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Poesia & Contos Infantis

 

 

 


O CAMINHO DE GUERMANTES / Marcel Proust
O CAMINHO DE GUERMANTES / Marcel Proust

 

 

Biblioteca Virtual do Poeta Sem Limites

 

 

Em Busca do Tempo Perdido

O CAMINHO DE GUERMANTES

 

            O chilreio matinal dos pássaros soava sem graça a Françoise. Qualquer palavra das "criadinhas" lhe dava sobressaltos; incomodada pelos seus passos, indagava-se quanto a eles; é que tínhamos mudado de casa. É claro que os criados não perturbavam menos na nossa casa antiga; mas ela os conhecia; de suas idas e vindas, Françoise fizera uma coisa amigável. Agora, até ao silêncio ela prestava uma atenção dolorosa. E, como o nosso novo bairro parecia tão calmo quanto era ruidoso o bulevar para o qual se abria a nossa casa antiga, a canção (audível mesmo de longe, quando é fraca feito um motivo de orquestra) de um homem que passava fazia subir lágrimas aos olhos de Françoise exilada. Assim, se eu zombara dela, que, desolada por ter de deixar um prédio onde éramos "tão estimados por todos", fizera as malas chorando, conforme os ritos de Combray, e declarando superior a todas as casas possíveis àquela que nos pertencera; em compensação, eu, que assimilava tão dificilmente as novas coisas como facilmente abandonava as antigas, reconciliei-me com a nossa velha criada quando vi que a instalação em uma casa onde ela não recebera do porteiro, que ainda não nos conhecia, os sinais de consideração necessários à sua boa nutrição moral, deixara-a mergulhada num estado próximo ao definhamento. Somente ela poderia me compreender; certo, não seria o seu pequeno lacaio quem o faria; para ele, que era tampouco de Combray quanto possível, mudar de casa, morar em outro bairro, era como tirar férias, onde a novidade das coisas conferia o mesmo descanso que se a gente tivesse ido viajar; ele se considerava no campo; e uma coriza lhe deu, como um "golpe de ar" que se pega num vagão de trem em que a janela fecha com defeito, a impressão deliciosa de que tinha visto o campo; a cada espirro ele se regozijava por ter achado um lugar tão chique, pois sempre desejara patrões que viajassem muito. Portanto, sem ligar para ele, eu ia direto a Françoise; como caçoara de suas lágrimas diante de uma partida que me deixara indiferente, ela se mostrou fria ante a minha tristeza, visto que partilhava dela. O egoísmo dos nervosos cresce com a sua "sensibilidade"; não podem suportar, da parte dos outros, a exibição dos incômodos que cada vez mais os preocupam em si próprios. Françoise, que não deixava passar em branco o mais leve dos mal-estares que sentia, desviava o rosto se eu sofria, para que eu não tivesse o prazer de ver lamentado o meu sofrimento, e nem mesmo reparado. Assim procedeu, desde que pretendi lhe falar de nossa nova casa. De resto, tendo de ir dali a dois dias buscar roupas esquecidas na casa que acabáramos de deixar, ao passo que eu, devido à mudança, ainda estava com temperatura e, semelhante a uma sucuri que acabasse de engolir um boi, sentia-me penosamente empanturrado por um enorme baú que minha vista precisava "digerir". Françoise, com a infidelidade das mulheres, voltou dizendo que julgara ficar sufocada em nosso antigo bulevar, que para ir até lá se sentira totalmente perdida, que nunca vira escadarias tão desconfortáveis, que não voltaria a morar lá nem "por um império" e podiam lhe dar milhões de hipóteses gratuitas e que tudo (quer dizer, o que se referia à cozinha e aos corredores) estava muito mais bem agenciado em nossa nova casa. Ora, é tempo de dizer que esta e nela tínhamos ido morar porque minha avó não estava passando bem, razão que lhe escondemos, e tinha necessidade de ar mais puro formava um apartamento nas dependências do palácio de Guermantes.

            Na idade em que os Nomes, ofertando-nos a imagem do incognoscível que neles derramamos, no mesmo instante em que também designam para nós um lugar real, nos forçam desse modo a identificar um ao outro, a ponto de irmos buscar numa cidade uma alma que ela não pode conter mas que nós já não temos o poder de expulsar de seu nome, não é somente às cidades e aos rios que eles atribuem uma individualidade, como o fazem as pinturas alegóricas, não é somente ao universo físico que matizam de diferenças, que povoam com o maravilhoso, é também o universo social: então, cada castelo, cada mansão ou palácio famoso possui sua dama ou sua fada, como as florestas os seus gênios e as águas as suas divindades. Às vezes, oculta no fundo de seu nome, a fada se transforma ao sabor da vida de nossa imaginação, que a nutre; foi assim que a atmosfera em que a Sra. de Guermantes existia dentro de mim, depois de, durante muitos anos, não ter passado do reflexo de um vidro de lanterna mágica e de um vitral de igreja, começou a esmaecer quando sonhos bem diversos a impregnaram da umidade espumosa das torrentes.

            Entretanto, a fada enfraquece se nos aproximamos da pessoa real a que seu nome corresponde, pois o nome, então, passa a refletir essa pessoa e ela não contém coisa alguma da fada; esta pode renascer, caso nos afastemos da pessoa. Mas, se permanecermos junto da pessoa, a fada morre definitivamente e com ela o nome, como aquela família de Lusignan que devia extinguir-se no dia em que desaparecesse a fada Melusina. Então o Nome, sob cujos retoques sucessivos poderíamos acabar por encontrar o belo retrato de uma estranha que jamais tenhamos conhecido, não passa da simples fotografia de identidade a que recorremos para saber se conhecemos, se devemos saudar ou não uma pessoa que passa. Mas que uma sensação de um ano de outrora como esses instrumentos de música registradores que guardam o som e o estilo dos diferentes artistas que os tocaram permita à nossa memória fazer-nos ouvir esse nome com o timbre especial que tinha então para o nosso ouvido e, nesse nome na aparência não mudado, sentimos a distância que separa uns dos outros os sonhos que significaram sucessivamente para nós as suas sílabas idênticas. Por um momento, do gorjeio reouvido que ele possuía em certa primavera antiga, podemos extrair, como dos pequenos tubos de que nos servimos para pintar, o matiz adequado, esquecido, misterioso e fresco dos dias que julgáramos recordar, quando, como os maus pintores, dávamos a todo o nosso passado estendido sobre a mesma tela os tons convencionais e semelhantes da memória voluntária. Ora, pelo contrário, cada um dos momentos que o compuseram empregava, para uma criação original, numa única harmonia, as cores de antigamente que já não conhecemos e que, por exemplo, ainda me deslumbram de repente se, graças a um acaso, o nome de Guermantes, tendo retomado por um momento, após tantos anos, o som, tão diferente do de hoje, que tinha para mim no dia do casamento da Srta. Percepied, me traz ele de novo esse tom de malva tão doce, por demais brilhante e novo, com que se aveludava a túmida gravata da jovem duquesa, e, como uma pervinca inatingível, reflorida, seus olhos ensolarados de um sorriso azul. E o nome de Guermantes desse tempo é também como um desses balõezinhos em que se encerrou oxigênio ou um outro gás: quando chego a rebentá-lo, a extrair dele o que ele contém, respiro o ar de Combray daquele ano, daquele dia, mesclado a um aroma de espinheiros alvos agitados pelo vento da esquina da praça, precursor da chuva, que sucessivamente expulsava o sol, deixava-o estender-se sobre o tapete de lã vermelha da sacristia e revestir-se de uma carnadura brilhante, quase rósea, de gerânio, e dessa doçura, por assim dizer wagneriana, na alegria, que soma tanta nobreza à festividade. Porém, mesmo fora dos raros minutos como esses, em que subitamente sentimos a entidade original vibrar e readquirir sua forma e cinzeladura no seio das sílabas mortas de hoje, se, no turbilhão vertiginoso da vida atual, onde só têm um emprego inteiramente prático, os nomes perderam todo o colorido, como um pião prismático a girar muito depressa e que parece cinzento, em compensação quando, num devaneio, refletimos, procuramos, para retornar ao passado, diminuir, suspender o movimento perpétuo em que somos arrastados, aos poucos vemos de novo aparecer, justapostos, mas inteiramente distintos uns dos outros, os matizes que no decurso de nossa existência nos ofereceu sucessivamente um mesmo nome.

            Sem dúvida, não sei que forma se recortava a meus olhos ante esse nome de Guermantes, quando minha ama que evidentemente ignorava, tanto quanto eu agora, em honra de quem fora composta me ninava com esta velha canção: Glória à Marquesa de Guermantes, ou quando, alguns anos depois, o velho marechal de Guermantes, enchendo de orgulho a minha criada, parava nos Champs-Élysées dizendo: "Que belo menino!" e tirava de uma bomboneira de bolso uma pastilha de chocolate. Esses anos de minha primeira infância já não estão em mim, são-me exteriores, só posso apreendê-los, como a tudo que ocorreu antes do nosso nascimento, pelo relato alheio. Porém, mais tarde, encontro sucessivamente na duração em mim desse mesmo nome sete ou oito figuras diferentes; as primeiras eram mais belas: pouco a pouco o meu sonho, forçado pela realidade a abandonar uma posição insustentável, se entrincheirava de novo um pouco mais aquém, até ser obrigado a recuar ainda mais. E, ao mesmo tempo que a Sra. de Guermantes, transformava sua casa, igualmente provinda desse nome que fecundava ano após ano essa ou aquela palavra ouvida que modificava os meus sonhos, essa casa os refletia em suas próprias pedras, que se tornavam reverberantes como a superfície de uma nuvem ou de um lago. Um torreão sem espessura, que não passava de uma faixa de luz alaranjada e de cujo cimo o fidalgo e sua dama decidiam sobre a vida e a morte de seus vassalos, cedera o posto bem no extremo desse "lado de Guermantes" onde, por tantas e tão belas tardes, eu seguia com meus pais o curso do Vivonne - àquela terra torrentosa em que a duquesa me ensinava a pescar truta e a conhecer o nome das flores de cachos cor-de-violeta e avermelhadas que decoravam os muros baixos dos cercados vizinhos; depois fora a terra hereditária, o domínio poético, onde essa raça altiva dos Guermantes, como uma torre amarelada e florida que atravessa as idades, já se elevava sobre a França, enquanto o céu ainda estava vazio ali onde mais tarde deveria aparecer a Norte-Dame de Paris e a Norte-Dame de Chartres; quando, no alto da colina de Laon, a nave da catedral ainda não pousara como a Arca da Aliança no cimo do monte Ararat, cheia de patriarcas e de Justos ansiosamente debruçados às janelas para ver se já se apaziguara a cólera de Deus, e repleta de espécies vegetais que se multiplicarão sobre a Terra, transbordante de animais que se escapam até pelas torres, em cujo telhado passeiam pacificamente os bois contemplando do alto as planícies da Champagne; quando o viajante que deixava Beauvais à tardinha ainda não via seguirem-no, a girar, desdobradas sobre a tela de ouro do poente, as alas negras e ramificadas da catedral. Estava esse Guermantes, como o cenário de um romance, uma paisagem imaginária que eu mal podia me afigurar e sentia maior desejo de descobrir, encravado no meio de terras e estradas verdadeiras que de súbito se impregnariam de particularidades heráldicas, a duas léguas de uma estação de trem; lembrava-me eu de nomes das localidades vizinhas como se elas estivessem situadas ao pé do Parnaso ou do Hélicon, e elas se me afiguravam preciosas como as condições materiais em ciência topográfica da produção de um fenômeno misterioso. Eu revia os brasões que estão pintados nos envasamentos dos vitrais de Combray, e cujos quartéis se haviam enchido, através dos séculos, de todos os senhorios que, por aquisições ou casamentos, aquela casa ilustre havia feito voarem para si de todos os cantos da Alemanha, da Itália e da França: terras imensas do Norte, cidades poderosas do Sul, todas vindas a se juntar e compor em Guermantes e, perdendo sua materialidade, inscrever alegoricamente seu torreão de sinople ou seu castelo de prata em seu campo de azul. Ouvira falar das célebres tapeçarias de Guermantes e via-as, azuis e medievais, um tanto espessas, destacarem-se como uma nuvem sobre o nome amarantino e legendário, à beira da antiga floresta onde Childeberto caçou seguidamente; e esse extremo fundo e misterioso de terras, essa distância de séculos, parecia-me que penetraria em seus segredos, assim como numa viagem, bastando-me para isso aproximar-me por um instante, em Paris, da Sra. de Guermantes, suserana do lugar e dama do lago, como se seu rosto e suas palavras devessem ter a posse do encanto local dos bosques e das margens, e as mesmas particularidades seculares da velha usança de seus arquivos. Então, porém, conhecera Saint-Loup; ele me ensinara que o castelo só se chamava Guermantes desde o século XVII, quando sua família o adquirira. Até então, ela residira nas vizinhanças, e seu título não provinha daquela região. A aldeia de Guermantes recebera esse nome do castelo junto ao qual fora erguida e, para que ela não lhe arruinasse as perspectivas, uma servidão, que permanecia em vigor, regulava o traçado das ruas e limitava a altura das casas. Quanto às tapeçarias, elas eram de Boucher, compradas no século XIX por um Guermantes amador, e estavam colocadas ao lado de medíocres quadros de caça que ele próprio havia pintado, num salão bem ordinário enfeitado de pelúcia e andrinopla. Por tais revelações, Saint-Loup introduziria elementos estranhos ao nome de Guermantes no castelo, elementos que não mais me permitiram continuar a extrair, apenas da sonoridade das sílabas, a fábrica das construções. Então, no fundo desse nome se desfizera o castelo refletido em seu lago, e o que me surgira ao redor da Sra. de Guermantes como sua residência fora o seu palácio de Paris, o palácio de Guermantes, límpido como o seu nome, pois nenhum elemento material e opaco lhe vinha ali interromper e cegar a transparência. Como a igreja não significa apenas o templo, mas também a assembléia de fiéis, esse palácio de Guermantes compreendia todos aqueles que partilhavam da vida da duquesa; mas os íntimos, a quem jamais vira, não passavam para mim de nomes célebres e poéticos, e, conhecendo unicamente pessoas que também não eram mais que nomes, outra coisa não faziam senão engrandecer e proteger o mistério da duquesa, estendendo à sua volta um enorme halo que quando muito se fazia mais rarefeito.

            Nas festas que ela dava, como eu não imaginava para os convidados nenhum corpo, nenhum bigode, botina alguma, nenhuma frase pronunciada que fosse banal, ou mesmo original de um modo humano e racional, aquele turbilhão de nomes, introduzindo menos matéria do que o faria um banquete de fantasmas ou um baile de espectros, ao redor daquela estatueta de porcelana de Saxe que era a Sra. de Guermantes, conservava uma transparência de vitrine ao seu castelo de vidro. Depois, quando Saint-Loup me contou anedotas relativas ao capelão e aos jardineiros de sua prima, o palácio de Guermantes se tornou como o poderia ter sido outrora algum Louvre uma espécie de castelo cercado, em pleno centro de Paris, por suas terras hereditariamente possuídas, em virtude de um direito antigo estranhamente sobrevivo, e nas quais ela exercesse ainda privilégios feudais. Mas esta última residência ela mesma se evaporara quando fomos morar, tão perto da Sra. de Villeparisis, num dos apartamentos vizinhos ao da Sra. de Guermantes, em uma ala do seu palácio. Era uma dessas velhas moradias, como talvez ainda existam, e nas quais o pátio principal seja por aluviões trazidas pela maré montante da democracia, seja por legados de tempos mais antigos em que os diversos ofícios vinham se agrupar em torno do senhor tinha muitas vezes, dos lados, balcões, oficinas, e até alguma loja de sapateiro ou de alfaiate, como as que se vêem apoiadas nos flancos das catedrais e que a estética dos engenheiros não pôde arejar, ou um porteiro remendão que criava galinhas e cultivava flores e, no fundo, no alojamento que "fazia de palácio", uma "condessa" que, quando saía em sua velha caleça tirada por dois cavalos, exibindo sobre o chapéu algumas capuchinhas que pareciam fugidas do jardinzinho da portaria (tendo ao lado do cocheiro um lacaio que descia para entregar cartões em cada residência aristocrática do bairro), enviava indistintamente sorrisos e acenos com a mão aos filhos do porteiro e aos locatários burgueses que passavam naquele instante e que ela confundia em sua desdenhosa afabilidade e igualitária arrogância.

            Na casa em que tínhamos ido morar, a grande dama do fundo do pátio era uma duquesa, elegante e ainda jovem. Tratava-se da Sra. de Guermantes. E, graças a Françoise, depressa consegui informações sobre o palácio. Pois os Guermantes (que muitas vezes Françoise designava pelas expressões "lá embaixo", "os de baixo") eram sua preocupação constante desde a manhã, quando, lançando para o pátio um olhar proibido, irresistível e furtivo, enquanto penteava mamãe, dizia:

            - Vejam, duas freiras; certamente vão lá embaixo ou: - Oh, que belos faisões na janela da cozinha, nem é preciso indagar de onde vêm, com certeza o duque andou caçando até à noite, quando, ao me entregar minha roupa de dormir, se ouvia o som de um piano, um eco de cançoneta, deduzia: - Têm convidados os de baixo; estão festejando -; e, no seu rosto regular, sob os cabelos agora brancos, um sorriso de juventude, animado e sóbrio, colocava por um instante cada um de seus traços no devido lugar, harmonizava-os numa ordem requintada e sutil, como antes de uma contradança.

            Mas o momento da vida dos Guermantes que mais vivamente excitava o interesse de Françoise, lhe dava mais satisfação e também lhe causava mais mal, era precisamente aquele em que, abrindo-se escancaradamente os dois batentes do portão, a duquesa subia à sua caleça. Em geral, era pouco tempo depois que os nossos criados acabavam de celebrar essa espécie de páscoa solene que ninguém deve interromper, chamada o seu almoço, e durante a qual eles eram de tal modo tabus que nem meu pai se permitia tocar a campainha para chamá-los, sabendo aliás que nenhum se moveria ao quinto como ao primeiro toque, e que assim teria ele cometido essa inconveniência em pura perda, mas não sem desprestígio para si próprio. Pois Françoise (que desde que se tornara velha fazia a todo propósito o que se chama uma "cara de circunstância") não teria deixado de lhe apresentar todo o dia um rosto cheio de pequenos traços cuneiformes e rubros que mostravam no exterior, porém de um modo pouco decifrável, o longo memorial de suas queixas e as profundas razões de seu descontentamento. Desenvolvia-os, aliás, para os bastidores, mas sem que pudéssemos distinguir perfeitamente as palavras. A isso denominava que ela acreditava ser para nós mortificante, vexatório dizer todo santo dia "missa calada".

            Acabados os últimos ritos, Françoise, que era a um tempo, como na igreja primitiva, o celebrante e um dos fiéis, servia-se de um derradeiro copo de vinho, desatava o guardanapo do pescoço, dobrava-o, enxugando nos lábios um resto de água avinhada e de café, enfiava-o numa argola, agradecia com um olhar dolente ao "seu" jovem lacaio que, para mostrar zelo, lhe dizia: - Vamos, Madame, mais um pouco de uvas; estão magníficas -, e logo ia abrir a janela sob o pretexto de que fazia demasiado calor "naquela miserável cozinha". Lançando habilmente, ao mesmo tempo que abria os postigos e tomava ar, um olhar desinteressado para o fundo do pátio, ela escondia furtivamente a certeza de que a duquesa ainda não estava pronta, chocava por um momento com olhar desdenhoso e apaixonado a carruagem atrelada, e, uma vez dado com os olhos esse momento de atenção às coisas terrenas, erguia-os para o céu, cuja pureza já adivinhara ao sentir a suavidade do ar e o calor do sol; e mirava no canto do telhado o lugar onde, cada primavera, vinham fazer ninho, bem sobre a lareira do meu quarto, uns pombos semelhantes aos que arrulhavam na sua cozinha, em Combray.

            - Ah, Combray, Combray! exclamava. (E o tom quase cantado com que declamava esta invocação poderia, no caso de Françoise, tanto quanto a artesiana pureza do seu rosto, fazer suspeitar uma origem meridional e que a pátria perdida que ela chorava não passava de uma pátria de adoção. Porém, talvez a gente se enganasse, pois parece que não há província que não tenha o seu sul, e com quantos saboianos e bretões não nos encontramos, nos quais se acham todas as doces transposições de longas e breves que identificam o meridional!) - Ah, Combray, quando é que voltarei a te ver, pobre terra! Quando é que poderei passar todo santo dia debaixo de teus espinheiros alvos e nossos pobres lilases, ouvindo os tentilhões e o Vivonne, que faz como que o murmúrio de alguém que sussurrasse, em vez de ouvir essa miserável campainha do nosso jovem patrão que não passa sequer meia hora sem me fazer correr ao longo desse maldito corredor! E ainda acha que não vou suficientemente depressa; seria então preciso ouvi-lo antes que tocasse a campainha; e, se a gente se atrasa um só minuto, ele "explode" em cóleras terríveis. Ai de mim, pobre Combray! Talvez só morta eu te veja de novo, quando me jogarem como uma pedra no buraco do túmulo. Então, não sentirei mais o aroma dos teus belos espinheiros sempre alvos. Porém, no sono da morte, acho que ouvirei ainda os três toques da campainha que já me danaram em vida.

            Mas ela era interrompida pelos chamados do coleteiro do pátio, aquele que antigamente tanto havia agradado à minha avó no dia em que tinha ido ver a Sra. de Villeparisis e que não ocupava um lugar menos elevado na simpatia de Françoise. Tendo erguido a cabeça ao ouvir abrir-se a nossa janela, já procurava há alguns instantes atrair a atenção de sua vizinha para lhe desejar bom-dia. A coqueteria da moça que fora um dia Françoise afinava então, para o Sr. Jupien, o rosto mal-humorado da nossa velha cozinheira entorpecido pela idade e pelo calor do forno, e foi com uma encantadora mistura de reserva, familiaridade e pudor que ela dirigiu ao coleteiro uma graciosa saudação, mas sem lhe responder em voz alta, pois, se ela de fato transgredia as recomendações de mamãe olhando para o pátio, não teria coragem de desafiá-las a ponto de conversar pela janela, o que teria o dom, segundo Françoise, de lhe valer, da parte de Madame, "um sermão completo". Ela lhe mostrava a caleça atrelada dando a impressão de dizer: "Belos cavalos, hein?", mas sempre murmurando: - Que velho traste! -e sobretudo porque sabia que ele iria responder, pondo a mão sobre a boca para ser ouvido à meia-voz:

            - Vocês também poderiam ter uma dessas se quisessem, e até mesmo mais que eles, mas não gostam disso.

            Françoise, depois de um sinal modesto, evasivo e encantador, cujo significado era mais ou menos: "Cada qual no seu gênero; conosco é a simplicidade", voltava a fechar a janela, de medo que mamãe chegasse. Esses vocês que poderiam ter mais cavalos que os Guermantes éramos nós, mas Jupien tinha razão em dizer "vocês", pois, a não ser no caso de certos prazeres de amor-próprio puramente pessoais (como aquele, quando ela tossia sem parar e a casa inteira receava se contaminar, de pretender, com um risinho irritante, que não estava gripada), semelhante a essas plantas que um animal, ao qual aderem por completo, nutre com os alimentos que apanha, come e digere para elas e lhes oferece em seu último e assimilável resíduo, Françoise vivia em simbiose conosco; nós é que, com nossas virtudes, nossa fortuna, nosso modo de viver, nossa posição social, devíamos nos encarregar de elaborar as pequenas satisfações de amor-próprio de que se formava acrescentando-lhe o direito reconhecido de exercer livremente o culto do almoço segundo o velho costume, comportando a conseqüente pequena tomada de ar à janela, quando acabava, algum passeio pela rua para fazer compras e uma saída aos domingos para ver a sobrinha a parte de contentamento indispensável à sua existência. Assim compreende-se que Françoise tenha ficado abatida, nos primeiros dias, numa casa em que todos os títulos honoríficos de meu pai ainda não eram conhecidos presa de um mal que ela mesma denominava aborrecimento, aborrecimento no sentido enérgico que o termo tem em Corneille ou na pena dos soldados que acabam por se suicidar porque se "aborrecem" demais longe das noivas, da cidade natal. O aborrecimento de Françoise fora rapidamente curado precisamente por Jupien, pois ele logo lhe causou um prazer tão vivo e mais refinado do que o prazer que teria tido se nos decidíssemos a comprar uma carruagem. - São boa gente esses Jupiens (Françoise assimilava de bom grado os novos termos aos que já conhecia), muito boa gente; está na cara. - Jupien de fato soube compreender e dar a entender a todos que, se não tínhamos equipagem, era porque não queríamos. Esse amigo de Françoise vivia pouco em casa, pois obtivera um lugar de funcionário num ministério. Fabricante de coletes a princípio, com a "garota" que minha avó tomara por sua filha, perdera toda vantagem em exercer o ofício depois que a menina que, desde quase ainda criança, já sabia muito bem recoser uma saia na época em que minha avó fora visitar a Sra. de Villeparisis se dedicara à costura para damas e se tornara uma especialista em saias. Primeiro, fora auxiliar de uma modista, empregada para dar um ponto, remendar um volante, pregar um botão ou um colchete, ajustar uma prova com alfinetes; logo passara a segunda, depois a primeira oficial, e, tendo feito uma freguesia de damas da melhor sociedade, trabalhava em casa, ou seja, no nosso pátio, na maioria das vezes com uma ou duas de suas pequenas companheiras de ateliê, a quem empregava como aprendizes. Desde então, a presença de Jupien fora menos útil. Sem dúvida a menina, desde que crescera, precisava muitas vezes fazer coletes. Mas, ajudada por suas amigas, não tinha necessidade de ninguém. Portanto, Jupien, seu tio, solicitara um emprego. No começo era livre para voltar para casa ao meio-dia, mas depois, tendo substituído definitivamente o empregado a quem apenas auxiliava, nunca voltava antes da hora do jantar. Aliás sua titularização só se efetuou algumas semanas depois da nossa mudança, de modo que a gentileza de Jupien pôde se exercer durante muito tempo no sentido de ajudar Françoise a vencer sem muito sofrimento os primeiros tempos tão difíceis. Além disso, sem desconhecer a utilidade que assim teve para Françoise a título de "medicamento de transição", devo confessar que Jupien não me agradara muito à primeira vista. A alguns passos de distância, destruindo inteiramente o efeito que, sem isso, causariam suas faces rechonchudas e sua tez rosada, os olhos transbordantes de um olhar compadecido, desolado e sonhador, faziam pensar que estivesse bem doente ou que acabava de sofrer um grande desgosto. Não só não era nada disso como, desde que principiava a falar, aliás perfeitamente bem, mostrava-se antes frio e sarcástico. Desse desacordo entre o olhar e a palavra, resultava algo de falso que não era simpático e com o qual ele próprio parecia sentir-se tão constrangido como um convidado em traje de passeio em um sarau onde todo mundo está de casaca, ou como alguém que, tendo de responder a uma Alteza, não sabe exatamente o que é necessário dizer e contorna a dificuldade reduzindo suas frases a quase nada. As de Jupien, ao contrário pois é simples comparação -, eram encantadoras.

            Correspondendo talvez àquela inundação do rosto pelos olhos (à qual não se prestava mais atenção desde que a gente o conhecia), de fato, logo lhe percebi uma inteligência rara e uma das mais naturalmente literárias que me foi dado conhecer, neste sentido em que, provavelmente sem cultura, ele possuía ou assimilara, com o auxílio de alguns livros percorridos às pressas, as mais engenhosas expressões da língua. As pessoas mais bem-dotadas que eu conhecera haviam morrido muito jovens. Portanto, eu estava convencido de que a vida de Jupien terminaria em breve. Tinha bondade, piedade, os mais delicados e generosos sentimentos. Seu papel na vida de Françoise deixara depressa de ser indispensável. Ela aprendera a substituí-la.

            Mesmo quando um fornecedor ou um criado vinha nos trazer algum pacote, Françoise, sempre dando a impressão de não se preocupar com ele, indicando-lhe apenas, com ar desligado, uma cadeira, enquanto ela continuava o seu serviço, aproveitava de modo tão hábil os poucos instantes que ele passava na cozinha à espera da resposta de mamãe, que raramente ele partia sem levar consigo indestrutivelmente gravada a certeza de que "se não tínhamos, era porque não queríamos". Se, aliás, ela se empenhava tanto para que soubessem que tínhamos "dinheiro" (pois ignorava o emprego do que Saint-Loup denominava artigos partitivos e dizia "ter dinheiro", 'trazer água"),' em que nos soubessem ricos, não era porque a riqueza sem mais nada, a riqueza sem a virtude, fosse o bem supremo aos olhos de Françoise, mas a virtude sem riqueza tampouco era o seu ideal. Para ela, a riqueza era como uma condição necessária da virtude, cuja falta faria a virtude destituída de mérito e de encanto. Separava-as tampouco que acabara por emprestar a cada uma as qualidades da outra, a exigir algum conforto na virtude, a reconhecer algo de edificante na riqueza.

            Assim que fechava a janela, bem depressa senão mamãe, pelo visto, "lhe lançaria todas as injúrias imagináveis" -, Françoise começava, suspirando, a arrumar a mesa da cozinha.

            - Há alguns Guermantes que continuam na rua da Chaise - dizia um criado-grave. - Eu tinha um amigo que trabalhou com eles de segundo cocheiro. E conheço alguém, não meu companheiro, e sim um seu cunhado, que serviu no exército com um picador do barão de Guermantes. "Vamos lá, afinal não é meu pai!", acrescentava o criado-grave, que tinha o costume de cantarolar as canções da moda, pontuando as frases com as mais recentes piadas.

            Françoise, com o cansaço de seus olhos de mulher já de idade, e que aliás via tudo quanto se referia a Combray numa vaga lonjura, distinguiu não o gracejo contido naquelas palavras, mas sim que deviam mostrar alguma graça, pois não se relacionavam com o resto da conversa, e tinham sido lançadas com força por alguém que ela sabia ser brincalhão. Assim, sorriu com ar benévolo e fascinado, como se dissesse: "Sempre o mesmo, este Victor!" Ademais, sentia-se feliz, pois sabia que ouvir coisas desse tipo se assemelha de longe a essas distrações honestas da sociedade para as quais, em todas as esferas, a gente se apressa em preparar-se, arriscando-se a apanhar um resfriado por elas. Enfim, achava que o criado-grave era um amigo para ela, pois não cessava de lhe denunciar com indignação as medidas terríveis que a República ia tomar contra o clero. Françoise ainda não compreendera que os nossos adversários mais cruéis não são os que nos contradizem e procuram nos convencer, mas aqueles que exageram ou inventam notícias que podem nos afligir, evitando dar-lhes uma aparência de justificação que diminua a nossa mágoa e nos inspire talvez uma leve estima por um partido que eles timbram em nos mostrar, para nossa tortura completa, a um tempo atroz e triunfante.

            - A duquesa deve ser ligada a tudo isso disse Françoise retomando a conversação sobre os Guermantes da rua Chaise, como se recomeça um trecho musical no andante.

            - Já nem sei mais quem me disse que um deles casara uma prima com o duque. Em todo caso, são dos mesmos parênteses. Uma grande família, os Guermantes! -acrescentava com respeito, assentando a grandeza dessa família a um tempo no número de membros e no brilho de sua ilustração, como Pascal assentava a verdade da religião sobre a razão e a autoridade das Escrituras. Pois, tendo apenas o vocábulo "grande" para as duas coisas, parecia-lhe que elas formavam uma só; assim, o seu vocabulário, como certas pedras, apresentava um defeito em alguns pontos, defeito que projetava obscuridade em seu pensamento.

            - Pergunto-me se não serão esses que têm seu castelo de Guermantes, a dez léguas de Combray; então devem também ser parentes de sua prima de Argel.

            Por muito tempo nos indagamos, minha mãe e eu, quem poderia ser essa prima de Argel, mas afinal compreendemos que Françoise queria indicar, com o nome de Argel, a cidade de Angers. O que está distante pode nos ser mais conhecido do que o que está próximo. Françoise, que conhecia o nome de Argel por causa das detestáveis tâmaras que recebíamos pelo Ano-Novo, ignorava o de Angers. Sua linguagem, como a própria língua francesa, e principalmente sua toponímia, era semeada de erros.

            - Eu queria falar sobre isso ao mordomo dos Guermantes. Como é mesmo que se diz? interrompeu-se, como levantando uma questão de protocolo; e respondeu a si própria: - Ah, sim! É Antoine que se diz como se Antoine fosse um título. - Ele é quem poderá me dizer, mas é um verdadeiro senhor, um grande pedante, dir-se-ia que lhe cortaram a língua ou que ele se esqueceu de aprender a falar. Ele nem sequer faz resposta quando lhe falam acrescentava Françoise, que dizia "fazer resposta" como a Sra. de Sévigné. - Mas ajuntava sem sinceridade -, desde o momento em que eu sei o que está cozinhando na minha marmita, não me ocupo com a dos outros. Em todo caso, tudo isso não é lá muito católico. E, depois, não é um homem corajoso (esta avaliação poderia fazer acreditar que Françoise mudara de opinião acerca da bravura que, segundo ela, em Combray, nivelava os homens aos animais ferozes; mas não se tratava disso. Corajoso para ela significava trabalhador). Diz-se também que é ladrão como uma pega, mas nem sempre se deve acreditar nos mexericos. Aqui todos os criados vão embora por causa da portaria; os porteiros são invejosos e enchem de coisas a cabeça da duquesa. Mas bem se pode dizer que é um grande fingido esse Antoine, e sua Antoinesse não vale mais que ele; dizia Françoise que, para encontrar para o nome de Antoine um feminino que designasse a mulher do mordomo, sem dúvida, em sua criação gramatical, tinha uma inconsciente recordação de chanoine e chanoinesse [cônego e canonisa].

            E, sob este aspecto, não se expressava mal. Existe ainda, perto da Notre-Dame, uma rua chamada Canonisa, nome que lhe fora dado (por ser habitada somente de cônegos) por aqueles franceses de outrora de que Françoise era de fato contemporânea. Aliás, tinha-se, logo depois, um novo exemplo dessa maneira de formar os femininos, pois Françoise acrescentava:

            - Mas seguro e certo é que o castelo de Guermantes pertence à duquesa. E na região ela é que é a senhora mairesse [prefeita]. Já é alguma coisa.

            - Compreendo que é alguma coisa. -dizia convicto o criado-grave, sem ter percebido a ironia.

            - Pensa que seja alguma coisa, meu filho? Mas, para gente como aquela, ser maire e mairesse é três vezes nada. Ah, se fosse meu o castelo de Guermantes, não me veriam com freqüência em Paris. É mesmo necessário que uns senhores, pessoas que têm com quê, como o patrão e a patroa, tenham idéias malucas na cabeça para ficarem nesta cidade miserável, em vez de irem para Combray, já que podem fazer livremente o que quiserem que ninguém os prende. Que é que esperam para ir embora, visto que nada lhes falta? Estarem mortos? Ah, se eu só tivesse pão seco para comer e um pouco de lenha para me aquecer no inverno, há muito que estaria em casa, na pobre morada do meu irmão em Combray. Lá, pelo menos, a gente se sente viver, não tem todas essas mansões pela frente, há tão pouco barulho que à noite se ouve as rãs coaxarem a mais de duas léguas.

            - Isto deve ser verdadeiramente bonito, senhora! - exclamou o jovem lacaio com entusiasmo, como se esta última particularidade fosse tão exclusiva de Combray como a vida em gôndola a Veneza.

            Além disso, mais recente na casa que o criado-grave, o lacaio falava a Françoise de assuntos que podiam interessar não a si mesmo, mas a ela. E Françoise, que fazia uma careta quando a tratavam de cozinheira, tinha para com o lacaio, que dizia ao falar dela "a governanta", a benevolência especial que mostram certos príncipes de segunda categoria em relação aos jovens que os tratam por Alteza.

            - Ao menos a gente sabe o que está fazendo e em que estação se encontra. Não é como aqui, onde não há um mísero botão de ouro pela Páscoa nem no Natal, e nem sequer ouço um pequeno angelus quando ergo a minha velha carcaça. Lá a gente ouve cada hora; não passa de um pobre sino, mas você diz consigo: "Aí vem o meu irmão que volta do campo", você vê o dia que vem baixando, tocam pelos bens da terra, e você tem tempo de voltar antes de acender o lampião. Aqui é dia, é noite, e a gente vai se deitar sem poder ao menos dizer o que fez, como os animais.

            - Parece que Méséglise também é muito bonita, senhora. -interrompeu o jovem lacaio, para cujo gosto a conversa ia tomando um rumo um tanto abstrato e que, por acaso, se lembrava de nos ter ouvido falar à mesa de Méséglise.

            - Oh, Méséglise! - dizia Françoise com um largo sorriso que lhe vinha aos lábios sempre que pronunciavam, na sua presença, os nomes de Méséglise, de Combray e de Tansonville. De tal modo faziam parte de sua própria existência que ela experimentava, ao encontrá-los no exterior, ao ouvi-los numa conversa, uma alegria bem próxima da que um professor excita em sua classe ao fazer alusão a um determinado personagem contemporâneo, cujo nome os alunos jamais esperariam pudesse cair do alto da cátedra. Seu prazer provinha igualmente de sentir que aqueles lugares eram, para ela, algo que não seriam para os outros, velhos camaradas com quem se passam bons momentos; e ela lhes sorria como se os achasse espirituosos, porque neles encontrava muito de si própria.

            - Sim, você pode dizer, meu filho, que Méséglise é muito bonita replicava ela, sorrindo sutilmente. - Mas como foi que ouviu falar de Méséglise?

            - Como foi que ouvi falar de Méséglise? Mas é bastante conhecida. Falaram-me dela uma porção de vezes respondeu ele com essa inexatidão criminosa dos informantes que, todas as vezes que procuramos nos certificar objetivamente da importância que pode ter para os outros alguma coisa que nos concerne, colocam-nos na impossibilidade de consegui-lo.

            - Ah, digo-lhe que a gente está melhor ali debaixo das cerejeiras do que junto do fogão.

            E falava-lhe até de Eulalie como de uma boa pessoa. Pois, desde que Eulalie morrera, Françoise esquecera por completo que a estimara muito pouco em vida, como estimara bem pouco toda pessoa que nada tinha a comer dentro de casa, que "arrebentava" de fome e vinha depois, como uma imprestável, fazer uma boquinha graças à bondade dos ricos. Já não se aborrecia pelo fato de ter Eulalie sabido tão bem "receber o seu" da parte de minha tia, todas as semanas. Quanto a esta última, Françoise não cessava de lhe entoar louvores.

            - Mas então era mesmo em Combray, na casa de uma prima da patroa, que a senhora estava? - perguntava o jovem lacaio.

            - Sim, na casa da Sra. Octave; ah! uma santa mulher, meus filhos. E lá havia sempre de tudo, do bom e do melhor; era uma boa mulher, pode-se dizer, que não lastimava as perdizes nem os faisões, nem nada; e a gente podia chegar para jantar às cinco, às seis, que não era carne o que havia de faltar; e de primeira, ainda por cima; e vinho branco, vinho tinto, tudo o que fosse necessário. - (Françoise empregava o verbo lastimar no mesmo sentido que La Bruyere.) - Tudo era sempre às suas custas, mesmo que a família ficasse meses ou anos. (Essa reflexão nada tinha de indelicado para conosco, pois Françoise era de um tempo em que 'custas' não era reservada ao estilo judiciário e significava simplesmente despesas.) - Ah, garanto-lhe que ninguém saía com fome. Como o Senhor cura nos observou tantas vezes, se existe uma mulher que vai direitinho para junto de Deus, é, com certeza, ela. Pobre senhora, ouço-a ainda a me dizer com sua vozinha: "Françoise, você sabe, eu não como, mas quero que seja tão bom para todos como se eu comesse." Certo que não era para ela. Se a tivessem visto; não pesava mais que um cestinho de cerejas. Não tinha mais peso nenhum. Nunca ligou para os meus conselhos, jamais quis ir ao médico. Ah! Não era lá que se comia às pressas. Ela queria que seus criados fossem bem alimentados. Aqui, ainda hoje de manhã, mal tivemos tempo de roer um bocado de pão. Tudo se faz correndo.

            Exasperava-se principalmente com as torradas que meu pai comia. Estava convencida de que ele costumava comê-las de pura afetação e para obrigá-la a raspar-se.

            - Posso jurar - aprovava o jovem lacaio - que nunca vi uma coisa dessas!

            Dizia aquilo como se tivesse visto todas as coisas e os conhecimentos de uma experiência milenar se estendessem a todas as terras e seus usos, entre os quais não figurava em parte alguma o hábito de comer torradas.

            - Sim, sim - resmungava o mordomo -, mas tudo isto bem que poderia mudar, os operários devem fazer uma greve no Canadá, e o ministro disse outro dia ao patrão que para isso ganhou duzentos mil francos.

            O mordomo estava longe de censurá-lo, não que ele próprio não fosse perfeitamente honesto, mas, julgando venais todos os políticos, o crime de concussão lhe parecia menos grave que o mais leve delito de roubo. Não se indagava sequer se ouvira bem aquela frase histórica e não o abalava a inverossimilhança de que tivesse sido pronunciada pelo próprio culpado ao meu pai, sem que este o pusesse porta a fora. Mas a filosofia de Combray impedia que Françoise esperasse que as greves no Canadá tivessem repercussão sobre o uso das torradas:

            - Enquanto o mundo for mundo -dizia -, haverá patrões para nos fazerem trotar e criados para se prestarem a seus caprichos.

            A despeito da teoria daquele trote perpétuo, já há um quarto de hora minha mãe, que provavelmente não empregava as mesmas medidas de Françoise para avaliar a duração do almoço dela, dizia:

            - Mas o que é que pode estar fazendo lá? Há mais de duas horas que almoçam.

            E tocava timidamente a campainha três ou quatro vezes. Françoise, seu lacaio e o mordomo ouviam os toques não como um chamado e sem pensar em atender, mas como os primeiros sons dos instrumentos que se afinam quando em breve recomeça um concerto e vê-se que só haverá alguns minutos de intervalo. Assim, quando os toques começavam a se repetir, e a se tornar mais insistentes, nossos criados principiavam a lhes prestar mais atenção e, calculando que já não tinham muito tempo e que estava próxima a retomada do trabalho, davam um suspiro a um tilintar mais sonoro que os outros e, tomando cada qual o seu partido, descia o lacaio para fumar um cigarro diante da porta; Françoise, após algumas reflexões a nosso respeito, tais como "parece que estão com o diabo no corpo", subia para arrumar suas coisas no sexto andar, e o mordomo, tendo ido buscar papel de carta no meu quarto, expedia rapidamente a sua correspondência privada.

            Apesar do ar arrogante do seu mordomo, Françoise, logo nos primeiros dias, pudera me informar que os Guermantes não moravam no seu palácio em virtude de um direito imemorial, e sim devido a uma locação bem recente, e que o jardim para onde dava, do lado que eu não conhecia, era muito pequeno e parecido com todos os jardins vizinhos; e eu soube, enfim, que ali não se viam nem forca senhoril, nem moinho fortificado, nem sauvoir, nem pombal com pilastras, nem forno comum, nem celeiro de nave, nem castelinho, nem pontes fixas ou levadiças, nem sequer volantes, nem tampouco pedágio, agulhas, diplomas, murais ou marcos. Mas como Elstir, quando a baía de Balbec, tendo perdido seu mistério, tornara-se para mim uma parte qualquer, intercambiável com qualquer outra, de certa quantidade de água salgada que existe no globo terrestre, lhe restituíra subitamente uma individualidade ao me dizer que era o golfo de opala de Whistler em sua harmonia de azul prateado assim o nome de Guermantes vira morrer, aos golpes de Françoise, a última morada que dele saíra, quando um velho amigo de meu pai nos disse um dia, falando da duquesa:

            - Ela ocupa a posição mais destacada no faubourg Saint-Germain, tem a primeira casa do faubourg Saint-Germain. - Decerto, o primeiro salão e a primeira residência do faubourg Saint-Germain eram bem pouca coisa diante das outras residências que eu sucessivamente havia imaginado. Enfim, esta ainda, e devia ser a última, possuía algo, por mais humilde que fosse e que seria, além de sua própria matéria, uma secreta diferenciação.

            E tanto me era mais necessário poder procurar no "salão" da Sra. de Guermantes, em seus amigos, o mistério de seu nome, quanto não o encontrava em sua pessoa, quando a via sair a pé de manhã, ou de carro, à tarde. Certamente, já na igreja de Combray ela me surgira ao fulgor de uma metamorfose, com suas faces irredutíveis, impenetráveis à cor do nome de Guermantes e das tardes à beira do Vivonne, no lugar do meu sonho fulminado, como um cisne ou um salgueiro no qual foi transformado um deus ou uma ninfa e que, desde então submetido às leis da natureza, deslizará pelas águas ou será agitado pelo vento. No entanto, esses reflexos desvanecidos, mal os havia deixado, tornavam a formar-se, como os reflexos róseos e verdes do sol posto, por detrás do remo que os quebrara, e, na solidão de meu pensamento, o nome de imediato se apropriara da lembrança do rosto. Mas agora eu a via muitas vezes à sua janela, no pátio, na rua; e, se nem ao menos conseguia integrar nela o nome de Guermantes, pensar que ela era a Sra. de Guermantes, eu acusava apenas a impotência do meu espírito em ir até o fim do ato que lhe pedia; mas ela, nossa vizinha, parecia cometer o mesmo erro; mais ainda, cometê-lo sem se perturbar, sem nenhum dos meus escrúpulos, sem nem sequer a suspeita de que se tratasse de um erro. Assim, a Sra. de Guermantes mostrava em seus vestidos a mesma preocupação de seguir a moda como se, julgando-se uma mulher como as outras, tivesse aspirado a essa elegância de toalete em que qualquer das mulheres a podia igualar, talvez ultrapassá-la; vira-a, na rua, olhar com admiração uma atriz bem-vestida; e de manhã, no momento em que ela ia sair a pé, como se a opinião dos transeuntes, cuja vulgaridade fazia ressaltar passeando no meio deles a sua vida inacessível, pudesse ser um tribunal para ela, eu podia vê-la diante do espelho, desempenhando, com uma convicção isenta de duplicidade e ironia, com paixão, com mau humor, com amor-próprio, como uma rainha que aceitou representar uma criada numa comédia da corte, esse papel, tão inferior a ela, de mulher elegante; e, no esquecimento mitológico de sua grandeza nativa, ela verificava se o véu estava bem colocado, ajeitava as mangas, ajustava a capa, como o cisne divino faz todos os movimentos de sua espécie animal, conserva os olhos pintados de cada lado do bico sem neles pôr o olhar e se lança de súbito sobre um botão ou um guarda-chuva, como cisne, sem se lembrar que é um deus. Mas como o viajante, decepcionado pela primeira impressão recebida de uma cidade, diz consigo mesmo que talvez penetre nos seus encantos visitando os museus, travando conhecimento com o povo, trabalhando em suas bibliotecas, eu dizia a mim mesmo que, se fosse recebido em casa da Sra. de Guermantes, se fosse um de seus amigos, se penetrasse em sua existência, haveria de conhecer aquilo que, sob o invólucro alaranjado e brilhante, o seu nome ocultava de fato, de modo objetivo, para os outros, visto que, enfim, o amigo de meu pai dissera que o meio dos Guermantes era algo à parte no faubourg Saint-Germain.

            A vida que eu supunha levassem naquele meio derivava de uma fonte tão diversa da experiência e me parecia dever ser tão particular, que não teria podido imaginar nos saraus da duquesa a presença de pessoas que eu tivesse freqüentado outrora, pessoas reais. Pois, não podendo mudar bruscamente a sua natureza, ali diriam frases análogas às que já lhes conhecia; seus parceiros talvez se abaixassem a lhes responder na mesma linguagem humana; e, durante uma reunião no primeiro salão do faubourg Saint-Germain, teria havido instantes idênticos àqueles que eu já vivenciara: o que era impossível. É verdade que meu espírito se sentia embaraçado por certas dificuldades, e a presença do corpo de Jesus Cristo na hóstia não se me afigurava um mistério mais obscuro que esse primeiro salão do faubourg Saint-Germain, situado à margem direita do Sena, e cujos móveis eu podia ouvir limpar pela manhã. Mas a linha de demarcação que me separava do faubourg Saint-Germain, por ser inteiramente ideal, tanto mais real me parecia; bem sentia que era já o faubourg, o capacho dos Guermantes estendido do outro lado desse Equador e do qual minha mãe ousara dizer, tendo-o visto como eu, no dia em que se achava aberta a porta deles, que se encontrava em muito mau estado. Além do mais, de que forma a sua sala de jantar, sua galeria obscura, de móveis forrados de pelúcia vermelha, que eu podia às vezes entrever pela janela da nossa cozinha, não me pareceriam possuir o encanto misterioso do faubourg Saint-Germain, fazendo parte dele de um modo essencial, estar ali situados geograficamente, visto que o fato de ser recebido naquela sala de jantar era ter ido ao faubourg Saint-Germain, ter respirado a sua atmosfera, já que todos aqueles que, antes de ir para a mesa, sentavam-se ao lado da Sra. de Guermantes no canapé de couro da galeria eram do faubourg Saint-Germain? Sem dúvida, em outros locais que não Saint-Germain, em certas reuniões, podia-se ver às vezes, imperando majestosamente no meio da multidão banal dos elegantes, um desses homens que não passam de nomes e que assumem, alternadamente, quando tentamos representá-los, o aspecto de um torneio e de uma floresta patrimonial. Mas aqui, no primeiro salão do faubourg Saint-Germain, na galeria obscura, só existiam eles. Eram de preciosa matéria as colunas que sustentavam o templo. Mesmo para as reuniões familiares, era apenas entre eles que a Sra. de Guermantes podia escolher os seus convivas, e nos jantares de doze pessoas, reunidas em torno da mesa servida, eram como estátuas de ouro dos apóstolos da Santa Capela, pilares simbólicos e consagradores, diante da Santa Mesa. Quanto à pequena extremidade do jardim que se estendia entre altos muros, atrás do palácio, e onde, no verão, a Sra. de Guermantes mandava servir, depois do jantar, laranjada e licores, como não pensaria eu que sentar, entre as nove e onze da noite, em suas cadeiras de ferro dotadas de um tão grande poder como o canapé de couro sem respirar as brisas próprias ao faubourg Saint-Germain, era tão impossível como fazer a sesta no oásis de Figuig, sem por isso mesmo estar na África? Só a imaginação e a fé é que podem distinguir dos outros certos objetos, certos seres e criar uma atmosfera. Infelizmente aqueles sítios pitorescos, aqueles acidentes naturais, aquelas curiosidades locais, aquelas obras de arte do faubourg Saint-Germain, certamente nunca me seria dado pousar meus passos entre eles. E eu me contentava em estremecer quando lobrigava do alto-mar (e sem esperança de jamais ali abordar), como um minarete avançado, como uma palmeira inicial, como o princípio da indústria ou da vegetação exótica, o capacho gasto da margem.

            Mas, se o palácio de Guermantes começava para mim no limiar do vestíbulo, suas dependências deviam estender-se muito mais além, a julgar pelo duque, o qual, considerando todos os seus locatários como rendeiros, camponeses, compradores de bens nacionais, cuja opinião não importa, fazia a barba de manhã em camisa de dormir, diante de sua janela, descia para o pátio conforme fizesse mais ou menos calor, em mangas de camisa, de pijama, de jaqueta escocesa felpuda, de cor singular, de casacos claros mais curtos que o paletó, e fazia com que um de seus picadores pusesse a trote, diante dele, algum cavalo novo que comprara. Por mais de uma vez, o cavalo derrubou o mostruário de Jupien, o qual deixou o duque indignado ao pedir uma indenização. - Quando mais não fosse, em consideração por todos os benefícios que a Senhora Duquesa faz na casa e na paróquia dizia o Sr. de Guermantes - é uma infâmia da parte desse fulano reclamar qualquer coisa. - Mas Jupien sustentara a demanda, parecendo ignorar de todo qual o "bem" que havia feito a duquesa. Entretanto, ela o fazia, mas, como não é possível estendê-lo a todo mundo, a lembrança de ter cumulado a um é motivo para se abster em relação a outro, no qual se provoca tanto maior descontentamento. Aliás, sob outros pontos de vista que não o da beneficência, o bairro parecia ao duque e isso a grandes distâncias apenas um prolongamento do seu pátio, uma pista mais comprida para seus cavalos. depois de ter visto como trotava sozinho um cavalo novo, o fazia enganchar, atravessar todas as ruas próximas, com o picador correndo a par, do carro, empunhando as rédeas, fazendo-o passar e voltar a passar por diante do duque, parado na calçada, em  pé,  gigantesco,  enorme,  vestido  de  claro,  com  o  charuto  na boca, a cabeça ao ar, o monóculo curioso, até o momento em que saltava à boléia, guiava ele mesmo ao cavalo para prová-lo, e se ia com o novo tiro a recolher a sua querida aos Champs-Élysées. O senhor do Guermantes dava o bom-dia no pátio a dois casais que estavam,  mais ou menos, a seu mundo: um matrimônio de primos deles que, como os matrimônios de operários, nunca estava em casa para cuidar dos meninos, já que desde a manhã a mulher se ia à escola a aprender contraponto e fuga, e o marido à seu estudo fazer esculturas em madeira e couros esculpidos; além disso, o barão e a baronesa do Norpois, vestidos sempre de negro; a mulher locadora de cadeiras e o marido de enterrar mortos que saíam várias vezes ao dia para ir à igreja. Eram sobrinhos do velho embaixador que conhecíamos e a quem justamente havia encontrado meu pai no patamar da escada, mas sem compreender de onde vinha; porque meu pai pensava que um personagem tão considerável que tinha relação com os homens mais eminentes da Europa e que provavelmente era indiferente à distinções aristocráticas, devia tratar apenas a estes nobres obscuros, clericais e limitados. Fazia pouco que viviam na casa; como Jupien fosse dizer duas palavras no pátio ao marido, que estava saudando o senhor do Guermantes, chamou-lhe Senhor Norpois por não saber exatamente seu nome.

            - Ah! Senhor Norpois! Ah! A verdade que é um achado! Paciência! Esse Juan Particular não demorará para chamá-lo cuidado-no Norpois - exclama  voltando-se  para  o  barão,  o  senhor  de Guermantes. Afinal podia exalar seu mau humor contra Jupien, que chamava-o senhor e não senhor duque.

            Um dia que o senhor Guermantes necessitava de umas informações relacionados com a profissão de meu pai, apresentou-se com muito boa graça. Depois disso tinha que lhe pedir freqüentemente algum favor como vizinho, e assim que o via descendo a escada pensando em algum trabalho, e desejoso de evitar todo encontro, o duque deixava seus moços de quadra, saía atrás de meu pai no pátio, punha-lhe bem o capote como um serviçal dá aos antigos ajuda de câmara ao Rei; agarrava-lhe a mão e, retendo-a na sua, acariciando-lhe inclusive para lhe provar, sem pudor de cortesão, que não lhe regateava o contato de sua preciosa carne; levava-o assim, farto e sem pensar mais que em escapar, até além da porta da garagem. Tinha-nos feito grande saudações um dia que cruzou conosco no momento em que saía de carro com sua mulher, a qual devia lhe ter dito meu nome; mas, que provavelmente tinha ela recordado, tampouco minha cara. Além disso, dava uma recomendação de ser designado meramente como um de seus inquilinos! Mais importante talvez, era encontrar à duquesa em casa da senhora Villeparisis, que precisamente me tinha pedido por meio de minha avó que fosse vê-la; e ao saber que eu tinha intenção de me dedicar à literatura, tinha acrescentado que em sua casa me encontraria com alguns escritores. Mas meu pai dissera que eu era  muito  jovem  ainda  para  fazer  vida  em sociedade,  e  como  o estado de minha saúde não deixava de o preocupar, não tinha vontade de em ocasiões inúteis fazer novas saídas.

            Como um dos lacaios da senhora Guermantes falava muito com a Francisca, ouvi que nomeava alguns dos salões que freqüentava; mas não acertava em pronunciar os nomes pois não fazia parte de sua vida, que não via mais que através de um nome, que eram inconcebíveis.   -           - Esta noite haverá uma grande festa na casa  da  princesa  de Parma. - dizia  o  lacaio; agora iremos, porque às cinco a senhora pega o trem de Chantilly para ir passar dois dias na casa do duque de Aumale. Eu fico aqui. Não lhe vai fazer nenhuma falta à princesa da Parma; mais de quatro vezes escreveu à senhora duquesa.

            - Então não  eram  vocês  que iam ao  castelo  de Guermantes este ano?

            - É a primeira vez que não passaremos ali; por causa dos resfriados do senhor duque, o médico proibiu que volte lá até que ponham um calorífero; mas antes disso, todos os anos estava ali até janeiro. Se o calorífero não estiver instalado, pode que a senhora vá alguns dias ao Cannes, a casa da duquesa de Guisa; mas ainda não é seguro.

            - E vocês vão ao teatro?

            - Vamos algumas vezes à ópera, outras aos saraus da princesa de Parma, que são a cada oito dias; parece que é muito distinto o que apresentam: há comédias, ópera, de tudo. A senhora duquesa não quis custear; mas de toda maneira vamos uma vez a um camarote de uma amiga da senhora, outras vezes vamos à platéia da princesa do Guermantes, a mulher do primo do senhor duque. É irmã do duque da Baviera. Assim já volta para casa. - dizia o lacaio, que, bem que identificado com os Guermantes, tinha, entretanto uma noção política que lhe permitia tratar a Françoise com tanto respeito como se estivesse na casa de uma duquesa.- Tem saúde excelente, senhora.

             - Ah, se não fosse por estas malditas pernas! Em plano, ainda seria menos mal. - (em plano queria dizer no pátio, nas ruas por onde gostava Françoise de passear, numa palavra, em terreno plano) - mas há estas diabólicas escadarias. Até logo, senhor, certamente ainda nos veremos hoje à tarde.

            Desejava continuar a conversar com o lacaio por ter este lhe revelado que os filhos dos duques usam com freqüência um título de príncipe, que conservam até a morte do pai. Sem dúvida, o culto à nobreza, misturado e acomodado a um certo espírito de revolta contra ela, hereditariamente bebido nas glebas da França, deve ser bem intenso entre o seu povo. Pois Françoise, a quem se podia falar do gênio de Napoleão ou da telegrafia sem fio sem lhe atrair a atenção, e sem que ela diminuísse por um momento sequer os movimentos com que retirava as cinzas da lareira ou punha a mesa, exclamava, bastando-lhe saber dessas particularidades e que o filho caçula do duque de Guermantes era geralmente conhecido como príncipe de Oléron:

            - Como é lindo isto! - e ficava fascinada como diante de um vitral.

            Françoise soube igualmente, pelo lacaio do príncipe de Agrigento, que travara relações com ela ao vir muitas vezes trazer cartas para a duquesa, que de fato ouvira muito falar, na sociedade, do casamento do marquês de Saint-Loup com a Srta. de Ambresac, e que estava quase decidido.

            Aquela vivenda, aquela frisa, para as quais a Sra. de Guermantes transbordava a sua vida, não se me afiguravam lugares menos feéricos que seus apartamentos. Os nomes de Guise, de Parma, de Guermantes-Baviera, se diferenciavam de todas as outras localidades de veraneio a que se dirigia a duquesa, e as festas diárias que o sulco de sua carruagem uma ao seu palácio. Se me informavam eles que nesses descansos e nessas festas consistiam sucessivamente a vida da Sra. de Guermantes, não me traziam qualquer esclarecimento sobre ela. Cada uma dava à vida da duquesa uma determinação diversa, mas somente a faziam mudar de mistério, sem que deixasse nada evaporar do seu, que apenas se deslocava, protegido por um tabique, encerrado em um vaso, no meio das ondas da vida de todos. A duquesa podia almoçar diante do Mediterrâneo à época do carnaval, mas na vivenda da Sra. de Guise, onde a rainha da sociedade parisiense, em seu vestido de piquê branco, no meio de numerosas princesas, não era mais que uma convidada igual às outras, e, por isso mesmo, mais emocionante ainda para mim, mais ela mesma, ao se renovar como uma estrela da dança que, na fantasia de um passo, vem tomar sucessivamente o lugar de cada uma das bailarinas suas irmãs; podia ela contemplar sombras chinesas, mas numa reunião da princesa de Parma; assistir à tragédia ou à ópera, mas na frisa da princesa de Guermantes.

            Como localizamos no corpo de uma pessoa todas as possibilidades de sua vida, a lembrança das criaturas que ela conhece e que acaba de deixar ou com quem vai se encontrar, quando eu sabia, por Françoise, que a Sra. de Guermantes iria a pé almoçar na casa da princesa de Parma, via-a descer de casa ao meio-dia, com seu vestido de cetim cor-de-carne, sobre o qual o seu rosto era do mesmo matiz, como uma nuvem ao sol poente, eram todos os prazeres do faubourg Saint-Germain que eu via à minha frente, nesse pequeno volume como em uma concha, entre essas valvas lustrosas de rosado nácar.

            Meu pai, no ministério, tinha um amigo, um certo A. J. Moreau, o qual, para se distinguir dos outros Moreau, tivera o cuidado de preceder sempre seu nome dessas duas iniciais, de modo que o chamavam, para abreviar, de A. J.. Ora, não sei como esse A. J. se encontrou de posse de uma poltrona para uma noite de gala na ópera; enviou-a a meu pai e, como a Berma, que eu não vira mais desde a minha primeira decepção, devia representar um ato da Fedra, minha avó conseguiu que meu pai me cedesse o ingresso.

            Para dizer a verdade, eu não ligava nenhuma importância a essa oportunidade de ouvir a Berma, que, alguns anos antes, me causara tanta agitação. E não foi sem melancolia que constatei a minha indiferença relativamente ao que outrora preferira à saúde e ao repouso. Não que fosse menos apaixonado que antes o meu desejo de poder ver de perto as parcelas preciosas de realidade que a minha imaginação entrevia. Mas esta já não as situava agora na dicção de uma grande atriz; desde minhas visitas à casa de Elstir, era a certas tapeçarias, certos quadros modernos, que eu havia transferido a fé interior que sentira outrora por aquele desempenho, por aquela arte trágica da Berma; já que minha fé e o meu desejo não vinham mais prestar um culto incessante à dicção e às atitudes da Berma, o "duplo" que possuía deles em meu coração definhara aos poucos, como aqueles outros "duplos" dos mortos do antigo Egito que era necessário alimentar constantemente para lhes manter a vida. Tal arte se tornara medíocre e mesquinha. Já nenhuma alma profunda a habitava.

            No momento em que, aproveitando o ingresso recebido de meu pai, eu subia a grande escadaria da ópera, percebi diante de mim um homem que a princípio julguei fosse o Sr. de Charlus, de quem possuía o aspecto e o porte; quando virou a cabeça para pedir uma informação a um empregado, vi que me enganara; entretanto, não hesitei em situar o desconhecido na mesma classe social, não só devido à maneira como se vestia, mas também pela forma como falava ao fiscal e às empregadas que o faziam esperar. Pois, apesar das particularidades individuais, ainda havia àquela época, entre todo homem chique e rico daquela parte da aristocracia e todo homem chique e rico do mundo das finanças ou da alta indústria, uma diferença bem marcante. Onde um desses últimos julgaria afirmar sua distinção com um tom categórico e altivo na presença de um inferior, o grão senhor, suave e sorridente, dava a impressão de considerar e de exercer a afetação da humildade e da paciência, a simulação de ser qualquer um dos espectadores, como um privilégio de sua boa educação. É provável que, ao vê-lo dissimulando desse modo, sob um sorriso cheio de bonomia, a soleira intransponível do pequeno universo especial que carregava dentro de si, mais de um filho de rico banqueiro, entrando nesse instante no teatro, teria tomado esse grão-senhor por um homem de pouca importância, se não lhe achasse uma espantosa semelhança com o retrato, recentemente reproduzido pelos jornais ilustrados, de um sobrinho do imperador da Áustria, o príncipe de Saxe, que se encontrava precisamente em Paris naquele momento. Sabia-o eu um grande amigo dos Guermantes. Chegando perto do fiscal, ouvi o príncipe de Saxe, ou o seu suposto, dizer sorrindo:          - Não sei o número do camarote; foi sua prima que me disse que bastava eu perguntar pelo camarote dela.

            Talvez fosse o príncipe de Saxe; e era talvez a duquesa de Guermantes (que, nesse caso, eu poderia avistar vivendo um dos momentos de sua vida inimaginável, no camarote de sua prima) que seus olhos viam em pensamento quando dizia: sua prima foi quem me disse que bastava perguntar pelo camarote -, de modo que aquele olhar risonho e especial, e aquelas palavras tão simples, me acariciavam o coração (bem mais do que o faria uma fantasia abstrata), com as antenas alternativas de uma possível felicidade e de um prestígio incerto. Pelo menos, dizendo essa frase ao fiscal, entroncava numa noitada vulgar da minha vida cotidiana uma passagem eventual em direção a um mundo novo; o corredor, que lhe indicaram depois que pronunciou a palavra camarote e pelo qual se enfiou, era úmido e gretado, parecendo levar a grutas marinhas, ao reino mitológico das ninfas das águas. Eu tinha diante de mim apenas um senhor de casaca que se afastava; porém manejava a seu redor, como a um refletor defeituoso, e sem conseguir focalizá-lo exatamente sobre ele, a idéia de que ele era o príncipe de Saxe e ia ver a duquesa de Guermantes. E, conquanto ele estivesse sozinho, essa idéia exterior a ele, impalpável, imensa e sacudida como uma projeção, parecia precedê-lo e conduzi-lo como essa Divindade, invisível para o restante dos homens, que se mantém junto do guerreiro grego.

            Atingi meu lugar, sempre buscando recuperar um verso da Fedra de que não me recordava com exatidão. Tal como o recitava para mim mesmo, ele não tinha o número de sílabas requerido, mas, como não tentava contá-Ias, parecia-me não haver nenhuma medida comum entre seu desequilíbrio e um verso clássico. Não ficaria espantado se fosse preciso tirar mais de seis sílabas a esse verso monstruoso para compor um de doze pés. Mas lembrei-me dele de repente, e as irredutíveis asperezas de um mundo inumano se desfizeram como por mágica; as sílabas do verso logo preencheram a medida de um alexandrino, o que ele possuía em excesso se desprendeu com tanta facilidade de leveza como uma bolha de ar que vem rebentar à superfície da água. E, de fato, essa enormidade com que eu vinha lutando não passava de um único pé.

            Um determinado número de cadeiras de primeira fila tinham sido postas à venda no escritório e foram compradas por esnobes ou curiosos que desejavam contemplar pessoas a que não teriam outra oportunidade de ver de perto. E, com efeito, era bem um pouco de sua verdadeira vida mundana, habitualmente escondida, que se poderia considerar em público, pois, tendo a princesa de Parma repartido entre seus amigos os camarotes, os balcões e as frisas, a sala era como um salão onde cada um mudava de lugar, ia sentar-se aqui ou ali, junto de uma amiga.

            A meu lado estavam pessoas vulgares que, não conhecendo os assinantes, queriam mostrar serem capazes de reconhecê-los e os nomeavam em voz alta. Acrescentavam que esses assinantes compareciam aqui como se fossem para o seu salão, com isto querendo dizer que não prestavam atenção às peças representadas. Mas era o contrário o que ocorria. Um estudante talentoso que obteve uma poltrona para ouvir a Berma só pensa em não sujar as luvas, em não aborrecer, em se acomodar com o vizinho que o acaso lhe deu, em perseguir com um sorriso intermitente o olhar fugidio, em fugir com um olhar descortês ao olhar de uma conhecida sua que descobriu na sala e que, depois de mil perplexidades, decidiu ir cumprimentar no momento em que as três pancadas, ressoando antes que tenha chegado junto dela, forçam-no a fugir como os hebreus no Mar Vermelho, por entre as ondas encapeladas dos espectadores e espectadoras que fez levantar e a quem rasga os vestidos ou pisa as botinas. Ao contrário, era porque as pessoas da sociedade estavam em seus camarotes (por detrás dos balcões, em terraço), como em pequenos salões suspensos de que fora retirada uma divisória, ou em pequenos cafés onde se vai tomar um xarope, sem se ficar intimidado pelos espelhos com moldura de ouro e os assentos vermelhos do estabelecimento de tipo napolitano; era porque pousavam uma mão indiferente sobre os fustes dourados das colunas que sustentavam esse templo de arte lírica, era porque não se achavam emocionados com as honras excessivas que pareciam lhes prestar duas figuras esculpidas que estendiam palmas e louros para os camarotes, que somente eles poderiam ter o espírito livre para escutar a peça, desde que tivessem espírito.

            No começo não foram senão vagas trevas, onde a gente via, de súbito, como o raio de uma pedra preciosa que não se enxerga, a fosforescência de dois olhos célebres, ou, como um medalhão de Henrique IV destacado sobre um fundo negro, o perfil inclinado do duque de Aumale, a quem uma dama invisível gritava:

            - Monsenhor, permita-me que lhe tire o sobretudo. - ao passo que o príncipe respondia:

            - Mas, ora, por quem é, senhora de Ambresac. - Ela o fazia, não obstante esse vago protesto, e era invejada de todos por causa de tal honra.

            Mas, nas outras frisas, quase por toda parte, as brancas deidades que moravam nessas sombrias paragens se haviam refugiado de encontro às paredes obscuras e permaneciam invisíveis. Contudo, à medida que o espetáculo prosseguia, suas formas vagamente humanas se destacavam debilmente, uma após outra, das profundezas da noite que alcatifavam e, erguendo-se para a luz do dia, deixavam emergir seus corpos seminus e vinham parar no limite vertical e na superfície claro-escura, onde seus rostos brilhantes surgiam por trás do desfraldar risonho, espumoso e leve de seus leques de plumas, sob suas cabeleiras de púrpura entretecidas de pérolas que a ondulação da maré parecia ter encurvado; depois começavam as cadeiras da primeira fila, o remanso dos mortais para sempre separado do reino sombrio e transparente ao qual, aqui e ali, serviam de fronteira, em sua superfície líqüida e plana, os olhos límpidos e reflexivos das deusas das águas. Pois as "ostras" das margens, as formas dos monstros da orquestra, se pintavam nesses olhos segundo unicamente as leis da ótica e de acordo com o seu ângulo de incidência, como acontece no caso dessas duas partes da realidade exterior, às quais, sabendo nós que não possuem alma análoga à nossa, por mais rudimentar que seja, julgaríamos insensato dirigir um sorriso ou um olhar: os minerais e as pessoas com quem não temos relações. Aquém, ao contrário, do limite de seu domínio, as radiosas filhas do mar se voltavam a todo instante, sorrindo, para os tritões barbudos pendurados nas anfractuosidades do abismo, ou para algum semideus aquático que ostentava por crânio uma pedra polida, sobre a qual a onda colara uma alga lisa, e por olhar um disco de cristal de rocha. Elas se debruçavam para eles, ofertavam-lhes bombons; às vezes, a onda se entreabria diante de uma nova nereida que, atrasada, sorridente e confusa, acabava de desabrochar do fundo das sombras; depois, terminado o ato, sem mais esperar ouvir os rumores melodiosos da terra que as atraíra à superfície, todas mergulhando a um só tempo, as irmãs divinas desapareciam na noite. Mas de todas estas pousadas, a cujo limiar a leve preocupação de perceber as obras dos homens levava essas deusas curiosas, que não deixam ninguém chegar perto, a mais célebre era o bloco de semi-obscuridade conhecido pelo nome de camarote da princesa de Guermantes.

            Como uma grande deusa que preside de longe aos jogos das divindades inferiores, a princesa permanecera voluntariamente um pouco ao fundo, sobre um canapé lateral, vermelho como um rochedo de coral, ao lado de uma larga reverberação de vidro que era provavelmente um espelho, e fazia pensar em alguma secção que um raio teria efetuado, perpendicular, obscura e líqüida, no cristal ofuscante das águas. Ao mesmo tempo pluma e corola, bem como certas florações marinhas, uma grande flor branca, penugenta como uma asa, descia da testa da princesa ao longo de uma das faces, cuja inflexão seguia com graciosa, adorável e viva flexibilidade, e parecia encerrá-la a meio, como um rosado ovo, na doçura de um ninho de alcione. Sobre a cabeleira da princesa, descendo até suas sobrancelhas, e depois retomada mais abaixo à altura da garganta, estendia-se uma coifa composta dessas conchas brancas que são pescadas em certos mares austrais e que estavam mescladas a pérolas, mosaico marinho mal saído das ondas que por momentos se achava mergulhado na sombra, em cujo fundo, mesmo então, se revelava uma presença humana pela mobilidade deslumbrante dos olhos da princesa. A beleza que colocava esta bem acima das outras mulheres fabulosas da penumbra não era inteiramente material e não estava inclusivamente inscrita em sua nuca, nos seus ombros, nos braços, no seu talhe. Mas a linha deliciosa e inacabada desse talhe era o preciso ponto de partida, o chamariz inevitável de linhas invisíveis nas quais o olho não podia se evitar de prolongá-las, maravilhosas, engendradas ao redor da mulher como o espectro de uma figura ideal projetada nas trevas.

            - É a princesa de Guermantes.- disse a minha vizinha ao senhor que estava com ela, tendo o cuidado de pôr diante da palavra princesa vários pp, indicando que semelhante apelativo era risível. - Ela não economizou suas pérolas. Creio que se tivesse outro tanto delas, não faria uma tal ostentação; não acho que seja distinto.

            Entretanto, reconhecendo a princesa, todos os que procuravam saber quem estava na sala sentiam erguer-se no seu coração o trono legítimo da beleza. Com efeito, no caso da duquesa de Luxemburgo, da Sra. de Morienval, da Sra. de Saint-Euverte, no caso de tantas outras, o que permitia identificar-lhes os rostos era a conexão de um grosso nariz vermelho com um focinho-de-lebre ou duas faces enrugadas com um fino bigode. Aliás, esses traços eram suficientes para encantar, visto que, tendo apenas o valor convencional de uma escrita, davam a ler um nome célebre que se impunha; mas também acabavam por dar a idéia de que a feiúra tem algo de aristocrático e que é indiferente que o rosto de uma grande dama seja belo, se é distinto. Mas como certos artistas que, em vez das letras do próprio nome, põem na parte inferior de suas telas uma forma bonita por si mesma, uma borboleta, um lagarto, uma flor, da mesma maneira era a forma de um corpo e um rosto delicioso o que a princesa punha ao canto de seu camarote, mostrando assim que a beleza pode ser a mais nobre das assinaturas; pois a presença da Sra. de Guermantes, que só levava ao teatro pessoas que durante todo o tempo faziam parte de sua intimidade, era, aos olhos dos amadores da aristocracia, o melhor certificado de autenticidade do quadro que seu camarote apresentava, espécie de evocação de uma cena da vida familiar e própria da princesa nos seus palácios de Munique e de Paris.

            Sendo a nossa imaginação como um realejo defeituoso que sempre toca uma coisa diversa da ária indicada, a lembrança de certas obras do século XVI começava a cantar em mim sempre que ouvia falar da princesa de Guermantes-Baviera. Precisava despojá-la agora dessas recordações, já que a via no ato de oferecer bombons cristalizados a um corpulento senhor de fraque. Claro que estava bem longe de concluir daí que ela e seus convidados fossem criaturas semelhantes às outras. Compreendia perfeitamente que o que faziam ali não passava de um jogo e que, para preludiar os atos de sua vida verdadeira (cuja parte importante, sem dúvida, não era aqui que a viviam), era conveniente, em virtude de ritos de mim ignorados, que fingissem ofertar ou recusar bombons, gesto destituído de sua significação e antecipadamente regulado como o passo de uma dançarina, que sucessivamente se ergue na ponta dos pés e gira ao redor de uma faixa. Quem sabe? Talvez no momento em que oferecia seus bombons, a Deusa dissesse num tom de ironia (pois eu a via sorrir):

            - Querem bombons? - Que me importava? Eu teria achado de um requinte delicioso a secura intencional, à Mérimée ou à Meilhac, dessas palavras dirigidas por uma deusa a um semideus, que, ele sim, sabia quais eram os pensamentos sublimes que ambos resumiam, sem dúvida para o momento em que recomeçassem a viver sua vida verdadeira, e que, prestando-se a esse jogo, respondia com a mesma e misteriosa malícia:

            - Sim, quero um de cereja.

            E eu teria ouvido esse diálogo com a mesma avidez com que ouviria determinada cena do Marido da Estreante, onde a ausência de poesia, de pensamentos profundos, coisas tão familiares para mim e que suponho Meilhac seria mil vezes capaz de pôr ali, me parecia por si só uma elegância, uma elegância convencional e, portanto, mais misteriosa e instrutiva.

            - Aquele gordo é o marquês de Ganançay. - disse com ar sabichão o meu vizinho, que mal ouvira o nome sussurrado atrás dele.

            O marquês de Palancy, de pescoço estendido, o rosto oblíquo, o grande olho redondo colado contra o vidro do monóculo, deslocava-se devagar na sombra transparente e parecia não ver o público da orquestra, como um peixe que passa e ignora a multidão dos visitantes curiosos, por detrás da parede vítrea de um aquário. Detinha-se, por instantes, venerável, resfolegante e musgoso, e os espectadores não teriam podido dizer se sofria, dormia, nadava, punha um ovo ou simplesmente respirava. Ninguém excitava em mim tanta inveja como ele, por causa do hábito que parecia ter daquele camarote e pela indiferença com que deixava a princesa lhe estender bombons; ela então lhe lançava um olhar de seus belos olhos talhados em diamante, que a inteligência e a amizade, nesses momentos, bem pareciam fluidificar, mas que, em repouso, reduzidos à sua pura beleza material, a seu puro brilho mineralógico, incendiavam a profundidade da platéia com seus fogos inumanos, horizontais e esplêndidos, se o menor reflexo os deslocasse de leve. Entretanto, visto que ia começar o ato da Fedra representado pela Berma, a princesa chegou-se para a frente do camarote; então, como se ela própria fosse uma aparição teatral, eu vi, na zona diversa da luz que ela atravessou, mudar não somente a cor mas a matéria de seus adereços. E, no camarote seco e emerso, que não mais pertencia ao mundo das águas, a princesa, deixando de ser uma nereida, apareceu de turbante branco e de azul como uma trágica maravilhosa vestida de Zaire ou talvez de Orosmane; depois, quando se sentou na primeira fila, vi que o doce ninho de alcíone que suavemente protegia o rosado nácar de suas faces era macio, brilhoso e aveludado, uma imensa ave-do-paraíso.

            Todavia, meus olhares foram desviados do camarote da princesa de Guermantes por uma mulherzinha mal vestida, feia, de olhos ardentes, que, acompanhada de dois jovens, veio sentar-se a algumas cadeiras de mim. Depois, o pano se ergueu. Não sem melancolia, verifiquei não me restar coisa alguma de minhas disposições de outrora quando, para não perder nada do fenômeno extraordinário que teria ido contemplar nos confins do mundo, mantinha o meu espírito preparado como essas placas sensíveis que os astrônomos vão instalar na África, nas Antilhas, com vistas à observação escrupulosa de um cometa ou de um eclipse; quando eu receava que alguma nuvem (má-disposição da artista, incidente na assistência) impedisse que o espetáculo alcançasse o seu máximo de intensidade; quando julgara não assisti-lo nas melhores condições se não fosse ao próprio teatro que lhe era consagrado como um altar, onde então me pareciam ainda fazer parte, embora acessoriamente, de seu aparecimento sob o pequeno pano rubro, os fiscais de cravo branco na botoeira, nomeados por ela, o envasamento da nave acima de uma platéia cheia de pessoas mal vestidas, as empregadas vendendo um programa com a sua fotografia, os castanheiros do square, todos esses companheiros, esses confidentes de minhas impressões daquela época e que se me afiguravam inseparáveis dela. Fedra, a "Cena da declaração" e a Berma tinham então para mim uma espécie de existência absoluta. Situadas fora do mundo da experiência usual, existiam por si mesmas, era-me preciso ir até elas, penetraria delas o que fosse possível e, escancarando meus olhos e minha alma, absorveria ainda muito pouco. E como a vida me parecia agradável! A insignificância a qual eu levava não tinha importância nenhuma, como os momentos em que a gente se veste, quando se prepara para sair, pois que além existiam, de medo absoluto, boas e difíceis de abordar, impossíveis de possuir por inteiro, essas realidades mais sólidas, Fedra, a "maneira de recitar da Berma". Saturado por esses devaneios sobre a perfeição na arte dramática das quais então se poderia extrair uma dose importante, se nesses tempos houvessem analisado o meu espírito em algum instante que fosse do dia, e talvez da noite, eu era como uma pilha que alimenta a sua eletricidade. E chegara um momento em que, enfermo, ainda que julgasse morrer por causa disso, teria sido necessário que fosse ouvir a Berma. Mas agora, como uma colina que ao longe parece feita de azul e que, de perto, recai em nossa visão comum das coisas, tudo aquilo abandonara o universo do absoluto e não passava de uma coisa igual às outras, de que eu tomava conhecimento porque estava ali, os artistas eram pessoas da mesma natureza das que eu conhecia, procurando recitar o melhor possível aqueles versos da Fedra que já não formavam uma essência sublime e individual, apartada de tudo, e sim versos mais ou menos bem-sucedidos, prontos para entrar na imensa matéria dos versos franceses a que se misturavam. Sentia um desânimo tanto mais profundo como se o objeto do meu ativo e teimoso desejo não mais existisse; em compensação, persistiam as mesmas disposições para um devaneio fixo, que mudava ano após ano, mas me conduzia a uma brusca impulsão, desatenta do perigo. Certo dia em que, doente, eu saía para ver num castelo um quadro de Elstir, uma tapeçaria gótica, parecia-se de tal forma ao dia em que eu deveria ter partido para Veneza, ao dia em que fora ouvir a Berma, ou viajara para Balbec, que de antemão sentia que o objeto atual do meu sacrifício me deixaria indiferente dentro de pouco tempo e que eu poderia então passar bem perto dele sem ir olhar esse quadro, essas tapeçarias, pelos quais teria naqueles momentos enfrentado tantas noites insones, tantas crises dolorosas. Sentia, pela instabilidade de seu objeto, a vaidade de meu esforço e, ao mesmo tempo, a sua enormidade, na qual não acreditara, como esses neurastênicos cuja fadiga é duplicada quando se lhes observa que estão fatigados. À espera disto, meus sonhos davam prestígio a tudo o que fosse possível ligar-se a eles. E, mesmo em meus desejos mais carnais, orientados sempre em certa direção, concentrados em torno de um mesmo sonho, eu teria podido reconhecer uma idéia como primeiro impulso, uma idéia à qual teria sacrificado a minha vida, e em cujo ponto mais central, como em meus devaneios durante as tardes de leitura no jardim de Combray, estava a idéia da perfeição.

            Não tive mais a mesma indulgência de antigamente quanto às justas intenções de ternura ou de cólera que notara então na dicção e na mímica de Arícia, de Ismênia e de Hipólito. Não é que aqueles artistas eram os mesmos não buscassem sempre, com a mesma inteligência, dar à sua voz aqui uma inflexão carinhosa ou uma ambigüidade calculada, ali a seus gestos uma amplitude trágica ou uma doçura suplicante. Suas entonações ordenavam a essa voz: "Seja doce, cante como um rouxinol, acaricie", ou, ao contrário: "Torne-se furiosa", e então se precipitavam sobre ela para tentar empolgá-la em seu frenesi. Mas ela, rebelde, exterior à dicção deles, continuava sendo, irredutivelmente, sua voz natural, com seus defeitos ou encantos materiais, sua vulgaridade ou afetação cotidianas, e, assim, era um conjunto de fenômenos acústicos ou sociais que o sentimento dos versos recitados não alterara.

            Do mesmo modo, os gestos desses artistas diziam a seus braços, a seu peplo: "Seja majestoso". Mas os membros insubmissos deixavam pavonear entre o ombro e o cotovelo um bíceps que nada entendia do papel; continuavam a exprimir a insignificância da vida de todos os dias e a pôr em destaque, em vez de matizes racinianos, conexões musculares; e o planejamento que soerguiam caía de novo segundo uma vertical em que uma flexibilidade insossa e têxtil era a única a disputá-lo às leis da queda dos corpos. Nesse momento, a mulherzinha perto de mim exclamou:

            - Nenhum aplauso! E como ela está presa! Mas é muito velha, não agüenta mais; nesses casos a gente deve desistir.

            Diante dos psius dos vizinhos, os dois jovens que a acompanhavam trataram de sossegá-la, e então a sua raiva só se desencadeou em seus olhos. Essa raiva, aliás, só podia se dirigir à glória, ao sucesso, pois a Berma, que ganhara tanto dinheiro, estava crivada de dívidas. Marcando sempre encontros de negócios ou de amizade a que não podia comparecer, tinha em todas as ruas moços de recados que corriam para cancelar, nos hotéis, apartamentos antecipadamente reservados e que ela nunca ia ocupar, oceanos de perfumes para lavar suas cadelas, vales para descontar com todos os diretores. À falta de gastos mais consideráveis, e menos voluptuosa que Cleópatra, teria encontrado uma forma de devorar províncias e reinos apenas em telegramas e carros da Companhia Urbana. Mas a mulherzinha era uma atriz que não tivera oportunidade e votara ódio mortal à Berma. Esta acabava de entrar em cena. E então, ó milagre: como essas lições que debalde nos esgotamos para aprender à noite e que encontramos em nós, decoradas, depois de termos dormido, assim como essas faces de mortos que os esforços apaixonados da nossa memória perseguem sem os achar e que, quando já não pensamos neles, lá estão diante de nossos olhos, com a semelhança da vida, o talento da Berma que me fugira quando procurara com tanta avidez captar-lhe a essência, agora, após esses anos de olvido, nesta hora de indiferença, impunha-se com a força da evidência à minha admiração. Antigamente, para tentar isolar esse talento, eu desfalcava de alguma forma daquilo que ouvia o próprio papel, o papel, parte comum a todas as atrizes que representavam a Fedra e que havia estudado de antemão para ser capaz de subtraí-lo, de recolher como resíduo unicamente o talento da Sra. Berma.

            Mas esse talento que eu buscava perceber fora do papel formava um só todo com ele. Assim como ocorre com um grande músico (parece que era o caso de Vinteuil, quando ele tocava piano), seu desempenho é de um tão grande pianista que já nem se sabe mais se esse artista é pianista mesmo, porque (não interpondo todo esse aparato de esforços musculares, aqui e ali coroados de efeitos brilhantes, todos esses salpicos de notas, onde pelo menos o ouvinte que não sabe a que se ater julga descobrir talento em sua realidade material, tangível) tal execução tornou-se tão transparente, tão repleta do que ele está interpretando que a ele próprio já ninguém o vê, o artista não passa de uma janela que se abre para uma obra-prima. As intenções que cercam, como um bordado majestoso ou delicado, a voz e a mímica de Arícia, de Ismênia e de Hipólito, eu lograra distingui-las; porém Fedra as interiorizara, e meu espírito não conseguira arrancar à dicção e às atitudes, apreender na avara simplicidade de suas superfícies unidas àqueles achados, aqueles efeitos que não se ressaltariam tanto se não fossem profundamente reabsorvidos. A voz da Berma, na qual não subsistia mais um só resíduo de matéria inerte e refratária ao espírito, não deixava discernir a seu redor aquele excesso de lágrimas que se via correr porque não tinham podido se embeber na voz de mármore de Arícia ou de Ismênia, mas fora delicadamente suavizado em suas menores células, como o instrumento de um grande violonista no qual se deseja louvar, quando se diz que possui um bom som, não uma particularidade física, mas uma superioridade de alma; e, como numa paisagem antiga, onde, em vez de uma ninfa desaparecida existe uma fonte inanimada, uma intenção distinguível e consciente se transformara em uma qualidade de timbre, de estranha limpidez, fria e apropriada. Os braços da Berma que os próprios versos, na mesma emissão com que faziam sair sua voz dos lábios, pareciam erguer sobre seu peito como essas folhagens que a água desloca ao se escapar; sua atitude em cena, que ela vagarosamente constituíra, que modificaria ainda, e que era feita de raciocínios de uma profundeza diversa dos daqueles cujos traços se percebiam nos gestos das companheiras, raciocínios, porém, que tinham perdido sua origem voluntária, dissolvidos numa espécie de irradiação em que faziam palpitar, em torno ao personagem de Fedra, elementos ricos e complexos, mas que o espectador, fascinado, tomava não por um sucesso da artista e, sim, por um dom da vida; e até aqueles brancos véus, que, extenuados e fiéis, pareciam matéria viva e ter sido fiados pelo sofrimento meio pagão, meio jansenista, em torno ao qual se contraíam como um casulo frágil e friorento; tudo isto, voz, atitudes, gestos, véus, não era, ao redor daquele corpo, senão uma idéia do que é um verso (corpo que, ao contrário dos corpos humanos, não está diante da alma como um obstáculo opaco que impede percebê-la e, sim, como uma vestimenta purificada, vivificada, onde ela se difunde e onde a encontramos), senão invólucros suplementares que, em lugar de escondê-la, exibiam mais esplendorosamente a alma que os assimilara e neles se espalhara, como vagas de substâncias diversas, tornadas translúcidas, cuja superposição só faz refratar com maior riqueza o raio central e prisioneiro que as atravessa e tornar mais extensa, mais preciosa e mais linda a matéria embebida de flamas onde está envolvido. Assim, a interpretação da Berma era, em torno da obra, uma segunda obra, igualmente vivificada pelo gênio.

            Minha impressão, a falar a verdade, mais agradável que a de outrora, não era diferente. Apenas, não mais a comparava a uma idéia preconcebida, abstrata e falsa, do gênio dramático, e compreendia que o gênio dramático era justamente aquilo. Havia pouco, pensava que, se não sentira prazer da primeira vez que ouvira a Berma, era que ia a ela com um desejo muito intenso, como antigamente quando encontrava Gilberte nos Champs-Élysées. Entre as duas decepções não havia talvez somente esta parecença, mas uma outra também, mais profunda. A impressão que nos causa uma pessoa, uma obra (ou uma interpretação) fortemente caracterizadas é particular. Chegamos com todas as nossas idéias de "beleza", "amplitude de estilo", "patético" que, a rigor, poderíamos ter a ilusão de reconhecer na banalidade de um talento e de um rosto corretos, porém o nosso espírito atento tem diante de si a insistência de uma forma da qual não possui o equivalente intelectual e cujo desconhecido precisa descobrir. Ouve um som agudo, uma entonação estranhamente interrogativa. Pergunta a si próprio: "É belo? O que estou sentindo é admiração? É isto a riqueza de colorido, a nobreza, a força?" E o que lhe responde de novo é uma voz aguda, é um tom curiosamente questionador, é a impressão despótica provocada por um ser a quem não se conhece, impressão puramente material e na qual não se deixa nenhum espaço vago para a "amplitude da interpretação". E, devido a isso, as obras verdadeiramente belas, se sinceramente escutadas, são as que mais devem nos decepcionar, porque, na coleção das nossas idéias, não houve nenhuma que correspondesse a uma impressão individual.

            Era precisamente isso o que me mostrava o desempenho da Berma. Era bem aquilo a nobreza e a inteligência da dicção. Agora eu me dava conta dos méritos de uma interpretação ampla, poética, poderosa; ou melhor, era aquilo a interpretação a que se convencionou atribuir esses títulos, mas como se dá o nome de Marte, de Vênus e de Saturno aos astros que nada têm de mitológico. Sentimos num mundo, pensamos e nomeamos em outro mundo, podemos entre ambos estabelecer uma concordância, mas não preencher o intervalo. Era bem pouca coisa esse intervalo, essa falha, que eu tivera de transpor quando, no primeiro dia em que fora ouvir a Berma, tendo-a escutado com todos os meus ouvidos, sentira um certo esforço para reunir minhas idéias de "nobreza de interpretação", de "originalidade", e só rompera em aplausos após um instante de vazio e como se tais aplausos nascessem não de minha própria impressão, mas como se os unisse a minhas idéias antecipadas, ao prazer que tinha em dizer a mim mesmo: "Enfim, estou ouvindo a Berma." E a diferença que há entre uma pessoa, uma obra fortemente individual e a idéia de beleza existe, igualmente grande, entre o que elas nos fazem sentir e as idéias de amor e de admiração. Portanto, não as reconhecemos. Eu não sentira prazer em ouvir a Berma (como não a sentira em ver Gilberte). Dissera comigo: "Logo, não a admiro." Todavia, só pensava então em criticar o desempenho da Berma, só me preocupava com isso, tentava abrir o meu pensamento o mais amplamente possível para receber tudo o que continha a sua interpretação. Agora compreendia que era justamente isto: admirar.

            Este gênio, do qual a interpretação da Berma era apenas a revelação, seria na verdade unicamente o gênio de Racine?

            Foi o que acreditei, a princípio. Deveria me desenganar, tão logo terminou o ato da Fedra, depois dos aplausos do público, durante os quais minha vizinha, a velha enraivecida, erguendo a minúscula estatura e enviesando o corpo, imobilizou os músculos do rosto e cruzou os braços no peito para mostrar que não se misturava aos aplausos alheios e tornar mais evidente um protesto que julgava sensacional, mas que passou despercebido. A peça seguinte era uma das novidades que, outrora, devido à falta de celebridade, achava eu que deveriam parecer fracas, restritas, destituídas como eram de existência fora da interpretação que lhe davam. Mas eu não tinha, como no caso de uma peça clássica, essa decepção de ver que a eternidade de uma obra-prima não era mais extensa que o tamanho do palco nem durava mais que a representação que a desempenhava como uma peça circunstancial. Depois, a cada tirada que sentia que o público apreciava e que um dia seria famosa, em vez da celebridade que não pudera ter no passado, eu acrescentava a que ela teria no futuro, por um esforço de espírito contrário ao que consiste em idealizar obras-primas ao tempo de sua estréia infeliz, quando seu título, que jamais fora ouvido, não parecia devesse ser posto um dia, confundido sob a mesma luz, ao lado do das outras obras do autor. E aquele viria a ser colocado, um dia, na lista de seus mais belos papéis, ao lado do de Fedra. Não que em si mesmo não fosse desprovido de qualquer valor literário; mas a Berma, nele, era tão sublime como em Fedra. Compreendi então que a obra do escritor não era, para a artista trágica, senão uma matéria quase indiferente em si mesma para a criação de sua obra-prima de interpretação, como o grande pintor que conhecera em Balbec, Elstir, encontrara o motivo de dois quadros que se equivalem num prédio escolar sem estilo e numa catedral que é, por si mesma, uma obra-prima. E como o pintor dissolve casa, carroça, personagens, em um grande efeito de luz

que os torna homogêneos, a Berma estendia amplas camadas de terror, de ternura, sobre as palavras fundidas por igual, todas niveladas ou ressaltadas em conjunto, e que uma artista medíocre teria destacado uma após a outra. Sem dúvida, cada qual tinha uma inflexão própria, e a dicção da Berma não impedia que se percebesse o verso. Não é já um primeiro elemento de complexidade, de beleza, quando, ouvindo uma rima, isto é, algo ao mesmo tempo igual e diferente da rima anterior, por ela motivada, mas que aí introduz a variação de uma idéia nova, se sentem dois sistemas que se superpõem, um de pensamento e o outro de métrica? No entanto, a Berma fazia entrar as palavras, até os versos e mesmo as "tiradas", em conjuntos mais vastos que eles próprios, em cuja fronteira era um encanto vê-los obrigados a parar, a interromper-se; assim um poeta sente prazer em fazer hesitar, por um momento, na rima, a palavra que vai se lançar, e um compositor em confundir as palavras diversas de um libreto em um mesmo ritmo que as arrasta e contraria. Assim nas frases do dramaturgo moderno, como nos versos de Racine, a Berma sabia introduzir essas vastas imagens de dor, de nobreza, de paixão, que eram suas obras-primas pessoais, e onde a reconheciam como se reconhece um pintor nos quadros que pintou segundo modelos diferentes.

            Não mais desejaria, como antigamente, poder imobilizar as atitudes da Berma, o belo efeito de cor que ela conferia por um instante apenas numa iluminação logo desvanecida e que não se reproduzia, nem fazer com que repetisse um verso uma centena de vezes. Compreendia que meu desejo de outrora era mais exigente que a vontade do poeta, da trágica, do grande artista decorador que era o seu cenógrafo, e que aquele encanto espalhado em pleno vôo sobre um verso, aqueles gestos vacilantes perpetuamente transformados, aqueles quadros sucessivos eram o resultado fugaz, o fim momentâneo, a móvel obra-prima que a arte teatral se propunha e que a atenção de um espectador demasiadamente apaixonado acabaria por destruir, querendo fixá-la. Até nem fazia questão de voltar outro dia para ouvir de novo a Berma; estava satisfeito com ela; era quando estava admirando demais para que não ficasse decepcionado com o objeto da minha admiração, fosse ele Gilberte ou a Berma, que eu pedia previamente à impressão do dia seguinte o prazer que me recusara a impressão da véspera. Sem procurar analisar a alegria que acabara de sentir, e a que talvez pudesse ter dado um emprego mais fecundo, murmurava comigo mesmo, como dizia outrora um de meus companheiros de colégio: "É verdadeiramente a Berma que coloco em primeiro lugar", todavia sentindo confusamente que o gênio da Berma não fosse talvez traduzido precisamente por aquela afirmação de minha preferência e por aquele posto de "primeira" que lhe atribuía, apesar da tranqüilidade que me causavam.

            No momento em que principiou a segunda peça, olhei para o lado do camarote da Sra. de Guermantes. Esta princesa, por um movimento gerador de uma linha deliciosa que meu espírito perseguia no vácuo, acabava de virar a cabeça para o fundo do camarote; os convidados estavam de pé, também voltados para o fundo, e entre a dupla fila que formavam, em sua segurança e grandeza de deusa, mas com uma doçura desconhecida que se devia à confusão tímida e risonha de ter chegado tão tarde e de fazer todo mundo se levantar no meio da representação, entrou a duquesa de Guermantes, toda envolta em brancas musselinas. Foi direto para a sua prima, fez uma profunda reverência a um rapaz louro que estava sentado bem na frente e, voltando-se para os monstros marinhos e sagrados que flutuavam no fundo do antro, fez a esses semideuses do Jockey-Club que naquele instante, e especialmente o Sr. de Palancy, foram os homens que eu mais gostaria de ser um cumprimento familiar de velha amiga, alusão ao aspecto dia-a-dia de suas relações com eles há quinze anos. Eu percebia o mistério mas não podia decifrar o enigma daquele olhar risonho que ela dirigia aos amigos, no brilho azulado em que fulgia, enquanto abandonava a mão a uns e outros, e que, se lhe tivesse podido decompor o prisma, analisado suas cristalizações, talvez me revelasse a essência da vida desconhecida que nela se mostrava naquele instante. O duque de Guermantes seguia a mulher, com os reflexos de seu monóculo, o riso de seus dentes, a brancura do cravo em sua botoeira ou de seu plastrão plissado, e afastando, para dar lugar à luz de tudo isto, suas sobrancelhas, seus lábios e seu fraque; com um gesto da mão estendida, que baixou sobre os ombros deles, teso, sem mover a cabeça, ordenou que se sentassem aos monstros inferiores que lhe davam lugar, e inclinou-se profundamente diante do jovem louro. Poder-se-ia dizer que a duquesa adivinhara que sua prima, a quem criticava, diziam, o que ela chamava de exageros (nome que, de seu ponto de vista espirituosamente francês e bastante moderado, assumiam logo a poesia e o entusiasmo germânicos), usaria naquela noite uma das toaletes em que a considerava "fantasiada", e que desejara dar-lhe uma aula de bom gosto. Em vez das maravilhosas e macias plumas que desciam da cabeça da princesa até o seu pescoço, em vez da rede de conchinhas e pérolas, a duquesa não ostentava nos cabelos mais que uma simples aigrette que, dominando seu nariz arqueado e os olhos saltados, parecia a crista de um pássaro. Seu pescoço e ombros emergiam de uma onda nevada de musselina contra a qual vinha bater um leque de plumas de cisne, mas a seguir o vestido, cujo corpete possuía, como único ornamento, inumeráveis palhetas, seja de metal, em varinhas ou em grãos, seja de brilhantes, modelava-lhe o corpo com uma precisão absolutamente britânica. Mas, por mais diversas que fossem as toaletes de uma e de outra, depois que a princesa cedeu à prima a cadeira que ocupava até então, viram-nas se voltarem uma para a outra e se admirarem reciprocamente.

            Talvez a duquesa de Guermantes, no dia seguinte, sorrisse ao falar do penteado um tanto complicado da princesa, mas certamente iria declarar que esta nem por isso estava menos deslumbrante e maravilhosamente arrumada; e a princesa que, por gosto, achava algo um tanto frio, um tanto seco, um tanto couturier demais no modo como se vestia a prima, descobria um refinamento delicado naquela sobriedade estrita. Aliás, entre elas, a harmonia e a gravitação universal preestabelecida de sua educação neutralizavam os contrastes não só de ajustamento mas de atitude. Nessas linhas invisíveis e imantadas que a elegância de maneiras estendia entre elas, vinha expirar a natureza expansiva da princesa, ao passo que a retidão da duquesa se deixava atrair e infletir para elas, fazendo-se doçura e encanto. Assim como na peça que se representava, para compreender o que a Berma irradiava de poesia pessoal, bastaria confiar o papel que ela desempenhava, e que somente ela podia desempenhar, a qualquer outra atriz, o espectador que erguesse os olhos para o balcão teria visto, em dois camarotes, um "arranjo", que ela julgava relembrar os penteados da princesa de Guermantes, dar simplesmente à baronesa de Morienval o ar excêntrico, pretensioso e mal-educado, e um esforço a um tempo custoso e paciente para imitar as toaletes e a elegância da duquesa de Guermantes, fazer apenas a Srta. de Cambremer se assemelhar a uma pensionista provinciana, armada em arame, tesa, seca e aguda, um penacho de carro fúnebre verticalmente enfiado nos cabelos. Talvez o lugar desta última não fosse numa sala onde era somente com as mulheres mais brilhantes do ano que os camarotes (e até os mais altos, que de baixo pareciam grandes cestos cheios de flores humanas e ligados à abóbada da sala pelas rédeas rubras de suas divisões de veludo) compunham uma paisagem momentânea que os mortos, os escândalos, as doenças e as brigas em breve modificariam, mas que naquele momento estava imobilizada pela atenção, pelo calor, pela vertigem, pela poeira, a elegância e o tédio, nesse tipo de instante eterno e trágico de espera inconsciente e de tranqüilo embotamento que, retrospectivamente, parece ter precedido a explosão de uma bomba ou a primeira chama de um incêndio.

            O motivo pelo qual a Sra. de Cambremer se achava ali era que a princesa de Parma, desprovida de esnobismo como a maior parte das legítimas altezas e, em compensação, devorada pelo orgulho e pelo desejo de praticar a caridade, que nela igualava o gosto pelo que imaginava ser as Artes, cedera aqui e ali alguns camarotes para mulheres como a Sra. de Cambremer, que não fazia parte da alta sociedade aristocrática, mas com quem se relacionava devido às suas obras de beneficência. A Sra. de Cambremer não tirava os olhos da duquesa e da princesa de Guermantes, o que lhe era tanto mais fácil porque, não tendo verdadeiras relações com elas, não podia dar a impressão de implorar um cumprimento. Ser recebida em casa dessas duas grandes damas era no entanto o objetivo que ela perseguia há dez anos com infatigável paciência. Calculara que o conseguiria certamente dentro de cinco anos.

            Mas, atingida por uma doença que não perdoa e cujo caráter inexorável julgava conhecer, vangloriando-se de saberes médicos, temia não poder viver até lá. Pelo menos sentia-se feliz naquela noite ao pensar que todas aquelas mulheres a quem mal conhecia veriam junto dela, um de seus amigos, o jovem marquês de Beausergent, irmão da Sra. de Argencourt, que também freqüentava as duas sociedades e cuja companhia as mulheres da segunda apreciavam muito ostentar aos olhos da primeira. Estava sentado atrás da Sra. de Cambremer, numa cadeira enviesada, para poder observar os demais camarotes. Conhecia todos ali e, para cumprimentar, com a arrebatadora elegância das lindas mesuras garbosas de sua cabeça loura, erguia a meio o corpo bem aprumado, com um sorriso nos olhos azuis, num misto de respeito e desenvoltura, gravando assim com precisão, no retângulo do plano oblíquo em que se achava posto, algo como uma dessas velhas estampas que mostram um grão-senhor altivo e cortesão. Muitas vezes aceitava, desse modo, ir ao teatro com a Sra. de Cambremer; na sala, e à saída, no vestíbulo, permanecia corajosamente junto dela no meio da multidão de amigas mais brilhantes do que a que lhe estava ao lado, à qual evitava falar, não querendo constrangê-las, e como se estivesse em má companhia. Se então passava a princesa de Guermantes, ligeira e bela como Diana, arrastando atrás de si uma capa incomparável, fazendo com que todas as cabeças se virassem e seguida de todos os olhares (mais pelos da Sra. de Cambremer que pelos dos outros), o Sr. de Beausergent se absorvia numa conversação com sua vizinha, não correspondia ao sorriso amistoso e deslumbrante da princesa senão por obrigação e forçado, e com a reserva bem-educada e a caridosa frieza de alguém cuja amabilidade pode se tornar momentaneamente constrangedora.

            A Sra. de Cambremer, mesmo que não soubesse que a frisa pertencia à princesa, teria no entanto reconhecido que a Sra. de Guermantes era a convidada, devido ao ar de maior atenção que esta prestava ao espetáculo da cena e da sala, para ser amável com quem a convidara. Mas ao mesmo tempo que essa força centrífuga, uma força contrária desenvolvida pelo mesmo desejo de amabilidade levava a atenção da duquesa de volta à própria toalete, para a sua aigrette, o colar, o corpete, e até para o da própria princesa, de quem parecia se proclamar vassala, escrava, vinda até aqui exclusivamente para vê-la, pronta para segui-la alhures se à titular do camarote lhe desse a fantasia de ir-se embora, e só considerando um grupo de estranhos curiosos o restante da sala, onde possuía entretanto um grande número de amigos, em cujos camarotes ela se encontrava em outras semanas e para com os quais então não deixava de dar mostras da mesma lealdade exclusiva, relativista e semanal. A Sra. de Cambremer estava espantada de ver a duquesa nessa noite. Sabia que ela ficava até bem tarde em Guermantes e supunha que ali se achasse ainda. Mas contaram-lhe que, às vezes, quando se dava em Paris um espetáculo que ela julgava interessante, a Sra. de Guermantes mandava atrelar um de seus carros logo depois de tomar chá com os caçadores e, ao sol poente, partia a trote rápido através da floresta crepuscular, depois pela estrada, para tomar o trem em Combray a fim de estar à noite em Paris. "Talvez ela tenha vindo de Guermantes expressamente para ouvir a Berma", pensava a Sra. de Cambremer com admiração. E se lembrava de que ouvira Swann dizer, nesse jargão ambíguo que ele possuía em comum com o Sr. de Charlus: - A duquesa é uma das criaturas mais nobres de Paris, da elite mais requintada e escolhida. - Por mim, que fazia derivar do nome de Guermantes, do nome de Baviera e do nome de Condé a vida e o pensamento das duas primas (não podia fazer o mesmo no tocante a seus rostos, pois já os vira), preferia conhecer o seu julgamento sobre a Fedra do que o do maior crítico do mundo. Pois no julgamento delas não teria encontrado mais que inteligência, inteligência superior à minha, mas da mesma natureza. Porém o que pensavam a duquesa e a princesa de Guermantes, e que me teria fornecido um documento inestimável acerca da natureza dessas duas poéticas criaturas, eu o imaginava com a ajuda de seus nomes, aos quais atribuía um encanto irracional e, com a sede e a nostalgia de uma pessoa febril, o que eu pedia que sua opinião sobre a Fedra me desse era o encanto das tardes de verão em que eu ia passear para os lados de Guermantes.

            A Sra. de Cambremer tentava distinguir que espécie de toalete usavam as duas primas. Quanto a mim, não duvidava que essas toaletes lhe fossem peculiares. Não só no sentido em que a libré de gola vermelha ou lapela azul pertencera outrora exclusivamente aos Guermantes e aos Condé, mas antes como a um pássaro a plumagem que não é apenas um ornamento de sua beleza, mas uma extensão de seu corpo. A toalete dessas duas mulheres parecia-me como uma materialização nívea ou matizada de sua atividade interior, e, como os gestos que eu vira fazer a princesa de Guermantes, e que não duvidara correspondessem a uma idéia oculta, as plumas que desciam de sua testa e o corpete esplendoroso e recamado de sua prima pareciam ter um significado, ser, para cada uma, um atributo que era apenas delas e cujo sentido gostaria de conhecer: a ave-do-paraíso me parecia inseparável de uma, como o pavão de Juno; não imaginava que uma pudesse usurpar o corpete recamado da outra como não faria com a égide cintilante e franjada de Minerva. E, quando erguia meus olhos para aquele camarote, muito mais que no teto do teatro, onde estavam pintadas alegorias, era como se avistasse, graças à abertura miraculosa das nuvens de costume, a assembléia dos Deuses ocupados em contemplar o espetáculo dos homens, debaixo de um toldo rubro, numa clareira luminosa, entre dois pilares do Céu. Eu contemplava essa apoteose momentânea com uma perturbação que mesclava a paz ao sentimento de ser ignorado pelos Imortais; a duquesa me vira uma vez com o marido, mas certamente não devia se lembrar disso, e não me era penoso que ela, pelo posto que ocupava no camarote, ficasse contemplando as madrepérolas anônimas e coletivas da platéia das primeiras filas, pois sentia com felicidade o meu ser dissolvido no meio delas, quando, no momento em que, em virtude das leis da refração, veio sem dúvida pintar-se na corrente impassível dos dois olhos azuis, a forma confusa do protozoário desprovido de existência individual que eu era, vi uma claridade iluminá-los: a duquesa, transformada de deusa em mulher e parecendo-me subitamente mil vezes mais bela, ergueu para mim a mão enluvada de branco que mantinha apoiada no rebordo da frisa, agitou-a em sinal de amizade, meu olhar se sentiu atravessado pela incandescência involuntária e pelo fogo dos olhos da princesa, que os fizera entrar em conflagração só pelo fato de movê-los para ver a quem a prima cumprimentava; e esta, que me reconhecera, fez chover sobre mim o aguaceiro fulgurante e celeste de seu sorriso.

            Agora, todas as manhãs, bem antes da hora em que ela saía, eu rumava por um longo desvio e ia me postar na esquina da rua pela qual ela costumava descer e, quando o momento de sua passagem me parecia próximo, subia com um ar distraído, olhando na direção oposta e erguendo os olhos para ela assim que chegava à sua altura, mas como se de modo nenhum esperasse vê-la. Nos primeiros dias até, para estar mais seguro de não perdê-la, eu esperava diante da casa, E, todas as vezes que o portão principal se abria (deixando passar sucessivamente tantas pessoas que não eram aquela que eu esperava), a sua agitação logo se prolongava em meu peito, em oscilações que custavam a se acalmar. Pois nunca um fanático de uma grande comediante a quem não conhece, cansando-se de esperar de pé diante de onde saem os artistas, nunca uma multidão exasperada ou idólatra, reunida para insultar ou carregar em triunfo o condenado ou o grande homem que se julga estar a ponto de passar a cada vez que se ouve um rumor vindo do interior da prisão ou do palácio, se sentiram tão emocionados como eu, esperando a saída daquela grande dama que, em sua toalete simples, sabia, pela graça de seu caminhar (bem diverso do modo de andar que exibia ao entrar num salão ou num camarote), fazer de seu passeio matinal para mim, em todo o mundo, só existia ela a passear todo um poema de elegância e o mais requintado adereço, a mais curiosa flor do bom tempo. Mas, depois de três dias, para que o porteiro não percebesse a minha manobra, fui até bem mais longe, até a um ponto qualquer do percurso habitual da duquesa. Com freqüência, antes daquela noite no teatro, eu dava desse modo pequenas escapadas antes do almoço, quando fazia bom tempo; se tivesse chovido, eu descia à primeira estiagem para dar alguns passos e, de repente, vindo pela calçada ainda úmida, transformada pela luz em laca de ouro, na apoteose de uma encruzilhada coberta de pó de uma névoa que o sol curtia e dourava, avistava uma pensionista seguida de sua professora, ou uma leiteira com suas mangas brancas; eu permanecia imóvel, uma mão no peito, e o coração já se lançava para uma vida estranha; procurava lembrar-me da rua, da hora, da porta em que a menina (que às vezes eu seguia) desaparecera sem voltar a sair. Felizmente, a fugacidade dessas imagens afagadas (e que eu me prometia tentar rever) as impedia de se fixarem com força em minha lembrança. Não importa, sentia-me menos triste por estar doente, de nunca ter tido ainda coragem de me pôr a trabalhar, a começar um livro. A terra me parecia mais agradável de morar, a vida mais interessante de percorrer desde que via que as ruas de Paris, como as estradas de Balbec, estavam floridas por essas belezas ignoradas que tantas vezes eu procurara fazer surgir dos bosques de Méséglise, e o desejo voluptuoso que cada uma excitava somente ela seria capaz de saciar.

            Voltando da ópera, acrescentara, para o dia seguinte, às imagens que desde alguns dias sonhava reencontrar, a da Sra. de Guermantes, grandiosa, com seu penteado alto de cabelos louros e leves, com a ternura prometida no sorriso que me endereçara da frisa de sua prima. Seguiria o caminho que Françoise me dissera que a duquesa tomava e, no entanto, trataria de não perder a saída de uma aula e de um catecismo, a fim de reencontrar duas moças que havia visto na antevéspera. Mas, à espera, de vez em quando, do cintilante sorriso da Sra. de Guermantes, a sensação de doçura que ele me proporcionara me voltava à lembrança. E, sem saber muito bem o que fazia, tentava pô-los (como uma mulher observa o efeito que faria sobre o vestido uma determinada espécie de botões de pedrarias que acabam de lhe presentear) ao lado das idéias romanescas que possuía há muito e que a frieza de Albertine, a partida prematura de Gisele e, antes disso, a separação intencional e excessivamente prolongada de Gilberte, haviam liberado (a idéia, por exemplo, de ser amado por uma mulher, de ter uma vida em comum com ela); depois, era a imagem de uma ou outra das duas moças que eu aproximava dessas idéias, às quais, logo após, tratava de adaptar a lembrança da duquesa. Junto dessas idéias, a recordação da Sra. de Guermantes na ópera era bem pouca coisa, uma estrelinha ao lado da longa cauda de seu cometa flamejante; além do mais, conhecia muito bem essas idéias longo tempo antes de conhecer a Sra. de Guermantes; a recordação, ao contrário, possuía-a imperfeitamente; escapava-me por instantes; e foi durante as horas em que, flutuando em mim na mesma qualidade das imagens de outras mulheres bonitas, ela passou aos poucos a uma associação única e definitiva exclusiva de qualquer outra imagem feminina com minhas idéias romanescas tão anteriores a ela, foi durante essas horas em que melhor a recordava que deveria ter-me ocorrido saber com exatidão em que consistia essa lembrança; mas eu não sabia então a importância que viria a ter para mim; era doce apenas como um primeiro encontro com a Sra. de Guermantes dentro de mim mesmo, era o primeiro esboço, o único verdadeiro, o único feito conforme a vida, o único que de fato foi a Sra. de Guermantes; durante as poucas horas em que tive a felicidade de a deter sem saber lhe prestar atenção, devia entretanto ser bastante encantadora essa recordação, visto que era sempre a ela, livremente ainda naquele momento, sem pressa nem cansaço, sem nada de necessário ou de ansioso, que minhas idéias de amor retornavam; a seguir, à medida que essas idéias se fixaram mais definitivamente, adquiriu delas uma força muito grande, mas tornou-se ele próprio mais vago; em breve, não consegui mais reencontrá-lo; e, nos meus devaneios, deformava-o completamente, sem dúvida, pois, cada vez que via a Sra. de Guermantes, constatava um afastamento, aliás sempre diferente, entre aquilo que havia imaginado e aquilo que via. Agora, todos os dias, certamente, no momento em que a Sra. de Guermantes desembocava no fim da rua, eu ainda avistava seu talhe alto, o rosto de olhar claro sob uma cabeleira leve, todas as coisas pelas quais estava ali; mas, em compensação, alguns segundos mais tarde, quando, tendo desviado os olhos em outra direção para fingir que não estava esperando esse encontro que viera buscar, erguia-os para a duquesa no momento em que chegava ao mesmo nível da rua que ela, e o que via então eram as marcas vermelhas, que não sabia se eram causadas pelo ar livre ou pela acne num rosto entediado que, por um sinal bastante seco e bem diverso da amabilidade da noite de Fedra, correspondia ao cumprimento que lhe dirigia diariamente com ar de surpresa e que não parecia lhe agradar. Entretanto, ao fim de alguns dias, durante os quais a lembrança das duas moças lutou com chances desiguais pelo predomínio de minhas idéias amorosas com a da Sra. de Guermantes, foi a desta, como se de si mesma, que principiou por renascer com mais freqüência, enquanto suas concorrentes eram eliminadas; em suma, foi para a Sra. de Guermantes que acabei transferindo, ainda voluntariamente e como por escolha e por prazer, todos os meus pensamentos de amor. Já não sonhava com as meninas do catecismo, nem com uma certa leiteira; e, no entanto, não esperava mais encontrar na rua o que fora buscar, nem a ternura prometida no teatro por um sorriso, nem a silhueta e o rosto claro sob a cabeleira loura que só o eram assim de longe. Agora, não poderia sequer dizer como era a Sra. de Guermantes, nem como a reconhecia, pois a cada dia, no conjunto de sua pessoa, o rosto era tão diverso como o vestido e o chapéu.

            Por que, em determinado dia, vendo avançar de frente sob um capuz cor-de-malva um rosto suave e liso de encantos distribuídos com simetria ao redor de dois olhos azuis, e no qual a linha do nariz parecia reabsorvida, sabia com alegre comoção que não retornaria sem ter avistado a Sra. de Guermantes? Por que sentia a mesma perturbação, afetava a mesma indiferença, desviava os olhos da mesma forma distraída que na véspera, ao aparecimento de perfil, numa rua transversal e sob uma touquinha azul-marinho, de um nariz em formato de bico de pássaro, ao longo de uma face vermelha, cortado por um olho penetrante, como uma divindade egípcia? Certa vez, não foi apenas uma mulher de bico de pássaro o que vi, mas como que um pássaro verdadeiro: o vestido e até a touquinha da Sra. de Guermantes eram de peles e, não deixando assim ver nenhum tecido, ela parecia naturalmente forrada, como certos abutres cuja plumagem espessa, unida, fulva e macia, tem o aspecto de uma espécie de pelame. No meio dessa plumagem natural, a pequena cabeça recobria o seu bico de pássaro e os olhos saltados eram azuis e penetrantes.

            Nesse dia, eu acabava de passear de um lado para o outro na rua durante horas sem avistar a Sra. de Guermantes, quando, de repente, no fundo de uma loja que vendia laticínios, escondida entre dois palacetes nesse bairro aristocrático e popular, se destacou o rosto confuso e novo de uma mulher elegante que examinava petits suisses e, antes que tivesse tempo de identificá-la, veio ferir-me, como um clarão que tivesse levado menos tempo a chegar até mim do que o resto da imagem, o olhar da duquesa; de outra vez, não a tendo encontrado e ouvindo bater meio-dia, compreendi que já não valia a pena ficar à sua espera, e voltava tristemente para casa; e, absorvido em minha decepção, olhando sem ver um carro que se afastava, compreendi de súbito que o movimento de cabeça que uma dama fizera pela portinhola era para mim, e que essa dama, cujas feições desfeitas e pálidas ou, pelo contrário, compostas e vivas, formavam, sob um chapéu redondo abaixo de uma longa aigrette, o rosto de uma estranha que eu julgara não conhecer, era a Sra. de Guermantes, por quem me deixara cumprimentar sem mesmo corresponder. E às vezes, ao voltar, encontrava-a junto da portaria, onde o detestável porteiro, cujo olhar metediço eu odiava, lhe fazia grandes cumprimentos e também, com certeza, "relatórios". Pois todo o pessoal dos Guermantes, dissimulado por trás das cortinas das janelas, espiava trêmulo o diálogo que não ouvia e em resultado do qual a duquesa não deixava de privar de suas saídas este ou aquele criado que o "alcagüete" denunciara. Devido a todas as aparições sucessivas de rostos diferentes que a Sra. de Guermantes oferecia, rostos que ocupavam uma extensão relativa e variada, ora estreita, ora ampla, no conjunto de sua toalete, meu amor não se ligava a esta ou aquela das partes mutantes de carne e de tecido, que assumiam, de acordo com os dias, o lugar de outras e que ela podia modificar e renovar quase inteiramente sem alterar minha perturbação, porque, através delas, através da gola nova e da face desconhecida, eu sentia que era sempre a Sra. de Guermantes. O que eu amava era a pessoa invisível que punha em movimento tudo aquilo, era ela, cuja hostilidade me desgostava, cuja aproximação me perturbava, cuja vida desejaria captar, e dela expulsar seus amigos. Ela podia arvorar uma pluma azul ou mostrar ou exibir uma pele em chamas sem que suas ações perdessem para mim qualquer importância.

            Mesmo que eu próprio não sentisse que a Sra. de Guermantes estava cansada de me encontrar todos os dias, sabê-lo-ia indiretamente pelo rosto cheio de frieza, de reprovação, de piedade que era o de Françoise quando me ajudara na preparação para essas saídas matinais. Desde que lhe pedia os meus objetos, sentia erguer-se um vento contrário nas feições retraídas e pisadas do seu rosto. Nem sequer tentava ganhar a confiança de Françoise, pois sentia que o não poderia conseguir. Por saber de imediato tudo aquilo que podia nos ocorrer de desagradável, a meus pais e a mim, ela possuía um poder cuja natureza sempre me permaneceu obscura. Talvez não fosse sobrenatural e teria sido possível explicá-lo pelos meios de informação que lhe eram próprios; é assim que povos selvagens sabem de certas notícias vários dias antes que o correio as traga à colônia européia, e que, na realidade, lhes foram transmitidas não por telefone, mas de colina em colina com o auxílio de fogueiras acesas. Assim, no caso particular de meus passeios, talvez os criados da Sra. de Guermantes tenham ouvido a patroa expressar o seu cansaço de me encontrar inevitavelmente no seu caminho e tivessem repetido tais frases a Françoise. Meus pais, é verdade, poderiam pôr a meu serviço outra pessoa que não Françoise, mas eu nada ganharia com isso. De certo modo, Françoise era menos doméstica que os outros. Em sua maneira de sentir, de ser boa e piedosa, dura e altiva, fina e limitada, de ter a pele branca e as mãos vermelhas, ela era a senhorita da aldeia cujos pais "tinham casa própria", mas, arruinados, foram obrigados a pô-la para trabalhar. Sua presença em nossa casa, graças a uma espécie de viagem ao contrário, onde é a vilegiatura que vem ao encontro do viajante, era como o ar do campo e a vida social numa fazenda de há cinqüenta anos, até nós transportados. Como a vitrine de um museu regional é decorada com essas curiosas obras que os camponeses ainda realizam e guarnecem de apassamanes em certas províncias, o nosso apartamento parisiense era decorado pelas palavras de Françoise inspiradas em um sentimento tradicional e local, e que obedeciam a regras muito antigas. E ela sabia ali traçar, como com fios coloridos, as cerejeiras e os pássaros de sua infância, o leito em que morrera sua mãe, e que ela ainda contemplava. Mas, apesar de tudo isso, desde que entrara para o nosso serviço em Paris, havia partilhado e com mais forte motivo do que qualquer outra o faria em seu lugar as idéias, as jurisprudências de interpretação dos criados dos outros pavimentos, recuperando-se o respeito que era obrigada a nos testemunhar, repetindo-nos o que a cozinheira do quarto andar dizia de grosserias à patroa, e com uma tal satisfação de doméstica que, pela primeira vez na nossa vida, sentindo uma espécie de solidariedade com a locatária do quarto andar, nós nos dizíamos que, de fato, talvez fôssemos patrões. Essa alteração do caráter de Françoise era talvez inevitável. Certas existências são tão anormais que devem fatalmente engendrar determinadas taras, como a vida que o rei levava em Versalhes entre seus cortesãos, tão estranha como a de um faraó ou de um doge e, muito mais que a do rei, a vida dos cortesãos. A dos criados é sem dúvida de uma estranheza ainda mais monstruosa e apenas o hábito no-la oculta. Porém, ainda nos mais particulares detalhes é que eu teria sido condenado, mesmo que me livrasse de Françoise, a conservar a mesma criadagem. Pois diversos outros puderam entrar mais tarde ao meu serviço; já providos dos defeitos gerais dos criados, nem por isso deixavam de sofrer em minha casa uma rápida transformação. Como as leis do ataque acionam as do revide, para não serem feridos pelas asperezas do meu caráter, todos realizavam no seu uma reentrância idêntica e no mesmo local; e, em compensação, aproveitavam minhas lacunas para ali instalar seus avanços. Tais lacunas, eu não as conhecia, como também não as saliências a que seus intervalos davam espaço, precisamente por serem lacunas. Mas meus criados, estragando-se aos poucos, fizeram-me conhecê-las. Foi devido a seus defeitos, invariavelmente adquiridos, que soube de meus próprios defeitos naturais e invariáveis, o caráter deles me apresentou uma espécie de negativo do meu. Muito havíamos rido antigamente, minha mãe e eu, da Sra. Sazerat que dizia, falando dos criados: "Essa raça, essa espécie." Mas devo confessar que o motivo pelo qual não me ocorria substituir Françoise por qualquer outro é que esse outro teria pertencido, do mesmo modo e inevitavelmente, à raça geral dos criados e à espécie particular dos meus.

            Voltando a Françoise, nunca em minha vida experimentei uma humilhação sem ter encontrado prévias condolências no seu rosto; e quando, encolerizado por sofrer os lamentos dela, tentava ao contrário fingir que obtivera um êxito, minhas mentiras vinham se quebrar inutilmente em sua incredulidade respeitosa, porém visível, e na consciência que ela possuía de sua infalibilidade. Pois conhecia a verdade; calava-a e fazia apenas um pequeno movimento de lábios como se ainda tivesse a boca cheia e acabasse de comer um bom bocado. Calava-a? Pelo menos, foi o que julguei durante muito tempo, pois a essa época eu pensava ainda que era por meio das palavras que a gente revela aos outros a verdade. Mesmo as palavras que me diziam depositavam tão bem a sua significação inalterável em meu espírito sensível, que eu já não achava possível que alguém que me tivesse dito que me amava não me amasse, que a própria Françoise não poderia duvidar, depois de o ter lido no jornal, que um padre ou um senhor qualquer fosse capaz, a um pedido enviado pelo correio, de nos remeter gratuitamente um remédio infalível contra todas as enfermidades ou um meio de centuplicar nossas rendas. (Em compensação, se o nosso médico lhe desse a mais simples pomada contra o defluxo, ela, tão dura nos mais rudes sofrimentos, gemia por tudo quanto havia fungado, assegurando que aquilo "lhe pelava o nariz", e que a gente não sabia mais onde se meter.) Mas Françoise foi a primeira a me dar o exemplo (que só mais tarde eu devia compreender, quando me foi dado de novo, mais dolorosamente, como se verá nos últimos volumes desta obra, por uma pessoa que me era mais querida) de que a verdade não precisa ser dita para ser manifestada, e que talvez se possa obtê-la com mais certeza, sem esperar as palavras e até mesmo sem levá-las em consideração, em mil sinais exteriores, mesmo em certos fenômenos invisíveis, análogos, no mundo dos caracteres, ao que representam, na natureza física, as mudanças atmosféricas. Talvez pudesse ter desconfiado disso, visto que a mim mesmo, então, ocorria-me dizer muitas vezes coisas em que não havia verdade alguma, ao passo que a manifestava por tantas confidências involuntárias de meu corpo e de meus atos (as quais eram muito bem interpretadas por Françoise); talvez pudesse ter desconfiado, mas para isso seria necessário que eu soubesse que era então, às vezes, mentiroso e trapaceiro. Ora, a mentira e a trapaça eram em mim, como em todo mundo, comandadas de uma forma tão imediata e contingente, e para sua defesa, por um interesse tão particular, que meu espírito, fixo num belo ideal, deixava meu caráter cumprir na sombra aquelas tarefas urgentes e miseráveis e não se desviava para observá-las. Quando Françoise, à noite, era gentil comigo, e me pedia licença para se sentar no meu quarto, parecia-me que seu rosto se tornava transparente e que nela eu percebia a bondade e a franqueza. Mas Jupien, que possuía queda para a indiscrição que só vim a conhecer mais tarde, revelou posteriormente que ela dizia que eu não valia a corda para me enforcar e que procurara lhe fazer todo o mal possível. Estas palavras de Jupien mostraram-me logo, sob uma luz desconhecida, uma prova de minhas relações com Françoise tão diferente daquela em que me comprazia muitas vezes em descansar os olhos e na qual, sem a mais leve indecisão, Françoise me adorava e não perdia ocasião de me celebrar, que compreendi que não é só o mundo físico que difere do aspecto sob o qual o vemos; que toda realidade é talvez tão dissemelhante da que julgamos perceber diretamente e que compomos com a ajuda de idéias que não se mostram mas são ativas, assim como as árvores, o sol e o céu não seriam tais como os vemos se fossem conhecidos por seres que tivessem olhos constituídos de maneira diversa da nossa, ou então, que possuíssem, para esse fim, órgãos diferentes dos olhos e que proporcionassem das árvores, do sol e do céu equivalentes não-visuais. Assim como ocorreu, essa brusca fugida que me abriu uma vez Jupien para o mundo real me aterrorizou. Mesmo assim, só se tratava de Françoise, com quem pouco me preocupava. Seria assim em todas as relações sociais? E até que desespero aquilo poderia me levar um dia, se o mesmo ocorresse no amor? Era o segredo do futuro. Então, só se tratava ainda de Françoise. Pensaria ela sinceramente o que havia dito a Jupien? Dissera-o apenas para indispor Jupien comigo, talvez para que não tomassem a sobrinha de Jupien para substituí-la? O fato é que percebi a impossibilidade de saber de modo direto e seguro se Françoise me amava ou detestava. E assim, foi ela a primeira a me dar a idéia de que uma pessoa não é, como o acreditara, clara e imóvel diante de nós com suas qualidades, seus defeitos, seus projetos, suas intenções a nosso respeito (como um jardim que se contempla, com todas as suas platibandas, através de uma grade), e sim uma sombra onde jamais podemos penetrar, para a qual não existe conhecimento direto, a respeito de quem formamos numerosas crenças com o auxílio de palavras e até mesmo de ações, umas e outras nos dando apenas informações insuficientes e, aliás, contraditórias, uma sombra onde podemos, alternadamente, imaginar, com tanto maior verossimilhança, que brilham o ódio e o amor.

            Eu amava de verdade a Sra. de Guermantes. A maior felicidade que teria podido pedir a Deus seria a de lançar sobre sua cabeça todas as calamidades e que, arruinada, desconsiderada, destituída de todos os privilégios que me separavam dela, já não tendo casa onde morar nem pessoas que consentissem em cumprimentá-la, ela fosse me pedir asilo. Imaginava-a fazendo isto. E, mesmo nas noites em que alguma mudança na atmosfera ou na minha própria saúde me traziam à consciência algum rolo esquecido, no qual estavam inscritas as impressões de outrora, ao invés de aproveitar as forças de renovação que acabavam de nascer em mim, em vez de empregá-las para decifrar em mim mesmo os pensamentos que de costume me fugiam, em vez de me pôr enfim a trabalhar, preferia falar em voz alta, pensar de forma movimentada, exterior, que não passava de uma gesticulação e um discurso inúteis, um romance puramente de aventuras, estéril e sem verdade, onde a duquesa, caída na miséria, vinha me implorar, a mim que, por uma série de circunstâncias opostas, me tornara rico e poderoso. E, quando havia passado horas dessa maneira, imaginando circunstâncias, pronunciando frases que diria à duquesa ao acolhê-la sob o meu teto, a situação permanecia a mesma; infelizmente, na realidade, eu havia escolhido para amar a mulher que reunia talvez o maior número de vantagens diferentes; e aos olhos de quem, por causa disso, eu não podia esperar ter qualquer prestígio; pois ela era tão rica como o mais rico que não fosse nobre; sem contar aquele encanto pessoal que a colocava na moda, fazendo-a dentre todas uma espécie de rainha.

            Sentia que lhe era desagradável ir todas as manhãs ao encontro dela; mas, mesmo que tivesse tido a coragem de ficar dois ou três dias sem fazê-lo, talvez essa abstenção, que para mim significaria um sacrifício enorme, a Sra. de Guermantes não a tivesse notado, ou a teria atribuído a algum impedimento independente da minha vontade. Na verdade eu não conseguiria deixar de ir pelo seu caminho a não ser arrumando uma forma de ficar na impossibilidade de fazê-lo, pois a necessidade incessantemente renovada de encontrá-la, de ser durante um momento o objeto de sua atenção, a pessoa a quem se dirigia o seu cumprimento, tal necessidade era mais poderosa que o tédio de lhe ser desagradável. Seria preciso que me afastasse por algum tempo; e não tinha coragem de assim proceder. Às vezes pensava nisso. Então, dizia a Françoise que fizesse as minhas malas e, logo depois, que as desfizesse. E, como o demônio do pasticho e do medo de parecer antiquado altera a forma mais natural e mais segura de nós mesmos, Françoise, tomando emprestado este termo ao vocabulário da filha, dizia que eu era 'dingo' (louco). Não gostava daquilo, dizia que eu "balançava" sempre, pois empregava, quando não queria rivalizar com os modernos, a linguagem de Saint-Simon. É certo que gostava ainda menos quando lhe falava como patrão. Sabia que isso não me era natural e não me assentava bem, o que ela traduzia dizendo que "o intencional não me quadrava bem". Eu só teria coragem de partir numa direção que me aproximasse da Sra. de Guermantes. Não era coisa impossível. De fato, não seria me encontrar mais perto dela do que o estava de manhã na rua, solitário, humilhado, sentindo que nem um só dos pensamentos que desejaria lhe dirigir nunca chegaria até ela, nesse marcar passo dos meus passeios, que poderia durar indefinidamente sem me trazer qualquer avanço se eu fosse para muitas léguas da Sra. de Guermantes, mas para a casa de alguém que ela conhecesse, que soubesse ser difícil na escolha de suas relações, e que me apreciasse, que poderia lhe falar de mim e, se não obter dela aquilo que eu desejava, ao menos lhe fazer saber, alguém graças ao qual, em todo caso, só pelo fato de discutir com ele se poderia encarregar-se ou não desta ou daquela mensagem junto a ela, não daria eu a meus devaneios solitários e silenciosos uma nova forma, falada, ativa, que me parecesse um progresso, quase uma realização? O que ela fazia durante a vida misteriosa da "Guermantes" que era, isto, que era objeto de um devaneio constante, intervir nessa vida, mesmo de forma indireta, como com uma alavanca, pondo em ação alguém a quem não fossem interditos o palacete da duquesa, as suas reuniões noturnas, a conversação prolongada com ela, não seria isso um contato mais distante porém mais efetivo que a minha contemplação na rua todas as manhãs?

            A amizade e a admiração que Saint-Loup mostrava por mim pareciam-me indevidas e tinham-me deixado indiferente. De súbito, fizeram-se valiosas a meu ver; gostaria que ele as revelasse à Sra. de Guermantes. Seria capaz de lhe pedir que o fizesse. Pois, quando estamos apaixonados, todos os pequenos privilégios desconhecidos que possuímos, gostaríamos de poder divulgá-los à mulher a quem amamos, como fazem na vida os deserdados e os maçantes. Sofremos porque ela os ignora, buscamos consolar-nos dizendo para nós mesmos que, justamente por não serem visíveis, talvez ela acrescente à idéia que possui a nosso respeito essa possibilidade de vantagens que não conhece.

            Há muito tempo Saint-Loup não podia vir a Paris, fosse, como dizia, por causa das exigências do ofício, ou antes, devido aos desgostos que lhe causava a amante, com a qual estivera já duas vezes a ponto de romper. Várias vezes me falara sobre o bem que lhe faria indo vê-lo naquela guarnição cujo nome, dois dias depois que ele deixara Balbec, me causara tanta alegria quando o li no envelope da primeira carta que dele recebera. Menos distante de Balbec do que o daria a crer a paisagem tão terrestre, era uma dessas cidadezinhas aristocráticas e militares, cercadas de uma vasta campina onde, quando faz bom tempo, tantas vezes flutua ao longe uma espécie de vapor sonoro e intermitente que assim como uma cortina de choupos desenha, com suas sinuosidades, o curso de um rio que não se vê revela as mudanças de lugar de um regimento em manobras, que a própria atmosfera das ruas, das avenidas e das praças acabou por contrair uma espécie de vibração permanente, musical e guerreira, e que o ruído mais bruto de carroça ou de bonde nela se prolonga em vagos chamamentos de clarim, indefinidamente repetidos, nos ouvidos alucinados pelo silêncio. Da mesma forma, não estava situada tão longe de Paris que eu não pudesse, descendo do trem expresso, voltar para casa, encontrar minha mãe e minha avó e dormir na minha cama. Tão logo o percebi, perturbado por um desejo doloroso, tive muito pouca vontade para decidir não voltar a Paris e permanecer naquela cidade; mas também muito pouca para impedir um empregado de elevar minha mala até um fiacre e para não assumir, enquanto o acompanhava, a alma deserta de um viajante que cuida de suas coisas e que nenhuma avó está esperando, para não subir para o carro com a desenvoltura de alguém que, tendo deixado de pensar no que deseja, parece saber o que quer, e para não dar ao cocheiro o endereço do quartel de cavalaria. Imaginava que Saint-Loup fosse dormir aquela noite no hotel onde me hospedasse, a fim de me tornar menos angustioso o primeiro contato com aquela cidade desconhecida. Um soldado de guarda foi procurá-lo e eu o esperei à porta do quartel, diante daquela nave toda retumbante do vento de novembro e de onde a cada momento, pois eram seis da tarde, homens saíam de dois em dois para a rua, vacilando como se descessem a terra em algum porto exótico onde estivessem momentaneamente desembarcados. Saint-Loup chegou, movendo e deixando voar em todos os sentidos o monóculo à sua frente: eu não mandara dizer o meu nome, e estava impaciente para gozar a sua surpresa e alegria.

            - Ah, que pena! - exclamou ele, ao me ver de repente e tornando-se vermelho até a raiz dos cabelos; acabei de tomar a minha semana de serviço e só poderei sair daqui a oito dias!

            E, preocupado com a idéia de me ver passar sozinho essa primeira noite, pois sabia melhor que ninguém das minhas angústias noturnas, que muitas vezes observara e suavizara em Balbec, interrompia suas queixas para se voltar para mim, dirigir-me pequenos sorrisos, ternos olhares desiguais, uns vindo diretamente de seus olhos, outros através do monóculo; e todos eram uma alusão à emoção que sentia ao me rever, uma alusão também a essa coisa importante que nem sempre eu entendia, mas que me importava agora: a nossa amizade.

            - Meu Deus, onde é que você vai dormir? Na verdade, não lhe aconselho o hotel em que fazemos as refeições, fica ao lado da Exposição onde as festas vão começar, e você estaria em meio a uma multidão enlouquecida. Não, é preferível o Hotel de Flandres; é um pequeno palácio do século XVIII com velhas tapeçarias. O que faz bastante o gênero de "velha mansão histórica".

            A todo propósito Saint-Loup empregava o termo "faz" por "parece", porque a língua falada, como a escrita, experimenta de tempos em tempos essa necessidade de alterações no sentido das palavras, de requintes de expressão. E, da mesma maneira que muitas vezes os jornalistas ignoram de que escola literária provêm as "elegâncias" de que se utilizam, assim também o vocabulário e até a própria dicção de Saint-Loup eram formados pela imitação de três estetas diversos, a nenhum dos quais ele conhecia, mas cujos modos de linguagem lhe haviam sido inculcados de maneira indireta.

            - Além disso, - concluiu - esse hotel está muito bem adaptado à sua hiperestesia auditiva. Você não terá vizinhos. Reconheço que é uma vantagem mesquinha, e, como, em suma, um outro viajante pode chegar aqui amanhã, não valeria a pena escolher esse hotel com vistas a um resultado precário. Não, é devido a seu aspecto que o recomendo. Os quartos são muito simpáticos, todos os móveis são antigos e confortáveis, ele possui algo de tranqüilizador.

            Mas para mim, menos artista que Saint-Loup, o prazer que pode proporcionar uma bela morada era superficial, quase nulo, e não podia acalmar a minha angústia principiante, tão penosa como a que eu tivera outrora em Combray quando minha mãe não vinha despedir-se de mim ou a que sentira no dia de minha chegada a Balbec, no quarto excessivamente alto que cheirava a vetiver. Saint-Loup a compreendeu devido ao meu olhar fixo.

            - Mas você está pouco ligando, meu pobrezinho, a esse belo palácio; está tão pálido. E eu, como um animal, lhe falo de tapeçarias que você nem mesmo tem ânimo de olhar. Conheço o quarto onde você ficaria. Pessoalmente, acho-o muito alegre, mas percebo perfeitamente que para você, com sua sensibilidade, não é nada disso. Não pense que o não compreendo; não sinto a mesma coisa, mas sei muito bem me colocar no seu lugar.

            Um suboficial que experimentava um cavalo no pátio, muito ocupado em fazê-lo saltar, sem corresponder às continências dos soldados, mas cobrindo de injúrias os que se punham no seu caminho, dirigiu naquele momento um sorriso a Saint-Loup e, ao vê-lo em companhia de um amigo, cumprimentou. Mas seu cavalo se ergueu em toda a altura, espumando. Saint-Loup lançou-se ao seu pescoço, pegou-o pelas rédeas, conseguiu acalmá-lo e voltou para junto de mim.

            - Sim disse -, asseguro-lhe que percebo tudo e que sofro com o que você sente. Sinto-me infeliz. - acrescentou, pondo afetuosamente a mão no meu ombro - em pensar que, se pudesse ficar perto de você, talvez conseguisse, conversando até de manhã, desfazer um pouco da sua tristeza. Poderia emprestar-lhe muitos livros, mas você não conseguirá ler no estado em que está. E nunca poderei conseguir que me substituam aqui; já fiz isso por duas vezes seguidas porque minha garota havia chegado.

            E franzia as sobrancelhas de aborrecimento e também devido ao esforço em procurar, como um médico, que remédio poderia aplicar a meu mal.

            - Corre para acender o fogo no meu quarto. - disse a um soldado que passava. - Vamos, mais depressa, mexa-se.

            Depois, voltou-se de novo para mim, e o monóculo e o olhar míope aludiam à nossa grande amizade:

            - Não! Você aqui, neste quartel onde tanto pensei em você! Não posso acreditar em meus olhos, acho que estou sonhando. Em suma, está melhorzinho de saúde? Vai me contar tudo isto daqui a pouco. Vamos subir para o meu quarto, não fiquemos muito tempo neste pátio, faz um vento danado, eu nem sequer o sinto, mas você, que não está acostumado, receio que sinta frio. E já começou o trabalho? Não? Você é engraçado! Se fosse dotado de suas inclinações, creio que escreveria da manhã à noite. Diverte-se mais em não fazer nada. Que pena sejam os medíocres como eu que estejam sempre prontos para trabalhar, e aqueles que o poderiam não querem! E nem sequer lhe perguntei como está a senhora sua avó. Seu Proudhon já não me deixa.

            Um oficial, alto, belo, majestoso, apareceu a passos lentos e solenes de uma escada. Saint-Loup o saudou e imobilizou a perpétua instabilidade do corpo enquanto mantinha a mão à altura do quepe. Mas ele havia precipitado com tamanha força, endireitando-se com um movimento tão seco, e, mal terminada a continência, fê-la recair com um puxão tão brusco, mudando todas as posições da espádua, que esse momento foi menos de imobilidade que de uma vibrante tensão onde se neutralizavam os movimentos excessivos que acabavam de se produzir e aqueles que iam começar. Entretanto, o oficial, sem se aproximar, calmo, benevolente, digno, imperial, representando em resumo o oposto de Saint-Loup, ergueu também, mas sem pressa, a mão para o quepe.

            - Preciso dizer uma palavra ao capitão. - sussurrou Saint-Loup -; tenha a gentileza de ir me esperar em meu quarto; é o segundo à direita, no terceiro andar; estarei lá dentro de um momento.

            E, deixando-me a passo de carga, precedido pelo monóculo que voava em todos os sentidos, marchou direto para o digno e vagaroso capitão, cujo cavalo traziam naquele instante, e que, antes de se preparar para montar, dava algumas ordens com uma nobreza estudada de gestos como num quadro histórico e como estivesse partindo para uma batalha do Primeiro Império, quando apenas voltava para casa, na residência que havia alugado durante sua estada em Doncieres, e que ficava numa praça denominada, como por uma ironia antecipada a esse napoleônida, Praça da República! Avancei pela escada, quase escorregando a cada passo nos degraus cheios de cravos, enquanto entrevia dormitórios de paredes nuas, com o duplo alinhamento de camas e de equipamentos. Indicaram-me o quarto de Saint-Loup. Fiquei um instante à frente da porta fechada, pois ouvia movimentos; mexiam numa coisa, deixavam cair outra; sentia que o quarto não estava vazio e que lá havia alguém. Mas era apenas o fogo aceso que ardia. O fogo não podia ficar tranqüilo, movia a lenha, e isso de modo bem desajeitado. Entrei; o fogo fez rolar uma chama e fumegar outra. E, mesmo quando não se mexia, fazia ouvir o tempo todo, como as pessoas vulgares, barulhos que, no instante em que eu ouvia subir a chama, se me afiguravam ruídos de fogo, mas que, se estivesse do outro lado da parede, julgaria que proviessem de alguém que se assoasse e caminhasse. Por fim, sentei-me no quarto. Tapeçarias de liberty e de velhos tecidos alemães do século XVIII o preservavam do cheiro que o restante do prédio exalava, e que era grosseiro, insípido e corruptível como o do pão de rala. Era ali, naquele quarto encantador, que eu teria jantado e dormido com ventura e sossego. Saint-Loup parecia se achar quase presente, graças aos livros de trabalho que estavam na mesa ao lado de fotografias, entre as quais reconheci a minha e a da Sra. de Guermantes, em virtude do fogo que acabara por se acostumar à lareira e, como um animal deitado numa espera ardente, silenciosa e fiel, deixava apenas cair, de vez em quando, uma brasa que se destroçava, ou lambia com uma chama a parede da lareira. Ouvia o tique-taque do relógio de pulso de Saint-Loup, que não devia estar muito longe de mim. Esse tique-taque mudava de lugar a todo instante, pois eu não via o relógio; parecia vir de trás de mim, de diante, da direita, da esquerda, às vezes extinguir-se como se proviesse de muito longe. De repente, descobri o relógio sobre a mesa. Então ouvi o tique-taque num ponto fixo de onde ele não mais se moveu. Julgava ouvi-lo nesse lugar, mas não o ouvia, via-o, pois os sons não têm lugar. Pelo menos, associamo-los a movimentos e, assim, têm eles a utilidade de nos avisar sobre estes, de parecer torná-los naturais e necessários. É certo que ocorre às vezes que um doente, a quem taparam hermeticamente as orelhas, não ouve mais o ruído de um fogo semelhante ao que naquele momento crepitava na lareira de Saint-Loup, trabalhando para formar tições e cinzas que a seguir deixava cair sobre a grade; não ouve também a passagem dos bondes, cuja música erguia vôo, a intervalos regulares, sobre a grande praça de Doncieres. Então, que o doente leia, e as páginas se virem silenciosamente como se fossem folheadas por um deus. O pesado barulho de um banho que está sendo preparado se atenua, aligeira-se e se afasta feito um murmúrio celeste. O recuo do barulho e seu atenuamento tiram-lhe, quanto a nós, toda potência agressiva; ainda há pouco desesperados pelos golpes de martelo que pareciam fazer desabar o teto sobre nossa cabeça, satisfazemo-nos agora em recolhê-los, leves, remotos, cariciosos como um murmúrio de folhagens que brincam na rua com a brisa. Jogamos paciência com cartas cujo rumor ninguém ouve, tanto assim que achamos não as ter removido, que elas se movem sozinhas e, vindo ao encontro de nosso desejo de jogar com elas, principiam a jogar conosco. E, a esse respeito, pode-se indagar se, quanto ao Amor (e acrescentemos ao Amor o amor à vida, o amor à glória, visto que parece haver pessoas que conhecem estes dois últimos sentimentos), não deveríamos agir como aqueles que, contra o barulho, em vez de implorar que ele cesse, tapam os ouvidos; e, imitando-os, concentrar a nossa defesa em nós próprios, dar-lhes como objeto de redução não a criatura exterior que amamos, mas a nossa capacidade de sofrer por ela.

            Voltando ao som: se reforçarmos ainda os tampões que fecham o conduto auditivo, eles obrigam ao pianissimo a moça que tocava uma ária turbulenta acima da nossa cabeça; se untarmos um desses tampões com uma substância gordurosa, logo o seu despotismo é obedecido pela casa inteira e suas leis se estendem para o lado de fora. O pianissimo já não basta, o tampão faz o piano fechar-se de imediato, e a aula de música termina bruscamente; o senhor que andava sobre a nossa cabeça de súbito deixa de prosseguir em sua ronda; a circulação dos carros e dos bondes é interrompida como se se esperasse um chefe de Estado. E essa atenuação dos sons às vezes chega mesmo a perturbar o sono em vez de protegê-lo. Ontem mesmo, os rumores incessantes, descrevendo-nos de modo contínuo os movimentos na rua e na casa, acabavam por nos adormecer como um livro tedioso; hoje, na superfície de silêncio estendida sobre o nosso sono, um choque mais forte que os outros chega a fazer-se ouvir, leve como um suspiro, misterioso, sem laço com qualquer outro som. E o pedido de explicações que acarreta é suficiente para nos despertar. Que se retirem de um doente, por um momento, os algodões superpostos a seu tímpano, e de súbito a luz, o sol pleno do som se mostra de novo, ofuscante, renasce no universo; a toda pressa regressa o povo dos rumores exilados; assiste-se à ressurreição das vozes, como se elas fossem salmodiadas por anjos músicos. Num instante as ruas vazias se enchem com as asas rápidas e sucessivas dos bondes cantores. No próprio quarto, o doente acaba de criar não o fogo, como Prometeu, mas o ruído do fogo. E, aumentando e afrouxando os tampões de algodão em rama, é como se, alternadamente, se acionassem um e outro dos dois pedais ajuntados à sonoridade do mundo exterior.

            Apenas, há igualmente supressões de ruído que não são momentâneas. Quem se tornou totalmente surdo não pode sequer aquecer o leite a seu lado sem precisar ficar vigiando, na vasilha destampada, o reflexo branco, hiperbóreo, semelhante ao de uma tempestade de neve, e que é o sinal premonitório ao qual é prudente em obedecer, desligando, como o Senhor afastou as águas, a tomada elétrica; pois já o ovo ascendente e espasmódico do leite que ferve está cumprindo a sua cheia em movimentos oblíquos, infla e arredonda algumas velas meio reviradas que a nata havia plissado, lança à tempestade uma de nácar; e a interrupção das correntes, se a tempestade elétrica é conjurada a tempo, fará todas girarem sobre si mesmas e as largará à deriva transformadas em pétalas de magnólia. Se o doente não tomar bem depressa as precauções necessárias, em breve seus livros e o relógio, afundados, emergirão com esforço de um mar branco após essa mascarada láctea, e ele será obrigado a chamar em seu auxílio a velha criada que, mesmo que ele seja um ilustre político ou um grande escritor, lhe dirá que não tem mais juízo que uma criança de cinco anos. Em outros momentos no quarto, mágica, diante da porta fechada, uma pessoa que não estava ali agora há pouco faz a sua aparição; é um visitante que não se ouviu entrar e que só faz gestos como num desses teatrinhos de marionetes, tão repousantes para os que se aborreceram com a linguagem falada. E para aquele surdo total, como a perda de um sentido acrescenta tanta beleza ao mundo como o não faria a sua aquisição, é com delícias que ele passeia agora numa Terra quase edênica, onde o som ainda não foi criado. As mais altas cascatas desenrolam, só para seus olhos, sua toalha de cristal, mais calmas que o mar imóvel, puras como cataratas do Paraíso. Visto que o ruído era para ele, antes de sua surdez, a forma perceptível que revestia a causa de um movimento, os objetos movidos sem rumor parecem movidos sem causa; destituídos de toda qualidade sonora, mostram uma atividade espontânea, parecem vivos; agitam-se, imobilizam-se, incendeiam-se por si mesmos. Levantam vôo por si próprios feito monstros alados da pré-história. Na casa solitária e sem vizinhos do surdo, o serviço que, antes que a enfermidade fosse completa, já mostrava mais reserva e se fazia silenciosamente está agora assegurado por mudos, com algo de sub-reptício, como ocorre com um rei de féerie. Assim também, no mesmo cenário, o edifício que o surdo vê de sua janela caserna, igreja, prefeitura não passa de uma decoração. Se um dia é demolido, poderá lançar uma nuvem de poeira e escombros visíveis. Mas ainda menos material que um prédio de teatro, de que no entanto não possui a magreza, cairá no universo mágico sem que o desmoronamento de suas pesadas pedras de cantaria venha a macular a castidade do silêncio com a vulgaridade de algum ruído.

            O silêncio, bem mais relativo, que reinava no pequeno quarto militar onde me achava há pouco foi quebrado: a porta se abriu, e Saint-Loup, deixando cair o monóculo, entrou vivamente.

            - Ah, Robert, como a gente passa bem no seu aposento. - disse-lhe eu -; como seria bom se me fosse permitido jantar e dormir aqui.

            E, com efeito, se isso não fosse proibido, que repouso sem tristeza eu teria desfrutado ali, protegido por aquela atmosfera de tranqüilidade, vigilância e alegria que entrelinham mil vontades reguladas e sem inquietação, mil espíritos despreocupados, nessa grande comunidade que é uma caserna onde, tendo o tempo tomado a forma da ação, o triste sino das horas era substituído pela mesma alegre fanfarra desses apelos cuja sonora lembrança estava permanentemente em suspensão, difusa e pulverulenta, sobre as calçadas da cidade voz segura de ser ouvida, e musical, porque não era apenas o comando da autoridade à obediência, mas também da sabedoria à felicidade.

            - Ah, você gostaria mais de dormir aqui, junto a mim, do que sair sozinho para o hotel. - disse Saint-Loup rindo.

            - Oh, Robert, você é cruel por levar isso na ironia. - disse eu -, pois sabe que é impossível e que lá vou sofrer tanto.

            - Muito bem! Você me lisonjeia. -tornou ele -, pois justamente agora tive essa idéia por mim mesmo, e sei que você gostaria de ficar aqui esta noite. Era precisamente isto o que eu tinha ido pedir ao capitão.

            - E ele permitiu?! exclamei.

            - Sem nenhuma dificuldade.

            - Oh, eu o adoro!

            - Não; é demais. Agora, deixe-me chamar meu ordenança para que ele se ocupe do nosso jantar. - acrescentou, enquanto eu me desviava para ocultar as lágrimas.

            Várias vezes entraram um ou outro dos companheiros de Saint-Loup. Ele os enxotava:

            - Vamos, dêem o fora!

            Eu lhe pedia que os deixasse ficar.

            - Não, vão aborrecê-lo; são criaturas completamente ignorantes que só sabem falar de corridas, quando não do tratamento dos animais. E depois, mesmo para mim, estragariam estes instantes tão preciosos que tanto desejei. Note bem que, se falo da mediocridade dos meus camaradas, não é que todo militar seja desprovido de intelectualidade. Bem longe disso. Temos um comandante que é um homem admirável. Deu um curso em que a história militar é tratada como uma demonstração, como uma espécie de álgebra. Mesmo esteticamente, é de uma beleza alternativamente indutiva e dedutiva e à qual você não seria insensível.

            - Não é o capitão que me permitiu ficar aqui?

            - Não, graças a Deus, pois o homem que você "adora" por tão pouco é o maior idiota que a Terra já suportou. É perfeito para se ocupar do rancho e do uniforme de seus comandados; passa horas com o sargento-mor e o alfaiate. Eis a sua mentalidade. Aliás, despreza muito, como todos, o admirável comandante de que lhe falo. Ninguém freqüenta este, porque é franco-maçom e não vai ao confessionário. Jamais o príncipe de Borodino receberia em sua casa este pequeno-burguês. O que é também um grande atrevimento da parte de um homem cujo bisavô era um pobre sitiante e que, sem as guerras de Napoleão, seria igualmente granjeiro. De resto, ele percebe um pouco a situação dúbia de que desfruta na sociedade. Mal vai ao Jockey este pretenso príncipe, de tanto que se sente constrangido. - acrescentou Robert, que, levado pelo mesmo espírito de imitação a adotar as teorias sociais de seus mestres e os preconceitos mundanos dos parentes, sem o perceber, ao amor da democracia o desdém pela nobreza do Império.

            Eu examinava a foto de sua tia, e a idéia de que Saint-Loup, possuindo esse retrato, talvez me pudesse dá-lo me fez querer-lhe ainda mais e desejar prestar-lhe mil serviços, que me pareciam uma ninharia em troca dessa foto. Pois ela era como um encontro a mais, acrescentando aos que já tivera com a Sra. de Guermantes; melhor ainda, um encontro prolongado como se, por um brusco progresso de nossas relações, ela parasse ao meu lado, de chapéu de jardineiro, e tivesse me deixado olhar, pela primeira vez, com atenção, aquela polpa de rosto, aquela curva da nuca, o ângulo de sobrancelhas (até então ocultas para mim pela rapidez de sua passagem, pelo aturdimento de minhas impressões, pela inconsistência da lembrança); e sua contemplação, tanto como a do colo e dos braços de uma mulher que eu nunca houvesse visto senão de vestido afogado, representava para mim uma descoberta voluptuosa, um favor. Essas linhas que me parecia quase ser proibido olhar, poderia estudá-las ali como num tratado da única geometria que valesse para mim. Mais tarde, encarando Robert, percebi que ele era também um pouco feito a foto de sua tia, e por um mistério quase tão emocionante para mim, visto que, se seu rosto não fora diretamente produzido pelo rosto dela, ambos todavia possuíam uma origem comum. As feições da duquesa de Guermantes que estavam arquivadas na minha visão de Combray, o nariz em bico de falcão, os olhos penetrantes, pareciam ter servido igualmente para recortar - em outro exemplar análogo e delgado, de pele mais fina o rosto de Robert, quase possível de se sobrepor ao de sua tia. Observava nele, com inveja, os traços característicos dos Guermantes, dessa raça que permanecera tão particular no meio do mundo, onde ela não se perde e se conserva isolada em sua glória divinamente ornitológica, pois parece surgida, nas eras mitológicas, da união de uma deusa com um pássaro.

            Robert, sem atinar com o motivo, estava comovido com a minha emoção. Esta, aliás, aumentava com o bem-estar causado pelo calor do fogo e pelo champanhe que, ao mesmo tempo, orvalhava de gotas de suor a minha testa e de lágrimas os meus olhos; ele regava perdizes; eu as comia com o encanto de um profano qualquer, quando encontra, numa certa existência que não conhecia, aquilo que achara incompatível com ela (por exemplo, um livre-pensador preparando um jantar requintado num presbitério). E, na manhã seguinte, ao despertar, fui lançar pela janela de Saint-Loup, que, situada bem alto, dava para toda a região, um olhar de curiosidade para travar conhecimento com minha vizinha, a campina, que não pudera observar na véspera por ter chegado muito tarde, à hora em que ela já dormia na noite. Porém, por mais cedo que ela tivesse despertado, entretanto não a vi ao abrir o postigo, como se pode vê-la da janela de um castelo, para os lados do brejo, ainda meio envolta no branco e suave manto matinal de névoa, que não me deixava perceber quase nada. Mas sabia que, antes que os soldados que se ocupavam dos cavalos no pátio tivessem terminado a sua tarefa, ela o teria despido. Enquanto esperava, só podia ver uma delgada colina, erguendo contra o quartel o seu dorso já desprovido de sombras, esguio e rugoso. Através das cortinas borrifadas de geada, não tirava os olhos dessa estranha que me encarava pela primeira vez. Mas, quando tomei o hábito de ir ao quartel, a consciência de que a colina ali se achava, por conseguinte mais real, mesmo quando não a via, do que o hotel de Balbec, do que nossa casa em Paris, nos quais pensava como se pensa nos ausentes, nos mortos, isto é, sem quase acreditar em sua existência, fez com que, mesmo sem me aperceber de tal, sua forma reverberada sempre se perfilasse acima das menores impressões que recebi em Doncieres e, para começar por aquela manhã, acima da boa impressão de calor que me proporcionou o chocolate preparado pelo ordenança de Saint-Loup naquele quarto confortável, que tinha o aspecto de um centro ótico para olhar a colina (a idéia de fazer coisa diversa de olhá-la e passear por ela tornara-se impossível devido à mesma névoa que ali havia). Embebendo a forma da colina, associado ao gosto do chocolate e à trama inteira de meus pensamentos de então, aquele nevoeiro, sem que eu absolutamente pensasse nele, vinha molhar todos os meus pensamentos com aquele tempo, como determinado ouro inalterável e maciço ficara aliado às minhas impressões de Balbec, ou como a presença vizinha das escadas exteriores de grés enegrecido conferiam algo de grisalho às minhas impressões de Combray. Aliás, o nevoeiro não permaneceu até muito tarde pela manhã, pois o sol começou a lançar inutilmente contra ele algumas setas que o cobriram de brilhantes, acabando por vencê-lo. A colina pôde oferecer o seu cimo acinzentado aos raios que, uma hora depois, quando desci para a cidade, davam aos vermelhos das folhas das árvores; aos rubros e azuis dos cartazes eleitorais pregados nos muros, uma exaltação que a mim mesmo me reanimava e me fazia bater, cantando, as pedras do calçamento, sobre as quais me continha para não pular de alegria.

            Mas, desde o segundo dia, precisei ir dormir no hotel. E já sabia, por antecipação, que fatalmente iria sentir-me triste. A tristeza era como um aroma irrespirável que, desde o meu nascimento, exalava para mim todo quarto novo, ou seja, todo quarto: naquele que de ordinário ocupava, eu não me achava presente, meu pensamento permanecia em outra parte, e, em seu lugar, enviava apenas o Hábito. Mas não podia encarregar esse criado menos sensível de se ocupar de meus assuntos em uma região nova, onde eu o precedia, onde chegava sozinho, onde me era necessário fazer entrar em contato com as coisas aquele "Eu" que só encontrava com anos de intervalo, mas sempre o mesmo, não tendo crescido desde Combray, desde minha primeira chegada a Balbec, chorando, sem poder ser consolado, junto de uma mala desfeita.

            Ora, eu me enganara. Não tive tempo de ficar triste, pois não estive sozinho um só instante. É que me restava do palácio antigo um excedente de luxo, inaproveitável num hotel moderno, e que, destacado de toda utilidade prática, adquirira em sua ociosidade uma espécie de vida: corredores que arrepiavam caminho, dos quais a gente cruzava a todo momento as idas e vindas sem qualquer objetivo, vestíbulos compridos como corredores e ornamentados como salões, que tinham antes o aspecto de morar ali do que de fazer parte da casa, que fora impossível fazer entrar em algum apartamento, mas que rondavam o meu e logo vieram oferecer-me a sua companhia espécie de vizinhos ociosos, mas não barulhentos, fantasmas subalternos do passado a quem haviam permitido residir sem rumor à porta dos quartos que se alugavam, e que, cada vez que os encontrava em meu caminho, davam mostras de uma silenciosa deferência. Em suma, a idéia de uma residência, simples continente da nossa vida atual e que só nos preserva do frio e da vista dos outros, era absolutamente inaplicável àquela morada, conjunto de peças tão reais como uma colônia de pessoas, é verdade que de uma vida silenciosa, mas que a gente era obrigado a encontrar, a evitar e a acolher quando voltava. Procurava-se não importunar, e não se podia olhar sem respeito o grande salão que adquirira, desde o século XVIII, o hábito de se estender entre suas colunas de ouro velho, sob as nuvens de teto pintado. E a gente era tomado de uma curiosidade mais familiar pelas pequenas peças que, sem nenhum cuidado de simetria, corriam ao redor dele, inumeráveis, espantadas, fugindo em desordem até o jardim, para onde desciam tão facilmente por três degraus embotados.

            Se quisesse sair ou entrar sem tomar o elevador, nem ser visto na escada principal, uma outra, menor, privativa, que não servia mais, estendia-me seus degraus tão habilmente dispostos, um após o outro, que parecia haver em sua gradação uma proporção perfeita do tipo daquela que nas cores, nos perfumes e nos sabores muitas vezes nos excitam uma sensualidade peculiar. Mas a que existe em subir e descer, fora-me preciso vir até aqui para conhecê-la, como outrora a uma estância alpestre para saber que o ato de respirar, habitualmente não percebido, pode constituir uma volúpia permanente. Recebi essa isenção de esforço que apenas nos proporcionam as coisas que usamos longamente, quando pousei os pés pela primeira vez nesses degraus, familiares antes de serem conhecidos, como se possuíssem, talvez depositada, a eles incorporada pelos senhores de antigamente a quem acolhiam todos os dias, a antecipada suavidade de hábitos que eu ainda não adquirira e que até só poderiam se enfraquecer quando os tivesse tornado meus. Abri um quarto, a porta dupla se fechou atrás de mim, os cortinados fizeram entrar um silêncio sobre o qual senti uma espécie de embriagadora realeza; uma lareira de mármore ornada de cobres cinzelados, que seria errôneo pensar estivesse representando unicamente a arte do Diretório, me proporcionava fogo, e uma pequena poltrona de pés baixos me ajudou a aquecer-me tão confortavelmente como se estivesse sentado no tapete. As paredes estreitavam a peça, separando-a do resto do mundo e, para deixar entrar nela e nela encerrar o que a tornava completa, afastavam-se diante da biblioteca, reservavam o vão da cama a cujos lados umas colunas sustentavam ligeiramente o teto elevado da alcova. E o quarto se prolongava no sentido da profundidade em dois gabinetes tão amplos como ele, o último dos quais tinha suspenso à parede, para perfumar o recolhimento que se vinha buscar, um voluptuoso rosário de grãos de íris; as portas, se as deixava abertas enquanto me retirava para este último refúgio, não se contentavam em triplicá-lo, sem que deixasse de ser harmonioso, e não proporcionavam ao meu olhar apenas o prazer da extensão, mas ainda acrescentavam ao prazer de minha solidão, que permanecia inviolável e deixava de ser confinada, o sentimento de liberdade. Esse reduto dava para um pátio, belo, solitário, que me senti feliz de ter como vizinho quando, na manhã seguinte, o descobri cativo entre seus altos muros para onde não dava nenhuma janela, e tendo apenas duas árvores amareladas, suficientes para conferir uma suave doçura ao céu puro.

            Antes de me deitar, quis sair do quarto para explorar todo o meu feérico domínio. Caminhei seguindo uma galeria longa que, sucessivamente, me fez homenagem de tudo o que possuía para me ofertar, caso eu estivesse sem sono, uma poltrona colocada a um canto, uma espineta, um vaso de faiança azul cheio de cinerárias sobre um consolo, e, em um quadro antigo, o fantasma de uma dama de outrora, os cabelos empoados entrelaçados de flores azuis e tendo na mão um buquê de cravos. Tendo chegado ao fim, sua parede maciça, onde não se abria porta alguma, disse-me singelamente: "Agora é preciso voltar, mas vês que estás em tua casa", ao passo que o tapete macio ajuntava, para não ficar atrás, que, se eu não dormisse aquela noite, poderia muito bem vir descalço, e que as janelas sem postigos que olhavam para a campina me asseguravam que passariam uma noite em claro e que, voltando à hora que eu quisesse, não tinha a temer acordar alguém. E por trás de uma cortina descobri apenas um pequeno gabinete que, detido pela parede e não podendo se salvar, ali se escondera, todo embaraçado, e olhava-me assustado com seu olho de boi que o luar tornara azul. Deitei-me, mas a presença do edredom, das colunatas, da pequena lareira, pondo minha atenção num grau em que ela não estava em Paris, impediu-me de me entregar ao ramerrão habitual de meus devaneios. E como é esse estado particular de atenção o que envolve o sono e age sobre ele, modifica-o e o põe no mesmo plano de tal ou qual série de nossas recordações, as imagens que encheram meus sonhos naquela primeira noite foram tomadas de empréstimo a uma memória inteiramente diversa daquela a que de hábito meu sono recorria. Se fosse tentado, ao adormecer, a deixar-me arrastar de novo para a minha memória de costume, a cama à qual não estava habituado, a suave atenção que era obrigado a prestar às minhas posições quando me revirava bastariam para retificar ou manter o novo fio de meus sonhos. Ocorre com o sono o mesmo que se dá com a percepção do mundo exterior. Basta uma alteração em nossos hábitos para fazê-lo poético, basta que, ao nos despirmos, adormeçamos sem querer sobre a cama, para que as dimensões do sono sejam mudadas e que se sinta a sua beleza. A gente desperta, vê que são quatro horas no relógio, são apenas quatro horas da manhã, mas acreditamos que o dia inteiro já passou, de tanto que aquele sono de minutos, e que não buscamos, nos pareceu descer do céu, em virtude de algum direito divino, enorme e pleno como o globo de ouro de um imperador. De manhã, aborrecido com a idéia de que meu avô estava pronto e que me esperavam para ir para os lados de Méséglise, despertei com a fanfarra de um regimento que todos os dias passava debaixo de minhas janelas. Mas duas ou três vezes e o afirmo, pois não se pode descrever muito bem a vida dos homens se esta não for banhada no sono em que mergulha e que, noite após noite, a contorna como uma península é rodeada pelo mar -, o sono interposto foi em mim bastante resistente para sustentar o choque da música, e não ouvi nada. Nos outros dias, ele cedeu um instante; mas, ainda aveludada por ter dormido, minha consciência, como esses órgãos previamente anestesiados, para os quais uma cauterização, primeiramente insensível, só é percebida no fim e feito uma leve queimadura, apenas era tocada suavemente pelas pontas agudas dos pífaros que a acariciavam como um vago e fresco chilreio matinal; e, depois dessa breve interrupção em que o silêncio se fizera música, recomeçava ele com o meu sono, antes mesmo que os dragões tivessem acabado de passar, ocultando-me as últimas florações desabrochadas do ramalhete sonoro e impetuoso. E a zona da minha consciência a que haviam aflorado seus caules jorrantes era tão estreita, tão cercada de sono, que mais tarde, quando Saint-Loup me perguntava se havia escutado a música, eu não tinha certeza de que o som da fanfarra não fosse tão imaginário como o que eu ouvia durante o dia erguer-se, ao menor ruído, sobre o calçamento da cidade. Talvez o tivesse ouvido somente em sonhos, pelo receio de ser acordado ou, ao contrário, de não acordar e não ver o desfile. Pois muitas vezes, quando eu permanecia dormindo no momento em que, ao contrário, pensava que o ruído me despertaria, julgava estar acordado, durante uma hora, enquanto dormia, e representava para mim mesmo, sobre a tela diminuta do meu sono, os diversos espetáculos de que ele me privava, mas aos quais eu tinha a ilusão de estar assistindo.

            O que teríamos feito de dia, ao vir o sono, efetivamente ocorre que somente o realizamos sonhando, isto é, após a inflexão do adormecimento, conforme um outro caminho, diverso do que percorreríamos despertos. A mesma história se desvia e tem outro fim. Apesar de tudo, o mundo em que se vive durante o sono é de tal modo diferente que aqueles que têm dificuldade de adormecer procuram, antes de tudo, sair do nosso. Depois de terem desesperadamente, durante horas, de olhos fechados, revolvido pensamentos semelhantes aos que teriam tido de olhos abertos, retomam coragem se perceberem que o minuto anterior esteve carregado de um raciocínio em formal contradição com as leis da lógica e a evidência do presente; essa breve "ausência" significa que está aberta a porta pela qual talvez possam fugir logo à percepção do real, ir fazer algo mais ou menos longe dele, o que lhes dará um sono mais ou menos "bom". Mas já se deu um grande passo quando se volta as costas ao real, quando se atingem os primeiros antros onde as "auto-sugestões" preparam, como feiticeiras, a bebida infernal das doenças imaginárias ou a recrudescência das moléstias nervosas, e espiam a hora em que as crises que vêm à tona durante o sono inconsciente se manifestarão com força bastante para fazê-lo cessar.

            Não longe dali está o jardim reservado onde crescem, como flores desconhecidas, os sonos tão diferentes uns dos outros, o sono do estramônio, o sono do cânhamo-da-índia, os múltiplos extratos do éter, o sono da beladona, do ópio, da valeriana, flores que permanecem cerradas até o dia em que o desconhecido predestinado vier tocá-las, fazer com que se abram, e, durante longas horas, vertam o aroma de seus sonhos particulares em uma criatura maravilhada e surpresa. No fundo do jardim fica o convento de janelas abertas onde se ouve repetir as lições aprendidas antes de dormir e que só serão sabidas ao despertar; enquanto que, presságio deste, faz ressoar o seu tique-taque esse despertador interno que a nossa preocupação regulou tão bem que, quando nossa caseira vier dizer-nos: "são sete horas!", já nos achará prontos. Das paredes escuras desse quarto que se abre sobre os sonhos, e onde trabalha sem cessar o esquecimento dos desgostos amorosos, do qual é às vezes interrompida e desfeita por um pesadelo cheio de reminiscências a tarefa de imediato reiniciada, pendem, mesmo depois que despertamos, as lembranças dos sonhos, porém tão ensombrecidas que muitas vezes só as percebemos pela primeira vez em plena tarde, quando o raio de uma idéia semelhante vem tocá-las por acaso; alguns já harmoniosamente claros, enquanto dormimos, mas tornados tão irreconhecíveis que, não os tendo reconhecido, só podemos apressar-nos em devolvê-los à terra, como a cadáveres que se decompõem com muita rapidez, ou como objetos tão gravemente estragados e quase reduzidos a pó que nem o restaurador mais hábil poderia devolver-lhes a forma ou deles tirar alguma coisa. Perto da grade está a pedreira em que os sonos profundos vão procurar substâncias que impregnam a cabeça de camadas tão duras que, para despertar o adormecido, sua própria vontade se vê obrigada, mesmo numa manhã de ouro, a desferir enormes machadadas como um jovem Siegfried. Mais além ficam os pesadelos, que os médicos estupidamente supõem serem mais cansativos que as insônias, quando, muito pelo contrário, permitem ao pensador escapar-se da atenção; os pesadelos, com seus álbuns fantasistas, onde nossos parentes já mortos acabam de sofrer um grave acidente que não exclui uma cura próxima. Enquanto esperamos, conservamo-los numa pequena gaiola para ratos, onde eles são menores que ratinhos brancos e, cobertos de grandes botões vermelhos, cada qual ornado de uma pena, dirigem-nos discursos ciceronianos. Ao lado desse álbum, está o disco giratório do despertar, graças ao qual sofremos por um momento o tédio de ter de voltar imediatamente a uma casa que está destruída há cinqüenta anos, e cuja imagem é apagada por várias outras à medida que o sono foi se afastando, antes que chegássemos àquela a que só se apresenta uma única vez o disco ao parar, e que coincide com a que havemos de ver de olhos abertos.

            Algumas vezes eu nada ouvia, estando num desses sonos em que a gente cai como num poço, do qual nos sentimos muito felizes por ser tirados um pouco mais tarde, pesados, superalimentados, digerindo tudo o que nos trouxeram, parecidos com as ninfas que nutriam Hércules, essas ágeis potências vegetativas cuja atividade redobra enquanto dormimos.

            Chama-se a isto um sono de chumbo, e parece que nós mesmos nos tornamos, durante alguns momentos depois que um tal sono terminou, simples bonecos de chumbo. Não somos mais ninguém. Como, então, buscando sua personalidade, seu pensamento, como se busca um objeto perdido, acaba-se por encontrar o seu próprio eu antes que qualquer outro? Por que, quando recomeçamos a pensar, não é então uma outra personalidade, em vez da anterior, que se encarna em nós? Não se percebe o que é que dita a escolha e por que, entre os milhões de seres humanos que poderíamos ser, pomos a mão justamente sobre aquele que éramos na véspera. O que é que nos guia, quando verdadeiramente ocorreu uma interrupção (seja porque o sono tenha sido completo, ou os sonhos inteiramente diversos de nós)? Na verdade houve morte, como quando o coração deixa de bater e somos reanimados por exercícios rítmicos da língua. É claro que o quarto, ainda que o tenhamos visto uma só vez, desperta recordações das quais pendem outras mais antigas; ou em nós dormiam algumas de que tomamos consciência. A ressurreição ao despertar após esse benéfico acesso de alienação mental que é o sono deve, no fundo, assemelhar-se ao que ocorre quando se reencontra um nome, um verso ou um refrão esquecidos. E talvez a ressurreição da alma após a morte seja concebível como um fenômeno de memória.

            Quando acabara de dormir, atraído pelo céu ensolarado, mas retido pelo frio das derradeiras manhãs, tão luminosas e gélidas, em que principia o inverno, eu, para contemplar as árvores em que as folhas estavam indicadas apenas por um ou dois toques de ouro ou de rosa que pareciam ter ficado no ar, numa trama invisível, erguia a cabeça e esticava o pescoço enquanto mantinha o corpo meio escondido nos cobertores; como uma crisálida em vias de metamorfose, eu era uma criatura dupla cujas diversas partes não convinham ao mesmo ambiente; a meu ver, bastava a cor, sem calor; ao contrário, o meu peito se preocupava com o calor, e não com a cor. Só me levantava quando o fogo estava aceso e contemplava o quadro tão suave e transparente da manhã cor-de-malva e de ouro, à qual acabava de acrescentar artificialmente as partes de calor que lhe faltavam, atiçando o fogo que ardia e fumegava como um bom cachimbo e que me dava, como este o faria, um prazer a um tempo grosseiro, pois repousava num bem-estar material, e delicado, porque atrás dele se desvanecia uma pura visão. Meu gabinete de toalete era forrado de um papel vermelho violento, recamado de flores negras e brancas, às quais parece que teria alguma dificuldade de me habituar. Mas nada mais fizeram que me parecer novas, que me obrigar a entrar não em conflito mas em contato com elas, modificar a alegria e os cânticos de meu despertar; não fizeram mais que me prender à força no âmago de uma espécie de papoula para contemplar o mundo, que eu via bem diferente do que em Paris, desse alegre biombo que era essa nova casa, diversamente orientada da de meus pais e para onde afluía um ar puro. Em certos dias eu estava agitado pela vontade de rever minha avó ou pelo medo de que ela estivesse doente; ou então era a lembrança de algum negócio deixado em andamento em Paris, e que não caminhava; às vezes, também, alguma dificuldade em que, mesmo ali, arranjara um meio de meter-me. Qualquer dessas preocupações me impedira de dormir, e eu não tinha forças contra a tristeza, que, num instante, enchia toda a minha existência. Então, do hotel, eu enviava alguém ao quartel com um bilhete para Saint-Loup: dizia-lhe que, se lhe fosse materialmente possível sabia que era muito difícil -, tivesse ele a bondade de passar um instante pelo meu quarto. Dentro de uma hora ele chegava; e, ao ouvir o toque da campainha, eu me sentia liberado de minhas preocupações. Sabia que, se eram mais fortes que eu, ele era mais forte que elas e minha atenção se desligava delas e se voltava para ele, que decidiria tudo. Saint-Loup acabava de entrar e já espalhava a meu redor o ar livre em que desenvolvia tanta atividade desde a manhã, meio vital bem diverso do meu quarto, e ao qual eu me adaptava imediatamente devido a reações adequadas.

            - Espero que não me queira mal por tê-lo incomodado; alguma coisa me atormenta, e você com certeza o adivinhou.

            - Claro que não; pensei simplesmente que tinha vontade de me ver e achei isso muito gentil. Estava encantado que tivesse mandado me chamar. Mas afinal o que tem? Algo não está certo? Que posso fazer por você?

            Ouvia as minhas explicações, respondia com precisão; mas, antes mesmo que tivesse falado, Saint-Loup já me tornara semelhante a si próprio; além das ocupações importantes que o tornavam tão apressado, tão alerta, tão contente, os aborrecimentos que me impediam mesmo agora de ficar um instante sem sofrer me pareciam, como também a ele, desprezíveis. Eu era como um homem que, não podendo abrir os olhos há vários dias, manda chamar um médico, o qual, com jeito e suavidade, lhe levanta a pálpebra, lhe tira e mostra um grão de areia; o doente está curado e fica tranqüilo. Todas as minhas dificuldades se resolveriam com um telegrama que Saint-Loup se encarregaria de expedir. A vida me parecia tão diferente, tão bonita, sentia-me inundado de um tal excesso de energia que queria agir logo.

            - Que vai fazer agora? - perguntei à Saint-Loup.

            - Vou deixá-lo, pois saímos em marcha daqui a três quartos de hora e precisam de mim.

            - Então foi muito incômodo ter de vir?

            - De jeito nenhum; o capitão se mostrou muito gentil; disse que, se era por sua causa, eu tinha mesmo de vir; mas enfim não quero parecer que estou abusando.

            - Mas, se eu me levantasse depressa e fosse por minha vez ao local em que vocês fazem as manobras, isso me interessaria muito e talvez pudesse conversar com você nos intervalos.

            - Não lhe aconselho isso; você ficou acordado, quebrando a cabeça por uma coisa que, esteja certo, não tem a menor importância; mas agora que isso não o incomoda mais, volte ao travesseiro e durma, o que será excelente contra a desmineralização de suas células nervosas; não adormeça rápido demais porque a nossa maldita banda vai passar debaixo das suas janelas; mas logo depois, acho que terá sossego, e nos encontraremos esta noite para jantar.

            Porém, pouco mais tarde, fui assistir com freqüência aos exercícios do regimento no campo, quando comecei a me interessar pelas teorias militares que os amigos de Saint-Loup expunham ao jantar; e tornou-se o desejo de meus dias ver mais de perto seus diferentes chefes, como alguém que faz da música o seu principal estudo, e vive nos concertos, sente prazer em freqüentar os cafés onde se mistura à vida dos músicos da orquestra. Para chegar ao campo das manobras, precisava dar grandes caminhadas. À noite, após o jantar, a vontade de dormir me fazia às vezes tombar a cabeça, como se tivesse uma vertigem. No dia seguinte, eu me dava conta de que não ouvira a fanfarra, assim como, em Balbec, nos dias seguintes às noites em que Saint-Loup me levara a Rivebelle para jantar, não ouvira o concerto na praia. E, no momento em que desejava me levantar, experimentava a deliciosa incapacidade de fazê-lo; sentia-me ligado a um solo invisível e profundo pelas articulações, que o cansaço me fazia sensíveis, de radículas musculosas e nutritivas. Sentia-me cheio de forças, a vida se estendia mais longa diante de mim; e que eu recuara até as boas fadigas de minha infância em Combray, no dia seguinte àquele em que tínhamos ido passear no caminho de Guermantes. Os poetas pretendem que reencontremos por um momento aquilo que fomos outrora, quando entramos em determinada casa, determinado jardim, onde vivemos na juventude. Trata-se de peregrinações muito arriscadas essas em cujo término se colhem tanto decepções como sucessos. Os locais fixos, contemporâneos de anos diferentes, vale mais encontrá-los em nós mesmos. É para isso que podem servir, em certa medida, as canseiras seguidas de uma boa noite. Mas estas, para nos fazerem descer às galerias mais subterrâneas do sono, onde nenhum reflexo da vigília, nenhum clarão de memória vem mais iluminar o monólogo interior, se é verdade que ele mesmo aí não cessa, revolvem tão bem o solo e o tufo do nosso corpo que nos fazem reencontrar, lá onde os nossos músculos mergulham e retorcem suas ramificações, e haurindo a vida nova, o jardim em que vivemos quando crianças. Não há necessidade de viajar para revê-lo, é preciso descer para encontrá-lo. O que cobriu a terra não está mais sobre ela, mas abaixo; a excursão basta para visitar a cidade morta, é necessário proceder à escavações. Porém, já se verá como certas impressões fugidias e casuais levam muito melhor ainda ao passado, com uma precisão mais aguda, um vôo mais leve, mais imaterial, mais vertiginoso, mais infalível, mais imortal, do que esses deslocamentos orgânicos.

            Às vezes o meu cansaço era ainda maior: sem poder me deitar, eu seguia as manobras durante vários dias. Como era então abençoado o rei deitando na cama, parecia-me ter enfim escapado a egresso cantadores, a feiticeiros, como os que povoam os "romances" amados do século XVII. Meu sono e minha manhã opulenta do dia seguinte não passavam de um delicioso conto de fadas. Encantador; talvez também benéfico. Dizia para mim mesmo que os piores sofrimentos têm o seu asilo, que sempre é possível, à falta de coisa melhor, encontrar repouso. Tais pensamentos me levavam muito longe.

            Nos dias de descanso, e em que Saint-Loup, entretanto, não podia sair, ia eu com freqüência vê-lo no quartel. Era longe; precisava deixar a cidade, transpor o viaduto, de cujos dois lados eu desfrutava um panorama amplo. Uma brisa moderada soprava quase sempre naquelas alturas, enchendo os prédios erguidos dos três lados do pátio, que ecoavam sem parar como um antro de ventos. E, quando Saint-Loup estava ocupado com algum serviço, eu o esperava diante da porta do seu quarto, ou no refeitório, conversando com alguns de seus amigos a quem me apresentara (e que depois cheguei a ver algumas vezes, mesmo quando ele se achava ausente), vendo pela janela, a cem metros abaixo, a campina desnuda, mas onde, aqui e ali, sementeiras novas, muitas vezes ainda molhadas da chuva e iluminadas pelo sol, ostentavam algumas faixas verdes de um brilho e de uma limpidez translúcida de esmalte, acontecia-me ouvir falar nele; e bem cedo pude perceber o quanto ele era querido e popular. Entre muitos voluntários, que pertenciam a outros esquadrões, jovens burgueses ricos que só viam a alta sociedade aristocrática de fora, e sem nela penetrar, a simpatia que excitava neles o que sabiam do caráter de Saint-Loup era duplicada pelo prestígio que a seus olhos possuía aquele moço que muitas vezes, nas noites de sábado, quando vinham a Paris de licença, tinham visto ceando com o duque de Uzes e o príncipe de Orléans, no Café de La Paix. Por causa disso, em seu belo rosto, no seu modo despreocupado de andar, de cumprimentar, no perpétuo balançar de seu monóculo, na fantasia de seus quepes por demais altos, de suas calças de um pano muito fino e rosado, haviam eles introduzido a idéia de um "chique" de que afirmavam serem destituídos os oficiais mais elegantes do regimento, e até o soberbo capitão a quem devera eu o fato de ter dormido no quartel, e que parecia, comparativamente, solene demais e quase vulgar.

            Um dizia que o capitão comprara um novo cavalo. - Ele pode comprar todos os cavalos que quiser. Domingo de manhã me encontrei com Saint-Loup na Alameda das Acácias; ele monta com outro porte! dizia outro; e com conhecimento de causa; pois esses jovens pertenciam a uma classe que, se não freqüenta o mesmo pessoal mundano, não é diferente, no entanto, graças ao dinheiro e ao lazer, da aristocracia, na experiência de todas aquelas elegâncias que podem ser compradas. Quando muito, a elegância deles, no que respeita ao vestuário, por exemplo, possuía algo de mais aplicado, de mais impecável, do que aquela negligente e livre elegância de Saint-Loup, que tanto agradava à minha avó. Era emocionante para aqueles filhos de grandes banqueiros ou de corretores, ao comerem ostras após a sessão teatral, verem numa mesa vizinha o suboficial Saint-Loup. E quantos relatos feitos, segunda-feira no quartel, ao voltar da licença, por um deles que pertencia ao mesmo esquadrão de Saint-Loup e a quem este cumprimentara "muito amavelmente"; ou por um outro que não era do mesmo esquadrão, mas que acreditava que, apesar disso, Saint-Loup o reconhecera, pois duas ou três vezes acertara o monóculo em sua direção.

            - Sim, meu irmão o viu no La Paix. - dizia um outro que passara o dia na casa da amante -; parece até que usava um fraque meio folgado e que não lhe caía bem.

            - Como era o seu colete?

            - Não estava de colete branco, e sim cor-de-malva, com um tipo de palmas; estupendo!

            Quanto aos veteranos (homens do povo que ignoravam o Jockey e que simplesmente incluíam Saint-Loup na categoria dos suboficiais muito ricos, à qual faziam entrar todos aqueles que, arruinados ou não, mantinham um certo nível de vida, possuíam uma cifra bem elevada de rendimentos ou de dívidas e eram generosos para com os soldados), se não viam nada de aristocrático no modo de andar, no monóculo, nas calças e nos quepes de Saint-Loup, nem por isso, no entanto, tais coisas lhe eram destituídas de importância e significação. Em tais particularidades reconheciam eles o caráter, o gênero que de uma vez por todas haviam conferido ao mais popular dos graduados do regimento maneiras que não eram idênticas às de ninguém, descaso pelo que pudessem pensar os chefes, e que se lhes afigurava a conseqüência natural de sua bondade para com os soldados. O café da manhã no dormitório, ou o repouso na cama à tarde, parecia melhor quando algum veterano servia ao grupo guloso e dorminhoco um saboroso detalhe sobre um quepe de Saint-Loup.

            - Era tão alto como a minha mochila.

            - Ora, velho! Não me venha com histórias para boi dormir. Não podia ser tão alto assim. -interrompia um jovem licenciado em letras que procurava, usando essa expressão popular, não parecer um recruta e se arriscando, com essa contradita, a fazer confirmar um fato que o encantava.

            - Ah, não era então da altura da minha mochila? Você mesmo a mediu, talvez? Pois afirmo que o tenente-coronel olhava-o como se o desejasse pôr na solitária. E o nosso famoso Saint-Loup nem se importava! Ia, vinha, baixava a cabeça, erguia a cabeça, e sempre com aquele jogo do monóculo. O que não vai dizer o capitão! Ah, é bem possível que não diga nada, mas por certo aquilo não vai lhe agradar. Mas esse quepe ainda não é nada. Dizem que tem mais de trinta desses em casa.

            - Como é que sabe disso, velho? Pelo nosso maldito cabo? -perguntava o jovem licenciado com pedantismo, exibindo os novos modos de dizer que aprendera recentemente e com os quais gostava de ornamentar a conversa.

            - Como é que sei? Pelo seu ordenança, ora!

            - Eis aí um sujeito que não deve ser nada infeliz.

            - Compreendo. Tem mais sorte que eu, é claro! E ainda lhe dá as suas coisas, e tudo o mais. Não lhe bastava o que recebia da cantina. E vai daí, o nosso Saint-Loup recomenda, o furriel que o diga: "Quero que ele seja bem alimentado, custe o que custar."

            E o veterano compensava a insignificância das palavras com a energia do tom, numa imitação medíocre que obtinha o maior êxito.

            Ao sair do quartel, eu dava uma volta e depois, aguardando o momento em que ia almoçar diariamente com Saint-Loup, no hotel em que ele e seus amigos tinham se hospedado, dirigia-me para o meu, tão logo o sol se punha, a fim de ter duas horas para ler e descansar. Na praça, o entardecer pousava, nos telhados do castelo, nuvenzinhas rosadas que combinavam com a cor dos tijolos e completavam a harmonização suavizando-os com um reflexo. Tamanha corrente de vida me afluía aos nervos que nenhum dos meus movimentos poderia esgotá-la; cada um dos meus passos, depois de ter tocado uma laje da praça, ressaltava, parecia-me ter nos calcanhares as asas de Mercúrio. Uma das fontes estava cheia de um clarão vermelho e na outra o luar tornava opalina a cor da água. Entre elas, meninos brincavam, soltavam gritos, descreviam círculos, obedecendo a alguma necessidade da hora, à maneira dos gaviões ou dos morcegos. Ao lado do hotel, os antigos palácios nacionais e a estufa de Luís XVI, nos quais se encontravam agora a Caixa Econômica e o regimento, estavam iluminados de dentro pelas douradas e pálidas lâmpadas do gás já aceso, que, no dia claro ainda, convinha àquelas amplas e altas janelas do século XVIII, onde ainda não se apagara o último reflexo do poente, como conviria a uma cabeça avivada em tons de vermelho um adereço de concha loura, e me convencia a ir ao encontro de meu fogo e de minha lâmpada que, na fachada do hotel em que eu morava, lutava sozinha contra o crepúsculo e pela qual eu regressava à casa, antes que fosse inteiramente noite, com prazer, como se faz pelo lanche. Conservava, dentro de casa, a mesma plenitude de sensação que experimentava lá fora. Ela curvava de tal modo a aparência das superfícies que nos parecem muitas vezes planas e vazias, a luz amarela do fogo, o espesso papel azul do céu sobre o qual a tardinha riscara, como um colegial, garatujas a lápis cor-de-rosa, a toalha de desenho singular da mesa redonda, sobre a qual uma resma de papel de escola e um tinteiro me esperavam com um romance de Bergotte, que desde então essas coisas continuaram a me parecer ricas de toda uma espécie particular de existência que julgo poderia extrair delas se me fosse dado encontrá-Ias de novo. Pensava com alegria nesse quartel que acabara de deixar e cujo cata-vento girava em todos os sentidos. Como um mergulhador respirando por um tubo que sobe até a superfície das águas, era para mim como estar de novo ligado a uma vida saudável, ao ar livre, ter aquele quartel como ponto de contato, aquele alto observatório que dominava a campina trilhada de canais de esmalte verde, e a cujos barracões e edifícios eu contava, graças a um precioso privilégio que esperava fosse duradouro, poder ir quando quisesse, certo de sempre ser bem recebido.

            Às sete horas eu me vestia e voltava a sair para jantar com Saint-Loup no hotel em que ele se hospedava. Gostava de ir a pé. A escuridão era profunda, e desde o terceiro dia começou a soprar, mal baixava a noite, um vento gélido que parecia anunciar a neve. Enquanto caminhava, parece que não deixava de pensar na Sra. de Guermantes; era só para tentar me sentir próximo dela que viera à guarnição de Robert. Mas uma recordação e um desgosto são coisas móveis. Há dias em que se vão para tão longe que mal os avistamos e os julgamos desaparecidos. Então prestamos atenção em outras coisas. E as ruas daquela cidade ainda não eram para mim, como nos locais onde temos o hábito de viver, simples meio de ir de um ponto para outro. A vida que levavam os habitantes daquele mundo desconhecido me parecia dever ser maravilhosa, e às vezes os vidros iluminados de alguma residência me mantinham longo tempo imóvel na noite, pondo diante de meus olhos cenas verídicas e misteriosas de existências em que eu jamais penetraria. Aqui o gênio do fogo me mostrava, num quadro purpurino, a taverna de um comerciante de castanhas onde dois suboficiais, com os cinturões colocados nas cadeiras, jogavam cartas sem adivinhar que um mágico os fazia surgir da noite, como numa aparição teatral, e os evocava tais como eram efetivamente, naquele instante mesmo, aos olhos de um passante parado que eles não podiam ver. Em um pequeno armazém de bricabraque, uma vela meio consumida, projetando seu clarão avermelhado sobre uma gravura, transformava-a em sangüínea, enquanto, lutando contra a sombra, a claridade do lampião amorenava um pedaço de couro, esmaltava um punhal de faiscantes lantejoulas, em quadros que não eram mais que cópias medíocres depositava uma douração preciosa como a pátina do passado ou o verniz de um mestre, e por fim fazia daquele casebre, onde só havia imitações e ninharias, um inestimável Rembrandt. Às vezes eu erguia os olhos para um amplo apartamento antigo, cujos postigos ainda não se achavam cerrados e onde homens e mulheres anfíbios, adaptando-se de novo cada noite a viver em um outro elemento que não o dia, nadavam lentamente no espesso licor que, ao cair da noite, surge incessantemente do reservatório das lâmpadas para encher os quadros até os bordos de suas paredes de pedra e de vidro, e em cujo seio eles propagam, deslocando seus corpos, redemoinhos suntuosos e dourados. Retomava o meu caminho, e muitas vezes, na rua negra que passa diante da catedral, como antigamente no caminho de Méséglise, a força do meu desejo me fazia parar; parecia-me que uma mulher iria surgir para satisfazê-lo; se, na escuridão, sentia de súbito passar um vestido, a própria violência do prazer que experimentava impedia-me de crer que aquele roçar fosse casual, e tentava cerrar em meus braços uma passante assustada. Essa ruazinha gótica guardava para mim algo tão real que, se ali pudesse agarrar e possuir uma mulher, me teria sido impossível não acreditar que se tratasse da antiga volúpia que nos iria unir, mesmo que essa mulher não passasse de uma simples profissional ali postada todas as noites, mas à qual o inverno, a nostalgia, a escuridão e a Idade Média teriam emprestado o seu mistério. Eu pensava no futuro: tentar esquecer a Sra. de Guermantes me parecia horrível, porém razoável, e, pela primeira vez, possível, talvez fácil. No sossego absoluto daquele bairro, ouvia à minha frente palavras e risos que deviam provir dos que passeavam meio ébrios e voltavam para casa. Parava para vê-los, olhava para o lado de onde escutava o barulho. Mas era obrigado a esperar muito tempo, pois o silêncio circundante era tão profundo que deixava fluir com força e nitidez extremas os rumores ainda longínquos. Enfim chegavam os passeantes, não à minha frente, como julgara, mas bem atrás. Ou porque o cruzamento das ruas e a interposição das casas tivessem causado por refração aquele erro de acústica, ou porque é difícil situar um som cujo local não é conhecido, eu me havia enganado não só quanto à distância, mas também quanto à direção.

            O vento aumentava. Era todo eriçado e granuloso de uma aproximação de neve; alcancei a rua principal e saltei para o bondezinho de cuja plataforma um oficial, que parecia não vê-los, respondia às continências dos soldados broncos que passavam pela calçada com o rosto vermelho de frio; e faziam pensar, naquela cidade que o brusco salto do outono nesse princípio de inverno parecia ter arrastado mais para o norte, nas faces rubicundas que Breughel confere a seus alegres camponeses, farristas e gelados.

            E, justamente no hotel em que eu tinha encontro marcado com Saint-Loup e seus amigos e para onde as festas que começavam atraíam muita gente da vizinhança e estranhos, havia, enquanto eu atravessava diretamente o pátio que dava para cozinhas avermelhadas onde giravam frangos no espeto, onde se assavam porcos, onde lagostas ainda vivas eram atiradas naquilo que o hoteleiro chamava de "fogo eterno", uma grande afluência (digna de algum "Recenseamento em Belém", como os que eram pintados pelos velhos mestres flamengos) de pessoas que chegavam e se reuniam em grupos no pátio, indagando ao patrão ou a um de seus ajudantes (que lhes indicava um alojamento na cidade quando não os achava de boa cara) onde poderiam ter quarto e comida, enquanto um garçom passava segurando pelo pescoço uma ave que se debatia. E, na grande sala de jantar que atravessei no primeiro dia, antes de alcançar a pequena peça onde me esperava o meu amigo, era igualmente numa refeição do Evangelho, figurado com a ingenuidade dos tempos de outrora e o exagero da Flandres, que fazia pensar o número de peixes, de frangas cevadas, de tetrazes, de galinholas, de pombos, trazidos, enfeitados e fumegantes, por garçons sem fôlego que deslizavam pelo chão encerado para ir mais depressa e depô-los sobre o imenso consolo, onde logo eram trinchados, mas onde pois muitas das refeições já estavam acabando quando eu chegara ficavam empilhados inutilmente; como se sua profusão e a precipitação daqueles que os traziam respondessem, muito mais que aos pedidos dos fregueses, ao respeito ao texto sagrado escrupulosamente seguido em sua letra, mas ingenuamente ilustrado por detalhes reais tomados de empréstimo à vida local, e à preocupação estética e religiosa de mostrar aos olhos o brilho da festa pela profusão de avitualhas e pela pressa dos empregados. Um dentre eles, na extremidade da sala, sonhava, imóvel, ao lado de um guarda-louças; e, para indagar àquele, que parecia ser o único com tranqüilidade suficiente para me responder, em que peça fora preparada a nossa mesa, avançando por entre os fogareiros acesos aqui e ali, a fim de impedir que se resfriassem os pratos dos retardatários o que não impedia que no centro da sala estivessem as sobremesas erguidas nas mãos de um enorme boneco a que às vezes serviam de suporte as asas de um pato de cristal, ao que parecia, mas na realidade feito de gelo, cinzelado diariamente a ferro em brasa por um cozinheiro escultor, no melhor gosto flamengo -, eu seguia reto, arriscando-me a ser derrubado pelos outros, na direção desse empregado, no qual julguei reconhecer um personagem tradicional nesses temas sagrados e de quem reproduzia escrupulosamente o rosto achatado, ingênuo e mal traçado, a expressão sonhadora, já meio presciente do milagre de uma presença divina de que os outros ainda não haviam suspeitado. Acrescentemos que, em virtude sem dúvida das festas próximas, a essa figuração se juntou um suplemento celeste inteiramente recrutado dentre um pessoal de querubins e serafins. Um jovem anjo músico, de louros cabelos emoldurando um rosto de quatorze anos, na verdade não tocava nenhum instrumento, mas devaneava diante de um gongo ou de uma pilha de pratos, ao passo que anjos menos infantis se apressavam através dos espaços desmesurados da sala, agitando o ar com o frêmito incessante dos guardanapos que desciam ao longo do corpo em forma de asas pontiagudas de primitivos. Fugindo dessas regiões mal definidas, veladas por uma cortina de palmas, onde os servidores celestiais pareciam, de longe, dar a impressão de chegarem do emprego, abri caminho até a saleta onde ficava a mesa de Saint-Loup. Ali encontrei alguns de seus amigos com quem ele jantava sempre, todos nobres, salvo um ou dois plebeus, mas em quem os nobres tinham, desde o colégio, adivinhado amigos e aos quais se haviam ligado de muito boa vontade, provando assim que não eram, em princípio, hostis aos burgueses, fossem mesmo republicanos, contando que tivessem as mãos limpas e comparecessem à missa. Logo na primeira vez, antes que nos sentássemos à mesa, puxei Saint-Loup para um canto da sala de jantar e, diante de todos os outros, mas que aliás não nos ouviam, disse-lhe:

            - Robert, o momento e o local não são próprios para lhe dizer isso, mas só vai levar um minuto. Sempre me esqueço de lhe perguntar no quartel; não é o retrato da Sra. de Guermantes o que você tem sobre a mesa?

            - Claro que sim; é o da minha boa tia.

            - Ora, é verdade, que loucura a minha; eu bem que o sabia antes, mas nunca pensara nisso; meu Deus, os seus amigos devem estar impacientes, falemos rápido, eles nos olham, ou fica para outra vez, isto não tem nenhuma importância.

            - Que nada! Continue, eles estão aí é para esperar.

            - De jeito nenhum, faço questão de ser cortês; eles são tão amáveis. Aliás, não tenho como proceder de outro modo, você sabe.

            - Conhece então essa grande Oriane?

            Essa "grande Oriane", como se tivesse dito "boa Oriane", não significava que Saint-Loup considerasse a Sra. de Guermantes como especialmente bondosa. Nesse caso, boa, excelente, grande, são simples reforços de "essa", designando uma pessoa que ambos os interlocutores conhecem e de quem não se sabe muito bem o que dizer ante uma pessoa que não é da nossa intimidade. "Boa" serve de hors-d'oeuvre e permite esperar um momento até que se tenha achado: "O senhor a vê muitas vezes?" ou "Faz meses que não a vejo", ou "Eu a vi na terça", ou "Ela já não deve estar na primeira juventude".

            - Não sei dizer como me diverte que seja o retrato dela, pois moramos na mesma casa agora e eu soube a seu respeito coisas inauditas (ficaria muito embaraçado para dizer quais) que fazem com que ela me interesse muito, de um ponto de vista literário, você compreende, como direi, de um ponto de vista balzaquiano, você que é tão inteligente há de compreender isto em meia palavra, mas acabemos depressa; o que é que seus amigos hão de pensar de minha educação!

            - Mas eles não pensam absolutamente nada; eu lhes disse que você é sublime, e eles estão ainda mais intimidados que você.

            - Você é muito gentil. Mas veja: a Sra. de Guermantes não imagina que nos conhecemos, não é?

            - Não sei; não a vejo desde o último verão, pois não consegui licença depois que ela voltou.

            - É que, me disseram, ela me considera um perfeito idiota.

            - Não creio nisso; Oriane não é nenhuma águia, mas também não tem nada de estúpida.

            - Você bem sabe que, em geral, não faço nenhuma questão que torne públicos os bons sentimentos que sente por mim, pois não tenho amor-próprio. Assim, lastimo que tenha dito coisas amáveis sobre mim a seus amigos (com quem vamos nos reunir dentro de dois segundos). Mas, quanto à Sra. de Guermantes, se puder lhe fazer saber, mesmo com um pouco de exagero, o que

pensa a meu respeito, me daria um grande prazer.

            - Com muito gosto, se é somente isto o que tem a me pedir; não é muito difícil, mas que importância pode ter o que ela venha a pensar de você? Suponho que estará pouco se importando. Em todo caso, se é apenas isso, poderemos falar do assunto diante de todos, ou quando estivermos a sós, pois receio que você se canse de falar em pé e de forma tão incômoda, quando temos tantas oportunidades de estar juntos.

            Era justamente esse incômodo que me dera coragem de falar com Robert; a presença dos outros servia-me de pretexto que me autorizasse a dar às minhas frases um jeito breve e desarrumado, graças ao qual podia mais facilmente dissimular a mentira que pregava ao dizer a meu amigo que esquecera o seu parentesco com a duquesa e para não lhe dar tempo de me fazer, sobre os meus motivos para desejar que a Sra. de Guermantes me soubesse ligado a ele, inteligente, etc., perguntas que tanto mais me desconcertariam como não saberia de que modo lhe responder.

            - Robert, você, tão inteligente, me espanta que não compreenda que não se deve discutir o que dá prazer aos amigos, mas fazê-lo. Quanto a mim, se me pedisse seja o que for, e até desejaria muito que me pedisse alguma coisa, asseguro que não lhe pediria explicações. Vou mais longe do que desejo; não faço questão de conhecer a Sra. de Guermantes; mas deveria ter dito, para experimentá-lo, que desejaria jantar com a Sra. de Guermantes e sei que você não me conseguiria semelhante coisa.

            - Não só conseguiria como vou consegui-lo.

            - Quando?

            - Logo que for a Paris, dentro de três semanas, sem dúvida.

            - Veremos; aliás, ela nem vai querer isso. Nem sei lhe dizer como estou agradecido.

            - Ora, não é nada.

            - Não me diga isso, é demais, porque agora vejo o amigo que você é; seja ou não importante a coisa que lhe peço, seja ou não desagradável, que eu a queira de verdade ou só para o experimentar, pouco importa, você diz que a fará e assim mostra a finura de sua inteligência e do seu coração. Um amigo estúpido teria discutido.

            Era justamente o que ele acabara de fazer; mas talvez eu quisesse prendê-lo pelo amor-próprio; talvez também fosse sincero, parecendo-me que a única pedra de toque do mérito era a utilidade que poderiam ter para mim os outros em relação à única coisa que eu julgava importante: o meu amor. Depois acrescentei, ou por duplicidade, ou por um acréscimo verdadeiro de ternura causado pela gratidão, pelo interesse e por tudo que a natureza pusera dos próprios traços da Sra. de Guermantes em seu sobrinho Robert:

            - Mas é tempo de nos reunirmos aos outros e só lhe pedi uma das duas coisas, a menos importante; a outra é mais importante para mim, mas receio que você me recuse; não lhe aborreceria que nos tratássemos por tu?

            - Aborrecer-me? Ora, por Deus! Alegria! Lágrimas de alegria! Felicidade desconhecida!

            - Como lhe agradeço... te agradeço. Bem, depois que você tiver começado! Isto me dá um tal prazer que você até pode não fazer nada quanto à Sra. de Guermantes se não quiser; o tratamento por tu já me basta.

            - Faremos as duas coisas.

            - Oh, Robert! Escuta. - disse ainda à Saint-Loup durante o jantar. - Oh, é tão cômica esta conversa de frases interrompidas, e aliás não sei por quê. Mas você sabe, a dama de quem lhe acabei de falar?

            - Sim.

            - Sabe bem a quem estou me referindo?

            - Ora, você acha que sou algum cretino do Valais, um retardado?

            - Será que você não desejaria me dar a fotografia dela?

            Contava pedi-la apenas emprestada. Mas, no momento de falar, fui atacado de timidez, achei o meu pedido indiscreto e, para não deixá-lo reparar naquilo, formulei-o mais brutalmente e ainda o aumentei, como se fosse muito natural.

            - Não, primeiro seria necessário que lhe pedisse licença. - respondeu ele.

            Em seguida enrubesceu. Compreendi que tinha um pensamento oculto, que me atribuía outro, que só serviria ao meu amor pela metade, sob a reserva de certos princípios de moral, e o detestei. E, no entanto, estava comovido por ver como Saint-Loup se mostrava diferente a meu respeito desde que não mais estava sozinho com ele e seus amigos faziam o papel de terceiros. Sua maior gentileza me teria deixado indiferente se julgasse que era intencional; mas sentia-a involuntária e feita de tudo aquilo que ele devia dizer de mim quando eu estivesse ausente e que ele calava quando estávamos a sós. Nas nossas palestras, é certo que eu desconfiava do prazer que ele tinha em conversar comigo, mas esse prazer ficava quase sempre inexpresso. Agora, diante das mesmas frases minhas, que normalmente desfrutava sem o notar, ele espiava com o rabo dos olhos para ver se produziam nos amigos o efeito que havia esperado e que devia corresponder ao que lhes tinha anunciado. A mãe de uma estreante não põe sua atenção mais suspensa das réplicas da filha e da atitude do público. Se eu dizia uma palavra de que ele, sozinho comigo, tivesse sorrido, receando agora que a não compreendessem, me dizia:

            - Como, como? para me fazer repeti-la, para forçar a prestar atenção, e, voltando-se logo para os outros e, sem querer, pondo-se a olhá-los com um riso bonachão, provocador do riso deles, apresentava-me pela primeira vez a idéia que fazia de mim e que já muitas vezes devia lhes ter expressado. De modo que, repentinamente, eu me via a mim mesmo do exterior, como alguém que lê o próprio nome no jornal ou se vê num espelho.

            Numa daquelas noites, ocorreu-me desejar contar uma história bastante engraçada acerca da Sra. Blandais, mas parei imediatamente, pois me lembrei que Saint-Loup já a conhecia e, quando fora contá-la no dia seguinte à minha chegada, ele me interrompeu dizendo:

            - Você já me contou esta em Balbec.

            Portanto, fiquei surpreso de vê-lo insistir para que continuasse, assegurando que não conhecia aquela história e que ela o divertiria muito. Disse-lhe:

            - Você deve estar esquecido, mas logo vai reconhecê-la.

            - De modo nenhum, juro que estás confundindo. Nunca me contaste isso. Vai.

            E, durante toda a história, cravava febrilmente os olhos maravilhados ora em mim, ora nos companheiros. Só entendi quando, ao terminar no meio das risadas de todos, percebi que ele imaginara que a história daria aos companheiros uma alta idéia do meu espírito e que fora para isso que fingira não a conhecer. Assim é a amizade.

            Na terceira noite, um de seus amigos, ao qual não tivera ainda ocasião de falar nas duas primeiras vezes, conversou comigo longamente; e ouvia-o dizer a Saint-Loup, a meia voz, do prazer que lhe dera a nossa conversa. E, de fato, passamos juntos quase toda a noite conversando diante de nossos copos de vinho Sauterness que não chegamos a esvaziar, separados, protegidos dos outros pelos véus magníficos de uma dessas simpatias entre homens que, quando não têm por fundamento a atração física, são as únicas inteiramente misteriosas. Assim dessa natureza enigmática me parecera em Balbec o sentimento que Saint-Loup me tributava, que não se confundia com o interesse de nossas conversações, desligado de todo laço material, invisível, intangível e cuja presença, no entanto, experimentava em si mesmo como uma espécie de flogisto, de gás, o bastante para falar sorrindo sobre aquilo. E talvez houvesse algo de mais surpreendente ainda naquela simpatia nascida ali em uma única noite, como uma flor que desabrochasse em poucos minutos ao calor daquela saleta. Como Robert me falasse de Balbec, não pude deixar de lhe perguntar se estava de fato decidido que se casasse com a Srta. de Ambresac. Declarou-me que não só não estava nada decidido como jamais se falara em tal assunto, que ele nunca a vira, e não sabia de quem se tratava. Se eu tivesse visto, naquele momento, algumas das pessoas da sociedade que tinham anunciado esse casamento, me comunicariam o da Srta. de Ambresac com alguém que não fosse Saint-Loup e o deste com alguém que não fosse ela. E os teria deixado muito espantados ao recordar-lhes as suas predições opostas e ainda tão recentes. Para que esse joguinho pudesse continuar e multiplicar as falsas notícias, acumulando sucessivamente sobre cada nome o maior número possível delas, a natureza dotou esse tipo de jogadores de uma memória tanto mais curta quanto maior a sua credulidade. Saint-Loup me falara de outro de seus companheiros, que também se achava presente, com o qual se entendia especialmente bem, pois eram, naquele meio, os dois únicos partidários da revisão do processo Dreyfus.

            - Oh, esse não é como Saint-Loup, é um energúmeno. - disse o meu novo amigo -; nem sequer é confiável.

            No começo, dizia: "É só esperar, há um homem que conheço bem, muito fino, cheio de bondade, o general de Boisdeffre; pode-se, sem hesitação, aceitar o seu parecer," Mas, quando ele soube que Boisdeffre proclamava a culpabilidade de Dreyfus, Boisdeffre já não valia mais nada; o clericalismo e os preconceitos do Estado-Maior o impediam de julgar com isenção, embora ninguém seja, ou pelo menos fosse tão clerical do que o nosso amigo, antes do seu Dreyfus. Disse-nos, então, que em todo caso iríamos saber a verdade, pois o caso ia ficar nas mãos de Saussier, e que este, soldado republicano (nosso amigo era de uma família ultramonarquista), era um homem de bronze, uma consciência inflexível. Mas, quando Saussier proclamou a inocência de Esterhazy, ele encontrou novas explicações para esse veredito, desfavoráveis não a Dreyfus, mas ao general Saussier. Era o espírito militarista que cegava Saussier (e notem que ele é tão militarista quanto clerical, ou pelo menos o era, pois já não sei o que pensar a seu respeito). Sua família ficou desolada por vê-lo abraçar tais idéias.

            - Vejam disse eu, meio me voltando para Saint-Loup, para não dar a impressão de me isolar, bem como para seu companheiro, e a fim de fazê-lo participar da conversa -, é que a influência que se atribui ao meio é sobretudo verdadeira quanto ao meio intelectual. Cada um é homem de uma idéia própria; há muito menos idéias do que homens, portanto todos os homens de uma mesma idéia são parecidos. Como uma idéia nada tem de material, os homens que só materialmente estão ao redor do homem de uma idéia não a modificam em nada.

            Nesse momento fui interrompido por Saint-Loup, porque um dos jovens militares acabara, sorrindo, de me apontar a ele, dizendo: "Duroc, é tal e qual Duroc." Eu não sabia o que aquilo queria dizer, mas sentia que a expressão do rosto intimidado era mais que benevolente. Saint-Loup não se contentou com essa aproximação. Num delírio de alegria que sem dúvida duplicava a que sentia em me fazer brilhar diante dos amigos, repetia-me com extrema volubilidade, dando-me pancadinhas como a um cavalo que tivesse chegado em primeiro lugar:

            - És o homem mais inteligente que conheço, e sabes disto.- Reconsiderou, acrescentando: - Juntamente com Elstir Isto não te incomoda, não é mesmo? Escrúpulos, compreendes. Comparação: digo-te como teriam dito a Balzac: sois o maior romancista do século, junto com Stendhal. Excesso de escrúpulos, compreendes; no fundo, admiração imensa. Não? Não combinas com Stendhal? -acrescentava, com uma ingênua confiança no meu julgamento que se traduzia por uma risonha interrogação encantadora, quase infantil, de seus olhos verdes. - Muito bem, vejo que és da minha opinião. Bloch detesta Stendhal, acho que é uma besteira da parte dele. A Cartuxa é mesmo uma coisa enorme, não? Estou contente por seres da minha opinião. Que é que preferes na Cartuxa? Responde. - dizia-me ele com uma impetuosidade juvenil. E sua força física, ameaçadora, chegava quase a dar algo de assustador à pergunta.

            - Mosca? Fabrice?

            Respondi com timidez que Mosca tinha alguma coisa do Sr. de Norpois. Diante disso, tempestade de riso do jovem Siegfried-Saint-Loup. E eu não tinha acabado de acrescentar:

            - Mas Mosca é bem mais inteligente, menos pedante. -e já ouvia Robert gritar "bravo!" batendo palmas de verdade, rindo de sufocar e exclamando: - É de uma justeza! Excelente! És extraordinário!

            Quando eu estava falando, a aprovação dos outros ainda parecia demais a Saint-Loup, que exigia silêncio. E, como um maestro interrompe os músicos batendo com a batuta porque alguém fez barulho, ele repreendeu o perturbador:

            - Gibergue. - disse -, deve ficar calado quando estão falando. Vamos, continue disse para mim.

            Respirei, pois receava que me fizesse principiar tudo de novo. E como uma idéia continuei - é algo que não pode participar dos interesses humanos e nem poderia gozar de suas vantagens, os homens de uma idéia não são influenciados pelo interesse.

            - E então, estão de boca aberta, meus meninos? - exclamou, quando terminei de falar, Saint-Loup, que me seguira com o olhar com a mesma solicitude ansiosa como se eu tivesse caminhado na corda bamba. - Que é que você queria dizer, Gibergue?

            - Eu dizia que o senhor aqui me recordava muito o comandante Duroc. Parece-me até que o estava ouvindo.

            - Pensei nisso já diversas vezes. - respondeu Saint-Loup. - Há muitos pontos de contato, mas você verá que este possui muitas coisas que Duroc não tem.

            Assim como um irmão desse amigo de Saint-Loup, educado na Schola cantorum, pensava a respeito de toda nova obra musical não como seu pai, sua mãe, seus primos e companheiros de clube, mas precisamente como todos os outros alunos da Schola, aquele suboficial nobre (de quem Bloch formou uma idéia extraordinária quando lhe falei dele, pois, comovido ao saber que era do seu mesmo partido, imaginava-o todavia, por causa de suas origens aristocráticas e de sua educação religiosa e militar, uma criatura bem diferente, com o mesmo encanto de um nativo de um país longínquo) tinha uma "mentalidade" como então se principiava a dizer, análoga à de todos os dreyfusistas em geral e de Bloch em particular, e sobre a qual não podiam ter nenhum tipo de influência as tradições de sua família e os interesses de sua carreira. Assim é que um primo de Saint-Loup havia casado com uma jovem princesa do Oriente que, diziam, fazia versos tão belos como os de Victor Hugo ou Alfred de Vigny e a quem, não obstante, atribuíam um espírito diverso daquele que se podia imaginar, um espírito de princesa do Oriente presa num palácio das Mil e Uma Noites. Aos escritores que tiveram o privilégio de serem admitidos em sua intimidade, foi reservada a decepção, ou antes, a alegria, de ouvir uma conversa que dava idéia não de Xerazade, mas de uma criatura de gênio do gênero de Alfred de Vigny ou de Victor Hugo.

            Agradava-me conversar sobretudo com este rapaz, como aliás com os outros amigos de Robert, e com o próprio Robert, sobre o quartel, os oficiais da guarnição, sobre o exército em geral. Graças a essa escala imensamente ampliada pela qual vemos as coisas, por pequeninas que sejam, entre as quais comemos, conversamos e levamos nossa vida real, graças a essa extraordinária majoração que elas sofrem e que faz com que o resto, ausente do mundo, não possa lutar com elas e assuma, a seu lado, a inconsistência de um sonho, eu começara a me interessar pelas diversas personalidades do quartel, pelos oficiais que avistava no pátio quando ia ver Saint-Loup ou, se estava acordado, quando o regimento passava debaixo de minhas janelas. Desejaria obter detalhes acerca do comandante que Saint-Loup tanto admirava e sobre o curso de história militar que me teria encantado "mesmo esteticamente". Sabia que, em Robert, certo verbalismo era com muita freqüência um tanto vazio, mas de outras vezes significava a assimilação de idéias profundas que ele era bem capaz de compreender. Infelizmente, do ponto de vista do exército, Robert estava preocupado, naquele momento, sobretudo com o Caso Dreyfus. Falava pouco dele, pois era o único de sua mesa a se declarar dreyfusista; os outros eram violentamente hostis à revisão, excetuando o meu vizinho de mesa, esse meu novo amigo cujas opiniões pareciam por demais vacilantes. Admirador convicto do coronel, que era tido por um oficial notável e que, em diversas ordens do dia, condenara a agitação contra o exército, o que o fazia passar por antidreyfusista, soubera meu vizinho que seu chefe deixara escapar algumas afirmações que fizeram crer que sentia algumas dúvidas quanto à culpabilidade de Dreyfus e conservava sua estima a Picquart. Em todo caso, quanto a este último aspecto, o boato de relativo dreyfusismo do coronel era sem fundamento, como todos os boatos nascidos não se sabe onde e que se multiplicam em torno de qualquer grande processo. Pois, pouco mais tarde, esse coronel, tendo sido encarregado de interrogar o antigo diretor do Gabinete de Informações, tratou-o com uma brutalidade e um desprezo nunca anteriormente igualados. Fosse como fosse, e embora jamais se tivesse permitido informar-se diretamente com o coronel, meu vizinho fizera a Saint-Loup a cortesia de lhe dizer no tom com que uma dama católica anuncia a uma dama judia que seu padre censura os massacres de judeus na Rússia e admira a generosidade de certos israelitas que o coronel não era para o dreyfusismo para um certo dreyfusismo pelo menos o adversário fanático, estreito, que haviam acreditado.

            - Isto não me espanta. -observou Saint-Loup -, pois trata-se de um homem inteligente. Mas, apesar de tudo, cegam-no os preconceitos de nascimento e principalmente o clericalismo. Ah! - disse-me -, o comandante Duroc, o professor de história militar de quem te falei, eis aí um homem que parece compartilhar a fundo nossas idéias. Aliás, o contrário é que teria me assombrado, pois ele não só é de uma inteligência sublime, mas radical-socialista e franco-maçom.

            Tanto por delicadeza para com os amigos, a quem eram desagradáveis as profissões de fé dreyfusistas de Saint-Loup, como porque o resto me interessava mais, perguntei a meu vizinho se era exato que esse comandante fizera, da história militar, uma demonstração de verdadeira beleza estética.

            - Absolutamente exato.

            - Mas que entende o senhor por isso?

            - Pois bem; por exemplo, tudo o que o senhor lê, suponho, na narrativa de um historiador militar, os menores fatos, os mais insignificantes acontecimentos, não são mais que sinais de uma idéia que é preciso desvelar e que muitas vezes encobre outras, como um palimpsesto. De modo que o senhor tem um conjunto tão intelectual como o que possa oferecer qualquer ciência ou qualquer arte, e que satisfaz o espírito.

            - Exemplos, se não estou abusando.

            - É difícil dizer-te como. - interrompeu Saint-Loup. - Lês, por exemplo, que um tal corpo tentou... Antes de ir mais adiante, o nome do corpo e sua composição têm seu significado. Se não é a primeira vez que se tenta a operação, e se, para a mesma operação, vemos aparecer um outro corpo, isto é talvez o sinal de que os precedentes foram aniquilados ou grandemente danificados pela dita operação, que já não estão mais em estado de levá-la ao fim. Ora, é necessário inquirir que corpo era esse que hoje está aniquilado; se eram tropas de choque, postas de reserva para ataques importantes, visto que um novo corpo de qualidade inferior tem poucas chances de êxito onde aquelas fracassaram. Além do mais, se não se está no início de uma campanha, esse mesmo corpo novo pode estar formado de elementos colhidos aqui e ali, o que, no tocante às forças de que ainda dispõe o beligerante, à aproximação do momento em que elas serão inferiores às do adversário, pode fornecer indicações que darão à própria operação que esse corpo vai tentar um significado diverso, porque, se ele já não está em condições de reparar suas perdas, seus próprios sucessos não farão mais que encaminhá-lo, aritmeticamente, para o aniquilamento final. De outra parte, o número designativo do corpo que lhe é oposto não é menos destituído de significação. Se, por exemplo, trata-se de uma unidade muito mais fraca, e que já consumiu várias unidades importantes do adversário, a mesma operação muda de caráter, pois, ainda que devesse findar pela perda da posição sustentada pelo defensor, o fato de havê-la ocupado por algum tempo pode representar um grande triunfo, se foi suficiente para destruir, com forças mínimas, outras muito importantes do adversário. Podes compreender que, se na análise dos corpos empenhados encontram-se coisas de tamanha importância, o estudo da própria posição, das estradas de ferro e de rodagem que ela domina, dos abastecimentos que protege, acarreta ainda maiores conseqüências. É preciso estudar o que eu chamaria de todo o contexto geográfico. - acrescentou ele, rindo. (E, com efeito, mostrou-se tão contente com esta expressão que, a seguir, de cada vez que a empregava, ria sempre o mesmo riso.) - Enquanto a operação está em preparativos por um dos beligerantes, se lês que uma de suas patrulhas foi aniquilada nas proximidades da posição pelo outro beligerante, uma das conclusões que podes tirar é que o primeiro procurava informar-se quanto aos trabalhos defensivos com que o segundo intentava fazer fracassar o seu ataque. Uma ação especialmente violenta contra um dado ponto pode significar o desejo de conquistá-lo, mas também a intenção de reter nele o adversário, de não responder ao seu ataque ali onde ele atacou, ou também não passar de um despiste e ocultar, pelo recrudescimento da violência, as baixas de tropas no local. (É um despiste clássico nas guerras de Napoleão.) Por outro lado, para compreender o significado de uma manobra, seu objetivo provável e, conseqüentemente, de que outras será acompanhada ou seguida, não é indiferente consultar, não tanto o que a tal propósito anuncia o comandante o que pode ser destinado a enganar o adversário, a mascarar um fracasso possível como os regulamentos militares do país. É sempre de se admitir que a manobra que um exército quis tentar é aquela prescrita pelo regulamento em vigor em circunstâncias análogas. Se, por exemplo, o regulamento recomenda que um ataque frontal seja acompanhado por um outro de flanco, se, tendo fracassado este segundo ataque, o comandante pretende que ele não tem qualquer relação com o primeiro e não passava de uma diversão, há uma oportunidade para que a verdade deva ser procurada no regulamento e não nas palavras do comandante. E não existem apenas os regulamentos de cada exército, mas as suas tradições, seus costumes, suas doutrinas. O estudo da ação diplomática, sempre em permanente estado de ação e reação sobre a ação militar, também não deve ser desprezado. Incidentes na aparência insignificantes, mal compreendidos à época, te explicarão que o inimigo, contando com uma ajuda da qual esses incidentes mostram de que foi privado, só realizou de fato uma parte de sua ação estratégica. De modo que, se sabes ler a história militar, o que representa uma narração confusa para o leitor comum é, para ti, um encadeamento tão racional como um quadro para o amador que sabe enxergar o que o personagem traz consigo, segura nas mãos, enquanto que o visitante aturdido dos museus se deixa confundir e sente vertigens devido a umas cores vagas. Mas, como ocorre em certos quadros, em que não basta reparar que o personagem segura um cálice, mas é preciso saber por que o pintor lhe pôs esse cálice nas mãos, e o que deseja simbolizar com isso, essas operações militares, mesmo sem contar com sua finalidade imediata, são habitualmente, no espírito do general que dirige a campanha, calcadas em batalhas mais antigas, que são, se quiseres, como o passado, como a biblioteca, como a erudição, como a etimologia, como a aristocracia das batalhas novas. Repara que não te falo, neste momento, da identidade local como direi? -espacial das batalhas. Ela também existe. Um campo de batalha não foi, ou não será, através dos séculos apenas o campo de uma só batalha. Se foi campo de batalha, é que reunia certas condições de situação geográfica, de natureza geológica, e até de defeitos próprios para incomodar o adversário (um rio que o corte em dois, por exemplo) e que fazem dele um bom campo de batalha. Portanto, foi e será. Não se faz um ateliê de pintura com qualquer sala, não se faz um campo de batalha com qualquer local. Há lugares predestinados. Ainda uma vez, porém, não era disso que eu falava, e sim do tipo de batalha que se imita, de uma espécie de decalque estratégico, de pasticho tático se quiseres: a batalha de Ulm, de Lodi, de Leipzig, de Canas. Não sei se ainda haverá guerras, nem entre que povos; mas, se houver, fica certo de que haverá (e deliberadamente da parte do chefe) uma batalha de Canas, uma de Austerlitz, uma de Rossbach, uma de Waterloo, sem falar de outras. Alguns não se envergonham de dizê-lo. O marechal von Schlieffen e o general de Falkenhausen prepararam previamente contra a França uma batalha de Canas, à maneira de Aníbal, com fixação do adversário em toda a frente e avanço pelas duas alas, sobretudo pela direita, na Bélgica, ao passo que Bernhardi prefere a ordem oblíqua de Frederico, o Grande, antes Leuthen do que Canas. Outros expõem menos cruamente seus pontos de vista, mas posso te garantir, meu velho, que Beauconseil, esse comandante de cavalaria a quem te apresentei outro dia e que é um oficial de grande futuro, estudou a fundo o seu ataquezinho do Pratzen, conhece-o como a palma da mão, mantém-no de reserva e, se algum dia tiver oportunidade de executá-lo, não vacilará no golpe e nos há de servi-lo em grande escala. O rompimento do centro em Rívoli, vê, ainda vai se repetir, se houver guerras. Não é mais caduco do que afiada. Acrescento que estamos quase condenados aos ataques frontais porque não queremos cair de novo nos erros de 1870, e sim fazer ofensiva, apenas ofensiva. A única coisa que me perturba é que, se só vejo espíritos retrógrados se oporem a essa magnífica doutrina, no entanto um de meus mais jovens mestres, que é um homem de gênio, Mangin, gostaria que se deixasse um lugar, naturalmente provisório, à defensiva. A gente fica muito embaraçado para lhe responder quando ele cita como exemplo Austerlitz, onde a defensiva é apenas o prelúdio do ataque e da vitória.

            Essas teorias de Saint-Loup me fizeram feliz. Permitiram-me esperar que talvez eu não me enganasse em minha vida em Doncieres, com respeito a esses oficiais de quem ouvia falar bebendo o Sauternes que projetava encantadores reflexos sobre eles, com o mesmo caso de aumento que me fizera parecer imensos, enquanto estava em Balbec, o rei e a rainha da Oceania, e pequena sociedade dos quatro gourmets, o jovem jogador, o cunhado de Legrandin, agora diminuídos a meus olhos a ponto de me parecerem inexistentes. O que me agradava, hoje, talvez não se me tornasse indiferente amanhã, como até então sempre me sucedera; a criatura que eu era ainda naquele momento talvez não fosse votada a uma destruição próxima, visto que, à paixão ardente e fugitiva que eu dedicava, naquelas poucas noites, a tudo o que se referisse à vida militar, Saint-Loup, pelo que acabara de me dizer quanto à arte da guerra, acrescentava uma base intelectual, de natureza permanente, capaz de sujeitar-me com força bastante para que pudesse acreditar, sem tentar enganar a mim mesmo, que, uma vez longe dali, continuaria a me interessar pelos trabalhos de meus amigos de Doncieres e não tardaria em voltar para junto deles. A fim de estar mais certo, no entanto, de que essa arte bélica fosse mesmo uma arte no sentido espiritual da palavra:

            - Você me interessa, perdão, tu me interessas muito. - disse à Saint-Loup -; mas conta-me, há um ponto que me inquieta. Sinto que poderia me apaixonar pela arte militar, mas para isso seria necessário que não a julgasse diversa das outras artes, a tal ponto que a regra aprendida não fosse tudo. Tu me dizes que se copiam batalhas. Encontro nisso um efeito estético, como dizias, de ver sob uma batalha moderna uma outra mais antiga. Nem sei te dizer como isto me agrada. Mas então, o gênio do comandante não vale nada? Na verdade, ele não faz senão aplicar regras? Ou então, para ciência igual, existem grandes generais, como há grandes cirurgiões que, sendo idênticos os elementos fornecidos por dois estados doentios, do ponto de vista material, sentem no entanto por um nada, talvez tirado de sua experiência, mas interpretado, que num caso é preferível fazer isto, noutro caso melhor fazer aquilo, que nesse caso o melhor talvez seja operar e naquele abster-se?

            - Claro que sim! Verás Napoleão não atacar quando todas as regras mandam que ataque, mas uma obscura adivinhação o aconselha a não fazê-lo. Por exemplo, vês em Austerlitz, ou então em 1806, suas instruções a Lannes. Mas verás generais imitarem escolasticamente determinada manobra de Napoleão e chegarem a resultado diametralmente oposto. Dez exemplos disso em 1870. Porém, mesmo para a interpretação do que pode fazer o adversário, o que ele faz é apenas um sintoma que pode significar muitas coisas diferentes. Cada uma delas possui chances idênticas de ser a verdadeira se nos ativermos ao raciocínio e à ciência, assim como, em certos casos complexos, toda a ciência médica do mundo não será bastante para decidir se o tumor invisível é fibroso ou não, se a operação deve ou não ser feita. É o faro, a adivinhação do tipo da Sra. de Thebes (tu me compreendes), que decide tanto no grande general como no grande médico. Assim te disse, para dar um exemplo, o que podia significar um reconhecimento no começo de uma batalha. Mas pode significar dez outras coisas; por exemplo, fazer o inimigo crer que vai ser atacado num ponto enquanto se deseja atacá-lo em outro, erguer uma cortina que o impeça de ver os preparativos da operação verdadeira, forçá-lo a trazer tropas, a fixá-las, a imobilizá-las em outro local diverso de onde elas serão necessárias, inteirar-se das forças de que ele dispõe, sondá-lo, forçá-lo a abrir o jogo. Até, às vezes, o fato de se empregarem tropas enormes numa operação não é prova de que ela seja a verdadeira; pois muito bem pode-se executá-la a sério, embora se trate apenas de um despistamento, para que tal despistamento tenha mais probabilidades de iludir. Se tivesse tempo de te contar, sob este ponto de vista, as guerras de Napoleão, asseguro-te que estes simples movimentos clássicos que estudamos, e que nos verás executando em serviço no campo, por simples distração de passeio, meu jovem tratante; não, sei que estás doente, perdão! Muito bem, numa guerra, quando sentimos por trás desses movimentos a vigilância, o raciocínio e as profundas investigações do alto comando, emocionamo-nos diante deles como diante dos simples fogos de um farol, luz material, mas emanação do espírito e que pesquisa o espaço para assinalar o perigo aos navios. Talvez esteja errado em te falar exclusivamente da literatura de guerra. Na realidade, como a direção do vento e da luz, e a constituição do solo, indicam para que lado uma árvore há de crescer, as condições em que se faz uma campanha e as características da região na qual se manobra comandam de algum modo, e limitam, os pianos entre os quais o general pode escolher. De forma que, ao longo das montanhas, num sistema de vales, em determinadas planícies, é quase com o caráter de necessidade e de beleza grandioso de avalanchas que podes prever a marcha dos exércitos.

            - Agora, tu me recusas a liberdade do chefe, a adivinhação do adversário que deseja ler em seus planos, e que há pouco admitias.

            - Mas de jeito nenhum! Lembra-te daquele livro de filosofia que líamos juntos em Balbec, a riqueza do mundo dos possíveis em relação ao mundo real. Muito bem! Ocorre o mesmo na arte militar. Numa dada situação, haverá quatro planos que se impõem, e entre eles o general pôde escolher, como uma doença pode seguir diversas evoluções às quais o médico deve se cingir. E ainda aí a fraqueza e a grandeza humanas são novas fontes de incerteza. Pois entre esses quatro planos, digamos que por motivos contingentes (como objetivos acessórios a atingir, ou o tempo, que urge, ou o número pequeno, ou o mau abastecimento dos efetivos), o general prefira o primeiro plano, que é menos perfeito, mas de execução menos dispendiosa, mas rápida e que tem como terreno uma região mais rica para alimentar o seu exército. Tendo começado por esse primeiro plano no qual o inimigo, a princípio inseguro, em breve lerá claramente, ele pode não conseguir êxito, devido a obstáculos excessivos - é o que denomino o acaso que provém da fraqueza humana -, e abandoná-lo para tentar o segundo, o terceiro ou o quarto planos. Mas também pode acontecer que ele não tenha tentado o primeiro e dá-se aqui o que chamo de grandeza humana senão por despiste, a fim de fixar o adversário de modo a surpreendê-lo no ponto em que este não imaginava ser atacado. Foi assim que, em Ulm, Mack, que esperava o inimigo a oeste, foi envolvido pelo norte, onde se considerava bem tranqüilo. Aliás, o meu exemplo

não é muito bom. E Ulm é um tipo melhor de batalha de envolvimento que o futuro verá reproduzir-se, porque não é unicamente um exemplo clássico em que os generais hão de se inspirar, mas uma forma de algum modo necessária (necessária entre outras, o que dá margem à escolha, à variedade), como um tipo de cristalização. Mas tudo isso não significa nada, pois esses quadros, apesar de tudo, são fictícios. Retorno ao nosso livro de filosofia: isto é como os princípios racionais ou as leis científicas, a realidade se conforma a essas coisas de maneira aproximada; mas lembra-te do grande matemático Poincaré: ele não está certo de que as matemáticas sejam rigorosamente exatas. Quanto aos próprios regulamentos, de que já te falei, eles são em suma de uma importância secundária; aliás, são mudados de tempos em tempos. Assim, quanto a nós, da cavalaria, vivemos de acordo com o Serviço de Campanha, de 1895, do qual se pode dizer que está ultrapassado, pois se baseia na velha e desusada doutrina que considera que o combate de cavalaria tem um efeito quase só moral devido ao terror que causa ao adversário. Ora, os mais inteligentes de nossos mestres, que são o que há de melhor na cavalaria, e notadamente o comandante de que te falei, consideram ao contrário que a decisão será obtida graças a uma verdadeira peleja em que se esgrimam o sabre e a lança e onde será vencedor o mais tenaz, não só moralmente e devido a uma impressão de terror, mas materialmente.

            - Saint-Loup tem razão e é provável que o próximo Serviço de Campanha apresente o traço dessa evolução. - disse o meu vizinho.

            - Não me desagrada a tua aprovação, pois tuas opiniões parecem causar mais impressão do que as minhas sobre o meu amigo. - disse rindo Saint-Loup, seja que essa simpatia nascente entre mim e o seu companheiro o agastasse um pouco, seja que ele achasse amável consagra-la constatando-a oficialmente. - E, depois, talvez eu tenha diminuído a importância dos regulamentos. É certo que são mudados. Mas, enquanto isso, eles comandam a situação militar, os planos de campanha e a concentração. Se refletem uma falsa concepção estratégica, podem ser o princípio inicial da derrota. Tudo isto é um pouco técnico demais para ti. - disse ele. - No fundo, não te esqueças de que o que precipita ao máximo a evolução da arte da guerra são as próprias guerras. No decurso de uma campanha, se é um tanto prolongada, vê-se um dos beligerantes aproveitar-se das lições que lhe dão os êxitos e os enganos do adversário, aperfeiçoar os métodos deste, que, por sua vez, disputa com ele. Mas isto pertence ao passado. Com os terríveis progressos da artilharia, as guerras futuras, se ainda houver guerras, serão tão curtas que, antes que se possa sonhar em tirar partido das informações, a paz já estará concluída.

            - Não sejas tão suscetível. - disse eu a Saint-Loup, respondendo ao que ele dissera antes destas últimas palavras. - Eu te escutei com bastante avidez!

            - Se não te irritas de novo e me dás licença. - tornou o amigo de Saint-Loup -, acrescentarei ao que acabas de dizer que, se as batalhas se imitam e se superpõem, não é apenas devido ao espírito do chefe. Pode suceder que um erro do chefe (por exemplo, sua avaliação insuficiente do mérito do adversário) o conduza a pedir sacrifícios exagerados às tropas, sacrifícios que certas unidades hão de cumprir com uma abnegação tão sublime que seu papel, assim, será análogo ao daquela outra unidade em uma determinada batalha diversa, e ambas serão citadas na história como exemplos intercambiáveis: para nos atermos a 1870, a guarda prussiana em Saint-Privat, os turcos em Froeschwiller e em Wissemburgo.

            - Ah! Intercambiáveis, muito justo! Excelente! Tu és inteligente. - disse Saint-Loup.

            Não me deixavam indiferente estes últimos exemplos, como ocorria sempre que alguém me mostrava o geral sob o particular. Entretanto, o que me interessava era o gênio do chefe. Gostaria de perceber em que consistia, e como, em determinada circunstância em que o chefe sem gênio não poderia resistir ao adversário, se comportaria o chefe genial para reparar a batalha comprometida, o que, segundo Saint-Loup, era bem possível e fora realizado várias vezes por Napoleão. E, para compreender em que consistia o valor militar, eu pedia comparações entre os generais cujos nomes conhecia, indagava o que possuía a mais a natureza de um chefe, perguntava a respeito dos dotes de um estrategista, arriscando-me a aborrecer meus novos amigos, que ao menos não o aparentavam e me respondiam com infatigável bondade.

            Sentia-me separado, não só da grande noite gelada que se estendia ao longe e na qual ouvíamos de vez em quando o silvo de um trem que apenas tornava mais vivo o prazer de estar ali, ou as batidas de uma hora que felizmente ainda estava afastada daquela em que esses rapazes deveriam pegar os sabres e ir embora, mas também de todas as preocupações exteriores, quase até da lembrança da Sra. de Guermantes, pela bondade de Saint-Loup à qual a de seus amigos, que se lhe acrescentava, dava como que maior espessura, e também pelo calor daquela saleta de jantar, pelo sabor dos pratos requintados que nos serviam. Davam tanto maior prazer à minha imaginação quanto à minha gulodice; às vezes, a pequena porção de natureza de onde tinham sido extraídos rugosa pia benta da ostra na qual ficam algumas gotas de água salgada, ou sarmento nodoso, pâmpanos amarelados de um cacho de uvas, essa porção ainda os cercava, incomestível, poética e distante como uma paisagem, e fazendo seguir-se, no decurso do jantar, as evocações de uma sesta sob uma videira e de um passeio no mar; de outras vezes, somente pelo cozinheiro é que era posta em relevo essa particularidade original das avitualhas, que ele apresentava em seu quadro natural como uma obra de arte; e um peixe cozido em molho de escabeche era trazido num longo prato de barro, onde, como se destacasse em relevo sobre camadas de ervas azuis, infrangível mas contorcido ainda por ter sido jogado vivo em água fervente, rodeado de um círculo de mariscos, animalzinhos satélites, caranguejos, camarões e mexilhões, era como se aparecesse numa cerâmica de Bernard Palissy.

            - Estou com ciúmes, estou furioso. - disse-me Saint-Loup, meio rindo, meio a sério, fazendo alusão às intermináveis conversas à parte que eu tinha com seu amigo. - Será que você o acha mais inteligente que eu? Gosta mais dele que de mim?  Os homens que querem uma mulher desaforadamente, que vivem numa sociedade de mulherengos se permitem gracejos que outros não se atreveriam, pois veriam nelas não menos que a inocência.

            Já que a conversação tornava-se generalizada evitavam todos falar em Dreyfus com receio de constranger Saint-Loup. No entanto, uma semana depois, dois de seus camaradas falaram como era curioso que, vivendo num meio tão militar eram tão dreyfusista e quase antimilitarista.

            - O caso é disse eu sem querer entrar em detalhes – que a influência do meio não tem a influência que se acredita.

            Claro que eu esperava parar nesse ponto. Apesar disso as reflexões que formulara a Saint-Loup alguns dias antes textualmente, com essas palavras, pelo menos dissera-as quase para desculpar-me acrescentando:

            - Era justamente o que para mim e por outro dia... - não contara com o reverso da gentil admiração de Robert por mim assim como por algumas outras pessoas. Essa admiração era completa; tanto que ao fim de quarenta e oito horas, ele se referia à mim esquecido que tais idéias não eram suas. Assim, no que concernia minha modesta tese, Saint-Loup, absolutamente como se ela sempre houvesse habitado o seu cérebro, e como se eu não fizesse mais que boas-vindas em suas terras, achou-se no dever de me desejar calorosamente um meio de aprovar-me:

            - Claro que sim! O meio não tem tanta importância.

            E, com a mesma força de temesse ser interrompido ou incompreendido por mim, disse:

            - A verdadeira influência é a do meio intelectual! Cada qual é o homem de sua própria idéia.

            Deteve-se por um momento com um sorriso de quem digeriu bem, deixou cair o monóculo  e pousando o olhar em mim como uma barreira:

            - Todos os homens de uma mesma idéia são semelhantes. - disse-me em tom de desafio.

            Sem dúvida não se lembrava que eu lhe dissera, poucos dias antes, aquilo que na dúvida dizia ele também. Nem sempre eu chegava a fundo com Saint-Loup com a mesma disposição de ânimo. Em compensação lembrava tão bem todas as noites se uma recordação, um desgosto que a gente sinta são capazes de nos abandonarmos às vezes, a ponto de não os percebermos mais, também há várias noites em que por muito tempo não nos largam. Havia tarde em que ao atravessar a cidade achava que encontraria a Sra. de Guermantes, e sentia tantas dores no peito como se fora seccionado, que mal podia respirar. Dir-se-ia que uma parte de mim fora substituído por um sofrimento equivalente a nostalgia e ao amor. E, por mais bem-feitos que fossem os pontos de sutura, a gente vive muito mal quando a saudade de alguém substitui nossas vísceras, parece que aquela ocupa mais lugar do que estas, sentimo-la permanentemente, e depois, que ambigüidade sermos obrigados a pensar uma parte do nosso corpo! Unicamente, parece que ficamos valendo mais. À menor brisa, suspiramos de opressão, mas também de langor. Eu contemplava o céu. Se estava claro, dizia comigo: "Talvez ela esteja no campo, contemple as mesmas estrelas, e quem sabe se, ao chegar ao restaurante, Robert não vai me dizer: ''Boas notícias. Minha tia acaba de me escrever, ela gostaria de te ver, e virá até aqui." Não era só no firmamento que eu colocava o pensamento da Sra. de Guermantes. Um ventinho suave que passasse parecia trazer-me uma mensagem dela, como outrora de Gilberte nos trigais de Méséglise: a gente não muda, o que fazemos é inserir nos sentimentos relativos a uma criatura certo número de elementos adormecidos que eles desertam, mas que não lhe são estranhos. E, além disso, tais sentimentos particulares, algo em nós sempre se esforça por levá-los a uma verdade maior, ou seja, fazê-los juntarem-se a um sentimento mais geral, comum a toda a humanidade, coisas com que os indivíduos e os desgostos que nos causam não são mais que uma oportunidade de nos pôr em contato. O que proporcionava um pouco de prazer à minha pena é que eu a sabia uma parcela mínima do amor universal. Sem dúvida, por julgar reconhecer tristezas que experimentara a respeito de Gilberte, ou então quando à noite, em Combray, mamãe não ficava no meu quarto, e também a lembrança de certas páginas de Bergotte, no sofrimento que sentia e ao qual a Sra. de Guermantes, mais sua frieza e sua ausência, não estavam claramente ligadas como a causa o é ao efeito no espírito de um sábio, eu não concluía que a Sra. de Guermantes fosse tal causa. Pois não há dores físicas difusas, estendendo-se por irradiação nas regiões exteriores à parte doente, mas que as abandonam para se dissipar por inteiro se um facultativo toca o ponto preciso de onde elas provêm? E, no entanto, antes disso, sua extensão dava-nos um tal caráter de vaguidão e de fatalidade que, impotentes em explicá-la, e até em localizá-la, julgávamos impossível fosse curada. Encaminhando-me para o restaurante, dizia comigo: "Já faz quatorze dias que não vejo a Sra. de Guermantes." Quatorze dias, o que só parecia uma coisa imensa para mim, que, quando se tratava da Sra. de Guermantes, contava os minutos. Para mim, não eram apenas as estrelas e a brisa, mas até as divisões aritméticas do tempo que adquiriam algo de poético e doloroso. Todo dia era agora como a crista móvel de uma incerta colina: de um lado, eu sentia que podia cair no esquecimento; do outro, era levado pela necessidade de rever a duquesa. E estava mais próximo ora de um, ora de outro, não tendo equilíbrio estável. Um dia eu me disse: "Talvez haja uma carta esta noite" e, ao chegar para jantar, tive a coragem de indagar de Saint-Loup:

            - Por acaso, não recebeste notícias de Paris?

            - Sim. - respondeu-me com ar sombrio -, e elas não são boas.

            Respirei, compreendendo que não era somente ele quem tinha desgostos e que as notícias eram de sua amante; mas logo vi que uma das conseqüências seria a de impedir Robert, durante muito tempo, de me levar à casa de sua tia.

            Percebi que rebentara uma briga entre ele e a amante, seja por correspondência, seja que ela tivesse vindo visitá-lo de manhã, entre dois trens. E as brigas, ainda as menos graves, que tinham tido até então pareciam sempre insolúveis. Pois ela tinha mau gênio, sapateava, chorava, por motivos tão incompreensíveis como as crianças que se trancam num quarto escuro, não vêm jantar, recusando-se a dar qualquer explicação e apenas redobram de soluços quando, perdendo a paciência, lhes damos palmadas. Saint-Loup sofreu horrivelmente com essa briga, mas é uma forma de dizer por demais simples e que torna falsa a idéia que se deve fazer dessa dor. Quando Robert se achou sozinho de novo, sem mais ter de pensar na amante, que partira cheia de respeito por ele ao vê-lo tão enérgico, as angústias que sentira nas primeiras horas se acabaram diante do irreparável, e o fim de uma angústia é algo tão suave que a briga, uma vez certa, assumiu para ele um pouco do mesmo tipo de encanto que lhe daria uma reconciliação. Aquilo de que principiou a sofrer um pouco mais tarde foram uma dor e um acidente secundário cujos fluxos vinham incessantemente de si mesmo, à idéia de que ela talvez quisesse reaproximar-se, que não era impossível que esperasse uma palavra dele, que, enquanto isso, por vingança, talvez fizesse nalguma noite, em algum lugar, alguma coisa, e que bastaria que ele telegrafasse que ia chegar para que tal coisa não ocorresse, que talvez outros se aproveitariam do tempo que perdia, e que, dentro de alguns dias, seria tarde demais para tê-la de volta, pois já teria sido tomada por alguém. De todas essas possibilidades ele não sabia coisa alguma, sua amante mantinha um silêncio que acabou por lhe transtornar as idéias, a ponto de fazê-lo indagar-se se ela não estaria escondida em Doncieres ou se não teria partido para a Índia.

            Tem-se dito que o silêncio é uma força; num sentido inteiramente diverso, é de fato uma força terrível à disposição dos que são amados. Ele aumenta a ansiedade de quem está esperando. Nada convida tanto a aproximar-se de uma criatura como aquilo que dela nos separa, e qual a barreira mais intransponível que o silêncio? Diz-se também que o silêncio é um suplício, capaz de tornar louco a quem a ele seja coagido nas prisões. Mas que suplício maior do que guardar silêncio o de suportá-lo vindo de quem se ama! Robert se dizia: "Que será que ela está fazendo então, para se calar desse modo? Sem dúvida está me enganando com outros..." E pensava ainda: "Que será que eu fiz para que se cale assim? Talvez me odeie, e para sempre." E se acusava. Dessa forma, o silêncio o enlouquecia mesmo, pelo ciúme e pelo remorso. Além disso, mais cruel que o das prisões, semelhante silêncio é a própria prisão. Um tabique imaterial, sem dúvida, mas impenetrável, essa camada interposta de atmosfera vazia, mas que os raios visuais do abandonado não podem atravessar. Existirá mais terrível iluminação que o silêncio que nos mostra não uma ausente, mas mil, cada uma se entregando a uma traição? Às vezes, num alívio brusco, Robert julgava que aquele silêncio ia terminar em breve, que a carta esperada chegaria. Ele a via, ela chegava, ele auscultava cada ruído, já estava acalmado, murmurava:

            "A carta! A carta!" Depois de assim ter entrevisto um oásis imaginário de carinho, voltava a ver-se engatinhando no deserto real do silêncio sem fim.

            Sofria por antecipação, sem se esquecer de uma só, todas as dores de um rompimento que, em outras ocasiões, julgava poder evitar, como as pessoas que regulam todos os seus assuntos em vista de uma expatriação que não se efetuará, e cujo pensamento, que já não sabe onde deverá situar-se no dia seguinte, agita-se momentaneamente desligado delas, semelhante ao coração que se retira de um enfermo e que permanece batendo, separado do corpo. Em todo caso, a esperança de que a amante regressaria lhe dava a coragem para perseverar no rompimento, assim como a crença de que se retornará vivo da batalha ajuda a enfrentar a morte. E, como o hábito é, de todas as plantas humanas, a que menos precisa de solo nutritivo para viver e que é a primeira a aparecer sobre o rochedo aparentemente o mais desolado, talvez praticando

a princípio o rompimento por dissimulação, acabasse Robert por se acostumar sinceramente a ele. Mas a incerteza mantinha nele um estado que, ligado à recordação daquela mulher, se parecia com o amor. Entretanto, ele se obrigava a não lhe escrever, pensando talvez que seria menos cruel o tormento de viver sem a amante do que viver com ela em determinadas condições, ou que, depois da forma como se tinham deixado, esperar as suas desculpas era necessário para que ela conservasse o que ele julgava lhe dedicar, se não amor, ao menos a estima e o respeito. Contentava-se em ir ao telefone, que acabavam de instalar em Doncieres, e pedir notícias, ou dar instruções a uma criada de quarto que colocara junto da amiga. De resto, tais comunicações eram complicadas e lhe ocupavam mais tempo, porque, seguindo as opiniões de seus amigos literários quanto à feiúra da capital, mas sobretudo em consideração de seus animais, seus cachorros, seu macaco, seus canários e seu papagaio, cujos gritos incessantes o seu proprietário de Paris deixara de tolerar, a amante de Robert acabava de alugar uma pequena propriedade nos arredores de Versalhes. Entretanto, Robert, em Doncieres, já não dormia um só instante de noite. Uma vez, no meu quarto, vencido pelo cansaço, adormeceu um pouco. Mas de repente começou a falar, queria correr, evitar alguma coisa; dizia: - Estou ouvindo... não, não faça... - Acordou. Disse-me que acabara de sonhar que estava no campo, na casa do sargento-mor. Este procurava afastá-lo de certa parte da casa. Saint-Loup adivinhara que o sargento-mor hospedava em sua casa um tenente muito rico e depravado, que ele sabia que desejava muito a sua amiga. E de súbito, no sonho, ouvira distintamente os gritos intermitentes e regulares que sua amante costumava soltar nos momentos de volúpia. Quisera obrigar o sargento-mor a levá-lo àquele quarto. E este o detinha para impedi-lo de entrar ali, ao passo que fingia um ar ofendido com tanta indiscrição que Robert dizia que nunca poderia esquecer.

            - Meu sonho é idiota acrescentou, ainda sufocado.

            Mas vi perfeitamente que, na hora seguinte, esteve várias vezes a ponto de telefonar à amante para lhe pedir a reconciliação. Meu pai tinha telefone há pouco, mas não sei se isso teria servido muito a Saint-Loup. Aliás, não me parecia muito conveniente dar a meus pais, mesmo a um simples aparelho instalado em casa deles, esse papel de intermediário entre Saint-Loup e sua amante, por mais distinta e nobre de sentimentos que ela fosse. O pesadelo que Saint-Loup tivera se apagou um pouco de seu espírito. Com olhar distraído, fixo, ele veio me visitar durante todos aqueles dias atrozes que delinearam para mim, seguindo-se um após outro, a curva magnífica de alguma rampa duramente forjada, onde Robert ficava, perguntando-se que resolução a sua amiga iria tomar.

            Por fim, ela lhe perguntou se ele consentia em perdoá-la. E, logo que ele compreendeu que o rompimento fora evitado, percebeu todos os inconvenientes de uma reaproximação. Aliás, já sofria menos e quase aceitara uma dor da qual seria preciso, talvez dentro de poucos meses, encontrar de novo a dentada caso a ligação recomeçasse. E talvez só tenha hesitado por enfim estar certo de poder reaver a amante; de poder e, conseqüentemente, fazê-lo. Unicamente ela, para poder recuperar a calma, pediu-lhe que não voltasse a Paris a 14 de janeiro. Ora, ele não tinha ânimo de ir a Paris sem vê-Ia. Por outro lado, ela consentira em viajar em sua companhia, mas para isso era necessário uma licença especial, que o capitão de Borodino não queria conceder.

            - Isto me aborrece por causa da nossa visita à casa de minha tia, que terá de ser adiada. Sem dúvida voltarei a Paris pela Páscoa.

            - Não poderemos ir à casa da Sra. de Guermantes nessa ocasião, pois então já estarei em Balbec. Mas isso não tem importância.

            - Em Balbec? Mas você não iria só no mês de agosto?

            - Sim, mas este ano, devido à minha saúde, devem me mandar mais cedo.

            Todo o seu temor era de que eu julgasse mal a sua amante, depois do que me contara.

            - Ela é violenta só porque tem muita franqueza, é demasiado íntegra nos seus sentimentos. Mas é uma criatura sublime. Tu não podes imaginar as delicadezas poéticas que possui. Vai passar, todos os anos, o Dia de Finados em Bruges. É "bem", não é verdade? Se algum dia a conheceres, verás, ela tem uma grandeza...

            E, como estivesse imbuído de uma certa linguagem que se falava em torno daquela mulher, nos meios literários:

            - Ela tem algo de sideral e até de fatídico, compreendes o que quero dizer, o poeta que era quase um sacerdote.

            Durante todo o jantar, procurei um pretexto que permitisse a Saint-Loup pedir à tia que me recebesse sem esperar que ele voltasse a Paris. Ora, tal pretexto me foi fornecido pelo desejo que eu tinha de rever os quadros de Elstir, o grande pintor que Saint-Loup e eu tínhamos conhecido em Balbec. Pretexto em que havia, aliás, alguma verdade, pois se, em minhas visitas a Elstir, pedira eu à sua pintura que me conduzisse à compreensão e ao amor das coisas melhores que ela própria, a um degelo verdadeiro, a uma autêntica praça de província, a mulheres de carne e osso na praia (quando muito, lhe encomendara o retrato das realidades que não soubera aprofundar, como um caminho orlado de espinheiros-alvos, não para que me conservasse a sua beleza, mas para que a desvelasse para mim), agora, pelo contrário, a originalidade e a sedução de tais pinturas é que excitavam o meu desejo, e o que eu queria ver acima de tudo eram outros quadros de Elstir.

            Parecia-me, aliás, que seus menores quadros eram algo inteiramente diverso das obras-primas de outros pintores, mesmo os maiores que ele. Sua obra era como um reino fechado, de fronteiras indevassáveis, de matéria sem par. Colecionando avidamente as raras revistas onde tinham sido publicados estudos sobre ele, fiquei sabendo que só recentemente é que ele começara a pintar paisagens e naturezas-mortas, mas que havia principiado por quadros mitológicos (vira eu as fotos de dois deles no seu ateliê), e que depois ficara por muito tempo impressionado pela arte japonesa.

            Algumas obras mais características de suas diferentes maneiras se achavam na província. Certa casa dos Andelys, onde se encontrava uma de suas mais belas paisagens, parecia-me tão preciosa, dava-me um desejo tão vivo de viajar como uma aldeia de Chartres, em cuja pedra de mó está engastado um glorioso vitral; e eu me sentia atraído para esse homem que, no interior de sua casa grosseira, na rua principal, encerrado como um astrólogo, interrogava um desses espelhos do mundo que é um quadro de Elstir e que talvez tivesse comprado por milhares de francos com essa simpatia que une até os corações, até as índoles dos que pensam da mesma forma que nós acerca de um assunto essencial. Ora, três obras importantes do meu pintor preferido estavam relacionadas numa daquelas revistas como pertencentes à Sra. de Guermantes. Afinal, foi com sinceridade que, na tarde em que Saint-Loup me anunciara a viagem de sua amiga a Bruges, pude, no decorrer do jantar, diante de seus amigos, atirar-lhe como que de improviso:

            - Escuta, me permites? Na última conversa a respeito da dama de que falamos, não te lembras de Elstir, o pintor que conheci em Balbec?

            - Sim, naturalmente.

            - Lembras-te da minha admiração por ele?

            - Perfeitamente, e da carta que lhe mandamos entregar.

            - Muito bem. Um dos motivos, e não dos mais importantes, um motivo acessório pelo qual eu desejaria conhecer a dita senhora, sabes muito bem qual é?

            - Claro que sim! Tantos parênteses!

            - É que ela possui em casa pelo menos um quadro muito bonito de Elstir.

            - Ora, eu não sabia.

            - Elstir estará em Balbec, sem dúvida, pela Páscoa. Sabe que ele passa agora quase o ano inteiro naquela costa. Gostaria muito de ter visto esse quadro antes de minha partida. Não sei se você tem bastante intimidade com sua tia; não poderia, valorizando-me habilmente a seus olhos a ponto que ela não se recuse, pedir-lhe que me deixe ir ver o quadro sem estar na sua companhia, já que você não estará presente?

            - Está combinado, respondo por ela; vou tratar disso.

            - Robert, como gosto de você.

            - Você é amável em gostar de mim, mas também o seria se me tratasse por tu como me prometeu e como começara a fazê-lo.

            - Espero que não seja a sua partida o que estão tramando. - disse-me um dos amigos de Robert. - Você sabe, se Saint-Loup sai de licença, isso não deve mudar coisa alguma, pois estamos aí. Será talvez menos agradável para você, mas não mediremos esforços para tentar fazê-lo esquecer a ausência dele.

            Com efeito, no momento em que se supunha que a amiga de Robert estava sozinha em Bruges, acabava-se de saber que o capitão de Borodino, até então de opinião contrária, vinha de conceder ao suboficial Saint-Loup uma longa licença para Bruges. Eis o que se passara. O príncipe, muito cioso de sua basta cabeleira, era um assíduo freguês do maior cabeleireiro da cidade, outrora ajudante do velho cabeleireiro de Napoleão III. O capitão de Borodino dava-se bem com o cabeleireiro, pois era, apesar de seus modos imponentes, muito simples com as pessoas do povo. Mas o cabeleireiro, em cujo estabelecimento o príncipe tinha uma conta atrasada de pelo menos cinco meses, e que os frascos de "Portugal", de "Água dos Soberanos", os ferros de frisar, as navalhas e os couros inchavam, não menos que os xampus, os cortes de cabelo, etc., colocava mais alto Saint-Loup, que pagava integralmente as contas, possuía vários carros e cavalos de sela. Posto ao corrente do aborrecimento de Saint-Loup por não poder viajar com a amante, o cabeleireiro vivamente falou do assunto ao príncipe, atado com uma sobrepeliz branca no momento em que o barbeiro lhe mantinha a cabeça inclinada e ameaçava a sua garganta. A narração dessas aventuras galantes de um rapaz arrancou ao capitão-príncipe um sorriso de indulgência bonapartista. É pouco provável que pensasse em sua conta não paga, mas a recomendação do cabeleireiro o inclinava tanto ao bom humor como ao mau humor de um duque. Ainda estava com o queixo coberto de espuma quando prometeu a licença, que foi assinada na mesma tarde. Quanto ao cabeleireiro, que se acostumara a gabar-se incessantemente, e que, para isso, se arrogava, com extraordinária faculdade de mentiras, prestígios totalmente inventados, por uma vez que prestou um serviço notável a Saint-Loup, não só não lhe trombeteou o mérito, mas, como se a vaidade tivesse necessidade de mentir, e, quando não havia motivos para fazê-lo, cedesse o lugar à modéstia, jamais voltou a falar do caso a Robert.

            Todos os amigos de Robert me disseram que, enquanto ficasse em Doncieres, ou em qualquer época em que para ali regressasse, se Robert estivesse ausente, os seus carros, seus cavalos, suas casas, suas horas de liberdade estariam à minha disposição, e eu sentia que era de coração que aqueles rapazes punham o seu luxo, sua juventude e o seu vigor a serviço da minha fraqueza.

            - Por que afinal recomeçaram eles, após terem insistido para que eu ficasse não haveria você de voltar todos os anos? Veja que esta vida lhe agrada muito! E mesmo porque você se interessa por tudo que se passa no regimento, como se fosse um veterano.

            Não tivesse ouvido; e, conversando com ele (sem cessar de cruzar e descruzar as pernas, inclinando-se para trás, numa atitude displicente, com o pé na mão), chamava-o de "meu caro". Ao contrário, porém, de uma nobreza cujos títulos ainda guardavam sua significação, providos, como continuavam, de ricos morgadios que recompensavam gloriosos serviços e faziam mais viva a lembrança de altas funções em que se exerce o comando sobre muitos homens e onde é necessário conhecê-los, o príncipe de Borodino se não distintamente e em sua consciência clara e pessoal, pelo menos no corpo, que o revelava por seus modos e atitudes considerava a sua linhagem como uma prerrogativa de fato; a esses mesmos plebeus a quem Saint-Loup bateria no ombro e tomaria pelo braço, ele se dirigia com uma afabilidade imponente, em que uma reserva cheia de grandeza temperava a bonomia sorridente que lhe era natural, num tom ao mesmo tempo de sincera benevolência e de altivez intencional. Isto, sem dúvida, se devia a que ele estava menos afastado das grandes embaixadas e da corte, onde seu pai desfrutara dos mais altos cargos e onde as maneiras de Saint-Loup, de cotovelo na mesa e pé na mão, teriam sido mal recebidas; mas se devia, sobretudo, a que desprezava menos essa burguesia, visto que ela era o grande reservatório onde o primeiro imperador fora buscar seus marechais, seus nobres, e onde o segundo encontrara um Fould e um Rouher.

            Sem dúvida, filho ou neto de imperador, e só tendo um esquadrão para comandar, as preocupações de seu pai ou de seu avô não podiam, por falta de objeto a que se aplicar, sobreviver de fato no pensamento do Sr. De Borodino. Mas, como o espírito de um artista continua a modelar muitos anos depois de se haver extinto a estátua que esculpiu, tais preocupações tinham tomado corpo nele, nele se haviam materializado, encarnado; eram elas que o seu rosto refletia. Era com a vivacidade do primeiro imperador na voz que ele dirigia uma censura a um cabo, com a melancolia sonhadora do segundo que exalava a baforada de um cigarro. Quando passava em trajes civis pelas ruas de Doncieres, um certo brilho do olhar, fugindo por sob o chapéu-coco, fazia reluzir em torno ao capitão um soberano incógnito; as pessoas tremiam quando ele entrava no escritório do sargento-mor, seguido pelo ajudante e pelo furriel, como por Berthier e por Masséna. Quando escolhia a fazenda de uma calça para o seu esquadrão, fixava no cabo alfaiate um olhar capaz de frustrar Talleyrand e de enganar Alexandre. E às vezes, ao passar uma tropa em revista, parava, deixando que seus admiráveis olhos azuis sonhassem, torcia o bigode, dava a impressão de edificar uma Prússia e uma Itália novas. Mas logo, tornando-se de Napoleão III à Napoleão I, observava que o enfardamento não estava polido e queria provar o rancho da tropa. E em sua casa, na vida privada, era para as esposas de oficiais burgueses (desde que não fossem franco-maçons) que mandava exibir não apenas uma baixela de Sevres, de azul régio, digna de um embaixador (dada a seu pai por Napoleão, e que parecia ainda mais preciosa na casa provinciana onde residia, no Passeio Público, como essas porcelanas raras que os turistas admiram com mais prazer no armário rústico de uma velha casa senhorial transformada em fazenda bem freqüentada e próspera), mas ainda outros presentes do imperador: aquelas nobres e encantadoras maneiras que também teriam feito maravilhas em algum posto de representação, se para alguns o ser "nascido" não representasse passar a vida inteira no mais injusto dos ostracismos, assim como os gestos familiares, a bondade, a graça e, encerrando imagens gloriosas sob um azul igualmente régio, a relíquia misteriosa, iluminada e sobrevivente do olhar. E, a propósito das relações burguesas que o príncipe cultivava em Doncieres, convém dizer o seguinte: o tenente-coronel tocava piano admiravelmente, a esposa do médico-chefe cantava como se tivesse conquistado um primeiro prêmio no conservatório. Este último casal, assim como o tenente-coronel e sua mulher, jantava todas as semanas na casa do Sr. de Borodino. Certamente ficavam lisonjeados, sabendo que o príncipe, quando ia de licença a Paris,-jantava na casa da Sra. de Pourtales, dos Murat, etc.. Mas diziam consigo: "É um simples capitão, sente-se muito feliz por irmos à sua casa; afinal, é um grande amigo nosso." Mas, quando o Sr. de Borodino, que desde há muito vinha trabalhando para aproximar-se de Paris, foi nomeado para Beauvais, fez a sua mudança, esqueceu tão completamente os dois casais músicos como o teatro de Doncieres e o pequeno restaurante de onde mandava vir com freqüência o seu almoço e, para grande indignação deles, nem o tenente-coronel, nem o médico-chefe, que tantas vezes tinham jantado em casa do príncipe, nunca mais receberam, em toda a vida, qualquer notícia sua.

            Certa manhã, Saint-Loup me confessou que escrevera à minha avó para lhe dar notícias a meu respeito e lhe sugerir a idéia de conversar comigo, já que estava em funcionamento um serviço telefônico entre Doncieres e Paris. Em breve, no mesmo dia, ela devia me mandar chamar ao aparelho, e ele me aconselhou que estivesse às quinze para as quatro no posto. Àquela época, o telefone ainda não era de uso tão corrente como hoje. E, no entanto, o hábito leva tão pouco tempo para despojar de seu mistério as forças sagradas com que estamos em contato que, não tendo conseguido imediatamente a minha ligação, a única idéia que tive foi de que aquilo era tão demorado, tão incômodo, que quase acabei fazendo uma queixa: como todos nós agora, eu não achava bastante rápida, à minha disposição, em suas bruscas mudanças, a admirável magia pela qual são suficientes uns poucos instantes para que surja junto a nós, invisível mas presente, a criatura a quem desejávamos falar e que, ficando à sua mesa, na cidade em que mora (no caso

de minha avó era Paris), sob um céu diverso do nosso, durante um tempo que não é forçosamente o mesmo, em meio a circunstâncias e preocupações que ignoramos e que essa criatura vai nos dizer, se acha de súbito transportada a centenas de léguas (ela e todo o ambiente em que permanece mergulhada), perto de nossos ouvidos, no momento em que o nosso capricho assim ordenou. E somos como o personagem do conto a quem uma fada, ante o desejo que ele exprime, faz surgir, banhada em claridade sobrenatural, a avó ou a noiva no ato de folhear um livro, de derramar lágrimas, de colher flores, tão perto do espectador e entretanto tão longe, no próprio local onde se encontra de verdade. Para que tal milagre se cumpra, basta-nos aproximar os lábios da prancheta mágica e chamar - às vezes, admito-o, um pouco longamente as Virgens Vigilantes, cuja voz podemos ouvir todos os dias sem jamais conhecer-lhes o rosto, e que são anjos da guarda nas trevas vertiginosas cujas portas vigiam com ciúme; as Todo-poderosas devido a quem os ausentes surgem ao nosso lado, sem que seja permitido vislumbrá-los; as Danaides do invisível que sem cessar esvaziam, voltam a encher e transmitem as umas de sons; as irônicas Fúrias que, no momento em que murmuramos uma confidência a uma amiga, com a esperança de que ninguém nos ouça, gritam cruelmente: "Estou ouvindo!"; as servas sempre irritadas do Mistério, as desconfiadas sacerdotisas do Invisível, as Senhoritas do telefone!

            E logo que nosso chamado ressoou, na noite cheia de aparições para a qual só os nossos ouvidos se abrem, um leve ruído um ruído abstrato o da distância suprimida e a voz do ser amado se dirige a nós. É ele, é a sua voz que nos fala, que está ali.

            Mas como está longe! Quantas vezes não pude escutá-la sem angústia, como se diante dessa impossibilidade de ver, antes de longas horas de viagem, aquela cuja voz estava tão perto de meu ouvido, eu sentisse melhor o que há de decepcionante na aparência de uma reaproximação mais doce, e a que distância podemos estar das pessoas amadas no momento em que parece não termos mais que estender a mão para retê-las. Presença real a dessa voz tão próxima na separação efetiva! Mas também antecipação de uma separação eterna! Com muita freqüência, escutando desse modo, sem ver quem me falava de tão longe, pareceu-me que essa voz clamava das profundezas de onde não se sobe, e conheci a ansiedade que ia me estreitar um dia, quando uma voz voltasse assim (sozinha e já não presa a um corpo que eu não devia rever nunca mais) a cochichar no meu ouvido palavras que eu gostaria de beijar de passagem sobre lábios para sempre em pó.

            Infelizmente, naquele dia em Doncieres o milagre não ocorreu. Quando cheguei ao posto telefônico, minha avó já me havia chamado; entrei na cabine, a linha estava ocupada; alguém conversava, sem dúvida sem saber que não havia ninguém para lhe responder, pois, quando puxei para mim o receptor, aquele pedaço de madeira se pôs a falar como Polichinelo; fi-lo calar-se, assim como no guignol, repondo-o em seu lugar, mas, como Polichinelo, logo que o trazia para junto de mim, ele começava o seu palavrório. Em desespero de causa, acabei por pendurar em definitivo o receptor, acabei por sufocar as convulsões daquela coisa sonora, que tagarelou até o último segundo, e fui procurar o funcionário que me disse para esperar um momento; depois falei e, após alguns instantes de silêncio, ouvi de súbito aquela voz que eu julgava erroneamente conhecer tão bem, pois até então, de cada vez que minha avó conversava comigo, o que ela me dizia eu sempre o acompanhara na partitura aberta de seu rosto, onde os olhos ocupavam enorme espaço; mas sua própria voz, escutava-a hoje pela primeira vez. E porque essa voz me surgia mudada em suas proporções desde o instante em que era um todo, e assim me chegava sozinha e sem o acompanhamento das feições do rosto, descobri o quanto era doce aquela voz; talvez mesmo nunca o tivesse sido a esse ponto, pois minha avó, sentindo-me distante e infeliz, julgava poder abandonar-se à efusão de uma ternura que, por "princípios" de educação, ela habitualmente recalcava e escondia. A voz era doce, mas também como era triste, primeiro devido à própria doçura, quase filtrada, mais do que nunca o seriam algumas vozes humanas, de toda dureza, de todo elemento de resistência aos outros, de todo egoísmo; frágil à força de delicadeza, parecia a todo instante prestes a quebrar-se, a expirar em um puro correr de lágrimas; a seguir, tendo-a sozinha comigo, vista sem a máscara do rosto, nela reparava, pela primeira vez, os desgostos que a tinham marcado no decurso da vida.

            Além disso, seria unicamente a voz que, por estar só, me dava essa nova impressão que me dilacerava? De jeito nenhum, mas esse isolamento da voz era antes como um símbolo, uma evocação, um efeito direto de outro isolamento, o de minha avó, pela primeira vez separada de mim. As ordens e proibições que me dirigia a todo momento no comum de sua vida, o tédio à obediência ou a febre da rebelião que neutralizavam a ternura que eu sentia por ela, eram suprimidos naquele momento e até poderiam sê-lo para o futuro (visto que minha avó já não exigia ter-me junto dela sob sua lei, e dizia de sua esperança que eu ficasse em Doncieres, ou, em todo caso, que prolongasse a minha estada o máximo possível, se isso fosse proveitoso à minha saúde e ao meu trabalho); assim, o que eu tinha sob o pequeno sino próximo ao meu ouvido era, desembaraçada das pressões opostas que todos os dias lhes fizeram contrapeso, e desde agora irresistível, animando-me todo inteiro, a nossa mútua ternura. Minha avó, dizendo-me que ficasse, dava-me uma ansiosa e louca necessidade de voltar. Essa liberdade que me deixava daí em diante, e à qual eu jamais imaginara que ela consentisse, pareceu-me de repente tão triste

como o poderia ser minha liberdade após a sua morte (quando ainda a amasse e ela tivesse para sempre renunciado a mim). Eu gritava: "Vovó, vovó", e desejaria beijá-la; mas, perto de mim só tinha aquela voz, fantasma tão impalpável como o que talvez viesse me visitar quando minha avó morresse. "Fale comigo"; mas aconteceu então que, deixando-me mais só ainda, deixei subitamente de perceber aquela voz. Minha avó já não me ouvia, não estava mais em comunicação comigo, tínhamos deixado de estar em face um do outro, de ser audíveis um para o outro, eu continuava a interpelá-la, tateando na noite, sentindo que os apelos dela também deveriam ter se extraviado. Palpitava com a mesma angústia que, num passado remoto, experimentara antigamente num dia em que, bem pequeno, eu a havia perdido na multidão, angústia menos por não encontrá-la do que por sentir que ela me procurava, por sentir que ela dizia consigo que eu a estava procurando; angústia muito parecida com a que eu sentiria no dia em que falamos àqueles que já não podem nos responder e a quem desejaríamos pelo menos fazer ouvir tudo aquilo que não lhes dissemos, e com a segurança de que já não sofremos. Parecia-me que já era uma sombra querida que eu acabava de deixar perder-se por entre as sombras e, sozinho diante do aparelho, continuava a repetir em vão: "Vovó, vovó", como Orfeu, sozinho, repete o nome da morta. Decidi deixar o posto, ir ao encontro de Robert no restaurante para lhe dizer que, indo talvez receber uma correspondência que me obrigaria a regressar, gostaria de saber, fosse como fosse, o horário dos trens. E, no entanto, antes de tomar essa resolução, teria desejado invocar uma última vez as Filhas da Noite, as Mensageiras da palavra, as divindades sem rosto; mas as caprichosas Guardiãs não mais tinham querido abrir as Portas maravilhosas, ou sem dúvida não o puderam; por mais que invocassem, segundo seu costume, o venerável inventor da imprensa e o jovem príncipe amador de pintura impressionista e de automobilismo (o qual era sobrinho do capitão de Borodino), Gutenberg e Wagram deixaram suas súplicas sem resposta, e eu fui embora, sentindo que o Invisível solicitado permaneceria surdo.

            Chegando junto de Robert e seus amigos, não lhes confessei que meu coração não estava mais com eles, que minha partida já estava irrevogavelmente decidida. Saint-Loup pareceu acreditar em mim, mas soube depois que ele, desde o primeiro momento, compreendera que minha incerteza era simulada e que no dia seguinte já não me encontraria. Ao passo que, deixando os pratos esfriando à frente deles, seus amigos procuravam com ele, no guia, o trem que eu poderia tomar de volta a Paris, e, enquanto se ouviam na noite estrelada e fria os silvos das locomotivas, eu certamente já não sentia a mesma tranqüilidade que me haviam proporcionado aqui, em tantas noites, a amizade de uns e a passagem distante de outros. Entretanto, não faltavam naquela noite, sob uma outra forma, a esse mesmo ofício. Minha partida me acabrunhou menos quando não fui mais obrigado a pensar nela sozinho, quando senti empregar-se nisso a atividade mais normal e mais saudável de meus enérgicos amigos, os companheiros de Robert, e daqueles outros seres fortes, os trens, cujas idas e vindas, de manhã à noite, de Doncieres a Paris, esmigalhavam, retrospectivamente, em possibilidades cotidianas de regresso, o que havia de mais compacto e insustentável no meu longo isolamento de minha avó.

            - Não duvido da veracidade de tuas palavras e que não contas partir ainda. - disse Robert rindo -, mas procede como se partisses e vem me dizer adeus amanhã cedinho, pois sem isso estou me arriscando a não te ver mais; almoço justamente na cidade, o capitão me autorizou; é necessário que eu esteja de volta ao quartel às duas horas, pois vamos marchar o dia inteiro. Por certo o senhor com quem vou almoçar a três quilômetros daqui vai me trazer de volta a tempo para estar às duas no quartel.

            Mal dissera estas palavras, quando vieram me procurar, da parte do hotel, dizendo que me chamavam no posto telefônico. Corri, pois ele ia fechar. A palavra "interurbano" voltava sem cessar nas respostas que me davam os empregados. Sentia-me no auge da ansiedade, pois era minha avó quem chamava. O escritório ia fechar. Por fim, consegui a ligação.

            - És tu, vovó? -

            Uma voz de mulher, com um forte sotaque inglês, me respondeu:

            - Sim, mas não reconheço a sua voz.

            Tampouco reconhecia eu a voz que me falava, já que minha avó não me tratava de "você". Enfim, tudo se esclareceu. O rapaz cuja avó pedira para chamá-lo ao telefone tinha um nome quase igual ao meu e morava num anexo do hotel. Ao me chamarem no mesmo dia em que eu quisera telefonar à minha avó, eu não duvidara um só instante que fosse ela quem me chamava. Ora, era por uma simples coincidência que o posto telefônico e o hotel acabavam de cometer um duplo erro.

            Na manhã seguinte, atrasei-me e não encontrei Saint-Loup, que já saíra para almoçar no tal castelo próximo. Cerca de uma e meia, preparava-me para ir, fosse como fosse, ao quartel para já estar ali à sua chegada, quando, atravessando uma das avenidas que me levavam ao mesmo, vi, na própria direção em que eu ia, um tílburi que, passando junto a mim, me obrigou a desviar-me; um suboficial o conduzia, de monóculo no olho era Saint-Loup. A seu lado estava o amigo em cuja casa almoçara e que eu já encontrara uma vez no hotel em que Robert jantava. Não tive coragem de chamá-lo, visto que não estava sozinho, mas, desejando que parasse para me levar consigo, atraí sua atenção com um grande cumprimento supostamente motivado pela presença de um desconhecido. Sabia que Robert era míope e no entanto julgava que, se pelo menos me visse, não deixaria de me reconhecer; ora, ele viu perfeitamente o cumprimento e lhe correspondeu, mas sem deter-se; e, afastando-se rapidamente, sem um sorriso, sem que um só músculo do rosto se movesse, contentou-se em manter a mão erguida à altura do quepe, como se respondesse a um soldado a que não houvesse reconhecido. Corri até o quartel, mas ainda estava longe; quando cheguei, o regimento se perfilava no pátio, onde não me deixaram ficar, e senti-me desolado por não ter podido dizer adeus a Saint-Loup; subi para o seu quarto, e ele já não se achava ali; pude indagar a seu respeito a um grupo de soldados doentes, recrutas dispensados da marcha, o jovem bacharel e um veterano que observavam o regimento em forma.

            - Vocês não viram o sargento-mor Saint-Loup? - perguntei.

            - Ele já desceu, senhor. - disse o veterano.

            - Não o vi. - disse o bacharel.

            - Não viste disse o veterano-, sem mais se ocupar de mim -, não viste o nosso famoso Saint-Loup, que arrasa com suas calças novas? Quando o capitão vir aquilo, com fazenda de oficial!

            - Fazenda de oficial... tens cada uma! - disse o jovem bacharel que, enfermo no quarto, não fazia marchas e tentava, não sem uma certa inquietação, ser atrevido com os veteranos. - Aquilo é fazenda de oficial tanto quanto esta aqui.

            - Senhor?! - exclamou furioso o veterano que falara das calças. Estava indignado porque o jovem bacharel punha em dúvida que aquelas calças fossem de fazenda de oficial; mas, bretão, nascido numa aldeia que se chama Penguern-Stereden, tendo aprendido o francês com tanta dificuldade como se fosse inglês ou alemão, quando era possuído por uma emoção, dizia duas ou três vezes "Senhor" para ter tempo de encontrar as palavras; depois desses preparativos, entregava-se à eloqüência, contentando-se em repetir algumas palavras que conhecia melhor, mas sem pressa, tomando cuidado contra a falta de hábito da pronúncia.

            - Ah, então é um pano como esse? - retomou ele, com uma colera de que progressivamente iam aumentando a intensidade e a lentidão de seu enunciado.

            - Ah, é um pano como esse! Quando digo que é uma fazenda de oficial, quando te digo, e já que te digo, é que sei, eu penso. A gente não precisa gastar palavras com isso.

            - Ah, sendo assim... - disse o jovem bacharel, vencido por essa argumentação. - Veja, aí está justamente o capitão passando. Não, mas olha só o Saint-Loup. Isso é modo de atirar a perna? E, depois, a cabeça. Nem parece um suboficial. E o monóculo então? Ah, ele é um dos tais.

            Pedi àqueles soldados, que minha presença não perturbava, que me deixassem olhar também pela janela. Não me impediram de fazê-lo, e tampouco se mexeram. Vi o capitão de Borodino passar majestosamente, fazendo trotar o seu cavalo e parecendo ter a ilusão de que se achava na batalha de Austerlitz. Alguns curiosos estavam reunidos diante das grades do quartel para ver o regimento sair. Ereto no seu cavalo, o rosto um tanto cheio, as faces de uma plenitude imperial, o olhar lúcido, o príncipe devia ser o joguete de alguma alucinação, como eu próprio o era de cada vez que, após a passagem do bonde, o silêncio que se seguia ao seu rolar me parecia percorrido e estriado por uma vaga palpitação musical. Sentia-me desolado por não ter me despedido de Saint-Loup, mas parti do mesmo jeito, pois minha única preocupação era voltar para junto de minha avó; até esse dia, naquela cidadezinha, quando pensava no que minha avó estaria fazendo, solitária, imaginava-a como ela era comigo, mas suprimindo-me, sem levar em conta os efeitos dessa supressão sobre ela; agora, precisava livrar-me, o mais depressa possível, em seus braços, do fantasma, até então insuspeitado e de súbito evocado por sua voz, de uma avó realmente separada de mim, resignada, tendo, o que ainda não lhe conhecera, uma idade, e que acabava de receber uma carta minha no apartamento vazio onde eu já imaginara mamãe quando partira para Balbec.

            Infelizmente, esse fantasma, foi ele mesmo que avistei quando, ao entrar no salão sem que minha avó estivesse avisada do meu regresso, a encontrei lendo. Eu estava ali, ou melhor, ainda não estava, pois ela não o sabia e, como uma mulher que a gente surpreende no ato de fazer um trabalho que esconderá ao entrarmos, estava entregue a pensamentos que jamais havia mostrado diante de mim. De mim por esse privilégio que não dura e em que temos, durante o breve instante do regresso, a faculdade de assistir bruscamente à nossa própria ausência não havia ali senão o testemunho, o observador, de chapéu e capa de viagem, o estranho que vem tirar uma foto dos lugares que nunca mais há de ver. O que se fez em meus olhos, mecanicamente, quando avistei minha avó, foi mesmo uma fotografia. Jamais vemos os seres queridos a não ser no sistema animado, no movimento permanente de nossa incessante ternura, a qual, antes de deixar chegarem até nós as imagens que nos apresentam o seu rosto, arrebata-as em seu turbilhão, atira-as sobre a idéia que fazemos deles desde sempre, fá-las aderir a ela, coincidir com ela. Como, visto que eu fazia a fronte e as faces de minha avó significarem o que havia de mais delicado e permanente em seu espírito, como, visto que todo olhar habitual é uma necromancia e cada rosto que amamos é o espelho do passado, como não teria eu omitido o que nela pudera ter-se tornado pesado e diferente, considerando que, mesmo nos espetáculos mais indiferentes da vida, o nosso olhar, carregado de pensamentos, negligencia, como o faria uma tragédia clássica, todas as imagens que não concorrem para a ação, retendo apenas as que podem tornar inteligível o desfecho? Mas que, em vez do nosso olhar, seja uma objetiva puramente material, uma placa fotográfica, que haja contemplado, e então o que havemos de ver, por exemplo no pátio do Instituto, em vez da saída de um acadêmico que quer chamar um fiacre, será a sua vacilação, suas precauções para não cair para trás, a parábola de sua queda, como se estivesse embriagado, ou como se o solo estivesse coberto de gelo. Dá-se o mesmo quando uma cruel cilada do acaso impede a nossa inteligente e piedosa ternura de acorrer a tempo para ocultar a nossos olhos o que eles jamais devem contemplar, quando aquela é ultrapassada por estes que, chegando primeiro e entregues a si mesmos, funcionam mecanicamente à maneira de películas, mostrando-nos, em vez do ser amado que há muito já não existe, mas cuja morte a nossa ternura jamais quisera nos fosse revelada, o ser novo que cem vezes ao dia ela revestia de uma querida aparência falsa. E, como um enfermo que, não vendo há muito tempo a si mesmo e compondo a todo instante o rosto que não enxerga segundo a imagem ideal que de si próprio conserva no pensamento, recua ao perceber no espelho, no meio de um rosto árido e deserto, a protuberância oblíqua e rósea de um nariz gigantesco feito uma pirâmide do Egito, eu, para quem a minha avó era ainda eu próprio, eu que nunca a vira senão em minha alma, sempre no mesmo lugar do passado, através da transparência de lembranças contíguas e superpostas, de repente, em nosso salão que fazia parte de um mundo novo, o do Tempo, aquele em que vivem os estranhos de quem se diz "está bem envelhecido", eis que pela primeira vez e apenas por um instante, pois desapareceu logo, avistei no canapé, à luz da lâmpada, rubra, pesada e vulgar, enferma, devaneando, passeando por um livro os olhos um tanto alucinados, uma velha acabada que eu não conhecia.

            Ao meu pedido para ir ver os Elstirs da Sra. de Guermantes, Saint-Loup dissera:

            - Respondo por ela.

            E, com efeito, só ele é que havia respondido por ela. Respondemos facilmente aos outros quando, dispondo no pensamento as pequenas imagens que os figuram, manejamo-las à vontade. É claro que, mesmo nesse momento, levamos em conta as dificuldades provenientes da natureza de cada um, diversas da nossa, e não deixamos de recorrer a esse ou àquele poderoso meio de ação sobre ela, interesse, persuasão, emoção, que há de neutralizar tendências contrárias. Porém, essas diferenças quanto à nossa natureza, é ainda a nossa natureza que as imagina; essas dificuldades, somos nós que as erguemos; esses meios de ação eficazes, somos nós que os dosamos. E os movimentos que em nosso espírito fizemos outra pessoa repetir, e que a fazem agir à nossa vontade, quando queremos que ela os execute na vida, tudo então muda, e damos de encontro a resistências imprevistas que podem ser invencíveis. Uma das mais fortes é sem dúvida a que pode desenvolver, numa mulher que não ama, o nojo que lhe inspira, fétido e insuperável, o homem que a ama: durante as longas semanas em Paris, sua tia, a quem não duvidei que ele tivesse escrito para rogar-lhe que o fizesse, não me convidou uma única vez para que fosse à sua casa ver os quadros de Elstir.

            Recebi sinais de frieza da parte de outra pessoa da casa. Foi de Jupien. Acharia ele que eu deveria entrar para lhe dar bom-dia, na minha volta de Doncieres, antes até de subir para o meu quarto? Minha mãe disse que não, não precisava ficar espantado. Françoise lhe dissera que ele era assim, sujeito a bruscos acessos de mau humor, sem motivo. Isso passava sempre em pouco tempo.

            Entretanto, o inverno findava. Certa manhã, depois de algumas semanas de aguaceiros e tempestades, ouvi na minha lareira em lugar do vento informe, elástico e sombrio que me sacudia de vontade de ir à beira mar o arrulho dos pombos que nidificavam na muralha: irisado, imprevisto como um primeiro jacinto rompendo suavemente seu coração nutritivo para que dele brotasse, malva e acetinada, sua flor sonora, fazendo entrar, como uma janela aberta, no meu quarto ainda fechado e escuro, a quentura, o deslumbramento, a fadiga de um primeiro dia bonito. Naquela manhã, surpreendi-me a cantarolar uma música de café-concerto que havia esquecido desde o ano em que deveria ter ido a Florença ou a Veneza. Tão profundamente, ao acaso dos dias, age a atmosfera sobre nosso organismo, extraindo as obscuras reservas em que tínhamos esquecido as melodias inscritas que nossa memória não decifrou. Um sonhador mais consciente em breve acompanhou o músico que eu ouvia dentro de mim, sem mesmo ter reconhecido de imediato o que ele estava tocando.

            Sabia muito bem que não eram próprios de Balbec os motivos pelos quais, quando ali chegara, não havia encontrado em sua igreja o encanto que ela me apresentava antes que a conhecesse; que em Florença, em Parma ou em Veneza, minha imaginação já não poderia substituir-se a meus olhos para contemplar. Sentia-o. Do mesmo modo, numa tarde de primeiro de janeiro, ao cair da noite, diante de uma coluna de anúncios, eu descobrira a ilusão que existe em crer que certos dias de festa diferem essencialmente dos outros. E, no entanto, não podia evitar que a lembrança do tempo durante o qual julgara passar em Florença a Semana Santa continuasse a fazer desta como que a atmosfera da Cidade das Flores, a dar ao dia da Páscoa, ao mesmo tempo, algo de florentino, e a Florença algo de pascal. A semana da Páscoa ainda estava longe; mas, na fileira dos dias que se estendiam à minha frente, os dias santos destacavam-se mais claros no fim dos dias médios. Tocados por um raio como certas casas de uma aldeia que se entrevê ao longe num efeito de sombra e luz, detinham em si todo o sol.

            O tempo melhorara. E até meus pais, aconselhando-me a passear, davam-me um pretexto para continuar minhas saídas matutinas. Gostaria de acabar com elas, pois aí encontrava a Sra. de Guermantes. Mas era por causa dela mesma que pensava o tempo todo nessas saídas, o que me fazia achar a cada instante um novo motivo para sair, motivo que não tinha qualquer relação com a Sra. de Guermantes e convencia-me facilmente que, se ela não existisse, nem por isso deixaria de passear a essa mesma hora.

            Aí, se para mim encontrar qualquer outra pessoa que não ela seria indiferente, sentia que, para ela, encontrar qualquer outro que não eu teria sido suportável. Sucedia-lhe, nos seus passeios matinais, receber cumprimentos de muitos patetas, e que ela considerava como tais. Mas julgava o aparecimento deles, se não uma promessa de satisfação, ao menos obra do acaso. E fazia-os parar às vezes, pois há momentos em que se tem necessidade de sair de si mesmo, aceitar a hospitalidade da alma alheia, sob a condição de que essa alma, por modesta e feia que seja, seja uma alma estranha, ao passo que no meu coração ela sentia, exasperada, que o que teria encontrado era ela própria. Assim, mesmo quando eu tinha, para seguir o mesmo caminho, um motivo diverso que o de vê-la, tremia como um culpado no momento em que ela passava; e às vezes, para neutralizar o que podiam ter de excessivo as minhas tentativas de aproximação, mal correspondia a seu cumprimento, ou olhava-a fixamente sem saudar, e nada conseguia a não ser irritá-la ainda mais e fazer com que começasse a me achar cada vez mais insolente e mal-educado.

            Usava ela agora vestidos mais leves, ou pelo menos mais claros, e descia a rua onde, como se já fosse primavera, diante das estreitas lojas intercaladas entre as amplas fachadas dos velhos palacetes aristocráticos, na varanda da vendedora de manteiga, de frutas, de legumes, os toldos já estavam pendurados para proteger do sol. Dizia comigo que a mulher que via ao longe a caminhar, abrir a sombrinha, atravessar a rua era, de acordo com a opinião dos conhecedores, a maior artista contemporânea na arte de realizar esses movimentos e transformá-los em algo delicioso. Entretanto, ela avançava; ignorando aquela reputação que se espalhara, seu corpo delgado, refratário, e que nada havia absorvido, se encurvava obliquamente sob uma estola de surah violeta. Seus olhos claros e entediados olhavam para frente distraídos e talvez me tivessem visto; ela mordia o canto da boca; via-a endireitar o regalo, dar esmola a um pobre, comprar um buquê de violetas a uma vendedora, com a mesma curiosidade que eu teria tido em contemplar um grande pintor a dar pinceladas. E, quando, tendo chegado onde eu estava, cumprimentava-me acrescentando às vezes um leve sorriso, era como se tivesse executado para mim, ajuntando-lhe uma dedicatória, uma aquarela que era uma obra-prima. Cada um de seus vestidos era-me como uma ambiência natural, necessária, como a projeção de um aspecto particular de sua alma. Numa dessas manhãs de quaresma em que ela ia almoçar na cidade, encontrei-a usando um vestido de veludo vermelho-claro, ligeiramente decotado. O rosto da Sra. de Guermantes parecia pensativo debaixo dos cabelos louros. Eu estava menos triste que de costume porque a melancolia de sua expressão, a espécie de claustro que a violência da cor punha entre ela e o resto do mundo conferiam-lhe algo de solitário e infeliz que me tranqüilizava. Aquele vestido me parecia a materialização, a seu redor, dos raios escarlates de um coração que eu não lhe conhecia e que talvez pudesse consolar; refugiada na luz mística do tecido de ondas suaves, ela me fazia pensar nalguma santa dos primeiros tempos cristãos. Então, sentia vergonha de magoar aquela mártir com a minha vista.

            "Mas enfim, a rua é de todo mundo."

            "A rua é de todo mundo", continuava eu, dando a estas palavras um sentido diverso e admirando que, de fato, na rua populosa, freqüentemente molhada de chuva, e que se tornava preciosa como o é às vezes a rua nas velhas cidades da Itália, a duquesa de Guermantes misturasse à vida pública momentos de sua vida secreta, mostrando-se assim a qualquer um, misteriosa, acotovelada por todos, com a esplêndida gratuidade das grandes obras-primas. Como eu saía de manhã depois de ficar acordado a noite inteira, à tarde meus pais diziam que me deitasse um pouco e procurasse dormir. Para saber como dormir, não é preciso muita reflexão, mas o hábito é muito útil para tanto e até mesmo a ausência de reflexão. Ora, nessas ocasiões ambos me faziam falta. Antes de adormecer pensava por muito tempo que o não conseguiria, que, mesmo dormindo, me restaria um pouco de pensamento. Não passava de um clarão na quase obscuridade, mas bastava para refletir, no meu sono, primeiro a idéia de que eu não poderia dormir, depois, reflexo desse reflexo, que era dormindo que eu tinha tido a idéia de que não dormia; depois, por uma nova refração, meu despertar... em um novo sono onde eu queria contar aos amigos que tinham entrado no meu quarto que, há pouco, dormindo, julgava que não dormia. Tais sombras mal se distinguiam: seria necessária uma grande e muito vã delicadeza de percepção para discerni-las. Assim, mais tarde, em Veneza, bem depois do pôr-do-sol, quando parece que é completamente noite, no entanto, vi, graças ao eco invisível de uma derradeira nota de luz indefinidamente sustentada nos canais como por efeito de algum pedal ótico, os reflexos dos palácios desenrolados como para sempre em veludo mais negro sobre o cinza crepuscular das águas. Um de meus sonhos era a síntese do que minha imaginação procurara representar muitas vezes, na vigília, de uma certa paisagem marinha e de seu passado medieval. Em meu sono, eu via uma cidade gótica no meio de um mar de ondas imobilizadas como num vitral. Um braço de mar dividia a cidade em duas; a água verde se estendia a meus pés; banhava, na margem oposta, uma igreja oriental e depois casas que ainda existiam no século XIV, de forma que ir na direção delas seria remontar o curso das idades. Este sonho, onde a natureza aprendera a arte, onde o mar tornara-se gótico, este sonho onde eu desejava, onde julgava abordar o impossível, parecia-me que já o tivera muitas vezes. Mas como é próprio daquilo que se imagina ao dormir, multiplicar-se no passado e parecer, embora sendo novo, familiar, achei que me enganara. Ao contrário, percebi que tivera de fato muitas vezes aquele sonho.

            Até as diminuições que caracterizam o sono se refletiam no meu, mas de forma simbólica: eu não podia distinguir, na obscuridade, os rostos dos amigos que ali estavam, pois a gente dorme de olhos fechados; eu, que fazia incessantemente raciocínios verbais ao sonhar, logo que desejava falar a esses amigos sentia o som deter-se em minha garganta, pois a gente não fala distintamente no sono; queria ir-lhes ao encontro e não podia mover as pernas, pois a gente também não caminha no sonho; e, de repente, envergonhava-me de aparecer diante deles, pois a gente dorme despido. Assim, de olhos cegos, lábios selados, pernas pregadas, corpo nu, a figura do sono que meu próprio sono projetava dava a impressão dessas grandes figuras alegóricas em que Giotto representou a Inveja com uma serpente na boca, e que Swann me oferecera.

            Saint-Loup veio a Paris somente por algumas horas. Conquanto me assegurasse que não tivera ocasião de falar à prima a meu respeito:

            - Ela não é nada amável, Oriane. - disse, traindo-se ingenuamente -; não é mais a minha Oriane de outrora, mudaram-na. Juro-te que já não vale a pena que te ocupes dela. Fazes-lhe muita honra. Não queres que te apresente à minha prima Poictiers? - acrescentou sem se dar conta de que aquilo não me traria nenhum prazer. - Eis uma moça inteligente e que vai te agradar. Casou-se com meu primo, o duque de Poictiers, que é um bom rapaz, mas um tanto simplório para ela. Falei-lhe de ti. Pediu-me que te levasse para visitá-la; é bem mais bonita que Oriane, e mais jovem. É bastante gentil, sabes? É o que há de distinto.

            Eram expressões há pouco e ardentemente adotadas por Saint-Loup e que significavam

que a prima possuía uma natureza delicada:

            - Não digo que seja dreyfusista, é necessário levar em conta o seu ambiente, mas enfim ela diz: "Se ele era inocente, que horror seria que fosse para a Ilha do Diabo!" Compreendes, não é? E depois, afinal, é uma pessoa que faz muito por suas antigas governantas; proibiu que as mandassem subir pela escada de serviço. Asseguro-te, é uma pessoa muito distinta. No fundo, Oriane não gosta dela porque sente que ela é mais inteligente.

            Embora absorvida pela piedade que lhe causava um lacaio dos Guermantes o qual não podia ir ver a noiva mesmo quando a duquesa estava fora, pois aquilo seria logo denunciado pelo porteiro -, Françoise ficou aflita por não se achar presente no momento da visita de Saint-Loup, mas é que agora também andava em visitas. Saía infalivelmente nos dias em que eu tinha necessidade dela. Era sempre para ir ver o irmão, a sobrinha, e sobretudo a própria filha, chegada de pouco a Paris. Já a natureza familiar dessas visitas de Françoise aumentava a minha irritação de ser privado de seus serviços, pois previa que ela haveria de falar de cada visita como de uma dessas coisas que e impossível dispensar, segundo as leis ensinadas em Saint-André-des-Champs. Assim, não ouvia nunca as suas desculpas sem um mau humor bastante injusto, que era levado ao auge pela maneira não como Françoise dizia: "Fui ver o meu irmão, fui ver minha sobrinha", mas sim: "Fui ver meu irmão, entrei correndo cumprimentar a sobrinha" (ou "minha sobrinha a açougueira"). Quanto à filha, Françoise gostaria que voltasse a Combray. Mas a nova parisiense, usando, como uma elegante, abreviaturas, porém vulgares, dizia que a semana que devesse passar em Combray lhe pareceria bem comprida sem ao menos ler o 'lntran.' Muito menos ainda queria ir à casa da irmã de Françoise nada têm de "Interessante", dando à palavra interessante um sentido novo e horrível. Não podia decidir-se a voltar para Méséglise onde "todos são tão idiotas", onde, no mercado, as comadres, as pétrousses, descobririam um parentesco com ela e diriam: "Vejam, não é a filha do defunto Bazireau.'' Preferia morrer a voltar a se fixar naquela terra, "agora que provara o gostinho da vida em Paris", e Françoise, tradicionalista, sorria entretanto com indulgência ao espírito de inovação que a nova "parisiense" encarnava quando dizia: "Muito bem, mãe, se não tiveres saída, é só mandar-me um ''pneu." O tempo voltara a esfriar. - Sair? Para quê? Para acabar morrendo. - dizia Françoise que preferia ficar em casa durante a semana em que a filha, a irmã e a açougueira tinham ido a Combray. Além disso, última sectária em quem sobreviveu obscuramente a doutrina da minha tia Léonie no tocante à física, Françoise acrescentava ao falar desse tempo fora de estação:

            - É o restante da cólera de Deus! -

            Mas eu só respondia às suas queixas com um sorriso cheio de langor, tanto mais indiferente a essas predições, visto que, de qualquer modo, o tempo seria bom para mim; já via brilhar o sol da manhã sobre a colina de Fiesole, aquecia-me a seus raios; sua intensidade me obrigava a abrir e fechar as pálpebras sorrindo e, como lamparinas de alabastro, elas se enchiam de um clarão róseo. Não eram só os sinos que voltavam da Itália, a Itália voltava com eles. Não faltariam flores às minhas mãos fiéis para honrar o aniversário da viagem que eu tivera de fazer outrora, pois, desde que o tempo voltava a ser frio em Paris, como em outro ano por ocasião dos nossos preparativos para partir pelo fim da quaresma, no ar líqüido e glacial que banhava os castanheiros, os plátanos dos bulevares e a árvore do pátio da nossa casa, os narcisos, os junquilhos e as anêmonas de Ponte-Vecchio já entreabriam as suas folhas, como numa taça de água pura.

            Meu pai nos contara que agora sabia, por meio de A. J., para onde ia o Sr. de Norpois quando o encontrava.

            - Vai à casa da Sra. de Villeparisis, são muito conhecidos, e eu não sabia de nada. Parece que se trata de uma pessoa deliciosa, uma mulher superior. Devias ir vê-la. - disse-me. - Aliás, fiquei muito espantado. Ele me falou do Sr. de Guermantes como de um homem muito distinto; eu sempre o julgara um cretino. Parece que sabe uma infinidade de coisas, e tem um gosto perfeito; apenas é muito soberbo pelo seu nome e por seus parentes. Ademais, segundo Norpois, sua fortuna é imensa, não só aqui mas em toda a Europa. Parece que o imperador da Áustria e o da Rússia o tratam como a um igual. O pai Norpois me disse que a Sra. de Villeparisis gostava muito de ti e que, no seu salão, irias conhecer pessoas interessantes. Ele me fez um grande elogio de ti; tu o encontrarás em casa dela, e ele poderia ser um bom conselheiro, mesmo se deves escrever. Pois vejo que não farás outra coisa. Podem achar isso uma boa carreira; quanto a mim, não é a que teria preferido para ti, mas em breve serás um homem, não estaremos sempre a teu lado, e não devemos impedir que sigas a tua vocação.

            Se ao menos eu tivesse podido começar a escrever! Mas fossem quais fossem as condições em que abordasse esse projeto (assim como, pobre de mim, o de não mais beber álcool, o de deitar cedo, dormir, passar bem de saúde), desde que fosse com exaltação, com método, com prazer, privando-me de um passeio, adiando-o e reservando-o como uma recompensa, aproveitando uma hora de boa saúde, utilizando para tanto a inação forçada de um dia de doença, o que acabava sempre por sair de meus esforços era uma página em branco, virgem de toda escrita, inelutável como a carta obrigatória que em certos lances acabamos fatalmente por tirar, de qualquer modo que se tenha antecipadamente embaralhado as cartas. Eu não passava do instrumento dos hábitos de não trabalhar, de não me deitar, de não dormir, que deviam realizar-se custasse o que custasse; se não lhes resistia, se me contentava com o pretexto que extraíam da primeira circunstância que lhes proporcionava aquele dia para deixá-los agir à sua vontade, eu me livrava da questão sem maiores perigos, não deixava de repousar algumas horas no fim da noite, lia um pouco, não fazia muitos excessos, mas, se queria contrariá-los, se pretendia ir mais cedo para a cama, beber somente água, eles se irritavam, dispunham de grandes meios de que se valiam para me deixar bem doente, e eu era obrigado a duplicar a dose de álcool, passava dois dias sem ir para a cama, e nem sequer podia ler, prometendo a mim mesmo ser mais razoável de outra vez, isto é, ser menos sábio, como uma vítima que se deixa roubar de medo de ser assassinada, caso resista.

            Nesse meio tempo, meu pai se encontrara uma ou duas vezes com o Sr, de Guermantes, e agora que o Sr. de Norpois lhe dissera que o duque era um homem notável, ele prestava mais atenção a suas palavras. No pátio, falavam justamente da Sra. de Villeparisis.

            - Ele me disse que era a sua tia; ele pronuncia Viparisi. Disse que ela era extraordinariamente inteligente. Chegou mesmo a acrescentar que ela possuía um "balcão de espírito". - concluiu meu pai, impressionado com a vaguidão desse termo, que lera já algumas vezes em memórias, mas ao qual não atribuía um sentido preciso. Minha mãe tinha tanto respeito por ele que, vendo-o não julgar indiferente que a Sra. de Villeparisis mantivesse balcão de espírito, achou que esse fato seria de alguma significação. Conquanto sempre tivesse sabido, pela minha avó, o que valia a marquesa, imediatamente fez, a respeito dela, uma idéia mais vantajosa. Minha avó, que estava um pouco adoentada, a princípio não foi favorável à visita. E depois se desinteressou. Desde que ocupávamos o nosso novo apartamento, a Sra. de Villeparisis lhe pedira várias vezes que a fosse ver, e minha avó sempre respondera que não vinha saindo ultimamente, numa dessas cartas que, por um hábito novo e que não compreendíamos, ela nunca fechava, deixando a Françoise o cuidado de fazê-lo. Quanto a mim, sem me afigurar muito bem esse "balcão de espírito", não ficaria muito espantado se visse a velha senhora de Balbec instalada diante de um balcão, o que, aliás, aconteceu.

            Além disso, meu pai também gostaria de saber se o apoio do embaixador lhe valeria muitos votos no Instituto, onde contava se apresentar como membro independente. A falar a verdade, sem ousar duvidar do apoio do Sr. de Norpois, não tinha certeza dele, entretanto; julgara estar tratando com más línguas quando lhe haviam dito no ministério que o Sr. de Norpois, desejando apresentar-se sozinho ao Instituto, levantaria todos os obstáculos possíveis a uma candidatura que, aliás, o incomodaria particularmente naquela ocasião em que estava apoiando outra. No entanto, quando o Sr. Leroy-Beaulieu o aconselhara a se apresentar e havia calculado as suas chances, ficara impressionado ao ver que, entre os colegas com que podia contar em tais circunstâncias, o eminente economista não citara o Sr. de Norpois. Meu pai não se atrevia a apresentar a questão diretamente ao antigo embaixador, mas esperava que eu voltasse da casa da Sra. de Villeparisis com sua eleição decidida. Tal visita era iminente. A propaganda do Sr. de Norpois, capaz de fato de garantir a meu pai dois terços da Academia, lhe parecia além do mais bem provável, visto que era proverbial a obsequiosidade do embaixador, e as pessoas que menos o estimavam reconheciam que ninguém apreciava tanto prestar serviços. Por outro lado, sua proteção, no ministério, estendia-se sobre meu pai de uma forma muito mais acentuada que sobre qualquer outro funcionário.

            Meu pai teve um outro encontro, mas este primeiro lhe causou um espanto e depois uma indignação extremas. Passou na rua pela Sra. Sazerat, cuja relativa pobreza reduzia sua vida em Paris a raras temporadas em casa de uma amiga. Ninguém aborrecia tanto meu pai como a Sra. Sazerat, a ponto que mamãe era obrigada a lhe dizer, uma vez por ano, com voz doce e implorativa: "Meu amigo, é necessário que eu convide ao menos uma vez a Sra. Sazerat, ela não vai ficar muito tempo" e até: "Escuta, meu amigo, vou te pedir um grande sacrifício, vou fazer uma visitinha à Sra. Sazerat. Sabes que não gosto de te aborrecer, mas seria gentil da tua parte." Ele ria, zangava-se um pouco, e ia fazer a tal visita. Portanto, embora a Sra. Sazerat não o divertisse em nada, ao encontrá-la foi em sua direção, tirando o chapéu; mas, para sua grande surpresa, a Sra. Sazerat se contentou com um cumprimento frio, forçado pela cortesia relativamente a alguém que é culpado de má ação ou condenado a viver daí em diante em um hemisfério diferente. Meu pai voltou zangado para casa, estupefato. No dia seguinte, minha mãe encontrou a Sra. Sazerat em um salão. Esta não lhe estendeu a mão, e lhe sorriu com um ar distante e triste como a uma pessoa com quem tivesse brincado na infância, mas com a qual há muito deixasse de ter quaisquer relações porque tem levado uma vida desregrada, casou com um presidiário ou, o que é pior, é um homem divorciado. Ora, meus pais haviam concedido e inspirado sempre à Sra. Sazerat a mais profunda estima. Porém (o que minha mãe ignorava), a Sra. Sazerat, única de sua espécie em Combray, era dreyfusista. Meu pai, amigo do Sr. Méline, estava convencido da culpabilidade de Dreyfus. Mandara passear, com mau humor, alguns colegas que lhe haviam pedido que assinasse uma moção revisionista. Não me falou durante oito dias quando soube que eu seguira uma linha diversa de comportamento. Suas opiniões eram conhecidas. Não estavam longe de considerá-lo nacionalista. Quanto à minha avó, a única da família a quem parecia inflamar uma dúvida generosa, cada vez que lhe falavam da inocência possível de Dreyfus, sacudia a cabeça num movimento de que então não percebíamos o sentido, e que era semelhante ao de uma pessoa a quem acabam de perturbar em pensamentos mais sérios. Minha mãe, dividida entre o amor a meu pai e a esperança de que eu fosse inteligente, mantinha uma indecisão que traduzia pelo silêncio. Enfim, meu avô, adorando o exército (conquanto suas obrigações de guarda nacional tivessem sido o pesadelo de sua maturidade), nunca via, em Combray, um regimento desfilar diante da grade sem tirar o chapéu quando passavam o coronel e a bandeira. Tudo isso era bastante para que a Sra. Sazerat, que conhecia a fundo a vida de desinteresse e de honra de meu pai e de meu avô, os considerasse cúmplices da Injustiça. Perdoam-se os crimes individuais, mas não a participação num crime coletivo. Quando soube que meu pai era antidreyfusista, colocou, entre ela e ele, continentes e séculos. O que explicava que, a uma tal distância no tempo e no espaço, seu cumprimento haja parecido imperceptível a meu pai e que ela não tenha pensado em um aperto de mão ou em palavras, que não poderiam transpor os mundos que os separavam.

            Devendo Saint-Loup vir a Paris, prometera-me levar à casa da Sra. de Villeparisis, onde eu esperava, sem lhe ter dito, que encontraríamos a Sra. de Guermantes. Pediu-me que fosse jantar no restaurante com ele e a amante, a quem levaríamos a seguir a um ensaio. Devíamos ir buscá-la de manhã, nos arredores de Paris, onde morava.

            Pedira a Saint-Loup que o restaurante aonde íamos jantar (na vida dos jovens aristocratas que gastam dinheiro, o restaurante desempenha um papel tão importante como as arcas de tecidos nos contos árabes) fosse, de preferência, o que Aimé me anunciara como sendo aquele para o qual devia trabalhar como mordomo, enquanto esperava a temporada de Balbec. Era um grande encanto para mim, que sonhava com tantas viagens e tão poucas fazia, rever alguém que tomava parte, mais que de minhas lembranças de Balbec, da própria Balbec, que ia lá todos os anos, que, quando o cansaço ou os estudos me forçavam a permanecer em Paris, nem por isso deixava de contemplar, nos longos fins de tarde de julho, esperando que os hóspedes chegassem para jantar, o sol descer e se pôr no mar, através das vidraças da ampla sala de jantar, por trás das quais, à hora em que ele desaparecia, as asas imóveis dos barcos distantes e azulados pareciam borboletas exóticas e noturnas em uma vitrine. Ele próprio magnetizado pelo seu contato com o potente ímã de Balbec, aquele mordomo, por sua vez, transformava-se num ímã para mim. Conversando com ele, eu esperava já estar em comunicação com Balbec, e perceber, no mesmo local, um pouco do encanto da viagem.

            Saí cedinho de casa, onde deixei Françoise gemendo porque o lacaio noivo não pudera, mais uma vez, na véspera à noite, ir ver sua prometida. Françoise o encontrara aos prantos, ele estivera a ponto de ir esbofetear o porteiro, mas se contivera, pois queria manter o emprego.

            Antes de chegar à casa de Saint-Loup, que devia esperar-me à porta, encontrei Legrandin, que havíamos perdido de vista desde Combray e que, bem grisalho agora, conservara o ar ingênuo e jovem. Deteve-se.

            - Ah, eis você, feito homem chique - disse-me ele -, e ainda por cima de sobrecasaca! Eis uma libré à qual não se adequaria a minha independência. É verdade que você deve ser mundano, fazer visitas! Para ir sonhar como o faço, diante de alguma sepultura meio destruída, minha lavalliere e minha jaqueta não estão deslocadas. Você sabe que aprecio a bela qualidade de seu espírito; é o mesmo que dizer o quanto lamento que vá renegá-la entre os Gentios. Sendo capaz de permanecer por um instante na atmosfera nauseabunda dos salões, irrespirável para mim, lança contra o seu próprio futuro a condenação, a maldição do Profeta. Daqui vejo isso, você freqüenta os "corações levianos", a sociedade dos castelos; tal é o vício da burguesia contemporânea. Ah, os aristocratas, o Terror foi bastante culpado de não ter degolado a todos. São todos crápulas sinistros, quando não simplesmente sombrios idiotas. Enfim, meu pobre rapaz, se isso lhe agrada! Enquanto você vai a algum Eive o'clock, seu velho amigo será mais feliz que você, pois, sozinho num subúrbio, verá subir no céu violáceo a lua cor-de-rosa. A verdade é que quase não pertenço a esta Terra onde me sinto de tal modo exilado; é necessária toda a força da lei da gravidade para me manter aqui e evitar que eu fuja para uma outra esfera. Sou de outro planeta. Adeus, não leve a mal a velha franqueza do camponês do Vivonne que também permaneceu camponês do Danúbio. Para lhe provar que me importo com você, vou enviar-lhe o meu último romance. Mas você não vai gostar; não é bastante degenerado, bastante fim de século para você; é muito franco, muito honesto. O que lhe serve é Bergotte, você mesmo já o confessou, é faisandé para o paladar estragado de degustadores requintados. No seu grupo, devo ser considerado um velho pretensioso; cometi o erro de pôr o meu coração no que escrevo, isto já passou da moda; e depois, a vida do povo não é distinta o suficiente para interessar as suas snobinettes. Vamos, procure se lembrar de vez em quando das palavras de Cristo: "Fazei isto e vivereis." Adeus, amigo.

            Não foi de muito mau humor contra Legrandin que o deixei. Algumas lembranças são como amigos comuns, sabem fazer reconciliações; lançada no meio dos campos semeados de botões-de-ouro, onde se acumulavam ruínas feudais, a pontezinha de madeira nos una, a mim e a Legrandin, como-as duas margens do Vivonne.

            Tendo deixado Paris, onde, apesar da primavera que principiava, as árvores dos bulevares mal estavam carregadas das primeiras folhas, o trem circular nos deixou, a Saint-Loup e a mim, na aldeia dos arredores em que morava a amante dele. Foi uma verdadeira maravilha ver cada jardinzinho adornado dos imensos altares brancos das árvores frutíferas em flor. Era como uma dessas festas singulares, poéticas, efêmeras e locais que a gente vem contemplar de muito longe em datas fixas, mas esta era dada pela natureza. As flores das cerejeiras são tão estreitamente unidas aos ramos como um envoltório branco, que de longe, entre as árvores que não estavam nem floridas nem cobertas de folhas, poderíamos julgar, pelo dia de sol ainda tão frio, que era a neve, aliás derretida, que ainda permanecia junto aos arbustos. Mas as grandes pereiras envolviam cada casa, cada pátio modesto, com uma brancura mais vasta, mais unida, mais deslumbrante, como se todas as residências, todas as cercas do povoado estivessem fazendo na mesma data a sua primeira comunhão.

            Essas aldeias dos arredores de Paris conservam ainda, às suas portas, parques dos séculos XVII e XVIII que foram as "loucuras" dos intendentes e das favoritas. Um horticultor utilizara um deles, situado em nível inferior à estrada, para a cultura de árvores frutíferas (ou talvez tivesse apenas conservado o delineamento de um imenso pomar daquela época). Cultivadas em quincôncios, essas pereiras, mais espaçadas, menos avançadas do que as que havia eu visto, formavam grandes quadriláteros separados por cercas baixas de flores brancas, a cada lado dos quais a luz vinha pintar-se de maneira diversa, embora todos esses quartos sem teto e ao ar livre parecessem ser os do Palácio do Sol, exatamente como poderia ser descoberto em alguma Creta; e também lembravam as câmaras de um reservatório ou as partes de mar que o homem subdivide para alguma pesca ou ostreicultura, quando se via, conforme a exposição, a luz vir brincar nas latadas, como nas águas primaveris, e fazer quebrar-se aqui e ali, cintilando pela treliça cheia do azul dos ramos, a espuma alvejante de uma flor musgosa e ensolarada.

            Era uma aldeia antiga, com sua velha prefeitura tostada e dourada, diante da qual, à maneira de paus de sebo e auriflamas, três grandes pereiras estavam, como para uma festa cívica e local, galantemente ornamentadas de cetim branco. Nunca Robert me falou com tanta ternura de sua amiga como durante esse trajeto.

            Somente ela possuía raízes em seu coração; o futuro que ele tinha no exército, sua posição mundana, sua família, tudo isto com certeza não lhe era indiferente, mas nada valia junto das menores coisas que diziam respeito à sua amante. Só ela tinha prestígio a seus olhos, um prestígio infinitamente maior que o dos Guermantes e o de todos os reis da Terra. Não sei se formulava a si mesmo que ela era de uma essência superior a tudo, mas sei que só tinha consideração e preocupação pelo que lhe concernia. Por ela, era capaz de sofrer, ser feliz, talvez de matar. Na verdade, para ele nada existia de interessante, apaixonante, senão o que queria e o que faria a sua amada, o que se passava, perceptível no máximo por expressões fugidias, no exíguo espaço do seu rosto e sob a sua fronte privilegiada. Tão cuidadoso para tudo o mais, admitia a possibilidade de um casamento brilhante apenas para poder continuar a sustenta-la, conserva-la. Se lhe perguntassem a que preço a estimava, julgo que nunca se poderia imaginar um preço bastante elevado. Se não a desposava, é que um instinto prático lhe fazia sentir que, quando não tivesse mais nada a esperar dele, ela o abandonaria ou, pelo menos, viveria como bem entendesse, e que seria necessário mantê-la na expectativa do amanhã. Pois supunha que ela talvez não o amasse. Sem dúvida, a afeição geral chamada amor devia força-lo como todos os homens a crer, por instantes, que ela o amava. Mas praticamente sentia que esse amor que a moça manifestava por ele não impedia que ficasse com ele apenas devido a seu dinheiro, e que, no dia em que ela nada mais tivesse a esperar dele, se apressaria (vítima das teorias de seus amigos literatos e amando-o sempre, pensava Robert) em abandona-lo.

            - Hoje, se for boazinha. -disse-me ele -, vou lhe dar um presente que a deixará satisfeita. É um colar que ela viu na casa Boucheron. É um tanto caro para mim neste momento: trinta mil francos. Mas essa pobre menina não teve tantos prazeres assim na vida. Vai ficar contentíssima. Falou-me dele e disse que conhecia alguém que lho daria talvez. Não creio que seja verdade, mas entendi-me de qualquer jeito com Boucheron, que e o fornecedor de minha família, para que o reserve para mim. Fico feliz em pensar que vais vê-la; de rosto não é nada extraordinária, sabes - (percebi perfeitamente que ele pensava o contrário e não o confessava para que minha admiração fosse maior) -; tem acima de tudo um tino esplêndido; talvez não ouse falar muito diante de ti, mas já me alegro, por antecipação, com o que ela me dirá de ti depois; sabes, ela diz coisas que a gente pode aprofundar indefinidamente, na verdade possui algo de pítico!''

            Para chegar à casa em que ela morava, passamos por jardinzinhos e eu não pude deixar de parar, pois estavam todos floridos de cerejeiras e pereiras; sem dúvida vazios e desabitados ainda ontem, como uma propriedade que não foi alugada, eram subitamente embelezados e povoados por aquelas recém-chegadas da véspera e cujos lindos vestidos brancos avistávamos através das grades na esquina das aléias.

            - Escuta, já que vejo que desejas observar tudo isto, criatura poética. - disse Robert -, espera-me aqui; minha amiga mora bem pertinho e vou busca-la.

            Enquanto esperava, dei alguns passos, à frente dos modestos jardins. Se erguia a cabeça, por vezes via moças nas janelas, mas mesmo ao ar livre e à altura de um pequeno andar, aqui e ali, leves e esbeltas em sua fresca toalete cor-de-malva, jovens moitas de lilases, suspensas às folhagens, deixavam-se embalar pela brisa sem se ocupar do passante que levantava os olhos para o entressolo de verdura. Nelas, eu reconhecia os pelotões violáceos dispostos à entrada do parque do Sr. Swann, passada a pequena barreira branca, nas tardes quentes da primavera, para uma deslumbrante tapeçaria provinciana. Tomei por um atalho que terminava numa campina. Soprava ali uma aragem fria, viva como em Combray; mas, no meio da terra fértil, úmida e campesina, que poderia ficar às margens do Vivonne, não deixara de aparecer, pontual ao encontro como todo o grupo de seus companheiros, uma grande pereira branca que agitava, risonha, e opunha ao sol, como uma cortina de luz materializada e palpável, suas flores convulsivas pela brisa, porém lustrosas e envernizadas de prata pelos raios.

            De repente, Saint-Loup surgiu acompanhado de sua amante; e então, nessa mulher que era para ele todo o amor, todas as doçuras possíveis da vida, cuja personalidade, misteriosamente encerrada em um corpo como num Tabernáculo, era ainda o objeto sobre o qual trabalhava sem cessar a imaginação do meu amigo, que ele sentia que jamais haveria de conhecer, e de quem se indagava perpetuamente o que seria em si mesma, por detrás do véu dos olhares e da carne, nessa mulher eu reconheci de imediato "Rachel-quando-do-Senhor", aquela que, alguns anos antes as mulheres mudam tão depressa de condição nesse mundo, quando mudam -, dizia à alcoviteira:

            "Então, amanhã à noite, se a senhora precisar de mim para alguém, mande-me chamar."

            E quando, de fato, "mandavam chamá-la" e ela se achava a sós no quarto com alguém, sabia tão perfeitamente o que desejavam dela que, depois de ter fechado à chave, por precaução de mulher prudente, ou por um gesto ritual, começava a despir-se de todas as suas coisas, como fazemos diante do médico que vai auscultar-nos, e só parava se o "alguém", não apreciando a nudez completa, lhe dizia que ficasse de camisa, como certos facultativos que, tendo o ouvido muito fino e receando que o paciente se resfrie, se limitam a ouvir a respiração e as batidas do coração através de um tecido. A essa mulher, cuja vida inteira, cujos pensamentos, cujo passado, cujos homens por quem pudesse ter sido possuída eram para mim coisa tão indiferente que, se me tivesse contado tudo isto, tê-la-ia escutado por simples cortesia e sem mesmo ouvi-la senti que a inquietação, o tormento, o amor de Saint-Loup se haviam aplicado até fazer, do que era para mim somente um jogo mecânico, um objeto de sofrimentos infinitos, tendo como prêmio a própria existência. Vendo esses dois elementos dissociados (porque havia conhecido "Rachel-quando-do-Senhor" num bordel), compreendia que muitas mulheres por quem os homens vivem, sofrem, se matam, podem ser em si mesmas, ou para outros, o que Rachel era para mim. A idéia de que é possível ter uma dolorosa curiosidade no que respeitava à sua vida, deixava-me estupefato. Poderia contar muitas trepadas suas a Robert, as quais me pareciam a coisa mais indiferente do mundo. E como elas o teriam magoado! E quanto não daria para conhecê-las, sem consegui-lo.

            Percebia tudo quanto uma imaginação pode pôr atrás de um palminho de cara como o daquela mulher, se foi a imaginação que a conheceu primeiro; e, inversamente, em que miseráveis elementos materiais e desprovidos de todo valor podia decompor-se o que era o objetivo de tantas fantasias, se, ao contrário, aquilo fosse mesmo conhecido de maneira oposta, através do conhecimento mais trivial. Compreendia que o que me parecera não valer vinte francos, quando me fora oferecido por tal preço no bordel, onde, para mim, não passava de uma mulher desejosa de ganhar vinte francos, pode valer mais que um milhão, mais que a família, mais que todas as posições invejadas, se nela se começa por imaginar uma criatura desconhecida, curiosa de se conhecer, difícil de obter, de conservar. Decerto era o mesmo rosto franzino e miúdo que Robert e eu víamos. Porém, a ele chegáramos por vias opostas que jamais se comunicariam, e dele nunca veríamos a mesma face. Esse rosto, com seus olhares, seus sorrisos, os movimentos da boca, eu o conhecera de fora como sendo o de uma mulher qualquer, que faria tudo o que eu quisesse por vinte francos. Assim os olhares, os sorrisos e os movimentos da boca me haviam parecido apenas significativos de atos gerais, sem nada de individual, e sob os quais não teria tido a curiosidade de procurar uma pessoa. Mas o que, de algum modo, me fora oferecido à partida, esse rosto permissivo, fora para Robert um ponto de chegada, para o qual se dirigia através de tantas esperanças, dúvidas, suspeitas e fantasias. Dava mais de um milhão para possuir, a fim de que não fosse oferecido a outros, o que me fora ofertado, como a todos, por vinte francos. Por que motivo ele não a obtivera por tal preço, isso talvez se devesse-ao acaso de um instante, um instante durante o qual aquela que parece prestes a se entregar se furta, tendo porventura um encontro, alguma razão que a faz mais difícil nesse dia. Se está tratando com um sentimental, ela começa um jogo terrível, mesmo que não o perceba, e sobretudo se o percebe. Incapaz de superar sua decepção, de passar sem essa mulher, ele a persegue, ela foge, de modo que um sorriso que ele já não se atrevia a esperar é pago mil vezes mais do que o deveriam ser os últimos favores. Nesse caso, acontece mesmo, às vezes, quando se teve, por uma mescla de ingenuidade no julgamento e de covardia no desgosto, a loucura de fazer de uma mulher à-toa um ídolo inacessível, cujos últimos favores, ou até o primeiro beijo, jamais poderemos obtê-los, nem sequer teremos coragem de pedi-los para não desmentir as seguranças do amor platônico. E então é um grande sofrimento abandonar a vida sem ter jamais sabido o que poderia ter sido o beijo da mulher a quem mais amamos. Os favores de Rachel, no entanto, Saint-Loup os obtivera a todos por acaso. Certamente, se soubesse agora que haviam sido ofertados a todo mundo por um ''luís," decerto teria sofrido terrivelmente, mas nem por isso deixaria de dar um milhão para conservá-los, pois tudo o que ficasse sabendo não poderia fazê-lo sair pois o que está acima das forças do homem só pode ocorrer contra sua vontade, pela ação de alguma grande lei natural do caminho que ele trilhava e de onde esse rosto só lhe podia aparecer através dos sonhos que concebera. A imobilidade desse rosto miúdo, como o de uma folha de papel submetida às pressões colossais de duas atmosferas, me parecia equilibrada pelos dois infinitos que vinham terminar nela sem se encontrarem, pois ela os separava. E com efeito, olhando-a Robert e eu, não a víamos pelo mesmo lado do mistério.

            Não era "Rachel-quando-do-Senhor" que me parecia insignificante. Era a potência da imaginação humana, a ilusão sobre a qual pousavam as dores do amor que eu julgava grandes. Robert viu que eu estava emocionado. Desviei os olhos para as pereiras e cerejeiras do jardim em frente para que ele pensasse que era a sua beleza que me impressionava. E impressionava-me um pouco da mesma forma, colocava também junto a mim essas coisas que só se vêem com os olhos, mas que sentimos no coração. Os arbustos que eu vira no jardim, tomando-os por deuses estranhos, acaso não me enganara como Madalena quando, em outro jardim, num dia cujo aniversário ainda ia ocorrer em breve, ela viu uma forma humana e "julgou que era o jardineiro"? Guardiães das lembranças da idade de ouro, fiadores da promessa de que a realidade não é o que se julga ser, que o esplendor da poesia e o clarão maravilhoso da inocência podem resplandecer nela e poderão ser a recompensa que nos esforçaremos por merecer, as grandes criaturas brancas admiravelmente inclinadas acima da sombra propícia à sesta, à pesca, à leitura, não seriam por acaso anjos? Troquei algumas palavras com a amante de Saint-Loup. Atravessamos a aldeia. As casas eram sórdidas. Mas, ao lado das mais miseráveis, das que pareciam ter sido queimadas por uma chuva de salitre, um viajante misterioso, detido por um dia na cidade maldita, um anjo resplandecente mantinha-se de pé, estendendo largamente sobre ela a deslumbrante proteção de suas asas de inocência em flor: era uma pereira. Saint-Loup adiantou-se alguns passos comigo:

            - Gostaria que pudéssemos, nós dois, esperar juntos, e gostaria ainda mais de almoçar sozinho contigo, e que ficássemos juntos a sós, até o momento de ir para a casa de minha tia. Mas minha pobre garota, isso lhe dá tanto prazer e ela é tão gentil comigo, sabes, não pude me negar. Além do mais, ela te agradará, é uma literata, uma vibrante, e depois é algo tão gentil almoçar com ela no restaurante, ela é tão agradável, tão simples, está sempre satisfeita com tudo.

            Entretanto, creio que justamente naquela manhã, e provavelmente pela única vez, Robert se evadiu por um momento para fora da mulher que, carinho após carinho, lentamente compusera, e percebeu de repente a alguma distância de si uma outra Rachel, um duplo dela, mas absolutamente diverso, e que parecia uma simples putinha. Deixando o belo pomar, íamos tomar o trem para voltar a Paris quando, na gare, Rachel, andando a alguns passos de nós, foi reconhecida e interpelada por "galinhas" vulgares como ela, e que a princípio, julgando-a sozinha, lhe gritaram:

            - Alô, Rachel! Vem conosco! Luciene e Germaine já estão no vagão e ainda há exatamente um lugar! Vem, vamos juntas ao skating. -

            Elas se apressavam a apresentar dois caixeiros, seus amantes, que as acompanhavam, quando, diante do jeito meio sem graça de Rachel, ergueram curiosamente os olhos para mais longe, viram-nos e se desculparam despedindo-se e recebendo de Rachel também um adeus, um pouco embaraçado mas amistoso. Eram duas pobres prostitutas, com golas de falsa lontra, tendo mais ou menos o aspecto que apresentava Rachel quando Saint-Loup a vira pela primeira vez. Ele não as conhecia, nem mesmo sabia seus nomes, e, vendo que pareciam muito ligadas à sua amiga, teve a idéia de que esta talvez tivesse tido seu lugar, talvez o tivesse ainda, numa vida insuspeitada dele, bem diversa da que eles levavam juntos, uma vida em que se conseguiam mulheres por um luís, ao passo que ele dava mais de cem mil francos anuais a Rachel. Não fez mais que entrever essa vida, mas também, no meio dela, uma Rachel completamente diferente da que conhecia, uma Rachel semelhante àquelas duas pequenas prostitutas, uma Rachel por vinte francos. Em suma, por um instante Rachel se desdobrara para ele, que percebera a uma certa distância de sua Rachel a Rachel putinha, a Rachel verdadeira, supondo que a Rachel putinha fosse mais real que a outra. Robert talvez tenha tido então a idéia daquele inferno em que vivia, com a perspectiva e necessidade de um matrimônio rico, de uma venda de seu nome, para poder continuar a dar cem mil francos anuais a Rachel; e talvez pudesse lhe escapar facilmente e ter os favores de sua amante, como aqueles caixeiros os de suas rameiras, por preço vil. Mas como fazê-lo? Ela não desmerecera em nada. Menos satisfeita, ela seria menos gentil, não lhe diria nem escreveria mais aquelas coisas que o tocavam tanto e que ele citava com um pouco de ostentação aos companheiros, tendo o cuidado de assinalar o quanto era gentil da parte dela, omitindo porém o fato de que a sustentava com fausto, e até que lhe dava o que quer que fosse, que aquelas dedicatórias numa fotografia ou aquela fórmula para terminar um despacho eram a transmutação, sob sua forma mais preciosa e reduzida, de cem mil francos. Se evitava dizer que essas raras gentilezas de Rachel eram pagas por ele, seria falso dizer e no entanto esse raciocínio simplista é usado absurdamente para com todos os amantes que pagam, para tantos maridos que era por amor-próprio ou por vaidade. Saint-Loup era bastante inteligente para perceber que teria encontrado, fácil e gratuitamente na sociedade, todos os prazeres da vaidade graças a seu grande nome, a seu belo rosto, e que sua ligação com Rachel, ao contrário, era o que o havia posto um pouco fora desse mundo e fazia com que fosse menos cotado. Não, esse amor-próprio de querer mostrar que temos gratuitamente as marcas visíveis da predileção daquela a quem amamos é simplesmente um derivado do amor, a necessidade de figurar para si mesmo e para os outros como sendo amado pela que se ama tanto. Rachel se aproximou de nós, deixando as duas prostitutas subirem para seu compartimento; mas, não menos que a falsa lontra delas e o ar afetado dos caixeiros, os nomes de Lucienne e de Germaine mantiveram por um instante, diante de Robert, a nova Rachel. Por um momento, ele imaginou uma vida da praça Pigalle, com amigos desconhecidos, aventuras sórdidas, tardes de divertimentos ingênuos, passeios ou farras, naquela Paris onde as ensolaradas ruas, desde o bulevar de Clichy, não lhe pareceu o mesmo da claridade solar em que ele passeava com a amante, e sim outro, pois o amor e o sofrimento, que forma com ele um todo único, têm, como a embriaguez, o poder de nos diferenciar as coisas. Ele suspeitou quase uma Paris desconhecida em meio à própria Paris; sua ligação lhe surgiu como a exploração de uma vida estranha, pois se, com ele, Rachel era um pouco parecida a seu amante, era entretanto uma boa parte de sua vida verdadeira que Rachel vivia com ele, e mesmo a parte mais preciosa, devido às fabulosas somas que ele lhe dava, a parte que a fazia de tal modo invejada das amigas e que lhe permitiria um dia retirar-se para o campo ou de se lançar nos grandes teatros, depois de ter feito o seu pé-de-meia. Robert gostaria de perguntar à amiga quem eram Lucienne e Germaine, as coisas que estas lhe teriam dito se ela tivesse subido para o seu compartimento, e em que, ela e suas companheiras, teriam passado juntas um dia que talvez tivesse acabado como divertimento máximo, após os prazeres do skafing, na taverna da Olympia, se ele, Robert, e eu não estivéssemos presentes. Por um instante, as vizinhanças da Olympia, que até então lhe tinham parecido aborrecidas, excitaram a sua curiosidade, seu sofrimento, e o sol daquele dia primaveril na rua Caumartin, onde talvez, se não tivesse conhecido Robert, Rachel teria ido há pouco e ganho um luís, lhe deu uma vaga nostalgia. Mas para que fazer perguntas a Rachel, quando sabia previamente que a resposta seria um simples silêncio ou uma mentira, ou algo ainda mais penoso para ele, sem todavia lhe descrever coisa nenhuma? Os empregados fechavam as portas, subimos rapidamente para um vagão de primeira, as pérolas admiráveis de Rachel fizeram-no ver de novo que ela era uma mulher de alto preço, ele acariciou-a, fê-la entrar em seu próprio coração, onde a contemplou, interiorizada, como tinha feito até então salvo durante esse breve instante em que a vira numa praça Pigalle de pintor impressionista -, e o trem partiu. Aliás, era verdade que ela era uma "literária". Não deixou de me falar em livros, art nouveau, tolstoísmo, a não ser para censurar Saint-Loup por beber demais.

            - Ah, se pudesses viver um ano comigo, haveriam de ver, eu te faria beber água e serias muito melhor.

            - Combinado! Vamos.

            - Mas sabes muito bem que tenho mais o que fazer (pois ela levava a sério a arte dramática). Além disso, o que diria a tua família?

            E pôs-se a fazer, sobre a família de Robert, censuras que me pareceram aliás muito justas e às quais Saint-Loup aderiu inteiramente, conquanto desobedecesse a Rachel no artigo sobre o champanha. Eu, que temia tanto o excesso de vinho para Saint-Loup e sentia a boa influência de sua amante, estava pronto a aconselhá-lo que mandasse a família passear. As lágrimas subiram aos olhos da moça porque tive a imprudência de falar de Dreyfus.

            - O pobre mártir. - disse ela, retendo um soluço -, vão fazê-lo morrer lá longe.

            - Tranqüiliza-te, Zézette. - retrucou Robert. - Ele voltará, será absolvido, o erro será reconhecido.

            - Mas antes disso ele estará morto! Enfim, pelo menos seus filhos usarão um nome imaculado. Mas o que me mata é pensar no que deve estar sofrendo. E acredita que a mãe de Robert, uma mulher piedosa, diz que ele deve permanecer na ilha do Diabo, mesmo se for inocente; não é um horror?

            - Sim, é absolutamente verdade, ela diz essas coisas. - afirmou Robert. - É minha mãe, nada tenho a objetar, mas é bem claro que ela não possui a sensibilidade de Zézette.

            Na realidade, esses almoços, "coisas tão amáveis", sempre transcorriam muito mal. Pois, logo que Saint-Loup se achava com a amante em um local público, imaginava que ela olhava para todos os homens presentes, tornava-se sombrio, ela se apercebia de seu mau humor, que se divertia talvez em atiçar, mas que, mais provavelmente por um bobo amor-próprio, não queria, ofendida com o seu tom, parecer que buscava desarmar; dava a impressão de não desviar os olhos deste ou daquele homem, e, aliás, nem sempre o fazia por puro divertimento. De fato, quando o senhor que, no teatro ou no café, fosse seu vizinho, ou simplesmente o cocheiro do fiacre que eles tinham tomado, tivesse algo de agradável, Robert, logo advertido pelo ciúme, o havia notado antes de sua amante; imediatamente via nele um desses seres imundos de que me falara em Balbec, que pervertem e desonram as mulheres para se divertirem, e suplicava à amante que desviasse dele os olhares, e por isso mesmo o apontava. Ora, às vezes ela achava que Robert tinha tido tão bom gosto nas suas suspeitas que acabava mesmo por deixar de importuná-lo a fim de que ele se tranqüilizasse e consentisse em ir dar uma volta, para lhe dar tempo de entrar em conversação com o desconhecido, muitas vezes de marcar um encontro, e às vezes até de darem uma escapada. Desde que entramos no restaurante, percebi muito bem que Robert mostrava preocupação. É que logo havia reparado, o que nos escapara em Balbec, que, no meio de seus colegas vulgares, Aimé, com um brilho modesto, irradiava, bem involuntariamente, o romanesco que emana, durante alguns anos, de cabelos finos e de um nariz grego, graças aos quais ele se distinguia em meio à multidão dos outros criados. Estes, quase todos de idade avançada, representavam tipos extraordinariamente feios e marcados de padres hipócritas, de confessores santarrões, mais freqüentemente de velhos atores cômicos, cujo crânio de pão de açúcar não se encontra mais senão nas coleções de retratos expostas no saguão humildemente histórico dos teatrinhos antiquados, onde são representados como lacaios ou supremos pontífices, e cujo tipo solene parecia ser conservado por aquele restaurante, graças a um recrutamento selecionado e talvez a um modo de nomeação hereditário, numa espécie de colégio inaugural. Infelizmente, Aimé, tendo-nos reconhecido, veio ele próprio atender-nos, enquanto se escoava para outras mesas o cortejo dos grandes sacerdotes de opereta. Aimé se informou sobre a saúde de minha avó, pedi-lhe notícias da esposa e dos filhos. E ele as deu com emoção, pois era um homem muito apegado à família. Tinha um ar inteligente, enérgico, mas respeitoso. A amante de Robert pôs-se a encará-lo com estranha atenção. Mas os olhos fixos de Aimé, aos quais uma leve miopia dava uma espécie de profundeza dissimulada, não traíram qualquer impressão em meio do seu rosto imóvel. No hotel provinciano, onde servira muitos anos antes de ir a Balbec, o belo desenho, agora um tanto amarelecido e fatigado, que era o seu rosto, e que durante tantos anos, como certa gravura que representava o príncipe Eugênio, tinham visto sempre no mesmo lugar, no fundo da sala de jantar ordinariamente vazia, não devia ter atraído muitos olhares curiosos. Durante muito tempo havia permanecido na ignorância do valor artístico de seu rosto, certamente por falta de conhecedores, e aliás pouco disposto a fazê-lo notado, pois era de temperamento frio. Quando muito, uma parisiense de passagem, detendo-se alguma vez na cidade, teria erguido os olhos para ele, teria pedido que ele fosse servi-la no quarto antes de voltar para o trem, e, no vazio translúcido, monótono e profundo dessa existência de bom marido e de doméstico provinciano, Aimé havia enterrado o segredo de um capricho sem amanhã que ninguém jamais viria descobrir. No entanto, deve ter percebido a insistência com que os olhos da jovem artista se fixavam nele. Em todo caso, isso não escapou a Robert, em cujo rosto eu via espalhar-se um rubor não vivo como o que lhe daria uma coloração purpurina se ele tivesse uma emoção brusca -, porém fraco, esmaecido.

            - É muito interessante esse mordomo, Zézette? - perguntou à amante depois de ter dispensado Aimé com muita brusquidão. - Dir-se-ia que desejas fazer um estudo tirado dele.

            - Já começa de novo. Eu tinha certeza!

            - Mas o que é que começa, minha pombinha? Se estava errado, já não está aqui quem falou. Mas ainda assim tenho o direito de te pôr de sobreaviso contra esse lacaio que conheço de Balbec (sem isso não me importa), e que é um dos maiores velhacos que a Terra já viu.

            Ela pareceu querer obedecer a Robert e travou comigo uma conversa literária à qual ele se misturou. Eu não me aborrecia ao conversar com ela, pois Rachel conhecia muito bem as obras que eu admirava e mais ou menos estava de acordo comigo em suas apreciações; mas como eu ouvira dizer, pela Sra. de Villeparisis, que ela não tinha talento, não dava muita importância a essa cultura. Rachel gracejava com finura sobre mil assuntos, e teria sido verdadeiramente agradável caso não afetasse, de maneira irritante, o jargão dos teatros e dos ateliês. Estendia-o, aliás, a tudo e, por exemplo, tendo adquirido o hábito de dizer de um quadro, se era impressionista, ou de uma ópera, se era wagneriana: "Ah, está certo", num dia em que um rapaz lhe beijara a orelha, e que, lisonjeado por ter ela simulado um arrepio, bancava o modesto, ela disse: - Sim, como sensação, acho que está certo. - Mas o que principalmente me espantava era que as expressões próprias de Robert (e que, aliás, tinham talvez chegado até ele por meio de literatos que ela conhecia), Rachel as empregava diante dele, e ele diante dela, como se se tratasse de uma linguagem necessária e sem se darem conta do vazio de uma originalidade que é de todos.

            Ao comer, ela se atrapalhava com as mãos a tal ponto que fazia supor que devia se mostrar muito embaraçada no palco. Só recobrava a destreza no amor devido a essa premonição tocante das mulheres que amam tanto o corpo do homem que adivinham logo o que dará mais prazer a esse corpo, todavia tão diverso do seu.

            Deixei de tomar parte na conversa quando se falou de teatro, pois nesse assunto Rachel era muito malévola. É verdade que assumiu, em tom de comiseração contra Saint-Loup, o que provava que o atacava muitas vezes diante dele mesmo -, a defesa da Berma, ao dizer:

            - Oh, não! É uma mulher notável. Evidentemente, o que ela faz já não nos diz nada, não corresponde mais absolutamente ao que procuramos, mas é preciso colocá-la no momento em que apareceu, a gente lhe deve muito. Fez as coisas certo, tu sabes. E, depois, é uma mulher tão corajosa, tem um grande coração, naturalmente não preza as coisas que nos interessam, mas teve, como um rosto bem impressionante, uma bela qualidade de inteligência. - (Os dedos não acompanham da mesma forma todos os juízos estéticos. Se se trata de pintura, para mostrar que é uma bela peça, de largas pinceladas, limita-se a ressaltar o polegar. Mas a "bela qualidade de espírito" é mais exigente. São-lhe precisos dois dedos, ou melhor, duas unhas, como se se tratasse de fazer pular um grão de poeira.) Mas, aberta esta exceção, a amante de Saint-Loup falava dos artistas mais conhecidos num tom de ironia e superioridade que me irritava, porque eu achava que ela é que lhes era inferior enganando-me nisso. Rachel percebeu muito bem que a devia considerar uma artista medíocre e, pelo contrário, ter muita consideração por aqueles a quem ela desprezava. Mas não se sentiu ofendida, porque há, no grande talento ainda não reconhecido, como o seu, por mais seguro que possa estar de si mesmo, uma certa humildade, e proporcionamos as considerações que exigimos não aos nossos dons ocultos, mas à posição que adquirimos. (Uma hora depois, eu devia ver, no teatro, a amante de Saint-Loup demonstrar muita deferência para com os artistas sobre quem externava um juízo tão severo.) Assim, por menos dúvidas que pudesse ter deixado o meu silêncio, ela insistiu para que jantássemos juntos de noite, assegurando que jamais se agradara tanto da conversa de alguém como da minha. Se ainda não estávamos no teatro, aonde deveríamos ir após a refeição, dávamos a impressão de nos acharmos num foyer, decorado com retratos antigos da companhia, de tal forma os mordomos tinham caras que pareciam perdidas com toda uma geração de artistas fora do comum, do Palais-Royal; também pareciam acadêmicos: parado diante de um bufê, um examinava pêras com o rosto e a curiosidade desinteressada que poderia ter o Sr. de Jussieu. Outros, a seu lado, lançavam pela sala os olhares cheios de curiosidade e frieza que os membros do Instituto, já presentes, lançam sobre o público trocando algumas palavras que ninguém ouve. Eram figuras célebres entre os habitués. Entretanto, mostrava-se um novato, de nariz pregueado e lábio hipócrita, que tinha um jeito de igreja e exercia as funções pela primeira vez, e todos observavam o novo eleito. Mas em breve, talvez para que Robert partisse e ela pudesse encontrar-se a sós com Aimé, Rachel pôs-se a encarar um jovem bolsista que almoçava com um amigo numa mesa próxima.

            - Zézette, peço-te que não olhes assim para esse rapaz. - disse Saint-Loup, em cujo rosto os rubores hesitantes de há pouco se haviam concentrado em uma sombra sangrenta que dilatava e afundava os traços distendidos do meu amigo -; se pretendes nos fazer uma cena, prefiro almoçar em separado e ir te esperar no teatro.

            Nesse momento, vieram dizer a Aimé que um senhor lhe rogava fosse lhe falar na portinhola de seu carro. Saint-Loup, sempre inquieto e temendo que se tratasse de um recado amoroso a ser transmitido à sua amante, olhou pela vidraça e vislumbrou, no fundo de seu cupê, as mãos enfiadas em luvas brancas raiadas de preto, com uma flor na botoeira, o Sr. de Charlus.

            - Estás vendo. - disse-me ele em voz baixa - que minha família me manda perseguir até aqui. Peço-te, eu não posso mais, mas já que conheces bem o mordomo, que certamente nos vai denunciar, diga-lhe que não vá até o carro. Pelo menos que seja um garçom que não me conheça. Se dizem a meu tio que não me conhecem, sei como ele é, não virá olhar no café, detesta esses locais. E, mesmo assim, não é asqueroso que um velho mulherengo como ele, que ainda não sossegou, me dê permanentemente lições de moral e venha me espionar?!

            Aimé, tendo recebido minhas instruções, enviou um de seus ajudantes, que devia dizer que ele não podia ausentar-se do salão naquele momento e que, se perguntassem pelo marquês de Saint-Loup, que não o conheciam. E logo o carro partiu. Mas a amante de Saint-Loup, que não entendera nossas frases sussurradas em voz baixa e julgara que se tratava do rapaz a quem Robert lhe censurara por ter encarado, explodiu em insultos:

            - Como? É esse rapaz agora?! Fazes bem em me prevenir; oh, é delicioso almoçar nessas condições! Não ligue para o que ele diz, está um tanto ofendido, e principalmente - acrescentou ela voltando-se para mim -, ele diz isto porque julga que é elegante, que isso de ter ciúmes é coisa de grão-senhor.

            E pôs-se a dar sinais de nervosismo com os pés e com as mãos.

            - Mas Zézette, para mim é que é desagradável. Tu nos tornas ridículos aos olhos deste senhor que vai ficar convencido que lhe dás atenções, e que me parece que é o que existe de pior.

            - A mim, ao contrário, ele me agrada muito; em primeiro lugar, tem olhos deslumbrantes, e que possuem uma forma de olhar as mulheres; percebe-se que ele deve amá-las.

            - Cala-te pelo menos até que eu tenha ido embora, se é que estás louca! - gritou Robert. - Garçom, minhas coisas.

            Não sabia se devia segui-lo.

            - Não, preciso estar sozinho. - disse-me no mesmo tom com que acabara de falar à amante e como se estivesse zangado comigo. Sua cólera parecia uma mesma frase musical sobre a qual, numa ópera, cantam-se várias réplicas no libreto, inteiramente diversas entre si de sentido e de natureza, mas que ela reúne num mesmo sentimento. Quando Robert partiu, sua amante chamou Aimé e lhe pediu várias informações. E, a seguir, quis saber o que eu achava dele.

            - Tem um olhar divertido, não é? Compreende, o que me agradaria seria saber o que ele pode estar pensando, ser servida por ele muitas vezes, levá-lo em viagem. Porém não mais do que isso. Se a gente fosse obrigada a amar todas as pessoas que nos agradam, seria no fundo uma coisa terrível. Robert não tem motivos para imaginar coisas. Tudo isto só me passa pela cabeça, Robert devia ficar tranqüilo. - Continuava a olhar para Aimé. - Veja, repare nos olhos pretos que ele tem; gostaria de saber o que há por detrás deles.

            Em breve, vieram lhe dizer que Robert a mandava chamar em um gabinete particular, onde, passando por uma outra entrada, ele fora acabar o seu almoço sem atravessar o restaurante. Assim, fiquei sozinho, e depois Robert me mandou chamar por minha vez. Encontrei sua amante estendida num sofá rindo ante os beijos e as carícias que ele lhe prodigalizava. Bebiam champanha.

            - Meus cumprimentos. - disse-lhe ela, pois aprendera recentemente essa fórmula que lhe parecia a última palavra em matéria de ternura e de espírito.

            Eu almoçara mal, não me sentia à vontade e, sem que as palavras de Legrandin servissem de nada para isso, lamentava começar num gabinete reservado de restaurante e acabar nos bastidores de teatro aquela primeira tarde de primavera. Depois de ter olhado a hora para ver se não estava atrasada, Rachel me ofereceu champanha, estendeu-me um de seus cigarros orientais e retirou para mim uma rosa do corpete. Então murmurei comigo:

            "Não tenho muito que lamentar o meu dia; estas horas passadas junto dessa moça não estão perdidas para mim, visto que, por meio dela, possuo, coisa graciosa e que a gente pode pagar caro, uma rosa, um cigarro perfumado e uma taça de champanha." Dizia-o porque me parecia, dessa forma, dotar de um caráter estético, e assim justificar, salvar essas horas de tédio. Talvez devesse ter pensado que a própria necessidade que eu experimentava de uma razão que me consolasse do meu tédio bastava para provar que eu não sentia nada de estético. Quanto a Robert e sua amante, davam a impressão de não guardar qualquer lembrança da discussão que tinham tido minutos antes e nem que eu assistira à tal cena. Não fizeram qualquer alusão a ela, não procuraram nenhuma desculpa para o fato, e nem mesmo para o contraste que formavam com ela as suas maneiras de agora. À força de beber champanha com eles, comecei a sentir um pouco a embriaguez que experimentara em Rivebelle, provavelmente a mesma. Não só cada gênero de embriaguez, desde aquela que dá o sol ou a viagem, àquela que dá o cansaço ou o vinho, mas também cada grau de sobriedade, e que deveria trazer consigo uma "cota" diferente, como as que mostram os fundos no mar, põe a nu em nós, precisamente na profundidade em que se encontra, um homem especial. O gabinete em que se achava Saint-Loup era pequeno, mas o espelho único que o decorava era de tal espécie que parecia refletir uns trinta gabinetes, ao longo de uma perspectiva infinita; e a lâmpada elétrica, colocada no topo da moldura, devia à noite, quando estava acesa, seguida da procissão de uns trinta reflexos semelhantes a ela própria, dar ao bebedor, mesmo solitário, a idéia de que o espaço a seu redor se multiplicava, ao mesmo tempo que suas sensações exaltadas pela embriaguez e que, encerrado sozinho nesse pequeno reduto, no entanto reinava sobre algo muito mais extenso, em sua curva indefinida e luminosa, que uma aléia do "Jardim de Paris". Ora, sendo eu então nesse momento esse bebedor, de súbito, procurando-o no espelho, avistei-o, horrível, desconhecido, a encarar-me. A alegria da embriaguez era mais forte que o nojo; por alegria-ou bravata, sorri-lhe, ao mesmo tempo que ele me sorria. Sentia-me de tal forma sob o império efêmero e poderoso do minuto em que as sensações são tão fortes, que não sei se minha única tristeza seria pensar que o eu horrendo que acabava de ver estava talvez no seu último dia, e que nunca mais encontraria aquele estranho durante a minha vida.

            Robert só estava aborrecido por eu não querer brilhar mais aos olhos de sua amante.

            - Ora vamos, este senhor que encontraste esta manhã e que mistura esnobismo e astronomia, conta-lhe, eu não me lembro bem e olhava-a com o rabo do olho.

            - Mas, meu filho, não há nada a dizer além do que já disseste. - És insuportável. Então conta coisas de Françoise nos Champs-Élysées; isso vai lhe agradar muito.

            - Ah sim. Bobbey me falou tanto de Françoise. - E, segurando Saint-Loup pelo queixo, repetiu, por falta de invenção, atraindo esse queixo para a luz: - Meus cumprimentos!

            Desde que os atores já não eram exclusivamente, para mim, os depositários, na dicção e no desempenho, de uma verdade artística, interessavam-me por si mesmos; divertia-me, julgando ter diante de mim os personagens de um velho romance cômico, em ver a ingênua ouvir distraidamente, no rosto novo de um jovem fidalgo que acabava de entrar na sala, a declaração que lhe fazia o jovem galã na peça, ao passo que este, no fogo intenso de sua tirada amorosa, não deixava de dirigir um olhar inflamado a uma velha senhora sentada num camarote vizinho, e cujas pérolas magníficas o tinham siderado; e assim, sobretudo graças às informações dadas por Saint-Loup acerca da vida privada dos artistas, eu via uma outra peça, muda e expressiva, representar-se por detrás da peça falada, a qual, aliás, apesar de medíocre, me interessava; pois nela sentia germinar e desabrochar, durante uma hora, à luz da ribalta feitas da aglutinação, sobre o rosto de um ator, de um outro rosto de pintura e papelão, as palavras de um papel sobre a sua alma pessoal -, essas individualidades vivazes e efêmeras que são as personagens de uma peça, igualmente sedutoras, que a gente ama, admira, lastima, e que desejaríamos voltar a encontrar ainda, tão logo deixamos o teatro, mas que já se desagregaram em um comediante que não tem mais a condição que tinha na peça, num texto que já não exibe o rosto do comediante, num pó colorido que o lenço desfaz, que, numa palavra, viraram elementos que nada mais têm deles, por causa de sua dissolução, consumidas logo após o encerramento do espetáculo, e que fazem, como a perda de um ente querido, duvidar da realidade do eu e meditar sobre o mistério da morte.

            Um número do programa me foi extremamente penoso. Uma moça, que Rachel e várias de suas amigas detestavam, devia fazer sua estréia cantando canções antigas, estréia na qual fundara todas as suas esperanças de futuro e as dos seus. Essa moça tinha um traseiro proeminente, quase ridículo, e uma voz bonita, mas muito débil, enfraquecida ainda pela emoção, e que contrastava com aquela musculatura possante. Rachel colocara na sala um certo número de amigos e amigas cujo papel era desconcertar a estreante com seus sarcasmos; sabiam que era tímida, e contavam fazê-la perder a cabeça de modo que ela fosse um total fiasco, após o que o diretor não lhe assinaria o contrato. Desde as primeiras notas da infeliz, alguns espectadores, recrutados para esse fim, começaram a apontar para as suas costas, rindo; algumas mulheres que participavam do complô riram bem alto, cada nota aflautada aumentava a hilaridade intencional que se transformava em escândalo. A infeliz, que suava de dor sob a maquilagem, tentou lutar por um momento; depois lançou a seu redor, sobre a assistência, olhares desolados, indignados, que só fizeram redobrar os apupos. O espírito de imitação, o desejo de se mostrarem espirituosas e atrevidas, fez com que belas atrizes, que não tinham sido prevenidas, entrassem no jogo, e lançavam às outras umas olhadelas de malévola cumplicidade, torciam-se de rir em violentas explosões, de modo que, no fim da segunda canção, e embora o programa anunciasse cinco, o diretor de cena fez baixar o pano. Esforcei-me para não pensar naquele incidente, como no sofrimento da minha avó quando meu tio-avô, para aborrecê-la, fazia meu avô beber conhaque, pois a idéia da malvadeza possuía, para mim, algo de muito doloroso. No entanto, assim como a piedade pela desgraça não é talvez muito exata, pois com a imaginação recriamos toda uma dor, pela qual o infeliz, obrigado a lutar contra ela, nem pensa em enternecer-se, do mesmo modo a malvadeza não tem provavelmente na alma do mau essa pura e voluptuosa crueldade que tanto mal nos faz só de imaginar. O ódio o inspira, a cólera lhe dá um ardor e uma atividade que nada têm de muito alegre; seria necessário sadismo para dele extrair prazer, e o malvado julga que é malvado aquele a quem faz sofrer. Rachel certamente imaginava que a atriz que ela fazia sofrer estava longe de ser interessante e, em todo caso, fazendo-a sofrer, achava que ela própria vingava o bom gosto e dava uma lição a uma colega ruim. Não obstante, preferi não falar daquele incidente, visto não ter tido nem a coragem nem o poder de impedi-lo; teria sido muito penoso para mim, falando bem da vítima, fazer assemelharem-se às satisfações da crueldade os sentimentos que animavam os carrascos daquela estreante.

            Mas o começo do espetáculo interessou-me de outra maneira. Fez-me compreender em parte a natureza da ilusão de que era vítima Saint-Loup em relação a Rachel e que colocara um abismo entre as imagens que nós dois tínhamos acerca de sua amante, quando a víamos naquela mesma manhã sob as pereiras em flor. Rachel representava um papel quase de simples figurante na pecinha. Porém, vista assim, era uma outra mulher. Possuía um desses rostos que o afastamento e não necessariamente o da platéia ao palco, sendo para isso o mundo apenas um teatro maior modela e que, vistos de perto, recaem em pá. Junto dela, não se via mais que uma nebulosa, uma via-láctea de sardas, pontinhos, e nada mais. A uma distância adequada, tudo aquilo deixava de ser visível e, das faces apagadas, reabsorvidas, erguia-se, como um crescente lunar, um nariz tão fino, tão puro, que a gente desejaria tornar-se objeto da atenção de Rachel, revê-la tanto quanto se quisesse, possuí-la junto de si, caso nunca a houvesse visto de outro modo e de perto. Não era a minha situação, mas a de Saint-Loup, quando a vira representar pela primeira vez. Então, perguntara-se como se aproximar dela, como conhecê-la, abrira-se nele todo um domínio maravilhoso aquele onde ela vivia do qual emanavam deliciosas radiações, mas onde não poderia penetrar. Saiu do teatro dizendo a si próprio que seria louco se lhe escrevesse, que ela não lhe responderia, pronto para dar sua fortuna e seu nome para a criatura que nele vivia em um mundo de tal forma superior a essas realidades por demais conhecidas, um mundo embelezado pelo desejo e pelo sonho, quando do teatro, velha construçãozinha que tinha ela mesma o aspecto de um cenário, viu à saída dos artistas, por uma porta, desembocar o grupo alegre e gentilmente enchapelado dos artistas que tinham representado. Pessoas jovens que os conheciam ali estavam a esperá-los. Sendo o número de peões humanos menor que o das combinações que podem formar, numa sala em que faltam todas as pessoas que a gente podia conhecer, encontra-se uma que nunca se julgaria ter ocasião de rever e que vem tão a propósito que o acaso parece providencial, ao qual, entretanto, um outro acaso substituiria se tivéssemos ido não àquele lugar, mas a outro, onde teriam nascido desejos diferentes e onde seria reencontrado outro velho conhecido para secundá-los. As portas de ouro do mundo dos sonhos tinham-se fechado de novo sobre Rachel antes que Saint-Loup a tivesse visto sair do teatro, de modo que as sardas e os sinaizinhos careceram de importância. Todavia lhe desagradaram, visto que, deixando de estar só, já não tinha o mesmo poder de sonhar que no teatro. Mas tal poder, embora já não o pudesse perceber, continuava a reger seus atos como esses astros que nos governam por sua atração, mesmo nas horas em que não são visíveis para nós. Assim, o desejo da comediante de finos traços, que nem mesmo estavam presentes na lembrança de Robert, fez com que, abordando o antigo colega que ali se achava por acaso, ele se fizesse apresentar à pessoa sem traços e com sardas, pois era a mesma, e dizendo consigo que mais tarde buscaria saber qual das duas essa mesma pessoa era na realidade. Ela estava apressada e, naquele momento, nem mesmo dirigiu a palavra a Saint-Loup, e só depois de vários dias é que ele pôde enfim, conseguindo que ela deixasse os companheiros, regressar em sua companhia. Ele já a amava. A necessidade de sonho, o desejo de ser feliz devido àquela com quem se sonhou fazem não ser necessário muito tempo para que a gente confie todas as oportunidades de ventura àquela que, alguns dias antes, não passava de uma aparição fortuita, desconhecida, indiferente, nos tablados do palco.

            Quando, descido o pano, passamos para o palco, intimidado por passear ali, quis falar vivamente com Saint-Loup; desse modo, minha atitude, como não soubesse qual a que devia tomar naqueles lugares novos para mim, seria totalmente monopolizada pela nossa conversa e pensariam que eu estava tão absorto nela, tão distraído, que achariam natural que eu não tivesse as expressões de fisionomia que deveria ter num lugar onde, atento a tudo o que eu mesmo dizia, mal sabia onde me achava; e apanhando, para sair mais depressa, o primeiro assunto da conversa:

            - Sabes, - disse a Robert - que fui te dizer adeus no dia da minha partida? Nunca tivemos oportunidade de falar a respeito. Cumprimentei-te na rua.

            - Nem me fales nisso. - respondeu ele -, fiquei entristecido. Encontramo-nos bem perto do quartel, mas não pude parar porque já estava muito atrasado. Garanto que estava desolado.

            Assim, ele me reconhecera! Revia eu ainda o cumprimento totalmente impessoal que me dirigira erguendo a mão ao quepe, sem um olhar que denunciasse que me conhecera, sem um gesto que manifestasse lastimar o fato de não poder parar. Evidentemente, essa ficção que adotara naquele momento, de não me reconhecer, devia lhe ter simplificado muitas coisas. Mas eu estava estupefato de que tivesse sabido adotá-la tão rapidamente e antes que um reflexo revelasse a sua primeira impressão. Já havia notado em Balbec que, ao lado dessa sinceridade ingênua do seu rosto, cuja pele deixava ver por transparência o brusco afluir de certas emoções, seu corpo fora admiravelmente treinado pela educação para determinado número de dissimulações de conveniência e que, como um perfeito comediante, podia, em sua vida de caserna, em sua vida mundana, desempenhar papéis diferentes, um após o outro. Num de seus papéis, ele gostava profundamente de mim, tratava-me quase como se eu fosse seu irmão; meu irmão ele o fora, voltara a sê-lo, mas por um instante tinha sido um outro personagem que não me conhecia e que, segurando as rédeas, monóculo no olho, sem um olhar nem um sorriso, erguera a mão à viseira do quepe para me dar corretamente a saudação militar!

            Os cenários ainda armados, entre os quais passava, vistos assim de perto, desprovidos de tudo o que lhes acrescentam o afastamento e a iluminação que o grande pintor que os executara havia calculado, eram miseráveis, e Rachel, quando me aproximei dela, não sofreu menor poder de destruição. As asas de seu nariz encantador tinham ficado na perspectiva, entre a platéia e o palco, bem como o relevo dos cenários. Já não era ela, só a reconhecia graças aos olhos, onde sua identidade se refugiara. A forma e o brilho desse jovem astro, tão fulgurante ainda há pouco, haviam desaparecido. Em compensação, como se nos aproximássemos da lua e ela deixasse de parecer-nos cor-de-rosa e ouro, naquele rosto tão igual momentos antes eu só distinguia protuberâncias, manchas, ravinas. Apesar da incoerência em que se resolviam de perto, não somente o rosto feminino mas as telas pintadas, sentia-me feliz por estar ali, por andar entre os cenários, todo esse quadro que outrora o meu amor à natureza me faria considerar tedioso e artificial, mas ao qual a sua pintura por Goethe no Wilhelm Meister me dera uma certa beleza; e já me sentia encantado por avistar, em meio aos jornalistas ou às pessoas da sociedade amigos das atrizes, que cumprimentavam, conversavam, fumavam, como se estivessem na cidade, um rapaz de touca de veludo negro, de saia hortênsia, as faces pintadas de lápis vermelho como uma página de álbum de Watteau, que, de boca risonha, os olhos voltados para o céu, esboçava sinais graciosos com as palmas das mãos, saltando de leve, parecia de tal maneira pertencer a uma espécie diferente das pessoas razoáveis de paletó e sobrecasaca, em meio às quais perseguia como um louco o seu sonho extasiado, tão alheio às preocupações de suas vidas, tão anterior aos hábitos de sua civilização, tão isento das leis da natureza, que era algo tão repousante e viçoso como ver uma borboleta extraviada na multidão, seguir com os olhos, entre os frisos, os arabescos naturais que ali traçava o seu folguedo alado, arrebicado e caprichoso. Mas, no mesmo instante, Saint-Loup imaginou que sua amante prestava atenção naquele dançarino, que ensaiava pela última vez uma figura da fantasia em que ia aparecer, e seu rosto voltou a ficar sombrio.

            - Poderias olhar para o outro lado. - disse-lhe soturnamente Robert. - Sabes que esses dançarinos não valem a corda a que fariam bem subir para quebrar o pescoço, e são pessoas capazes de irem se gabar depois que lhes deste confiança. Aliás, estás ouvindo muito bem que te dizem para ir ao camarim para te preparar. Vais chegar atrasada de novo.

            Três senhores três jornalistas -, vendo o jeito enfurecido de Saint-Loup, aproximaram-se, divertidos, para ouvir o que se dizia. E, como estavam armando um cenário do outro lado, ficamos apertados contra eles.

            - Oh, mas reconheço-o, é meu amigo! - exclamou a amante de Saint-Loup ao reparar no dançarino. - Como é bonito, olhem estas mãozinhas que dançam como todo o resto do corpo!

            O dançarino virou-se para ela e, sua pessoa humana aparecendo sob o silfo que ele se empenhava em ser, a gelatina precisa e cinzenta de seus olhos estremeceu e brilhou por entre as pestanas endurecidas e pintadas, e um sorriso prolongou-lhe a boca de ambos os lados na face coberta de pastel vermelho; depois, para divertir a moça, como uma cantora que cantarola por complacência a melodia em que lhe dissemos que a admirávamos, pôs-se a refazer o movimento de suas palmas, arremedando a si próprio com uma finura de pastichador e um bom humor de criança.

            - Oh, que gentileza a sua em imitar a si mesmo! - exclamou Rachel batendo palmas.

            - Rogo-te, minha filha. - disse-lhe Saint-Loup com voz desolada -, não te dês em espetáculo desse modo, tu me matas; juro que se dizes uma só palavra a mais, não te acompanho ao camarim e vou embora; vamos, não te faças de má. E não fiques assim, aspirando a fumaça do charuto; vai te fazer mal. - acrescentou ele, voltando-se para mim com aquela solicitude que me testemunhava desde Balbec.

            - Oh, que sorte se fores embora!

            - Previno-te que não voltarei mais.

            - Nem ouso esperá-lo.

            - Escuta, sabes, eu te prometi o colar se fosses gentil, mas já que me tratas deste modo...

            - Ah, eis uma coisa que não me espanta de tua parte. Fizeste uma promessa, e eu bem deveria ter imaginado que não haverias de cumpri-la. Queres alardear que tens dinheiro, mas não sou interesseira como tu. Não ligo para o teu colar. Tenho alguém que me poderá dá-lo.

            - Ninguém mais te poderá dar esse colar, pois eu o reservei na casa Boucheron e tenho a sua palavra de que o venderá somente a mim.

            - É isso mesmo, quiseste me prender, tomaste todas as precauções antecipadamente. É bem como se diz: Marsantes, Mater Semita, sente-se o cheiro da raça. - retrucou Rachel, repetindo uma etimologia fundada num grosseiro contra-senso, pois semita significa "senda" e não "semita", mas que os nacionalistas aplicavam a Saint-Loup devido às suas opiniões dreyfusistas, que no entanto ele devia à atriz. (Esta era menos indicada que ninguém para chamar de judia a Sra. de Marsantes, em quem os etnógrafos da sociedade nada podiam encontrar de judaico, a não ser o seu parentesco com os Lévy-Mimpoix.) - Mas nem tudo está liquidado, podes estar certo. Uma palavra dada em tais condições não tem nenhum valor. Agiste traiçoeiramente comigo. Boucheron vai saber disso e hão de lhe dar o dobro pelo colar. Fica tranqüilo que em breve terás notícias minhas.

            Robert tinha cem vezes razão. Mas as circunstâncias são sempre tão confusas que o que tem cem vezes razão pode não tê-la uma vez. E não pude evitar de me lembrar aquela frase desagradável, no entanto bem inocente, que ele dissera em Balbec:

            - Desse modo, tenho-a nas mãos.

            - Compreendeste mal o que disse a respeito do colar. Eu não o havia prometido de maneira formal. Do momento em que fazes tudo para que te deixe, entende, é muito natural que não te dê o colar; não percebo onde é que está a traição nesse caso, nem admito ser interesseiro. Não se pode dizer que eu faça alarde do meu dinheiro, digo-te sempre que sou um pobre-diabo sem tostão. Não procedes bem tomando as coisas por esse lado, minha filha. Em que eu sou interessado? Sabes muito bem que meu único interesse és tu.

            - Sim, sim, podes continuar. - disse ela ironicamente, esboçando o gesto de alguém que nos faz a barba. E voltando-se para o dançarino: - Ah, na verdade ele é assombroso com as mãos. Eu, que sou mulher, não poderia fazer o que ele faz e voltando-se para ele, mostrando-lhe as feições convulsivas de Robert:

            - Olha, ele está sofrendo. - disse baixinho, no momentâneo impulso de uma crueldade sádica, aliás sem qualquer relação com seus verdadeiros sentimentos de afeto por Saint-Loup.

            - Escuta, pela última vez, te juro que, por mais que faças, poderás sentir daqui a oito dias todos os remorsos do mundo, mas eu não voltarei; a taça está repleta, presta atenção, isto é irrevogável, um dia hás de te arrepender e será tarde demais.

            Talvez fosse sincero, e o tormento de abandonar a amante lhe parecia menos cruel que o de estar junto dela em determinadas condições.

            - Mas meu filho. - acrescentou, dirigindo-se a mim -, não fiques aí que vais começar a tossir.

            Mostrei-lhe o cenário que me impedia de mudar de lugar. Ele tocou de leve no chapéu e disse ao jornalista:

            - Senhor, pode jogar fora o charuto? O fumo faz mal ao meu amigo.

            A amante, sem esperá-lo, encaminhava-se para o camarote e, voltando-se:

            - Será que essas mãozinhas fazem a mesma coisa com as mulheres? - atirou ela ao dançarino do fundo do teatro, com uma voz artificialmente melodiosa e inocente de "ingênua".

            - Tu mesmo pareces uma mulher. Acho que seria possível fazer uma combinação entre ti e uma de minhas amigas.

            - Não é proibido fumar, que eu saiba; quando a gente está enfermo, deve ficar em casa. -disse o jornalista.

            O dançarino sorriu misteriosamente à atriz.

            - Oh, cala-te! Estás me deixando louca! - gritou ela.

            - Vais ver que coisas faremos.

            - Em todo caso, senhor, não é nada amável. - disse Saint-Loup ao jornalista, sempre em tom suave e cortês, com o ar de constatação de alguém que acaba de julgar, retrospectivamente, um incidente findo.

            Nesse momento, vi Saint-Loup erguer o braço verticalmente acima da cabeça, como se tivesse feito um sinal a alguém que eu não via, ou como um regente de orquestra, e de fato sem maior transição que, num simples gesto de batuta, numa sinfonia ou num balé, ritmos violentos se sucederam a um gracioso andante -, depois das palavras polidas que acabava de dizer, abateu a mão sobre a face do jornalista numa bofetada sonora.

            Agora que, às conversações cadenciadas dos diplomatas, às artes risonhas da paz, sucedera o ímpeto furioso da guerra, golpes chamando golpes, não ficaria muito espantado em ver os adversários banhando-se no próprio sangue. Mas o que não podia compreender (como as pessoas que não consideram ser justo que ocorra uma guerra entre dois países quando ainda só se pensou numa retificação de fronteiras, ou a morte de um doente quando apenas se cuidava de um tumor no fígado) era como Saint-Loup pudera fazer seguir, às palavras que apreciavam um matiz de amabilidade, um gesto que não provinha de modo algum delas, que elas não anunciavam, o gesto daquele braço erguido não só com desprezo pelo direito das gentes, mas pelo princípio de causalidade, numa geração espontânea de cólera, esse gesto criado ex nihilo. Felizmente o jornalista que, cambaleando ante a violência do golpe, empalidecera e hesitara por um momento, não reagiu. Quanto a seus amigos, um desviara logo a cabeça, observando com atenção, para o lado dos bastidores, alguém que evidentemente não se achava ali; o segundo fingiu que um cisco lhe entrara no olho e pôs-se a apertar as pálpebras com caretas de dor; quanto ao terceiro, saíra correndo a gritar:

            - Meu Deus, acho que vai subir o pano, vamos perder nossos lugares!

            Gostaria de falar com Saint-Loup, mas ele estava de tal modo cheio de sua indignação contra o dançarino, que esta vinha exatamente assomar-lhe à superfície das pupilas; como uma armadura interior, esticava-lhe as faces, de forma que sua agitação interior se traduzia por uma total imobilidade externa; ele não possuía nem mesmo o relaxamento, o "jogo" necessário para acolher uma palavra minha e a ela responder. Os amigos do jornalista, vendo que tudo estava terminado, voltaram para junto dele, ainda trêmulos. Mas, envergonhados por havê-lo abandonado, esforçavam-se absolutamente para que ele julgasse que não tinham notado coisa alguma. Assim, um dissertava sobre o cisco no olho, outro sobre o alarma falso que tivera ao pensar que subiam o pano, o terceiro sobre a extraordinária semelhança de uma pessoa que passara com seu irmão. E até lhe manifestaram um certo mau humor por não ter compartilhado de suas emoções.

            - Como, não reparou? Será que não enxerga bem?

            - Quer dizer que vocês todos são uns medrosos resmungou o jornalista esbofeteado.

            Inconseqüentes com a ficção que haviam adotado e devido à qual deveriam mas nem pensaram nisso fingir não compreender o que ele queria dizer, proferiram uma frase que é de tradição em tais circunstâncias:

            - Você está se exaltando. Calma! Parece até que tomou o freio nos dentes!

            Pela manhã eu havia compreendido, diante das pereiras em flor, em que ilusão se baseava o amor de Robert por "Rachel-quando-do-Senhor", mas igualmente percebia o que, pelo contrário, tinham de real os sofrimentos que nasciam desse amor. Aos poucos, a dor que ele estava sentindo há uma hora, sem parar, se retraiu, abrigou-se nele, e uma zona disponível e branda apareceu em seus olhos. Deixamos o teatro, Saint-Loup e eu, e primeiro caminhamos um pouco. Atrasei-me um tanto na esquina da avenida Gabriel, de onde muitas vezes via Gilberte chegar outrora. Durante alguns segundos tentei recordar essas impressões distantes e ia reunir-me a Saint-Loup a passo "ginástico", quando vi que um senhor muito mal vestido parecia falar-lhe de bem perto. Concluí que era um amigo pessoal de Robert; no entanto, eles pareciam se aproximar ainda mais um do outro; de súbito, como aparece no céu um fenômeno astral, vi corpos ovóides assumirem, com vertiginosa rapidez, todas as posições que lhes permitiriam compor, diante de Saint-Loup, uma constelação instável. Lançados como por uma funda, pareceram-me ser pelo menos em número de sete. Todavia, não eram senão os dois punhos de Saint-Loup, multiplicados por sua velocidade, mudando de lugar naquele conjunto aparentemente ideal e decorativo. Mas essa peça de artifício não passava de uma sova que Saint-Loup aplicava e cujo caráter agressivo, em vez de estético, me foi revelado primeiro pelo aspecto do senhor mediocremente vestido, o qual pareceu perder ao mesmo tempo toda compostura, um maxilar e muito sangue. Ele deu explicações mentirosas às pessoas que se aproximavam para interrogá-lo, virou a cabeça e, vendo que Saint-Loup se afastava definitivamente para se juntar a mim, ficou olhando-o com ar de rancor e abatimento, mas de modo algum furioso. Ao contrário, Saint-Loup o estava, embora não tivesse sofrido nenhum golpe, e seus olhos ainda brilhavam de cólera quando me alcançou. O incidente não se ligava em nada, conforme eu receara, às bofetadas do teatro. Era um passeante apaixonado que, vendo o belo militar que era Saint-Loup, fizera-lhe certas propostas. Meu amigo não se recobrava do assombro que lhe causara a audácia daquela "corja" que nem mesmo esperava as sombras da noite para se arriscar, e falava das propostas que lhe tinham sido feitas com a mesma indignação com que os jornais falam de um roubo a mão armada, ousado em pleno dia, num bairro central de Paris. Entretanto, o senhor espancado era desculpável nisto que um plano inclinado aproxima muito depressa demais o desejo do gozo para que a simples beleza já surja como um consentimento. Ora, que Saint-Loup fosse belo, isso era indiscutível. Murros como os que acabara de dar têm uma certa utilidade, para homens da espécie do que o abordara há pouco, no sentido de fazê-los refletir seriamente, mas durante bem pouco tempo, para que possam se corrigir e assim escapar aos castigos judiciais. Assim, embora Saint-Loup tivesse dado a surra sem pensar muito, todas as do mesmo gênero, mesmo que venham em auxílio das leis, não chegam a homogeneizar os costumes.

            Esses incidentes, e sem dúvida aquele em que mais pensava, decerto deram a Robert o desejo de ficar um pouco sozinho. Depois de um momento, pediu que nos separássemos e que eu fosse, de minha parte, à casa da Sra. de Villeparisis; ali se encontraria comigo, mas preferia que não entrássemos juntos, para parecer que acabava de chegar a Paris, em vez de dar a entender que já tínhamos passado juntos uma parte da tarde.

            Como havia suposto, antes de travar conhecimento com a Sra. de Villeparisis em Balbec, existia uma grande diferença entre o ambiente em que ela vivia e o da Sra. de Guermantes. A Sra. de Villeparisis era uma dessas mulheres que, nascidas numa casa gloriosa, e entrando pelo casamento em outra que não o era menos, todavia não desfrutam de uma grande posição social, e, fora algumas duquesas suas sobrinhas ou cunhadas, e mesmo uma ou duas cabeças coroadas, velhas relações de família, não têm em seu salão senão um público de terceira ordem, burguesia, nobreza de província ou deteriorada, cuja presença há muito afastou as pessoas elegantes e esnobes que não são obrigadas a comparecer por dever de parentesco ou de intimidade bem antiga. Por certo, ao cabo de alguns instantes não tive nenhuma dificuldade em compreender por que a Sra. de Villeparisis se achava, em Balbec, tão bem informada, e melhor que nós próprios, dos menores detalhes da viagem que meu pai fazia então pela Espanha com o Sr. de Norpois. Mas, apesar disso, não era possível deter-se à idéia de que a ligação, já de vinte anos, da Sra. de Villeparisis com o embaixador pudesse ser a causa da desclassificação da marquesa numa sociedade em que as mulheres brilhantes exibiam amantes menos respeitáveis que este, o qual, aliás, já não era para a marquesa, provavelmente há muito tempo, outra coisa que não um velho amigo. Tivera a Sra. de Villeparisis outras aventuras antigamente? Sendo então de um temperamento mais apaixonado que agora, numa velhice apaziguada e piedosa, que no entanto devia um pouco do seu colorido àqueles anos ardentes e consumidos, não quisera, na província onde vivera por muito tempo, evitar certos escândalos, desconhecidos das novas gerações, as quais apenas constatavam os seus efeitos pela composição misturada e defeituosa de um salão destinado, a não ser isso, a tornar-se um dos mais isentos de toda liga medíocre? Essa "má língua" que o sobrinho lhe atribuía acaso lhe valera inimigos naqueles tempos? Levara-a a aproveitar-se de certos êxitos junto aos homens para exercer vinganças contra mulheres? Tudo isso era possível; e não era a maneira requintada, sensível matizando tão delicadamente não só as expressões como as entonações -, com que a Sra. de Villeparisis falava do pudor e da bondade que poderia invadir semelhante hipótese; pois os que não só falam bem de certas virtudes, mas até lhes sentem o encanto e as compreendem às maravilhas, e saberão pintar, em suas memórias, uma digna imagem dela, provêm muitas vezes mas eles próprios não fazem parte da geração muda, frustrada e sem arte, que as praticou. Esta se reflete, porém não continua neles. Em vez do caráter que possuía a geração anterior, encontra-se nela uma sensibilidade e uma inteligência que não servem à ação. E, houvesse ou não, na vida da Sra. de Villeparisis, desses escândalos que o brilho de seu nome teria apagado, foi essa inteligência, uma inteligência quase de escritor de segunda ordem mais que de mulher da sociedade, certamente a causa de sua decadência mundana.

            Decerto eram qualidades muito pouco exaltantes, como a ponderação e a moderação, que a Sra. de Villeparisis principalmente pregava; mas, para falar da moderação de modo perfeitamente adequado, a moderação não basta e são necessários certos méritos de escritor que suponham uma exaltação pouco medida; eu notara em Balbec que o gênio de alguns grandes artistas permanecia incompreendido pela Sra. de Villeparisis, e que ela apenas sabia troçar deles com finura, e dar à sua incompreensão uma forma espirituosa e graciosa. Mas esse espírito e essa graça, no grau a que haviam chegado nela, tornavam-se eles mesmos em outro plano, e ainda que empregados para depreciar as mais altas obras verdadeiras qualidades artísticas. Ora, tais qualidades exercem em toda situação mundana uma ação mórbida eletiva, como dizem os médicos, e tão desagregadora que as mais solidamente assentadas mal podem lhes resistir alguns anos. O que os artistas chamam inteligência parece pretensão pura à sociedade elegante, a qual, incapaz de se pôr no único ponto de vista de onde eles julgam tudo, jamais compreendem a atração particular à qual cedem ao escolher uma expressão ou ao estabelecer uma aproximação e experimenta junto deles um cansaço e uma irritação, de onde bem depressa nasce a antipatia. Entretanto, em sua conversação, e o mesmo ocorre com as Memórias que foram editadas posteriormente, a Sra. de Villeparisis só mostrava uma espécie de graça totalmente mundana. Tendo abordado grandes coisas sem aprofundá-las, às vezes sem distingui-las, detivera apenas, dos anos que tinha vivido, e que aliás pintava com muito encanto e exatidão, o que tinham oferecido de mais frívolo. Mas uma obra, mesmo que se debruce exclusivamente sobre assuntos que não são intelectuais, ainda assim é uma obra da inteligência, e, para dar num livro, ou numa conversa que dele pouco difira, a impressão acabada da frivolidade, é preciso uma dose de seriedade de que seria incapaz uma pessoa inteiramente frívola. Em certas memórias escritas por uma mulher e consideradas obras-primas, determinada frase, citada como um modelo de graça leve, sempre me fez supor que, para chegar a essa leveza, a autora deveria ter possuído outrora uma ciência um tanto pesada, uma cultura rebarbativa, e que, quando jovem, provavelmente parecia às amigas uma literata pedante. E, entre certas qualidades literárias e o fracasso mundano, é tão necessária a conexão que, lendo hoje as Memórias da Sra. de Villeparisis, certo epíteto adequado, certas metáforas que se repetem bastarão ao leitor para que reconstitua, com seu auxílio, a saudação profunda, mas glacial, que deveria dirigir à velha marquesa, na escadaria de uma embaixada, uma esnobe como a Sra. Leroi, que talvez lhe deixasse um cartão ao ir à casa dos Guermantes, mas jamais punha os pés no seu salão, com receio de ali se desclassificar no meio de todas aquelas esposas de médicos ou de tabeliães. Literata pedante, talvez a Sra. de Villeparisis o tivesse sido na primeira juventude e, ébria então de seu saber, talvez não soubera conter, contra pessoas da sociedade menos inteligentes e instruídas que ela, os ditos mordazes que o atingido não esquece.

            Depois, o talento não é um apêndice postiço que se ajunta artificialmente a essas qualidades diversas que fazem ter êxito na sociedade, a fim de formar, com o todo, o que os mundanos denominam uma "mulher completa". Ele é o produto vivo de uma certa índole moral onde geralmente fazem falta muitas qualidades e onde predomina uma sensibilidade, com outras manifestações que não percebemos num livro e que podem se fazer sentir bem vivamente no curso da existência, como, por exemplo, certas curiosidades, certas fantasias, o desejo de ir aqui ou ali por seu próprio prazer e não no intento de aumentar, manter ou simplesmente fazer funcionar as relações mundanas. Eu vira em Balbec a Sra. de Villeparisis encerrada entre seus iguais e sem dar uma olhada às pessoas sentadas no saguão do hotel. Mas tivera o pressentimento de que tal abstenção não era por indiferença, e parece que nem sempre se instalara nela. Acontecia-lhe relacionar-se com este ou aquele indivíduo que não possuía nenhum título para ser recebido em sua casa, às vezes porque o julgara bonito, ou apenas porque lhe haviam dito que era divertido, ou porque lhe parecera diferente das pessoas que conhecia, as quais, àquela época em que não as apreciava ainda por julgar que jamais a abandonariam, pertenciam todas ao faubourg Saint-Germain. Tal boêmio, tal pequeno-burguês a quem havia distinguido, era ela obrigada a fazer convites, cujo valor ele não podia apreciar, com uma insistência que a desqualificava aos poucos aos olhos dos esnobes habituados a estimar um salão antes conforme as pessoas que a dona da casa exclui do que pelas pessoas que recebe. Certamente, se num dado momento da juventude a Sra. de Villeparisis, aborrecida com a satisfação de pertencer à fina flor da aristocracia, de alguma forma se divertira em escandalizar as pessoas entre as quais vivia, em desfazer deliberadamente a sua posição social, todavia começara a dar importância a essa posição depois que a perdera. Quisera mostrar às duquesas que valia mais que elas, dizendo e fazendo tudo o que elas não ousavam fazer nem dizer. Mas agora que estas, a não ser as de sua mais próxima intimidade, não mais compareciam à sua casa, ela sentia-se diminuída e desejava reinar ainda, mas de outra maneira que pelo espírito. Gostaria de atrair todas aquelas que tivera tanto empenho em afastar. Quantas vidas de mulheres, vidas aliás mal conhecidas (pois cada uma, de acordo com a idade, conheceu um mundo diferente, e a discrição dos velhos impede os jovens de formar uma idéia do passado e de abarcar todo o ciclo), foram assim divididas em períodos contrastantes, o último todo empenhado em reconquistar aquilo que no segundo fora tão alegremente lançado ao vento. Lançado ao vento de que modo? Os jovens tanto menos o imaginam por terem ante os olhos uma velha e respeitável marquesa de Villeparisis, e não fazem idéia de que a grave memorialista de hoje, tão digna sob sua peruca branca, pudesse ter sido outrora uma alegre consumidora que, nesse tempo, talvez fizesse as delícias e devorasse a fortuna de homens há muito deitados na sepultura. Que se tenha empenhado em desfazer, desse modo, com uma indústria natural e perseverante, uma posição social que recebera do berço insigne, não quer dizer aliás, de maneira nenhuma, que, mesmo nessa época recuada, a Sra. de Villeparisis não atribuísse grande valor à sua posição. Da mesma forma, o isolamento e a inação em que vive um neurastênico podem ser urdidos por ele da manhã à noite, sem por isso lhe parecerem suportáveis; e, ao passo que se apressa em acrescentar outra malha à rede que o mantém prisioneiro, é possível que sonhe unicamente com bailes, caçadas e viagens. Trabalhamos a todo instante para dar sua forma à nossa vida, mas copiando, malgrado nosso, como um desenho, os traços da pessoa que somos e não daquela que nos agradaria ser. Os cumprimentos desdenhosos da Sra. Leroi podiam exprimir, de algum modo, a verdadeira natureza da Sra. de Villeparisis, mas não correspondiam absolutamente aos seus desejos.

            Sem dúvida, no mesmo momento em que a Sra. Leroi, segundo uma expressão cara à Sra. Swann, "cortava" a marquesa, esta podia buscar consolo lembrando-se que um dia a rainha Maria Amélia lhe dissera: "Gosto de você como a uma filha." Mas essas amabilidades régias, secretas e ignoradas, só existiam, para a marquesa, cobertas de pó feito o diploma de um antigo primeiro prêmio do Conservatório. Os únicos reais lucros mundanos são os que geram vida, os que podem desaparecer sem que seu beneficiário tenha de procurar retê-los ou divulgá-los, porque no mesmo dia cem outros lhes sucederam. Lembrando-se dessas palavras da rainha, a Sra. de Villeparisis, no entanto, as teria de boa vontade trocado pelo perpétuo poder de ser convidada que a Sra. Leroi possuía, como, num restaurante, um grande artista desconhecido, e cujo gênio não está escrito nem nos traços da fisionomia tímida, nem no corte antiquado do casaco puído, bem que desejaria ser o jovem corretor do último degrau da sociedade, mas que almoça numa mesa vizinha com duas atrizes, e para quem, numa corrida obsequiosa e interminável, se apressam patrão, mordomo, garçons, moços de recados e até ajudantes de cozinheiro, que saem em desfile para cumprimentá-lo como nas féeries, enquanto avança o despenseiro, tão empoeirado como suas garrafas, ofuscado e de pernas tortas feito se, vindo da adega, tivesse torcido o pé antes de subir à claridade.

            No entanto, é preciso dizer que, no salão da Sra. de Villeparisis, a ausência da Sra. Leroi, se deixava desolada a dona da casa, passava despercebida aos olhos de um grande número de convidados. Ignoravam totalmente a situação particular da Sra. Leroi, conhecida apenas do mundo elegante, e não duvidavam que as recepções da Sra. de Villeparisis fossem, como hoje estão convencidos disso os leitores de suas Memórias, as mais brilhantes de Paris.

            Nessa primeira visita que, deixando Saint-Loup, fui fazer à Sra. de Villeparisis, segundo o conselho que o Sr. de Norpois havia dado a meu pai, encontrei-a em seu salão revestido de seda amarela, sobre a qual se desta cavam os canapés e as admiráveis poltronas de tapeçaria de Beauvais em uma cor rósea, quase violácea, de framboesas maduras. Ao lado dos retratos dos Guermantes, dos Villeparisis, viam-se ofertados pelo próprio modelo os da rainha Maria Amélia, da rainha dos belgas, do príncipe de Joinville e da imperatriz da Áustria. A Sra. de Villeparisis, com uma touca de rendas pretas do tempo antigo (que ela conservava com o mesmo instinto precavido de cor local ou histórica de um hoteleiro bretão que, por mais parisiense que tenha se tornado a sua freguesia, julga mais hábil que suas criadas conservem as toucas e as mangas largas), estava sentada a uma pequena escrivaninha, onde, à sua frente, ao lado de seus pincéis, de sua palheta e de uma principiada aquarela de flores, havia, em copos, em pires, em taças, rosas espumosas, zínias, cabelos-de-vênus, que, devido à afluência das visitas naquele momento, ela deixara de pintar e que davam a impressão de atrair fregueses para o balcão de uma florista, em alguma estampa do século XVIII. Naquele salão, ligeiramente aquecido de propósito porque a marquesa se resfriara ao voltar do castelo, havia, dentre as pessoas presentes quando cheguei, um arquivista com quem a Sra. de Villeparisis havia classificado, pela manhã, as cartas autografadas de personalidades históricas a ela endereçadas e que estavam destinadas a figurar em fac símiles como peças justificativas nas Memórias que ela estava redigindo, e um historiador solene e intimidado que, tendo sabido que ela possuía por herança um retrato da duquesa de Montmorency, viera lhe pedir licença para reproduzi-lo em uma prancha de sua obra sobre a Fronda, visitantes a que se veio juntar meu antigo colega Bloch, agora jovem autor dramático, com quem a marquesa contava para conseguir-lhe de graça os artistas que tocariam em suas próximas reuniões matinais. É verdade que o caleidoscópio social estava prestes a mudar e que o caso Dreyfus ia precipitar os judeus para o último degrau da escala social. Mas, por um lado, por mais que rugisse o ciclone dreyfusista, não é no começo de uma tempestade que as ondas atingem sua maior violência. E, além disso, a Sra. de Villeparisis, deixando uma parte inteira de sua família esbravejar contra os judeus, permanecera até então inteiramente alheia ao Caso Dreyfus e não se preocupava com ele. Por fim, um rapaz como Bloch, que ninguém conhecia, podia passar despercebido, enquanto os grandes judeus representativos de seu partido já estavam ameaçados. Bloch ostentava agora o queixo pontuado por uma barba de "bode", usava óculos, uma longa sobrecasaca e uma luva, feito um papiro, na mão. Os romenos, os egípcios e os turcos podem detestar os judeus. Mas, num salão francês, as diferenças entre esses povos não são perceptíveis, e um israelita, fazendo sua entrada como se saísse do fundo do deserto, o corpo inclinado como uma hiena, a nuca baixada obliquamente e se espalhando em grandes salões, satisfaz inteiramente um certo gosto de orientalismo. Para isto, unicamente, é preciso que o judeu não pertença à "sociedade", sem o que ele toma facilmente o aspecto de um lorde, e suas maneiras ficam de tal forma afrancesadas que, nele, o nariz rebelde, que aumenta, como as capuchinhas, nas direções mais imprevistas, antes faz pensar no nariz de Mascarilho que no de Salomão. Porém Bloch, não tendo sido "maleabilizado" pela ginástica do faubourg, nem enobrecido por um cruzamento com a Inglaterra ou a Espanha, permanecia, para um amador de exotismo, tão estranho e saboroso de se olhar, apesar da sua roupa européia, como um judeu de Decamps. Admirável força da raça que, do fundo dos séculos, impele até a moderna Paris, nos corredores de nossos teatros, por trás dos guichês de nossas repartições, num enterro, na rua, uma falange intacta, que, estilizando o penteado moderno, absorvendo, fazendo esquecer e disciplinando a sobrecasaca, em suma continua sendo idêntica à dos escribas assírios que, pintados em trajes de cerimônia na frisa de um monumento de Susa, defendem as portas do palácio de Dario. (Uma hora mais tarde, Bloch ia imaginar que era por má vontade anti-semita que o Sr. de Charlus se informava se ele tinha prenome judeu, quando era simplesmente por curiosidade estética e amor à cor local.) Mas, além disso, falar da permanência de raças dá inexatamente a idéia de que somos herdeiros dos judeus, dos gregos, dos persas, de todos esses povos aos quais será melhor deixar sua variedade. Pelas pinturas antigas, conhecemos o rosto dos antigos gregos, vimos assírios no frontão de um palácio de Susa. Ora, quando encontramos na sociedade alguns orientais que pertencem a este ou àquele grupo racial, parece que estamos em presença de criaturas que a força do espiritismo teria feito aparecer. Conhecíamos apenas uma imagem superficial; eis que ela assumiu uma profundidade, estende-se pelas três dimensões, move-se. A jovem dama grega, filha de um rico banqueiro, e agora na moda, parece uma dessas figurantes que, num balé a um tempo histórico e estético, simbolizam a arte helênica em carne e osso; e no teatro ainda, a cenografia banaliza tais imagens; ao contrário, o espetáculo a que nos faz assistir a entrada de uma turca ou de um judeu no salão, animando as figuras, torna-as mais estranhas, como se de fato se tratasse de seres evocados por esforço mediúnico. É a alma (ou antes, o pouco a que ela se reduz, pelo menos até aqui, nesse tipo de materialização), é a alma, entrevista antes por nós apenas nos museus, a alma dos gregos antigos, dos antigos judeus, arrancada a uma vida ao mesmo tempo insignificante e transcendental, que parece executar à nossa frente essa mímica desconcertante. Na jovem dama grega que se esquiva, o que em vão desejaríamos abraçar é uma figura outrora admirada nos flancos de um vaso. Parecia-me que, se tivesse tirado clichês de Bloch, à luz do salão. da Sra. de Villeparisis, eles teriam dado aquela mesma imagem que nos mostram as fotografias espíritas, tão perturbadora por não parecer emanar da humanidade, tão decepcionante porque mesmo assim se assemelha demais à humanidade. De um modo geral, mesmo a nulidade das frases ditas pelas pessoas em meio às quais vivemos nos dá a impressão do sobrenatural no nosso pobre mundo de todos os dias, onde até um homem de gênio, de quem esperamos, reunidos como ao redor de uma mesa giratória, o segredo do infinito, pronuncia apenas estas palavras as mesmas que acabavam de sair dos lábios de Bloch:

            - Tenham cuidado com a minha cartola.

            - Meu Deus, os ministros, meu caro senhor, - estava dizendo a Sra. de Villeparisis, dirigindo-se mais particularmente ao meu antigo camarada e retomando o fio de uma conversação que a minha chegada havia interrompido -, ninguém queria vê-los. Por pequenina que eu fosse, lembro-me ainda do rei pedindo a meu avô que convidasse o Sr. Decazes para uma festa em que meu pai devia dançar com a duquesa de Berry. - Dar-me-ia prazer, Florimond dizia o rei. Meu avô, que era um tanto surdo, tendo entendido Sr. de Castries, achou muito natural o pedido. Quando compreendeu que se tratava do Sr. Decazes, teve um instante de revolta, mas inclinou-se e escreveu na mesma noite ao Sr. Decazes, pedindo que lhe fizesse o favor e a honra de comparecer ao seu baile que se daria na semana seguinte. Pois era-se cortês naqueles tempos, senhor, e uma dona de casa não saberia se limitar a enviar seu cartão sem acrescentar por escrito: "uma taça de chá" ou "chá dançante" ou "chá musical". Mas, se se conhecia a polidez, igualmente não se ignorava a impertinência. O Sr. Decazes aceitou, mas, na véspera do baile, todos souberam que meu avô, sentindo-se adoentado, havia cancelado a festa. Obedecera ao rei, mas não tivera o Sr. Decazes no seu baile... Sim, senhor, lembro-me muito bem do Sr. Molé; era um homem de espírito, e o provou quando recebeu o Sr. de Vigny na Academia, mas era em extremo solene, e o vejo ainda descendo para jantar em sua casa com a cartola na mão.

            - Ah, é bem evocativo de um tempo tão perniciosamente filisteu, pois, sem dúvida, tratava-se de um hábito universal estar de chapéu na mão em casa. - disse Bloch, desejoso de aproveitar aquela ocasião tão rara para instruir-se, junto a uma testemunha ocular, acerca das particularidades da vida aristocrática de antigamente, enquanto o arquivista, espécie de secretário intermitente da marquesa, lançava a esta olhares enternecidos e parecia nos dizer:

            "Eis como ela é, ela sabe tudo, conheceu todo mundo, podem interrogá-la sobre o que quiserem, ela é extraordinária."

            - De modo algum. - respondeu a Sra. de Villeparisis, trazendo para mais perto de si o copo onde estavam mergulhados os cabelos-de-vênus que dali a pouco voltaria a pintar -, era apenas um hábito do Sr. Molé. Nunca vi meu pai de chapéu em casa, exceto, é claro, quando o rei aparecia, pois, como o rei em toda parte está em casa, o dono da casa é apenas um visitante em seu próprio salão.

            - Aristóteles nos diz, no capítulo II... - ousou o Sr. Pierre, o historiador da Fronda, mas de modo tão tímido que ninguém lhe prestou atenção. Atingido desde algumas semanas por insônias nervosas que resistiam a todos os tratamentos, ele já não se deitava e, quebrado pela fadiga, só saía quando seus trabalhos exigiam que se deslocasse. Incapaz muitas vezes de recomeçar as expedições tão simples para os outros, mas que lhe custavam tanto como se, para realizá-las, tivesse que descer da lua, surpreendia-se com freqüência ao ver que a vida de cada um não estava organizada de modo permanente a dar o máximo de rendimento aos bruscos impulsos da sua. Às vezes, encontrava fechada uma biblioteca que só tinha ido ver postando-se artificialmente de pé e numa casaca, como um personagem de Wells. Felizmente, encontrara a Sra. de Villeparisis em casa e ia ver o retrato.

            Bloch lhe cortou a palavra.

            - Na verdade, - disse ele, respondendo ao que a Sra. de Villeparisis acabara de dizer a respeito do protocolo que regulava as visitas reais -, eu não sabia absolutamente nada disso (como se fosse estranho que o não soubesse).

            - A propósito desse tipo de visitas, sabe da brincadeira estúpida que me fez na manhã de ontem o meu sobrinho Basin? - perguntou a Sra. de Villeparisis ao arquivista. - Em vez de se anunciar, mandou dizer-me que era a rainha da Suécia que desejava me ver.

            - Ah, ele lhe mandou dizer isso sem mais nem menos? É boa! - exclamou Bloch, rebentando numa gargalhada, enquanto o historiador sorria com majestosa timidez.

            - Estava muito espantada, pois fazia poucos dias que regressara do campo; para ter um pouco de sossego, recomendara que não dissessem a ninguém que me encontrava em Paris, e me indagava como a rainha da Suécia já o soubera. - continuou a Sra. de Villeparisis, deixando os convivas espantados de que uma visita da rainha da Suécia não fosse por si só nada de anormal para a anfitriã.

            Decerto que, se de manhã a Sra. de Villeparisis tinha compulsado com o arquivista a documentação de suas Memórias, naquele momento ensaiava sem querer seu mecanismo e sortilégio sobre um público mediano, representativo daquele em que se recrutariam os seus leitores um dia. O salão da Sra. de Villeparisis podia diferenciar-se de um salão verdadeiramente elegante, de que estariam ausentes muitas das burguesas que ela recebia e onde, em compensação, se veriam algumas das damas brilhantes que a Sra. Leroi acabara por atrair, mas essa nuança não era perceptível em suas Memórias, de onde desaparecem certas relações medíocres que tivera a autora, pois não têm ocasião de serem citadas; e aí não fazem falta visitantes inexistentes, porque, no espaço forçosamente restrito que as Memórias oferecem, podem figurar poucas pessoas, e, se tais pessoas são personalidades principescas, históricas, acha-se alcançada a impressão máxima de elegância que algumas Memórias podem fornecer ao público. No entender da Sra. Leroi, o salão da Sra. de Villeparisis era um salão de terceira categoria; e a Sra. de Villeparisis sofria com o julgamento da Sra. Leroi. Mas hoje quase ninguém mais sabe quem era a Sra. Leroi, seu julgamento se desfez, e é o salão da Sra. de Villeparisis, que a rainha da Suécia freqüentava, e que fora freqüentado pelo duque de Aumale, pelo duque de Broglie, por Thiers, Montalembert, pelo Monsenhor Dupanloup, que será considerado como um dos mais brilhantes do século XIX por essa posteridade que não mudou desde os tempos de Homero e de Píndaro, e para quem a posição invejável é a de nascimento nobre, real ou quase real, a amizade dos reis, dos líderes do povo, dos homens ilustres.

            Ora, de tudo isto a Sra. de Villeparisis tinha um pouco em seu salão atual e nas recordações, às vezes retocadas de leve, e com auxílio das quais ela o prolongava no passado. Além disso, o Sr. de Norpois, que não era capaz de refazer uma posição sólida para a amiga, em compensação lhe trazia estadistas estrangeiros ou franceses que precisavam dele e sabiam que a única maneira eficaz de cortejá-lo era freqüentar a casa da Sra. de Villeparisis. Talvez a Sra. Leroi também conhecesse essas eminentes personalidades européias. Mas, como mulher agradável e que se esquiva ao tom das pretensiosas, ela evitava falar da questão do Oriente aos primeiros-ministros, tanto quanto da essência do amor aos romancistas e aos filósofos.

            - O amor? - dissera uma vez em resposta a uma dama pretensiosa que a interrogara:

            "- Que pensa do amor?"

            - O amor? Faço-o muitas vezes, mas nunca falo sobre ele.

            Quando tinha em sua casa celebridades literárias e políticas, contentava-se, como a duquesa de Guermantes, em fazê-las jogar pôquer. Com freqüência, eles gostavam mais disto que das grandes conversas sobre idéias gerais a que os constrangia a Sra. de Villeparisis. Porém, tais conversações, talvez ridículas na sociedade, forneceram às "Lembranças" da Sra. de Villeparisis alguns desses trechos excelentes, dessas dissertações políticas que ficam muito bem nessas Memórias, como em tragédias à moda de Corneille. Aliás, apenas os salões das Sras. de Villeparisis podem passar à posteridade porque as Sras. Leroi não sabem escrever e, mesmo que soubessem, não teriam tempo para tal. E, se as disposições literárias das Sras. de Villeparisis são o motivo do desdém das Sras. Leroi, por sua vez o desdém destas serve singularmente às disposições literárias das Sras. de Villeparisis, proporcionando às damas literatas o lazer que a carreira das letras exige. Deus, que quer que haja alguns livros bem escritos, inspira para tanto esses desdéns ao coração das Sras. Leroi, pois sabe que, se elas convidassem as Sras. de Villeparisis para jantar, estas largariam imediatamente os seus estúdios e mandariam atrelar as carruagens para as oito horas.

            Após um instante entrou, a passo lento e solene, uma velha dama de alta estatura e que, sob o chapéu de palha de aba erguida, entremostrava um penteado monumental à maneira de Maria Antonieta. Eu não sabia então que se tratava de uma das três mulheres que ainda era possível observar na sociedade parisiense, e que, como a Sra. de Villeparisis, sendo de alto berço, tinham sido reduzidas, por motivos que se perdiam na noite dos tempos, e que só poderia ter-nos dito algum velho distinto daquela época, a receber apenas pessoas que ninguém mais desejava acolher em outro lugar. Cada uma dessas damas tinha a sua "duquesa de Guermantes", sua sobrinha brilhante que vinha lhe pagar suas obrigações, mas que não seria capaz de atrair à sua casa a "duquesa de Guermantes" das outras duas. A Sra. de Villeparisis era muito ligada a essas três damas, mas não gostava delas. Talvez a situação destas, tão análoga à sua, lhe mostrasse uma imagem que não lhe era nada agradável. E depois, azedas, literatas, procurando, pela quantidade de sainetes que faziam representar, dar a si mesmas a ilusão de um salão, tinham entre si rivalidades que uma fortuna bastante arruinada no decurso de uma vida pouco tranqüila, forçando-as a buscar, a desfrutar do concurso gratuito de um artista, transformava numa espécie de luta pela vida. Além do mais, a dama do penteado à Maria Antonieta, cada vez que via a Sra. de Villeparisis, não podia evitar pensar que a duquesa de Guermantes não ia às suas recepções das sextas. Seu consolo era que a essas sextas jamais faltava, como boa parenta, a princesa de Poix, que era a sua Guermantes, e que nunca ia à casa da Sra. de Villeparisis, embora a Sra. de Poix fosse amiga íntima da duquesa.

            Todavia, do palácio do cais Malaquais aos salões da rua de Tournon, da rua de Ia Chaise e do faubourg Saint-Honoré, um laço tão forte quanto detestado uma as três divindades decaídas, das quais bem que eu gostaria de saber, folheando algum dicionário mitológico da sociedade, que aventura galante, que petulância sacrílega, havia causado a punição. A mesma origem brilhante, a mesma decadência atual, colaborava talvez muito em tal necessidade que as impelia, ao mesmo tempo, a se odiarem e a se freqüentarem. E, depois, cada uma encontrava nas outras um modo cômodo de fazer finezas aos visitantes. Como é que estes não julgariam penetrar no faubourg mais fechado quando eram apresentados a uma dama de grandes títulos, cuja irmã havia desposado um duque de Sagan ou um príncipe de Ligne? Tanto que se falava infinitamente mais na imprensa desses pretensos salões do que dos verdadeiros. Mesmo os sobrinhos grã-finos, a quem um camarada pedia que o apresentassem na sociedade (Saint-Loup em primeiro lugar), diziam:

            "Vou levá-lo à casa da minha tia Villeparisis ou da minha tia X; é um salão interessante." Eles sabiam principalmente que isto lhes daria menos trabalho do que fazer penetrar os tais amigos em casa das sobrinhas ou cunhadas elegantes dessas damas. Os homens muito idosos, as moças que o tinham sabido por eles, disseram-me que essas velhas damas não eram recebidas devido ao desregramento incrível de sua conduta, a qual, quando objetei que isso não era um impedimento à elegância, me foi apresentada como tendo ultrapassado todas as proporções conhecidas hoje. O mau procedimento daquelas damas solenes, que se mantinham sentadas e bem direitas, adquiria, na boca dos que tocavam no assunto, algo que eu não podia imaginar, proporcional à grandeza das épocas pré-históricas, à Idade do Mamute. Em resumo, aquelas três Parcas de cabelos brancos, azuis ou cor-de-rosa tinham contribuído para a ruína de um número incalculável de senhores. Eu pensava que os homens de hoje exagerassem os vícios daqueles tempos fabulosos, como os gregos que formaram Ícaro, Teseu e Hércules com homens pouco diferentes dos que muito tempo depois os divinizaram. Mas só se faz a soma dos vícios de uma criatura quando esta já não está em condições de praticá-los, e quando, pela enormidade do castigo social, que principia a cumprir-se e que é só o que se pode constatar, medimos, imaginamos e exageramos a do crime cometido. Nessa galeria de figuras simbólicas que é a "sociedade", as mulheres verdadeiramente levianas, as Messalinas completas, apresentam sempre o aspecto solene de uma dama de pelo menos setenta anos, altaneira, que recebe a quantos pode, mas não a quem deseja, a cuja casa não admitem ir as mulheres cuja conduta se presta um pouco a falatórios, e à qual o Papa dá sempre a sua "rosa de ouro", e que às vezes escreveu acerca da juventude de Lamartine uma obra premiada pela Academia Francesa.

            - Bom dia, Alix. - disse a Sra. de Villeparisis à dama de penteado branco à Maria Antonieta, a tal dama lançava um olhar penetrante sobre a assembléia a fim de ver se não havia naquele salão algo que pudesse ser útil para o seu e que, em tal caso, deveria descobrir por si mesma, pois a Sra. de Villeparisis, sem dúvida, seria bastante maligna para tentar ocultá-lo. Assim é que a Sra. de Villeparisis teve grande cuidado de não apresentar Bloch à velha dama, com receio de que ela fizesse representar o mesmo sainete da sua casa na mansão do cais Malaquais. Com isso, aliás, estava pagando na mesma moeda. Pois a velha dama tivera na véspera em sua casa a Sra. Ristori, que recitara versos, e fora cuidadosa no sentido de que a Sra. de Villeparisis, a quem havia furtado a artista, ignorasse o fato até que estivesse consumado. Para que esta não soubesse do caso pelos jornais, e não ficasse ofendida, vinha ela mesma contá-lo como se não se sentisse culpada. A Sra. de Villeparisis, julgando que minha apresentação não oferecia os mesmos inconvenientes da de Bloch, pôs-me em presença da Maria Antonieta do cais. Esta, fazendo o mínimo de movimentos possível, buscando na velhice aquela linha de deusa de Coysevox que tinha, há muitos anos, encantado a juventude elegante e que falsos homens de letras celebravam agora em rimas forçadas tendo aliás adquirido o hábito do empertigamento altaneiro e compensatório, comum a todas as pessoas a quem uma desgraça particular obriga permanentemente a dar o primeiro passo -, inclinou levemente a cabeça com majestade glacial e, virando-se para o outro lado, não se ocupou mais de mim, como se eu nunca tivesse existido. Sua atitude de duplo objetivo parecia dizer à Sra. de Villeparisis:

            "Veja que mais uma ou outra relação é algo a que não dou nenhuma importância, e que os rapazinhos sob nenhum ponto de vista, sua linguaruda não me interessam."

            Mas quando, um quarto de hora depois, ela se retirou, aproveitando-se da balbúrdia, segredou-me ao ouvido que comparecesse na sexta-feira seguinte ao seu camarote, onde estaria com uma das três, cujo nome fulgurante aliás ela mesma nascera Choiseul me causou um efeito prodigioso.

            - Senhor, creio que deseja escrever algo sobre a Sra. duquesa de Montmorency. - disse a Sra. de Villeparisis ao historiador da Fronda, com esse ar rabugento de que, sem querer, sua grande amabilidade se franzia devido às rugas de aborrecimento, ao despeito fisiológico da velhice, bem como pela afetação de imitar o tom quase camponês da antiga aristocracia. - Vou lhe mostrar o seu retrato, o original da cópia que está no Louvre.

            Ela se ergueu, pousando os pincéis perto de suas flores, e o pequeno avental, que então apareceu à sua cintura e que ela usava para não se sujar com as cores, aumentava ainda mais a impressão quase de uma camponesa que lhe davam o boné e as grossas lentes dos óculos, e contrastava com o luxo de seus empregados, do mordomo que trouxera o chá e os doces, do lacaio de libré a quem tocou a campainha, chamando-o para que iluminasse o retrato da duquesa de Montmorency, abadessa de um dos mais célebres cabidos do Oriente. Todos tinham se levantado.

            - O engraçado, - disse ela - é que nesses cabidos em que nossas tias-avós eram freqüentemente abadessas, as filhas do rei da França não teriam sido admitidas. Eram cabidos extremamente fechados.

            - Não admitidas as filhas do rei; e por quê? - indagou Bloch, estupefato.

            - Mas é porque a Casa da França já não possuía bastantes quartéis de nobreza, desde que fez casamentos desiguais.

            O espanto de Bloch ia aumentando.

            - Casamentos desiguais na Casa da França? Como assim?

            - Aliando-se aos Médicis, ora. - respondeu a Sra. de Villeparisis no tom mais natural. - O retrato é belo, não? E num estado perfeito de conservação. - acrescentou.

            - Minha querida amiga. - disse a dama penteada à Maria Antonieta -, deve lembrar-se de que, quando lhe trouxe Liszt, ele lhe disse que este é que era a cópia.

            - Eu me inclinarei diante de uma opinião de Liszt sobre música, mas não sobre pintura! Além do mais, ele já estava caducando e eu não me lembro de que tenha dito isto alguma vez. Mas não foi você quem me trouxe Liszt. Já tinha jantado umas vinte vezes com ele na casa da princesa de Sayn-Wittgenstein.

            O golpe de Alix falhara; ela calou-se, permanecendo de pé e imóvel. Corri camadas de pó emplastando-lhe o rosto, este parecia um rosto de pedra. E, como o perfil era nobre, ela se assemelhava, sobre o pedestal triangular e musgoso oculto pelo mantelete, à deusa estragada de um parque.

            - Ah, eis ainda um outro belo retrato. - disse o historiador.

            A porta se abriu e a duquesa de Guermantes entrou.

            - Alô, bom-dia. - disse-lhe a Sra. de Villeparisis sem mover a cabeça, tirando de um bolso do avental uma mão que estendeu à recém-chegada; e logo deixando de se ocupar dela para se dirigir ao historiador. - É o retrato da duquesa de La Rochefoucauld...

            Um jovem criado de ar arrogante e rosto encantador (mas cortado tão rente para ficar perfeito que seu nariz estava um tanto vermelho e a pele ligeiramente inflamada, como se conservassem traços da recente e escultural incisão) entrou trazendo um cartão numa salva.

            - É aquele senhor que já veio várias vezes para ver a Sra. marquesa.

            - Disse-lhe que eu recebia?

            - Ele ouviu as conversas.

            - Pois bem, faça-o entrar. É um senhor que me apresentaram. - disse a Sra. de Villeparisis. - Disse-me que muito desejava ser recebido aqui. Nunca o autorizei a vir. Mas enfim, são já cinco vezes que ele se incomoda, não convém constranger as pessoas. Senhor. - disse-me ela e o senhor acrescentou, designando o historiador da Fronda -, apresento-lhes a minha sobrinha, a duquesa de Guermantes.

            O historiador inclinou-se profundamente, bem como eu, e, julgando que esse cumprimento devia ser seguido por uma reflexão cordial, seus olhos se animaram e ele se preparava para abrir a boca, porém gelou-o o aspecto da Sra. de Guermantes, que aproveitara a independência de seu torso para lançá-lo adiante com uma polidez exagerada e retraí-lo com justeza, sem que sua fisionomia e seu olhar parecessem ter notado que havia alguém diante deles; depois de ter soltado um leve suspiro, limitou-se a manifestar a nulidade da impressão que lhe produziam a vista do historiador e a minha, executando certos movimentos das narinas com uma precisão que atestava a inércia absoluta de sua atenção ociosa.

            Entrou o visitante inoportuno, encaminhando-se diretamente para a Sra. de Villeparisis com ar ingênuo e fervoroso; era Legrandin.

            - Fico-lhe muito grato por me receber, senhora. - disse ele, sublinhando a palavra muito; - é um prazer de qualidade totalmente rara e sutil que dá a um velho solitário, asseguro-lhe que sua repercussão...

            Parou de repente, ao me ver.

            - Eu estava mostrando a este senhor o belo retrato da duquesa de La Rochefoucauld, esposa do autor das Máximas; veio-me de família.

            Quanto à Sra. de Guermantes, cumprimentou Alix desculpando-se por não ter podido ir visitá-la naquele ano como nos anteriores.

            - Tive notícias suas por meio de Madeleine. - acrescentou.

            - Ela almoçou comigo esta manhã. - disse a marquesa do cais Malaquais, com a satisfação de pensar que a Sra. de Villeparisis jamais poderia dizer outro tanto.

            Nesse meio tempo, eu conversava com Bloch e, receando, pelo que me tinham dito acerca da mudança do pai a seu respeito, que invejasse a minha vida, disse-lhe que a sua devia ser mais feliz. Tais palavras eram de minha parte um simples efeito da amabilidade. Mas elas convencem facilmente de sua boa sorte aqueles que têm muito amor-próprio, ou lhes dão o desejo de convencer os outros disso.

            - Sim, de fato levo uma vida deliciosa. - disse-me Bloch com ar de beatitude. - Tenho três grandes amigos, nem desejaria um outro a mais, uma amante adorável, sou infinitamente feliz. Raro é o mortal a quem o pai Zeus concede tantas venturas.

            Acho que, principalmente, procurava elogiar a si próprio e fazer-me sentir inveja. Talvez também houvesse algum desejo de originalidade em seu otimismo. Ficou evidente que não queria responder as mesmas banalidades de todos:

            "Oh, não foi nada, etc." quando, à minha pergunta "Esteve bonita?", a propósito de uma matinê dançante dada em sua casa, e à qual eu não pudera comparecer, respondeu num tom igual e indiferente, como se se tratasse de outra pessoa:

            - Claro que sim, foi muito bonita, não podia ser melhor. Foi de fato deslumbrante.

            - Isso que a senhora nos informa é infinitamente interessante para mim. - disse Legrandin à Sra. de Villeparisis -, pois exatamente dizia comigo outro dia que a senhora marquesa possuía muito dele na viva nitidez das frases, nesse algo que designarei com dois termos contraditórios, a rapidez lapidar e a imortal instantaneidade. Gostaria, esta noite, de tomar nota de todas as coisas que a senhora diz; mas poderei retê-las. Elas são amigas da memória, de acordo com uma frase de Joubert, creio. Nunca leu Joubert? Oh, a senhora marquesa lhe agradaria tanto! Nesta mesma noite me permitiria enviar-lhe suas obras, com muito orgulho de lhe apresentar o seu espírito. Ele não possuía a força da senhora marquesa. Mas era dotado também de muita graça.

            Desejaria ir logo cumprimentar Legrandin, mas ele se mantinha constantemente o mais possível afastado de mim, sem dúvida esperando que eu não ouvisse as lisonjas que, com grande refinamento de expressão, não deixava de dirigir à Sra. de Villeparisis. Ela fez pouco caso, sorrindo, como se ele estivesse gracejando, e voltou-se para o historiador:

            - E esta aqui é a famosa Marie de Rohan, duquesa de Chevreuse, que casou em primeiras núpcias com o Sr. de Luynes.

            - Minha querida, a Sra. de Luynes me faz lembrar Yolande; ela foi ontem lá em casa e, se eu soubesse que a sua vesperal não estava ocupada por ninguém, teria mandado buscá-la. A Sra. Ristori, que chegou de improviso, disse diante da autora uns versos da rainha Carmen Sylva; eram de uma beleza!

            "Que perfídia!" pensou a Sra. de Villeparisis. - "Certamente era nisso que estava falando baixinho, outro dia, à Sra. de Beaulaincourt e à Sra. de Chaponay." - Eu estava livre respondeu. - Ouvi a Sra. Ristori nos seus bons tempos; hoje não passa de uma ruína. E depois, detesto os versos de Carmen Sylva. A Ristori veio aqui uma vez, trazida pela duquesa de Aosta, recitar um canto do Inferno de Dante. Aí é que ela é incomparável.

            Alix suportou o golpe sem fraquejar. Permanecia de mármore. Seu olhar era penetrante e vazio, o nariz nobremente recurvo. Mas uma face se escamava. Vegetações leves, estranhas, verdes e róseas, invadiam o queixo. Talvez um inverno mais a derrubasse.

            - Olhe, senhor, se gosta de pintura, observe o retrato da Sra. de Montmorency. - disse a Sra. de Villeparisis a Legrandin, para interromper os cumprimentos que recomeçavam.

            Aproveitando o fato de que ele se afastara, a Sra. de Guermantes o designou à tia com um olhar irônico e interrogativo.

            - É o Sr. Legrandin disse a Sra. de Villeparisis a meia voz. - Tem uma irmã que se chama Sra. de Cambremer, o que aliás não deve lhe dizer mais do que a mim.

            - Como, mas conheço-a perfeitamente! - exclamou a Sra. de Guermantes pondo a mão diante da boca. - Ou melhor, não a conheço; mas não sei o que deu em Basin, que encontra o marido sabe Deus onde, e diz a essa mulheraça que venha visitar-me. Não posso nem dizer o que foi essa visita. Ela me contou que fora a Londres, enumerou-me todos os quadros do British. Aqui

como me vê, ao sair de sua casa, vou deixar um cartão na casa desse monstro. E não que seja coisa das mais fáceis, pois, sob o pretexto de estar agonizante, encontra-se sempre em casa; e, tanto faz visitá-la às sete horas da noite ou às nove da manhã, ela está pronta a nos oferecer torta de morangos. Está claro que é mesmo um monstro. - continuou a Sra. de Guermantes diante de um olhar interrogativo da tia. - É uma pessoa impossível; ela diz "plumitivo" e coisas assim.

            - O que quer dizer "plumitivo"? - indagou a Sra. de Villeparisis à sobrinha.

            - Não faço a menor idéia! - exclamou a duquesa com raiva fingida. - Nem quero saber. Não falo esse tipo de francês. - E, vendo que a tia não sabia de fato o que significava "plumitivo", para ter a satisfação de mostrar que era sábia tanto quanto purista, e para troçar da tia depois de haver troçado da Sra. de Cambremer: - Claro que sim. - disse com um meio-sorriso reprimido pelos restos do mau humor afetado -, todo mundo sabe disso, um plumitivo é um escritor, é alguém que se utiliza de uma pena. Mas é uma palavra horrível. É de fazer cair os dentes do siso. Jamais me obrigarão a dizer isto. Com que então, é o irmão dela! Ainda não tinha percebido. Mas no fundo não é incompreensível. Ela tem a mesma humildade de esteira de cama, os mesmos recursos de biblioteca ambulante. É tão bajuladora, tão enfadonha como ele. Começo a perceber bem esse parentesco.

            - Sente-se, vai-se tomar um pouco de chá. - disse a Sra. de Villeparisis à Sra. de Guermantes -; sirva-se você mesma, não precisa ver os retratos de suas tataravós, conhece-os tão bem quanto eu.

            A Sra. de Villeparisis voltou em breve para sentar-se e pôs-se a pintar. Todos se aproximaram; aproveitei para ir ao encontro de Legrandin e, não achando nada de culposo em sua presença na casa da Sra. de Villeparisis, disse-lhe, sem imaginar o quanto iria a um tempo feri-lo e fazê-lo acreditar na intenção de o ferir:

            - Muito bem, senhor, estou quase desculpado de estar num salão, visto que o encontro aqui. - O senhor Legrandin concluiu dessas palavras (pelo menos foi esse o juízo que fez de mim alguns dias depois) que eu era uma criaturinha essencialmente má que só se agradava do mal.-Você poderia ter a delicadeza de começar por me cumprimentar. - respondeu-me ele, sem me estender a mão e num tom de voz enraivecido e vulgar que não lhe imaginava e que, sem qualquer relação racional com o que ele dizia de costume, possuía uma outra mais imediata e impressionante com algo que estava sentindo. É que, como estamos sempre ocultando o que sentimos, nunca pensamos no modo pelo qual o expressaríamos. E, de repente, é um animal imundo e desconhecido que se faz ouvir em nós e cujo acento às vezes pode causar medo a quem recebe essa confidência involuntária, elíptica e quase irresistível de nosso defeito ou de nosso vício, como o causaria a súbita confissão, indireta e estranhamente proferida por um criminoso que não pudesse deixar de confessar um assassinato do qual não o sabíamos culpado. Decerto, eu bem sabia que o idealismo, mesmo subjetivo, não impede que grandes filósofos continuem sendo gulosos ou que se apresentem tenazmente à Academia. Mas na verdade Legrandin não precisava lembrar tão amiúde que pertencia a um outro planeta, quando todos os seus movimentos convulsivos de cólera ou de amabilidade eram governados pelo desejo de obter uma boa posição social neste.

            - Naturalmente, quando me perseguem vinte vezes seguidas para que eu vá a um certo lugar continuou em voz baixa -, conquanto eu tenha direito à minha liberdade, não posso todavia proceder como um grosseirão.

            A Sra. de Guermantes se assentara. Seu nome, como era seguido pelo título, ajuntava à pessoa física o seu ducado, que se projetava a seu redor e fazia reinar a frescura sombria e dourada dos bosques de Guermantes no meio do salão, em torno ao tamborete em que ela estava. Apenas sentia-me espantado de que a semelhança não fosse mais legível no rosto da duquesa, que nada possuía de vegetal e onde, quando muito, as sardas que, parece, deveriam estar brasonadas pelo nome de Guermantes - eram o efeito mas não a imagem de longas cavalgadas ao ar livre. Mais tarde, quando a duquesa se me tornou indiferente, cheguei a conhecer muitas de suas particularidades, e notadamente (a fim de me ater no momento àquilo cujo encanto já sofria sem que o soubesse então distinguir) seus olhos, onde está preso, como num quadro, o céu azul de uma tarde francesa, largamente descoberto, banhado de luz mesmo quando ela não brilhava; e uma voz que se julgaria, pelos primeiros sons enrouquecidos, quase canalha, onde se arrastava, como pelos degraus da igreja de Combray, ou pela pastelaria da praça, o ouro preguiçoso e fértil de um sol provinciano. Mas, neste primeiro dia, eu não distingui coisa alguma; minha atenção ardente volatilizava de imediato o pouco que pudesse ter recolhido e onde poderia ter encontrado algo relativo ao nome de Guermantes. Em todo caso, dizia comigo que era mesmo ela quem designava para todo mundo o nome da duquesa de Guermantes: a vida inconcebível que este nome significava, continha-a de fato aquele corpo; ele acabava de introduzi-la no meio de seres diversos, naquele salão que a rodeava de todos os lados e sobre o qual ela exercia uma reação tão viva que eu supunha ver, no ponto onde essa vida deixava de alongar-se, uma franja de efervescência a delimitar-lhe as fronteiras; na circunferência que a saia de pequim azul recortava sobre o tapete, e nas claras pupilas da duquesa, na intersecção dos problemas, das lembranças, do pensamento incompreensível, depreciativo, divertido e curioso que as povoavam, e das imagens estranhas que aí se refletiam. Talvez tivesse ficado menos impressionado se a encontrasse em casa da Sra. de Villeparisis em uma vesperal, em vez de vê-la assim num dos "dias" da marquesa, num desses chás que, para as mulheres, não passam de uma curta parada no meio da sua saída e onde, conservando o chapéu com que acabam de fazer compras, trazem à série de salões a qualidade do ar de fora e dão mais claridade a Paris no fim da tarde do que as altas janelas abertas por onde se ouve o rolar das vitórias: a Sra. de Guermantes estava com um chapéu de palha ornado de acianos; e o que essas flores me evocavam não era, sobre as trilhas de Combray onde muitas vezes as colhera, sobre a ladeira rente à sebe de Tansonville, os sóis dos anos de outrora; era o odor e a poeira do crepúsculo, tais como há pouco ainda estavam, no momento em que a Sra. de Guermantes acabara de atravessá-los, na rua de La Paix. Com ar risonho, desdenhoso e vago, os lábios apertados num rito, ela, com a ponta da sombrinha, como se com a extrema antena de sua vida misteriosa, desenhava círculos no tapete; depois, com essa atenção indiferente que principia por eliminar todo ponto de contato entre o que a gente considera e o próprio eu, seu olhar se fixava alternadamente em cada um de nós, depois inspecionava os canapés e as poltronas, porém suavizando-se então com aquela simpatia humana que desperta a própria presença insignificante de uma coisa que se conhece, de uma coisa que é quase uma pessoa; aqueles móveis não eram como nós, pertenciam vagamente ao seu mundo, estavam ligados à vida de sua tia; depois, do móvel de Beauvais aquele olhar se voltava para a pessoa que nele estava sentada, e então retomava o mesmo ar de perspicácia e de desaprovação que o respeito da Sra. de Guermantes pela tia a teria impedido de exprimir, mas enfim que ela teria sentido se houvesse percebido sobre as poltronas, em vez da nossa presença, a de uma mancha de graxa ou de uma camada de pó.

            O excelente escritor G*** entrou; vinha fazer à Sra. de Villeparisis uma visita que julgava um suplício. A duquesa, que se mostrou encantada em revê-lo, no entanto não lhe fez nenhum sinal, mas, com toda a naturalidade, ele se chegou para junto dela, visto que o encanto da duquesa, seu tato, sua simplicidade, faziam-na ser considerada uma mulher de espírito. Aliás, mandava a polidez que fosse falar com ela, pois, como ele era agradável e famoso, a Sra. de Guermantes o convidava seguidamente para almoçar, mesmo a sós com ela e o marido, ou, no outono, em Guermantes, se aproveitava dessa intimidade para convidá-lo algumas noites para jantar com altezas curiosas de conhecê-lo. Pois a duquesa gostava de receber certos homens de elite, porém sob a condição de que fossem solteiros, condição que, mesmo casados, eles preenchiam sempre para ela, pois, como suas mulheres, sempre mais ou menos vulgares, destoariam num salão onde só havia as mais elegantes beldades de Paris, eram sempre convidados sem elas; e o duque, para prevenir toda e qualquer suscetibilidade, explicava a esses viúvos forçados que a duquesa não recebia mulheres, não suportava a sociedade das mulheres, quase como se fosse por ordens do médico e como se este dissesse que ela não podia permanecer num quarto onde houvesse cheiros, comer coisas excessivamente salgadas, viajar no último vagão ou usar colete. É verdade que esses grandes homens viam, na casa dos Guermantes, a princesa de Parma, a princesa de Sagan (a quem Françoise, ouvindo sempre falar dela, acabou por chamá-la, crendo que esse feminino era exigido pela gramática, de A Sagana), e muitas outras, mas a sua presença era justificada dizendo-se que pertenciam à família, ou eram amigas de infância que não se podia eliminar. Convencidos ou não pelas explicações que o duque de Guermantes lhes dera sobre a singular enfermidade da duquesa de não poder freqüentar mulheres, os grandes homens as transmitiam às esposas. Algumas pensavam que a doença não passava de um pretexto para ocultar o seu ciúme, pois a duquesa queria ser a única a reinar sobre uma corte de adoradores. Mais ingênuas ainda, outras pensavam que talvez a duquesa fosse um tipo singular, até mesmo com um passado escandaloso, que as mulheres não desejavam ir à casa dela, e que ela dava um nome de sua fantasia à necessidade. As melhores, ouvindo os maridos dizerem maravilhas do espírito da duquesa, achavam que esta era tão superior ao resto das mulheres que se aborrecia na sua sociedade, pois as mulheres não sabem falar de nada. E é verdade que a duquesa se aborrecia junto das mulheres quando a sua qualidade principesca não lhes emprestava um interesse especial. Mas as esposas eliminadas se enganavam ao imaginar que a Sra. de Guermantes não queria receber senão homens para poder falar de literatura, ciência e filosofia. Pois nunca falava disso, ao menos com os grandes intelectuais. Se, em virtude da mesma tradição de família que faz com que as filhas dos grandes militares conservem, em meio às suas mais vaidosas preocupações, o respeito às coisas do exército, ela, neta de mulheres que tinham sido ligadas a Thiers, Mérimée e Augier, pensava que, antes de tudo, é preciso guardar em seu salão um espaço para as pessoas de espírito, mas, por outro lado, mantivera, da maneira a um tempo condescendente e íntima com que esses homens eram recebidos em Guermantes, o costume de considerar as pessoas de talento como relações familiares, cujas qualidades não ofuscam e a quem não se fala de suas obras, o que aliás não lhes interessaria. E, além disso, o gênero de espírito de Mérimée, e de Meilhac e Halévy, que era o seu, a conduzia, por contraste com o sentimentalismo verbal de uma época anterior, a um tipo de conversação que rejeita tudo aquilo que se exprime em frases altissonantes e demonstra sentimentos elevados, e fazia com que ela exibisse uma espécie de elegância, quando estava com um poeta ou um músico, em só falar dos pratos que comiam ou dos jogos de cartas que iam praticar. Semelhante abstenção apresentava, para um terceiro que não estivesse ao corrente da coisa, algo de perturbador que chegava ao mistério. Se a Sra. de Guermantes lhe perguntava se desejaria ser convidado junto com determinado poeta célebre, ele comparecia à hora marcada, devorado de curiosidade. A duquesa falava ao poeta sobre o tempo que estava fazendo. Passavam à mesa.

            - Gosta desse modo de preparar os ovos? perguntava ela ao poeta.

            Diante de sua aquiescência, de que ela compartilhava, pois tudo o que fosse de sua casa lhe parecia delicioso, até mesmo uma cidra detestável que mandava vir de Guermantes:

            - Torne a servir ovos ao senhor. - ordenava ao mordomo, enquanto o terceiro, ansioso, esperava sempre o que o poeta e a duquesa tinham a se dizer, visto que, apesar de mil dificuldades, haviam conseguido uma forma de se ver antes da partida do poeta. Mas a refeição continuava, os pratos eram levados uns após outros, não sem fornecer à Sra. de Guermantes a ocasião de gracejos espirituosos ou de finas historietas. Entretanto, o poeta comia sempre sem que o duque ou a duquesa parecessem lembrar que ele era poeta. E logo o jantar acabava, e as pessoas se despediam sem ter dito uma palavra da poesia que, no entanto, todos apreciavam, mas da qual ninguém falava, devido a uma reserva análoga àquela da qual Swann me dera a antecipação. Essa reserva era simplesmente de bom gosto. Mas, para o terceiro, se refletisse um pouco a respeito, tinha ela algo de muito melancólico, e as refeições do círculo dos Guermantes faziam então pensar nessas horas que namorados tímidos passam muitas vezes juntos, falando de banalidades até o instante de se separarem, e sem que, seja por timidez, pudor ou falta de jeito, tenham podido passar do coração aos lábios o grande segredo que ficariam tão felizes em confessar. Aliás, cumpre acrescentar que tal silêncio guardado sobre coisas profundas, cujo momento de serem abordadas sempre se espera em vão, se podia passar como característico da duquesa, nela não era absoluto. A Sra. de Guermantes tinha passado a juventude num ambiente um pouco diverso, também aristocrático, porém menos brilhante e sobretudo menos fútil que o daquele em que hoje vivia, e de grande cultura. Este deixara à sua frivolidade atual uma espécie de tufo mais sólido, invisivelmente nutritivo, e onde a própria duquesa ia buscar (muito raramente, pois detestava o pedantismo) alguma citação de Victor Hugo ou de Lamartine que, muito bem adequada, dita com um olhar sentido de seus belos olhos, não deixava de surpreender e de encantar. Às vezes até, sem pretensões, com pertinência e simplicidade, ela dava a um dramaturgo acadêmico um conselho sagaz, fazia com que atenuasse uma situação ou modificasse um desfecho.

            Se, no salão da Sra. de Villeparisis, tanto como na igreja de Combray, eu custava a encontrar no rosto bonito e por demais humano da Sra. de Guermantes o desconhecido de seu nome, pensava ao menos que, quando ela falasse, sua conversação, profunda, misteriosa, teria uma estranheza de tapeçaria medieval, de vitral gótico. Mas, para que eu não me decepcionasse com as palavras que ouviria pronunciar a uma pessoa que se chamava Sra. de Guermantes, mesmo que não a amasse, não bastaria que tais palavras fossem delicadas, belas e profundas; seria necessário que refletissem aquele tom de amaranto da última sílaba de seu nome, aquela cor que, desde o primeiro dia, eu me espantava por não encontrar em sua pessoa, e que eu fizera refugiar-se no seu pensamento. Decerto eu já ouvira a Sra. de Villeparisis, Saint-Loup, pessoas cuja inteligência nada apresentava de extraordinário, pronunciarem sem precauções esse nome de Guermantes, simplesmente como sendo o de uma pessoa que chegaria de visita ou com quem iam jantar, não parecendo sentir nesse nome terrenos de bosques amarelecidos e todo um misterioso recanto de província. Mas isto devia ser uma afetação da parte deles, como quando os poetas clássicos não nos advertem das profundas intenções que no entanto tiveram, afetação que eu também me esforçava por imitar, dizendo no tom mais natural: a duquesa de Guermantes, como um nome que se assemelhasse a outros. Além disso, todos asseguravam que se tratava de uma mulher muito inteligente, de conversação espirituosa, vivendo num grupinho dos mais interessantes: palavras que se faziam cúmplices do meu sonho. Pois, quando diziam "grupo inteligente", "conversação espirituosa", o que imaginava não era, de modo algum, a inteligência tal como eu a conhecia, mesmo que fosse a dos maiores espíritos, não era de forma alguma de pessoas como Bergotte que eu compunha aquele grupo. Não; por inteligência, eu entendia uma faculdade inefável, dourada, impregnada de um frescor silvestre. Mesmo enunciando as coisas mais inteligentes (no sentido em que empregava o vocábulo "inteligente", quando se tratava de um filósofo ou de um crítico), a Sra. de Guermantes teria talvez decepcionado ainda mais a minha expectativa de uma faculdade tão especial, do que se, numa conversação insignificante, ela se limitasse a falar de receitas culinárias ou do mobiliário do castelo, se restringisse a citar nomes de vizinhos ou de parentes seus, que me tivessem evocado a sua vida.

            - Pensava encontrar Basin aqui, ele planejava vir vê-la. - disse a Sra. de Guermantes à tia.

            - Não vejo o seu marido há vários dias. - respondeu a Sra. de Villeparisis num tom suscetível e amuado. - Não o vi, ou melhor, quem sabe uma vez, desde aquela graçola encantadora de se fazer anunciar como a rainha da Suécia.

            Para sorrir, a Sra. de Guermantes apertou os cantos da boca feito se tivesse mordido o véu.

            - Jantamos ontem com ela na casa de Blanche Leroi, a senhora não a reconheceria; ela se tornou enorme, tenho certeza de que está doente.

            - Estava justamente dizendo a estes senhores que você achava que ela se parecia com uma rã.

            A Sra. de Guermantes fez ouvir uma espécie de som rouco, o que indicava que ela troçava por desencargo de consciência.

            - Não sabia que tinha feito esta linda comparação, mas, nesse caso, agora foi a rã que conseguiu tornar-se tão grande como o boi. Ou melhor, não é precisamente isto, porquanto toda a sua corpulência se acumulou no ventre; é antes uma rã em estado interessante.

            - Ah, acho engraçada a sua imagem. - disse a Sra. de Villeparisis, que, no fundo, diante dos visitantes, tinha muito orgulho do espírito da sobrinha.

            - Ela é principalmente arbitrária. - replicou a Sra. de Guermantes, destacando com ironia o epíteto escolhido, como o teria feito Swann -, pois confesso jamais ter visto uma rã grávida. Em todo caso, essa rã, que aliás não pede rei, pois nunca a vi tão brincalhona como depois da morte do marido, deve ir jantar lá em casa um dia, na próxima semana. Eu disse que, de qualquer modo, avisaria a senhora.

            A Sra. de Villeparisis deixou ouvir uma espécie de resmungo indistinto.

            - Sei que ela jantou anteontem na casa da Sra. de Mecklembourg. - acrescentou. - Lá estava Hannibal de Bréauté. Ele veio contar-me tudo, devo dizer, aliás, que com muita graça.

            - Nesse jantar havia alguém ainda mais espirituoso que Babal. - disse a Sra. de Guermantes, que, por mais íntima que fosse do Sr. de Bréauté-Consalvi, fazia questão de mostrá-lo chamando-o por esse diminutivo. - Era o Sr. Bergotte.

            Eu não imaginara que Bergotte pudesse ser tido como espirituoso; ademais, ele me parecia como que mesclado à humanidade inteligente, quer dizer, infinitamente distante daquele reino misterioso que eu havia percebido sob os véus de púrpura de uma frisa, e onde o Sr. de Bréauté, fazendo rir a duquesa, mantinha com ela, na língua dos deuses, esta coisa inimaginável: uma conversação entre pessoas do faubourg Saint-Germain. Fiquei aflito ao ver romper-se o equilíbrio e Bergotte passar por cima do Sr. de Bréauté. Sobretudo, porém, o que me desesperou foi ter evitado Bergotte na noite da Fedra, não ter ido ao seu encontro, quando ouvi a Sra. de Guermantes dizer à Sra. de Villeparisis:

            - É a única pessoa que tenho vontade de conhecer. - acrescentou a duquesa, em quem sempre se podia ver, como no momento de uma maré espiritual, o fluxo de uma curiosidade em relação a intelectuais famosos cruzando-se com o reflexo do esnobismo aristocrático. - Isso me daria muito prazer!

            A presença de Bergotte a meu lado, presença que me teria sido tão fácil de conseguir, mas que eu pensara pudesse dar má idéia de mim à Sra. de Guermantes, teria sem dúvida tido como resultado, ao contrário, que a duquesa me chamasse ao seu camarote para me pedir que levasse um dia o grande escritor para almoçar.

            - Parece que ele não tem sido muito amável; apresentaram-no ao Sr. de Cobourg e ele não lhe disse uma só palavra. - acrescentou a Sra. de Guermantes, assinalando esse traço curioso como se contasse que um chinês se assoara com papel. - Não lhe disse uma só vez "Monsenhor" continuou, divertida por esse detalhe, tão importante para ela como a recusa, por um protestante, durante uma audiência do Papa, de se pôr de joelhos diante de Sua Santidade.

            Interessada por essas particularidades de Bergotte, não dava, aliás, a impressão de achá-las censuráveis, parecendo antes considerá-las um mérito, sem que soubesse exatamente de que tipo. Apesar desse modo estranho de compreender a originalidade de Bergotte, sucedeu-me posteriormente não julgar de todo desprezível o fato de que a Sra. de Guermantes, para grande espanto de muitos, achasse Bergotte mais espirituoso que o Sr. de Bréauté. Tais julgamentos subversivos, isolados e, apesar de tudo, justos, são assim levados à sociedade por algumas raras pessoas superiores às outras. E nela desenham os primeiros delineamentos da hierarquia de valores tal como será estabelecida pela geração seguinte, em vez de prender-se eternamente à antiga.

            O conde de Argencourt, encarregado dos Negócios da Bélgica e primo em terceiro grau por casamento da Sra. de Villeparisis, entrou coxeando, seguido logo de dois rapazes, o barão de Guermantes e Sua Alteza o duque de Châtellerault, a quem a Sra. de Guermantes disse:

            - Bom-dia, meu pequeno Châtellerault. - com um ar distante e sem se erguer do tamborete, pois era uma grande amiga da mãe do jovem duque, o qual, por causa disso e desde a infância, sentia enorme respeito por ela. Altos e esguios, de pele e cabelos dourados, inteiramente do tipo Guermantes, esses dois rapazes davam a idéia de uma condensação da luz primaveril e vesperal que inundava o grande salão. Conforme um hábito que estava na moda na ocasião, puseram a cartola no chão, a seu lado. O historiador da Fronda pensou que estivessem constrangidos, como um camponês quando entra na Prefeitura e não sabe o que fazer do chapéu. Julgando dever vir caridosamente em auxílio do jeito canhestro e da timidez que lhes atribuía, disse-lhes:

            - Não, não as coloquem no chão; assim vão estragá-las.

            Um olhar do barão de Guermantes, tornando oblíquo o plano de suas pupilas, derramou-lhes de súbito uma cor de um tom azul cru e cortante que gelou o benévolo historiador.

            - Como se chama este senhor? - perguntou-me o barão, que acabara de ser-me apresentado pela Sra. de Villeparisis.

            - Sr. Pierre. - respondi a meia voz.

            - Pierre de quê?

            - Pierre é o seu sobrenome; é um historiador de muito mérito.

            - Bem, se o senhor o diz...

            - Não, é um hábito novo que têm estes senhores de pôr os chapéus no chão. - explicou a Sra. de Villeparisis -; sou como o senhor, não consigo habituar-me. Mas prefiro assim do que o que faz o meu sobrinho Robert, que sempre deixa o seu na antecâmara. Quando o vejo entrar assim, digo-lhe que parece o relojoeiro e pergunto se veio acertar os pêndulos.

            - Falava_ há pouco, senhora marquesa, do chapéu do Sr. Molé; em breve chegaremos a fazer, como Aristóteles, um capítulo sobre os chapéus disse o historiador da Fronda, um tanto sossegado pela intervenção da Sra. de Villeparisis, mas com voz ainda tão fraca que ninguém, a não ser eu, o ouviu.

            - Ela é verdadeiramente espantosa, a duquesinha. - disse o Sr. de Argencourt, mostrando a Sra. de Guermantes que conversava com G. - Desde que haja um homem em evidência no salão, está sempre a seu lado. É claro que quem se acha ali só pode ser o sumo pontífice. Não pode ser todos os dias o Sr. de Borelli, Schlumberger ou d'Avenel. Mas então será o Sr. Pierre Loti ou o Sr. Edmond Rostand. Ontem à tarde, na casa dos Doudeauvilles, onde, de passagem, ela estava esplêndida sob um diadema de esmeraldas, num longo vestido rosado de cauda, tinha de um lado o Sr. Deschanel e do outro o embaixador da Alemanha: discutia com eles sobre a China; o grosso do público, a distância respeitosa, e que não ouvia o que eles estavam dizendo, se perguntava se haveria guerra. Na verdade, dir-se-ia uma rainha que se dirigisse a seus cortesãos.

            Todos se aproximaram da Sra. de Villeparisis para vê-la pintar.

            - Estas flores são de um tom róseo verdadeiramente celeste. - disse Legrandin -; quero dizer, da cor do céu róseo. Pois existe um róseo celeste como há um azul celeste. Porém murmurou, para tentar ser ouvido somente pela marquesa -, creio que me inclino mais para o róseo sedoso, para o encarnado vivo da cópia que a senhora faz. Ah! A senhora deixa muito para trás o Pisanello e Van Huysum, com seu herbário minucioso e morto.

            Um artista, por mais modesto que seja, aceita sempre ser preferido aos rivais e cuida apenas de lhes fazer justiça.

            - O que lhe dá essa impressão é que eles pintavam flores daquele tempo, que já não conhecemos, mas possuíam grande técnica.

            - Ah, flores daquele tempo! Como é engenhoso! - exclamou Legrandin.

            - Com efeito, a senhora pinta belas flores de cerejeira... ou de rosas de maio disse o historiador da Fronda, não sem hesitação quanto à flor, mas com segurança na voz, pois começava a esquecer o incidente dos chapéus.

            - Não, são flores de macieira. - disse a duquesa de Guermantes, dirigindo-se à tia.

            - Ah, vejo que é uma camponesa; como eu, você sabe distinguir as flores.

            - Ah, sim; é verdade! Mas julgava que o tempo das macieiras já havia passado. - disse ao acaso o historiador da Fronda, para se desculpar.

            - Não, pelo contrário, elas ainda não estão floridas, só daqui a quinze dias, talvez três semanas. - disse o arquivista, o qual, administrando até certo ponto as propriedades da Sra. De Villeparisis, estava mais a par das coisas do campo.

            - Sim, e ainda nos arredores de Paris, onde estão muito adiantadas. Na Normandia, por exemplo, na casa de seu pai - disse a marquesa, designando o duque de Châtellerault -, que possui magníficas macieiras à beira-mar, como num biombo japonês, elas só estão de fato cor-de-rosa depois de 26 de maio.

            - Não as vejo nunca -disse o jovem duque- porque me provocam a febre do feno; é incrível.

            - Febre do feno. Nunca ouvi falar nisso. disse o historiador.

            - É a doença da moda. - disse o arquivista.

            - Depende. Talvez não lhe desse nada se fosse um ano de maçãs. Conhece o ditado dos normandos: "Para um ano em que houver maçãs" - disse o Sr. de Argencourt que, não sendo inteiramente francês, procurava dar-se ares de parisiense.

            - Tem razão. - respondeu a Sra. de Villeparisis à sobrinha -; são macieiras do Sul. Foi uma florista que me enviou esses ramos, pedindo que os aceitasse. Espanta-o, senhor Valleneres -disse ela voltando-se para o arquivista - que uma florista me mande ramos de macieira? Mas, apesar de ser uma velha dama, conheço muita gente, tenho alguns amigos - acrescentou sorrindo por simplicidade, como geralmente acreditaram, mas antes, na minha opinião, porque achava picante envaidecer-se da amizade de uma florista quando dispunha de tão elevadas relações.

            Bloch se ergueu para ir, por sua vez, admirar as flores que a Sra. de Villeparisis estava pintando.

            - Não importa, marquesa - disse o historiador voltando à sua cadeira -, mesmo que ocorresse de novo uma dessas revoluções que têm tão freqüentemente ensangüentado a história da França e, meu Deus, nos tempos em que vivemos, nunca se sabe - acrescentou, lançando um olhar circunspecto em torno, como para ver se não achava algum "mau pensador" no salão, embora não o esperasse -, com um talento como o seu e falando cinco línguas, a senhora poderia sempre estar segura de se livrar de apertos.

            O historiador da Fronda gozava de um certo repouso, pois havia esquecido suas insônias. Mas se lembrou de repente que não dormia há seis dias; então um duro cansaço, nascido de seu espírito, se apoderou de suas pernas, fê-lo curvar os ombros, e seu rosto desolado pendeu como o de um velho.

            Bloch quis fazer um gesto para exprimir sua admiração, mas, com uma cotovelada, derrubou o vaso onde estavam os ramos de macieira, e toda a água se espalhou pelo tapete.

            - Na verdade, a senhora tem dedos de fada - disse à marquesa o historiador, que, de costas naquele momento, não percebera o desastre de Bloch.

            Mas este julgou que tais palavras se aplicavam a ele próprio e, para esconder sob uma insolência a vergonha de seu gesto infeliz:

            - Isso não tem nenhuma importância - disse -, pois nem fiquei molhado.

            A Sra. de Villeparisis tocou a campainha e um lacaio veio enxugar o tapete e reunir os cacos de louça. Ela convidou os dois rapazes para a matinê, bem como a duquesa de Guermantes, a quem recomendou:

            - Lembre-se de avisar Gisele e Berthe - eram as duquesas de Auberjon e de Portefin - de que estejam aqui um pouco antes das duas, para me ajudar - como teria dito a mordomos extras que chegassem de antemão - a fim de preparar as compoteiras.

            Não tinha, para com os parentes principescos, nem mesmo com o Sr. de Norpois, nenhuma dessas amabilidades que mostrava para com o historiador, com Cottard, com Bloch ou comigo, e tais parentes pareciam não ter para ela outro interesse senão o de apresentá-los para satisfazer nossa curiosidade. É que sabia que não precisava incomodar-se com pessoas para quem não era uma mulher mais ou menos brilhante, e sim a irmã suscetível e econômica de seu pai ou de seu tio. Não lhe teria servido de nada procurar brilhar diante deles, a quem não poderia enganar quanto à sua situação, e que, melhor que ninguém, conheciam a sua história e respeitavam a estirpe ilustre de que ela descendia. Mas, principalmente, já não passavam, tirara ela, de um resíduo morto que não mais daria frutos, não a faziam mais conhecer os seus novos amigos, nem partilhar de seus prazeres. Ela só podia alcançar a sua presença, ou a possibilidade de falar deles, na sua recepção das cinco horas, como mais tarde em suas Memórias, lá que aquela era apenas uma espécie de ensaio, de primeira leitura em vez alta diante de um pequeno círculo. E na companhia que todos esses parentes nobres lhe prestavam para interessar, deslumbrar e arrastar a companhia dos Cottard, dos Bloch, dos autores dramáticos notórios, historiadores da Fronda de todos os tipos, era nessa última companhia que, para a Sra. de Villeparisis - à falta da parte do mundo elegante que não ia à sua casa -, se encontravam o movimento, a novidade, as diversões e a vida; era dessas pessoas que ela podia extrair vantagens sociais (o que bem valeria que as fizesse encontrar às vezes a duquesa de Guermantes, sem que jamais tivessem conhecido): jantares com homens notáveis cujos trabalhos a tinham interessado, uma ópera-cômica ou uma pantomima já encenada e que o autor fazia representar em sua casa, camarotes para espetáculos curiosos. Bloch se ergueu para ir embora. Dissera em voz alta que o incidente do vaso de flores não tinha qualquer importância, mas o que havia dito baixinho era diferente, mais diferente até do que pensava:

            - Quando não se tem criados perfeitamente adestrados para saber colocar um vaso; corre-se o risco de molhar e mesmo de ferir os visitantes, é bom não ter esses lixos. - resmungava em voz baixa. Bloch era dessas pessoas suscetíveis e nervosas que não podem suportar terem feito uma asneira, que, no entanto, não confessam a si mesmos, e que lhes estraga o dia inteiro. Furioso, estava cheio de negros pensamentos, não mais queria freqüentar a sociedade. Um pouco de distração era necessária naquele momento. Felizmente, em um segundo, a Sra. de Villeparisis logrou detê-lo. Seja por conhecer as opiniões de seus amigos e a vaga anti-semita que principiava a se elevar, já por distração, ela não o apresentara às pessoas que ali se achavam. Entretanto, ele, que não tinha o traquejo da sociedade, julgou que, ao retirar-se, devia cumprimentá-los, por uma questão de cortesia, mas sem amabilidade; inclinou várias vezes a cabeça, enfiou o queixo barbudo no colarinho postiço, olhando sucessivamente cada um através do pince-nez, com ar de frieza e descontentamento.

            Mas a Sra. de Villeparisis o fez parar; tinha receio de lhe falar ainda do pequeno ato que devia ser representado em sua casa e, por outro lado, não teria gostado que ele partisse sem ter tido a satisfação, de conhecer o Sr. de Norpois (que ela se espantava de não ver entrar), e, embora tal apresentação fosse supérflua, pois Bloch já se resolvera a persuadir os dois artistas, de que falara, a vir cantarem de graça na casa da marquesa, no interesse de sua glória, numa das recepções freqüentadas pela elite da Europa. Chegara mesmo a propor, a mais, uma atriz trágica, "de olhos garços, bela como Hera", que diria prosas líricas com a noção da "beleza plástica". Mas, diante de seu nome, a Sra. de Villeparisis havia recusado: era a amiga de Saint-Loup.

            - Tenho melhores notícias - disse-me ela ao ouvido -; creio que o caso deles está se azedando, e em breve estarão separados. Apesar de um oficial que desempenhou um papel abominável em toda a história - acrescentou. (Pois a família de Robert começava a nutrir ódio mortal ao Sr. de Borodino por ter dado licença para que fosse a Bruges, a instâncias do barbeiro, e acusava-o de favorecer uma ligação infame.) - É um sujeito muito vil - disse-me a Sra. de Villeparisis com o acento virtuoso dos Guermantes, mesmo os mais depravados. - Muito, muito vil repetiu, pondo três mm em muito. Sentia-se que ela não duvidava que ele entrasse de terceiro em todas as orgias. Mas, como a amabilidade era, na marquesa, o hábito predominante, sua expressão de severidade franzida em relação ao horrível capitão, cujo nome pronunciou com ênfase irônica: "o príncipe de Borodino", como mulher para quem o Império não tem valor, acabou num terno sorriso na minha direção, acompanhado de uma piscadela mecânica de vaga conivência comigo.

            - Gosto muito de Saint-Loup-en-Bray - disse Bloch -, embora ele seja muito sovina, porque é muito bem-educado. Gosto muito, não dele, mas das pessoas extremamente bem-educadas, é tão raro - continuou, sem se dar conta, porque ele próprio era muito mal-educado, de como suas palavras desagradavam. - Vou dar-lhes uma prova, que me parece bem típica, de sua perfeita educação. Encontrei-o certa vez com um rapaz, quando ia subir no seu carro de belas rodas, depois de ter ele próprio passado as correias esplêndidas em dois cavalos nutridos de aveia e cevada, e que não é preciso excitar com o chicote cintilante. Ele nos apresentou, mas não percebi o nome do rapaz, pois a gente nunca percebe o nome das pessoas a quem somos apresentados -acrescentou rindo, porque se tratava de um gracejo de seu pai. - De Saint-Loup-en-Bray não deixou a sua simplicidade, não prestou atenções exageradas ao rapaz, não pareceu de modo algum incomodado. Ora, por acaso, soube, alguns dias depois, que aquele jovem era filho de Sir Rufus Israels!

            O fim dessa historieta pareceu menos chocante que o seu começo, pois permaneceu incompreensível para as pessoas presentes. Com efeito, Sir Rufus Israels, que parecia a Bloch e a seu pai uma personagem quase régia, diante da qual Saint-Loup devia tremer, era, pelo contrário, aos olhos do meio Guermantes, um estrangeiro arrivista, tolerado pela sociedade, e de cuja amizade não se tinha idéia de orgulhar-se, muito ao contrário!

            - Soube-o - disse Bloch pelo procurador de Sir Rufus Israels, - que é amigo de meu pai e um homem absolutamente extraordinário. Ah! Um indivíduo bastante curioso - acrescentou, com essa energia afirmativa, esse acento de entusiasmo que só emprestamos às convicções que não formamos por conta própria. - Mas diga-me - continuou Bloch, - falando baixinho comigo -, qual será a fortuna de Saint-Loup? Compreendes perfeitamente que, se pergunto isto, interessa-me tanto como os anos quarenta, mas do ponto de vista balzaquiano, compreendes. E nem ao menos sabes em que estará investida, se ele possui títulos franceses, títulos estrangeiros, terras?

            Não pude informá-lo de nada. Deixando de falar a meia voz, Bloch pediu em voz alta licença para abrir as janelas e, sem esperar a resposta, encaminhou-se para elas.

            A Sra. de Villeparisis disse que era impossível abri-Ias, que ela estava gripada.

            - Ah, isso deve lhe fazer mal - comentou Bloch, decepcionado. - Mas pode-se dizer que faz calor! - E pôs-se a rir, obrigando seu olhar a uma ronda pela assistência, numa indagação que reclamava apoio contra a Sra. de Villeparisis. Não o obteve no meio daquelas pessoas bem-educadas. Seus olhos incendiados, que não tinham podido seduzir ninguém, retomaram resignados o tom sério; declarou, para disfarçar a derrota: - Está fazendo pelo menos vinte e dois graus. Vinte e cinco? Não me espanta. Estou quase suando. E não tenho, como o sábio Antenor, filho do rio Alfeu, a faculdade de mergulhar na onda paterna, para estancar o suor, antes de me meter numa banheira luzidia e de me untar de óleos perfumados. - E com aquela necessidade que temos de esboçar, para uso alheio, teorias médicas cuja aplicação seria favorável ao nosso próprio bem-estar: - Visto que a senhora julga que lhe faz bem! Quanto a mim, acho o contrário. É justamente isso o que a deixa gripada.

            Bloch mostrara-se encantado à idéia de conhecer o Sr. de Norpois.

            - Gostaria - disse - de fazê-lo falar acerca do caso Dreyfus.

            - Aí está uma mentalidade que não conheço bem, e seria muito atraente ter uma intervenção com esse diplomata considerável - aduziu num tom sarcástico, para não parecer que se julgava inferior ao embaixador.

            A Sra. de Villeparisis lamentou que ele tivesse dito aquilo em voz alta, mas não ligou muita importância ao fato quando viu que o arquivista, cujas opiniões nacionalistas a traziam, por assim dizer, encadeada, achava-se longe demais para poder ouvir. Ficou mais chocada ao escutar que Bloch, arrastado pelo demônio de sua má-educação, que o tornara previamente cego, lhe perguntava, rindo pelo gracejo paterno:

            - Não terei lido, de sua autoria, um sábio estudo em que ele demonstrava com razões irrefutáveis que a guerra russo-japonesa devia terminar com a vitória dos russos e a derrota dos japoneses? E já não está um tanto caduco? Parece-me que foi ele quem vi olhar para sua cadeira, antes de ir sentar-se nela, deslizando como se andasse sobre rodas.

            - Nunca na vida! Espere um instante - acrescentou a marquesa -, não sei o que poderá estar fazendo.

            Tocou a campainha e, quando o criado entrou, como ela não dissimulava de modo algum e até gostava de mostrar que seu velho amigo passava a maior parte do tempo em sua casa:

            - Vá logo dizer ao Sr. de Norpois que venha; ele está catalogando papéis no meu escritório; disse que viria dentro de vinte minutos e já faz quase duas horas que estou esperando. Ele lhe falará do caso Dreyfus, de tudo aquilo que o senhor quiser - disse ela a Bloch em tom amuado -; não aprova muito o que está acontecendo.

            Pois o Sr. de Norpois estava em más relações com o ministério atual, e a Sra. de Villeparisis, conquanto ele não se permitisse levar-lhe pessoas do governo (ainda assim ela mantinha sua altivez de dama da alta aristocracia e permanecia alheia e acima das relações que ele era obrigado a cultivar), estava, por meio dele, a par do que se passava. Da mesma forma, os políticos do regime não ousariam pedir ao Sr. de Norpois que os apresentasse à Sra. de Villeparisis. Porém, vários deles tinham ido procurá-lo na casa dela, no campo, quando precisaram de seu concurso em circunstâncias graves. Conheciam o endereço. Iam ao castelo. Não viam a castelã. Mas no jantar ela dizia:

            - Senhor, sei que vieram incomodá-lo. Os negócios vão melhor? Não está com muita pressa? indagou a Sra. de Villeparisis à Bloch.

            - Não, não, eu queria partir porque não me sinto muito bem; talvez seja mesmo ocasião de fazer uma estação de cura em Vichy por causa da minha vesícula biliar - disse ele, articulando estas palavras com uma ironia satânica.

            - Pois veja: o meu sobrinho-neto Châtellerault deve ir até lá; o senhor poderia combinar ir junto. Será que ele ainda está aqui? Ele é muito amável, o senhor sabe - disse a Sra. de Villeparisis, talvez de boa-fé e pensando que duas pessoas que ela conhecia não tinham motivo para não se juntarem.

            - Oh, não sei se isso lhe agradará, não o conheço... quase; lá está ele. - disse Bloch, confuso e deslumbrado.

            Certamente o mordomo não executara de modo completo a comissão de que acabara de ser encarregado para o Sr. de Norpois. Pois este, para fazer acreditar que chegava de fora e que ainda não tinha visto a senhora da casa, agarrou seu chapéu, ao azar, na sala de espera, e beijou ceremoniosamente a mão da senhora de Villeparisis, perguntando comose encontrava, com o mesmo interesse que se manifesta depois de uma larga ausência. Ignorava que a marquesa de Villeparisis havia tirado de antemão toda verossimilhança àquela comédia, à qual, pelo resto, pôs fim levando o senhor de Norpois e Bloch a um salão vizinho. Bloch, que tinha visto todos oscumprimentos que os demais dirigiam ao que ainda não sabia que fosse o senhor de Norpois, assim como as saudações compassadas, graciosos e profundos com que o embaixador respondia àqueles, sentia-se inferior a, todo aquele cerimonial, e, molestado ao pensar que jamais se dirigia a ele, havia-me dito, por alardear de desenvoltura:

            «Quem é esse pedaço de imbecil?»

            Possivelmente, pelo resto, como todas as saudações do senhor de Norpois feriam o melhor que havia em Bloch; a franqueza mais direta de um ambiente moderno; encontrava-os em parte sinceramente ridículos. Como quer que fosse, deixaram de lhe parecer tais, e inclusive encantaram-no o instante em que foi ele mesmo, Bloch, quem se encontrou convertido em objeto deles.

            - Senhor embaixador - disse a senhora de Villeparisis - quero lhe apresentar este cavalheiro. O senhor Bloch, o senhor marquês  de Norpois. 

            Apesar  da  maneira  que  tinha  de  tratar  ao senhor de Norpois com aspereza, mostrava particular empenho em chamar-lo «senhor embaixador», por urbanidade, por exagerada consideração à categoria de embaixador, consideração que lhe tinha inculcado o marquês, e, enfim, por aplicar essas maneiras menos familiares, mais cerimoniosas para com um determinado homem, que, no salão de uma mulher distinta, ao contrastar com a liberdade de que esta usa com seus demais assíduos, indicam imediatamente ser seu amante.

            O senhor de Norpois afogou seu olhar azul em sua barba branca, dobrou profundamente sua elevada estatura como se inclinasse acima de tudo o que de notório e imponente representava para ele o nome de Bloch, e murmurou:

            «Encantado!», enquanto seu jovem interlocutor, lisonjeado, mas julgando que o célebre diplomático ia demasiado longe, retificou presunçoso e disse:

            «Nada disso! Ao contrário, que está encantado sou eu!»

            Mas esta cerimônia que o senhor de Norpois, por amizade à senhora Villeparisis, renovava com cada desconhecido que sua antiga amiga lhe apresentava, ainda não parecia à esta suficiente cortesia para com Bloch, ao que disse:

            - Mas pergunte-lhe tudo o que deseja saber! Leve-lhe aolado, se for mais cômodo; ficará encantado de conversarem; parece-me que queria falar da questão do caso Dreyfus -acrescentou,

sem preocupar-se se agradava ou não o senhor Norpois; mais nem menos que não lhe tivesse ocorrido solicitar sua vênia ao retrato da duquesa de Montmorency antes de fazer que o iluminassem para que o visse o historiador, ou consultar o parecer do chá antes de servir-lhe uma taça.

            - Fale alto - disse ao Bloch-, é um pouco surdo; mas lhe dirá tudo o que deseje saber; conheceu muito bem Bismarek e Cavour. - Não é verdade - disse com força - que conheceu muito bem Bismarck?

            - Você tem alguma coisa em preparação? - perguntou-me o senhor de Norpois, fazendo-me um gesto de inteligência enquanto estreitava-me a mão cordialmente. Aproveitou disso para descarregar cortesmente o chapéu, que eu acreditara que devia trazer consigo em sinal de cerimônia, porque acabava de perceber que era o meu que pegara, por acaso. - Havia-me mostrado uma pequena obra um tanto traçada, em que se dedicava a “cortar cabelos em quatro.” Daria-lhe francamente minha opinião; o que fez não valia a pena ser colocado no papel. Prepara algo? Tem enchido o miolo com Bergotte, se não me falhe a lembrança?

            - Ah, não fale mal de Bergotte! - exclamou a duquesa

           - Não discuto seu talento de pintor; a ninguém lhe ocorreria semelhante coisa, duquesa. Sabe gravar com o buril ou à água-forte, já que não pinta a brochadas, como Cherbuliez, uma vasta composição. Mas parece-me que nosso tempo incorre em uma confusão de gêneros, e que o que é próprio do novelista é urdir uma intriga e levantar os corações mas bem que esmerar-se em desenhar à ponta seca um frontispício ou uma vinheta. Tenho que ver seu pai no domingo, em casa do bom A. J. - acrescentou, voltando-se para mim.

            Por  um  instante  esperei,  ao  vê-lo  falar  com  a  senhora  de Guermantes, que acaso me emprestasse para ir a casa desta a ajuda que me tinha negado para, ir ao senhor Swann.

            - Outra de minhas grandes admirações – disse ele - é Elstir. Parece que a duquesa de Guermantes tem alguns seus quadros maravilhosos, especialmente o admirável molho de rabanetes que vi de passada na Exposição e que tanto eu gostaria de voltar a ver; que obra de mestre é esse quadro! E, em efeito, de ter sido eu um homem destacado e se me tivessem perguntado que obra pictórica preferia, teria chamado aquele molho de rabanetes.

            - Uma obra de mestre? - exclamou o senhor de Norpois com expressão de estranheza e de censura. Nem sequer tem a pretensão de ser um quadro, a não ser um simples esboço (tinha razão). Se o chama você obra de mestre a esse esboço, o que diria você para a Virgem de Hébert ou do Dagnan-Bouveret?

            - Já ouvi que rechaçava o amigo de Roberto - disse a senhora do Guermantes a sua tia depois que Bloch levou à parte ao embaixador; - acredito que nada tem que lamentar com isso, já sabe que é uma calamidade, não tem nem faísca de talento, e ainda por cima é grotesco.

            - Mas, como a conhece, duquesa? - disse o senhor de Argencourt.

            - Pois então o senhor não sabe que ela recitou em minha casa antes que em qualquer outro lugar? Nem por isso me orgulho do fato - disse rindo a Sra. de Guermantes, feliz no entanto, já que falavam nessa atriz, de fazer saber que ela tivera a primazia de seus ridículos. - Vamos, só me resta partir - acrescentou sem se mexer.

            Acabava de ver entrar o marido, e, pelas palavras que pronunciava, aludia ao cômico de parecerem estar fazendo juntos uma visita de núpcias, e de modo algum às relações muitas vezes difíceis existentes entre ela e aquele imenso rapagão que ia envelhecendo, mas que continuava a levar sempre uma vida de jovem. Passeando pelo grande número de pessoas que rodeavam a mesa de chá o olhar afável, malicioso e um tanto ofuscado pelos raios do sol poente, de suas pequenas pupilas redondas e precisamente incrustadas no olho como "moscas" de alvo, que sabia visar e acertar tão perfeitamente, como excelente atirador que era, o duque avançava com uma lentidão maravilhada e prudente, como se, intimidado por uma tão brilhante assembléia, temesse pisar nos vestidos e atrapalhar as conversas. Um permanente sorriso de bom rei de Yvetot, levemente embriagado, uma das mãos meio estendida, flutuando, como a barbatana de um tubarão, ao lado do peito, e que ele deixava ser apertada indistintamente por seus velhos amigos e pelos desconhecidos que lhe eram apresentados, lhe permitiam, sem precisar fazer um só gesto, nem interromper a sua ronda complacente, indolente e régia, satisfazer a solicitude de todos, murmurando apenas: "Boa-tarde, meu velho", "Boa-tarde, meu caro amigo", "Encantado, senhor Bloch", "Boa-tarde, Argencourt", e junto a mim, que fui o mais favorecido, ao ouvir meu nome: "Boa-tarde, meu pequeno vizinho, como está seu pai? Que belo homem!" Só deu grandes demonstrações de atenção à Sra. de Villeparisis, que o saudou com um aceno de cabeça, tirando uma das mãos do aventalzinho.

            Extraordinariamente rico, num mundo onde a gente o é cada vez menos, tendo assimilado à sua pessoa, de modo permanente, a noção dessa enorme fortuna, a vaidade do grão-senhor era nele duplicada pela do homem endinheirado, a educação refinada do primeiro sendo o bastante para controlar a suficiência do segundo. Compreendia-se, aliás, que os seus sucessos com as mulheres, que constituíam a infelicidade da sua, não fossem devidos exclusivamente ao seu nome e à sua fortuna, pois ele ainda mostrava grande beleza, com um perfil que tinha a pureza e a nitidez de contornos de um deus grego.

            - Na verdade, ela representou em sua casa? - perguntou o Sr. de Argencourt à duquesa.

            - Ora, ela veio recitar, com um buquê de lírios na mão e outros lírios "sôbe" o vestido. (A Sra. de Guermantes, como a Sra. de Villeparisis, afetava pronunciar certos vocábulos de modo bastante provinciano, embora de forma alguma rolasse os rr como sua tia.)

            Antes que o Sr. de Norpois, constrangido e forçado, levasse Bloch para a pequena sacada onde poderiam conversar a sós, voltei um instante para junto do velho diplomata e insinuei-lhe uma palavra a respeito da cadeira acadêmica que meu pai almejava. A princípio, ele quis adiar a conversa para mais tarde. Mas objetei que iria partir para Balbec.

            - Como! Você vai de novo a Balbec? Mas de fato é um verdadeiro globe-trotfer! -

            Depois, ouviu-me. Ao nome de Leroy-Beaulieu, o Sr. de Norpois me encarou com ar suspeito. Imaginei que ele talvez tivesse dito ao Sr. Leroy-Beaulieu algo desfavorável a meu pai, e temia que o economista o houvesse repetido. E logo pareceu animado de verdadeira afeição por meu pai. E, após uma dessas lentidões de conversa onde subitamente uma palavra explode, como que a contragosto de quem fala, quando a irresistível convicção arrebata os esforços balbuciantes que fazia por se manter calado:

            - Não, não - disse-me emocionado -; não convém que seu pai se candidate. Não deve candidatar-se no -seu próprio interesse, por si mesmo, por respeito a seu valor, que é grande e que ele comprometeria em tal aventura. Ele vale mais que isso. Caso fosse nomeado, teria tudo a perder e nada a ganhar. Graças a Deus, ele não é orador. E isso é a única coisa a contar para os meus caros confrades, ainda quando o que se diz não passa de ninharias. Seu pai tem um objetivo importante na vida; deve caminhar diretamente para ele, sem se deixar desviar pelos bosques, mesmo que sejam os do jardim de Academo, mais espinhosos que floridos. Além disso, obteria apenas uns poucos votos. A Academia gosta de obrigar o postulante a um estágio antes de admiti-lo em seu meio. Hoje em dia, nada se pode fazer. Mais tarde, não afirmo. Mas é necessário que seja a própria Companhia que vá buscá-lo. Ela pratica com mais fetichismo do que felicidade o fará dos nossos vizinhos de além-Alpes. Leroy-Beaulieu falou-me de tudo isso de uma forma que não me agradou. Aliás, pareceu-me mais ou menos defender a candidatura de seu pai. Eu talvez lhe tenha feito sentir um tanto vivamente que, acostumado a lidar com algodão e metais, ele desconhecia o papel dos imponderáveis, como dizia Bismarck. O que, antes de tudo, é preciso evitar, é que seu pai se candidate: Principüs obsta. Seus amigos se veriam numa posição delicada

se ele os pusesse diante do fato consumado. Olhe - disse bruscamente, com um ar de franqueza, cravando em mim os olhos azuis -, vou lhe dizer uma coisa que vai espantá-lo de minha parte, eu que tanto aprecio a seu pai. Pois bem, justamente porque o estimo (somos os dois inseparáveis, Arcades ambos), justamente porque conheço os serviços que ele pode prestar ao país, os recifes que pode evitar se permanecer no leme, por afeto, por estima elevada, por patriotismo, não votaria nele. De resto, julgo ter-lhe dado a entender isso mesmo. - (E acreditei perceber em seus olhos o perfil assírio e severo de Leroy-Beaulieu.) - Portanto, dar-lhe o meu voto seria, de minha parte, uma espécie de palinódia. - Por diversas vezes, o Sr. de Norpois chamou seus colegas de fósseis. Fora outras razões, todo membro de um clube ou de uma academia compraz-se em atribuir aos colegas o tipo de caráter mais oposto ao seu, menos pela vantagem de poder dizer: "Ah, se isso só dependesse de mim!", do que pela satisfação de apresentar o título que obteve como mais difícil e lisonjeiro. - Eu lhe direi - concluiu o Sr. de Norpois - que, no interesse dele e de todos os seus, prefiro para seu pai uma eleição triunfal dentro de dez ou quinze anos. - Palavras que foram julgadas por mim, se não ditadas pelo ciúme, ao menos por uma falta absoluta de obsequiosidade e que depois assumiram, pelos próprios fatos, um sentido diverso.

            - O senhor não pretende falar acerca do Instituto do Preço do Pão durante a Fronda? -perguntou o historiador da Fronda, timidamente, ao Sr. de Norpois. - Poderia com isso obter um êxito considerável - (o que significava fazer-me uma publicidade monstro) -, acrescentou, sorrindo para o embaixador com pusilanimidade, mas também com uma ternura que o fez erguer as pálpebras e descerrar os olhos, grandes como um céu. Parecia-me já ter visto esse olhar; no entanto, somente hoje conhecera o historiador. De súbito, lembrei-me: havia visto esse mesmo olhar nos olhos de um médico brasileiro que pretendia curar as sufocações do gênero das que eu tinha por meio de absurdas inalações de essências vegetais. E como, para que tomasse mais cuidado pela minha pessoa, lhe dissesse que conhecia o professor Cottard, respondera-me como no interesse de Cottard:

            - Pois eis aí um tratamento que, se o senhor lhe falasse nele, iria fornecer-lhe assunto para uma sensacional comunicação à Academia de Medicina! - Não ousara insistir, mas olhara-me com aquele mesmo ar de interrogação tímido, interessado e suplicante que eu acabara de admirar no historiador da Fronda. Certamente esses dois homens não se conheciam e não se pareciam em nada, mas as leis psicológicas possuem, como as leis físicas, uma certa generalidade. E, se as condições necessárias são as mesmas, um mesmo olhar ilumina animais humanos diversos, como um mesmo céu matinal a lugares da terra situados bem longe um do outro, e que nunca se viram entre si. Não ouvi a resposta do embaixador, pois todos, com algum rumor, se aproximaram da Sra. de Villeparisis para vê-la pintar.

            - Sabe de quem estamos falando, Basin? - perguntou a duquesa ao marido.

            - Naturalmente adivinho. - disse o duque.

            - Ah, não é o que chamamos uma comediante de alta linhagem.

            - O senhor nunca poderia imaginar algo tão risível - continuou a Sra. de Guermantes, dirigindo-se ao Sr. de Argencourt.

            - Era até drolático - interrompeu o Sr. de Guermantes, cujo estranho vocabulário permitia-lhe, a um tempo, não ser considerado um tolo pelas pessoas da sociedade, e ser tido, pelos homens de letras, como o pior dos imbecis.

            - Não posso compreender - retornou a duquesa - como Robert pôde chegar a se apaixonar por ela. Oh, sei muito bem que nunca se deve discutir tais coisas - acrescentou com um belo muxoxo de filósofa e de sentimental desencantada. - Sei que qualquer um pode amar seja o que for; - e acrescentou, porque, se ainda zombava da nova literatura, esta, talvez pela vulgarização dos jornais ou através de certas conversas, nela se infiltrara um pouco - é isso mesmo o que há de bonito no amor, porque é justamente o que o torna "misterioso".

            - Misterioso! Ah, confesso que é um pouco forte para mim, minha prima. - disse o conde de Argencourt.

            - Mas sim, é muito misterioso o amor - replicou a duquesa, com um doce sorriso de amável mulher mundana, mas também com a convicção intransigente de uma wagneriana que afirma, a um homem do seu círculo, que não há somente barulho em A Valquíria. Aliás, no fundo, não se sabe por que uma pessoa ama a outra; talvez não seja, em absoluto, devido ao que imaginamos aduziu ela sorrindo, repelindo assim, de um golpe, com sua interpretação, a idéia que ela própria acabara de externar. - E depois, no fundo, nunca se sabe de coisa alguma. - concluiu, com ar cético e fatigado. - Assim, olhe, é mais "inteligente": nunca se deve discutir a escolha dos amantes.

            Mas, depois de ter firmado esse princípio, traiu-o imediatamente ao criticar a escolha de Saint-Loup.

            - Mesmo assim, vejam, julgo espantoso que se possa achar sedutora uma pessoa ridícula.

            Bloch, ouvindo que falávamos de Saint-Loup e compreendendo que ele se encontrava em Paris, pôs-se a dizer tanto mal dele que todos ficaram revoltados. Começava a nutrir ódios e via-se que, para saciá-los, não recuaria diante de nada. Tendo estabelecido o princípio de que possuía um alto valor moral, e que o tipo de pessoas que freqüentava a Boulie (círculo esportivo que ele acreditava ser elegante) merecia o cárcere, pareciam-lhe meritórios todos os golpes que pudesse lhes dar. Certa ocasião, chegou a falar de um processo que pretendia abrir contra um de seus amigos da Boulie. No decurso desse processo, contava fazer um depoimento mentiroso e cuja falsidade, no entanto, o acusado não teria condições de provar. Desse modo, Bloch, que aliás não pôs em execução o seu projeto, pensava transtorná-lo e levá-lo ao desespero. Que mal havia nisso, já que aquele a quem desejava ferir de tal maneira era um homem que só pensava na elegância, um homem da Boulie, e que contra semelhantes pessoas todas as armas são válidas, sobretudo da parte de um santo como ele, Bloch?

            - Entretanto, veja - a Sra. Swann objetou o Sr. de Argencourt, o qual, acabando enfim por compreender o sentido das palavras da prima, estava impressionado com a sua justeza e buscava na memória o exemplo de pessoas que se houvessem apaixonado por gente que não lhe agradava.

            - Ah, ela não está exatamente no mesmo caso - protestou a duquesa. - Seria mesmo de espantar, pois tratava-se de uma perfeita imbecil, mas não era ridícula e foi bonita.

            - Hum, hum - resmungou a Sra. de Villeparisis.

            - Ah, não a achava bonita? Mas ela tinha coisas encantadoras, lindos olhos, lindos cabelos, vestia-se e veste-se ainda admiravelmente. Agora, reconheço que é imunda, mas foi uma criatura deslumbrante. O que não me dá menos desgosto de que Charles tenha se casado com ela, pois foi algo totalmente inútil. -

            A duquesa não julgava ter dito nada de notável, mas, como o Sr. de Argencourt se pôs a rir, repetiu a frase, seja por achá-la engraçada, seja apenas por achar amável o homem que ria, a quem se pôs a olhar com expressão carinhosa, para acrescentar o encanto da doçura ao do espírito. Ela continuou:

            - Sim, não é verdade? Não vale a pena, mas enfim ela não era desprovida de encantos, e eu compreendo perfeitamente que a amassem, ao passo que a garota de Robert, asseguro-lhes que é de matar de rir. Bem sei que me podem retrucar com a velha lenga-lenga de Augier: "Que importa o frasco, desde que eu me embriague?" Muito bem, Robert talvez esteja embriagado, mas na verdade não mostrou bom gosto na escolha da garrafa! Antes de tudo, imaginem que ela teve a pretensão de fazer com que eu levantasse uma escadaria em pleno salão. Coisa sem importância, não é mesmo? E me anunciou que ficaria deitada de bruços nos degraus. Ademais, se tivessem ouvido o que ela recitava! Conheço apenas uma cena, mas não creio que se possa imaginar algo parecido: chama-se As Sete Princesas.

            - As Sete Princesas, oh, que esnobismo! - exclamou o Sr. de Argencourt. - Mas espere, eu conheço a peça inteira. O autor a enviou ao rei, que nada entendeu e me pediu que a explicasse.

            - Não é por acaso do Sr Peladan? - perguntou o historiador da Fronda, com uma intenção de finura e atualidade, mas tão baixo que a pergunta passou despercebida.

            - Ah, o senhor conhece As Sete Princesas? - replicou a duquesa ao Sr. de Argencourt. - Meus cumprimentos! Eu só conheço uma, mas essa me tirou a curiosidade de conhecer as outras seis. Se forem todas iguais à que vi!

            "Que tola!", pensei, irritado com a fria acolhida que me fizera. Sentia uma espécie de rude contentamento ao constatar a sua completa incompreensão de Maeterlinck. "É por uma mulher assim que, todas as manhãs, percorro tantos quilômetros! Sou até bom demais! Agora, sou eu quem não quer mais saber dela." Tais eram as palavras que eu me dizia; eram o oposto do meu pensamento; eram puras palavras de conversação, como as que dizemos nesses momentos em que, agitados demais para permanecer sozinhos com nós mesmos, sentimos a necessidade de, na falta de outro interlocutor, conversar conosco, sem sinceridade, como com um estranho.

            - Não posso lhe dar uma idéia - continuou a duquesa. - Aquilo era da gente se torcer de riso. Não deixaram de fazê-lo, e até demais, pois a mulherzinha não gostou disso, e no fundo Robert sempre me quis mal pelo que aconteceu. O que aliás não lastimo, pois, se tudo tivesse corrido bem, a garota voltasse, quem sabe; e eu me pergunto até que ponto isso teria agradado a Marie-Aynard.

            Assim era chamada na família a mãe de Robert, a Sra. de Marsantes, viúva de Aynard de Saint-Loup, para distingui-la de sua prima, a princesa de Guermantes-Baviere, outra Maria, a cujo prenome os sobrinhos, primos e cunhados acrescentavam, para evitar confusão, ora o prenome do marido, ora um de seus outros prenomes, o que resultava em Marie-Gilbert ou Marie-Hedwige.

            - Em primeiro lugar, houve na véspera uma espécie de ensaio que foi uma beleza! -prosseguiu ironicamente a Sra. de Guermantes. - Imaginem que ela recitava uma frase, nem mesmo isso, um quarto de frase, e depois parava; não dizia mais nada durante cinco minutos. Sem exagero!

            - Oh! Oh! Oh! - exclamou o Sr. de Argencourt. - Com toda a polidez do mundo, permiti-me insinuar que aquilo talvez espantasse um pouco. E ela me respondeu textualmente: "É sempre necessário dizer uma coisa como se a gente mesma a estivesse compondo." Se refletirem nisso, verão que é monumental essa resposta.

            - Mas eu julgava que ela não recitava mal os versos - disse um dos dois rapazes.

            - Ela nem desconfia do que é isso - respondeu a Sra. de Guermantes. - Em todo caso, não precisei ouvi-la. Bastou-me vê-la chegar com os lírios! Logo percebi que ela não tinha talento, quando vi os lírios!

            Todos riram.

            - Minha tia, não me levou a mal o gracejo de outro dia a respeito da rainha da Suécia? Venho lhe pedir perdão.

            - Não, não te quero mal por isso; dou-te até o direito de comer, se estás com fome.

            - Vamos, Sr. Valleneres, banque a mocinha da casa - disse a Sra. de Villeparisis ao arquivista, segundo um gracejo consagrado.

            O Sr. de Guermantes se endireitou na poltrona onde se afundara, o chapéu a seu lado sobre o tapete, examinou com ar satisfeito os pratos de sequilhos que lhe eram apresentados.

            - Mas, com muito gosto; agora que começo a ficar familiarizado com esta nobre assistência, aceitarei um pudim; parecem excelentes.

            - O senhor desempenha às maravilhas o seu papel de mocinha da casa - disse o Sr. de Argencourt que, por espírito de imitação, repetiu o gracejo da Sra. de Villeparisis.

            O arquivista apresentou o prato com sequilhos ao historiador da Fronda.

            - O senhor cumpre às maravilhas as suas funções - disse este por timidez e para tentar ganhar a simpatia geral.

            Assim, lançou um olhar furtivo de conivência àqueles que já tinham feito como ele.

            - Diga-me, minha boa tia - perguntou o Sr. de Guermantes à Sra. de Villeparisis -, quem é aquele senhor bastante simpático, que ia saindo quando eu entrava? Devo conhecê-lo, porque me fez um grande cumprimento, mas não o reconheci; a senhora sabe, eu me confundo com os nomes, o que é bem desagradável. - concluiu com ar de satisfação.

            - O Sr. Legrandin.

            - Ah, mas Oriane tem uma prima cuja mãe, se não me engano, é Grandin de nascimento. Sei muito bem, são os Grandin de I'Épervier.

            - Não respondeu a Sra. de Villeparisis -, não há relação nenhuma. Estes são Grandin simplesmente. Grandin de absolutamente nada. Mas só querem sê-lo de tudo o que se possa imaginar. A irmã deste se chama Sra. de Cambremer.

            - Ora, Basin, você sabe muito bem a quem a minha tia está se referindo - exclamou a duquesa com indignação -; é o irmão daquele enorme herbívoro que você teve a estranha idéia de mandar me visitar outro dia. Ela ficou uma hora; pensei que fosse enlouquecer. Mas já comecei imaginando que ela é que era louca, ao ver entrar em minha casa uma pessoa a quem não conhecia e que parecia uma vaca.

            - Escute, Oriane, ela me perguntou qual era o seu dia de recepção; e eu não podia ser grosseiro; e depois, ora, você exagera; ela não parece uma vaca - acrescentou com ar queixoso, mas não sem lançar furtivamente um olhar risonho à assistência.

            Sabia ele que a verve da esposa precisava ser estimulada pela contradição, a contradição do bom-senso que protesta, por exemplo, que não se pode tomar uma mulher por uma vaca (era assim que a Sra. de Guermantes, encarecendo uma primeira imagem, chegava muitas vezes a produzir seus ditos mais espirituosos). E, ingenuamente, o duque se apresentava, sem parecê-lo, para ajudá-la a concluir o jogo, como, num vagão, o parceiro inconfesso de um jogador que faz um truque de cartas.

            - Reconheço que ela não parece uma vaca, pois parece muitas! - exclamou a Sra. de Guermantes. - Juro que estava muito embaraçada ao ver aquele rebanho de vacas que entrava de chapéu no meu salão, e que me perguntava como é que eu ia. De um lado, tinha vontade de lhe responder: "Mas, rebanho de vacas, você confunde, você não pode ter relações comigo, pois é um rebanho de vacas"; e, de outro lado, tendo procurado na minha memória, acabei por julgar que a sua Cambremer era a infanta Dorothée, que tinha dito que viria certa vez e que também era bastante bovina, de modo que estive quase para dizer Vossa Alteza real e falar na terceira pessoa majestática a um rebanho de vacas. Ela também tem o tipo de papada da rainha da Suécia. Aliás, aquele ataque a viva força fora preparado por um tiro a distância, de acordo com todas as regras da arte. Desde não sei quanto tempo, eu era bombardeada com seus cartões, encontrava-os por toda a parte, em todos os móveis, como prospectos. Ignorava o objetivo dessa publicidade. Em minha casa só se via "Marquês e Marquesa de Cambremer" com um endereço do qual já não me lembro e de que, aliás, estou resolvida a nunca utilizar.

            - Mas é muito lisonjeiro parecer-se com uma rainha - disse o historiador da Fronda.

            - Oh, meu Deus! Senhor, os reis e as rainhas já não valem grande coisa no nosso tempo -disse o Sr. de Guermantes, porque tinha a pretensão de ser um espírito liberal e moderno, e também para não dar a impressão de levar muito em conta as relações reais, com que muito se preocupava.

            Bloch e o Sr. de Norpois, que haviam se erguido, encontraram-se mais perto de nós.

            - Senhor - disse a Sra. de Villeparisis -, falou-lhe do Caso Dreyfus?

            O Sr. de Norpois ergueu os olhos para o céu, porém sorrindo, como para atestar a enormidade dos caprichos aos quais a sua Dulcinéia lhe impunha o dever de obedecer. Não obstante, falou a Bloch, com muita afabilidade, dos anos terríveis, talvez fatais, que a França atravessava. Como isso provavelmente significava que o Sr. de Norpois (a quem Bloch todavia dissera acreditar na inocência de Dreyfus) fosse ardentemente anti-dreyfusista, a amabilidade do embaixador, o jeito que aparentava ao dar razão ao seu interlocutor, de não duvidar que fossem da mesma opinião, de ligar-se em cumplicidade com ele para arrasar com o governo, lisonjeavam a vaidade de Bloch e excitavam sua curiosidade. Quais eram os pontos importantes, que o Sr. de Norpois não especificava, mas sobre os quais parecia admitir, implicitamente, que Bloch e ele estavam de acordo, que opinião teria assim acerca do Caso, que pudesse reuni-los? Bloch tanto mais se espantava do acordo misterioso que parecia existir entre ele e o Sr. de Norpois, por ser um acordo só de natureza política, visto que a Sra. de Villeparisis falara longamente ao Sr. de Norpois sobre os trabalhos literários de Bloch.

            - O senhor não é do seu tempo disse a este o antigo embaixador -; e por isso eu o felicito; o senhor não pertence a este tempo em que os estudos desinteressados já não existem, onde só se vendem ao público inépcias ou obscenidades. Esforços tais como o seu deveriam ser estimulados se tivéssemos um governo.

            Bloch sentia-se lisonjeado por sobrenadar sozinho no naufrágio universal. Mas ainda aí desejaria precisões, saber de que inépcias falava o Sr. de Norpois. Bloch tinha o sentimento de trabalhar no mesmo sentido que muitos, não se julgara tão excepcional. Retornou ao Caso Dreyfus, mas não pôde destrinçar a opinião do Sr. de Norpois. Tentou fazê-lo falar dos oficiais cujo nome volta e meia aparecia nos jornais naquele momento; provocavam mais curiosidade que os homens da política envolvidos no mesmo Caso, porque não eram já conhecidos como estes, e, numa vestimenta especial, do fundo de uma vida diferente e de um silêncio religiosamente conservado, apenas acabavam de surgir e de falar, como Lohengrin descendo de uma barca conduzida por um cisne. Graças a um advogado nacionalista a quem conhecia, Bloch pudera assistir a várias audiências do processo Zola. Lá chegava pela manhã, para só sair à tardinha, com uma provisão de sanduíches e uma garrafa de café, como no concurso geral ou nas composições de bacharelado, e, como essa mudança de hábitos despertasse a excitação nervosa que o café e as emoções do processo alçavam ao cúmulo, ele saía dali de tal forma enamorado de tudo o que se passara que, à noitinha, chegando em casa, queria mergulhar novamente no belo sonho e corria para encontrar, num restaurante freqüentado pelos dois partidos, companheiros com quem voltava a falar incessantemente sobre o que acontecera durante o dia, e reparava, com uma ceia encomendada num tom imperioso que lhe dava a ilusão do poder, o jejum e as canseiras de um dia começado tão cedo e no qual não tinha almoçado. O homem, jogando perpetuamente entre os dois planos da experiência e da imaginação, gostaria de aprofundar a vida ideal das pessoas que conhece e conhecer as criaturas cuja vida teve de imaginar. As perguntas de Bloch, o Sr. de Norpois respondeu:

            - Há dois oficiais envolvidos no processo em curso, e de quem ouvi falar antigamente através de um homem cujo parecer inspirava-me grande confiança e que deles fazia uma alta idéia, o Sr. de Miribel; são o tenente-coronel Henry e o tenente-coronel Picquart.

            - Mas! - exclamou Bloch -, a divina Atena, filha de Zeus, pôs no espírito de um o contrário do que está no espírito do outro. E eles lutam um contra o outro, como dois leões. O coronel Picquart desfrutava de uma alta posição no exército, mas a sua Moira o levou para o lado que não é o seu. A espada dos nacionalistas cortará seu corpo delicado, e ele servirá de pasto aos animais carniceiros e aos pássaros que se nutrem da gordura dos mortos.

            O Sr. de Norpois não respondeu.

            - De que falam eles a um canto? - indagou o Sr. de Guermantes à Sra. de Villeparisis, apontando o Sr. de Norpois e Bloch.

            - Do Caso Dreyfus.

            - Ah, diabo! A propósito, sabia quem é partidário ferrenho de Dreyfus? Aposto como não adivinha. Meu sobrinho Robert! Pois lhe digo que no Jockey, quando souberam dessas proezas, foi uma revolta, uma indignação geral. Como vai ser proposto para sócio daqui a oito dias...

            - Evidentemente - interrompeu a duquesa -, se são todos como Gilbert, que sempre sustentou que todos os judeus deveriam ser despachados para Jerusalém.

            - Ah, então o príncipe de Guermantes está perfeitamente de acordo com as minhas idéias -interrompeu o Sr. de Argencourt.

            O duque se orgulhava da esposa, mas não a amava. Muito presunçoso, detestava ser interrompido e, além disso, em casa se habituara a ser brutal com ela. Fremido de uma dupla cólera de mau marido de palavra cortada e de bom falador a quem não ouvem, parou de súbito e lançou à duquesa um olhar que constrangeu a todos.

            - Que história é essa de falar de Gilbert e de Jerusalém? - perguntou afinal. - Não se trata disso. Mas - acrescentou em tom mais suave - você há de confessar que, se um dos nossos fosse recusado pelo Jockey, e sobretudo Robert, cujo pai foi seu presidente durante dez anos, seria o cúmulo. Que quer, minha cara? A coisa alarmou essa gente, ficaram de olhos arregalados; não posso culpá-los. Sabe que não alimento, pessoalmente, nenhum preconceito racial; acho que é coisa ultrapassada e tenho a pretensão de acompanhar o meu tempo. Mas enfim, que diabo! Quando alguém se chama marquês de Saint-Loup, não pode ser dreyfusista; que quer que eu lhe diga?!

            O Sr. de Guermantes pronunciou essas palavras "quando alguém se chama marquês de Saint-Loup" com ênfase. No entanto, bem sabia que era muito mais importante chamar-se "duque de Guermantes". Mas, se o seu amor-próprio tendia antes a exagerar a superioridade do título de duque de Guermantes, talvez não fossem tanto as regras do bom gosto como as leis da imaginação que o levavam a diminuí-lo. Cada um vê mais bonito o que vê a distância, o que vê nos outros. Pois as leis gerais que regulam a perspectiva na imaginação se aplicam igualmente bem tanto aos duques como aos outros homens. Não só as leis da imaginação, mas também as da linguagem. Ora, qualquer das leis da linguagem poderia ser aplicada aqui. Uma pretende que nos expressemos como as pessoas de nossa classe mental, e não da nossa estirpe de origem. Assim, o Sr. de Guermantes podia ser, em suas expressões, mesmo quando queria falar da nobreza, tributário de baixos burgueses que diriam: "quando alguém se chama duque de Guermantes", ao passo que um homem letrado, um Swann, um Legrandin, não o teria dito. Um duque pode escrever romances de cordel, mesmo sobre os costumes da alta sociedade, pois os títulos de nobreza de nada valem neste caso, e o epíteto de aristocrático pode ser merecido pelos escritos de um plebeu. Quem era neste caso o burguês a quem o Sr. de Guermantes ouvira dizer: "Quando alguém se chama", sem dúvida ele não o sabia. Mas uma outra lei da linguagem é que, de vez em quando, assim como aparecem e desaparecem certas doenças de que a seguir não se ouve mais falar, nascem, não se sabe como, seja espontaneamente, seja por um acaso comparável àquele que fez germinar na França uma erva daninha da América, cuja semente, grudada na lã de um cobertor de viagem, caiu num barranco da estrada de ferro, modas de expressões que se ouvem na mesma década, ditas por pessoas que não se combinaram para isso. Ora, da mesma forma que, em determinado ano, ouvi Bloch dizer, falando de si mesmo: "Como as pessoas mais agradáveis, mais brilhantes, mais sérias, mais exigentes, perceberam que só havia uma criatura que achavam inteligente, agradável, e que não podiam dispensar, e que era Bloch", e a mesma frase na boca de muitos outros jovens que não o conheciam e que apenas substituíam o nome de Bloch pelo seu próprio nome, assim também eu devia ouvir muitas vezes o "Quando alguém se chama".

            - Que quer? - continuou o duque. - Com o espírito que reina por lá, é bastante compreensível.

            - É principalmente cômico - respondeu a duquesa -, considerando as idéias da mãe dele, que nos arrasa da manhã à noite com a Pátria Francesa.

            - Sim, mas não existe só a sua mãe; não é preciso nos contar lorotas. Por aí anda uma fulana, uma sirigaita da pior espécie, que tem maior influência sobre ele e que é precisamente compatriota do Sr. Dreyfus. Ela transmitiu a Robert o seu estado de espírito.

            - Talvez não saiba, senhor duque, mas há uma palavra nova para expressar esse gênero de espírito - disse o arquivista, o qual era secretário de comitês anti-revisionistas. - Diz-se "mentalidade". Significa exatamente a mesma coisa, mas ao menos ninguém sabe o que quer dizer. É o que há de mais fino, como se diz, o derniercri.

            Entretanto, tendo ouvido o nome de Bloch, ele o via fazer perguntas ao Sr. de Norpois, com uma inquietação que despertou uma inquietação diversa, mas igualmente intensa na marquesa. Temendo o arquivista e se fingindo de antidreyfusista com ele, receava as suas censuras caso ele percebesse que havia recebido um judeu mais ou menos filiado ao "Sindicato".

            - Ah, mentalidade; vou tomar nota, hei de aproveitar - disse o duque. (Não se tratava de uma imagem: o duque possuía um caderninho cheio de "citações", e que relia antes dos grandes jantares.) - "Mentalidade" me agrada. Há várias dessas palavras novas que se lançam, porém elas não duram. Ultimamente, tenho lido que um escritor era "talentudo". Compreenda quem quiser. Depois, nunca mais vi tal palavra.

            - Mas mentalidade é mais empregada que "talentudo" - disse o historiador da Fronda para se misturar à conversa. - Sou membro de uma Comissão no Ministério da Instrução Pública, onde a ouvi empregar diversas vezes, e também no meu grupo, o círculo Volney, e até no jantar em casa do Sr. Émile Ollivier.

            - Eu que não tenho a honra de fazer parte do Ministério da Instrução Pública - respondeu o duque com fingida humildade, mas com uma vaidade tão profunda que sua boca não pôde evitar de sorrir e seus olhos de lançar à assistência olhares cintilantes de alegria, sob cuja ironia enrubesceu o pobre historiador -, eu que não tenho a honra de fazer parte do Ministério da Instrução Pública - repetiu, ouvindo-se falar nem do círculo Volney (pertenço apenas ao União e ao Jockey); o senhor não pertence ao Jockey? - perguntou ele ao historiador que, enrubescendo ainda mais, previa uma insolência sem compreendê-la, e se pôs a tremer com todos os membros; -eu que não janto sequer na casa do Sr. Émile Ollivier, confesso que não conhecia "mentalidade". Estou certo de que está no mesmo caso que eu, Argencourt. Sabe por que não é possível mostrar as provas da traição de Dreyfus? Parece que é porque ele é amante da mulher do ministro da Guerra; é o que se murmureja à boca pequena.

            - Ah, pensava que fosse do presidente do Conselho disse o Sr. de Argencourt.

            - Acho vocês todos muito tediosos com este assunto - disse a duquesa de Guermantes, que, do ponto de vista mundano, fazia sempre questão de mostrar que não se deixava levar por ninguém. - Isso não pode ter importância para mim, no que respeita aos judeus, pela boa razão de que não tenho relações com eles, e pretendo continuar sempre nessa feliz ignorância. Mas, por outro lado, acho intolerável que, ao pretexto de que são bem pensantes, de que nada compram dos comerciantes judeus ou de que têm escrito "Morte aos judeus" em suas sombrinhas, um bando de senhoras Durand ou Dubois, a quem jamais teríamos conhecido, nos sejam impostas por Marie-Aynard ou por Victurnienne. Fui à casa de Marie-Aynard anteontem. Antigamente era um encanto. Hoje, a gente encontra ali todas as pessoas que a gente tem passado a vida evitando, sob o pretexto de que são contra Dreyfus, e outras que a gente nem imagina quem são.

            - Não; trata-se da mulher do ministro da Guerra. É pelo menos o rumor que corre nas ruelas - retornou o duque, que, assim, empregava na conversa alguns termos que considerava Ancien Régime. - Enfim, seja como for, sabe-se que eu, pessoalmente, penso o contrário de meu primo Gilbert. Não sou um feudal, como ele, passearia com um negro, se este fosse um de meus amigos, e pouco me importaria a opinião de terceiros, mas enfim, de qualquer modo, hão de concordar que, quando alguém se chama Saint-Loup, não pode se divertir em contrariar as idéias de todos que têm mais espírito que Voltaire e até que o meu sobrinho. E, sobretudo, a gente não se entrega ao que denominaria acrobacias de sensibilidade oito dias antes de se candidatar ao Clube! Esta é dura de roer! Não, provavelmente foi a sua peruinha que lhe meteu isso na cabeça. Ela o terá convencido de que se classificaria entre os "intelectuais". Os intelectuais, é o "doce de creme" desses senhores. Aliás, isso causou um belo trocadilho, mas muito maldoso. E o duque citou baixinho para a duquesa e o Sr. de Argencourt: Mater Semita, que, de fato, já se dizia no Jockey, pois, de todas as sementes migradoras, aquela a que estão ligadas as asas mais sólidas, que lhe permitem ser disseminada a maior distância de seu local de eclosão, é ainda a piada.

            - Poderíamos pedir explicações ao senhor aqui, pois tem o aspecto de uma intelectual - disse ele indicando o historiador. - Mas é preferível não falar nisso, tanto mais que o fato é completamente falso. Não sou tão ambicioso como a minha prima Mirepoix, que pretende poder seguir a filiação de sua casa, antes de Jesus Cristo, até a tribo de Levi, e comprometo-me a demonstrar que nunca houve uma gota de sangue judeu em nossa família. Mas enfim, não convém que nos deixemos embair; é certo que as encantadoras opiniões do senhor meu sobrinho podem causar muito barulho em Landerneau. Ainda mais que Fezensac está doente, e Duras é quem vai presidir a eleição, e vocês sabem como ele gosta de provocar incômodos - concluiu o duque, que jamais chegara a conhecer o sentido exato de certas palavras e julgava que "provocar

incômodos" queria dizer não "importunar", e sim "complicar as coisas".

            - Em todo caso, se Dreyfus é inocente - interrompeu a duquesa -, ele não o prova de modo algum. Que cartas idiotas, enfáticas, escreve da sua ilha! Não sei se o Sr. Esterhazy vale mais que ele, mas tem outra finura na forma de compor as frases, uma outra cor. Isto não deve agradar aos partidários de Dreyfus. Que desgraça para eles não poderem trocar de inocente!

            Todo mundo riu às gargalhadas.

            - Ouviu a frase de Oriane? - perguntou ansiosamente o duque à Sra. de Villeparisis.

            - Sim, acho-a muito engraçada.

            Aquilo não bastava ao duque:

            - Ora, quanto a mim, não a considero engraçada; ou melhor, pouco me importa se é engraçada ou não. Não faço caso algum do espírito.

            O Sr. de Argencourt protestou.

            - Ele não pensa uma só palavra do que está dizendo - murmurou a duquesa.

            - Sem dúvida, é porque fiz parte das Câmaras, onde ouvi discursos brilhantes que não significavam coisa alguma. Ali aprendi a apreciar principalmente a lógica. Decerto, é a isto que devo não ter sido reeleito. As coisas engraçadas me são indiferentes.

            - Basin, não banque o Joseph Prudhomme, sabe muito bem que ninguém aprecia mais o espírito que você.

            - Deixe-me acabar. É justamente porque sou insensível a um certo gênero de facécias, que prezo muitas vezes o espírito de minha mulher. Pois parte em geral de uma observação justa. Ela raciocina como um homem, formula como um escritor.

            Bloch procurava fazer com que o Sr. de Norpois se pronunciasse acerca do coronel Picquart.

            - É fora de dúvida - respondeu o Sr. de Norpois - que seu depoimento era necessário. Sei que, sustentando esta opinião, fiz mais de um de meus colegas soltar gritos, mas julgo que o governo tinha o dever de deixar falar o coronel. Não se sai de um impasse desses com uma simples pirueta, ou então arriscamo-nos a cair num atoleiro. Quanto ao próprio oficial, esse depoimento provocou uma impressão das mais favoráveis na primeira audiência. Quando o viram, bem aprumado em seu belo uniforme dos caçadores, vir contar, num tom perfeitamente simples e franco, o que tinha visto e o que havia suposto, e dizer: "Pela minha honra de soldado" (e aqui a voz do Sr. de Norpois vibrou num leve tremolo patriótico), "esta é a minha convicção", não há como negar, a impressão foi profunda.

            "Aí está, ele é dreyfusista, sem qualquer sombra de dúvida", pensou Bloch.

            - Mas o que lhe tirou inteiramente as simpatias que pudera angariar a princípio foi a sua confrontação com o arquivista Gribelin, quando se ouviu esse velho funcionário, esse homem que só tem uma palavra - (e o Sr. de Norpois acentuou com a energia das convicções sinceras as palavras seguintes) -, quando o viram olhar nos olhos ao seu superior, não temer enfrentá-lo e dizer-lhe, num tom que não admitia réplica: "Ora, meu coronel, o senhor bem sabe que, neste momento, como sempre, nunca menti, bem sabe que sempre digo a verdade." O vento mudou, e por mais que Picquart movesse céus e terra nas audiências seguintes, fez um completo fiasco. "Não, decididamente ele é antidreyfusista, claro", pensou Bloch. "Mas se julga Picquart um traidor que mente, como pode levar a sério as suas revelações e evocá-las como se lhes achasse algum encanto e as acreditas se sinceras? E se, ao contrário, enxerga em Picquart um homem justo que descarrega sua consciência, como pode supor que esteja mentindo em sua confrontação com Gribelin?"

            Talvez o motivo pelo qual o Sr. de Norpois falava desse jeito a Bloch, como se ambos estivessem de acordo, decorresse de que ele era de tal modo antidreyfusista que, achando que o governo não o era bastante, era tão inimigo deste como os dreyfusistas. Talvez porque o objeto a que se ligava em política fosse algo mais profundo, situado num plano diverso, e de onde o dreyfusista aparecia como uma modalidade sem importância e que não merece prender a atenção de um patriota preocupado com os grandes problemas externos. Ou melhor, talvez porque as máximas de sua sabedoria política, aplicando-se apenas às questões de forma, de procedimento, de oportunidade, eram tão impotentes para resolver as questões de fundo, como em filosofia a pura lógica o é para destrinçar as questões da existência ou porque essa mesma sabedoria lhe fizesse achar perigoso tratar desses assuntos e, por prudência, se limitasse a falar de circunstâncias secundárias. Mas onde Bloch se enganava era quando julgava que o Sr. de Norpois, ainda que menos prudente de temperamento e de espírito menos exclusivamente formal, lhe pudesse dizer, caso o quisesse, a verdade sobre o papel de Henry, de Picquart, de Du Paty de Clam, sobre todos os pontos do Caso Dreyfus. De fato, Bloch não podia duvidar que o Sr. de Norpois conhecesse a verdade sobre todas essas coisas. Como podia ignorá-la, visto que conhecia os ministros? Por certo, Bloch pensava que a verdade política pode ser aproximadamente reconstituída pelos cérebros mais lúcidos, porém imaginava, bem como a maioria do povo, que ela habita sempre, indiscutível e material, o dossiê secreto do presidente da República e do presidente do Conselho, os quais dão conhecimento dele aos ministros. Ora, mesmo quando a verdade política abrange documentos, é raro que estes alcancem mais valor que um clichê radioscópico, onde o vulgo supõe que a enfermidade do paciente se inscreve com todas as letras, ao passo que, de fato, esse clichê fornece um simples elemento de apreciação que se juntará a muitos outros, sobre os quais há de se aplicar o raciocínio do médico, e de onde ele vai extrair o seu diagnóstico. Assim, a verdade política, ao nos aproximarmos dos homens bem informados, nos foge quando julgávamos atingi-la. Mesmo mais tarde, e para permanecer no Caso Dreyfus, quando ocorreu um fato tão estarrecedor como a confissão de Henry, seguida de seu suicídio, tal fato foi logo interpretado de modo oposto pelos ministros dreyfusistas, e por Cavaignac e Cuignet, que haviam descoberto a falsidade e conduzido o interrogatório; mais ainda, entre os próprios ministros dreyfusistas, e do mesmo tom, julgando não só conforme os mesmos documentos, mas dentro do mesmo espírito, o papel de Henry foi explicado de maneira inteiramente oposta, uns vendo nele um cúmplice de Esterhazy, outros, ao contrário, atribuindo esse papel a Du Paty de Clam, concordando assim com uma tese do seu adversário Cuignet e estando em completa oposição com seu partidário Reinach. Tudo o que Bloch pôde extrair do Sr. de Norpois foi que, se era verdade que o chefe do Estado-Maior, o Sr. de Boisdeffre, fizera uma comunicação secreta ao Sr. de Rochefort, havia aí, sem dúvida alguma, uma coisa singularmente lamentável.

            - Tenha como certo que o ministro da Guerra deve ter in petto pelo menos, votado seu chefe de Estado-Maior aos deuses infernais. Um desmentido oficial não seria, a meu ver, uma excrescência. Mas o ministro da Guerra, sobre o assunto, se exprime com muita crueza infer pocula." (entre amigos) De resto, há certos assuntos sobre os quais é muito imprudente criar uma agitação que depois nos fuja ao controle.

            - Mas esses documentos são visivelmente falsos - disse Bloch.

            O Sr. de Norpois não respondeu, mas declarou que não aprovava as manifestações do príncipe Henry de Orléans:

            - Além disso, elas podem apenas perturbar a serenidade do tribunal e estimular agitações que, num ou noutro sentido, seriam de lamentar. Certamente é necessário dar um basta às manobras antimilitaristas, mas também não devemos passar por alto as agitações provocadas pelos elementos de direita que, em vez de servir à idéia patriótica, sonham em servir-se dela. A França, graças a Deus, não é uma república sul-americana, e não se faz sentir a necessidade de um general de pronunciamento.

            Bloch não conseguiu fazê-lo falar sobre a questão da culpabilidade de Dreyfus, nem que desse um prognóstico acerca do julgamento que resultaria do processo civil atualmente em curso. Em compensação, o Sr. de Norpois pareceu satisfeito em lhe fornecer detalhes sobre as conseqüências desse veredicto.

            - Se for uma condenação - disse ele -, será provavelmente cassada, pois é raro que, num processo em que os depoimentos das testemunhas são tão numerosos, não haja vícios de forma que os advogados possam invocar. Quanto à balbúrdia criada pelo príncipe Henri de Orléans, duvido muito que tenha sido do gosto de seu pai.

            - Acha que Chartres apóia Dreyfus? - perguntou a duquesa sorrindo, olhos arregalados, as faces rosadas, o nariz inclinado para o pires de biscoitinhos, com ar escandalizado.

            - De modo nenhum. Quis dizer apenas que há em toda a família, por esse lado, um senso político de que se pôde ver, no caso da admirável princesa Clémentine, o nec plus ultra, e que seu filho, o príncipe Ferdinand, conservou como legado precioso. Não haveria de ser o príncipe da Bulgária quem abraçaria o comandante Esterhazy.

            - Teria preferido um simples soldado - murmurou a Sra. de Guermantes, que jantava diversas vezes com o búlgaro na casa do príncipe de Joinville e que lhe respondera, certa vez, quando ele lhe perguntara se não era invejosa: "Sim, monsenhor, de seus braceletes."

            - Não vai esta noite ao baile da Sra. de Sagan? - perguntou o Sr. de Norpois à Sra. de Villeparisis, para cortar a conversa com Bloch. Este não desagradava ao embaixador, que nos disse mais tarde, não sem ingenuidade, e sem dúvida por causa de alguns vestígios que subsistiam, na linguagem de Bloch, da moda neo-homérica que ele, no entanto, já abandonara: - Ele é bem divertido, com seu jeito de falar um tanto antiquado, um tanto solene. Por um pouco mais, dir-se-ia "as Doutas Irmãs", como Lamartine ou Jean-Baptiste Rousseau. É algo que se tornou muito raro na juventude de hoje, e já o era na anterior. Nós mesmos éramos um pouco românticos. -

            Mas, por singular que lhe parecesse o interlocutor, o Sr. de Norpois considerava que a conversa já havia durado demais.

            - Não, senhor, não vou mais aos bailes - respondeu ela com um lindo sorriso de velha. - E os senhores, vão? É próprio da sua idade - acrescentou, englobando num mesmo olhar o Sr. de Châtellerault, seu amigo, e Bloch. - Eu também fui convidada disse ela, fingindo que se sentia vaidosa com aquilo. - Até vieram me convidar. (Vieram referia-se à princesa de Sagan.)

            - Eu não tenho cartão de convite - informou Bloch, pensando que a Sra. de Villeparisis lhe fosse oferecer um, e que a princesa de Sagan ficaria feliz em receber o amigo de uma pessoa que ela tinha ido convidar pessoalmente.

            A marquesa não respondeu coisa alguma, e Bloch não insistiu, pois tinha um negócio mais sério a tratar com ela e para o qual acabava de lhe pedir um encontro para dali a dois dias. Tendo ouvido os dois rapazes dizer que haviam pedido demissão do círculo da rua Royale, onde qualquer um entrava facilmente, queria pedir à Sra. de Villeparisis que o fizesse ser recebido nele.

            - Não são muito falsamente elegantes, muito esnobes, esses Sagans? - indagou ele com ar sarcástico.

            - De forma alguma, é o que fazemos de melhor no gênero - respondeu o Sr. de Argencourt, que adotara todos os gracejos parisienses.

            - Então - disse Bloch, meio irônico - é que se chama uma das solenidades, das grandes sessões mundanas da estação!

            A Sra. de Villeparisis disse alegremente à Sra. de Guermantes:

            - Ora vamos, então é uma grande solenidade mundana o baile da Sra. de Sagan?

            - Não é a mim que se deve perguntar isso - respondeu-lhe a duquesa com ironia -; ainda não cheguei a saber o que é uma solenidade mundana. Além do mais, os assuntos mundanos não são o meu forte.

            - Ah, eu julgava o contrário - disse Bloch, que pensava ter a Sra. de Guermantes falado com sinceridade.

            Para grande desespero do Sr. de Norpois, Bloch continuou a lhe fazer muitas perguntas sobre o Caso Dreyfus; o Sr. de Norpois declarou que o coronel Du Paty de Clam lhe dava, mais ou menos, a impressão de um cérebro um tanto confuso e que talvez não fora escolhido com muita felicidade para conduzir essa coisa delicada que é um inquérito, e que exige tanto sangue-frio e discernimento.

            - Sei que o partido socialista exige a sua cabeça com insistência, bem como a libertação imediata do prisioneiro da Ilha do Diabo. Porém, penso que ainda não estamos reduzidos assim a um ato de tal modo vergonhoso dos Srs. Gérault-Richard e cúmplices. Até agora, esse caso é muito complicado. Não digo que tanto de um lado como de outro haja coisas muito baixas e vis para ocultar. Que mesmo certos protetores mais ou menos desinteressados desse seu cliente possam ter boas intenções não digo o contrário; mas bem sabe que de boas intenções o inferno está cheio - acrescentou com um olhar penetrante. - É essencial que o governo dê a impressão de que já não está em mãos das facções de esquerda e de que não lhe resta senão entregar-se, de pés e mãos atados, às intimidações de não sei qual exército pretoriano, que, acredite-me, não é o Exército. É claro que, se ocorresse um fato novo, seria tentada uma revisão. A conseqüência salta aos olhos. Reclamar semelhante coisa é o mesmo que arrombar uma porta aberta. Nesse dia, ou o governo há de saber falar alto e em bom som, ou abdicará do que é a sua prerrogativa essencial. Os despropósitos não bastarão. Será preciso dar juízes a Dreyfus. E isto será coisa fácil, pois, embora seja costume em nossa doce França, onde gostamos de nos caluniar a nós próprios, acreditar ou deixar que acreditem que, para fazer ouvir as palavras da verdade e da justiça, é indispensável atravessar o canal da Mancha, o que muitas vezes é uma forma disfarçada de alcançar o Spree. Não somente em Berlim é que há juízes. Mas, uma vez posta em movimento a ação governamental, saberão os senhores ouvir o governo? Quando ele os convidar a cumprir com o seu dever cívico, saberão escutá-lo, ajuntar-se-ão ao redor dele? Ao seu patriótico apelo, saberão não ficar surdos e responder: "Presente!"?

            O Sr. de Norpois fazia essas perguntas a Bloch com uma veemência que, sem deixar de intimidá-lo, também o lisonjeava: pois o embaixador dava a impressão de dirigir-se, na pessoa dele, a todo um partido, de interrogar Bloch como se este houvesse recebido as confidências de semelhante partido e pudesse assumir a responsabilidade pelas decisões que seriam tomadas.

            - Se os senhores não se desarmarem - continuou o Sr. de Norpois sem esperar a resposta coletiva de Bloch -, se, antes mesmo que esteja seca a tinta do decreto que instituiria o processo de revisão, obedecendo a não sei que insidiosa palavra de ordem, os senhores não se desarmarem, mas se se restringirem a uma oposição estéril que, para alguns, parece a ultima ratio da política, se se retirarem para as suas tendas e queimarem os navios, será para seu maior dano. São os senhores prisioneiros dos fautores da desordem? Por acaso, deram-lhes garantias? - Bloch estava embaraçado para responder. O Sr. de Norpois não lhe deu tempo para isso. - Se a negativa for verdadeira, como quero crer, e se os senhores têm um pouco daquilo que, infelizmente, me parece faltar a alguns de seus chefes e amigos, certo espírito político, no próprio dia em que houver intervenção na Câmara Criminal, se não se deixarem levar pelos pescadores de águas turvas, terão ganho a partida. Não afirmo que todo o Estado-Maior possa sair incólume do episódio, mas já será muito bom que pelo menos uma parte possa livrar a cara sem pôr fogo na pólvora. Aliás, é claro que compete ao governo proclamar o direito e fechar a lista excessivamente longa dos crimes impunes, decerto que não obedecendo às excitações socialistas, e nem sei de que soldadesca ajuntou, - encarando Bloch nos olhos e talvez com o instinto de todos os conservadores para obter apoios no campo adversário. - A ação governamental deve se exercer sem a preocupação de sobrelanços, venham de onde vierem. O governo não está, graças a Deus, às ordens nem do coronel Driant nem no pólo oposto, do Sr. Clémenceau. É necessário abater os agitadores profissionais e impedi-los de levantar a cabeça. A França, em sua imensa maioria, deseja o trabalho dentro da ordem! A esse respeito, já formei a minha religião. Mas não é preciso temer o esclarecimento da opinião; e, se alguns carneiros, desses que tão bem conheceu o nosso Rabelais, se atirarem n'água de cabeça baixa, seria conveniente mostrar-lhes que essa água é turva, que foi deliberadamente turvada por uma corja que não é da nossa casa, a fim de lhe dissimular o fundo perigoso. E o Governo não deve parecer que sai a contragosto de sua passividade, quando exercer o direito que lhe é essencialmente seu, ou seja, de pôr em movimento a Senhora Justiça. O Governo aceitará todas as sugestões dos senhores. Se se demonstrar que houve erro judicial, o governo estará apoiado por uma esmagadora maioria, o que lhe permitiria dar as cartas.

            - O senhor, cavalheiro - disse Bloch, voltando-se para o Sr. de Argencourt, a quem fora apresentado ao mesmo tempo que aos demais -, certamente é dreyfusista: no estrangeiro, todo mundo o é.

            - É uma questão que só diz respeito aos franceses, não é mesmo? - respondeu o Sr. de Argencourt, com essa insolência particular, que consiste em emprestar a um interlocutor uma opinião de que se sabe claramente que ele não compartilha, pois acaba de emitir uma outra oposta.

            Bloch enrubesceu; o Sr. de Argencourt sorriu, olhando a seu redor, e se esse sorriso, enquanto dirigia aos demais convivas, foi maldoso para Bloch, ele o temperou de cordialidade detendo-o finalmente sobre o meu amigo, a fim de lhe tirar o pretexto para se aborrecer com as palavras que os outros acabavam de ouvir e que nem por isso eram menos cruéis. A Sra. de Guermantes disse ao ouvido do Sr. de Argencourt algo que não ouvi, mas que deveria se relacionar com a religião de Bloch, pois nesse momento passou pelo rosto da duquesa essa expressão a que o medo de ser observado pela pessoa de quem se fala confere algo de hesitante e falso, e na qual se mistura a alegria curiosa e malévola que inspira um agrupamento humano, ao qual nos sentimos radicalmente estranhos. Para se desforrar, Bloch voltou-se para o duque de Châtellerault:

            - O senhor, cavalheiro, visto que é francês, certamente sabe que no estrangeiro são dreyfusistas, embora na França se finja nunca saber o que se passa no exterior. Além do mais, sei que se pode conversar com o senhor, Saint-Loup me afirmou.

            Porém o jovem duque, que percebia que todos se colocavam contra Bloch e que era covarde como se é muitas vezes na sociedade, empregando, de resto, um espírito afetado e mordaz que, por atavismo, parecia herdar do Sr. de Charlus:

            - Desculpe-me, senhor, não discutir contigo o Caso Dreyfus, mas trata-se de um assunto que tenho por norma discutir apenas entre jaféticos.

            Todos sorriram, menos Bloch, não que não tivesse o costume de dizer frases irônicas acerca de suas origens judaicas, sobre o seu lado que se prendia um pouco ao Sinai. Mas em vez de uma dessas frases, as quais sem dúvida não estavam prontas, o gatilho da máquina interior fez disparar uma outra na boca de Bloch. E só se pôde recolher isto:

            - Mas como foi que o senhor pôde saber? Quem lhe contou? como se ele fosse filho de um condenado a trabalhos forçados. Por outro lado, tendo em vista o seu nome, que não passa precisamente por ser cristão, e seu rosto, o seu espanto demonstrava uma certa ingenuidade.

            Não ficando totalmente satisfeito com o que lhe dissera o Sr. de Norpois, Bloch se aproximou do arquivista e lhe perguntou se não se via às vezes, na casa da Sra. de Villeparisis, o Sr. Du Paty de Clam ou o Sr. Joseph Reinach. O arquivista não respondeu; era nacionalista e não deixava de pregar à marquesa que em breve haveria uma guerra social, e que ela deveria ser mais prudente na escolha de suas relações. Perguntava a si mesmo se Bloch não seria um emissário secreto do Sindicato, que tivesse vindo para obter informações dele, e foi imediatamente repetir à Sra. de Villeparisis as perguntas que Bloch acabara de lhe fazer. Ela achou que Bloch era pelo menos mal-educado, talvez perigoso para a situação do Sr. de Norpois. Por fim, quis dar uma satisfação ao arquivista, a única pessoa que lhe inspirava algum temor, e por quem era doutrinada sem muito sucesso. (Todas as manhãs ele lia para ela o artigo do Sr. Judet no Le Petit Journal.) Logo, quis indicar a Bloch que ele não deveria voltar e achou naturalmente, em seu repertório mundano, a cena pela qual uma grande dama põe alguém porta afora, cena que não comporta de maneira nenhuma o dedo em riste e os olhos flamejantes que as pessoas imaginam. Como Bloch se aproximasse dela para se despedir, afundada em sua grande poltrona, a marquesa pareceu meio imersa em vaga sonolência. Seus olhos afogados só apresentavam o clarão débil e encantador de uma pérola. As despedidas de Bloch, mal abrindo no rosto da marquesa um sorriso de langor, não lhe arrancaram uma palavra sequer, e ela não lhe estendeu a mão. Tal cena levou Bloch ao auge do espanto, mas, como um grupo de pessoas a estava testemunhando, julgou que não poderia prolongar-se sem inconveniente para ele, e, para forçar a marquesa, estendeu espontaneamente a mão que não lhe apertavam. A Sra. de Villeparisis ficou chocada. Mas sem dúvida, tendo que dar uma satisfação imediata ao arquivista e ao clã antidreyfusista, queria também resguardar o futuro, e contentou-se em abaixar as pálpebras e entrecerrar os olhos.

            - Creio que ela dorme - disse Bloch ao arquivista, o qual, sentindo-se apoiado pela marquesa, assumiu um ar de indignação.

            - Adeus, senhora exclamou ele.

            A marquesa fez um leve movimento de lábios de criatura agonizante que desejaria abrir a boca, mas cujo olhar já não reconhece ninguém. Depois se voltou, transbordante de vida reencontrada, para o marquês de Argencourt, enquanto Bloch se afastava, persuadido de que ela estava de "miolo mole". Cheio de curiosidade e desejoso de esclarecer um incidente tão estranho, ele retornou para vê-la alguns dias depois. Ela o recebeu muito bem, pois era uma mulher bondosa, porque o arquivista não se achava presente, porque fazia questão do sainete que Bloch deveria representar em sua casa, e, por fim, porque desempenhara o papel de grande dama que desejava fazer, o qual foi universalmente admirado e comentado naquela mesma noite nos diversos salões, mas segundo uma versão que já não tinha qualquer relação com a verdade.

            - A senhora falava das Sete Princesas, duquesa; sabe que o autor desse... como direi, desse memorial, é um de meus compatriotas (e nem por isso me sinto mais orgulhoso) - disse o Sr. de Argencourt, com uma ironia mesclada pela satisfação de conhecer melhor que os outros o autor de uma obra da qual se acabava de falar. - Sim, ele é de nacionalidade belga - acrescentou.

            - Verdade? Não, não o estamos acusando de qualquer conivência em As Sete Princesas. Felizmente para o senhor e seus compatriotas, o senhor não se parece em nada com o autor de semelhante inépcia. Conheço belgas muito gentis, o senhor, o seu rei, que é um pouco tímido mas cheio de verve, meus primos Ligne e muitos outros, mas felizmente o senhor não fala a mesma linguagem do autor das Sete Princesas. Aliás, se quer que lhe diga, já é demais falar nisso, pois não vale coisa nenhuma. Trata-se de pessoas que procuram parecer obscuras e até ridículas conseguem ficar, para ocultar o fato de não terem idéias. Se existisse algo em tudo isso, eu lhe diria não temer certas audácias - acrescentou ela em tom sério desde que houvesse pensamento. Não sei se o senhor viu a peça de Borrelli. Pessoas houve que se sentiram chocadas; quanto a mim, mesmo que me apedrejassem - acrescentou, sem se dar conta de que não corria muitos riscos -, confesso que a achei infinitamente curiosa. Mas As Sete Princesas! Por mais que uma delas seja boazinha para o meu sobrinho, não posso levar os sentimentos de família...

            A duquesa parou de repente, pois entrava uma dama que era a viscondessa de Marsantes, a mãe de Robert. A Sra. de Marsantes era considerada, no faubourg Saint-Germain, como um ser superior, de uma bondade e de uma resignação angélicas. Era o que me haviam dito e eu não tinha nenhum motivo especial para surpreender-me de tal fato, não sabendo, naquele momento, que ela era a própria irmã do duque de Guermantes. Mais tarde, sempre me espantava a cada vez que tomava conhecimento, naquela sociedade, de que mulheres melancólicas, puras, sacrificadas, veneradas como ideais santas de vitral, tinham florescido no mesmo tronco genealógico dos irmãos brutais, depravados e vis. Irmãos e irmãs, quando são muito parecidos de rosto, como o eram o duque de Guermantes e a Sra. de Marsantes, pareciam-me dever ter em comum uma única inteligência, um mesmo coração, como no caso de uma pessoa que pode ter bons e maus momentos, mas de quem, afinal, não se pode esperar grande discernimento se tem espírito limitado, e uma abnegação sublime se é de coração duro.

            A Sra. de Marsantes seguia as aulas de Brunetiere. Entusiasmava o faubourg Saint-Germain e, por sua vida de santa, também o edificava. Porém a conexão morfológica do belo nariz e do olhar penetrante levava-me, entretanto, a classificar a Sra. de Marsantes na mesma família intelectual e moral de seu irmão, o duque. Eu não podia crer que só pelo fato de ser mulher e, talvez, por ter sido infeliz e desfrutar da opinião de todos a seu favor, ela pudesse ser tão diferente dos seus, como nas canções de gesta, onde todas as virtudes e as graças estão reunidas na irmã de irmãos ferozes. Parecia-me que a natureza, menos livre que os antigos poetas, devia se servir quase que exclusivamente dos elementos comuns à família, e não podia atribuir-lhe tal poder de inovação que fizesse, com os materiais análogos aos que compõem um tolo e um rústico, um grande espírito sem qualquer tara de imbecilidade, uma santa sem mancha nenhuma de brutalidade. A Sra. de Marsantes trajava um vestido de surah branco, de grandes palmas, sobre as quais se destacavam flores negras de pano. É que ela perdera, havia três semanas, seu primo, o Sr. de Montmorency, o que no entanto não a impedia de fazer visitas, de comparecer a jantares íntimos, mas de luto. Era uma grande dama. Por atavismo, sua alma estava repleta da frivolidade das existências da corte, com tudo o que elas têm de superficial e rigoroso. A Sra. de Marsantes não tivera forças para lastimar por muito tempo seu pai e sua mãe, mas por nada no mundo teria usado trajes coloridos antes do mês seguinte à morte do primo. Foi mais do que gentil comigo, pois eu era o amigo de Robert, e porque não pertencia ao mesmo mundo dele. Esta bondade era acompanhada de uma timidez fingida, dessa espécie de intermitente movimento de perda da voz, do olhar, do pensamento que é recolhido como uma sala indiscreta, para não ocupar muito espaço, para ficar bem aprumada, mesmo na flexibilidade, como

exige a boa educação. Boa educação que, aliás, não é preciso tomar ao pé da letra, pois várias dessas damas recaem depressa na sem-vergonhice dos costumes sem jamais perder a correção quase infantil de maneiras. A Sra. de Marsantes irritava um pouco ao conversar, porque, de cada vez que se tratava de um plebeu, por exemplo Bergotte ou Elstir, ela dizia, destacando a palavra, valorizando e salmodiando-a em dois tons diferentes, numa modulação que era particular aos Guermantes:

            - Tive a honra, a grande honra de encontrar o Senhor Bergotte, de conhecer o Senhor Elstir -, seja para fazer admirada a sua humildade, seja pelo mesmo gosto do Sr. de Guermantes de regressar às formas em desuso, para protestar contra os costumes da má educação de hoje, quando já não se diz bastantes vezes "honrado". Fosse qual fosse o verdadeiro desses dois motivos, de qualquer modo sentia-se que, quando a Sra. de Marsantes dizia:

            "Tive a honra, a grande hon-ra", ela julgava preencher um grande papel e mostrar que sabia acolher os nomes dos homens de valor como os teria recebido a eles próprios em seu castelo, se eles se encontrassem nas vizinhanças. De outra parte, como sua família era numerosa, e ela a apreciasse muito, e, de palavra lenta e amiga de explicações, quisesse fazer compreender os parentescos, ocorria-lhe (sem nenhum desejo de espantar e sinceramente gostando apenas de falar de camponeses comoventes e sublimes guardas florestais) citar a todo instante todas as famílias da alta aristocracia da Europa, o que as pessoas menos brilhantes não lhe perdoavam e, se eram um tanto intelectuais, troçavam como se se tratasse de uma estupidez.

            No campo, a Sra. de Marsantes era adorada pelo bem que fazia, mas principalmente porque a pureza de um sangue, onde, há várias gerações, só se encontrava o que há de mais grandioso na história da França, retirara à sua maneira de ser tudo aquilo que as pessoas do povo chamam de "maneiras", e lhe concedera a simplicidade perfeita. Ela não temia abraçar uma pobre mulher infeliz, e lhe dizer que fosse buscar uma carrada de lenha no castelo. Era, diziam, a perfeita cristã. Fazia questão de obter um casamento formidavelmente rico para Robert. Ser grande dama é posar de grande dama, ou seja, por um lado, representar simplicidade. É um jogo que custa muito caro, tanto mais que a simplicidade só deslumbra com a condição de que os outros saibam que a pessoa possa não ser simples, isto é, que seja muitíssimo rica. Disseram-me depois, quando contei que a tinha visto:

            - Deve ter percebido que ela foi deslumbrante. -

            Porém, a verdadeira beleza é tão particular, tão nova, que não é reconhecida como tal. Naquele dia, disse apenas, de mim para mim, que ela possuía um nariz bem pequeno, olhos muito azuis, pescoço comprido e ar triste.

            - Escuta - disse a Sra. de Villeparisis à duquesa de Guermantes -, creio que daqui a pouco terei a visita de uma mulher que não desejas conhecer; prefiro que estejas prevenida para que isso não te aborreça. Além do mais, podes ficar tranqüila, nunca a terei de novo em casa futuramente, mas ela deve vir hoje pela única vez. É a mulher de Swann.

            A Sra. Swann, vendo as proporções que assumia o Caso Dreyfus, e temendo que as origens de seu marido se voltassem contra ela, rogara-lhe que nunca mais falasse na inocência do condenado. Quando ele não estava presente, ia mais longe e fazia profissão do mais ardente nacionalismo; aliás, nisso só fazia seguir a Sra. Verdurin, em cuja casa despertara e atingira uma verdadeira exasperação, um anti-semitismo burguês e latente. A Sra. Swann obtivera, com essa atitude, a entrada em algumas das ligas de senhoras da sociedade anti-semitas, que principiavam a se formar, e travara relações com diversas pessoas da aristocracia. Pode parecer estranho que,

longe de imitá-las, a duquesa de Guermantes, tão amiga de Swann, ao contrário, sempre resistisse ao desejo, que ele não lhe ocultara, de lhe apresentar sua esposa.

            No entanto, veremos mais tarde que isso era um efeito do caráter especial da duquesa, que julgava não ter de fazer essa ou aquela coisa, e impunha, com despotismo, o que havia decidido o seu "livre-arbítrio" mundano, extremamente arbitrário.

            - Agradeço que tenha-me prevenido - respondeu a duquesa. - De fato, isto me seria muito desagradável. Mas, como a conheço de vista, levantar-me-ei a tempo.

            - Asseguro-te, Oriane, que ela é muito agradável, é uma mulher excelente - disse a Sra. de Marsantes.

            - Não duvido, mas não tenho necessidade alguma de certificar-me por mim mesma.

            - Foste convidada à casa de Lady Israels? - perguntou a Sra. de Villeparisis à duquesa, para mudar de assunto.

            - Graças a Deus não a conheço - respondeu a Sra. de Guermantes. É à Marie-Aynard que é preciso fazer tal pergunta. Ela a conhece, e eu sempre me pergunto por quê.

            - De fato, conheci-a - respondeu a Sra. de Marsantes -, confesso os meus erros. Mas estou resolvida a não mais ter relações com ela. Parece que é das piores e não o esconde. Aliás, todos nós fomos muito confiantes, muito hospitaleiros. Não freqüentarei mais ninguém dessa raça. Enquanto tínhamos velhos primos de província, a quem fechávamos a porta, nós a abríamos para os judeus. Agora vemos a sua gratidão. Ai de mim, nada tenho a dizer, tenho um filho adorável e que declama, jovem doido que é, todas as insanidades possíveis - acrescentou, percebendo que o Sr. de Argencourt fizera alusão a Robert. - Mas, a propósito de Robert, por acaso a senhora não o viu? - perguntou ela à Sra. de Villeparisis -; como hoje é sábado, eu achava que ele poderia passar vinte e quatro horas em Paris e, nesse caso, certamente viria visitar-nos.

            - Robert aqui! Mas eu nem sequer recebi uma palavra dele; creio que não o vejo desde Balbec.

            - Está tão ocupado, tem tantas coisas para fazer - disse a Sra. de Marsantes.

            Um imperceptível sorriso fez ondular os cílios da Sra. de Guermantes, que contemplava o círculo que, com a ponta da sombrinha, ia traçando no tapete. A cada vez que o duque deixava por demais abertamente a esposa, a Sra. de Marsantes tomava, contra o próprio irmão, as dores da cunhada. Esta guardava de semelhante proteção uma lembrança reconhecida e rancorosa, e não se aborrecia muito com as estroinices de Robert. Nesse momento, a porta se abriu de novo e o próprio Robert entrou.

            - Ora vejam, quando se fala de Saint-Loup - disse a Sra. de Guermantes.

            A Sra. de Marsantes, que estava de costas para a porta, não vira o filho entrar. Quando o viu, a alegria, nessa mãe, bateu verdadeiramente como se tivesse asas; o corpo da Sra. de Marsantes se ergueu a meio, seu rosto palpitou e ela fitou Robert com um olhar maravilhado:

            - Como, então vieste?! Que felicidade! Que surpresa!

            - Ah, quando se fala de Saint-Loup! Compreendo - disse o diplomata belga, rindo às gargalhadas.

            - É delicioso - replicou secamente a Sra. de Guermantes, que detestava os trocadilhos e só arriscara aquele dando a impressão de zombar de si mesma. - Boa-noite, Robert disse ela -; ora, ora, assim é que se esquece da sua tia.

            Conversaram por um instante e sem dúvida a meu respeito, pois, enquanto Saint-Loup se aproximava da mãe, a Sra. de Guermantes voltou-se para mim.

            - Boa-noite, como vai? - disse ela.

            Deixou chover sobre mim a luz do seu olhar azul, hesitou por um instante, desdobrou e estendeu a haste de seu braço, inclinou para diante o corpo, que se endireitou rapidamente para trás, como um arbusto que foi vergado e que, deixado livre, retorna à posição natural. Assim agia sob o fogo dos olhares de Saint-Loup, que a observava e fazia esforços desesperados para obter ainda um pouco mais de sua tia. Receando que a conversa caísse no vazio, veio alimentá-la e respondeu por mim:

            - Não passa muito bem, está um tanto cansado; além disso, ele se sentiria melhor se te visse mais vezes, pois não te escondo que gosta muito de te ver.

            - Ah, mas ele é muito amável - disse a Sra. de Guermantes com um ar deliberadamente banal, como se eu lhe tivesse entregado a sua capa. - Fico muito lisonjeada.

            - Olha, vou ficar um pouco junto de minha mãe, fica na minha cadeira - disse-me Saint-Loup, forçando-me assim a sentar ao lado da tia. Nós dois nos calamos.

            - Vejo-o às vezes de manhã - disse ela, como se fosse uma notícia que me desse e como se eu não a visse.

            - Isso faz muito bem à saúde. - Oriane disse a meia voz a Sra. de Marsantes -, você dizia que ia ver a Sra. de Saint-Ferréol; será que poderia ter a gentileza de lhe dizer que não me espere para jantar? Ficarei em casa porque estou com Robert. Se não fosse abuso, pediria também a você que dissesse, ao passar em casa, que mandem logo comprar os charutos que Robert aprecia, chamados "Corona". Ele já não tem mais.

            Robert se aproximou; apenas ouvira pronunciar o nome da Sra. de Saint-Ferréol.

            - Quem é essa tal de Sra. de Saint-Ferréol? - perguntou em tom de espanto e decisão, pois afetava ignorar tudo o que dissesse respeito à sociedade.

            - Ora, meu querido, sabes muito bem disse sua mãe -; é a irmã de Vermandois; foi ela quem te deu aquele belo jogo de bilhar de que tanto gostavas.

            - Como, é a irmã de Vermandois?! Não fazia a menor idéia. Ah, a minha família é espantosa - disse ele, voltando-se a meio para mim e assumindo, sem o perceber, a entonação de Bloch, assim como tomava de empréstimo as suas idéias. - Conhece pessoas incríveis, pessoas que se chamam mais ou menos Saint-Ferréol (destacando a última consoante de cada palavra), ela vai a um baile, passeia numa vitória, leva uma existência fabulosa. É prodigioso.

            A Sra. de Guermantes fez com a garganta esse leve ruído, breve e intenso, como o de um sorriso forçado que se corta de imediato, e que se destinava a mostrar que ela participava, na medida em que o parentesco a obrigava, do espírito do sobrinho. Vieram anunciar que o príncipe de Faffenheim-Munsterburg-Weiningen mandava dizer ao Sr. de Norpois que acabava de chegar.

            - Vá procurá-lo, senhor - disse a Sra. de Villeparisis ao antigo embaixador, que foi ao encontro do primeiro-ministro alemão.

            Mas a marquesa o chamou de novo.

            - Espere, senhor; é preciso que eu lhe mostre a miniatura da imperatriz Carlota?

            - Ah, creio que ele ficaria encantado - disse o embaixador num tom convicto e como se invejasse o ministro venturoso pelo favor que o esperava.

            - Ah, sei que ele é muito bem pensante - observou a Sra. de Marsantes -; e isso é tão raro entre os estrangeiros. Mas estou informada. É o anti-semitismo em pessoa.

            O nome do príncipe conservava, na franqueza com que suas primeiras sílabas eram como se diz em música atacadas, e na balbuciante repetição com que as escondia, o impulso, a ingenuidade amaneirada, as pesadas "delicadezas" germânicas, projetadas como ramagens esverdeadas sobre o "Heim" de esmalte azul-escuro, que desdobrava o misticismo de um vitral renano por detrás dos ouros pálidos e finamente burilados do século XVIII alemão. Esse nome continha, por entre os diversos nomes de que se formava, o de uma pequena estação de águas alemã, onde, bem pequenino, eu estivera com minha avó, ao sopé de uma montanha honrada pelos passeios de Goethe, e de cujos vinhedos bebíamos no Kurhof a ilustre produção, de nome composto e retumbante como os epítetos que Homero confere a seus heróis. Assim, mal ouvi pronunciar o nome do príncipe, quando, antes de me lembrar das águas termais, pareceu-me que diminuía, que se impregnava de humanidade, que encontrava um lugar suficiente em minha memória, à qual aderiu, familiar, terra-a-terra, pitoresco, saboroso, leve, com algo de autorizado, de prescrito. Bem mais; o Sr. de Guermantes, explicando quem era o príncipe, citou diversas vezes os seus títulos, e reconheci o nome de uma aldeia atravessada pelo rio onde, todas as tardes, terminado o tratamento, eu ia de barca em meio aos mosquitos; e o de uma floresta bastante afastada para que o médico me permitisse alcançá-la a passeio. E, de fato, era compreensível que a suserania do senhor se estendesse aos lugares circunvizinhos e associasse de novo, na enumeração de seus títulos, os nomes que se podem ler, uns ao lado dos outros, num cartão de visitas. Assim, sob a viseira do príncipe do Sacro-lmpério e do escudeiro da Francônia, o que vi foi a fisionomia de uma terra querida onde haviam se detido para mim, com freqüência, os raios do sol das seis horas, pelo menos antes que entrasse o príncipe, governador do Reno e eleitor palatino. Pois, em poucos instantes, fiquei sabendo que os rendimentos que ele obtinha da floresta e do rio povoados de gnomos e ondinas, onde se ergue o velho castelo que mantém a lembrança de Lutero e de Luís o Germânico, ele os empregava para possuir cinco automóveis Charron, um palacete em Paris e outro em Londres, um camarote às segundas-feiras na ópera, e outro às "terças" nos "Franceses". Não me parecia, e ele próprio não dava a impressão de acreditar nisso, um homem diferente dos outros de igual fortuna e da mesma idade que tinham uma origem menos poética. Possuía a sua cultura, o seu ideal, alegrava-se da sua linhagem, mas apenas devido às vantagens que esta lhe conferia, e só demonstrava uma ambição na vida a de ser eleito membro correspondente da Academia de Ciências Morais e Políticas, razão pela qual tinha vindo à casa da Sra. de Villeparisis. Se ele, cuja esposa liderava um dos círculos mais fechados de Berlim, solicitara ser apresentado em casa da marquesa, não era porque anteriormente desejara tal coisa. Roído há muitos anos por essa ambição de entrar para o Instituto, infelizmente nunca pudera contar com mais de cinco acadêmicos que parecessem dispostos a votar nele. Sabia que o Sr. de Norpois dispunha, por si só, de pelo menos uma dezena de votos, aos quais seria capaz de acrescentar alguns outros, graças a transações hábeis. Assim, o príncipe, que o havia conhecido na Rússia, quando ambos eram embaixadores, fora vê-lo e fizera de tudo para conseguir o seu apoio. Porém, por mais que multiplicasse as gentilezas e conseguisse condecorações russas para o marquês, e o citasse em artigos sobre política estrangeira, tinha diante de si um ingrato, um homem para quem todas essas delicadezas

pareciam não contar, que não fizera sua candidatura avançar um passo e nem sequer lhe prometera seu voto! É claro que o Sr. de Norpois o recebia com extrema polidez, e nem queria que ele se incomodasse e "tivesse o trabalho de vir até a sua porta", e ia ele próprio ao palacete do príncipe e, quando o cavalheiro teutônico dizia:

            "Bem que eu gostaria de ser seu colega", respondia num tom esperançoso: "Eu ficaria muito feliz!" E sem dúvida um ingênuo, um doutor Cottard, diria consigo: "Ora, aí está ele na minha casa, foi ele quem se deu o trabalho de vir, porque me considera uma pessoa mais importante que ele, disse que ficaria feliz se eu pertencesse à Academia, as palavras ainda assim têm um sentido, que diabo! Sem dúvida, se ele não se propõe a votar em mim, é que não pensa nisso. Ele fala muito do meu grande poder, com certeza julga que as cotovias já me caem assadas do céu, que disponho de tantos votos quantos queira, e é por isso que não me oferece o seu, mas basta-me colocá-lo entre a espada e a parede, cá entre nós, e lhe dizer: 'Muito bem! Vote em mim' e ele será obrigado a fazê-lo."

            Mas o príncipe de Faffenheim não era um ingênuo; era o que o doutor Cottard teria chamado "um fino diplomata", e sabia que o Sr. de Norpois não era menos fino, nem um homem que não descobrisse por si mesmo que poderia ser agradável a um candidato votando nele. O príncipe, em suas embaixadas e como ministro das Relações Exteriores, mantivera, por seu país, em vez de agora para proveito próprio, dessas conversações em que se sabe, por antecipação, até onde se deseja ir e o que não nos farão dizer. Não ignorava que, na linguagem diplomática, conversar significa oferecer. E para tanto é que obtivera para o Sr. de Norpois a insígnia de Santo André. Mas se comunicasse a seu governo a entrevista que tivera depois disso com o Sr. de Norpois, teria podido enunciar em seu despacho: "Compreendi que tomara pelo caminho errado." Pois, desde o momento em que voltara a pronunciar a palavra Instituto, o Sr. de Norpois lhe repetira:

            - Eu gostaria muito disso, por meus colegas. Creio que eles devem se sentir verdadeiramente honrados pelo fato de o senhor ter pensado neles. É uma candidatura bem interessante, um pouco fora de nossos hábitos. O senhor sabe, a Academia é muito rotineira, ela se apavora com tudo o que lhe saiba a novidade. Pessoalmente, censuro-a por isto. Quantas vezes aconteceu-me dá-lo a entender aos meus colegas. Nem sei mesmo, Deus me perdoe, se alguma vez a palavra "rançosos" não me saiu da boca - acrescentou com um sorriso escandalizado, a meia voz, quase à parte, como num efeito teatral e lançando ao príncipe uma olhadela rápida e oblíqua de seu olho azul, como um velho ator que deseja apreciar o seu efeito. - Príncipe, o senhor compreende que não gostaria de deixar que uma personalidade tão eminente como a sua se metesse numa jogada de antemão perdida. Enquanto as idéias de meus colegas permanecerem tão atrasadas, creio que seria sábio se se abstivesse. Aliás, queira acreditar que, se algum dia visse um espírito um pouco mais novo, um pouco mais vivo, desenhar-se nesse colégio que tende a se tornar uma necrópole, se vislumbrasse uma oportunidade possível para o senhor, seria o primeiro a avisá-lo.

            "A insígnia de Santo André é um erro", pensou o príncipe; "as negociações não adiantaram um passo; não era isto o que ele queria. Não peguei a chave adequada."

            Era um tipo de raciocínio de que o Sr. de Norpois, formado na mesma escola que o príncipe, seria capaz. Pode-se troçar da pedantesca simplicidade com que os diplomatas do tipo de Norpois se extasiam diante de uma palavra oficial mais ou menos insignificante. Mas a sua infantilidade tem uma contrapartida: os diplomatas sabem que, na balança que assegura esse equilíbrio, europeu ou outro, que se denomina paz, os bons sentimentos, os bons discursos e as súplicas pesam muito pouco; e que o peso pesado, o verdadeiro, o determinante, consiste em outra coisa, na possibilidade que o adversário tem, se é bastante forte, ou não tem, de contentar um desejo por meio de troca. Essa ordem de verdades, que uma pessoa inteiramente desinteressada, como a minha avó, por exemplo, não teria compreendido, o Sr. de Norpois e o príncipe von*** se tinham muitas vezes visto às voltas com ela. Encarregado dos negócios em países com os quais muitas vezes tínhamos estado a dois passos da guerra, o Sr. de Norpois, ansioso com o aspecto que iam tomando os acontecimentos, sabia muito bem que não era por meio da palavra "Paz", ou da palavra "Guerra" que elas lhe seriam notificadas, mas por uma outra, aparentemente banal, terrível ou abençoada, que o diplomata, com a ajuda de sua cifra, saberia ler de imediato, e à qual, para resguardar a dignidade da França, responderia com outra palavra, igualmente banal, mas por baixo da qual o ministro da nação inimiga veria logo: Guerra. E até mesmo, segundo um costume antigo, análogo ao que dava ao primeiro encontro de dois seres prometidos um ao outro a forma de uma entrevista fortuita num espetáculo do Teatro do Ginásio, o diálogo em que o destino ditaria a palavra "Guerra" ou a palavra "Paz" em geral não ocorria no gabinete do ministro, mas no banco de um "Kurgarten", onde o ministro e o Sr. Norpois iam ambos beber copinhos de uma água curativa nas fontes termais. Por uma espécie de tácita convenção, eles se encontravam à hora regulamentar, primeiramente dando juntos alguns passos de um passeio que, sob sua aparência benigna, os dois interlocutores sabiam que era tão trágico quanto uma ordem de mobilização. Ora, em um negócio privado como aquela candidatura ao Instituto, o príncipe utilizara-se do mesmo sistema de induções que havia posto em prática na carreira, e do mesmo método de leitura através dos símbolos superpostos.

            Decerto não se pode pretender que minha avó e seus raros semelhantes fossem os únicos a ignorar esse gênero de cálculo. Em parte, a média da humanidade, exercendo profissões traçadas com antecedência, fica, devido à sua falta de intuição, no mesmo nível de ignorância de minha avó, que o devia ao seu grande desinteresse. Muitas vezes é preciso descer até os seres sustentados, homens ou mulheres, para ter de procurar o móvel da ação ou palavras aparentemente as mais inocentes, no interesse e na necessidade de viver. Qual o homem que não sabe que, quando vai pagar a uma mulher e esta lhe diz: "Não falemos de dinheiro", esta frase deve ser interpretada, como se diz em música, como "um compasso de silêncio", e que, se mais tarde ela lhe declara: "Fizeste-me sofrer muito, muitas vezes me ocultaste a verdade, não agüento mais", ele deve entender:

            "Um outro protetor mais me oferece"? E mesmo isso não passa da linguagem de uma cocote bem próxima das mulheres da sociedade. Os apaches fornecem exemplos mais impressionantes. Mas o Sr. de Norpois e o príncipe alemão, se os apaches lhes eram desconhecidos, tinham se acostumado a viver no mesmo plano das nações, as quais também são, apesar de sua grandeza, criaturas de astúcia e egoísmo, que só se domam pela força, pela consideração do seu interesse, que pode levá-las ao assassínio, um assassínio também muita vez simbólico, já que a simples hesitação em combater ou a recusa em combater podem significar para uma nação: "perecer". Mas, como tudo isso não está escrito nos diversos Livros Amarelos e outros, o povo é de índole pacifista; se é guerreiro, o é instintivamente, por ódio, por rancor, e não pelos motivos que moveram os estadistas prevenidos pelos Norpois.

            No inverno seguinte, o príncipe esteve seriamente enfermo; curou-se, mas seu coração ficou irremediavelmente afetado.

            "Diabo!", pensou, "não há tempo a perder no caso do Instituto; pois, se demoro muito, arrisco-me a morrer antes de ser nomeado. Seria verdadeiramente desagradável."

            Escreveu um ensaio sobre a política dos últimos vinte anos para a Revue des Deux Mondes e, em muitos pontos, referiu-se ao Sr. de Norpois nos termos mais elogiosos. Este foi visitá-lo para agradecer, acrescentando que não sabia como expressar a sua gratidão. O príncipe disse para si mesmo, como alguém que acaba de experimentar outra chave para a fechadura: "Ainda não é esta", e, sentindo-se um tanto sufocado ao levar o Sr. de Norpois até a porta, pensou: "Com os diabos! Esses sujeitos vão me deixar arrebentar antes de me aceitarem. Apressemo-nos."

            Na mesma noite, encontrou-se com o Sr. de Norpois na ópera:

            - Meu caro embaixador - disse-lhe -, o senhor me dizia esta manhã que não sabia como me provar o seu reconhecimento; é muito exagero de sua parte, pois não me deve coisa alguma, mas vou ter a indelicadeza de tomá-lo ao pé da letra.

            O Sr. de Norpois não estimava menos o tato do príncipe do que o príncipe o seu. Compreendeu logo que não era um pedido que lhe ia fazer o príncipe de Faffenheim, e sim um oferecimento, e, com uma sorridente afabilidade, achou-se no dever de escutá-lo.

            - Bom, vai me achar muito indiscreto. Existem duas pessoas às quais sou muito ligado, e de forma completamente diversa, como vai compreender, e que se fixaram há pouco em Paris, onde contam viver de agora em diante: minha mulher e a grã-duquesa Jean. Elas darão alguns jantares, principalmente em honra ao rei e à rainha da Inglaterra, e o seu sonho seria de poder oferecer aos convivas uma pessoa a quem, sem a conhecer, ambas tributam grande admiração. Confesso que não sabia como fazer para lhes contentar o desejo, quando soube há pouco, pelo maior dos acasos, que o senhor conhecia essa pessoa; sei que vive muito retirada, só deseja ver pouca gente, happy few; mas, se o senhor me der o seu apoio, com a benevolência que me tem testemunhado, estou certo de que ela permitiria que o senhor me apresentasse em sua casa e que eu lhe transmitisse o desejo da grã-duquesa e da princesa. Talvez até consentisse em vir jantar com a rainha da Inglaterra e, quem sabe, se não a aborrecermos demais, passar conosco o feriado da Páscoa em Beaulieu, na casa da grã-duquesa Jean. Esta pessoa se chama a marquesa de Villeparisis. Confesso que a esperança de me tornar um dos convivas habituais de semelhante círculo de espírito me consolaria, me faria encarar sem tédio a renúncia a me candidatar ao Instituto. Em sua casa, também se cuida de coisas da inteligência e de finas conversas.

            Com uma sensação inexprimível de prazer, o príncipe sentiu que a fechadura não resistia e que, por fim, aquela chave entrava.

            - Uma tal opção é bem inútil, meu caro príncipe - respondeu o Sr. de Norpois -; nada se harmoniza melhor com o Instituto que o salão do qual o senhor está falando e que é um autêntico viveiro de acadêmicos. Transmitirei o seu pedido à senhora marquesa de Villeparisis: ela certamente ficará lisonjeada. Quanto a ir jantar em sua casa, ela sai muito pouco, e isso talvez seja mais difícil. Mas eu o apresentarei, e o senhor mesmo poderá defender a sua causa. Principalmente, não é necessário renunciar à Academia; almoço precisamente, de amanhã a quinze dias, na casa de Leroy Beaulieu, para logo depois ir em sua companhia a uma sessão importante. Sem ele, ninguém pode ser eleito; eu já lhe havia falado no seu nome, que ele naturalmente conhece às maravilhas. Fez-me algumas objeções. Mas acontece que ele precisa do apoio do meu grupo para a próxima eleição, e tenho a intenção de voltar à carga; dir-lhe-ei muito francamente os laços bastante cordiais que nos unem, não lhe esconderei que, se o senhor se candidatar, pediria a todos os meus amigos que votassem no senhor (o príncipe soltou um profundo suspiro de alívio), e ele sabe que tenho amigos. Acho que, se conseguisse me certificar do seu concurso, suas chances seriam bem fortes. Vá, portanto, nesse dia, às seis da tarde, à casa da Sra. de Villeparisis; eu o introduzirei e poderei lhe dar conta da minha entrevista da manhã.

            Assim é que o príncipe de Faffenheim fora induzido a visitar a Sra. de Villeparisis. Minha profunda desilusão se deu quando ele falou. Eu não imaginara que, se uma época tem traços característicos e gerais mais fortes que uma nacionalidade, de modo que, num dicionário ilustrado, onde se dá até o retrato legítimo de Minerva, Leibnitz, com sua peruca e seu mantéu, difere pouco de Marivaux ou de Samuel Bernard, uma nacionalidade tem traços particulares mais fortes que uma casta. Ora, tais traços se traduziram diante de mim, não por um discurso em que julgasse de antemão ouvir o roçagar dos elfos e a dança dos Kobolds, mas por uma transposição que não menos legitimava essa origem poética: o fato de que, inclinando-se pequeno, vermelho e barrigudo, diante da Sra. de Villeparisis, o governador do Reno lhe disse:

            - Pom tia, zenhorra marrquesa - com o mesmo sotaque de um porteiro alsaciano.

            - Não quer que lhe alcance uma taça de chá ou um pedaço de torta recheada? Está muito boa - disse-me a Sra. de Guermantes, desejosa de se mostrar o mais gentil possível.

            - Faço as honras desta casa como se fosse a minha - acrescentou num tom irônico, que dava à sua voz algo um tanto gutural, como se ela estivesse abafando um riso rouco.

            - O senhor - disse a Sra. de Villeparisis ao Sr. de Norpois - vai lembrar que daqui a pouco tem algo a dizer ao príncipe a respeito da Academia? -

            A Sra. de Guermantes baixou os olhos, e deu uma virada no pulso para ver as horas.

            - Oh, meu Deus; é tempo de me despedir da minha tia, devo ainda passar na casa da Sra. de Saint-Ferréol, e vou cear na casa da Sra. Leroi. E levantou-se sem se despedir de mim. Acabava de ver a Sra. Swann, que pareceu bem constrangida ao dar comigo. Sem dúvida, lembrava-se de me ter dito, antes que a qualquer outra pessoa, estar convencida da inocência de Dreyfus.

            - Não quero que minha mãe me apresente à Sra. Swann - disse-me Saint-Loup. - É uma antiga prostituta. Seu marido é judeu, e ela nos prega o nacionalismo. Ora, aí está o meu tio Palamede.

            A presença da Sra. Swann tinha para mim um interesse especial, por causa de um fato ocorrido alguns dias antes e que é preciso relatar, devido às conseqüências que teria mais tarde, e que seguiremos em detalhe no momento oportuno. Assim, alguns dias antes desta visita, recebi uma que de modo algum esperava: a de Charles Morei, o filho, desconhecido de mim, do antigo criado de quarto do meu tio-avó. Esse tio-avô (em cuja casa eu vira a dama cor-de-rosa) tinha morrido no ano anterior. Seu criado de quarto manifestara diversas vezes a intenção de vir visitar-me; eu ignorava o motivo de sua visita, mas tê-lo-ia recebido de boa vontade, pois sabia por Françoise que ele conservara um verdadeiro culto à memória de meu tio e em todas as oportunidades fazia a sua romaria ao cemitério. Obrigado, no entanto, a ir tratar-se em sua terra, e contando ficar muito tempo lá, enviou-me o filho. Fiquei surpreso ao ver entrar um belo moço de dezoito anos, vestido antes com luxo do que bom gosto, mas que, entretanto, parecia tudo, menos um lacaio. Aliás, fez questão, desde o começo, de cortar os laços com a domesticidade de onde saía, informando-me, com um sorriso satisfeito, que obtivera o primeiro prêmio do Conservatório. O objetivo de sua visita era este: dentre as lembranças recebidas de meu tio Adolphe, seu pai separara algumas que julgara inconveniente enviar a meus pais, mas que, segundo pensava, eram de natureza a interessar um rapaz da minha idade. Eram fotografias de atrizes célebres, de grandes cocotes que meu tio conhecera, as últimas imagens daquela vida de velho boêmio que ele separava, por um compartimento estanque, de sua vida de família. Enquanto o jovem Morei as mostrava, dei-me conta de que ele procurava me falar como a um igual. Sentia, em dizer "você" e usar o menos possível "senhor", o prazer de alguém cujo pai nunca havia empregado, ao dirigir-se a meus pais, senão a "terceira pessoa". Quase todas as fotos traziam uma dedicatória do tipo: "Ao meu. melhor amigo." Uma atriz mais ingrata e mais prudente escrevera: "Ao melhor dos amigos", o que lhe permitia, conforme me asseguraram, dizer que meu tio não era de modo algum o seu melhor amigo, mas o amigo que lhe prestara o maior número de pequenos serviços, o amigo de que ela se servia, um homem excelente, quase um velho animal. Por mais que o jovem Morei procurasse fugir às suas origens, sentia-se que a sombra de meu tio Adolphe, venerável e desmedida aos olhos do velho lacaio, não cessara de flutuar, quase sagrada, sobre a infância e a juventude do filho. Enquanto eu olhava as fotografias, Charles Morei examinava o meu quarto. E, como eu procurasse um lugar para guardá-las:

            - Mas como é que - disse ele (num tom em que a censura não tinha necessidade de se expressar, de tanto que se continha nas próprias palavras) não vejo uma só fotografia do seu tio neste quarto?

            Senti a vermelhidão me subir ao rosto, e balbuciei:

            - Acho que não tenho.

            - Mas como, você não tem uma só fotografia de seu tio Adolphe, de quem gostava tanto? Vou lhe mandar uma, que pegarei dentre as muitas que meu pai possui, e espero que a colocará no lugar de honra, sobre esta cômoda que lhe proveio justamente de seu tio. -

            É verdade que, como eu não tinha sequer uma fotografia de meu pai ou de minha mãe no quarto, não havia nada de chocante que ali não existisse uma do meu tio Adolphe. Mas não era difícil adivinhar que, para Morei, que transmitira ao filho essa maneira de ser, meu tio era o personagem importante da família, de quem meus pais unicamente herdavam um brilho amortecido. Eu era mais favorecido porque meu tio dizia diariamente que eu seria uma espécie de Racine, de Vaulabelle, e Morei me considerava mais ou menos como um filho adotivo, como o filho de eleição de meu tio. Bem depressa percebi que o filho de Morei era bastante "arrivista". Assim, naquele dia, perguntou-me, por ser também o seu tanto compositor, e capaz de musicar alguns versos, se eu não conhecia algum poeta de posição importante no mundo da nobreza. Citei-lhe um. Ele não conhecia as obras desse poeta e jamais ouvira falar no seu nome, de que tomou nota.

            Ora, soube que pouco depois ele escrevera ao poeta, dizendo-lhe ser admirador fanático de suas obras e que musicara um soneto seu, e ficaria feliz se o libretista lhe conseguisse uma audição na casa da condessa***. Era ir um pouco depressa demais e desmascarar o seu plano. O poeta, melindrado, não respondeu.

            Aliás, Morei parecia possuir, além da ambição, uma viva tendência às realidades mais concretas. Havia reparado, no pátio, na sobrinha de Jupien ocupada em fazer um colete e, embora me dissesse apenas ter precisamente necessidade de um colete "de fantasia", senti que a moça lhe causara uma grande impressão. Não hesitou em pedir que descesse e o apresentasse, "mas não relacionado com a sua família, o senhor me compreende, conto com sua discrição quanto a meu pai, diga apenas um grande artista seu amigo, compreende, é preciso impressionar bem os comerciantes." Embora me tivesse insinuado que, não o conhecendo bastante para chamá-lo "caro amigo", ele compreendia, eu poderia lhe dizer, diante da moça, algo como "não caro Mestre, evidentemente..., mas, se quiser: ''caro grande artista"' evitei, na loja, "qualificá-lo", como diria Saint-Simon, e me limitei a responder aos seus "você" com "você". Entre algumas peças de veludo, ele encomendou uma do mais vivo vermelho, e tão gritante que, apesar do seu mau gosto, nunca mais pôde usar esse colete. A moça voltou a trabalhar com suas duas "aprendizes", mas pareceu-me que a impressão fora recíproca, e que Charles Morei, que ela julgou pertencesse ao "meu mundo" (apenas mais elegante e mais endinheirado), lhe agradara singularmente. Como eu ficara muito espantado por encontrar, entre as fotografias que me enviara seu pai, uma do retrato de Miss Sacripant (isto é, Odette) por Elstir, disse a Charles Morei, acompanhando-o até o portão principal:

            - Receio que você não possa me informar. Será que meu tio conhecia bastante esta senhora? Não vejo em que época da vida de meu tio possa situá-la; e isto me interessa, por causa do Sr. Swann... - Justamente eu me esquecia de lhe dizer que meu pai havia recomendado que chamasse a sua atenção para essa senhora.

            De fato, essa demi-mondaine almoçava na casa do seu tio no último dia em que o viu. Meu pai estava indeciso se podia ou não fazê-la entrar. Parece que o senhor agradou bastante àquela mulher leviana, e ela esperava revê-lo. Mas, justamente por aquela época, houve uma briga na família, pelo que me disse meu pai, e o senhor nunca mais avistou seu tio. - Sorriu nesse instante para a sobrinha de Jupien, dando-lhe adeus de longe. Ela o observava, sem dúvida admirando o seu rosto magro, de feições regulares, seus cabelos leves e os olhos alegres. Apertando-lhe a mão, eu pensava na Sra. Swann, e dizia para mim mesmo, espantado, de tal modo eram diferentes e separadas na minha recordação, que de agora em diante teria de identificá-la com a "dama cor-de-rosa".

            O Sr. de Charlus logo se sentou ao lado da Sra. Swann. Em todas as reuniões em que se achava, e desdenhoso quanto aos homens, cortejado pelas mulheres, ia logo se juntar à mais elegante, de cuja toalete se sentia envaidecido. A casaca ou o fraque do barão faziam-no parecer-se com esses retratos, pintados por um grande colorista, de um homem de preto, mas que tem perto de si, sobre uma cadeira, uma capa deslumbrante que vai pôr para um baile à fantasia. Essa familiaridade, em geral com alguma Alteza, proporcionava ao Sr. de Charlus as distinções que apreciava. Por exemplo, em decorrência disso, acontecia que as donas de casa deixavam, numa festa, que o barão tivesse uma cadeira só para ele na frente, na companhia das damas, enquanto os outros homens se amontoavam no fundo. Além disso, muito absorto, ao que parecia, em contar em voz alta histórias divertidas à dama encantada, o Sr. de Charlus estava dispensado de cumprimentar os outros e, por conseguinte, de ter deveres a cumprir.

            Por detrás da barreira perfumada que lhe erguia a beldade escolhida, ele estava isolado no meio de um salão como num camarote no meio de uma sala de espetáculos e, quando vinham cumprimentá-lo, através, por assim dizer, da formosura da sua companheira, era desculpável que respondesse com muita brevidade e sem interromper o que falava a uma senhora. Decerto a Sra. Swann não era exatamente o tipo de pessoa com quem ele apreciava se mostrar desse modo. Mas professava admiração por ela, amizade por Swann, sabia que ela ficaria lisonjeada com o seu desvelo, e ele próprio sentia-se encantado por estar comprometido com a mais bela pessoa ali presente.

            A Sra. de Villeparisis, aliás, só estava meio contente com a visita do Sr. de Charlus. Este, apesar de lhe achar graves defeitos, gostava muito dela. Mas, por momentos, sob o ímpeto da cólera, devido a agravos imaginários, endereçava-lhe, sem resistir a seus impulsos, cartas de extrema violência em que levava em conta coisas miúdas que até então parecia não ter notado. Entre outros exemplos, posso citar este fato, porque minha temporada em Balbec me pôs ao corrente dele: a Sra. de Villeparisis, receando não ter levado dinheiro suficiente para prolongar suas férias em Balbec, e não querendo mandar vir dinheiro de Paris por ser avara e por temer os gastos supérfluos, pedira emprestados três mil francos ao Sr. de Charlus. Este, um mês depois, descontente com a tia por um motivo insignificante, reclamou o empréstimo por um despacho telegráfico. Recebeu dois mil novecentos e noventa e alguns francos. Vendo a tia alguns dias após em Paris e conversando amistosamente com ela, fez-lhe notar, com muita doçura, o erro cometido pelo banco encarregado da remessa.

            - Mas não houve erro - respondeu a Sra. de Villeparisis -, o despacho pelo telégrafo custa seis francos e setenta e cinco cêntimos.

            - Ah, desde o momento em que não é intencional, tudo bem - replicou o Sr. de Charlus. - Falei apenas para o caso da senhora ignorá-lo, porque então, se o banco tivesse agido da mesma forma com pessoas que lhe sejam menos íntimas do que eu, isso poderia contrariá-la.

            - Não, não há erro algum.

            - No fundo, a senhora teve toda a razão - concluiu alegremente o Sr. de Charlus, beijando com ternura a mão da tia. De fato, ele não lhe queria mal por isso, de modo algum, e sorria apenas daquela pequena mesquinharia. Mas, pouco tempo depois, julgando que, num caso de família, sua tia quisera enganá-lo e "armar todo um complô contra ele", e, como ela se escudasse bobamente atrás de homens de negócios com os quais precisamente achava que ela se aliara contra ele, o Sr. de Charlus lhe escrevera uma carta transbordante de furor e insolência. "Não me contentarei em me vingar", acrescentou em pós-escrito, "vou torná-la ridícula. A partir de amanhã vou contar a todo o mundo a história do despacho telegráfico e dos seis francos e setenta e cinco cêntimos que a senhora reteve sobre os três mil francos que lhe emprestei; vou desonrá-la." Em vez disso, foi no dia seguinte pedir perdão à tia Villeparisis, arrependido de uma carta em que havia frases verdadeiramente horríveis. Além disso, a quem poderia ele contar a história do despacho telegráfico? Não desejando a vingança, mas sim uma sincera reconciliação, agora mesmo é que devia calar-se a respeito dela. Mas antes já a contara por toda parte, quando estava de bem com a tia, contando-a sem maldade, para fazer rir, e porque era a indiscrição em pessoa. Contara-a, mas sem que a Sra. de Villeparisis o soubesse. De modo que, tendo sabido pela sua carta que ele pretendia desonrá-la divulgando um episódio onde ele próprio lhe declarara que ela agira bem, a Sra. de Villeparisis pensara que ele se enganara antes, e mentia fingindo amá-la. Tudo isto se pacificara, mas ambos não sabiam exatamente a opinião que um tinha do outro. Decerto, trata-se aí de um caso um tanto especial de brigas intermitentes. De natureza diversa eram as brigas de Bloch e de seus amigos. De outra natureza ainda, as do Sr. de Charlus, como se verá, com pessoas bem diferentes da Sra. de Villeparisis. Apesar disso, é preciso lembrar que a opinião que temos uns dos outros, as relações de amizade, de família, não têm nada de fixo a não ser em aparência, e são eternamente mutáveis como o mar. Daí, tanto rumor de divórcio entre esposos que parecem tão perfeitamente unidos e que, pouco depois, falam ternamente um do outro; tantas infâmias ditas por um amigo que julgávamos inseparável e com quem nos reconciliaremos antes de termos tido tempo de nos recobrar da surpresa; tantas alianças desfeitas entre os povos, em tão pouco tempo.

            - Meu Deus, a coisa está ardendo entre meu tio e a Sra. Swann - disse-me Saint-Loup. - E mamãe que, em sua inocência, vem perturbá-los. Aos puros, tudo é puro!

            Eu observava o Sr. de Charlus. O pequeno tufo de seus cabelos cinzentos, seu olho, cuja sobrancelha estava erguida pelo monóculo e que sorria, sua botoeira com flores rubras, formavam como que os três vértices móveis de um triângulo convulsivo e impressionante. Não ousara cumprimentá-lo, pois ele não me fizera nenhum aceno. Ora, ainda que ele não se tivesse virado na minha direção, eu estava convencido de que me havia visto; enquanto contava alguma história à Sra. Swann, cujo esplêndido manto cor de amor-perfeito flutuava até mesmo sobre um joelho do barão, os olhos errantes do Sr. de Charlus, idênticos aos de um camelô que teme a chegada do rapa, certamente haviam explorado cada parte do salão, descobrindo todas as pessoas que ali se encontravam. O Sr. de Châtellerault foi cumprimentá-lo sem que nada no rosto do Sr. de Charlus revelasse que ele tivesse percebido o jovem duque antes do momento em que este se achou à sua frente. Era assim que, nas reuniões um pouco numerosas como esta, o Sr. de Charlus conservava, de forma quase constante, um sorriso sem direção determinada nem destinação especial, e que, preexistente desse modo aos cumprimentos dos recém-chegados, apresentava-se, quando estes penetravam em sua zona, desprovido de qualquer sinal de amabilidade para com eles. Não obstante, era necessário que eu fosse cumprimentar a Sra. Swann. Mas, como ela ignorava que eu conhecia a Sra. de Marsantes e o Sr. de, Charlus, mostrou-se bastante fria, temendo sem dúvida que eu lhe pedisse para ser apresentado. Então, encaminhei-me para o Sr. de Charlus e logo me arrependi, pois, devendo muito bem ter-me visto, não o deixou transparecer em coisa alguma. No momento em que me inclinei diante dele, encontrei, distante de seu corpo, do qual impedia-me de me aproximar todo o comprimento de seu braço estendido, um dedo viúvo, por assim dizer, de um anel episcopal, que ele dava a impressão de oferecer, para que o beijassem no lugar consagrado, e pareceu que eu havia penetrado, contra a vontade do barão, e por um arrombamento cuja responsabilidade ele me deixava, na permanência e na dispersão anônima e vaga de seu sorriso. Essa frieza não foi própria a encorajar a Sra. Swann a abandonar a sua.

            - Como pareces cansado e inquieto - disse a Sra. de Marsantes ao filho, que tinha vindo saudar o Sr. de Charlus.

            E com efeito, os olhos de Robert pareciam por instantes atingir uma profundeza que logo abandonavam, como um mergulhador que tocou o fundo. Tal fundo, que fazia tanto mal a Robert quando o tocava, que ele o abandonava logo para a ele retornar um momento após, era a idéia de que havia rompido com a amante.

            - Não quer dizer nada - acrescentou sua mãe acariciando-lhe o rosto. - É bom estar com o meu filhinho.

            Mas como essa ternura parecia irritar Robert, a Sra. de Marsantes arrastou o filho para o fundo do salão, onde, num desvão forrado de seda amarela, algumas poltronas de Beauvais condensavam seus panejamentos violáceos como íris purpurinos num campo de botões-de-ouro.    A Sra. Swann, achando-se sozinha e tendo compreendido que eu era ligado a Saint-Loup, me fez sinal para que fosse para junto dela. Não a tendo visto há bastante tempo, não sabia de que lhe falar. Não perdia de vista o meu chapéu, entre todos os que se encontravam no tapete, mas perguntava-me, com curiosidade, a quem poderia pertencer um que não era o do duque de Guermantes, em cuja copa a letra G estava superada pela coroa ducal. Eu sabia quem eram todos os visitantes e não achava um só a quem pudesse pertencer o tal chapéu.

            - Como é simpático o Sr. de Norpois - disse eu à Sra. Swann, apontando-o.

            - É verdade que Robert de Saint-Loup me disse que é uma peste, mas...

            - Ele tem razão - respondeu ela.

            E, vendo que seu olhar refletia algo que estava me escondendo, apertei-a com perguntas. Talvez satisfeita por parecer estar muito ocupada com uma pessoa naquele salão, onde não conhecia quase ninguém, ela me levou para um canto.

            - Aqui está o que, com certeza, o Sr. de Saint-Loup quis lhe dizer - respondeu ela -, mas não lho repita, pois ele me acharia indiscreta e eu faço muita questão de sua estima, sou muito "cavalheiro", você sabe. Ultimamente Charlus tem jantado na casa da princesa de Guermantes; não sei como, falaram de você. O Sr. de Norpois lhes teria dito uma estupidez, não vá se inquietar com isso, ninguém deu importância, sabiam muito bem de que boca saía aquilo que você era um adulador meio histérico. Já falei bem antes do meu espanto que um amigo de meu pai, como era o Sr. de Norpois, pudesse se exprimir dessa maneira ao falar de mim. Experimentei um espanto maior ao saber que minha emoção daquele dia antigo, quando falara da Sra. Swann e de Gilberte, era conhecida da princesa de Guermantes, de quem me julgava ignorado.

            Cada uma de nossas ações, de nossas palavras, de nossas atitudes, está separada do "mundo", das pessoas que não as perceberam diretamente, por um meio cuja permeabilidade varia ao infinito e nos permanece desconhecida; tendo sabido pela experiência que determinada frase importante que vivamente desejáramos fosse difundida (como aquelas, tão entusiastas, que eu outrora dizia a todo mundo em qualquer ocasião a respeito da Sra. Swann, pensando que entre tantos bons grãos disseminados se encontraria um que germinasse), sucedera, muitas vezes devido ao nosso próprio desejo, ficar imediatamente sepultada, com muito mais razão estávamos longe de crer que certa palavra minúscula, que havíamos esquecido, e até mesmo jamais pronunciada por nós e formada a meio caminho pela refração imperfeita de uma palavra diferente, seria transportada, sem que sua marcha nunca se detivesse, a distâncias infinitas no caso, até a residência da princesa de Guermantes e fosse divertir às nossas custas o festim dos deuses. O que recordamos de nossa conduta permanece ignorado do nosso vizinho mais próximo; o que esquecemos haver dito, ou mesmo aquilo que nunca dissemos, vai causar hilaridade até em outro planeta, e a idéia que os outros fazem de nossos feitos e gestos já não se parece com a que nós próprios deles nos fazemos, assim como um desenho a um decalque mal feito e onde, ora a um traço negro corresponderia um espaço vazio, e a um branco um contorno inexplicável. Além do mais, pode ocorrer que o que não foi reproduzido seja um traço irreal que só vemos por complacência, e que, ao contrário, o que nos parece acrescentado nos pertença de verdade, mas de modo tão essencial que nos escapa inteiramente. De modo que essa prova estranha que nos parece tão pouco semelhante tem às vezes o gênero de verdade, com certeza pouco lisonjeiro, mas profundo e útil, de uma fotografia de raios X. Não é motivo para que nos reconheçamos nela. Alguém que tem o hábito de sorrir ao espelho diante de seu belo rosto e ao seu belo torso, se lhe mostrarmos a sua radiografia, terá, diante dessa enfiada de ossos, indicada como sendo uma imagem de si mesmo, a mesma suspeita de erro daquele que visita uma exposição e que, diante do retrato de uma mulher jovem, lê no catálogo: Dromedário deitado. Mais tarde, essa discrepância, entre a imagem que desenhamos e a que é desenhada por outrem, devia eu descobri-la através de terceiros, que, vivendo devotamente em meio a uma coleção de fotografias que haviam tirado de si mesmos, enquanto à sua volta careteavam imagens horrendas, normalmente invisíveis para eles próprios, sentiam-se profundamente espantados, se por um acaso lhas mostravam, dizendo:

             "É o senhor."

            Alguns anos antes, ficaria muito feliz em dizer à Sra. Swann "com que objetivo" me mostrara tão carinhoso para com o Sr. de Norpois, visto que esse "objetivo" era o desejo de conhecê-la. Porém não o sentia mais, não amava mais a Gilberte. Por outro lado, não conseguia identificar a Sra. Swann com a dama cor-de-rosa da minha infância. Assim, falei da mulher que me preocupava naquele momento.       

            - Viu agora há pouco a duquesa de Guermantes? - perguntei à Sra. Swann.

            Mas, como a duquesa não cumprimentava a Sra. Swann, esta queria dar a impressão de considerá-la uma pessoa sem importância e cuja presença nem sequer se percebe.

            - Não sei, não realizei - disse com ar desagradável, empregando uma palavra traduzida do inglês.

            Entretanto, eu gostaria de obter informações não só a respeito da Sra. de Guermantes, mas sobre todas as criaturas que tinham relações com ela, e, exatamente como Bloch, com a falta de tato das pessoas que procuram, na conversação, não agradar os outros, mas elucidar egoistamente questões que lhes interessam, interroguei a Sra. de Villeparisis acerca da Sra. Leroi, para tentar imaginar perfeitamente a vida da Sra. de Guermantes.

            - Sim, eu sei - disse ela com desdém fingido -; é filha de um desses grandes comerciantes de madeira. Sei que ela agora dá recepções, mas estou muito velha para fazer novos conhecimentos. Conheci pessoas tão interessantes, tão gentis que, na verdade, creio que a Sra. Leroi não acrescentaria nada ao que já possuo.

            A Sra. de Marsantes, que fazia de dama de honra da marquesa, me apresentou ao príncipe e ainda não tinha acabado quando o Sr. de Norpois me apresentou igualmente nos mais calorosos termos. Talvez achasse cômodo fazer-me uma fineza que não punha em risco o seu crédito, já que eu acabava justamente de ser apresentado, talvez porque pensasse que um estranho, mesmo pessoa ilustre, estivesse menos a par dos salões franceses e quem sabe podia crer que o apresentavam a um rapaz da alta sociedade, talvez para exercer uma de suas prerrogativas, a de acrescentar o peso de sua própria recomendação de embaixador, ou pelo gosto arcaico de fazer reviver, em honra ao príncipe, o uso, lisonjeiro para essa Alteza, de que seriam necessários dois padrinhos para quem lhe quisesse ser apresentado.

            A Sra. de Villeparisis interpelou o Sr. de Norpois, sentindo a necessidade de me dizer, por meio dele, que nada lastimava em não conhecer a Sra. Leroi.

            - Senhor embaixador, não é verdade que a Sra. Leroi é uma pessoa sem interesse, muito inferior a todas estas que se encontram aqui e que tive razão em não atraí-la?

            Seja por independência, seja por cansaço, o Sr. de Norpois se limitou a responder por um cumprimento cheio de respeito, porém vazio de significado.

            - Senhor - disse-lhe rindo a Sra. de Villeparisis -, há pessoas bem ridículas. Creia que tive hoje a visita de um senhor que quis me fazer acreditar que tinha mais prazer em beijar a minha mão do que a de uma jovem.

            Compreendi imediatamente que se tratava de Legrandin. O Sr. de Norpois sorriu com um leve piscar de olho, como se se tratasse de uma concupiscência tão natural que não se poderia querer mal àquele que a sentia, quase um princípio de romance que estava prestes a absolver, até mesmo a encorajar, com uma indulgência perversa à Voisenon ou à Crébillon.

            - Muitas mãos de jovens mulheres seriam incapazes de fazer o que vejo ali - disse o príncipe mostrando as aquarelas começadas pela Sra. de Villeparisis. E lhe perguntou se ela havia visto as flores de Fantin-Latour, que acabavam de ser expostas.

            - Elas são de primeira ordem e, como se diz hoje, de um belo pintor, de um dos mestres da palheta -declarou o Sr. de Norpois -; acho apenas que não podem sustentar comparação com as da Sra. de Villeparisis, onde reconheço melhor o colorido da flor. Mesmo considerando que a parcialidade de velho amante, o costume de lisonjear e as opiniões admitidas num círculo ditassem estas palavras ao antigo embaixador, elas entretanto provavam sobre que vazio de gosto genuíno repousa o julgamento artístico das pessoas da sociedade, tão arbitrário que uma ninharia as pode levar aos piores absurdos, quando não encontram pela frente nenhuma impressão verdadeiramente sentida.

            - Não tenho mérito algum em conhecer as flores, sempre vivi no campo - respondeu com modéstia a Sra. de Villeparisis. - Mas acrescentou graciosamente, dirigindo-se ao príncipe -, se desde muito jovem tive, sobre elas, noções um pouco mais sérias do que as outras crianças da roça, devo-as a um homem muito distinto do seu país, o Sr. de Schlegel. Conheci-o em Broglie, aonde minha tia Cordelia (a marechala de Castellane) seu filho me havia levado. Lembro-me muito bem que o Sr. Lebrun, o Sr. de Salvandy e o Sr. Doudan faziam-no falar sobre as flores. Eu era muito pequenina, não podia compreender bem o que ele dizia. Mas ele se divertia em me fazer brincar e, ao voltar ao seu país, enviou-me um belo herbário como lembrança de um passeio que tínhamos feito de phaéton ao Vai Richer, e onde adormeci sobre seus joelhos. Sempre guardei esse herbário, e ele me ensinou a reparar bem nas particularidades das flores, o que não teria percebido sem ele. Quando a Sra. de Barante publicou algumas cartas da Sra. de Broglie, bonitas e afetadas como o era ela própria, esperava eu encontrar ali algumas das conversas do Sr. de Schlegel. Mas tratava-se de uma mulher que só buscava na natureza argumentos para a religião.

            Robert me chamou do fundo do salão, onde se achava com a mãe.

            - Tens sido gentil - disse-lhe eu. - Como te agradecer? Podemos jantar juntos amanhã?

            - Amanhã, se quiseres, mas então na companhia de Bloch; encontrei-o à porta; após um instante de frieza, pois eu, contra a minha vontade, deixara sem resposta duas cartas dele (não me disse que era isto o que o ofendera, mas o compreendi perfeitamente), mostrou-se de tal modo amável que não pude ser ingrato para um amigo assim.

            Entre nós, da sua parte pelo menos, sinto que é para a vida e para a morte.

            Não creio que Robert se enganasse de modo algum. A difamação furibunda era muitas vezes, em Bloch, o efeito de uma viva simpatia que ele julgava não lhe tributarem. E, como imaginava pouco a vida dos outros, não pensava que pudessem ter estado enfermos ou em viagem, etc.; um silêncio de oito dias lhe parecia decorrer de uma frieza intencional. Assim, eu jamais acreditara que suas piores violências de amigo e, mais tarde, de escritor fossem muito profundas. Exacerbava-se se lhe respondiam com uma dignidade glacial, ou uma trivialidade que o animava a redobrar os golpes, mas cedia com freqüência a uma simpatia calorosa.

            - Quanto a ser gentil - continuou Saint-Loup -, pretendes que o tenho sido para contigo, mas não fui gentil de modo nenhum, minha tia disse que tu é que foges dela, que não lhe dizes uma só palavra. Ela se indaga se não tens algo em seu desfavor.

            Felizmente para mim, se me iludia com tais palavras, nossa partida para Balbec, que eu julgava iminente, me impediria de tentar ver de novo a Sra. de Guermantes, de lhe assegurar que nada tinha contra ela e, assim, colocá-la na necessidade de me provar que ela é quem tinha algo contra mim. Mas aquilo bastou-me para lembrar que ela nem sequer me convidara para ir ver os seus Elstirs. Além disso, não se tratava de uma decepção; absolutamente não esperava que ela me falasse nisso; sabia que não lhe agradava, que não podia esperar que me amasse; o máximo a que podia aspirar era que, graças à sua bondade, tivesse dela, já que não deveria revê-la antes de deixar Paris, uma impressão inteiramente afável, que eu levaria a Balbec indefinidamente prolongada, intacta, ao invés de uma recordação mesclada de tristeza e ansiedade.

            A todo momento a Sra. de Marsantes interrompia a conversa com Robert para me dizer o quanto ele lhe falara de mim, o quanto me estimava; tratava-me com uma solicitude que quase me dava pena, pois sentia-a ditada pelo temor de se zangar por minha causa com o filho, esse filho que ainda não vira hoje e com quem estava impaciente por se sentir a sós, e sobre quem, então, julgava que o império que exercia não se igualava ao meu, a que devia poupar. Tendo-me ouvido antes pedir a Bloch notícias do Sr. Nissim Bernard, seu tio, a Sra. de Marsantes indagou se era o mesmo que havia morado em Nice.

            - Nesse caso, conheceu ali o Sr. de Marsantes antes que se casasse comigo -respondera a Sra. de Marsantes. - Meu marido falou-me diversas vezes dele como de um homem excelente, de coração terno e generoso.

            "E dizer que uma vez ao menos ele não mentiu; é incrível!", teria dito Bloch.

            Durante todo esse tempo, desejaria dizer à Sra. de Marsantes que Robert sentia por ela infinitamente mais afeto que por mim e que, mesmo que ela me demonstrasse hostilidade, eu não era de natureza a procurar preveni-lo contra ela. Mas, desde que a Sra. de Guermantes partira, eu estava mais livre para observar Robert, e só então percebi que novamente uma espécie de cólera parecia ter-se erguido nele, aflorando-lhe ao rosto sombrio e endurecido. Temia eu que, à lembrança da cena da tarde, ele se sentisse humilhado diante de mim por ter se deixado tratar tão rudemente pela amante sem retrucar.

            Bruscamente, ele se arrancou de junto da mãe, que lhe passara um braço pelo pescoço e, vindo para mim, arrastou-me para trás do pequeno balcão florido da Sra. de Villeparisis, onde esta voltara a sentar-se, e fez me sinal para que o seguisse ao pequeno salão. Dirigia-me para lá com vivacidade quando o Sr. de Charlus, achando que me encaminhava para a saída, deixou de súbito o Sr. de Faffenheim, com quem estava conversando, e deu uma volta rápida que o pôs cara a cara comigo. Vi com inquietação que pegara o chapéu em cujo fundo havia um G e uma coroa ducal. No vão da porta do pequeno salão, disse-me sem me olhar:

            - Já que o senhor agora freqüenta a sociedade, dê-me então o prazer de ir visitar-me. Mas é bastante complicado - acrescentou com ar distraído e intencional, e, como se se tratasse de um prazer que ele temia não mais encontrar, uma vez que deixasse escapar a ocasião de combinar comigo os meios de realizá-lo. - Paro pouco em casa, seria necessário que o senhor me escrevesse. Porém preferiria lhe explicar isso com mais sossego. Vou sair dentro de um instante.

Pode dar dois passos comigo? Não vou detê-lo mais que um momento.

            - Seria melhor que prestasse atenção, senhor - disse-lhe. - Por engano, pegou o chapéu de um dos visitantes.

            - Quer me impedir de pegar meu chapéu?

            Como o mesmo me acontecera um pouco antes, imaginei que alguém levara o seu chapéu e ele tomara um ao acaso para não voltar de cabeça descoberta, e eu o embaraçava ao revelar o seu ardil. Assim, não insisti. Disse-lhe que primeiro tinha de falar com Saint-Loup.

            - Ele está falando com aquele idiota do duque de Guermantes - acrescentei.

            - É encantador o que o senhor diz, vou contá-lo ao meu irmão.

            - Ah, o senhor acha que isso pode interessar ao Sr. de Charlus? - (Imaginava que, se ele tinha um irmão, esse irmão deveria chamar-se também Charlus. Saint-Loup me dera algumas explicações a esse respeito em Balbec, mas eu as tinha esquecido.)

            - Quem é que está falando no Sr. de Charlus? - perguntou o barão num tom insolente. - Vá para junto de Robert. Sei que o senhor participou, esta manhã, de um desses almoços de orgia que ele tem com uma mulher que o desonra. O senhor deveria usar de sua influência sobre ele para lhe fazer compreender o desgosto que ele causa à sua pobre mãe, e a nós todos, arrastando o nosso nome na lama.

            Gostaria de lhe ter respondido que no almoço aviltante só se falara de Emerson, Ibsen, Tolstoi, e que a moça rogara a Robert que só bebesse água. A fim de dar um pouco de alívio a Robert, cujo orgulho julgava ferido, procurei desculpar a sua amante. Não sabia que naquele momento, apesar de encolerizado contra ela, era a si mesmo que dirigia as censuras. Mesmo nas brigas entre um homem bondoso e uma mulher malvada, e quando o direito está inteiramente de um lado, ocorre sempre que existe uma ninharia que pode dar à malvada a aparência de não estar errada num determinado ponto. E, como ela despreza todos os outros pontos, por pouco que o bondoso tenha precisão dela e seja desmoralizado pela separação, seu enfraquecimento o tornará escrupuloso, ele se lembrará das censuras absurdas que lhe foram feitas e se indagará se elas não terão algum fundamento.

            - Creio que andei errado nesse caso do colar - disse Robert. - E claro que não procurei com más intenções, mas sei muito bem que os outros não se colocam no mesmo ponto de vista que nós mesmos. Ela teve uma infância muito dura. Para ela eu sou, no entanto, o rico que julga que se pode conseguir tudo através do dinheiro, e contra quem o pobre não pode lutar, trate-se de influenciar Boucheron ou de ganhar um processo no tribunal. Sem dúvida, ela foi bem cruel comigo, que nunca procurei senão o seu bem. Mas percebo perfeitamente que ela acha que eu desejei lhe fazer sentir que se pode sujeitá-la pelo dinheiro, e isto não é verdade. Ela, que me ama tanto, que deverá estar pensando! Pobre querida, se soubesse, ela tem tamanhas delicadezas, não posso te dizer, muitas vezes ela fez coisas adoráveis para mim. Como deve se sentir desgraçada neste momento! Em todo caso, aconteça o que acontecer, não quero que ela me tome por um grosseirão, corro à casa de Boucheron a buscar o colar. Quem sabe, talvez ao ver que ajo assim, reconheça os seus erros. Estás vendo? A idéia de que ela sofre neste momento é o que não consigo suportar! O que a gente sofre, a gente sabe, não é nada. Mas ela, pensar que está sofrendo e não poder imaginá-lo; creio que ficaria louco, preferiria não vê-la nunca mais a deixá-la sofrer. Que seja feliz sem mim, se for preciso, é só o que peço. Escuta, sabes que, para mim, tudo que lhe diz respeito é imenso, assume algo de cósmico, corro para o joalheiro e depois vou lhe pedir perdão. Até chegar lá, que pensará ela de mim? Se ela ao menos soubesse que eu ia vê-la! Poderás passar na casa dela casualmente; quem sabe, tudo se acomodaria talvez. Talvez -disse ele com um sorriso, como se não ousasse crer num tal sonho- iremos todos os três jantar no campo. Mas não é possível saber ainda, nunca sei como tratá-la; pobre pequena, talvez vá machucá-la ainda. E depois, sua decisão talvez seja irrevogável.

            Arrastou-me bruscamente para a sua mãe.

            - Adeus - disse-lhe -; sou obrigado a partir. Não sei quando voltarei de licença, sem dúvida não antes de um mês. Escreverei logo que souber.

            Certamente Robert não era desses filhos que, quando estão na sociedade com a mãe, julgam que uma atitude exasperada em relação a ela deve compensar os sorrisos e cumprimentos que dirigem aos estranhos. Nada é mais comum que essa odiosa vingança dos que parecem achar que a grosseria em relação à família completa naturalmente o tom de cerimônia. Diga o que diga a pobre mãe, o filho, como se levado sem querer e como desejando fazê-la pagar caro a sua presença, refuta imediatamente com uma contradição irônica, precisa, cruel, a asserção timidamente arriscada; a mãe adota logo, sem por isso desarmá-lo, a opinião daquele ser superior que ela continuará a enaltecer a todos, na sua ausência, como sendo um temperamento delicioso e que, no entanto, não lhe poupa nenhum dos dardos mais agudos. Saint-Loup era bem diferente, mas a angústia provocada pela ausência de Rachel fazia que, por motivos diversos, ele se comportasse não menos duramente com a mãe. E às palavras que pronunciou, vi a mesma palpitação, semelhante ao de uma asa, que a Sra. de Marsantes não pudera reprimir à chegada do filho, soerguê-la toda; mas agora era uma fisionomia ansiosa e uns olhos desolados o que ela lhe dirigia.

            - Como, Robert, vais embora? É sério? Meu filhinho! No único dia em que poderia estar contigo!

            E baixinho, no tom mais natural, com uma voz de que se esforçava por banir toda tristeza para não inspirar ao filho uma piedade que talvez fosse cruel para ele, ou inútil, e servisse apenas para irritá-lo, como um argumento de simples bom senso, acrescentou:

            - Sabes que não é gentil o que estás fazendo.

            Mas a essa simplicidade ajuntava tanta timidez, para lhe mostrar que não tolhia a sua liberdade, tanta ternura para que ele não a censurasse por atrapalhar os seus divertimentos, que Saint-Loup não pôde deixar de perceber em si mesmo a possibilidade de um enternecimento, ou seja, um obstáculo para passar o resto da noite com a amiga. Assim, enraiveceu-se:

            - É lamentável, mas, gentil ou não, é assim.

            E fez à mãe as censuras de que sem dúvida se sentia talvez merecedor. É assim que os egoístas têm sempre a última palavra; tendo estabelecido, em primeiro lugar, que a sua resolução é inabalável, quanto mais tocante é o sentimento para o qual lhes apelam com o fim de que renunciem a tal resolução, tanto mais condenáveis julgam, não a si próprios, que lhe resistem, mas aqueles que os põem diante da necessidade de lhe resistir, de modo que sua própria dureza pode chegar à mais extrema crueldade sem que isso, a seus olhos, não faça mais que agravar a culpa da pessoa bastante indelicada para sofrer, para ter razão, e assim covardemente lhes causar a dor de agir contra sua própria piedade. Aliás, por si mesma a Sra. de Marsantes deixou de insistir, pois sentia que não poderia retê-lo.

            - Deixo-te - disse-me ele -; mas não o prenda por muito tempo, mamãe, pois ele precisa fazer uma visita daqui a pouco.

            Percebia eu muito bem que minha presença não podia dar nenhum prazer à Sra. de Marsantes, mas preferia, não saindo com Robert, que ela não me julgasse misturado a esses prazeres que a privavam da sua companhia. Gostaria de encontrar alguma desculpa para a conduta do filho, menos por afeto a ele do que por piedade dela. Mas foi ela quem falou primeiro:

            - Pobre filhinho - disse -, estou certa de que o magoei. Veja, meu senhor, as mães são tão egoístas, e ele, no entanto, tem tão poucos divertimentos, já que vem poucas vezes a Paris. Meu Deus, se ele ainda não saiu, gostaria de ir ao seu encontro, decerto que não para retê-lo, mas para lhe dizer que não lhe quero mal, que acho que ele tem razão. Não se incomoda que eu vá olhar na escada?

            E fomos até lá:

            - Robert, Robert! - gritou ela. - Não, já se foi, é tarde demais.

            Agora eu me encarregaria de uma missão para provocar o rompimento entre Robert e sua amante, com tanta boa vontade como, poucas horas antes, para que ele partisse a fim de ir viver só com ela. No primeiro caso, Robert me julgaria um amigo traidor; no outro, sua família teria me considerado o seu mau gênio. No entanto, eu continuaria sendo o mesmo homem a algumas horas de distância.

            Voltamos para o salão. Não vendo retornar Saint-Loup, a Sra. de Villeparisis trocou com o Sr. de Norpois esse olhar dubitativo, trocista e sem muita piedade que se tem ao indicar uma esposa ciumenta em excesso ou uma mãe carinhosa demais (que dão aos outros o espetáculo da comédia) e que significa:

            "Olha, deve ter havido tempestade."

            Robert foi à casa da amante levando-lhe o esplêndido colar que, segundo tinham combinado, não lhe deveria dar. Mas deu no mesmo, afinal, pois ela não o quis e, mesmo depois, ele não conseguiu fazer com que aceitasse. Alguns amigos de Robert pensavam que essas provas de desinteresse que ela dava seriam um cálculo para prendê-lo ainda mais. Entretanto, ela não ligava para o dinheiro, a não ser talvez para poder gastá-lo sem conta. Eu a vi fazer caridades insensatas, a torto e a direito, a pessoas que ela julgava pobres. "Nesse momento", diziam a Robert os seus amigos, para compensar, com suas palavras mal-intencionadas, uma ação desinteressada de Rachel, "nesse momento ela deve estar no passeio das Folies Bergere. Essa Rachel é um enigma, uma verdadeira esfinge." De resto, quantas mulheres interessadas, visto serem mantidas, não as vemos nós, por uma delicadeza que floresce em meio a essa existência, criar por si mesmas mil pequenos limites à generosidade dos amantes!

            Robert ignorava quase todas as infidelidades da amante e fazia o espírito trabalhar sobre o que não passava de nadas insignificantes em face à verdadeira vida de Rachel, vida que só principiava todos os dias quando ele acabava de deixá-la. Ignorava quase todas essas infidelidades. Poderiam ter lhe contado tudo sem abalar sua confiança em Rachel; pois, devido a uma encantadora lei da natureza, que se manifesta no seio das mais complexas sociedades, é que se vive na perfeita ignorância daquilo que se ama. De um lado do espelho, o enamorado se diz:

            "É um anjo, jamais se dará a mim, não tenho mais que morrer, e no entanto ela me ama; ela me ama tanto que talvez... mas não, não seria possível!"

            E, na exaltação do seu desejo, na angústia da espera, quantas jóias não depõe aos pés dessa mulher, como não corre ele a pedir dinheiro emprestado a fim de lhe poupar preocupações! Entretanto, do outro lado da divisória através da qual essas conversas não passarão mais que as dos passeantes diante de um aquário, o público diz:

            "Não a conhece? Parabéns: ela roubou, arruinou não sei quantos homens, não há nada pior que essa mulher. É uma pura trapaceira. E espertalhona!"

            E talvez o público não esteja absolutamente enganado no que concerne a este último epíteto, pois mesmo o homem descrente, que não está verdadeiramente apaixonado por essa mulher e a quem ela apenas agrada, diz a seus amigos:

            "Não, meu caro, não se trata absolutamente de uma cocote; não digo que não tenha tido dois ou três caprichos na vida, mas não é uma mulher que se paga, ou então seria cara demais. Com ela, é cinqüenta mil francos ou nada."

            Ora, Saint-Loup gastara cinqüenta mil francos com ela, possuíra-a uma vez, mas Rachel, achando para isso, aliás, um cúmplice nele mesmo, na pessoa do seu amor-próprio, soube convencê-lo de que ele era daqueles que a tinham tido por nada. Assim é a sociedade, onde cada criatura é dupla, e onde o indivíduo mais transparente, o de pior fama, nunca será conhecido por um outro a não ser no fundo e sob a proteção de uma concha, de um suave casulo, de uma deliciosa curiosidade natural. Havia em Paris dois excelentes homens a quem Saint-Loup não mais cumprimentava e de quem nunca falava sem que a voz lhe tremesse, chamando-os de exploradores de mulheres: é que tinham sido arruinados por Rachel.

            - Só me arrependo de uma coisa - disse-me bem baixinho a Sra. de Marsantes. - É de lhe haver dito que não era gentil. Ele, esse filho adorável, único, como não existe outro igual, ter dito que não era gentil na única vez em que o vejo; preferiria ter recebido uma paulada, pois estou certa de que, seja qual for o seu prazer desta noite, ficará estragado para ele por causa dessa palavra injusta. Mas, senhor, não vou retê-lo mais, visto que está com pressa.

            A Sra. de Marsantes se despediu com ansiedade. Tais sentimentos se referiam a Robert, ela era sincera. Porém deixou de sê-lo para tornar-se de novo uma grande dama:

            - Fiquei tão interessada, tão feliz, lisonjeada, em conversar um pouquinho com o senhor. Obrigada, obrigada!

            E, com ar humilde, lançava sobre mim olhares agradecidos, arrebatados, como se minha conversação fosse um dos maiores prazeres que tivesse conhecido na vida. Esses olhares encantadores combinavam muito bem com as flores negras do vestido branco de ramagens. Eram de uma grande dama que conhece o seu ofício.

            - Mas não estou com pressa, Senhora - respondi -; além disso, espero o Sr. de Charlus, com quem devo ir-me.

            A Sra. de Villeparisis ouviu estas últimas palavras. Pareceu contrariada com elas. Se não se tratava de uma coisa que não poderia interessar a um sentimento dessa natureza, ter-me-ia parecido que o que alarmava a Sra. de Villeparisis naquele momento era o pudor. Mas essa hipótese nem sequer ocorreu ao meu espírito. Sentia-me contente com a Sra. de Guermantes, com Saint-Loup, a Sra. de Marsantes, o Sr. de Charlus, a Sra. de Villeparisis; não refletia e falava alegremente, a torto e a direito.

            - Deve partir com meu sobrinho Palamede? - perguntou ela.

            Pensando que poderia produzir uma impressão bastante favorável sobre a Sra. de Villeparisis o fato de eu ser ligado a um sobrinho que ela prezava tanto, respondi com alegria:

            - Ele me pediu que saíssemos juntos. Estou encantado. Aliás, somos mais amigos do que a senhora imagina, e estou decidido a fazer tudo para que o sejamos ainda mais.

            De contrariada, a Sra. de Villeparisis passou a mostrar-se inquieta.

            - Não o espere - disse ela com ar de preocupação -; está conversando com o Sr. de Faffenheim. Já não pensa no que lhe disse. Olhe, parta logo, aproveite depressa agora que ele está de costas.

            Essa primeira emoção da Sra. de Villeparisis teria se assemelhado, não fossem as circunstâncias, ao pudor. Sua insistência e oposição poderiam parecer, se apenas consultássemos a sua fisionomia, ditadas pela virtude. De minha parte, não tinha pressa alguma em ir encontrar-me com Robert e sua amante. Mas a Sra. de Villeparisis parecia fazer tanta questão de que eu fosse embora que, pensando que talvez ela tivesse negócios importantes a tratar com o sobrinho, lhe fiz minhas despedidas.

            Ao lado dela, o Sr. de Guermantes, soberbo e olímpico, sentava-se pesadamente. Dir-se-ia que a noção, onipresente em todos os seus membros, de suas grandes riquezas lhe conferia uma densidade especialmente alta, como se tivessem sido fundidas no crisol em um só lingote humano, para produzir esse homem que valia tão caro. No momento em que dele me despedi, ergueu-se cortesmente do assento e senti a massa inerte de trinta milhões de francos que a velha educação francesa fazia mover, erguia e punha de pé à minha frente. Parecia-me ver aquela estátua de Júpiter Olímpico que Fídias, dizem, fundira integralmente em ouro. Tal era a força que a educação dos jesuítas exercia sobre o Sr. de Guermantes, sobre o corpo do Sr. de Guermantes ao menos, pois não reinava da mesma forma sobre o espírito do duque. O Sr. de Guermantes ria dos próprios ditos espirituosos, mas se mantinha impassível diante dos alheios. Na escada, ouvi atrás de mim uma voz que me interpelava:

            - É assim que o senhor me espera!

            Era o Sr. de Charlus.

            - Importa-lhe andar comigo um pouco a pé? - perguntou-me secamente ao chegarmos ao pátio. - Vamos caminhar até que eu haja encontrado um fiacre que me convenha.

            - O senhor queria falar de alguma coisa?

            - Ah, sim, de fato, eu tinha certas coisas a lhe dizer, mas já não sei se as direi. Decerto julgo que poderiam ser, para o senhor, o ponto de partida de vantagens inestimáveis. Mas entrevejo também que trariam à minha existência, à minha idade, quando a gente começa a preferir a tranqüilidade, muita perda de tempo, incômodos de todo tipo; ora, pergunto-me se o senhor valeria a pena que eu me desse a todo esse trabalho, e não tenho o prazer de conhecê-lo bastante para decidir-me. Também é possível que não se interesse muito pelo que poderia fazer pelo senhor, para que eu sofra tantos aborrecimentos, pois, senhor, repito com toda a franqueza que, para mim, não passa talvez de aborrecimento.

            Protestei que, nesse caso, não era preciso pensar nisso. Essa ruptura de negociações pareceu não lhe agradar.

            - Essa cortesia não significa nada - retrucou num tom duro. - Não há nada mais agradável do que aborrecer-se por uma pessoa que valha a pena. Para os melhores dentre nós, o estudo das artes, o gosto pelas antigüidades, as coleções, os jardins, não passam de ersatz, sucedâneos, álibis. No fundo do nosso tonel, como Diógenes, procuramos um homem. Cultivamos begônias, aparamos teixos como último recurso, porque os teixos e as begônias se deixam manusear. Porém preferiríamos empregar o nosso tempo com um arbusto humano, se estivermos certos de que ele vale a pena. Toda a questão está aí; o senhor deve se conhecer um pouco. Vale a pena ou não?

            - Não gostaria, senhor, por nada deste mundo, de ser motivo de suas preocupações -disse-lhe -; mas, quanto ao meu prazer, creia que tudo o que vier de sua parte me dará grande alegria. Estou profundamente comovido de que tenha se interessado por mim, procurando me ser útil.

            Para meu grande espanto, foi quase com efusão que ele me agradeceu estas palavras. Passando seu braço por baixo do meu com aquela familiaridade intermitente que já me assombrara em Balbec, e que contrastava com a dureza do acento, disse-me:

            - Com a desconsideração própria da sua idade, o senhor poderia às vezes ter palavras capazes de cavar um abismo intransponível entre nós. Ao contrário, essas que acaba de pronunciar pertencem ao gênero que é justamente capaz de me emocionar e fazer muito pelo senhor.

            Enquanto caminhava de braço dado comigo e dizia estas palavras que, embora mescladas de desdém, eram tão afetuosas, o Sr. de Charlus ora fixava seus olhares em mim com aquela fixidez intensa, aquela dureza penetrante que me haviam impressionado na primeira manhã, em que o vira diante do cassino em Balbec, e até muitos anos antes, perto do espinheiro cor-de-rosa, ao lado da Sra. Swann, que então eu julgava sua amante, no parque de Tansonville, ora fazia-os errarem a seu redor, examinando os fiacres que passavam em grande quantidade àquela hora de repouso, com tamanha insistência que vários paravam, tendo o cocheiro imaginado que desejavam tomá-lo. Mas o Sr. de Charlus os despedia logo.

            - Nenhum me convém - disse ele -; é tudo uma questão de lanternas, do bairro a que regressam. Eu gostaria, senhor - continuou -, que não se equivocasse quanto ao caráter puramente desinteressado e caritativo da proposta que lhe vou fazer.

            Impressionava-me o quanto a sua dicção se assemelhava à de Swann, ainda mais do que em Balbec.

            - O senhor é bastante inteligente, suponho, para não acreditar que ela seja inspirada por "ausência de relações", pelo medo da solidão e do tédio. Não preciso lhe falar da minha família, pois acho que um rapaz de sua idade, pertencente à pequena burguesia - (acentuou esse termo com satisfação) deve conhecer a história da França. São as pessoas da minha sociedade que não lêem nada e possuem uma ignorância de lacaio. Antigamente os camareiros do rei eram recrutados entre os grão-senhores; agora os grão-senhores não são mais que camareiros. Mas os jovens burgueses como o senhor lêem; o senhor certamente conhece, a respeito dos meus, a bela página de Michelet: "Vejo-os bem grandes, esses poderosos Guermantes. E quem é, junto deles, o pobre reizinho da França, fechado em seu palácio de Paris?" Quanto ao que sou pessoalmente, senhor, é um assunto de que não me agrada muito falar. Mas enfim, talvez o senhor o saiba, pois um artigo retumbante do Times lhe faz alusão, que o imperador da Áustria, que sempre me honrou com a sua benevolência e tem a bondade de manter comigo relações de parentesco, declarou recentemente, numa conversa que se tornou pública, que, se o Sr. Conde de Chambord houvesse tido a seu lado um homem tão profundamente conhecedor, como eu, dos bastidores da política européia, seria hoje rei da França. Muitas vezes pensei, senhor, que havia em mim, não devido a meus fracos dons, mas sim a circunstâncias que um dia talvez aprenderá, um tesouro de experiências, uma espécie de dossiê secreto e inestimável, que julguei não dever utilizar pessoalmente, mas que seria sem preço para um jovem a quem eu entregaria, em poucos meses, o que levei mais de trinta anos para adquirir e que talvez seja o único a possuir. Não falo do prazer intelectual que o senhor teria em aprender certos segredos que um Michelet dos nossos dias daria anos de sua vida para conhecer, e graças aos quais certos fatos ganhariam a seus olhos um aspecto inteiramente diverso. E não falo apenas dos fatos consumados, mas do encadeamento das circunstâncias - (era uma das expressões prediletas do Sr. de Charlus e, freqüentemente, quando a pronunciava, juntava as mãos como quando a gente quer rezar, mas com os dedos rígidos, e como para fazer compreender, com esse complexo, tais circunstâncias, que não especificava, e o seu encadeamento.) - Eu lhe daria uma explicação inédita, não só do passado mas também do futuro.

            O Sr. de Charlus se interrompeu para me fazer perguntas sobre Bloch, de quem haviam falado, sem que parecesse ouvir, na casa da Sra. de Villeparisis. E, com esse acento que ele sabia tão bem destacar daquilo que dizia, de modo a dar a impressão de que pensava em coisa diferente e de falar maquinalmente por simples polidez, perguntou se meu colega era jovem, bonito, etc. Bloch, se o ouvisse, teria ainda muito mais trabalho do que com o Sr. de Norpois, mas, devido a razões bem diversas, para saber se o Sr. de Charlus era a favor ou contra Dreyfus.

            - Não está errado, se quiser se instruir - disse o Sr. de Charlus após fazer essas perguntas acerca de Bloch -, em ter entre seus amigos alguns estrangeiros.

            Respondi que Bloch era francês.

            - Ah! - exclamou o Sr. de Charlus - pensei que fosse judeu.

            A declaração dessa incompatibilidade me fez acreditar que o Sr. de Charlus era mais antidreyfusista que qualquer das pessoas que eu conhecera. Ao contrário, ele protestou contra a acusação de traição levantada contra Dreyfus. Porém fê-lo sob esta forma:

            - Creio que os jornais dizem que Dreyfus cometeu um crime contra a sua pátria, creio que é isso, não presto muita atenção aos jornais; leio-os como lavo as mãos, sem achar que valha a pena me interessar. Em todo caso, o crime é inexistente, o compatriota do seu amigo teria cometido um crime contra a sua pátria se houvesse traído a Judéia, mas o que é que ele tem a ver com a França?

            Objetei que, se alguma vez houvesse uma guerra, os judeus seriam igualmente convocados como os demais.

            - Talvez, e não é certo que não se trate de uma imprudência. Mas, se convocarem senegaleses e malgaxes, não creio que façam muito empenho em defender a França, o que é natural. O seu Dreyfus antes poderia ser condenado por infração às regras da hospitalidade. Mas deixemos isso. Talvez o senhor possa pedir a seu amigo que me consiga assistir a alguma bela festa no Templo, a uma circuncisão, aos cantos judeus. Talvez ele pudesse alugar uma sala e proporcionar-me algum espetáculo bíblico, assim como as meninas de Saint-Cyr representaram episódios tirados dos Salmos por Racine, para distração de Luís XIV. Talvez pudessem até me arrumar algumas cenas para fazer rir. Por exemplo, uma luta entre o seu amigo e o pai deste em que aquele o ferisse como Davi a Golias. Isso comporia uma farsa bem divertida. Ele poderia até, uma vez que principiou, dar boas pancadas na carcaça ou, como diria a minha velha criada, na rabugenta da mãe. Isto seria muito bem-feito e não nos desagradaria, não é, meu amiguinho, pois ambos apreciamos os espetáculos exóticos, e espancar essa criatura extra-européia seria dar um corretivo merecido a um velho camelo.

            Dizendo essas horríveis palavras quase doidas, o Sr. de Charlus me apertava o braço a ponto de me fazer sentir mal. Lembrava-me da família do Sr. de Charlus citando tantos casos de bondade admiráveis do barão, para com essa velha criada cujo patoá molieresco acabava de evocar, e dizia comigo que seria interessante estabelecer as relações, ao que me parecia pouco estudadas até agora, entre a bondade e a malvadeza em um mesmo coração, por mais diversas que pudessem ser. Adverti-o de que, em todo caso, a Sra. Bloch já não existia e que, quanto ao Sr. Bloch, eu me perguntava até que ponto ele se entregaria a um jogo que poderia muito bem vazar-lhe os olhos. O Sr. de Charlus pareceu zangado.

            - Eis uma mulher que teve grande sorte em morrer -disse ele. - Quanto aos olhos vazados, justamente a sinagoga é cega, não enxerga as verdades do Evangelho. De qualquer forma, pense, neste momento, em todos esses desgraçados judeus que tremem diante da fúria estúpida dos cristãos, que honra seria para eles verem um homem como eu condescender em divertir-se com seus jogos!

            Naquele instante vi o Sr. Bloch pai que passava, sem dúvida indo adiante do filho. Ele não nos via, mas ofereci-me ao Sr. de Charlus para apresentá-lo. Tinha certeza da cólera que ia desencadear em meu companheiro:

            - Apresentá-lo a mim! Mas é preciso que o senhor não tenha muita noção dos valores! Não me conhece tão facilmente assim. No caso presente, a inconveniência seria dupla por causa da juventude do apresentador e da indignidade do apresentado. Quando muito, se um dia me derem o espetáculo asiático que eu esboçava, poderia dirigir a esse velhote horrível algumas palavras carregadas de bonomia. Mas com a condição de que se deixe surrar barbaramente pelo filho. Eu poderia chegar mesmo a exprimir a minha satisfação. -

            Aliás, o Sr. Bloch não prestava nenhuma atenção em nós. Estava ocupado em dirigir grandes cumprimentos à Sra. Sazerat, cumprimentos que ela acolhia muito bem. Aquilo me surpreendia, pois outrora, em Combray, ela ficara indignada pelo fato de meus pais terem recebido o jovem Bloch, de tanto que ela era anti-semita.

            Mas o dreyfusismo, como uma corrente de ar, fizera voar o Sr. Bloch até ela alguns dias antes. O pai do meu amigo achara encantadora a Sra. Sazerat e estava particularmente envaidecido pelo anti-semitismo dessa dama, julgando-o uma prova da sinceridade de sua fé e da verdade de suas opiniões dreyfusistas e que assim dava mais valor à visita que ela o autorizara a fazer. Nem sequer se ofendera que ela tivesse dito estouvadamente na sua presença:

            - O Sr. Drumont tem a pretensão de pôr os revisionistas no mesmo saco que os protestantes e os judeus. É deliciosa essa promiscuidade!

            - Bernard - dissera ele com orgulho, na volta, ao Sr. Nissim Bernard -, sabes, ela tem o preconceito! -

            Mas o Sr. Nissim Bernard nada respondera, erguendo aos céus um olhar angélico. Entristecendo-se com a desgraça dos judeus, lembrando-se dos amigos cristãos, tornando-se amaneirado e preciosista à medida que os anos passavam, por motivos que veremos mais tarde, dava idéia agora de uma larva pré-rafaelita onde os pêlos fossem imundamente implantados, como cabelos afogados numa opala.

            - Todo esse Caso Dreyfus - continuou o barão, sempre segurando o meu braço - só tem um inconveniente: é que destrói a sociedade (não digo a boa sociedade, há muito que a sociedade não merece esse epíteto elogioso) pelo afluxo de senhores e senhoras do Camelo, da Camelaria, da Cameleira, enfim, pessoas desconhecidas que encontro até na casa de minhas primas, porque fazem parte da Liga da Pátria Francesa, antijudaica, não sei o quê, como se uma opinião política desse direito a uma qualificação social.

            Esta frivolidade do Sr. de Charlus o aproximava mais da duquesa de Guermantes. Apontei-lhe a semelhança. Como parecesse crer que eu não a conhecia, lembrei-lhe a vesperal da ópera onde ele dera a impressão de querer se esconder de mim. Disse-me com tanto empenho que absolutamente não me vira que teria acabado por acreditar nele, se em breve um pequeno incidente não me levasse a pensar que o Sr. de Charlus, talvez excessivamente orgulhoso, não gostava de ser visto em minha companhia.

            - Voltemos ao senhor – disse - e aos meus projetos a seu respeito. Senhor, existe entre certos homens uma franco-maçonaria de que não posso lhe falar, mas que neste momento conta em suas fileiras quatro soberanos da Europa. Ora, os companheiros de um deles, que é o imperador da Alemanha, querem curá-lo de sua quimera. Isto é uma coisa muito grave e pode nos levar à guerra. Sim, senhor, perfeitamente. O senhor conhece a história daquele homem que julgava manter numa garrafa a princesa da China. Era uma loucura. Curaram-no. Mas, desde que deixou de ser louco, tornou-se imbecil. Há males cuja cura não se deve procurar porque eles nos protegem contra outros mais graves. Um de meus primos tinha uma doença do estômago, não podia digerir coisa alguma. Os mais sábios especialistas do estômago cuidaram dele sem resultado. Eu o levei a um certo médico (de passagem, uma criatura bastante curiosa e sobre a qual haveria muito a dizer). Este adivinhou logo que se tratava de uma doença nervosa, convenceu o enfermo, ordenou-lhe que comesse sem receio o que quisesse que seria sempre bem tolerado. Mas seu primo também sofria de nefrite. O que o estômago digere perfeitamente, o rim acaba por não poder eliminar, e meu primo, em lugar de viver até velho com uma doença imaginária do estômago que o forçava a seguir uma dieta, morreu aos quarenta anos, com o estômago curado, mas o rim perdido. Com um adiantamento formidável sobre sua própria vida, quem sabe se o senhor não será o que poderia ter sido um homem eminente do passado se um gênio benfazejo lhe houvesse revelado, em meio à humanidade que as ignorava, as leis do vapor e da eletricidade. Não seja bobo, não recuse por discrição. Compreenda que, se lhe presto um grande serviço, não imagino que seja menor o que há de me prestar. Há muito que as pessoas da sociedade cessaram de me interessar, só tenho uma paixão, buscar redimir as culpas da minha vida, fazendo com que tire proveito do que sei uma alma ainda virgem e capaz de ser inflamada pela virtude. Tive grandes desgostos, senhor, de que lhe falarei talvez um dia; perdi minha mulher, que era a criatura mais nobre, mais bela, a mais perfeita que se possa imaginar. Tenho parentes jovens que são, não direi indignos, mas incapazes de receber a herança moral de que lhe falo. Quem sabe se o senhor não é aquele em cujas mãos pode ficar essa herança, aquele que eu poderei orientar e erguer tão alto na vida? A minha ganharia por acréscimo. Quem sabe se, ao lhe revelar as grandes questões diplomáticas, voltaria eu mesmo a lhes sentir o gosto e por fim me pusesse a fazer coisas interessantes em que o senhor seria o parceiro. Porém, antes de sabê-lo, seria necessário que o visse várias vezes, com muita freqüência, todos os dias.

            Desejaria desfrutar das boas disposições inesperadas do Sr. de Charlus para lhe perguntar se ele não poderia me fazer encontrar com sua cunhada, mas, naquele momento, tive o braço vivamente deslocado por uma sacudidela, como um choque elétrico. Era o Sr. de Charlus que acabava de retirar precipitadamente o seu braço de sob o meu. Embora falando sempre, e voltando os olhos em todas as direções, somente agora é que vira o Sr. de Argencourt, que desembocava de uma rua transversal.  Ao nos ver, este pareceu contrariado, lançou sobre mim um olhar de desconfiança, quase como aquele olhar destinado a uma criatura de outra raça que a Sra. de Guermantes lançara sobre Bloch, e tratou de evitar-nos. Mas parecia que o Sr. de Charlus se preocupava em lhe mostrar que não buscava de modo algum não ser visto por ele, pois chamou-o e para lhe dizer algo bem insignificante. E, talvez temendo que o Sr. de Argencourt não me reconhecesse, o Sr. de Charlus lhe disse que eu era um grande amigo da Sra. de Villeparisis, da duquesa de Guermantes, de Robert de Saint-Loup, que ele mesmo, Charlus, era um velho amigo de minha avó, feliz em tributar ao neto um pouco da simpatia que sentia por ela. Não obstante, reparei que o Sr. de Argencourt, a quem no entanto mal havia sido apresentado na casa da Sra. de Villeparisis e a quem o Sr. de Charlus acabava de falar longamente da minha família, fez-se mais frio comigo do que o fora uma hora antes, e desde então, durante muito tempo, procedia da mesma forma quando me encontrava. Observou-me naquela noite com uma curiosidade que nada tinha de simpática e pareceu mesmo ter de vencer uma certa resistência quando, ao nos deixar, depois de breve hesitação, estendeu-me a mão, que retirou logo.

            - Lamento esse encontro - disse o Sr. de Charlus. - Este Argencourt, bem-nascido mas mal-educado, diplomata mais que medíocre, marido detestável e mulherengo, velhaco feito nas comédias, é um desses homens incapazes de compreender, mas bem capazes de destruir as coisas verdadeiramente grandes. Espero que a nossa amizade o seja, se deve se fundar um dia, e que o senhor me faça a honra de mantê-la, tanto como eu, a salvo dos coices de um desses burros que, por ociosidade, por falta de jeito, por malvadeza, esmagam o que parece feito para durar. Infelizmente, é por esse molde que é feita a maioria das pessoas deste mundo.

            - A duquesa de Guermantes parece muito inteligente. Falávamos há pouco de uma possível guerra. Parece que a duquesa tem, a esse respeito, luzes especiais.

            - Não tem nenhuma - respondeu secamente o Sr. de Charlus. - As mulheres e, aliás, muitos homens não entendem nada das coisas de que eu desejaria falar. Minha cunhada é uma mulher encantadora que se imagina ser ainda dos tempos dos romances de Balzac, quando as mulheres tinham influência na política. A convivência delas não poderia exercer agora sobre o senhor senão uma influência maléfica, como aliás toda e qualquer convivência. E era justamente uma das primeiras coisas que ia lhe dizer quando esse idiota me interrompeu. O primeiro sacrifício que tem de me fazer o hei de exigir tantos quantos forem os benefícios que lhe fizer - é o de não freqüentar a sociedade. Sofri agora há pouco ao vê-lo nessa reunião ridícula. O senhor me dirá que também ali estive, mas para mim não era uma reunião mundana, e sim uma visita de família. Mais tarde, quando for um homem arrivé, se lhe agradar descer por instantes à sociedade, talvez não haja inconveniente. Então já não precisarei lhe dizer de que utilidade lhe seria. O "Sésamo" do palacete Guermantes e de todos aqueles que merecem que a porta se abra de par em par diante do senhor, eu é que o detenho. Serei juiz e tenciono permanecer o árbitro da hora. Atualmente o senhor é um catecúmeno. Sua presença naquela reunião era um tanto escandalosa. É preciso, antes de tudo, evitar a indecência.

            Como o Sr. de Charlus falava da visita à casa da Sra. de Villeparisis, desejei indagar sobre o seu parentesco exato com a marquesa, a origem desta, mas a pergunta se fez em meus lábios de forma diferente da que eu quisera, e acabei perguntando o que era a família Villeparisis.

            - Meu Deus, a resposta não é muito fácil - respondeu o Sr. de Charlus com uma voz que parecia deslizar nas palavras. - É como se o senhor me pedisse para dizer o que é o nada. Minha tia, que pode permitir-se a tudo, teve a fantasia, ao se casar em segundas núpcias com um certo Sr. Thirion, de mergulhar no nada o maior nome da França. Este Thirion pensou que poderia sem inconveniente, como ocorre nos romances, assumir um nome aristocrático e extinto. A história não diz se ele foi tentado por La Tour de Auvergne, se hesitou entre Toulouse e Montmorency. Em todo caso, fez uma escolha diferente e tornou-se o Sr. de Villeparisis. Como não há mais ninguém com tal nome desde 1702, imaginei que ele queria modestamente significar com isso que se tratava de um senhor de Villeparisis, pequena localidade perto de Paris, e que possuía uma banca de advogado ou um salão de cabeleireiro em Villeparisis. Porém minha tia não sabia nada a esse respeito aliás, chega a uma idade em que não se entende mais de coisa alguma. Ela pretendeu que esse marquesado estava na família, escreveu a todos nós, quis fazer as coisas regularmente, não sei por quê. Uma vez que se se apropria de um nome ao qual não se tem direito, o melhor é não estar com tantas histórias, como a nossa excelente amiga, a condessa de M***, que, apesar dos conselhos da Sra. Alphonse Rothschild, recusou aumentar os dinheiros de São Pedro por um título que nem por isso se tornaria mais verdadeiro. O engraçado é que, desde essa ocasião, minha tia monopolizou todas as pinturas que se referiam aos verdadeiros Villeparisis, com os quais o falecido Thirion não tinha qualquer parentesco. O castelo de minha tia se tornou uma espécie de sede de monopólio de seus retratos, autênticos ou não, sob o fluxo crescente dos quais alguns Guermantes e alguns Condes, que no entanto não são de pouca importância, tiveram de desaparecer. Os negociantes de quadros fabricam-nos todos os anos. E ela chega mesmo a ter, na sala de jantar, no campo, um retrato de Saint-Simon por causa do primeiro casamento de sua sobrinha com o Sr. de Villeparisis, e embora o autor das Memórias tenha talvez outros títulos para o interesse dos visitantes que não o fato de ter sido bisavô do Sr. Thirion. Não passando de uma Sra. Thirion, a Sra. de Villeparisis completou a queda que havia começado em meu espírito quando vira a composição misturada do seu salão. Eu achava injusto que uma mulher, de quem até o título e o nome eram tão recentes, pudesse iludir os contemporâneos e devesse iludir também a posteridade, graças às amizades régias. Voltando a ser o que me havia parecido em minha infância, uma pessoa que nada tinha de aristocrático, esses grandes parentescos que a cercavam me pareceram restar de todo estranhos a ela. Desde então, não deixou de se mostrar encantadora conosco. Às vezes eu ia vê-la, e ela me mandava uma lembrança de vez em quando. Mas de modo algum eu tinha a impressão de que pertencesse ao faubourg Saint-Germain, e, se queria alguma informação a respeito, ela seria uma das últimas pessoas a quem me dirigiria.

            - Atualmente - continuou o Sr. de Charlus - o senhor só faria prejudicar sua situação freqüentando a sociedade; deformaria seu caráter e sua inteligência. Ademais, seria necessário fiscalizar até mesmo, e sobretudo, suas camaradagens. Tenha amantes, caso sua família não veja inconveniente nisso, isso não me diz respeito e até só posso encorajá-lo a tanto, seu travesso, que logo logo vai ter de fazer a barba - disse ele, tocando-me o queixo. - Mas a escolha dos amigos homens tem uma outra importância. Em cada dez pessoas, oito são uns canalhas, miseráveis capazes de lhe fazer danos de que o senhor jamais se há de recobrar. Olhe, meu sobrinho Saint-Loup é, a rigor, um excelente companheiro para o senhor. Do ponto de vista do seu futuro, ele não lhe poderá ser útil para nada; mas para isso, basto eu. E afinal de contas, para sair com o senhor nos momentos em que estiver farto de mim, não me parece apresentar nenhum inconveniente grave, ao que suponho. Pelo menos, trata-se de um homem, não é um desses efeminados, como a gente encontra tanto hoje em dia, que parecem pequenos truqueurs e que amanhã talvez levem ao cadafalso suas inocentes vítimas. - (Eu não sabia o significado desse termo de gíria, truqueur. Quem quer que o conhecesse, ficaria tão surpreendido como eu. As pessoas da sociedade gostam de falar em gíria, e aquelas a quem se pode censurar certas coisas, de mostrar que não receiam falar nas mesmas. Prova de inocência a seus olhos. Porém perderam a noção da escala de valores, já não percebem o grau a partir de que um certo gracejo se torna muito especial, por demais chocante, e será mais uma prova de corrupção do que de ingenuidade.) - Ele não é como os outros; é muito amável e bastante sério.

            Não pude deixar de sorrir diante desse epíteto de "sério", ao qual a entonação que lhe dava o Sr. de Charlus parecia conferir o sentido de "virtuoso", de "bem-comportado", como de uma operariazinha se diz que é séria. Nesse momento passou um fiacre que ia à toa; um cocheiro jovem, tendo descido da boléia, conduzia-o do fundo do carro, onde se assentara sobre almofadas, parecendo meio bêbado. O Sr. de Charlus fê-lo parar com vivacidade. O cocheiro parlamentou por um momento.

            - Para que lado o senhor vai?

            - Para o seu. (Aquilo me espantou, pois o Sr. de Charlus já recusara vários fiacres com lanternas da mesma cor.)

            - Mas não quero voltar para a boléia. Importa-se que eu fique dentro do carro?

            - Não, mas baixe a capota. Enfim, pense na minha proposta - disse-me o Sr. de Charlus antes de ir embora. - Dou-lhe alguns dias para refletir, escreva-me. Repito-lhe, será preciso vê-lo todos os dias e que eu receba do senhor garantias de lealdade, de discrição, que aliás, devo dizê-lo, o senhor parece oferecer. Mas, durante a minha vida, tenho sido tão freqüentemente enganado pelas aparências que não quero mais confiar nelas. Diabo, não é nada demais que, antes de abandonar um tesouro, eu saiba em que mãos vou depositá-lo. Enfim, lembre-se bem do que lhe estou oferecendo, o senhor é como Hércules de quem, infelizmente, não parece ter a forte musculatura, na encruzilhada de dois caminhos. Procure não ter de lamentar pelo resto da vida não haver escolhido aquele que conduziria à virtude. Como disse, dirigindo-se ao cocheiro -, ainda não baixou a capota? Eu mesmo vou dobrar as molas. Pelo visto, creio que terei também de conduzir o carro, levando em conta o estado em que parece estar.

            E saltou para junto do cocheiro, no fundo do fiacre, o qual partiu a trote largo.

            De minha parte, mal entrei em casa encontrei uma réplica da conversa que haviam tido um pouco antes o Sr. de Norpois e Bloch, mas sob uma forma breve, invertida e cruel: era uma discussão entre o nosso mordomo, que era dreyfusista, e o dos Guermantes, antidreyfusista. As verdades e contraverdades que entre si opunham no alto os intelectuais da Liga da Pátria Francesa e a dos Direitos do Homem se propagavam de fato até as profundezas do povo. O Sr. Reinach manobrava, pelo sentimento, pessoas que jamais o tinham visto, enquanto que para ele a questão Dreyfus se apresentava diante de sua razão apenas como um teorema irrefutável e que ele "demonstrou de fato" com o mais espantoso êxito da política racional (êxito contra a França, disseram alguns) que jamais se viu. Em dois anos, ele substituiu um ministério Billot por um ministério Clémenceau, mudou de alto a baixo a opinião pública, tirou Picquart da prisão para colocá-lo, ingrato, no Ministério da Guerra. Talvez esse nacionalista manobrador de massas fosse ele próprio manobrado por sua raça. Quando os sistemas filosóficos que contêm mais verdades são ditados a seus autores, em última análise por razões de sentimento, como supor que, numa simples questão política, como o Caso Dreyfus, motivos desse gênero não possam, contra a vontade do raciocinador, governar-lhe a razão? Bloch julgava ter escolhido logicamente o seu dreyfusismo, e no entanto sabia que seu nariz, sua pele e cabelos tinham-lhe sido impostos pela sua raça. Evidentemente, a razão é mais livre; todavia, ela obedece a certas leis que não impôs a si mesma. O caso do mordomo dos Guermantes e do nosso era particular. As vagas das duas correntes, do dreyfusismo e do antidreyfusismo, que dividiam a França de alto a baixo, eram bem silenciosas, mas os raros ecos que emitiam eram sinceros. Ouvindo alguém, que no meio de uma conversa afastava-se voluntariamente do caso, anunciar furtivamente uma notícia política, em geral falsa mas sempre desejada, era possível deduzir do objeto de suas previsões a orientação de seus desejos. Assim, defrontavam-se sobre alguns pontos, de uma parte um apostolado tímido, de outra uma santa indignação. Os dois mordomos que ouvi ao voltar para casa eram exceção à regra. O nosso deixou ouvir que Dreyfus era culpado; o dos Guermantes, que ele era inocente. Não era para dissimular suas convicções, mas por maldade e encarniçamento no jogo. Nosso mordomo, inseguro sobre se ia ocorrer a revisão, queria previamente, no caso de um fracasso, tirar ao mordomo dos Guermantes a alegria de julgar derrotada uma causa justa. O mordomo dos Guermantes pensava que, no caso de uma recusa à revisão, o nosso ficaria mais aborrecido por ver ser mantido um inocente na Ilha do Diabo. O porteiro os olhava. Tive a impressão de que não era ele quem dividia a domesticidade dos Guermantes.

            Subi e achei minha avó bem pior. Desde algum tempo, sem bem saber do que sofria, ela se queixava da saúde. Na enfermidade é que percebemos que não vivemos sós, mas acorrentados a uma criatura de outro reino, cujos abismos nos separam, que não nos conhece e pelo qual nos é impossível fazer-nos compreender: nosso corpo. Qualquer assaltante que encontrássemos no caminho, talvez pudéssemos sensibilizá-lo em seu interesse pessoal, senão pela nossa desgraça. Mas rogar piedade ao nosso corpo é discursar diante de um polvo, para quem nossas palavras não podem ter mais sentido que o rumor das águas, e com o qual nos aterrorizaríamos de ser condenados a conviver. Os achaques de minha avó lhe passavam muitas vezes despercebidos à atenção, sempre voltada para nós. Quando ela sofria muito, esforçava-se em vão para compreender seus males a fim de curá-los. Se os fenômenos mórbidos de que seu corpo era o palco permaneciam obscuros e inatingíveis ao seu pensamento, eram nítidos e inteligíveis para os seres que pertenciam ao mesmo reino físico deles, destes a quem o espírito humano acabou por se dirigir para compreender o que lhe diz seu corpo, como diante das respostas de um estrangeiro a gente vai procurar alguém do mesmo país para servir de intérprete. Estes podem conversar com o nosso corpo, dizer-nos se sua cólera é grave ou em breve se acalmará. Cottard, que haviam chamado para junto da minha avó e que nos irritara ao perguntar com um sorriso fino, desde o primeiro minuto em que lhe tínhamos dito que ela estava doente:

            "Doente? Não será pelo menos uma doença diplomática?", Cottard tentou, para acalmar a agitação da sua cliente, a dieta de leite. Mas as perpétuas sopas de leite não fizeram efeito porque minha avó punha nelas muito sal, cuja inconveniência era ignorada naquele tempo (pois Widal ainda não tinha feito suas descobertas). Sendo a medicina um compêndio de erros sucessivos e contraditórios dos médicos, recorrendo-se aos melhores dentre estes corre-se o risco de solicitar uma verdade que será reconhecida como falsa alguns anos depois. De modo que acreditar na medicina seria a maior loucura, caso não acreditar em absoluto nela não fosse uma outra ainda maior, pois desse amontoado de erros se desprenderam, ao longo dos anos, algumas verdades. Cottard havia recomendado que lhe medissem a temperatura. Foram buscar um termômetro. Em quase toda a sua altura, o tubo estava vazio de mercúrio. Mal se distinguia, agachada no fundo de sua pequena cuba, a salamandra cor de prata.

            Parecia morta. Puseram o canudinho de vidro na boca da minha avó. Não precisamos deixá-lo ali por muito tempo; a pequena feiticeira não havia demorado em tirar o seu horóscopo. Encontramo-la imóvel, empoleirada a meio em sua torre e, sem mais um gesto, mostrando-nos com exatidão a cifra que todos nós lhe pedíramos e que todas as reflexões que pudesse fazer sobre si mesma a alma da minha avó teriam sido bem incapazes de lhe fornecer: 38,3°. Pela primeira vez, sentimos uma certa inquietação.

            Sacudimos com força o termômetro para apagar o signo fatídico, como se, assim, tivéssemos podido abaixar a febre ao mesmo tempo que a temperatura marcada. Infelizmente, ficou bem claro que a pequena sibila desprovida de razão não fornecera arbitrariamente aquela resposta, pois no dia seguinte, mal o termômetro foi recolocado entre os lábios de minha avó, quase imediatamente, como de um só salto, magnífica de certeza e da intuição de um fato para nós invisível, a pequena profetisa viera parar no mesmo ponto, numa imobilidade implacável, mostrando-nos ainda a marca de 38,3° de sua haste fulgurante. Não nos dizia outra coisa, e, por mais que desejássemos, quiséssemos, implorássemos, permanecia surda e parecia que esse era o seu último aviso ameaçador. Então, para tentar constrangê-la a modificar sua resposta, recorremos a uma outra criatura do mesmo reino, porém mais poderosa, que não se contenta em interrogar o corpo mas pode comandá-lo, um febrífugo da mesma natureza da aspirina, ainda não empregado à época. Não tínhamos baixado o termômetro além dos 37,5°, na esperança de que assim não teria de subir. Mandamos dar esse febrífugo à minha avó e depois recolocamos o termômetro. Como um guarda implacável a quem se mostra a ordem de uma autoridade superior, cuja proteção se obteve, e que, encontrando-a em ordem, responde:

            "Está certo, não tenho nada a dizer, já que é assim, passem", a vigia da torre não se mexeu desta vez. Mas, carrancuda, parecia dizer: "De que lhes servirá isto? Já que conhecem a quinina, ela me dará ordens no sentido de não me mover uma vez, dez vezes, vinte vezes. E depois ficará cansada, conheço-a; vamos! Isto não vai durar para sempre. E então vocês vão ficar na mesma." Então a minha avó sentiu, em si mesma, a presença de uma criatura que conhecia melhor o corpo humano que ela, a presença de uma contemporânea de raças desaparecidas, a presença do primeiro ocupante bem anterior à criação do homem que pensa; sentiu esse aliado milenar que a apalpava, até com certa dureza, na cabeça, no coração, no cotovelo, reconhecendo os locais, organizando tudo para o combate pré-histórico que ocorreu logo após. Num instante, a serpente Píton esmagada, a febre foi vencida pelo poderoso elemento químico a que minha avó, através dos reinos, passando por cima de todos os animais e vegetais, gostaria de poder agradecer. E ficava abalada com essa entrevista que acabava de ter, através de tantos séculos, com um elemento anterior à própria criação das plantas. Por seu turno, o termômetro, como uma Parca momentaneamente vencida por um deus mais antigo, mantinha imóvel o seu fuso de prata. Infelizmente, outras criaturas inferiores que o homem treinou para a caça desses animais misteriosos que não pode perseguir no fundo de si mesmo nos traziam cruelmente, todos os dias, uma taxa de albumina fraca, mas suficientemente fixa para que parecesse estar em relação com algum estado persistente que ignorávamos. Bergotte havia incubado em mim o instinto escrupuloso que me fazia subordinar a minha inteligência, quando me falara do doutor Du Boulbon como de um médico que não me aborreceria, que encontraria modos de tratar, mesmo que fossem aparentemente bizarros, mas que se adaptariam à singularidade de minha inteligência. Mas as idéias se transformam em nós, triunfam sobre as resistências que a princípio lhes opomos e se alimentam de ricas reservas intelectuais já prontas, que não sabíamos feitas para elas. Agora, como acontece cada vez que as frases ouvidas, a propósito de alguém que não conhecemos, têm a virtude de despertar em nós a idéia de um grande talento, de uma espécie de gênio, no fundo de meu espírito eu fazia o doutor Du Boulbon se beneficiar dessa confiança ilimitada que nos inspira aquele que, com um olho mais penetrante que o de outro, percebe a verdade. Certamente eu sabia que ele era especialista mais das doenças nervosas, aquele a quem Charcot, antes de morrer, havia previsto que reinaria sobre a neurologia e a psiquiatria.

            - Ah, não sei, é bem possível - disse Françoise, que se achava presente e ouvira pela primeira vez o nome de Charcot e o de Du Boulbon. Mas isso não a impedia em absoluto de dizer:             - É possível. -

            Seus "é possível", seus "pode ser", seus "eu não sei" eram exasperantes em casos parecidos. A gente ficava com vontade de lhe responder: "Está claro que você não sabia, pois já que não conhece nada do assunto de que se trata como é que pode dizer se é possível ou não, você não sabe nada disso. Em todo caso, agora você não pode dizer que não sabe o que Charcot disse sobre Du Boulbon, etc.; está sabendo porque nós o dissemos, e os seus 'talvez', os seus 'é possível' não são aceitáveis, visto que é certo".

            Apesar dessa competência mais particular em matéria nervosa e cerebral, como eu soubesse que Du Boulbon era um grande médico, um homem superior, de uma inteligência inventiva e profunda, supliquei à minha mãe que o mandasse vir, e a esperança de que, por uma visão justa do mal, ele talvez a curasse, acabou por vencer o medo que tínhamos de assustar a minha avó, chamando um novo médico. O que decidiu minha mãe foi que, inconscientemente animada por Cottard, minha avó não saía mais, não deixava a cama. Debalde nos respondia com a carta da Sra. de Sévigné sobre Madame de La Fayette:

            "Diziam que ela estava louca por não querer sair. Eu dizia a essas pessoas tão precipitadas em seu julgamento: 'Madame de La Fayette não está louca', e ficava nisso. Foi preciso que ela morresse para verem que tinha razão em não querer sair."

            Du Boulbon, chamado, discordou, se não da Sra. de Sévigné, que não lhe citaram, pelo menos de minha avó. Em vez de auscultá-la, pousando nela seus admiráveis olhares onde havia talvez a ilusão de que estava escrutando profundamente a enferma, ou o desejo de lhe dar essa ilusão, que parecia espontânea mas devia ter se tornado maquinal, ou de não lhe deixar ver que pensava em algo bem diverso, ou para obter domínio sobre ela, começou a falar de Bergotte.

            - Ah, acredito minha senhora, é admirável; como tem razão em gostar dele! Mas qual de seus livros prefere? Verdade? Meu Deus, talvez seja de fato o melhor! Em todo caso, é o seu romance mais bem estruturado: Claire é encantadora; como personagem masculino, qual é o que mais lhe agrada?

            A princípio, julguei que ele a fazia desse modo falar sobre literatura porque a medicina o aborrecia, talvez também para mostrar sua largueza de espírito, e até mesmo, com uma finalidade mais terapêutica, para que a doente adquirisse mais confiança, fazê-la ver que não estava inquieto, distraí-la de seu estado. Mas depois compreendi que, sobretudo notável como alienista e por seus estudos sobre o cérebro, quisera verificar, com suas perguntas, se a memória de minha avó estava intacta.

            Como contra a vontade, interrogou-a um pouco sobre sua vida, de olho fixo e sombrio. Depois, de repente, como se percebesse a verdade e decidisse atingi-la custasse o que custasse, com um gesto preliminar que parecia difícil de esboçar-se, afastando as ondas das últimas hesitações que poderia ter e de todas as objeções que lhe poderíamos fazer, examinando minha avó com olhar lúcido, livremente e como que pisando enfim a terra firme, pontuando as palavras com um tom suave e sedutor do qual a inteligência matizava todas as inflexões (aliás, sua voz permaneceu, em toda a visita, cariciosa, como era o seu natural, e, sob as sobrancelhas espessas, seus olhos irônicos eram cheios de bondade):

            - A senhora irá bem um dia, remoto ou próximo, e só depende de si mesma que esse dia seja hoje, quando compreender que não tem nada e retomará a vida comum. Disse-me já não comia, nem saía?

            - Mas doutor, estou com um pouco de febre.

            Ele tocou-lhe a mão.

            - Não neste momento, em todo caso. E depois, que bela desculpa! Não sabe que deixamos ao ar livre, e que fazemos superalimentação, no caso de tuberculosos com 39° de febre?

            - Mas também tenho um pouco de albumina.

            - Não deveria sabê-lo. A senhora tem o que descrevi como albumina mental. Todos nós já tivemos, no decurso de uma indisposição, nossa crisezinha de albumina, que nosso médico se apressou a tornar duradoura ao nos fazer notá-la. Para uma só afecção que os médicos curam com medicamentos (assegura-se, pelo menos, que isso aconteceu algumas vezes), provocam dez

outras em pacientes saudáveis, inoculando-lhes esse agente patogênico, mil vezes mais virulento que todos os micróbios, a idéia de que estamos doentes. Uma tal crença, poderosa sobre o temperamento de todos, age com especial eficácia sobre os nervosos. Digam-lhes que uma janela fechada está aberta às suas costas, e eles começam a espirrar; façam-nos acreditar que puseram magnésia em sua beberagem, e eles serão tornados de cólicas; que o seu café estava mais forte que de costume, e eles não pregarão os olhos de noite. Acredite, senhora, que não me bastou ver seus olhos, ouvir apenas o modo como se expressa, que direi? Ver a senhora sua filha e o seu neto, que se parece tanto contigo, para saber com quem estava tratando?

            -Tua avó poderia talvez ir sentar-se, se o doutor der licença, numa alameda tranqüila dos Champs-Élysées, perto daquele bosque de loureiros diante do qual brincavas antigamente -disse-me a minha mãe, assim consultando indiretamente a Du Boulbon e cuja voz assumia por isso algo de tímido e deferente que não teria se se dirigisse somente a mim. O médico voltou-se para a minha avó e, como não era menos letrado que sábio:

            - Vá aos Champs-Élysées, minha senhora, para perto do bosque de loureiros apreciado pelo seu neto. O loureiro lhe será salutar. Ele purifica. Depois de haver exterminado a serpente Píton, foi com um ramo de loureiro à mão que Apolo entrou em Delfos. Queria, assim, preservar-se dos germes mortais da fera venenosa. Verá que o loureiro é o mais antigo, o mais venerável e, acrescentarei o que tem seu valor terapêutico tanto como profiláxico -, o mais belo dos antissépticos.

            Como uma grande parte do que os médicos sabem lhes é ensinada pelas doenças, são facilmente levados a crer que esse saber dos "pacientes" é o mesmo em todos eles, e gabam-se de espantar aquele com quem se encontram com alguma observação aprendida com aqueles a quem trataram antes. Assim, foi com um fino sorriso de parisiense que, conversando com um camponês, esperaria assombrá-lo servindo-se de uma palavra dialetal, que o doutor Du Boulbon disse à minha avó:

            - Provavelmente o tempo ventoso conseguiria fazê-la dormir, enquanto que fracassariam os mais fortes hipnóticos.

            - Pelo contrário, doutor, o vento me impede absolutamente de dormir.

            Mas os médicos são suscetíveis:

            - Ah! - murmurou Du Boulbon, franzindo as sobrancelhas, como se lhe tivessem pisado no pé e se as insônias de minha avó nas noites tempestuosas lhe fossem uma injúria pessoal. Todavia, não era dotado de muito amor-próprio e como, na situação de um "espírito superior", julgava de seu dever não confiar muito na medicina, retomou logo a serenidade filosófica.

            Minha mãe, no seu desejo apaixonado de ser tranqüilizada pelo amigo de Bergotte, acrescentou, em apoio ao médico, que uma prima-irmã de minha avó, presa de uma afecção nervosa, ficara sete anos reclusa em seu quarto em Combray, sem se levantar mais que uma ou duas vezes por semana.

            - Veja, minha senhora; eu não sabia disso e poderia tê-lo dito.

            - Mas doutor, eu não sou absolutamente igual a ela, pelo contrário. Meu médico não pode me fazer ficar deitada - disse a minha avó, ou porque se sentisse irritada com as teorias do médico, ou porque desejasse submeter-lhe as objeções que lhe poderiam ser feitas, na esperança de que ele as refutasse, e que, tão logo ele partisse, ela não mais teria qualquer dúvida a opor a seu feliz diagnóstico.

            - Mas é claro, minha senhora, não é possível ter, perdoe-me a expressão, todas as vesânias; a senhora tem outras, não essa. Ontem, visitei uma casa de saúde para neurastênicos. No jardim, um homem estava em pé sobre um banco, imóvel como um faquir, o pescoço inclinado numa posição que devia ser bastante penosa. Como lhe perguntasse o que fazia ali, respondeu-me sem fazer um movimento nem virar a cabeça:

            - Doutor, sou extraordinariamente sujeito a reumatismo e resfriado; acabo de fazer muito exercício e, enquanto assim me aquecia bestamente, meu pescoço estava abrigado na gola de flanela. Se agora o afastasse desse abrigo, antes que meu corpo esfrie, tenho a certeza de ficar com um torcicolo ou apanhar uma bronquite.

            - "E de fato a apanharia. O senhor é um grande neurastênico, isso é que é" disse-lhe. Sabem qual foi a razão que me deu para provar que não? É que, ao passo que todos os enfermos do estabelecimento tinham a mania de ver o peso, a ponto de ser preciso colocar correntes na balança para que não passassem o dia inteiro a se pesar, a ele eram obrigados a forçá-lo a subir à balança, de tão pouca vontade que tinha em pesar-se. Gabava-se de não ter a mania dos outros, sem pensar que também tinha a sua e que era ela que o preservava de uma outra. Não fique ofendida com a comparação, minha senhora, pois aquele homem que não ousava virar o pescoço, com medo de ficar resfriado, é o maior poeta do nosso tempo. Aquele pobre maníaco é a mais alta inteligência que conheço. Tolere que a considerem nervosa. A senhora pertence a essa família magnífica e lastimável que é o sal da terra. Tudo o que sabemos de grandioso nos vem dos nervosos. Foram eles e não os outros que fundaram as religiões e compuseram as obras-primas. O mundo jamais saberá tudo o que lhes deve, e principalmente o que eles sofreram para lhe dar o que deram. Desfrutamos das finas músicas, dos belos quadros, mil delicadezas, mas não sabemos o que essas obras custaram aos que as inventaram, em insônias, choros, risos espasmódicos, urticárias, asmas, epilepsias, numa angústia de morrer que é pior que tudo isso, e que a senhora talvez conheça - acrescentou ele, sorrindo à minha avó -, pois, confesse, quando cheguei, a senhora não estava muito tranqüila. A senhora se julgava doente, talvez perigosamente enferma. Deus sabe de que afecção julgava a senhora descobrir em si mesma os sintomas. E a senhora não se enganava, possuía-os. O nervosismo é um pastichador genial. Não há doença que ele não imite às maravilhas. Ele imita, a ponto de iludir-nos, a dilatação dos dispépticos, as náuseas da gravidez, a arritmia do cardíaco, o estado febril do tuberculoso. Capaz de ensinar o médico, por que não enganaria o doente? Ah, não julgue que ridicularizo os seus males; não me empenharia em tratá-los se não soubesse compreendê-los. E, veja bem, não há boa confissão que não seja recíproca. Disse-lhe que sem doença nervosa não existe um grande artista; digo-lhe mais acrescentou, erguendo gravemente o dedo -, não há um grande sábio. Acrescentarei que, sem que ele próprio seja atingido por uma doença nervosa, não há, não me faça dizer um bom médico, mas um médico correto das doenças nervosas. Na patologia nervosa, um médico que não diz muita asneira é um doente meio curado, como um crítico é um poeta que já não faz versos, um policial é um ladrão que já não rouba. Quanto a mim, não me julgo albuminúrico feito a senhora, não tenho o medo nervoso do alimento, do ar livre, mas não consigo dormir sem me levantar mais de vinte vezes para verificar se minha porta está fechada. E, nessa casa de saúde onde encontrei ontem um poeta que não virava o pescoço, eu ia reservar um quarto, pois, cá entre nós, lá passo as minhas férias a me tratar, desde que aumentei meus males cansando-me demais em curar os males alheios.

            - Mas, doutor, deverei fazer uma cura semelhante? - disse espantada a minha avó.

            - É inútil, minha senhora. As manifestações que acusa cederão ante a minha palavra. E depois, a senhora tem por perto alguém muito poderoso que de agora em diante se constituirá o seu médico. É o seu mal, o seu excesso de atividade nervosa. Se soubesse a forma de curá-la, evitaria fazê-lo. Basta-me dirigir esse mal. Vejo sobre sua mesa um livro de Bergotte. Curada de seu nervosismo, a senhora não gostaria mais dele. Ora, teria eu o direito de trocar as alegrias que ele proporciona pela integridade nervosa que será certamente incapaz de proporcioná-las? E essas mesmas alegrias constituem um poderoso remédio, talvez o mais eficaz de todos. Não, não

quero mal à sua energia nervosa. Peço-lhe apenas que me ouça; confio a senhora a ela. Que dê marcha a ré. A força que empregava para impedi-la de passear, de se alimentar bastante, que a empregue em fazê-la comer, sair, ler, se distrair de todas as formas. Não me diga que está cansada. O cansaço é a realização orgânica de uma idéia preconcebida. Comece por não pensar nele. E, se tiver uma pequena indisposição, o que pode ocorrer com todo mundo, será como se não a tivesse, pois ela terá feito da senhora, conforme uma expressão profunda do Sr. de Talleyrand, um sadio imaginário. Olhe, ela principiou a curá-la, a senhora está me escutando bem ereta, sem ter se apoiado uma só vez, o olho vivo, fisionomia atenta, e isso há uma meia hora marcada no relógio; e nem mesmo se deu conta de tal. Senhora, tenho muita honra em cumprimentá-la.

            Quando, após ter conduzido o doutor até a porta, voltei para o quarto onde minha mãe estava sozinha, o desgosto que me oprimia há várias semanas se desfez; senti que minha mãe ia deixar explodir sua alegria e que ia ver a minha, e experimentei essa impossibilidade de suportar a espera do instante próximo, em que uma pessoa, junto a nós, vai se emocionar, impossibilidade que, em outra ordem, é um tanto como o medo que experimentamos quando sabemos que alguém vai entrar e assustar-nos, por uma porta ainda fechada; quis dizer uma palavra a mamãe, mas minha voz se quebrou e, rompendo em lágrimas, fiquei por muito tempo com a cabeça em seu ombro, chorando, saboreando, aceitando essa dor, agora que sabia que ela saíra da minha vida, como gostamos de exaltar-nos com projetos virtuosos que as circunstâncias não nos permitem pôr em prática. Françoise me exasperou por não tomar parte em nossa alegria. Estava muito comovida porque rebentara uma cena terrível entre o lacaio e o porteiro delator. Fora preciso que a duquesa interviesse com sua bondade, restabelecesse uma aparência de paz e perdoasse ao lacaio. Pois era bondosa, e o emprego seria ideal se ela não desse ouvidos aos mexericos.

            Há vários dias já tinham começado a saber que minha avó estava doente e todos pediam notícias. Saint-Loup me escrevera: "Não quero aproveitar essas horas em que a tua querida avó não passa bem para te fazer o que é muito mais que simples censuras e das quais ela não tem culpa nenhuma. Porém mentiria se dissesse, mesmo provisoriamente, que alguma vez esquecerei a perfídia da tua conduta, e que jamais haverá perdão para a tua trapaça e tua traição."

            Porém alguns amigos, achando minha avó pouco doente ou até ignorando que ela o estivesse, tinham-me pedido que os encontrasse no dia seguinte nos Champs-Élysées, para ali fazer uma visita e comparecer, no campo, a um jantar que me agradava. Não tinha mais nenhum motivo para renunciar a esses dois prazeres. Quando haviam dito à minha avó que agora era necessário, para obedecer ao doutor Du Boulbon, que ela passeasse muito, viu-se que ela imediatamente falou nos Champs-Élysées. Ser-me-ia fácil conduzi-la até lá; e, enquanto ela estivesse lendo sentada, poderia me entender com meus amigos acerca do local onde nos encontraríamos, e ainda teria tempo, se me apressasse, de pegar com eles o trem para Ville-d'Avray. No momento combinado, minha avó não quis sair, achando-se cansada. Mas minha mãe, instruída por Du Boulbon, teve a energia de se zangar e se fazer obedecer. Quase chorava à idéia de que minha avó recairia em sua fraqueza nervosa e não mais se recobraria. Nunca um dia tão bonito e quente se prestou de modo mais admirável à saída de casa. O sol, mudando de lugar, intercalava aqui e ali, na solidez quebrada do balcão, suas musselinas inconstantes e dava à pedra de cantaria uma tépida epiderme, um halo de ouro impreciso. Como Françoise não tivera tempo de enviar um "cabo" à sua filha, deixou-nos logo após o almoço. Já era muito que antes tivesse entrado na loja de Jupien, para que ele desse um ponto no mantelete que a minha avó iria pôr para sair. Voltando justo naquele instante de meu passeio matinal, fui com ela à casa do coleteiro.

            - É o seu patrãozinho quem a traz aqui, é a senhora quem o traz, ou então é algum vento favorável que os traz a ambos? - perguntou Jupien a Françoise.

            Embora não tivesse muito ensino, Jupien respeitava tão naturalmente a sintaxe como o Sr. de Guermantes, apesar de seus esforços, a violava. Logo que Françoise partiu e o mantelete já estava consertado, foi necessário que minha avó se vestisse. Tendo recusado obstinadamente que mamãe ficasse com ela, levou um tempo enorme, sozinha, para se aprontar. E agora que eu sabia que ela estava bem de saúde, com essa estranha indiferença que temos para com os parentes enquanto estão vivos, que faz com que os negligenciemos em favor de todo o mundo, achava-a muito egoísta por demorar tanto, por me arriscar a ficar atrasado quando ela sabia que eu tinha um encontro com meus amigos e devia jantar em Ville d'Avray. De tanta impaciência, acabei por descer antes, depois de me dizerem duas vezes que ela já estaria pronta. Por fim ela foi ao meu encontro (sem se desculpar pelo atraso, como fazia de costume nesses casos, vermelha e distraída como uma pessoa que está com pressa e esqueceu metade de suas coisas), no momento em que eu chegava à porta envidraçada, entreaberta, que deixava entrar o ar líqüido,

vibrante e morno de fora, como se tivessem aberto um reservatório entre as gélidas paredes do prédio, sem absolutamente aquecê-las.

            - Meu Deus, já que vais ver os teus amigos, eu bem podia ter posto outro mantelete. Com este, fico parecendo meio miserável.

            Impressionou-me vê-la tão congestionada e compreendi que, atrasando-se, devia ter se apressado muito. Como acabávamos de deixar o fiacre à entrada da avenida Gabriel, nos Champs-Élysées, vi que minha avó se afastara, sem me falar, e se dirigia para o pequeno pavilhão antigo, de grades verdes, onde um dia eu tinha esperado por Françoise. O mesmo guarda florestal que ali se encontrava então ainda permanecia junto da "marquesa", quando, seguindo minha avó que, devido certamente a uma náusea, levava a mão à boca, subi os degraus

do teatrinho rústico erguido no meio dos jardins. Na fiscalização, como nesses circos de feira em que o clown, pronto para entrar em cena e todo enfarinhado, recebe ele mesmo à porta os ingressos, a "marquesa", arrecadando as entradas, estava sempre ali com o seu rosto enorme e irregular, endurecido de grosseira maquilagem, e seu bonezinho de flores vermelhas e renda preta encarrapitado sobre a peruca ruiva. Mas não creio que me reconhecesse. O guarda, abandonando a vigilância da grama, com cuja cor seu uniforme combinava, conversava sentado a seu lado.

            - Pelo visto - dizia -, está sempre aqui. Não pensa em se aposentar?

            - E por que me aposentaria, meu senhor? Diga-me onde estarei melhor do que aqui, a meu gosto e com todo o conforto? E depois, sempre há movimento e distração; é o que chamo meu pequeno Paris; meus fregueses me põem a par do que está acontecendo. Olhe, há um que saiu há menos de cinco minutos, é um magistrado da mais alta posição. Pois bem, senhor! -exclamou com ardor, como se estivesse pronta para sustentar essa afirmação pela violência, caso o agente da autoridade fizesse cara de lhe contestar a exatidão - há oito anos, está ouvindo, todos os dias que Deus dá, às três em ponto ele está aqui, sempre bem-educado; nunca levantou a voz, nem sujou coisa alguma; e fica lendo seus jornais por mais de meia hora, e mais as suas necessidades. Apenas num só dia ele não compareceu. No momento não reparei, mas à noite, de repente, pensei comigo: "Olha, aquele senhor não veio, talvez esteja morto." Aquilo mexeu comigo, pois eu crio amizade às pessoas quando são bem-educadas. Por isso, fiquei muito contente quando o vi no dia seguinte, e lhe disse: "Senhor, aconteceu-lhe alguma coisa ontem?" Então ele me disse que nada lhe acontecera, que sua mulher é que havia morrido, e ele ficara tão transtornado que não pudera vir. Claro que estava muito triste, compreende, vinte e cinco anos de casados, mas mesmo assim parecia contente por voltar. A gente percebia que ele tinha sido transtornado nos seus pequenos hábitos. Procurei reanimá-lo e disse: "É preciso não se deixar abater. Venha sempre como antes; no seu desgosto, será uma pequena distração."

            A "marquesa" assumiu um tom mais doce, pois havia constatado que o vigia das árvores e gramados a escutava com bonomia, sem pensar em contradizê-la, mantendo inofensiva na bainha uma espada que parecia antes algum instrumento de jardinagem ou um atributo de horticultura.

            - E depois - disse ela -, escolho os meus fregueses, não recebo qualquer um no que chamo os meus salões. Será que isto não parece um salão, com as minhas flores? Como tenho fregueses muito gentis, um ou outro sempre deseja me trazer um raminho de lilases, de jasmins ou de rosas, esta minha flor predileta.

            Enrubesci à idéia de que talvez fôssemos mal avaliados por essa senhora, por nunca lhe trazer lilases nem rosas bonitas; e, para tentar escapar fisicamente ou de não ser por ela julgado senão por contumácia a um julgamento desfavorável, avancei para a porta de saída. Mas nem sempre na vida são tidas por mais amáveis as pessoas que trazem lindas rosas, pois a "marquesa", julgando que eu me aborrecia, dirigiu-se a mim:

            - Não quer que eu lhe abra um reservado?

            E, como eu recusasse:

            - Não quer mesmo? - acrescentou com um sorriso -; é oferecido de boa vontade, mas bem sei que são necessidades que não basta não pagar para senti-las.

            Nesse momento, uma mulher mal vestida entrou precipitadamente, parecendo justamente senti-las. Mas não fazia parte do mundo da "marquesa", pois esta, com uma ferocidade de esnobe, disse-lhe secamente:

            - Nenhum está livre, senhora.

            - Será que vai demorar muito? - indagou a pobre senhora, vermelha sob suas flores amarelas.

            - Ah, senhora, aconselho-a a ir a outra parte, pois, como vê, ainda há estes dois senhores à espera - disse ela, apontando para mim e para o guarda -, e só tenho um reservado; os outros estão em obras... Tem cara de mau pagador disse a "marquesa". - Não é esse o tipo daqui, essa gente não tem asseio, nenhum respeito, e eu teria de passar uma hora limpando por causa dela. Não lastimo os seus dois tostões.

            Por fim a minha avó saiu e, imaginando que ela não procuraria compensar com uma gorjeta a indiscrição que havia mostrado ficando ali tanto tempo, bati em retirada para não sofrer uma parte do desdém que certamente lhe testemunharia a "marquesa", e me enfiei por uma alameda, mas devagar, para que minha avó pudesse me alcançar com facilidade e continuar junto comigo. Foi o que logo aconteceu. Pensava que minha avó ia dizer: "Eu te fiz esperar demais; mas acho que mesmo assim não vais faltar ao encontro com teus amigos", mas ela não disse uma só palavra, e, embora um tanto desapontado, eu não quis ser o primeiro a falar. Por fim, erguendo o olhar para ela, vi que, sempre caminhando a meu lado, ela tinha a cara virada para o lado oposto. Receei que ainda estivesse com náuseas. Encarei-a melhor e me espantei com seu passo sacudido. Seu chapéu estava torto na cabeça, seu casaquinho sujo, e ela apresentava uma fisionomia descomposta e descontente, o rosto rubro e preocupado de uma pessoa que acaba de ser atropelada por um carro ou que tiraram de um fosso.

            - Receei que tivesse tido um enjôo, vovó; estás te sentindo melhor?

            Sem dúvida ela pensou que era impossível não responder sem inquietar-me.

            - Ouvi toda a conversa entre a "marquesa" e o guarda disse. - Era exatamente como Guermantes e o pequeno clã dos Verdurin. Meu Deus! Em que termos galantes eram tratadas aquelas coisas! - E ela acrescentou ainda, diligentemente, esta frase da sua marquesa, a dela, Sra. de Sévigné: "Ao ouvi-los, pensava que eles me preparavam as delícias de uma despedida."

            Estas foram as palavras que me disse, e nas quais pusera toda a sua finura, o seu gosto pelas citações, sua memória relativa aos clássicos, até um pouco mais do que habitualmente faria e como para mostrar que mantinha mesmo a posse daquilo tudo. Mas essas frases, adivinhei-as mais do que as ouvi, de tanto que as pronunciava com uma voz pastosa e cerrando os dentes mais do que poderia explicá-lo o medo de vomitar.

            - Vamos - disse eu com bastante displicência, a fim de não parecer que levava a sério demais o seu mal-estar -; já que estás um pouco enjoada, voltemos para casa, não quero fazer passear pelos Champs-Élysées uma avó que está com indigestão.

            - Não tinha coragem de te pedir isto por causa dos teus amigos - respondeu ela. - Pobre pequeno! Mas já que o queres, é o mais aconselhável.

            Tive medo de que ela própria reparasse na maneira como pronunciava estas palavras.

            - Vamos - disse-lhe bruscamente -, não te canses falando, já que estás com enjôo, seria um absurdo; pelo menos espera que entremos em casa.

            Ela me sorriu tristemente e apertou-me a mão. Compreendera que não tinha como me ocultar aquilo que eu adivinhara logo: acabara de sofrer um pequeno ataque.

 

            Doença da minha avó.

            Doença de Bergotte.

            O duque e o médico.

            Declínio da minha avó.

            Sua morte.

            Atravessamos a avenida Gabriel, no meio da multidão de passeantes. Fiz a minha avó sentar-se num banco e fui procurar um fiacre. Ela, em cujo coração eu sempre me colocava para ajuizar a pessoa mais insignificante, agora estava fechada para mim, tornara-se uma parte do mundo exterior, e, mais do que a simples passantes, eu ainda era forçado a lhe calar o que pensava de seu estado, silenciar acerca da minha inquietação. Não poderia falar-lhe disso com mais confiança que a uma pessoa estranha. Ela acabava de me restituir os pensamentos, os desgostos, que desde a minha infância lhe confiara para sempre. Ainda não estava morta. Eu já me sentia só. E até aquelas alusões que ela fizera aos Guermantes, a Moliere, a nossas conversas sobre o pequeno clã, assumiam uma aparência sem apoio, sem causa, fantástica, porque saíam do nada dessa mesma criatura que amanhã talvez já não existisse e para quem já não teriam sentido algum, daquele nada incapaz de concebê-las que minha avó seria em breve.

            - Senhor, não digo que não, mas o senhor não marcou hora comigo, não tem número. Além disso, não é meu dia de consulta, O senhor deve ter o seu médico. Não posso substituí-lo, a menos que ele me mande chamar para uma conferência. É uma questão de ontologia...

            No momento em que eu fazia sinal para um fiacre, havia encontrado o célebre professor E***, quase amigo de meu pai e de meu avô, de qualquer modo em relações com eles, e que morava na avenida Gabriel, e, tomado de súbita inspiração, fizera-o parar no instante em que entrava em casa, pensando que talvez desse um conselho excelente para a minha avó. Mas, apressado, depois de ter apanhado a sua correspondência, queria despedir-me e só lhe pude falar subindo com ele no elevador, do qual me pediu para deixar apertar os botões, o que nele era mania.

            - Mas, meu senhor, não lhe peço que receba minha avó, há de compreender depois do que lhe disser, ela não tem condições de subir; pelo contrário, peço-lhe que passe daqui a meia hora em nossa casa, para onde ela vai voltar.

            - Passar em sua casa? Mas, senhor, nem pense nisso. Vou jantar na casa do ministro do Comércio, preciso fazer uma visita antes, vou me vestir imediatamente e, para cúmulo da desgraça, uma das minhas duas casacas se rasgou e a outra não tem botoeira para colocar as condecorações. Rogo-lhe, faça-me o favor de não tocar nos botões do elevador, o senhor não sabe manejá-los, é preciso prudência em tudo. Essa botoeira vai me atrasar ainda mais. Enfim, por amizade com os seus familiares, se a sua avó vier logo, poderei recebê-la. Mas previno-lhe que só terei exatamente um quarto de hora para atendê-la.

            Eu partira de imediato, sem mesmo ter saído do elevador, que o professor E*** pusera ele próprio em movimento para me fazer descer, não sem me olhar com desconfiança.

            Bem dizemos que a hora da morte é incerta, mas, quando dizemos isto, afiguramo-nos essa hora como situada num espaço vago e longínquo, não imaginamos que ela tenha uma relação qualquer com o dia já começado, e possa significar que a morte ou sua primeira posse parcial de nós, após a qual não nos larga mais poderá ocorrer nessa mesma tarde, tão pouco incerta, essa tarde em que o emprego de todas as horas está previamente agendado. A gente se empenha em passear para obter, em um mês, o total de ar puro necessário, hesitamos quanto à escolha de uma capa para levar, do cocheiro para chamar, estamos num fiacre, o dia está inteiramente diante de nós, curto, porque desejamos voltar a tempo para receber uma amiga; também gostaríamos que fizesse bom tempo amanhã; e não desconfiamos que a morte que caminhava em nós em outro plano escolheu precisamente aquele dia para entrar em cena, dentro de alguns minutos, mais ou menos no instante em que o carro alcançasse os Champs-Élysées.

            Talvez aqueles a quem habitualmente assusta a singularidade própria da morte encontrem algo de tranqüilizador nesse gênero de morte esse gênero de primeiro contato com a morte porque aí ela se reveste de uma aparência conhecida, familiar, cotidiana. Precederam-na um bom almoço e a mesma caminhada que fazem as pessoas de boa saúde. Um regresso em carro descoberto se superpõe ao seu primeiro ataque; por mais doente que estivesse minha avó, afinal diversas pessoas poderiam dizer que às seis da tarde, quando voltamos dos Champs-Élysées, elas a haviam cumprimentado, passando de carro descoberto, num tempo magnífico. Legrandin, que se dirigia para a praça da Concórdia, tirou o chapéu para nós, detendo-se com ar de espanto. Eu, que ainda não me desligara da vida, perguntei à minha avó se ela havia correspondido, lembrando-lhe que ele era suscetível. Minha avó, decerto me achando muito superficial, erguera a mão como para dizer:

            "E então? Isso não tem nenhuma importância."

            Sim, poderia ser dito, momentos antes, enquanto eu buscava um fiacre, que minha avó estava sentada num banco, na avenida Gabriel, que logo depois ela havia passado em carro descoberto. Mas seria mesmo verdade? O banco, ele, para que se mantenha numa avenida embora também esteja submetido a certas condições de equilíbrio -, não necessita de energia. Mas, para que uma criatura viva seja estável, mesmo apoiada num banco ou dentro de um carro, é preciso uma tensão de forças que em geral não percebemos, assim como não percebemos a pressão atmosférica, pois se exerce em todos os sentidos. Talvez se se fizesse o vácuo em nós e se nos deixassem suportar a pressão do ar, sentiríamos, no instante que precederia a nossa destruição, o terrível peso que nada mais neutralizaria. Da mesma forma, quando os abismos da doença e da morte se abrem em nós e que nada mais temos a opor ao tumulto com que o mundo e o nosso próprio corpo desabam sobre nós, então, até sustentar o peso de nossos mú