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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O BEIJO DA MORTE / James Patterson
O BEIJO DA MORTE / James Patterson

                                                                                                                                                   

                                                                                                                                                  

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O BEIJO DA MORTE

 

                   CRIMES PERFEITOS

                   CASANOVA

                   Boca Raton, Flórida, junho de 1975

O jovem assassino passou literalmente três semanas dentro das paredes de uma extraordinária casa de quinze cômodos à beira-mar.

Ouvia o murmurar das ondas do Atlântico lá fora, mas não olhava para o oceano nem para os mais de noventa metros de areia branca da praia particular. Tinha muito que explorar, estudar e fazer naquele deslumbrante esconderijo de estilo mediterrâneo. Havia dias que seu pulso andava acelerado.

Quatro pessoas moravam na gigantesca mansão: Michael e Hannah Pierce e as duas filhas. O assassino espionava a família em todos os detalhes e em seus momentos mais íntimos. Gostava até das coisas insignificantes dos Pierces, especialmente da delicada coleção de conchas de Hannah e de toda a frota de veleiros de teca que pendia do teto de um dos quartos de hóspedes.

A filha mais velha, Coty, ele observava dia e noite. Freqüentavam a mesma escola secundária, a St. Andrews High School. Ela era um encanto. Nenhuma garota era tão bonita ou inteligente quanto Coty. Estava também de olho em Karrie Pierce. Embora contasse apenas treze anos, era um pleno desabrochar.

Apesar de seu metro e oitenta de altura, ele cabia perfeitamente nos duetos do ar-condicionado da casa. Era magérrimo, ainda não começara a encorpar. E tinha aquele tipo de beleza aristocrática do Leste.

No esconderijo, ocultara uma pilha de romances sujos, livros altamente eróticos que adquirira em suas febris viagens de compras a Miami. Adorava A História de O, As Escolares de Paris e Iniciações Voluptuosas. Também guardava um revólver Smith and Wesson naquelas paredes.

Entrava e saía da casa por uma janela do porão cujo trinco estava quebrado. Às vezes chegava até a dormir lá, atrás de um velho e ronronante refrigerador Westinghouse, no qual os Pierces mantinham uma reserva de cerveja e soda para suas festas de gala, que quase sempre terminavam com uma fogueira na praia.

Para dizer a verdade, estava se sentindo um tanto esquisito naquela noite de junho, mas nada para se preocupar. Não chegava a ser um problema.

Pouco antes, ao anoitecer, pintara no corpo listras de um vermelho berrante, alaranjadas e amarelas de cádmio. Era um guerreiro; um caçador.

Com o revólver cromado calibre 22, a lanterna e os manuseados livros, aninhou-se no forro do quarto de Coty. Bem em cima dela, por assim dizer.

Aquela era a grande noite. O começo do que realmente tinha importância em sua vida.

Acomodando-se, começou a reler suas passagens favoritas de As Escolares de Paris. A lanterna de bolso projetava uma luz fraca nas páginas. O livro era definitivamente excitante, mas também asqueroso. Falava de um "respeitável" advogado francês que subornava a robusta diretora de um colégio de moças para que lá o deixasse passar a noite. A história era contada numa linguagem extremamente artificial: "seu ferrão de ponta de prata", "seu ímpio cacete", "ele traçava as insaciáveis escolares".

Passado algum tempo, cansou-se de ler e consultou o relógio. Quase três da madrugada. Estava na hora. As mãos tremiam quando colocou o livro a um lado e olhou pelas grades da portinhola do alçapão.

Mal podia respirar, observando Coty na cama. A verdadeira aventura era iminente. Exatamente como havia imaginado.

Saboreou uma idéia: minha vida real vai começar agora.vou mesmo fazê-lo? Sim, vou!...

Estava deveras morando dentro das paredes da casa de praia dos Pierces. Em breve, esse fato sinistro, de pesadelo, tomaria conta da primeira página de todos os grandes jornais dos Estados Unidos. Mal podia esperar para ler o Boca Raton News:

 

       O RAPAZ NAS PAREDES!

O ASSASSINO QUE MORAVA DENTRO DAS PAREDES DA CASA DE UMA FAMÍLIA!

UM FURIOSO MANÍACO HOMICIDA PODE ESTAR HOSPEDADO EM SUA CASA!

 

Coty Pierce estava linda, dormindo. A camiseta dos Hurricanes, da Universidade de Miami, subira-lhe no corpo, de modo que ele podia ver a calcinha biquíni de seda cor-de-rosa.

Dormia de costas, com as pernas bronzeadas cruzadas uma sobre a outra. Os lábios carnudos ligeiramente entreabertos formavam um minúsculo o, e, daquele ponto de observação, ela aparentava toda a inocência do mundo.

Era quase uma mulher. Ele a observara quando estava diante do espelho da parede algumas horas antes. Vira-a tirar o sutiã de renda. Vira-a admirar os seios perfeitos.

Coty era insuportavelmente arrogante e intocável. Coisa que ele se encarregaria de mudar naquela noite. Iria possuí-la.

Cautelosa e silenciosamente, retirou a grade de metal do alçapão. Depois, saindo de dentro da parede, desceu ao dormitório pintado de azul-celeste e rosa. Sentia o peito apertado, a respiração precipitada e difícil. Num momento, sentia um calor insuportável, no seguinte, punha-se a tremer de frio.

Estava com dois sacos de lixo nos pés, amarrados nos tornozelos, e calçara as luvas de borracha azul que a empregada dos Pierces costumava usar durante a faxina.

Sentia-se como um ágil guerreiro ninja, era o próprio Terror, completamente nu, o corpo todo pintado. O crime perfeito. Adorava aquela sensação.

Seria um sonho? Não, sabia que não. Era a vida real. Faria mesmo aquilo! Respirando fundo, sentiu um ardor nos pulmões.

Durante um fugidio momento, estudou a jovem tranqüila que tantas vezes admirara no St. Andrews. Então, em silêncio, deitou-se na cama com a única e inigualável Coty Pierce.

Tirando uma das luvas, acariciou-lhe delicadamente a pele perfeita e morena. Fingiu estar passando óleo de bronzear com perfume de coco em seu corpo. Já estava duro feito pedra.

O longo cabelo da menina, louro e alvejado pelo sol, era macio como a pele de um coelho. Denso, belo, tinha um aroma de floresta, de bálsamo. Sim, os sonhos se realizam.

De súbito, Coty abriu os olhos. Eram duas brilhantes gemas verdes-esmeralda, pareciam as inestimáveis jóias de Harry Wiston, de Boca.

Atônita, ela pronunciou seu nome — o nome pelo qual o conhecia no colégio. Mas ele se atribuíra uma nova identidade; rebatizou-se, recriara-se.

— Que está fazendo aqui? — balbuciou Coty. — Como conseguiu entrar?

— Surpresa, surpresa. Eu sou Casanova — sussurrou-lhe ao ouvido. Estava com o pulso aceleradíssimo. — Escolhi-a entre as mais bonitas garotas de Boca Raton, de toda a Flórida. Não se sente lisonjeada?

Coty quis gritar.

— Psiu, fique quieta — disse ele, e lhe cobriu a linda boca com a sua. Com um beijo de amor.

Também beijou Hannah Pierce naquela inesquecível noite de violência e homicídio em Boca Raton.

Pouco depois, beijou a pequena Karrie.

Antes de terminar, sabia que era realmente Casanova — o maior amante do mundo.

 

                   O CAVALHEIRO CALLER

Chapei Hill, Carolina do Norte, maio de 1981

E,Era um perfeito cavalheiro. Um eterno cavalheiro. Educadíssimo, jamais inoportuno.

Pensou nisso ao ouvir os amantes sussurrando palavras sibilantes à beira do lago da universidade. Era tão romântico! Combinava tão bem com ele!

— É uma boa idéia ou não? — ouviu torn Hutchinson perguntar a Roe Tierney.

Estavam tentando entrar num barco a remo azul que oscilava docemente junto às docas. Iam tomá-lo "emprestado" por algumas horas. Travessura de estudantes.

— Meu bisavô disse que navegar num barco a remo não faz mal a ninguém — respondeu Roe. — É uma ótima idéia, Tommy. Vamos.

torn Hutchinson começou a rir.

— E se você fizer outras coisas a bordo?

— Bem, se for algum tipo de aeróbica, pode até fazer bem. — A saia lhe inflou nas coxas macias quando ela cruzou as pernas.

— Neste caso, é uma boa idéia pegar o barco dessa gente tão simpática e dar uma voltinha ao luar.

— Uma grande idéia — confirmou Roe. — A melhor. Vamos.

Quando o barco se afastou, o Cavalheiro entrou mansamente na água. Sem o menor ruído. Ouvia-lhes todas as palavras, todos os movimentos e todas as nuanças do fascinante ritual do amor.

A lua estava quase cheia, fulgurava bela e serena enquanto Roe e torn se afastavam rumo ao centro do lago. Antes, tiveram um jantar romântico em Chapei Hill, ambos trajados para a ocasião. Roe com uma saia preta plissada, blusa de seda creme, brincos de prata em forma de conchas e o colar de pérolas de sua companheira de quarto. Perfeito para um passeio de barco.

Na opinião do Cavalheiro, torn Hutchinson não era sequer dono do terno cinzento que estava usando. Era da Pensilvânia; filho de um mecânico, conseguira tornar-se capitão do time de futebol da Duke e manter uma média próxima de 4,0.

Roe e torn formavam um "casal perfeito". Era uma das poucas coisas em que os estudantes da Duke e os da Universidade da Carolina do Norte concordavam. O "escândalo" do namoro do capitão da Duke com a Rainha da Azálea da Universidade da Carolina tornou o romance ainda mais picante.

Ocuparam-se com zíperes e botões nada cooperativos, deixando o bote vogar mansamente no lago. Roe acabou ficando apenas com os brincos e as pérolas emprestadas. torn só não tirou a camisa branca, mas ela estava toda aberta, formando uma espécie de barraca, quando ele penetrou a namorada. Sob o olhar atento da lua, começaram a fazer amor.

Seus corpos se movimentavam devagar ao sabor do balanço alegre e delicado da embarcação. Roe soltava pequenos gemidos, que se iam misturar com o coro estridente das cigarras a distância.

O Cavalheiro sentiu um tufão de ódio erguer-se dentro dele. Seu lado sombrio estava emergindo: o animal brutal e reprimido, o lobisomem moderno.

De súbito, torn Hutchinson saiu bruscamente de dentro de Roe Tierney. Uma força o puxava para fora do barco. Roe o ouviu gritar antes mesmo de tocar a água. Um barulho estranho, uma espécie de iaaaahh.

Torn começou a engolir a água do lago, engasgando violentamente. Sentia uma dor terrível, agudíssima, na garganta, uma dor localizada, porém muito intensa e assustadora.

Então, aquela misteriosa força que o puxara e submergira o soltou repentinamente. A pressão chocante cessou. Ele estava livre.

Levando as grandes mãos de quarterback à garganta, sentiu uma coisa quente. O sangue escorria, espalhando-se na água. Um medo terrível, um verdadeiro pavor, apoderou-se dele.

Horrorizado, tornou a segurar o pescoço e encontrou a faca nele cravada. Oh, meu Deus, fui esfaqueado. vou morrer no fundo deste lago e nem mesmo sei por quê.

Enquanto isso, no barco que balançava à deriva, Roe Tierney estava muito chocada e confusa para conseguir gritar.

Seu coração batia tão rápida e furiosamente que mal podia respirar. Levantou-se, procurando freneticamente algum sinal do namorado.

Deve ser uma brincadeira de mau gosto, pensou. Nunca mais vou sair com torn Hutchinson. Não me caso com ele. Nem em um milhão de anos. Isto não tem graça. Sentindo frio, começou a procurar a roupa no fundo do barco.

Perto da embarcação, alguém ou alguma coisa emergiu velozmente da negrura da água. Foi como uma explosão no fundo do lago.

Roe viu surgir uma cabeça. Uma cabeça de homem, sem dúvida... mas não era torn Hutchinson.

— Eu não queria assustá-la. — O Cavalheiro falava com suavidade, em tom quase coloquial. — Não tenha medo — sussurrou ao segurar a borda do instável bote. —Somos velhos amigos. Para ser franco, há mais de dois anos que a venho observando.

De repente, ela começou a gritar como se já não existisse amanhã.

Para Roe Tierney, não existia.

 

                     SCOOTCHIE CROSS

                     Washington, D.C. abril de 1994

Eu estava em casa, na rua Cinco, quando tudo começou. "Caía muita água", como costuma dizer minha pequena Janelle, e nada podia ser melhor que ficar dentro de casa. Minha avó certa vez me ensinou uma oração que jamais esqueci: "Obrigado, Senhor, por tudo exatamente como é". Parecia perfeita naquele dia — ou quase.

Na parede havia uma caricatura de Gary Larson. Mostrava o banquete anual dos "Mordomos do Mundo". Um deles fora assassinado. Tinha uma faca enterrada no peito. Na cena do crime, um detetive dizia: "Droga, Collins, detesto começar uma segunda-feira com um caso como este". A caricatura estava lá para me lembrar que havia outras coisas na vida além de meu emprego de detetive no setor de homicídios da capital. Um desenho que Damon fizera dois anos antes estava afixado ao lado da caricatura. "Para o melhor pai do mundo", dizia. Era outro lembrete.

Eu tocava melodias de Sara Vaughan, Billie Holiday e Bessie Smith ao nosso velho piano. A melancolia do blues andava me contagiando ultimamente. Fazia-me pensar em Jezzie Flanagan. Eu via seu rosto fugidio às vezes, quando mirava a distância. E tratava de não olhar muito para a distância.

Meus dois filhos, Damon e Janelle, estavam sentados a meu lado, no fiel, ainda que um tanto raquítico, banco do piano. Janelle apoiara o bracinho em minhas costas, estendendo-o totalmente para cingir, quando muito, um terço delas.

Tinha um saco de balas de goma em forma de ursinho na outra mão. Como sempre, repartia tudo com os amigos. Eu estava chupando lentamente um urso vermelho.

Ela e Damon me acompanhavam assobiando, se bem que, para Jannie, assobiar significasse pouco mais que cuspir num ritmo preestabelecido. Uma surrada cópia de Green Eggs and Ham estava sobre o piano, vibrando no compasso da música.

Tanto Jannie quanto Damon sabiam que eu andava às voltas com problemas ultimamente, fazia alguns meses já. E queriam me alegrar. Estávamos tocando e assobiando blues, soul e um pouco das duas coisas misturadas, mas também ríamos e brincávamos como gostam de fazer as crianças como nós.

Eu adorava essas ocasiões na companhia de meus filhos mais que de todo o resto de minha vida. As fotografias de crianças sempre me lembram que meus filhos só terão sete e cinco anos uma vez. Não pretendo perder nada dessa fase de sua vida.

Fomos interrompidos por um ruído de pesados passos nos degraus do alpendre dos fundos. Então a campainha tocou: uma, duas, três vezes. Fosse quem fosse, parecia estar com muita pressa.

— "Dim-dom, a bruxa morreu" — Damond ofereceu sua inspirada versão do momento. Estava de óculos escuros, sua idéia de elegância. Realmente era um garotinho bem elegante.

— Não, a bruxa não morreu — contrapôs Jannie. Eu vinha reparando que ela se tornara uma resoluta defensora de seu sexo.

— Talvez não sejam notícias da bruxa — eu disse no timing certo. As crianças riram. Compreendiam quase todas as minhas piadas, o que não deixava de ser preocupante.

Começaram a bater insistentemente na porta, gritaram meu nome num tom queixoso e alarmante. Droga, deixe-nos em paz. Não precisamos de nada queixoso nem alarmante em nossa vida.

— Doutor Cross, por favor, abra! Por favor! Doutor Cross — os gritos continuavam. Não reconheci a voz da mulher, mas parece que não existe privacidade quando o primeiro nome da gente é doutor.

Detive os meninos, colocando as mãos em sua cabeça.

— Sou eu o doutor Cross, não vocês. Fiquem cantando e guardem o meu lugar. Volto já.

— Volto já! — repetiu Damon com sua melhor voz de tenor. Eu ri da piada. Ele já era um espertinho na segunda série.

Depois de pegar o revólver no caminho, fui rapidamente para a porta dos fundos. Este bairro pode ser problemático até mesmo para um tira, que é o que sou. Olhei pela vidraça embaçada e encardida para ver quem estava ali.

Reconheci a jovem. Morava no projeto Langley. Rita Washington era uma viciada que vagava nas ruas como um fantasma. Embora inteligente e simpática, era fraca e impressionável. Tinha cometido umas tolices na vida, decaíra, e agora provavelmente estava perdida.

Abri a porta e senti no rosto uma fria e úmida rajada. Havia muito sangue nas mãos e nos pulsos de Rita, assim como na frente de seu casaco de couro artificial.

— Rita, que aconteceu? — perguntei, imaginando que tivesse sido baleada ou esfaqueada por causa de drogas.

— Por favor, venha. — Rita Washington começou a tossir e a chorar ao mesmo tempo. — E o pequeno Marcus Daniels — disse, chorando ainda mais alto. — Foi esfaqueado! É muito grave! Ele o está chamando. Mandou vir buscá-lo, doutor Cross.

— Fiquem aí, meninos! Volto já! — gritei em meio à crise histérica de Rita Washington. — Nana, por favor, olhe as crianças! — Peguei a capa e segui a moça na chuva fria e forte.

Procurei não pisar no sangue que manchava os degraus como tinta vermelha.

Corri o mais que pude na rua Cinco. Sentia o coração acelerado e suava em abundância a despeito da fria e incessante chuva de primavera. O sangue pulsava com fúria em minha cabeça. Todos os músculos e tendões de meu corpo estavam hirtos, meu estômago se contraíra a ponto de doer.

Levava nos braços o pequeno Marcus, de onze anos, apertava-o junto ao peito. O menino sangrava muito. Rita Washington o encontrara na escada suja e escura do porão de seu prédio e me levara até seu corpo ferido.

Eu voava, chorando por dentro, tratando de conter as lágrimas como me ensinaram no trabalho e quase em todos os outros lugares.

As pessoas, que não costumam olhar para nada no Sudeste, olhavam-me atentamente enquanto eu avançava em desabalada carreira.

Ultrapassava caravanas de táxis, ia gritando a todos que saíssem da frente. Passei por muitas lojas abandonadas, as portas e as vitrines vedadas com madeira compensada apodrecida e pichada.

Pisei em cacos de vidro e pedregulho, em garrafas de Irish Rose, em ocasionais manchas de capim e em muito lixo. Esse era o meu bairro; a nossa cota do Sonho Americano; nossa capital.

Lembrei-me de uma frase que ouvi sobre Washington: "Se você se abaixar, e' pisoteado, se se levantar, leva um tiro".

Enquanto eu corria, o pobre Marcus continuava perdendo sangue. O pescoço e os braços ardiam como fogo, meus músculos continuavam tensos.

— Agüente firme, garotão — eu lhe dizia. — Agüente firme — rezava.

Na metade do caminho, ele gritou com voz débil:

— Doutor Alex, caramba.

Foi tudo o que me disse. Eu sabia por quê. Sabia muito do pequeno Marcus.

Subi correndo a rampa íngreme e recentemente asfaltada da entrada do Hospital St. Anthony, a "Casa de Espaguete de Santo Antônio", como alguns o chamavam nos projetos habitacionais. Uma ambulância passou por mim, rumando para a rua L.

O motorista estava com um boné do Chicago Bulls puxado para o lado, a pala curiosamente apontada para mim. Do veículo chegava uma música rap em alto volume, que devia ser ensurdecedora lá dentro. O motorista e o paramédico não se detiveram, não fizeram menção de parar. As vezes a vida é assim no Sudeste. Não dá para parar a cada homicídio ou a cada assalto com que a gente topa nas rondas diárias.

Eu sabia como chegar ao pronto-socorro do St. Anthony. Estivera muitíssimas vezes lá. Empurrei com o ombro a familiar porta vaivém. Estava escrito URGÊNCIA, se bem que as letras estivessem descascando e houvesse marcas de unhadas na vidraça.

— Chegamos, Marcus. Estamos no hospital — sussurrei ao menino, mas ele não me ouviu. Estava inconsciente.

— Estou precisando de ajuda! Pessoal, este menino precisa ser socorrido! — gritei.

O entregador da Pizza Hut teria recebido mais atenção. Um segurança com aparência entediada olhou na minha direção com sua cara achatada e insensível. Uma maça em péssimo estado estava rodando com muito barulho no corredor.

Vi algumas enfermeiras conhecidas. Annie Bell Waters e Tanya Heywood em particular.

— Traga-o para cá. — Annie Waters abriu caminho rapidamente assim que compreendeu a situação. Não fez perguntas enquanto empurrava os funcionários do hospital e os feridos em condições de andar que ia encontrando pela frente.

Passamos pelo balcão de recepção, com INSCREVA-SE AQUI em inglês, espanhol e coreano. Eu sentia cheiro de desinfetante em toda parte.

— Tentou cortar a garganta com uma faca. Acho que pegou a carótida — eu disse quando estávamos indo por um corredor verde, lotado, com muitos letreiros apagados: RAIO x, TRAUMATOLOGIA, CAIXA

Finalmente, encontramos uma sala do tamanho de um closet. O jovem médico que veio correndo me mandou sair.

— O menino tem onze anos — informei. — vou ficar aqui fora. Está com os dois pulsos cortados. Tentativa de suicídio. Agüente firme, garotão — cochichei para Marcus. — Agüente firme.

Dique! Casanova abriu o porta-malas do carro e olhou para aqueles olhos grandes e úmidos fitos nele. Que pena. Que desperdício, pensou.

— Achei — disse. — Aí está você. — Já não amava a colega de faculdade amarrada no porta-malas. Estava zangado. Ela transgredira o regulamento. Estragara a fantasia do dia. — Você está horrorosa. Em termos relativos, é claro.

Amordaçada com um pano molhado, a moça não podia responder; olhava furiosa para ele. Seus olhos escuros mostravam dor e medo, mas também obstinação e coragem.

Primeiro, ele retirou a maleta, depois, tomou rudemente nos braços os cinqüenta quilos da estudante de vinte e dois anos. Então, fez um esforço para ser gentil.

— Seja bem-vinda — disse ao depositá-la no chão. — Melhor não esquecer as boas maneiras, não acha?

Com as pernas trêmulas, ela quase caiu, mas Casanova a amparou facilmente com a mão.

Ela estava com o short verde-escuro de atletismo da Universidade Wake Forest, um pulôver branco sem mangas e um par de tênis Nike novo em folha. Ele sabia que se tratava de uma dessas garotas mimadas desde o berço, mas era tão linda! Estava com os finos tornozelos amarrados com uma tira de couro de quase um metro. Trazia as mãos atadas às costas, também com uma tira de couro.

— Vá andando — ordenou. — Siga em frente até que eu a mande parar. Vamos, ande. Mexa essas perninhas gostosas.

Entraram na densa floresta, que ia ficando ainda mais densa à medida que avançavam. Mais escura também. E sinistra.

Ele balançava a maleta preta feito uma criança com a lancheira. Adorava a escuridão do bosque. Sempre a adorara.

Casanova era alto e forte, bem constituído e bonitão. Sabia que podia ter muitas mulheres, mas não da maneira como as queria. Não assim.

— Eu a avisei, não avisei? Você não me deu ouvidos. — Falava com voz mansa e clara. — Expliquei-lhe as regras da casa. Mas você quis bancar a espertinha. Então seja espertinha. Receba a recompensa.

Conforme avançava com dificuldade, a moça ia ficando com mais medo, já estava à beira do pânico. A floresta se tornara ainda mais fechada agora, os ramos baixos machucavam-lhe os braços nus, deixando neles longos arranhões. Sabia o nome de seu captor: Casanova. Imaginava-se um amante fantástico, e, de fato, era capaz de manter a ereção durante mais tempo que qualquer homem que ela conhecia. Parecia sempre racional e no controle de si mesmo, mas ela sabia que só podia ser louco. Ainda que ocasionalmente agisse com sensatez. Certa vez, aceitara uma premissa que ele insistia em repetir: "O homem nasceu para caçar... as mulheres".

Ensinara-lhe as regras de sua casa. Explicara-lhe claramente como se comportar. Ela o desobedecera. Tinha sido precipitada e tola, cometera um terrível erro de tática.

Tentava não pensar no que ele pretendia fazer naquela assustadora floresta, naquela terra de ninguém. Não queria ter um ataque cardíaco. Não queria lhe dar o prazer de vê-la chorando, vencida.

Se ao menos lhe tirasse a mordaça. Sentia a boca seca, estava morrendo de sede. Talvez conseguisse convencê-lo a não fazer aquilo — a não fazer o que tinha planejado, fosse o que fosse.

Detendo-se, voltou-se para ele. Era como traçar uma linha na areia do tempo.

— Quer parar aqui? Para mim está ótimo. Mas não vou deixá-la falar. Nada de últimas palavras, querida. Nada de indulto. Você estragou tudo. Se quiser pode parar aqui, mas acho que não vai gostar. É melhor andar mais um pouco. Eu adoro este bosque, e você?

Precisava falar com ele, abordá-lo de algum modo. Perguntar-lhe por quê. Talvez apelar à sua inteligência. Tentou chamá-lo pelo nome, porém só conseguiu emitir um som abafado pela mordaça.

Ele se mostrava seguro e até mais calmo que de costume. Caminhava empertigado, arrogante.

— Não estou entendendo uma só palavra do que está dizendo. De qualquer modo, não serviria de nada.

Estava com uma das estranhas máscaras que costumava usar. Essa se chamava a máscara da morte, ele lhe contara, era usada para reconstituir rostos em hospitais e necrotérios.

A cor de pele da máscara da morte era quase perfeita, os detalhes, assustadoramente realistas. A que escolhera era jovem e bela, um típico rosto americano. Ela se perguntava qual seria sua aparência real. Quem era ele afinal? Por que usava máscaras?

Tinha de fugir, disse a si mesma. E fazê-lo passar mil anos na cadeia. Nada de pena de morte — ele merecia sofrer muito.

— Se é esta a sua escolha, tudo bem — disse ele, e lhe deu uma súbita rasteira. A moça caiu de costas. — Vai morrer aqui mesmo.

Tirou uma seringa da maleta de médico que trazia. Brandiu-a como uma pequena espada. Ela vai ver.

— Esta injeção se chama Tubex — explicou. — Vem carregada com sódio Thiopental, que é umbarbitúrico. Tem efeito de barbitúrico. — Apertou o embolo, fazendo esguichar um pouco do líquido. Parecia chá gelado, e ela não queria que lhe injetasse aquilo na veia.

— Para que serve isso? Que vai fazer comigo? — gritou com a boca amordaçada. — Por favor, tire a mordaça.

Estava banhada em suor, respirava com dificuldade. Sentia todo o corpo tenso, anestesiado, amortecido. Por que lhe estava dando barbitúrico?

— Se eu errar, você morre na hora. Portanto, não se mexa. Ela fez que sim com a cabeça. Queria tanto persuadi-lo de

que sabia ser boazinha; sabia ser muito boazinha. Por favor, não me mate, suplicou em silêncio. Não faça isso.

Ele lhe espetou uma veia do braço, uma picada dolorosa.

— Não quero deixar nenhum hematoma — sussurrou. — Não vai demorar. Dez, nove, oito, sete, seis, cinco, quatro, você, e tão, bonita, zero. Pronto.

Agora, ela estava chorando. Não conseguia evitá-lo. As lágrimas lhe brotavam com abundância. O cara era maluco. Fechou os olhos, não suportava continuar olhando para ele. Por favor, meu Deus, não me deixe morrer assim, rogou. Não aqui, sozinha.

A droga tinha efeito rápido, quase imediato. Um calor lhe invadiu o corpo todo, um calor e uma sonolência. Estava perdendo os sentidos.

Retirando-lhe o pulôver, Casanova se pôs a acariciar-lhe os seios, feito uma malabarista com várias bolas. A moça nada podia fazer para detê-lo.

Esticando ao máximo o couro que lhe atava os tornozelos, ele lhe abriu as pernas como se fossem sua obra de arte, sua escultura humana. Colocou-se entre elas. A súbita estocada fê-la abrir os olhos, ver aquela horrível máscara. Ele a estava mirando. Seu olhar vazio de emoção era, no entanto, estranhamente intenso.

Penetrou-a, e ela sentiu como que um choque elétrico no corpo. Estava muito duro, já totalmente excitado. Mexia-se dentro de seu corpo enquanto ela morria. Era o que estava acontecendo.

Contorcia-se,. agitava-se, sacudia-se. Fraca como estava, não conseguia gritar. Não, por favor, por favor. Não faça isso comigo.

Então, veio a escuridão.

Não sabia quanto tempo ficara inconsciente. Não importava. Despertou e ainda estava viva.

Começou a chorar, era agoniador o ruído abafado que saía pela mordaça. As lágrimas escorriam. Compreendia quanto queria viver.

Notou que não se encontrava no mesmo lugar. Estava com os braços amarrados numa árvore. As pernas cruzadas também estavam presas, e continuava amordaçada. Ele a despira. As roupas haviam desaparecido.

Ainda estava lá:

- Por mim, você pode gritar à vontade - disse - Ninguém vai ouvi-la - Seus olhos brilhavam atrás da máscara que parecia ter vida. - Só não quero que espante os pássaros e os animais famintos. - Olhou rapidamente para seu lindo

corpo. É pena que você me desobedeceu transgrediu o

Tirando a máscara, deixou-a ver-lhe o rosto pela primeira vez. Fixou a imagem dela na memória. Depois, inclinou-se e a beijou nos lábios.

Beijar as garotas.

Finalmente se foi.

Quase toda minha energia se esvaiu na furiosa carreira ao St. Anthony com Marcus Daniels nos braços. O impulso da adrenalina arrefecera agora, mas eu estava sentindo um cansaço fora do normal.

A sala de espera do pronto-socorro era uma triste e ruidosa confusão. Bebês chorando, pais lamentando sua dor, os altofalantes a convocar incessantemente os médicos. Um homem sangrando não parava de murmurar:

— Que merda, que merda.

Eu ainda conseguia ver os olhos tristes de Marcus Daniels. Ainda lhe ouvia a voz.

Pouco depois das seis e meia daquela tarde, meu parceiro na seção de homicídios chegou inesperadamente ao hospital. Alguma coisa devia estar errada, mas preferi não perguntar.

John Sampson e eu éramos grandes amigos desde os dez anos de idade, quando brincávamos naquelas mesmas ruas do sudeste de Washington. Tínhamos conseguido sobreviver sem que nos degolassem. Eu estudara psicologia, e, finalmente, havia obtido o doutorado na Johns Hopkins. Sampson entrara no exército. Por algum misterioso e estranho motivo, os dois acabamos trabalhando juntos na polícia da capital.

Eu estava sentado numa padiola sem lençol estacionada do lado de fora da sala de traumatologia. A certa distância, encontrava-se a maca que haviam usado para transportar Marcus. Os torniquetes de borracha pendiam como serpentina de suas barras negras.

— Como está o garoto? — indagou Sampson. Já sabia de

Marcus. Sempre sabia das coisas. A água da chuva que escorria das costas do poncho preto não parecia incomodá-lo. Sacudi a cabeça com tristeza. Ainda me sentia um caco.

— Não sei. Não me disseram nada. O médico quis saber se eu era parente do menino. Levaram-no para a traumatologia. Ele se cortou muito. Mas o que o traz à happy hour?

Tirando o poncho, Sanpson sentou-se a meu lado na padiola. Estava com uma de suas típicas indumentárias de detetive de rua: agasalho Nike prateado e vermelho, tênis de cano alto combinando, finas pulseiras de ouro, anéis. Uma aparência intacta.

— E o dente de ouro? — consegui sorrir. — Falta o dente de ouro para completar o conjunto. Pelo menos uma estrela dourada num deles.

Sampson soltou um riso gutural.

— Contaram-me. Por isso vim — disse ele, pouco preocupado com sua aparência. — Tudo bem com você? Está com uma cara que dá lástima.

— O moleque tentou se matar. Um molequinho como Damon. Onze anos.

— Quer que eu dê um pulo àquele moco? Para dar um tiro na boca dos pais dele? — perguntou Sampson. Seu olhar era duro, metálico.

— Isso a gente faz depois — respondi. Eu bem que estava com vontade. A boa notícia era que os pais de Marcus Daniels viviam juntos; o ruim era que moravam com o garoto e suas quatro irmãs na boca de crack que mantinham nas proximidades do projeto Langley Terrace. As idades das crianças iam de quatro a doze anos, e todas trabalhavam no negócio. Eram "laranjas". — Que está fazendo aqui? — perguntei-lhe pela segunda vez. — Não foi por acaso que veio ao St. Anthony. Que aconteceu?

Sampson tirou um cigarro do maço de Camel. Fazia-o só com uma das mãos. Muito cool. Acendeu-o. Havia médicos e enfermeiros em toda parte.

Tomando-lhe o cigarro, esmaguei-o com o sapato de sola de borracha, perto do buraco no dedão.

— Melhorou? — Sampson olhou para mim. Depois, abriu-me um largo sorriso, expondo os dentes grandes e brancos. A farsa terminara. Sampson fizera sua mágica, e era mesmo mágica, inclusive o truque do cigarro. Eu estava me sentindo melhor. As farsas funcionam. Na verdade, sentia-me como se tivesse sido abraçado por cerca de meia dúzia dos parentes mais próximos e meus dois filhos. Não é à toa que Sampson é o meu melhor amigo. Sabe apertar meus botões melhor que qualquer um.

— Aí vem o anjo da misericórdia — disse, apontando para o longo e caótico corredor.

Annie Walters aproximava-se em nossa direção com as mãos afundadas nos bolsos do uniforme. Seu olhar estava tenso como sempre.

— Lamento muito, Alex. O menino não resistiu. Estava quase morto quando chegou. Provavelmente, só viveu à custa dessa esperança que você leva engarrafada aí dentro.

Passaram por mim fortes imagens e sensações viscerais de estar carregando Marcus nas ruas Cinco e L. Imaginei o lençol do hospital cobrindo-o. São tão pequenos os que usam nas crianças.

— O garoto era meu paciente. Começou há pouco tempo — contei a ambos o que me dava tanta raiva, tanta frustração, o que me havia deprimido tão subitamente.

— Quer que vá buscar alguma coisa, Alex? — ofereceu Annie Waters. Estava com ar preocupado.

Sacudi a cabeça. Eu precisava falar, tinha de pôr tudo para fora.

— Marcus descobriu que eu ajudava aqui no St. Anthony, que às vezes conversava com as pessoas. Começou a vir. Quando terminei os testes, falou-me de sua vida na boca do crack. Todos os que ele conhecia na vida eram traficantes. Foi uma traficante que esteve lá em casa hoje... Rita Washington. Não a mãe de Marcus, nem o pai. O moleque tentou cortar os pulsos, cortar a garganta. Tinha só onze anos.

Sampson enfim se levantou e pousou delicadamente o longo braço em meu ombro. Voltara a ter um metro e noventa e dois de altura.

— Vamos para casa, Alex. Venha, rapaz. Está na hora.

Entrei e olhei para Marcus pela última vez.

Segurei-lhe a mãozinha sem vida e pensei nas conversas que tivéramos, na inefável tristeza que habitava seus olhos castanhos. Lembrei-me de um sábio e bonito provérbio africano: "E necessária uma aldeia inteira para criar bem uma criança".

Por fim, Sampson veio me separar do menino e levou-me para casa.

Onde as coisas pioraram muito.

Não gostei do que vi. Muitos automóveis desordenadamente aglomerados ao redor de minha casa. E uma casa branca, de pedras, com telhado em A; dá sempre a impressão de estar vazia. A maior parte dos veículos me era familiar; carros de amigos e parentes.

Sampson estacionou atrás de um carcomido Toyota de dez anos que pertencia à esposa de meu irmão caçula, Àaron. Cilla Cross era uma boa amiga. Firme e inteligente. Eu acabara gostando mais dela que de meu mano. Que estaria fazendo ali?

— Que diabos está acontecendo? — tornei a perguntar a Sampson. Estava começando a ficar preocupado.

— Ofereça-me uma cerveja bem gelada — disse ele ao tirar a chave do contato. — E o mínimo que pode fazer. — Já estava fora do carro. E capaz de se movimentar como o sorrateiro vento do inverno quando quer. — Vamos entrar, Alex.

Eu abrira a porta do carro, mas continuava sentado em meu lugar.

— Sou eu que moro aqui. Entro quando quiser.

Não queria. De súbito, um suor frio me umedeceu a nuca. Paranóia de detetive? Talvez sim, talvez não.

— Não seja difícil — pediu Sampson por cima do ombro —, pelo menos uma vez na vida.

Um calafrio me percorreu o corpo. Respirei fundo. A lembrança do monstro humano que eu recentemente ajudara a colocar atrás das grades ainda me dava pesadelos. Temia muito que se evadisse. O assassino e seqüestrador já estivera na rua Cinco uma vez.

Que diabos estava acontecendo em minha casa?

Sampson não bateu na porta nem tocou a campainha. Simplesmente entrou como se morasse lá. Como sempre fazia. Mi casa es su casa. Eu o segui.

Meu filho, Damon, saltou-lhe nos braços estendidos e foi erguido com se fosse feito de ar. Jannie veio correndo ao meu encontro, gritando "Papaizinho, papaizinho". Já estava de pijama, cheirando a talco e a banho recente. Minha mocinha.

Havia algo estranho em seus olhos grandes e castanhos. Sua expressão me provocou um arrepio.

— Que foi, gatinha? — perguntei, acariciando-lhe a bochecha macia e quente. Os dois sempre nos acariciamos muito.

— Qual é o problema? Conte ao papai o que aconteceu.

Na sala, encontrei três tias, duas cunhadas e Charles, meu único irmão vivo. Minhas tias haviam chorado; seus rostos estavam inchados e vermelhos. O mesmo acontecera com Cilla, e ela nunca foi de chorar à toa.

A sala tinha a aparência claustrofóbica e desnatural de um velório. Alguém morreu, pensei. Morreu alguém que amamos. Mas parecia que todos os que amo se encontravam lá, vivos.

Nana Mama, minha avó, estava servindo café, chá gelado e também pedaços de frango frio, que ninguém comia. Nana mora comigo e as crianças na rua Cinco. Acha que nos está criando os três.

Aos oitenta anos, encolheu, de modo que tem cerca de um metro e cinqüenta. Ainda é a pessoa mais impressionante que conheço em nossa capital federal, e conheço quase todo mundo — os Reagans, os Bushes e agora os Clintons.

Minha avó estava com os olhos enxutos. Raramente a vi chorar, muito embora seja uma pessoa tremendamente carinhosa e emotiva. Ela não chora mais. Diz que é muito pouco o tempo de vida que lhe resta e não quer desperdiçá-lo com lágrimas.

Por fim, entrei na sala de estar e fiz a pergunta que se agitava em minha cabeça:

— E ótimo vê-los aqui, Charles, Cilla, tia Aunt, mas será que alguém pode me fazer o favor de contar o que está acontecendo?

Todos ficaram olhando fixamente para mim.

Eu ainda estava com Jannie no colo. Sampson levava Damon feito uma bola de futebol cabeluda debaixo do braço direito.

Nana falou por todos. Suas palavras quase inaudíveis me atingiram no coração.

— É Naomi — disse com serenidade. — Scootchie desapareceu, Alex.

E então Nana Mama começou a chorar pela primeira vez em muitos anos.

Casanova gritou, e a voz que lhe saiu da garganta se transformou num uivo rouco.

Estava vagando na mata fechada, pensando na moça que abandonara. No horror do que acabava de fazer. Novamente.

Em parte, queria retornar e salvá-la num ato de misericórdia.

Estava experimentando espasmos de culpa, e começou a correr, a correr cada vez mais depressa. Ia com o robusto pescoço e o peito molhados de suor. Sentia-se fraco, suas pernas estavam bambas e inseguras.

Tinha plena consciência do que fizera. Simplesmente não era capaz de se conter.

Em todo caso, antes assim. A garota lhe vira o rosto. Bobagem pensar que pudesse vir a entendê-lo. Ele tinha visto o medo e o ódio em seus olhos.

Se ao menos o tivesse ouvido quando tentara lhe falar. Afinal, ele era diferente dos demais criminosos — conseguia sentir tudo que fazia. Conseguia ter amor... e sofrer a perda... e...

Com raiva, jogou longe a máscara da morte. A culpa era dela. Agora teria de mudar de personagem. Precisava deixar de ser Casanova.

Precisava ser ele mesmo. Seu lastimável outro eu.

 

E Naomi. Scootchie desapareceu, Alex.

Tivemos a uma intensíssima reunião de emergência na cozinha, onde sempre se realizavam as graves discussões de família. Nana fez mais café e preparou um chá de ervas para si. Primeiro, eu levei as crianças para a cama. Depois, abri uma garrafa de Black Jack e distribuí fortes doses de bourbon.

Soube que minha sobrinha de vinte e dois anos desaparecera, na Carolina do Norte, havia quatro dias. A polícia de lá tinha esperado todo esse tempo para entrar em contato com nossa família, em Washington. Como policial, eu achava aquilo difícil de entender. Dois dias eram o prazo padrão nos casos de desaparecimento. Quatro não tinham o menor sentido.

Naomi Cross estudava direito na Universidade Duke. Era uma das melhores da classe. O orgulho da família, inclusive o meu. O apelido que lhe demos datava de seus três ou quatro anos de idade. Scootchie. Palavra que tinha a ver com seu hábito de sempre pedir colo e gostar de se aconchegar às pessoas. Adorava carinho e abraços quando pequena. Com a morte de meu irmão Aaron, ajudei Cilla a criá-la. Não foi difícil — ela era doce e alegre; colaboradora e muito inteligente.

Scootchie desaparecera na Carolina do Norte. Fazia quatro dias.

— Falei com um investigador chamado Ruskin — contou meu velho amigo ao grupo reunido na cozinha. Embora tentasse não parecer um tira em serviço, não o conseguia. Estava no caso agora. Sério e distante. O típico jeitão de Sampson. — Parecia informado sobre o desaparecimento de Naomi. Deu a impressão de ser um policial muito decente ao telefone. Meio esquisito, é verdade. Disse que uma colega de Naomi deu parte do caso. Chama-se Mary Ellen Klouk.

Eu precisava falar com essa amiga de minha sobrinha. Era uma futura advogada de Garden City, Long Island. Naomi a trouxera a Washington algumas vezes. No Natal, fomos juntos ouvir o Messias, de Handel, no Kennedy Center.

Sampson tirou os óculos escuros e assim ficou, o que é raro nele. Gostava muito de Naomi e estava tão chocado quanto os demais. Ela costumava chamá-lo de "Vossa Caretice" e de "O Sombra", e ele adorava aquelas provocações.

— Por que esse cara não nos telefonou antes? Por que o pessoal da universidade não entrou em contato comigo? — indagou minha cunhada.

Tinha quarenta e um anos. Por negligência, engordara exageradamente. Devia pesar mais de noventa quilos, embora não passasse de um metro e sessenta e cinco. Disse-me que já não lhe interessava ser atraente.

— Ainda não tenho resposta para isso — respondeu Sampson. — Pediram a Mary Ellen Klouk que não nos telefonasse.

— Que disse o detetive Ruskin sobre essa demora? — quis saber.

— Falou em circunstâncias especiais. Não as explicou. Você sabe como sou persuasivo.

— Sugeriu a ele que tivéssemos uma conversa pessoal? Sampson fez lentamente que sim.

— Hum-hum. Respondeu que daria na mesma. Eu disse que duvidava. Ele disse que estava ok. O cara parecia não temer nada.

— Ele é negro? — quis saber Nana. E racista e se orgulha disso. Diz que está muito velha para ser politicamente correta. Não é tanto que não goste dos brancos, mas não confia neles.

— Não. Mas não creio que seja este o problema, Nana. Há alguma coisa por trás dessa história. — Sampson olhou para mim. — Acho que ele não podia falar.

— O FBI? — perguntei. Era óbvio quando as coisas ficavam secretas demais. O bureau sabe melhor que a Bell Atlantic, o Washington Post e o New York Times que informação é poder.

— Pode ser que seja esse o problema. Ruskin não o confirmaria por telefone.

— Preciso falar com ele — eu disse. — Pessoalmente é melhor, não acha?

— Eu acho que seria bom, Alex — atalhou Cilla da outra extremidade da mesa.

— Talvez eu o acompanhe. — Sampson exibiu seu sorriso de lobo.

Todos fizeram que sim, concordando, e ouviu-se ao menos um "aleluia" na cozinha lotada. Contornando a mesa, Cilla veio me dar um abraço apertado. Tremia feito uma árvore enorme em plena tempestade.

Sampson e eu íamos para o Sul. Tínhamos de trazer Scootchie de volta.

 

Eu tinha de contar a Damon e a Jannie o que se passara com "tia Scootch", como costumavam chamá-la. Sentiam que algo havia acontecido. Sabiam disso, do mesmo modo que conhecem meus pontos mais secretos e vulneráveis. Não dormiram enquanto não fui falar com eles.

— Onde está tia Scootch? Que aconteceu com ela? — perguntou Damon assim que entrei no quarto. Ouviram o suficiente para saber que Naomi estava numa enrascada terrível.

Eu tinha necessidade de lhes contar a verdade sempre que possível. Era um compromisso entre nós. Um compromisso às vezes difícil de cumprir.

— Faz alguns dias que não temos notícias de tia Naomi. É por isso que estamos preocupados hoje, por isso todos vieram aqui. Agora, papai está no caso. vou fazer o possível para encontrá-la nos próximos dias. Vocês sabem que papai geralmente resolve os problemas. Certo?

Damon fez que sim, parecia tranqüilizado com o que lhe dissera, sobretudo por causa de meu tom sério. Abraçou-me e beijou-me, coisa que deixara de fazer ultimamente. Jannie também me deu o mais terno dos beijos. Tomei-os a ambos no colo. Meus filhinhos queridos.

— Agora papai está no caso — sussurrou ela. Isso me aqueceu o espírito. Como dizia Billie Holiday: "Deus abençoa o filho que tem seu próprio filho".

Às onze horas, os meninos dormiam serenamente, e a casa começou a se esvaziar. Minhas tias mais idosas já haviam retornado a seus ninhos de velhas, Sampson preparava-se para ir embora.

Ele costumava entrar e sair à vontade, porém desta vez Nana Mama o acompanhou até a porta. Era uma exceção. Fui com eles.

— Obrigada por ir ao Sul amanhã com Alex — disse ela a Sampson em tom confidencial. Perguntei-me quem achava que a podia estar escutando. — Viu, John Sampson, você sabe ser civilizado e de algum modo útil quando quer. Não é o que sempre digo? — Apontou o dedo enrugado e nodoso para o queixo maciço de meu amigo. — Não é?

Sampson lhe sorriu. Gabava-se de sua superioridade física até mesmo ante uma velha de oitenta anos.

— Eu deixaria Alex ir sozinho. Só que depois teria de ir salvá-los, a ele e a Naomi — respondeu.

Os dois caíram na gargalhada feito corvos de desenho animado. Era bom ouvi-los rir. Depois, ela conseguiu a proeza de envolver aos dois nos braços. E assim ficou — uma velha a segurar suas duas sequóias prediletas. Eu sentia seu frágil corpo tremer. Fazia uns vinte anos que não nos abraçava assim. Eu sabia que ela amava Naomi como se fosse sua própria filha. E estava com muito medo.

Não pode ser Naomi. Nada de mau pode ter lhe acontecido, não a Naomi. Estas palavras continuavam ecoando em meu pensamento. Mas algo havia lhe acontecido, e, agora, eu teria de começar a pensar e agir como policial. Como detetive de homicídios. No Sul.

"Tenha fé e persiga o objetivo desconhecido." Oliver Wendell Holmes o disse. Eu tenho fé. Persigo o desconhecido. Não é outra a descrição de meu trabalho.

Aquela noite de abril, às sete horas, havia muito movimento no belíssimo campus da Universidade Duke. Era impressionante a boa aparência dos estudantes da "Harvard do Sul". As magnólias, particularmente na Alameda da Capela, floresciam com exuberância. A boa conservação e a ordem tornavam aquela uma das mais bonitas universidades dos Estados Unidos.

Casanova se deixou intoxicar pela fragrância do ar ao transpor os altos portões rumo ao Setor Oeste. Passava das sete. Ele viera com um único objetivo: caçar. Um processo excitante e irresistível. Impossível de deter uma vez iniciado. Eram "as preliminares". Sempre deliciosas.

Sou um tubarão assassino, com cérebro humano e até coração, pensou enquanto caminhava. Sou um predador único, sem par, um predador pensante.

Acreditava que os homens adoravam a caça — viviam para isso na verdade —, ainda que raramente o admitissem. Os olhos masculinos jamais cessavam de procurar mulheres belas e sensuais, ou mesmo outros homens e rapazes atraentes. Sobretudo num lugar privilegiado como o campus da Universidade da Carolina do Norte, em Chapei Hill, o da Universidade Estadual, em Raleigh, ou os tantos outros que ele visitara no Sudeste.

Olhe só para elas! A doce altivez das alunas da Duke as colocava entre as americanas mais sofisticadas e "contemporâneas ". Mesmo com jeans desbotados, ridículas bermudas ou calças largas e puídas, mereciam ser vistas, apreciadas, até fotografadas, mereciam habitar eternas fantasias eróticas.

Nada poderia ser melhor, pensou Casanova, assobiando o trecho de uma velha canção que falava da vida maravilhosa que se levava nas duas Carolinas.

Despreocupado, tomou uma coca-cola gelada observando o espetáculo das estudantes. Era o espetáculo do charme pessoal, constituído de vários complicadíssimos jogos simultâneos. Jogos que haviam se convertido na própria existência de Casanova. O fato de ter um emprego "respeitável", uma vida paralela, já não importava.

Analisava cada mulher que apresentasse a mais leve possibilidade de vir a integrar sua coleção. Pesquisava as formas das jovens alunas, as das professoras mais maduras e as das eventuais visitantes que, quase invariavelmente, passavam com as camisetas dos Diabos Azuis da Duke.

Lambeu os lábios ao avistar um exemplar simplesmente deslumbrante...

Uma negra alta, esbelta, lindíssima, que, encostada no tronco de um velho carvalho do Pátio Edens, lia o Chronide, da Duke, o qual havia dobrado em três. Era adorável o leve brilho de sua pele escura, o esmero com que trançara o cabelo. Mas seguiu em frente.

Sim, os homens são caçadores por natureza. Estava de volta a seu mundo. Os maridos "fiéis" eram, oh, tão cautelosos e furtivos no olhar! Os garotos de onze ou doze anos, de olhos atrevidos, aparentavam brincalhona inocência. Os avós se fingiam acima de tais cobiças, e contudo não passavam disso, de fingidos. Mas Casanova sabia que estavam todos a observar e selecionar constantemente, obsedados até a hora da morte pela púbere arte da caça.

Era uma necessidade biológica, não? Tinha certeza disso. As mulheres de hoje em dia exigiam que os homens aceitassem o fato de seus relógios biológicos de fêmeas estarem tiquetaqueando... bem, no caso dos homens, eram as picas biológicas que tiquetaqueavam.

O constante tique-taque das picas.

Eram um fato da natureza também. Aonde quer que fosse, praticamente a qualquer hora do dia ou da noite, sentia aquele pulsar dentro dele. Pica-taque, pica-taque.

 

       Pica-taque!

       Pica-taque!

 

Topou com uma bela estudante loura sentada na grama, de pernas cruzadas, a lhe obstruir a passagem. Estava lendo A filosofia da existência, de Karl Jaspers. Um toca-CDs portátil espalhava no ar a contribuição do grupo de rock Smashing Pumpkins, com suas curtas e repetidas frases de mantra. Casanova sorriu consigo mesmo.

Pica-taque!

A caçada era implacável. Era o Príapo dos anos 90. A diferença entre ele e tantos molengões sem energia ou coragem era que agia de acordo com os impulsos naturais.

Procurava implacavelmente uma beldade — e, então, tomava-a para si! Que idéia simples e insolente. Que bela história de terror moderna.

Observou duas japonezinhas que comiam o gorduroso churrasco da Carolina do Norte no novo restaurante Crooks Corner II, em Durham. Eram tão deliciosas jantando, devorando a carne qual animaizinhos vorazes. O churrasco da Carolina do Norte consistia em carne de porco assada na brasa, temperada ao molho de vinagre, e, depois, finamente fatiada. Que delícia comer um churrasco guarnecido com aquelas gatinhas.

Ele sorriu ante a idéia. Hurn!

Seguiu seu caminho, no entanto. Tudo lhe chamava a atenção. Sobrancelhas. Tornozelos tatuados. Camisetas. Adoráveis seios em flor, pernas, coxas onde quer que olhasse.

Finalmente chegou a um pequeno edifício em estilo gótico, próximo do Hospital da Universidade Duke, Divisão Norte. Tratava-se de um anexo especial onde cancerosos em estágio terminal, vindos de todo o país, eram atendidos em seus últimos dias de vida. Seu coração bateu mais forte, uma série de pequenos tremores sacudiu-lhe o corpo.

Ali estava ela!

 

Ali estava a mulher mais linda do Sul! Linda em tudo. Não só fisicamente desejável como inteligentíssima. Ela, sim, seria capaz de compreendê-lo. Talvez fosse tão especial quanto ele.

Quase o disse em voz alta. Acreditava piamente em tais palavras. Tivera muito trabalho preliminar com essa próxima vítima. O sangue começou a lhe pulsar nas têmporas. Chegava a sentir o corpo todo latejar.

Chamava-se Kate McTiernan. Katelya Margaret McTiernan, para ser exato como gostava.

Estava saindo da ala de câncer terminal, onde trabalhava para ajudar a pagar o curso de medicina. A sós, como de costume. Seu último namorado dizia que ela "acabaria se tornando uma linda solteirona".

Tinha boas possibilidades. Era óbvio que Kate McTiernan preferia a solidão. Podia estar na companhia de quem bem quisesse. Era inacreditavelmente linda, inteligente, e, ao que tudo indicava, compassiva também. Dava muito trabalho, no entanto. Dedicava-se demais aos estudos e ao hospital.

Nada nela era exagerado, e Casanova gostava disso. O longo cabelo crespo e castanho lhe emoldurava graciosamente o rosto fino. Seus olhos azuis brilhavam quando ela sorria. Não havia quem resistisse a seu riso contagiante. Tinha aparência tipicamente americana, mas de modo algum vulgar. Embora robusta e sadia, era delicada e feminina.

Ele observara como os homens se encantavam com Kate — estudantes namoradores e, às vezes, algum ridículo professor. Ela não se zangava; Casanova tinha também observado como os dispensava, geralmente com delicadeza e certa generosidade.

E sempre com aquele sorriso diabólico e adorável. Não estou disponível, parecia dizer. Você não pode me possuir. Por favor, nem pense nisso. Não que eu seja boa demais, sou simplesmente... diferente.

Kate, a Independente. Kate, a Moça Gentil, saiu na hora aquela noite. Sempre deixava o anexo do câncer entre quinze para as oito e oito horas. Tinha lá sua rotina, como ele.

Estava no primeiro ano de residência no Hospital da Universidade da Carolina do Norte, em Chapei Hill, porém, desde janeiro, vinha trabalhando num programa de cooperação, na Duke. A enfermaria experimental do câncer. Ele sabia tudo sobre Katelya McTiernan.

Completaria trinta e um anos dentro de algumas semanas. Tivera de trabalhar três anos para pagar as despesas da universidade e da escola de medicina. Também passara dois anos cuidando da mãe enferma, em Buck, Virgínia Ocidental.

Dirigiu-se com passos decididos à garagem do Centro Médico. Ele teve de se apressar para segui-la. Ia lhe observando as bem torneadas pernas que, no entanto, eram algo brancas demais para seu gosto. Não tem tempo para tomar sol, Kate? Medo de contrair melanoma?

Levava volumosos livros de medicina apoiados no quadril. Bonita e inteligente. Tinha planos de exercer a profissão em Virgínia Ocidental, sua terra natal. Não parecia interessada em dinheiro. Para quê? Para possuir dez pares de tênis pretos?

Kate McTiernan estava com a indumentária habitual: o amarrotado casaco branco da escola de medicina, uma camisa caqui, a bermuda desbotada e os fiéis tênis pretos. Combinava com ela. Kate, a Personagem. Ligeiramente descentrada. Imprevisível. Estranha e poderosamente fascinante.

Qualquer coisa ficaria bem em Kate McTiernan, até mesmo a mais ordinária roupa feita em casa. Ele gostava sobretudo da irreverência com que a moça encarava a vida na universidade e no hospital, o desprezo que tinha à sacratíssima escola de medicina. Esse desacato se manifestava na maneira como se vestia; na maneira despreocupada como ia caminhando agora em todo seu estilo de vida. Raramente se maquiava. Parecia muito natural, Casanova jamais notara nela qualquer afetação ou artificialidade.

Chegava até mesmo a ser inesperadamente desajeitada. Naquela mesma semana, vira-a tropeçar diante da Biblioteca Perkins e ficar muito vermelha ao se chocar com um banco. Aquilo o excitou tremendamente. Ele se deixava comover, era capaz de sentir o calor humano. Queria que Kate o amasse... Queria amá-la também.

Por isso era um homem tão especial, tão diferente. Por isso se distinguia dos demais assassinos unidimensionais e carniceiros de que ouvira falar ou sobre os quais tinha lido, e não havia o que não tivesse lido sobre o tema. Era capaz de sentir tudo. Era capaz de amar. Sabia disso.

Kate disse alguma coisa simpática a um professor quarentão que passou por ela. Casanova não conseguiu ouvi-la de onde a observava. Ela se voltou para acrescentar alguma coisa, deixando o professor às voltas com aquele sorriso luminoso.

Viu-a gingar um pouco ao retomar a caminhada depois da breve troca de palavras. Seus seios não eram grandes nem pequenos. O cabelo escuro, denso e ondulado, tinha um brilho ligeiramente avermelhado à luz do começo da noite. Perfeita em todos os detalhes.

Fazia mais de um mês que a vinha observando, sabia que tinha de ser ela. Poderia amar a dra. Kate McTiernan mais que a qualquer uma das outras. Era o que acreditava naquele momento. Ansiava por acreditar. Pronunciou-lhe o nome com ternura — Kate...

Dra. Kate.

Pica-tacjue.

 

Sampson e eu nos revezamos ao volante durante as quatro horas de viagem de Washington à Carolina do Norte. Quando eu estava dirigindo, o Homem Montanha dormia. Ia com uma camiseta preta onde se lia a áspera inscrição SEGURANÇA. Economia de palavras.

Quando ele estava na direção de meu antigo Porsche, eu punha um par de fones nos ouvidos. Escutava Big Joe Williams, muito embora continuasse sentindo um grande vazio com relação a Scootchie.

Não conseguia dormir, não dormira mais que uma hora na noite anterior. Sentia-me como um pai atormentado, cuja única filha desaparecera. Alguma coisa estava errada naquele caso.

Entramos no Sul ao meio-dia, a cerca de cento e cinqüenta quilômetros de Winston-Salem, onde nasci. Não voltava para lá desde os dez anos de idade, desde que minha mãe morrera, desde que meus irmãos e eu nos mudamos para a capital.

Estivera uma vez em Durham quando da colação de grau de Naomi. Graduara-se na Duke com louvor e havia recebido uma das mais ruidosas e entusiasmadas ovações da história da cerimônia. Toda a família Cross esteve presente. Foi um de nossos dias mais felizes e orgulhosos.

Naomi era a filha única de meu irmão Aaron, que morreu de cirrose aos trinta e três anos. Cresceu depressa após a morte do pai. A mãe tinha de trabalhar sessenta horas por semana para sustentá-la, de modo que Naomi se encarregou da casa a partir dos dez anos. Era o menor dos generais.

Menina precoce, leu aos quatro anos as aventuras de Alice em Através do espelho. Um amigo da família lhe dava aulas de
violino, e ela tocava bem. Adorava música e ainda tocava quando tinha tempo. Foi a primeira da classe no Colégio John Carroll, em Washington. Por mais que se dedicasse aos estudos, arranjava tempo para escrever uma prosa graciosa sobre a vida nos projetos habitacionais. Lembrava-me a jovem Alice Walker.

Dotada.

Muito especial.

Desaparecida há mais de quatro dias.

Não estenderam um tapete vermelho para nos receber no prédio recém-inaugurado da chefatura de polícia, nem mesmo depois de apresentarmos nossas credenciais de Washington. O sargento da recepção não se mostrou impressionado.

Parecia-se um pouco com Willard Scott, o homem da previsão do tempo da televisão. Tinha cabelo muito curto, longas e grossas costeletas e pele rosada como um presunto fresco. Quando descobriu quem éramos, a coisa piorou um pouco. Nada de tapete vermelho, nada da hospitalidade sulista, nenhum conforto.

Sampson e eu tivemos de nos sentar e aguardar na sala de espera do Departamento de Polícia de Durham. Toda de vidro e madeira polida. Recebemos os olhares hostis e vazios que geralmente se endereçam aos traficantes de drogas presos nas imediações das escolas.

— Parece que aterrissamos em Marte — disse Sampson, observando as pessoas que entravam e saíam para dar parte de alguma coisa. — Não estou gostando dos marcianos. Não estou gostando de seus olhinhos redondos de ETs. Não estou gostando- do Novo Sul.

— Ora, seríamos recebidos do mesmo modo em qualquer lugar — contestei. — Não teríamos tido melhor recepção nem olhares mais simpáticos no Quartel-general da Polícia de Nairobi.

— Pode ser — concordou Sampson por trás dos óculos escuros. — Mas pelo menos seriam marcianos pretos. Pelo menos saberiam quem é John Coltrane.

Quase duas horas depois de nossa chegada, os detetives Nick Ruskin e Davey Sikes finalmente desceram para falar conosco.

Ruskin me lembrava um pouco Michael Douglas em seus papéis de policial. Estava adequadamente trajado: paletó de tweed verde e marrom, jeans desbotado, camiseta amarela. Era mais ou menos da minha altura, ou seja, cerca de um metro e noventa, não chegava a ser precisamente baixinho. Tinha cabelo basto, penteado para trás e cortado a navalha.

Davey Sikes, ao contrário, era corpulento. O sólido bloco de sua cabeça formava duros ângulos retos com os ombros. Tinha olhos castanhos e sonolentos, os quais não denotavam qualquer sentimento discernível. Parecia do tipo "coadjuvante", definitivamente não era o líder. Pelo menos a julgar pela aparência.

Os dois nos apertaram as mãos, agindo como se tudo estivesse desculpado, como se nos perdoassem a intromissão. Tive a impressão de que Ruskin era a figura principal do Departamento de Polícia de Durham. A estrela local. A personagem mais importante do lugar. O ídolo das matinês.

— Desculpem a demora, detetive Cross, Sampson. Estamos ocupados como o diabo — disse com seu leve sotaque sulista. Parecia seguro de si.

Ainda não mencionara o nome de Naomi. O detetive Sikes continuava em silêncio. Não tinha dito uma só palavra.

— Vamos dar uma volta? Explicarei tudo no caminho. Houve um homicídio. Foi o que nos manteve ocupados. A polícia encontrou um corpo de mulher em Efland.

 

Coisa feia mesmo, um corpo de mulher em Efland. Que mulher? Sampson e eu seguimos Ruskin e Sikes até o carro, um Saab Turbo verde-musgo. Ruskin sentou-se ao volante. Lembrei-me das palavras do sargento Esterhaus em Hill Street Blues: "E melhor tomar cuidado aqui".

— Sabe alguma coisa sobre a mulher assassinada? — perguntei a Nick Ruskin ao entrarmos na rua West Chapei Hill. Com a sirene ligada, ele já ia em alta velocidade. Dirigia com uma espécie de impetuosidade irresponsável.

— Não muito — respondeu. — Esse é o problema. Davey e eu não conseguimos obter nenhuma informação segura. Sobre nada. E por isso que estamos tão bem-humorados hoje. Vocês notaram?

— Sim, notamos — disse Sampson. Não olhei para ele. Mas senti o vapor subindo no banco traseiro. O calor que emanava de sua pele.

Voltando-se, Davey Sikes olhou feio para Sampson. Tive a sensação de que os dois não se tornariam grandes amigos.

Ruskin continuou falando. Parecia gostar de estar sob os holofotes, tratando do Grande Caso.

— O caso todo está sob o controle do bureau agora. O 1 DEA também se meteu. Não me surpreenderia se a CIA também estivesse participando dessa "equipe de emergência". Até

 

l Diug Enforcement Admirustiahon, divisão do Departamento de Justiça dos EUA destinado ao combate as drogas (N do E )

 

mandaram um sujeitinho esquisito de seu elegante posto avançado de Sanford.

— Que quer dizer o caso todo? — Soavam-me sinais de alarme na cabeça. Eu estava pensando em Naomi.

Coisa feia mesmo.

Ruskin se voltou rapidamente e olhou para mim. Mediu-me com os penetrantes olhos azuis.

— Compreenda que não lhes podemos contar nada. Tampouco estamos autorizados a trazê-los aqui.

— Compreendo sim. E agradeço muito a boa vontade. Uma vez mais, Davey Sikes olhou para nós. Era como se

Sampson e eu fôssemos do outro time, a olhar por cima da linha do meio do campo, à espera do arremesso da bola, da colisão dos corpos.

— Estamos indo para o local do terceiro homicídio — prosseguiu Ruskin. — Não sei quem é a vítima. Nem preciso dizer que espero que não seja sua sobrinha.

— De que se trata afinal? Por que tanto mistério? — quis saber Sampson. Inclinou-se para a frente. — Somos todos tiras, não? Sejam francos conosco.

O detetive de Durham hesitou antes de responder.

— Algumas mulheres, digamos, várias, desapareceram numa área de três distritos: Durham, Chatham e Orange, onde vocês se encontram agora. A imprensa só notificou alguns casos de desaparecimento e dois homicídios. Homicídios não relacionados entre si.

— Não me venha dizer que a imprensa está colaborando com uma investigação.

Ruskin esboçou um sorriso.

— Nem de longe. É que só sabem o que o FBI decidiu revelar-lhes. Ninguém está retendo informações, mas nada está sendo entregue voluntariamente.

— Você disse que várias jovens desapareceram — insisti. — Quantas? Fale-me delas.

Ruskin falou com o canto da boca.

— Acreditamos que há entre oito e dez mulheres desaparecidas. Todas jovens. Adolescentes ou com vinte e poucos anos. Todas estudantes universitárias ou colegiais. Mas só dois corpos foram encontrados. O que vamos ver agora pode ser o terceiro. Todos foram encontrados nas últimas cinco semanas. O FBI acha que estamos às voltas com o que pode vir a ser o pior caso de seqüestro e assassinato do Sul.

— Quantos agentes federais estão na cidade? — indagou Sampson. — Uma esquadra? Um batalhão?

— Uma força considerável. Eles têm "provas" de que os desaparecimentos ultrapassam as fronteiras estaduais: Virgínia, Carolina do Sul, Geórgia, até a Flórida. Acham que o cara raptou uma animadora de jogos da Universidade Estadual da Flórida durante o Orange Bowl deste ano. Chamam-no "A Fera do Sudeste". E como se fosse invisível. Tem absoluto controle da situação. Intitula-se Casanova... considera-se um grande amante.

— Esse Casanova andou deixando mensagens no local dos crimes? — perguntei a Ruskin.

— Só no último. Parece que está saindo da concha. Quer se comunicar. Entrou em contato conosco. Apresentou-se como Casanova.

— Alguma das vítimas era negra? — perguntei. Os serial killers tendiam a escolher suas vítimas em grupos étnicos determinados. Todas brancas. Todas negras. Todas hispano-americanas. Via de regra, não misturavam as raças.

— Há uma negra entre as desaparecidas. Uma estudante da Universidade Central da Carolina do Norte. Os dois corpos que encontramos eram brancos. Todas as mulheres que desapareceram são extremamente atraentes. Temos um painel com suas fotografias. Alguém denominou o caso "As Belas e a Fera". Está escrito no painel com letras garrafais. Bem acima dos retratos. E uma das pistas que temos.

— Naomi Cross está nos padrões desse cara? — perguntou Sampson tranqüilamente. — Pelo que já se constatou?

Nick Ruskin não respondeu imediatamente. Era impossível saber se estava refletindo ou apenas tentando ser gentil.

— A foto de Naomi está no painel do bureau? No painel das Belas e a Fera? — insisti.

— Está sim. — Davey Sikes falou enfim. — A foto dela está no painel.

 

Tomara que não seja Scootchie. Sua vida está apenas começando, roguei durante a rápida viagem ao local do homicídio.

Coisas terríveis, indizíveis, aconteciam diariamente a todo tipo de gente inocente e insuspeita. E aconteciam em praticamente todas as grandes cidades e até em cidadezinhas e aldeias de cem ou menos habitantes. Porém, a maior parte desses crimes violentos parecia verificar-se nos Estados Unidos.

Ruskin diminuiu bruscamente a velocidade quando, ao dobrarmos uma curva acentuada, vimos o piscar de muitas luzes vermelhas e azuis. Carros e ambulâncias aglomeravam-se solenemente à margem de uma densa floresta de pinheiros.

Uma dúzia de veículos estavam estacionados no acostamento da rodovia estadual de duas pistas. O tráfego era esparso naquele fim de mundo. Não havia curiosos no local. Ruskin parou atrás do último carro da fila, um Lincoln azul-escuro ao qual só faltava que lhe escrevessem a sigla: FBI.

O cenário já estava quase pronto. Faixas amarelas estendidas entre as árvores isolavam o perímetro. Duas ambulâncias estavam estacionadas com a frente voltada para o mato.

Como que hipnotizado, desci flutuando do automóvel. Sentia a vista turva.

Era quase como se nunca tivesse estado no local de um crime. Lembrei-me imediatamente do caso Soneji. Uma criancinha encontrada junto a um rio lamacento. Imagens horripilantes se misturavam àquele terrível momento presente.

Meu Deus, que não seja Scootchie.

Sampson segurou-me de leve o braço enquanto acompanhávamos os detetives Ruskin e Sikes. Penetramos cerca de um quilômetro e meio na densa floresta. No centro de um agrupamento de altos pinheiros, vimos enfim os vultos e as silhuetas de vários homens e algumas mulheres.

Pelo menos a metade do grupo trajava ternos escuros. Era como se tivéssemos chegado ao acampamento improvisado de uma firma de contabilidade ou a um piquenique de advogados e banqueiros.

Tudo era sinistro, só o ruído das câmeras dos técnicos quebrava o silêncio. Estavam tirando fotografias de toda a área.

Uma dupla de profissionais já calçara as luvas de borracha transparente e procurava provas, tomando notas em blocos espirais.

Um terrível e sobrenatural pressentimento me assaltou: íamos encontrar Scootchie. Eu o apartei, enxotei-o, como o roçar indesejável de um anjo ou de Deus. Voltei bruscamente a cabeça para o lado... como se com isso pudesse evitar o que quer que nos esperasse.

— E o bureau, sem dúvida — cochichou Sampson. — Ali, no fim da trilha.

Era como se estivéssemos avançando em direção a um gigantesco e zumbidor vespeiro. Estavam todos ali, reunidos, sussurrando segredos entre si.

Eu sentia nitidamente as folhas partindo-se sob meus passos, o estalar dos ramos secos. Já não era policial. Era um civil.

Por fim, demos com o corpo nu, com o que restava dele pelo menos. Não se viam roupas nos arredores. A mulher fora amarrada a um arbusto com o que parecia ser uma grossa tira de couro.

Sampson gemeu:

— Ah, meu Deus, Alex.

 

Quem é esta mulher? — perguntei em voz baixa ao nos aproximarmos daquele estranho grupo de policiais, daquela "bagunça plurijurisdicional" como o descrevera Nick Ruskin.

A morta era branca. Naquele momento, era impossível dizer mais sobre ela. Os pássaros e outros animais se haviam alimentado de seu corpo, de modo que quase já não parecia humana. Dos olhos só restavam as escuras cavidades, que pareciam enegrecidas por queimaduras. Não tinha rosto; a pele e o tecido foram devorados.

— Quem são esses caras? — perguntou a Ruskin uma das agentes do FBI, uma loura corpulenta de cerca de trinta anos. Era tão pouco atraente quanto antipática, de lábios grossos, vermelhos, o nariz bulboso e adunco. Pelo menos, poupou-nos do famoso "sorridente aperto de mão" do FBI.

Nick Ruskin foi rude com ela. Seu primeiro gesto de delicadeza para comigo.

— Estes são o detetive Alex Cross e seu parceiro, John Sampson. São de Washington. A sobrinha do detetive Cross está desaparecida. E Naomi Cross, da Duke. — E a apresentou. — Esta é a agente especial encarregada, Joyce Kinney.

Com uma careta, a mulher disse:

— Bem, esta aqui certamente não é sua sobrinha. Ficarei agradecida se voltarem para o carro. Façam-me o favor. — Sentiu necessidade de prosseguir. — Vocês não têm nenhuma autoridade neste caso, nenhum direito de estar aqui.

— Como acaba de lhe contar o detetive Ruskin, minha sobrinha está desaparecida — disse eu com cortesia mas também com firmeza. — Isto me dá toda autoridade necessária. Não vim até aqui para ficar contemplando o estofamento de couro nem o painel do carro do detetive Ruskin.

Um homem louro e forte, de uns vinte e poucos anos, colocou-se prontamente ao lado de sua chefe.

— Vocês ouviram a agente especial Kinney. Façam o favor de sair daqui imediatamente — pediu. Em outras circunstâncias, sua atitude teria provocado risos. Não aquele dia. Não diante daquela cena.

— Não é você quem nos vai mandar embora daqui — respondeu Sampson com voz desafiadora. — Nem você nem seus amiguinhos.

A agente Kinney se voltou para o rapaz:

— Pode deixar, Mark. Cuidaremos disto depois.

O jovem recuou, se bem que com uma careta parecida com a que sua chefe havia feito para mim. Ruskin e Sikes riram quando ele se afastou.

Fomos autorizados a ficar ali com o FBI e a polícia local. As Belas e a Fera. Lembrei-me da frase de Ruskin no automóvel. Naomi figurava no painel da Fera. E a mulher morta? Figuraria também?

Os últimos dias tinham sido quentes e úmidos, o corpo estava se decompondo rapidamente. Olhando para as muitas feridas e mordidas que laceravam aquela pobre mulher, desejei que já estivesse morta ao ser atacada pelos animais silvestres. Mas duvidava disso.

Reparei na posição inabitual do cadáver. Estava deitado de costas. Os braços pareciam deslocados, talvez pelo esforço que fizera para se libertar das tiras de couro e da árvore a que a amarraram. Era uma cena horrível como tantas outras que eu presenciara nas ruas de Washington e em outras partes. Mal conseguia sentir-me aliviado por não se tratar de Naomi.

Finalmente, conversei com um dos legistas do FBI. Era colega de um amigo meu, Kyle Craig, que trabalhava em Quantico, Virgínia. Contou-me que Kyle tinha uma casa de campo na região.


— Esse cara é muito esperto, muito bem informado. — O legista era tagarela. — Não deixou pêlos pubianos, sêmen nem vestígios de suor em nenhuma das vítimas que examinei. Duvido que encontremos alguma coisa que nos forneça um perfil de seu DNA. Mesmo porque não foi ele quem a devorou.

— Ele tem relações sexuais com as vítimas? — perguntei antes que o agente começasse a relatar suas experiências com o canibalismo.

— Tem sim. Alguém teve repetidas relações sexuais com elas. Muitos arranhões e contusões vaginais. O cara deve ter pau grande ou então se serve de algum objeto para estimular o sexo. Mas deve usar algum invólucro de celofane quando o faz. Ou então as limpa de algum modo. Nenhum pêlo, nenhum vestígio de sangue até agora. O entomologista forense já coletou o material. Poderá determinar a hora exata da morte.

— Pode ser Bette Anne Ryerson — ouvi comentar um dos agentes do FBI. — Estava desaparecida. Loura, um metro e setenta, uns cinqüenta quilos. Estava com um Seiko de ouro quando desapareceu. Lindíssima... Pelo menos era.

— Mãe de dois filhos — atalhou uma agente. — Estudante de inglês na estadual da Carolina do Norte. Entrevistei seu marido, que é professor. Falei com os meninos. Umas crianças lindas. Um e três anos. Maldito bastardo! — E se calou.

Vi o relógio; o elástico que lhe prendia o cabelo havia se soltado, ela estava desgrenhada. Já não era bonita. O que restava dela se inchara e se deformara muito. O cheiro da putrefação era pungente mesmo ao ar livre.

As cavidades oculares vazias pareciam estar olhando para uma abertura em forma de meia-lua na copa dos pinheiros, e eu me perguntei qual teria sido a última coisa que seus olhos viram.

Tentei imaginar "Casanova" naquele denso e escuro bosque antes de nossa chegada. Calculei que tinha uns trinta anos e devia ser forte. Temi ainda mais por Scootchie, muito mais.

Casanova. O maior amante do mundo... Deus nos livre.

 

Já passavam das dez, e ainda nos encontrávamos na horrenda e perturbadora cena do crime. As nervosas luzes das radiopatrulhas e das ambulâncias eram usadas para iluminar uma trilha que levava à sombria floresta. Começava a esfriar. O vento gelado da noite nos maltratava o rosto.

O cadáver ainda não tinha sido removido.

Observei os técnicos do FBI vasculharem detidamente o bosque, colhendo pistas e tirando medidas. A área imediata havia sido isolada, mas eu fiz um esboço na penumbra, assim como algumas anotações preliminares. Tentava me lembrar do Casanova original. Um aventureiro do século 18, escritor, libertino. Eu tinha lido parte de suas memórias.

A pergunta mais óbvia era: por que o assassino escolhera esse nome? Acaso acreditava mesmo que amava as mulheres? Era esse o seu modo de demonstrá-lo?

Ouviu-se o canto sinistro de um pássaro, logo, outros animais se manifestaram ao nosso redor. Ninguém estava pensando em Bambi naquela floresta. Não diante daquele crime horrendo.

Entre as dez e meia e as onze, ouvimos um rugido que mais parecia um trovão. Olhos nervosos buscaram o céu escurecido.

— Esse barulho me é familiar — disse Sampson ao ver as trêmulas luzes de um helicóptero que se aproximava.

— Provavelmente veio buscar o corpo.

Um helicóptero azul, com estrias douradas, aterrissou na estrada escura. Fosse quem fosse, o piloto era um profissional de primeira.

 

— Ou então é Mick Jagger — sorriu Sampson. — Os grandes astros viajam em helicópteros assim.

Joyce Kinney e o diretor regional do FBI já estavam voltando para a estrada. Sampson e eu os seguimos como acompanhantes indesejáveis.

Recebemos outro rude choque. Ambos reconhecemos o homem alto e bem vestido que desceu do aparelho.

— Mas que diabos ele está fazendo aqui? — exclamou Sampson. Eu me fiz a mesma pergunta, tive a mesma reação desconfortável. Era o vice-diretor do FBI, o segundo homem, Ronald Burns. Uma das figuras mais importantes e competentes do bureau.

Ambos o conhecíamos desde nosso último caso "plurijurisdicional". Tinha fama de ser político, um mau elemento no interior do FBI, porém eu não tinha por que me queixar dele. Depois de ver o cadáver, pediu para falar comigo. A coisa estava ficando cada vez mais esquisita.

Burns quis conversar longe dos ouvidos enormes e das cabeças minúsculas de seu próprio pessoal.

— Alex, lamento saber que sua sobrinha desapareceu. Espero que não tenha sido seqüestrada — disse. — Já que está aqui, talvez nos possa ajudar.

— Posso saber por que você está aqui?

Burns sorriu, exibindo dentes muito brancos e cuidados.

— Espero realmente que tenha aceitado nossa oferta. — Haviam-me oferecido trabalho como agente de ligação entre o FBI e a polícia da capital após o caso Soneji. Burns foi um dos que me entrevistaram. — O que eu mais aprecio nos policiais de carreira é que sejam diretos. — Continuei esperando a resposta a minha pergunta direta. — Não posso responder sua pergunta. Não sabemos se sua sobrinha foi seqüestrada por esse maluco. Ele quase não deixa vestígios, Alex. É extremamente cuidadoso e sabe muito bem o que faz.

— Foi o que me disseram. Isso conduz a determinados grupos de suspeitos. Policiais, veteranos do exército, amadores que estudam a polícia. Mas também pode ser diversão. Talvez ele queira que pensemos assim.

Burns concordou.

— Estou aqui porque isto se tornou um caso altamente prioritário. É coisa grande, Alex. É o que lhe posso dizer agora. Foi classificado como grande. — Era a típica conversa de um cara do FBI. Mistérios envoltos em mistérios. Ele suspirou. — vou lhe contar uma coisa. Acreditamos que o cara é uma espécie de colecionador. Achamos que pode estar mantendo algumas dessas jovens cativas numa espécie de... harém particular. O harém dele.

Era uma idéia pavorosa. Mas também me dava esperanças de que Naomi ainda estivesse viva.

— Quero trabalhar nisso — eu disse mirando-o nos olhos.

— Por que não me conta tudo? — Impus condições. — Preciso saber tudo para elaborar alguma teoria. Por que ele rejeita algumas das mulheres? Se é que faz mesmo isso.

— Alex, não lhe posso contar mais nada agora. Sinto muito.

— Fechou os olhos e sacudiu a cabeça. Notei que estava exausto.

— Queria apenas saber como eu reagiria a sua teoria do colecionador?

— Queria — admitiu Burns, e teve de sorrir.

— A idéia de um harém não me parece absurda. É uma fantasia masculina bastante comum. Curiosamente, é uma fantasia também feminina. Ainda não estudei isso a fundo.

Burns registrou o que eu disse, porém nada acrescentou. Tornou a me pedir que o ajudasse, embora não quisesse me contar tudo o que sabia. Finalmente voltou para junto de seu pessoal.

Sampson se aproximou.

— Que tem a dizer Sua Rigidez? Que o traz a esta floresta profana, conosco, vis mortais?

— Disse uma coisa interessante. Disse que Casanova pode ser um colecionador, talvez esteja criando seu harém particular em algum lugar perto daqui. Disse que o caso é grande. Foi ele quem escolheu a palavra.

"Grande" significava que era um caso muito grave, muito ruim, talvez pior do que parecia. Perguntei-me como isso podia ser possível, e quase não quis saber a resposta.

 

McTiernan estava distraída com um estranho mas agradavelmente esclarecedor pensamento. Quando um falcão ataca sua presa, considerou, é somente questão de timing.

Foi a percepção que teve na última aula de caratê. O timmg era tudo no caratê, assim como em muitas outras coisas. Também ajudava quando se tratava de levantar quase cem quilos, coisa que ela era capaz de fazer.

Kate estava vagando na movimentada, moderna e efervescente rua Franklin, em Chapei Hill, que se estendia de norte a sul, margeando o campus da Universidade da Carolina do Norte. Passou por livrarias, pizzarias, pela locadora Rollerblade e a sorveteria Ben & Jerry's, de onde vinha a música infernal do grupo de rock White Zombie. Não costumava passear à toa, mas aquela noite estava quente e agradável, de modo que, para variar, resolveu olhar as vitrines.

A população daquela cidadezinha universitária lhe era familiar, simpática e muito amigável. Ela adorava a vida que levava ali, primeiro como estudante de medicina, agora como residente. Não queria deixar Chapei Hill, não queria retornar e clinicar em Virgínia Ocidental.

Mas retornaria. Prometera-o à mãe — pouco antes que Beadsie McTiernan morresse. Dera-lhe sua palavra, e Kate tinha palavra. Era antiquada com esse tipo de coisas. Uma moça do interior.

Estava com as mãos afundadas nos bolsos de um casaco de hospital ligeiramente amarrotado. Não gostava de suas mãos, achava-as ásperas e detestava suas unhas curtíssimas. Havia duas razões para isso: o trabalho escravo na enfermaria do câncer e sua prática como nidan, ou seja, faixa-preta segundo grau. Era o único aliviador de tensão que se permitia; as aulas de caratê eram sua maneira de relaxar.

O crachá fixado no bolso esquerdo superior do casaco dizia K. McTiernan, médica. Ela gostava da pequena irreverência contida no fato de usar aquele símbolo de status e prestígio com calças largas e tênis. Não queria bancar a rebelde, que aliás não era, porém precisava preservar algo de sua individualidade na vasta comunidade do hospital.

Kate acabava de comprar um volume de AH the Pretty Horses, de Cormac McCarthy, na livraria Intima te. Os residentes do primeiro ano não costumavam ter tempo para ler romances, mas ela sempre dava um jeito. Pelo menos, estava disposta a dar um jeito.

Aquela noite de fim de abril estava tão linda, tão perfeita, que resolveu parar no Spanky's, na esquina da rua Colúmbia. Poderia sentar-se no bar e começar a ler o livro.

Estava fora de cogitação encontrar-se com alguém durante a semana. Geralmente tinha os sábados livres, mas nessas ocasiões estava cansada demais para os rituais do acasalamento.

Tinha sido assim desde que terminara o instável relacionamento com Peter McGrath. Aos trinta e oito anos, ele era um brilhante doutor em história, bonito como o pecado, porém muito absorvido em si mesmo para o gosto de Kate. A separação fora mais turbulenta do que ela esperava, e, agora, já não eram sequer amigos.

Fazia quatro meses que estava sem Peter. Pena. Mas também não era a pior coisa que já lhe havia acontecido na vida. Além disso, sabia que era dela a culpa pelo rompimento, não de Peter. Romper com namorados era um problema que a acompanhava; parte de seu passado secreto. Presente secreto? Futuro secreto?

Kate McTiernan consultou o relógio de pulso. Era um modelo Mickey Mouse que sua irmã, Carole Anne, lhe dera, com um pequeno cronômetro. Servia-lhe também de lembrete: não seja vaidosa, pois agora você é médica.

Droga! Estava ficando míope... com quase trinta e um anos!

Estava ficando velha. A vovó da Escola de Medicina da Universidade da Carolina do Norte. Já eram nove e meia, precisava ir para a cama.

Resolveu passar pelo Spanky's e voltar para casa. Requentaria um pouco de chili e talvez tomasse um chocolate quente com dois centímetros de marshmallow. Não era má idéia.

Como muitos estudantes de Chapei Hill — ao contrário do pessoal mais abastado de Tobacco Road — Kate tinha grandes problemas financeiros. Morava num apartamento de três cômodos, no sótão de uma casa de madeira, uma "casa de campo" da Carolina do Norte. A pintura estava descascando, e o imóvel parecia em ruínas. Ficava no fim da rua Pittsbor, em Chapei Hill. O aluguel, no entanto, era barato.

A primeira coisa que lhe chamou a atenção no bairro foram as belas árvores. Eram de antiqüíssima madeira de lei, não se tratava de pinheiros. Os longos ramos lembravam os enrugados braços e os dedos das velhas. Ela chamava a rua de "Beco das Velhas". Em que outro lugar poderia morar a vovó da escola de medicina?

Chegou ao apartamento às quinze para as dez. Ninguém morava no andar térreo da casa que alugara de uma viúva de Durham.

— Cheguei. Sou eu, Kate — gritou para a família de camundongos que vivia atrás do refrigerador. Não conseguira exterminá-la. — Ficaram com saudades? Já jantaram?

Acendeu a luz da cozinha e ouviu o irritante zumbido elétrico que detestava. Lembrou-se da frase sempre repetida por um de seus professores: "Os estudantes de medicina devem praticar a humildade. Muito bem, ela sem dúvida a estava praticando.

No pequeno dormitório, vestiu uma amarrotada camiseta preta, que nem se dera o trabalho de passar. Passar roupa não era prioridade naqueles dias. Boa razão para ter um homem em casa — alguém que fizesse a limpeza, os consertos, levasse o lixo para fora, cozinhasse, passasse a roupa. Gostava do velho adágio feminista: "Uma mulher sem homem é como um peixe sem bicicleta.

Bocejou, pensando na jornada de dezesseis horas que começava para ela as cinco da manhã seguinte Droga, amava aquela vida1 Adorava-a

Deixou-se cair na rangente cama de casal coberta de branquissimos lençóis A única decoração era um par de cachecóis coloridos pendurados na cabeceira

Renunciando ao chih e ao chocolate quente, colocou Ali the Pretty Hoises sobre os exemplares não lidos da Haiper b e do The New Yorker Apagou o abajur e adormeceu em cinco segundos Estava encerrada a maravilhosamente esclarecedora discussão consigo mesma naquela noite

Kate McTiernan não tinha idéia, não suspeitava de que estava sendo observada, que a vinham seguindo desde a povoada e colorida rua Franklm, que fora escolhida

A dra Kate era a próxima

Pica taque

 

Ao! pensou Kate. Esta é a minha casa. Quase chegou a dizê-lo em voz alta, mas não queria fazer barulho.

Havia alguém no apartamento.

Embora ainda sonolenta, tinha certeza de que um ruído a despertara. Sentiu o pulso acelerar-se. O coração lhe subiu à garganta. Meu Deus, não.

Ficou em silêncio, encolhida na cabeceira da cama. Passaram-se outros nervosos segundos, lentos como séculos. Ela permanecia imóvel. Sequer respirava. O pálido luar brincava nas vidraças, projetando sinistras sombras no quarto.

Totalmente concentrada, Kate escutava; escutava cada rangido, cada estalo, da velha casa.

Não detectou nada estranho. Mas estava certa de ter ouvido. Os assassinatos recentemente noticiados e a história dos seqüestros na região a encheram de medo. Não seja sinistra, pensou. Não seja melodramática.

Sentando-se lentamente na cama, continuou escutando. Talvez o vento tivesse aberto uma janela. Era melhor levantar-se e averiguar portas e janelas.

Pela primeira vez em quatro meses sentiu falta de Peter McGrath. Não teria sido de grande ajuda, porém iria sentir-se mais segura se ele estivesse ali.

Não que fosse medrosa e vulnerável; era capaz de enfrentar um homem. Lutava bem. Peter costumava dizer que "tinha pena" do coitado que cometesse a insensatez de se meter com ela, e falava a sério. Chegava a temê-la um pouco — fisicamente. Bem, as lutas de caratê, dentro do regulamento, eram uma coisa. O que estava acontecendo agora era outra muito diferente.

Kate saiu silenciosamente da cama. Nenhum barulho. A aspereza e o frio das tábuas do assoalho lhe enviaram uma súbita mensagem ao cérebro- Ela assumiu postura de combate.

Zape!

Uma mão enluvada lhe tapou brutalmente a boca e o nariz, Kate chegou a ouvir um craque na cartilagem nasal. Todo o peso dele a pressionava contra o frio e duro piso, prendendo-a.

Atlético. Seu cérebro tratava de elaborar cada fragmento de informação. Precisava manter-se lúcida e consciente.

Muito forte. Treinado.

Estava impedindo-a de respirar. Sabia perfeitamente o que fazia. Treinado!

Não era luva o que estava usando, percebeu. Era um pano. Grosso e molhado. Estava asfixiando-a.

Seria clorofórmio? Não, era inodoro. Talvez éter? Halothane? Onde conseguiria anestésicos?

Sentindo-se cada vez mais confusa, Kate temeu perder os sentidos. Precisava livrar-se dele.

Firmando as pernas, torceu bruscamente o corpo para a esquerda, deslocando totalmente o peso e, assim, livrando-se do atacante e refugiando-se na direção da sombria parede do dormitório.

— Péssima idéia, Kate — disse o homem na escuridão.

Sabia seu nome!

 

Quando um falcão ataca... o timing é tudo. Agora, o timing era a sobrevivência, compreendeu Kate.

Tentou desesperadamente ficar alerta, mas a poderosa droga que embebia o pano estava começando a surtir efeito. Tentou um golpe de caratê, um pontapé na virilha. Chocou-se com algo duro. Oh, merda!

Ele estava preparado. Viera com um daqueles protetores que os pugilistas costumam usar na genitália. Conhecia-lhe as habilidades. Oh, meu Deus, não. Como sabia tanto sobre ela?

— Isso não é bonito, Kate — sussurrou ele. — Nada hospitaleira. Eu sei que luta caratê. Estou fascinado por você.

Ela arregalou os olhos, furiosa. Seu coração batia com tanta força que imaginou que até o assaltante pudesse ouvi-lo. Ele não lhe dava chance. Era forte e rápido, sabia de seu caratê, era capaz de lhe prever os movimentos.

— Socorro! Por favor, acudam! — gritou o mais alto que pôde. Só estava tentando assustá-lo. Não havia ninguém a menos oitocentos metros da casa do Beco das Velhas.

Mãos fortes como garras lhe seguraram e prenderam os pulsos. Kate gritou, tentando livrar-se.

O cara era mais forte que qualquer faixa-preta da escola de caratê de Chapei Hill. Um animal, pensou. uma fera... muito racional e vigorosa. Um atleta profissional?

A lição mais importante que seu sensei lhe ensinara emergiu do tolhimento do medo e do caos: Evitar todas as lutas. Sempre que possível, fugir de uma luta. Era isso — o resultado de centenas de anos de experiência em artes marciais. Os que nunca lutam, sempre vivem para lutar outro dia.

Correndo, ela saiu do quarto para o familiar e estreito corredor. Evitar todas as lutas. Fugir à luta, disse a si mesma. Fugir, fugir, fugir.

O apartamento parecia mais escuro que de costume naquela noite. Ele havia fechado todas as cortinas e persianas. Tinha presença de espírito. Calma. Um plano de ação.

Precisava ser melhor que ele, melhor que seu plano. Uma frase de Sun-tzu lhe ecoou na mente: "Um exército vitorioso vence antes de buscar o combate". O intruso pensava exatamente como Sun-tzu e o sensei. Seria alguém do curso de caratê?

Kate conseguiu chegar à sala. Não via nada. Também lá as cortinas estavam cerradas. Sua visão e seu senso de equilíbrio estavam totalmente comprometidos. Todas as formas, todas as trêmulas sombras pareciam duplicadas. Maldito! Maldito!...

Flutuando na suave névoa induzida pela droga, ela pensou nas outras mulheres que desapareceram em Orange e Durham. Ouvira, no noticiário, que mais um cadáver fora encontrado. A jovem mãe de duas crianças.

Precisava sair da casa. Talvez o ar fresco a ajudasse a reanimar-se Tropeçou junto à porta da rua.

Alguma coisa lhe bloqueava a passagem. Ele colocara o sofá diante da porta! Kate estava muito fraca para empurrá-lo.

Desesperada, tornou a gritar:

— Peter! Venha me socorrer! Socorro! Peter!

— Ora, cale a boca, Kate. Você já não tem nada a ver com Peter. Acha-o um panaca. Além disso, ele mora a mais de dez quilômetros daqui. A exatos onze quilômetros e meio, aliás. Eu verifiquei.

Sua voz era tão calma e racional! Um dia a mais no departamento de psicopatologia. E sem dúvida a conhecia, sabia tudo de Peter McGrath, sabia absolutamente tudo.

Estava bem atrás dela, em algum lugar na terrível escuridão. Não havia urgência ou medo em sua voz. Para ele, aquilo era um piquenique.

Kate se deslocou rapidamente para a esquerda, para longe daquela voz, para longe do monstro que tinha dentro de casa.

Uma dor insuportável lhe sacudiu o corpo, arrancando-lhe um rouco gemido.

Cortara a canela na mesinha baixa de centro que sua irmã Carole Arme lhe dera. Comprara-a num bem-intencionado esforço de dar certa classe ao ambiente. Ohhh, Santo Deus, droga, como detestava aquela mesa. A dor na perna esquerda era terrível.

— Bateu o dedo do pé, Kate? Por que não pára de correr no escuro? — Ele riu (e era um riso normal) quase amigavelmente. Estava se divertindo. Aquilo era uma brincadeira para ele. Uma brincadeira de menino e menina: no escuro.

— Quem é você? — ela gritou... De súbito, pensou: Será que é Péter? Será que ele enlouqueceu?

Estava a ponto de desfalecer. A droga lhe minara as forças. Ele sabia de sua faixa preta de caratê. Provavelmente sabia também que ela fazia musculação.

Voltou-se — e o clarão intenso de uma lanterna lhe feriu os olhos. Uma luz cegante diante dela.

Ele afastou a lanterna, mas Kate continuou vendo círculos residuais de luz. Pôs-se a piscar, mal conseguia distinguir a silhueta daquele homem alto. Tinha mais de um metro e oitenta, cabelo comprido.

Não lhe conseguia ver o rosto, só lhe relanceou o perfil. Havia algo esquisito naquele rosto. Por quê? Qual era o problema dele?

Então, viu a arma.

— Não, não — disse Kate. — Por favor... não.

— Sim. Claro que sim — sussurrou ele num tom quase íntimo, quase como um amante.

Depois, calmamente, apontou para o coração de Kate McTiernan e disparou à queima-roupa.

 

A manhã de domingo, o caso Casanova piorou. Tive de levar Sampson ao Aeroporto Internacional de Raleigh-Durham. Ele precisava se apresentar em Washington naquela tarde. Alguém tinha de proteger a capital enquanto eu trabalhava aqui no Sul.

A investigação ficara mais quente e sórdida agora que haviam encontrado o terceiro corpo de mulher. Além da polícia local e do FBI, integraram-se também funcionários da área técnica à procura do lugar do homicídio. O vice-diretor Ronald Burns esteve aqui ontem. Por quê?

Sampson me deu um abraço de urso junto ao portão de segurança da American Airlines. Devíamos estar parecendo dois jogadores de futebol que acabavam de ganhar o Super Bowl.

— Sei o que Naomi significa para você — sussurrou-me. — Imagino o que deve estar sentindo. Se precisar de mim, telefone. — Trocamos um rápido beijo no rosto como costumavam fazer Magic Johnson e Isiah Thomas antes dos jogos de basquetebol da NBA. Coisa que chamou a atenção de vários curiosos nas proximidades do detectar de metais. Sampson e eu nos queremos muito e não temos vergonha de demonstrá-lo. Mas isso não é comum entre homens de ação como nós. — Cuidado com os caras do bureau. Não facilite com a polícia local. Não gosto de Ruskin. E menos ainda de Sikes — prosseguiu. — Vai encontrar Naomi. Confio em você. Sempre confiei.

O homenzarrão finalmente se foi sem olhar para trás.

Eu estava sozinho no Sul.

Caçando monstros novamente.

 

Fui a pé da Pensão Washington Duke ao campus da Duke por volta de uma da tarde de domingo.

Tinha tomado um café da manhã típico da Carolina do Norte: uma xícara e meia de café bem quente, presunto defumado com ovos mexidos e torradas. Ouvi uma música country no salão-restaurante, Um dia quando você balançar essa frigideira, minha cara não vai estar aí.

Estava me sentindo mal, saturado, de modo que a caminhada de oitocentos metros foi uma boa terapia. Costumava receitá-la a mim mesmo e, depois, consultar o médico. A cena do crime, na noite anterior, me perturbara muito.

Lembrava-me claramente de quando Naomi era pequena, e eu, seu melhor amigo. Cantávamos A Aranha Fiandeira e O Bicho-da-seda. De certo modo, ela me ensinou a ser amigo de Jannie e Damon. Preparou-me para ser um bom pai.

Naquele tempo, meu irmão Aaron costuma levar Scootchie consigo ao Capri Bar, na rua Três. Estava ocupado em beber até a morte. O Capri não era lugar para uma menina tão nova, porém, de um modo ou de outro, Naomi conseguia lidar com a situação. Mesmo sendo criança, compreendia e aceitava quem e o que era seu pai. Quando passavam por minha casa, Aaron geralmente estava alto, mas não completamente bêbado. Naomi cuidava dele. Ele se esforçava para permanecer sóbrio quando se encontrava com ela. O problema era que Scootchie nem sempre podia estar por perto para salvá-lo.

Eu tinha encontro marcado com o reitor da Duke à uma hora daquele domingo. Dirigi-me ao Edifício Allen, perto da alameda Chapei. Diversos escritórios da administração ficam ali, no segundo e no terceiro andares.

O reitor era um homem alto e bem-constituído, chamado Browning Lowell. Naomi me falara muito dele. Considerava-o um conselheiro e também um bom amigo. Naquela tarde, encontrei-me com o reitor Lowell em seu confortável gabinete repleto de velhos e grossos livros. As janelas ofereciam uma bela vista dos olmos e magnólias que se alinhavam na alameda Chapei na direção de Few Quad. Como tudo mais no campus, as instalações eram visualmente espetaculares. Edifícios góticos em toda parte. A Oxford do Sul.

— Sou seu fã graças a Naomi — disse-me o reitor ao me apertar a mão com a força que se podia esperar de seu porte físico.

Browning Lowell era bastante musculoso, tinha cerca de trinta e cinco anos e muito boa aparência. Seus brilhantes olhos azuis eram alegríssimos. Lembrei-me de que havia sido um ginasta famoso na juventude. Era estudante da Duke e tudo indicava que seria a estrela da equipe norte-americana nos Jogos Olímpicos de 1980, em Moscou.

No começo daquele ano, os jornais espalharam um boato segundo o qual Browning Lowell seria homossexual e teria um caso com um jogador de basquetebol igualmente renomado. Ele abandonou a equipe americana mesmo antes do boicote olímpico. Se a história era verdadeira ou não, eu nunca soube. Em todo caso, Lowell se casou e vivia em Durham com a esposa.

Achei-o simpático e doce. Falamos do triste assunto do desaparecimento de Naomi Ele tinha as suspeitas corretas e os legítimos temores quanto ao curso das investigações policiais.

— Acho que a imprensa local não está estabelecendo as relações mais simples e lógicas entre os assassinatos e os desaparecimentos. Não compreendo. Já alertamos todas as mulheres do campus — contou-me.

Explicou ainda que as estudantes estavam sendo orientadas para registrar todas as entradas e saídas dos dormitórios. Eram também aconselhadas a só sair em grupos à noite.

Antes que eu fosse embora, ele telefonou para o dormitório de Naomi. Disse-me que isso tornaria o acesso mais fácil, estava disposto a fazer o que pudesse para ajudar.

— Conheço Naomi há mais de cinco anos — disse. Passou a mão pelo cabelo comprido. — Sinto uma pequena fração do que você deve estar sentindo. Lamento muito, Alex. Foi um golpe duro para todos nós.

Agradeci e saí do gabinete sentindo-me algo melhor. Dirigi-me à área dos dormitórios estudantis. Adivinhe quem vem para o chá!

 

Me sentia como Alex no País das Maravilhas.

O setor principal de dormitórios da Duke era outro lugarzinho idílico. Pequenas casas, alguns chalés, em vez dos habituais prédios góticos. Tudo à sombra de altos e antigos carvalhos e frondosas magnólias, tudo cercado de bem-cuidados canteiros de flores.

Um BMW prateado, conversível, estava estacionado ali. No pára-choques, um adesivo proclamava:

 

           MINHA FILHA E

           MEU DINHEIRO

           VÃO PARA A DUKE

 

Lá dentro, a sala de estar do dormitório tinha assoalho de finas tábuas corridas enceradas e tapetes orientais respeitavelmente desbotados, que podiam passar por autênticos. Fiquei observando o ambiente enquanto esperava Mary Ellen Klouk. A sala estava mobiliada com poltronas, sofás, pufes; sob as duas janelas dianteiras viam-se bancos de madeira.

Mary Ellen Klouk desceu alguns minutos após a minha chegada. Eu estivera com ela meia dúzia de vezes antes daquele domingo. Tinha quase um metro e oitenta, era loura e atraente — não menos que as mulheres desaparecidas. O corpo encontrado semidevorado na floresta de Efland também fora de uma moça loura e bonita.

Perguntei-me se o assassino não havia investigado Mary Ellen Klouk. Por que escolhera Naomi? Como fazia suas escolhas finais? Quantas mulheres tinham sido escolhidas até agora?

— Oi, Alex. Que bom que está aqui. — Mary Ellen me tomou a mão e a segurou com força. Vê-la me trouxe boas mas também dolorosas lembranças.

Decidimos sair dali e dar uma volta no gramado do campus. Eu sempre gostei de Mary Ellen. Estudava história e psicologia. Lembrava-me de havermos conversado sobre psicanálise certa vez, em Washington. Ela sabia quase tanto quanto eu sobre traumas psíquicos.

— Pena que eu estava viajando quando você chegou a Durham — disse-me quando estávamos'caminhando para o leste, entre elegantes edifícios em estilo gótico dos anos 20. — Meu irmão concluiu o colegial, a formatura foi sexta-feira. O pequeno Ryan Klouk. Está com quase dois metros de altura. Cento e dez quilos. Canta com os Scratching Blackboards. Retornei esta manhã, Alex.

— Quando viu Naomi pela última vez? — perguntei quando estávamos entrando numa bonita alameda chamada Wannamaker. Embora me sentisse perturbado por falar com a amiga de Naomi como detetive de homicídios, não tinha outra escolha.

A pergunta chocou Mary Ellen. Respirou fundo antes de responder.

— Há seis dias, Alex. Fomos juntas a Chapei Hill. Estávamos fazendo um trabalho para o Hábitat para a Humanidade.

O Hábitat para a Humanidade era um grupo comunitário que reconstruía casas para os pobres. Naomi nunca nos contou que tinha esse tipo de atividade.

— Não voltou a vê-la depois disso?

Mary Ellen fez que não com um gesto de cabeça. Os sininhos de ouro que lhe pendiam do pescoço tilintaram delicadamente. De repente, tive a sensação de que ela não queria olhar para mim.

— Não. Infelizmente foi a última vez. Fui eu que avisei a polícia. Descobri que, na maior parte dos casos, só tomam providências depois de vinte e quatro horas. Naomi estava desaparecida havia quase dois dias e meio quando divulgaram os primeiros boletins. Sabe por quê? — Sacudi a cabeça. Não queria fazer disso um grande problema diante de Mary Ellen. Ainda não sabia por que havia tanto segredo envolvendo o caso. Telefonara várias vezes para o detetive Nick Ruskin naquela manhã, porém ele não retornara as chamadas. — Acha que o desaparecimento de Naomi tem algo a ver com as outras mulheres que sumiram ultimamente? — perguntou. Seus olhos azuis denotavam sofrimento.

— Pode ser que sim. Mas não encontraram pistas no Jardim Sarah Duke. Francamente, sabemos muito pouco, Mary Ellen. — Se Naomi fora seqüestrada num jardim público, em pleno campus, não havia testemunhas. Tinha sido vista ali meia hora antes de perder a aula de Contratos. Casanova trabalhava bem. Era um verdadeiro fantasma.

Terminamos o passeio, completando o círculo no lugar de onde partimos. O dormitório ficava a vinte ou trinta metros de um caminho de pedrisco. Tinha uma varanda de altas colunas brancas, cheia de bancos, cadeiras, espreguiçadeiras e mesas igualmente brancas. Do período antebellum, um de meus preferidos.

— Alex, Naomi e eu estávamos um pouco afastadas ultimamente — confessou a moça de súbito. — Sinto muito. Pensei que você soubesse.

Estava chorando ao se inclinar e me beijar no rosto. Depois, subiu correndo os degraus encerados e desapareceu lá dentro. Outro mistério perturbador para solucionar.

 

Casanova observou o dr. Alex Cross. Seu cérebro rápido e aguçado zunia qual um sofisticado computador — provavelmente o mais veloz de todo o Triângulo de Pesquisas.

Veja só o Cross, murmurou. Visitando a velha amiga de Naomi! Não vai encontrar nada aí, doutor. Não está ficando sequer morno. Na verdade, está cada vez mais frio.

Seguiu-o a uma prudente distância em sua caminhada pelo campus da Duke. Tinha lido extensamente sobre ele. Sabia tudo sobre o psicólogo e detetive que adquirira reputação ao capturar um seqüestrador-assassino em Washington. O chamado crime do século, que não passou de muito sensacionalismo da imprensa e muitíssima merda.

Quem é o melhor aqui? desejou gritar ao dr. Cross. Eu sei quem e' você. Você não tem a menor idéia de quem sou. Nunca terá.

Cross se deteve. Tirou um bloco de papel do bolso traseiro da calça e fez uma anotação.

Que é isso, doutor? Acaso lhe ocorreu uma idéia? Servirá de alguma coisa? Duvido. Francamente, duvido. O FBI e a polícia local estão me procurando há meses. Devem fazer suas anotações também, mas nenhuma delas levou a nada...

Viu Alex Cross retomar a caminhada e o ficou observando até perdê-lo de vista. Era inconcebível que conseguisse descobri-lo e capturá-lo. Simplesmente não podia acontecer.

Começou a rir e teve de se conter, pois o campus da Duke ficava muito povoado nas tardes de domingo.

Ninguém tem a mais vaga pista, doutor Cross. Entendeu?... Esta é que é a pista!

 

Eu voltara a ser um detetive de rua.

Passei a maior parte da manhã de segunda-feira entrevistando pessoas que conheciam Kate McTiernan. A mais recente vítima de Casanova era uma residente do primeiro ano, que fora seqüestrada em seu apartamento, na periferia de Chapei Hill.

Eu estava tentando montar o perfil físico de Casanova, mas não dispunha de informações suficientes. Ponto. O FBI não estava ajudando. Nick Ruskinnão retornara meus telefonemas.

Um professor da faculdade de medicina me contou que Kate McTiernan era uma das alunas mais conscienciosas que ele tivera em vinte anos. Outro catedrático disse que sua dedicação e sua inteligência eram verdadeiramente excepcionais, porém "o mais extraordinário em Kate é o temperamento.

Havia unanimidade quanto a isso. Mesmo as competitivas residentes do hospital concordavam em que Kate era diferente. "E a mulher menos narcisista que conheço", disse-me uma delas. "Kate é totalmente a voada, mas sabe disso e é capaz de rir de si mesma", afirmou outra. "Ela é realmente cool. É uma coisa triste, desconcertante para todos aqui no hospital." " Essa moça é um crânio, só que com a constituição de uma casa de tijolos."

Telefonei para Peter McGrath, um professor de história que, apesar de certa relutância, concordou em se encontrar comigo. Kate McTiernan fora sua namorada durante quase quatro meses, porém o relacionamento terminara abruptamente. O professor McGrath era alto, atlético e um pouco imperioso.

— Posso dizer que me fodi bastante ao perdê-la — admitiu. — E é verdade. Mas eu não agüentava mais. Ela é provavelmente a pessoa mais voluntariosa que conheço. Meu Deus, não consigo acreditar que isso tenha acontecido a Kate.

Estava pálido e evidentemente chocado com o desaparecimento da ex-namorada. Pelo menos parecia.

Acabei comendo a sós num ruidoso bar da cidade universitária de Chapei Hill. Havia hordas de estudantes e uma lotadíssima mesa coletiva, porém me sentei sozinho com a cerveja, um cheeseburger gorduroso e borrachento e meus pensamentos sobre Casanova.

O longo dia me esgotara. Sentia falta de Sampson, de meus filhos, de minha casa na capital. Um mundo confortável e sem monstros. Contudo, Scootchie ainda estava desaparecida. Do mesmo modo que várias outras jovens do Sudeste.

Continuava pensando em Kate McTiernan e em tudo que me contaram sobre ela.

Era assim que se resolviam os casos — pelo menos, assim eu sempre os resolvera. Coletava os dados. Deixava-os percorrer livremente meu cérebro. Por fim, fazia as conexões.

Casanova não escolhe mulheres apenas fisicamente belas, percebi subitamente. Pega as mais extraordinárias que consegue encontrar. Está atacando somente as mais difíceis... as que todos desejam, mas ninguém consegue conquistar.

Está colecionando-as em algum lugar.

Por que só as extraordinárias?, indaguei comigo mesmo.

Só havia uma resposta plausível: porque ele se considerava extraordinário também.

Voltei a visitar Mary Ellen Klouk, todavia, mudando de idéia, decidi retornar à pensão. Esperavam-me alguns recados.

O primeiro era de um colega da polícia de Washington. Estava processando as informações de que eu necessitava para traçar um perfil significativo de Casanova. Trouxera comigo um laptop e esperava poder começar a trabalhar em breve.

Um jornalista chamado Mike Hart havia telefonado quatro vezes. Lembrei-me imediatamente do nome, conhecia seu jornal, um tablóide da Flórida, o National Star. O apelido do repórter era Hart Sem-Coração. Não entrei em contato com ele. Já tinha aparecido uma vez na primeira página do Star, coisa que me bastava para o resto da vida.

O detetive Nick Ruskin finalmente retornara meus telefonemas. Deixou uma breve mensagem. Nada de novo do lado de cá. Qualquer coisa, eu aviso. Achei difícil de acreditar. Não confiava em Ruskin nem em seu fiel escudeiro, Davey Sikes.

Cochilei numa confortável poltrona, em meu quarto, e durante aquele sono inquieto tive os mais vividos pesadelos. Um monstro saído de uma das pinturas de Edvard Munch estava perseguindo Naomi. Eu não tinha como socorrê-la; tudo o que podia fazer era observar a macabra cena de terror. Para um psicoterapeuta experimentado, não havia necessidade de interpretar o sonho.

Acordei com a sensação de que alguém estava no quarto comigo.

Em silêncio, levei a mão à coronha do revólver e permaneci imóvel. Meu coração estava disparado. Como haviam conseguido entrar?

Levantei-me devagar e me agachei em posição de tiro. Perscrutei a penumbra o melhor que pude.

A persiana não estava totalmente cerrada, de modo que entrava luz suficiente para que eu distinguisse as formas. As sombras das folhas das árvores dançavam na parede do quarto. Nada mais parecia se mover.

De arma em punho, verifiquei o banheiro. Depois, os guarda-roupas. Comecei a me sentir ridículo a percorrer aquele quarto de hotel com o revólver na mão, mas estava certo de ter ouvido um barulho!

Por fim, avistei um pedaço de papel debaixo da porta, mas esperei alguns segundos antes de me aproximar. Uma questão de segurança.

Era uma fotografia em branco e preto. Associações instantâneas me agitaram a mente. Era um cartão postal colonial britânico, provavelmente do começo da década de 1910. Naquela época, os cartões postais eram colecionados pelos ocidentais como pseudo-arte e, freqüentemente, como pornografia leve. Houve uma verdadeira disputa entre os colecionadores no início do século.

Agachei-me e examinei melhor a antiquada foto.

Apresentava uma odalisca fumando um cigarro turco numa assombrosa postura acrobática. A mulher era escura, jovem e bonita; uma adolescente. Estava nua até a cintura; devido à pose forçada, seus seios volumosos apontavam para cima.

Virei o cartão com um lápis.

Havia uma legenda impressa perto do lugar onde devia ser colado o selo: As odahscas de grande beleza e muito inteligentes eram cuidadosamente treinadas para ser concubinas. Aprendiam a dançar com perfeição, a tocar instrumentos musicais e a escrever belos poemas líricos. Eram o que de mais valioso havia no harém, talvez o maior tesouro do imperador.

A legenda vinha assinada a tinta em letras de forma. Giovanni Giacomo Casanova de Seingalt.

Ele sabia que eu estava em Durham. Também sabia quem era.

Casanova me deixara um cartão.

 

Kate McTiernan abriu lentamente os olhos num quarto escassamente iluminado... em algum lugar.

Durante alguns momentos, imaginou-se num hotel no qual não se recordava de haver-se hospedado. Um hotel verdadeiramente sinistro num filme de arte ainda mais sinistro de Jim Jarmusch. Pouco importava. Ao menos não estava morta.

De repente, lembrou-se de haver sido alvejada no peito. Lembrou-se do intruso. Alto... cabelo comprido... delicado, voz calma... um animal.

Tentou levantar-se, todavia, imediatamente, mudou de idéia.

— Ei, há alguém aí? — disse em voz alta. Estava com a garganta seca, a voz lhe saiu rouca, ecoando-lhe desagradavelmente na cabeça. Sentia a língua áspera e túmida.

Estou no inferno. Num círculo do Inferno de Dante, sozinha, pensou. E começou a tremer. Era tudo pavoroso, porém ao mesmo tempo tão horrível, tão inesperado, que não conseguia se orientar.

Suas articulações estavam rígidas e doloridas; tudo lhe doía. Certamente não conseguiria levantar cinqüenta quilos agora. Sentia a cabeça pesada, inchada feito uma fruta madura, e latejante, mas se lembrava claramente do assaltante. Era alto, talvez um metro e noventa, extremamente forte, articulado. As imagens eram nublosas, mas Kate tinha absoluta certeza de que eram reais.

Recordou-se de outra coisa do monstruoso ataque a seu apartamento. Ele se servira de uma arma narcotizante, ou algo assim, para imobilizá-la. Também usara clorofórmio, ou talvez Halothane. Isso explicava a dor de cabeça insuportável. .

As luzes estavam acesas de propósito. Ela notou que vinham de modernos dimmers instalados no teto. Um teto baixo, provavelmente com menos de dois metros.

O quarto parecia recém-construído ou reformado. Na verdade, fora decorado com bom gosto, como ela teria feito com seu apartamento se tivesse tempo e dinheiro.

... Cama de latão. Cômoda antiga, branca, com puxadores também de latão. Uma penteadeira com escova de prata, pente, espelho. Na guarda da cama estavam amarrados uns cachecóis coloridos, como os que tinha em casa. Aquilo lhe pareceu estranho. Muito esquisito.

Não havia janelas. A única saída parecia ser a pesada porta de madeira.

— Bela decoração — sussurrou.

A porta de um pequeno armário estava entreaberta, de modo que pôde ver seu interior. O que viu a fez sentir-se mal.

Ele trouxera suas roupas àquele lugar horrível, àquela bizarra cela de prisão. Todas as suas roupas estavam lá.

Enfeixando as últimas forças, Kate McTiernan tentou sentar-se na cama. O esforço lhe fez palpitar o coração, as batidas no peito a assustaram. Seus braços e suas pernas estavam pesados como chumbo.

Concentrou-se ao máximo, tentando focalizar a cena incrível. Continuava olhando para o armário.

Não eram suas roupas, percebeu. Ele comprara roupas exatamente iguais às suas! Estudara-lhe o gosto e o estilo. As roupas penduradas no armário eram novas em folha. Conseguia ver algumas etiquetas ainda presas às blusas e saias. A Limitada. A Fresta, de Chapei Hill. Lojas nas quais realmente costumava fazer compras.

Olhou para a cômoda do outro lado do quarto. Lá estavam também seus perfumes. Obsession. Safari. Opium.

Ele havia comprado tudo aquilo para ela, não?

Junto à cama encontrava-se uma cópia de AH the Pretty Horses, o mesmo livro que adquirira na rua Franklin, em Chapei Hill.

Ele sabe tudo a meu respeito!

 

A dra. Kate McTiernan adormeceu. Despertou. Dormiu um pouco mais. Chegava a brincar com isso. Chamava a si mesma de "dorminhoca". Fazia muito tempo que não dormia assim. Desde que entrara na escola de medicina.

Começava a se sentir mais lúcida e alerta, mais no domínio de si, apenas perdera a noção do tempo. Não sabia se era dia ou noite. Nem se lembrava da data.

O homem, fosse quem fosse, estivera no misterioso quarto quando ela estava dormindo. A idéia a fez sentir-se mal. Havia um bilhete no criado-mudo, onde não podia deixar de vê-lo.

Era manuscrito. Endereçado à Querida dra. Kate. Ela o pegou com as mãos trêmulas.

Quero que leia isto para que me entenda melhor, assim como as regras da casa. Esta é provavelmente a carta mais importante que você já recebeu, portanto, leia-a com atenção. E, por favor, tome-a muito a sério.

Não, eu não sou louco nem desequilibrado. Na verdade, sou o contrário disso. Sirva-se de sua obviamente grande inteligência para compreender que sou bastante sadio e sei exatamente o que quero. A maioria das pessoas não sabe o que quer.

Você sabe, Kate? Bem, falaremos disso mais tarde. O tema merece discussão. Você sabe o que quer? Está conseguindo isso? Por que não? Por causa da sociedade? Que sociedade? Que vida estamos vivendo afinal?

Não tenho a ilusão de que se sinta feliz por estar aqui, portanto não lhe darei hipócritas boas-vindas. Nada de cestinhas de frutas frescas e champanhe. Como você logo verá, ou talvez já tenha visto, fiz o possível para tornar confortável a sua estada aqui. O que suscita um ponto importantíssimo, talvez o mais importante nesta primeira tentativa de comunicação entre nós.

Sua estada será temporária. Você irá embora se — SE com maiúsculas — ouvir o que vou lhe dizer... portanto ouça com toda a atenção.

Está ouvindo agora? Por favor, escute, Kate. Ignore a justificada raiva e o zumbido em sua cabeça. Eu não sou louco.

Esta é a questão: sou perfeitamente lúcido! Percebe a diferença? Claro que sim. Sei bem quanto você é brilhante. Mérito Nacional Escolar e tudo mais.

E importante que saiba quanto é especial para mim. Por isso está em segurança aqui. E por isso também que tem a possibilidade de ir embora.

Posso dizer que a escolhi entre milhares e milhares de mulheres à minha disposição. Sei que você está dizendo "que sorte a minha". Sei como é capaz de ser engraçada e cínica. Sei até que o humor a ajudou a enfrentar os períodos difíceis da vida. Estou começando a conhecê-la melhor que qualquer pessoa neste mundo. Quase tão bem quanto você mesma, Kate.

Bem, passemos agora à parte séria. E saiba que os pontos seguintes são tão importantes quanto qualquer das boas notícias que lhe dei acima.

Estas são as regras da casa, e devem ser rigorosamente observadas:

 

  1. A mais importante: nunca tente fugir — do contrário, será executada em poucas horas, por doloroso que possa ser para nós dois. Acredite, há precedentes. Não há possibilidade de perdão a uma tentativa de fuga.
  2. Uma regra especial para você, Kate, só para você: não tente jamais aplicar em mim seus conhecimentos do caratê. (Quase trouxe seu quimono, mas para quê tentá-la?)
  3. Nunca peça socorro — eu saberei se o fizer —, pois a punição é a deformação facial e genital.

Você quer saber mais. Quer saber tudo de uma vez. Mas não é assim que funciona a coisa. Não perca tempo tentando descobrir onde se encontra. Não o conseguirá, isso só lhe traria uma dor de cabeça desnecessária.

 

Por ora é só. Já tem muito em que pensar. Está em total segurança aqui. Eu a amo mais do que você é capaz de imaginar. Mal posso esperar o momento em que conversaremos, em que conversaremos de verdade.

Casanova.

E você é completamente maluco!, pensou Kate McTiernan passeando no quarto de três por quatro metros e meio. Sua prisão claustrofóbica. Seu inferno neste mundo.

Sentia o corpo como que flutuando, era como se estivesse mergulhada num líquido viscoso e morno. Perguntou-se se havia sofrido um traumatismo craniano ao ser atacada.

Só tinha uma coisa em mente: como fugir. Começou a analisar a situação de todos os ângulos possíveis. Revertendo as abordagens convencionais, tentou isolar todos os componentes.

Havia uma única e espessa porta de madeira, com duas fechaduras.

Não havia outra saída.

Não! Aquela era a abordagem convencional. Tinha de haver outro caminho.

Lembrou-se de um quebra-cabeça apresentado num curso de lógica que fizera havia muito tempo. Começava com dez palitos de fósforo dispostos como algarismos romanos numa equação matemática:

 

         XI + I = X

 

O problema consistia em corrigir a equação sem tocar nos palitos, sem acrescentar palitos novos nem retirar os que lá estavam,

 

         Sem saída.

         Sem solução aparente.

 

O problema era insolúvel para muitos estudantes, mas ela vislumbrara a solução rapidamente. Estava ali mesmo, onde não parecia estar. Resolveu-o invertendo a abordagem convencional. Virando a página de ponta-cabeça.

 

         X = I + IX

 

Mas não podia virar de ponta-cabeça aquela cela de prisão. Ou podia? Kate McTiernan examinou cada tábua do assoalho, cada madeira das paredes. Cheiravam a novas. Talvez ele fosse engenheiro, empreiteiro ou quem sabe arquiteto.

Sem saída.

Sem solução aparente.

Ela não podia, não admitia aceitar tal resposta.

Pensou em seduzi-lo — se conseguisse obrigar-se a tanto. Não. Ele era muito inteligente. Sabê-lo-ia. Pior ainda, ela o saberia.

Tinha de haver uma saída. Precisava encontrá-la.

Olhou para o bilhete no criado-mudo.

Nunca tente fugir — do contrário, será executada em poucas horas.

 

A tarde seguinte, fui visitar o Jardim Sarah Duke, o lugar onde Naomi tinha sido seqüestrada dias antes. Precisava ir lá, ver o local, pensar em minha sobrinha, lamentar.

Eram mais de vinte hectares de exuberantes jardins esmeradamente plantados nas proximidades do Centro Médico da Universidade Duke. Casanova tão teria encontrado lugar melhor para o seqüestro. Fora competentíssimo. Perfeito. Como tinha sido possível?

Conversei com os membros da equipe e também com alguns estudantes que estavam lá quando Naomi desapareceu. O pitoresco jardim ficava oficialmente aberto desde o amanhecer até o anoitecer. Naomi fora vista pela última vez por volta das quatro da tarde. Casanova a agarrara em plena luz do dia. Eu não conseguia imaginar como o fizera. Ainda não. Do mesmo modo que a polícia de Durham e o FBI.

Passeei entre árvores e canteiros durante quase duas horas. Assombrava-me pensar que Scootchie tinha sido atacada bem ali.

Um lugar chamado Os Terraços era particularmente belo. Os visitantes podiam entrar numa pérgula coberta de trepadeiras. Bonitas escadas de madeira levavam a uma lagoa de forma irregular, com um jardim de pedras atrás. Visualmente, os Terraços eram faixas horizontais de rocha, acentuadas por trechos de lindíssimas cores. As tulipas, as azáleas, as camélias, as íris e as peônias estavam em flor.

Compreendi instintivamente que Scootchie devia adorar aquele lugar.

Ajoelhei-me junto a um canteiro particularmente encantador de tulipas vermelhas e amarelas. Estava de terno cinzento e camisa esporte branca. O solo fofo me manchou a calça, mas não me importei. Baixei a cabeça. Finalmente, consegui chorar por Scootchie.

 

Pica-taque. Pica-taque.

Kate McTiernan teve a impressão de ouvir alguma coisa. Devia estar imaginando. Não era difícil ficar meio pirada naquele lugar.

Outra vez. Um levíssimo estalo nas tábuas do assoalho. A porta se abriu e ele entrou no quarto sem dizer uma só palavra.

Lá estava ele! Casanova. Vinha com outra máscara. Parecia uma espécie de deus sombrio — esbelto e atlético. Seria esta a imagem fantasiosa que tinha de si?

Fisicamente, seria considerado um gato na universidade ou mesmo como cadáver na sala de autópsia, o que era preferível.

Reparou em suas roupas: jeans desbotado e muito justo, botas de caubói sujas de terra, sem camisa. Era definitivamente um fortão, orgulhoso de seu peito de halterofilista. Ela tentava memorizar tudo — para quando fugisse.

— Li todas as suas regras — disse, tentando agir com a máxima calma. Seu corpo tremia, no entanto. — São muito claras e explícitas.

— Obrigado. Ninguém gosta de regras, muito menos eu. Mas às vezes são necessárias.

A máscara que lhe escondia o rosto prendia a atenção de Kate. Não conseguia tirar os olhos dela. Lembrava as elaboradas máscaras decorativas venezianas. Pintada a mão, era ritualística nos detalhes artísticos e sinistramente bela. Estaria tentando ser sedutor? Seria isso?

— Por que usa máscara? — perguntou ela. Procurava falar num tom subserviente, curioso, mas de modo algum exigente.

— Como eu disse no bilhete, um dia você estará solta. Será posta em liberdade. Faz parte de meu plano. Eu não suportaria vê-la ferida.

— Se eu for boazinha. Se obedecer.

— Sim. Se for boazinha. Não serei duro assim, Kate. Eu gosto muito de você.

Ela desejava agredi-lo, machucá-lo. Ainda não, ponderou. Só quando tiver certeza. Não contarei com mais que uma única chance.

Ele pareceu ler seu pensamento. Era rápido, era brilhante:

— Nada de caratê — disse, e ela teve a sensação de que estava sorrindo por trás da máscara. — Por favor, não se esqueça, Kate. Eu já a vi treinar. Observei-a bem. Você é muito ágil e forte. Eu também sou. E conheço as artes marciais.

— Não era nisso que eu estava pensando. — Kate franziu a testa e olhou para o teto. Voltou a mirá-lo. Pensou que era muito justo agir sob a pressão das circunstâncias. Não chegava a ser uma ameaça para Emma Thompson ou Holly Hunter, mas era decente.

— Neste caso, peço desculpas — respondeu ele. — Não devia ter colocado palavras em sua boca. Não voltarei a fazer isso. Prometo.

Às vezes ele parecia quase são, e era isso o que mais a aterrorizava. Era como se estivessem tendo uma conversa normal numa casa normal, não naquela casa de horrores.

Kate olhou para suas mãos. Os dedos eram longos, podiam até ser considerados elegantes. Mãos de arquiteto? De médico? De artista? De certo não eram de operário.

— Bem, que tem em mente? — Kate se decidiu por uma abordagem direta. — Por que estou aqui? Por que este quarto, as roupas? Todas as minhas coisas?

A voz dele permaneceu gentil e calma. Estava mesmo tentando seduzi-la.

— Oh, acho que quero me apaixonar, estar apaixonado durante algum tempo. Quero viver um romance enquanto for possível. Quero sentir algo especial na vida. Quero experimentar a intimidade com outra pessoa. Não sou tão diferente assim dos demais. A diferença é que eu ajo em vez de ficar sonhando.

— Você não sente nada? — perguntou ela. Fingia-se preocupada com ele. Sabia que os psicopatas não eram capazes de nenhuma emoção, pelo menos era esse o seu entendimento.

Ele deu de ombros. Kate pôde sentir que estava sorrindo novamente.

— Às vezes sinto muitas coisas. Acho que sou sensível demais. Posso lhe dizer que você é muito bonita?

— Nas atuais circunstâncias, prefiro que não.

Ele soltou uma boa gargalhada e tornou a dar de ombros.

— Ok, combinado. Nada de conversas amenas entre nós. Ao menos por enquanto. Ponha na cabeça que eu posso ser romântico. Na verdade, prefiro sê-lo.

Kate não estava preparada para seu movimento súbito, para tanta rapidez. A arma narcotizante surgiu do nada e a atingiu com brutalidade. Ela reconheceu o estampido, o cheiro de ozona. Arremessada contra a parede, bateu a cabeça. O impacto sacudiu a casa toda — onde quer que estivesse prisioneira.

— Oh, meu Deus, não — gemeu.

Ele estava em cima dela. Prendendo-lhe os braços e as pernas, comprimindo-a com todo o peso do corpo. Ia matá-la naquele instante. Oh, Santo Deus, ela não queria morrer assim, ver sua vida chegar ao fim daquele jeito. Era tão absurdo, tão inútil, tão triste!

Sentiu-se dominada por uma raiva explosiva. Num esforço desesperado, conseguiu livrar uma perna, mas não tinha como mover os braços. O peito lhe ardia. Sentiu-o rasgar-lhe a blusa, tocá-la. Ele estava excitado. Esfregava-se nela.

— Não, por favor, não — murmurava. Sua própria voz parecia chegar de muito longe.

Casanova lhe apalpava os seios com ambas as mãos. Ela sentiu gosto de sangue, sentiu-lhe a mornidão escorrer no canto da boca. Finalmente, começou a gritar. Estava soluçando e mal conseguia respirar.

— Eu tentei ser gentil — disse ele por entre os dentes. Deteve-se de súbito. Levantando-se, abriu o zíper da calça e a baixou até os tornozelos. Não se deu ao trabalho de despi-la completamente.

Kate olhou para ele. Tinha um pênis enorme. Totalmente ereto e lustroso, inflado de sangue e com veias dilatadas. Atirando-se novamente sobre ela, pôs-se a esfregar aquele membro duro em seu corpo, depois, aproximou-o lentamente de seus seios, de sua garganta, de sua boca e seus olhos.

A consciência de Kate começou a oscilar, a fugir da realidade. Ela tentava reter cada pensamento que lhe vinha. Precisava ter controle, ainda que apenas de seus pensamentos.

— Mantenha os olhos abertos — ordenou ele num grunhido. — Olhe para mim, Kate. Seus olhos são tão lindos. Você é a mulher mais bonita que já vi. Sabe disso? Sabe quanto é gostosa?

Ele estava em transe. Era o que parecia a Kate. Seu corpo forte dançava, serpeava, contorcia-se ao tempo em que ele arremetia para dentro e para fora dela. Sentando-se, voltou a brincar com seus seios. Afagou-lhe o cabelo, diferentes partes do rosto. As carícias foram se tornando mais suaves com o tempo. Pior para Kate. Ela sentiu vergonha, uma humilhante e insuportável vergonha. Odiou-o.

— Eu a amo tanto, Kate. Amo-a mais do que sou capaz de expressar. Nunca senti algo assim. Juro que não. Nunca senti. Nunca.

Não ia matá-la, percebeu ela. Ia deixá-la viver. Voltaria muitas outras vezes, sempre que a quisesse. O pavor era insuportável, e Kate finalmente desmaiou. Deixou o espírito voar para longe.

Não sentiu o beijo suave de despedida.

— Eu a amo, doce Kate. Lamento muito tudo isto. Eu sinto sim, sinto... tudo.

 

Recebi um telefonema urgente de uma estudante de direito, colega de classe de Naomi. Apresentou-se como Florence Campbell, dizendo que precisava falar comigo imediatamente. Tenho de falar com o senhor, doutor Cross. Preciso muito.

Encontrei-me com ela no campus da Duke, perto do Centro Universitário Bryan. Florence era negra e tinha pouco mais de vinte anos. Caminhamos entre as magnólias e os bem-conservados edifícios góticos. Nenhum dos dois parecíamos fazer parte da paisagem.

Florence era alta, algo desajeitada, e se mostrou um tanto mistificadora a princípio. Tinha um penteado alto, duro, que me fez pensar em Nefertite. Sua aparência era decididamente esquisita, ou talvez antiquada, e me pareceu curioso que ainda existisse gente como ela nas zonas rurais do Mississípi ou do Alabama. Ela havia se graduado na Universidade Estadual do Mississípi, que ficava tão distante da Duke quanto se queira imaginar.

— Eu sinto muitíssimo, doutor Cross — disse quando nos sentamos num banco de pedra todo pichado pelos estudantes. — Peço-lhes desculpas, ao senhor e à sua família.

— Desculpas por quê, Florence? — Eu não compreendia o que ela estava querendo dizer.

— Não tomei a iniciativa de falar com o senhor ontem, quando esteve aqui. Ninguém tinha esclarecido que Naomi podia ter sido raptada. A polícia de Durham não disse nada. A parte as grosserias habituais, não pareciam acreditar que Naomi estivesse realmente em perigo.

— Por que não? — fiz a pergunta que me martelava a cabeça.

Ela me fitou nos olhos.

— Porque Naomi é afro-americana. A polícia de Durham, o FBI, essa gente não se preocupa conosco como com as brancas.

— Acha mesmo?

Florence Campbell virou os olhos.

— Se é a pura verdade, por que eu não haveria de acreditar? Frantz Fanon dizia que as superestruturas racistas se cristalizam permanentemente na psicologia, na economia e na cultura da sociedade. Também acredito nisso.

Era uma mulher muito séria. Estava com um exemplar de The Omni-Americans, de Albert Murray, debaixo do braço. E eu começava a gostar de seu estilo. Era hora de tentar descobrir que segredos de Naomi ela conhecia.

— Conte-me o que anda acontecendo por aqui, Florence. Não precisa editar os pensamentos porque sou tio de Naomi ou porque sou da polícia. Preciso de alguém que me ajude. Estou resistindo à superestrutura daqui de Durham.

A moça sorriu. Afastou do rosto uma mecha de cabelo. Era em parte Immanuel Kant, em parte Prissy, de ... E o vento levou.

— vou lhe contar o que sei, doutor Cross. Por que algumas garotas do dormitório estavam zangadas com Naomi. — Respirou o ar perfumado de magnólias. — Tudo começou com um cara chamado Seth Samuel Taylor. E assistente social, trabalha nos projetos de Durham. Eu apresentei Naomi a Seth. Ele é meu primo. — Florence se mostrou repentinamente insegura.

— Não vejo problema algum.

— Seth Samuel e Naomi se apaixonaram mais ou menos em dezembro do ano passado — prosseguiu. — Naomi andava com olhos sonhadores, coisa que não é típica dela, como o senhor deve saber. No começo, ele vinha ao dormitório, mas, depois, ela passou a dormir no apartamento de Seth, em Durham.

Surpreendeu-me que Naomi estivesse apaixonada e não o tivesse contado a Cuia. Por que não havia conversado com nenhum de nós sobre isso? Eu ainda não conseguia compreender o problema com as outras moças do dormitório.

— Tenho certeza de que Naomi não foi a primeira a se apaixonar na Duke. Ou a receber o namorado no quarto etc. — eu disse.

— Não é que simplesmente recebesse o namorado no quarto etc., ela recebia um namorado negro no quarto etc. Seth chegava dos projetos com seu macacão empoeirado, as botas sujas e o blusão de couro de engenheiro. Naomi começou a usar um velho chapéu de palha de caboclo no campus. De vez em quando, Seth aparecia com uma cartola com a inscrição "Trabalho Escravo". Ousava ser um tanto cáustico e irônico com relação às atividades sociais das irmãs, e, Santo Deus, com relação à sua consciência social. Ralhava com as faxineiras negras quando elas estavam trabalhando.

— Que acha de seu primo Seth?

— Seth tem um problema. E revoltado contra a injustiça racial, tanto que isso às vezes lhe contamina as idéias. No mais, é muito legal. Um cara que faz as coisas. Não tem medo de sujar as mãos. Se não fosse meu primo distante... — Florence interrompeu-se e piscou.

Sorri ante o malicioso senso de humor da moça. Embora um pouco desajeitada como a gente do Mississípi, era muito graciosa. Eu estava começando a gostar até de seu penteado.

— Você e Naomi ficaram amigas logo?

— No começo não. Acho que as duas sabíamos que estávamos competindo por uma vaga em Revisão Legal. Provavelmente, só uma negra seria admitida, compreende? Mas, no segundo ano, ficamos amigas. Eu adoro Naomi. Ela é maravilhosa.

Repentinamente, comecei a me perguntar se o desaparecimento de minha sobrinha tinha a ver com seu namorado e não com o maníaco da Carolina do Norte.

— Ele é um bom rapaz. Não lhe faça mal — pediu. — Nem pense nisso.

Concordei.

— Só lhe vou quebrar uma perna.

— Cuidado, ele é forte como um touro — alertou-me.

— Eu sou um touro — respondi, revelando a Florence Campbell um segredinho particular.

 

Fitei os olhos escuros de Seth Samuel Taylor. Ele me encarava. Continuei olhando para aqueles olhos, que pareciam duas ameixas pretas.

O namorado de Naomi era alto, muito musculoso, o tipo do sujeito acostumado ao trabalho pesado. Mais parecia um jovem leão que um touro. Estava desconsolado, e me foi difícil interrogá-lo. Tive o pressentimento de que Naomi não voltaria mais.

Não se barbeara e dava a impressão de estar havia dias sem dormir. Tampouco parecia ter trocado de roupa. Estava com uma camisa de lã xadrez amarrotada por cima da camiseta e uma calça de brim. Continuava com as poeirentas botas de trabalho. Ou estava muitíssimo transtornado, ou era um grande ator.

Apertou-me a mão com a força de uma morsa.

— Que cara de bunda a sua — foram suas primeiras palavras. Nos arredores, estavam tocando Humpty Dance. Exatamente como na capital, apenas um pouco desatualizado.

— A sua também.

— Foda-se — disse ele. Era uma espécie de saudação comum nas ruas, e os dois, que a conhecíamos, rimos divertidos.

O sorriso de Seth era cálido e contagioso. Ele tinha ar soberbo, mas de modo algum arrogante. Nada que eu tivesse visto antes.

Era visível que seu nariz achatado tinha sido quebrado algumas vezes, mas ele não deixava de ser bonitão, ainda que de uma beleza rude e agressiva. Sua presença dominava a sala, e nisso parecia-se com Naomi. O detetive em mim ficou curioso sobre aquele rapaz.

Morava num antigo bairro operário, ao norte de Durham, onde outrora se concentravam os trabalhadores da indústria do tabaco. Sua residência era um velho sobrado convertido em dois apartamentos. Havia diversos pôsteres nas paredes. Um deles dizia: Nunca, desde a escravidão, abateram-se tantas catástrofes sobre os negros.

A sala estava cheia de amigos e vizinhos. O toca-discos espalhava tristes canções de Smokey Robinson. Os amigos tinham vindo ajudar na busca de Naomi. Tive esperança de finalmente encontrar alguns aliados no Sul.

Todos no apartamento estavam ansiosos para falar comigo. Nenhum deles suspeitava de Seth Samuel.

Chamou-me particularmente a atenção uma mulher de olhos vivos e sensíveis e pele cor de café-com-leite. Keesha Bowie tinha pouco mais de trinta anos e trabalhava no correio de Durham. Naomi e Seth a haviam convencido a retomar a universidade e concluir o curso de psicologia. Simpatizamo-nos de chofre.

— Naomi é culta, muito articulada, mas você já deve saber disso. — Keesha me levou a um canto e falou a sério. — Mas jamais usa sua cultura e sua boa educação para humilhar os outros ou mostrar-se superior. Foi o que nos encantou a todos quando a conhecemos. Ela é muito autêntica, Alex. Não tem nenhuma impostura. Como foi lhe acontecer uma coisa dessas?

Conversei um pouco mais com Keesha e gostei muito dela. Era inteligente e bonita, mas aquele não era o momento para esse tipo de coisa. Procurei Seth e fui encontrá-lo a sós no primeiro andar. A janela do quarto estava aberta, e ele se havia sentado do lado de fora, na suave inclinação do telhado. Em algum lugar na escuridão, Robert Johnson cantava seus indefectíveis blues.

— Importa-se se eu sair e ficar aí com você? Será que esse velho telhado nos suporta aos dois? — perguntei da janela.

Seth sorriu.

— Se não suportar e cairmos no alpendre, será uma boa história para se contar. Valerá o tombo e o pescoço quebrado. Venha. — Sua fala arrastada era doce, quase musical. Não era difícil saber por que Naomi gostava dele.

Trepei na janela e fui me sentar a seu lado na escuridão que se espalhava por Durham. Ouvia-se a versão provinciana das sirenes da polícia e dos gritos excitados que chegavam do centro da cidade.

— A gente costumava ficar aqui — balbuciou Seth. — Naomi e eu.

— Você está bem?

— Não. Nunca estive pior. E você?

— Nunca estive pior.

— Depois que telefonou, fiquei pensando nesta visita, na conversa que teríamos. Tentei imaginar o que você podia estar pensando. Sabe, como investigador da polícia. Por favor, não torne a pensar que tenho algo a ver com o desaparecimento de Naomi. E perda de tempo.

Olhei para Seth Samuel. Estava curvado, a cabeça inclinada sobre o peito. Mesmo na escuridão, percebi que seus olhos brilhavam úmidos. Sua dor era palpável. Tive vontade de lhe dizer que encontraríamos Naomi e que tudo acabaria bem, mas não tive coragem.

Ficamos juntos e em silêncio. Cada um sentindo a falta de Naomi à sua maneira, e lamentando no telhado escuro.

 

Meu amigo, do FBI, finalmente retornou meus telefonemas naquela noite. Eu estava lendo o Manual Estatístico dos Distúrbios Mentais quando o telefone tocou. Queria elaborar o perfil de Casanova, mas não tinha avançado muito.

Conhecera o agente especial Kyle Craig durante a longa e difícil caçada humana ao seqüestrador Gary Soneji. Kyle era um sujeito correto. Nada tinha de limitado, como a maior parte dos agentes do FBI, e não se prendia aos padrões vigentes no bureau. Às vezes me dava a impressão de sequer pertencer ao FBI. Era humano demais.

— Obrigado por finalmente retornar minhas chamadas, estrangeiro — eu lhe disse. — Onde está trabalhando agora?

Kyle me surpreendeu:

— Estou aqui em Durham, Alex. Para ser um pouco mais exato, estou no saguão de seu hotel. Desça. Vamos tomar um drinque ou três no infame Buli Durham Room. Preciso lhe agradecer. Tenho um recado especial para você de J. Edgar em pessoa.

— Desço já. Faz tempo que ando querendo saber o que foi feito de Hoove depois que simulou a própria morte.

Kyle estava sentado a uma mesa para dois junto a uma enorme janela que dava diretamente para o verde gramado do campo de golfe da universidade. Um homem muito magro, que mais parecia um escolar, estava instruindo uma estudante. Tendo se colocado atrás dela, mostrava-lhe os melhores movimentos.

Divertido, Kyle observava o professor e a aluna. E, não menos divertido, eu me pus a observá-lo. Ele se voltou ao sentir minha presença.

— Rapaz, você tem mesmo faro para enrascadas — disse à guisa de saudação. — Lamento que sua sobrinha esteja desaparecida. Estou contente de revê-lo apesar das circunstâncias.

Sentei-me diante do agente e começamos a conversar. Como sempre, ele se mostrava alegre e otimista, sem contudo parecer ingênuo. Era um dom particular dele. Algumas pessoas sentiam que Kyle tinha tudo para subir à chefia do FBI e que esta era a melhor coisa que poderia acontecer.

— Primeiro, o honorável Ronald Burns aparece em Durham. Agora é você. O que há? — perguntei.

— Diga-me o que você tem feito. Tentarei retribuir como puder.

— Estou tentando traçar o perfil psicológico das mulheres assassinadas. As rejeitadas. Em dois casos, ele rejeitou mulheres de personalidade forte. Devem ter lhe criado muitos problemas. Pode ter sido por isso que as matou, para livrar-se delas. A exceção foi Bette Arme Ryerson. Era mãe, estava fazendo terapia e é possível que tenha sofrido um colapso nervoso.

Kyle passou a mão no cabelo. Estava sacudindo a cabeça.

— Não lhe deram informação alguma, não lhe ofereceram a menor ajuda. Mesmo assim — ele sorriu —, está meio passo à frente do nosso pessoal. Não ouvi falar nessa teoria da "rejeição". E muito boa, Alex, especialmente se ele for um maníaco excêntrico.

— Com certeza é excêntrico, Kyle. Do contrário, por que se teria livrado dessas três mulheres? Agora, espero que tenha vindo me contar alguma coisa que não sei.

— Talvez. Se você responder algumas perguntas fáceis. Que mais está imaginando?

Pousei nele um olhar maligno ao mesmo tempo em que tomava um gole da cerveja.

— Sabe? Eu pensei que você fosse um cara legal. Agora vejo que não passa de um bundão do FBI.

— Fui programado em Quantico — respondeu ele, imitando voz de computador. — Você traçou o perfil psicológico de Casanova?

— Estou trabalhando nisso. — Disse-lhe o que ele já sabia. — Não é fácil, posto que praticamente não disponho de informação alguma. — Kyle acenou com os dedos da mão direita. Queria tudo, e, então, talvez me contasse alguma coisa. — Deve ser um cara que se dissolve bem na comunidade. Ninguém tem a menor pista dele. Provavelmente, está sujeito às mesmas fantasias sexuais obsessivas que o perseguem desde menino. Pode ter sido vítima de algum abuso, quem sabe de incesto. Talvez tenha sido voyeur, estuprador ou estuprador ocasional. Agora, é colecionador de mulheres bonitas; parece escolher somente as extraordinárias. Ele as pesquisa, Kyle. Tenho quase certeza disso. E solitário. Talvez esteja procurando a mulher perfeita.

Kyle balançou a cabeça.

— Rapaz, você é totalmente maluco. Pensa como ele!

— Não achei graça. — Segurei-lhe a bochecha entre o polegar e o indicador. — Agora, conte-me alguma coisa que eu não sei.

Kyle se livrou de meu aperto.

— Deixe-me fazer um trato com você, Alex. É um bom trato, portanto não banque o cínico comigo.

Ergui a mão para a garçonete.

— A conta! Contas separadas, por favor.

— Não, não. Espere. E um trato legal, Alex. Não gosto de pedir "confie em mim", mas confie em mim. Para provar que sou confiável, simplesmente não posso lhe contar tudo agora. Adianto-lhe que o caso é maior que qualquer um que você já tenha visto. Tem razão quanto a Burns. O vice-diretor não esteve aqui por acaso.

— E mesmo? Imaginei que tivesse vindo só para admirar as azáleas. — Tive a impressão de estar gritando com Kyle naquele bar silencioso. — Está bem. Conte-me uma única coisa que eu ainda não saiba.

— Não posso contar mais do que já contei.

— Vá à merda, Kyle. Você não me contou absolutamente nada. — Ergui a voz. — Qual é o trato que me quer propor?

Ele levantou a mão como para me acalmar.

— Ouça. Como você sabe ou desconfia, isto aqui' mal começou e já se tornou um pesadelo plurijurisdicional quatro estrelas. Acredite em mim. Ninguém descobriu nada, Alex. Isto é o que eu quero que você considere.

Não pude evitar o sarcasmo.

— Ainda bem que estou sentado para ouvir.

— E uma excelente oferta para quem se encontra na sua situação. Já que está fora da bagunça plurijurisdicional e, portanto, imune a ela, por que não deixa as coisas como estão? Fique fora e trabalhe diretamente comigo.

— Trabalhar com o FBI? — Engasguei com a cerveja. — Colaborar com os federalecos?

— Posso lhe dar acesso a todas as informações que obtivermos, quando as obtivermos. Terá tudo de que precise em termos de recursos e informações, além de todos os dados disponíveis.

— E você não terá de partilhar nada que eu descobrir? Nem mesmo com a polícia local ou a estadual?

Kyle voltou ao seu intenso eu.

— Escute, Alex, por grande e cara que seja, esta investigação não está levando a nada. Os tiras estão se degladiando enquanto, em todo o Sul, as mulheres continuam desaparecendo diante de nosso nariz. Inclusive sua sobrinha.

— Entendo o problema, Kyle. Deixe-me pensar em sua proposta. Preciso de mais espaço.

Continuamos conversando sobre a oferta, e consegui arrancar-lhe algumas informações específicas. Basicamente, eu estava me vendendo. Trabalhar com Kyle dar-me-ia acesso a uma equipe de apoio de primeira classe, e teria poder onde e quando necessitasse. Já não estaria sozinho. Pedimos sanduíches, mais cerveja, e continuamos conversando e acertando os últimos detalhes de meu pacto com o Diabo. Pela primeira vez desde que chegara, tinha algumas esperanças.

— vou lhe contar mais uma coisa — disse-lhe por fim. — Ele me deixou um recado ontem à noite. Um recadinho gentil, inteligente, dando-me as boas-vindas.

— Nós sabemos. — Kyle sorriu como o Andy Hardy crescido que era. — Foi um cartão postal com uma odalisca, uma escrava sexual de harém.

 

Já estava um pouco tarde quando voltei ao quarto, mas mesmo assim telefonei para Nana e as crianças. Sempre telefono para casa quando estou fora, duas vezes por dia, de manhã e à noite. Nunca falhara e não tinha intenção de falhar naquela noite.

— Está obedecendo Nana e sendo uma boa menina, para variar? — perguntei a Jannie.

— Eu sempre sou uma boa menina! — gritou ela com alegria de garotinha. Adora conversar comigo. E o sentimento é recíproco. Engraçado, ainda estávamos completamente apaixonados um pelo outro depois de cinco anos de convivência.

Fechando os olhos, visualizei minha filha. Via-a estufando o peito, assumindo ar de desafio, ao mesmo tempo em que sorria. Naomi também tinha sido uma menininha doce como ela. Lembrei-me daquele tempo. E tratei de afastar a lembrança, o retrato vivo de Scootchie.

— Muito bem. E seu irmão? Ele disse que também está se comportando maravilhosamente. Contou-me que Nana a chamou de "capetinha" hoje. E verdade?

— Não, papai. Nana disse que ele é um capetinha. E o capeta desta casa. Eu sou o anjo de Nana o tempo todo. Sou a santinha da casa. Pode perguntar a ela.

— Hum-hum. Estou gostando. Quer dizer que você não puxou o cabelo de seu irmão no horrível restaurante de Roy Rogers hoje?

— Não é horrível, seu bobo! Ele puxou o meu cabelo primeiro. Quase me deixou careca como Baby Clare. — Esta era a boneca preferida de Jannie desde os dois anos de idade. Era o "bebê" absolutamente sagrado de minha filha. Sagrado para todos nós. Uma vez esquecemos a boneca durante uma viagem a Williamsburg e tivemos de voltar para apanhá-la. Por sorte, Clare estava à nossa espera no escritório da administração, batendo papo com o segurança. — Eu não posso puxar o cabelo de Damon, papai. Ele está careca. Nana o levou ao barbeiro. Você precisa ver. Meu irmão parece uma bola de bilhar!

Ouvi-a rir-se. Era como se a estivesse vendo. Ouvi também que Damon estava exigindo o fone de volta. Queria a réplica quanto ao estado de seu cabelo.

Terminada a conversa com as crianças, falei com Nana.

— Como você está, Alex? — Foi direto ao assunto como sempre. Teria sido uma excelente detetive ou qualquer outra coisa que tivesse querido ser. — Alex, eu perguntei como está.

— Estou bem, muito bem. Adoro meu trabalho — respondi.

— E você, minha velha, como está?

— Não se preocupe. Sou capaz de cuidar desses meninos até dormindo. Não estou gostando de sua voz. Não tem dormido bem e não avançou muito, não é verdade?

Caramba, ela era firme quando queria.

— Não está indo tão bem quanto eu esperava — contei-lhe.

— Mas pode ser que tenha acontecido uma coisa boa hoje.

— Eu sei, é por isso que está telefonando tão tarde. Mas não pode dar a boa notícia a sua avó. Tem medo de que eu telefone para o Washington Post.

Já havíamos tido essa discussão quando eu estava trabalhando em outros casos. Ela sempre quer informações que não posso dar.

— Eu a adoro — disse-lhe por fim. — É o melhor que tenho a lhe segredar neste momento.

— E eu o amo, Alex Cross. E o melhor que tenho a dizer. Ela sempre tinha de ficar com a última palavra.

Depois de falar com Nana e as crianças, deitei-me no escuro, na cama desfeita e hostil do hotel. Eu não queria a camareira nem ninguém em meu quarto, mas a placa "Não Perturbe" não impedira o FBI de entrar.

Respirando mais devagar, equilibrei uma garrafa de cerveja no peito. Nunca gostei de quartos de hotel, nem mesmo em viagens de férias.

Voltei a pensar em Naomi. Quando era pequena como Janme, gostava de sentar-se em meus ombros para "ver muito muito longe, no Mundo dos Adultos". Lembrei-me de que, durante os feriados de Natal, costumava beijar todo mundo.

Enfim, meu pensamento buscou o monstro que nos retirara Scootchie. O monstro triunfante. Parecia invencível, intocável; não cometia erros, não deixava pistas. Era muito seguro de si... chegara a me deixar um cartão postal para zombar de mim. Que significava aquilo?

Ele deve ter lido meu livro sobre Gary Soneji, pensei. Só podia ter lido meu livro. Teria raptado Naomi para me desafiar? Talvez para provar quanto era bom.

A idéia não me agradou muito.

 

Estou viva, mas no inferno!

Kate McTiernan encolheu as pernas, encostando-as no peito, e estremeceu. Tinha certeza de que fora drogada. Fortes tremores acompanhados de insuportáveis náuseas lhe entravam em ondas poderosas, que não cessavam de modo algum.

Não sabia quanto tempo passara dormindo no chão frio, nem que horas eram. Estaria ele a observá-la? Haveria um buraco na parede por onde a espionasse? Quase lhe sentia os olhos cravados nela.

Recordou cada pavoroso detalhe do estupro. A sensação era tão vivida. A idéia de ser tocada por ele lhe causava repulsa, as mais terríveis imagens se lhe deparavam.

Ódio, culpa, violação, tudo se amalgamava em sua mente. Uma descarga de adrenalina lhe percorreu o corpo.

— "Ave Maria, cheia de graça... o Senhor é convosco."

Pensou que já não sabia rezar. Esperava que Deus não tivesse se esquecido dela.

Sentia-se confusa, a cabeça girava. Sem dúvida, ele estava tentando quebrar-lhe a vontade, minar-lhe a resistência. Era esse o plano, não?

Precisava pensar, tinha de conseguir pensar. Tudo no quarto estava fora de foco. A droga! Tentou imaginar o que ele podia estar usando. Que droga? Qual delas?...

Talvez fosse Forane, um forte relaxante muscular usado antes da anestesia. Vinha numa ampola de cem milímetros. Podia ser borrifado diretamente no rosto da vítima ou colocado, embebido num pano, em seu nariz. Tentou se lembrar dos efeitos posteriores da droga. Tremores e náuseas. Garganta seca. Didiminuição das funções intelectuais durante um ou dois dias. Eram os sintomas que estava tendo! Todos eles!

Ele é médico! A idéia a atingiu como um soco. Mas só podia ser. Quem mais teria acesso a uma droga como Forane?

Nas aulas de caratê, em Chapei Hill, ensinavam um exercício que ajudava os alunos a controlar as emoções. Tinham de se sentar diante de uma parede vazia e ali permanecer por mais que quisessem ou pensassem que precisavam mover-se.

Embora sentindo o corpo úmido de suor, Kate estava decidida. Não o deixaria anular-lhe a vontade. Sabia ser incrivelmente forte quando necessário. Fora assim que conseguira cursar a faculdade de medicina sem dinheiro e apesar de todos os pesares.

Passou mais de uma hora sentada em posição de ioga naquela "cela de prisão". Respirando lentamente, concentrava-se em afastar da mente a dor, as náuseas e o estupro. Só importava o que tinha de fazer a seguir.

Muito simples.

Fugir.

 

Kate se levantou devagar após uma hora de meditação. Ainda estava atordoada, porém sentia-se um pouco melhor e mais controlada. Decidiu procurar o buraco pelo qual ele a espiava. Devia ficar ali, escondido na parede de madeira natural.

O quarto tinha exatamente três por quatro metros e meio. Ela o medira várias vezes. O banheiro contíguo não era maior que um armário.

Examinou com cuidado as menores frestas na parede, mas nada viu. A privada parecia escoar diretamente no solo. Não havia esgoto, pelo menos naquela parte da casa. Onde foi que me prenderam? Onde estou?

Sentiu as lágrimas nos olhos ao se ajoelhar, debruçar-se sobre o vaso e escrutar o escuro buraco. Aprendera a suportar o cheiro forte, de modo que desta vez não soltou mais que um suspiro seco.

A fossa devia ter uns três metros de profundidade. Aonde dava?

Parecia estreita demais para que conseguisse passar por ela, mesmo que tirasse toda a roupa. Ou talvez sim. Nunca diga nunca.

Ouviu a voz dele bem às suas costas. Com o coração disparado, teve a impressão de que ia desmaiar.

Lá estava ele! Novamente sem camisa. Com acentuados músculos em todo o corpo, principalmente na barriga e nas coxas. Trocara de máscara. A de agora parecia feroz. Motivos brancos e vermelhos num fundo preto brilhante. Estaria zangado? Acaso as máscaras correspondiam a seus estados de espírito?

— Não é uma boa idéia, Katie. Gente mais magra que você já tentou — disse ele com voz calma. — Eu não vou me meter aí dentro para tirá-la. Você vai morrer literalmente na merda. Pense nisso.

Levantando-se com esforço, Kate tentou simular ânsia de vômito.

— Estou me sentindo mal. Pensei que fosse vomitar.

— Sei muito bem que você está mal. Isso vai passar. Mas não era esse o motivo pelo qual estava debruçada no vaso. Fale a verdade, tenha vergonha na cara.

— Que você quer de mim? — perguntou Kate. Tinha a impressão de que ele estava falando com voz estranha... ou talvez fosse apenas efeito da droga. Ela examinou a máscara. Transformava-o em outra pessoa. Em outro tipo de maluco. Teria personalidade fragmentada?

— Quero amar. Quero fazer amor com você novamente. Quero que fique bonita para mim. Talvez um dos bonitos vestidos de Neiman Marcus. Meias de náilon e saltos altos.

Kate estava aterrorizada e com nojo, mas tentava não demonstrá-lo. Tinha de fazer alguma coisa, dizer alguma coisa, que o mantivesse a distância.

— Não estou com vontade, querido — respondeu. — Não estou com vontade de trocar de roupa. — Não foi capaz de manter o sarcasmo na voz. — Esta dor de cabeça é horrível. Como está o dia hoje? Ainda não saí.

Ele riu. Um riso quase normal; uma gargalhada divertida por trás da máscara horrível.

— O céu azul e ensolarado da Carolina do Norte, Kate. Temperatura acima de vinte e um graus. Um dos dez melhores dias do ano.

Agarrando-a subitamente, puxou-lhe o braço como se o quisesse arrancar. Kate gritou com a dor violenta que lhe explodiu como um relâmpago no espaço vazio atrás dos olhos. Dominada pela raiva e o medo, estendeu a mão e lhe tirou a máscara.

— Idiota! Idiota! — gritou ele. — E você não é uma mulher burra!

Vendo a arma narcotizante apontada para seu peito, Kate compreendeu que havia cometido um erro terrível. Ouviu o disparo.

Ela tentou ficar de pé, esforçou-se quanto pôde para continuar de pé, mas seu corpo não a obedeceu, caiu.

Casanova estava furioso. Ela o mirou com mudo pavor quando ele ergueu a bota e começou a chutá-la. Um dente girou lentamente, traçou muitas espirais nas tábuas do piso.

Aquele dente rodante a fascinou. Kate demorou algum tempo para se dar conta de que era dela.

Sentiu o gosto de sangue, o inchaço nos lábios.

Ouviu um zunido agudo e compreendeu que estava perdendo os sentidos. Guardou o que tinha visto atrás da máscara.

Casanova sabia que ela vira parte de seu rosto.

Uma bochecha macia e rosada; sem barba nem bigode.

Seu olho esquerdo — azul.

 

Naomi Cross estremeceu ao encostar o corpo na porta trancada que lhe vedava o quarto. Em algum lugar daquela casa de horrores, uma mulher estava gritando.

Mesmo abafados pelas paredes e pelo revestimento a prova de som que ele instalara, eram gritos terríveis. Notou que estava mordendo uma das mãos. Com força. Tinha certeza de que aquele maluco estava matando alguém. Não devia ser a primeira vez.

Os gritos cessaram.

Naomi pressionou o ouvido na porta, esforçando-se por escutar.

— Oh, não, por favor — sussurrou —, não a deixe morrer.

Ficou ouvindo o elétrico silêncio durante muito tempo. Por fim, afastou-se da porta. Nada podia fazer pela pobre mulher. Ninguém podia.

Sabia que tinha de ser muito boa agora. Se descumprisse uma só regra, ele a espancaria. Não podia deixar que isso acontecesse.

Ele parecia tudo saber sobre ela. As roupas que gostava de usar, o tamanho de sua roupa de baixo, suas cores prediletas, até mesmo os tons preferidos. Sabia de Alex, de Seth Samuel e inclusive de sua amiga Mary Ellen Klouk. "Aquela coisinha loura e gostosa", ele dizia. Coisinha.

Casanova era muito pervertido; representava e fantasiava psicodramas. Adorava falar com ela sobre atos pornográficos: sexo com meninas na puberdade e animais; sadismo cruel; masoquismo; ginecocracia; torturas anais. Falava de tudo isso com naturalidade. Por vezes, chegava a ser doentimente poético.

Citava Jean Genet, John Rechy, Durrell, Sade. Havia lido muito, provavelmente tivera boa educação.

— Você é inteligente o bastante para me compreender quando estamos conversando — disse-lhe durante uma de suas visitas. — Foi por isso que a escolhi, queridinha.

Naomi se sobressaltou com novos gritos. Correu até a porta e colou a face na madeira fria. Era a mesma mulher ou ele estava matando outra?, perguntou-se.

— Acudam-me, por favor! — ouviu gritarem. A mulher estava aos berros. Transgredindo as regras da casa. — Socorro! Estou presa aqui. Acudam... meu nome é Kate... Kate McTiernan. Socorro! — Naomi fechou os olhos. Que horror! A mulher tinha de parar. No entanto, os pedidos de socorro se repetiam. O que significava que Casanova não estava em casa. Devia ter saído. — Ajudem-me, por favor. Eu me chamo Kate McTiernan. Sou médica no hospital da Universidade da Carolina do Norte — prosseguiam os gritos... dez, vinte vezes. Não eram de medo, percebeu, eram de raiva!

Ele não devia estar em casa. Não a teria deixado gritar durante tanto tempo. Reunindo coragem, Naomi gritou o mais alto que pôde:

— Pare com isso! Você tem de parar de pedir socorro. Ele vai matá-la! Cale a boca! Não vou dizer mais nada!

Fez-se silêncio... um silêncio de morte. Naomi teve a impressão de estar ouvindo a tensão à sua volta. Sem dúvida, sentia-a.

Kate McTiernan não ficou muito tempo calada.

— Qual é o seu nome? Há quanto tempo está aqui? Por favor, fale comigo... ei, estou falando com você — Naomi não respondeu. Que havia de errado com aquela mulher? Kate McTiernan voltou a gritar. — Escute, nós podemos nos ajudar. Tenho certeza de que podemos. Você sabe onde está? — Era uma mulher de coragem... mas também estava sendo louca. Tinha uma voz forte que, no entanto, começava a lhe sair rouca. Kate. — Por favor. Só dois minutos. Só isso. Eu prometo. Dois minutos. Por favor. Só um minuto. — Naomi continuou calada. Ele podia ter retornado. Podia estar na casa, ouvindo. Quem sabe observando-as pelas frestas das paredes. Kate McTiernan insistiu. — Está bem, trinta segundos. Depois paramos. Ok? Eu prometo parar... do contrário, vou continuar até que ele volte... — Oh, meu Deus, por favor, pare de falar, gritava uma voz dentro de Naomi. Pare já com isso. — Ele vai me matar — prosseguiu Kate. — De qualquer modo vai fazer isso! Vi parte de seu rosto. De onde você é? Há quanto tempo está aqui?

Naomi se sentia sufocada. Não conseguia respirar, mas continuava ali, encostada na porta, ouvindo cada palavra da mulher. Queria muito conversar com ela. — Ele deve ter me dado uma droga chamada Forane. E usada nos hospitais. Pode ser que seja médico. Por favor. Que temos a temer senão a tortura e a morte?

Naomi sorriu. Kate McTiernan tinha peito, e não lhe faltava senso de humor. Ouvir outra voz era incrivelmente bom.

As palavras se atropelaram em sua boca, saíram quase contra sua vontade:

— Eu me chamo Naomi Cross. Acho que estou aqui há oito dias. Ele se esconde atrás das paredes. Observa-nos o tempo todo. Acho que nem dorme. Ele me estuprou — disse claramente. Era a primeira vez que o dizia em voz alta. Ele me estuprou.

Kate respondeu imediatamente.

— Ele também me estuprou, Naomi. Eu sei que você está se sentindo terrivelmente mal... suja, toda suja. E bom ouvir sua voz, Naomi. Já não me sinto tão só.

— Eu também não, Kate. Agora, por favor, cale a boca. Lá embaixo, em seu quarto, Kate se sentiu muito cansada.

Cansada, mas com esperanças. Teve de se apoiar na parede ao ouvir outras vozes a seu redor.

— Maria Jane Capaldi. Acho que estou aqui há um mês.

— Meu nome é Kristen Miles. Oi!

— Melissa Stanfield. Sou estudante de enfermagem. Estou aqui há mais de dois meses.

— Christa Akers, da Estadual da Carolina do Norte. Há dois meses no inferno.

Havia pelo menos seis prisioneiras.

 

                   ESCONDE-ESCONDE

Beth Lieberman, uma jornalista de vinte e nove anos, do Los Angeles Times, olhou fixamente para as letras verdes e borradas de seu terminal de computador. Leu com olhos cansados aquela que era uma das maiores reportagens do jornal e que continuava a se desdobrar. Sem dúvida, tratava-se do trabalho mais importante de sua carreira, porém quase já não lhe importava.

— E tão louco, tão doente... pés — murmurou com um suspiro. — Pés.

A sexta parte do "diário" enviada pelo Cavalheiro Caller tinha chegado de manhã bem cedo a seu apartamento, em Los Angeles Oeste. Como nos registros cotidianos anteriores, o criminoso dava a localização exata do corpo de uma mulher assassinada, para, a seguir, iniciar a mensagem obsessiva e psicopática dirigida a ela.

Beth Lieberman telefonara imediatamente para o FBI, depois, tratou de ir logo para a redação do Times, na rua South Spring. Quando chegou, o FBI já tinha verificado o último homicídio.

O Cavalheiro deixara sua assinatura: flores frescas.

O cadáver de uma japonesinha de catorze anos havia sido encontrado em Pasadena. Como as outras cinco mulheres, Sunny Ozawa desaparecera sem deixar pista duas noites antes. Foi como se tivesse sido tragada pelo nevoeiro.

Até agora, Sunny Ozawa era a vítima mais jovem do Cavalheiro de que se tinha notícia. Ele havia deixado um arranjo de peônias em seu baixo ventre. As flores, naturalmente, lembram-me a lábia das mulheres, escrevera num de seus registros diários. O isomorfismo é óbvio, não?

Às quinze para as sete da manhã, as dependências do Times estavam desertas e sinistras. Ninguém deve estar acordado a esta hora, com exceção dos boêmios que ainda não foram para a cama, pensou Lieberman. O zumbido do ar-condicionado misturado ao ruído do tráfego lá fora a irritavam.

— Por que "os pés? — murmurou.

Sentando-se diante do computador, quase em estado de letargia, desejou nunca ter escrito o artigo sobre pornografia por correspondência na Califórnia. Fora assim que o Cavalheiro afirmava tê-la "descoberto"; assim a escolhera como "ligação com os demais cidadãos da Cidade dos Anjos'". Ele proclamava que estavam sintonizados na mesma "onda".

Após uma infinidade de reuniões administrativas de alto nível, o Los Angeles Times decidira publicar os registros cotidianos do assassino. Não havia dúvida de que eram realmente de autoria do Cavalheiro Caller.

Ele sabia onde se encontravam os corpos das vítimas antes da polícia. Também ameaçou cometer "assassinatos extras" caso o diário não fosse publicado para que todos os habitantes de Los Angeles o lessem durante o café da manhã. "Sou o último e, de longe, o maior", escrevera certa vez. Quem haveria de discutir isso?, perguntou-se Beth. Richard Ramirez? Caryl Chessman? Charles Manson?

O trabalho atual de Beth Lieberman consistia em ser o seu contato. Tinha também de fazer a edição das palavras do Cavalheiro. De modo algum os intensos registros gráficos diários podiam ser publicados intactos. Vinham salpicados de obscenidades e de violentíssimas descrições dos assassinatos.

Lieberman quase ouviu a voz do demente ao digitar o último registro no processador de texto. O Cavalheiro Caller estava falando com ela novamente, ou através dela.

Deixe-me falar de Surtny, ao menos o que sei de Sunny. Ouça-me, caro leitor. Esteja lá comigo. Seus pés eram tão pequeninos, delicados e inteligentes! E a melhor lembrança que guardo; nunca hei de me esquecer deles.

Beth Lieberman teve de fechar os olhos. Não queria saber daquela merda. Uma coisa era certa: o Cavalheiro Caller lhe tinha dado a primeira grande oportunidade no Times. Suas matérias assinadas apareciam na primeira página do jornal. O criminoso a transformara numa estrela.

Ouça-me. Esteja lá comigo.

Pense no fetichismo e em todas as deliciosas possibilidades que oferece de liberar a psique. Não seja medíocre. Abra a mente. Abra a mente agora! O fetichismo compreende uma série fascinante de prazeres que você pode estar perdendo.

Não sejamos sentimentais com relação à "jovem" Sunny. Sunny Ozawa participava das brincadeiras da noite. Ela mesma me contou, confidencialmente, é claro. Eu a apanhei no Monkey Bar. Fomos à minha casa, meu esconderijo, onde começamos a experimentar, a "curtir" a noite.

Ela me perguntou se eu já o havia feito com uma japonesa. Respondi que não, mas que tinha muita vontade de fazê-lo. Sunny disse que eu era um "perfeito cavalheiro". Fiquei muito honrado.

Dessa vez, pareceu-me que nada seria mais libertino que concentrar-me nos pés de uma mulher, acariciá-los enquanto fazia amor com Sunny. Estou falando em pés bronzeados, calçados com luxuosas meias de náilon e os caros sapatos de saltos altos da Saks. Estou falando de pezinhos inteligentes. Comunicadores sofisticadíssimos.

Escute. Para se apreciar de fato o show de mímica erótica dos pés de uma bela mulher, ela tem de estar deitada de costas, ao passo que o homem permanece de pé. Foi assim que fizemos hoje à noite.

Ergui as esbeltas pernas de Sunny e fiquei olhando para o lugar onde elas se juntavam de modo que a vulva se enrugasse junto às nádegas. Beijei-lhe muitas vezes as meias. Fixei-me em seu tornozelo bem desenhado, nas adoráveis linhas que conduziam ao lustroso sapato preto.

Concentrei toda a atenção nesse sapatinho maroto enquanto nosso ato febril imprimia rápidos movimentos a seus pés. Uns pezinhos que falavam comigo. Ah, que excitação incontrolável me brotou no peito! Era como se fossem pássaros vivos a piar e gorjear aqui.

Beth Lieberman parou de digitar e tornou a fechar os olhos. Que coisa! Tinha de deter as imagens que estavam surgindo dentro dela. Ele havia matado a menina de que falava tão alegremente.

Em breve, o FBI e a polícia de Los Angeles irromperiam na relativamente sonolenta redação do Times. Viriam com a costumeira bateria de perguntas. Eles mesmos ainda careciam de respostas. Nenhuma pista significativa até agora. Diziam que o Cavalheiro cometia "crimes perfeitos".

Os agentes do FBI iam querer passar horas falando nos pavorosos detalhes do homicídio. Os pés! O Cavalheiro havia amputado os pés de Sunny Ozawa com uma afiadíssima faca. Nenhum deles fora encontrado na cena do crime, em Pasadena.

A brutalidade era a sua marca registrada, mas também se tratava do único padrão consistente até agora. Mutilara órgãos sexuais no passado. Uma das vítimas, depois de sodomizada, tinha sido cauterizada. Ele abrira o peito e removera o coração de uma banqueira. Estaria fazendo experiências? Não era nada cavalheiresco ao escolher as vítimas. Era um doutor Jekill dos anos 90.

Beth Lieberman finalmente abriu os olhos e deparou com um homem magro e alto perto dela. Com um suspiro, franziu a testa.

Era Kyle Craig, o investigador especial do FBI.

Ele sabia alguma coisa que ela precisava desesperadamente saber, mas não lhe contaria nada. Sabia por que o vice-diretor do FBI viajara na semana anterior. Conhecia segredos que ela precisava conhecer.

— Olá, senhorita Lieberman. Tem alguma coisa para mim? — perguntou.

 

Picataque.

Era assim que caçava as mulheres. Assim agia na verdade, sempre assim. Nunca se expunha ao perigo. Adaptava-se a cada lugar escolhido para a caça. Fazia o possível para evitar qualquer tipo de complicação ou erro. Tinha paixão pela ordem e, sobretudo, pela perfeição.

Naquela tarde, ficou esperando pacientemente numa povoada galeria comercial da moda, em Raleigh, Carolina do Norte. Observava as mulheres atraentes que entravam e saíam da filial da Victoria's Secret, do outro lado do longo corredor de mármore. A maioria delas estava bem-vestida. Um exemplar da revista Time e também um do USA Today estavam dobrados no banco de mármore, a seu lado. A manchete do jornal dizia: O Cavalheiro Caller mata pela sexta vez em Los Angeles.

Pensou consigo mesmo que o "Cavalheiro" estava indo longe demais na Califórnia. Andava guardando suvenires macabros, fazendo às vezes duas mulheres por semana, propondo charadas idiotas ao Los Angeles Times, à policia local e ao FBI. Acabaria sendo capturado.

Casanova correu os olhos azuis pelo shopping center lotado. Era um homem bonito como o Casanova original. A natureza equipara o aventureiro do século 18 com beleza, sensualidade e grande entusiasmo pelas mulheres — e assim fizera com ele também.

Mas onde estava a deliciosa Anna? Havia entrado na Victoria's Secret — para comprar alguma bobagem fora de moda ao namorado, sem dúvida. Anna Miller e Chris Chapin estudaram direito juntos na Universidade Estadual da Carolina do Norte. Agora, Chris era sócio em um escritório de advocacia. Gostavam de vestir as roupas um do outro. Uma intimidade "extra". Casanova sabia tudo deles.

Fazia duas semanas que observava Anna onde pudesse. Era uma morena surpreendentemente bela, de vinte e três anos; talvez não chegasse a ser outra dra. Kate McTiernan, mas não ficava muito atrás.

Viu-a sair finalmente da Victoria's Secret e caminhar quase diretamente em sua direção. O dique de seus saltos altos lhe davam qualquer coisa de adoravelmente arrogante. Ela sabia que era de uma beleza extraordinária. E esta era sua melhor qualidade. Sua confiança suprema quase alcançava a dele.

Tinha um andar deliciosamente soberbo. Suas longas pernas, seu corpo, tudo nela era delineado com perfeição. Meias de náilon escuras; saltos altos por causa do emprego de meio período em Raleigh. Seios esculturais que ele desejava acariciar. Eram visíveis os contornos sutis de sua calcinha debaixo da saia justa. Por que era tão provocante? Porque podia.

Parecia ser inteligente também. Promissora, em todo caso. Só não fora bem em Revisão Legal Anna era cálida, doce, gentil. Uma apetitosa companhia. Ótima para esnobar. Seu namorado a chamava de "Anna Banana". Casanova adorava a terna e tola intimidade daquele apelido.

Tudo o que tinha a fazer era tomá-la para si. Nada mais simples.

Outra mulher muito atraente irrompeu subitamente em seu campo visual. Sorriu-lhe, ele também lhe sorriu. Levantando-se, foi ao seu encontro. Ela estava carregada de embrulhos e sacolas.

— Olá, beleza — disse ao se aproximar. — Posso ajudá-la? Não carregue tanto peso, querida.

— Você é um doce — respondeu a mulher. — Sempre foi. O mais romântico dos homens.

Casanova beijou o rosto da esposa e a ajudou com os pacotes. Era uma mulher elegante, segura de si. Estava de jeans, blusa de brim azul bem solta e um blazer de tweed marrom. Vestia-se bem. Era eficaz em muitas coisas. Ele a escolhera com extremo cuidado.

Ao pegar os embrulhos, entreteve-se com o mais doce dos pensamentos: Vão demorar mil anos para me apanhar. Não saberiam por onde começar a me procurar. Jamais veriam além deste maravilhoso disfarce, desta máscara de sanidade. Estou acima de qualquer suspeita.

— Vi que você estava de olho numa ninfeta. Belas pernas — disse-lhe a esposa com um sorriso sábio e um olhar malicioso. — Tudo bem enquanto se limitar a olhar.

— Você me pegou — respondeu Casanova. — Mas as suas pernas são mais bonitas que as dela.

Sorriu com seu charme costumeiro. Mesmo nesse momento, um nome lhe explodiu na mente. Anna Miller. Simplesmente tinha de possuí-la.

 

Foi difícil.

Tratei de exibir um sorriso feliz ao entrar em casa, em Washington. Estava precisando de um dia de folga. Mais importante, tinha prometido um encontro com meus familiares, para lhes falar da situação de Naomi. Também já não suportava as saudades de meus filhos e de Nana. Sentia-me como se estivesse em casa de licença durante uma guerra.

A última coisa que eu queria era que Nana e as crianças soubessem quanto estava aflito com relação a Scootchie.

— Nada ainda — disse a Nana e aos meninos ao beijá-la. — Mas estamos fazendo pequenos progressos. — E tratei de me afastar antes que ela pudesse me examinar.

No centro da sala, entreguei-me à representação da cena do pai que acaba de chegar do trabalho. Cantei Papai chegou, papai chegou". Nada das versões de Shep ou Limelites; era meu tom original. Ergui Jannie e Damon nos braços.

— Damon, você cresceu e ficou mais forte, está mais bonito que o príncipe do Marrocos. Jannie, você também cresceu, está mais forte e linda, como uma princesa — disse a meus filhos.

— Você também, papai! — As crianças devolveram imediatamente o mesmo tipo de despropósito.

Ameacei também carregar minha avó, porém Nana Mama se pôs muito séria e sacudiu o dedo em sinal de advertência. Um gesto familiar.

— Não se atreva, Alex — sorriu ao mesmo tempo em que fingia um olhar feroz. Ela é capaz disso. "Décadas de prática", costuma dizer. "Séculos", retruco sempre.

Beijei-a novamente. Depois, peguei os meninos "na palma das mãos". Segurei-os do modo como os grandalhões costumam fazer com as bolas de basquetebol, como se não fossem mais que a extensão de seus braços.

— Vocês se comportaram, malandrinhos? Arrumaram o quarto, fizeram os deveres, comeram verdura?

— Sim, papai! — gritaram os dois em uníssono. — Nós nos comportamos como anjos — acrescentou Jannie.

— Não estão mentindo? Comeram verdura? Até mesmo brócolis? Não vão mentir tão descaradamente ao papai, vão? Telefonei ontem às dez e meia da noite, e os dois ainda estavam acordados. E têm a coragem de me dizer que se comportaram. Como anjos!

— Nana deixou! — riu-se Damon com indisfarçável alegria. Esse pequeno vigarista sempre tem um argumento na ponta da língua, coisa que me preocupa às vezes. E um ator natural, mas também o engenhoso criador de seus próprios papéis. E tem um senso de humor surpreendente.

Por fim, abri minha mala de viagem para pegar os presentes.

— Bem, neste caso, trouxe uma coisa "pr'ocês" de minha viagem ao Sul. Agora eu falo assim, "pr'ocês", aprendi na Carolina do Norte.

— "Pr'ocês" — gritou Jannie. E, rindo às gargalhadas, improvisou umas piruetas de bailarina. Era doce e carinhosa. Quando eu chegava em casa, grudava em mim como fita adesiva. Exatamente como fazia Naomi na infância.

Retirei umas camisetas da equipe de basquete da Universidade da Carolina do Norte para Jannie e Damon. Os dois têm de ganhar a mesma coisa. Exatamente o mesmo desenho. Exatamente a mesma cor. Isso há de durar alguns anos ainda, depois, nenhum deles quererá ser visto com qualquer coisa vagamente associada ao outro.

— Obrigado "pr'ocê" — disseram os meninos. Eu sentia claramente o seu amor, como era bom estar em casa. Mesmo que apenas de licença. São e salvo durante algumas horas.

Voltei-me para Nana.

— Aposto que pensou que me esqueci de você.

— Você nunca se esquece de mim, Alex — respondeu Nana Mama olhando para mim com desconfiança.

— E um direito seu, minha velha.

— Claro que é. — Ela jamais abre mão da última palavra. Tirei um bonito embrulho de minha caixa de surpresas e

maravilhas. Nana o abriu e nele encontrou o mais bonito suéter feito a mão que eu já tinha visto. Fora tricotado em Hillsborough, na Carolina do Norte, por mulheres de oitenta e noventa anos, que ainda trabalhavam para viver.

Nana ficou sem ter o que dizer. Nenhuma réplica espirituosa. Ajudei-a a vestir o suéter, e ela ficou com ele o resto do dia. Estava bonita, orgulhosa e satisfeita, como eu gostava de vê-la.

— Que presente bonito — disse finalmente com voz ligeiramente embargada. — Mas o melhor presente é tê-lo em casa novamente, Alex. Eu sei que você é um homem valente, mas fiquei preocupada.

Nana Mama sabia que ainda não devia fazer perguntas sobre Scootchie. Também sabia exatamente o que significava o meu silêncio.

 

O final da tarde, formigavam cerca de trinta amigos e parentes na casa da rua Cinco. A investigação na Carolina do Norte era o tema central de todas as discussões. Era natural, muito embora soubessem que eu lhes teria transmitido qualquer boa notícia que tivesse. Procurei dar-lhes esperanças ainda que vagas. Era o máximo que podia fazer.

Sampson e eu finalmente fomos nos sentar no alpendre dos fundos depois de haver tomado algumas cervejas importadas a mais e comido uns bifes a menos. Ele tinha de escutar; eu estava precisando ter uma conversa de tira com meu parceiro e amigo.

Contei-lhe tudo o que havia acontecido na Carolina do Norte. Ele compreendeu as dificuldades da investigação e da caçada humana. Trabalhara comigo em casos difíceis, sem pistas.

— No começo, eles me isolaram completamente. Não me davam a mínima. Depois, melhorou um pouco — relatei. — Os detetives Ruskin e Sikes me visitam e me mantêm informado. Pelo menos Ruskin. Às vezes, chega a ser prestativo. Kyle Craig também está no caso. O FBI ainda não quer me contar o que sabe.

— Tem idéia do motivo, Alex? — Sampson queria saber. Ouvia-me com muita atenção e ocasionalmente manifestava uma opinião.

— Talvez uma das mulheres seqüestradas esteja ligada a algum figurão. Talvez o número de vítimas seja muito superior ao que admitem. Talvez o assassino tenha relação com alguém poderoso ou influente.

— Você não precisa voltar para lá — disse Sampson depois de ouvir todos os detalhes. — Parece que já têm "profissionais" demais no caso. Não comece com suas vendetas, Alex.

— Já comecei. Acho que Casanova está gostando de nos ver atolados em seus crimes perfeitos. Diverte-se com minha frustração. Deve haver outra coisa, que ainda não consigo imaginar. Acho que ele agora está sob pressão.

— Hum-hum. Para mim, é você quem está sob pressão, Alex. Olhe, não queira bancar o Sherlock com esse maluco pervertido. — Não respondi. Limitei-me a sacudir a cabeça, a dura cabeça. — E se você não conseguir pegá-lo? — disse Sampson depois de uma pausa. — E se não conseguir solucionar o caso? Precisa pensar nisso também, meu velho.

Era uma possibilidade que eu não estava disposto a levar em conta.

 

Ao despertar, Kate McTiernan percebeu de imediato que algo andava muito errado, que sua situação absurda piorara ainda mais.

Não sabia que horas eram, que dia era, onde se encontrava. Sua vista estava turva, o pulso, irregular; e os sinais vitais, uma miséria.

Nos poucos minutos que passara consciente, tinha oscilado entre a sensação de extremo distanciamento, a depressão e o pânico. Que lhe dera aquele sujeito? Que droga produzia tais sintomas? Se conseguisse desvendar aquele quebra-cabeça, significava que ainda estava lúcida ou que pelo menos ainda conseguia pensar com certa clareza.

Talvez fosse Klonopin, pensou.

Que ironia, o Klonopin costumava ser prescrito como ansiolítico. Porém, se lhe tivesse dado a dosagem suficiente, digamos, cinco a dez miligramas, ela experimentaria aproximadamente os mesmos efeitos colaterais que estava sentindo agora.

E se tivesse usado Marinol em cápsulas? Era o medicamento indicado no tratamento das náuseas provocadas pela quimioterapia. Kate sabia que o Marinol era uma bomba. Se ele lhe administrasse uns duzentos miligramas por dia, mal conseguiria ficar de pé. Boca seca. Desorientação. Períodos de depressão profunda. Uma dosagem de mil e quinhentos a dois mil miligramas seria letal.

Seu plano de fuga fora anulado por drogas poderosas. Não havia como resistir naquele estado. O caratê era inútil. Casanova pensara em tudo.

— Filho da puta — disse em voz alta, embora raramente proferisse palavrões. — Seu grande filho da puta — sussurrou entre os dentes.

Não queria morrer. Tinha apenas trinta e um anos. Estava finalmente preparada para ser médica, uma boa médica, esperava. Por que eu? Tomara que não aconteça. Esse homem, esse maníaco horrendo, vai me matar sem motivo algum!

Um calafrio lhe percorreu a espinha. Ela sentiu que ia vomitar ou quem sabe desmaiar. Hipotensão ortostática, pensou. Era o termo médico para o desfalecimento quando a pessoa se levantava muito depressa da cama ou da cadeira.

Não tinha como defender-se! Ele a queria impotente e aparentemente o havia conseguido. Era o que mais a atingia. Kate começou a chorar. E isto lhe aumentava a raiva.

Não quero morrer.

Não quero morrer.

Como hei de evitar que isso aconteça?

Como deter esse maluco?

A casa estava em silêncio novamente. Ele devia ter saído. Kate precisava desesperadamente conversar com alguém. Com as outras prisioneiras. Tinha de conseguir levantar-se.

Casanova podia estar escondido. Esperando. Observando-a naquele exato momento.

— Olá! — gritou enfim, surpresa com a aspereza da própria voz. — Aqui é Kate McTiernan. Por favor, escutem. Ele me deu muitas drogas. Acho que vai me matar em breve. Disse que ia. Estou com muito medo... Não quero morrer.

Repetiu uma vez mais a mesma mensagem, palavra por palavra.

Tornou a repeti-la.

Tudo era silêncio; ninguém respondia. As outras mulheres também estavam com medo. Faltava pouco para que se petrificassem. Então, uma voz desceu de algum lugar acima dela. A voz de um anjo.

O coração de Kate saltou. Ela a reconheceu. Ouviu cada palavra de sua brava amiga.

— Aqui é Naomi. Talvez possamos nos ajudar mutuamente de algum modo. Sempre que ele nos reunir, Kate. Você ainda está em fase de prova. Ele nos manteve a todas aí embaixo no começo. Por favor, não lute com esse cara! Não podemos continuar conversando. E muito perigoso. Você não vai morrer, Kate.

Outra mulher gritou:

— Tenha coragem, Kate. Seja forte para o nosso bem. Mas não forte demais.

Então, as mulheres se calaram; o silêncio e a solidão retornaram ao quarto.

A droga que ele lhe dera estava fazendo efeito agora. Kate McTiernan teve a impressão de que ia enlouquecer.

 

Casanova ia matá-la, não ia? Em breve a mataria.

No terrível silêncio e na solidão, Kate sentiu uma irresistível necessidade de rezar, de falar com Deus. Será que Ele a ouviria naquele lugar grotesco?

Perdoai-me por ter acreditado apenas parcialmente em Vós nos últimos anos. Não sei se sou agnóstica, mas pelo menos sou sincera. Tenho muito senso de humor. Mesmo quando o humor é inadequado.

Sei que não se trata de "fazer um trato", mas, se me puderdes salvar desta situação, ficarei eternamente agradecida.

Perdoai-me. Eu vivo dizendo que isto não pode acontecer comigo, mas está acontecendo. Por favor, ajudai-me. Esta não foi a melhor de Vossas idéias...

Estava rezando com tanto fervor, com tanta concentração, que não o ouviu entrar. Ele nunca fazia barulho. Era um fantasma. Uma sombra.

— Você não escuta mesmo, hem? Você não aprende! — disse Casanova.

Trazia na mão uma seringa. Estava com uma máscara roxa com grossas pinceladas de tinta branca e azul. Era a mais repugnante e medonha que usara até então. As máscaras correspondiam a seu humor, não?

Kate tentou dizer não me machuque, mas a voz lhe falhou. Apenas um som inarticulado lhe escapou dos lábios.

Ia matá-la.

Ela não conseguia levantar-se, sequer sentar-se, porém endereçou-lhe o que lhe pareceu um débil sorriso.

— Oi... que bom vê-lo aqui — logrou articular. Tinha sido compreendida? Não sabia ao certo.

Ele disse alguma coisa, alguma coisa importante, mas ela não tinha idéia do que se tratava. As misteriosas palavras lhe ecoaram no cérebro... um blablablá sem sentido. Tentava escutar o que estava dizendo. Tentava com tanto afinco...

— A doutora Kate falou com as outras... violou as regras! A melhor de todas, a melhor!... Podia ter sido... tão inteligente que acaba sendo burra!

Kate fez que sim, como se tivesse entendido o que ele acabava de lhe dizer, como se lhe tivesse acompanhado perfeitamente as palavras e a lógica. Era evidente que sabia que ela se comunicara com as outras. Estaria dizendo que era tão inteligente que acabava sendo burra? Era verdade. Você acertou, companheiro.

— Eu queria... conversar — conseguiu dizer. Sua língua parecia encasulada num chumaço de algodão. O que pretendia propor era vamos conversar. Vamos discutir o assunto. Precisamos conversar.

Ele não parecia muito disposto a falar desta vez. Estava encerrado dentro de si. Muito distante. O homem de gelo. Totalmente desumano. E aquela máscara sinistra: sua personagem era a Morte.

Encontrava-se a menos de três metros dela, a pistola narcotizante numa das mãos, a seringa na outra. Médico, gritou-lhe a mente. Ele é médico, não é?

— Não quero morrer. Tenha piedade — conseguiu dizer com grande esforço. — vou me vestir já... saltos altos...

— Se tivesse pensado nisso antes, doutora Kate, não estaria violando as regras de minha casa cada vez que tem oportunidade. Você foi um erro. E eu não costumo cometer erros.

Ela sabia que o choque elétrico da arma a imobilizaria. Tentou concentrar-se no que podia fazer para se salvar.

Estava funcionando somente com o piloto automático agora. Todos os reflexos aprendidos. Um pontapé' direto, um único verdadeiro pontapé, pensou. Mas era impossível naquele momento. Esforçou-se ao máximo. Concentração total. Todos os anos de treinamento de caratê convergiam para aquela precaríssima chance de se salvar.

A última chance.

 

Disseram-lhe mil vezes que se fixasse num único alvo. E que tratasse de usar a força e a energia do inimigo contra ele. Foco total. Tanto quanto lhe era possível naquele estado.

Ele se aproximou e apontou a pistola para seu peito. Vinha decidido.

Kate gritou "ki-ai!" ou algo parecido. Era o melhor que podia fazer no momento. E chutou com toda a força que lhe restava. Visando a virilha. Um golpe capaz de incapacitá-lo. Queria matá-lo.

Errou o chute de sua vida, mas algo aconteceu. Chocou-se com carne e osso.

Não foi a virilha, não chegou nem mesmo perto do alvo escolhido. O pontapé o atingiu no quadril ou na coxa. Pouco importava — machucara-o.

Casanova deixou escapar um grito de dor. Um vira-lata atropelado por um carro em alta velocidade. Era evidente que também estava surpreso. Recuou bruscamente.

Quer dizer que Davi tinha atingido Golias? Kate McTiernan quis gritar de alegria.

Conseguira feri-lo.

Casanova tinha caído.

 

Eu, estava de volta. Novamente no Sul, novamente mergulhado na investigação daqueles hediondos seqüestros e homicídios. Sampson tinha razão — desta vez era pessoal. Era também um caso impossível, do tipo que podia durar anos.

Fazia-se o que se podia fazer. Havia onze suspeitos em observação em Durham, Chapei Hill e Raleigh. Entre eles figuravam os mais variados marginais, mas também professores universitários, médicos e inclusive um tira aposentado de Raleigh. Por conta dos crimes "perfeitos", todos os policiais da região tinham sido checados pelo bureau.

Não me ocupava de tais suspeitos. Minha missão consistia em procurar onde ninguém estava procurando. Era esse o trato que tinha feito com Kyle Craig e o FBI. Eu corria por fora.

Muitos outros casos estavam sendo investigados àquela época em todo o país. Li centenas de relatórios do FBI. Um assassino de homossexuais em Austin, no Texas. Um maníaco que matava senhoras idosas em Ann Arbor e Kalamazoo, em Michigan. Serial

Külers em Chicago, North Palm Beach, Long Island, Oakland e Berkeley.

Li até que me ardesse a vista, até sentir-me ainda pior.

Havia um caso sórdido que começava a ocupar as manchetes nacionais — o Cavalheiro Caller, de Los Angeles. Verifiquei os "diários" do criminoso no Nexus. Estavam sendo publicados pelo Los Angeles Times desde o começo do ano. Comecei a lê-los. Fiquei estarrecido com a última reportagem do Times. Perdi o fôlego. Mal podia acreditar na matéria que estava na tela do computador.

Voltei para o começo. Reli o texto devagar, palavra por palavra.

Era a história de uma jovem que estava sendo mantida "prisioneira" pelo Cavalheiro Caller, na Califórnia.

Seu nome era Naomí C. Ocupação: estudante de direito, segundo ano.

Descrição: negra, muito bonita. Vinte e dois anos.

Naomi tinha vinte e dois anos... estava no segundo ano da faculdade de direito... Como podia um assassino selvagem, que matava para se divertir, em Los Angeles, saber o que quer que fosse sobre Naomi Cross?

 

Telefonei imediatamente para a jornalista cujo nome aparecia nas reportagens diariamente publicadas. Chamava-se Beth Lieberman. Ela mesma atendeu o telefone no Los Angeles Times.

— Meu nome é Alex Cross. Estou investigando os assassinatos de Casanova na Carolina do Norte — disse-lhe com o coração aflito.

— Sei muito bem quem é o senhor, doutor Cross — atalhou a moça. — Está escrevendo um livro sobre o assunto. Eu também. Por razões óbvias, acho que não posso lhe dizer nada. Meu projeto de livro está circulando agora em Nova York.

— Escrevendo um livro? Quem lhe disse isso? Não estou escrevendo coisa nenhuma. — Meu tom de voz estava se elevando apesar de minhas melhores intenções. — Eu estou investigando uma série de seqüestras e homicídios na Carolina do Norte. Só isso.

— O chefe dos investigadores de Washington me disse outra coisa, doutor Cross. Telefonei para ele quando soube de seu envolvimento com o caso Casanova.

El Jefe ataca de novo, pensei. Meu velho chefe na capital, George Pittman, era mesmo um bom filho da puta, sem contar que não ia com a minha cara.

— Escrevi um livro sobre Gary Soneji — expliquei. — Pretérito perfeito. Precisava pôr aquilo para fora. Confie em mim, eu estou...

— Conversa fiada!

Beth Lieberman bateu o telefone.

— Filho da puta — rosnei com o fone emudecido na mão.

Tornei a discar o número do jornal. Dessa vez, atendeu uma secretária.

— Lamento — disse ela rapidamente. — A senhorita Lieberman acaba de sair, não deve retornar hoje.

Minha irritação aumentou.

— Só se ela tiver saído em dez segundos. Foi o tempo que demorei para discar novamente. Por favor, chame a senhorita Lieberman. Eu sei que está aí. Quero falar com ela agora.

A secretária também desligou.

— Você é outra filha da puta! — gritei com raiva. — Para o inferno com as duas!

Agora, estavam me boicotando em duas cidades. E o pior era que eu podia estar chegando a algum lugar. Haveria uma estranha conexão entre Casanova e o assassino da Costa Oeste? Como podia o Cavalheiro Caller saber de Naomi? Será que sabia de mim também?

Não passava de um palpite, mas eu não podia simplesmente deixá-lo de lado. Telefonei para o editor-chefe do Los Angeles Times. Foi mais fácil chegar ao manda chuva que à sua repórter. Seu assistente era um homem. Atendeu com voz animada, eficiente, mas tão agradável quanto um brunch de domingo no Ritz-Carlton, em Washington.

Contei-lhe que era o dr. Alex Cross, que participara das investigações do caso Soneji e que tinha algumas informações importantes sobre o caso Cavalheiro Caller. Dois terços do que disse eram a mais pura verdade.

— vou avisar o senhor Hills — respondeu o rapaz, ainda parecendo felicíssimo por falar comigo. Imaginei que devia ser interessante ter um assistente assim.

Não demorou muito para que o editor-chefe atendesse o telefone em pessoa.

— Alex Cross. Aqui é Dan Hills. Li a seu respeito durante as diligências para capturar Soneji. Alegro-me com seu telefonema, principalmente se tem alguma coisa para nós neste caso caótico.

Conversando com Dan Hills, imaginei-o um homenzarrão de quase cinqüenta anos. Firme, sem dúvida, mas também um almofadinha californiano. Camisa listrada com as mangas arregaçadas até os cotovelos. Gravata pintada a mão. Stanford em tudo. Pediu-me que o chamasse de você. Tudo bem, por que não? Parecia ser um cara legal. Provavelmente, tinha um Pulitzer ou dois.

Falei-lhe de Naomi e de meu envolvimento no caso da Carolina do Norte. Também lhe falei da referência a Naomi no "diário" publicado pelo Los Angeles Times.

— Lamento o desaparecimento de sua sobrinha — disse Dan Hills. — Imagino o que deve estar passando. — Houve um silêncio. Temi que ele resolvesse bancar o politicamente correto comigo. — Beth Lieberman é uma boa repórter em início de carreira. É um pouco dura, mas profissional. É uma grande reportagem para ela e para nós também, é claro.

— Escute — interrompi Hills (tinha de fazê-lo) —, Naomi me escrevia praticamente uma carta por semana. Guardei essas cartas, todas elas. Eu ajudei a criá-la. Somos muito apegados. Isso significa muito para mim.

— Estou escutando. vou ver o que posso fazer. Não posso prometer nada.

— Não precisa prometer, Dan.

Cumprindo a palavra dada, Dan Hills me telefonou uma hora mais tarde, no escritório do FBI.

— Conversei com Beth. Como você pode imaginar, isto nos coloca a ambos numa situação desconfortável.

— Compreendo. — Estava me preparando para receber uma paulada, mas foi outra coisa que obtive.

— Há referências a Casanova nas versões não-publicadas do diário que o Cavalheiro enviou a Beth. É possível que os dois criminosos estejam em contato, talvez intercambiando suas façanhas. Quase como se fossem amigos. Parece que estão se comunicando por algum motivo.

Bingo!

Os monstros estavam em contato.

Agora eu sabia o que o FBI vinha mantendo em segredo, o que receava que viesse a público. Havia serial killers de uma costa à outra.

 

Corra! Vá! Corra o mais que pode! Suma daqui!

Kate McTiernan vacilou e saiu cambaleante pela pesada porta de madeira que ele havia deixado aberta atrás de si.

Não sabia quanto Casanova estava ferido. Fugir era seu único pensamento. Vá embora! Fuja dele enquanto pode.

A mente lhe estava pregando peças. Imagens desconexas e confusas iam e vinham. A droga, fosse qual fosse, estava em pleno efeito. Ela se sentia desnorteada.

Tocando o próprio rosto, percebeu que estava molhado. Seriam lágrimas? Nem disso era capaz de ter certeza.

Mal conseguiu subir uma íngreme escada de madeira do lado de fora. Levava a outro andar? Tinha vindo por aquela escada? Não se lembrava. Não se lembrava de nada.

Estava definitivamente confusa e atrapalhada. Tinha de fato derrubado Casanova ou era alucinação?

Ele a estava perseguindo? Estava subindo a escada correndo naquele momento? O sangue rugia em seus ouvidos. Ela se sentia atordoada a ponto de cair.

Naomi, Melissa Stanford, Christa Akers. Onde estavam elas?

Tinha uma dificuldade enorme para caminhar. Foi cambaleando como um bêbado pelo longo corredor. Em que diabo de estranha estrutura se encontrava? Parecia uma casa. As paredes eram novas, recém-construídas, mas que casa era aquela?

— Naomi! — chamou, porém a voz mal lhe saiu. Não conseguia se concentrar, não podia fitar os olhos em nada por mais de alguns segundos. Quem era Naomi? Não se lembrava bem.

Detendo-se, puxou com força uma maçaneta. A porta não se abria. Por que estava trancada? Que estava ela procurando, afinal? Que estava fazendo ali? As drogas não lhe permitiam pensar claramente.

vou entrar em choque, trauma, pensou. Sentia tanto frio agora, tanto torpor! Tudo galopava descontroladamente dentro dela.

Ele vem vindo me matar. Está atrás de mim!

Fuja!, ordenou a si mesma. Encontre a saída. Concentre-se nisso! Vá buscar ajuda.

Aproximou-se de uma segunda escada de madeira, que parecia antiga, quase de outra época. Havia sujeira espalhada nos degraus. Terra. Pedregulho. Cacos de vidro. A escada era mesmo velha. Não como a madeira nova das paredes.

Não conseguiu manter o equilíbrio. Caiu repentinamente para a frente, quase batendo o queixo no segundo degrau. Começou a engatinhar, a escalar a escada. Estava de joelhos. Subindo. Para onde? Um sótão? Onde iria parar? Ele estaria lá em cima, à sua espera, com a arma ímobilizadora e a seringa?

De súbito, viu-se do lado de fora! Estava realmente fora da casa! Tinha conseguido.

Kate McTieman foi ofuscada pelos raios de sol, mas o mundo nunca lhe parecera tão belo. Respirou o doce aroma das árvores: carvalhos, sicômoros, os majestosos pinheiros da Carolina, sem ramos, a não ser na extremidade. Olhou para as árvores e para o céu alto, muito alto, e chorou. As lágrimas lhe banharam o rosto.

Viu os altíssimos pinheiros. As trepadeiras parasitas se estendiam de uma copa a outra. Ela também crescera numa floresta assim.

Fuja!, lembrou-se de repente. Casanova. Tentou correr alguns passos. Caiu novamente. Pondo-se de quatro, conseguiu se levantar uma vez mais. Fuja! Vá embora daqui!

Kate girou o corpo. Continuou girando, traçando círculos — uma, duas, três vezes — até quase tornar a cair.

Não, não, não! A voz gritava dentro dela. Não podia acreditar nos próprios olhos, não podia confiar em nenhum de seus sentidos.

Era uma loucura, uma sinistra loucura. O mais pavoroso dos pesadelos. A casa não estava ali. Não a via em parte alguma por mais que girasse sob o alto pinheiral.

A casa onde estivera presa tinha desaparecido completamente.

Corra! Mexa essas pernas depressa, uma depois da outra. Mais depressa! Rápido, garota. Trate de fugir dele.

Tentou concentrar-se na busca de uma saída daquela sombria e densa floresta. Os altos pinheiros eram como guardachuvas a filtrarem a luz sobre a vegetação que crescia ao redor. Não havia claridade suficiente para os jovens arbustos, que se erguiam como esqueletos de árvores.

Ele devia estar no seu encalço agora. Tinha de tentar capturá-la, e, se o conseguisse, iria matá-la. Kate tinha certeza de não havê-lo machucado seriamente, embora tivesse tentado.

Avançou correndo em ritmo irregular e tropeçando a cada passo. O solo era macio como esponja, um tapete de folhas e pinhas secas. Longos e magros espinheiros cresciam em linha reta, em busca da luz do sol. Ela se sentia um espinheiro também.

Tenho de descansar... esconder-me... até passar o efeito da droga, murmurava consigo mesma. Depois, buscar socorro... a única coisa lógica a fazer. Chamar a polícia.

Foi quando ouviu passos às suas costas. Era ele. Vinha gritando seu nome.

— Kate! Kate! Pare já! — Sua voz ecoava no bosque. Aquilo só podia significar que não havia ninguém num raio de quilômetros; ninguém para socorrê-la naquele maldito lugar. Estava sozinha.

— Kate! Eu vou pegá-la! E inevitável, pare de correr!

Ela subiu um morro íngreme e rochoso, que, em seu estado de exaustão, pareceu-lhe o monte Everest. Uma serpente negra estava tomando sol numa pedra. Parecia um galho caído, e Kate quase parou para apanhá-lo. Queria usá-lo como apoio.

Assustada, a cobra fugiu para o mato, e ela receou estar novamente com alucinações.

— Kate! Kate! Sua maldita! Agora eu estou puto da vida!

Ela caiu num emaranhado de madressilvas e rochas pontiagudas. Apesar da dor intensa na perna esquerda, tratou de se levantar. Esqueça o sangue, esqueça a dor. Vá em frente.

Você tem de escapar desta. Tem de buscar socorro. Continue correndo. Você é mais inteligente, mais rápida, conta com mais recursos do que imagina. Vai conseguir!

Ouviu-o subindo a inclinada ladeira — o flanco do monte — que ela acabava de galgar. Estava muito próximo.

— Estou bem aqui, Kate! Ei, Katie, estou chegando. Não vou demorar.

Ela se voltou enfim. Estava dominada pela curiosidade, pelo pavor.

Casanova vinha subindo com facilidade. Ela via sua camisa de flanela branca entre as árvores quase pretas, via-lhe o longo cabelo louro. Casanova! Ainda estava mascarado. A arma narcotizante ou alguma outra na mão.

Estava rindo? Por que se ria agora?

Kate parou de correr. Toda esperança de escapar a abandonou subitamente. Experimentou um brusco momento de choque e incredulidade; gritou angustiada. Ia morrer ali mesmo, sabia disso.

— Seja feita a vontade de Deus — sussurrou. Era tudo o que existia naquele momento, nada mais.

O topo da ladeira morria abruptamente num desfiladeiro. No fundo, a uns trinta metros, havia pedras nuas, puras rochas. Apenas uns pinheiros raquíticos cresciam no solo pedregoso. Não havia onde se esconder, aonde correr. Que lugar triste e solitário para morrer.

— Coitadinha da Katie! — gritou Casanova. — Pobrezinha. Ela se voltou novamente para vê-lo. Ali estava! A quarenta

metros, a trinta, a vinte. Subia a íngreme ladeira observando-a. Não tirava os olhos dela. A máscara pintada parecia imóvel, fixada em sua vítima.

Kate se voltou, dando as costas para a máscara da morte. Olhou para o fundo do desfiladeiro de pedras e árvores. Deve ter uns trinta metros ou mais, pensou. A vertigem era quase tão terrível quanto a mortal alternativa que a encalçava. Ela o ouviu gritar:

— Kate, não!

Mas não olhou para trás.

Saltou.

Abraçou os joelhos e assim ficou. Exatamente o meu salto de bola de canhão na piscina, pensou consigo mesma.

Havia um riacho lá embaixo. A fita azul-prateada de água se aproximava incrivelmente depressa. Seu rumor tornava-se cada vez mais alto.

Não tinha idéia da profundidade daquelas águas, mas um pequeno córrego não podia ser muito fundo. Meio metro? Um metro talvez? Uns dez metros se aquele fosse o momento mais feliz de sua vida, coisa de que duvidava sinceramente.

— Kate! — Ela ouviu o grito vindo do alto. — Você está morta.

Viu pequenas protuberâncias claras — que significavam pedras sob a líquida encrespação. Oh, Santo Deus, não quero morrer.

Chocou-se com uma parede de água gelada — com violência.

Tocou o fundo tão depressa quanto se não houvesse água nenhuma na veloz correnteza. Sentiu muita dor, uma dor terrível em todo o corpo. Engoliu água. Percebeu que estava se afogando. Acabaria morrendo de qualquer modo. Já não tinha forças — seja feita a vontade de Deus.

 

O detetive Nick Ruskin me telefonou, informando que haviam encontrado outra mulher, e que não se tratava de Naomi. Uma residente de trinta e um anos, de Chapei Hill, fora retirada do rio Wykagil por dois garotos que estavam pescando.

Veio me apanhar, com o Saab Turbo verde, em frente à Pensão Washington Duke. Ele e Davey Sikes vinham se mostrando mais colaboradores ultimamente. Sikes ia tirar um dia de folga, o primeiro em um mês, segundo seu parceiro.

Ruskin parecia contente por me ver. Parando o carro diante da pensão, apertou-me a mão como se fôssemos velhos amigos. Como sempre, estava vestido para o sucesso. Paletó esporte preto Armani. Camiseta preta.

As coisas haviam melhorado um pouco para mim no Sul. Com certeza, Ruskin sabia que eu tinha contatos no FBI e também desejava usá-los. Era sem dúvida um cara esperto. E aquele caso podia ser muito importante em sua carreira.

— Nossa primeira boa dica — disse-me.

— Que sabe dessa residente até agora? — perguntei, quando nos dirigíamos ao Hospital da Universidade da Carolina do Norte.

— Está lá. Ao que parece, veio descendo o Wykagil como um peixe. Dizem que é um milagre. Nem sequer uma fratura grave. Mas se encontra em estado de choque ou coisa pior. Não consegue falar, não disse uma palavra. Os médicos usam termos como choque catatônico ou pós-traumático. Quem há de saber? Ao menos está viva. — Ruskin tinha muito entusiasmo e não deixava de ser carismático. Era evidente que queria usar meus contatos. Talvez eu conseguisse usar os dele.

— Ninguém sabe como foi parar no rio. Nem como escapou dele. Estávamos entrando na cidade universitária de Chapei Hill.

A idéia de Casanova espreitando as estudantes para seqüestrá-las era um terror ali. A cidadezinha bonita parecia tão vulnerável!

— Nem se ela estava mesmo com Casanova — acrescentei.

— Não temos certeza disso.

— Não sabemos porra nenhuma, sabemos? — queixou-se Nick Ruskin quando entramos numa rua transversal com uma placa de sinalização: HOSPITAL. — Mas vou lhe contar uma coisa, esta história vai se tornar pública, vamos ter muito barulho. O circo já está na cidade. Olhe aí adiante.

Tinha razão. A cena do lado de fora do Hospital da Universidade da Carolina do Norte era uma verdadeira balbúrdia. Dezenas de repórteres da imprensa escrita e da televisão estavam acampados no estacionamento, no saguão e em todo o verde relvado da universidade.

Tanto Ruskin quanto eu fomos fotografados ao chegar. Ele ainda era a estrela local. As pessoas pareciam gostar dele. Eu estava me tornando uma pequena celebridade ou pelo menos uma curiosidade no caso. Minha atuação nos seqüestros de Gary Soneji já tinha sido divulgada pelas emissoras locais. Eu era o dr. detetive Cross, o especialista em monstros humanos que viera do Norte.

— Conte o que está acontecendo — pediu uma jornalista.

— Dê uma dica, Nick. Qual é a verdadeira história de Kate McTiernan?

— Se tivermos sorte, talvez ela nos conte. — Ele sorriu para a moça e continuou caminhando até que nos víssemos a salvo no interior do hospital.

Ruskin e eu estávamos longe de ser os primeiros da fila, mas fomos autorizados a ver a residente mais tarde. Kyle Craig mexera os pauzinhos para mim. Estabeleceu-se que Katy McTiernan não era psicótica, mas estava sofrendo da síndrome de estresse pós-traumático. Pareceu-me um diagnóstico razoável.

Não havia nada que eu pudesse fazer naquela noite. Mesmo assim, fiquei depois que Nick Ruskin foi embora e li o prontuário, as anotações da enfermagem e demais escritos.

Examinei os relatórios policiais que descreviam como ela fora encontrada por dois meninos de doze anos que haviam cabulado aula para pescar e fumar à beira do rio.

Achava que também sabia por que Nick Ruskin havia me telefonado. Era um sujeito esperto. Compreendeu que, dado o estado de Kate McTiernan, eu podia acabar me envolvendo no caso na qualidade de psicólogo, mesmo porque já tinha lidado com esse tipo de trauma pós-estresse.

Katy McTiernan. Sobrevivente. Pouco mais do que isso. Passei meia hora junto à sua cama naquela noite. Estava entubada e monitorada. As grades laterais da cama tinham sido erguidas. Já havia flores no quarto. Lembrei-me de um triste e belo poema de Sylvia Pia intitulado "Tulipas". Falava da atitude decididamente não sentimental da autora para com as flores que lhe mandaram ao hospital após uma tentativa de suicídio.

Tentei recordar a aparência de Kate McTiernan antes de ficar tão inchada e roxa. Tinha visto fotografias dela. O feio inchaço dava a impressão de que estava com óculos de proteção ou uma máscara de gás. Tinha sérias escoriações no maxilar. De acordo com o prontuário, também perdera um dente. Aparentemente, fora arrancado pelo menos dois dias antes que a encontrassem no rio. Ele a espancara. Casanova. O autointitulado Amante.

Tive pena da jovem médica. Queria lhe dizer que tudo ficaria bem.

Pousando de leve a mão na dela, repeti muitas vezes a mesma frase.

— Você está entre amigos agora, Kate. Num hospital de Chapei Hill. Está em segurança, Kate.

Não sabia se a mulher tão gravemente ferida me conseguia ouvir ou compreender. Apenas queria lhe dizer alguma coisa reconfortante antes de ir embora.

E, quando lá estava, velando aquela jovem, vi o rosto de Naomi diante de mim. Não conseguia imaginá-la morta. Naomi está bem, Kate McTiernan? Você viu Naomi Cross?, quis perguntar, mas ela não teria podido responder.

— Você está em segurança agora, Kate. Durma tranqüila, durma bem. Você está em segurança.

Kate McTiernan nada podia dizer sobre o que acontecera. Vivera um pesadelo horrendo, bem pior do que eu teria sido capaz de imaginar.

Tinha visto Casanova, e ele a deixara emudecida.

 

Pica-taque.

Um jovem advogado chamado Chris Chapin levou para casa uma garrafa de Chardonnay de Beaulieu; ele e a noiva, Arma Miller, estavam tomando o vinho da Califórnia na cama. Finalmente, era fim de semana. A vida voltava a sorrir para Chris e Anna.

— Graças a Deus, acabou esta semana maçante — exclamou o rapaz louro de vinte e quatro anos. Era sócio de um prestigioso escritório de advocacia de Raleigh. Não exatamente um Mitch McDeere de A firma — sem carro alemão conversível para confirmá-lo —, mas num bom começo de carreira.

— Infelizmente, tenho de entregar um trabalho de contratos segunda-feira — disse Anna com uma careta. Estava no terceiro ano da faculdade. — E mais: é para o sádico Stacklum.

— Hoje não, Anna Banana. Esqueça Stacklum. Pense em mim, só em mim.

— Obrigada por ter trazido vinho — sorriu Anna finalmente. Seus dentes muito brancos eram deslumbrantes.

Chris e Anna tinham sido feitos um para o outro. Era o que diziam todos os colegas. Complementavam-se, tinham praticamente a mesma visão de mundo, e, mais que tudo, eram ambos inteligentes o bastante para não querer mudar o outro. Chris tinha obsessão pelo trabalho. Tudo bem, ótimo. Anna comprava antigüidades pelo menos duas vezes por mês. Gastava dinheiro como se não existisse amanhã. Tudo bem.

— Acho que este vinho está precisando respirar um pouco mais — disse Anna com um sorriso travesso. — Hum, enquanto esperamos... — Puxou as alças do sutiã branco de renda. Comprara-o, assim como a calcinha igual, na Victoria's Secret do shopping.

— É. Graças a Deus que é fim de semana — respondeu Chris Chapin.

Os dois se abraçaram e, rolando na cama, começaram a se despir mutuamente, beijando-se, acariciando-se, abandonando-se ao erotismo do momento.

Quando estavam fazendo amor, Anna teve uma estranha sensação.

Teve a impressão de que havia mais alguém no quarto. Separou-se de Chris.

Alguém estava ali parado, nos pés da cama!

Estava com uma feia máscara pintada. Dragões vermelhos e amarelos. Ferozes. Bravas e grotescas figuras que pareciam atacar-se.

— Quem é você afinal? Que é isso? — perguntou Chris com voz assustada. Procurou o taco de beisebol que costumava guardar debaixo da cama. — Ei, eu fiz uma pergunta, seu filho da puta.

O intruso rosnou feito um animal.

— Está bem. Eis a resposta, seu filho da puta. — Casanova ergueu a mão direita que empunhava uma Luger. Disparou uma vez, e um buraco vermelho se abriu na testa de Chris Chapin. O corpo nu do jovem advogado foi arremessado contra a guarda da cama. O taco caiu de sua mão.

Casanova foi rápido. Sacando uma segunda arma, disparou um projétil narcotizante no peito de Anna.

— Lamento o que aconteceu — sussurrou ao retirá-la da cama. — Sinto muito mesmo. Mas prometo, vou reparar isto.

Anna Miller era o próximo grande amor de Casanova.

 

Um desconcertante mistério médico surgiu na manhã seguinte. Todos ficaram assombrados no Hospital da Universidade da Carolina do Norte, especialmente eu.

Kate McTiernan começou a falar muito cedo. Eu não me encontrava lá, mas, ao que tudo indicava, Kyle Craig estava no quarto ao amanhecer. Desgraçadamente, nossa preciosa testemunha não dizia nada coerente.

A inteligentíssima residente passou delirando a maior parte da manhã. Às vezes parecia psicótica, era como se estivesse falando em outros idiomas. Segundo os relatórios do hospital, tinha tremores, convulsões e sinais de cãibra abdominal.

Fui visitá-la no final da tarde. Ainda se temia que tivesse sofrido traumatismo craniano. Durante quase todo o tempo que passei no quarto, esteve calada e apática. Uma vez, ao tentar falar, só conseguiu dar um grito.

A médica responsável veio examiná-la. Já tínhamos conversado algumas vezes naquele dia. A dra. Maria Ruocco não estava interessada em ocultar informações importantes sobre a paciente. Era extremamente solícita e simpática, na verdade. Disse que queria ajudar a capturar quem quer ou o que quer que tivesse feito aquilo com a jovem.

Eu desconfiava de que Kate McTiernan ainda se supunha prisioneira. Vendo-a lutar contra forças invisíveis, tive a impressão de que era uma lutadora terrível. Surpreendi-me sofrendo por ela naquele quarto de hospital.

Dispus-me a passar longos períodos sentado ao lado da cama. Ninguém me designara para custodiá-la. Mas era possível que dissesse alguma coisa. Uma frase ou mesmo uma única palavra podiam resultar numa pista importante para a captura de Casanova. Só precisávamos de uma pista para mobilizar tudo.

— Você está em segurança agora, Kate — sussurrava-lhe com freqüência. Ela não parecia ouvir-me, porém eu continuava falando.

Tive uma idéia, um estalo irresistível, por volta das nove e meia daquela noite. A equipe médica já havia se retirado. Eu precisava falar com alguém, de modo que liguei para o FBI e os convenci a me deixarem telefonar para a casa da dra. Maria Ruocco, perto de Raleigh.

— Alex, você ainda está aí no hospital? — perguntou ela ao atender. Parecia mais surpresa que zangada com aquele telefonema noturno em casa. Já havíamos conversado longamente durante o dia. Ambos tínhamos estudado na Johns Hopkins e falamos um pouco de nossa trajetória. Estava muito interessada no caso Soneji e lera meu livro.

— Eu estava aqui, obsessivo como sempre. Tentei imaginar como ele mantinha as vítimas subjugadas — comecei a expor minha teoria a Maria Ruocco. — É possível que as drogue, talvez use algum produto sofisticado. Telefonei para o laboratório para saber o resultado dos exames. Encontraram Marinol na urina dela.

— Marinol? — a dra. Ruocco se mostrou surpresa como eu mesmo ficara pouco antes. — Hum. Como ele pode ter conseguido esse medicamento? E muito difícil. Em todo caso, é uma idéia inteligente. Quase brilhante. O Marinol é um ótimo meio de mantê-la submissa.

— Isso não explicaria os episódios psicóticos de hoje? Tremores, convulsões, alucinações. Tudo se encaixa, se você pensar bem.

— Você pode ter razão, Alex. Marinol! Nossa. Os sintomas posteriores do Marinol se assemelham ao mais severo delirium tremens. Mas como pode ele conhecer tão bem o Marinol, como sabe usá-lo? Duvido que um leigo o consiga.

Eu tinha pensado a mesma coisa.

— Será que ele fez quimioterapia? Pode ter tido câncer. Quem sabe tomou Marinol. Talvez tenha alguma deformação.

— Pode ser que seja médico — arriscou a dra. Ruocco. Eu também havia considerado essa possibilidade. Podia inclusive ser médico do Hospital da Universidade.

— Escute, nossa residente favorita pode nos dizer alguma coisa que nos ajude a prender esse sujeito. Não se pode fazer nada para desintoxicá-la um pouco mais depressa?

— Estarei aí dentro de vinte minutos. Menos que isso — respondeu Maria Ruocco. — Vamos ver o que podemos fazer para tirar a pobre moça desse pesadelo. Acho que os dois gostaríamos de conversar com Kate McTiernan.

 

Mei a hora mais tarde, a dra. Maria Ruocco estava comigo no quarto da dra. Kate McTiernan. Eu não revelara à polícia de Durham nem ao FBI o que tinha descoberto. Primeiro, queria falar com a residente. Podia obter a grande pista do caso. Maria Ruocco examinou sua importante paciente durante quase uma hora. Era uma médica sensata e doce. Muito atraente também, loura, entre trinta e quarenta anos. Tinha algo da beleza sulista e também qualquer coisa de fatal. Perguntei-me se Casanova já não a tinha espreitado.

— A coitadinha está mesmo intoxicada. Tem Marinol no organismo quase suficiente para matá-la.

— Não sei se foi essa a idéia original — disse comigo mesmo. — Pode ser que ela tenha sido rejeitada. Droga, eu preciso falar com essa moça.

Kate McTiernan parecia estar dormindo. Um sono inquieto/ mas dormindo. Todavia, gemeu no momento em que a dra. Ruocco a tocou. Seu rosto machucado se retorceu numa máscara de terror. Era quase como se a tivéssemos levado de volta ao cativeiro. O medo era palpável, terrível.

A médica foi extremamente delicada, mas os gemidos continuaram. Então, Kate McTiernan finalmente falou, ainda que sem abrir os olhos.

— Não me toque! Não! Não se atreva a me tocar, filho da puta! — gritou. Continuava com os olhos fechados, na verdade, estava com as pálpebras muito apertadas. — Deixe-me em paz, seu veado!

— Essas jovens médicas — brincou a dra. Ruocco. Mantinha a cabeça fria quando sob pressão. — Tão irreverentes! E que linguagem!

Olhar para Kate era como olhar para uma pessoa fisicamente torturada. Voltei a pensar em Naomi. Estaria na Carolina do Norte? Ou em algum lugar da Califórnia? Estaria pensando pela mesma coisa? Apartei da mente a imagem perturbadora. Um problema por vez.

A dra. Ruocco passou mais meia hora atendendo Kate McTiernan. Deu-lhe uma dose intravenosa de Librium. Depois, tornou a conectar o monitor cardíaco. Quando terminou, a interna mergulhou num sono ainda mais profundo. Não nos revelaria segredo algum naquela noite.

— Gosto do seu trabalho — sussurrei à médica. — Você é boa. Com um gesto, pediu-me que saísse com ela. O corredor estava

quase às escuras; tudo em silêncio, a atmosfera era sinistra como costuma ser a dos hospitais à noite. Eu não parava de pensar que Casanova podia ser um médico daquele hospital. Talvez estivesse ali naquele momento, apesar da hora tardia.

— Fizemos o que era possível, Alex. Espere o efeito do Librium. Há três agentes do FBI e dois da excelente polícia de Durham custodiando a jovem doutora McTiernan. Por que não volta ao hotel? Durma um pouco também. Quer um Valium?

Disse-lhe que preferia dormir no hospital.

— Duvido que Casanova venha aqui, mas nunca se sabe. Tudo é possível. — Especialmente se ele trabalhasse ali, estava pensando, mas não o disse a Maria. — Além disso, sinto-me ligado a Kate quando estou lá dentro. Desde a primeira vez em que a vi. Talvez ela tenha conhecido Naomi.

A dra. Maria Ruocco me encarou. Era bem mais baixa que eu. Falou com uma expressão vazia no rosto.

— Você parece são, às vezes fala como se fosse lúcido, mas é maluco. — Sorriu. Seus olhos azuis brilharam divertidos.

— Além disso, estou armado e sou perigoso.

— Boa noite, doutor Cross — disse Maria, e me jogou um beijo.

— Boa-noite, doutora Ruocco. E obrigado. — Atirei-lhe também um beijo quando ela se afastou no corredor.

Dormi um sono intranqüilo em duas cadeiras ajuntadas no quarto de Kate McTiernan. Com o revólver no colo. Devo ter tido sonhos deliciosos.

 

Juem é você? Quem, diabos, é você?

Uma voz alta, aguda, me despertou. Estava muito próxima. Quase junto a meu rosto. Lembrei-me de imediato que me encontrava no Hospital da Universidade da Carolina do Norte. Lembrei-me exatamente de onde estava no hospital. No quarto de Kate McTiernan, nossa única testemunha.

— Sou da polícia — respondi com voz mansa. — Meu nome é Alex Cross. Você está no Hospital da Universidade da Carolina do Norte. Tudo está bem agora.

No primeiro momento, Kate deu a impressão de que ia chorar ou gritar, depois, pareceu controlar-se. Vê-la dominarse daquele modo me ajudou a compreender como tinha conseguido sobreviver a Casanova e ao rio. Era uma mulher de extraordinária força de vontade.

— Estou no hospital? — Embora mal articuladas, suas palavras eram coerentes.

— Sim, está — confirmei, erguendo lentamente a mão. — Está em segurança agora. Deixe-me chamar um médico. Volto já.

Ela tornou a falar com a voz arrastada, mas estava lúcida, sem dúvida.

— Espere um pouco. Eu sou médica. Antes de chamar outras pessoas, deixe-me entender. Deixe-me organizar o pensamento. Você é da polícia?

Fiz que sim. Queria tornar as coisas tão fáceis quanto possível. Desejava abraçá-la, segurar-lhe a mão, fazer qualquer coisa que lhe oferecesse apoio mas não a ameaçasse depois do que passara nos últimos dias. Também lhe queria fazer uma centena de perguntas importantíssimas. Kate McTiernan desviou a vista.

— Acho que ele me drogou. Ou foi um sonho talvez.

— Não, não foi sonho. Ele usou uma droga poderosa chamada Marinol. — Contei-lhe o que sabíamos até então. Tomei o cuidado de não conduzi-la na direção errada.

— Eu devo ter "viajado" mesmo. — Tentou assobiar, mas não produziu mais que um ruído esquisito. Notei que deu pela falta de um dente. Devia estar com a boca seca; tinha os lábios inchados, sobretudo o superior.

Por incrível que pareça, eu sorri.

— Você deve ter viajado pelo planeta do horror. Que bom que está de volta.

— É mesmo muito bom estar de volta — sussurrou ela. Tinha lágrimas nos olhos. — Desculpe. Fiz tanto esforço para não chorar naquele lugar horrível. Não queria que ele visse nenhuma fraqueza que pudesse explorar. Quero chorar agora. Acho que vou chorar.

— Chore sim. Chore quanto puder — sussurrei. Eu mal conseguia falar ou conter minhas próprias lágrimas. Senti o peito apertado. Aproximando-me da cama, segurei-lhe delicadamente a mão.

— Você não tem sotaque do Sul — disse ela depois. Estava se controlando novamente. Era assombroso que o conseguisse.

— Sou de Washington. Minha sobrinha desapareceu na faculdade de direito da Duke há dez dias. E por isso que estou aqui na Carolina do Norte. Sou detetive.

Era como se estivesse me vendo pela primeira vez. Dava a impressão de estar se lembrando de alguma coisa importante.

— Havia outras mulheres na casa onde me prenderam. Não podíamos conversar. Casanova proibia rigorosamente toda comunicação, mas eu violei o regulamento. Falei com uma mulher chamada Naomi...

Eu a interrompi.

— Minha sobrinha se chama Naomi Cross. Ela está viva? Está bem? — Meu coração estava a ponto de explodir. — Conte-me tudo, Kate, tudo que recordar. Por favor.

Kate McTiernan se animou.

— Falei com uma Naomi, não me lembro do sobrenome. Também havia uma Kristen. As drogas. Oh, meu Deus, era sua sobrinha?... Tudo está tão nebuloso e obscuro agora. Desculpe... — A voz lhe sumiu como se alguém lhe tivesse retirado todo o ar.

Acariciei-lhe a mão.

— Não, não. Você acaba de me dar uma esperança que não experimento desde que cheguei aqui.

Kate estava me fitando intensamente nos olhos. Parecia ver alguma coisa horrenda que preferia esquecer.

— Não consigo me lembrar muito agora. Acho que é o efeito do Marinol... Só sei que ele ia me dar outra injeção. Eu o chutei, machuquei-o e consegui fugir. Pelo menos, acho que foi o que aconteceu... Havia uma floresta densa, pinheiros da Carolina recobertos de musgo... eu me lembro, juro por Deus... a casa... o lugar onde estávamos presas... desapareceu. A casa onde estávamos encarceradas simplesmente sumiu diante de mim. — Sacudiu lentamente a cabeça de longos cabelos castanhos. Estava com os olhos muito abertos de pasmo. Parecia espantada com sua própria história. — Só me lembro disso. Como foi possível? Como pode uma casa ter desaparecido?

Imaginei que estivesse revivendo seu passado recente e terrível. Tinha razão quanto a isso. Fui o primeiro a escutar a história de sua fuga, o primeiro a ouvir nossa testemunha.

 

Casanova ainda estava perturbado e muito agitado com a perda da dra. Kate McTiernan. Inquieto, fazia horas que não conseguia dormir. Rolava na cama de um lado para outro. Aquilo não era bom. Era perigoso. Acabava de cometer seu primeiro erro.

Então, alguém sussurrou na escuridão:

— Você está bem? Algum problema?

A voz da mulher o assustou a princípio. Ele já não era Casanova. Tinha assumido imperceptivelmente sua outra personagem: a do bom marido.

Estendendo a mão, acariciou o ombro nu da esposa.

— Tudo bem. Não se preocupe. É que não estou conseguindo dormir.

— Estou vendo. Deve ser o feijão mexicano que você comeu. — A julgar por sua voz, devia estar sorrindo. Era uma boa pessoa. E o amava.

— Desculpe — disse Casanova em voz baixa, e beijou o ombro da esposa. Afagando-lhe o cabelo, voltou a pensar em Kate McTiernan. Em seu longo cabelo castanho.

Continuou acariciando a esposa, embora já estivesse novamente mergulhado em atormentados pensamentos. Não tinha mesmo com quem conversar. Não mais. Muito menos ali, na Carolina do Norte.

Por fim, saiu da cama e desceu ao térreo. Entrou no escritório em silêncio, fechou e trancou a porta.

Consultou o relógio. Três da madrugada. Devia ser meianoite em Los Angeles. Pegou o telefone.

Na verdade, Casanova tinha com quem conversar. Uma única pessoa no mundo.

— Sou eu — disse ao ouvir a voz familiar do outro lado.

— Estou me sentindo meio louco esta noite. Pensei em você, claro.

— Está querendo dizer que eu levo uma vida devassa e meio louca? — riu-se o Cavalheiro Caller.

— Isso é óbvio. — Já estava se sentindo melhor. Existia alguém com quem podia conversar e compartilhar segredos.

— Peguei outra ontem. Quero lhe falar de Anna Miller. Ela é um tesão, amigo.

 

Casanova tinha atacado de novo.

Outra estudante, uma bonita e inteligente mulher chamada Anna Miller fora seqüestrada no apartamento de cobertura que dividia com o noivo, perto da Universidade Estadual da Carolina do Norte, em Raleigh. O rapaz fora assassinado na cama, o que representava um novo comportamento de Casanova. Ele deixou um bilhete, única pista na cena do crime. Depois de cometer um erro, estava nos mostrando que continuava sendo perfeito.

Passei várias horas com Kate McTiernan no Hospital da Universidade da Carolina do Norte. Dávamo-nos bem; eu sentia que estávamos nos tornando amigos. Ela queria me ajudar no perfil psicológico de Casanova. Estava me contando tudo que sabia sobre ele e as mulheres cativas.

Deviam ser seis as prisioneiras, incluindo ela. Era possível que fossem mais.

Segundo Kate, Casanova era extremamente bem-organizado. Costumava planejar com semanas de antecedência, estudando suas vítimas nos mais surpreendentes detalhes.

Parecia ter "construído" sozinho a casa de horrores. Instalara esgotos, um sistema especial de som e ar-condicionado, aparentemente para o conforto das cativas. Como estivera narcotizada, Kate não conseguia descrever a casa muito bem.

Casanova devia ser um maníaco violentamente ciumento e possessivo. Era sexualmente ativo e capaz de muitas ereções numa noite. Tinha obsessão por sexo e pelas necessidades sexuais masculinas.

Podia ser atencioso à sua maneira. Também podia ser "romântico", como costumava dizer. Gostava de acariciar, beijar e conversar com mulheres durante horas. Dizia que as amava.

No meio da semana, o FBI e a polícia de Durham finalmente se puseram de acordo quanto a um lugar seguro, no hospital, para que Kate McTiernan falasse com a imprensa pela primeira vez. A entrevista coletiva foi dada num amplo saguão de seu andar.

O espaço pintado de branco ficou lotado de repórteres com blocos de anotações e pessoal da televisão com minicâmeras nos ombros. Estavam também presentes vários policiais com armas automáticas. Por segurança. Os detetives Nick Ruskin e Davey Sikes ficaram ao lado dela durante as gravações.

Kate já era conhecida em todo o país. Agora, o público teria oportunidade de ver a mulher que fugira da casa de horrores. Eu tinha certeza de que Casanova estaria assistindo também. Esperava que não se encontrasse ali mesmo no hospital, entre nós.

Um enfermeiro, que evidentemente era halterofilista, levou-a de cadeira de rodas ao ruidoso e povoado saguão. Ela estava com calça de agasalho e uma camiseta branca muito simples. Seu longo cabelo castanho, solto nos ombros, brilhava sob os holofotes. Os ferimentos e inchaços do rosto tinham melhorado muito.

— Estou com cara de velha — disse-me —, mas não me sinto velha, Alex. Por dentro, não.

Quando o enfermeiro empurrou a enorme cadeira até o tablado onde se encontravam os microfones, Kate surpreendeu a todos. Levantando-se devagar, fez a pé o resto do caminho.

— Olá, sou Kate McTiernan. Obviamente — disse aos jornalistas que, agora, acotovelavam-se para se aproximar da testemunha principal. — Tenho uma declaração muito breve a fazer; depois, vou deixá-los em paz.

Sua voz era sonora e vibrante. Estava em pleno controle de si, pelo menos era a impressão que dava aos que a víamos e escutávamos.

Seu humor sutil provocou sorrisos na multidão. Um ou dois repórteres tentaram fazer perguntas, mas o barulho aumentara, não foi possível ouvi-los. O zunido das câmeras e os flashes encheram o saguão.

Kate parou de falar e um relativo silêncio se restabeleceu. A princípio todos pensaram que a coletiva lhe exigiria demasiado esforço. Um médico se aproximou, mas ela o dispensou com um gesto.

— Estou bem. Está tudo Ok, obrigada. Se me sentir mal, volto para a cadeira de rodas como uma paciente bem-comportada. Prometo. Não pretendo bancar a durona.

Estava definitivamente no controle do momento. Era mais velha que a maioria dos estudantes de medicina, na verdade, já parecia médica.

Olhou à sua volta — parecia curiosa. Talvez um pouco divertida. Por fim, desculpou-se pelo lapso momentâneo.

— Eu só estava organizando o pensamento... Gostaria de lhes contar o que puder sobre o que me aconteceu... e vou lhes contar tudo que puder. Não vou responder perguntas. Pediria que respeitassem esse meu desejo. Combinado?

Ela se mostrava segura diante das câmeras da televisão. Estava surpreendentemente calma para as circunstâncias, como se tivesse feito aquilo a vida inteira. Descobri que não lhe faltava firmeza quando necessário. Em outras ocasiões, podia ser tão vulnerável e medrosa quanto qualquer um de nós.

— Primeiro, gostaria de dizer uma coisa a todos os familiares e amigos das pessoas desaparecidas. Por favor, não percam a esperança. O homem conhecido como Casanova só agride quando lhe desobedecem as ordens explícitas. Eu infringi suas regras e fui muito espancada. Mas consegui fugir. Há outras mulheres onde estive encarcerada. Vocês não podem imaginar quanto penso nelas. Acredito sinceramente que ainda estão vivas e com saúde.

Os jornalistas fechavam cada vez mais o círculo ao redor de Kate McTiernan. Apesar de seu estado, ela não perdera o magnetismo, sua força aflorava. As câmeras da televisão gostavam dela. O público também gostaria, eu tinha certeza.

Passou alguns minutos fazendo o que podia para abrandar os temores dos familiares das moças seqüestradas. Insistiu em que tinha sido machucada porque violara as leis imperantes na casa do seqüestrador. Imaginei que também estava tentando enviar uma mensagem a Casanova. A culpa foi minha, não das outras.

Observando-a, eu me fiz algumas perguntas. Será que ele só pega mulheres extraordinárias? Não meras beldades, mas mulheres em tudo especiais? Que significava aquilo? Que pretendia realmente Casanova? Que jogo estava jogando?

Minha suspeita era de que o homicida tivesse obsessão pela beleza física, mas não suportava a companhia de mulheres que não fossem inteligentes com ele.

Eu sentia que ele também procurava intimidade.

Finalmente, Kate parou de falar. As lágrimas brilhavam em seus olhos.

— Terminei — disse com voz branda. — Obrigada por transmitir esta mensagem às famílias das mulheres desaparecidas. Espero ter ajudado um pouco. Por favor, chega de perguntas por enquanto. Ainda não consigo me lembrar de tudo que me aconteceu. Contei-lhes o que podia.

A princípio, houve silêncio. Nenhuma pergunta. Ela fora clara quanto a isso. Depois, os jornalistas e o pessoal do hospital começaram a aplaudir. Sabiam, tanto quanto Casanova, que Kate McTiernan era uma mulher extraordinária.

Tive um receio. Estaria Casanova também aplaudindo ali?

 

Quatro horas da madrugada, Casanova encheu de mantimentos e outras provisões uma mochila verde, nova em folha. Foi para o esconderijo na expectativa de uma manhã prenhe de prazeres ansiosamente esperados. Na verdade, dera um nome a seu brinquedo proibido: Beijar as garotas.

Ao descer do carro, já estava entretendo fantasias com Anna Miller, sua mais recente prisioneira, e continuou fantasiando durante a caminhada na densa floresta. Antecipava reiteradamente o que ia fazer com a moça naquele dia. Lembrou-se de uma adequadíssima frase de F. Scott Fitzgerald: O beijo surgiu quando o primeiro réptil lambeu a primeira fêmea, comunicando-lhe de modo encomiástico que ela era tão suculenta quanto o pequeno réptil de que ele se servira no jantar. Era tudo biológico, não? Pica-taque.

Ao chegar finalmente ao esconderijo, aumentou ao máximo o volume do incomparável Beggar's Banquet, dos Rolling Stones. Estava precisando ouvir um pouco de rock anti-social bem alto. Mick Jagger estava com cinqüenta anos, certo? Ele tinha apenas trinta e seis. Aquele era o seu momento.

Posando nu diante de um espelho alto, deixou-se ficar a admirar seu físico esbelto e musculoso. Penteou-se. Depois, vestiu um vistoso roupão de seda, pintado a mão, que certa vez trouxera de Bangcoc. Deixou-o aberto para se exibir.

Escolheu uma máscara diferente, uma especial, de Veneza, comprada para as ocasiões especiais. Um momento de mistério e amor. Por fim, estava pronto para ver Anna Miller.

Anna era tão arrogante! Absolutamente intocável. Deliciosa. Precisava quebrá-la depressa.

Nada existia de comparável àquela sensação física e emocional: a adrenalina fluindo, o coração agitado, exaltação total no corpo todo. Levou leite morno num jarro de vidro. Também um pequeno cesto de vime com uma surpresa especial para Anna.

Na verdade, aquilo tinha sido planejado para a dra. Kate. Ele gostaria de ter vivido com ela esse momento.

Colocara bem alto o rock para que Anna soubesse que estava na hora de se aprontar. Era um sinal. Ele, sem dúvida, estava pronto para ela. Jarro cheio de leite morno. O tubo de borracha com bico de clister. O fofo presentinho no cesto de vime. Hora de começar a brincadeira.

 

Casanova não conseguia tirar os olhos de Anna Miller. O ar ao seu redor parecia rugir. Tudo estava carregado de altas expectativas. Sentia-se um tanto fora de controle. Não como costumava ser. Mais como o Cavalheiro Caller.

Olhou para baixo, para sua obra de arte — sua criação. Reteve um pensamento: Anna jamais ficara assim diante de ninguém.

Ela estava deitada no piso de madeira do quarto do andar de baixo. Encontrava-se completamente nua, a não ser pelas jóias que ele queria que usasse. Tinha os braços amarrados às costas com tiras de couro. Uma confortável almofada fora colocada sob suas nádegas.

Suas pernas esculturais pendiam de uma corda presa a uma trave no teto. Era assim que ele a queria; exatamente assim a imaginara incontáveis vezes.

Agora você pode fazer o que quiser, pensou.

E fez.

A maior parte do leite morno já estava dentro dela. Ele usara o tubo de borracha e o bico de clister para introduzi-lo.

Ela lembrava um pouco Annette Bening, estava pensando, com a diferença que era dele agora. Não uma imagem fugidia numa tela de cinema. Ela o ajudaria a superar Kate McTiernan, e quanto mais cedo melhor.

Anna já não se mostrava tão arrogante; nem tão intocável. Ele sempre tivera curiosidade sobre quanto demorava para se quebrar a vontade de uma pessoa. Geralmente não muito. Não naquela era de covardes e garotos mimados.

— Por favor, tire essa coisa de mim. Não faça isso. Eu fui boazinha, não fui? — suplicou a moça. Ficava com um rosto tão lindo e interessante quando feliz — e mais ainda quando sofrendo.

Sua face ruborescia quando ela falava. Casanova memorizou seu olhar, tudo quanto podia guardar daquele momento especial. Detalhes com que sonhar mais tarde. Como a curva perfeita de suas nádegas.

— Ela não vai lhe fazer mal, Anna. Está com a boca costurada. Eu mesmo a costurei. É uma cobra inofensiva. Eu jamais lhe faria mal.

— Você é doente e perverso — gritou ela de súbito. — Você é sádico!

Ele se limitou a fazer que sim. Queria ver a Anna real, e lá estava ela: um dragãozinho enfurecido.

Ficou observando o leite que lhe escorria do ânus. A pequena serpente preta estava fazendo o mesmo. Atraída pelo cheiro adocicado do leite, avançou arrastando-se no soalho. Era um espetáculo magnífico. Era a verdadeira imagem da bela e a fera.

A cautelosa víbora se deteve; de repente, projetou a cabeça para a frente. E penetrou lisamente Anna Miller. Encolhendo-se em dobras, continuou escorregando, afundando-se dentro dela.

Casanova observava os olhos arregalados da moça. Quantos homens tinham visto aquilo ou sentido o que ele estava sentindo naquele momento? Quantos deles ainda estavam vivos?

Ouvira falar pela primeira vez nessas práticas sexuais para alargar o ânus em suas viagens à Tailândia e ao Camboja. Agora, ele estava executando o ritual. Fazia-o sentir-se tão melhor — compensava-lhe a perda de Kate, as outras perdas.

Essa era a deliciosa e surpreendente beleza das brincadeiras que escolhera para fazer no esconderijo. Adorava-as. Não era capaz de se conter.

E ninguém era capaz de contê-lo. Nem a polícia, nem o FBI, nem o dr. Alex Cross.

 

Katy ainda não conseguia lembrar o dia em que fugira do inferno. Concordou em ser hipnotizada, ao menos para me deixar tentar, embora achasse fortes demais suas defesas naturais. Decidimos fazê-lo tarde da noite, no hospital, quando já estivesse com sono e mais suscetível.

O hipnotismo pode ser um processo relativamente simples. Primeiro, pedi a ela que fechasse os olhos e procurasse respirar lenta e regularmente. Talvez conseguisse finalmente encontrar-me com Casanova naquela noite. Talvez, pelos olhos de Kate, eu visse como ele atuava.

— O ar bom para dentro, o ruim para fora — disse a residente sempre bem-humorada. — Não é isso, doutor Cross?

— Desanuvie a mente o máximo que puder, Kate.

— Não sei como se faz isso — sorriu ela. — Há muita coisa acumulada aqui dentro. Como um sótão muito velho, cheio de cômodas e guarda-roupas fechados.

Sua voz estava ficando algo sonolenta. Bom sinal.

— Agora conte de trás para a frente. Comece de cem. Ela cedeu rapidamente, o que significava que tinha confiança em mim. E isso aumentava minha responsabilidade.

Estava vulnerável agora. Eu não queria feri-la em hipótese alguma. Nos primeiros minutos, conversamos como sempre fazíamos quando ela estava plenamente consciente e desperta. Desde o começo, gostávamos muito de conversar um com o outro.

— Lembra-se de quando estava presa no esconderijo de Casanova? — finalmente fiz a pergunta decisiva.

— Sim, lembro-me bem agora. Lembro-me da noite em que ele entrou em meu apartamento. Vejo-o carregando-me numa espécie de bosque, para o lugar onde eu ficaria aprisionada. Ele me carregava como se meu peso fosse nulo.

— Fale-me desse bosque, Kate. — Foi nosso primeiro momento dramático. Ela estava de fato com Casanova outra vez. Em seu poder. Prisioneira. De repente, dei-me conta do silêncio que imperava no hospital.

— Estava muito escuro. A floresta era densa, fechada. Ele tinha uma lanterna, levava-a pendurada no pescoço, amarrada a um barbante ou uma corda... Era incrivelmente forte. Parecia um animal, fisicamente. Ele se comparava a Heathcliff, de O Morro dos Ventos Uivantes. Tem uma visão muito romântica de si mesmo e do que faz. Aquela noite... sussurrava para mim como se já fôssemos amantes. Dizia que me amava. Parecia... sincero.

— De que mais se lembra, Kate? Algo sobre ele, qualquer coisa que recordar pode ajudar muito. Não tenha pressa.

Ela virou a cabeça como se estivesse olhando para alguma coisa à minha direita.

— Sempre vinha com uma máscara diferente. Uma vez, apareceu com uma máscara reconstrutiva. Era a mais assustadora. São chamadas "máscaras da morte" porque os hospitais e os necrotérios às vezes as utilizam para identificar vítimas irreconhecíveis de acidentes.

— Interessante. Por favor, prossiga, Kate. Está sendo de grande ajuda.

— Sei que podem fazê-las a partir de um crânio humano, de qualquer crânio. Depois, tiram uma fotografia, cobrem-na com papel vegetal... desenham as feições. Então, constróem uma nova máscara a partir do desenho. Havia uma "máscara da morte" no filme Mistério do Parque Górki. Não são feitas para ser usadas. Não sei onde ele a conseguiu.

Muito bem, Kate, eu estava pensando cá comigo, continue falando de Casanova.

— Que aconteceu no dia em que você fugiu? — perguntei, tentando orientá-la um pouco.

Pela primeira vez, ela se mostrou incomodada com uma pergunta. Abriu os olhos por uma fração de segundo, como se estivesse cochilando e eu a tivesse sacudido, despertando-a. Tornou a fechá-los. Estava batendo nervosamente o pé.

— Não me lembro muito desse dia, Alex. Acho que estava drogada, fora de mim, fora do planeta.

— Está bem. Qualquer coisa que recorde. Você está indo muito bem. Contou-me que o chutou. Você deu um pontapé em Casanova?

Houve outra longa pausa. De súbito, Kate começou a chorar. As lágrimas lhe afloraram aos olhos, logo, ela se pôs a soluçar muito.

Também estava com o rosto úmido de suor. Senti que devia tirá-la da hipnose. Não sabia o que estava acontecendo, e aquilo me assustava um pouco.

Tentei manter a voz calma.

— O que há, Kate? Qual é o problema? Você está bem?

— Aquelas mulheres ficaram lá. Não consegui encontrá-las. Estava muito confusa. Abandonei as outras.

Estava com os olhos abertos, cheios de medo e de lágrimas. Saíra da hipnose. Sem dúvida, era muito forte.

— Por que tive tanto medo? Que aconteceu?

— Não sei ao certo — respondi. Falaríamos disso mais tarde, não naquele momento.

Desviou os olhos dos meus. Não era próprio dela.

— Posso ficar a sós? — murmurou. — Quero ficar sozinha. Obrigada.

Saí do quarto com a sensação de havê-la traído. Mas não sabia se podia tê-lo feito de outro modo. Tratava-se de uma investigação de múltiplos homicídios. Nada tinha dado certo até então. Como poderia dar?

 

Katy recebeu alta naquela semana. Havia me perguntado se podíamos conversar um pouco cada dia. Concordei de imediato.

— Não se trata de terapia — disse-me. Só queria abordar com alguém alguns temas difíceis. Em parte por causa de Naomi, estabelecemos depressa fortes vínculos.

Não obtivera nenhuma outra informação ou pista sobre a ligação entre Casanova e o Cavalheiro Caller. Beth Lieberman, do Los Angeles Times, recusava-se a falar comigo. Estava negociando seus direitos autorais em Nova York.

Pensei em viajar a Los Angeles a fim de procurá-la, mas Kyle Craig me pediu que não o fizesse. Garantiu que eu sabia tudo quanto a jornalista tinha a revelar sobre o caso. Estava precisando confiar em alguém; confiei em Kyle.

Na tarde de segunda-feira, Kate e eu fomos passear no bosque junto ao rio Wykagil, onde ela fora encontrada pelos dois garotos. Embora ainda não o tivéssemos dito, era evidente que estávamos juntos naquilo. Seguramente, ninguém melhor do que ela conhecia Casanova. Se conseguisse recordar mais alguma coisa, seria útil. Qualquer detalhe insignificante poderia resultar numa pista capaz de tudo desvendar.

Kate ficou em silêncio e extraordinariamente ensimesmada ao entrarmos na sombria floresta a leste do rio Wykagil. O monstro humano podia estar escondido por ali, talvez vagando no mato naquele exato momento. Talvez nos estivesse espiando.

— Eu adorava passear em bosques como este. As amoreiras e os sassafrases doces. Os cardeais e os gaios azuis alimentando-se em toda parte. Lembra-me de quando era menina.

Minhas irmãs e eu nadávamos todo santo dia num riacho como este. Nadávamos nuas, coisa que papai tinha proibido. Mas gostávamos de fazer tudo que ele proibia.

— Essa experiência acabou lhe sendo útil — eu disse. — Provavelmente, foi o que a ajudou a sobreviver no Wykagil.

Kate sacudiu a cabeça.

— Não. Foi pura teimosia. Jurei não morrer naquele dia. Não queria lhe dar essa satisfação.

Eu estava guardando para mim meu próprio desconforto por estar naquele bosque. Parte desse mal-estar vinha da infeliz história daquela região. Antigamente, por ali espalhavam-se fazendas de fumo nas quais vigorava o trabalho escravo. O sangue e os ossos de meus ancestrais. O extraordinário seqüestro e a sujeição de mais de quatro milhões de africanos levados à América do Norte. Foram seqüestrados. Contra sua vontade.

— Não me lembro deste lugar, Alex — disse Kate. Eu tinha colocado um coldre de ombro ao sair do carro. Vendo a arma, ela fez uma careta e sacudiu a cabeça. Mas não protestou. Compreendeu que eu era o caçador de dragões. Sabia que ali havia um dragão. Ela o conhecera. — Lembro-me de que corri, fugi para uma floresta como esta. Altos pinheiros da Carolina. Pouca luz, um lugar sinistro como uma gruta de morcegos. Recordo claramente quando a casa desapareceu diante de mim. Não me lembro de outras coisas. Estou com um bloqueio. Nem sei como foi que entrei no rio.

Estávamos a uns três quilômetros de onde havíamos deixado o automóvel. Agora, rumávamos para o norte, próximos do rio no qual ela flutuara em sua miraculosa e "teimosa" fuga. Cada árvore e arbusto buscava inexoravelmente a escassa luz do sol.

— Isto me lembra as bacantes. — Kate sorriu com ironia. — O triunfo da sombria e caótica barbárie sobre a civilizada razão humana.

Parecia que estávamos caminhando contra uma gigantesca e implacável maré de vegetação.

Eu sabia que ela estava tentando falar de Casanova e da casa terrível em que outras mulheres eram mantidas prisioneiras. Estava tentando entendê-lo melhor. Ambos estávamos.

— Ele se recusa a ser civilizado ou reprimido — eu disse. — Faz o que quer. E um extremado escravo do prazer, imagino. Um hegonista radical.

— Queria que você o ouvisse, Alex. É muito inteligente.

— Nós também — lembrei-a. — Ele há de cometer um erro, prometo.

Estava começando a conhecer Kate muito bem. E ela, a me conhecer. Havíamos falado de minha esposa, Maria, que fora morta acidentalmente num tiroteio absurdo em Washington. Falei-lhe de meus filhos, Jannie e Damon. Ela sabia ouvir; tinha um excelente potencial como terapeuta. A dra. Kate seria uma médica muito especial.

Por volta das três daquela tarde, devíamos ter caminhado uns seis ou sete quilômetros. Eu me sentia cansado, o corpo me doía um pouco. Kate não se queixou, mas devia estar com dores também. Graças a Deus, o caratê a mantivera em excelente forma física. Não encontramos o lugar por onde passou durante a fuga. Nada lhe era familiar. Não achamos casa alguma. Nem Casanova. Não havia pistas naquela floresta sombria e profunda. Nada com que prosseguir.

— Como, diabos, ele consegue? — resmunguei quando estávamos voltando ao carro.

— Prática — respondeu Kate com um sorriso. — Prática, prática, prática.

Paramos no Spanky's, na rua Franklin, em Chapei Hill. Estávamos cansados, famintos e sobretudo sedentos. Todos conheciam Kate no restaurante popular e fizeram grande estardalhaço ao vê-la. Um barman musculoso e louro, chamado Hack, iniciou o ruidoso aplauso.

Uma garçonete, amiga de Kate, ofereceu-nos uma mesa de honra junto à janela que dava para a rua Franklin. A moça estava escrevendo seu trabalho de doutorado em Filosofia, contou-me Kate. Verda, a garçonete-filósofa de Chapei Hill.

— Está gostando de ser uma celebridade? — provoquei-a ao nos sentarmos.

— Estou detestando. Detesto isso — respondeu ela com os dentes cerrados. — Escute, Alex, será que podemos tomar um pileque hoje? Eu quero uma tequila, uma caneca de cerveja e um conhaque — disse à garçonete-filósofa, que anotou o pedido com uma careta.

— vou tomar a mesma coisa.

— Isto não é terapia — afirmou Kate quando Verda se afastou. — Simplesmente temos direito de fazer uma farrinha.

— Está parecendo terapia.

— Neste caso, os dois estamos no divã.

Falamos de coisas variadas durante mais ou menos uma hora: carros, a diferença entre os hospitais do interior e os das grandes cidades, a rivalidade entre a Universidade da Carolina do Norte e a Duke, a literatura gótica do Sul, a escravidão, a educação das crianças, os salários dos médicos e a crise do sistema de saúde, a lírica do rock em oposição à do blues, um livro do qual ambos gostamos, O Paciente Inglês.

Desde o começo, sentimo-nos bem conversando. Praticamente desde o primeiro momento, no Hospital da Universidade, alguma coisa nos ligou.

Após a primeira blitz de drinques, passamos a bebericar lentamente — cerveja no meu caso, vinho no dela. Estávamos meio alegres, mas não chegava a ser desastroso. Kate tinha razão numa coisa: ambos precisávamos descansar um pouco do estresse do caso Casanova.

Bem mais tarde, Kate me contou uma história quase tão chocante quanto o seqüestro que sofrera. Fez o relato com os olhos castanhos muito abertos, que brilhavam na penumbra do restaurante.

— Deixe-me contar-lhe uma coisa. Os sulistas adoram contar casos. Somos os últimos guardiões da história oral dos Estados Unidos.

— Conte, Kate. Eu adoro ouvir histórias. Tanto que passou a ser minha profissão.

Ela colocou a mão na minha. Respirou fundo. Sua voz se tornou suave e tranqüila.

— Era uma vez a família McTiernan, de Birch. Eram um grupo feliz que adorava o campo. Muito unidos, principalmente as meninas: Susanne, Marjorie, Kristin, Carole Arme e Kate. Kristin e eu éramos as menores, gêmeas. E havia Maria, nossa mãe, e Martin, nosso pai. Não vou falar muito dele. Mamãe o mandou embora quando eu tinha quatro anos. Era muito autoritário e às vezes conseguia ser mau feito uma víbora. Ele que se dane. Posso viver muito bem sem pai. — Kate prosseguiu durante algum tempo, depois interrompeu-se e me fitou nos olhos. — Alguém já lhe disse que você é um ouvinte simplesmente ótimo? Dá a impressão de estar tão interessado no que tenho para dizer que me faz querer falar mais e mais. Nunca contei essa história a ninguém.

Bem, eu estou interessado no que tem a dizer. É bom saber que está compartilhando isso comigo, que tem confiança em mim.

— Eu confio em você. A história nada tem de bonito, portanto, preciso confiar em você.

— Já imaginava, Kate.

Fiquei uma vez mais impressionado com a beleza de seu rosto. Tinha olhos muito grandes e meigos. Os lábios não eram muito grossos nem muito finos. Não era difícil imaginar por que Casanova a escolhera.

— Minhas irmãs e minha mãe foram maravilhosas quando eu estava crescendo. Eu era sua pequena escrava e seu bichinho de estimação. Não tínhamos muito dinheiro, de modo que sempre havia muito que fazer. Preparávamos nossas próprias conservas, legumes, geléia, frutas. Lavávamos e passávamos. Nós mesmas consertávamos a casa, as instalações hidráulicas, o carro. Tínhamos sorte: gostávamos umas das outras. Vivíamos rindo e cantando os últimos sucessos do rádio. Líamos muito e conversávamos sobre tudo, do direito de aborto às receitas culinárias. O senso de humor era obrigatório lá em casa. "Não seja tão séria " era a frase mais repetida.

Por fim, Kate me contou o que acontecera à família McTiernan. A história, seu segredo, saiu-lhe numa agitada erupção que ensombreou sua fisionomia.

— Marjorie foi a primeira a adoecer. Câncer no ovário. Morreu com vinte e seis anos. Já tinha três filhos. Depois, pela ordem, morreram Susanne, minha irmã gêmea Kristin e minha mãe. Todas de câncer no ovário ou no seio. Ficamos Carole Arme, meu pai e eu. Carole Arme e eu dizíamos, por pilhéria, que havíamos herdado o mau caráter de papai, provavelmente morreríamos de um ataque do coração. — Olhou subitamente para baixo; logo, tornou a me encarar. — Eu ia dizer: não sei por que estou lhe contando isso. Mas sei. É que gosto de você. Quero ser sua amiga. Quero que seja meu amigo. Será que é possível? — Comecei a dizer alguma coisa sobre como me sentia, mas ela pousou o dedo em meus lábios. — Não seja sentimental agora. Não me pergunte nada de minhas irmãs. Conte-me alguma coisa que jamais contou a outra pessoa. Conte depressa antes que mude de idéia. Revele-me um de seus grandes segredos, Alex.

Não pensei no que ia contar, simplesmente deixei escapar. Era apenas uma questão de lealdade depois do que ela acabava de me revelar. Por outro lado, queria dividir alguma coisa com aquela mulher. Queria confiar nela ou pelo menos tentar.

— Estou descompensado desde a morte de Maria — revelei a Kate McTiernan um de meus segredos, uma das coisas que trazia trancafiadas dentro de mim. — Eu me visto todas as manhãs, faço uma cara sóciável às vezes levo o revólver... mas me sinto vazio quase o tempo todo. Tive uma relação após a morte de Maria, e não deu certo. Fracassou de maneira espetacular. Agora, não estou preparado para ficar com ninguém. Nem sei se estarei um dia.

Kate me fitou nos olhos.

— Oh, Alex, que engano. Você está muito preparado — disse-me sem sombra de dúvida na voz.

Amigos.

— Eu também quero que sejamos amigos — respondi enfim. Coisa que raramente dizia e nunca tão depressa.

Olhando para Kate por cima do pavio da vela que se apagava, lembrei-me de Casanova outra vez. No mínimo, ele sabia julgar muito bem a beleza e o caráter de uma mulher. Nisso, era quase perfeito.

 

O harém ficava num vasto espaço no fundo de um sinuoso corredor. Tinha dois andares. No de baixo, havia um único quarto. No de cima, uns dez.

Naomi Cross caminhava cautelosamente entre as mulheres. Tinham sido mandadas à sala comum. Desde que lá estava, o número de cativas subira de seis para oito. Às vezes, uma moça ia embora ou desaparecia, mas seu lugar era sempre ocupado por uma nova.

Casanova as esperava na sala de estar. Colocara outra máscara. Esta era pintada a mão, estrias brancas e verde-claras. Festiva. Uma máscara para ocasiões alegres. Estava com um roupão de seda dourado no corpo nu.

A ampla sala era mobiliada com bom gosto. Um tapete oriental forrava o chão. As paredes brancas estavam pintadas de novo.

— Entrem, entrem, senhoras. Não se acanhem. Não sejam tímidas — disse ele do fundo da sala. Armado da pistola narcotizante e de um revólver, arvorava uma pose altiva.

Naomi imaginou que estivesse sorrindo por trás da máscara. O que mais queria era ver-lhe o rosto uma única vez, e então apagá-lo para sempre, parti-lo em pedaços, moer-lhe os cacos até que nada restasse.

Sentiu o coração saltar no peito ao entrar na ampla e bonita sala. Seu violino estava na mesa, perto de Casanova. Ele o roubara e o levara àquele sórdido lugar.

Estava valsando na sala de teto baixo como num sofisticado baile a fantasia. Sabia ter classe, chegava a ser galante. Movia-se com segurança.

Acendeu o cigarro de uma mulher com um isqueiro de ouro. Parou de falar com as moças. Tocou um ombro nu, um rosto, acariciou o cabelo louro de uma delas.

As mulheres pareciam assombradas. Estavam com as melhores roupas, todas caprichosamente maquiadas. Seu perfume impregnava o ar. Se ao menos o atacassem, todas ao mesmo tempo, pensou Naomi, Devia haver um modo de derrubá-lo.

— Como algumas de vocês já devem ter adivinhado, temos uma surpresa para as festividades de hoje. Um pouco de música noturna. — Apontou para Naomi, convocando-a a aproximar-se. Era sempre cauteloso quando as reunia daquele modo. Mantinha a arma empunhada, segurando-a com aparente desleixo. — Por favor, toque alguma coisa para nós — pediu. -— Algo de que goste. Naomi toca violino muito bem. Não se iniba, querida.

Naomi não conseguia tirar os olhos de Casanova. Com o roupão aberto, exibia sua nudez. De vez em quando, fazia com que uma delas tocasse um instrumento, cantasse, lesse poesia ou simplesmente falasse de sua vida antes de ingressar no inferno. Naquela noite, era a vez de Naomi.

Ela sabia que não tinha escolha. Estava decidida a ser valente, a se mostrar segura.

Pegou o violino, seu precioso instrumento, e foi invadida por muitas recordações tristes. Valente... segura... repetia consigo mesma. Era o que fazia desde menina.

Como jovem negra, aprendera a arte de agir com equilíbrio. Agora, precisava de todo o equilíbrio que fosse capaz de mostrar.

— vou tentar tocar a Sonata n° 1, de Bach — anunciou tranqüilamente. — Este é o adágio, o primeiro movimento. É muito bonito. Espero conseguir tocá-lo bem.

Fechou os olhos ao levar o violino à clavícula. Abriu-os ao pousar nele o queixo devagar, e, começou a afinar o instrumento.

Valente... segura, lembrou.

E começou a tocar. Estava longe de ser perfeita, mas aquilo lhe saía do coração. O estilo de Naomi sempre fora pessoal. Concentrava-se mais na melodia que na técnica. Sentiu vontade de chorar, mas conteve as lágrimas, reteve tudo dentro de si. Seus sentimentos se externavam somente na música, na bela sonata de Bach.

— Bravo! Bravo! — exclamou Casanova quando ela terminou. As mulheres aplaudiram. Era permitido. Naomi olhou para aqueles lindos rostos. Participava de sua dor. Queria lhes poder falar. Porém, quando ele as reunia, era só para demostrar poder, exibir absoluto controle sobre elas.

Casanova se aproximou e tocou de leve o braço de Naomi. Sua mão era quente, queimava-a.

— Você vai passar a noite comigo — disse com ternura. — Foi lindíssimo, Naomi. Você é tão linda, a mais linda de todas. Sabe disso, querida? Claro que sabe.

Valente, forte, segura, disse ela consigo mesma. Era uma Cross. Não lhe mostraria medo. Encontraria uma maneira de vencê-lo.

Kate e eu estávamos trabalhando em seu apartamento, em Chapei Hill. Falávamos uma vez mais na casa desaparecida, tentando desvendar aquele mistério. Pouco depois das oito, tocou a campainha. Kate foi ver quem era.

Vi-a falando com alguém, mas não sabia quem. Levei a mão à coronha do revólver. Ela deixou o visitante entrar.

Era Kyle Craig. Notei de imediato seu ar sombrio. Alguma coisa tinha acontecido.

— Kyle diz estar com uma coisa que você vai querer ver — disse Kate ao mesmo tempo em que conduzia o agente do FBI à sala de estar.

— Não foi difícil encontrá-lo, Alex — disse Kyle. Sentou-se ao meu lado no sofá. Parecia estar precisando sentar-se.

— Eu disse na portaria do hotel e à telefonista onde ficaria até mais ou menos nove horas.

— Pois é, não foi difícil. Olhe só para a cara de Alex, Kate. É por isso que ainda é detetive. Ele adora o serviço, quer solucionar todos os grandes quebra-cabeças e até mesmo os não tão grandes assim.

Eu sorri, sacudindo a cabeça. Kyle não deixava de ter razão.

— Gosto de meu trabalho principalmente porque me dá oportunidade de conviver com gente sofisticada e inteligente como você. Que aconteceu, Kyle? Conte logo.

— O Cavalheiro teve um encontro com Beth Lieberman. Ela está morta. O cara lhe amputou os dedos, Alex. Depois de matá-la, ateou fogo a seu apartamento, em Los Angeles Oeste. A metade do prédio se incendiou.

Embora eu não fosse precisamente fã de Beth Lieberman, fiquei chocado e triste com a notícia de sua morte. Eu tomara Kyle ao pé da letra quando me dissera que não valia a pena viajar a Los Angeles.

— Talvez ele soubesse de alguma coisa em seu apartamento que precisava ser queimada. Talvez ela estivesse com alguma coisa realmente importante.

Kyle olhou novamente para Kate.

— Vê como ele é bom? E uma máquina. Beth tinha de fato uma coisa comprometedora — confirmou. — Só que estava no computador do Times. Agora está conosco.

Entregou-me um longo e amassado fax. Apontou para o final da folha. Era um fax da sede de Los Angeles do FBI.

Olhei para o papel e li o trecho:

Possível Casanova!!!, dizia. Provável suspeito.

Dr. William Rudolph. Facínora de primeira classe.

Residência: Beverly Comstock. Local de trabalho: Centro Médico Cedars-Sinai.

Los Angeles.

— Finalmente uma pista. Uma boa dica em todo caso — disse Kyle. — Pode ser que o Cavalheiro seja esse médico. Esse facínora/ como ela diz.

Kate olhou para mim, depois para ele. Tinha nos dito a ambos que Casanova devia ser médico.

— Mais alguma coisa nas anotações de Lieberman? — quis saber.

— Até agora nada. Infelizmente, não podemos interrogar a senhorita Lieberman sobre o doutor William Rudolph nem perguntar-lhe porque fez a anotação no computador. vou lhe contar as duas novas teorias que estão ocupando nossos técnicos na Costa Oeste. Está preparado para uma especulação, amigo?

— Estou. Vamos ouvir as últimas grandes teorias do FBI do Oeste.

— A primeira é que ele está enviando os registros diários a si mesmo. Que é Casanova e o Cavalheiro Caller ao mesmo tempo. Os dois podem ser uma única pessoa, Alex. Ambos se especializaram em crimes "perfeitos". Há outras semelhanças também. Talvez ele tenha dupla personalidade. O FBI do Oeste, como você o chama, quer que a senhorita McTiernan vá imediatamente a Los Angeles. Precisam falar com ela.

Não gostei muito da primeira teoria da Costa Oeste, embora não a pudesse descartar de chofre.

— Qual é a outra hipótese? — perguntei.

— A outra é que se trata de dois homens. Mas não estão simplesmente em contato, estão competindo. Uma competição pavorosa, Alex. Talvez um jogo medonho que inventaram.

 

                   O CAVALHEIRO CALLER

Ele, fora um cavalheiro do Sul.

Professor brilhante.

Agora, era um dos mais finos cavalheiros de Los Angeles.

Sempre cavalheiro. Um homem requintado, gentil e muito inteligente.

A resplandecente esfera do sol iniciava seu lento mergulho no oceano Pacífico. O dr. William Rudolph a contemplou deslumbrado enquanto caminhava tranqüilamente pela avenida Melrose, em Los Angeles.

O Cavalheiro Caller estava passeando naquela tarde, absorvendo todas as vistas, todos os sons, o frenético movimento a seu redor.

A cena da rua lembrava o que escrevera um dos melhores autores de livros policiais, Raymond Chandler, talvez: "A Califórnia é uma loja de departamentos".

A maioria das mulheres atraentes que lhe chamavam a atenção tinham pouco mais de vinte anos. Retornavam de um frustrante mundo de trabalho cotidiano em firmas de contabilidade, bancos e escritórios de advocacia das imediações do Century Boulevard. Muitas iam de saltos altos, plataformas, minissaias justas e, aqui e ali, um elegante conjunto Rollo.

Ele escutava o eventual farfalhar da seda, o dique-dique marcial dos sapatos de griffe, o ruído abafado das botas de caubói cujo preço ultrapassava o que Wyatt Earp havia ganho durante toda a vida.

Estava ficando excitado e um tanto frenético. Agradavelmente frenético. A vida na Califórnia era boa. A loja de departamentos de seus sonhos.

Aquela era a melhor parte: o prelúdio que antecedia a escolha final. A polícia de Los Angeles continuava desconcertada e confusa com suas peripécias. Ele era simplesmente bom demais naquilo. Era o Jekyll e Hyde da atualidade.

Caminhando entre La Brea e Fairfax, aspirou os aromas almiscarados e os fortes perfumes florais dos cabelos impregnados de camomila e limão. As bolsas e as saias de couro também tinham cheiro bem definido.

Era tudo uma grande provocação, e ele a adorava. Curioso que aquelas deliciosas raposas da Califórnia fizessem tanta questão de provocá-lo.

Sentia-se como o belo garotinho de cabelo cacheado perdido numa loja de guloseimas. Que proibidos doces escolheria naquela noite?

Aquela piranhazinha de sapatos vermelhos, sem meias? A Juliette Binoche dos pobres? A gostosa de taüleur bege e preto?

Muitas das mulheres, que entravam e saíam de suas butiques favoritas (Exit I, Leathers and Treasures, La Luz de Jesus), endereçavam-lhe olhares aprovadores.

Ele era extraordinariamente belo, mesmo para os rigorosos padrões de Hollywood. Parecia-se com o cantor Bono, do grupo de rock irlandês U2. Na verdade, tinha a aparência que teria Bono se houvesse escolhido ser um bem-sucedido médico em Dublin ou Cork. Ou mesmo ali, em Los Angeles.

E aquele era um dos segredos mais particulares do Cavalheiro: as mulheres quase sempre o escolhiam.

Will Rudolph se dirigiu à Nativity, uma das lojas de alto padrão mais em voga na Melrose. O lugar onde se podia adquirir um bustiê exclusivo, um casaco de couro com apliques de visom, um "antigo" relógio de pulso Hamilton.

Observando os corpos flexíveis e jovens que povoavam a loja, estava pensando nas grandes festas de Hollywood, em seus restaurantes de luxo e até em suas melhores lojas. A cidade dependia totalmente da hierarquia social.

E ele compreendia perfeitamente o status Sim, compreendia-o. O ar. Wüliam Rudolph era o homem mais poderoso de Los Angeles.

Divertia-se com a sensação de segurança que aquilo lhe dava, as histórias publicadas na primeira página dos jornais lhe diziam que ele existia de fato, que não era um retorcido fragmento de sua própria imaginação. O Cavalheiro tinha o controle de toda uma cidade, de uma cidade influente.

Aproximou-se de uma loura irresistível, coberta de jóias.

Estava olhando distraidamente para as jóias incas; parecia entediada com tudo, ou seja, com a vida. Era, sem dúvida, a mulher mais atraente que se encontrava na Nativity, mas não foi isso que lhe chamou a atenção.

Ela era absolutamente intocável. Enviava claros sinais mesmo naquela loja cara, cheia de outras moças deliciosas e elegantíssimas. Sou intocável. Nem pense nisso. Você não me merece, seja lá quem for.

Ele sentiu uma trovoada no peito. Teve vontade de gritar bem alto na butique lotada.

Eu sou capaz de possuí-la. Eu sou!

Você não sabe, não tem a menor idéia — eu sou nada menos que o Cavalheiro Caller.

A loura tinha boca arrogante e carnuda. Sabia que não precisava de batom nem de sombra. Era magra, de cintura fina. Elegante à maneira sulista da Califórnia. Estava com um colete de algodão, uma saia-envelope e mocassins. O bronzeado da pele era uniforme e perfeito, exalava saúde.

Ela finalmente olhou de relance em sua direção. Uma pancada com os olhos, pensou o dr. Will Rudolph.

Meu Deus, que olhos! Queria-os para si. Queria rolá-los entre os dedos, levá-los consigo como amuletos.

O que ela viu foi um homem alto, magro, de aparência interessante, de trinta e poucos anos. Tinha ombros largos e constituição de atleta ou talvez de bailarino. O cabelo castanho, clareado pelo sol, estava preso num rabo-de-cavalo. Os olhos eram azuis. Will Rudolph também estava com um jaleco de médico ligeiramente amarrotado sobre a tradicionalíssima camisa azul Oxford e a gravata listrada. Calçava caras botas Dr. Martens — calçados indestrutíveis. Parecia tão seguro de si!

Foi ela quem falou primeiro. Escolheu-o, não? Os olhos azuis da moça eram calmos e profundos, imperturbáveis, muito sensuais em sua confiança. Ela brincou com um dos brincos de ouro.

— Foi alguma coisa que deixei de dizer?

Ele começou a rir, genuinamente deliciado com o humor adulto da bela loura. Aquela seria uma noite e tanto, pensou. Tinha certeza.

— Desculpe. Não costumo ficar olhando com tanta insistência. Pelo menos nunca fui pego em flagrante fazendo isso — respondeu. Não conseguiu parar de rir imediatamente. Tinha um riso fácil, agradável. Era uma das ferramentas de trabalho, principalmente em Hollywood, Nova York, Paris: seus campos de caça favoritos.

— Pelo menos você é sincero — disse ela. Também estava rindo, a corrente de ouro balançava em seu peito. Ele teve vontade de arrancá-la, de passar a língua em seus seios.

Estava condenada agora, se fosse o desejo dele, sua vontade, seu capricho. Devia prosseguir? Ou procurar um pouco mais?

O sangue lhe corria com força tremenda na cabeça. Tinha de decidir. Tornou a fitar os olhos imperturbáveis da loura e deu com a resposta.

— Não sei nada de você — disse, tentando aparentar calma —, mas acho que acabo de encontrar o que gosto.

— E, acho que também encontrei o que preciso — respondeu ela depois de algum tempo. E riu. — De onde você é? Não é daqui, é?

— Da Carolina do Norte. — Abriu a porta para ela, e saíram juntos da butique. — Fiz o possível para perder o sotaque.

— E conseguiu.

Ela estava tão deliciosamente impressionada consigo mesma, não tinha sombra de autoconsciência. Exibia uma aura de autoconfiança e competência que ele esmagaria completamente. Caramba, como a desejava!

Vamos nós, amigos da ação. Ele está saindo da Nativity em companhia da loura. Já se encontram do lado de fora, na avenida Melrose.

Estávamos observando de binóculo o incrível encontro. O FBI também instalara microfones direcionais apontados para o dr. William Rudolph e a moça.

Era um trabalho exclusivo do FBI. Nem mesmo a polícia de Los Angeles fora avisada. Nadie. Era o típico procedimento tático do bureau, eu era o único a acompanhá-los dessa vez, cortesia de Kyle Craig. O FBI queria falar com Kate em Los Angeles. Kyle arranjou para que eu também fosse depois que lhe cobrei o acordo que tínhamos firmado, argumentando que aquela poderia ser uma pista importantíssima na investigação do caso Casanova.

Passava das cinco e meia; a ruidosa e caótica hora do rush num dia ensolarado da Califórnia. Temperatura de quase vinte e quatro graus. Aceleradíssimas batidas de coração no interior de nosso carro.

Finalmente estávamos prestes a pôr as mãos num dos monstros. Ao menos o esperávamos. O dr. William Rudolph era para mim um vampiro da atualidade. Eu tinha passado a tarde vagando entre lojas chiques: Ecru, Grau, Mark Fox. Até mesmo as meninas que conversavam ociosamente diante da Johny Rockefs, uma lanchonete ao estilo dos anos 50, eram alvos potenciais. Ele estava em plena caça naquele dia. Observava atentamente as garotas. Mas seria realmente o Cavalheiro Caller?

Fiquei com dois velhos agentes do FBI numa perua de aspecto inofensivo, estacionada numa rua transversal à avenida Melrose. Nossos rádios estavam ligados aos microfones direcionais de dois dos outros cinco automóveis que acompanhavam o suposto Cavalheiro. Era quase uma parada.

— É, acho que também encontrei o que preciso — ouvimos a loura dizer. Lembrava as belas estudantes que Casanova seqüestrara no Sul. Seria mesmo um único monstro? Um assassino atuando nas duas costas? Uma personalidade esquizóide?

Os especialistas do FBI da Costa Oeste acreditavam ter a resposta. Em sua opinião, o mesmo maluco estava perpetrando os chamados "crimes perfeitos" nas duas extremidades do país. Não havia casos de duas vítimas seqüestradas ou assassinadas no mesmo dia. Infelizmente, existia uma dúzia de teorias sobre o Cavalheiro Caller e Casanova. Eu as conhecia todas. E ainda não estava convencido de nenhuma.

— Há quanto tempo está em Hollywood? — ouvimos a loura perguntar a Rudolph. Sua voz era sedutora, sensual. Obviamente, estava flertando com ele.

— O bastante para tê-la encontrado. — Ele falava baixo e se mostrava cortês. Ia segurando-lhe de leve o braço com a mão esquerda. O Cavalheiro?

Não tinha aparência de assassino, mas se parecia com o Casanova que Kate McTiernan havia descrito. Era bonitão, atlético, evidentemente atraente às mulheres. E era médico. Tinha olhos azuis — a cor que Kate vira atrás da máscara de Casanova.

— Com essa pinta, o filho da puta pode conseguir a mulher que quiser — disse um dos agentes, voltando-se para mim.

— Não para o que pretende fazer com elas — respondi.

— Tem razão.

O agente John Asaro era mexicano-americano. Compensava a incipiente calvície com um denso bigode. Devia ter quase cinqüenta anos. O outro policial era Raymond Cosgrove. Ambos muito bons, profissionais de alto nível. Kyle Craig estava cuidando bem de mim.

Eu não conseguia tirar os olhos de Rudolph e da loura. Ela estava apontando para um Mercedes preto, conversível, com a capota arriada. Outras lojas caras se erguiam ao fundo: I. a. Eyeworks, Gallay Melrose. Um letreiro luminoso, botas de caubói de dois metros e meio de altura, emoldurava-lhe o cabelo acariciado pelo vento.

Ouvimos sua conversa na rua movimentada. Os microfones direcionais captavam tudo. Ninguém na perua fazia um ruído.

— Aquele é o meu carro. Está vendo a moça rui vá lá dentro?... É minha namorada. Você acreditou mesmo que ia me pegar assim? — A loura estalou os dedos, e os braceletes coloridos chocalharam diante do rosto de Rudolph. — Lembranças ao dr. Kildare.

John Asaro não conteve um gemido:

— Caramba, ela lhe deu o fora! Deixou-o falando sozinho. Não é maravilhoso? Isto só pode acontecer em Los Angeles.

Raymond Cosgrove deu um soco no painel.

— Filha da puta! Está indo embora. Volte para ele, queridinha! Diga que estava só brincando!

Quase o tínhamos pegado. Eu chegava a me sentir mal pensando que estava escapando. Tínhamos de surpreendê-lo fazendo alguma coisa, do contrário não poderíamos prendê-lo.

A loura atravessou a avenida e entrou no Mercedes preto. A ruiva que a esperava tinha cabelo curto, seus brincos de prata brilhavam à luz fugidia do entardecer. Inclinando-se, a mulher beijou a amante.

Observando a cena, o dr. Rudolph não se mostrou de modo algum aborrecido. Permaneceu na calçada, com as mãos nos bolsos do jaleco branco, aparentando calma neutralidade. Como se nada tivesse acontecido. Acaso estávamos olhando para a máscara do Cavalheiro Caller?

As amantes acenaram quando o Mercedes passou, e ele lhes sorriu, deu de ombros e balançou friamente a cabeça.

Ouvimo-lo resmungar:

— Ciao, senhoritas. Eu gostaria de cortá-las em pedaços e dá-los de comer às gaivotas de Venice Beach. E anotei o número da placa, suas babacas.

Seguimos o dr. Will Rudolph até sua cobertura de luxo em Beverly Comstock. O FBI sabia onde ele morava. Não transmitiram essa informação à polícia de Los Angeles tampouco. A tensão e a decepção pesavam no interior do carro. O FBI estava jogando um jogo perigoso ao isolar a polícia local.

Deixei a vigilância por volta das onze. Rudolph estava em casa havia mais de quatro horas. Um zumbido inidentificável em minha cabeça não me deixava em paz. Ainda estava sincronizado com o horário do Leste. Para mim, eram duas da madrugada, precisava dormir.

Os agentes do FBI prometeram telefonar se surgisse alguma coisa ou se o dr. Rudolph saísse para caçar naquela noite. O episódio da avenida Melrose não devia tê-lo agradado, era possível que em breve fosse procurar outra vítima.

Se é que era mesmo o Cavalheiro Caller.

Deixaram-me no Holiday Inn, na esquina da Sunset com a Sepulveda. Kate McTiernan também estava hospedada lá. O FBI a chamara à Califórnia porque ela sabia mais que qualquer outra pessoa sobre Casanova. Fora seqüestrada por ele e sobrevivera para contar. Talvez se mostrasse capaz de identificá-lo se Casanova e o Cavalheiro fossem a mesma pessoa. Passou quase o dia todo sendo interrogada na sede do FBI, no centro de Los Angeles.

Seu quarto ficava a certa distância do meu. Bastou que eu batesse uma vez para que me abrisse a porta branca com o número 26 em preto.

— Não consegui dormir. Estava esperando — disse. — Que aconteceu? Conte-me tudo.

Acho que não estava muito bem-humorado após o fracasso.

— Infelizmente, não aconteceu nada.

Kate ficou me olhando, esperando mais. Estava com uma blusa azul-clara, bermuda caqui e sandálias de tiras amarelas. Parecia desperta e excitada. Fiquei contente por revê-la, mesmo às duas e meia de uma madrugada sem graça.

Tendo entrado por fim, falei da ação do FBI na avenida Melrose. Contei-lhe quanto estivéramos próximos de capturar o dr. Will Rudolph. Lembrava-me de tudo quanto ele dissera, de cada gesto seu.

— Falava como um cavalheiro, também agiu como tal... até o momento em que a loura o irritou.

— Como ele é? — quis saber Kate. Estava ansiosa por ajudar. Eu não podia culpá-la. O FBI a fizera viajar a Los Angeles, depois, deixara-a boa parte do dia e toda a noite trancada num quarto de hotel.

— Sei como está se sentindo, Kate. Falei com o FBI; você vai comigo amanhã. Vai vê-lo, provavelmente de manhã. Não quero influenciá-la agora. Ok? — Ela concordou, mas eu notei que ficara magoada. Não estava satisfeita com seu nível de envolvimento. — Desculpe. Não estou tentando agir como detetive, como um chato controlador. Não vamos brigar por isso.

— É que você me pareceu tão distante! Mas está desculpado. Acho melhor dormir um pouco. Amanhã é outro dia. Um grande dia, quem sabe.

— Sim, amanhã pode ser um grande dia. Lamento muito, Kate.

— Eu sei. — Ela sorriu enfim. — Tudo bem. Tenha bons sonhos.

Fui para meu quarto. Na cama, fiquei pensando em Kyle Craig. Conseguira impor meu estilo heterodoxo a seus colegas por uma razão: havia dado certo uma vez. Eu já tinha o escalpo de um monstro na cinta. Não observara o regulamento para consegui-lo. Kyle compreendia e respeitava os resultados. Em geral, era o que fazia o bureau. Estavam jogando segundo suas próprias regras em Los Angeles.

Meu último pensamento semiconsciente foi para Kate com aquela bermuda caqui. Tive a fantasia passageira de que ela podia vir pelo corredor e bater, bater, bater em minha porta. Afinal, estávamos em Hollywood. Não era assim que acontecia nos filmes?

Porém, Kate não veio. Aquele devaneio estava bom para Clint Eastwood e Rene Russo.

 

Aquele seria um grande dia na cidade-lantejoula. A maior das caçadas humanas estava se armando em Beverly Hills. Exatamente como no dia em que lá capturaram o estrangulador Richard Ramirez.

Hoje nós pegamos esse cara.

Eram pouco mais de oito horas da manhã. Kate e eu estávamos num Taurus azul estacionado a meia quadra do Centro Médico Cedars-Sinai, em Los Angeles. Um ruído elétrico se espalhava no ar, como se a cidade se movesse por força de um único e gigantesco gerador. Passou-me pela cabeça o verso de uma antiga canção: O inferno é uma cidade parecida com Los Angeles.

Estava tenso e nervoso; sentia o corpo entorpecido e um pouco de enjôo. Sono atrasado. Não tinha dormido o suficiente. Muito estresse durante muito tempo. Caçando monstros de um oceano a outro.

— Aquele é o doutor Rudolph, o que está descendo do BMW — eu disse a Kate. Estava passando mal, era como se me estivessem apertando todos os músculos do corpo.

— Bonitão — murmurou ela. — Seguro de si também. A maneira como anda. Esse é o doutor Rudolph!

Calando-se, continuou observando o médico. Seria o Cavalheiro Caller? Seria Casanova também? Ou estávamos redondamente enganados?

Naquela manhã, a temperatura não passava dos quinze graus. O ar cortava como no outono do Nordeste. Kate estava com um agasalho da universidade, tênis de cano alto, óculos escuros. Trazia preso o longo cabelo castanho.

— Alex, o FBI está todo aqui? — perguntou, afastando os olhos do binóculo. — Está mesmo? Esse cara não tem chance de fugir?

Balancei a cabeça.

— Se fizer alguma coisa, qualquer coisa que mostre que é o Cavalheiro, eles o agarrarão. Fazem questão de prendê-lo.

Mas o FBI também estava me dando todo o espaço de que necessitava. Kyle Craig mantivera sua palavra. Até aquele momento pelo menos.

Kate e eu observamos o dr. William Rudolph descer do BMW que acabava de estacionar numa vaga privativa, no lado oeste do hospital. Estava com um terno cinza-chumbo de estilo europeu. Era bem-cortado e parecia caro. Provavelmente, tinha custado tanto quanto minha casa em Washington. Seu cabelo claro estava preso num caprichado rabo-de-cavalo. Estava de óculos escuros com aro de tartaruga.

Médico de um hospital exclusivo de Beverly Hills. Satisfeitíssimo consigo mesmo. O maldito Cavalheiro Caller estava incendiando a cidade?

Eu tinha vontade de atravessar o estacionamento e lhe dar um murro, derrubá-lo naquele mesmo instante. Apertei os dentes até sentir o maxilar dolorido. Kate não tirava os olhos do dr. Rudolph. Seria Casanova? Seriam os dois o mesmo monstro?

Vimo-lo dirigir-se à entrada do hospital. Seus passos eram largos, rápidos e leves. Nada parecia perturbá-lo. Finalmente, entrou pela porta lateral e desapareceu.

— Um médico — disse Kate sacudindo a cabeça. — Que coisa horrível, Alex. Estou chocada.

A estática do rádio do carro nos assustou, mas conseguimos ouvir claramente a voz áspera do agente John Asaro.

— Alex, vocês o viram? Viram bem? Que acha a senhorita McTiernan? Qual é o veredicto?

Olhei para Kate. Ela exibia todos os seus trinta e um anos naquele momento. Menos segura e confiante, quase grisalha. A testemunha principal. Compreendia perfeitamente a terrível gravidade da ocasião.

— Acho que não é Casanova — disse por fim. Sacudiu a cabeça. — Não tem o mesmo tipo físico. E mais magro... tem andar diferente. Não estou cem por cento segura, mas acho que não é ele. — Pareceu um pouco decepcionada. Continuou sacudindo a cabeça. — Tenho quase certeza de que não é Casanova. Devem ser duas pessoas diferentes.

Olhou intensamente para mim.

Então eram dois os assassinos. Estariam competindo? Que diabo de jogo estavam jogando de uma costa a outra?

 

A conversa fiada, a conversa de quem está vigiando, me era familiar. Na capital, Sampson e eu tínhamos uma "definição" para aquele tipo de vigilância: "Eles matam; nós esperamos".

— Quanto ganhará esse cara com um consultório em Beverly Hills? Chute, Kate — falei à minha companheira. Ainda estávamos vigiando o estacionamento privativo do médico no Cedars-Sinai. Nada havia a fazer senão ficar olhando para o BMW zero quilômetro, esperar e conversar como velhos amigos.

— Provavelmente cobra de cento e cinqüenta a duzentos dólares a consulta. Pode tirar quarenta ou cinqüenta mil por mês. E há as taxas de cirurgia, Alex. Isto, se for consciencioso nos preços, e nós sabemos que ele nada tem consciencioso.

Sacudi a cabeça com incredulidade ao mesmo tempo em que esfregava o queixo.

— Acho que preciso voltar a clinicar. Meu neném está precisando de sapatos novos.

Kate sorriu.

— Anda com saudades deles, não, Alex? Tem falado muito nos meninos. Damon e Jannie.

Eu também sorri. Kate agora parecia conhecer meus filhos.

— É verdade. São meus companheirinhos.

Ela riu. Eu gostava de fazê-la rir. Pensei nas histórias tristes que me contou sobre sua família, especialmente sobre sua irmã gêmea, Kristin. O riso é um bom remédio.

O BMW preto continuava lá, brilhando ao sol da Califórnia. A vigilância acaba com a gente, pensei, seja onde for. Mesmo na ensolarada Los Angeles.

Kyle Craig tinha aberto muito espaço para mim ali. Sem dúvida, muito mais do que eu tivera no Sul. E para Kate também. Alguma coisa havia naquilo. O velho quid pró quo. Kyle queria que eu entrevistasse o Cavalheiro Caller quando estivesse preso, e esperava que lhe contasse tudo. Eu suspeitava que tinha a intenção de pegar, ele mesmo, Casanova.

— Acredita de fato que estão competindo entre si? — perguntou-me Kate depois de algum tempo.

— É bem possível. Pode ser que tenham necessidade um do outro. O diário do Cavalheiro pode ser um modo de dizer: olhe, eu sou melhor que você. Sou mais famoso. Enfim, não sei ainda. Compartilhar o que fazem deve ser mais uma questão de tornar as coisas emocionantes que propriamente de intimidade. Ambos querem chamar a atenção.

Kate olhou para mim.

— Alex, você não se sente mal tentando imaginar todas essas coisas?

Eu sorri.

— É por isso que quero pegar esses dois. Para acabar com meu o mal-estar.

Kate e eu esperamos até que Rudolph reaparecesse. Eram quase duas da tarde. Ele foi diretamente ao consultório em North Bedford, a oeste de Rodeo Drive. Atendeu clientes. Quase todas mulheres. O dr. Rudolph era cirurgião plástico. Como tal, podia criar e esculpir. As mulheres dependiam dele. E... todas as suas clientes o escolhiam.

Seguimos Rudolph até em casa, por volta das sete. Quarenta ou cinqüenta mil dólares por mês, pensei. Era mais do que eu podia ganhar numa década. Precisaria ele de tanto dinheiro para ser o Cavalheiro Caller? E Casanova? Era rico também? Também era médico? Era assim que cometiam seus crimes perfeitos?

Essas perguntas não me saíam da cabeça.

Tirei um cartão do bolso da calça. Tinha iniciado uma breve lista das características de Casanova e do Cavalheiro. Acrescentava ou retirava o que me pareciam atributos dos perfil de um e de outro. Levava aquele cartão sempre comigo.

 

     CASANOVA CAVALHEIRO

     Colecionador, harém, artista

     Criou diferentes máscaras...

     Para representar estados de espírito

     Ou personagens? médico?

     Diz "amar" as vítimas gosta da violência

     Sabe de mim

     Compete com Gary Soneji?

     Compete com o Cavalheiro de Los Angeles?

     Dá flores — sexual? Extremamente violento

     Perigoso prefere jovens bonitas

     De todos os tipos

     Extremamente organizado

     Não é "estético" em termos de assassínio

     Médico frio e impessoal... um carniceiro

     Procura reconhecimento e fama

     Provavelmente rico

     Apartamento de cobertura

     Formado pela Faculdade de Medicina da Duke,

     em 1986 criado na Carolina do Norte

 

Fiquei pensando nas possíveis conexões entre Rudolph e Casanova enquanto esperava com Kate. Uma situação psicológica relevante me ocorreu. Chamava-se geminação e podia ser uma chave. A geminação podia explicar a estranha relação entre os monstros. Era causada pela necessidade de vínculo, geralmente entre duas pessoas solitárias. Uma vez "germinadas" ambas se convertiam num "inteiro"; passavam a depender um do outro, quase sempre de modo obsessivo. Às vezes tais "gêmeos" se tornam altamente competitivos.

A geminação era, por assim dizer, o vício da dupla. O desejo de pertencer a um clube secreto. Só duas pessoas e nenhuma senha. Em sua forma negativa, era a fusão de dois indivíduos em suas necessidades individuais, as quais não eram sadias.

Expliquei-o a Kate, que também era gêmea.

— Com muita freqüência, há uma figura dominante numa relação geminada. Não era assim com você e sua irmã?

— Acho que eu era a figura dominante — respondeu ela.

— Tirava boas notas na escola. Era um tanto ambiciosa às vezes. Ela me chamava de ambiciosa no ginásio. Chamava-me também de coisas piores.

— O gêmeo dominante pode assumir uma estrutura comportamental de padrão masculino. — Estávamos falando de médico para médico. — No entanto, pode não ser o mais habilidoso na manipulação.

— Como você pode imaginar, li um pouco a esse respeito — disse Kate com um sorriso nos lábios. — Os gêmeos criam, uma única e poderosa estrutura dentro da qual o par pode operar de maneiras complexas. É isso?

— Correto, doutora McTiernan. No caso de Casanova e do Cavalheiro, cada um deles teria sua própria personalidade de apoio, seu guarda-costas. Talvez seja por isso que trabalham tão bem. Crimes perfeitos. Ambos contam com um sistema de suporte emocional interior muito eficaz.

A pergunta que me ocupava era... como foi que os dois se conheceram? Teria sido na Duke? Acaso Casanova também tinha estudado lá? Tinha sentido. Isso também me lembrava o caso Leopold-Loeb, em Chicago. Dois garotos inteligentes, muito especiais, cometendo atos proibidos juntos. Compartilhando pensamentos maus e sórdidos segredos porque eram solitários e não tinham com quem conversar... A geminação em seu grau mais destrutivo.

Seria aquele o começo da solução do quebra-cabeça?, perguntei-me. O Cavalheiro e Casanova eram gêmeos? Estavam de fato trabalhando juntos? Em que consistia seu jogo, afinal?

— Vamos quebrar o vidro de sua imagem com uma marreta

— disse Kate. Os dois estávamos dispostos a "detonar". Queríamos acabar com aqueles Leopold e Loeb adultos.

 

Já passava das oito, e continuávamos à espreita. Talvez o dr. Will Rudolph não fosse o Cavalheiro Caller. Beth Lieberman podia ter se equivocado. Entretanto, já não havia como perguntar-lhe.

Kate e eu tínhamos conversado sobre os Lakers sem Magic Johnson e Kareem, sobre o último disco de Aaron Neville, e a vida íntima de Hillary e Bill Clinton, as vantagens da Johns Hopkins sobre a faculdade de medicina da Universidade da Carolina do Norte.

Estranhas afinidades pairavam entre nós. Eu fizera algumas sessões extra-oficiais de terapia com Kate McTiernan, hipnotizara-a uma vez. E compreendia que estava com medo de que irrompesse um incêndio entre nós. Que havia de errado comigo? Estava na hora de recomeçar a vida, de superar a perda de minha esposa. Eu chegara a pensar que fosse dar certo com uma mulher chamada Jezzie Flanagan, mas ela deixara um vazio insuperável dentro de mim.

Kate e eu finalmente começamos a abordar temas um pouco mais próximos do coração. Ela me perguntou por que me mostrava tão esquivo com as relações (porque minha mulher morreu; porque a última relação que tive implodiu; por causa de meus filhos). Eu lhe perguntei por que era tão cautelosa com relações significativas (tinha medo de morrer de câncer no ovário ou no seio como suas irmãs; tinha medo de que seus amantes morressem ou a abandonassem — de passar o resto da vida perdendo entes queridos).

Sacudi a cabeça:

— Formamos um par e tanto.

— Talvez os dois tenhamos pavor de voltar a perder um ser amado — respondeu Kate. — Talvez seja melhor amar e perder que ter medo.

Antes que houvesse tempo para entrarmos nesse tema espinhoso,, o dr. Will Rudolph finalmente reapareceu. Consultei o relógio do painel do carro: 10:20.

Estava todo de preto. Blazer cinturado, camisa de gola rulê, calça justa, finas botas de caubói. Desta vez, entrou num Range Rover branco, não no BMW. Parecia estar saindo do chuveiro. Provavelmente, havia tirado uma soneca. Tive inveja disso.

— Todo de preto — murmurou Kate com um sorriso tenso. — Vestido para matar?

— Talvez tenha sido convidado para jantar. Que idéia tétrica: janta com as mulheres, depois as mata.

— Não deixa de ser uma maneira de conseguir entrar no apartamento dela. Que coisa terrível! Dois malucos à solta.

Liguei o motor, e seguimos Rudolph. Não vi nenhuma cobertura do FBI, mas tinha certeza de que estavam por perto.

O bureau ainda não notificara a polícia de Los Angeles. Era um jogo perigoso, embora bastante comum no caso do FBI. Eles se consideravam os melhores policiais, em qualquer tipo de serviço, e a mais alta autoridade. Tinham decidido que se tratava de um crime interestadual, portanto, cabia a eles resolvê-lo. Algum chefão devia estar interessadíssimo no caso.

Eu sabia o que Kate estava sentindo. Sentia-o também.

— Os vampiros sempre caçam à noite, hem? — disse Kate. Estávamos rumando para o sul. — É o que parece, Alex. O Cavalheiro Caller, de Bram Stocker. Uma história de terror da vida real.

— Ele é um monstro. A diferença é que se criou a si mesmo. Assim como Casanova. Bram Stocker ou Mary Shelley apenas escreveram sobre monstros humanos a vagar pelo mundo. Nós, ao contrário, estamos às voltas com malucos que resolveram viver suas fantasias. Que país!

— Ame-o ou deixe-o, garotão — retrucou ela, rindo e piscando para mim.

Eu já tinha feito muita "campana" em minha carreira para ser razoavelmente bom nisso. Imaginava que tinha merecido um diploma na matéria durante a caçada a Soneji/Murphy.

Por isso, notei logo que o FBI da Costa Oeste também era bom.

Os agentes Asaro e Cosgrove se manifestaram pelo rádio assim que começamos a rodar novamente. Estavam no comando na operação de vigilância de Will Rudolph. Ainda não sabíamos se ele era o Cavalheiro. Não tínhamos prova. Não podíamos prendê-lo.

Seguimos o Range Rover para o oeste. Rudolph finalmente entrou pela alameda Sunset e a percorreu na direção da rodovia Costa do Pacífico. Depois, virou para o norte, entrando na rodovia U.S. 1. Notei que tomara o cuidado de não ultrapassar os limites de velocidade dentro de Los Angeles. Uma vez na estrada, porém, começou a voar.

— Aonde diabos ele vai? Estou com o coração na mão — queixou-se Kate.

— Tudo vai dar certo. Dá um pouco de medo persegui-lo à noite — respondi.

Parecia que estávamos a sós com ele. Aonde estava indo? Estaria caçando? A julgar por seu padrão de comportamento, em breve cometeria outro crime. Devia estar ansioso.

A viagem foi longa. Vimos as estrelas iluminando a noite do litoral da Califórnia. Seis horas mais tarde, ainda estávamos na rodovia 1. A Range Rover finalmente saiu junto a uma pequena placa de madeira que, entre outras coisas, dizia: Parque Estadual Big Sur.

Como para confirmar que estávamos no Big Sur, passamos por um antigo furgão com os dizeres:

         VISUALIZE O COLAPSO INDUSTRIAL

 

— Visualize o doutor Will Rudolph entrando pelo cano — resmungou Kate.

Consultei o relógio ao sairmos da estrada.

— Já passa das três. Está ficando tarde para ele entrar numa fria esta noite.

Eu esperava que fosse o caso.

— Se houvesse alguma dúvida, isto poderia provar que ele é mesmo um vampiro sanguinário — murmurou Kate. Estava com os braços firmemente cruzados junto ao peito desde o começo da viagem. — Com certeza vai dormir em seu caixão predileto.

— Certo. E nós vamos lhe cravar uma estaca de madeira no peito.

Ambos estávamos meio sonolentos. Eu havia tomado um comprimido. Kate o recusara. Disse que tão cedo não queria saber de drogas.

Passamos por um complexo de sinais: Point Sur, Praia Pfeiffer, Hospedaria Big Sur, Ventana, o Instituto Esalen. Will Rudolph tomou a direção da Hospedaria Big Sur, do Desfiladeiro dos Sicômoros, e do Camping Bottchers Gap.

— Eu esperava que ele fosse para o Esalen — brincou Kate. — Aprender a meditar, a lidar com seu caos interior.

— Que pretende esse cara? — perguntei-me em voz alta. Que estariam fazendo ele e Casanova? Até ali, era impossível imaginar. — Pode ser que seu esconderijo fique por aqui, na floresta. Talvez tenha uma casa de horrores como a de Casanova.

Geminação, pensei novamente. Era bem possível. Eles estariam fornecendo sistemas de apoio um ao outro. Vestígios paralelos dos dois monstros. Mas onde se encontravam? Será que nunca tinham caçado juntos? Desconfiava que sim.

O Range Rover branco ia por uma estrada secundária íngreme e tortuosa, que se estendia a leste do oceano. Antigas e sombrias sequóias se erguiam de ambos os lados. Uma pálida lua cheia parecia deslocar-se exatamente acima do Range Rover, acompanhando-o.

Deixei-o tomar uma boa distância à nossa frente — de modo que ficou fora do alcance de nossa vista. As gigantescas árvores pareciam flutuar a cada lado da estrada. Sombras escuras da vida real. Os faróis iluminaram uma placa amarela que dizia: Intransitável em tempo chuvoso.

— Ele está logo ali adiante, Alex. — O aviso de Kate chegou um pouco tarde demais. — Ele parou!

Por trás dos óculos escuros, o Cavalheiro olhou para o nosso carro, que passava por ele e pelo Range Rover. Ele nos tinha visto.

 

O dr. Rudolph entrara por um caminho de terra quase invisível da estrada. Estava debruçado sobre o assento traseiro, apanhando alguma coisa volumosa. Ao erguer o rosto à nossa passagem, olhou para o carro com olhos frios e inquisidores.

Continuei na mesma velocidade pelo asfalto, cujo negrume era acentuado pelos negros ramos retorcidos que o toldavam. Algumas centenas de metros mais adiante, ao dobrar uma curva, parei no estreito acostamento. Avistei uma placa de metal que anunciava novas e perigosas sinuosidades na rodovia.

— Ele parou num chalé — comuniquei pelo rádio. — Está a pé, desceu do Range Rover.

— Já vimos, Alex. Ele está na nossa mira — disse a voz de John Asaro. — Estamos no outro lado do chalé agora. Tudo escuro lá dentro. Ele está acendendo as luzes. El país grande dei sur. Era assim que os espanhóis se referiam a esta região. Bonito lugar para pegar esse filho da puta.

Kate e eu descemos do carro. Ela estava um pouco pálida, o que era compreensível. A temperatura caíra para menos de quatro graus, e o vento era forte na montanha. Mas ela não estava tremendo somente por causa da umidade e do frio.

— Vamos pegá-lo logo — eu lhe disse. — Ele está começando a cometer erros.

— Pode ser outra casa de horrores. Você tinha razão — respondeu ela em voz baixa. Estava com os olhos parados, perdidos. Eu não a via tão perturbada desde quando estava no hospital. — Eu sinto que é uma casa dessas, Alex... é quase a mesma coisa. É sinistro. Não estou sendo muito valente, estou?

— Acredite, Kate, eu também não estou me sentindo muito valente agora.

A densa neblina do litoral parecia não acabar nunca. Eu estava com o estômago gelado e azedo. Tínhamos de caminhar um pouco.

Kate e eu entramos na escura floresta, rumando para o chalé. O vento do norte uivava no alto das sequóias. Não tinha a menor idéia do que nos esperava dali por diante.

— Merda — cochichou Kate, resumindo numa palavra a experiência daquela noite. — Não estou brincando, Alex.

— Você tem esse direito.

El país grande dei sur às três horas da madrugada. Rudolph tinha vindo a um refúgio solitário no fim do mundo. Casanova, no Sul, também tinha uma casa em plena floresta. Uma casa "invisível", na qual guardava uma coleção de jovens.

Pensei nos "diários" publicados pelo Los Angeles Times. Seria possível que, por algum louco motivo, tivessem transportado Naomi para a Califórnia? Talvez ela estivesse presa no chalé ou nos arredores.

Parei repentinamente. O assobiar do vento era tétrico naquelas circunstâncias. Mais adiante, vi o chalé. Era rosado, com portas e janelas brancas. Parecia uma agradável habitação de veraneio.

— Ele deixou uma luz acesa para nós — sussurrou Kate às minhas costas. — Lembro-me de que Casanova costumava tocar rock em alto volume quando estava em casa.

Era doloroso para ela pensar novamente em seu cativeiro, revivê-lo.

— Vê semelhanças com este chalé? — perguntei. Eu estava tentando manter a máxima calma, preparando-me para o Cavalheiro.

— Não. Só vi o interior do outro lugar, Alex. Só espero que este não desapareça diante de nós.

— Eu estou esperando muita coisa agora. vou colocar isso na lista.

O telhado de duas-águas da vivenda era bem inclinado; provavelmente fora construída como casa de veraneio ou refúgio de fim de semana. Parecia ter três ou quatro quartos.

Saquei minha Glock ao nos aproximarmos. Era a arma que escolhera para trabalhar na cidade naqueles dias; pesava pouco mais de meio quilo quando carregada e era fácil de ocultar. Com certeza também funcionaria bem no grande país dei sur.

Kate continuou atrás de mim quando nos acercamos de uma clareira que fazia as vezes de quintal. Na verdade, eram duas as lâmpadas acesas a atrair insetos para a casa. Uma no alpendre da frente, outra nos fundos. Avancei na direção desta última, que era mais fraca. Fiz um gesto para que Kate ficasse onde estava.

Esse cara pode ser o Cavalheiro Caller, disse a mim mesmo. Vá com todo o cuidado. Também pode ser uma armadilha. Qualquer coisa pode acontecer neste lugar. Nada é previsível daqui por diante.

Consegui ver pela janela de um dormitório dos fundos. Encontrava-me a menos de dez passos das paredes do chalé, e, provavelmente, do homicida que vinha aterrorizando a Costa Oeste. Então eu o vi.

O dr. Will Rudolph estava caminhando no pequeno quarto de paredes de madeira, falava sozinho. Parecia agitadíssimo. Abraçava-se a si mesmo com ambos os braços. Aproximando-me, pude ver que estava transpirando muito. Não parecia nada bem. A cena me fez evocar as "salas de repouso" dos hospitais psiquiátricos, nas quais os pacientes às vezes vão representar seus problemas e emoções voláteis.

De súbito, Rudolph gritou com alguém... mas não havia ninguém no quarto.

Seu rosto e seu pescoço se avermelharam, e ele continuou aos berros... com absolutamente ninguém!

Estava gritando o mais que podia. Suas veias pareciam a ponto de estourar.

Vê-lo naquele estado me assustou um pouco, e eu recuei lentamente do chalé.

Continuava ouvindo-lhe a voz, suas palavras ainda me soavam nos ouvidos:

— Para o inferno com você, Casanova! Beije as garotas! Beije você mesmo essas filhas da puta daqui por diante!

 

Que diabos está fazendo Cross? — perguntou o agente John Asaro a seu parceiro. Estavam no mato fechado, do outro lado da chalé de Big Sur. Aquela casinha cor-de-rosa lhe trazia à memória o primeiro disco do grupo The Band, Musicfrom Big Pink. Só faltava que da neblina saísse um bando de criancinhas e de risonhos hippies carregando flores.

— Talvez Cross seja voyeur, Johnny. Sei lá. Ele é meio guru, meio esquisito. Protegido de Kyle Craig — respondeu Ray Cosgrove, dando de ombros.

— Quer dizer que pode fazer o que lhe der na cabeça?

— Provavelmente. — Cosgrove sacudiu uma vez mais os ombros. Já tinha visto muitas situações loucas, muitas "acomodações especiais" em sua carreira no bureau para se incomodar com aquela. — Antes de mais nada, queiramos ou não, ele tem a bênção de Washington.

— Eu detesto Washington — disse Asaro.

— Todo mundo detesta Washington, Johnny. Em segundo lugar, está na cara que Cross é no mínimo um profissional, não simplesmente o protegido de um figurão. Terceiro e mais importante, o que conseguimos até agora sobre o doutor Rudolph não permite concluir que ele é o nosso homem. Do contrário, já podíamos ter chamado a polícia de Los Angeles, o exército, a marinha e os fuzileiros navais.

— Pode ser que a senhorita Lieberman tenha cometido um erro ao inserir o nome dele no computador.

— Sem dúvida ela cometeu um erro em algum momento, Johnny. Talvez seu palpite estivesse completamente equivocado.

— E se esse Will Rudolph for um ex-namorado dela? Quem sabe a moça estava apenas rabiscando o nome dele no computador.

— E pouco provável, mas não deixa de ser uma possibilidade — disse o experiente Cosgrove.

— Quer dizer que estamos observando o doutor Rudolph e observando o doutor Cross observar o doutor Rudolph?

— E isso aí, parceiro.

— Talvez o doutor Cross e a doutora McTiernan pelo menos nos ofereçam alguma distração.

— Ei, a gente nunca sabe desse tipo de coisa — sorriu Raymond Cosgrove. No fundo, achava que aquilo não ia dar em nada, mas não seria a primeira vez. De qualquer modo, tratava-se de um caso graúdo, dos piores. Tornara-se interestadual agora, e todas as possíveis pistas estavam sendo checadas com o máximo rigor. Uma conexão criminosa de costa a costa.

De modo que ele, seu parceiro e os outros dois agentes do FBI passariam toda a noite e se necessário também a manhã embrenhados na escura floresta de Big Sur. Ficariam de olho no chalé de um cirurgião plástico de Los Angeles, que talvez fosse um perigoso assassino, mas que podia ser apenas um cirurgião plástico de Los Angeles.

Ficariam observando o dr. Cross e a dra. McTiernan e especulando sobre eles. Cosgrove não parecia com humor para nada disso. Contudo, o caso era importante. E, se conseguisse agarrar o Cavalheiro Caller, ele é quem passaria a ser o protegido de um figurão. Queria que Al Pacino o representasse no cinema. Pacino também fazia papel de espanhol, não fazia?

 

Retrocedendo a uma prudente distância do chalé, Kate e eu nos ocultamos atrás de um agrupamento de grossas árvores.

— Eu o ouvi gritar — disse ela quando nos internamos na densa vegetação. — Que viu lá, Alex?

— Vi o diabo. Um louco furioso a gritar sozinho. Se ele não for o Cavalheiro, é uma excelente imitação.

Passamos as horas seguintes revezando-nos na espreita do esconderijo de Rudolph. Desse modo, os dois tínhamos a possibilidade de descansar um pouco. Por volta das seis da manhã, encontrei-me com a equipe do FBI. Deram-me um walkie-talkie de bolso, para o caso de precisarmos nos comunicar com urgência. Ainda me perguntava se me haviam contado tudo que sabiam.

Quando o dr. Will Rudolph apareceu novamente do lado de fora, já passava de uma da tarde de sábado. O nevoeiro azul-prateado do mar finalmente se desfez. Os gaios voejavam ruidosos nas copas das árvores. Em circunstâncias diferentes, teria sido agradável passar um fim de semana naquelas montanhas.

O dr. Rudolph se lavou num chuveiro externo, instalado nos fundos do chalé. Era musculoso, parecia ágil e atlético. Um belo homem. Saltitava e dançava completamente nu. Mesmo assim, sua postura tinha qualquer coisa de formal. O Cavalheiro.

— Ele é tão seguro de si, Alex — sussurrou Kate quando o estávamos observando da floresta. — Veja só.

Tudo parecia muito estranho e ritualístico. Seria aquela dança parte de seu número? Seu padrão?

Terminada a ducha, acercou-se de um canteiro de flores silvestres no quintal. Apanhou cerca de uma dúzia delas e as levou para dentro. O Cavalheiro estava com suas flores! E agora?

Às quatro da tarde, Rudolph tornou a sair. Ia com o jeans preto, uma camiseta branca e sandálias de couro também pretas. Subiu no Range Rover e tomou o rumo da rodovia 1.

Cerca de três quilômetros mais adiante, ainda na estrada costeira, entrou num restaurante chamado Nepenthe. Kate e eu esperamos um pouco no arenoso acostamento, depois seguimos a trilha do Range Rover no enorme e lotadíssimo estacionamento. Os alto-falantes escondidos nas árvores derramavam as estridências da Electric Ladyland, de Jimi Hendrix.

— Talvez ele não passe de um médico paquerador de Los Angeles — disse Kate quando estávamos procurando uma vaga.

— Não. E o Cavalheiro mesmo. E o carniceiro da Califórnia que estamos procurando. — Eu tinha certeza depois do que vira de madrugada e em face do que estava vendo agora.

O Nepenthe fervilhava de gente jovem e bonita, nos seus vinte ou trinta anos, mas também de idosos hippies, alguns dos quais passavam dos sessenta. toda parte se viamjeans desbotados, trajes de banho da última moda da Costa Oeste, sandálias coloridas e caríssimas botas.

Notei que havia muitas mulheres atraentes. De todas as idades, tamanhos e castas étnicas. Beije as garotas.

Eu já tinha ouvido falar do Nepenthe. Ganhara fama nos anos 60, porém, antes, Orson Welles havia comprado a encantadora propriedade para Rita Hayworth.

Kate e eu observamos como o dr. Rudolph se comportava no bar. Era cortês. Um sorriso para o barman. Risos com os vizinhos. Olhou à sua volta e, sério, examinou várias belas mulheres. Aparentemente, contudo, não eram belas o suficiente.

Saiu a um amplo terraço com vista para o Pacífico. O caro sistema de som tocava rock dos anos 70 e 80. The Grateful Dead. The Doors. The Eagles. Aquilo era o Hotel Califórnia.

— Bom lugar para isso, Alex. Aonde ele pretende chegar?

— Já chegou a seis. Está procurando a vítima número sete. Ao longe, numa praia inacessível, viam-se leões-marinhos,

corvos-marinhos e pelicanos pardos. Desejei que Damon e Janme estivessem ali para vê-los, que as circunstâncias de minha estada naquele lugar fossem totalmente outras.   • Saindo ao terraço, segurei a mão de Kate.

— Vamos fingir que somos namorados — disse-lhe com uma piscadela.

Vimos Rudolph aproximar-se de uma loura impressionante. Era bem o tipo do Cavalheiro. Pouco mais de vinte anos. Corpo bem feito. Rosto bonito. Era também o tipo de Casanova, pensei.

O cabelo ondulado e clareado pelo sol lhe chegava até a cintura. Com um vestido estampado de Putumayo e botas pretas, andava com muita leveza. Estava tomando uma taça de champanhe.

Eu ainda não tinha visto os agentes Cosgrove e Asaro, coisa que me deixava um pouco nervoso.

— É linda, não? Simplesmente perfeita — sussurrou Kate.

— Não podemos permitir que esse cara lhe faça mal, Alex. Não podemos deixar que aconteça alguma coisa a essa pobre mulher.

— Não deixaremos — respondi —, mas temos de pegá-lo em flagrante, prendê-lo por seqüestro no mínimo. Precisamos de provas de que é o Cavalheiro Caller.

Finalmente, avistei John Asaro no lotado bar principal. Estava com uma camiseta Nike amarela e combinava bem com o ambiente. Não vi Ray Cosgrove nem os outros agentes — o que era um bom sinal.

Rudolph e a loura pareciam ter despertado recíproco interesse imediatamente. Ela se mostrava sociável, uma moça disposta a se divertir. Tinha dentes brancos perfeitos e era um encanto quando sorria. Chamava a atenção mesmo naquele povoadíssimo lugar. Meu cérebro começava a ficar sobrecarregado. Estávamos observando o Cavalheiro Caller em ação, não estávamos?

— Está caçando... E assim — Kate estalou os dedos —, simplesmente chega e as pega. Consegue qualquer uma. E tão simples... E sua aparência que as cativa, Alex. Ele tem qualquer coisa de irreverente e é muito bonito. Uma combinação irresistível para certas mulheres. Essa moça está dando a impressão de que se deixou envolver pela conversa dele, mas é só porque ele é um "gato".

— Quer dizer que é ela quem o está pegando? — perguntei.

— Nosso gato assassino?

Kate fez que sim. Não tirava os olhos dos dois.

— Ela acaba de pegar o Cavalheiro Caller. Ele a queria, é claro. Aposto que é assim que sempre acontece, por isso é tão difícil prendê-lo.

— Casanova não age assim, age?

— Talvez Casanova não seja tão bonito. — Voltou-se para mim. — Isto explicaria as máscaras que usa. Vai ver que é feio ou deformado ou tem vergonha de sua aparência.

Eu tinha outra idéia, outra teoria, sobre as máscaras de Casanova, mas ainda não queria dizer nada.

O Cavalheiro e sua nova namorada pediram ambrosiaburgers, a especialidade da casa. Kate e eu os imitamos. Em Roma, como os romanos... Eles se demoraram no restaurante até cerca de sete horas, então levantaram-se para ir embora.

Kate e eu também nos levantamos. Até que tinha sido divertido, apesar das circunstâncias sinistras. Estávamos a uma mesa com vista para o mar. Lá embaixo, o Pacífico arremetia contra uma parede de negras e escorregadias rochas, e ouvia-se o ladrar dos leões-marinhos.

Notei que eles foram para o estacionamento sem se tocar. O que me sugeriu que um deles era acanhado.

Ó dr. Will Rudolph abriu educadamente a porta do Range Rover; a loura riu ao entrar. Ele esboçou uma elegante, quase imperceptível, reverência à porta do carro. O Cavalheiro.

Ela o escolheu, pensei. Ainda não se pode falar em seqüestro. Ela ainda está fazendo suas próprias escolhas.

Não tínhamos por que persegui-lo, nenhum motivo para detê-lo.

Crimes perfeitos.

Em ambas as costas.

 

Seguimos o Range Rover a uma distância discreta até o chalé. Estacionei uns oitocentos metros mais acima. Meu coração estava batendo com força. Tinha chegado a hora da verdade.

Kate e eu retornamos pela floresta e encontramos um lugar seguro, de onde não seríamos vistos. Ficava a menos de cinqüenta metros do esconderijo de Rudolph; dali, ouvíamos o tilintar musical dos sinos de vento que oscilavam devagar. A fria e úmida cerração começava a se adensar, o frio me atravessava a sola dos sapatos.

O Cavalheiro Caller estava dentro daquele chalé. Preparando-se para quê?

Senti o estômago oco e incrivelmente retesado. Eu queria atacá-lo com violência. Não queria pensar quantas vezes o dr. Will Rudolph tinha feito aquilo antes. Levado jovens a algum lugar, para mutilá-las, guardando consigo pés, olhos, dedos, um coração humano. Lembranças de seus crimes.

Consultei o relógio. Fazia apenas alguns minutos que Rudolph estava lá dentro com a loura do Nepenthe. Notei movimentos no bosque, do outro lado da casa. O FBI estava lá. Aquilo me excitou.

— Alex, e se ele a matar? — indagou Kate. Estava bem perto de mim, eu chegava a lhe sentir o calor do corpo. Ela sabia o que significava estar presa numa casa de horrores. Compreendia o perigo melhor que ninguém.

— Ele não costuma matar imediatamente. Tem uma rotina — expliquei. — Fica um dia inteiro com as vítimas. Gosta de brincar. Não se desviará do padrão.

Eu acreditava nisso, mas não o sabia ao certo. Talvez o dr. Rudolph soubesse que estávamos por perto... talvez quisesse ser pilhado. Talvez, talvez, talvez.

Lembrei-me de quando estávamos vigiando o maluco Gary Soneji/Murphy. Era difícil não entrar no chalé. Arriscar-nos de uma vez. Podíamos encontrar evidências físicas dos outros homicídios lá dentro. Quem sabe os pedaços de cadáver desaparecidos. Talvez costumasse matar ali mesmo, em Big Sur. Mas podia ser que estivesse preparando uma surpresa para nós. O drama estava se desenrolando a menos de cinqüenta metros.

— vou tentar me aproximar um pouco mais — disse a Kate. — Preciso ver o que está acontecendo lá dentro.

— Ainda bem.

Suas palavras foram cortadas por um grito horripilante vindo do chalé.

— Socorro! Socorro! Por favor, acudam! — gritou a moça loura.

Corri quanto pude para a porta mais próxima. Pelo menos outros cinco homens de blusão azul-marinho vieram do outro lado. Reconheci Asaro e Cosgrove entre eles.

Nos blusões, lia-se FBI em letras amarelas.

O diabo estava às soltas em Big Sur. Iamos conhecer o Cavalheiro.

 

Creio que fui o primeiro a chegar. Arremeti com força contra a porta de madeira maciça do chalé. Não cedeu. À segunda tentativa, o batente rachou e a porta se abriu bruscamente. Invadi o chalé com a arma em punho.

De relance, vi toda a cozinha e o corredor estreito que levava a um dormitório. A loura do Nepenthe estava nua, algemada, estendida de lado numa antiga cama de latão. Haviam espalhado flores do campo ao redor de seu corpo. Ao menos estava viva. O Cavalheiro Caller não se encontrava no quarto.

Ouvi um forte latido do lado de fora, seguido de ásperos estampidos de armas de fogo. Pelo menos seis tiros foram disparados em rápida sucessão.

— Por Deus, não o matem! — gritei ao sair correndo do chalé.

Reinava o caos no bosque! O Range Rover já se estava afastando apressadamente, de marcha a ré, quando saí. Dois agentes do FBI estavam estendidos no chão. Um deles era Ray Cosgrove. Os demais abriram fogo contra o Range Rover.

Uma janela lateral explodiu. A carroceria estava toda perfurada de balas. O veículo derrapou no acostamento, suas rodas giraram em falso na terra e no pedrisco.

— Não o matem! — gritei novamente. Ninguém sequer olhou para mim em meio àquela terrível confusão.

Tratei de atravessar a mata ao lado da estrada, na esperança de interceptar Rudolph se ele se dirigisse ao oeste, retornando à rodovia 1. Cheguei lá exatamente quando o Range Rover, descrevendo uma ruidosa curva, entrou na estrada. Um tiro destruiu outra janela. Ótimo! O FBI estava disparando em nós dois.

Agarrei-me na porta do lado direito, e tentei acionar a maçaneta. Estava trancada. Rudolph acelerou, mas me segurei bem. O Rover rabeou, ainda derrapando na areia e no pedrisco. Isso me deu tempo de me agarrar à grade do bagageiro e subir na capota.

Conseguindo finalmente colocar o veículo na pista de concreto, Rudolph acelerou. Avançou assim uns setenta metros. Então, pisou bruscamente no freio!

Eu já o havia previsto. Com o rosto comprimido e o corpo calçado no metal ainda quente da capota, agarrei-me com braços e pernas ao bagageiro.

Não me tiraria dali. Não se dependesse de mim. Aquele sujeito matara pelo menos seis mulheres nos arredores de Los Angeles, e eu precisava descobrir se Naomi ainda estava viva. Ele conhecia Casanova, e este sabia de Scootchie.

Rudolph acelerou novamente. Com o motor rugindo, avançou em furiosos ziguezagues, tentando sacudir-me na pista.

As árvores e os antigos postes telefônicos passavam por mim zunindo. Os velozes pinheiros, sequóias e parreiras do monte eram como as imagens cambiantes de um caleidoscópio. As folhagens de um cinza pardo lembravam os vinhedos de Napa Valley. Era uma estranha perspectiva do mundo.

Empoleirado no Range Rover, eu não estava precisamente contemplando a paisagem. Concentrava-me com toda a força em continuar agarrado ao teto.

Rudolph ia em alta velocidade na tortuosa estrada, chegando a cento e vinte ou cento e trinta onde era perigoso viajar a oitenta quilômetros por hora.

Os agentes do FBI — o que restara deles — não tinham conseguido nos alcançar. Como poderiam? Tiveram de voltar até os carros. Deviam estar vários minutos mais atrás.

Outros veículos começaram a passar por nós quando nos aproximamos da rodovia Costa do Pacífico. Os motoristas nos olhavam com assombro. Que pretendia Rudolph? Já não estava tentando jogar-me para fora. Com que opções ainda contava? Em particular: qual seria seu próximo passo?

Estávamos os dois temporariamente em xeque. Mas um de nós logo acabaria perdendo. Will Rudolph sempre fora inteligente demais para se deixar agarrar. Não esperava ser detido agora. Porém, como se safaria daquela situação?

Ouvi o roncar do motor a diesel de um furgão Volkswagen. Vi sua traseira aproximando-se rapidamente. E o ultrapassamos como se estivesse parado.

O tráfego se intensificava à medida que nos aproximávamos da estrada costeira. Eram, em sua maior parte, garotos a caminho de uma noitada. Alguns apontavam para o Range Rover, julgando que se tratava de uma brincadeira desvairada. Um porra-louca a mais, de Big Sur, aprontando das suas, certo? Um velhote assanhado, com a cara cheia de tequila ou, quem sabe, de algum ácido de mais de vinte anos. Um doido pendurado na capota de um Range Rover a cento e vinte por hora.

Que pretendia aquele desgraçado?

Rudolph não diminuiu a velocidade na movimentadíssima estrada cheia de curvas. Os motoristas que vinham em sentido contrário buzinavam irritados. Ninguém fez nada para nos deter. Que poderiam fazer? Que podia eu fazer agora? Segurar-me com toda a força e rezar!

 

Uma nesga azul-acinzentada de oceano refulgiu momentaneamente em meio à cortina de sequóias e abetos. Ouvi os acordes vindos da fileira de automóveis que avançavam lentamente à nossa frente. Uma colagem de música no ar: Pop rap, conjuntos grunge da Costa Oeste, o rock ácido de trinta anos atrás.

Outro flash azul do Pacífico me atingiu os olhos. O sol poente projetava seu clarão dourado nos frondosos abetos. Gaivotas e andorinhas-do-mar passavam lentamente por cima das copas das árvores. Então, vi toda a extensão da rodovia Costa do Pacífico diante de mim.

Que diabos estava ele fazendo? Não podia retornar a Los Angeles daquele jeito. Ou seria louco o bastante para tentar? Era possível que tivesse de parar para abastecer. Que faria então?

Na autopista, havia pouco movimento para o norte, mas um tráfego intenso para o sul. O Range Rover ainda estava a uns cem quilômetros por hora — carrenando furiosamente na estrada repleta de curvas.

Rudolph não diminuiu a marcha ao se aproximar da transitadíssima autopista! Vi tmüers, carros esporte, reboques com barcos ou motocicletas, enfim, mais uma desvairada noite de sábado no litoral norte da Califórnia, que, no entanto, estava a ponto de se tornar mais desvairada ainda.

Agora, encontrávamo-nos a cinqüenta metros da auto-estrada. Ele continuava tão ou mais depressa que antes. Meus braços estavam tensos e entorpecidos. Eu sentia a garganta seca com as descargas dos canos de escapamento. Não sabia quanto tempo agüentaria ainda. Então, de súbito, adivinhei o que ele ia fazer.

— Seu filho da puta! — gritei por gritar. E tratei de segurar com mais força as grades do bagageiro.

Rudolph improvisara um plano de fuga. Estava a apenas a dez ou quinze metros do tráfego da autopista, não mais do que isso.

Bem quando o Range Rover chegou à acentuada curva de acesso à rodovia Costa do Pacífico, ele freou bruscamente. O gemido agudo dos pneus radiais foi terrível, especialmente no lugar de onde o ouvi.

Uma cara barbuda à janela de um perua multicolorida que passava gritou:

— Devagar, imbecil!

Que imbecil?, perguntei-me. Aquele imbecil estava justamente tratando de ir bem mais devagar.

O pesado veículo derrapou alguns metros, depois começou a rabear à esquerda e à direita.

A balbúrdia foi total. Todas as buzinas se puseram a tocar na movimentada rodovia. Os motoristas e os passageiros não conseguiam acreditar no que estavam presenciando, no que vinha ao encontro deles.

Rudolph estava fazendo propositadamente tudo errado ao volante. Queria que o Range Rover capotasse.

Com os pneus ainda gritando feito animais no matadouro, a perua fez um cavalo-de-pau até ficar de frente para o sul, embora estivesse entrando no tráfego na direção oeste. E completou a volta sobre si.

íamos colidir com os carros que vinham em sentido contrário! íamo-nos arrebentar. Diante de mim, passaram as imagens de Damon e Jannie.

Não sei a que velocidade estávamos quando nos chocamos com uma perua prateada. Nem sequer tentei me agarrar ao bagageiro. Concentrei-me em relaxar o corpo, preparando-me para um impacto provavelmente mortal nos segundos seguintes.

Gritei, porém minha voz se perdeu em meio à estridência da colisão, das buzinas, dos gritos dos espectadores.

Fui arremessado. Outros veículos buzinaram. Eu estava atravessando o ar com grande facilidade. O vento do mar ao mesmo tempo me refrescava e me feria o rosto. Seria uma aterrissagem desastrosa.

Penetrei a neblina que se erguia entre o oceano Pacífico e a estrada. Choquei-me com os grossos ramos de um abeto. Quando estava caindo e ferindo-me entre os ásperos galhos da árvore, compreendi que o Cavalheiro conseguiria escapar.

 

O Saltar para a frente. Voar. Rodopiar, flexionar o corpo, cair rolando!

Eu estava abaladíssimo e muito machucado com a colisão e a queda, mas, aparentemente, não sofrerá nenhuma fratura. Uma equipe de resgate me examinou no local do acidente. Queriam levar-me a um hospital próximo para novos exames e observação, porém eram outros os meus planos naquela noite.

O Cavalheiro continuava solto. Fugira para o norte. O carro tinha sido encontrado, mas ele não. Pelo menos, ainda não.

Ao chegar à triste cena na rodovia l, Kate quase desmaiou. Insistiu para que eu fosse ao hospital. O agente Cosgrove, do FBI, já estava internado. Depois de uma discussão acalorada, acabamos saindo de Monterrey no último vôo da AirWest. E fomos para Los Angeles.

Eu já havia conversado duas vezes com Kyle Craig. O FBI deixara uma equipe no apartamento de Rudolph, mas não se esperava que ele voltasse. Estavam revistando o lugar. Eu queria ir para lá. Precisava ver exatamente como ele vivia.

Durante a viagem, Kate continuou mostrando preocupação devido a meu estado físico. Já assumira postura de excelente enfermeira, carinhosa e dedicada, mas também surpreendentemente firme para com um paciente teimoso como eu.

Falou segurando-me delicadamente o queixo.

— Alex, você tem de ir a um hospital assim que chegarmos a Los Angeles. Falando sério. Não estou brincando como de costume. Você vai para o hospital assim que aterrissarmos. Ei! Está me ouvindo?

— Estou, Kate. Até concordo com o que está dizendo. Quer dizer, em termos.

— Alex, isso não é resposta. Não seja vigarista.

Eu sabia que Kate tinha razão, mas não havia tempo para ir ao hospital aquela noite. Os indícios do dr. Will Rudolph ainda estavam frescos, talvez conseguíssemos farejá-lo e agarrá-lo dentro de algumas horas. Era uma chance remota, porém, no dia seguinte, talvez já não tivéssemos como capturá-lo.

— Você pode estar com uma hemorragia interna sem o saber — insistiu Kate. — Pode morrer aqui mesmo no avião.

— Estou todo machucado, o corpo todo me dói. Principalmente do lado direito, onde levei as primeiras pancadas ao rolar. Tenho de ir ao apartamento dele antes que o desmontem, Kate. Preciso ver como o filho da puta vive.

— Com cinqüenta mil ou mais por mês? Ora, acredite, ele deve viver muito bem — retrucou Kate. — Você, por sua vez, pode estar com algum ferimento grave. Os seres humanos não rolam.

— Ah, bem, os seres humanos pretos rolam sim. Tivemos de aprender o truque para sobreviver. Basta cair para que comecemos a rolar.

Ela não achou graça na piada. Cruzando os braços, olhou pela pequena janela do avião. Era a segunda vez em poucas horas que ficava zangada comigo. Devia significar que tinha algum interesse por mim.

Sabia que tinha razão e não cedia. Eu gostava de vê-la preocupada comigo. Éramos amigos de verdade. Que fantástico conceito para homens e mulheres dos anos 90. Kate McTiernan e eu nos tornáramos amigos num tempo difícil para ambos. Estávamos no processo de compilar o importantíssimo dossiê das experiências compartilhadas. Não deixava de ser uma espécie de dossiê.

— Que bom que somos amigos — disse-lhe por fim em voz baixa e conspirativa. Eu não temia dizer-lhe tolices agradáveis como costumava fazer com meus filhos.

Ela falou sem tirar os olhos da janela. Ainda estava irritada. Eu provavelmente o merecia.

— Se fosse mesmo meu amigo, certamente me daria ouvidos vendo-me tão preocupada com você. Você sofreu um acidente de automóvel há poucas horas. Caiu de um barranco de trinta metros, amigo.

— Bati numa árvore primeiro.

Ela então se voltou para mim e apontou o dedo para meu coração.

— Grande coisa. Alex, eu estou preocupada com a sua teimosia. Até me dói o estômago de tanta preocupação.

— Faz muito tempo que não me dizem uma coisa tão bonita. Uma vez, quando fui baleado, Sampson mostrou sincera preocupação. Durou mais ou menos um minuto e meio.

Ela cravou obstinadamente os olhos castanhos nos meus.

— Eu o deixei ajudar-me na Carolina do Norte. Deixei até que me hipnotizasse. Por que não me deixa ajudá-lo agora? Deixe-me ajudá-lo, Alex.

— Estou tentando — respondi. Era verdade. — Não é a coisa mais fácil do mundo para um policial machão. Detestamos receber ajuda. Somos a auto-suficiência em pessoa. Em geral, é preferível que sejamos assim.

— Ora, pare com esse psicologismo barato, doutor! Você está começando a dizer tolices.

— Deve ser por causa do acidente que acabo de sofrer. Continuei assim até o fim do vôo. Pouco antes de chegar, cochilei um pouco no ombro de Kate. Sem complicações. Sem bagagem desnecessária. Foi muito, muito bom.

 

Desgraçadamente, a noite da Califórnia ainda era uma criança e decerto extremamente perigosa para todos os implicados. Quando chegamos ao apartamento de cobertura de Rudolph, em Beverly Comstock, a polícia de Los Angeles estava em toda parte. Do mesmo modo que o FBI. Uma balbúrdia.

Enxergamos as luzes vermelhas e azuis a vários quarteirões de distância. A polícia local estava justificadamente irritada por ter sido excluída das investigações do bureau. Era uma situação confusa, desagradável, que envolvia muita política e muita sensibilidade. Não era a primeira vez que o FBI passava por cima de uma polícia local. Acontecera comigo em Washington. Muitas vezes.

A imprensa de Los Angeles também estava presente, e em peso. Os jornais, a televisão, a rádio, havia até produtores de cinema no lugar. O pior era que muitos jornalistas nos conheciam de vista, tanto a Kate quanto a mim.

Chamaram-nos quando passamos apressados pelas fileiras e barricadas da polícia.

— Kate, um minutinho, por favor.

— Fale um pouco conosco.

— Doutor Cross, Rudolph é o Cavalheiro Caller?

— O que deu errado em Big Sur?

— E aqui que o assassino mora?

— Sem comentários por enquanto — respondi, tentando manter a cabeça baixa, os olhos baixos.

— Nenhum de nós vai falar — acrescentou Kate.

A polícia e o FBI nos deixaram entrar. Os técnicos estavam em atividade em todos os cômodos da luxuosa residência. Por alguma razão, os detetives de Los Angeles pareciam mais inteligentes, mais flexíveis e mais ricos que os tiras das outras cidades.

As dependências estavam escassamente decoradas, quase como se ninguém morasse lá. Os móveis, em sua maior parte, eram de couro, mas com muito cromo e detalhes em mármore. Só ângulos — nenhuma curva. Nas paredes, quadros modernos e vagamente deprimentes. Imitações dos de Jackson Pollock e Mark Rothko, o mesmo tipo de coisa. Parecia um museu — um museu com muitos espelhos e superfícies brilhantes.

Havia uma infinidade de detalhes interessantes, possíveis indícios do Cavalheiro Caller.

Anotei tudo. Gravando. Memorizando.

A pequena sala de jantar tinha prata de lei, porcelana chinesa, autêntica faiança, caros guardanapos de linho. O Cavalheiro sabia pôr a mesa.

Na escrivaninha, havia papel de carta e envelopes formais, com elegante ornamento prateado. O Cavalheiro, sempre.

Na mesa da cozinha, vi um exemplar da Enciclopédia de Bolso dos Vinhos, de Hugh Johnson.

Entre seus dez ou doze caríssimos ternos, havia nada menos que dois smokings. O armário embutido era pequeno, estreito e muito bem-cuidado. O santuário de sua roupa.

Que estranho esse Cavalheiro.

Aproximei-me de Kate depois de percorrer o apartamento durante quase uma hora. Tinha lido os relatórios dos detetives locais. Conversara com quase todos os técnicos, mas nada fora encontrado até então. Não era possível. Mandaram buscar no centro da cidade o mais moderno equipamento a laser. Rudolph tinha de haver deixado algum indício. Mas não deixara! Nisto, parecia-se muito com Casanova.

— Como está se sentindo? — perguntei a Kate. — Acho que fiquei perdido em meu próprio mundo.

Estávamos à janela, vendo o bulevar Wilshire e também o Los Angeles Country Club. Muitos faróis de carros e luzes de edifícios ao redor de uma gigantesca área escura. Um outdoor perturbador de Calvin Klein brilhava iluminado no fim da rua. Exibia uma modelo nu num sofá. Não devia ter mais de catorze anos. Obsessão, proclamava o cartaz. Para homens.

— Estou tomando fôlego — respondeu ela. — Todos os pesadelos do mundo de uma vez, Alex. Encontraram alguma coisa?

Sacudi a cabeça, olhando para nosso reflexo na janela escura.

— É uma loucura. Rudolph também comete "crimes perfeitos". Pode ser que a polícia técnica ainda consiga comparar a fibra de suas roupas com a encontrada no local de um ou outro crime, mas esse cara é extremamente cuidadoso. Acho que tem conhecimento de criminalística.

— Escreve-se muito sobre isso hoje em dia, não? Qualquer médico pode assimilar esse tipo de informação técnica, Alex.

Concordei. Havia pensado a mesma coisa. Kate não deixava de ter talento para detetive. Parecia cansada. Perguntei-me se eu também estava aparentando a exaustão que sentia.

— Nem se atreva a dizer o que está pensando — sorri. — Não vou a nenhum hospital agora. Acho que não há mais nada a fazer aqui. Nós o perdemos, droga. Perdemos os dois.

 

Saímos da cobertura de Rudolph pouco depois das duas da madrugada. O que significava que eram cinco horas no nosso fuso horário. Eu estava zonzo. Kate também. Chamamo-nos "os irmãos contusão".

Tontura, exaustão, possíveis traumatismos internos, era tudo uma coisa só. Se tinha me sentido tão mal alguma vez, não me lembrava nem queria lembrar-me. Desmoronamos no primeiro quarto em que entramos ao chegar ao Holiday Inn, na Sunset.

— Você está bem? Não parece. — Como era de se esperar, Kate reiniciou a publicidade da Junta Médica McTiernan. Era, sem dúvida, uma garota-propaganda compulsiva. Tinha um modo de enrugar a testa que lhe dava uma aparência sábia e inteligente, altamente profissional.

— Não estou morrendo, só estou morto de cansaço — murmurei, e fui me deitando devagar na beirada da cama confortável. — Trabalhei muito no escritório hoje.

— Você é tão cabeça-dura, Alex. O típico detetive machão. Pois bem, eu mesma vou examiná-lo. Nem pense em me impedir, do contrário eu lhe quebro o braço, coisa que sou perfeitamente capaz de fazer.

Retirou de uma de suas malas um estetoscópio e um esfigmomanômetro. Foi inútil dizer "não", "de jeito nenhum" ou "nem pensar".

Suspirei.

— Não vou me submeter a um exame médico agora e muito menos aqui — disse-lhe com toda a convicção de que era capaz naquelas circunstâncias.

Não é a primeira vez que faço isto. — Kate virou os olhos e sorriu. Não, ela riu na verdade. Uma médica rindo e com um delicioso senso de humor. Imagine. — Tire a camisa, detetive Cross.

Comecei a desvestir a camisa pela cabeça. Deixei escapar algo entre o gemido e o grito. Despir-me doía como o diabo. Talvez estivesse mesmo gravemente ferido.

— Oh, você está ótimo, em excelente estado físico. Consegue até tirar a camisa.

Debruçou-se sobre mim, perto, muito perto, e me auscultou o peito. Eu não precisava de estetoscópio para lhe ouvir a respiração. Deliciava-me com as batidas de seu coração tão próximo de mim.

Ela me examinou a omoplata. Depois, moveu-me o braço para frente e para trás, e doeu. Talvez eu estivesse mais machucado do que pensava. Ou, o que era mais provável, Kate não estava me examinando com muita delicadeza.

Apalpou-me o abdômen e as costelas. Vi estrelas, mas não deixei escapar um só gemido de protesto.

— Dói? — perguntou em tom profissional. Conversa de médico e paciente.

— Não. Talvez. Sim, um pouco. Bem, dói. Dói muito. Ai! Não é tanto assim. Aíai!

— Se tivesse sido atropelado por um trem você não estaria pior — disse ela. E tornou a me apertar as costelas, com mais delicadeza dessa vez.

— Não era esse o meu plano — respondi, oferecendo-lhe a única defesa a que podia recorrer.

— O que não era o seu plano?

— A idéia que tive em Big Sur era que ele talvez soubesse onde se encontrava minha sobrinha, não podia deixá-lo escapar. Meu plano era encontrar Naomi. Ainda é.

Kate me examinou a caixa torácica com ambas as mãos. Chegou a fazer pressão, mas não muita. Perguntou-me se sentia dor quando respirava.

— Para falar a verdade, estou gostando desta parte — respondi. — Seu toque é delicioso.

— Hum-hum. Agora as calças, Alex. Pode ficar de ceroula se preferir. — Sua voz tinha qualquer coisa de irônico.

— De ceroula?

— Ou de sunga. O que estiver usando. Vamos dar uma olhada, Alex. Quero ver uma coisa.

— Não precisa ficar tão contente assim. — Fiquei subitamente bem desperto. Mas estava gostando do modo como ela me tocava. Estranhas fagulhas começavam a brilhar.

Tirei a calça. Não conseguia alcançar as meias, nem de longe.

— Hum. Não está tão mal assim.

Eu não sabia ao certo de que ela estava falando. Comecei a sentir calor, um terrível calor naquele quarto de hotel. Para as circunstâncias em todo caso.

Kate pressionou-me delicadamente os quadris, depois a pelve. Pediu-me que erguesse lentamente os pés, um de cada vez, enquanto me segurava firmemente a articulação do quadril. Com cuidado, apalpou-me as pernas desde a região da virilha até os pés. Gostei muito.

— Muitas escoriações — disse ela. — Pena que não tenha pomada de bacitracin à mão. É um antibiótico.

— Era o que eu estava pensando.

Por fim, terminando de me examinar e apalpar, Kate se afastou. Enrugou a testa e franziu o nariz, mordiscou o lábio superior. Estava com ar inteligente, acadêmico, profissional como um cirurgião-chefe.

— A pressão sangüínea está um pouco alta, no limite, mas acho que não há fraturas — diagnosticou. — Mas não estou gostando da descoloração em seu abdômen e no quadril esquerdo. Amanhã, vai estar dolorido e rígido, teremos de ir ao Cedars-Sinai tirar uma radiografia. Combinado?

No fundo, eu já estava me sentindo bem melhor por saber que não morreria subitamente durante a noite.

— Combinado. O dia não seria completo se você não impusesse um compromisso. Obrigado pela consulta, doutora... Obrigado, Kate.

— De nada. Foi uma honra. — Ela finalmente sorriu. — Você se parece com Muhammad Ali, sabia? O Maior.

Já me tinham dito isso.

— Quando ele estava em forma — brinquei. — Eu danço feito uma borboleta.

— Aposto que sim. E eu pico feito uma abelha. — Piscou para mim e franziu o nariz novamente. Um gracioso tique dela.

Kate se deitou de costas na cama. Continuei a seu lado. Perto dela, mas não o bastante para tocá-la. Estávamos pelo menos a trinta centímetros de distância. Olhei para ela. Demoradamente. Estava de saia preta, meia-calça da mesma cor e uma blusa vermelha. As marcas das feridas de seu rosto haviam desaparecido. Eu me perguntei se o resto também havia sarado. Continuei olhando para ela.

— Eu não sou Nanu, a rainha do gelo — disse-me em voz baixa. — Acredite, costumo ser normal. Animada, engraçada, meio louca. Pelo menos, era assim há um mês.

Surpreendeu-me que acreditasse que eu podia estar pensando uma coisa dessas a seu respeito. Ela era justamente o contrário, cálida e apaixonada.

— Eu a acho maravilhosa, Kate. Para dizer a verdade, eu gosto muito de você, muito mesmo. — Escapou. Acabei confessando.

Beijamo-nos delicadamente. Um beijinho leve. Foi bom. Era gostoso sentir seus lábios, sua boca, nos meus. Beijamo-nos novamente, talvez para provar que o primeiro beijo não havia sido um erro, ou talvez para provar que sim.

Eu tinha a impressão de que poderia beijá-la a noite inteira, mas nos afastamos. Provavelmente, fora mais do que qualquer um de nós teria suportado naquela noite.

— Não admira meu autocontrole?

— Sim e não — respondi.

Tornei a vestir a camisa. Foi um grande esforço e me causou muita dor. Decididamente, eu iria tirar radiografia no dia seguinte. Kate mergulhou a face no travesseiro e começou a chorar. Voltando-me para ela, pousei a mão em seu ombro.

— Que aconteceu?

— Desculpe. Escapou — ela sussurrou, tentando conter as lágrimas. — E que eu... eu sei que não costumo ser assim, mas estou péssima. Estou desesperada, Alex. Vi tantas coisas horríveis. Este caso é tão pavoroso quanto o seu último, o seqüestro de crianças em Washington?

Tomei-a delicadamente nos braços. Nunca a tinha visto tão vulnerável e aberta. Tudo ficou repentinamente relaxado entre nós.

Murmurei com os lábios colados em seu cabelo:

— E o pior que já vi. É o pior por causa de Naomi e pelo que lhe aconteceu. Quero pegar esse cara mais do que queria pôr as mãos em Gary Soneji. Quero agarrar esses dois monstros.

— Quando eu era pequena, muito pequena — disse Kate, ainda num sussurro —, estava aprendendo a falar, devia ter uns quatro meses. — Sorriu ante o próprio exagero. — Não, eu tinha uns dois anos. Quando sentia frio, dizia "quero colo". Os amigos também podem fazer isso. Eu quero colo, Alex.

— Os amigos podem — cochichei.

Abraçamo-nos por cima das cobertas e voltamos a nos beijar um pouco mais, até que os dois pegássemos no sono. Um misericordioso sono.

Fui o primeiro a despertar. O relógio do quarto estava marcando as 5:11 da madrugada.

— Está acordada, Kate?

— Hum-hum. Agora estou acordada.

— Vamos voltar ao apartamento do Cavalheiro. Telefonei para lá e falei com o agente do FBI de plantão.

Disse-lhe onde e o que procurar.

 

O outrora arrumadíssimo apartamento de cobertura do dr. Will Rudolph deixara de existir como tal. Os três dormitórios pareciam um laboratório de criminalística. Passava das seis quando chegamos. Eu estava excitado com meu palpite.

— Sonhou com o Cavalheiro? — quis saber Kate. — Algum palpite?

— Hum-hum. Estava processando informações. Está tudo processado agora.

Havia ainda uns doze técnicos e policiais de Los Angeles no local. Um rádio tocava o último sucesso de Pearl Jam. O solista parecia sofrer dores terríveis. O enorme televisor Mitsubishi do dr. Rudolph estava ligado, mas sem som. Um dos técnicos comia um sanduíche de ovo por cima de um jornal engordurado.

Procurei um agente chamado Phil Becton, que traçava perfis de criminosos para o FBI. O Homem. Fora trazido de Seattle para agrupar todas as informações disponíveis sobre Rudolph e, depois, compará-las com os dados conhecidos sobre outros psicopatas. Um bom profissional desse tipo é de valor inestimável numa investigação. Eu ouvira Kyle Craig dizer que Becton era "genial". Tinha sido professor de sociologia, em Stanford, antes de ingressar no bureau.

— Está bem acordado? Preparado para o que o espera? — perguntou-me quando finalmente o localizei no quarto. Tinha pelo menos um metro e noventa e cinco, com mais sete centímetros de espetadíssimo cabelo ruivo. Em toda parte espalhavam-se envelopes pardos e sacos plásticos para guardar provas. Becton estava com um par de óculos, mas trazia outro pendurado no pescoço.

— Não sei ao certo se estou acordado — respondi. — Esta é a doutora Kate McTiernan.

— Muito prazer. — Becton lhe apertou a mão ao mesmo tempo em que lhe analisava o rosto. Ela representava um dado para ele. Era um homem estranho, perfeito para sua profissão. — Olhe ali — apontou para o outro lado do quarto. O FBI já tinha desmontado o armário do Cavalheiro. — Você tinha razão. Encontramos uma parede falsa, que o dr. Rudolph Hess construiu atrás do minúsculo armário embutido. Há cerca de quarenta e cinco centímetros de espaço extra ali atrás.

O armário dos ternos era muito pequeno e esquisito. Fiz tal conexão na estranha fronteira entre o sono e a vigília. O armário devia ser um esconderijo. Era um santuário, sem dúvida, mas não de sua roupa cara.

— Era aí que ele guardava seus suvenires?

— Acertou. Um frigobar ali atrás. Era onde guardava os pedaços dos cadáveres que colecionava. — Becton apontou para uns contêineres lacrados. — Os pés de Sunny Ozawa. Dedos. Duas orelhas com brincos diferentes, de vítimas diferentes.

— Que mais havia na coleção? — perguntei. Não estava com pressa de ver pés, orelhas e dedos amputados. Os troféus do assassinato de jovens nos arredores de Los Angeles.

— Bem, como você podia esperar, se leu os relatórios dos crimes, ele também colecionava as calcinhas das vítimas. Calcinhas recém-usadas, sutiãs, meias-calças, uma camiseta de mulher com as palavras Atordoada e Confusa, que ainda conserva o cheiro do perfume Opium. Também gosta de guardar fotografias, alguns cachos de cabelo castanho-claro. E muito organizado. Embalava cada espécime num saco plástico diferente. De um a trinta e um. Tudo etiquetado e numerado.

— Conservam o cheiro — murmurei. — Os sacos plásticos de sanduíches.

Becton concordou e riu feito um adolescente desengonçado e tolo. Kate olhou para nós como se fôssemos dois malucos, o que de fato éramos.

— Há mais uma coisa que precisa ver. Você vai gostar. Venha cá.

Numa mesa simples de madeira, junto à cama, estavam alguns dos tesouros e suvenires do Cavalheiro. Quase tudo já havia sido marcado. E preciso uma força-tarefa organizada para se capturar um assassino organizado.

O "genial" Phil Becton esvaziou um dos envelopes pardos para que eu pudesse ver o conteúdo. Caiu uma única fotografia. Era de um jovem, provavelmente de pouco mais de vinte anos. O estado da fotografia assim como a roupa do rapaz sugeriam que tinha sido tirada anos antes. Oito ou dez anos, estimei.

Senti um arrepio. Pigarreei.

— Quem é?

— Conhece este homem, doutora McTiernan? — Phil Becton se voltou para Kate. — Já o viu?

— Eu... não sei. — Ela engoliu em seco. O quarto do Cavalheiro mergulhou num estranho silêncio. Lá fora, o clarão vermelho-alaranjado do amanhecer se espalhava nas ruas de Los Angeles.

Becton me entregou uma pinça de metal que trazia no bolso.

— Vire-o. Como aqueles cartões de beisebol que costumávamos colecionar quando meninos. Em Portland, a gente os colecionava.

Imaginei que Becton devia ter colecionado mais que cartões de beisebol na vida. Virei a foto com cautela.

Havia uma legenda caprichosamente escrita a mão no verso. Lembrou-me o modo como Nana Mama costumava identificar as fotografias que tínhamos em casa, "Às vezes a gente esquece o nome das pessoas, Alex. Mesmo as que estão numa foto com você. Pode não acreditar agora, mas com o tempo, você vai ver."

Eu duvidava que Will Rudolph fosse capaz de se esquecer de alguém numa fotografia, em todo caso havia escrito um lembrete. Senti-me algo atordoado. Finalmente, tínhamos uma incrível pista nas mãos. Estava diante de meu nariz, presa a uma pinça da polícia técnica.

Dr. Wick Sachs, dizia o manuscrito. Um médico, pensei. Mais um médico. Imagine. Durham, Carolina do Norte, prosseguia a legenda. Era da região investigada. Era do Sul. Casanova, estava escrito embaixo.

 

                   GEMINAÇÃO

Naomi Cross despertou com a gritaria do rock nos altofalantes. Reconheceu os Black Crowes. As lâmpadas piscavam freneticamente. Saltando da cama, vestiu depressa o jeans amarrotado, uma malha, e correu para a porta do quarto.

A música em alto volume e as luzes anunciavam uma reunião. Alguma coisa terrível aconteceu, pensou. Ficou com o coração na mão.

Casanova abriu a porta com um pontapé. Estava com um jeans apertado, botas e o blusão de couro. A máscara tinha riscos nervosos que lembravam raios. Parecia excitadíssimo. Naomi jamais o vira tão irritado.

— Sala de estar! Já! — gritou, agarrando-a pelo braço e empurrando-a para fora do quarto.

O piso do estreito corredor estava frio e úmido sob seus pés descalços. Esquecera-se de calçar as sandálias. Era tarde demais para ir buscá-las.

Encontrou-se com outra jovem. Caminharam lado a lado. Naomi se surpreendeu quando a moça voltou rapidamente a cabeça e a mirou. Tinha olhos grandes e muito verdes. Naomi a batizara Olhos Verdes.

— Sou Kristen Miles — cochichou. — Precisamos fazer alguma coisa. Temos de arriscar. E logo.

Naomi não respondeu. Mas estendeu a mão e roçou de leve o dorso da mão de Olhos Verdes.

Todo contato estava proibido; naquele momento, porém, tinha necessidade de tocar um ser humano. Fitando a moça nos olhos, Naomi só viu desafio. Nenhum medo. Aquilo a fez sentir-se melhor. Fosse como fosse, ambas tinham conseguido manter-se inteiras.

As demais prisioneiras olharam furtivamente para Naomi à entrada da sala de estar daquela estranha casa. Traziam os olhos fundos e sombrios. Algumas já não usavam maquiagem, e sua aparência a assustou. A coisa vinha piorando muito desde a fuga de Kate McTiernan.

Casanova levara uma garota nova para lá. Anna Miler. E ela estava transgredido o regulamento, exatamente como fizera Kate. Naomi lhe ouvira os gritos de socorro, e ele também devia tê-los ouvido. Era quase impossível saber quando saía. Seus horários eram estranhos e incontroláveis.

Ultimamente, vinha deixando-as totalmente isoladas durante períodos cada vez mais prolongados. Não as soltaria nunca. Era uma de suas mentiras. Naomi sabia que o perigo não cessava de crescer.

Detectava o desespero no ar. Ouvia gritos de alarme no andar de cima e tentava serenar os temores que aumentavam. Tinha morado nos projetos habitacionais de Washington. Sabia o que era o terror. Duas amigas suas foram assassinadas quando acabava de completar dezesseis anos.

Então, ouviu-o gritar. Sua voz estava esquisita, estridente. Um demente.

— Vamos entrando, senhoritas. Não se acanhem. Não parem à porta! Entrem, entrem. Venham à festa, à soirée dançante.

Casanova gritava mais alto que o rock de testosterona a vibrar nas paredes. Naomi fechou os olhos, tentando controlar-se. Não quero ver, seja lá o que for, não quero ver, mas sou obrigada.

Finalmente entrou na sala. Pôs-se a tremer. O que viu era pior do que qualquer lembrança dos projetos. Teve de levar à boca o punho cerrado para não gritar.

Um corpo magro, longo, pendia das vigas do teto. A mulher nua estava unicamente com um par de meias prateadas que lhe subiam até as coxas. Um sapato azul, de salto alto, oscilava num de seus pés. O outro estava tombado no chão.

Os lábios da moça já se mostravam roxos, e sua língua aflorava no canto da boca. Estava com os olhos arregalados de medo e dor. Só podia ser Anna, pensou Naomi. A moça que pedira socorro, violando as leis da casa. Dissera que se chamava Anna Miler. Pobrezinha.

Casanova baixou o volume da música e falou com voz calma por trás da máscara; como se nada tivesse acontecido.

— Ela se chama Anna Miler e fez isto consigo mesma. Vocês todas compreendem o que estou dizendo? Andou conspirando através das paredes, falando em fugir. Daqui ninguém foge!

Naomi estremeceu. Não, do inferno ninguém foge, pensou. Olhou para Olhos Verdes e fez um gesto quase imperceptível com a cabeça. Sim, teriam de arriscar.

 

O Cavalheiro parou aquele jogo no lago Stoneman, no Arizona. Era uma bela manhã. Alegre, fresca, com um cheiro de fogueira no ar.

Havia estacionado no bosque entre os penhascos, não longe da estrada vicinal. Ninguém podia vê-lo. Ficou pensando em como descer, enquanto observava uma confortável casa branca por entre as pestanas semicerradas. Sentia claramente o despertar da fera. A transformação. A estranha paixão que a acompanhava. Dr. Jekill e o sr. Hyde.

Viu um homem sair da casa e entrar num Ford Aerostar prateado. Parecia apressado, provavelmente estava atrasado para o trabalho. Sua mulher ficou sozinha, talvez ainda na cama. Chamava-se Juliette Montgomery.

Pouco depois das oito, ele se aproximou da casa com um galão vazio de gasolina na mão. Se fosse visto, não haveria problema. Precisava de gasolina para o carro alugado.

Não o viram. Talvez não houvesse ninguém num raio de quilômetros.

O Cavalheiro subiu os degraus do alpendre. Deteve-se um momento, depois girou lentamente a maçaneta. Achava curioso que não trancassem as portas na região do lago Stoneman.

Caramba, como ele gostava daquilo... vivia para aquilo... para ser o sr. Hyde.

Juliette estava preparando o café da manhã. Ao entrar na sala, ouviu-a meio cantarolar, meio cantar. O aroma e o chiado do bacon na frigideira lhe trouxe à lembrança a casa onde crescera, em Asheville.

Seu pai era o cavalheiro original. O orgulhoso e arrogante coronel do exército. O bastardo inflexível que jamais ficava contente com o que quer que o filho fizesse. Grande fã da cinta de couro para impor disciplina. Gostava de gritar com toda a potência dos pulmões quando o espancava. Criou o filho perfeito. Aluno exemplar e atleta. Brilhante na faculdade de medicina da Duke. Um monstro.

Observou Juliette Montgomery da porta da asseadíssima cozinha. A luz do sol entrava livremente pela janela, as cortinas estavam abertas. Ela continuava cantando... uma velha canção de Jimi Hendrix chamada Castles Made of Sana. Inesperado naquela bela mulher.

Era adorável observá-la — ela imaginando-se a sós. Cantando uma música que talvez a deixasse constrangida diante dele. Colocando cuidadosamente as três fatias de bacon numa toalha de papel que combinava com o bege e o marrom do papel de parede.

Estava com um fino négligé branco que parecia flutuar junto a suas coxas quando ia do fogão à mesa. Devia ter uns vinte e cinco anos. Pernas longas de bailarina. Bronzeadas. Pés descalços no piso de linóleo. Cabelo castanho-claro que ela tomara o cuidado de escovar antes de descer para o café.

No balcão havia um jogo de facas de cozinha. Ele pegou uma. Fez um ruído metálico ao roçar num vaso de aço.

A moça se voltou. Um lindo perfil. Recém-banhada, radiante. Juliette gostava de si mesma. Era evidente que gostava.

— Quem é você? Que está fazendo em minha casa?

As palavras lhe saíram com intermitência. Estava pálida como o négligé.

Agora, depressa, disse ele consigo mesmo.

Agarrando Juliette, ergueu bem alto a faca. Sombras de Psicose, de Hitchcock, e também de Um Corpo que Cai. Melodramas de alto nível.

— Não me obrigue a machucá-la. Tudo depende de você — disse em voz baixa.

Ela conteve o grito na garganta, o mesmo grito que se estampava em seus olhos. O Cavalheiro adorava aquele olhar. Vivia para isso.

— Não lhe farei mal se você não tentar me fazer mal. Ok? Estamos entendidos?

Ela fez que sim. Seus olhos verde-azulados estavam estranhamente parados. Tinha medo de mover bruscamente a cabeça e receber uma facada.

Suspirou. Curioso. Parecia confiar um pouco nele. Sua voz tinha esse efeito nas pessoas. Seu estilo, suas maneiras finas. O sr. Hyde. O Cavalheiro Caller.

Juliette o olhava fixamente nos olhos, buscando uma explicação. Ele já tinha visto muitas vezes aquele ar interrogativo. Por quê?, dizia.

— Agora, eu vou tirar sua calcinha. Não é a primeira vez que lhe fazem isso, portanto não há motivo para pânico. Você tem uma pele tão macia, tão bonita! Verdade — disse o Cavalheiro com voz brandíssima.

A faca entrou rapidamente.

— Eu gosto de você, Juliette, gosto muito... tanto quanto sou capaz de gostar de qualquer uma.

Kate McTiernan estava em casa outra vez. Em casa outra vez, em casa. A primeira coisa que fez foi telefonar para a irmã, Carole Anne, que agora morava longe, no Maine. Depois, ligou para alguns amigos próximos, de Chapei Hill. Garantiu que estava perfeitamente bem.

Tolice, é claro. Sabia que não estava nada bem, mas para que causar-lhes preocupação? Não tinha o hábito de incomodar os demais com seus problemas insolúveis.

Alex não queria que ela voltasse para casa, mas era preciso. Era ali que morava. Tentou acalmar-se um pouco, ao menos esquecer o mundo mau lá fora. Tomou vinho e assistiu à televisão até tarde. Havia anos que não fazia isso. Séculos!

Já estava com saudades de Alex Cross, mais do que gostaria de admitir. Ficar em casa e assistir à televisão era um bom teste, mas estava se sentindo miserável. Era tão tola às vezes.

Tinha desenvolvido — o quê? — uma paixão de adolescente por Alex? Ele era forte, inteligente, engraçado, gentil. Gostava de crianças e não deixara morrer o menino dentro dele. Tinha corpo escultural, uma formidável estrutura óssea e também um peito sensacional. Sim, estava apaixonada por Alex Cross.

Compreensível; que bom. Só que talvez fosse mais que uma paixão. Kate quis telefonar para o hotel de Alex, em Durham. Pegou o fone algumas vezes. Não! Não se permitiria fazer isso. Nada haveria de acontecer entre ela e Alex Cross.

Ela era residente e não ia ficar mais jovem. Ele morava em Washington, tinha dois filhos e uma avó. Além disso, ambos eram parecidos demais, não poderia dar certo. Ele era um negro teimoso; ela, uma branca teimosa. Ele, detetive de homicídios... mas também sensível, sensual e generoso. Pouco importava que fosse preto, verde ou vermelho. Fazia-a rir; fazia-a feliz como um marisco na areia úmida e profunda.

Mas nada haveria de acontecer entre ela e Alex.

Ficaria simplesmente ali, no apartamento. Tomaria seu Pinot Noir barato. Assistiria ao filmezinho ruim, semi-romântico. Sentiria medo. Ficaria um pouco triste. Deixaria a coisa piorar. Isso era o que faria, droga. Teria firmeza de caráter.

Mas tinha de reconhecer que estava com medo de ficar em casa. Detestava a sensação. Queria que aquela loucura toda cessasse, mas não cessava. Nem de longe. Dois monstros terríveis ainda estavam à solta.

Ouvia barulhos sinistros em toda a casa. O estalar da madeira velha. Venezianas batendo. Os sinos da felicidade que pendurara num antigo olmo lá fora. Os sinos lembravam o chalé de Big Sur. Tinham de ser retirados no dia seguinte, quanto antes.

Finalmente, adormeceu com o copo de vinho, que na verdade era um velho frasco de geléia Flintstones, equilibrado no colo. Era uma relíquia sagrada da casa de Virgínia Ocidental. Ela e suas irmãs às vezes brigavam por causa dele durante o café da manhã.

O copo tombou e molhou os cobertores. Pouco importava. Kate estava morta para o mundo. Durante uma noite pelo menos.

Não costumava beber muito. O Pinot Noir a atingiu como um daqueles trens cargueiros que atravessavam Birch quando ela era menina. Despertou às três da madrugada, com uma forte dor de cabeça, e correu ao banheiro, onde vomitou.

Imagens de Psicose lhe passaram pela cabeça quando estava debruçada na pia. Pensou em Casanova no apartamento novamente. Ele estava no banheiro, não? Não — claro que não havia ninguém ali... por favor, fazei com que isto pare. Fazei com que isto acabe... agora... mesmo.

Voltou para a cama e se encolheu debaixo das cobertas. Ouviu o vento nas venezianas. E aqueles sininhos idiotas. Pensou na morte — sua mãe, Susanne, Marjorie, Kristin. Todas tinham partido. Kate McTiernan cobriu a cabeça com o lençol.

Sentia-se uma garotinha com medo do bicho-papão. Ora, ela saberia lidar com aquilo.

O problema era que via Casanova e a horrível máscara da morte cada vez que fechava os olhos. Guardava um pensamento secreto: Ele viria buscá-la novamente, não viria?

Às sete da manhã o telefone tocou. Era Alex.

— Kate, eu estive na casa dele.

 

Por volta das dez horas da noite em que retornamos da Califórnia, fui de carro a Hope Vaíley, o bairro residencial de Durham. Ia visitar Casanova sozinho. O detetive Cross estava novamente em ação.

Três indícios me pareciam essenciais para a solução do caso. Repassei-os no caminho. Havia o simples fato de ambos cometerem "crimes perfeitos". Havia o aspecto da geminação, da interdependência de Casanova e do Cavalheiro. E havia o mistério da casa que desaparecera.

Alguma coisa tinha de surgir de um ou de todos esses fragmentos de informação. Talvez algo estivesse para acontecer no subúrbio de Hope Valley. Era o que eu esperava.

Fui devagar, pela rodovia Old Chapei Hill, até encontrar a entrada de tijolos brancos, uma espécie de portal, que dava acesso às luxuosas residências de Hope Valley. Tive a sensação de estar transgredindo alguma coisa ao transpor o portão, de que talvez fosse o primeiro negro a passar por ali sem estar vestindo um macacão de trabalho.

Sabia que era arriscado, mas tinha de ver onde morava o dr. Wick Sachs. Precisava sentir as coisas que o rodeavam, precisava conhecê-lo melhor. E tinha muita pressa.

As ruas de Hope Valley não eram retas. A que eu estava percorrendo não tinha meios-fios nem sarjetas, e eram poucos os postes de iluminação. O bairro era desagradavelmente ladeiroso, e, à medida que avançava, eu tinha a impressão de estar perdido, de estar descrevendo um enorme círculo. A maioria das residências tinha o imponente estilo gótico do Sul, todas antigas e caras. A idéia de um vizinho assassino nunca fora tão intensa.

O dr. Wick Sachs morava numa bela casa de tijolo aparente numa das partes mais altas do bairro.

As venezianas eram brancas como as calhas. A moradia parecia cara demais para um professor universitário, mesmo da Duke, a "Harvard do Sul".

As janelas estavam às escuras e pareciam reluzentes como lousa. A única luz vinha de um lustre de latão que oscilava à porta da frente.

Eu já sabia que Wick Sachs tinha mulher e dois filhos pequenos. A esposa era enfermeira do Hospital da Universidade Duke. O FBI havia checado suas credenciais. Contava com excelente reputação, todos falavam nela com respeito. A filha dos Sachs, Faye Arme, tinha sete anos; o filho, Nathan, completara dez.

Imaginei que o FBI provavelmente me estivesse observando quando me aproximei da casa, mas não me importei. Perguntei-me se Kyle Craig os acompanhava... estava muitíssimo envolvido com o horrendo caso, quase tanto quanto eu. Também estudara na Duke. Será que seu envolvimento era pessoal? Até que ponto?

Examinei detidamente a frente da casa, depois, o bem-cuidado terreno. Tudo era extremamente organizado, bonito na verdade, quase perfeito.

Já tinha lido que esses monstros podem morar em qualquer lugar; que os mais inteligentes escolhem as casas de aparência mais comum. Bem como a que eu estava vendo. Os monstros estão literalmente em toda parte. Há uma epidemia escapando ao controle, as estatísticas são assustadoras. Setenta e cinco por cento desses crimes ocorreram nos Estados Unidos, a Europa fica com quase todo o resto, liderada pela Inglaterra, a Alemanha e a França. Esses assassinatos em série estão modificando as modernas investigações de homicídios em quase todas as cidades e aldeias americanas.

Examinei o que foi possível do exterior da casa. No lado sudeste havia um pátio do tamanho de uma sala de estar. O gramado era verdejante e extremamente bem-conservado. Não se viam musgo, capim nem ervas daninhas.

Os paralelepípedos da entrada tinham sido cuidadosamente assentados, e não havia uma folha de capim entre eles. Combinavam perfeitamente com os tijolos da casa.

Perfeito.

Meticuloso.

Senti a cabeça latejar por excesso de tensão e estresse. Deixei o motor ligado, caso a família Sachs aparecesse de repente.

Eu sabia o que queria fazer, o que precisava fazer, o que vinha planejando nas últimas horas. Tinha de entrar na casa. Perguntei-me se o FBI tentaria me deter, mas duvidei disso. Acreditava que talvez até quisessem que eu entrasse e desse uma olhada. Sabíamos muito pouco sobre o dr. Wick Sachs. Eu ainda não estava oficialmente envolvido com a caça a Casanova, podia fazer coisas que os outros não podiam. Tinha de bancar o "curinga". Era o que combinara com Kyle Craig.

Scootchie estava em algum lugar, pelo menos eu rezava para que ainda vivesse. Esperava que todas as mulheres desaparecidas estivessem vivas. Seu harém. Suas odaliscas. Sua coleção de moças lindas e especiais.

Desliguei o motor e respirei fundo antes de sair do carro. Agachando-me, atravessei rapidamente o relvado. As azáleas se espalhavam na fachada da casa. Uma bicicleta vermelha de criança, com flâmulas prateadas no guidom, estava tombada junto ao alpendre.

Bonito, pensei enquanto corria. Bonito demais.

A casa respeitável de Casanova num bairro chique.

A vida falsa e perfeita de Casanova. Seu disfarce perfeito. Sua piada de péssimo gosto. Bem na cidade de Durham. Seu dedo médio estendido para o mundo.

Contornei cautelosamente o pátio de ladrilhos brancos. Era cercado de tijolos iguais aos da casa. Notei que uma erva trepadeira tinha invadido o muro. Talvez ele não fosse tão perfeito assim.

Atravessei depressa o pátio. Não haveria retorno agora. Eu já havia feito um pequeno arrombamento em nome do dever. Não justificava nada, apenas tornava a coisa mais fácil.

Quebrei uma pequena vidraça de uma porta e entrei. Nada. Nenhum ruído. Decerto Wick Sachs não tinha sistema de alarme. Duvidava muito que ele quisesse que a polícia de Durham investigasse um arrombamento.

A primeira coisa que notei foi o cheiro familiar e enjoativo de lustra-móveis com aroma de limão. Respeitabilidade. Civilidade. Ordem. Era tudo fachada, uma máscara perfeitamente desenhada.

Eu estava dentro da casa do monstro.

 

A casa era tão asseada e organizada quanto seu exterior. Talvez mais. Bonito, tudo muito bonito, bonito demais.

Eu estava nervoso, com medo, porém já não importava. Estava acostumado a conviver com o medo e a incerteza. Com cautela, passei de um cômodo a outro. Nada fora do lugar, não parecia que ali morassem crianças. Estranho, estranho, muito estranho.

A casa lembrava um pouco o apartamento de Rudolph, em Los Angeles. Era como se ninguém vivesse lá. Quem é você? Mostre-me quem é realmente, seu filho da puta. Esta casa não é a realidade, e? Alguém o conhece sem a máscara? O Cavalheiro o conhece, não é mesmo?

A cozinha era como tirada de uma revista. Em toda parte havia antigüidades e outras "coisas" bonitas.

Num pequeno escritório, estavam espalhados os papéis e as anotações do professor, encobrindo todas as superfícies disponíveis. Ele deve ser muito organizado e meticuloso, pensei, e armazenei os dados conflitantes. Quem era aquele sujeito?

Estava à procura de algo específico, mas não sabia exatamente onde olhar. No porão, dei com uma pesada porta de carvalho, que abria para a saleta do sistema de calefação. Ali, vi outra porta de madeira. Parecia a de um armário, a de um espaço mínimo e insignificante.

Estava fechada com uma tranca, a qual retirei sem ruído. Imaginei que pudesse dar para outros cômodos. Um espaço subterrâneo, quem sabe? Talvez a casa de horrores? Ou um túnel?

Abri a porta. Escuridão total. Acendendo a luz, entrei num salão que devia ter dez metros por sete e meio. Meu coração disparou. Meus joelhos dobraram, e cheguei a sentir um pouco de enjôo.

Não havia mulheres ali, nenhum harém, mas eu acabava de encontrar a sala das fantasias de Wick Sachs. Ficava ali mesmo, naquela casa. Escondida num recanto secreto do porão. O cômodo não combinava com o design do resto do imóvel. Ele construíra uma sala especial para si. Gostava de construir coisas, de ser criativo, não?

Aquela sala especial estava disposta como biblioteca. Tinha uma pesada escrivaninha de carvalho e, a cada lado dela, uma poltrona de couro vermelho. As quatro paredes de estantes estavam repletas até o teto de livros e revistas. Minha pressão arterial deve ter subido ao máximo. Eu tentava manter a calma,

mas não conseguia.

Era a mais extraordinária coleção de pornografia e publicações eróticas que eu já vira ou de que ouvira falar. Havia pelo menos mil livros ali. Li alguns títulos enquanto passava rapidamente de uma parede à outra, de uma estante à outra.

Os Mais Estranhos Atos Sexuais nas Formas Do Amor Em Todas as Raças — Ilustrado. Impresso para O Clube do Livro Erótico de Nova York

Humilhações de Anastasia e Pearl

O Ônibus do Harém: Um Guia

Ate' que Ela Grite

O Hímen. Um Estudo Me'dico-legal do Estupro.

Concentrei-me no que precisava fazer. Primeiro, tentei aplacar o zumbido na cabeça.

Queria deixar a Wick Sachs um sinal de que estivera ali; de que conhecia seu sórdido lugarzinho secreto; de que ele já não tinha segredos. Queria que experimentasse o mesmo tipo de pressão, estresse e medo por que todos estávamos passando. Queria atingir o dr. Wick Sachs. Odiava-o muito mais do que teria sido capaz de imaginar.

Na escrivaninha havia um catálogo de um fornecedor de revistas e livros eróticos: Nicholas J. Soberhagen, Bulevar Victory, 1115, Staten Island, N.Y. Por Encomenda. Escrevi um breve recado. Também queria atingir Nicholas Soberhagen.

Sachs ou outra pessoa tinha assinalado vários livros nas páginas do catálogo. Eu o folheei rapidamente, lendo, com os ouvidos atentos ao ruído de algum automóvel na rua. O tempo era escasso.

A Ordem Especial de Santa Teresa. Não perca! Esta reimpressão de uma edição original extremamente rara data de 1880. Uma recordação do uso correto da vara num convento espanhol nas aforas de Madri.

O Mestre do Amor. As excitantes aventuras sexuais de uma bailarina em Berlim; os diversos maníacos sexuais que encontra. Para todo leitor sério!

Liberação. O primeiro romance interpretativo baseado na vida real e imaginária do serial küler francês Gilles de Rais.

Examinei as fileiras de prateleiras de madeira diretamente atrás da escrivaninha. Durante quanto tempo devia abusar da sorte naquela casa? Estava ficando tarde, Sachs e a família não demorariam. Detive-me numa prateleira atrás da poltrona.

Meu coração saltou quando vi diversos livros sobre Casanova.

Memórias de Casanova.

Casanova. 102 Gravuras Eróticas

As Mais Maravilhosas Noites de Amor de Casanova

Pensei nos dois meninos que moravam naquela casa, Nathan e Faye Anne, e senti pena deles. Seu pai, o dr. Wick Sachs, tinha uma fantasia cruel e delirante naquela sala. Estimulado por livros imundos, por sua coleção de publicações eróticas, decidia que fantasia viver na vida real, não? Eu chegava a sentir a presença de Sachs naquela sala. Finalmente, estava começando a conhecê-lo.

Seria possível que mantivesse as mulheres cativas num lugar próximo? Algum lugar ali mesmo na cidade, onde a ninguém ocorreria procurar? Teria sido por isso que nenhuma das buscas levara à descoberta da casa de horrores? Ficaria ela naquele respeitável bairro residencial de Durham?

Estaria Naomi trancafiada ali, à espera de que a encontrassem?

Quanto mais tempo ficasse presa, mais perigosa se tornaria sua situação.

Ouvi um barulho no andar superior. Prestei atenção, porém não voltei a ouvir mais nada. Devia ter sido alguma instalação elétrica, o vento ou quem sabe algum parafuso solto em minha cabeça.

Já passava da hora de dar o fora. Subi correndo a escada e saí ao pátio. Tivera a tentação de desenhar uma cruz no prospecto, de deixar uma marca. Resisti ao impulso. Ele sabia quem eu era. Entrara em contato comigo logo de minha chegada a Durham. Mas era eu quem estava excitado agora.

Voltei ao hotel pouco depois de meia-noite. Sentia-me vazio e entorpecido. A adrenalina se espalhava em meu corpo em alta dosagem.

O telefone tocou no momento em que estava entrando no quarto. Um insistente telefone de hotel que exigia ser atendido.

"Quem, diabos?", resmunguei comigo. Estava meio enlouquecido. Queria sair na noite e procurar Naomi fosse onde fosse. Queria pôr as mãos no dr. Wick Sachs e espancá-lo até que contasse a verdade. Custasse o que custasse.

— Alô. Quem fala? — atendi com voz exageradamente alta. Era Kyle Craig.

— Bem, que foi que encontrou lá?

 

Amanhecera novamente; nada mudara de fato naquela horrível investigação. Kate continuava sendo minha parceira. Foi escolha dela, mas eu a aprovei. Conhecia Casanova melhor que todos nós juntos.

Escondidos no triângulo de denso bosque de abetos junto à rodovia Old Chapei Hill, ficamos espionando a grande e bela casa de Sachs naquela manhã. Nosso dia de sorte.

A Fera se levantou cedo. Era alto e tinha aparência professoral, cabelo muito louro, penteado para trás, óculos de aro de chifre. Tinha ótima constituição física.

Apareceu no alpendre por volta das sete para apanhar o jornal. A manchete dizia: A polícia continua de olho em Casanova. O editores do matutino local não tinham idéia do quanto aquelas palavras eram precisas.

Sachs deu uma espiada na primeira página, depois dobrou o diário e o colocou debaixo do braço. Nada que lhe interessasse. Mais um dia de grande alarde sobre o serial killer.

Pouco antes das oito, saiu com os filhos. Mostrava um dilatado sorriso de dentes brancos. O bom pai os levava à escola.

O menino e a menina estavam vestidos como se fossem aparecer na capa de alguma revista de moda. Duas adoráveis bonequinhas. O FBI os seguiria até a escola.

— Não é esquisito, Alex? Dois serviços de vigilância ao mesmo tempo? — indagou Kate. Era analítica, sua mente jamais cessava de examinar todos os ângulos. Tinha tanta obsessão pelo caso quanto eu. Naquela manhã, estava vestida como de costume. Jeans desbotado, camiseta azul, tênis. Sua beleza se impunha de qualquer jeito. Não havia como ocultá-la.

— A investigação de um assassino desse tipo é sempre esquisita. E esta, mais ainda — admiti. Estava falando do ponto de vista da geminação novamente. Dois malucos perigosos sem ninguém com quem conversar, em quem confiar. Ninguém que os compreendesse, a menos que se encontrassem. Além disso, havia o poderoso vínculo entre os dois homicidas. Kate tivera uma irmã gêmea, mas experimentara uma forma benigna de geminação. No caso do Cavalheiro e de Casanova, a coisa era bem diferente.

Wick Sachs voltou logo da escola. Ouvimo-lo assobiar alegremente ao entrar em sua casa perfeita. Kate e eu conversamos sobre o fato de ele ser doutor, mas em filosofia.

Nada aconteceu nas horas subseqüentes. Nenhum sinal de Sachs nem de sua esposa, a adorável Madame Casanova.

Wick Sachs saiu novamente às onze horas. Estava matando aula naquele dia. Já faltara ao seminário das dez, segundo o horário que Dean Lowell me entregara. Por quê? Que joguinho maroto estava jogando agora?

Havia dois automóveis à porta da garagem. Ele escolheu o Jaguar XJS, cor de vinho, conversível, motor de doze cilindros. O outro era um Mercedes. Nada mal para um salário de professor.

Estava saindo agora, entrando na estrada. Iria ele visitar suas garotas ?

 

Seguimos o Jaguar esporte de Sachs na rodovia Old Chapei Hill. Atravessamos Hope Valley, passando por casarões impressionantes, construídos das décadas de 20 e 30. Sachs não parecia ter pressa.

Até ali, o jogo era dele. Não conhecíamos as regras, nem sequer sabíamos que jogo estávamos jogando.

Casanova.

A Fera do Sudeste.

Kyle Craig ainda estava fazendo o levantamento da vida financeira de Sachs na Receita Federal. E contava com meia dúzia de agentes em busca de tudo quanto o pudesse vincular a Rudolph no passado. Sem dúvida, tinham sido colegas na Duke. Ambos excelentes alunos. Embora se conhecessem, não eram grandes amigos nos tempos de faculdade, pelo menos, nada indicava que o fossem. Na verdade, Kyle também estudava na Duke naquela época, na Faculdade de Direito. Aluno excelente também.

Quando havia ocorrido a geminação? Como se dera o forte e estranho vínculo? Tudo ainda parecia muito esquisito.

— E se ele resolver pisar no acelerador? — perguntou Kate. Estávamos seguindo discretamente o monstro a — esperávamos — seu covil na floresta, seu harém, à casa que "desaparecia", íamos em meu velho Porsche.

— Duvido que ele queira chamar a atenção — respondi. Muito embora um XJS e um Mercedes depusessem contra minha teoria. — Além disso, um Jaguar não é páreo para um Porsche.

— Mesmo para um Porsche do século passado?

— Oh — eu fiz. — Oh!

Sachs foi pela Interestadual 85, depois pela 40. Entrou em Chapei Hill. Nós o seguimos outros três quilômetros dentro da cidade. Ele finalmente parou no campus da Universidade da Carolina do Norte, na rua Franklin.

— Coisa esquisita, Alex. Professor da Universidade Duke. Mulher e dois filhinhos lindos. Na noite em que me pegou, provavelmente tinha me seguido desde o campus. Estava me observando. Acho que me escolheu bem aqui.

Olhei para ela.

— Tudo bem? Se não estiver agüentando, pode dizer. Kate me fitou intensamente. Estava perturbada.

— Vamos acabar logo com isso. Vamos pegar esse cara hoje mesmo. Combinado?

— Combinado.

— Você está fodido, desgraçado — rosnou ela com o olhar perdido.

A bela rua de Chapei Hill já estava movimentada às quinze para o meio-dia. Estudantes e professores entravam e saíam da lanchonete Carolina, da pizzaria Peppers, da recentemente reformada livraria Intimate. Os comerciantes da rua Franklin não podiam se queixar dos negócios. A atmosfera de cidade universitária era envolvente; lembrava-me os tempos da Johns Hopkins. A avenida Cresmont, em Baltimore.

Kate e eu conseguimos seguir Wick Sachs a uma distância de um quarteirão e meio. Eu sabia que agora lhe seria fácil livrar-se de nós. Iria para a casa da floresta? Iria visitar as garotas? Estaria Naomi ainda lá?

Podia entrar facilmente no Record Bar ou no restaurante Sapanky's, na esquina. Sair por uma porta lateral e desaparecer. Iniciara-se um jogo de gato e rato. Seu jogo; suas regras. Por enquanto, era ele quem ditava as regras.

— Ele parece contente demais, satisfeito demais — eu disse enquanto o seguíamos a uma razoável distância. Não se havia voltado para ver se estava sendo seguido. Parecia um chique e alegre professor passeando na hora do almoço. Talvez fosse apenas isso.

— Tudo bem? — tornei a perguntar.

Ela estava observando Sachs feito um rancoroso cão de fila pronto para morder. Lembrei-me de que tivera aulas de caratê ali mesmo, em Chapei Hill.

— Hum-hum. Mas me vieram muitas lembranças desagradáveis. A cena do crime e tudo mais — murmurou Kate.

Wick Sachs finalmente parou em frente ao antigo Cine Varsity, no centro de Chapei Hill. Ficou parado diante de um painel de avisos coberto com toda sorte de mensagens, anúncios manuscritos e cartazes, quase todos dirigidos aos alunos da universidade ou ao pessoal das faculdades.

— Será possível que esse filho da puta vá ao cinema agora?

— cochichou Kate, parecendo mais furiosa que nunca.

— Talvez ele precise de uma evasão, uma espécie de sublimação. Esta é a vida secreta de Wick Sachs. Nós a estamos observando.

— Eu bem que gostaria de agarrá-lo agora mesmo. Acabar com ele!

— É, eu também. Eu também, Kate.

Eu tinha reparado naquele quadro de avisos numa de minhas passagens por ali. Havia diversas notas sobre pessoas desaparecidas na região de Chapei Hill. Estudantes desaparecidas. Todas mulheres. Uma praga que se abatera sobre a comunidade, e ninguém fora capaz de fazer nada para detê-la. Ninguém conhecia a cura.

Wick Sachs parecia estar esperando algo ou alguém.

— Com quem, diabos, ele veio se encontrar em Chapei Hill?

— murmurei.

— Com Will Rudolph — respondeu Kate de pronto. — Seu antigo colega. Seu melhor amigo.

Na verdade, eu já havia pensado na possibilidade de Rudolph retornar à Carolina do Norte. A geminação podia ser quase uma dependência física. Em sua forma negativa, baseava-se na interdependência ou em comportamentos reciprócamente estimulantes. Ambos seqüestravam moças bonitas e as torturavam ou matavam. Seria esse o segredo que compartilhavam? Ou havia mais do que isso?

— Ele se parece com Casanova — disse Kate. Havíamos entrado numa pequena confeitaria chamada School Kids. — Tem a mesma cor de cabelo. Mas por que não disfarçava o cabelo? Porque só usava a máscara?

— Talvez a máscara não seja um disfarce. Pode ser que tenha outro significado no mundo de sua fantasia — sugeri. — possível que Casanova seja sua personagem real. A máscara, é toda a aura de sacrifício humano, o simbolismo, tudo pode ser importantíssimo para ele.

Sachs continuava esperando em frente ao quadro de avisos. Esperando o quê? Eu tinha quase certeza de que alguma coisa estava errada. Espreitei-o com o binóculo.

Não parecia preocupado, estava quase sereno. Um dia no parque para o vampiro Lestat. Perguntei-me se não estava sob o efeito de alguma droga. Certamente conhecia os mais sofisticados tranqüilizantes.

Atrás dele, no quadro de avisos, havia toda sorte de mensagens. Eu conseguia lê-las com o binóculo.

Desaparecida — Carolyn Eileen Devito Desaparecida — Robin Schwartz Desaparecida — Susan Pyle f   As mulheres apoiam Jim Hunt para governador

As mulheres apoiam Laurie Garnier para vice-governador Os Mind Sirens na Cave

De repente, encontrei a possível resposta. As mensagens!

Casanova estava nos mandando uma mensagem cruel — a nós, a quem quer que o estivesse observando, a quem quer que se atrevesse a segui-lo.

Dei um soco no empoeirado parapeito da janela.

— O filho da puta está brincando conosco! — disse quase aos gritos na confeitaria lotada de onde observávamos Wick Sachs. O dono do estabelecimento olhou para mim como se eu fosse perigoso. Eu era perigoso.

— Que aconteceu? — Kate olhou subitamente por cima de meu ombro, apoiando o corpo no meu, tentando descobrir o que eu tinha visto na rua.

— E o pôster atrás dele. Ele está lá há dez minutos. E a mensagem, Kate, para quem o estiver seguindo. Aquele pôster alaranjado e amarelo diz tudo.

Entreguei-lhe o binóculo. Um dos pôsteres, no quadro de avisos, era maior e chamava mais a atenção que os outros. Kate leu em voz alta:

— "Mulheres e crianças estão morrendo de fome... enquanto você passa com dinheiro trocado no bolso. Por favor, mude seu comportamento agora! Você pode salvar vidas."

 

Oh, meu Deus! — exclamou Kate. — Se ele não for para a casa, elas morrerão de fome, e se estiver sendo seguido, não irá para lá. é isto o que nos está dizendo! Mulheres morrendo de fome... mude seu comportamento agora. Eu queria pegar Wick Sachs ali mesmo. Sabia que nada podíamos fazer contra ele. Nada legal em todo caso. Nada são.

— Alex, olhe. — Kate parecia alarmada. Entregou-me o binóculo.

Uma mulher se aproximava de Sachs. Olhei bem. O sol do meio-dia brilhava intensamente nas muitas superfícies de vidro e metal da rua Franklin.

A mulher era elegante e atraente, embora mais velha que as moças seqüestradas. Estava toda de preto, a blusa de seda, a calça de couro, os sapatos. Trazia uma pasta com livros e papéis.

— Ela não se enquadra em seus moldes, em seus padrões — eu disse a Kate. — Deve ter quase quarenta anos.

— Eu a conheço. Sei quem é, Alex — sussurrou Kate. Fitei-a.

— Quem é ela, Kate, pelo amor de Deus?

— É professora no Departamento de Inglês. Chama-se Suzanne Wellsley. Os estudantes a apelidaram de Sue Piranha. Dizem que se ela jogar a calcinha na parede, fica grudada.

— Podiam contar a mesma piada sobre o doutor Sachs — respondi. Ele tinha uma péssima reputação quanto à conduta moral no campus. Fazia anos. Mas nenhuma medida disciplinar fora tomada. Mais um crime perfeito?

Ele e Suzanne Wellsley se beijaram diante do pôster. Um beijo de língua, pude ver com o binóculo. Um abraço bastante escandaloso também, sem a menor preocupação com o fato de estarem em público.

Refleti sobre a "mensagem". Talvez fosse apenas coincidência, se bem que já não acreditava em coincidências. Era possível que Suzanne Wellsley estivesse envolvida com a "casa" mantida por Sachs. Podia haver mais gente comprometida. Talvez aquela historia toda se relacionasse com algum tipo de culto sexual adulto. Eu sabia que isso existia; mesmo na capital, existia e florescia.

Os dois foram caminhando despreocupadamente pela movimentada rua Franklin. Sem pressa. Vinham em nossa direção. Depois, pararam na bilheteria do Cine Varsity. Estavam de mãos dadas. Um gracioso par.

— Maldito. Ele sabe que está sendo seguido — eu disse. — Qual é o jogo desse cara?

— Ela está olhando para cá. Talvez também saiba. Olá, Suzanne, o que você está querendo, Madame Piranha?

Compraram ingressos, como um casal normal, e entraram. O letreiro anunciava: "Roberto Benigni é Johnny Stecchino — comédia turbulenta". Eu me perguntei como Sachs podia ter estômago para uma comédia italiana. Seria Casanova tão frio assim? Sim, com certeza. Especialmente se aquilo fosse parte de algum plano.

— Será que o letreiro também é uma mensagem? Que estará querendo nos dizer, Alex?

— Que tudo isto é uma "comédia turbulenta" para ele? Pode ser.

— Ele tem senso de humor, Alex. Sou testemunha disso. Era capaz de rir de suas próprias piadas cruéis.

Liguei para Kyle Craig de um telefone público na sorveteria Ben & Jerry's. Falei-lhe do pôster. Ele concordou que podia ser um recado. Tudo era possível tratando-se de Casanova.

Quando saí da sorveteria, Sachs e Suzanne Wellsley ainda estavam no cinema, decerto rindo turbulentamente do ator italiano Roberto Benigni. Ou quem sabe Sachs não estava rindo de nós? Mulheres e crianças estão morrendo de fome.

Pouco depois das duas e meia, Sachs e a dra. Wellsley saíram. Foram passeando até a esquina da rua Franklin com a Columbus. A caminhada de meio quarteirão pareceu durar dez minutos. Entraram no popularíssimo Spanky's, onde almoçaram.

— Não é lindo? Um namorico — disse Kate com irritação na voz. — Maldito. Maldita. E maldito Spanky's por lhes dar comida e bebida.

Sentaram-se perto da janela da frente do restaurante. De propósito? Ficaram de mãos dadas e se beijaram algumas vezes. Casanova, o Amante? Uma "escapada" à hora do almoço como outra professora? Aquilo não tinha o menor sentido.

Às três e meia, saíram do restaurante e retornaram até junto do painel de avisos. Beijaram-se novamente, se bem que desta vez com certa discrição, e enfim se despediram. Sachs voltou para casa, em Hope Valley. Era evidente que estava brincando conosco. Seu próprio jogo, para seu exclusivo prazer.

O gato e o rato.

 

Katy e eu decidimos jantar num local chamado Frog and the Redneck, no centro de Durham. Ela insistia em que precisávamos descansar um pouco. Eu sabia que tinha razão.

Quis ir para casa primeiro e me pediu que fosse buscá-la algumas horas mais tarde. Eu não estava preparado para a Kate que abriu a porta do apartamento. Abandonara seu aspecto habitual de bus couture. Vestia uma bata de linho bege e uma blusa florida à guisa de casaco. Trazia o longo cabelo castanho preso à nuca com um lenço amarelo.

— Minha roupa de comer-fora-aos-domingos — disse com uma piscadela conspirativa. — O único problema é que, com meu orçamento de residente, nunca posso comer fora. Ocasionalmente no KFC ou no Arby's.

— Você tem programa para hoje? — perguntei em tom de gozação. Mas quem estava gozando quem?

Ela me tomou o braço.

— Na verdade, talvez sim. Você é tão bonitão. Tão bem disposto, chique.

Eu também tinha deixado no hotel minha costumeira aparência de bas couture, Resolvera sair chique.

Não me lembro bem da viagem de carro ao restaurante de Durham, só sei que conversamos o tempo todo. Nunca tínhamos problemas para conversar. Tampouco me lembro do jantar, mas foi um delicioso "rango" regional/continental. Recordo vagamente um pato muscovy e umas ameixas com creme chantilly.

A lembrança mais clara que guardo é de Kate sentada à minha frente, o cotovelo na mesa, o rosto levemente apoiado no dorso da mão. Daria um belo retrato. Lembro-me também de que, a certa altura do jantar, ela tirou o lenço amarelo.

— Sabe de uma coisa? — disse-me sorrindo. — Tenho uma nova teoria, a teoria du jour, sobre nós dois. Quer que lhe conte?

— Não — respondeu o cara esperto em mim, o que receia excesso de emoções. Ultimamente, em todo caso.

Não menos esperta, Kate me ignorou e prosseguiu:

— vou começar... Alex, nós dois temos muito medo de compromissos na vida, pelo menos por enquanto. Isso é óbvio. Acho que os dois somos muito medrosos. — Estava sendo cautelosa. Sentia que era um território difícil para mim, e tinha razão.

Suspirei. Mesmo sem saber se queria entrar no assunto naquele momento, eu mergulhei de cabeça.

— Kate, eu não lhe contei muita coisa sobre Maria... Nós nos amávamos muito quando ela morreu. Foi assim durante seis anos. Não se trata de memória seletiva de minha parte. Eu costumava me dizer "meu Deus, que sorte a minha ter encontrado essa pessoa". Maria sentia a mesma coisa. — Sorri. — Ou pelo menos me dizia. Portanto, sim, tenho medo de compromissos. Na verdade, tenho medo de tornar a perder alguém que eu ame do mesmo modo.

— Também tenho medo de perder a quem amo, Alex — disse ela com voz branda. Eu mal lhe podia ouvir as palavras. Às vezes parecia acanhada, e isso era comovente. — Há uma frase mágica em The Pawnbroker, mágica para mim ao menos. "Tudo o que eu amava me foi arrebatado, e eu não morri."

Eu lhe tomei a mão e a beijei de leve. Senti uma irresistível ternura por ela.

— Conheço a frase.

Eu notava a ansiedade em seus olhos escuros. Talvez os dois precisássemos levar aquilo adiante, o que quer que estivesse começando a existir, os riscos que representasse.

— Posso lhe contar mais uma coisa? Mais uma confissão que não é fácil fazer? Uma confissão ruim — pediu ela.

— Quero ouvi-la. Claro que quero. Seja o que for.

— Tenho medo de morrer como minhas irmãs, de também ter câncer. Na minha idade, sou uma bomba-relógio médica. Oh, Alex, tenho medo de me apegar a alguém e, depois, adoecer. — Deixou escapar um longo suspiro. Era sem dúvida uma coisa difícil de dizer.

Ficamos um longo tempo de mãos dadas no restaurante. Tomamos vinho do Porto. Estávamos ambos um tanto calados, deixando-nos inundar por aqueles poderosos sentimentos novos, tratando de nos habituar a eles.

Após o jantar, voltamos a seu apartamento em Chapei Hill. A primeira coisa que fiz foi verificar se não tínhamos hóspedes indesejáveis. No carro, eu havia tentado convencê-la a ir ao hotel comigo, porém, como de costume, ela recusou. Eu estava paranóico com Casanova e seus jogos.

— Você é tão teimosa — disse-lhe quando estávamos examinando portas e janelas.

— Firmemente independente é uma descrição melhor — retrucou ela. — Vem da faixa preta do caratê. Segundo grau. Tome cuidado.

— Estou tomando. Mas não se esqueça de que peso quarenta quilos mais que você.

Kate sacudiu a cabeça.

— É pouco.

— Você deve ter razão. — Eu ri uma boa gargalhada. Ninguém estava escondido no apartamento do Beco das

Velhas. Só nós dois estávamos lá. Talvez fosse essa a coisa mais temível.

— Por favor, não vá embora agora. Fique um pouco. A menos que queira ou precise ir-se — disse-me Kate. Eu ainda estava de pé, na cozinha. As mãos desajeitadamente enfiadas nos bolsos.

— Não vou a lugar algum — respondi. Estava me sentindo um pouco nervoso e travado.

— Tenho uma garrafa de Château de Ia Chaize. Acho que é esse o nome. Custa só nove dólares, mas é um vinho decente. Comprei-o para esta noite, mesmo sem o saber. — Ela sorriu. — Há três meses, quando fiz compras.

Sentamo-nos no sofá, na sala de estar.

O lugar era bonito, simples, decorado com bom gosto. Havia fotografias em branco e preto nas paredes, sua mãe e suas irmãs. Os bons tempos de Kate. Havia também uma curiosa fotografia dela, com o uniforme cor-de-rosa do posto de gasolina Big Top, onde trabalhara para pagar a faculdade. Aquele emprego de garçonete era uma das razões por que a faculdade representava tanto para ela.

Talvez por causa do vinho, contei-lhe mais do que pretendia sobre Jezzie Flanagan. Fora minha única tentativa de um compromisso sério após a morte de Maria. Kate me falou de seu namorado, Peter McGrath. Professor de história da Universidade da Carolina do Norte. Ouvindo-a, ocorreu-me a idéia perturbadora de talvez fosse um suspeito que havíamos descartado depressa demais.

Eu não conseguia parar de pensar no caso uma única noite que fosse. Quem sabe estivesse apenas tentando uma vez mais fugir no trabalho. Por via das dúvidas, anotei mentalmente que devia checar o dr. Peter McGrath com mais cuidado.

Kate se aproximou. Beijamo-nos. Nossas bocas se encaixavam perfeitamente. Ambos já o tínhamos feito antes, beijado, mas creio que nunca tão bem.

— Dorme aqui esta noite? Por favor, fique — sussurrou ela. — Só hoje, Alex, por favor. Não precisamos ter medo disso, precisamos?

— Não, não precisamos ter medo — respondi em voz baixa. Estava me sentindo como um adolescente. Talvez fosse bom.

Não sabia exatamente o que fazer, como tocá-la, o que dizer, o que não fazer. Escutei o doce cantarolar de sua respiração. Deixei que tudo tomasse seu curso natural.

Beijamo-nos novamente, com uma ternura com que não me lembrava de haver beijado ninguém. Os dois estávamos carentes. Porém estávamos muito vulneráveis naquele momento.

Kate e eu fomos para o quarto. Ficamos muito tempo abraçados. Falávamos aos sussurros. Dormimos juntos. Não fizemos amor aquela noite.

Éramos grandes amigos. Não queríamos estragar tudo.

 

Naomi achou que finalmente estava perdendo o que lhe restava de sanidade mental. Vira Alex matar Casanova, embora soubesse que aquilo não tinha acontecido na realidade. Vira o tiro com seus próprios olhos. Estava tendo alucinações e já não conseguia evitá-las.

Falava sozinha às vezes. O som de sua própria voz a consolava.

Ficou imóvel e pensativa na poltrona da cela escura de sua prisão. O violino estava lá, porém havia dias que não o tocava. Tinha um motivo completamente novo para sentir medo. Talvez ele não voltasse mais.

Talvez Casanova tivesse sido capturado e se recusasse a revelar à polícia onde mantinha suas cativas. Era seu último trunfo, não? Seu segredo diabólico. Sua derradeira possibilidade de barganha.

Talvez o houvessem matado num tiroteio. Como a polícia poderia encontrá-la e às outras se estivesse morto? Alguma coisa aconteceu, pensou. Faz dois dias que ele não aparece. Algo mudou.

Queria desesperadamente voltar a ver um céu azul e ensolarado, a relva, as torres góticas da universidade, os terraços floridos do Jardim Sarah Duke, até mesmo o rio Potomac, em Washington, em toda sua lodosa e cinzenta glória.

Levantou-se da poltrona ao lado da cama. Caminhou lentamente no soalho nu e, chegando à porta trancada, colou o rosto na madeira fria.

Devo cometer esta loucura?, perguntou-se. Assinar minha própria sentença de morte?

Mal conseguia respirar. Aguçou os ouvidos em busca de um ruído naquela casa misteriosa, um barulhinho insignificante que fosse. Embora os quartos tivessem revestimento a prova de som, se se fizesse muito barulho, alguma coisa acabava sendo ouvida no sinistro imóvel.

Repassou o que pretendia dizer, exatamente o que haveria de dizer.

Meu nome éNaomiCross. Onde você está Kristen? Olhos Verdes? Concluí que você tem razão. Temos de fazer alguma coisa... Alguma coisa juntas... Ele não vai voltar.

Naomi imaginara clara e inteligentemente aquele momento. Assim esperava, ao menos. Mas não conseguia pronunciar as palavras em voz alta. Sabia que conspirar contra ele podia significar a morte.

Kristen Mil es a havia chamado algumas vezes nas últimas vinte quatro horas, porém ela não respondera. Era proibido conversar, e tinha visto o que podia acontecer a qualquer uma delas. Casanova enforcara uma mulher poucos dias antes. Pobre Anna Miller. Outra estudante de direito.

Não conseguia ouvir nada. Só a estática do silêncio. O suave zunido da eternidade. Jamais se ouvia o barulho de um carro. Nenhum estampido de escapamento nem uma buzina distante. Sequer o roncar de um avião passando.

Concluiu que deviam estar num subterrâneo, abaixo da superfície. Será que ele construíra aquele complexo num subsolo? Teria planejado tudo nos mínimos detalhes, sonhado com aquilo, e, depois, num surto de fúria e energia psicopáticas, construído o esconderijo? Provavelmente sim.

Estava se preparando para quebrar o silêncio. Tinha de falar com Kristen, com Olhos Verdes. Sentia a boca muito seca. Era como algodão. Finalmente, lambeu os lábios.

— Sou capaz de matar por uma coca-cola. Sou capaz de matá-lo por uma coca — sussurrou consigo mesma. — Eu o mataria se pudesse.

Mataria Casanova. Seria capaz de cometer um assassinato. Cheguei a este ponto, pensou, e teve de reprimir um soluço. Finalmente gritou:

— Kristen, está me ouvindo? Kristen! É Naomi Cross! Estava tremendo, as lágrimas lhe escorriam na face. Violara as sagradas regras do monstro.

Olhos Verdes respondeu imediatamente. Era tão bom ouvir-lhe a voz!

— Estou ouvindo, Naomi! Acho que não estou muito longe de você. Ouço-a bem. Continue falando. Tenho certeza de que ele não está.

Naomi já não pensava no que estava fazendo. Talvez ele não se encontrasse lá; talvez sim. Pouco importava.

— Ele vai nos matar — gritou. — Anda muito diferente! Tenho certeza de que vai nos matar. Se vamos fazer alguma coisa, tem de ser na primeira oportunidade que tivermos.

— Naomi tem razão! — A voz de Kristen soava ligeiramente abafada, como se estivesse falando do fundo de um poço. — Vocês todas ouviram Naomi? Claro que ouviram!

— Tenho uma idéia que vocês precisam considerar — disse Naomi, agora em voz bem mais alta. Queria comunicar-se com as outras. Todas tinham de ouvi-la, todas aquelas mulheres aprisionadas. — Da próxima vez que ele nos reunir, temos de estar dispostas a tudo. Se o atacarmos todas de uma vez, pode ser que machuque algumas de nós. Mas não vai conseguir deter-nos! Que acham?

Nesse momento, a pesada porta de madeira do quarto se abriu com um estalo. A luz penetrou.

Naomi ficou paralisada de terror. Sequer conseguiu articular uma palavra.

O coração lhe batia dolorosamente no peito, batia sem parar, e ela não conseguia tomar fôlego. Sentiu que estava prestes a morrer. Ele estava lá, esperando, escutando tudo o tempo todo.

A porta se escancarou.

— Olá, meu nome é Will Rudolph — disse o homem alto e bem apessoado num tom simpático de voz. — Gostei muito de seu plano, mas acho que não vai dar certo. vou lhe contar por quê.

 

Entrei no Aeroporto Internacional de Raleigh-Durham um pouco antes das nove da manhã de quarta-feira. A cavalaria estava chegando. Tropas frescas. Team Sampson estava de volta.

Em contraste com o pavor e a paranóia presentes em toda parte nas ruas de Durham e Chapei Hill, as pessoas, no aeroporto, passavam distraídas de qualquer perigo, com seus ternos escuros e bem-passados, com seus vestidos estampados de Neiman Marcus e Dillard. Gostei disso. Sorte deles. A negação não deixava de ser uma abordagem.

Por fim, vi Sampson sair com passos largos e decididos pelo portão da USAir. Acenei para ele com o jornal local que trazia comigo. Era típico. Eu sempre fazia assim, e o Homem Montanha jamais respondia a meu aceno. Limitou-se a balançar a cabeça com frieza metropolitana. Ruim para o osso. Bem o que o médico recomendara.

Fizemos com pressa a viagem do aeroporto a Chapei Hill.

Eu precisava examinar a região do rio Wykagil. Era apenas outro palpite, mas podia levar a alguma coisa... como, por exemplo, à localização da casa "desaparecida". Contava agora com a ajuda do dr. Louis Freed, um mentor e antigo professor de Seth Samuel. Era um notável historiador negro da Guerra Civil, período que também me interessava. Os escravos e a Guerra Civil na Carolina do Norte... Em particular a Ferrovia Subterrânea usada pelos negros para fugir ao Norte.

Quando entramos em Chapei Hill, Sampson pôde ver com os próprios olhos o que os seqüestros e os horrendos assassinatos fizeram da outrora pacífica cidade universitária. A cena de pesadelo me lembrava algumas viagens de metrô em Nova York. Lembrava-me também o lugar onde eu morava, a capital do país. As pessoas, em Chapei Hill, andavam apressadas naquelas ruas pitorescas, com as cabeças baixas. Já não faziam contato visual umas com as outras, particularmente com desconhecidos. A confiança fora substituída pelo medo. As moças tinham desaparecido.

— Acha que Casanova está gostando deste clima de Invasão dos Mortos-vivos? — perguntou Sampson quando estávamos atravessando uma das ruas laterais que margeavam o campus da Universidade da Carolina do Norte, de onde saíram Michael Jordan e tantos outros astros do basquete.

— Acho que ele aprendeu a gostar de ser uma celebridade local, sim. Gosta do jogo. Tem orgulho de seu trabalho... sua arte.

— Será que não quer ampliar seus horizontes, seu raio de ação, digamos?

— Ainda não sei. Ele pode ser um assassino rigorosamente regional. Alguns maníacos são assim: Richard Ramirez, o Filho de Sam, o matador do Rio Verde.

Depois, falei de minha teoria da geminação. Quanto mais pensava nela, mais acertada me parecia. Até mesmo o FBI estava começando a acreditar um pouco nela.

— Os dois devem estar compartilhando um grande segredo. Que seqüestrem moças bonitas é apenas parte da coisa. Um deles se imagina um "amante" e artista. O outro é um assassino brutal, um serial killer muito mais típico. Eles se completam, um corrige as fraquezas do outro. Juntos, creio que são virtualmente incontidos. Mais importante: acho que estão juntos.

— Qual deles é o líder? — Sampson fez uma boa pergunta. Intuitivamente. Do modo como sempre resolve os problemas.

— Acho que é Casanova. É, sem dúvida, o mais imaginativo dos dois. E o que não cometeu nenhum erro importante até agora. Mas o Cavalheiro não se sente muito bem submetendo-se à liderança do outro. Provavelmente, mudou-se para a Califórnia para ver se obtinha êxito por si só. E não conseguiu.

— Casanova é esse professor maluco? O doutor Wick Sachs? O professor pornográfico de que você me falou? é ele o nosso homem, garotão?

Olhei para Sampson. Estávamos com a mão na massa agora. Bate-papo de tiras.

— Às vezes, acho que é Sachs e que ele é tão esperto e inteligente que pode permitir que saibamos quem é. Gosta de nos ver em apuros. Pode ser um jogo de poder para ele.

Sampson fez que sim — um único gesto breve com a cabeça.

— E nas outras vezes, doutor Freud, qual é o seu processo de pensamento alternativo para o doutor Sachs?

— Outras vezes, pergunto-me se Sachs não está sendo injustamente acusado. Casanova é brilhante e tem sido extremamente cuidadoso. Parece enviar informações falsas que fazem todo mundo ficar mordendo o próprio rabo. Até mesmo Kyle Craig está confuso.

Sampson finalmente mostrou os dentes grandes e muito brancos. Talvez fosse um sorriso, talvez fosse me morder.

— Parece que cheguei na hora.

Quando diminuí a marcha ao me aproximar de um sinal de parada obrigatória, um homem armado saiu repentinamente de um carro estacionado e veio em nossa direção. Nada havia que eu pudesse fazer para detê-lo, nada que Sampson pudesse fazer.

O sujeito apontou uma Smith and Wesson diretamente para o meu rosto.

Fim do jogo!, pensei.

Ponto final.

— Polícia! — gritou o homem pela janela aberta. — Desçam já. Mãos na capota!

 

Você chegou bem na hora — cochichei a Sampson. Descemos do carro bem devagar, com cuidado.

— Parece — respondeu ele. — Vá com calma. Não faça com que nos dêem um tiro ou uma porrada, Alex. Eu não acharia graça.

Sabia o que estava acontecendo, coisa que me irritou incrivelmente. Sampson e eu éramos "suspeitos". Por que nós? Porque éramos uma dupla de negros passando por uma rua de Chapei Hill às dez horas da manhã.

Vi que Sampson também estava furioso, se bem que a sua maneira. Sorria de leve e balançava lentamente a cabeça para a frente e para trás.

— Que beleza — disse. — Não podia ser melhor. Outro detetive veio dar apoio ao parceiro. Eram uns rapazes

enfezados, de uns vinte e oito anos. Cabelos compridos. Bigodes bastos. Duros, musculosos. Nick Ruskin e Davey Sikes em fase de aprendizado.

— Pensa que é brincadeira? — disse o segundo policial em voz tão baixa que eu mal lhe ouvi as palavras. — Está com vontade de dar risada, negrão? — Estava segurando a arma, pronto para bater.

— Antes rir que chorar — respondeu Sampson ainda sorrindo. Não tinha medo de coronhadas.

Eu estava com o cabelo arrepiado, o suor me escorria nas costas. Não me lembrava de ter sido preso recentemente, e não estava gostando daquilo. Tudo o que sentira ao chegar ressurgiu. Já não se prendiam arbitrariamente negros na Carolina do Norte ou no Sul em geral. Tentei me identificar.

— Meu nome é...

— Cale a boca, seu merda! — Um deles me golpeou as costas antes que pudesse terminar. Não com força suficiente para deixar uma marca, mas doeu. Doeu de várias maneiras.

— Este aqui deve ter puxado fumo. Está com os olhos vermelhos — disse o policial de voz baixa, referindo-se a mim. — Está baratinado.

— Sou Alex Cross. Sou da polícia, seu filho da puta! — gritei subitamente. — Estou participando das investigações de Casanova. Chame os detetives Ruskin e Sikes imediatamente! Chame Kyle Craig, do FBI.

Ao mesmo tempo, girei o corpo e dei um murro na garganta do mais próximo. Ele caiu como uma pedra. Seu parceiro avançou de um salto, porém Sampson e derrubou na calçada antes que cometesse uma besteira. Tomei o revólver do primeiro policial mais depressa do que teria desarmado um desordeiro de catorze anos em Washington.

— Mãos na capota? — disse Sampson a seu "suspeito". Não estava brincando. — A quantos irmãos você diz essa merda? Quantos jovens você chamou de "negrão" e humilhou desse jeito?

— Vocês sabem muito bem que Casanova não é preto — eu disse aos tiras desarmados. — Estão completamente "por fora".

— Tem havido muitos assaltos neste bairro — explicou-se o de voz grave. Mostrava-se subitamente arrependido.

— Isso não é desculpa, seu merda! — gritou Sampson, cutucando-o com a própria arma, humilhando os dois investigadores. Voltamos para o carro. Ficamos com as armas. Lembrancinhas do dia. Eles que se explicassem na chefatura. — Filho da puta! — gritou quando arrancamos. Bati no volante com a palma da mão. Bati duas vezes. Aquela cena me abalara mais do que eu imaginava, ou talvez simplesmente estivesse muito exausto e desgastado. — Por outro lado — disse-me Sampson —, viu como foi fácil derrubar esses moleques? O racismo é uma merda, faz meu sangue ferver com adrenalina. Solta todos os demônios dentro de mim. É bom. Agora estou no pique.

— É bom ver sua cara feia novamente — eu sorri. Ele sorriu. Pouco depois estávamos os dois rindo às gargalhadas.

— Legal estar com você, garotão. Até que você está bem. O estresse não lhe está fazendo mal. Sabe? Coitado desse maluco se o prendermos hoje... o que é bem provável aliás.

Sampson e eu também estávamos em plena geminação. Valia a pena.

 

Sampson e eu encontramos o reitor Browning Lowell fazendo ginástica no novo ginásio, em Allen Hall, no campus da Duke. O local estava repleto dos melhores e mais modernos aparelhos de musculação.

Lowell estava se exercitando com halteres comuns. Precisávamos falar com ele a respeito de Wick Sachs, doutor em pornografia.

Ficamos observando-o fazer uma série de exercícios e flexões de pernas. Era um desempenho impressionante, mesmo para os padrões de dois ratos de academia como Sampson e eu. Ele tinha um físico impressionante.

— Assim é que é um deus olímpico de perto — eu disse quando nos aproximamos.

Ouvia-se a voz de Whitney Houston nos alto-falantes.

— Você já está na companhia de um deus olímpico — lembrou Sampson.

— E fácil de esquecer na presença de um dos grandes, embora humildes.

Lowell ergueu os olhos ao ouvir o ruído de nossos sapatos no piso do ginásio. Acolheu-nos com um sorriso amigável. O bonitão Browning Lowell. Na verdade, era mesmo bonitão. Não tentava simplesmente criar essa impressão.

Eu precisava do máximo de detalhes que pudesse fornecer, e depressa. Em algum lugar da Carolina do Norte, devia haver uma peça perdida do quebra-cabeça, que começaria a dar algum sentido àqueles assassinatos. Apresentei-lhe Sampson e, sem perda de tempo, perguntei-lhe o que sabia de Wick Sachs.

O reitor se mostrou extremamente colaborador, como em nosso primeiro encontro.

— Sachs é a ovelha negra de nosso campus, há uma década. Parece que todas as universidades têm uma — respondeu o reitor Lowell e franziu a testa. Notei que até as linhas de sua testa tinham músculos. — Sachs é amplamente conhecido como o "doutor Sujeira". Mas tem compostura, nunca foi pego fazendo alguma coisa completamente imprópria. Acho que lhe devia dar o benefício da dúvida, mas não dou.

— Já ouviu falar na coleção exótica de livros e filmes que possui, que guarda em casa? Pornografia mascarada de literatura erótica? — adiantou-se Sampson.

Lowell interrompeu os vigorosos exercícios. Olhou um bom tempo para nós antes de responder.

— O doutor Sachs é mesmo suspeito do desaparecimento dessas jovens?

— Há muitos suspeitos, reitor Lowell. É o que lhe posso dizer. Lowell concordou.

— Respeito seu julgamento, Alex. vou lhe contar uma coisa sobre Sachs que pode ser importante. — Tinha parado os exercícios. Pôs-se a enxugar o grosso pescoço e os ombros. Seu corpo parecia de rocha polida. — Deixe-me começar pelo começo. Há algum tempo, houve um assassinato infame por aqui, mataram um casal. Foi em 1981. Wick Sachs era estudante nessa época, um aluno brilhante. Quando me tornei reitor, fiquei sabendo que ele figurou entre os suspeitos durante as investigações desse crime, mas foi definitivamente inocentado. Não havia provas de que tivesse qualquer tipo de envolvimento. Não conheço todos os detalhes, mas você pode verificar na polícia de Durham. Foi na primavera de 81. Os estudantes mortos eram Roe Tierney e torn Hutchinson. Foi um tremendo escândalo, eu me lembro. Naquele tempo, um homicídio ainda chocava a comunidade. O fato é que o caso nunca foi solucionado.

— Por que não me contou isso antes?

— O FBI estava informado, Alex. Eu mesmo lhes contei. Sei que conversaram com o doutor Sachs há várias semanas. Tive a impressão de que não estava sob suspeita, devem ter concluído que não havia conexão com o caso anterior. Tenho certeza disso.

— É justo — eu disse ao reitor. E lhe pedi outro grande favor. Poderia conseguir tudo o que o FBI requisitara? Também queria dar uma olhada nos anuários da Duke do tempo em que Sachs e Will Rudolph eram estudantes. Eu tinha de fazer um importante trabalho de casa sobre a turma de 1981.

Por volta das sete da noite, Sampson e eu tornamos a nos encontrar com a polícia de Durham. Os detetives Ruskin e Sikes apareceram, entre outros. Pareciam estressados também.

— Ouçam, vocês dois já trabalharam em grandes casos — disse Ruskin. Como de costume, era ele quem falava. Davey Sikes não parecia gostar de nós mais que em nosso primeiro encontro. — Sei que meu parceiro e eu fomos um tanto hostis no começo. Mas saibam que tudo o que queremos é deter os assassinatos agora. — Sikes fez que sim com sua cabeça de paralelepípedo. — Queremos prender Sachs. O problema é que nosso distintivo nos atrapalha mais que ajuda.

Ruskin sorriu e eu o imitei. Todos compreendíamos a política interna da polícia. Eu ainda não confiava nos policiais de Durham. Tinha certeza de que me queriam usar e a Sampson ou, pelo menos, deixar-nos fora do caminho.

Aliás, tinha a impressão de que estavam ocultando indícios.

Os dois policiais nos contaram que estavam investigando vários médicos da região, todos com algum tipo de registro criminal ou associação com homicídios. Wick Sachs era o principal suspeito, mas não o único.

Ainda havia a possibilidade de Casanova ser alguém de quem sequer ouvíramos falar. Era sempre assim nos casos de serial killers. O assassino estava ali — mas podíamos não ter a menor idéia de quem fosse. Era a pior parte do trabalho, e a mais frustrante também.

Nick Ruskin e Sikes nos levaram ao quadro de suspeitos que haviam montado. Havia dezessete nomes. Cinco eram médicos. Kate acreditava que Casanova era médico. Kyle Craig também.

Li os nomes dos médicos.

Dr. Stefan Romm Dr. Francis Constantini Dr. Richard Dilallo Dr. Miguel Fesco Dr. Kelly Clark.

Voltei a pensar que várias pessoas podiam estar envolvidas com a casa de horrores. Ou seria mesmo Wick Sachs o nosso homem? Seria ele Casanova?

— Você é o grande guru. — Davey Sikes colocou subitamente a mão em meu ombro. — Quem é ele, quem é o cara? Ajude os caipiras locais. Pegue esse bandido, doutor Cross.

 

Tarde, naquela noite, Casanova entrou em ação novamente. Foi caçar. Tinha perdido muito tempo nos últimos dias, mas aquela seria uma noite importante.

Penetrou facilmente no amplo Centro Médico da Universidade Duke por uma pouco usada porta de metal do estacionamento privativo para médicos. A caminho de seu objetivo, passou por várias enfermeiras tagarelas e jovens médicos de rosto sério. Alguns médicos o cumprimentaram e chegaram até lhe sorriram.

Como sempre, Casanova se integrava perfeitamente ao meio. Podia ir a qualquer lugar. E geralmente ia.

Enquanto percorria os corredores brancos e estéreis, estava ocupado com importantes e complicados cálculos sobre seu futuro. Tivera um extraordinário sucesso naquela região e no Sudeste, mas aquilo estava definitivamente chegando ao fim. A partir daquela noite.

Alex Cross e os outros sujos perdigueiros estavam chegando muito perto dele. Até mesmo a polícia de Durham começava a se tornar perigosa. Ele era um "assassino rigorosamente regional". Conhecia a inadequada terminologia com que o descreviam. Alguém acabaria encontrando a casa. Ou pior, provavelmente o encontrariam por alguma tola casualidade.

Sim, estava na hora de mudar. Talvez devesse ir para Nova York com Will Rudolph, pensou. Ou à ensolarada Flórida, que atraíra Ted Bundy? O Arizona devia ser agradável. O esplêndido outono de Tempe ou Tucson... lindas cidades universitárias repletas de belíssimas presas. Ou talvez pudessem estabelecer-se nas proximidades das gigantescas universidades do Texas. Austin devia ser ótima. Ou Urbana, em Illinois? Madison, em Wisconsin? Columbus, em Ohio?

Na verdade, inclinava-se mais pela Europa. Londres, Munique ou Paris. Sua versão do turismo. Talvez fosse uma boa idéia para os tempos atuais. Fazer turismo. Quem precisava assistir a Drácula se havia monstros reais percorrendo os campos dia e noite?

Casanova se perguntou se alguém tinha conseguido segui-lo no labirinto do Centro Médico. E Alex Cross? Era uma possibilidade. Ele tinha uma capacidade relativamente impressionante. Capturara o pouco imaginativo pedófilo de Washington, aquela variante ridícula de maníaco sexual. Cross tinha de ser eliminado antes que ele e Will Rudolph abandonassem a região para fazer coisas maiores e melhores. Do contrário, Cross os seguiria até o inferno.

Casanova passou para o Prédio Dois do labirinto bizantino do hospital. Era o caminho do necrotério e da manutenção, onde costumava haver menos gente.

Olhou para o longo e alvo corredor atrás dele. Ninguém o seguia.

Talvez ainda não soubessem dele. Talvez não soubessem de absolutamente nada. Mas acabariam sabendo. Havia indícios. Podiam ser retraçados até Roe Tierney e torn Hutchinson. O assassinato não-solucionado do casal. O começo para ele e Will Rudolph. Puxa, como estava contente com o retorno do amigo. Sempre se sentia melhor com ele por perto. Rudolph realmente compreendia o desejo e a liberdade. Entendia-o como ninguém jamais o entendera.

Começou a correr num limpíssimo corredor do Prédio Dois do Centro Médico.

Seus passos ecoavam nos saguões vazios. Em poucos minutos, estava no Prédio Quatro, na extremidade noroeste do hospital.

Olhou para trás uma vez mais.

Ninguém o seguira. Ninguém sabia de nada ainda. Talvez nunca viessem a saber.

Saiu ao estacionamento fortemente iluminado. Um Jeep preto estava estacionado perto do prédio. Entrou nele tranqüilamente.

O veículo tinha placas de médico, da Carolina do Norte. Mais uma de suas máscaras.

Sentia-se forte e seguro de si novamente. Sentia-se maravilhosamente livre e vivo. Era excitante; era uma de suas melhores horas. Tinha a impressão de poder voar na noite negra e sedosa.

Partiu em busca de sua vítima.

A dra. Kate McTiernan era a próxima novamente.

Estava com muitas saudades dela.

Amava-a.

 

O Cavalheiro Caller estava a caminho. Inexorável, o dr. Will Rudolph viajava na noite em busca da desprevenida presa. Seus hormônios se agitavam. Ferviam. Faria uma visita a domicílio como era próprio dos bons médicos ou, pelo menos, dos que se interessavam pelos pacientes.

Casanova não o queria nas ruas de Durham ou Chapei Hill. Na verdade, havia-o proibido. Bastante compreensível, admirável até, mas impossível. Estavam trabalhando juntos novamente. Por outro lado, o perigo era mínimo durante a noite, e a recompensa excedia os riscos.

Aquela cena do drama tinha de ser corretamente representada, e ele era o ator indicado. Will Rudolph tinha certeza. Não trazia bagagem emocional. Nenhum tendão de Aquiles. Casanova sim... Seu nome: Kate McTiernan.

Estranhamente, pensou, ela se tornara um desafio. Casanova criara um vínculo especial com aquela mulher. Era por demais parecida com a "amante" que ele declarava procurar obsessivamente. Como tal, representava uma ameaça para o relacionamento especial que ele, o Cavalheiro, tinha com Casanova.

Ao entrar em Chapei Hill, pensou em seu "amigo". Algo havia mudado entre eles, e de maneira satisfatória. A separação de quase um ano o fizera valorizar aquela estranha relação. Tornara-se mais poderosa que nunca. Afinal, não existia mais ninguém com quem pudesse conversar, absolutamente ninguém.

Que pena, pensou.

Que bom.

Durante aquele ano, na Califórnia, Will Rudolph havia pensado muito na dolorosa solidão que conhecera na infância.

Crescera em Fort, Bragg, na Carolina do Norte, depois, em Asheville. Era filho de um coronel, um mascote de quartel, um genuíno sulista. Desde o começo fora inteligente o bastante para manter uma fachada: aluno destacado; educado, prestativo, sociabilíssimo. O perfeito cavalheiro. Ninguém sequer desconfiava de seus desejos e necessidades... razão pela qual a solidão era tão insuportável.

Sabia quando a solidão chegara ao fim. Sabia exatamente quando e onde. Lembrava-se do primeiro e atordoador encontro com Casanova. Tinha sido no campus da Duke, um encontro perigoso para os dois.

O Cavalheiro se lembrava perfeitamente da cena. Morava num quarto minúsculo como qualquer outro estudante do campus. Casanova aparecera certa madrugada, bem depois de meia-noite, quase às duas horas. Pregara-lhe um susto tremendo.

Parecia muito seguro de si quando Rudolph abrira a porta e dera com ele. Lembrou-se imediatamente de uma cena de um filme de suspense chamado A Corda.

— Não vai me convidar a entrar? Você não vai querer que eu diga o que tenho a dizer aqui no corredor, em público.

Rudolph o fez entrar. Fechou a porta. Estava com o coração disparado.

— Que você quer? São quase duas horas, meu Deus. O sorriso novamente. Seguríssimo. Perspicaz.

— Você matou Roe Tierney e Thomas Hutchinson. Andava atrás de Roe há mais de um ano. Tem uma lembrança amorosa dela bem aqui, neste quarto. De sua língua, creio. — Foi o momento mais dramático da vida de Will Rudolph. Alguém sabia quem ele era. Alguém o descobrira. — Não tenha medo. Eu também sei que não há como provar que foi você quem cometeu os homicídios. Foram crimes perfeitos. Ou melhor, quase perfeitos. Parabéns.

Dissimulando da melhor maneira possível naquelas circunstâncias, Rudolph se riu diante de seu acusador.

— Você está completamente louco. Vá embora. É a coisa mais maluca que já ouvi.

— Sim, é — disse o acusador —, mas você passou a vida esperando ouvi-la... vou lhe dizer mais uma coisa que quer ouvir. Eu compreendo o que você fez e sei por quê. Já fiz a mesma coisa. Sou muito parecido com você, Will.

Rudolph sentiu de pronto uma poderosa ligação entre eles. O primeiro vínculo humano na vida. Talvez o amor fosse assim? Acaso as pessoas comuns sentiam mais do que ele estava sentindo? Ou estavam enganando a si mesmas? Criando grandiosas fantasias românticas em torno ao mundano intercâmbio de fluidos seminais?

Mal notou que havia chegado a seu destino. Parou o carro sob o velho e altíssimo olmo e apagou os faróis. Dois negros se encontravam no alpendre de Kate McTiernan.

Um deles era Alex Cross.

 

Pouco depois das dez, Sampson e eu íamos por uma rua escura e tortuosa na periferia de Chapei Hill. Tinha sido um dia longo.

Naquela mesma noite eu apresentara Sampson a Seth Samuel Taylor. Tínhamos conversado também com o dr. Louis Freed, antigo professor de Seth. Expus a ele minha teoria sobre a "casa desaparecida"; ele se dispôs a colaborar com a investigação de sua localização com uma importante pesquisa.

Ainda não havia falado muito de Kate McTiernan a Sampson. Mas já estava na hora de se conhecerem. Eu não sabia definir exatamente nossa relação, e Kate tampouco. Talvez Sampson pudesse acrescentar alguma coisa quando a conhecesse. Tinha certeza de que o faria.

— Trabalha até tarde assim toda noite? — quis saber ele quando entramos na rua de Kate, o Beco das Velhas, como ela a batizara.

— Até encontrar Scootchie ou entregar os pontos — respondi. — Depois disso, pretendo descansar uma noite inteira.

Sampson riu.

— Seu demônio!

Descemos do carro e nos aproximamos da porta. Toquei a campainha.

— Não tem a chave ainda? — resmungou Sampson com aparente indiferença.

Kate acendeu a luz do alpendre. Perguntei-me por que não a deixava acesa o tempo todo. Para economizar cinco centavos por mês? Porque a luz atrairia insetos? Por teimosia e talvez porque quisesse um novo contato com Casanova? Era o mais provável, conhecendo-a como estava começando a conhecê-la. Queria pegar Casanova tanto quanto eu.

Abriu a porta com uma velha camiseta cinzenta, jeans desbotados e pés descalços. Reparei nas unhas pintadas com esmalte vermelho. Estava com o cabelo solto até os ombros, linda como sempre. Não havia como negá-lo.

— Nossa, como há mosquitos aqui — comentou, olhando a seu redor. — Abraçou-me e me beijou o rosto. Lembrei-me de nós dois abraçados na noite anterior. Onde estava aquilo? Perdido? — Olá, John Sampson. — Sorriu e lhe apertou fortemente a mão. — Sei umas coisas sobre vocês dois, sei até que se conheceram aos dez anos. O resto, pode me contar quando estivermos tomando uma cerveja gelada. Ou duas. Ficarei conhecendo a sua versão. — Sorriu de novo. Era sempre bom ver aquele sorriso.

— Então você é a famosa Kate? — Sampson lhe segurou a mão e ficou olhando para os lagos profundos de seus olhos castanhos. — Ouvi dizer que financiou os estudos trabalhando num posto de gasolina ou coisa parecida. Faixa preta, segundo grau! — E, sorrindo, fez uma reverência bem japonesa.

Sempre sorrindo, Kate também se inclinou.

— Entrem antes que os mosquitos e este calor infernal os devorem. Parece que Alex andou falando de nós pelas costas. Ele me paga.

— Esta é Kate — eu disse a Sampson ao entrarmos. — Que acha?

Ele se voltou e me encarou.

— Não sei por quê, ela parece gostar de você. Coisa estranha. E também gosta de mim, o que faz muito mais sentido.

Sentamo-nos na cozinha. A conversa foi leve e agradável como costumava ser quando ela estava presente. Sampson e eu bebemos cerveja, ela tomou várias xícaras de chá gelado. Os dois se deram muito bem. Eram adoráveis. Espíritos independentes, muito inteligentes, generosos.

Informei-a sobre o ocorrido naquele dia, sobre a decepção de nosso encontro com Ruskin e Sikes, e ela nos falou de sua jornada no hospital, chegou a fazer um relato detalhado dos casos que atendera.

— Parece que, além da faixa preta, você tem uma memória eidética disse Sampson com uma sobrancelha erguida. — Não admira que o doutor Alex esteja tão impressionado.

— Está mesmo? — Kate olhou para mim. — Você nunca me contou.

— Acredite ou não — expliquei a Sampson —, Kate não é egocêntrica. Uma doença rara neste fim de século. Deve ser porque não assiste muito à televisão. Lê muito.

— Não é bonito ficar analisando os amigos diante de outros amigos — protestou Kate, dando-me um tapa no braço.

Conversamos um pouco mais sobre o caso. Sobre o dr. Wick Sachs e suas charadas. Sobre os haréns. As máscaras. A "casa desaparecida". Minha recente teoria relacionada com o dr. Louis Freed.

— Eu estava lendo um pouco antes de vocês chegarem — contou-nos Kate. — Um ensaio sobre as necessidades sexuais masculinas, sua beleza e seu poder naturais. Fala do homem moderno tentando se distanciar da mãe, da sufocante mãe cosmológica. Sugere que muitos homens buscam a liberdade para afirmar sua identidade masculina, mas a sociedade contemporânea os frustra continuamente. Comentários, senhores?

— Homem é homem — disse Sampson, mostrando os dentes enormes. — Ainda somos tigres e leões no coração. Nunca vi essa tal mãe cosmológica, portanto não vou comentar seu ensaio.

— Que acha, Alex? — indagou ela. — Você é leão ou tigre?

— Os homens são complicados — respondi. — Somos incrivelmente reprimidos. Monocromáticos por causa disso. Inseguros, defensivos. Rudolph e Sachs estão afirmando sua masculinidade ao extremo. Recusam-se a ser reprimidos pelos costumes e pelas leis.

— Ra-ta-tá! — Sampson imitou os tambores de um circo.

— Eles se acham mais inteligentes que todos os demais — acrescentou Kate. — Pelo menos Casanova acha. Ri de nós. É um bom filho da puta.

— E é por isso que estou aqui—disse Sampson—, para pegá-lo, trancafiá-lo numa jaula e levar essa jaula para muito longe. Aliás, ele já estará mortinho da silva quando eu o puser lá dentro. O tempo foi passando, voou. Estava ficando tarde, e tínhamos de ir embora. Tentei convencer Kate a passar a noite no hotel. Já havíamos discutido reiteradamente o assunto, e sua resposta era sempre a mesma.

— Agradeço a preocupação, mas obrigada — respondeu ao nos acompanhar até o alpendre. — Não posso permitir que ele me obrigue a sair de minha própria casa. Isto não vai acontecer. Se voltar, eu o mato.

— Alex tem razão — ponderou Sampson com a voz delicada que reserva aos amigos. Era uma dupla recomendação de dois tiras experimentados.

Kate sacudiu a cabeça. Compreendi que era inútil continuar insistindo.

— Não, de jeito nenhum. vou estar bem, prometo.

Não lhe perguntei se podia ficar, mas desejei. Não sabia se ela queria que eu ficasse. E era meio complicado na presença de Sampson. Em princípio, podia lhe entregar o carro para que voltasse, mas já passava de uma e meia. Todos precisávamos dormir um pouco. Finalmente, meu amigo e eu nos fomos.

— Muito bonita. Uma mulher muito interessante. Muito inteligente. Não é o seu tipo — disse Sampson quando estávamos nos afastando da casa. — É o meu tipo.

Ao chegarmos ao fim do quarteirão, eu me voltei e olhei para a casa. Estava mais fresco agora, uns vinte graus ou menos. Kate já havia apagado a luz do alpendre e entrado. Era teimosa, mas inteligente. Graças a isto concluíra a faculdade. Graças a isto enfrentara a morte de seus entes queridos. Ficaria bem. Sempre ficava.

Chegando ao hotel, telefonei para Kyle Craig.

— Como vai o nosso Sachs? — perguntei.

— Muito bem. Está encolhido dentro de casa. Não precisa se preocupar.

 

Alex e Sampson partiram, Kate examinou e reisaminou cuidadosamente todas as portas e janelas do apartamento. Estavam bem trancadas. Tinha gostado de Sampson. Era gigantesco e assustador, educado e assustador, doce e assustador. Alex havia trazido seu melhor amigo, e a atitude a agradara.

Fez a ronda, tomou as medidas de segurança em seu lar doce lar, refletiu sobre a nova vida, longe de Chapei Hill, longe das coisas terríveis e más que lá ocorreram. Com os diabos, estou num filme de Hitchcock, pensou, se Alfred Hitchcock tivesse vivido para ver e reagir à loucura e ao horror dos anos 90.

Exausta, foi para a cama. Ai! Migalhas de pão ou biscoito lhe picaram a perna. Não tinha arrumado a cama naquela manhã.

Não estava produzindo muito ultimamente, e aquilo também a irritava. Tinha um plano de trabalho ambicioso, com horários rigorosos, para terminar o ano de residência naquela primavera. Agora, não sabia sequer se o conseguiria no fim do verão.

Cobriu-se até o queixo — no começo de junho! Estava ficando tão medrosa! Sabia que a ansiedade não a deixaria enquanto Casanova estivesse solto. Pensou em matá-lo. Sua primeira e única fantasia violenta. Imaginou-se indo à casa de Wick Sachs. Olho por olho. Lembrou-se de uma passagem do Êxodo. Memória eidética, sem dúvida.

Bem que Alex podia ter ficado, mas ela não quisera constrangê-lo diante de Sampson. Queria conversar com ele do modo como sempre faziam, desejava que estivesse ali naquele momento. Queria passar a noite em seus braços. Talvez um pouco mais do que isso. Talvez já estivesse pronta para mais. Uma noite de vez em quando.

Já não tinha certeza de sua fé, já não sabia sequer se tinha fé. Andava rezando ultimamente, portanto, talvez tivesse. Ainda que decoradas, não deixavam de ser orações. Pai nosso que estais... Ave Maria cheia de... Perguntou-se se muita gente fazia a mesma coisa.

— Gosto da idéia de Vossa existência, meu Deus — sussurrou enfim. — Por favor, goste da idéia de um pouco de paz para mim.

Não conseguia deixar de pensar obsessivamente em Casanova, no dr. Wick Sachs, na casa de horrores misteriosamente desaparecida, nas pobres mulheres aprisionadas. Mas estava tão habituada aos contínuos e aterrorizadores pesadelos que mesmo assim acabou pegando no sono.

Não o ouviu entrar.

 

   Pica-taquie. Pica-taque.

Tique. Taque. Toque... na minha pica.

Kate ouviu um barulho. Uma tábua do assoalho estalou no quarto, à direita.

Um ruído insignificante... mas inconfundível.

Não era imaginação, não era um sonho. Estava sentindo uma presença no quarto.

Tomara que não seja mais que uma idéia desvairada; tomara que se trate apenas de um pesadelo; que todo o mês passado não tenha sido senão um pesadelo.

Oh, meu Deus, Jesus, não!, pensou.

Ele estava no quarto. Tinha voltado! Kate não conseguia acreditar no que estava acontecendo.

Reteve a respiração até que lhe doesse o peito. Jamais acreditara de fato que ele voltaria.

Agora se dava conta de que tinha sido um erro terrível. O pior de sua vida, mas não haveria de ser o último, esperava.

Quem era aquele extraordinário demente? Odiava-a de tal modo que se dispunha a arriscar tudo? Ou será que o maníaco, o patético bastardo, pensava que a amava?

Com o corpo tenso, sentou-se na beirada da cama e aguçou os ouvidos. Estava pronta para saltar sobre ele. E ouviu novamente... um leve estalido. Vinha da direita.

Finalmente, conseguiu ver a escura silhueta de seu corpo. Engoliu em seco, quase engasgou.

Ali estava o maldito filho da puta.

Uma energia poderosa, carregada de ódio, surgiu entre eles feito uma corrente elétrica. Seus olhares se encontraram. Mesmo na escuridão os olhos daquele homem pareciam arder, atravessá-la. Ela se lembrava bem daqueles olhos.

Tentou rolar e, assim, esquivar-se do primeiro golpe.

A pancada veio rápida e forte. Ele não perdera a agilidade. Uma dor intensa sacudiu o ombro e o lado esquerdos de Kate.

A experiência do caratê a movia. Pura obstinação. Uma vontade de viver que se tornara a sua marca registrada. Tinha saltado da cama. Estava de pé. Pronta para enfrentá-lo.

— Foi um erro — sussurrou. — Um erro seu desta vez. Tornou a ver-lhe o contorno do corpo contra o luar que se insinuava pela janela. O medo e a repulsa a dominaram.

Desfechou um violento pontapé. Ao atingi-lo no rosto, ouviu o trincar de um osso. Um barulho horrível e, contudo, delicioso. Seguido de um estridente grito de dor. Ela o havia machucado!

Pegue-o de novo, Kate. Tomou posição, preparou-se, moveu-se e, visando a região do estômago, chutou com força o corpo escuro e oscilante. Ele deixou escapar um novo grunhido de dor.

— Que tal? — gritou ela. — Gostou?

Tinha-o nas mãos e jurou não deixá-lo escapar daquela vez. Capturaria Casanova sozinha. Mas primeiro queria machucá-lo.

Bateu novamente. Um golpe curto, seco, compacto, rápido feito um relâmpago. Mais gratificante que qualquer coisa que pudesse imaginar. Ele vacilou e gemeu.

Sua cabeça foi violentamente projetada para trás. O cabelo se abriu em leque no ar. Ela precisava derrubá-lo. Deixá-lo inconsciente talvez. Então, acenderia a luz. E continuaria chutando-o no chão.

— Foi só um tapinha de amor — disse. — Só o começo. Viu-o cambalear à sua frente. Estava caindo.

Ai! Alguma coisa, alguém, a atingiu em cheio nas costas. O golpe lhe bloqueou a respiração.

Não podia acreditar que tivesse sido pega de surpresa. A dor lhe maltratou o corpo como se tivesse sido baleada.

Ai!

Aconteceu novamente.

Havia dois homens no quarto.

 

Apesar do choque e da dor, permaneceu de pé. Finalmente viu o segundo homem. Girando rapidamente o corpo, ele a golpeou na testa. Kate ouviu um ruído metálico e sentiu que estava caindo, mergulhando. Sentiu-se como que se vaporizando. E se chocou com as tábuas do assoalho.

Duas vozes flutuaram no quarto. Dois monstros lá dentro. Pesadelos estereofônicos.

— Você não devia estar aqui.

Kate reconheceu a voz de Casanova. Estava falando com o segundo intruso. O demônio número dois. O dr. Will Rudolph?

— Devia sim, sou o único que devia estar aqui. Não estou envolvido com esta putinha idiota, estou? Pense um pouco. Use a cabeça.

— Tudo bem, tudo bem, Will. Que pretende fazer com ela? Este é o seu show. Não é o que está querendo?

— Pessoalmente, gostaria de comê-la, pedaço a pedaço — disse o dr. Will Rudolph. — Acha demais?

Riram como dois amigos falando de futebol num botequim.

Kate sentiu que estava se distanciando da cena. Estava partindo. Para onde?

Will Rudolph disse que havia lhe trazido flores. Os dois voltaram a rir. Estavam caçando juntos novamente. Ninguém podia detê-los. Kate sentiu o cheiro de seus corpos, um forte almíscar masculino que parecia se transformar numa poderosíssima presença.

Ficou muito tempo consciente. Lutava com todas as forças. Era obstinada, decidida, orgulhosa como o diabo. A luz finalmente se apagou para ela, como no tubo de um antigo televisor. Uma imagem borrada, depois um pequenino ponto de luz, depois a escuridão. Foi tudo simples e prosaico.

Acenderam a luz do quarto ao terminar, de modo que os grandes admiradores de Kate McTiernan tivessem oportunidade de olhar uma última vez para ela.

Mais que assassinada a sangue-frio.

 

Meus braços e pernas tremiam incontrolavelmente enquanto eu tentava percorrer os oito quilômetros de Durham a Chapei Hill. Até meus dentes batiam.

Tive de parar no bulevar Chapei Hill-Durham, do contrário, provavelmente provocaria um acidente.

Fiquei sentado ao volante, os faróis a brilhar na poeira de insetos enlouquecidos pela luz.

Respirei fundo várias vezes, tentando recuperar a sanidade. Era pouco mais de cinco horas da manhã, os pássaros já estavam cantando. Tapei os ouvidos para não os escutar. Sampson ainda estava dormindo no hotel. Eu havia me esquecido dele.

Kate nunca tivera medo de Casanova. Confiava em sua capacidade de cuidar de si, mesmo depois do seqüestro.

Eu sabia que era irracional e inútil culpar-me, mas era o que estava fazendo. Em algum momento, nos últimos cinco anos, eu deixara de proceder como um profissional da polícia. De certo modo era bom, mas também era ruim. Havia muito sofrimento em meu trabalho, bastava senti-lo. Era a maneira mais certa e rápida de a gente se desgastar definitivamente.

Enfim, voltei a tomar a estrada. Quinze minutos depois, encontrava-me diante da conhecida casa de madeira, em Chapei Hill.

O "Beco das Velhas", assim Kate batizara aquela rua. Eu lhe via o rosto, o sorriso doce e fácil, seu entusiasmo e sua convicção pelas coisas que a afetavam. Ainda lhe ouvia a voz.

Sampson e eu estivéramos naquela casa menos de três horas antes. Senti lágrimas nos olhos, uma vontade de gritar. Estava me descontrolando.

Lembrei-me de uma das últimas coisas que ela me dissera. Era como se a estivesse ouvindo. "Se ele voltar, eu o mato".

Radiopatrulhas, sinistras ambulâncias e caminhões da televisão já estavam espalhados na ruazinha. Ocupavam todo o espaço disponível. Aquelas cenas me deixavam doente. Parecia que a metade de Chapei Hill estava reunida do lado de fora do apartamento de Kate.

À luz do amanhecer, todos os rostos pareciam pálidos e carrancudos. Todos se mostravam chocados e revoltados. Aquela fora uma serena cidade universitária, de idéias liberais, um refúgio seguro ante o vertiginoso caos e a loucura do resto do mundo. Era por isso que tanta gente escolhia morar lá, mas já não era assim. Casanova a transformara definitivamente.

Procurei os óculos escuros havia meses esquecidos no porta-luvas. Tinham sido de Sampson. Dera-os a Damon, para que ficasse parecido com ele sempre que tivesse encrencas comigo. Era eu quem estava precisando parecer durão agora.

Fui com as pernas bambas em direção à casa de Kate. Talvez estivesse parecendo frio e seguro, mas sentia o coração pesado e incrivelmente frágil.

Os fotógrafos tiraram várias fotos de mim. Os flashes das câmeras soavam como tiros ocos e abafados. Os jornalistas se aproximaram, eu os enxotei com um gesto.

— Saiam da frente — rosnei. Falava a sério. — Não é hora. Agora não!

Mas notei que mesmo os repórteres e os câmeras se mostravam pasmos, confusos e chocados.

Tanto o FBI quanto a polícia de Durham estavam no local daquele covardíssimo ataque. Avistei inúmeros policiais locais. Nick Ruskin e Davey Sikes tinham vindo de Durham. Este último me endereçou o seu olhar maligno — como que a me perguntar que diabos eu pensava que estava fazendo ali.

Kyle Craig já havia chegado. Ele mesmo me telefonara com a terrível notícia.

Aproximando-se, colocou o braço em meu ombro. Falou-me em voz baixa:

— Ela está muito mal, Alex, mas resistindo. Deve querer muito viver. Vão trazê-la daqui a pouco. Fique aqui, espere-me. Não entre. Confie em mim agora, sim?

Ouvi as palavras de Kyle com medo de sofrer um colapso diante das câmeras, dos muitos desconhecidos e dos poucos conhecidos. Minha cabeça, meu coração — tudo girava num tremendo caos. Por fim, entrei na casa e olhei o que me era possível suportar.

Mas alguma coisa estava errada... alguma coisa me parecia estranha. Alguma coisa... O que é que estava errado ali?

A equipe de emergência do Centro Médico Duke pôs Kate numa maça — dessas que se usam em casos de fratura na coluna ou graves ferimentos na cabeça. Acho que nunca tinha visto alguém ser transportado com tanta delicadeza, por piores que fossem as circunstâncias. Os médicos estavam pálidos. A multidão, do lado de fora, começou a murmurar em voz baixa quando a equipe do pronto-socorro apareceu.

— Vão levá-la ao Centro Médico Duke. O pessoal da universidade vai reclamar, mas é o melhor hospital do estado — disse-me Kyle. Estava tentando me dar apoio à sua maneira calma e mecânica de homem. Na verdade, era muito bom nisso.

Alguma coisa estava errada... alguma coisa estava completamente fora do lugar... Pense. Concentre-se mais. Pode ser importante... mas não conseguia pensar com clareza. Ainda não.

— E Wick Sachs? — perguntei.

— Voltou para casa antes das dez. Ainda está lá... Não sabemos com certeza se não saiu. Pode ter conseguido passar por nós sem ser visto, imagino. Talvez tenha um meio de sair. Mas acho difícil.

Deixando Kyle, acerquei-me de um dos médicos da Universidade Duke, perto da ambulância. Os flashes das câmeras explodiam ao nosso redor. Centenas de memoráveis fotografias estavam sendo tiradas.

— Posso ir com ela?

O médico sacudiu gentilmente a cabeça.

— Não, senhor. — Parecia falar em câmera lenta. — Só os parentes podem viajar na ambulância. Lamento, doutor Cross.

— Pois sou parente dela hoje — respondi. E, passando por ele, subi pela porta traseira da ambulância. O médico não me tentou deter. De qualquer modo, teria sido inútil.

Sentia-me atordoado. Kate jazia em meio à parafernália médica no espaço confinado da ambulância. Receava que tivesse morrido quando eu estava entrando no veículo ou quando a estavam trazendo para fora.

Sentei-me a seu lado e lhe segurei a ponta dos dedos.

— Sou Alex. Estou aqui com você — sussurrei. — Seja forte. Você é sempre tão forte. Seja forte agora.

O mesmo médico que dissera que eu não podia viajar na ambulância entrou e sentou-se a meu lado. Sentira-se obrigado a me informar das normas, mas não estava disposto a fazê-las cumprir. Em seu crachá, lia-se: Dr. B. Stringer, Equipe de Emergência, Universidade Duke. Eu lhe devia um grande favor.

— Pode me dizer que chances ela tem? — perguntei quando a ambulância começou a se afastar lentamente daquela cena de pesadelo em Chapei Hill.

— Difícil de responder. É um milagre que ainda esteja viva -— disse ele em voz baixa e respeitosa. — Teve múltiplas fraturas e contusões, algumas expostas. Os dois malares estão quebrados. Talvez haja sofrido um deslocamento no pescoço. Ela deve ter se fingido de morta. De algum modo, teve a presença de espírito de enganá-los.

Com o rosto muito inchado e ferido, Kate era quase irreconhecível. Eu sabia que todo seu corpo estava assim. Segurei-lhe delicadamente a mão quando a ambulância aumentou a velocidade. Ela teve a presença de espírito de enganá-los? Era bem de Kate. Mas eu tinha cá minhas dúvidas.

Uma idéia chocante me ocupava. Ocorrera-me do lado de fora da casa. Eu achava que sabia o que havia de errado no quarto dela.

Will Rudolph estivera lá, não? O Cavalheiro Caller a atacara. Só podia ter sido ele. Era seu estilo. Violência gráfica, extrema. Fúria.

Havia poucos indícios de Casanova. Nenhum toque artístico. Tratava-se de uma violência extraordinária... Eles eram gêmeos! Dois monstros amalgamados em um só. Talvez Rudolph tivesse raiva de Kate porque Casanova a amava. Talvez, do ponto de vista de sua percepção distorcida, ela se tivesse interposto entre eles. Talvez tivessem deixado Kate viva de propósito — para que passasse o resto da vida como um vegetal.

Estavam atuando juntos agora. Eram dois a perseguir, dois a capturar.

 

O FBI e a polícia de Durham decidiram interrogar o dr. Wick Sachs naquela manhã. Era uma decisão importante, central, para o caso.

Um investigador especial veio da Virgínia para fazer o delicado interrogatório. Era um dos melhores do FBI, um sujeito chamado James Heekin. Passou quase toda a manhã com o suspeito.

Fiquei com Sampson, Kyle Craig e os detetives Nick Ruskin e Davey Sikes. Acompanhamos o interrogatório através de uma janela espelhada na Chefatura da Polícia de Durham. Eu me sentia como um homem faminto, com o nariz comprimido na vitrine de um restaurante caro. Mas não estavam servindo comida.

O interrogador do FBI era bom, muito paciente e vigoroso como um promotor público de cinema. Mas Wick Sachs lhe fazia frente. Era articulado; extremamente frio sob o fogo cruzado verbal que o outro lhe impunha; chegava a parecer completamente à vontade.

— Esse filho da puta vai cair — disse finalmente Davey Sikes na silenciosa sala de observação. Era bom vê-lo, assim como a Ruskin, ao menos demonstrar algum interesse. De certo modo, eu os compreendia em seu papel de investigadores locais: estiveram marginalizados durante a maior parte da frustrante investigação.

— Que sabe de Sachs? Conte-me se está escondendo alguma coisa — pedi a Ruskin quando estávamos nos servindo de café.

— Nós o trouxemos para cá porque nosso chefe é um filho da puta — respondeu o policial. — Ainda não temos nada contra ele.

Perguntei-me se podia acreditar nele ou em qualquer outra pessoa vinculada ao caso.

Depois de quase duas horas de tenso interrogatório, o agente Heekin conseguiu extrair pouca coisa além do fato de que Sachs era colecionador de publicações eróticas e fora promíscuo com estudantes e professoras coniventes nos últimos onze anos na universidade.

Por mais que eu também quisesse agarrar Sachs, não conseguia compreender por que fora detido agora. Por quê?

— Descobrimos de onde vem seu dinheiro — explicou-me Kyle naquela manhã. — Ele é dono de um serviço de "acompanhantes" em Raleigh e Durham, Chama-se Beijoca. Interessante o nome. Anunciam modelos de lingerie nas Páginas Amarelas. No mínimo, o doutor Sachs terá problemas com o imposto de renda. Washington decidiu que devemos pressioná-lo agora. Temem que fuja em breve.

— Não concordo com o pessoal de Washington — eu disse a Kyle. Sabia que alguns agentes costumavam chamar o quartel-general do FBI de Disneylândia do Leste. Agora entendia por quê. Podiam estar expondo a investigação a um grande risco por controle remoto.

— Quem concorda com Washington? — replicou Kyle, sacudindo os largos e ossudos ombros. Era seu modo de admitir que já não tinha o controle da situação. — E Kate McTiernan, como está?

Eu já havia telefonado três vezes para o Centro Médico Duke naquela manhã. Eles tinham o número do telefone da Polícia de Durham para me informar de qualquer alteração no estado dela.

— Seu estado é considerado grave, mas ainda está resistindo. Tive oportunidade de falar com Wick Sachs pouco antes

das onze horas. Uma concessão de Kyle.

Tentei afastar Kate do pensamento antes de me colocar na mesma sala que ele. Mesmo assim, o ódio continuava rugindo dentro de mim. Não sabia se conseguiria me controlar. Não tinha sequer certeza de que o desejava.

— Deixe que eu vá, Alex. Eu entro lá. — Sampson me segurou o braço à porta. Desvencilhando-me dele, fui ter com o dr. Sachs.

— A coisa é comigo.

 

Olá, doutor Sachs.

A iluminação na pequena e impessoal sala de interrogatório era mais forte e desagradável do que parecia através da janela espelhada. Sachs estava com os olhos vermelhos e se mostrava tão tenso quanto eu. A pele de seu rosto dava a impressão de estar esticada. Mas ele estava tão confiante e à vontade quanto com James Heekín.

Eu estava olhando nos olhos de Casanova?, perguntei-me. Seria ele o monstro?

— Meu nome é Alex Cross — apresentei-me ao me sentar numa velha cadeira de metal. — E Naomi Cross é minha sobrinha.

Sachs falou com os dentes cerrados. Sua voz era ligeiramente arrastada. Segundo Kate, Casanova não tinha sotaque.

— Sei muito bem quem é o senhor. Eu leio os jornais, doutor Cross. Não conheço sua sobrinha. Li que foi seqüestrada.

Fiz que sim.

— Se lê os jornais, deve saber o que anda fazendo o delinqüente que se intitula Casanova.

Sachs sorriu com sarcasmo. Ao menos foi a impressão que me deu. Seus olhos azuis estavam cheios de satisfação. Era fácil compreender por que era tão malquisto na universidade. Seu cabelo louro, penteado para trás, não apresentava um único fio fora do lugar. Os óculos de aro de chifre lhe davam um aspecto arrogantemente condescendente.

— Não há registro de qualquer tipo de violência em meu passado. Eu jamais teria cometido esses crimes horríveis. Nunca matei uma mosca. Minha aversão à violência está muito bem documentada.

Aposto que está, pensei. Todas as suas fachadas estão no lugar, não é mesmo? Sua devotada esposa, a enfermeira. Seus dois filhos. Sua bem documentada "aversão à violência".

Esfreguei o rosto com ambas as mãos. Era com enorme esforço que não me punha a espancá-lo. Ele continuava insolente e distante.

Debrucei-me na mesa e sussurrei:

— Dei uma olhada em sua coleção de livros eróticos. Já estive lá, em seu porão, doutor Sachs. E uma coleção cheia de perversas violências sexuais. A degradação física de homens, mulheres e crianças. Isso pode não constituir um "registro de violência", mas me fornece uma pista sutil sobre seu verdadeiro caráter.

Com o gesto com que se espanta uma mosca, Sachs repeliu o que eu lhe dizia.

— Sou um conhecido filósofo e sociólogo. Sim, eu estudo o erotismo: do mesmo modo como o senhor estuda as mentes criminosas. Não sofro de dementia libertina, doutor Cross. Minha coleção de obras eróticas é a chave de meu entendimento das fantasias da cultura ocidental, a escalada da guerra entre homens e mulheres. — Aumentou o tom de voz. — Ademais, não tenho de lhe dar explicações sobre meus assuntos privados. Não transgredi lei alguma. Vim até aqui voluntariamente. O senhor, ao contrário, invadiu minha casa sem mandado judicial.

Tentei desequilibrá-lo com outro tipo de pergunta.

— Por que acha que tem tanto sucesso com as jovens? Já sabemos de suas conquistas entre as estudantes. Dezoito, dezenove, vinte anos. Moças bonitas; alunas suas às vezes. Decerto, há um registro disso.

Sua raiva emergiu momentaneamente. Mas ele se controlou e fez algo estranho e muito revelador. Mostrou a necessidade que tinha de exibir poder, de ser a estrela do show, mesmo para mim. Por mais insignificante que fosse para ele.

— Por que tenho sucesso com as mulheres, doutor Cross? — Sorriu e brincou com a língua entre os dentes. A mensagem era sutil porém clara. Estava me contando que sabia controlar sexualmente a maioria das mulheres.

Continuou sorrindo. O sorriso obsceno de um homem obsceno.

— Muitas mulheres querem ser libertadas de suas inibições sexuais, particularmente as jovens modernas das universidades. Eu as liberto. Liberto tantas mulheres quanto possível.

Foi a gota d'água. Eu saltei imediatamente por cima da mesa. A cadeira de Sachs tombou para trás. Eu caí pesadamente sobre dele, arrancando-lhe um gemido de dor.

Comprimi o corpo violentamente no dele. Meus braços e pernas tremiam. Contive-me para não lhe dar um soco. Ele não tinha como me deter, percebi. Não era capaz de se defender, Não era forte nem atlético.

Nick Ruskin e Davey Sikes não tardaram a entrar precipitadamente na sala,Kyle e Sampson vieram logo atrás deles. Os quatro tentaram me separar de Sachs.

Eu mesmo o soltei. Não o machuquei, nem sequer tentei fazê-lo. Cochichei a Sampson:

— Ele não é forte. Casanova sim. Esse cara não é o monstro. Não é Casanova.

 

Aquela noite, Sampson e eu jantamos juntos num ótimo restaurante de Durham. Ironicamente, chamava-se Nana's.

Nenhum dos dois estava com apetite. Os bifes enormes, com alho e montanhas de purê de batata acabaram indo para o lixo. Por mais que o tempo passasse não avançávamos em nossa luta contra Casanova; pelo contrário, tínhamos recuado.

Falamos de Kate. O pessoal do hospital me tinha dito que seu estado continuava inalterado. Se sobrevivesse, os médicos acreditavam que tinha pouquíssimas chances de se recuperar completamente ou mesmo de exercer a profissão.

— Vocês eram mais que... bons amigos, não? — perguntou finalmente Sampson. Estava sendo gentil como costuma ser quando quer.

Sacudi a cabeça.

— Não, éramos apenas amigos, John. Eu podia conversar com ela sobre qualquer coisa. Nunca me senti tão bem com uma mulher tão depressa, a não ser, talvez, com Maria.

Sampson fez muitas vezes que sim e ouviu com paciência meu desabafo. Conhecia-me bem.

Meu bip tocou quando ainda estávamos às voltas com a generosa porção de comida à mesa. Liguei para Kyle Craig de um telefone no andar inferior do restaurante. Ele estava no carro. A caminho de Hope Valley.

— Vamos prender Wick Sachs pelos crimes de Casanova — disse.

Quase deixei cair o fone.

— Vão fazer o quê? — gritei. Não acreditava no que acabava de ouvir. — Quando pretendem fazer isso? Quando tomaram essa decisão? Quem a tomou?

Kyle se manteve frio como de costume. O Homem de Gelo.

— Vamos para lá dentro de alguns minutos. Desta vez, é por iniciativa do chefe de polícia de Durham. Acharam uma coisa na casa de Sachs. Prova material. Será uma prisão conjunta, o bureau em colaboração com a polícia local. Queria que soubesse, Alex.

— Mas ele não é Casanova. Não façam isso. Não prendam Wick Sachs.

Estava falando alto. O telefone público ficava num corredor estreito, as pessoas entravam e saíam das salas contíguas. Eu estava chamando a atenção, olhares ao mesmo tempo irritados e temerosos.

— Já está decidido — disse Kyle. — Eu também lamento. E desligou. Fim de discussão.

Sampson e eu fomos apressados para a casa de Sachs, nos subúrbio de Durham. O Homem Montanha ficou em silêncio a princípio, depois fez a grande pergunta:

— Será possível que tenham provas suficientes sem que você saiba?

Era uma questão incômoda para mim. Eqüivalia a dizer: até que ponto você está "por fora"?

— Não creio que Kyle tenha o bastante para uma prisão agora. Ele teria me contado. Quanto à polícia de Durham., não tenho idéia do que pretende. Ruskin e Sikes estavam de fora, trabalhando por conta própria. Nós mesmos já estivemos nessa situação.

Ao chegar a Hope Valley, descobrimos que não éramos os únicos convidados a presenciar a prisão. A tranqüila rua suburbana estava lotada. Vários caminhões da televisão já se encontravam lá. Em toda parte havia radiopatrulhas e automóveis do FBI.

— Que merda. Parece uma festa — disse Sampson quando descemos do carro. — A pior que já vi. Uma festa de merda.

— Foi assim desde o começo — concordei. — Um pesadelo plurijurisdicional.

Eu estava tremendo feito um mendigo de Washington numa noite de inverno. Vinha recebendo um golpe após o outro. Nada fazia sentido para mim. Até que ponto eu estava "por fora"? Kyle Craig me viu chegar. Acercando-se, segurou-me firmemente o braço. Tive a impressão de que estava disposto a me impedir de passar se fosse necessário.

— Sei quanto você está contrariado. Também estou — foram suas primeiras palavras. Era uma espécie de pedido de desculpas, porém, ao mesmo tempo, uma expressão de muito ódio. — Não foi coisa nossa, Alex. O pessoal de Durham nos passou a perna desta vez. O chefe de polícia tomou a decisão sozinho. Muita pressão política. A coisa está fedendo tanto que dá vontade de tapar o nariz.

— Que diabos encontraram na casa? — perguntei. — Que prova material é essa? Os livros pornográficos por acaso?

Kyle sacudiu a cabeça.

— Calcinhas. Sachs tinha um monte de calcinhas escondidas. Uma camiseta da Universidade da Carolina do Norte que pertencia a Kate McTiernan. Parece que Casanova também guardava suvenires. Exatamente como o Cavalheiro de Los Angeles.

— Ele não faria isso. É diferente do Cavalheiro. Está com as moças e toda sua roupa no esconderijo. E cauteloso, obsessivamente cauteloso. Kyle, isto é uma loucura, uma merda. É uma tremenda confusão.

— Você não pode ter tanta certeza assim — atalhou o agente. — Por melhores que sejam, suas teorias não vão impedir que isto aconteça.

— Que tal um pouco de lógica e bom senso?

— Acho que também não vai adiantar.

Dirigimo-nos ao alpendre dos fundos da casa de Sachs. As câmeras da televisão começaram a funcionar à cata de tudo quanto se movesse. Era um circo eletrônico de três picadeiros em pleno funcionamento; um lamentável desastre estava em curso.

— Revistaram a casa esta tarde — contou-me Kyle. — Trouxeram cachorros. Cães especiais da Geórgia.

— Por que fizeram isso? Para que revistar a casa de Sachs de repente? Puta merda!

— Receberam uma informação e acharam que tinham razão para acreditar nela. Foi o que ouvi dizer. Também estou "por fora", Alex. Estou gostando disso menos que você.

Eu mal enxergava meio metro à minha frente. Minha vista estava nublada. Era o estresse com certeza. E a raiva também.

Queria gritar, berrar com alguém. Queria distribuir murros.

— Não lhe contaram nada sobre esse informante anônimo? Pelo amor de Deus, Kyle! Não é possível! Uma informação anônima. Ah, puta que pariu!

Wick Sachs estava sendo mantido preso em sua própria casa. Ao que tudo indicava, a polícia de Durham queria aquele momento histórico registrado por todas as estações locais e nacionais de tevê. Era o que queriam. Figurar na galeria da fama da Carolina do Norte.

Tinham prendido o homem errado e o queriam exibir ao mundo inteiro.

 

Identifiquei o chefe de polícia de Durham imediatamente. Tinha uns quarenta anos e parecia um jogador de futebol americano. Robby Hatfield tinha cerca de um metro e noventa, queixo quadrado e forte constituição. Chegou a me ocorrer a terrível e idéia paranóica de que talvez fosse ele Casanova. Tinha a mesma aparência em todo caso. E até o mesmo perfil psicológico.

Os detetwes Sikes e Ruskin estavam custodiando o prisioneiro, o dr. Wick Sachs. Reconheci alguns outros investigadores de Durham. Todos se mostravam nervosíssimos mas radiantes e aliviados. Sachs parecia ter tomado uma ducha vestido. Estava com ar culpado.

Você é Casanova? Afinal, é você a Fera? Se é, que diabos está pretendendo agora?, tive vontade de perguntar. Queria lhe fazer mil perguntas, mas não podia.

Nick Ruskin e Davey Sachs trocavam piadinhas com seus confrades no hall apinhado. Os dois me lembravam alguns profissionais que conheci em Washington. Amavam os holofotes; viviam para isso. Quase todos os policiais de Durham pareciam trabalhar para isso também.

O cabelo de Ruskin estava brilhante de gel e caprichosamente penteado para trás. Tudo pronto para enfrentar as câmeras. Palhaços, vocês deviam estar repassando a lista de médicos suspeitos, tive vontade de dizer-lhes. A coisa não acabou! Só está começando. O verdadeiro Casanova está bebendo à sua saúde neste momento. Talvez os esteja observando em meio à multidão.

Acerquei-me de Wick Sachs. Precisava ver tudo, ali, exatamente como era. Sentir. Observar e escutar. Compreender se possível.

A esposa de Sachs, assim como seu bonitos filhos, estava retida na sala de jantar, longe do hall. Estavam magoados, muito tristes e confusos. Também sabiam que alguma coisa estava errada. A família Sachs não parecia culpada.

O chefe Robby Hatfield e Davey Sikes finalmente me viram. Este último me lembrava o cão de caça predileto do patrão. Agora, estava "apontando" para mim.

— Doutor Cross, muito obrigado pela ajuda que prestou. — O chefe Hatfield mostrava-se magnânimo em seu momento de triunfo. Tinha me esquecido de que fora eu quem trouxera a fotografia de Sachs encontrada no apartamento do Cavalheiro, em Los Angeles. Grande trabalho de investigação... que pista fantástica.

Estava tudo errado. Parecia errado, cheirava a errado. Tratava-se uma "armação" de primeiríssima categoria e estava funcionando perfeitamente. Casanova ia fugir; ia dar o fora naquele mesmo instante. Jamais seria capturado.

O chefe de polícia finalmente estendeu a mão. Eu a tomei, apertei-a com força e fiquei segurando-a.

Acho que ele chegou a recear que eu me postasse a seu lado diante das câmeras. Robby Hatfield, que vinha bancando o burocrata até então, estava prestes a desfilar com Wick Sachs lá fora. Seria um grandioso momento ao luar e à luz dos refletores. Só faltava o criminoso.

— Sei que ajudei a encontrar Wick Sachs, mas ele não é o assassino. O senhor está prendendo o homem errado. vou lhe contar por quê. Dê-me dez minutos.

Ele me sorriu — um sorriso estupidamente condescendente. Quase petrificado. A seguir, foi para fora.

Colocou-se diante das fortes luzes da televisão. Estava representando magnificamente seu papel. Ia tão cheio de si que quase se esqueceu de Sachs.

Quem telefonou falando das calcinhas foi o próprio Casanova, eu ia pensando. Pouco a pouco, vislumbrava o que tinha acontecido. Foi Casanova. é ele quem está por trás de tudo.

O dr. Wick Sachs passou por mim quando o levaram para fora. A fina camisa branca de algodão e a calça preta estavam ensopadas de suor. Imaginei que estivesse nadando dentro dos sapatos de cromo alemão. Levava as mãos algemadas às costas. Sua arrogância havia desaparecido completamente.

— Eu não fiz nada — disse-me com voz trêmula e fraca. Seus olhos eram suplicantes. Nem ele conseguia acreditar no que estava acontecendo. Depois, disse a mais patética das coisas. — Não machuco as mulheres. Eu as amo.

Uma idéia maluca, absolutamente maluca, me ocorreu no alpendre de Sachs. E eu me senti como se tivesse parado em pleno salto mortal. Como se o tempo tivesse parado. Ele é Casanova!, compreendi de repente.

Wick Sachs era o modelo original usado por Casanova. Esse fora o plano dos monstros desde o começo; tinham quem "pagasse o pato" por seus crimes perfeitos e suas sádicas aventuras.

O dr. Wick Sachs era, de fato, Casanova, mas não o monstro homicida. Casanova era também uma fachada. Ele nada sabia do verdadeiro "colecionador". Não passava de uma vítima.

 

O cavalheiro Caller — anunciou Will Rudolph com uma reverência polida e teatral. Estava com traje a rigor, black-tie, camisa engomada. Trazia o cabelo preso num apertado rabo-de-cavalo. Comprara rosas brancas para a importante ocasião.

— Já me conhecem, mesdames. Vocês estão tão lindas — disse Casanova a seu lado. Contrastava diametralmente com o parceiro. Jeans preto muito justo. Botas de caubói. Sem camisa. Seu ventre era rijo como tábua. Trazia uma máscara terrível, com estrias cinzentas pintadas a mão.

Os assassinos se apresentaram na sala de estar do esconderijo. As moças estavam alinhadas diante de uma longa mesa. Tinham sido informadas de que aquela seria uma comemoração especial.

— Finalmente, o maníaco Casanova foi capturado — contou-lhes Casanova. — Está em todos os jornais. Era um professor universitário maluco. Em quem a gente pode confiar hoje em dia?

As mulheres tinham sido instruídas para vestir roupa de festa, podiam escolher o que usar naquela noite especial. Vestidos de noite, sapatos de saltos altos, meias finas, colares de pérolas, talvez pingentes. Nada de bijuterias. Elas tinham de estar "elegantes".

— Somente sete belas damas aqui agora — reparou Rudolph com os olhos postos na fileira de mulheres. — Você anda muito modesto. O Casanova original era um amante voraz, bem menos seletivo.

— Reconheça que elas são extraordinárias. Minha coleção é uma obra-prima. A melhor do mundo.

— Concordo plenamente. Parecem pinturas. Vamos começar? Combinaram jogar seu antigo jogo predileto. "O sete da sorte."

Em outras ocasiões fora "o quatro da sorte", "o onze da sorte", "o dois da sorte". Uma invenção do Cavalheiro. Aquela era a sua noite. Talvez a última que passavam naquela casa.

Percorreram calmamente a fila de mulheres. Dirigiram-se a Melissa Stanfield em primeiro lugar. Trajava uma bata de seda. O longo cabelo louro estava preso com grampos a um lado. Lembrava a jovem Grace Kelly.

— Você estava se guardando para mim? — perguntou o Cavalheiro.

Ela sorriu com acanhamento.

— Eu estava guardando o coração para alguém.

Will Rudolph sorriu ante a resposta inteligente. Acaricioulhe a face com o dorso da mão. Estendeu a carícia até o pescoço e os seios firmes da moça. Ela se sujeitou sem demonstrar medo ou repulsa. Era uma das regras do jogo.

— Você joga muito bem — disse ele. — Grande jogadora, Melissa.

Naomi Cross era a seguinte na fila. Estava com um vestido de noite marfim. Muito chique. Teria sido a musa de qualquer recepção em Washington. Seu perfume fez com que Casanova se sentisse um pouco atordoado. Ele tivera vontade de declará-la "hors concours". Afinal, não gostava de seu tio, Alex Cross.

— Podemos deixar Naomi para depois — disse o Cavalheiro. Beijou-lhe delicadamente a mão. — Enchanté. — Parou diante da sexta mulher na fila. Voltando a cabeça, olhou para a última delas, logo, retornou à sexta. — Você é muito especial. Extraordinária.

— Esta é Christa — disse Casanova com um sorriso triunfante.

— Christa vai ser a minha namorada hoje — declarou o Cavalheiro com entusiasmo na voz. Tinha feito sua escolha. Casanova lhe dera um presente: podia fazer com ele o que quisesse.

Christa Akers tentou sorrir como mandava o regulamento. Mas não conseguiu. Foi o que mais agradou o Cavalheiro: o medo em seus olhos.

Estava pronto para jogar beije as garotas.

Pela última vez.

 

                   BEIJE AS GAROTAS

O dia seguinte ao da prisão do dr. Wick Sachs, pela manhã, Casanova estava percorrendo os corredores do Centro Médico Duke. Entrou calmamente no quarto particular de Kate McTiernan.

Podia ir aonde quisesse agora. Estava livre novamente.

— Olá, querida. Como vai a luta?

Ela se achava sozinha embora um policial de Durham estivesse postado no corredor. Casanova sentou-se na cadeira junto à cama. Observou os tristes escombros daquela que fora uma extraordinária beleza.

Já não estava zangado com ela. Mal havia com quem estar zangado. As luzes ainda estão acesas, pensou enquanto mirava aqueles olhos castanhos e vazios, mas já não há ninguém em casa, não mesmo, Kate?

Era bom estar naquele quarto de hospital — agitava-lhe os fluidos, estimulava-o, impulsionava-lhe o espírito a coisas grandiosas. No fundo, o simples fato de se achar à cabeceira de Kate McTiernan o fazia sentir-se em paz.

Era importante agora. Havia decisões a tomar. Como lidar com a questão do dr. Sachs? Valeria a pena jogar mais lenha na fogueira? Ou seria um exagero e, portanto, um perigo?

Outra decisão importante deveria ser tomada em breve. Ele e Rudolph precisavam ainda abandonar a região? Não queria fazê-lo — aquela era a sua terra natal — mas talvez fosse obrigado. E Will Rudolph? Era evidente que ficara emocionalmente afetado na Califórnia. Andava tomando Valium, Halcion e Xanax — disso Casanova sabia. Tarde ou cedo acabaria pondo tudo a perder. Por outro lado, a solidão era tão insuportável na ausência de Rudolph! Ele se sentia amputado.

Casanova ouviu um ruído na porta às suas costas. Voltando-se, sorriu para o homem que acabava de entrar.

— Eu já estava saindo, Alex. — Levantou-se. — Nenhuma alteração por enquanto. é uma pena.

Passando por Alex Cross, saiu e se foi.

Eu passo despercebido em qualquer lugar, pensou no corredor. Jamais o pegariam. Tinha a máscara perfeita.

Havia um antigo e bom piano no bar do Hotel Washington Duke. Fiquei tocando acordes de Big Joe Turner e Blind Lemon Jefferson entre as quatro e as cinco da madrugada. Eram blues, blahs, doldrums e grumps. O pessoal do hotel decerto ficou impressionado.

Eu estava tentando organizar tudo quanto sabia. Circulava ao redor de três ou quatro pontos importantes, os pilares de sustentação de minha investigação.

Crimes perfeitos, tanto aqui quanto na Califórnia. O assassino tem conhecimento de criminologia e dos procedimentos da polícia.

Geminação entre monstros, vínculos entre homens tais como jamais existiram antes.

O desaparecimento da casa na floresta. Uma casa sumiu! Como há de ter acontecido tal coisa?

O harém de mulheres especiais de Casanova — e mais, as "rejeitadas".

O dr. Wick Sachs era um professor universitário de conduta moral questionável. Mas seria também um assassino frio, desprovido de consciência? Seria o animal que aprisionara doze ou mais jovens em algum lugar nas proximidades de Durham e Chapei Hill? O Sade da atualidade?

Eu não acreditava. Estava quase convencido de que a polícia local prendera o homem errado e de que o verdadeiro Casanova andava solto, rindo-se de todos nós. Pior do que isso. Talvez estivesse espreitando outra mulher.

Mais tarde, fiz minha costumeira visita a Kate no Centro Médico Duke. Ela continuava em coma profundo, em estado ainda gravíssimo. A polícia de Durham já não mantinha guarda no corredor.

Sentei-me à sua cabeceira e procurei não pensar em como ela era antes. Segurando-lhe a mão, passei cerca de uma hora falando-lhe em voz baixa. Suas mãos estavam frouxas, quase sem vida. Eu tinha muitas saudades daquela moça. Mas Kate não reagia, e eu sentia um oco profundo no peito.

Por fim, tive de ir embora. Precisava fugir do trabalho.

Do hospital, fui com Sampson à casa de Louis Freed, em Chapei Hill. Eu lhe havia pedido que preparasse um mapa especial da região do rio Wykagil para nós.

O professor de história de setenta e sete anos fizera um bom trabalho. Eu tinha esperanças de que o mapa nos ajudasse, a Sampson e a mim, a encontrar a "casa desaparecida". A idéia me veio da leitura de vários relatos jornalísticos do caso do assassinato do "casal dourado". Havia mais de doze anos, o corpo de Roe Tierney fora encontrado perto de "uma fazenda abandonada, na qual escravos foragidos se escondiam em enormes galerias subterrâneas. Tais compartimentos eram como pequenas casas construídas no subsolo, algumas com até doze cômodos".

Galerias subterrâneas?

A casa desaparecida?

Havia uma naquele lugar. As casas não costumavam sumir.

 

Sampson e eu viajamos a Brigadon, na Carolina do Norte. Planejávamos entrar no bosque onde Kate fora encontrada, às margens do Wykagil. Ray Bradbury escrevera certa vez que "viver perigosamente é saltar de um penhasco e criar asas durante a queda". Sampson e eu estávamos nos preparando para saltar.

Assim que penetramos na floresta, os altos carvalhos e os pinheiros da Carolina começaram a encobrir a luz. O coro de cigarras era denso como melado. O ar estava parado.

Eu imaginava, chegava a ver Kate correndo naquela selva verde-escura poucas semanas antes, lutando pela própria vida. Pensei nela agora, sobrevivendo à custa de aparelhos. Os zumbidos e os cliques daquelas máquinas me atravessavam o coração.

— Não gosto de andar no mato — confessou Sampson ao passarmos sob um emaranhado de trepadeiras e copas fechadas que encobriam o sol. Estava com uma camiseta de Cypress Hill, os óculos Ray-Ban, jeans, coturnos. — Lembra-me Joãozinho e Maria. Essa bosta melodramática. O tipo da história que eu detestava quando era garoto.

— Você nunca foi garoto — recordei-o. — Já tinha um metro e oitenta aos onze anos, e esse olhar frio, de cima para baixo.

— Mesmo assim, detestava os irmãos Grimm. O lado sombrio da mente germânica a elaborar fantasias cruéis para empenar a cabeça dos pobres alemãezinhos.

Sorri novamente das teorias empenadas de Sampson a respeito do nosso empenado mundo.

— Você não tem medo de passar pelos projetos de Washington à noite, mas borra a cueca durante um passeio no bosque? Nada pode lhe fazer mal aqui. Pinheiros. Trepadeiras. Espinheiros. Amoreiras. Pode parecer sinistro, mas é inofensivo.

— O que parece sinistro é sinistro. Esse é o meu lema. Sampson lutava para passar com seu corpo estatuário pelos emaranhados de arbustos e moitas entre as árvores. Em certos lugares, as madressilvas formavam verdadeiras cortinas. Pareciam tornar-se cada vez mais espessas e enredadas.

Perguntei-me se Casanova estava nos observando. Desconfiava que era um observador muitíssimo paciente. Tanto ele quanto Will Rudolph eram inteligentes, organizados e cautelosos. Havia anos que cometiam crimes e ainda não tinham sido descobertos.

— Como é a história dos escravos nesta região? — perguntei. Queria que meu amigo parasse de pensar em cobras venenosas e cipós com aparência de serpente. Precisava dele concentrado no homicida, nos homicidas talvez, que podiam estar coabitando conosco naquela selva.

— Andei lendo um E. D. Genovese, um Mohamed Auad — disse ele. Eu não sabia se estava falando a sério. Sampson é bastante culto para um homem de ação.

— A Ferrovia Subterrânea funcionava nesta região. Os escravos foragidos, famílias inteiras às vezes, passavam dias, semanas, escondidos em certas fazendas daqui antes de se refugiar no Norte. Eram chamadas "estações" — contei. — E o que mostra o mapa do doutor Freed. É o tema de seu livro.

— Não estou vendo fazenda nenhuma, doutor Livingstone. Só este mato de merda — queixou-se Sampson ao mesmo tempo em que empurrava a vegetação com os enormes braços.

— A grandes plantações de fumo ficavam a oeste daqui. Passaram quase sessenta anos abandonadas. Lembra-se de que lhe contei que uma estudante da Universidade da Carolina do Norte foi brutalmente estuprada e assassinada em 1981? Seu corpo putrefato foi encontrado por aqui. Acho que Rudolph e, possivelmente, Casanova a mataram. Foi mais ou menos quando os dois se conheceram. O mapa do doutor Freed mostra a localização da antiga Ferrovia Subterrânea e a maior parte das fazendas da região, onde os escravos se escondiam. Algumas tinham amplas galerias, verdadeiras habitações subterrâneas. As fazendas desapareceram. Nada se vê delas de um avião. As madressilvas e amoreiras se espalharam e se adensaram em toda parte. Mas as galerias ainda existem.

— Hum. E seu mapa mostra todos os lugares onde ficavam as antigas plantações de fumo?

— Mostra. Estou com o mapa, com uma bússola e com minha pistola Glock — respondi, batendo no coldre.

— Mais importante: está comigo.

— Tem razão. Viva nós!

Sampson e eu fizemos uma longa caminhada naquela tarde quente e úmida. Conseguimos localizar três plantações onde outrora vicejavam as folhas de tabaco; onde negros e negras aterrorizados, às vezes famílias inteiras, ficaram escondidos em antigas galerias, à espera de uma oportunidade de buscar a liberdade no Norte, em cidades como Washington.

Duas galerias se encontravam exatamente onde o dr. Freed dissera. Os únicos vestígios deixados pelas primitivas fazendas eram umas velhas tábuas e uns pedaços de ferro retorcido e enferrujado. Era como se um deus furioso tivesse descido para destruir os sinais da escravidão.

Por volta das quatro da tarde, chegamos à outrora próspera e orgulhosa fazenda de Jason Snyder e sua família.

— Como sabe que é aqui? — indagou Sampson, olhando a pequena, desolada e deserta área onde eu detivera meus passos;

— É o que diz o mapa desenhado pelo doutor Freed. Ele é um historiador famoso. Deve ser verdade.

Porém meu amigo tinha razão. Nada havia ali. A fazenda de Jason Snyder havia desaparecido completamente. Bem como dissera Kate.

 

Este lugar me dá arrepios — disse Sampson, — A tal fazenda de tabaco.

O que fora a fazenda Snyder era um lugar particularmente sinistro, desolado e assustador como o inferno. Nada indicava que um ser humano tivesse vivido ali alguma vez. Mesmo assim, eu podia sentir o sangue e os ossos dos escravos em meio às ruínas perturbadoras da antiga plantação de fumo.

Os sassafrases, os arbustos de araruta, as madressilvas e a hera brava me chegavam à altura do queixo. Os carvalhos vermelhos e brancos, os sicômoros e outras árvores alteavam-se adultas onde, antes, existira uma próspera fazenda. Mas esta tinha desaparecido.

Senti um aperto no peito. Seria aquele o terrível lugar? Estávamos perto da casa de horrores descrita por Kate?

Tínhamos rumado para o norte e, agora, para o leste. Não estávamos muito longe da rodovia estadual onde esperava ter estacionado o carro. De acordo com meus grosseiros cálculos, não podíamos estar a mais de três ou quatro quilômetros da estrada.

— As buscas a Casanova nunca chegaram até aqui — disse Sampson quando nos pusemos a rondar no local. — A vegetação é mesmo densa, uma merda. Não foi pisada em lugar nenhum.

— O doutor Freed disse que provavelmente foi o último a vir até aqui examinar a localização da antiga Ferrovia Subterrânea. A floresta está fechada demais para o visitante ocasional.

O sangue e os ossos de meus ancestrais. Era uma idéia poderosa, quase insuportável: estar no lugar onde outrora os negros sofreram anos e anos de cativeiro.

Ninguém veio salvá-los. Ninguém se importou. Nenhum detetive esteve à procura dos monstros que seqüestraram famílias inteiras e as colocaram a seu serviço.

Utilizei os pontos de referência naturais do mapa para procurar a possível localização da galeria subterrânea da fazenda de Snyder. Ao mesmo tempo, tentava reunir forças — para o caso de encontrarmos alguma coisa que eu não quisesse encontrar.

— Provavelmente, estamos à procura de uma antiqüíssima porta de alçapão — disse a Sampson. — Não há nenhuma marca específica no mapa de Freed. O subterrâneo deve estar a nove ou dez metros daqueles sicômoros. Creio que são aquelas as árvores, de modo que agora estamos exatamente sobre a galeria. Mas onde fica a entrada?

— Provavelmente num lugar onde ninguém pisaria por acaso — arriscou Sampson. Estava abrindo caminho em meio à mais densa e bruta vegetação.

Mais além do emaranhado de trepadeiras, havia um capinzal aberto, onde antigamente se plantava o tabaco. Adiante, a mata se adensava muito. O ar era quente e estagnado. Sampson estava começando a se impacientar, derrubava as madressilvas com rancor. Ia batendo os pés, tentando localizar uma entrada oculta. Procurava um ruído oco, alguma peça de madeira ou metal sob o capim alto e a vegetação entrelaçada.

— Esta era uma galeria muito grande, de dois andares. Casanova pode havê-la ampliado. Talvez tenha construído algo ainda maior para instalar sua casa de horrores — eu disse ao mesmo tempo em que continuava procurando no mato.

Pensei em Naomi presa no subsolo durante tanto tempo. Ela fora minha obsessão durante todo aquele tempo. Continuava sendo. Sampson tinha razão. Aquela floresta era sinistra, e eu tinha a sensação de me encontrar num lugar funesto, onde coisas proibidas e cruéis foram perpetradas. Naomi podia estar ali muito perto, debaixo da terra.

— Você está me assustando de novo. Tentando pensar como esse filho da puta. Tem certeza de que o emérito doutor Sachs não é Casanova? — perguntou Sampson.

— Não, não tenho. Mas ainda não entendi por que a polícia de Durham o prendeu. Como descobriram que as calcinhas estavam lá? E, antes de tudo, como as calcinhas foram parar em sua casa?

— Porque talvez ele seja Casanova, querido. Porque talvez guardasse lá as calcinhas de suas vítimas, para cheirá-las nas tardes chuvosas. Será que o FBI e os homens da Lei de Durham vão encerrar o caso?

— Enquanto não houver outro seqüestro nem outro assassinato. Se derem o caso por encerrado, o verdadeiro Casanova poderá relaxar, fazer planos para o futuro.

Sampson estava de pé, esticando o longo pescoço. Suspirou, depois gemeu alto. Sua camiseta mostrava-se ensopada de suor. Olhou para cima, para as trepadeiras que pendiam dos ramos das árvores.

— Temos uma longa caminhada até o carro. Longa, escura, quente e úmida.

— Ainda não. Agüente-se um pouco, fique comigo.

Eu não queria interromper a busca e ir embora. Contar com Sampson era uma grande vantagem. Ainda havia três fazendas no mapa do dr. Freed. Duas delas pareciam promissoras; a terceira, pequena demais. Portanto, podia ser justamente esta a escolhida por Casanova. Ele era do contra, não era?

Eu também. Queria continuar procurando a noite inteira, na floresta ou não, com cobras venenosas ou não, com assassinos geminados ou não.

Recordei as histórias aterradoras de Kate sobre a casa desaparecida e o que se passava dentro dela. Que lhe teria acontecido no dia em que fugira? Se a casa não ficava naquele bosque... onde ficava, por Deus? Tinha de ser subterrânea. Nada mais fazia sentido...

Nada tinha sentido por enquanto.

A menos que alguém tivesse removido propositadamente os últimos vestígios da fazenda.

A menos que alguém tivesse usado a antiga madeira para construir outra coisa.

De súbito, saquei a pistola e me pus a procurar alguma coisa, qualquer coisa, em que atirar. Sampson me observou de soslaio. Curioso porém calado.

Eu precisava pôr minha raiva para fora. Expelir um pouco de veneno, ou um pouco de estresse. Ali mesmo, naquele momento. Mas não havia alvo em que disparar. Nenhuma casa de horrores subterrânea.

Porém, tampouco havia restos da sede da fazenda ou do celeiro. Nenhum vestígio.

Finalmente, dei um tiro no tronco nodoso de uma árvore próxima. Em minha incipiente demência, o nó de uma árvore se assemelhava à cabeça de um homem. Um homem como Casanova. Disparei outras vezes mais. Tiros na mosca, mortais, perfeitos. Eu matara Casanova!

— Está se sentindo melhor agora? — Sampson me olhou por cima dos óculos Ray-Ban. — Acertou o filho da puta no olho?

— Um pouco melhor. Não muito.

Meu amigo se encostou numa pequena árvore que parecia um esqueleto humano. O mirrado arbusto não recebia suficiente luz.

— Agora eu acho que está na hora de voltar — disse. Foi quando ouvimos gritos!

Vozes femininas vinham de baixo da terra.

Estavam abafados, mesmo assim, podíamos ouvi-los claramente. Vinham do norte de onde nos encontrávamos, de além do emaranhado de amoreiras e espinheiros, mas próximos do capinzal aberto adiante das antigas plantações de tabaco.

Uma bola de tensão me subiu com formidável violência quando ouvi aquelas vozes subterrâneas. Minha cabeça tornbou sobre o peito involuntariamente.

Sampson sacou sua Glock e fez outros dois rápidos disparos, mais sinais para as mulheres aprisionadas, para quem quer que estivesse gritando no subsolo.

Os gritos abafados se tornaram mais altos, subiam como que do décimo círculo do inferno.

— Nossa Senhora — sussurrei. — Nós as encontramos, John. Achamos a casa de horrores.

 

Sampson e eu nos pusemos de quatro. Procuramos freneticamente a entrada oculta da casa subterrânea, esfregando na vegetação os dedos e a palma das mãos até que sangrassem. Olhei para baixo, minhas mãos estavam trêmulas.

Disparei outros sete tiros para que as mulheres presas lá embaixo soubessem que as tínhamos ouvido, que ainda estávamos por perto. A seguir, aproximei o rosto do solo e gritei:

— Estamos aqui em cima! — O capim e as ervas me arranhavam a face. — E a polícia!

— Por aqui, Alex — gritou-me Sampson. — A porta está aqui. É uma espécie de porta em todo caso.

Correr em meio à densa vegetação era como caminhar na água. O alçapão estava escondido pelas madressilvas e o capim alto no lugar onde meu parceiro estava procurando. Fora recoberto com uma camada extra de terra e outra, grossa, de pinhas. Dificilmente teria sido encontrada por uma equipe de resgate ou alguém que estivesse passando por ali.

— Eu desço primeiro — disse a Sampson. O sangue me rugia nos ouvidos. Normalmente, ele se teria oposto. Dessa vez não.

Apressado, desci por uma íngreme e estreita escada de madeira, que parecia estar ali havia cem anos. Sampson me seguiu de perto. Os gêmeos bons.

Pare!, eu disse a mim mesmo. Vá devagar. No fim da escada dei com outra porta. Uma pesada porta de carvalho que ainda parecia nova; se não tivesse sido instalada recentemente, datava no máximo de um ou dois anos. Devagar, girei a maçaneta. Estava trancada.

— Vou entrar — gritei a quem quer que se achasse do outro lado.

Disparei dois tiros na fechadura, que se desintegrou. Empurrando a porta com o ombro, consegui abri-la.

Eu estava na casa de horrores. O que vi me deu ânsia de vômito. O cadáver de uma mulher jazia no sofá do que parecia ser uma bem decorada sala de estar. Já começara a se decompor. As feições eram irreconhecíveis. Os vermes fervilhavam sobre ele.

Ande, tive de dizer a mim mesmo. Vá em frente!

— Estou bem atrás de você — disse-me Sampson com sua voz grave. — Tome cuidado agora, Alex.

— É a polícia! — gritei. A voz me saiu trêmula e rouca. Estava com medo do que ainda poderia encontrar naquele esconderijo. Estaria Naomi ainda lá? E viva?

— Estamos aqui embaixo! — gritou uma mulher. — Estão me ouvindo?

— Sim! Estamos indo — respondi.

— Por favor, socorro! — ouvimos uma segunda voz, mais distante. — Tomem cuidado. Ele é cheio de armadilhas.

— Veja só. Ele é cheio de armadilhas — cochichou Sampson. — Não gosta de perder.

— Ele está na casa! Está aqui agora! — alertou-nos uma delas. Sampson continuava atrás de mim, muito próximo.

— Quer ir mesmo na frente, parceiro?

— Quero encontrá-la eu mesmo. Tenho de achar Scootchie. Ele não discutiu.

— Acha que o garanhão está aí, em algum lugar? Casanova?

— E o que dizem os boatos — respondi e avancei lentamente. Ambos já estávamos de armas nas mãos. Não tínhamos a menor idéia do que nos aguardava a seguir. Estaria ele a nossa espera?

Ande! Ande! Mexa essas pernas!

Saímos da sala. Havia um sofisticado sistema de iluminação no teto do corredor contíguo. Como ele podia obter energia elétrica ali? Um transformador? Um gerador? Que significava aquilo. Que era hábil? Que tinha contatos na companhia de eletricidade local?

Quanto tempo tinha demorado para colocar a galeria subterrânea naquelas condições? Para instalar tudo aquilo? Para tornar realidade suas fantasias?

O espaço era amplo. Entramos num longo e sinuoso corredor que saía da sala e conduzia à direita. Havia portas a ambos os lados, todas com trancas do lado de fora, como celas de prisão.

— Cuidado com a retaguarda — eu disse a Sampson. — vou entrar na porta número um.

— Eu sempre cuido da sua retaguarda — sussurrou ele.

— Cuide também. Aproximei-me da primeira porta.

— é a polícia — gritei. — Sou o detetive Alex Cross. Tudo vai ficar em ordem.

Empurrei-a e olhei para dentro. Queria que fosse Naomi. Roguei que fosse ela.

 

Que grandes idiotas — disse o Cavalheiro., intolerante e impaciente como de costume. — Dois palhaços pretos. Casanova sorriu de leve, cada vez mais irritado com o Cavalheiro.

— Que merda você esperava? Neurocirurgiões do Walter Reed de Washington? São apenas dois tiras ordinários de rua.

— Não tão ordinários assim. Acharam a casa, não acharam? Estão dentro dela.

Os dois amigos tudo observavam de um esconderijo próximo na floresta. Haviam seguido os policiais a tarde toda, espiando-os com binóculos. Conspirando, planejando, mas também brincando com a presa. Foi com muita cautela que avançaram para o confronto final.

— Por que não trouxeram os outros? Por que não trouxeram o FBI? — perguntou Rudolph. Era sempre muito inquisitivo e lógico. Uma máquina de lógica; uma máquina de matar; uma máquina que funcionava sem um coração humano.

Casanova olhou novamente pelo poderoso binóculo alemão. Conseguia ver a porta aberta que levava ao interior da casa subterrânea, a obra-prima que ele e Rudolph construíram com as próprias mãos.

— é sua arrogância de policial — respondeu por fim. — De certo modo, são como nós. Especialmente Cross. Confia em si mesmo e em mais ninguém.

— Provavelmente pensa que nos compreende, quer dizer, nossa relação — disse Rudolph. — Talvez compreenda um pouco. — Andava paranóico com Alex Cross desde o encontro na Califórnia. Era quem o havia localizado afinal, e aquilo o assustava. Mas também o achava interessante como oponente. Gostava da competição, da disputa esportiva.

— Ele entende algumas coisas, vê padrões, e pensa que sabe mais do que realmente sabe. Tenha um pouco de paciência. Logo vamos expor as fraquezas de Cross.

Contanto que fossem pacientes, contanto que pensassem em tudo cuidadosamente, Casanova pensava que venceriam; jamais seriam capturados. Havia anos que era assim, desde que se conheceram na Universidade Duke.

Casanova sabia que Will Rudolph fora descuidado na Califórnia. Tinha essa perturbadora tendência desde os tempos de estudante de medicina. Era impaciente e tinha sido piegas, melodramático, ao matar Roe Tierney e torn Hutchinson. Quase fora capturado. Chegara a ser interrogado pela polícia, havia figurado entre os principais suspeitos.

Casanova tornou a pensar em Alex Cross, avaliando a força e as debilidades do detetive. Cross era cauteloso e inteiramente "profissional". Quase sempre pensava bem antes de agir. Era sem dúvida mais inteligente que os outros. Tira e psicólogo. Tinha encontrado o esconderijo, não? Chegara até ali, chegara mais perto que qualquer outro.

John Sampson era mais impulsivo. Era o ponto fraco, embora não parecesse. Embora fisicamente poderoso, seria o primeiro a cair. E derrubar Sampson significava derrubar Cross. Os dois eram muito amigos; extremamente afetuosos, emocionais um com o outro.

— Foi tolice nos separarmos há um ano, ter seguido caminhos diferentes — disse Casanova a seu único amigo no mundo. — Se não tivéssemos começado a competir e a jogar um jogo egocêntrico, Cross nunca teria descoberto nada sobre nós. Não o teria encontrado, e nós não teríamos de matar as garotas e destruir a casa agora.

— Deixe-me cuidar do bom doutor Cross — pediu Rudolph. Não reagiu ao que Casanova acabava de dizer. Jamais mostrava emoção, mas na verdade sentira-se sozinho também. E tinha voltado, não tinha?

— Ninguém cuida do doutor Cross sozinho — respondeu Casanova - Vamos juntos atrás deles. Serão dois contra um, nossa melhor maneira de trabalhar. Primeiro Sampson. Depois Alex Cross. Sei como vai reagir. Sei como ele pensa. Eu o tenho observado. Para falar a verdade, estou caçando-o desde que chegou ao Sul.

Os dois monstros se aproximaram da casa.

 

Acendi a luz da primeira sala e vi uma das mulheres seqüestradas. Maria Jane Capaldi estava encolhida feito uma menina assustada junto à parede oposta. Eu sabia quem era. Tinha estado com seus pais havia cerca de uma semana; vira antigas e estimadas fotografias dela.

— Por favor, não me faça mal. Eu não agüento mais — suplicou num rouco sussurro.

Estava abraçando-se a si mesma, balançando levemente o corpo para frente e para trás. Vestia uma calça preta rasgada e uma amarrotada camiseta do Nirvana. Tinha apenas dezenove anos, era estudante de arte e aspirante a pintora na estadual da Carolina do Norte, em Raleigh.

— Sou da polícia — murmurei com a máxima suavidade. — Ninguém vai lhe fazer mal agora. Não permitiremos. — A moça deixou escapar um gemido e começou a chorar aliviada. Todo seu corpo tremia. — Ele não vai lhe fazer mal, Maria Jane — tornei a repetir com toda a delicadeza de que era capaz. Mal conseguia falar. — Preciso encontrar as outras. Volto já, prometo. vou deixar sua porta aberta. Pode sair. Está tudo bem agora.

Eu tinha de ajudar as outras. Seu harém de mulheres especiais estava bem ali. Naomi era uma delas.

Entrei no quarto seguinte. Mal conseguia respirar. Estava excitado, assustado, triste — tudo ao mesmo tempo.

Uma moça alta e loura me disse que se chamava Melissa Stanfield. Lembrei-me do nome. Era da escola de enfermagem. Eu tinha tantas perguntas, mas só havia tempo para uma.

Toquei-lhe delicadamente o ombro. Ela estremeceu, depois deixou-se cair em meus braços.

— Sabe onde está Naomi Cross?

— Não tenho certeza — respondeu Melissa. — Não conheço o lugar. — Sacudindo a cabeça, começou a chorar. Tive a impressão de que não sabia sequer de quem eu estava falando.

— Você está salva agora.O pesadelo acabou, Melissa. vou ajudar as outras — cochichei.

No corredor outra vez, vi Sampson destrancar uma porta. Ouvi-o dizer:

— Sou da polícia. Está tudo bem agora. — Sua voz era branda: Sampson o bonzinho.

As mulheres libertadas iam saindo atordoadas e confusas dos quartos. Abraçaram-se no corredor. Quase todas estavam soluçando, mas eu lhes podia sentir o alívio, até mesmo a alegria. Alguém finalmente viera em seu socorro.

Entrei num segundo corredor no final do primeiro. Havia mais portas trancadas. Naomi estava ali? Estava viva? O coração me batia desesperadamente no peito.

Abri a primeira porta à direita — e lá estava ela. Scootchie. A coisa mais linda do mundo.

As lágrimas enfim me saltaram dos olhos. Era eu quem não conseguia falar agora. Achei que me lembraria para sempre de tudo o que se passou entre nós. Cada palavra, cada olhar, cada nuança.

— Eu sabia que você viria me buscar, Alex — disse ela. E, atirando-se em meus braços, estreitou-me com força.

— Oh, minha querida, minha querida Naomi — sussurrei. Era como se me tivesse livrado de uma carga de quinhentos quilos. — Isto faz com que tudo valha a pena. Bem, quase tudo.

Eu precisava vê-la de perto. Segurei-lhe o precioso rosto entre as mãos. Parecia tão frágil e pequena naquele quarto. Mas estava viva! Eu a havia encontrado.

Gritei para Sampson.

— Achei Naomi! Nós a encontramos, John! Aqui! Estamos aqui! Scootchie e eu nos abraçamos novamente, como nos velhos

tempos. Se alguma vez na vida me arrependi de haver escolhido a profissão de detetive, jamais voltaria a me arrepender. Lembrei-me de que a havia julgado morta — simplesmente não conseguira desistir da luta. Nunca desistir.

— Eu sabia que você viria, exatamente assim. Sonhava com isso. Vivi para este momento. Rezei todos os dias, e você está aqui. — Naomi mostrou o mais lindo sorriso que já vi. — Eu o amo.

— Eu também a amo. Quase enlouqueci de saudades. Todos sentiram a mesma coisa.

Passado um momento, afastei-me delicadamente de minha sobrinha. Lembrei-me dos monstros e do que deviam estar pensando agora. Conspirando ainda. Leopold e Loeb crescidos, cometendo crimes perfeitos.

— Tem certeza de que está bem? — Eu sorri ou, pelo menos, esbocei um sorriso.

Notei que a energia retornava aos olhos de Naomi.

— Alex, vá. Tire as outras daqui — pediu-me. — Por favor, faça com que saiam das jaulas onde ele nos manteve.

Bem nesse instante, um barulho estranho e terrível ecoou no corredor. Um grito de dor. Sai correndo do quarto de Naomi e vi acontecer uma coisa que não imaginara sequer em meus piores pesadelos.

 

A voz grave e forte pedindo socorro era de Sampson. Meu parceiro estava em dificuldades. Dois homens, ambos com horríveis máscaras, estavam engalfinhados com ele. Casanova e Rudolph? Quem mais poderiam ser?

Sampson estava caído no corredor, a boca aberta de dor, de choque. Um faca ou furador de gelo estava cravado no centro de suas costas.

Eu já tinha enfrentado aquela situação duas vezes, patrulhando as ruas de Washington. Um parceiro em dificuldade. Eu não tinha escolha e provavelmente só contava com uma única chance. Não hesitei. Ergui a Glock e disparei.

Surpreendi-os com tiros rápidos. Não esperavam que eu disparasse enquanto estivessem agarrados a Sampson. O mais alto dos dois caiu de costas segurando o ombro. O outro se voltou para mim. O olhar frio de sua máscara da morte era uma ameaça. Mas eu os havia surpreendido.

Atirei novamente, apontando para a segunda máscara. Todas as luzes se apagaram subitamente na casa subterrânea. Ao mesmo tempo, os alto-falantes começaram a tocar um rock ensurdecedor. Axel Rose berrava Welcome to the Jungle.

A escuridão era total no corredor. A música fazia trepidarem os alicerces da construção. Apoiando-me nas paredes, comecei a avançar na direção do lugar onde Sampson caíra.

Meus olhos perscrutavam a escuridão de breu, um medo terrível me invadiu. Tinham abatido Sampson, o que não era coisa fácil. Os dois pareciam ter surgido do nada. Haveria outra entrada?

Ouvi um grosso e conhecido rosnar. Sampson se encontrava pouco adiante.

— Estou aqui. Acho que não cuidei da minha retaguarda — balbuciou.

— Não fale.

Aproximei-me mais do lugar de onde viera sua voz. Agora eu sabia mais ou menos onde se encontrava. Temia que os dois não tivessem saído. Haviam apenas providenciado uma situação mais vantajosa, e eu tinha certeza de que estavam esperando para me atacar.

Queriam atacar-me os dois ao mesmo tempo. Precisavam agir como um par. Tinham necessidade um do outro. Juntos eram imbatíveis. Até agora.

Avancei centímetro a centímetro, as costas coladas à parede. Ia na direção de uns vultos que se deslocavam para o fim do corredor.

Adiante, havia um pálido clarão ambarino. Consegui ver Sampson encolhido no chão. Meu coração estava tão acelerado que mal havia intervalos entre as batidas. Meu companheiro estava muito ferido. Aquilo nunca tinha acontecido antes, nem mesmo quando éramos meninos nas ruas de Washington.

— Estou aqui — eu disse, ajoelhando-me a seu lado. Toquei-lhe o braço. — Você está sangrando muito, puta que pariu! Não se mova.

— Não exagere. Não vou entrar em estado de choque. Nada mais me choca — grunhiu ele.

— Não banque o herói. — Segurei-lhe a cabeça. — Está com uma faca enterrada nas costas.

— Eu sou um herói... vá!... Não os deixe fugir agora. Você já atingiu um deles. Foram em direção à escada. O mesmo caminho pelo qual viemos.

— Vá, Alex. Você tem de pegá-los! — Voltei-me ao ouvir a voz de Naomi. Ela se ajoelhou junto de Sampson. — Eu cuido dele.

— Já volto — eu disse. E me afastei.

Dobrei a esquina escura meio agachado, pronto para atirar. Entrei no primeiro corredor pelo qual havíamos chegado. Eles foram em direção à escada, tinha dito meu amigo.

Uma luz no fim do túnel? Monstros escondidos no meio do caminho? Caminhei mais depressa na penumbra. Nada me deteria agora. Bem, talvez Casanova e Rudolph o conseguissem. Dois contra um não era precisamente uma vantagem no terreno do inimigo.

Finalmente cheguei à porta. Não tinha tranca nem maçaneta. Empurrei-a com violência.

a escada estava livre. Pelo menos era o que parecia. O alçapão continuava aberto. No alto, eu conseguia ver as escuras copas dos pinheiros e nesgas de céu azul. Estariam à minha espera lá em cima? Os dois monstros espertinhos!

Subi a escada de madeira o mais depressa que pude. Meu dedo estava tenso no gatilho da Glock. Tudo escapando ao controle novamente.

Escalei os últimos degraus com a precipitação com que um fullback profissional investe contra uma pequena brecha na linha de defesa adversária. Saltei pela abertura retangular e me atirei no chão. Rolei como um acrobata. Levantei-me disparando. Pelo menos, minha rotina de combate era capaz de atrapalhar a pontaria do adversário.

Ninguém estava lá para me alvejar nem aplaudir meu desempenho. A floresta profunda continuava silenciosa e parecia absolutamente vazia.

Os monstros tinham desaparecido... a casa também.

 

Escolhi a mesma direção na qual Sampson e eu viéramos. Era o único caminho para fora do bosque e devia ser o que Casanova e Will Rudolph tinham seguido. Não queria abandonar Sampson e as mulheres, mas não tinha outra escolha, outra saída.

Pondo a Glock no coldre, comecei a correr. Não tardou para que minhas pernas se lembrassem como correr ao máximo.

Uma trilha de sangue fresco nas folhas penetrava alguns metros na vegetação mais densa. Um deles estava sangrando muito. Desejei que morresse logo. De qualquer modo, eu estava no caminho certo.

Os espinheiros me feriam os braços e as pernas conforme ia avançando no mato fechado. As folhagens me avergalhavam o rosto. Pouco importava.

Corri cerca de dois quilômetros, pelo menos foi o que calculei. Estava suado, o peito me doía. Sentia a cabeça quente como o motor fundido de um carro. Cada passo que dava parecia mais pesado que o anterior.

Pelo que imaginava, estava me distanciando deles. Ou quem sabe estavam atrás de mim? Talvez me tivessem visto sair? Talvez me estivessem seguindo? Fechando o cerco às minhas costas? Dois contra um, não era assim que eu queria que aquilo acabasse.

Procurei novos vestígios de sangue ou roupa rasgada. Algum sinal de que tivessem passado por ali. Meus pulmões ardiam, eu estava ensopado de suor. Minhas pernas doíam.

Ocorreu-me uma lembrança, uma seqüência de imagens. Eu estava correndo em Washington, com Marcus Daniels nos braços. Revi o rosto do pobre menino. Recordei o grito de dor de Sampson na casa. Vi a face de Naomi.

Alguma coisa estava ali adiante — dois homens correndo. Um deles ia segurando o ombro. Seria Casanova? Ou o Cavalheiro? Pouco importava — eu queria os dois. Não deixaria por menos.

O monstro ferido não parecia ter perdido a velocidade. Notando que eu o estava perseguindo, soltou um grito horripilante. Lembrei-me de que se tratava de um demente altamente imprevisível. O berro — laaaaahhhhh! — ecoou entre os abetos como o urro de um animal selvagem.

Seguiu-se um novo grito primitivo. laaaaahhhhh! Era o outro homem.

Geminação, pensei. Eram ambos animais. Não podiam sobreviver um sem o outro.

O súbito disparo me pegou desprevenido. Uma lasca arrancada da casca de um pinheiro passou rente à minha cabeça. Não me atingiu e matou por uma questão de centímetros. Um dos monstros havia se voltado com tremenda rapidez e atirara em mim.

Agachei-me atrás da árvore atingida em meu lugar. Espiei por os ramos folhados. Não consegui ver nenhum dos dois. Esperei. Contei os segundos. Tentei recuperar o fôlego. Qual deles havia disparado? Qual estava ferido?

Estavam próximos do alto de uma colina escarpada. Teriam passado para o outro lado? Em caso afirmativo, estavam à minha espera? Saindo lentamente de trás da árvore protetora, olhei à minha volta.

Tudo estava quieto e sinistro novamente. Nenhum grito. Nenhum disparo. Não parecia haver ninguém ali. Que diabos pretendiam aqueles caras? Em todo caso, eu acabava de aprender uma coisa nova sobre eles. Tinha outro indício com que me orientar. Acabava de ver uma coisa importante.

Corri até o cume da colina à minha frente. Nada! Meu coração pareceu cair num abismo de mil quilômetros. Eles tinham fugido? Depois de tudo?

Continuei correndo. Não podia deixar que acontecesse. Não permitiria que os monstros escapassem.

 

Acreditando saber em que direção ficava a rodovia estadual, rumei para lá. Corria com mais facilidade agora. Alex, o Escoteiro.

Cerca de duzentos metros à minha frente, tornei a avistá-los. A seguir, vi um trecho familiar, cinzento: a curva de uma auto-estrada. Distingui alguns edifícios brancos e antigos fios de telefone. Uma estrada. O caminho por onde podem fugir.

Os dois iam na direção de um velho bar de beira de estrada. Ainda levavam as máscaras da morte. Aquilo me sugeriu que Casanova estava no comando. O líder natural. Adorava suas máscaras. Representavam o que ele supunha ser na realidade: um deus sinistro. Livre para fazer o que quisesse. Superior ao resto dos homens.

Um letreiro de néon azul e vermelho piscava as palavras Poeira do Caminho no telhado do estabelecimento. Era um desses botequins rurais que contavam com numerosa clientela o dia inteiro. Para lá iam os monstros.

Casanova e o Cavalheiro Caller subiram na caminhonete azul-marinho nova em folha que haviam deixado no movimentado estacionamento. Um bom lugar para guardar um carro sem despertar suspeitas. Como policial, eu sabia disso. Atravessei correndo a estrada em direção ao bar.

Naquele momento, um homem ruivo, de longo cabelo crespo, estava entrando em seu Plymouth Duster. Ia com uma surrada camisa de trabalho da Coca-Cola e levava uma volumosa sacola marrom debaixo do braço. Tinha comprado bebida.

— Polícia. — Coloquei minha insígnia a trinta centímetros de seu queixo barbudo. — Preciso de seu carro! — Já tinha sacado a pistola, pronto para qualquer problema que pudesse surgir. Sem dúvida, ia levar o carro.

— Minha nossa, rapaz. Este carro é da minha namorada — resmungou ele depressa. Sem tirar os olhos da Glock, entregou-me as chaves.

Apontei para o lugar de onde vinha.

— Chame a polícia imediatamente. As mulheres desaparecidas estão lá, a uns três quilômetros. Diga que há um policial ferido. Diga que é o esconderijo de Casanova.

Entrei rapidamente no Duster e antes mesmo de sair do estacionamento já estava a sessenta quilômetros por hora. Pelo retrovisor, ainda vi o homem olhando atônito para mim com meia dúzia de garrafas de cerveja na mão. Eu mesmo queria telefonar para Kyle Craig e pedir que mandasse socorro, mas não podia parar, não podia perder Casanova e seu amigo.

A caminhonete azul-marinho rumava para Chapei Hill... onde Casanova tentara matar Kate, onde a seqüestrara. Era lá que morava afinal? Seria da Universidade da Carolina do Norte? Médico também? Alguém de quem nunca tínhamos ouvido falar? Era não só possível como também provável.

Fiquei a uma distância de quatro veículos ao entrarmos no perímetro urbano. Não sabia se tinham percebido que eu estava no seu encalço. Certamente sim. Era a versão de Chapei Hill da hora do rush. O tráfego da estreita rua Franklin avançava devagar ao longo do campus orlado de árvores.

Mais adiante, vi o freqüentadíssimo Cine Varsity, onde Wick Sachs fora assistir a um filme estrangeiro com uma mulher chamada Suzanne Wellsley. Tratava-se de adultério, nada mais, nada menos. O dr. Wick Sachs servira de escudo para Casanova e Will Rudolph. Era um suspeito perfeito para o caso. O pornógrafo local. Casanova sabia tudo a seu respeito. Como?

Não faltava muito para que os pegasse agora. Eu o sentia. Precisava pensar assim. Tiveram de parar num sinal vermelho na esquina da rua Franklin com a Columbia. Estudantes envergando curiosas camisetas com logotipos como Champion, Nike e Bass Ale passavam tranqüilamente entre os automóveis parados. O rádio de um carro próximo tocava em alto volume I Know I Got Skíllz, de Shaquille O'Neil.

Esperei alguns segundos depois que o sinal fechou. Então, parti para o tudo ou nada. Preparado ou não, lá vou eu.

 

Desci sorrateiramente do Duster e corri semi-agachado no meio da rua Franklin. Tinha sacado a Glock, mas a levava colada ao corpo para ser menos conspícuo. Que ninguém se assuste nem se ponha a gritar agora. Tem de acontecer no momento certo.

Fazia tempo que os dois tinham visto o Duster que os seguia. Eu já o imaginava. Assim que pisei na rua, eles saltaram da caminhonete por lados opostos.

Um deles se voltou e disparou três vezes. earn. barn. barn. Só ele tinha uma arma exposta. Veio-me um novo estalo: lembrei-me da cena fugaz na floresta. A conexão feita. Um efêmero reconhecimento.

Agachei-me atrás de um Nissam Z preto, que estava esperando o semáforo, e gritei:

— Polícia! Polícia! Desçam! Deitem-se no chão! Saiam dos carros! A maior parte dos motoristas e dos pedestres obedeceu.

Que diferença entre as ruas de Chapei Hill e as da capital quanto a isso. Olhei rapidamente por cima dos carros. Não vi os assassinos em parte alguma.

Esgueirei-me com o corpo bem curvado e colado ao carro esporte. Na calçada, estudantes e comerciantes me observavam alarmados.

— Polícia! Abaixem-se. Deitem-se. Tirem esse garotinho daqui! — berrei.

Vi coisas malucas com os olhos da mente. Imagens passageiras. Sampson... com uma faca nas costas. Kate... depois de ter sido irremediavelmente espancada. Os olhos baixos das prisioneiras na casa.

Embora eu estivesse agachado, um dos monstros me viu e arremeteu disposto a um confronto direto. Ambos atiramos quase ao mesmo tempo.

A bala dele apenas se encravou num espelho lateral entre nós. Foi o que me salvou. Eu não vi o resultado final de meu disparo.

Escondi-me atrás dos carros novamente. O cheiro das descargas dos escapamentos e de óleo era quase insuportável. Uma sirene a distância anunciou que eu ia receber ajuda. Mas não a de Sampson. Não a ajuda de que eu necessitava.

Continue avançando. Dê um jeito de não os perder de vista... nenhum deles! Dois contra um. Ou uma maneira melhor de dizer a mesma coisa: dois pelo preço de um!

Perguntei-me como estavam lidando com a situação. Que estariam pensando. Planejando. Era Casanova o líder? Quem era ele?

Ergui rapidamente os olhos e vi um policial. Estava perto da esquina, a arma em punho. Não tive tempo de alertá-lo.

Ouviram-se dois tiros a sua direita, e ele caiu pesadamente. As pessoas começaram a gritar. Os universitários já não se mostravam tão afetados. Algumas moças choravam. Talvez acabassem de compreender que éramos todos bem mortais.

— Deitem-se! — tornei a gritar. — Joguem-se todos no chão! Depressa!

Novamente arqueado atrás do automóveis, aproximei-me lentamente da lateral de um furgão. Vi um dos monstros quando meus olhos se habituaram ao brilho do metal prateado.

Meu tiro não foi ambicioso nem heróico. Estava disposto a acertar onde fosse. Peito, ombros, costas. Disparei!

Tiro especial, fodido! Valia a pena ter visto. O projétil atravessou as duas janelas de um Taurus vazio. E atingiu o bandido no peito, pouco abaixo da garganta.

Ele caiu como se suas pernas tivessem sido puxadas. Corri o mais depressa que pude para o lugar onde o havia visto antes. Qual deles caiu?, meu cérebro perguntava aos berros. onde está o outro?

Eu ia e voltava entre os automóveis estacionados. Ele tinha sumido! Não estava lá! Onde, diabos, estava o que eu havia baleado? E o outro, onde se escondera?

Vi o sujeito ferido. Estava estendido junto ao semáforo do cruzamento da Colúmbia com a Franklin. A máscara da morte ainda lhe encobria o rosto, mas ele parecia quase comum com os tênis brancos de cano alto, a calça caqui, o colete de náilon.

Não vi nenhuma arma perto dele. Não se movia, e eu sabia que estava gravemente ferido. Ajoelhei-me a seu lado, olhando ao meu redor enquanto o examinava. Cuidado! Cuidado!, alertava a mim mesmo. Não via seu companheiro em parte alguma. Ele está por aqui, em algum lugar. Sabe atirar.

Retirei-lhe a máscara. A última fachada caiu. Você não é um deus. Sangra como qualquer um de nós.

Era o dr. Will Rudolph. O Cavalheiro Caller estava agonizando no meio de uma rua de Chapei Hill. Seus olhos azuis acinzentados estavam voltados para cima. Uma poça de sangue arterial já se formara sob ele.

Na calçada, as pessoas começaram a se aproximar. Gemiam de horror e aversão. Olhos arregalados. A maior parte delas provavelmente jamais tinha visto alguém morrer. Eu tinha.

Ergui sua cabeça. O Cavalheiro. O flagelo mutilador e homicida de Los Angeles. Não conseguia acreditar que tinha sido baleado, não conseguia aceitá-lo. Foi o que me disseram seus olhos inquietos e cheios de pavor.

— Quem é Casanova? — perguntei ao dr. Will Rudolph. Queria arrancar isso dele. — Quem é Casanova? Conte-me.

Eu continuava olhando ao meu redor, para trás. Onde estava Casanova? Não deixaria Rudolph morrer daquele modo. Duas radiopatrulhas chegaram enfim. Três ou quatro policiais locais correram em minha direção com as armas em punho.

Rudolph se esforçava para enfocar a vista, para me enxergar claramente ou talvez para ver o mundo uma derradeira vez. Uma bolha de sangue se formou em seus lábios e estourou com um leve assobio.

As palavras lhe saíram devagar.

— Você nunca vai encontrá-lo. — Sorriu para mim. — Você não é tão bom assim, Cross. Não chega aos pés dele. Ele é o melhor de todos.

Um áspero ganido lhe escapou da garganta. Reconheci o chocalho da morte ao recolocar a máscara no rosto do monstro.

 

Foi uma cena marcante e jubilosa que eu jamais poderia esquecer. Os parentes próximos e os amigos das mulheres encarceradas continuaram chegando ao Centro Médico Duke durante toda a noite. No terreno do hospital e no estacionamento perto da Erwing Road, aglomerou-se uma enorme e emocionada multidão de estudantes e habitantes da cidade e ali ficaram até de madrugada. Imagens indeléveis para mim.

Ampliaram-se fotografias das sobreviventes e com elas montaram cartazes. Os estudantes se deram as mãos e se puseram a cantar spintuals e também Give Peace a Chance. Durante pelo menos uma noite, todos decidiram esquecer que Casanova ainda estava solto. Eu mesmo tentei durante algumas horas.

Sampson estava vivo, internado e em franca recuperação. Gente que eu nunca tinha visto antes chegava e me apertava a mão com entusiasmo no subitamente festivo hospital. O pai de uma das vítimas resgatadas chorou em meus braços. Eu nunca tinha achado tão bom ser policial.

Subi ao quarto andar para visitar Kate. Respirei fundo antes de entrar. Por fim, criei coragem. Ela parecia uma misteriosa múmia com tantas ataduras na cabeça. Seu estado se estabilizara. Não morreria, mas continuava em coma.

Segurando-lhe a mão, contei-lhe as novidades do dia.

— As mulheres seqüestradas estão em liberdade. Estive na casa com Sampson. Estão todas bem, Kate. Só falta que você volte para nós. Hoje seria uma excelente ocasião.

Daria tudo para tornar a ouvir a voz de Kate, ao menos uma vez. Mas nenhum som lhe saiu dos lábios. Perguntei-me se ela conseguia me ouvir ou compreender-me. Beijei-a com ternura antes de ir embora.

— Eu a amo/ Kate — sussurrei junto a seu rosto enfaixado. Não, ela não devia estar me ouvindo.

Sampson estava um andar abaixo. O Homem Montanha já tinha voltado da cirurgia, e seu estado era considerado bom. Estava acordado e lúcido quando entrei.

— Como estão Kate e as outras moças? — perguntou-me. — Eu já estou pronto para ir embora daqui.

— Kate ainda está em coma. Estou vindo de seu quarto. Quanto a você, se quer saber, seu estado é "bom".

—- Mande os médicos me promoverem a "excelente". Ouvi dizer que Casanova fugiu. — Começou a tossir, e vi que estava zangado.

— Tenha calma. Nós vamos pegá-lo. — Eu sabia que estava na hora de ir embora.

— Não se esqueça de me trazer meus óculos escuros — disse quando me despedi. — Há muita luz aqui. Parece que estou em Kmart.

Às nove e meia daquela noite, voltei ao quarto de Scootchie. Seth Samuel estava lá. Era impressionante vê-los juntos. Eram fortes e ao mesmo tempo doces. Iniciei a feliz tarefa de conhecer Naomi-e-Seth.

— Tia Scootch! Tia Scootch!

Ouvi uma voz familiar atrás de mim, e foi lindo. Nana, Cilla, Damon e Jannie entraram precipitadamente no quarto. Tinham chegado de Washington. Cilla não agüentou e se pôs a chorar ao ver a filha. Nana Mama também enxugou uma lágrima. Então, Cilla e Naomi deram à palavra abraço um novo significado.

Meus filhos observavam a tia Scootch deitada na assustadora cama de hospital. Eu vi o medo e a confusão brilharem em seus pequeninos olhos, especialmente no de Damon, que tenta se colocar acima de todas as formas de incerteza e medo da vida.

Aproximei-me deles e os tomei nos braços. Apertei-os com força.

— Olá, filho, minha bolinha de bilhar. E como vai minha Jannie? — perguntei. Para mim, nada existe como minha família, nada sequer parecido. Imagino que é também por isso que faço o que faço. Sei que é. O doutor detetive Cross.

— Você achou a tia Scootch — cochichou-me Jannie. E estreitou-me com as fortes pernas e braços. Estava mais excitada que eu.

 

O caso não estava encerrado para mim. O serviço fora feito pela metade.

Dois dias depois, fui pelo caminho agora muito freqüentado que separava a rota 22 da casa subterrânea. Os policiais pelos quais passei estavam sombrios e calados. Percorriam o bosque de cabeça baixa, sem conversar entre si, o rosto desprovido de cor e emoção.

Estavam em contato mais íntimo com o monstro. Tinham visto o intrincado e horrível artesanato do dr. Will Rudolph e daquele que chamava a si mesmo Casanova. Alguns tinham revistado a casa de horrores.

Quase todos me conheciam agora. Eu me chamuscava com eles nas chamas do inferno. Alguns me cumprimentavam ou acenavam para mim. Eu também lhes acenava.

Sentia-me relativamente aceito na Carolina do Norte. Vinte anos antes, não teria sido possível, mesmo em circunstâncias extremas como aquelas. Estava começando a gostar do Sul mais do que esperava.

Andava às voltas com uma nova idéia, uma teoria plausível sobre Casanova. Relacionava-se com algo que eu notara durante o tiroteio no bosque e nas ruas de Chapei Hill. Você nunca vai encontrá-lo, lembrava-me das últimas palavras de Rudolph. Nunca diga nunca, Will.

Kyle Craig estava na casa de horrores naquela tarde quente e nublada. Além de cerca de duzentos homens e mulheres das forças policiais de Chapei Hill e de Durham, assim como os soldados de Fort Bragg. Estavam travando contato próximo e pessoal com os monstros.

— Excelente momento para estar vivo, para ser tira — disse ele. Seu humor adquiria um matiz sombrio toda vez que me encontrava. Ele me preocupava. Permanecia solitário a maior parte do tempo. Tinha obsessão pela carreira. Parecia ser um sujeito correto. Não era outro o seu aspecto inclusive na fotografia que achei num velho anuário da Duke.

— Tenho pena desse pessoal local arrastado até aqui para isto — eu disse a Kyle. Percorri com os olhos o desagradável cenário dos crimes. — Não vão se esquecer até a hora da morte. Vão passar anos sonhando com isto.

— E você, Alex? — Seus intensos olhos azul-acinzentados encontraram os meus. As vezes chegava a parecer sinceramente preocupado comigo.

— Ora, eu guardo tantas imagens de pesadelos agora, é difícil escolher a favorita — confessei com um sorriso. — Logo volto para casa. Pedirei que meus filhos durmam comigo durante algum tempo. Eles adoram. Não saberão realmente por quê. Conseguirei dormir bem com os meninos a me proteger. Sacodem-me quando tenho pesadelos.

Kyle finalmente sorriu.

— Você é um homem incomum, Alex. Incrivelmente aberto e ao mesmo tempo cheio de segredos.

— Estou ficando cada vez mais incomum. Se você topar com um novo monstro um dia desses, pode telefonar. Estou vacinado. — Tentei sem êxito fitá-lo nos olhos. Kyle também era cheio de segredos, e não muito aberto com ninguém que eu conhecesse.

— Tentarei não telefonar. Mas procure descansar. Há um monstro agindo na cidade de Chicago neste momento. Outro em Lincoln e em Concord, em Massachusetts. Outro anda atacando crianças em Austin, no Texas. De preferência bebês. Serial killers em Orlando e Minneapolis.

— Ainda temos trabalho aqui — lembrei-o.

— Temos? — perguntou ele com ironia na voz. — Que trabalho, Alex. Cavar?

Kyle Craig e eu ficamos observando a cena terrível que se desenrolava perto da casa subterrânea. Setenta ou oitenta homens estavam ocupados em esquadrinhar o prado a oeste do esconderijo. Trabalhavam com pesadas picaretas e pás. Procurando os corpos das vítimas. Cavando.

Desde 1981, moças bonitas e inteligentes vinham sendo seqüestradas e assassinadas pelos dois monstros. Um reinado de treze anos de terror. Primeiro, eu me apaixono por uma mulher. Depois, simplesmente a tomo para mim, escrevera Will Rudolph em seu diário na Califórnia. Eu me perguntava se o sentimento era dele mesmo ou de seu gêmeo. Imaginava quanto Casanova estava sentindo a falta do amigo agora. Quanto lamentava. Como planejava superar a perda? Será que já esboçara um plano?

Eu acreditava que ele tinha conhecido Rudolph por volta de 1981. Compartilharam segredos proibidos: gostavam de seqüestrar, estuprar e, às vezes, torturar mulheres. A certa altura, chegaram à idéia de manter um harém de moças muito especiais, moças brilhantes e fascinantes o bastante para lhes cativar o interesse. Nunca haviam tido alguém com quem partilhar os segredos. De repente, passaram a ter um ao outro. Tentei imaginar o que era nunca haver tido