente. Não pode ter medo de um coisa tão simples como um beijo.

Não tinha medo, mas sim cautela. E certamente curiosidade. Blair permaneceu sentada, tal como estava, os dedos de uma mão dobrados fracamente sobre o bordo traseiro da caminhonete, os da outra rodeando o pulso do Larkin.

Seus lábios eram muito suaves, apenas uma ameaça de contato. Um roçar, uma carícia, uma dentada leve e brincalhona. Blair teve tempo de pensar que ele era muito bom nesse jogo antes que a névoa alagasse sua mente.

«Forte», pensou ele. Sabia que haveria força, e foi uma encantadora sacudida para seu sistema. Mas também havia doçura; e disso não tinha estado seguro. De modo que beijá-la foi como se lhe circulasse vinho pelas veias.

E havia também uma necessidade; o que parecia uma profunda e contida necessidade. Confiava nela. O beijo se voltou mais intenso, de modo que alcançou para ouvir o som do prazer vibrando na garganta de Blair, e sentiu como aquele maravilhoso corpo se apertava e se entregava ao dele.

Quando tentou tendê-la junto às espadas e as tochas, ela apoiou uma mão sobre seu peito e o apartou.

—Não.

—Ouvi-o, mas não é isso o que sinto.

—Talvez não, mas é o que hei dito.

Larkin deslizou um dedo desde seu ombro até seu pulso, enquanto seus olhos percorriam seu rosto.

—Por quê?

—Não estou segura de por que. Não estou segura, de modo que não.

Blair se voltou e começou a juntar as armas.

—Eu gostaria de te fazer uma pergunta. —Larkin sorriu quando ela o olhou inquisitiva por cima do ombro. — Leva o cabelo tão curto para que fique prendado de sua nuca? A forma em que te desce por essa zona faz que deseje... Lamber-lhe isso.

—Não. —«Escuta a forma em que usa essa voz. As mulheres do Geall devem correr atrás dele como cachorrinhos», disse-se Blair. —Levo o cabelo curto porque, desse modo, o inimigo não tem muito onde agarrar e atirar se quer lutar como uma mulher. —Voltou-se. — E além fica bem.

—Sim, disso não cabe nenhuma dúvida. É como se fosse uma Rainha das fadas. Sempre pensei que, se realmente existirem, devem ter a força e o valor refletidos no rosto.

Voltou a inclinar-se para ela e Blair apoiou a folha de uma espada contra seu peito.

Larkin olhou a espada e logo elevou a vista para ela. Esta vez, seu sorriso era francamente divertido.

—Isso é bastante mais que um não. Só tinha intenção de te beijar outra vez. Não pensava te pedir nada mais. Somente um beijo.

—É condenadamente atrativo —disse Blair um minuto depois. — E te mentiria se dissesse que não me sinto tentada. Mas precisamente porque é condenadamente atrativo e tentador, vamos deixar o agora mesmo.

—Muito bem então, se assim for como tem que ser. —Passou junto a ela, agarrou uma tocha e o cubo com as estacas. — Mas não deixarei de pensar em outro beijo. E você também.

—Possivelmente. —Blair pôs-se a andar para a casa com os braços carregados de armas. — Um pouco de frustração me dará um humor muito agradável.

Larkin meneou a cabeça enquanto a seguia com o olhar. E pensou que era a mulher mais fascinante que tinha conhecido.

    

Blair foi diretamente a deixar as armas na zona de treinamento e logo baixou à cozinha pela escada traseira. Decidiu que Larkin podia encarregar-se de limpar as espadas, para liberar um pouco de energia sexual.

Encontrou a Glenna na cozinha com o bule ao fogo.

—Estou preparando uma infusão, uma mescla que deveria eliminar as tensões do dia.

—Ouvi que o álcool consegue isso.

E, ao pensá-lo, Blair abriu a geladeira em busca de uma cerveja.

—Para mim, isso fica para um pouco mais tarde... Meu sistema se encontra ainda um pouco alterado. Hoyt subiu a ver Cian e pô-lo a par do acontecido.

—Bem. Temos que falar, Glenna.

—Poderíamos deixar para mais tarde te mostrar os passos e etapas do encantamento se por acaso os necessita? Neste momento, me faz um pouco difícil.

—Não, não os necessito. Esse é seu território. —Blair se sentou sobre a mesa e observou a Glenna, que mantinha as mãos ocupadas. — A sério, nesta área, sou uma negada. Em minha família há alguns membros com facilidade para a magia e pessoas com notáveis habilidades, mas nada parecido ao que fazem Hoyt e você.

—Agora tenho mais capacidade que antes. Possivelmente é que estou mais aberta a isso. —Glenna se tirou umas presilhas do bolso e se recolheu o cabelo em um coque. — Talvez seja a conexão com o Hoyt, ou a que todos temos mutuamente. Mas seja o que for, estou encontrando dentro de mim um poder que nunca imaginei que pudesse existir.

—E te sinta muito bem além disso. Tem que saber, aceitar, entender que o que os três têm feito hoje foi realmente assombroso; e também poderoso, posto que salvou vidas. Mas além disso deve saber, aceitar e entender que não se trata de algo que possam repetir. Ao menos, não a curto prazo.

—Acredito que poderíamos tirar dali mais prisioneiros —disse Glenna sem voltar-se. — Possivelmente a um ou dois cada vez. Fomos muito ambiciosos, queríamos tirar tantos como pudéssemos, e mantivemos o fogo muito tempo.

—Glenna, esse é seu território, como já te hei dito, mas fui eu quem foi para lhes buscar depois do sismo. A questão é que, tanto Larkin como eu, pensávamos que os três estavam mortos. Que o que ficava de vocês estava completamente vazio.

—Sim, isso é exatamente. É o término exato para descrever o que nos passou.

—É possível que a próxima vez não sejam capazes de retornar.

—E não é essa a razão pela que estamos aqui? —Agora as mãos da Glenna se dedicavam a jogar as folhas de erva. — Para arriscá-lo tudo? Não é verdade acaso que qualquer de nós pode não retornar cada vez que saímos por essa porta, cada vez que agarramos uma arma? Quanta vez agarrou você uma e o dom que possui e arriscaste tudo?

—Não poderia contar as vezes em que isso ocorreu, mas isto é completamente distinto. Você sabe que o é. Larkin e eu... Necessitamos-lhes. Necessitamos que o resto de vocês estejam fortes e saudáveis.

—Hoje estiveste a ponto de morrer, não é verdade?

—Sim, mas graças ao menino-dragão...

—Blair —a interrompeu Glenna. Continuando, aproximou-se dela e lhe apertou a mão com força.

Conexões, isso havia dito Glenna, e é o que Blair sentiu então. Não se podia mentir a alguém com quem havia uma conexão tão estreita, decidiu.

—Sim, de acordo, a coisa se há posto feia... Tão feia que não estava segura de que pudéssemos sair bem sacados. Mas poderia ter sido pior. Ao final, todos temos feito nossa parte, e agora eu estou bebendo uma cerveja e você está preparando uma infusão. Bem por nós.

—Você é melhor que eu nisto —murmurou Glenna.

—Não, não o sou. É só que estou mais acostumada. E ao está-lo, posso desfrutar de uma cerveja porque sei que hoje não só demos uma surra ao Lilith, Glenna. Insultamo-la, e essa é uma sensação que me enche de alegria. E sabe o que eu gostaria?

—Acredito que sim. Voltar ali e repeti-lo todo outra vez.

—Pode apostar o rabo a que eu adoraria fazê-lo. Nada seria melhor que isso, essa é a pura verdade. Mas seria algo estúpido e soberbo, e provavelmente faria que matassem a todos. Aceita a vitória, Glenna, porque pode estar completamente segura de que lhe merece isso. E aceita também que possivelmente não seja capaz de voltar a fazer o da mesma maneira.

—Sei. —Glenna se aproximou novamente ao fogão quando a água começou a ferver. — Sei que tem razão. É difícil aceitar que a tem. Durante as últimas semanas, experimentei umas forças mágicas tão intensas que não poderia nem ter imaginado que existissem. É excitante... E tem um preço. Sei muito bem que necessitaremos mais tempo e mais preparação se voltarmos a tentar o que temos feito hoje.

Verteu a água na bule.

—Acreditava que tínhamos perdido a Moira —prosseguiu com voz acalmada. — Hei sentido como se deslizava, afastando-se de nós. Ela não é tão forte magicamente como eu e, certamente, não é tão forte como Hoyt. —Enquanto a infusão repousava, voltou-se para olhar ao Blair. — A deixamos ir. Soltamo-la um instante antes que tudo explodisse. Não sei o que teria podido lhe acontecer se a tivéssemos retido conosco.

—Teriam podido tirar das cavernas a tantos sem a ajuda da Moira?

—Não, necessitávamo-la.

—Pois aceita a vitória. Foi um bom dia. Fica uma pergunta, entretanto. Como sabia aonde tinha que lhes enviar? Não me refiro à parte mágica, só à logística do assunto.

—OH, tinha um mapa. —Glenna sorriu levemente. — Tinha calculado quais seriam as rotas mais rápidas para chegar aos hospitais em caso de que algum de nós necessitasse um. De modo que só foi questão de, bom, de seguir o mapa.

—Um mapa. —depois de lançar uma gargalhada, Blair bebeu um comprido gole de cerveja. — É muito, Glenna. É incrível. Se essa vadia vampiro te tivesse em sua equipe, acredito que estaríamos perdidos. Foi um dia inesquecível. —E acrescentou com um suspiro —: viajei sobre um monstruoso dragão.

—Que enternecedor, verdade, surpreso-o que se ficou Larkin ao saber que aqui não tínhamos dragões? —Com um sorriso, e o ânimo mais tranqüilo, Glenna dispôs as taças e os pratos sobre a mesa. — Que aspecto tinha? Eu às vezes os pinto.

—Como esperaríamos que fosse um dragão, suponho. Era dourado, com uma cauda larga e perigosa... Carregou-se a um par de inimigos com ela. E um corpo sinuoso. Sim, todo ele comprido e sinuoso, o corpo, a cauda, a cabeça. Olhos dourados. Deus, era formoso. E as asas, grandes, bicudas, e translúcidas. Com escamas do tamanho de minhas mãos, e de uma cor que ia do dourado mate ao brilhante, junto com todos os matizes intermédios. E veloz. Mais que isso, velocíssimo. Foi como montar o sol. Eu estava...

Blair se interrompeu ao ver que Glenna se apoiava na bancada com um amplo sorriso nos lábios.

—O que?

—Estava-me perguntando se esse olhar a produzia o dragão ou o homem.

—Estamos falando de dragões, mas o homem tampouco está mau.

—É magnífico, totalmente adorável, e com o coração de um campeão.

Blair arqueou as sobrancelhas.

—Huh, você não te casaste recentemente?

—Mas isso não me deixou cega. E Larkin tem essa mesma expressão nos olhos, cada vez que te olha.

—Talvez seja como você diz, e possivelmente me exponha levar isso à horta um dia destes, mas de momento... —desceu-se da mesa —, vou a minha habitação, a me dar uma ducha realmente larga e quente.

—Blair? Às vezes o coração de um campeão é muito tenro.

—Não pretendo machucar o coração de ninguém.

—Estava pensando também no teu —murmurou Glenna quando ficou sozinha.

Blair ouviu vozes ao passar junto à biblioteca e se aproximou o suficiente para as identificar. Satisfeita ao ver que Larkin estava falando com a Moira, voltou sobre seus passos e se dirigiu à escada que levava a planta superior. Só desejava lavar o sal marinho, o sangue e a morte.

Ao chegar acima, deteve-se o ver Cian entre as sombras do corredor. Ela sabia que seus dedos tinham baixado até roçar a estaca que levava sujeita na cintura, e não se preocupou em fingir que não o tinha feito. Tinha sido algo instintivo. Caçador, vampiro. Ambos deviam aceitá-lo e assumi-lo.

—É um pouco cedo para que esteja levantado e dando voltas pela casa, não crê?

—Meu irmão não sente nenhum respeito por meu ciclo de sono.

Blair pensou que havia algo claramente sexual em um vampiro que olhava da penumbra. Ou o havia naquele vampiro.

—Hoje Hoyt o aconteceu verdadeiramente mal.

—Sim, pude vê-lo com meus próprios olhos. Parecia doente. Mas já se sabe... —seu sorriso foi lenta e deliberado —, é humano.

—Costuma trabalhar esses aspectos de sua personalidade?A voz sedutora, o sorriso perigoso?

—Nasci com isso. E morri com isso também. Vamos chegar a um acordo, você e eu?

—Acredito que já o temos feito. —Blair viu que o olhar de Cian se deslizava para sua mão e a estaca que havia debaixo dela. — Não posso evitá-lo. —Mas apartou a mão e enganchou o polegar no cinturão. — É algo nato.

—Você gosta de seu trabalho?

—Acredito que sim, em certa medida. Sou boa no que faço, e está acostumado a te gostar de fazer aquilo no que é boa. É o que faço. É o que sou.

—Sim, somos o que somos. —Cian se aproximou dela. — Tem o aspecto que deveu ter ela a sua idade. Mais jovem, suponho, nossa Nola devia ser mais jovem quando era como você agora. Naquela época, as mulheres envelheciam mais rápido.

—Muitas vezes, os vampiros procuram suas primeiras presas entre sua família.

—O lar é esse lugar onde sempre lhe aceitam quando chega. Crê acaso que qualquer dos membros desta casa estaria com vida de não havê-lo querido eu assim?

—Não. —Era o momento de justificar-se. — Acredito que teria jogado com eles durante alguns dias, possivelmente uma semana. Tivesse-te divertido. Teria esperado a que confiassem em ti, então os teria surpreso com o guarda baixo e os teria matado.

—Pensa como um vampiro —reconheceu ele. — É parte de seu talento. Bem, por que então não os matei?

Blair manteve os olhos fixos nos de Cian, subitamente impressionada pelo fato de que era quase como olhar os seus. A mesma cor, a mesma forma.

—Somos o que somos, e suponho que você não é assim; ou já não o é.

—Em meus tempos tive minha ração de mortes. Mas salvo pelo fato excepcional de que uma vez tentei matar a meu irmão, jamais toquei a minha família. Não posso explicar por que, salvo que não queria suas vidas. Você é da família, embora nem você nem eu nos sintamos cômodos com o fato. Descende de minha irmã. Tem seus mesmos olhos. E uma vez a quis, quis muito.

Blair sentiu algo... Não era piedade, não era isso o que Cian pedia. Mas sim experimentou uma espécie de compreensão. Sob o impulso desta sensação, tirou a estaca que levava sujeita ao cinturão, e, mantendo a ponta para ela, a entregou a Cian. Ele a estudou com expressão de perplexidade.

—Não terei que começar a te chamar tio Cian, verdade?

Este conseguiu esboçar um sorriso e, ao mesmo tempo, pareceu causar pena.

—Não, por favor, não o faça.

Logo, ambos seguiram seus respectivos caminhos. Cian desceu para a cozinha, onde encontrou a Glenna atarefada preparando umas bandejas com taças de infusão. A via gasta, pensou ele, e com sombras escuras sob os olhos.

—Consideraste alguma vez a possibilidade de que outro assuma o papel de mãe?

Glenna se sobressaltou para ouvir sua voz, e a taça golpeou contra a bandeja que estava preparando nesse momento.

—Acredito que estou um pouco nervosa. —Voltou a colocar a taça com cuidado sobre o pires. — O que há dito?

—Pergunto-me por que um dos outros não pode fazer-se carrego da comida de vez em quando.

—Fazem-no. Bom, Larkin é um tanto vago nesse sentido, mas outros o fazem. Em qualquer caso, é algo que me mantém ocupada.

—Conforme me contaram, também estiveste ocupada com questões não domésticas.

—Hoyt falou contigo.

—Meu irmão parece desfrutar despertando em metade do dia. Que é a razão pela que quero café —acrescentou, enquanto se aproximava do fogão para prepará-lo. Quando reparou em que Glenna franzia o senho ao ver a estaca que deixava junto à taça, encolheu-se de ombros. — Poderia dizer-se que é uma espécie de oferenda de paz por parte de Blair.

—OH, já vejo; isso é bom, verdade?

Cian se voltou e agarrou o queixo da Glenna com a mão.

—Vá deitar-te, ruiva, antes que te desabe.

—Para isso serve a infusão. É um reconstituinte. Necessitamo-lo. As baterias estão muito baixas por aqui. —Conseguiu esboçar um sorriso, mas esta se esfumou em seguida. — Ela provocou uma tormenta, Cian. Lilith tem a alguém com ela o bastante poderosa para invocar uma tormenta e obscurecer o sol, de modo que precisamos recarregar essas baterias. Hoyt e eu devemos trabalhar, e temos que fazê-lo com a Moira. Precisamos tirar de seu interior o que ela tem, ajudá-la a que o aperfeiçoe. —Glenna se voltou e começou a colocar biscoitinhos em uns pratos pequenos e bonitos, algo com tal de não ter as mãos quietas.

—Hoje nos separamos. Nós três no alto do escarpado, e Blair e Larkin na base. Poderiam lhes haver matado e não teríamos podido lhes ajudar; não poderíamos havê-lo impedido. Não o vimos vir porque estávamos totalmente concentrados no encantamento de transporte, e, quando chegou, quando esse poder nos voltou e nos lançou ao chão, já estávamos fora de combate.

E agora sofria por isso, pensou Cian. Os humanos sempre sofriam, por isso tinham feito e pelo que tinham deixado de fazer.

—Bom, agora tem uma idéia mais precisa de quais são seus limites.

—Não nos permite ter limites.

—OH, não me venha com essas, Glenna. —Agarrou um biscoitinho. — É obvio que têm limites. Expandiste-os, e provavelmente conseguirão ampliá-los ainda um pouco mais. Mas ela também os tem, e isso é o que vocês esquecem. Lilith tem pontos débeis e não é invulnerável nem onipotente. Algo que pudestes comprovar hoje, ao lhe arrebatar a cinco de seus troféus em seu próprio nariz.

Mordeu o biscoitinho e bebeu um sorvo de café.

—Sei que teria que pensar nas cinco pessoas que conseguimos salvar. Blair me há dito que aceite a vitória.

—E tem razão.

—Sei. Sei. Mas, OH Deus, eu gostaria não ter visto os que tivemos que deixar atrás. Eu gostaria não ter seus rostos, seus gritos, na cabeça. Não podemos salvá-los a todos, isso foi o que disse ao Hoyt em Nova York. Então foi fácil dizê-lo. —Glenna meneou a cabeça. — E tem razão, preciso descansar. Mas agora tenho que levar esta bandeja acima e me assegurar de que outros também tomam a infusão. Poderia me fazer um favor?

—Provavelmente poderia.

—Levar esta bandeja à biblioteca. Moira está ali.

—Ela provavelmente achará que a infusão está envenenada se for eu quem a leva.

—OH, basta.

—Está bem, está bem. Mas logo não me culpe se arroja suas ervas pelo ralo. —Levantou a bandeja, murmurando para si ao abandonar a cozinha. — Sou um vampiro, pelo amor de Deus. Uma criatura ferrada da noite, um bebedor de sangue. E aqui estou, fazendo de mordomo de uma Rainha do Geall de outro tempo. É algo realmente mortificante.

Era ele quem queria passar algum tempo na biblioteca, frente ao fogo com um livro nas mãos.

Entrou na estadia irritado e com um comentário crítico na ponta da língua.

Que teria sido totalmente desperdiçado, decidiu, já que Moira estava dormindo; acomodada em um dos sofás.

E agora que demônios supunha que devia fazer? Deixar que seguisse dormindo, despertá-la e fazê-la beber a maldita infusão?

Sem acabar de decidir-se, ficou onde estava, estudando-a.

Bastante bonita, pensou; com um grande potencial de grande beleza se esforçava. Ao menos, quando dormia, seus olhos não pareciam que fossem tragar se seu rosto, e a qualquer a quem ela apontasse com esses grandes e amendoados faróis cinza.

Houve um tempo em que Cian teria encontrado divertido corromper e desonrar essa classe de inocência. Esfolá-la lentamente, capa detrás capa, até que já não ficasse nada dela. Mas agora preferia a simplicidade das mais experimentadas; mulheres que o faziam pela mesma razão que ele. Umas horas de calor na escuridão.

Criaturas como Moira exigiam um grande esforço. Não podia recordar quando tinha sido a última vez que tinha estado o bastante excitado para jogar com uma delas.

Finalmente, decidiu deixar a bandeja sobre a mesa. Se ela despertava, beberia a infusão. Se não o fazia, bom, o sono também lhe serviria para recuperar forças.

Em qualquer caso, ele teria completo com sua tarefa.

Aproximou-se da mesa e apoiou a bandeja com apenas um tinido da porcelana contra a madeira. Contudo, ela se agitou. Um leve gemido, um pequeno tremor. Cian retrocedeu sem apartar os olhos de seu rosto... E foi o bastante imprudente para colocar-se sob um fino raio de sol.

A dor instantânea e lacerante no ombro fez que amaldiçoasse em voz baixa enquanto se afastava rapidamente da luz. Zangado com a Glenna, consigo mesmo e com a Rainha adormecida, voltou-se para partir.

Moira começou então a agitar-se em sonhos, pequenos sons aterrorizados ferviam em sua garganta. Seu corpo se converteu em um tenso novelo enquanto tremia. E, em sonhos, começou a dizer entre ofegos.

—Não, não, não.

Uma e outra vez, até que passou a um gaélico ininteligível.

Moira se revolveu no sofá colocando-se de barriga para cima e ficando logo quieta, ao tempo que deixava por completo exposta sua garganta.

Cian se moveu veloz para o espaço entre o sofá e a mesa.Logo, inclinando-se sobre a Moira, sacudiu-a com força.

—Acordada —lhe ordenou. — Já basta. Não tenho paciência para isto.

Ela se moveu depressa, mas Cian ainda mais lhe fazendo soltar a estaca que sustentava na mão. A peça de madeira foi cair a três metros de distância.

—Não faça isso. —Agarrou-lhe a mão e sentiu que seu pulso golpeava como uma bigorna contra seus dedos. — A próxima vez que o faça, romperei-te o pulso como se fosse um ramo, prometo-lhe isso.

—Eu... Eu... Eu...

—Responde. Entende o que te digo?

Os olhos da Moira, enormes e frágeis pelo medo, percorreram a habitação.

—Ela estava aqui, estava aqui. Não, não, aqui não. —Moira se ajoelhou no sofá, apertando o braço de Cian com sua mão livre. — Onde está? Onde? Ainda posso cheirá-la. Muito doce, muito denso.

—Basta. —Cian lhe soltou o pulso para agarrar a dos ombros. Uma nova sacudida fez que seus dente tocassem castanholas. — Estava dormida, estava sonhando.

—Não. Eu estava... Estava? Não sei. Não está escuro. Ainda não obscureceu, mas era... —Apoiou as mãos sobre o peito de Cian, mas em lugar de lhe empurrar para apartá-lo, como ele esperava, Moira simplesmente recostou a cabeça nele. — O sinto. Sinto muito. Dê-me um momento.

Cian reprimiu o impulso de lhe acariciar o cabelo... Aquela larga e grosa trança da cor do carvalho escuro. Deixou cair a mão a um lado do corpo.

—Ficaste-te dormida no sofá —disse com voz apagada, quase indiferente. — Tiveste um sonho. Agora está acordada.

—Acreditava que Lilith... —Retrocedeu. — Estive a ponto de te cravar a estaca.

—Não. Nem por indício.

—Não queria... Nunca o tivesse feito. —Fechou os olhos em um evidente esforço de procurar um pouco de serenidade. Quando voltou a abri-los, seu olhar era mais claro e mais direto. — O sinto muito, mas por que está aqui?

Cian se fez a um lado e assinalou a mesa. Agora a expressão da Moira era de surpresa.

—Você...Você me preparou chá e biscoitinhos?

—Glenna —a corrigiu ele, surpreendentemente incômodo ante essa idéia. — Eu só sou o menino dos recados.

—Hum. De todos os modos foi muito amável de sua parte. Não tinha intenção de dormir. Depois de que Larkin se foi a sua habitação, pensava ler. Mas...

—Então bebe sua infusão. É provável que depois fique melhor. —Quando Moira se limitou a assentir e não fez nenhum movimento, Cian elevou a vista ao teto. — Limão ou nata, ao seu chá?

Ela levantou a cabeça para olhá-lo.

—Está zangado comigo e quem poderia te culpar por isso? Trouxeste-me uma taça de chá e eu estive a ponto de te matar.

—Então não desperdice meu tempo nem a maldita infusão.

Aqui tem. —Pôs a taça entre suas mãos. — Bebe-a. Ordens da Glenna.

Moira bebeu um gole sem deixar de olhá-lo.

—Está muito boa.

Logo seus lábios tremeram e os olhos lhe encheram de lágrimas.

Cian sentiu que lhe esticava o estômago.

—Deixarei-te com a bebida então, e com suas lágrimas.

—Não fui o bastante forte. —As lágrimas não caíram, simplesmente brilhavam em seus olhos como gotas de chuva entre a névoa. — Não pude lhes ajudar a manter o encantamento. Não pude fazê-lo, de modo que se tem quebrado, feito pedaços, e foi como fragmentos de vidro que nos atravessassem. Não pudemos tirar nenhum dos outros; a nenhum mais dos que estavam encerrados nas jaulas.

Cian se perguntou se devia lhe dizer que Lilith se limitaria a substituir aos que se levaram. Provavelmente o dobro desse número, por causa de sua fúria.

—Está esbanjando o tempo te culpando e te compadecendo de ti mesma por isso. Se tivessem podido fazer mais, teriam-no feito.

—No sonho, ela há dito que não se incomodaria em beber meu sangue. Que ao ser a menor e débil, não mereceria a pena tomar-se essa moléstia.

Cian se sentou à mesa, frente a ela, e agarrou um de seus biscoitinhos.

—Ela mente.

—Como sabe?

—Sou uma criatura da noite, recorda? A menor é freqüentemente a mais doce. Uma espécie de aperitivo, se o preferir. Se eu ainda tivesse o hábito, morderia-te em um abrir e fechar de olhos. —Moira deixou a taça no prato e o olhou com o senho franzido.

—É isso, acaso, uma espécie de estranho cumprimento?

—Toma-o como mais você goste.

—Bom. Obrigado... Suponho.

—Termina sua bebida. —levantou-se. — E lhe peça a Glenna algo para bloquear os sonhos. Certamente possa te ajudar.

—Cian —disse ela quando ele se afastava para a porta. — Obrigado. Por tudo.

Ele se limitou a assentir e abandonou a biblioteca. Mil anos, pensou, e ainda era incapaz de entender aos humanos... Em particular às mulheres.

 

Blair bebeu a infusão que Glenna tinha preparado e decidiu que se deitaria uma hora com os fones postos. Em circunstâncias normais, a música lhe tranqüilizava a mente, dava-lhe o tempo que necessitava para limpar-se e recuperar forças. Mas agora tudo seguia girando ao redor da espiritual voz de fundo do Patty Griffin.

O mar, os escarpados, a batalha. O momento, quando o céu se obscureceu, de absoluta certeza de que tinha chegado ao final do caminho. E aquela diminuta e fria semente de alívio em seu interior ante o fato de que tudo, finalmente, tivesse terminado.

Blair não desejava absolutamente a morte —pensou. — Não a queria. Mas havia esse lugar pequeno e secreto em seu interior que estava cansado, tão horrivelmente cansado da solidão; de ser o que era, e que o que tinha que fazer lhe ordenasse permanecer sozinha.

Só com sangue e morte e com uma violência interminável.

Isso já lhe havia flanco o amor de um homem ao que tinha querido com todo seu coração e o futuro que ela tinha acreditado que teriam juntos. Foi então quando começou tudo?, Perguntou-se. Foi então quando essa pequena semente ficou plantada em seu interior? A noite em que Jeremy se afastou dela?

Penoso, pensou, tirando-os fones. Patético. Acaso ia permitir que sua psique fosse alterada desse modo por um homem... E por um que não tinha sido o bastante homem para enfrentar a situação? Aceitaria acaso a morte só porque ele não a tinha aceito a ela como era?

Todo isso não eram mais que tolices. Voltou-se de lado, abraçando o travesseiro enquanto contemplava a luz minguante através da janela.

Só havia tornado a pensar no Jeremy porque Larkin a tinha excitado. Não queria voltar a interessar-se por um homem, sentir-se arrastada por toda essa emoção.

O sexo estava bem, era agradável sempre que não significasse mais que alívio e liberação. Blair não podia voltar a passar por toda a dor, pela horrível sensação de abandono que lhe tinha deixado o coração como uma massa tremente e sangrenta dentro do peito.

Ninguém permanecia, pensou enquanto fechava os olhos. Nada era para sempre.

Deixou-se levar pela música, leve e distante, que seguia fluindo dos fones.

Enchia-lhe a cabeça; a música era o excitado pulsar de seu próprio sangue. Estava quase amanhecendo e acabava de terminar o trabalho da noite, mas se sentia tão cheia de energia, tão avivada, que poderia continuar durante horas.

Olhou-se enquanto percorria o último quarteirão que a separava de sua casa. Tinha estragado outra saia. Esse trabalho, pensou, estava causando estragos em seu guarda-roupa. Tinha-a rasgada e manchada de sangue, e seu ombro esquerdo era uma mescla de contusões e uma dor pulsante.

Mas se sentia tão animada!

A rua, naquela zona residencial, estava tranqüila e silenciosa; todo mundo estava dormindo e a salvo. E quando o sol se elevou no céu, as cerejeiras silvestres e as magnólias se mostraram em todo seu esplendor. Podia cheirar o aroma dos jacintos, e aspirou profundamente o ar doce e suave da primavera.

Era a manhã de seus décimo oitavo aniversário, de modo que ia lavar se, descansar, e logo dedicaria um montão de tempo a ficar irresistível para uma entrevista muito ardente.

Quando abriu com a chave a porta principal da casa onde vivia com seu pai, deslizou a bolsa que tinha pendurada do ombro são e a deixou cair ao chão. Tinha que limpar suas armas, mas antes precisava beber vários litros de água.

Então viu as malas junto à porta, e a excitação que sentia se desvaneceu.

Seu pai baixou a escada com o casaco já posto. Era tão bonito..., pensou nesse momento. Alto e moreno, com aquele rosto bem cinzelado e uns olhos penetrantes. Apenas umas fibras de prata no cabelo. Um mundo de amor e desdita se abriu em seu interior.

—Assim retornaste —disse ele lhe olhando a saia. — Se for permitir que lhe manchem de sangue, te leve roupa para te trocar. Chamará a atenção se for por aí deste jeito.

—Ninguém me viu. Aonde vai?

—A Romênia. Investigação, principalmente.

—Romênia? Poderia ir contigo? Eu gostaria de muito ver...

—Não. Deixei-te um talonário de cheques. Deveria ser suficiente para levar a casa durante vários meses.

—Meses? Mas... Quando pensa voltar?

—Não voltarei. —Agarrou uma pequena mala e a pendurou do ombro. — Já tenho feito por ti tudo o que podia. Tem dezoito anos, já é maior.

—Mas... Não pode... Por favor, não te parta. O que é o que tenho feito?

—Nada. Pus a casa em seu nome. Pode ficar aqui ou vendê-la. Vá aonde goste. É sua vida.

—Mas por quê? Como pode me abandonar deste modo? É meu pai.

—Treinei-te na medida de minhas possibilidades, e das tuas. Não há nada mais que possa fazer por ti.

—Poderia ficar comigo. Poderia me amar, embora só fosse um pouco.

Seu pai abriu a porta e agarrou as malas. Não era pesar o que ela viu em seu rosto, a não ser ausência. Compreendeu então que já se partiu.

—Meu vôo sai cedo. Se necessitar algo mais, enviarei para buscá-lo.

—Significo algo para ti?

Ele a olhou fixamente à cara.

—É meu legado —disse e saiu pela porta.

Ela chorou, é obvio, e ficou ali sozinha, com a primavera flutuando na fragrante brisa.

Cancelou a entrevista e passou o dia de seu aniversário só em sua casa. Uns poucos dias mais tarde, estava sentada no cemitério, também sozinha, preparando-se para destruir aquilo no que se converteu o menino que gostava.

Durante o resto de sua vida não deixaria de perguntar-se se ele teria vivido se não tivesse anulado aquela entrevista.

Agora estava de pé no dormitório de seu apartamento de Boston, frente ao homem em quem tinha derrubado todo seu amor e suas esperanças.

—Jeremy, por favor, nos sentemos. Temos que falar disto.

—Falar? —Em seus olhos persistia aquela expressão emocionada enquanto colocava a roupa dentro de uma bolsa de pele. — Não posso falar disto. Não quero saber nada de tudo isto. Ninguém deveria.

—Equivoquei-me. —Alargou a mão para tocá-lo, mas ele se apartou com um gesto tão cortante e dissuasivo que ela sentiu que lhe cortava até o osso. — Não deveria te haver levado comigo, não deveria te haver mostrado nada. Mas não quis me acreditar quando lhe tentei explicar isso.

—Que te dedica a matar vampiros? No que estaria pensando, olhe que não te acreditar?

—Tinha que lhe mostrar isso Não podíamos nos casar sem que você soubesse tudo a respeito de mim. Não era justo para ti.

—Justo? —voltou-se, e ela pôde ver aquilo claramente refletido em seu rosto. Não só medo, não só ira. Também repugnância. —Isto é justo? Você me mentindo e me enganando todo este tempo?

—Eu nunca te menti. Omiti, e o sinto. Deus, sinto-o tanto, mas não era algo que pudesse te haver explicado a primeira vez... E depois não sabia como te dizer o que era, o que fazia.

—O que você é, é um monstro.

Ela jogou a cabeça para trás como se a tivesse esbofeteado.

—Não sou nenhum monstro. Sei que está zangado, mas...

—Zangado? Não sei quem é, o que é. Cristo, com o que estive dormindo todos estes meses. Mas há algo que sim sei. Quero que te mantenha longe de mim, longe de minha família e de meus amigos.

—Necessita tempo, entendo-o, mas...

—Dei-te todo o tempo que vais obter de mim. Põe-me doente te olhar.

—Já é suficiente.

—É mais que suficiente. Crê que poderia me deitar contigo, que poderia voltar a te tocar depois disto?

—Mas o que te passa? —contra-atacou ela. — O que tenho feito serviu para salvar vidas. Isso teria matado a gente, Jeremy. Tivesse caçado e assassinado a pessoas inocentes. Eu o impedi.

—Isso não existe. —Arrastou a bolsa fora da cama que tinham compartilhado durante quase seis meses. — Quando me partir daqui, isso não existirá; e você tampouco.

—Acreditava que me amava.

—Ao parecer, ambos estávamos equivocados.

—De modo que te partirá —disse ela sem levantar a voz —e eu deixarei de existir.

—Assim é.

Não era a primeira vez, pensou; não, não o era. O outro único homem a quem tinha amado tinha feito o mesmo. Tirou-se lentamente o anel de prometida do dedo.

—Será melhor que fique com isto.

—Não o quero. Não quero nada que haja tocado —respondeu ele, e se afastou para a porta; olhou atrás só uma vez. — Como pode viver contigo mesma?

—Eu sou tudo o que tenho —replicou ela a uma habitação vazia. Logo guardou o anel em uma gaveta da cômoda, ajoelhou-se no chão e chorou.

Os homens são criaturas realmente detestáveis. Usam às mulheres e logo as abandonam. As deixam sozinhas e mudadas, É melhor deixá-los primeiro, não crê? Melhor ainda, lhes pagar com a mesma moeda e deixá-los feridos.

Está doente, e cansada de ser a que abandonam, verdade? E toda essa luta, toda a morte. Eu posso te ajudar. Eu gostaria de muito poder te ajudar.

Por que não falamos disso, você e eu? Só nós, as garotas. Tomemos umas taças e amassemos aos homens, o que me diz?

Não vais pedir-me que entre?

Blair estava de pé junto a janela, e o rosto que havia atrás do cristal escuro lhe sorria. Suas mãos sujeitaram a janela, e começaram a subi-la.

Date pressa. Abre-a. deixe-me entrar, Blair. É o único que tem que fazer.

Ela abriu a boca, as palavras já em sua mente.

Então, algo voou para ela desde atrás e a lançou ao outro extremo da habitação.

 

O que flutuava fora da janela lançou um grito de fúria. O cristal pareceu vibrar com o som, quase curvar-se por causa da pressão.

Logo desapareceu, uma mancha em movimento. Blair sentiu que a habitação girava a seu redor.

—OH, não, não o fará. Nada disso. —Larkin a colheu com força dos ombros e a ajudou a incorporar-se. — Que demônios estava fazendo?

O rosto dele se enfocava e desfocava.

—Vou sair. Sinto muito.

O seguinte que se inteirou foi de que voltava em si em sua própria cama, com o Larkin lhe golpeando brandamente as bochechas.

—Ah, bem. Esta vez fica conosco, quer, muirniri? Vou procurar a Glenna.

—Não, espera. Me dê um minuto. Só estou um pouco enjoada. —Blair fez um esforço para tragar e se apertou com força a mão sobre o estômago. — É como se tivesse bebido muitas margueritas. Devo ter estado sonhando. Acreditava que... Estava sonhando?

—Estava junto à janela, a ponto de abri-la. Ela estava fora; de algum jeito tinha chegado até aqui. A francesa.

—Lora. Ia pedir lhe que entrasse na casa. —voltou-se para o Larkin com um olhar horrorizada. — OH, Meu deus, ia pedir lhe que entrasse. Como pode ser?

—Parecia estar... Mau. Estava dormida, mas tinha os olhos abertos.

—Sonambulismo. Um estado de transe. Colocaram-se dentro de minha cabeça e me têm feito algo. Os outros!

Larkin a obrigou a permanecer deitada quando ela tentou sair da cama.

—Estão todos abaixo, na cozinha, onde Glenna está preparando a comida, Deus a benza. Há-me dito que subisse para te buscar. Bati na porta mas não respondeste. —Olhou para a janela e sua expressão se escureceu. — Estava a ponto de partir, pensando que estava dormida e que poderia me comer sua ração, mas então me pareceu ouvir algo... Ouvi que ela falava contigo.

—Se a tivesse deixado entrar... Até agora, não podiam controlar sua mente se não tinha sido mordido. Algo novo. Será melhor que baixemos e o contemos a outros.

Larkin lhe acariciou brandamente o cabelo.

—Ainda está abalada. Poderia te levar em braços.

—Arrumado a que sim. —Fez com que sorrisse. — Possivelmente a próxima vez. —sentou-se na cama, inclinou-se para frente e lhe roçou os lábios com os seus. — Obrigado por me salvar.

—Foi um prazer.

Agarrou-a da mão para ajudá-la a descer da cama e logo a sujeitou entre seus braços quando Blair se cambaleou.

—Uau. Estou enjoada. Têm-me feito algo, Larkin. Utilizaram lembranças e emoções. Material privado. Isso me enche o saco.

—Estaria-o muito mais se ela tivesse conseguido que a convidasse a entrar.

—Bom argumento. Muito bem, agora baixemos e...

Blair voltou a cambalear-se e amaldiçoou.

—Depois de tudo, teremos que fazê-lo a minha maneira —disse Larkin levantando-a em braços.

—Só necessito um minuto para encontrar meu equilíbrio.

—Pois me parece bastante equilibrada. —Olhou-a e sorriu lentamente. — Tem umas formas encantadoras. E eu gosto que a roupa que leva não as oculte. Neste momento, tem além disso uma agradável fragrância para acompanhá-las. Um pouco como a maçãs verdes.

—Está tratando de me distrair do fato de que estive a ponto de convidar para jantar a um vampiro?

—Funciona?

—Um pouco.

—Então tentemo-lo um pouco mais.

Larkin se deteve, inclinou a cabeça e cobriu a boca de Blair com a sua.

Um rápido sobressalto. O beijo não era tão brincalhão como o anterior, e Blair se deu conta de que Larkin sentia uma grande quantidade de ira e temor. Não recordava quando tinha sido a última vez que alguém tinha sentido temor por ela. Respondeu ao beijo antes de poder conter-se, fundindo-se com sua boca, enredando os dedos em seu cabelo, enchendo com ele aquela dolorosa solidão que a tinha seguido fora do sonho.

—Absolutamente eficaz —murmurou quando Larkin elevou novamente a cabeça.

—Bom, ao menos há devolvido a cor a suas bochechas, de modo que por agora está bem.

—Será melhor que me baixe. Se me levar até ali em braços, os outros se assustarão. E já estarão bastante assustados quando lhes contarmos o que aconteceu.

A baixou até que seus pés tocaram o chão, mas lhe manteve os braços ao redor da cintura.

—Suficientemente firme?

—Sim, melhor, de verdade.

Larkin, Contudo, agarrou-a do braço enquanto percorriam o resto do caminho até a cozinha.

—Se podem fazer isto, por que não o têm feito antes?

Hoyt estava sentado no comilão, à cabeceira da mesa, com o fogo crepitando a suas costas. Olhou a Cian, que estava sentado no outro extremo.

—Nunca tive notícia de algo assim antes de agora —respondeu seu irmão encolhendo-se de ombros; provou o pescado que tinha preparado Glenna. — Se houver uma conexão pessoal entre o vampiro e o humano, sim; um convite pode ser induzido ou conseguido mediante adulações, mas isso se deve em geral à negação instintiva dos humanos daquilo que vêem. Esta é uma questão diferente, e segundo o que você e Larkin dizem, estava dormindo.

—Sempre há uma primeira vez para tudo. —Blair não tinha fome, mas comia porque necessitava combustível. — Em nossa equipe temos membros com capacidades para a magia. De modo que, obviamente, ela também os tem. Uma espécie de encantamento.

—Eu fiquei dormida na biblioteca e... —Moira bebeu um pouco de água para umedecê-la garganta. — Passou uma coisa. Não o mesmo que a ti, Blair, não exatamente, mas era como se Lilith estivesse ali comigo. Melhor dizendo, eu com ela, e não na biblioteca. Não estávamos aqui a não ser em meu quarto, em minha casa. No Geall.

—O que passou? —perguntou Blair. — Pode recordá-lo?

—Eu... —Moira fixou o olhar no prato enquanto suas bochechas se tingiam de vermelho. — Eu estava dormindo e parecia como se ela estivesse ali; tão real como você agora. Metia-se na cama comigo e ela... Tocava-me. Podia sentir suas mãos sobre meu corpo.

—Isso não é incomum. —Blair jogou com seu pescado. — O sonho, a claridade do mesmo, possivelmente, mas o conteúdo. Os vampiros são criaturas sexuais e, com muita freqüência, bissexuais. Parece como se Lilith tivesse estado provando coisas contigo, jogando.

—Eu tive uma experiência pouco depois de que chegássemos aqui —interveio Glenna. — Depois tomei precauções, protegi-me no sonho. Foi estúpido, estúpido de minha parte não ter pensado em proteger também a outros.

—Bom, isso constará em seu expediente. —Blair agitou o garfo em direção a ela. — Glenna não pensa em tudo.

—Agradeço que me perdoe o descuido, mas teria que ter pensado nisso.

—Bom, sem dúvida o pensaremos agora, porque não vamos a permitir que esses monstros lhe façam algo a um de nós e devam dançar a valsa nesta casa —a tranqüilizou Blair.

—Têm a alguém com muitíssimo poder. E não é um vampiro. —Moira olhou a Cian em busca de confirmação e ele assentiu ligeiramente. — Tenho lido que há alguns vampiros que podem provocar um transe, mas para consegui-lo têm que estar fisicamente com a vítima. Ou lhes haver mordido previamente. A mordida provoca uma conexão, um vínculo entre eles de tal modo que a pessoa, o humano, pode ficar sob controle do vampiro.

—Em nosso caso não morderam a ninguém —assinalou Blair.

—Aye. E você estava dormindo, igual a eu..., como Glenna quando chegamos à casa. Não podia te hipnotizar com o olhar enquanto dormia.

—Um vampiro precisa fazer um grande esforço para enfeitiçar a um humano. Investir um montão de energia —explicou Blair. — E ter muita prática.

—Assim é —confirmou Cian.

—De modo que converteram a um Feiticeiro ou uma Bruxa em um deles —concluiu Hoyt.

—Não. —Moira se mordeu o lábio. — Não acredito, se o que tiver lido nesses livros é verdade. O vampiro pode obter poder bebendo sangue de poder, mas este ao final se debilita. E se a pessoa que possui poder é convertida, perderá a maior parte, se não toda, sua magia. É o preço que terá que pagar pela imortalidade. O demônio em que se transforma perde o dom; ou retém só alguns vestígios do mesmo.

—Ou seja que é mais provável que tenha bruxas ou o que seja entre os seus, por dizê-lo de algum jeito. —Blair refletiu sobre isso enquanto comia. — Alguém que já está no lado escuro. Ou alguém a quem Lilith tenha subjugado. Um meio vampiro. Um muito poderoso.

—Não tem que ser assim. —A diferença de outros, Larkin já tinha acabado toda a comida que tinha em seu prato e se estava servindo mais. — Estive escutando tudo o que hão dito.

—Como é que seus ouvidos seguem funcionando tendo a boca tão ocupada? —perguntou Blair.

Larkin sorriu enquanto se servia mais pescado e mais arroz.

—É uma comida muito boa —disse a Glenna. — Se não a como, como saberia a avaliação?

—Eu gostaria de te dizer onde poderia colocar toda essa avaliação, mas estava dizendo algo —acrescentou Blair, assinalando-o.

—Estas coisas que hão dito ocorreram sempre durante o sono, de modo que parece que o encantamento não atua sobre a mente consciente. Não se necessitaria mais poder para... —Larkin recorreu às palavras empregadas pelo Blair. —.. Para lhe fazer algo a alguém quando está acordado e consciente?

—Sim —assentiu Hoyt. — É obvio que sim.

—E não só dormindo, ao menos não hoje. Moira estava quase enferma de esgotamento por causa de sua intervenção no que têm feito no escarpado. Blair também estava exausta. Não sei como estava você quando te aconteceu, Glenna, mas...

—Estava derrotada... Esgotada, perturbada. Não pensei em tomar precauções antes de me colocar na cama.

—Aí o têm então. É não só quando se está dormido, mas também quando se está dormindo, o corpo está debilitado e a mente se acha em seu momento mais vulnerável. De modo que acredito que, seja o que for o que ela esteja utilizando, ou a quem está utilizando, não é tão forte como o que temos aqui, nesta mesa.

—Estiveste escutando com atenção. —Blair o olhou. —Aqui o menino dragão há dito algo importante. Ela o tentou quando nossas defesas estavam mais baixas, e a ponto esteve que consegui-lo. O que fazemos a respeito?

—Hoyt e eu trabalharemos no amparo. Até agora estive usando o escudo mais básico. —Glenna olhou ao Hoyt. — Melhoraremos.

—Não estaria mal se pudéssemos fazer algo para a casa —assinalou Blair. — Alguma espécie de encantamento geral para que não possam entrar, nem sequer com um convite.

—Não pode bloquear um convite. —Cian se reclinou em sua cadeira, com sua taça de vinho. — Pode apartá-la com o encantamento adequado, mas não pode bloquear-se.

—De acordo, possivelmente não. Então, talvez algo que sirva para ampliar o perímetro, que crê uma área segura ao redor da casa.

—Tentamo-lo. —Hoyt apoiou a mão sobre a da Glenna. — E não fomos capazes de encontrar a maneira de fazê-lo.

—Algo que funcionasse poderia ser outra capa. Quantas mais capa tenham que atravessar, melhor. Pensem em uma zona livre de vampiros —prosseguiu Blair.

—Talvez eu deveria me mudar a uma bonita estalagem —sugeriu Cian, fazendo que Blair o olhasse com o senho franzido, até que entendeu o significado de suas palavras.

—OH. OH, é verdade. Sinto muito. Esqueci-me. Não podemos ter uma zona livre de vampiros com um vampiro dentro da casa.

—Não encontramos uma maneira de lhe excluir do encantamento de amparo —explicou Glenna. — Temos algumas idéias. Em realidade são esboços mais que idéias —reconheceu. — E Hoyt esteve trabalhando durante algum tempo para criar uma espécie de escudo para ti, Cian; para que possa sair fora da casa durante o dia. Ao sol.

—Outros o tentaram antes e fracassaram. Não pode fazer-se.

—Antes a gente estava acostumada acreditar que o mundo era plano —assinalou Blair.

—É verdade. —Cian se encolheu de ombros. — Mas eu diria que, se pudesse fazer-se, nos milhares de anos que levamos de existência já se teria feito. E experimentar com isso neste momento não é a melhor maneira de empregar o tempo.

—É meu tempo —disse Hoyt.

—Hoje poderíamos te haver utilizado. —Glenna falou depois de um momento de silêncio. — No Kerry, nos escarpados. Merece a pena lhe dedicar tempo. Acreditam que teríamos mais êxito se pudéssemos ter um pouco de seu sangue.

—OH! —espetou Cian secamente. — Isso é tudo?

—Pensa nisso. Contudo, nossa primeira prioridade será o amparo. Hoyt e eu nos encarregaremos disso. —E Glenna apertou a mão do Hoyt. — Por que não nos pomos em marcha?

—Enquanto isso, que ninguém durma até que tenhamos amparo. Tenho algumas cruzes extras e um pouco de água benta em minha equipe. —Blair se levantou. — Cian, a menos que esteja planejando sair, eu gostaria de colocar algumas precauções básicas em portas e janelas.

—Adiante. Mas essa classe de quinquilharias não anulará um convite.

—Capas —disse Blair outra vez.

—Eu te ajudarei. —Larkin apartou seu prato. — Há muitas portas e janelas.

—De acordo, dividiremo-nos em grupos. Hoyt e Glenna, magia. Larkin e eu faremos o que possamos para bloquear todas as entradas. Isso deixa a Cian e Moira a cargo da cozinha.

Não era que não confiasse no Hoyt e Glenna... Confiava tanto como nunca antes o tinha feito com ninguém. Tampouco se tratava de que não estivesse aberta à magia. Tinha que está-lo.

Mas inclusive com o amuleto debaixo do travesseiro, a vela acesa e o segundo amuleto pendurando junto com a cruz na janela, aquela noite Blair teve um sono agitado.

E a noite seguinte.

O treinamento ajudava; o esforço físico como tal, e o propósito do mesmo. Blair se esforçava, e muito. Ninguém, nem sequer ela, acabava o dia sem machucados e os músculos doloridos. E ninguém, nem sequer ela, acabava a jornada sem ser cada dia um pouco mais forte, um pouco mais rápido.

Via florescer a Moira... Ou assim o parecia. O que faltava em força, compensava-o com velocidade e flexibilidade. E com uma absoluta determinação.

E, com um arco nas mãos, ninguém era capaz de competir com ela.

Glenna aperfeiçoava as habilidades que já possuía: a astúcia, os sólidos instintos. E estava progredindo com a espada e a tocha.

Hoyt punha uma grande intensidade em tudo o que fazia. Já lutasse com uma espada, com um arco ou com as mãos, tinha uma concentração quase inalterável. Blair o considerava como o mais confiável dos soldados.

E a Cian como o mais elegante e malvado. Ele tinha a força superior dos de sua espécie, assim como a destreza animal, mas a todas essas qualidades acrescentava estilo. Cian podia matar, pensava Blair, com violenta elegância.

Larkin era em troca lutadora por antonomásia. No combate corpo a corpo era um aspirador e simplesmente se negava a render-se. Não tinha a intensidade do Hoyt nem a elegância de Cian com uma espada, mas brigava sem descanso até que derrotava a seus oponentes, ou estes se derrubavam exaustos. Tinha boa pontaria com o arco. Não tanta como Moira, mas quem a tinha?

E nunca sabia quando se tiraria da manga um de seus pequenos truques; de modo que a gente acabava lutando com um homem com cabeça de lobo, garras de urso ou cauda de dragão.

Era hábil e eficaz.

E endiabradamente sexy.

Havia momentos que a impacientava. Era muito impulsivo e, freqüentemente, ostentoso. À maneira do Errol Flynn, pensou. E os exibicionistas freqüentemente acabavam mordendo o pó.

Mas quando pensava nisso, de poder escolher às pessoas que queria que lutassem junto a ela na batalha para salvar ao mundo, não teria eleito a outros.

Entretanto, inclusive os soldados que participavam da guerra para acabar com as guerras precisavam comer, fazer a penetrada e tirar o lixo.

Blair foi ao povo em busca de provisões porque queria desesperadamente sair da casa. Dois dias de chuva tinham limitado as atividades ao ar livre e estava inquieta e nervosa. Se uma pessoa, só uma, dizia que a chuva era o que fazia que a Irlanda fosse tão verde, partiria-lhe a cabeça em duas com uma tocha.

Por outra parte, da noite de seu encontro com a Lora não tinha havido nenhum sinal do inimigo. E essa calma temporária acentuava sua inquietação e aumentava sua crispação.

Algo se estava cozendo. Seguro.

Blair teria preferido ir sozinha, dispor de um par de horas para si mesma, com seus próprios pensamentos, com sua única companhia. Mas teve que aceitar que se tratava de um risco desnecessário. Contudo, tinha fixado um limite ao negar-se a lhe dar ao Larkin uma lição de condução durante a viagem ao Ennis.

—Não sei por que não posso fazê-lo. — queixou ele. — Observei a Glenna quando conduz esta coisa. E ensinou ao Hoyt.

—Hoyt conduz como um velho cego da Florida.

—Não sei o que significa isso, exceto se trata de um insulto de alguma classe. Mas eu poderia fazer o melhor que ele com este traste, ou com essa outra beleza que Cian guarda no estábulo.

—Garagem. Os carros se guardam na garagem e Cian deixou muito claro que morderá e sangrará a qualquer que toque seu Jaguar.

—Poderia me ensinar a conduzir com este. —Estirou a mão e deslizou um dedo pelo flanco de seu pescoço. — Seria um aluno muito bom.

—O encanto não te vai funcionar. —Acendeu a rádio. — Escuta a música e desfruta de do passeio.

Larkin levantou a cabeça

—É parecida com a música do Geall.

—Emissora irlandesa, música tradicional.

—É maravilhoso, não crê? Poder ter música com apenas estalar os dedos. Ou te transladar tão depressa de um lugar a outro em uma máquina.

—Não no meio do tráfego de Chicago. Ali, passa-te um montão de tempo sentado no carro, amaldiçoando em lugar de te mover.

—Me fale de sua Chicago.

—Não é minha Chicago. É só o lugar onde estive vivendo nos últimos anos.

—Antes disso esteve no Boston.

—Sim. —Mas Boston era Jeremy, e Blair tinha tido que afastar-se dali. — Chicago. É, ah, é uma cidade. A cidade mais importante do Meio Oeste dos Estados Unidos. À beira de um lago... Um lago enorme.

—Pesca nesse lago?

—Pescar? Eu? Não. Suponho que a gente o faz... Eles navegam nesse lago. Esportes aquáticos e coisas assim. No inverno faz um frio de mil demônios e não poderia acreditar o vento que sopra. É o efeito do lago; um montão de neve e um frio que te impregna até os ossos. Mas não sei, é uma cidade com muito movimento. Restaurantes, lojas de departamentos, museus, clubes noturnos. Vampiros.

—Uma cidade grande? Maior que Ennis?

—Muito maior.

—Como é possível que se for uma cidade tão grande e com tanta gente não se uniram para lutar contra os vampiros?

—Eles não acreditam nos vampiros ou, se algumas pessoas o fizerem, fingem que não é assim. Se alguém é atacado ou o matam, as autoridades o atribuem a bandas de delinqüentes ou a psicopatas. Em geral, os vampiros procuram não chamar a atenção ou, ao menos, era assim até recentemente tempo. Suas vítimas preferidas são as pessoas sem lar, as que fugiram de suas casas, gente a que ninguém sentirá falta.

—No Geall corriam lendas que falavam de criaturas que espreitavam de noite e caçavam aos seres humanos em tempos remotos. Eu nunca acreditei nelas, até que a Rainha, minha tia, foi assassinada por elas. E inclusive então...

—É difícil aceitar que o que lhe ensinaram é fantasia, ou impossível. De modo que levantas um escudo. É algo natural.

—Mas você não —disse Larkin estudando o perfil dela. Era de rasgos marcados, sim, mas se suavizava nas bochechas, e seu cabelo escuro contrastava de forma encantadora com o branco da pele. —Você sempre o soubeste. Desejou alguma vez que fora diferente? Ser uma dessas pessoas que têm um escudo? Que alguma vez souberam?

—Não tem sentido desejar o que não pode ter.

—E que sentido tem desejar o que pode fazer e faz?

Ele tinha razão, decidiu Blair. Em geral, tinha-a, se escutava com suficiente atenção.

Encontrou lugar em um estacionamento e tirou o dinheiro para o tiquete. Larkin permaneceu a seu lado, com as mãos nos bolsos das calças que Glenna lhe tinha comprado em uma viagem anterior, olhando a todas as partes.

Era um alívio que não lhe fizesse uma dúzia de perguntas. Ele já tinha estado antes no povo, mas Blair imaginava que cada visita era um pouco como um passeio pela Disney World.

—Não te separe de mim, de acordo? Não quero ter que ir de caçada para te buscar.

—De acordo. —Agarrou-lhe a mão e a apertou ligeiramente quando ela tentou soltar-se. — Não deveria fazê-lo —disse com absoluta inocência nos olhos. — Poderia me perder.

—Isso é mentira.

—Absolutamente. —Entrelaçou seus dedos com os dela e pôs-se a andar. — Com toda esta gente, e a rua, e os sons e as vistas, poderia perder o rumo em qualquer momento. No Geall, o povo não é tão grande, e ali não vive tanta gente. Os dias que há mercado está mais cheio e tudo é muito colorido, mas ali sei onde estou.

—Você sabe onde está em todas as partes —respondeu ela com um sussurro.

Ele tinha bom ouvido, e seus lábios esboçaram um sorriso ante o comentário.

—Os dias que há mercado, a gente chega ao povo desde todas as partes. A comida é deliciosa...

—O que deve ser sua primeira prioridade.

—Um homem tem que comer. Mas também há tecidos e artesanato e música. Encantadoras pedras das montanhas e conchas marinhas. E se regateia, isso é o divertido. Quando estivermos novamente em casa, o dia que haja mercado te comprarei um presente.

Larkin fez um alto no caminho para estudar os objetos de lembrança e as jóias que havia na cristaleira de uma loja.

—Não tenho nada com o que possa regatear, e Hoyt me há dito que não podemos usar as moedas que trago comigo. Mas você gosta das quinquilharias. —Assinalou com o dedo um de seus pendentes. — De modo que o dia que haja mercado, comprarei-te algumas.

—Estamos muito ocupados para ir às compras. Vamos. —Blair atirou de sua mão. — Estamos aqui para comprar provisões, não quinquilharias.

—Não há necessidade de apressar-se. Podemos nos divertir um pouco enquanto estamos aqui. Por isso parece, não te diverte o suficiente.

—Se em novembro ainda estamos com vida, darei cambalhotas em meio da rua. E as darei completamente nua.

Ele a obsequiou com um de seus fulgurantes sorrisos.

—Essa é uma razão nova e importante para que eu lute. Não havia pensado nas cambalhotas, mas sim pensei em ti nua uma ou duas vezes. OH, olhe ali. Bolos!

Sexo e comida, pensou ela. Se tivesse incluído um par de cervejas e um jogo de futebol, o quadro estaria completo.

—Não. —Revirou os olhos, resignada e sem interesse algum, enquanto ele a arrastava ao outro lado da rua. — Tampouco viemos a comprar bolos. Confeccionei uma lista. Uma lista realmente larga.

—Logo poderemos nos ocupar dela. Vá, olhe esse daí. Esse grande, que tem chocolate.

—Eclair.

—Eclair —repetiu ele, fazendo que a palavra soasse quase como um orgasmo. — Deveria provar um, e eu também. —Voltou para ela aqueles olhos grandes e castanhos. — Sei amável, quer, Blair? Devolverei-lhe isso.

—Teria que estar gordo como um porco —murmurou ela, mas entrou na confeitaria para comprar dois éclairs.

E saiu levando também uma dúzia de pasteis assados.

Não tinha a menor idéia de como tinha conseguido convencê-la para que os comprasse, ou para que se desviassem de seu caminho a bisbilhotar em uma dúzia de lojas. Ela habitualmente —demônios, sempre — podia com tudo isso.

Então se precaveu da forma em que olhavam ao Larkin as empregadas das lojas, outras contas, as mulheres na rua. Era muito difícil poder também com tudo isso, decidiu.

Larkin as engenhou para conseguir que acontecessem uma hora sem fazer nada produtivo antes que ela pudesse arrastá-lo a completar a lista de provisões.

—Muito bem, terminamos. Não mais concessões. Agora levaremos tudo isto à caminhonete e voltaremos para casa. Acabou-se olhar cristaleiras e flertar com as empregadas.

—Realmente foi vergonhoso como esbanjaste seu encanto com essa amável mulher.

Blair o olhou sem alterar-se.

—É um cara verdadeiramente divertido. —Fez um gesto com o queixo. — Por ali. Sem desviar-se.

—Sabe?, A forma em que está construído este povo quero dizer, a forma em que estão riscadas as ruas, é muito parecida com a do Geall. E como estão apinhadas as lojas. E isto também é muito parecido a meu povo.

De que pudesse lhe deter, Larkin tinha aberto a porta de um Pub.

—Ah, o aroma é muito familiar. E há música. Assim que nos deteremos um momento.

—Larkin, devemos retornar à casa.

—E o faremos. Mas primeiro deveríamos beber uma cerveja. Eu gosto da cerveja.

Posto que Blair tinha os braços carregados de bolsas e pacotes, não pôde oferecer muita resistência quando Larkin a empurrou dentro do pub.

—É agradável sentar-se e beber um copo de cerveja depois de toda essa caminhada —disse ele. — Não é um copo —recordou.

—Uma pinta. Por estes lugares, habitualmente dizem pinta.

Blair se disse que tinha cedido pela caminhada. O homem estava exausto. E excitado.

Deixou cair as bolsas com as compras em cima e ao redor de uma cadeira junto a uma mesa baixa e logo se sentou.

—Uma cerveja. —Levantou um dedo. — E nada mais. Não quero ter mais problemas contigo.

—Fui acaso um problema para ti? —Agarrou-lhe uma mão entre as suas e começou a lhe beijar os dedos. — Não era essa minha intenção.

Blair entrecerrou os olhos.

—Espera um momento, espera um momento. Estiveste jogando comigo? Todo este assunto é a idéia que você tem de uma encontro?

Larkin franziu o cenho.

—Não sei que encontro é. Não posso levar a conta.

—Não, o que quis dizer é... deixa-o, não tem importância. Uma pinta do Guinness —lhe disse à garçonete que se aproximou da mesa —, e uma Harp.

—Que tal vai tudo? —perguntou-lhe Larkin à garçonete, e o rosto da jovem se iluminou com um sorriso.

—Muito bem, obrigado. E a ti?

—Tive um formoso dia. Vive no povo?

—No Ennis, sim. Está de visita?

—Sim, estamos de visita. Minha mulher é de Chicago.

—OH, eu tenho primos ali. Bom, bem-vindos a Irlanda então. Espero que estejam desfrutando da viagem. Em seguida lhes trarei as cervejas.

Blair tamborilou os dedos sobre a mesa enquanto lhe estudava.

—Não precisa te pôr em situação, verdade? Em ti é o natural.

—Não sei a que te refere.

—Não, provavelmente não. Em seu povo, as garotas também se comportam assim quando lhe vêem? Ruborizam-se e tremem de excitação?

Lhe cobriu as mãos com a sua.

—Não deve ter ciúmes, querida. Não penso em nenhuma mulher que não seja você.

—Te economize o fôlego! —Não pôde reprimir a risada. — Não me acreditaria isso nem que fosse o fim do mundo.

—Não há ninguém aqui, ou no Geall, que me tenha atraído como você. Pergunto-me se alguém poderá fazê-lo agora que te vi. Não é como as mulheres que conheço.

—Não sou como as mulheres que nenhum homem conhece.

O sorriso se apagou dos lábios do Larkin.

—Você crê que isso é teu defeito, uma falha, Ou... uma barreira —disse —, Algo que te volta menos atrativa que o resto das mulheres. E é falso. Quando digo que não é como as demais mulheres, quero dizer que é mais interessante, mais excitante. Mais sedutora. Basta!

A súbita e inesperada irritação na voz do Larkin fez que Blair reagisse.

—Basta o que?

—Outra vez puseste essa cara. A que diz tolices. Eu gosto de ser amável com as mulheres, isso não lhe faz mal a ninguém. —Larkin ficou olhando-a e, nessa ocasião, Blair pôde comprovar que teve que fazer um esforço para lhe sorrir à garçonete quando chegou com as bebidas. — Obrigado —disse a jovem. Logo levantou sua jarra e bebeu lentamente.

—Está zangado —murmurou ela, reconhecendo o brilho em seus olhos. — O que é o que tem feito que te zangasse desse modo?

—Eu não gosto da maneira em que te menospreza.

—Me menosprezar e uma... está louco?

—Agora me escute. Hei-te dito que eu gosto de ser amável com as mulheres e assim é. Eu gosto de flertar de vez em quando e desfrutar de um queda quando posso. Mas nunca faço mal às mulheres, nem com minhas mãos nem com minhas palavras. Eu não minto. De modo que quando te digo como te vejo, é a pura verdade. Acredito que é magnífica.

Bebeu outro gole de cerveja, assentindo quando ela se limitou a olhá-lo.

—Bom, vejo que te ficaste sem palavras. Magnífica —repetiu. — Em todos os sentidos, em seu coração e em sua mente. Magnífica pelo que faz todos os dias e tem feito durante anos; desde que foi pouco mais que um bebê. Nunca conheci a ninguém como você e nunca o conhecerei. O que te estou dizendo é que, se um homem lhe olhe e não vê quão maravilhosa é, é sua vista que está ruim, não você.

 

Voltaram para a rotina, o treinamento, o planejamento da estratégia. Pelos tremores e chamas que saíam da torre, Blair sabia que ali também se estava trabalhando com a magia.

Mas o que todos eles estavam fazendo com aquela atividade, pensava, era esperar.

—Temos que fazer um movimento. —Lançou uma série de golpes rápidos contra o pesado saco de areia que tinham pendurado em um extremo do que tinha sido o salão de baile. — Estamos apanhados em um cacho de cabelo de tempo e já é hora de que façamos algo. Sacudir um pouco as coisas.

—Estou de acordo. —Larkin a olhou, perguntando-se quantos níveis de frustração estava atravessando ao golpear esse grande saco que pendurava do teto. — Eu pensava em um ataque diurno às cavernas.

—Já estivemos ali. —Blair golpeou com ambos os punhos, esquerda, esquerda, direita. — Isso já o temos feito.

—Não, fomos ali, mas não os atacamos, verdade?

Molesta porque ele tinha razão... Pior ainda, porque Larkin não tinha mencionado que ela tinha estado ao bordo da morte depois da expedição ao Kerry, fulminou-o com o olhar.

—Se entrarmos ali estamos mortos. Ou ao menos a maioria de nós.

—É possível que seja assim, mas em qualquer caso é provável que todos acabemos mortos antes de que isto tenha terminado.

Uma dura verdade, pensou ela. Inegável.

—Sim, as probabilidades são essas.

—De modo que poderia haver uma maneira de lhes dar algo em que ocupar-se sem ter que entrar realmente nas cavernas e precipitar essa eventualidade. Embora eu gostaria de ter a possibilidade de fazê-lo, acossá-los em seu próprio terreno, para variar.

Agarrou uma das estacas e a lançou contra o boneco de palha que empregavam para praticar.

Ela entendia o sentimento e o compartilhava. Mas sabia que não deveria que sucumbir a ele.

—Sempre que for possível, não se deve lutar em seu terreno ou segundo seus termos. As cavernas são um suicídio.

—Poderia sê-lo para eles se as iluminarmos.

Blair lançou outro golpe e logo se voltou para ele.

—As iluminar?

—Fogo. Mas teríamos que fazê-lo nós dois. Os outros, Moira em particular, nunca estariam de acordo com esse plano.

Intrigada, Blair começou a tirar a bandagem protetora das mãos.

—Queria te perguntar isso, quando te transforma em dragão, lança fogo pela boca?

Ele a olhou com expressão surpreendida.

—Lançar fogo?

—Sim. Os dragões lançam fogo pela boca, verdade?

—Não. Por que foram fazer tal coisa? Como poderiam fazê-lo?

—Isso expõe também a questão de como pode um homem transformar-se em dragão, mas deixe estar; outra fantasia feita pedacinhos. Como pensa incendiar as cavernas?

Larkin levantou uma espada.

—Só seria necessário que um de nós entrasse o suficiente, só uns metros, no interior das cavernas. Isso eu gostaria. Mas... —voltou a baixar a espada — uma maneira mais prática de fazê-lo seria com flechas incendiárias.

—Disparar flechas incendiárias ao interior das cavernas a plena luz do dia. Bem, isso não deveria chamar muito a atenção. Não, não te estou desanimando —acrescentou antes que ele pudesse falar. — Um terremoto e o vôo de um dragão quase não fizeram pestanejar a ninguém. A gente usa óculos. Entretanto, há outro fator: ali dentro ainda há gente.

—Sei. Podemos salvá-los?

—Altamente improvável.

—Se eu estivesse encerrado em uma jaula, com a única perspectiva de servir de comida a um desses monstros, ou ser convertido em um deles, preferiria me queimar vivo. Você disse o mesmo.

—Estou de acordo contigo, mas necessitaríamos um ataque a grande escala para causar algum impacto. E tampouco está equivocado quando diz que nunca conseguiríamos convencer a outros. —Aproximou-se do Larkin e estudou seu rosto. — E você o diz, mas não poderia fazê-lo. Não quando chegasse o momento.

Larkin foi até o boneco de palha e recuperou a estaca. Ele queria ser capaz de fazê-lo; e o era, em sua cabeça. Mas em seu coração... isso era outra história.

—Você poderia?

—Sim, eu poderia. Logo teria que viver com isso, mas o faria. Estive liberando esta guerra toda minha vida, Larkin, e não se pode evitar que baixas. Vítimas inocentes... danos colaterais. Se pensasse que dessa maneira poderíamos acabar com este assunto, ou lhe causar um grave dano ao Lilith, já o teria feito.

—E crê que eu não posso fazê-lo.

—Sei que não pode.

—Porque sou débil.

—Não. Porque não é duro.

Larkin girou, lançou novamente a estaca e a cravou no coração do boneco de práticas.

—E você o é?

—Tenho que sê-lo. Você não viu o que eu vi, e ainda não sabe o que eu sei. Tenho que ser dura. O que faço me volta dura.

—O que você é, uma guerreira, uma caçadora, é um dom e um dever. Mas endurecer-se é algo que escolhe. Eu posso fazer o que tiver que fazer; e se esse fosse o caminho, esse sacrifício de homens e mulheres, viveria com isso. Doeria-me e me pesaria, mas faria o que fosse necessário.

«Com o peso suficiente —pensou ela quando Larkin se apartou — te endurece ou te afunda.»

E por isso trabalhava sozinha, recordou-se. Por isso estava sozinha. Desse modo não tinha que explicar-se, ou justificar-se. Por isso, depois da ruptura com o Jeremy, tinha aceito que a única maneira de fazer aquilo para o que tinha nascido era permanecendo sozinha.

Nesse momento ouviu uma explosão amortecida que procedia da torre e elevou a vista. Sem dúvida algumas pessoas encontravam essa intimidade, essa unidade, e conseguiam que funcionasse. Mas primeiro tinham que conhecer-se mutuamente, e aceitar todas as zonas escuras. Não só as tolerar mas também as assimilar.

Mas como, por isso se referia a ela e a sua vida, não formava parte do jogo. Voltou a enfaixar as mãos e reatou o treinamento golpeando o pesado saco de areia.

—Alguém que conhece? —perguntou Cian da porta.

Blair apenas se lhe dedicou um olhar. Agora estava usando os pés além das mãos. Chutes laterais, chutes para trás, altos dobre. O exercício era tão violento que estava banhada em suor e sua respiração era um ofego entrecortado.

—A professora de álgebra de décimo.

—Estou seguro de que essa mulher se merece uma boa surra. Alguma vez encontraste alguma aplicação para isso? Para a álgebra, quero dizer.

—Nunca.

Cian a olhou enquanto ela se lançava à carreira e golpeava o saco com um chute no ar que a ponto esteve de arrancar o da cadeia.

—Excelente estado físico. Mas é curioso, o que vejo nesse saco é o rosto do Larkin. —Sorriu ligeiramente quando ela fez um alto para recuperar o fôlego e beber um gole de água. — Acabo de vê-lo quando baixava. Parecia zangado, o qual é muito estranho nele, já que é um moço muito afável, não crê?

—Estou acostumado a provocar essas reações na gente.

—Sem dúvida. Larkin é um moço simpático e agradável.

—Também eu gosto.

Cian atravessou a habitação para recolher várias facas e logo começou a lançá-los ao branco que havia no outro extremo.

—Quando estiveste rodeado de humanos tanto tempo como eu, pode reconhecer facilmente rasgos e sinais. E, em meu lugar, sentiria curiosidade por suas escolhas. Por exemplo, eu me pergunto por que vocês dois não estão juntos. Tempos perigosos, possível fim do mundo e essas coisas.

As costas de Blair ficaram rígidas; podia sentir literalmente o estremecimento em sua coluna vertebral.

—Não estou acostumado a ir à cama com o primeiro cara que põe a tiro... Em caso de que fosse teu assunto.

—É sua escolha, é obvio. —Cian se aproximou do branco e extraiu as facas. Quando retornou junto a ela, os entregou com um gesto natural, quase afável. — Mas acredito que não se trata somente de que Larkin se encontre por aqui perto e esteja disponível.

Blair sopesou a faca agitando-o no ar e logo o lançou para o branco. A faca se cravou no centro.

—A que vem este súbito interesse por minha vida sexual?

—É só um estudo das reações humanas. Meu irmão partiu de seu mundo para vir a este. A deusa lhe assinalou o caminho e ele simplesmente o seguiu.

—Hoyt não se limitou a seguir à deusa.

—Não —conveio Cian ao cabo de um momento. — Veio encontrar a mim. Depois de tudo somos gêmeos, e o vínculo é muito profundo. Além disso, Hoyt é, por natureza, um homem leal e responsável.

Esta vez foi ela quem recuperou as facas do branco.

—É também um cara poderoso e valente.

—Sim, é-o. —Cian agarrou as facas e voltou a lançá-las. —As probabilidades indicam que lhe verei morrer. Isso não é algo que eu escolheria, mas embora consiga sobreviver a isto, ficará mais velho, seu corpo envelhecerá e morrerá.

—Um pensamento muito alegre, não crê? Pode que morra em paz, enquanto dorme, depois de uma vida larga e plena. Talvez depois de uma sessão de sexo realmente bom.

Cian esboçou um leve sorriso, mas esta não alcançou seus olhos azuis e serenos.

—Bem morra violentamente ou por causas naturais, o resultado é o mesmo. Vi mais morte que você, mais do que poderá ver em sua vida. Mas mesmo assim, você viu mais da que os humanos viram ou verão. E isso nos diferencia, a ti e a mim, do resto.

—Nesse aspecto não temos escolha —disse Blair.

—É obvio que a temos. Sei um pouco a respeito da solidão, e do que pode afugentá-la; embora seja por pouco tempo.

—Ou seja, deveria me equilibrar sobre o Larkin porque estou sozinha?

—Essa seria uma resposta. —Voltou a recuperar as facas e, esta vez, deixou-os em seu lugar. — A outra poderia ser que o olhasse mais atentamente; a ele e o que ele vê quando te olha. Enquanto isso, a tensão e a repressão lhe outorgam uma boa vantagem. Quer que disputemos um par de assaltos?

—Não diria que não.

Ela se sentia melhor. Machucada, mas melhor. Nada como uma luta corpo a corpo com um vampiro —incluso com um que não queria te matar — para limpar a cabeça. Agora baixaria à cozinha e comeria algo antes da sessão de treinamento da tarde.

Mas antes passaria por sua habitação e ficaria um pouco da nata mágica da Glenna nas zonas machucadas.

Entrou na habitação e se encontrou sobre a colina que dominava o Vale do Silêncio.

—OH, merda. Merda, merda. Não preciso voltar a ver isto.

—Sim o necessita. —Morrigan estava junto a ela, sua túnica azul pálido flutuando ao vento. — Precisa conhecê-lo, cada rocha, cada precipício, cada fibra de erva. Este é seu campo de batalha. Este será o lugar onde lutará a humanidade. Não nas cavernas do Kerry.

—De modo que só devemos esperar?

—Será muito mais que uma simples espera. Agora é caçadora e presa. O que faz, o que escolhe, aproxima-te cada vez mais a isto.

—Uma batalha. —Blair, subitamente cansada, passou-se uma mão pelo cabelo. — Todo o resto são só combate que nos conduzem até aqui. É assim, não? Essa batalha acabará com tudo isto?

Morrigan olhou ao Blair com seus olhos cor esmeralda.

—Nunca se acaba. Você sabe; em cada parte de seu corpo conhece esta única verdade. Mas se ela vos derrota aqui, os mundos serão jogados no caos. Haverá sofrimento, morte e tortura durante um tempo inimaginável.

—Entendi-o. Qual é a boa notícia?

—Tudo o que necessitam para vencer está em seu interior. Seu círculo tem o poder para ganhar esta guerra.

—Mas não para lhe pôr fim. —Blair jogou novamente uma olhada ao campo de batalha que se estendia ante seus olhos, à desolação que transmitia. — Para mim nunca acabará.

—A escolha é tua, pequena, sempre foi tua.

—Eu gostaria de poder partir. Alguns dias o desejo com toda minha alma, e outros... Outros penso «Vá, olhe o que estou fazendo, o que sou capaz de fazer», e isso me faz sentir, bom, virtuosa, acredito. Justa, em qualquer caso. Mas algumas vezes, quando retorno a casa depois de uma caçada e ali não há ninguém me esperando, tudo me parece muito duro, muito vazio.

—Teriam que ter cuidado de ti e não o fizeram —disse Morrigan, agora com tom suave. — E mesmo assim, tudo o que aconteceu antes, tudo o que vive agora, tem-te feito como é. Tem mais de uma batalha que ganhar, mais de uma busca que levar a cabo. E sempre, pequena, mais de uma alternativa.

—Ir não é uma delas para mim. De modo que viremos aqui e venceremos. Porque isso é o que temos que fazer. Não tenho medo a morrer. Não posso dizer que o esteja procurando, mas não tenho medo.

Voltou a olhar a paisagem, como a névoa enchia as cavidades do terreno, a forma em que as rochas se elevavam nele. Então, como sempre, essa visão fez que se estremecesse. Então, como sempre, viu-se si mesmo ali tendida, em meio de um atoleiro de sangue. Morta.

Esteve a ponto de perguntar se o que via era real ou imaginário, mas sabia que a deusa nunca lhe responderia.

—De modo que, se vou —decidiu Blair —, levarei-me a um montão deles comigo.

—Dentro de uma semana, vocês, o círculo de seis, irão ao Baile dos Deuses e, de ali, ao Geall.

Blair se voltou agora do bordo do precipício para olhar ao Morrigan à cara.

—Uma semana.

—Uma semana a partir de hoje. Já têm feito o que tinham que fazer aqui. Reuniste-lhes e agora, juntos, farão a viagem ao Geall.

—Como?

—Saberão em seu momento. Dentro de uma semana. Deve confiar naqueles que estão contigo e no que tem dentro. Se o círculo não chegar ao Geall, e a este lugar no momento indicado, este mundo, o teu e todos outros serão jogados na escuridão.

O sol se ocultou. Na negrume, Blair ouviu gritos, uivos, pranto. O ar, subitamente, impregnou-se de aroma de sangue.

—Não está sozinha —lhe disse Morrigan. — Nem sequer aqui.

Blair voltou para a realidade e se encontrou olhando ao Larkin aos olhos. Sentiu que os dedos dele se cravavam em seus ombros.

—Está aqui, agora está aqui. —Ela estava muito aturdida para apartá-lo quando a atraiu para ele e a estreitou entre seus braços enquanto apertava os lábios contra seu cabelo. — Está aqui. — repetiu. — Era o vampiro?

—Não. Vá! Tem que me soltar.

—Em um par de minutos. Está tremendo.

—Não acredito. Acredito que é você quem treme.

—É possível. Acaba-me de dar um susto de morte que me tirou seis vidas. —separou-se dela embora apenas uns centímetros. — Estava aí de pé, imóvel, olhando o vazio. Não me ouviste quando te falei. Não me viu quando me pus diante de ti. E seus olhos... —Agora apertou os lábios contra sua testa, firmemente, da forma em que ela imaginava que os pais comprovavam se seus filhos tinham febre. — Tão escuros, tão profundos...

—Era Morrigan. Levou-me a uma pequena excursão. Estou bem.

—Quer te deitar e descansar um momento? Relaxer. Ficarei contigo.

—Não, hei dito que estou bem. Acreditava que estava zangado comigo.

—Estava... um pouco. É uma criatura frustrante, Blair, e nunca tive que trabalhar tanto para cortejar a uma mulher.

—Cortejar? —Algo se fechou de repente em sua garganta. — Eu não gosto desse assunto do cortejar.

—Isso está bastante claro, mas a mim sim. E um homem tem que dar prazer a si mesmo tanto como à mulher que lhe atrai, verdade? Mas em qualquer caso, já estivesse ou não zangado ou frustrado contigo, não te deixaria sozinha.

«Eles sempre o fazem —sussurrou uma pequena voz em sua cabeça. — Cedo ou tarde.»

—Estou bem. Só um pouco abalada depois de ter recebido uma mensagem da terra dos deuses.

—Qual é a mensagem?

—Será melhor reunimos todos e lhes darei isso quanto antes. Na biblioteca —disse ela. — É o melhor lugar.

Passeava-se de um lado a outro da habitação esperando ao Hoyt e Glenna. Pelo visto, a magia não podia ser interrompida nem sequer por mensagens enviadas pelos deuses. Jogou com as duas cruzes que tinha penduradas no pescoço enquanto lutava contra a impaciência. Uma delas tinha usado quase toda sua vida. Tinha passado através de sua família, através de Nola, e todo o caminho até chegar de volta ao Hoyt. A Cruz de Morrigan, uma das que tinha entregue a ele ao início daquela luta, enquanto Hoyt ainda se encontrava em sua época.

A segunda cruz tinha sido forjada pela Glenna e ele com prata, fogo e magia. Um símbolo de equipe, supunha, um escudo, que cada um deles —exceto Cian — levava em todo momento.

A primeira, recordava, tinha-lhe salvado a vida em uma ocasião. De modo que a magia, supunha, tinha prioridade sobre a impaciência.

Contudo, quando Moira lhe ofereceu uma infusão, ela meneou a cabeça.

Já estava repassando em sua cabeça o que deviam fazer... e a maior parte disso não gostava de nada. Mas era movimento, e isso era o que queriam. O que necessitavam.

—Fora há dois deles —disse Moira com calma. — Não vimos a nenhum durante dias, mas agora há dois deles aí fora, justo onde começa o bosque.

Blair se aproximou da janela que tinha mais perto e olhou para fora.

—Sim, posso vê-los. Com muita dificuldade.

—Vou pegar meu arco?

—É um tiro comprido em meio da escuridão. —Logo Blair se encolheu de ombros. — Mas sim, por que não? Embora não alcance a nenhum deles, isso lhes demonstrará que não estamos desatentos.

Blair olhou a seu redor enquanto Moira abandonava a biblioteca. Cian estava ajeitado em uma poltrona, com uma taça de vinho e um livro. Larkin estava sentado no sofá, bebendo cerveja e olhando-a.

Ela não queria a infusão que Moira lhe tinha dado, não queria relaxar-se. Tampouco queria que o álcool lhe embotasse os sentidos. De modo que passeou uns minutos mais e logo se aproximou novamente à janela. Viu o vampiro no tronco da esquerda. Nem sequer tinha visto a flecha, mas sim viu como o segundo vampiro desaparecia entre as árvores.

«Não, não estamos desatentos », pensou.

—Sinto que tenhamos demorado tanto, mas não podíamos deixar pela metade o que estávamos fazendo. Infusão. Perfeito. —Glenna foi diretamente à mesa e se serve uma taça para ela e outra para o Hoyt. — Ocorreu algo?

—Sim. Moira voltará em um momento. Foi acima, para liquidar a um dos vampiros que estava fora da casa.

—OH. —Glenna deixou escapar o ar ruidosamente enquanto se sentava. — De modo que retornaram. Bom, foi agradável enquanto durou.

—Só pude alcançar a um deles. —Moira entrou na biblioteca com seu arco. — Estava muito escuro para distinguir ao segundo vampiro e provavelmente tivesse sido desperdiçar uma flecha.

Mas deixou apoiados o arco e a aljava junto à janela se por acaso tinha outra oportunidade.

—Muito bem, agora já estamos todos aqui. Recebi uma visita de Morrigan... Ou tem feito que eu a visitasse. Como quer que tenha sido, funcionou.

—Tiveste uma visão? —perguntou Hoyt.

—O que fosse. Estive no campo de batalha. Estava vazio. Só vento, névoa e Morrigan. E um montão de questões críticas relacionadas com os deuses até chegar à conclusão de que devemos partir ao Geall dentro de uma semana. Isso é o que há dito ela.

—Retornamos ao Geall? —Moira se aproximou do Larkin e apoiou uma mão sobre seu ombro. — Retornamos ao Geall.

—Isso é o que há dito a senhora —confirmou Blair. — Temos uma semana para nos preparar para a viagem. Para decidir o que necessitamos, fazer a bagagem e acabar o que for que estejam fazendo na torre mágica. Devemos ir ao círculo de pedra, o caminho pelo que vocês chegaram aqui —acrescentou, fazendo um gesto com a cabeça para o Larkin e Moira. — A forma em que Hoyt também chegou. Não sei como funciona, mas...

—Temos chaves —lhe disse Moira. — Morrigan me deu uma chave e outra ao Hoyt.

—Pois eu diria que os acertos da viagem dependem de vocês então. Levaremos todas as armas que possamos carregar. Poções, loções... tudo o que Glenna e Hoyt considerem que pode nos ser de utilidade. O principal problema que vejo é que, para que Cian possa ir ali, temos que esperar um dia muito nublado ou abandonar a casa depois que se pôs o sol. Considerando que de novo há vigias no bosque, saberão imediatamente que nos pusemos em marcha e tentarão nos deter, disso não cabe a menor duvida.

—E dirão ao Lilith que nos largamos —acrescentou Glenna.

—E ela saberá aonde. De modo que, quando retornarmos ao Geall, a levaremos até ali. —A mão da Moira se esticou sobre o ombro do Larkin. — Levarei essa praga a meu povo.

—É algo inevitável... —começou a dizer Blair.

—Falas assim porque te acostumaste a viver com isso. Eu quero ir a casa —disse Moira. — Tenho tantas vontades de retornar que não posso nem expressá-lo, mas levar comigo uma coisa tão maligna? E o que passa se a batalha alguma vez se produz? Se encontrarmos seu portal e o selamos? Poderíamos trocar o destino.

O destino, em opinião de Blair, era algo que era melhor não tomar à ligeira.

—Então a batalha se livraria aqui —disse —, onde não estava previsto. Com o que nossas possibilidades de vitória diminuiriam drasticamente.

—Moira —interveio Larkin ao tempo que se levantava e rodeava o sofá até ficar diante de sua prima. — Não amo ao Geall menos que você, mas este é o caminho. Foi o que pediram a ti e o que você me pediu .

—Larkin.

—A praga da que falas já infestou Geall. Levou a sua mãe. Pediria-me agora que abandonasse aos meus, que traísse sua confiança? Que fizesse perigar a missão?

—Não. Sinto muito. Não tenho medo por mim. Já não. Mas vejo os rostos de toda essa gente nas jaulas e se convertem nos rostos daqueles que conheço, da gente do Geall. E sinto medo. —Tranqüilizou-se. — Se trata de algo mais que Geall, sei. Partiremos dentro de uma semana.

—Uma vez que estejamos ali formaremos um exército. —Hoyt olhou a Moira. — Pedirá a sua gente que lute, que se unam a este círculo.

—Eles lutarão.

—Isso suporá muito treinamento —assinalou Blair. — E será mais complicado ainda que o que estivemos fazendo até agora. Nós só somos seis, e teremos que ser capazes de reunir a centenas de homens. Por outra parte, não se trata só de pôr uma estaca em suas mãos, terá que lhes ensinar a matar vampiros.

—Com uma exceção —assinalou Cian, e elevou sua taça a modo de saudação.

—Ninguém te porá as mãos em cima —lhe assegurou Moira.

Respondeu-lhe com um sorriso indolente.

—Pequena Rainha, se acreditasse que não ia ser assim, lançaria confete ao ar e lhes desejaria uma boa viagem.

—Muito bem, há outra coisa. —Blair se aproximou de novo a uma das janelas, só para ver se algum vampiro se arriscou a aproximar-se da casa. — Pelo que sabemos, Lilith também poderia haver ficado em marcha. Inclusive é possível que chegue ali antes que nós. Podemos fazer algo com o círculo de pedras, algum encantamento, para saber se tiver sido utilizado para... abrir a porta?

—Deveria haver algum. —Glenna olhou ao Hoyt. — Sim, acredito que podemos fazê-lo.

—Não há necessidade de que o façam. Ela não pode usar o Baile dos Deuses. — Larkin agarrou novamente sua garrafa de cerveja. — Moira, não disse quando atravessamos o portal que um demônio não podia entrar no círculo?

—É um lugar puro —conveio ela. — Essas criaturas não podem entrar no anel, e muito menos utilizá-lo para passar de um mundo a outro.

—De acordo, temos outro problema maior.

Cian confirmou o comentário de Blair elevando novamente sua taça.

—Parece que, depois de tudo, terei que lançar o confete.

—Isso é realmente grave, verdade? Tinha-o esquecido. —Larkin franziu os lábios antes de beber outro gole de cerveja. — De modo que teremos que encontrar como solucionar isso. Tal como eu o entendo, devemos ir os seis, assim deve haver um modo de fazê-lo. Só precisamos encontrá-lo.

—Iremos todos juntos —disse Hoyt apartando sua taça — ou não iremos.

—Aye —assentiu Larkin. — Não deixamos a ninguém para atrás. E esta vez levaremos o cavalo —se recordou a si mesmo, e sorriu olhando a Cian. — Se não te importa.

—Resolveremos o problema. A alguém lhe ocorre alguma solução mágica? —perguntou Blair ao Hoyt.

—A deusa deve interceder. Tem que fazê-lo. Se Glenna e eu tentamos abrir o portal para que Cian possa passar, poderíamos mudar tudo, perturbar o poder; fechar o passo por completo de modo que ninguém possa entrar... ou voltar a sair.

—Cada vez que troca a natureza de algo —explicou Glenna — te arrisca a que haja conseqüências. Em realidade, a magia tem muito em comum com a física. O círculo é um lugar sagrado, terreno santo, isso não podemos alterá-lo. Mas ao mesmo tempo, Cian deve ir conosco, e a instâncias da deusa. Assim, trabalharemos nesse portal.

—Se existir outro caminho, outro portal que Lilith precise utilizar, possivelmente Cian também pudesse utilizá-lo. —Blair olhou a este com o cenho franzido. — Essa seria minha segunda opção. Eu não gosto que nos separemos, especialmente no dia de traslado.

—Somado ao feito —lhe recordou Cian — de que não sei onde demônios poderia estar esse portal ou janela.

—Sim, isso também. Mas possivelmente possamos descobri-lo.

—Outro encantamento de busca? —Glenna agarrou a mão do Hoyt. — Podemos tentá-lo.

—Não. Não estava pensando em feitiços. Não exatamente. —Blair inclinou a cabeça e estudou ao Larkin. — Qualquer ser vivo, verdade?

Ele deixou a garrafa de cerveja e sorriu lentamente.

—Assim é. No que está pensando?

 

—Está seguro de que quer fazer isto? —Blair se encontrava na torre, com o Larkin. — Sei que foi minha idéia, mas...

—E uma boa idéia sem dúvida. Ah, agora está preocupada comigo, a stor?

—Enviar desarmado a um ninho de vampiros fortificado, um ninho protegido por escudos mágicos. Não. Por que teria que estar preocupada?

—Não necessitarei armas, e não seria fácil levar uma com a forma em que vou.

—Algo estranho que veja, larga-te imediatamente dali. Não queira te fazer o herói.

—Nasci para ser um herói.

—Estou falando sério, Larkin, nada de atos para impressionar ao público. —Já começava a notar o estômago revolto. — Esta missão é só para solicitar informação. Qualquer sinal de que Lilith está a ponto de ficar em marcha, quanta gente tem, se pode te fazer uma idéia aproximada, uma olhada a seu arsenal...

—Já me há isso dito um par de vezes. Acaso te parece que sou idiota?

—Deveríamos esperar a que amanhecesse, depois lhe levaríamos de carro até o escarpado. Ali estaremos se por acaso tem problemas.

—Como você mesma disse, é mais que provável que mantenham as cavernas bloqueadas durante as horas de luz. E é menos provável que esperem nada de noite, como eu disse. Se for ser um soldado nesta guerra, Blair, devo fazer tudo o que possa.

—Só digo que não faça nada estúpido.

Apressada pela necessidade e a preocupação, Blair agarrou o cabelo do Larkin com ambas as mãos e aproximou seu rosto ao dele.

Manteve o medo fora do beijo. Não era medo precisamente o que queria lhe transmitir. Entregou-lhe em troca calor e esperança, e se manteve pega a ele enquanto o impacto do beijo percorria de cima abaixo.

—Não tão depressa —disse ele quando ela começou a apartar-se. E a fez girar de modo que suas costas ficaram contra a parede da torre. — Não acabamos ainda.

Isso era o que Larkin tinha estado procurando, esse fogo. Chamas ardentes surgiam dela para percorrer o sangue dele. Deixou que o queimassem enquanto a agarrava pelos quadris e acariciava seu corpo com as mãos. Para poder levar-se sua forma.

—Cian os atraiu diante de...

Moira se interrompeu, com os olhos abertos como pratos ao ver o Blair e a seu primo beijando-se apaixonadamente.

—Sinto muito.

—Não há problema —a tranqüilizou Larkin. — Só era um beijo de despedida. —Agarrou o rosto de Blair entre as mãos. — Estarei de retorno pela manhã.

Logo se voltou e abriu os braços para a Moira.

Ela correu a refugiar-se entre eles.

—Tome cuidado. Não suportaria te perder, Larkin. Lembre-se, lembre que todos lhe estaremos esperando, e retorna são e salvo.

—Ao amanhecer. —Beijou a Moira em ambas as bochechas. — Mantenham uma vela acesa por mim.

—Estaremos vigiando. —Blair se voltou e abriu a janela. —Com o cristal da Glenna, todo o tempo que nos seja possível.

—Não me incomodaria nada comer uma dessas torradas empanadas em ovo e leite quando voltar.

Olhou-a fixamente.

O primeiro que trocou no Larkin foram os olhos. Blair se deu conta então. Em primeiro lugar, a pupila e a íris, logo brilharam incandescentes.

O falcão a olhou do mesmo modo em que o tinha feito o homem e, continuando, elevou o vôo para a noite, silencioso como o ar.

—Estará bem —disse Blair com um sussurro. — Estará bem.

Moira procurou sua mão e, juntas, ficaram olhando o céu até que o falcão se perdeu de vista.

 

Remontou no ar. Com a altura alcançada e seus olhos de falcão, Larkin pôde ver os que se moviam furtivamente ao redor da casa. Contou oito, uma pequena partida pois, e provavelmente vigias, como havia dito Blair. Contudo, voltou a voar em círculos sobre a casa para assegurar-se de que se tratava de um grupo de exploração e não de uma força de ataque.

Ao ampliar o círculo, divisou a caminhonete ao final do atalho, justo depois do desvio. É obvio, pensou, necessitavam algum meio para sair das cavernas e retornar a elas, verdade? Mas resultava ousado e um tanto insultante que deixassem sua máquina tão perto da casa.

Voltou a descrever um círculo no céu, estudando a situação, e logo se lançou em picado para baixo.

Recordou o que Glenna havia dito sobre o funcionamento da caminhonete, que se necessitava uma chave para... como era?, ignição. Era uma pena que não a tivessem deixado ali pendurada, na máquina.

Mas recordou deste modo que Glenna lhe tinha explicado que as rodas sobre as que se apoiava a máquina estavam cheias de ar. Se a roda se perfurava e o ar escapava de seu interior, a roda se desinflava, o qual era uma verdadeira dor de cabeça, havia dito ela.

Pensou que seria produtivo, e divertido ao mesmo tempo, lhes dar aos vampiros uma dor de cabeça.

Trocou de forma e se converteu em um unicórnio, com uma pátina dourado pálido sobre sua pele branca. E, baixando a cabeça, cravou seu corno bicudo no pneu. Produziu-se um agradável estalo, e logo se ouviu o assobio do ar ao escapar através do orifício. Para assegurar-se, perfurou o pneu pela segunda vez.

Satisfeito, Larkin trotou ao redor da caminhonete e perfurou os três pneumáticos restantes até que viu que o veículo ficava apoiado sobre quatro rodas desinfladas. «A ver como fazem agora para que esta máquina volte a funcionar, bastardos», pensou.

Logo voltou a elevar-se, com suas asas desdobradas, e voou para o sul.

A luz da lua era suficiente para guiá-lo, e soprava um vento fresco que o ajudava a manter a velocidade. Ali abaixo podia ver a terra, como se estendia ondulando na distância. As colinas elevadas, o variado mosaico dos campos.

As luzes brilhavam fracamente nos casarios e nos povoados maiores.

Pensou nos animados pubs, com a música enchendo o ambiente e o aroma da cerveja e as belas mulheres. As vozes da gente e o som das risadas. Uma noite, quando toda essa história tivesse acabado, ele queria sentar-se em um pub em companhia de seus amigos, essas cinco pessoas que eram vitais para ele, e elevar uma jarra de cerveja com todas essas vozes, com toda essa música a seu redor.

Era uma boa imagem para que o acompanhasse durante seu comprido vôo até o ninho dos monstros.

Abaixo, pôde ver o comprido e belo curso do rio que chamavam Shannon.

Era uma terra formosa, pensou, tão verde como a de seu lar, e com o mar muito próximo. Podia ouvir o som das ondas para o sudoeste.

Sabia que o dragão era mais veloz, mas se tinha decidido pelo falcão. Desejou poder voar de novo por ali, em forma de dragão, com a Blair montada em seu lombo. Ela poderia lhe dizer os nomes do que se via de cima, os povoados e as ruínas, os rios e os lagos. Conheceria ela o nome daquela cascata que agora estava sobrevoando, a que era tão alta e poderosa como a Faene Falls, no Geall?

Recordou o tato de suas pernas obstinadas em torno de seu corpo enquanto se elevavam no ar. A forma em que riu. Nunca conheceria ninguém como ela, caçadora e mulher, tão forte e vulnerável de uma vez. O punho disposto e um coração tão tenro.

Gostava de sua forma de falar, rápida e segura. E o modo em que seus lábios se curvavam para cima, primeiro uma comissura e logo a outra, quando sorria.

Sentia uma grande atração pela Blair que lhe parecia tão natural como o fato de respirar. Mas havia algo mais misturado com isso; algo intenso que não alcançava a reconhecer. Seria muito interessante descobrir o que significava.

Voou por cima da grande cascata e do frondoso bosque que a rodeava. Passou a baixa altura sobre o débil resplendor dos lagos, onde se refletia a luz das estrelas. E se dirigiu para o feixe de luz do farol que coroava os escarpados.

Começou a descender, silencioso como uma sombra.

Alcançou a ver duas figuras na estreita franja rochosa. Uma mulher, comprovou, acompanhada de um menino. O alarme fez que o coração se esticasse dentro de seu pequeno peito. Os monstros os capturariam se vagavam na escuridão perto das cavernas. Prisioneiros, depois usados e logo assassinados. E ele não tinha armas para defendê-los.

Descendeu até posar-se depois da sombra de uma rocha, e a ponto esteve de recuperar a forma humana para lhes advertir. Mas nesse momento, a mulher se voltou para lhe sorrir ao menino, e a fria luz branca da lua lhe iluminou o rosto.

Ele a tinha visto somente uma vez antes de então de pé no alto dos escarpados. Mas jamais esqueceria seu rosto.

Lilith. A autoproclamada Rainha dos mortos vivos.

—Por favor, mamãe, por favor, quero caçar.

—Davey, recorda o que te disse. Nós não caçamos perto de casa. Temos muita comida dentro e, posto que foste tão bom... —agachou-se para lhe dar uns golpezinhos no nariz, um gracioso gesto de carinho —, pode escolher o que mais você goste.

—Mas não é tão divertido tendo-os ali.

—Sei. —Lilith suspirou enquanto lhe revolvia o cabelo, brilhante e dourado. — Não resulta muito excitante. Mas já não fica muito. Quando estivermos no Geall poderá caçar todas as noites.

—Quando?

—Logo, meu precioso corderinho.

—Já estou farto de estar aqui.

Com tom petulante, o menino chutou o chão rochoso.

Larkin pôde ver que tinha o rosto de um pequeno diabinho, redondo e doce.

—Eu gostaria de ter um gatinho. Por favor, mamãe, posso ter um gatinho? Não comerei isso, como a última vez.

—Isso mesmo disse do cachorrinho —lhe recordou ela com uma risada breve e alegre. — Mas já veremos. O que diz a isto? Soltarei a um dos prisioneiros para ti, para que corra através das cavernas. Você pode lhe perseguir e lhe dar caça. Não crê que seria divertido?

Quando o menino sorriu, a luz da lua revelou uma expressão iludida em seu rosto coberto de sardas, e arrancou reflexos de suas presas.

—Posso ter dois?

—É um glutão. —Ela o beijou mas segundo Larkin pôde comprovar, não da maneira em que uma mãe beija. —Isso filho é o que eu adoro de ti, meu único e verdadeiro amor. Vamos dentro e poderá escolher os que mais você goste.

Detrás da rocha, Larkin voltou a trocar de forma. Um rato largo e escuro se deslizou dentro das cavernas, detrás das saias de Lilith.

Podia cheirar a morte e ver os seres que se moviam na escuridão. Inclinavam a cabeça quande Lilith passava junto a eles.

A luz era escassa, apenas um punhado de tochas fixadas às paredes. Mas à medida que entravam no labirinto de cavernas, a luz adquiria uma esvaída tonalidade verde que ao Larkin pareceu artificial. Magia, sabia, do mesmo modo que sabia que essa magia não era branca e limpa.

Lilith atravessou o labirinto de cavernas, segurando a mão do menino que trotava a seu lado. Os vampiros subiam pelas paredes como se fossem aranhas, ou penduravam do teto como morcegos.

Só esperava que não estivessem excessivamente interessados em um aperitivo de sangue de rato.

Seguiu o sussurro das saias de Lilith procurando manter-se nos rincões escuros.

Os sons de um sofrimento humano indescritível começaram a ressonar na cova.

—Que classe de humano quer, querido? —Lilith balançou os braços junto com os do pequeno, como se tivessem saído de passeio e estivessem frente a uma apetitosa cristaleira. — Um jovem e magro ou possivelmente outro com um pouco mais de carne?

—Não sei. Primeiro quero olhá-lo aos olhos. Então saberei.

—Menino esperto. Faz que me sinta orgulhosa de ti.

Havia mais jaulas das que tinha imaginado e o simples horror dessa cena obrigou ao Larkin a fazer um esforço para não trocar de forma. Queria transformar-se em um homem, agarrar a espada de um dos guardas e começar a cortar cabeças.

Poderia acabar com uns quantos, e possivelmente merecesse a pena morrer por isso, mas nunca conseguiria resgatar a nenhuma dessas pessoas.

Blair já o tinha advertido, mas ele não a tinha escutado de tudo.

Agora, o menino se soltou da mão de sua mãe e se passeava, com as mãos à costas, por diante das jaulas. Um menino olhando os bolos expostos em uma confeitaria, pensou Larkin.

Davey se deteve franzindo os lábios enquanto estudava a uma moça que estava agachada na esquina de uma das jaulas. Parecia que estivesse cantando ou possivelmente rezando, já que as palavras resultavam ininteligíveis. Mas Larkin viu que seus olhos já estavam mortos.

—Caçar a esta não seria nada divertido. —Inclusive quando Davey a tocou através dos barrotes, a moça permaneceu impassível. — Já não tem medo.

—Às vezes se voltam loucos. Depois de tudo, suas mentes são débeis, igual a seus corpos. —Lilith assinalou para outra das jaulas. — O que me diz de este?

O homem que havia na jaula balançava entre seus braços a uma mulher que estava dormida ou inconsciente, com sangue no pescoço e o rosto pálido como a cera.

—Vadia. É uma vadia, o que lhe tem feito? Matarei-te.

—Vá, este parece que ainda conserva um pouco de vida! —Lilith sorriu satisfeita e se tornou para trás a cabeleira dourada. — O que opina, querido?

Davey elevou a cabeça e logo a meneou.

—Não correrá. Não quererá abandonar a sua mulher.

—É muito observador, Davey. —Sua mãe se agachou e o beijou em ambas as bochechas com evidente orgulho. — Que menino tão grande e tão inteligente.

—Quero esta. —Assinalou a uma mulher que apertava as costas contra o fundo da jaula. Seus olhos olhavam para todas as partes. — Tem medo e pensa que talvez, talvez, possa escapar, de modo que correrá e correrá e correrá. E a esse. —Davey assinalou para cima. — Está louco, quer lutar. Olhe como sacode os barrotes.

—Acredito que são duas escolhas excelentes —disse Lilith, e fez estalar os dedos em direção a um dos guardas, os quais levavam uma armadura ligeira e cascos de couro. — Liberem a esses dois e façam correr a voz. Não os deve tocar, exceto para impedir que abandonem as cavernas. Pertencem ao príncipe.

Davey começou a dar saltos ao tempo que aplaudia entusiasmado.

—Obrigado, mamãe! Quer jogar você também? Compartilharei-os contigo.

—Isso é doce de sua parte, mas agora tenho que fazer algumas coisas. E recorda que deve te lavar quando tiver terminado de comer. —voltou-se novamente por volta de um dos guardas. — Diga a lady Lora que quero que se reúna comigo na cova do mago.

—Essa primeiro. —Davey assinalou à mulher.

Esta começou a gritar e se debateu com desespero quando o guarda a tirou rastros da jaula, enquanto outro guarda fazia retroceder a golpes aos que estavam com ela e pretendiam impedir que a levassem.

O corpo do Larkin lhe pedia fazer algo. Algo.

Davey se inclinou para farejar à tremente mulher e assim fixar seu aroma.

—Agora é minha, e jogarei contigo todo o tempo que deseje, verdade, mamãe?

—Assim é, querido.

—Solta-a —ordenou Davey ao guarda. Logo, seus olhos desprenderam um resplendor avermelhado enquanto olhava à mulher. —Corre, corre, corre! Joguemos esconde-esconde! —gritou, quando ela se afastou a tropicões.

Davey se encarapitou à parede e ficou ali enquanto sorria ao Lilith por cima do ombro. Logo desapareceu na escuridão.

—É agradável ver como desfruta. Liberem ao outro em, digamos, quinze minutos. Enquanto isso, estarei com o mago.

Retornaria, disse-se Larkin. Uma vez cumprida sua missão, voltaria e abriria as jaulas. Ao menos isso daria aos prisioneiros uma possibilidade de lutar para escapar. Para sobreviver.

Mas nesses momentos, fazendo ouvidos surdos aos gritos e gemidos, e também a seus próprios instintos, seguiu ao Lilith.

A prisão estava separada por um comprido túnel do que se supunha que eram as zonas destinadas a moradia, armazenamento e trabalho. Lilith tinha construído ali uma espécie de mansão subterrânea. Havia toda uma série de habitações, algumas delas ricamente mobiliadas, outras fechadas com portas protegidas por guardas armados.

Um homem e uma mulher vestidos com jeans e sweaters, levavam roupa de cama limpa através do túnel. Obviamente criados, decidiu Larkin, e pensou que provavelmente se tratasse de criados humanos. Quande Lilith se aproximou, ambos se detiveram e lhe fizeram uma profunda reverência.

Ela seguiu seu caminho como se não os tivesse visto.

Larkin ouviu o som de gente combatendo e se deteve um momento para jogar uma olhada a um dos túneis. Viu uma zona de treinamento não muito diferente da que eles utilizavam na casa de Cian. Nas cavernas, as criaturas, homens e mulheres, praticavam com espadas ou tacos, facas ou com as mãos nuas.

Dois prisioneiros, desarmados e com grilhões, eram utilizados do mesmo modo em que ele e seu círculo usavam os bonecos de práticas.

Viu a criatura chamada Lora cruzando seu aço com um homem maior que ela. Não levavam nenhum amparo, e as espadas, conforme pôde comprovar, mostravam um fio mortal.

Lora saltou sobre seu companheiro de treinamento com um movimento tão veloz que foi apenas uma mancha fugaz. Embora o homem se voltou, a espada o feriu no peito.

Quando caiu ao chão, Lora se equilibrou sobre ele.

—Sempre falha esse golpe. —inclinou-se e lambeu seu sangue com expressão divertida. — Se fosses humano, mon cher, estaria morto.

—Ninguém pode te superar com a espada. —Sua respiração era entrecortada, mas elevou uma mão e lhe acariciou a bochecha. — Não sei por que o tento.

—Se Lilith não me necessitasse, disputaríamos outro assalto.

Passou um dedo por sua bochecha e logo lhe deu outra lambida.

—Talvez mais tarde... para o amanhecer.

—Se a Rainha não me necessita, virei a te buscar —respondeu Lora.

Então voltou a inclinar-se, e o beijo foi comprido e apaixonado.

Embainhou a espada ensangüentada e partiu, com Larkin atrás dela.

Lora apenas se deteve quando a mulher que tinha sido liberada para que o menino jogasse, caiu chorando diante dela. Lora se limitou a lhe passar por cima e olhar o par de olhos vermelhos que brilhavam na escuridão.

—Jogando pega-pega, Davey?

—Eu queria jogar esconde-esconde, mas ela não deixa de cair. Faz que se levante, Lora! Faz que corra um pouco mais. O jogo ainda não terminou.

Lora deixou escapar um suspiro de resignação.

—Ça va. —agachou-se e levantou a cabeça da mulher agarrando-a pelo cabelo. — Se não correr e mantém entretido a nosso querido Davey, prometo-te que te cortarei os dedos um por um. Primeiro os das mãos e logo os dos pés. —incorporou-se arrastando à outra com ela. — Agora, allez!.

Quando a mulher se afastou chorando, Lora voltou a vista para o Davey.

—Por que não lhe concede algo mais de vantagem inicial? É mais esportivo e assim o jogo durará mais tempo.

—Seria mais divertido se você também jogasse. Sempre é mais divertido contigo.

—E não há nada que eu gostasse mais que jogar contigo, mas sua mãe quer me ver agora. Talvez mais tarde possamos jogar a outra coisa.

Lora lhe soprou um beijo e continuou seu caminho.

Larkin, profundamente enojado, seguiu-a.

A vampira em uma habitação. Larkin sentiu as ondas de magia ao tempo que se apressava a entrar atrás dela.

—Ah, Lora, estávamos-lhe esperando.

—Estava terminando um assalto com o Lucio e logo encontrei ao Davey. O estava passando de maravilha.

—Sim, estava louco por jogar.

Lilith estendeu uma mão e Lora se aproximou e a agarrou. Juntas, quase bochecha com bochecha, olharam ao homem que estava no centro da habitação.

Levava uma espécie de túnica negra debruada em vermelho. Seu cabelo era uma espessa juba chapeada que emoldurava um rosto de olhos negros como o ônix, nariz largo e aquilino e uma boca de lábios finos que não sorria.

Atrás dele havia um fogo que ardia sem lareira, nem troncos nem turfa. Suspenso em cima do fogo havia um caldeirão de que saía uma fumaça verde pálida, a mesma cor da luz nauseabunda que brilhava nas cavernas. Sobre duas mesas largas se viam frascos e potes. O que fosse que nadasse em seu interior parecia viscoso, e vivo.

—Midir. —Lilith assinalou ao homem com um amplo gesto do braço. — Queria que Lora nos acompanhasse quando mantivéramos esta discussão. Ela me tranqüiliza. Como sabe, necessitei um pouco de tempo para recuperar a calma depois do desastre que sofremos faz uns dias.

Lilith caminhou uns passos, agarrou um pequeno garrafão e verteu líquido vermelho em um copo. Cheirou-o.

—Fresca? —perguntou-lhe ao mago.

—Sim, minha senhora. Extraída e preparada para você.

Lilith bebeu um gole e ofereceu o copo a Lora.

—Deveria te perguntar se já estiver completamente restabelecido de suas feridas.

—Estou bem, minha senhora.

—Peço-te desculpas por ter perdido os nervos, mas me decepcionou, Midir. Profundamente. Seu castigo teria sido muito mais severo se Lora não me tivesse tranqüilizado. Eles se levaram esse ganho sob meus próprios narizes. E deixaram uma mensagem insultante na porta de minha casa. Você foi o encarregado de proteger meu lar dessas situações e falhou miseravelmente.

—Sinto-me humilhado, minha senhora. —ajoelhou-se e inclinou a cabeça. — Não estava preparado para esse intento, e tampouco para a força do poder que continha. Não voltará a ocorrer.

—É obvio que não, do contrário te entregarei a Lora. Sabe quanto tempo pode manter a um homem com vida?

Desviou o olhar para sua companheira com um doce sorriso cúmplice.

—Houve esse cara, em Budapeste —recordou Lora. — O mantive vivo durante seis meses. Poderia ter feito que durasse mais, mas me aborreci dele. Não acredito que pudesse me aborrecer do Midir embora passassem anos. Mas...

Lora deslizou brandamente a mão pelas costas de Lilith.

—Ele nos resulta útil, chérie. Possui um grande poder e está ligado a ti, n'est-cepas?

—Me fez promessas, muitas e grandes promessas. Silêncio —disse bruscamente quando Midir voltou a elevar a cabeça. — Devido a essas promessas ainda tem que sentir minha mordida. Mas você é meu cão, Midir, e nunca deve esquecê-lo.

Agora o homem elevou lentamente a cabeça.

—Sirvo-lhes a você, majestade, e só a você. Escolhi-lhes, minha senhora, para lhes dar o portal, para que pudessem caminhar entre os mundos e dominá-los.

—E assim você pudesse te mover também entre eles, mago, arrancando o poder como se fossem margaridas, com meu exército a suas costas. E, contudo, esse poder se rompeu quando foi golpeado por aquilo que os mortais esgrimiam.

—Eles nunca deveriam havê-lo conseguido, isso é verdade. —Lora interveio novamente para apaziguar os ânimos. — Midir permitiu que eles lhes humilhassem, e isso é imperdoável. Mas mesmo assim, somos mais com ele que sem ele. Com Midir o conseguiremos para o Samhain.

—Vê-o? Ela me tranqüiliza. —Lilith voltou a agarrar o copo de mãos da Lora enquanto ambas permaneciam enlaçadas pela cintura. — Está vivo graças ao que ela há dito... e estou de acordo com suas palavras. E porque ao menos, teve o bom julgamento de trazer a escuridão quando nos demos conta de que tínhamos sido invadidos. OH, vamos, te levante, te levante.

Midir ficou de pé.

—Minha senhora, posso falar?

—Deixei a língua em sua boca.

—Consagrei meu poder e minha vida a você durante mais de duzentos anos. Construí-lhes este lugar como ordenaram, no subterrâneo, e o escondi ao olhar dos humanos. A magia que têm eles é muito poderosa, mas em que pese a isso, ao final consegui lhes vencer.

—É verdade, é verdade. Mas só depois de que me tivessem roubado prisioneiros.

—Eles são formidáveis, minha senhora. —Cruzou as mãos de modo que ficaram ocultas dentro das amplas mangas de sua túnica. — Menos que isso não tivesse sido digno de você. Mas assim, seu triunfo será maior quando os tiverem derrotado.

—Adulador.

—Midir esteve a ponto de conseguir me fazer entrar na casa —disse Lora. — Estive tão perto que quase podia saborear a essa mulher. Foi um bom feitiço, tão poderoso que venceu a vontade da caçadora. Poderíamos voltar a tentá-lo.

—Sim, poderíamos fazê-lo —conveio Midir. — Mas só faltam duas semanas para que abramos novamente o portal. Necessitarei toda minha força para isso, majestade. E outro sacrifício.

—Outro sacrifício? —Lilith revirou os olhos. — Que aborrecido. E suponho que nesta ocasião se tratará também de uma virgem.

—Se esse for seu desejo, minha senhora. Enquanto isso, tenho um presente que espero que lhes agrade.

—Mais diamantes? —Lilith se levou a mão à boca para cobrir um delicado bocejo. — Me estou cansando deles.

—Não, minha senhora, não se trata de diamantes. É algo mais precioso, acredito.

Midir agarrou um pequeno espelho de mão pela manga de osso e o ofereceu ao Lilith.

—Está jogando comigo? Essa quinquilharias... —Lilith ficou boquiaberta quando fez girar o pequeno espelho. — É meu rosto!

Perplexa, levou-se uma mão à bochecha com o olhar fixo no cristal.

Era como se estivesse olhando através de uma fina névoa, mas podia ver a forma de seu rosto, os olhos, a boca. A alegria desse momento quase a fez chorar.

—OH. OH, posso ver como sou. Sou formosa. Meus olhos são azuis. De um azul muito belo.

—Permitam-me... —Lora se aproximou do espelho e seus olhos se abriram como pratos ao ver seu rosto refletido no pequeno cristal, junto ao de Lilith. — OH! C'est magnifique! Je suis belle!

—Nos olhe, Lora. OH, OH, olhe quão maravilhosas somos!

—Muito melhor que uma fotografia ou um desenho. Olhe, movemo-nos! Olhe como se unem nossas bochechas.

—Estou aqui —murmurou Lilith. — Faz muito tempo, antes de que me concedesse o dom, podia ver meu rosto em um cristal gentil, na água cristalina de um lago. A forma de minha cara e como caía minha cabeleira emoldurando-a.

Agora se tocou o cabelo, observando como se moviam seus dedos através dele.

—A forma em que meus lábios, minhas bochechas, transformavam-se com um sorriso, como subiam e baixavam minhas sobrancelhas. A última vez que pude ver este rosto foi nos olhos de quem me transformou. Passaram dois mil anos da última vez que me vi. —Uma lágrima se deslizou lentamente por sua bochecha e seu reflexo adorou. — Estou aqui —repetiu em voz baixa, uma voz manchada de emoção. — Estou aqui.

—Sente-se agradada, majestade? —Midir baixou suas mãos cruzadas até a cintura. — Pensei que era seu desejo mais ansiado.

—Nunca me tinham feito um presente assim. Olhem como se move minha boca quando falo! Quero um espelho grande, Midir, tão grande que possa me ver inteira.

—Acredito que pode conseguir-se, mas requererá tempo e poder. O portal...

—É obvio, é obvio. —Lilith moveu o espelho por cima de sua cabeça para tratar de ver um pouco mais de si mesma. — Sou tão ambiciosa como Davey, exigindo mais apesar de ter um tesouro em minhas mãos. Midir, agradaste-me além das palavras. Farei que lhe consigam tudo o que necessite.

Quando o mago inclinou a cabeça, ela se aproximou dele e lhe tocou a bochecha.

—Além das palavras —repetiu. — Nunca esquecerei que te esforçou por alegrar meu coração.

Larkin se escorreu velozmente fora da habitação. Posto que só falavam do espelho e de beleza, afastou-se para lhe jogar uma olhada ao arsenal e para fazer uma idéia mais precisa do número de inimigos.

Percorreu túneis largos e escuros e passou por debaixo das portas. Em uma das câmaras encontrou a três vampiros dando um festim com um homem. Quando o homem gemeu, a impressão fez que Larkin se descuidasse. Um dos vampiros o descobriu e elevou o rosto ensangüentado com um sorriso nos lábios.

—Não me importaria um pequeno rato de sobremesa.

Quando o monstro se lançou sobre ele, Larkin saiu disparado por debaixo da porta e cruzou também a seguinte, escorrendo-se entre os pés do guarda.

Estava dentro do arsenal.

Ali havia milhares de armas. Para mais mil homens ou mais. Espadas e lanças, arcos e tochas, todas dispostas com uma precisão militar que lhe confirmou que se tratava de um autêntico exército, e não só de uma manada de animais.

E levariam estas armas com eles ao Geall para destruí-lo.

Bom, primeiro lhes causaria alguns problemas.

Recuperou sua forma humana e, com a única tocha que havia na parede, pôs fogo às mesas, os baús, os armários.

Distração e destruição, pensou, lançando a tocha a um lado antes de voltar a transformar-se em um rato.

Retornou tão velozmente como pôde à zona onde se encontravam os prisioneiros enjaulados. Viu que o homem que o menino tinha escolhido para seu jogo já não estava em sua jaula. Já era muito tarde para salvar a ele ou à mulher, mas havia outros; mais de vinte prisioneiros, e ao menos lhes daria uma oportunidade de escapar dali.

Agora só havia um guarda. Apoiado contra a parede, parecia estar cochilando apesar dos gemidos e súplicas dos prisioneiros.

Para conseguir seu propósito, necessitaria velocidade e sorte, pensou Larkin. Contava tendo ambas. Voltou a assumir sua forma humana, agarrou a espada do vampiro e o atravessou com ela.

Quando o guarda estalou em uma nuvem de pó, os gritos que saíam das jaulas eram ensurdecedores.

—Têm que correr.

Agarrou o molho de chaves que pendurava de um gancho na parede e começou a abrir as jaulas. Lançou-lhe a espada a um homem que o olhava com expressão vazia.

—Podem lhes ferir com isso —disse Larkin sem perder um segundo. — E matá-los se lhes cortam a cabeça. Ataquem com fogo. Há tochas iluminando os túneis. As usem. Tomem. —Deixou as chaves em outro par de mãos. — Abram o resto das jaulas. Logo ponham-se a correr. Alguns poderão escapar. Farei tudo o que esteja a meu alcance para manter limpo o caminho.

Embora sabia muito bem que corria um grande risco ao consumir sua energia, voltou a transformar-se enquanto o caos se desatava a seu redor. Saiu velozmente através da porta, convertido em lobo.

Girou para a esquerda, esperando assim ganhar tempo, e se lançou contra o primeiro vampiro que encontrou. Agarrou-o completamente por surpresa e lhe rasgou o pescoço. Com o focinho gotejando sangue continuou sua carreira.

Tinha esperado que o incêndio que tinha iniciado no arsenal os mantivesse ocupados, mas ainda não tinha ouvido nenhum alarme.

Viu que dois dos monstros arrastavam corpos até uma pilha onde havia mais mortos. Arrojados, pensou, como se fossem desperdícios. Enquanto corria, voltou a converter-se em humano e, enquanto trocava, agarrou uma espada.

Acabou com os dois vampiros de um só golpe.

Agora começavam para ouvir-se gritos; não os dos prisioneiros, a não ser sons de alarme e de fúria. Voltou a converter-se em lobo para aproveitar sua velocidade. Já não podia fazer mais do que tinha feito.

Continuou sua carreira por um dos túneis e viu o menino.

Estava agachado no chão, devorando ao homem ao que tinham permitido sair de sua jaula. O cabelo loiro e brilhante do pequeno estava manchado de sangue, e esta gotejava deste modo de seus dedos e seus lábios.

O grunhido grave que saiu da garganta do Larkin fez que o menino elevasse a cabeça e o olhasse.

—Cachorrinho! —Davey sorriu de um modo horrível. — Não há nada para ti até que eu tenha terminado. Já acabei com essa, de modo que se quiser, peguea.

Davey fez um gesto para a mulher que jazia de barriga para baixo a poucos metros dali.

—Não resultou tão divertida como este, de modo que acabei rápido.

Larkin sentiu uma enorme fúria, e se dispôs a saltar sobre Davey.

—Davey, ao fim te encontro! —O vampiro que tinha estado praticando com a Lora se aproximava rapidamente pelo túnel. — Sua mãe quer que retorne a suas habitações. Alguns dos humanos se escaparam e conseguiram provocar um incêndio.

—Mas ainda não terminei.

—Pois terá que terminar mais tarde. Estas duas são suas presas? —agachou-se para aplaudir ao Davey nas costas a modo de felicitação. — Bem por ti. Mas se segue comendo ficará doente. Enviarei a alguém para que se leve estes corpos à pilha, agora tem que vir comigo.

Enquanto falava com o Davey, jogou uma olhada a seu redor e viu o Larkin.

—É um dos lobos de sua mãe? Pensava que os havia enviado a todos a...

Larkin advertiu a mudança em seu rosto, a súbita tensão de seu corpo. Saltou para frente mas não conseguiu lhe alcançar no pescoço, já que o vampiro bloqueou o ataque. A força do golpe lançou ao Larkin contra a parede; por sorte se repôs rapidamente, atacando ao vampiro outra vez antes que o monstro pudesse tirar sua espada.

Houve gritos, uns alaridos horríveis e seus próprios grunhidos e dentadas. A parte dele que era lobo ansiava o sangue tanto como o homem que tinha dentro desejava a vingança.

Afundou as garras no ombro e no peito daquele ser.

Então sentiu uma dor, uma dor indescritível quando o menino saltou sobre seu lombo e lhe cravou as presas.

Larkin retrocedeu lançando um uivo, e conseguiu desembaraçar-se do Davey. Mas o menino ficou de pé imediatamente enquanto o vampiro que estava no chão procurava sua espada.

O lobo estava vencido, e Larkin rogou ter suficiente energia para poder escapar dali.

Sua luz cintilou, brilhando fracamente. Sentiu mais dor e, junto com este, uma crescente debilidade, mas conseguiu converter-se em um camundongo pequeno e veloz, e deslizar-se em meio da escuridão procurando o som do mar.

O fogo que sentia na parte posterior do pescoço lhe queimava até o osso. Nas cavernas se ouviam gritos e pés que corriam. Larkin estava ao cabo de suas forças, e sua velocidade se reduzia, mas continuou correndo para a tênue claridade da lua, o rugido do mar.

Havia gente que corria e subia pela parede do escarpado. Alguns carregavam com os mais débeis e os feridos. Larkin sabia que, se voltava a trocar de forma, também teriam que carregar com ele.

Não podia fazer nada mais. Com a escassa energia que ficava, conseguiu arrastar seu pequeno corpo até uma rocha, e se ocultou atrás dela.

Quão último alcançou a ver, foi o resplendor das estrelas que se apagavam, junto com a chegada do amanhecer.

 

—Já teria que ter retornado. —Da janela do salão, Blair viu como a alvorada se abria passo através da larga noite. — Ou estar de caminho. Talvez deveriam tentá-lo de novo. —voltou-se para o Hoyt e Glenna. — Começar de novo.

—Blair. —Glenna se aproximou dela e lhe acariciou o braço. — Asseguro-te que, logo que o possa ver, veremo-lo.

—Foi uma idéia estúpida. Imprudente e estúpida. No que estaria pensando? Fui eu quem o enviou ali.

—Não. —Agora Glenna a agarrou por ambos os braços. — Larkin foi às cavernas e todos estivemos de acordo. Estamos todos juntos nisto. Nenhum de nós suporta toda a carga.

—Larkin se foi sem uma arma, sem um escudo.

Fechou a mão sobre as cruzes que levava pendurando do pescoço.

—Dificilmente tivesse podido voar ou arrastar-se ou deslizar-se ao redor de um ninho de vampiros com uma cruz ao redor do pescoço —assinalou Cian. — Um farol como esse? Não teria durado nem cinco minutos.

—E o que? Podia durar dez entrando ali nu.

—Não está morto. —Moira falou pausadamente sentada no chão, com o olhar fixo no fogo. — Eu saberia. Acredito que todos saberíamos. O círculo se romperia. —Olhou ao Hoyt por cima do ombro. — Não é assim?

—Acredito que sim. Talvez seja algo tão simples quanto Larkin precisa descansar. Assumir e manter outras formas deve exigir uma energia e uma concentração consideráveis.

—Assim é. Por isso Larkin está acostumado a comer como um cavalo de corrida. —Voltando-se para olhar a outros, Moira conseguiu esboçar um débil sorriso. — E, que eu saiba, nunca manteve uma forma durante mais de duas ou três horas.

Outro pesadelo, pensou Blair. Imaginar ao Larkin correndo através das cavernas na forma de rato que tinham decidido que adotaria e logo, clique, converte-se em humano sem ter sequer uma barra de cereais para recuperar forças.

—Irei preparar um pouco de comida —disse Glenna, dando tapinhas nas costas de Blair para confortá-la.

—Eu o farei —propôs Moira enquanto se levantava. — Devo praticar mais com a cozinha. E preciso fazer algo, além de estar sentada e preocupada.

—Te darei uma mão. —Glenna rodeou com um braço os ombros da Moira. — Trarei café em uns minutos.

—Eu sairei um momento. —Hoyt se levantou da poltrona. — Possivelmente possa captar algo, sentir alguma coisa fora das paredes da casa.

—Irei contigo.

Mas Hoyt olhou ao Blair e meneou a cabeça.

—Farei-o melhor se estiver sozinho.

O que se supunha que ia fazer? Ela não estava acostumada a ficar esperando. Blair era a que saía, fazia seu trabalho e arriscava a pele. Não se supunha que devesse ficar dentro, retorcendo-as mãos, enquanto outro estava em perigo.

—Importaria-te correr essas outras cortinas? A luz entra desde esse lado.

Blair, surpreendida, olhou por cima do ombro. Cian estava ajeitado em uma poltrona... e o torcido de luz que entrava através das janelas que davam ao este estava a menos de um metro da ponta de suas botas.

Imaginou que a maioria dos membros de sua espécie fugiriam velozmente dessa propagação de luz. Mas Cian não. Ela duvidava de que ele saísse fugindo de qualquer coisa.

-Claro.

Aproximou-se da janela, correu as cortinas e sumiu a habitação na penumbra. Não se incomodou em acender um abajur. Nesse momento, a escuridão resultava confortável.

—O que farão ao Larkin? Não minta, não trate de suavizá-lo. Se o agarraram, o que lhe farão?

«Você sabe —pensou Cian. — Você já sabe.»

—Lilith fará que lhe torturem. Para divertir-se e com o propósito prático de lhe tirar informação.

—Ele não lhes dirá...

—É obvio que o fará.

A impaciência tingiu a voz de Cian. Resultava-lhe irritante sentir-se tão unido ao Larkin para preocupar-se com o moço.

—Lilith pode lhe fazer a um homem coisas que nenhum ser humano pode suportar... E lhe manter com vida. Larkin lhe dirá tudo o que ela queira saber. E o mesmo faria você ou qualquer de nós. E tem alguma importância?

—Talvez não. —Blair se aproximou, cedeu à debilidade de suas pernas e se sentou à mesa, diante de sua poltrona. Estava-lhe dizendo a verdade, nua e sem sentimentalismo. Era o que ela necessitava. — Lilith o transformará, verdade? Esse é o grande golpe, submeter a um de nós.

—Com o que já seríamos dois de nós.

—De acordo. De acordo. —Blair deixou cair a cabeça entre as mãos porque lhe doía, igual às vísceras, igual ao estômago. — Cian. Se... teremos que...

—Sim, teremos que fazê-lo.

—Não acredito que possa suportá-lo. Não acredito que pudesse seguir com tudo isto. Se ele estiver morto sim, porque de outro modo seria como se ele tivesse morrido por nada. Mas se Lilith o envia aqui transformado, e temos que... —Elevou a cabeça e se passou as mãos sobre as bochechas úmidas. — Como pôde superá-lo? O que aconteceu com King? Glenna me contou que King e você estavam muito unidos, e que teve que matá-lo. Como se pode superar algo assim?

—Comportei-me como um      imbecil durante um par de dias.

—Isso ajudou?

—Não especialmente. Desesperei-me e bebi até me embebedar, logo deixei que a ira se apoderasse de mim. Foi pelo que fizeram ao King, mais que qualquer outra razão, por isso chegarei ao final disto. —Girou a cabeça e estudou ao Blair. — Apaixonaste por ele.

—O que? Não é isso... Ele me preocupa, é obvio. Todos nós. Somos uma unidade.

—Os humanos são tão estranhos; suas reações ante o que sentem. A expressão de suas emoções. Em seu caso parece tratar-se de vergonha. Por que? Ambos são jovens, sãos, e apanhados em uma situação cheia de paixão e perigos. Por que não deveriam formar um vínculo?

—Não é tão simples.

—Não para ti, evidentemente.

Cian desviou o olhar quando Hoyt entrou na casa e Blair ficou em pé de um salto.

—Há uma caminhonete no atalho. As rodas estão destroçadas. E há algumas armas em seu interior.

Blair não se entreteve em agarrar uma jaqueta. Saiu correndo da casa em direção ao atalho. Viu que a porta do condutor estava aberta, com a chave na ignição, como se alguém tivesse tentado pôr em marcha o veículo e logo o tivesse abandonado a toda pressa.

Havia um par de espadas e uma pequena geladeira com várias bolsas de sangue na parte traseira.

—Bom, é deles —disse ao Hoyt. — Disso não cabe nenhuma dúvida. E as possibilidades de que os quatro pneus furaram de uma vez são iguais a zero. —agachou-se e colocou o dedo em um dos buracos que havia na borracha. — De algum jeito, Larkin fez isto.

—Eu diria que deveram abandonar a caminhonete para fugir ao bosque e ocultar do sol —sugeriu Hoyt.

—Sim. —O sorriso de Blair mostrou seu avesso propósito. — Ao menos tenho algo que fazer. Vou pegar armas.

—Irei contigo —disse Hoyt.

Blair entrou no bosque levando uma besta[7] e estacas, procurando entre as sombras, movendo-se como uma delas. Na bifurcação de um atalho, Hoyt e ela se separaram, cada um entrando cada vez mais na luz, que era salpicada e tênue.

Encontrou um deles escondido e oculto em uma zona úmida, cheia de espessas sombras. Viu que era um moço, que não tinha mais de dezoito anos no momento de morrer. Por suas roupas —nas calças furadas e uma camiseta desbotada — provavelmente tinha sido um estudante que percorria a zona com uma mochila ao ombro.

—Sinto-o —lhe disse Blair.

O moço respondeu com um chiado e se arrastou para esconder-se atrás do tronco de uma árvore.

—OH, venha já, crê que não posso verte? Não me obrigue a ir até aí.

Não ouviu chegar ao vampiro que a atacava por detrás, mas o sentiu. Blair realizou um meio giro e baixou o ombro direito, de modo que quando a criatura saltou sobre suas costas, saiu lançada por cima dela.

Esse vampiro, uma garota, tinha aproximadamente a mesma idade que o moço, e parecia muito mais decidida.

—São casal? Que bonito, e também que má sorte.

A garota atacou e Blair apontou com a besta. Mas então se deu conta de que não queria um golpe mortal, a não ser um combate.

Desviou a chute da moça, recebendo a maior parte do impacto no quadril, e o segundo golpe na zona lombar. Ambos os golpes levavam força suficiente para lançá-la para frente. Aterrissou sobre as mãos, levantou-se como uma mola e bateu o salto de sua bota contra a cara do vampiro.

—Classes de kickboxing huh?

Blair viu algo nos olhos da moça quando voltou para ataque e começaram a trocar golpes. Compreendeu que é que não tinha comido, e recordou a pequena geladeira com bolsas de sangue abandonado na caminhonete, perto da casa. Estava desesperada.

E demorar o desenlace só estava torturando-a ainda mais. Esta vez, quando a vampira a atacou, Blair tirou a estaca que levava na cintura e a cravou no coração.

—Cadela. Cadela estúpida —gritou o vampiro que se escondeu atrás da árvore, e o forte acento de Nova Jersey em sua voz quase a divertiu.

—Qual de nós?

Quando o vampiro ficou de pé, ela girou sobre os calcanhares, mas o moço pôs-se a correr.

—OH, pelo amor de Deus. —Levantou a besta e o atravessou com uma flecha. — Covarde.

Deu-se a volta rapidamente para ouvir um ruído a suas costas, logo se relaxou ao ver o Hoyt que se aproximava pelo atalho.

—Só a gente —disse ele.

—Dois aqui. É possível que haja mais, mas certamente se hão embrenhado profundamente no bosque. Deveríamos retornar e ver se houve alguma notícia do Larkin.

—Não pude sentir nada; tampouco sua morte. Larkin é um homem inteligente, Blair, com muitos recursos, como terá podido comprovar depois do que fez com as rodas dessa caminhonete.

—Sim. Não é nenhum asno, embora possa converter-se em um.

—Sei o que significa que alguém te importe e preocupar-se por sua vida. —Enquanto caminhavam de retorno à casa, os olhos do Hoyt, alerta e vigilantes, rastreavam as árvores. — Podem nos defender mutuamente, mas não podemos nos proteger todo o tempo. Glenna me ensinou a diferença.

—Eu nunca tive que me preocupar com ninguém em minha vida. Acredito que não sou muito boa nesse terreno.

—Pois posso te assegurar que é uma habilidade que adquire com grande facilidade.

Quando finalmente deixaram atrás o bosque, Moira saía correndo da casa como se tivesse estalado em chamas. A absoluta felicidade que refletia seu rosto fez que a preocupação de Blair se desvanecesse imediatamente.

—Está voltando! —gritou. — Larkin está de retorno a casa.

—Já o vê. —Hoyt passou o braço por cima dos ombros de Blair enquanto os invadia uma profunda sensação de alívio. — De modo que por hoje já não precisa seguir cultivando essa habilidade da preocupação.

Necessitou de todas suas forças para conservar a forma do falcão, para permanecer no ar. A dor e a fadiga lutavam em seu interior, cada uma ameaçando ganhar e acabar com a pouca energia que ainda ficava. Tinha perdido sangue, sabia, mas não podia dizer quanto. Só sabia que a mordida na parte posterior do pescoço era um fogo lacerante que não cessava.

Não havia ninguém —humano ou vampiro — à vista quando, depois de que tivesse amanhecido, recuperou sua forma humana. Havia sangue no chão de pedra, embora não todo era dele. Tampouco o suficiente, consolou-se, para fazer pensar que todos quão prisioneiros tinha conseguido liberar tivessem sido assassinados.

Certamente alguns deles tinham conseguido escapar. Embora só o tivesse obtido um...

Sentiu que falhavam as forças, notou que uma de suas asas tremia tratando de converter-se em um braço. Descendeu, invocando ao falcão para que mantivesse a forma.

«Ali está o rio —pensou. — Ali está o Shannon.» Agora sabia que estava no caminho correto de retorno a casa.

Convocou a sua mente o rosto de Blair, aquele sorriso em dois tempos, o intenso azul de seus olhos, a música de sua voz. Conseguiria-o, faria que isso durasse quilômetros.

Podia sentir que seu coração —o coração do falcão — pulsava muito depressa. Inclusive o simples feito de respirar lhe supunha um grande esforço, e sua visão já não era tão aguda. Em seu interior havia algo que tinha metido aquele demônio em forma de menino. Dentro dele, circulando com seu próprio sangue, envenenando-o.

Uma debilidade, a escuridão de Lilith, sussurrou-lhe que devia render-se.

Mas então Larkin ouviu algo mais, mais intenso.

 

Já quase está em casa, moço-pássaro. Segue voando, já quase está devolvido. Estamos-lhe esperando. Vamos preparar-te o café da manhã dos campeões, tudo o que seja capaz de comer. Venha, Larkin, retorna a casa.

 

Blair. Aferrou-se ao som de sua voz e continuou voando.

Ali estava o bosque, e também o bonito arroio, e a casa de pedra e o estábulo. E mais à frente o cemitério, onde estava condenadamente decidido a não acabar agora que já estava tão perto.

Ali! Ali estava Blair, fora da casa, com o rosto voltado para o céu buscando-o. Seus olhos. E também estava Moira, sua querida Moira, e outros, exceto Cian. Elevou uma prece de profundo agradecimento a todos os deuses.

Logo suas forças simplesmente se dissolveram. Caiu os últimos três metros que lhe separavam do chão, já convertido novamente em um homem.

—OH, Deus! OH, Deus! —Blair correu para ele antes que outros. — Esperem, tomem cuidado. Devemos ver se tem quebrado algo.

Começou a passar as mãos sobre seu corpo ao tempo que Glenna fazia o mesmo. Então percebeu a pele ferida na parte posterior do pescoço e lhe apartou lentamente o cabelo.

Elevou a vista e olhou os olhos brilhantes de alegria da Moira.

—Morderam-lhe.

—OH, Deus, querido Deus. Mas não o transformaram. —Moira elevou uma das flácidas mãos do Larkin até seus lábios. — Não poderia estar ao sol se assim fosse.

—Não, não o transformaram. E tampouco tem nada quebrado. Embora esteja muito machucado. Seu pulso é realmente muito débil, Glenna.

—Lhe levemos dentro.

—Precisa comer. —Moira correu por volta da casa enquanto Glenna e Blair elevavam ao Larkin. — É como se um de nós tivesse passado vários dias sem comer. Necessita alimento e líquidos. Procurarei algo.

—Ao sofá do salão —ordenou Glenna. — Logo irei procurar o que necessito.

Uma vez que o tiveram colocado no sofá, Blair se agachou junto a sua cabeça. Larkin estava pálido como a morte e os machucados começavam a acentuar-se.

—Já passou, já está em casa. Isso é o que importa. Está em casa.

      —Cian... Cian há dito que comecemos com isto. —Moira entrou levando uma grande jarra de suco de laranja. — Para que reponha líquido e açúcar.

     —Sim, bem. Temos que reanimá-lo. Venha, moço voador.

     —Deixa que o tente com isto. —Glenna se ajoelhou junto ao sofá. Colocou o polegar em uma jarra de bálsamo e o lubrificou no centro da frente do Larkin. — Sobre os chakras —explicou enquanto trabalhava. — um pouco de equilíbrio chi. Moira, lhe agarre a outra mão, aplica um pouco de sua força. Você sabe como fazê-lo. Blair, fala novamente com ele do modo em que te disse que o fizesse quando estava voando. Suas palavras lhe chegarão. Hoyt?

     —Sim. —Hoyt colocou ambas as mãos aos lados da cabeça de Blair. — Diga-lhe que retorne —lhe disse.

 

     Venha, Larkin, tem que despertar. Não pode ficar aqui deitado todo o dia. Além disso, o café da manhã está preparado. Por favor, desperta já. Estive-te esperando. —Apertou a mão contra sua bochecha. — Seus dedos se moveram! — Venha, Larkin, já é suficiente drama por um dia.

 

Suas pálpebras tremularam.

— Por que as mulheres estão sempre brigando aos homens? —murmurou Larkin.

— Suponho que isso é precisamente o que precisam —respondeu Blair.

—Toma, aqui tem.

Moira rodeou o sofá para lhe levantar a cabeça e sustentar um copo junto a seus lábios.

Larkin bebeu como um camelo e logo conseguiu esboçar um sorriso.

— Aqui está minha querida prima. Que quadro tão formoso. Três belos rostos ao meu redor. Entregaria-lhes todos meus bens terrestres e uma vida de devoção se me conseguirem algo de comer.

Foi Cian quem entrou na habitação levando um pequeno prato com duas torradas.

—Precisa começar pouco a pouco.

Larkin olhou ao Blair. Devolveu-lhe o olhar e fechou os olhos, assentindo.

—Não lhe coma isso de um bocado —lhe advertiu.

—Só pão? Não posso comer carne? Juro que poderia engolir um veado inteiro. Ou esse prato delicioso que você prepara, Glenna, o do macarrão e as bolas de carne.

—Farei-o esta noite.

—Precisa comer só o suficiente para te reanimar —começou a dizer Blair — e recuperar um pouco de força. Se houver uma comida completa a vomitará quando nos estivermos encarregando da mordida —lhe explicou.

—Foi o menino, seu filho. Esse pequeno bastardo. Nesse momento eu era um lobo, de modo que a mordida não foi muito profunda.

—Glenna tem bálsamo. Usou-o comigo quando me morderam. —Moira acariciou o cabelo do Larkin. — É uma queimadura terrível, sei, mas o bálsamo acalma o ardor.

—Não lhe morderam —disse Cian categoricamente. — Foi um arranhão, não uma espetada.

—Qual é a diferença?

—Muita. —Blair se levantou. — Com a mordida se produz uma infecção, e existe também um risco considerável de que o vampiro que te mordeu tenha certo controle sobre ti.

—Aye. —Larkin franziu o cenho e fechou os olhos. — Senti algo em meu interior. Mas...

—Encarregaremo-nos disso. Tem que ser desencardido com água benta.

—Está bem. Logo se pudesse contar com esse bálsamo milagroso de que falou Moira, e com uma boa comida, sentiria-me como novo... Isso sem ter em conta que cada osso de meu corpo parece ter sido golpeado com um martelo.

«Terá que lhe dizer a verdade —pensou Blair. — A verdade pura e dura.»

—Sabe a queimadura que sentiu quando o menino te cravou as presas? A queimadura que está sentindo agora?

—Sim.

—Isto será muito pior. Sinto muito.

Blair abandonou o salão e subiu rapidamente a escada. Moira saiu atrás dela.

—Tem que haver alguma outra maneira de fazê-lo. Como podemos voltar a lhe fazer dano? Ainda está muito débil e dolorido. Posso ver a dor refletida em seus olhos.

—E crê que eu não o vejo? —Blair entrou em sua habitação. —Não há outro modo.

—Já sei que não está nos livros. Tenho-os lido. Mas com a Glenna e Hoyt...

Blair tirou uma garrafa com água benta de entre suas coisas e havia uma firme determinação em seu rosto quando se deu a volta.

—Não há outra maneira de fazer isto. Larkin está infectado. E isso coloca a ele e a todos nós ante um grave risco. —Estendeu o braço e girou o braço de modo que a cicatriz do pulso ficasse ao descoberto. — Sei muito bem o que se sente. Se existisse alguma outra maneira, não crê que o tentaria?

Moira deixou escapar o ar ao tempo que sentia um calafrio.

—O que posso fazer?

—Pode ajudar a mantê-lo imóvel.

Blair levou a salão toalhas e ataduras. Obrigou-se a aproximar-se do Larkin e o olhou fixamente aos olhos.

—Isto te doerá.

—Doerá-te —acrescentou Cian — como mil demônios.

—OH, bem. —Larkin se umedeceu lábios. —Isso é muito alentador.

—Eu poderia bloquear parte da dor —começou a dizer Glenna.

—Não acredito que possa ou deva fazê-lo. —Blair meneou a cabeça. —Forma parte disso. É a maneira de fazê-lo. Temos que lhe colocar no chão, de barriga para baixo. Ponham-lhe essas toalhas sob o corpo. Cian, você é melhor que o agarre dos pés. Não quero que te respingue nenhuma gota de água benta.

Larkin se estremeceu de dor quando o levantaram do sofá.

—Por que é necessário que me agarre os pés?

—Manteremos-lhe sujeito contra o solo —explicou Blair.

—Não necessito que...

—Sim o necessitará.

Ele voltou a fixar seus olhos nos de Blair e viu o que havia neles.

—Faz-o então. Confio em ti.

Com Cian a seus pés, Hoyt a um lado e Glenna e Moira no outro, Blair abriu a garrafa. Apartou o cabelo do Larkin e deixou a ferida ao descoberto.

—Nestas circunstâncias, gritar não se considera impróprio de um homem. Prepare-se —lhe advertiu, e verteu um pouco de água benta sobre a ferida.

Larkin gritou. Seu corpo se arqueou e retorceu de dor e a ferida pareceu ferver. Blair deixou que o líquido viscoso brotasse borbulhante da ferida enquanto seguia orvalhando-a com água benta.

Recordou a noite em que tinha tido que ir ver sua tia, menos de uma semana depois de que seu pai a tivesse abandonado. E como as lágrimas tinham deslocado pelas bochechas da mulher enquanto vertia a água benta sobre a ferida aberta no pulso de Blair.

A sensação de que a carne, os ossos estavam sendo cortados com uma faca incandescente.

Quando a ferida ficou completamente limpa, Blair utilizou as toalhas para secá-la. Larkin ofegava tratando de respirar.

—É provável que o bálsamo ajude agora.

Glenna, branca como um lençol, aproximou-se cambaleante para agarrar o frasco com o bálsamo. Suas lágrimas se derramaram sobre o Larkin.

—Sinto muito, Larkin, sinto-o muito. Posso lhe ajudar a que durma agora? Embora só seja uma hora?

Blair se passou o dorso da mão pela boca.

—Claro, já terminamos. Viria-lhe bem um pouco de descanso.

Dito isto, Blair correu escada acima, irrompeu em sua habitação e fechou a porta violentamente a suas costas. Logo se deixou cair ao chão, aos pés de sua cama, escondeu a cara entre as mãos e pôs-se a chorar.

Sobressaltou-se ao sentir que um braço lhe rodeava os ombros e a abraçava com força.

—Foste muito valente —cantarolou Moira, como uma mãe que arrulha a seu filho. — Tão forte e valente. Eu tento sê-lo, mas é tão difícil... Quero acreditar que tivesse sido capaz de fazer o que você tem feito por ele, porque quero muito ao Larkin.

—Estou doente, sinto-me doente —disse Blair.

—Sei, eu também. Importa-te que fiquemos assim, abraçadas, durante um momento?

—Eu não devo seguir sentindo este tipo de coisas. Não são de nenhuma ajuda.

—Eu acredito que ocupar-se de outros, embora isso signifique lhes fazer dano, sim ajuda. Cian lhe preparou suco e pão torrado. Jamais o tivesse imaginado dele. Mas Cian lhe tem afeto. É impossível não ter-lhe ao Larkin. E se você lhe ama...

Blair elevou a cabeça e se enxugou as lágrimas.

—Não quero voltar a falar disso.

—Bom, se lhe amasse, desfrutaria de uma vida feliz e completamente incomum. Pode-me ensinar a preparar essas torradas com ovo? Ao Larkin gostará das ter quando despertar.

—Sim. Sim, é obvio. Irei refrescar-me um pouco e descerei em seguida. —Ambas se levantaram. — Moira, eu não posso ser boa para ele. Não sou boa para ninguém.

Moira se deteve o chegar à porta.

—Isso dependeria dele, não crê? Tanto como de ti.

Larkin ainda estava pálido quando despertou, mas seus olhos já não estavam turvos. Insistiu em comer sentado à mesa, com a comida ao alcance da mão, conforme disse.

Acabou com várias torradas empanadas e fritas, além de ovos e bacon, e o fez a um ritmo lento e deliberadamente pausado. Enquanto comia, contou-lhes o que tinha visto, feito e ouvido nas cavernas.

—Foram muitas mudanças, Larkin. Você sabe que não deveria...

—Vamos, não brigue comigo, Moira. Tudo saiu bem, verdade? Poderia beber agora um pouco mais da Coca-cola? —Acompanhou o rogo com um sorriso doce e encantador.

Posto que era quem estava mais perto, Blair abriu a geladeira e tirou outra garrafa da Coca-cola.

—Não se tratava de uma missão de resgate —disse. — Falamos especificamente disso, Larkin.

—Você teria feito o mesmo. OH, não meneie a cabeça me olhando desse modo. —Agarrou a garrafa. — Tinha que tentá-lo, e qualquer de nós o teria feito. Vocês não viram nem ouviram o que eu vi. Não podia abandonar aquele lugar, não sem ter tentado ajudar a essa pobre gente. E a verdade é que, há algum tempo, estive querendo provocar um incêndio nesse lugar. —Agora olhou a Cian. — Do que aconteceu King.

—Ele sem dúvida teria apreciado o gesto —respondeu o vampiro.

—Esteve a ponto de perder a vida —assinalou Blair.

—Na guerra terá que matar, verdade? Devi ter deixado ao menino atuar como o que parecia ser, um menino. Mas ao ver o que estava fazendo... acredito que perdi o julgamento, não o nego, e só queria acabar com ele. Isso foi um ato inútil e estúpido. —levou-se a mão à parte posterior do pescoço e tocou a atadura que cobria-lhe ferida. — E nunca esquecerei o preço que tive que pagar por isso. —Logo se encolheu de ombros e engoliu mais ovos. — Ela não parecia estar muito contente com esse mago, esse tal Midir.

—Conheço esse nome —disse Hoyt. — Era um personagem com uma péssima reputação... antes de minha época —acrescentou. — Magia negra; criava demônios para que cumprissem suas ordens.

Larkin bebeu um comprido gole da garrafa da Coca-cola.

—Agora é ele quem cumpre as ordens de Lilith.

—Dizia-se que Midir tinha sido devorado por seu próprio poder. E, de algum jeito, acredito que assim foi.

—Acredito que ela tinha intenção de lhe castigar, ou permitir que a outra, Lora, fizesse-o. Mas quando lhe deu o espelho mágico, Lilith ficou deslumbrada, e seu aborrecimento desapareceu. Ela e Lora estavam hipnotizadas por seus próprios rostos.

—Nisso há uma considerável dose de vaidade —comentou Cian. — Deve ter ser muito emocionante poder ver seu reflexo depois de tanto tempo.

—Não foi o que eu esperava; bom, quero dizer que tiveram uma reação humana, ou algo assim. E o afeto entre ambas as mulheres parecia autêntico.

—Larkin está sendo muito delicado —disse Cian. — Lilith e Lora são amantes. Ambas têm também a outros, é obvio, freqüentemente ao mesmo tempo, mas são um casal, e se querem sinceramente uma à outra. A relação teve suas desigualdades, mas durou quatrocentos anos.

—Como sabe? —-perguntou Blair.

—Lora e eu tivemos... como o chamaria? Uma aventura? Isso deveu ocorrer, vejamos, ao início de mil e oitocentos, em Praga se a memória não me falha. Lilith e ela estavam em meio de um de seus aborrecimentos, e Lora e eu passamos juntos algumas noites. Logo, ela tratou de me matar e eu a joguei pela janela.

—Uma ruptura bastante contundente —murmurou Blair.

—OH, bom, ela é a criatura da Lilith, não importa com quem possa jogar de vez em quando. Eu sabia antes que tentasse me cravar uma estaca no coração. Quanto ao menino, não sei nada a respeito dele. Eu diria que é uma recente incorporação ao quadro.

—À família —o corrigiu Larkin. — Há algo depravado entre eles, mas, de algum jeito, Lilith o considera seu filho e ele a considera sua mãe.

—Isso os converte em pontos débeis —afirmou Hoyt. — Tanto ao menino como à mulher francesa.

—Davey. Assim o chamava ela —acrescentou Larkin.

Hoyt assentiu. Um nome sempre resultava útil.

—Se pudéssemos capturar ou acabar com algum deles, para Lilith significaria um golpe terrível.

—Ela não partirá para o Geall logo que nós —refletiu Blair. — Talvez pudéssemos colocar algumas armadilhas para recebê-los. Não podemos saber por onde sairão no outro lado, não exatamente, mas possivelmente sejamos capazes de fazer algo. Em qualquer caso, ainda temos alguns dias para pensar nisso.

—E o faremos, mas agora todos estamos cansados. Precisamos dormir um pouco. —Glenna apoiou as mãos sobre os ombros do Larkin. — E você precisa recuperar suas forças, bonito.

—Já estou me sentindo melhor, obrigado. Mas a verdade é que poderia usar uma cama. —ficou de pé. — Parece que minhas pernas voltam a me sustentar. Sobe comigo, Blair? Eu gostaria de falar contigo.

—Sim, de acordo. —Blair começou a subir a escada detrás o Larkin. Queria manter as mãos separadas dele, mas não o via muito seguro com os degraus, de modo que agarrou seu braço e o colocou em cima dos ombros. — Assim, te apóie em mim.

—Não me importaria fazê-lo. Queria te agradecer o que tem feito por mim.

—Não o faça. —Blair sentiu um nó no estômago. — Não me agradeça por isso.

—Sim, agradeço. Estiveste pendente de mim. Ouvi sua voz. Quando voava de retorno a casa e não estava seguro de que pudesse consegui-lo, ouvi sua voz, e soube que o obteria.

—Acreditava que ela te tinha apanhado. Imaginei encerrado em uma jaula, e isso era pior que pensar que tinha morrido. Não quero estar tão assustada, não quero sentir essa impotência.

—Não sei como impedir que isso aconteça. —Quando chegaram a sua habitação, Larkin estava quase sem fôlego e agradecido pela ajuda para chegar até a cama. — Deitaria-te comigo?

Blair estava tendendo-o na cama e o olhou boquiaberta.

—O que?

—OH, não o dizia nesse sentido. —pôs-se a rir e lhe agarrou a mão. — Acredito que ainda não me recuperei de tudo, embora seja um pensamento encantador para outro momento. O que digo é se quereria te deitar aqui comigo, a stór[8], e dormir um momento a meu lado.

Depois da dor que lhe tinha causado, Blair tivesse imaginado que seria a última pessoa com quem ele desejaria estar. Mas aí estava, estendendo a mão para ela.

—Só dormir. —deitou-se junto a ele e se voltou para poder lhe ver a cara. — Nada de tolices.

—Te rodear com o braço seria uma tolice?

—Não.

—E um beijo?

—Um. —Blair lhe tocou os lábios com os seus. — Fecha os olhos.

Larkin o fez, ao tempo que suspirava.

—É bom estar em casa outra vez.

—Sente dor?

—Em realidade, não. Alguma moléstia, isso é tudo.

—É afortunado.

O voltou a abrir os olhos.

—Não podia dizer que fui valente e hábil?

—Talvez isso também. E posso acrescentar ardiloso à lista. Corno de unicórnio contra Goodyear. Isso realmente me gostou.

Blair apoiou a mão sobre o coração do Larkin e fechou os olhos. E dormiu.

 

Foi seu próprio intumescimento o que despertou. Larkin permaneceu uns minutos deitado na cama, perguntando-se se assim seriam as coisas cada bendita manhã quando fosse um ancião.

Um pouco aturdido de mente e pesado de corpo. Talvez a mente fosse adaptando-se de forma gradual, de modo que a gente esquecesse o que significava sentir-se jovem e ativo.

Juraria que os ossos lhe tinham rangido ao dá-la volta.

É obvio, Blair se tinha partido. Provavelmente não tivesse podido fazer o amor com ela em caso de que ficasse... Se é que conseguia convencer a de que o fizessem.

Blair era um enigma. Tão forte, quase de aço, e uma deusa na batalha. Mas com todas essas camadas em seu interior, algumas suaves, outras machucadas.

Ele desejava lhe tirar couraça dura e chegar até seu coração.

E era tão agradável olhá-la. O cabelo tão suave e negro, contrastando com sua pele branca. Os olhos, profundos, de um azul mágico que lhe olhavam fixamente, sem nenhum acanhamento. Às vezes, Larkin se contentava olhando os movimentos de sua boca sem importar as palavras que saíssem dela, ver todas as formas que era capaz de adotar.

Logo estava seu corpo, esbelto e duro. Elegante, em realidade. Não podia dizer que lhe importasse muito que ela o derrotasse quando praticavam a luta corpo a corpo; não quando tinha esse corpo se chocando contra o seu. Braços e pernas largos, ombros fortes que freqüentemente estavam nus durante o treinamento. E aqueles peitos encantadores e firmes.

Ele tinha pensado muito nesses peitos.

E agora se estava excitando sem possibilidade de lhe dar saída para seu desejo.

Levantou-se e deu um coice de dor. Tendo em conta tudo o que tinha passado, supôs que podia considerar-se afortunado por ter saído só dolorido ou machucado. Tinha que dar as graças a Glenna por isso, e possivelmente fosse a procurar para ver se podia ajudá-lo um pouco mais, agora que estava descansado.

Tomou banho, entregando-se ao prazer de permanecer sob uma água tão quente como pôde suportar. Sentiria falta disso, essa era a pura verdade. Perguntou-se se Moira, que era muito esperta deduzindo o funcionamento das coisas, poderia construir uma ducha no Geall.

Uma vez que se vestiu, saiu da habitação e percorreu a casa. Tudo estava tão silencioso que se perguntou se outros estariam ainda dormindo, e considerou a possibilidade de fazer uma visita à cozinha. Tinha fome outra vez, o qual não era nenhuma surpresa.

Mas duvidava de encontrar ao Blair ali. Pensou que sabia muito bem onde estaria.

Ouviu a música antes de chegar à sala de treinamento. Não era a mesma música que ela tinha estado escutando na cozinha fazia um par de dias. Agora a que cantava era uma mulher, com uma voz dura e fascinante, pedindo um pouco de respeito quando chegasse a casa.

Bom, isso não era muito pedir, em opinião do Larkin.

E ali estava Blair, vestida só com a breve camiseta branca e as calças negras que se atavam à parte baixa dos quadris... Um de seus trajes favoritos, para ser sincero.

Estava dando cambalhotas e utilizando para isso a maior parte da grande habitação. Saltos mortais, chutes e giros sobre si mesma. Em um dado momento, rodou até agarrar uma espada que havia no chão e começou a lutar contra o que parecia ser uma multidão de inimigos invisíveis.

Larkin esperou a que ela lançasse o último golpe, com o corpo colocado na concentrada posição do guerreiro.

—Bem, acabaste com quase todos eles.

Primeiro Blair moveu só a cabeça, girando-a até que seus olhos se encontraram com os do Larkin. Logo juntou os pés e baixou a espada.

—Nada mais que pó.

Aproximou-se da mesa para deixar a espada, apagou a música e logo agarrou uma garrafa de água. Enquanto bebia, dedicou-lhe um largo e exaustivo olhar. O rosto do Larkin estava machucado, com arranhões em uma têmpora... Algo que, por alguma razão, não lhe subtraía um ápice de beleza, decidiu.

Em qualquer caso, tinha boa cor.

—Como se sente?

—Bastante bem, embora me haveria sentido melhor se tivesse estado ao meu lado ao despertar.

—Não sabia quanto precisava dormir. Como está a mordida?

—Apenas me lembro dela. —aproximou-se de Blair, agarrou-lhe a mão e lhe fez girar o pulso. — Agora os dois temos nossas cicatrizes.

—Tem o cabelo úmido.

—Estive um momento sob a ducha. Doíam-me os ossos e acredito que, depois de toda uma noite, cheirava bastante mal.

—Terá empapado a vendagem. —Blair franziu o cenho enquanto fazia que se desse a volta. — Deixa que jogue uma olhada.

—Sinto coceira mais que nada —disse ele, desfrutando do contato de seus dedos em seu cabelo, sobre sua pele.

—Está cicatrizando depressa. É o bálsamo mágico da Glenna, menino, eu gostaria de ter tido um pouco disso depois de minha briga. Acredito que sairá desta.

—Crê-o?

Larkin se voltou, agarrou-a pela cintura e a elevou até sentá-la em cima da mesa.

—Vá com cuidado, amigo, ainda não lhe tiramos da lista de incapacitados.

—Não sei do que está falando. E tampouco importa muito. Faz um momento estava pensando em como eu gosto de olhar os movimentos de sua boca. —Passou a gema do polegar por seu lábio inferior. — Tem tanta energia...

—Não crê que te despertaste muito brincalhão? Acredito que seria melhor que...

Foi tudo o que alcançou a dizer antes que sua boca estivesse muito ocupada.

Esta vez, Larkin não se limitou a provar, mas sim se deleitou com os lábios de Blair. Não se conformou com uma amostra mas sim os possuiu. Aquilo era mais fome, muita exigência para Blair; a classe de demanda que embotava o corpo e a mente e a deixava tremendo de necessidade.

Ela não tinha chegado a tempo de colocar suas defesas, e agora já era muito tarde para fazer nada salvo enfrentar-se ao ataque.

Cedeu um pouco, só o suficiente, logo voltou a invadi-la a onda de calor. Larkin podia senti-lo, surgindo do corpo dela e transpassando o seu, um glorioso incêndio. Deslizou as mãos sobre seu corpo, tocando, finalmente tocando, o torso esbelto, os peitos duros e firmes, os ombros fortes, e voltou a começar.

Sentiu o estremecimento de sua resposta, ouviu o gemido de prazer apanhado em sua garganta e soube que ela seria dele.

Mas Blair apoiou ambas as mãos sobre seu peito.

—Espera. Espera. Separemos-nos um momento.

Sua voz era espessa e ofegante e lhe fez desejar lambê-la como se fosse nata.

—Por quê?

—Não sei, mas pensarei em uma razão dentro de um minuto, logo que meu QI volte a superar o nível de um nabo.

—Não sei o que significa seu QI, mas o resto de ti é perfeito.

Ela se pôs-se a rir, mas manteve as mãos firmes, de modo que a boca do Larkin não pudesse tomar a sua novamente e lhe fritar o cérebro pela segunda vez.

—Não o sou. Nem de longe. E não se trata de que não pense que me inundar nisto seria algo bom. Realmente bom. É mais que provável que, finalmente, acabemos fazendo-o. Mas é complicado, Larkin.

—As coisas são tão simples ou complicadas como nós as façamos.

—Não. Às vezes as coisas simplesmente são. Você nem sequer me conhece.

—Blair Murphy, caçadora de vampiros. Isso é no que pensa primeiro... Isso é o que lhe ensinaram a pensar primeiro. Mas não é toda você, nem muito menos. Tão forte e cheia de coragem.

Ela foi interromper lhe, mas ele apoiou um dedo sobre seus lábios.

—Entretanto, em ti há muito mais que valor e obrigação. Tem cantos tenros em seu coração. Eu os vi quando Glenna e Hoyt se comprometeram. Encarregou-te das flores e as velas porque queria que eles tivessem seu momento. Você sabia que eles se amavam, e que isso era o importante. Houve uma grande doçura em sua atitude.

—Larkin...

—E lhe feriram. As cicatrizes estão todas em seu interior, escondidas onde ninguém possa as ver. Essas feridas lhe fazem pensar que está sozinha, que precisa estar sozinha. Mas não o está. Sei que durante toda sua vida lutaste contra uma coisa verdadeiramente horrível, e que nunca o evitaste. E mesmo assim pode sorrir, e rir, e fazer que os olhos se encham de lágrimas quando duas pessoas apaixonadas se comprometem e fazem seus votos. Não sei qual é sua cor favorita nem qual foi o último livro que leste quando teve um momento livre, mas te conheço.

—Não sei o que fazer contigo —disse Blair quando pôde voltar a falar. —Realmente não sei. Supunha-se que as coisas não deviam ser assim para mim. Supunha-se que não ia haver surpresas.

—Sem surpresas? Pois me sinto feliz de poder trocar isso. Bom, posto que não acredito que possa conseguir que te tire a roupa neste momento, por que não damos um passeio?

—Isto... Hoyt e eu temos feito uma batida pelo bosque esta manhã. Matamos a três.

—Não me referia a caçar. Um passeio. Só um passeio. Ainda fica muita luz.

—OH. Ah...

—Necessitará uma camisa, ou uma jaqueta. Sairemos pela cozinha e agarraremos uma. Desse modo também podemos nos levar uma caixa de bolachas.

Que estranho era, disse-se, sair a passear pelos campos acompanhada de um homem ao cair a tarde. Sem outro propósito que o de caminhar: nenhuma missão, nenhuma exploração, nenhuma caça. Armados com espada e estaca e biscoitinhos doces.

—Sabia que Hoyt ficará aqui com a Glenna quando tudo isto tenha acabado?

Blair mordeu uma bolacha e o olhou com o cenho franzido.

—Aqui, na Irlanda? Como sabe?

—Hoyt e eu estamos acostumados a falar de muitas coisas quando estamos no estábulo nos encarregando do cavalo. Sim, aqui na Irlanda. Neste lugar. Cian lhes deu de presente a casa e as terras.

—Que Cian lhes deu de presente a casa? —Comeu outra bolacha. — Não posso imaginá-lo. Sei que alguns vampiros, ou isso ouvi dizer, deixam de beber sangue. Sangue humano. Existem rumores, principalmente lendas, de que alguns vivem entre nós fazendo-se passar por humanos, depois de ter abandonado a caça. Nunca acreditei realmente nada disso.

—Fazer-se passar por humanos não os converte em humanos. E, entretanto, confio em Cian mais que em muitos homens. Pergunto-me se viver uma vida tão larga tem algo que ver com isso.

—Diga-lhe a Lilith. Ela tem o dobro de anos que ele.

—Os demônios devem ter alternativas, verdade? Escolher este caminho ou aquele, não sei. Quando tudo isto tenha terminado, voltará para sua Chicago?

—Não o pensei. —Sentiu uma espetada entre os ombros ao pensar nisso. — Pode que em alguma outra parte. Talvez viva em Nova York durante algum tempo.

—Onde vivia Glenna. Mostrou-me fotografias desse lugar. É maravilhoso. Possivelmente pudesse ficar um tempo no Geall. Como umas férias.

—Férias no Geall. —Meneou a cabeça. — Falando de maravilhas... Talvez uns dias.

Não se tratava precisamente de que alguém estivesse esperando que ela retornasse.

Caminharam até o cemitério e as ruínas da capela. Ali ainda nasciam flores, e a brisa sussurrava entre a grama alta.

—Esta é minha gente. É tão estranho isso saber. Se alguém seguiu a pista de nossos antepassados até tempos tão remotos, a mim ninguém me disse isso.

—Isso te entristece?

—Não sei. Um pouco possivelmente. Hoyt me trouxe aqui para me mostrar de onde venho. Essa é a tumba da Nola. —Assinalou uma lápide onde se estava murchando o ramo que ela tinha depositado alguns dias antes. — Ela foi o início do legado da família. O começo. Um de seus filhos teria sido o primeiro caçador. Não sei qual deles, e suponho que nunca saberei. Mas ao menos um deles.

—Trocaria isso se pudesse?

—Não. —Blair o olhou quando Larkin lhe rodeou os ombros com o braço. — Renunciaria você ao que é capaz de fazer?

—Não o faria nem por todo o ouro que há nas Green Mountains. Especialmente agora. Porque agora há uma diferencia. Quando você esteja de férias no Geall —disse enquanto continuavam andando — te levarei às Faene Falls. E faremos um picnic.

—De novo a comida.

Blair tirou uma bolacha da caixa e a colocou na boca do Larkin.

—Nadaremos no lago. A água é transparente como o cristal e não está fria. Depois te farei o amor sobre a grama suave enquanto a água cai junto a nós.

—E volta para o sexo.

—Comida e sexo. No que outra coisa mais prazerosa se pode pensar?

Blair teve que admitir que não lhe faltava razão. E não podia negar tampouco que a simplicidade de um passeio ao entardecer tinha sido um presente inesperado, mais precioso do que nunca tivesse imaginado.

—É o azul —disse ela. — Minha cor favorita é o azul.

Sorriu-lhe, agarrou sua mão e continuaram caminhando acima e abaixo da colina.

—Olhe ali. É uma formosa vista.

Blair viu a Glenna e Hoyt no jardim de ervas, muito perto um do outro. O jardim se via exuberante a seu redor e o sol iluminava a cena. Glenna sustentava uma cesta cheia de ervas que tinha recolhido e sua mão livre se apoiava na bochecha do Hoyt.

—Ouve o canto do sabiá? —perguntou Larkin e ela escutou o pequeno gorjeio feliz do pássaro.

O momento continha uma silenciosa intimidade, algo que não podia ser capturado e conservado, embora era permanente e universal. Encontrar isto era um verdadeiro milagre, pensou Blair, aquela normalidade, aquela proximidade dos corações em meio de todo o horror.

Deu-se conta de que, até que chegou ali, ela não tinha acreditado nos milagres.

—Por isso ganharemos —disse Larkin.

—O que?

—É por isso pelo que eles não podem nos derrotar. Nós somos mais fortes.

—Não é minha intenção estragar este momento, mas fisicamente são superiores ao humano médio.

—Fisicamente. Mas não tudo é força bruta, verdade? Nunca o é. Eles procuram destruir e nós sobreviver. A sobrevivência sempre é mais forte. E também temos isto. —Assinalou com a cabeça para o Hoyt e Glenna. — Amor e generosidade, compaixão. Esperança. Por que outra razão se fariam promessas duas pessoas em um momento assim, e com intenção de manterem-se fiéis a elas? Não renunciaremos a isto. Não permitiremos que nos arrebatem isso. Lutaremos juntos por isso e nunca nos deteremos.

Larkin ouviu que Glenna punha-se a rir e o som de sua risada se meteu dentro dele, reforçando sua esperança, enquanto Hoyt e ela se afastavam para a casa.

—Está pensando que eles tampouco o farão. Que Lilith tampouco se deterá, mas isso não muda nada, Blair. Nas cavernas vi toda essa gente dentro de jaulas. Alguns estavam derrotados, muito cansados e assustados para fazer nada que não fosse esperar a morte. Mas havia outros que agitavam os barrotes e amaldiçoavam a esses bastardos. E quando lhes liberei, pude ver algo mais que medo, inclusive algo mais que esperança em alguns desses rostos. Vi vingança.

Quando se voltou para olhá-la, Blair pôde ver tudo isso refletido no rosto do Larkin.

—Vi os mais fortes ajudando aos mais fracos —continuou — porque isso é o que fazem os humanos. As épocas terríveis tiram o melhor ou o pior de nós mesmos.

—E você está contando com o melhor.

—Nós já começamos por esse lado, não crê? Nós seis nos unimos.

Ela deixou que esse pensamento se instalasse em sua mente enquanto continuavam seu passeio.

—A forma em que me treinaram —começou Blair — consistia em uma só coisa. Você e ninguém mais. Na batalha está sozinho, do começo até o final... e isso nunca acaba.

—De modo que sempre está sozinho? Que sentido tem lutar?

—Ganhar. Sair da batalha com vida, enquanto que seu inimigo está morto. Branco e preto. Nada de impressionar ao público, nada de enganos, nenhuma distração.

—Quem poderia viver dessa maneira?

—Meu pai pôde. Fez-o. Faz-o. Depois que ele... Depois de ficar sozinha, estive algum tempo vivendo com minha tia. Ela tinha uma filosofia diferente. É obvio que se trata de ganhar, porque se não o faz está morto. Mas também se trata de viver. Família, amigos. Ir ao cinema, sentar-se na praia.

—Caminhar sob o sol.

—Sim. Funciona para ela, para sua família.

—Você é sua família.

—E ela sempre me fez sentir dessa maneira. Mas é assim como fui treinada. Talvez seja essa a razão de que a companhia nunca tenha funcionado muito bem para mim. Eu... houve alguém uma vez e eu lhe amei. Fizemo-nos mutuamente algumas promessas, mas não pudemos as manter. Ele não pôde seguir comigo. Eu não pude fazer que funcionasse porque, o que sou, não só o abalou e assustou, também lhe produziu repugnância.

—Então não era o homem indicado para ti ou, em minha opinião, não era homem absolutamente.

—Ele era simplesmente um homem normal, Larkin. Um cara normal e comum, e eu pensei que queria isso... Acreditei que eu podia ser isso. Alguém normal e comum.

Ela estava feita para algo melhor, pensou ele. Estava feita para mais.

—Poderia dizer-se que Jeremy, assim se chamava, ensinou-me que não era possível. Não é que não tenha uma vida fora do que meu pai chama «a missão». Tenho alguns amigos. Eu gosto de ir às compras, comer pizza, olhar a televisão. Mas a certeza que aparece quando o sol se pôs, sempre está ali. Não lhe pode sacudir isso de cima. Nós não somos como o resto da gente. —Blair elevou a vista. — O sol se está pondo. Será melhor que voltemos para a casa e nos preparemos para uma sessão de treinamento. —Olhou-o com olhos aprazíveis. — O recreio terminou.

Não era precisamente uma má situação, pensou Larkin; estar sentado e deixar que te atenda uma formosa mulher, especialmente quando essa mulher cheirava de maravilha e tinha as mãos de um anjo.

—Como sente isto?

Glenna lhe massageou brandamente os ombros, descendo pelos braços e voltando a subir.

—Muito bem. É agradável. Pode parar quando quiser dentro das próximas duas horas.

Glenna sorriu, mas seguiu trabalhando as costas do Larkin até o outro ombro.

—Recebeu alguns golpes muito duros, menino, mas te está recuperando bem. Não te prejudicará faltar do treinamento desta noite.

—Acredito que será melhor que não fique atrás. Temos muito pouco tempo.

—Uns poucos dias mais e nos poremos em marcha —conveio Glenna olhando por cima da cabeça do Larkin através da janela, enquanto continuava lhe massageando as costas e os ombros. — É estranho como este lugar se converteu em um lar em tão pouco tempo. Ainda sinto falta de Nova York, mas já não é meu lar.

—Mas retornará de vez em quando.

—OH, sim. Necessitarei minha dose. Pode te levar a garota fora da cidade, mas...

Glenna caminhou ao redor do Larkin e passou os dedos pelos machucados que tinha no flanco, nas costelas, o que lhe fez dar um salto.

—Sinto muito. Tenho um pouco de cócegas.

—Respira profundamente e pensa no Geall. Acabarei logo.

Era realmente uma tortura, temendo a cada minuto tornar-se a rir bobamente como uma garota.

—Geall você gostaria. No castelo há uns formosos jardins, e ervas... OH, Jesus, está-me matando. E o rio, quando seu leito passa por detrás do castelo, é quase tão largo como um lago. Os peixes saltam e caem dentro de suas mãos, e... Graças a Deus, isso é tudo?

—Sim. Pode te pôr a camisa.

Larkin levantou primeiro os ombros e logo moveu a cabeça para ambos os lados.

—Muito melhor. Obrigado por isso, Glenna.

—Não é nada. —Foi até o lavabo a limpar o resto de bálsamo das mãos. — Larkin, Hoyt e Cian hoje estiveram falando.

—Isso está bem, considerando que são irmãos. —Larkin se levantou e pôs novamente a camisa. — Mas deduzo que não te está referindo a conversações familiares correntes.

—Não. A logística, estratégias. Hoyt é muito bom com a parte logística, nunca passa por cima um detalhe, mas Cian é melhor em tudo o que se refere à estratégia, suponho. —voltou-se enquanto se secava as mãos com uma toalha. — Pedi-lhes que não discutissem dessas questões durante o jantar, para que pudéssemos desfrutar da comida. Uma comida normal... bom, tão normal como posso sê-lo com armas por toda parte.

—Foi-o. Vi-lhes ao Hoyt e a ti antes, quando se beijavam no jardim de ervas aromáticas.

—OH.

—E isso também era normal. Como o passeio que dei com a Blair, ou Moira aconchegada em alguma parte com um livro. Necessitamos tudo isso, Glenna, de modo que não deveria preocupar-se se por acaso estou ofendido por não ter tomado parte em uma discussão a respeito de logística e estratégia.

—Faz que as coisas resultem fáceis, obrigado. A questão é que estamos tratando de resolver não só como levamos as armas e os fornecimentos que necessitamos daqui até o Baile dos Deuses, mas também de ali até o Geall, e logo do Baile dos Deuses no Geall até onde tenhamos que nos dirigir uma vez que estejamos ali.

—O castelo seria o melhor lugar para isso.

—O castelo. Ah, do castelo! —Glenna riu brevemente. — Iremos ao castelo. O transporte pode resultar um tanto complicado, e necessitaremos que Moira e você nos ajudem nesse aspecto. Por outra parte, somente Moira e você saberão para onde teremos que nos dirigir uma vez que tenhamos chegado ao Geall. Que tal é desenhando mapas?

 

—Isto seria todo Geall. —Larkin tinha desenhado o mapa na biblioteca. —Esta é a forma que tem. Uma espécie de leque denteado one depressões são baías, baías e portos. E aqui estaria o Baile dos Deuses.

—Para o oeste —murmurou Hoyt —, igual a aqui.

—Aye, e um pouco para o interior. Embora se for um dia claro, dali se pode ver a costa e o mar. Há um bosque, igual aqui, mas se estende até um pouco mais ao norte. O Baile dos Deuses se encontra em uma elevação de terreno e aqui está o Poço dos Deuses. E mais ou menos nesta zona, estaria o castelo.

Larkin o marcou desenhando uma espécie de torre e uma bandeira.

—Por este caminho, há uma boa hora de marcha a cavalo se a viagem for tranqüila. Há intercessões aqui e também aqui. Por este se vai à cidade do Geall. E este caminho leva ao Dragon's Lair e logo ao Knockarague. O povo de minha mãe veio dali e haverá muitos que se unirão a nós para lutar contra os vampiros.

—E o campo de batalha? —perguntou Hoyt.

—Aqui, quase no centro do Geall. As montanhas formam uma espécie de semicírculo que se estende para o norte, curvando-se para o leste e logo descendo para o sul. O vale está aqui. É muito amplo e o terreno é abrupto, salpicado de cavernas e com muitas rochas. Chama-se Ciunas. Silêncio, já que um homem poderia vagar durante horas por ali, completamente perdido. E ninguém poderia lhe ouvir. Em todo Geall, que eu saiba, é o único lugar onde só há grama e rochas.

—Não tem sentido provocar um Apocalipse em uma pradaria —comentou Cian. — Serão cinco dias de marcha, isso foi o que disse Moira, verdade?

—Uma marcha dura, assim é.

—Perigosa para mim, mesmo que conseguisse chegar tão longe. —indicou Cian.

—Há alguns lugares com o passar do caminho. Refúgios, cabanas, cavernas, cabanas. Encarregaremo-nos de que não te acenda como uma tocha.

—É um consolo para mim, Larkin.

—Um homem deve fazer o que puder. Há casarios nas proximidades do vale —continuou explicando ao tempo que os desenhava no mapa. — Pode-se recorrer aos homens que vivem ali, mas acredito que melhor seria construir algumas fortificações. O inimigo certamente encontrará esses lugares muito apropriados para instalar seus próprios refúgios e começar seus preparativos.

—Não cabe dúvida de que o menino tem cérebro —disse Cian. — Lilith atacará estes casarios. —Cian golpeou ligeiramente o mapa com o dedo. — Dizimará sua população, converterá em vampiros a todos aqueles que considere que podem lhe servir melhor, e utilizará ao resto deles como comida. Esse será seu primeiro golpe.

—Então será ali onde instalaremos nossa primeira linha de defesa —disse Hoyt, assentindo.

—Estaria esbanjando tempo e esforços —replicou Cian.

—Não podemos deixar a essa gente indefesa —começou a dizer Hoyt.

—Devemos lhes tirar dali. Deixar ao Lilith sem fontes de comida ou recrutas frescos, ao menos nessa zona. Eu diria que devemos queimar esses casarios, mas desse modo também estaríamos esbanjando tempo e esforços.

—Mas tem razão. —Blair entrou na habitação. — Deixá-la sem possibilidade de refugiar-se, sem fornecimentos, nada mais que terra arrasada e cinzas. É o método mais limpo, mais rápido e mais eficaz.

—Está falando dos lares dessa gente. —Larkin meneou a cabeça olhando ao Blair. — Dos lares, vidas e os meios de subsistência dessa gente.

—Algo que, em qualquer caso, já não terão quando Lilith tenha acabado com eles. Mas está claro que não quererão —lhe disse Blair a Cian. — E se nós o fizéssemos, tentássemo-lo, a gente se rebelaria, e então teríamos que combater em duas frentes. Assim, o melhor será evacuar à população, transladar ao castelo ou a outras fortificações aos anciões, aos mais fracos, a todos aqueles que não possam ou não queiram lutar.

—Mas está de acordo com ele —insistiu Larkin. — No aspecto geral do plano. Queimar tudo, as casas, as granjas, as lojas.

—Sim, assim é.

—Há outras maneiras. —Hoyt elevou uma mão. — Glenna e eu não fomos capazes de criar um encantamento para manter aos vampiros afastados desta casa devido à presença de Cian entre nós. Entretanto, poderíamos tentar um para proteger essas áreas, para impedir que se aproximem das casas ali. É possível que seu mago possa rompê-lo, mas isso lhe levaria tempo... e o obrigaria a manter sua concentração e suas energias postas nisso.

—Isso poderia dar resultado. —Blair intercambiou um olhar com Cian compreendendo que estavam pensando o mesmo; embora eles não queimassem os casarios, Lilith se encarregaria de fazê-lo.

—Assim que isto é Geall. —inclinou-se sobre o mapa. — E este é o lugar. Isolado, esquecido contra as montanhas. Muitas cavernas, muitos lugares onde esconder-se, e um terreno completamente desolado. Até uma cabra teria problemas para bater-se em retirada nesse lugar.

—Nós não sairemos fugindo —disse Larkin secamente.

—Estava pensando neles. Ao carecer de qualquer outro refugio durante o dia, utilizarão as cavernas. Isso nos deixa o terreno elevado, mas lhes concede a vantagem para nos tender uma emboscada. Será de noite, o que joga também a seu favor. Usaremos fogo, uma grande vantagem para nós. Mas antes que cheguemos ali, me ocorreram algumas idéia para lhes dar uma surpresa durante o caminho. Neste momento, não sabemos por onde aparecerá Lilith exatamente, mas cabe deduzir que as probabilidades indicam que será dentro desta área.

Blair colocou uma mão sobre o mapa.

—Campo de batalha, refúgio, castelo. Ela não vai ficar escondida detrás de uma rocha durante o dia; não é seu estilo, de modo que devemos supor que se transladará de noite e se moverá depressa, procurando um lugar onde refugiar-se. E, mais provavelmente, enviará uma força avançada para esses casarios que se encarregará do ter tudo preparado para sua chegada. Quer dizer que precisamos saber quais são as rotas mais rápidas entre estes dois pontos.

Todos trabalharam, debateram, discutiram. Blair se deu conta de que Larkin já não a apoiava, que se tinha afastado dela em algo básico. Disse-se a si mesmq que era algo que podia dirigir. Disse-se que não se sentiria ferida.

De todos os modos, o que havia entre eles, não era mais que uma ilusão. Uma pequena fantasia, tão passageiro como inocente. A paixão não era ruim, ajudava a encher os vazios... Temporariamente. Mas ela sabia muito bem que a paixão se apagava e acabava morrendo quando as coisas ficavam difíceis. Embora era um pobre consolo, aferrou-se a ele. Manteve-o vivo quando se foi sozinha a sua habitação.

Moira esperou sua oportunidade. Durante todo o treinamento, pôde ver claramente que algo ocorria entre Blair e Larkin. Apenas se falavam e, se o faziam, era como se fossem dois desconhecidos. Quando já estava a ponto de amanhecer, Moira agarrou ao Larkin do braço antes que este abandonasse o salão de treinamento.

—Vêm comigo, quer? Há algo que quero te ensinar.

—O que é?

—Em minha habitação. Só será um minuto. Retornaremos a casa em uns dias —prosseguiu antes que Larkin pudesse protestar. — Pergunto-me se tudo isto não nos parecerá um sonho.

—Um pesadelo.

—Não tudo. —Reconhecendo seu baixo estado de ânimo, deu-lhe um afetuoso golpezinho com o quadril. — Você sabe muito bem que não tudo é um pesadelo. Durante algum tempo nos pareceu que tínhamos estado aqui sempre. Agora o tempo voa, e é como se acabássemos de chegar.

—Sentirei-me muito melhor quando tivermos chegado ao Geall. Quando souber onde estou e o que tenho que fazer.

OH, sim, pensou ela, não cabia dúvida de que algo não funcionava. Entraram em sua habitação e não voltou a falar até que ambos estiveram dentro e com a porta fechada.

—O que é o que ocorre entre Blair e você?

—Não sei do que está falando. O que era isso que queria me mostrar?

—Nada.

—Mas há dito que...

—Bom, menti-te. Faz dias que lhes vejo muito juntos, e hoje mesmo destes um passeio agarrados da mão... e só te olhando posso ver que não estou equivocada.

—E o que passa com isso?

—Esta noite, o ar se congelava cada vez que um de vocês abria a boca. Brigaram?

—Não.

Moira franziu os lábios.

—Talvez necessitem uma briga.

—Não seja tola, Moira.

—E o que me diz de ti? Ela te tem feito feliz. Deu-te algo que eu nunca tinha visto que tivesse e me dá a impressão de que você deste o mesmo a Blair.

Larkin jogou um momento com as bonitas pedras que Moira tinha recolhido no arroio e colocado em cima da cômoda.

—Acredito que te equivoca, e que eu estava equivocado.

—Como é isso?

—Blair me há dito que eu não a conhecia realmente. Não a acreditei, mas agora... Agora me pergunto se possivelmente tinha razão.

—Talvez sim, talvez não, mas é evidente que tem feito ou dito algo que te incomodou. Pensa deixá-lo assim ou fará algo a respeito? Por que não o analisa ou, ao menos, fala-o com ela?

—Eu não...

—Não me venha com desculpas —lhe cortou Moira com impaciência. — Seja o que for, não pode ser mais grave que aquilo com o que nos enfrentamos. Agora, qualquer outra coisa é insignificante. Asseguro-te que qualquer outra coisa pode arrumar-se. De modo que vá e arruma-o.

—Por que devo ser eu quem arruma as coisas?

—Porque, se não, até que o faça, estará de mau humor e refletindo amargamente em lugar de dormir. E antes que chegue a isso, eu me encarregarei de te chatear até que te estale a cabeça.

—Está bem, está bem. Moira, é realmente insuportável.

—Sei. —Acariciou-lhe Isso bochecha. —É porque te quero. E agora vete de uma vez.

—É o que estou fazendo.

Larkin aproveitou sua irritação com a Moira para sair da habitação e dirigir-se a de Blair. Bateu na porta, mas não esperou a que o convidassem a entrar. Abriu e viu que ela estava sentada frente ao escritório, com sua pequena máquina computador.

Fechou a porta com firmeza detrás dele.

—Tenho que falar contigo.

 

Ela conhecia esse tom...quando «tenho que falar contigo» significava em realidade «tenho que discutir contigo». E isso lhe parecia bem, isso era genial. Encontrava-se de um humor perfeito para uma briga rápida e suja.

Mas isso não significava que fora a pôr as coisas fáceis ao Larkin.

Permaneceu sentada.

—Obviamente, passaste por cima o fato de que neste momento estou ocupada.

—Obviamente, passaste por cima o fato de que me importa uma merda.

—É minha habitação —espetou ela friamente — e o que decidi fazer.

—Então me jogue da habitação; por que não o faz?

Ela se voltou para ele e estirou as pernas casualmente, em um gesto que sabia que era insultante.

—Crê acaso que não poderia fazê-lo?

—Acredito que, neste momento, teria muitos problemas para consegui-lo.

—Por sua expressão, parece-me que vieste a procurar animação. De acordo. —Cruzou os pés à altura dos tornozelos... Uma linguagem corporal só um pouco mais insultante, pensou. Com um gesto ocioso, agarrou uma garrafa de água e o assinalou com ela antes de beber. — Diga o que tenha vindo a dizer e logo parte.

—Pelo som de sua voz, cara, estava-me esperando.

—Sei que te acontece algo comigo, deixaste-o bastante claro. De modo que cospe-o já, Larkin. Não temos muito tempo e eu não tenho paciência para ofensas insignificantes.

—Acaso é insignificante falar de um modo tão insensível a respeito de destruir os lares da gente, o trabalho de toda sua vida, todo aquilo que construíram e pelo que se esforçaram?

—Trata-se de uma estratégia legítima e provada em tempo de guerra.

—Teria esperado ouvir essas palavras de Cian. É o que é e não posso fazer nada para evitá-lo. Mas não de ti, Blair. E não se trata somente da estratégia, mas sim da maneira em que o há dito, da forma em que falaste que essas pessoas que defenderiam seus lares; como se fossem um estorvo, uns rebeldes, segui suas palavras.

—Seriam, ao criar um problema que não podemos confrontar.

—Mas em troca sim poderia confrontar o fato de queimar suas casas.

Ela conhecia muito bem o aspecto e o som que tinha a aversão irada de um homem. Quão único podia fazer era fortalecer-se contra isso.

—É melhor perder madeira e tijolo que carne e osso.

—Um lar é muito mais que madeira e tijolo.

—Não poderia dizê-lo, nunca tive um, mas essa não é a questão. Em qualquer caso, só o expusemos, não o temos feito. De modo que se isso é tudo...

—O que quer dizer com que alguma vez tiveste um lar?

—Digamos que nunca desenvolvi um vínculo emocional com o teto que tinha em cima de minha cabeça. Mas se o tivesse, preferiria vê-lo desaparecer antes de que isso me ocorresse , ou a qualquer que me importasse. —Os músculos da parte posterior do pescoço lhe tinham esticado como cabos, lhe provocando uma enxaqueca que lhe chegava diretamente ao crânio. — E esta é uma discussão ridícula, porque não vamos queimar nada.

—Não, porque nós não somos os monstros.

Blair empalideceu ante esse comentário. Larkin pôde ver como a cor desaparecia de seu rosto.

—Isso significa que você não o é e que Hoyt não o é, mas Cian e eu somos outra história. Muito bem. Não é a primeira vez que me comparam com um vampiro.

—Não é isso o que estou fazendo.

—Esperava-o dele, mas não de mim —lhe recordou Blair. — Bem, pode esperá-lo. Não, isso mancha, não espere nada. E agora te largue de minha habitação.

—Não terminei —disse ele.

—Eu sim. —Blair se levantou e se dirigiu para a porta. Quando Larkin se colocou diante dela e a agarrou do braço, ela se liberou de um puxão. — Mova-te ou eu me encarregarei de que o faça.

—Essa é sua solução? Ameaçar, empurrar, golpear?

—Não sempre.

Entretanto, seu punho saiu arrojado para cima e chegou a seu destino antes que a idéia de fazê-lo chegasse a seu cérebro. O golpe derrubou ao Larkin e a deixou assombrada, emocionada e envergonhada. Perder o controle com um ser humano, causar dano físico a uma pessoa, isso não estava permitido.

—Não penso me desculpar, porque você procurou isso. Contudo, passei-me. E que o tenha feito significa que transpassei a linha e que esta conversa tem que terminar. Vêm, te levante.

Tendeu-lhe a mão.

Blair não o viu vir, outro engano. Larkin atirou violentamente de sua mão e, com a perna, levantou-lhe os pés do chão. Quando ela caiu, ele rodou colocando-se em cima antes que Blair pudesse reagir.

Ela teve um instante para pensar que Larkin tinha estado treinando muito bem.

—É assim como terminas suas discussões? —perguntou ele. — Com um murro na cara?

—A discussão já tinha acabado. Isso foi para afirmar minha posição. Vais desejar te afastar de mim, Larkin, e depressa. É sua última oportunidade.

—Que se dane.

—Que se dane a ti. —O tirou de cima e logo encolheu o corpo para bloquear qualquer golpe que ele pudesse lhe lançar. —Não pode jogar comigo deste modo. Tudo é muito fácil quando se trata de passeios sob o sol e de propostas de comidas campestres, mas quando as coisas ficam difíceis, quando tenho que ser dura, então te repugna e sou um maldito monstro.

—Eu nunca te chamei que essa maneira e não me repugna. O que estou é furioso contigo.

Equilibrou-se sobre ela e ambos caíram rodando novamente ao chão. Seus corpos se chocaram contra uma mesa e a derrubaram, fazendo que um bola de cristal se fizesse pedaços.

—Se deixasse de tentar me amassar e me ferir durante cinco segundos, poderíamos acabar com isto.

—Se tivesse querido te ferir, neste momento te estaria sangrando por uma artéria. Não necessito que me julgue ou me exorte porque feri sua sensibilidade. Não necessito esta merda de ti nem de...

—O que precisa é fechar sua maldita boca.

E Larkin esmagou sua boca nos lábios de Blair em um beijo furioso e frustrado, apesar de que o cotovelo dela encontrou a forma de cravar-se em seu estômago. O teve que apartar a cabeça para recuperar o fôlego perdido.

—Não me diga que feche a boca.

Blair o agarrou do cabelo com ambas as mãos e voltou a lhe aproximar os lábios aos seus.

Beijou-o com a mesma fúria, com a mesma frustração. Com a mesma necessidade. «A merda todo —pensou. — A merda o que está bem e o que está mau, a sensatez, a segurança. A merda o controle.»

Havia momentos nos que tomava e deixava que tomassem.

Não significava nada, disse-se enquanto lhe arrancava a camisa. Era só carne, era só desejo sexual. Queria chorar e rugir tanto como devorar.

Sentou-se escarranchado sobre ele enquanto se tirava a camiseta por cima da cabeça. Mas Larkin se ergueu, rodeando-a com seus braços ao tempo que sua boca encontrava seu peito. Então Blair se aferrou a ele, jogou a cabeça para trás e deixou que continuasse.

Agora ela estava montando de novo no dragão, pensou ele, voando com seu poder. Blair era como uma chama, e sua simples queimadura o voltava louco. Usou os dentes e a língua, saciando-se, enquanto os dedos de Blair se afundavam em seus ombros, suas costas, nos flancos. Então a teve outra vez debaixo dele, elevando e movendo os quadris enquanto suas bocas se juntavam violentamente.

Larkin lhe deslizou as calças para baixo e viu que ela não levava nada mais salvo a mulher, quente e úmida. Mais quente e mais úmida quando sua mão a tocou. Seu gemido, rouco e profundo, o fez vibrar.

Quando o orgasmo estalou através dela, Blair só pôde pensar «Deus, obrigado Deus». Mas a ansiedade voltou a sacudi-la, girou em seu interior como um ciclone que a fez morder, arranhar e rasgar.

Não pensava dar quartel, e tampouco pedi-lo; só queria aferrar-se ao corpo do Larkin com suas poderosas pernas. Experimentar o delicioso cataclismo de sua penetração.

Ele arremeteu a um ritmo enlouquecido, investida depois investida, até que ambos se consumiram no mesmo fogo.

 

O que tinha feito? Acabava de ter uma sessão de sexo frenético e explosivo sem dedicar um só pensamento ao instinto de conservação, às conseqüências. A... nada. Nenhum pensamento, absolutamente nenhum, só a satisfação de uma necessidade brutal e primária.

Larkin ainda estava dentro dela e era como se seus corpos se tivessem fundido devido ao intenso calor emanado por eles. Como faria para voltar a ser ela mesma? Como faria para sair ilesa daquilo?

Supunha-se que não devia sentir desse modo. Supunha-se que não devia querer nada nem a ninguém de tal modo que se esquecesse de si mesma. Não permitir que tomassem ao tempo que ela também tomava, em meio de uma paixão cega e selvagem.

Blair não o tinha detido. Não tinha sido capaz de fazê-lo. E agora pagaria as conseqüências.

Larkin murmurou algo que ela não entendeu. Logo esfregou o nariz contra seu pescoço, como se fosse um cachorrinho, e rodou para um lado.

A simples doçura desse gesto, depois da ferocidade do assalto que tinham mantido, desmontou-a.

—É incrível. —Ofegante, Larkin conseguiu articular as palavras. — Bom, foi realmente assombroso, e como eu o tinha planejado. Está bem?

«Tome cuidado —se recomendou a si mesmo. — Permanece alerta e tranqüila.»

—Muito bem.

Sentou-se e procurou as calças.

—Espera um minuto. —Aplaudiu-lhe o braço. — A cabeça ainda me dá voltas. E, além disso, logo que pude te olhar, considerando que os dois tínhamos pressa.

—Temo-lo feito. —Blair pôs as calças. — Isso é o que conta.

Larkin também se levantou e agarrou a camiseta de Blair antes que ela o fizesse.

—Me olhe, quer?

—Não sou muito boa para as análises posteriores à partida e, além disso, tenho coisas que fazer.

—Não recordo nenhuma partida. Uma batalha, talvez. Pensava que ambos tínhamos ficado no bando ganhador.

—Sim, e estou bem, tal como te acabo de dizer. —Começaria a tremer em qualquer momento. — Necessito minha camiseta.

Larkin estudou sua expressão.

—Aonde te foste? Tem tantos esconderijos...

—Eu não me escondo.

Arrancou-lhe a camiseta das mãos.

—Aye, é claro que sim que o faz. Se alguém consegue aproximar-se muito, você te desliza imediatamente por volta de uma de suas curvas.

—A ver, por que quer que agora me zangue? —ficou a camiseta com movimentos bruscos. — Tivemos sexo... sexo realmente bom. Era algo que se via vir desde fazia tempo, e já aconteceu. Podemos voltar a nos concentrar no que importa.

—Não acredito que aqui as coisas sejam tão diferentes do Geall para dizer que o que tivemos foi simplesmente sexo.

—Olhe, vaqueiro, se o que quer é uma aventura romântica...

Ele se levantou lentamente. O brilho de seus olhos advertiu ao Blair que seu mau humor havia voltado. Isso era bom, de fato, isso estava muito bem. Deram-se uma boa queda e agora ele se iria.

—Não houve nada romântico no que temos feito. Pensava que o seria a primeira vez que estivéssemos juntos, mas as coisas tomaram outro rumo, e não me queixo. Mas agora está tratando de me jogar, me apartar de ti, do mesmo modo que antes com o murro. Permita-me que te diga que esse golpe foi mais honesto que o que está fazendo agora.

—Já tiveste o que andava procurando.

—Você sabe muito bem que não era só isso.

—Que sentido tem qualquer outra coisa? Qual é o maldito sentido? Não há futuro.

—Estiveste consultando a bola de cristal da Glenna? É capaz de ver hoje o que ocorrerá amanhã e ao dia seguinte?

—O que sei é que estas coisas estão condenadas antes inclusive de que comecem. Cian não é o único que é o que é, Larkin.

—Ah, agora me sai com isso.

—Só... —Levantou ambas as mãos, fez um gesto no ar e se separou dele. — Esquece-o. Se a queda não for suficiente para ti, procura em outra parte.

De modo que ele a tinha ferido, compreendeu Larkin. Não era o primeiro em fazê-lo, e não podia decidir se realmente lamentava o que tinha feito.

—Não sei o que é suficiente para mim quando se trata de ti. —Recolheu suas calças e os pôs. — Mas sim sei que me preocupo contigo. Sei que me importa.

—OH, por favor. —Blair agarrou a garrafa de água que havia em cima de seu escritório e bebeu um gole. — Se nem sequer você gosta de mim.

—De onde diabo tirou isso? Por que diz algo tão estúpido e tão falso?

—Parece ter esquecido o que foi o que começou tudo isto; para que vieste a minha habitação.

—Não o esqueci, mas não sei o que tem isso que ver com o que sinto por ti.

—Pelo amor de Deus, Larkin, como poderia sentir algo por alguém ao que tem em frente em um assunto fundamental?

Larkin pensou muito bem suas palavras antes de falar. Ele sabia muito bem que nesses momentos Blair o estava comparando com esse Jeremy do que lhe tinha falado antes. Alguém que não tinha sido capaz de amá-la e aceitar quem era, ou que não tinha querido fazê-lo.

—Blair, é uma mulher muito obstinada, e eu também tenho minha veia de teimosia. Meus próprios pensamentos e opiniões e, como o chamou?, sensibilidades. E com isso o que?

—Com isso, você e eu —Blair o assinalou, logo se golpeou ligeiramente o peito e agitou o dedo entre o Larkin e ela —, barreira.

—OH, tolices. Crê acaso que não posso dissentir de ti, e fazê-lo apaixonadamente, e de uma vez me preocupar contigo? Respeitar-te, te admirar, inclusive sabendo dentro de meu coração que está equivocada a respeito do que estávamos discutindo? Arrumado a que, por sua parte, você crê que sou eu quem está equivocado. Não o estou —disse com um leve indício de sorriso —, mas essa é outra questão. Se todo mundo deve acreditar o mesmo, se alguma vez existir nenhuma diferença apaixonada, como se emparelha a gente em seu mundo?

—Não o fazem —disse ela um momento depois. — Não comigo.

—Então só é estúpida. E estreita de mente —acrescentou ante o olhar boquiaberto dela. — E muito dura de moleira também, como acredito que te acabo de dizer.

Blair bebeu outro cauteloso gole de água.

—Não sou estúpida.

—Então o resto do que hei dito. —Larkin assentiu enquanto dava um passo para ela. — Blair, não sempre aonde vai é o mais importante. O que conta é a própria viagem, o que encontra, o que faz com o passar do caminho. Eu encontrei a ti, e isso é algo muito importante.

—Aonde vamos, importa.

—É verdade. Mas também onde estamos agora. Tenho sentimentos para ti, sentimentos que nunca antes tive por ninguém. Não sempre me resulta fácil a acomodar dentro de mim, mas procuro trocar a disposição das coisas até que encaixam.

—Você talvez. Eu não sou boa nessas coisas.

—Pois como eu sim o sou, só terá que me seguir.

—Como lhe arrumaste isso para lhe dar a volta a minhas palavras?

Larkin se limitou a sorrir, logo a beijou na bochecha, na testa e na outra bochecha.

—Só me arrumei isso para que desse a volta para mim. Essa é a direção correta.

 

Blair tinha que manter a mente concentrada no trabalho. Se não o fazia, tendia a vagar na direção que Larkin tinha mencionado. Então se encontrava sonhando acordada, sorrindo sem nenhum motivo, ou recordando como era despertar junto a um homem que a olhava de um modo que a fazia sentir tão mulher.

Ainda havia muitas coisas pendentes para abandonar-se às fantasias.

—Tem que ser prática, Glenna. Todos temos que ser agora. —Blair tocou com seu pé o baú onde Glenna guardava suas coisas. — O que é essencial do que tem aqui dentro?

—Tudo.

—Glenna.

—Blair —Glenna cruzou os braços —, vamos entrar em batalha ou não contra todos os demônios?

—Sim, isso é o que faremos. O que significa que iremos ligeiros de bagagem, com facilidade para nos mover.

—Não, o que significa que iremos carregados. Estas são minhas armas. —Glenna moveu uma mão, pensou Blair, como uma dessas apresentadoras que mostram prêmios fabulosos. — Pensa deixar suas armas aqui?

—Não, mas eu posso as levar às costas, algo que você não pode fazer com seu baú de duas toneladas.

—O baú não pesa duas toneladas. Como máximo, trinta e cinco quilogramas. —Os lábios da Glenna tremeram ligeiramente ante o largo e frio olhar de Blair. — De acordo, talvez quarenta.

—Só os livros...

—Podem ser decisivos. Quem pode dizê-lo? Eu me encarregarei de transportá-los.

—Será melhor que seja um círculo de pedra ferradamente grande —disse Blair entre dentes. — Sabe que leva mais coisas que todo o resto de nós juntos?

—O que posso dizer? Sou uma diva.

Blair revirou os olhos e se aproximou da janela da torre para olhar a chuva.

Ali ficava já muito pouco tempo, pensou. Quase era o dia da mudança. E embora ela podia ver —virtualmente ver — algumas das forças de Lilith nas árvores, não se percebia nenhum movimento para a casa. Nenhum ataque.

Ela tinha esperado que acontecesse algo. depois do que Larkin tinha provocado, só pelo valor que tinha demonstrado, Blair esperava alguma classe de represália por parte de Lilith. Parecia quase impossível que encaixasse semelhante insulto, semelhante perda, sem devolver o golpe.

—Possivelmente ela está também muito ocupada fazendo os preparativos para ir-se ao Geall.

—O que?

—Lilith. —Blair se voltou por volta da Glenna. — Faz dias que não temos notícias dela- E a incursão do Larkin teve que lhe fazer dano. Deus, quando pensa nisso, um só homem, desarmado, não só consegue entrar nessas cavernas, mas também consegue liberar os prisioneiros. É um chute em pleno rosto.

Os olhos da Glenna brilharam.

—Eu gostaria que isso fosse literal além de figurado.

—Ponha à cauda. Mas possivelmente agora está muito ocupada preparando-se para mover sua frente para nos perseguir.

—É muito provável.

—Vou à sala de combate. É necessário que ultimemos os detalhes das armadilhas que queremos colocar.

—Suporão alguma diferença?

—O que quer dizer?

—Estive pensando nisso, em tudo. No que temos feito, no que têm feito eles. —Glenna passou uma mão pela tampa de seu baú. — Mas o momento e o lugar já foram fixados. Nada do que façamos trocará esse momento e esse lugar.

—Não; Morrigan o deixou muito claro durante nossa última conversa. Mas o que nós façamos, a forma em que dirijamos o tempo entre agora E então, fixará como serão esse momento e lugar. Morrigan também estava dizendo isso. Não se preocupe, é normal que estejamos nervosos.

—Bem. —Com enérgica eficácia, Glenna voltou a colocar em sua caixa os frascos que tinha recheado. — Hoje chamei a meus pais. Hei-lhes dito que provavelmente estaria incomunicável durante algumas semanas. Expliquei-lhes que o estava passando muito bem. Naturalmente, não lhes hei dito nada de tudo isto. Nem sequer lhes falei sobre Hoyt; ainda é algo muito difícil de explicar. —Fechou a caixa e se voltou. — Não se trata de que não tenha medo a morrer. Tenho-o, é obvio... Possivelmente mais agora que quando começou tudo isto. Agora tenho muito mais que perder.

—Hoyt, e o «felizes para sempre».

—Exatamente. Mas estou preparada para morrer se for preciso. Talvez mais agora que quando isto começou; pelas mesmas razões.

—O amor sem dúvida pode pô-lo todo patas acima.

—OH, é claro que sim —foi o sincero assentimento da Glenna. — E não trocaria um só momento desde que conheci o Hoyt. Entretanto, tudo é tão difícil, Blair. Se não sair desta, não tenho forma de lhe explicar nada a minha família. Eles nunca saberão o que me passou. E isso me pesa.

—Então não morra.

Glenna se pôs-se a rir.

—Uma idéia estupenda.

—Sinto muito. Não pretendia tomá-lo à ligeira.

—Não, de fato é uma espécie de ânimo. Mas... Se me acontecesse algo, levaria isto a minha família? —Tendeu-lhe um sobre. — Sei que é muito pedir —acrescentou ao ver que Blair duvidava.

—Não, mas... Por que eu?

—Cian e você são os que têm mais possibilidades de sair com vida disto. Não posso lhe pedir a ele que o faça. Eles não o entenderão, inclusive com a carta, mas ao menos não se passarão o resto de suas vidas perguntando-se se estiver viva ou morta. Não quero fazê-los passar por isso.

Blair estudou o envelope, o risco artístico da letra com que estavam escritos os nomes e a direção de seus pais.

—Desde que começou esta história, eu tentei me comunicar com meu pai duas vezes —explicou Blair. — Através do e-mail, já que em realidade não sei onde está. Não me respondeu.

—OH, sinto muito. Certamente está fora do alcance de...

—Não, provavelmente não. É só que não me responde; isso é bastante típico de meu pai. E preciso superá-lo. Não é que o assunto em si não lhe importe. Uma grande guerra de vampiros... Realmente lhe interessaria. E se eu morresse, sentiria-o. Porque ele me treinou para não ser derrotada. Se sucumbisse, seria como uma crítica para ele.

—Isso soa muito duro.

—Ele o é. —Blair olhou fixamente a Glenna aos olhos. — E não me ama.

—OH, Blair.

—É hora de superar isso também. Tempo passado. Você tem algo mais aqui. —Deu uns golpezinhos no envelope. — E é importante.

—É-o —conveio Glenna. — Mas eles não são minha única família.

—Entendo-o. Refere ao que temos nós seis. É uma das coisas boas que encontrei com o passar do caminho. —Blair assentiu e guardou o envelope em um dos bolsos traseiros de seus jeans. — Devolverei-te este envelope em primeiro de novembro.

—Isso estaria bem.

—Verei-te abaixo.

—Em seguida. OH, e Blair? É muito bonito o do Larkin e você. Resulta agradável de ver.

—Ver o que?

Agora Glenna deixou escapar uma sonora gargalhada.

—É que estou cega acaso? Além disso, agora tenho a supervisão de raios X de uma recém casada. Só estou dizendo que eu gosto da maneira em que estão juntos. Parece-me que ambos encaixam muito bem.

—É só... Não é... Eu não estou procurando o grande final estilo Hollywood, onde a música vai crescendo e a luz se volta rosada e formosa.

—Por que não?

—Simplesmente as coisas não são assim. Eu vivo dia a dia. Se as pessoas como eu olham muito longe, acabam caindo no grande buraco que alguém cavou no caminho, justo diante deles.

—E se não olharem o bastante longe, ou com suficiente intensidade, não podem ver o que realmente estavam procurando.

—Neste momento, conformo-me evitando o buraco.

Uma vez dito isto, abandonou a habitação. A uma mulher que ainda estava flutuando nas asas de um amor flamejante, era impossível lhe explicar que havia algumas pessoas que, simplesmente, não estavam feitas para isso, pensou. Algumas mulheres não tinham incluído em seu destino esse passeio ao por do sol, de mãos dadas com o homem de seus sonhos.

Quando Blair caminhava ao por do sol, o fazia sozinha, e ia armada e plantando cara à morte.

Não era exatamente um assunto de romance e futuro esperançoso.

Ela o tinha tentado em uma ocasião e tinha sido um desastre que lhe tinha explodido em pleno rosto. Larkin não era Jeremy, disso não havia nenhuma maldita dúvida. Larkin era mais duro, mais forte, e, certamente, mais doce.

Mas isso não trocava um ápice a questão fundamental. Ela tinha seu trabalho —a missão — e ele tinha seu mundo. Não eram precisamente elementos muito adequados para uma relação a longo prazo.

Seu ramo particular da velha árvore genealógica dos McKenna morreria com ela. Aferrou-se a essa idéia depois do Jeremy, uma vez que se repôs com muita dificuldade.

Começou a avançar para a escada, mas a música fez que se detivesse. Elevou a cabeça esforçando-se por escutar, por reconhecer. Era Usher?

Merda, era Larkin o que estava na sala de treinamento jogando com seu MP3? Teria que lhe matar.

Subiu a escada à carreira. Não é que não apreciasse o fato de que Larkin desfrutasse de sua música, mas ela tinha passado muito tempo baixando a da rede e instalando-a no reprodutor, e ele nem sequer sabia como funcionava esse fodido aparelho.

—Escuta, vaqueiro, não quero que...

A habitação estava vazia e as portas do terraço firmemente fechadas. E a música fluía no ar. Pareceu-lhe estranho.

Apoiou a mão na estaca que sempre levava na cintura e se aproximou lentamente para as armas. As luzes estavam acesas; nada podia esconder-se entre as sombras. Entretanto, fechou a mão ao redor da manga de uma foice.

A música cessou de repente; ouviu-se o som de um interruptor.

Lora apareceu através da parede de espelhos.

—Olá, chérie.

—Bonito truque.

—Um de meus favoritos.

Lora descreveu um círculo e pareceu estudar a habitação. Levava botas de salto alto, calças negras rodeadas e uma jaqueta com um Top de encaixe debaixo.

—De modo que aqui é onde treinam e transpiram e vos preparais para morrer.

—Aqui é onde nos treinamos para lhes chutar o rabo.

—Tão dura, tão formidável.

Lora flutuou ao redor da habitação com os agudos saltos das botas roçando apenas o chão.

«Não está aqui —disse Blair. — Em realidade, não está aqui, é só a aparência enganosa da Lora.» Mas para comprová-lo, lançou uma estaca. Viu como esta passava através da figura da Lora e acabava cravada na parede.

—Isso foi muito descortês de sua parte. —Lora se voltou, ligeiramente zangada. — Não é forma de receber a uma convidada.

—A ti ninguém convidou a esta casa.

—Não, a última vez nos interromperam antes que pudesse fazê-lo. Mas mesmo assim, trouxe-te um presente. Algo que escolhi especialmente para ti. Tive que viajar aos Estados Unidos para buscá-lo. Até Boston.

Lora girou sobre si mesmo com os olhos brilhantes como estares acostumados a.

—Você não gostaria de vê-lo? Ou talvez você gostaria de adivinhá-lo? Sim, sim, sim, deve adivinhá-lo! Três possibilidades.

Para mostrar sua absoluta falta de interesse, Blair permaneceu impassível, com os polegares enganchados nos bolsos da calça.

—Eu não jogo com os mortos vivos, Fifí.

—Não é nada divertida, verdade? Mas um dia nos divertiremos; você e eu. —aproximou-se flutuando no ar e deslizou a língua pelas presas antes de sorrir. — Tenho tantos planos para ti... Os homens lhe decepcionaram, não é assim? Pobre Blair. Negaram-lhe seu amor e você no fundo o deseja.

—Quão único desejo é acabar com esta conversa antes que me ponha doente.

—O que você precisa é uma mulher. O que necessita... —Fez um risco com o dedo no ar, a escassos centímetros da bochecha de Blair. — Sim, necessita o poder e o prazer que eu poderia te dar.

—Eu não gosto das loiras baratas com estúpido acento francês. E quanto à roupa... está super passada de moda.

Lora chiou como uma serpente e sua cabeça se lançou para frente como se fosse a morder.

—Farei que te arrependa e te arraste. E logo te farei gritar.

Blair, deliberadamente, arregalou os olhos.

—Meu deus! Isso acaso significa que já não quer ficar comigo?

Lora girou no ar ao tempo que punha-se a rir.

—Eu gosto, realmente eu gosto. Tem, huh... estilo. Por isso te trouxe esse presente tão especial. Irei buscá-lo. Aguarda um minuto.

Lora desapareceu através dos espelhos.

—A merda com isto —murmurou Blair.

Agarrou uma besta e a armou. Com esta em uma mão e a foice na outra, começou a mover-se cautelosamente para a porta.

Aquele era território da Glenna, não dela. Hora de chamar à Bruxa.

Mas Lora voltou a deslizar-se através da parede de espelhos, e o que trazia com ela fez que ao Blair lhe gelasse o sangue.

—Não. Não, não, não.

—É muito bonito. —Lora deslizou a língua pela bochecha do Jeremy enquanto ele se debatia para livrar-se dela. — Agora entendo o que sentia.

—Você não está aqui. —OH, Deus, o rosto do Jeremy estava sangrando. Tinha o olho direito inchado e quase fechado. — Isto não é real.

—Não estou aqui, mas isto é real. Jeremy, aviso.

—Blair? Blair? O que está passando? O que faz aqui? O que ocorre?

—Foi tão fácil. —Lora o agarrou pelo pescoço, asfixiando-o enquanto o levantava uns centímetros do chão. E se pôs-se a rir quando Blair se equilibrou em sua direção, voou através deles e se chocou contra a parede. — Liguei-me a isso em um bar. Umas taças, umas insinuações. «Homens, eternos sedutores»: Shakespeare. «por que não vamos a sua casa?», foi tudo o que tive que lhe sussurrar ao ouvido. E aqui estamos.

Lora baixou ao Jeremy até que seus pés tocaram o chão, mas não apartou a mão de seu pescoço.

—Gostaria de fode-lo primeiro, mas pensei que isso lhe tiraria encanto ao presente.

—Me ajude. —Jeremy falou com um assobio afogado. — Blair, tem que me ajudar.

—Me ajude —o imitou Lora, burlando-se dele, e o lançou violentamente ao chão.

—Por que está perdendo o tempo com ele? —Blair sentiu que lhe revolvia o estômago quando Jeremy começou a arrastar-se para ela. — Se me quiser, vêm me buscar.

—OH, farei-o. —Lora deu um salto e caiu em cima de Jeremy. Colocou-o de costas contra o chão e se sentou escarranchado em cima dele. — Este humano fraco, embora atrativo, rompeu-te o coração, não é assim?

—Me abandonou. O que pode me importar o que lhe faça? Está perdendo o tempo com ele quando deveria estar tratando comigo.

—Não, não, nunca é uma perda de tempo. E sim te importa, chérie. —Lora tampou a boca ao Jeremy com uma mão quando este começou a gritar e logo, sem tirar os olhos de Blair, abriu-lhe a bochecha com a unha para que brotasse sangue fresco. Lambeu a ponta do dedo.

—Hummm. O medo sempre lhe dá um sabor especial. Implora por ele. Se implorar, deixarei-lhe viver.

—Não lhe mate. Por favor, não lhe mate. Ele não significa nada para ti. Não é importante. Deixa-o livre, deixa-o, já tem minha atenção. Encontrarei-me contigo onde queira. Só você e eu. Resolveremos este assunto só nós duas. Não necessitamos que os homens interfiram. Não o faça. Me peça algo em troca. Só tem que pedi-lo.

— Blair. —Lora lhe dirigiu um sorriso doce e compassivo. — Não tenho que pedir nada. Eu tomo o que eu gosto. Mas imploraste muito bem, de modo que eu... OH, não seja ridícula. As duas sabemos que vou matar lhe. Observa.

Lora afundou as presas no pescoço do Jeremy, colocando seu corpo sobre o dele enquanto se movia ritmicamente em uma horrível parodia do ato sexual. Blair se ouviu gritar e gritar. E gritar.

 

Quando Larkin irrompeu na habitação, quão único viu foi ao Blair tratando de cravar uma e outra vez uma estaca no chão. Enquanto o fazia, não deixava de chorar com soluços violentos e estridentes, e em seu rosto havia uma expressão de desvario.

Correu para ela, mas quando tentou sujeitá-la, Blair lhe lançou um golpe que lhe fez sangrar o lábio.

—Vete, vete daqui! Ela o está matando!

—Aqui não há nada.

Larkin lhe aferrou o pulso, e teria recebido outro golpe se Cian não tivesse segurado a Blair por trás.

Ela se voltou para atacar e Cian a esbofeteou duas vezes. Com bastante força como para que os golpes ressonassem na habitação.

—Basta. As histéricas são inúteis.

Larkin, furioso, levantou-se de um salto.

—Lhe tire as mãos de cima. Crê que pode lhe fazer dano?

Poderia ter golpeado a Cian mas Hoyt lhe aferrou o braço.

—Esperem um minuto.

A resposta do Larkin foi lançar a cabeça para trás e estelar a contra a mandíbula do Hoyt no momento em que Glenna corria para interpor-se entre o Larkin e Cian.

—Calma. —Glenna elevou as mãos. — Que todo mundo se acalme.

Mas só havia gritos, acusações e os soluços desesperados de Blair.

—Ciunas! —A voz da Moira atravessou o caos com fria autoridade. — Silencio todos vocês. Larkin, ele tem feito o que terei que fazer, de modo que basta de tolices. Cian, solta a Blair. Glenna, vá a por um pouco de água para ela. Devemos averiguar o que é o que aconteceu aqui.

Quando Cian se separou de Blair, esta simplesmente se derrubou.

—Ela o matou. Não pude fazer nada para detê-la. —Levantou os joelhos e apoiou a cabeça nelas enquanto se cobria com os braços. — OH, Deus. OH, Meu deus.

—Agora tem que me olhar. —Moira se agachou junto a ela, colheu-lhe com força os braços e os baixou. — Blair, tem que me olhar e me contar o que aconteceu aqui.

—Ele nunca acreditou, nem sequer quando o mostrei. Era mais fácil me apartar de sua vida e afastar-se de mim que acreditar o que eu lhe dizia. E agora está morto.

—Quem está morto?

—Jeremy. Jeremy está morto. Ela o trouxe aqui para que eu pudesse ver como o matava.

—Aqui não há ninguém, Blair. Não há ninguém aqui e tampouco na casa, exceto nós seis.

—Havia alguém. —Glenna alcançou a água ao Blair. — Posso senti-lo.

Olhou ao Hoyt procurando a confirmação de suas palavras.

—Sim, um aroma no ar —assentiu Hoyt. — Uma espécie de peso que é própria da magia negra.

—Chegou através da parede e eu pensei, bom, agora lutaremos. Você e eu, puta francesa. —Embora Blair fazia um esforço para acalmar-se, a voz continuava lhe saindo a tropicões. — Lancei uma estaca, mas passou através dela. Lora não estava realmente aqui. Ela...

—Igual no metro. Também me passou —explicou Glenna. — Em Nova York. Um vampiro apareceu no vagão do metro onde eu viajava, mas ninguém mais pôde lhe ver. Falou-me, movia-se, mas não estava realmente ali.

—Boston. —Com a alma doente, Blair conseguiu ficar de pé. — Ela tinha ido a Boston. Em uma época, eu vivi ali. Foi onde conheci... ao Jeremy. Estavam em seu apartamento. Ela me há dito onde estava. Cian, tem contatos ali?

—Sim.

Blair lhe deu uma direção.

—Jeremy Hilton. É necessário que alguém o comprove. Possivelmente Lora só estava jogando comigo. Mas se... Temos que nos assegurar de que Lora não o transformou.

—Eu me encarregarei disso.

Blair olhou para onde tinha esfaqueado e parecido a estaca nas pranchas do chão.

—Sinto o do chão —lhe disse a Cian.

—Agora isso será problema da Glenna e Hoyt —respondeu ele, e lhe tocou ligeiramente o ombro antes de abandonar a habitação.

—Deveríamos baixar. E você deveria te deitar —aconselhou Glenna. — Ou, ao menos, te sentar. Posso te dar algo que te ajudará.

—Não. Não quero nada. —enxugou-se as lágrimas com o dorso da mão. — Sabia que voltaria a nos visitar, mas nunca pensei, nunca me ocorreu algo assim. Glenna, sua família.

—Eles estão protegidos. Hoyt e eu nos encarregamos de que assim fosse. Blair, lamento tão não ter feito algo por você... Por seu amigo.

—Nunca pensei nele. Nunca considerei que eles... Eu... Tomarei uns minutos antes que voltemos para trabalho.

—Todos os que precise —disse Glenna.

Blair olhou ao Larkin.

—Sinto muito. Sinto te haver golpeado.

—Não é nada.

Deixar que partisse, deixar que partisse sozinha foi mais doloroso que qualquer golpe que ela tivesse podido lhe dar.

 

Blair já não chorava. As lágrimas não ajudariam ao Jeremy e, sem dúvida, não lhe fariam nenhum bem.

Ficou em contato com sua tia e lhe deu os detalhes. Ela podia contar com a família para proteger à família. Em qualquer caso, duvidava de que Lilith ou Lora, ou quaisquer deles, fossem a pessoas que estivessem preparadas, que os conhecessem. E que, portanto, pudessem defender-se.

Os monstros escolhiam a gente indefesa por uma muito boa razão. Não supunha uma perda de tempo ou esforço, o risco era muito baixo, e a ação era muito, muito eficaz.

Quando começou a armar-se, Blair estava já absolutamente tranqüila. Deslizou a espada na bainha que levava presa à costas, e a estaca dentro de outra que tinha no cinturão. Sua mente,seu objetivo, eram claros como o cristal quando saiu da casa.

Não haveria muitos, pensou. Seria uma estratégia muito ruim esbanjar mais de um punhado nessa etapa. Embora, que fossem poucos era uma autêntica lástima, lamentou Blair.

Eles esperariam que estivesse destroçada, tremendo e soluçando debaixo das mantas. Equivocavam-se.

Viu os dois que lhe aproximavam, pela direita e a esquerda.

—Olá, meninos, estão procurando um pouco de diversão?

A espada saiu de sua bainha com o som brunido de metal contra metal. Blair girou descrevendo um rápido movimento com a espada sujeita com ambas as mãos e decapitou ao que se aproximava pelas costas.

—Pois viestes ao lugar adequado.

Quando atacaram, ela já estava preparada. Cortando, perfurando, bloqueando os golpes com uma espada que cantava como a vingança. Recebeu um corte no antebraço. Não lhe importava sentir esse aguilhão.

Eram torpes, pensou. Jovens e insuficientemente treinados. Gordos e brandos das vidas que tinham levado antes que os convertessem no que eram agora. Não indefesos, não como Jeremy, mas muito longe de estar preparados.

Lançou a estaca e acabou com outro deles.

O único rival que ficava deixou cair a espada e pôs-se a correr.

—Huh, huh, que ainda não acabei.

Saiu correndo atrás dele e o derrubou com um perfeito placaje. Logo, sustentando a estaca a escassos centímetros de seu coração, olhou seus olhos, nos que se refletia o terror.

—Tenho uma mensagem para a Lora. Conhece-a? O pastelzinho francês. Bem —disse quando ele assentiu. — Diga-Lhe que tinha razão com respeito a uma coisa. Será entre ela e eu, e quando tiver acabado com ela... OH, não importa, o direi pessoalmente.

Cravou a estaca no peito do monstro, logo se levantou e se passou os dedos pelo cabelo úmido. Depois de recolher suas armas dispersadas, empreendeu a volta à casa.

A porta se abriu de par em par antes que chegasse e Larkin saiu feito uma fúria.

—É que te tornaste louca?

—Não o esperavam. —Arrojou-lhe uma das espadas e entrou com ele na casa. — De todos os modos, só eram três. Provavelmente afugentei aos que Lilith tinha postado perto da casa.

Blair deixou sobre a bancada da cozinha as espadas que tinha confiscado.

—E não eram mais que pesos leves.

—Saíste da casa sozinha? Arriscaste sua vida desta maneira?

—Saí sozinha a maior parte de minha vida —lhe recordou ela. — E arriscar minha vida forma parte de meu trabalho.

—Não é um trabalho.

—É exatamente um trabalho. —serviu-se uma grande caneca de café. Advertiu que ainda conservava as mãos. Missão cumprida. — Irei assear-me.

—Não tinha direito a correr um risco semelhante.

—Risco mínimo —replicou ela enquanto saía da cozinha. —Excelentes resultados.

Quando se teve trocado de roupa, reuniu-se com outros na biblioteca. Pelas expressões de seus rostos pôde ver que Larkin tinha informado ao grupo a respeito de sua pequena incursão.

—Estavam postados perto da casa —começou a dizer. — Provavelmente tratavam de ver ou ouvir algo do que pudessem informar. Agora isso já não será um problema.

—Teria sido um problema se tivesse havido mais deles no bosque. —Hoyt falou com voz acalmada, mas isso não dissimulou a dureza que havia detrás de suas palavras. — Teria sido um problema se eles lhe tivessem capturado ou matado.

—Mas isso não passou. Temos que estar dispostos a aproveitar todas as oportunidades que nos pressentem. Não só nós seis, mas também a gente que enviaremos à batalha.

Têm que estar treinados, têm que saber como matar e quando matar. Não só com espadas e estacas, a não ser com suas mãos nuas ou com algo que tenham a seu alcance. Porque tudo pode ser uma arma. E se não estiverem treinados, se não estiverem preparados, simplesmente ficarão ali parados e morrerão.

—Como Jeremy Hilton.

—Sim. —Fez-lhe um gesto com a cabeça ao Larkin, acrescentando sua ira ao peso de seu coração. — Como Jeremy. Cian, pudeste averiguar algo?

—Está morto.

Blair refreou uma parte dela que queria gemer.

—Poderiam havê-lo convertido em um deles?

—Não. O corpo estava muito golpeado como para isso.

—Mesmo assim, é possível que ele...?

—Não. —Cian cuspiu a palavra interrompendo-a. —O fizeram pedaços. É uma das assinaturas da Lora. Está morto.

Blair se sentou. «É melhor sentar-se —decidiu —, que cair ao chão.»

—Não havia nada que você pudesse fazer, Blair —lhe disse Moira brandamente. — Nada que pudesse ter feito para impedi-lo.

—Não, não havia nada. Esse era precisamente seu objetivo: olhe o que sou capaz de fazer, ante seus próprios narizes, e você não pode mover um dedo. Jeremy e eu estivemos prometidos para nos casar faz um par de anos. De modo que tive que lhe contar, ao final tive que lhe mostrar, o que sou, o que faço. Ele então partiu porque não queria acreditá-lo, não queria formar parte disso. Agora, isso o matou.

—Ela o matou —a corrigiu Larkin —, não o que você é. —Esperou a que Blair desviasse o olhar para ele. — Ela quer que você se culpe de sua morte, dará-lhe essa vitória?

—Ela não obterá nenhuma vitória de mim. —As lágrimas ameaçaram voltar a aparecer em seus olhos, mas as reprimiu. — O sinto, sinto-o por tudo. Isto me perturba, e tenho que meditá-lo sozinha até que possa superá-lo.

—Postergaremos a reunião. —Glenna olhou a outros procurando sua aprovação. — Pode tomar seu tempo.

—Agradeço-lhe isso, mas o trabalho é melhor. Pensar é melhor. —Se subia nesses momentos a sua habitação, se ficava sozinha, Blair sabia que voltaria a derrubar-se. — Está bem. Se formos colocar armadilhas no outro lado, devemos determinar quais são os melhores lugares para isso; e também quantas necessitaremos nesses casarios pequenos.

—Temos preocupações mais imediatas —interrompeu Hoyt. — O transporte até o Geall. Se Cian não pode chegar ao Baile dos Deuses, tampouco pode chegar ao portal.

—Tem que haver uma exceção. —Moira apoiou uma mão sobre o ombro de Blair e o apertou com força antes de apartar-se dela. — Morrigan nos escolheu , a todos nós.

—Possivelmente já me descartou. —Cian se encolheu de ombros. — Os deuses são criaturas volúveis.

—Você é um dos seis —insistiu Moira. — Se você não estiver no Geall, o círculo ficará quebrado.

—Eu poderia retornar às cavernas. Do ar. —Larkin se passeou por diante das janelas. Como podia ficar sentado nesse momento?. — E explorar. Poderia descobrir o lugar por onde passarão ao outro lado.

—Não podemos nos separar. Não estando tão perto da data limite. Permaneceremos juntos. —Glenna estudou os rostos de seus companheiros, atrasando-se no de Blair. — Permaneceremos unidos.

—Há uma coisa que acredito que deveria mencionar. —Moira olhou a Cian. — Quando Larkin e eu fomos ao Baile dos Deuses no Geall, era meio-dia. Tudo pareceu acontecer muito depressa, a forma em que fomos transportados de ali. Mas quando aparecemos neste lugar, já era de noite. Não acredito que possamos saber quanto tempo dura essa passagem, ou se o tempo é o mesmo. O... se partirmos de noite, como o planejamos, se ainda seguirá sendo de noite quando chegarmos ao Geall.

—Ou o ferrado meio-dia. —Cian levantou a vista. — Não é perfeito?

—Tem que haver uma maneira de lhe proteger se chegarmos em pleno dia.

—Para ti é fácil dizê-lo, ruiva. —Cian se levantou para procurar um copo de uísque. — Sua delicada pele pode queimar-se um pouco sob a intensa luz do sol, mas não te converte em cinzas, verdade?

—Alguma espécie de bloqueio, Hoyt —começou a dizer Glenna.

—Não acredito que o fator 40 de protetor solar funcione —objetou Cian.

—Já pensaremos em algo —replicou ela. — Encontraremos uma maneira de fazê-lo. Não chegamos até aqui para nos render, nem para te deixar atrás.

Blair deixou que falassem, debatessem, discutissem. As vozes não eram mais que um zumbido ao seu redor. Ela não fez nenhum comentário, nenhuma contribuição ao tema. Quando finalmente Hoyt insistiu para que Cian lhe desse uma amostra de sangue, ela os deixou com sua magia.

 

Larkin não tratou de dormir. Tinha tentado aproximar-se da habitação dela meia dúzia de vezes. Para lhe oferecer o que?, perguntou-se. Consolo não queria, ira não necessitava.

Blair tinha sofrido uma perda terrível e um golpe muito duro. Não tinha querido, possivelmente não tinha podido recorrer a ele. Nem sequer, pensou agora, como um companheiro guerreiro.

Não podia mitigar umas feridas que ela não queria que ele visse, ou chegar a outras que ela guardava em seu interior.

Blair tinha amado a esse homem, isso estava claro. E havia uma pequena parte de si mesmo, uma mesquinharia que Larkin desprezava, que se sentia ciumento desse homem brutalmente assassinado.

De modo que permaneceu junto à janela, contemplando a saída do sol em seu último dia na Irlanda.

Quando alguém bateu na porta, supôs que se tratava da Moira.

—Bi istigh.

Não se voltou quando a porta se abriu, não até que Blair falou.

—Meu gaélico é bastante mau, de modo que se o que há dito é «vete ao inferno», sinto muito, não o entendi. —Levantou a garrafa de uísque que levava em uma mão. — Tenho feito uma incursão na adega de Cian. Penso me embebedar um pouco, velar a um velho amigo. Quer me acompanhar?

Sem esperar uma resposta, Blair entrou na habitação do Larkin e foi sentar se no chão, aos pés da cama, com a cabeça apoiada nela. Abriu a garrafa, serviu uns generosos dois dedos em cada um dos copos que havia trazido.

—Brindo por estar só morto. —Levantou seu copo e bebeu todo o conteúdo de um gole. — Venha, Larkin, me acompanhe. Pode estar furioso comigo e mesmo assim tomar um gole.

Larkin se aproximou e se sentou no chão, frente a ela.

—Lamento que esteja sofrendo.

—Superarei-o. —Alcançou-lhe o segundo copo e voltou a servir-se no seu. — Sláinte. —Entrechocou os copos, mas esta vez bebeu um pequeno sorvo em lugar de todo. — Os laços afetivos, ensinou-me meu pai, são armas que o inimigo poderia usar contra nós.

—Essa é uma maneira de viver fria e dura.

—OH, meu pai é muito bom com a frieza e a dureza. Largou-se de casa e me deixou sozinha o dia em que completei os dezoito. Fim. —Jogou a cabeça para trás e bebeu. — Sabe?, Meu pai me tinha ferido muitas vezes antes, tinha-me quebrado o coração em pedaços só pelo fato de não me amar. Mas nada do que pudesse ter acontecido antes, ou não passado, aproximou-se sequer ao que significou para mim que ele partisse. Assim foi como me fiz isto.

Blair fez girar o pulso e se olhou a cicatriz.

—Saí quando ainda estava abalada, tratando de demonstrar que não lhe necessitava. Mas lhe necessitava. Pior para mim.

—Seu pai não te merecia.

Blair sorriu levemente.

—Ele estaria completamente de acordo com isso, mas não no sentido em que você o há dito. Eu não era o que ele queria e, até quando o tivesse sido, não me teria amado. Levou-me muito tempo aceitar isso. Talvez pudesse se sentir orgulhoso. Talvez pudesse se sentir satisfeito. Mas jamais me teria amado.

—E, apesar de tudo, você o amava.

—Adorava-o. —Blair fechou os olhos por um momento enquanto deixava que essa parte dela se afastasse. Essa parte estava enclausurada. — Não podia simplesmente arrancá-lo de mim e convertê-lo em pó. De modo que trabalhei realmente duro até que fui melhor do que ele o tinha sido nunca. Mas ainda seguia tendo essa necessidade dentro de mim. A necessidade de amar a alguém, obter que me amassem. E então apareceu Jeremy.

Blair serve mais uísque para os dois.

—Nessa época, eu estava trabalhando no pub de meu tio. Minha tia, meus primos e eu nos alternávamos para atender aos clientes. Caçando, ou atendendo o balcão, servindo mesas, passando a noite. Minha tia o chamava ter uma vida. Trabalhar como uma família, compartilhar a carga, ter certa normalidade.

—Parece uma mulher muito razoável.

—É-o. E muito boa. De modo que eu estou no talho, atendendo a barra, quando Jeremy entra no pub com um par de amigos. Ele acabava de conseguir uma grande conta e foram celebrar. Era corretor da bolsa. —Fez um gesto com a mão para apagar esse comentário. — É difícil de explicar. Enfim, é um cara bonito. Muito bonito, em realidade. De modo que me bateu totalmente...

—Ele lhe golpeou?

—Não, não. —Ao Blair a pergunta lhe pareceu maravilhosamente divertida e pôs-se a rir. — É uma maneira de falar, jargão. Ele flertou comigo. E eu também o fiz, porque me tinha louca. Sabe a que me refiro? Esse pequeno zzzzzz que sente por dentro?

—Sim, sei a que te refere. —Larkin lhe acariciou a mão. — Conheço esse zumbido.

—Ele ficou no pub até que fechamos e acabei lhe dando meu número de telefone. Bom, não faz falta que conte todos os detalhes. Começamos a nos ver... a sair. Era divertido, doce. Normal. A classe de cara que te envia flores ao dia seguinte do primeiro encontro. —Seus olhos se nublaram, mas meneou a cabeça e bebeu um pouco mais de uísque. — Eu queria uma vida normal. Queria ter uma possibilidade de consegui-lo. Quando as coisas ficaram sérias entre nós, eu pensei, sim, sim, assim é como se supõe que deve ser. Meu trabalho não significa que não possa ter a alguém, formar parte de alguém. Mas ainda não lhe disse o que fazia durante aquelas noites em que não estávamos juntos, ou o que fazia algumas noites depois de que ele dormiu. Não o contei.

—Amava-o?

—Sim, amava-o. E o disse. Disse-lhe que o amava, mas não lhe disse o que eu era. —Respirou profundamente. — Ainda não sei realmente se foi simples covardia ou treinamento enraizado, mas não o disse. Estivemos juntos oito meses e Jeremy nunca soube. Devia haver sinais, devia haver indícios. Huh, Jeremy, não te pergunta como me tenho feito estes machucados? Por que minha roupa está rasgada? De onde demônios saiu este sangue? Mas ele jamais perguntava, e eu nunca me permiti me perguntar por que.

—A gente, você o há dito, leva óculos. O amor, acredito, pode aumentar seu tamanho.

—Pode apostar a que sim. Pediu-me que me casasse com ele. OH, Deus, pôs toda a carne no forno. O vinho, as velas, a música, as palavras certas. Eu simplesmente me deixei levar pela enorme e brilhante fantasia. Entretanto, segui sem lhe dizer nada durante vários dias. Até que minha tia falou comigo. —pressionou-se os olhos com o polegar e o indicador. — Tem que contar-lhe disse-me. Tem que fazer que ele o entenda. Não pode ter uma vida, não pode construir uma vida com ele com mentiras ou meias verdades, ou sem confiança. Eu segui sem contar-lhe durante um par de semanas, mas me corroia por dentro. Eu sabia que minha tia tinha razão, e ele me amava, de modo que tudo sairia bem. Porque Jeremy me amava, compreenderia que eu não só estava fazendo o que devia fazer mas também o correto.

Blair fechou os olhos enquanto sustentava o copo com ambas as mãos. Larkin a escutava em silêncio.

—O expliquei ao Jeremy tão cuidadosamente como pude, levando-o através da história de minha família. Ao princípio pensou que estava brincando. —Abriu os olhos e olhou ao Larkin. — Quando se deu conta de que falava a sério, sua atitude se voltou hostil. Pensou que era minha maneira doente de pôr fim a nosso compromisso. Estivemos lhe dando voltas ao assunto e eu insisti para que me acompanhasse ao cemitério. Eu sabia que essa noite um deles se levantaria de sua tumba, e uma imagem vale mais que mil palavras, de modo que mostrei ao Jeremy o que eles eram; o que eu era. —Voltou a beber, um gole comprido. — Não esperou um minuto para afastar-se de mim. Tinha pressa por agarrar suas coisas e largar-se. E me abandonar. Eu era uma louca, e não queria voltar para ver-me nunca mais.

—Era débil.

—Não era mais que um cara. E agora é um cara morto.

—De modo que é sua culpa, verdade? É sua culpa lhe haver querido tanto como para compartilhar o que é com ele? Para lhe mostrar não só que no mundo existem monstros, mas também que é o bastante forte, o bastante valente para lutar contra eles? É sua culpa que não fora o bastante homem para ver o prodígio que é?

—Que prodígio? Faço aquilo para o que fui treinada; continuo a tradição familiar.

—Isso é uma estupidez, e pior ainda, é te compadecer de ti mesma.

—Eu não lhe matei... nisso tem razão, mas Jeremy está morto por minha culpa.

—Ele está morto porque um demônio desalmado e perverso o matou. Está morto porque não acreditou no que tinha diante dos olhos, e não ficou contigo. E nada disso é tua culpa.

—Jeremy me abandonou, igual ao meu pai. Pensei que isso era o pior. Mas isto... não sei o que fazer com a dor.

Larkin lhe tirou o copo e o deixou a um lado. Logo a agarrou entre seus braços e pressionou sua cabeça contra seu ombro.

—Pode deixar um pouco aqui por agora. Derrama suas lágrimas, a stór. Sentirá-se melhor depois de haver as dado a ele.

Abraçou-a, lhe acariciando o cabelo e consolou-a, enquanto ela chorava por outro homem.

 

Despertou aconchegada na cama dele, ainda vestida e agradecida de estar sozinha. A ressaca não era o sino estrondoso de depois de uma noite de absurda farra, a não ser o som apagado que se obtém depois de ter usado o uísque como travesseiro.

Larkin tinha deslocado as cortinas para que o sol não despertasse, advertiu, e comprovou a hora em seu relógio. O fato de que já fosse meio-dia lhe fez proferir um leve grunhido, ao tempo que apartava os lençóis para sentar-se na beira da cama.

«Há muitas coisas que fazer —se disse a si mesma —, para consentir uma ressaca incompleta e um feroz caso de aflição.» antes de que conseguisse fazer provisão das forças necessárias para levantar-se da cama, Larkin entrou na habitação. Levava um copo que continha algo marrom e de aspecto suspeito.

—Diria-te bom dia, mas provavelmente não é o que sente.

—Não é muito mau —disse ela. — Os tive piores.

—Apesar de tudo, não é dia para estar assim. Glenna diz que isto te ajudará.

Ela olhou o copo com reticência.

—Porque beber essa beberagem fará que vomite tudo o que tenho dentro?

—Não o há dito. Mas agora te levará como uma garota valente e tomará seu remédio.

—Suponho que sim. —Agarrou o copo e cheirou o conteúdo. — Não cheira tão mal como parece. —Respirou fundo e o bebeu de um gole. Logo se estremeceu da cabeça aos pés. — Tem sabor ainda pior. Não deve ser só olho de salamandra, a não ser toda a ferrada salamandra.

—Espera um ou dois minutos a que faça efeito.

Blair assentiu e logo se olhou as mãos.

—Ontem à noite não estava em meu melhor momento, por dizer o de um modo extremamente suave.

—Ninguém espera que esteja sempre em seu melhor momento. Eu não, certamente.

—Quero te agradecer pela orelha e o ombro.

—Pareceu-me que essas eram as partes de mim que mais necessitava. —sentou-se junto a ela. — Estava o bastante lúcida para entender o que te disse?

—Sim. Não sou culpada. Em minha cabeça sei que não o sou. Mas há outras partes de mim, Larkin, que têm que ficar de acordo com minha cabeça neste assunto.

—Esses homens lhe esbanjaram. Eu não o farei. —levantou-se enquanto ela o olhava fixamente. — Outra coisa que deverá assimilar. Baixa quando estiver preparada. Temos muito trabalho pela frente.

Ela seguiu olhando inclusive depois de que Larkin teve abandonado a habitação e fechado a porta.

 

Ter trabalho que fazer lhe ajudou. Eles levariam —ao velho uso — a maior quantidade possível de fornecimentos e armas ao círculo. Hoyt e Glenna continuariam trabalhando para criar alguma classe de escudo para Cian.

Larkin transformado em cavalo, foi carregado pelo Blair enquanto Moira fazia o próprio com o cavalo de Cian.

—Está segura de que pode montar essa coisa? —perguntou-lhe Blair.

—Posso montar algo. —Moira elevou a vista para a janela da torre. — É a única maneira de fazê-lo. Eles precisam concentrar-se no seu. Não podemos nos arriscar a tentar transportar tudo isto depois de pôr-do-sol.

—Não. —Blair montou de um salto sobre o lombo do Larkin. — Mantenha os olhos abertos. É possível que tenhamos companhia ao atravessar o bosque.

Empreenderam o caminho uma detrás de outra.

—Realmente é capaz de cheirá-los? —perguntou Moira.

—É mais como os percebo. Saberei se um deles se aproxima de nós.

Examinou as árvores, as sombras. Não havia mais que pássaros e coelhos.

A luz do sol, pensou, e o gorjeio dos pássaros. Tomar aquele caminho de noite seria uma história completamente diferente. Moira e ela, decidiu, montariam ao Larkin, e Glenna e Hoyt iriam no cavalo de Cian. Cian, por sua parte, pensou, podia mover-se quase tão rápido como um cavalo ao galope se a ocasião o exigia.

Era um atalho sinuoso e, em alguns lances, logo que pisado. E, por momentos, as sombras que o cobriam eram o bastante densas como para que seus dedos se desviassem para a besta.

Sentiu o movimento dos músculos do Larkin entre suas coxas e assentiu. De modo que ele também podia senti-los, pensou. Ou o cavalo que era nesses momentos podia fazê-lo.

—Eles estão vigiando. Mantêm a distância, mas nos vigiam.

—Darão-se conta do que estamos fazendo. —Moira olhou para trás. — Ou informarão a Lilith e ela o fará.

—Sim. Acelera um pouco o passo. Acabemos com isto de uma vez.

Saíram do bosque e cruzaram um pequeno campo sem cultivar. No topo se encontrava o círculo do Baile dos Deuses.

—É grande —murmurou Blair.

Não tão grande como Stonehenge[9], pensou, mas era impressionante. E, ao igual a Stonehenge, inclusive antes de entrar na sombra das pedras, sentiu-as. Quase podia as ouvir.

—É muito poderosa —disse, e desmontou.

—Neste mundo e no meu.

Moira se deslizou do semental de Cian e logo apoiou a cabeça contra a do Larkin.

—É nosso caminho a casa.

—Esperemos que sim. —Blair começou a descarregar as armas dentro do círculo de pedras que conformavam o Baile dos Deuses. — Está segura de que os vampiros não podem entrar aqui?

—Nenhum demônio pode passar entre as pedras e pisar em solo sagrado. É assim no Geall e, segundo tudo o que tenho lido, também é assim neste mundo.

Moira olhou para o bosque, quão mesmo Blair. Mas ela pensava em Cian, e no que seria dele se viam obrigados a deixá-lo atrás.

—Já resolveremos de algum jeito.

Moira a olhou.

—Você também está preocupada.

—É para está-lo —respondeu Blair. —Primeiro temos que conseguir levá-lo até ali, e logo impedir que ele frite; trata-se pois de duas preocupações realmente importantes. Esta é uma zona segura, e quando retornarmos dentro de umas horas, seguiremos tendo aqui nossas armas, mas Cian está em desvantagem.

Acariciou o flanco do Larkin sem pensá-lo. Quando ele girou a cabeça, ela deixou cair a mão.

—Hoyt e Glenna estão nisso —prosseguiu. — Iremos todos, esse é o trato. De modo que resolveremos.

Larkin moveu a cauda e lhe deu com ela nas nádegas.

—Huh!

—É um ser brincalhão —comentou Moira. — Quase em qualquer forma que adote.

—Sim, é um autêntico brincalhão. Deveria andar-se com cuidado, um destes dias poderia ficar entupido em uma variedade de quatro patas. —aproximou-se de sua cabeça. — O que passaria então? —disse-lhe.

Larkin lhe lambeu a cara do queixo até a maçã do rosto.

—Huh!

Moira se pôs-se a rir enquanto empilhava as últimas armas.

—Faz-me rir inclusive nos piores momentos. Ah, muito bem —acrescentou quando viu que Blair fazia uma careta de desgosto e se limpava a baba da bochecha. — Sua língua não parece te incomodar muito quando ele é um homem.

O som que fez Larkin foi o mais parecido a uma gargalhada que um cavalo podia soltar. Moira se limitou a sorrir e montou novamente no semental.

—É difícil não ver quando duas pessoas estão ansiosas para por as mãos em cima uma da outra. Em uma época, eu também estive apaixonada por ele. —Estirou a mão e acariciou a crina do Larkin. — Claro que então eu tinha só cinco anos. Agora já o superei.

—Terá que tomar cuidado com as caladas —murmurou Blair. Girou a cabeça para a Moira enquanto montava ao Larkin. — Vocês que são do tipo tranqüilo, das que sempre estão colocadas entre livros, aparentemente um pouco tímidas, nunca tivesse imaginado que deduzira tão logo que transava com seu primo.

—Transar? —Moira franziu os lábios enquanto cavalgavam entre pedras. —Essas seria uma maneira de descrever as relações sexuais? Encaixa, verdade?, Porque... —Deixou cair as rédeas sobre o pescoço do Vlad para juntar as mãos.[10] E esta vez foi Blair quem começou a rir.

—Está cheia de surpresas.

—Sei o que ocorre entre um homem e uma mulher. Teoricamente.

—Teoricamente. Ou seja que você nunca... —precaveu-se do olhar da Moira para o Larkin. — OH, sinto muito. Os cavalos grandes têm grandes orelhas.

—Bom, suponho que são bem pequenas, considerando todo o resto. Não, eu nunca. Se quero ser Rainha, deverei me casar; mas ainda há tempo. Quero encontrar a alguém que me agrade e que me entenda. Eu gostaria de poder amá-lo, como se amaram meus pais, mas ao menos queria sentir carinho por ele. E eu gostaria também que fosse bom transando.

Esta vez, o som que fez Larkin foi resmungo.

—Por que deveria ser você o único? —Moira deslizou o pé fora do estribo para dar-lhe um ligeiro chute com a bota. — É bom nisso nosso Larkin? —perguntou.

—É um animal —respondeu Blair.

Debaixo dela, Larkin iniciou um rápido trote.

 

Cian apalpou o material negro e áspero com um gesto de ligeiro desgosto.

—Uma capa.

—Mas se trata de uma capa mágica. —Glenna tratou de esboçar um sorriso cativante. — Com capuz.

Capas negras e vampiros, pensou Cian suspirando interiormente. Que clichê.

—E se supõe que esta... esta coisa impedirá que me converta em uma pira ardente ao receber a luz do sol.

—Realmente deveria funcionar.

Ele a olhou com expressão divertida.

—Sendo deveria a palavra chave.

—Seu sangue não ferveu quando a expusemos à luz —começou a dizer Hoyt.

—Tenho alegres notícias. Ocorre que sou feito de algo mais que sangue.

—O sangue é a chave —insistiu Hoyt. — É a parte fundamental de tudo isto. Você mesmo o disse.

—Isso foi antes de que minha carne e meus ossos estivessem em perigo.

—Lamentamos que não haja tempo para prová-la. —Glenna fez um gesto no ar. — Levou-nos muito tempo e até que não estivemos razoavelmente seguros não podíamos te pedir que lhe pusesse isso e saísse à luz do sol.

—Isso foi muito considerado de sua parte. —Cian elevou a capa. — Não poderia havê-la feito um pouco mais elegante?

—A moda não era nossa principal preocupação. —Hoyt não pronunciou bruscamente as palavras, mas lhe faltou pouco. — Ela era proteger sua lamentável natureza.

—Assegurarei-me de lhes agradecer se, ao acabar o dia, não me converti em uma pilha de cinzas.

—Isso deveria fazer. —Moira o censurou com um olhar sereno. — Glenna e Hoyt trabalharam toda a noite e todo o dia de hoje te tendo só a ti em mente. E, enquanto você dormia, o resto de nós também estivemos trabalhando.

—Eu tive meus próprios afazeres, majestade. —E a ignorou simplesmente lhe dando as costas. — Embora, é pouco provável encontrar uma saída quando seu círculo de pedra rechaça aos de minha espécie.

—Tem que confiar nos deuses —disse Hoyt.

—Vejo-me obrigado a lhes recordar uma vez mais que sou um vampiro. Os vampiros e os deuses não são bons companheiros de farras.

Glenna se aproximou de Cian e apoiou uma mão sobre a sua.

—Ponha. Por favor.

—Farei-o por ti, ruiva. —Elevou-lhe o queixo e a beijou ligeiramente nos lábios. Logo retrocedeu e pôs a capa. — Sinto-me como um maldito extra de um filme de série B. Ou, pior ainda, como um estúpido monge.

Não parecia absolutamente um monge, pensou Moira. O via perigoso.

Blair e Larkin entraram na habitação.

—Estamos tão seguros como é possível está-lo —disse Blair, e logo arqueou as sobrancelhas olhando a Cian. — Huh, parece o Zorro.

—Como diz?

—Já sabe, essa cena em que está na capela com a garota e finge ser o padre. Só que, puta merda, da classe de padre que estávamos acostumados a chamar padre Que Desperdício. Enfim, o sol se está ocultando. Se formos nos pôr em marcha, será melhor que o façamos agora.

Hoyt assentiu e olhou a Cian.

—Manterá-te perto de nós.

—O bastante perto.

Blair teria desejado que tivessem tido tempo de praticar a manobra, mas já era muito tarde para os desejos. «Basta de bate-papo —pensou. — Basta de discussões... e nada de ensaios de vestuário. É agora ou nunca.»

Depois de um leve assentimento e uma rápida exalação, Larkin e ela foram os primeiros em atravessar a porta. Ele trocou de forma e se converteu novamente em um cavalo, enquanto Blair montava de um salto e logo estendia a mão para ajudar a Moira a montar detrás dela.

Afastaram-se do estábulo a todo galope, com a esperança de adiantar-se aos monstros que esperavam para lhes emboscar. Blair logo que viu Cian sair da casa, porque em poucos segundos já estava nas portas do estábulo, liberando o semental.

Logo desapareceu, e Hoyt e Glenna montaram no Vlad.

Com apenas o tênue resplendor da lua para guiá-los, continuar ao galope ao chegar ao bosque era correr um risco. Blair pôs ao Larkin ao trote confiando em que ele vigiasse o atalho enquanto ela esquadrinhava as árvores.

—Nada, ainda nada. Se estiverem aqui, estão esperando.

—Pode ver Cian? —Moira, com o arco preparado, tratava de olhar a todas partes ao mesmo tempo. — O sente?

—Não, não há absolutamente nada. —Blair se voltou na cadeira para olhar ao Hoyt por cima do ombro da Moira. — Vigia os flancos. Podem nos atacar pela retaguarda.

Viajavam em absoluto silêncio e só se ouvia o som dos cascos no atalho. E esse silêncio, pensou Blair, era precisamente o problema. Onde estavam as aves noturnas? Onde estavam todos os rangidos e olhares cautelosos dos pequenos animais no bosque em sombras?

Os caçadores de vampiros, ela sabia muito bem, não eram as únicas criaturas que podiam sentir a presença destes.

—Alerta —disse Blair quase em um sussurro.

Então o ouviu, o choque do aço e um grito súbito. Não teve necessidade de esporear ao Larkin com palavras ou um golpe com os saltos. Ele já se lançou ao galope.

Blair os percebeu poucos segundos antes que saíssem de detrás das árvores. Soldados de infantaria nesta ocasião, com certa maturidade e armadura ligeira. Começou a fazer girar a espada ao tempo que Moira começava a lançar suas flechas.

Os cascos do Larkin se lançaram para frente esmagando tudo o que caía debaixo deles. Mas o inimigo saía de todas partes, bloqueava o círculo e lhes fechava o acesso para o Baile dos Deuses. Blair lançou um chute e derrubou a um deles que se prendey a sua perna. «Muitos —pensou. — Muitos para poder resistir seu ataque.»

Mais os valia atacar, romper a linha e chegar às pedras.

Então um dos monstros se desprendeu de um ramo em cima de sua cabeça e esteve a ponto de desmontá-la, lançando-a para trás enquanto ela levantava um cotovelo para bloquear o ataque.

Entretanto, Moira caiu ao chão. Com um grito de fúria, Blair lançou um violento murro e estava a ponto de saltar do cavalo quando Cian voou através do atalho.

Levantou a Moira e voltou a colocá-la a lombos no Larkin.

—Sigam adiante! —gritou. — Agora!

Blair carregou contra a linha inimiga abrindo uma brecha entre suas filas com sua espada flamejante. Confiava em que Cian estivesse fora da trajetória de uma bola de fogo que passou junto a ela. Sentiu que Larkin vibrava sob seu corpo, e sua forma trocou.

Um segundo depois, estavam voando a lombos do dragão, com as enormes garras do animal fazendo estragos entre a linha de vampiros, golpeando com sua cauda enquanto Hoyt e Glenna galopavam através da brecha aberta por ele.

Agora Blair podia ver as pedras. Embora as nuvens cobriam a lua, o círculo refulgia como prata polida, brilhando na escuridão. Tivesse jurado, inclusive com o som do vento e os gritos da batalha, que ouvia como cantavam.

Enquanto Hoyt e Glenna se lançavam para o interior do círculo, Larkin também descendeu entre as pedras.

Blair saltou de seu lombo, tentando não apoiar-se na perna que o vampiro lhe tinha ferido.

—Prepare –se —ordenou.

—Cian...

Ela apertou o ombro da Moira.

—Está vindo. Hoyt?

Este tirou sua chave; Moira o imitou.

—Não pronunciaremos as palavras até que Cian não se reuniu conosco. —Como acontecia com as próprias pedras, o poder parecia projetar-se desde o Hoyt quando agarrou a mão da Glenna. — Não pronunciaremos as palavras até que não voltemos a ser um círculo.

Blair assentiu. Contivessem o que contivessem aquelas pedras, e fora o que fosse aquilo com o que Glenna e Hoyt tinham nascido, a força dos seis provinha de sua união. Esperariam a Cian.

Voltou-se para o Larkin.

—Foi uma boa galopada, huh, vaqueiro? É grave?

Larkin se pressionou com a mão o flanco, no que lhe via sangue.

—Só arranhões. E você?

—Igual. Um ligeiro corte. Outros?

—Estamos bem.

Glenna estava colocando uma atadura no braço do Hoyt.

—Aí vem —murmurou Moira.

—Onde? —Hoyt a aferrou de um braço. — Não vejo nada.

—Ali. —Moira assinalou para as árvores. — Está chegando.

Viu-se uma espécie de mancha que surgia de entre as árvores; um redemoinho negro subindo para o terreno elevado onde estava o círculo de pedras.

—Não criem que foi entretido? Agora se estão reagrupando; para o que lhes vai servir —disse Cian ao chegar.

Tinha sangue na cara e um talho na coxa.

—Vêm. —Hoyt lhe tendeu uma mão. — Chegou o momento.

—Não posso. —Cian elevou uma mão e a apoiou contra o ar, entre as pedras. — É como uma parede para mim. Sou o que sou.

—Não pode ficar aqui —insistiu Hoyt. — Caçarão-lhe. Estará sozinho.

—Não sou uma presa tão fácil. Agora devem fazer aquilo para o que viestes até aqui. Eu ficarei para me assegurar de que funcione.

—Se você ficar, todos ficaremos. —Larkin passou através da brecha que havia entre duas pedras. — Se você brigar, todos brigaremos.

—Agradeço o sentimento —lhe disse Cian —, mas isto é mais importante que um de nós, e têm que partir a outra parte.

—O outro portal —começou a dizer Larkin.

—Se o encontrar, pode me convidar a um gole quando chegarmos ao Geall. Parte. —Olhou ao Hoyt fixamente aos olhos. — O que tem que ser, será. Isso é o que você sempre acreditou, e o que eu, a minha maneira, também acreditei. Parte. Salvem os mundos.

—Encontrarei uma maneira. —Hoyt estendeu a mão através das pedras e colheu com força a de Cian. — Encontrarei uma maneira, juro-lhe isso.

—Boa sorte. —Cian os saudou elevando a espada. — A todos.

Com um profundo abatimento refletido nos olhos, Hoyt retrocedeu e levantou o cristal. A luz brilhou nele e desde ele.

—Os mundos esperam. O tempo flui. Os deuses vigiam.

Com as bochechas banhadas em lágrimas, Glenna agarrou sua mão e repetiu as palavras.

—Não está bem —disse Larkin fracamente. — Não está bem deixar aqui a um de nós.

—Talvez possamos... OH, merda —murmurou Blair enquanto a terra começava a tremer. O vento formou um redemoinho e a luz começou a pulsar.

—Slan, mo cara. —Com um último olhar a Cian, Larkin aferrou sua mão. — Será uma viagem agitada —lhe disse. — Será melhor que te agarre para mim. Moira?

Moira levantou também o cristal e pronunciou as palavras. Logo olhou a Cian aos olhos enquanto sentia que o mundo começava a trocar. Então estendeu a mão e agarrou a de Cian.

—Somos uma só força, um só poder. Que assim seja!

E lhe arrastou para o interior do círculo.

 

Era como ser absorvidos por um tornado, pensou Blair. Um vento impossível que parecia arrancá-los da Terra e fazê-los girar em círculos enlouquecidos enquanto a luz estalava em seus olhos.

Haveria munchkins[11] do outro lado?

Não podia ver mais que a intensa luz branca e seu vertiginoso redemoinho. Não encontrava nenhum ponto de apoio, nenhum terreno firme, de modo que se sujeitou com força à mão do Larkin.

Logo chegou a escuridão e uma quietude absoluta. Esfregou a cara com a mão contendo o fôlego. Então distinguiu a luz da lua; raios de prata que caíam sobre as pedras erguidas.

—Chegamos?

—OH, Meu deus! —A voz da Glenna soava tremente. —Que viagem! O que... Uau! E Cian? —Colocando suas mãos trêmulas a cada lado do rosto deste, beijou-o sonoramente. — Como o tem feito? —perguntou a Moira. — Como pudeste colocá-lo dentro?

—Não sei. Eu só... Assim devia ser. Você devia estar aqui —lhe disse a Cian. — Eu o senti, e... —Moira pareceu dar-se conta de que ainda aferrava a mão do vampiro, e a soltou. — E bom, aqui está. —apartou-se uma mecha de cabelo que se escapou de sua trança. — Bem, assim —prosseguiu —Finalmente, fàilte a Geall, Larkin. —E se equilibrou aos braços dele. — Estamos em casa.

—E de noite, em um momento muito conveniente. —Se Cian estava aturdido, soube dissimulá-lo muito bem... Limitando-se a olhar a seu redor enquanto tirava o capuz da capa. — E não é que não confie em seus poderes mágicos.

—Ainda fica a questão de nos transladar aonde devemos ir e levar conosco todo este material.

Blair fez um amplo gesto com o braço abrangendo os baús, as armas e as caixas.

—Pela manhã podemos enviar a uns homens a procurar o grosso da equipe. Agora deveríamos levar conosco só o mais importante —sugeriu Moira.

—As armas então. Não sabemos o que é o que nos podemos encontrar. Sinto-o —acrescentou Blair olhando a Moira e ao Larkin —, mas faz um mês que partiram. Não podemos sabê-lo.

—Eu posso levar a três pelo ar. —Larkin deu um estirão à desordenada trança da Moira. — Assim veria se houver alguma coisa que deva nos preocupar. E você, Cian, pode levar a um no cavalo.

—Meu cavalo. —Cian se lembrou dele. Continuando, olhou a Moira. — Você pode montar comigo.

—Parece um bom plano. Ponhamos-nos em marcha. —Blair se pendurou do ombro sua esteira e logo sorriu a Glenna e Hoyt. — Meninos, esta viagem vai lhes encantar.

Os três voaram sobre o Larkin através do Geall, com o semental e seus dois cavaleiros galopando debaixo. A lua brilhava com luz mágica, aureolando de prata as colinas e os bosques; o rio refulgia em seu curso sinuoso através deles. Do alto, Blair pôde ver cabanas com finos penachos de fumaça que escapavam de suas chaminés, e uns pontos diminutos que eram vacas ou ovelhas pastando nos campos. Os caminhos pareciam estreitos, e estavam enlodados, e não se via neles mais viajantes que Cian e Moira.

Não havia carros, pensou, e tampouco luz, salvo algum resplendor ocasional que bem poderia ter sido uma vela ou um farol. Só terra que se ondulava e estendia e se elevava formando as silhuetas das montanhas.

Uma terra, recordou-se a si mesma, que até fazia poucas semanas ela tinha acreditado que era só um conto de fadas.

Girou a cabeça e viu a costa, com seus altos e escarpados que se precipitavam para graciosas baías. O mar se estendia, como veludo negro, no que destacava um trio de pequenas ilhas em seu caminho para o horizonte.

Ouviu que Glenna lançava uma exclamação a suas costas e voltou a olhar.

Aquela maravilha se elevava de entre as altas colinas, rodeada por detrás por uma ampla curva do rio. Seus muros brilhavam como diamantes sob a luz da lua, elevando-se em forma de torres e torreões, estendendo-se em muralhas almenadas.

«Um castelo», pensou Blair atônita. E que castelo estaria completo sem uma ponte levadiça e chapeuzinhos bicudos nos que ondeassem brancos e sedosos estandartes?

Um claddaugh em um deles, advertiu, enquanto os via agitar-se com a brisa. Um dragão no outro.

Glenna se inclinou para frente para lhe sussurrar ao ouvido.

—Isto é muito para um par de garotas do século vinte e um. Pensava que já nada poderia me surpreender. —Havia admiração na voz de Blair, ela mesma pôde ouvi-la. — Mas, uau, um autêntico castelo.

Larkin descreveu um amplo círculo para que não perdessem de vista ao cavalo e os cavaleiros, e logo planejou em suave descida para um grande pátio.

Blair se encontrou rodeada imediatamente por homens providos de armaduras ligeiras e as espadas preparadas. Elevou ambas as mãos para que ficassem bem à vista enquanto seus companheiros se baixavam também do dragão.

Um dos guardas se adiantou para ela.

—Seu nome e suas intenções.

Larkin abandonou a forma do dragão.

—Essa não é uma calorosa bem-vinda, Tynan.

—Larkin! —O guarda embainhou a espada e logo rodeou ao Larkin com um braço. — Graças aos deuses! Onde demônios estiveste todas estas semanas? Já quase tínhamos perdido as esperanças de te encontrar. E a princesa, onde...?

—Abram as portas. A princesa Moira está aguardando para entrar em casa.

—Já ouvistes Lorde Larkin —ordenou Tynan. Era uns centímetros mais baixo que Larkin, mas sua voz ressonou potente ao dar a ordem. — Elevem a porta. Deve-me contar isso tudo. Seu pai quererá que o despertem.

—Sim, há muitas coisas que contar. E, já que está nisso, faz que despertem também ao cozinheiro. Dá a bem-vinda a meus amigos. A caçadora Blair, Glenna a Bruxa, Hoyt o Feiticeiro. Viemos desde muito longe, Tynan. De muito mais longe do que possa imaginar.

Voltou-se para ajudar a Moira a descer do cavalo.

Os homens inclinaram a cabeça, observou Blair, quando os pés da Moira tocaram o chão.

—Tynan, seu rosto é uma grata visão. —Beijou-o na bochecha. — Este é Cian e este belo companheiro é seu cavalo Vlad. Pode lhe dizer a um dos homens que o leve a estábulo e se encarregue de que seja atendido?

—A mim ou ao cavalo? —murmurou Cian, mas ela fingiu não lhe haver ouvido.

—Avisem a meu tio que chegamos e que lhe esperaremos no salão familiar.

—Agora mesmo, alteza.

Moira os guiou através do pátio em direção a uma grande arcada. As portas já estavam abertas para eles.

—Uma bonita residência do verão a que têm aqui —disse Blair —, Lorde Larkin.

Sorriu-lhe.

—Não é muito, mas é um lar. De fato, a casa de minha família não está muito longe daqui. Meu pai exerce como regente até que Moira seja coroada.

—Se for o que corresponde —disse Moira por cima do ombro.

—Se for o que corresponde —conveio ele.

No grande salão estavam acendendo as tochas, de modo que Blair supôs que a notícia de sua chegada já se estava estendendo por toda parte. No chão, composto por alguma classe de azulejos, viam-se os dois símbolos que apareciam nos estandartes, com o claddaugh flutuando sobre a cabeça do dragão.

Ambos os símbolos se repetiam na cúpula de cristal do alto teto.

Enquanto iniciavam a ascensão de uma grande escada curva, Blair viu fugazmente móveis pesados e coloridas tapeçarias, e lhe chegou a fragrância das rosas.

—O castelo leva aqui mais de mil e duzentos anos —lhe disse Larkin. — Foi construído neste mesmo lugar a mando dos deuses. Esta elevação do terreno é conhecida como Rioga. Real. Todos os que reinaram no Geall após o têm feito daqui.

Blair olhou a Glenna.

—Isto faz que a Casa Branca pareça um abrigo.

Blair nunca tivesse chamado salão à estadia em que entraram. Era enorme e de tetos muito altos, com uma lareira de mármore azul o bastante grande como para que dentro dele coubessem cinco homens de pé. A lenha já estavam acesa.

Em cima da chaminé pendurava uma tapeçaria que descrevia o que supuseram que eram cenas da história do Geall.

Havia vários bancos largos e baixos cobertos com tecidos de tons brilhantes. Cadeiras de respaldos altos e ornamentados se alinhavam junto a uma larga mesa onde os criados já estavam colocando jarras e copos, recipientes com maçãs e pêras, pratos com queijo e pão.

As paredes estavam cheias de pinturas e tapeçarias enquanto que nos chãos se estendiam delicados tapetes de trabalhados desenhos. As velas ardiam nos braços de parede, em altos pedestais, em candelabros de prata.

Uma das criadas, uma jovem curvilínea com uma cabeleira dourada que lhe caía sobre as costas, fez- uma reverência a Moira.

—Minha senhora, damos graças aos deuses por sua volta. E pelo seu, meu senhor.

Os olhos da jovem brilharam ao olhar ao Larkin e Blair arqueou as sobrancelhas.

—Isleen, me alegro de verte. —Moira lhe agarrou ambas as mãos. — Sua mãe se encontra bem?

—Sim, minha senhora. Está derramando lágrimas de alegria.

—Dirá-lhe que a verei muito em breve? Necessitaremos que preparem habitações para nossos convidados.

Moira a levou à parte para lhe explicar o que queria.

Larkin já se dirigia para a mesa e a comida. Partiu uma grosa fatia de pão com as mãos, cortou uma grande parte de queijo e começou a lhes dar bocados.

—Ah, isto tem sabor de lar —disse, com a boca cheia. — Vêm, Blair, prova um pouco.

Antes de que ela pudesse dizer nada, Larkin lhe colocou uma parte de queijo na boca.

—É bom —conseguiu dizer.

—Bom? É brilhante como a luz das estrelas. E o que é isto? —Levantou uma grande jarra. — Vinho, verdade? Glenna, você beberá um pouco, não?

—Menino, claro que sim.

—Muito poucas coisas trocam —disse uma voz da porta. O homem que estava ali, alto, corpulento, de cabelo negro salpicado de fios cinzas, olhava fixamente ao Larkin. — Aqui está, rodeado de comida e mulheres formosas.

—Da[12].

Encontraram-se a meio caminho através da habitação e se fundiram em um abraço de urso. Blair pôde ver o rosto do homem, a emoção que mostrava. Logo viu o Larkin refletido naqueles olhos dourados.

O homem agarrou o rosto de seu filho entre suas grandes mãos e lhe deu um firme beijo na boca.

—Não quis despertar a sua mãe. Queria me assegurar, antes de alimentar suas esperanças.

—A irei ver logo que possa. A você lhes vê bem. Talvez um pouco cansado.

—Não foi fácil dormir estas últimas semanas. Está ferido.

—Nada que deva lhes preocupar, asseguro-lhes isso.

—Não, não me preocupa. Agora já está em casa.

O homem se voltou e sorriu... e Blair viu o Larkin nele.

—Moira.

—Senhor.

Então seu fôlego pareceu quebrar-se e correu para ele. Seus braços se fecharam ao redor de seu pescoço, ao tempo que ele a elevava do chão.

—Sinto muito, lamento havê-lo afastado de você. Lamento lhes haver preocupado tanto.

—Mas agora retornastes. Sãs e salvos. E trouxestes convidados com vocês. —Voltou a depositar a Moira no chão. — São bem-vindos.

—É o pai do Larkin e o irmão de minha mãe, o príncipe Riddock. Senhor, apresentarei-lhes a meus amigos, quão melhores nunca tive.

Enquanto Moira os apresentava, Larkin permanecia detrás de seu pai, fazendo gestos a outros para que inclinassem a cabeça ou fizessem uma reverência. Blair inclinou a cabeça sem poder evitar sentir um tanto ridícula.

—Temos tantas coisas que lhes contar... —começou a dizer Moira. — Se pudéssemos nos sentar. Larkin, as portas por favor. Isto dever ser privado.

Riddock a escutou, interrompendo ocasionalmente para lhe pedir a Moira que repetisse algum ponto ou ampliasse as explicações. De vez em quando formulava uma pergunta a seu filho ou a algum de outros.

Blair quase podia ver o peso das palavras sobre seus ombros e a férrea determinação com que as suportava.

—Houve outros ataques, ao menos seis, desde que... —Riddock vacilou brevemente —, desde que partiram. Fiz o que pude para cumprir com o que me deixou escrito, Moira; para advertir às pessoas que devia ficar em suas casas depois de pôr-do-sol, que não abrissem a porta a desconhecidos durante a noite. Mas os hábitos e as tradições são obcecados. Como o eram quem as tem respeitado estas últimas semanas.

Riddock estudou a Cian através da larga mesa.

—Dizem que devemos confiar nele, embora seja um deles. Um demônio dentro de um homem.

—Confiar uma palavra importante —disse Cian. — Tolerar poderia sê-lo menos e portanto mais fácil de exercer.

—Cian lutou a nosso lado —interveio Larkin. — Foi ferido conosco.

—Ele é meu irmão. Se não confiarem nele —espetou Hoyt categoricamente —, tampouco confiam em mim.

—E em nenhum de nós —concluiu Glenna.

—Nestas semanas formastes um grupo muito unido, é compreensível. —Riddock bebeu um pequeno sorvo de vinho enquanto seus olhos permaneciam vigilantes, pousados em Cian. — Mas confiar em um vampiro, tolerá-lo, e acreditar que pode e deseja enfrentar-se aos de sua própria espécie... custa um pouco de aceitar.

Cian continuou cortando sua maçã, apesar de que Hoyt começou a levantar-se de sua cadeira.

—Tio —Moira apoiou uma mão sobre a do Riddock —, eu estaria morta de não ter sido por ele. Mas além disso, entrou conosco no Baile dos Deuses, viajou até aqui por intuito dos deuses. Escolhido por eles. Questionarão sua vontade?

—Todo homem pensante questiona, mas respeitarei a vontade dos deuses. A outros possivelmente resulte mais difícil.

—O povo do Geall seguirá suas ordens, senhor, e seu guia —concluiu Moira.

—As minhas? —voltou-se para ela. — A espada te espera, Moira, igual à coroa.

—Pois terão que esperar um pouco mais. Acabo de retornar a casa e há muito que fazer. Questões mais importantes que as cerimônias.

—As cerimônias? Em um momento falas da vontade dos deuses e a ignora ao seguinte?

—Não a ignoro. Só digo que deve esperar. Você conta com a confiança e a fé do povo. Eu não estou ainda amadurecida. Não me sinto preparada, não em meu coração nem em minha mente. —Seu olhar era grave enquanto seus olhos estudavam o rosto de seu tio. — Um pouco mais de tempo, por favor. Talvez não seja eu quem deve levantar a espada, mas antes de prová-lo, preciso saber que estou preparada para levá-la. Geall necessita e merece um soberano que possua força e segurança. Não lhes darei menos que isso.

—Seguiremos falando disso. Agora está cansada. Todos devem está-lo, e uma mãe espera para ver seu filho. —Riddock se levantou. — Falaremos pela manhã e faremos tudo o que seja necessário nos próximos dias. Larkin.

Este ficou de pé à ordem de seu pai.

—Desejo-lhes boa noite —disse a outros. — E sonhos aprazíveis em sua primeira noite no Geall.

Olhou fugazmente ao Blair e logo seguiu a seu pai fora do enorme salão.

—Seu tio é um homem imponente —comentou Blair.

—E bom. Com sua ajuda formaremos um exército que enviará ao Lilith de volta ao inferno. Se estiverem preparados, lhes mostrarei suas habitações.

 

Não era fácil serenar-se e dormir, pensou Blair, quando estava passando a noite em um castelo. E em uma habitação própria da realeza.

Antes de que chegassem ao Geall, ela tinha esperado encontrar-se com algo mais Idade Média. Uma fortaleza de pedra no topo de uma colina açoitada pelo vento. Tochas fumegantes, barro, excrementos de animais.

Mas em troca, estava no castelo parecido ao de Cinderela.

No lugar da habitação pequena e estreita que lhe teria parecido normal, algo assim como um barracão com esteiras de junco - ou do que fossem exatamente — no chão e uma cama de armar tosca e pesada, dispunha de um espaçoso quarto de paredes coloridas, de uma cama grande, branda e provida de um dossel de veludo azul, e um amaciado tapete com imagens de perus reais tecidos em suave lã.

Ao olhar através da janela, comprovou que dava a um jardim no que havia uma formosa fonte que arrojava jorros de água. O assento que tinha frente à janela estava almofadado com mais veludo.

O quarto dispunha de uma pequena escrivaninha. Bonita, pensou, embora ela não faria muito uso do tinteiro de cristal ou da pluma.

O fogo ardia lentamente em uma lareira feito de mármore branco veteado de azul.

Tudo era tão fino e perfeito que Blair quase passou por cima a ausência de instalações sanitárias modernas. O mais próximo a isso que encontrou na habitação era o urinol colocado discretamente detrás de uma cortina.

Despiu-se até ficar só em roupa íntima e utilizou a bacia com água para lavar os arranhões da perna antes de lubrificar a zona com um pouco do bálsamo que lhe tinha dado Glenna.

Perguntou-se o que estariam fazendo outros. Desejou que fosse já de dia para poder dedicar-se ao seu.

Quando a porta se abriu, agarrou a faca que tinha deixado junto à bacia. Mas voltou a deixá-lo ao ver que era Larkin quem entrava na habitação.

—Não te ouvi chamar.

—Não o tenho feito. Pensava que possivelmente estivesse dormindo. —Fechou a porta brandamente atrás dele e examinou a habitação de uma olhada. — É de seu agrado?

—A habitação? É para uma estrela do rock. Só me sinto um pouco estranha. Como se me tivesse metido dentro de um livro.

—Entendo-o, já que eu me senti igual não faz muito. E suas feridas, tem problemas com elas?

—Não são nada. E as tuas?

—Minha mãe se encarregou delas. Isso a tem feito feliz, igual a chorar por mim. Está ansiosa por te conhecer, a todos vocês.

—Suponho que sim. —Embaraçoso, pensou Blair. Por que era tudo tão embaraçoso?. — Eu, huh, nunca tinha registrado que você pertencesse à realeza.

—OH, bom, todo isso não tem muito que ver comigo em realidade. É algo mais cerimonial que outra coisa. Honorífico, poderia dizer-se. —Elevou a cabeça enquanto se aproximava dela. — Pensava que não viria a verte esta noite?

—Não sei o que é o que pensei. Tudo é bastante desconcertante.

—Desconcertada você? —Um sorriso apareceu em sua boca. — Não me importa. Eu te desconcertarei um pouco mais, vou seduzir te.

Ele deslizou um dedo com o passar do bordo do sutiã, roçando apenas a pele.

—Dedica muito tempo às seduções? Ocupando-te, digamos, dessa loira de grandes peitos? Qual é seu nome? Isleen.

—É só paquera, diversão sã, nunca sedução. Não é apropriado ou justo te aproveitar de alguém que está ao seu serviço. —inclinou-se para ela e, esfregando os lábios sobre seu ombro, baixou-lhe a tira do sutiã. — E embora pudesse ter flertado no passado, você não estava aqui. Porque Deus é testemunha de que no Geall não há nenhuma mulher que possa comparar-se contigo.

Aproximou os lábios aos dela, só para mordiscar-lhe ligeiramente.

—Blair Murphy —sussurrou. — Mulher caçadora e formosa.

Deslizou as mãos por suas costas, aprofundando apenas o beijo. Logo só um pouco mais. E quando seus lábios se deslizaram por seu rosto, por seu pescoço, ele cantarolou em gaélico para ela.

O som de suas palavras, o tato dele, fizeram-na estremecer-se de prazer.

—Sigo pensando que isto é um engano. Mas é tão condenadamente bom.

—Não é um engano. —Larkin lhe deu uma leve dentada no queixo enquanto com as gemas dos polegares descrevia círculos ao redor de seus mamilos. — Absolutamente.

«É parte da viagem», disse-se Blair enquanto quase desfalecia. Ambos tomariam algo bom, algo poderoso para si mesmos com o passar do caminho.

Agora Larkin uniu seus lábios aos dela, e afundou em sua boca sua língua cálida e dura. Havia uma grande doçura na forma em que a acariciava e uma tremente excitação quando suas mãos tocavam seus lugares secretos.

Quando Larkin a elevou nos braços, Blair não se sentiu como uma caçadora. Sentiu-se conquistada.

—Desejo-te. —Ela apertou seu rosto contra a curva de sua garganta enquanto ele a depositava em cima da cama, aspirando seu aroma. — Como posso te desejar tanto?

—Está escrito —respondeu Larkin e, elevando lhe a mão,beijou a palma. — Shhh —disse antes que ela pudesse voltar a falar. — Só sente. Esta noite só sintamos.

Ela podia ser tão suave, pensou ele, tão dócil, tão generosa. Ao entregar-se fazia que se sentisse como um rei. Aqueles olhos azuis profundos o observavam enquanto ambos se moviam juntos. Nublavam-se de prazer quando ele a tocava, saboreava. Aquelas mãos, tão firmes empunhando uma espada, tremeram levemente ao lhe tirar a camisa.

Os lábios de Blair pressionaram contra seu peito, contra o coração que já estava perdido por ela.

Tomaram mutuamente com suavidade, em silêncio, enquanto a luz da lenha brilhava sobre seus corpos nus. Houve murmúrios e suspiros em lugar de palavras, e uma ascensão prolongada e indolente em lugar de uma carreira frenética.

Quando se deslizou dentro dela, Larkin olhou seu rosto, contemplou-a enquanto a penetrava. Quando tudo em seu interior se dispôs a dar o salto final, ele seguiu olhando-a.

E, ao final, pensou simplesmente que se afogaria nos seus olhos.

 

Era tão carinhoso...! Estava de lado na cama, atrás dela, com um braço lhe enlaçando a cintura do mesmo modo em que Blair imaginava que um pirralho podia abraçar a um ursinho de pelúcia.

Não estava acostumada a ter a um homem agarrado a ela de noite, e não podia decidir se gostava ou não. Por um lado, era doce e sexy despertar coberta pelo corpo do Larkin. Resultava quente, suave e acolhedor.

Por outro, se tivesse que mover-se depressa, procurar uma estaca ou uma espada, ele seria um peso morto.

Talvez deveria praticar liberar-se de seu abraço, rodar fora da cama e chegar até a arma que tivesse mais perto. E talvez deveria relaxar-se. Aquela não ia ser uma situação permanente.

Era só... conveniente.

E sua atitude estúpida e carregada de mentiras, teve que admitir. Se não era capaz de ser honesta dentro de sua própria mente, de seu próprio coração, então, onde?

Eles eram algo mais que convenientes um para o outro, mais que compatriotas. Mais, temia, que amantes. Ao menos por sua parte.

Contudo, à luz do dia tinha que ser realista. Fossem o que fossem um para o outro, era algo que não podia ir a lugar nenhum. Não além do que compartilhavam naqueles momentos. Cian havia dito a pura e crua verdade na Irlanda, fora do Baile dos Deuses. O problema ao que se enfrentavam era muito maior e importante que uma pessoa ou seus desejos e necessidades pessoais. E, portanto, essas necessidades pessoais deviam ser, por força, temporários.

Depois do Samhain tudo teria acabado. Ela tinha que acreditar que obteriam a vitória, isso era fundamental, mas depois da celebração da mesma, das palmadas de felicitação nas costas e dos brindes com champanha, teria fatos muito duros de confrontar.

Larkin —Lorde Larkin — era um homem do Geall. Uma vez que tudo aquilo tivesse terminado e ela tivesse completado a missão, Geall seria para ela, em um sentido muito real, de novo um conto de fadas. De acordo, possivelmente pudesse ficar uns dias, ir com ele a esse picnic do que Larkin tinha falado. Desfrutar um pouco. Mas finalmente teria que partir.

Ela tinha uma missão de nascimento, uma obrigação, pensou enquanto acariciava a cruz de Morrigan. Não era possível lhe voltar as costas a todo isso.

O amor, se era isso o que sentia, não era suficiente para triunfar. Quem podia ser tão parvo para acreditá-lo?

Larkin era mais do que jamais tinha esperado ter, inclusive para um curto período de tempo, de modo que não podia nem queria queixar-se de sua sorte, ou de seu destino, ou da fria vontade dos deuses. Ele a tinha aceito, preocupou-se por ela, tinha-a desejado. Era um homem que tinha valor, uma profunda lealdade e senso de humor.

Blair pensou que possivelmente —não era impossível — ele a amasse.

Para ela, Larkin era uma espécie de milagre pessoal. Nunca a abandonaria e se esqueceria dela. Nunca a separaria de sua vida simplesmente pelo que era. De modo que, quando se separassem, não poderia haver recriminações.

Se as coisas fossem diferentes, poderiam ter levado adiante sua relação. Ao menos poderiam havê-lo tentado. Mas as coisas não eram diferentes.

Ou, mais precisamente, as coisas eram muito diferentes.

De modo que contavam com umas poucas semanas. Teriam a viagem. E ambos conservariam algo memorável disso.

Blair o beijou, um beijo quente e suave nos lábios. Logo lhe sacudiu.

—Acorda.

A mão do Larkin se deslizou por suas costas para lhe acariciar sensualmente as nádegas.

—Não desta maneira.

—É a melhor maneira. Sentir o firme que é, suave e firme. Sonhei que estava fazendo o amor contigo em uma horta, em pleno verão. Porque sempre cheira a maçãs verdes, e faz que deseje te dar uma boa dentada.

—Come muitas maçãs verdes e terá dor de estômago.

—Eu tenho um estômago de aço. —Seus dedos se deslizaram acima e abaixo pela parte posterior de sua coxa. — No sonho não havia ninguém mais que nós dois, e as árvores estavam carregadas de frutos sob um céu do azul mais puro.

Sua voz soava sonolenta e pastosa, pensou ela. Sexy.

—Como o paraíso? Adão e Eva? Uma maçã os meteu em problemas muito grandes, se a memória não me falha —disse ela.

Se limitou a sorrir. Ainda não tinha aberto os olhos.

—Você olha o lado escuro das coisas, mas não me importa. No sonho eu te dava tanto prazer que você chorava de alegria.

Ela soltou uma gargalhada.

—Claro, em seus sonhos.

—E pronunciava meu nome uma e outra vez entre soluços. Rogava-me que tomasse. «Usa este corpo», implorava, «toma-o com suas fortes mãos, com sua experimentada boca. Penetra-o com seu poderoso...»

—Já vale, lhe está inventando isso.

Ele abriu um olho, e ela viu tanta diversão nele que seu estômago tremeu ao dar risada.

—Bom, sim, mas me estou divertindo muito. E você também te está rindo. Isso é o que queria ver quando abrisse os olhos. O sorriso de Blair.

A ternura a alagou.

—É um autêntico palhaço —murmurou enquanto lhe acariciava a bochecha.

—A primeira parte do sonho era verdade. Algum dia deveríamos procurar essa horta.

Larkin voltou a fechar os olhos e a acomodou na cama.

—Huh, um momento. A cena dos olhos fechados já terminou. Agora temos que nos pôr em marcha.

—Tem pressa? Muito bem.

Larkin rodou até ficar em cima dela.

—Não me referia...

Larkin se deslizou em seu interior.

O prazer foi tão profundo, tão instantâneo, que, embora estivesse rindo, lhe cortou o fôlego.

—Teria que ter sabido que seu «poderoso» estaria erguido e disposto.

—E sempre ao seu serviço.

 

Bem mais tarde que o que tinha planejado, Blair se vestiu.

—Temos que falar de algumas questões básicas.

—Está bem. Romperemos nosso jejum no comilão pequeno.

—Nunca soube que você tivesse nenhum jejum que romper. E não estava falando da comida.

—Ah, não? —Ele pareceu ligeiramente interessado enquanto se colocava o cinturão sobre a túnica. — Do que outra coisa então?

—Desde quartos de banho. Já sabe, eliminação, higiene. O urinol que tenho aqui é muito prático para situações de emergência, mas não como recurso cotidiano.

—Ah. —Larkin franziu o cenho e se arranhou a cabeça pensando no problema. — Há uma espécie de privadas na asa da família, e latrinas para os guardas do castelo. Mas não são ao que está acostumada.

—Já o arrumarei. Tomar um banho?

—A ducha —disse Larkin com saudade. — Já sinto falta. Posso fazer que lhe subam uma banheira e que esquentem água. Ou também pode te banhar no rio.

—Muito bem, é um começo. —Não necessitava luxos, pensou Blair. Ela só necessitava, bom..., algo razoável. — Agora temos que falar do treinamento.

—Falemos disso enquanto tomamos o café da manhã. —Agarrou-a do braço e a arrastou fora da habitação para que ela não seguisse falando enquanto o estômago dele grunhia.

 

Havia maçãs amadurecidas com especiarias às que Larkin parecia particularmente aficionado, e grandes quantidades de batatas, fritas no que Blair deduziu que era a gordura das grosas fatias de presunto que as acompanhavam. O chá era negro como o breu e tinha quase o mesmo efeito que o café.

—Também sinto falta da Coca-cola —disse Larkin.

—Teremos que passar sem ela.

Embora o comilão era menor que o salão onde tinham estado a noite anterior, ainda era o bastante grande para alojar a grande mesa de carvalho e um par de enormes armários e arcas onde Blair imaginou que haveria baixela e toalhas.

—A ponte levadiça funciona como uma porta? —perguntou. — Para mantê-los fora —explicou quando Larkin a interrogou com o olhar. —Necessitam um convite para entrar no recinto do castelo? Será melhor que nos encarreguemos desse assunto, que nos cubramos as costas. Hoyt e Glenna poderiam trabalhar em algo.

—Temos poucos dias.

—Se Lilith se ajustar ao programa. Em qualquer caso, nós temos que fazer nosso trabalho. Organizar-nos, evacuar aos civis da zona de combate. Hoyt e Glenna possivelmente queiram tentar esse encantamento de que falaram para criar uma zona livre de vampiros, mas devo dizer que não acredito que funcione. Não se trata de uma só casa, nem sequer de um pequeno assentamento. —Blair meneou a cabeça enquanto falava. — Uma área muito extensa, muitas variáveis. E, muito provavelmente, uma perda de seu tempo e energias.

—É possível. Transladar às pessoas a um lugar seguro é melhor. Meu pai e eu falamos disso ontem à noite, antes de que eu fosse a sua habitação. Os mensageiros já partiram para transmitir as notícias.

—Bem. Agora deveremos nos concentrar no treinamento das tropas. Vocês têm guardas... e cavalheiros, possivelmente?

—Aye.

—Eles devem possuir habilidades de combate básicas, mas isto é algo completamente diferente. E também é necessário que a população em geral esteja preparada para defender-se. Devemos começar a trabalhar na colocação das armadilhas. E quero jogar uma olhada ao campo de batalha. —Sua mente ia repassando a lista ao tempo que tomava o café da manhã. — Teremos que estabelecer áreas de treinamento múltiplos, tanto militares como civis. Logo está a questão das armas, os fornecimentos e o transporte. É provável que necessitemos um lugar onde Hoyt e Glenna possam trabalhar.

—Encarregaremo-nos de tudo.

Algo em seu tom de voz, a calma que transmitia, recordou-lhe que agora estavam em seu terreno. Ele sabia, e sua gente também. Ela não.

—Não conheço a ordem hierárquica. A cadeia de mando —disse ela. — Quem está a cargo de tudo isto?

Larkin serve mais chá para ambos. Por um momento pensou que agradável era —embora a conversa girasse em torno da guerra — estar sentados ali, só eles dois, desfrutando de do café da manhã.

—Até que a espada não seja extraída da pedra, meu pai governa como cabeça da primeira família do Geall. Ele não é o rei nem o será, mas acredito que Moira entende que os homens... os soldados como vocês os chamam, confiam nele. Eles seguirão ao soberano, a aquele cuja mão levante a espada, mas enquanto...

—Entendo-o. Não levantar ainda a espada significa lhes dar tempo. Permitir que sigam as ordens, e se façam à idéia desta guerra, de um homem no que confiam. Moira é inteligente ao esperar um pouco mais para tomar o mando.

—Sim, é-o. E também tem medo.

—Desde não ser ela quem consegue extrair a espada da pedra?

Larkin meneou a cabeça.

—Isso o fará. O que teme é ser a Rainha que deva ordenar a seu povo ir à guerra. Derramar seu sangue, provocar suas mortes. Isso a obceca.

—É Lilith a que derrama seu sangue e provoca suas mortes.

—Mas será Moira quem lhes diga que devem lutar. Aos granjeiros e os lojistas, aos caldeireiros e os cozinheiros. Geall viveu em paz durante gerações. Ela será a primeira que troca isso. E é um enorme peso sobre seus ombros.

—Deve sê-lo. Nunca deve ser fácil enviar um mundo à guerra. Larkin, e o que passará se não for ela? O que aconteceria se não for Moira a escolhida, pelo destino, ou, simplesmente, renuncia a tirar essa espada da pedra?

—Moira era a única filha da Rainha. Não fica ninguém mais de sua linhagem.

—As linhagens podem trocar. Está você.

—Morda a língua. —Quando Blair não sorriu, ele suspirou. — Sim, estaria eu. E meu irmão, e minha irmã e os filhos de minha irmã. Meu irmão é pouco mais que um moço e o que lhe chama é a terra. Minha irmã só deseja atender a seus filhos e seu lar. O maior tem só quatro anos. Nenhum deles poderia jamais fazer isto. Não posso acreditar que os deuses pusessem algo assim em suas mãos.

—E o que me diz das tuas?

Ele a olhou fixamente aos olhos.

—Eu nunca quis governar. Já fora em tempos de pasto de guerra.

—Mas a gente te seguiria. Eles lhe conhecem e confiam em ti.

—É possível. E se apresentasse a ocasião, o que outra escolha teria? Mas não desejo a coroa, Blair. —E tampouco era seu destino, disso estava seguro. Estendeu a mão e agarrou a dela. — Você sabe o que eu desejo.

—Desejos, sonhos. Nem sempre conseguimos o que queremos, de modo que terá que aceitar o que vem.

—E o que há em seu coração, e no meu? Eu quero...

—Sinto muito. —Moira apareceu no vão da porta. — Lamentou lhes interromper, mas meu tio falou com os guardas e com o círculo íntimo dos cavalheiros. Devem ir ao grande salão.

—Então será melhor que nos ponhamos em movimento. —disse Blair.

 

Com uma calça e um pulôver negro, Blair se sentiu mal vestida. Pela primeira vez desde que Blair a tinha visto, Moira levava um vestido. Era um vestido? Chamasse-se como se chamasse, era um objeto singelo e elegante, em uma espécie de tom vermelho, que caía reto sobre seu corpo de uma cintura alta e franzida.

A cruz de prata pendurava entre seus peitos e na cabeça usava uma fina coroa de ouro.

Até a Glenna parecia ir bem arrumado, mas é que sua Bruxa favorita tinha um dom especial para converter um conjunto informal de camisa e calças em algo estiloso e elegante.

A cavernosa habitação estava aquecida por lareras a ambos os lados e tinha uma ampla plataforma sobre dois degraus sobre os que se estendeu um tapete vermelho. Na plataforma descansava um trono. Um trono autêntico, pensou Blair, vermelho e dourado.

Nele estava sentado Riddock, com Moira ao seu lado.

Ao seu outro lado se sentava uma mulher. Levava o cabelo loiro recolhido no que Blair acreditava que se chamava uma rede para cabelo. Uma mulher mais jovem, obviamente grávida, estava ao seu lado. A suas costas, havia dois homens de pé.

«A família real do Geall —decidiu Blair. — A família do Larkin.»

Ante um olhar de seu pai, Larkin tocou o braço de Blair e sussurrou:

—Tudo sairá bem.

Logo subiu à plataforma elevada para sentar-se entre seus pais.

—Por favor —Riddock fez um gesto —, tomem assento. —Esperou a que todos tivessem feito. — Moira e eu falamos extensamente. A pedido dela, falei com os guardas e com muitos dos cavalheiros para lhes avisar da ameaça que se abate sobre nós e da iminente guerra que teremos que liberar. É o desejo da Moira que vocês, e o resto dos que chegaram com vocês, recebam a autoridade do mando. Para recrutar, treinar e forjar nosso exército. —Fez uma pausa e lhes estudou. — Mas vocês não são geallianos.

—Senhor —objetou Larkin —, todos eles foram provados em combate.

—Esta guerra foi gasta a nossa terra e será paga com nosso sangue. Eu pergunto por que deveriam mandar a nosso povo aqueles que chegaram desde fora.

—Posso falar? —Hoyt ficou de pé e aguardou até que Riddock assentiu. — A própria Morrigan é quem nos enviou aqui; do mesmo modo que enviou a dois geallianos a Irlanda, para que pudéssemos nos reunir e formar o primeiro círculo. Nos que viemos ao Geall deixamos atrás nossos mundos e a nossas famílias, e oferecemos nossas vidas para combater esta praga que se aproxima do Geall.

—Esta praga assassinou a nossa Rainha, minha irmã, antes que vocês chegassem. —Riddock os assinalou. — Vocês são duas mulheres, um demônio e um homem que pratica a magia. E são desconhecidos para mim. Eu conto com homens acostumados que demonstraram sua valia. Homens cujos nomes conheço, a cujas famílias conheço. Homens que conhecem Geall e cuja lealdade é indisputável. Homens que sei que conduzirão a nosso povo com entusiasmo ao combate.

—Onde serão sacrificados como cordeiros. —Embora o olhar do Riddock se voltou de gelo ante a interrupção, Blair se levantou. — O sinto, mas assim é como são as coisas. Podemos lhe dar voltas, seguir o protocolo, perder o tempo, mas o fato é que seus acostumados homens não sabem nada a respeito de combater contra vampiros.

Quando Hoyt apoiou uma mão sobre o ombro de Blair, ela a sacudiu de cima. Com irritação.

—E eu não vim aqui para que me deixem de lado porque não nasci no Geall, ou porque sou uma mulher. Tampouco vim a lutar pelo Geall. Vim a combater por tudo.

—Bem dito —murmurou Glenna. — Estou de acordo em todo contigo. Meu marido está acostumado às questões da corte e os príncipes —prosseguiu, dirigindo-se ao Riddock —, mas nós não. De modo que terão que nos perdoar por ser simples mulheres. Simples mulheres de poder.

Elevou uma mão, e então apareceu nela uma bola de fogo; logo lançou a bola para a laeirar que havia a um dos lados do salão, com irritação.

—Simples mulheres que lutaram e foram feridas e viram morrer seus amigos. E o demônio de que falam é minha família. Ele também lutou e derramou seu sangue e viu morrer a um amigo.

—É possível que sejam guerreiros —reconheceu Riddock com o que só podia denominar um assentimento régio com a cabeça —, mas para mandar se necessita algo mais que magia e coragem.

—Necessita-se experiência e uma mente fria. E também sangue-frio.

Riddock voltou a olhar ao Blair ao tempo que arqueava ligeiramente as sobrancelhas.

—Aye, assim é, e a confiança da gente a que alguém dirigirá. —Eles têm a minha —disse Larkin. — E também a da Moira.

A ganharam cada hora de cada dia destas últimas semanas. Senhor, não me ganhei eu a sua?

—Sim, tem-no feito. —Por um momento não disse nada e logo voltou a fazer um gesto assinalando ao Blair, Glenna e Hoyt. — Pedirei-lhes que lhes façam cargo da instrução de nossos homens sob as ordens de Lorde Larkin e a princesa Moira.

—Podemos começar com isso —decidiu Blair. — Vocês também lutarão? —perguntou ao Riddock.

Agora seu olhar tinha um próximo parentesco com a de um lobo.

—Até o último fôlego —respondeu.

—Então também necessitarão instrução militar, ou esse último fôlego chegará antes do que pensam.

Larkin elevou os olhos ao céu, mas apoiou uma mão no ombro de seu pai e lhe sussurrou ao ouvido.

—Blair tem espírito guerreiro.

—E uma língua indócil. Destinaremos a zona de jogos —decidiu Riddock — para nossas primeiras instruções.

—A seu pai não caio bem.

—Isso não é verdade. —Larkin lhe deu uma suave cotovelada. — Ele somente está procurando a maneira de te entender, e também de entender tudo isto.

—Já. —Olhou a Glenna enquanto saíam. — Criem que deveríamos lhe dizer ao Riddock o que sente nossa gente pelos reis?

—Acredito que poderíamos deixar esse tema no momento. Mas depois do que vimos aí dentro, compreendi que não será nada fácil convencer a um punhado de machos do Geall de que umas mulheres vão ensinar lhes a lutar em uma guerra.

—Tenho algumas idéias a respeito, mas de todos os modos, acredito que você deveria trabalhar com as mulheres —disse Blair.

—Como?

—Não te zangue, Glenna. Você tem mais diplomacia e paciência que eu. —Provavelmente qualquer as tinha, pensou Blair. —E o mais seguro é que as mulheres se relacionem melhor contigo. A elas também terá que treinar. Para defender-se e que possam defender a suas famílias. Para lutar. Alguém tem que fazê-lo, Glenna. E alguém tem que saber quais deveriam ficar em casa e quais deveriam lutar.

—OH, Deus.

—Teremos que aplicar o mesmo critério aos homens —prosseguiu Blair impassível. — Aqueles que não dêem a talha, devem ser destinados a outras funções. Encarregar-se dos feridos, proteger aos meninos, aos idosos, subministrar comida, armas.

—E o que sugere que façamos Cian e eu —perguntou Hoyt —Enquanto vocês duas estão tão ocupadas?

—Está de bico porque replicamos ao Riddock —disse Glenna.

—Meus lábios estão bem, obrigado de todos os modos. —Hoyt falou com firmeza e dignidade. — Estou de acordo em que era necessário lhe dizer essas coisas, embora poderiam havê-lo feito com muito mais tato. Se o ofendemos, necessitaremos tempo e esforço para reparar o dano.

—Meu pai é um homem razoável —insistiu Larkin. — E não permitiria que umas poucas separações de protocolo interfiram com o que devemos fazer. —passou-se uma mão pelo cabelo com gesto de frustração. — Ele nunca se viu na obrigação de governar antes que se produzisse esta situação. Rainha foi coroada muito jovem, e ele só ocupava ocasionalmente o posto de conselheiro.

«Terá que aprender muito depressa então», pensou Blair.

Os homens já se achavam reunidos no que Blair deduziu que era o lugar onde celebravam suas justas, jogos e torneios. Havia uma larga corda da que penduravam argolas de cores. Um marcador, supôs. O camarote real, os assentos mais Bastos e duros para as massas; currais para os cavalos e grandes tendas onde os competidores se preparavam para o esporte que estivesse no programa.

—Viu alguma vez esse filme, Destino de cavaleiro?[13] —perguntou Blair.

—Sim, passaremo-lo muito bem —respondeu Glenna, e fez sorrir ao Blair.

—Não cabe dúvida de que te ter aqui ajuda. Chegamos bem a tempo para o espetáculo. Escolhe a um ao que acha que pode vencer.

—O que? Por que? O que?

—Os dois —disse Blair, acrescentando também ao Hoyt. — Só por segurança.

Larkin se adiantou para os homens, formados em fileiras.

—Meu pai já lhes explicou contra o que devemos nos enfrentar e o que é o que se mora. Temos até o Samhain para nos preparar; esse dia devemos ir ao Vale do Silêncio para liberar a batalha. E temos que ganhar. Para isso, devem saber como lutar e como matar a essas coisas que não são humanos. Não são homens nem mulheres e não lhes pode matar como se fossem.

 

Colocando-se detrás do Larkin enquanto este falava, Blair estudou aos homens. A maioria deles pareciam aptos e em boa forma física. Divisou ao Tynan, o guarda ao que Larkin e Moira tinham saudado sua chegada ao castelo. Blair decidiu que não só parecia apto e em boa forma. Também parecia estar preparado.

—Eu lutei contra eles —continuou Larkin —, assim como a princesa Moira e as pessoas que vieram conosco desde fora deste mundo. Nós lhes ensinaremos tudo o que precisam saber.

—Sabemos como lutar —gritou um homem que estava junto ao Tynan. — O que pode me ensinar que não te tenha ensinado eu neste mesmo lugar?

—Isto não vai ser um jogo —respondeu Blair avançando uns passos. O tipo era um valentão. Ombros largos e fortes, corpo resistente, atitude hostil.

«Perfeito», pensou ela.

—Se ficar sem segundo nesta competição, não receberá o prêmio de consolação e uma palmada nas costas, estará morto.

O rosto do soldado não mostrou nenhuma expressão depreciativa, mas sim seu tom de voz.

—As mulheres não instruem aos homens na arte do combate. Elas se encarregam de atender o fogo e manter a cama quente.

Seu comentário foi recebido com algumas risadas de aprovação por parte de seus companheiros e um olhar de comiseração do Larkin.

—Niall —ele interveio com humor —, com esse comentário, colocaste a pata até o fundo. Estas mulheres são caçadoras.

—Eu não vejo nenhuma guerreira aqui. —Com as mãos apoiadas nos quadris, Niall avançou por volta da primeira linha. — Só a duas mulheres vestidas como homens e a um Feiticeiro com elas. Ou detrás delas.

—Eu irei primeiro —sussurrou Blair a Glenna. — Eu enfrentarei contigo —disse dirigindo-se ao Niall. — Aqui e agora. Escolhe armas.

O homem pôs-se a rir.

—Espera acaso que lute com uma garota?

—Escolhe sua arma —ordenou Riddock.

—Senhor, a suas ordens. —E se afastou rindo entre dentes.

As apostas começaram imediatamente.

—Vá! —Larkin deu ao Blair uma rápida palmada nas costas e se aproximou dos homens. — Eu também quero apostar.

Niall retornou com duas grossas varas de competição. Blair estudou a forma em que as sustentava e como se movia, rebolando como um fanfarrão.

—Isto será rápido —assegurou dirigindo-se ao Blair.

—Sim, será muito rápido. Escolheste boas armas —gritou ela por cima das vozes que seguiam trocando apostas. — A madeira pode matar a um vampiro se tiver a força e a pontaria necessárias para lhe atravessar o coração. Você parece bastante forte. —Olhou ao Niall de cima abaixo. — O que me diz de sua pontaria?

Ele esboçou um amplo sorriso.

—Até agora, nenhuma mulher se queixou.

—Bem, vejamos pois o que tem, garotinho. —Blair colheu com força a vara estendida para frente, e assentiu. — Está preparado?        

—Por cortesia, concederei-te os três primeiros movimentos.

—Muito bem.

Ela o derrubou em dois, lhe golpeando no ventre com o extremo da vara e agachando-se logo para lhe atiçar com força nas pernas. Ignorando as risadas, as exclamações e os gritos de fôlego, colocou-se em cima dele e pressionou a vara contra seu coração.

—Se fosse um vampiro, atravessaria-te com isto até que o extremo saísse pelo outro lado. Logo te converteria em pó. —Deu um passo atrás. — Acredito que deveriam reservar suas apostas, meninos. Este foi só de prática. —Levantou a cabeça e olhou ao homem. — Está preparado?

Niall se levantou e Blair viu que a surpresa e a vergonha que sentia ao ter sido derrubado por uma mulher tinham aceso um fogo nele. Atacou com fúria, a força de sua vara contra a sua, obrigando-a a levantar os braços. Ela saltou quando tentou golpeá-la nas pernas e logo lhe atirou um forte golpe no peito.

Niall lutava bem, decidiu Blair, e com uma força de mil demônios... Mas carecia de toda criatividade.

Ela usou a vara como uma vara, cravando-a no chão e elevando-se por cima de seu oponente. Quando aterrissou detrás dele, o deu um chute na zona lombar e, colhendo com força a vara, fez-o tropeçar e cair ao chão.

Esta vez apoiou a ponta em sua garganta, enquanto Niall ofegava tratando de levar ar a seus pulmões.

—Três de cinco? —sugeriu ela.

O homem soltou um rugido e apartou a vara de um tapa. Blair deixou que o impulso dele a levasse para trás, e logo levantou ambos os pés para lançá-lo por cima dela. Niall voltou a cair pesadamente sobre suas costas.

Ainda estava aturdido quando ela voltou a apoiar a ponta da vara contra sua garganta. A última queda o tinha deixado sem ar, e a cor tinha abandonado suas bochechas.

—Posso seguir fazendo isto durante todo o dia e você acabará cada vez com o rabo no chão. —Blair se levantou, cravou a ponta da vara junto ao Niall e se apoiou nela com atitude negligente. — É forte, mas eu também o sou. Além disso, é lento de pés, e não estava pensando neles. Só porque seja maior não significa que vás ganhar e pode estar ferradamente seguro de que não significa que viverá. Eu diria que me supera em uns cinqüenta quilogramas, mas te derrubei três vezes.

—A primeira não conta. —Niall se sentou no chão e se esfregou a dolorida cabeça. — Mas te concedo as outras duas.

Quando ele sorriu, Blair soube que tinha ganho.

—Larkin, vêem procurar uma vara —gritou Niall. — Lutarei contigo em lugar de com ela, já que não cabe dúvida de que é toda uma mulher.

Blair levantou uma mão.

—Larkin também te derrotará. Eu ajudei a lhe treinar.

—Então também me ensinará . E eles? —Niall assinalou com o queixo a Glenna e Hoyt. — Eles também podem lutar como você?

—Eu sou a melhor, mas eles também são muito bons.

Blair se voltou para o grupo de homens e aguardou até que o dinheiro das apostas tivesse trocado de mãos. Observou que Tynan era um dos poucos, junto com o Larkin, que tinha ganho algo.

—Alguém mais necessita uma demonstração?

—Não me importaria uma a cargo da ruiva —gritou alguém, e as gargalhadas voltaram a troar o ar.

Glenna fez bater as asas as pestanas e sorriu com um gesto entre tímido e modesto. Ato seguido tirou a adaga de sua bainha e lançou com ele um jorro de fogo.

Os homens retrocederam atropeladamente.

—O de meu marido é maior —disse com voz doce.

—Aye. —Hoyt se adiantou. — Talvez algum de vocês quereria que a demonstração a fizesse eu em lugar de minha encantadora esposa. Espada? Lança? —Girou as mãos e o fogo dançou sobre as Palmas. — Ou com as mãos? Porque eu não me oculto detrás destas mulheres, mas sim me sinto orgulhoso e honrado de estar junto a elas.

—Tranqüilo, moço —murmurou Blair. — O fogo é uma arma útil contra eles —explicou aos homens. — Uma arma poderosa, quão mesmo a madeira, se usar corretamente. O aço pode feri-los, deterá-os, mas não os matará a menos que lhes cortem a cabeça. Feridos ou não, eles simplesmente seguirão avançando até lhes cortar a garganta.

Lançou- a vara ao Niall.

—Não será tão rápido e limpo como este breve assalto —prosseguiu —, a não ser algo terrível e sangrento, e de uma crueldade indescritível. Muitos deles, possivelmente a maioria, serão mais fortes e rápidos que vocês, mas os deterão. Porque, se não o fizerem, eles não somente matarão a vocês, os soldados que se enfrentarão a eles em combate, matarão também a seus filhos e a suas mães. E a aqueles a quem não mate, converterão-os em quão mesmo são eles, ou em escravos para que lhes sirvam de alimento ou de diversão. De modo que os deterão, porque não há outra alternativa.

Blair fez uma pausa, porque para então o silêncio era total, para então todos os olhos estavam fixos nela.

—Ensinaremo-lhes como fazê-lo.

 

Blair se debatia entre o rio e a banheira. A água do rio provavelmente estaria gelada, o que seria muito desagradável. Mas não podia resignar-se à idéia de que uma criada lhe subisse baldes e mais baldes de água quente para jogá-la dentro do que, basicamente, seria um balde um pouco maior. E logo, uma vez que ela tivesse tomado seu banho, teriam que repetir todo o processo, só que em sentido inverso.

Era simplesmente muito.

Contudo, depois de ter estado treinando durante várias horas com um montão de homens, necessitava água e sabão.

Era acaso muito pedir?

—Tem-no feito muito bem. —Moira se aproximou dela. — Sei que tudo isto deve ser muito frustrante para ti, como voltar a começar. E com homens que, de algum jeito, sentem que já sabem tanto como você, se não mais. Mas o tem feito muito bem. Tiveste um bom começo.

—A maioria tem uma forma física entre boa e excelente, e isso é uma vantagem. Mas em geral, o grosso deles segue pensando que se trata de um jogo. Simplesmente não acreditam nos vampiros. E isso é algo realmente negativo.

—Porque não o viram com seus próprios olhos. Eles sabem o que ocorreu a minha mãe, mas muitos ainda querem acreditar, precisam acreditar, que foi uma espécie de cão selvagem. Se eu não tivesse visto que foi o que passou também poderia me negar a acreditá-lo.

—É mais fácil negá-lo. Mas a negação é uma das razões de que agora Jeremy esteja morto.  

—Aye. Por isso acredito que a gente precisa ver, necessita provas. Temos que caçar aos que mataram à Rainha, aos que mataram a outras pessoas desde aquela noite. Devemos trazer aqui ao menos a um deles.

—Quer agarrar vivo a um desses monstros?

—Assim é. —Moira recordou como, em uma ocasião, Cian tinha feito entrar em um vampiro na sala de treinamento, e logo se apartou para que o resto deles tivesse que lutar contra ele. E entendesse. — Isso o trocaria tudo.

—Não é impossível negar o que tem diante dos narizes, só um pouco mais difícil. —Blair o pensou durante um momento. — Mas de acordo. Esta noite sairei para buscá-lo.

—Não irá sozinha. Não, não —a cortou Moira com calma quando Blair começou a discutir. — Está acostumada a caçar em solitário, sei que é capaz de fazê-lo, mas este não é seu terreno, enquanto que a estas alturas, eles já devem conhecê-lo. Irei contigo.

—É um ponto a seu favor, e muito forte, mas você não é a pessoa indicada para esta caçada. Não estou dizendo que não seja capaz, entretanto, não é a melhor quando se trata de luta corpo a corpo. Terá que ser Larkin, e também necessitarei a Cian.

Com gesto de chateio, Moira arrancou uma flor de um arbusto.

—Agora é você a que tem um sólido argumento. Tenho a sensação de que, desde que retornamos ao Geall, só me ocupei de assuntos de Estado.

—Conta com todas minhas simpatias, mas essa classe de coisas também deve ser importante. Os homens de Estado criam exércitos. E você já tomou as medidas oportunas para evacuar as pessoas do que será zona de guerra. Isso significa salvar vidas, Moira.

—Sei. De verdade. Mas...

—Quem se encarregará de incitar à população em geral, de lhes animar para que ponham suas vidas em perigo? Nós os treinaremos, Moira. Mas você deve conseguir que nos sigam.

—Tem razão, sei.

—Conseguirei-te um vampiro, dois se puder. Você me consiga gente a que possa ensinar a matar um. Mas neste momento tenho que me lavar. Um vampiro poderia me cheirar de um quilômetro de distância.

—Fiz que lhe preparassem o banho em suas habitações.

—Estava pensando em que podia usar o rio.

—Tornaste-te louca? —Finalmente, o rosto da Moira se relaxou com um sorriso. — O rio está gelado nesta época do ano.

 

A Moira nunca resultava cômodo falar com Cian. E não só pelo que era, circunstância a que já se acostumou. Quando pensava em Cian, pensava nisso como em um estado; uma espécie de enfermidade.

Em seu primeiro encontro, lhe tinha salvado a vida e, após tinha demonstrado sua fidelidade em mais de uma ocasião.

Sua espécie tinha matado a sua mãe e, entretanto, ele tinha lutado junto a ela, tinha arriscado sua vida —ou, mais exatamente, sua existência — ao fazê-lo.

Não, Moira não podia fazê-lo responsável pelo que era.

E mesmo assim, havia algo dentro dela, algo que não podia ver com claridade, ou estudar, ou compreender. Fora o que fosse, a fazia sentir intranqüila, inclusive nervosa, quando Cian estava perto.

Ele sabia, ou o notava, Moira estava segura disso, porque Cian se mostrava muito mais frio com ela que com outros. Era muito estranho que lhe sorrisse, ou que lhe dissesse uma palavra amável.

Depois do ataque, quando se dirigiam ao Baile dos Deuses, ele a tinha levantado literalmente do chão quando caiu do cavalo, e seus braços eram os braços de um homem. Carne e osso, forte e real.

—Segure-se —havia isso dito ele. E isso foi tudo.

Logo, ela tinha cavalgado com ele sobre o Vlad até o castelo, e seu corpo era o de um homem. Magro e duro. E o coração da Moira se acelerou por tantas razões, que até tinha tido medo de lhe tocar.

O que lhe havia dito ele então, com aquela voz impaciente e cortante?

Ah, sim: «te agarre a mim antes que volte a dar com seu rabo no chão. Ainda não te mordi, verdade?».

Tinha conseguido que se sentisse envergonhada e confusa, e agradecida de que ele não visse o rubor que tingia suas bochechas.

Provavelmente, Cian tivesse tido algum comentário mordaz que fazer a respeito de seu rubor virginal.

E agora tinha que ir a ele para lhe pedir ajuda. Não era algo que fosse delegar no Blair, ou Larkin, nem é obvio, em um dos criados. Era sua obrigação enfrentar-se com ele, pronunciar as palavras, pedir sua aprovação.

Ia pedir lhe que abandonasse o castelo, a comodidade e a segurança de seus muros, e entrasse em uma terra estranha para caçar a um dos seus.

E Cian o faria, ela sabia que o faria. Não por ela... A petição de uma princesa, o favor a uma amiga. Faria-o por outros. Por tudo o que significava.

Foi sozinha. As mulheres que a atendiam não o passariam, é obvio, e considerariam indecorosa, inclusive escandalosa, a idéia de que sua senhora visitasse sem companhia as habitações de um homem.

Mas essas questões já tinham deixado de constituir um problema para a Moira. O que pensariam suas damas de companhia se soubessem que, uma vez, ela o alimentou com sangue quando estava ferido?

Imaginava que começariam a chiar e ocultariam os rostos entre as mãos... Isso as que não desmaiassem. Mas elas teriam que enfrentar-se a essa classe de coisas muito em breve. Ou com algo muito pior.

Seus ombros ficaram rígidos quando se aproximou da porta da habitação de Cian. Mas chamou com decisão e logo esperou.

Quando ele abriu a porta, as luzes do corredor banharam seu rosto e sumiram o resto do corpo em sombras. Moira percebeu um leve brilho de surpresa em seus olhos enquanto a estudava.

—Vá, te olhe. Se quase não te reconheci, alteza.

O comentário lhe recordou que levava um vestido, e a diadema de ouro de sua fila. E, ao recordá-lo, sentiu-se ridiculamente exposta.

—Tinha que atender algumas questões de Estado. Espera-se que me vista de um modo apropriado.

—E encantador também. —apoiou-se no vão da porta com atitude indolente. — Requer minha presença?

—Sim. Não. —por que fazia que sempre se sentisse torpe?. — Posso entrar? Eu gostaria de falar contigo.

—É obvio.

Ela teve que roçar seu corpo para entrar na habitação. No interior, parecia meia-noite, pensou. Não havia uma só vela, não havia fogo na lareira, e as pesadas cortinas cobriam completamente as janelas.

—O sol já se pôs.

—Sim, sei.

—Importaria-te se deixamos entrar um pouco de luz? —Agarrou o isqueiro e começou a acioná-lo. — Não posso ver tão bem como você na escuridão. —A rápida aparição da chama conseguiu acalmar seu estômago inquieto. — Aqui faz muito frio —continuou Moira prendendo umas velas. — Quer que acenda o fogo por ti?

—Como quer.

Cian não disse nada quando ela se ajoelhou diante da lareira e acendeu a turfa, mas Moira sabia que a estava observando, e esse olhar fez que sentisse as mãos frias e rígidas.

—Está cômodo aqui? —perguntou. — A habitação não é tão grande ou luxuosa como outras às que está acostumado.

—Mas está o bastante afastada da gente para que todos possam sentir-se cômodos.

Ela se voltou assombrada, inclinada ainda enquanto a turfa se acendia a suas costas. Não se ruborizou. Pelo contrário, suas bochechas empalideceram intensamente.

—OH, não, nunca foi minha intenção...

—Não tem importância. —Cian agarrou um copo que, obviamente acabava de servir-se antes que ela chegasse, e bebeu o sangue com os olhos deliberadamente fixos nos seus. — Imagino que sua gente se sentiria desconcertada por alguns de meus hábitos cotidianos.

A voz dela se tingiu de angústia.

—Isso nunca me teria ocorrido. A habitação tem vista ao norte. Eu pensei... Bom, pensei que receberia menos luz direta do sol e que se sentiria mais cômodo. Jamais insultaria a um convidado... E um amigo. Nunca insultaria a alguém que me recebeu em sua casa quando vem à minha. —levantou-se rapidamente. — Posso fazer que transladem suas coisas agora mesmo. Eu...

Cian elevou uma mão.

—Não há necessidade disso. E te peço desculpas por ter feito uma hipótese errônea. —Para ele resultava muito estranho experimentar o desconforto da culpa, mas era o que sentia nesses momentos. — Foi muito consideração de sua parte. Não deveria ter esperado menos de ti.

—Por que estamos...? Não entendo por que parece que estejamos sempre inimizados.

—Não o entende? —perguntou ele. — Bom, não tem maior importância. E, a que devo a honra de sua presença?

—Burla-te de mim —disse ela com voz serena. — É tão duro quando fala comigo...

Moira pensou que ele tinha suspirado, só um pouco.

—Estou de mau humor. Não descanso bem fora de casa.

—Sinto muito. E agora vim eu a te causar outro desconforto. Pedi ao Blair que saia a caçar vampiros aqui, no Geall, e que traga para o menos a um deles. Vivo.

—Isso é uma contradição nos termos —disse Cian.

—Não sei do que outra forma expressá-lo —replicou ela. — Minha gente lutará porque lhes pedi que o façam, mas não posso lhes pedir que creiam, não posso obrigá-los a que creiam, no que lhes parece impossível. De modo que é necessário que o demonstre.

Seria uma boa Rainha, pensou ele, que não esperaria que seu povo a seguisse cegamente. E terei que vê-la como se mostrava. Tão tranqüila, tão serena, quando ele sabia que em seu interior se estava liberando uma guerra.

—Quer que vá com o Blair?

—Sim... ela o quer. Eu o quero. Deus, sempre gaguejo quando falo contigo. Ela pediu que Larkin e você a acompanhem. Blair não quer que eu vá. Crê, e eu também, que serei muito mais útil reunindo às forças, ajudando a pôr as armadilhas que ela prepare.

—Governando.

—Ainda não governo.

—Assim o escolheste.    

—Aye. Por agora. Estaria muito agradecida se fosse com ela e com o Larkin, e encontrasse a maneira de trazer um prisioneiro.

—Prefiro fazer isso a estar aqui sem fazer nada. Mas a questão é onde procurar.

—Tenho um mapa. Já falei com meu tio e sabe onde se produziram os ataques... Ao menos aqueles dos que temos notícia. Larkin conhece o território do Geall. Não pode ter um guia melhor que ele. Nem melhor companhia nas horas de ócio ou na batalha.

—Não tenho nenhum problema com o moço, nem com uma caçada.

—Então, logo que esteja preparado, venha ao pátio exterior.

Posso enviar a alguém para que te ensine como chegar.

—Lembro como chegar.

—Bem. Irei encarregar-me de que preparem os cavalos e as provisões. —Foi para a porta, mas Cian chegou antes que ela... Sem que desse a impressão de haver-se movido. Moira elevou a vista e o olhou aos olhos. — Obrigado —disse, e abandonou rapidamente a habitação.

«Esses olhos —pensou ele enquanto fechava a porta detrás da Moira. — Esses grandes olhos cinzas poderiam matar a um homem.»

Era uma sorte que ele já estivesse morto.

Mas não podia fazer nada com respeito ao aroma que tinha deixado atrás dela; o aroma de claros sombrios dos bosques e a água fresca e cristalina da primavera. Não podia fazer nenhuma só maldita coisa a respeito.

 

—Estaremos vigiando —disse Glenna, apoiando uma mão sobre a perna de Blair quando esta montou em seu cavalo. — Se tiverem problemas, saberemos, e faremos todo o possível para lhes ajudar.

—Não se preocupe. Levo treze anos com isto pendurado do cinturão.

«Não no Geall», pensou Glenna, mas não o disse.

—Boa caça.

Atravessaram as portas do castelo e se dirigiram para o sul.

Era uma boa noite para caçar, pensou Blair. Limpa e fresca. Seria mais fácil lhes seguir a pista então, quando estavam ativos, que durante o dia, quando teriam ido refugiar se a alguma parte. Em qualquer caso, se caçavam de dia, não poderiam contar com Cian, a quem considerava uma vantagem.

Cavalgava entre os dois homens, levando seu cavalo a um trote ligeiro.

—Não quis perguntar a Moira —disse —, mas tenho entendido que o que sofreu sua mãe foi o primeiro ataque.

—Aye, a Rainha foi a primeira vítima da que tivemos notícia.

—E aquela noite não se produziram mais ataques? Não se levaram a ninguém?

—Não. —Larkin meneou a cabeça. — Ao menos que nós saibamos.

—Foi um ataque a um alvo específico então —refletiu Blair. — É de supor que vieram pela mãe da Moira... Sabemos como conseguiram entrar?

—Pensei nisso —disse Larkin. — Antes da morte da Rainha não havia nenhuma razão para impedir a entrada a ninguém. Pôde ser uma carreta com provisões, ou qualquer outra atividade comercial. Puderam entrar sem problemas.

—Sim, é possível que o fizessem desse modo —assentiu Blair depois de um momento. — Deveram entrar pouco antes que ficasse o sol e permaneceram escondidos em algum buraco até que todo mundo se deitou. Fizeram sair à Rainha com algum engano e a mataram. —Olhou ao Larkin. — Não temos detalhes mais específicos?

—Moira não fala nunca disso. Não estou seguro de que recorde com exatidão o que ocorreu.

—Talvez não tenha importância para nossos propósitos. Assim, mataram à Rainha e ficaram aqui. Talvez não puderam voltar a sair salvo em momentos muito concretos. Certamente não armaram animação —prosseguiu Blair. — Só um punhado de mortes em todas estas semanas. Isso é um perfil muito baixo para a espécie.

—Certamente houve mais vítimas —comentou Cian. — Viajantes, prostitutas, pessoas às que não se sente falta imediatamente. Mas está claro que foram muito cuidadosos, e que evitaram o que agora estamos fazendo nós: caçar. Não acredito que se estejam ocultando só de nós.

—De quem então? —Larkin elevou a vista e viu que Blair estava estudando a Cian com expressão pensativa.

—Refere-se ao Lilith —disse ela. — Crê que estão tratando de permanecer fora do alcance de seu radar? Por quê?

—Porque poderia ser que você tivesse acertado só pela metade na teoria. Um alvo específico, sim —conveio Cian —, mas duvido que esse alvo fosse a Rainha. É Moira a que foi escolhida como um dos elos do primeiro círculo.

—Moira. —Havia uma nota de alarme na voz do Larkin enquanto se dava a volta em sua cadeira para jogar uma olhada para trás, em direção ao castelo, que cada vez se via menor com a distância. — Eles já tentaram matá-la uma vez...

—De fato, trataram matar a todos nós mais de uma vez —assinalou Cian. — Sem êxito. No castelo, Moira está o mais a salvo possível.

Blair resumiu a situação.

—Está pensando que Lilith tentou agarrar um atalho. Apanhar a um de nós antes que essa pessoa fosse realmente um de nós.

—É uma possibilidade muito elevada. Por que não perder um pouco de tempo e o que deveu ser um pouco de esforço, e enviar aqui a um par de assassinos? Se for te colocar no negócio do destino —continuou dizendo Cian — a ameaça era Moira, e não a mãe da Moira.

—Então erraram —disse Blair. — Equivocaram-se de alvo. Assim, pode que não se trate de que não sejam capazes de retornar, mas sim de que não queiram fazê-lo.

—Lilith não se mostra especialmente tolerante com os enganos. Se pudesse escolher entre ser torturado e assassinado por ela, ou permanecer oculto e te alimentar com os habitantes deste lugar, você o que faria?

—A porta número dois —disse Blair. — Mas se Lilith queria meter-se no negócio do destino, como você diz, o primeiro engano foi dela, ao te converter a ti em um vampiro faz a tira de anos. Como vampiro é um inimigo muito mais formidável do que o tivesse sido como homem. Sem ânimo de ofender.

—Não há problema.

—Então faz zangar ao Hoyt e começa todo este assunto da Cruz de Morrigan.

Blair acariciou com expressão pensativa as duas cruzes que penduravam de seu pescoço.

—Por um lado, tem a Glenna unida ao Hoyt, possivelmente, com um enfoque romântico, destinados a encontrar-se e amar-se. E, ao fazê-lo, incrementando exponencialmente seu poder mútuo. Está a conexão do Larkin com a Moira e, devido a ela, o fato de que a acompanhasse através do Baile dos Deuses e a Irlanda.

—Isso forma um agradável e ordenado círculo —concluiu Cian. — Complicado, mas assim são os deuses para vocês.

—Assim, a Rainha estava destinada a morrer. —Larkin respirou profundamente para tranqüilizar-se. — Destinada a morrer em lugar da Moira. Se minha prima se inteira disto sua dor seria inconsolável.

—Com essa mente inteligente e investigadora que tem, surpreenderia-me que não estivesse pensando já na questão. Logo terá que enfrentar ela —acrescentou Cian. — O que outra opção tem?

Larkin deixou que a idéia penetrasse em seu coração e em sua cabeça enquanto atravessavam um campo.

—O seguinte ataque se produziu aqui. Contaram-me que o homem que cultiva estas terras pensou que os lobos estavam atacando a suas ovelhas. Foi seu filho quem o encontrou à manhã seguinte. Meu pai veio ver o corpo e estava igual ao da Rainha.

Blair trocou de postura na cadeira de montar.

—Uns três quilômetros ao sul do castelo. Aqui não há nenhum lugar onde esconder-se. Só campos abertos. Mas um par de vampiros experientes poderiam cobrir três quilômetros bastante depressa. Podem entrar e sair dos terrenos do castelo como nada, mas...

—Não é um bom lugar para aninhar —acabou Cian a frase por ela. — Presas fáceis, sem dúvida, mas muita exposição. Devem refugiar-se em cavernas ou no coração de um bosque.

—Por que não em uma casa ou uma cabana? —sugeriu Larkin. — Escolhendo com um pouco de atenção, poderiam ter encontrado um lugar afastado do caminho, onde não é provável que alguém lhes incomode.

—É possível —conveio Cian. — Mas o problema com uma cabana ou com uma casa, é que lhe ataquem à luz do dia. Seu inimigo tem uma arma mais contra ti... Só tem que retirar a cortina de uma janela para ganhar.

—Muito bem então. —Larkin assinalou através do campo. — Os dois ataques seguintes se produziram justo ao leste daqui. Há bosques, mas neles a caça é boa, com o que há muita gente que persegue veados e coelhos. Isso poderia perturbar o descanso diário de um vampiro.

—Você sabe —disse Blair —, mas eles talvez não. São estrangeiros aqui. Parece-me um bom lugar para começar.

Continuaram cavalgando em silencio durante um tempo. Blair podia ver vacas e ovelhas nos campos, presas fáceis se um vampiro não podia caçar a um humano. Havia alguns brilhos de luz que deduziu que eram velas ou faróis que iluminavam as cabanas. Podia cheirar a fumaça, o rico aroma da turfa e a lenha.

Cheirava também a pasto e excrementos de animais; um aroma mais profundo e margoso procedente dos campos semeados que esperavam a iminente colheita.

Deste modo podia cheirar os cavalos, e ao Larkin, e sabia como separar o aroma de Cian dos outros vampiros.

Mas quando chegaram a confine do bosque, já não estava tão segura.

—Por aqui passaram cavalos, e não faz muito —disse Larkin. Blair o olhou com as sobrancelhas arqueadas.

—Bem, adiante.

—Há rastros —prosseguiu ele desmontando para estudar o terreno. — Não estão ferrados. Provavelmente ciganos, embora não vejo nenhum sinal de carretas, e viajam nessa direção. Em qualquer caso, estão-se afastando do bosque.

—Quantos são?

—Poderiam ser dois. Dois cavalos saíram do bosque por aqui e atravessaram o campo.

—Pode segui-los? —perguntou Blair. — Ver de onde vinham?

—Posso fazê-lo —respondeu Larkin, e montou de novo. — Se forem a cavalo poderiam cobrir uma distância considerável. Necessitaríamos a sorte dos deuses para poder lhes seguir o rastro em uma só noite.

—Também vimos que os cavaleiros voltaram a entrar no bosque por aqui. E os outros ataques se produziram para o leste, verdade? Reto através destes bosques, justo ao outro lado.

—Aye. Outros cinco quilômetros como máximo.

—Este seria um bom lugar. —Olhou a Cian enquanto falava. — Se tiverem algum esconderijo decente é este. É um bom lugar para permanecer ocultos durante o dia e sair em busca de comida ao cair da noite.

—As folhas ainda são grossas nesta época do ano —conveio — E também há animais pequenos para caçar se o necessitam.

Larkin encabeçou a marcha, seguindo o rastro até que as árvores foram tão densas que ocultavam a luz. Voltou a desmontar e seguiu a pé. Blair se deu conta de que ela não podia ver o rastro.

Até então, tinha levado a cabo a maior parte de suas incursões de caça em bosques urbanos e caminhos suburbanos. Larkin em troca se movia naquele terreno com a segurança e a confiança de um homem que sabia perfeitamente o que estava fazendo, detendo-se só para agachar-se de vez em quando, estudando os rastros com maior atenção.

—Espera —disse ela abruptamente. — Um momento. Notas isso? —perguntou-lhe a Cian.

—Sangue. Não é fresco. E morte. Mais antiga ainda.

—Será melhor que volte a montar, Larkin —lhe disse Blair. — Acredito que, depois de tudo, tivemos um pouco da sorte dos deuses. Podemos seguir o rastro daqui.

—Eu não cheiro nada, à exceção dos bosques.

—Cheirará-o —murmurou Blair, e extraiu a espada da bainha que levava às costas enquanto avançavam com os cavalos ao passo através do caminho.

A carreta tinha sido empurrada entre as árvores, fora do caminho, ficando oculta por eles. Era uma espécie de pequena caravana com a parte traseira grafite de cor vermelha, desbotada e descascada.

E o aroma da morte parecia impregná-la.

—Funileiros —lhes disse Larkin. E Blair tinha razão, agora ele também podia cheirar a morte. — Ciganos que percorrem os caminhos vendendo todo tipo de objetos. Da carreta atiram dois cavalos.

—Um bom ninho —decidiu Blair. — Móvel se for necessário. E com ela se pode viajar de noite sem que ninguém empreste nenhuma atenção.

—Poderia levá-la inclusive dentro da cidade —disse Larkin com gesto sombrio. — Ou até alguma cabana e solicitar hospitalidade. Em situações normais, ninguém a negaria.

Pensou nos meninos que podiam sair correndo da cabana para ver se havia brinquedos à venda, de modo que pudessem rogar a seus pais que lhes comprassem alguns, ou os trocassem por outros produtos. E esse pensamento o adoeceu ainda mais que o fedor que impregnava o lugar.

Desmontou junto com seus companheiros e se dirigiram à parte posterior da carreta, cujas portas estavam fechadas e com o ferrolho por fora. Tiraram suas armas. Blair abriu o ferrolho e empurrou a porta.

Quando a porta cedeu, fez um gesto de assentimento a Cian e Larkin, contou mentalmente até três e a abriu violentamente.

O ar fétido foi o primeiro que surgiu do interior, penetrando em suas gargantas e olhos. Blair ouviu o zumbido voraz das moscas e lutou contra o desejo de vomitar.

O monstro saltou diretamente sobre ela. Tinha o rosto de uma jovem bonita, com os olhos vermelhos e de olhar enlouquecido. O fedor procedia dela, seu emaranhado cabelo negro e seu vestido rústico estavam impregnados dele.

Blair se fez velozmente a um lado, de modo que a criatura caiu entre os matagais, sobre mãos e joelhos, grunhindo como o animal em que se converteu.

Foi Larkin quem fez girar sua espada e acabou com ela.

—OH, Deus, doce Jesus. Não devia ter mais de quatorze anos. —Queria sentar-se, ficar ali, sentado no chão, enquanto o estômago lhe assentava. — Eles a transformaram. A quantos mais...?

—É pouco provável que sejam muitos —lhe interrompeu Cian —, porque então teriam que competir pela comida e preocupar-se de mantê-los controlados.

—Ela não veio com eles —insistiu Larkin. — Ela não era uma deles. Esta garota era do Geall.

—Era uma garota jovem e bonita. A comida não é a única necessidade de um vampiro.

Blair advertiu quando as palavras de Cian fizeram impacto no Larkin. E o viu não só por sua comoção, mas também pela expressão de fúria desatada em seu rosto.

—Bastardos. Malditos e ferrados bastardos. Era pouco mais que uma menina.

—E por que te surpreende?

Larkin se voltou para Cian, e Blair estava segura de que teria liberado com ele parte de seu horror e sua fúria. Talvez Cian estava crescendo como alvo para isso. Mas não havia tempo para indulgências.

Blair se limitou a interpor-se entre ambos e empurrou ao Larkin para trás um par de passos.

—Deixa-o estar —lhe ordenou. — E te tranqüilize.

—Como posso fazê-lo? Como pode você?

—Porque não pode fazer que volte, nem aos que estão aí. —Assinalou a carreta com o queixo. — Assim agora devemos pensar como usar isto para capturar a quem o fez.

Contendo sua própria repulsão entrou na carreta. Era um pesadelo.

Os que deviam ser os pais da garota tinham sido empurrados debaixo de uma espécie de banco que havia a um flanco do carro. O homem provavelmente tinha morrido rapidamente, quão mesmo o menino menor, cujo corpo jazia no outro extremo, debaixo de outro banco.

Mas à mulher tinham dedicado mais tempo. Não tem sentido lhe arrancar a roupa se não se tiver intenção de jogar com ela. Ainda tinha as mãos atadas e o que ficava dela estava cheio de dentadas.

Sim, não cabia dúvida de que com essa mulher se tomaram seu tempo.

Blair não pôde ver nenhuma arma, mas um dos bancos estava manchado com um sangue mais fresco que a que cobria o outro, o chão e as paredes. Ali era onde tinha morrido a garota, deduziu. E onde havia tornado a despertar.

—A mulher leva morta só um par de dias —disse Cian a suas costas. — O homem e o menino um ou dois dias mais.

—Sim. Jesus.

Blair tinha que sair dali, tinha que respirar. Saltou a terra da parte posterior da carreta para aspirar uma baforada de ar que esperava que limpasse o que sentia na garganta, nos pulmões.

—Eles voltarão a procurá-la. —Blair se inclinou para frente, abraçando-os coxas e baixando a cabeça para que lhe dissipasse a terrível sensação de náusea e enjôo. — Trarão-lhe algo para que possa comer. Ela era nova. Provavelmente se despertou esta noite por primeira vez.

—Devemos lhes enterrar —disse Larkin. — Aos outros. Merecem ser enterrados.

—Isso terá que esperar. Olhe, pode te zangar comigo se quiser, mas...

—Não, não estou zangado contigo. Sinto-me doente, mas não estou zangado contigo. Nem contigo —disse dirigindo-se a Cian. — Não sei por que estou assim. Vi o que havia no interior das cavernas na Irlanda. Sei como matam estes monstros, como se alimentam. Mas o fato de saber que converteram em um monstro a essa garota só para poder usá-la, parte-me o coração.

Ela não tinha palavras, nenhuma que servisse, para lhe responder. Agarrou-lhe o braço e o apertou ligeiramente.

—Façamos que paguem pelo que têm feito. Estarão de retorno antes que saia o sol. Muito antes se podem encontrar depressa o que saíram a procurar e trazê-lo aqui. Eles sabem que ela ia se despertar esta noite e precisam alimentá-la. Por isso...

—Por isso deixaram os corpos dentro da carreta —disse Larkin quando ela se interrompeu. — Para que ela tivesse algo que levar-se a boca até que pudessem lhe trazer sangue fresco. Não sou estúpido, Blair. Deixaram aos membros de sua própria família para que se alimentasse.

Blair assentiu e voltou a vista para a carreta.

—De modo que voltaremos a fechar a carreta e esperaremos. Serão capazes de nos cheirar? Aos humanos?

—É difícil de dizer —respondeu Cian. — Não sei que idade têm, nem com que experiência contam. Imagino que suficiente para que Lilith pensasse que podiam levar a cabo esta missão que eles converteram em uma autêntica porcaria. Mas é possível que possam captar o aroma do sangue vivo, inclusive através de todo este fedor. E além disso, tem os cavalos.

—De acordo, isso o deixa previsto. O mais provável será que retornem aqui pelo mesmo caminho pelo que partiram. Levaremos os cavalos para o interior do bosque, onde o vento não traga seu aroma. Ataremos-lhes as patas. Exceto ao meu. Se o levar das rédeas quando eles me vejam, esses monstros pensarão que o cavalo está coxo. E estarão tão felizes de haver-se topado com uma mulher só que não o pensarão duas vezes.

—Ou seja que crê que vais ser o anzol —disse Larkin com uma expressão que advertiu ao Blair que estavam a ponto de encetar-se em outra briga.

—Eu me levarei os cavalos enquanto vocês dois discutem este assunto.

Cian agarrou as rédeas e se perdeu entre as árvores.

«Tranqüila —se ordenou Blair. — Seja razoável.» Devia recordar que era muito agradável ter a alguém que realmente se preocupava com ela.

—Se virem um homem, é mais provável que ataquem. Mas se trata de uma mulher, eles me quererão viva... Temporariamente. Desse modo cada um teria uma companheira de jogos. Larkin, é a maneira mais lógica de fazer isto. —E aí se acabou sua atitude tranqüila e razoável. — E se seu ego tiver algum problema pelo fato de que até estando sozinha poderia me encarregar perfeitamente desses dois monstros, terá que solucioná-lo.

—Meu ego não tem nada que ver com este assunto. É igualmente lógico que nós três nos ocultemos para esperá-los e logo lhes ataquemos como um só homem.

—Não, porque se eles perceberem seu aroma ou o meu perderemos o elemento surpresa. Moira os quer vivos... Ao menos a um deles. Essa é a razão de que estejamos aqui em lugar de estar desfrutando de uma taça de vinho diante do fogo. Se lançarmos um ataque a grande escala, é provável que tenhamos que matá-los aos dois. A surpresa nos proporciona uma melhor possibilidade de capturá-los.

—Há outras maneiras.

—Provavelmente uma dúzia delas. Mas embora possivelmente não retornem até dentro de cinco horas, também poderiam fazê-lo dentro de cinco minutos. Isto funcionará, Larkin, porque é simples e básico. Porque nunca esperarão que uma mulher só signifique uma ameaça para eles. Eu quero me carregar a esses dois monstros tanto como você. Nos asseguremos de fazê-lo.

Cian reapareceu entre as árvores.

—Já chegastes a um acordo ou seguiremos discutindo este assunto durante muito mais tempo?

—Parece estar solucionado. —Larkin passou uma mão pelo cabelo de Blair. — Só estive desperdiçando meu fôlego. —Logo lhe agarrou o queixo. — Mas tem que falar com eles para manter o engano até que nós possamos intervir, darão-se conta de que não é do Geall.

—Certamente pensa que não sou capaz de fingir um pequeno de acento. —Blair falou com uma acusada pronúncia regional irlandesa, e olhou ao Larkin com expressão de garota desamparada. — Nem de dar a impressão de ser uma mulher só e indefesa.

—Isso não está mau. —Larkin aproximou seus lábios aos dela. — Mas no que me diz respeito, jamais acreditaria na parte de garota indefesa.

 

"Passou uma hora, logo outra. E uma terceira. Ela tinha pouco mais que fazer que comer um pouco de pão e queijo que Moira lhes tinha dado e tragá-los com ajuda de água da garrafa que levava na mochila.

Ao menos Cian e Larkin tinham um ao outro para fazer-se companhia, enquanto que ela só tinha a si mesma. Franziu o cenho quando esse pensamento lhe ocorreu. Estava acostumada a caçar sozinha, a esperar sozinha em lugares escuros e silenciosos.

Era estranho, mas só tinha demorado umas semanas em romper esse hábito de toda a vida.

Em qualquer caso, a espera se estava prolongando mais do que tinha previsto e não tinha incluído o aborrecimento como fator. A situação lhe recordava sua primeira noite na Irlanda e a sorte —o destino — de que lhe tivesse furado um pneu em uma estrada escura e solitária.

Naquela ocasião, os vampiros eram três, e o elemento surpresa tinha contribuído a aumentar sua vantagem sobre esses monstros. Em geral, os vampiros não esperam ser atacados com um gato de carro, especialmente por uma mulher muitíssimo mais forte do que eles tinham calculado.

E sem dúvida não tinham esperado que tirasse uma estaca e os convertesse em pó.

Esses dois —se é que alguma vez retornavam à carreta — tampouco o esperariam. Só que devia recordar que sua missão não consistia em lhes converter em um montão de pó. Algo duro de tragar para alguém que levava o sangue de um caçador de vampiros.

Seu pai jamais teria aprovado essa pequena aventura, pensou.

Em seu manual, acabava-se com eles, ponto. Rápida, eficazmente. Nada de adornos, nada de conversa.

Ele, é obvio, já teria feito todo o possível para liquidar a Cian. Que se danassem às conexões familiares e à vontade dos deuses. Seu pai jamais tivesse trabalhado com Cian, lutado junto a ele ou treinado com ele.

E um deles, possivelmente os dois, já estaria morto.

Talvez por essa razão a tinham levado a ela e não a seu pai a aquele lugar. E por isso mesmo —agora, enquanto esperava nesse atalho em metade do bosque podia admiti-lo — não lhe tinha contado nada a respeito de Cian. Não era precisamente que seu pai se incomodasse em ler seus e-mails, mas mesmo assim, Blair não tinha mencionado sua aliança com os mortos vivos nas mensagens que lhe tinha enviado até o momento.

Na caça dos demônios simplesmente não havia alianças, isso era algo inconcebível para seu pai. Foram seu inimigo e você. Branco e preto, viver e morrer.

Esse era outro dos motivos, compreendeu então, pelos que ela jamais tinha obtido sua aprovação. Não só porque não fora seu filho, mas sim porque Blair tinha percebido o cinza, e tinha questionado o branco e preto.

Porque, igual ao Larkin, ela tinha experimentado, em mais de uma ocasião, piedade e lástima por essas criaturas às que matava. Sabia o que diria seu pai. Que um instante de piedade ou de pena podiam significar um instante de vacilação. E um instante de vacilação podia te matar.

Ele tinha razão, pensou. Mas não de tudo; não, não a tinha absolutamente, já que também existiam matizes de cinza. Blair podia sentir essa piedade e mesmo assim seguir fazendo seu trabalho. É o que tinha feito.

Acaso não estava agora ali, viva? E estava condenadamente decidida a seguir estando-o.

Só se perguntava, pela primeira vez desde o Jeremy, se lhe seria possível ter vida amorosa. Blair se tinha proibido desejar ou querer ou questionar-se se podia ter a alguém que a amasse. Mas agora havia Larkin, e ela acreditava que ele a amava. Ou algo o bastante parecido ao amor que queria protegê-la e a desejasse.

Com o tempo, possivelmente podia chegar a ser amor. Do tipo que ela jamais tinha tido antes, a classe de amor que transbordava todos os limites, que aceitava o que alguém era.

Era brutal, pensou, absolutamente brutal que não houvesse tempo suficiente. E que não fosse possível abranger mundos inteiros.

Mas quando ela voltasse para seu próprio mundo, saberia que alguém a tinha olhado, tinha visto quem era e o que era e, mesmo assim, tinha-a querido.

Se conseguia retornar, se obtinham a vitória e os mundos seguiam girando no espaço, diria ao Larkin o que era o que lhe tinha dado. Diria-lhe até que ponto tinha sido capaz de trocar algo em seu interior, para melhor.

Mas não lhe diria que lhe amava. Essa classe de palavras só serviriam para lhes fazer dano. Não lhe diria o que finalmente era capaz de reconhecer ante si mesmo.

Que sempre lhe amaria.

Blair sentiu o movimento e se voltou para ele, pronta para o ataque. Mas era Cian, sua forma e seu aroma, saindo do atalho para as sombras.

—Atenção —murmurou ele. — Dois cavaleiros acabam de entrar no bosque. Arrastam a um homem com eles. Ainda com vida.

Ela assentiu e pensou: «Levantem o pano de fundo».

Começou a caminhar lentamente diante do cavalo em direção à carreta, de modo que os dois monstros chegassem depois dela. Para que parecesse que tinha entrado no bosque antes que seu cavalo ficasse coxo de uma pata.

Primeiro os pressentiu; era algo que estava mais à frente do aroma. Era mais um conhecimento que enchia todos seus sentidos. Mas esperou até ouvir o ruído dos cascos.

Tirou-se o casaco. Não acreditava que as mulheres do Geall se passeassem vestidas de couro negro. Para proteger do frio levava uma das túnicas do Larkin, o bastante rodeada ao corpo como para que se visse que tinha peitos. As cruzes estavam fora da vista, ocultas debaixo do tecido.

Parecia uma mulher necessitada esperando que alguém a ajudasse.

Inclusive deu umas vozes quando o som dos cavalos se ouviu mais perto, assegurando-se de fingir o acento e um pouco de temor.

—Huh, os cavaleiros! Tenho problemas... Aqui, um pouco mais adiante, no caminho.

O som dos cascos cessou de repente. «OH, sim —pensou Blair —, falem durante um minuto, deduzam o que é o que acontece.» Voltou a gritar, aumentando o tremor de sua voz.

—Estão aí? Temo-me que meu cavalo tropeçou com uma pedra. Vou de caminho ao Cillard.

Os cavaleiros reataram a marcha lentamente, e Blair adotou uma expressão em que se combinavam o alívio e a preocupação.

—Bom, graças aos deuses —disse, quando os cavalos estiveram à vista. — Já pensava que acabaria tendo que andar o resto do caminho até a casa de minha irmã, e além só na escuridão. O que me estaria bem empregado, por ter saído muito mais tarde que o devido.

Um deles desceu do cavalo. Parecia forte, julgou Blair, de constituição sólida. Quando se tirou o capuz da capa, ela pôde ver um arbusto de cabelo loiro quase branco, e uma profunda cicatriz em forma de V sobre a sobrancelha esquerda.

Não se via que arrastassem a ninguém detrás dos cavalos, por isso deduziu que, no momento, tinham deixado a sua presa em alguma parte.

—Viajam sozinha?

«Eslavo —pensou Blair. — Um acento apenas perceptível. Russo, ucraniano possivelmente.»

—Sim. Não vou muito longe e tinha previsto sair mais cedo. Mas uma coisa traz a outra, e agora isto... —Assinalou o cavalo. — Sou Beal, da família Dubhuir. Por acaso não lhes dirigirão para o Cillard?

O segundo cavaleiro desmontou para sustentar as rédeas de ambos os cavalos.

—É perigoso viajar pelo bosque só e de noite.

—Conheço muito bem o bosque. Mas você, vocês não parecem desta parte do Geall. —Retrocedeu um passo, como o faria uma mulher assustada. — É forasteiro possivelmente?

—Poderia-se dizer que sim.

E, quando sorriu, suas presas brilharam na escuridão.

Blair proferiu um leve chiado; nesses casos não terei que atuar. O monstro pôs-se a rir ao tempo que se equilibrava sobre ela. Blair levantou violentamente o joelho cravando-lhe entre as pernas e logo rematou a ação com um forte gancho à cabeça. Quando caiu de joelhos, chutou-lhe a cara e logo se afirmou para fazer frente ao segundo ataque.

O segundo vampiro não era tão forte como o primeiro, mas sim mais rápido. E já tinha tirado sua espada. Blair se lançou para trás, aterrissando sobre as mãos para chutar o braço que sustentava o aço. Isso lhe deu tempo e um pouco de distância. Quando o primeiro ficou de pé, Larkin saiu de entre as árvores.

—Agora veremos como te comporta quando luta contra um homem.

Blair tomou carreirinha para que seu chute levasse o máximo impulso possível. Alcançou ao primeiro vampiro em metade do corpo enquanto Larkin cruzava seu aço com o outro. Tirou a espada da bainha sujeita à sela e os três cavalos relincharam sobressaltados. O instinto fez que girasse sobre si mesmo, com a folha elevada com ambas as mãos para bloquear o golpe descendente da espada de seu inimigo.

Comprovou que tinha estado no certo quanto à força deste, já que a potência do golpe se deslocou por seu corpo até lhe chegar aos dedos dos pés, como as ondas que se formam na água ao atirar uma pedra. Blair se aproximou mais ao vampiro.

A vantagem sobre seu rival era que ela não queria matá-lo... mas ele não sabia. Pisou-lhe com força o pé e levou para cima o punho da espada lhe atirando um golpe terrível no queixo.

Isso o lançou para trás, contra o cavalo de Blair. Os três animais voltaram a relinchar ao tempo que se dispersavam.

Seu inimigo continuou atacando, lançando golpes a mão direita e esquerda até que as gotas de suor lhe caíam dentro dos olhos.

Ouviu gritar, mas não podia arriscar-se a desviar o olhar. Em troca, fez uma finta, insinuando com a espada para a esquerda e logo lançou o pé para o estômago de seu vampiro. O golpe o manteve em terra o tempo suficiente como para que ela saltasse sobre ele e apoiasse a folha da espada em sua garganta.

—Um só movimento e te converte em pó. Larkin?

—Aye.

—Se já terminaste que jogar com o teu, poderia me dar uma mão aqui.

Larkin passou por cima de seu competidor e logo chutou várias vezes a cabeça e a cara do vampiro de Blair.

—Sim, isso deveria bastar —disse ela, e se sentou quase sem fôlego, a seguir olhou ao Larkin. Tinha a camisa e o rosto manchados de sangue. — É teu muito desse sangue?

—Não, não muito. Deve ser dele em sua maior parte.

Retrocedeu e fez um gesto para que ela pudesse ver o vampiro ao que tinha imobilizado contra o chão com uma espada.

—Ouch. —Blair ficou de pé. — Temos que reunir aos cavalos, encadear a estes dois e...

Interrompeu-se quando Cian apareceu caminhando para eles, com os cavalos sujeitos pelas rédeas e um homem inconsciente colocado sobre a sela de um deles.

Jogou uma olhada aos dois vampiros que sangravam, estendidos em terra.

—Pouco delicado —decidiu —, mas eficaz. Este não está em muito boa forma —e fez um gesto para o homem coberto de sangue que levava sobre o lombo do cavalo —, embora esteja vivo.

—Bom trabalho. —Blair se perguntou, e não pela primeira vez, quão duro devia ser para Cian resistir o aroma do sangue humano fresco. Mas não parecia o momento mais oportuno para perguntar. — Será melhor que imobilizemos a estes dois quanto antes. Se esse se acorda, teremos problemas. —massageou-se o ombro dolorido. — É forte como um maldito touro.

Enquanto eles dois encadeavam aos vampiros, Blair examinou ao homem. Estava muito golpeado e ensangüentado, mas não o tinham mordido. Tinham intenções de levá-lo a carreta, pensou, e organizar uma pequena festa com ele e a garota.

—Temos que enterrar aos mortos —disse Larkin.

—Não podemos dedicar tempo a isso agora.

—Não vamos deixar os assim.

—Me escute, só escuta. —Agarrou-o das mãos antes que ele pudesse afastar-se. — Este homem está ferido, gravemente ferido. Se não receber ajuda urgente, possivelmente não sobreviva. Então teremos que cavar outra tumba. Além disso, por Cian, é necessário que retornemos antes que saia o sol. E o tempo apressa.

—Eu ficarei atrás e me encarregarei de fazê-lo.

—Larkin, temos que ir. Se não nos dermos pressa, Cian terá que adiantar-se, ou meter-se clandestinamente, e isso me deixará sozinha com dois vampiros e um homem ferido. Poderia-me arrumar isso se não tivesse mais remédio, mas não o farei. Enviaremos a alguém para que os enterre. Eu retornarei contigo e o faremos juntos se isso for o que quer. Mas por agora devemos deixá-los. Temos que nos partir já.

Larkin não disse nada, só assentiu e montou em seu cavalo.

—Tomou-se muito a peito a morte dessa garota —disse Cian.

—Alguns são mais duros que outros. Tem essa capa que lhe fizeram Glenna e Hoyt, verdade? Só por segurança.

—Tenho-a, mas para te ser sincero, preferiria não arriscar minha pele com essa coisa.

—Não te culpo. Se tiver que te adiantar, ou quando dever fazê-lo, não espere por nós. —Olhou para onde estavam os dois vampiros, encadeados, amordaçados e atados sobre um de seus cavalos. — Podemos nos encarregar deles.

—Você poderia te encarregar deles sem ajuda de ninguém, ambos sabemos.

—Mas Larkin não deveria encarregar-se só do que há nessa carreta. —Montou em seu cavalo. — Acabemos com isto.

Cavalgaram em silencio através da escuridão do bosque e dos campos salpicados pela pálida luz da lua. Em uma ocasião, justo diante deles, uma coruja voou por cima de uma leve elevação do terreno batendo apenas as asas. Por um instante, Blair distinguiu o brilho de seus olhos, verdes como esmeraldas. Logo só houve o murmúrio do vento através das ervas altas e o silêncio que precede ao amanhecer.

Viu que o vampiro contra o que tinha lutado elevava a cabeça. Quando seus olhos se encontraram com os dela, advertiu em seu olhar a fúria e as ânsias de sangue. Mas por cima de tudo, viu o medo. Lutou contra suas cadeias, com o olhar fixo no leste. Seu companheiro jazia junto a ele, e ao Blair pareceu que os sons que se ouviam detrás de sua mordaça eram soluços.

—Sentem que se aproxima o amanhecer —disse Cian a seu lado. — A fogueira do amanhecer.

—Vê. Larkin e eu nos podemos arrumar isso —Apressemo-nos.

—OH, ainda fica tempo, um pouco de tempo.

—Devemos estar a um par de quilômetros.

—Um pouco menos —disse Larkin. — O homem ferido está voltando em si. Quem me dera não o fizesse.

Galopar certamente não lhe faria nenhum bem, pensou Blair, mas não podiam permitir-se continuar a esse passo. As estrelas já tinham desaparecido.

—Nos apressemos.

Esporeou seu cavalo lançando-o ao galope e esperou que o homem que tinha desabado sobre a garupa do animal, resistisse um quilômetro mais.

Primeiro viu as luzes; o débil resplendor que projetavam velas e tochas através da névoa que começava a dissipar-se. E um pouco mais à frente a silhueta do castelo elevando-se sobre a colina com seus estandartes ondeando contra um céu que já não era negro, mas sim de um azul profundo e intenso.

—Vamos!

Os vampiros ricocheteavam violentamente sobre o lombo do cavalo, proferindo sons desumanos à medida que as primeiras nervuras vermelhas começavam a insinuar-se sobre o horizonte, atrás do castelo.

Entretanto Cian cavalgava erguido na cadeira, com a juba ao vento.

—Raramente vejo este espetáculo ao ar livre.

Havia dor, esmigalhado e ardente, mas também encanto em seu rosto. E logo uma leve decepção quando atravessou ao galope as portas do castelo e entrou nas sombras que lhe brindavam os muros.

Moira estava ali, com o rosto tenso e pálido.

—Entra, por favor. Alguém se encarregará de seu cavalo. Por favor —repetiu, a angústia abrindo caminho com través das palavras enquanto Cian desmontava. — Date pressa.

Fez um gesto aos homens que a acompanhavam para que se fizessem cargo dos prisioneiros.

—Têm alguma masmorra à mão? —perguntou Blair.

—Não, não temos masmorras.

Riddock observou como os homens se levavam a rastros aos prisioneiros encadeados.

—Feito os acertos necessários segundo indicações da Moira. Manterá-se aos prisioneiros vigiados nas adegas.

—Não lhes tirem as cadeias —recomendou Larkin.

—Hoyt e Glenna estão esperando dentro —lhe disse Moira. — Acrescentaremos um pouco de magia a essas cadeias. Não deve preocupar-se por nada, Larkin. Precisa comer e descansar, todos vocês.

—Este é humano. E está ferido. —Blair se aproximou e apoiou os dedos no pescoço do homem. — Ainda está vivo, mas necessita atenção.

—Agora mesmo. Senhor?

—Enviaremos a procurar o médico. —Riddock fez um sinal a um grupo de homens. — Encarregue-se dele —ordenou antes de voltar-se para seu filho. — Está ferido?

—Não. Devo retornar ali. Tivemos que deixar alguns corpos no bosque que conduz ao Cillard. —Larkin estava pálido e sua expressão era obstinada. — Terá que enterrá-los.

—Enviaremos uma partida.

—Preciso fazê-lo eu.

—Então o fará. Mas primeiro venha dentro. Precisa te lavar e comer algo. —Rodeou com o braço os ombros de seu filho. — Foi uma larga noite para todos nós.

No interior do castelo, Cian estava falando com o Hoyt e Glenna. Interrompeu-se quando entraram outros, e arqueou uma sobrancelha olhando a Moira.

—Já tem a seus prisioneiros. O que tenta fazer com eles?

—Agora falaremos disso, todos nós. Ordenei que levem comida ao salão familiar. Se pudéssemos reunimos ali, temos muito que discutir.

Moira partiu com duas de suas damas de companhia apressando-se atrás dela.

Blair foi a sua habitação, onde a esperava o fogo aceso e uma bacia com água limpa. Lavou-se o sangue e se trocou a túnica suja por uma de suas camisas.

Logo apoiou as mãos sobre a cômoda e estudou o aspecto de seu rosto no espelho.

Tinha tido dias melhores, pensou. Precisava dormir, mas não podia ser. Ainda não. Teria dado algo por uma hora na cama, mas isso estava tão fora de programa como umas férias em um balneário de luxo.

Em troca, teria que dedicar a metade do dia a retornar ao bosque a cavalo e enterrar a três desconhecidos. Não havia tempo para isso, não quando deveria estar trabalhando com as tropas, desenhando estratégias, comprovando a produção de armas. Uma dúzia de tarefas práticas e imprescindíveis.

Mas se ela não ia, Larkin o faria sozinho. E Blair não podia permitir que tal coisa acontecesse.

Ele já estava no salão quando ela entrou. Sozinho junto à janela, observando como o sol da manhã dissipava a névoa.

—Crê que estou esbanjando um tempo valioso —disse sem voltar-se. — Com algo desnecessário e inútil.

De modo que ele tinha sabido interpretá-la, pensou. E lembrava bem.

—Não tem importância. Precisa fazê-lo, de modo que o faremos.

—As famílias deveriam estar seguras nos caminhos do Geall. As garotas jovens não deveriam ser violadas nem torturadas nem assassinadas. Não deveriam ser convertidas em algo que deve ser destruído.

—Não, não deveriam.

—Você viveu com isso mais tempo que eu. E possivelmente possa confrontá-lo mais...

—Insensivelmente.

—Não. —voltou-se para ela. Sob a luz direta, e com a violência da noite ainda nele, parecia maior, pensou Blair. — Essa não era a palavra e nunca seria uma palavra que eu usaria contigo. Serenamente, possivelmente, de maneira mais prática sem dúvida. De modo que faz o que deva fazer. Eu não te impedirei que vá comigo.

Porque ele não o impediria, ela sabia que não podia fazer outra coisa que ir.

—Hei dito que o faria e o farei.

—Sim, fará-o; obrigado por isso. Pode entender que sou mais forte ao saber que vais fazer isto comigo, que entende minha necessidade o suficiente para dedicar seu tempo a me acompanhar?

—Acredito que só um homem forte pode fazer aquilo que é humano e compassivo. Com isso me basta.

—Há tantas coisas que tenho que te dizer, tantas coisas que quero te dizer. Mas hoje não é o dia. Eu me sinto... —Baixou a vista à mão com a que dirigia a espada. — Manchado. Sabe a que me refiro?

—Sim. Sei.

—Bom. Venha, beberemos chá forte e imaginaremos que é Coca-cola. —Sorriu levemente enquanto se aproximava dela. Logo apoiou as mãos sobre seus ombros e a beijou na testa. — É tão formosa.

—Deve ter a vista realmente cansada.

Larkin se relaxou.

—Vejo-te —disse — exatamente como é.

Retirou uma cadeira para que ela se sentasse, um gesto que não recordava que tivesse feito antes. Quando ele mesmo estava tomando assento, Hoyt e Cian entraram no salão. Cian olhou para as janelas e logo se separou delas para sentar-se à mesa que Moira tinha preparado, longe da luz.

—Glenna virá logo —disse Hoyt. — Queria examinar ao homem que trouxestes com vocês. Os prisioneiros estão em boa cobrança. —Olhou a seu irmão. — E nada contentes.

—Não comeram. —Cian se serve chá. — O castelo pode orgulhar-se de ter excelentes vinhos, algo que não mencionou —disse ao Larkin. — E um rincão da adega é um lugar apropriadamente úmido e escuro para manter ali a esses dois. Mas a menos que a intenção de sua prima seja simplesmente mata-los de fome, precisarão comer algo se forem estar encadeados outro dia.

—Não tenho intenção de matá-los de fome. —Moira entrou no salão. Agora levava roupa de montar, um traje de amazona cor verde escura. — E tampouco lhes alimentará. Já beberam suficiente sangue no Geall, animal e humano. Meu tio e eu partiremos breve para reunir às pessoas e difundir a notícia. Todos os que possam, virão aqui quando ficar o sol. E, quando tiver escurecido, mostraremos o que há na adega. Logo acabaremos com eles.

Moira olhou diretamente a Cian.

—Encontra-o duro, frio, sem um pingo de comiseração ou sentimento humano?

—Não. Encontro-o prático e eficaz. Em nenhum momento me passou pela cabeça que nos enviasse a caçá-los para lhes trazer aqui com fins de terapia e reabilitação.

—Mostraremos às pessoas o que são e como os deve matar. Blair, enviamos tropas para que coloquem as armadilhas que quer. Larkin, hei dito ao Phelan que se faça cargo dessa tarefa.

—O marido de minha irmã —explicou Larkin. — Aye, Phelan será capaz de cumprir com essa missão. Escolheste bem.

—O homem que trouxeram despertou; o médico quer que tome alguns remédios. Glenna está de acordo. Explicou-nos que saiu de sua casa para ouvir o que acreditou que era uma raposa no galinheiro. Eles o atacaram. Tem esposa e três filhos, e lhes gritou que não saíssem da casa. Isso foi tudo o que pôde fazer, e podemos agradecer aos deuses que o obedecessem. Enviamos alguém para buscá-los.

—Até que Larkin e Blair retornem do bosque, Glenna e eu podemos seguir com o treinamento —disse Hoyt. — E talvez Cian, se houver algum lugar apropriado dentro do castelo.

—Obrigado. Esperava que pudessem fazê-lo —respondeu Moira. — Temos ao ferreiro do povo e a outros dois forjando armas. Haverá outras mais, porque alguns dos homens trarão as suas.

—Também têm árvores —assinalou Blair. — Quererão começar a fabricar estacas com alguns deles? Além de mais lança, flechas, lanças.

—Sim, é obvio. Agora devo partir, meu tio e nossos soldados me esperam. Quero lhes agradecer por seu trabalho desta noite. Estaremos de retorno antes que o sol se ponha.

—Começa a parecer uma Rainha —disse Blair quando Moira se partiu.

—Uma pessoa esgotada é o que parece.

Blair assentiu olhando ao Larkin.

—Ser Rainha é um trabalho muito difícil. Se a isso acrescenta uma guerra, a tarefa passa a ser brutal. Cian, parece-te bem lhes explicar ao Hoyt e Glenna nosso trabalho desta noite?

—Já lhes contei o mais importante. Logo lhes darei os detalhes.

—Então por que você e eu não nos pomos em marcha? —disse ao Larkin.

Foi às cavalariças com ele e reuniram as ferramentas que necessitavam.

—Poderíamos ir voando; seria mais rápido que fazê-lo a cavalo —propôs Larkin. — Te parece bem?

—Sim, é muito boa idéia.

Larkin se dirigiu para o jardim que ela via desde sua janela.

—A bolsa é pesada. Pendura-a ao redor de meu pescoço uma vez que me tenha transformado.

Entregou a bolsa ao Blair antes de converter-se em um dragão. Continuando, agachou a cabeça para que ela pudesse lhe passar a correia ao redor do pescoço. Logo Blair o olhou aos olhos e lhe acariciou a bochecha.

—Está muito bonito —murmurou.

O inclinou o corpo para que ela pudesse montar em seu lombo. Um momento depois, estavam ascendendo por cima das torres almenadas e das torres, por cima dos estandartes que ondeavam ao vento.

A manhã era como um mosaico de azul, verde e ocre estendendo-se a seu redor. Blair jogou a cabeça para trás e deixou que o vento a envolvesse, que apagasse a fadiga da noite.

Agora abaixo, no caminho, viu cavalos e carruagens, carretas e gente caminhando. O pequeno povo que ainda devia explorar era uma extensão de belas construções, cores brilhantes, estábulos buliçosos. As pessoas que olhavam para cima saudavam com as mãos ou as boinas e logo voltavam a concentrar-se em suas tarefas.

A vida, pensou Blair, não só continuava, mas também insistia em florescer.

Voltou o rosto para as montanhas, com suas névoas e seus segredos. E seu vale, chamado do silêncio, que em questão de semanas se converteria em um lugar de sangue e morte.

Eles lutariam, pensou, e alguns morreriam. Mas combateriam para que a vida continuasse florescendo.

Chegaram ao bosque e descreveram um círculo antes que Larkin planasse brandamente entre as árvores até tocar terra.

Ela se deslizou de seu lombo e agarrou a bolsa que continha as ferramentas.

Quando ele se converteu novamente em um homem a agarrou da mão.

—É formoso —lhe disse Blair. — Antes que façamos isto, quero te dizer que Geall é formoso.

Caminharam juntos entre as árvores, logo se detiveram para cavar três tumbas na terra branda e musgosa. O trabalho era físico e mecânico, e o levaram a cabo em silêncio. Retornar à carreta para retirar os corpos, foi um verdadeiro horror. Nenhum dos dois pronunciou uma só palavra, simplesmente fizeram o que tinham que fazer.

Enquanto jogavam terra sobre os cadáveres, Blair sentiu que a fadiga voltava a apoderar-se dela, e que a náusea revolvia as profundidades de seu estômago.

Larkin levou pedras para cada uma das tumbas, logo conduziu uma quarta para a garota a que não tinham podido dar sepultura.

Uma vez que tiveram terminado, Blair se apoiou na pá.

—Quer, não sei, dizer algo?

Larkin falou em gaélico, agarrando a da mão, enquanto pronunciava umas palavras, as repetindo logo em inglês para que ela pudesse as entender.

—Eram desconhecidos para nós, mas eram família uns dos outros. Tiveram uma morte terrível e agora lhes devolvemos à terra e aos deuses, onde terão paz. Não lhes esqueceremos.

Retrocedeu uns passos levando ao Blair com ele.

—Arrastarei a carroça para o campo, longe das árvores. Ali o queimaremos.

Aquilo era tudo o que essa família tinha tido, pensou Blair enquanto lhe prendia fogo. A totalidade dos pertences daquelas pessoas que não tinham nome para ela. A só idéia era tão triste... A carroça ardia e a fumaça se elevava para o céu. Quando Blair voltou a montar a lombos do dragão, apoiou a cabeça em seu pescoço, fechou os olhos e permaneceu assim enquanto voavam afastando-se das cinzas.

 

Ouviu um trovão ao longe e pensou, sonolenta, que teriam que atravessar uma tormenta. Erguendo-se, assombrada de haver-se dormido sobre o lombo de um dragão, abriu os olhos. Sacudiu a cabeça para limpar-se.

Não tinha sido um trovão, descobriu boquiaberta ante a imponente queda de água que se precipitava entre duas rochas gêmeas para um enorme lago azul.

Havia árvores, ainda verdes e frondosas, e o surpreendente toque tropical de umas palmeiras. No lago se viam nenúfares flutuando, rosa e brancos, como se tivessem sido pintados sobre a água. Debaixo da superfície azul se podia distinguir o movimento dos peixes, brilhantes e elegantes como jóias.

O ar cheirava a flores e água cristalina.

Blair estava tão assombrada, que não moveu um músculo quando Larkin pousou no chão. O dragão inclinou a cabeça, de modo que a correia da bolsa se deslizou por seu pescoço. Ela seguia sentada, imóvel sobre as costas do Larkin.

— Equivocamo-nos de caminho?

O girou a cabeça e sorriu ante seus olhos abertos como pratos.

—Disse-te que te traria para este lugar. Faerie Falls, assim se chama. Esta vez não haverá picnic, mas pensei... Queria passar uma hora contigo a sós, em um lugar onde só há beleza.

—Valoroso —disse ela.

Levantou-se de cima dele e olhou a seu redor.

Na grama havia pequenas flores de cores brilhantes e um matagal de trepadeiras, cobertas de púrpura, que ascendiam sinuosamente pelas rochas, quase como emoldurando aquele salto de água. O próprio lago era claro como um espelho, azul como um pensamento, enquanto o cálice dos nenúfares flutuava nele e a cascata se precipitava de uma altura de vinte metros.

—É incrível, Larkin, uma pequena parte de paraíso. E não me importa se a água está gelada, vou me dar um mergulho de cabeça.

Tirou-se as botas e começou a desabotoá-la camisa.

—Você não?

—É obvio. —Larkin não deixava de sorrir. — Sigo-te em seguida.

Blair se despiu, arrojando a roupa descuidadamente sobre a terra branda. De pé na borda, inspirou profundamente preparando-se para a impressão da água fria. A seguir se mergulhou.

Quando reapareceu na superfície lançou um grito de alegria.

—OH, Meu deus, é quente. É quente e limpa e maravilhosa. —Voltou a inundar-se para aparecer a cabeça aos poucos segundos. — Se fosse um peixe, viveria aqui.

—Alguns dizem que as fadas esquentam a água todas as manhãs com seu fôlego. —Larkin se sentou e se tirou as botas. —Outros, menos fantasiosos, falam de mananciais quentes subterrâneos.

—Fadas, ciência, não me importa. É uma sensação fabulosa.

Larkin saltou à água e, como sempre fazem os homens, procurou impactar com força contra a superfície para salpicar ao Blair o máximo possível. Ela se pôs a rir e o salpicou a sua vez.

Inundaram-se juntos, arrastando-se mutuamente para baixo ou beliscando-se, jogando como focas. Blair nadou por debaixo da água, avançando com vigorosas braçadas até sentir a vibração da água caindo sobre a água. Impulsionou-se do fundo e saiu justo debaixo da cascata. A água golpeou com força contra seus ombros, a parte posterior do pescoço, a base da coluna vertebral. Gritou com uma mescla de alívio e felicidade, enquanto a água fazia desaparecer os dores e a fadiga. Quando Larkin se reuniu com ela, rodeou-a com seus braços e ambos puseram-se a rir enquanto a água caía sobre eles. A força da cascata os levou de novo para o centro do lago, onde simplesmente se deixaram flutuar.

—Antes estava pensando quanto eu gostaria de passar uns dias em um bom balneário —disse Blair. —Isto é melhor. —Suspirou e apoiou a cabeça no ombro do Larkin. — Uma hora aqui é melhor que algo.

—Queria que visse algo natural, não poluído. Acredito que precisava me recordar a mim mesmo que existem estes lugares. —Não só tumba que cavar, pensou. Não só batalha que liberar. — Não há nenhuma outra mulher que eu conheça, salvo Moira, que tivesse feito o que você tem feito hoje comigo. Por mim.

—Não conheço muitos homens que tivessem feito o que você tem feito hoje. De modo que estamos ao mesmo tempo.

Beijou-lhe a têmpora, a bochecha, até encontrar sua boca. O beijo foi suave e quente como a água. A mão que a acariciava, ligeira como o ar.

Era como se nada existisse fora daquele lugar, fora daquele tempo precioso. Ali, no momento, simplesmente podiam limitar-se a ser. Enquanto se moviam na água à deriva, Blair viu que uma pomba branca voava em círculos no alto. Distinguiu o brilho de seus olhos verdes.

«De modo que os deuses vigiam —pensou, recordando à coruja. — Nos bons tempos e também nos maus.»

Logo voltou os lábios para os do Larkin. O que podiam lhe importar nesse momento os deuses? Aquele era o tempo deles dois, aquele era seu lugar. Afundou-se nas profundidades do beijo, deixando-se levar por seus braços e pela água.

—Preciso-te —sussurrou ele com os olhos fixos nos seus enquanto voltava a cobrir sua boca. — Sabe acaso, é capaz de saber quanto te necessito? Deixe-me entrar dentro de ti —lhe rogou Larkin aferrando seus quadris e deslizando-se em seu interior.

Ambos se olharam enquanto seus corpos se uniam, os dedos acariciando os rostos, os lábios esfregando-se contra os lábios.

Era algo mais que agradar o que sentia, mais inclusive que alegria de viver. Se aquilo era verdade, pensou Blair, aquela necessidade, aquela forma de compartilhar, então poderia viver disso o resto de sua vida.

Enlaçou com as pernas o corpo do Larkin e se entregou a essa verdade.

E soube que seu nome era amor.

 

Provavelmente fosse possível sentir-se mais cansada, mais frustrada, mas Glenna esperava não ter que comprová-lo nunca. Fazia o que Moira lhe tinha pedido, tinha levado a um grupo de mulheres até um extremo dos campos de jogos para lhes repartir a primeira lição básica de defesa pessoal.

As mulheres se mostraram mais interessadas em rir entre dentes e intercambiar fofocas, ou tratar de paquerar com os homens com os que Hoyt estava trabalhando no outro extremo do campo, que em mover o rabo.

Glenna tinha escolhido a umas vinte mulheres das mais jovens, caso que estariam em melhor forma física e mostrariam mais entusiasmo pela tarefa. E esse, decidiu, pôde ter sido seu primeiro engano.

Era hora, decidiu, de ficar dura.

—Silêncio! —O tom peremptório de sua voz silenciou ao grupo reduzindo-o a um único ofego agitado. — Sabe? Eu gosto tanto paquerar com um cara bom como a qualquer garota, mas não estamos aqui para que possam conseguir um encontro para o próximo baile da colheita. Estamos aqui para que possa lhes ensinar a conservar a vida. Você. —Assinalou ao azar a uma das jovens, uma bonita morena que parecia forte e decidida. — Aproxime-se.

Ouviram-se algumas risadinhas, e a garota sorriu afetadamente enquanto caminhava para a Glenna.

—Como te chama?

—Dervil, senhora.

Quando o punho da Glenna saiu disparado para cima detendo-se escassos centímetros de sua cara, lançou um chiado e se cambaleou para trás.

—É isso o que pensa fazer quando alguém trate de te fazer dano, Dervil? Vais chiar como uma menina e boquejar como um peixe?

Agarrou o braço da moça e o elevou de modo que lhe protegesse o rosto quando lhe lançou outro murro. Os antebraços de ambas chocaram violentamente.

—Isso dói! —Dervil abriu a boca com expressão assombrada. — Não tem direito a me fazer dano.

—Fazer mal a alguém não tem nada que ver com os direitos, a não ser com a intenção. E um bloqueio com o antebraço é menos doloroso que um murro em pleno rosto. Gostará-lhes de seu aspecto, Dervil, assim bloqueia! Não, não deve levantar o braço como se fosse de trapo. Firme, com força. Outra vez! —Fez retroceder ao Dervil com cada golpe. — Tem bastante carne, e litros de sangue percorrendo suas veias. Lançar chiados e te menear não te ajudará em nada. O que fará quando vierem a por ti?

—Correr! —gritou uma das mulheres, e embora houve algumas risadas, Glenna se deteve e assentiu.

—Pôr-se a correr poderia ser uma possibilidade. Poderia chegar o momento em que fosse a única possibilidade, mas nesse caso, recomendo-lhes que corram a toda velocidade, porque um vampiro pode mover-se à velocidade do raio.

—Nós não acreditamos em demônios.

Dervil elevou o queixo e se esfregou o antebraço dolorido. Pelo gesto rebelde da boca e o brilho dos olhos, Glenna soube que tinha feito seu primeiro inimigo no Geall.

Má sorte.

—Pois podem apostar a que eles sim acreditam em vocês. Assim agora, corram. Até o extremo do campo de jogos e volta. Corram como se lhes estivessem perseguindo todos os demônios do inferno. Mas que droga, hei dito corram.

Para conseguir que se movessem, lançou uma pequena labareda para seus pés.

Ouviram-se alguns gritos, mas todas puseram-se a correr. Como meninas, pensou Glenna completamente desesperada. Agitando os braços, quase nas pontas dos pés e com as saias ao vento. E ao menos três delas tropeçaram e caíram, algo que ela considerava uma situação embaraçosa para qualquer mulher em qualquer parte.

Como calculou que perderia na metade se as obrigava a retornar ao ponto de partida, foi Glenna quem correu atrás delas.

—Muito bem, até aqui. Um par de vocês têm realmente um pouco de velocidade, mas, em geral, todas são lentas e torpes. De modo que correremos todos os dias um comprido do campo. Terão que levar, como se chamam? Sobrecalzas, perneiras. Calças —disse, aplaudindo-os sua. — Vestimenta de homem para o treinamento. As saias não farão mais que lhes estorvar e fazer que tropecem.

—Uma dama... —começou a dizer uma delas, só para emudecer quando Glenna a fulminou com o olhar.

—Vocês não são damas quando eu lhes estou treinando. São soldados. —Um plano de ação diferente, pensou. — Quem de vocês têm filhos?

Várias das mulheres levantaram as mãos, ela escolheu a uma que pensou que ao menos a estava olhando com certo interesse.

—Você. Seu nome?

—Ceara.

—O que faria você, Ceara, se alguém viesse a levar-se a seu filho?

—Lutaria, é obvio, isso faria. Morreria lutando para proteger a meu filho.

—Mostre-me como o faria. Vou por seu filho. O que é o que faz? —Quando Ceara a olhou indecisa, Glenna tratou de controlar sua impaciência. — Matei a seu marido. Ele jaz morto a seus pés, agora você é o único que se interpõe entre seu filho e eu. Deve me deter.

Ceara elevou as mãos com os dedos curvados como garras e se lançou sobre a Glenna sem muito empenho. Ficou sem fôlego quando Glenna a fez acontecer por cima de seu ombro e cair pesadamente de costas ao chão.

—Como me detém isso? —perguntou Glenna. — Seu filho te está chamando aos gritos. Faz algo!

Ceara se escondeu e saltou para frente. Glenna permitiu que a atacasse e logo simplesmente lhe jogou de novo por cima dela e apoiou um cotovelo contra sua garganta.

—Isso esteve melhor, foi algo positivo, mas muito lento. E seus olhos, todo seu corpo, anunciaram-me o que pensava fazer.

Quando Glenna se levantou, Ceara se sentou e esfregou a parte posterior da cabeça.

—Mostre-me como se faz —disse a Glenna.

Para o final da sessão, Glenna dividiu a suas primeiras alunas em dois grupos. No da Ceara estavam aquelas mulheres que tinham mostrado certo interesse e aptidão. E logo estava o do Dervil, integrado por mulheres que não só não mostravam nenhum interesse ou aptidão, a não ser uma forte resistência a perder o tempo fazendo algo que não era tradicionalmente obrigação de uma mulher.

Quando todas partiram, Glenna ficou sentada no chão. Um momento mais tarde, Hoyt se reuniu com ela, e pôde desfrutar do prazer de apoiar a cabeça sobre seu ombro.

—Acredito que sou um professor horrível —disse ele.

—Pois já somos dois. Como vamos fazer isto, Hoyt? Como faremos para converter a esta gente em um exército?

—Não temos mais alternativa que procurá-lo. Mas a verdade, Glenna, é que já estou esgotado, e logo que acabamos de começar.

—Era diferente quando estávamos na Irlanda. Nós seis sabíamos, entendíamos contra o que nos enfrentávamos. Ao menos você está tratando com homens, e alguns deles já sabem dirigir a espada, ou o arco. Mas o que eu tenho aqui é um grupo de garotas, e a maioria delas não poderia enfrentar-se a um miúdo cego e coxo, muito menos a um vampiro.

—A gente se rebela quando não fica mais remédio. Nós o fizemos. —Voltou a cabeça para lhe beijar o cabelo. — Temos que acreditar que somos capazes de fazê-lo, e então o faremos.

—Acreditar é importante —conveio ela. — Muitos deles não acreditam o que lhes estamos dizendo.

Hoyt observou que dois dos guardas transportavam uns postes de ferro e os cravavam no chão.

—Logo o farão. —ficou de pé e lhe tendeu a mão. — Devemos ir ver se outros já retornaram.

Ao Blair nunca haviam dito que se requeria sua presença... a menos que incluíra baixo esse conceito as ocasionais vezes em que lhe tinha ordenado que comparecesse no despacho do diretor quando estava no instituto. Duvidava de que Moira tivesse intenções de detê-la, mas resultava estranho que a escoltassem uns guardas para ir ver a princesa.

A própria Moira abriu a porta, e seu sorriso era sério e discreto.

—Obrigado por vir. Isso é tudo, Dervil, obrigado. Agora deve ir procurar um lugar nos degraus.

—Minha senhora...

—Quero que esteja ali. Quero que todos estejam ali. Blair, por favor, passa. —Retrocedeu para permitir que Blair entrasse na habitação e logo fechou a porta nos narizes do Dervil.

—Não cabe dúvida de que já começaste a atuar como uma Rainha.

—Sei que isso é o que parece. —Moira acariciou brevemente acima e abaixo o braço de Blair antes de dirigir-se para o centro da habitação . — Mas sou a mesma.

Moira levava o que Blair conhecia como sua roupa de treinamento —túnica singela, calças e umas botas duras e resistentes —, mas nela havia algo diferente.

Possivelmente a habitação contribuía a isso. Era, supôs Blair, uma espécie de sala de estar; muito luxuosa. Almofadas de tecidos ricamente tecidos, cortinas de veludo, a encantadora lareira de mármore com seu fogo de turfa... Tudo revelava sua elevada posição.

—Tenho-te feito vir para te explicar como se levará a cabo a demonstração.

—Para me explicar... —repetiu Blair.

—Imagino que o que pensei você não gostará de nada, mas a decisão está tomada. Para mim não há outra forma de fazê-lo.

—Por que não me diz o que é o que decidiste e logo eu te direi se eu gosto ou não.

Ao Blair não gostou. E discutiu, ameaçou e amaldiçoou. Mas Moira permaneceu firme e irredutível.

—E o que hão dito outros a respeito? —perguntou finalmente Blair.

—Não o hei dito. Só lhe contei isso a ti. —Pensando que lhes viria bem a ambas, Moira serve um par de taças de vinho. — Por favor, ponha em meu lugar. Estes são os monstros que mataram a minha mãe. Eles assassinaram à Rainha do Geall.

—Mas a idéia era, é, lhe mostrar às pessoas que existem. O que são, como se deve lutar contra eles e destrui-los.

—Aye, esse é um ponto fundamental. —Moira se sentou um momento e bebeu um pouco de vinho para serenar-se. Entre a preocupação da noite anterior e as obrigações do dia, tinha estado fazendo provisão de valor para o que devia confrontar. — Dentro de uns dias irei à pedra. Ante o povo do Geall, que estará reunido ali, tentarei tirar a espada. Se o consigo, serei Rainha. E, como tal, conduzirei a meu povo à guerra; a primeira guerra que se livrará no Geall. Posso enviá-los à batalha, posso enviá-los à morte quando eu não superei nenhuma prova?

—Moira, a mim não tem que me demonstrar nada.