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Planeta Criança



Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CALOR DA PAIXÃO / Harold Robbins
O CALOR DA PAIXÃO / Harold Robbins

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

O CALOR DA PAIXÃO

 

O telefone junto à cama tocou e Jonny mexeu-se ao meu lado, a perna nua dobrada sobre a minha coxa, o joelho contra a minha virilha. Eu tinha o Coração do Mundo na mão e nenhuma pressa de atender o telefone. Sabia quem estava a ligar. Era da recepção a dizerem-me que tinha visitas.

Segurei o diamante do tamanho de uma avelã entre o polegar e os outros dedos, deixando-o apanhar a luz da manhã que entrava pela janela. Pedaços de estrelas, é o que os diamantes são, a substância mais dura da Terra, e encerram fogo com milhões de anos de idade. Não havia diamante na Terra com mais fogo do que este que eu tinha na mão - um diamante de sangue de 41 quilates. Não era o "sangue" dos diamantes da discórdia que alimentavam as guerras civis em África, mas sim um diamante vermelho-fogo muito raro. Era uma jóia com história. Assassínio, luxúria, ganância - os piores pecados mortais - faziam parte do seu pedigree.

Não havia diamante como aquele no mundo.

Diz-se que a vaidade e a ganância são as pedras basilares da indústria de diamantes, e também que se pode confiar na raça humana para destilar infinitamente as duas. A pedra que eu tinha na mão era capaz de propagar níveis explosivos de ambos os vícios.

A minha visitante queria o diamante. Ela fazia parte da história. Não daquela parte em que os reis que o possuíssem perdiam tronos, mas guerra, assassínio, luxúria foram contributos dela para a história sangrenta do diamante.

O telefone tocou novamente e Jonny empurrou o joelho mais contra a minha virilha, lançando um rastilho de desejo por mim acima.

- Atende - disse.

- É a tua mãe.

- Que se foda. Já a fodi.

- Mande subir - disse eu ao recepcionista.

Jonny virou-se para o outro lado. O seu nome em Portugal era Joana, mas na Sacred Heart Academy em Beverly Hills chamavam-lhe Jonny. Aos dezoito anos, tinha um corpo firme, magro, beijado pelo sol de Lisboa. Os seios pequenos e firmes, melões de mel com mamilos rosados que pareciam sempre estar excitados. Jovem, bela, selvagem. Lembrava-me sempre uma leoazinha que eu vira em África, grande o bastante para despedaçar com dentes e garras mas que precisava de uma barriga quente para se enroscar à noite.

Comecei a levantar-me, mas Jonny agarrou-me o pénis e puxou-me para baixo.

- Fode-me antes que ela suba. Quero que ela sinta o cheiro da minha cona em ti.

Empurrei-a.

- Jonny, és demasiado para mim, preciso de uma mulher crescida que não me queira gastar a ponta da verga.

Tinha pena das miúdas da idade dela, miúdas a anos-luz dos próprios pais e de quem tivesse mais de trinta. Os mais velhos sentem saudades dos bons velhos tempos, mas não há velhos tempos para gente aculturada com sexo e droga. De que falam quando se encontram com velhos amigos? Dos tempos em que apanhavam grandes mocas? Grandes quecas? Da primeira rave? Criada numa época em que a sexualidade plastificada das Marés Vivas se confundia com sensualidade, a geração da Jonny era aquela em que um beijo de boa noite geralmente começava com o gajo a desabotoar as calças, uma geração que não acreditava no Pai Natal e cujos sonhos eram todos digitais.

Viera ter comigo na noite anterior, a sofrer por ser jovem. Deixei-a a dormir no sofá. A meio da noite, entrou no meu quarto e aninhou-se na cama comigo, precisando de uma barriga quente para se enroscar. Durante a noite metera-se dentro dos lençóis e entre as minhas pernas, a acariciar o meu pénis, a metê-lo na boca ainda adormecido, chupando-o até o ver acordado e excitado.

Vesti um roupão e fui para a sala da suite. Abri uns centímetros a porta que dava para o corredor. Já tinha aberto as cortinas e ligava para o serviço de quartos quando Simone empurrou a porta.

Deixou-se ficar à porta um momento enquanto nos olhávamos. Não mudara nada nos últimos três anos. Eu também não. Ainda me fazia ferver o sangue.

Ao invés do corpo magro e duro de Jonny, o corpo de Simone era carnudo e suculento para um homem ter algo onde morder. Excitava-me infinitamente mais do que a filha. O corpo de Simone era um bom vinho, para ser saboreado e apreciado durante horas. Despertava-me pensamentos lúbricos que Jonny nunca conseguiria. Quando o corpo retesado de Jonny se fechava, o meu membro era como se estivesse a ser apertado num torno. Era excitante, mas fazer amor com a mãe era provocador e memorável - se sobrevivesse aos preliminares.

Enquanto Joana era uma gatinha grande, a mãe era realmente uma leoa madura, capaz de caçar e matar por si só. Tinha poucos anos a mais que eu, trinta e muitos, a altura na vida de uma mulher em que esta é mais sexy e desejável, quando passou do brilho flexível da juventude para a sensualidade sumptuosa.

 

O seu sangue latino era tão quente que dava para pôr a andar carros de Fórmula Um. Era perigosa, mas não loucamente perigosa. Os seus crimes eram sempre frios e premeditados. Quando queria alguma coisa, agarrava-a e pronto. Se tínhamos essa coisa na nossa mão, era melhor contar os dedos, não fosse ela tê-los levado também.

- Estás com bom aspecto - disse ela, fechando a porta atrás de si. - Rico, bem sucedido, nem pareces o rapaz que eu já seduzi.

- A vida tem-me tratado bem. Tenho dinheiro, saúde, inveja... tudo menos uma boa mulher. As boas que me podem aturar são raras.

- Tens procurado nos sítios errados. As revistas de mexericos chamam-te playboy de Hollywood.

Ri-me.

- Acho que é preciso ser-se estrela de cinema ou comprar um estúdio antes de merecer esse rótulo.

- Não te despediste - disse ela e passou por mim em direcção à varanda.

- Andava a fugir da Mafia portuguesa.

Entrou na varanda. A minha suite em Bei Air dava para um luxuriante jardim tropical com fetos escuros à sombra e buganvílias púrpura viradas ao sol, o tipo de coisa que se dava bem no clima desértico do Sul da Califórnia. O Sol brilhava através do seu vestido branco e desenhava-lhe a silhueta.

- O branco é uma cor enganadora para tu usares - disse eu.

- Posso tirar o vestido, se preferires.

Conhecia-me bem. É o problema de se ser homem - as mulheres sabem que pensamos mais com testosterona do que com fluidos cerebrais.

- Da última vez que tentámos isso tiraste tudo menos a pistola. Ela aproximou-se, o suficiente para eu lhe sentir o calor do corpo,

para cheirar o sexo no seu perfume. As mulheres não usam perfume para cheirarem bem, mas para estimular o apetite sexual dos homens. Não foi um gajo chamado Ulisses que esteve prisioneiro de uma mulher bem cheirosa? Não foi o primeiro nem o último a ser derrubado pelo odor de uma mulher.

Eu sabia que esta mulher trazia sarilhos -já me tentara matar uma vez - mas deve ser como o fascínio que algumas pessoas têm por cobras venenosas - o perigo tornava a coisa mais excitante.

- Tive saudades tuas, Win - disse ela.

- Sabes onde tenho andado. Tu ficaste em Lisboa.

- Tu não percebes o que é lealdade - retrucou ela. - Eras filho único e depois ficaste órfão; nunca tiveste ninguém a quem ser leal. João tirou-me da rua, quando eu vendia o corpo por comida e droga, era eu mais nova do que Jonny.

- Tem idade para ser teu avô. E tu fodeste toda a gente à volta dele, desde o advogado ao motorista e aos amigos.

- São necessidades que uma mulher tem, mas sempre estive ao seu lado. Quando ele morrer, vou chorar na sua campa. Ele sabe disso.

- És uma verdadeira Madre Teresa de Calcutá. Parabéns... e afinal o que é que queres?

 

- Tem-no? Queria vê-lo, ver a razão de tanto alarido. Hesitei. Já esperava isto, pensava nisto desde que atendera a

chamada. Não era medo que ela agarrasse na pedra e fugisse.

Simone não era estúpida nem amadora - era mais provável que sacasse de uma arma de dentro do soutien e me desse um tiro no meio dos olhos. Havia outra coisa que me incomodava-na verdade, custava-me partilhar a pedra, por pura e simples ganância. Talvez a pedra trouxesse um vírus da ambição e infectasse todos que lhe tocam. Fosse o que fosse, o diamante de fogo afectava toda a gente da mesma maneira. Tal como uma pedra filosofal, a sua magia misteriosa lançava encantamentos.

Basta perguntar a quem já matou por causa dele - ou morreu

por ele.

Tirei o Coração do Mundo do bolso do roupão e dei-lho. Ela segurou-o contra a luz.

- Meu Deus, é um pedaço de fogo.

- Fogo dos deuses, atirado de uma estrela. É quase tão velho como a própria Terra. Levou mil milhões de anos a fazer e outros mil milhões a ser encontrado.

-Nunca tinha visto um diamante vermelho-rubi - declarou ela.

- São raros. Existe um junto ao Diamante Hope no Museu Smithsonian, mas é mais pequeno e não brilha tanto como o Coração. Não há igual.

- Ouvi dizer que o multimilionário da informática que comprou uma ilha havaiana te ofereceu uma fortuna por ele. Vais vender?

Estava coberta de inocência, como se não soubéssemos ambos que viera a Los Angeles pelo diamante. Se ela cá estava, João estava também. E ele não ia desistir enquanto não tivesse o diamante de fogo - ou um de nós estivesse morto.

- Não sei.

Mas sabia. Não o podia vender, assim como não podia cortar um braço ou uma perna e pôr no mercado. Não era como o dinheiro para mim, já que o dinheiro fora feito para se gastar; era algo que eu já dispensara e podia dispensar novamente. Os diamantes são como sexo: não esquecemos e nunca paramos de lamentar bom sexo, se desistirmos dele. E aquilo era como possuir a Mona Lisa. Nada se lhe comparava.

- João via-te como um filho, magoaste-o profundamente.

- Lamento, devem ter sido as balas disparadas pelos brutamontes dele que me causaram esta ingratidão.

- Não percebes, nunca percebeste. João tentava proteger-te. Ainda quer fazer algo por ti.

- E pode. Pode morrer brevemente. Ajudava-nos aos dois, não era?

Tirei-lhe o diamante e ela aproximou-se. Abriu-me o roupão e enrolou os dedos frios no meu pau. O sangue latejou-me nas veias. Roçou os lábios nos meus. O sangue incendiou-se e senti a tinta a encher-me o pincel. Queria afastá-la, mas era um fraco.

- Tive saudades tuas - sussurrou-me. -o

- Olá, mãe.

Jonny estava à entrada do quarto, nua.

Os olhos de Simone voltaram a mim.

 

Encolhi os ombros.

- Ela saiu da escola e veio cá lanchar antes de ir para cima.

 

Simone e Jonny foram-se embora, a discutir, a disputar momentos e lugares e coisas que nada significavam para mim. E sem o diamante. Mas o jogo mal começara - outra vez. Simone voltaria. Sabia agradar a um homem, acariciando-lhe o pénis como se fosse o melhor amigo dela. Até ter o que queria. E depois arrancava-lho à dentada.

Trouxeram o café. Fiquei na varanda e bebi o líquido que escaldava, a pensar no passado. Nova Iorque. Lisboa. África.

Havia agora algo estranho para mim nesses momentos e lugares, como as "vidas passadas" de que os budistas falavam, e as minhas recordações pareciam surreais.

Jesus, se aquela treta das vidas passadas fosse verdade, eu devia ter sido um assassino sanguinário noutra encarnação, para merecer o que me calhara nesta.

Apareceu uma mulher vestida para jogar ténis e olhou para mim, mas eu não estava virado para mulheres de branco.

A VIDA É DURA E DEPOIS MORRE-SE, dizia a sabedoria típica dos autocolantes para automóveis. Nunca pensei na vida como uma luta, nem mesmo quando me faltava o dinheiro e a sorte me era madrasta. No entanto, aprendera algo sobre mim próprio, algo que pareceria estranho às pessoas que tinham estado comigo. Tivera medo quase toda a vida.

 

Por isso é que me atirava sempre de cabeça em tudo o que fazia, por isso é que comigo era sempre tudo ou nada - Win não era apenas o meu nome, era a minha forma de vida.

Toda a vida vivera como se não houvesse amanhã.

Talvez não houvesse.

 

*. To win, em inglês, significa ganhar, vencer, triunfar.

 

NOVA  IORQUE

WIN LIBERTE,  LONG ISLAND,  1971

Quando era puto, havia uma coisa esquisita a respeito do assassinato do presidente Kennedy. As pessoas sabiam sempre onde tinham estado quando ouviram as notícias da morte dele. O meu pai disse-me que estava debruçado sobre um diamante no escritório, na esquina da West Forty-seventh com a Fifth Avenue, em Manhattan, a observá-lo à lupa, quando um dos sócios entrou de rompante e lhe disse que Kennedy tinha sido alvejado. O tio Bernie dizia que estava na retrete a ler boas notícias na página das corridas - o Last Chance dera-lhe dinheiro a ganhar na terceira de Belmont - quando a secretária escancarou a porta e gritou que o presidente estava morto.

Eu tinha a lembrança mais fácil de todas. No dia 22 de Novembro de 1963 estava a nascer dentro de um táxi na Broadway. A minha mãe apanhara o táxi à saída de casa, no Lower East Side, para dizer ao meu pai que eram horas de ir para o hospital. Eu tivera mau sentido de oportunidade, chegara tarde, com o taxímetro a contar, característica que me seguiria toda a vida.

 

A morte de Kennedy acompanhou-me pela infância fora. Parecia que mais nenhum presidente lhe chegava aos calcanhares, que mais nenhum inspirava a confiança que ele despertava nas pessoas. Devo ter ouvido o meu pai dizer cem vezes durante as administrações Johnson e Nixon: "Se Kennedy fosse vivo..."

Nunca me interessei por política, pelo que não sei se Kennedy foi um grande presidente ou a Grande Esperança para o povo. Todavia, como o povo cujos sonhos de uma grande América morreram com ele, os meus sonhos também custavam a morrer.

Quando tinha oito anos, o meu pai levou-me da salinha atravancada - já nos havíamos mudado para Long Island - para o pequeno escritório que tinha em casa. Ele era diamantista.

É o que se chama na indústria a um negociante de diamantes, gente agarrada aos cofres nas traseiras das casas um pouco por todo o mundo, que compra e vende diamantes na meia dúzia de grandes bolsas de diamantes do mundo inteiro.

A maioria dos diamantes transaccionada pelo meu pai consistia em pedras em bruto - ainda por lapidar, vinda das minas com terra agarrada. Era um negócio difícil, dos mais duros no mundo, uma actividade de nervos à flor da pele, em que um mau lance numa grande pedra poderia levar uma pessoa à beira do parapeito do seu prédio de dez pisos, a contemplar a rua lá em baixo e a pensar como seria embater no chão a cento e cinquenta quilómetros por hora.

O meu pai conduzia bem o negócio, com uma força tranquila. Não era pessoa para se entusiasmar nem enfurecer durante as negociações - era mais cerebral do que a maioria dos comerciantes que eu vira em acção. Quase se podia ver as engrenagens a rodar na cabeça dele quando avaliava um negócio. Contou-me que o pai dele o ensinou a observar o olhar de um comprador, porque se ele gostasse de algo, as suas pupilas dilatariam. Isto explica como o meu pai era, um homem subtil que podia tomar uma importante decisão com base na alteração infinitesimal de um olho.

Enquanto seguia o meu pai pela sala, as conversas em nosso redor eram abafadas, sem as gargalhadas e fanfarronices habituais quando tínhamos convidados. A minha mãe era portuguesa, e o meu pai, Victoir, dizia-se cigano porque vivia na América depois de nascer em Varsóvia, crescer em Marselha e casar em Lisboa. O meu pai adoptara o nome Liberte em França depois de fugir do gueto de Varsóvia, já que o seu nome judeu e polaco tinha um metro de comprimento. Foi também o meu pai que largou o acento no "e" quando chegou à América. Chamava-se assimilação, mas ele ainda pronunciava o nome como "Li-bertei".

A minha mãe era linda, com cabelo ruivo macio, calorosos olhos castanhos e pele cor de pérola. Eu herdei os olhos dela e matizes vermelhos no cabelo castanho. Lembro-me que ela era calada e delicada. Nunca levantava a voz, mas mandava na casa com o punho de veludo da sua vontade de ferro. O meu pai nunca discordava dela, pelo menos à minha frente, e eu nunca o ouvi levantar-lhe a voz.

Os miúdos não percebem o amor que os pais têm um pelo outro. Só depois de crescer e de gostar de uma mulher é que eu entendi o quanto a minha mãe significava para o meu pai. Naquela altura, só percebia o quanto ela significava para mim.

 

O meu pai sempre tratara a minha mãe com uma amabilidade e um respeito à moda antiga, quase como se ela fosse mais do que sua esposa. Talvez a tratasse de maneira diferente por ser muito mais velho do que ela. Eram vários os aspectos em que a tratava como se ela fosse uma flor delicada que só floresce muito pouco tempo. Não sabiam que a minha mãe sofria do coração até ela ficar grávida de mim e o médico lhe dizer que nunca mais arriscasse outra gravidez. No entanto, sempre fora uma mulher frágil. À sua maneira calma e analítica, acho que o meu pai sempre soube que um dia a iria perder.

No escritório lá de casa, o meu pai abriu um cofre cuja porta dizia "Acme Safe Company" e tirou de lá uma caixa de charutos. Da caixa tirou um papel dobrado sete vezes para fazer de bolsa para uma pedra preciosa. Ligou a luz da secretária e sentou-me nos joelhos, enquanto desdobrava o papel e revelava um diamante de dois quilates. Brilhava e reluzia, cinquenta e oito faces que transformavam a luz branca" num esplendor incandescente. Os diamantes têm o poder de reunir, domar e declinar cores brilhantes. Um diamante límpido e bem lapidado está tão cheio de luz e cor que parece uma chama de fogo reluzente. Deve ser por isso que se chama aos diamantes "a chama do amor". Aliás, quem for cínico poderá achar que lhe chamam assim porque muitos homens esperam algo em troca quando oferecem uma jóia a uma mulher.

- Conheci a tua mãe em Lisboa em 1957 - contou-me o meu pai. - Estava ela sentada numa esplanada no Rossio, a praça principal no coração da cidade. Eu não voltara lá desde que a guerra terminara. Fora um sítio muito aliciante durante o conflito, quando Portugal era neutro e havia milhares de refugiados como eu, homens e mulheres que fugiam aos nazis, caindo em Lisboa, Istambul e Tânger, na esperança de comprar documentos de viagem falsos para chegar à América.

"Um dia destes mostro-te um filme chamado Casablanca, para teres uma ideia de como era Lisboa durante a guerra, o desespero de não ter dinheiro nem papéis numa Europa em guerra. Esperava-se a todo o momento que Salazar, o homem forte do país, se aliasse aos nazis e nos entregasse ao bando de sequazes de Himmler.

"Por fim, lá consegui sair do país, cheguei a Inglaterra com documentos falsos e depois aos Estados Unidos. Depois disso, só voltei a Lisboa uma vez, para ir ao funeral de um velho amigo, um homem que me ajudou durante a guerra quando eu estava teso e a passar fome, um joalheiro que me deu umas gemas a crédito para eu poder fazer as primeiras negociatas em Lisboa quando era um refugiado com bolsos rotos. Chamavam-nos traficantes de algibeira, vendedores de gemas sem escritório nem loja, com a mercadoria nos bolsos, prontos a fazer negócio num café, num bar ou em qualquer esquina.

"Depois do funeral, passeava eu pela cidade, a rememorar tempos passados, quando a vi.

Acariciava a lupa enquanto falava. Tinha-a sempre consigo, fosse onde fosse. Era como um médico com a sua maleta - podia aparecer alguém a pedir-lhe opinião sobre uma gema. Os diamantistas faziam negócio em baptizados, casamentos, funerais e no meio da maior desgraça.

 

- A tua mãe tinha ido a um recital, era estudante de música, violinista, e acabara de actuar com os colegas. - Passou-me a lupa e uma pinça. - Olha para este diamante, diz-me o que vês.

Agarrei o diamante com a pinça e aproximei a lupa contra um fundo de papel branco. Não era a primeira vez que o fazia. Há miúdos que crescem com luvas de basebol, eu tinha uma lupa de joalheiro.

- É perfeita - disse eu.

- Sim, é perfeita, nem fendas, nem manchas, nada que lhe diminua a beleza. É como contemplar uma estrela. Foi o que eu vi da primeira vez que olhei para a tua mãe. Andava pela rua quando a Helena ergueu os olhos e sorriu ao que um amigo dissera. Eu olhei-a nos olhos, vi-lhe o coração e soube que era a mulher que amaria toda a minha vida.

"Win, nós judeus damos às nossas esposas um diamante perfeito quando casamos, para que o casamento seja perfeito. Todavia, o meu casamento foi perfeito porque a mulher com quem casei era uma jóia sem igual. - As lágrimas vieram-lhe aos olhos e ele baixou-os.

Deixei o meu pai debruçado sobre a mesa, a olhar para o diamante, a recordar aquela noite em Lisboa quando vira pela primeira vez a minha mãe. Abri a porta sem barulho e fui para a sala. Mantive-me rente à parede, pois não queria ser abraçado nem consolado por familiares. Havia um padre a falar com os portugueses da família da minha mãe e um rabino a falar com os amigos do meu pai. Vi dois parceiros de negócios dele a examinar um diamante num canto da sala. Não era considerado má educação, tal como falar de basebol. Era um negócio e uma forma de vida.

Passei para a salinha onde estava a minha mãe. Quando viera do hospital, o meu pai mandara pôr a cama dela naquela sala porque ela gostava mais da vista para a rua do que a do quarto deles, nas traseiras da casa. Ela recusara-se a ficar no hospital quando o coração começara a falhar.

Deixei-me ficar ao pé da cama.

Ela estava branca, pálida como eu jamais vira, tão branca que o cabelo parecia em brasa. Peguei-lhe na mão e mirei o diamante que tinha no dedo, o anel que o meu pai lhe dera ao casarem.

Chorei quando lhe toquei na mão fria.

 

MANHATTAN,  1974

- Quanto pesas, Win? - perguntou o tio Bernie.

Bernie era primo em segundo grau do meu pai, mas, como era muito mais velho do que eu, sempre lhe chamara tio. Era bom homem, dava nas vistas, tinha um rabo grande - dizia que era da gravidade, por estar sentado o dia todo, e não do que comia.

Estávamos nos escritórios do meu pai na West Forty-seventh Street, o Bairro dos Diamantes de Nova Iorque. A Casa Liberte e dois mil outros comerciantes tinham escritório no quarteirão da Forty-seventh Street, que ia da Fifth Avenue à Avenue of the Americas. Assim trabalhava a indústria dos diamantes, todos em cima uns dos outros, a fazer negócio nos corredores, na rua, a caminho do metro, ou a comer um sanduíche.

 

Não havia outro negócio assim no mundo, pois baseava-se na confiança absoluta. A matéria-prima de um comerciante era a sua palavra. Pedras que valiam pequenas fortunas passavam de mão em mão por negociantes que mal se conheciam, e a única coisa com que o vendedor ficava era um marcador a dizer que seria pago. Contudo, havia também um mundo sem garantias - comprava-se com risco próprio, quer fosse de um comerciante para outro quer numa loja. Podia comprar-se um diamante na West Forty-seventh Street a metade do preço das conceituadas lojas pela Fifth Avenue acima - Tiffanyos, Bvlgarios, Harry Winstonos, Cartier. E a paga era bem merecida - era melhor contar os dedos depois de fazer negócio no Bairro dos Diamantes. Havia sempre negociantes que "inchavam" o valor da pedra em um ou dois pontos ou que tinham "certificados" com tanta credibilidade como as licenças que os prega-dores vendiam nos anos 60 como fugas ao fisco.

Além disso, era o negócio menos pretensioso à face da Terra. Os

comerciantes trajavam de forma simples, os escritórios eram espartanos - eu chegava a pensar se não haveria algum concurso para ver quem parecia mais pobre. Talvez tivesse a ver com ser roubado ou assassinado. Homens de fato preto e chapéus de feltro ou barretes andavam de prédio em prédio, com pastas pretas muitas vezes sem nada a não ser o almoço deles, mas com pedras no valor de um milhão de dólares no bolso do casaco.

Os edifícios eram tão pouco pretensiosos como as pessoas. Os escritórios do meu pai não eram luxuosos, pelo contrário, pareciam tão feios e monótonos que podiam passar pelo modesto gabinete de um contabilista - salvo que a porta era de aço e o cofre tinha quase dois metros. Embora houvesse uma venda pontual a uma grande loja cliente, a maior parte do negócio era por atacado, trazendo diamantes de todo o mundo e comercializando-os com outros intermediários que os vendiam pela cadeia abaixo até chegarem final-mente à mão de uma mulher em Palm Beach ou Palm Springs. Da maneira como a conduta mundial dos diamantes funcionava, as pedras em bruto extraídas em minas sitas em África e no Brasil eram vendidas e lapidadas em Antuérpia, Telavive, Bombaim, e em menor grau em Nova Iorque. Os diamantes costumavam passar por várias mãos antes de chegarem ao balcão de uma loja e ao dedo anelar de uma mulher.

Era um negócio difícil. Bernie dizia que, para se triunfar, era preciso saber dissuadir um cão de seguir uma carrinha do talho.

Mudámo-nos para a cidade depois de a minha mãe falecer. Eu ia ao escritório quase todos os dias depois das aulas e costumava aprender algo sobre diamantes com o meu pai ou com Bernie. O meu pai dizia que não me queria criar num aquário porque um dia eu haveria de nadar com tubarões, de modo que me mandou para uma escola pública multirracial, multicultural, o tipo de sítio em que não se contava aos colegas que o pai era diamantista porque eles arranjariam maneira de nos espremer.

- Talvez 50 quilos, talvez mais.

- Errado! Pesas 225.000 quilates. Lembra-te disso, meu amigo, não são quilos, são quilates.

-Vão achar-me esquisito se eu disser o meu peso em diamantes.

- Ha! Ha! Ha! Não serias o primeiro, sabes? Havia um príncipe indiano que recebia o próprio peso em diamantes todos os anos no seu aniversário... ou seria em ouro?

 

Deixei Bernie a ponderar a questão do ouro e dos diamantes, se o príncipe se teria ou não empanturrado antes de o pesarem, e fui para o escritório do meu pai. O cabelo embranquecera-lhe antes do tempo com a morte da minha mãe e o rosto ficara fino e macilento por ter emagrecido, o que o fazia parecer mais velho do que os seus cinquenta e quatro anos. Já tinha trinta e muitos quando casara com a minha mãe. Dizia que esperara tanto tempo para casar porque procurava a pedra mais preciosa. Encontrara-a e perdera-a, e agora parecia definhar.

Dois anos depois de a minha mãe falecer, ele voltou a casar, não por amor mas sim por sentido de responsabilidade. Tinha um filho para criar, andava imerso em trabalho e sentia que eu precisava de uma mãe. Rebecca, a minha madrasta, também tinha um filho, cinco anos mais velho do que eu e a anos-luz de diferença. Eu ia ao Bairro dos Diamantes quando o meu pai me mandava, mas gostava mais de miúdas e da minha prancha de windsurfdo que de pedras frias. A paixão de Leo era diamantes e dinheiro. Há miúdos que sonham ser bombeiros ou médicos, o Leo queria ser comprador convidado. Uma das bizarrias na indústria dos diamantes é "o Sindicato", o cartel africano dos diamantes De Beers, a mandar em tudo a nível mundial e a controlar a oferta e a procura para manter o preço em alta. Aliás, só vendem diamantes a um grupo selecto, menos de duzentas pessoas em todo o mundo têm o privilégio de receber convite para comprar diamantes ao cartel. As compras tinham lugar em Londres e não podiam realizar-se nos Estados Unidos porque o Ministério da Justiça considerava a De Beers um monopólio. A remanescente massa de negociantes de diamantes transaccionava os restos.

O meu pai tirou uma pedra em bruto da sua bolsa e pô-la na secretária.

- Diz-me o que te parece.

A maioria dos pais zela para que os filhos aprendam o Bê-a-Bá, o meu queria que eu aprendesse os Cês " Quê: clareza, cor, corte e quilates-peso, quando avaliava uma gema acabada. Os Cês " Quê também se aplicavam quando se queria ver a gema oculta pela pedra

ao lidar com material em bruto. E o material em bruto era a matéria-prima do meu pai. Comprava-os em bruto, lapidava-os e vendia-os ao comércio.

A melhor maneira de examinar um diamante é com boa luz e contra um fundo branco. Se estiver lapidado, tem de estar fora de qualquer engaste, porque o ouro ou a prata dificulta a avaliação.

Eu começava pela clareza para determinar a limpidez da pedra, olhando-a a olho nu para ver se estava livre de manchas superficiais e inclusões internas. "Perfeita" é palavra mágica no negócio, e aqui começa a escala, passando por imperfeições tão diminutas que ninguém inexperiente as pode detectar, até outras tão grandes que se podem ver sem os dez graus de ampliação de uma lupa de joalheiro.

Havia manchas e inclusões visíveis a olho nu. Apareceram mais quando aproximei a lupa. Fosse qual fosse a lapidação, haveria tantos defeitos que a pedra seria desclassificada, com imperfeições visíveis a olho nu.

Em seguida verifiquei a cor, deixei a luz passar por ela e iluminar o papel. Há negociantes que sacam de um cartão de visita, dobram-no e colocam o diamante no meio para verificar a cor.

 

Com a maioria das pedras preciosas - rubis, safiras, esmeraldas - quanto mais cor, melhor. Com os diamantes é exactamente o contrário. Os diamantes mais raros e caros são incolores, o que significa que brilham mais porque nada bloqueia a luz. A tabela começa em incolor e desce por vários tons de amarelo, devido ao conteúdo em nitrogénio, até chegar aos diamantes industriais. O amarelo au-menta e o valor da gema decresce.

Uma gema totalmente incolor recebia a classificação "D", e não A,ou C. Descendo a escala, um "D" de um quilate (incolor) podia valer cinco vezes mais do que um "M" de um quilate (amarelo-claro) - mas os diamantes eram tão caros que um "M" de um quilate ainda podia custar milhares!

O que eu examinava estava no final da escala cromática, um amarelo-sujo e enevoado.

- Diz-me mais sobre cores - pediu o meu pai.

- A cor é uma coisa esquisita... um pouco de amarelo desvaloriza, mas muito amarelo encarece.

Se a gema estivesse mesmo saturada de cor, o valor subia. Amarelos-canário verdadeiros, verdes, azuis e rosas eram chamados diamantes "fancy", disse eu ao meu pai. Eram raros e valiosos. Os grandes diamantes fancy podiam vender-se nas leiloeiras Christieos e Sothebjs por milhões, como os quadros dos grandes mestres.

- E um diamante vermelho, tem valor? - perguntou o meu pai.

- Nunca vi um diamante vermelho.

- Nem tu nem muita gente. Dizem que não há verdadeiros vermelhos-rubi, somente vermelhos-acastanhados e rosas-escuros. Mas eu tive um vermelho-rubi, o diamante vermelho mais fogoso jamais encontrado, era como ter um pedaço de fogo na mão, uma estrela. Foi há muito tempo, antes de nasceres, antes de conhecer a tua mãe.

- Que aconteceu?

- Foi roubado em Lisboa, mas nunca o esquecerei. Tal como a tua mãe, era incomparável. Então, qual é a tua avaliação deste diamante?

- Lixo! - declarei. - Má cor, com imperfeições tão evidentes que nem é preciso lupa.

- Não, não é lixo. Todos os diamantes têm valor, este só não tem tanto como outros. Até os diamantes sem qualidade de gemas são valiosos para fins industriais. Não comeces a pensar que todos os diamantes têm que ter clareza e nenhuma imperfeição. Comercializamos graus diferentes para carteiras e gostos diversos. Muitos joalheiros dizem que um homem deve gastar dois meses de ordenado para comprar um anel de noivado. Já viste quão diminutos seriam os anéis se fossem todos perfeitos?

- Mas seriam um bom investimento. Disseste-me que a maioria dos diamantes vendidos neste país tem demasiado amarelo para aumentar o valor.

- É certo, mas os americanos gostam de pedras grandes, mesmo de qualidade inferior, ao passo que os japoneses preferem gemas de alta qualidade, embora mais pequenas. Talvez seja por isso que a nossa taxa de divórcios é tão elevada. Diz-me mais sobre esta pedra. De que tamanho é?

Pu-la numa balança para diamantes. Os diamantes eram vendidos a peso e não pelas dimensões físicas. O facto de terem um sistema de pesagem próprio era outra característica única do seu universo. A palavra "carat"(*) vem de "carob", um substituto do chocolate. Na índia e no Mediterrâneo, os diamantes eram pesados com grãos de alfarroba de um lado e diamantes do outro. Eu não sabia porque usavam grãos de alfarroba, talvez porque tivessem um peso mais uniforme. Todavia, nos tempos modernos era um método pouco prático e a indústria diamantífera acabou por normalizar um "quilate" em duzentos miligramas. Bernie calculava facilmente o meu peso em quilates porque havia cinco mil quilates num quilo.

No negócio, os quilates eram divididos em "pontos", sendo que cem pontos representavam um quilate. Um diamante de cinquenta pontos pesava meio quilate, setenta e cinco pontos era igual a três quartos, e assim sucessivamente.

- Cento e doze pontos, pouco mais de um quilate - disse eu.

- Óptimo, mas esse é o peso da pedra por lapidar. Temos de saber quanto pesará depois de lapidar. Como é que o farias?

Era uma pergunta armadilhada. O que sabe um miúdo de onze anos de lapidação de diamantes?

Levei a pedra para outra mesinha e comecei a examiná-la com luz mais forte. Sabia o esquema, examinar a pedra à lupa, procurar o veio, as linhas de segmentação, descobrir exactamente o ângulo de corte certo. Quando se via um diamante acabado, era difícil imaginar que fosse esculpido de pedras toscas como a que eu tinha na mão.

O mais importante da lapidação era ser capaz de visualizar o produto acabado. O meu pai ensinou-me que quem decide onde segmentar, serrar e desbastar diamantes no respectivo suporte de apresentação tem de imaginar a gema "dentro" da pedra antes de começar.

- Imagina que és um raio de luz - dizia o meu pai quando me dava uma pedra para lapidar. Era o que importava, a luz a passar

 

*. Carat - palavra inglesa para quilate; carob - alfarroba. A tradução aqui não faria sentido, pelo que se optou por manter as palavras inglesas. O resto da explicação segue com os equivalentes portugueses. (N. do E.)

 

pela pedra. Se pudéssemos visualizar exactamente como a luz reagiria dentro do diamante, saberíamos como o lapidar para lhe enaltecer o brilho.

A primeira coisa a saber era que o brilho, a radiância a que se chama fogo do diamante, os lampejos de luz, não vêm da luz que o diamante reflecte, mas sim da luz que entra nele e que é processada "dentro" dele. A lapidação era tão importante como os primeiros dois Cs - cor e clareza. Os três laboram em conjunto para criar uma gema espectacular.

Um diamante divide-se em três partes - a parte maior, no centro, onde se engasta num anel chama-se cintura. A área acima é a coroa, e a área abaixo da cintura é o pavilhão. Há que imaginar um feixe de luz a entrar no diamante pelas faces da coroa e a passar pelas faces do pavilhão, a luz refractada em diferentes cores, como se passasse por um prisma. A luz reflectida no pavilhão é o brilho fogoso que se vê.

 

Não é possível ir cortando pedacinhos até obter a forma habitual de um diamante. Embora a maioria das pedras seja lapidada para criar cinquenta e oito faces, trinta e três na coroa e vinte cinco no pavilhão, cada pedra é única, e a lapidação de uma em bruto exige um estudo aturado. Nem sempre sai da maneira que o lapidário pretende. Por isso é que há diamantes que não são a pechincha que parecem no papel. Duas pedras com a mesmíssima classificação de peso, clareza e cor podem ter um brilho significativamente diferente devido à maneira de extrair a gema da pedra. Regra geral, começa-se com uma pedra de três quilates para acabar num diamante de um só quilate. Poder-se-á lapidar um quilate a partir de uma pedra mais pequena, digamos, com dois quilates de peso, mas não se obtém o mesmo fogo da mais pequena, embora esta tenha as mesmas características. É frequente que o formato e tamanho da pedra sejam determinados por uma lapidação que trabalha com defeitos e os sabe contornar.

Eu não ia ganhar a vida a lapidar, mas se seguisse as pisadas do meu pai e me tornasse negociante de diamantes, de cada vez que examinasse material em bruto para ver se o queria comprar, teria de ter em mente o maior "C" de todos - o custo. Teria de ver a gema em bruto com uma precisão que determinasse quanto deveria pagar - e quanto alguém pagaria por ela.

Foi assim que fui treinado, começando sempre por ver a gema oculta na pedra, imaginando ser um feixe de luz e seguindo-o a entrar e a ser processado, a ver como as faces iriam refractar e disseminar a luz para calcular o corte ideal.

Depois de saber onde cortar, marcava-se a pedra com tinta para mostrar onde iria ser aberta, serrada e desbastada. Com uma lâmina e um martelinho, a pedra seria cortada exactamente na abertura para se abrir correctamente. Bastava um cabelo de diferença para estragar ou até mesmo esmigalhar a pedra. É este o paradoxo dos diamantes - são duros, mas não resistentes. São a substância mais dura à face da Terra - toda a gente sabe que um diamante só pode ser cortado por outro. Pode pôr-se um diamante numa bigorna e bater-lhe com um martelo, empurrando o diamante incólume pela bigorna adentro - mas é igualmente provável que se esmigalhasse, porque é o que acontece a um diamante quando se faz pressão nas linhas de abertura.

- A lapidação de diamantes começou na índia - dissera o tio Bernie numa aula anterior. - Sabiam que os diamantes são duros, o bastante para penetrarem numa bigorna se os martelassem, mas também descobriram maneiras de esmigalhar diamantes, com marteladas repetidas até acertar com o veio e os partir. Embru-lhavam as pedras em folhas de chumbo e partiam-nas à martelada. Tiravam pedaços aguçados e incrustavam-nos em espadas com o ferro quente quase a derreter. Criavam assim espadas que podiam cortar aço.

Levei a pedra para a outra sala e estudei-a durante uma hora, a olho nu e à lupa. Quando descobri como deveria ser lapidada, marquei as linhas a tinta. Depois dirigi-me ao meu pai.

- Eu faria um corte oval em quarenta pontos. Perder-se-iam quase dois terços da pedra, recuperando parte em areia. - Areia eram pequenos diamantes, geralmente abaixo dos dez pontos. Tudo o que estivesse abaixo de cem pontos, um quilate, era pequeno. - Tem uma falha. Eu cortava-a, levando cerca de um quarto da pedra. Se a deixar ficar, a pedra é capaz de abrir durante a serração e o desbaste necessários para facetar.

A falha poderia retirar-se abrindo a pedra. Era procedimento que exigia lâmina e martelinho para separar parte de um diamante, é o processo que a maioria das pessoas conhecia como lapidação. Abrir a pedra é a maneira como se faz nos filmes, mas na vida real a maioria da modelação faz-se em longas horas de serrar e desbastar. No entanto, era arriscado abrir a pedra, porque se podia esmigalhar.

Passei o resto da tarde, e do serão desse dia, e todas as horas livres entre as aulas e o sono da semana seguinte a examinar o dia-mante e a prepará-lo para o corte. Falei sobre o diamante com o meu pai, Bernie e Emile, um lapidário que trabalhava para o meu pai. Pu-lo numa taça de cobre chamada dop e usei outro diamante para lhe abrir um entalhe. Dado que só se pode cortar um diamante com outro, usei um pontiagudo para abrir o entalhe de que precisava para colocar a faca de abertura. Cortara vários diamantes indus-triais, treinara neles antes do grande dia em que tivesse de cortar algo de maior valor.

Quando chegou a altura de fazer a abertura à frente do meu pai, comecei a cortar, o diamante montado e entalhado, de martelinho numa mão e faca de abertura na outra. Antes de dar o golpe, olhei para o meu pai.

- E se o esmigalhar? - indaguei.

- Nunca conhecerás o fracasso se não tentares, nem o sucesso sem sentir o fracasso.

- Então não interessa que o esmigalhe?

- Claro que interessa. Esse diamante vale um ano inteiro de mesada. Se o esmigalhares, tens de cá vir todos os dias depois das aulas, durante um ano, para mereceres a mesada.

- Não é justo.

- É a vida. Vais aprender uma coisa quando fores crescido: a única justiça que terás neste mundo é a que lutares para alcançar.

- Por que é que tenho de aprender a lapidar diamantes? - Sabia a resposta, mas em miúdos estamos sempre a apalpar terreno, à espera da resposta que queremos. - Não quero lapidar diamantes quando for grande.

- Tens de conhecer o negócio, cada centímetro dele. Caso con-trário, vão aproveitar-se de ti, deixar-te ficar mal se forem incom-petentes.

Conhecer cada centímetro era coisa com que ele me massacrava. Como quando ganhei uma corrida de bicicleta. Antes de me deixar participar nela, obrigou-me a desmontar a bicicleta e a montá-la outra vez até que o pudesse fazer de olhos vendados. - É assim que se fazem soldados - dizia ele. -Vivem com as espingardas dia e noite, de modo que têm de ser capazes de as desmontar e montar outra vez às escuras.

Pousei o martelo e limpei as mãos suadas.

- Consegues imaginar como se sentia antigamente um lapidário, quando cortava uma pedra que valia o resgate de um rei? Era frequente estudarem o diamante durante um ano ou mais e que tivessem um médico presente no caso de a pedra se esmigalhar.

- E o médico consertaria a pedra partida?

 

- Não, o médico estava lá para tratar o lapidário do diamante esmigalhado.

Contou-me a estória de Joseph Asscher, o lapidário de Amesterdão que cortou o diamante Cullinan, o maior do mundo, para o rei Eduardo VII em 1907. O diamante tinha 3106 quilates, mais de quatrocentos gramas, e era quase do tamanho do punho de um homem, e a realeza queria-o dividido em pedras mais pequenas, algumas para a coroa e o ceptro. Asscher tinha um médico e uma enfermeira presentes quando ergueu o martelo e o deixou cair para abrir o diamante. Depois desmaiou assim que a pedra se abriu regularmente.

A parte da história que eu mais gostava era a da expedição para a Grã-Bretanha. Quando o Cullinan foi descoberto na África do Sul e se decidiu enviá-lo para Londres para ser lapidado para o rei, os donos da mina elaboraram uma charada complexa de expedir o diamante numa caixa de ferro sob pesada escolta - mas na realidade enviaram-no por encomenda postal e franquia de três xelins. Os negociantes de diamantes ainda usavam o mesmo tipo de truques para expedir pedras pelo mundo fora.

Voltei a pousar o martelo, levantei-o e deixei-o cair novamente.

O diamante esmigalhou-se. Olhei para os pedaços com o coração pesado. Quando ergui os olhos, o semblante do meu pai não tinha expressão.

- Quero outro - disse eu. - Quero outro diamante para cortar. Os lábios esboçaram um sorriso.

- Está bem, mas vais andar descalço se o partires.

 

LONG  ISLAND SOUND,  1991

Há mulheres que adoram velocidade. Qualquer coisa desponta nelas que desencadeia mais desejo do que o toque de um homem. A mulher do banqueiro era uma delas. Estava sentada à minha frente, no cockpit do veleiro, a molhar as cuecas quando o vento e o mar nos fustigavam. Os veleiros não andam muito mais depressa do que um nadador de crawl, mas quando apanham um golpe forte e temos que nos segurar para não cair borda fora não difere muito da sensação de rodopiar em direcção à Terra numa avioneta de recreio.

- Isto é tão excitante! - gritou ela.

Eu bem via. Abria cada vez mais as pernas com cada grau que eu inclinava o barco. Viam-se as cuecas cor-de-rosa e uma linha de pêlos públicos na braguilha dos mini-calções que ela trajava. Tinha a boca aberta, convidativa. Queria alguma coisa, eu só não sabia onde a queria primeiro.

Ouviu-se um horrível gemido pela escada acima, vindo da cabina, e depois uns sons ofegantes e de náusea quando o marido dela vomitou.

Dizem que só há dois tipos de marujos - os que já enjoaram e os que ainda vão enjoar. No entanto, Barney, o marido dela, constituía um terceiro tipo - enjoara ainda antes de termos deixado a doca. Quando já tinha os olhos tortos de tanto vomitar as tripas, eu levei-o para baixo, para um beliche, e apertei-o com cintos antitempestade para o manter no lugar. Da última vez que fora ver como estava, tinha caído do beliche e rebolava no próprio vómito.

- Mais depressa - guinchava ela. - Eles estão a apanhar-nos. Este "eles" referia-se ao Edge Fund, um cúter de quinze metros, nosso companheiro de corrida. Devia ter batido o meu, que só tinha doze metros. Sendo o vento e a corrente os mesmos, a velocidade de um veleiro é determinada pelo comprimento do casco.

Ora, isto é como dizer que o desempenho de um taco de golfe é determinado pela qualidade do fabricante. Dois marujos com capacidades desi-guais não tiram o mesmo desempenho de um barco, assim como dois golfistas não atiram a bola à mesma distância se usarem o mesmo taco. O capitão do Edge Fund, Nolan Richards, não tinha tomates nem instinto para me ultrapassar. Meia hora antes, seguira o protocolo, ficando na linha de vela e esperando por vento irregular e cheio de buracos. Era a ideia convencional, esperar pela velha brisa, porque se cortarmos a água à procura de vento melhor perdemos tempo e distância. Todavia, os bons marujos também sabem que o vento tem personalidade própria, como as mulheres, algumas desenvolvem e outras ficam-se pela provocação. À minha maneira, não se ganham corridas por cumprir regras, temos que nos adaptar às condições. A minha experiência no Sound diz-me que um vento Leste passa para Su-sudoeste quando as tabelas das correntes dizem que a maré estará cheia. Por isso apanhei esse vento. O Edge Fund também o apanhara, finalmente, mas já era tarde para cobrir a distância.

- Que ganho eu se vencer? - gritei-lhe de volta.

Ela assentiu e lambeu os lábios. Tinha a cara quente e vermelha, os lábios vermelhos e carnudos como os de uma vulva excitada.

Percebi e dei-lhe mais vela. Quando girava o cabrestante, os gemidos e náuseas do Barney ouviram-se pela escada acima. Tive pena do desgraçado. Quem nunca enjoou no mar não sabe a miséria que é. Não que o gajo me interessasse. A viagem era de negócios. A minha namorada Katarina pedira-me que levasse Barney e a mulher a passear no meu veleiro para se divertirem. Ela também devia cá estar, mas atrasara-se numa sessão fotográfica para a Vogue e não viera a tempo.

Katarina é modelo com vontade de ser estrela de Hollywood. Barney é um pançudo de um vice-presidente de um banco de investimentos que financia filmes. Um encontro talhado no céu, achava Katarina. Eu achei o homem uma seca, e recordava-me demasiado Leo, o filho da minha madrasta. Quando o meu pai e a minha madrasta tinham morrido num acidente quinze anos atrás, eu herdara um negócio de diamantes que não tinha vontade nenhuma de gerir.

Deixei-o nas mãos de Leo e do tio Bernie. Eles diziam que eu devia achar que era dono do Citibank, porque esse era o nome nos cheques do fundo de investimento que me chegavam todos os meses e me mantinham os carros desportivos, o veleiro e um apartamento no edifício Dakota, no Upper West Side.

 

Houve algo negro que entrou em mim quando perdi o meu pai poucos anos após a morte da minha mãe: um verme chamado fatalismo. Nunca se sabe quando as Irmãs Negras, as Parcas, nos vêm agarrar pelos tornozelos e nos puxam sete palmos debaixo da terra, pelo que é melhor espremer todos os bocadinhos suculentos da vida. Significava isto, em suma, que eu me estava a marimbar para tudo e só queria gozar bem. Não, gozar "à farta", gozar bem é para o peixe miúdo.

Por vezes, quando saía de farras homéricas, acordava de madru-gada e perguntava-me o que o meu pai teria pensado da minha vida. Nenhum dos meus pais vivera o bastante para espremer todas as alegrias da vida. Não obstante, afastava logo a culpa, pois não queria estar no meu leito de morte a carpir uma lista de coisas que nunca fizera.

A mulher do banqueiro apontou o polegar para a escada aberta e riu-se. Era um casamento talhado no céu também. Ele era rico e uma seca - ela tinha gostos dispendiosos e estava aborrecida. Era uma loura suculenta, madura e sumarenta, de cona quente - e o mais certo era que ele tivesse um ataque cardíaco se lhe dessem uma boa queca.

- Ela está a zelar pela saúde do marido - teorizara Katarina. - Fode outros gajos para não dar cabo dele.

Dei mais vela e o lado sotavento do barco afundou-se mais na água. As ondas rebentavam na proa e a espuma atingia-nos em cheio. A loura ria-se como uma bruxa a gozar uma trip de Ecstasy. Na parte alta do cockpit, abriu as pernas para se segurar quando o barco querenou mais um pouco. Agarrou-se às cordas com uma mão e meteu a outra dentro dos calções, a massajar o clitóris como se fosse o manipulo das mudanças do meu Bugatti.

Largou-se das cordas e caiu em cima de mim. Eu estava sentado atrás do grande timão e ela aterrou com os joelhos no chão do cockpit e as mamas no meu colo. Endireitou-se e abriu-me o fecho dos calções.

Meteu a mão e encontrou o inchaço. Libertou-o das amarras e o meu enorme e pulsante falo irrompeu para ela.

- É por isto que lhe chamam cockpit - disse eu.

Ela meteu-o na boca de uma assentada. Tinha a boca quente e húmida. Eu estiquei-me para lho empurrar pela garganta funda.

- Oh, Deus, estou a morrer!

O marido verde-ervilha subira pela escada de escotilha acima até chegar ao cockpit. Olhou para nós, atarantado e com os olhos tortos. Estes encheram-se de lágrimas e a cara contorceu-se-lhe quando as entranhas explodiram e o vómito lhe saiu boca fora.

Katarina estava à nossa espera na doca. Agarrou na bagagem do casal enquanto eu ajudava a loira suculenta a sentar o banqueiro no banco de trás do carro. Katarina desfez-se em atenções com o tipo até a mulher pôr o carro a trabalhar. Antes de arrancar, a loura lançou-me um olhar carnal.

- Que raio fizeste tu? Comeste-lhe a mulher e tentaste matá-lo?

- perguntou Katarina.

Há mulheres que lêem um gajo como se ele fosse transparente. Talvez seja por Katarina ser ruiva. Bruce Springsteen tinha razão acerca das ruivas - she can see every dirty thingyou do. O tio Bernie diz que me sinto atraído por ruivas porque perdi a minha mãe, linda e ruiva, com tenra idade. Prefiro pensar como Toulouse-Lautrec, que dizia que as ruivas têm um cheiro característico que lhe despertava mais desejo do que o das louras ou morenas. Lá porque o gajo tinha as pernas curtas não quer dizer que fosse todo atrofiado

- tinha uma verga tão grande que as prostitutas lhe chamavam "Cafeteira".

 

Este pedaço de história da arte foi tudo o que aprendi em Intro-dução à História da Arte antes de abandonar a faculdade. E foi por ter comido a professora, uma poldra azeda destacada pela Sorbonne.

- Não vi o teu lindo traseiro enquanto te entretinha os convidados - disse eu a Katarina.

- A sessão nunca mais acabava, mas, olha, tenho óptimas notícias. Vou para Hollywood fazer uma audição. Não é uma maravilha?

- Espectacular! - Abracei-a, levantei-a no ar e dei-lhe um grande beijo.

- A tua boca sabe a pila - disse ela -, à tua pila. Resíduos daquela cabra loira?

Lambi os lábios. Sabiam ao bâton de cereja da loira. Ela estava a experimentar-me, a ver se eu caía e assumia a culpa.

- Nah, estás a ver se pega. Comi um rebuçado de cereja.

- Pois, e sei muito bem onde estava embrulhado.

- Anda lá, dou-te boleia.

- Eu vim no meu carro...

- Mando-o de camião para a cidade.

As poucas centenas de dólares que o camião custava não eram nada. O importante para mim era o dinheiro pagar mais uns momentos de prazer. Não trabalhara um único dia na vida e tinha orgulho nisso. Os cheques chegavam todos os meses da Casa Liberte como um relógio. Bernie não era nenhum génio financeiro, embora fosse bom e estável, mas tinha Leo para o ajudar. Sempre a trabalhar no duro, homem da massa com duas mãos direitas, Leo era tudo o que eu nunca quisera ser.

Ela, blá, blá, a Katarina continuava a falar da audição no caminho para o carro. Não é que a censure. A cara dela tinha estado nas capas de todas as revistas do país, para não falar do cu nas páginas centrais de revistas que se vendem dentro de sacos de papel castanho. Viera de Praga para a América, elevando-se acima da pobreza do Leste europeu com a facilidade de qualquer mulher bonita. Trabalhava muito, levava a carreira a sério e fazia o que tinha a fazer para triunfar. Aliás, desprezava a minha ética de trabalho. Mas que diabo, eu também não gostava assim tanto dela.

- Não sei se tenho talento. Já houve modelos que tentaram, mas não têm telegenia. A câmara de filmar tem vida própria, é diferente das fotos fixas. É um animal que nos devora se não gostar de nós.

- Vais ver que tens talento.

-Tu devias ir para Hollywood, podias entrar em filmes, também - disse ela. - Não és bonito, mas tens uns olhos sedutores, como aquele actor das latas de espaguete.

Levei um minuto a perceber que o gajo das latas de espaguete era o Paul Newman. Que sorte a minha, ser comparado ao Newman em qualquer aspecto, embora também já me tenham dito que me pareço com um actor ainda mais velho, de quem ninguém ouviu falar hoje em dia, John Garfield. Só que eu tenho uma cicatriz no meio do queixo que me ficou do mergulho que dei de frente com a minha primeira moto numa árvore.

Ficaríamos afastados cinco mil quilómetros se ela fosse para Hollywood, mas para mim Katarina era mais uma boa queca do que uma alma gémea. Além disso, dava-me uma desculpa para ir mais vezes à Costa Oeste ver as modas. Até podia comprar uma casa na praia de Malibu.

O meu Bugatti tinha 553 cavalos, ia dos zero aos noventa quilómetros em 3,7 segundos. Katarina ficava esmagada no assento devido à aceleração. Quando o corpo se habituou ao carro, inclinou-se para mim e esfregou-me a braguilha.

- Vamos foder quando chegarmos a tua casa - disse. - Está para me vir o período e estou cheia de tesão.

Que dizia eu da velocidade?

Quando chegámos à Long Island Expressway, liguei para o atendedor de mensagens de casa.

- Mas que raio? - disse eu depois de ouvir a única mensagem. -Que foi?

- Era a Grande Berta, a secretária de Bernie. Parecia histérica,dizer para lhe telefonar imediatamente.

Telefonei a Berta e ela disse-me logo tudo.

- Ele está morto, matou-se.

Não me passava pela garganta nem me entrava na cabeça. Bernie, morto? Suicídio?

- Ela disse porquê? - perguntou Katarina quando desliguei.

- Não, estava histérica de mais.

Tentei ligar a Leo para ver se ele sabia alguma coisa, mas não estava. Tinha pena de Bernie. Era um gajo porreiro, mesmo que a nossa relação familiar não fosse das mais chegadas; ele era como o tio velho que eu só via nas férias. Depois de o meu pai morrer, Bernie ficara um pouco inchado, como director da empresa de diamantes que o meu pai construíra. Eu não me importava com isso, desde que o dinheiro continuasse a pingar, mas afastámo-nos, sendo os cheques do fundo e os levantamentos ocasionais para despesas maiores a nossa única ligação.

- Bernie tinha problemas com mulheres? - perguntou Katarina.

- Não, é divorciado. Tinha uma namorada que vive em Staten Island, mas nada sério. Há séculos que andavam juntos.

- Cancro?

- Que eu saiba não, gabava-se de ter uma saúde de ferro.

- Merda.

- Merda o quê? -

- Disseste-me que Bernie controla o teu fundo?

- Não há crise, poderá ser outra pessoa a fazê-lo, Leo, talvez. Não gosta de mim, mas Bernie recebia bem para tratar do dinheiro e Leo não deixava fugir uma nota nem que estivesse enrolada na pila de um crocodilo.

- Não é isso que me aflige. Amor, dinheiro e o grande C.

- O quê?

- Amor, dinheiro e cancro. São as únicas razões que levam um homem a matar-se. Se ele tinha problemas de dinheiro e adminis-trava o teu... Win, poderás ter problemas também.

Problemas de dinheiro? E que raio percebia eu disso? O único problema que eu tinha com dinheiro era encontrar uma faca para abrir o envelope mensal que vinha com o remetente do Citibank.

- Caraças, Win, estás com má cara. Esforcei-me por conter as lágrimas.

- Foda-se, já houve muitas mortes na minha vida. Não vou chorar pelo Bernie. Não vou chorar por mais ninguém.

 

Deixei Katarina em casa e telefonei a Berta, que me deu o nome e o número do agente que investigava a morte, um detective Leonard. Liguei-lhe a caminho de casa. Depois de passarmos os preliminares de quem eu era e a minha relação com Bernie, perguntei como tinha ele morrido.

- Atirou-se da janela do apartamento - disse ele. - Cinco andares.

- Da janela abaixo. Não tem varanda.

- Nem um parapeito onde se apoiar. Arrastou-se e deixou-se cair. De cabeça para baixo.

Credo. De cabeça para baixo. Que velocidade se atinge a cair cinco andares? Duzentos quilómetros por hora? Trezentos?

- Tem a certeza de que foi suicídio? Não pode ter sido acidente?

- O seu tio-primo, ou lá o que era, não era um gajo pequeno.

E as janelas não são altas. Abrem para cima e não para os lados. Ele tinha mesmo de se arrastar pela janela e deixar-se cair. Não é como se pudesse ter tentado alcançar alguma coisa, escorregado e ups, caído da janela abaixo.

Ele tinha razão. Bernie tinha pneus do tamanho de presuntos. As janelas do apartamento são velhas e pequenas. Caraças, duvido até que as abrisse. Não era gajo que apreciasse ar fresco.

O detective fez-me as mesmas perguntas sobre a saúde, as finanças e os amores de Bernie que Katarina fizera. Fez-se silêncio quando terminou e eu preenchi-o com uma divagação.

- Não percebo - disse eu.

- Eu sei. É difícil compreender suicidas, mas é gente encostada à parede, que distingue a floresta das árvores. Só conhecem o problema que enfrentam. O suicídio é uma coisa violenta e feia para nós. Para eles, é uma libertação.

- Não, não é isso que não percebo. Bernie não era do tipo de se arrastar por uma janela abaixo.

- Amigo, nunca se sabe enquanto não se passa por isso.

- Não é do que lhe ia na cabeça que estou a falar, mas sim do método. Era mais do género de se meter na banheira com um aquecedor eléctrico na mão ou até de tomar comprimidos. No momento em que olhou pela janela e viu a rua lá em baixo, ter-se-ia acobardado, vomitado as tripas e tudo.

Parei, deixei a ideia assentar-me na cabeça e disse:

- Sabe, é que Bernie tinha medo das alturas.

Tinha uma mensagem no atendedor quando cheguei a casa. Era do meu advogado a dizer que fosse ter com ele na manhã seguinte. Só a mensagem já significava más notícias. Ele devia precisar de me contar a morte de Bernie.

 

- Está falido.

Olhei para o meu advogado como se ele tivesse saído das páginas de uma história de terror de John Farris. Com uma faca ensanguentada na mão. Estávamos no escritório dele no décimo quarto andar do Edifício Flatiron, que tinha a forma de uma fatia de queijo na Fifth Avenue.

- Falido? Eu sou milionário.

- "Era" milionário. - O advogado estalou os lábios. Fazia-me lembrar o cangalheiro que enterrara o meu pai. Um peixe miúdo que gosta de parecer compreensivo mas que na verdade adora ver os outros mal.

- Como é que isso é possível?

- Entregou toda a gestão do seu fundo a Bernard. Ele fez maus investimentos.

 

- Não entreguei porra nenhuma. Foi o meu pai que o designou

curador.

- Você passou a idade do fundo aos vinte e um anos. Nessa altura, tinha o direito de acabar com ele e de assumir o controlo, mas preferiu deixá-lo nas mãos do Bernard.

Ele tinha razão. Eu não queria gerir o dinheiro. Ter-me-ia roubado tempo do que eu andava a curtir naquele tempo. Além disso, podia confiar em Bernie, era da família.

- Como é que vou...

- Recuperá-lo? - Franziu os lábios e abanou a cabeça. Via-se que estava a gozar o prato. - Bernard não deixou património. Além do que você tinha, vendeu ou onerou tudo o que "ele" tinha. Não se consegue espremer nabos para fazer sangue.

Devia ter acabado de inventar esta.

- Quanto é que posso ganhar se vender o negócio? -

- Qual negócio?

- A Casa Liberte, claro, a que tem pago a esta sociedade uma grande fatia do seu ordenado durante anos.

- Win, não está a tomar atenção. Eu disse que está falido. A Casa Liberte foi vendida o ano passado.

- O quê? Mas que raio? Como diabo é que foi vendida?

- O seu irmão Leo comprou-a.

- Primeiro, Leo é filho da minha madrasta. Segundo, ele não tem direito a ela, já herdou um negócio de diamantes do pai dele.

- Tem todo o direito. Aliás, fui eu que legalizei a transacção. Bernard precisava de dinheiro quando o investimento azedou e Leo deu-lho, em troca dos bens do negócio. A casa agora chama-se Casa Schwartz.

- Isto é de doidos. Está a dizer-me que Bernie limpou a minha herança inteira e Leo acabou com ela? Merda, eu conheço Leo, deve ter ajudado a pôr os patins a Bernie. Diga-me lá, quanto é que me resta exactamente?

- Além dos trocos que tem nos bolsos?

Viu-me ficar roxo e quase se metia debaixo da secretária, certamente a lembrar-se da última vez que me tinha representado. Foi por ter partido uma garrafa de champanhe na cara de um porteiro de discoteca. O juiz ficou tão impressionado por eu ter usado uma garrafa de Perrier Jouet que valia mil dólares - e tê-la pago - que invalidou o caso.

O tipo pigarreou e arrumou uns papéis que tinha na secretária.

- Tanto quanto sei, tem o Bugatti e a mina. O apartamento, o barco, a avioneta, o Corvette, a Harley, e todo o dinheiro, salvo o que tiver na sua conta pessoal, estão penhorados e vão para os credores.

- Qual mina?

- A de Angola.

- Onde raio é que fica Angola?

- As últimas notícias dizem que fica na costa ocidental de África. É uma antiga colónia portuguesa, rica em diamantes e petróleo. Em comunistas também. Acho que o Fidel Castro até lá tem tropas cubanas.

- Não sei nada de mina nenhuma.

- O que é que sabe da maneira como Bernie geria a empresa? Era uma boa pergunta, e ambos sabíamos a resposta, mas não

me apetecia que me pusessem o dedo na ferida.

- Qual é o esquema da mina? Vale alguma coisa?

- Não me parece que alguém saiba ao certo. Quando o chão começou a fugir aos investimentos de Bernard, foi esta mina de diamantes que ele tentou vender ou alienar primeiro. Ninguém lhe dava um chavo por ela. Angola é zona de guerra e ninguém quis correr riscos. Do que vemos nas notícias, Angola está num caos constante, guerra e revolução. Na minha correspondência com o gerente da mina, vão fechá-la em poucos meses, se não houver financiamento para a manter a funcionar.

- Pensava que uma mina de diamantes criava dinheiro em vez

de o comer.

- Pelo que sei, os diamantes que se extraem não são da melhor

qualidade.

- Como diabo é que ficámos com essa merda de mina?

- Bernard comprou-a por cinco milhões de dólares. Do seu

dinheiro.

- "Cinco milhões de dólares!" Ele usou a minha herança para comprar uma mina numa zona de guerra? Estava passado dos cornos

ou quê?

Ele abanou a cabeça e tornou a estalar os lábios. Apeteceu-me esticar a mão por cima da secretária e girar-lhe a cabeça em cima

dos ombros.

- Win, lidei com gente no negócio dos diamantes quase toda a minha vida profissional, e digo-lhe que a barreira entre grandes êxitos e grandes fracassos é muito ténue em qualquer negócio, mas especialmente no das pedras. Quando um negociante compra uma pedra grande e a manda lapidar, nunca sabe se vai ter pedras valiosas ou uma mão-cheia de pó e lascas. Bernard arriscou numa mina. Talvez tenha pago dez cêntimos por cada dólar. Se a jogada tivesse resultado, você hoje era riquíssimo.

- Bernie apostou e perdeu o "meu" dinheiro, não o dele. Parece-me que isto se passou há muito tempo. Diga-me lá, posso vender a mina?

- Se encontrar comprador. Ninguém no seu perfeito juízo pagaria bom dinheiro por uma mina em Angola, a não ser que tenha tomates para gerir mesmo a coisa. E saiba gerir uma mina de diamantes. Dá-me ideia de que é um negócio de pôr a mão na massa... se não acabar decepada num lugar como Angola.

- Mas que diabo terá pensado Bernie para comprar a maldita coisa?

- Achavam que ele arranjaria maneira de contornar o controlo que a De Beers tem na indústria dos diamantes. A Casa Liberte nunca alinhou nesse grupinho de negociantes de diamantes que controla a maior parte do mercado mundial sob a alçada da De Beers. O seu pai tinha uma boa fonte de diamantes num velho amigo de Lisboa, e Bernie herdou o contacto. Aparentemente, essa fonte secou e surgiu-lhes a ideia de ter uma fonte de diamantes própria, com-prando uma mina. Devem ter-se achado Cecil Rhodes, o fundador do império De Beers.

- Uma mina de diamantes em África. - Abanei a cabeça. Tanto quanto eu sabia, Bernie mal tinha saído da zona dos três estados. Ir aos Catskills pescar ao fim-de-semana e ao clube jantar eram o máximo do seu gosto por viagens. A mina bem podia ser em Marte.

 

- Deixe-me acrescentar que a mina veio com um estudo geológico extremamente positivo. Não sei se a mina chegou sequer a cumprir expectativas ou se as facções guerreiras a impediram de se desen-volver. Seja como for, eles começaram por investir na mina e, quando as coisas se descontrolaram, Bernard continuou a bancar a aposta arriscada com o dinheiro do seu fundo.

Ter uma mina de diamantes parecia mesmo coisa de Bernie. Teria sido uma coisa boa para o seu ego, pavonear-se no Diamant Club e exibir pedras oriundas da própria mina. Era mesmo o tipo de ego inchado e mentalidade ligeira que ganhava o dia por se superiorizar a gente que nem sabia que ele existia.

- Está sempre a dizer "eles". Quem é que estava nisto com Bernie?

- O seu irm... eeh, Leo, começou por ser sócio na mina, mas vendeu a parte dele a Bernie há algum tempo.

- Leo entrou no negócio, deu de frosques antes de azedar e acabou dono da minha empresa. É isso que está a dizer?

O homem contorceu-se.

- Leo tinha uma transacção prudente com o Bernard...

- E você tratou da escrita da coisa toda, pois claro.

- Win, parece-me... -

- Leo é um cabrão que alugaria a racha da mãe a um exército de macacos se achasse que rendia alguma coisa. Vamos ao que interessa. Eu tenho uma mina de diamantes numa zona de guerra que suga dinheiro em vez de cagar diamantes, o Bugatti... talvez valha uns cem mil... e trocos. É isto?

- De homem para homem, Win, custa-me dizê-lo, mas é. E será melhor despachar o Bugatti, senão os credores vêm atrás dele.

Levantei-me para sair.

- Bernard não tinha parentes senão o Win. Em que tipo de funeral está a pensar?

- Ainda há valas comuns?

Tinha chegado à porta quando ele disse:

- Win, obviamente não sabe, mas Bernard deixou aqui uma conta grande. O meu sócio tem-me perguntado por isto, e eu garanti-lhe que você é um homem de palavra e que vai honrar a dívida de Bernard.

Não parei de rir até chegar aos elevadores. Havia mesmo justiça no mundo.  

 

Encontrei Leo no café do Diamant Club no prédio da West Forty-seventh com a Fifth Avenue. Ele passava o dia a entrar e a sair dos gabinetes de grossistas de diamantes, a falar com eles com um dos cantos da boca, enquanto mantinha uma segunda conversa ao telemóvel com o outro canto. Só se sentava para comer, de telemóvel na mão e garfo na outra. Quando não estava a comer, a mijar ou a dormir, estava a fechar negócio.

Leo tinha a constituição de uma pilha de pneus com os tamanhos mais pequenos no topo e no fundo - baixo e largo, com uma cabeça redonda e enorme tipo bola de basquetebol, lábios grossos e a personalidade de um mosquito numa lata de lixo. Em comparação, Barney Vómito, o eventual financiador dos filmes de Katarina, tinha o encanto de um parasita social. A antipatia que Leo tinha por mim era antiga. Quando eu tinha quinze anos, Leo levou lá a casa uma rapariga para conhecer a mãe dele, minha madrasta. Eu convidei a rapariga, uma ruiva suculenta, a ir à garagem ver a minha nova mota. Estava eu montado na mota e a gaja em mim quando Leo nos surpreendeu.

Olhando para trás, até fiz um grande favor ao gajo. As mulheres suculentas são boas na cama, mas os Leos e Barneys deste mundo, que não têm tempo nem desejo de prover às necessidades de uma mulher, deviam ter gajas mais interessadas em tratar das unhas e não dos maridos. Assim as mulheres não se aborrecem nem começam a vadiar.

Apesar desta boa acção, o ódio que Leo me tinha só se intensi-ficou. Nunca soube qual é realmente a origem dele. Resta-me pensar que a base da sua antipatia é o facto de eu querer divertir-me. Leo detesta divertimentos. Adora trabalho. E dinheiro. Não percebe por que é que nem toda a gente adora dinheiro. A mim não me incomoda, cada um é como é, cada um é para o que nasce, e essa merda toda.

No entanto, Leo leva a coisa mais longe. Detesta ver os outros felizes e, ao mesmo tempo, está decidido a não deixar uma coisa tão insignificante como ter vida própria barrar-lhe o caminho para ganhar dinheiro que nunca gasta.

O negociante com quem ele estava a regatear levantou-se para sair quando eu me sentei à mesa. Karen, a assistente de Leo, também lá estava. Leo mal olhou para mim antes de marcar um número no telemóvel. Eu não tinha importância suficiente para ele acenar com a cabeça. Tirei-lhe o telefone da orelha.

- Que estás a fazer?

- Eu vou enrabar-te.

- O... o quê?

Fiz um sinal com a cabeça para Karen.

- Vá-se embora. Merdas de família. Ela desapareceu, e depressa.

A cara de Leo ficara vermelha.

- Não tens o direito...

- Tu fodeste-me, e agora vou eu enrabar-te. Sabes o que é, não sabes? Cenas da choça. O gajo abaixado no poste leva no cu. Nem sequer tens de tomar duche para seres fodido.

- Estás doido.

- Nah, estou teso, sabes, sem cheta. Fodeste Bernie, enganaste o parvalhão, meteste-o num negócio furado de uma mina e lim-paste-o. Não deves ter pensado duas vezes em Bernie, era a mim que querias vergar. Aquela conta gorda e eu a curtir eram tentações grandes de mais, não eram, Leo? Não aguentas ver os outros a curtir. Mas tens de pagar por Bernie. Eu não morria de amores por ele, mas o gajo merecia melhor do que mergulhar de uma janela.

- Vai-te lixar. Tens andado entretido a meter o pau em tudo o que se mexe e não ligas nenhuma ao negócio. O que eu recebi de Bernie foi justo e honesto e não podes fazer nada contra isso.

- Meteste água, camarada. Se tivesse sido um estranho a limpar-me, eu encolhia os ombros e dizia que até merecia por não ligar à loja, mas tu és da família.

- Não sou porra nenhuma. O teu pai...

- O que é que tem o meu pai? - Passei-me neste momento.

- Não temos laços de sangue - balbuciou o gajo.

- Pois não, não me és nada, mas ouve bem. - Inclinei-me e sussurrei. - Eu vou andar por aí, à tua espera. Sei como te fazer mal e vou fazê-lo. Não é hoje, não deve ser amanhã, mas há-de acontecer, grande brochista, e, quando menos esperares, eu apanho-te.

 

Quando saí, disse uma kaddish por Leo. Os judeus dizem kaddish pelos mortos. De ora em diante, só pensaria em Leo no pretérito imperfeito.

 

- Onde raio fica Angola? - perguntou Katarina.

- Tss, tss - fiz eu e estalei a língua. - Santa ignorância, Katarina. Angola é um país na costa ocidental de África. Toda a gente sabe. - Estava um bocadinho tocado. Tinha ido buscá-la depois de uma sessão fotográfica e levara-a ao Verdios na Seventy-fifth Street. Já tinha bebido cinco ou seis vodcas-martini... ou talvez fossem dez, já perdera a conta.

Ela apertou-me a perna.

- Fico mesmo contente por Bernie não ter tido problemas de dinheiro. Meu Deus, nem consegui dormir a pensar que estavas falido.

Não tive coragem - nem tomates - para lhe dizer que só me restavam o Bugatti e uma mina que sorvia mais dinheiro do que vomitava. Dei a entender que Bernie era um génio da finança e que acabara com a vida porque descobrira que tinha cancro. Ela acreditara em tudo. Aliás, andava entretida com a ideia de Hollywood.

- Vou ter saudades tuas. - Deu-me um beijo molhado, a penetrar-me a boca com a língua.

- Não te rales, vou andar entre as duas costas.

- Vais comprar uma casa em Malibu, como disseste? - perguntou.

- Vou mesmo, caraças, e uma cadeia de cinemas que só passem os teus filmes.

Ela riu-se e continuou a beijar-me.

- Sabes o que mais gosto em ti? - perguntou. - És o único gajo rico que sabe ser giro e verdadeiro ao mesmo tempo. Os ricos desta terra contam-se pelos dedos de uma só mão e só querem ser vistos com modelos, mas são todos uns merdas. Só sabem falar do dinheiro que ganham ou dos buracos do golfe. Tu és diferente. Sabes como lidar com uma mulher.

Levou a mão até ao meu monumento de jade e apertou-o, o que o fez pulsar desalmadamente. Alguém disse que um homem só tem sangue que chegue para a pila ou para os miolos, e que não consegue mascar pastilha e andar ao mesmo tempo, como um miúdo. Era esse o meu problema, nunca ter sangue que chegasse para uma mulher e uma equação matemática simples - como o dinheiro que devia gastar.

- O meu agente de Hollywood ficou mesmo animado quando lhe contei que o meu namorado tinha um apartamento no Dakota, até queria saber se era o mesmo onde foi filmado A Semente do Diabo. Disse-lhe que eras vizinho da Lauren Bacall e da Yoko Ono.

- Diz-lhe que apareça que eu apresento-o ao fantasma de John Lennon.

 

Pois é, sou um grande bon vivant nesta terra. O Dakota, na esquina das Seventy-second e Central Park West, era a melhor morada da cidade. Comparada com ele, a Torre Trump era um prédio para realojados. Não lhe contei que havia uma ordem de despejo afixada na porta quando saí do advogado e cheguei a casa. O pessoal do edifício afastara-se de mim como se eu tivesse entrado a tocar o sino da peste. O ar de perda nas caras deles era pior do que o ostracismo - eu era o inquilino mais generoso na época de Natal.

- Hollywood é uma cidade dura, mais dura do que Nova Iorque - disse ela -, porque é preciso fachada. Aqui só há gente genuína, ninguém quer saber que carro tens nem onde moras. Aliás, pouca gente tem carro e moramos todos como formigas no mesmo buraco. Mas na Costa Oeste é só fachada, só interessa o que tens... carros de luxo que não se podem pagar, apartamentos com vista que custam os olhos da cara, roupas de costureiros. -,,

Atirei as chaves do Bugatti para o colo dela.

- Que é isto?

- Com isto consegues um apartamento na praia, roupas boas, um descapotável vermelhão, tudo o que for preciso para se ter fachada em Los Angeles. O livrete está no carro, depois passo-o para o teu nome. Amanhã levas o Bugatti ao vendedor de carros exóticos onde o comprei e ele passa-te um cheque de cem mil.

- Meu Deus, estava tão aflita sem saber como causar boa impressão lá. Que vais fazer, comprar outro?

- Claro, diz aos gajos do stand que hei-de lá ir.

- Caraças, Win, és tão bom para mim. Como é que te posso retribuir?

- Fode-me até à inconsciência assim que chegarmos a minha casa. Prenda de despedida.

- Esperar para quê?

Deslizou para baixo da mesa. Abri as pernas assim que ela se pôs de joelhos. Bateu com a cabeça na mesa, soltou um ai e começou a rir-se. Dei uma vista de olhos ao salão. O Verdios tinha um ambiente típico de média luz, adequado para não se ver o total na conta ou ser-se facilmente reconhecido se não se estivesse com a legítima, mas não era uma escuridão total. O vestido de Katarina era de um vermelho que brilhava literalmente no escuro, mas achei que, ainda assim, seria preciso abaixarem-se para a verem debaixo da mesa - por isso descontraí-me para gozar a festa.

As mãos dela aplicaram-se ao meu fecho e levantei-me um bocadinho para a ajudar. Assim que o fecho se abriu, ela meteu a mão à procura da abertura das boxers. Deu com o buraco e tirou cá para fora.

- Mmm - ouviu-se debaixo da mesa -, encontrei um diamante em bruto.

Acariciou-o como se fosse uma estola de arminho nova. Enrolou a língua na cabeça do pénis como uma cobra. Katarina tinha língua de gato, não era macia como a do resto das pessoas, em vez de subir e descer como se lambesse um gelado, a língua pegava-se à pele e puxava-a. Com cada lambidela eu sentia um arrepio de prazer.

- Olá, Win - disse uma voz de mulher.

Quase me borrei nas calças. A Sr.a Greenberg, mãe de um colega meu da escola, aproximara-se da minha mesa. Não dizia as palavras, mas tinha o péssimo hábito de as cantar, como se fosse um pássaro. Vinham mais duas pessoas com ela.

- Olá - gaguejei eu enquanto a língua de gato dava uma grande lambidela.

 

- Quero apresentar-lhe uns amigos meus. Este é o reverendo Paul Davis e a mulher, a reverenda Mary Davis. Estão cá a angariar fundos para a escola missionária que têm na Indonésia.

Gorgolejei uma espécie de resposta atenta. A equipa missionária, marido-e-mulher, parecia constituída pela pudica Katherine Hepburn e o irmão missionário de A Rainha Africana.

A língua de gato deu outra enorme lambidela, que começou na cabeça da pila e passou lentamente para a nervura que separa a glande do corpo. Quase levantei voo da cadeira quando ela parou de lamber e a boca quente engoliu a minha verga.

- Vou realizar um evento benemérito para a escola - disse a Sr.a Greenberg - e gostaríamos muito que participasse.

Preferia sentar-me num banho quente e cortar os pulsos do que passar três minutos na mesma sala com aquela mulher.

- Ocupado - tartamudeei, com um sorriso débil. Katarina engolia-me o pau, bombeava-o na boca. Eu não podia falar, só podia arvorar um sorriso gelado. Ia explodir a qualquer momento, se não entraria em combustão espontânea e as paredes ficariam cobertas de pedacinhos de mim.

- Tem de organizar o tempo - disse a Sr.a Greenberg. - É uma causa tão nobre, as crianças precisam tanto...

Saiu-me dos lábios um gemido com mais lambidelas e chupadelas da Katarina.

- Sente-se bem, Win? Parece ter febre.

Abanei a cabeça, incapaz de falar. A boca dela era quente e húmida e moldava-se em torno do meu pénis como uma luva cheia de creme de noite. O cimo da mesa começou a vibrar com as batidas da cabeça da Katarina. As três pessoas olharam para a mesa como se esta precisasse de exorcismo.

Uma colher caiu aos pés do reverendo Davis.

- Ups - fez ele. Baixou-se para apanhar a colher e imobilizou-se quando olhou para baixo da mesa. Arregalou os olhos e ficou boquia-berto.

Eu podia jurar sobre uma pilha de Bíblias que se via o reflexo do vestido vermelho de Katarina nos olhos dele.

 

Acordei ao raiar do Sol no meu apartamento do Dakota com Katarina a levantar-se da cama.

- Tenho uma sessão muito cedo - disse Katarina. Sentou-se na cama e beijou-me. Abri-lhe a blusa desabotoada e

beijei-lhe os morangos que eram os mamilos dela. Ela empurrou-me. - Quieto, assim vou atrasar-me. Falavas a sério acerca do carro?

- Já passei o livrete para o teu nome. Leva-o contigo.

Saí da cama nu e entrei na casa de banho para verter águas. Katarina apareceu de repente à porta da casa de banho. -Tens visitas na sala, uma mulher com cabelo ruivo-flamejante que diz chamar-se Scarlett OoHara.

- Vai para a tua sessão, eu trato disto.

Eu sabia quem era a mulher com cabeça de fogo e nome famoso. Scarlet OoHara era dona de uma galeria de arte e minha curadora. Eu sabia tanto de arte como Henry Ford. Deixava Scarlet encarregue de pôr os quadros nas paredes.

Que diabo fazia ela no meu apartamento e como tinha conseguido entrar eram mistérios.

Estava de costas para mim quando entrei na sala depois de uri-nar. Dava ordens a dois homens que retiravam um Picasso da parede.

 

- Mas que merda é esta?

Scarlet virou-se, sobressaltada, e ficou boquiaberta. Eu não me tinha vestido. O cabelo vermelho que Katarina mencionara era a marca registada da mulher. Vinha directo de um frasco.

- Win, eu... eu... estamos a reapossar-nos da tua pintura. O cheque do teu fundo não tinha cobertura. Ouvi dizer que tu estás...

- Falido. Como é que entraste?

- Comigo. - Quem falou era um polícia fardado, que estava na outra ponta da sala quando eu entrara e não o vira. - Tenho ordem do tribunal para o apreender. - Olhou-me fixamente. - Você está nu.

- E você é realmente um crânio. Saia da minha casa.

Quando eles saíram, deitei-me na cama a olhar para o tecto. Estava a marimbar-me para o quadro. Se me interessasse, tinha-o escolhido eu em vez de mandar Scarlet fazê-lo. Só o tinha comprado porque as paredes devem ter coisas a tapá-las. Sentia-me mais chegado ao carro porque o tinha escolhido, mas nem por isso era parvoíce dá-lo a Katarina - lembrava-me a minha insensatez e estupidez por ter deixado Bernie totalmente responsável pelo meu dinheiro. Na verdade, queria lá saber do dinheiro - era uma coisa com que podia conseguir o que quisesse no momento. O dinheiro era uma amante volúvel que também nunca quis saber de mim, porque desaparecia à primeira oportunidade.

O que vais ser quando fores grande?, ressoava-me na cabeça.

Lembrei-me desta pergunta; era a única num trabalho da escola que tínhamos para fazer no oitavo ano. O meu pai morrera meses antes e eu escrevi uma frase breve no papel, antes de o atirar para cima da secretária do professor e de sair porta fora: "Isso nunca vai acontecer."

Bem, é certo que conseguira alcançar essa meta. Não fazia a menor ideia do que iria fazer. Não tinha habilitações, profissão, talento. Nem sequer daria um bom companheiro para uma mulher rica, porque não era bem-parecido ou servil o bastante.

Havia outra coisa espantosa que descobrira a meu respeito. Não tinha amigos. Colegas de escola, contactos profissionais. Nunca me ocorrera, até agora, que era um solitário. Havia sempre mulheres a entrar e a sair da minha vida, mas nada que ficasse. Tinha Katarina, mas ela andava noutro planeta. Restava-me um bando de conhecidos, tipos do clube náutico com quem eu velejava, o mecânico que me reparava o avião, o vendedor que me fornecia carros velozes, empregados de bar e mattres de mesa. Não tinha amigos. Não tinha camaradas. Ninguém que me apoiasse se me visse em sarilhos. Sarilhos agora não faltavam. Bernie até tinha levantado adiantamentos sobre os meus cartões de crédito, ascendendo a duzentas mil notas.

O que vais ser quando fores grande?

Pensei como seria se entrasse num stand, escolhesse um carro e entrasse na auto-estrada a trezentos quilómetros-hora. Sentiria alguma dor quando o carro ficasse do tamanho de uma caixa de sapatos comigo lá dentro? Seria essa a única saída para alguém que conseguira lixar a vida toda sem grande esforço? Que raio podia fazer? Deixar-me intoxicar com gás?

«Vai-te lixar, tu e o cavalo em que vieste.» Mais depressa ia assaltar bancos do que desistiria de viver só por estar falido. E antes ainda teria de matar o cabrão do Leo.

Só havia uma coisa a fazer. Quanto mais pensava nisso, mais gostava da ideia. Nunca achei que morreria de velho. O meu plano consistia tão-somente em acelerar o processo.

Tocou o telefone. Katarina espatifou o carro, foi a primeira coisa que me veio à cabeça. Caraças, nem me lembrava se ela sabia conduzir. Cristo, podia muito bem mandar abaixo um quarteirão inteiro se metesse prego a fundo.

- Estou.

- Win?

Voz de homem. Com sotaque estrangeiro. Não era do Leste da Europa, como o da Katarina, era mais quente, talvez francês, ou espanhol ou português.

- Win Liberte?

- Quem fala? - estava a ficar irritado. Já tinha credores à porta?

- É o João. Sabes quem sou? Pensei um momento.

- Claro, ofereceste-me a primeira moto, uma Honda topo de gama, tinha eu treze anos.

Acontecera depois de o meu pai morrer. João Carmona era negociante de diamantes em Lisboa. Fora sócio do meu pai, tinham-se conhecido durante a Segunda Guerra Mundial, quando ele estava em Portugal. Lembro-me de Bernie falar dele também, de modo que deve ter mantido contacto.

Riu-se.

- Não achei que uma coroa de flores interessasse a uma criança, mas a motoreta podia manter-te ocupado.

- Só andei nela uma vez. Espetei-me numa árvore.

Mas é realmente uma grande recordação. - Esfreguei a cicatriz que tenho no queixo. - Não cheguei a agradecer, pois não?

- Nunca é tarde. Passa por cá a caminho de Angola.

Fiquei imóvel com o telefone no ouvido. Só há uns trinta segundos é que tinha decidido ir a África.

-           Você deve ser bruxo - disse eu.

-           Se calhar.

-           Ou sabe mais sobre mim do que deve.

Riu-se. Não era um som divertido, mas sim a resposta atenta de alguém cujo sentido de humor pendia para o macabro.-,, - Eu fui a principal fonte de diamantes do teu pai durante quase toda a vida, e a fonte de Bernie, até Leo começar a desviar-lhe a atenção com uma cenoura à frente do nariz. Sabes, foi Leo que encorajou Bernie a alinhar no negócio da mina, e quando a coisa azedou o gajo deu de frosques e deixou Bernie com a batata quente na mão.

Pois, também já tinha percebido, só não sabia qual era a jogada de João. Não era um velho amigo da família a telefonar para me ajudar. Além da malfadada moto, nunca mais ouvira falar no tipo desde a morte do meu pai, quase vinte anos antes. Lembro-me de o meu pai chamar ladrão a João, e falar em crime organizado, a Mafia portuguesa. Mesmo assim, muito não passaria de exagero, já que continuava a fazer negócio com ele. Era prática comum chamar ladrão a outros negociantes de diamantes, já que era um negócio competitivo, lucrativo e ultra-sigiloso.

Eu tinha impressão de que o meu pai e João eram camaradas, até certo ponto - o ponto em que ninguém mostrava as costas a ninguém. O meu velho também não tinha sido anjinho nenhum, de certeza, nem ninguém que negoceie em diamantes o é. No entanto, usar de cautela para tratar com o João era sinal de que o homem era perigoso e avarento.

- Portanto, sabes que estou falido e que ou Angola ou nada. Já lá estiveste?

- Muitas vezes. Passa por Lisboa no caminho e eu dou-te al-gumas dicas de sobrevivência. Com a minha ajuda, pode ser que vivas o suficiente para fazer a tua própria fortuna. A melhor maneira de chegar a Angola é por Lisboa, seja como for. Não há muitas

companhias que voem directamente para Angola. Dado que é uma antiga colónia portuguesa e a língua oficial é o português, ainda existe uma relação estreita com Portugal. Tenho contactos que acharás muito úteis, quando chegares a esse país africano.

Disse-me que mandaria alguém buscar-me ao aeroporto, se lhe desse os dados do voo. Desligámos depois de me dar um número de telefone para lhe ligar assim que reservasse bilhete. Sentia a cabeça a andar à roda com perguntas e esquemas. João sabia muito, para quem estava a vários milhares de quilómetros de distância e duas décadas atrás. Para mais, sabia o meu número de telefone confidencial.

João. Leo. Bernie. Uma mina de diamantes em Angola. "Muitas vezes", dissera João acerca das suas deslocações a Angola.

Começava a perceber como tinha Bernie ido parar ao negócio de extracção.

João sabia que eu estava teso. Por que raio é que me mostrava uma cenoura para eu ir a Angola? Que tinha eu que ele quisesse? Uma mina a sugar dinheiro numa zona de guerra é que não era, de certeza.

Pensei no que me diria o meu pai sobre João se fosse vivo.

 

VICTOIR LIBERTE,  LISBOA,  1946

Victoir estava sentado sozinho a uma mesa no terraço de um café em frente ao Casino do Estoril. Bebericava um garoto, um café expresso com leite, e ignorava a travessa de pastelaria que o empregado deixara na mesa na esperança de que fosse consumida e depois cobrada. Fingia ler o jornal, mas estava mais interessado num homem sentado à mesa do outro lado do café.

O homem do outro lado tinha dedos nervosos que batiam no rebordo da chávena de café. O fato de linho branco estava sujo nos punhos, e o panamá tinha um bordo de suor em redor da cabeça. O homem apresentava uma cor cinzenta anémica como a barriga de um peixe. Os traços feios, o narizito esborrachado, o queixo fraco e os olhos castanhos aguados eram postos de lado perante a vermelhidão no lado direito do pescoço que os dedos nervosos estavam sempre a coçar quando saíam da chávena de café.

Para Victoir, o homem tresandava a nazi. Não daquelas hordas de botifarras que aterrorizavam a Europa e haviam assassinado milhões com a Blitzkrieg e os campos da morte, mas sim da variedade assustadiça de ratazana açoitada que rastejava para se abrigar depois de os Aliados lhe darem um pontapé no cu. A guerra acabara há menos de um ano, mas as ratazanas tinham começado a abandonar o barco nazi muito antes. Ainda tentavam arvorar um ar de superioridade, como se o seu líder tresloucado tivesse almejado alguma coisa além da morte de inocentes e do seu próprio suicídio cobarde para evitar a forca.

Lisboa, refúgio neutro para todas as facções durante a guerra, albergava agora não somente metade da realeza europeia que perdera o trono como também ex-nazis que afluíam ao porto de mar enquanto trampolim para a Argentina e outros países sul-americanos onde a alucinação nazi não tivesse sido esmagada pela bota de Eisenhower.

Victoir suspirou e tentou concentrar-se no jornal que já lera anteriormente. Minutos depois, João Carmona sentava-se à sua frente.

Victoir pediu outro café para si e vinho verde para João.

Ainda era de manhã, mas João tinha o hábito campesino de molhar pão em vinho verde ao pequeno-almoço. João era baixo, magro e seco, com pele cor de azeitona, olhos duros, nariz dilatado e cabelo curto agarrado à cabeça. Não era português puro, mas sim mulato de Cabo Verde, as ilhas ao largo da costa ocidental de África. Pequenino mas perigoso, era assim que Victoir o classificava. Duro e rápido, João tinha sempre duas facas consigo - uma na algibeira do casaco, outra na bota. Vestia-se elegantemente, costumava usar camisas brancas de colarinho engomado, uma gravata de seda pintada à mão e um fato cinzento cortado num material brilhante chamado pele de tubarão. Fumava charutos cubanos fininhos, pretos e pestilentos.

Ele pensava em João como um galo de combate e em si próprio como um cão prudente. Embora Victoir tivesse mais uns centímetros e dez quilos a mais do que João, não era tão forte nem tão rápido como ele. A boa vida em Lisboa já lhe estragara a barriga. Era um homem inteligente, com bom faro para o negócio, prudente mas pronto a correr riscos depois de ponderar bem a situação, ao contrário de João, que confiava no seu instinto de jogador - e uma boa facada quando a lábia não chegasse.

João também tinha bom faro para o negócio, mas era doutra inteligência - do tipo aprendido na rua. Instinto de sobrevivência de ladrões e ciganos. Estava pronto a correr riscos e nem sempre reflectia bem neles. E pronto a safar-se, se o encostassem a um canto.

Precisava de um homem como João naquele negócio da joalharia. Dois anos mais novo do que os vinte e seis de Victoir, João era um velho sabidão pelo calendário da rua. Criado no bairro de Alfama pela mãe, que cantava fado e fazia favores, João crescera assaltante nos becos e carteirista no Rossio. Metera-se no negócio da joalharia com doze anos, à moda antiga - a roubar relógios, anéis e dinheiro a bêbados.

Victoir entrara no negócio da joalharia pelo sangue. Depois da

Primeira Guerra Mundial, a família, oriunda de um enclave polaco na Ucrânia, emigrara para França, em fuga aos Vermelhos e aos pogroms na região. A mãe falecera tinha ele cinco anos e ele passara a infância e a adolescência a trabalhar na oficina do pai. Alistara-se no Exército francês em 1939, mentira acerca do seu passado judeu e encontrava-se no sector de Vichy após a queda de França, com o pai em Paris. O pai matara-se para não ser feito prisioneiro numa rusga aos judeus. Em 1942, depois de os Aliados aterrarem no Norte de África e de os Alemães ocuparem o território de Vichy e começarem a juntar judeus para os campos, Victoir fugira num navio pesqueiro português que o deixara em Faro, na costa Sul de Portugal. Com documentos falsos, chegara a Lisboa, onde sobrevivera graças aos conhecimentos de joalharia, a princípio pouco faltando para praticar o ofício à ponta de faca, como João fizera. Não perdia tempo a perguntar donde lhe chegavam as peças de joalharia. Uma das primeiras aquisições de mercadoria discutível acontecera quando um rufia o abordara, estava ele sentado na esplanada do costume, na Avenida da Liberdade. O rufia era o João.

Victoir, com o seu instinto para pedras preciosas, e João, que conhecia as ruas como a palma da mão, eram uma equipa nata. Não demorou muito para que trabalhassem juntos quase a tempo inteiro. Ser passador de mercadoria roubada não agradava a Victoir, pelo que se dedicava a adquirir e revender artigos legítimos, ou pelo menos gemas que tivessem resquícios de legitimidade. Por vezes, levantavam-se questões acerca do historial de propriedade das jóias, mas diamantes e outras gemas eram uma forma de dinheiro internacional para as hordas de refugiados que se evadiam para Lisboa - incluindo quem ainda tinha razões para fugir após o final da guerra.

Ensinara João a avaliar pedras e o português tomara-lhe o jeito. Victoir trabalhava com jóias porque era o único ofício que sabia. João adorava gemas pelo que eram, especialmente diamantes, e usava um grande num anel e outro no alfinete de gravata. Era mulherengo, claro, mas Victoir desconfiava que a grande paixão de João eram os diamantes.

- Que te parece o nosso amigo suíço ali ao fundo? - inquiriu João.

Victoir deu uma olhadela ao nazi pelo canto do olho.

- De suíço só tem o relógio e o passaporte, e se calhar foram roubados. Que vende ele?

- Um diamante grande, e não sei mais nada. Diz que tem mais de quarenta quilates.

- Quarenta quilates. Terá o tamanho de uma noz. Se não tiver imperfeição alguma, valerá uma pequena fortuna. Parece que ele tem mais imaginação do que um nazi me pareceria ter.

- Pedro acredita nele. Ainda não viu a pedra, mas pela descrição acha que é mesmo especial.

Pedro era um joalheiro com quem tinham negócios, um velho numa cadeira de rodas que arranjava negócios a Victoir e recebia uma parte. Não era parvo e tinha bom instinto para gemas, o que dava a Victoir tempo para pensar. Deu mais uma olhadela ao nazi.

- Quanto é que ele quer pela jóia? - A pergunta era praticamente irrelevante. Ainda nem sequer sabiam que gema era, mas pelo menos era um ponto de partida para ver se Victoir se mostraria interessado.

... - Quer dólares americanos. Cem mil.

- Vá para o inferno! Para isso teria que vender jóias da coroa. João encolheu os ombros.

- Neste mundo, talvez venda. Temos vários reis depostos e o dobro dos grão-duques exilados em Lisboa. Aposto que o empregado de mesa era um conde russo antes da última guerra. O problema é que, agora que o viste, queres fazer negócio? Por vezes dá-te para seres esquisito com alemães.

- Mas tu não. Tens a moral de um cão que ataca ovelhas, João. Sorriu. Tinha dentes brancos e perfeitos.

- Nos últimos seis anos vivemos num mundo em que milhões de pessoas mataram milhões de pessoas sem razão nenhuma de que me possam convencer. Mundo esse em que um cabo austríaco pouco inteligente teve licença para conquistar a maior parte da Europa e assassinar a seu bel-prazer, antes de se suicidar. Diz-me, amigo, qual é o aspecto moral do que aconteceu a este mundo?

- Convida-o para a mesa - disse Victoir.

- Pedro diz que ele não fala em público. Se bateres na perna

com o jornal quando saíres do café, ele seguir-nos-á. Vamos de carro a qualquer lado sossegado.

- O gajo fala português? O meu alemão é uma miséria.

- Fala qualquer coisa de francês.

Victoir bateu na perna a caminho da porta e o homem seguiu-os até ao estacionamento onde estava o Hispano Sousa de 1934 preto e descapotável que João conduzia. O carro, de fabrico espanhol, em Barcelona, era a menina dos olhos dele. Dizia que atraía mais gajas do que os trinta centímetros de pila que tinha. Victoir acreditava, no que respeitava ao carro. Com a produção automóvel mundial interrompida desde 1939, tudo o que andasse sobre quatro rodas era principesco. Victoir não achava préstimo em ter carro. Nunca aprendera a guiar e achava os táxis mais convenientes do que as obrigações da propriedade.

Esperaram que o homem pálido os apanhasse no parque de estacionamento.

-Vamos a algum sítio onde possamos conversar em privado - disse-lhe Victoir em francês.

- Não tenho nada comigo, nem dinheiro nem passaporte. Não vale a pena roubarem-me.

- Eu chamo-me Victoir, este é João.

- Varte.

Não era um nome alemão e, de perto, Victoir teve dúvidas de que o homem fosse alemão, embora tal não significasse que não fosse nazi.

Fez sinal para o homem entrar para o banco da frente e que ele iria atrás, mas Varte abanou a cabeça e entrou para o banco traseiro. Gajo esperto. Era fácil estender as mãos e estrangular um homem no banco da frente. Não o podiam censurar por ser paranóico. A corrida principal agora era presa fácil.

- Não tenho o diamante comigo.

- Obviamente - disse Victoir. - Mas temos de o ver antes de poder fazer negócio.

- Primeiro falamos. Você garante-me que tem dinheiro bastante. E que não é ladrão.

- Woher sind Sie? - disse Victoir em alemão, perguntando-lhe de onde era.

- Nein sprechen Deutsch - retrucou Varte.

Victoir acreditou nele. O homem falava alemão pior do que ele. Tinha um toque balcânico no sotaque.

- Romeno? - arriscou Victoir. O homem olhou-o surpreendido.

- Não - disse em francês. - Sou finlandês.

Finlandês, o tanas, pensou Victoir. Era mesmo romeno. Talvez tivesse estado na Guarda de Ferro, a imitação romena das SS e dos nazis. O rei Carol, o monarca romeno exilado, não morava longe do casino. É evidente que o rei não tinha nada a ver com a gema nem com aquele espécime de vida inferior que a alegava ter. Se o rei a tivesse e quisesse vendê-la, fá-lo-ia em Londres, Paris ou Antuérpia, e conseguiria um preço integral, em vez de a passar por ladrões.

João levou-os até à costa, até à Boca do Inferno em Cascais. Deixaram o carro no parque e avançaram para os penhascos que rodeavam aquele fenómeno natural. O enorme buraco e as grutas escavadas pelo bater das ondas exerciam sempre grande fascínio sobre Victoir.

Varte, receoso do estreito atalho à beira do penhasco, olhava para Victoir e para João como se esperasse que eles o empurrassem borda fora.

- O meu sítio preferido - declarou João, a sorrir para o homem nervoso. - É bonito e dramático, não é? Como uma mulher que faz amor connosco num momento e noutro grita e nos arranca os olhos.

O francês que João falava era pior do que o de Varte, e misturava português.

-Tenho uma gema - disse-lhes Varte - muito especial, única, um diamante com pelo menos quarenta quilates de peso, talvez maior.

- Existem diamantes de quarenta quilates que não valem um café.

- Este vale mais do que uma plantação inteira.

- E por que é tão valioso?

- É um diamante vermelho.

- Raro é, de certeza - disse Victoir -, mas também é certo que um diamante vermelho cheio de imperfeições não pode pagar um café a João.

- Trata-se de um diamante rubi sem imperfeições.

- Disparate - atalhou Victoir -, ou está a mentir ou não sabe o que diz. Não existe um diamante assim. Se existisse, seria conhecido... e estaria nas jóias da coroa de um rei qualquer.

- Conhecido de quem? Europeus? Há centenas de anos encontrava-se no Trono do Pavão da Pérsia. No século passado, estava num ceptro que pertencia ao quediva do Egipto. Daí passou para o tesouro do sultão da Turquia. Quando o sultão perdeu o trono em 1922, o ceptro foi adquirido pelo monarca romeno. O problema dos europeus é esquecerem-se de que não são o mundo todo.

- A gema ainda está engastada num ceptro?

- Não.

- Você tem mais gemas?

- Já tive.

- Por outras palavras, tinha-as usado para comprar documentos

falsos e passagem para Lisboa. Victoir facilmente adivinhava o resto da história. O rei romeno fora para o exílio e fizera um leilão à despedida - ou tinham-lhe roubado o ceptro, talvez até os guardas do palácio. Fosse como fosse, a pedra passara de mão em mão até chegar à do homenzinho nervoso com fato de linho branco e panamá. Victoir tinha curiosidade em relação às peripécias da gema desde que deixara o rei da Roménia, mas não queria assustar o homem falando-lhe em direitos de propriedade.

Victoir aceitou a história do homem de que possuía um diamante vermelho. Mesmo imperfeito seria extremamente valioso. Se fosse perfeito - não, não era possível. Um diamante vermelho perfeito valeria o resgate de um rei, devido à sua raridade.

- Como é que fazemos para ver a gema? - perguntou Victoir. Os olhos de Varte dardejaram de um para outro homem.

- Quando eu vir o dinheiro. -

- Quanto pede? - tornou a perguntar Victoir. -

- Duzentos mil dólares americanos. Victoir não mostrou expressão alguma, mas João assobiou.

- Não há em Lisboa quem tenha esse dinheiro, e se houvesse não pagaria por um diamante roubado. É isto, não é?

- Deixem-me no casino. Outras pessoas dar-me-ão o que eu quero.

Quando voltaram para o estacionamento do casino, já tinham acordado em cinquenta mil dólares. Era uma quantia exorbitante, mas Victoir estava entusiasmado. Se o diamante coincidisse mesmo com a descrição do homem, valeria muito mais. Ele sozinho não tinha tanto dinheiro, mas Pedro e os outros podiam entrar. João também, embora costumasse receber uma parte só por arranjar negócio.

Saíram do carro e Victoir disse:

- Precisamos de uns dias para conseguir o dinheiro, mas antes disso temos de nos encontrar para eu examinar o diamante.

Varte apontou para João.

-Você fica aqui. Vamos - disse ele para Victoir. Atravessaram o parque até chegarem a um Peugeot que tinha um homem sentado no lugar do motorista. Victoir reconheceu-o de imediato, era Hein-rich, um rufia alemão de cabelo curto, cara quadrada e nariz esborrachado. Fazia lembrar um javali. Victoir ouvira dizer que tinha sido sargento nas SS durante a guerra. Teso de mais para sair de Lisboa, deixara-se ficar pela cidade, a servir de guarda-costas e de moço de recados dos emigrantes. Era estúpido e bronco, e por isso mesmo perigoso. Ali estava ainda mais perigoso, já que tinha uma Luger no assento ao seu lado.

Victoir entrou para o banco de trás com Varte.

- Então, está no carro.

- Só quando eu cá estou. - Varte fez um sorrisinho e tirou o chapéu. - Ninguém revista chapéus, nem nas fronteiras. -Tirou uma bolsinha de cabedal da fita interior, abriu-a e mostrou uma pedra na palma da mão.

Victoir abafou um gemido quando viu a pedra, mas não pôde esconder a reacção, pois ficara sem fôlego.

- Pensava que eu estava a mentir, não era?

Mesmo à luz baça do carro, o diamante cortado na velha Europa brilhava vermelho-fogo. Era magnífico. E Varte tinha razão quanto ao peso. Victoir estimava que tivesse cerca de quarenta quilates, talvez mesmo um ou dois mais.

- Vale muitas vezes o que eu peço - declarou Varte.

- Não sei, tem de ser avaliado. Está muito escuro aqui para poder examiná-lo.

Mesmo que tivesse imperfeições, o diamante era imensamente valioso. Sem falhas - era impensável. A pedra era absolutamente única. Varte não mentira, era mesmo vermelho-rubi. Varte não devia saber bem o que tinha com ele. Sabia que era valioso, mas não compreendia o verdadeiro valor... ou talvez estivesse mesmo desesperado. O montante que pedia poderia garantir-lhe uma bela vida na América do Sul.

- Tem nome? - perguntou Victoir. Tal como os ventos, havia diamantes únicos a ponto de terem nome - o diamante Hope azul-índigo, o Koh-i-Nur «Montanha de Luz», o Estrela de África de quinhentos e trinta quilates, o Grande Magnata azul cortado a rosa, o grande Darya-i-Nur cor-de-rosa, o grande Tiffany amarelo-canário. O nome podia levar aos píncaros o valor de um diamante.

- Chama-se o Coração do Mundo - anunciou Varte. - É o seu nome muçulmano. Pode chamar-lhe o que entender.

Coração do Mundo. Sim, assentava-lhe mesmo bem. -Antes de ver este - continuou Varte -, não sabia que existiam diamantes vermelhos, achava que eram todos transparentes.

- Há muitas cores, amarelo, rosa, verde, azul. - Não acrescentou que nunca ouvira falar de um verdadeiro vermelho-rubi, embora houvesse tonalidades mais claras e mais escuras. Nem um verdadeiro rubi se poderia comparar ao diamante de fogo que Varte queria vender, porque os rubis não têm o fogo incandescente de um diamante. Sacou a lupa do bolso do casaco e estendeu a mão para a pedra.

- Não consigo apreciá-lo nesta luz. Varte apontou para uma lanterna.

- Use aquilo. - Antes de lhe passar a pedra, o romeno acenou com a cabeça para Heinrich, o seu cão de guarda. - Vigia o amigo dele que está do outro lado do parque, já ouvi falar muito mal daquele português.

- Se aparecer, mato-o.

- Se este tocar na porta do carro enquanto tiver o diamante na mão, mata-o também.

- Jawohl. - E sorriu.

Victoir não duvidava de que o alemão o fizesse. O conceito enganoso de fazer bluff era demasiado elaborado para Heinrich Perceber.

- Segure na luz - disse a Varte. Examinou a pedra à lupa contra uma folha de papel branco, e não viu imperfeições algumas, mas talvez se enganasse naquelas condições.

- A luz não presta para um exame profissional. Tenho de...

- Já fez o exame que podia fazer. Mesmo que tenha pequenas imperfeições, a gema ainda vale uma fortuna. Dê-ma cá.

Tirou-a da mão de Victoir.

- Saia do carro.

Com Victoir lá fora, Varte trancou a porta antes de baixar o

vidro da janela.

- Disse que precisava de dois dias para arranjar os dólares. A troca será no bar do casino às oito em ponto de quarta-feira. Se eu o vir ou ao seu amigo antes disso, Heinrich mata-vos.

João estava deitado de lado na capota do carro a fumar um havano quando Victoir atravessou o parque de estacionamento. Riu-se quando Victoir chegou ao pé do carro.

- Amigo, tens cara de quem perdeu a sua gaja preferida.

- Devias tê-lo visto, João, é extraordinário. Varte não mentiu,

só pode ter pertencido a reis.

- Mais uma razão para garantirmos que o porco não se safa com ele. - João fez um gesto cortante em redor do pescoço.

Victoir não era esquisito com a origem das gemas que transaccionava. Os seis anos de guerra haviam virado a Europa do avesso, matado milhões e esvaziado as algibeiras doutros milhões. No entanto, incomodava-o dar lucro a quem suspeitasse ser nazi. Depois de Victoir fechar negócio com tal gente, João seguia o vendedor, aliviava-o do valor da aquisição e dividia o dinheiro com Victoir. Este encarava este esquema como uma guerra particular. Todavia, roubar era uma coisa - matar era outra. Ajudar refugiados comprando-lhes as jóias dava-lhe uma sensação de bem-estar. Garantir que nazi nenhum lucrava com mercadoria roubada dava-lhe uma sensação de bem-estar. Matar não lhe estava no sangue. João alegava sempre que só roubava sequazes nazis, mas Victoir não tinha a certeza. Nem insistia em ter. Victoir abanou a cabeça.

- Não podes chegar ao pé dele e agarrar no diamante. O tipo tem aquele boche enorme, Heinrich, a protegê-lo, e escolheu o bar do casino para fazer a troca. Não há maneira de ficarmos com o diamante e o dinheiro, e eu não quero dar cabo do negócio a tentar. A pedra vale muito mais do que ele pede.

- Então é mesmo única - disse João sonhadoramente, mais de si para si do que para Victoir.

- Nunca vi nada assim. - Victoir tinha as mãos suadas e limpou-as ao casaco. - Nem nunca imaginei. Pertence a uma coroa real.

Tem nome e história, como o Grande Magnata, só que é mais provocante. Três monarcas que o possuíram perderam os seus tronos. Varte parece querer livrar-se dele pelo dinheiro mas também por ser supersticioso. Disse-me que a morte persegue todo o homem que o possui... e parecia saber o que diz. João encolheu os ombros e sorriu.

- Talvez o nosso amigo tenha o dom da profecia... acerca do seu próprio destino.

- João, eu quero este diamante. Daria fosse o que fosse por ele. Tudo. Não há nada igual à face da Terra. Quando for para a América, vai servir de cartão de visita nas cidadelas do negócio dos diamantes. Não quero nada que possa estragar isto.

Nessa noite Victoir deitou-se a pensar no diamante. Estava inquieto. Nunca sentira predisposição para matar ninguém, mas quando tivera o Coração do Mundo na mão sentira o calor da paixão, um desejo tão quente que podia explodir em violência. E se tivesse estado armado? Teria metido uma bala na cabeça do boche e estoirado a carantonha de Varte para ficar com o diamante? Era este calor da paixão que levava amantes despeitados a matar?

Sabia que havia gente que se excitava com diamantes tanto como com sexo, mas isso aplicava-se a muitas coisas - corridas de cavalos e dinheiro, entre outras. Contudo, o Coração do Mundo levava ao rubro o barómetro da sua paixão.

- Não se trata de uma simples pedra - dissera a João antes de se separarem -, assim como a Mona Lisa não é uma mera pintura nem o David de Miguel Angelo uma mera estátua. - O Coração do Mundo era único e belíssimo, digna propriedade de reis e rainhas, nem seria a primeira vez que uma gema fabulosa permanecia oculta no cofre de um rei até que ladrões lhe pusessem as mãos em cima.

O romeno até podia nem estar enganado quanto à proveniência do diamante, pensava ele. Algumas das melhores gemas do mundo tinham ornado o Trono do Pavão. Este trono inestimável fora feito para o imperador Mughal, Shah Jahan, o monarca indiano que mandara erigir o Taj Mahal. Em 1739, o trono fora roubado na pilhagem de um conquistador persa que capturara Deli e perdido na guerra contra os curdos, que o desmantelaram para vender as peças. Desconfiava-se que o diamante Koh-i-Nur, «Montanha de Luz», adquirido pela rainha Vitória, tivesse vindo do trono, e o mesmo se dizia do Darya-i-Nur, o «Mar de Luz», um diamante rosa-pálido perfeito, e do seu irmão, Nur ol-Eyn, «Luz dos Olhos», duas das gemas das jóias da coroa do Irão.

Era ainda possível que o diamante de fogo tivesse sido o olho de um ídolo. Pensava-se que o diamante Hope, azul-índigo, quarenta e cinco quilates, fora roubado a um ídolo hindu. Tinha sido uma enorme pedra chamada Azul Francês, roubada ao ídolo, que deixara um rasto de morte e traição no caminho para França, onde acabara engastado na coroa de Luís XVI - que perdera a cabeça, o trono e o diamante mais ou menos em simultâneo.

A mesma história fatal se aplicava ao diamante Orlov, uma pedra ovalada de cento e noventa e três quilates das jóias da coroa dos Romanov - antes de serem assassinados pelos comunistas. Ambas as gemas estavam associadas a histórias de morte e intriga e, assim ditava a natureza humana, tornavam-se ainda mais desejáveis e valiosas. Um nome e uma história, até mesmo o azar, aumentavam o valor de uma gema. A Lua de Baroda, com vinte e cinco quilates, em forma de pêra e de cor amarelo-canário, que pertencera aos regentes Gaekwar de Baroda na índia, dava azar a quem a usasse ao atravessar água corrente. Quanto é que esta fama de má fortuna acrescentava ao seu valor? Quanto é que a história sangrenta do Grande Magnata, do diamante Hope Azul Francês e do Orlov acrescia ao valor destes?

Era certo que ele necessitava de saber mais sobre o diamante e sua história. Depois de o comprar, levá-lo-ia em segurança para a América e para o cofre de um banco. Depois iria a Istambul, Cairo e Teerão, lugares por onde o diamante passara.

Na sua ideia, não era uma pedra roubada a um ídolo na índia, mas sim um pedaço de estrela cadente. Os meteoritos traziam diamantes para a Terra; aliás, encontrava-se maior concentração de diamantes em meteoritos do que em jazidas. Os diamantes eram frios ao toque, mas pareciam quentes porque atraíam o calor da mão que os empunhasse. Todavia, Victoir podia jurar que o Coração do Mundo gerava um calor muito próprio - como uma estrela.

- Pedaço de estrela - disse em voz alta, e tremeu só de pensar nisso.

O alemão Heinrich estava sentado no bar quando Victoir entrou no casino para comprar o diamante. João também lá estava, mas na outra ponta, a falar com duas mulheres vestidas e pintadas de maneira a indicar que estavam no bar a negócios. Victoir sabia que João tinha vários negócios escuros entre mãos e não ficaria espantado se fosse chulo de várias raparigas.

Victoir deixou-se ficar à entrada para os olhos se habituarem à luz difusa. Não viu Varte. Cruzou o olhar com Heinrich, que lhe fez sinal para a parte de trás da sala. Sentado a uma mesa num canto escuro, com a luz que iluminava a entrada para a casa de banho a fazer brilhar a sua tez de barriga de peixe, estava Varte.

- Olá - disse Victoir, sentando-se à mesa.

- Trouxe o dinheiro? - inquiriu Varte. Victoir ergueu o sobrolho.

- Trouxe o diamante?

- Primeiro o dinheiro. Deixe cá ver.

Victoir tirou uma bolsa de debaixo do casaco e passou-lha. Varte pôs a bolsa no colo para os outros não verem o conteúdo quando a abrisse. Tirou um maço de notas de cem dólares.

- Os nazis falsificaram disto aos milhões, com gravadores profissionais e empregados da casa da moeda - disse Varte. - Como é que sei se são verdadeiras?

- O problema com as notas falsas dos nazis é a obsessão alemã com a perfeição: fizeram-nas melhores do que as originais.

Victoir estava certo de que muitas das notas faziam parte dos milhões falsificados impressos pelos alemães, mas também tinha a certeza de que Varte não saberia a diferença - ou estaria tão desesperado que pegaria nas notas falsas, sabendo que só um perito poderia discernir as diferenças.

- Estas são falsas - disse Varte.

Victoir abanou a cabeça e estendeu a mão. O homem fazia bluff, pois era preciso boa luz e uma lupa para ver a diferença.

- Não, são todas boas. Não vamos discutir. Você fica com o diamante e eu...

- Tenho de as ver com boa luz.

- Leve algumas e verifique-as, mas o resto fica comigo.

O romeno tirou algumas notas e devolveu a bolsa. Apressou-se pelo corredor fora em direcção à casa de banho.

Victoir recostou-se e rodou a cabeça sobre os ombros para aliviar a tensão. As negociações estavam difíceis. Não era como falar com um casal a respeito de um anel de noivado. A troca de dinheiro e mercadoria implicava níveis de medo, desconfiança e perigo.

Olhou para o bar. Heinrich ainda lá estava, debruçado sobre a cerveja, cotovelos no balcão, olhos fixos na bebida. Talvez esteja a ler a espuma da cerveja, pensava Victoir, para saber o que o futuro reserva a um ex-nazi com músculos entre as orelhas. Interrogava-se por que razão Heinrich não teria insistido em estar perto do patrão quando se desse a troca. Havia uma possibilidade - que o pequeno romeno também não confiava no alemão, muito menos com um maço de notas. Victoir apanhou o olhar de João e abanou a cabeça para dizer que a troca ainda não se tinha realizado. Pedira a João que ficasse no bar e o protegesse, se necessário. O romeno parecia ter uma desconfiança e um medo saudáveis de João, por isso era melhor que este se mantivesse à margem.

Passaram vários minutos e Victoir começou a ficar preocupado. Por que levaria o homenzinho tanto tempo? Fumou um cigarro e tornou a olhar para o relógio, uma reacção nervosa, pois não vira as horas a que o romeno entrara na casa de banho. Ocorreu-lhe que poderia haver outra saída - e que o homem tivesse fugido com as cinco ou seis notas de dólar que lhe dera.

Não era provável, não quando o homem tinha um diamante incrivelmente raro e valioso, mas já tinham acontecido coisas mais estranhas desde que os nazis haviam virado o mundo ao contrário. Levantou-se e encolheu os ombros para João ver. Olhou para o bar. Heinrich desaparecera. Que diabo? Apressou-se para o corredor e empurrou a porta da casa de banho dos homens, mas deteve-se à entrada.

Varte jazia no chão, de costas, com os olhos fixos no tecto, o rosto uma máscara de terror. O sangue que escorria da garganta cortada fazia uma poça junto à cabeça e aos ombros.

O chapéu desaparecera.

A janela estava aberta.

 

Ouviu-se a sirene de um navio no rio Tejo enquanto Victoir caminhava pelo cais em Lisboa. A neblina de Verão rastejara pela baía e saíra mar adentro naquela manhã. O cair da noite transformara a obscuridade num manto negro que servia a finalidade de Victoir de não ser visto.

Três dias volvidos desde que encontrara o romeno no chão da casa de banho, fora interrogado pela Polícia, mas como o morto não era português e viajava com um passaporte falso, bastaram umas «luvas» razoáveis aos investigadores para abafar quaisquer perguntas que eles fizessem.

Heinrich apareceu no dia seguinte, o corpo dera à costa na piscina formada pelos penhascos marítimos da Boca do Inferno. Teria ficado no fundo do mar - tinham-lhe atado um dos tornozelos a uma corrente com um pesado pára-choques de camião - mas um tubarão comera-lhe o pé e a corrente soltara-se.

Não era difícil adivinhar a sequência de acontecimentos. João subornara Heinrich, combinara o assassínio do romeno e o roubo do diamante, e agora eliminava a lista de testemunhas.

Victoir tinha a certeza de que constava da lista - as fugas às bestas nazis na França ocupada tinham desenvolvido nele um agudo instinto de sobrevivência.

Reflectiu sobre a sanha assassina que se apoderara da Europa nos últimos seis anos. Pensou em tudo que perdera. Vivera a era nazi na Europa, a que chamavam o Holocausto, embora a expressão cigana para o genocídio - o devoramento - fosse mais exacta. Nada o surpreendia. Não tinha fé alguma na bondade inerente à humanidade. Nem na amizade.

Estava certo de que as mortes e o roubo eram obra de João. Não sentia raiva pelo que ele fizera. Desconfiava que se confrontasse João, o português se limitaria a sorrir, a encolher os ombros e a sugerir um copo de vinho e uma boa mulher, em vez de lhe responder.

Porém, havia perguntas que não se faziam a outro homem. Não se isso implicasse duplicidade, assassínio e roubo. Um homem como João podia passar-nos um copo de vinho e a seguir cortar-nos a garganta.

Só lamentava a perda do diamante. Teria dado tudo por ele, menos a própria vida. O pobre diabo do Varte mal sabia como estava certo quando dissera que a gema acarretava uma maldição. Só esperava que um dia a mesma se abatesse sobre João, mas tal não era provável. Homens como João faziam a sua própria sina. Era a única explicação para gente que apostava forte para sair da sarjeta.

Lisboa deixara de ser um refúgio para ele.

Encontrou a doca que procurava e caminhou até um barco de pesca que aguardava por ele. Fugira aos nazis em França num barco de pesca. Deixaria Lisboa da mesma maneira, de barco para Inglaterra. Estudava a língua inglesa há um ano. Os documentos diziam que era americano. Ser americano era boa escolha, pensou. Queria ir para a América, onde tinha família que o ajudaria a estabelecer-se no negócio dos diamantes.

Além disso, era o único país no mundo em que um sotaque estrangeiro não significava que se fosse estrangeiro.

 

WIN LIBERTE, NOVA IORQUE,  1991

Fui sozinho para o aeroporto JFK, apanhando um táxi para o terminal de onde a TAP Air Portugal voava. Ninguém se oferecera para me levar e eu não pedira a ninguém. A única maneira de começar nova vida é deixar a antiga para trás das costas. «Alice já não mora aqui», dissera eu a Tony, o porteiro de serviço, à passagem. Ele olhara para mim, espantado. Eu também já não me lembrava de quem era Alice.

- Vamos sentir a sua falta, Sr. Liberte.

Dei-lhe um sobrescrito com dinheiro. Tony sempre fora bom tipo, ajudara-me a subir para o apartamento mais que uma vez quando eu estava tão bêbado que não conseguia sozinho.

Senti-me esquisito no táxi e recostei-me, a tentar descortinar o que se passava. Era surpreendente que, para quem nunca trabalhara na vida e só sabia descontar os proverbiais cheques, não me assustasse estar sem cheta. Era uma sensação de dormência, mas não de pânico. Talvez fosse estúpido de mais para entrar em pânico.

Havia outra coisa que me incomodava e comecei a percorrer a lista. Não era a perda do barco ou dos carros - eram coisas que se podiam substituir. Nunca fora maníaco por ter coisas. Comprava brinquedos e dava cabo deles e comprava mais, para usar e não para acumular. Não me era difícil abandonar coisas. Talvez porque tivesse perdido a mãe e o pai em criança. Nada era permanente.

Era assim que me sentia quanto ao apartamento no edifício Dakota. Tivera uma casa minha antes desta e teria outra. O facto de ser uma morada de renome mundial não me afectava. Comprara-a quando tinha dinheiro para gastar e a oportunidade surgira quando uma estrela rock sucumbira à voragem e precisara de uma pequena dose nas finanças após muitas pequenas doses de outro género.

O taxista acelerava pelas ruas de Manhattan, aterrorizando os peões que atravessavam fora das passadeiras, ameaçando deixar-lhes rodados de pneus nas costas e ficar com dentes no pára-choques. Lembrei-me do que me incomodava. Não deixava para trás nada que me merecesse cuidado. Nem o apartamento glamoroso, nem os carros desportivos, nem o barco topo de gama. Nem mesmo a namorada troféu. Mandara Katarina para Los Angeles com um bilhete de primeira classe e uma gorda conta bancária da venda do Bugatti. Gostava de Katarina, mas não lhe sentia a falta. Só sentia um vazio quando tinha tesão, prova suficiente de que a minha atracção era mais luxúria do que amor. Não que ela não fosse especial para mim. O resto dos meus amigos havia debandado quando ouvira dizer que eu estava falido. Katarina ouvira por interposta pessoa e acorrera em meu auxílio, mas eu assegurara-lhe que não passava de um esquema de evasão ao fisco. Ela acreditou imediatamente. De finanças pouco mais percebia do que gerir o seu livro de cheques, mas vinha de um ponto do globo em que os governos são burocracias corruptas e a evasão fiscal é uma forma de vida.

Tentei pensar em algo ou alguém de quem gostasse, de quem gostasse mesmo, mas nada me vinha à ideia. Não tinha família. Bernie morrera e nem éramos assim tão chegados. A minha madrasta só me convidava nas férias e eu arranjava sempre uma desculpa para não aceitar. Leo era uma bosta. Os meus «amigos» realmente não passavam de conhecidos - não tinha amigos de sempre, nem colegas de espécie alguma.

Nunca pensara nisto até que o carrossel se deteve, saí disparado e aterrei de cabeça. Bernie não me tinha feito um favor, e só desejo que o desgraçado do egoísta arda no fogo eterno do Inferno. Contudo, a alhada em que se metera contribuíra para me acordar em relação ao meu dinheiro. As coisas ainda estavam algo desfocadas porque ainda me sentia tonto da aterragem forçada, mas já podia ver que aquilo a que eu chamava viver não passava de acontecimentos isolados - a queca desta semana, a borga desta semana - em vez de um desempenho por inteiro. Como o título de um livro que eu devia ter lido na faculdade mas que nem os apontamentos conseguira terminar, a minha vida não passara de som e fúria, não significava nada.

- Sem amigos, sem nada.

O condutor perguntou-me o que dissera. Pelo menos acho que foi isso que perguntou. No tempo do meu pai, os taxistas tinham cerrados sotaques de Brooklyn, não se percebia nada. Agora tinham cerrados sotaques que vinham com turbantes e autorizações de residência. Jockeys de camelos, pretos da areia, cabeças de toalha, eram nomes pejorativos que os meus conhecidos - ex-conhecidos - lhes chamavam. Porém, nenhum dos que gozavam com os taxistas trabalhava tanto num ano como eles numa semana. Como seria ter de guiar um táxi e viver num buraco para poder mandar dinheiro à família no Terceiro Mundo, família essa que morreria de fome sem esse dinheiro? Que lhes passará pela cabeça, pelo estômago, quando a porta de trás se abre de noite para entrar um gajo com ar de frequentar o submundo, agarrado ao cavalo, segurando uma arma e com uma máscara de esqui - e quer ir para um sítio escuro e descampado onde ninguém ouve disparar nem gritar? Que aturam estas pessoas a chulos e putas e agarrados e gente que lhes mija e vomita...

Estremeci e afastei a ideia de alguma vez guiar um táxi. Quando estivesse assim tão pobre, seguiria o caminho do Cowboy da Meia-Noite e faria contratos orais nas casas de banho do Central Park, antes de aturar a porcaria que um desgraçado de um taxista aturava em Nova Iorque.

Quando saí do táxi, atirei uma nota de cem ao tipo, mais do dobro da corrida, e disse-lhe para ficar com o troco. Tinham acabado os meus dias de gastador-mor, mas era importante não me sentir falido.

 

Estava a passar pelo controlo de segurança no aeroporto quando vi uma mulher da minha idade, talvez dois anos mais velha, a passar o detector de metais à minha frente. Gostei da vista traseira e ainda mais quando vi o resto. Era ruiva, uma das minhas muitas fraquezas.

Um livro caíra-lhe da mala aberta ao passar pelo tapete de segurança. Agarrei nele e chamei-a, pois já se afastava.

- Deixou cair isto. - Olhei para o título. Economia Social da Fome do Terceiro Mundo.

- Acho que vi o filme - disse eu a sorrir, e passei-lhe o livro. Ela fez um olhar que enregelaria um cão raivoso.

 - Gostou daquela parte em que se comem crianças?

Oh, merda. Ela era «daquele» tipo. Idealista. Pronta a salvar o mundo.

Juntou-se a um grupo de três homens e outra mulher e atravessaram a multidão. Se não fosse o despique, eu nem pensaria nela duas vezes. Era atraente, mas decididamente abaixo de zero. Não sou desses que rastejam aos pés de mulheres que os pisam, mas é facto que a caça se torna mais promissora quando há barreiras a transpor. Além disso, aquele cabelo ruivo...

Fiquei atrás do grupo no check-in. Quando chegou a minha vez de falar com a jovem portuguesa atrás do balcão, apontei para a mulher ruiva.

- Quero-a promovida a primeira classe, sentada ao meu lado. Não importa quanto custa. -Ainda tinha o meu American Express. Nem poderia ter saído de casa sem ele.

- É sua mulher?

- Ainda não.

- Qual é o nome dela?

- Você é que me vai dizer.

A jovem fez um ar de aprovação.

- Fala português muito bem, Sr. Liberte.

- A minha mãe era portuguesa.

- Há regulamentos a cumprir.

- Os «americanos» têm regulamentos a cumprir. Os portugueses têm demasiada alma para deixarem que essas coisas sejam obstáculos ao romance.

- Por que não lhe pede o senhor?

- Tentei seduzi-la com o meu encanto e espírito e meti os pés pelas mãos. É uma mulher muito séria preocupada com os males do mundo.

- E o senhor?

- Completamente sem emenda com uma única ideia fixa. A mulher suspirou.

- Sim, é certo que tem sangue português. - Olhou para a ruiva e depois para o computador. - Marni Jones, Dr.a Marni Jones. Tem bilhete daquele grupo da ONU.

- Como é que fico com ela sentada a meu lado?

- Quais são as suas intenções com a Dr.a Jones? -

- Fazer amor com ela assim que chegarmos a Lisboa. - Ela assentiu.

- Bem, a companhia não tem objecções a isso. Desde que espere pelo desembarque. O lugar ao seu lado está livre. Boa sorte!

Não liguei nenhuma à Dr.a Jones enquanto ela hesitava no corredor do avião a olhar para o bilhete de embarque. Ainda com um ar de preocupação, levantei-me para lhe dar acesso ao lugar da janela. Não queria mostrar grande interesse à primeira. É melhor deixar uma princesa gelada dar o primeiro passo. Já estávamos em velocidade de cruzeiro e a tomar bebidas quando ela falou comigo.

- Nunca viajei em primeira classe. Obrigada. Encolhi os ombros.

- Já não se pode confiar em ninguém para guardar segredo. Ela disse-lhe por que razão eu a quis sentada ao meu lado?

- Disse que tenciona seduzir-me.

- E você?

-Aceitei, mas só para ter comida melhor e um lugar confortável,

Sr. Liberte.

- Se me conhecesse melhor...

- Mas eu conheço-o. A rapariga do check-in deu-me isto. Sacou de uma revista People de dentro da pasta. A chamada de

capa anunciava os Cinquenta Melhores Partidos Solteirões. Ela abriu a revista na página do artigo. «Win Liberte gosta de carros rápidos e mulheres atrevidas. É rico, mimado, conduz um carro que dá trezentos quilómetros por hora nas ruas da cidade, namora com a supermodelo Katarina Benes e nunca trabalhou um dia na vida.»

- Uau - disse eu-, parece um tipo fixe.

- Sr. Liberte... posso tratá-lo por Win?

- Prefiro senhor.

- O senhor é irrelevante. -o

- Cristo, já me chamaram muita coisa, mas que diabo quer irrelevante? Parece uma doença social.

- Num mundo em crise, com guerras, revoluções, fome, injustiça e convulsões sociais que assolam continentes inteiros, sabe em que lugar fica comer uma loura ao volante a trezentos à hora numa auto-estrada?

Percebi que me ia dizer e cortei-lhe a palavra.

- Sabe o que penso dos africanos e asiáticos esfomeados? - Inclinei-me para ela. - Resolvemos o problema da fome no mundo se dermos uma metade a comer à outra metade.

- Eu estava enganada... você não é irrelevante. Você é um traste completamente egocêntrico, avarento e debochado.

Não foi preciso muito para descobrir que ela pertencia a uma missão da ONU em Angola, com escala em Lisboa para uma conferência com dignitários portugueses antes de seguir para a África equatorial.

- Angola sofre da maldição terceiro-mundista dos recursos naturais, a síndroma dos petro-diamantes. Em quase qualquer país sub-saariano, a descoberta de petróleo ou diamantes trouxe morte e destruição em vez de paz e prosperidade. Em Angola, na Serra Leoa, nos Congos, é sempre a mesma história. Militares rebeldes apoderam-se dos poços de petróleo ou das jazidas diamantíferas e usam a produção para comprar armas que os mantêm no poder. Não matam

às centenas ou aos milhares, mas destroem, mutilam e violam às dezenas de milhares, são milhões os que já sofreram ou morreram.

- Conte-me mais sobre Angola - disse eu.

- Porquê?

- Sei lá, pode ser que um dia destes compre o país.

- Como disse, é zona de guerra. Foi colónia portuguesa até 1975 e separou-se após anos de guerra, mas a independência só mudou quem lutava. Desde a independência até hoje, existe guerra civil entre um grupo chamado MPLA e outro chamado UNITA. O MPLA controlava o Governo e recebia apoio dos russos com centenas de tropas cubanas; a UNITA recebia apoio da CIA.

- Os bons e os maus.

- Os maus e os piores. O presidente Reagan tinha Savimbi, o líder dos rebeldes da UNITA apoiados pela CIA, como um herói. O povo de Angola chama-lhe maníaco homicida, psicopata, e pior. Rouba crianças, acolhe-as quando morrem de fome nas ruas, torna-as viciadas em droga, dá-lhes metralhadoras e transforma-as em assassinos. Os rebeldes e o Governo deveriam ter chegado a acordo pela paz, os cubanos foram para casa, mas ninguém leva a paz a sério... a guerra é que dá lucro. Savimbi apoderou-se da zona dos diamantes, o Governo tem os poços de petróleo, lutam abertamente e às escondidas, e toda a gente está contente, excepto os milhões de pessoas que passam fome.

- E que tem você a ver com isso tudo? - perguntei eu.

- Estou encarregada de saber quanto da ajuda da ONU chega realmente ao povo, como deve acontecer. É a primeira vez que vou a Angola, mas sei que mesmo que só metade for devidamente distribuída, já me devo dar por satisfeita.

Calou-se e voltou a lançar-me um olhar gelado.

- Li algures que a sua família está no negócio dos diamantes. Percebe porque lhes chamam diamantes de sangue, Sr. Liberte, não percebe? Porque estão saturados de sangue de inocentes.

Assenti e murmurei algo neutro sobre o negócio de diamantes da minha família.

- Tenho ideia de que a Casa Liberte consta da lista de proprietários de minas em Angola - disse ela. - Já alguma vez foi a Angola ver os horrores que a indústria dos diamantes lá criou?

E pronto, evidentemente, o meu nome estava na lista negra. Ela sabia o porco que eu era ainda antes de me conhecer. Parecia que ia espetar o garfo com que comia a salada no meu coração. Não me atrevi a contar-lhe que o meu actual objectivo de vida consistia em arranjar maneira de espremer sangue suficiente da mina de diamantes para voltar ao estilo de vida que tivera antes da Queda.

- Marni, a sua mãe andou consigo às cavalitas quando era bebé, durante as manifestações em Berkeley nos anos 60?

- É assim que vê a preocupação pelo sofrimento do mundo? Como um retrocesso para os anos 60? Você é o indivíduo mais mal informado do mundo para além dos próprios prazeres egoístas que eu já vi.

- Hei-de mudar, prometo. -,, -

- Sr. Liberte, sabe o que é que gosto em si?

-           Nada, absolutamente nada. Mas, agora que já descartámos isso, quer jantar comigo em Lisboa?

- Mais depressa comeria com uma víbora.

- Então aceita, não é?

 

Lisboa

À saída dos passaportes e já na zona da multidão, fiz a última e derradeira tentativa com Marni.

- Tem a certeza de que não quer jantar comigo? - perguntei.

- Sinceramente, acho que lhe devia pagar o jantar por todos os insultos que aturou durante milhares de quilómetros, mas vou estar muito ocupada com actividades da ONU aqui em Lisboa... reuniões todos os dias, jantares todas as noites, por isso parece-me que não vou poder pagar-lhe.

- Que pena, vou estar muito sozinho aqui em Lisboa, não conheço ninguém.

- Não me parece que se vá sentir sozinho. - Fez sinal com a cabeça por cima do meu ombro. Havia uma mulher com um lenço na mão que tinha WIN escrito com bâton. Riu-se e acenou com o lenço quando me viu a olhar.

- Boa caçada - disse Marni, e afastou-se.

- Sou a mulher do João - declarou Simone. - Desculpe o lenço, mas além do sexo e da idade não sabia quem procurar.

Falava inglês com um sotaque estranho. Eu precisava de praticar o meu português e passei logo a isso depois das apresentações.

Simone guiava um Rolls Royce Silver Cloud descapotável de cor branco-pérola. Demasiado sonso e conservador para o meu gosto em carros, mas a ela ficava-lhe bem.

Irradiava uma sensualidade nua. O cabelo preto, os olhos verdes, a pele pálida - quase tão pérola como o carro - acentuavam os diamantes que ela usava. Grandes - nas orelhas, no pescoço, nos pulsos e nos dedos. Todos tinham engastes únicos, mas ela não usava nada mais além de diamantes. Era invulgar. As mulheres costumavam misturar as jóias, punham rubis e safiras para dar cor, embora tivesse reparado numa gargantilha com várias pedras amarelas e verdes e até um raro diamante rosa-claro. Embora as cores ficassem bem, eu sabia que não eram diamantes de primeira água. A gargantilha valeria uma fortuna se os diamantes coloridos fossem pedras fancy perfeitas, e não o tipo de coisa que se usa para ir buscar alguém ao aeroporto. No entanto, mesmo com defeitos graves, as gemas ainda valiam muito.

Ao invés de revelarem ostentação, as jóias ficavam-lhe bem, como uma coleira de diamantes no pescoço de um felino insinuante.

Calculei rapidamente a diferença de idades entre ela e João, que tinha de ter a idade que o meu pai teria, sessenta e muitos ou já setenta anos. Cerca do dobro da idade de Simone, que eu estimei em trinta e cinco anos.

Uma mulher jovem e quente, um velho rico, não seria o par talhado no céu, mas eu ainda não vira João. Talvez fosse o Jack La Lanne1 português.

Havia algo que não batia certo em Simone, tinha um ar desabrido. Não era tanto a capa dura que as mulheres ganham por terem sido mal tratadas e terem sobrevivido a duras penas. Eu via um pouco disso em Katarina, um ar de «não me pises». A pose de Simone era mais subtil mas muito mais ameaçadora. Enquanto Katarina poderia ter ganas de me arrancar os olhos, desconfiei que Simone seria capaz de me dar um pontapé nos tomates e de me encostar uma faca ao pescoço se a irritasse.

Vi o primeiro sinal disto quando saímos do terminal. Ela estacionara indevidamente o Rolls Royce mesmo em frente - a arrogância dos ricos. Havia um polícia de trânsito com mau modo à espera dela - ser capaz de trucidar alguém por causa de um estacionamento indevido devia ser o ponto alto da semana dele. Nem conseguiu dizer três palavras antes de ela o chicotear com a sua língua viperina. Eu pouco sabia de calão de rua em português, mas fiquei com a ideia de não ser conversa que os polícias de Lisboa estivessem habituados a ouvir de mulheres que conduzem Rolls Royces.

 

*1. Campeão americano de culturismo e halterofilismo, nascido em 1914, tornou-se a referência máxima da boa forma e da longevidade naquele país. (N. da T.)

 

- Cabrão - disse ela quando saímos da curva. - Gente mesquinha com regras mesquinhas.

- Lembre-me de não tentar aplicar nenhuma das minhas regras

a si.

Ela riu-se.

- Desculpe, mas não gosto de polícias. - Tornou a rir-se. - Não costumo atacá-los daquela maneira. Aquele deve ter-me feito lembrar de alguém que eu conheci quando era miúda.

Fiquei a pensar que tipo de passado teria ela tido para entrar em conflitos com a Polícia. E se na vida actual ainda teria oportunidades dessas.

- Deve achar-me horrorosa.

- Não, aliás, preciso de melhorar o vocabulário português e acabei de aprender umas palavras novas. Só não sei com que tipo de gente devo usá-las.

Ela tornou a rir-se. Ria livremente, facilmente, sem reservas, assim como se enfurecia rapidamente e sem constrangimento. Dei logo comigo a pensar nela sexualmente. Já ouvi dizer que é inato nos homens gostarem de mulheres como Marni da ONU, que dão luta, deve ser algum instinto primitivo que nos ficou das cavernas. Talvez seja isso, mas existe ainda outro tipo de mulher que atrai irresistivelmente os homens, o mesmo género de atracção que uma traça tem ao bater as asas à beira de um vulcão. Mulheres como Kathleen Turner em Noites Escaldantes, Lana Turner em O Carteiro Toca Sempre Duas Vezes, Barbara Stanwyck em Pagos a Dobrar, mulheres que remontam a Lorelei e às Sereias, as mulheres fatais têm tido um magnetismo animal que leva um homem à desgraça. Também existem homens que atraem boas mulheres com este magnetismo fatal.

Disse para mim mesmo que devia manter o fecho das calças bem fechado. Do que ouvira ao meu pai e a Bernie acerca do João, o gajo era duro - não apenas no sentido dos negócios, mas também de uma forma mortífera.

Na minha mente, pintava-o como o padrinho da mafia portuguesa. Já para não dizer que o homem português tem aquele tipo de machismo que não vê mal algum em dar umas por fora, mas considera punível com a morte um homem que se meta com a sua mulher.

Um marido americano sentir-se-ia mais inclinado a dar um murro ao macho invasor, em vez de uma facada ou um tiro. Ser aberto de alto a baixo em Lisboa e passar a eternidade na vala comum não estavam nos meus planos.

- Acho estranho que o seu pai nunca o tenha trazido a Portugal - disse ela. - Ele e o João faziam negócio muito antes de nascer.

- Não era oportuno, as coisas não aconteceram como se esperava. A minha mãe morreu tinha eu oito anos e o meu pai uns anos mais tarde. Nunca veio a Portugal depois de eu nascer. A minha mãe tinha pouca saúde e eu percebo que ele e o João tivessem trabalhado juntos tanto tempo que já não fosse preciso.

- Posso fazer-lhe o arranjinho com ela - disse Simone.

- Com quem?

- A ruiva que tentava engatar quando saiu do avião.

- Tem uma agência de casamento?

- Não, reparei que ela traz um crachá da ONU. Está cá com os colegas para se reunirem com a organização portuguesa de ajuda a Angola.

- Conhece alguém nessa sociedade? -

- Intimamente. Sou a presidente.

Saber que ela chefiava uma organização benemérita não me espantava mais do que se a tivesse ouvido dizer que era astronauta. Não é que haja alguma contradição num bicho sensual ser presidente de uma organização de ajuda humanitária para África. Porém, Simone não me parecia do tipo caritativo, nem um pilar da alta sociedade. Deduzi rapidamente que se tratava de um contacto entre a ajuda a Angola e os diamantes de Angola, pelo menos para o marido dela.

Ela riu-se da cara que eu fizera.

- João tem um interesse especial em Angola.

- Já lá esteve? Ela franziu o nariz.

- Uma vez. Ia morrendo porque não queria comer nada nem beber nada, e saí de lá assim que pude. Nada do que tenha lido ou ouvido acerca daquilo chega perto da experiência.

Apontou para a paisagem.

- São só prédios de betão e auto-estrada, a partir do aeroporto,

mas a baixa de Lisboa é uma bela cidade antiga. Sintra, onde moramos, fica a menos de meia hora da baixa, mas é outro mundo. A vila e os arredores são considerados dos sítios mais pitorescos da Europa. As Nações Unidas declararam-nos Património Mundial.

- Têm filhos?

-Vai conhecer a Joana mais logo, tem quinze anos. Se e quando ela decidir ir para casa.-Tornou a rir-se.

- Qual é a graça?

- Tem de ter cuidado.

- Tenho ar de quem se aproveitaria de uma.

- Não é isso que me preocupa.

É muito mulher. Era o que eu pensava de Simone, a mulher de João, enquanto ela guiava. Era mesmo muito mulher.

A viagem do Aeroporto de Lisboa até à saída para Sintra foi como um tiro na auto-estrada, cerca de vinte minutos. Poucos quilómetros depois começava a região pitoresca que Simone dissera ser Património Mundial. Havia colinas, uma estrada estreita que serpenteava, aldeiazinhas com ruas empedradas e um Palácio chamado da Pena alcandorado numa colina. Passámos Sintra propriamente dita e entrámos numa estrada ainda mais estreita que mal chegava para dois carros. Passámos outro palácio e um hotel elegante mais acima.

- Palácio de Seteais, o Palácio dos Sete Ecos - disse Simone. - Era reduto da nobreza e agora um hotel. Estamos quase em casa do João, também muito bonita. Era casa de campo de um marquês português do século xvi.

A casa do João. Estranha forma de uma esposa se referir ao lugar que partilha com o marido. O relacionamento parecia cada vez mais o casamento de conveniência em que eu pensara quando a conhecera. Um velho rico, a mulher troféu para lhe aquecer os pés. Rica vida.

Passámos uma ala de sebes com três metros, virámos para um portão aberto e seguimos um caminho ladeado por altaneiros ciprestes italianos. A casa de pedra cinzenta no final do caminho encimava um penhasco murado. O Atlântico ficava mais além. Atrás de mim, no cume de uma montanha, ficava o Palácio da Pena.

Não cheirava a dinheiro - tresandava.

João estava à nossa espera à beira de uma piscina elevada de maneira que o nadador pudesse ter vista para o mar através de uma divisória de vidro.

Eu tinha razão acerca do Jack La Lanne português. João tinha uma tez cor de bronze polido, cabelo branco sedoso e umas sobrancelhas brancas fartas e revoltas. Vestido informalmente, era magro e seco, com a pele firme e esticada sobre os ossos do rosto, que poucas rugas tinha. A camisa de manga curta revelava músculos duros e proeminentes. Era, obviamente, alguém que tinha cuidado consigo próprio, um espécime perfeito de homem na idade de ouro. Excepto pela cadeira de rodas, coisa de que eu não estava à espera.

- Levei um tiro nas costas há uns anos, a jogar às cartas - disse ele -, tal como o vosso Wild Bill Hickok.

- Com ases e oitos? - perguntei eu, a respeito da mão de cartas que passara a ser de azar depois de Hickok ser morto com ela.

- Só um par de ases na mão e outro na manga. - Riu-se. - Leo lixou-te.

Não há nada como ir directo ao assunto.

O bar ambulante no pátio tinha uma dúzia de garrafas de vinho. Eu bebericava de um copo de vinho tinto, escutava, e estudava o velho amigo do meu pai.

Não havia nada no João que fosse coerente. Tinha uma mulher com metade da idade dele. Mesmo bem constituído como um armário na sua respeitável idade, estava amarrado a uma cadeira de rodas. A casa onde morava era uma antiguidade genuína, um lugar fabuloso que já recebera reis e rainhas. Porém, a piscina era ultra-moderna, de fundo negro e cheia de dourados. Deuses de mármore gregos e romanos rodeavam a piscina. Enormes colunas imperiais separavam o pátio da piscina da vista oceânica.

O efeito pretendia fazer o pátio parecer antigo e rico. Para mim era novo-riquismo, ostentação de mau gosto. Talvez o decorador do João fizesse filmes sobre o Império Romano e lhe tivessem sobrado bocados do cenário.

Enormes sardinhas, moluscos cozidos chamados percebes e aperitivos de queijo foram servidos por uma mulher mais velha que depreendi ser a governanta. As sardinhas foram servidas à portuguesa - eu é que tive que as limpar. Seria de esperar caviar e champanhe pelo ambiente da casa. Até o vinho fora uma surpresa. Era um vinho bom, barato, aquilo a que os portugueses chamam vinho tinto de mesa.

Simone dera um beijo a João quando chegámos. Depois sentara-se sossegadamente a ouvir a conversa, como uma boa mulherzinha.

- Fui eu que sugeri a Bernie entrar no negócio das minas de diamantes.

João tinha uma voz baixa, líquida, como um vinho que envelhecera bem. O tipo de voz que nos dá uma massagem, nos põe à vontade - antes de a faca nos deslizar entre as costelas. Se não me recordasse que o meu pai desconfiava de João, teria sido seduzido. Assim que soube haver relação entre Portugal e Angola, não foi difícil juntar João ao panorama. Marni dissera-me no avião que quando os colonialistas portugueses haviam deixado o país em 1975, alguns levavam garrafas de vinho cheias de diamantes. Podia imaginar João à espera no aeroporto de Lisboa para receber os aviões com dinheiro vivo e uma balança.

- Não me passou pela cabeça que Bernie afundasse a tua herança inteira na mina. Esperava que disseminasse os riscos, mas ele só convidou Leo, o que se revelou catastrófico. Quando Bernie teve de arranjar dinheiro para injectar, Leo pôs os pregos no caixão... no dele e no teu.

- Leo sabia como lidar com Bernie. Falava-lhe ao ego - disse eu.

- E não é assim que se controla um homem? Os homens controlam-se quer pelo dinheiro quer pelas mulheres. A maioria não pode passar sem nenhum deles.

Deu uma olhadela a Simone.

Tinha razão quanto a Bernie - o seu ponto fraco era o dinheiro. Mas não era por ostentação. Raios, o mais certo era ficar no apartamento de renda controlada mesmo que ganhasse a lotaria multi-estatal. Não, para ele, era uma maneira de ganhar o respeito e a admiração dos outros. Raios, Bernie usava fatos sintéticos e sapatos de imitação de couro mesmo na juventude. Se tivesse gasto o meu dinheiro em roupa, carros e mulheres eu teria compreendido melhor do que num qualquer esquema de mineração excêntrico.

- Quer-me parecer que a mina deve ter sido salgada - disse eu. - Assim, Bernie terá sido enganado. Leo descobriu e saltou do barco. É mesmo o tipo dele: um obcecado, mas sabe fazer dinheiro. E mantê-lo.

Nunca deixei que a voz traísse as minhas suspeitas de que João tivesse organizado o esquema todo. João abanou a cabeça.

- Explica-me lá o que quer dizer «salgar» a mina.

- Para dizer a verdade, nem sei bem, pelo menos em termos de minas de diamantes. Quando era puto vi um filme antigo em que os vigaristas faziam a mina parecer ter minério de ouro injectando ouro na mina com caçadeiras. Não imagino que se possa fazer isso com diamantes. Não que fosse isso a atrair Bernie. Tenho a certeza de que nunca viu a mina.

- Não é a colocar fisicamente diamantes na mina que se dá a falsa impressão de ter diamantes. Teria que ser feito com relatórios geológicos fraudulentos. E tens razão, Bernie nunca viu a mina. Comprou-a com base na minha recomendação.

- Óptimo. Posso agradecer-te por preparares Bernie para me lixar. É isso que estás a dizer?

- Podes culpar Bernie e Leo - disse João. - Eu não sabia que era a tua herança a entrar no negócio.

- Parece que a mina era mau investimento fosse de que perspectiva fosse. Ainda sou dono da mina e disseram-me que perde dinheiro. Por que é que recomendarias a Bernie uma coisa que suga dinheiro?

- Nunca se esperou que a mina fizesse dinheiro, Bernie sabia isso à partida.

- Desculpa? Bernie investia o meu dinheiro numa mina de que não se esperava lucro?

- Era maneira de abrir as portas a outras oportunidades.

- Que oportunidades?

- Presumo que saibas como funciona o mundo da indústria diamantífera. A maioria dos diamantes que vem de África é controlada pela De Beers e respectivo sistema de compradores convidados. É um clube particular e a quem fica de fora resta-lhe esgaravatar pedras sempre que puder. Tenho tido bons contactos em África ao longo dos anos, especialmente em Angola, devido à herança portuguesa no país, mas as pessoas envelhecem e morrem ou reformam-se, e os regimes políticos mudam, de maneira que a maior parte das minhas fontes angolanas secou. Só que, entretanto, dava-se outro fenómeno. Há uma preocupação mundial com os diamantes de conflito...

- Diamantes de sangue. Os que alimentam a discórdia e as guerras civis no continente. - Marni ter-se-ia orgulhado de mim.

- Diamantes de sangue, diamantes de guerra, conflito, seja qual for o nome, são diamantes por armas. Têm-se envidado esforços para parar o negócio. - João abanou a cabeça. - Que ingenuidade. Como se as facções antagónicas não descobrissem outras maneiras de financiar os combates, métodos muito mais cruéis do que tirar parte da produção de diamantes para comprar armas. Os esforços para parar o negócio desencadearam um boicote aos diamantes de países onde a guerra é financiada pela produção de diamantes. -João fez uma pausa e bebeu um golo de vinho. - Como sabes, os diamantes não têm impressões digitais. Ninguém pode dizer se um diamante foi extraído em Angola, no Congo ou na Sibéria.

- Ouvi dizer que andam a tentar arranjar maneira de se saber.

- É certo, mas nunca terá exactidão suficiente porque existem zonas em África onde a mesma erupção vulcânica de há mil milhões de anos atrás criou diamantes que se espalharam por mais de um país. Estes terão todos a mesma impressão digital. Seja como for, o crescente boicote de diamantes de conflito criou uma oportunidade para nós.

Percebi o «nós» e deixei-o passar por cima do ombro.

- Os diamantes angolanos estão na lista de boicote? - Era uma questão importante. Eu não sabia se a mina que perdia dinheiro poderia alguma vez vir a ser rentável, mas seria evidente que não, se, ainda por cima, não fosse possível vender diamantes dela extraídos.

- Não. Angola encontra-se actualmente em período de transição. Savimbi e o Governo fizeram uma paz temporária. Tecnicamente, isso faz com que Angola já não seja zona de guerra.

- Tecnicamente?

- A paz não vai durar. Dou-lhe um ano, talvez dois. Savimbi é louco, completamente lunático, e o Governo também não é o verdadeiro representante do povo. Não tardará muito que a lua-de-mel dê em divórcio violento. Há décadas que se digladiam, matam e esquartejam. Um bocado de papel chamado acordo de paz não chega para ensopar todo o sangue derramado.

- Como é que Bernie e a mina de diamantes se encaixam nesse atoleiro de guerra civil e furor internacional por diamantes de sangue?

- Existe um processo de certificação de diamantes. Para contornar o boicote, o diamante tem de vir com um certificado dizendo que foi extraído num país fora da lista de nações em guerra. Enumerei as etapas.

- Os diamantes não têm impressões digitais. Extraem-se diamantes na Serra Leoa ou noutro sítio qualquer da lista proibida, arranja-se um certificado de uma mina em Angola e vendem-se os diamantes no mercado. Como são de proveniência duvidosa, consegue-se diamantes de sangue muito mais baratos, embora se vendam tão bem como os outros.

- Muito bem. - João bateu palmas. - Tens a intuição do teu pai. Sim, conseguem-se os diamantes muito mais baratos... mas não só por serem diamantes de conflito. Mais importante do que o pedigree dos diamantes é o modo de pagamento. É um sistema de troca, e não de pagar e levar.

- São trocados por quê?

- Os militares preferem sempre armas a dinheiro. Os negociantes que lhes ofereçam armas e munições, e não apenas dinheiro, satisfazem uma necessidade. Como nos filmes americanos, as transacções não devem ser muito diferentes das dos contrabandistas que descarregavam vagões de espingardas para as tribos durante as guerras com os índios no Velho Oeste. A diferença é que estes abastecimentos de guerra chegam em aviões a jacto e o armamento costuma ter tanques e mísseis terraar.

- Onde é que os negociantes de diamantes arranjam esse armamento?

- Assim como existe um boicote à compra de diamantes de sangue aos senhores da guerra em África, também há a proibição de lhes vender armas. As armas são, digamos, artigos de mercado negro, muitos deles comprados subrepticiamente na União Soviética, já que este país passa por enormes problemas económicos. - Naturalmente, existem enormes aumentos de preços, já para não falar nas despesas acrescidas de passar de um país para outro. O sistema de subornos é aterrador. Uma espingarda que custe trezentos dólares em venda sancionada pelo Governo onde for fabricada, custará muitas vezes mais quando for entregue numa pista de terra batida no meio do mato e de uma guerra.

Dei um gole no vinho e reflecti sobre o assunto.

Esquemazinho esperto, do mais sujo que há. E talvez tão lucrativo como o tráfico de drogas ilegais.

- Paga-se muito menos pelos diamantes do que no mercado aberto e o pagamento faz-se por meio de armas já de si sobrevalorizadas. Dá-se meia volta e vende-se os diamantes a preço de mercado. Fecha-se o negócio extorquindo tanto ao comprador como ao vendedor.

- Exactamente! Vês agora por que não se esperava que a mina desse lucro?

- Vejo, e vejo por que razão Bernie agarrou a oportunidade com ambas as mãos. Poderia ter a sua própria mina. Não interessava nada que a mina estivesse no vermelho a extrair diamantes. A produção da mina é irrelevante. A verdadeira recompensa estaria em emitir certificados para diamantes de sangue. Bernie poderia passear-se pelo Bairro dos Diamantes com os bolsos cheios de pedras e dizer que eram da sua própria mina, arranjar diamantes de sangue baratos e tu também ganhas como intermediário entre o dono da mina e os militares.

João tornou a bater palmas e Simone soltou uma das suas risadinhas.

- É o que se poderia chamar uma situação em que só se tem a ganhar, não é? - perguntou ele.

- Pois, mas se é assim tão boa ideia, diz-me por que é que deu tão mau resultado que a minha herança ardeu e o pobre Bernie se atirou da janela abaixo.

João abanou a cabeça. Tinha um ar de mágoa genuína.

- Podíamos ter ganho baldes de diamantes no negócio e por um bocado de chumbo lixámo-nos.

- Como é que é?

- O líder militar com que faríamos negócio levou um balázio no olho esquerdo antes de concluir a transacção. Parece-me que fez ricochete dentro daquela cabeça dura antes de parar.

- E por que é que um negócio havia de estragar o esquema?

- Estas coisas costumam ser transacções com três partes envolvidas... o negociante de diamantes, o traficante de armas e o líder militar. Para aumentar o lucro, nós, eu, Bernie e Leo, decidimos fornecer as armas nesta transacção, o que implicava muito dinheiro.

- Especialmente depois de Bernie entrar com milhões para a

mina.

- É verdade, e as armas e o transporte custam mais milhões

ainda. Corria tudo bem até que uma patrulha do Exército do Governo apareceu na pista onde fazíamos negócio. Houve tiroteio e uma bala azarada atingiu o nosso militar. - João voltou a abanar a cabeça. - A patrulha governamental foi atacada, mas, assim que o chefe foi atingido, os subordinados começaram a digladiar-se para ficarem com os diamantes e as armas. Pararam um jipe em frente ao avião para o impedir de descolar enquanto discutiam. A discussão resultou em briga e o avião e respectivo conteúdo tornaram-se baixas de guerra. Acabámos por não ficar com nada do negócio.

- Meu Deus, isso era demasiado complicado para Bernie - disse eu, abanando a cabeça em sinal de descrença. - Ele não era mau nem estúpido, era até um bom comerciante de diamantes em terreno firme, mas essa treta dos diamantes de sangue não era nada que ele conhecesse. Foi tudo para o diabo e ele deu consigo a nadar com crocodilos.

- Os meus sentimentos - disse João. - Não fazia ideia de que ele tivesse apostado tanto. Eu sofri a maior perda, mas tinha outros bens para me manter à tona. Não me apercebi de que Bernie só tinha a tua herança para apostar.

A comiseração de João não me convencia. Não era pessoa que chorasse pelo sangue derramado de outros, mas eu não ganhava nada em enfrentá-lo enquanto não lhe visse as cartas todas.

A lógica e o raciocínio foram para o diabo quando o olhei nos olhos. Sim, ele falava a sério, mas tinha algo de divertido no olhar. Estava a brincar comigo. Fiquei lixado.

- Portanto, meteste Bernie em mais do que ele podia aguentar e deste-lhe cabo da cabeça até ele perder tudo o que tinha e o que eu tinha - disse eu a João. - É isto?

- Bernie sabia exactamente onde se estava a meter - disse João sombriamente. -Também eu sofri uma grande perda. Bernie Pagou a mina, mas a mim coube-me a parte de leão da compra das armas. Quando o negócio azedou, perdi a garantia, coisa que prezo mais do que a própria vida. Lamento que o filho do meu velho amigo tenha saído inadvertidamente prejudicado da situação. - Abriu as mãos na mesa do pátio. - Porém, o prejuízo pode desfazer-se.

- Eu ainda sou dono da mina, tu ainda tens contactos para a troca de diamantes por armas. É para isso o convite de vir a Lisboa?

João riu-se. Não era a risada hilariante com que a mulher se saía frequentemente, mas sim o som que um caçador faz se lhe ocorre uma ideia divertida quando está prestes a disparar contra um veado no meio dos olhos.

- Como já disse, tens o dom da perspicácia do teu pai. Ele sabia sempre o que eu estava a pensar... ainda antes de eu saber. Mas sim, bem vistas as coisas, é como disseste. Tens uma mina que não vale nada de momento, mas que ainda pode ser útil. Serve para encobrir a emissão de certificados. Tenho um contacto com outro militar que tem baldes de diamantes e precisa de armas. E tenho um traficante de armas a postos para fazer a troca.

- Eu não tenho dinheiro para financiar negócio algum - disse eu.

- Nem eu, não desta magnitude. Além do desastre em que Bernie participou, tive outros reveses causados por situações em Angola. Desta vez o comerciante de armas fará parte do negócio.

- O que pretendes de mim? E o que ganho eu com isso?

- Como dono da mina, podes assinar certificados para os diamantes que arranjarmos. As certificações têm de ser feitas em Angola e os certificados assinados em Angola. Bernie teria ido para lá assim que tivéssemos os diamantes.

- É só isso que tenho que fazer, assinar um papel?

- Basicamente.

- Eu não sou Bernie. Deixa ver se percebo. Ao contrário do meu tio, não vou atentar contra a própria vida se me lixarem no negócio.

João fez um sorriso deslavado de predador.

- O teu pai não era pessoa que respondesse fisicamente. Era uma das coisas que eu gostava nele. Fazia tudo com a cabeça. Eu esperava que o filho tivesse herdado esse bom senso.

- Deixa o meu pai a descansar em paz e diz-me como é o negócio e qual a minha parte nele.

João serviu-nos mais vinho da garrafa enquanto falava.

- Como deves imaginar, neste mundo existe mais de um

traficante disposto a trocar armas por diamantes. Por ser um negócio competitivo - e lançou-me mais um sorriso rasgado de predador -, um negócio competitivo sujo, o segredo é a alma do negócio. Basta dizer que o militar que quer as armas se encontra em Angola.

- Isso não tem jeito nenhum. Os diamantes angolanos podem

certificar-se. Para quê tanto segredo?

- Digamos que a situação assume proporções supranacionais delicadas. O indivíduo que recebe as armas em Angola não quer que os outros percebam que as vai receber. Como te disse, existe um acordo de paz temporário entre os rebeldes e o Governo. Nem toda a gente está contente com a situação. Os diamantes usados para pagamento não são forçosamente relacionáveis com uma mina em Angola... nem em lado nenhum.

Isto significava muito - ou nada. Significava que quem quer que trocasse os diamantes por armas era o Savimbi ou um desgarrado qualquer, alguém que não queria que o líder rebelde ou o Governo soubesse.

João continuou.

- Serás contactado assim que chegares a Angola pelo indivíduo que compra as armas. A troca entre diamantes e armas será combinada, e tu saberás da combinação quando estiver pronta.

- Vai ser perigoso, em Angola?

- Não mais do que acenar com uma bandeira israelita em Bagdade ou Teerão durante o Ramadão.

- Tenho uma ideia melhor: vendo-te a mina. Tu vais a Angola, combinas tudo e mandas-me um cheque com a minha parte.

Ele suspirou e olhou para a mulher.

- Por que será que estando velho e cansado e preso a esta cadeira toda a merda me vem parar à porta? - pigarreou. - Receio, senhor, que eu sejapersona non grata nesse país africano. Porém, se não te quiseres envolver, estás no teu direito. Não terei dificuldade em encontrar algum dono de uma mina em apuros em Angola disposto a participar pelos cinco milhões de dólares que tu terias ganho.

Bebi um golo e não disse nada. Ele descobrira o meu preço. Não sei quantas alminhas estavam vendidas ao diabo, mas com cinco Bilhões eu seria rico e irrelevante outra vez.

Mas não tive que dizer nada. João passara pelo menos meio século em negociatas com outros diamantistas, raça esta que só perde em avareza para os comerciantes de tapetes persas.

- Bebamos à nossa nova sociedade - propôs João. Simone riu.

- Também se ri em funerais? - perguntei-lhe.

- Só nos dos outros.

Pedi a João que explicasse por que razão não podia ir a Angola.

- Da última vez que lá estive, joguei póquer com um líder rebelde. Fui alvejado nas costas por alguém que queria o cargo dele. Aliás, mesmo que a minha condição física não me impedisse de me deslocar em Angola, a minha posição social impede-o. Há uma tendência para se fazer inimigos, quando se fica no negócio dos diamantes muito tempo. O tipo de inimigos criados na África equatorial vem à nossa procura com rockets antitanque.

Mas - abriu as mãos sobre a mesa - se tens medo de ir, não te censuro. Posso tratar que passes a mina para o nome de alguém, talvez o gerente da mina. E ainda recebes uma percentagem, talvez tanto como dez mil por mês.

Dez mil ao mês eram trocos, não davam para a conta do champanhe.

- Cinco milhões num negócio, é isso que dizes?

- Cerca de dois milhões neste negócio. O resto será ganho em seis ou oito meses com mais negócios. Assim que fizermos este, teremos uma clientela certa a bater-nos à porta. Então... sócios?

- Quem é o terceiro membro da equipa, o traficante de armas?

- Um gajo conhecido como Bei.

- Parece turco. Argelino?

- De uma das repúblicas soviéticas muçulmanas, o Turquistão, creio, mas agora vive em Istambul. Era coronel no corpo de aprovisionamento do Exército soviético. Deixou a União Soviética a fugir de um pelotão de fuzilamento, foi o que ouvi dizer. Parece que entrou no negócio de armas do mercado negro ainda fardado. Já ouviste o termo «rei dos canhões»?

- Nem por isso.

- É uma maneira antiquada de descrever um mercador da morte, um indivíduo que vende armas a facções antagónicas... e é

conhecido por alimentar os conflitos para melhorar o negócio ou até por arquitectar o início das hostilidades. Creio que Krupp, o fabricante de munições alemão, foi o primeiro agitador a que se pode aplicar o termo.

»Bei é um rei dos canhões moderno. Não fabrica armas, claro, compra-as roubadas. E não há dúvida de que começa muitos dos roubos, além de não ser esquisito com compradores, como os da sua laia. Creio que forneceu armas às facções cristã e muçulmana que transformaram Beirute em escombros, vende ingredientes para bombas suicidas ao Hezbollah e tecnologia de mísseis computadorizados roubados aos israelitas.

- Um gajo bom para se conhecer... se se quiser começar uma guerra.

- Sim, ou se se quiser trocar armas por diamantes. Bei tem as armas, tu tens os certificados, eu tenho o gajo que pagará com diamantes. Como dizem os americanos, estão cobertas todas as bases.

Tive a sensação de que havia mais bases roubadas no esquema do que João deixava entrever, e não engolia o acto de contrição que tinha feito pelo «pobre Bernie» e os meus milhões perdidos. Porém, agora o João era o único jogo na cidade que me oferecia cinco milhões.

Saudei João com o copo de vinho e fiz um sorriso para ele e Simone.

- Que engraçado, este será o primeiro trabalho que eu já tive. Parece que vai ser de morrer...

Simone riu, mas João não soube como reagir à observação.

Ouvimos vozes frescas e várias jovens adolescentes entraram no pátio. O fato de banho que usavam era tanga e pele nua. Não era difícil adivinhar qual delas era a filha deles, Joana. Tinha o ar sensual de Simone. Mais nova e mais magra, tinha aquele ar esfomeado de Katarina e tantos outros modelos fotográficos.

- Jonny, anda cá, quero apresentar-te uma pessoa - disse Simone.

A miúda saltitou, cheia da presunção e arrogância típicas dos quinze anos. Aliás, também tinha o palavreado típico dos modernos quinze anos.

- Este é Win Liberte - disse João. - Já me ouviste falar dele. O pai era um velho amigo.

Olhou para mim de alto a baixo. Mal educada.

- És melhor nas revistas - disse em inglês. - Mas também são retocadas.

Não me acanhei em ripostar.

- Acho graça que leias revistas - disse. - Mas, claro, têm fotografias grandes e poucas palavras.

a;; -Vai-te fo...

Simone riu-se e cortou-lhe a palavra. " - Mereceste, minha cabrinha. Volta para as tuas amigas.

 Jonny resmungou um palavrão em português, qualquer coisa sobre um caralho, as partes privadas masculinas, e lançou-me um olhar que significava que ainda tinha muito para dizer.

Tenho de admitir, porém, que fui assolado por uma onda de luxúria quando pousei os olhos nas suas nádegas, macias como as de um bebé, enquanto ela se afastava.

- Tenho uma ideia melhor - disse eu para João, já a filha não me podia ouvir. - Mandamo-la a ela lidar com a guerra em Angola.

João resmungou.

- Ela roubaria os diamantes para comprar um vestido novo. Devia ser mais disciplinada, mas o meu marido estraga-a com mimos e tolera-lhe todos os excessos.

- Ela não é tão selvagem e maluca como a mãe na idade dela - ripostou João.

Observação interessante. Com aquela diferença de idades, fiquei a pensar onde é que ele teria descoberto a mulher. No recreio da escola?

Simone levou-me ao meu quarto, que tinha vista para o mar. Não me teria saído melhor se tivesse ficado no hotel-palácio mais abaixo. O quarto era de luxo.

- Tem um mini-bar, para o caso de ter sede, e a campainha para chamar os criados está na mesinha baixa. Queremos que se sinta em casa. Os criados tratam de tudo o que quiser.

Os criados não podem combinar uma hora de sexo com a patroa, mas fui educado e não falei nisso. Ela parou à porta.

- Quer que marque um jantar com ela?

- Com a sua filha? É muito nova... -

- Com a mulher do aeroporto.

- Não me importaria de ter o número de telefone dela.

- Posso tratar disso de maneira a que ela pense que se vai encontrar com um importante contribuinte para a causa do sofrimento mundial.

Ri-me.

- Ela já pensa isso, mas sei o que quer dizer. Acha que ela não

sairá comigo se for eu a ligar?

- Que lhe parece?

- É fácil dizer não ao telefone.

- É, e eu vi-a no aeroporto. Parece uma pessoa dedicada, que luta por verdade e justiça. Nada o tipo que perde tempo com um homem que adora mulheres e carros desportivos.

- É muito esperta, Simone. Trate disso por mim.

Ela lançou uma pergunta de despedida.

- Ela não é como nós, pois não?

Fiquei à janela a matutar naquilo. Talvez eu não chorasse com o sofrimento do mundo nem servisse peru de Acção de Graças a vagabundos na Bowery1, mas não me parecia que fosse... e de repente atingiu-me. Caraças, tinha acabado de tratar de um negócio onde ganharia massa - cinco milhões dela, para ser exacto - por fornecer armas que matariam gente. O negócio era assassínio por cima de ilegalidades e imoralidades. Tudo pela porcaria do lucro.

Eu não era melhor do que João. E talvez tivesse menos pretextos do que ele para estar envolvido em coisas más com pessoas más. O meu pai dissera que o João tivera de lutar contra a pobreza das ruas, acorrentado por preconceitos contra a sua condição de mestiço. Simone também não deve ter vindo da alta sociedade. A única coisa que eu podia culpar por esta predisposição para o mal era a minha própria estupidez e preguiça para cuidar das próprias finanças.

Havia outro aspecto na questão de Simone que calou fundo e no qual tinha que pensar.

Iria mesmo fazer um pacto com o diabo? Estaria pronto a fazer coisas ilegais e imorais por cinco milhões de dólares? Acções que podiam alimentar uma guerra?

«Olha, meu» disse para mim mesmo, «esta briga não é tua, não tens que salvar o mundo.»

Eu não tinha criado a pobreza e a desolação que grassavam em África e na Ásia. Sei que o imperialismo ocidental tem culpas no cartório, mas, globalmente, o Terceiro Mundo fez a cama onde se deitou. O meu trabalho era fazer dinheiro. Se fosse usado para fazer mal, a culpa não era minha. Se não fosse eu, seria outro qualquer. De consciência desanuviada, comecei a desfazer as malas. Ouvi alguém à porta e virei-me. Simone não a tinha fechado. Jonny e uma das amigas de tanguinha estavam à porta. Jonny debruçou-se, beijou a rapariga na boca e puxou-lhe para baixo a reduzida parte de cima do biquini. Acariciou os seios da rapariga e sorriu para mim.

- Queres comer-nos?

Sorri e encaminhei-me na sua direcção.

- Voltem quando estiverem crescidas. Bati com a porta. Não era parvo... ou Precisava de um duche gelado.

 

*1. Bairro de Manhattan conhecido pela criminalidade e vadiagem. (N. da T.)

 

LISBOA ... VINTE ANOS ANTES

João entrou na sala de jantar do clube privado, escura e fresca. Era a sua sala preferida no edifício porque lhe transmitia a elegância que ele uma vez vira num velho e imponente transatlântico - antes de o navio ser desmantelado para sucata e enviado para o Japão para fazer abridores de latas e carros. Como a maior parte do clube, paredes e soalhos eram de madeira maciça, mogno e teca. Havia um friso dourado no tecto e faixas de latão polido nas paredes. Espalhados um pouco por todo o lado estavam palmeiras, grandes fetos e peças de arte do antigo império colonial português em África,

na índia e na China.

Nunca entrava no clube denominado Palácio do Mar sem se lembrar do quanto subira na vida. Ali estava ele, um distinto solteirão de meia-idade, visto pelos banqueiros e armadores como bom partido para as suas filhas casadoiras. Não que toda a sociedade respeitável lisboeta partilhasse desta opinião. Quando se candidatara a membro do clube houvera muitas objecções à sua adesão. O seu meio social era duvidoso. As transacções financeiras em que operava eram questionáveis e corriam boatos que o ligavam ao crime organizado que controlava o jogo e a droga do Porto a Faro.

Por fim, não fora o seu carácter - ou a falta dele - a decidir o assunto. Um enorme suborno junto de um membro que era o ministro das Finanças do país deu-lhe um grande empurrão. E o homem que mais protestava contra o passado suspeito de João mudara de ideias quando recebera fotografias da filha universitária na cama com uma estrela de futebol - da equipa feminina.

Não é que João quisesse conviver com os membros do clube. Aliás, não queria. Um aceno de cabeça e um sorriso à entrada, um cumprimento com o copo de brande ou o charuto quando um membro amistoso passava eram os limites do seu convívio com a sociedade de Lisboa.

Depois de se tornar membro, recebera convites para festas e outros encontros sociais por parte dos membros. Ele sabia que a razão subjacente aos convites era a vontade de o exibirem, para se gabarem de conviverem com quem pensavam ser um padrinho do crime em Portugal. Ele recusava-os todos, e nunca se envolveu em actividades negociais com outros membros, fosse o seu próprio negócio de diamantes fossem investimentos em esquemas alheios. Quando um membro propunha que ele entrasse num investimento, ele era sempre educado - mas evasivo. O mesmo se aplicava ao negócio de pedras preciosas. Quando lhe perguntavam por diamantes, ele remetia-os para um comerciante que trabalhava em sigilo para ele.

O motivo de João querer ser membro do clube nada tinha a ver com arrivismo. Pouco lhe importava aquela gente. Tinha muito má opinião de todos. Quase todos haviam herdado a respectiva posição social e financeira. Portugal era um país velho com linhagens cristalizadas - registava-se pouca mobilidade ascendente. As pessoas limitavam-se à insignificância com que tivessem nascido. João tinha mais do que a arrogância típica do self-made man para com os outros que se guindavam com pergaminhos familiares - tinha a presunção monstruosa do homem que roubara e matara. Todavia, ser membro daquele clube fora importante para ele. As suas razões prendiam-se com satisfação pessoal, a prossecução de um objectivo que se impusera em rapaz. Era ele um garoto de rua com doze anos e engraxava sapatos perto da entrada do clube. Vira homens a chegar em carros com motorista, a sair para o passeio com sapatos feitos à mão e fatos por medida. Já em criança, João era tarado por roupa, e admirava as indumentárias de homens e mulheres.

A curiosidade em relação ao interior, o santo dos santos de uns poucos privilegiados, levara-o a entrar enquanto o porteiro se encarregava da bagagem de um dos membros. Enfiou a cabeça e cheirou o polimento usado nas paredes de mogno. Esgueirou-se para o átrio, deslizou corredor fora e espreitou para dentro de um salão onde havia homens sentados em redor de mesas, a fumarem bons charutos e a beberem brandes envelhecidos.

O porteiro expulsara-o, mas, quando ia rua abaixo, jurou a si próprio que viria a entrar no clube com o porteiro a fazer vénias e salamaleques. Acabou por subornar e intimidar até ser membro, para alcançar essa demanda. Com a idade, o clube significava cada

vez menos para ele.

A bem dizer, o lugar entediava-o de morte. Ia só muito raramente, regra geral para passar o tempo na sala de jantar e no salão.

A Sr.a Távora estava numa mesa à espera dele.

- Minha senhora - saudou ele. Beijou-lhe a mão antes de se

sentar.

- João, você é tão galante. Ficaria surpreendido se lhe contasse como são poucos os homens que sabem tratar bem uma senhora,

actualmente.

- Não me surpreende. Mas talvez ficasse surpreendida se soubesse como são poucas as mulheres que sabem ser senhoras.

- Tal como você, não fico surpreendida, mas sim consternada. Conversaram mais algum tempo como velhos amigos, a graciosa

velhota, rica e de estirpe inatacável, e o homem de negócios de sucesso. Claro que ambas as descrições estavam erradas. A Sr.a Távora era a maior alcoviteira de Lisboa - tanto para homens como para mulheres. Quer fosse uma rapariga de pele clara para um árabe do petróleo, quer fosse um rapazinho com traços delicados para um homem que preferisse entrar pelas traseiras, a senhora tratava de tudo - por um preço.

Quando lhe dissera para se encontrar com ele no clube, ocorrera a João que alguém do clube poderia ter negociado com ela no passado e reconhecê-la. Ficou divertido a dois níveis: pensariam que as escandalosas actividades dela faziam parte da organização dele - e ficariam receosos de que ela os reconhecesse.

Fizeram conversa enquanto bebiam vinho antes do almoço, tendo poucos interesses em comum. João conhecera a senhora enquanto cliente do seu negócio de diamantes. Com os anos, recorrera ocasionalmente aos serviços dela para ter mulheres.

Olhando para João, não se percebia por que precisaria de uma alcoviteira - eufemismo para proxeneta - que lhe arranjasse mulheres. Em boa forma física, ficara bem-parecido na meia-idade, quando o rosto ainda jovem contrastava com o cabelo prematuramente prateado.

O cabelo fazia parte do segredo para o seu ar de juventude e vitalidade - era grosso e cheio, nada cinzento nem salpicado de negro. Em novo, a pele escura e as narinas ligeiramente abertas haviam sido traços de mestiçagem e estigmas sociais. Porém, a idade e o dinheiro haviam-lhe sorrido. Enquanto os outros ficavam flácidos e calvos, os genes tinham-lhe coroado a compleição pequena mas robusta e seca com um bonito cabelo. O dinheiro trouxera-lhe um ar cuidado e distinto. No entanto, estes requintes eram somente no exterior - ainda andava com duas facas.

O problema de João era arranjar mulheres que lhe satisfizessem uma particular necessidade. Cada um dos clientes da Sr.a Távora tinha necessidades especiais para prover aos respectivos gostos. As mulheres normais aborreciam-no. Não tinha tempo para os esmeros do namoro e romance, assim como não tinha tempo nem paciência para negócios comuns. João entrava instintivamente em negociatas que trouxessem lucros raramente disponíveis em empresas legítimas - e gostava do perigo e da excitação do duvidoso mundo em que os negócios por vezes se fechavam com sangue. Do mesmo modo, atraíam-no mulheres de um mundo diferente, com um ar perigoso.

Contudo, nenhuma ficava muito tempo com João. Umas deixavam-no porque ele perdia a cabeça e lhes batia, outras eram apanhadas a roubar. A maioria entediava-o depois do primeiro encontro sexual.

-Tenho uma rapariga muito especial - disse a senhora, passadas as afabilidades sociais.

- Se for remotamente como a senhora, é mesmo especial. Ela sorriu, agradada, embora soubesse que, na sua idade, tal

não passava de um cumprimento.

- Chegou até mim de um reformatório no Norte. Tenho lá alguém que sabe do meu interesse em ajudar raparigas perturbadas.

João teve de beber um golo de vinho para ocultar um sorriso. A pessoa devia ser um guarda prisional que contactava a senhora quando prendiam alguém adequado aos requisitos da alcoviteira.

- O que é que a torna especial? Há muitas mulheres bonitas em Lisboa, tantas que não tenho tempo para elas.

- É atraente, embora eu não a ache bonita. E o corpo, embora ainda no fulgor da juventude, já é mais do que amplo. Mas tem razão, um homem com o seu aspecto e posição certamente tem gostos definidos. O que a torna especial, pergunta você? Já assistiu a algum concurso de beleza? Quando vejo tantas mulheres bonitas perfiladas, lembro-me de um concurso hípico a que fui, onde os criadores agruparam os puro-sangues. Quando o nosso olhar percorre a fila, por vezes existe algo especial num cavalo que nos faz parar. Um certo ar, a maneira como ergue a cabeça, como escarva o chão, que nos diz ser um campeão. É isto que penso desta rapariga... ponha-a num concurso de beleza e ela poderá não ganhar o troféu, mas você

pára assim que a vê.

- E que qualidade especial é essa? - perguntou ele.

- Não sei dizer ao certo, não passo de uma pobre mulher que tenta juntar pessoas sós. Mas se lhe desse nome, diria que ela tem ardor, talvez mesmo fogo. No entanto, você é que decide.

Entregou-lhe uma chave de hotel embrulhada num guardanapo.

- Deixei-a num quarto do hotel que já usámos em Alfama. É um sítio pequeno e discreto onde já fiz negócio várias vezes. Ela está à sua espera.

João saiu do táxi em frente do hotel. Costumava andar no próprio carro, mas recorria à limusina Mercedes sempre que ia ao clube. Desculpava-se de si para si dizendo que era difícil estacionar no clube, mas a verdade é que gostava de reviver os tempos em que se imaginava a sair de um carro com motorista à entrada do clube.

Mandou embora o motorista e foi para o bairro de Alfama de táxi - não era o tipo de zona onde se quisesse exibir fortuna. Alfama, com o bairro mourisco, era a mais antiga parte da cidade ainda de pé, um emaranhado de ruelas estreitas e becos e pracinhas na colina junto ao Castelo de São Jorge, que coroava a colina. Ele crescera no bairro, a mãe trabalhava nas tabernas a cantar o fado e levava uma vida tão melancólica como as melodias que entoava. Fora naqueles becos que ele cometera o primeiro crime, aos onze anos, partindo uma garrafa na cabeça de um homem e apunhalando-o, depois de este homem arrastar a mãe para um beco reclamando que ela lhe roubara dinheiro.

Passou a recepção do hotel e foi directamente para o elevador. O empregado solitário acenou-lhe com a cabeça. Saiu no terceiro andar e parou à porta do quarto. Era um homem prudente. Girou a chave na fechadura e abriu a porta de par em par para se assegurar de que não havia ninguém atrás dela.

Ela estava na cama a ler uma revista. Atirou-a para o lado e levantou-se quando ele entrou. Ele verificou a casa de banho antes de olhar para ela.

A Sr.a Távora estava certa - a rapariga era bonita, com o potencial de vir a ser atraente, mas demasiado magra e nova para competir com mulheres mais cheias de sex-appeal. Era a tal «coisa» que a senhora havia reconhecido que era especial nela. Provocação, foi a primeira impressão que João teve. Uma rapariga maltratada pela vida, segundo a senhora, violada mais de uma vez enquanto vivia na rua.

Porém, à semelhança do pugilista ou atleta campeão, punha-se de pé e voltava a lutar.

À medida que ele a olhava de alto a baixo, os olhos dela tornaram-se duros. Levantou a saia e virou-se, baixou as cuequinhas e esticou o rabo para ele.

- Não queria ver isto?

- Já vi cus melhores - disse ele.

Ela voltou-se, puxou o decote da blusa para baixo, mostrando

um seio.

- Queres mamar? Podes tirar os dentes, velhote, e mamar nela.

Ele bateu-lhe.

O golpe apanhou-a completamente desprevenida. Ele fez um gesto largo e atingiu-a de lado na cabeça, acima da raiz do cabelo para que o hematoma não se visse. Ela embateu de lado na parede. Virou-se para ele pronta a ripostar, mas ele agarrou-a e prendeu-a contra a parede, de costas, com o braço no pescoço dela. O braço livre subiu com uma faca na mão.

Mostrou-lhe a lâmina, girando-a para reflectir a luz nos olhos dela. - Chamo-me João. Sou o pior filho da puta que já alguma vez viste. Vais ser a minha gaja. Quando te quiser, estalo os dedos e tu vens. Se quiser foder-te, abres as perninhas. Se quiser que o meu cão te foda, abres as perninhas. Percebeste? Ela cuspiu-lhe na cara.

Ele empurrou o cotovelo contra o pescoço dela, sentindo a delicada cartilagem a ceder à pressão. Ela ficou vermelha e arquejou.

- Gosto de uma gaja com coragem, mas tens de perceber que a minha paciência tem limites. - Afrouxou um pouco a pressão no pescoço, tocou o mamilo exposto com a afiada ponta da faca e sentiu-a

estremecer.

Beijou-a na boca. Ela aceitou os lábios dele sem retribuir.

A faca moveu-se descuidadamente pelo peito dela. João fez pressão e fez um corte de um centímetro no seio. O sangue escorreu-lhe

Pela pele branca.

- Esta é a minha marca. A partir de agora, és a minha gaja, se

não quiser dar-te a outro qualquer.

Afastou-se, guardou a faca e sentou-se na beira da cama para

tirar os sapatos.

- Agora vou comer-te.

Viu o que ia acontecer, mas ela era mais nova e mais rápida. A aresta aguçada de um cinzeiro apanhou-o de lado no pescoço e fez um golpe.

- Esta é a minha marca - disse Simone.

 

LISBOA,  1991

Simone combinou o jantar com Marni para a noite seguinte. O restaurante onde me iria encontrar com Marni era perto do Rossio, a praça principal no centro de Lisboa. Declinei uma viagem de motorista e emprestaram-me o Mercedes. Estacionei num parque subterrâneo na esquina ocidental da praça e andei até ao restaurante na outra ponta. Talvez tivesse encontrado estacionamento mais perto, mas queria andar pelo Rossio - havia algum património da minha família naquela praça. Era onde o meu pai conhecera a minha mãe e se apaixonara à primeira vista.

Sorri ao pensar no encontro deles, quando ele virara os olhos e a vira numa esplanada e ela erguera o olhar para ele. Teria sido um verdadeiro encontro à Hollywood? Os seus olhares cruzaram-se, o tempo parou, o movimento da rua deteve-se, a música e as vozes

calaram-se?

Caminhei junto à enorme fonte luminosa no meio da praça e decidi que fora exactamente isso que acontecera aos meus pais. A magia dera-se na primeira vez que os seus olhos se cruzaram.

Marni estava à espera na recepção do restaurante quando eu entrei. Estava de costas para mim, a olhar para o retrato de um rei de tempos esquecidos. Eu deslizei calmamente para perto dela.

- Olá, fala inglês? - perguntei em português.

Ela olhou para mim, boquiaberta de surpresa. Depois fechou os lábios e franziu-os, enrubescendo. Percebeu que fora enganada e debatia-se entre alinhar no jogo ou virar costas e ir-se embora.

- Non. Parlez-vous français? - perguntou.

- Oui, falo francês. Aliás, tenho parentes franceses, mas fiquemo-nos pelo inglês, que é mais fácil.

- Fiquei de me encontrar com um executivo lisboeta muito importante que pode contribuir para o programa de ajuda humanitária. Estou muito zangada com...

- Não, não está nada, eu obriguei Simone a enganá-la. Disse-lhe que me apaixonara irremediavelmente por si no avião e que cortaria os pulsos se não conseguisse vê-la. Ela salvou-me a vida.

- Se houver opção, prefiro que corte os pulsos a ter de jantar consigo.

Agarrei-a pelos braços e puxei-a para mim.

- Podemos ser civilizados e adultos ou posso envergonhá-la neste restaurante com acusações vulgares em voz alta sobre as suas propostas indecentes. Como é que prefere?

-Você é incorrigível. A que é que chama ser civilizado e adulto?

- Jantamos, fazemos amor, tomamos o pequeno-almoço, fazemos amor. E assim sucessivamente.

- Não pensa noutra coisa.

- Não é verdade. Por vezes penso noutras coisas excitantes além de fazer amor com uma bela mulher.

Ela riu-se.

- Ok., a lisonja conseguiu-lhe o jantar, pelo menos. Ninguém me chama bela desde os dois anos de idade. Mas sou eu que pago. Assim não pensa que tem direito à sobremesa só porque pagou uma refeição cara a uma mulher.

- Combinado.

Depois de nos sentarmos, ela perguntou:

- Tem de me explicar uma coisa. Porquê este trabalho todo a perseguir-me? Não sou bonita, não sou sexy, sou uma chata de uma professora-administradora e brevemente trabalhadora no terreno para uma causa humanitária. Você tem um amplo leque de mulheres atractivas que fazem virar cabeças quando entra com elas num restaurante. O que é que se passa então, Win, a minha tampa no avião foi a primeira que teve em toda a vida? Ficou traumatizado porque uma mulher não vai para a cama consigo assim que o conhece? Ou é masoquista?

Matutei seriamente na pergunta.

- Sabe em que é que acredito? - perguntei.

- Diga lá.

- Nada. Não acredito mesmo em nada.

Fui criado com duas religiões e a coisa mais significativa com que fiquei delas é a vaga ameaça de que, se não me portar bem, Deus castiga. Não consigo ter entusiasmo por causas sociais. - Abanei a cabeça. - Estou a marimbar-me para política, religião, humanitarismo, educação sexual, indicadores económicos, o aborto, tremores de terra, desastres de avião, seja o que for que não me afecte pessoalmente. Talvez seja isso que me interessa a seu respeito, além do desejo masoquista de ser pisado por si. Tenho curiosidade acerca de quem crê o suficiente numa causa para lhe dedicar a vida.

- Acredita no amor?

- Amava os meus pais e ambos desapareceram, mas nunca amei mais ninguém. Se a pergunta seguinte for: «Tem medo de amar?», nem pense. Não sei, lidarei com o amor quando o encontrar.

- E os seus brinquedos todos?

- Tão facilmente como vêm, também se vão. Agora que já ouviu a minha confissão, conte-me coisas. Como é que acabou por ser uma intelectual, em vez de médica ou advogada ou chefe índia?

- Está a ser condescendente? Primeiro sou linda, depois sou

inteligente.

- Claro, é o primeiro passo no manual que eu li para seduzir

crânios.

- É isso que eu sou? Um crânio? Não sei se se aplica, parece-me mais próprio de matemáticas e químicas do que de ciências sociais.

- Quem quer que tenha mais de quatro anos de faculdade para mim é intelectual. Raios, quem quer que leia mais do que a página desportiva para mim é intelectual. Não, quero mesmo saber. O que é que a levou a correr para África para salvar o Continente Negro? Como é que acabou por se especializar em Angola?

- Não me especializei em Angola, a minha especialidade é a economia do Terceiro Mundo e sociologia africana. O meu interesse em África vem provavelmente dos filmes do Tarzan que vi em pequena.

- Os filmes do Tarzan são para rapazes.

- Atitude sexista e antiquada. Seja como for, quando estive em Berkeley, ganhei uma bolsa da Fullbright para estudar um ano na Universidade de Coimbra, aqui em Portugal. A minha ligação a áfrica começou aqui, porque a minha companheira de quarto era de lá.

Queria ajuda com o inglês e ensinou-me o seu dialecto bantu em troca. Continuei a aprender a língua porque calculei que algum dia me ajudasse a chegar a África.

- Disse no avião que esta é a sua primeira viagem a Angola.

- Pois é. A minha formação acerca do Terceiro Mundo tem sido teórica, nas salas de aula e a trabalhar nas Nações Unidas em Nova Iorque. Especializei-me na teoria económica, no desenvolvimento de programas que apoiem missões de ajuda humanitária. Vou para o terreno para ganhar experiência prática, para ver em primeira mão a cadeia de comida e medicamentos. Dizem que ficarei atolada em crocodilos, cobras e água pantanosa.

Estremeci.

- Que ideia encantadora. Há muito que tem essas tendências suicidas?

- Os indígenas aguentam tais condições diariamente.

- Os indígenas riem-se de picadas de insecto que transformam em papa os miolos dos visitantes estrangeiros. Por que é que faz isso?

- Pelo dinheiro, claro. Vou ficar rica a entregar sacas de arroz a gente esfomeada. E estou em pulgas para ver quantas atrocidades foram cometidas para manter a sua mina de diamantes em actividade.

- Como é que não sabe absolutamente nada sobre mim e já me julgou e condenou por ser um traste rico, irresponsável, inútil, que vive dos despojos da devastação de economias do Terceiro Mundo?

Jesus Cristo, ela encurralara-me, e com muita razão. Se a mulher soubesse o que eu estava a organizar com João, daria rédea solta à tentação que sentira no avião de me espetar o garfo no coração.

- Devo ter lido algures. Mas, voltando à pergunta original sobre o que me faz avançar, poderá ser um choque para si, mas eu queria uma carreira que me fizesse sentir realizada. Saber que passarei os dias a facilitar a vida às pessoas que ficaram para trás no mundo moderno, aliás, que foram atiradas aos cães de guerra, dá-me tanta satisfação como você quando põe mais um milhão na sua conta bancária.

- Marni, está enganada a meu respeito. Nunca fiquei satisfeito por depositar dinheiro num banco. Sou um perdulário... gasto, esbanjo e deito fora enormes quantidades de dinheiro.

Mereço alguma consideração pelo facto de nunca ter ganho um dólar em toda a minha vida. Você vê-me como um capitalista que lixa os mais pequenos. - Levantei a mão como um escuteiro. - Juro que nunca trabalhei o suficiente nem tempo bastante para lixar ninguém. Ela abanou a cabeça.

- Por que será que me parece que você diz a verdade e orgulha-se disso? Já pensou que está a desperdiçar a sua vida? Como é que pode orgulhar-se de não ter feito nada?

- Espero pela recompensa no céu. Ela engasgou-se com o vinho.

- Diga-me de onde vem - disse eu. - Conte-me a história da sua vida.

- Nasci em São José, na península de São Francisco. O meu pai trabalhava para uma empresa de informática, e ainda trabalha. É vice-presidente da investigação.

Ergui a mão para a fazer parar.

- Não tem de dizer mais nada da sua família. Tenho uma bola de cristal. O pai é um tarado dos computadores, a mãe uma feminista radical em Berkeley, que andou consigo às costas durante as manifestações contra a guerra, contra a poluição, contra seja lá o que for. O casamento entre o tarado dos computadores e a radical não funcionou. Divorciaram-se. Você foi criada numa comunidade onde se passava o dia a fumar erva e a fazer amor.

Ela abanou a cabeça.

-Você é espantoso. Ou tem sangue de Sherlock Holmes ou pagou a um detective para me descobrir o passado. Porém, esqueceu-se daquela parte em que a minha mãe ingressa nos Weathermen 1 e me levou às costas para assaltar bancos para financiar as suas ideias revolucionárias. E quando ela...

- Ou seja, estou redondamente enganado.

- Sr. Liberte, eu não diria melhor.

-           Acho que somos absolutamente compatíveis. - Encolhi os ombros.

 

1. Facção radical e pro-terrorista dos «Students for a Democratic Society» e, grupo fundado em 1960 que clamava por uma democracia participativa por um lado, e contra a guerra do Vietname, por outro. Extinguiu-se nos anos 70 (N. Da T.)

 

- Os opostos atraem-se. Você é uma idealista com uma fiada de canudos atrás de si e a missão de salvar o mundo à sua frente. Eu sou um irresponsável que não serve para nada e precisa de ser reeducado, sem nada para fazer excepto esbanjar outra fortuna. - Aproximei-me mais até os meus lábios quase tocarem os dela. A sua sensualidade quente irradiava. Assim que vi Katarina, quis comê-la. Marni era uma mulher com quem eu queria fazer amor.

- Não. E não é por não querer. - Empurrou-me um pouco e endireitou-me o colarinho. - Quero muito.

- Tem alguém a quem dar satisfações?

- Tenho... a mim própria. Não sou uma pessoa forte. Tenho trabalho a fazer, montanhas a escalar, rios para atravessar. Não me posso deixar envolver por um homem. Não poderia trabalhar se o fizesse.

Eu estava a falar de fazer amor não de envolvimento. Ela leu-me o pensamento.

- Eu não sou como tu. Não consigo explicar, mas não me posso envolver contigo. O jantar foi bom e a companhia excelente.

Deu-me um beijo na cara e levantou-se.

Levantei-me e tomei-a nos braços.

- Não vás. Quero estar contigo.

Abanando a cabeça, afastou-se de mim.

- Não pode ser.

Observei-a a desaparecer pela porta da frente e atirei para cima da mesa o bastante para pagar três refeições. Ela esquecera-se de pagar.

- Obrigado - disse eu ao empregado sorridente antes de sair. Marni era um enigma para mim. Regra geral, não era mau a

classificar pessoas, especialmente mulheres da minha idade. No entanto, sempre que lhe punha um rótulo, ela esgueirava-se para outro. Claro, era uma intelectual com consciência social, mas também uma mulher quente e sensual que me fazia subir os níveis de testosterona.

Estava tão intrigado perante os meus sentimentos para com ela como ela aparentava estar a meu respeito.

Que diabo, eu também tinha rios e montanhas para desbravar.

- E castelos para atacar, dragões para matar - disse eu para a noite. Não tinha tempo para esmiuçar o mistério de Marni Jones.

Encaminhei-me para o parque subterrâneo na esquina da praça quando vi Jonny. Estava com um grupo junto à fonte no meio do Rossio. Não parecia nada contente.

Havia oito ou dez pessoas com ela, na sua maioria miúdos

- desde a idade de Jonny até a universitários - e três homens mais velhos, com vinte e tal anos. Os miúdos pareciam-se com Jonny

- mimados, ricos, à deriva. Os três tipos mais velhos tinham um ar duro, especialmente o que falava com Jonny.

Não era nada comigo e continuei a andar, mas parei quando vi um dos duros a passar para o lado de Jonny enquanto ela discutia com o outro. Percebi que ele se preparava para a agarrar. Merda. Não estava nos meus planos levar porrada do lixo das ruas lisboetas, mas não podia deixar maltratarem a miúda.

Apanhei o nome do que estava a ouvir os impropérios dela

- Santos - e o motivo da discussão quando me aproximei. Ela estava zangada com o Ecstasy que ele lhe vendera, que não era da melhor qualidade. Maravilha. Agora podia levar porrada por uma boa razão - manter uma garota de quinze anos na droga.

Santos olhou por cima do ombro de Jonny quando eu me aproximei. A maioria de nós pensa que vive numa sociedade civilizada, mas, a um certo nível nas ruas, a força bruta conta mais do que os miolos. Santos parecia um cartucho de artilharia - não era alto, mas sólido, afunilado de baixo para cima - pernas como cepos, grande peitaça, pescoço grosso, cabeça pequena. Eu não era um fraco, mas também não era duro.

- Ei, Jonny, queres boleia para casa?

O ar na cara de Jonny indicava que ela não sabia se me ia mandar bugiar.

- Vai-te foder, puta!

Não era a Jonny que Santos chamava puta, mas sim a mim.

- Vamos buscar... - Quando falava para Jonny e esticava a mão para o braço dela, girei nos calcanhares e dei um murro na cara de Santos, atirando o meu peso e o ombro contra ele.

Tal como me ensinaram. O murro assentou em cheio no queixo de Santos. O abalo do golpe repercutiu-se pelo meu braço acima.

Santos abanou e deu meio passo atrás com um pé.

Devia ter-lhe esmurrado o cu. Ainda tinha o braço a latejar, parecia que tinha esmurrado uma parede.

Os olhos de Santos ficaram vítreos por um momento, mas quando voltaram a focar-se foi para mim que olharam. Não um olhar humano, mas à maneira fria e perversa com que um pit-bull contempla o pescoço exposto de outro cão.

Bem podia fazer as últimas despedidas.

Subitamente, Jonny interpôs-se e deu-lhe uma série de pontapés.

- Cabrão nojento, João vai arrancar-te os tomates e dá-los a comer aos cães.

Santos aguentou os pontapés e injúrias sem mudar de expressão. Jonny agarrou-me no braço.

- Vamos embora daqui, para longe destes merdas. Caminhámos na direcção do parque subterrâneo.

- Obrigada - disse ela. - Mas não preciso da tua ajuda. Ele não me tocaria, sabe que João é meu pai. - Mandou-me um olhar de falsa sinceridade. - Agora tens de me pagar o que eu perdi com os comprimidos rascas dele.

- Nem penses, não estou numa de comprar droga. Deu-me o braço enquanto andávamos.

- Então estás numa de quê? Sexo? Podemos ir para um hotel ou foder quando chegarmos a casa.

- Não achas que os teus pais ficariam um bocadinho incomodados se nos vissem a pinar na sala?

Ela encolheu os ombros.

- Aprendi tudo o que sei sobre sexo a ver a minha mãe. Olhei para trás. Santos e dois companheiros vinham a seguir-nos.

- Não te preocupes - disse ela. - Têm medo de João. O meu pai está velho mas tem amigos importantes.

- Podem não te tocar, mas não quer dizer que não me cortem a cabeça.

O Mercedes estava três pisos abaixo. Entrámos e tranquei as portas. Liguei o motor e ela saltou-me para cima. Enfiou-me a língua na boca, agarrou-me na mão e encostou-a à carne quente entre as pernas.

Mordeu-me a orelha.

- Podemos fazê-lo aqui. Empurrei-a e engatei a mudança.

- Vamos mas é sair daqui. Não há testemunhas para dizerem ao João que fomos espancados até à morte aqui dentro.

Conduzi o enorme Mercedes rampa acima. Tinha uma surpresa na saída para a rua. Estava bloqueada. Estava um pequeno Fiat estacionado no topo da rampa, de frente para nós, quando chegámos ao fundo dessa rampa.

Santos saiu do lado do passageiro do Fiat. Trazia na mão quase um metro de aço. Já não tinha uma cara inexpressiva - parecia feio, mau e lixado.

Jonny olhou para mim.

- Merda.

- Pois, eu bem disse, não há testemunhas.

Carreguei no acelerador e virei o volante, fazendo gingar o carro, o eco dos pneus a chiar naquela cave. Em vez de avançar rampa abaixo para ser encurralado, engatei a marcha-atrás e virei-me no assento para ver a rampa bloqueada pelo Fiat.

- Que estás a fazer?

- Vou limpar o caminho. Põe o cinto.

Carreguei no acelerador, a queimar borracha, e o Mercedes lançou-se para trás.

Santos ficou boquiaberto quando o carro apareceu rampa acima. Encostou-se à parede e deixou cair a barra de aço. O condutor do Fiat estava de cara à banda a olhar para mim. Era visível a sua confusão e pânico enquanto engatava a marcha-atrás no carro.

Já a tinha engatado quando a traseira do Mercedes colidiu com a frente do Fiat. O choque mandou o Fiat a voar para fora da rampa. O Mercedes bateu-lhe novamente quando saímos para a praça, e pô-lo a girar vertiginosamente.

Engatei a primeira e desapareci.

Jonny olhava para mim, boquiaberta.

- És louco.

- Fico assim quando tentam matar-me. Chegou-se mais a mim.

- Gosto de ti. E sei retribuir favores. - Passou para inglês.

- Sou visita da tua casa. Não seria educado comer-te.

Ela riu-se.

- Tu achas que somos o quê? A Brady Bunch?1 João apanhou a Simone na rua, ou numa casa de putas. Nem sequer é meu pai... a Simone engravidou do motorista, que acabou na Boca do Inferno com uns sapatos de cimento. Ou talvez fosse o jardineiro ou o professor de ténis. Ela comeu-os a todos.

Eu não fiz comentários, nem acreditei em nada. A Jonny não era a primeira miúda a detestar os pais. Raios, às vezes os miúdos matam os seus criadores. E vice-versa. Mas eu sabia que João tramava alguma. O meu pai não confiava nele - e desconfio que Bernie fora demasiado crédulo. Eu queria informações dela e não sexo.

- Queres que te diga o que João anda a tramar, não queres? Dei-lhe uma olhadela pelo canto do olho.

- Andas a deitar-te a adivinhar? Tens sangue cigano?

- És sincero de mais. Pode ver-se o conflito na tua cara, pedes à miúda que traia o pai ou...

- Disseste que ele não é teu pai.

- Não sei quem ele é nem o que anda a tramar, mas, seja lá o que for, há quem perca sempre. Talvez quem morra. O pai de um dos meus amigos tem um problema... está sempre a mirar rapariguinhas novas, mais novas do que eu. Dizem que é doença, os miúdos dizem que é curto de vistas por causa do tamanho das raparigas. João tem o mesmo tipo de doença.

- É pedófilo?

- Não, estúpido, só tem olhos para dinheiro, até a Simone diz

que ele é doente.

- Há montes de gente que gosta de dinheiro.

- A ponto de matar por isso?

- Já o viste mesmo a matar alguém? Achas que ele vai matar o

Santos?

- Quando eu contar ao João do Santos, já não vai haver Santos. O merdoso vai ter de sair de Lisboa, esconder-se em Espanha,

 

*1. Família americana protagonista de uma comédia televisiva. (N. da T.)

 

ou até mesmo na Alemanha por algum tempo. Depois terá de pagar o regresso a Lisboa, dar ao João bastante dinheiro para ele ficar bem disposto. Se me tivesse tocado, o preço seria a própria vida.

- Como é que sabes isto tudo?

- Onde é que achas que moro? Quando estou entre colégios internos, ouço João ao telefone, ou quando recebe amigos, a fazer negócio, a falar de gente que volta atrás nos negócios, a falar dela como se estivesse morta.

- Que tem ele planeado para mim?

- Não sei, não ouvi nada, mas acho que tem a ver com diamantes africanos e o diamante de fogo.

- O diamante de fogo?

- O amante do João, como diz Simone. Nunca o vi, mas ouço-os falar dele, um diamante sem preço que João teve desde sempre. Meteu-se em apuros no ano passado, um negócio qualquer em África, e teve de o dar a Bei. Tu tens uma relação qualquer com o diamante de fogo, só não sei qual é.

- Quem é esse Bei?

- Um gajo com quem ele tem negócios. Simone não gosta dele. Mora em Istambul. Por vezes João manda-a lá para tratar com ele. Talvez para o foder.

- Tens uma boca suja para quem tem quinze anos. Nunca chamas aos teus pais «papá» e «mamã»?

- Não são meus pais. Fui encontrada num cesto no rio. A minha mãe era uma princesa que engravidou antes de casar.

- Agora percebo-te. Ela lançou-me um olhar inquiridor. -

- Ainda não te encontraste.

Ela descansou a cabeça no meu ombro e ficou calada no caminho para casa. No fim de contas, Jonny era uma rapariga inteiramente moderna, que odiava os pais e se sentia lixada pela hipocrisia circundante. Há miúdos que saem da casa partida sem um andar firme e nunca perdem o cambalear. A Jonny era um deles, uns dias a acelerar, outros a ir abaixo, à procura de drogas, copos ou sexo para se animar. Era fácil de imaginar que andaria assim o resto da vida. Custava apanhar o ritmo, quem não o tinha ao sair da casa partida.

 

Estacionei o Mercedes na entrada da garagem e saímos do carro. A traseira estava amachucada.

- Vou falar aos teus pais dos estragos amanhã de manhã, e deixo-te fora disto.

Ela pôs os braços em volta do meu pescoço e beijou-me na boca. Foi um beijo bom, daqueles que mexem com os primordiais fluidos reprodutores masculinos. Encostou o corpo ao meu.

- Boa noite.

Era Simone. Tentei interromper o beijo e afastar os braços de Jonny mas ela agarrou-se. Deliberadamente, claro.

- A espiar-nos? - perguntou Jonny, e largou-me finalmente.

- Claro que não, querida, estava só preocupada.

- Como vês, Win trouxe-me para casa em segurança.

- Não estava preocupada contigo, querida, mas Win está num país estrangeiro, não tem ideia dos perigos que uma cidade como Lisboa encerra.

- Se estás tão preocupada, seria melhor ele ficar num hotel. Jonny entrou para dentro de casa.

- O seu carro tem alguns estragos. - Disse a Simone que encontrara Jonny na rua e que tínhamos entrado no parque de estacionamento juntos, quando déramos com o estrago já feito, alguém batera e fugira. Não creio que ela acreditasse, e se Jonny quisesse contar aos pais acerca do Santos, não hesitaria.

- Falamos de manhã.

Eram palavras de boas-noites, mas ela não estava a dizer adeus.

- Lamento que Jonny o tenha maçado. Hoje em dia é difícil, para os miúdos. Eu cresci sem nada, nem mesmo afecto, mas isso fez-me ser grata por tudo o que alcancei e trabalhar mais por isso. A Jonny tem tudo de bandeja e não aprecia nada.

- É boa miúda - disse eu. Que mais poderia dizer?

Que a tirei de uma briga de rua com o passador de droga e que ela me tentara saltar para cima a caminho de casa? Além disso, queria parecer-me que não era realmente má miúda.

Sentia o calor de Simone. A mulher tinha uma sensualidade natural que irradiava sexo. Reparei na maneira como a roupa se lhe colava ao corpo voluptuoso, a maneira como atravessava uma sala, os lábios carnudos, e os montinhos dos seios a verem-se por cima do vestido, decotado em cima e curto em baixo. Não havia muitas mulheres na minha vida que me excitassem tão depressa. Podia ficar excitado com qualquer mulher sensual que atravessasse a sala, mas Simone tinha algo extraordinário, quase um toque de perigo.

- É uma serigaita. Disse-lhe que é filha do motorista? Ou que foi adoptada?

- Na verdade, falámos sobre a América. Ela gosta daquilo.

- Está a mentir. Mandámo-la para uma escola feminina caríssima no Connecticut e ela detestou lá estar. O único sítio que ela gosta na América é Los Angeles, e só por ser uma cidade de anormais. Mas não faz mal, merece um elogio por se recusar a divulgar as transgressões dela. Infelizmente, ela vai debatê-las abertamente ao pequeno-almoço... se se levantar antes do meio-dia.

- Está a fazer-se tarde.

- O que acha da proposta do João?

- Ainda estou a pensar.

- Deve ser tudo muito estranho para si.

- O quê? Minas africanas, diamantes de sangue, exércitos rebeldes assassinos? Nah, passo a vida nisto, lá na terra.

- Ouvi dizer que gosta do perigo de carros e barcos desportivos. Parece-me que, se tiver que morrer a fazer alguma coisa emocionante, não faz grande diferença se for num carro de corrida ou alvejado em África.

Sorri.

- Para mim faz diferença. Se me derem a escolher, prefiro morrer na cama, e escolher a mulher em cujos braços estarei.

 

A noite estava quente e corria uma brisa suave. Abri a janela, despi-me e tomei um duche quente. Apaguei a luz e deitei-me na cama nu, a gozar o ar nocturno no meu corpo.

Passou uma hora quando ouvi bater à porta. Sabia que ela viria. Era uma mulher que adorava homens. Só não sabia se tinha sido João a mandá-la ou se ela viera de livre vontade. Não podia negar que a mulher me excitava.

Ela deixou cair o roupão de seda ao lado da cama e gatinhou para cima de mim. Tinha os seios grandes e firmes e os mamilos duros como pedra. Debrucei-me e suguei cada um dos suculentos mamilos. Cheiravam a água de rosas. Ela segurou-me a verga entre as pernas, que já estava dura e latejava, empurrando contra a vulva dela, pronta a entrar.

- Estavas à espera da Jonny? - sussurrou ela.

- Estava à espera de uma mulher.

Puxei-a para mim e beijei-a avidamente.

Ela desceu pelo meu corpo, a brincar com os meus mamilos e a

deixar-me todo arrepiado. Passou a língua pelo meu falo duro e em redor do escroto, e tornou a subir a verga, enrolando-se nela como se lambesse um gelado.

Rolei sobre ela, meti-lhe a língua na boca e desci para o monte de pêlos púbicos. Já estava húmida. Descerrei o clitóris e massajei-lho com a língua. Senti-lhe o corpo a começar a estremecer, pronta a vir-se. Ofegou e soltou um gemido. Agarrei-lhe nas ancas e penetrei-a, mexendo-me para dentro e para fora até explodir, as unhas dela a arranharem-me as costas.

Estávamos deitados exaustos quando senti uma sombra por cima de nós.

- É mesmo teu, mãe - disse Jonny -, eu trago-os para casa e tu fode-los.

Deixei a casa de madrugada, antes de o galo cantar. Tinha um táxi à espera ao portão. Não saí como um ladrão na noite - rastejei como um verme. Nem sei por que razão me dera um rebate de consciência. Não pensara duas vezes em comer a Calções Jeitosos, a mulher do banqueiro - mas também não fora convidado dele nem estivera hospedado em sua casa.

Enquanto pensava nisto a caminho de Lisboa, percebi o que realmente me incomodava. Não tinha nada a ver com moralidade. O que havia entre João e Simone não era amor verdadeiro. Raios, ele até a podia ter mandado saltar-me para cima, para me convencer a aceitar o negócio dos diamantes de sangue. Não seria o primeiro a usar o coiro da mulher para negociar qualquer coisa. Eu não me tinha comprometido a seguir com o negócio - mas também não dissera que não.

Para ser sincero comigo próprio, o que revela um esforço sobre-humano, acho que Simone me afectou mais do que eu queria admitir. Sentia-me atraído por Marni, ela era tudo o que eu não sou, tinha mais tomates do que um gorila de duzentos quilos para entrar numa zona de guerra e dar comida aos outros. Porém, sentia luxúria por Simone. A mulher fazia-me ferver o sangue, e tal como as femmes fatales de James Cain, tirava-me o tapete do bom senso. Não era difícil imaginar Simone a convencer-me a agarrar uma almofada em cima da cara do marido enquanto ela movia a caneta na sua mão moribunda para assinar as últimas vontades e o testamento.

Reservei lugar num voo para Angola depois de chamar o táxi. Só saía às dez horas, por isso tinha de passar o tempo. Pedi ao taxista que me deixasse numa marina de pescadores. O meu pai contara-me que passara a sua última noite em Lisboa, depois da guerra, a caminhar ao longo de um embarcadouro. Eu queria reconstituir os seus passos.

 

ÁFRICA

LUANDA,  ANGOLA

Um cheiro misto de calor húmido, petróleo e peixe podre atingiu-me em cheio quando saí do avião e fiquei no cimo da escada, antes de descer à pista em Luanda. Comecei a derreter logo ali.

- Bem-vindo à África equatorial - disse uma assistente de bordo, sorridente. - Espero que tenha levado todas as vacinas.

Sim, levara a vacina da cólera, da febre-amarela, do tifo, da hepatite, da tuberculose, da pólio e de doenças de que nunca ouvira falar. Só me faltava a do tédio. Não que a minha primeira impressão de Luanda fosse de tédio calmo. O terminal estava repleto de gente barulhenta e incomodativa. Uma babel de línguas, com algum português à mistura, criava um zumbido como o ruído da rádio num carro que atravesse o deserto. Gente com espantosas roupagens de pavão misturava-se com africanos e europeus de fatos Armani e Canali com sacos Gucci na mão.

A maioria das gentes que eu via era composta por mestiços afro-portugueses. João dissera-me que os mestiços controlavam as cidades e o Governo do país, ao passo que os africanos puros se limitavam às aldeias e ao campo. Mais importante do que uma questão de raça, a geodemografia constituía a química de base da guerra civil em que o país vivia há cerca de uma década e meia. As gentes rurais sentiam-se desfavorecidas política e economicamente por culpa da poderosa população mestiça. Savimbi, o líder rebelde, tinha os principais apoiantes no campo, de que controlava grande parte, incluindo a região de extracção de diamantes.

Além dos civis no terminal, havia uma quantidade ostensiva de tropas com armas automáticas claramente letais. Os soldados encontravam-se em grupos de dois e três, riam, conversavam, fumavam, homens com ar duro, ao invés dos tipos reformados encarregados da segurança nos Estados Unidos. A impressão que o terminal veiculava era de zona de guerra.

Foi uma primeira impressão que se tornou duradoura quando vi a mesma atmosfera belicosa onde quer que me deslocasse no país.

Um negro enorme com um grande tronco, braços robustos e um charuto preto que cheirava a merda de cão assada estava à minha espera quando eu transpus a zona de chegada dos passageiros.

- Liberte? - perguntou ele.

Não era difícil reconhecer-me - era o único a sair do avião com um boné de basebol dos New York Yankees.

- Chamo-me Cross, sou chefe da segurança na mina. Eduardo não pôde vir.

Falava um inglês perfeito. Vestia calções castanhos-claros e o tipo de botas de cabedal que a tropa usava no Vietname. Punha-se-lhe uma Uzi na mão e pareceria mais duro do que os tropas que decoravam o sítio.

O Eduardo Marques que não viera era o gerente da mina.

- Morreu? - perguntei eu, calculando que seria o único motivo para o gerente da mina não estar no aeroporto para receber o novo proprietário.

Cross encolheu os ombros.

- Neste país, estar morto por vezes é uma melhoria nas condições de vida.

A expressão corporal dele denotava mau génio. Tal como o país, Cross tinha algo de uma zona de guerra. Há gajos que, quando conhecem uma pessoa, pensam no dinheiro que ela ganha, e outros pensam se será suficientemente forte. A expressão corporal dele deixava entrever o que pensava assim que eu cheguei à zona de chegadas - tanto podia espezinhar-me como apertar-me a mão.

Há algo errado no reino da Dinamarca quando os nossos empregados se estão a cagar para nós. Três minutos em Angola e eu estava pronto a saltar para o próximo avião que dali saísse. Somente a minha recente pobreza, avareza inata, e as perspectivas aterradoras de ter de trabalhar para viver me impediram de correr para a bilheteira. Não tinha nada à minha espera na América, tirando um emprego a virar hambúrgueres no McDonaldos - e faltavam-me as habilitações.

Controlei a má disposição, ignorei a besta e fui buscar a bagagem. Não sabia se o gajo estava chateado por me ter ido buscar ou se era sempre mal-encarado. Agarrei nas malas e fui atrás dele. Não se ofereceu para ajudar. Segui-o através do terminal com uma mala em cada mão e a mochila a tiracolo. Devo ter tido sorte por ele não ter bagagem, ou também teria de a carregar.

Um decrépito Mercedes que parecia ter perdido umas quantas Terceiras Guerras Mundiais estava à porta. As mossas e os buracos de balas tinham ferrugem. Raios, naquele clima quente e húmido até as pessoas enferrujavam.

Na porta do condutor havia um dístico desbotado mostrando que o carro tinha sido táxi em Lisboa. O condutor fumava e falava com um guarda fardado de maneira diferente do Exército que se encontrava no interior e a patrulhar cá fora. O guarda trajava camuflado sem insígnias militares, tinha uma AK-47 ao ombro e um cigarro que lhe caía do canto da boca. Deduzi que era mercenário.

O condutor abriu-me a porta e desviou-se para eu meter as malas lá dentro. Perfeitamente, pensei eu, quando chegarmos ao hotel não me esqueço de dar gorjeta a mim próprio.

O condutor e o guarda entraram para a frente e eu e Cross para o banco de trás.

- Vamos directos ao hotel - disse Cross ao sairmos da berma. - Caso não tenha reparado nas tropas do Governo com metralhadoras no aeroporto ou no contratado que temos com caçadeira, Luanda não é muito amigável.

As pessoas na rua não pareciam ter melhor catadura do que as que me acompanhavam. As ruas estavam cheias de gente, peixe graúdo misturado com vencidos da vida. Gente esquálida e espécimes bem alimentados de sombrinhas e pastas. Pelo caminho havia barracas de paredes de terra com telhados de zinco. Miúdos esqueléticos com olhos enormes agachados na lama em frente de choupanas a olharem para nós quando passávamos.

- Um musseque - disse Cross. - Um bairro de lata. Há cerca de dez milhões de pessoas no país e três ou quatro milhões deslocadas pela guerra civil. Amontoam-se em bairros miseráveis porque não têm para onde ir. Muitas acabam em Luanda. Há dois milhões de pessoas a morar numa cidade feita para comportar quarenta ou cinquenta mil.

Há muita merda e mijo nos esgotos e nas condutas de água. Enquanto cá estiver, não beba nem coma nada que não tenha sido tratado. Lamber a água dos beiços no duche ou lavar a escova de dentes pode ser dose suficiente para lhe dar diarreia durante uma semana... se não o matar. Parece ser uma cidade moderna, mas não se deixe enganar pelos arranha-céus. Vidro e cromados não fazem deste um lugar civilizado nem salubre.

«Quando precisar que lhe limpem as teias de aranha da verga, ligue para um número em Amesterdão que eles mandam uma puta por uns dias. Custa umas boas massas, mas num país em que SIDA é um palavrão, sexo que não seja à mão é suicídio.

Abriu a boca num esgar. Parecia regozijar-se por me mostrar o inferno em que me viera meter.

- Mas até um gajo saudável morre de envenenamento de chumbo, às mãos de um puto de doze anos com gatilho fácil.

Pensei se ele estaria a pintar um quadro negro de propósito para eu dizer ao táxi que desse meia volta e voltasse ao aeroporto. Não era preciso muito. Luanda era uma experiência lancinante. Se não fossem os insectos ou a sujidade a deitar-nos abaixo, seria um balázio - Marni avisara-me que grande parte do Exército rebelde era constituída por miúdos de doze anos que os comandantes transformavam em drogados para os poderem controlar e fazerem deles assassinos. De momento, sentia-me mais deprimido pelo pathos circundante do que ameaçado.

Não se via grande legado português. Talvez tivesse rebentado ou ardido tudo na guerra colonial antes da independência e da guerra civil que começou em 1975. o único vestígio português visível estava nos nomes das ruas e lojas. RUA AMÍLCAR CABRAL, dizia uma placa que tinha buracos de bala enferrujados.

As ruas eram pavimentadas a sulcos, os autocarros eram fumegantes latas de sardinhas amolgadas e batidas, com pessoas dentro, penduradas atrás e sentadas no topo. Havia bicicletas a circular só com jantes.

Uma parede caiada proclamava, SOCIALISMO ou MORTE! Legado dos dias quentes do comunismo, antes da queda do Império do Mal. Porém, estava riscado e lia-se agora Só MORTE!

Nada havia de subtil no Terceiro Mundo. Erguia-se e batia-nos na cara, entrava-nos pele dentro. As piadas que eu dissera a Marni no avião já não tinham graça. A sua prelecção sobre os horrores da guerra em Angola causada por petróleo e diamantes calava fundo.

- Que acha da nossa pequena capital, pula?

- Apinhada - respondi eu - e malcheirosa.

Cross lançou-me um olhar que não escondia o desprezo pelo americano rico que fora buscar ao aeroporto.

- Vai achar Angola uma universidade, camarada. É uma paragem nas boxes antes da corrida para o inferno. Talvez até seja a meta.

- O teu inglês é bom. Foste à escola na América? Cross rebentou à gargalhada.

- Pois, se achar que Michigan City, no Indiana, faz parte do país. Frequentei a Indiana State e joguei futebol. Teria sido profissional se não tivesse lixado um joelho.

- És americano.

- Palavra, José? - atirou o cigarro pela janela fora e cuspiu também.

Eu era mesmo estúpido. «Cross» estava longe de ser um nome português ou africano. Devia ser o calor que não me deixava pensar como deve ser. Ou talvez não conseguisse ver para além da atitude dele.

Inclinei-me para ele e fixei-o nos olhos.

- O meu nome é Win Liberte, não é José, nem pula, e não sou teu camarada. Agora, o facto de seres tão cabrão para mim, que sou o teu patrão, mostra que te estás a cagar para o emprego. Não faz mal, porque também me estou a cagar para ti. Mas desde que tenhamos de andar juntos, vamos mostrar respeitinho. Se não, podes ir para o caralho e sair na próxima esquina.

Cross acendeu lentamente outro cigarro, avaliando-me pelo canto do olho enquanto empestava o carro de fumo.

- Bom, você tem unhas, lá isso é verdade. Vai precisar delas. Se quer um conselho, diga ao motorista que dê meia volta e o leve de volta ao aeroporto. Você pode muito bem ser o maior no baile lá da terra e no clube de campo, mas está metido numa coisa que faria unidade Delta Force borrar-se de medo. «Angola é o tipo de zona de guerra que recebe cobertura dos papagaios dos locutores de televisão sentados em Nova Iorque ou Atlanta, a falarem para americanos nos sofás a correr os canais, à procura de notícias sobre o mais recente divórcio de celebridades, porque os horrores que lhes chegam desta parte de África são demasiado irreais para eles arregalarem os olhos. Porra, a maioria dos repórteres borra-se de medo de cá vir cobrir isto. Não se trata só de uma guerra, mas sim de um modo de vida, orientado por todos os demónios do inferno.

»Se tenciona ficar por Angola, habitue-se a ver bebés a morrer de fome ao colo das mães, prostitutas com SIDA a engatar nas esquinas, homens que não podem tirar macacos do nariz porque ambos os braços foram amputados ou a rastejar na lama porque as pernas explodiram numa mina antipessoal. Um dos muitos recordes que este país de merda detém consiste em mais vidas e membros perdidos em minas do que qualquer outro lugar do mundo.

Cross lançou-me mais um olhar de avaliação.

- Dou-lhe o benefício da dúvida. Talvez pensasse ser uma aventura vir a África para ver a sua mina de diamantes. Talvez pensasse que se vestia para um safari como o Stewart Granger e que matava um ou dois elefantes, e que os nativos lhe chamariam buana. Ok., agora que já caiu na realidade, arranje um bilhete de volta para onde a gente não caga, nem morre, na sarjeta, e os miúdos não são desmamados com AK-47.

Olhei pela janela.

- Não gosto de Angola, e acho que és um cabrão irritável. Já para não dizer que os teus cigarros de merda metem nojo. - Mostrei-lhe os dentes. - Mas vim para ficar, camarada. Que dizes tu a isso?

Deitou cinza para o chão e lançou-me um olhar estudado.

- Não me chamo camarada.

Dei entrada no Hotel Presidente Meridien na Avenida 4 de Fevereiro. Não sabia por que é que a rua se chamava assim, nem por que as outras ruas tinham datas nos nomes, mas não era difícil adivinhar. As datas eram vitórias na guerra ou na revolução. Os vencedores davam nome às ruas e erigiam estátuas.

Tomei um duche e deixei-me ficar na varanda a beber uma cerveja gelada, a ver a rua suja, barulhenta e apinhada lá em baixo. Gente, carros, motas e carroças empurravam-se uns aos outros como carrinhos de choque. O reflexo do pôr do Sol transformava a baía no ouro negro de uma mancha de petróleo.

Só agora me apercebia da vida confortável que levara. Nunca me ralara com dinheiro - caraças, nunca sequer pensara em dinheiro porque o tinha sempre. Assim como comida, lençóis lavados e água limpa. Podia viajar de costa a costa nos Estados Unidos e nunca me preocupar com o sítio onde bebia água. Tenho a certeza de que a humidade em Angola deve trazer qualquer coisa nada boa para as pessoas.

Quando o Sol se pôs, saí do quarto para me encontrar com Cross no bar do hotel. Fiquei surpreso por ele não me ter deixado em frente ao hotel e prosseguido para onde quer que tivesse de ir.

Ainda não me tinha decidido em relação a ele. Pouco me interessavam os seus modos. Provavelmente, a única maneira de sobreviver naquele buraco era ficando empedernido e mal humorado. No entanto, eu precisava de aliados e Cross tinha uma coisa que me agradava - era frontal. Era o que aparentava e mais nada. Seria de esperar que só um desabamento na mina pudesse impedir Eduardo, o gerente, de ir buscar o dono ao aeroporto. Ora, isto indicava-me que eu não constava da lista de prioridades dele. Seria assim tão difícil arranjar bons empregados? Que pergunta parva. Diabo, devia ser mesmo impossível.

Isto, por seu turno, levantou a questão da presença de Cross em Angola, e também da de Eduardo, a gerir uma mina que perdia dinheiro numa zona de guerra. Devia haver maneiras mais fáceis e seguras de ganhar dinheiro, mas de certeza que não implicavam uma missão humanitária para o dono da mina ou as facções antagónicas que continuavam a despedaçar o país. A história reduzia-se a uma coisa: ganhavam dinheiro. Tinha de ser muito dinheiro, para que valesse a pena passar a vida numa zona de guerra e correr risco de assassínio, rapto e doenças.

Assim, surgia outra questão: se ganhavam dinheiro com a minha mina, por que é que eu não ganhava?

No bar, sentei-me na mesa que Cross guardara e pedi uma cerveja, sem copo. Já tinha viajado no Iucatão e na América Central e sabia que não se devia beber nada que não viesse de uma garrafa selada. Se tivesse que passar para um copo ou levasse gelo, mesmo num hotel decente, o risco de ataque da vingança de Montezuma aumentava.

- O que é que se pode fazer nesta cidade? - perguntei eu.

- Nada que seja seguro, tirando alguns hotéis e restaurantes. Se quiser abusar da sorte, há boites, discotecas com música americana e brasileira, e kizombas, clubes ao estilo africano. Têm música local e comida como carne de cabra e uma bola peganhenta de inhame esmagado. Não se chegue a nenhum destes sítios. Mesmo que esteja a salvo lá dentro, ainda pode ser morto a dois metros da porta. Também não é difícil deduzir que qualquer rata onde meta a pila esteja infectada com SIDA. Fala-se de SIDA como se fosse uma constipação, é tão comum como isto. Se quiser mesmo matar-se, pode passear pelo musseque, o bairro da lata, a qualquer hora do dia ou da noite.

- Se isto é assim tão mau, por que é que cá estás?

- Não é pelas vistas, isso de certeza. Vim pela mesma razão que os outros americanos e os europeus vêm... dinheiro. Tirei um bacharelato em Engenharia e fui contratado por uma petrolífera em Cabinda, um enclave na costa mais a Norte. A zona acabou por ficar para Angola, mesmo estando rodeada em três lados pelo Congo. O trabalho num campo de petróleo revelou-se demasiado rígido para mim. Apanhei a febre dos diamantes e deixei o petróleo para fazer prospecção.

- Como é que acabaste como segurança de minas?

- Ficando teso. A mineração de diamantes em pequena escala é tão arriscada como comprar bilhetes de lotaria, mas tem a mesma atracção, com investimento e suor pode sair-nos a sorte grande. Ainda tenho negócios de diamantes, mas preciso de um emprego para comer.

- Deve ter-te saído a gorda, para te despedires do emprego de chefe da segurança da minha mina. -Ambos sabíamos que ele não se tinha despedido. Ainda. Por enquanto era só conversa.

- Não me saiu gorda nenhuma. Despeço-me para não apanhar um balázio a tomar conta do proprietário ausente que decidiu trazer o belo coiro de Manhattan até aqui para ver o domínio feudal.

Olhei para trás de mim e em redor da sala.

- Onde é que anda esse proprietário de merda que tu insistes

em castigar? Vamos dar-lhe cabo do coiro.

- Peço desculpa. Você não tem um belo coiro, mas não percebe

nada de extracção de diamantes em Angola. Se percebesse não estava cá. Comecemos por cima. Este país está em guerra há mais de trinta anos, primeiro contra o Governo colonial português, depois os rebeldes financiados pelos EUA contra o regime comunista financiado por Moscovo e Havana. Tanto a CIA como milhares de tropas cubanas foram para casa e existe um acordo de paz, mas é só fachada. O pacto político não passa de um papel que não interessa a ninguém e que os líderes de ambos os lados vão elogiando cinicamente. Isto porque a luta não se deve a liberdade política mas sim ao controlo dos campos petrolíferos e da indústria de diamantes.

«Quando você era puto, deve ter aprendido na escola as corridas ao ouro na Califórnia e no Alasca, mineiros de caçadeira ao ombro, com água pelo joelho a peneirar ouro com uma mão e com a outra a afugentar oportunistas e índios. Bem, pul... Win, aqui passa-se o mesmo, só que os oportunistas têm helicópteros de combate, metralhadoras, tanques e mísseis terra-ar.

- Os rebeldes apoderaram-se das minas?

- Não do funcionamento em si, mas somente por não saberem como gerir uma mina de diamantes. Digamos que são donos das minas e que as arrendam a gente como você. Aparecem todos os meses para recolher uma percentagem como se fosse a renda. Se acharem que os está a enganar, matam-no.

»É como a Mafia, mas esses só matam quando é necessário para o negócio. Aqui, se os rebeldes ou as tropas governamentais não gostarem da cor da sua camisa, matam-no, mas só se não for um grande pagador. Há pouco tempo raptaram um grupo de europeus numa mina e obrigaram-nos a entrar centenas de quilómetros no mato. Não era para um piquenique. Os europeus tinham-se atrasado nos pagamentos.

»Mas os rebeldes não são estúpidos, não matam as galinhas dos ovos de ouro a não ser quando acham que têm de arranjar um exemplo de vez em quando. É como cortar os braços à gente deles. Faz-se isso aos homens de uma aldeia e sucedem-se mil outras aldeias.

- Parece assassínio organizado e legalizado. E caos.

- Assassínio, massacre, genocídio, eles não deixam escapar nada. E é organizado. O tipo que lhe vai receber a renda reporta a outro, até chegar ao próprio Jonas Savimbi, o homem que lidera a organização rebelde chamada UNITA. Ouviu falar dele?

- Não - menti. Era o tipo que Marni dissera ser um maníaco homicida, mas ela falara em tantas siglas como UNITA que eu já não sabia quem estava primeiro.

Cross levantou as mãos, frustrado, e olhou em redor do bar como se procurasse uma saída.

- Você estudou mesmo bem a lição, não foi, pula? Bem, vou contar-lhe do gajo que pode ser responsável pela sua morte. O presidente Reagan chamou-lhe combatente pela liberdade e pintou-o como um verdadeiro Abraham Lincoln para Angola.

- É animador.

- Só se não souber que Reagan estava senil e que era o astrólogo da mulher que mandava no país. No entanto, a atitude política americana para com Savimbi é um exemplo clássico dos políticos americanos estúpidos como portas. Se o diabo dissesse que era anticomunista, os nossos líderes fariam um pacto com ele, coisa que já fizeram uma e outra vez na maior parte do Terceiro Mundo.

»Em Angola chamam a Savimbi assassino psicopata, mas nas costas dele. Trata-se de um homem que espancou pessoalmente até à morte a mulher e os filhos de alguém que se lhe opôs. Merda, até rebentou com um hospital da Cruz Vermelha que fabricava próteses para pessoas a quem ele e os da laia dele tinham cortado braços e pernas... ou mutilado com minas antipessoais.

- Como é que se faz negócio neste ambiente?

- Savimbi e o Governo angolano que se lhe opõe precisam de dinheiro para alimentar as máquinas de guerra. Esse dinheiro vem do petróleo e dos diamantes. Enquanto você for lucrativo para as máquinas de guerra, será tolerado. Se alguém no meio da hierarquia matar a galinha dos ovos de ouro, morre também. Se você for apanhado a lixá-los, eles matam-no, mas primeiro cortam-lhe os braços e as pernas para que possa pensar nos seus pecados enquanto sangra até à morte.

- Jesus!

- Não, Jesus nunca veio cá ao Sul. E com isto presume-se que não serão os seus próprios mineiros a matá-lo por ter apanhado muitos a roubar. Mesmo que sobreviva à extracção de diamantes, pode ser picado por insectos do tamanho de pássaros ou pisar uma cobra que o pode engolir inteiro. A taxa de mortalidade dos gerentes e chefes da segurança de minas pequenas é suficiente para dar azia ao mais empedernido mediador de seguros. Não é que haja seguros em Angola. O melhor contrato de seguro é guarda-costas e coletes à prova de bala.

- Mas conseguiste sobreviver. Por que é que achas que me vão matar?

- Você é um miúdo mimado que nunca trabalhou um dia na vida. Nunca fez esforço maior do que agarrar o volante de um carro desportivo ou o par de cuecas de uma gaja. Não sabe nada da vida nas ruas. O mais certo é meter-se nalguma e depois não saber sair com o coiro. Vai olhar para o sítio errado e chatear um miúdo de doze anos que esteja numa trip e com o dedo no gatilho de uma AK-47 ferrugenta. E eu não quero lá estar quando as suas tripas se esparramarem no chão porque a seguir são as minhas.

Comecei a rir.

Cross tentou manter a má cara, mas começou a rir também.

- Este sítio é uma anedota - disse eu. - Se eu prometer não me deixar matar, ficas por cá algum tempo?

- Está bem, se me der uma boa razão para ter vindo a este buraco.

- Estou falido. A mina é tudo o que tenho.

O gajo calou-se. E embatucou. Ainda tinha um ar de dúvida sobre este facto quando perguntou:

- Palavra?

- Palavra, José. O tipo que me tratava das finanças meteu tudo na Mina da Senhora Azul, investimento que não rende um chavelho e que ninguém quer comprar. Não gosto de estar falido, por isso não estarei muito tempo.

Ele abanou a cabeça.

- Acha que basta cá chegar e espremer uns milhões de Angola? Homem, como dizem os pretos nos filmes dos brancos, tá sonhando. Era mais seguro voltar a casa e assaltar bancos.

Ou arranjar uma gaja rica com mais dinheiro do que miolos para lhe manter o estilo a que está habituado em troca de a manter consolada.

- Não me subestimes. Tenho sido o melhor em tudo onde deitei a mão. O dinheiro e os diamantes estão-me no sangue, só não lhes tenho dado grande atenção. Andavas tu a jogar basebol e o meu pai obrigava-me a apreçar diamantes. Disseste que vieste cá para arranjar massa. Quero aquilo que é meu e o que puder ganhar, mas não sou sovina com quem me ajuda. Fica comigo, mostra-me como é que funciona e não te vais arrepender.

- Isto é um «confia em mim»?

- Podes crer.

- Bem, só há uma coisa que lhe quero lembrar.

- Sim?

- Também não me chamo José.

 

Na manhã seguinte saímos num Cessna de quatro lugares fretado com destino à região das minas.

- Vamos para a zona do rio Cuango, a Leste de Luanda, no Nordeste do país. A maioria dos aviões que vão para a zona diamantífera aterra em Saurimo, mas é um trilho muito comprido até chegar à mina. Depois de aterrarmos num batatal, vamos de carro o resto do caminho até à mina, para Norte, em direcção ao Zaire. Toda a zona de extracção de diamantes se encontra isolada a estrangeiros, excepto se trabalharem na indústria.

- Só se consegue entrar de avião?

- É mais seguro e mais rápido. Uma avioneta destas põe-nos em duas horas na mina.

- Fala-me de Eduardo. Cross encolheu os ombros.

- É gerente de minas, mestiço, nascido em Angola. O pai era roceiro de café na era colonial, meteu-se no minério depois de a plantação arder na guerra colonial. A mãe era ovimbundu, uma maioria étnica neste país. Eduardo tem andado em minas toda a vida. É esperto o suficiente para não enganar o gajo do Savimbi quando ele vem receber a renda. Se não fosse, já estava a fazer tijolo.

- Quem era o dono da mina antes de eu a comprar?

- Uma empresa com sede em Lisboa.

- Já ouviste falar em João Carmona?

- Já. - Cross fora seco.

- E então? Encolheu os ombros.

- Carmona é um vigarista, o que nem sempre é negativo em Angola, já que somos todos vigaristas, uns mais que outros. Ouvi dizer que ele é tipo padrinho da Mafia portuguesa.

Tem má fama na região das minas entre os donos que enganou. É persona non grata no país porque também cometeu o erro de enganar o Governo e os rebeldes. Já lhe contei do Savimbi. Não é gajo que se deva enganar. Mandou alvejar Carmona na coluna. Disseram-me que a ideia era aleijá-lo e não matá-lo. Assim podia passar o resto da vida a matutar no que acontece a quem quer lixar Savimbi.

- Carmona chegou a ter direitos de propriedade sobre a Senhora Azul?

- Não sei. Estou na mina há menos de um ano e Win sempre foi o dono. Ele pode ter sido dono através da tal empresa portuguesa que era proprietária. Se foi, devia estar ansioso por se ver livre dela antes de Savimbi descobrir e se apoderar da mina para lha tirar das mãos. Eduardo deve saber, já cá está há muito tempo e conhece a treta empresarial. Se lhe contar.

Ergui o sobrolho.

- Por que é que não havia de contar?

- Outro encolher de ombros.

- Eduardo vive em Angola, o que significa que a prioridade dele é sobreviver. Você é um navio que passa de noite. Amanhã pode cá não estar. Ou estar morto. Ele tem de manter todas as hipóteses viáveis. Seja qual for a perspectiva, você é ave de arribação. Ele não lhe vai cobrir a retaguarda, amigo.

- Por que é que não me foi esperar a Luanda?

- Não sei, talvez seja como eu, está-se a cagar e tenciona ir-se embora. A sua mina não é das mais rentáveis. Eu fiquei contente por ter de o ir buscar porque tinha coisas a tratar em Luanda.

- Ele ganha bem, e tu também.

-Tretas. Isso é o ordenado nacional, nenhum de nós trabalharia em Angola por esse dinheiro. Ambos trabalhamos à comissão, compramos, vendemos, contactamos outros prospectores.

João avisara-me que quem trabalhava para mim também roubava parte do ordenado. Porém, eu não conhecia Cross o suficiente para abordar o assunto. Mas uma coisa era certa pelo seu tom de voz - não morria de amores por Eduardo. Este também não era tecnicamente patrão dele. João dissera-me que muitos donos de minas mantinham uma distância administrativa entre o chefe das operações de extracção e o chefe da segurança, para equilíbrio de poderes.

Se os dois se juntassem para roubar, podiam limpar uma mina. Claro que, com um dono ausente como o da Senhora Azul, ninguém os impedira de se juntar.

A partir da costa, o terreno lá em baixo elevava-se em colinas e montanhas verdes a caminho da região diamantífera.

Duas horas de voo passadas, aterrámos num campo de terra batida perto de uma vila. O ar estava quente e quase tão húmido como em Luanda. Segui o exemplo de Cross e forrei a parte de trás do colarinho da camisa com um lenço para empapar o suor. Trocara a roupa de marca por uma camisa caqui e umas calças que comprara em Luanda. Mangas compridas e repelente de mosquitos estavam na ordem do dia. Comprei botas que quase me chegavam aos joelhos.

- Pensa que só vai apanhar cobras pequenas? - perguntou Cross quando me viu calçado com elas.

Um motorista africano num Land Rover que parecia ter perdido contra Rommel no Norte de África durante a Grande Guerra chegou-se ao avião assim que este parou os motores. Trazia um dístico que dizia MINA SENHORA AZUL em letras pretas desbotadas. Não era difícil adivinhar de onde viera o nome da mina. Os diamantes encontram-se em depósitos de terra «azuis».

- Este é o Gomes - disse Cross, apontando para o condutor sorridente a suar em bica. - Conduz-nos, vai buscar mantimentos, vai de carro a todo o lado. É como o condutor da diligência a distribuir encomendas pela zona dos apaches.

Via-se a coronha de uma arma a sair da camisa de Gomes. Havia uma espingarda presa por cima do pára-brisas dentro do Rover.

Saímos da pista e parámos nos arredores de uma aldeia empoeirada junto a um bidão de petróleo de duzentos litros postado no meio da estrada. Viam-se três homens fardados à sombra, a fumar e a jogar aos dados. Um deles arrastou-se até ao carro para aceitar o dinheiro que Gomes lhe deu.

- Portagem - disse Cross.

Passámos por uma casa de cimento e com grades nas janelas e no alpendre. Um homem gordo sentado numa cadeira de baloiço dentro do alpendre com grades de aço acenou e gritou uma saudação a Cross.

- Aquele é Ortego, o maior corretor de diamantes da zona.

Compra material à gente do rio e a ladrões. Passam-lhe mais diamantes pelas patas gordas todos os meses do que nós produzimos num ano. Parece um otário, mas matou dois homens o ano passado que acharam isso mesmo.

Deixámos para trás a vila que só tinha uma rua e parámos noutro bidão de duzentos litros.

- Quem me dera possuir a concessão da portagem - disse eu.

Uma hora depois de sairmos da aldeia por uma estrada de terra batida num desfiladeiro onde serpenteava o rio, começámos a ver homens e mulheres a trabalhar no rio.

- Há dois tipos de recolha de diamantes na zona - disse Cross. - Na mina, abrimos túneis no chão para tentar encontrar um kimberlito, uma chaminé de diamantes, aquilo a que se chama um «filão» na extracção de minério. Porém, o que temos aqui é a maneira mais básica de encontrar diamantes. Extracção de aluvião. Os diamantes foram criados pelas profundidades da terra debaixo de uma pressão imensa, e foram trazidos à superfície por acção vulcânica. Erosão, terramotos, vento, chuva e especialmente a força dos rios, têm descoberto chaminés de diamantes e têm-nos empurrado quilómetros rio abaixo.

«Estas pessoas são os garimpeiros, mineiros individuais. Metem-se no rio e dragam terra e cascalho na esperança de encontrar pedras. Os métodos são praticamente os mesmos das antigas corridas de há cento e cinquenta anos - uma picareta, uma peneira e um homem, neste caso, homens, mulheres e crianças. Há mineiros com anjos da guarda como eu que pagam alguns dólares por mês para o feijão em troca de uma percentagem. No entanto, a percentagem geralmente é zero. Há mineiros mais endinheirados que têm represas ou aspiradores para sugar melhor o leito do rio. A maioria trabalha só com as mãos e um balde.

Eu conhecia melhor a história da extracção de diamantes do que o processo propriamente dito. Eram conhecimentos veiculados pelo meu pai, claro. Até meados do século xix, os diamantes só se encontravam nas mãos da realeza e dos muito ricos porque a oferta, maioritariamente do Brasil e da índia, era diminuta. Em 1867, um jornaleiro de quinze anos de uma quinta Bóer passeava ao longo de um rio quando apanhou uma pedra brilhante que se revelou um diamante de vinte e um quilates. Todavia, isso foi considerado um acaso e causou pouco entusiasmo. Dois anos mais tarde, foi outro rapaz a encontrar um diamante, uma pedra com oitenta e cinco quilates e meio, a Estrela da África do Sul - e estava lançada a corrida. Houve marinheiros que abandonaram os barcos em portos africanos, garimpeiros de ouro que deixaram para trás as suas concessões, quinteiros que descartaram arados, dezenas de milhares deles, a cavar em concessões de dez metros quadrados, «dez tamanhos de caixão», como se passou a dizer.

Por fim, também a indústria mineira se meteu debaixo da terra, em busca das chaminés de kimberlito de que Cross falara. Todos os diamantes, excepto os que chegavam à Terra em meteoritos, vinham das camadas profundas da terra, criados onde o carbono sofria pressões e temperaturas tremendas há mil milhões de anos. Erupções violentas e cataclismos foram empurrando os diamantes para cima, em «chaminés» em forma de cenoura, de um material vulcânico de cor azulada. O material que traz os diamantes à superfície chama-se kimberlito, devido ao «grande buraco» em Kimberley, África do Sul, uma das primeiras minas de diamantes.

As chaminés de kimberlito que chegavam perto da superfície desgastaram-se por erosão do vento e dos terramotos durante milhões de anos e os diamantes nelas contidos foram transportados centenas ou mesmo milhares de quilómetros pelos rios em direcção ao mar.

Uma família africana, pai, mãe e dois filhos pequenos, vinham do rio quando o Land Rover se aproximou. O homem não tinha o braço direito.

- Um mutilado - disse eu, empregando uma palavra que ouvira para descrever gente amputada. - Acidente de carro?

- Machete - respondeu Cross. - Alguns mineiros do rio atrasaram-se com o pagamento a um chefe rebelde aqui há uns anos. Não interessava quais eram os que não tinham pago, os homens de Savimbi puxaram alguns para fora de água e cortaram um braço a cada homem para que ainda pudesse trabalhar. Se não morresse da infecção.

Cross saiu do carro e aproximou-se deles como um velho amigo, apertou-lhes as mãos, enquanto conversava. Tirou rebuçados do bolso e deu às crianças. Para os meus ouvidos, recentemente sintonizados em Luanda, parecia que falavam um misto de português e algum dialecto africano, o português era a língua oficial do país, mas pouco se falava fora das cidades e vilas.

Acabadas as saudações sociais, o homem passou a Cross várias pedras. Cross ergueu-as para a luz e analisou-as com uma lupa. Após mais conversa, Cross deu-lhes dinheiro e voltou à viatura.

- É um dos meus sócios. Eu financio alguns ribeirinhos, geralmente só comida e mantimentos, contra uma percentagem. Outras vezes compro concessões e arranjo quem trabalhe nelas, contra uma percentagem também.

Passou-me os diamantes.

- Faz ideia de quanto valem?

Era um teste. Saquei da lupa do meu pai e dei-lhes uma olhadela.

- Têm falhas, mas potencial, também. Em Nova Iorque, talvez mil, mil e quinhentos. Aqui, não faço ideia.

- Menos de dez cêntimos o dólar para o que irão valer por grosso em Nova Iorque ou Antuérpia, provavelmente cem dólares de Ortego, o homem dos diamantes. São dois meses de labuta para aquela família, que só recebe metade, depois de deduzidas as despesas. Mas uns dólares são muita coisa para quem não tem nada. Vou vender estes ao Ortego e pagar uma taxa sobre eles aos rebeldes.

Cross olhou para mim, zombeteiro.

- Ganho umas milenas extra todas as semanas com as minhas actividades, o que não chega a ser gorjeta para um gajo rico como o Win, mas mantém-me no activo.

- À espera da sorte grande.

- À espera da sorte grande. E os deuses gostam de brincar com a sorte grande. Só há umas poucas pedras decentes para nos aguçar o apetite, manter a gente a suar e a praguejar, mas nunca o bastante para ficar rico. De vez em quando, aparece um raio fulminante. Há uns meses, uma mulher que trabalhava numa concessão encontrou uma pedra de 80 quilates; tinha falhas mas ainda valia aí duzentos mil, mesmo para o gordo. Só não sei quanto é que a mulher e o marido receberam... se é que receberam. Há quem diga que estão em Luanda a viver como reis. Outros dizem que estão enterrados atrás da casa do gordo. Ou numa vala comum que os rebeldes escavam de vez em quando.

- E que dizes tu?

- Eu digo que vou ter sorte, dar um pontapé numa pedra e

descobrir um azul perfeito de mil quilates. Vou vendê-lo a um desses tarados dos computadores multimilionários em Silicon Valley e comprar uma ilha no Pacífico Sul, com palmeiras, lindas mulheres nativas e a minha própria microcervejaria. Como nos filmes.

 

A mina ficava no cimo de uma colina. Parecia uma prisão vista cá de baixo e a impressão não estava assim muito longe da verdade. Tinha uma vedação de ferro de dez metros com arame farpado em cima e depois outro muro sólido de dois metros com mais metro e meio de arame farpado por cima. Entre as duas barreiras, reparei num guarda a fazer a ronda com um Doberman. Chegámos primeiro a uma guarita.

- Jesus, parece que vou entrar em Alcatraz.

- Três coisas que tem de saber sobre extracção de diamantes - disse Cross. - Segurança, segurança, segurança. Se houver maneira e ocasião de meter a mão em diamantes, há-de haver quem os queira roubar. Engolem-nos, metem-nos no cu, põem-nos a voar em pombos, atiram-nos para o lixo para as mulheres depois revolverem, enfiam-nos entre os pneus e as jantes de um camião, ou atiram-nos para o depósito de combustível para os cúmplices tirarem depois. Isto é só uma amostra.

»Os mineiros são contratados por períodos de três meses e nunca saem do complexo durante esse tempo. Como os diamantes são pequenos, podem ser engolidos às dezenas, já para não dizer metidos noutros orifícios do corpo; quando os homens saem ou deixam a mina para repouso e recreação, passam pelo raio X. O mesmo acontece a tudo e toda a gente em contacto com os mineiros, tirando eu e Eduardo. Deixe-se ficar por cá e começa a brilhar no escuro. Raios, a coisa nem sequer é à prova de erro. Eles fazem negócio com o radiologista para falsificar os resultados e até tentam manipular os aparelhos.

Eduardo não estava no escritório quando chegámos. A guarda-livros, Carlota Santos, uma mulher nutrida de peitos cujo vestido mal podia conter, ficou espantada por nos ver. Cross dissera que Carlota também era meio portuguesa, meio angolana.

A avaliar pelo ar da mulher, percebi imediatamente que era mais do que assistente de Eduardo.

Cross dissera que a mulher e os filhos de Eduardo moravam em Luanda. Bastava uma olhadela à guarda-livros para dizer que lhe aquecia a cama na mina. Admito ser mais sensível a este tipo de arranjinho do que a maioria das pessoas.

Para quem era uma humilde contabilista, ela usava umas pedras jeitosas. Num fio tinha uma com dois quilates. A olho nu, parecia valer mais do que dois anos de salário, mesmo com a inflação de vencimentos na zona diamantífera.

Não era difícil perceber que Eduardo mantinha a sua querida com os meus diamantes.

- Eduardo está lá em baixo. Partiu-se uma peça e ele foi inspeccionar. Vou mandar dizer que estás cá.

- Deixa que eu vou à procura dele - atalhou Cross.

Ela mandou-lhe um olhar de desprezo.

- Só te esperávamos amanhã. Não ligaste a dizer que trazias o Sr. Liberte tão depressa.

- Desculpa lá.

Manteve-se impávido enquanto dizia isto - o que me deu a impressão de que Cross me levara lá mais cedo de propósito, para surpreender Eduardo e a mulher. Não sei se queria apanhar o gerente ou alguém com a boca na botija ou se queria manter toda a gente alerta. Havia ainda outra hipótese - ele e Eduardo estavam combinados nalguma coisa e Cross queria mostrar quem mandava.

Cross saiu para ir buscar o homem e eu pus-me à vontade no gabinete do gerente enquanto esperava. Em cima da secretária dele estava um pacote com dez pedras que eu me pus a examinar. Ainda tinham o toque levemente «saponáceo» dos diamantes retirados da terra. Cada um deles era de primeira qualidade e podia ser polido em gemas com pelo menos um quilate.

Diamantes de dez ou quinze quilates eram uma gota no oceano, tendo em conta o que era necessário extrair de uma mina para a tornar rentável. Era preciso revolver toneladas de terra por cada diamante. Só que não deviam estar na secretária do gerente da mina. O seu destino, antes de serem levados para fora da mina em alta segurança, devia ser o cofre na sala da triagem.

Fiquei impressionado com a uniformidade das pedras. Diamantes que se podem lapidar num quilate são uma amostra do que se pode tirar de uma mina.

Por outro lado, são uma ínfima fracção dos diamantes por encontrar. A Senhora Azul extraía mais diamantes de categoria industrial do que de qualidade. Aquele pacote tinha sido obviamente escolhido à mão. Do meu pote das bolachas.

Cross voltou com Eduardo pouco depois.

O gerente entrou, afogueado. Era magro como um caniço, cinquentão, com tez acobreada e dentes amarelados e encavalitados. Enquanto Cross sempre me parecera uma mula bruta e frontal, achei o gerente uma doninha fedorenta.

Depois das apresentações em português, continuei nessa língua e apontei para os diamantes na secretária.

- Boas pedras.

- Não são da mina - disse Eduardo rapidamente. - São diamantes aluviais, eu tenho concessões no rio, como Cross.

- Pois, mas as tuas rendem muito mais do que as minhas - atalhou Cross.

- Tenho tido sorte.

- Quem me dera que a mina tivesse essa sorte - disse eu. - Dá algumas pedras de qualidade decente, mas pequenas, com menos de um quilate, muita areia e muitas de categoria industrial. Se pudéssemos extrair sempre pedras como estas, a mina poderia ser rentável.

- Extraímos o que a terra nos dá - disse Eduardo. Mostrei-lhe os dentes.

- Se a Mãe Terra não for mais generosa, terei mais sorte com um balde no rio do que a injectar dinheiro na mina.

- Parece-me, senhor, que depois de ver Luanda e agora a mina, depressa concluirá ser melhor voltar a Nova Iorque.

- Vamos dar uma volta na mina? - perguntei eu.

- Agora? Talvez amanhã, depois de descansar e se orientar...

- Viajei milhares de quilómetros para ver os nabos deste saco. Mais vale despachar isso agora.

Cross fez uma vénia, desculpando-se com questões de segurança a tratar.

Segui Eduardo através do portão da segurança que separava o escritório das escavações propriamente ditas.

- Quanto tempo conta ficar por cá? - perguntou Eduardo.

- O tempo que for preciso - respondi. - Se sou dono de uma mina de diamantes, quero saber como funciona.

Ele lançou-me um olhar que dava a entender achar que eu era atrasado mental.

- Sou um tipo curioso - disse eu. - Quando me meto nalguma coisa gosto de conhecer as engrenagens. Não sei nada sobre extracção de diamantes, para além de que me custa muito dinheiro.

- A extracção de diamantes não mudou muito no último século - disse ele. - Há diamantes e há terra. Ainda é preciso escavar e peneirar a terra para encontrar diamantes, ou seja, toneladas de terra para cada pequeno quilate. Há coisa de cem anos, Rhodes e outros começaram a desbravar a superfície da terra e o leito dos rios em busca das pedras. Depressa abriam túneis terra adentro, vomitavam toneladas de terra cá para fora e analisavam-na para chegar a pouco mais de um ínfimo diamante.

«Actualmente, ainda se faz tudo mais ou menos como no século passado. As grandes minas que pertencem à De Beers e a outros podem ter maquinaria mais moderna, especialmente na fase de processamento, mas a maioria das minas é como a Senhora Azul. Os métodos são comprovados, fidedignos e básicos. A extracção de diamantes não é tão perigosa ou suja como a de carvão, mas mesmo assim tem de ser feita com cuidado.

Com isto deu-me um capacete para usar.

Ouvi Eduardo como se nada soubesse, mas já conhecia a maneira como se extraíam diamantes pelas lições do meu pai. Além disso, só conhecia a teoria. Ver a realidade significava poder abrir os olhos.

- Se investíssemos em maquinaria melhor poderíamos aumentar a fatia? - perguntei.

- Aumentaria a quantidade de terra processada, e assim aumentaria a «fatia», como você lhe chama. Mas seria bom dinheiro por cima de mau dinheiro. Uma mina de diamantes pode ser um buraco no chão para onde se atira dinheiro.

Entrámos para um monta-cargas. Eduardo continuou a falar enquanto descíamos.

- O objectivo da extracção de diamantes consiste em encontrar as chaminés de kimberlito, os filões de terra azul onde estão os diamantes. Os diamantes formam-se numa pressão tremenda, a cerca de cento e cinquenta quilómetros abaixo da crosta terrestre e são cuspidos quando os vulcões entram em erupção. Quando os vulcões expeliram a terra azul há milhões de anos, houve alguma que chegou à superfície, mas a maior parte ficou enterrada ou foi-se enterrando com o tempo.

Fez um gesto a englobar o terreno onde passávamos na descida.

- O terreno que circunda uma chaminé chama-se veio. O veio aqui mede cerca de trinta metros de espessura, de modo que a mina teve de descer pelo menos isso antes de encontrar diamantes.

»Depois do veio, antes de chegar à terra azul, existe uma área a que se chama terra amarela. Esta consiste numa mistura de terra azul-acinzentada e terra vulgar que não comporta diamantes, criada quando os outros solos se misturaram e diluíram o terreno azul há mais de uma eternidade. Encontram-se diamantes na terra amarela, mas as melhores pescarias estão na própria terra azul.

»E isto, senhor, é o problema da sua mina de diamantes. Só encontramos terra amarela. Aqui não há terra azul... ou, então, desapareceu. Abrimos túneis em todas as direcções do veio, mas nunca tivemos financiamento bastante para a quantidade que precisamos.

- E se eu injectar mais dinheiro? - Era bluff, claro. Eu não tinha dinheiro e ali não era lugar para conseguir crédito bancário. Estava só a apalpar o terreno.

- Como já disse da nova maquinaria, é bom dinheiro por cima de mau dinheiro - respondeu ele. - A Senhora Azul é uma puta com um buraco seco. Quer dinheiro mas mostra poucos dos seus encantos. Escavamos o suficiente para pagar a renda e as despesas. Poderá encontrar investimentos melhores e mais seguros na América. E um lugar mais seguro para passar a vida.

O elevador resfolegou antes de parar. Entrámos num túnel caiado e iluminado com luz eléctrica.

- Caiamos as paredes e o tecto para reduzir a necessidade de iluminação.

Levou-me por corredores até chegar a um túnel onde se acabavam as paredes brancas. Eduardo apontou para os mineiros e uma pilha de entulho no final do túnel. - Esta área foi dinamitada esta manhã. Primeiro abrimos buracos na parede, depois enchemo-los com explosivos. Depois da explosão, carregamos o entulho em carrinhos de mão. Vamos segui-los.

Os carrinhos de mão seguiram pelo túnel abaixo. Pelo caminho, passaram por portas especiais que eram fechadas em caso de inundação. Os calhaus e a terra eram despejados em pequenos vagões assentes sobre carris. Era um trabalho duro e suado.

- Agora seguimos os vagões até às trituradoras.

Pelo caminho, Eduardo contou-me uma anedota sobre extracção de diamantes.

- Um belo dia, um mineiro saiu da mina a empurrar um carrinho de mão vazio. A coisa pareceu altamente suspeita aos guardas e revistaram minuciosamente o homem. Nada encontraram. No dia seguinte, findo o trabalho, o mineiro saiu novamente com um carrinho de mão vazio. Mais uma revista minuciosa, para nada encontrar. Isto passava-se todos os dias, e até o gerente e o chefe da segurança se envolveram nas revistas, mas nunca encontraram um único diamante no homem. Sabe porquê, senhor?

Sabia, pois ouvira a história ao tio Bernie quando era miúdo, mas fingi-me ignorante.

- Porque ele não roubava diamantes - guinchou Eduardo, e bateu na perna -, roubava carrinhos de mão!

Os vagões foram despejados para uma passadeira rolante que levava o minério para uma trituradora. Assim que o minério fosse triturado e reduzido a terra e cascalho, subia à superfície em baldes.

- Perguntará você se os diamantes podem ser esmagados nesta engenhoca?

Eu não perguntaria, mas como ainda me fazia de parvo, assenti como o visitante pacóvio que Eduardo pensava que eu era.

- Pois sim, até o diamante, a substância mais dura à face da Terra, pode ser esmigalhado se for apanhado no ângulo certo. Há sempre possibilidade de haver danos em pedras grandes, mas essas são extremamente raras. Além disso, ao longo do processo, os próprios mineiros se encarregam de procurar tudo o que brilhe. Ganham bónus os que encontram pedras antes de chegarem às trituradoras.

Apanhámos o elevador de regresso à superfície e seguimos o minério até aos tanques centrifugadores.

- Estas são as centrifugadoras onde é despejado o minério das trituradoras. O cascalho grosso e os diamantes ficam no fundo enquanto o resto é levado pela água. As pedras grandes são separadas e daqui o minério residual, o cascalho e os diamantes voltam para uma passadeira e são levados para as mesas de sebo.

As mesas de sebo eram uma série de plataformas vibratórias de alumínio com uma camada de sebo. O minério era lavado nestas plataformas.

- Uma característica especial dos diamantes é que se pegam ao sebo, ao passo que o resto vai com a água.

Eduardo fechou a água um momento e tirou algum sebo com uma colher de pedreiro. Usou a caneta para escarafunchar no sebo e tirou várias pedrinhas.

- Aqui estão diamantes mesmo em bruto.

Falava comigo como se eu fosse um miúdo em visita de estudo a uma mina. Limpou a colher de pedreiro numa vasilha metálica que parecia um passador de cozinha, mas de malha muito mais fina.

- O sebo sai nas vasilhas que têm buracos muito pequeninos e as vasilhas vão para água a ferver para remover o sebo. Depois ocorre a triagem e graduação das pedras.

Na sala de graduação, os operários examinavam as pedras com boa luz e lentes de aumentar, para depois as graduar. Enquanto Eduardo explicava o processo de graduação, eu dava respostas educadas.

Saímos da triagem e Eduardo disse:

- Os americanos gostam sempre de ir ao fundo das coisas, por isso cá estamos. A extracção de diamantes é uma premissa matemática simples. Assim que se encontra o filão, a questão é a quantidade de terra a remover por cada quilate de diamantes encontrados. Quanto menos terra remexida, quanto mais diamantes e quanto maior a sua qualidade, maior o lucro.

»O nosso lucro padece tanto do facto de estarmos numa zona de guerra, onde pagamos luvas e tudo sai mais caro, como do facto elementar de não termos atingido nenhuma chaminé azul. Não parece haver nenhuma chaminé azul perto desta mina. É preciso remover muito mais terra amarela por quilate para encontrar diamantes do que as minas que funcionam em terra azul rica. Obviamente que, quanto mais terra se escava, mexe e processa mais custa o quilate. Temos de processar quase o dobro das outras minas de terra por quilate. Esta é a razão pela qual esta mina não é rentável, apesar dos meus esforços a tempo inteiro.

Ouvi e não disse nada. Ainda estava a assimilar o que tinha ouvido e visto desde que chegara, poucas horas volvidas.

Ele mencionou outro assunto quando nos aproximávamos da administração.

- Fui contactado por um grupo que pretende comprar a mina. Espero receber os pormenores em breve, talvez já amanhã. Disseram-me que a oferta terá um prazo curto, você terá de decidir imediatamente. Já os empatei enquanto aguardava a sua chegada.

- Por que é que estão interessados em comprar uma mina falida?

- Acham que a podem gerir com menos custo. E talvez possam, usando literalmente trabalho escravo, ou mesmo prisioneiros fornecidos pela UNITA.

Juntei esta notícia às informações que estava a digerir. Eduardo era tão honesto e verdadeiro como uma puta de Luanda. E menos sincero. Era óbvio que me roubava diamantes, era um ladrão. A questão era se Cross estava com ele ou não. E se eu sairia vivo de Angola depois de os confrontar.

A outra questão em que eu matutava era a oferta para comprar a mina. Se havia alguém que pensava que a mina podia ser rentabilizada, então por que diabo não o era já? Estava ansioso para ver os pormenores da oferta, mas não alimentava esperanças. Eduardo não era do tipo de me dar algo de bom.

Antes de nos separarmos, fiz a Eduardo a pergunta que me atormentava.

- Já ouviu falar de um grande diamante vermelho, um verdadeiro vermelho-rubi?

Ele abanou a cabeça.

- Se tal diamante existir, nunca vi nenhum. Ouvi falar de um, uma pedra perfeita que pertencera a um rei, mas não sei se existe ou se não passa de lenda.

- E de João Carmona?

Isto apanhou-o desprevenido.

- Carmona? Grande vigarista, pode crer. Acho até que estava por detrás da empresa portuguesa que era dona da mina. Não é bem visto em Angola. Cometeu o erro de enganar Savimbi. - Fez um esgar. - Erro gravíssimo. Savimbi não é somente louco como adora matar. Péssima combinação se for nosso inimigo.

 

Instalei-me no quarto que me destinaram no edifício onde viviam os funcionários da administração e pus-me a fazer contas.

Era certo e sabido que Eduardo me roubava. Aliás, mentira-me sobre a origem das pedras que eu vira na sua secretária. As pedras tinham um toque saponáceo. Os diamantes que vêm da terra têm uma película oleosa, e deve ser por isso que se pegam à mesa de sebo. Contudo, a camada oleosa dos diamantes de aluvião sai com a água, por contínua exposição, entre outros elementos - outro facto sobre diamantes que o meu pai me ensinara depois das aulas.

As pedras que o mineiro do rio entregara a Cross e que este me fizera examinar no Land Rover não tinham um toque saponáceo. As pedras de Eduardo tinham. Eram da minha mina e tinham contornado a triagem. Regra geral, quando chegavam à graduação já não tinham película oleosa, o que significava que chegavam ao bolso de Eduardo dentro da mina. O mais provável candidato para local do roubo era a mesa de sebo.

Estaria Cross concertado com Eduardo? Tinham personalidades tão diferentes - um era frontal, o outro dissimulado - mas ambos trabalhavam para um dono ausente que estava a milhares de quilómetros de distância. Aliás, seria difícil para Eduardo roubar sem que o chefe da segurança soubesse. E Cross fora sincero quanto ao motivo por que estava em Angola - para sair de lá com a sorte grande. Claro, este era o meu único motivo para estar no país.

Tinha de partir do princípio de que tinham uma operação e que o ambiente de animosidade entre os dois era uma encenação para americano ver. De uma coisa eu tinha a certeza - se Eduardo roubava, a contabilista também sabia. Roubar no trabalho era coisa que se partilhava com a amante e não com a mulher.

Na manhã seguinte fiquei à janela até ver Eduardo entrar no portão da mina. Saí dos meus aposentos e cheguei fresco e madrugador ao gabinete da contabilista.

- Quero ver os livros, Carlota.

Ela olhou para mim como se eu tivesse descido da nave Enterprise.

- Os livros? Porquê?

- Porque sou dono disto.

Podia ver pela maneira como amuou que não estava habituada a que lhe respondessem na mina, o que confirmou de uma vez por todas o arranjinho com Eduardo. É mais provável andar em bicos dos pés em volta da namorada do patrão do que da assistente. Ela era uma brasa, um animal em termos de corpo e atracção sexual, demasiado brasa para que os homens em redor dela não sentissem a testosterona a subir. Eduardo também não me parecia acima de qualquer pecado. O melhor da festa ainda era a formalidade com que se tratavam, «Sr. Marques para aqui...» e «Menina Santos para ali...».

«Senhor» e «menina» não era a maneira de dois colegas que passavam o dia juntos, todos os dias, se tratarem, a não ser que escondessem algo e precisassem de fachada.

Sentado em frente aos livros de contas, percebi que não entendia nada do que estava a ler. Não tinha chumbado a Contabilidade na escola - pois nunca tinha tirado sequer nenhum curso comercial.

Olhei para os livros e pensei no que havia de fazer. Talvez pudesse apanhar o esquema da coisa, embora a terminologia me escapasse. Mas compreendi que eles só me podiam revelar a situação actual da mina. Para perceber mesmo os números tinha de ter meio de comparação. Históricos da mina. Outras minas com produção semelhante.

Aprofundei o mais que pude. Havia resumos mensais e anuais, e a partir destes não era difícil ter uma visão global do negócio. No papel, pelo menos, o sítio aguentava-se, dando pouquíssimo lucro num mês e perdendo dinheiro noutro.

Os livros confirmavam a explicação de Eduardo de que a mina não fazia dinheiro pela falta de sorte em encontrar diamantes. Muito simplesmente, movimentávamos terra de mais por cada quilate.

Estaria tudo bem se eu não desconfiasse que ele me enganava.

Pela mesma ordem de ideias, eu não sabia se Eduardo roubava o bastante para reduzir a rentabilidade da mina. Era dado adquirido que Eduardo e Cross roubariam um pouco como regalia por trabalharem em zona de guerra, e que eu devia fazer vista grossa. Também era dado adquirido que Eduardo podia roubar um pouco sem Cross saber, mas se levasse diamantes em quantidades que afectassem o rendimento da mina, Cross teria de estar metido também.

Não era só o roubo que me preocupava. Ainda me incomodava a maneira como Eduardo falara na oferta de aquisição. A identidade dos compradores era vaga. A parte acerca da decisão imediata não era, de modo nenhum, a forma como se vendia uma mina, mesmo numa zona de guerra. Isto para não dizer que ninguém faria uma oferta se não a tivessem ido examinar. E sem examiná-la outra vez durante as negociações.

Lembrei-me que Eduardo poderia estar metido no negócio, como sócio comanditário, ou talvez mantivesse a produção ao mínimo de propósito para baixar o preço de venda da mina.

Enquanto examinava os livros, comecei a procurar incoerências, coisas que me indicassem que havia mais diamantes a sair do que os lançados em conta. Verifiquei a tonelagem de terra escavada e processada e comparei-a com o número de quilates mês atrás de mês, mas permanecia razoavelmente coerente. Analisei a quantidade e qualidade das pedras reportada pela triagem e comparei-as com o que era vendido a grossistas, mas também não havia incoerências.

Decidi ver os livros de anos anteriores para ver se havia algum padrão.

- Dê-me os resumos contabilísticos dos últimos dez anos - disse eu à contabilista.

- Não temos.

- Porquê?

- porque a mina só está aberta há dois!

Por que raio é que não tinha pensado nisso? «Continua a ser

parvo, Win», disse para mim mesmo, enfiando a cabeça nos livros.

Passei a manhã a rever os livros, à procura de alguma incoerência que saltasse à vista, mas nada. Tinha de me estar a escapar alguma coisa.

Por fim, concluí que ele não andava a falsificar os livros. O verdadeiro motor desta conclusão não foi o conhecimento insuficiente que eu tinha de contabilidade, mas sim a maneira como a guarda-livros reagira à minha ordem de ver as contas. Ficara surpresa, talvez irritada, mas não receosa. Eduardo até apareceu uma vez para dizer olá durante a minha análise, e não parecia nada preocupado.

Tinha de roubar os diamantes antes de serem lançados nos livros. E Cross fazia parte da coisa.

Quando acabei, Eduardo chamou-me ao gabinete dele.

- Ficou satisfeito com a sua análise das contas?

- Sim, parece estar tudo em ordem.

- Bem, bem. Agora que confirmou que a mina está em más condições financeiras, tenho de o encorajar a aceitar a oferta de compra. Recebi-a por telefone esta manhã. Infelizmente, também devo informá-lo dos meus planos para deixar esta função. A minha mulher e os meus filhos estão ansiosos que eu regresse a nossa casa em Luanda.

- Lamento saber que se vai embora. Isso teria, naturalmente, o seu peso na minha apreciação da oferta. Qual é, exactamente, a oferta?

- Basicamente, um pagamento em dinheiro de quinhentos mil dólares americanos. Naturalmente, que metade do lucro da venda vai para a UNITA.

- Quem é que faz esta oferta?

- Uma empresa sul-africana. Parece que foi constituída recentemente, uma sociedade de vários homens ricos com experiência na extracção de diamantes. Dado que a oferta é em dinheiro, não lhes parece adequado darem mais informações sobre si próprios.

- Com franqueza, Eduardo, os duzentos e cinquenta mil que eu embolsaria depois de dar metade aos rebeldes não chega para me pagar as bebidas. Aliás, nada disto quer dizer que o Governo em Luanda não se apodere do resto quando eu tentar embarcar num avião. Que recebes tu do negócio?

- Nada, evidentemente; a mina é sua e eu vou-me embora seja como for.

O montante no papel é somente a oferta pública deles. Pode arranjar-se um depósito directo de meio milhão de dólares numa conta na Suíça unicamente em seu nome. Em contrapartida, no papel, a UNITA poderia ver que você só recebe metade da quantia, de modo que só lhes deveria cento e vinte e cinco mil. Eu não devia dizer isto, mas desconfio que os novos donos poderiam ser levados a pagar a taxa à gente de Savimbi, deixando-lhe a si o meio milhão líquido completo.

Fingi pensar nisso enquanto tentava desvendar quantas camadas de dissimulação tinha perante mim. Para quem não levava nada do negócio, Eduardo não somente sabia muito como também tratara de todos os aspectos - até mesmo subir a parada.

O meu detector de tretas apitava como uma sirene de ataque aéreo. O gajo estava demasiado ansioso por me ver pelas costas com dinheiro na algibeira, embora fossem trocos comparado com o que eu tivera antes. E nem sequer pediu comissão por tratar do negócio. Fazia aquilo pela sua nobreza de carácter.

Não me parecia.

Eduardo tinha uma ligação com a oferta, algo que se passava debaixo da mesa. A ameaça de se ir embora era para me pressionar a vender. Eu não precisava de pressão, mas sim de muito mais dinheiro do que umas poucas centenas de milhares- Por uma mina onde tinha mais de cinco milhões investidos.

- Vou pensar nisso.

- Os compradores precisam...

- Homem, preciso de tempo, Eduardo, acabei de chegar. Não estou a dar um pontapé na oferta, só quero matutar nela um bocado, falar com o meu advogado e contabilista. Diz aos compradores que estou a pensar nisso. A mina não vai sair daqui.

 

Decidi vistoriar a mina sozinho - sem Eduardo a dar-me à boca o que queria que eu papasse. Queria aprender todos os pormenores da operação. Bem podia ficar a gerir a mina sozinho. Não era coisa que conseguisse em poucas horas, mas também não era preciso um cientista nuclear para supervisionar uma mina de diamantes, especialmente se só o fizesse enquanto não conseguisse outro gerente ou não recebesse uma oferta legítima de compra.

A coisa mais complicada numa mina de diamantes era não fazer algo estúpido e inundá-la, causando um desabamento - ou, o que era mais comum, ser apanhado sem peças sobressalentes ou um mecânico, e, por causa de uma peça fulcral na maquinaria, a mina toda tivesse de fechar quando se avariasse, por exemplo, o elevador, as passadeiras rolantes ou a trituradora.

Ao invés de uma mina de carvão, havia pouco risco de explosão na Senhora Azul, nem havia os quilómetros de túneis habituais na extracção de minério. Os estudos geológicos e as sondas davam pistas para a localização de diamantes e de fontes perigosas de água subterrânea e determinavam a direcção que os túneis seguiam. Se eu mantivesse a maquinaria a funcionar, os mineiros a trabalhar e o dinheiro a entrar da venda da produção, podia manter a mina à tona até que se fizesse luz. Pelo menos era o que esperava.

Precisava de aprender as bases suficientes da operação, bem como nomes, caras e funções do pessoal essencial, para que, se o Eduardo se fosse embora, pudesse manter a mina até encontrar um substituto. Regra geral, o gajo que oleava as engrenagens da passadeira rolante e do elevador, ou que sabia como mantê-las a funcionar com uma chave de porcas e um pontapé, era mais importante no funcionamento diário do que o gerente da mina, que passava noventa e nove por cento do tempo no gabinete ao telefone ou a mexer em papelada. Ou a comer a contabilista.

Apanhei o elevador até ao nível das operações e interpelei o capataz de serviço.

- Vamos dar uma volta, quero saber como é a operação.

O português dele era limitado, mas percebeu a ideia. Com algum português, umas expressões locais que eu apanhara e muitos gestos, conseguimos comunicar enquanto eu o questionava sobre tudo o que via.

Antes da trituradora, reparei numa pedrinha em bruto e esfreguei-a entre os dedos, para sentir a película saponácea que a faria agarrar-se à mesa de sebo mais abaixo na linha de produção.

Quatro horas mais tarde, depois de ficar com um apanhado do manuseamento dos explosivos, do funcionamento da trituradora, do encerramento das portas estanques, da colocação de carris, da substituição de um cabo do elevador, e de cem mais procedimentos básicos, cheguei à mesa de sebo. Pelo caminho, mostrei a um mecânico como diagnosticar o problema do motor a gás do pequeno tractor que puxava os vagões. Um motor a gás ou a gasóleo era coisa de que eu percebia melhor do que ninguém na mina. E a outra coisa de que eu percebia melhor do que um motor eram as engrenagens de uma mulher.

Enquanto observava, o operário da mesa de sebo a pôr a mistura de sebo e diamantes nas vasilhas peneiras, retirou cuidadosamente uma pedra com cerca de dois quilates e passou-ma. Sorri e agradeci-lhe. Depois pratiquei a remoção da pasta de sebo e diamantes e o ensebar da mesa, para ter a certeza de que sabia como se fazia.

Este percebia ainda menos português do que o capataz, mas entre os dois cheguei à questão da frequência com que o operário da mesa de sebo punha de parte pedras para o Eduardo como acabara de fazer comigo.

- Ele diz que são umas poucas pedras por semana, talvez, não mais - disse o capataz. Ora o capataz não era estúpido, mas era sincero. Manteve-se sem expressão quando alvitrei que devia ser na mesa de sebo que Eduardo roubava os diamantes. Disse ao capataz que lhe daria um bónus além do vencimento semanal a cada um deles... se a nossa conversa não saísse dali.

Fiz uns cálculos rápidos com base nas pedras que vira no gabinete de Eduardo, no que acabara de ouvir ao operário da mesa de sebo e no montante que o gajo gordo comprador de diamantes paga por elas. Deduzi que Eduardo talvez embolsasse duas mil notas por semana em diamantes. Não era insignificante, nem meros trocos em Angola. Porém, considerando que metade da produção oficial da mina acabava nos bolsos do Governo ou dos senhores da guerra, se o dinheiro tivesse revertido para a produção da mina não teria ascendido a grande coisa.

Não eram as gracinhas de Eduardo na mesa de sebo que afectavam a situação financeira da mina.

Pensei na oferta sul-africana, se não passaria de outro esquema de lavagem de diamantes de sangue como o que João tinha em mente - diamantes de sangue em troca de armas. Era bem possível. A mina perdia dinheiro e podia ser comprada a bom preço.

No entanto, entrava eu na sala de triagem para verificar a operação de pesagem e graduação das pedras, quando fui assaltado por uma ideia.

A mina vale cada dólar que Bernie pagou por ela.

Bernie tinha os seus defeitos, mas não era parvo, embora tivesse por vezes atitudes parvas. Ei, Bernie, põe tudo o que tens numa mina de diamantes de sangue numa zona de guerra do outro lado do mundo! Manda também a herança do miúdo, já agora!

Em Nova Iorque, quando eu ficara atordoado pelo facto de estar falido, aceitara o cenário que me vendiam, mas, depois de falar com João em Lisboa, de ver a mina e de pensar em Bernie, havia alguma coisa que estava errada.

Disse-o em voz alta para ver como soava:

- Bernie não era parvo.

Bernie sabia que o meu pai não confiava no João. Não teria saltado imediatamente para a cama com ele. Nem por capricho. Pois claro, grandes lucros em diamantes de sangue e a posse de uma mina de diamantes eram mesmo o tipo de paixão de Bernie. Mas Bernie não era parvo. Caraças, Bernie mandara no negócio mais de dez anos depois de o meu pai falecer. Não era nenhum dínamo, mas mantinha a coisa a girar - sem se estampar até aparecer este negócio angolano.

Tinha de aceitar a premissa de que Bernie era demasiado conservador para arriscar tudo num esquema de lavagem de diamantes com o João.

A única maneira de Bernie ter arriscado tanto era sabendo que era lucro certo. Eu já conseguia ver como lhe tinham pintado a coisa. Teria sido atraído para um negócio de diamantes de sangue com João. Era lucro fácil, grande retorno no investimento e um toque de conspiração criminosa que teria agradado a Bernie.

Bernie não era como o meu pai, esperto a fechar negócios ou sabido a vender-se a si próprio. Bernie tinha um calcanhar de Aquiles - o ego, mas também tinha uma visão apurada da actividade diamantífera. O que lhe faltava em inteligência inata ele compensava em osmose - a actividade estava-lhe no sangue, pois passara nela a vida inteira. Até ao negócio da mina, ele conseguira manter não só o meu fundo como o aumentara a cada ano, apesar dos elevados gastos que eu praticava. Ficara tão zangado com ele quando soubera que estava falido que nem lhe dera o reconhecimento que ele merecia.

O negócio dos diamantes de sangue de João teria sido muito arriscado para Bernie apostar tudo nele. Matutei nisto e não consegui ver Bernie a arriscar tudo por tudo sem um plano de reserva. Devia pensar que tinha uma posição de salvaguarda. Mas esta falhara.

Que diabo sabiam Bernie, Eduardo e o grupo sul-africano sobre a mina que eu não sabia - e de certeza que João também não?

E que diabo teria acontecido para azedar o negócio de maneira a levar Bernie a matar-se? Ou teria sido ajudado a saltar janela abaixo?

Fui atingido por outro relâmpago de intuição.

Bernie devia saber qualquer coisa sobre a mina que o levara a arriscar um dinheirão nela. Só podia ser isso. Bernie era esperto de mais para se meter num negócio sorvedouro sem um plano de reserva.

Havia ainda outra coisa a incomodar-me. Onde é que estaria Simone durante as negociações com Bernie? Bernie não era estúpido no que tocava a dinheiro, mas como seria ele com as mulheres?

Se havia alguém neste mundo que podia convencer um cão como Bernie a deixar fugir a carrinha do talho, era Simone.

Simone. Bernie. Diamantes de sangue. A Senhora Azul.

Já me doía a cabeça.

Fui para o quarto e afoguei-me numa garrafa de vinho verde.

 

Na manhã seguinte, enquanto decidia como resolver o problema de a mina sorver o dinheiro, recebi a visita do diabo.

Não acabara o processo de aprendizagem e fui para a mina com o turno de dia. Eram poucos os mineiros que falavam português, mas colei-me ao mesmo capataz do dia anterior, que falava normalmente. Evitara Cross e Eduardo de propósito na noite anterior, jantara sozinho no quarto, bebendo mais do que outra coisa.

- Já trabalhou noutras minas? - perguntei ao capataz. Ele encolheu os ombros.

- Algumas.

- Muito diferentes desta?

- Umas têm melhor maquinaria, outras pior, umas têm terra azul, outras amarela, umas só terra castanha e nada de diamantes. Esta mina é como as outras, nem rica nem pobre.

- Temos de chegar a uma chaminé de kimberlito para ficarmos ricos, não é?

- É, pois. Chegamos à terra azul, todos felizes.

Queria dizer tanto o dono como os mineiros, porque estes recebiam um bónus quando o arrasto ultrapassava certos limites.

- A mina alguma vez atingiu terra azul? - Era só um tiro no escuro.

Ele abanou a cabeça.

- Azul nunca, só amarela. Também há diamantes na amarela, mas não são ricos como na azul. Mas vamos chegar à terra azul, não vamos, senhor? Por isso chamamos a ela a Senhora Azul. Uma senhora não é uma puta.

- Espero que mereça o nome.

Fi-lo mostrar-me tudo outra vez. Já sabia pelos motores de carros e barcos que, se o diabo as tecesse, não seria o grande motor principal a dar o berro - seria o tubo de borracha com meio centímetro ou a junta.

- Também quero ver as peças sobressalentes todas - disse ao encarregado que tratava das existências de peças e equipamentos. O inventário de reserva era parco, não só devido às finanças da mina como às dificuldades envolvidas na importação de equipamento. Cerca de metade das vezes as encomendas desapareciam entre o porão do avião e o armazém da alfândega.

- Costumamos comprar de volta aos ladrões as peças que encomendamos - disse o encarregado. - E depois temos os impostos. O Governo cobra um, os rebeldes cobram outro. Se o equipamento tiver de ser transportado por camião, ainda há muitas portagens a pagar.

O regateio das peças com outras minas também fazia parte do jogo. Não era um processo organizado. Depressa percebi que, apesar da minha arrogância, tinha muito que aprender. Sim, sabia mais da reparação dos motores que faziam a mina funcionar do que Eduardo, mas era completamente ignorante no que tocava à substituição de uma correia para o gerador, já que não podia telefonar para a loja de ferragens da esquina e mandar entregar.

Havia mais prateleiras vazias na gaiola de arame onde se guarda-vam as peças. O encarregado disse que Eduardo tinha vindo a reduzir as existências, afirmando que a mina não se podia dar ao luxo de guardar peças de reserva. Fez-me ferver o sangue, porque percebi que fazia parte do plano do Eduardo de manter a mina a perder. O equipamento custava muitas vezes mais ali do que na Europa ou nos Estados Unidos, mas a maioria ainda era uma despesa pequena comparada com o custo global de gerir uma mina. Uma roldana avariada no elevador podia deixar toda a mina parada até que fosse substituída. A mina estaria parada, mas a maioria das despesas continuaria a acumular-se, porque os mineiros permaneciam no local.

O encarregado tinha um primo que fazia recados e negociação de peças quando era necessário. Trabalhava em toda a região mineira.

- Faça-me uma lista de tudo o que precisamos - disse eu ao encarregado. - E de tudo o que se costuma avariar. Você já sabe por experiência do que costumamos precisar. Ponha o seu primo a trabalhar na lista agora, antes que se acabem as coisas. -Tive uma ideia. - O seu primo aceita pedras em vez de dinheiro pelas peças?

O encarregado encolheu os ombros para não se comprometer, mas percebi que tinha acertado em cheio. A mina pagava à UNITA do lucro que tinha da venda das pedras. Ao comprar o equipamento com pedras que não iam para a UNITA, eu conseguiria o equipamento com grande desconto. E o primo ficaria contente porque ganharia um valor maior em diamantes do que receberia em dinheiro. Pensei em quantas despesas da mina poderia pagar em diamantes. Talvez falasse com Cross para lhe pagar em pedras. Depois de decidir o que faria de Eduardo... e de descobrir se Cross estaria ou não metido com ele.

Observava o processo de detonação quando um dos mineiros se aproximou e me entregou uma mensagem. Cross queria falar comigo.

Estava à espera no elevador.

- Salte para aqui, o diabo está à espera lá em cima.

- Este maldito país é quente de mais para o diabo.

- Pois, mas chamam a este gajo El Diablo; mas não na cara dele, porque arrancaria os tomates ao próprio Satanás. O coronel Jomba é o operativo regional de Savimbi e da UNITA. - O que é que ele quer?

- E o que é que estes gajos querem sempre? A renda. Eduardo deixa-o ver os livros e dá-lhe a percentagem do que a mina produziu, mas o coronel Jomba pediu expressamente para falar consigo. Em particular.

- Porquê? eu

seja cego se sei.

- Grande chefe de segurança me saíste.

Cross agarrou-me no braço antes de sairmos do elevador e puxou-me para um canto para não ser ouvido pelo grupo de mineiros que ia descer.

- Cuidado com a língua com este Jomba, você nunca conheceu nada assim. É uma besta inumana, um tijolo da linha dura do Savimbi. O mais parecido com esta gente seria um lineman dos Chicago Bears com cento e cinquenta quilos e o apetite do Jeffrey Dahmer. Se olhar de esguelha para ele o gajo manda cortar-lhe os braços.

Se o enganar em cinquenta cêntimos, ele manda cortar muito devagarinho. Assim pode pensar na merda que fez enquanto sangra até morrer. Morreram milhões de pessoas nesta guerra doida e os gajos como o Jomba mataram pessoalmente centenas, se não milhares.

Eu fazia uma pequena ideia da razão por que queria o coronel falar comigo, mas não podia dizer a Cross. João dissera que eu seria contactado para o negócio de diamantes em troca de armas. Devia ser isso. Senti os joelhos a tremer. Onde raio me metera? Trancar armas e diamantes de sangue tinha uma conotação completamente diferente em Lisboa e em Angola. Se não tivesse cuidado, parte do sangue que manchava os diamantes seria o meu.

Uma fila de jipes com metralhadoras acopladas e rockets anti-tanque esperava ao portão de entrada para a mina. Cerca de trinta ou quarenta soldados de má catadura rodeavam as viaturas. Havia neles um ar sujo que os fazia parecer ainda mais ladrões do que as tropas do Governo.

Cross tornou a agarrar-me no braço.

- Está por sua conta, pula, eu não fui convidado. Não chateie este diabo pois não lhe poderei valer. Mantenha o bico calado, a carteira aberta e tente parecer assustado. Se se borrar todo, vai impressioná-lo mais do que se falar grosso.

- Parecer assustado não vai ser difícil.

- Mais uma coisa. Se ele o convidar para um churrasco, é porque você faz parte da ementa. Uma vez assou um garimpeiro no espeto por o ter enganado. Coisa de cinquenta cêntimos, provavelmente.

Jesus Cristo! Assim que me aproximei do homem percebi que Cross não estava a exagerar - o coronel tirava o apetite ao Hannibal, the Cannibal. Era um touro, peito enorme, braços enormes, pernas curtas como troncos. Enorme cabeça totalmente careca. Cachaço de touro. Tudo junto, era gajo para me arrancar braços e pernas e bater-me com eles.

Quanto mais me aproximava pior era. Tinha cornos de diabo tatuados nas têmporas e uma gargantilha de arame farpado tatuada no pescoço. Golpes de facadas em cada face, também.

As mutações deliberadas talvez não tivessem sido desenhadas para assustar ninguém. O gajo já era aterrador. Devia ter acrescentado os cornos e o arame farpado porque gostava do efeito.

Isso é que era aterrador.

Trazia uma bengala de oficial do Exército britânico. As botas brilhavam como espelhos. As medalhas refulgiam no peito. Tinha uma semiautomática de 9 mm no coldre do flanco direito. Outra arma debaixo do braço esquerdo. Nele as armas pareciam brinquedos de criança - devia ter roído nelas quando era bebé e pesava só cinquenta quilos.

Tinha «filho da puta perigoso» escrito de alto a baixo nele.

Não era possível que os donos das minas se atrasassem com a renda. Era como falhar um pagamento à Morte.

Que se diz a um gajo com tatuagens de cornos e arame farpado?

- Viva. Sou Win Liberte - disse eu em português.

- Coronel Jomba - respondeu ele.

- Gosto em conhecê-lo. - Ia mesmo estender a mão mas deixei-a solta de lado. Podia não a receber de volta.

Ele tinha dentes afiados como se fosse um tubarão. Será que os tinha mandado afiar de propósito? Talvez fosse para dar estilo, como o arame farpado e os cornos de diabo. E talvez os dentes se tivessem gasto a roer ossos de vítimas.

O jipe ao lado dele tinha uma caveira humana na capota. Também era para dar estilo.

Batia com a bengala no flanco enquanto andávamos e conversávamos. Falava um português excelente, culto e educado, melhor do que o meu dialecto de cozinha.

- O Sr. Carmona falou-lhe do plano em Lisboa?

Era isto. Este era o contacto do negócio de diamantes de sangue.

- Nem por isso. Disse que queria tratar de uma coisa que implicava certificados para diamantes que não viessem de zonas onde houvesse, hum, conflitos. - Não disse que estava indeciso em relação a aceitar o negócio. O coronel não era homem que se desiludisse com recusas ou até mesmo ambivalências.

- A pressão é enorme. Se esperarmos tempo de mais, haverá guerra civil declarada. Se isso acontecer, os diamantes angolanos serão tidos como diamantes de conflito e sujeitos a boicotes. Quando isso acontecer, os seus certificados serão inúteis.

- Compreendo - disse eu, sem compreender nada. O que queria este coronel? Era homem de Savimbi. João era persona non grata em negócios com Savimbi e a UNITA.

A palavra «golpe» veio-me à cabeça. Desconfiei que o coronel quisesse trocar diamantes por armas e usá-las para marcar o seu próprio território. O facto de poder ser uma operação desgarrada não ajudava, porque, se falhasse, eu ficaria com o Governo de Luanda e os rebeldes da UNITA de Savimbi em cima de mim. O coronel Jomba prosseguiu.

- O Bei também não pode vir a Angola, pelo menos não em público. Era sócio de Carmona numa tentativa de enganar Savimbi. Por conseguinte, você terá de assumir um papel mais activo nos trâmites, desempenhando as funções que Carmona e Bei não podem assumir.

- Não quero...

Ele parou e encarou-me, a bater com a bengala na perna.

- Estamos entendidos, não estamos?

- Naturalmente - sorri. Entendia perfeitamente. A minha cabeça iria parar à dianteira do jipe dele se o chateasse. João sonegara algumas informações quando me explicara o negócio em Sintra, principalmente que o meu coiro estaria na linha de fogo. Cross dissera que Savimbi matara com as próprias mãos a mulher e os filhos de um adversário. Eu nem conseguia imaginar o que faria a um americano apanhado a conspirar contra ele. Este Jomba tinha assado alguém num espeto. Vivo. Já para não falar em cortar braços.

As expressões «esfolado vivo» e «a tortura de mil golpes» vieram-me à cabeça enquanto reflectia na minha eventual sorte.

- Voltarei para debater os pormenores consigo. - Olhou para onde Cross estava, junto da guarita, a observar-nos. - Disse ao seu segurança que vamos fazer negócio juntos? - Fez a pergunta airosamente, a ver se me apanhava a mentir.

- Nem uma palavra. Acha que está a falar comigo sobre a contribuição que fazemos todos os meses.

Ele mirou-me.

- Muito bem. Se eu duvidasse da sua palavra, matava-lhe o homem neste momento.

- Queria ter uma ideia da realização do negócio. Sei que são diamantes por armas, mas não sei nada da minha parte...

- Não saber nada é melhor para si. Compreende o que quero dizer? - Lançou-me um olhar avaliador pelo canto do olho. - Vocês, americanos, desprezam a capacidade mental das pessoas do Terceiro Mundo. O Dr. Savimbi tem um doutoramento duma universidade suíça. Eu formei-me em Economia numa universidade portuguesa e continuei os estudos em Londres. Sei contar além dos dedos dos pés e das mãos, mas também sei lidar com traição à antiga. Compreende o que quero dizer?

Parei e encarei-o.

- Compreendo que está a ameaçar alguém com quem pretende fazer negócio. Compreendo que tenciono cumprir a minha parte, mas que há mais gente envolvida e que nem toda irá cumprir a sua. Também compreendo que não quero ficar com a batata quente na mão se for tudo para o inferno, porque alguém em Lisboa ou esse Bei não desenvolve.

Jomba fez um esgar e assentiu com a cabeça ao ritmo dos toques da bengala no flanco.

- Então, vejo que nos compreendemos. Você faz a sua parte e, dê lá por onde der, estará safo. E bem recompensado pelo esforço. - Fez sinal em direcção à Senhora Azul. - Muito mais do que poderia cavar naquele buraco estéril.

Separámo-nos, e eu tinha compreendido uma coisa: as probabilidades de sobreviver o bastante para matar alguém em Angola tinham aumentado. Já não era questão de ser um miúdo de doze anos drogado a puxar o gatilho da AK-47 enferrujada, comigo na trajectória da bala. Agora eu tinha inimigos bem colocados. Homens que distribuíam castigos atrozes que aterrariam Torquemada, a besta da Inquisição espanhola.

Se um garimpeiro tinha sido queimado vivo por roubar uns poucos dólares de diamantes, o que fariam a um americano dono de uma mina que lixasse um negócio de diamantes de sangue? Ou que se deixasse ficar para trás quando fosse tudo para o galheiro?

Eu não conhecia Savimbi, mas se Jomba era só um tijolo da linha dura do líder da UNITA, eu estava entalado entre dois demónios sanguinários.

Não me parece que o actuário me desse longos anos de vida - nem mesmo o próximo aniversário.

Uma coisa era certa: João nunca andara a direito em toda a vida. Era gajo para me roubar tudo o que me calhasse, se isso aumentasse a sua parte. Se Bei era amiguinho do João, também andaria por caminhos ínvios. Pouco interessava se Jomba dissera que eu estaria safo se cumprisse o meu papel, eu não queria estar por perto quando os outros todos o lixassem.

Encaminhei-me para a guarita onde Cross estava especado e mantive um semblante inexpressivo. O coronel deixara-me com muitas perguntas sem resposta, mas uma coisa era clara - eu perdia de qualquer maneira. Assim que assinasse o certificado falsificado para os diamantes e fizesse o que o coronel Jomba quisesse para lhe meter armas nas mãos, passaria de aliado necessário a testemunha material dos seus negócios obscuros. Já para não falar em me safar com um monte de dinheiro que ficaria melhor na algibeira dele.

Como diria Cross, havia três cenários possíveis para mim naquela confusão: morto, morto, morto.

Cross não papava nada daquilo e eu não ia envolvê-lo para o meter em trabalhos. Não é que ele fosse estúpido para cavar a própria sepultura em Angola.

Quando voltei, olhou para mim com ar confuso.

- Bem, pula, você é mais do que aparenta ser. E não me venha com tretas sobre a conversa da renda com o coronel... vocês pareciam tão íntimos como ladrões. Se aquele merdas quisesse falar sobre dinheiro, tê-lo-ia feito em frente do Eduardo; o gajo não é assim tão subtil.

- Queres mesmo saber do que falámos?

- Foda-se, não! Se aquele tarado voltar para matar toda a gente da mina porque o que quer que seja que ia acontecer deu para o torto, eu quero chegar ao Inferno sabendo que não passava de um transeunte inocente.

 

Nessa noite, depois do jantar, bati à porta do quarto de Cross. Não parecia contente por me ver. Estava a fazer a mala.

- Vais a algum lado? - perguntei. -Vou pôr-me ao fresco, como disse que faria. Vê-lo andar por aí

com a pila do diabo na mão foi a última gota para mim. Se veio pedir-me que fique por cá, está a perder o seu tempo. Vou-me embora e é já. Amanhã de manhã, monto no meu cavalo e desapareço em direcção ao pôr do Sol.

- Qual é a verdadeira razão para me deixares com a corda na garganta? São as merdas de queixinhas do costume sobre a tua infância pobre e o meu cu virado para a Lua?

- Já lhe disse que não gosto das suas companhias. Ter de fazer negócio com os Jombas deste mundo já é mau, mas pelo menos é só negócio. Se não pagássemos ao gajo do Savimbi, pagávamos aos rufias do outro lado deste atoleiro político. Mas do que eu vi da sua expressão corporal e daquele gorila fardado, vocês andam a fazê-la boa.

Dirigi-me a uma mesinha onde Cross tinha várias garrafas de bebidas e servi-me de um uísque. A pistola semiautomática dele estava no coldre e pendurada na barra da cama. Dava jeito, bastava estender a mão a meio da noite, nem era preciso levantar a cabeça da almofada.

- Ando a fazê-la boa? - perguntei. Sentei-me na cama a agitar

o uísque no copo.

- Não sei nem quero saber, mas sou humano e conheço os vícios dos homens, posso deitar-me a adivinhar. O coronel Jomba tem algo na manga e a mundivisão de umpit-bull, de modo que deve ser um simples plano de assassinato e roubo. O que me assusta é o secretismo. Estes gajos não são subtis quando vêm receber a renda, o que me faz pensar se ele estará a querer roubar ao Savimbi. E que você esteja envolvido nisso.

- Se pensa que o coronel é filho da puta, só lhe digo que, comparado com Savimbi, não passa de um gatinho. Savimbi apanha-o e a um dos seus gajos a roubar, mete-lhe um ferro em brasa pelo cu acima e dá-lhe desentupidor a beber para acalmar. Em Angola, a culpa por associação prova-se porque se está perto o bastante para ser arrastado quando dois atiradores da UNITA começam a reunir a malta do bairro.

- Cross...

- Não, não, não, não me diga o que anda a fazer, não quero saber. Mas percebi que havia merda quando falou no nome do Carmona. Ele tentou enganar Savimbi uma vez e, na minha opinião, mandou-o a si para acabar o negócio.

O gajo devia ter razão. O coronel não queria que a guerra acabasse, era demasiado lucrativa. A paz significava arranjar um emprego a sério. E devia haver mais um monte como ele no campo rebelde, a debater-se contra a paz que Savimbi tinha acordado. Caça aberta para João e o amigo Bei trocarem armas por diamantes. Cross não era parvo. Se lhe desse hipótese, ainda se saía com a resposta de que era um negócio de diamantes de sangue. Porém, eu queria mantê-lo afastado da verdade até decidir o que raio iria fazer. Além disso, fora ao quarto dele por outro motivo que não um pedido para ficar na mina.

Estiquei a mão e tirei a 9 mm do coldre. -

- Ei, não se ponha a brincar com isso.

Avançou para mim, eu apontei-lhe a arma às goelas e disse:

- Já te disse que, faça o que fizer, sou o melhor. Isto inclui tiro ao alvo.

- Mas que porra está a fazer, homem? Vire a puta da arma para outro lado ou meto-lha pelo cu acima.

- Mostra as tuas pedras.

- Quê?

- As tuas pedras. Quero vê-las.

- Mas o que é que lhe interessa... ah, estou a ver, acha que o ando a lixar, não é?

- Sei que Eduardo o faz. Ainda tenho uma pequena dúvida sobre ti.

- Cabrão! - Foi buscar um livro intitulado The Secret Garden à prateleira e abriu-o de par em par.

Era oco por dentro. Tirou uma bolsinha do livro e atirou-a para cima da cama.

- Vieram todos do rio. Não que você soubesse a diferença. Os diamantes não trazem impressões digitais, pula. Não se sabe se vieram da mina, do rio ou da Lua.

Apalpei as pedras, esfregando-as nas mãos. Todas tinham tamanhos diferentes. Algumas com um quilate ou mais, mas na maioria eram «pequenas», com menos de um quilate. Até havia algumas de categoria industrial. Mesmo a olho nu, vi que poucas seriam sem imperfeições. E nenhuma tinha aquele toque saponáceo.

- Pois é, não são oleosas, são macias - disse ele - como pedras do rio. Mas não quer dizer que não pudessem ter vindo da mina. Uma vez passadas pelo ponto de ebulição para lavar a porcaria das mesas de sebo, não se distingue uma pedra do rio de uma pedra extraída. A não ser que o seu velho lhe tenha ensinado coisas que não vêm nos livros de geologia.

- E ensinou. Nenhuma destas veio da mina. Meti-lhe a arma no coldre e levantei-me.

- Não me andas a roubar. Também não achei que andasses, mas tinha de ter a certeza. As pedras do Eduardo tinham o toque característico dos diamantes extraídos. O gajo mentiu quando disse que tinham vindo das concessões do rio.

Devolvi-lhe as pedras. Devia ter percebido quando o vi estender a mão esquerda, pois o gajo socou-me na barriga com o punho direito, e deixou-me sem fôlego. Voei para cima da cama e enrolei-me em posição fetal.

- Não me comece agora a vomitar em cima da cama - disse ele - que eu obrigo-o a mudar os lençóis.

Encheu um copo de uísque quase até ao bordo.

- Quer mais um?

Sentei-me, agarrado à barriga que doía como o caraças.

- Quero um gastroenterologista.

- Ei, não se comece a queixar. Esmurrei-o na barriga de propósito para não lhe dar cabo da cremalheira. Sabe como é difícil arranjar um dentista em Angola? Um que não tenha SIDA?

- Obrigadinho.

- Acho que tinha o direito de desconfiar.

- Não quero que te vás embora.

- Vá-se lixar. Porquê?

- Porque preciso de ti. Mas vou despedir Eduardo.

- Quem é que vai gerir a mina com o gajo fora? Sabe como é difícil arranjar um gerente competente?

- Vou eu geri-la.

- Merda, o calor deve-o ter abalado, ou se calhar foi um bicho que lhe mordeu. Eduardo pode ser cabrão e ladrão, coisa que não leva ninguém ao despedimento em Angola, mas também tem um diploma de uma escola de mineração e vinte anos de experiência.

- Eu não disse que vou gerir a mina para sempre, é só até conseguir substituto. E sei que não é canja, mas também não é impossível. A extracção de diamantes não é assim tão complexa. Metade do trabalho implica manter a maquinaria a funcionar. E de máquinas percebo eu ainda melhor do que Eduardo.

- Não vai dar.

- Tem que dar, não posso ter cá o Eduardo.

- Diga-lhe que pare de roubar. Dê-lhe um aumento.

- Não é a roubalheira. Ouve, tenho um pressentimento acerca desta mina e do Eduardo. Sabes aquela de algo estar podre no reino da Dinamarca? Este esquema não me cheira. A mina, Bernie passar-se da cabeça, muito mais do que as tuas suspeitas de João Carmona e do coronel Jomba. E só vou saber depois de me ver livre de Eduardo e meter a mão na massa na mina para descobrir mesmo o que raio se passa.

Cross acendeu um cigarro e deu uma passa.

- Homem, eu não discordo. Sabia que Eduardo roubava, mas, caraças, é só uma regalia por trabalhar neste país infernal. Nunca pensei que roubasse a ponto de afectar as coisas.

- E não acho que afecte. Ele rouba uma ou duas notas por semana, não chega para fazer diferença a longo prazo.

- Então, o que é que acha que ele anda a tramar?

Encolhi os ombros e abanei a cabeça.

- Não sei. Mas sinto a vigarice nos ossos. -

- Conte lá o que lhe dizem os ossinhos.

Contei-lhe de Eduardo me tentar convencer a vender a mina e

de não querer comissão por combinar o negócio.

- O gajo não pediu dinheiro? Raios me partam, pula... eeh, Win, tem razão. O filho da puta não deixava passar um cêntimo nem que estivesse entalado nos dentes de um crocodilo. Há uma coisa que o gajo pode estar a fazer.

- A omitir produção para reduzir o valor da mina?

- Adivinhou.

- É possível. A princípio, achei que a mina fora injectada de modo a limpar Bernie. Depois deixei-me disso e apostei que a roubavam descaradamente. Também não é isso, porque Eduardo teria de te ter a ti e a todos os supervisores ao barulho.

«Depois achei que ele mantém a produção ao mínimo para reduzir a quantidade de pedras, mas falei com os capatazes que já trabalharam noutras minas sobre a produção delas. Eduardo parece andar a par com o volume de terra revolvida por hora de trabalho. E ainda não chegámos à terra azul, isso é certinho. Pode ver-se que ainda estamos na amarela, pelo que costuma sair das passadeiras.

- Mas ainda acha que o gajo tem algo na manga?

- Podia ter pedido dez por cento do preço de venda como intermediário, cinquenta mil para o bolso mesmo que recebesse comissão dos compradores. Se eu não achasse que havia coisa, teria concordado.

Cross soprava anéis de fumo.

- O gajo anda a tramar alguma, é certo. Raios, por esse dinheiro, você quase podia comprar a minha lealdade.

- Já te disse, se me safar, tu também te safas.

- Pois, e eu confio em si? Um gajo que nunca trabalhou nem ganhou um tostão um dia na vida? Vai começar a gerir a mina amanhã e fazer-nos ricos?

- Cross, se há coisa que tens que aprender na vida, é que as pessoas são coerentes. Os vencidos da vida nunca se safam, e os vencedores orientam-se em tudo o que façam. Gerir uma mina de diamantes não é mais complicado do que ganhar uma corrida de veleiro.

- Você é só tretas.

- Pois sou, mas voltemos à coerência. Sou um vencedor em tudo.

- Deve estar a dizer-me que eu serei sempre um vencido da vida.

- Não...

- Deixe lá, estava só a lembrar-me das merdas de queixinhas do costume sobre a minha infância pobre e o seu cu virado para a Lua.

- Bem, vais ajudar-me com o trabalho sujo ou não?

- Por onde quer começar?

- Deste-me uma ideia quando me contaste como é que Savimbi lida com empregados insubordinados. Podíamos meter um ferro em brasa pelo cu do Eduardo acima e obrigá-lo a beber desentupidor.

- Bebo a isso. - Cross emborcou a última metade do copo de uísque. Depois limpou a boca com a manga da camisa e olhou para mim inquisitivamente. - Ok., espertalhão, como é que sabe que os meus diamantes não vieram da mina? Têm o mesmo toque que os diamantes do rio depois de limpar a oleosidade. Que segredo é esse que o seu velho lhe ensinou?

- Eduardo tinha pedras escolhidas, todas acima de um quilate, todas perfeitas. As tuas são uma mistura, umas boas, outras más, nada espectacular, o tipo de coisa que os garimpeiros conseguem com o método da pá e do baldinho.

Saí da cama.

- O que o meu velho me ensinou é que as pessoas são coerentes. Um ladrão será sempre ladrão mesmo que só fraqueje uma vez. Um gajo honesto não rouba. Se tu tivesses um diamante perfeito com mais de um quilate que fosse, eu saberia que o tinhas trazido da mina. E ter-te-ia metido uma bala nos tomates.

 

Cross usou as chaves-mestras para abrir a porta dos aposentos de Eduardo. A sala estava às escuras e entrava luz por uma frincha da porta do quarto. Esgueirámo-nos para a porta e pusemo-nos à escuta. Não havia dúvida, eram os gemidos e suspiros de animais de duas pernas a acasalar.

Como tinha menos finesse do que eu, Cross abriu a porta a pontapé. Eduardo estava deitado de costas com Carlota em cima dele, os dois nus. Carlota gritou, Eduardo afastou-a e começou a meter a mão debaixo da almofada.

Cross apontou a arma à cara de Eduardo.

- Tira a mão, devagarinho.

Eu saquei a arma de debaixo da almofada enquanto Eduardo e a mulher guinchavam.

- Sabes que os humanos são os únicos animais que fodem cara a cara? - perguntou Cross. - Li isto num livro qualquer.

- Isto é...

- Pega na tua roupa - disse eu para Carlota - e desaparece daqui.

Eduardo contorceu-se para enfiar as calças.

- Isto é uma afronta, vocês vão pagá-las, tenho amigos poderosos, amanhã acordam mortos.

Engraçado - na América ou na Europa, uma pessoa ameaçaria chamar a Polícia. Em Angola, a ameaça é de ser assassinado.

- Deixa-me resumir a coisa, Eduardo - disse eu. -Tu andas a roubar-me e a roubar a mina descaradamente. Tens andado a aproveitar o melhor da colheita das mesas de sebo.

- Vá-se foder!

- Não, pá, a ti é que vamos enrabar. Vigia-o enquanto eu dou uma volta.

Tinha um cofre preto com um metro de altura no canto do quarto.

- Temos de o convencer a dar-nos a combinação - disse eu.

- Esqueça o cofre - atalhou Cross. - São monos em Angola, ninguém é tão estúpido que ponha coisas lá dentro. Com este gajo, é melhor procurar compartimentos secretos, na parede, no chão, no tecto.

Tinha razão. Encontrei o esconderijo debaixo do lava-loiça da cozinha. Tirei as tábuas e encontrei uma caixa de charutos cheia de diamantes embrulhados e uma bolsa estanque com papelada.

A cara de Eduardo mostrava que me saíra ojackpot.

Cross assobiou quando eu desembrulhei os diamantes.

- Este cabrão não era forreta, pois não? -

- Vai-te foder! - disse Eduardo. Cross bateu-lhe na boca.

- Tens roubado nas minhas barbas, compadre. E nem sequer me ofereceste sociedade.

- São pedras de qualidade superior - disse eu -, podem lapidar-se todas com pelo menos um quilate, todas perfeitas ou quase, cinquenta mil notas, pelo menos, até mesmo os dez cêntimos por dólar que se consegue por aqui.

Eduardo começou a esboçar outra ameaça e eu sentei-me ao lado dele, abanei a cabeça e disse-lhe amavelmente:

- Não vai dar, pá. O coronel Jomba não vai ficar nada contente. A cara de Eduardo ficou verde-acinzentada e os olhos saltaram-lhe das órbitas.

- O Jomba não tem nada a ver com isto e você sabe.

- Não lhe posso esconder nada. - Dito isto, comecei a ver a papelada da bolsa. - Quando ele cá esteve, chamou-me de parte para falar de ti. Ouviu dizer que andavas a roubar e não lhe davas nada. Um dos capatazes disse-lhe que a mesa de sebo é o teu pote das bolachas. Jomba não ficou contente com as notícias e o próprio Savimbi disse-lhe que tratasse do assunto.

- Jomba é tarado. Fique com os diamantes, não me interessa, vou para Luanda, para a minha família.

- És tão simpático que me deixas ficar com o que me roubaste. Hum, que é isto?

Tirei o extracto de conta de um banco na Suíça.

- Mais de trezentos mil dólares.

Cross abanou a cabeça.

- Raios me partam, este gajo é qualquer coisa.

- Há quanto tempo é que o gajo é gerente? - perguntei.

- Dois anos - respondeu Eduardo -, mas metade do dinheiro veio da última mina onde trabalhei.

- Ok., com cinquenta notas na caixa e metade de trezentas mil no banco, digamos que me roubaste aí umas duzentas mil. Ou seja, roubaste ao Jomba e ao Savimbi uma centena. Para não falar do que lhes deves do roubo da última mina onde estiveste.

Eduardo suava em bica.

- Jomba mata-nos a todos se descobrir.

- Na realidade, ele ofereceu-me uma recompensa, metade do que eu recuperar. - Olhei para Cross. - O que é que achas que Jomba lhe vai fazer?

Cross riu-se.

- Nem é preciso ameaçá-lo. Ele sabe. O que te parece, Eduardo? Talvez te corte fatias dos braços e das pernas, um centímetro de cada vez, e as atire aos cães? Talvez te corte a língua ao meio por lhe teres mentido? Quando não passares de um coto ensanguentado, o gajo pendura-te no meio da cidade para as moscas...

Eduardo caiu para a frente e eu amparei-o antes que chegasse ao chão, desmaiado. Sentámo-lo na cadeira e abanei-o para o acordar.

- Vou dizer-te o que vamos fazer, Eduardo. Quando os bancos abrirem amanhã na Suíça, vais fazer uma transferência telefónica da tua conta para a minha. Depois damos-te um avanço antes de contarmos ao coronel Jomba.

Amarrámos Eduardo para ele não desaparecer e saímos do quarto. Cross ficaria lá para o caso de Carlota querer ajudar Eduardo a fugir.

Fora do alcance dos ouvidos de Eduardo, Cross perguntou:

- Pensa mesmo contar ao Jomba? O gajo fica-lhe com um bom bocado.

- Se não contar, fico eu sem um bocado. Achas provável que Jomba tenha alguém na mina a soldo dele ou a borrar-se de medo para lhe contar tudo?

- É certinho que há alguém na mina a passar informações.

- Cross - parámos e encarámo-nos.

- Ficas com dez por cento do que sobrar depois de Jomba meter a unha. O resto vai para gerir a mina.

- Obrigado. Você tinha razão quanto ao Eduardo. Os diamantes que ele sacou da mina não chegam para afectar as coisas, o que significa que o gajo anda a tramar alguma.

Ergui a bolsa com os papéis. -;-o; -Vou ver o que é isto esta noite. Talvez haja pistas.

 

Eduardo e a sua gaja partiram depois de eu supervisionar uma transferência de dinheiro da conta dele na Suíça para o meu banco em Nova Iorque. Parecia que tinha desaparecido uma pestilência da mina. Com a ameaça de Jomba na sua peugada, achei que passaria muito tempo até levantarem cabeça.

O meu primeiro acto oficial foi promover o capataz que me dera aulas de extracção de diamantes. Encarreguei-o do funcionamento diário da mina, reportando directamente a mim.

Tomei café com Cross na varanda do alojamento.

- Encontrei a conta de um geólogo na papelada do Eduardo, um tipo da Cidade do Cabo - disse eu. - Não há relatório, só a conta.

- Não é estranho que se recorra a um geólogo sul-africano numa mina angolana. Era para a mina ou outro sítio qualquer?

- Para a mina.

Cross encolheu os ombros.

- Talvez não seja nada. Fazem-se estudos geológicos à mina de vez em quando, para direccionar a escavação dos túneis.

- Eu sei, vi isso nos dossiers da mina, mas há duas coisas estranhas nesta conta. Não é da firma que tem vindo a fazer os estudos. Ainda mais importante, no papel diz que foi para a Senhora Azul, mas o Eduardo pagou do próprio bolso.

Cross resfolegou.

- Eduardo era tão sovina que nem o funeral da mãe pagaria do próprio bolso.

- Outra coisa é ter a conta escondida junto com as pedras. Devia ser muitíssimo importante para ele, coisa que ele queria manter secreta.

- Por que não contacta o geólogo para ele lhe enviar uma cópia do relatório?

Abanei a cabeça.

- Não, não me parece. Eduardo disse que o grupo que pretende comprar a mina é constituído por executivos da África do Sul. Podia estar a mentir, mas ele pode ser unha com carne com este geólogo e o grupo sul-africano. Primeiro, quero saber mais sobre o geólogo, contratar um detective, ver se o gajo é fidedigno, que reputação tem, aparecer-lhe mesmo à frente na África do Sul. É mais difícil dizer não ou mentir cara a cara.

- Tenho um amigo na segurança de uma mina sul-africana. Este mundo é pequeno. Talvez ele saiba alguma coisa do gajo.

- Vê o que podes descobrir. Entretanto, tenta chegar a Jomba. Eduardo e a Carlota já devem estar em Luanda, se tiverem fretado um charter. Temos de lhe mostrar a papelada de Eduardo e fazer contas. Não quero que ele pense que somos lentos a pagar.

- Eeeh, pula, não olhe agora mas acho que temos problemas. O capataz de turno corria na nossa direcção. Cross e eu levantá-

mo-nos e descemos as escadas. O homem estava tão agitado que só falava um qualquer dialecto africano.

- Português - disse-lhe eu -, fale português.

- Está a dizer que há problemas na mina - traduziu Cross.

- Tenha calma, qual é o problema?

- Há água a entrar nos túneis.

- Donde? - Era uma pergunta estúpida, a água de lençóis e ribeiros subterrâneos era um problema constante para a mina.

O homem continuava em português e dialecto angolano que eu não percebia. - Aquele cabrão - vociferou Cross.

- Quem?

- Eduardo desceu à mina antes de se ir embora e deu ordens ao turno da noite para destrancar as portas estanques todas. Para inundar a mina.

- O quê? O que é que nós vamos fazer?

- Nós? Tem alguém na algibeira? Você é o novo gerente da mina. Comece a gerir.

 

MARNI

De prancheta na mão, Marni observava os trabalhadores angolanos a descarregar um camião para um armazém da ajuda humanitária da ONU, na vila de 9 de Outubro. O nome da vila já tinha sido 28 de Julho, por causa do dia da sua libertação do jugo de Portugal durante a guerra da independência, mas mudara há vários anos quando a UNITA entendera que era melhor a data em que a tinha «libertado».

Um trabalhador deixou uma saca de arroz cair-lhe do ombro. A saca abriu-se quando embateu no pára-choques do camião e entornou arroz no chão. Uma multidão de mulheres e crianças que assistiam ao descarregamento apressou-se a tentar apanhar mãos-cheias de arroz.

- Raios partam! - Marni atirou com a prancheta para o chão. - É a terceira saca que vocês rebentam. Eu bem vi que foi de propósito. Filho da puta!

Avançou num remoinho em direcção ao garrafão de água fresca montado à sombra de uma árvore. Limpou o suor da testa com um lenço e molhou-o para refrescar o pescoço.

Michele LaFonte, outra voluntária, apanhou a prancheta e juntou-se a Marni à sombra. Riu-se quando lhe passou a prancheta para a mão.

- Vejo que segues o manual de formação sobre o modo de tratamento dos trabalhadores indígenas. - O inglês de Michele tinha um forte sotaque francês. Era supervisora de Marni e também instrutora.

- Fazer birras não está no manual? Às vezes é só o que eles percebem. - Fez sinal para o camião. - Têm vindo a deixar cair sacas de propósito, passando-as por uma aresta qualquer do pára-choques para se rasgarem. A comida é enviada do outro lado do mundo para lhes dar de comer, a eles e ao povo deles, e eles estragam tudo.

E as pessoas que apanham o arroz do chão estão metidas com quem o deixa cair.

- Deixa-me adivinhar, pediram mais dinheiro para descarregar, começaram tarde e andam a arrastar os pés...

- Isso tudo. E não gostam mesmo nada de receber ordens de uma mulher.

- É uma perda de estatuto para eles.

- Foi assim que começou, pediram mais dinheiro só porque eu sou mulher e depois optaram por estragar tudo quando eu recusei. Só queria que houvesse uma dose de realidade naqueles manuais que eu li sobre ajuda ao Terceiro Mundo antes de cá chegar. Os livros omitem a parte sobre as pulgas que nos deixam feridas nos tornozelos, a comida que nos desperta um vulcão no estômago até vomitarmos lava, os mosquitos que têm mais sede do que o vampiro Lestat. Nem sequer falam na diferença horária. É que não há noção do tempo aqui, pelo menos eu não a percebo. Esta gente vem e vai quando lhe apetece, trabalha quando lhe dá na gana e só aparece de certeza quando for dia de pagamento.

- Diz-lhes o mesmo que eu digo aos meus: o custo de cada saca rasgada será descontado na jorna deles.

- Boa ideia!

Numa mistura de português, umbumdu e o idioma internacional do gesto, Marni conseguiu transmitir que ia descontar as sacas rebentadas da jorna deles. Levantou-se um protesto entre os trabalhadores, mas voltaram ao trabalho e tiveram mais cuidado com as sacas, depois de ela ameaçar despedi-los a todos.

- Bom trabalho! - disse Michele quando Marni voltou para a sombra.

- Estou sempre a aprender, quem me dera ter o teu domínio da língua para lidar com esta gente. E os teus tomates.

- A seu tempo, vais ver que é preciso prática. E sobreviver. - O semblante de Michele toldou-se. - Chegaram notícias do Sul de que dois dos nossos trabalhadores angolanos foram assassinados numa emboscada a um comboio de mantimentos.

- Oh, não.

- Ainda não divulgaram os nomes. Rezo para que nenhum dos meus amigos tenha morrido.

- Meu Deus, que maneira de morrer! Ser assassinado quando se veio cá para ajudar. Sabem quem foi?

- Ainda não, mas também nunca se sabe muito bem. Oh, o Governo vai mandar patrulhas, ou a UNITA de Savimbi, vai haver uns combates e uma comunicação a dizer que foram tropas governamentais desgarradas ou rebeldes desgarrados ou qualquer outra gente, e que foram castigados, mas nunca sabemos quem diz a verdade. As coisas ficam calmas algum tempo e dentro de um ou dois meses haverá outro ataque, comida e camiões desviados, e alguns de nós assassinados.

- Tens um maravilhoso sentido do fatalismo, Michele. Do tipo de me fazer querer agarrar na mala e ir para casa.

- Que paradoxo, não é? A ONU, a Cruz Vermelha, os missionários, todos nós vimos aqui para ajudar esta gente que já foi tão brutalizada pela guerra, e a comida e os medicamentos são desviados para vender no mercado negro pela mesma gente que viemos ajudar.

- Junta a isso bichos nojentos, doenças terríveis, condições de vida insuportáveis... raios, vou mesmo fazer a mala!

As duas riram-se.

- É desmotivador - disse Marni. - Preciso de um banho, um copo de limonada fresca, jantar com um homem que não cheire tão mal como eu, talvez uns momentos de ternura com ele entre lençóis imaculados...

- Eu empresto-te o meu vibrador!

- Prefiro o teu marido, da próxima vez que ele cá vier.

- Ele nunca cá está, por isso é que tenho um vibrador.

O marido de Michele era piloto de helicóptero e transportava voluntários e mantimentos para zonas isoladas. Marni limpou o suor da nuca com um lenço.

- Era tão diferente quando eu estava na escola na Califórnia. Lia livros sobre a miséria, via documentários, falava com gente que estivesse no terreno, mas nada nos prepara para a realidade.

Michele assentiu.

- Nunca se sabe como as coisas podem ser horríveis até se ver uma criança com SIDA a ser comida viva pelas moscas, ou ter de ensinar alguém cujos braços foram cortados a limpar-se depois de fazer as necessidades. Mas estás a ser muito dura contigo própria. Só estás cá há dois meses e já tens fama de conseguir o que queres e te recusares a ceder, seja contra gente preguiçosa ou funcionários corruptos.

- O que me espanta é que todos continuamos a trabalhar perante ameaças e caos. Acabaste de me dizer que alguns colegas foram mortos a poucos quilómetros daqui. Mas, para além de derramarmos algumas lágrimas se os tivermos conhecido pessoalmente, passamos à frente e continuamos a trabalhar.

- E tu e o teu marido fazem isto há anos.

- Morreremos a cavalo, como vocês, cowboys, dizem. Espero que não falte muito tempo. Só desejo que, quando chegar a hora, eu e o meu marido vamos ao mesmo tempo. Rapidamente.

- Meu Deus, não fales assim! - Marni estremeceu.

- É a vida. Tudo pode acontecer quando se trabalha numa zona de guerra.

- Por vezes parece tão inútil. Distribuir comida, vacinar as pessoas, vê-se logo os resultados. Pergunto se faremos algum efeito, se é possível fazer efeito neste mar de miséria.

- Ce noest pás la mer à boire.

- Não é preciso beber o mar - disse Marni, traduzindo o aforismo preferido de Michele. - Ok., não é impossível, mas talvez nos afoguemos em miséria humana.

Michele apertou-lhe o braço.

- És tão sensível, tão idealista, talvez de mais. Vieste cá para salvar o povo de Angola, mas descobriste que muita gente não merece ser salva porque faz parte do problema. E o resto está tão humilhado, tão pisado e desesperado que nem se conseguem ajudar, e assim tornam-se parte do problema porque mordem a mão de quem lhes dá de comer.

»Eu já tenho a pele mais rija - continuou Michele. - E enterrei os meus ideais. Ando nisto há vinte anos, no Congo, na Serra Leoa, no Ruanda, na Bósnia e nos campos da Palestina. Sei que não posso salvar o mundo e nem tento, só ajudo o máximo de gente que puder hoje e espero que faça diferença a longo prazo. Além disso, ganha-se

bem.

Marni desatou à gargalhada até começar a tossir.

- Ganha-se uma treta - ofegou - e as condições de trabalho metem nojo, mas acho que tu és meio Madre Teresa, meio Joana d'Arc, meio Simon Legree.

- Simon Legree 1?

- Capataz de uma plantação que mandava nos escravos. É personagem de um livro. Agora ensina-me mais palavrões em umbundu para os jornaleiros se calarem e voltarem ao trabalho.

Nesse momento, uma voluntária da idade de Marni acenou e gritou uma saudação antes de seguir para a estrada.

- Vejo que a Rita traz a farda do dia - disse Marni. Michele olhou para a mini-saia da mulher com má cara.

- Tenho conhecido Ritas em todas as missões de ajuda que já fiz. Há sempre uma que usa calçõezinhos e um top justo a ver-se o soutien, para confirmar junto dos homens do Terceiro Mundo, que já são uns porcos no que toca a mulheres, que as ocidentais são todas putas.

- Ela contou-me em pormenor como são as partes íntimas do comandante militar angolano com quem ela dorme. Chama-lhe mamba negra. Eu já vi o comandante com duas pegas locais no jipe. Parece-me que a Rita se arrisca muito.

- Sempre me interroguei se será realmente pelo sexo, quando vejo uma europeia como a Rita a saltar para a cama dos homens locais nos países onde trabalhei, dos Balcãs ao Extremo Oriente. Parece-me que os homens do país dela nunca a respeitaram como ela queria, talvez por ser demasiado fácil. As Ritas deste mundo procuram realização na cama de um homem. Não está lá, seja lá quem for o homem. E aqui é a vida dela que está em jogo.

Marni abanou a cabeça.

-           É muito triste, mas ela vai aprender que há duas coisas que não têm vacina: a estupidez e a SIDA.

 

1. Traficante de escravos no romance americano “A Cabana do Pai Tomás”, de Harriete Beeacher Stowe. (N. Da T.)

 

Depois do camião descarregado, Marni entrou na enorme tenda onde ficavam a comida e os medicamentos antes da distribuição. Com Venâncio, o seu assistente angolano, começou a contagem. A auditoria da ajuda humanitária fazia parte do seu trabalho, a parte mais fácil. Tentar fazer chegar o mais possível às mãos daqueles a que se destinava era a parte difícil. A comida e os medicamentos desapareciam misteriosamente do armazém durante a noite, os camiões chegavam com menos coisas do que tinham partido. Ainda pior do que o roubo vulgar, era a roubalheira descarada dos funcionários governamentais, militares rebeldes, traficantes e bandos de piratas.

Os países são como as pessoas, pensou Marni. Desenvolvem personalidades e perturbações emocionais, tal como os indivíduos. Podem ficar esquizofrénicos como a Alemanha do nazismo, paranóicos como a Rússia de Estaline. Ela via Angola como uma criança espancada, chicoteada e esfomeada, violada e torturada até já não saber o que é uma existência normal. Traumatizado, o país inteiro agia como um psicopata, magoava-se a si próprio e a quem lhe estendia a mão.

Deviam fazer auditorias à miséria, pensou ela, reuni-la e metê-la pela goela abaixo das empresas e das pessoas que alimentavam a febre da guerra com os dólares do petróleo e dos diamantes. Fome, doenças, morte e mutilação causados por bombas, morteiros e minas antipessoais, saques, pirataria, emboscadas, violações, raptos, assassínios - era uma auditoria ao inferno, pensou ela.

- Menina - disse Venâncio, interpelando-a em português -, acabei de contar oitenta e seis sacas de trigo e a menina escreveu arroz.

- Desculpe, estava a pensar noutra coisa.

- Tem a cabeça tão cheia de obrigações que não há espaço para os seus pensamentos. - Tirou-lhe a prancheta da mão. - Vá dar uma volta, jantar e ao cinema.

Ambos riram da piada.

- Ok., preciso mesmo de apanhar ar. Acabe as contagens. Quando me disser quanto é que roubaram entre o aeroporto em Luanda e aqui, diga uma mentirinha para eu me sentir melhor com o mundo.

Saiu da tenda e do pequeno acampamento da ONU e dirigiu-se à estrada que seguia o curso do rio. As mulheres ofereciam comida

- laranjas, espigas de milho, bolas peganhentas de inhame - e

bebidas poluídas aos motoristas dos camiões e autocarros que andavam na estrada. Ela sabia que algumas ofereciam outros prazeres da carne, e que a SIDA não era somente uma doença mortal para aquela gente mas também a própria vida. Assim como a pobreza, o crime e a guerra assassina.

Todavia, tantas daquelas mulheres sorriam e se alegravam com as mais pequenas coisas. Ela chegava a assistir a actos de generosidade e bondade. A única maldade visível era a arrogância dos homens que tinham armas automáticas e agiam mais como bandidos do que soldados.

Debaixo de um eucalipto, ela parou a observar os garimpeiros a procurar diamantes no rio. Rebentou uma discussão entre os mineiros quando um homem agarrou num pau para afugentar os outros daquilo que considerava a sua concessão. Houve mais gritos e salpicos do que derramamento de sangue.

Virou costas à disputa e olhou para um rapaz que ajudava o pai a procurar diamantes numa parte mais funda do rio. O velho mergulhava com um balde na mão e um tubo de plástico na boca. O rapaz dava a uma bomba ligada ao tubo para entrar o ar. Pelo menos era esta a teoria - o mergulhador vinha à tona frequentemente, com falta de ar, e ela pensou que a conduta de ar improvisada funcionava mal.

Ali vai um de nós, pela graça de Deus, pensou. Apanhara a expressão no avô materno, Jack Norton, que ela já conhecera em adulta. Ele dizia aquilo sempre que via alguém menos afortunado do que ele.

- Um acaso de nascença - disse ela em voz alta. Era o que a impedia de ser uma das mulheres no rio à procura de diamantes na água barrenta com um bebé às costas, ou deitada numa barraca à beira da estrada, a satisfazer as precisões de um camionista, para ganhar dinheiro que desse de comer aos filhos... enquanto morria lenta e dolorosamente das doenças. Agradeceu a Deus não ser uma delas.

Afastou-se do rio e encostou-se a uma árvore de onde podia ver a fila de barracas à beira da estrada. Lá em baixo, um homem enfurecia-se contra uma mulher que vendia laranjas. Talvez fosse mulher dele, pensou, enquanto ele gritava. Conhecia o dialecto o bastante para saber que tinha a ver com dinheiro, talvez o dinheiro que a mulher ganhara na venda da fruta. Os conhecimentos que ela tinha do que se falava em Angola não tinham sido tão proveitosos como ela imaginara. As línguas diferiam quase de aldeia para aldeia.

Marni observava os lábios do homem a mexer e imaginou o próprio pai. E a mãe.

Nascera em São José, a capital do Silicon Valley na Califórnia, a uma hora de carro de São Francisco. O pai fora engenheiro espacial e transformara-se em engenheiro informático quando a indústria de defesa implodira e a indústria informática explodira.

O nome do pai era Brian. O da mãe Rebecca. Houve uma altura em que a mãe se chamara Becky, mas, depois de casarem, o pai insistira para que só tratassem a mãe pelo nome certo.

O casamento realizara-se em Salt Lake City. A capital do mundo mórmon.

 

SALT  LAKE  CITY,  1961.

Jack Norton, o pai da noiva, esperava à entrada da igreja mórmon na baixa de Salt Lake City. A igreja era a maior e a mais prestigiada do mundo mórmon. Jack era mórmon desde sempre, nascera de pais mórmones, descendentes dos pioneiros mórmones do estado do Utah. Apesar desta linhagem, não podia entrar na igreja para participar nem assistir ao casamento. A noiva, a filha Becky, estava um pouco afastada dele, com a mãe, à espera da chamada para entrar. Os problemas conjugais com a mulher mantinham a distância entre eles.

A filha afastou-se da mãe, veio ao pé do pai e beijou-o na face.

- Desculpa, papá, quem me dera que entrasses para a cerimónia.

- Quem me dera a mim também, porque quero estar com a minha filha no dia mais importante da vida dela.

- Se tivesses...

- Isso já acabou, Becky, sou o que sou. Tento ser boa pessoa. Se isso não basta para a minha família e igreja... - encolheu os ombros. - Que posso fazer?

Ela levou os dedos aos lábios dele.

- Prometeste que não me chamavas Becky.

- Esqueci-me, agora é Rebecca.

- Brian diz que os diminutivos são para as crianças e que eu já sou uma mulher.

Jack limitou-se a sorrir e a guardar a opinião que tinha sobre os preceitos do futuro genro. Tinha o dobro da idade de Brian, e detestava a sensação de ter de se levantar e fazer continência de cada vez que o rapaz entrava na sala. Brian tinha essa personalidade, tratava as pessoas como se fosse chefe dos escoteiros e elas fossem os noviços. Jack reagia de maxilar cerrado por amor à filha.

Havia uma metáfora para gente com cabeças armadilhadas, como uma armadilha que se fecha sobre a pata de um animal e não sai gente que se agarra a certas ideias e não cede, digam os outros o que disserem ou sejam quem forem. Brian Jones era desse tipo - quase em tudo. Tinha uma visão fechada sobre o mundo. E o mundo era uma confusão que precisava de ser organizada - pela ordem que ele entendesse. Era certinho até à exaustão. Acabado de sair da Faculdade de Engenharia, parecia conduzir-se, e pretendia conduzir a filha de Jack, como que guiado por régua e esquadro.

Becky afastou-se do pai para cumprimentar amigos que chegavam para a cerimónia, e a mãe aproximou-se para falar com o avô. Estava zangada e não o escondia.

- Tens consciência da vergonha que é estares aqui? Não me importo que me envergonhes, mas humilhaste a tua filha por não poderes estar com ela na igreja no dia mais importante da vida dela.

- Que engraçado - disse Jack - eu não poder estar com a minha própria filha na minha igreja. Não me embebedo, não fumo, não matei nem roubei ninguém, não me lembro de cometer pecado nenhum que faça de mim má pessoa.

- Sabes bem o que fizeste e eu não vou discutir isso agora. E bebes álcool, sim.

- Bebo vinho, bebo. Parece-me que se era bom para Jesus também é bom para mim.

- Pois claro, já sei, tu disseste a Rebecca que, quando se partilha o pão e o vinho na liturgia, Jesus transforma a água em vinho e que o único milagre do mormonismo é ter conseguido transformar o vinho em água.

- Enquanto pensas em todos os meus pecados inventados, também pensas no tipo com quem obrigaste a tua filha a casar?

- Brian é um jovem respeitável e é já um engenheiro de sucesso.

- É um casamento talhado no inferno. O que falta a Becky em autoconfiança sobra a Brian em arrogância. Vai fazer-lhe a vida num inferno e ela aceitará tudo sem dar luta.

- Não vou ficar aqui a aturar-te a dizeres mal de um belíssimo jovem. Devias preocupar-te com os teus actos e não com os de Brian.

Deixou-o e juntou-se à filha e aos amigos. Eram horas da cerimónia.

Jack esperou lá fora, caminhando pela rua para passar o tempo. Bem sabia o que tinha feito, mas não era nisso que pensava. Pensava no que seria da filha. Brian Jones era um tipo sem parafusos soltos

- estava tudo preso tão firmemente que não havia espaço para

mais nada além da sua visão de um mundo em engrenagens.

Passou pelo enorme edifício e recordou a Igreja onde ele, a mulher e os filhos tinham sido criados.

O movimento religioso mórmon começara na parte ocidental do estado de Nova Iorque cerca de cento e cinquenta anos antes. Durante um intenso revivalismo religioso na América, um filho de agricultor com vinte e dois anos anunciou que um anjo chamado Moroni lhe dera «tábuas douradas» que continham revelações religiosas. As tábuas haviam estado enterradas durante mil e quatrocentos anos. O jovem, de nome Joseph Smith, alegava que, através das revelações, tinha traduzido a escrita das tábuas naquilo que veio a chamar-se O Livro dos Mórmones. Segundo Smith, as tábuas foram devolvidas ao anjo.

O Livro dos Mórmones, tido pelos mórmones como escritura sagrada complementar à Bíblia, narra que uma tribo «perdida» de hebreus liderada pelo profeta Lehi emigrou de Jerusalém para a América, cerca de seiscentos anos antes do nascimento de Cristo, mais de dois mil anos antes de Colombo tropeçar no continente a caminho da índia. Dado que os mórmones consideram o continente americano como sendo a verdadeira pátria da Bíblia primeva, na tradição mórmon, o Jardim do Éden situa-se algures perto da actual cidade de Independence, no estado do Missouri.

No antigo continente americano, os hebreus multiplicaram-se e acabaram por dividir-se em dois grupos: os virtuosos, trabalhadores, engenhosos Nefitas, e os pecadores Lamanitas. Os Nefitas prosperaram durante algum tempo, edificaram grandes cidades e até foram ensinados por Jesus, mas acabaram por ser dizimados em guerras com os Lamanitas. Mais de duzentos mil Nefitas pereceram na derradeira grande batalha entre as duas forças.

Na tradição mórmon, acredita-se que os Lamanitas, esquecidos das suas crenças e tornados pagãos, são os antepassados dos índios americanos.

Apanhando aqui e ali elementos do misticismo judaico-cristão, o movimento mórmon cresceu com Smith a anunciar mais revelações de vez em quando.

Um dos elementos fulcrais do mormonismo inicial era a prática da poligamia. Dizia-se que o próprio Smith tivera cinquenta esposas. Foi preso depois de mandar destruir a tipografia de um jornal que ele fundara, depois de o jornal dizer mal dele. As hostilidades contra o movimento escalaram e Smith e o irmão foram expulsos da cadeia por uma multidão e assassinados.

Jack já se lembrara mais de uma vez que a maior atracção do mormonismo naqueles dias era o desejo de alguns homens terem mais de uma mulher e a vontade de algumas mulheres de serem escravas domésticas.

Outro dos seguidores, Brigham Young, liderou uma migração para o Grande Lago Salgado no Estado do Utah. Os mórmones prosperaram no deserto e o Utah acabou por se tornar o único estado dominado por um culto religioso em particular.

Uma carrinha Volkswagen velha e amolgada que descia a rua foi abaixo com um estampido e interrompeu os pensamentos de Jack. A traseira da carrinha estava cheia de autocolantes. Um deles chamou-lhe a atenção: SECRETÁRIA DESIMPEDIDA É SINAL DE CABEÇA CHEIA

DE TRALHA.

No que tocava ao seu novo genro, ele considerava as palavras proféticas.

 

Dentro da igreja, Rebecca acompanhou nervosamente a mãe e os amigos a uma sala onde o casamento seria celebrado. Tal como os pais e o homem com quem ia casar, havia sido criada sob a alçada da Igreja. Apesar de não ter a dedicação intensa aos assuntos religiosos que Brian e a própria mãe professavam, tendia a ser obediente, com um enorme desejo de agradar. Conduzir-se de maneira a ter a aprovação da mãe e do futuro marido era coisa de que se orgulhava. Costumava enervar-se com as coisas, equivocar-se e ter pouca autoconfiança. Por isso se sentia atraída por Brian. Ele controlava completamente tudo e todos em seu redor. Desde que se haviam conhecido que ele lhe dizia como proceder. Além de insistir que a tratassem pelo nome, fizera-a mudar de penteado e ser mais conservadora no modo de vestir para ter um ar reservado e maduro. Grande parte do seu fervor religioso também era vocacionado para ganhar a aprovação dos outros. No íntimo, pouco lhe interessava a religião. Mas a Igreja era importante para as pessoas que a rodeavam e isso tornava os seus preceitos e a sua aprovação importantes para ela.

As mulheres da Igreja eram criadas para serem boas esposas e mães. Não se encorajavam carreiras fora de casa, mas sim trabalho duro para proporcionar um ambiente sadio à família. Ter muitos filhos, enriquecendo os genes da Igreja, era um dever instilado nas raparigas mórmones. Isso e as obrigações para com a Igreja.

Ela conhecia a história da Igreja, podia declamá-la de cor, mas a impressão que lhe deixava era pouco mais importante do que a Revolução Americana ou outros marcos históricos. O pai e Brian é que conheciam realmente a história da Igreja, e as ideias e os conceitos que tinham entravam em conflito entre si.

Ela estivera na igreja no dia anterior, a fazer o ritual que os jovens mórmones e os convertidos recebiam.

Era uma iniciação denominada «dotação», onde a pessoa era ritualmente lavada, ungida com óleo sagrado, vestida com roupa da igreja e depois assistia a uma representação dramática da história da criação, aprendia palavras secretas e apertos de mão e recebia um nome secreto.

Joseph Smith fora maçom, e muitos dos rituais de «dotação» eram semelhantes às práticas dos maçons. O vestuário era simples: camisas brancas e calças para os homens, vestidos brancos compridos para as mulheres, e chinelos brancos para ambos.

Rebecca recebera a sua «dotação» como membro da Igreja durante uma cerimónia de duas horas no dia anterior à cerimónia de casamento. Brian recebera o seu antes de partir para a Alemanha numa «missão» de dois anos que visava mostrar o mormonismo ao povo daquele país. Brian, como homem, soubera o nome secreto que Rebecca recebera durante a cerimónia de «dotação». Rebecca nunca saberia o dele.

Rebecca e Brian entraram na sala do «selo» da igreja. Estas salas especiais destinavam-se a solenizar um casamento para a eternidade com os ritos da igreja e a selar os filhos aos pais para toda a eternidade.

A «dotação», o casamento e as outras cerimónias da Igreja eram ministradas por homens da Igreja que haviam ascendido a posições cimeiras. Dado que a Igreja não tinha um clero profissional, dependia dos homens para executarem as funções tradicionais do clero. Aos doze anos, todos os rapazes válidos se tornavam diáconos na diocese de Aarão. Tornavam-se professores aos catorze e padres aos dezasseis. A partir daí, muitos seguiam a hierarquia como bispos e outros cargos; as mulheres não podiam entrar para o clero e recusava-se admissão na Igreja aos afro-americanos.

A ideia do pai à espera lá fora relampejou na cabeça de Rebecca. Queria que ele lá estivesse ao seu lado. O problema estava nas pessoas que não podiam entrar na igreja. Estas eram todas as que não fossem mórmones e os membros caídos em desgraça.

Para poder entrar na igreja e casar nela, Rebecca, Brian e os outros tinham de apresentar cartas de recomendação escritas pelos bispos.

Estas eram emitidas após uma entrevista anual em que os membros eram tidos como sendo activos e pagando a dízima exigida

pela Igreja.

O pai de Rebecca não podia entrar na igreja para o casamento porque deixara de participar nas celebrações da sua paróquia. Quando a mulher e os filhos lhe perguntavam que destino queria dar à sua alma, ele respondia: «Tenho fé em Deus, mas não acho necessário ter o passaporte para o Céu carimbado por mortais.»

Em momentos mais calmos, a mãe de Rebecca dizia que o marido atravessava uma crise de meia-idade. Em momentos piores, dizia que ele estava possuído pelo Demónio.

 

SÃO  JOSÉ, CALIFÓRNIA, 1968

- Este vestíbulo está completamente esquinado. Está tão torto que me põe tonto só de olhar para baixo.

Marni, com sete anos, estava sentada num canto da sala e observava o pai, Brian Jones, a falar com o empreiteiro que lhes fizera a casa. Comia pudim de chocolate numa taça de plástico e escutava.

O tom de voz do pai a falar com o homem mais velho era o mesmo que usava para se dirigir a ela e à mãe. Não levantava a voz, mas revestia-a com uma certa arrogância para que o interlocutor percebesse que estava irritado - e que era superior.

O empreiteiro, um homem mais velho de cara corada e enrugada pelo Sol, abanava a cabeça. Tentando não mostrar a irritação que sentia na voz, disse:

- Sr. Jones, há uma diferença de meio centímetro em dois metros de parede. Está dentro da tolerância que se costuma dar às construções...

- Na minha casa não é costume. Isto não é uma casa prefabricada, é uma casa personalizada. - Dizia as palavras como se desse indicações a uma criança. - Se eu me deixasse ir em tolerâncias no meu trabalho, seria expulso da minha profissão.

Um empregado do empreiteiro, um rapaz de barba e cabelo comprido, batia com a cabeça de um martelo na palma da mão enquanto o pai dela falava. O rapaz olhava-o com raiva mal disfarçada.

O pai ou não percebia ou não se importava de hostilizar o empreiteiro e o empregado. Virou-lhes as costas e atravessou a sala até onde Rebecca, a mãe de Marni, estava sentada.

Marni ouviu o rapaz de barba dizer ao empreiteiro:

- Este gajo está a precisar que lhe apertem os tomates. - O rapaz sorriu para ela, piscou-lhe o olho e começou a ajudar o patrão a arrancar o tabique e os encaixes culpados de estar meio centímetro tortos em dois metros de comprimento.

Brian Júnior, o irmão de quatro anos, dormia no sofá ao lado da mãe, em adiantado estado de gravidez do terceiro filho. A mãe não era fisicamente forte e o desgaste do casamento, da família e da actual gravidez era patente no seu rosto. Todas as gravidezes haviam sido difíceis e os problemas aumentavam a cada uma delas. Brian não ficara sensibilizado com as maleitas das gravidezes da esposa.

- Tenho de ir trabalhar todos os dias quer me sinta bem quer não. Tu tens as tuas obrigações como qualquer esposa. O teu problema é pensares como uma perdedora, e por isso és uma perdedora.

Marni acabou o pudim de chocolate, pôs a taça de parte, agarrou na sua boneca e abraçou-a. A colher caiu da taça vazia e o resto de chocolate sujou a alcatifa bege.

O pai estava a falar com a mãe sobre os planos para o quintal quando viu a colher criminosa na alcatifa nova.

- Rebecca! A tua filha sujou a alcatifa nova.

A mãe apressou-se a sair do sofá e a atravessar a sala, com as palavras do marido a martelarem-lhe nos ouvidos.

- Tens de aprender a mandar num lar organizado e nos teus filhos para não se portarem como animaizinhos mimados!

Marni queria gritar-lhe «Deixa-a em paz», mas tinha muito medo. Quando se aproximou dela, a mãe parecia tão acabrunhada que Marni desatou a chorar.

Dois anos depois, a avó de Marni veio do Utah para ajudar a família e Rebecca, que estava grávida do quarto filho. Marni tinha agora nove anos, o irmão Brian Júnior seis e a irmãzinha Sarah quase dois anos. Aquela última gravidez fora uma surpresa, pois chegara sem que Rebecca tivesse recuperado das complicações que tivera nas ocasiões anteriores. Precisava de descansar, mas as suas obrigações não lho permitiam.

- Está tudo na tua cabeça - disse a mãe de Rebecca.

Rebecca, a amamentar Sarah, limitava-se a assentir.

Era coisa que costumava ouvir Brian dizer. O seu rosto expressava bem o quanto a vida lhe era difícil.

Marni e o irmão estavam sentados no chão a brincar com um jogo que a avó trouxera.

- Eu sei, mãe, eu sei. - Pouca diferença fazia contar à mãe que não interessava se a doença estava na cabeça dela ou no dedo grande do pé, estava deprimida e sentia-se emocional e fisicamente exausta da rotina diária que muitas mulheres achavam poder aguentar. Uma vizinha sugerira que ela consultasse um psiquiatra. Quando Rebecca sugeriu a ideia a Brian, ele ficara louco. Pedira à sogra que os visitasse e que ajudasse Rebecca a pôr a cabeça em ordem.

- Não precisas de psiquiatra nenhum - dissera a mãe. - Só tens de dizer a ti própria que deves cumprir as tuas obrigações para com marido e filhos e depois fazê-las. Tu és descendente de gente forte. Não há desculpas para teres a casa num desmazelo, e, olha só para ti, não deves lavar o cabelo há dias. Como é que queres que o teu marido te respeite e trate como deve ser se não te respeitas a ti própria?

Por vezes, Rebecca pensava que era melhor ter sido a mãe a casar com Brian. Ela era a perfeita mulher mórmon que Brian precisava - trabalhadora, organizada, sem um queixume, respeitadora da autoridade do marido e da Igreja. O estilo de vida mórmon pretendia ser sadio, com uma vida familiar essencial, com filhos criados para serem fortes e saudáveis.

Nada havia de mal com a sua família a não ser a sua incapacidade em fazer o que dela esperavam, o que não era nada mais do que se esperava de uma mulher mórmon. Sabia que era um fracasso e odiava-se por isso. Mas quanto mais tentava estar à altura das expectativas do marido, mais soçobrava, mais se desleixava com as tarefas domésticas, menos participava nos eventos da Igreja. Não lhe apetecia fazer nada.

Não queria outro filho, e sabia que o crescimento da família não ia parar com o final da actual gravidez. Brian queria seis filhos - número que o satisfazia por achar que cumpriam a sua obrigação para com a Igreja.

- Não te percebo, Rebecca. As tuas irmãs estão todas felizes nas suas famílias e corre tudo bem. O teu marido é mais bem sucedido do que qualquer um dos delas, mas tu desleixas-te e andas pela casa com pena de ti própria. Cada vez me lembras mais o teu

pai.

O pai já não fazia parte da vida dela. Brian considerava a atitude

laxista do sogro perante a Igreja e a vida em geral como má influência para Rebecca e proibiu qualquer convívio entre os dois.

- Não admira que o teu marido se queixe. Vê só como as tuas irmãs organizam a família, os filhos estão sempre a participar em actividades da Igreja que elas próprias organizam.

- Eu vou à igreja, mãe.

- Tu apareces na igreja, mas Brian diz que pareces uma morta-viva. Não participas, não organizas nada e quando te encarregam de supervisionar qualquer evento, tu fá-lo com tão pouco entusiasmo que as pessoas perdem a paciência.

- Tens razão, tens razão - disse Rebecca.

Marni levantou os olhos do jogo enquanto a avó descompunha a mãe. Os olhos e o rosto de Rebecca estavam inexpressivos. Toda a tensão sobre si fluíra-lhe para as mãos, que torciam uma fralda.

Marni passara o Verão anterior com os avós paternos no Utah, e assistira ao avô a torcer o pescoço de uma galinha para o jantar. Olhava para a mãe e recordava-se do avô e da galinha.

 

SÃO JOSÉ,  1971.

- Não fazes nada como deve ser!

Marni estava sentada no sofá da sala a ver o pai a gritar com a

mãe na cozinha. Os joelhos de Marni tremiam. Queria chorar nas alturas em que o pai gritava com a mãe, mas ele dissera-lhe que uma rapariga de dez anos não chora. Contudo, o bebé que estava deitado na mesa ao lado da mãe não sabia estas normas e chorava quando o pai levantava a voz. Brian Júnior e Sarah estavam no chão da sala a ver desenhos animados na televisão.

- Passas todos os minutos do dia nesta casa e mesmo assim não fazes nada como deve ser. Não sabes fazer compras, cozinhar, tratar das crianças, nem fazer coisas para me facilitar a vida.

O rosto da mãe estava inexpressivo. Os seus traços eram macilentos, os olhos escuros pareciam vazios e sem vida. Amassava pão enquanto o marido a descompunha. Esmagava a massa uma e outra vez até os nós dos dedos estarem brancos. O bebé ainda não parara de chorar.

- Olha para estas crianças, todas desmazeladas, nem sequer sabes tratar delas, estão imundas, só lhes dás porcarias a comer e deixa-las em frente à televisão para ser ela a criá-las. Se eu soubesse a desgraça que tu és nunca teria casado contigo. Estou a progredir na minha carreira e em vez de ajudares és um peso morto. Nem a tua mãe e irmãs te percebem. A minha mãe diz que eu te devia dar com o cinto, pois se te portas como uma criança deves ser disciplinada como tal. Se não te recompões e começas a agir como adulta responsável, tenho de te mandar de volta à tua mãe para te educar como esposa e mãe!

O pai saiu de casa batendo com a porta da frente.

- Leite - pediu Sarah, com três anos.

Marni levantou-se e foi à cozinha buscar leite para a irmã. Com dez anos, Marni tomava conta do irmão e de Sarah. A mãe dava-lhes cada vez menos atenção, e pouca dedicava ao novo bebé. Quando o bebé chorava, era Marni que dizia à mãe que eram horas de lhe dar peito. A mãe andava apática e passava horas a olhar absorta para a televisão. Ouvia cada vez mais a mãe a falar consigo própria, a repreender-se por ser tão má esposa e mãe. Quanto mais frequentes eram os seus solilóquios, menos Marni percebia o que ela dizia. Por vezes, era como se a mãe falasse com outra pessoa qualquer, alguém que lhe dizia para fazer coisas que ela não queria fazer.

Marni tirou o pacote de leite do frigorífico e encheu um copo para Sarah. Voltou a pôr o pacote no frigorífico e virou-se para voltar para a sala.

A mãe ainda estava sentada à mesa. Parara de amassar e fazia qualquer coisa ao bebé. Marni apanhou o movimento pelo canto do olho e virou-se para ver.

As mãos da mãe rodeavam o pescoço do bebé. Estava a torcer-lhe o pescoço. A mãe largou o bebé e este caiu no chão, onde ficou sem vida. Marni viu a mãe a mirá-la com olhos que já não eram vítreos, mas febris. A mãe levantou-se e estendeu os braços. Marni gritou. Deixou cair o copo e desatou a fugir.

 

ÁFRICA

Gomes, o motorista da mina, levou-me a Lurema para resgatar um gerador que fora desviado num carregamento de Luanda para a mina. Comprar o gerador à Polícia, que provavelmente era o ladrão original, saía muito mais barato do que encomendar um novo e esperar semanas. Por seu turno, o mais certo era também não conseguir passar.

Por vezes, eu abanava a cabeça e perguntava a Cross como é que o país funcionava com tanta confusão. A resposta era invariavelmente a mesma - não funcionava.

A Senhora Azul seguia a todo o vapor comigo ao leme, embora parecesse que a cada dia Deus subia a fasquia para me obrigar a saltar cada vez mais alto. Andava a aprender a lidar com as pessoas. Nos Estados Unidos tudo funcionava como um relógio. Uma hora significava uma hora ou poucos minutos antes ou depois. O tempo tinha um significado totalmente diferente na África equatorial. As gentes, o comércio e os transportes não eram todos engrenagens da mesma máquina do tempo gigante que regia o mundo ocidental. Havia muitas ideias diferentes sobre o significado de um compromisso marcado para a uma hora. Um compromisso à uma hora nem sequer significava que fosse dar-se no dia marcado.

Regra geral, eu sentia-me bem comigo próprio. Os meus contactos em Nova Iorque - ex-contactos - teriam apostado que eu fugiria da mina ou que teria fracassado a geri-la simplesmente porque não era divertido. De facto, não era divertido, mas era um desafio e, como dizia Cross, punha-nos a comida na mesa. Eu apreciava o desafio, não havia nada como uma inundação ou um desabamento na mina para fazer subir a adrenalina, mas as noites eram uma seca - e sentia-me só. E cheio de tesão. Nem por sombras iria tocar numa mulher num país em que a SIDA era uma epidemia. Raios, havia tanta SIDA que Cross dizia que um gajo tinha de ter cuidado até a praticar o pecado de Onan.

O jipe desviava-se dos buracos junto a um complexo humanitário da ONU quando eu reparei numa mulher encostada a uma árvore junto ao rio.

- Encoste aí - disse eu a Gomes.

Ela virou-se quando ouviu os meus passos.

- Oh, meu Deus, não posso crer, é oplayboy do Mundo Ocidental(1) em Angola. - Marni bateu as palmas. - E em roupa de trabalho. Ou esses caquis sujos são o novo grito em fato de lazer?

Mostrei-lhe as palmas das mãos.

- Tenho calos, também.

- Dos tacos de golfe?

- Em Angola? Onde as areias são movediças? E um leão nos come se vamos ao mato buscar a bola? - Abracei-a. - É bom vê-la. Nem te sei dizer como... como...

- Como quê? - perguntou ela.

-           Como ando cheio de tesão.

Ela desatou a rir.

- Que faz aqui? - perguntei.

- Distribuo comida e medicamentos. Pelo menos, a parte que não é roubada e acaba no mercado negro. Por vezes esqueço-me para quem trabalho... a agência humanitária ou os ladrões cá do sítio. E o que é que você faz aqui?

- Fui resgatar equipamento à Polícia que o tinha roubado. Rimo-nos os dois.

Passou uma fila de jipes e ouviu-se uma buzina. O coronel Jomba sorriu e acenou com a bengala ao passar no seu carro com motorista e caveira.

Marni estremeceu.

- O homem é um monstro. Pagamos-lhe debaixo da mesa para que os camiões não sejam assaltados e depois voltamos a pagar-lhe pela devolução das coisas que são roubadas à mesma. Conhece-lo?

- Vagamente. - O coronel parecia um homem contente.

 

*1. The Playboy of the Western World, do irlandês Jonathan Millington Synge (1871-1909), peça de teatro já encenada em Portugal com o título O Valentão do Mundo Ocidental. (N. da T.)

 

Bem podia: ficara com metade do ovo de Eduardo. Podia apostar que Jomba o considerara um bónus extra que não precisara de reportar aos seus chefes na UNITA.

- Uma das nossas voluntárias anda com ele.

Encolhi os ombros e não deixei transparecer nada. Considerando o colar de arame farpado e os cornos nas têmporas, nem queria imaginar o que ele teria tatuado onde o Sol não entra.

Marni estudou-me o rosto, pegou-me no queixo e virou-me a cara de um lado para o outro.

- Hum. Mudado.

- Sim? Mas só cá estou há meses.

- Parece mais velho, mais sensato, mais sério e introspectivo. Perdeu alguma irrelevância.

- Parece grave - disse eu. - Deve ser da água. Ou das coisas que lá andam. Se não forem os micróbios, são os crocodilos. Também está mudada. Sempre teve um ar sério, mas era mais aquela gravidade académica, aquele ar de professora míope que nunca levanta a cabeça da sua toca. Agora tem manchas de suor em vez de teias de aranha. Parece uma veterana do mundo real.

- De uma guerra, deve querer dizer, que eu perdi. - Apontou para as calças e as botas cheias de pó. A camisa branca tinha manchas escuras. - Foi chocolate que eu dei a uma criança. Deve ter sido a primeira vez que a criança provou uma coisa doce na vida. E daqui a uns meses morre de SIDA. - Puxou o cabelo para trás. - Estou com péssimo aspecto. Preciso de um banho e...

Começou a rir-se e acabou a chorar.

Puxei-a para mim. Ela tentou afastar-me mas eu abracei-a com

força.

- Cristo, deve passar pelo inferno todas as horas de todos os dias. Não sei como mantém a sanidade mental, no meio desta miséria

humana.

- Tenho ar de quem mantém a sanidade mental? - soluçou

ela.

- Parece andar com o mundo às costas. Já pensou que os simples mortais não fazem o que a Marni consegue? Eu tinha deixado cair a criança e desatava a fugir, se soubesse que ela tinha SIDA.

Sentámo-nos num tronco e agarrei-lhe a mão.

- Por vezes não consigo aguentar mais. Hoje recebemos notícias que mataram alguns voluntários mais a Sul. Se calhar, amigos nossos.

- Lamento. Deve correr perigo todos os dias.

- Ser assassinada até aguento, desde que seja rápido. Mas lidar com pobreza, fome, mutilação, doenças, mais os perigos e... e... não sou uma pessoa forte.

- O caraças é que não é forte. Eu nem por cinco minutos aguentava o que faz. Eu ponho umas palas nos olhos e no cérebro de cada vez que saio da mina, para manter a sanidade. E não saio da mina sem um guarda armado. Ando escondido no meu buraco e enquanto você anda aqui na frente em combate desigual.

- Não, sou uma fraca. Achava que podia aguentar tudo, mas a miséria impressiona-me demasiado. Tudo o que fazemos acaba desfeito. Tentamos ajudar as pessoas e, se não forem os líderes delas a lixá-las, são elas que se lixam a si próprias por não saberem nada de nada. Mas há voluntários a fazer isto há anos. Não se sentam a choramingar.

- É porque já desenvolveram uma couraça contra isto. Devem ter chorado pouco, antes de ficarem calejados, devem. Este país tem que mudar qualquer pessoa. Olhe só para mim, sou um novo homem, nem sequer faço graçolas com a guerra e a fome.

Ela levantou-se e estendeu-me a mão para se despedir.

- Basta de autocomiseração. Tenho de voltar ao trabalho, os mantimentos devem estar a sair pelas traseiras mais depressa do que entram pela frente. É uma trabalheira assegurar que cheguem às bocas certas.

Agarrei-lhe na mão e puxei-a para mim.

- Não lhe vou apertar a mão e meter-me no carro.-- Win...

- Não, isto não é Lisboa em que pode sair do restaurante e entrar num táxi. Somos os únicos americanos por aqui, eu gosto de si, gosta de mim, ambos precisamos de algum amor e carinho. Além disso, alguma vez foi a uma mina de diamantes?

- Não lhe disse que a extracção de diamantes...

- Pois, pois, as minas de diamantes são a encarnação do mal. Terá ocasião de dizer isso aos mineiros que se matam a trabalhar para sustentar as famílias e os vizinhos.

Também pode dizer aos pobres diabos que passam os dias no rio a esgravatar diamantes suficientes para se manterem vivos. Caso não tenha aprendido isto sobre Angola, não são os diamantes que são maus, são as pessoas.

Ela olhou-me fundo nos olhos.

- Não sei. Quais são as suas intenções, Sr. Liberte?

- Recuperar o tempo perdido.

 

Cross soltou um palavrão que eu não ouvia desde o secundário.

- Odeio-te de morte. Vão limpar-te as teias de aranha do pau e eu cada vez tenho mais calos nas mãos.

- É porque eu tenho uma vida como deve ser: comida saudável, noites bem dormidas, nem uma gota de álcool.

- És só tretas.

- Pois sou, mas cheiro bem.

Espalhei mais uma dose de perfume no pescoço e nas faces. Estava no quarto de Cross a arranjar-me. Dera o meu quarto a Marni para ela poder descansar antes da descida à mina. Tinham passado três dias desde que nos tínhamos encontrado no rio, porque ela insistira em acabar um inventário antes de vir. Por fim, fora buscá-la e trouxera-a para a mina.

Os três dias deram-me tempo para mandar buscar comida e champanhe de avião a Luanda, comida que não soubesse à mina, e para mandar limpar e pintar o quarto. Pois é, estava a armar-me, mas, que diabo, esta era a primeira mulher disponível mil quilómetros ao redor. Ainda melhor por ser uma mulher de quem eu gostava.

- Além disso, mandas-me a Luanda porque tens medo que ela me veja e te dê um pontapé nesse cu esquelético.

- Também tenho medo de que a mina fique inundada se não arranjarmos a bomba de água em Luanda. Não saias da entrada para o porão do avião no carregamento e mantém a bomba debaixo de olho até estar instalada na mina.

Cross levou as mãos à cabeça e rogou aos céus.

- Ouviste isto, meu Deus? O cabrão finório que não sabia distinguir merda de bosta antes de eu o ensinar, agora diz-me como é que hei-de tratar de uma operação de segurança.

Bati à porta do quarto. Marni abriu-a e eu mostrei-lhe um

capacete.

- Para que é isso?

- É do regulamento. Vamos lá abaixo.

- À mina?

- Não quer ver como funciona? A acção tem lugar no buraco.

- Sim, mas... depois passa-me pelo raio X à saída?

- Veremos. Às vezes revistamos as pessoas.

Passámos pelo portão de segurança e entrámos no elevador. Ela olhava para tudo, abismada. E sorria para toda a gente.

- É perigoso, lá em baixo? - perguntou.

- Comparado com o que tem aguentado é canja. Só tem de ter cuidado com as minhocas gigantes dos diamantes. Fazem buracos no túnel e comem-na, se lá cair.

Ela fez perguntas inteligentes na mina, curiosa para saber como funcionava tudo. Eu fui algo paternalista a princípio, ufano por lhe ensinar alguma coisa. Assistimos a uma explosão para criar minério. Seguimos a terra até à superfície, onde era processada e os diamantes extraídos.

- Esta gente trabalha tanto - comentou. - É pena que o Governo e os rebeldes usem e abusem do seu trabalho.

Já na superfície, apontei para um diamante na passadeira que

saía da trituradora.

- Não a espanta ver que um diamante em bruto tem tão mau

aspecto?

- Estou abismada. Pensava que saíam da terra já lapidados

como se vê na montra do Tiffanyos.

- Está a gozar - disse eu.

- Claro. - Reflecti nisto enquanto seguíamos para a mesa de sebo. - Armei-me em superior e fui presunçoso lá em baixo.

- Eu sei, mas não faz mal. Acho óptimo que faça alguma coisa útil na vida... até me lembrar que está a roubar os preciosos recursos de um país do Terceiro Mundo.

- Preciosos recursos? Já tentou comer um diamante? Não culpe o mundo ocidental ou os empresários ocidentais por todos os males dos países subdesenvolvidos.

 

Os males e a opressão já cá estavam há milhares de anos antes de cá chegarmos.

Ela começou a pregar sobre a economia do Terceiro Mundo, coisa de que eu não sabia nada, mas eu interrompi-a.

- Guarde esse discurso para o coronel Jomba - disse. - Parece que se formou em Economia em Londres... e da avançada, aquela do Terceiro Mundo em que se contam cadáveres em vez de lançamentos nos livros. Não é este tipo de economia que encontra na maior parte do Terceiro Mundo?

- Logo quando eu penso que é seguro gostar de si... Parei e beijei-a na boca. Ela não resistiu.

- Tem razão, ainda sou um porco, mas agora sou um porco trabalhador. - Tornei a mostrar-lhe os calos.

Chegámos à mesa de sebo e eu disse-lhe que agarrasse numa mão-cheia de sebo.

- Tem a certeza de que não apanho uma minhoca dos diamantes?

- Tem que questionar tudo o que lhe digo?

- É de confiança? Deixei passar.

Passei o sebo da mão dela para a minha e esgravatei com o dedo.

- Que é isto? - saquei uma pedra maior do que uma ervilha. - Vou levá-la à triagem para ver o que temos aqui.

Assistimos enquanto o operário limpava a pedra e a examinava cuidadosamente.

- É uma - disse o homem.

Eu examinei-a cuidadosamente com a minha própria lupa e deixei Marni ver também.

- Espantoso, nunca pensei que um diamante tivesse tanto fogo dentro.

- Tem bom gosto - disse eu. - É perfeito e da maior clareza. Vai ser um D.

- Só D? Não pode ser um A? Ri-me.

-é a classificação mais alta para um diamante. Este é perfeito, sem cor, só com um toque de azul. Quando for lapidado para ter mais de um quilate vai vender-se muito bem.

 

Na Fifth Avenue poderia custar o mesmo que um carro utilitário. É uma pedra excepcionalmente boa. - Passei-lha para a mão. - É sua, uma prenda da minhoca dos diamantes.

- Oh, meu Deus, não posso aceitar.

- Claro que pode. Foi uma sorte. Podia ter tirado só um monte

de terra.

Isto não era exactamente assim. Eu tinha combinado o esquema todo e escolhido a melhor pedra que tínhamos tirado da mina em mais de uma semana. Tivera só de trocá-la pela pedra de categoria industrial que Marni tirara da porcaria.

- Ficou com uma visão diferente da extracção de diamantes? - perguntei quando nos encaminhávamos para o portão da segurança.

- Sim, é trabalho duro, e acho que os mineiros merecem cada cêntimo que ganham, ou mesmo o dobro. Mas os donos das minas ainda são sócios dos petro-bandidos na ruína de Angola.

- Lá está a tropeçar nessa educação excessiva que lhe deram. Culpa o petróleo e os diamantes do estado de todo o mundo subdesenvolvido e das guerras em todos os continentes. Não percebe que as pessoas se matam não só por cobiça mas também por princípios? O IRA não mata por diamantes, a índia e o Paquistão não andam às turras por diamantes, os israelitas e...

- Onde é que quer chegar?

- Já lhe disse. As pessoas é que são más, e não os diamantes nem o petróleo. A América não tem culpa que as pessoas do Terceiro Mundo sejam governadas por ditadores. Existe alguma democracia no Terceiro Mundo? Conhece alguma? É culpa nossa? Não fomos nós que fizemos o mundo.

Ela começou a rir. -

- Qual é a piada?

- Estarmos para aqui a discutir economia e política numa mina de diamantes na África equatorial? Quando era miúdo alguma vez pensou que faria isto em crescido?

- Nunca pensei viver tanto tempo.

- Porquê? Por que diz isso? Encolhi os ombros.

- A minha mãe morreu nova, o meu pai poucos anos depois dela. Parti do princípio de que não chegaria a velho.

- Que estranho, a minha mãe também morreu nova.

Algo na voz dela me disse que não era altura de pedir pormenores. Parámos na máquina do raio X.

- Vai mandar-me passar por ali?

- VOU.

- Achei que estava a brincar, há pouco.

- Pode escolher: raio X ou uma revista de otapo inteiro incluindo cavidades. -,

- Quem é que a faz? " -

- É prerrogativa do dono da mina - sorri. -.

- Prefiro o raio X.

- Lamento, acabei de me lembrar que a máquina está avariada.

 

Ficámos na cama na manhã seguinte, o corpo de Marni contra o meu. Sentia-me quente e confortável.

Não tinha nenhuma escala de valores para as mulheres que já fodi, mas fazer amor com Marni fora diferente. Não que o sangue me tenha fervido mais quente, nem foram as vezes que o levantei e nos viemos. Era outra coisa. Deitado naquele crepúsculo quente e acolhedor entre dormir e acordar, tentei perceber o que seria realmente.

E nisto percebi. Paz. Sentia-me em paz, como se estar com Marni satisfizesse uma pulsão intensa que nunca sentira com mulher nenhuma.

Ela mexeu-se ao meu lado e apertou-me o pénis. -

- Como está a minha minhoca dos diamantes? Estava a ficar tesa.

- A preparar-se para atacar outra vez.

Tomámos o pequeno-almoço no pátio.

- Foi a primeira boa noite de sono que já tive desde que cheguei a Angola - disse ela.

- Estás a deixar isto afectar-te.

- Eu sei, a minha amiga Michele diz que se abrirmos o coração aos horrores eles nos devoram a alma. Acho que o que mais me aflige é ver bebés a morrer de doenças e fome com aquele coronel Jomba horroroso a recolher dinheiro pela sua protecção e a viver à grande.

Jomba não era assunto que eu quisesse explorar com Marni. Se ela descobrisse que eu estava metido num negócio de diamantes de sangue com ele, arrancava-me a minhoca dos diamantes em vez de brincar com ela.

Fiquei aliviado por não aprofundar o assunto do coronel quando o telefone tocou. Era Cross a ligar de Luanda.

- Espero interromper qualquer coisa - disse ele.

- Nem por isso, estamos a debater a sociodemografia das bases económicas do Terceiro Mundo centradas na procura e...

Afastei o telefone da orelha quando Cross soltou um palavrão. Passei o telefone a Marni.

- Diz olá a Cross.

Não sei o que ele lhe disse, mas ela corou e riu-se quando me passou o telefone.

- Ouve lá, bwana - disse Cross -, tenho umas informações interessantes para ti sobre a conta de geologia que encontraste nos papéis de Eduardo. Não apenas a terra é adjacente à Senhora Azul - continuou - como o dono és tu. É uma das parcelas que pertence à mina, mas na direcção oposta à abertura de túneis que se tem feito.

- Tinhas dito que conhecias um gajo na África do Sul. Podes perguntar do geólogo, ver se o gajo tem boa reputação?

- Sou unha com carne com o chefe da segurança de uma mina de diamantes da De Beers. Veremos na Cidade do Cabo quando eu lá for fazer Repouso e Recreação. Telefonei-lhe, mas o gajo está de férias. Vou continuar a tentar.

Depois de desligar, Marni perguntou:

- Problemas?

- Não sei bem. O gerente da mina não tinha tudo preto no branco. Não somente metia a mão na caixa como também o corpo todo. - Toquei-lhe no pé debaixo da mesa. - Que te disse Cross?

- Desculpa, mas ele pediu segredo. Mas disse-me que há sempre peixe mais graúdo.

- Quando estiveres na peixaria, lembra-te que não é o tamanho do peixe que interessa, mas sim o sabor.

Voltáramos à cama para uma pescaria quando Cross voltou a ligar.

- O meu amigo sabe quem é o geólogo. É um engenheiro de minas com fama de excêntrico. Concebeu um sistema que encontra terra azul melhor do que qualquer outro. Há quem diga que é um charlatão, outros chamam-lhe génio, mas todos dizem uma coisa: é um excêntrico. Tem uma querela com algumas das grandes empresas mineiras e não as deixa usar o equipamento dele.

- Faz-me mais uma coisa - disse eu. - Arranja-me o horário dos voos para a Cidade do Cabo.

Pousei o auscultador.

- Aqui há gato - disse eu a Marni. - Quando eu entrava em corridas, tinha sempre esta sensação que tenho agora em como me vou destacar e ganhar a dianteira.

- Vais à Cidade do Cabo?

- Vamos.

- Não posso ir agora...

- Podes, podes sim, disseste que estás quase de licença. Ela começou a sair da cama e eu puxei-a.

- Não compreendes, tenho um trabalho, uma obrigação...

- Não disseste que andas impossível? Que ralhas com toda a gente quando não te dá para andar distraída? Precisas de desaparecer uns dias. Fazer compras, dançar, comer num restaurante francês, fazer amor numa praia solarenga.

- Okay, convenceste-me.

- Não, parece-me que ainda não estás convencida. Anda para dentro dos lençóis. Tenho uma coisa para ti.

 

CIDADE DO CABO,  ÁFRICA DO  SUL

- A Cidade do Cabo é uma das cidades mais bonitas do mundo - disse Marni quando o avião descia para a capital da ponta de África. Tinha um roteiro turístico no colo. - A água do mar é gelada porque vem do Antárctico, mas as praias são quentes e pitorescas.

Debrucei-me e olhei para um planalto com falésias quase abruptas e praias, e dei qualquer resposta educada. A minha cabeça pensava noutras coisas durante os três mil e tal quilómetros de voo. Pagara ao chefe da segurança sul-africano amigo de Cross para me organizar um dossier sobre o engenheiro com quem eu ia falar. Era a terceira vez que lia as informações.

Marni reparou no nome do assunto do relatório.

- Christiaan Kruger, é o geólogo com quem vais falar? Parece um nome africânder.

- O que é isso?

- Gente de estirpe holandesa. Declararam guerra aos ingleses, a guerra dos Bóeres, há cerca de cem anos, e os ingleses ficaram com toda a África do Sul. Todavia, os Bóeres, que agora se chamam africânderes, ainda são os brancos mais poderosos na política do país. São rijos, têm armas, muito religiosos, e não gostam dos negros nem dos outros brancos. Têm uma língua, o africânder, e cultura própria. O todo da população branca da África do Sul, entre africânderes, ingleses e outros, não chega a quinze por cento do país.

Beijei-a.

- Como é que és tão esperta?

- Li o roteiro. O lugar onde vamos ficar, o Nellie, oficialmente Hotel Monte Nelson, tem renome mundial. Tens bom gosto.

Encolhi os ombros com modéstia. Na verdade, tinha sido Cross a indicar-me onde ficar.

- Quero andar de Tuk Tuk e ir à praia - disse ela.

- Que diabo é um Tuk Tuk?

- Um táxi de três rodas em cima de uma moto. O nome vem do barulho do motor... tuk, tuk, tuk...

Voltei aos meus papéis.

Kruger parecia um africânder rigoroso, casmurro e rebelde. Fora engenheiro e geólogo de minas para a De Beers no princípio da carreira. Deixara a corporação e trabalhara como freelancer na área de Kimberley. Pedira patentes para invenções relativas à mineração de ouro e diamantes e ia com frequência a tribunal devido à utilização indevida do seu trabalho. Na última década, enredara-se num litígio com uma empresa que alegadamente usa o seu método patenteado de encontrar terra azul.

O relatório dizia que Kruger estivera preso por esmurrar o advogado que representava a outra parte e, noutra ocasião, por se apoderar do equipamento da empresa no terreno - à mão armada.

Parte do castigo por posse de arma fora abandonar a área das minas e mudar-se para a Cidade do Cabo.

Havia uma nota escrita à mão no final do relatório. «Cabrão idealista - princípios mais importantes do que dinheiro.»

Fechei os olhos e pensei nisto enquanto o avião descia para a aterragem. A maneira de abordar Kruger não me saía da cabeça desde que Cross me dissera o seu nome. Não lhe ligara a dizer que ia falar com ele - seria demasiado fácil dizer que não ao telefone ou sair da cidade à pressa. Ia aparecer-lhe de surpresa à porta sem avisar. O facto de ele gostar de armas não me aumentava a auto-confiança.

Mas a nota manuscrita no final do relatório dera-me uma ideia.

 

Ficámos numa suite no Nellie. Marni maravilhava-se com a elegância e singularidade daquele hotel de luxo.

- É dos tempos em que o Expresso do Oriente atravessava a Europa e a Ásia e homens como Cecil Rhodes e Barney Barnato se digladiavam por um império de diamantes.

- Óptimo - disse eu, puxando-a para mim. -Vamos jantar na cama.

- Não, não, esta é a minha oportunidade de comer num restaurante a sério, onde não tenho que pensar na água, nas pulgas a morderem-me ou numa bala perdida.

Comemos no melhor restaurante francês da Cidade do Cabo. Acabámos por comer a sobremesa na cama.

Na manhã seguinte, apanhámos um táxi para a baixa, para falar com um negociante de gemas que Cross recomendara. Deixei Marni no carro enquanto fui vender as pedras. Quando voltei, meti um grande maço de dinheiro na mala dela.

- Para que é isto?

- Lingerie exótica transparente, perfume inebriante... raios, compra um casaco de pele de tigre ou coisa assim.

Ela devolveu-me o dinheiro.

- Não há tigres em África, mas sim leões, e são espécie em perigo.

- Também tu. Não quero o dinheiro, põe-no numa caixa de esmolas, se te incomoda assim tanto. Encontramo-nos no hotel daqui a duas horas.

- É dinheiro de mais.

- Não te rales, não é meu, é roubado.

Kruger morava no que os sul-africanos chamam bairro de cor, sendo «de cor», segundo o motorista de táxi, a designação oficial para as pessoas de sangue misto europeu e africano.

- Metade da população na Cidade do Cabo - disse ele. Encostámos frente a uma casa pequena e insignificante com uma

vedação de ferro e um jardim bravio, e eu perguntei ao motorista:

- Como é que classifica este bairro? Pobre, de classe média? Ele pensou um momento e cuspiu pela janela antes de decidir.

- Nem pobre, nem classe média. Talvez melhor do que pobre mas não tão bom como classe média.

Era mais ou menos isso que eu pensara. O que levava a uma coisa interessante - por que é que um engenheiro geólogo bem sucedido, com várias invenções patenteadas, morava numa casa decrépita numa zona decrépita? Achei que sabia a resposta. Se não soubesse, o mais certo era ele correr-me dali para fora.

- Deixe-se estar aqui - disse para o motorista de táxi. - Se ouvir tiros, chame a Polícia.

- Se ouvir tiros, chamo-a de minha casa.

Não havia tranca no portão, mas eu espreitei para o jardim antes de entrar. As vedações de ferro geralmente trazem um cão de guarda a acompanhar. Cheguei à casa sem ser atacado pelo Bobi e bati à porta. Após mais uns toques, a porta abriu-se revelando uma mulher negra entre os quarenta e os cinquenta anos. Era demasiado atraente para ser a empregada, devia ser a mulher de Kruger.

- Yá?

arde. Vim falar com o Sr. Kruger. -; Franziu o sobrolho quando me mirou de alto a baixo.

- O Sr. Kruger não recebe ninguém sem marcação. - Tinha sotaque africânder.

- Não me fica muito bem aparecer assim, mas não tenho o vosso contacto. Tenho informações sobre o sistema de exploração de terra azul para o Sr. Kruger.

A minha resposta bloqueara-a. Era a minha intenção. Podia ter dito que Ed McMahon(1) me mandara lá com um milhão de dólares

 

*1. Famoso apresentador de concursos da televisão nacional americana, nascido em 1923. (N. da T.)

 

de uma empresa de apostas que ela me teria batido com a porta na cara. Mas dissera as palavras mágicas.

- Espere.

Fechou a porta. Um minuto depois abriu-se e mostrou um homem de meia-idade. Kruger era baixo, corado e tinha um permanente sobrolho franzido.

- Quem é você? O que quer? Estou ocupado. - Ele dizia um «quem» com aquele sotaque.

- Posso ajudá-lo na sua luta sobre a técnica da terra azul.

- Como?

Mostrei uma pedra em bruto com cinco quilates. Não era tão boa como a que dera a Marni na mina, mas valia milhares de rands sul-africanos.

- Quero cinco minutos do seu tempo porque acho que podemos colaborar. Vou-me embora se estiver enganado ou você pode pôr-me na rua. Seja como for, deixo-lhe a pedra.

- Como é que me pode ajudar?

- Cinco minutos - disse eu.

Hesitou. Nisto, um enorme Rottweiler ou outra raça mortífera qualquer que faria o Bobi borrar-se todo meteu a cabeça entre a perna de Kruger e o umbral da porta.- -Cinco minutos - anuiu Kruger. - Depois solto-lhe a Hannah.

Desejei que Hannah fosse a mulher dele.

Acompanhei-o até uma sala cheia de tralha, máquinas, livros e pó. A cadela seguiu-me.

Ele sentou-se num banco junto a uma secretária cheia de papelada e livros. Eu fiquei de pé e a cadela também.

- Tenho uma mina em Angola, a Senhora Azul. Você fez um relatório sobre um terreno adjacente à mina, terreno que me pertence. A pessoa que lho pediu era o meu gerente, Eduardo Marques. Eu quero ver o relatório.

- Se o relatório lhe pertence, você deve tê-lo.

- Não o tenho. Acho que o Marques tramava alguma, com um relatório feito nas minhas costas e depois tentando comprar barata a minha propriedade.

- Se o relatório foi pago pelo Sr. Marques, então pertence-lhe, peça-lho a ele. - Levantou-se. - Isto não tem nada a ver com o litígio em que estou envolvido por causa da minha invenção.

- Tem a dois níveis. Primeiro, tal como você, estou a ser lixado por alguém em quem confiava. Trabalhei duro para ter o que tenho. Quase me engasguei com a mentira. - E o Marques está a tentar roubar-me. Preciso de dinheiro para manter a briga. Se me puder ajudar e se houver dinheiro a ganhar, você entra no negócio. Há anos que briga com ladrões. Não conheço as circunstâncias, mas poderá precisar de dinheiro para essa briga.

Eu conhecia as circunstâncias - ele concebera um sistema que o poria no bairro dos ricos e, em vez disso, morava algures entre pobre e «médio». Aguardei enquanto ele ponderava as minhas palavras. Era óbvio que o primeiro impulso era pôr-me na rua ou mandar-me a Hannah às canelas, mas rezei para ter carregado no botão certo. Era idealista e fanático pela técnica que tinha inventado. Do que eu lera, tinham-lhe oferecido muito dinheiro para entrar em acordos, mas ele recusara - ao contrário de moi-même, não estava virado para vender a alma ao Diabo. Queria a verdade e a justiça. Em vez de lhe oferecer dinheiro, oferecia-lhe uma maneira de continuar a lutar.

- Não percebo o seu pedido. Diz que quer ver o relatório. O que o relatório disser, está dito. Não é a oferecer-me dinheiro que altera

os resultados.

- Tem razão. O relatório até pode dizer que é um buraco seco. Mas o actual funcionamento da mina é um buraco seco, e há uma tentativa de me afastar e tomar conta do negócio. O instinto diz-me que há mais qualquer coisa.

- Considero o trabalho que faço para os clientes confidencial. Você não me pagou, não é meu cliente.

Tirei uns papéis do bolso do casaco.

- Isto é uma cópia dos registos do Governo em como o terreno pertence à Senhora Azul e eu sou o proprietário. Estou a lutar contra um ladrão que não tem direito nenhum à minha propriedade, tal como você.

Ele pôs os óculos e examinou os papéis.

- Sabe que mais? - disse eu. - Tudo isto se pode resolver com uma olhadela ao relatório. Parece-me que mostra resultados positivos em diamantes. Se não, estamos a perder o nosso tempo.

- Não lhe posso mostrar o relatório.

- Pronto, foda-se, se quer ajudar vigaristas, é lá consigo. Virei-me para sair.

- Não posso mostrar-lho porque não o tenho. Ele levou-o.

- Ele?

-           O gerente da sua mina. Esteve cá ontem.

 

Marni metia sacos no elevador. Um homem simpático e sorridente segurou-lhe a porta e perguntou-lhe qual era o piso.

- Cobertura - respondeu ela.

- Eu também - disse ele.

Parecia nervoso, sorridente, um bocadinho de mais. Ocorreu-lhe a ela que em Angola lhe chamariam mestiço, uma mistura de africano e europeu. Na África do Sul, segundo uma lei discriminatória, era de cor.

- Parece que comprou as lojas todas - comentou o homem. Ela riu-se.

- Nem por isso, mas fiz mossa em algumas delas. Tenho estado no interior, e acho que fiquei maluca quando vi prateleiras e cabides cheios de roupa.

- É americana.

- Sim. Você tem um ligeiro sotaque que quase parece o que se ouve em Angola.

- Sou angolano.

- A sério? Que coincidência. Vim de lá ontem.

- Negócios?

- Tenho um amigo que está cá a negócios, é dono de uma mina, mas eu estou de folga das minhas funções de ajuda humanitária.

Ele manteve a porta aberta depois de as portas do elevador se abrirem no piso da cobertura.

- É uma causa muito nobre, já vos vi a distribuir comida muitas vezes.

Agarrou nos sacos que ela estava a deixar cair.

- Deixe-me ajudá-la.

- Oh, obrigada.

Acompanhou-a corredor abaixo com os sacos na mão. Ela parou à porta da suite, pousou os sacos e tirou o cartão da mala.

- Obrigada, agora já me oriento - disse ela, à guisa de despedida, empurrando a porta e pondo alguns sacos do lado de dentro. Mas ele deixou-se ficar e passou-lhe os sacos que faltavam. Depois de ela os pôr no chão e se virar, ele entrou e fechou a porta atrás de si.

Tirou uma pistola do bolso do casaco.

 

Olhei para Kruger como se ele me tivesse dito que eu tinha cancro.

- O Eduardo Marques esteve aqui?

- Mesmo onde o Sr. Liberte está.

- Deu-lhe o meu relatório?

- Dei-lhe o relatório dele. Ele pagou-o.

- Filho da puta.

Hannah rosnou. Talvez não gostasse de palavrões.

- Okay, não faz mal, dê-me uma cópia também.

- Ele deu-me um bónus para lhe dar o original e não ficar com cópias. Disse-me que ia haver litígio por causa da terra e que seria do meu interesse não ter cópias. Eu perdi a maior parte do que ganhei nestes trinta anos em litígios. A ideia de não ter provas judiciais a queimar-me as mãos agradou-me.

- Não há litígio nenhum. O Marques não passava de gerente da mina, não tem direito a coisa nenhuma. Tem alguém com massa por trás a tentar manter o relatório secreto para atrofiar o preço da mina. Você nunca teve cópias?

- Não, fiz centenas de relatórios toda a vida, milhares mesmo. Se guardasse cópias deles precisava de outra sala para arquivo.

- E presumo que também não guarda os resultados na cabeça. Não conhece as conclusões exactas?

- Claro que não, foi um estudo longo e complexo.

- Ok., desculpe, eu...

- Mas posso dar-lhe a minha opinião geral.

Isto deteve-me.

- E que é...?

- Inconclusiva. Mas vi alguns indicadores de que terra azul poderá estar presente.

- O que é que descobriu?

Ele abanou a cabeça.

- Não lhe sei dizer muito. O relatório foi inconclusivo. Eu não tinha os materiais todos de que precisava para uma análise completa. Presumo que, como dono da mina, saiba como se processa a caça à terra azul.

- Bem, eu herdei a mina...

- Tenho uma técnica e um equipamento próprios para analisar os materiais, mas os geólogos usam sempre a mesma matéria-prima nas pesquisas. Examinei amostras de terra tiradas da superfície e de buracos perfurados a trinta metros. Procurava «indicadores», pistas da existência de terra azul na área.

«Para perceber um indicador, é preciso saber como se formam os diamantes na terra. Todos os que jamais existirão na terra formaram-se há biliões de anos nas profundezas. Mas - levantou a mão - ao mesmo tempo que se formavam diamantes, e que apareciam nas chaminés de kimberlito, formavam-se outros minérios que subiam com os diamantes. As chaminés de kimberlito não são assim tão grandes e costumam estar enterradas, o que dificulta a descoberta.

Kruger agarrou num frasco de vidro com várias pedras.

- A busca destes pequenos depósitos na terra vasta é como procurar a proverbial agulha num palheiro... a menos que tenhamos pistas. As pistas são os outros objectos minerais criados e espalhados pelo mesmo processo que cria os diamantes e os empurra para cima.

»Chamamos a estes materiais «indicadores» porque podem indicar a presença de diamantes na mesma área geral. Dado que muitos dos indicadores se encontram muito mais espalhados do que os diamantes, são mais fáceis de achar.

Tirou umas pedras do frasco.

- Alguns dos indicadores são estes diopsídios de crómio verde... e aqui temos granadas de muitas cores, rosa, anil, verde, amarelo, laranja. Estas gemas são parentes dos diamantes, foram criadas nas mesmas convulsões cataclísmicas da terra. Porém, não são tão raras quanto os diamantes, nem duras, nem têm o brilho de um diamante. Na minha opinião, o indicador que nos dá as melhores pistas da existência de uma chaminé de kimberlito na terra azul da área é uma pedra denominada G-dez, um tipo de granada chamada «piropo». - Esgravatou no frasco e tirou uma pedra vermelho-escura.

- Isto é um «piropo». O nome vem do grego antigo para «olhos de fogo».

- Encontrou «piropos» quando pesquisou a minha terra?

- Eu nunca examinei a sua terra. O tratado de paz ainda não fora celebrado em Angola entre rebeldes e Governo e eu não estava disposto a arriscar a vida a ir lá. O seu Sr. Marques mandou tirar amostras e enviou-mas para examinar. Não lhe sei dizer exactamente quais foram as minhas conclusões sem ver o relatório, mas lembro-me muito bem de que eram tão promissoras como inconclusivas.

- Quais eram as promissoras?

- Havia indicadores. O relatório foi inconclusivo porque eu disse ao Marques que precisava de mais matéria-prima, mais perfuração em profundidade para conseguir amostras. Isto foi há mais de um ano. Ele disse que ia ter um sócio e que voltaria a falar comigo. Nunca mais soube dele até ontem. Tal como você, apareceu sem se fazer anunciar.

O «novo sócio» devia ser Bernie. João apressara Bernie a comprar a mina de diamantes, mas Bernie devia ter sabido da exploração que Eduardo liderava. Não era bem coisa que Eduardo pudesse manter secreta - a perfuração exigia maquinaria volumosa.

Eu tinha uma ideia de como Bernie teria sabido que Eduardo andava a perfurar amostras em profundidade. Nada se faz em Angola sem uma autorização - o pagamento de uma taxa e um suborno. Bernie teria mandado fazer uma investigação em Luanda antes de comprar a mina, e a investigação revelara licenças para maquinaria de perfuração. Munido desses conhecimentos, poderia ter confrontado Eduardo, mesmo por telefone, e sabido da presença de indicadores. Para mim, Bernie fora a Angola e encontrara-se com Eduardo.

- Está a ver - disse Kruger - que é preciso realizar mais trabalho, mais testes, antes de circunscrever a questão. Se for encontrada uma chaminé de kimberlito, poderá ser viável abrir um túnel a partir da mina actual, ou poderá ter de se começar do zero e abrir outra mina. Vai precisar de consultores em engenharia e geologia durante todo o processo.

- Pode ir a Angola e coordenar a investigação?

- Não iria para aquele buraco infernal por todo o chá da China.

- Não estou no negócio dos chás, Sr. Kruger, mas desconfio que os diamantes são distintamente mais valiosos, quilo por quilo. Você não queria ir a uma zona de guerra. Agora temos paz, ou, na pior das hipóteses, um hiato nos confrontos. É uma oportunidade.

- Para qual de nós?

- Para ambos. O Eduardo Marques não é parvo. Passou a vida a gerir minas de diamantes. Está-lhe no sangue e dá-lhe o cheiro. Você confirmou que é provável que lá estejam, basta circunscrever o sítio. Você é engenheiro de minas e geólogo. Pode descobrir a chaminé e a melhor maneira de chegar até ela.

Tirei-lhe o frasco de minério da mão e despejei-o na secretária. Queria toda a atenção. Hannah rosnou quando me inclinei para o dono.

- Cala-te! - disse eu a Hannah. - Ouve, Christiaan, estás contra a espada e a parede e quase liso por causa das brigas contra os cabrões que te roubaram o método. Eles têm a mina de ouro e tu tens o poço. Vem para Angola e, como um par de curiosos, abrimos uma chaminé de diamantes que até rebenta o cume da montanha. Voltas cá e dás um pontapé no cu aos ladrões... e todos vivemos felizes para sempre. Que te parece?

Hannah rosnou quando eu levantei a voz.

- Cala-te! - disse-lhe Kruger.

 

Estava bem disposto quando cheguei ao hotel. Kruger estava contratado. Iria para Angola dentro de um mês. Entretanto, dera-me uma lista do equipamento a comprar. Parei na recepção e enviei a lista por fax para a mina, ao cuidado de Cross.

Subi o elevador, atravessei o corredor e quase dava pulinhos. Estava tudo a correr sobre rodas. Abri a porta da suite e entrei, a sorrir que nem um tonto.

Perdi o sorriso quando vi Eduardo e a pistola que tinha na mão.

- Feche a porta - disse ele. - Não quero incomodar os outros hóspedes se tiver que lhe dar um tiro.

Fechei a porta.

Marni estava sentada numa cadeira junto à janela.

- Estás bem? - perguntei.

Ela assentiu.

- Temos estado a conversar, principalmente sobre o pouco que ele gosta de ti.

- Você arruinou-me a vida - disse Eduardo. - Mas agora vai reconstruí-la. - Apontou com a pistola para uns papéis na secretária. - Primeiro assina a escritura de venda da mina à minha pessoa. Como vê, o preço já caiu. Agora vale um rand.

Eduardo não parecia ter-se dado bem desde a última vez que o vira. Precisava de uma camisa e um fato limpos, tinha os olhos vermelhos de não dormir ou de beber muito. Pior ainda, as mãos tremiam-lhe - mau sinal, quando se tem uma arma apontada ao meu coiro.

- Isso não vale nada na minha terra. Só se estivesse louco é que lhe vendia a mina por esse preço.

- Não, não, louco não, mas a corrigir os erros do seu passado. Eu estaria morto se não tivesse saído do país antes de o seu amigo coronel Jomba me apanhar. Não pense que não sei o que andam os dois a tramar.

Ou que me queria fora do baralho para vocês dois não terem interferência nos vossos esquemas. E aquela puta com quem você tem mais esquemas, eu sei o que você e ela e o marido dela andam a tramar.

- E se eu não te vender a mina por esse preço?

- Ficaria muito contente. Primeiro dava-lhe um tiro no pé, na parte de cima que tem os ossos todos. Depois, outro tiro na rótula...

- Já percebi. Onde é que assino?

- Não é assim tão fácil, senhor, pode muito bem assinar o papel e depois de eu sair chamar a Polícia e dizer que o obriguei.

Era coisa em que tinha pensado.

- Lembra-se de me apontar uma arma à cabeça e de me obrigar a telefonar para o banco para transferir todo o dinheiro que eu tenho na vida para a sua conta? Lembra-se disso, senhor? Recorda-se de me obrigar a dar-lhe o dinheiro que me custou uma vida inteira a ganhar?

- Recordo-me de recuperar o dinheiro que me roubaste.

- Exactamente! É isso mesmo. E agora, eu fico com o que me roubou a mim!

Aproximou-se e tocou-me no braço com a pistola. Tinha os olhos arregalados. Os movimentos tinham uma intensidade nervosa, como se estivesse ligado a algo mais do que a vida.

O barulho de vidro a partir-se interrompeu-nos - um barulho hipnótico e ensurdecedor.

Eduardo e eu ficámos petrificados. Marni estilhaçara uma janela enorme com uma cadeira. A cadeira desaparecera, caindo doze pisos abaixo.

Eu recompus-me primeiro. Agarrei-lhe no punho que tinha a arma. A arma disparou e a bala bateu no chão. Marni gritou pela janela «Fogo!» enquanto lutávamos. O homem era mais seco e forte do que eu pensara. Tentei tirar-lhe a pistola e ela disparou outra vez. Dei-lhe uma cabeçada no nariz, virei-o até o levar ao chão e pus-lhe o joelho na barriga. Deitado de costas, a sangrar do nariz, sem fôlego, o cabrão ainda me meteu um polegar num olho. Encolhi-me e senti a mão que tinha a arma a fugir-me...

Marni bateu-lhe na cabeça com a base de um candeeiro. Apanhou-o desprevenido, ele ficou-se por um segundo e ela bateu-lhe

novamente. Ficou-se de vez. Tirei-lhe a pistola da mão e, ofegante, disse-lhe:

- Chega-me aí qualquer coisa, uma gravata, para o amarrar. E

chama a Polícia.

- Não me parece que seja preciso.

Tinha razão - o barulho da janela partida devia ter chegado aos navios que estavam ao largo.

Jantámos no quarto nessa noite - depois de mudarmos de

quarto.

A Polícia levara Eduardo. Passámos o resto do dia a prestar declarações e a assinar papéis, incluindo uma promessa de voltar à Cidade do Cabo se fôssemos convocados pelo sistema judicial.

Quando Eduardo saíra do aturdimento em que Marni o pusera, amaldiçoou-me - e rogou-me pragas - com várias palavras e expressões portuguesas e angolanas que se vêem nas paredes das casas de banho. Quando chamou puta a Marni, dei-lhe um pontapé na barriga.

- Ele está amarrado - disse Marni.

- Pois está. É mais fácil dar-lhe pontapés.

Eu nem sabia se ela ia rir - ou chorar. Acabou por fazer as duas coisas.

- Qual é a graça? - perguntei.

- Estava tão feliz por estarmos na Cidade do Cabo, onde não seríamos assassinados.

Durante o jantar dessa noite, ela manteve-se calada e melancólica.

- Ainda pensas no Eduardo? - perguntei.

- Não, pensava na morte. Disseste-me que perdeste a tua mãe em novo. Eu também. A minha mãe matou-se, depois de estrangular o meu irmão bebé e de me tentar matar.

Fiquei atordoado.

- Jesus! - Não sabia que dizer. Marni encolheu os ombros.

- Estava louca, perturbada, talvez levada a extremos pelo meu pai. Ele era muito exigente e crítico, ela submissa e sem autoconfiança.

Por mais estranho que pareça, ela não matou por maldade. Acho que não aguentava mais e quis matar os filhos para eles não passarem o que ela sofrera.

- Marni, lamento muito...

- Não há nada a lamentar. Tenho de lidar com isso, principalmente evitando contacto com o meu pai.

- Talvez tenhas medo de te envolver com um homem.

- É isso que nós estamos... envolvidos? - perguntou ela.

- Não sei o que estamos, às vezes nem sei quem sou. A morte dos meus pais deixou-me fatalista, achei que tinha de preencher a vida com bons momentos, divertir-me ao máximo antes de a morte bater à porta. Agora já não sei. Passar um dia de trabalho honesto e ver o resultado faz-me pensar se não quererei concretizar algo mais permanente do que aproveitar o momento.

Fiquei deitado na cama nessa noite com a cabeça dela no meu ombro, a sentir a sua respiração suave e quente no meu pescoço. Não estávamos com disposição para sexo louco e apaixonado, mas sim para nos sentirmos aconchegados.

Tentei imaginar o horror de ver a própria mãe a matar um irmão e depois a tentar matar-nos. A Síndroma de Medeia, chamou-lhe Marni, assim chamada pela deusa da peça de Eurípedes e da mitologia grega que matou os filhos para castigar o marido, Jasão, chefe dos Argonautas e usurpador do Velo de Ouro, depois de ele a deixar por outra mulher. Medeia, despeitada, matara os filhos por vingança.

Tentei analisar os meus sentimentos por Marni. Seria luxúria? Pena? Agora que tivera o que queria, que me tinha limpo as teias de aranha do pau, como diria Cross, estaria pronto a passar à frente?

Não tive nenhuma epifania, mas uma coisa me intrigava. Queria estar com ela, e não era só por momentos. Queria que ela se orgulhasse de mim e queria protegê-la. Mas nunca me sentira assim na vida.

 

Apanhámos um avião de volta a Luanda dois dias depois.

O facto de quase ter sido assassinada invalidara o repouso e a recreação de Marni. A princípio pensei que estivesse mais traumatizada pelo incidente do que queria admitir e que tivesse as emoções à flor da pele por ter revelado o segredo de família; estávamos no avião quando eu percebi o que realmente a incomodava.

- Win, o que é que Eduardo quis dizer acerca de estares envolvido com o coronel Jomba?

- Eu dei a Jomba metade do dinheiro que recuperei do Eduardo. É uma maneira de pagar impostos. Se não o fizesse, ele pendurava-me num gancho do talho e usava-me como enfeite para o jipe. - Era a verdade. Ou parte dela. A outra parte era que Eduardo ouvira falar no negócio com Jomba, mas Marni ter-me-ia atirado de uma altura de onze mil metros se soubesse que eu estava metido numa troca de diamantes por armas.

- Pareceu-me que ele se referia a outra coisa em que não estava metido.

- Eu pago à UNITA a protecção do costume que todos os mineiros pagam. Jomba é o cobrador. - Também era verdade. Até então safara-me das perguntas com declarações inatacáveis.

- Eduardo também falou numa mulher com quem andaste metido, chamou-lhe puta... e a mim também.

Beijei-lhe a mão.

- Eu não faço perguntas sobre o teu passado.

- E eu não estou a questionar o teu passado. Ele deu a entender que havia coisa. Eu sei que ficaste com João Carmona em Lisboa. Simone, a mulher dele, é influente numa organização humanitária portuguesa e angolana porque o marido fez um donativo, mas toda a gente sabe que Carmona tem estado metido no tráfego de diamantes de sangue.

- Agarrou-me no braço e olhou-me muito séria. - Não te irias meter numa coisa dessas, pois não? Sabes o sofrimento, os horrores que os diamantes de sangue causaram em África.

Beijei-a na face e rocei os meus lábios nos dela.

- Querida, Eduardo estava drogado. - Mais uma saída airosa em redor da verdade. Devia ter sido advogado.

Ela abanou a cabeça.

- Estamos a chegar a Luanda. Diz-me a verdade, assim que saíres deste avião, vais esquecer que me conheceste. Eu vou meter-me outra vez no mato para distribuir pacotes de comida e tu voltas a Nova Iorque onde as mulheres não cheiram a repelente de mosquitos.

- Nunca! - Beijei-a no nariz. - Nunca senti por ninguém o que sinto por ti. - Essa é que era a verdade.

Saímos do avião e dirigimo-nos juntos para o terminal. Tinha uma surpresa à minha espera. Havia uma mulher de lenço na mão com WIN LIBERTE escrito com bâton.

Era Simone.

- Oh, merda. - Pensei que tivesse murmurado, mas saiu-me boca fora. - Eu explico - disse para Marni.

A cara dela mostrava que não havia explicação possível.

- Olá, desculpem a gracinha. - Simone apertou a minha mão e a de Marni, e disse para mim: - Desculpa ter chegado sem avisar. Tentei contactar-te, mas o homem da mina disse que estavas fora da cidade. Surgiram umas coisas no nosso negócio com o coronel Jomba que exigem atenção imediata.

- Já vou ter contigo.

Acompanhei Marni ao táxi. Fiz sinal a um dos guardas de aluguer e dei-lhe dinheiro para ir no carro, de metralhadora em punho, até à cidade com Marni.

- Dormiste com ela, não foi?

Não era bem uma pergunta.

- E estás metido num negócio sujo.

Não havia nada que eu pudesse dizer.

Ela foi-se embora zangada e ressentida. Enquanto eu via o táxi partir, Simone pôs-se ao meu lado.

- Disse alguma coisa que não devia?

- És uma cabra.

Beijou-me na boca.

- Claro que sou. Mas pelo menos sou boa nisso. É a única maneira com que uma mulher pode lidar com os homens que têm a mania que mandam no mundo.

- Que é que vieste cá fazer? Saltaste da vassoura para me estragar a vida?

Ela riu-se.

- Oh, não, por favor, não me digas que o garboso e sedutor Win Liberte está apaixonado... e por uma rata de biblioteca idealista. Pelo menos, podias ter-me deixado por uma estrela de cinema.

- Não posso deixar quem nunca tive. Entrámos num táxi juntos.

- Vai complicar as coisas se eu ficar no mesmo hotel onde tu estás com Marni? - perguntou ela.

- Marni vai encontrar-se com colegas e volta para a zona dos diamantes esta tarde.

- Óptimo. Estava preocupada, não fosse estragar-te a noite.

- E não vais. Vou levar-te ao hotel e deixo-te lá. Também tenho um charter para o Norte esta tarde.

Ela pôs-me a mão na coxa.

- Estás zangado comigo. Tenho muita pena.

- Vamos ao que interessa. Que vieste cá fazer?

- Está bem. - Falou em voz baixa para o motorista e o guarda não ouvirem. - O calendário de actividades foi antecipado. As condições políticas do país estão a deteriorar-se. Savimbi e o Governo lançam-se constantemente ao pescoço um do outro, o acordo de paz pode ir pelos ares a qualquer momento.

- Que interessa? Esta gente ainda vai precisar de balas para se matarem uns aos outros.

- Se houver guerra aberta, os diamantes angolanos serão rotulados como diamantes de conflito e os certificados serão inúteis.

- O que é que Jomba quer? Ela encolheu os ombros.

- Guerra, golpe militar, revolução, sabe-se lá. Esta gente tem montes de maneiras de se matarem uns aos outros. O nosso negócio é só com Jomba. Não podemos lidar com Savimbi sem hostilizar Jomba, que pretende tomar conta da UNITA. Há muitos líderes da UNITA que pensam como Jomba... estão fartos da liderança do Savimbi. Se o processo de paz for completamente implementado, os rebeldes terão de depor armas. E perdem o dinheiro dos diamantes.

- Então, nós armamos Jomba para ele matar Savimbi e afogar o país num banho de sangue. É este o resumo da coisa?

Ela apalpou-me o braço.

- Que é que se passa, Win? A tua namorada das Nações Unidas contou-te como é horrível trocar diamantes por armas? Não estás cá há tempo suficiente para saber como isto funciona? Se não déssemos tanques e armas a esta gente para se matarem, eles faziam-no com catanas.

- Conheceste Bernie?

- O quê?- Bernie, o tipo a quem eu tratava por tio, o que investiu a minha herança na mina... chegaste a conhecê-lo?

- Não, não me parece, não me recordo.

Era boa actriz, mas podia ver-se que estava a mentir. A pergunta irritava-a.

- O que é que há de tão importante nisto que tu e o João estejam dispostos a arriscar mais dinheiro neste negócio de diamantes de sangue que pode dar para o torto? Pela maneira como vivem, não parecem ter de se ralar com a próxima refeição.

- É o diamante de fogo.

- O diamante de fogo? - Sabia do que ela estava a falar, o meu pai contara-me do diamante rubi que lhe tinham roubado, mas fingi-me ignorante. Não era difícil, neste jogo onde há quebra-cabeças embrulhados em enigmas e rodeados de mistério.

- O Coração do Mundo, um diamante vermelho-rubi, muito raro, talvez seja o diamante mais valioso do mundo que não está num museu. O João contou-te que se meteu em problemas de dinheiro naquele negócio que deu cabo do teu tio, mas não te contou que Bei lhe ficou com o diamante de fogo como penhor. Vai haver uma troca neste negócio com Jomba. Bei dá ao Jomba armas por diamantes e Bei dá-nos o diamante de fogo. Mas Bei não é de confiança.

O Coração do Mundo vale mais do que o negócio de diamantes inteiro.

João tem medo de que Bei tente ficar com ele ou que Jomba saiba do diamante. Se souber, apodera-se dele.

- E que impede Jomba e Bei de se aliarem e fazerem negócio nas costas de João?

- Não se conhecem. Jomba não sabe quem é que fornece as armas e Bei não sabe a quem as vai entregar. João só vai dizer a hora e o lugar no último minuto.

- Não há honra entre ladrões? - Parecia cada vez mais que eu ia ficar de mãos a abanar. - Ora vê lá se me sabes explicar isto. - Contei pelos dedos. - Jomba fica com as armas, Bei com os diamantes de sangue, João com o diamante mais valioso do mundo, e eu...

Tornou a apertar-me a coxa. Eu detestava a mulher e não confiava nela, mas punha-me as hormonas aos saltos. Os homens são tão parvos.

Ela continuou:

- Tenho informações que te vão surpreender. O homem que te geria a mina, como é que se chamava?

- Marques, Eduardo Marques.

- Isso. Abordou recentemente João por causa da mina, pediu-lhe ajuda para a comprar.

Mantive-me impassível, mas não era fácil. A minha reacção foi pensar que estavam todos de conluio com o Eduardo. João ia tocar todos os burros contra um.

- Win, estás em cima de uma mina de ouro, como vocês americanos dizem. Marques mandou fazer um estudo geológico que revelou uma chaminé de kimberlito no terreno. - Hesitou. Caraças, era mesmo boa actriz. Mas eu não era bom actor.

- Pela tua cara, deves saber do que estou a falar.

- Sei que Marques tem qualquer coisa na manga. Tentou comprar a mina antes de eu o despedir por roubar. Diz que tem um grupo sul-africano a apoiá-lo. Recentemente, fez outra oferta para comprar a mina, queria trocar chumbo por diamantes.

- Chumbo por diamantes?

- O gajo tinha uma pistola. Por que é que tu e João não me disseram que Marques era um vigarista quando eu estive em Lisboa?

- Não sabíamos, ele telefonou a João há uns dias.

João recusou-se, claro. Era amigo do teu pai e agora é teu sócio no comércio de diamantes. Não ia desonrar a sua relação contigo.

Estava a ser cada vez mais difícil fazer cara séria. Não apenas o meu pai considerava o João um ladrão de classe, este tinha-lhe roubado o diamante de fogo. Não me espantaria se estivesse metido no negócio para me tirar a mina. Só me faltava ouvir do advogado sul-africano que os sócios do Eduardo incluíam o João.

Parámos em frente ao hotel.

- Já acabaste? - perguntei.

- Nem por isso. Disse-te que o calendário foi antecipado. Tens de estar em Istambul daqui a três dias para finalizar os trâmites.

- Perdão, não devo ter ouvido bem. Disseste que tenho de estar em Istambul dentro de três dias?

- Bei quer conhecer-te. Não gosta de fazer negócio com quem nunca viu. Quer dar-te uma vista de olhos. E ele e João têm de tratar da entrega das armas e da comercialização dos diamantes.

Istambul. Tentei imaginar onde ficava. Portugal ficava depois da ponta do Mediterrâneo, Istambul, Turquia, acho que ficava do outro lado, o oriental. Pois é, também tinha feito gazeta a geografia.

A mão dela voltou à minha coxa e apertou-a.

- Lamento muito, Win, mas é preciso. Se algum de nós gorar este negócio, receio que Bei e o coronel Jomba se queiram vingar.

Não juntou João à equação, mas ele devia ser a cabeça da matilha, a rosnar-me aos calcanhares enquanto eu fugia dos cães do inferno.

Ela inclinou-se para mim e beijou-me. A sua boca era quente e sensual.

- Que posso fazer para te compensar disto tudo? - perguntou ela.

Desatei a rir. Ainda me ria quando ela saiu do carro e bateu a porta. Começou a afastar-se e virou-se para falar comigo pela janela aberta.

- João manda-te as instruções sobre Istambul para a mina. - Hesitou. - Não me odeies. Cabra!

 

O telefone do quarto estava a tocar quando Simone entrou.

- Está.

- Sou eu - respondeu João. - Disseste ao nosso amigo onde é que ele tem de ir?

João falava em código porque tinha a certeza de que o telefone de um quarto de hotel em Angola não era coisa segura.

- Obrigada por perguntares se estou bem. João riu-se.

- Estás bem, meu amor? Já te disse que tenho saudades tuas? Que estou a contar as horas?

- És uma péssima velha fraude. Como está Jonny?

- Provavelmente «está» com todos os miúdos de Lisboa. Tem a moral de uma gata vadia. Como a mãe.

- Não te canses a assumir culpas pelo feitio da tua filha. E a resposta é sim, eu disse ao nosso amigo.

- Como é que ele reagiu?

- Como é que tu reagirias?

- Mal.

Ela calou-se a pensar e depois disse: -

- Não sei se ele não reagirá mal também.

- Vai aparecer na reunião ou não?

- Tenho a certeza que sim. Nesta altura do campeonato, não tem opção. A questão é: que controlo terás sobre ele assim que ele tiver?

- É simples, meu amor. Vamos assegurar-nos de que nunca vai ter nenhuma. - A voz de João ganhou um toque sinistro. - Acho que num futuro próximo esta loucura do dia-a-dia levará o nosso Win a um ponto em que a vida não vale a pena.

Ficaram calados e depois João perguntou:

- Falaste com o nosso amigo coronel?

- Encontrámo-nos por breves instantes.

- E então?

- Ele insiste que cumpramos o novo calendário.

- E vamos cumprir, vamos cumprir, se é o que for preciso para eu resgatar o meu bebé.

Saltava à vista que João se interessava mais pelo diamante de fogo do que por Jonny ou Simone. Continuou:

- Ouvi uma coisa interessante sobre as tatuagens do coronel. Além das bizarrias que tem visíveis, um membro da Embaixada angolana disse-me que o coronel tem fama de ter o pénis tatuado de modo a parecer um leão com juba quando se puxa o prepúcio. - Fez uma pausa. - Já provaste a carne local desde que chegaste a Luanda?

- É isso que queres que faça?

- Meu amor, sabes que nunca te digo o que deves fazer. A propósito, tem cuidado, o nosso homem quer uma fatia maior.

Bateram à porta do quarto.

- Estão a bater à porta. Ligo-te amanhã antes de ir para o aeroporto.

Foi abrir a porta. A empregada entregou-lhe um sobrescrito que tinha a chave de um quarto.

Ela despiu-se e tomou um banho. Depois de se passar por água, pôs óleo de banho no corpo ainda húmido. Sentou-se nua ao espelho e acabou de fazer a maquilhagem. Lubrificou a vagina com espermicida e vestiu umas cuequinhas de renda branca e um soutien. A cor ficava-lhe bem na pele acobreada.

Antes de enfiar o vestido, posou em frente a um espelho de corpo inteiro. E suspirou. Os homens achá-la-iam sexy e sensual, mas, como a maioria das mulheres, Simone era a sua crítica mais exigente.

Escolheu um vestido vermelho de algodão sem alças, apropriado para a noite mas não tão provocante como usaria para uma festa.

Acabados os preparativos, saiu do quarto e subiu dois pisos no elevador. Em vez de usar a chave que lhe tinham feito chegar, bateu à porta do quarto.

Cross abriu a porta. Sem sorrir, afastou-se para lhe dar passagem.

- Win não vai querer saber onde andas? - perguntou ela.

Ele abanou a cabeça.

- Deixei recado a dizer que fui ao rio saber de uma concessão.

Passo a vida a fazer isso.

Ela sentou-se no sofá. -

- O que posso servir-te? - apontou para uma bandeja cheia de bebidas.

- Nada. Conta-me o que Win disse sobre Eduardo.

- O mesmo que eu disse ao João por telefone. Win ligou-me da Cidade do Cabo, disse que Eduardo lhe aparecera com uma pistola e uma escritura para assinar.

- Para lhe dar a mina.

- É por aí. Eduardo está na cadeia. Tendo em conta que é estrangeiro, deve ficar dentro algum tempo, por ser um risco de fuga se tiver fiança.

- Foi só isso que te contou?

Cross sentou-se no braço do sofá e sorriu para ela enquanto agitava o gelo e o uísque no copo.

- O que foi? Tens medo que Eduardo diga a Win que tu e o teu marido estavam metidos no negócio para lhe roubar a mina?

Simone olhou para cima e sorriu. Os lábios eram convidativos, mas os olhos frios e calculistas.

- Não te deixes levar pela imaginação, Cross. Eu e o João não podemos ser donos de minas em Angola, enquanto Savimbi for vivo.

- Podem, se usarem uma empresa sul-africana fictícia para encobrir.

- Tal como já disse, não te deixes levar pela imaginação.

- Já deixei. - Debruçou-se e beijou-a na boca. Passou-lhe os lábios pelo pescoço e absorveu o perfume floral dos seus seios.

- Cheiras como uma mulher deve cheirar.

Ela retribuiu o beijo com mais avidez. Ele deslizou do braço do sofá para baixo. Puxou-lhe o vestido para cima, dobrou-se e beijou-lhe as cuequinhas brancas.

- Apetece-te ratinha portuguesa?

Ele levantou a cabeça.

- Que é que te parece? Teso já eu estou. Antes de te comer a ratinha, temos de falar numa coisa... enquanto eu me consigo controlar.

Voltou a sentar-se no braço do sofá.

- João diz que querias uma fatia maior.

- Não, não é essa a maneira correcta de pôr as coisas. Querias parece que estou a pedir. Eu não estou a pedir, querida. Este negócio está a ficar mais lixado. Quando entrei nele, não sabia que Jomba ia fazer a folha a Savimbi. Isso é assim como que uma morte lenta... como usar um machete para cortar os próprios dedos do pé e ir subindo.

- Savimbi é humano, não merece a fama que tem. Cross assobiou.

- Fofa, vê-se que não passas muito tempo em Angola. Savimbi é tarado e tem um Exército, metade são drogados e a outra metade simplesmente tarados. Quais são as probabilidades de Jomba lhe ganhar?

- Isso não nos diz respeito. Entregamos armas, recolhemos diamantes e deixamos os cães a brigar pelos ossos.

- Vocês deixam, queres tu dizer. Ninguém vai reparar que vocês não são daqui, mas se cheirar a esturro a Savimbi, ele vai imediatamente à procura de quem estiver a fugir. E eu serei quem eles agarram na rua e despejam à porta dele se for apanhado a fugir.

- Onde pretendes chegar com isto? Quanto queres?

- O nosso acordo era de 250 mil dólares para vos ajudar a fazer negócio com Jomba - disse ele.

- E para garantir que o nosso amigo Sr. Liberte não foge com o rabo à seringa nem tenta fazer jogo duplo.

- E para espiar os movimentos de Win para vocês. Quero meio milhão.

Ela levantou-se, tirou-lhe o copo da mão e pô-lo de lado. Ele afastou as pernas quando passou para o sofá e ela meteu-se no meio.

- Já acabámos de fazer negócio? - perguntou ela.-.. - E se eu pedisse um milhão?

- O que queres dizer?

- Estou só a tentar perceber por que é que concordaste tão depressa, sem discussão, nada.

- Há que chegue para toda a gente. Como é que se costuma dizer? A cavalo dado não se olha o dente?

- Pois, mas eu fico a matutar quando as coisas são fáceis de mais.

Há promessas e promessas, e nem sempre são cumpridas. Faz-me pensar se tu e aquele teu marido me vão realmente pagar. Bem posso ficar aqui entalado em Angola quando tudo for para o diabo. Vocês estarão em Lisboa.

Ela desabotoou-lhe a camisa e levou a boca a um mamilo.

- Quero que me comas.

Ouviu a porta do quarto abrir-se e virou a cabeça. Era uma pessoa nova, de pele branca e cabelo louro curto, vestida com roupa larga. Simone perguntou:

- Quem é isto?

- Mandei vir de Amesterdão. Não há ratas de confiança em Luanda.

Simone olhou de sobrolho franzido para a pessoa.

- é rapaz... ou rapariga? o Cross riu-se.

- Aí é que está a piada. Vamos descobrir juntos.

 

ISTAMBUL

Aluguei um barco a motor para atravessar o Bósforo para o mar de Mármara, e descer os Dardanelos, em direcção à cidade de Canakkale, no lado asiático da Turquia. Peguei no carro que tinha alugado, parando primeiro no hotel antes de começar a viagem. Dirigia-me às ruínas. Quando cheguei, saí do carro e fui para a ponta de uma muralha antiga junto a uma falésia. Olhei para baixo e vi a Europa do outro lado dos Dardanelos.

Fora ali, na muralha da cidade de Tróia, que Ulisses, Heitor, Aquiles e Paris haviam guerreado pela volúvel e bela Helena.

Istambul era uma das grandiosas cidades de Oriente e Ocidente, uma cidade fascinante, misteriosa e vibrante na encruzilhada da história. Era uma cidade de intrigas e conspirações políticas, de choques culturais e ambiciosos impérios. Porém, fora para aquele lugar em ruínas no outro lado do estreito, um sítio insignificante de pedra cinzenta batida pela guerra e pelo tempo, que eu fora atraído.

Era um lugar onde homens pereceram em batalhas sangrentas, onde uma mulher estava decidida a seguir o seu coração mesmo que isso acarretasse morte, destruição e queda de reinos. Poucos lugares havia na Terra onde os homens houvessem morrido tão valentemente e tanto tivesse sido feito em nome do amor.

Pensei em Ulisses a partir de Tróia depois da guerra, amaldiçoado por um deus irado, embarcando numa perigosa demanda em águas tormentosas. Assim me sentia eu na minha aventura Nova Iorque-Lisboa, África-Istambul. Maldito pelos deuses. E o ciclope zarolho era João. Eu herdara as astúcias do meu pai como um defeito genético. E estava quase certo de que Bernie morrera da mesma doença.

Telefonei a Marni antes de partir para Istambul. Pedi-lhe que fosse comigo.

Era um pedido de loucos. Como é que eu poderia explicar que me ia encontrar com os conspiradores de um negócio de diamantes de sangue? Ela respondera «Não» e desligara.

Acho que telefonei porque sabia que ela diria que não. Era a minha maneira pusilânime de fingir que podia recusar o negócio. Recusar, pois sim. Contudo, não podia jurar pela eternidade da minha alma que tal se devera à minha preocupação pelo que Jomba faria com as armas. Eu tinha a atitude de Simone em relação a Angola - se não se matassem por uma razão, arranjavam outra. E cinco milhões de dólares apaziguavam muita da minha culpa. Raios, até daria um donativo para um fundo de ajuda humanitária angolano.

Não, não era um ataque súbito de moralidade: era a possibilidade de a Senhora Azul ser uma mina de ouro - metaforicamente falando. Se Kruger encontrasse mais indicadores na perfuração que tínhamos planeada, os cinco milhões de dólares que eu ia receber - que talvez não vivesse para gozar - podiam ser trocos. Se o dinheiro viesse da minha própria mina legítima, eu estaria tão safo como a proverbial galinha dos ovos de ouro.

A vida era tão complicada. Além de ter de afugentar o ciclope João e um coronel angolano com um colar de arame farpado e uma caveira a enfeitar o carro, estava resolvido a admitir que Marni nunca faria parte da minha vida.

Em suma, era um merdas. E ela sabia-o.

Olhei para o estreito que separava a Ásia da Europa enquanto pensava em Marni, e não me conseguia lembrar do que acontecera a Helena no final da guerra de Tróia- Mas lembrava-me de que Páris fora morto.

- Daqui tem uma bela vista do Sultanahmet - disse Bei.

Eu e Bei estávamos numa varanda de sua casa. À nossa frente estendiam-se canais chamados Corno de Ouro e o Bósforo, junto com a parte velha e murada de Istambul.

Bei era um tipo baixo, não mais de um metro e setenta, magro, cerca de sessenta quilos. Careca, nem mesmo uma tira de cabelo rapado dos lados, sem sobrancelhas, e sem rugas na cara, não se sabia que idade tinha. Quando eu visitara João e Simone em Lisboa antes de seguir para Angola, Simone dissera que Bei era um antigo KGB, mas João fizera pouco da ideia.

«Todos usam esse aspecto como ameaça subtil», rematara ele.

Eu não estava assim tão certo disso. Não havia grande subtileza nas ameaças de Bei. Havia uma limusina à minha espera no hotel, e parecia que o motorista e o tipo da metralhadora tinham roído em armas de fogo em bebés. Vi mais alguns espalhados pelos jardins, dois com grandes mastins à rédea curta. A minha impressão de Bei é que era um homem cuidadoso, com muitos inimigos.

Simone e João estavam noutra parte da casa a tomar um copo com amigos de Bei.

Bei parecia-me mais russo do que turco, pois a sua pele era mais clara, e ouvi-o dizer que nascera na Geórgia. A conversa ao jantar incidira na queda da União Soviética e no estatuto independente de algumas antigas repúblicas. Simone viu a interrogação na minha cara e explicou-me que a Geórgia era um pequeno país no mar Negro entre a Turquia e a Rússia. Ninguém se ofereceu para explicar por que lhe chamavam «Bei» e eu também não perguntei. Nem sabia o que era um bei.(1) Além disso, creio que João me dissera que Bei era doutro lado qualquer, e cheguei à conclusão que o historial de Bei mudava com a maré.

- O que eu mais gosto nesta vista da varanda - disse Bei - é de ver tanta história do mundo. Temos a grande cúpula de Santa Sofia, a segunda igreja da Cristandade antes dos Filhos do Islão tomarem a cidade e massacrarem os últimos defensores no templo. O Palácio de Topkapi, sede dos sultões otomanos, fica ali, à esquerda. Os príncipes reais eram mantidos longe do palácio porque muitas das mulheres do sultão tentavam ganhar o trono para os próprios filhos matando os outros. À direita fica a Mesquita Azul, um dos grandes edifícios do Islão.

Fui fazendo um ar atento e bebericando o vodca-martini. Não sabia por que razão Bei me convidara para a varanda numa visita personalizada, nem mesmo por que recebera ordens de ir a Istambul.

 

*1. Título dos antigos soberanos da Tunísia.

 

- Vejo que estou a aborrecê-lo - disse Bei. -Antes de chegar, pedi a João que lhe explicasse que eu insisto em conhecer cara-a-cara pessoas em quem invisto muito dinheiro. Por isso lhe pedi que viesse.

- Não tinha noção de que estivesse a investir em mim. O meu único papel nisto é certificar os diamantes que nos forem entregues. - Tinha sido avisado para não falar no Jomba a Bei. João mantinha-o às escuras para garantir que Bei não o enganasse e tratasse de um negócio próprio.

- Eu tinha noção de que o seu papel seria maior do que isso. Ali havia gato.

- O que quer dizer?

- Que você ficará na posse dos diamantes do comprador de armas e os entregará ao meu representante. Percebe como é que estas coisas se processam, não percebe?

- Não percebo.

- A troca far-se-á em três fases. Três dias antes da entrega, você verifica a mercadoria do comprador e garante que esteja representada em termos de quilates, qualidade e quantidade. Em seguida, avisa-me e eu defino o momento exacto da troca. Uma hora antes de os meus aviões aterrarem, você confirma que os mesmos diamantes se encontram na pista. Minutos antes da troca, os meus aviões de reconhecimento verificam a área em caso de armadilhas. Quando a troca tiver lugar, os diamantes são-lhe entregues a si e você entrega a minha parte ao meu representante. O que faz com a parte de João é entre si e os seus amigos.

- João não é meu amigo, isto são meramente negócios.

- As minhas desculpas. Fui levado a crer que a sua relação com ele e Simone era quase de cariz familiar.

- Confio no João tanto como o Bei. - Deixei a poeira assentar um pouco. - E não o conheço tão bem.

Bei riu-se, o som gutural de um estertor de morte.

- É frontal, Win, isso agrada-me.

- Então, deixe-me dar-lhe o outro cartucho. O meu acordo consiste em certificar os diamantes. Para mim, isso significa sentar-me num sítio simpático, agradável e seguro e fazer a minha assinatura. Não se falou em ficar na linha de fogo numa clareira do mato enquanto a sua gente e o comprador decidem se avançam com o negócio ou com o tiroteio.

- Receio que você tenha inadvertidamente reclamado a coisa para si. Eliminou a pessoa que ia supervisionar a troca.

Não Percebi imediatamente.

- Ia ser o Eduardo...

- Sim, era perfeito para o papel. Como você, é perito em diamantes, está perto do local da troca... e pode pagar-se. Ou podia, até Win o trancar numa prisão na Cidade do Cabo.

As outras coisas encaixavam agora.

- Contratei um advogado na África do Sul para investigar os sócios do Eduardo que tencionavam roubar-me a mina. Ele descobriu uma empresa suíça e um beco sem saída.

- Os suíços são muito práticos nos negócios. Desde que se roube e mate fora das suas fronteiras, não fazem perguntas acerca do dinheiro que lhes levarem. Mas a sua desconfiança está correcta. Eu era o dinheiro por detrás da tentativa de Eduardo de comprar a mina.

- E de me matar.

Tornou a rir-se, outro estertor de morte.

- Nada disso, embora, se tivesse logrado fazê-lo, não me tiraria o sono. Também sou muito prático, especialmente com gente que não conheço. Ou com João, que conheço bem de mais. Não sabia que Eduardo ia tentar obrigá-lo a passar-lhe a mina à ponta de espada. Foi estúpido. Quando você o despediu, no que me dizia respeito, o caso estava encerrado. E fiz-lhe saber isso, o que o terá levado ao desespero. Tinha-lhe emprestado dinheiro, um adiantamento, compreende...

- Compreendo. - Por outras palavras, Eduardo não podia pagar depois de eu lhe saquear as contas bancárias. E ficaria com os homens de Bei à perna.

- Devo desculpas a João - disse eu. - Pensei que ele estava por detrás de Eduardo.

- Não lhe deve desculpa alguma. Eduardo vendeu-se à maior oferta. Abordou-nos a ambos, mas João não podia garantir o dinheiro necessário à aquisição da mina e à continuação da exploração de diamantes. João apareceu-me como intermediário e eu afastei-o.

- Meu Deus, que teias intricadas nós tecemos. Este esquema tem mais facetas que um diamante.

- Escusado será dizer que agora não tenho interesse algum em comprar-lhe a mina. Você tem noção do potencial, eu desejo-lhe sorte a desenvolvê-lo. Poderá ficar rico ou descobrir que a exploração foi um poço sem fundo onde investiu dinheiro.

- Aprecio o facto de me deixar ficar com a minha propriedade, mas continuo sem intenções de ser accionista.

- Mas tem mesmo de ser. Está a esquecer-se de uma coisa.

- O quê?

- A sua parte da transacção vem dos diamantes que o coronel Jomba entregar. Tenciona deixar que a sua parte me venha parar às mãos... ou às de João?

Raios. Que merda!

Tinha de fazer uma pergunta antes de irmos para dentro. Fixei o olhar no dele.

- Quem matou o meu tio?

Nada transpareceu nos seus olhos. Mais valia ter perguntado as horas.

- Não sei - respondeu.

Mas claro que sabia. Uma coisa tinha eu aprendido - Bei sabia tudo. Incluindo o facto de o comprador de armas ser Jomba. O instinto dizia-me que a minha suspeita batia certo. João matara Bernie. Eu não sabia como, nem sequer sabia bem porquê, tirando o facto de ter a ver com diamantes, mas sentia o dedo de João naquilo.

Depois do jantar, reunimo-nos na biblioteca de Bei, uma sala abobadada com ar de museu. Simone apareceu por detrás de mim quando eu observava uma múmia totalmente amortalhada.

- Bei é um conhecido coleccionador... e negociante... de antiguidades. Tenho a certeza de que há inspectores de alfândegas de Gize a Angkor Vat que gostariam de dar uma olhadela a esta sala e ao cofre de Bei.

Bei juntou-nos em redor de uma mesinha tapada com um pano branco no meio da sala. Começou a falar e surgiram umas luzes brilhantes e estroboscópicas por cima das nossas cabeças.

- Meus amigos, como sabem, sou ávido coleccionador de tesouros raros. Deixem-me mostrar-lhes o que eu considero actualmente como a creme de la creme da minha colecção.

Tirou o pano da mesa. Simone soltou um gemido. Uma taça de cristal cheia de diamantes. No topo e ao centro uma única gema, do tamanho de uma avelã.

O Coração do Mundo.

Com as luzes de cima e por baixo da mesa, a mostra inundava a sala de reflexos resplandecentes, fazendo o Coração do Mundo irradiar fogo vulcânico.

Eu não gemi como Simone, mas também fiquei atordoado. Como o meu pai, os diamantes estavam-me no sangue. Como o meu pai, nunca vira uma gema como aquela. Os diamantes estavam envoltos em mitos e mistérios. Duros a ponto de cortar aço mas deslumbrantes e sensuais numa mulher, um diamante nunca me pareceu coisa deste mundo. Ao contemplar aquele, pensei que tinha o nome errado-não era o coração do mundo, mas sim o coração incandescente de uma estrela. Para um diamantista, era melhor do que possuir a Mona Lisa.

À minha frente, a torrente de luz alumiava as feições de João. Era como ver a cara do diabo e os piores pecados capitais destacados - avareza, assassínio, luxúria. Era inumano, aterrorizador. João fitava o diamante de fogo como um homem possuído. Percebi então porque a mulher dizia que a gema era a amante dele. No que tocava ao diamante, ele não era um mero apaixonado, mas um amante possessivo e demoníaco, do tipo que seguia a mulher até à cama do amante dela e depois os estraçalhava até à morte, deixando-os ver o gume maldito do machado antes de o abater sobre os dois.

Pude assistir a um drama encenado naquela sala. João obrigou-se a tirar os olhos do Coração do Mundo e ergueu-os para olhar para Bei. Os dois fixaram-se, dois predadores cara-a-cara na selva, cada um a enterrar as garras no território que clamava para si. Surgiu outra emoção no rosto de João - ódio. Malevolência violenta, assassina, rancorosa.

Também me senti atacado por um demónio. Recordei o facto de João ter roubado a gema ao meu pai. De ter assassinado Bernie. E de me tentar roubar a mina - se não fizesse com que Jomba me matasse.

-Vejo que pretendem usar-me como mediador da troca. - Dirigi-me a João. - Eu faço-o, mas o preço aumentou. -Virei-me para Bei. - Quero o Coração do Mundo. Foi roubado ao meu pai e eu quero-o de volta.

João olhava para mim como se acabasse de lhe cortar os tomates, Bei como se lhe tivesse arrancado os olhos. Simone embasbacada

- e, por uma vez, não soltou o seu riso escarninho.

- O negócio é este. Se não gostarem, vão-se lixar.

Vim-me embora. Nem sabia se chegaria à limusina que tinha à minha espera ao portão. Podia dar-se o caso de Bei me pendurar num gancho do talho e deixar os seus sequazes praticarem tiro ao alvo. João ficara passado o bastante para se levantar da cadeira de rodas e se me atirar à garganta. Mas eu pouco me ralava. Estava farto de ser um joguete e de ser ameaçado.

Depois de ter lixado dois dos homens mais perigosos do mundo, só tinha de voltar a Angola e lidar com militares assassinos enquanto tentava ficar rico.

Pensei naquela vez em que estava num bar em Nova Iorque e conheci um gajo que me falou de um estranho tipo de negócio financeiro. Chamava-se «investimento viático». O tipo achava pessoas com pouco tempo de vida, oferecia-se para lhes pagar o seguro de vida com desconto. Se o moribundo tivesse uma apólice de 100.000 dólares, ele comprava-a por 50.000. Só havia a ganhar - o comprador ganhava uma pipa de massa quando o moribundo morresse e este conseguia uma injecção de dinheiro vivo para os últimos dias. Os negócios só azedavam se o moribundo recuperasse milagrosamente.

Se eu contactasse o investigador viático e lhe contasse os meus problemas, ele babar-se-ia todo para investir na minha morte iminente.

 

ANGOLA

Marni olhava para as pessoas na fila de distribuição. As náuseas que sentira anteriormente dominavam-na novamente. Vomitara quando se levantara da cama. A única coisa que lhe restava no estômago era o chá que bebera para o acalmar, mas ainda se sentia cheia de engulhos. Estou a chocar alguma, pensou. A questão era ser coisa para a deitar abaixo por uns dias - ou para a matar. A terceira possibilidade era malária, que ficaria crónica.

O trabalho naquela manhã consistia em vigiar os trabalhadores contratados para vigiar as pessoas que vinham buscar pacotes de comida. A ideia era um pacote para cada pessoa, mas, da maneira como ela se sentia, bem podiam escancarar os armazéns e entregar tudo à multidão.

- Há cem maneiras de fazer batota - dissera ela a Venâncio, o ajudante - e esta gente sabe-as todas. - Era uma avaliação injusta, e ela sabia-o. A maioria das pessoas na fila era honesta, como em qualquer lado do mundo. Mas as condições desesperadas levavam as mais honradas a agarrarem o que pudessem.

Por fim, desistiu e entregou a prancheta a Venâncio.

- Fica por sua conta, tente impedir que roubem o armazém. Vou pedir ao Dr. Machado que me dê alguma coisa para acabar com este desconforto.

Dirigiu-se à pequena enfermaria onde Machado, um mulato de Luanda, e a sua equipa davam apoio clínico nas escassas instalações médicas da região. Machado também prestava cuidados clínicos aos voluntários.

Fez análises ao sangue e à urina e ficou deitada enquanto aguardava pelos resultados. A bola preta, era o que os colegas chamavam a apanhar qualquer coisa má. Toda a gente ficava doente, mais de uma vez, mas o pavor dela era apanhar algo permanente.

A mulher que lhe tirou a temperatura reparou no diamante em bruto que Marni usava ao pescoço. -

- Muito bonito - comentou ela. - É perfeito?

- É - respondeu Marni.

Sabia o que a mulher estava a pensar - era loucura usar uma coisa tão valiosa. Ela usava-o porque se sentia mais próxima de Win. Esfregou a pedra a pensar em Win e sentiu-se triste e só. Não era questão de estar apaixonada por ele. Não era difícil uma mulher apaixonar-se por ele. Mas sentia que estava a atraiçoar-se e às pessoas que viera a Angola ajudar. Os diamantes de sangue não eram uma abstracção económico-política para ela. Já vira demasiado do «sangue» derramado pelo negócio maldito, demasiados órfãos a vaguear pelas ruas, demasiados mutilados.

Podia perdoar a Win a sua ignorância quando ele estava em Nova Iorque ou Lisboa, mas ele já passara tempo suficiente em Angola para ver as terríveis consequências de trocar munições por diamantes. Era assassínio, assassínio em massa e em larga escala.

O Dr. Machado entrou, de sobrolho franzido.

Ela gemeu.

- Dê-me a má notícia, diga-me a verdade, apanhei uma doença permanente, um bicho que me vai comer viva.

- Só é permanente se quiser que seja. Inventaram o preservativo para este tipo de coisa.

- Meu Deus, tenho SIDA?

- Acho que o termo antiquado é: vai ter um bebé. Ela olhou para ele, boquiaberta.

- Estou grávida?

Ele abanou a cabeça e estalou a língua.

- Por favor, não me vai dizer que é outra imaculada concepção, ou que apanhou isto na tampa da sanita.

Ela recostou-se, com a cabeça na almofada.

- Meu Deus, estou grávida...

- Hora de alegria... ou de pensar num aborto.

- Um aborto? Não sei, não pensei nisso.

- Quando pensar, compreenda que tem de sair de Angola assim que possível, se decidir ter a criança. Não é um ambiente sadio para as mulheres autóctones que engravidam, e estas pelo menos têm resistência contra algumas das doenças que espreitam em cada bebida, comida ou pedaço de pele exposta.

Não havia nenhum processo racional significativo na decisão dela. Iria ter o bebé. Amava Win Liberte, de alma e coração, embora não quisesse admiti-lo. A criança na sua barriga era parte dele.

Tomou outra decisão. Não lhe diria nada do bebé. Não era egoísmo. Um homem mentiroso e indigno de confiança não poderia amar verdadeiramente uma criança. Ela tinha a certeza de que o próprio pai não a amava. Não ia permitir que a sua criança fosse emocionalmente maltratada como ela fora.

 

Tentei contactar Marni assim que cheguei de Istambul, mas disseram-me que ela voltara aos Estados Unidos. Fiquei surpreendido. No fundo, achava que ainda ficaríamos juntos. Devo ter sobrestimado a força dos seus sentimentos por mim - e subestimado os meus por ela.

Já chegara de Istambul há uma semana quando fui a Luanda esperar o voo em que Kruger vinha da Cidade do Cabo. Nem fomos à cidade. Pedi ao hotel que entregasse um almoço gourmet no aeroporto e fomos no meu avião fretado para a região diamantífera. Não queria que ele olhasse para Luanda e apanhasse o próximo voo para a África do Sul.

Era perigoso para Kruger andar na zona dos diamantes sozinho. Disse a Cross que não o largasse. Da maneira como funcionava a região mineira, se se soubesse que Kruger tinha um sistema para encontrar terra azul, raptavam-no e acorrentavam-no para o mandarem fazer prospecção.

Quando chegou o equipamento para Kruger, fui com Gomes entregá-lo. Enquanto Kruger supervisionava a instalação da maquinaria, chamei Cross de parte.

- Que te parece?

- Sabe-se lá. O gajo anda de um lado para o outro a falar com os seus botões e a dizer aos homens onde quer as máquinas. Não seria de estranhar que ele sacasse de uma varinha de vedor como as bruxas da água. A avaliar pela plataforma de perfuração bem podemos descobrir petróleo.

- Por mim, não fazia mal nenhum. Ouve, temos que falar. Expliquei-lhe tudo, a confusão com João, Bei e Jomba, a começar

pela morte de Bernie até à minha exigência do diamante de fogo e a saída airosa. Cross ouvia, inexpressivo. Eu não sabia como ele iria reagir. Precisava de Cross, ele sabia mais sobre negociatas, traições e negócios sujos em Angola do que eu tinha tempo para aprender.

- Bem, que é que achas?

- Interessante. Se eu fosse padre, mandava-te rezar cem Ave-Marias e começar a pensar na oração fúnebre para eu dizer no teu velório. Se eu fosse médico...

- Já percebi. O que isto quer dizer é que tens de tomar uma decisão. Ou estás comigo a tentar sobreviver ao caso Jomba... ou fazes as malas. Se ficares por cá, ainda te calha algum.

- «Calhar-me algum» tem uma conotação diferente na África equatorial. Por aqui, eles levam o meio quilo de carne do Shylock(1), literalmente. Não ficava cá por um milhão de dólares.

- E por dois milhões?

Isto deixou-o embasbacado.

- Diabos me levem!

- É a minha oferta. Ficas por cá, ajudas-me a sair desta confusão inteiro, quando chegarmos à terra azul ficarás rico.

Uma gargalhada formou-se no fundo da garganta dele.

- Sabia que havia um senão. Até há vários. Não basta tu teres de sobreviver, tens de estar inteiro. E depois a pequena contingência de chegarmos à terra boa.

Olhei para onde Kruger gritava para os mineiros que o ajudavam.

- Kruger tem uma coisa tão boa que a querem roubar. Esta mina é tão boa que fazem fila para a roubar. Parece-me uma combinação vencedora.

- O suficiente para apostar a vida?

- É isso que estou a fazer. Mas tu realmente já expuseste bastante o coiro. Se quiseres dar à sola, não te posso censurar.

- É um bocadinho lixado dar à sola sem sapatos de corrida. Se eu voltar à América, vou para Los Angeles, onde mora a minha irmã. Quando deixei o negócio do petróleo, não estava lá muito bem visto, por isso não será fácil arranjar um emprego decente. Sem dinheiro, seria só mais um a coçar esquinas à espera da próxima dose.

 

*1. judeu avaro e usurário da peça O Mercador de Veneza de William Shakespeare (1564-1616). (N. da T.)

 

- Pula, disseste-me que odiabo cobriu o preço da tua alma quando o João te ofereceu cinco milhões pelo negócio de diamantes de sangue. A minha alma tem muito mais mossas e falhas do que a tua. - Deu-me uma palmada nas costas. Negócio fechado.

Agarrou-me no braço e segurou-me antes de avançarmos para Kruger.

- Ocorreu-me agora que podes ser mais esperto do que pareces. Há uma carrada de jogadores neste derby, da Cidade do Cabo a Istambul. Não fizeste nenhuma vigarice do género de vender cem por cento da mina, pois não?

- Tens de confiar em mim.

- Que se lixe a confiança. Se achas que João e Jomba são cabrões fodidos, mete-te entre mim e o meu dinheiro que eu arranco-te o coração e dou-o a comer ao meu cão.

- O que eu mais gosto em ti, Cross, é saber sempre onde ficas... do lado ganhador.

- Tens algum plano? - perguntou. - Ou vais simplesmente atirar-te nas mãos dos deuses?

- Achas que há hipóteses de Jomba derrubar Savimbi com um golpe militar?

- Já vi Jomba, mas não vi Savimbi. Do que tenho ouvido, Savimbi podia comer Jomba ao pequeno-almoço. Savimbi é um herói nacional, pelo menos entre a facção rebelde, o que equivale à maior parte do interior. Jomba é um pit-bull com miolos, e está a puxar a coleira estranguladora que Savimbi agarra sempre que quer manter os coronéis na linha.

- Há golpes de coronéis com muito sucesso no mundo inteiro.

- Pois, mas geralmente marcham sobre um Governo civil. Savimbi poderá não alardear a sia maldade com tatuagens e enfeites no jipe, é demasiado esperto para se mostrar como maníaco homicida, mas, pelo que ouvi, é um assassino que mantém uma fachada de estadista. Por isso é que o presidente Reagan e a CIA injectavam tanto dinheiro nele. Pensavam que era um patriota idealista. As pessoas de cá conhecem-no melhor.

- Então, Savimbi é o nosso homem.

- O nosso homem para quê?

- Para lidar com Jomba.

- Merda, será que a febre dos diamantes te derreteu o neuroniozinho? Quando chegar a hora de escolher entre ti e Jomba, Savimbi ficará do lado do coronel por várias razões, sendo uma delas o facto de tu seres estrangeiro e não teres Exército.

- Quando Savimbi souber que Jomba conspira contra ele, Jomba passa à história.

-Talvez, e talvez tu cometas o erro de pensar como um ocidental. Ora vê lá isto: Savimbi descobre que Jomba conspira contra ele, mas Jomba tem Exército próprio. Ora os dois sentam-se à volta da fogueira e chegam a acordo relativamente ao inimigo comum, o Governo de Luanda, enquanto te assam no espeto.

- Então, temos de dourar a pílula ao Savimbi, dar-lhe uma boa razão para ele não entrar em acordo com Jomba.

- Qual é a boa razão?

Encolhi os ombros.

- Damos-lhe as armas que iam para Jomba.

- E como é que consegues isso?

- Rematamos.

- Pula, só se remata quando se tem um avançado que consegue chegar à baliza. Se a bola ficar aquém, cortam-te a perna que deu o pontapé.

- Okay, ainda não tenho um plano. Preciso de saber mais sobre Savimbi.

- Isso arranja-se. Tenho um amigo em Luanda que era contacto da CIA junto do Savimbi, quando o Governo de Luanda era comuna e Washington pensava que Savimbi era o George Washington africano.

- Ainda está na CIA?

- Nah, passou para a lista de deficientes e assentou em Luanda com a namorada angolana.

- Levou um tiro?

- Apanhou SIDA.

Kruger aproximou-se.

- Vocês escavam na direcção errada.

- Não percebo - disse eu. -

- Os túneis da mina, temos que mudar o sentido.

- Encontrou uma chaminé?

- Encontrei os mesmos indicadores que já examinei, mas agora sei a direcção em que se espalham. -Apontou para fora do terreno. - A chaminé poderá estar na sua propriedade ou na do vizinho. Saberemos depois de abrir um túnel.

-           Reza - disse eu para Cross. - Promete-Lhe qualquer coisa, mas pede-Lhe que nos deixe ganhar a lotaria.

 

Kruger tinha de voltar à África do Sul para trazer equipamento que precisava. Eu não o queria deixar sem mim ou Cross à perna. Aquela necessidade súbita de sair da zona calhou bem. Cross ligou ao amigo da CIA em Luanda e combinou o encontro para depois de deixarmos Kruger no aeroporto.

Voámos juntos para o capitólio. Assegurei-me de que Kruger estava a salvo no avião para a Cidade do Cabo antes de sair do terminal.

- Receias que alguém o rapte no aeroporto? - perguntou Cross.

- Estamos em Angola. Cross assentiu.

- Bem visto.

Falámos sobre Kirk, o ex-agente da CIA, a caminho do encontro, que teria lugar no apartamento dele.

- Há menos hipótese de sermos vistos do que se nos encontrássemos num bar ou restaurante.

- Como é que conheceste Kirk?

- T-shirt de Indiana. Tinha uma vestida no bar Presidente Meridien, em Luanda. Um gajo vem ter comigo e diz que andou na Indiana State, como eu. Começámos a comparar as coisas e descobrimos que vivemos no mesmo dormitório, com um semestre de diferença.

- Kirk é negro?

- Que te parece, pula? A CIA mandava para cá um branco de cara pintada para se fazer representar em Angola?

- Tens mesmo má-língua. Um dia destes dou-te um pontapé na boca. Disseste que Kirk é unha com carne com Savimbi desde o tempo em que a CIA tinha uma operação encoberta no país. Achas que ainda é íntimo dele?

- Era ele que arranjava armamento e dinheiro para Savimbi continuar a lutar contra o Governo.

Não é o tipo de coisa de que Savimbi se iria esquecer. Especialmente quando ele diz ao Savimbi ter um gajo que quer falar de armas e dinheiro.

- Por que é que ficou em Angola?

- Por que não? No que toca à mulher e aos filhos lá na terra, ele está morto. Enquanto conseguir controlar a doença, pode levar uma vida normal aqui. A mulher angolana que ele tem também está infectada, assim como milhões de outras mais. Aqui não tem de aturar os preconceitos que aturaria lá na terra.

Cross e eu tínhamos combinado uma história de que queríamos falar com Savimbi sobre «diamantes e armas». Achámos que era vago o suficiente. Eu estava inclinado a contar a Kirk o esquema todo, para ouvir a opinião dele sobre Jomba, mas Cross uivara de riso.

- És um cabrão ingénuo. Kirk tem de sobreviver neste país. Se lhe dizes que estás a enganar Jomba, Kirk vai dizer a Jomba que o proteja e à gaja dele.

- Mas tens fé em alguém? - perguntei.

- Pois tenho, no Washington, no Lincoln, no Jackson e na cara de quem estiver numa nota de cem... quanto mais alta, mais fé tenho eu.

O prédio de Kirk, numa zona que dava para o porto, estava a ser remodelado. A primeira coisa em que reparei foi na segurança. O porteiro que nos deu acesso estava por detrás de um balcão revestido a vidro à prova de bala. Não duvidei que tivesse uma AK-47 ou duas debaixo do balcão.

Apanhámos o elevador para o quinto andar e atravessámos o corredor até à porta do apartamento. Ia ser uma grande surpresa. Eu estava à espera de um sósia de Cross, um homem espadaúdo das metalúrgicas de Indiana. Kirk era baixo e magro. Não sei se encolhera devido à doença ou se era só muito mais pequeno. Tinha óculos grossos e cabelo grisalho. Parecia algo académico e nada do tipo James Bond.

A surpresa era ele ser duplamente amputado. Ambos os braços acabavam entre o cotovelo e o pulso. Do lado direito tinha uma prótese.

Maria, a sua mulher, era uma trintona atraente.

Uma rapariga amorosa com cerca de dez anos espreitou um segundo antes de Maria a levar dali quando nos sentámos para conversar.

- Cross disse-me que você quer encontrar-se com Savimbi e falar de negócios. E que é relativamente novato em Angola. O que sabe sobre Savimbi?

- Ouvi dizer que é rijo e mau.

- É isso e muito mais. Um carismático líder político adorado por dois milhões de pessoas neste país. Recebeu honras de chefe de Estado na Casa Branca quando só tinha um exército de maltrapilhos. Tem graus académicos de Portugal, da Suíça e da China e fala meia dúzia de línguas. E já queimou gente na fogueira.

- Qualidades de liderança maravilhosas - disse eu. - Deve ser louco.

- E é. Para compreender Savimbi, é preciso perceber por que é que este país tem mais de duas décadas de guerra civil, a seguir à guerra da independência contra os portugueses. A guerrilha para conquistar a independência começou por volta de 1961 e prolongou-se por catorze anos até ser derrubada a hegemonia colonial portuguesa em 1975. Os dirigentes coloniais portugueses foram escorraçados, mas aconteceu em Angola o mesmo que no México e na América do Sul, depois dos espanhóis serem expulsos. Os mestiços, de sangue misto, cuja maioria vive em centros urbanos, herdaram o Governo e a economia. As populações rurais eram exploradas economicamente e impedidas de exercer poder político. Isto criou ressentimentos e um vazio político.

«Savimbi colmatou esse vazio. Tornou-se o paladino dos camponeses, de milhões de pessoas. Com o apoio de Cuba, o Governo atacou Savimbi. Ele retirou-se para o mato numa «Longa Marcha» reminiscente da de Mao. Recobrou as forças e manteve uma guerra de guerrilha contra o regime de Luanda. É filho de um chefe de estação e conhece o funcionamento do sistema ferroviário angolano como a palma da mão. Usou esse conhecimento para atacar os ramais e interromper o fluxo de tropas e aprovisionamento militar. Ainda por cima, com o bloco comuna a apoiar o regime de Luanda, Savimbi tornou-se a coqueluche de Washington.

»Não tardou que o Governo de Luanda tivesse MIGs soviéticos com pilotos cubanos em missões de caça e destruição das tropas de Savimbi, e que este tivesse mísseis Stinger para abater os MIGs. Além da ajuda internacional, o Governo financiava a guerra com os poços de petróleo e Savimbi ficou com a região diamantífera.

- Ele alega ser cristão devoto, mas, se tiver algumas crenças religiosas sérias, são daquelas professadas por Satanás. Eu acho que deve ser uma espécie de marxista no seu âmago, mas inclinou-se para o capitalismo quando Washington sacou do livro de cheques. Gosta de contar uma piadinha de como a religião afectou Angola. Diz que, há séculos, quando os missionários chegaram a Angola tinham Bíblias e os angolanos tinham terras. Agora são os angolanos que têm Bíblias e os missionários terras.

- Do que ouvi - disse eu -, o acordo de paz entre Savimbi e o Governo é sol de pouca dura.

- Já anda nublado. É questão unicamente de recomeçarem os tiroteios. O Governo nunca dará a Savimbi poder substancial. Lembre-se, este gajo queimou adversários na fogueira, matou com as próprias mãos as mulheres e os filhos de quem lhe fazia frente. O que lhe parece que ele faria se chegasse a um cargo de poder em Luanda?

- Usurpava o Governo matando toda a gente - atalhou Cross.

- Exactamente, e seria o primeiro a usar as próprias mãos. Pense nisso, o líder político de milhões com as mãos sujas de sangue. Há tarados como Hitler que mataram milhões, mas nunca com as próprias mãos. Os únicos líderes assassinos de que me lembro são Gengis Khan, Estaline e Saddam Hussein.

Aproveitei para perguntar:

- Se está tudo gorado entre Savimbi e o Governo, poderá ser boa altura para o abordar com um negócio de mercadoria. Até que ponto o conhece?

- Eu era o testa-de-ferro da CIA com Savimbi em meados dos anos 80. Viajava com ele, baixando a cabeça quando as balas voavam e as bombas caíam. - Riu-se. - Reparei na sua cara quando abri a porta e você viu os meus braços.

Assenti com a cabeça.

- Cross não me tinha dito.

Cross encolheu os ombros.

- Raios, nunca reparei que não tinhas braços.

Kirk cuspiu uma golada de chá que estava para engolir e desatou à gargalhada. Quando acabou, limpou a boca.

- Desculpem. Ok., vamos a isto. Não sei qual é o negócio com Savimbi e, mesmo que me fosse dizer, eu não quero saber. Posso apresentá-lo a Savimbi, combinar uma reunião. Não sei dizer se o vai matar ou fazer negócio consigo. Quero cinquenta mil dólares americanos adiantados. Quero mais cinquenta se sair da reunião vivo.

Combinámos a coisa em diamantes em vez de dólares e saímos do apartamento. Quando estávamos dentro de um táxi, perguntei a Cross:

- Que aconteceu aos braços de Kirk? Cross riu-se, quase uma gargalhada.

- Não adivinhas?

De repente fez-se luz.

- Savimbi?

- Savimbi. Apanhou Kirk e um dos seus próprios homens com a boca na botija. Estavam a desviar armas fornecidas pela CIA para as revender. Foi Savimbi quem cortou os braços de Kirk.

- Jesus. Mas ele era da CIA.

- Sim, mas lembra-te do que Kirk quis deixar bem claro: o gajo é psicopata. Não se queima gente na fogueira sem uma personalidade seriamente perturbada, que não vem nos manuais de psicologia da anormalidade.

- Que aconteceu ao outro tipo?

- Não era da CIA. Kirk contou-me que Savimbi mandou empalar o gajo... vivo. E que violou a mulher à frente dele enquanto ele agonizava.

Cross inclinou-se e deu-me com o cotovelo.

- Vê a coisa desta maneira, pula. Tens tantos inimigos que Savimbi faz um favor a todos se te matar.

 

A reunião com Savimbi estava marcada para a semana seguinte numa zona rural do Maxico, no Sudeste do país. O quartel-general de Savimbi era num sítio chamado Jamba - não havia relação com o coronel Jomba -, mas Kirk disse-nos que ele nem sempre estava lá.

- Voamos até uma pista de aterragem na selva - disse-me Cross, transmitindo as instruções de Kirk. - O piloto só vai saber a localização exacta quando estivermos na região. Chegados lá, levam-nos para outro sítio.

Estávamos a preparar-nos para sermos levados por Gomes ao aeródromo onde encontraríamos a avioneta que Kirk arranjara, quando Cross me deu a má notícia...

- Jomba quer falar contigo.

- Merda.

- Fora de merdas, Zé. Se Jomba ouviu alguma coisa do negócio com Savimbi, bem podemos encomendar as alminhas ao Criador.

Jomba aguardava encostado ao jipe. Dei uma olhadela ao enfeite da capota. Não sabia se era a mesma caveira.

Lá estava o gajo a bater com a bengala no flanco enquanto caminhava.

- Recebi um telefonema de João Carmona. Disse-me que você criou um problema relativamente à troca.

- O gajo mente, não há problema algum.

- Por que razão diria ele uma coisa destas?

- Como digo, o gajo mente. Não há problema nenhum com o negócio, mas sim um desacordo entre nós relativamente a um diamante. Ele roubou-me um diamante valioso e eu vou recuperá-lo na troca. É só isto.

Ele parou e encarou-me, a mostrar-me aqueles dentes horrorosos. Os cornos tatuados brilhavam.

- Os seus problemas com Carmona não devem interferir com os preparativos já encetados.

Ficarei muito descontente se interferirem. Compreende?

- Compreendo que temos um acordo negociado. Se João lixar tudo, vá atrás de João.

Ele tocou-me no peito com a bengala.

- Se João lixar tudo...

Eu afastei a bengala.

- Não consigo pensar quando estou a ser ameaçado. Ouça, estamos nisto juntos, precisamos um do outro. Vir aqui pisar-me os calos não ajuda em nada. -,;

Juro que os malditos cornos ficaram roxos. Tinha a certeza de que o grande cabrão me ia matar ali mesmo. Mas podia apostar que levar o negócio de armas por diante era mais importante para ele do que pisar um insecto como eu.

Ele olhou para a mina e novamente para mim.

- Compreenda isto, senhor. Não quero saber do que faz com o Carmona, pode matá-lo, se quiser. Mas, se fizer algo que prejudique o acordo das minhas armas, eu destruo-lhe a mina, levo-o para um túnel escuro e faço-o sofrer tanto que até a sua alma irá gritar. Compreende o que digo, senhor?

- Compreendo.

Cross estava à minha espera à entrada da mina quando saí de ao pé de Jomba. Bateu a cinza do charuto e mirou a ponta incandescente antes de olhar para cima e abanar a cabeça.

- Mas que parte de «não chateies este demónio» é que não percebes? Podia ver pelos movimentos dele que ele estava prestes a arranjar um novo enfeite para o jipe.

- Foi só o facto de eu ser essencial para lhe arranjar as armas que o impediu de me esmagar a cabeça até me saltarem os olhos. Para quê matar um homem para mesquinha satisfação pessoal quando se pode conseguir um carregamento de armas e matar milhares?

- Não é preciso Jomba matar-me - declarou Cross. - De cada vez que ele aparece, eu perco anos da minha vida. Não tarda morro de velhice.

Sobrevoámos oitocentos quilómetros de África equatorial, sendo a maior parte um grande planalto que ocupa quase todo o Leste e Sul do país assim que deixámos a costa para trás. Kirk não ia connosco.

- Diz que não se pode dar ao luxo de perder as pernas também - esclareceu Cross.

Aterrámos numa extensão de terra batida onde nos esperava um Hummer e um jipe. Era uma zona quase de savana, não tão densa nem luxuriante como as florestas tropicais mais próximas do equador, mas ainda húmida e densamente arborizada.

- Ponham isto - disse-nos o piloto. Deu-nos umas máscaras de pano que pareciam do Dia das Bruxas.

- Por que temos de usar máscaras? - perguntei eu.

- Ordens. Não as tirem enquanto não vos mandarem. Não falem com os soldados nem com ninguém até verem Savimbi. Se falarem convosco, limitem-se a respostas curtas.

íamos em direcção às viaturas e eu deitei o barro à parede.

- Kirk não quer que sejamos identificados - afirmei. - Jomba deve ter espiões no quartel-general. Dois americanos iriam levantar suspeitas.

Os soldados que nos esperavam também deviam ter ordens para manter o bico calado, porque, além de «Boa tarde», não houve mais conversa nenhuma. O motorista e o gajo da metralhadora no Hummer conversavam em língua bantu enquanto eu e Cross olhávamos para a paisagem. Eu pensava que seria uma viagem curta até ao quartel-general de Savimbi, mas estava enganado. Andámos ainda uma hora naquele caminho estreito e depois saímos dele para um mato quase intocado por rodas de carros.

- Pelo que Kirk me contou - disse Cross -, Savimbi não se faz velho em lado nenhum. Deve achar que o Governo poderia resolver o diferendo político com um bombardeamento bem distribuído, se soubesse onde ele pára.

Estava a ficar escuro quando o Hummer entrou numa aldeia. Na densa folhagem que rodeava a aldeia viam-se viaturas militares e acampamentos de tropas dispersos.

O Hummer encostou à casa do chefe da tribo e nós saímos. Um póster em tamanho natural de Savimbi de boina com estrelas de general e camuflado estava pendurado na parede da guarita.

A imagem mostrava uma multidão a aplaudi-lo enquanto ele brandia o punho cerrado ao mundo.

Fomos recebidos por um oficial com uniforme da UNITA.

- Acompanhem-me - disse em português. Entrámos na casa e a porta fechou-se nas nossas costas.

- Podem tirar as máscaras agora.

A sala tinha iluminação temporária pendurada no tecto. Ouvia-se o barulho de um gerador nas traseiras. Estava a mesa posta para dois.

- Por favor - o oficial, com patente de major, apontou para as duas cadeiras. - O nosso líder deve estar a chegar. Ele deseja-vos bom apetite, entretanto. Vinho ou cerveja?

Ambos bebemos cerveja. O vinho podia ser duvidoso no interior. A cerveja estava fresca.

- O gerador deve dar para um frigorífico também - disse eu a Cross.

Acabada a refeição, voltou o mesmo oficial e ofereceu-nos brande e charutos. Momentos depois, entrava Jonas Savimbi, acompanhado pelo major. Era um homem imponente, com cinquenta e muitos anos, de cabelo curto e cerrado. Ao invés do póster, não tinha barba, mas sim bigode e pêra, as faces escanhoadas.

Esperava vê-lo fardado, mas ele vestia um fato desportivo e uma camisa desabotoada no colarinho.

A primeira impressão foi de um homem cheio de energia. Os olhos, a expressão corporal, o aperto de mão, tudo veiculava uma sensação de poderoso dinamismo. Longe de qualquer energia nervosa, ele irradiava determinação. Era carismático. Ao contrário dos políticos da minha terra, que compravam o acesso a altos cargos com promessas e negociatas, este homem tocara o coração de milhões de pessoas com a sua retórica - e fora para o mato de arma na mão para lutar por... convicções? Poder nu e cru?

Olhei para os seus olhos escuros e frios enquanto sorria e lhe apertava a mão, lembrando-me de que aquele homem também queimava gente na fogueira.

Ele foi directo ao assunto. Falava português melhor do que eu.

- Por que é que solicitou esta reunião? Pigarreei.

- Estou em apuros. Tenho uma mina de diamantes na zona do coronel Jomba.

- Sou oficial superior do coronel.

- Sim, por isso viemos cá. - Respirei fundo e desabafei tudo. - Cheira-me a esturro, só não conheço todas as implicações. Jomba chegou a acordo com um negociante de diamantes em Lisboa chamado João Carmona, e um traficante de armas em Istambul a quem chamam «Bei». Vão entrar diamantes doutro sítio, desconfio que da Serra Leoa. A minha função consiste em certificar os diamantes como angolanos para escaparem ao libelo de diamantes de sangue.

Parei e olhei para Cross. Ele agitou o brande no copo e encolheu os ombros.

- Continua, põe a outra pata na poça - disse ele.

- Acho que Jomba planeia um golpe militar.

Savimbi trocou um olhar com o major, mas nenhum revelou perturbação alguma.

- Por que acha que Jomba conspira contra mim?

- Foi assim que avaliámos as coisas. A mulher do João Carmona disse-me que Jomba tenciona assumir o comando da UNITA assim que tiver as armas na mão.

Savimbi assentiu.

- E que lhe disse Jomba?

-Nada. Ele olha para mim como se me tirasse medidas para o caixão. Savimbi riu-se.

- Duvido. Ele não costuma deixar um bocado suficiente para o levar a enterrar. - Recostou-se na cadeira e cruzou as mãos sobre

o peito. - Diga-me, senhor, por que veio até mim com esta informação em vez de prosseguir com os acordos.

- Não me entendo com João Carmona. Há discórdias entre nós que remontam ao tempo em que o meu pai viveu em Lisboa e fez negócios com ele. Ele roubou uma gema ao meu pai, uma jóia de família - menti -, e eu quero-a de volta. Faz parte do negócio entre João e Bei.

»Ouça, deixe-me resumir. Não me dei mal com Bei. Ele entrega as armas, eu encarrego-me dos diamantes para a troca. Não temos problemas. Mas receio que Carmona me mande matar pela minha parte no acordo.

Savimbi sorriu. O rosto nada revelava, mas eu pensei ver divertimento no seu olhar.

-A sua apreciação do Sr. Carmona é indubitavelmente correcta. Já tive oportunidade de fazer justiça sumária com ele. Deixei-o viver, amarrado a uma cadeira de rodas, porque cumpria os meus objectivos.

- Parece-me que o mundo ficaria melhor sem ele - disse eu.

- Qual é o balanço da sua mina? - perguntou ele. - Dizem-me que não desenvolve.

Hesitei. Não queria abrir uma caixa de Pandora dizendo-lhe que procurávamos uma chaminé de kimberlito. Mas o instinto dizia-me que não mentisse àquele homem.

- A mina é um sorvedouro de dinheiro, mas tenho um estudo geológico positivo que diz haver indicadores de diamantes no terreno. Se chegarmos a uma chaminé, poderemos aumentar os pagamentos à UNITA.

- O que pretende da transacção que diz haver entre Jomba e os outros? A parte de Carmona?

- Nada, nem quero a parte que me prometeram. Não quero ter nada a ver com Carmona. Não que chegasse a ver a minha parte; Carmona vai ter algo na manga para ma roubar. Acho que ele esteve envolvido na morte do meu tio em Nova Iorque e na criação de sérias dificuldades financeiras para mim. Não quero ter coisa alguma a ver com ele. Quero a gema que ele roubou ao meu pai e que me deixem em paz para começar a ter lucro com a mina. - Não mencionei que o Coração do Mundo era valiosíssimo. Seria como agitar um bocado de carne crua em frente de um leão.

Savimbi levantou-se.

- O conselho que lhe dou é que volte à mina e aja como se nada tivesse mudado.

- E Jomba e o negócio de diamantes de sangue?

- Você conseguiu enredar-se com gente muito perigosa, várias pessoas, Carmona, Bei, Jomba. Sugiro que não deixe que nenhum saiba que veio ter comigo. E que desempenhe as funções que lhe foram atribuídas.

- Mas então...

Savimbi virou-se e saiu.

O major apontou para dois beliches.

- Ficam cá esta noite e amanhã serão levados ao avião. Depois de ele sair, eu e Cross entreolhámo-nos.

- Que diabo - disse eu. - Não sei que raio aconteceu, mas há uma coisa positiva nisto tudo.

- Ai sim, qual é?

-           Ainda estamos a respirar.

 

Quando saímos do avião na pista de aterragem na zona dos diamantes, Gomes, o meu motorista, estava à nossa espera. Bem como outra pessoa.

- Raios me partam, ela está cá - disse Cross.

«Ela» era Simone. Com casaco de safari, botas e camisa branca, parecia saída de um filme de safaris. Mas para maiores de 18.

- Que surpresa desagradável - disse eu com sinceridade.

- Estava aqui perto e dei cá um salto. - Deu-me um beijo na face. Cheirava bem.

Apertou a mão a Cross.

- Ainda sou dono da mina? - perguntei a Gomes. - Ou esta mulher vendeu-a na minha ausência?

Ele sorriu e abanou a cabeça.

- A senhora chegou ontem e ficou nos seus aposentos. Maravilha. Pensavam que Simone era minha namorada. Se eu

tivesse segredos, ela agora conhecia-os todos. Uma maldita formiga não podia aproximar-se da mina sem ser revistada, mas a uma mulher bonita já dão as chaves da casa.

Fui para o banco de trás do Rover com Simone.

- Os preparativos da troca estão feitos - disse ela em inglês para Gomes não perceber.

- Quando? - perguntei.

- Amanhã.

Cross olhou para mim. Amanhã seria cedo de mais para Savimbi poder destacar tropas ou fosse lá o que fosse que tencionava fazer com Jomba. Eu teria de ligar a Kirk assim que chegasse à mina para ele contactar Savimbi, se estivesse disposto a isso. Na minha perspectiva, as coisas pioravam de cada vez que eu dava meia volta. Agora a minha vida ia para o inferno num cestinho de piquenique.

- Como é que se vai processar a coisa?

- Jomba preparou um campo para os aviões aterrarem. Antes disso, ele entrega-me as pedras. Examinamo-las no local e avisamos Bei por satélite de que está tudo certo. Tu certificas as pedras. Bei vem com a mercadoria. Damos-lhe a parte dele das pedras e os teus certificados.

- E tu e o resto das pedras? Vão-se embora com Bei? - perguntei eu.

- Não confiamos nele. Tenho um avião fretado no mesmo campo. - Apalpou-me o braço. - Não te rales, podes tirar a tua parte antes de eu me ir embora.

- Que acontece se as coisas não correrem bem entre Bei e Jomba? Se Jomba decidir ficar com os diamantes e as armas?

- Bei não é estúpido. Vai ter homens com ele. E os veículos armadilhados, se Jomba tentar alguma coisa.

Recostei-me e fechei os olhos, tentando descontrair no banco de trás. A vida era cheia de surpresas. Simone voara até lá na sua vassoura. O calendário da troca fora para o inferno. E eu descobrira que não podia confiar na minha salvaguarda.

Cross não fizera observações lascivas nem se ralara a perguntar quem era a mulher que estava à nossa espera.

Conhecia Simone.

Ora que chatice!

 

O guarda do portão na mina correu para o Rover assim que encostámos.

- A mina está inundada!

- Merda! Onde está Kruger?

- Na mina, com o capataz, a tentar fazer as bombas trabalhar.

- Leva a senhora ao meu apartamento. - Comecei a andar em direcção do poço quando ouvi as palavras dele.

- O coronel Jomba esteve cá e ficou muito irritado quando viu que o senhor não estava na mina.

- Tens razão - disse eu a Cross -, não se pode rematar quando nem sequer se está no campo.

O elevador começou a descer e o operário disse que só ia até metade.

- Que fazemos? Saltamos o resto?

- Não, senhor, descemos a escada.

- Não te rales - disse Cross -, se partires uns ossinhos é menos tempo que o Jomba vai precisar para te desfazer. Aah, olha, pula, não te posso ajudar. Vou ver da minha gente.

Sabia que ele estava a mentir. Provavelmente, ia brincar com a sua querida Simone e arranjar maneira de me servir de bandeja a Jomba.

Estava mesmo maldisposto quando o elevador pendurou. Era uma trabalheira não perder de vista os jogadores todos do desafio que o João começara. Só tinha certeza de uma coisa: estavam todos na outra equipa.

A zona da recepção no fundo do poço estava molhada, mas não chegava ao joelho.

- A água está mais à frente - disse-me um capataz -, mas as portas estanques estão a aguentar o maior volume.

Dei com Kruger com água pelo joelho, a bater com uma chave-inglesa numa bomba de água e a rogar pragas.

Parecia zangado e frustrado a ponto de ser capaz de dar com a chave-inglesa em cima de mim.

- Onde raio desencantou esta bomba? Parece uma coisa que Cecil Rhodes deitou fora no século xix.

- Vinha no recheio. Que aconteceu?

- A equipa de explosivos rebentou com um lençol de água. Tiveram sorte por não ser a morte deles. E você tem sorte por não terem destruído a mina toda. Quando disse que não percebia nada de extracção não estava a brincar. Nunca lhe ocorreu que não pode deixar os operários à solta cá em baixo?

Tinha mais a dizer, mas continuava a labutar na bomba e a falar para ela. Deixei-o lá e fui para cima.

Cross estava à minha espera. -

- Jomba esteve cá, Simone falou com ele.

- Óptimo. Quando é que eu dou sangue?

- Amanhã. Malta como o teu amigo Bei e Jomba gosta de apanhar o pessoal com as calças na mão. Não me parece que tenha a ver com a nossa visita a Savimbi. Se tivesse, Jomba teria esperado por nós e agora estávamos a berrar no Inferno. Gostam de fazer surpresas a toda a gente. Mas, olha, sabes que mais, tu tens uma lata do caraças. Fora de merdas, a maioria dos gajos já se estava a mijar toda. Vem por aí coisa mais cabeluda.

- Eu choro por dentro - disse. - Quero que leves Kruger para Luanda até isto rebentar. Arranjamos uma desculpa, qualquer coisa a verificar no ministério das minas.

- Mandas-me para o banco quando o jogo está prestes a começar? Nem penses, meu.

- É assim que vai ser. Rala-me mais Kruger do que este negócio todo.

- Eu estou ralado com o nosso negócio. Dois milhões, lembras-te?

- Pela tua cara, deves achar que não. Eu não lixo os outros. Disse-te dois milhões. Estejas em Luanda ou na troca, o teu negócio comigo é o mesmo.

Vim-me embora. Tirá-lo de campo antes de a troca acontecer era só uma desculpa. Não queria ter de me acautelar com mais uma faca. Quando lhe disse que os dois milhões ainda estavam na mesa para ele, não mentia. A não ser que descobrisse que ele me mentia.

Bati à porta do meu quarto e deixei que Simone abrisse. Ela vestira umas calças e uma blusa que não expunham nada - nem escondiam.

- És uma puta - disse-lhe. Ergueu as sobrancelhas.

- Que maneiras de falar com uma mulher casada. Se estivéssemos em Lisboa, João mandava cortar-te a garganta por me chamares isso. Exijo desculpas.

- Tens razão, não são maneiras de falar com uma mulher. Portanto, és uma cabra de merda. E o teu marido já te pôs mais rodagem na rata do que um carro alugado. Mamaste no Jomba quando te encontraste com ele?

Fui ao mini-bar e servi-me de uma dose pura do brande envelhecido de Eduardo. Ela seguiu-me, mas manteve distância.

- Estás de mau humor.

- Quem raio é que vocês pensam que estão a ver se lixam? Mas eu pareço ter saído agora das berças? - Abri-lhe a mala e tirei o telemóvel. Depois arranquei o telefone fixo da parede.

- Que é que pensas que estás a fazer?

- A partir de agora, pensa em mim como tua sombra. - Aproximei-me, demasiado irritado para deixar que a sensualidade dela me confundisse. - Vais sentar-te e contar-me tudo o que se vai passar com Jomba, Bei e o sacana do teu marido. - Ergui o telemóvel. - Pensa em mim como tua secretária. Recebes chamadas e eu vigio-tas.

Ela tinha olhos verdes e não pretos, mas a descrição que Shakespeare fizera da Dama Negra, a mulher fatal que levou as emoções dele ao rubro, veio-me à ideia. O Bardo de Avon parecia sentir-se inexoravelmente atraído pela Dama Negra - e quase temeroso dela.

- O que é que vais fazer se eu não colaborar? Se eu disser ao coronel Jomba que tu não queres colaborar?

Boa pergunta. Mas eu tinha resposta.

- Vou dizer-lhe que não precisamos de ti e do João, que quando ele agarrar nas armas pode ficar com a vossa parte dos diamantes.

Ela desatou a rir histericamente.

- Que foi agora?

Demorou um pouco a recuperar o fôlego. E depois desatou a rir outra vez.

- Já lhe disse - ofegou - que pode ficar com a tua parte.

 

Naquela manhã, mandei um Cross amuado levar Kruger ao aeródromo numa carrinha pick-up.

- Sinto-me posto de lado - disse Cross. - Podia ficar por aqui para identificar os bocados do teu corpo depois de o coronel acabar contigo.

Chamei Gomes, o meu motorista, de parte.

- Eu e a Dona Simone Carmona vamos a uma reunião - disse eu. - Levamos o Rover.

- Sim, senhor.

- Vou dar-lhe a escolher - continuei -, ou leva-nos ou fica aqui na mina.

- A escolher? Mas eu sou o seu motorista, senhor.

- Pode haver sarilho. Vai haver uma entrega de mercadoria para o coronel Jomba. Se não correr bem...

Não era preciso fazer-lhe um desenho. Ele conhecia o coronel Jomba e o sistema angolano de guerra melhor do que eu.

- Não há problema, senhor.

- Okay. Se eu me safar desta, recebes um ano de ordenado. Isto pôs-lhe um sorriso rasgado na cara.

Simone saiu dos meus aposentos com uma roupa diferente da que usara no dia anterior, da cabeça aos pés.

- Estás pronta para a máquina fotográfica disparar - disse eu.

- Esperemos que não haja disparos de máquina alguma.

Eu dormira no quarto que Carlota, a namorada de Eduardo, ocupara antes de eu a despedir. Tenho de confessar que me sentira tentado a esgueirar-me para o meu quarto e a meter-me na cama com Simone. Raios, bem podia ser a minha última refeição.

Ela ergueu os braços e afastou-os do corpo.

- Não me vais revistar?

- Não, confio em ti. - Isto fez-me rir à gargalhada o caminho todo até ao Rover.

Quando nos sentámos no banco de trás, ela perguntou:

- Tencionas contar-me a tua conversa com Bei?

- Ele só me disse a hora e o lugar - menti. Além dos preparativos para a troca, eu dissera-lhe que tinha de ter o diamante de fogo na mão antes de assinar um único certificado.

íamos a meio caminho do local da troca quando o telemóvel tocou. Era Bei.

- Jomba mudou a pista de aterragem - disse ele, e indicou-me o novo local. Era uma faixa de terra a dezasseis quilómetros em sentido oposto.

Dei a Gomes o novo ponto de encontro.

- Melhor para aterrarem aviões - disse Gomes. Abanei a cabeça e disse para Simone:

- Esta gente não corre riscos, pois não?

- Se tiverem a vida em jogo, não. Se Savimbi ou o Governo descobre da troca, vai haver derramamento de sangue, e algum será nosso.

Fomos mandados parar três vezes nos postos de controlo que os homens de Jomba haviam organizado. Não tínhamos papéis, mas, de cada vez que parámos, o soldado olhava para mim atentamente e comparava a minha descrição com o que tinha escrito num papel.

Quando chegámos à extensão de estrada escolhida para ponto de encontro, a zona fervilhava de tropas rebeldes e armas. Não somente metralhadoras montadas em jipes - vi tanques e lança-mísseis no mato. Parecia que Jomba estava pronto para guerra aberta. Ocorreu-me pela primeira vez que as armas a ser entregues podiam afectar uma guerra em que estava em jogo um país inteiro.

Um helicóptero negro, um vaso de guerra com rockets na barriga, sobrevoava o local.

- Bei - disse eu. Dissera-me que iria verificar pessoalmente o terreno antes de deixar os aviões aterrarem. Claro que não se referia somente à topografia.

Quando chegámos à zona de aterragem, vi Jomba a falar ao telefone num posto de comando, íamos nessa direcção, mas um oficial mandou-nos parar.

- Senhor, siga-me, os preparativos foram feitos. Levou-me a mim e a Simone para uma tenda com os quatro

lados levantados, de modo que só o topo dava sombra ao interior. No meio da tenda estava uma mesa tapada com um pano branco, uma cadeira, uma balança para diamantes e um candeeiro ligado a uma bateria, bem como baldes de três litros com tampa.

O oficial pôs um balde na mesa e tirou a tampa. Eu mantive-me inexpressivo, como se visse baldes de diamantes todos os dias. Eram pedras em bruto, claro, por lapidar, mas cada balde tinha mais valor do que o que a maior parte das pessoas ganhavam numa vida inteira.

O oficial apontou para uma pilha de certificados e disse:

- Queira começar.

- Quanto tempo tenho?

- Uma hora.

Sentei-me e deitei mãos à obra. Fosse qual fosse a perspectiva, vinte milhões de dólares em diamantes era imenso. Levaria dias a fazer o exame mais superficial, mas tinha só uma hora.

Deitei uma parte dos diamantes daquele balde em cima da mesa. O tamanho era fácil - bastava olhar para ver que tinham quase todos dois quilates ou mais. As pedras que eu examinava à lupa eram quase perfeitas e a cor era quase sempre branca. Havia algumas coloridas, a maioria amarelas, mas mesmo assim boas. Só pude fazer uma amostragem aleatória, mas assegurei-me de que examinava pedras de todos os níveis do balde. Assim que pesava e terminava um balde, passava para outro.

Quando a hora acabou, tocou o telemóvel.

- Estou cá em cima - disse Bei.

Saí da tenda e acenei para o helicóptero.

- Só consegui fazer uma amostragem aleatória, mas a mercadoria parece estar em ordem - gritei eu para o telefone.

- Óptimo. Não perca a mercadoria de vista. Não quero chegar a casa e descobrir baldes de pedra. Os meus transportadores irão aterrar por breves momentos. Depois de Jomba inspeccionar os vagões, eu fico com metade dos diamantes e respectivos certificados. Você e João ficam com a outra metade.

- Você recebe os certificados quando eu receber o diamante de fogo.

- Naturalmente. Não se aflija, Sr. Liberte, não tenho vantagem em enganá-lo... nem em matá-lo.

Depois de desligarmos, vi Simone a olhar para mim.

- És louco. João nunca te deixará ficar com o diamante de fogo.

- João está muito longe daqui.

Os transportadores chegaram, três jactos que aterraram um de cada vez na comprida faixa de terra batida. Enquanto cada um dos aviões aterrava, camiões do Exército saíam do mato e estacionavam junto às portas de carga. Eu pensara que o coronel Jomba não passava de um astucioso gangster fardado, mas, enquanto assistia à operação, ocorreu-me que, pelo menos, era um chefe militar competente. Tudo parecia desenrolar-se como um relógio.

Ainda com os aviões a serem descarregados, o helicóptero de Bei aterrou a escassos cem metros da tenda. O oficial que me estava a supervisionar recebeu a ordem para prosseguir.

- O coronel autorizou a libertação do pagamento.

Metade dos baldes foi carregada para um camião. Fiz sinal a Gomes, que trouxe o Land Rover, e carregámos o resto dos baldes. Seguimos no carro até ao helicóptero de Bei. Estavam quatro dos seus homens ao lado da máquina. Pareciam tão mortíferos como os de Jomba. Eu era o único sem Exército.

Bei desceu do enorme helicóptero quando parámos. Sorriu e fez uma pequena vénia a Simone.

- Minha senhora.

Ela retribuiu com um sorriso tenso.

Instalou-se outra mesa com um candeeiro ligado a uma bateria. Observámos enquanto outro homem saiu do helicóptero, sentou-se à mesa e começou a examinar as pedras dos baldes.

- Eu confio em si - disse Bei -, mas temos de ter a certeza de que os baldes não foram trocados nas suas costas.

Confiava em mim tanto quanto eu confiava nele.

Quando o diamantista acabou o exame, fez um sinal afirmativo com a cabeça. Bei sacou de uma bolsinha e passou-ma. Apalpei o conteúdo. Era o diamante de sangue. Não abri a bolsa.

Os homens de Jomba estavam por perto e eu não queria que vissem o que eu recebera. Entreguei os certificados a Bei.

- Adeus - disse ele, acenando enquanto subia para o helicóptero. - Boa sorte!

Adeus e boa sorte. Era exactamente o que eu lhe desejava.

- Vamos embora daqui para fora - disse eu para Gomes. Eu e Simone entrámos para o banco de trás e Gomes pôs o Rover a trabalhar. Jomba estava ocupado a receber as armas. Eu queria estar longe da vista e do coração antes que ele pensasse noutras coisas. E se os homens de Savimbi aparecessem, aquilo iria descambar em guerra aberta.

A mudança de local de aterragem podia ser a minha morte, pensei eu. Depois de saber por Bei que o sítio mudara, nunca tivera hipótese de ligar a Kirk para lhe dizer. Simone e Gomes estavam colados a mim. Qualquer um poderia dizer a Jomba que eu fazia jogo duplo.

Tinha os dias contados em Angola. Estariam sempre contados, se eu me deixasse ficar e Savimbi me pusesse a pata em cima. Assim que ele soubesse que o local da troca tinha mudado, pensaria que eu o tinha enganado de propósito.

Não tínhamos andado mais de uns quilómetros quando vi uma carrinha pick-up estacionada na estrada. Era a carrinha da mina com que Cross levara Kruger para o aeródromo. Cross estava encostado a ela. Devia ter deixado Kruger e regressado. Alguém o avisara de que o local da troca tinha mudado. Bateu-me como um relâmpago - Bei dissera-lhe. Por isso era tão fácil entregar-me o diamante e não a João. Ninguém contava que eu ficasse com ele.

Gomes começou a encostar.

- Continua a andar - gritei eu

.- Encosta - disse Simone.

- Sim, senhora.

Sim, senhora?

Senti qualquer coisa pontiaguda nas costas. Era uma pistola pequena e preta, o tipo de automática a que o meu pai chamava «pistola de senhora».

- Eu disse-te que me revistasses.

- Gomes, eu dou-lhe o dobro do que ela lhe ofereceu.

Ele abanou a cabeça enquanto encostava o carro junto a Cross.

- Desculpe, senhor, mas o que ela oferece só uma mulher pode dar.

Cross abriu a minha porta.

- Sai - disse ele.

Eu saí. Gomes saiu do lugar do condutor e Simone logo atrás de mim. Enquanto ela descia, Cross agarrou-lhe a mão que tinha a arma e dobrou-lhe o braço por trás das costas. Tirou-lhe a arma e empurrou-a para longe. Guardou a pistola dela e sacou de outra maior.

- Que estás a fazer? - perguntou ela.

- Deitem-se no chão - disse para ela e para Gomes -, barriga para baixo.

- Quando estavam ambos no chão, ele perguntou-me:

- Onde estão os diamantes?

.-.: Apontei com a cabeça para a traseira do Rover.

Ele abriu a bagageira e destapou um balde.

- Jesus Maria José. Era uma visão fantástica, baldes de diamantes.

Ele sorriu para mim.

- Quanto valem estes baldes?

Encolhi os ombros.

- Talvez oito, dez milhões.

- Sócios? - perguntou ele.

- Eu disse-te dois milhões. É metade da minha parte. Se ficares com a do João, não viverás para a gozar.

- Posso correr esse risco.

- Não há lugar da terra onde te possas esconder - disse Simone deitada no chão.

Ele ignorou-a.

- Tu decides, pula. Ficamos com tudo? E o deles também?

O ficamos encheu-me de alívio. Ele estava do meu lado.

- Vamos ser ricos, mas não gananciosos.

- Tens razão. Podes levantar-te, cabra.

Ela levantou-se, gritando para Cross com palavreado de rua que espantaria até a sua filha Jonny.

De repente, tínhamos companhia. Jipes por todo o lado. A primeira pessoa que vi foi Jomba, no jipe enfeitado com a caveira.

Depois vi quem estava sentado ao lado dele e quase me borrei todo.

Era o major, o mesmo que tomara conta de nós no quartel-general de Savimbi.

Cross também percebeu, olhou para mim e disse:

- Acho que estamos fodidos.

Jomba e o major saíram do jipe e encaminharam-se para nós. Ambos sorriam.

- Saiu à francesa, Sr. Liberte, mas trouxe os meus diamantes consigo, íamos agora à mina buscá-los, mas poupou-nos esse trabalho. Levem os baldes - disse para os seus homens.

Simone intrometeu-se.

- Aqueles diamantes pertencem ao meu marido. Se lhes tocarem, faço um telefonema para Savimbi a dizer que conspiram contra ele.

Ambos desataram à gargalhada. Jomba batia no chão com a bengala, dobrado de tanto rir.

Eu e Cross entreolhámo-nos e percebemos tudo. Simone ainda não tinha percebido. Agarrei-lhe no braço e puxei-a para longe de Jomba. Aquela língua viperina ainda nos ia matar.

- Bico calado! - disse eu.

Ela não era estúpida - e calou o bico.

Quando os baldes acabaram de ser transferidos, Jomba chamou Gomes. Eram visíveis as gotas de suor na testa do motorista quando se dirigia ao coronel. Jomba pôs o braço nos ombros de Gomes e levou-o até à beira da estrada.

Deu-lhe um tiro na cabeça. O corpo de Gomes caiu para trás na estrada.

Jomba guardou a arma e abanou a cabeça.

- Era os meus olhos na mina, agora tenho de o substituir. Nunca me trairia por dinheiro, mas, como todos os homens, era fraco no que toca a mulheres.

Bateu-me com a bengala no peito. Desta vez nem tentei afastá-la. Preparava-me para morrer.

- Quer a mulher morta? - perguntou.

- Não - a voz tremia-me. - Não quero.

- Okay, eu dou-lhe a mulher. - Riu-se, pôs a mão na braguilha e fez movimentos lúbricos. - E Savimbi diz que pode ficar com a mina. Eu fico com os diamantes.

Jomba e o major riam à gargalhada enquanto seguiam para o jipe.

Sentia os joelhos fracos. Sentei-me ao volante do Rover. Cross começou a entrar para o lugar do passageiro, mas mudou de ideias.

- Tu vais à frente - disse para Simone. - Bem podes ter uma arma metida na racha.

- Aquele parvo do Jomba - disse ela. - João vai dizer ao Savimbi que o gajo conspira contra ele. Nunca chegará a gozar o que nos roubou.

- Ainda não percebeste - disse-lhe eu. - As armas são para Savimbi. Jomba não está contra ele mas sim com ele.

- O que é que queres dizer?

- O acordo de paz entre Savimbi e o Governo está a ir para o galheiro. Savimbi precisa de armas, tem diamantes para as comprar, mas não o pode fazer abertamente. Combina um negócio em que Jomba é que dá a cara. Usa diamantes angolanos, os que tem recolhido das minas ao longo dos anos. Nem era preciso certificar os diamantes, eram todos angolanos. Era tudo uma farsa, não fosse o Governo descobrir. Se isso acontecesse, Savimbi alegaria que Jomba conspirava contra ele.

Fomos directos ao aeródromo onde estava o charter de Simone. Não falámos mais durante a viagem. Quando chegámos, ela saiu do carro sem uma palavra. Cross e eu já íamos a meio caminho da mina quando ele soltou um grande suspiro.

- Foda-se, fui rico por um minuto. Uma carrada de diamantes e eram todos meus. Tinha a minha ilha, a Riviera, mulheres lindas, tudo e mais alguma coisa na palma da mão. Agora tenho de voltar a bater punhetas.

- Ainda tens um bocado da mina. Era a vez de ele desatar à gargalhada.

- Pois, e toda a água barrenta que eu conseguir beber.

 

Kruger voltou no dia seguinte, amaldiçoando-me por ter perdido tempo com uma viagem para Luanda.

- Estou farto deste maldito país e da sua maldita mina. Assim que puser esta coisa seca, vou-me embora daqui para fora.

Pouco vi Cross naqueles dois dias seguintes ao nosso regresso. Nenhum de nós queria falar sobre a forma como havia perdido a sorte grande. Percebia o suficiente para ver que eu tinha sido o melhor pagador, caso contrário ele ter-se-ia virado para Simone.

- Fiz um acordo para ajudar no negócio de diamantes de sangue antes de tu chegares a Angola - dissera ele à guisa de álibi. E tinha razão. Tinha concordado em lixar-me antes de me conhecer. Moralmente deve ser mais fácil lixar um estranho do que um amigo.

Cross não sabia que eu tinha o Coração do Mundo. Mantive isso só para mim. Quando estava sozinho no meu apartamento, examinava a gema como se fosse um rapazinho a ver revistas eróticas às escondidas. Jomba também não sabia do diamante, caso contrário eu teria ficado com Gomes à beira da estrada.

Sentia o poder da gema quando a pesava na mão e ela me inundava de fogo. Quando a examinava com a lupa era como olhar para o coração de um vulcão. Nada do que alguma vez tivera - carros, barcos, dinheiro, mulheres - me afectara como o diamante de fogo.

Se pensasse mesmo nisso, acho que mataria quem mo tentasse tirar.

Jantei finalmente com Cross ao terceiro dia depois de voltarmos à mina. Também convidara Kruger, mas ele mandara dizer lá de baixo que eu podia meter o jantar no mesmo buraco onde ele tencionava meter a própria mina.

O jantar foi tão alegre como um velório protestante. Cross estava amuado e bebera de mais. Eu também não tentei animar a festa.

- Vou para casa - disse Cross. - Quando Kruger for, vou também.

- Também estás farto de Angola.

- Achava que as coisas eram difíceis em Michigan City, mas, deixa-me dizer-te, pula, os meus amigos de infância que entram e saem da prisão são meninos de coro, comparados com os cabrões que regem... e lixam... este país.

A porta abriu-se de repente e Kruger entrou. Eu resmunguei em protesto. Parecia que acabara de rastejar para fora de um buraco, o que na verdade acontecera. Eu nunca vira o homem a sorrir.

Chegou-se à mesa com um bocado enlameado de minério nas mãos. Achei por um momento que me ia dar com aquilo na cara.

- Isto veio do maldito túnel que ficou inundado.

- Foi o que causou a inundação?

- Você é o pior gerente de minas que eu já vi, merda. Não sabe distinguir o seu cu daquele buraco no chão.

Suspirei. Trouxera o pobre diabo para uma zona de guerra e enfiara-o trinta metros abaixo do chão durante semanas. Tudo à caça de gambozinos. Não o podia censurar por me querer atirar com a terra às trombas.

- Sabe que mais? - disse eu. - Eduardo tinha razão, meter mais dinheiro neste sítio é bom dinheiro em cima de mau dinheiro. E eu já não tenho nem bom nem mau. Acho que devíamos todos desistir e ir embora.

- Desistir, os tomates! Nunca depois de eu achar uma chaminé. Cross e eu ficámos paralisados. Olhei para o bocado de terra

cinza-azulada que Kruger tinha na mão.

- Vocês dois são tão estúpidos que nem sabem o que é terra azul quando a vêem. Você é um homem muito rico, Sr. Liberte. - O rosto dele iluminou-se num largo sorriso. - E um raio me parta se não somos todos.

 

ANTUÉRPIA  E  PARIS

A Senhora Azul fez-me rico, mas não conseguiu prolongar a minha esperança de vida enquanto aquela delicada paz - a que Cross chamava paz podre - entre a guerrilha de Savimbi e o Governo se dissolvia.

Levámos um ano a chegar à chaminé de kimberlito na terra azul. Quando chegámos, o corno da abundância começou a transbordar.

- Temos de sair deste pedaço de inferno que passa por ser um país antes de estarmos mortos de mais para gozarmos a riqueza - disse Cross, após um tiroteio à porta da mina entre rebeldes antagónicos que queriam a mesma «renda».

O único conforto que eu tinha em Angola era o facto de ser mais difícil o João matar-me. Eu fizera tudo menos mijar na campa dele, coisa que faria se lhe sobrevivesse. Uma coisa eu sabia do sangue que herdara da minha mãe: os portugueses não perdoam nem esquecem. E adoram uma boa quezília de família, a maneira como eu acabara por classificar a disputa pelo diamante de fogo.

Sabia que voltaria a ter notícias de João. Só pedia ao diabo que me deixasse ver a faca antes de ele ma espetar nas costas.

- Vamos embora - disse eu a Cross. - Arranja-nos um avião.

- Onde vamos?

- Antuérpia.

- Onde raio fica isso?

- França, Holanda, Bélgica, raios me partam se eu sei, um desses países, nunca fui bom a geografia. Só sei que grande parte dos melhores diamantes do mundo passa por lá. O meu pai e Bernie tinham negócios com um diamantista na Bolsa de Antuérpia. Telefonei-lhe um dia destes e pedi-lhe que me arranjasse um comprador para a mina. Ele tem uma oferta.

- Quem diabo vai querer comprar uma mina de diamantes numa zona de guerra?

- Bernie quis.

Cross fretou um grande jacto executivo de uma companhia francesa. Quando embarquei vi que ele não se poupara a mimos. Havia champanhe, caviar, um chefe cozinheiro, quartos e quatro mulheres de virtude fácil.

- Quatro? - perguntei eu a Cross.

- Duas para mim, duas para ti. - Sorria e soprava fumo na minha cara. - Não ias negar dois bifes a um homem esfomeado, pois não? Pula, há tanto tempo que ninguém me chupa nem fode que a minha pila bem pode matar uma das gajas, por isso tenho uma de reserva.

Quem era eu para negar alguma coisa a um esfomeado?

 

Mostrei o diamante de fogo a Cross dentro do avião.

- Filho da mãe espertalhão - disse ele. Por que é que não me contaste?

- Conto-te agora.

Havia uma comissão de boas-vindas no aeroporto em Antuérpia. Asher van Franck, o meu contacto diamantista na Bolsa, entrou no avião com um inspector da alfândega. Falava inglês com um sotaque carregado. Tratara de tudo para passarmos pela alfândega em privado devido ao valor do diamante de fogo.

- Tenho o carro blindado, os guardas e as câmaras de televisão da CNN, conforme solicitou. Fora mais difícil conseguir as câmaras do que os guardas.

Franck era um homem alto, magro, com pelo menos dois metros de altura. Já passava dos sessenta anos, mas imaginei que na juventude tivesse jogado basquetebol, no tempo em que os brancos ainda o faziam - se é que se jogava na Bélgica, que eu descobri por acaso ser o país onde ficava Antuérpia, pelo pessoal de cabina. A outra aula de geografia que eu tive foi ao saber que a cidade era o segundo maior porto da Europa, apesar de ser num rio a oitenta quilómetros do mar do Norte.

A barba de Franck, os caracóis nas têmporas e o barrete exibiam o facto de ele ser judeu ortodoxo, o que não constituía uma afirmação cultural surpreendente, visto a história mostrar que grande parte do comércio de diamantes de Antuérpia estava sob o seu controlo.

Apresentei-o a Cross e reparei que Franck olhava de soslaio para o quarteto feminino à espera de desembarcar.

- Não se rale que elas esperam até as câmaras noticiosas desaparecerem para saírem do avião - garanti-lhe eu.

- Qual é a excitação? - perguntou Cross. - Não teria sido melhor entrarmos na cidade de mansinho?

- A publicidade nunca fez mal nenhum a um diamante. Eu tenho um que pertence à coroa de um rei. Vou aproveitar ao máximo. Caraças, vamos deixar que os jornalistas saibam que tive uma oferta de um rei.

- Qual rei? - perguntou Franck.

- É confidencial. Tão confidencial que ainda não sei qual é. Cross lançou-me um olhar que dizia que não estava nada

contente por eu não ter discutido os meus planos com ele. Mas ele deixara bem claro que estava farto de diamantes e só queria vê-los nos dedos de uma mulher - enrolados à volta da verga dele. Apontou-me o dedo:

- Quando conheci este gajo, não sabia distinguir o cu dum buraco no chão. Agora vejam só, o grande magnata.

Pobre Franck. Parecia algo desagradado. Não me parece que as várias décadas de trabalho com Bernie e o meu pai o tivessem preparado para a comitiva que eu trazia.

Ainda não decidira o que ia fazer quando fosse grande. Se a venda da mina fosse para a frente, eu sairia da Senhora Azul com mais de quarenta milhões de dólares na algibeira. E um dos mais valiosos diamantes do mundo - que não estava à venda.

O diamante de fogo era uma ligação com o meu pai.

Eu já não era a mesma pessoa. Angola mudara-me. Não sei o que me aconteceu naquela região devastada. Talvez trabalhar para viver mudasse as pessoas. Eu tirava mais satisfação de ver a mina a funcionar do que do dia de pagamento. E agora que sentia o sangue a correr-me nas veias, não tinha a certeza de estar pronto a voltar a ser o palerma irrelevante e irresponsável que Marni me julgava ser. Não que ela estivesse enganada ou que eu quisesse mudar por essa razão. Gostava principalmente da sensação de concretização. Dava-me significado à vida. Os meus pais ficariam orgulhosos pela maneira como eu gerira a mina e a pusera a ganhar. Isso significava mais para mim do que o dinheiro ou a opinião de outrem.

- O diamante está nesta pasta - disse eu para o chefe da segurança quando embarcámos, em francês. Franck traduziu a frase para algo que soava como francês, mas o segurança percebera-me. - Quero as vossas armas automáticas prontas quando eu descer as escadas e puser o diamante no carro blindado.

- Não há problemas de segurança, o seu diamante está seguro em Antuérpia - disse ele.

- Não me interessam os problemas de segurança. Quero que o transporte seja dramático o bastante para vir nas notícias da noite e nos jornais da manhã. Não é preciso apontar armas à equipa de televisão, basta que ela perceba estarem prontas a cuspir chumbo.

Quando estávamos em segurança dentro da limusina e a caminho do hotel, Franck contou-me dos preparativos que fizera na Bolsa de Antuérpia.

- O seu diamante de fogo é assunto de todas as conversas na Bolsa. Eu limitei os convites de propósito para a recepção onde se vai exibir o diamante. As pessoas atropelam-se pelos convites como se fosse um casamento real. Vai levar ao rubro o preço de venda.

- Não estou preparado para vender o diamante. Franck ergueu as sobrancelhas.

- A sério? Então para que é esta promoção e exibição toda? Ouvi dizer que tem uma oferta do americano magnata dos computadores, aquele que dizem ser o homem mais rico do mundo.

- Sim, se não está à venda, para que é o estardalhaço? - secundou Cross.

- Estou a pensar meter-me no negócio dos diamantes. O Coração do Mundo seria o centro do negócio. - Ainda não dissera a Cross o que tencionava fazer.

- Mas tem estado no negócio dos diamantes toda a vida - atalhou Franck. - Já nasceu nele.

- Está-me no sangue, mas não na cabeça. Estou a pensar revitalizar a Casa Liberte, talvez mesmo expandi-la em lojas.

Franck olhou-me como se eu tivesse dito que queria abrir uma criação de cobras.

- Lojas? Esse é um mundo completamente diferente do que o seu pai ou eu alguma vez estivemos envolvidos. Cartier, Tiffany, Winston, Bvlgari, estão anos... séculos... à frente da concorrência. Percebo se quiser ser comprador convidado...

- Não vou ser comprador convidado, não me agradam as restrições. - Não lhe disse, mas era demasiado parecido com o negócio em si. Os diamantes podem ser excitantes, mas a negociação, as pechinchas e os choradinhos não eram para mim. Eu queria construir algo, como fizera com a mina. Ser como Leo, passar o dia de telemóvel na orelha a comprar e a vender tinha menos interesse para mim do que a criação de cobras.

- Poderão não lhe agradar as restrições de ser comprador convidado da De Beers, mas seria um caminho para entrar no negócio de diamantes em grande. Como dono de uma mina e detentor de um dos mais grandiosos diamantes do mundo, não teria problemas em receber convite para se lhes juntar.

Eu conhecia a actividade de comprador convidado. Os compradores convidados eram os únicos a poder entrar nas dez compras - que eram vendas-de diamantes realizadas pela De Beers. Grande percentagem dos diamantes do mundo passava por estas dez vendas que a De Beers realizava em Londres todos os anos. A partir daí, a maioria das pedras ia para Antuérpia para lapidar, embora em Israel e Nova Iorque também houvesse lapidação. Na índia lapidavam-se mais diamantes do que no resto do mundo, mais de oitenta ou noventa por cento, mas a produção era maioritariamente de pedras pequenas e areias.

Havia um número limitado de compradores convidados, cerca de cento e quarenta ou cinquenta. Com milhares de diamantistas no mundo inteiro, ser um dos poucos privilegiados a comprar na De Beers era prestigiante. E lucrativo. Leo daria o testículo esquerdo para ser comprador convidado. Mas a coisa não era para mim. Era sempre a mesma rotina, e havia regras a respeitar. Era como se me alistasse no Exército, havia disciplina - e eu era péssimo a fazer continência. Além disso, havia o não conformismo do meu pai em relação à De Beers e ao jugo que exercia no mundo dos diamantes. Eu queria edificar o meu próprio império sem estar debaixo do pé do Grande Irmão.

- Não vou ser comprador convidado e não vou comprar exclusivamente à gente da De Beers. Quero desafiar a De Beers.

- Jesus - assobiou Cross -, o homem está doido. Franck ficou cor de púrpura.

- Está a falar de uma empresa que detém e controla a maioria dos diamantes do mundo. Desafiá-la, como diz, seria o equivalente a um ciclista competir com um Ferrari.

-Você vê-os como reis da estrada, eu vejo-os como gordos e vulneráveis. Nem sequer podem fazer negócio na América por serem um monopólio.

- Ainda controlam a maior parte do negócio de diamantes na América. Podem não vender diamantes no país, mas os que são lá vendidos fazem parte maioritariamente das existências controladas pela De Beers.

- Como é que pensas fazer isso? - perguntou Cross.

- Ainda não sei, mas sei que, se queremos apanhar um bocado do negócio de diamantes, não vamos atrás de trocos, nem entramos na linha e recebemos ordens da De Beers. A De Beers tem o negócio. Biliões dele. Eu quero uma fatia.

- Como é que a De Beers controla a indústria diamantífera mundial? - perguntou Cross a Franck. - Há mais casas a fazer extracção.

- Muito resumidamente, controlam os preços ao controlarem a produção e a distribuição.

- Não controlam a mina de Win. Vendemos os diamantes sem a autorização da De Beers.

- Certo - anuiu Franck -, pode-se vender e comprar diamantes em qualquer parte do mundo sem a autorização da De Beers, mas isso faz-se literalmente nas condições deles.

- Como disse? - interpelou Cross.

- Os diamantes são uma mercadoria, especialmente a nível grossista. Como os cereais ou o combustível, os grossistas pagam essencialmente o mesmo preço pela mesma quantidade e qualidade de diamantes. São extraídos e graduados e avaliados da mesma maneira nos quatro cantos do mundo. A cada cem anos poderá surgir um diamante mesmo único, uma enorme pedra ou o diamante rubi que Win possui, mas, regra geral, as pedras em bruto da mesma qualidade são indiscerníveis entre si, como espigas de milho. Podem constituir artigo de moda uma vez lapidados e engastados em configurações exclusivas, mas, ao invés da roupa que uma mulher veste, o preço razoável de um diamante não se baseia em quem o vende nem no artifício do engaste, mas sim no tamanho e na qualidade.

»A nível grossista, e dado que são indiscerníveis, um diamante do mesmo tamanho e clareza vende-se ao mesmo preço que milhões de outros diamantes da mesma qualidade. Os diamantes de África vendem-se ao mesmo preço que os extraídos na Rússia, no Canadá ou na Lua. Dado que os diamantes são uma mercadoria, como lombo de porco ou algodão, os preços estão sujeitos aos caprichos da oferta e da procura. Quando há uma boa colheita, literalmente todos os diamantes de tamanho e qualidade idênticos baixam de valor. Quando a oferta é pouca, todos aumentam de valor. Não é possível evitar as flutuações de mercado só porque os nossos diamantes são melhores do que outros.

- E assim a De Beers controla o mercado - rematei eu. - Podem manipular a oferta e a procura. - O comentário dirigia-se a Cross.

- Exactamente - corroborou Franck. - Suponhamos que a Casa Liberte quer competir com eles. A De Beers dispõe de vastíssimos recursos, é uma empresa que ascende a vários biliões de dólares. Pode reduzir a oferta de diamantes no mercado, aumentando o preço por quilate que a Casa Liberte tem de pagar pelos seus diamantes.

- E - disse eu - assim que eu pagar o preço mais alto, eles inundam o mercado de pedras, precipitando o preço por quilate, o que me deixa com as calças na mão.

Cross abanou a cabeça.

- Têm esse poder todo?

- Têm esse poder todo - respondeu Franck. Não é que o usem dessa forma. Estamos a falar em hipóteses. Suponhamos que a Casa Liberte os desafia a controlarem parte do mercado grossista de diamante do mundo inteiro. Se manipularem a oferta e a procura terão uma poderosa arma do lado deles durante a batalha.

Cross deu-me com o cotovelo.

- Talvez seja melhor fazeres-te ao mercado do lombo de porco, pula. Ao menos poderás comê-los, se não os puderes vender.

Encolhi os ombros.

- Quem sabe? Talvez vá à Rússia. Há lá minas de diamantes que não são controladas pela De Beers.

Franck abanou a cabeça.

- Meu amigo, se achou Angola perigosa, acharia a Rússia ainda mais. Angola é um país jovem, povoado por gente simples que não sabe lidar com os recursos naturais e as responsabilidades governamentais que lhe caíram em cima subitamente. A Rússia é um país antigo que, ao longo dos séculos, elevou a ganância e o assassínio ao estatuto de arte.

 

No dia seguinte desci a Hoverniersstraat na baixa de Antuérpia. À semelhança da Bolsa de Nova Iorque, a de Antuérpia era incaracterística. Entre três ou quatro ruelas, não tinha brilho nem esplendor, nada havia que distinguisse a área de quaisquer outras da baixa.

- É difícil imaginar que a maioria dos diamantes do mundo, talvez tanto como nove em cada dez, passe por Antuérpia - comentei eu.

- Sim, mas nós lapidamos diamantes há mais de quinhentos anos, antes de a América ser descoberta... e saqueada. Nova Iorque, Hong-Kong, Taiwan, Tailândia, o Ramat Gen ao largo de Telavive, a vasta produção de Mumbai e Surat na índia, todos mordiscaram na mesma tarte, mas Antuérpia ainda é rainha das senhoras dos diamantes.

íamos a uma reunião com o corretor que tinha comprador para a Senhora Azul. Eu partira do princípio de que o corretor seria judeu ortodoxo como Franck, dado que controlavam a indústria de Antuérpia. Mas estava enganado.

- Vai conhecer o Príncipe dos Sinjorens - disse Franck. - Sinjoren é uma expressão que remonta ao tempo em que Antuérpia fazia parte do vasto império espanhol. A aristocracia da cidade acabou por se chamar Sinjorens, palavra derivada do espanhol «senores». Ainda hoje se chama Sinjorens aos homens das famílias antigas da cidade que têm dinheiro. Maurice Verhaeven tem o sangue mais antigo e a carteira mais gorda. É surpreendente que tenha feito sozinho grande parte deste dinheiro, pois não herdou mais do que a linhagem e o nariz de patrício romano.

- Disse que não podia usar um judeu como intermediário da mina. Suponho que o comprador seja árabe.

- Sim, sim, supõe muito bem. - Deu-me uma olhadela pelo canto do olho. - Observação astuta.

Espalhei o boato na Bolsa de que estava interessado em vender, mas que não havia compradores devido à situação em Angola. Também deixei que Verhaeven soubesse porque ele tem contactos na Europa de Leste, na Rússia e no Médio Oriente. Não sei quem é o comprador, mas ou é russo ou é árabe. São as únicas duas nacionalidades com o tipo de dinheiro necessário para adquirir uma mina de diamantes. Verhaeven tem sido intermediário de vários negócios de diamantes entre árabes e judeus, por isso não me espanta que venha a ser árabe.

A reunião realizou-se num gabinete da Beus voor Diamanthandel, o clube diamantista chamado «o casino».

Franck parou quando chegámos ao edifício.

- Tenho que lhe dar um conselho acerca de Verhaeven. Tenha cuidado. Recordo-me de uma expressão do seu país sobre fazer negócio com um negociante astucioso, qualquer coisa como contar os dedos depois de lhe apertar a mão. O mesmo se aplica a Verhaeven. Mas em Antuérpia contam-se as mãos.

Soltou uma risadinha e explicou enquanto caminhávamos.

-Antuérpia tem um gigante lendário chamado Antigon. Antigon guardava o rio Scheldt na antiguidade e exigia tributo a todos os barcos que subissem ou descessem o rio. Se o capitão não pagasse tributo, Antigon cortava-lhe uma das mãos. Foi assim que a cidade ganhou o nome «Antuérpia». Significa algo como tomar ou atirar fora uma mão.

Ocorreu-me que o gigante Antigon se teria safado melhor se tivesse abalado para Angola ou Serra Leoa. Savimbi e os da sua laia ter-lhe-iam ensinado umas coisinhas sobre cobrar tributos.

Verhaeven tinha mesmo um nariz de patrício romano, e olhava do alto dele para o resto do mundo. Representava o papel de príncipe dos Sinjorens com aprumo real. Trajava de seda cinzenta, camisa azul-clara de colarinho branco, gravata amarela e sapatos castanhos-escuros com berloques. Parecia ter saído do cenário de um filme dos anos 40. O aperto de mão era caloroso, os olhos penetrantes, o francês perfeito.

Gostei dele imediatamente, mas pude ver por que razão Franck me avisara. Havia duas maneiras de vender neste mundo: com jeito e à má fila.

Verhaeven era mesmo da escola de vendas com jeito. Percebi isto imediatamente, porque o meu pai também lá estudara.

- Tenho comprador - declarou ele. - A um preço que Franck indicou ser aceitável para si.

- Disse a Franck que considerasse isto uma venda de salvados. Preciso de dinheiro para outra coisa. Quais são as condições? - perguntei.

- Dinheiro à vista. Sorri.

- Ora aí está uma condição que eu nunca discuto. Quem é o comprador?

Ele tossiu delicadamente para o seu lenço.

- Naturalmente que as condições incluem a sua comissão e a de Franck - afirmei.

- Obrigado. O comprador é árabe, saudita. Já ouviu falar na família bin Laden?

Abanei a cabeça.

- Não.

- Muito proeminente na Arábia Saudita, o que significa ligada à família real, como acontece com a maioria das famílias proeminentes. Creio que quem fez o dinheiro foi um mercador de camelos iletrado que construiu uma estrada difícil para um anterior rei e se tornou o maior construtor daquele reino rico em petróleo. Um dos seus muitos filhos, Usamah, é o comprador. Sabe no que se vai meter, toda a gente conhece a situação em Angola e ele seria particularmente sensível ao caos. Creio que passou algum tempo no Afeganistão a combater contra os russos.

Eu não sabia por que é que um árabe rico havia de querer uma mina de diamantes numa zona de guerra, nem me interessava.

- Como será o andamento das coisas?

- Rápido. Os preparativos estão em curso para a transferência do valor da compra, assim como a documentação legal. Poderá haver um problema. Se o Governo angolano tiver de aprovar a venda...

Abanei a cabeça.

- Não há problema, tudo em Angola tem preço e pode-se conseguir rapidamente desde que a fasquia de pagamento suba. Pensei nisso antes de sair de Luanda. Tenho a autorização para vender a mina no hotel, depois mando-a. Só temos de preencher o nome do comprador.

- Estou certo de que haverá uma entidade empresarial a assumir a propriedade - disse Verhaeven. - Vou saber e depois dou-lhe a informação.

Abordámos outros pormenores, sendo o mais importante a transferência do dinheiro. As coisas corriam mesmo bem, tendo em conta que eu vendia um problema numa zona de guerra.

Verhaeven deu um pequeno gole no vinho e limpou a boca delicadamente ao guardanapo.

- No que concerne ao seu diamante rubi...

- Não está para venda.

- Podia conseguir-lhe um preço muito substancial.

- Decidi ficar com ele. Encontramo-nos na recepção.,,

A caminho do hotel, eu disse a Franck:

- Parece que há um pintor muito famoso que dá nome a Antuérpia, um gajo chamado Rubens.

Ele sorriu.

- Sim, houve um «gajo» flamengo chamado Rubens que pintava.

- Compre-me um dos quadros dele. Ele parou e olhou para mim.

- Sem mais nem menos, compro-lhe um quadro? Tens algum em mente? Determinado período da arte dele?

- Arranje-me só um quadro assinado por Rubens.

- Compreendo. Assinado por Rubens - murmurou ele. - Faz ideia de quanto custará ter algo assinado pelo Rubens?

- Pouco me importa quanto custa. É negócio. Vou voltar à América com um diamante de renome mundial. Um quadro de renome mundial ficaria bem com o diamante. Os americanos são snobs, especialmente com tralha da velha Europa.

Despedimo-nos no hotel, com Franck ainda a murmurar consigo

próprio.

 

O acesso no exterior do hotel onde se realizou a recepção ao diamante de fogo parecia o alinhamento para Cannes ou os Óscares. As limusinas encostavam e depositavam corpinhos bem vestidos, alguns de mulheres com mais jóias do que roupa. Juntara-se uma multidão, e as câmaras filmavam.

Lá dentro, Franck parecia tão animado como se tivesse provado Ecstasy da vizinha Amesterdão.

- É o evento social do ano - disse ele, a esfregar as mãos. - O evento social do século.

Apresentou-me a um jovem artista flamengo, amigo da filha, que organizara a recepção e a temperara com personalidades do cinema europeu.

- Hugo já trabalhou em filmes holandeses e alemães como director artístico - disse Franck. - Também é designer de interiores. Faz trabalhos sensacionais. Você disse que queria um arzinho de Hollywood, Hugo é o mais próximo que temos da Tinseltown em Antuérpia.

Franck quase ria ao fazer esta apresentação.

- O Sr. Liberte disse-me hoje que lhe comprasse um Rubens. Como se falasse em adquirir um automóvel novo.

Fiquei com Hugo em frente à estrutura que ele concebera para albergar o diamante de fogo quando este chegasse. Era uma taça de cristal cheia do que parecia ser «gelo adamantino», pedaços de cristal brilhante.

- Eu só vi o diamante na fotografia que mandou a Asher, por isso concebi uma estrutura que melhor realçasse as características dele.

- Gosto do design.

- Quando o diamante vermelho for colocado na taça - disse ele - vai sobressair notavelmente. Por baixo - apontou para o fundo da taça - escondido no pedestal, está um potente feixe de luz que eu ligarei quando o diamante for colocado. Assim, a luz passa pelos cristais e pelo diamante vermelho até à bola de espelhos, que por seu turno a espalhará pela sala.

O Coração do Mundo era um objecto pequeno, do tamanho de uma avelã. Era difícil apreciar algo tão diminuto, mesmo que fosse um diamante. Gostei da ideia de Hugo de disseminar o brilho rubro do diamante pela sala, para que a pedra causasse grande impacto na assistência.

- Cuidado - sussurrou Hugo -, as duas mulheres que se dirigem para cá são aspirantes a actrizes. Leram nos tablóides que foi namorado de Katarina Benes.

Cross aproximou-se e sorriu lubricamente para as mulheres que me rodeavam.

- Ter uma mina de diamantes é garantia de aquecimento das mulheres mais frias da Terra.

Ouvi chamar o meu nome e virei-me para uma grande surpresa. Leo - o cabrão, o sacana, o safardana Leo - sorria para mim e deu-me um grande abraço.

- Win, nem te sei dizer a excitação da família com o teu sucesso. E dava-me palmadinhas no ombro.

- O sucesso do meu irmão é sucesso meu, é o que eu digo às pessoas na Bolsa em Nova Iorque. Lembras-te como o papá lhe chamava bourse, mas ele era mesmo francês, não era?

O meu irmão? Este cara-de-cu chamava-me irmão em público?

O papá? Este cabrão chamava «papá» ao meu pai?

A família está orgulhosa de mim? Apetecia-me perguntar-lhe se era a mesma família que não se lembrava do meu nome quando soubera que eu estava falido.

Era a primeira vez que eu sabia do sacana desde que deixara Nova Iorque por Lisboa e Angola.

- Que fazes por cá, Leo?

- Vim visitar o meu dinheiro na Suíça. - Fez-me uma grande piscadela de olho. Eu reconheci a piscadela. Era a mesma que ele e Bernie faziam quando falavam em contas secretas em bancos suíços. Leo fazia algumas viagens por ano à Suíça, levando dinheiro e escondendo-o dos impostos.

Os negociantes de diamantes e os traficantes de narcóticos partilhavam a mesma afinidade por transacções em espécie.

- Na verdade, mudei a conta para o Luxemburgo... Melhores juros. E, tu sabes, as Finanças estão sempre a farejar os suíços, especialmente depois dos escândalos do ouro nazi. Só soube que estavas em Antuérpia quando falei com a secretária de Franck esta tarde.

Depois de o apresentar a Cross, perguntei:

- Às compras em Antuérpia?

- Tu sabes. O esquema de entregas do costume. - Sorriu. Ah, pois, o velho esquema de entregas do salto oco no sapato.

Lembrei-me que era assim que Leo passava nas alfândegas, com as compras no salto oco dos sapatos. O tipo aperfeiçoara a fuga à alfândega e aos impostos como uma ciência.

- Trouxemos um camião de pedras perfeitas da mina - disse eu a Leo. - Internamente perfeitas, Ds, todas três quilates ou mais.

- Bem, se calhar vamos conversar...

- Não há cá conversas. - Pus o braço em redor dos ombros dele e apertei-os. -Tu és da família, pá. Quero que leves quantas puderes meter nos sapatos. Digo a Franck que tas dê a metade do preço de mercado.

Leo quase desmaiou nos meus braços. Levei mais de cinco minutos a descolá-lo de mim.

Depois de ele desaparecer, Cross lançou-me um olhar estranho.

- Que bicho te mordeu? Este não era o tipo que sempre odiaste?

- São horas de enrabá-lo.

- Meu, podes enrabar-me assim quando quiseres. O gajo vai ganhar uma pipa com os diamantes que lhe deste quase de graça.

- Vai precisar dela - sentenciei, carrancudo.

A chegada do carro blindado interrompeu a cavaqueira na sala. Um segurança trouxe a pasta para dentro. Tive de reprimir um sorriso só de ver os guardas armados como se estivessem em guerra.

O segurança seguiu-me a uma sala adjacente onde eu peguei na pasta e o mandei embora. Sozinho na sala, abri a pasta e tirei a bolsa.

Estava vazia.

Saquei outra bolsa da dobra secreta do meu casaco e tirei o Coração do Mundo. Nem a Cross contara desta manobra de diversão.

Achei que, com toda a atenção virada para os guardas e o carro blindado, ninguém pensaria que traziam uma pasta vazia e que era eu que tinha o diamante. Não era invenção minha - faziam-se entregas de diamantes no mundo inteiro em embalagens destinadas a outros artigos.

Hugo era um génio. Quando o Coração do Mundo foi colocado na ta&